<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>sf_fantasy</genre><author><first-name>Terry</first-name><last-name>Pratchett</last-name></author><book-title>O Aprendiz de Morte</book-title><annotation><p>Em mais esta aventura da s�rie Discwold, Morte faz ao Mortimer uma irrecus�vel-principalmente considerando que estar morto n�o � condi��o sine qua non. Como aprendiz de Morte, ele ter� casa e comida de gra�a, acesso ao cavalo da empresa, e n�o necessitar� de folga para ir a funerais. O cargo � tudo o que Mortimer sempre quis, at� ele descobrir que esse trabalho perfeitopode significar o fim de sua vida amorosa, em perfeito estado de conserva��o.</p></annotation><date>2002</date><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang><src-lang>en</src-lang><translator><first-name>Roberto</first-name><last-name>DeNice</last-name></translator><sequence name="Diskworld (pt)" number="04"/></title-info><src-title-info><genre>sf_fantasy</genre><author><first-name>Terry</first-name><last-name>Pratchett</last-name></author><book-title>Mort</book-title><date>1987</date><lang>en</lang></src-title-info><document-info><author><nickname>Xenophile</nickname></author><program-used>FictionBook Editor Release 2.6, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date/><id>50C37F72-E9F2-4E25-A00B-4CF851C971DA</id><version>1.0</version></document-info><publish-info><book-name>O Aprendiz de Morte</book-name><publisher>Conrad Livros</publisher><city>S�o Paulo</city><year>2002</year><isbn>85-87193-85-6</isbn></publish-info></description><body><title><p>Terry Pratchett</p><p>O Aprendiz de Morte</p></title><section><title><p>Nota da Edi��o Brasileira</p></title><p>Terry Pratchett usa muito humor e sutileza na hora de escolher os nomes usados em suas hist�rias. Isso � um desafio para a tradu��o: como recriar em portugu�s os mesmos trocadilhos que o autor faz, contando com a cumplicidade do leitor que os decifra e se diverte com as refer�ncias a seu cotidiano?</p><p>Por exemplo, o personagem Morte nos deu trabalho: o seu g�nero no original, masculino, foi mantido nesta edi��o, embora possa soar estranho para n�s, brasileiros, que nos referimos � morte usando o g�nero feminino. Por outro lado, optamos por Discworld ao inv�s de Mundo do Disco e adaptamos os nomes que perderiam o sentido se traduzidos literalmente (como o fil�sofo Ly Tin Wheedle, cujo nome, que indica algu�m que quer prejudicar os outros, foi adaptado para Yin Gha No).</p><p>O pr�prio her�i do livro, Mort, foi alvo de muitas discuss�es. A inten��o do autor foi utilizar um nome comum em ingl�s�� Mortimer, equivalente a Jo�o ou Jos� no Brasil�� que tivesse um significado relacionado � morte (mort � o toque de trompa com que se anuncia a morte da ca�a, al�m de ser o apelido para quem tem esse nome). Neste caso, mantivemos o original, uma vez que, coincidentemente, ele tamb�m faz alus�o, por semelhan�a, � morte.</p><p>Esperamos que voc� tamb�m explore os significados que Pratchett escondeu nos nomes deste livro. Se quiser dar a sua opini�o, entre em contato conosco via internet, telefone, fax ou correio. Nas pr�ximas edi��es, poderemos incorporar suas id�ias.</p><p>Boa leitura!</p></section><section><title><p>O Aprendiz de Morte</p></title><p>Esta � a sala onde s�o guardados, � luz de velas, todos os marcadores do tempo: prateleiras e mais prateleiras de ampulhetas, cada qual para uma pessoa viva, derramando sua areia fina do futuro ao passado. O chio acumulado dos gr�os caindo faz a sala retumbar como o oceano.</p><p>Este � o dono da sala, andando com ar de preocupa��o. Seu nome � Morte.</p><p>Mas n�o qualquer Morte. Este � o Morte cuja esfera particular de a��es �, bem, nem um pouco esf�rica, mas sim o Discworld, que � plano, fica no lombo de quatro elefantes gigantescos�� que, por sua vez, sustentam-se sobre a carapa�a da enorme tartaruga estelar Grande A'Tuin��, e � contornado por uma queda-d'�gua a verter no espa�o sem fim.</p><p>Cientistas calcularam que as chances de uma coisa t�o notoriamente absurda acontecer s�o de uma em um milh�o.</p><p>Mas os m�gicos calcularam que chances de uma em um milh�o ocorrem nove a cada dez vezes.</p><p>Sobre o ch�o de ladrilhos brancos e pretos, Morte avan�a com seus p�s de osso, murmurando sob o capuz enquanto passeia os dedos esquel�ticos pelas fileiras de ampulhetas em atividade.</p><p>Por fim, encontra uma que parece satisfaz�-lo, suspende-a da prateleira e a leva at� a vela mais pr�xima. Segura-a de modo a faz�-la reluzir sob a luz e fita o pontinho do brilho refletido.</p><p>Com as �rbitas cintilantes, avista a tartaruga-mundo, gingando pelas profundezas do espa�o com o casco marcado por cometas e meteoros. Um dia, mesmo a Grande A'Tuin vai morrer, Morte sabe disso; agora, seria um desafio.</p><p>Mas o foco do olhar se desvia para cima, em dire��o ao esplendor azul e verde do pr�prio Disco, a girar lentamente sob o min�sculo Sol.</p><p>Ent�o se dirige para a grande cordilheira chamada Ramtops. As Ramtops s�o repletas de vales profundos, penhascos inusitados e mais caracter�sticas geogr�ficas do que realmente precisariam. Possuem seu pr�prio clima, cheio de chuvas de pedra, ventos de chicote e tempestades permanentes. Algumas pessoas dizem que � assim porque as Ramtops guardam a magia antiga, selvagem. N�o importa, algumas pessoas dizem qualquer bobagem.</p><p>Morte pisca os olhos, ajusta o foco. Ent�o v� o terreno gramado das ladeiras que descem no sentido hor�rio das montanhas.</p><p>V� uma certa colina.</p><p>Um campo.</p><p>Um menino correndo.</p><p>Observa.</p><p>Ent�o, numa voz que se assemelha a lajes de chumbo caindo sobre granito, diz:</p><p>��CERTO.</p><p>N�o h� d�vida de que existia alguma coisa m�gica no solo daquela �rea irregular e montanhosa, solo este que�� por causa da estranha tonalidade que dava � flora local�� era conhecido como gramado octarina. Por exemplo, esse era um dos poucos lugares do Disco em que havia plantas reanuais.</p><p>Reanual � a planta que brota de tr�s para frente no tempo. Semeamos este ano, e elas brotam no ano passado.</p><p>A fam�lia de Mortimer havia se especializado em destilar vinho de uvas reanuais. As frutas eram muito poderosas e bastante procuradas por adivinhos, j� que obviamente possibilitavam a vis�o do futuro. O �nico problema � que a ressaca vinha na manh� anterior, e era preciso beber muito para cur�-la.</p><p>Em geral, os agricultores de gr�os reanuais eram homens grandes e s�rios, dados � introspec��o e � observa��o atenta do calend�rio. O lavrador que descuida de semear gr�os comuns s� perde a safra, mas o fazendeiro que se esquece de deitar sementes de uma safra que foi colhida doze meses antes arrisca comprometer toda a estrutura da causalidade, sem falar no terr�vel constrangimento.</p><p>Tamb�m era terrivelmente constrangedor para a fam�lia de Mortimer que o filho mais novo n�o se mostrasse nem um pouco s�rio e tivesse o mesmo talento para a horticultura que uma estrela-do-mar morta. N�o que fosse irreverente, mas tinha aquele jeito vago e satisfeito de prestar rever�ncia que os homens s�rios logo aprendem a detestar. Havia qualquer coisa de contagiante, talvez at� fatal, naquilo. Ele era alto, ruivo e sardento, com o tipo de corpo que parece estar apenas ligeiramente sob controle do dono�� como se fosse formado por joelhos.</p><p>Neste dia em particular, corria pelos campos mais altos, agitando as m�os e gritando.</p><p>O pai e o tio de Mortimer observavam com des�nimo do alto de um muro de pedra.</p><p>��O que eu num entendo�� disse o pai, Lezek�� � que os p�ssaros nem voam. Eu voaria se visse aquilo correndo na minha dire��o.</p><p>��Ah. O corpo humano � um neg�cio maravilhoso. Quer dizer, as pernas dele v�o pra todos os lados, mas a velocidade varia bastante.</p><p>Mortimer alcan�ou o fim de um rego. Um pombo gordo desviou lentamente do caminho.</p><p>��O cora��o dele t� no lugar�� defendeu Lezek, com cautela.</p><p>��Ah, claro. � o resto que num t�.</p><p>��� organizado. N�o come muito�� continuou Lezek.</p><p>��N�o. D� pra ver.</p><p>Lezek olhou de soslaio para o irm�o, que fitava o c�u.</p><p>��Hamesh, ouvi dizer que tem uma vaga l� na fazenda�� disse ele.</p><p>��Hum. Peguei um aprendiz.</p><p>��Ah�� soltou Lezek, com tristeza.�� Quando foi isso?</p><p>��Ontem�� respondeu o irm�o, mentindo com a rapidez de uma cascavel.�� Tudo acertado. Desculpe. Olha, eu n�o tenho nada contra o pequeno Mort, entende? Ele � um menino excelente, s� que...</p><p>��Eu sei, eu sei�� cortou Lezek.�� Num consegue achar o traseiro nem usando as duas m�os.</p><p>Os homens olharam o menino � dist�ncia. Ele havia ca�do. Alguns pombos tinham se aproximado para investigar.</p><p>��Ele n�o � burro�� considerou Hamesh.�� N�o o que chamamos de burro.</p><p>��Tem tutano ali dentro�� admitiu Lezek.�� �s vezes ele come�a a pensar tanto que a gente precisa bater na cabe�a dele para conseguir chamar sua aten��o. A av� ensinou a ler. Acho que superaqueceu a cabe�a.</p><p>Mortimer havia se levantado e trope�ou na roupa.</p><p>��C� precisa dar um of�cio ao menino�� sugeriu Hamesh, pensativo.�� Talvez o sacerd�cio. Ou a profiss�o de mago. L�em muito, os magos.</p><p>Os irm�os se entreolharam. Em ambas as mentes se insinuou uma vaga id�ia do que Mortimer seria capaz de fazer se pusesse as bem-intencionadas m�os num livro de magia.</p><p>��Tudo bem�� apressou-se em dizer Hamesh.�� Ent�o alguma outra coisa. Deve ter um monte de profiss�es em que ele possa trabalhar.</p><p>��O problema � quando come�a a pensar demais�� advertiu Lezek.�� Olhe para ele agora. Ningu�m fica pensando em como assustar passarinho, s� vai l� e assusta. Quer dizer, um menino normal.</p><p>Hamesh co�ou o queixo de maneira meditativa.</p><p>��Voc� podia passar o problema adiante�� disse.</p><p>A fisionomia de Lezek n�o se alterou, mas houve uma mudan�a sutil em torno dos olhos.</p><p>��Como assim?�� perguntou.</p><p>��Semana que vem tem a feira de empregos em Serra Ovelha. C� oferece o garoto como aprendiz, e o novo mestre se encarrega de bot�-lo em forma. � a regra. Depois do contrato, o neg�cio fica amarrado.</p><p>Do outro lado do campo, Lezek olhou para o filho, que examinava uma pedra.</p><p>��Num quero que nada aconte�a a ele�� objetou, incerto.�� Gostamos muito do menino, minha mulher e eu. A gente se acostuma �s pessoas.</p><p>��� pro bem do pr�prio Mort, c� vai ver. Vai fazer dele um homem.</p><p>��Ah. Bom. Com certeza tem muita mat�ria-prima ali�� notou Lezek, num suspiro.</p><p>Mortimer estava ficando cada vez mais interessado pela pedra. Ela possu�a conchas arredondadas, rel�quias dos primeiros dias do mundo, quando o Criador fizera criaturas de pedra, ningu�m sabia por qu�.</p><p>Mortimer se interessava por uma por��o de coisas. Por exemplo, por que os dentes das pessoas se encaixavam uns nos outros com tamanha perfei��o. Ele j� passara muito tempo pensando sobre isso. Tamb�m havia o enigma de o Sol nascer durante o dia, e n�o � noite, quando a luz se mostraria vantajosa. Ele conhecia a explica��o cl�ssica, que de alguma forma n�o parecia satisfat�ria.</p><p>Em resumo, Mortimer era uma dessas pessoas que s�o mais perigosas do que um saco cheio de cobras: estava decidido a descobrir a l�gica subjacente ao universo.</p><p>O que seria dif�cil, porque n�o havia nenhuma. O Criador teve muitas id�ias maravilhosas quando inventou o mundo, mas torn�-lo compreens�vel n�o fora uma delas.</p><p>Os her�is tr�gicos sempre reclamam quando os deuses se interessam por eles, mas s�o os indiv�duos ignorados pelos deuses que enfrentam as prova��es realmente dif�ceis.</p><p>Como sempre, o pai estava gritando por ele. Mortimer jogou a pedra num pombo, que era quase gordo demais para sair do caminho, e voltou caminhando pelo campo.</p><p>E foi por isso que Mortimer e o pai atravessaram as montanhas at� Serra Ovelha no R�veillon dos Porcos, com os parcos bens de Mortimer metidos num saco levado ao lombo da mula. A cidade se limitava aos quatro lados de uma pra�a, alinhados com lojas que ofereciam todas as mercadorias da comunidade rural.</p><p>Depois de cinco minutos, Mortimer saiu do alfaiate vestindo uma roupa marrom, larga, indefinida, que compreensivelmente n�o havia sido reivindicada pelo dono anterior e tinha espa�o suficiente para quando ele crescesse, supondo-se que crescesse como um elefante de dezenove patas.</p><p>O pai o olhou com ar cr�tico.</p><p>��Muito bom�� opinou��, pelo pre�o.</p><p>��Co�a�� retrucou Mort.�� Acho que tem umas coisas aqui dentro.</p><p>��Muitos garotos no mundo ficariam felizes por ter uma...�� Lezek se deteve e, n�o achando melhor palavra, desistiu.</p><p>��... roupa boa e quente como essa, meu filho.</p><p>��Ent�o posso dividi-la com eles?�� perguntou Mort, cheio de esperan�as.</p><p>��C� precisa parecer esperto�� ressaltou Lezek, com rispidez.�� Tem de causar boa impress�o, sobressair na multid�o.</p><p>N�o havia d�vida quanto a isso. Ele se sobressairia. Os dois partiram em meio ao ajuntamento de pessoas que abarrotavam a pra�a, cada qual com seus pr�prios pensamentos. Em geral, Mortimer gostava de visitar a cidade, com sua atmosfera cosmopolita e os estranhos dialetos de vilarejos que chegavam a ficar tr�s, ou at� cinco quil�metros distantes. Mas desta vez ele se sentia incomodado, apreensivo, como se lembrasse de algo que ainda n�o havia acontecido.</p><empty-line/><p>A feira parecia funcionar assim: os homens � procura de trabalho se mantinham em filas desiguais, no meio da pra�a. Muitos ostentavam pequenos s�mbolos nos chap�us para mostrar que tipos de trabalho haviam aprendido�� pastores usavam fios de l�; carroceiros, mechas de crina de cavalo; decoradores, tiras de curiosos pap�is de parede enfeitados; e assim por diante.</p><p>Os meninos em busca de aprendizado se amontoavam num dos lados da pra�a.</p><p>��Voc� fica ali e algu�m vem oferecer uma vaga�� avisou Lezek, com voz hesitante.�� Quer dizer, se gostarem de voc�.</p><p>��Como acontece?�� quis saber Mort.</p><p>��Bem�� respondeu Lezek, e parou.</p><p>Hamesh n�o havia explicado essa parte. Ele recorreu ao conhecimento limitado que tinha da feira livre, que se restringia � venda de gado, e arriscou:</p><p>��Devem contar seus dentes. E se certificarem de que voc� n�o espirra e os p�s est�o bons. Eu n�o falaria nada sobre ler. Chateia as pessoas.</p><p>��E depois?�� perguntou Mort.</p><p>��Depois voc� aprende o of�cio�� respondeu Lezek.</p><p>��Que of�cio?</p><p>��Bom... carpintaria � �timo�� arriscou Lezek.�� Ou roubo. Algu�m tem de faz�-lo.</p><p>Mortimer olhou os pr�prios p�s. Era um filho obediente�� quando se lembrava�� e, se o que esperavam dele era que fosse aprendiz, ent�o seria excelente no neg�cio. Mas carpintaria n�o parecia muito promissor: a madeira era inflex�vel e tinha tend�ncia a se partir. E ladr�es oficiais eram raros nas Ramtops, onde o povo n�o dispunha de dinheiro o bastante para se dar ao luxo de banc�-los.</p><p>��Tudo bem�� concordou afinal.�� Vou tentar. Mas o que acontece se eu n�o for escolhido?</p><p>Lezek co�ou a cabe�a.</p><p>��Num sei�� admitiu.�� C� espera at� o fim da feira. � meia-noite. Eu acho.</p><p>E agora a meia-noite se aproximava.</p><p>Uma leve camada de gelo come�ou a se formar no ch�o. Na ornamentada torre do rel�gio que dava para a pra�a, dois pequenos aut�matos elegantemente esculpidos sa�ram de portinholas no mostrador do rel�gio e bateram mais um quarto de hora.</p><p>Quinze para a meia-noite. Mortimer tremia, mas as chamas rubras da vergonha e da obstina��o ardiam dentro dele, mais quentes do que as ladeiras do Inferno. Ele soprou os dedos para ter algo que fazer e fitou o c�u gelado, tentando evitar o olhar dos poucos vagabundos que ainda restavam na feira.</p><p>A maioria dos mercadores j� havia fechado as barracas e ido embora. At� o vendedor de bolo de carne tinha parado de cantar a mercadoria e, sem qualquer preocupa��o com a seguran�a pessoal, estava comendo um.</p><p>O �ltimo dos esperan�osos companheiros de Mortimer�� um rapaz estr�bico com corpo recurvo e nariz escorrendo�� havia sumido horas antes. O �nico mendigo licenciado de Serra Ovelha declarou-o ideal para o servi�o. O garoto do outro lado de Mortimer seria fabricante de brinquedos. Um a um, todos haviam se retirado�� os pedreiros, ferreiros, assassinos, tanoeiros, negociantes de tecido, trapaceiros e lavradores. Em poucos minutos seria ano-novo, e cem meninos estariam come�ando suas carreiras, novas vidas de trabalho �til se abrindo � frente deles.</p><p>Desconsolado, Mortimer refletia sobre os motivos de n�o ter sido escolhido. Havia tentado parecer respeit�vel e olhara todos os poss�veis mestres no olho a fim de impression�-los com sua natureza excelente e �timas qualidades. Nada pareceu causar o efeito certo.</p><p>��Quer bolo de carne?�� perguntou o pai.�� N�o.</p><p>��T� barato.</p><p>��N�o. Obrigado.</p><p>��Ah.</p><p>Lezek hesitou.</p><p>��Posso perguntar ao vendedor se ele n�o quer um aprendiz�� sugeriu, obsequioso.�� Muito seguro, o com�rcio de alimentos.</p><p>��N�o acho que ele queira�� opinou Mort.</p><p>��N�o, provavelmente n�o�� concordou Lezek.�� � um neg�cio meio individual, imagino. De qualquer forma, agora ele j� se foi. Vou guardar um pouco do meu pra voc�.</p><p>��N�o estou com muita fome, papai.</p><p>��Quase n�o tem gordura.</p><p>��N�o. Mas obrigado mesmo assim.</p><p>��Ah.</p><p>Lezek suspirou. Pulou um pouco para dar vida aos p�s e assobiou sem afina��o. Sentia-se na obriga��o de dizer alguma coisa, oferecer um conselho, salientar que a vida tinha seus altos e baixos, botar o bra�o em torno do ombro do filho e conversar extensivamente sobre os problemas da vida, mostrar�� em resumo�� que o mundo � um lugar antigo e estranho em que n�o dever�amos jamais, metaforicamente falando, ser t�o orgulhosos a ponto de recusar um bolo de carne t�o perfeito e bom.</p><p>Agora estavam sozinhos. A geada, �ltima do ano, aferrava-se cada vez mais ao ch�o de pedras.</p><p>No alto da torre, uma roda dentada fez �bum�, desengatou uma alavanca, soltou um trinco e deixou cair um peso de chumbo. Houve um terr�vel chiado met�lico, e as portinholas no mostrador do rel�gio se abriram, liberando os homenzinhos mec�nicos. Agitando os martelos como se sofressem de artrite rob�tica, eles come�aram a anunciar o novo dia.</p><p>��Bom, � isso�� disse Lezek.</p><p>Eles teriam de achar algum lugar para dormir. R�veillon dos Porcos n�o era �poca de andar pelas montanhas. Talvez houvesse um est�bulo em algum lugar...</p><p>��S� � meia-noite no �ltimo toque�� objetou Mort, com frieza.</p><p>Lezek encolheu os ombros. A persist�ncia de Mortimer o estava vencendo.</p><p>��Tudo bem�� disse.�� Vamos esperar.</p><p>E ent�o ouviram o pocot� a ressoar na pra�a fria, bem mais alto do que a ac�stica comum deveria permitir. Ali�s, pocot� era uma palavra absurdamente incorreta para o tipo de barulho que vibrava ao redor de Mortimer. Pocot� sugere um pequeno p�nei alegre, muito possivelmente usando chap�u de palha com furos para as orelhas. Este som aqui deixava claro que chap�us de palha estavam fora de quest�o.</p><p>O cavalo entrou na pra�a pela estrada que vinha do Centro, com vapor se desprendendo dos enormes flancos brancos e �midos, e fa�scas saltando do ch�o. Trotava com eleg�ncia, como um cavalo de batalha. Decididamente n�o usava nenhum chap�u de palha.</p><p>O vulto alto em seu dorso estava bem agasalhado contra o frio. Quando o animal alcan�ou o meio da pra�a, o cavaleiro desceu, devagar, e mexeu em qualquer coisa atr�s da sela. Ent�o trouxe � vista uma cevadeira, prendeu-a as orelhas do bicho e deu-lhe um tapinha no pesco�o.</p><p>O ar adquiriu uma textura espessa, oleosa, e as sombras ao redor de Mortimer viraram arco-�ris roxos e azuis. O cavaleiro avan�ou na dire��o dele, com a capa preta a se agitar e os p�s a estalarem no ch�o. Esses eram os �nicos sons: o sil�ncio caiu sobre a pra�a como grandes montes de algod�o.</p><p>O efeito geral s� foi comprometido por um trecho de gelo escorregadio.</p><p>��AH, DROGA.</p><p>N�o era exatamente uma voz. As palavras sem d�vida estavam ali, mas chegavam � mente de Mortimer sem se incomodar em passar pelos ouvidos.</p><p>Ele correu para ajudar o vulto ca�do e se descobriu pegando um bra�o que n�o passava de osso, liso e amarelado como uma velha bola de bilhar. O capuz escorregou para tr�s, e uma caveira voltou suas cavidades oculares vazias para ele.</p><p>Nem t�o vazias assim, por�m. Bem no fundo, como se fossem janelas que davam para os precip�cios do espa�o, havia duas min�sculas estrelas azuis.</p><p>Ocorreu a Mortimer que ele deveria estar horrorizado. E ent�o ficou ligeiramente chocado ao ver que n�o estava. Era um esqueleto que se encontrava ali sentado, diante dele, esfregando os joelhos e resmungando. Estava vivo, e era curiosamente impressionante, mas, por alguma estranha raz�o, n�o muito assustador.</p><p>��OBRIGADO, GAROTO�� disse a caveira.�� QUAL O SEU NOME?</p><p>��H㠗 soltou Mort.�� Mortimer... senhor. Mas me chamam de Mort.</p><p>��QUE COINCID�NCIA!�� exclamou a caveira.�� AJUDE AQUI, POR FAVOR.</p><p>Ele se levantou com dificuldade, limpando a roupa. Agora Mortimer podia ver que havia um cinto pesado em torno da cintura, de onde pendia uma espada de punho branco.</p><p>��Espero que o senhor n�o tenha se machucado�� arriscou, com educa��o.</p><p>O esqueleto sorriu. � claro, pensou Mortimer, que ele n�o tem muita escolha.</p><p>��EST� TUDO BEM.</p><p>A caveira olhou ao redor e pareceu ver Lezek, que dava mostras de estar congelado, pela primeira vez. Mortimer achou que se fazia necess�ria uma explica��o.</p><p>��Meu pai�� disse, tentando se mover protetoramente para frente dele sem causar nenhum agravo.�� Desculpe, mas o senhor � aquele cara que traz a morte?</p><p>��QUASE, GAROTO. MAIS PRECISAMENTE, EU SOU O �SENHOR� MORTE. MAS FOI MUITO PERSPICAZ DA SUA PARTE.</p><p>Mortimer engoliu em seco.</p><p>��Meu pai � um homem bom�� observou ele. Pensou por um momento e acrescentou:�� Se n�o for inc�modo, eu preferia que o senhor o deixasse em paz. N�o sei o que fez com ele, mas gostaria que parasse. Sem querer ofender.</p><p>Morte recuou, virando a cabe�a de lado.</p><p>��EU S� NOS TROUXE PARA FORA DO DOM�NIO DO TEMPO POR UM INSTANTE�� JUSTIFICOU.�� ELE N�O VAI VER NEM OUVIR NADA QUE POSSA INCOMOD�-LO. N�O, GAROTO FOI POR VOC� QUE EU VIM.</p><p>��Por mim?</p><p>��N�O EST� PROCURANDO EMPREGO?</p><p>Mortimer entendeu o que se passava.</p><p>��O senhor est� atr�s de um aprendiz?�� perguntou.</p><p>As cavidades oculares se voltaram para ele, com as pontinhas act�nicas cintilando.</p><p>��CLARO.</p><p>Morte agitou a m�o de osso. Houve uma explos�o de luz roxa, uma esp�cie de �bum� vis�vel, e Lezek descongelou. Sobre sua cabe�a, os homenzinhos mec�nicos continuavam o trabalho de anunciar a meia-noite, uma vez que o Tempo p�de enfim voltar a correr.</p><p>Lezek piscou os olhos.</p><p>��N�o vi voc� chegar�� desculpou-se.�� Sinto muito... devia estar com a cabe�a em outro lugar.</p><p>��EU ESTAVA OFERECENDO UM CARGO AO SEU FILHO�� informou Morte.�� CONTO COM SUA APROVA��O?</p><p>��Qual � mesmo o seu trabalho?�� perguntou Lezek, encarando o esqueleto vestido de preto sem revelar a menor sombra de espanto.</p><p>��CONDUZO ALMAS PARA O PR�XIMO MUNDO�� respondeu Morte.</p><p>��Ah�� soltou Lezek.�� � claro, desculpe, eu j� deveria ter adivinhado pelas roupas. Um trabalho muito interessante, bastante est�vel. O neg�cio � s�lido?</p><p>��J� ESTOU NELE H� ALGUM TEMPO�� considerou Morte.</p><p>��Excelente. Nunca pensei nisso como trabalho para o Mort, mas � uma boa profiss�o, uma boa profiss�o, bastante segura. Qual � o seu nome?</p><p>��MORTE.</p><p>��Papai...�� interveio Mort.</p><p>��Nunca ouvi falar da empresa�� considerou Lezek.�� Onde fica?</p><p>��DAS PROFUNDEZAS DO MAR A ALTURAS QUE NEM AS �GUIAS PODEM ALCAN�AR�� respondeu Morte.</p><p>��Nada mal�� considerou Lezek.�� Bem, eu...</p><p>��Papai�� insistiu Mort, puxando o casaco de Lezek. Morte p�s a m�o no ombro do menino.</p><p>��O QUE SEU PAI V� E ESCUTA N�O � O QUE VOC� V� E ESCUTA�� explicou.�� N�O O DEIXE PREOCUPADO. ACHA QUE ELE GOSTARIA DE ME VER... EM CARNE E OSSO, SE FOSSE O CASO?</p><p>��Mas o senhor � o Morte�� retrucou Mort.�� Sai por a� matando as pessoas!</p><p>��EU? MATAR?�� indignou-se Morte, notadamente ofendido.�� CLARO QUE N�O. AS PESSOAS S�O MORTAS, E ISSO � PROBLEMA DELAS. EU S� ASSUMO O COMANDO A PARTIR DA�. AFINAL, SERIA UM MUNDO BASTANTE IDIOTA SE AS PESSOAS FOSSEM MORTAS SEM MORRER, N�O � MESMO?</p><p>��Bem, �...�� admitiu Mort, hesitante.</p><p>Mortimer jamais ouvira a palavra �intrigado�. Ela n�o fazia parte do vocabul�rio da fam�lia. Mas uma centelha em sua alma dizia que ali estava um neg�cio estranho, fascinante e n�o completamente pavoroso, e que, se ele deixasse aquele momento escapar, passaria o resto da vida arrependido. Ent�o lembrou as humilha��es do dia e a longa caminhada de volta para casa...</p><p>��Hum�� come�ou ele��, eu n�o preciso morrer para aceitar o trabalho, preciso?</p><p>��N�O � OBRIGAT�RIO ESTAR MORTO.</p><p>��E... os ossos... ?</p><p>��S� SE VOC� QUISER.</p><p>Mortimer suspirou outra vez. A id�ia come�ava a lhe agradar.</p><p>��Se meu pai concordar�� advertiu ele.</p><p>Ambos olharam para Lezek, que estava co�ando a barba.</p><p>��Mort, o que voc� acha?�� perguntou, com a vivacidade de uma pessoa febril.�� N�o � o que todo mundo considera trabalho. Admito que n�o se trate do que eu tinha em mente. Mas dizem que o servi�o funer�rio � uma profiss�o de muito respeito. Voc� decide.</p><p>��Servi�o funer�rio?�� surpreendeu-se Mort.</p><p>Morte assentiu e levou o dedo aos l�bios num gesto conspirat�rio.</p><p>��Interessante...�� disse Mort, devagar.�� Acho que eu gostaria de experimentar.</p><p>��Onde o senhor disse que era a ag�ncia?�� perguntou Lezek.�� Fica longe?</p><p>��N�O MAIS DO QUE A UMA SOMBRA DE DIST�NCIA�� respondeu Morte.�� ONDE ESTAVA A C�LULA PRIMORDIAL, L� ESTAVA EU. ONDE O HOMEM EST�, ESTOU EU. QUANDO O �LTIMO SER VIVO SE ARRASTAR SOB O BRILHO DE ESTRELAS GELADAS, L� ESTAREI.</p><p>��Ah�� disse Lezek.�� O senhor viaja um bocado.</p><p>Ele pareceu intrigado, como algu�m que se esfor�a para lembrar algo importante, e ent�o desistiu.</p><p>Morte lhe deu um tapinha nas costas e se virou para Mortimer.</p><p>��TEM ALGUMA BAGAGEM, GAROTO?</p><p>��Tenho�� respondeu Mort, e ent�o se lembrou.�� Mas acho que esqueci na loja, pai, a gente deixou o saco na loja de roupas!</p><p>��Vai estar fechada�� afirmou Lezek.�� Loja n�o abre no R�veillon dos Porcos. Voc� vai ter de voltar depois de amanh�... bem, amanh�.</p><p>��N�O TEM IMPORT�NCIA�� garantiu Morte.�� VAMOS EMBORA. COM CERTEZA MUITO EM BREVE VOU TER TRABALHO AQUI.</p><p>��Espero que voltem logo e nos visitem�� ressaltou Lezek. Ele parecia estar lutando com seus pensamentos.</p><p>��N�o acho que seja boa id�ia�� considerou Mort.</p><p>��Bem, rapaz, adeus�� disse Lezek.�� Fa�a o que mandarem, entendeu? E... desculpe, o senhor tem filho homem?</p><p>Morte pareceu surpreso.</p><p>��N�O�� respondeu.</p><p>��Se o senhor n�o se importa, eu gostaria de dar uma �ltima palavrinha com o menino.</p><p>��ENT�O VOU OLHAR O CAVALO�� decidiu Morte, mais diplom�tico do que o habitual.</p><p>Lezek botou o bra�o em torno dos ombros do filho�� com alguma dificuldade, por causa da diferen�a de tamanhos�� e puxou-o delicadamente pela pra�a.</p><p>��Mort, sabe quando o tio Hamesh me falou dessa hist�ria de aprendizado?�� sussurrou ele.</p><p>��Sei.</p><p>��Bem, ele tamb�m me contou outra coisa�� confidenciou o homem.�� Disse que n�o � raro o aprendiz herdar os neg�cios do mestre. O que acha disso?</p><p>��Hum. N�o sei�� respondeu Mort.</p><p>��Vale a pena pensar a respeito�� insistiu Lezek.</p><p>��Pai, eu estou pensando a respeito.</p><p>��Muitos rapazes come�aram assim�� justificou Lezek.�� Mostram seu valor, ganham � confian�a do mestre e, bem, se tiver alguma filha na casa... o Seu, h�, Seu Fulano falou alguma coisa de filhas?</p><p>��Seu quem?�� perguntou Mort.</p><p>��O Seu... novo mestre.</p><p>��Ah. Ele. N�o. Acho que n�o�� respondeu Mort.�� N�o parece ser do tipo que se liga em casamento.</p><p>��Muitos meninos inteligentes devem seus avan�os �s n�pcias�� apontou Lezek.</p><p>��Jura?</p><p>��Mort, voc� n�o t� prestando aten��o!</p><p>��O qu�?</p><p>Lezek se deteve e virou o menino, a fim de encar�-lo.</p><p>��Voc� realmente vai ter de se esfor�ar mais�� disse ele.�� Ser� que n�o entende? Se pretende ser alguma coisa na vida, precisa escutar. � o seu pai que est� lhe dizendo isso.</p><p>Mortimer fitou o rosto do pai. Queria dizer uma por��o de coisas: queria mostrar o quanto o amava, explicar sua preocupa��o. Queria perguntar o que o pai acreditava ter visto e ouvido. Queria dizer que se sentia como se houvesse pisado num montinho de terra e descoberto que na verdade se tratava de um vulc�o. Queria perguntar o que significava �n�pcias�.</p><p>O que acabou, dizendo foi:</p><p>���. Obrigado. Acho melhor eu ir andando. Depois mando uma carta.</p><p>��H� de passar algu�m que possa ler para a gente�� entusiasmou-se Lezek.�� Tchau, meu filho.</p><p>O velho assoou o nariz.</p><p>��Tchau, pai. Eu apare�o qualquer hora�� prometeu Mort. Morte tossiu com discri��o, embora o som parecesse o estalido de uma viga antiga, cheia de besouros.</p><p>��� MELHOR IRMOS ANDANDO�� considerou.�� MONTE, GAROTO.</p><p>Enquanto Mortimer subia na pomposa sela prateada, Morte se inclinou e apertou a m�o de Lezek.</p><p>��Obrigado�� disse.</p><p>��No fundo, ele � um bom menino�� notou Lezek.�� S� � um pouco sonhador. Acho que todos fomos jovens um dia.</p><p>Morte considerou aquilo.</p><p>��N�O�� contestou.�� ACHO QUE N�O.</p><p>Pegou as r�deas e virou o cavalo em dire��o � estrada da Borda. Do lugar em que estava, atr�s do vulto de preto, Mortimer acenou em desespero.</p><p>Lezek retribuiu o aceno. Ent�o, quando o corcel e os dois cavaleiros desapareceram de vista, baixou a m�o e olhou para ela. O aperto de m�o... fora estranho. Mas, por algum motivo, ele n�o conseguia lembrar exatamente por qu�.</p><p>Mortimer ouviu o barulho das pedras sob os cascos do cavalo. Depois vieram os baques suaves sobre a terra batida da estrada e ent�o n�o houve mais som algum.</p><p>Ele olhou para baixo e viu a paisagem se estender � dist�ncia, na noite cortada pelo luar prateado. Se ca�sse, a �nica coisa em que bateria seria o ar.</p><p>Mortimer redobrou a for�a com que se agarrava � sela.</p><p>Ent�o Morte perguntou:</p><p>��EST� COM FOME, GAROTO?</p><p>��Estou, sim senhor.</p><p>As palavras lhe surgiram direto do est�mago, sem interven��o do c�rebro.</p><p>Morte assentiu e parou o cavalo. O animal ficou parado em pleno ar, com o grande panorama circular do Disco reluzindo abaixo. Daqui e dali vinha o brilho dourado de alguma cidade. Nos mares quentes pr�ximos � Borda, havia uma leve fosforesc�ncia. Em alguns vales mais profundos, a luz represada do Disco, que � lenta e ligeiramente pesada<a l:href="#n_1" type="note">[1]</a>, evaporava como fuma�a prateada. Mas era ofuscada pelo brilho que subia da pr�pria Borda at� as estrelas. Imensos raios de luz tremeluziam no breu da noite. Um enorme muro dourado cercava o mundo.</p><p>��� lindo!�� exclamou Mort, em voz baixa.�� O que � isso?</p><p>��O SOL EST� DEBAIXO DO DISCO�� informou Morte.</p><p>��� assim todas as noites?</p><p>��TODAS AS NOITES�� confirmou Morte.�� A NATUREZA � ASSIM.</p><p>��E algu�m sabe?</p><p>��EU. VOC�. OS DEUSES. MARAVILHA, N�O?</p><p>��Minha nossa!</p><p>Morte se inclinou sobre a sela e contemplou os reinados do mundo.</p><p>��N�O SEI QUANTO A VOCʠ� DISSE.�� MAS EU DEVORARIA UM BOM PRATO AO CURRY.</p><p>Embora j� passasse muito da meia-noite, a cidade g�mea de Ankh-Morpork esbanjava vida. Mortimer achara Serra Ovelha movimentada, mas, comparada � confus�o da rua em que estava agora, a cidade era um necrot�rio.</p><p>Poetas j� tentaram descrever Ankh-Morpork. N�o conseguiram. Talvez seja a energia do lugar, ou ent�o porque uma cidade com um milh�o de habitantes e sem esgoto seja demais para os poetas, que naturalmente preferem margaridas. Bem, digamos apenas que Ankh-Morpork � t�o cheia de vida quanto queijo velho em dia de calor, t�o ruidosa quanto palavr�o em igreja, t�o iluminada quanto mancha de �leo em superf�cie de �gua, t�o colorida quanto um hematoma e t�o alvoro�ada, diligente e ativa quanto cachorro morto em formigueiro.</p><p>Havia templos de portas abertas, enchendo a rua com o som de gongos, sinos e, no caso das religi�es fundamentalistas mais conservadoras, os breves gritos de suas v�timas. Havia lojas cujas estranhas mercadorias chegavam ao ch�o da cal�ada. Parecia haver muitas jovens simp�ticas sem dinheiro para se vestir. Havia tochas, malabaristas e vendedores de transcend�ncia instant�nea.</p><p>E Morte avan�ava em meio a tudo aquilo. Mortimer esperara v�-lo passar pelas pessoas como fuma�a, mas n�o era assim que acontecia. A verdade nua e crua � que, por onde Morte andava, os indiv�duos se desviavam.</p><p>O mesmo n�o se dava com Mortimer. A multid�o que suavemente se abria para seu novo mestre tratava de se fechar bem a tempo de ficar no caminho dele. Os dedos dos p�s foram esmagados, as costelas se viram contundidas, algumas pessoas tentaram lhe vender ervas desagrad�veis e vegetais de formas sugestivas, e, por mais estranho que pare�a, uma senhora j� de idade disse que ele parecia um rapaz cheio de vida � procura de divers�o.</p><p>Ele agradeceu muito e respondeu que j� estava se divertindo � be�a.</p><p>Morte alcan�ou a esquina da rua�� a luz das tochas erguendo raios brilhantes no cocuruto lustroso de sua cabe�a�� e fungou o ar. Um b�bado se aproximou cambaleante e, sem nenhum motivo aparente, fez um leve desvio no caminho irregular que tra�ava.</p><p>��ISTO SIM � QUE � CIDADE�� anunciou Morte.�� O QUE ACHA?</p><p>��Muito grande�� respondeu Mort, hesitante.�� Quer dizer, por que todo mundo prefere viver apertado assim?</p><p>Morte deu de ombros.</p><p>��EU GOSTO�� afirmou.�� � CHEIA DE VIDA.</p><p>��Senhor?</p><p>��H�?</p><p>��O que � curry?</p><p>As chamas azuis se acenderam nos olhos de Morte.</p><p>��J� MORDEU PEDRA DE GELO QUENTE?</p><p>��N�o, senhor�� admitiu Mort.</p><p>��CURRY � IGUAL.</p><p>��Senhor?</p><p>��H�?</p><p>Mortimer engoliu em seco.</p><p>��Desculpe, senhor, mas meu pai disse que, se eu tivesse alguma d�vida, deveria perguntar.</p><p>��MUITO LOUV�VEL�� considerou Morte.</p><p>Ent�o partiu por uma rua lateral, com as pessoas abrindo caminho feito mol�culas desordenadas.</p><p>��Bem, senhor, eu n�o pude deixar de notar, a verdade � que, bom, o fato puro e simples, senhor, �...</p><p>��VAMOS COM ISSO, GAROTO.</p><p>��Como o senhor consegue comer?</p><p>Morte parou de repente, de modo que Mortimer andou dentro dele. Quando o menino come�ou a falar, o mestre acenou para que se calasse. Parecia estar ouvindo alguma coisa.</p><p>��SABE? TEM HORAS�� disse, quase para si mesmo�� EM QUE FICO COM MUITA RAIVA.</p><p>Ele se virou e avan�ou �s pressas por um beco, com a capa a se agitar. O beco serpenteava por entre muros escuros e pr�dios adormecidos�� mais um corredor sinuoso do que uma via p�blica de fato.</p><p>Morte se deteve ao lado de um velho barril e mergulhou o bra�o na �gua, voltando com um pequeno saco preso a um tijolo. Sacou a espada�� uma linha de reluzente chama azul na escurid�o�� e partiu a corda.</p><p>��FICO COM MUITA RAIVA MESMO�� ressaltou.</p><p>Endireitou o saco, e Mortimer p�de ver os tristes peda�os de pele animal encharcada deslizarem para o ch�o de pedras. Morte esticou os dedos brancos e acariciou-os com delicadeza.</p><p>Depois de um tempo, uma esp�cie de fuma�a cinza come�ou a se desprender dos filhotes e formar tr�s pequenas nuvens em forma de gato. Os bichanos cresceram, ainda incertos de suas dimens�es, e piscaram para Mortimer com intrigados olhos cinza. Quando o menino arriscou tocar um deles, a m�o passou direto pelo corpo e formigou.</p><p>��NESTE TRABALHO, VEMOS O PIOR DAS PESSOAS�� lamentou Morte.</p><p>Ele soprou um gatinho, fazendo-o dar cambalhota. O miado de protesto ecoou como se viesse de longe, atrav�s de um longo tubo de lata.</p><p>��S�o almas, n�o s�o?�� admirou-se Mort.�� Como fica a gente?</p><p>��EM FORMA DE GENTE�� respondeu Morte.�� TUDO SE RESUME AO CAMPO MORFOG�NICO CARACTER�STICO.</p><p>Ele soltou um suspiro parecido com o som de uma mortalha a�oitada pelo vento, pegou os filhotes no ar e guardou-os com cuidado em algum misterioso esconderijo do manto. Ent�o ficou de p�.</p><p>��HORA DO CURRY!�� disse, afinal.</p><p>Na esquina da Rua de Deus com o Beco Sangrento, o Jardins de Curry estava lotado, mas apenas com a nata da sociedade�� ou, ao menos, com as pessoas que se acham flutuando no topo e a quem, portanto, � melhor chamarmos de nata. Flores perfumadas plantadas entre as mesas quase encobriam o odor natural da pr�pria cidade, que j� foi citado como o equivalente nasal da buzina de nevoeiro.</p><p>Mortimer comeu com avidez, mas dominou a curiosidade e n�o ficou olhando para ver como Morte podia abocanhar o que quer que fosse. Primeiro a comida estava ali e depois n�o estava, ent�o presumiu que alguma coisa devia ter acontecido com ela. Mortimer teve a sensa��o de que Morte n�o estava de fato acostumado �quilo tudo, mas vinha fazendo o poss�vel apenas para deix�-lo � vontade, como o tio solteir�o que recebe o sobrinho para o feriado e morre de medo de que tudo d� errado.</p><p>Os outros clientes n�o pareciam prestar muita aten��o, mesmo quando Morte se recostou na cadeira e acendeu um cachimbo. � dif�cil ignorar algu�m que exala fuma�a pelas �rbitas dos olhos, mas todos conseguiram.</p><p>��� magia?�� perguntou Mort.</p><p>��O QUE VOC� ACHA?�� rebateu Morte.�� ESTOU REALMENTE AQUI, GAROTO?</p><p>��Est᠗ respondeu Mort, devagar.�� Eu... fiquei observando as pessoas. Elas olham mas n�o v�em, eu acho. O senhor faz alguma coisa na mente delas?</p><p>Morte sacudiu a cabe�a.</p><p>��ELAS MESMAS FAZEM�� corrigiu�� N�O TEM MAGIA NENHUMA. AS PESSOAS N�O PODEM ME VER PORQUE N�O SE PERMITEM. AT� QUE SEJA HORA, � CLARO. OS MAGOS ME ENXERGAM, E OS GATOS. MAS O HOMEM COMUM... N�O, NUNCA.</p><p>Ele soprou um anel de fuma�a para o c�u e acrescentou:</p><p>��PODE PARECER ESTRANHO, MAS � A MAIS PURA VERDADE.</p><p>Mortimer observou o anel de fuma�a flutuar para o alto e se afastar na dire��o do rio.</p><p>��Eu vejo o senhor�� objetou Mort.</p><p>��� DIFERENTE.</p><p>O gar�om klatchiano chegou com a conta e colocou-a na frente de Morte. O homem era moreno e atarracado�� com o corte de cabelo parecendo um coco��, e o rosto redondo se abriu num sorriso intrigado quando Morte educadamente acenou em agradecimento. Ele sacudiu a cabe�a como quem tenta tirar sab�o do ouvido e se afastou.</p><p>Morte enfiou a m�o nas profundezas do manto e retirou um saco de couro cheio de diferentes moedas de cobre, a maioria das quais azuladas ou esverdeadas pelo tempo. Examinou a conta com aten��o. E separou uma d�zia de moedas.</p><p>��VENHA�� disse, levantando-se.�� TEMOS DE IR ANDANDO.</p><p>Mortimer seguiu-o pelo jardim at� a rua, que ainda se encontrava bem movimentada apesar dos primeiros sinais da alvorada no horizonte.</p><p>��O que vamos fazer agora?</p><p>��COMPRAR ROUPAS NOVAS PARA VOC�.</p><p>��Estas aqui s�o novas.</p><p>��JURA?</p><p>��Meu pai disse que a loja era famosa pelo pre�o baixo�� observou Mort, acelerando o passo a fim de n�o ficar para tr�s.</p><p>��COM CERTEZA ACRESCENTA UM NOVO HORROR � POBREZA.</p><p>Eles entraram numa rua larga, que levava a uma parte mais rica da cidade (as tochas ficavam mais pr�ximas umas das outras; e os montes de lixo, mais espa�ados). Ali n�o havia barracas ou vendedores de esquina, e sim constru��es respeit�veis com placas penduradas ao lado de fora. N�o eram meras lojas; eram estabelecimentos comerciais. Dentro, havia fornecedores, bancos e escarradeiras. A maioria estava aberta mesmo �quela hora da noite porque o comerciante ankhiano m�dio n�o consegue dormir, imaginando o dinheiro que est� deixando de ganhar.</p><p>��Ningu�m dorme aqui?�� perguntou Mort.</p><p>��ISTO � UMA CIDADE�� respondeu Morte, e abriu a porta de uma loja de roupas.</p><p>Vinte minutos mais tarde, quando os dois sa�ram, Mortimer vestia uma roupa preta bem ajustada, com leves bordados prateados, e o lojista olhava um punhado de antigas moedas de cobre e imaginava de onde exatamente haviam surgido.</p><p>��Como o senhor arranja essas moedas?�� quis saber Mort.</p><p>���S PENCAS.</p><empty-line/><p>Um barbeiro que mantinha o sal�o aberto durante toda a noite cortou o cabelo de Mortimer � �ltima moda dos garotos da cidade, enquanto Morte descansava na cadeira ao lado, cantarolando baixinho. Para surpresa sua, estava de �timo humor.</p><p>De fato, ap�s algum tempo tirou o capuz e encarou o aprendiz do barbeiro�� que ajeitou uma toalha em volta de seu pesco�o, daquele jeito hipnotizado e distra�do que Mortimer j� come�ava a reconhecer�� e disse:</p><p>��UM POUCO DE �GUA-DE-COL�NIA E POLIMENTO, MEU BOM JOVEM.</p><p>Ao ouvir a voz pesada e sombria, um mago mais velho que vinha aparando a barba do outro lado se retesou e virou a cadeira. Ficou branco e murmurou alguns feiti�os de prote��o depois que Morte tamb�m se virou�� bem devagar, para obter o m�ximo de efeito�� e sorriu para ele.</p><p>Alguns minutos mais tarde, sentindo extrema timidez e um pouco de frio nas orelhas, Mortimer voltava para o est�bulo onde Morte deixara o cavalo. Tentou uma nova maneira de andar, imaginando que o traje e o corte de cabelo pediam. N�o funcionou muito bem.</p><empty-line/><p>Mortimer acordou.</p><p>Continuou deitado, olhando o teto enquanto a mem�ria era rebobinada e os acontecimentos do dia anterior se cristalizavam na mente feito pedras de gelo.</p><p>Ele n�o podia ter conhecido o Morte. N�o podia ter jantado com um esqueleto de olhos azuis, brilhantes. Aquilo devia ser um sonho estranho. Ele n�o podia ter montado um grande cavalo branco que subiu ao c�u e depois foi... para onde?</p><p>A resposta lhe ocorreu como uma cobran�a de impostos inevit�vel.</p><p>Aqui.</p><p>Levou as m�os ao cabelo tosado, depois ao len�ol, de um material macio e escorregadio. Parecia muito melhor do que o de sempre que cheirava a ovelha. Aquele era como gelo quente e seco.</p><p>Ele pulou para fora da cama e correu os olhos pelo quarto.</p><p>Em primeiro lugar, era grande�� maior do que sua casa inteira�� e seco feito uma tumba velha em um deserto ancestral. O ar parecia ter sido cozido durante horas e ent�o posto para esfriar. O tapete era fundo o suficiente para acobertar uma tribo de pigmeus e soltava estalos el�tricos � medida que ele andava. Al�m disso, tudo tinha tons de roxo e preto.</p><p>Ele examinou o pr�prio corpo e viu que estava usando um longo camis�o de dormir branco. Sua roupa se encontrava cuidadosamente dobrada na cadeira ao lado da cama. A cadeira, ele n�o p�de deixar de notar, era esculpida em forma de ossos e caveira.</p><p>Mortimer sentou na beira da cama e come�ou a se vestir, com a mente acelerada.</p><p>Abriu a pesada porta de carvalho e ficou decepcionado quando ela n�o rangeu de maneira assustadora.</p><p>Do lado de fora, havia um corredor de t�buas corridas, com grandes velas amarelas suspensas em casti�ais na parede oposta. Mortimer se esgueirou do quarto e avan�ou pelo corredor at� alcan�ar uma escada. Fez isso tudo sem que nada de terr�vel acontecesse, chegando afinal ao que parecia um hall de entrada cheio de portas. Ali havia uma por��o de cortinas f�nebres e um rel�gio de p�ndulo com um tique-taque que parecia o pulsar de uma montanha. Do lado, havia um cabide para guarda-chuvas..</p><p>Nele, estava uma foice.</p><p>Mortimer olhou as portas. Eram imponentes. Os arcos haviam sido abertos no j� familiar desenho de ossos. Arriscou a mais pr�xima, e uma voz atr�s dele disse:</p><p>��N�o pode entrar a�, menino.</p><p>Mortimer levou alguns segundos para se dar conta de que n�o era uma voz dentro de sua cabe�a, mas palavras humanas de verdade, formadas numa boca e transmitidas aos seus ouvidos atrav�s de um providencial sistema de compress�o do ar, como aquelas cinco meras palavras.</p><p>Ele se virou. Havia uma garota ali, mais ou menos da altura dele e talvez alguns anos mais velha. Tinha cabelo cinzento e olhos de brilho perolado, e trajava o tipo de vestido longo, interessante e nada pr�tico, em geral usado por hero�nas tr�gicas que apertam uma rosa ao peito enquanto olham sentimentalmente para a Lua. Mortimer jamais ouvira a express�o �pr�-rafaelita�, o que � uma pena, pois teria sido quase a descri��o perfeita. No entanto, essas meninas tendem a ser magras e abatidas, ao passo que aquela ali dava a ligeira impress�o de ter comido chocolates demais.</p><p>Ela o fitava com a cabe�a inclinada para o lado e o p� batendo irritadamente no ch�o. Ent�o estendeu r�pido a m�o e beliscou-lhe o bra�o com for�a.</p><p>��Ai!</p><p>��Hum. Ent�o voc� � de verdade�� avaliou ela.�� Qual � seu nome, menino?</p><p>��Mortimer. Mas me chamam de Mort�� respondeu ele, esfregando o cotovelo.�� Por que fez isso?</p><p>��Vou cham�-lo de Menino�� anunciou ela.�� E n�o preciso ficar me explicando, mas, se quer saber, pensei que voc� estivesse morto. Parece morto.</p><p>Mortimer n�o disse nada.</p><p>��Perdeu a l�ngua?</p><p>Na verdade, ele estava contando at� dez.</p><p>��N�o estou morto�� falou, por fim.�� Pelo menos, acho que n�o. Dif�cil dizer. Quem � voc�?</p><p>��Pode me chamar de senhorita Ysabell�� provocou ela.�� Meu pai falou que voc� precisa comer alguma coisa. Siga-me.</p><p>Ela avan�ou por uma das outras portas. Mortimer acompanhou-a a uma dist�ncia perfeita para que a porta voltasse e lhe acertasse o outro cotovelo.</p><p>Do outro lado, havia uma cozinha comprida, baixa e quente, com panelas de cobre penduradas no teto e um amplo fog�o preto de ferro que ocupava toda uma parede. Assobiando diante dele, estava um senhor, fritando ovos e bacon.</p><p>Imediatamente o cheiro invocou as papilas gustativas de Mortimer, sugerindo que juntos eles poderiam se divertir. Ele se viu caminhando para frente sem nem mesmo consultar as pr�prias pernas.</p><p>��Albert�� chamou Ysabell.�� Mais um para o caf� da manh�. O homem se virou devagar e balan�ou a cabe�a sem dizer uma palavra. Ela se voltou para Mortimer.</p><p>��Devo admitir�� disse, com arrog�ncia�� que, podendo escolher de todo o Disco, papai deveria ter arranjado coisa melhor. N�o sei se voc� vai servir.</p><p>Ela se retirou, batendo a porta.</p><p>��Servir para qu�?�� perguntou Mort, a ningu�m em especial. A cozinha ficou em sil�ncio, exceto pelo chiado da frigideira e das pedras de carv�o, no centro vazado do fog�o. Mortimer notou que o aparelho tinha as palavras �O Lagartinho �� gravadas na porta do forno.</p><p>O cozinheiro n�o pareceu not�-lo, ent�o Mortimer puxou uma cadeira e se sentou � mesa branca.</p><p>��Cogumelo?�� perguntou o homem, sem virar a cabe�a.</p><p>��H�? Qu�?</p><p>��Perguntei se quer cogumelo.</p><p>��Ah. Desculpe. N�o, obrigado�� respondeu Mort.</p><p>��Pois bem.</p><p>Ele se virou e avan�ou para a mesa.</p><p>Mesmo depois que j� estivesse acostumado, Mortimer sempre prenderia a respira��o quando visse Albert andando. O empregado de Morte era um desses velhos magricelas que sempre parecem estar usando luvas com os dedos cortados�� mesmo quando n�o est�o��, e seu modo de caminhar envolvia uma complicada seq��ncia de movimentos. Albert se inclinou para frente, e o bra�o esquerdo come�ou a balan�ar, a princ�pio devagar, mas logo com um movimento alucinado que por fim e de s�bito, mais ou menos quando esperar�amos que o bra�o sa�sse voando do cotovelo, estendeu-se rente ao corpo e impulsionou-o adiante como a um homem sobre pernas de pau caminhando em alta velocidade.</p><p>A frigideira tra�ou uma s�rie de curvas complexas no ar e parou bem acima do prato de Mortimer.</p><p>Albert tinha at� o tipo certo de �culos em meia-lua para espiar por sobre as lentes.</p><p>��Tamb�m tem mingau�� disse ele, e piscou o olho, aparentemente para incluir Mortimer na conspira��o mundial do mingau.</p><p>��Desculpe�� pediu Mort.�� Mas onde exatamente eu estou?</p><p>��Voc� n�o sabe? Esta � a casa do Morte, rapaz. Ele o trouxe para c� ontem � noite.</p><p>��Eu... meio que me lembro. S� que...</p><p>��O qu�?</p><p>��Bem. Esses ovos com bacon�� disse, parecendo confuso.�� N�o parecem apropriados.</p><p>��Tem mortadela�� ofereceu Albert.</p><p>��N�o, n�o � isso...�� retrucou Mort, hesitante.�� S� n�o consigo ver o Morte comendo tiras de bacon e ovo frito.</p><p>Albert sorriu.</p><p>��Ah, ele n�o come. N�o com regularidade. F�cil servir ao patr�o. S� cozinho para mim e... para a jovem, � claro.</p><p>Mortimer assentiu.</p><p>��Sua filha�� disse.</p><p>��Minha? Ah!�� exclamou Albert.�� Engano seu. Dele.</p><p>Mortimer olhou os ovos fritos. Eles retribu�ram o olhar em meio � po�a de gordura. Albert j� ouvira falar de valores nutritivos e achava tudo uma bobagem.</p><p>��Estamos nos referindo � mesma pessoa?�� perguntou Mort, afinal.�� Alto, de roupa preta, meio... magro...</p><p>��Adotada�� explicou Albert.�� � uma longa hist�ria...</p><p>Um sino tocou.</p><p>��... que vai ter de ficar pra depois. Ele quer ver voc� no gabinete. Melhor correr. O patr�o n�o gosta de esperar. Compreens�vel, n�o? Subindo a escada, primeira porta � esquerda. � f�cil...</p><p>��Tem caveiras e ossos ao redor?�� perguntou Mort, empurrando a cadeira para tr�s.</p><p>��Todas t�m, a maioria delas�� suspirou Albert.�� � s� mania dele. N�o existe nenhum significado oculto.</p><p>Deixando o caf� da manh� esfriar, Mortimer subiu a escada e atravessou o corredor �s pressas, detendo-se em frente � primeira porta. Suspendeu a m�o para bater na madeira.</p><p>��Entre.</p><p>A ma�aneta se virou por livre e espont�nea vontade. A porta se abriu.</p><p>Morte estava sentado atr�s de uma mesa, examinando um enorme livro de couro, quase maior do que a pr�pria mesa. Quando Mortimer entrou, ele ergueu a cabe�a, mantendo um dedo calc�rio para marcar o lugar, e sorriu. N�o havia alternativa.</p><p>��AH�� disse, e parou.</p><p>Ent�o co�ou o queixo, fazendo ru�do semelhante ao de unha raspando em pente.</p><p>��QUEM � VOC�, GAROTO?</p><p>��Mort, senhor�� respondeu Mort.�� Seu aprendiz. Lembra?</p><p>�Morte encarou-o durante algum tempo. Ent�o os olhos azuis se voltaram para o livro.</p><p>��AH, SIM�� disse ele.�� MORT. BOM, GAROTO, VOC� REALMENTE QUER APRENDER OS MAIORES SEGREDOS DO TEMPO E DO ESPA�O?</p><p>��Quero, senhor. Eu acho, senhor.</p><p>���TIMO. O EST�BULO FICA NOS FUNDOS. A P� DEVE ESTAR PENDURADA NA PORTA.</p><p>Ele olhou para baixo. Olhou para cima. Mortimer n�o se mexera.</p><p>��SER� POSS�VEL QUE N�O TENHA ENTENDIDO?</p><p>��N�o completamente, senhor�� admitiu Mort.</p><p>��ESTERCO, GAROTO. ESTERCO. ALBERT MANT�M O MONTE DE ADUBO NO JARDIM. EM ALGUM LUGAR DA CASA, DEVE TER UM CARRINHO DE M�O. AGORA PODE IR.</p><p>Mortimer assentiu, com tristeza.</p><p>��Sim, senhor. Entendi, senhor. Senhor?</p><p>��H�?</p><p>��N�o sei o que isso tem a ver com os segredos do tempo e do espa�o.</p><p>Morte n�o tirou os olhos do livro.</p><p>��ISSO�� respondeu ele�� � PORQUE VOC� EST� AQUI PARA APRENDER.</p><p>� fato que embora seja, em suas pr�prias palavras, uma PERSONIFICA��O ANTROPOM�RFICA, o Morte do Discworld havia muito tempo deixara de usar os tradicionais cavalos esquel�ticos por causa da chatea��o de ter de ficar parando o tempo todo a fim de juntar os peda�os. Agora seus cavalos eram sempre animais de carne e osso, vindos das mais nobres linhagens.</p><p>E muito bem alimentados, como descobriria Mortimer.</p><p>Alguns empregos oferecem incrementos. Este oferecia... o oposto, mas pelo menos ficava num lugar quente e era f�cil de aprender. Depois de algum tempo, ele entrou no ritmo e come�ou a brincar daquele joguinho secreto de dividir as quantidades, que todo mundo joga nessas situa��es. Vejamos, pensou ele, j� fiz quase um quarto; se considerarmos um ter�o, ent�o, quando eu terminar aquele canto perto da manjedoura, vai ser mais da metade, digamos que cinco oitavos, o que significa mais tr�s carrinhos cheios... Isso n�o prova quase nada al�m de que o magn�fico esplendor do universo fica mais f�cil de ser assimilado quando pensamos nele como uma s�rie de pequenas partes.</p><p>Da baia, o cavalo o fitava, �s vezes tentando lhe comer o chap�u.</p><p>Depois de algum tempo, Mortimer se deu conta de que mais algu�m o observava. Ysabell estava escorada na meia-porta, com o queixo entre as m�os.</p><p>��Voc� � empregado?�� perguntou ela.</p><p>Mortimer se enrijeceu.</p><p>��N�o�� respondeu, afinal.�� Sou aprendiz.</p><p>��Bobagem. Albert disse que voc� n�o pode ser aprendiz.</p><p>Mortimer se concentrou em jogar a p� cheia no carrinho de m�o. Mais duas p�s, s�o tr�s se estiverem bem cheias, e isso significa mais quatro carrinhos, tudo bem, digamos que cinco, para eu terminar metade do...</p><p>��Ele disse��. prosseguiu Ysabell, elevando o tom de voz�� que aprendiz vira mestre, e n�o pode existir mais de um Morte. Ent�o voc� n�o passa de um criado e tem de fazer o que eu mandar.</p><p>... e depois oito carrinhos a mais significa que est� tudo acabado at� a porta, que � quase dois ter�os do servi�o completo, o que vale dizer...</p><p>��Ouviu o que eu falei, menino?</p><p>Mortimer assentiu. E ent�o v�o ser mais catorze carrinhos, s� que podemos considerar quinze, porque n�o varri muito bem no canto e...</p><p>��Perdeu a l�ngua?</p><p>��Mort�� disse Mort, com do�ura. Ela o encarou, furiosa.</p><p>��O qu�?</p><p>��Meu nome � Mort�� repetiu ele.�� Ou Mortimer. Quase todo mundo me chama de Mort. Quer falar alguma coisa comigo?</p><p>Por um instante, ela ficou muda, correndo os olhos do rosto dele para a p� e de volta para o rosto.</p><p>��S� que me pediram para fazer isso aqui�� advertiu Mort.</p><p>Ela explodiu.</p><p>��Por que voc� est� aqui? Por que papai trouxe voc� para c�?</p><p>��Ele me contratou na feira de empregos�� respondeu Mort.�� Todos os meninos foram contratados. Eu tamb�m.</p><p>��E voc� quis?�� insistiu ela.�� Ele � o Morte, sabia? O Ceifeiro Implac�vel. Ele � muito importante. N�o � nada que se possa virar, apenas ser.</p><p>Mortimer acenou vagamente em dire��o ao carrinho de m�o.</p><p>��Eu espero que tudo acabe bem�� retrucou.�� Meu pai sempre diz que em geral � o que acontece.</p><p>Pegou a p�, virou-se e sorriu para o traseiro do cavalo ao ouvir Ysabell gemer e se retirar.</p><p>Mortimer cumpriu toda a s�rie de fra��es em que havia dividido o trabalho, conduzindo o carrinho de m�o at� o monte pr�ximo � macieira.</p><p>O jardim do Morte era grande, limpo e bem cuidado. Tamb�m era muito, muito preto. A grama era preta. As flores eram pretas. Ma��s negras brilhavam entre as negras folhas da macieira negra. At� o ar parecia escuro.</p><p>Depois de algum tempo, Mortimer pensou ver�� n�o, ele n�o poderia imaginar estar vendo�� diferentes matizes de preto.</p><p>Quer dizer, n�o apenas tons muito escuros de vermelho, verde ou o que fosse, mas verdadeiras nuan�as de preto. Todo um espectro de cores, todas diferentes e todas... pretas. Mortimer despejou a �ltima carga, deixou o carrinho de lado e voltou para casa.</p><p>��ENTRE.</p><p>Morte estava parado atr�s de uma estante, analisando um mapa. Olhou para Mortimer como se ele n�o estivesse de todo ali.</p><p>��POR ACASO, VOC� J� OUVIU FALAR DA BA�A DE MANTE?�� perguntou.</p><p>��N�o, senhor�� respondeu Mort.</p><p>��UM NAUFR�GIO FAMOSO.</p><p>��Foi?</p><p>��VAI SER�� informou Morte.�� SE EU ACHAR A DROGA DO LUGAR...</p><p>Mortimer contornou a estante e espiou o mapa.</p><p>��O senhor vai afundar o navio?�� indagou. Morte pareceu horrorizado.</p><p>��CLARO QUE N�O. VAI SER UMA COMBINA��O DE INABILIDADE N�UTICA, �GUAS RASAS E VENTOS CONTR�RIOS.</p><p>��Que horror!�� exclamou Mort.�� Muitas pessoas v�o se afogar?</p><p>��ISSO CABE AO DESTINO�� respondeu Morte, virando-se para a estante de tr�s e puxando um grande Atlas.�� N�O TEM NADA QUE EU POSSA FAZER. QUE CHEIRO � ESSE?</p><p>��Eu�� disse Mort, sem rodeios.�� Ah. O Est�bulo.</p><p>Morte se deteve, mantendo a m�o na lombada do livro.</p><p>��E POR QUE ACHA QUE O MANDEI AO EST�BULO? PENSE COM CUIDADO.</p><p>Mortimer hesitou. Ele j� havia pensado com cuidado, enquanto contava os carrinhos de esterco. Imaginara se teria sido para lhe coordenar as m�os e os olhos, ensinar-lhe o h�bito da obedi�ncia, incutir-lhe a import�ncia das pequenas tarefas ou faz�-lo entender que mesmo os grandes homens come�am por baixo. Nenhuma das explica��es parecia exata.</p><p>��Eu acho...�� come�ou ele.</p><p>��SIM?</p><p>��Bom, para dizer a verdade, acho que foi porque o senhor estava at� aqui de bosta de cavalo.</p><p>Morte o encarou durante um longo instante. Mortimer pareceu terrivelmente constrangido.</p><p>��CORRET�SSIMO�� observou Morte�� CLAREZA DE RACIOC�NIO. ABORDAGEM REALISTA. MUITO IMPORTANTE NUM TRABALHO COMO O NOSSO.</p><p>��Sim, senhor. Senhor?</p><p>�� H�?</p><p>Morte estava absorto no �ndice.</p><p>��As pessoas morrem o tempo todo, n�o �? Milh�es delas. O senhor deve ser muito ocupado. Mas...</p><p>Morte dirigiu a Mortimer o olhar com o qual o rapaz j� vinha se familiarizando. Come�ava como uma surpresa inusitada, oscilava um pouco para a irrita��o, passava pela considera��o e terminava afinal numa vaga indulg�ncia.</p><p>��MAS?</p><p>��Achei que o senhor passaria mais tempo fora de casa. Sabe? A ca�a, na rua. O almanaque da minha av� tem um retrato seu com uma foice e tal.</p><p>��SEI. ACHO UM POUCO DIF�CIL DE EXPLICAR A MENOS QUE VOC� ENTENDA DE ENCARNA��O PONTUAL E CONCENTRA��O DE N�S. IMAGINO QUE N�O ENTENDA.</p><p>��Acho que n�o.</p><p>��EM GERAL, S� ESPERAM QUE EU APARE�A EM OCASI�ES ESPECIAIS.</p><p>��Como o rei�� considerou Mort.�� Quer dizer, o rei reina mesmo quando est� fazendo outra coisa ou at� dormindo. � isso, senhor?</p><p>��SERVE�� disse Morte, enrolando os mapas.�� E AGORA, GAROTO, SE J� TERMINOU O EST�BULO, V� VER SE ALBERT TEM ALGUM SERVI�O PARA VOC�. SE QUISER, PODE SAIR HOJE � NOITE COMIGO.</p><p>Mortimer assentiu. Morte se voltou para o grande livro de couro, pegou uma caneta, olhou para ela durante alguns segundos e ent�o fitou Mortimer com a cabe�a de lado.</p><p>��CONHECEU MINHA FILHA?�� perguntou.</p><p>��Hum. Conheci, senhor�� respondeu Mort, com a m�o na ma�aneta.</p><p>��� UMA MENINA MUITO AGRAD�VEL�� comentou Morte��, MAS ACHO QUE GOSTA DE TER ALGU�M DA MESMA IDADE POR PERTO PARA CONVERSAR.</p><p>��Jura?</p><p>��E � CLARO QUE UM DIA ISSO TUDO VAI SER DELA.</p><p>Nas profundezas de suas �rbitas oculares, algo como uma pequena supernova azul reluziu. Ocorreu a Mortimer que, com algum constrangimento e total falta de experi�ncia, Morte estava tentando piscar.</p><p>Num lugar que n�o tinha nada a ver com o tempo ou o espa�o, que n�o aparecia em nenhum mapa, que s� existia naquela esfera do m�ltiplo cosmo conhecida por alguns poucos astrof�sicos que tomam �cido de p�ssima qualidade, Mortimer passou a tarde ajudando Albert a plantar br�colis. A semente era preta, com tra�os de roxo.</p><p>��Ele tenta�� defendeu Albert, agitando a cavadeira.�� S� que quando o assunto � cor, n�o tem muita imagina��o.</p><p>��N�o sei se estou entendendo�� admitiu Mort.�� Voc� disse que ele fez isso tudo?</p><p>Para al�m do muro do jardim, o terreno descia num vale profundo e ent�o se erguia numa charneca escura, estendendo-se at� as montanhas remotas, pontudas como dentes de gato.</p><p>��Isso mesmo�� confirmou Albert.�� Cuidado com o regador!</p><p>��O que tinha aqui antes?</p><p>��N�o sei�� disse Albert, come�ando uma nova fileira.�� O firmamento, imagino. � o nome rebuscado que d�o ao nada. Para dizer a verdade, n�o � um trabalho muito bem feito. Quer dizer, o jardim est� �timo, mas as montanhas s�o bem inferiores. Quando olhamos de perto, s�o mal definidas. Uma vez fui l� ver.</p><p>Mortimer comprimiu os olhos em dire��o �s �rvores mais pr�ximas. Pareciam indubitavelmente s�lidas.</p><p>��Por que ele fez isso tudo?�� perguntou. Albert soltou um grunhido.</p><p>��Sabe o que acontece aos meninos que perguntam demais?</p><p>Mortimer refletiu por alguns instantes.</p><p>��N�o�� respondeu, afinal.�� O qu�?</p><p>Houve sil�ncio.</p><p>Ent�o Albert se aprumou e disse:</p><p>��E eu sei? Provavelmente acham respostas.</p><p>��Ele disse que posso acompanh�-lo hoje � noite�� entusiasmou-se Mort.</p><p>��Pois voc� � um menino de sorte�� considerou Albert, distra�do, ao se dirigir de volta para o chal�.</p><p>��Ele realmente fez isso tudo?�� insistiu Mort, seguindo-o de perto.</p><p>��Fez.</p><p>��Para qu�?</p><p>��Imagino que quisesse um lugar onde pudesse se sentir em casa.</p><p>��Albert, voc� est� morto?</p><p>��Eu? Pare�o morto?</p><p>O velho bufou quando Mortimer come�ou a lhe dirigir um demorado olhar cr�tico.</p><p>��E pode parar com isso. Estou t�o vivo quanto voc�. Talvez mais.</p><p>��Desculpe.</p><p>��Tudo bem.</p><p>Albert abriu a porta dos fundos e se virou para olhar Mortimer com o m�ximo de bondade poss�vel.</p><p>��� melhor n�o fazer todas essas perguntas�� sugeriu.�� Chateia as pessoas. Agora, que tal uma bela torrada com manteiga?</p><p>O sino tocou quando eles estavam jogando domin�. Mortimer se p�s em alerta.</p><p>��Ele vai querer que o cavalo esteja pronto�� informou Albert.�� Vamos.</p><p>Os dois sa�ram para o est�bulo na escurid�o da noite, e Mortimer observou o velho selar o corcel de Morte.</p><p>��O nome dele � Pituco�� disse Albert, apertando a cilha.�� Precisa dizer mais alguma coisa? A gente nunca sabe.</p><p>De maneira afetuosa, Pituco tentou comer o len�o dele.</p><p>Mortimer se lembrou da xilogravura no almanaque da av�, entre a p�gina das �pocas de plantio e a se��o das fases da Lua, que mostrava Morthe, o Grandhe Executhor Que Vhem Para Thodos. Ele havia olhado aquela imagem uma centena de vezes, enquanto aprendia a ler. N�o teria lhe causado metade do impacto se fosse de conhecimento geral que o chamejante cavalo montado pelo espectro se chamava Pituco.</p><p>��Eu imaginaria algo como Torpedo, Espada ou �bano�� continuou Albert��, mas o patr�o tem suas manias. Animado?</p><p>��Acho que sim�� respondeu Mort, incerto.�� Nunca vi Morte em a��o.</p><p>��Poucos viram�� avaliou Albert.�� Pelo menos, mais de uma vez.</p><p>Mortimer respirou fundo.</p><p>��Em rela��o � filha dele...�� come�ou.</p><p>��Ah. Boa noite, Albert.</p><p>��Garoto.</p><p>��Mort�� disse Mort, automaticamente.</p><p>Morte entrou no est�bulo, abaixando-se um pouco para n�o bater no teto. Albert cumprimentou-o, n�o de maneira subserviente, como bem notou Mortimer, mas apenas por educa��o. Nas raras ocasi�es em que estivera na cidade, Mortimer havia conhecido um ou dois servos, e Albert n�o se parecia nada com eles. Na verdade, agia como se a casa fosse sua e o dono n�o passasse de uma visita�� algo que se deve tolerar, como pintura descascando ou aranhas no banheiro. Morte n�o se importava. Era como se h� muito tempo ele e Albert tivessem dito tudo o que precisava ser dito e agora se contentassem em realizar seus trabalhos sem serem incomodados. Para Mortimer, era como sair para passear depois de uma tempestade forte�� tudo se mostrava novo, nada parecia desagrad�vel, mas havia a sensa��o de que muitas energias haviam sido despendidas.</p><p>Descobrir mais sobre Albert se transformou num item para o fim da lista de coisas a fazer.</p><p>��SEGURE AQUI�� pediu Morte, e lhe entregou uma foice enquanto montava em Pituco.</p><p>A foice parecia bastante normal, a n�o ser pela l�mina: um p�lido brilho azul que partia chamas e cortava o som, fina a ponto de Mortimer conseguir enxergar o outro lado. Ele a segurou com cuidado.</p><p>��CERTO, GAROTO�� disse Morte.�� SUBA. ALBERT, N�O PRECISA NOS ESPERAR.</p><p>O cavalo trotou at� o jardim e subiu ao c�u.</p><p>Deveria ter acontecido um lampejo ou um movimento r�pido de estrelas. O ar deveria ter subido em espiral e se transformado em in�meras centelhas, como normalmente ocorre nos galopes transdimensionais comuns, do dia-a-dia. Mas aquele era o Morte, que domina a arte de ir a todos os lugares sem alarde e transp�e dimens�es com a mesma facilidade com que atravessa portas trancadas, ent�o os dois cavalgaram por entre c�nions de nuvem e enormes montanhas de algod�o at� tudo se desanuviar e o Disco surgir l� embaixo, aquecendo-se � luz do sol.</p><p>��O TEMPO � AJUST�VEL�� explicou Morte, quando Mortimer salientou o fato de ali ainda ser dia.�� N�O � MUITO IMPORTANTE.</p><p>��Sempre achei que fosse.</p><p>��AS PESSOAS S� PENSAM QUE � IMPORTANTE PORQUE FORAM ELAS QUE O INVENTARAM�� alegou Morte, com ar grave.</p><p>Mortimer achou o argumento um tanto batido, mas resolveu n�o discutir.</p><p>��O que vamos fazer agora?�� perguntou.</p><p>��TEM UMA GUERRA BASTANTE PROMISSORA NO KLATCHIST�O�� respondeu Morte.�� V�RIAS EPIDEMIAS. SE VOC� PREFERIR, UM HOMIC�DIO IMPORTANTE.</p><p>��O qu�? Assassinato?</p><p>���, DE REI.</p><p>��Ah, reis�� disse Mort, com desd�m.</p><p>Ele sabia o que eram reis. Uma vez por ano, um grupo de atores ambulantes chegava a Serra Ovelha, e as pe�as que representavam eram invariavelmente sobre reis. Os reis estavam sempre matando uns aos outros ou sendo mortos. Os enredos sempre se mostravam muito complicados, envolvendo identidades trocadas, envenenamentos, lutas, filhos perdidos, fantasmas, bruxas e, em geral, muitos punhais. Como ficava claro que ser rei n�o era moleza nenhuma, era surpreendente que metade do elenco tentasse se tornar um. A id�ia que Mortimer fazia da vida palaciana era um pouco difusa, mas ele imaginava que ningu�m dormia o suficiente.</p><p>��Eu gostaria de ver um rei de verdade�� decidiu.�� Minha av� disse que eles usam coroa o tempo todo, at� quando v�o ao banheiro.</p><p>Morte considerou aquilo com aten��o.</p><p>��N�O EXISTE NENHUMA RAZ�O T�CNICA PARA QUE N�O USEM�� reconheceu.�� MAS, NA MINHA EXPERI�NCIA, EM GERAL N�O � O CASO.</p><p>O cavalo se virou, e o vasto tabuleiro da Plan�cie Sto passou zunindo debaixo deles. Era um terreno f�rtil, cheio de sedimentos, planta��es irregulares de repolho e pequenos reinos cujas fronteiras serpenteavam como cobras, uma vez que guerrilhas, pactos de casamento, complexas alian�as e ocasionais erros de cartografia foram mudando a configura��o pol�tica da terra.</p><p>��Esse rei�� perguntou Mort, quando uma floresta passou em disparada por eles�� � bom ou mau?</p><p>��NUNCA ME PREOCUPO COM ESSAS COISAS�� respondeu Morte.�� N�O � PIOR DO QUE NENHUM OUTRO.</p><p>��Mas j� levou algu�m � morte?�� insistiu Mort e, lembrando-se de com quem estava falando, acrescentou:�� Poupando sua viagem...</p><p>���S VEZES � PRECISO FAZER CERTAS COISAS, QUANDO SE � REI.</p><p>L� embaixo, surgiu uma cidade incrustada em torno de um castelo constru�do numa rocha que se erguia da plan�cie como uma enorme espinha geol�gica. Morte disse que se tratava de uma pedra das distantes Ramtops, ali deixada pelo recuo do gelo nos lend�rios dias em que os Gigantes do Gelo travaram guerra com os deuses e usaram suas geleiras para se locomoverem na terra, numa tentativa de congelar todo o mundo. No fim, eles haviam desistido e conduzido suas grandes pedras cintilantes de volta �s remotas terras das montanhas escarpadas pr�ximas ao Centro. Ningu�m na plan�cie sabia por que haviam feito isso; as gera��es mais novas de Sto Lat�� a cidade em torno do rochedo�� achavam que o motivo era a chatice do lugar.</p><p>Pituco galopou sobre o nada e pousou na torre mais alta do castelo. Morte desceu do animal e pediu a Mortimer que achasse a cevadeira.</p><p>��As pessoas n�o v�o notar que tem um cavalo aqui em cima?�� perguntou, ao se dirigirem para uma escada.</p><p>Morte sacudiu a cabe�a.</p><p>��VOC� ACREDITARIA QUE PUDESSE TER UM CAVALO NO ALTO DESSA TORRE?</p><p>��N�o. Ele n�o poderia subir a escada�� respondeu Mort.</p><p>��OU SEJA...</p><p>��Ah, entendi. As pessoas n�o querem ver o que n�o deve existir.</p><p>��MUITO BEM.</p><p>Agora os dois avan�avam por um largo corredor cheio de tape�arias. Morte enfiou a m�o no manto e tirou uma ampulheta, observando-a com aten��o � meia-luz.</p><p>Era um objeto ostentoso, com o vidro cortado em facetas intrincadas e confinado numa estrutura floreada de madeira e bronze. As palavras �Rei Olerve, o Bastardo� estavam gravadas na superf�cie.</p><p>No interior, a areia brilhava de maneira estranha. N�o restava muito.</p><p>Morte cantarolou para si mesmo e guardou o vidro num misterioso recanto da veste.</p><p>Eles dobraram o corredor e deram num grande vozerio. Havia uma sala cheia de gente, sob uma nuvem de fuma�a e som que se erguia at� a sombra das bandeirolas de guerra no telhado. Na galeria, tr�s menestr�is faziam o que podiam para serem ouvidos, sem o menor �xito.</p><p>O surgimento de Morte n�o provocou muito alvoro�o. Um soldado � porta se virou para ele, abriu a boca, ent�o sorriu de maneira distra�da e pensou em outra coisa. Alguns cortes�os olharam na dire��o deles, mas os olhos instantaneamente se desviavam.</p><p>��TEMOS ALGUNS MINUTOS�� informou Morte, pegando uma bebida da bandeja.�� VAMOS NOS ENTURMAR.</p><p>��Tamb�m n�o podem me ver!�� surpreendeu-se Mort.�� Mas eu sou de verdade!</p><p>��A REALIDADE NEM SEMPRE � O QUE PARECE�� advertiu Morte.�� DE QUALQUER MODO, SE N�O QUEREM ME VER, CERTAMENTE N�O QUEREM VER VOC�. S�O ARISTOCRATAS, GAROTO. S�O �TIMOS EM N�O VER AS COISAS. POR QUE ESSA BEBIDA TEM CEREJA NO PALITO?</p><p>��Mort�� disse Mort, automaticamente.</p><p>��N�O CONTRIBUI EM NADA PARA O PALADAR. POR QUE ALGU�M PEGA UMA BEBIDA PERFEITA E P�E UMA CEREJA DENTRO?</p><p>��O que vai acontecer agora?�� perguntou Mort.</p><p>Um conde topou em seu cotovelo, olhou para todos os lados menos para ele, deu de ombros e desapareceu.</p><p>��POR EXEMPLO, OLHE ISSO AQUI�� continuou Morte, pegando um canap�.</p><p>��QUER DIZER, COGUMELO, GALINHA, QUEIJO, N�O TENHO NADA CONTRA NENHUM DELES, MAS, EM NOME DA SANIDADE, POR QUE MISTURAR TUDO E BOTAR EM PEQUENAS FATIAS DE P�O?</p><p>��O qu�?�� perguntou Mort.</p><p>��MORTAIS...�� disse Morte.�� PASSAM OS POUCOS ANOS QUE T�M NESSE MUNDO COMPLICANDO AS COISAS PARA SI MESMOS. FASCINANTE. PROVE OS PICLES.</p><p>��Onde est� o rei?�� indagou Mort, esticando o pesco�o para olhar por sobre as cabe�as dos convivas.</p><p>��O SUJEITO DE BARBA DOURADA�� apontou Morte. Bateu no ombro de um criado e, quando o homem se virou, desnorteado, surrupiou outro drinque da bandeja.</p><p>Mortimer correu os olhos pela sala at� avistar o indiv�duo parado num pequeno grupo, em meio � multid�o, inclinando-se levemente para ouvir o que um cortes�o baixinho lhe dizia. O rei era um homem alto, de constitui��o forte, com o tipo de rosto lerdo e ap�tico que inspiraria total confian�a na hora de comprarmos um cavalo usado.</p><p>��Ele n�o parece mal�� observou Mort.�� Por que querem mat�-lo?</p><p>��EST� VENDO O HOMEM AO LADO DELE? COM BIGODINHO E SORRISO DE LAGARTO?</p><p>Morte apontou com a foice.</p><p>��Estou.</p><p>��PRIMO. DUQUE DE STO HELIT. BOA GENTE � QUE N�O ɠ� considerou Morte.�� HABIL�SSIMO COM A GARRAFA DE VENENO. ANO PASSADO, QUINTO NA FILA AO TRONO. AGORA, SEGUNDO. UM TANTO ARRIVISTA, PODER�AMOS DIZER.</p><p>Ele vasculhou o manto e retirou uma ampulheta na qual a areia negra corria entre uma treli�a de ferro. Deu uma sacudidela experimental:</p><p>��E VAI VIVER MAIS UNS 30, 35 ANOS�� disse, com um suspiro.</p><p>��E sai por a� matando as pessoas?�� indignou-se Mort. Ele sacudiu a cabe�a.�� Nesse mundo n�o tem justi�a.</p><p>Morte suspirou outra vez.</p><p>��N�O�� concluiu afinal, entregando o drinque para um pajem que ficou surpreso ao se ver de repente segurando um copo vazio.�� S� TEM EU.</p><p>Sacou a espada, que tinha a mesma l�mina fina e azul da foice, e deu um passo � frente.</p><p>��Pensei que o senhor usasse a foice�� sussurrou Mort.</p><p>��REI GANHA A ESPADA�� informou Morte.�� � UM PRIVIL�GIO REAL.</p><p>A m�o de dedos ossudos se enfiou novamente nas profundezas do manto e surgiu com a ampulheta de Olerve. Na metade superior, os �ltimos poucos gr�os de areia se juntavam.</p><p>��PRESTE MUITA ATEN��O�� disse Morte.�� PODE SER QUE DEPOIS EU FA�A PERGUNTAS.</p><p>��Espere�� pediu Mort, aflito.�� N�o � justo. O senhor n�o pode impedir isso?</p><p>��JUSTO?�� rebateu Morte.�� QUEM FALOU EM JUSTI�A?</p><p>��Bem, se o outro homem � t�o...</p><p>��ESCUTE AQUI�� disse Morte��, ISSO N�O TEM NADA A VER COM JUSTI�A. N�O D� PARA TOMAR PARTIDO. MINHA NOSSA! QUANDO CHEGA A HORA, ACABOU. N�O TEM JEITO, GAROTO.</p><p>��Mort�� resmungou Mort, encarando as pessoas.</p><p>E ent�o a viu. Um movimento casual na multid�o abriu um canal entre Mortimer e a garota magra e esguia sentada entre um grupo de mulheres mais velhas, atr�s do rei. Ela n�o era propriamente bonita, sendo superdotada no departamento de sardas e magricela demais. Mas v�-la provocou um abalo que aqueceu o c�rebro de Mortimer e lhe acertou a boca do est�mago.</p><p>��CHEGOU A HORA�� anunciou Morte, cutucando Mortimer com o cotovelo pontudo.�� SlGA-ME.</p><p>Ele avan�ou em dire��o ao rei, levando a espada na m�o. Mortimer come�ou a segui-lo. Por um segundo, os olhos da garota encontraram os dele e instantaneamente se afastaram... ent�o voltaram, arrastando-lhe a cabe�a e fazendo a boca se abrir num �O� de horror.</p><p>O cora��o de Mortimer se afrouxou. Ele saiu em disparada na dire��o do rei.</p><p>��Cuidado!�� gritou.�� O senhor est� correndo perigo!</p><p>E o mundo se transformou num grande mela�o. Come�ou a se encher de sombras roxas e azuis, como num sonho causado por insola��o, e o som foi perdendo intensidade at� a balb�rdia da sala ficar distante e chiada como m�sica nos fones de ouvido de outra pessoa. Mortimer viu Morte ao lado do rei, com os olhos voltados para... ... a galeria dos menestr�is.</p><p>Viu o arqueiro, viu o arco, viu a flecha disparando na velocidade de uma lesma doente. Por mais lenta que estivesse, ele n�o conseguia ultrapass�-la. Pareceu levar horas para controlar as pernas de chumbo, mas finalmente conseguiu trazer ambos os p�s ao ch�o ao mesmo tempo e saltou com a rapidez de um deslocamento continental.</p><p>Enquanto ele se lan�ava pelo ar, sem rancor, Morte disse:</p><p>��N�O VAI ADIANTAR. � NATURAL QUE VOC� QUEIRA TENTAR, MAS N�O VAI ADIANTAR.</p><p>Como em sonho, Mortimer foi levado para um mundo silencioso...</p><p>A flecha acertou o alvo. Com as duas m�os, Morte ergueu a espada num golpe suave que atravessou o pesco�o do rei sem deixar nenhuma marca. Para Mortimer, movendo-se naquele mundo crepuscular, era como se uma imagem espectral tivesse ca�do no ch�o.</p><p>N�o podia ser o rei, porque ele estava ali de p�, encarando Morte com uma fisionomia de extrema surpresa. Havia um neg�cio aos p�s dele, e a dist�ncia as pessoas reagiam com gritos e choros.</p><p>��UM SERVI�O BEM FEITO�� comentou Morte.�� A REALEZA � SEMPRE UM PROBLEMA. COSTUMA RESISTIR. OS CAMPONESES, POR OUTRO LADO, N�O V�EM A HORA.</p><p>��Quem � voc�?�� perguntou o rei.�� O que est� fazendo aqui? Hein? Guardas! Eu exij...</p><p>A insistente mensagem dos olhos finalmente chegou ao c�rebro. Mortimer ficou impressionado: Olerve havia reinado durante muitos anos e, mesmo quando morto, sabia se comportar como rei.</p><p>��Ah�� soltou ele.�� Entendi. N�o esperava v�-lo t�o cedo.</p><p>��SUA MAJESTADE�� disse Morte, inclinando-se.�� POUCOS ESPERAM.</p><p>O rei olhou � volta. Estava escuro e silencioso naquele mundo de sombras, mas do lado de fora parecia haver uma enorme confus�o.</p><p>��Sou eu ali no ch�o, n�o sou?</p><p>��TEMO QUE SIM, SENHOR.</p><p>��Belo trabalho. Arco?</p><p>��EXATAMENTE. E AGORA, SE O SENHOR N�O SE...</p><p>��Quem foi?�� perguntou o rei. Morte hesitou.</p><p>��UM ASSASSINO DE ALUGUEL DE ANKH-MORPORK� revelou, afinal.</p><p>��Hum. Brilhante. Parabenizo Sto Helit. E eu me enchendo de ant�dotos... N�o existe ant�doto para a l�mina de metal, n�o �? N�o �?</p><p>��DE FATO, SENHOR.</p><p>��O velho truque da escada de corda e cavalo veloz perto da ponte levadi�a, certo?</p><p>��PARECE QUE SIM, SENHOR�� respondeu Morte, delicadamente tomando o vulto do rei pelo bra�o.�� MAS, SE ISSO LHE SERVE DE CONSOLO, O CAVALO PRECISA SER VELOZ.</p><p>��Hein?</p><p>Morte deixou o sorriso fixo se alargar um pouco mais.</p><p>��AMANH� TENHO UM ENCONTRO COM ESTE ESPEC�FICO CAVALEIRO EM ANKH�� explicou Morte.�� ELE ACEITOU A MARMITA QUE O DUQUE LHE OFERECEU.</p><p>O rei, cuja aptid�o para o cargo implicava n�o ser r�pido de entendimento, considerou aquilo por um instante e soltou uma risada curta. Ent�o pela primeira vez notou Mortimer.</p><p>��Quem � esse?�� perguntou.�� Tamb�m est� morto?</p><p>��MEU APRENDIZ�� respondeu Morte.�� QUE MUITO EM BREVE VAI LEVAR UMA CHAMADA, O TRATANTE.</p><p>��Mort�� disse Mort, automaticamente.</p><p>O som da conversa flutuava � volta, mas ele n�o conseguia despregar os olhos da cena ao redor. Sentia-se real. Morte parecia concreto. O rei se mostrava surpreendentemente bem para algu�m que estava morto. Mas o resto do mundo era uma massa de sombras ambulantes, movendo-se atrav�s dele como se n�o fossem mais s�lidas do que o vento.</p><p>A garota estava se ajoelhando, aos prantos.</p><p>��� minha filha�� disse o rei.�� Eu deveria estar triste. Por que n�o estou?</p><p>��AS EMO��ES FICAM PARA TR�S. � TUDO UMA QUEST�O DE GL�NDULAS.</p><p>��Ah. Ent�o � isso. Ela n�o pode nos ver, pode?</p><p>��N�O.</p><p>��Imagino que n�o haja possibilidade de eu... ?</p><p>��N�O�� cortou Morte.</p><p>��S� que ela vai ser rainha e se eu pudesse ao menos avisar...</p><p>��SINTO MUITO.</p><p>A menina ergueu a cabe�a e olhou atrav�s de Mortimer. Ele viu o duque se aproximar por tr�s dela e pousar-lhe a m�o no ombro. Um leve sorriso pairava nos l�bios do homem. Era o tipo de sorriso que se esconde nos bancos de areia, � espera de nadadores imprudentes.</p><p>��N�o posso fazer voc� me ouvir�� disse Mort.�� N�o confie nele!</p><p>Ela encarou Mortimer, esfregando os olhos. Ele estendeu o bra�o e viu a pr�pria m�o passar direto pela dela.</p><p>��VAMOS, GAROTO. CHEGA DE MALANDRAGEM.</p><p>Mortimer sentiu os dedos de Morte lhe apertarem o ombro, sem hostilidade. Relutante, virou-se e acompanhou o rei e seu mestre.</p><p>Os tr�s sa�ram pela parede. Mortimer estava na metade do caminho quando se deu conta de que atravessar paredes era imposs�vel.</p><p>A l�gica suicida quase o matou. Ele come�ou a sentir a frieza da pedra, e ent�o ouviu uma voz ao p� do ouvido:</p><p>��PENSE ASSIM: A PAREDE N�O PODE ESTAR A�. SE ESTIVESSE, VOC� N�O ESTARIA PASSANDO POR ELA, ESTARIA, GAROTO?</p><p>��Mort�� irritou-se Mort.</p><p>��QU�?</p><p>��Meu nome � Mort. Ou Mortimer�� disse Mort, com raiva, e seguiu adiante.</p><p>O frio ficou para tr�s.</p><p>��PRONTO. N�O FOI T�O DIF�CIL, FOI?</p><p>Mortimer correu os olhos pelo corredor e experimentou bater na parede. Devia mesmo ter andado por ela, mas agora a estrutura parecia suficientemente s�lida. Pontinhos de mica brilhavam em seu corpo.</p><p>��Como o senhor faz isso?�� perguntou ele.�� Como � que eu fiz isso? Magia?</p><p>��MAGIA � QUE N�O �, GAROTO. QUANDO VOC� CONSEGUIR FAZER ISSO SOZINHO, EU N�O VOU TER MAIS NADA PARA LHE ENSINAR.</p><p>O rei, que agora estava bem mais emba�ado, disse:</p><p>��� impressionante, tenho de admitir. Ali�s, parece que estou sumindo.</p><p>��� O ENFRAQUECIMENTO DO CAMPO MORFOG�NICO�� explicou Morte.</p><p>A voz do rei n�o passava de um sussurro.</p><p>��Ent�o � isso?</p><p>��ACONTECE COM TODO MUNDO. TENTE APROVEITAR.</p><p>��Como?</p><p>A voz n�o passava de um contorno no ar.</p><p>��APENAS SEJA VOC� MESMO.</p><p>Neste momento, o rei sucumbiu, ficando cada vez menor � medida que o campo se tornava um min�sculo pontinho brilhante. Aconteceu t�o r�pido que Mortimer quase n�o viu. De fantasma a gr�o de areia em meio segundo, apenas com um leve suspiro.</p><p>Morte pegou o neg�cio brilhante com cuidado e enfiou-o em algum lugar do manto.</p><p>��O que aconteceu com ele?�� indagou Mort.</p><p>��S� ELE SABE�� respondeu Morte.�� VENHA.</p><p>��Minha av� diz que morrer � como dormir�� acrescentou Mort, com uma ponta de esperan�a.</p><p>��EU N�O SABERIA DIZER. NUNCA FIZ NENHUMA DAS DUAS COISAS.</p><p>Mortimer deu uma �ltima longa olhada no corredor. As portas haviam se aberto, e as pessoas estavam saindo em debandada. Duas mulheres mais velhas tentavam consolar a princesa, mas a menina seguia na frente, de maneira que as senhoras pareciam quicar atr�s dela como duas bolas. As tr�s entraram em outro corredor.</p><p>��J� RAINHA�� admirou-se Morte.</p><p>�Ele gostava de estilo. Os dois j� estavam no telhado quando voltou a falar.</p><p>��VOC� TENTOU AVIS�-LO�� disse, tirando a cevadeira de Pituco.</p><p>��Sim, senhor. Sinto muito.</p><p>��N�O PODE INTERFERIR NO DESTINO. QUEM � VOC� PARA JULGAR QUEM DEVE VIVER OU MORRER?</p><p>Morte observou a fisionomia de Mortimer com aten��o.</p><p>��S� OS DEUSES PODEM FAZER ISSO�� acrescentou.�� INTERVIR NO DESTINO DE UMA �NICA PESSOA PODE DESTRUIR O MUNDO INTEIRO. EST� ME ENTENDENDO?</p><p>Desconsolado, Mortimer assentiu.</p><p>��O senhor vai me mandar de volta para casa?�� perguntou. Morte se inclinou e ajudou-o a subir na traseira da sela.</p><p>��POR TER MOSTRADO COMPAIX�O? N�O. TALVEZ SE TIVESSE DEMONSTRADO PRAZER. MAS VOC� PRECISA APRENDER A COMPAIX�O PR�PRIA AO TRABALHO.</p><p>��E qual �?</p><p>��UMA PONTA AFIADA.</p><p>Os dias se passaram, embora Mortimer n�o soubesse ao certo quantos. O Sol escuro do mundo de Morte cruzava o c�u com regularidade, mas as visitas ao espa�o mortal n�o pareciam se prender a nenhum programa especial. Morte tampouco visitava apenas reis e guerras importantes�� a maioria das visitas se destinava a indiv�duos bastante comuns.</p><p>As refei��es eram servidas por Albert, que sorria � be�a para si mesmo e n�o falava muito. Ysabell ficava no quarto a maior parte do tempo, ou montava seu p�nei nas charnecas negras para al�m do chal�. V�-la com o cabelo ondeando ao sabor do vento seria mais not�vel se ela andasse melhor a cavalo, se o p�nei fosse maior ou se o cabelo fosse do tipo que ondeia naturalmente. Alguns cabelos s�o assim, outros n�o s�o. O dela n�o era.</p><p>Quando n�o estava longe de casa fazendo aquilo a que Morte se referia como O SERVI�O, Mortimer ajudava Albert, realizava trabalhos no jardim e no est�bulo, ou ficava na imensa biblioteca de Morte, lendo com a rapidez e a voracidade de quem acaba de descobrir a magia da palavra escrita.</p><p>Obviamente a maioria dos livros da biblioteca se compunha de biografias.</p><p>Os volumes se mostravam diferentes em um aspecto. Eles pr�prios se escreviam. As pessoas que j� haviam morrido apresentavam os livros cheios de capa a capa, e as que ainda n�o haviam nascido precisavam se conformar com as p�ginas em branco. As do meio... Mortimer tomava notas, marcando o lugar e contando as p�ginas extras, e calculava que alguns livros chegavam a gerar de quatro a cinco par�grafos por dia. Ele n�o reconhecia a caligrafia.</p><p>Ent�o finalmente juntou coragem.</p><p>��UMA O QU�?�� indignou-se Morte, sentado atr�s da mesa floreada, girando na m�o a esp�tula em forma de foice.</p><p>��Uma tarde de folga�� repetiu Mort.</p><p>O c�modo de repente pareceu opressivamente grande, com ele muito exposto no meio de um tapete que parecia um descampado.</p><p>��MAS POR QU�?�� quis saber Morte.�� N�O PODE SER PARA IR AO ENTERRO DA SUA AVӠ� acrescentou.�� EU SABERIA.</p><p>��Eu s� quero, sabe, sair e conhecer gente�� disse Mort, tentando n�o desviar os olhos do inflex�vel olhar azul.</p><p>��MAS VOC� CONHECE GENTE TODOS OS DIAS�� protestou Morte.</p><p>��E, eu sei, s� que, bem, n�o por muito tempo�� retrucou Mort.�� Quer dizer, seria bom conhecer algu�m com expectativa de vida maior do que alguns minutos. Senhor�� completou.</p><p>Morte tamborilou os dedos na mesa, produzindo um som parecido com o de um rato sapateando, e dirigiu a Mortimer mais alguns segundos de olhar fixo. Notou que o rapaz parecia ter muito menos cotovelos do que antes, j� andava um pouco mais ereto e sabia usar palavras como �expectativa�. A culpa era da biblioteca.</p><p>��TUDO BEM�� disse, com relut�ncia.�� MAS AINDA ACHO QUE VOC� TEM TUDO DE QUE PRECISA AQUI. O SERVI�O N�O � PESADO, �?</p><p>��N�o, senhor.</p><p>��E VOC� TEM COMIDA, CAMA, DIVERS�O E GENTE DA SUA IDADE.</p><p>��Perd�o, senhor?</p><p>��MINHA FILHA�� esclareceu Morte.�� VOC� J� A CONHECEU, EU ACHO.</p><p>��Ah. Sim, senhor.</p><p>��ELA � MUITO AFETUOSA, DEPOIS QUE PASSAMOS A CONHEC�-LA.</p><p>��Tenho certeza de que sim, senhor.</p><p>��NO ENTANTO, VOC� QUER...�� Morte cuspiu as palavras num esgar de nojo�� ... UMA TARDE DE FOLGA?</p><p>��Gostaria, sim senhor. Com sua licen�a, senhor.</p><p>��POIS BEM. QUE SEJA. VOC� TEM AT� O P�R-DO-SOL.</p><p>Morte abriu o grande livro, pegou uma caneta e come�ou a escrever. De vez em quando, estendia o bra�o e fazia correr as contas de um �baco.</p><p>Depois de um minuto, ergueu a cabe�a.</p><p>��AINDA EST� A�?�� perguntou.�� E NO SEU TEMPO LIVRE�� Acrescentou, de mau humor.</p><p>��Hum�� soltou Mort.�� As pessoas v�o me enxergar, senhor?</p><p>��TENHO CERTEZA DE QUE SIM�� respondeu Morte.�� EXISTE MAIS ALGUMA COISA EM QUE EU POSSA AJUD�-LO ANTES DE IR PARA ESSA SEM-VERGONHICE?</p><p>��Bem, senhor, tem uma coisa, sim. N�o sei entrar no mundo dos mortais�� disse Mort, em desespero.</p><p>Morte suspirou audivelmente e abriu uma gaveta da mesa.</p><p>��SAIA POR L�.</p><p>Com tristeza, Mortimer assentiu e percorreu o longo caminho at� a sa�da do gabinete. Quando j� estava abrindo a porta, Morte tossiu.</p><p>��GAROTO!�� chamou ele, e jogou alguma coisa em sua dire��o.</p><p>Mortimer pegou-a no susto, enquanto a porta se abria.</p><p>N�o havia mais porta. O tapete profundo se transformou num ch�o de pedras barrentas. A luz do dia caiu sobre ele como merc�rio.</p><p>��Mort�� disse Mort, para quem pudesse ouvir.</p><p>��O qu�?�� perguntou um barraqueiro ao lado.</p><p>Mortimer correu os olhos � volta. Estava num mercado abarrotado de pessoas e animais. Todo tipo de mercadoria era vendido ali, desde agulhas at頗 por interm�dio de alguns profetas itinerantes�� vis�es da salva��o. Era imposs�vel conversar sem que fosse gritando.</p><p>Mortimer cutucou as costas do barraqueiro.</p><p>��O senhor est� me vendo?�� perguntou. O barraqueiro o fitou.</p><p>��Acho que sim�� respondeu afinal.�� Ou algu�m bem parecido com voc�.</p><p>��Obrigado�� disse Mort, imensamente aliviado.</p><p>��N�o tem de qu�. Vejo uma por��o de gente todos os dias, de gra�a. Quer comprar cadar�o?</p><p>��Acho que n�o�� lamentou Mort.�� Que lugar � esse?</p><p>��Voc� n�o sabe?</p><p>Duas pessoas pr�ximas � barraca estavam pensativamente olhando para Mortimer. A mente dele disparou.</p><p>��Meu mestre viaja muito�� explicou, sem fugir � verdade.�� Chegamos ontem � noite, e eu estava dormindo na carro�a. Agora tenho a tarde livre.</p><p>��Ah!�� exclamou o barraqueiro, inclinando-se para frente de maneira conspirat�ria.�� � procura de divers�o? Posso arrumar para voc�.</p><p>��Eu realmente gostaria de saber onde estou�� insistiu Mort. O homem se mostrou surpreso.</p><p>��Aqui � Ankh-Morpork�� disse.�� N�o d� para ver? Ou sentir pelo cheiro?</p><p>Mortimer fungou. Havia alguma coisa diferente naquele ar. Era como se tivesse vida. A cada respira��o, era imposs�vel n�o notar que milhares de pessoas estavam perto e que quase todas tinham sovaco.</p><p>O barraqueiro encarou Mortimer, notando-lhe o rosto p�lido, as roupas de bom corte e o aspecto estranho.</p><p>��Olhe, vou ser franco com vocꠗ come�ou ele.�� Posso lhe indicar um �timo bordel.</p><p>��J� almocei�� rebateu Mort, distra�do.�� Mas o senhor poderia me informar se estamos perto de... acho que se chama Sto Lat?</p><p>��Uns trinta quil�metros em dire��o ao Centro, mas l� n�o tem nada para um jovem do seu tipo�� analisou o vendedor.�� Voc� est� sozinho, quer novas experi�ncias, emo��es, romance...</p><p>No meio tempo, Mortimer abrira o saco que Morte havia lhe dado. Estava cheio de moedinhas de ouro, mais ou menos do tamanho de uma lantejoula.</p><p>Outra vez lhe veio � mente a imagem da menina clara e ruiva que, de alguma forma, soubera que ele existia. De repente, as sensa��es difusas que o vinham perseguindo nos �ltimos dias se acentuaram.</p><p>��Eu quero�� anunciou ele, com firmeza�� um cavalo bem veloz.</p><p>Cinco minutos depois, Mortimer estava perdido.</p><p>Esta parte de Ankh-Morpork era conhecida como As Sombras, uma �rea da cidade � espera de aux�lio governamental ou, preferencialmente, de um lan�a-chamas. N�o poder�amos cham�-la de miser�vel, porque seria levar a palavra ao seu extremo. Ela ia al�m da mis�ria e sa�a pelo outro lado, onde, por uma esp�cie de invers�o einsteiniana, alcan�ava um horror magn�fico�� ostentado como um emblema arquitet�nico. Era barulhenta, abafada e cheirava a ch�o de est�bulo.</p><p>Era mais um habitat do que um bairro, como um grande recife de coral terrestre. Havia seres humanos, sem d�vida, mas eram os equivalentes human�ides de lagostas, lulas, camar�es e assim por diante. E tubar�es.</p><p>Mortimer vagou em desespero pelas ruas tortuosas. Qualquer um que se encontrasse � altura dos telhados teria percebido certa configura��o no aglomerado de pessoas atr�s dele, sugerindo que in�meros homens distra�dos convergiam para um mesmo alvo, e teria acertadamente conclu�do que Mortimer e seu saco de ouro tinham a mesma expectativa de vida de um porco-espinho de tr�s patas numa auto-estrada de seis pistas.</p><p>Percebe-se que As Sombras n�o era o tipo de lugar que tem moradores. Tem freq�entadores. De vez em quando, Mortimer tentava puxar conversa para achar um bom vendedor de cavalos. A pessoa quase sempre murmurava alguma coisa e sa�a correndo, pois qualquer freq�entador que quisesse viver por mais de tr�s horas em As Sombras criava sentidos bem apurados e, da mesma forma que um campon�s n�o ficaria ao lado de uma �rvore alta durante a tempestade, n�o se demoraria perto de Mortimer.</p><p>Ent�o ele chegou afinal ao Ankh, o maior dos rios. Mesmo antes de entrar na cidade, a corrente j� se mostrava lenta e pesada com os sedimentos das plan�cies e, quando alcan�ava As Sombras, at� um ateu poderia atravess�-la andando. Era dif�cil afundar no Ankh, mas f�cil sufocar.</p><p>Desconfiado, Mortimer olhou a superf�cie. Ela parecia se mover. Havia borbulhas. Aquilo tinha de ser �gua.</p><p>Ele suspirou e deu meia-volta.</p><p>Tr�s homens haviam surgido atr�s dele, como se sa�dos das pedras. Tinham a apar�ncia carregada e inabal�vel desses bandidos cujo aparecimento em qualquer narrativa indica que � hora de o her�i ser um pouco amea�ado, mas n�o demais, porque tamb�m � �bvio que eles v�o ter uma bela surpresa.</p><p>Estavam olhando Mortimer com mal�cia. Eram bons no neg�cio.</p><p>Um deles havia sacado uma faca, agitando-a em pequenos c�rculos no ar. Avan�ou lentamente em dire��o a Mortimer, enquanto os outros dois se mantinham atr�s para dar apoio imoral.</p><p>��Passe o dinheiro�� gritou ele.</p><p>Mortimer levou a m�o ao saco de moedas, no cinto.</p><p>��Espere um pouco�� disse.�� O que acontece depois?</p><p>��O qu�?</p><p>��� o dinheiro ou a vida?�� perguntou Mort.�� � isso que os assaltantes devem dizer. O dinheiro ou a vida. Eu li num livro�� Acrescentou.</p><p>��Talvez, talvez�� reconheceu o ladr�o. Sentiu que estava perdendo terreno, mas voltou a atacar cheio de pompa.�� Por outro lado, pode ser o dinheiro mais a vida.</p><p>O homem olhou de esguelha para os colegas, que aproveitaram a deixa para rir.</p><p>��Nesse caso...�� come�ou Mort, suspendendo o saco para jog�-lo o mais longe poss�vel no Ankh, embora houvesse uma chance razo�vel de o neg�cio quicar.</p><p>��Ei, o que est� fazendo?�� irritou-se o ladr�o.</p><p>Ele come�ou a correr, mas se deteve quando Mortimer moveu o saco de maneira amea�adora.</p><p>��Bem�� disse Mort.�� Eu penso o seguinte: se voc�s v�o me matar mesmo, � melhor eu me livrar do dinheiro. Est� nas suas m�os.</p><p>Para ilustrar o argumento, ele tirou uma moeda do saco e jogou-a na �gua, que a recebeu com um lament�vel barulho de sorvo. Os bandidos estremeceram.</p><p>O l�der olhou o saco. Olhou a faca. Olhou o rosto de Mortimer. Olhou os colegas.</p><p>��Com licen�a�� pediu, e os tr�s se reuniram.</p><p>Mortimer calculou a dist�ncia at� o fim do beco. N�o conseguiria venc�-la. De qualquer maneira, parecia que seguir gente era outra coisa em que os tr�s ali seriam bons. Com certeza aquilo os deixara um pouco tensos.</p><p>O l�der se voltou para Mortimer. Dirigiu um �ltimo olhar para os colegas. Ambos fizeram que sim com a cabe�a.</p><p>��Acho que vamos mat�-lo e arriscar perder o dinheiro�� anunciou.�� N�o queremos que esse tipo de coisa se espalhe.</p><p>Os outros dois sacaram as facas. Mortimer engoliu em seco.</p><p>��Isso � absurdo!�� exclamou Mort.</p><p>��Por qu�?</p><p>��Bem, para come�o de conversa, eu n�o vou gostar.</p><p>��Voc� n�o tem de gostar, voc� tem de... morrer�� retrucou o l�der, avan�ando.</p><p>��N�o acho que seja minha hora�� objetou Mort, recuando.�� Tenho certeza de que teriam me dito.</p><p>��ɠ� resmungou o l�der, que j� estava se enchendo com aquilo.�� �, bom, teriam dito, n�o �? Macacos me mordam!</p><p>Mortimer havia acabado de dar mais um passo atr�s. Cruzando a parede.</p><p>O l�der examinou a pedra dura que havia engolido Mortimer e jogou a faca longe.</p><p>��Estou f...�� disse ele.�� F... -se os magos! Eu detesto esses r.. desses magos!</p><p>��Ent�o por que n�o p�ra de f... com a vida deles?�� murmurou um dos capangas, pronunciando com facilidade as retic�ncias.</p><p>O terceiro membro da gangue, que era um pouco lento de racioc�nio, disse:</p><p>��Olhem, ele atravessou a parede!</p><p>��E tem s�culos que o estamos seguindo�� reclamou o segundo.�� Voc� � �timo, Careca. Eu falei que achava que ele era mago. S� mago anda por aqui sozinho. Num falei que parecia mago? Eu falei...</p><p>��Voc� est� falando demais�� reagiu o l�der.</p><p>��Eu vi, ele atravessou a parede ali...</p><p>��Ah, �?</p><p>���!</p><p>��Atravessou mesmo, num viram?</p><p>��Voc� se acha brilhante, n�o �?</p><p>��Isso mesmo, brilhante!</p><p>Num �nico movimento, o l�der pegou a faca lustrosa do ch�o.</p><p>��Brilhante assim?</p><p>O terceiro ladr�o se aproximou da parede e chutou-a algumas vezes. Atr�s dele, s� havia o som de briga e borbulhas.</p><p>��� uma parede mesmo�� constatou.�� Como qualquer outra. Pessoal, como acham que o cara fez isso?</p><p>��Pessoal?</p><p>Ele trope�ou nos corpos ca�dos.</p><p>��Ah�� disse.</p><p>Embora fosse lerdo, n�o tardou em se dar conta de algo muito importante. Estava num beco de As Sombras, e sozinho. Saiu correndo e conseguiu percorrer um bom peda�o do bairro.</p><empty-line/><p>Morte avan�ava lentamente pela sala dos marcadores de tempo, inspecionando as fileiras em s�rie de ampulhetas em a��o. Albert ia atr�s, com o livro grande aberto nos bra�os.</p><p>Uma enorme cascata cinza de som troava ao redor. O barulho vinha das prateleiras, onde, estendendo-se ao infinito, fileiras e mais fileiras de ampulhetas derramavam a areia dos mortais. Era um som pesado, melanc�lico, um som que corria feito creme escuro sobre o rocambole da alma.</p><p>��MUITO BEM�� disse Morte, afinal.�� TOTAL DE TR�S. UMA NOITE CALMA.</p><p>��Ent�o seriam Man� Tend�o, outra vez o abade Lobsang e essa princesa Keli�� informou Albert.</p><p>Morte olhou as tr�s ampulhetas na m�o.</p><p>��EU ESTAVA PENSANDO EM MANDAR O GAROTO�� comentou.</p><p>Albert consultou o livro.</p><p>��Bem, Man� Tend�o n�o vai ser problema, e o abade � o que se pode chamar de uma pessoa experiente�� avaliou.�� Uma pena, a menina. S� 15 anos. Pode ser complicado.</p><p>���. UMA L�STIMA.</p><p>��Patr�o?</p><p>Morte estava segurando o terceiro vidro, pensativo, olhando o jogo de luz na superf�cie. Suspirou.</p><p>��ALGU�M T�O JOVEM ...</p><p>��O senhor est� bem?�� perguntou Albert, com a voz cheia de preocupa��o.</p><p>��O TEMPO, COMO UMA TORRENTE INCESSANTE, LEVA TODOS OS...</p><p>��Patr�o!</p><p>��O QU�?�� perguntou Morte, voltando a si.</p><p>��O senhor est� trabalhando demais, � isso...</p><p>��DO QUE EST� FALANDO, HOMEM?</p><p>��Por um instante, o senhor ficou meio alheio, patr�o.</p><p>��BESTEIRA. NUNCA ME SENTI MELHOR. ONDE EST�VAMOS?</p><p>Albert encolheu os ombros e analisou os apontamentos do livro.</p><p>��Man� � bruxa�� disse.�� Pode ficar um pouco chateada se o senhor mandar Mort.</p><p>Todos os profissionais da magia ganhavam o direito de, no momento em que sua areia pessoal se esgotava, serem reivindicados pelo pr�prio Morte, e n�o por seus representantes.</p><p>Morte pareceu n�o ouvir Albert. Estava outra vez olhando a ampulheta da princesa Keli.</p><p>��QUAL � O NOME DAQUELA SENSA��O DE DESGOSTO POR AS COISAS SEREM APARENTEMENTE COMO S�O?</p><p>��Tristeza, senhor. Agora, eu acho...</p><p>��EU SOU A TRISTEZA.</p><p>Albert ficou boquiaberto. Por fim, conseguiu se controlar durante tempo o bastante para dizer:</p><p>��Patr�o, a gente estava falando do Mort!</p><p>��QUE MORT?</p><p>��Seu aprendiz�� lembrou Albert, com paci�ncia.�� O jovem alto.</p><p>��� claro. Bem, vamos mand�-lo.</p><p>��Patr�o, ser� que ele est� pronto para ir sozinho?�� perguntou Albert.</p><p>Morte pensou a respeito.</p><p>��ELE VAI CONSEGUIR�� respondeu, afinal.�� � ESPERTO, APRENDE R�PIDO E, FRANCAMENTE�� acrescentou��, AS PESSOAS N�O PODEM ESPERAR QUE EU FIQUE CORRENDO ATR�S DELAS O TEMPO TODO.</p><empty-line/><p>Desorientado, Mortimer encarou a tape�aria de veludo a alguns cent�metros dos olhos.</p><p>Eu atravessei uma parede, pensou. E isso � imposs�vel.</p><p>Com cuidado, empurrou a tape�aria para o lado a fim de ver se existia uma porta escondida em algum lugar, mas n�o havia nada al�m do velho reboco, que rachara em alguns pontos para revelar os tijolos �midos mas enfaticamente s�lidos.</p><p>Experimentou cutucar a alvenaria. Estava claro que n�o voltaria pelo mesmo caminho.</p><p>��Bem�� falou para a parede.�� E agora?</p><p>Uma voz atr�s dele disse:</p><p>��Hum. Com licen�a, por favor.</p><p>Ele se virou devagar.</p><p>No meio da sala, reunida em torno de uma mesa, havia uma fam�lia klatchiana composta de pai, m�e e meia d�zia de filhos pequenos. Oito pares de olhos redondos estavam cravados em Mortimer. O nono par, pertencente a uma pessoa idosa de sexo indefinido, n�o estava porque a criatura se valera do intervalo para abrir espa�o na travessa de arroz, adotando a opini�o de que mais vale um peixe cozido na m�o do que qualquer n�mero de apari��es voando. O sil�ncio era pontuado pelo barulho da mastiga��o.</p><p>Num canto da sala abarrotada havia um pequeno santu�rio para Offler, o Deus Crocodilo de Klatch. Ele estava sorrindo exatamente como Morte, � exce��o de que Morte n�o tinha um bando de passarinhos sagrados que lhe traziam not�cias dos fi�is e lhe mantinham os dentes limpos.</p><p>Os klatchianos prezavam a hospitalidade sobre todas as outras virtudes. A mulher pegou um prato do arm�rio e silenciosamente come�ou a ench�-lo, arrancando um peda�o de bagre das m�os da pessoa anci�. Os olhos pintados dela n�o se desgrudaram de Mortimer.</p><p>Era o pai que tinha falado. Nervoso, Mortimer os saudou.</p><p>��Desculpe�� pediu.�� H�, parece que atravessei essa parede.</p><p>Foi p�ssimo, ele tinha de admitir.</p><p>��Por favor�� disse o homem.</p><p>Com as pulseiras chacoalhando, a mulher arrumou algumas fatias de piment�o no prato e jogou sobre elas um molho verde-escuro que Mortimer temeu reconhecer. Ele o havia experimentado algumas semanas antes e, embora se tratasse de uma receita complicada, uma prova fora suficiente para saber que era feito de v�sceras de peixe marinadas por v�rios anos num tanque de b�lis de tubar�o. Morte havia dito que aquele era um paladar com o qual se acostumava. Mortimer decidira n�o se dar ao trabalho.</p><p>Arriscou contornar a sala em dire��o ao v�o com cortina de contas, e todas as cabe�as se viraram para observ�-lo. Tentou sorrir.</p><p>A mulher perguntou:</p><p>��Por que o dem�nio est� mostrando os dentes, marido da minha vida?</p><p>O homem respondeu:</p><p>��Pode ser fome, lua do meu desejo. Ponha mais peixe!</p><p>A pessoa idosa resmungou:</p><p>��Eu estava comendo isso, filha ingrata. Que desgra�a de mundo, quando n�o existe respeito pelos mais velhos!</p><p>O fato � que, embora as palavras entrassem nos ouvidos de Mortimer em klatchiano, com todos os floreios e sutis ditongos de uma l�ngua t�o antiga e sofisticada que tinha quinze palavras para designar �assassinato� antes mesmo de o resto do mundo come�ar a entender a id�ia de se golpear a cabe�a das pessoas com pedras, elas chegavam agora ao c�rebro dele claras e compreens�veis como sua l�ngua materna.</p><p>��N�o sou nenhum dem�nio! Sou humano!�� gritou ele, e parou, surpreso, ao notar que as palavras haviam sa�do num klatchiano perfeito.</p><p>��� bandido?�� perguntou o pai.�� Assassino? Para entrar assim... arrecadador de impostos?</p><p>Meteu a m�o debaixo da mesa e exibiu um fac�o de carne amolado � finura de um papel. A mulher gritou, soltou o prato e puxou os filhos mais novos para si.</p><p>Mortimer viu a l�mina se agitar e entregou os pontos.</p><p>��Trago sauda��es dos grandes c�rculos do inferno�� arriscou. A mudan�a foi not�vel. Baixaram o fac�o, e a fam�lia se abriu em sorrisos largos.</p><p>��� sorte quando um dem�nio vem visitar�� exclamou o pai.�� Qual � sua vontade, � filho imundo das v�sceras de Offler?</p><p>��O qu�?�� assustou-se Mort.</p><p>��O dem�nio traz b�n��o e fortuna ao homem que o ajuda�� disse o homem.�� Como lhe podemos ser �teis, � h�lito funesto da cova maldita?</p><p>��Bem, n�o estou com muita fome�� adiantou Mort.�� Mas se voc�s souberem onde posso arranjar um cavalo veloz, eu poderia chegar a Sto Lat antes do p�r-do-sol.</p><p>O homem sorriu e se curvou:</p><p>��Conhe�o o lugar certo, excre��o mal�fica dos intestinos, se fizer a gentileza de me seguir.</p><p>Mortimer correu atr�s dele. A pessoa mais velha observou-os sair com o olhar desconfiado, sem parar de mastigar.</p><p>��� isso que chamam de dem�nio por aqui?�� ironizou.�� Offler faz pouco desse lugar �mido. At� os dem�nios s�o de quinta categoria, n�o chegam nem aos p�s dos que t�nhamos na Terra Natal.</p><p>A mulher p�s uma pequena tigela de arroz no par de m�os dobradas ao meio da est�tua de Offler (que sumiria at� a manh�) e se afastou.</p><p>��Marido disse que m�s passado, no Jardins de Curry, serviu a ser que n�o estava l᠗ lembrou ela.�� Ficou impressionado. Dez minutos depois, o homem voltava e, em sil�ncio reverencioso, depositava uma pequena pilha de moedas de ouro sobre a mesa. Era dinheiro suficiente para se comprar boa parte da cidade.</p><p>��Ele tinha um saco cheio�� disse.</p><p>Durante algum tempo, a fam�lia se limitou a olhar o metal. A mulher suspirou.</p><p>��A riqueza traz muitos problemas�� lamentou.�� O que vamos fazer?</p><p>��Voltar para Klatch�� afirmou o marido��, onde nossos filhos podem crescer num pa�s direito, fiel �s gloriosas tradi��es dos ancestrais, e o homem n�o precisa trabalhar como gar�om para chefes cru�is, mas se sentir orgulhoso. E temos de partir agora mesmo, flor de tamareira.</p><p>��Por que assim t�o cedo, � laborioso filho do deserto?</p><p>��Porque�� disse o homem�� acabo de vender o campe�o de corridas do Patr�cio.</p><p>O cavalo n�o era t�o bonito ou r�pido quanto Pituco, mas deixou para tr�s alguns guardas montados que, por alguma raz�o, pareciam ansiosos em falar com Mortimer. Logo os paup�rrimos sub�rbios de Morpork tamb�m foram ultrapassados, e a estrada se estendeu pelos f�rteis campos de terra preta da Plan�cie Sto, formada atrav�s dos tempos pela cheia peri�dica do grande e vagaroso Ankh, que levava � regi�o prosperidade, seguran�a e artrite cr�nica.</p><p>O lugar tamb�m era muito entediante. A luz se mostrava cada vez mais dourada, e Mortimer cavalgava pela paisagem plana e fria, cortada de ponta a ponta por planta��es de repolho.</p><p>Podemos dizer muitas coisas a respeito do repolho. Podemos discorrer sobre o alto teor vitam�nico, a contribui��o vital de ferro, as valiosas fibras e o recomend�vel valor nutritivo. No todo, por�m, falta alguma coisa a ele. Apesar de toda a imensa superioridade nutritiva e moral sobre, digamos, as margaridas, o repolho nunca foi uma vis�o que inspirasse os poetas. A menos que eles estivessem com fome, obviamente. Eram apenas trinta quil�metros at� Sto Lat, mas em termos de experi�ncia insignificante de vida pareciam dois mil.</p><p>Havia guardas nos port�es de Sto Lat, embora, comparados aos de Ankh, tivessem uma apar�ncia t�mida e amadora. Mortimer se aproximou, e um deles perguntou aonde ia.</p><p>��N�o consigo parar�� gritou Mort.</p><p>O guarda era novo no emprego e bastante �gil. O trabalho n�o era o que ele vinha esperando. Ficar o dia inteiro parado dentro de uma armadura, com um machado preso a um peda�o de pau n�o era exatamente o que estivera procurando. Ele havia esperado emo��es, desafios, arco, flecha e um uniforme que n�o enferrujasse na chuva.</p><p>Deu um passo � frente, pronto para defender a cidade dos indiv�duos que n�o respeitam as ordens dadas por empregados municipais devidamente autorizados. Mortimer considerou a l�mina pairando a alguns cent�metros de seu rosto. Aquilo estava come�ando a acontecer com freq��ncia demais.</p><p>��Por outro lado�� arriscou ele, com mais calma��, e se eu lhe desse de presente este maravilhoso cavalo?</p><p>N�o foi dif�cil achar a entrada do castelo. L� tamb�m havia guardas, e eles tinham arcos e um ar consideravelmente mais incompass�vel diante da vida. De qualquer modo, Mortimer j� n�o dispunha de mais nenhum cavalo. Ficou ali um pouco mais, at� come�arem a lhe dispensar um montante razo�vel de aten��o, e ent�o partiu desconsolado pelas ruas da cidadezinha, sentindo-se idiota.</p><p>Depois de tudo aquilo, depois de quil�metros de repolho e de ficar com o traseiro duro feito pedra, ele nem sequer sabia por que estava ali. Ent�o a menina o enxergara quando ele estava invis�vel? E isso queria dizer alguma coisa? Claro que n�o. S� que ele continuava vendo o rosto dela e o brilho de esperan�a em seus olhos Ele queria lhe dizer que estava tudo bem. Queria contar a ela de si mesmo e de tudo que pretendia ser. Queria descobrir qual era o quarto dela e ficar olhando para l� a noite toda, at� a luz se apagar. E assim por diante.</p><p>Pouco tempo depois, um ferreiro cuja oficina ficava numa rua estreita que dava para a lateral do castelo interrompeu o trabalho a fim de olhar para fora e viu um rapaz alto e desengon�ado com o rosto bastante vermelho, tentando atravessar a parede.</p><p>Ainda mais tarde, um jovem com feridas superficiais na cabe�a entrou numa das tabernas da cidade e pediu o endere�o do mago mais pr�ximo.</p><p>E foi ainda mais tarde que Mortimer surgiu na casa de alvenaria que se apresentava numa placa de bronze escurecido como a resid�ncia do Dr. �gneo Cortabem (Invis�vel), Mesttre do Infinitto, Iluminartus, Magho de Pr�ncipes, Guardi�o dos Porttais Sagrados�� Se N�o Houver Ningu�m, Deixe Recado Com a Senhora Nugent na Casa ao Lado.</p><p>Devidamente impressionado�� apesar do cora��o a mil��, Mortimer suspendeu a aldrava, que tinha a forma de uma g�rgula pavorosa com uma pesada argola de ferro na boca, e bateu duas vezes.</p><p>Houve uma breve agita��o no interior da casa, a seq��ncia de r�pidos barulhos dom�sticos que, num lugar menos nobre, teriam sido feitos por, digamos, algu�m metendo a lou�a do almo�o na pia e escondendo a roupa suja.</p><p>Por fim, a porta se abriu, lenta e misteriosamente.</p><p>��Melhor fingir que ezt� imprezionado�� advertiu a aldrava, um tanto dificultada pela argola.�� Ele faz isso com roldanas e um pedazo de fio. N�o � muito bom em feitizos de abertura, entende?</p><p>Mortimer encarou o sorridente rosto de metal. Trabalho para um esqueleto que atravessa paredes, disse a si mesmo. Quem sou eu para ficar surpreso com o que quer que seja?</p><p>��Obrigado�� falou.</p><p>��De nada. Limpe os p�s no capajo. � dia de folga da razpadeira de calzados.</p><p>A grande sala era baixa, escura e cheirava principalmente a incenso, mas um pouco a repolho cozido, roupa suja e a esse tipo de gente que joga todas as meias na parede e usa as que n�o grudam. Havia uma enorme bola de cristal rachada, um astrol�bio com v�rias partes faltando, um octograma bastante desgastado no ch�o e um jacar� empalhado pendurado no teto. Jacar� empalhado � um equipamento absolutamente indispens�vel em qualquer estabelecimento m�gico de boa ger�ncia. Aquele ali parecia n�o ter gostado muito da coisa.</p><p>A cortina de contas na parede oposta foi aberta com um gesto dram�tico, e um vulto encapuzado surgiu.</p><p>��Constela��es favor�veis brilham a hora de nosso encontro!�� exclamou ele.</p><p>��Quais?�� perguntou Mort.</p><p>Houve um s�bito sil�ncio de preocupa��o.</p><p>��O qu�?</p><p>��Que constela��es seriam essas?�� indagou Mort.</p><p>��As favor�veis�� respondeu o vulto, sem muita certeza. Mas logo se reanimou.�� Por que incomodas �gneo Cortabem, dono das oito chaves, aventureiro do Calabou�o das Dimens�es, mago supremo da...</p><p>��Com licen�a�� pediu Mort.�� O senhor � mesmo?</p><p>��Sou mesmo o qu�?</p><p>��Mestre de n�o-sei-o-qu�, lorde supremo do calabou�o sagrado?</p><p>Com um movimento irritado, Cortabem tirou o capuz. Em vez do m�stico de barbas grisalhas que Mortimer vinha esperando, ele se deparou com um rosto redondo, gorducho e rosado como um empad�o, ao qual de alguma forma tamb�m se assemelhava em outros aspectos. Por exemplo, como a maioria dos empad�es, ele n�o tinha barba e, como a maioria dos empad�es, parecia essencialmente bem-humorado.</p><p>��Em sentido figurado�� disse ele, afinal.</p><p>��O que isso quer dizer?</p><p>��Bem, quer dizer n�o�� admitiu Cortabem.</p><p>��Mas voc� disse...</p><p>��Era publicidade�� cortou o mago.�� Um tipo de magia em que venho trabalhando. Afinal, o que voc� quer?�� Ele lan�ou um olhar sugestivo.�� A po��o do amor? Alguma coisa para incentivar as meninas?</p><p>��� poss�vel atravessar paredes?�� perguntou Mort, em desespero.</p><p>Cortabem se deteve, com as m�os j� a caminho de uma garrafa grande, cheia de um l�quido viscoso.</p><p>��Usando magia?</p><p>��Hum�� soltou Mort.�� Acho que n�o.</p><p>��Ent�o escolha paredes bem finas�� sugeriu Cortabem.�� Ainda melhor, use a porta. Aquela ali seria perfeita, se s� veio aqui me fazer perder tempo.</p><p>Mortimer hesitou, ent�o p�s o saco de moedas sobre a mesa. O mago olhou para elas, soltou um pequeno gemido e estendeu o bra�o. Mortimer segurou-o pelo pulso.</p><p>��Eu j� atravessei paredes�� disse, devagar.</p><p>��Claro que j�, claro que j᠗ murmurou Cortabem, sem despregar os olhos do saco.</p><p>Tirou a rolha da garrafa de l�quido azul e tomou um gole distra�do.</p><p>��S� que antes de atravessar eu n�o sabia que podia, enquanto atravessava n�o sabia que estava conseguindo e agora que atravessei n�o lembro como fiz. E quero atravessar de novo.</p><p>��Por qu�?</p><p>��Porque�� respondeu Mort�� se eu puder atravessar paredes, posso fazer qualquer coisa.</p><p>��Muito profundo�� assentiu Cortabem.�� Filos�fico. E qual o nome da jovem do outro lado dessa parede?</p><p>��Ela �...�� Mort engoliu em seco.�� N�o sei o nome. Se � que existe uma jovem�� acrescentou, insolente.�� N�o estou dizendo que existe.</p><p>��Certo�� disse o mago, e tomou outro gole.�� Pois bem. Como atravessar paredes. Vou pesquisar. Mas pode ficar caro.</p><p>Com cuidado, Mort pegou o saco e retirou uma pequena moeda de ouro.</p><p>��Um sinal�� avisou, botando-a na mesa.</p><p>Cortabem pegou a moeda como se esperasse que ela fosse explodir ou evaporar e examinou-a com aten��o.</p><p>��Nunca vi esse tipo de moeda�� objetou.�� Que letra ondulada � essa?</p><p>��Mas � ouro, n�o �?�� perguntou Mort.�� Quer dizer, n�o precisa aceitar...</p><p>��N�o, n�o, � ouro�� apressou-se em dizer Cortabem.�� � ouro, sim. Eu s� estava querendo saber de onde era, s� isso.</p><p>��Voc� n�o ia acreditar�� notou Mort.�� A que horas � o p�r-do-sol aqui?</p><p>��Em geral conseguimos encaix�-lo entre o dia e a noite�� respondeu Cortabem, ainda fitando a moeda e tomando pequenos goles da garrafa de l�quido azul.�� Mais ou menos agora.</p><p>Mortimer olhou para fora da janela. A rua j� dava mostras de anoitecer.</p><p>��Eu volto�� murmurou, e avan�ou para a porta.</p><p>Ele ouviu o mago gritar alguma coisa, mas j� estava correndo em disparada pela rua.</p><p>Come�ava a entrar em p�nico. Morte estaria � sua espera a trinta quil�metros dali. Haveria briga. Haveria uma terr�vel...</p><p>��AH, GAROTO.</p><p>Um vulto familiar saiu do clar�o da barraca de enguia frita, segurando um prato de b�zios.</p><p>��O VINAGRE EST� BEM PICANTE. SlRVA-SE. AINDA TENHO UM ESPETO.</p><p>Mas, obviamente, s� porque ele estava a trinta quil�metros de dist�ncia, n�o queria dizer que tamb�m n�o estivesse ali...</p><empty-line/><p>E, na sala desarrumada, Cortabem n�o parava de girar a moeda de ouro entre os dedos, sussurrando �paredes� e bebendo o l�quido azul.</p><p>S� pareceu se dar conta do que estava fazendo quando j� n�o havia mais bebida, momento no qual os olhos se voltaram para a garrafa e em meio a uma crescente n�voa rosada, leram o r�tulo dizia �Revingorante Cabritismo e Poss�o M�gica da Paich�o, Apenas Uma Culher Cheia Antis di Drumir, e Piquena Assim�.</p><empty-line/><p>��Sozinho?�� perguntou Mort.</p><p>��EXATAMENTE. CONFIO EM VOC�.</p><p>��Nossa!</p><p>A proposta tirou tudo o mais da cabe�a de Mortimer, e ele se viu surpreso ao descobrir que n�o estava nauseado. Assistira a muitas mortes na �ltima semana, e todo o pavor desaparecia quando sab�amos que estar�amos conversando com a v�tima logo depois. A maioria delas ficava aliviada, uma ou duas se mostravam zangadas, mas todas se achavam dispostas a ouvir algumas palavras amigas.</p><p>��ACHA QUE CONSEGUE?</p><p>��Bem, senhor. Acho que sim.</p><p>��� ESSE O ESP�RITO. DEIXEI PITUCO NO BEBEDOURO DA ESQUINA. LEVE-O PARA CASA QUANDO TERMINAR.</p><p>��O senhor vai ficar aqui?</p><p>Morte contemplou a rua. As �rbitas oculares brilharam.</p><p>��ACHEI QUE TALVEZ PUDESSE PASSEAR UM POUCO�� disse, misterioso.�� N�O ESTOU ME SENTINDO MUITO BEM. UM POUCO DE AR FRESCO SERIA EXCELENTE.</p><p>Pareceu se lembrar de alguma coisa, ocultou a m�o nas sombras do manto e sacou tr�s ampulhetas.</p><p>��TUDO ACERTADO�� avaliou.�� DIVIRTA-SE.</p><p>Deu meia-volta e saiu pela rua, cantarolando.</p><p>��Hum. Obrigado�� disse Mort.</p><p>Ent�o levou as ampulhetas � luz, notando a que j� estava em seus �ltimos gr�os de areia.</p><p>��Quer dizer que estou no comando?�� gritou, mas Morte havia dobrado a esquina.</p><p>Pituco saudou-o com um leve relincho de reconhecimento, Mortimer montou�� o cora��o acelerado pela apreens�o e pelo peso da responsabilidade. Os dedos trabalharam automaticamente, tirando a foice da bainha e ajustando a l�mina (que brilhou azul-met�lica na noite, cortando a luz das estrelas como salame). Ele subiu com cuidado, encolhendo-se por causa das feridas da sela do campe�o do Patr�cio, mas montar Pituco era como cavalgar um travesseiro. B�bado de autoridade delegada, lembrou-se ent�o de tirar do alforje a capa do Morte e prendeu-a ao pesco�o com o broche prateado.</p><p>Deu outra olhada na primeira ampulheta e cutucou Pituco com os joelhos. O cavalo cheirou o ar frio e come�ou a trotar.</p><p>Atr�s deles, Cortabem saiu correndo de casa, avan�ando pela rua gelada com as roupas esvoa�ando.</p><p>Agora o cavalo andava a meio galope, aumentando a dist�ncia entre os cascos e o ch�o de pedras. Com uma chicotada do rabo, venceu os telhados e voou para o c�u frio.</p><p>Cortabem n�o viu nada disso. Tinha coisas mais urgentes na cabe�a. Deu um salto a�reo e caiu por inteiro na �gua gelada do bebedouro de cavalos, deitando-se aliviadamente entre os peda�os de gelo. Depois de um tempo, a �gua come�ou a evaporar.</p><empty-line/><p>Mortimer manteve baixa altitude pelo puro prazer de sentir a velocidade. Os campos adormecidos bramiam, inaud�veis, logo abaixo. Pituco avan�ava num galope confort�vel, com os grandes m�sculos deslizando sob a pele como jacar�s em bancos de areia, e a crina a a�oitar o rosto de Mortimer. A noite se esquivava da ponta da foice, mas era cortada em duas metades aneladas.</p><p>Eles avan�aram sob o luar t�o silenciosamente quanto uma sombra, vis�veis apenas aos gatos e seres que se dedicavam a coisas que o homem n�o deveria saber.</p><p>Mais tarde Mortimer n�o se lembraria, mas ele provavelmente riu.</p><p>Logo as plan�cies geladas cederam espa�o para os terrenos irregulares em torno das montanhas, e ent�o as pr�prias Ramtops surgiram na dire��o deles. Pituco abaixou a cabe�a e aumentou o passo, tendo em mira uma passagem entre duas montanhas pontudas como os dentes de um gnomo. Em algum lugar, um lobo uivou.</p><p>Mortimer deu outra olhada na ampulheta. A estrutura era esculpida em madeira de carvalho e raiz de mandr�gora, e, mesmo ao luar, a areia se mostrava dourada. Girando o vidro, conseguiu divisar o nome �Ammeline Tend�o� gravado em tra�os lev�ssimos.</p><p>Pituco diminuiu a marcha. Mortimer olhou para a floresta salpicada de uma neve que era prematura ou terrivelmente tardia (podia ser as duas coisas, porque as Ramtops estocavam clima e distribu�am-no sem qualquer compromisso com a verdadeira �poca do ano).</p><p>Um buraco se abriu debaixo deles. Pituco mais uma vez desacelerou, deu meia-volta e desceu para uma clareira branca de neve. Ela era redonda, com um pequeno chal� exatamente no meio. Se a terra � volta n�o se encontrasse coberta de neve, Mortimer teria notado que n�o havia cepos; as �rvores n�o tinham sido cortadas, apenas haviam desanimado de crescer ali. Ou tinham fugido.</p><p>A luz de vela irradiava de uma das janelas do andar de baixo, criando uma po�a laranja sobre a neve.</p><p>Pituco pousou com suavidade e trotou pela crosta gelada sem afundar. Evidentemente, n�o deixou pegadas.</p><p>Mortimer desceu do cavalo e caminhou at� a porta, murmurando para si mesmo e tra�ando no ar curvas experimentais com a foice.</p><p>O telhado do chal� fora constru�do com beirais largos, para escoar a neve e cobrir as pilhas de lenha. Nenhum morador das altas Ramtops sonharia em come�ar o inverno sem pilhas de lenha amontoadas em volta da casa. Mas ali n�o havia lenha, muito embora ainda faltasse bastante tempo para a primavera.</p><p>Havia, no entanto, um rolo de feno numa rede pr�xima � porta. E um bilhete, escrito em mai�sculas grandes e ligeiramente tremidas: PARA O CAVALO.</p><p>Aquilo teria deixado Mortimer preocupado, caso ele se permitisse. Algu�m o esperava. Mas nos �ltimos dias ele vinha aprendendo que melhor do que afundar na incerteza era surfar na superf�cie. Seja como for, Pituco n�o estava preocupado com escr�pulos morais e abocanhou a banquete.</p><p>Havia a d�vida de bater � porta ou n�o. Por alguma raz�o, n�o parecia apropriado. E se ningu�m respondesse, ou o mandassem embora?</p><p>Ent�o ele abriu o trinco e empurrou a porta. A madeira se abriu sem ranger.</p><p>Havia uma cozinha de teto baixo, com vigas a uma altura complicada para Mortimer. A luz da vela solit�ria iluminava a lou�a de barro sobre o aparador e o ch�o, que tinha sido esfregado e encerado � iridesc�ncia. O fogo na lareira n�o aumentava a claridade, porque n�o passava de um montinho de cinza branca sob os restos da lenha. Sem que lhe dissessem, Mortimer sabia que se tratava do �ltimo peda�o de lenha.</p><p>Uma senhora estava sentada � mesa da cozinha, escrevendo furiosamente, com o nariz adunco a poucos cent�metros do papel. Um gato cinza se enroscou sobre a mesa, ao lado dela, e piscou com calma para Mortimer.</p><p>A foice bateu numa viga. A mulher ergueu a cabe�a.</p><p>��S� um minutinho�� disse, franzindo a testa para o papel.�� Ainda n�o terminei aquela parte de estar em perfeita condi��o de sa�de f�sica e mental, uma por��o de besteira mesmo, ningu�m em perfeita condi��o de sa�de f�sica e mental estaria morto. Aceita uma bebida?</p><p>��O qu�?�� perguntou Mort. Ele se recomp�s e repetiu:</p><p>��O QU�?</p><p>��Se � que voc� bebe. Vinho de framboesa. No aparador. Pode acabar com a garrafa.</p><p>Desconfiado, Mortimer fitou o m�vel. Parecia estar perdendo o controle das coisas. Sacou a ampulheta e olhou o vidro. Restava um pouco de areia.</p><p>��Ainda tem uns minutos�� avisou a bruxa, sem levantar a cabe�a.</p><p>��Como, quer dizer, COMO A SENHORA SABE?</p><p>Ela o ignorou. Secou a tinta na frente da vela, fechou a carta com um pingo de cera e colocou-a debaixo do casti�al. Ent�o pegou o gato.</p><p>�� Vov� Beedle vem arrumar aqui amanh� e voc� vai embora com ela, entendeu? A pia de m�rmore rosa fica para Velhusca Nutley. Faz anos que est� de olho nela.</p><p>O gato miou, em anu�ncia.</p><p>��Eu n�o tenho, quer dizer, N�O TENHO A NOITE TODA�� Advertiu Mort.</p><p>��Tem, sim. Eu n�o tenho. E n�o precisa gritar�� disse a bruxa.</p><p>Ela se levantou, e Mortimer p�de ver como era curvada, quase como um arco. Com alguma dificuldade, a mulher tirou um chap�u pontudo do gancho na parede, firmou-o com diversos alfinetes nos cabelos brancos e apanhou duas bengalas.</p><p>Caminhou at� Mortimer e olhou para ele com seus olhos pequenos e brilhantes.</p><p>��Ser� que levo o xale? Acha que vou precisar do xale? N�o, imagino que n�o. Deve ser muito quente aonde vou.</p><p>Olhou com aten��o para Mortimer e franziu a testa.</p><p>��Voc� � mais jovem do que eu pensava�� avaliou. Mortimer n�o disse nada. Ent�o, em voz baixa, Man� Tend�o falou:</p><p>��Acho que n�o � quem eu estava esperando.</p><p>Mortimer pigarreou.</p><p>��Quem exatamente a senhora estava esperando?�� perguntou.</p><p>��Morte�� respondeu, sem rodeios.�� Faz parte do acordo, entende? Ficamos sabendo a hora de nossa morte e nos � garantida uma... aten��o pessoal.</p><p>��Eu sou ela�� concluiu Mort.</p><p>��Ela?</p><p>��A aten��o especial. Morte me enviou aqui. Trabalho para ele. Ningu�m mais pode ter a mim.</p><p>Mortimer se deteve. Estava tudo errado. Ele seria mandado de volta para casa em desgra�a. Sua primeira incumb�ncia, e ele deitava tudo por terra. J� podia at� ouvir o riso das pessoas.</p><p>O gemido come�ou nas profundezas do seu constrangimento e saiu como uma buzina de nevoeiro.</p><p>��S� que esse � meu primeiro trabalho e estraguei tudo!</p><p>A foice caiu no ch�o com um estrondo, partindo um peda�o da perna da mesa e cortando uma laje ao meio.</p><p>Man� observou-o durante algum tempo, com a cabe�a de lado. Ent�o disse:</p><p>��Entendi. Qual o seu nome, rapaz?</p><p>��Mort�� resmungou Mort.�� De Mortimer.</p><p>��Bem, Mort, imagino que voc� tenha uma ampulheta em algum lugar.</p><p>Mortimer assentiu, vagamente. Levou a m�o ao cinto e exibiu o vidro. A bruxa inspecionou-o com ar pensativo.</p><p>��Temos mais ou menos um minuto�� analisou.�� N�o nos resta muito tempo. S� me d� um instante para fechar a casa.</p><p>��Mas a senhora n�o entende!�� rebateu Mort.�� Vou estragar tudo de novo! Nunca fiz isso!</p><p>Ela lhe deu tapinhas na m�o.</p><p>��Nem eu�� disse, afinal.�� Podemos aprender juntos. Agora pegue a foice e deixe de criancice, meu menino.</p><p>Apesar dos protestos dele, Man� impeliu-o para a neve e seguiu-o, trancando a porta com uma chave pesada de ferro, que pendurou num gancho perto da porta.</p><p>O gelo havia se apoderado da floresta, fazendo as ra�zes estalarem. A Lua estava se pondo, mas o c�u se encontrava cheio de estrelinhas brancas que faziam o inverno parecer ainda mais frio. Man� Tend�o estremeceu.</p><p>��L� tem um cepo velho�� comentou ela.�� D� uma bela vista do vale. No ver�o, � claro. Eu gostaria de me sentar.</p><p>Mortimer ajudou-a a caminhar pela neve e tirou o m�ximo poss�vel de gelo do tronco. Eles se sentaram com a ampulheta a separ�-los. Qualquer que fosse a vista no ver�o, ela agora consistia apenas de rochedos negros contra um c�u do qual ca�am pequenos flocos de neve.</p><p>��N�o acredito nisso�� disse Mort.�� Quer dizer, a senhora fala como se quisesse morrer.</p><p>��Vou sentir saudade de algumas coisas�� admitiu ela.�� Mas vai cansando, sabe? A vida. N�o se pode mais confiar no pr�prio corpo, e chega o momento de seguir adiante. Acho que j� � hora de eu fazer outra coisa. Ele disse a voc� que o pessoal que lida com magia pode v�-lo o tempo todo?</p><p>��N�o�� respondeu Mort, sem convic��o.</p><p>��Bem, n�s podemos.</p><p>��Ele n�o gosta muito de bruxas e magos�� apontou Mort.</p><p>��Ningu�m gosta de um sabich�o�� rebateu ela, com certo prazer.�� N�s damos trabalho. Os padres n�o; ent�o gosta deles.</p><p>��Nunca me disse nada�� ressalvou Mort.</p><p>��Ah. Eles est�o sempre falando para as pessoas que a vida vai ser melhor depois da morte. N�s afirmamos que pode ser muito boa aqui mesmo, desde que se empenhem.</p><p>Mortimer hesitou. Queria dizer: a senhora est� enganada, ele n�o � nem um pouco assim, n�o se importa com o fato de as pessoas serem boas ou m�s, desde que se mostrem pontuais. E gostem de gatos.</p><p>Mas pensou duas vezes. Ocorreu-lhe que as pessoas precisavam acreditar em alguma coisa.</p><p>O lobo uivou novamente, t�o pr�ximo que Mortimer olhou � volta, apreensivo. Do extremo oposto do vale, um segundo lobo respondeu. A cantoria foi retomada por outros dois, nos rec�nditos da floresta. Mortimer nunca ouvira nada t�o melanc�lico.</p><p>Olhou de esguelha para o vulto inerte de Man� Tend�o e ent�o, com p�nico crescente, fitou a ampulheta. P�s-se de p�, apanhou a foice e girou-a no ar com as duas m�os.</p><p>A bruxa se levantou, deixando o corpo para tr�s.</p><p>��Bom trabalho�� analisou.�� Por um instante, achei que tivesse errado.</p><p>Arfante, Mortimer se escorou numa �rvore e observou Man� contornar o cepo para ver a si mesma.</p><p>��Hum�� soltou ela.�� O tempo fez muitos estragos.</p><p>Suspendeu a m�o e riu quando viu as estrelas atrav�s de si mesma.</p><p>Ent�o se transformou. Mortimer j� vira isso acontecer�� quando a alma se dava conta de que n�o estava mais presa ao campo m�rfico do corpo��, mas nunca sob tamanho controle. O cabelo se soltou do coque apertado, crescendo e mudando de tom. O corpo se endireitou. As rugas diminu�ram at� desaparecer. O vestido de l� cinza se agitou como a superf�cie do mar e acabou tra�ando contornos totalmente diversos e perturbadores.</p><p>Ela olhou para baixo, sorriu e mudou o vestido para alguma coisa verde e colante.</p><p>��O que acha, Mort?�� perguntou.</p><p>Antes a voz soara rachada e tr�mula. Agora sugeria alm�scar, xarope de bordo e outras coisas que fizeram o pomo-de-Ad�o de Mortimer balan�ar como bola de borracha em fita el�stica.</p><p>��...�� disse ele, e comprimiu a foice na m�o at� os n�s dos dedos ficarem brancos.</p><p>Ela avan�ou para ele como uma cobra.</p><p>��N�o ouvi�� ronronou.</p><p>��M-m-m-muito bom�� disse ele.�� � assim que voc� era?</p><p>��� como sempre fui.</p><p>��Ah.</p><p>Mortimer fitou os pr�prios p�s.</p><p>��Preciso levar vocꠗ anunciou.</p><p>��Eu sei�� disse ela.�� Mas vou ficar aqui.</p><p>��N�o pode! Quer dizer...�� ele buscou as palavras�� ... entende? Se ficar, voc� meio que se espalha e fica cada vez mais dilu�da at�...</p><p>��Eu vou gostar�� afirmou ela.</p><p>Inclinou-se para frente e lhe deu um beijo t�o t�nue quanto o suspiro de uma efem�rida, desaparecendo at� s� restar o beijo�� Exatamente como o Gato de Alice, s� que mais er�tico.</p><p>��Cuidado, Mort�� disse a voz, em sua cabe�a.�� Voc� pode querer segurar esse emprego, mas vai conseguir abrir m�o dele?</p><p>Mortimer se limitou a ficar passando a m�o no rosto. Por um instante, as �rvores em torno da clareira balan�aram, houve o som de uma risada ao vento, e ent�o o sil�ncio gelado caiu sobre a floresta outra vez.</p><p>O Servi�o o chamou atrav�s da n�voa rosada de sua mente. Ele pegou a segunda ampulheta e olhou-a. A areia j� estava quase acabando.</p><p>O vidro era moldado com p�talas de l�tus. Quando Mortimer o cutucou, o instrumento fez �Ommm�.</p><p>Ele correu pela neve at� Pituco e se atirou na sela. O cavalo ergueu a cabe�a, deu uma empinada e se lan�ou em dire��o �s estrelas.</p><p>Imensos raios de luz verde e azul se desprendiam do teto do mundo. Cortinas de brilho octarina dan�avam lenta e majestosamente sobre o Disco, enquanto o fogo da aurora coreal�� a grande descarga de magia do campo vertical do Disco�� escondia-se nas geladas montanhas verdes do Centro.</p><p>A haste central de Cori Celesti, o lar dos deuses, consistia em quinze quil�metros de um reluzente fogo frio.</p><p>Era um panorama visto por poucas pessoas, e Mortimer n�o era uma delas, porque estava inclinado sobre o pesco�o de Pituco e se agarrava com unhas e dentes � vida, enquanto os dois avan�avam pelo c�u noturno, deixando para tr�s um rastro de vapor.</p><p>Havia outras montanhas concentradas em torno de Cori. Em compara��o, n�o passavam de morrinhos, embora na realidade cada uma delas fosse um grandioso arranjo de desfiladeiros, cristas, penhascos, cascalhos e geleiras ao qual toda cadeia de montanhas teria prazer em se associar.</p><p>Entre as mais altas�� no fim de um vale em forma de funil��, moravam os Ouvintes.</p><p>Trata-se de uma das seitas religiosas mais antigas do Disco, embora mesmo os deuses se mostrassem divididos na hora de julgar se ouvir era de fato uma religi�o. O que impedia o templo de ser soterrado por algumas avalanches bem miradas era o fato de at� os deuses estarem curiosos com o que os Ouvintes pudessem vir a escutar. Se tem uma coisa que chateia um deus, � n�o saber de algo.</p><p>Mortimer ainda vai levar alguns minutos para chegar. Uma fileira de pontinhos preencheria muito bem esse espa�o, mas o leitor j� deve estar notando a estranha forma do templo�� espiralado como uma grande concha de molusco branca, no fim do vale�� e provavelmente vai querer uma explica��o.</p><p>O fato � que os Ouvintes est�o tentando descobrir o que foi exatamente que o Criador disse quando fez o universo.</p><p>A teoria � bastante f�cil de entender.</p><p>Evidentemente, nada que o Criador faz se apaga, o que vale dizer que o eco daquelas primeiras palavras ainda deve estar em algum lugar, refletindo-se em toda a mat�ria do cosmo, mas aud�veis para o bom ouvinte.</p><p>Eras atr�s, os Ouvintes descobriram que o gelo e a sorte haviam feito daquele vale o oposto ac�stico perfeito do vale que gera eco, e constru�ram o templo de quartos m�ltiplos na posi��o exata que a cadeira confort�vel sempre ocupa na casa de um fan�tico por alta fidelidade. Complexos sintonizadores captavam e ampliavam o som, que era lan�ado pelo vale at� o quarto central, onde, a qualquer hora do dia ou da noite, sempre estavam tr�s monges.</p><p>Ouvindo.</p><p>Havia alguns problemas causados pelo fato de que eles n�o escutavam apenas os ecos sutis das primeiras palavras, mas todos os outros sons produzidos no Disco. Para reconhecerem o som das Palavras, precisavam aprender todos os outros barulhos. Isso exigia certo talento, e o novato s� era aceito para treinamento se pudesse distinguir, pelo som, a uma dist�ncia de cem metros, de que lado uma moeda havia ca�do. Na verdade, s� era aceito para a ordem quando conseguia dizer de que cor era ela.</p><p>E embora os Ouvintes sagrados morassem t�o longe, muitas pessoas percorriam o longo e perigoso caminho at� o templo, viajando por terras geladas e amea�adas por trolls, transpondo rios velozes, escalando montanhas intimidantes, galgando a in�spita tundra, a fim de subir a escada estreita que levava ao vale remoto e procurar, com o cora��o aberto, os segredos do ser.</p><p>E os monges gritavam para eles: �N�o fa�am tanto barulho!�</p><p>Pituco avan�ou pelo alto das montanhas como um raio branco, pousando no vazio nevado de um p�tio tornado espectral pela luz de discoteca que vinha do c�u. Mortimer saltou e correu pelo mosteiro at� o quarto onde o 882 abade estava morrendo, cercado de seus fervorosos seguidores.</p><p>� medida que Mortimer corria pelo ch�o de mosaicos intrincados, seus passos ressoavam � volta. Os monges usavam chinelos de l� sobre os cal�ados.</p><p>Ele chegou ao leito e esperou por um instante, apoiando-se na foice at� conseguir retomar o f�lego.</p><p>O abade, que era pequeno, completamente careca e tinha mais rugas do que um saco de ameixas secas, abriu os olhos.</p><p>��Voc� est� atrasado�� sussurrou, e morreu.</p><p>Mortimer engoliu em seco, lutou em busca de ar e meneou a foice num arco demorado, mas certeiro o bastante: o abade se sentou, deixando o corpo para tr�s.</p><p>��Bem na hora�� disse, numa voz que s� Mortimer p�de escutar.�� Por um instante, cheguei a ficar preocupado.</p><p>��Tudo bem?�� perguntou Mort.�� S� que eu preciso correr...</p><p>O abade saltou da cama e avan�ou na dire��o de Mortimer por entre o aglomerado de seus consternados seguidores.</p><p>��N�o v� ainda�� pediu.�� Sempre fico ansioso por essas conversas. O que aconteceu com o camarada de sempre?</p><p>��Camarada de sempre?�� alarmou-se Mort.</p><p>��Sujeito alto. Capa preta. Pela apar�ncia, n�o come muito�� disse o abade.</p><p>��Camarada de sempre? O senhor est� falando do Morte?�� indagou Mort.</p><p>��Ele mesmo�� respondeu o abade, com alegria. A boca de Mortimer se abriu.</p><p>��O senhor j� morreu muito?�� conseguiu perguntar.</p><p>��Bastante. Bastante. � claro�� acrescentou o abade�� que � s� uma quest�o de pr�tica.</p><p>���?</p><p>��Temos de ir embora�� chamou o abade. Mortimer fechou a boca.</p><p>��� isso que estou tentando dizer�� observou.</p><p>��Ent�o se voc� puder me deixar no vale�� continuou o pequeno monge, placidamente.</p><p>Passou por Mortimer e seguiu para o p�tio. Mortimer ficou olhando o ch�o por um instante, e ent�o correu atr�s dele de maneira que sabia ser extremamente antiprofissional e indigna.</p><p>��Olhe aqui...�� come�ou.</p><p>��O outro tinha um cavalo chamado Pituco�� lembrou o abade, com satisfa��o.�� Comprou o neg�cio dele?</p><p>��Neg�cio?�� perguntou Mort, completamente perdido.</p><p>��Ou o que for. Desculpe�� pediu o abade.�� N�o sei como essas coisas funcionam, meu rapaz.</p><p>��Mort�� disse Mort, distra�do.�� E acho que o senhor precisa voltar comigo. Se n�o se importa�� acrescentou, no que esperava ser um modo firme e autorit�rio.</p><p>O monge deu meia-volta e sorriu para ele.</p><p>��Eu bem que gostaria�� disse.�� Talvez um dia. Agora, se puder me dar uma carona at� a aldeia mais pr�xima, imagino que eu esteja para ser gerado.</p><p>��Gerado? Mas o senhor acabou de morrer!�� argumentou Mort.</p><p>���, mas tenho o que se pode chamar de ingresso para a temporada�� explicou o abade.</p><p>Mortimer come�ou a entender, mas muito devagar.</p><p>��Ah�� exclamou.�� J� li sobre isso. Reencarna��o, n�o �?</p><p>��� essa a palavra. At� agora, 53 vezes. Ou 54.</p><p>Pituco levantou a cabe�a ao ouvir os dois se aproximarem e soltou um breve relincho de reconhecimento quando o abade lhe acariciou o focinho. Mortimer montou na sela e ajudou o abade a subir atr�s dele.</p><p>��Deve ser muito interessante�� considerou ele, quando Pituco j� se afastava do templo.</p><p>Na escala de conversas fiadas, esse coment�rio marcaria pouqu�ssimos pontos, mas Mortimer n�o conseguiu pensar em nada melhor.</p><p>��N�o �, n�o�� refutou o abade.�� Voc� imagina que sim porque acha que me lembro de todas as vidas, mas n�o me lembro. Pelo menos, n�o enquanto estou vivo.</p><p>��Eu n�o tinha pensado nisso�� admitiu Mort.</p><p>��Imagine aprender a usar o banheiro cinq�enta vezes.</p><p>��N�o ter nada para recordar...�� arriscou Mort.</p><p>��Exatamente. Se eu pudesse voltar no tempo, n�o reencarnaria. E, quando come�o a pegar o jeito das coisas, os rapazes descem do mosteiro procurando um menino que tenha sido gerado no momento em que o abade morreu. Falta de imagina��o pouca � bobagem. Pare aqui, por favor.</p><p>Mortimer olhou para baixo.</p><p>��Mas estamos em pleno ar�� objetou, sem muita certeza.</p><p>��N�o vai demorar nada.</p><p>O abade desceu, deu alguns passos sobre o nada e gritou. Pareceu transcorrer um longo tempo. Ent�o o abade voltou a montar Pituco.</p><p>��Nem sei mais h� quanto tempo espero por isso�� disse. Num vale baixo a alguns quil�metros do templo, havia uma aldeia que funcionava como uma esp�cie de ind�stria de servi�o. De cima, parecia uma prolifera��o aleat�ria de cabanas pequenas mas totalmente � prova de som.</p><p>��Qualquer lugar serve�� avisou o abade.</p><p>Mortimer o deixou a alguns metros da neve, num lugar onde parecia haver mais cabanas.</p><p>��Espero que a pr�xima vida seja melhor�� disse. O abade encolheu os ombros.</p><p>��A esperan�a � a �ltima que morre�� observou.�� De qualquer forma, tenho um intervalo de nove meses. A vista n�o � maravilhosa, mas pelo menos � quentinho.</p><p>��Ent�o tchau�� gritou Mort.�� Tenho de correr.</p><p>��Au revoir�� falou o abade, com tristeza, e se virou.</p><p>Os raios das luzes do Centro ainda bruxuleavam na paisagem. Mortimer suspirou e pegou a terceira ampulheta.</p><p>A estrutura era prateada, ornamentada com pequenas coroas, Quase j� n�o havia areia alguma.</p><empty-line/><p>Imaginando que a noite j� tivesse dado tudo o que lhe cabia e n�o pudesse piorar, Mortimer girou o vidro para dar uma olhada no nome...</p><empty-line/><p>A princesa Keli acordou.</p><p>Antes houvera um som como de algu�m n�o fazendo barulho nenhum. Esque�a sapatinhos de cristal�� com o passar dos anos a pr�pria sele��o natural havia determinado que as fam�lias reais que sobreviviam mais tempo eram aquelas cujos membros sabiam distinguir o assassino, no escuro, pelo barulho que ele tinha a dec�ncia de n�o fazer, porque, nos altos c�rculos, sempre havia algu�m pronto para dar cabo do herdeiro.</p><p>A princesa ficou parada na cama, pensando no que fazer em seguida. Havia um punhal debaixo do travesseiro. Ela come�ou a deslizar a m�o sobre o len�ol, enquanto corria os olhos entreabertos pelo quarto, � procura de sombras estranhas. Sabia muito bem que, se de algum modo revelasse n�o estar dormindo, jamais acordaria outra vez.</p><p>Pelo janel�o, entrava um pouco de luz no quarto, mas as armaduras, tape�arias e apetrechos diversos que abarrotavam o aposento poderiam dar cobertura para um ex�rcito.</p><p>O punhal havia ca�do atr�s da cama. De qualquer forma, ela provavelmente n�o o teria usado de maneira adequada.</p><p>Gritar pelos guardas n�o era uma boa id�ia, decidiu ela. Se havia algu�m no quarto, os guardas j� deveriam ter sido dominados ou ao menos rendidos por uma bela quantia de dinheiro.</p><p>Havia uma panela utilizada para aquecer a cama perto da lareira. Ser� que serviria como arma?</p><p>Houve um leve som met�lico.</p><p>Talvez gritar n�o fosse t�o m� id�ia afinal de contas...</p><p>A janela implodiu. Por um instante, Keli p�de ver, emoldurado contra um inferno de chamas roxas e azuis, um vulto encapuzado montado sobre o maior cavalo em que j� deitara olhos.</p><p>Havia algu�m parado perto da cama, com uma faca semi-erguida.</p><p>Em c�mera lenta, ela observou, fascinada, o bra�o subir e o cavalo galopar na velocidade de uma geleira pelo quarto. Agora estava sobre ela, come�ando a descer, o cavalo recuava e o cavaleiro se encontrava de p� nos estribos, agitando um tipo de faca, e ent�o a l�mina cortou o ar com o barulho de um dedo raspando a borda de um copo molhado...</p><p>A luz desapareceu. Houve um baque macio no ch�o, acompanhado de um tinido met�lico.</p><p>Keli respirou fundo.</p><p>Algu�m lhe meteu a m�o na boca, e uma voz preocupada disse:</p><p>��Se voc� gritar, vou me arrepender. Por favor. J� estou em apuros suficientes.</p><p>Qualquer pessoa que manifestasse aquela medida de s�plica na voz era ou sincero, ou um ator t�o talentoso que n�o teria de se meter em assassinatos para ganhar a vida. Ela perguntou:</p><p>��Quem � voc�?</p><p>��N�o sei se posso dizer�� respondeu a voz.�� Voc� ainda est� viva?</p><p>Ela engoliu a resposta ir�nica a tempo. Alguma coisa no tom da pergunta a inquietou.</p><p>��N�o d� para ver?�� indagou.</p><p>��N�o � t�o f�cil...�� Houve uma pausa.</p><p>Ela for�ou a vista para enxergar na escurid�o, dar um rosto � voz.</p><p>��Pode ser que eu tenha lhe causado um mal terr�vel�� acrescentou o desconhecido.</p><p>��N�o acabou de salvar minha vida?</p><p>��Na verdade, n�o sei o que salvei. Tem luz aqui?</p><p>���s vezes, a criada deixa f�sforos no consolo da lareira�� informou Keli.</p><p>Ela sentiu o vulto se afastar. Ouviu alguns passos hesitantes, dois baques e por fim um retintim, embora a palavra n�o seja suficiente para descrever a verdadeira disson�ncia de metais que encheu o quarto. O barulho foi acompanhado at� pelo tradicional tlintlim alguns segundos depois de imaginarmos que estava tudo acabado.</p><p>Um tanto indistinta, a voz disse:</p><p>��Estou debaixo de uma armadura. Onde � que eu deveria estar?</p><p>Keli desceu da cama, seguiu tateando at� a lareira, localizou o feixe de f�sforos pela luz fraca do fogo agonizante, riscou um deles numa explos�o de fuma�a, acendeu uma vela, achou a pilha de armadura desmembrada, tirou a espada de sua bainha e ent�o quase engoliu a pr�pria l�ngua.</p><p>Algu�m havia acabado de dar um sopro quente e molhado em seu ouvido.</p><p>��� o Pituco�� explicou o sujeito debaixo da armadura.�� S� est� tentando ser simp�tico. Imagino que queira um pouco de capim, se tiver.</p><p>Com autocontrole real, Keli disse:</p><p>��Este � o quarto andar. Um quarto de mulher. Voc� ficaria surpreso com a quantidade de cavalos que n�o temos aqui.</p><p>��Ah. Pode me ajudar a levantar?</p><p>Ela baixou a espada e removeu o peitoral. Um rosto branco e fino a encarou.</p><p>��Primeiro � melhor voc� me explicar por que eu n�o deveria chamar os guardas�� amea�ou ela.�� S� de entrar no meu quarto j� � motivo suficiente para ser torturado at� a morte.</p><p>Ela o fitou.</p><p>Por fim, ele disse:</p><p>��Bem... pode soltar minha m�o, por favor? Obrigado... Em primeiro lugar os guardas provavelmente n�o me veriam, em segundo lugar voc� nunca vai descobrir por que estou aqui e parece que detestaria n�o saber, e em terceiro lugar...</p><p>��Em terceiro lugar o qu�?�� irritou-se ela.</p><p>A boca dele se abriu e fechou. Mortimer queria dizer: em terceiro lugar voc� � linda, ou pelo menos muito bonita, ou bem mais bonita do qualquer outra menina que eu j� tenha visto, embora eu reconhe�a que n�o tenha visto muitas. A partir disso podemos deduzir que a sinceridade nata de Mortimer jamais far� dele um poeta. Se Mortimer comparasse alguma garota a um dia de ver�o, seguiria uma explica��o ponderada de que dia era aquele e se estava chovendo na ocasi�o. Assim sendo, foi bom que perdesse a voz.</p><p>Keli suspendeu a vela e olhou a janela.</p><p>Estava inteira. Os marcos de pedra se encontravam intactos. Todas as vidra�as, com o bras�o de Sto Lat, pareciam inc�lumes. Ela voltou os olhos para Mortimer.</p><p>��Esque�a o terceiro lugar�� disse.�� Vamos voltar ao segundo.</p><p>Uma hora mais tarde, a alvorada chegava � cidade. No Disco, por ser retardada pelo campo m�gico do mundo, a luz do sol flutua em vez de correr, e ent�o avan�ou pelas terras planas como um mar dourado. Por um instante, a montanha da cidade se sobressaiu como um castelo de areia na correnteza, at� que o dia a contornasse e subisse.</p><p>Mortimer e Keli estavam sentados lado a lado na cama. A ampulheta se encontrava no meio dos dois. N�o havia nem um gr�o de areia no vaso superior.</p><p>Do lado de fora, vinha o barulho do castelo despertando.</p><p>��Ainda n�o entendo�� protestou ela.�� Isso quer dizer que estou morta ou n�o?</p><p>��Quer dizer que deveria estar�� respondeu ele��, de acordo com o destino ou o que for. N�o estudei a teoria.</p><p>��E voc� deveria ter me matado?</p><p>��N�o! Quer dizer, n�o, o assassino deveria t�-la matado. J� expliquei isso�� apontou Mort.</p><p>��Por que n�o o deixou?</p><p>Horrorizado, Mortimer a encarou.</p><p>��Voc� queria morrer?</p><p>��Claro que n�o. Mas parece que o que as pessoas querem n�o interessa. Estou tentando ser sensata.</p><p>Mortimer fitou os pr�prios joelhos. Ent�o se levantou.</p><p>��� melhor eu ir andando�� anunciou, com frieza. Dobrou a foice e meteu-a na bainha atr�s da sela. Depois olhou para a janela.</p><p>�� Voc� veio por ali�� lembrou Keli.�� Olha, quando eu falei...</p><p>��Ela abre?</p><p>��N�o. Tem uma varanda ao longo do corredor. Mas v�o ver voc�!</p><p>Mortimer a ignorou, abriu a porta e conduziu Pituco para o corredor. Keli correu atr�s deles. Uma empregada de passagem parou, fez rever�ncia e franziu levemente a testa quando seu c�rebro recha�ou a id�ia de que um cavalo imenso caminhava sobre o tapete.</p><p>A varanda dava vista para um dos jardins internos. Mortimer olhou para al�m do parapeito e montou Pituco.</p><p>��Cuidado com o duque�� avisou.�� Ele est� por tr�s disso.</p><p>��Meu pai sempre me advertiu em rela��o a ele�� confirmou a princesa.�� Tem um criado que prova minha comida.</p><p>��Contrate um guarda-costas tamb�m�� sugeriu Mort.�� Agora preciso ir. Tenho coisas importantes a fazer. Adeus�� acrescentou, no que esperava ser o tom certo de orgulho ferido.</p><p>��Vou v�-lo outra vez?�� perguntou Keli.�� Tem muita coisa que eu gostaria de...</p><p>��Se pensar bem, talvez n�o seja uma boa id�ia�� considerou Mort.</p><p>Ele estalou a l�ngua, e Pituco saltou para o c�u azul da manh�.</p><p>��Eu queria lhe agradecer!�� gritou Keli.</p><p>A empregada, que n�o conseguira se livrar da sensa��o de que alguma coisa estava errada e seguira a ama, perguntou:</p><p>��A senhorita est� bem?</p><p>Distra�da, Keli olhou para ela.</p><p>��O qu�?�� indagou.</p><p>��Eu s� perguntei... se estava tudo bem?</p><p>Keli deixou os ombros ca�rem.</p><p>��N�o�� respondeu.�� Est� tudo errado. Tem um assassino morto no meu quarto. Ser� que voc� pode fazer alguma coisa a respeito? E...�� ela ergueu a m�o�� ... n�o quero que voc� diga �Morto, senhorita?� ou �Assassino, senhorita?�, nem grite, nem nada disso. S� quero que resolva o assunto. Em sil�ncio. Acho que estou com enxaqueca. Ent�o apenas confirme com a cabe�a.</p><p>A empregada confirmou com a cabe�a, fez uma vaga rever�ncia e se afastou.</p><empty-line/><p>Mortimer n�o sabia ao certo como havia chegado em casa. O c�u apenas mudou de azul-celeste para cinza-l�gubre quando Pituco se enfiou na brecha entre as dimens�es. Ele n�o pousou na terra escura da grande propriedade de Morte; ela simplesmente estava ali, sob seus p�s, como se um porta-avi�es se alojasse com suavidade debaixo do jato para poupar ao piloto todo o trabalho da aterrissagem.</p><p>O enorme cavalo trotou para o est�bulo e se deteve � porta, balan�ando o rabo. Mortimer desceu e correu para casa.</p><p>E parou e correu de volta e encheu a manjedoura e correu para casa e parou e murmurou para si mesmo e correu de volta e esfregou o p�lo do cavalo e verificou o balde de �gua e correu para casa e correu de volta e tirou o cobertor do gancho na parede e cobriu o cavalo. Pituco lhe deu uma leve e gloriosa focinhada.</p><p>N�o parecia ter ningu�m acordado quando Mortimer entrou pela porta dos fundos e seguiu para a biblioteca, onde mesmo �quela hora da noite o ar parecia feito de poeira quente e seca. Foi como se anos tivessem passado at� ele localizar a biografia da princesa Keli, mas acabou achando-a. Era um volume terr�velmente fino e estava numa prateleira que s� se alcan�ava com a escada da biblioteca�� a fr�gil estrutura de rodinhas que parecia um antigo instrumento de guerra.</p><p>Com os dedos tr�mulos, ele abriu a �ltima p�gina e soltou um gemido.</p><p>��O assassinato da princesa aos 15 anos de idade�� leu em voz alta�� resultou na uni�o de Sto Lat com Sto Helit e, indiretamente, no colapso das cidades-estados da plan�cie central e na ascens�o do...</p><p>Ele continuou lendo, incapaz de parar. De vez em quando, gemia mais uma vez.</p><p>Por fim, deixou o livro de lado, balbuciou qualquer coisa e escondeu-o atr�s dos outros volumes. Ao descer a escada, ainda podia senti-lo ali, alardeando sua incriminadora exist�ncia para o mundo.</p><p>No Disco, poucos navios realizavam travessias oce�nicas. Nenhum capit�o gostava da id�ia de se aventurar para al�m de onde alcan�avam os olhos. Era fato que os navios que a dist�ncia pareciam cair da beira do mundo n�o estivessem sumindo no horizonte, mas realmente despencando.</p><p>De tempos em tempos, algum navegante entusiasmado duvidava disso e partia para contestar sua validade. Por estranho que pare�a, nenhum deles jamais voltava a fim de anunciar o resultado das explora��es.</p><p>A seguinte analogia, portanto, n�o teria nenhum significado para Mortimer.</p><p>Ele se sentia como se viesse naufragando no Lusit�nia, mas na hora H fosse salvo. Pelo Titanic.</p><p>Sentia-se como se tivesse atirado uma bola de neve ao acaso e agora observasse a avalanche decorrente engolir tr�s est�ncias de esqui.</p><p>Sentia a Hist�ria se desenredar � volta.</p><p>Sentia necessidade de falar com algu�m, r�pido.</p><p>Teria de ser Albert ou Ysabell, porque a id�ia de explicar tudo �queles min�sculos pontinhos azuis era inconceb�vel depois dessa longa noite. Nas raras vezes em que Ysabell se dignara a olhar na dire��o dele, deixara claro que a �nica diferen�a entre Mortimer e um sapo morto era a colora��o. Quanto a Albert...</p><p>Tudo bem, n�o era o confidente ideal, mas sem d�vida o melhor num time de um.</p><p>Mortimer desceu os degraus e avan�ou por entre as estantes. Algumas horas de sono tamb�m n�o cairiam mal.</p><p>Ent�o ouviu um arquejo, o barulho de p�s correndo e a batida de uma porta. Quando espiou a estante mais pr�xima, n�o havia nada al�m de um banco com dois livros em cima. Pegou um deles e olhou o nome, ent�o leu algumas p�ginas. Do lado, havia um len�o de renda �mido.</p><p>Mortimer levantou tarde e correu para a cozinha, esperando pelas lam�rias da reprimenda. Nada aconteceu.</p><p>Albert estava na frente da pia de pedra, meditando, com o olhar na frigideira, talvez a imaginar se era hora de trocar o �leo ou deix�-lo esperar mais um ano. Deu meia-volta quando Mortimer sentou numa cadeira.</p><p>��Ent�o voc� teve uma noite agitada�� disse.�� Vagabundeando at� altas horas, eu ouvi. Posso preparar um ovo. E tamb�m tem mingau.</p><p>��Ovo, por favor�� pediu Mort.</p><p>Nunca juntara coragem suficiente para experimentar o mingau de Albert, que parecia levar uma vida aut�noma nas profundezas da panela e comia colheres.</p><p>��Depois o patr�o quer v�-lo�� acrescentou Albert.�� Mas disse que n�o havia pressa.</p><p>��Ah.</p><p>Mortimer fixou os olhos na mesa:</p><p>��Disse mais alguma coisa?</p><p>��Que em mil anos n�o tirava uma noite de folga�� respondeu Albert.�� Estava cantando. N�o gosto nada disso. Nunca o vi assim.</p><p>��Ah.</p><p>Mortimer arriscou:</p><p>��Albert, faz muito tempo que o senhor est� aqui?</p><p>O cozinheiro o fitou por sobre o aro dos �culos.</p><p>��Talvez�� respondeu.�� � dif�cil ter no��o do tempo l� fora, garoto. Estou aqui desde que o rei morreu.</p><p>��Que rei?</p><p>��Acho que se chamava Artorollo. Sujeito atarracado. De voz aguda. S� o vi uma vez.</p><p>��Onde foi isso?</p><p>��Em Ankh, � claro.</p><p>��O qu�?�� surpreendeu-se Mort.�� N�o existe rei em Ankh-Morpork, todo mundo sabe disso!</p><p>��Eu falei que j� tinha algum tempo�� defendeu-se Albert.</p><p>Ent�o se serviu da chaleira pessoal de Morte e sentou com ar sonhador nos olhos endurecidos. Mortimer aguardava, apreensivo.</p><p>��E existiam reis naquela �poca, reis de verdade, n�o como esses de hoje em dia. Eram monarcas�� continuou Albert, derramando com cuidado um pouco do ch� no pires e abanando-o com a ponta do cachecol.�� Quer dizer, eram inteligentes e razo�veis, bem, razoavelmente inteligentes. E n�o pensavam duas vezes na hora de cortar a cabe�a de ningu�m�� acrescentou, em tom de aprova��o.�� Todas as rainhas eram altas, p�lidas e usavam uma esp�cie de balaclava...</p><p>��Touca?�� perguntou Mort.</p><p>���, e as princesas eram lindas como � longo o dia e t�o nobres que s� andavam com safadinhos de crist....</p><p>��O qu�?</p><p>Albert hesitou.</p><p>��Alguma coisa assim�� disse.�� E tinha festas, torneios e execu��es. Eram dias de gl�ria!</p><p>Ele sorriu sonhadoramente com as lembran�as.</p><p>��N�o como os dias de hoje�� irritou-se, emergindo do devaneio.</p><p>��Voc� tem outros nomes, Albert?�� perguntou Mort.</p><p>Mas o feiti�o havia se quebrado e o homem n�o se deixaria levar.</p><p>��Ah, j� sei�� rebateu ele.�� Basta descobrir o nome do Albert e procur�-lo na biblioteca, n�o �? Espreitar, bisbilhotar. Conhe�o voc�, enfiado l� a toda hora, lendo a vida das jovens...</p><p>Os arautos da culpa devem ter brandido suas embaciadas cornetas no fundo dos olhos de Mortimer, porque Albert soltou uma risada e cutucou o rapaz com o dedo ossudo.</p><p>��Voc� pelo menos poderia bot�-los no lugar certo�� advertiu��, e n�o deixar pilhas por toda parte para o velho Albert guardar. De qualquer forma, � errado paquerar as coitadinhas mortas. Provavelmente deixa a pessoa cega.</p><p>��Mas eu s�...�� come�ou Mort, ent�o se lembrou do len�o de renda �mido no bolso e se calou.</p><p>Deixou Albert lavando a lou�a, murmurando para si mesmo, e voltou para a biblioteca. Das janelas mais altas, a luz do sol se lan�ava, suave, desbotando as capas dos livros antigos. De vez em quando, um gr�o de poeira refletia a luz ao flutuar pelos raios dourados e brilhava como uma supernova em miniatura.</p><p>Mortimer sabia que, se ouvisse com aten��o, poderia escutar o rangido dos livros escrevendo a si mesmos.</p><p>No passado, Mortimer teria achado tudo muito estranho. Agora era... tranq�ilizante. Demonstrava que o universo seguia seu curso natural. A consci�ncia dele, que s� vinha buscando a oportunidade, teve prazer em lembr�-lo de que, tudo bem, o mundo podia at� estar seguindo seu curso natural, mas com certeza n�o rumava na dire��o certa.</p><p>Ele avan�ou pelo labirinto de prateleiras at� a misteriosa pilha de livros e descobriu que n�o se encontrava mais l�. Albert n�o sa�ra da cozinha, e Mortimer jamais vira o pr�prio Morte entrar na biblioteca. Ent�o o que � que Ysabell estava procurando?</p><p>Ele olhou a montanha de livros acima e sentiu uma pontada no est�mago quando pensou no que estava come�ando a acontecer.</p><p>N�o tinha jeito. Ele precisava contar para algu�m.</p><empty-line/><p>Nesse meio tempo, Keli tamb�m vinha achando a vida um tanto dif�cil.</p><p>Isso porque a causalidade possui um grande poder de in�rcia. O golpe imprudente de Mortimer, desferido por desespero, raiva e amor nascente, havia lan�ado a causalidade num novo caminho, mas ela ainda n�o notara. Ele tinha chutado o rabo do dinossauro, mas levaria algum tempo para a outra ponta perceber que era hora de dizer �ai�.</p><p>Em poucas palavras, o universo sabia que Keli estava morta e portanto se encontrava surpreso ao ver que ela n�o havia parado de andar ou respirar.</p><p>Isso se revelava nas pequenas coisas. Os cortes�os que dirigiram a ela olhares furtivos pela manh� n�o saberiam dizer por que a vis�o da princesa lhes deixava extremamente incomodados. Para constrangimento deles e irrita��o dela, todos come�aram a ignor�-la ou lhe falar em tom apressado.</p><p>O camareiro descobriu que havia mandado hastear a bandeira real pela metade e por nada nessa vida conseguia explicar por qu�. Acabou sendo levado para a cama com uma leve desordem nervosa depois de encomendar cem metros de tecido preto sem nenhuma raz�o aparente.</p><p>A estranha sensa��o de irrealidade logo se espalhou pelo castelo. O cocheiro-chefe pediu que o cadafalso estatal fosse novamente encerado, depois chorou no est�bulo por n�o lembrar o motivo. Os empregados atravessavam os corredores em sil�ncio. O cozinheiro teve de vencer o irresist�vel impulso de preparar pratos simples de frios. Os cachorros uivaram e ent�o pararam, sentindo-se tolos. Os dois cavalos negros que tradicionalmente puxavam o cortejo funeral de Sto Lat ficaram irrequietos em suas baias e quase coicearam um cavalari�o at� a morte.</p><p>No castelo de Sto Helit, o duque em v�o aguardou um mensageiro que de fato havia partido naquela dire��o mas se deteve ao longo do caminho, incapaz de lembrar o que tinha de fazer.</p><p>Em meio a tudo isso, Keli se movimentava como um fantasma concreto e cada vez mais irritado.</p><p>As coisas chegaram ao limite na hora do almo�o. Ela entrou no sal�o principal e notou que n�o havia lugar em frente � cadeira real. Falando em alto e bom som com o mordomo, conseguiu corrigir a falta, mas ent�o viu os pratos passarem por ela antes que pudesse se servir. Incr�dula, observou o vinho ser levado primeiro ao lorde do Conselho Mimado.</p><p>N�o foi nada principesco, mas ela esticou a perna e passou uma rasteira no gar�om que servia o vinho. Ele trope�ou, balbuciou qualquer coisa e olhou para o ch�o.</p><p>Ela se inclinou para o outro lado e gritou no ouvido do Capit�o dos Porcos:</p><p>��Voc� n�o est� me enxergando? Por que temos de comer salame e presunto?</p><p>Ele interrompeu a conversa com a Mulher do Pequeno Quarto Hexagonal na Torre do Norte, dirigiu a Keli um olhar demorado em que o choque logo cedeu lugar a uma esp�cie de atordoamento difuso, e respondeu:</p><p>��Ora, claro... estou... h�...</p><p>��Sua Alteza�� lembrou Keli.</p><p>��Mas... �... Sua Alteza�� murmurou o capit�o. Houve uma longa pausa.</p><p>Ent�o, como se voltasse a si, ele lhe deu as costas e retomou a antiga conversa.</p><p>Por um instante, Keli se limitou a ficar ali sentada, branca de raiva e estupefa��o, ent�o afastou a cadeira e saiu correndo para os seus aposentos. Dois empregados que dividiam um cigarro no corredor foram atropelados por algo que n�o conseguiram divisar.</p><p>Keli entrou no quarto e puxou a corda que deveria ter feito a criada sair em disparada da sala de espera, no fim do corredor, e se apresentado. Durante algum tempo nada aconteceu, ent�o a porta se abriu devagar e um rosto se enfiou pela fresta.</p><p>Dessa vez, a princesa reconheceu a fisionomia e j� estava preparada. Agarrou a empregada pelos ombros e arrastou-a para dentro do quarto, fechando a porta. Como a mulher apavorada olhasse para todos os lados menos para ela, Keli abriu a m�o e lhe deu um tapa no rosto.</p><p>��Sentiu isso? Sentiu?�� berrou ela.</p><p>��Mas... a senhorita...�� sussurrou a criada, recuando at� dar na cama e cair sentada sobre ela.</p><p>��Olhe para mim! Olhe para mim quando falo com voc�!�� exigiu Keli, avan�ando para a menina.�� Voc� est� me vendo, n�o est�? Diga que est� ou vou mandar execut�-la!</p><p>A criada fitou os olhos horrorizados da princesa.</p><p>��Estou vendo�� admitiu ela.�� Mas...</p><p>��Mas o qu�? Mas o qu�?</p><p>��A senhorita est�... eu ouvi dizer... achei...</p><p>��Achou o qu�?�� perguntou Keli.</p><p>Ela j� n�o gritava mais. As palavras sa�am como a�oites.</p><p>A criada desatou a chorar. Por um instante, Keli ficou batendo o p� no ch�o, depois sacudiu de leve a mulher.</p><p>��Tem algum mago na cidade?�� indagou ela.�� Olhe para mim, para mim. Tem um mago, n�o tem? As meninas est�o sempre fugindo do trabalho para falar com o mago! Onde ele mora?</p><p>A mulher voltou o rosto molhado de l�grimas para ela, lutando contra todos os instintos a lhe afirmarem que a princesa n�o mais existia.</p><p>��H�... mago, �... Cort�ngulo, na Rua do Muro...</p><p>Os l�bios de Keli se abriram num sorriso. Ela se perguntou onde ficavam guardadas as capas, mas a raz�o lhe disse que seria mais f�cil ach�-las por conta pr�pria do que tentar se impor � empregada. Decidiu esperar, observando com aten��o o desenrolar dos acontecimentos: a mulher parou de solu�ar, olhou � volta ligeiramente espantada e saiu correndo do quarto.</p><p>J� me esqueceu, pensou. Olhou as pr�prias m�os. Pareciam s�lidas o bastante.</p><p>Aquilo tinha de ser magia.</p><p>Ela entrou no closet e abriu alguns arm�rios, at� achar uma capa preta com capuz. Vestiu-a, saiu para o corredor e desceu a escada de servi�o.</p><p>N�o andava por ali desde pequena. Aquele era o mundo dos arm�rios de roupa de cama, mesa e banho, dos c�modos simples e dos carrinhos de servi�o. Cheirava a p�o levemente dormido.</p><p>Keli seguia como um espectro materializado. Sabia da exist�ncia do alojamento de empregados, � claro, da mesma forma que as pessoas sabem da exist�ncia de sarjetas e esgotos, e estava pronta para admitir que, embora fossem todos muito parecidos, deveria haver algumas caracter�sticas particulares pelas quais seus entes queridos presumivelmente pudessem identific�-los. Mas n�o estava pronta para ver coisas como Moghedron, o criado encarregado da adega�� que at� ent�o s� considerara uma figura imponente, sempre se locomovendo como um navio a todo vapor��, sentado na despensa, com o palet� aberto e fumando cachimbo.</p><p>Duas criadas passaram correndo por ela, dando risadas. Keli seguiu adiante, ciente de que de algum modo estava invadindo seu pr�prio castelo.</p><p>E isso, notou, acontecia porque aquele castelo n�o era de forma alguma seu. O mundo barulhento ao redor, com lavanderias fumegantes e copas frias, n�o pertencia a ningu�m. Ela n�o poderia possu�-lo. Talvez ele a possu�sse.</p><p>Pegou uma coxa de galinha na mesa da cozinha maior�� uma caverna coberta por tantas panelas que mais parecia um arsenal para tartarugas�� e sentiu a desconhecida emo��o de roubar. Roubar! No seu pr�prio reinado! E o cozinheiro olhou atrav�s dela, com os olhos vidrados.</p><p>A princesa correu pelo est�bulo at� o port�o dos fundos, passando por dois guardas cujos olhares duros n�o conseguiram not�-la.</p><p>Na rua, n�o foi t�o terr�vel, mas ainda se sentia estranhamente nua. Era irritante estar entre indiv�duos que seguiam fazendo suas coisas sem se incomodar de olhar para a pessoa, quando toda a experi�ncia de mundo da pessoa era t�-lo girando ao seu redor. Os pedestres davam encontr�o na pessoa e se afastavam, por um breve espa�o de tempo se perguntando no que haviam batido, e a pessoa v�rias vezes tinha de correr de carro�as.</p><p>A coxa de galinha n�o fora suficiente para preencher o buraco deixado pela falta do almo�o, e ela roubou duas ma��s de uma barraca, fazendo uma anota��o mental para pedir ao camareiro que descobrisse o pre�o das frutas e enviasse o dinheiro ao dono da barraca.</p><p>Desgrenhada, um tanto encardida e cheirando levemente a bosta de cavalo, ela chegou afinal � porta de Cortabem. A aldrava lhe deu algum trabalho. Em sua experi�ncia, as portas se abriam sozinhas; havia pessoas especiais designadas para isso.</p><p>Tentou outra vez e imaginou ouvir o ru�do distante de algo se quebrando. Depois de algum tempo, a porta se abriu por alguns cent�metros e ela entreviu um rosto redondo, rubro, coroado por cabelos encaracolados. O p� direito dela a surpreendeu por se meter espertamente na fresta.</p><p>��Exijo ver o mago�� anunciou.�� Pe�o que me receba imediatamente.</p><p>��Ele est� ocupado no momento�� disse o rosto.�� Voc� estava querendo uma po��o do amor?</p><p>��Uma o qu�?</p><p>��O ung�ento Campo da Paix�o Cortabem est� em promo��o�� sugeriu o homem, e piscou o olho.�� Proporciona um maravilhoso leito de rosas garantindo o malogro da safra, se � que me entende.</p><p>Keli ergueu a cabe�a.</p><p>��N�o�� mentiu, com frieza.�� N�o entendo.</p><p>��Termo de Donzela? L�grima de Beladona?</p><p>��Eu exijo...</p><p>��Sinto muito, estamos fechados�� desculpou-se o homem, e bateu a porta.</p><p>Keli tirou o p� a tempo.</p><p>Balbuciou algumas palavras que deixariam seus tutores perplexos e esmurrou a madeira.</p><p>De repente, as batidas se espa�aram, e a princesa entendeu o que havia acabado de acontecer.</p><p>Ele a tinha visto! Ele a tinha visto!</p><p>Golpeou a porta com vigor renovado, gritando a plenos pulm�es.</p><p>Uma voz ao seu ouvido disse:</p><p>��N�o adianta. Ele � muito cabeza-dura.</p><p>Ela correu os olhos � volta e se deparou com o olhar impertinente da aldrava. O objeto balan�ou as sobrancelhas de metal para ela e falou de maneira indistinta atrav�s da argola de ferro batido.</p><p>��Eu sou a princesa Keli, herdeira ao trono de Sto Lat�� avisou, orgulhosa, contendo seu pavor.�� E n�o falo com acess�rios de porta.</p><p>��Bem, eu zou z� uma aldrava e pozo falar com quem quiser�� afirmou a g�rgula, satisfeita.�� A� pozo dizer que o patr�o est� tendo um dia dif�zil e n�o quer zer incomodado. Mas voz� poderia tentar a palavrinha m�gica�� acrescentou.�� Vindo de uma mulher bonita, funziona noventa porzento das vezes.</p><p>��Palavrinha m�gica? Que palavrinha m�gica?</p><p>A aldrava riu.</p><p>��Dona, zer� que n�o lhe enzinaram nada?</p><p>Ela se empertigou. Tamb�m vinha tendo um dia dif�cil. O pai executara uma centena de inimigos em guerra. Ela daria conta de uma aldrava.</p><p>��Eu fui ensinada�� informou, em bom tom�� pelos melhores professores do pa�s.</p><p>A aldrava n�o pareceu impressionada.</p><p>��Ze n�o lhe enzinaram a palavrinha m�gica�� advertiu, calmamente��, n�o podem zer t�o bons azim.</p><p>Keli estendeu a m�o, pegou a argola pesada e bateu-a na porta. A aldrava olhou de esguelha para ela.</p><p>��Com forza!�� pediu.�� Azim, que eu gozto!</p><p>��Voc� � nojento!</p><p>��Ahh, que del�zia, de novo...</p><p>Abriu-se uma brecha na porta. Era poss�vel divisar o cabelo encaracolado.</p><p>��Senhorita, eu j� disse que estamos fech...</p><p>Keli entregou os pontos.</p><p>��Por favor me ajude�� disse.�� Por favor!</p><p>��Ezt� vendo?�� perguntou a aldrava, triunfante.�� Maiz zedo ou maiz tarde todo mundo lembra a palavrinha m�gica!</p><p>Keli j� comparecera a solenidades em Ankh-Morpork e havia conhecido magos seniores da Universidade Invis�vel, a maior faculdade de magia do Disco. Alguns eram altos, muitos eram gordos e quase todos sempre se encontravam imponentemente vestidos, ou ao menos acreditavam nisso.</p><p>Na verdade, assim como nas artes mundanas, existem modismos na magia, e a tend�ncia de parecer um vereador anci�o era apenas tempor�ria. Gera��es anteriores j� seguiram o objetivo de parecer p�lidas e interessantes, dru�dicas e sujas, ou misteriosas e sombrias. Mas Keli estava acostumada com magos que eram uma esp�cie de montanha de p�los com voz chiada, e �gneo Cortabem n�o se encaixava bem nessa imagem.</p><p>Ele era novo. Bem, quanto a isso n�o se podia fazer nada�� at� os magos precisavam come�ar jovens. Mas tamb�m n�o tinha barba.</p><p>��Aceita uma bebida?�� ofereceu ele, sorrateiramente chutando uma t�nica para debaixo da mesa.</p><p>Keli procurou um lugar para se sentar que n�o estivesse ocupado com roupas sujas ou lou�a de barro usada e sacudiu a cabe�a. Cortabem notou sua fisionomia.</p><p>��Est� um pouco bagun�ado�� tratou de acrescentar, jogando os restos de uma ling�i�a no ch�o.�� A senhora Nugent sempre vem duas vezes por semana e limpa a casa para mim, mas viajou para visitar a irm�, que sofreu uma de suas crises. Tem certeza? � r�pido. Ontem mesmo vi uma x�cara limpa aqui.</p><p>��Seu Cortabem, estou com um problema�� disse Keli.</p><p>��Espere a�.</p><p>Ele estendeu o bra�o at� o gancho sobre a lareira e pegou um chap�u pontudo que j� vira dias melhores, embora pelo aspecto n�o tivessem sido t�o bons assim, e falou:</p><p>��Certo. Mande l�.</p><p>��O que tem de t�o importante no chap�u?</p><p>��Ah, � essencial. Precisamos estar com o chap�u adequado para magia. N�s, magos, sabemos disso.</p><p>��Se voc� est� dizendo... Voc� me enxerga?</p><p>Ele a fitou.</p><p>��Enxergo, enxergo. Sem d�vida diria que sim.</p><p>��E me ouve? Est� me ouvindo, n�o est�?</p><p>��Muito bem. Estou. Todas as s�labas tinindo no devido lugar. Sem problema.</p><p>��Ent�o ficaria surpreso se eu dissesse que ningu�m mais na cidade me v�?</p><p>��Al�m de mim?</p><p>Keli bufou.</p><p>��E sua aldrava.</p><p>Cortabem puxou uma cadeira e se sentou. Contorceu-se um pouco. Ganhou um ar pensativo. Ent�o se levantou, vasculhou o arm�rio de tr�s e desencavou uma massa avermelhada que um dia poderia ter sido meia pizza<a l:href="#n_2" type="note">[2]</a>. Encarou-a com ar melanc�lico.</p><p>��Acredita que passei a manh� inteira procurando por isso?�� perguntou.�� � de Todos os Sabores, com piment�es extras.</p><p>Come�ou a beliscar o neg�cio e de repente se lembrou de Keli.</p><p>��Nossa, me desculpe�� pediu.�� Onde est�o meus modos? O que voc� vai pensar de mim? Aqui. Pegue uma anchova. Por favor.</p><p>��Voc� n�o estava me ouvindo?�� irritou-se Keli.</p><p>��E voc� se sente invis�vel? Quer dizer, na sua cabe�a?�� perguntou Cortabem.</p><p>��Claro que n�o. S� sinto raiva. Ent�o quero que leia minha sorte.</p><p>��Bem, n�o sei, n�o. Parece mais assunto m�dico e...</p><p>��Eu pago.</p><p>��� ilegal, sabia?�� perguntou Cort�ngulo, com tristeza.�� O antigo rei proibiu a adivinha��o em Sto Lat. N�o gostava de magos.</p><p>��Pago bem.</p><p>��A senhora Nugent disse que a nova menina, a princesa, deve ser pior. Parece que � muito arrogante. N�o faz o tipo que olha com benevol�ncia para os praticantes das artes ocultas.</p><p>Keli sorriu. Os membros da corte que j� haviam presenciado esse sorriso teriam se apressado em arrastar Cortabem para um lugar seguro�� como outro continente��, mas ele apenas continuou ali, tentando catar peda�os de cogumelo da roupa.</p><p>��Entendo que ela tenha um temperamento dif�cil�� considerou Keli.�� Mas ainda assim n�o me surpreenderia se n�o o expulsasse da cidade.</p><p>��Ai, meu Deus�� murmurou Cortabem.�� Voc� acha?</p><p>��Olhe aqui�� disse Keli��, n�o precisa ler meu futuro, s� o presente. Nem a princesa faria obje��o a isso. Se quiser, posso trocar uma palavrinha com ela�� acrescentou, com ar de gente importante.</p><p>Cortabem se iluminou.</p><p>��Ah, voc� a conhece?�� perguntou.</p><p>��Conhe�o. Mas �s vezes acho que n�o muito bem.</p><p>Cortabem suspirou e vasculhou o entulho sobre a mesa, removendo pilhas de pratos velhos e os restos petrificados de v�rias refei��es. Por fim, desenterrou um estojo de couro grudado a uma fatia de queijo.</p><p>��Bem�� disse, sem muita convic��o��, essas s�o as cartas do Caro. A refinada sabedoria dos Antigos e tal. Tamb�m tem o Ching Aling, dos centrolandeses. E a coqueluche da alta-roda. N�o trabalho com folhas de ch�.</p><p>��Vou experimentar o Chinring.</p><p>��Ent�o jogue esses caules de milef�lio para o alto.</p><p>Ela obedeceu. Eles olharam o arranjo resultante.</p><p>��Hum�� soltou Cortabem, depois de um tempo.�� Bom, tem um na lareira, um na caneca de cacau, um na rua, que pena, a janela!, um na mesa e um, n�o, dois atr�s da c�moda. Espero que a senhora Nugent ache o resto.</p><p>��Voc� n�o disse com que for�a. Jogo outra vez?</p><p>��N-n��ao, acho que n�o.</p><p>Cortabem folheou as p�ginas do livro amarelado que antes estivera escorando a perna da mesa.</p><p>��Parece que o arranjo faz sentido. �, c� estamos, Octograma 8.887: Ilegalidade, o Ganso Irrepar�vel. Que cruzamos aqui... espere... espere... isso mesmo. Pronto.</p><p>��E a�?</p><p>��Sem verticalidade, sabiamente o imperador vermelho avan�a na hora do ch�; � noite o molusco faz sil�ncio entre as flores da amendoeira.</p><p>��E ent�o?�� indagou Keli, com rever�ncia.�� O que quer dizer?</p><p>��A menos que voc� seja um molusco, provavelmente nada�� admitiu Cortabem.�� Acho que alguma coisa deve ter se perdido na tradu��o.</p><p>��Tem certeza de que sabe fazer isso?</p><p>��Vamos tentar as cartas�� apressou-se em propor Cortabem, espalhando-as sobre a mesa.�� Escolha uma. Qualquer uma.</p><p>��� a morte!�� exclamou Keli.</p><p>��Ah. Bem. Obviamente, a carta da morte n�o significa morte em todos os casos�� explicou Cortabem.</p><p>��Voc� quer dizer que n�o significa morte nos casos em que o cliente est� cada vez mais animado e o adivinho fica sem gra�a em contar a verdade, n�o �?</p><p>��Pegue outra carta.</p><p>��Tamb�m � a morte�� apontou Keli.</p><p>��Voc� tinha devolvido aquela?</p><p>��N�o. Pego outra?</p><p>��Pode pegar.</p><p>��Que coincid�ncia!</p><p>��A terceira morte?</p><p>��Exatamente. � um baralho especial para pregar pe�as?</p><p>Keli tentou parecer tranq�ila, mas mesmo ela p�de detectar a leve insinua��o de histeria em sua voz.</p><p>Cortabem franziu a testa e levou cuidadosamente as cartas de volta ao baralho, misturou todas e abriu-as sobre a mesa, viradas para cima. S� havia uma morte.</p><p>��Ai, meu Deus!�� exclamou ele.�� Acho que isso vai ser s�rio. Posso ver a palma da sua m�o, por favor?</p><p>Ele a examinou durante um longo tempo. Depois se dirigiu � c�moda, tirou uma lente de aumento da gaveta, limpou o mingau ali incrustado com a manga do manto e passou mais alguns minutos inspecionando a m�o. Por fim, recostou-se, tirou a lente e olhou para ela.</p><p>��Voc� est� morta�� anunciou.</p><p>Keli se limitou a esperar. N�o conseguia pensar em nenhuma resposta apropriada. Faltava estilo a �N�o estou�, ao passo que �Jura?� parecia fr�volo demais.</p><p>��Eu disse que ia ser s�rio?�� perguntou Cortabem.</p><p>��Acho que sim�� respondeu Keli, tentando manter o equil�brio.</p><p>��Eu estava certo.</p><p>��Ah.</p><p>��Pode ser fatal.</p><p>��Mais fatal do que j� estar morta?</p><p>��N�o estava me referindo a voc�.</p><p>��Ah.</p><p>��Alguma coisa muito elementar parece ter desandado, entende? Voc� est� morta em todos os sentidos menos no, h�, real. Quer dizer, as cartas acham que voc� est� morta. Sua linha da vida acha que voc� est� morta. Tudo e todos acham que voc� est� morta.</p><p>��Eu n�o acho!�� contestou Keli, sem muita convic��o.</p><p>��Temo que sua opini�o n�o conte.</p><p>��Mas as pessoas me enxergam e me ouvem!</p><p>��A primeira coisa que aprendemos quando nos matriculamos na Universidade Invis�vel � que ningu�m d� muita aten��o a isso. O importante � o que a mente nos diz.</p><p>��Ent�o as pessoas n�o me enxergam porque suas mentes dizem para n�o me ver?</p><p>��Exatamente. Chama-se predestina��o ou algo assim.</p><p>Cortabem a fitou, com tristeza.</p><p>��Eu sou mago. Sabemos dessas coisas. Ali�s, n�o � a primeira coisa que aprendemos quando nos matriculamos�� acrescentou.�� Quer dizer, antes disso aprendemos onde ficam os banheiros e tal. Mas depois � a primeira coisa.</p><p>��S� que voc� me enxerga!</p><p>��Ah. Bem. Os magos s�o treinados para enxergar o que existe e n�o enxergar o que n�o existe. Tem uns exerc�cios especiais...</p><p>Keli tamborilou os dedos na mesa, ou ao menos tentou. Acabou n�o sendo f�cil. Olhou para baixo, com certo nojo.</p><p>Cortabem se adiantou para limpar a mesa com a manga do manto.</p><p>��Desculpe�� murmurou.�� Preparei uns sandu�ches de mela�o ontem � noite...</p><p>��O que posso fazer?</p><p>��Nada.</p><p>��Nada?</p><p>��Bem, com certeza poderia se tornar uma ladra muito bem-sucedida... desculpe. Foi de mau gosto da minha parte.</p><p>��Tamb�m achei.</p><p>Sem jeito, Cortabem lhe deu tapinhas na m�o, mas Keli estava preocupada demais para notar o crime flagrante de lesa-majestade.</p><p>��Sabe, tudo � determinado. A Hist�ria j� est� escrita, do come�o ao fim. Os fatos n�o importam; a Hist�ria passa por cima. N�o podemos mudar nada porque as mudan�as j� fazem parte dos acontecimentos. Voc� est� morta. � o destino. Vai ter de aceitar.</p><p>Ele abriu um sorriso escusat�rio.</p><p>��Voc� tem mais sorte do que a maioria dos mortos, se encarar a coisa de maneira objetiva�� continuou.�� Est� viva para aproveitar.</p><p>��Mas n�o aceito. Por que deveria? N�o � minha culpa!</p><p>��Voc� n�o entende. A Hist�ria continua. E voc� j� n�o faz parte dela. � melhor deixar as coisas seguirem seu rumo.</p><p>Ele outra vez lhe afagou a m�o. Ela o fitou. Ele recolheu a m�o.</p><p>��Ent�o o que devo fazer?�� perguntou ela.�� Deixar de comer porque a comida n�o se destina a mim? Ir viver numa caverna, em algum lugar distante?</p><p>��Paradoxal, n�o �?�� concordou ele.�� Mas � sua sina. Se o mundo n�o a enxerga, voc� n�o existe. Eu sou mago. Sabemos dessas...</p><p>��Pare de dizer isso.</p><p>Keli se levantou.</p><p>Cinco gera��es antes um de seus antepassados havia parado a alguns quil�metros da montanha de Sto Lat com seu bando de criminosos n�mades e contemplado a cidade adormecida com uma fisionomia particularmente determinada que dizia: �Essa serve. S� porque nascemos na sela n�o quer dizer que tenhamos de morrer sobre o maldito neg�cio�.</p><p>Por mais estranho que pare�a, muitas de suas caracter�sticas haviam, por artimanhas da hereditariedade, sido legadas �quela descendente<a l:href="#n_3" type="note">[3]</a>, o que lhe explicava a beleza um tanto idiossincr�tica. Mas nunca estiveram t�o patentes quanto agora. At� Cortabem ficou impressionado. Quando o assunto era determina��o, poder�amos quebrar pedras na cabe�a dela.</p><p>No mesmo tom de voz que o antepassado havia usado para se dirigir a seus disc�pulos exaustos e cobertos de suor antes do ataque<a l:href="#n_4" type="note">[4]</a>, ela disse:</p><p>��N�o, n�o e n�o! N�o aceito! N�o vou me reduzir a uma esp�cie de fantasma. Voc� vai me ajudar, mago.</p><p>Cortabem reconhecia aquela inflex�o. Ela era capaz de fazer at� os carunchos nas t�buas do ch�o pararem suas perfura��es e se porem em alerta. N�o exprimia uma opini�o, mas dizia: as coisas ser�o assim.</p><p>��Eu, dona?�� perguntou ele.�� Nem imagino como poderia...</p><p>Ele se viu i�ado da cadeira e puxado pela rua, com o manto esvoa�ando ao redor. Keli avan�ava em dire��o ao castelo com os ombros decididamente erguidos, arrastando o mago como a um cachorrinho relutante. � assim que as m�es costumam entrar na escola quando o filho chega em casa com o olho roxo. � irrefre�vel. � como a Marcha do Tempo.</p><p>��O que voc� pretende?�� gaguejou Cortabem, terrivelmente ciente de que n�o haveria nada que pudesse fazer para impedir o que quer que fosse.</p><p>��Mago, � seu dia de sorte.</p><p>��Ah, que bom�� balbuciou ele.</p><p>��Voc� acaba de ser nomeado reconhecedor real.</p><p>��Ah. E o que � isso exatamente?</p><p>��Vai lembrar a todo mundo que estou viva. � muito simples. Tr�s refei��es e roupa lavada. �nimo, homem.</p><p>��Real?</p><p>��Voc� � mago. Acho que tem uma coisa que precisa saber�� disse a princesa.</p><p>��TEM?�� perguntou Morte.</p><p>(Esse � um truque cinematogr�fico adaptado para o texto impresso). Morte n�o estava conversando com a princesa. Mas causou um �timo efeito, n�o causou? O artif�cio provavelmente se chama dissolu��o r�pida ou corte em zoom. Ou qualquer outra coisa. A ind�stria que chama um t�cnico veterano de contra-regra pode dar a isso o nome que quiser.)</p><p>��E O QUE �?�� acrescentou Morte, enrolando um peda�o de linha preta num pequeno torno que havia prendido � mesa.</p><p>Mortimer hesitou. Em grande parte isso se deu por medo e constrangimento, mas tamb�m porque a vis�o de um espectro encapuzado criando com tranq�ilidade moscas artificiais era suficiente para fazer qualquer um parar.</p><p>Al�m disso, Ysabell estava sentada no outro extremo do gabinete, aparentemente fazendo tric� mas tamb�m observando-o atrav�s da nuvem da censura. Dava para sentir os olhos pintados de vermelho cravados em sua nuca.</p><p>Morte juntou umas penas de corvo e assobiou por entre os dentes, sem ter mais com o que assobiar. Ergueu a cabe�a.</p><p>��Hmm?</p><p>��N�o... foi t�o f�cil quanto imaginei�� disse Mort, parado diante da mesa.</p><p>��TEVE ALGUM PROBLEMA?�� perguntou Morte, cortando alguns peda�os de pena.</p><p>��Bem, a bruxa n�o quis vir e o monge come�ou tudo outra vez.</p><p>��Nesse ponto, n�o h� com o que se preocupar, rapaz...</p><p>��... Mort...</p><p>��... VOC� J� DEVERIA TER ENTENDIDO QUE TODO MUNDO RECEBE O QUE ESPERAVA. � MUITO MAIS SIMPLES ASSIM.</p><p>��Eu sei, senhor. Mas isso significa que as pessoas m�s que imaginam ir para alguma esp�cie de para�so acabam indo mesmo. E as pessoas boas que temem ir para um lugar horr�vel sofrem o p�o que o diabo amassou. N�o me parece justo.</p><p>��O QUE FOI QUE EU DISSE QUE VOC� PRECISAVA LEMBRAR QUANDO ESTIVESSE EM SERVI�O?</p><p>��Bem, o senhor...</p><p>��Hmm?</p><p>Mortimer gaguejou at� se calar.</p><p>��N�O EXISTE JUSTI�A. S� EXISTE VOC�.</p><p>��Bem, eu...</p><p>��N�O PODE SE ESQUECER DISSO.</p><p>��Eu sei, mas...</p><p>��NO FIM, IMAGINO QUE TUDO ACABE BEM. N�O CONHE�O O CRIADOR, MAS ME DISSERAM QUE V� AS PESSOAS COM BONS OLHOS.</p><p>Morte cortou a linha e come�ou a desenrolar o torno.</p><p>��TIRE ESSAS ID�IAS DA CABE�A�� acrescentou.�� PELO MENOS, A TERCEIRA N�O DEVE TER LHE DADO NENHUM PROBLEMA.</p><p>Era este o momento. Mortimer vinha pensando nele havia muito tempo. N�o fazia sentido esconder. Ele tinha perturbado todo o curso futuro da Hist�ria. Essas coisas costumam chamar a aten��o das pessoas. Melhor tirar o peso da consci�ncia. Confessar-se como homem. Receber o castigo. Cartas na mesa. Circunl�quios, jamais. Antes pedir miseric�rdia.</p><p>Os penetrantes olhos azuis o fitaram.</p><p>Ele sustentou o olhar como um coelho noturno tentando enfrentar os far�is de um caminh�o de dezesseis rodas cujo motorista � um man�aco viciado em caf� excedendo os tac�metros do inferno.</p><p>N�o conseguiu.</p><p>��N�o, senhor�� respondeu.</p><p>���TIMO. MUITO BEM. E AGORA O QUE ACHA DISSO?</p><p>Os pescadores acham que uma boa mosca artificial � aquela que imita o bicho � perfei��o. Existem moscas ideais para a manh�. Existem moscas diferentes para a noite. E assim por diante.</p><p>Mas o neg�cio entre os dedos triunfantes de Morte era uma mosca da aurora dos tempos. Era a mosca do caldo primordial. Alimentada em bosta de mamute. N�o era uma mosca que se debate em janelas, era uma mosca que fura paredes. Era um inseto que se arrastaria ap�s o mais pesado dos tapas, derramando veneno e querendo vingan�a. O corpo possu�a asas estranhas e peda�os oscilantes. Parecia haver muitos dentes.</p><p>��Como chama?�� perguntou Mort.</p><p>��VOU CHAM�-LA DE... A GL�RIA DE MORTE.</p><p>Deu uma �ltima olhada no bicho e meteu-o no capuz do manto.</p><p>��ESSA NOITE ESTOU PENSANDO EM VER UM POUCO DE VIDA. VOC� PODE FAZER O SERVI�O, AGORA QUE J� PEGOU O JEITO.</p><p>��Sim, senhor�� disse Mort, num lamento.</p><p>Ele viu a vida se estender diante de si como um longo t�nel sem luz no fim.</p><p>Morte tamborilou os dedos na mesa, murmurou alguma coisa.</p><p>��AH, SIM�� lembrou-se afinal.�� ALBERT DISSE QUE ALGU�M VEM FUXICANDO A BIBLIOTECA.</p><p>��Como, senhor?</p><p>��TIRANDO OS LIVROS DO LUGAR, DEIXANDO-OS ESPALHADOS. LIVROS SOBRE MENINAS. ELE PARECE ACHAR DIVERTIDO.</p><p>Como j� foi dito, os Ouvintes sagrados possuem uma audi��o t�o desenvolvida que podem ficar surdos com um bom p�r-do-sol. Apenas por um instante, Mortimer achou que a pele de sua nuca estava desenvolvendo poderes semelhantes, porque ele podia ver Ysabell paralisada entre os pontos do tric�. E tamb�m ouviu a breve inspira��o de ar que j� ouvira uma vez, em meio �s estantes. Lembrou-se do len�o de renda.</p><p>E disse:</p><p>��Sim, senhor. N�o vai se repetir.</p><p>A pele da nuca come�ou a co�ar.</p><p>��MARAVILHA. AGORA VOC�S DOIS PODEM SAIR. PE�AM AO ALBERT QUE PREPARE UM PIQUENIQUE OU ALGO ASSIM. TOMEM UM POUCO DE AR FRESCO. J� NOTEI COMO VOC�S PARECEM SE EVITAR...�� ELE DEU UMA CUTUCADA CONSPIRAT�RIA EM MORTIMER (ERA COMO SER TOCADO POR UMA VARA) E ACRESCENTOU:�� ALBERT ME CONTOU O QUE ISSO QUER DIZER.</p><p>��Contou, �?�� perguntou Mort, com pesar.</p><p>Ele estava errado: havia luz no fim do t�nel, e era um lan�a-chamas.</p><p>Morte lhe dirigiu outra de suas piscadas � supernova.</p><p>Mortimer n�o retribuiu. Deu meia-volta e avan�ou para a porta numa velocidade m�dia que faria Grande A'Tuin parecer um cordeiro.</p><p>Estava na metade do corredor quando ouviu passos apressados e sentiu lhe tocarem o bra�o.</p><p>��Mort?</p><p>Virou-se e encarou Ysabell atrav�s da n�voa da depress�o.</p><p>��Por que o deixou pensar que fosse voc� na biblioteca?</p><p>��N�o sei.</p><p>��Foi... muita... gentileza sua�� admitiu ela.</p><p>��Foi? N�o sei o que deu em mim...�� Ele enfiou a m�o no bolso e pegou o len�o.�� Acho que isso � seu.</p><p>��Obrigada.</p><p>Ela assoou o nariz.</p><p>Mortimer seguiu adiante, com os ombros curvados como as asas de um urubu. Ela correu atr�s dele.</p><p>��Olhe!�� chamou.</p><p>��Qu�?</p><p>��Eu queria agradecer.</p><p>��N�o foi nada�� murmurou Mort.�� Mas seria melhor se voc� n�o pegasse mais os livros. Acho que os deixa perturbados.�� Ele soltou o que considerava ser uma risada triste�� R�.</p><p>��Como r�?</p><p>��S� r�!</p><p>Havia chegado ao fim do corredor. L� estava a porta da cozinha, onde Albert o olharia de soslaio. Decidiu que agora n�o suportaria aquilo, e se deteve.</p><p>��Mas eu s� pego os livros para me fazerem companhia�� justificou Ysabell, atr�s dele.</p><p>Mortimer cedeu.</p><p>��Podemos dar uma volta no jardim�� sugeriu, era desespero, e ent�o conseguiu endurecer um pouco a voz e acrescentar:�� Sem compromisso.</p><p>��Quer dizer que n�o vai se casar comigo?�� perguntou ela. Mortimer ficou horrorizado.</p><p>��Casar?</p><p>��N�o foi para isso que papai trouxe voc� para c�?�� indagou ela.�� Afinal de contas, ele n�o precisa de nenhum aprendiz.</p><p>��Voc� est� falando de todas essas piscadas, cutucadas e observa��es do tipo �meu filho um dia isso tudo ser� seu?��� alarmou-se Mort.�� Eu tentei ignorar. Ainda n�o quero me casar com ningu�m�� acrescentou, reprimindo a imagem mental da princesa.�� E certamente n�o com voc�, sem querer ofender.</p><p>��Eu n�o me casaria com voc� nem que fosse o �ltimo homem sobre o Disco�� observou ela, com do�ura.</p><p>Mortimer ficou magoado. Uma coisa era n�o querer casar, outra coisa era ouvir algu�m dizer que n�o queria casar com voc�.</p><p>��Pelo menos eu n�o tenho a apar�ncia de quem h� anos vem comendo biscoito dentro do arm�rio�� objetou ele, quando os dois sa�ram para o jardim negro de Morte.</p><p>��Pelo menos eu n�o ando como se minhas pernas tivessem mais de um joelho cada�� rebateu ela.</p><p>��S� que meus olhos n�o s�o dois ovos poch�s estornorosos.</p><p>Ysabell assentiu.</p><p>��Por outro lado, minhas orelhas n�o parecem um tro�o esquisito nascendo de uma �rvore morta. O que quer dizer estornoroso?</p><p>��Aqueles ovos que o Albert prepara.</p><p>��Com a parte branca toda grudenta, gotejante e cheia de peda�os mais finos?</p><p>���.</p><p>��Boa palavra�� reconheceu ela, pensativamente.�� Mas o meu cabelo, vou lhe dizer, n�o parece um neg�cio com o qual se limpa a latrina.</p><p>��Com certeza, nem o meu parece um porco-espinho molhado.</p><p>��Agora, o meu peito n�o parece uma grelha num saco de papel �mido.</p><p>Mortimer olhou de soslaio para o alto do vestido de Ysabell, que continha gordura suficiente para fritar dois quilos de batata, e se absteve do coment�rio.</p><p>��Minhas sobrancelhas n�o parecem um casal de lagartas cruzando�� arriscou.</p><p>��Tudo bem. Mas pelo menos minhas pernas dariam conta de deter um porco de passagem.</p><p>��O qu�?</p><p>��N�o s�o arqueadas�� explicou ela.</p><p>��Ah.</p><p>Os dois avan�aram pelos canteiros de l�rios temporariamente esquecidos das palavras. Ysabell encarou Mortimer e estendeu a m�o. Ele a apertou, num sil�ncio agradecido.</p><p>��Chega?�� perguntou ela.</p><p>��Acho que sim.</p><p>���timo. N�o tem d�vida de que n�o devemos nos casar, nem que seja pelo bem dos filhos.</p><p>Mortimer assentiu.</p><p>Os dois sentaram num banco de pedra, entre algumas sebes vivas bem podadas. Naquele canto do jardim, Morte havia feito um lago, abastecido por uma fonte que parecia vomitada de um le�o de pedra. Grandes carpas brancas nadavam pelo fundo ou abriam caminho entre as aveludadas vit�rias-r�gias negras.</p><p>��A gente devia ter trazido farelo de p�o�� aventurou-se Mort, optando por um assunto totalmente neutro.</p><p>��Sabia que ele nunca vem aqui?�� perguntou Ysabell, observando os peixes.�� S� construiu para me agradar.</p><p>��N�o funcionou?</p><p>��N�o � de verdade�� justificou ela.�� Nada aqui � de verdade. Ele s� gosta de agir como ser humano. Agora vem tentando com todas as for�as, percebeu? Acho que voc� est� tendo um grande efeito sobre ele. Sabia que uma vez papai tentou aprender a tocar banjo?</p><p>��Eu o vejo mais tocando �rg�o.</p><p>��N�o conseguiu�� continuou Ysabell, ignorando-o.�� N�o sabe criar, entende?</p><p>��Voc� mesma disse que ele fez o lago.</p><p>��� a c�pia de um que viu em algum lugar. Tudo aqui � c�pia.</p><p>Mortimer se mexeu. Algum inseto havia lhe subido pela perna.</p><p>��� triste�� disse ele, esperando que aquele fosse o tom adequado para a ocasi�o.</p><p>���, sim.</p><p>Ela pegou um punhado de pedras do ch�o e come�ou a atir�-las distraidamente no lago.</p><p>��Minhas sobrancelhas s�o esse horror todo?�� perguntou.</p><p>��H㠗 soltou Mort.�� Temo que sim.</p><p>��Ah.</p><p>Pedrada, pedrada. As carpas a observavam com desprezo.</p><p>��E minhas pernas?�� quis saber ele.</p><p>��Tamb�m. Sinto muito.</p><p>Mortimer vasculhou seu limitado repert�rio de conversa fiada e desistiu.</p><p>��N�o se preocupe�� disse, com educa��o.�� Pelo menos voc� pode usar pin�a.</p><p>��Ele � muito bom�� ponderou Ysabell, mais uma vez ignorando-o��, apesar da distra��o.</p><p>��N�o � pai leg�timo, �?</p><p>��Meus pais morreram a muitos anos, atravessando o Grande Nef. Teve uma tempestade, eu acho. Ele me encontrou e me trouxe para c�. N�o sei por qu�.</p><p>��Deve ter sentido pena.</p><p>��Ele n�o sente nada. N�o estou dizendo isso por maldade, sabe? S� que ele n�o tem com o que sentir, nenhuma... como � que se chama?... nenhuma gl�ndula. � mais prov�vel que tenha pensado pena de mim.</p><p>Ela virou o rosto p�lido e redondo para Mortimer.</p><p>��E que n�o falem mal dele na minha presen�a! Ele faz o melhor que pode. S� que tem muitas coisas para pensar.</p><p>��Meu pai era um pouco assim. Quer dizer, �.</p><p>��Mas deve ter gl�ndulas.</p><p>��Imagino que sim�� assentiu Mort, ligeiramente incomodado.�� Na verdade, nunca parei para pensar em gl�ndulas.</p><p>Lado a lado, os dois olharam as carpas, que retribu�ram o olhar.</p><p>��Acabo de alterar toda a Hist�ria do futuro�� confessou Mort.</p><p>���?</p><p>��Sabe? Quando ele tentou mat�-la, eu o matei, mas o neg�cio � que, de acordo com a Hist�ria, ela deveria ter morrido e o duque, ter se tornado rei. Mas a pior parte, a pior parte, � que apesar de ser totalmente mau-car�ter, ele unificaria as cidades, que acabariam se transformando numa federa��o, e os livros afirmam que haveria cem anos de paz e prosperidade. Quer dizer, a gente logo imagina que haveria um reinado do terror ou algo assim, mas parece que de vez em quando a Hist�ria precisa desse tipo de gente, e a princesa seria apenas mais uma monarca. Quer dizer, n�o m�, ali�s bastante boa, mas n�o ideal, e agora isso n�o vai acontecer, a Hist�ria se rompeu, est� desatada e � tudo culpa minha!</p><p>Ele se deteve, ansiosamente aguardando a rea��o dela.</p><p>��Voc� estava certo, sabia?</p><p>��Estava?</p><p>��A gente devia ter trazido farelo de p�o�� disse ela.�� Acho que os peixes encontram alimento na �gua. Besouros e tal.</p><p>��Voc� ouviu o que eu falei?</p><p>��Sobre o qu�?</p><p>��Ah. Nada. Nada demais. Desculpe.</p><p>Ysabell suspirou e se p�s de p�.</p><p>��Voc� deve estar querendo ir embora�� imaginou ela.�� Fico feliz por termos resolvido essa hist�ria de casamento. Foi muito bom conversar com voc�.</p><p>��Poder�amos ter uma esp�cie de rela��o de �dio e �dio�� prop�s Mort.</p><p>��Em geral, n�o tenho chance de conversar com as pessoas com quem meu pai trabalha.</p><p>Ela parecia n�o conseguir se afastar, como se esperasse que Mortimer dissesse alguma coisa.</p><p>��Bem, voc� n�o conversaria mesmo�� foi tudo em que ele conseguiu pensar.</p><p>��Imagino que agora voc� tenha de sair para o trabalho.</p><p>��Mais ou menos.</p><p>Mortimer hesitou, notando que de algum modo inexplic�vel a conversa havia sa�do da parte rasa e agora flutuava em �reas profundas que ele ainda n�o entendia muito bem.</p><p>Houve um ru�do feito...</p><p>Com uma pontada de saudade, Mortimer se lembrou do velho jardim de casa. Durante os invernos rigorosos das Ramtops, a fam�lia mantinha as grandes cabras montanhesas no jardim, pastando � vontade. Depois do degelo da primavera, o jardim ainda se mostrava uma imensa crosta s�lida. Se a pessoa tivesse cuidado, podia atravess�-lo. Se n�o tivesse, e mergulhasse a perna at� a altura do joelho na bosta concentrada, ent�o o som que a bota fazia ao sair, verde e fumegante, era t�o parecido com o som da virada de ano quanto a m�sica dos p�ssaros e o zumbido das abelhas.</p><p>Era esse ru�do. Instintivamente, Mortimer examinou os sapatos.</p><p>Ysabell estava chorando, n�o com pequenos solu�os femininos, mas com enormes arquejos s�fregos�� como bolhas de um vulc�o submarino lutando para chegar primeiro � superf�cie. Eram solu�os escapando sob press�o, sazonados na ang�stia cotidiana.</p><p>Mort disse:</p><p>��Hum?</p><p>O corpo dela tremia feito colch�o de �gua em zona de terremoto. Ela vasculhou as mangas do vestido atr�s do len�o, mas, naquelas circunst�ncias, o peda�o de renda n�o teve mais utilidade do que teria um chap�u de papel�o numa tempestade. Tentou dizer alguma coisa, que se transformou numa torrente de consoantes pontuadas por solu�os.</p><p>Mort disse:</p><p>��H�?</p><p>��Perguntei quantos anos voc� acha que eu tenho.</p><p>��Quinze?�� arriscou ele.</p><p>��Dezesseis�� corrigiu ela, num lamento.�� E sabe h� quanto tempo tenho 16 anos?</p><p>��Desculpe, n�o estou entend...</p><p>��N�o, voc� n�o entende. Ningu�m entende.</p><p>Ela assoou o nariz outra vez e, apesar das m�os tr�mulas, guardou com firmeza o len�o molhado.</p><p>��Voc� pode sair�� apontou.�� Ainda n�o est� aqui h� tempo suficiente para notar. O tempo fica parado aqui, n�o percebeu? Alguma coisa passa, mas n�o � o tempo real. Ele n�o pode criar o tempo real.</p><p>��Ah.</p><p>Quando ela voltou a falar, foi com a voz fina, cuidadosa e sobretudo corajosa da pessoa que se recomp�s mas a qualquer momento pode desmoronar outra vez.</p><p>��H� 30 anos tenho 16!</p><p>��Ah?</p><p>��O primeiro ano foi terr�vel.</p><p>Mortimer recordou as semanas anteriores e assentiu.</p><p>��E por isso que voc� l� aqueles livros?�� perguntou.</p><p>Constrangida, Ysabell baixou a cabe�a e girou o p� nas pedras.</p><p>��S�o muito rom�nticos�� admitiu ela.�� Tem umas hist�rias encantadoras: a menina que tomou veneno quando o namorado morreu, a outra que pulou de um penhasco porque o pai insistia que se casasse com um velho e aquela que preferiu se afogar a...</p><p>Mortimer ouviu, abismado. A julgar pelo material de leitura cuidadosamente escolhido por Ysabell, era digna de nota a mulher do Disco que sobrevivia a adolesc�ncia tempo suficiente para vestir o primeiro par de meias finas.</p><p>��... ent�o ela pensou que ele estivesse morto e se suicidou, a� ele acordou e tamb�m se matou, e teve uma menina...</p><p>O bom senso sugere que pelo menos algumas poucas mulheres entram na casa dos trinta sem se matarem por amor, mas parece que o bom senso n�o tinha nem papel coadjuvante naqueles dramas<a l:href="#n_5" type="note">[5]</a>. Mortimer j� havia notado que o amor nos deixa tristes, euf�ricos, fracos e cru�is, mas n�o tinha se dado conta de que tamb�m pode nos deixar burros.</p><p>��... nadava todas as noites no rio, mas uma noite teve uma tempestade e, quando ele n�o voltou, ela...</p><p>Instintivamente, Mortimer acreditava que alguns jovens casais se conheciam, digamos, num baile da cidade e se davam bem, sa�am juntos por um ou dois anos, tinham algumas brigas, faziam as pazes, casavam e nem cogitavam se matar.</p><p>Ele percebeu que a ladainha do amor arrebatador estava em baixa.</p><p>��Ah�� disse, baixinho.�� E ningu�m... vive bem?</p><p>��Amar � sofrer�� decretou Ysabell.�� Tem de haver muita desgra�a.</p><p>��Tem?</p><p>��Com certeza. E agonia.</p><p>Ysabell pareceu se lembrar de algo.</p><p>��Voc� falou alguma coisa sobre romper e estar desatada?�� perguntou, com a voz apertada de quem se recomp�e.</p><p>Mortimer considerou a pergunta.</p><p>��N�o�� respondeu, afinal.</p><p>��Eu n�o estava prestando muita aten��o.</p><p>��N�o tem import�ncia.</p><p>Os dois voltaram para casa em sil�ncio.</p><p>Quando Mortimer entrou no gabinete, descobriu que Morte havia sa�do, deixando quatro ampulhetas sobre a mesa. O grande livro de couro estava no atril, bem trancado.</p><p>Havia um bilhete debaixo das ampulhetas.</p><p>Mortimer imaginara que a letra de Morte seria g�tica ou terrivelmente angulosa, mas na verdade Morte tinha estudado uma obra cl�ssica sobre grafologia antes de escolher um estilo e adotara uma letra que indicava personalidade equilibrada e bem ajustada.</p><p>Dizia o bilhete:</p><p><emphasis>Phui pescar. Them uma execu��o em Pseud�polis, uma nathural em Krull, uma queda fathal nas Montanhas Carrick, uma por mal�ria em Ell-Kinte. O restho do dhia � seu.</emphasis></p><p>Mortimer achava que a Hist�ria estava se debatendo como um cabo de a�o solto, zunindo para frente e para tr�s da realidade em grandes movimentos destrutivos.</p><p>A Hist�ria n�o funciona assim. A Hist�ria se desdobra com suavidade, como uma su�ter velha. J� foi muitas vezes cerzida e remendada, remodelada para se ajustar a pessoas diversas, metida em caixas sob a pia da censura para ser criticada pelos espanadores da propaganda, e ainda assim sempre acaba conseguindo voltar � antiga forma. A Hist�ria tem o costume de mudar as pessoas que pensam estar mudando-a. A Hist�ria sempre tem uns truques na manga. Ela n�o nasceu ontem.</p><p>Eis o que estava acontecendo:</p><p>O golpe imprudente da foice de Mortimer havia partido a Hist�ria em duas realidades distintas. Na cidade de Sto Lat, a princesa Keli ainda governava, com certa dificuldade e com o aux�lio ininterrupto do reconhecedor real, que entrou para a folha de pagamento da corte e era encarregado de lembrar todos da exist�ncia dela. Nas terras estrangeiras, entretanto�� al�m da plan�cie, nas Ramtops, em torno do Mar C�rculo e em toda a regi�o at� a Borda��, a realidade tradicional ainda dominava e ela estava morta, o duque era rei e o mundo seguia tranq�ilamente de acordo com o planejado, qualquer que fosse ele.</p><p>A quest�o � que ambas as realidades eram verdadeiras.</p><p>A zona de contato estava atualmente a cerca de trinta quil�metros da cidade e ainda n�o era muito percept�vel. Isso porque a (bem, podemos cham�-la de) diferen�a das tens�es hist�ricas ainda n�o se encontrava muito grande. Mas estava crescendo. Nas planta��es de repolho, havia uma luz difusa no ar e um leve chiado, como gafanhotos na fritadeira.</p><p>O homem n�o altera a Hist�ria mais do que os p�ssaros alteram o c�u�� apenas tra�a breves arranjos nela. Aos poucos, implac�vel como uma geleira e bem mais fria, a realidade real avan�ava em dire��o a Sto Lat.</p><empty-line/><subtitle>* * *</subtitle><empty-line/><p>Mortimer foi o primeiro a perceber.</p><p>Havia sido uma tarde longa. O alpinista se segurara no gelo at� o �ltimo instante e o executado chamara Mortimer de lacaio do estado monarquista. S� a velhinha de 103 anos, que se despedira da vida acompanhada de toda a chorosa fam�lia, havia aberto um sorriso e comentado que ele estava um pouco p�lido.</p><p>O Sol do Disco estava pr�ximo ao horizonte quando Pituco ganhou os c�us de Sto Lat, e Mortimer viu a fronteira da realidade. Ela se curvava logo abaixo, numa t�nue n�voa prateada. Ele n�o sabia o que era, mas experimentou o terr�vel pressentimento de que tinha algo a ver consigo pr�prio.</p><p>Deteve o cavalo e conduziu-o suavemente para o ch�o, pousando a alguns metros do muro de ar iridescente. O neg�cio se movia devagar, sibilando de leve ao avan�ar feito um fantasma pelas persistentes planta��es de repolho e geladas valas de drenagem.</p><p>Era uma noite fria, daquelas em que a geada e a cerra��o brigam por controle e todo som � abafado. A respira��o de Pituco produzia jatos de nuvem no ar parado. Ele relinchou baixinho, como quem pede desculpa, e deu uma patada no ch�o.</p><p>Mortimer desceu da sela e se aproximou da interface. Ela crepitava. Formas estranhas fulguravam ali dentro, flutuando, transformando-se e desaparecendo.</p><p>Depois de procurar, achou uma vara e espetou-a com cuidado no muro de ar. Surgiram estranhas ondula��es, que cresceram lentamente at� sumir.</p><p>Mortimer ergueu a cabe�a ao notar um vulto cortando o c�u. Era uma coruja preta, inspecionando as valas � procura de alimento.</p><p>Atingiu o muro num jorro de neblina, deixando uma ondula��o em forma de coruja que aumentou de tamanho at� se juntar ao caleidosc�pio gasoso.</p><p>Ent�o sumiu. Dava para enxergar atrav�s da interface transparente, e com certeza nenhuma coruja apareceu do outro lado. Quando Mortimer j� come�ava a ficar intrigado, houve outro jorro silencioso a alguns metros de dist�ncia, e o p�ssaro ressurgiu completamente indiferente, afastando-se pelos campos.</p><p>Mortimer se recomp�s e atravessou a barreira, que n�o era barreira alguma. Mas formigava.</p><p>Um instante mais tarde, Pituco entrava atr�s dele, com os olhos revirados de desespero e cachos da interface agarrados nos cascos. Empinou-se, sacudindo a crina como um cachorro para se livrar dos filamentos aderentes de n�voa, e encarou Mortimer com ar de s�plica.</p><p>Mortimer pegou as r�deas, afagou-lhe o focinho e vasculhou o bolso atr�s de um torr�o de a��car j� sujo. Sabia estar na presen�a de algo importante, mas ainda n�o tinha certeza do que era.</p><p>Havia uma estrada ladeada por salgueiros molhados e sombrios. Mortimer montou em Pituco e avan�ou para a escurid�o gotejante sob os galhos.</p><p>A dist�ncia, podia divisar as luzes de Sto Helit�� que n�o passava de uma cidadezinha. O leve brilho no limite de sua vis�o deveria ser Sto Lat. Olhou para l� com nostalgia.</p><p>A barreira o preocupava. Dava para v�-la deslizando pelo campo, atr�s das �rvores.</p><p>Mortimer estava a ponto de conduzir Pituco de volta ao ar livre quando viu a luz adiante, c�lida e convidativa. Ela sa�a das janelas de uma casa grande � margem da estrada. Provavelmente era um tipo festivo de luz, mas, naqueles arredores e comparada ao humor de Mortimer, parecia extasiante.</p><p>Ao se aproximar, ele entreviu sombras e escutou trechos de m�sica. Era um bar, e dentro havia pessoas se divertindo, ou ao menos fazendo o que se considera divers�o quando se � campon�s e se leva a maior parte do dia preocupado com repolhos. Comparado a essas plantas, qualquer coisa � um prazer.</p><p>Havia seres humanos ali, fazendo coisas simples e humanas como encher a cara e esquecer a letra das m�sicas.</p><p>Mortimer jamais sentira saudade de fato, possivelmente porque at� ent�o sua mente estivera ocupada demais com outras coisas. Mas agora a sentia pela primeira vez�� esse tipo de nostalgia n�o de um lugar, mas de um estado de esp�rito, de ser apenas uma pessoa comum com coisas pr�ticas com as quais se preocupar, como dinheiro, doen�as e outras pessoas...</p><p>Acho que vou tomar uma bebida, pensou ele, e talvez me sinta melhor.</p><p>Havia um est�bulo aberto num lado do pr�dio principal, e ele conduziu Pituco ao breu quente, cheirando a cavalo, que j� acomodava outros tr�s animais. Enquanto Mortimer afrouxava a cevadeira, imaginou se o corcel de Morte se sentia da mesma maneira em rela��o aos outros cavalos, que tinham estilos de vida bem menos sobrenaturais. Sem d�vida parecia majestoso comparado aos demais, que o observavam com aten��o. Pituco era um cavalo de verdade�� as bolhas do cabo da p� nas m�os de Mortimer eram prova disso�� e confrontado com os outros parecia mais real do que nunca. Mais concreto. Mais cavalar. Ligeiramente exagerado.</p><p>Na verdade, Mortimer estava em via de tirar uma dedu��o importante, e � pena que tenha se distra�do ao caminhar pelo jardim at� a pequena porta, abaixo do letreiro do bar�� A Cabe�a da Rainha. O artes�o n�o se mostrava muito talentoso, mas era imposs�vel deixar de reconhecer a linha do queixo e a massa de cabelos cor de fogo de Keli na imagem esculpida.</p><p>Mortimer soltou um suspiro e abriu a porta.</p><p>Todo mundo parou de falar e olhou para ele com aquele ar sincero do povo rural a sugerir que por quase nada lhe acertam a p� na cabe�a e enterram o corpo debaixo de um monte de adubo � luz da Lua cheia.</p><p>Talvez valha a pena dar outra olhada em Mortimer, porque ele mudou bastante nos �ltimos cap�tulos. Por exemplo, embora ainda possuia muitos joelhos e cotovelos, eles parecem ter migrado para os locais apropriados e o menino j� n�o anda como se as juntas fossem presas por fitas el�sticas. Antes, ele parecia n�o saber nada. Agora parece saber demais. Algo nos olhos sugere ter visto coisas que as pessoas comuns n�o v�em nunca, ou pelo menos n�o mais de uma vez.</p><p>E todo o resto sugere ao observador que provocar um inconveniente ao garoto seria t�o inteligente quanto chutar uma casa de marimbondos. Em resumo, Mortimer n�o parece mais algu�m que troca os p�s pelas m�os e depois bate palmas.</p><p>O dono do lugar relaxou a press�o sobre o bast�o de madeira que mantinha debaixo do bar para apartar poss�veis brigas e abriu o rosto numa esp�cie de sorriso alegre e acolhedor, embora n�o muito.</p><p>��Noite, seu mo�o�� disse ele.�� O que vai ser nessa madrugada gelada?</p><p>��Qu�?�� indagou Mort, piscando os olhos sob a luz forte.</p><p>��Ele est� perguntando o que voc� quer beber�� interveio o homem baixo com cara de doninha sentado pr�ximo � lareira, lan�ando a Mortimer o tipo de olhar que o a�ougueiro dirige a um campo cheio de ovelhas.</p><p>��Hum. N�o sei�� respondeu Mort.�� Tem gota de estrela?</p><p>��Nunca ouvi falar, seu mo�o.</p><p>Mortimer olhou para os rostos a fit�-lo, iluminados pela luz do fogo. Era o tipo de gente normalmente chamada sal da terra. Em outras palavras, eram duros, quadrados e faziam mal aos dentes, mas Mortimer estava preocupado demais para notar.</p><p>��Ent�o o que se bebe aqui?</p><p>O dono do bar olhou de lado para os clientes�� um truque engenhoso j� que eles estavam bem � sua frente.</p><p>��O, mo�o. A gente toma esfuminho.</p><p>��Esfuminho?�� perguntou Mort, sem reparar nos risos abafados.</p><p>���, mo�o. Feito de ma��. Bem, principalmente de ma��.</p><p>Pareceu saud�vel o bastante para Mortimer.</p><p>��Tudo bem�� assentiu ele.�� Ent�o uma dose de esfuminho.</p><p>Enfiou a m�o no bolso e retirou o saco de ouro que Morte havia lhe dado. Ainda estava bem cheio. No s�bito sil�ncio do ar, o leve tinido das moedas soou como os legend�rios Gongos de Bronze de Leshp, que ainda podem ser ouvidos em alto-mar nas noites de tempestade, quando as correntes os agitam na torre submersa, trezentas bra�as abaixo da superf�cie.</p><p>��E por favor sirva aos cavalheiros o que quiserem�� acrescentou Mort.</p><p>Ele ficou t�o desarmado pelo coro de agradecimentos que n�o prestou muita aten��o ao fato de que os novos amigos recebiam a bebida em copos min�sculos, do tamanho de um dedal, ao passo que a dele era servida numa grande caneca de madeira.</p><p>Contam-se muitas hist�rias sobre o esfuminho e o modo como � produzido nos p�ntanos, seguindo antigas receitas passadas com algumas varia��es de pai para filho. N�o � verdade sobre os ratos, as cabe�as de cobra nem o chumbo. A da ovelha morta � uma mentira deslavada. Podemos descartar todas as variantes da que se refere ao bot�o de cal�a. Mas a que alude ao fato de n�o podermos deix�-lo entrar em contato com metal � verdadeira, porque quando o dono do bar propositadamente deu troco de menos a Mortimer e jogou o montinho de moedas nuns respingos do neg�cio elas logo come�aram a espumar.</p><p>Mortimer cheirou o drinque e tomou um gole. O gosto era um pouco de ma��, um pouco das manh�s de outono e bastante de fundo de rio. Sem querer parecer mal-educado, por�m, tomou mais um trago.</p><p>Todos o observavam, contando a meia voz.</p><p>Mortimer achou que esperavam algo dele.</p><p>��Gostoso�� opinou.�� Muito refrescante. Tomou outro gole.</p><p>��Um paladar que se aprende�� acrescentou��, mas que vale o esfor�o.</p><p>Dos fundos, vieram alguns murm�rios de descontentamento.</p><p>��Ele est� botando �gua na bebida, � isso.</p><p>��Duvido. Sabe o que acontece quando a gente deixa uma gota de �gua cair no esfuminho?</p><p>O dono do bar tentou ignorar os coment�rios.</p><p>��Voc� gostou?�� perguntou a Mortimer, mais ou menos no tom de voz que as pessoas usaram ao perguntar a S�o Jorge �Matou o qu�?�</p><p>��� bem picante�� opinou Mort.�� E tem um leve sabor de nozes.</p><p>��Com licen�a�� pediu o dono do bar, e delicadamente pegou a caneca da m�o de Mortimer.</p><p>Cheirou o l�quido e ent�o enxugou os olhos.</p><p>��Arrgh!�� disse.�� � o tro�o mesmo.</p><p>Encarou o menino com algo que beirava a admira��o. N�o porque ele tivesse bebido quase duzentos mililitros de esfuminho, � que ainda se encontrava de p� e aparentemente vivo. O homem devolveu a caneca: era como se desse um trof�u a Mortimer, depois de uma competi��o inacredit�vel. Quando o garoto tomou outro gole, v�rios clientes estremeceram. O dono do bar se p�s a imaginar do que eram feitos os dentes de Mortimer e concluiu que deveriam ser do mesmo material que o est�mago.</p><p>��Por acaso, voc� � mago?�� indagou, por precau��o.</p><p>��N�o, por qu�? Deveria ser?</p><p>Achei que n�o, pensou o homem, ele n�o anda como mago e n�o est� fumando nada. Olhou a caneca outra vez.</p><p>Havia algo errado ali. Havia algo errado no menino. Ele n�o parecia direito. Parecia...</p><p>... mais concreto do que deveria.</p><p>Nada disso fazia sentido, � claro. O bar era concreto, o ch�o era concreto, os fregueses eram t�o concretos quanto se podia ser. E ainda assim Mortimer�� ali parado, mostrando-se um tanto constrangido, vez por outra dando goles num l�quido com o qual se podia limpar lou�a�� parecia emitir um tipo particularmente poderoso de concretude, uma dimens�o extra de realidade. O cabelo era mais cabelo; a roupa era mais roupa; a bota, o ep�tome da qualidade de bota. Fazia a cabe�a doer s� de olhar para ele.</p><p>Mas ent�o Mortimer mostrou-se humano afinal de contas. A caneca se desprendeu dos dedos incapacitados e caiu no ch�o, onde os restos do esfuminho come�aram a corroer as lajes. Ele apontou a parede oposta, com a boca se abrindo e fechando em sil�ncio.</p><p>Os clientes voltaram a conversar e jogar, assegurados de que coisas eram como deveriam ser: Mortimer agora estava agindo perfeitamente dentro do normal. O dono do bar, aliviado pelo fato de a bebida ter justificado sua fama, estendeu o bra�o e lhe deu tapinhas amigos no ombro.</p><p>��Est� tudo bem�� garantiu.�� Quase sempre faz isso com as pessoas, voc� s� vai ter dor de cabe�a durante algumas semanas, mas n�o se preocupe: com uma gota de esfuminho voc� fica bonzinho de novo.</p><p>� verdade que o melhor rem�dio para ressaca de esfuminho � a pr�pria bebida.</p><p>Mas Mortimer apenas continuou apontando e, com voz tr�mula, disse:</p><p>��N�o v�? Est� vindo pela parede! Est� vindo pela parede!</p><p>��Muita coisa vem pela parede depois do primeiro esfuminho. Em geral, coisas verdes e peludas.</p><p>��� a neblina! N�o est� ouvindo o chiado?</p><p>��Uma neblina que chia, �?</p><p>O dono do bar olhou a parede, que parecia vazia e nada misteriosa, � exce��o de umas teias de aranha. Mas a urg�ncia na voz de Mortimer o deixou perturbado. Ele preferia os monstros escamosos de sempre. Ao menos o homem sabe com quem est� lidando diante deles.</p><p>��Vem na dire��o do bar! N�o est� sentindo?</p><p>Os fregueses se entreolharam. Mortimer estava deixando todos apreensivos. Mais tarde, um ou dois admitiriam ter sentido algo como um formigamento gelado, mas poderia ter sido indigest�o.</p><p>Mortimer se afastou e agarrou o balc�o. Tremeu por um instante.</p><p>��Olhe aqui�� come�ou o dono do bar��, brincadeira � brincadeira, mas...</p><p>��Voc� estava de camisa verde antes!</p><p>O homem olhou para baixo. Havia uma ponta de horror na voz dele.</p><p>��Antes de qu�?�� perguntou.</p><p>Para surpresa sua, e antes que pudesse levar a m�o ao peda�o de madeira, Mortimer se lan�ou pelo balc�o e agarrou-o pelo avental.</p><p>��Voc� tem uma camisa verde, n�o tem?�� indagou.�� Eu vi. De bot�es amarelos!</p><p>��Bem, � verdade. Tenho duas camisas.</p><p>O dono do bar tentou se aprumar um pouco.</p><p>��Sou um homem de posses�� acrescentou.�� S� n�o a usei hoje.</p><p>Ele n�o queria nem imaginar como o menino sabia dos bot�es.</p><p>Mortimer soltou-o e deu meia-volta.</p><p>��Est�o todos sentados em lugares diferentes! Cad� o homem perto da lareira? Mudou tudo!</p><p>Ele saiu correndo pela porta. Ouviu-se um grito abafado vindo de fora, e Mortimer voltou de olhos arregalados, encarando a clientela, horrorizada.</p><p>��Quem mudou o letreiro? Algu�m mudou o letreiro!</p><p>Nervoso, o dono do bar passou a l�ngua pelos l�bios.</p><p>��Depois que o rei morreu?�� perguntou.</p><p>A fisionomia de Mortimer deixou-o gelado: os olhos do garoto eram duas po�as negras de pavor.</p><p>��Estou falando do nome!</p><p>��N�s... sempre foi o mesmo nome�� disse o homem, olhando em desespero para os fregueses, em busca de apoio.�� N�o � mesmo, rapazes? A Cabe�a do Duque.</p><p>Houve um coro murmurado de anu�ncia.</p><p>Mortimer encarou os clientes, visivelmente tr�mulo. Depois se virou e correu para fora outra vez.</p><p>Todos ouviram o tropel no jardim, que ficou mais fraco e ent�o desapareceu por completo, como se o cavalo tivesse deixado a superf�cie da terra.</p><p>N�o havia nenhum som no bar. Os homens tentavam evitar os olhares uns dos outros. Ningu�m queria admitir ter visto o que imaginava acabar de ver.</p><p>Ent�o coube ao dono se arrastar pelo bar, estender o bra�o e correr os dedos pela familiar e tranq�ilizadora madeira da porta. Era s�lida, dura, tudo que uma porta deveria ser.</p><p>Os homens tinham visto Mortimer atravess�-la tr�s vezes. S� que em momento algum ele a abrira.</p><p>Pituco al�ou v�o, erguendo-se quase na vertical, com os cascos a agitar o ar e o h�lito enovelando-se como um rastro de vapor. Mortimer se agarrou com m�os e joelhos, mas principalmente com for�a de vontade, tendo a cabe�a enterrada na crina do animal. S� olhou para baixo quando o ar � volta se encontrava frio e ralo como feij�o de cadeia.</p><p>Acima, as Luzes do Centro tremeluziam em sil�ncio no c�u invernal. Abaixo...</p><p>... um pires de ponta-cabe�a, com quil�metros de di�metro, prateado sob o luar. Era poss�vel ver luzes atravessando-o. As nuvens flutuavam atrav�s dele.</p><p>N�o. Mortimer observou com aten��o. As nuvens com certeza flutuavam para dentro do neg�cio, e havia nuvens em seu interior, mas as de dentro eram mais finas e se moviam numa dire��o ligeiramente diferente das de fora. Tinha outra coisa... ah sim, as Luzes do Centro. Elas davam � noite externa ao hemisf�rio espectral um leve tom esverdeado, mas n�o havia nem sinal disso debaixo da ab�bada.</p><p>Era como ver um peda�o de outro mundo, quase id�ntico, que houvesse se acoplado ao Disco. Ali o clima era um pouco diferente, e naquela noite as Luzes n�o estavam � mostra.</p><p>Mas o Disco reagia, cercando-o e tentando elimin�-lo. De cima, Mortimer n�o podia v�-lo diminuir de tamanho, mas imaginou ouvir o chiado da interface ao avan�ar pela terra, transformando todas as coisas de volta a como deveriam ser. A realidade se recobrava.</p><p>Sem nem mesmo ter de pensar a respeito, Mortimer sabia quem se encontrava no meio da ab�bada. Mesmo dali, era �bvio que ela se centrava em Sto Lat.</p><p>Tentou imaginar o que aconteceria quando a ab�bada tivesse se reduzido ao tamanho de um quarto, depois ao tamanho de uma pessoa e ent�o ao tamanho de um ovo. N�o conseguiu.</p><p>A L�gica teria dito a Mortimer que ali estava sua salva��o. Em um ou dois dias, o problema se resolveria, os livros da biblioteca estariam endireitados, o mundo teria voltado a seu estado normal, como uma fita el�stica. A L�gica teria lhe dito que interferir no sistema uma segunda vez s� faria piorar as coisas. A L�gica teria dito isso tudo, se tamb�m n�o tivesse tirado a noite de folga.</p><p>A luz anda muito devagar no Disco�� por causa do efeito retardador de seu imenso campo m�gico��, e nesse instante a parte da Borda onde fica a Ilha de Krull se encontrava exatamente sob a �rbita do pequeno Sol. Portanto, ainda era o come�o da noite. E estava bem quente, j� que a Borda pega mais calor e se beneficia de um suave clima costeiro.</p><p>Na verdade, Krull, com grande parte do que por aus�ncia de melhor palavra deve ser chamado de seu �litoral� projetando-se sobre a Beira, era uma ilha aben�oada. Os �nicos krullianos nativos que n�o gostavam disso eram aqueles que n�o olhavam por onde andavam ou eram son�mbulos, mas, pela pr�pria sele��o natural, j� n�o havia muitos deles. Toda sociedade possui seu quinh�o de pessoas que acabam �caindo fora�, mas em Krull elas nunca tinham chance de voltar.</p><p>Terpsic Mims n�o era uma delas. Era apenas pescador. E estava feliz. Vinha observando a pena presa � rolha boiar placidamente nas pl�cidas �guas do Rio Hakrull, e sua mente se encontrava quase vazia. A �nica coisa que poderia aborrec�-lo seria de fato pegar um peixe, porque pegar peixes era a �nica coisa na pescaria que ele detestava. Os bichos eram frios, escorregadios, desesperados, davam nos nervos, e os nervos de Terpsic n�o eram dos melhores.</p><p>Desde que n�o pegasse nada, Terpsic Mims era um dos pescadores mais felizes do Disco, porque o Rio Hakrull ficava a oito quil�metros de casa e, portanto, a oito quil�metros da senhora Gwladys Mims, com quem havia partilhado seis felizes meses de vida conjugal. Cerca de vinte anos antes.</p><p>Terpsic n�o deu muita aten��o quando outro pescador se postou mais acima. � claro que alguns pescadores poderiam fazer obje��o �quela quebra de regras, mas no livro de etiqueta de Terpsic, qualquer coisa que diminu�sse suas chances de pegar um dos malditos animais era excelente. Com o canto dos olhos, notou que o rec�m-chegado estava pescando com moscas, um passatempo interessante que Terpsic rejeitara pelo fato de o indiv�duo passar tempo demais em casa, preparando o equipamento.</p><p>Ele jamais vira pescaria como aquela. Existem moscas artificiais para baixo e para cima da superf�cie, mas aquela mosca mergulhava na �gua com um ganido e arrastava o peixe para fora de tr�s para a frente.</p><p>Num misto de medo e fascina��o, Terpsic observou o vulto indistinto atr�s dos salgueiros atirar repetidamente a linha. A �gua fervilhava � medida que toda a bicharada tentava escapar ao zumbido de horror e, na confus�o, infelizmente um imenso l�cio enlouquecido caiu no anzol de Terpsic.</p><p>Num instante ele se encontrava � margem, no instante seguinte estava na escurid�o verde e abafada, soltando bolhas pela boca, vendo sua vida passar diante dos olhos e�� mesmo na hora do afogamento�� temendo a id�ia de ver a parte que ficava entre o dia do casamento e o momento atual. Ocorreu-lhe que Gwladys logo seria vi�va, o que o alegrou um pouco. Na verdade, Terpsic sempre tentara olhar o lado positivo de tudo e, ao afundar deliciosamente para as profundezas do rio, pensou que dali em diante a vida s� poderia melhorar...</p><p>Ent�o puxaram-no pelo cabelo at� a superf�cie, que de repente lhe pareceu extremamente dolorosa. Terr�veis manchas pretas e azuis flutuavam � frente dos olhos. Os pulm�es estavam em brasa. A garganta do�a de afli��o.</p><p>M�os frias, geladas, semelhantes a luvas de gelo, suspenderam-no da �gua e jogaram-no na margem, onde, depois de algumas intr�pidas tentativas de continuar se afogando, ele acabou sendo animado de volta ao que chamavam de vida.</p><p>Terpsic n�o ficava chateado com freq��ncia, porque Gwladys n�o aprovava. Mas se sentiu enganado. Nascera sem ser consultado, casara porque Gwladys e o pai dela queriam, e a �nica grande conquista humana exclusivamente sua acabava de lhe ser arrancada. Alguns segundos antes, tudo estivera t�o simples! Agora as coisas voltavam a se complicar.</p><p>N�o que ele quisesse morrer, evidentemente. Os deuses eram inclementes no que tangia ao suic�dio. Apenas n�o queria ter sido salvo.</p><p>Com os olhos vermelhos, numa m�scara de lodo e lentilhas-d'�gua, espreitou o vulto indistinto acima e gritou:</p><p>��Por que tinha de me salvar?</p><p>A resposta o deixou preocupado. Terpsic n�o parou de pensar nela ao voltar ensopado para casa. Ela o acompanhou enquanto Gwladys reclamava do estado das roupas. E n�o lhe saiu da cabe�a enquanto ele espirrava cheio de culpa pr�ximo � lareira�� porque ficar doente era outra coisa que Gwladys n�o aprovava. Quando se deitou na cama, ela voltou em sonho como um iceberg. Em meio � febre, ele murmurou:</p><p>��Como assim, �ESTOU GUARDANDO PARA DEPOIS�?</p><p>Tochas iluminavam a cidade de Sto Lat. Um pelot�o de homens era encarregado de renov�-las. As ruas brilhavam. As chamas crepitantes afastavam sombras que durante s�culos vinham, noite ap�s noite, inocentemente fazendo o que lhes cabia. Clareavam cantos antigos onde olhos de ratos atordoados cintilavam em buracos profundos. Obrigavam ladr�es a n�o sair de casa. Reluziam nas neblinas noturnas, formando um nimbo de luz amarela que embaciava os raios frios a emanar do Centro. Mas principalmente faziam reluzir o rosto da princesa Keli.</p><p>Ele estava por toda parte. Cobria toda superf�cie plana. Pituco avan�ou pelas ruas iluminadas, em meio ao retrato de princesa em portas, muros e paredes. Mortimer ficou boquiaberto ao ver os cartazes da amada em todas as superf�cies onde os oper�rios haviam conseguido fazer a cola grudar.</p><p>Ainda mais estranho era o fato de ningu�m parecer lhes dar muita aten��o. Embora a vida noturna de Sto Lat n�o fosse t�o intensa e cheia de acontecimentos quanto a de Ankh-Morpork�� da mesma forma que n�o se pode comparar uma cesta de latrina ao dep�sito de lixo municipal��, ainda assim as ruas eram uma algazarra, com os gritos de vendedores ambulantes, jogadores, comerciantes de doces, trapaceiros, damas de aluguel, batedores de carteira e os ocasionais negociantes honestos que haviam chegado ali por engano e n�o conseguiam juntar dinheiro suficiente para partir. A medida que Mortimer caminhava, restos de conversa em meia d�zia de l�nguas diferentes lhe chegavam aos ouvidos. Resignado, ele se deu conta de que entendia cada uma delas.</p><p>Por fim, desceu de Pituco e conduziu o cavalo pela Rua do Muro, em v�o procurando a casa de Cortabem. Achou-a apenas porque uma protuber�ncia no cartaz mais pr�ximo gritava inj�rias abafadas.</p><p>Estendeu o bra�o com cuidado e retirou um peda�o do papel.</p><p>��Obrigad�zimo�� disse a aldrava em forma de g�rgula.�� N�o d� para acreditar, n�o �? Uma hora a vida normal, na outra a boca jeia de cola.</p><p>��Onde est� Cortabem?</p><p>��Foi morar no pal�zio...�� A aldrava olhou de esguelha para ele e piscou o olho de ferro batido.�� Uns homens vieram e levaram tudo. Depois outros homens comezaram a colar retratos da namorada dele por a�. Imbezis�� acrescentou.</p><p>Mortimer ficou rubro.</p><p>��Namorada?</p><p>Sendo de natureza demon�aca, a aldrava riu da inflex�o dele. O barulho parecia unha raspando em parede.</p><p>��ɠ� respondeu.�� E tinham preza.</p><p>Mortimer j� estava montado em Pituco.</p><p>��Ezcute aqui!�� gritou a aldrava, ao v�-lo se afastar.�� Ezcute aqui! Garoto, zer� que voz� poderia me dezcolar daqui?</p><p>Mortimer puxou as r�deas de Pituco com tanta for�a que o cavalo se empinou e deu uns passos doidos para tr�s, ent�o estendeu a m�o e segurou a argola da aldrava. A g�rgula olhou o rosto dele e de repente sentiu muito medo. Os olhos de Mortimer brilhavam como uma caldeira, a fisionomia era uma fornalha, e desprendia calor suficiente para derreter ferro. A aldrava n�o sabia o que ele poderia fazer, mas achou melhor n�o tentar descobrir.</p><p>��Do que voc� me chamou?�� sussurrou Mort. A g�rgula pensou r�pido.</p><p>��Zenhor�� disse.</p><p>��O que me pediu para fazer?</p><p>��Para me dezcolar.</p><p>��N�o pretendo fazer isso.</p><p>��Tudo bem�� concordou a aldrava.�� Tudo bem. N�o tem problema. Ent�o vou ficar azim mesmo.</p><p>Ela viu Mortimer se afastar pela rua e encolheu os ombros de al�vio, batendo a si mesma de nervoso.</p><p>��Foi por pouuuco!�� disse uma das dobradi�as.</p><p>��Cale-ze!</p><p>Mortimer passou pelos vigias noturnos, cujo trabalho agora parecia consistir em tocar sinos e gritar o nome da princesa, mas com pouca firmeza, como se tivessem dificuldade em se lembrar. Ele os ignorou, porque estava ouvindo vozes dentro de sua pr�pria cabe�a, que assim diziam:</p><p>Idiota, ela s� o viu uma vez. Por que se incomodaria com voc�?</p><p>�, mas eu salvei a vida dela.</p><p>Isso significa que a vida pertence a ela. N�o a voc�. Al�m do mais, ele � mago.</p><p>E da�? Os magos n�o podem... n�o podem sair com as garotas. S�o celibat�rios.</p><p>Celibat�rios?</p><p>N�o podem nunca voc� sabe...</p><p>��O qu�? Nunca nada de voc� sabe?, perguntou a voz interior, e parecia estar rindo.</p><p>Parece que faz mal � magia, pensou Mortimer, com amargor.</p><p>Situa��o estranha para ser fiel � magia!</p><p>Mortimer ficou chocado.</p><p>Quem � voc�?, perguntou.</p><p>Sou voc�, Mort. Seu �ntimo.</p><p>Bem, eu gostaria de sair da minha cabe�a. Est� cheio demais comigo aqui dentro.</p><p>Tudo bem, disse a voz. Eu s� estava tentando ajudar. Mas lembre-se: se voc� alguma vez precisar de voc�, voc� estar� sempre por perto.</p><p>A voz sumiu.</p><p>Bem, pensou Mortimer cheio de ressentimento, devo ter sido eu mesmo. Sou o �nico que me chama de Mort.</p><p>O susto acabou ocultando o fato de que, enquanto estivera absorto no mon�logo, ele havia passado pelos port�es do pal�cio. Obviamente, as pessoas passavam pelos port�es do pal�cio todo dia, mas a maioria precisava de coisas para abri-los.</p><p>Os guardas do outro lado ficaram rijos de medo, porque imaginaram ter visto um fantasma. Teriam ficado bem mais apavorados se soubessem que fantasma era exatamente o que n�o haviam visto.</p><p>O guarda � porta do sal�o principal tamb�m viu o ocorrido, mas teve tempo de recobrar os sentidos, ou o que sobrava deles, e erguer a lan�a quando Pituco avan�ava pelo jardim.</p><p>��Pare�� resmungou.�� Pare. Quem vem l�?</p><p>Mortimer olhou-o pela primeira vez.</p><p>��O qu�?�� perguntou, ainda perdido em pensamentos.</p><p>O guarda passou a l�ngua sobre os l�bios secos e recuou. Mortimer desceu de Pituco e deu alguns passos adiante.</p><p>��Eu quis dizer �quem vem l�?��� aventurou-se o guarda mais uma vez, num misto de teimosia e estupidez suicida que em breve lhe traria promo��o.</p><p>Mortimer pegou a lan�a com delicadeza e suspendeu-a para fora do caminho. Quando fez isso, a tocha iluminou-lhe o rosto.</p><p>��Mort�� respondeu, baixinho.</p><p>Isso bastaria para qualquer soldado normal, mas aquele guarda era qualificado para ser oficial.</p><p>��Quer dizer, amigo ou inimigo?�� gaguejou, tentando evitar o olhar de Mortimer.</p><p>��O que voc� prefere?</p><p>Ele sorriu. N�o era exatamente o sorriso do mestre, mas se mostrou bem eficaz e n�o exibia nem um tra�o de humor. O guarda suspirou com al�vio e se p�s de lado.</p><p>��Passe, amigo�� decidiu.</p><p>Mortimer cruzou a sala em dire��o � escada que levava aos aposentos reais. O sal�o havia mudado muito desde a �ltima visita. Os retratos de Keli estavam por toda parte, haviam at� substitu�do os velhos estandartes de guerra no telhado escuro. Era imposs�vel para qualquer um que andasse pelo pal�cio avan�ar mais de alguns passos sem se deparar com eles. Uma parte da mente de Mortimer imaginava o motivo, outra parte se preocupava com a ab�bada tremeluzente a se aproximar da cidade, mas a maior parte dela era uma rajada quente e fumegante de �dio, perplexidade e ci�me. Ysabell estava certa, pensou ele, aquilo deveria ser o amor.</p><p>��O menino que atravessa paredes!</p><p>Ele ergueu a cabe�a. Cortabem estava no alto da escada.</p><p>O mago tamb�m havia mudado muito, pensou Mortimer com rancor. Mas talvez nem tanto assim. Embora estivesse vestido com um manto preto e branco bordado com lantejoulas, embora o chap�u pontudo tivesse um metro de altura e fosse decorado com mais s�mbolos m�sticos do que um mapa astral e apesar de os sapatos de veludo vermelho possu�rem fivelas de prata e biqueiras recurvas como carac�is, ainda havia algumas manchas na gola e ele parecia estar mastigando.</p><p>O mago observou Mortimer subir a escada em sua dire��o.</p><p>��Est� com raiva de alguma coisa?�� perguntou.�� Eu comecei a trabalhar naquilo, mas acabei me envolvendo em outra hist�ria. � muito dif�cil atravessar... por que est� me olhando assim?</p><p>��O que est� fazendo aqui?</p><p>��Eu poderia lhe fazer a mesma pergunta. Quer um morango?</p><p>��Em pleno inverno?</p><p>��Na verdade, s�o couves-de-bruxelas com uma pitada de feiti�o.</p><p>��T�m gosto de morango?</p><p>Cortabem suspirou.</p><p>��N�o. De couve-de-bruxelas. O feiti�o n�o � totalmente eficaz. Achei que talvez pudessem animar um pouco a princesa, mas ela jogou tudo em cima de mim. Um desperd�cio. Sirva-se.</p><p>Mortimer ficou de queixo ca�do.</p><p>��Jogou em cima de voc�?</p><p>��Exatamente. � uma jovem muito temperamental.</p><p>Ei, disse uma voz nos fundos da mente de Mortimer, � voc� de novo, apontando para voc� mesmo que as chances de a princesa sequer considerar vocꠗ sabe, com esse sujeito s�o extremamente remotas.</p><p>V� embora, pensou Mortimer. O subconsciente j� estava deixando-o preocupado. Parecia ter uma liga��o direta com partes de seu corpo que naquele momento ele gostaria de ignorar.</p><p>��Por que est� aqui?�� indagou ele, em voz alta.�� Tem a ver com os retratos?</p><p>���tima id�ia, n�o foi?�� entusiasmou-se Cortabem.�� Estou muito orgulhoso de mim mesmo.</p><p>��Desculpe�� pediu Mort.�� Tive um dia cheio. Gostaria de me sentar.</p><p>��Ali fica a Sala do Trono�� apontou Cortabem.�� A essa hora da noite, n�o tem ningu�m. Todo mundo est� dormindo.</p><p>Mortimer assentiu e ent�o olhou desconfiado para o jovem mago.</p><p>��Ent�o o que est� fazendo acordado?�� perguntou.</p><p>��Hum�� disse Cortabem.�� Hum, s� pensei em ver se tinha alguma coisa na despensa.</p><empty-line/><p>Ele encolheu os ombros.<a l:href="#n_6" type="note">[6]</a></p><p>Agora � hora de dizer que Cortabem tamb�m notou que Mortimer�� mesmo esse Mortimer insone e cansado de cavalgar�� est� de alguma forma irradiando calor interno e energia. A diferen�a � que, por ter sido treinado, Cortabem � melhor adivinhador do que as outras pessoas e sabe que nos assuntos ocultos a resposta �bvia em geral est� errada.</p><p>Mortimer pode desatentamente atravessar paredes e beber �fazedores de vi�va� permanecendo s�brio n�o porque esteja se tornando um fantasma, mas porque est� ficando perigosamente real.</p><p>De fato, quando ao caminhar pelo corredor silencioso o menino trope�a e atravessa uma coluna de m�rmore sem nem sequer not�-la, fica �bvio que o mundo vem se transformando num lugar bastante imaterial, do seu ponto de vista.</p><p>��Voc� acabou de atravessar aquela coluna de m�rmore�� observou Cortabem.�� Como fez isso?</p><p>��Atravessei?</p><p>Mortimer correu os olhos � volta. A coluna parecia s�lida o bastante. Bateu o bra�o nela e machucou o cotovelo.</p><p>��Eu podia jurar que atravessou�� insistiu Cortabem.�� Os magos reparam nessas coisas.</p><p>Ele enfiou a m�o no bolso do manto.</p><p>��Ent�o voc� reparou a ab�bada de n�voa em torno daqui?�� perguntou Mort.</p><p>Cortabem soltou um gemido. O pote em sua m�o caiu e se quebrou no ch�o. Sobreveio um cheiro de molho de salada ligeiramente ran�oso.</p><p>��J�?</p><p>��N�o sei nada de j᠗ respondeu Mort��, mas tem um muro barulhento se aproximando daqui, ningu�m mais parece se preocupar e...</p><p>��A que velocidade?</p><p>��... ele muda as coisas!</p><p>��Voc� viu? A que dist�ncia? A que velocidade?</p><p>��Claro que vi. Atravessei o neg�cio duas vezes. Foi como...</p><p>��Mas voc� n�o � mago, ent�o por que...</p><p>��O que est� fazendo aqui, afinal...?</p><p>Cortabem respirou fundo.</p><p>��Todo mundo quieto!�� gritou.</p><p>Houve sil�ncio. Ent�o o mago pegou a m�o de Mortimer.</p><p>��Venha c᠗ chamou, puxando-o de volta pelo corredor.�� N�o sei quem voc� � e espero ter tempo para descobrir um dia, mas vai acontecer uma coisa horr�vel e acho que, de algum modo, voc� est� envolvido.</p><p>��Uma coisa horr�vel? Quando?</p><p>��Isso depende da dist�ncia em que se encontra a interface e com que velocidade est� se movendo�� considerou Cortabem, arrastando Mortimer por uma passagem lateral.</p><p>Quando os dois chegaram a uma porta de madeira, ele soltou o bra�o do garoto e vasculhou o bolso mais uma vez, retirando um peda�o duro de queijo e um tomate desagradavelmente mole.</p><p>��Segure aqui, por favor. Obrigado.</p><p>Procurou novamente, achou uma chave e abriu a porta.</p><p>��Aquilo vai matar a princesa, n�o vai?�� perguntou Mort.</p><p>��Vai�� respondeu Cortabem.�� E n�o vai.</p><p>Ele se deteve, com a m�o na ma�aneta.</p><p>��� muito perspicaz da sua parte. Como sabe disso?</p><p>��Eu...</p><p>Mort hesitou.</p><p>��Ela me contou uma hist�ria muito estranha�� observou Cortabem.</p><p>��Imagino que sim�� disse Mort.�� Se era inacredit�vel, era verdadeira.</p><p>��� voc�, n�o �? O assistente do Morte?</p><p>��Sou. Mas de folga no momento.</p><p>��Fico feliz em saber.</p><p>Cortabem fechou a porta e procurou um casti�al. Houve um estouro, um clar�o de luz azul e um gemido.</p><p>��Desculpe�� pediu, soprando os dedos.�� Feiti�o do fogo. Nunca peguei o jeito do neg�cio.</p><p>��Voc� j� estava esperando a ab�bada, n�o estava?�� impacientou-se Mort.�� O que vai acontecer quando ela se fechar?</p><p>O mago sentou nos restos de um sandu�che de bacon.</p><p>��N�o tenho certeza�� admitiu.�� Vai ser interessante de se ver. Mas n�o de dentro. O que acho que vai acontecer � que a �ltima semana jamais ter� existido.</p><p>��Ela vai morrer de repente?</p><p>��Voc� n�o entende. Ela vai estar morta h� uma semana. Nada disso...�� Ele agitou as m�os vagamente no ar�� ... vai ter acontecido. O assassino vai ter feito o trabalho dele. Voc� vai ter feito o seu. A Hist�ria ter� se recuperado. Tudo estar� perfeito. Quer dizer, do ponto de vista da Hist�ria. Na verdade, n�o existe nenhum outro.</p><p>Mortimer olhou para fora da janela estreita. Do outro lado do jardim, na rua iluminada, o retrato da princesa sorria para o c�u.</p><p>��Agora me fale dos retratos�� pediu.�� Isso parece coisa de mago.</p><p>��N�o sei se est� funcionando. As pessoas estavam come�ando a ficar transtornadas e n�o sabiam por que, e isso s� fez piorar as coisas. A mente delas se encontrava numa realidade e o corpo em outra. Muito inc�modo. N�o se acostumavam � id�ia de que a princesa ainda vivia. Achei que os retratos pudessem ser uma boa id�ia, mas ningu�m v� o que a mente afirma n�o estar ali.</p><p>��N�o me diga�� ironizou Mort.</p><p>��Tamb�m mandei os apregoadores municipais falarem na princesa durante o dia�� continuou Cortabem.�� Achei que, se acreditassem nela, essa nova realidade poderia suplantar a outra.</p><p>��Como assim?�� perguntou Mort, afastando-se da janela.</p><p>��Bem... imaginei que, se pessoas suficientes acreditassem nela, poderiam mudar a realidade. Funciona com os deuses. Se ningu�m acredita num deus, ele morre. Se muitos cr�em, ele ganha for�a.</p><p>��N�o sabia disso. Achei que deus fosse deus.</p><p>��Eles n�o gostam que falem�� disse Cortabem, vasculhando a pilha de livros e pergaminhos sobre a mesa.</p><p>��Talvez funcione para os deuses porque eles s�o especiais�� sugeriu Mort.�� Gente �... mais s�lida. N�o funcionaria com gente.</p><p>��N�o � bem assim. Vamos supor que voc� sa�sse daqui e ficasse rondando o pal�cio. Provavelmente um dos guardas notaria e pensaria que voc� � ladr�o. N�o seria verdade, mas voc� morreria como se fosse. A cren�a � um tro�o poderoso. Eu sou mago. Sabemos dessas coisas. Olhe aqui.</p><p>Ele retirou um livro do entulho � frente e abriu-o no peda�o de bacon que usara como marcador. Mortimer espiou por sobre o ombro e franziu a testa ao ver a ondeada caligrafia m�gica. Ela se movia pela p�gina, retorcendo-se na tentativa de n�o se deixar ler por quem n�o fosse mago, e o efeito geral era perturbador.</p><p>��O que � isso?�� perguntou ele.</p><p>��O Livro de Maghia de Alberto Malich, o Feiticeiro�� informou o mago.�� Uma esp�cie de publica��o sobre teoria m�gica. N�o � bom olhar demais as palavras, elas n�o gostam. Veja, aqui diz...</p><p>Os l�bios se moveram sem produzir nenhum som. Pequenas gotas de suor brotaram em sua testa e resolveram se unir para descer e ver o que estava acontecendo no nariz. Os olhos lacrimejaram.</p><p>Algumas pessoas gostam de se entregar � leitura de livros. Mas ningu�m em seu ju�zo perfeito gosta de se entregar � leitura de livros de magia, porque mesmo as palavras soltas possuem vida pr�pria, e l�-las � uma esp�cie de queda-de-bra�o mental. Muitos magos jovens tentaram decifrar livros m�gicos potentes demais para eles, e quem escutava os gritos acabava encontrando apenas seus sapatos pontudos com a cl�ssica fumacinha saindo de dentro e um livro que talvez se mostrasse ligeiramente mais grosso. Nas bibliotecas m�gicas, podem acontecer coisas ao leitor que fazem os amassos e apertos provocados por monstruosidades cheias de tent�culos do Calabou�o das Dimens�es parecerem uma simples massagem.</p><p>Por sorte, Cortabem tinha uma edi��o reduzida, com algumas das p�ginas mais perturbadoras coladas umas �s outras (embora nas noites mais silenciosas ele escutasse as palavras aprisionadas chiando irritadamente dentro de seu c�rcere, como uma aranha presa em caixa de f�sforos. Quem j� se sentou perto de algu�m ouvindo walkman pode imaginar como era o ru�do).</p><p>��� essa parte�� salientou Cortabem.�� Aqui diz que at� os deuses...</p><p>��Eu conhe�o esse homem!</p><p>��O qu�?</p><p>Mort apontou o dedo tr�mulo para o livro.</p><p>��Ele!</p><p>Cortabem lhe dirigiu um olhar desconfiado e examinou a p�gina da esquerda. Havia o retrato de um velho mago segurando um livro e um casti�al numa pose que sugeria dignidade em estado terminal.</p><p>��Isso n�o faz parte da magia�� irritou-se ele.�� � s� o autor.</p><p>��O que diz debaixo do retrato?</p><p>��H�. Diz �Se vhoc� gosthou desse livro, thalvez se intheresse por outros th�tulos da...�</p><p>��N�o, estou falando da legenda!</p><p>��A� � f�cil. Trata-se do pr�prio Malich. Qualquer mago conhece. Quer dizer, ele fundou a universidade...�� Cortabem riu.�� Tem uma est�tua famosa dele no sal�o principal e, uma vez, na Semana da Arrua�a, eu subi l� em cima e botei um...</p><p>Mortimer estudou o retrato.</p><p>��A est�tua tinha uma gota na ponta do nariz?�� perguntou, baixinho.</p><p>��Acho que n�o�� respondeu Cortabem.�� Era de m�rmore, mas n�o sei por que voc� est� ficando todo tenso. Muita gente conhece o Malich. Ele � famoso.</p><p>��E viveu muito tempo atr�s, n�o foi?</p><p>��Acho que h� 2 mil anos. Olhe, n�o sei por que...</p><p>��Mas aposto que n�o morreu�� disse Mort.�� Aposto que um dia ele simplesmente sumiu. N�o foi?</p><p>Por um instante, Cortabem se manteve em sil�ncio.</p><p>��Engra�ado voc� mencionar isso�� falou, devagar.�� Existe uma lenda, sim. Dizem que ele se meteu numa furada. Que se transportou para o Calabou�o das Dimens�es enquanto tentava realizar o Rito de AshkEnte de tr�s para a frente. S� encontraram o chap�u dele. E nem era um chap�u bonito, tinha marcas de queimado.</p><p>��Alberto Malich�� murmurou Mort, meio para si mesmo.�� Imagine!</p><p>Ele tamborilou os dedos na mesa, embora o som sa�sse surpreendentemente abafado.</p><p>��Desculpe�� pediu Cortabem.�� Sempre fa�o lamban�a com sandu�che de mela�o.</p><p>��Calculo que a interface venha se movendo a passos lentos�� imaginou Mort, distraidamente lambendo os dedos.�� N�o pode det�-la com m�gica?</p><p>Cortabem sacudiu a cabe�a.</p><p>��Nem pensar. Ela me esmagaria�� objetou.</p><p>��E o que vai acontecer quando ela chegar?</p><p>��Ah, eu volto a morar na Rua do Muro. Quer dizer, jamais terei sa�do de l�. Nada disso vai ter acontecido. Uma pena... A comida aqui � deliciosa, e lavam minha roupa de gra�a. Ali�s, a que dist�ncia voc� disse que ela estava?</p><p>��Acho que a uns trinta quil�metros.</p><p>Cortabem rolou os olhos e mexeu os l�bios. Por fim, disse:</p><p>��Ent�o vai chegar aqui por volta da meia-noite de amanh�, bem a tempo para a coroa��o.</p><p>��De quem?</p><p>��Dela.</p><p>��Mas ela j� � rainha, n�o �?</p><p>��De certo modo, mas oficialmente s� vai virar rainha quando for coroada.</p><p>Cortabem sorriu, com o rosto sombreado contra a luz de vela, e acrescentou:</p><p>��� como a diferen�a entre deixar de viver e estar morto.</p><p>Vinte minutos antes, Mortimer estivera cansado o bastante para cair no sono. Agora sentia o sangue fervilhar. Era aquele tipo de energia desvairada que nos vem tarde da noite e pela qual sabemos que vamos pagar por volta do meio-dia seguinte, mas agora ele precisava de a��o ou seus m�sculos saltariam para fora.</p><p>��Quero v�-la�� anunciou.�� Se voc� n�o pode fazer nada, talvez eu possa.</p><p>��Tem guardas do lado de fora do quarto�� advertiu Cortabem.�� Falo isso apenas a t�tulo de observa��o. Nem por um minuto imagino que eles venham a fazer alguma diferen�a.</p><empty-line/><p>Era meia-noite em Ankh-Morpork, mas na grande cidade g�mea a �nica diferen�a entre o dia e a noite era o escuro. Os mercados estavam apinhados, os transeuntes ainda se encontravam amontoados na �rea das vagabundas, os perdedores das eternas e bizantinas lutas de gangue da cidade afundavam em sil�ncio nas �guas geladas do rio com pesos de chumbo amarrados aos p�s, negociantes de v�rias del�cias ilegais e mesmo il�gicas realizavam suas vendas, assaltantes assaltavam, facas reluziam � luz das estrelas em becos escuros, astr�logos davam in�cio ao trabalho do dia e, nas sombras, um guarda-noturno que havia errado o caminho tocava a campainha de casa e gritava:</p><p>��Querida chegueiaaaahhh...</p><p>Mas a Associa��o Comercial de Ankh-Morpork n�o ficaria nem um pouco satisfeita com a insinua��o de que a �nica diferen�a entre a cidade e um p�ntano era o n�mero de patas de um jacar�. De fato, nas �reas mais distintas de Ankh�� que costumavam ficar nas regi�es montanhosas, onde existe alguma chance de se pegar um pouco de brisa��, as noites s�o suaves e t�m aroma de habiscina e flor de cec�lia.</p><p>Nesta noite em particular tamb�m tinham cheiro de nitrato de pot�ssio, porque era o d�cimo anivers�rio da ascens�o do Patr�cio<a l:href="#n_7" type="note">[7]</a>, e ele tinha convidado alguns amigos�� no caso, quinhentos�� para um drinque e estava soltando fogos. O riso e o ocasional gorgolejo da paix�o enchiam os jardins do pal�cio, e a noite acabava de chegar a essa interessante fase em que todo mundo j� bebeu demais, mas n�o o suficiente para cair. E o tipo de fase em que a pessoa faz coisas das quais vai se lembrar vermelha de vergonha para o resto da vida, como assobiar com papeizinhos e rir at� passar mal.</p><p>De fato, cerca de duzentos convidados do Patr�cio estavam agora cambaleando os passos da Dan�a da Serpente, um ex�tico costume morporkiano que consiste em ficar bastante b�bado, pegar a cintura da pessoa � frente e ent�o bordejar e rir alto numa longa fila que atravessa o m�ximo poss�vel de c�modos, de prefer�ncia aqueles com objetos f�ceis de quebrar, enquanto os participantes chutam o ar mais ou menos no ritmo da batida, ou pelo menos de alguma batida. A dan�a j� vinha acontecendo havia meia hora e tinha passado por todos os cantos do pal�cio, acolhendo dois trolls, o cozinheiro, o torturador-mor do Patr�cio, tr�s gar�ons, um assaltante que estava de passagem e um pequeno e dom�stico drag�o do brejo.</p><p>Em algum lugar, no meio da dan�a, estava o gordo lorde Rodley de Quirm, herdeiro das fabulosas terras de Quirm, cuja atual preocupa��o eram os dedos finos a lhe apertarem a cintura. Banhado em �lcool, seu c�rebro tentava lhe chamar a aten��o.</p><p>��Ei�� gritou ele, por cima dos ombros, ao atravessar pela d�cima vez a imensa cozinha.�� N�o aperte tanto, por favor.</p><p>��SINTO MUITO.</p><p>��Sem problema, amigo. Conhe�o voc�?�� perguntou o lorde Rodley, chutando o ar vigorosamente ao som da batida.</p><p>��POUCO PROV�VEL. POR FAVOR, QUAL � O SENTIDO DESSA ATIVIDADE?</p><p>��Qu�?�� berrou lorde Rodley, em meio ao barulho de algu�m chutando a porta de uma cristaleira e aos muitos gritos de alegria.</p><p>��O QUE � ISSO QUE ESTAMOS FAZENDO?�� perguntou a voz, com paci�ncia glacial.</p><p>��Nunca esteve numa festa? Ali�s, cuidado com o copo.</p><p>��N�O SAIO TANTO QUANTO GOSTARIA. POR FAVOR ME EXPLIQUE. TEM ALGUMA COISA A VER COM SEXO?</p><p>��N�o, a menos que o sujeito chegue junto, meu velho, se � que voc� me entende�� disse o lorde, e cutucou o conviva com o cotovelo.�� Ai!�� resmungou.</p><p>Um estrondo adiante assinalou o fim do buf� de frios.</p><p>��N�O.</p><p>��O qu�?</p><p>��N�O ENTENDO.</p><p>��Cuidado com o creme ali, escorrega... Olhe, � s� uma dan�a. A gente faz por divers�o.</p><p>��DIVERS�O?</p><p>��Exatamente. Tch�-tch�-tch�... e chuta! Houve uma pausa aud�vel.</p><p>��QUEM � DIVERS�O?</p><p>��N�o, divers�o n�o � ningu�m, a gente � que se diverte.</p><p>��A GENTE EST� SE DIVERTINDO?</p><p>��Achei que estivesse�� respondeu o lorde, sem muita certeza. A voz estava come�ando a preocup�-lo, parecia lhe chegar diretamente ao c�rebro.</p><p>��MAS O QUE � DIVERS�O?</p><p>��Isso aqui!</p><p>��CHUTAR O AR COM FOR�A � DIVERS�O?</p><p>��Bem, faz parte da divers�o. Chute!</p><p>��OUVIR M�SICA ALTA EM LUGARES QUENTES � DIVERS�O?</p><p>��Talvez.</p><p>��COMO A DIVERS�O SE MANIFESTA?</p><p>��Bem... olhe aqui, o sujeito se diverte ou n�o se diverte, n�o precisa me perguntar, a pessoa sente. Como entrou aqui?�� acrescentou ele.�� � amigo do Patr�cio?</p><p>��DIGAMOS QUE ELE ME D� TRABALHO. ACHEI QUE EU DEVESSE APRENDER ALGUMA COISA DOS PRAZERES HUMANOS.</p><p>��Parece que tem uma longa estrada pela frente.</p><p>��EU SEI. POR FAVOR, PERDOE MINHA LAMENT�VEL IGNOR�NCIA. S� QUERO APRENDER. TODAS ESSAS PESSOAS, BEM... EST�O SE DIVERTINDO?</p><p>��Est�o!</p><p>��ENT�O ISSO � DIVERS�O.</p><p>��Fico feliz que tenhamos resolvido isso. Cuidado com a cadeira�� advertiu lorde Rodley, que agora se sentia bastante normal e pavorosamente s�brio.</p><p>Baixinho, a voz de tr�s disse:</p><p>��ISSO � DIVERS�O. BEBER EM EXCESSO � DIVERS�O. N�S ESTAMOS NOS DIVERTINDO. ELE EST� SE DIVERTINDO. QUE DIVERTIDO!</p><p>Atr�s de Morte, o pequeno drag�o dom�stico do Patr�cio segurou firme nos quadris de osso e pensou: com guardas ou sem guardas, da pr�xima vez que eu passar por uma janela aberta, vou correr feito uma besta.</p><empty-line/><p>Keli se endireitou na cama.</p><p>��N�o d� nem mais um passo!�� gritou.�� Guardas!</p><p>��N�o pudemos det�-lo�� desculpou-se o primeiro guarda, enfiando o rosto envergonhado no v�o da porta.</p><p>��Ele for�ou passagem...�� disse o segundo guarda, do outro lado do v�o da porta.</p><p>��O mago falou que n�o tinha problema, e a gente ouviu dizer que todo mundo tem de escut�-lo porque...</p><p>��Est� bem, est� bem�� gritou Keli, e devolveu a balista � mesinha de cabeceira, infelizmente esquecendo-se de ativar o dispositivo de seguran�a.</p><p>Houve um clique, um estalo de metal, um zunido pelo ar e um gemido. O gemido veio de Cortabem. Mortimer se virou para ele.</p><p>��Voc� est� bem?�� perguntou.�� Foi atingido?</p><p>��N�o�� respondeu o mago, em voz baixa.�� N�o fui, n�o. Como est� se sentindo?</p><p>��Meio cansado. Por qu�?</p><p>��Ah, por nada. Por nada. Nenhuma sensa��o estranha?</p><p>��N�o. Por qu�?</p><p>��Ah, por nada, por nada.</p><p>Cortabem se virou e deu uma olhada na parede, atr�s de Mortimer.</p><p>��Ser� que os mortos n�o t�m paz?�� protestou Keli, com amargor.�� Pensei que uma das coisas com a qual se podia contar depois da morte era uma boa noite de sono.</p><p>Parecia que ela vinha chorando. Com uma perspic�cia que o surpreendeu, Mortimer se deu conta de que ela sabia de tudo e aquilo a estava deixando ainda mais zangada do que antes.</p><p>��N�o � justo�� retrucou ele.�� Vim aqui ajudar. N�o �, Cortabem?</p><p>��Hummm?�� perguntou Cortabem, que havia achado a flecha da balista enterrada no reboco e agora a estudava, desconfiado.�� Ah, �. Veio, sim. Mas n�o vai funcionar. Desculpe, algu�m tem um barbante?</p><p>��Ajudar?�� rebateu Keli.�� Ajudar? Se n�o fosse por voc�...</p><p>��Voc� ainda estaria morta�� cortou Mort. Ela o fitou boquiaberta.</p><p>��Mas n�o saberia de nada�� considerou.�� Essa � a pior parte.</p><p>��Acho melhor voc�s dois sa�rem�� sugeriu Cortabem para os guardas, que vinham tentando parecer invis�veis.�� Mas eu fico com a lan�a, por favor. Obrigado.</p><p>��Olhe�� disse Mort.�� Tenho um cavalo l� fora. Voc� vai ficar admirada. Posso lev�-la a qualquer lugar. N�o precisa esperar aqui.</p><p>��Voc� n�o entende muito de monarquia, n�o �?�� gracejou Keli.</p><p>��H�? N�o.</p><p>��Ela quer dizer que mais vale ser uma rainha morta no castelo do que uma pleb�ia viva em qualquer outro lugar�� explicou Cortabem, que enfiara a lan�a na parede, perto da flecha, e vinha tentando pux�-la.�� De qualquer maneira, n�o adiantaria. A ab�bada n�o est� centrada no pal�cio, est� centrada na menina.</p><p>��Em quem?�� perguntou Keli.</p><p>A voz poderia manter leite fresco durante um m�s.</p><p>��Em Sua Alteza�� emendou Cortabem automaticamente, comprimindo os olhos para a seta.</p><p>��N�o se esque�a disso.</p><p>��N�o vou esquecer, mas a quest�o n�o � essa�� salientou o mago.</p><p>Ele tirou a flecha do reboco e sentiu a ponta com o dedo.</p><p>��Se voc� ficar aqui, vai morrer!�� adiantou-se Mort.</p><p>��Ent�o mostrarei ao Disco como morre uma rainha�� disse Keli, com o m�ximo de altivez poss�vel quando se est� de pijama de tric� rosa.</p><p>Mort sentou na cama, com a cabe�a nas m�os.</p><p>��Eu sei como morre uma rainha�� murmurou.�� Igual �s outras pessoas. E alguns de n�s preferem n�o ver isso acontecer.</p><p>��Com licen�a, s� quero dar uma olhada nessa balista�� interveio Cortabem, passando por eles.�� N�o se incomodem comigo.</p><p>��Irei com orgulho ao encontro do meu destino�� alardeou Keli, mas havia um leve tremor de incerteza em sua voz.</p><p>��N�o vai, n�o. Quer dizer, eu sei do que estou falando. Acredite em mim. N�o tem nada do que se orgulhar nisso. Voc� s� morre.</p><p>��Tudo bem, mas a quest�o � como. Vou morrer com nobreza, exatamente como a rainha Ezeriel.</p><p>A testa de Mortimer se franziu. A Hist�ria era um livro fechado para ele.</p><p>��Quem � ela?</p><p>��Viveu em Klatch, teve uma por��o de amantes e uma vez sentou numa cobra�� informou Cortabem, que agora esticava a balista.</p><p>��Ela quis! Estava apaixonada!</p><p>��S� lembro que costumava tomar banho com leite de asno. Engra�ada, a Hist�ria�� observou Cortabem, meditativamente.�� A mulher vira rainha, reina durante trinta anos, cria leis, declara guerra aos povos e a �nica coisa pela qual � lembrada � que cheirava a iogurte e tinha sido picada na...</p><p>��Ela � uma antepassada distante minha�� cortou Keli.�� N�o vou ouvir esse tipo de coisa.</p><p>��Voc�s querem ficar quietos e me escutar!�� gritou Mort. O sil�ncio caiu como uma mortalha.</p><p>Ent�o Cortabem mirou com cuidado e atirou nas costas de Mortimer.</p><empty-line/><p>A noite deixava para tr�s os primeiros desastres e seguia adiante. Mesmo as festas mais loucas haviam terminado, com os convidados se arrastando para a pr�pria cama, ou para a cama alheia. Em meio a esses viajantes�� meros seres do dia desviados de sua rotina cotidiana��, os verdadeiros sobreviventes da noite se entregavam ao importante com�rcio das trevas.</p><p>N�o era muito diferente das transa��es diurnas de Ankh-Morpork, � exce��o de que as facas ficavam mais �bvias e as pessoas n�o riam tanto.</p><p>O bairro conhecido como As Sombras estava mergulhado em sil�ncio, salvo pelos sinais assobiados de ladr�es e pela quietude abafada de dezenas de pessoas levando seus neg�cios privados � surdina.</p><p>E no Beco do Presunto o famoso jogo bosta flutuante de Coxo Wa seguia seu curso. Dezenas de vultos encapuzados se encontravam ajoelhados ou agachados ao redor do pequeno c�rculo de terra batida onde os tr�s dados de oito lados de Wa rolavam e ministravam sua enganosa aula de probabilidade estat�stica.</p><p>��Tr�s!</p><p>��Por Io, Olhos de Tuphal!</p><p>��Montanha, ele pegou voc�! Esse cara sabe jogar!</p><p>��� DOM.</p><p>Montanha M'guk�� o homem baixo de rosto achatado, natural de uma das tribos de Centrol�ndia, cujo talento com os dados era not�rio onde quer que dois homens se juntassem para trapacear um terceiro�� pegou os dados e estudou-os. Em sil�ncio, xingou Wa�� cujo pr�prio dom em mudar os dados era do mesmo modo famoso entre os entendidos, embora aparentemente n�o houvesse funcionado naquele momento��, desejou uma morte prematura e dolorosa ao jogador sentado � frente e lan�ou as pe�as no ch�o.</p><p>��Vinte e um!</p><p>Wa pegou os dados e entregou-os ao desconhecido. Ao se virar para Montanha, um dos olhos se mexeu de leve. Montanha ficou impressionado: mal notara o movimento dos dedos enganosamente torcidos de Wa, apesar de estar observando com aten��o.</p><p>Era desconcertante o modo como os cubos chacoalharam na m�o do desconhecido e ent�o se atiraram num arco demorado que terminou com os 24 pontinhos virados para as estrelas.</p><p>Alguns dos homens mais vividos do grupo se afastaram do desconhecido, porque sorte assim podia ser um azar no jogo bosta flutuante de Coxo Wa.</p><p>A m�o de Wa se fechou sobre os dados com um barulho semelhante ao estalo de um gatilho.</p><p>��Todos os oitos�� suspirou.�� Meu senhor, � um mist�rio tanta sorte.</p><p>O resto do grupo evaporou feito sereno, deixando apenas aqueles indiv�duos de constitui��o robusta e fisionomia truculenta, que, se Wa pagasse imposto, teria declarado como Aparelhos Essenciais e Equipamento de Trabalho.</p><p>��Talvez n�o seja sorte�� acrescentou ele.�� Talvez seja magia.</p><p>��ESTOU FICANDO OFENDIDO.</p><p>��Uma vez, tivemos um mago que queria ficar rico�� disse Wa�� N�o consigo lembrar o que aconteceu com ele. Rapazes?</p><p>��Tivemos uma conversa com o cara...</p><p>��... e o deixamos na Viela dos Porcos...</p><p>��... e na Estrada do Mel...</p><p>��... e em alguns outros lugares de que n�o me lembro.</p><p>O desconhecido se levantou. Os rapazes se aproximaram.</p><p>��N�O TEM NECESSIDADE DISSO. EU S� QUERIA APRENDER. QUE PRAZER O SER HUMANO PODE ENCONTRAR NUMA SIMPLES CONFIRMA��O DAS LEIS DO ACASO?</p><p>��Aqui o acaso n�o tem vez. Vamos dar uma geral nele, rapazes. Os acontecimentos que se seguiram n�o seriam lembrados por viva'lma, afora a que pertencia a um gato selvagem�� um dos milhares da cidade�� que vinha cruzando o beco a caminho de um encontro. Ele parou e observou com aten��o.</p><p>Os homens se congelaram em pleno ato de apunhalar. Aflitivas luzes roxas tremeluziram � volta. O desconhecido tirou o capuz e pegou os dados, ent�o botou-os na m�o inerte de Wa. O homem abria e fechava a boca, for�ando os olhos para n�o ver o que se encontrava � sua frente. Sorrindo.</p><p>��JOGUE.</p><p>Wa conseguiu olhar a pr�pria m�o.</p><p>��Qual � a aposta?</p><p>��SE VOC� GANHAR, VAI PARAR COM ESSA TENTATIVA RID�CULA DE SUGERIR QUE O ACASO REGE A VIDA DOS HOMENS.</p><p>��Est� bem. Est� bem. E... se eu perder?</p><p>��VAI DESEJAR TER GANHADO.</p><p>Wa tentou engolir, mas a garganta estava seca.</p><p>��Eu sei que mandei matar muitas pessoas...</p><p>��VINTE E TR�S, PARA SER EXATO.</p><p>��� tarde demais para me arrepender?</p><p>��ESSAS COISAS N�O ME DIZEM RESPEITO. AGORA JOGUE OS DADOS.</p><p>Wa fechou os olhos e atirou as pe�as no ch�o, nervoso demais para tentar o especial lan�amento de �agito e giro�. Manteve os olhos fechados.</p><p>��TODOS OS OITOS. PRONTO. N�O FOI T�O DIF�CIL, FOI?</p><p>Wa desmaiou.</p><p>Morte deu de ombros e se afastou, parando apenas para acariciar as orelhas do gato que se encontrava de passagem pelo beco. Ent�o cantarolou para si mesmo. N�o sabia ao certo o que lhe vinha acontecendo, mas estava gostando.</p><empty-line/><p>��Voc� n�o podia ter certeza de que iria funcionar!</p><p>Cortabem esticou as m�os num gesto conciliat�rio.</p><p>��Bem, n�o�� admitiu.�� Mas a� pensei, o que tenho a perder?</p><p>Ele recuou.</p><p>��O que voc� tem a perder?�� gritou Mort.</p><p>Ele deu um passo adiante e arrancou a flecha de um dos bala�stres da cama da princesa.</p><p>��Voc� n�o vai querer me dizer que isso atravessou o meu corpo�� objetou Mort.</p><p>��Eu estava prestando aten��o�� insistiu Cortabem.</p><p>��Eu tamb�m vi�� garantiu Keli.�� Foi horr�vel. Saiu bem de onde fica o cora��o.</p><p>��E eu vi voc� atravessar uma coluna de pedra�� lembrou.</p><p>��E eu vi voc� atravessar uma janela fechada.</p><p>��Tudo bem, mas aquilo foi em servi�o�� argumentou Mort, agitando as m�os no ar.�� N�o acontece todo dia, � diferente. E...</p><p>Ele se deteve.</p><p>��O modo como est�o me olhando...�� disse.�� Essa noite me olharam do mesmo jeito no bar. O que h� de errado?</p><p>��Foi � maneira como voc� agitou o bra�o atrav�s do bala�stre da cama�� explicou Keli, em voz baixa.</p><p>Mortimer olhou a pr�pria m�o e ent�o bateu na madeira.</p><p>��Est� vendo?�� perguntou.�� Bra�o concreto, madeira concreta.</p><p>��Ent�o ficaram olhando para voc� no bar?�� indagou Cortabem.�� O que voc� fez? Atravessou uma parede?</p><p>��N�o! Quer dizer, n�o, s� tomei um drinque, acho que se chamava entuminho...</p><p>��Esfuminho?</p><p>���. Tem gosto de ma�� podre. Pelo jeito que ficaram me encarando, cheguei a pensar que fosse algum tipo de veneno.</p><p>��Bebeu quanto?�� quis saber Cortabem.</p><p>��Talvez uma caneca, eu n�o estava prestando muita aten��o...</p><p>��Sabia que esfuminho � a bebida alco�lica mais forte numa �rea que vai daqui at� as Ramtops?�� perguntou o mago.</p><p>��N�o. Ningu�m me falou nada�� respondeu Mort.�� O que isso tem a ver com...</p><p>��N�o�� disse Cortabem, devagar.�� Voc� n�o sabia. Hum. � uma pista, n�o �?</p><p>��Tem alguma coisa a ver com a salva��o da princesa?</p><p>��Provavelmente n�o. Mas eu gostaria de dar uma olhada nos meus livros.</p><p>��Nesse caso, n�o � importante�� afirmou Mort.</p><p>Ele se virou para Keli, que o fitava com os prim�rdios da admira��o.</p><p>��Acho que posso ajudar�� disse ele.�� Acho que posso arranjar uma fonte poderosa de magia. Cortabem, magia det�m o muro, n�o det�m?</p><p>��A minha n�o. Teria de ser muito potente e, mesmo assim, n�o tenho certeza. A realidade � mais forte do que...</p><p>��Ent�o daqui me retiro�� alardeou Mort.�� At� amanh�, adeus!</p><p>��J� � amanh㠗 retrucou Keli. Mort murchou um pouco.</p><p>��Tudo bem, ent�o at� hoje � noite�� disse, ligeiramente embara�ado, e acrescentou:�� Despe�o-me.</p><p>��O qu�?</p><p>��� jeito de her�i falar�� informou Cortabem.�� Ele n�o pode evitar.</p><p>Mortimer lan�ou um olhar mal-humorado para o mago, sorriu com bravura para Keli e se retirou do quarto.</p><p>��Ele podia ter aberto a porta�� observou Keli, depois que Mortimer se foi.</p><p>��Acho que estava um pouco constrangido�� advertiu Cortabem.�� Todos passamos por essa fase.</p><p>��Que fase, de andar atravessando as coisas?</p><p>��De certo modo. Pelo menos, de andar esbarrando nelas.</p><p>��Vou dormir um pouco�� decidiu Keli.�� At� os mortos precisam descansar. Cortabem, pare de mexer nessa balista, por favor. Tenho certeza de que n�o condiz com nenhum mago ficar sozinho nos aposentos de uma dama.</p><p>��H�? Mas eu n�o estou sozinho. A senhorita est� a�.</p><p>��Essa�� disse ela�� � a quest�o, n�o �?</p><p>��Ah. Sim. Desculpe. Hum. At� amanh�.</p><p>��Boa noite, Cortabem. Feche a porta quando sair.</p><p>O Sol despontou no horizonte, resolveu que valia o sacrif�cio e come�ou a subir.</p><p>Mas levaria algum tempo para sua vagarosa luz rolar pelo Disco adormecido�� arrebanhando os restos de noite � frente��, e sombras noturnas ainda dominavam a cidade.</p><p>Agora, amontoavam-se os �ltimos clientes em torno da Tambor Consertado (na Rua Filigrana), a principal taberna da cidade. O lugar n�o era famoso pela cerveja�� que parecia urina de donzela e tinha gosto de �cido de bateria��, mas pela clientela. Dizia-se que se a pessoa ficasse muito tempo na Tambor, mais cedo ou mais tarde todos os grandes her�is do Disco lhe roubariam o cavalo.</p><p>O ambiente ainda estava barulhento e carregado de fuma�a, embora o dono viesse fazendo tudo que os donos fazem quando acham que � hora de fechar, como apagar algumas luzes, dar corda no rel�gio, botar um pano sobre as bombas de chope e, s� para garantir, conferir o paradeiro do bast�o com pregos enfiados na ponta. N�o que os fregueses viessem prestando qualquer aten��o, evidentemente. Para a maioria da clientela da Tambor, at� o bast�o com pregos teria sido considerado uma mera insinua��o.</p><p>Entretanto, eram observadores o suficiente para estar vagamente incomodados com o vulto alto parado no balc�o a se embebedar.</p><p>O �brio dedicado e solit�rio sempre cria um campo mental que lhe assegura total privacidade, mas aquele ali irradiava um tipo de brilho funesto que vinha lentamente esvaziando o bar.</p><p>Nada disso incomodou ao barman, porque o vulto solit�rio se encontrava entretido numa experimenta��o dispendiosa.</p><p>Qualquer bar de todo o multiverso possui prateleiras de garrafas com formato estranho que n�o apenas cont�m bebidas de nome ex�tico�� em geral verdes ou azuis��, mas tamb�m insignific�ncias que garrafas de bebidas normais jamais se permitiriam conter, tais como frutas inteiras, peda�os de galho e, em casos extremos, pequenos lagartos afogados. Ningu�m sabe por que os donos acumulam tantas delas, uma vez que todas t�m gosto de mela�o dissolvido em aguarr�s. J� se especulou que talvez sonhem com o dia em que algu�m entre e pe�a uma ta�a de Estrada de P�ssego com Sabor de Hortel� e, da noite para o dia, o lugar fique In.</p><p>O desconhecido vinha provando os l�quidos da primeira fileira.</p><p>��O QUE � AQUELE VERDE ALI?</p><p>O dono do bar leu o r�tulo.</p><p>��Aqui diz que � Aguardente de Mel�o�� respondeu, incerto.�� Diz que � engarrafada por uns monges seguindo uma receita antiga...�� acrescentou.</p><p>��VOU EXPERIMENTAR.</p><p>O homem olhou de esguelha para os copos vazios sobre o balc�o, alguns dos quais exibindo peda�os de fruta, cerejas em palitos e pequenos guarda-s�is de papel.</p><p>��Tem certeza de que j� n�o bebeu o bastante?�� perguntou. Incomodava-o um pouco o fato de n�o conseguir entrever o rosto do desconhecido.</p><p>O copo, com o drinque a se cristalizar nas beiradas, desapareceu sob o capuz e voltou novamente vazio.</p><p>��TENHO. O QUE � AQUELA AMARELA COM VESPAS DENTRO?</p><p>��Licor da Primavera, diz aqui. Vai?</p><p>��VAI. E A AZUL COM MANCHAS DOURADAS.</p><p>��H�. Velho Sobretudo?</p><p>���. E ENT�O A SEGUNDA FILEIRA.</p><p>��Qual das bebidas?</p><p>��TODAS.</p><p>O desconhecido continuava de p�, embora os copos com l�quidos e vegetais variados sumissem debaixo do capuz em ritmo de produ��o em s�rie.</p><p>� isso, pensou o dono, isso � estilo, � a� que compro um palet� vermelho e ponho amendoins e picles sobre o balc�o, espalho uns espelhos pela casa, troco a serragem. Ele pegou um pano empapado de cerveja e deu umas esfregadelas entusiasmadas na madeira, espalhando as marcas dos copos numa �nica mancha colorida que deu conta do verniz. O �ltimo fregu�s botou o chap�u na cabe�a e se retirou, murmurando para si mesmo.</p><p>��N�O VEJO SENTIDO�� disse o desconhecido.</p><p>��Como?</p><p>��O QUE DEVERIA ACONTECER?</p><p>��Quantas bebidas voc� tomou?</p><p>��QUARENTA E SETE.</p><p>��Ent�o qualquer coisa�� respondeu o barman e, por conhecer o trabalho e saber o que se esperava dele quando se bebe sozinho em plena madrugada, come�ou a lustrar um copo com o pano de prato e perguntou:�� A patroa botou voc� para fora?</p><p>��PERD�O?</p><p>��Afogando as m�goas?</p><p>��N�O TENHO M�GOAS.</p><p>��N�o, claro que n�o. Esque�a o que falei.�� Ele esfregou o copo um pouco mais.�� S� achei que talvez ajudasse ter com quem conversar.</p><p>Por um instante, o desconhecido permaneceu em sil�ncio, matutando. Ent�o perguntou:</p><p>��QUER CONVERSAR COMIGO?</p><p>��Quero, sim. Claro. Sou um �timo ouvinte.</p><p>��NUNCA NINGU�M QUIS CONVERSAR COMIGO.</p><p>��Que pena!</p><p>��NUNCA ME CONVIDAM PARA AS FESTAS.</p><p>��Tch.</p><p>��TODOS ME DETESTAM. N�O TENHO NENHUM AMIGO.</p><p>��Todo mundo precisa de amigo�� disse o barman, com ares de sabedor.</p><p>��EU ACHO...</p><p>��Sim?</p><p>��ACHO... QUE POSSO FICAR AMIGO DA GARRAFA VERDE.</p><p>O dono do bar empurrou a garrafa octogonal pelo balc�o. Morte pegou-a e inclinou-a sobre o copo. A bebida retiniu na borda.</p><p>��VOC� B�BADO QUE EU ESTOU ACHA, N�O �?</p><p>��Sirvo a qualquer pessoa que consiga ficar de p�.</p><p>��VOC� ESSSHT� TOTAAALMENTE CEERRRTO. MAS EU. ..</p><p>O desconhecido se deteve, com um dedo declamat�rio em riste.</p><p>��O QUE EU DIZIA?</p><p>��Que eu achava que voc� estava b�bado.</p><p>��AH, SIM. MAS POSSO FICAR S�BRIO A HORA QUE EU QUISER, ISSO � SSSSS� UMA EXPERI�NCIA. E AGORA EU GOOOSSSHTARIA DE EXPERIMENTAR A AGUARDENTE LARANJA OUTRA VEZ.</p><p>O dono da taberna suspirou e deu uma olhada no rel�gio. N�o havia d�vida de que estava ganhando muito dinheiro, principalmente porque o desconhecido n�o parecia disposto a se preocupar com pre�o de mais e troco de menos. Mas estava ficando tarde. Na verdade, estava ficando t�o tarde que j� era cedo. Tamb�m havia qualquer coisa no cliente solit�rio que o deixava incomodado. Na Tambor Consertado, as pessoas em geral bebiam como se n�o houvesse amanh�, mas aquela era a primeira vez que ele tinha a sensa��o de que podiam estar certas.</p><p>��QUER DIZER, O QUE POSSO ESPERAR DO FUTURO? ONDE EST� O SENTIDO DISSO TUDO? QUAL �?</p><p>��N�o sei, amigo. Acho que voc� vai se sentir melhor depois de dormir um pouco.</p><p>��DORMIR? DORMIR? EU NUNCA DURMO. SOU FAMOSO POR ISSO.</p><p>��Todo mundo precisa dormir. At� eu�� sugeriu ele.</p><p>��TODOS ME ODEIAM, SABIA?</p><p>���, voc� falou. Mas s�o quinze para as tr�s.</p><p>O desconhecido se virou cambaleante e correu os olhos pela taberna vazia.</p><p>��S� SOBRAMOS VOC� E EU�� disse.</p><p>O barman contornou o balc�o para ajudar o desconhecido a descer do tamborete.</p><p>��N�O TENHO NENHUM AMIGO. AT� OS GATOS ME ACHAM ESTRANHO.</p><p>Ele estendeu o bra�o e pegou uma garrafa de Aguardente Amanita antes que o homem conseguisse empurr�-lo at� a porta, perguntando-se como algu�m t�o magro podia pesar tanto.</p><p>��N�O PRECISO FICAR B�BADO. POR QUE AS PESSOAS GOSTAM DE FICAR B�BADAS? � DIVERTIDO?</p><p>��Ajuda a esquecer a vida, meu velho. Agora se segure a� enquanto eu abro a porta...</p><p>��ESQUECER A VIDA. AH! AH!</p><p>��Volte sempre que quiser, ouviu?</p><p>��GOSTARIA MESMO DE ME VER DE NOVO?</p><p>O dono do bar olhou o montinho de moedas sobre o balc�o. Aquilo valia um pouco de maluquice. Pelo menos, esse ali era tranq�ilo e parecia inofensivo.</p><p>��Ah, claro�� respondeu, empurrando o desconhecido para a rua e recuperando a garrafa num �nico movimento suave.�� Apare�a uma hora dessas.</p><p>��FOI A COISA MAAAIS GENTIL...</p><p>A porta se fechou para o resto da frase.</p><empty-line/><p>Ysabell sentou na cama.</p><p>As batidas se repetiram, macias e urgentes. Ela puxou os cobertores at� o queixo.</p><p>��Quem �?�� perguntou, num sussurro.</p><p>��Sou eu, Mort�� veio o murm�rio do outro lado da porta.�� Deixe-me entrar, por favor!</p><p>��Espere!</p><p>Ysabell vasculhou a mesinha de cabeceira atr�s de f�sforos, derrubando um vidro de �gua-de-col�nia e empurrando uma caixa de chocolates que agora mais tinha pap�is amassados do que bombons propriamente ditos. Quando conseguiu acender a vela, ajustou sua posi��o para obter o m�ximo de efeito, puxou a camisola a fim de mostrar algo mais revelador e disse:</p><p>��N�o est� trancada.</p><p>Mortimer entrou no quarto, cheirando a cavalo, sereno e esfuminho.</p><p>��Espero�� disse Ysabell, maliciosamente�� que voc� n�o tenha for�ado passagem at� aqui para tirar vantagem de sua situa��o na fam�lia.</p><p>Mortimer olhou ao redor. Ysabell era aficionada por babados. At� a penteadeira parecia estar usando an�gua. O quarto inteiro parecia antes adornado com lingerie do que mobiliado.</p><p>��Olhe, n�o tenho tempo para brincadeiras�� avisou ele.�� Traga a vela para a biblioteca. E, pelo amor de Deus, vista alguma coisa decente. Voc� est� transbordando.</p><p>Ysabell olhou para baixo, e ent�o sua cabe�a se ergueu.</p><p>��E da�?</p><p>Mortimer voltou a enfiar o rosto no v�o da porta.</p><p>��� uma quest�o de vida ou morte�� acrescentou, e desapareceu. Ysabell viu a porta se fechar, revelando o robe com borlas que Morte havia lhe dado de presente no �ltimo R�veillon dos Porcos e que ela n�o tivera coragem de jogar fora, apesar de ser um n�mero menor do que o seu e ter um coelho no bolso.</p><p>Por fim, desceu da cama, vestiu o robe infame e saiu para o corredor. Mortimer a aguardava.</p><p>��Papai n�o vai nos ouvir?�� alarmou-se ela.</p><p>��Ainda n�o chegou. Vamos.</p><p>��Como � que voc� sabe?</p><p>��A casa fica diferente quando ele est� aqui. �... � como a diferen�a entre o casaco que est� sendo usado e o que se encontra pendurado no cabide. Voc� n�o percebe?</p><p>��O que estamos fazendo de t�o importante?</p><p>Mortimer abriu a porta da biblioteca. Saiu uma lufada de ar quente e seco, e as dobradi�as soltaram um rangido de protesto.</p><p>��Vamos salvar a vida de uma pessoa�� informou ele.�� Ali�s, de uma princesa.</p><p>Ysabell de pronto se mostrou fascinada.</p><p>��Uma princesa de verdade? Ela s� anda com sapatinhos de cristal?</p><p>��Se ela anda... ?�� Mort sentiu uma ligeira preocupa��o desaparecer.�� Ah, sim. Achei mesmo que Albert tivesse se enganado.</p><p>��Est� apaixonado por ela?</p><p>Mortimer se deteve entre as estantes, ciente do diligente chiado no interior das capas dos livros.</p><p>��N�o tenho certeza�� respondeu.�� Pare�o estar?</p><p>��Parece um pouco transtornado. O que ela sente por voc�?</p><p>��N�o sei.</p><p>��Ah�� disse Ysabell, com ar de profunda entendedora.�� O amor n�o correspondido � o pior tipo. Mas provavelmente n�o � boa id�ia sair tomando veneno ou se matando�� acrescentou, pensativa.�� O que estamos fazendo aqui? Quer achar o livro dela para saber se casa com voc�?</p><p>��J� li, e ela est� morta�� disse Mort.�� Mas s� tecnicamente. Quer dizer, n�o de fato.</p><p>��Que bom, do contr�rio seria necromancia! O que estamos procurando?</p><p>��A biografia do Albert.</p><p>��Para qu�? Acho que ele n�o tem.</p><p>��Todo mundo tem.</p><p>��Bem, ele n�o gosta que ningu�m lhe fa�a perguntas pessoais. Uma vez, procurei o livro mas n�o achei. E o Albert n�o valia o sacrif�cio de insistir. Por que ele � t�o importante?</p><p>Ysabell acendeu duas velas com a que estava na m�o e encheu a biblioteca de sombras dan�antes.</p><p>��Preciso de um mago poderoso e acho que ele �.</p><p>��Quem, o Albert?</p><p>���. S� que devemos procurar por Alberto Malich. Acho que ele tem mais de 2 mil anos.</p><p>��Quem, o Albert?</p><p>���, o Albert.</p><p>��Ele n�o usa chap�u de mago�� protestou Ysabell, desconfiada.</p><p>��Deve ter perdido. De qualquer maneira, chap�u n�o � obrigat�rio. Onde come�amos a procurar?</p><p>��Bem, se voc� est� certo disso... no Dep�sito. � onde papai guarda as biografias que t�m mais de quinhentos anos. Por aqui.</p><p>Ela o conduziu por entre as estantes murmurantes at� a porta cravada num beco sem sa�da. A madeira se abriu com certa dificuldade, e o rangido das dobradi�as ressoou na biblioteca inteira. Por um instante, Mortimer imaginou que todos os livros tivessem parado seu trabalho apenas para escutar.</p><p>Uma escada levava � escurid�o aveludada. Havia teias de aranha, poeira e ar cheirando a mil anos de clausura.</p><p>��Ningu�m nunca vem aqui�� comentou Ysabell.�� Eu vou na frente.</p><p>Mortimer achou que era hora de falar alguma coisa.</p><p>��Voc� � uma m�o na roda�� arriscou.</p><p>��Quer dizer p�lida, suada e calosa? Voc� realmente sabe elogiar uma mulher, garoto.</p><p>��Mort�� disse ele, automaticamente.</p><p>O Dep�sito era escuro e quieto como uma caverna subterr�nea. As estantes mal davam espa�o para que se caminhasse entre elas e se elevavam para muito al�m do alcance da luz de vela. Eram particularmente misteriosas porque se encontravam em sil�ncio. N�o havia mais vidas a escrever, os livros dormiam. Mas Mortimer achou que dormiam como gatos, com um olho aberto. Atentos.</p><p>��J� vim aqui embaixo uma vez�� sussurrou Ysabell.�� Se voc� andar toda a vida, acabam os livros, e a� s� tem argila, pedras e peles de animal. E todo mundo se chama Ug e Zog.</p><empty-line/><p>O sil�ncio era quase palp�vel. Ao avan�ar pelos corredores abafados, Mortimer sentia os livros a observ�-los. Todos os seres que j� tinham vivido se encontravam enfileirados ali, at� as primeiras pessoas que os deuses haviam criado com barro ou o que fosse. Os livros n�o chegavam a desgostar dele, apenas se perguntavam o que estava fazendo ali.</p><p>��Voc� foi al�m de Ug e Zog?�� perguntou, baixinho.�� Tem muita gente que adoraria saber o que tem l�.</p><p>��Fiquei com medo. � muito longe, e eu n�o tinha velas suficientes.</p><p>��Uma pena...</p><p>Ysabell parou t�o de s�bito que Mortimer deu um encontr�o nela.</p><p>��Seria por aqui�� calculou.�� E agora?</p><p>Mortimer leu os nomes desbotados nas lombadas.</p><p>��N�o seguem nenhuma ordem!�� reclamou.</p><p>Eles olharam para cima. Andaram por dois corredores laterais. Tiraram livros ao acaso das prateleiras mais baixas, levantando nuvens de poeira.</p><p>��� rid�culo�� irritou-se Mort, afinal.�� Tem milh�es de vidas aqui. As chances de encontrar a do Albert s�o �nfimas e...</p><p>Ysabell p�s a m�o na boca dele.</p><p>��Escute!</p><p>Mortimer murmurou um pouco por entre os dedos dela e ent�o captou a mensagem. Agu�ou os ouvidos, tentando escutar alguma coisa sobre o chiado profundo do sil�ncio absoluto.</p><p>E conseguiu. Um leve rangido nervoso. Bem acima, em algum canto do impenetr�vel breu no alto da estante, uma vida ainda se escrevia.</p><p>Perplexos, os dois se entreolharam. Ent�o Ysabell falou:</p><p>��A gente passou por uma escada. De rodinhas.</p><p>� medida que Mortimer empurrava a estrutura, as rodas gemiam. O alto tamb�m se movia, como se fosse preso a outro conjunto de rodas em algum ponto da escurid�o.</p><p>��Certo�� disse ele.�� Passe a vela e...</p><p>��Se a vela vai subir, eu tamb�m vou�� protestou Ysabell.�� Voc� fica aqui e empurra a escada quando eu mandar. E n�o discuta.</p><p>��Pode ser perigoso l� em cima�� avisou Mort, com um qu� de bravura.</p><p>��Pode ser perigoso aqui embaixo�� argumentou Ysabell.�� Ent�o subo eu, com a vela, obrigada.</p><p>Botou o p� no primeiro degrau e logo n�o passava de uma sombra cheia de babados, delineada pelo halo da luz de vela que n�o tardou em encolher.</p><p>Mortimer firmou a escada e tentou n�o pensar em todas as vidas que se encontravam ao redor. De vez em quando, um meteoro de cera quente ca�a no ch�o, abrindo uma cratera na poeira. Ysabell agora era apenas um leve brilho a dist�ncia, mas ele sentia cada um dos passos a vibrar na escada.</p><p>Ela se deteve. Pareceu transcorrer um longo tempo.</p><p>Ent�o a voz irrompeu, amortecida pelo peso do sil�ncio � volta.</p><p>��Mort. Achei.</p><p>���timo. Traga para c�.</p><p>��Mort, voc� estava certo.</p><p>��Tudo bem, obrigado. Agora traga para c�.</p><p>��Eu sei, Mort, mas qual?</p><p>��N�o enrola. A vela n�o vai durar muito mais do que isso.</p><p>��Mort!</p><p>��O qu�?</p><p>��Mort, tem uma prateleira inteira!</p><p>Agora era realmente a alvorada, essa hora do dia que n�o pertence a ningu�m salvo �s gaivotas das docas de Morpork, � correnteza do rio e ao vento quente do sentido hor�rio, que acrescenta um aroma primaveril ao complexo cheiro da cidade.</p><p>Morte estava sentado num poste de amarra��o, contemplando o mar. Decidira parar de ficar b�bado. Aquilo estava come�ando a lhe dar dor de cabe�a.</p><p>Havia tentado pescar, dan�ar, jogar e beber�� quatro dos supostos prazeres da vida�� e n�o sabia se conseguira entender o sentido. De comida ele gostava... Como qualquer ser desse mundo, Morte apreciava uma boa refei��o. Mas n�o concebia nenhum outro prazer da carne, ou melhor, concebia, mas eram todos... carnais, e ele n�o imaginava como seria poss�vel desfrut�-los sem passar por uma grande reestrutura��o corporal, que estava fora de quest�o. Al�m do mais, parece que o ser humano ia deixando de procur�-los � medida que envelhecia, ent�o presumivelmente n�o deveriam ser t�o bons assim.</p><p>Morte come�ou a achar que, enquanto vivesse, jamais entenderia o homem.</p><p>Os paralelep�pedos ardiam ao sol, e Morte sentiu o comi-ch�o daquele impulso primaveril capaz de fazer jorrar mil toneladas de seiva atrav�s de cem metros de madeira bosque adentro.</p><p>As gaivotas planavam ao redor. Um gato de um s� olho, j� pela s�tima vida e contando com uma �nica orelha, saiu da toca em meio a uma pilha de caixas de peixe abandonadas, espregui�ou-se, miou e se esfregou nas pernas dele. O vento, cortando o famoso cheiro de Ankh, trazia o aroma de ervas e p�o fresco.</p><p>Morte ficou abismado. N�o conseguiu resistir. Estava realmente contente por se encontrar vivo e relutante era ser Morte.</p><p>DEVO ESTAR DOENTE, pensou.</p><empty-line/><p>Mortimer se ajeitou na escada, ao lado de Ysabell. Era bamba, mas parecia segura. Pelo menos a altura n�o o incomodava: l� embaixo s� havia escurid�o.</p><p>Alguns dos livros mais antigos de Albert estavam se esfacelando. Ele escolheu um ao acaso, sentindo a escada tremer ao faz�-lo, e abriu numa p�gina do meio.</p><p>��Ponha a vela assim�� pediu.</p><p>��Sabe ler isso?</p><p>��Mais ou menos: �... hera dedhicado, mas esttava terrivelmmente atormentado pelo facto de thodos os hommens morreremm e jurou acchar a imortalidade. 'Assim', dissce haos jovens maegos, 'podhemos trazzer para denttro de n�is � conszolo dos dheuses'. No dhia seguinte, chowia e Alberto...� Est� escrito numa l�ngua antiga�� disse ele.�� Antes que inventassem a ortografia. Vejamos o �ltimo.</p><p>Era o Albert mesmo. Havia diversas refer�ncias a p�o torrado com manteiga.</p><p>��Vamos ver o que ele est� fazendo agora�� sugeriu Ysabell.</p><p>��Acha que devemos? � espionagem.</p><p>��E da�? Est� com medo?</p><p>��Tudo bem.</p><p>Ele folheou at� chegar �s p�ginas em branco e ent�o voltou para a hist�ria da vida de Albert, a avan�ar pela p�gina numa velocidade surpreendente para aquela hora da noite. A maioria das biografias n�o se entretinha muito nas horas de sono, a menos que o sonho fosse especialmente claro.</p><p>��Segure a vela direito. N�o quero que caia sebo na vida dele.</p><p>��Por que n�o? Ele adora gordura.</p><p>��Pare de rir, vai acabar nos metendo em apuros. Agora veja essa parte... �Ele avan�ou pelo breu empoeirado do Dep�sito��� leu Ysabell�� �com os olhos fixos no pequeno brilho da luz de vela acima. Abelhudos, pensou, por que essas pestes t�m de se meter no que n�o lhes diz respeito...?� Mort! Ele est�...</p><p>��Fique quieta. Tamb�m estou lendo! �... dar um basta nisso. Em sil�ncio, Albert se dirigiu ao p� da escada, cuspiu nas m�os e se preparou para empurrar. O patr�o jamais saberia. Ele j� vinha se comportando de maneira estranha mesmo e era tudo culpa do garoto...�</p><p>Mortimer fitou os olhos apavorados de Ysabell.</p><p>Ent�o a menina tirou o livro de suas m�os, ergueu-o � frente sem desgrudar os olhos dele e soltou-o.</p><p>Mortimer observou os l�bios dela se mexerem e ent�o se deu conta de que tamb�m estava contando em voz baixa.</p><p>Tr�s, quatro...</p><p>Houve um baque surdo, um gemido abafado e sil�ncio.</p><p>��Acha que o matamos?�� perguntou Mort, depois de um tempo.</p><p>��O qu�? Aqui? De qualquer maneira, voc� n�o teve nenhuma id�ia melhor.</p><p>��N�o, mas... ele � um senhor de idade.</p><p>��N�o �, n�o�� rebateu Ysabell, come�ando a descer a escada.</p><p>��Dois mil anos?</p><p>��Nem um dia al�m de 67.</p><p>��Os livros diziam...</p><p>��Eu j� falei para voc�: o tempo n�o se aplica aqui. N�o o tempo real. N�o presta aten��o, garoto?</p><p>��Mort�� disse Mort.</p><p>��E pare de pisar nos meus dedos. Estou indo o mais r�pido que posso.</p><p>��Desculpe.</p><p>��E deixe de ser frouxo. Tem id�ia do t�dio que � viver aqui?</p><p>��Provavelmente n�o�� respondeu Mort, acrescentando com genu�no desejo:�� J� ouvi falar do t�dio, mas nunca tive chance de experimentar.</p><p>��� horr�vel.</p><p>��Se � essa a quest�o, o entusiasmo tamb�m n�o � tudo o que dizem.</p><p>��Qualquer coisa � melhor do que isso aqui. Ouviu-se um gemido, e ent�o uma rajada de esconjuros. Ysabell fitou a escurid�o.</p><p>��Evidentemente n�o comprometeu os m�sculos respons�veis pelo praguejamento�� disse ela.�� Acho que n�o preciso ouvir isso. Pode fazer mal � minha �ndole.</p><p>Eles acharam Albert ca�do ao p� da estante, murmurando e passando a m�o no bra�o.</p><p>��N�o tem necessidade desse esc�ndalo�� reprovou Ysabell.�� Voc� n�o est� machucado. Papai n�o deixaria esse tipo de coisa acontecer.</p><p>��Por que tinham de fazer isso?�� resmungou ele.�� Eu n�o queria o mal de ningu�m.</p><p>��O senhor ia nos empurrar!�� rebateu Mort, tentando ajud�-lo a se levantar.�� Eu li. Estou surpreso que n�o tenha usado magia.</p><p>Albert o encarou.</p><p>��Ah, ent�o voc�s descobriram, n�o �?�� perguntou, baixinho.�� Pois fa�am bom proveito. N�o t�m o direito de espionar.</p><p>Ele se p�s �de p�, apertou a m�o de Mortimer e se afastou cambaleante por entre as prateleiras silenciosas.</p><p>��N�o, espere�� gritou Mort.�� Preciso da sua ajuda.</p><p>��Ah, � claro�� disse Albert, por cima do ombro.�� Faz sentido, n�o faz? O sujeito pensa �vou dar uma espiada na vida pessoal do cara e depois pedir um favor a ele�.</p><p>��Eu s� queria saber se o senhor era realmente o senhor�� argumentou Mort, correndo atr�s dele.</p><p>��Sou. Todo mundo �.</p><p>��Mas se n�o me ajudar, vai acontecer uma coisa horr�vel! Tem uma princesa...</p><p>��Coisas horr�veis acontecem o tempo todo, garoto...</p><p>��... Mort...</p><p>��... e ningu�m espera que eu fa�a nada a respeito.</p><p>��Mas o senhor foi o maior!</p><p>Por um instante, Albert parou, mas sem se virar.</p><p>��Foi o maior? Foi o maior? E n�o tente me adular. Sou inadul�vel.</p><p>��Fizeram est�tuas suas e tudo o mais�� observou Mort, tentando n�o bocejar.</p><p>��Porque s�o idiotas.</p><p>Albert alcan�ou o p� da escada que levava � biblioteca propriamente dita e subiu os degraus, contornado pela luz de vela da biblioteca.</p><p>��Ent�o n�o vai me ajudar?�� perguntou Mort.�� Nem mesmo se puder?</p><p>��Algu�m d� um pr�mio ao garoto�� resmungou Albert.�� E n�o adianta achar que vai me comover com essa cara dura�� acrescentou�� porque sou mais duro do que isso.</p><p>Os dois ouviram-no atravessar a biblioteca como se nutrisse um rancor especial por ela e bater a porta.</p><p>��Bem�� disse Mort, incerto.</p><p>��O que voc� esperava?�� indagou Ysabell.�� Ele n�o liga para ningu�m al�m de papai.</p><p>��S� achei que algu�m assim ajudaria se eu explicasse o caso todo�� lamentou Mort.</p><p>Ele fraquejou. A energia que o vinha impulsionando pela longa noite havia se evaporado, enchendo-lhe a cabe�a de chumbo.</p><p>��Sabia que ele foi um mago famoso?</p><p>��Isso n�o quer dizer nada, os magos n�o s�o necessariamente bons. N�o se meta nos neg�cios deles, porque a recusa sempre magoa, j� li em algum lugar.</p><p>Ysabell se aproximou de Mortimer e fitou-o, tomada de preocupa��o.</p><p>��Voc� est� parecendo algo que se deixou no prato�� analisou.</p><p>��'T� bem�� garantiu Mort, arrastando-se pelos degraus em dire��o �s sombras rumorejantes da biblioteca.</p><p>��N�o est�, n�o. Uma boa noite de sono vai lhe cair como uma luva, menino.</p><p>��T'b㠗 murmurou Mort.</p><p>Ele sentiu Ysabell lhe pegar o bra�o e bot�-lo sobre os ombros. As paredes se moviam com suavidade, at� o som de sua pr�pria voz vinha de um lugar distante, e ele experimentava vagamente o desejo de se estirar numa boa laje de pedra e dormir para sempre.</p><p>Morte logo estaria de volta, disse a si mesmo, sentindo o corpo se deixar conduzir pelos corredores. N�o tinha jeito, precisaria contar a ele. O mestre n�o era t�o cabe�a-dura assim. Acabaria lhe ajudando. Tudo o que ele precisava fazer era explicar os fatos. E ent�o poderia parar de se preocupar e dorm...</p><p>��E qual foi seu cargo anterior?</p><p>��Perd�o?</p><p>��Como ganhava a vida?�� perguntou o rapaz magro atr�s da mesa.</p><p>O vulto � frente se mostrou pouco � vontade.</p><p>��EU CONDUZIA AS ALMAS PARA O OUTRO MUNDO. ERA O SEPULCRO DE TODA ESPERAN�A. A REALIDADE �LTIMA. O ASSASSINO QUE NENHUM CADEADO PODIA DETER.</p><p>��Sei. Mas tem alguma aptid�o especial?</p><p>Morte pensou no assunto.</p><p>��ACHO QUE CERTA HABILIDADE COM FERRAMENTAS AGR�COLAS�� arriscou, depois de um tempo.</p><p>O jovem sacudiu a cabe�a.</p><p>��N�O?</p><p>��Isso aqui � uma cidade, senhor...�� Ele baixou os olhos e mais uma vez sentiu um inc�modo indefinido.�� Senhor... senhor... senhor, e n�o temos muitas planta��es.</p><p>Botou a caneta sobre a mesa e abriu um tipo de sorriso que parecia ter aprendido em livro.</p><p>Ankh-Morpork n�o era avan�ada a ponto de ter uma ag�ncia de empregos. As pessoas arranjavam servi�o porque os pais abriam espa�o para elas, porque o talento natural exigia uma vaga ou pelo boca-a-boca. Mas havia demanda de servos e lacaios e, com as se��es comerciais da cidade come�ando a se desenvolver, o rapaz magro�� ou senhor Liona Keeble�� inventara a profiss�o de agenciador de empregos e, naquele exato momento, estava achando imposs�vel exerc�-la.</p><p>��Meu caro�� Ele baixou os olhos.�� ... senhor, tem muita gente vindo do campo para a cidade porque acha que a vida aqui � mais generosa. Desculpe por dizer isso, mas o senhor me parece um cavalheiro em dificuldades. Imagino que prefira um emprego mais refinado do que...�� Ele baixou os olhos outra vez e franziu a testa�� ... �alguma coisa interessante que lide com flores ou gatos�.</p><p>��ACHEI QUE ERA HORA DE MUDAR.</p><p>��Toca algum instrumento musical?</p><p>��N�O.</p><p>��� bom em carpintaria?</p><p>��N�O SEI, NUNCA TENTEI.</p><p>Morte olhou os pr�prios p�s. Estava come�ando a ficar profundamente constrangido.</p><p>Keeble mexeu os pap�is sobre a mesa e suspirou.</p><p>��SEI ATRAVESSAR PAREDES�� aventurou-se Morte, ciente de que a conversa chegara a um impasse.</p><p>Keeble levantou a cabe�a.</p><p>��Gostaria de ver isso�� animou-se.�� Pode ser uma qualifica��o.</p><p>��CERTO.</p><p>Morte afastou a cadeira e avan�ou confiante para a parede mais pr�xima.�� Ai! Apreensivo, Keeble observava.</p><p>��Pode ir�� disse.</p><p>��H�. ESSA PAREDE � NORMAL, N�O �?</p><p>��Acho que �. N�o sou nenhum especialista.</p><p>��EST� ME OFERECENDO ALGUMA RESIST�NCIA.</p><p>��Parece que sim.</p><p>��COMO SE CHAMA A SENSA��O DE A GENTE FICAR MUITO PEQUENO E COM CALOR?</p><p>Keeble girou o l�pis na m�o.</p><p>��Pigmeu?</p><p>��COME�A COM C.</p><p>��Constrangido?</p><p>��ISSO�� disse Morte.�� QUER DIZER, ISSO.</p><p>��Parece que o senhor n�o tem nenhum dom ou talento�� analisou o jovem.�� J� pensou em lecionar?</p><p>O rosto de Morte era uma m�scara de horror. Bem, sempre havia sido uma m�scara de horror, mas dessa vez ele quis que fosse.</p><p>��Sabe?�� come�ou Keeble, largando a caneta e juntando as m�os sobre a mesa.�� � muito raro eu ter de achar emprego para uma... como � mesmo?</p><p>��PERSONIFICA��O ANTROPOM�RFICA.</p><p>��Ah, sim. O que � isso, exatamente?</p><p>Morte se cansou.</p><p>��ISSO�� respondeu.</p><p>Por um instante, apenas por um instante, o senhor Keeble viu-o com clareza. O rosto ficou quase t�o p�lido quanto o do pr�prio Morte. As m�os se agitaram em convuls�o. O cora��o disparou. Morte observou-o com algum interesse, ent�o tirou uma ampulheta das profundezas do manto, suspendeu-a at� a luz e examinou-a.</p><p>��CALMA�� disse.�� VOC� AINDA TEM UNS BONS ANOS PELA FRENTE.</p><p>��Mmmmmmm...</p><p>��SE QUISER, POSSO LHE DIZER QUANTOS.</p><p>Esfor�ando-se para respirar, Keeble conseguiu sacudir a cabe�a.</p><p>��ENT�O QUER UM COPO D'�GUA?</p><p>��Nnn... Nnn.</p><p>A campainha da ag�ncia soou. Keeble revirou os olhos. Morte decidiu que devia algo ao homem. O sujeito n�o deveria perder a freguesia�� que sem d�vida era algo que os seres humanos estimavam muito.</p><p>Atravessou a cortina de contas e entrou na parte externa da ag�ncia, onde uma mulher baixa e gorda, mais parecida com um p�o de queijo, batia no balc�o com um bacalhau.</p><p>��� sobre o emprego de cozinheira na universidade�� avisou ela.�� Voc� disse que era um cargo maravilhoso, e aquilo � um inferno, com as arma��es dos alunos. Eu quero, exijo que voc�... n�o estou...</p><p>A voz se perdeu.</p><p>��... aqui�� disse, mas era �bvio que o �nimo se fora.�� Voc� n�o � o Keeble, �?</p><p>Morte a encarou. Jamais tivera a experi�ncia de pegar um cliente insatisfeito pela frente. Estava perplexo. Por fim, n�o ag�entou.</p><p>��FORA, SUA BRUXA PRETA DA MEIA-NOITE�� gritou ele. Os olhinhos da cozinheira se apertaram.</p><p>��Quem voc� est� chamando de bucha da meia-noite?�� perguntou, acusadoramente, e bateu outra vez com o peixe no balc�o.�� Olhe isso aqui�� pediu.�� Ontem � noite era meu aquecedor, hoje de manh� � um bacalhau.</p><p>��QUE TODOS OS DEM�NIOS DO INFERNO LHE DILACEREM O ESP�RITO SE VOC� N�O SAIR DA AG�NCIA NESTE INSTANTE�� Arriscou Morte.</p><p>��N�o sei nada disso, mas e quanto ao meu aquecedor? Aquilo n�o � lugar para mulher de respeito. Eles tentaram...</p><p>��SE VOC� FIZER A BONDADE DE IR EMBORA�� prop�s Morte, em desespero��, POSSO LHE PAGAR.</p><p>��Quanto?�� perguntou a cozinheira, com uma rapidez que teria deixado cobra para tr�s e dado susto em rel�mpago.</p><p>Morte pegou o saco de dinheiro e depositou uma pilha de moedas escurecidas sobre o balc�o. Ela as fitou, com extrema desconfian�a.</p><p>��AGORA SAIA�� exigiu Morte, e acrescentou:�� ANTES QUE OS VENTOS SECOS DO INFINITO LHE QUEIMEM A CARCA�A IMPREST�VEL.</p><p>��Meu marido vai ficar sabendo disso�� amea�ou a cozinheira, sombriamente, ao deixar a loja.</p><p>Ocorreu a Morte que nenhuma amea�a dele jamais poderia ter sido t�o medonha.</p><p>Ele voltou para dentro. Ainda afundado na cadeira, Keeble soltou uma esp�cie de gorgolejo sufocado.</p><p>��Ent�o � verdade!�� lamentou.�� Achei que voc� fosse um pesadelo!</p><p>��POSSO ACABAR ME OFENDENDO�� advertiu Morte.</p><p>��Voc� realmente traz a morte?�� perguntou Keeble.</p><p>��TRAGO.</p><p>��Por que n�o me disse logo?</p><p>��EM GERAL, PREFEREM QUE EU N�O DIGA.</p><p>Keeble remexeu nos pap�is, rindo histericamente.</p><p>��Quer trabalhar em outra ocupa��o?�� indagou.�� Bicho pap�o? Mula-sem-cabe�a? Boitat�?</p><p>��N�O SEJA RID�CULO. EU S�... QUERIA MUDAR UM POUCO.</p><p>Keeble achou afinal o papel que vinha procurando. Soltou um riso alucinado e botou-o nas m�os do visitante. Morte leu.</p><p>��ISSO � EMPREGO? AS PESSOAS RECEBEM PARA FAZER ISSO?</p><p>��Recebem, recebem, v� v�-lo. Voc� tem o perfil ideal. S� n�o diga a ele que eu o mandei.</p><empty-line/><p>Pituco avan�ava em galopes vigorosos pela noite. Agora Mortimer descobria que a espada ia al�m de onde havia imaginado, que alcan�ava as pr�prias estrelas, ent�o agitou-a no espa�o at� o cora��o de uma estrela an�, que, com satisfa��o, virou nova. Ele se endireitou na sela e meneou a l�mina, rindo ao ver o fio azul atravessar o c�u, deixando um rastro de escurid�o e brasas.</p><p>Que n�o parou. Ele tentou conter a espada a cortar o horizonte, derrubando montanhas, secando oceanos, transformando florestas verdes em podrid�o e cinzas. Ao correr os olhos � volta, em desespero, ouviu vozes e o breve grito de amigos e parentes. Tempestades de areia se erguiam da terra em ru�na, enquanto ele tentava soltar a arma, mas a espada lhe ardia a m�o, arrastando-o numa dan�a que s� acabaria quando n�o restasse mais nada.</p><p>Essa hora chegou, e Mortimer ficou sozinho, � exce��o de Morte, que disse:</p><p>��Bom trabalho, garoto.</p><p>E Mortimer respondeu:</p><p>��MORT.</p><p>��Mort! Mort! Acorde!</p><p>Mortimer voltou a si lentamente, como um cad�ver emergindo no lago. Resistiu um pouco, agarrando-se ao travesseiro e aos horrores do sono, mas algu�m estava lhe puxando a orelha.</p><p>��Mnmph?�� disse.</p><p>��Mort!</p><p>��Uzzz.</p><p>��Mort, � papai!</p><p>Desorientado, ele abriu os olhos e fitou o rosto de Ysabell. Ent�o os acontecimentos do dia anterior atingiram-no como um saco de areia molhada.</p><p>Ele desceu da cama, ainda enredado nos restos do sonho.</p><p>��T�, tudo bem�� disse.�� Vou v�-lo agora mesmo.</p><p>��Ele n�o est� aqui! Albert j� est� maluco!</p><p>Ysabell se encontrava ao lado da carna, apertando um len�o entre as m�os.</p><p>��Mort, acha que aconteceu alguma coisa?</p><p>Ele a encarou, confuso.</p><p>��N�o seja idiota�� irritou-se.�� Ele � o Morte.</p><p>Co�ou a pele. Estava quente e seca.</p><p>��Mas nunca ficou tanto tempo assim fora! Nem quando teve peste em Pseud�polis! Quer dizer, de manh� ele precisa estar aqui para escrever nos livros, decifrar os n�s e...</p><p>Mortimer agarrou os bra�os dela.</p><p>��Tudo bem, tudo bem�� disse, da forma mais apaziguadora poss�vel.�� Tenho certeza de que est� tudo certo. Fique calma, que vou resolver... Por que est� de olhos fechados?</p><p>��Mort, por favor vista suas roupas�� exigiu Ysabell, num sussurro constrangido.</p><p>Mort olhou para baixo.</p><p>��Desculpe�� pediu.�� N�o percebi... Quem me botou na cama?</p><p>��Eu�� respondeu ela.�� Mas fiquei olhando para o outro lado. Mortimer enfiou a cal�a e a camisa e correu para o gabinete de Morte, com Ysabell em seu encal�o. Albert j� estava l�, saltando de um p� para o outro, como um pato na chapa. Quando Mortimer chegou, a fisionomia do homem quase poderia ter sido de gratid�o.</p><p>At�nito, Mortimer notou que havia l�grimas em seus olhos.</p><p>��A cadeira dele est� intacta�� lamentou Albert.</p><p>��Desculpe, mas isso � grave mesmo?�� perguntou Mort.�� Meu av� costumava passar v�rios dias fora de casa quando fazia uma boa venda no mercado.</p><p>��Mas ele est� sempre aqui�� rebateu Albert��, toda manh�, desde que o conhe�o, sentado a� na mesa interpretando os n�s. � seu trabalho. Ele n�o faltaria.</p><p>��Imagino que os n�s possam cuidar de si mesmos por um ou dois dias�� disse Mort.</p><p>A queda na temperatura do ambiente lhe disse que estava errado. Ele fitou o rosto dos dois.</p><p>��N�o podem?�� perguntou. Ambos sacudiram a cabe�a.</p><p>��Se os n�s n�o forem decifrados de maneira adequada, todo o Equil�brio vai ser destru�do�� informou Ysabell.�� Qualquer coisa poderia acontecer.</p><p>��Ele n�o explicou isso para voc�?�� surpreendeu-se Albert.</p><p>��N�o. S� participei do lado pr�tico. Ele falou que me ensinaria a parte te�rica mais tarde�� esclareceu Mort.</p><p>Ysabell desatou a chorar.</p><p>Albert pegou Mortimer pelo bra�o e, com movimentos consider�veis das sobrancelhas, sugeriu que os dois deveriam ter uma conversinha no canto do gabinete. Relutante, Mortimer o seguiu.</p><p>O velho investigou os bolsos e exibiu afinal um saco amassado de papel.</p><p>��Hortel�?�� ofereceu. Mort sacudiu a cabe�a.</p><p>��Ele nunca lhe falou dos n�s?�� perguntou Albert. Outra vez Mort sacudiu a cabe�a. Albert chupou a hortel�.</p><p>O som parecia o ralo da banheira de Deus.</p><p>��Quantos anos voc� tem, rapaz?</p><p>��Mort. Dezesseis.</p><p>��Tem coisas que o homem precisa aprender antes de chegar aos 16�� disse Albert, olhando de esguelha para Ysabell, a chorar na cadeira de Morte.</p><p>��Ah, eu j� sei disso. Meu pai me contou uma vez que a gente levou as cabras para acasalar. Quando o homem e a mulher...</p><p>��Estou falando do universo�� cortou Albert.�� Alguma vez j� parou para pensar nele?</p><p>��Sei que o Disco � carregado no lombo de quatro elefantes que ficam sobre a carapa�a da Grande A'Tuin�� resumiu Mort.</p><p>��Isso � s� uma parte. Estou falando de todo o universo: do tempo e do espa�o, da vida e da morte, do dia, da noite e tudo o mais.</p><p>��N�o posso dizer que j� tenha pensado no assunto�� admitiu Mort.</p><p>��Ah. Pois deveria. A quest�o � que os n�s fazem parte disso. Eles impedem que a morte fuja ao controle. N�o o Morte. Mas a morte. Porque, h�...�� Albert procurou as palavras certas�� ... porque a morte s� deve chegar no fim da vida, entende? E n�o antes ou depois. E os n�s precisam ser decifrados para que as figuras-chave... Voc� n�o est� entendendo, est�?</p><p>��Sinto muito.</p><p>��Eles precisam ser decifrados�� repetiu Albert.�� E ent�o as vidas certas devem ser levadas. As ampulhetas, como as chamamos. O Servi�o em si � um trabalho f�cil.</p><p>��O senhor sabe fazer isso?</p><p>��N�o. Voc� sabe?</p><p>��N�o!</p><p>Pensativo, Albert chupava a hortel�.</p><p>��Ent�o estamos perdidos�� decidiu.</p><p>��Olhe, n�o sei por que voc�s est�o t�o preocupados. Ele deve ter ficado preso em algum lugar�� considerou Mort, mas n�o pareceu convencer nem a si pr�prio.</p><p>Ningu�m pedia ao Morte que ficasse mais tempo para ouvir uma hist�ria nem lhe dava palminhas nas costas e dizia coisas como �Tome mais uma bebida, meu amigo, n�o v� ainda� ou o convidava para formar um time de boliche e depois degustar uma boa comida klatchiana... Com uma for�a s�bita e assustadora, ocorreu a Mortimer que Morte deveria ser a criatura mais solit�ria do universo. Na grande festa da Cria��o, ele estava sempre na cozinha.</p><p>��N�o sei o que est� acontecendo com o patr�o�� murmurou Albert.�� Levante-se, minha filha. Vamos dar uma olhada nesses n�s.</p><p>Eles abriram o livro. Olharam-no por um longo tempo. Ent�o Mort perguntou:</p><p>��O que significam todos esses s�mbolos?</p><p>��Non sapiens demo�� respondeu Albert, baixinho.</p><p>��O que quer dizer isso?</p><p>��Quer dizer �E eu sei l� que diabo?�</p><p>��Aquilo era jarg�o de mago, n�o era?�� indagou Mort.</p><p>��Pare com essa hist�ria de mago. N�o sei nada de jarg�o. Concentre-se nisso aqui.</p><p>Mortimer olhou as linhas floreadas. Era como se uma aranha tivesse feito uma teia na p�gina, detendo-se a cada jun��o para tomar notas. Mortimer ficou olhando at� as vistas doerem, � espera de alguma centelha de inspira��o. Nenhuma se candidatou.</p><p>��Alguma coisa?</p><p>��Parece klatchiano�� sugeriu Mort.�� N�o sei nem se � para ser lido de lado ou de cabe�a para baixo.</p><p>��Em espiral, do meio para fora�� informou Ysabell, sentada no canto.</p><p>Os dois deram de cabe�a ao se virarem para o centro da p�gina. Ent�o encararam Ysabell. Ela encolheu os ombros.</p><p>��Quando eu fazia tric� aqui�� disse��, papai me ensinava a ler o gr�fico de n�s. Sempre lia alguma parte em voz alta.</p><p>��Pode nos ajudar?�� perguntou Mort.</p><p>��N�o�� respondeu Ysabell. Ela assoou o nariz.</p><p>��Como assim, n�o?�� irritou-se Albert.�� Isso � importante demais para capricho de...</p><p>��O que estou dizendo�� cortou Ysabell�� � que posso decifr�-los, e voc� pode nos ajudar.</p><empty-line/><p>O Gr�mio de Mercadores de Ankh-Morpork decidiu contratar uma enorme legi�o de homens com c�rebro de gel�ia e m�sculos de a�o, cuja fun��o � reeducar os transviados que n�o reconhecem os muitos pontos tur�sticos da bela cidade. Por exemplo, o fil�sofo Gatassado foi encontrado boiando de bru�os no rio poucas horas depois de proferir a famosa frase �Quando o homem est� cansado de Ankh-Morpork, est� cansado de chafurdar na lama�.</p><p>Logo, � prudente nos demorarmos em uma das muitas (evidentemente) coisas que elevam Ankh-Morpork a uma das principais cidades do multiverso.</p><p>Trata-se da comida.</p><p>As rotas comerciais de metade do Disco passam pela cidade ou ao menos por seu vagaroso rio. Mais da metade das tribos e ra�as do Disco possuem representantes que vivem na regi�o. Em Ankh-Morpork, as cozinhas do mundo colidem: existem no card�pio mil tipos de vegetal, mil e quinhentos queijos, duas mil especiarias, trezentos tipos de carne, duzentas aves, quinhentas esp�cies diferentes de peixe, uma centena de variedades no que se refere a massa, setenta ovos de um tipo ou de outro, cinq�enta insetos, trinta moluscos, vinte tipos de cobra e outros r�pteis, al�m de um neg�cio marrom-claro e verruguento conhecido como trufa migrat�ria dos p�ntanos de Klatch.</p><p>Os estabelecimentos comercias que servem refei��es v�o desde os luxuosos, onde as por��es s�o �nfimas mas os talheres s�o de prata, at� os obscuros, onde se diz que alguns dos habitantes mais ex�ticos do Disco comem qualquer coisa que consigam enfiar goela abaixo.</p><p>Perto do cais, a Casa das Costelas de Harga provavelmente n�o se encontra entre os melhores restaurantes da cidade, atendendo a uma clientela de peso que prefere quantidade e quebra a mesa se n�o tiver. Os fregueses n�o se interessam por extravag�ncias e exotismos, mas se prendem � comida tradicional, como embri�es de galinha, �rg�os picados em pele de intestino, fatias de carne de porco e sementes de trigo banhadas em gordura animal, ou�� como se diz na g�ria local�� ovo, ling�i�a, bacon e torrada com manteiga.</p><p>Era o tipo de restaurante que n�o precisava de card�pio. Bastava olhar o avental de Harga.</p><p>No entanto, ele tinha de admitir que o novo cozinheiro era o supra-sumo da profiss�o. Grande propagador de sua mercadoria altamente cal�rica, Harga ficava radiante com a casa cheia de clientes satisfeitos. E com funcion�rio r�pido! Ali�s, perturbadoramente r�pido.</p><p>Ele bateu no postigo.</p><p>��Dois ovos, feij�o, batata frita e hamb�rguer de troll sem cebola�� gritou.</p><p>��Certo.</p><p>Alguns segundos mais tarde, o postigo se abria e dois pratos eram empurrados para fora. Harga sacudiu a cabe�a, num misto de deleite e perplexidade.</p><p>A noite toda fora assim. Os ovos eram claros e brilhantes, os feij�es reluziam como rubis e as batatas tinham o bronze dourado dos corpos expostos ao sol em praias requintadas. O cozinheiro anterior fazia batatas semelhantes a pequenos sacos de papel cheios de pus.</p><p>Harga correu os olhos pelo restaurante abarrotado. Ningu�m estava olhando. Ele iria at� o fim. Bateu novamente no postigo.</p><p>��Sandu�che de crocodilo�� pediu.�� Com...</p><p>O postigo se fechou. Depois de alguns segundos, juntando coragem suficiente, Harga espiava no meio das longas fatias de p�o � sua frente. Ele n�o diria que aquilo era crocodilo, mas tamb�m n�o diria que n�o era. Bateu mais uma vez no postigo.</p><p>��Tudo bem�� disse.�� N�o estou reclamando. S� quero saber como p�de fazer t�o r�pido.</p><p>��O TEMPO N�O � IMPORTANTE.</p><p>��Jura?</p><p>��JURO.</p><p>Harga decidiu n�o discutir.</p><p>��BEM, GAROTO, VOC� EST� REALIZANDO UM �TIMO TRABALHO�� Elogiou.�� COMO SE CHAMA A SENSA��O DE ESTAR ANIMADO, CONTENTE E QUERER QUE AS COISAS FIQUEM ASSIM PARA SEMPRE?</p><p>��Acho que felicidade�� respondeu Harga.</p><p>Dentro da min�scula cozinha, coberta pela gordura das d�cadas, Morte se esmerava, cortando, fatiando e temperando. A frigideira cintilava em meio ao vapor malcheiroso.</p><p>Ele havia aberto a porta para o ar frio da noite, e uma dezena de gatos do bairro tinham entrado ali, atra�dos pelas tigelas de leite e carne�� a melhor da sele��o de Harga��, estrategicamente espalhadas pelo ch�o. De vez em quando, Morte parava o trabalho e afagava um deles atr�s da orelha.</p><p>��Felicidade�� murmurou, e se surpreendeu com o timbre da pr�pria voz.</p><empty-line/><p>Cortabem, mago e reconhecedor real por nomea��o, subiu o �ltimo dos degraus da torre e se encostou na parede, esperando o cora��o parar de saltar.</p><p>Na verdade, a torre n�o era muito alta, apenas alta para Sto Lat. Na arquitetura geral, parecia o tipo padr�o de torre onde se aprisionam princesas. Era usada principalmente para guardar m�veis velhos, e oferecia panoramas incompar�veis da cidade e da plan�cie Sto, o que vale dizer que pod�amos ver uma quantidade monstruosa de repolhos.</p><p>Cortabem se dirigiu �s ameias e olhou a neblina matutina. Talvez estivesse um pouco mais cerrada do que de costume. Se ele se esfor�asse, poderia imaginar uma oscila��o no c�u. Se realmente desse asas � imagina��o, ouviria um chiado sobre as planta��es de repolho, um barulho de gafanhotos fritando. O mago estremeceu.</p><p>As m�os de imediato apalparam os bolsos, mas n�o acharam nada al�m de meio saco de balas de gelatina, derretidas numa massa grudenta, e um caro�o de ma��. Nenhum dos dois oferecia qualquer consolo.</p><p>O que Cortabem queria � o que todo mago em ju�zo perfeito quer numa hora dessas: fumar. Ele teria matado por um charuto e aceitado at� levar um ferimento leve em troca de uma guimba esmagada. Ent�o se recomp�s. Coragem era bom para o car�ter. O �nico problema � que o car�ter n�o estava nada satisfeito com os sacrif�cios que ele vinha fazendo em seu nome. Dizem que o verdadeiro mago deve estar sempre sob tens�o. Dava para usar Cortabem como corda de arco.</p><p>Ele deu as costas para a paisagem de repolhos e voltou pela escada sinuosa at� a parte principal do pal�cio.</p><p>Pelo menos, disse a si mesmo, a campanha parecia estar funcionando. A popula��o n�o vinha oferecendo resist�ncia ao fato de que haveria uma coroa��o, embora n�o estivesse certa em rela��o a quem seria coroado. Haveria bandeiras na rua, e Cortabem conseguira que a principal fonte da pra�a jorrasse, se n�o vinho, pelo menos uma razo�vel cerveja feita de br�colis. Haveria dan�a folcl�rica�� a ferro e fogo, se necess�rio. Haveria corrida para as crian�as. Haveria carne assada. A carruagem real havia sido redourada, e Cortabem estava otimista, achando que o povo se deixaria persuadir a not�-la passar.</p><p>O sumo sacerdote do Templo do Cego Io seria um problema. Cortabem j� havia reparado que se tratava de uma alma generosa cuja aptid�o com a faca se mostrava t�o prec�ria que metade dos sacrif�cios ficava cansada de esperar e ia embora. A �ltima vez que tentara sacrificar uma cabra, o animal teve tempo de dar � luz dois filhotes antes que o homem conseguisse se concentrar, e ent�o o instinto da maternidade a fizera expulsar toda a fraternidade do templo.</p><p>Cortabem havia calculado que, mesmo em condi��es normais, a chance de o velho botar a coroa na cabe�a certa era apenas m�dia. Ele teria de ficar perto do homem e tentar cuidadosamente lhe guiar as m�os tr�mulas.</p><p>Ainda assim, esse n�o era o maior problema. O maior problema era muito maior. O maior problema lhe fora trazido pelo chanceler, depois do caf� da manh�.</p><p>��Fogos de artif�cio?�� surpreendera-se Cortabem.</p><p>��N�o � o tro�o em que voc�s, magos, s�o bons?�� perguntou o chanceler, �spero como pedra-pomes.�� Raios, explos�es e n�o-sei-mais-o-qu�. Quando eu era menino, lembro-me de um mago...</p><p>��N�o sei nada de fogos de artif�cio�� rebateu Cortabem, num tom de voz destinado a mostrar que estimava aquela ignor�ncia.</p><p>��Muitos foguetes...�� continuou o chanceler, com alegria.�� Velas ankhianas. Rel�mpagos. E coisinhas que a gente segurava com a m�o. N�o � uma coroa��o de verdade se n�o tem fogos de artif�cio.</p><p>��Sei, mas veja o senhor que...</p><p>��Excelente�� animou-se o chanceler.�� Eu sabia que pod�amos contar com voc�. Muitos foguetes, entendeu? E para terminar deve haver uma obra magistral, sabe? Algo de tirar o f�lego, como o retrato da... da...</p><p>Os olhos se embaciaram de um modo que vinha ficando terrivelmente familiar para Cortabem.</p><p>��Princesa Keli�� lembrou ele, fatigado.</p><p>��Ah, sim. Dela�� respondeu o chanceler.�� Um retrato da... de quem voc� disse... em fogos de artif�cio. Claro que provavelmente � tudo muito simples para voc�s, magos, mas as pessoas gostam. Nada como umas boas explos�es e um aceno na sacada para manter os m�sculos da lealdade em forma, � o que sempre digo. Foguetes. Com runas.</p><p>Fazia uma hora, Cortabem correra os olhos pelo �ndice de O Livro M�gico da Monstruosa Divers�o, reunira alguns ingredientes caseiros b�sicos e jogara um f�sforo neles.</p><p>Engra�adas as sobrancelhas, refletiu o mago. A gente s� nota quando n�o est�o mais ali.</p><p>Com marcas vermelhas em torno dos olhos e cheirando ligeiramente a fuma�a, Cortabem avan�ou em dire��o aos aposentos reais, passando por v�rios grupos de criadas entretidas no que quer que fazem as criadas�� o que sempre parece exigir pelo menos tr�s delas. Sempre que as meninas viam Cortabem, ficavam caladas, passavam correndo de cabe�a baixa e ent�o desatavam a soltar risos abafados corredor afora. Isso irritava Cortabem. N�o�� tratou de afirmar para si mesmo�� por qualquer raz�o pessoal, mas porque deve-se mostrar mais respeito pelos magos. Al�m disso, algumas empregadas tinham um jeito de olhar que lhe fazia ter pensamentos contr�rios � norma dos magos.</p><p>Sinceramente, meditou ele, o caminho da luz tem um quil�metro de vidro quebrado.</p><p>Bateu � porta da su�te de Keli. Uma criada atendeu.</p><p>��A patroa est�?�� perguntou, com o m�ximo de arrog�ncia que conseguiu manifestar.</p><p>A empregada botou a m�o na boca. Os ombros se sacudiram. Os olhos brilharam. Um som como g�s vazando lhe escapou por entre os dedos.</p><p>N�o posso evitar, pensou Cortabem. Parece que causo um efeito espantoso nas mulheres.</p><p>��� homem?�� perguntou Keli, l� de dentro.</p><p>Os olhos da criada se embaciaram, e ela inclinou a cabe�a, como se n�o tivesse certeza do que tinha ouvido.</p><p>��Sou eu, Cortabem�� avisou Cortabem.</p><p>��Ah, ent�o n�o tem problema. Pode entrar.</p><p>Cortabem passou pela menina e tentou ignorar o riso abafado que ela soltou ao se retirar do quarto. Todo mundo sabia que n�o havia necessidade de dama de companhia quando uma mulher se encontrava com um mago. Fora exatamente a inflex�o da princesa�� �Ah, ent�o n�o tem problema��� que fez ele se contorcer por dentro.</p><p>Keli estava sentada � penteadeira, escovando o cabelo. Pouqu�ssimos homens no mundo chegam a descobrir o que uma princesa usa debaixo do vestido e, com extrema relut�ncia mas not�vel autocontrole, Cortabem juntou-se a eles. Apenas a dan�a fren�tica do pomo-de-Ad�o o traiu. N�o havia a menor d�vida: por dias ele n�o estaria apto a realizar magia.</p><p>Ela se virou, e ele sentiu o cheiro de talco. Por semanas, droga, por semanas.</p><p>��Cortabem, parece estar com calor. Algum problema?</p><p>��N���h.</p><p>��O qu�?</p><p>Ele se sacudiu. Concentre-se na escova de cabelo, homem de Deus, na escova de cabelo.</p><p>��Foram as experimenta��es m�gicas, senhorita. S� queimaduras superficiais.</p><p>��A coisa ainda est� se movendo?</p><p>��Est�.</p><p>Keli se voltou para o espelho. O rosto estava s�rio.</p><p>��Temos tempo?</p><p>Essa era a parte que ele vinha temendo. Fizera tudo o que podia. O astr�logo real fora mantido s�brio durante tempo suficiente para insistir que o dia seguinte era a �nica data poss�vel para a realiza��o da cerim�nia, ent�o Cortabem havia providenciado para que come�asse um segundo ap�s a meia-noite. Tinha impiedosamente cortado a apresenta��o da banda real. Havia agendado a invoca��o do sumo sacerdote aos deuses e ent�o eliminado algumas partes. (Haveria confus�o quando os deuses descobrissem.) E o ritual de un��o com �leos sagrados se resumiria a um breve salpico atr�s das orelhas. Ainda n�o tinham inventado o skate no Disco�� se tivessem, a passagem de Keli pela nave da igreja seria inconstitucionalmente r�pida. E mesmo assim n�o bastava. Ele tomou coragem.</p><p>��Talvez n�o�� arriscou.�� Pode ser quest�o de minutos. Ele notou que estava sendo encarado atrav�s do espelho.</p><p>��Quantos?</p><p>��Hum. Poucos.</p><p>��Voc� est� tentando dizer que deve chegar na hora da cerim�nia?</p><p>��H�. Mais para, hum, antes�� lamentou Cortabem.</p><p>N�o havia nenhum som al�m do tamborilo dos dedos de Keli na beira da mesa. Cortabem se perguntou se ela iria entrar em p�nico ou quebrar o espelho. Em vez disso, a princesa perguntou:</p><p>��Como sabe?</p><p>Ele imaginou se conseguiria se safar com uma resposta do tipo �Sou mago, sabemos dessas coisas�, mas decidiu que n�o. A �ltima vez que dissera isso, ela o havia amea�ado de degola.</p><p>��Perguntei a um dos guardas sobre o bar de que Mort tinha falado�� contou ele.�� Ent�o calculei a dist�ncia aproximada que a ab�bada havia percorrido. Mort disse que ela estava se movendo a passos lentos, mas acho que as passadas dele...</p><p>��Simples assim? N�o usou magia?</p><p>��S� o bom senso. A longo prazo, � muito mais confi�vel. Ela estendeu o bra�o e afagou a m�o dele.</p><p>��Coitado do meu velho Cortabem.</p><p>��S� tenho 20 anos, senhorita.</p><p>Ela se levantou e avan�ou para o quarto de vestir. Uma coisa que se aprende quando se � princesa � ser sempre mais velha do que todo mundo em posi��o inferior.</p><p>���, imagino que devem existir magos jovens�� disse, por sobre o ombro.�� S� que as pessoas sempre os imaginam velhos. Por que ser�?</p><p>��Os contratempos da profiss�o�� lamuriou Cortabem, rolando os olhos para cima.</p><p>Ele ouviu o ruge-ruge da seda.</p><p>��O que o fez decidir virar mago?</p><p>A voz saiu abafada, como se ela estivesse com alguma coisa sobre a cabe�a.</p><p>��� trabalho interno e n�o precisa levantar peso�� respondeu Cortabem.�� Acho que eu tamb�m queria aprender como funciona o mundo.</p><p>��E aprendeu?</p><p>��N�o.</p><p>Cortabem n�o era muito bom em conversa fiada, do contr�rio jamais teria deixado a mente vaguear o bastante para se permitir perguntar:</p><p>��O que a fez decidir virar princesa?</p><p>Depois de um sil�ncio meditativo, ela respondeu:</p><p>��Decidiram por mim.</p><p>��Desculpe, eu...</p><p>��Ser rei � meio que uma tradi��o familiar. Imagino que aconte�a a mesma coisa com magia. Com certeza, seu pai era mago...</p><p>Cortabem rangeu os dentes.</p><p>��Hum. N�o�� respondeu.�� N�o de todo. Ali�s, n�o de nada.</p><p>Ele sabia o que viria em seguida, e foi o que veio, certo como o p�r-do-sol, numa voz que sugeria gra�a e fasc�nio.</p><p>��Ah? � verdade que mago n�o pode...</p><p>��Bem, se isso � tudo, vou andando�� gritou Cortabem.�� Caso precise de mim, basta seguir as explos�es. Eu... gnnnh!</p><p>Keli havia sa�do do quarto de vestir.</p><p>Ora, roupa feminina n�o era um assunto que ocupasse Cortabem�� na verdade, quando ele pensava em mulher, as imagens mentais raramente inclu�am qualquer vestimenta��, mas a vis�o � frente de fato lhe tirava o f�lego. Quem quer que houvesse desenhado o vestido n�o sabia quando parar. Tinham botado renda sobre a seda e enfeitado com peles de animal, enfiado p�rolas onde quer que parecesse vazio, enchido e engomado as mangas e ent�o acrescentado filigranas de prata e a� come�ado tudo outra vez com a seda.</p><p>Era sem d�vida impressionante o que se podia fazer com v�rios gramas de metal pesado, alguns moluscos irritados, uns poucos roedores mortos e muito fio sa�do do traseiro de insetos. O vestido era antes ocupado do que usado. Se os babados � volta n�o estavam sustentados por rodinhas, ent�o Keli era muito mais forte do que ele havia imaginado.</p><p>��O que acha?�� perguntou ela, virando-se devagar.�� Foi usado pela minha m�e, minha av� e a m�e dela.</p><p>��O que, ao mesmo tempo?�� indagou Cortabem, preparado para acreditar que sim.</p><p>�Como ela conseguiu entrar ali?�, perguntava-se ele. Deve ter uma porta atr�s...</p><p>��� um legado familiar. Tem diamantes de verdade no corpete.</p><p>��Que parte � o corpete?</p><p>��Esta aqui.</p><p>Cortabem estremeceu.</p><p>��� espetacular�� comentou, quando p�de confiar em si mesmo para falar.�� Mas a senhorita n�o acha que talvez seja um pouco senhoril demais?</p><p>��� de rainha.</p><p>��Eu sei, mas talvez n�o a deixe andar muito depressa.</p><p>��N�o tenho a menor inten��o de sair correndo. Deve haver dignidade.</p><p>Mais uma vez a disposi��o do queixo remeteu ao vitorioso antepassado, que preferia andar depressa o tempo todo e s� conhecia a dignidade existente em ponta de lan�a afiada.</p><p>Cortabem abriu as m�os.</p><p>��Tudo bem�� disse.�� �timo. A gente faz o que pode. S� espero que Mort tenha tido alguma id�ia.</p><p>��� dif�cil confiar em fantasma�� rebateu Keli.�� Ele atravessa paredes!</p><p>��Estive pensando sobre isso�� considerou Cortabem.�� � estranho, n�o �? Ele s� atravessa as coisas quando n�o sabe que est� atravessando. Acho que � doen�a profissional.</p><p>��O qu�?</p><p>��Ontem � noite, tive quase certeza. Ele est� ficando real.</p><p>��Todos n�s somos reais! Pelo menos voc� �, e acho que eu tamb�m.</p><p>��Mas ele est� ficando mais real. Extremamente real. Quase t�o real quanto Morte, e nada � mais real. Nada mesmo.</p><p>��Tem certeza?�� perguntou Albert, desconfiado.</p><p>��Claro�� respondeu Ysabell.�� Se preferir, decifre voc� mesmo. Albert voltou os olhos para o livro, tendo no rosto a m�scara da incerteza.</p><p>��Bem, pode ser que esteja certo�� admitiu relutante, e copiou os dois nomes num peda�o de papel.�� S� tem um jeito de descobrir.</p><p>Abriu a gaveta superior da mesa de Morte e retirou um grande chaveiro de ferro. Havia apenas uma chave.</p><p>��E AGORA?�� indagou Mort.</p><p>��Temos de pegar as ampulhetas�� informou Albert.�� Voc� vem comigo.</p><p>��Mort!�� alarmou-se Ysabell.</p><p>��O qu�?</p><p>��O que voc� acabou de dizer...�� Ela ficou em sil�ncio, e ent�o acrescentou:�� Ah, nada. S� me pareceu... estranho.</p><p>��Eu s� perguntei e agora�� disse Mort.</p><p>���, mas... ah, n�o importa.</p><p>Albert passou por eles e avan�ou pelo corredor como uma aranha de duas patas at� alcan�ar a porta que sempre ficava trancada. A chave se encaixou � perfei��o. A porta se abriu. N�o houve nem um leve rangido das dobradi�as, apenas o zunido de um sil�ncio mais profundo.</p><p>E o bramido de areia.</p><p>Mortimer e Ysabell ficaram no v�o da porta, paralisados, enquanto Albert se esgueirava por entre as passagens de vidro. O som n�o invadia o corpo somente pelos ouvidos, entrava pelas pernas e pelo cr�nio e enchia o c�rebro at� tudo em que se podia pensar ser o violento silvo acinzentado, o som de milh�es de vidas sendo vividas. E correndo para o destino inevit�vel.</p><p>Eles olharam as infind�veis fileiras de ampulhetas, cada qual diferente, cada qual com um nome espec�fico. A luz das tochas alinhadas na parede reluzia, de modo que em cada vidro brilhava uma estrela. As paredes opostas do c�modo se perdiam na gal�xia de luz.</p><p>Mortimer sentiu os dedos de Ysabell se apertarem em seu bra�o. Quando ela falou, a voz saiu apertada.</p><p>��Mort, algumas s�o t�o pequenas!</p><p>��Eu sei.</p><p>Os dedos relaxaram, muito de leve, como algu�m botando o �ltimo �s numa casa de cartas e retirando a m�o com cuidado para que toda a estrutura n�o venha abaixo.</p><p>��Fale de novo�� pediu ela.</p><p>��S� falei que sei disso. Mas n�o posso fazer nada a respeito. Voc� j� n�o esteve aqui?</p><p>��N�o.</p><p>Ela havia se afastado um pouco e agora estudava os olhos dele.</p><p>��N�o � pior do que a biblioteca�� analisou Mort, e quase acreditou no que disse.</p><p>Mas na biblioteca eles apenas liam. Ali, viam acontecer.</p><p>��Por que est� me olhando assim?�� perguntou ele.</p><p>��S� queria me lembrar de que cor s�o seus olhos�� desculpou-se ela��, porque...</p><p>��Voc�s dois j� n�o se cansaram um do outro?�� berrou Albert, acima do estrondo de areia.�� Por aqui!</p><p>��Castanhos�� disse Mort a Ysabell.�� S�o castanhos. Por qu�?</p><p>��R�pido!</p><p>��� melhor voc� ir ajud�-lo�� sugeriu Ysabell.�� Parece que ele est� ficando chateado.</p><p>Mortimer a deixou, com a mente envolta num mar de desconforto, e se dirigiu at� onde estava Albert, impaciente, batendo o p� no ch�o de ladrilhos.</p><p>��O que tenho de fazer?�� perguntou.</p><p>��Apenas me siga.</p><p>O lugar se abria numa s�rie de corredores, todos alinhados com ampulhetas. Aqui e ali, as prateleiras eram separadas por colunas de pedra escritas com letras angulosas. De vez em quando Albert as consultava. Na maior parte do tempo avan�ava pelo labirinto de areia como se conhecesse tudo de cor.</p><p>��Albert, existe uma ampulheta para cada pessoa?</p><p>��Existe.</p><p>��Mas o lugar n�o parece grande o bastante.</p><p>��Voc� sabe alguma coisa de topografia multidimensional?</p><p>��Hum... N�o.</p><p>��Ent�o, se eu fosse voc�, n�o me atreveria a dar opini�o.</p><p>Ele se deteve de frente para uma prateleira, consultou novamente o papel, correu a m�o pela fileira de ampulhetas e de repente pegou um dos instrumentos. O vaso superior estava quase vazio.</p><p>��Segure aqui�� pediu.�� Ao que tudo indica, o outro deve estar por perto. Ah... Aqui.</p><p>Mortimer girou as duas ampulhetas nas m�os. Uma apresentava todos os sinais de uma vida importante, ao passo que a outra era atarracada e bastante simples.</p><p>Leu os nomes. O primeiro parecia se referir a um nobre das regi�es do Imp�rio Agateano. O segundo era um conjunto de pictogramas que pareciam vir de Klatch Sentido Hor�rio.</p><p>��Agora depende de vocꠗ alegrou-se Albert.�� Quanto mais cedo come�ar, mais cedo vai terminar. Vou levar Pituco � porta da frente.</p><p>��Meus olhos est�o normais?�� perguntou Mort, ansioso.</p><p>��N�o vejo nada de errado�� respondeu Albert.�� Meio vermelho nos cantos, mais azul do que de costume, nada de especial.</p><p>Pensativo, Mortimer seguiu-o de volta por entre as longas prateleiras de vidro. Ysabell viu-o tirar a espada do cabide ao lado da porta e examinar a ponta, agitando-a no ar�� exatamente como fazia Morte�� e sorrindo s�rio ao desejado som de trov�o.</p><p>Ela reconheceu a maneira de andar. Ele andava como quem est� � ca�a.</p><p>��Mort?�� sussurrou ela.</p><p>��O QU�?</p><p>��Est� acontecendo alguma coisa com voc�.</p><p>��Eu SEI�� respondeu ele.�� Mas acho que posso controlar. Os dois ouviram o som de cascos ao lado de fora, ent�o Albert abriu a porta e entrou esfregando as m�os.</p><p>��Muito bem, rapaz, n�o temos tempo para...</p><p>Mortimer meneou a espada. A arma cortou o ar com um som de seda rasgando e se enterrou no batente da porta, ao lado da orelha de Albert.</p><p>��De joelhos, Alberto Malich.</p><p>A boca de Albert se entreabriu. Os olhos correram para o canto a fim de ver a l�mina reluzente a alguns cent�metros da cabe�a e ent�o se comprimiram em duas linhas finas.</p><p>��Voc� n�o ousaria, garoto�� desafiou ele.</p><p>��Mort.</p><p>A palavra saiu r�pida como uma chicotada e duas vezes mais violenta.</p><p>��Houve um pacto�� argumentou Albert, mas havia um lev�ssimo qu� de d�vida em sua voz.�� Houve um acordo.</p><p>��N�o comigo.</p><p>��Tem um acordo! Onde vamos chegar se n�o honrarmos nossos acordos?</p><p>��N�o sei onde eu vou chegar�� respondeu Mort, devagar.�� Mas sei para onde voc� vai.</p><p>��N�o � justo!</p><p>Agora a voz n�o passava de um gemido.</p><p>��N�O TEM JUSTI�A. S� TEM EU.</p><p>��Pare com isso�� pediu Ysabell.�� Mort, voc� est� sendo absurdo. N�o pode matar ningu�m aqui. E n�o quer matar o Albert.</p><p>��N�o aqui. Mas posso mand�-lo de volta ao mundo.</p><p>Albert empalideceu.</p><p>��Voc� n�o faria isso!</p><p>��N�o? Posso lev�-lo de volta e deix�-lo por l�. Imagino que n�o tenha muito mais tempo de vida, tem? TEM?</p><p>��N�o fale assim�� implorou Albert, incapaz de sustentar o olhar do garoto.�� Voc� parece o patr�o quando fala assim.</p><p>��Posso ser muito pior do que ele�� afirmou Mort, com tranq�ilidade.�� Ysabell, v� pegar o livro do Albert.</p><p>��Mort, acho que voc� est�...</p><p>��VOU TER DE PEDIR DE NOVO?</p><p>P�lida, ela desapareceu do quarto.</p><p>Do outro extremo da espada, Albert olhou para Mortimer e abriu um sorriso torto, sem gra�a.</p><p>��Voc� n�o vai controlar isso para sempre�� avisou.</p><p>��Nem quero. S� durante o tempo suficiente.</p><p>��Agora voc� � receptivo. Quanto mais o patr�o se mantiver ausente, mais voc� ficar� como ele. S� que pior, porque vai se lembrar de como era ser humano e...</p><p>��E quanto a voc�?�� reagiu Mort.�� O que lembra de ser humano? Se voltasse agora, quanto tempo de vida teria?</p><p>��Noventa e um dias, tr�s horas e cinco minutos�� respondeu Albert, prontamente.�� Eu sabia que ele estava no meu encal�o, entende? Mas aqui estou seguro, e ele n�o � t�o ruim assim. �s vezes, n�o sei o que faria sem mim.</p><p>���, ningu�m morre no reino do pr�prio Morte. Mas voc� est� satisfeito?�� quis saber Mort.</p><p>��Tenho mais de 2 mil anos. Vivi mais do que qualquer outra pessoa desse mundo.</p><p>Mort sacudiu a cabe�a.</p><p>��N�o viveu, n�o�� protestou.�� S� estendeu mais as coisas. Ningu�m vive aqui. O tempo neste lugar � falso. Nada muda. Eu preferiria morrer e ver o que acontece depois a passar a eternidade aqui.</p><p>Pensativo, Albert botou a m�o na testa.</p><p>���, talvez�� admitiu.�� Mas eu sou mago. E era bom no neg�cio. Ergueram uma est�tua para mim, sabia? Mas ningu�m � mago por muito tempo sem fazer alguns inimigos... inimigos que v�o esperar do Outro Lado.</p><p>Ele fungou e prosseguiu:</p><p>��Nem todos t�m duas pernas. Alguns n�o t�m perna nenhuma. Nem rosto. A morte n�o me assusta. � o que vem depois.</p><p>��Ent�o me ajude.</p><p>��De que me serviria?</p><p>��Um dia, pode precisar de amigos no Outro Lado�� respondeu Mort. Ent�o pensou por alguns segundos e acrescentou:�� Se eu fosse voc�, n�o me incomodaria em dar uma polida de �ltima hora na alma. Talvez alguns desses inimigos n�o gostem do sabor.</p><p>Albert estremeceu e fechou os olhos.</p><p>��Voc� n�o sabe sobre o qu� que coisa est� falando�� disse, com mais sentimento do que gram�tica.�� Do contr�rio, n�o diria isso. O que quer de mim?</p><p>Mort contou.</p><p>Albert soltou uma gargalhada.</p><p>��S� isso? S� mudar a Realidade? N�o d�! J� n�o existe magia forte o bastante. H� algum tempo, os Grandes Feiti�os podiam. Mas nada al�m deles. E � isso, fa�a o que quiser e seja feliz.</p><p>Arfante, Ysabell retornou, trazendo nas m�os o �ltimo livro da vida de Albert. Ele fungou outra vez. A gotinha na ponta de seu nariz deixava Mortimer fascinado. Estava sempre a ponto de cair, mas nunca tinha coragem. Exatamente como o dono, pensou.</p><p>��N�o podem fazer nada comigo atrav�s do livro�� aventurou-se o mago.</p><p>��Nem pretendo. Mas acho que n�o se chega a ser um mago poderoso dizendo a verdade o tempo todo. Ysabell, leia o que est� sendo escrito.</p><p>���Albert encarou-o, hesitante��� leu Ysabell.</p><p>��Voc� n�o pode acreditar em tudo que est� escrito a�...</p><p>���... gritou ele, sabendo que Mort com certeza podia��� continuou Ysabell.</p><p>��Pare!</p><p>���... berrou, tentando esconder no fundo da mente a informa��o de que mesmo se a Realidade n�o podia ser detida, era poss�vel desaceler�-la um pouco.�.</p><p>��Como?</p><p>���... entoou Mort, na inflex�o sepulcral de Morte��� recome�ou Ysabell, obedientemente.</p><p>��Tudo bem, tudo bem, n�o precisa ler minha parte�� irritou-se Mort.</p><p>��Perdoe-me, �senhor�, por estar viva.</p><p>��Ningu�m � perdoado por estar vivo!</p><p>��N�o fale comigo desse jeito. Voc� n�o me assusta�� disse ela. Ent�o leu no livro a frase que a chamava de mentirosa.</p><p>��Mago, diga como�� exigiu Mort.</p><p>��A magia � tudo o que me resta!�� lamentou Albert.</p><p>��Voc� n�o precisa mais dela, seu miser�vel.</p><p>��N�o pense que me assusta, garoto...</p><p>��Olhe na minha cara e diga isso.</p><p>Altivo, Mort estalou os dedos. Ysabell baixou novamente a cabe�a sobre o livro.</p><p>���Albert mirou o brilho azul daqueles olhos e o resto da ousadia escoou��� leu ela.�� �Porque viu n�o apenas Morte mas Morte com todos os temperos humanos da vingan�a, da crueldade e da avers�o. Com uma certeza terr�vel, soube que aquela era a �ltima chance e que Mort o mandaria de volta ao Tempo, ent�o o perseguiria e o entregaria pessoalmente ao escuro Calabou�o das Dimens�es, onde criaturas do horror fariam pontinho pontinho pontinho pontinho pontinho��� terminou ela.�� Fica metade de uma p�gina s� no pontinho pontinho.</p><p>��Porque o livro n�o se atreve nem mesmo a mencionar o que acontece�� murmurou Albert.</p><p>Tentou fechar os olhos mas as imagens na escurid�o de sua mente se mostraram t�o vividas, que ele os abriu novamente. At� Mortimer era melhor do que aquilo.</p><p>��Tudo bem�� disse, afinal.�� Existe um feiti�o. Ele retarda o tempo num lugar espec�fico. Vou escrever, mas voc� vai ter de achar um mago para diz�-lo.</p><p>��Sem problema.</p><p>Albert passou a l�ngua pelos l�bios ressequidos.</p><p>��Mas tem seu pre�o�� advertiu.�� Voc� precisa fazer o Servi�o antes.</p><p>��Ysabell?�� chamou Mort. Ela olhou a p�gina � frente.</p><p>��� verdade�� disse.�� Se voc� n�o fizer o Servi�o, tudo desanda e ele volta ao Tempo de qualquer maneira.</p><p>Os tr�s se viraram para o grande rel�gio que dominava o vest�bulo. O p�ndulo oscilava lentamente no ar, cortando o tempo em pedacinhos.</p><p>Mort soltou um gemido.</p><p>��N�o tem tempo!�� exclamou.�� N�o vou conseguir fazer os dois a tempo! N�o vou conseguir fazer os dois a tempo!</p><p>��O patr�o teria achado tempo�� observou Albert.</p><p>Mortimer pegou a espada no v�o da porta e agitou-a furiosamente, mas sem muita efic�cia, na dire��o de Albert, que se afastou.</p><p>��Ent�o escreva o feiti�o�� gritou.�� E r�pido!</p><p>Deu meia-volta e dirigiu-se ao gabinete de Morte. Num canto, havia um grande disco do mundo inteiro, com elefantes de prata fincados na carapa�a de uma Grande A'Tuin feita de bronze, com mais de um metro de comprimento. Os rios eram representados por veios de jade; os desertos, por diamante em p�; e as cidades mais not�veis se distinguiam por pedras preciosas. Ankh-Morpork, por exemplo, era um carb�nculo.</p><p>Ele depositou as duas ampulhetas sobre a localiza��o aproximada de seus donos e sentou na cadeira de Morte, olhando para elas, desejando que se encontrassem mais perto. A cadeira rangia de leve ao girar de um lado para o outro.</p><p>Depois de um tempo, Ysabell entrou no gabinete, em passos macios.</p><p>��Albert escreveu o feiti�o�� tratou de informar.�� Conferi no livro. N�o � nenhum truque. Agora se trancou no quarto e...</p><p>��Olhe pra isso! Quer por favor olhar pra isso!</p><p>��Mort, acho que voc� precisa se acalmar um pouco.</p><p>��Como posso me acalmar com, olhe, esse aqui quase no Grande Nef e esse outro bem em Bes Pelargic? E depois tenho de voltar a Sto Lat. Contando idas e voltas, � uma viagem de 15 mil quil�metros. Imposs�vel!</p><p>��Tenho certeza de que voc� vai achar um jeito. E eu vou ajudar.</p><p>Pela primeira vez, ele a olhou e viu que estava usando o casaco de sair, aquele bastante impr�prio, com a imensa gola de pele.</p><p>��Voc�? O que poderia fazer?</p><p>��Pituco carrega dois f�cil�� argumentou ela, com do�ura. Ent�o agitou vagamente um saco de papel.�� J� preparei lanche para a gente. Eu posso... abrir as portas e tal.</p><p>Mort riu, melanc�lico.</p><p>��N�o vai ser necess�rio.</p><p>��Pare de falar assim.</p><p>��N�o posso levar passageiros. Voc� vai me atrasar.</p><p>Ysabell suspirou.</p><p>��Olhe aqui, vamos fazer o seguinte. Imagine que tivemos uma briga e eu ganhei. Entende? Poupa tempo. Ali�s, voc� vai achar o Pituco um tanto relutante se eu n�o for junto. Ano ap�s ano, sempre dei muito torr�o de a��car para ele. Agora... vamos?</p><p>Albert sentou na cama estreita, encarando o teto. Ouviu o ru�do de patas, abruptamente interrompido no momento em que Pituco levantou v�o, e murmurou alguma coisa.</p><p>Vinte minutos se passaram. Express�es atravessavam o rosto do velho mago feito sombras de nuvens na encosta de uma montanha. De vez em quando, ele sussurrava algo para si mesmo, como �Eu avisei�, �N�o deveria ter ajudado� ou �O patr�o precisa saber disso�.</p><p>Por fim, pareceu chegar a um acordo consigo mesmo, ajoelhou-s com cuidado no ch�o e puxou um antigo ba� de baixo da cama. Abriu-o com dificuldade e desdobrou um manto cinza empoeirado, espalhando naftalina e lantejoulas foscas pelo ch�o. Vestiu-o, sacudiu o grosso da poeira e outra vez engatinhou para debaixo da cama. Ouviu-se um monte de esconjuros e um tinido de porcelana, ent�o Albert finalmente se levantou trazendo um bast�o maior do que ele pr�prio.</p><p>A vara era mais grossa do que qualquer bast�o normal, principalmente por causa dos entalhes que a cobriam de alto a baixo. Os cortes eram bastante indefinidos, mas davam impress�o de que, se olh�ssemos melhor, acabar�amos nos arrependendo.</p><p>Albert bateu a poeira da roupa outra vez e examinou a si mesmo no espelho do lavat�rio.</p><p>Ent�o disse: Chap�u. Falta o chap�u. Mago precisa de chap�u. Droga.</p><p>Saiu do quarto e voltou depois de quinze diligentes minutos, que inclu�ram um buraco circular no tapete do quarto de Mortimer, o papel prateado tirado de tr�s do espelho do quarto de Ysabell, linha e agulha da caixa que ficava embaixo da pia da cozinha e algumas lantejoulas soltas catadas no fundo do ba�. O resultado final n�o era t�o bom quanto ele gostaria e tendia a escorregar sobre um dos olhos, mas era preto, exibia luas e estrelas e revelava que sem d�vida o dono era mago, embora possivelmente um mago em desespero.</p><p>Pela primeira vez em 2 mil anos, ele se sentiu vestido da maneira adequada. Era uma sensa��o desconcertante que o fez refletir durante alguns segundos, antes de chutar o tapete em frangalhos para debaixo da cama e usar o bast�o para tra�ar um c�rculo no ch�o.</p><p>� medida que a ponta da vara passava, deixava uma linha da reluzente octarina, a oitava cor do espectro, a cor da magia, o pigmento da imagina��o.</p><p>Ele marcou oito pontos na circunfer�ncia e juntou-os a fim de formar um octograma. Uma pulsa��o baixa come�ou a tomar conta do quarto.</p><p>Alberto Malich entrou no centro e ergueu a vara sobre a cabe�a. Sentiu-a despertar ao aperto de sua m�o, sentiu o comich�o do poder adormecido se estender devagar e deliberadamente, como um tigre acordando. Aquilo acionou antigas lembran�as de for�a e magia que zumbiram no s�t�o cheio de teias de aranha de sua mente. Pela primeira vez em s�culos, ele se sentiu vivo.</p><p>Lambeu os l�bios. A pulsa��o havia sucumbido, deixando um tipo estranho, expectante de sil�ncio.</p><p>Malich levantou a cabe�a e gritou uma �nica s�laba.</p><p>Um raio verde-azulado se desprendeu de ambas as pontas da vara. Chamas octarinas jorraram dos oito pontos do octograma e envolveram o mago. Nada disso era realmente necess�rio para realizar o feiti�o, mas os magos acham as apar�ncias muito importantes...</p><p>As �desapar�ncias� tamb�m. Ele sumiu.</p><p>Ventos estratosf�ricos agitavam a capa de Mort.</p><p>��Aonde vamos primeiro?�� perguntou Ysabell, no ouvido dele.</p><p>��Bes Pelargic!�� gritou Mort, com a rajada a carregar as palavras para longe.</p><p>��Onde fica?</p><p>��No Imp�rio Agateano! Continente Contrapeso!</p><p>Ele apontou para baixo.</p><p>Sabendo dos quil�metros que tinham pela frente, no momento ele n�o estava for�ando Pituco, e o grande cavalo branco corria num galope tranq�ilo sobre o oceano. Ysabell olhou as estrondosas ondas verdes encimadas pela espuma branca e se agarrou a Mortimer.</p><p>Mortimer espiou as nuvens que assinalavam o continente distante e resistiu ao impulso de apressar Pituco com a l�mina da espada. Jamais picara o cavalo e n�o estava nem um pouco certo do que aconteceria se o fizesse. Tudo que podia fazer era esperar.</p><p>Uma pequena m�o surgiu debaixo do seu bra�o, segurando um sandu�che.</p><p>��Tem de presunto ou queijo com chutney�� avisou ela.�� � melhor voc� comer, n�o tem nada melhor a fazer.</p><p>Mortimer olhou o tri�ngulo empapado e tentou lembrar a �ltima vez em que comera. Alguma hora para al�m do alcance do rel�gio�� seria preciso um calend�rio para determinar. Pegou o sandu�che.</p><p>��Obrigado�� disse, com o m�ximo de educa��o que conseguiu exprimir.</p><p>O min�sculo Sol avan�ava em dire��o ao horizonte, arrastando a vagarosa luz consigo. As nuvens adiante aumentaram e ficaram tingidas de rosa e laranja. Depois de um tempo, ele conseguiu avistar a massa escurecida de terra abaixo, com as ocasionais luzes de alguma cidade.</p><p>Meia hora depois, teve certeza de estar vendo constru��es isoladas. A arquitetura agateana pendia para pir�mides baixas.</p><p>Pituco desceu at� os cascos se encontrarem a poucos metros do mar. Mortimer examinou a ampulheta outra vez e, com suavidade, puxou as r�deas para conduzir o cavalo em dire��o a um porto, mais no sentido da Borda.</p><p>Havia alguns navios ancorados, a maioria dos quais mercantes costeiros de uma �nica vela. O Imp�rio Agateano n�o incentivava os cidad�os a irem para longe, com medo de que vissem algo que pudesse perturb�-los. Pela mesma raz�o, constru�ra um muro em torno de todo o pa�s, vigiado pela Guarda Divina, cujo trabalho consistia em pisar nos dedos dos habitantes que queriam dar uma escapulida de cinco minutos para tomar ar fresco.</p><p>Isso n�o acontecia com freq��ncia, porque a maioria dos cidad�os do imperador Solar estava satisfeita em viver do lado de dentro do Muro. � fato que todo mundo se encontra de um lado ou de outro de algum muro, ent�o o melhor � esquecer o assunto ou fortalecer os dedos.</p><p>��Quem governa esse lugar?�� perguntou Ysabell, ao passarem pelo porto.</p><p>��Tem um garoto imperador�� respondeu Mort.�� Mas acho que o manda-chuva mesmo � o grande vizir.</p><p>��Nunca confie num vizir�� sugeriu Ysabell.</p><p>De fato, o imperador Solar n�o confiava. O vizir, cujo nome era Nove Espelhos Girat�rios, tinha id�ias muito claras a respeito de quem deveria reger o pa�s, isto �, ele pr�prio, e agora o garoto estava ficando grande o bastante para fazer perguntas como �Voc� n�o acha que o muro ficaria melhor com alguns port�es?� e �Tudo bem, mas como s�o as coisas do lado de l�?� O vizir chegara � conclus�o de que, para o bem do pr�prio imperador, era melhor que ele fosse cruelmente envenenado e enterrado com cal.</p><p>Pituco pousou no ch�o coberto de cascalhos e pedras, do lado de fora do pal�cio de muitos c�modos, rearranjando de forma violenta a harmonia do universo<a l:href="#n_8" type="note">[8]</a>. Mortimer saltou e ajudou Ysabell a descer.</p><p>��S� n�o me atrapalhe, est� bem?�� pediu ele.�� E n�o pergunte nada.</p><p>Subiu alguns degraus laqueados e percorreu os c�modos silenciosos, �s vezes detendo� Se para se orientar pela ampulheta. Por fim, avan�ou por um corredor e espiou atrav�s de uma treli�a floreada a longa e baixa sala onde a corte agora jantava.</p><p>O jovem imperador Solar estava sentado de pernas cruzadas � cabeceira da esteira, com a capa de penas e peles que parecia brotar dele. O resto da corte se encontrava sentada em torno da esteira�� seguindo uma r�gida e complicada ordem de preced�ncia��, mas era imposs�vel n�o identificar o vizir, olhando desconfiado sua tigela de �esmago� e alga marinha cozida. Ningu�m parecia prestes a morrer.</p><p>Mortimer seguiu o corredor, dobrou a quina e quase deu com v�rios membros da Guarda Divina, amontoados em torno de um buraco no papel de parede, passando um cigarro de m�o em m�o.</p><p>Voltou para a treli�a e escutou a seguinte conversa:</p><p>��Sou o mais infeliz dos mortais, � Presen�a Imanente, por achar isso no meu �esmago�, que do contr�rio estaria satisfat�rio�� disse o vizir, estendendo os pauzinhos de comer.</p><p>A corte esticou o pesco�o para ver. Mortimer tamb�m. E n�o p�de deixar de concordar com o homem: o neg�cio parecia uma massa disforme verde-azulada com tubos borrachentos pendurados.</p><p>��O cozinheiro ser� punido, Nobre Excel�ncia da Erudi��o�� garantiu o imperador.�� Quem ficou com as costelas?</p><p>��N�o, � Perspicaz Pai do Povo, eu estava antes me referindo ao fato de que isso, acredito eu, s�o a bexiga e o ba�o da enguia de �guas profundas, supostamente a mais deliciosa das guloseimas, a ponto de s� poder ser ingerida pelos entes queridos dos pr�prios deuses, e n�o incluo meu reles ser a tal grupo.</p><p>Com um gesto h�bil, lan�ou o neg�cio na tigela do imperador, onde a coisa se agitou at� parar. O garoto olhou-a durante algum tempo, e ent�o fisgou-a com o palitinho.</p><p>��Ah!�� exclamou.�� Mas tamb�m n�o foi escrito por ningu�m menos do que o grande fil�sofo Yin Gha No que o erudito est� acima dos pr�ncipes? Lembro-me da ocasi�o em que o senhor me deu esse trecho para ler, � Fiel e Ass�duo Explorador do Conhecimento.</p><p>O neg�cio tra�ou outro breve arco no ar e caiu na tigela do vizir. Ele o pegou com um movimento r�pido e ergueu-o para o segundo round. Os olhos se apertaram.</p><p>��Talvez em geral seja esse o caso, � Rio Brilhante da Sabedoria, mas especificamente n�o estou acima do imperador a quem amo como filho e assim tenho feito desde a desgra�ada morte de seu falecido pai, e portanto ponho essa pequena oferenda a seus p�s.</p><p>Os olhos da corte seguiram o deplor�vel �rg�o em sua terceira viagem por sobre a esteira, mas o imperador pegou o leque e deu uma rebatida perfeita, jogando-o de volta � tigela do vizir com tanta for�a que fez derramar um pouco da alga marinha.</p><p>��Algu�m coma isso, pelo amor de Deus!�� gritou Mort, sem ser ouvido.�� Estou com pressa!</p><p>��O senhor � sem d�vida o mais atencioso dos servos, � Devotada Companhia �nica de Meus Falecidos Pai e Av� Ao Morrerem, e portanto decreto que sua recompensa seja a mais rara e requintada das guloseimas.</p><p>Irresoluto, o vizir espetou o neg�cio e olhou o sorriso do Imperador. Era alegre e terr�vel. Ele procurou uma desculpa.</p><p>��Ai de mim! Acho que j� comi demais...�� come�ou, mas o imperador acenou para que se calasse.</p><p>��Sem d�vida merece um tempero apropriado�� disse, e bateu as m�os.</p><p>A parede atr�s dele se rasgou de alto a baixo, e quatro guardas divinos entraram na sala, tr�s deles brandindo espadas e o quarto se apressando em tentar engolir uma guimba acesa.</p><p>A tigela do vizir lhe caiu das m�os.</p><p>��O mais fiel dos meus servos acha que n�o tem espa�o para um �ltimo bocado�� informou o imperador.�� Talvez voc�s possam investigar o est�mago dele para ver se � verdade. Por que esse homem est� com fuma�a saindo pelas orelhas?</p><p>��Sede de a��o, � Emin�ncia Celestial�� respondeu o sargento, com rapidez.�� N�o tem o que o fa�a parar.</p><p>��Ent�o deixe-o pegar a faca e... ah, parece que o vizir est� com fome afinal. Muito bem.</p><p>Houve sil�ncio absoluto quando o vizir come�ou a comer. Ent�o engoliu.</p><p>��Delicioso�� atestou.�� Espl�ndido. Realmente o manjar dos deuses. E agora, se o senhor me permite...</p><p>Ele esticou as pernas e se preparou para levantar. Pequenas gotas de suor haviam lhe brotado na testa.</p><p>��Quer se retirar?�� perguntou o imperador, erguendo as sobrancelhas.</p><p>��Urgent�ssimos assuntos de Estado, � Sagaz Alteza do...</p><p>��Fique sentado. Levantar t�o r�pido depois das refei��es pode ser p�ssimo para a digest�o�� argumentou o imperador, e os guardas assentiram.�� Al�m do mais, n�o existe nenhum assunto de Estado urgente, a menos que o senhor esteja se referindo ao que se encontra no vidrinho vermelho rotulado de �Ant�doto�, no arm�rio laqueado preto sobre a esteira dos seus aposentos, � Luz das Altas Horas.</p><p>Surgiu um zumbido nos ouvidos do vizir. O rosto come�ou a ficar azul.</p><p>��Est� vendo?�� indagou o imperador.�� Muita atividade de est�mago cheio causa indisposi��o. Que essa li��o chegue a todos os cantos do pa�s, que todos os homens saibam do seu estado lament�vel e tirem proveito dele.</p><p>��Devo... parabeniz�-lo... � Excel�ncia, por essas considera��es�� disse o vizir, e caiu para frente, na travessa de caranguejos de casca mole.</p><p>��Tive um �timo professor�� rebateu o imperador.</p><p>��E J� N�O ERA SEM TEMPO�� disse Mort, agitando a espada. Um instante depois, a alma do vizir se levantava da esteira e olhava Mortimer dos p�s � cabe�a.</p><p>��Quem � voc�, b�rbaro?�� perguntou.</p><p>��Morte.</p><p>��N�o o meu Morte�� retrucou o vizir, com firmeza.�� Onde est� o Celestial Drag�o Negro do Fogo?</p><p>��N�O P�DE VIR�� desculpou-se Mort.</p><p>Havia sombras se formando atr�s da alma do vizir. V�rias delas usavam o manto imperial, mas havia muitas outras, e todas pareciam ansiosas para receber o rec�m-chegado � terra dos mortos.</p><p>��Acho que tem umas pessoas aqui para ver o senhor�� adiantou Mort, e se foi.</p><p>Quando alcan�ou o corredor, a alma do vizir come�ou a gritar...</p><p>Ysabell aguardava pacientemente ao lado de Pituco, que estava almo�ando um bonsai de 500 anos.</p><p>��Menos um!�� gritou Mort, montando na sela.�� Vamos. Estou com um pressentimento ruim em rela��o ao pr�ximo, e n�o temos muito tempo.</p><p>Albert se materializou bem no centro da Universidade Invis�vel, no mesmo lugar em que havia se despedido do mundo cerca de 2 mil anos antes.</p><p>Resmungou satisfeito e limpou algumas manchas de poeira do manto.</p><p>Ent�o percebeu que estava sendo observado: olhando para cima, descobriu que ganhara exist�ncia sob o r�spido olhar de m�rmore que pertencia a si mesmo.</p><p>Ajustou os �culos e consultou a placa de bronze presa ao pedestal. Dizia:</p><p>�Alberto Malich, Fundador desta Universidade�� 1222-1289�� Jamais Veremos Outro Igual�</p><p>Mas v�o ver o mesmo, pensou ele. E se o tinham em t�o alta estima, deveriam pelo menos ter contratado um escultor decente. Aquilo era uma desgra�a. O nariz estava todo errado. Chamam aquela deformidade de perna? Os alunos tamb�m vinham escrevendo seus nomes na pedra. E ele jamais se deixaria ver morto num chap�u daqueles. Ali�s, se pudesse, jamais se deixaria ver morto da maneira que fosse.</p><p>Albert mirou um raio octarina na est�tua medonha e abriu um sorriso maligno ao deton�-la.</p><p>��Certo�� disse para ningu�m em especial.�� Eu voltei.</p><p>O formigamento da magia lhe atravessou o bra�o e come�ou a aquecer sua mente. Durante todos aqueles anos, como ele havia sentido falta disso!</p><p>Ao som da explos�o, os magos logo chegaram correndo pelas grandes portas duplas e de pronto tiraram a conclus�o errada.</p><p>Ali estava o pedestal, vazio. Havia uma nuvem de p� de m�rmore sobre tudo. E, avan�ando para fora dela, murmurando para si pr�prio, encontrava-se Albert.</p><p>Os magos dos fundos come�aram a fugir o mais r�pido e silenciosamente poss�vel. N�o havia um deles que, a certa altura da juventude, n�o houvesse colocado um utens�lio dom�stico qualquer na cabe�a do velho Albert ou esculpido seu nome em algum canto da anatomia indiferente da est�tua, ou ainda derramado cerveja no pedestal. Pior era o que acontecia durante a Semana da Arrua�a, quando a bebida corria depressa e a latrina parecia longe demais. Tudo isso parecera engra�ad�ssimo na hora. Agora, j� n�o parecia mais.</p><p>Apenas duas criaturas continuaram para fazer frente � f�ria da est�tua, uma porque o manto ficara preso na porta e a outra porque na verdade se tratava de um macaco, e ent�o podia ter uma postura tranq�ila em rela��o aos assuntos humanos.</p><p>Albert agarrou o mago, que tentava desesperadamente atravessar a parede. O homem soltou um grito.</p><p>��Tudo bem, tudo bem. Eu confesso! Estava b�bado na ocasi�o, acredite, n�o era minha inten��o, sinto muito, sinto tanto...</p><p>��Homem de Deus, do que est� falando?�� perguntou Albert, genuinamente intrigado.</p><p>��... mas tanto, se eu tivesse de dizer o quanto, a gente...</p><p>��Pare de besteira!</p><p>Albert olhou o macaco, que lhe dirigia um sorriso amigo.</p><p>��Qual o seu nome?</p><p>��Sim, senhor. Vou parar, senhor. Agora mesmo, parar de besteira, senhor... Rincewind, senhor. Bibliotec�rio-Assistente, se n�o for problema para o senhor.</p><p>Albert olhou-o de cima a baixo. O sujeito tinha um aspecto amarrotado, feito roupa suja � espera de lavar. Ele decidiu que, se era �quele ponto que os magos haviam chegado, algo tinha de ser feito.</p><p>��Que tipo de bibliotec�rio teria voc� como assistente?�� perguntou, irritado.</p><p>��Oook.</p><p>Uma esp�cie de luva de couro quente tentou segurar sua m�o.</p><p>��Um gorila! Na minha universidade!</p><p>��Orangotango, senhor. Era mago mas foi atingido por um feiti�o. Agora n�o quer ser transformado de volta e � o �nico que sabe onde ficam todos os livros�� esclareceu Rincewind, �s pressas.�� Eu cuido das bananas dele�� acrescentou, por achar que se fazia premente alguma explica��o adicional.</p><p>Albert olhou para ele.</p><p>��Cale a boca.</p><p>��Calando a boca, agora mesmo, senhor.</p><p>��E me diga onde est� o Morte.</p><p>��Morte, senhor?�� alarmou-se Rincewind, recuando em dire��o � parede.</p><p>��Alto, esquel�tico, olhos azuis, anda como quem est� sempre � ca�a, FALA ASSIM... o Morte. N�o o viu por a�?</p><p>Rincewind engoliu em seco.</p><p>��N�o, senhor.</p><p>��Bem, estou atr�s dele. Esse absurdo precisa parar. Vou dar um basta nisso agora mesmo. Quero os oito magos mais antigos reunidos aqui em meia hora, com o equipamento necess�rio para realizar o Rito de AshkEnte, entendido? N�o que ver voc�s me d� alguma seguran�a. Bando de maricas... E pare de segurar minha m�o!</p><p>��Oook.</p><p>��Agora vou ao bar�� avisou Albert.�� Ser� que ainda tem algum lugar decente que venda cerveja?</p><p>��Tem a Tambor�� informou Rincewind.</p><p>��A Tambor Quebrado? Na Rua Filigrana? Ainda existe?</p><p>��Bem, �s vezes mudam o nome e reformam, mas o lugar se encontra, ha... no mesmo lugar h� anos. Imagino que o senhor esteja com sede�� comentou Rincewind, com ar for�ado de camaradagem.</p><p>��Por qu�?�� perguntou Albert, rispidamente.</p><p>��Por nada�� tratou de responder Rincewind.</p><p>��Ent�o vou � Tambor. Em meia hora, entendido? E se, quando eu voltar, n�o estiverem esperando por mim, ora, � melhor estarem!</p><p>Retirou-se da sala em meio a uma nuvem de p� de m�rmore. Rincewind observou-o sair. O bibliotec�rio segurou sua m�o.</p><p>��Sabe o que � pior?�� perguntou Rincewind.</p><p>��Oook?</p><p>��Nem me lembro de ter passado debaixo de escada.</p><p>Mais ou menos por volta da hora em que Albert se encontrava na Tambor Consertado discutindo com o dono sobre uma conta amarelecida que fora cuidadosamente passada de pai para filho, sobrevivendo a um regicidio, tr�s guerras civis, 61 grandes inc�ndios, 490 assaltos e mais de 15 mil brigas de bar para sustentar o fato de que Alberto Malich ainda devia � ger�ncia tr�s moedas de cobre mais juros, agora eq�ivalendo ao conte�do de grande parte das maiores casas-fortes do Disco (o que mais uma vez prova que o comerciante ankhiano com uma conta n�o paga tem o tipo de mem�ria que faria qualquer elefante pestanejar)... mais ou menos por volta dessa hora, Pituco deixava um rastro de vapor nos c�us do misterioso continente de Klatch.</p><p>Bem abaixo, tambores vibravam nas selvas escurecidas e perfumadas, e colunas de n�voa subiam de rios remotos, onde feras inomin�veis se ocultavam � espera do jantar seguinte.</p><p>��N�o tem mais de queijo, voc� vai ter de comer o de presunto�� disse Ysabell.�� Que claridade � aquela?</p><p>��S�o as Represas de Luz�� informou Mort.�� Estamos perto. Tirou a ampulheta do bolso e conferiu o n�vel da areia:</p><p>��Mas n�o perto o bastante, droga!</p><p>As Represas de Luz pareciam grandes po�as de luz em dire��o ao Centro, que era exatamente o que eram. Algumas tribos haviam constru�do muros espelhados nas montanhas do deserto a fim de recolher a luz solar do Disco, que era lenta e ligeiramente pesada. Usavam-na como dinheiro.</p><p>Pituco planou sobre os acampamentos n�mades e os silenciosos brejos do rio Tsort. Adiante, formas familiares come�aram a se revelar.</p><p>��As pir�mides de Tsort ao luar!�� exclamou Ysabell.�� Que rom�ntico!</p><p>��Agamassadas com o sangue de milhares de escravos�� Observou Mort.</p><p>��Por favor, pare.</p><p>��Sinto muito, mas o lado pr�tico da quest�o � que...</p><p>��Tudo bem, tudo bem, j� entendi�� irritou-se Ysabell.</p><p>��� trabalho demais s� para enterrar rei morto�� considerou Mort, ao circularem sobre uma das pir�mides mais baixas.�� E enchem o lugar de conservantes, sabia? Para que o sujeito viva no mundo do al�m.</p><p>��Funciona?</p><p>��Aparentemente, n�o.</p><p>Mort se inclinou sobre o pesco�o de Pituco.</p><p>��Tem tochas mais para l᠗ avisou.�� Segure firme.</p><p>Uma prociss�o se afastava da rua das pir�mides, liderada por uma gigantesca est�tua de Ofler, o Deus Crocodilo, carregada por uma centena de escravos suados. Totalmente despercebido, Pituco galopou sobre o cortejo e pousou no ch�o de terra batida � entrada da pir�mide.</p><p>��Armazenaram outro rei�� disse Mort.</p><p>Ele novamente examinou a ampulheta � luz do luar. Parecia bem tosca, n�o era o tipo em geral associado � realeza.</p><p>��N�o pode ser ele�� advertiu Ysabell.�� S� armazenam o rei quando j� est� morto, n�o �?</p><p>��Espero que sim, porque li que, antes de deixarem o corpo na conserva, arrancam...</p><p>��N�o quero ouvir...</p><p>��... todas as partes moles�� concluiu Mort.�� � melhor que a conserva��o n�o funcione. Imagine ter de viver sem o...</p><p>��Ent�o voc� n�o veio pegar o rei�� cortou Ysabell.�� Quem ser�?</p><p>Mortimer se voltou para a entrada escura. S� seria fechada no alvorecer, para que a alma do rei morto pudesse sair. A pir�mide parecia profunda e agourenta, sugerindo prop�sitos consideravelmente mais terr�veis do que, digamos, afiar uma faca.</p><p>��Vamos descobrir�� disse.</p><p>��Olhem! Ele est� voltando!</p><p>Os oito magos mais antigos da universidade se puseram em fila, tentaram desembara�ar as barbas e fizeram o v�o esfor�o de parecer apresent�veis. N�o foi f�cil. Eles haviam sido arrancados de seus gabinetes, ou da degusta��o de uma aguardente em frente � lareira, ou da calma reflex�o numa poltrona confort�vel, e todos estavam extremamente apreensivos e um tanto perplexos. N�o conseguiam parar de olhar o pedestal vazio.</p><p>Apenas uma criatura poderia ter reproduzido a express�o de seus rostos, e seria o pombo que ouvisse dizer n�o s� que lorde Nelson havia descido de sua coluna mas que tamb�m fora visto comprando arma e caixa de cartuchos.</p><p>��Ele j� est� no corredor!�� gritou Rincewind, e se escondeu atr�s de uma pilastra.</p><p>Os magos miraram as grandes portas duplas como se elas fossem explodir, o que mostra que eram adivinhos, porque de fato explodiram. Choveram lascas de madeira, e um pequeno vulto magricela emergiu contra a luz. Segurava um bast�o fumegante numa das m�os. Na outra, trazia um sapo amarelo.</p><p>��Rincewind!�� berrou Albert.</p><p>��Senhor!</p><p>��D� sumi�o nisso aqui.</p><p>O sapo subiu na m�o de Rincewind e lhe dirigiu um olhar apolog�tico.</p><p>��� a �ltima vez que esse maldito dono de bar bate boca com um mago�� disse Albert, com satisfa��o e aprumo.�� Saio de cena por algumas centenas de anos e de repente as pessoas da cidade acham que podem responder aos magos.</p><p>Um dos magos seniores murmurou alguma coisa.</p><p>��O que foi? Fale alto!</p><p>��Como tesoureiro da universidade, devo dizer que sempre incentivamos a pol�tica da boa vizinhan�a com a comunidade�� sussurrou o mago, tentando evitar o olhar penetrante de Albert.</p><p>Em sua consci�ncia, pesavam um penico virado e tr�s picha��es indecentes a serem consideradas. Albert abriu a boca.</p><p>��Por qu�?�� perguntou.</p><p>��Bem, h�, por um sentimento de obriga��o c�vica, achamos que � de vital import�ncia dar exempl... aaaiiii.</p><p>Em desespero, o mago tentou apagar as chamas da barba. Albert baixou a vara e correu lentamente os olhos pela fila de magos. Eles se desviavam do olhar como capim ao vento.</p><p>��Mais algu�m quer mostrar sentimento de obriga��o c�vica?�� indagou.�� De boa vizinhan�a, talvez?�� Ele se endireitou.�� Pulhas covardes! N�o fundei esta universidade para que voc�s pudessem emprestar o cortador de grama! De que vale ter poder se n�o o exercemos? Se o sujeito n�o mostra respeito, n�o deixem sobrar da espelunca nem o suficiente para torrar castanhas, entenderam?</p><p>Algo como um leve suspiro surgiu em meio aos magos. Com pesar, os homens olharam o sapo na m�o de Rincewind. Na juventude, a maioria deles dominara a arte de ficar terrivelmente b�bado na Tambor. � claro que isso fazia parte do passado, mas o jantar anual do Gr�mio dos Mercadores aconteceria no sal�o superior da Tambor na noite seguinte, e todos os magos do oitavo n�vel tinham recebido convite. Haveria cisne assado, dois tipos de bolo e muitos brindes fraternos aos �nossos estimados, n�o, distintos convidados� at� que fosse hora de os carregadores da faculdade aparecerem com os carrinhos de m�o.</p><p>Albert avan�ou empertigado pela fileira de homens, vez por outra cutucando uma barriga com o bast�o. Sua mente dan�ava. Voltar? Jamais. Aquilo era o poder, aquilo era viver! Ele desafiaria o antigo patr�o e cuspiria em seu olho vazio.</p><p>�Pelo Espelho Fumegante de Grism, vamos ter mudan�as por aqui!</p><p>Os magos que estudavam hist�ria assentiram, constrangidos. Seria voltar ao ch�o de pedra, a acordar quando ainda estava escuro, a nada de �lcool em nenhuma circunst�ncia e � memoriza��o dos verdadeiros nomes de tudo at� que o c�rebro rangesse.</p><p>��O que esse homem est� fazendo?</p><p>O mago que vinha distraidamente vasculhado seu saco de tabaco deixou o cigarro cair dos dedos tr�mulos. A bagana quicou ao atingir o ch�o, e todos os magos observaram-na rolar com olhos desejosos at� Albert dar um passo adiante e esmag�-la.</p><p>Albert fez meia-volta. Rincewind, que o vinha seguindo como uma esp�cie de ajudante extra-oficial, quase deu um encontr�o nele.</p><p>��Voc�! Rincewind! Fuma?</p><p>��N�o, senhor! V�cio nojento!</p><p>Rincewind evitou o olhar dos superiores. De repente se deu conta de que havia feito mais inimigos para o resto da vida, e n�o era consolo nenhum saber que isso provavelmente n�o duraria muito.</p><p>��Exatamente! Segure o bast�o. Agora, seu bando de relapsos miser�veis, isso vai acabar, ouviram? Amanh�, ao raiar do dia, primeira coisa: tr�s voltas no p�tio e depois exerc�cios f�sicos aqui! E esse maldito macaco vai para o circo!</p><p>��Oook?</p><p>V�rios dos magos mais velhos fecharam os olhos.</p><p>��Mas antes�� disse Albert, baixando o tom de voz�� voc�s v�o me fazer o favor de organizar o Rito de AshkEnte. Tenho alguns assuntos pendentes�� acrescentou.</p><p>Mortimer avan�ava pelos corredores escuros da pir�mide, com Ysabell correndo em seu encal�o. O leve brilho da espada iluminava coisas pavorosas. Offler, o Deus Crocodilo, era um an�ncio de cosm�ticos comparado a alguns dos seres que o povo de Tsort venerava. Nas alcovas ao longo do caminho havia est�tuas aparentemente constru�das com todas as partes que Deus havia deixado de lado.</p><p>��Por que est�o aqui?�� sussurrou Ysabell.</p><p>��Os padres tsorteanos dizem que, quando a pir�mide se fecha, elas ganham vida e rondam os corredores para proteger o corpo do rei�� explicou Mort.</p><p>��Que supersti��o horr�vel!</p><p>��Quem falou em supersti��o?�� perguntou Mort, distra�do.</p><p>��Ficam vivas mesmo?</p><p>��S� estou dizendo que, quando os tsorteanos jogam maldi��o num lugar, n�o brincam em servi�o.</p><p>Mortimer dobrou um corredor e, por um momento terr�vel, Ysabell perdeu-o de vista. A garota saiu correndo pela escurid�o e se chocou contra ele. Mortimer estava examinando um p�ssaro com cabe�a de cachorro.</p><p>��Argh!�� disse ela.�� N�o lhe d� calafrios?</p><p>��N�o�� respondeu Mortimer, impass�vel.</p><p>��Por que n�o?</p><p>��Porque sou mort.</p><p>Ele se virou, e ela viu os olhos brilharem como dois pontinhos azuis.</p><p>��Pare com isso!</p><p>��EU... N�O CONSIGO.</p><p>Ela tentou rir. N�o funcionou.</p><p>��Voc� n�o � o Morte�� objetou ela.�� S� est� fazendo o trabalho dele.</p><p>��Morte � quem quer que fa�a o trabalho de Morte.</p><p>A longa pausa que se seguiu foi interrompida por um gemido mais adiante no corredor escuro. Mortimer se virou e correu para l�.</p><p>Ele est� certo, pensou Ysabell. Mesmo o jeito de andar... Mas o medo das trevas se sobrep�s a quaisquer conjecturas e ela correu atr�s dele, dobrando uma esquina e chegando ao que, sob o brilho intermitente da espada, parecia um misto de tesouro e s�t�o muito bagun�ado.</p><p>��Que lugar � esse?�� sussurrou ela.�� Nunca vi tanta coisa!</p><p>��O REI LEVA PARA O AL�M�� informou Mort.</p><p>��Com certeza n�o gosta de viajar com pouca bagagem. Olhe, tem um barco inteiro. E uma banheira de ouro!</p><p>��Vai querer ficar limpo quando chegar l�.</p><p>��E todas essas est�tuas!</p><p>��Sinto dizer que essas est�tuas s�o gente. Servos do rei, entende?</p><p>O rosto de Ysabell endureceu.</p><p>��OS PADRES D�O VENENO A ELES.</p><p>Do outro lado do c�modo abarrotado, veio outro gemido. Mortimer seguiu em dire��o ao som, avan�ando por sobre rolos de tapete, pencas de t�mara, caixas de lou�a e sacos de pedra preciosa. Obviamente o rei n�o havia conseguido decidir o que deixar para tr�s e resolvera agir com prud�ncia e levar tudo.</p><p>��S� QUE NEM SEMPRE FUNCIONA R�PIDO�� acrescentou Mort, com tristeza.</p><p>Aos trancos, Ysabell seguiu-o e espiou por sobre a canoa, deparando-se com uma menina deitada numa pilha de cobertores. Ela vestia cal�a de algod�o, um colete feito com material insuficiente e pulseiras bastantes para atracar um navio de bom tamanho. Havia uma mancha verde em torno da boca.</p><p>��D�i?�� perguntou Ysabell, em voz baixa.</p><p>��N�o. Eles acham que isso vai lev�-los ao para�so.</p><p>��E vai?</p><p>��Quem sabe? Talvez.</p><p>Mortimer tirou a ampulheta do bolso e inspecionou-a sob o brilho da espada. Pareceu contar para si mesmo e ent�o, com um movimento s�bito, jogou a ampulheta por sobre o ombro e trouxe a espada abaixo com a outra m�o.</p><p>A sombra da menina sentou e se espregui�ou, com um leve tinido das j�ias espectrais. Ela viu Mortimer e fez uma rever�ncia com a cabe�a.</p><p>��Meu senhor!</p><p>��N�O SOU SENHOR DE NINGU�M�� rebateu Mort.�� AGORA V� PARA ONDE QUER QUE ACREDITE ESTAR INDO.</p><p>��Vou ser concubina na paradis�aca corte do rei Zetesphut, que vai viver para sempre entre as estrelas�� afirmou ela.</p><p>��Voc� n�o precisa ser isso�� retrucou Ysabell. De olhos arregalados, a menina se virou para ela.</p><p>��Ah, preciso, sim. Estudei para isso�� explicou, enquanto desaparecia de vista.�� At� agora s� consegui ser escrava.</p><p>Ela sumiu. Ysabell continuou olhando com desaprova��o para o lugar em que a garota estivera.</p><p>��Bem�� disse, afinal.�� Viu o que ela estava usando?</p><p>��Vamos sair daqui.</p><p>��Mas n�o pode ser verdade essa hist�ria de o rei Sei-l�-Quem viver entre as estrelas�� resmungou ela, enquanto procuravam � sa�da do quarto entupido.�� L� n�o tem nada.</p><p>��� DIF�CIL EXPLICAR�� considerou Mort.�� ELE VAI VIVER ENTRE AS ESTRELAS NA PR�PRIA CABE�A.</p><p>��Com os escravos?</p><p>��SE � O QUE ACREDITAM SER.</p><p>��N�o � justo.</p><p>��N�O TEM JUSTI�A�� argumentou Mort.�� S� N�S.</p><p>Os dois se apressaram pelos corredores de almas expectantes e j� estavam quase correndo quando irromperam no ar noturno do deserto. Arfante, Ysabell se encostou na parede de pedra.</p><p>Mort n�o estava sem f�lego.</p><p>N�o estava respirando.</p><p>��VOU LEV�-LA AONDE QUISER�� disse.�� E VOC� FICA POR L�.</p><p>��Mas achei que quisesse salvar a princesa!</p><p>Mort sacudiu a cabe�a.</p><p>��N�O TENHO ESCOLHA. N�O EXISTEM ESCOLHAS.</p><p>Ela correu adiante e agarrou-o pelo bra�o. Com suavidade, ele afastou a m�o dela.</p><p>��Terminei o aprendizado.</p><p>��Est� tudo na sua cabe�a!�� gritou Ysabell.�� Voc� � o que que �!</p><p>Ela se deteve e olhou para baixo. A areia em volta dos p�s de Mortimer estava come�ando a formar pequenos jatos e retorcidos dem�nios de areia.</p><p>Ouviu-se um estalo, e o ar ganhou uma textura viscosa. Mort ficou apreensivo.</p><p>��Algu�m est� realizando o Rito de Ash...</p><p>Um vento vindo como martelo do c�u soprou a areia para uma esp�cie de cratera. Surgiu um chiado baixo e um cheiro de estanho aquecido.</p><p>Girando como em sonho, sozinho no centro tranq�ilo do redemoinho, Mortimer olhou o vento de areia ao redor. Raios cortavam o turbilh�o. Dentro de sua pr�pria mente, tentava se libertar, mas algo o havia prendido, e ele n�o conseguiu resistir mais do que uma agulha de b�ssola conseguiria ignorar a press�o de apontar para o Centro.</p><p>Por fim, achou o que vinha procurando. Era um v�o de porta cercado por luz octarina, que levava a um t�nel curto. Do outro lado, havia vultos chamando por ele.</p><p>��J� VOU�� disse, e ent�o se virou, ao ouvir um barulho repentino atr�s de si.</p><p>Setenta quilos de mulher lhe acertaram o peito, derrubando-o. Mort caiu com Ysabell a se ajoelhar sobre ele, segurando-o pelos bra�os.</p><p>��DEIXE-ME IR�� ordenou ele.�� FUI EVOCADO.</p><p>��N�o voc�, idiota!</p><p>Ela fitou as po�as azuis desprovidas de pupila. Era como olhar um t�nel em movimento.</p><p>Mortimer dobrou o corpo e berrou uma praga t�o antiga e terr�vel que, naquele campo m�gico intenso, ela ganhou forma, bateu asas e voou para longe. Uma tempestade caiu sobre as dunas de areia.</p><p>Os olhos dele a arrastavam. Ela desviou o olhar antes de cair como pedra num po�o de luz azul.</p><p>��EU EXIJO.</p><p>A voz de Mort poderia abrir buracos em rocha.</p><p>��H� anos papai tenta esse tom de voz comigo�� disse ela, tranq�ilamente.�� Em geral, quando quer que eu arrume o quarto. Nunca funciona.�� Mort soltou outro esconjuro, que caiu no ch�o e tentou se enfiar na areia.</p><p>��A DOR...</p><p>��Est� tudo na sua cabe�a�� insistiu ela, lutando contra a for�a que tentava arrast�-los para o cintilante v�o de porta.�� Voc� n�o � o Morte. � s� o Mort. Voc� � o que eu acho que �.</p><p>Em meio ao azul�o dos olhos dele surgiram dois pontinhos castanhos, crescendo com enorme velocidade.</p><p>A tempestade � volta se acentuou. Mortimer soltou um grito.</p><p>Em poucas palavras, o Rito de AshkEnte evoca Morte. Os alunos do oculto sabem que � poss�vel realizar o feiti�o com umas poucas palavras m�gicas, tr�s pequenas lascas de madeira e quatro cent�metros c�bicos de sangue de rato, mas nenhum mago que valha seu chap�u pontudo sequer sonharia em fazer algo t�o simples. Eles sabem que, se a magia n�o envolver grandes velas amarelas, muitos incensos raros, c�rculos desenhados no ch�o com oito cores diferentes de giz e alguns caldeir�es espalhados pelo lugar, ent�o nem � digna de se cogitar.</p><p>Os oito magos a postos no grande octograma ritual se embalavam e cantavam, com os bra�os erguidos de lado, a tocar as m�os dos companheiros.</p><p>Mas alguma coisa estava dando errado. � verdade que uma n�voa havia se formado no centro do octograma, mas ela se contorcia, recusando-se a firmar.</p><p>��Mais for�a!�� gritou Albert.�� Joguem mais for�a!</p><p>Por um instante, surgiu um vulto na fuma�a, de manto negro, segurando uma espada reluzente. Albert praguejou ao entrever o rosto p�lido sob o capuz: n�o era p�lido o bastante.</p><p>��N�o!�� gritou, entrando no octograma e batendo no vulto tremeluzente.�� Voc�, n�o. Voc�, n�o...</p><p>E, no distante Tsort, Ysabell esqueceu que era dama, fechou a m�o, apertou os olhos e deu um soco no queixo de Mortimer. O mundo � volta explodiu...</p><p>Na cozinha da Casa das Costelas de Harga, a frigideira caiu no ch�o, afugentando os gatos...</p><p>No sal�o da Universidade Invis�vel, tudo aconteceu de uma s� vez<a l:href="#n_9" type="note">[9]</a>.</p><p>A tremenda for�a que os magos vinham depositando no redemoinho de sombras de repente ganhou nitidez. Como a relutante rolha de uma garrafa, como o catchup a cair do vidro do Infinito, Morte pousou no octograma e praguejou.</p><p>Tarde demais Albert se deu conta de que estava dentro do anel encantado e tentou se afastar para a beira. Mas os dedos esquel�ticos lhe pegaram a ponta do manto.</p><p>Os magos que ainda se encontravam de p頗 e conscientes�� ficaram um tanto surpresos ao ver que Morte estava usando avental e segurando um gatinho.</p><p>��Por que voc� tinha DE ESTRAGAR TUDO?</p><p>��Estragar tudo? O senhor j� viu o que o garoto fez?�� rebateu Albert, ainda tentando alcan�ar a beira do anel.</p><p>Morte levantou a caveira e cheirou o ar.</p><p>O ru�do se sobrep�s a todos os outros sons do sal�o e levou-os ao sil�ncio.</p><p>Era o tipo de ru�do que se ouve �s margens crepusculares dos sonhos, desses dos quais acordamos suando frio de horror. Era a fungadela atr�s da porta do medo. Era como a fungadela de um porco-espinho, mas nesse caso trata-se de uma esp�cie de porco-espinho que achata caminh�es. Era o tipo de ru�do que n�o gostar�amos de ouvir duas vezes, que n�o gostar�amos de ouvir uma vez.</p><p>Devagar, Morte se endireitou.</p><p>��� ASSIM QUE ELE RETRIBUI MINHA GENEROSIDADE? ROUBANDO MINHA FILHA, INSULTANDO OS EMPREGADOS E PONDO EM RISCO A TRAMA DA REALIDADE POR UM CAPRICHO PESSOAL? AH, COMO FUI BURRO!</p><p>��Patr�o, se o senhor puder soltar o meu manto...�� come�ou Albert, e se deu conta do tom de s�plica que antes n�o existia em sua voz.</p><p>Morte ignorou-o. Estalou os dedos como castanholas, e o avental amarrado � cintura explodiu em chamas breves. O gatinho, entretanto, ele botou no ch�o com bastante cuidado, afastando-o com o p�.</p><p>��ENT�O N�O DEI A ELE A MAIOR DAS OPORTUNIDADES?</p><p>��Exatamente, senhor. E agora se puder largar...</p><p>��TREINAMENTO... UMA CARREIRA BEM ESTRUTURADA... PERSPECTIVA... O EMPREGO DE SUA VIDA...</p><p>��Isso mesmo. E se o senhor puder...</p><p>A mudan�a na voz de Albert era total. As trombetas da autoridade tinham virado flautins de s�plica. Ele parecia realmente apavorado, mas conseguiu chamar a aten��o de Rincewind e sussurrar:</p><p>��O BAST�O! JOGUE O MEU BAST�O! QUANDO ELE EST� NO C�RCULO, N�O � INVENC�VEL! PASSE O BAST�O, E PODEREI ME LIBERTAR!</p><p>Rincewind disse:</p><p>��Perd�o?</p><p>��Ah, � minha culpa por ceder a essas fraquezas do que por falta de palavra melhor devo chamar de carne!</p><p>��O bast�o, imbecil, o bast�o!�� irritou-se Albert.</p><p>��O qu�?</p><p>��Obrigado, meu servo, por me prevenir�� agradeceu Morte.</p><p>��N�O PERCAMOS MAIS TEMPO.</p><p>��O bast...! O bast...!</p><p>Houve uma implos�o e um fluxo de ar. Por um instante, as chamas das velas se estenderam como linhas de fogo, depois apagaram.</p><p>O tempo passou.</p><p>Ent�o, de algum lugar do ch�o, veio a voz do tesoureiro:</p><p>��Rincewind, foi muito indelicado da sua parte perder o bast�o dele assim. Lembre-me de puni-lo severamente um dia desses. Algu�m tem luz?</p><p>��N�o sei o que aconteceu! S� deixei a vara apoiada ali na pilastra e...</p><p>��Oook.</p><p>��Ah�� soltou Rincewind.</p><p>��Banana extra, esse macaco...�� reclamou o tesoureiro, com indiferen�a.</p><p>Algu�m riscou um f�sforo e conseguiu acender uma vela. Os magos come�aram a se levantar.</p><p>��Bem, foi uma li��o para todos n�s�� continuou o tesoureiro, batendo a poeira e a cera do manto.</p><p>Ele olhou para cima, esperando ver a est�tua de Alberto Malich de volta ao pedestal.</p><p>��� evidente que at� as est�tuas t�m sentimentos�� afirmou.�� Quando eu era calouro, lembro-me de escrever meu nome na... bem, n�o importa. A quest�o � a seguinte: aqui e agora proponho substituirmos a est�tua.</p><p>A sugest�o foi recebida com um sil�ncio mortal.</p><p>��Digamos que uma c�pia em ouro. Devidamente adornada com pedras preciosas, como condiz ao grande fundador�� prosseguiu ele, inflamado.�� E para termos certeza de que nenhum aluno venha a destru�-la, vamos erigi-la no mais distante dos por�es. E ent�o trancar a porta�� acrescentou.</p><p>V�rios magos come�aram a se animar.</p><p>��E jogar fora a chave?�� prop�s Rincewind.</p><p>��E soldar a porta�� concordou o tesoureiro.</p><p>Ele havia acabado de se lembrar da Tambor Consertado. Pensou por um momento e tamb�m se lembrou da regulamenta��o de exerc�cios f�sicos.</p><p>��E empedrar a porta�� sugeriu. Houve uma saraivada de palmas.</p><p>��E jogar fora o pedreiro!�� alegrou-se Rincewind, achando que j� estava pegando o jeito do neg�cio.�� o tesoureiro o encarou, mal-humorado.</p><p>��N�o precisa se animar!�� disse.</p><p>No sil�ncio, uma duna de areia maior do que as outras se curvou e ent�o tombou para revelar Pituco, soprando areia das narinas e sacudindo a crina.</p><p>Mortimer abriu os olhos.</p><p>Deveria existir uma palavra para descrever o breve instante em que acabamos de acordar, quando a mente ainda se encontra cheia de um nada c�lido e rosado. Ficamos completamente esvaziados de pensamentos, exceto pela crescente suspeita de que vindo em nossa dire��o, como um saco de areia molhada num beco escuro, est�o todas as coisas das quais preferir�amos n�o nos lembrar e que se resumem ao fato de que o �nico al�vio no terr�vel futuro � a certeza de que ele ser� curto.</p><p>Mortimer se sentou e p�s as m�os no alto da cabe�a, a fim de faz�-la parar de rodar.</p><p>A areia ao lado se ergueu, e Ysabell tamb�m se sentou. O rosto estava sujo do p� da pir�mide e o cabelo se encontrava cheio de areia. Alguns fios pareciam encrespados na ponta. Ap�tica, ela o encarou.</p><p>��Voc� bateu em mim?�� indagou ele, examinando o queixo.</p><p>��Bati.</p><p>��Ah.</p><p>Ele olhou para cima, como se o c�u pudesse lembr�-lo das coisas. Recordou que era preciso estar em algum lugar. Ent�o se lembrou de outra coisa.</p><p>��Obrigado�� disse.</p><p>��Sempre �s ordens.</p><p>Ysabell se p�s de p� e tentou tirar o p� e as teias de aranha do vestido.</p><p>��Vamos salvar sua princesa?�� perguntou ela, hesitante.</p><p>A realidade interior e pessoal de Mortimer sobreveio. Ele se levantou com um gemido abafado, viu fogos de artif�cio azuis espocarem diante dos olhos e caiu novamente. Ysabell pegou-o por baixo dos ombros e suspendeu-o outra vez.</p><p>��Vamos ao rio�� disse.�� Beber �gua vai nos fazer bem.</p><p>��O que aconteceu comigo?</p><p>Ela encolheu os ombros o melhor que p�de enquanto sustentava o peso dele.</p><p>��Algu�m usou o Rito de AshkEnte. Papai detesta, diz que s� o evocam nas horas mais inconvenientes. A sua parte que era Morte foi e voc� ficou para tr�s. Eu acho. Pelo menos voltou a falar com a pr�pria voz.</p><p>��Que horas s�o?</p><p>��A que horas voc� disse que os padres fecham a pir�mide?</p><p>Mortimer voltou os olhos marejados para o sepulcro do rei.</p><p>De fato, alguns dedos iluminados � vela mexiam na porta. De acordo com a lenda, logo os guardi�es ganhariam vida e come�ariam a infind�vel patrulha.</p><p>Ele sabia que sim. De repente, lembrou-se de todo o conhecimento. Lembrou-se de se sentir frio como gelo e ilimitado feito o c�u noturno. Lembrou-se de ser convocado � exist�ncia no instante em que a primeira criatura nascera, na certeza de que sobreviveria � vida at� que o �ltimo ser do universo sucumbisse, quando ent�o, metaforicamente falando, seria sua fun��o p�r as cadeiras sobre as mesas e apagar todas as luzes.</p><p>Lembrou-se da solid�o.</p><p>��N�o me deixe�� pediu, apreensivo.</p><p>��Eu estou aqui�� assegurou ela.�� Pelo tempo que precisar de mim.</p><p>��� meia-noite�� disse ele, desanimado, ajoelhando-se �s margens do Rio Tsort e baixando a cabe�a dolorida at� a �gua.</p><p>Do lado, surgiu um barulho como de uma banheira se esvaziando. Pituco estava bebendo.</p><p>��Quer dizer que � tarde demais?</p><p>��Isso mesmo.</p><p>��Sinto muito. Eu gostaria de poder fazer alguma coisa.</p><p>��Mas n�o pode.</p><p>��Pelo menos voc� cumpriu sua promessa ao Albert.</p><p>��ɠ� assentiu Mort, com amargor.�� Pelo menos fiz isso. Quase toda a dist�ncia de um lado a outro do Disco... Deveria existir uma palavra para descrever a microsc�pica centelha de esperan�a que n�o ousamos nutrir com medo de que o simples ato de reconhec�-la a fa�a desaparecer, como tentar olhar um f�ton. S� podemos passar por ela, olhando de soslaio, esperando que cres�a o suficiente para enfrentar o mundo.</p><p>Ele suspendeu a cabe�a encharcada e olhou em dire��o ao horizonte crepuscular tentando lembrar o grande modelo do Disco no gabinete de Morte sem deixar o mundo saber o que vinha tramando.</p><p>Nessas horas, parece que o acaso � t�o fragilmente equilibrado que o mero pensamento pode estragar tudo.</p><p>Ele se norteou pelos finos raios das luzes do Centro a dan�ar contra as estrelas e fez uma estimativa acertada de que Sto Lat ficava... l�...</p><p>��Meia-noite�� gritou.</p><p>��J� passou da meia-noite�� advertiu Ysabell.</p><p>Mortimer se levantou, tentando n�o deixar a alegria irradiar dele como um farol, e pegou os arreios de Pituco.</p><p>��Vamos�� chamou.�� N�o temos muito tempo.</p><p>��Do que est� falando?</p><p>Mortimer estendeu o bra�o para ajud�-la a sentar atr�s dele. Foi um ato generoso, mas quase o fez cair da sela. Com delicadeza, Ysabell empurrou-o de volta e montou sozinha. Ao sentir o entusiasmo de Mortimer, Pituco avan�ou de lado, relinchou e bateu as patas na areia.</p><p>��Eu perguntei do que est� falando.</p><p>Mortimer virou o cavalo para o remoto brilho crepuscular.</p><p>��Da velocidade da noite�� respondeu.</p><p>Cortabem esticou a cabe�a por sobre as ameias do pal�cio e gemeu. A interface estava a apenas uma rua de dist�ncia, notadamente vis�vel em octarina, e ele nem teve de imaginar o chiado. P�de ouvir o barulho el�trico e desagrad�vel produzido � medida que part�culas aleat�rias de possibilidade atingiam a interface e soltavam sua energia como som. Ao avan�ar pela rua, o muro perolado engolia bandeiras, tochas e a multid�o � espera, deixando apenas ruas escuras. Em algum lugar ao longe, pensou Cortabem, estou dormindo na minha cama e nada disso aconteceu. Sorte minha!</p><p>Ele se agachou, desceu a escada de m�o at� o piso da torre e voltou ao sal�o principal com as abas do manto esvoa�ando ao redor dos tornozelos. Passou pelo pequeno port�o dos fundos e pediu aos guardas para tranc�-lo, ent�o suspendeu as abas mais uma vez e disparou por um corredor lateral para que os convidados n�o o notassem.</p><p>O sal�o estava iluminado por milhares de velas e abarrotado de autoridades da Plan�cie Sto, a maioria das quais ligeiramente incerta do motivo de se encontrar ali. E, obviamente, havia o elefante.</p><p>Foi o elefante que convenceu Cortabem de que ele havia fugido �s raias da sanidade, mas parecera uma �tima id�ia algumas horas antes, quando seu desespero em rela��o � fraca vis�o do sumo sacerdote lhe trouxe a recorda��o de que um moinho na fronteira da cidade possu�a o dito animal para a carga mais pesada. O paquiderme era velho, tinha artrite e temperamento inst�vel, mas possu�a uma importante vantagem como v�tima de sacrif�cio: o sumo sacerdote com certeza o enxergaria.</p><p>Seis guardas tentavam dominar o bicho, a cujo c�rebro j� ocorrera que deveria estar no familiar est�bulo, com muita �gua, comida e tempo para sonhar com os dias ensolarados das grandes plan�cies caqui de Klatch. Estava cada vez mais ind�cil.</p><p>Logo vai ficar patente que outra raz�o para sua crescente euforia � o fato de que, na confus�o anterior ao ritual, ele havia enfiado a tromba no c�lice cerimonial, que continha um gal�o de vinho forte, e bebido tudo. Id�ias estranhas come�avam a passear diante de seus olhos incrustados: baob�s tombados, lutas de acasalamento com outros machos, gloriosas debandadas por aldeias nativas e outros prazeres vagamente recordados. Logo, logo ele vai come�ar a ver pessoas cor-de-rosa.</p><p>Por sorte, de nada disso sabia Cortabem, que chamou a aten��o do assistente do sumo sacerdote�� um rapaz dedicado que tomara a precau��o de vestir um grande avental de borracha e botas imperme�veis�� e fez sinal de que a cerim�nia deveria come�ar.</p><p>Voltou correndo para o quarto de vestir do sacerdote e se enfiou no manto especial que a costureira do pal�cio havia feito para ele, vasculhando o fundo da cesta de costura atr�s de peda�os de renda, lantejoulas e linhas de ouro a fim de criar uma roupa de tanto mau gosto que o arquichanceler da Universidade Invis�vel n�o teria vergonha de usar. Cortabem se permitiu cinco segundos para admirar a si mesmo no espelho antes de enterrar o chap�u pontudo na cabe�a e disparar at� a porta, detendo-se a tempo de surgir no sal�o no ritmo tranq�ilo das pessoas abastadas.</p><p>Chegou onde estava o sumo sacerdote quando Keli j� come�ava a avan�ar pelo corredor central, ladeada por criadas que se agitavam em torno dela como rebocadores � volta de um navio.</p><p>Apesar das imperfei��es do vestido herdado, Cortabem achou que ela estava bonita. Havia algo na princesa que o fazia...</p><p>Ele cerrou os dentes e tentou se concentrar nas medidas de seguran�a. Havia deixado guardas na sala, em v�rios pontos de observa��o, para o caso de o duque de Sto Helit tentar alguma altera��o de �ltima hora da sucess�o real, e se lembrou de ficar, ele pr�prio, de olho no duque, que estava sentado na fileira da frente com um estranho sorriso calmo no rosto. O duque mirou Cortabem, e o mago desviou o olhar.</p><p>O sumo sacerdote ergueu as m�os em pedido de sil�ncio. Quando se virou para o Centro e, com voz estridente, deu in�cio � invoca��o dos deuses, Cortabem foi at� ele e ent�o deixou os olhos se voltarem para o duque.</p><p>��Ou�am-me, hum, � deuses...</p><p>Por acaso, Sto Helit estava olhando o breu infestado de morcegos nos caibros do telhado?</p><p>��... Ou�a-me, � Cego Io dos Cem Olhos. Ou�a-me, � Grande Offler da Boca Cheia de P�ssaros. Ou�a-me, � Clemente Destino. Ou�a-me � Inabal�vel, hum, Sina. Ou�a-me, � Sek das Sete M�os. Ou�a-me, � Hoki das Florestas. Ou�a-me, �...</p><p>Horrorizado, Cortabem se deu conta de que, a despeito de todas as instru��es dadas, o idiota do velho mencionaria a categoria inteira. Havia mais de novecentos deuses conhecidos no Disco, e te�logos pesquisadores descobriam mais a cada ano. Aquilo poderia levar horas. A congrega��o j� come�ava a se aborrecer.</p><p>Keli estava de frente para o altar, exalando �dio. Cortabem cutucou o sumo sacerdote na altura das costelas, o que n�o surtiu nenhum efeito aparente, e ent�o mexeu as sobrancelhas com veem�ncia para o assistente.</p><p>��Fa�a com que ele pare!�� sussurrou.�� N�o temos tempo!</p><p>��Os deuses ficariam chateados...</p><p>��N�o t�o chateados quanto eu, e eu estou aqui!</p><p>O assistente estudou a fisionomia de Cortabem e por fim decidiu que seria melhor explicar aos deuses mais tarde. Cutucou o ombro do sumo sacerdote e sussurrou alguma coisa em seu ouvido.</p><p>��... � Steikhegel, deus dos, hum, est�bulos de vacas. Ou�a-me, �... sim? O qu�?</p><p>Cochicho, cochicho.</p><p>��Isso vai contra as, hum, regras. Muito bem, podemos ir direto ao, hum, Serm�o da Linhagem.</p><p>Cochicho, cochicho.</p><p>O sumo sacerdote lan�ou um olhar mal-humorado para Cortabem, ou ao menos para onde imaginava que Cortabem se encontrava.</p><p>��Ah, tudo bem. Hum, prepare o incenso e os aromas para a Penit�ncia da Via Qu�drupla.</p><p>Cochicho, cochicho.</p><p>O rosto do sumo sacerdote endureceu.</p><p>��Imagino que uma prece curta, hum, esteja fora de quest�o?�� perguntou, com mordacidade.</p><p>��Se algumas pessoas n�o se apressarem�� amea�ou Keli��, vai ter confus�o.</p><p>Cochicho.</p><p>��N�o sei�� disse o sumo sacerdote.�� Era melhor n�o ter nenhuma cerim�nia religiosa. Ent�o traga a droga do elefante.</p><p>O assistente dirigiu um olhar desatinado a Cortabem e acenou para os guardas. Enquanto eles incitavam o vagaroso animal adiante com gritos e varas pontudas, o assistente se dirigiu at� Cortabem e lhe entregou alguma coisa.</p><p>O mago olhou para baixo. Era um chap�u imperme�vel.</p><p>��Tem necessidade disso?</p><p>��Ele � muito ortodoxo�� respondeu o assistente.�� Talvez a gente precise de um tubo de respira��o.</p><p>O elefante alcan�ou o altar e, sem muita dificuldade, foi levado a se ajoelhar. Soltou um solu�o.</p><p>��Bem, ent�o onde est� o bicho?�� perguntou o sumo sacerdote.�� Vamos acabar com essa, hum, farsa!</p><p>O assistente cochichou. O sumo sacerdote fez que sim com a cabe�a, pegou a faca sacrificial de punho branco e ergueu-a sobre a cabe�a com as duas m�os. Toda a sala observava, de respira��o presa. Ent�o ele a baixou.</p><p>��Na minha frente, onde?</p><p>Cochicho.</p><p>��Meu rapaz, com certeza n�o preciso de sua ajuda! H� setenta anos sacrifico homens, meninos, mulheres e, hum, animais. Quando eu n�o souber mais usar a faca, pode me dar uma pazada na cabe�a!</p><p>E investiu a l�mina num golpe violento que, por mera sorte, provocou uma ferida superficial na tromba do elefante.</p><p>O animal despertou da agrad�vel letargia reflexiva e guinchou. Apavorado, o assistente se virou, dando de cara com os dois min�sculos olhos injetados a se comprimirem no alto da tromba enfurecida, e deixou o altar num salto vertical.</p><p>O elefante estava furioso. Vagas recorda��es lhe inundaram a cabe�a dolorida: inc�ndios, gritos, homens com redes, jaulas, lan�as e anos a fio puxando pesados troncos de �rvore. Ele golpeou a pedra do altar com a tromba�� e, para surpresa sua, partiu-a em duas�� , suspendeu as duas partes com os dentes, em v�o tentou extirpar uma coluna de pedra do ch�o e depois, sentindo uma s�bita necessidade de ar fresco, come�ou a avan�ar �artriticamente� pelo sal�o.</p><p>Na corrida desenfreada, acertou a porta�� com o sangue fervilhando ao chamado do rebanho e chiando sob efeito do �lcool�� e arrancou-a pelas dobradi�as. Trazendo o batente nos ombros, correu pelo jardim, destruiu os port�es, arrotou, percorreu a cidade adormecida e ainda avan�ava a passos lentos quando farejou o distante continente de Klatch na brisa noturna e, de rabo em riste, seguiu o antigo chamado de casa.</p><p>No sal�o, havia poeira, gritos e confus�o. Cortabem levantou o chap�u que lhe cobria o olho e conseguiu ficar de quatro.</p><p>��Obrigada�� disse Keli, que estivera deitada debaixo dele.�� Por que pulou em cima de mim?</p><p>��Meu primeiro impulso foi proteg�-la, Sua Majestade.</p><p>��Pode ter sido impulso, mas...</p><p>Ela come�ou a dizer que talvez o elefante tivesse pesado menos, mas o grande rosto s�rio e corado dele fez com que parasse.</p><p>��Falamos disso depois�� decidiu, sentando-se e batendo o p� da roupa.�� Agora acho melhor cancelarmos o sacrif�cio. E ainda n�o sou Sua Majestade, s� Sua Alteza. Ser� que algu�m pode trazer a coroa...?</p><p>Ouviu-se o som de um gatilho pouco atr�s.</p><p>��Mago, bote as m�os onde eu possa ver�� ordenou o duque. Devagar, Cortabem se levantou e deu meia-volta. O duque estava escorado por seis homens grandes e s�rios, homens cuja �nica fun��o na vida � ficar atr�s de indiv�duos como o duque. Eles tinham seis arcos grandes e poderosos, com o �nico prop�sito de parecer estarem a ponto de disparar.</p><p>A princesa se p�s de p� e avan�ou para o tio, mas Cortabem a segurou.</p><p>��N�o�� contestou, baixinho.�� Esse n�o � o tipo de homem que amarra a pessoa num por�o com tempo suficiente para que os ratos comam as cordas antes que o n�vel da �gua suba. � o tipo de homem que mata aqui e agora.</p><p>O duque se inclinou.</p><p>��Acho que podemos dizer que os deuses se pronunciaram�� avaliou.�� Sem d�vida, a princesa foi tragicamente esmagada pelo elefante desgarrado. O povo vai ficar triste. Eu mesmo decretarei uma semana de luto.</p><p>��Voc� n�o pode fazer isso, todos os convidados viram...!�� come�ou a princesa, � beira das l�grimas.</p><p>Cortabem sacudiu a cabe�a. Era poss�vel divisar os guardas andando pela multid�o desnorteada.</p><p>��N�o viram, n�o�� lamentou o mago.�� Voc� ficaria surpresa com a quantidade de coisas que eles n�o viram. Principalmente quando aprenderam que ser tragicamente esmagado por elefantes desgarrados pode ser contagioso. At� na cama se pode morrer disso.</p><p>O duque riu com satisfa��o.</p><p>��Voc� � bem inteligente para um mago�� disse.�� S� vou propor sua expuls�o...</p><p>��Voc� n�o vai escapar impunemente�� reagiu Cortabem. Ele pensou por um instante e acrescentou:</p><p>��Bem, � prov�vel que escape impunemente, mas vai se arrepender no seu leito de morte e vai desejar ter...</p><p>Parou de falar. A boca se abriu.</p><p>O duque se virou para seguir o olhar.</p><p>��Ora, mago. O que foi que voc� viu?</p><p>��N�o vai escapar�� gritou Cortabem, histericamente.�� N�o vai nem estar aqui. Nada disso vai ter acontecido, entende?</p><p>��Fiquem de olho nas m�os dele�� berrou o duque.�� Se mexer os dedos, atirem.</p><p>Intrigado, correu os olhos � volta. O mago parecera sincero. Era de conhecimento geral que os magos viam coisas que n�o existem...</p><p>��N�o tem import�ncia nem se voc� me matar�� murmurou Cortabem��, porque amanh� vou acordar na minha cama e nada disso vai ter acontecido. J� atravessou a parede!</p><p>A noite avan�ava pelo Disco. Obviamente, ela nunca sa�a dali, escondida em sombras, buracos e por�es, mas, � medida que a vagarosa luz do dia se retirava com o Sol, as po�as de noite se espalhavam, encontravam-se e se fundiam. No Discworld, a luz anda devagar por causa de seu imenso campo m�gico. Nesse mundo, ela � diferente. J� cresceu, tem experi�ncia e n�o sente necessidade de sair correndo para todo lado. A luz sabe que, por mais r�pido que ande, a escurid�o sempre chega primeiro, ent�o � melhor ir com calma.</p><p>A meia-noite pairava sobre a terra como um morcego aveludado. E, mais r�pido do que ela, Pituco�� uma min�scula centelha contra o mundo escuro do Disco�� galopava pouco atr�s. Fa�scas saltavam dos cascos. Os m�sculos se moviam sob a pele reluzente feito cobras banhadas em �leo.</p><p>Eles seguiam em sil�ncio. Ysabell tirou um bra�o da cintura de Mortimer e viu fagulhas das oito cores do arco-�ris saltarem ao redor dos dedos. Pequenos raios crepitantes de luz lhe corriam pelo bra�o e brilhavam na ponta dos cabelos.</p><p>Mortimer baixou o cavalo, deixando um rastro fumegante de nuvem a se estender por quil�metros.</p><p>��Agora sei que estou enlouquecendo�� murmurou ele.</p><p>��Por qu�?</p><p>��Acabo de ver um elefante ali. � rapaz�� disse, acalmando Pituco.�� Olhe, d� para avistar Sto Lat mais adiante.</p><p>Por sobre o ombro dele, Ysabell espiou o distante brilho de luz.</p><p>��Quanto tempo temos?�� perguntou, nervosa.</p><p>��N�o sei. Talvez alguns minutos.</p><p>��Mort, eu n�o perguntei antes, mas...</p><p>��O qu�?</p><p>��O que vai fazer quando chegar?</p><p>��N�o sei�� admitiu ele.�� Eu esperava que surgisse alguma id�ia na hora.</p><p>��E surgiu?</p><p>��N�o. Mas ainda n�o chegou a hora. O feiti�o de Albert talvez ajude. E eu...</p><p>A ab�bada da realidade estava se fechando sobre o pal�cio como uma �gua-viva. A voz de Mortimer se perdeu num sil�ncio apavorado. Ent�o Ysabell disse:</p><p>��Bem, acho que est� quase na hora. O que vamos fazer?</p><p>��Segure firme!</p><p>Pituco galgou os port�es destro�ados do pal�cio, cruzou o jardim numa trilha de centelhas e saltou pelo destro�ado v�o da porta do sal�o. O muro perolado da interface surgiu adiante e foi atravessado como um jato frio de spray.</p><p>Confuso, Mortimer viu Keli, Cortabem e um grupo de homens parrudos se abaixarem. Reconheceu os tra�os do duque e sacou a espada, descendo da sela t�o logo o cavalo parou.</p><p>��N�o encoste nem um dedo nela!�� gritou.�� Ou corto fora sua cabe�a!</p><p>��� tudo muito impressionante�� disse o duque, sacando a pr�pria espada.</p><p>��� tudo uma grande tolice. Eu...</p><p>Ele se deteve. Os olhos rolaram. Ele caiu para frente. Cortabem baixou o grande candelabro de prata que segurava e sorriu para Mortimer.</p><p>Mortimer se virou para os seguran�as, com o raio azul da espada de Morte a zunir pelo ar.</p><p>��Mais algu�m?�� perguntou.</p><p>Todos recuaram, deram meia-volta e sa�ram correndo. Ao passarem pela interface, desapareceram. Tamb�m n�o havia mais nenhum convidado do outro lado. Na realidade verdadeira, a sala estava vazia e escura.</p><p>Os quatro se viram sozinhos num hemisf�rio que ficava cada vez menor.</p><p>Mort se dirigiu at� Cortabem.</p><p>��Alguma id�ia?�� perguntou.�� Tenho um feiti�o m�gico em algum lugar aqui...</p><p>��Esque�a. Se eu tentar m�gica agora, vai estourar nossas cabe�as. Essa realidadezinha � pequena demais para suport�-la.</p><p>Mortimer sentou nos destro�os do altar. Sentia-se vazio, esgotado. Por um momento, estudou o muro da interface a se aproximar. Ele sobreviveria �quilo, e Ysabell tamb�m. Aquele Cortabem n�o sobreviveria, mas com certeza um outro. S� Keli...</p><p>��Vou ser coroada ou n�o?�� indagou ela, com frieza.�� Tenho de morrer rainha! Seria um horror estar morta e comum!</p><p>Mortimer lhe, dirigiu um olhar vago, tentando lembrar do que ela estava falando. Ysabell vasculhou as ru�nas atr�s do altar e surgiu com um ornato de ouro um tanto amassado, enfeitado com pequenos diamantes.</p><p>��� isso aqui?�� perguntou.</p><p>��� a coroa, sim�� respondeu Keli, a um passo das l�grimas.�� Mas n�o tem padre nem nada.</p><p>Mort suspirou.</p><p>��Cortabem, se essa � nossa pr�pria realidade, podemos reorganiz�-la como bem entendermos, n�o �?</p><p>��Aonde quer chegar?</p><p>��Agora voc� � padre. Designe seu pr�prio deus. Cortabem fez uma rever�ncia e pegou a coroa de Ysabell.</p><p>��Voc�s est�o debochando de mim!�� irritou-se Keli.</p><p>��Desculpe�� pediu Mort.�� Foi um dia longo.</p><p>��Espero saber fazer isso�� disse Cortabem, com seriedade.�� Nunca coroei ningu�m.</p><p>��E eu nunca fui coroada!</p><p>���timo�� decidiu Cortabem, apaziguadoramente.�� Podemos aprender juntos.</p><p>Ent�o come�ou a murmurar umas palavras dif�ceis em l�ngua desconhecida. Na verdade, tratava-se de um feiti�o bastante simples para tirar pulga de roupa, mas ele pensou, e da�? Depois pensou, meu Deus, nessa realidade eu sou o mago mais poderoso que existe, � algo para se contar aos NET... Cerrou os dentes. Com certeza, haveria algumas altera��es naquela realidade.</p><p>Ysabell sentou ao lado de Mort e lhe deu a m�o.</p><p>��Ent�o?�� perguntou, baixinho.�� Chegou a hora. Alguma id�ia?</p><p>��N�o.</p><p>A interface j� se encontrava na metade da sala, desacelerando ao vencer inexoravelmente a press�o da realidade invasora.</p><p>Um ar quente e molhado soprou no ouvido de Mort. Ele estendeu o bra�o e tocou o focinho de Pituco.</p><p>��Meu bom cavalo�� disse.�� E n�o tenho nenhum torr�o de a��car para voc�. Vai ter de achar o caminho de casa sozinho...</p><p>A m�o se deteve em pleno ar.</p><p>��Podemos ir rodos para casa�� sugeriu.</p><p>��Acho que papai n�o gostaria muito disso�� advertiu Ysabell, mas Mort a ignorou.</p><p>��Cortabem!</p><p>��Qu�?</p><p>��Estamos indo. Voc� vem? Sei que voc� ainda vai existir quando a interface se fechar...</p><p>��Uma parte de mim vai�� assentiu o mago.</p><p>��Foi o que eu quis dizer�� respondeu Mort, montando em Pituco.</p><p>��Mas falando pela parte que n�o vai, eu gostaria de acompanh�-los�� tratou de ressalvar Cortabem.</p><p>��Quero ficar aqui e morrer no meu reino�� objetou Keli.</p><p>��O que voc� quer n�o importa�� rebateu Mort.�� Viajei o Disco todo para salv�-la, entende? E voc� vai ser salva.</p><p>��Mas eu sou rainha!�� retrucou Keli.</p><p>A incerteza se insinuou em seus olhos, e ela se virou para Cortabem, que abaixou o candelabro, cheio de culpa.</p><p>��Voc� disse! Eu sou rainha, n�o sou?</p><p>��Ah, 頗 respondeu Cortabem, instantaneamente. E ent�o, porque a palavra de um mago deve ser firme como ferro fundido, acrescentou:�� E n�o pode se contaminar por nada.</p><p>��Cortabem!�� chamou Mort.</p><p>O mago assentiu, pegou Keli pela cintura e botou-a no lombo de Pituco. Levantando o manto, subiu atr�s de Mortimer e puxou Ysabell para que se agarrasse �s suas costas. O cavalo se agitou um pouco, reclamando da sobrecarga, mas Mortimer virou-o para o v�o da porta e impeliu-o adiante.</p><p>A medida que avan�avam pela sala, galgavam o jardim e levantavam v�o, a interface os acompanhava. A n�voa perolada se encontrava a apenas alguns metros de dist�ncia, fechando-se cent�metro a cent�metro.</p><p>��Com licen�a�� disse Cortabem para Ysabell, levantando o chap�u pontudo.�� �gneo Cortabem, mago do primeiro grau, ex-reconhecedor real e provavelmente prestes a ser decapitado. A senhorita, por acaso, sabe para onde estamos indo?</p><p>��Para a terra do meu pai�� gritou Ysabell, mais alto que o barulho do vento.</p><p>��Eu o conhe�o?</p><p>��Acho que n�o. Voc� se lembraria.</p><p>As patas de Pituco rasparam no alto do muro palaciano, quando, com os m�sculos retesados, o cavalo tentou ganhar mais altura. Cortabem se virou novamente para tr�s, segurando o chap�u.</p><p>��Quem � o cavalheiro de que falamos?�� berrou.</p><p>��Morte�� respondeu Ysabell.</p><p>��N�o...</p><p>��Sim.</p><p>��Ah.</p><p>Cortabem olhou de esguelha para os telhados distantes e abriu um sorriso torto para ela.</p><p>��Eu economizaria tempo se saltasse agora?</p><p>��Ele � muito simp�tico quando voc� o conhece�� defendeu Ysabell.</p><p>��� mesmo? Ser� que vamos ter oportunidade?</p><p>��Segurem!�� gritou Mort.�� Logo devemos atravessar... Um buraco negro surgiu do c�u e os engoliu.</p><p>A interface oscilou indecisa, vazia como bolso de pobre, e continuou encolhendo.</p><p>A porta da frente se abriu. Ysabell enfiou a cabe�a para fora.</p><p>��N�o tem ningu�m�� avisou.�� � melhor voc�s entrarem. Os outros tr�s marcharam para o vest�bulo. Escrupuloso, antes Cortabem limpou os p�s.</p><p>��� meio pequeno�� avaliou Keli.</p><p>��� bem maior por dentro�� advertiu Mort, e se virou para Ysabell.�� Olhou todos os c�modos?</p><p>��N�o achei nem Albert�� respondeu ela.�� Que eu me lembre, ele nunca saiu de casa.</p><p>Ela tossiu, lembrando suas obriga��es de anfitri�.</p><p>��Algu�m aceita uma bebida?�� perguntou. Keli a ignorou.</p><p>��Eu esperava pelo menos um castelo�� disse.�� Grande e negro, com imensas torres escuras. N�o um cabide para guarda-chuvas..</p><p>��Tem uma foice pendurada�� argumentou Mort.</p><p>��Que tal nos sentarmos um pouco no gabinete? Tenho certeza de que vamos nos sentir melhor�� prop�s Ysabell, e abriu a porta de baeta preta.</p><p>Cortabem e Keli entraram. Ysabell agarrou o bra�o de Mortimer.</p><p>��O que vamos fazer agora?�� perguntou.�� Papai vai ficar possesso se encontr�-los aqui.</p><p>��Vou pensar em alguma coisa�� disse Mort.�� Reescrever as biografias ou algo assim...�� Ele abriu um sorriso desanimado.�� N�o se preocupe. Vou pensar em alguma coisa.</p><p>A porta se fechou. Mortimer deu meia-volta e se deparou com o rosto sorridente de Albert.</p><p>Atr�s da mesa, a grande cadeira de couro se virou lentamente. Morte encarou Mortimer por sobre os dedos esquel�ticos. Quando teve certeza de que recebera a aten��o horrorizada de todos, disse:</p><p>��� MELHOR COME�AR AGORA.</p><p>Ele se levantou, parecendo crescer � medida que o gabinete escurecia.</p><p>��N�O PRECISA PEDIR DESCULPA�� acrescentou.</p><p>Keli enterrou a cabe�a no t�rax avantajado de Cortabem.</p><p>��ESTOU DE VOLTA. E ESTOU COM RAIVA.</p><p>��Mestre, eu...�� come�ou Mort.</p><p>��CALE A BOCA�� cortou Morte.</p><p>Ele chamou Keli com o dedo indicador. A princesa se virou para olh�-lo, sem ousar desobedecer.</p><p>Morte estendeu o bra�o e lhe tocou o queixo. Mort levou a m�o � espada.</p><p>��� ESTE O ROSTO CAPAZ DE LAN�AR MIL NAVIOS AO MAR E INCENDIAR AS TORRES DE PSEUD�POLIS?�� perguntou Morte.</p><p>Hipnotizada, Keli fitava os pontinhos vermelhos a quil�metros de profundidade nas �rbitas oculares escuras.</p><p>��H�, com licen�a�� pediu Cortabem, respeitosamente segurando o chap�u.</p><p>��SIM?�� disse Morte, distra�do.</p><p>��N�o �, n�o. O senhor deve estar pensando em outro rosto.</p><p>��Qual � o seu nome?</p><p>��Cortabem, senhor. Sou mago, senhor.</p><p>��SOU MAGO, SENHOR�� escarneceu Morte.�� FIQUE QUIETO, MAGO.</p><p>��Senhor.</p><p>Cortabem recuou.</p><p>Morte se virou para Ysabell.</p><p>��FILHA, EXPLIQUE-SE. POR QUE FOI AJUDAR ESSE IDIOTA?</p><p>Ysabell fez uma rever�ncia nervosa.</p><p>��Eu... o amo, papai. Eu acho.</p><p>��Ama?�� surpreendeu-se Mort.�� Voc� nunca disse nada!</p><p>��N�o parecia ter tempo�� explicou Ysabell.�� Papai, ele n�o pretendia...</p><p>��QUIETA.</p><p>Ysabell baixou os olhos.</p><p>��Sim, papai.</p><p>Morte contornou a mesa at� estar de frente para Mort. Encarou-o por um longo tempo.</p><p>Ent�o, num �nico movimento r�pido, acertou-lhe o rosto, jogando-o no ch�o.</p><p>��CONVIDO VOC� PARA A MINHA CASA�� DISSE��, DOU ROUPA, COMIDA, EDUCA��O E OPORTUNIDADES COM AS QUAIS VOC� NEM SONHARIA, E � ASSIM QUE RETRIBUI. SEDUZ MINHA FILHA, DESCUIDA DO SERVI�O, PROVOCA ONDULA��ES NA REALIDADE QUE LEVAR�O S�CULOS PARA SE CONSERTAR. A INSENSATEZ DAS SUAS ATITUDES CONDENOU SEUS COMPANHEIROS AO ESQUECIMENTO. � O M�NIMO QUE OS DEUSES V�O EXIGIR. NO TODO, GAROTO, N�O FOI UM BOM COME�O PARA O SEU PRIMEIRO EMPREGO.</p><p>Mort conseguiu se sentar, segurando o rosto. Ardia frio.</p><p>��Mort�� disse.</p><p>��ELE FALA! O QUE FOI?</p><p>��Solte os outros�� pediu Mort.�� Eu meti todos nessa. N�o � culpa deles. O senhor poderia rearranjar as coisas para...</p><p>��POR QUE EU FARIA ISSO? AGORA ELES PERTENCEM A MIM.</p><p>��Eu luto com o senhor por eles�� desafiou Mort.</p><p>��MUITO NOBRE. OS MORTAIS LUTAM COMIGO O TEMPO TODO. VOC� EST� DEMITIDO.</p><p>Mort se p�s de p�. Lembrou de como fora ser Morte. Deixou a sensa��o fluir...</p><p>��N�O�� disse.</p><p>��AH. ENT�O ME DESAFIA COMO IGUAL?</p><p>Mort engoliu em seco. Mas pelo menos agora o caminho estava livre. Quando ca�mos do penhasco, a vida toma um rumo bem definido.</p><p>��Se necess�rio�� respondeu ele.�� E se eu ganhar...</p><p>��Se VOC� GANHAR VAI ESTAR EM POSI��O DE FAZER O QUE BEM LHE APROUVER�� garantiu Morte.�� SIGA-ME.</p><p>Passou por Mort e saiu para o corredor. Os outros quatro miraram Mort.</p><p>��Tem certeza do que est� fazendo?�� perguntou Cortabem.</p><p>��� imposs�vel vencer o patr�o�� salientou Albert, num suspiro.�� Tire por mim.</p><p>��O que acontece se voc� perder?�� quis saber Keli.</p><p>��N�o vou perder�� respondeu Mort.�� Esse � o problema.</p><p>��Papai quer que ele ganhe�� disse Ysabell aflita.</p><p>��Vai deixar Mort vencer?�� indagou Cortabem.</p><p>��Ah, n�o. N�o vai deix�-lo vencer. S� quer que ele ganhe.</p><p>Mortimer confirmou com a cabe�a. Ao seguir o vulto negro de Morte, refletiu sobre o infind�vel futuro, servindo ao prop�sito misterioso do Criador e vivendo � margem do Tempo. N�o podia culpar Morte por querer largar o emprego. Morte havia dito que os ossos n�o eram obrigat�rios, mas talvez isso n�o importasse. Ser� que, a eternidade demoraria a passar, ou, de um ponto de vista pessoal, todas as vidas tinham a mesma dura��o? Oi, disse uma voz em sua cabe�a. Lembra de mim? Sou voc�. Fui eu que o meti nessa.</p><p>��Obrigado�� grunhiu ele. Os outros o encararam.</p><p>Voc� pode se dar bem, disse a voz. Tem uma grande vantagem. Voc� j� foi ele, e ele nunca foi voc�.</p><p>Morte atravessou o corredor at� a Sala de Vidro, com as velas obedientemente se acendendo ao entrar.</p><p>��ALBERT!</p><p>��Senhor?</p><p>��Traga as ampulhetas.</p><p>��Senhor.</p><p>Cortabem segurou o bra�o do velho.</p><p>��Voc� � mago�� sussurrou.�� N�o tem de fazer o que ele manda!</p><p>��Rapaz, quantos anos voc� tem?�� perguntou Albert, com do�ura.</p><p>��Vinte.</p><p>��Quando tiver a minha idade, vai ver suas escolhas de outra maneira.</p><p>Ele se virou para Mort.</p><p>��Sinto muito.</p><p>Mortimer sacou a espada, a l�mina quase invis�vel sob a luz das velas. Morte deu meia-volta e o encarou, sendo ent�o apenas uma silhueta delgada contra a imensa estante de ampulhetas.</p><p>Estendeu os bra�os. A foice apareceu em suas m�os com um pequeno estrondo.</p><p>Albert surgiu de um dos corredores com duas ampulhetas e, sem dizer nada, depositou-as na sali�ncia de uma das colunas.</p><p>Uma era v�rias vezes maior do que as ampulhetas comuns�� preta, fina e intrincadamente esculpida num jogo de ossos e caveira.</p><p>N�o era o pior.</p><p>Mortimer engoliu um gemido. N�o havia areia dentro.</p><p>Ao lado, a ampulheta menor era bastante simples e despretensiosa. Mortimer estendeu a m�o para peg�-la.</p><p>��Posso?�� perguntou.</p><p>��Fique � vontade.</p><p>O nome Mort estava inscrito. Ele ergueu a ampulheta � luz, notando sem muita surpresa que quase j� n�o restava areia no vaso superior. Quando levou-a ao ouvido, imaginou escutar, apesar do eterno ru�do dos milh�es de instrumentos ao redor, o som de sua pr�pria vida se esvaindo.</p><p>Com cuidado, botou-a onde estava.</p><p>Morte se virou para Cortabem.</p><p>��Senhor mago, pode fazer a gentileza de contar at� TR�S?</p><p>Com ar grave, Cortabem assentiu.</p><p>��Tem certeza de que isso n�o poderia ser resolvido numa mesa...�� come�ou.</p><p>��N�o.</p><p>��N�o.</p><p>Mortimer e Morte come�aram a andar em c�rculo, seus reflexos a tremeluzirem nas fileiras de ampulhetas.</p><p>��Um�� disse Cortabem.</p><p>Morte agitou a foice amea�adoramente.</p><p>��Dois.</p><p>As armas se encontraram no ar com um som de gato deslizando em vidro.</p><p>��Os dois trapacearam!�� gritou Keli. Ysabell confirmou.</p><p>��� claro�� disse.</p><p>Mortimer deu um salto para tr�s, curvando a espada num arco t�o demorado que Morte n�o teve dificuldade em desviar, transformando a defesa num movimento circular baixo, do qual Mortimer s� se livrou com um desajeitado pulo vertical.</p><p>Embora a foice n�o ocupe lugar de destaque entre as armas de guerra, qualquer pessoa que j� tenha estado do outro lado de uma, digamos, revolta camponesa sabe que em m�os h�beis ela vira um perigo. Quando o dono come�a a agit�-la, ningu�m�� inclusive quem a empunha�� sabe onde a l�mina est� nem onde estar� dali a um minuto.</p><p>Sorrindo, Morte avan�ou. Mortimer evitou o golpe � altura da cabe�a e saltou de lado, ouvindo o tinido da foice contra uma ampulheta na prateleira mais pr�xima...</p><p>... num beco escuro de Morpork um limpador de fossas levou a m�o ao peito e caiu para frente da carro�a...</p><p>Mortimer rolou no ch�o e se levantou, meneando com as duas m�os a espada acima da cabe�a e sentindo uma ponta de alegria ao ver Morte se afastar. O golpe violento acertou uma prateleira. Uma a uma, as ampulhetas come�aram a cair. Em confus�o, Mortimer notou Ysabell passar por ele e salv�-las...</p><p>... no Disco, quatro pessoas escaparam milagrosamente da morte por queda...</p><p>...e ent�o correu adiante, aproveitando a vantagem. Morte agitou as m�os com rapidez ao aparar cada uma das investidas, depois mudou a foice de posi��o e trouxe a l�mina para cima num arco do qual Mortimer s� escapou com um pulo para o lado, no percurso rachando uma ampulheta com o punho da espada e lan�ando-a pelo ar...</p><p>... nas Montanhas Ramtops, o pastor que � luz de vela procurava uma vaca perdida nos campos mais elevados escorregou e despencou mais de trezentos metros...</p><p>... Cortabem saltou para frente, pegou a ampulheta numa das m�os estendidas em desespero, caiu no ch�o e deslizou de bru�os...</p><p>... uma �rvore retorcida surgiu de forma misteriosa debaixo do pastor e aparou a queda, eliminando seus problemas mais graves�� a morte, o julgamento dos deuses, a incerteza do Para�so e assim por diante�� e substituindo-os por aquele comparativamente mais leve: escalar cerca de trezentos metros de penhasco gelado no breu absoluto.</p><p>Houve uma pausa quando os advers�rios se afastaram um do outro e voltaram a andar em c�rculo, � procura de uma brecha.</p><p>��N�o tem nada que a gente possa fazer?�� perguntou Keli.</p><p>��Mort vai perder de qualquer maneira�� respondeu Ysabell, sacudindo a cabe�a.</p><p>Cortabem tirou o casti�al de prata da manga e come�ou a pass�-lo de uma m�o para a outra.</p><p>Morte brandiu a foice, acidentalmente quebrando uma ampulheta � altura do ombro...</p><p>... em Bes Pelargic, o torturador-chefe do imperador caiu de costas em seu pr�prio po�o de �cido...</p><p>... e desferiu outro golpe, que Mortimer desviou por mera sorte. Mas por pouco. Ele j� sentia dor nos m�sculos e o entorpecimento cinza do cansa�o, duas desvantagens que Morte n�o tinha de considerar.</p><p>Morte percebeu.</p><p>��RENDA-SE�� disse.�� POSSO SER MISERICORDIOSO.</p><p>A bem de ilustra��o, desferiu um golpe circular que Mortimer aparou desajeitadamente na ponta da espada. A l�mina da foice ricocheteou, espatifando uma ampulheta...</p><p>... o duque de Sto Helit levou a m�o ao peito, sentiu uma pontada aguda de dor, gritou sem proferir nenhum som e caiu do cavalo...</p><p>Mortimer recuou at� sentir a aspereza de uma coluna de pedra na nuca. A ampulheta de Morte, com os vasos assustadoramente vazios, encontrava-se a alguns cent�metros de sua cabe�a.</p><p>Morte n�o estava prestando aten��o. Encontrava-se pensativamente olhando os restos da vida do duque.</p><p>Mortimer soltou um grito e meneou a espada aos aplausos do pessoal, que havia algum tempo vinha esperando que ele fizesse isso. At� Albert bateu as m�os enrugadas.</p><p>Mas, em vez do tinido de vidro que Mortimer esperava ouvir, n�o houve nada.</p><p>Ele se virou e tentou de novo. A l�mina atravessou a ampulheta sem quebr�-la.</p><p>A mudan�a na textura do ar fez com que ele girasse a espada e a trouxesse de volta bem a tempo de aparar um ataque violento.</p><p>Ent�o foi a vez de Morte se afastar para escapar ao contra-ataque de Mortimer, que saiu fraco e lento.</p><p>��E AQUI TERMINAMOS, GAROTO.</p><p>��Mort�� disse Mort. Ele olhou para cima.</p><p>��Mort�� repetiu, e ergueu a espada num movimento que partiu o punho da foice em dois. A raiva fervilhava dentro dele. Se era para morrer, que ao menos fosse com o nome certo.</p><p>��Mort, seu cretino!�� gritou, e partiu para cima da caveira sorridente com a espada a zunir numa complicada dan�a de luz azul.</p><p>Morte recuou, rindo e se agachando sob a saraivada de golpes furiosos que partiram o punho da foice em mais peda�os.</p><p>Mortimer avan�ava em c�rculo, sempre atacando e, mesmo atrav�s da n�voa avermelhada do �dio, ciente de que Morte acompanhava cada um de seus movimentos, segurando a l�mina da foice como uma espada. N�o havia nenhuma brecha, e o impulso da raiva n�o duraria muito. Voc� n�o vai venc�-lo nunca, disse a si mesmo. O m�ximo que pode fazer � adiar a derrota. E provavelmente perder � melhor do que ganhar. Afinal, quem precisa da eternidade?</p><p>Por entre as cortinas do cansa�o, viu Morte esticar os ossos e movimentar a l�mina num arco vagaroso, como se envolto em mela�o.</p><p>��Papai!�� gritou Ysabell. Morte virou a cabe�a.</p><p>Talvez a mente de Mortimer acalentasse a id�ia da vida por vir, mas o corpo�� que tinha mais a perder�� objetou. Suspendeu a espada num golpe irrefre�vel, que tirou a l�mina da m�o de Morte, e ent�o encurralou-o contra a coluna mais pr�xima.</p><p>No sil�ncio repentino, Mortimer se deu conta de que j� n�o ouvia o ru�do que nos �ltimos dez minutos vinha escutando no limiar da audi��o. Os olhos se voltaram para o canto.</p><p>Os �ltimos gr�os de areia j� escorriam.</p><p>��Ataque.</p><p>Mort brandiu a espada e encarou os dois pontinhos azuis.</p><p>Baixou a arma.</p><p>��N�o.</p><p>Morte chutou-o entre as pernas com tanta rapidez, que fez at� Cortabem se encolher.</p><p>Em sil�ncio, Mortimer se dobrou e rolou no ch�o. Por entre as l�grimas, viu Morte avan�ar com a l�mina da foice numa das m�os e sua ampulheta na outra. Viu Keli e Ysabell passarem, tentando agarrar o manto. Viu Cortabem levando uma cotovelada nas costelas e deixando o casti�al cair no ch�o.</p><p>Morte se p�s de p� sobre Mortimer. Por um instante, a ponta da l�mina pairou acima dos olhos do menino e ent�o subiu.</p><p>��Voc� est� certo. N�o tem justi�a. S� tem voc�.</p><p>Morte hesitou e ent�o lentamente baixou a arma. Deu meia-volta e fitou o rosto de Ysabell. Ela estava tremendo de raiva.</p><p>��O QUE QUER DIZER?</p><p>Ela encarou o pai e lhe deu um tapa no rosto.</p><p>O estr�pito n�o foi mais alto do que o sil�ncio que se seguiu.</p><p>Keli fechou os olhos. Cortabem se afastou e p�s os bra�os sobre a cabe�a.</p><p>Bem devagar, Morte levou a m�o � caveira.</p><p>O peito de Ysabell subia e descia de tal modo que poderia fazer Cortabem desistir da magia para o resto da vida.</p><p>Por fim, numa voz ainda mais cavernosa do que de costume, Morte perguntou:</p><p>��POR QU�?</p><p>��Voc� falou que mexer no destino de uma �nica pessoa poderia destruir o mundo inteiro�� disse Ysabell.</p><p>��Sim?</p><p>��Voc� interveio no dele. E no meu.</p><p>Ela apontou o dedo tr�mulo para os cacos de vidro no ch�o.</p><p>��E nesses tamb�m.</p><p>��E DAI?</p><p>��O que os deuses v�o exigir por isso?</p><p>��DE MIM?</p><p>���!</p><p>Morte pareceu surpreso.</p><p>��NENHUM DEUS PODE EXIGIR NADA DE MIM. �S VEZES, AT� ELES ME OBEDECEM.</p><p>��N�o � justo, �? Ent�o os deuses n�o se importam com justi�a e miseric�rdia?�� perguntou Ysabell.</p><p>Sem que ningu�m notasse, ela havia pegado a espada. Morte sorriu.</p><p>��LOUVO O SEU EMPENHO�� disse�� MAS N�O LHE VALE DE NADA. SAIA DA FRENTE.</p><p>��N�o.</p><p>��VOC� DEVE SABER QUE O AMOR N�O ME VENCE. SINTO MUITO.</p><p>Ysabell brandiu a espada.</p><p>��Voc� sente muito?</p><p>��SAIA DA FRENTE, EU J� DISSE.</p><p>��N�o. Voc� s� est� querendo vingan�a. N�o � justo!</p><p>Por um instante, Morte inclinou a caveira e ent�o voltou a ergu�-la com os olhos brilhando.</p><p>��FA�A O QUE ESTOU MANDANDO.</p><p>��N�o fa�o.</p><p>��VOC� EST� DIFICULTANDO AS COISAS.</p><p>���timo.</p><p>Os dedos de Morte tamborilaram impacientemente na l�mina da foice, como um rato sapateando em lata. Ele parecia estar pensando. Ainda parado acima de Mortimer, fitou Ysabell, depois se virou e encarou os outros, agachados contra uma estante.</p><p>��N�O�� disse, afinal.�� N�O PODEM ME COAGIR. N�O PODEM ME FOR�AR. S� VOU FAZER O QUE SEI SER O CERTO.</p><p>Agitou a m�o, e a espada se perdeu das m�os de Ysabell. Fez outro gesto complicado, e a garota se viu i�ada e pressionada, com suavidade mas firmeza, contra a pilastra mais pr�xima.</p><p>Mortimer viu o ceifeiro de negro outra vez avan�ar em sua dire��o, com a l�mina brandindo para o ataque final. O vulto se postou sobre o garoto.</p><p>��VOC� N�O SABE O QUANTO ISSO ME DEIXA TRISTE�� disse.</p><p>Mort se apoiou nos cotovelos.</p><p>��Talvez eu saiba�� rebateu.</p><p>Durante alguns segundos, Morte lhe dirigiu um olhar surpreso e ent�o come�ou a rir. O som ressoou sinistramente pelo c�modo, ecoando nas prateleiras � medida que ele�� ainda rindo como um terremoto em cemit�rio�� erguia a ampulheta de Mort diante dos olhos do dono.</p><p>Mortimer ajustou a vis�o. Viu o �ltimo gr�o de areia deslizar pela superf�cie lustrosa, oscilar na borda e ent�o cair, despencando em c�mera lenta para o fundo. A luz de vela se refletiu na face de s�lica. O gr�o caiu sem qualquer som, abrindo uma min�scula cratera.</p><p>A luz dos olhos de Morte brilhou at� tomar a vis�o de Mortimer, e o som de sua gargalhada retiniu em todo o universo.</p><p>Ent�o Morte virou a ampulheta de cabe�a para baixo.</p><empty-line/><p>Mais uma vez o grande sal�o de Sto Lat reluzia � luz de vela e se enchia de m�sica.</p><p>Enquanto os convidados desciam os degraus da escada at� o buf� de frios, o mestre-de-cerim�nias falava sem parar, anunciando aqueles que, por um motivo relevante ou simples distra��o, haviam chegado tarde. Como por exemplo:</p><p>��O reconhecedor real, mestre do quarto da rainha, sua ipssissumidade �gneo Cortabem, mago do primeiro grau .</p><p>Sorrindo, Cortabem se dirigiu ao casal real, com um grande charuto na m�o.</p><p>��Posso beijar a noiva?�� perguntou.</p><p>��Se n�o estiver proibido aos magos�� respondeu Ysabell, oferecendo o rosto.</p><p>��Achamos os fogos de artif�cio estupendos�� comentou Mort.�� S� espero que reconstruam logo o muro. Com certeza, voc� vai achar o caminho at� a comida.</p><p>��Ele est� bem melhor agora�� disse Ysabell, por tr�s do sorriso fixo, quando Cortabem desapareceu na multid�o.</p><p>��� a �nica pessoa que n�o se importa em obedecer � rainha�� salientou Mort, cumprimentando um nobre.</p><p>��Dizem que ele � a verdadeira for�a por tr�s do trono�� considerou Ysabell.�� Emin�ncia alguma coisa.</p><p>��Emin�ncia parda�� confirmou Mort, distra�do.�� J� reparou que ele deixou de fazer m�gica?</p><p>��Fique quieto, a� vem ela.</p><p>��Sua Majestade, a rainha Kelirehena I, soberana de Sto Lat, protetora dos oito protetorados e imperatriz do disputado terreno de Sto Kerrig.</p><p>Ysabell fez uma mesura. Mortimer fez uma rever�ncia. Keli sorriu para os dois. O casal n�o p�de deixar de notar que ela vinha sofrendo alguma influ�ncia no sentido de vestir roupas que pelo menos acompanhavam a forma do corpo e tamb�m abandonara cortes de cabelo que pareciam o cruzamento de um abacaxi com algod�o-doce.</p><p>Ela beijou Ysabell e recuou para olhar Mortimer de alto a baixo.</p><p>��Como est� Sto HeLit?�� perguntou.</p><p>��Bem, muito bem�� respondeu Mort.�� Mas vamos ter de fazer alguma coisa em rela��o aos por�es. Seu finado tio tinha um... hobby meio fora do comum...</p><p>��Ela est� falando de vocꠗ sussurrou Ysabell.�� � o seu nome oficial.</p><p>��Eu preferia Mort�� lamentou Mort.</p><p>��Tamb�m tem um bras�o muito interessante�� lembrou a rainha.�� Duas foices cruzadas sobre uma ampulheta, num campo negro. Deu muita dor de cabe�a � equipe real.</p><p>��N�o � que eu me incomode em ser duque�� disse Mort.�� � ser casado com uma duquesa que me assusta.</p><p>��Voc� se acostuma.</p><p>��Espero que n�o.</p><p>���timo. E agora, Ysabell�� animou-se Keli��, se voc� vai andar nos c�rculos reais, tem umas pessoas que precisa conhecer...</p><p>Ysabell lan�ou a Mortimer um olhar de desespero ao ser carregada para a multid�o e logo se perdeu de vista.</p><p>Mortimer correu um dedo pelo colarinho, olhou para os lados e ent�o se dirigiu ao canto sombreado por uma samambaia, perto do buf�, onde poderia desfrutar um instante de paz consigo mesmo.</p><p>Atr�s dele, o mestre-de-cerim�nias pigarreou. Os olhos ganharam um ar distante, vidrado.</p><p>��Ladr�o de almas�� anunciou, na voz distra�da da pessoa cujos ouvidos n�o escutam o que a boca est� dizendo.�� O demolidor de imp�rios, engolidor de oceanos, ladr�o dos anos, a realidade �ltima, o ceifeiro da humanidade, o...</p><p>��TUDO BEM, TUDO BEM. J� DEU PARA ENTENDER QUE SOU EU.</p><p>Mortimer se deteve com uma coxa de peru fria a meio caminho da boca. N�o se virou. Nem precisava. Imposs�vel n�o reconhecer aquela voz, antes sentida do que ouvida, ou o modo como o ambiente esfriava e escurecia. A balb�rdia e a m�sica da recep��o do casamento minguaram at� desaparecer.</p><p>��Achamos que o senhor n�o fosse vir�� disse ele, para a samambaia.</p><p>��AO CASAMENTO DA MINHA PR�PRIA FILHA? ALI�S, FOI A PRIMEIRA VEZ QUE RECEBI CONVITE DE ALGUMA COISA. TINHA CONTORNOS DOURADOS, PEDIDO PARA RESPONDER E TUDO O MAIS.</p><p>���, mas o senhor n�o estava na cerim�nia.</p><p>��IMAGINEI QUE N�O FOSSE APROPRIADO.</p><p>��Bem, �, talvez n�o...</p><p>��PARA SER SINCERO, ACHEI QUE VOC� SE CASARIA COM A PRINCESA.</p><p>Mort enrubesceu.</p><p>��Conversamos a respeito�� disse.�� Ent�o pensamos: �o sujeito n�o deve se precipitar s� porque salvou uma princesa�.</p><p>��MUITO SENSATO. POR EXEMPLO, V�RIAS MO�AS SE JOGAM NOS BRA�OS DO PRIMEIRO RAPAZ A ACORD�-LAS DEPOIS DE DORMIREM CEM ANOS.</p><p>��E achamos que, levando tudo em conta, quando eu realmente conheci Ysabell, bem...</p><p>���, E, ENTENDO. UMA DECIS�O EXCELENTE. S� QUE RESOLVI N�O ME METER MAIS NOS ASSUNTOS HUMANOS.</p><p>��Jura?</p><p>��A N�O SER OFICIALMENTE. � CLARO. ESTAVA COMPROMETEN-DO MINHA CAPACIDADE CRITICA.</p><p>Com o canto dos olhos, Mortimer viu uma das m�os esquel�ticas espetar com maestria um ovo recheado. O garoto se virou.</p><p>��O que aconteceu?�� perguntou.�� Eu preciso saber! Uma hora a gente estava na sala de ampulhetas, na outra estava num campo pr�ximo a cidade, e �ramos realmente n�s! Quer dizer, a realidade havia se transformado para nos receber. Quem fez isso?</p><p>��TROQUEI UMA PALAVRINHA COM OS DEUSES.</p><p>Morte pareceu constrangido.</p><p>��Ah. Trocou, �?�� indagou Mort. Morte desviou o olhar.</p><p>���.</p><p>��Imagino que eles n�o tenham ficado muito satisfeitos.</p><p>��OS DEUSESB S�O JUSTOS, E SENTIMENTAIS. EU MESMO N�O CONSEGUI NUNCA SER ESSAS COISAS... MAS VOC� AINDA N�O EST� LIVRE. PRECISA FAZER A HIST�RIA ACONTECER.</p><p>��Eu sei�� disse Mort.�� Unir os reinos e tal.</p><p>��VAI ACABAR DESEJANDO TER FICADO COMIGO.</p><p>��Aprendi muito com o senhor�� admitiu Mort.</p><p>Levou a m�o ao rosto e distraidamente alisou as quatro cicatrizes finas na bochecha.</p><p>��Mas acho que n�o fui feito para esse tipo de trabalho. Olhe, eu realmente sinto muito...</p><p>��TENHO UM PRESENTE PARA VOC�.</p><p>Morte baixou o prato de petiscos e vasculhou os misteriosos recantos do manto. Quando a m�o esquel�tica surgiu, segurava um pequeno globo entre o polegar e o indicador.</p><p>O objeto tinha cerca de oito cent�metros de di�metro. Poderia ser a maior p�rola do mundo, exceto pelo fato de que a superf�cie parecia um redemoinho de intrincados tra�os prateados eternamente a ponto de se transformar em algo reconhec�vel, mas sempre conseguindo se safar.</p><p>Quando Morte depositou-a na palma estendida de Mortimer, pareceu ao rapaz muito pesada e um pouco quente.</p><p>��PARA VOC� E SUA MULHER. UM PRESENTE DE CASAMENTO. UM DOTE.</p><p>��� lindo! A gente achou que a torradeira fosse presente seu.</p><p>��ERA DO ALBERT. ELE N�O TEM MUITA IMAGINA��O.</p><p>Mortimer revirou o globo nas m�os. Os tra�os internos reagiam ao toque, enviando pequenos raios de luz atrav�s da superf�cie, em dire��o aos dedos.</p><p>��� uma p�rola?�� perguntou.</p><p>���. QUANDO ALGUMA COISA IRRITA A OSTRA E N�O PODE SER REMOVIDA, A COITADA A COBRE DE MUCO E A TRANSFORMA EM P�ROLA. ESSA � UMA P�ROLA DIFERENTE. UMA P�ROLA DA REALIDADE. TODA ESSA PARTE BRILHANTE � REALIDADE CONGELADA. VOC� DEVERIA RECONHECER... AFINAL, FOI QUEM A CRIOU.</p><p>Mortimer come�ou a jog�-la de uma m�o para a outra.</p><p>��Vamos guardar junto �s j�ias do castelo�� disse.�� N�o temos muitas.</p><p>��UM DIA VAI SER O GERME DE UM NOVO UNIVERSO.</p><p>Mortimer errou a m�o, mas, com reflexo apurado, estendeu o bra�o e pegou-a antes que ca�sse no ch�o.</p><p>��O qu�?</p><p>��A PRESS�O DA NOSSA REALIDADE A MANT�M CONDENSADA. PODE CHEGAR O DIA EM QUE O UNIVERSO ACABE E A REALIDADE SE ESVAIA. ENT�O ESSA AQUI VAI EXPLODIR E... QUEM SABE? GUARDE COM CUIDADO. AL�M DE PRESENTE, � UM FUTURO.</p><p>Morte inclinou a caveira.</p><p>��� UMA COISINHA A TOA�� acrescentou.�� VOC� PODERIA TER A ETERNIDADE.</p><p>��Eu sei�� respondeu Mort.�� Tive muita sorte.</p><p>Com cuidado, deixou-a sobre a mesa do buf�, entre os ovos de codorna e os enroladinhos de salsicha.</p><p>��TEM MAIS UMA COISA�� lembrou-se Morte. Novamente enfiou a m�o sob o manto e desencavou um pacote retangular, mal embrulhado e amarrado com barbante.</p><p>��� PARA VOCʠ� disse.�� NUNCA DEMONSTROU NENHUM INTERESSE. ACHOU QUE N�O EXISTISSE?</p><p>Mortimer desembrulhou o pacote e se deu conta de ter em m�o um pequeno livro de couro. Na lombada, em ouro, estava gravada uma �nica palavra: Mort.</p><p>Ele folheou o volume de tr�s para a frente, das p�ginas em branco at� o pequeno fluxo de tinta, a avan�ar pacientemente pela folha, e leu: Mortimer fechou o livro com um estalido, que, no sil�ncio absoluto, pareceu o estouro da cria��o, e sorriu, apreensivo.</p><p>��Ainda tem muitas p�ginas para serem preenchidas�� disse ele.�� Quanta areia ainda me resta? Ysabell falou que, como o senhor virou a ampulheta de cabe�a para baixo, significa que vou morrer quando estiver com...</p><p>��VOC� TEM AREIA SUFICIENTE�� cortou Morte.�� A MATEM�TICA N�O � TUDO O QUE DIZEM.</p><p>��Que tal se o convid�ssemos para os batizados?</p><p>��Acho melhor n�o. N�o fui bom pai que dir� av�. N�o tenho muito jeito para a coisa.</p><p>Largou a ta�a de vinho e curvou a cabe�a para Mort.</p><p>��Sauda��es � sua senhora�� disse.�� Agora preciso ir.</p><p>��Tem certeza? Eu gostaria que o senhor ficasse.</p><p>��� MUITA GENTILEZA SUA DIZER ISSO, MAS O SERVI�O ME CHAMA.</p><p>Ele estendeu a m�o de osso.</p><p>��Sabe como �.</p><p>Mort apertou a m�o, ignorando o frio.</p><p>��Olhe�� Falou.�� Se quiser tirar uns dias de folga, se estiver precisando de umas f�rias...</p><p>��MUITO OBRIGADO PELA OFERTA�� agradeceu Morte.�� VOU PENSAR NO ASSUNTO. E AGORA...</p><p>��Adeus�� disse Mort, e se surpreendeu ao descobrir um aperto na garganta.�� � uma palavra horr�vel, n�o �?</p><p>���, SIM.</p><p>Morte sorriu, porque, como muitas vezes j� foi mencionado, n�o tinha alternativa. Mas possivelmente desta vez fora intencional.</p><p>��EU PREFIRO AU REVOIR�� disse ele.</p><empty-line/><subtitle>FIM</subtitle></section></body><body name="notes"><title><p>Notas</p></title><section id="n_1"><title><p>1</p></title><p>Quase tudo se locomove com maior rapidez do que a luz do Disco, que, ao contr�rio da luz comum, � tranq�ila e vagarosa. De acordo com o fil�sofo Yin Gha No, a �nica coisa mais veloz do que a luz comum � a monarquia. Ele raciocinou assim: n�o podemos ter mais de um rei, e a tradi��o exige que n�o haja nenhum intervalo entre dois reis, de modo que, quando um rei morre, o trono deve instantaneamente passar para o herdeiro. � de se presumir, disse ele, que exista alguma part�cula elementar�� r�ions ou talvez rainhons�� que realize essa fun��o, mas � claro que �s vezes a sucess�o n�o acontece, se defrontada com uma antipart�cula, ou rep�blicon. O ambicioso plano do fil�sofo de usar a descoberta para enviar mensagens�� recorrendo � cuidadosa tortura de um rei, a fim de modular os sinais�� nunca chegou a ser completamente explicado, porque a essa altura o bar fechou.</p></section><section id="n_2"><title><p>2</p></title><p>A primeira pizza do Disco foi criada pelo m�stico klatchiano Ronron �Revela��o Joe� Shuwadhi, que alegava ter aprendido a receita em sonho com o pr�prio Criador do Discworld�� que aparentemente afirmara ser isso o que sempre tivera em mente. Os viajantes que atravessaram o deserto e viram o original, milagrosamente conservado na Cidade Proibida de Ee, dizem que na ocasi�o o objetivo do Criador fora uma pizza pequena de queijo e peperone com azeitonas pretas<a l:href="#n_10" type="note">[10]</a>, e coisas como mares e montanhas foram acrescentadas no calor da �ltima hora, como sempre acontece.</p></section><section id="n_3"><title><p>3</p></title><p>Mas n�o o bigode arqueado nem o chap�u redondo de pele. E seguia por tr�s horas. A realidade, que em geral n�o pode arcar com os custos dos poetas, sugere que na verdade o discurso inteiro tenha sido o seguinte: �Rapazes, a maioria deles ainda est� na cama, vamos atacar feito c�lica, j� estou de saco cheio de dormir em tenda, tudo bem?�.</p></section><section id="n_4"><title><p>4</p></title><p>O discurso foi transmitido �s gera��es seguintes num poema �pico encomendado pelo filho dele, que n�o nasceu em nenhuma sela e sabia comer com garfo e faca. Come�ava assim:</p><poem><stanza><v>�Vejam adiante, dormem os inimigos ap�ticos�.</v><v>Cheios de ouro roubado, os imorais depravados.</v><v>Que as lan�as da f�ria sejam como o fogo da estepe</v><v>em dia de vento, na esta��o mais seca.</v><v>Que a l�mina honesta penetre como os chifres</v><v>�de um touro de cinco anos com dor de dente severa...�</v></stanza></poem><p>E seguia por tr�s horas. A realidade, que em geral n�o pode arcar com os custos dos poetas, sugere que na verdade o discurso inteiro tenha sido o seguinte: Rapazes, a maioria deles ainda est� na cama, vamos atacar feito c�lica, j� estou de saco cheio de dormir em tenda, tudo bem?�</p></section><section id="n_5"><title><p>5</p></title><p>Sem d�vida, os maiores amantes do Disco eram Mellius e Gretelina, cujo romance puro, apaixonado e dilacerante teria incendiado as p�ginas da Hist�ria se, por algum inexplic�vel capricho do destino, eles n�o tivessem nascido com uma diferen�a de duzentos anos, em continentes diferentes. No entanto, os deuses se apiedaram e transformaram ele numa t�bua de passar roupa<a l:href="#n_11" type="note">[11]</a> e ela num poste de amarra��o.</p></section><section id="n_6"><title><p>6</p></title><p>Havia meio vidro de maionese velha, um peda�o de queijo passado e um tomate com o mofo branco a se espalhar. Como durante o dia a despensa do pal�cio de Sto Lat em geral continha quinze veados inteiros,duzentas perdizes, cinq�enta ton�is de manteiga, duzentas lebres, sessenta flancos de vaca, tr�s quil�metros de ling�i�a, v�rias galinhas, oitenta d�zias de ovos, diversos esturj�es do Mar C�rculo, uma cuba de caviar e uma coxa de elefante recheada com azeitonas, Cortabem mais uma vez se deu conta de que uma manifesta��o universal da magia bruta, em estado natural, era a seguinte: que qualquer deposito dom�stico de comida, sorrateiramente invadido no meio da noite, sempre continha, independente das mercadorias diurnas, meio vidro de maionese velha, um peda�o de queijo passado e um tomate com o mofo branco a se espalhar.</p></section><section id="n_7"><title><p>7</p></title><p>Ankh-Morpork havia contemplado muitas formas de governo e acabara optando por uma democracia conhecida por �Um Homem, Um Voto�. O Patr�cio era o Homem; o Voto era dele.</p></section><section id="n_8"><title><p>8</p></title><p>O Jardim de Pedras da Simplicidade e da Paz Universal, criado �s ordens do velho imperador Um Espelho Solar<a l:href="#n_12" type="note">[12]</a>, usava o sistema de sombras e posi��es para simbolizar a unidade b�sica da alma e da mat�ria e a harmonia de todas as coisas. Dizia-se que os segredos da realidade se escondiam na ordem exata de suas pedras.</p></section><section id="n_9"><title><p>9</p></title><p>Isso n�o � exatamente verdade. Em geral, os fil�sofos concordam que o tempo mais curto para que algo aconte�a � de um bilh�o de anos.</p></section><section id="n_10"><title><p>10</p></title><p>Depois da dissid�ncia da Fac��o do Sentido Hor�rio e da morte de 25 mil pessoas no jihad decorrente, os fi�is puderam acrescentar � receita uma pequena folha de louro.</p></section><section id="n_11"><title><p>11</p></title><p>Quando se � Deus, n�o � preciso ter motivos.</p></section><section id="n_12"><title><p>12</p></title><p>Imperador que tamb�m ficou famoso pela mania de cortar as pernas e os l�bios dos inimigos e depois prometer liberdade se conseguissem correr pela cidade tocando corneta.</p></section></body><binary id="cover" 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