<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>Arthur</first-name><middle-name>Conan</middle-name><last-name>Doyle</last-name></author><book-title>Sherlock Holmes - Edicao completa</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang><sequence name="Aventura" number="14"/></title-info><document-info><author><first-name>Arthur</first-name><middle-name>Conan</middle-name><last-name>Doyle</last-name></author><program-used>calibre 0.9.23, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>15.3.2013</date><id>3c29f725-9015-4bfb-9db8-75722b67ea21</id><version>1.0</version></document-info></description><body><section><empty-line/><p><image l:href="#12"/></p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><image l:href="#11"/></p></section><section><empty-line/><p>T�tulos originais:�A Study in Scarlet, The Sign of Four, The Adventures of Sherlock Holmes, Memoirs of Sherlock Holmes, The Return of Sherlock Holmes, The Hound of the Baskervilles, The Valley of Fear, His Last Bow e The Case Book of Sherlock Holmes.</p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>SHERLOCK HOLMES</strong></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong><emphasis>por</emphasis></strong></p><p><strong><emphasis/></strong></p><empty-line/><p><strong><emphasis/></strong></p><p><strong><emphasis><image l:href="#0"/></emphasis></strong></p><empty-line/><p><strong><emphasis/></strong></p><empty-line/></section><section><p><strong>�ndice</strong></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>Um Estudo em Vermelho</strong></p><p>1� Parte</p><p>Cap�tulo 1</p><p>Cap�tulo 2</p><p>Cap�tulo 3</p><p>Cap�tulo 4</p><p>Cap�tulo 5</p><p>Cap�tulo 6</p><p>Cap�tulo 7</p><p>2� Parte</p><p>Cap�tulo 1</p><p>Cap�tulo 2</p><p>Cap�tulo 3</p><p>Cap�tulo 4</p><p>Cap�tulo 5</p><p>Cap�tulo 6</p><p>Cap�tulo 7</p><p><strong>O Sinal dos Quatro</strong></p><p>Cap�tulo 1</p><p>Cap�tulo 2</p><p>Cap�tulo 3</p><p>Cap�tulo 4</p><p>Cap�tulo 5</p><p>Cap�tulo 6</p><p>Cap�tulo 7</p><p>Cap�tulo 8</p><p>Cap�tulo 9</p><p>Cap�tulo 10</p><p>Cap�tulo 11</p><p>Cap�tulo 12</p><p><strong>As Aventuras de Sherlock Holmes</strong></p><p>Esc�ndalo na bo�mia</p><p>Primeira Parte</p><p>Segunda parte</p><p>Terceira parte</p><p>a liga ruiva</p><p>um caso de identidade</p><p>o mist�rio do vale boscombe</p><p>as cinco sementes de laranja</p><p>o homem de l�bio torcido</p><p>a pedra azul</p><p>a banda pintada</p><p>o polegar do engenheiro</p><p>o nobre solteiro</p><p>a coroa de berilo</p><p>as tiras roxas</p><p><strong>Mem�rias de Sherlock Holmes</strong></p><p>silver blaze</p><p>o rosto amarelo</p><p>o corretor</p><p>gloria scott</p><p>o ritual musgrave</p><p>os senhores de reigate</p><p>o aleijado</p><p>o paciente interno</p><p>o int�rprete grego</p><p>o tratado naval</p><p>o problema final</p><p><strong>A volta de Sherlock Holmes</strong></p><p>a aventura da casa vazia</p><p>a aventura do� construtor de norwood</p><p>a aventura dos� homenzinhos dan�antes</p><p>a aventura da ciclista solit�ria</p><p>a aventura da priory school</p><p>a aventura de black peter</p><p>a aventura de charles augustus milverton</p><p>a aventura dos seis napole�es</p><p>a aventura dos tr�s estudantes</p><p>a aventura do pincen� dourado</p><p>a aventura do �three-quarter�� desaparecido</p><p>a aventura de abbey grange</p><p>a aventura da segunda mancha</p><p><strong>O C�o dos Baskervilles</strong></p><p>dedicat�ria</p><p>o sr. sherlock holmes</p><p>a maldi��o dos baskervilles</p><p>o problema</p><p>sir henry baskerville</p><p>tr�s fios partidos</p><p>a mans�o baskerville</p><p>os stapletons da casa de merripit</p><p>primeiro relat�rio do dr. watson</p><p>segundo relat�rio do dr. watson</p><p>resumo do di�rio do dr. watson</p><p>o homem sobre o pico rochoso</p><p>morte no p�ntano</p><p>prendendo as redes</p><p>o c�o dos baskervilles</p><p>um retrospecto</p><p><strong>O Vale do Medo</strong></p><p>1� Parte</p><p>O Aviso</p><p>Sherlock Holmes se Pronuncia</p><p>A Trag�dia de Birlstone</p><p>Trevas</p><p>Os Personagens do Drama</p><p>A primeira luz</p><p>A Solu��o</p><p>2� Parte</p><p>O Homem</p><p>O Chefe</p><p>Loja 341, Vermissa</p><p>O Vale do Medo</p><p>A Pior Hora</p><p>Perigo</p><p>A Armadilha para Birdy Edwards</p><p>Ep�logo</p><p><strong>Os �ltimos Casos de Sherlock Holmes</strong></p><p>Pref�cio</p><p>o caso da vila glic�nia</p><p>1. A estranha aventura do sr. John Scott Eccles</p><p>2. O Tigre de San Pedro</p><p>o caso da caixa de papel�o</p><p>o caso do c�rculo vermelho</p><p>o caso dos planos do bruce-partington</p><p>o caso do detetive agonizante</p><p>o caso do desaparecimento de lady frances carfax</p><p>o caso do p� do diabo</p><p>seu �ltimo caso</p><p><strong>Hist�rias de Sherlock Holmes</strong></p><p>pref�cio</p><p>a aventura do cliente ilustre</p><p>a aventura do soldado descorado</p><p>a aventura da pedra mazarin</p><p>a aventura das tr�s cumeeiras</p><p>a aventura do vampiro de sussex</p><p>a aventura dos tr�s garridebs</p><p>o problema da ponte thor</p><p>a aventura do homem que andava de quatro</p><p>a aventura da juba do le�o</p><p>a aventura da h�spede velada</p><p>a aventura de shoscombe old place</p><p>a aventura do negro aposentado</p><p><strong>Biografia do Autor</strong></p></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>Um Estudo em Vermelho</strong></p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis/></strong></p><empty-line/><p><strong><emphasis/></strong></p><p><strong><emphasis>1� Parte</emphasis></strong></p><p><strong>Mem�rias do</strong></p><p><strong>dr. john h. watson,</strong></p><empty-line/><p><strong>
  ex-oficial m�dico do</strong></p><empty-line/><p><strong>
  ex�rcito brit�nico</strong></p><empty-line/></section><section><p><strong>Cap�tulo 1</strong></p><p><strong>O SENHOR SHERLOCK HOLMES</strong></p><empty-line/><p>Em 1878, graduei-me doutor em medicina pela Universidade de Londres e fui para Netley fazer o curso destinado aos cirurgi�es do ex�rcito. Conclu� meus estudos a tempo de ser designado para servir como cirurgi�o-assistente no Quinto Regimento de Northumberland. O regimento estava acantonado na �ndia, na �poca, e, antes que eu pudesse me juntar a ele, rebentou a segunda guerra afeg�. Quando desembarquei em Bombaim, soube que minha corpora��o j� havia avan�ado as passagens entre as montanhas, internando-se no territ�rio inimigo. Unido a in�meros oficiais na mesma situa��o, procurei segui-la. Chegamos a Candahar a salvo. L� encontrei meu regimento e assumi de imediato as novas fun��es.</p><p>A campanha trouxe honras e promo��o para muita gente; para mim, s� infort�nio e desastre. Fui transferido de minha brigada para a de Berkshire, onde servia, quando ocorreu a batalha fatal de Maiwand. Fui ferido no ombro por uma bala afeg� que me fraturou o osso, atingindo a art�ria subcl�via. Eu teria ca�do nas m�os dos sang�in�rios ghazis, n�o fosse a devo��o e a coragem de Murray, meu ordenan�a, que me colocou no lombo de um cavalo de carga e conseguiu me trazer a salvo para as linhas brit�nicas.</p><p>Abalado pela dor e enfraquecido pelas prolongadas priva��es, fui removido para o hospital de base em Peshawar. Viajei para l� em um longo trem, na companhia de outros homens feridos. J� estava restabelecido a suficiente para caminhar pelas enfermarias e tomar sol na varanda, quando fui atacado por tifo, a maldi��o de nossas possess�es indianas.</p><p>Corri risco de vida por v�rios meses. Quando, finalmente, recobrei a consci�ncia e entrei em convalescen�a, estava t�o fraco e emagrecido que uma junta m�dica determinou minha imediata remo��o para a Inglaterra. Fui embarcado no Orontes, navio de transporte de tropas, e, um m�s depois, desembarcava no cais de Portsmouth com a sa�de arruinada, mas com a paternal permiss�o do governo para tentar recuper�-la nos pr�ximos nove meses.</p><p>Eu n�o tinha amigos nem parentes na Inglaterra e era livre como o ar - ou t�o livre quanto uma renda de onze xelins e seis pences por dia permitem a um homem ser. Sob tais circunst�ncias, fui, como � natural, atra�do por Londres, a grande cisterna para a qual s�o drenados todos os vagabundos e pregui�osos do Imp�rio. Por l� fiquei algum tempo num pequeno hotel no Strand, levando uma vida desconfort�vel e sem sentido, gastando todo o dinheiro que recebia com uma prodigalidade que n�o deveria ter.</p><p>Minha situa��o financeira tornou-se alarmante.</p><p>Compreendi que ou deixava a metr�pole e me mudava para algum lugar no campo ou teria que alterar por completo meu estilo de vida. Escolhida a �ltima alternativa, decidi deixar o hotel e me instalar num lugar menos caro e pretensioso.</p><p>No mesmo dia em que cheguei a essa conclus�o, estava no Bar Criterion quando algu�m bateu no meu ombro. Virando-me, reconheci Stamford, um jovem que havia sido meu cirurgi�o-assistente em Barts. � uma sensa��o extremamente agrad�vel para uma pessoa solit�ria ver um rosto amigo em meio ao isolamento londrino. Nos velhos tempos, Stamford n�o fora um amigo intimo, mas, agora, eu o saudava com entusiasmo e ele, por sua vez, parecia encantado em me encontrar. Na exuber�ncia daquela satisfa��o, convidei-o a almo�ar comigo em Holborn e, juntos, tomamos um carro.</p><p>- Mas o que voc� andou fazendo, Watson? - perguntou, sem disfar�ar seu espanto, enquanto sacolej�vamos pelas congestionadas ruas de Londres. - Est� magro como um sarrafo e escuro como uma noz.</p><p>Fiz um relato sucinto de minhas aventuras e, t�o logo acabara de cont�-las, chegamos ao nosso destino.</p><p>- Coitado! - ele disse, compadecido, depois de ouvir minhas desgra�as. - E o que voc� vai fazer agora?</p><p>- Procurar um lugar para morar - respondi. - Meu problema � conseguir acomoda��es confort�veis por um pre�o razo�vel.</p><p>- Estranho - observou meu companheiro. - Voc� � a segunda pessoa que me diz isso hoje.</p><p>- E quem foi a primeira? - perguntei.</p><p>- Um sujeito que trabalha no laborat�rio qu�mico do hospital. Estava se lamentando, esta manh�, por n�o encontrar ningu�m com quem pudesse dividir as despesas de um �timo apartamento que encontrou, mas demasiado caro para ele.</p><p>- Fant�stico! - exclamei. - Se ele, de fato, quer algu�m para dividir a casa e as despesas, sou a pessoa indicada. Prefiro ter um companheiro a morar sozinho.</p><p>O rapaz me olhou de modo estranho, por sobre seu copo de vinho.</p><p>- Voc� ainda n�o conhece Sherlock Holmes - disse. - Talvez n�o gostasse de t�-lo como companheiro permanente.</p><p>- Por qu�? Qual o problema com ele?</p><p>- Bem, eu n�o disse que havia um problema. Acontece que ele tem id�ias um pouco estranhas. � apaixonado por certas ci�ncias. Mas, at� onde sei, � uma boa pessoa.</p><p>- Um estudante de medicina, suponho.</p><p>- N�o, n�o tenho a menor id�ia sobre que carreira ele pretende seguir. � muito bom em anatomia e, tamb�m, um qu�mico de primeira. Mas, que eu saiba, nunca freq�entou um curso regular de medicina. Seus estudos s�o t�o assistem�ticos quanto exc�ntricos. Contudo os conhecimentos nada convencionais que acumulou deixariam boquiabertos seus professores.</p><p>- Voc� nunca perguntou a ele o que pretende seguir?</p><p>- N�o, ele n�o � um homem f�cil de desvendar, embora, algumas vezes, possa ser bastante comunicativo.</p><p>- Gostaria de conhec�-lo - disse. - Se vou morar com algu�m, prefiro que seja com uma pessoa que estude e que tenha h�bitos tranq�ilos. N�o estou bastante forte para suportar barulho e excita��o. O que tive, no Afeganist�o, foi suficiente para o resto de minha vida. Como posso encontrar esse seu amigo?</p><p>- Deve estar no laborat�rio - respondeu. � �s vezes n�o aparece por v�rias semanas, noutras, trabalha l� da manh� � noite. Se quiser, podemos encontr�-lo depois do almo�o.</p><p>- De acordo - respondi. E passamos a falar de outras coisas.</p><p>Enquanto caminh�vamos para o hospital depois de deixar Holborn, Stamford me deu outros detalhes sobre o cavalheiro com quem eu pretendia morar.</p><p>- N�o me responsabilize, se voc� n�o se der bem com ele - disse. - O que sei a seu respeito � tudo o que se pode saber em encontros casuais de laborat�rio. Voc� � que prop�s essa parceria, n�o me culpe se algo der errado.</p><p>- Se n�o houver entendimento, ser� f�cil separarmo-nos - respondi. - Est� parecendo, Stamford - acrescentei, olhando com firmeza para meu companheiro - , que voc� tem alguma raz�o para se eximir neste assunto. Esse homem tem um temperamento terr�vel ou h� alguma coisa mais? N�o seja t�o cauteloso; fale!</p><p>- Como � que se diz o inexprim�vel? - respondeu rindo, meu interlocutor. - Holmes � demasiado cient�fico para o meu gosto. Aproxima-se da frialdade.</p><p>� o tipo do sujeito que faz um amigo ingerir uma pitada do �ltimo alcal�ide vegetal, n�o por maldade, entenda, mas por esp�rito de investiga��o, porque quer ter uma id�ia clara dos efeitos da droga. Por uma quest�o de justi�a, � preciso que se diga que ele tamb�m estaria disposto a tomar o alcal�ide. Parece ter paix�o pelo conhecimento exato e definido.</p><p>- Por mim, n�o h� nada de errado nisso.</p><p>- Sim, contanto que n�o se chegue a excessos. A situa��o muda de figura quando se passa a dar pauladas nos corpos na sala de disseca��o.</p><p>- Dar pauladas nos corpos?</p><p>- Sim, para verificar quanto tempo depois da morte o corpo pode apresentar escoria��es. Vi Holmes fazer isso com meus pr�prios olhos.</p><p>- E voc� diz que ele n�o � estudante de medicina?</p><p>- N�o. S� Deus sabe o que ele estuda. Bem, aqui estamos, e voc� deve formar suas pr�prias impress�es sobre ele.</p><p>Enquanto fal�vamos, dobramos para uma ruela estreita. Por uma portinha lateral, chegamos a uma ala do grande hospital. O cen�rio me era familiar e eu n�o precisava de guia para subir a fria escada de pedra e percorrer o longo corredor de paredes caiadas e portas cor de castanha. Antes de seu final, uma passagem em arco dava acesso a outras dire��es e por ela chegamos ao laborat�rio qu�mico.</p><p>O lugar, amplo e imponente, estava entulhado com um sem-n�mero de frascos. Mesas baixas e largas, espalhadas pelo sal�o. Eram cobertas por retortas, tubos de ensaios e pequenos bicos de Bunsen com tr�mulas chamas azuis. Via-se apenas um estudante no laborat�rio. Ele estava curvado sobre uma mesa distante e absorvido em seu trabalho. Ao ouvir nossos passos, olhou em torno, erguendo-se com um grito de satisfa��o.</p><p>- Descobri! Descobri! - dizia a meu companheiro, enquanto corria a nosso encontro com um tubo de ensaio nas m�os. - Descobri um reagente que � precipitado pela hemoglobina e por nada mais!</p><p>Se tivesse descoberto uma mina de ouro, n�o poderia estar mais feliz.</p><p>- Dr. Watson, Sr. Sherlock Holmes - disse Stamford, apresentando-nos.</p><p>- Como vai? - disse cordialmente, apertando minha m�o com uma for�a que eu n�o esperava que ele tivesse. - Vejo que esteve no Afeganist�o.</p><p>- Como � que voc� sabe? - perguntei, at�nito.</p><p>- N�o importa - respondeu, rindo para si mesmo. - No momento, o que interessa � a hemoglobina. Sem d�vida, voc� percebe o significado dessa minha descoberta, n�o?</p><p>- � quimicamente interessante, sem d�vida - respondi -, mas do ponto de vista pr�tico...</p><p>- Meu caro, esta � a mais pr�tica descoberta m�dico-legal dos �ltimos anos! N�o v� que � um teste infal�vel para manchas de sangue? Venha aqui!</p><p>Com impetuosidade, puxou-me pela manga do casaco, levando-me para a mesa onde esteve trabalhando.</p><p>- Vamos colher um pouco de sangue fresco - disse, enfiando uma agulheta comprida em seu dedo. Colheu o sangue numa pipeta. - Agora acrescento esta pequena quantidade de sangue a um litro de �gua. Como v�, a mistura resultante tem a apar�ncia da �gua pura, porque a propor��o de sangue n�o pode ser mais que um para um milh�o. No entanto n�o tenho d�vida de que obteremos a rea��o caracter�stica.</p><p>Enquanto falava, colocou no recipiente alguns cristais brancos e adicionou algumas gotas de um fluido transparente. De imediato, o conte�do assumiu uma cor escura como a do mogno, e um p� marrom precipitou-se no fundo do recipiente de vidro.</p><p>- Aha! - exclamou, batendo palmas e parecendo uma crian�a encantada com um brinquedo novo.</p><p>- O que acha disto?</p><p>- Parece um teste muito delicado - observei.</p><p>- Excelente! Excelente! O antigo teste com guaiaco era muito prec�rio e impreciso. E pode-se dizer o mesmo do exame microsc�pico dos gl�bulos vermelhos, que n�o ajudar� em nada se a mancha de sangue j� tiver algumas horas. Isto aqui, por�m, parece agir t�o bem em sangue fresco quanto em antigo. Se este teste j� tivesse sido inventado, centenas de homens que andam por a� � solta estariam pagando seus crimes, h� muito tempo.</p><p>- De fato! - murmurei.</p><p>- Casos criminais continuamente esbarram nesse ponto. Um homem � suspeito de crime, talvez, meses depois do ato ter sido cometido. Suas roupas �ntimas ou exteriores s�o examinadas e encontram-se manchas pardas nelas. Ser�o manchas de sangue, lama, ferrugem, frutas ou do qu�? Essa quest�o tem confundido muitos especialistas. E qual a raz�o? A n�o exist�ncia de um teste garantido. Agora, temos o teste Sherlock Holmes e n�o haver� mais dificuldade.</p><p>Seus olhos brilhavam enquanto ele falava e, com a m�o no peito, curvou-se, como se agradecesse os aplausos de uma multid�o imagin�ria.</p><p>- Voc� merece parab�ns - comentei, bastante surpreso com seu entusiasmo.</p><p>- Houve o caso de Von Bischoff, em Frankfurt, no ano passado. Ele teria sido enforcado, se meu teste j� existisse. Houve tamb�m o caso Mason, em Bradford; o do famoso M�ller; o de Lef�vre, em Montpellier; o de Samson, em Nova Orleans. Eu poderia citar uma s�rie de casos em que o teste teria sido decisivo.</p><p>- Voc� parece um cat�logo ambulante do crime - disse Stamford, rindo. - Poderia publicar um jornal sobre isso com o nome de Not�cias policiais do passado.</p><p>- Seria uma leitura interessante - observou Sherlock Holmes, colocando um emplastro no dedo espetado. - Preciso ter cuidado - continuou, virando-se para mim e sorrindo -, porque estou sempre �s voltas com venenos.</p><p>Estendeu as m�os enquanto falava e verifiquei que havia muitos emplastros semelhantes nelas e que estavam descoradas devido ao uso de �cidos fortes.</p><p>- Viemos a neg�cio - disse Stamford, sentando-se num banco alto de tr�s pernas e empurrando outro com o p� em minha dire��o. - Meu amigo, aqui, est� procurando um lugar para se mudar e como voc� estava se queixando por n�o ter com quem dividir as despesas, achei que deveria fazer o contato entre voc�s.</p><p>Sherlock Holmes pareceu encantado com a id�ia de dividir sua moradia comigo.</p><p>- Estou de olho num apartamento da Baker Street - disse -, que seria �timo para n�s. Voc� n�o se incomoda com o cheiro de fumo forte, espero.</p><p>- Eu mesmo uso fumo de marinheiro - respondi.</p><p>- �timo. Geralmente tenho produtos qu�micos em casa e, �s vezes, fa�o experi�ncias. Isso o incomodaria?</p><p>- De maneira alguma.</p><p>- Deixe-me ver quais s�o meus outros defeitos.</p><p>Fico deprimido em algumas ocasi�es e n�o abro a boca por v�rios dias. N�o v� pensar que estou bravo quando fizer isso. Basta me deixar em paz que logo ficarei bem. E voc�, o que tem para confessar? � bom que dois sujeitos que pretendam morar juntos conhe�am os piores defeitos um do outro, antes de faz�-lo.</p><p>Achei engra�ado esse procedimento.</p><p>- Tenho um cachorrinho - disse - e fa�o restri�o a barulho. Levanto em horas impr�prias e sou extremamente pregui�oso. Tenho outros v�cios, quando estou saud�vel, mas, no momento, esses s�o os principais.</p><p>- Voc� inclui violino na sua categoria de barulho? - perguntou Sherlock, ansioso.</p><p>- Depende do executante - respondi. - Um violino bem tocado � uma oferenda aos deuses. Quando mal tocado, por�m...</p><p>- Oh, est� tudo bem! - exclamou com um sorriso satisfeito. - Podemos considerar o assunto resolvido. Isto �, se voc� gostar do apartamento.</p><p>- Quando iremos v�-lo?</p><p>- Venha aqui amanh�, ao meio-dia, e iremos juntos decidir isso - respondeu.</p><p>- De acordo. Ao meio-dia em ponto - disse, apertando sua m�o.</p><p>N�s o deixamos trabalhando com suas qu�micas e caminhamos em dire��o ao hotel.</p><p>- A prop�sito - perguntei repentinamente, parando e voltando-me para Stamford -, como ele descobriu que vim do Afeganist�o?</p><p>Meu companheiro deu um sorriso enigm�tico.</p><p>- Esta, exatamente, � sua pequena peculiaridade - disse. - Muita gente gostaria de saber como ele descobre as coisas.</p><p>- Ah! � um mist�rio? - exclamei, esfregando as m�os. - Muito interessante! Agrade�o-lhe por haver nos apresentado. Como sabe, �o interessante ao g�nero humano � o homem�</p><p>- Pois estude-o - disse Stamford, despedindo-se. - Vai ver que � bastante complicado. Aposto que ele saber� mais a seu respeito do que voc� sobre ele. Adeus.</p><p>- Adeus - respondi, e entrei no hotel, profundamente interessado na pessoa que acabara de conhecer.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 2</strong></p><p><strong>A CI�NCIA DA EDUCA��O</strong></p><empty-line/><p>Encontramo-nos no dia seguinte, conforme o combinado, e examinamos o apartamento 221 B da Baker Street. Eram dois quartos confort�veis e uma sala ampla e arejada, mobiliada com gra�a e iluminada por duas grandes janelas. A moradia era t�o atraente e seu pre�o t�o razo�vel, na medida em que seria dividido entre n�s, que decid�mos no ato e, na hora, tomamos posse das instala��es.</p><p>Na mesma tarde, transportei meus pertences do hotel e, na manh� seguinte, Sherlock Holmes trouxe v�rias caixas e malas. Durante um ou dois dias, estivemos ocupados em desempacotar nossas coisas e disp�-las da melhor maneira. Feito isso, gradualmente fomos nos acomodando ao novo ambiente.</p><p>N�o era dif�cil conviver com Holmes. Era um sujeito sossegado e com h�bitos muito regulares. Era raro encontr�-lo em p� depois das dez da noite e, invariavelmente, quando eu levantava pela manh�, j� tinha tomado caf� e sa�do. As vezes, passava o dia no laboratorio qu�mico; outras, na sala de disseca��o, e havia ocasi�es em que dava longas caminhadas �s partes mais baixas da cidade.</p><p>A energia de Holmes, quando mergulhava no trabalho, era insuper�vel. Mas, depois, sobrevinha-lhe uma rea��o e ele passava os dias estirado sobre o sof� da sala, sem articular uma palavra e sem mover um m�sculo da manh� � noite. Nesses per�odos, percebia uma express�o t�o vaga e on�rica em seus olhos, que teria suspeitado do uso de algum narc�tico, se a sobriedade e a corre��o de sua vida n�o me impedissem de pensar tal coisa.</p><p>� medida que as semanas passavam, meu interesse por ele e a curiosidade pelos objetivos de sua vida cresciam cada vez mais. Ele pr�prio, com sua apar�ncia, chamava a aten��o do observador mais casual.</p><p>Media em torno de um e oitenta de altura, mas era t�o magro que dava impress�o de ser ainda mais alto. Seu olhar era agu�ado e penetrante, a n�o ser naqueles per�odos de torpor a que j� me referi. O nariz, fino e adunco como o de um falc�o, dava ao semblante um ar de vivacidade e decis�o. Tamb�m o queixo, quadrado e proeminente, caracterizava-o como homem de determina��o. Suas m�os estavam sempre manchadas com tinta e produtos qu�micos, mas seu toque era muito delicado, conforme pude observar in�meras vezes, enquanto ele manipulava seus fr�geis instrumentos de alquimista.</p><p>Talvez o leitor esteja me julgando um bisbilhoteiro incur�vel, porque confesso o quanto aquele homem espica�ava minha curiosidade e quantas vezes procurei romper todas as retic�ncias presentes em tudo que dizia respeito a Sherlock Holmes. Antes de me julgar assim, por�m, tenha presente o quanto minha vida carecia de objetivos e qu�o poucas coisas havia para despertar minha aten��o. Minha sa�de impedia que eu me aventurasse fora de casa, a menos que o tempo estivesse excepcionalmente bom. N�o tinha amigos que pudessem me visitar, quebrando a monotonia de meus dias. Sob tais circunst�ncias, desfrutava com ansiedade o pequeno mist�rio que cercava meu companheiro e passava a maior parte do tempo tentando decifr�-lo.</p><p>Holmes n�o estudava medicina. Ele pr�prio, em resposta a uma pergunta, confirmara a opini�o de Stamford a esse respeito. Tampouco parecia ter freq�entado qualquer curso que lhe tivesse dado um t�tulo em ci�ncia ou qualquer outro cr�dito que garantisse sua entrada no mundo acad�mico. No entanto sua dedica��o a certos estudos era not�vel e, embora limitado a temas exc�ntricos, seu conhecimento era de extens�o e min�cias extraordin�rias. Suas observa��es me deixavam impressionado.</p><p>Sem d�vida, ningu�m trabalharia de forma t�o devotada nem acumularia informa��es t�o precisas sem� ter algum objetivo em vista. Leitores fortuitos dificilmente se destacam pela exatid�o de seus conhecimentos.</p><p>Homem nenhum sobrecarregaria a mente com min�cias, sem ter uma boa raz�o para isso.</p><p>A ignor�ncia de Holmes era t�o not�vel quanto seu conhecimento. O que sabia de literatura, filosofia e pol�tica contempor�neas era praticamente nada. Quando citei Thomas Carlyle{1}�, ele me perguntou, da forma mais ing�nua, de quem se tratava e o que havia feito.</p><p>Minha surpresa maior, por�m, foi descobrir, incidentalmente, que ele desconhecia a Teoria de Cop�rnico e a composi��o do sistema solar. Encontrar um homem civilizado, em pleno s�culo XIX, ignorando que a Terra gira em torno do Sol, era algo d�f�cil de acreditar, de t�o extraordin�rio.</p><p>- Voc� parece espantado - disse ele, rindo da minha surpresa. - Agora que sei, farei o poss�vel para esquecer.</p><p>- Esquecer?</p><p>- Veja bem - explicou. - Para mim, o c�rebro humano, em sua origem, � como um s�t�o vazio que voc� pode encher com os m�veis que quiser. Um tolo vai entulh�-lo com todo tipo de coisa que for encontrando pelo caminho, de tal forma que o conhecimento que poderia ser-lhe �til ficar� soterrado ou, na melhor das hip�teses, t�o misturado a outras coisas que n�o conseguir� encontr�-lo quando necessitar dele. O especialista, ao contr�rio, � muito cuidadoso com aquilo que coloca em seu s�t�o cerebral. Guardar� apenas as ferramentas de que necessita para seu trabalho, mas dessas ter� um grande sortimento mantido na mais perfeita ordem. � um engano pensar que o quartinho tem paredes el�sticas que podem ser estendidas � vontade. Chega a hora em que, a cada acr�scimo de conhecimento, voc� esquece algo que j� sabia. � da maior import�ncia, portanto, evitar que informa��es in�teis ocupem o lugar daquelas que t�m utilidade.</p><p>- Mas o sistema solar! - protestei.</p><p>- O que isso tem a ver comigo? � interrompeu com impaci�ncia. - Voc� disse que giramos ao redor do Sol. Se gir�ssemos em torno da Lua, n�o faria a menor diferen�a para mim e para meu trabalho.</p><p>Era o momento certo para perguntar-lhe que trabalho era esse, mas algo me dizia que a pergunta n�o seria bem recebida. Fiquei pensando sobre essa nossa breve conversa e procurei tirar minhas conclus�es. Ele dissera que n�o adquiria conhecimentos que n�o servissem a seus objetivos. Portanto os conhecimentos que tinha eram os que serviam a seus objetivos.</p><p>Enumerei mentalmente os temas nos quais ele havia demonstrado ser excepcionalmente bem informado. Cheguei a pegar um l�pis para anot�-los. N�o pude deixar de sorrir quando completei a lista. Ficou assim:</p><empty-line/><p>Sherlock Holmes - seus limites</p><p>l. Conhecimento de literatura: nulo.</p><p>2. Conhecimento de filosofia: nulo.</p><p>3. Conhecimento de astronomia: nulo.</p><p>4. Conhecimento de pol�tica: fraco.</p><p>5. Conhecimento de bot�nica: vari�vel. Entende de beladona, �pio e venenos em geral. N�o sabe nada sobre plantas �teis.</p><p>6. Conhecimento de geologia: pr�tico, mas limitado. Distingue, � primeira vista, diferentes tipos de solos. Depois de suas caminhadas, mostra-me manchas em suas cal�as e diz, a partir da cor e da consist�ncia, de que parte de Londres s�o.</p><p>7. Conhecimento de qu�mica: profundo.</p><p>8. Conhecimento de anatomia: acurado, mas assistem�tico.</p><p>9. Conhecimento de publica��es sensacionalistas: imenso. Parece conhecer cada detalhe de todos os horrores perpetrados neste s�culo.</p><p>10. Toca violino bem.</p><p>11. Perito em esgrima e boxe. Um espadachim.</p><p>12. Bom conhecimento pr�tico das leis inglesas.</p><empty-line/><p>Quando cheguei a esse ponto da lista, desanimado, joguei-a ao fogo.</p><p>- Se para descobrir o que esse sujeito faz preciso compor todos esses atributos e deduzir que profiss�o precisa de todos eles - disse para mim mesmo -, � melhor desistir logo.</p><p>J� me referi a seus dotes de violinista. Eram not�veis, mas t�o exc�ntricos quanto suas outras habilidades. Tocava pe�as dif�ceis, eu sabia, pois, a meu pedido, havia executado Lieder{2}, de Mendelssohn, e outras de minha prefer�ncia. Por conta pr�pria, por�m, nunca executava qualquer m�sica ou tentava alguma �ria conhecida. � tardinha, recostava-se em sua poltrona e, olhos fechados, tocava sem aten��o o violino, que pousava sobre os joelhos.</p><p>�s vezes os acordes eram sonoros e melanc�licos; outras, fant�sticos e animados. Com certeza, refletiam seus pensamentos, embora n�o se pudesse dizer se os acordes ajudavam-no a pensar ou se eram, apenas, o resultado de capricho ou fantasia. Eu teria me insurgido contra aqueles solos irritantes, se ele n�o costumasse encerr�-los com uma r�pida seq��ncia de minhas m�sicas preferidas, tocadas por inteiro, como uma compensa��o ao fato de ter abusado de minha paci�ncia.</p><p>Durante a primeira semana, talvez um pouco mais, n�o recebemos visita alguma e eu j� come�ara a pensar que meu companheiro, como eu, n�o tinha amigos. Vim descobrir, mais tarde, que tinha muitas rela��es e nas mais diversas classes sociais.</p><p>Havia um sujeitinho p�lido, com olhos escuros e cara de rato, apresentado como Sr. Lestrade, que chegou a aparecer tr�s ou quatro vezes numa s� semana.</p><p>Uma manh�, veio uma jovem, muito bem vestida, que se demorou por uma meia hora ou mais. Nesse mesmo dia, � tarde, o visitante foi um senhor espigado e grisalho, parecendo ser um pequeno negociante judeu, que dava a impress�o de estar muito excitado. Logo a seguir, apareceu uma mulher de idade, com sapatos entortados pelo uso. Noutra ocasi�o, um cavalheiro de cabelos brancos teve uma entrevista com meu companheiro. Depois, recebeu um guarda de estrada de ferro vestido com um uniforme de algod�o veludoso.</p><p>Quando surgia algum desses visitantes, Sherlock Holmes costumava pedir-me que desocupasse a sala� de estar, e eu me retirava para meu quarto. Ele sempre se desculpava por isso.</p><p>- Tenho de usar a sala como lugar de trabalho - dizia -, e essas pessoas s�o meus clientes.</p><p>Era, mais uma vez, a oportunidade para perguntar-lhe o que fazia, mas, como nas outras ocasi�es, a discri��o me impediu de for�ar algu�m a confiar em mim. Imaginei, ent�o, que teria alguma forte raz�o para n�o falar a respeito, mas ele desfez essa id�ia, abordando o assunto espontaneamente.</p><p>Foi num quatro de mar�o, tenho boas raz�es para lembrar a data. Eu havia levantado um pouco mais cedo que o habitual e Sherlock n�o terminara seu desjejum. A empregada, acostumada com o fato de eu levantar mais tarde, n�o preparara meu lugar � mesa nem minha refei��o.</p><p>Com toda a irracional petul�ncia de que um ser humano � capaz, toquei a sineta e disse-lhe, sumariamente, que estava aguardando. Peguei uma revista que estava sobre a mesa para passar o tempo, enquanto meu companheiro mastigava silenciosamente sua torrada. Um dos artigos havia sido sublinhado a l�pis e, como � natural, minha aten��o foi atra�da por ele.</p><p>O t�tulo - �O livro da vida� - era um tanto pretensioso, e o autor desejava demonstrar o quanto um homem observador pode aprender com o exame acurado e sistem�tico do que est� a seu redor. Pareceu-me uma not�vel mistura de absurdo e perspic�cia. A argumenta��o era cerrada e intensa, mas as dedu��es tendiam ao exagero e � inconseq��ncia. Afirmava que uma express�o moment�nea, uma contra��o de m�sculos ou um movimento de olhos podiam denunciar os pensamentos mais �ntimos de um homem. Segundo ele, era imposs�vel que algu�m, treinado para a observa��o e a an�lise, errasse. Suas conclus�es seriam t�o infal�veis quanto as proposi��es de Euclides{3}. Aos n�o-iniciados, suas conclus�es pareciam t�o espantosas que, enquanto n�o conhecessem o m�todo pelo qual ele havia chegado at� elas, pensariam que se tratava de um bruxo.</p><p>�A partir de uma gota de �gua�, dizia o articulista, �um pensador l�gico poder� inferir a possibilidade de um Atl�ntico ou de um Ni�gara, sem ter jamais visto um ou outro ou, sequer, ouvido falar a respeito.</p><p>Assim, a vida � uma grande cadeia, cuja natureza pode ser depreendida a partir do simples confronto com um de seus elos. Como todas as artes, a Ci�ncia da Dedu��o e da An�lise s� pode ser adquirida mediante um longo e paciente aprendizado, mas a vida n�o � longa o bastante para permitir que um mortal atinja o mais alto grau de perfei��o nessa �rea. Antes de voltar-se para esses aspectos morais e mentais da quest�o, que s�o os que apresentam as maiores dificuldades, o pesquisador deve come�ar pelo dom�nio dos problemas mais elementares. Ao conhecer um homem, que ele aprenda a deduzir, s� por olh�-lo, qual sua hist�ria, seu of�cio ou profiss�o. Por mais infantil que esse exerc�cio possa parecer, desenvolve as faculdades de observa��o e ensina para onde se deve olhar e com que inten��o. As unhas de um indiv�duo, as mangas de seu casaco, seus sapatos, os joelhos de suas cal�as, os calos do indicador e do polegar, sua express�o, os punhos de sua camisa, todos esses detalhes revelam a profiss�o de um homem. E quase inconceb�vel que tudo isso reunido deixe de esclarecer um observador competente�.</p><p>- Quanto disparate! - desabafei, jogando a revista sobre a mesa. - Nunca li tanta bobagem na vida.</p><p>- O que �? - perguntou Sherlock Holmes.</p><p>- � este artigo - disse, apontando-o com a colher para o ovo, enquanto me preparava para iniciar o desjejum. - Voc� j� o leu, est� assinalado a l�pis. N�o nego que foi escrito com intelig�ncia, mas � irritante. Sem d�vida, � teoria de desocupado, algu�m que desenvolve todos esses pequenos paradoxos a portas fechadas em seu gabinete. N�o � nada pr�tico. Gostaria de v�-lo sacolejando num vag�o de terceira classe do trem subterr�neo para perguntar-lhe quais as profiss�es de seus companheiros de viagem. Apostaria mil por um contra ele.</p><p>- Perderia seu dinheiro - observou Holmes calmamente. - Quanto ao artigo, eu o escrevi.</p><p>- Voc�?</p><p>- Sim. Tenho tend�ncia a observar e a deduzir. As teorias que expus a�, e que lhe parecem t�o fantasiosas, s�o extremamente pr�ticas, tanto que dependo delas para comer e beber.</p><p>- E como? - perguntei sem querer.</p><p>- Bem, trabalho por conta pr�pria. Imagino que seja o �nico no mundo com meu of�cio. Sou um detetive-consultor, se entende o que quero dizer. Aqui, em Londres, h� muitos detetives particulares e a servi�o do governo. Quando eles t�m dificuldades, procuram por mim e tento coloc�-los na pista certa. Apresentam-me todos os ind�cios e, gra�as a meus conhecimentos da hist�ria do crime, geralmente consigo encaminh�-los corretamente. Existe uma grande similaridade entre os delitos, de tal modo que, se voc� tem os detalhes de mil casos na cabe�a, dificilmente deixar� de resolver o mil�simo primeiro. Lestrade � um detetive completo.</p><p>No entanto, h� pouco tempo, atrapalhou-se com um caso de falsifica��o e veio me procurar.</p><p>- E aquelas outras pessoas?</p><p>- A maioria foi enviada por ag�ncias particulares de investiga��o. T�m algum problema e v�m em busca de esclarecimento. Escuto suas hist�rias; ouvem os coment�rios e eu embolso meu dinheiro.</p><p>- Voc� est� querendo dizer - falei - que, sem sair de seu quarto, deslinda o mist�rio que outros n�o conseguem esclarecer, mesmo com conhecimento dos detalhes?</p><p>- Exato. Tenho uma certa intui��o sobre esse tipo de coisa. �s vezes, surge um caso um pouco mais complexo. Ent�o, tenho que andar por a� e ver as coisas com meus pr�prios olhos. Voc� sabe que tenho conhecimento especializado para aplicar � solu��o dos problemas, e isso facilita de modo fant�stico a situa��o. As regras de dedu��o expostas no artigo, e que voc� considerou desprez�veis, s�o inestim�veis para meu trabalho pr�tico. Observa��o � minha segunda natureza. Voc� ficou surpreso quando lhe disse, � primeira vez em que nos encontramos, que voc� havia estado no Afeganist�o.</p><p>- Algu�m lhe contou, sem d�vida.</p><p>- Nada disso. Eu sabia que voc� vinha do Afeganist�o. Como o h�bito � antigo, a seq��ncia de pensamentos se formou t�o r�pido em minha mente que cheguei � conclus�o sem ter consci�ncia das etapas intermedi�rias. No entanto elas existiram. A seq��ncia foi a seguinte: �Aqui temos um cavalheiro com apar�ncia de m�dico, mas que tamb�m parece um militar. Trata-se de um m�dico do ex�rcito, portanto. Veio h� pouco dos tr�picos, porque seu rosto est� bronzeado e esta n�o � a cor natural de sua pele, uma vez que seus pulsos s�o claros. Sofreu doen�as e priva��es, seu rosto abatido denuncia isto. Feriram-lhe o bra�o esquerdo, pois ele o mant�m r�gido numa postura nada natural.</p><p>Em que lugar dos tr�picos um m�dico do ex�rcito brit�nico enfrentaria dificuldades e poderia ter seu bra�o ferido? No Afeganist�o, � claro�. Toda essa corrente de pensamentos n�o levou um segundo. A�, comentei que voc� vinha do Afeganist�o e deixei-o espantado.</p><p>- Do modo como voc� explica, tudo parece muito simples - ponderei, sorrindo. - Voc� me lembra o Dupin{4}�, de Edgar Allan Poe. Nunca pensei que indiv�duos como ele pudessem existir fora das p�ginas dos livros.</p><p>Sherlock Holmes ergueu-se e acendeu seu cachimbo.</p><p>- Com certeza, pensa estar me fazendo um cumprimento ao me comparar com Dupin - observou. - Bem, em minha opini�o, Dupin era um tipo inferior.</p><p>Aquele truque de interromper o pensamento de seus amigos com um coment�rio oportuno, ap�s um quarto de hora de sil�ncio, � exibicionista e superficial. Tinha um certo g�nio anal�tico, sem d�vida. Mas, de maneira alguma, era o fen�meno que Poe imaginava que fosse.</p><p>- J� leu as obras de Gaboriau?{5}�- perguntei.</p><p>- Lecoq corresponde a sua id�ia de detetive?</p><p>Sherlock fungou com sarcasmo.</p><p>- Lecoq era um pobre est�pido - disse, com irrita��o. - A �nica coisa que o recomendava era sua energia. Esse livro me deixou doente. A quest�o era identificar um prisioneiro desconhecido. Eu o teria feito em vinte e quatro horas. Lecoq levou seis meses ou mais. Esse deveria ser o livro did�tico dos detetives: para ensinar-lhes o que n�o deveriam fazer!</p><p>Eu estava realmente indignado por ver tratados dessa forr�za dois personagens que tanto admirava. Caminhei at� a janela e fiquei olhando o movimento da rua.</p><p>�Esse sujeito pode ser muito esperto�, pensei, �mas, sem d�vida, � muito arrogante�.</p><p>- Hoje em dia, n�o h� mais crimes nem criminosos - disse ele, lamentando-se. - De que adianta c�rebro em nossa profiss�o? Sei que tenho intelig�ncia suficiente para ser um nome famoso. N�o h� e jamais houve algu�m com a profundidade de conhecimentos e o talento natural para a investiga��o de crimes que tenho. E para qu�? N�o h� crimes para desvendar. No m�ximo, alguma vilania mal executada e causada por motivos t�o transparentes, que at� um oficial da Scotland Yard consegue resolver.</p><p>A presun��o com que falava me aborrecia e resolvi mudar de assunto.</p><p>- O que aquele sujeito estar� procurando? - perguntei, apontando para um homem forte, vestido com simplicidade, que caminhava devagar, no outro lado da cal�ada, observando com ansiedade os n�meros das casas. Trazia um grande envelope azul na m�o e, sem d�vida, estava encarregado de entregar uma mensagem.</p><p>- Est� falando daquele ex-sargento da Marinha? - perguntou Holmes.</p><p>�Mas que fanfarr�o!�, pensei. �Sabe que n�o posso confirmar uma coisa dessas.�</p><p>Mal tinha esse pensamento me ocorrido, quando o homem que observ�vamos viu o n�mero da nossa casa e, com rapidez, atravessou a rua. Ouvimos uma batida forte, uma voz grave no andar de baixo e, a seguir, passos pesados na escada.</p><p>- Para o Dr. Sherlock Holmes - disse, entrando na sala e estendendo a carta a meu amigo.</p><p>Ali estava a oportunidade para acabar com tanta presun��o. Holmes n�o previra isto fazendo a observa��o ao acaso.</p><p>- Posso perguntar-lhe, jovem - falei com a maior suavidade poss�vel -, qual a sua profiss�o?</p><p>- Mensageiro, senhor - respondeu com aspereza. - Estou sem uniforme porque foi preciso consert�-lo.</p><p>- E o que fazia antes? - perguntei, dirigindo a meu companheiro um olhar enviesado e malicioso.</p><p>- Era sargento, senhor, da Real Infantaria Ligeira da Marinha. N�o h� resposta, Sr. Holmes? Perfeito, senhor.</p><p>Bateu nos calcanhares, ergueu a m�o em contin�ncia e se foi.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 3</strong></p><p><strong>A CI�NCIA DA EDUCA��O</strong></p><p>CConfesso que fiquei bastante impressionado com a nova prova de praticidade das teorias de meu amigo.</p><p>Meu respeito por sua capacidade anal�tica cresceu de forma consider�vel. No entanto permanecia em minha mente uma secreta suspeita de que tudo n�o passava de um epis�dio montado para me deslumbrar, embora n�o conseguisse perceber a inten��o que o teria levado a agir assim. Holmes terminara de ler a correspond�ncia e havia em seus olhos aquela express�o vaga e sem brilho que revela mergulho em alguma abstra��o.</p><p>- Como p�de deduzir aquilo? - perguntei.</p><p>- Deduzir o qu�? - respondeu com petul�ncia.</p><p>- Ora, que ele era um sargento reformado da Marinha.</p><p>- N�o tenho tempo para falar de bagatelas - respondeu de maneira brusca, por�m, em seguida, sorrindo, falou: - Desculpe minha grosseria. Voc� cortou o fio de meu pensamento. Mas, talvez, tenha sido melhor. Ent�o, voce nao foi mesmo capaz de perceber que aquele homem era um sargento da Marinha?</p><p>- Realmente n�o.</p><p>- Perceb�-lo foi mais f�cil do que tentar explicar agora como foi que o consegui. Se lhe pedirem para provar porque dois mais dois s�o quatro, voc� pode encontrar uma certa dificuldade, embora n�o tenha a menor d�vida a respeito. Mesmo o homem estando do outro lado da rua, pude ver uma grande �ncora azul tatuada no dorso de sua m�o. Ora, isso remete a mar.</p><p>Al�m disso, ele tinha postura militar e usava su��as � moda da Marinha. Aparentava uma certa import�ncia de quem costuma comandar. Voc� deve ter observado a maneira como ele mantinha a cabe�a e balan�ava a bengala. Seu rosto era o de um homem de meia-idade seguro e respeit�vel. A soma de tudo isso me levou a dizer que ele tinha sido um sargento.</p><p>- Fant�stico! - exclamei.</p><p>- � banal - disse Holmes, embora sua express�o denunciasse que minha vis�vel surpresa e a admira��o que sentia por ele o deixavam muito satisfeito. � H� pouco eu dizia que n�o existiam mais criminosos. Parece que me enganei. Veja isto!</p><p>Passou-me a carta que acabara de receber do mensageiro.</p><p>- Que � isso?! - exclamei, quando pus meus olhos nela. - � terr�vel!</p><p>- Parece um tanto fora do comum. Voc� se importa de ler em voz alta para mim?</p><p>Esta foi a carta que li para ele:</p><empty-line/><p>Caro Sr. Sherlock Holmes,</p><p>Houve uma grave ocorr�ncia esta noite, em Lauriston Gardens, 3, perto de Brixton Road.</p><p>Nosso policial de ronda viu uma luz nessa casa por volta das duas da manh� e, como a resid�ncia n�o estivesse habitada, suspeitou que houvesse algo errado.</p><p>Encontrou a porta aberta e, na sala da frente, vazia de qualquer m�vel, encontrou o corpo de um cavalheiro bem vestido, cujos cart�es de visita no bolso traziam o nome de �Enoch J. Drebber, Cleveland, Ohio, U.S.A. �.</p><p>N�o houve roubo nem qualquer evid�ncia sobre a maneira como o homem morreu. H� marcas de sangue na sala, mas o corpo n�o apresenta ferimentos. N�o sabemos o que ele fazia numa casa desocupada. A hist�ria toda � um enigma. Se puder ir at� a casa antes das doze horas, poder� me encontrar l�. Deixei tudo como estava, at� ter not�cias suas. Se n�o puder vir, mandarei maiores detalhes e serei muito grato se tiver a bondade de manifestar sua opini�o.</p><p>Atenciosamente,</p><p>Tobias Gregson</p><empty-line/><p>- Gregson � o homem mais esperto da Scotland Yard - observou meu amigo. - Ele e Lestrade s�o os �nicos que valem alguma coisa naquela corpora��o. S�o r�pidos e en�rgicos, mas convencionais... tremendamente convencionais. E rivalizam um com o outro. S�o ciumentos como um par de beldades profissionais. Vai ser divertido se ambos tiverem sido designados para o caso.</p><p>Eu estava espantado com a calma com que ele sussurrava essas palavras.</p><p>- Sem d�vida, n�o h� um momento a perder - exclamei. - Chamo um carro para voc�?</p><p>- N�o estou certo se devo ir ou n�o. Sou o sujeito mais pregui�oso que j� pisou neste mundo... Isto �, �s vezes, porque noutras sou bastante ativo.</p><p>- Ora, mas esta � a oportunidade que voc� tanto esperava!</p><p>- Meu querido amigo, que diferen�a far� para mim? Suponha que eu venha a desvendar o caso todo.</p><p>Pode estar certo de que Gregson, Lestrade &amp; Companhia ir�o faturar todo o cr�dito. � o que acontece quando n�o se � um investigador oficial.</p><p>- Mas ele est� pedindo sua ajuda.</p><p>- Sim. Ele sabe que sou superior a ele; reconhece isso. Mas seria capaz de cortar a pr�pria l�ngua antes de admiti-lo diante de uma terceira pessoa. Mesmo assim, vamos dar uma espiada l�. Vou trabalhar a meu modo. Se n�o der em nada, pelo menos vou rir deles. Vamos l�!</p><p>Vestiu o sobretudo, movendo-se de maneira a deixar claro que a apatia cedera lugar a uma en�rgica disposi��o.</p><p>- Pegue seu chap�u - disse.</p><p>- Voc� quer que eu v�?</p><p>- Sim, se voc� n�o tem nada melhor para fazer.</p><p>Um minuto depois, est�vamos em um carro e, a toda velocidade, rum�vamos para Brixton Road.</p><p>A manh� era sombria e nebulosa e um v�u castanho pairava sobre os telhados como se fosse o reflexo das ruas lamacentas sob ele. Meu companheiro estava com �tima disposi��o e falava sobre violinos de Cremona e a diferen�a entre um Stradivarius e um Amati.</p><p>Quanto a mim, ia calado, porque o mau tempo e o melanc�lico assunto em que est�vamos envolvidos me deprimiam.</p><p>- Voc� n�o parece dar muita import�ncia ao assunto que tem pela frente - falei finalmente, interrompendo a explana��o musical de Holmes.</p><p>- N�o tenho dado nenhum - respondeu. � � um grande erro teorizar antes de ter todos os ind�cios. Prejudica o racioc�nio.</p><p>- Voc� ter� seus dados em breve - observei, apontando com o dedo. - Aqui � Brixton Road e, se n�o estou enganado, a casa � aquela.</p><p>- � aquela. Pare, cocheiro, pare!</p><p>Est�vamos a uns cem metros aproximadamente do local, mas ele insistiu em descer ali mesmo, de modo que completamos o percurso a p�.</p><p>A casa n�mero tr�s de Lauriston Gardens tinha uma apar�ncia fat�dica e amea�adora. Era uma entre quatro casas constru�das um pouco afastadas da rua.</p><p>Duas delas estavam ocupadas; duas permaneciam sem moradores. A de n�mero tr�s espiava a rua por tr�s fileiras de janelas tristes e vazias, que seriam ainda mais desoladoras e funestas, n�o fossem os cartazes de �Aluga-se� que, como cataratas, cobriam algumas das vidra�as turvas. Um pequeno jardim em que �rvores an�micas haviam sido salpicadas, distantes umas das outras, separava cada casa da rua. Atravessava-o uma senda estreita e amarelada, feita com o que parecia ser uma mistura de saibro e argila. A chuva durante a noite deixara o lugar lamacento e �mido.</p><p>O jardim era cercado por uma parede de tijolos de mais ou menos um metro, encimada por um gradeado de madeira. Contra essa parede, recostava-se um forte policial, cercado por um pequeno grupo de desocupados que agu�avam os olhos e espichavam os pesco�os na esperan�a v� de perceber numa olhadela o que acontecia no interior.</p><p>Eu havia imaginado que, t�o logo chegasse, Sherlock Holmes correria em dire��o � casa no af� de mergulhar no estudo do mist�rio. Nada poderia estar mais longe de sua inten��o do que isso. Com um ar displicente que, naquelas circunst�ncias, parecia bem pr�ximo � afeta��o, p�s-se a caminhar de m lado para outro na cal�ada, olhando vagamente o ch�o, o c�u, as outras casas e o gradeado sobre o muro. Terminada essa observa��o, percorreu lentamente a senda do jardim, ou melhor, o gramado que o margeava, com os olhos cravados no ch�o.</p><p>Parou por duas vezes e, numa delas, eu o vi sorrir.</p><p>A certa altura, deixou escapar uma exclama��o satisfeita. Havia muitas pegadas no solo molhado e argiloso. Mas como a pol�cia tinha ido e vindo por ali, n�o podia compreender o que ele pretendia encontrar no solo. No entanto j� tivera provas extraordin�rias da agilidade de suas faculdades e n�o duvidava de que ele pudesse estar vendo muitas coisas que, para mim, eram invis�veis.</p><p>Fomos recebidos � entrada da casa por um homem alto e claro, cabelos cor de palha, com um caderno de anota��es na m�o, � que correu em dire��o a Holmes, apertando sua m�o com entusiasmo.</p><p>- Foi muito gentil em ter vindo - disse ele. - Nada foi tocado.</p><p>- Exceto l�! - respondeu meu amigo, apontando para a senda do jardim. - Se uma manada de b�falos tivesse passado por ali, a confus�o n�o teria sido maior. Sem d�vida, Gregson, voc� tirou suas pr�prias conclus�es, antes de permitir que acontecesse tal coisa.</p><p>- Tive tanto que fazer dentro da casa! - respondeu evasivo o detetive. - Meu colega, o Sr. Lestrade est� aqui. Confiei que ele cuidaria dessa parte.</p><p>Holmes me olhou de relance, erguendo as sobrancelhas com ar sarc�stico.</p><p>- Com homens como voc� e Lestrade no caso, n�o haver� muita coisa para um terceiro descobrir - disse.</p><p>Gregson esfregou as m�os, satisfeito.</p><p>- Creio que fizemos tudo que era para ser feito - respondeu. - No entanto trata-se de um caso estranho e conhe�o sua predile��o por esse tipo.</p><p>- Veio para c� de carro? - perguntou Sherlock Holmes.</p><p>- N�o.</p><p>- E Lestrade?</p><p>- Tamb�m n�o.</p><p>- Ent�o vamos dar uma olhada na sala.</p><p>Com essa observa��o inconseq�ente entrou na casa e Gregson o seguiu com um ar de espanto no rosto. Um pequeno corredor, com o pavimento descoberto e empoeirado, levava � cozinha e �s �reas de servi�o. Tinha duas portas: uma � direita e outra � esquerda. Uma delas, era evidente, estivera fechada por v�rias semanas. A outra dava passagem � sala de jantar, depend�ncia onde ocorrera o estranho caso. Holmes entrou e eu o segui com aquele sentimento de opress�o no peito que a presen�a da morte costuma provocar.</p><p>A sala era ampla e quadrada e a total aus�ncia de mob�lia dava a impress�o de que era ainda maior. Um papel vulgar e muito vistoso forrava as paredes, mas, em v�rios lugares, estava manchado de mofo e, em algumas partes, rasgara-se em grandes tiras que, penduradas, deixavam ver o reboco amarelo. Frente � porta, havia uma pomposa lareira que acabava em uma platibanda de falso m�rmore branco. Em um canto havia um toco de vela vermelha. A �nica janela estava t�o suja que apenas filtrava uma luz fosca e incerta, tingindo tudo de uma tonalidade cinza, intensificada pela espessa camada de poeira que a tudo cobria.</p><p>Todos esses detalhes s� observei mais tarde. No momento, minha aten��o estava centrada t�o-somente naquela figura im�vel e perturbadora que jazia estendida no ch�o com olhos vazios e est�ticos voltados para o teto desbotado. O homem devia ter uns quarenta e tr�s ou quarenta e quatro anos e era de estatura m�dia.</p><p>Seus ombros eram largos, o cabelo crespo e preto e tinha uma barba curta e cerrada. Vestia fraque e colete de tecido grosso e de boa qualidade, cal�as claras e colarinho e punhos imaculados. Uma cartola bem-feita e escovada encontrava-se ao lado dele. Suas m�os estavam crispadas e os bra�os, abertos. Suas pernas, por�m, estavam contorcidas, sugerindo uma agonia sofrida. O rosto r�gido guardava uma express�o de terror e, segundo me pareceu, tamb�m de um �dio que eu jamais vira em rosto humano.</p><p>Aquela contor��o mal�fica e terr�vel, somada � testa baixa, ao nariz chato e ao queixo proeminente, dava ao morto uma peculiar apar�ncia simiesca, acentuada pela posi��o antinatural. Eu j� vira a morte sob v�rios aspectos, mas nenhum t�o assustador como aquele que encontrei naquela pe�a escura e sinistra de uma casa situada numa das principais art�rias suburbanas de Londres.</p><p>Lestrade, alto e magro, semelhante a um fur�o, estava parado junto � porta e cumprimentou a mim e a meu companheiro.</p><p>- Este caso vai dar o que falar - comentou. - Supera tudo que j� vi, e olha que n�o comecei ontem.</p><p>- Nenhuma pista?</p><p>- Nada - respondeu Lestrade.</p><p>Sherlock Holmes aproximou-se do corpo e, ajoelhando-se, examinou-o atentamente.</p><p>- Voc�s t�m certeza de que n�o h� ferimentos? - perguntou, apontando para as numerosas gotas e salpicos de sangue que havia em redor.</p><p>- Nenhum - disseram ambos.</p><p>- Ent�o, � claro, este sangue pertence a um outro indiv�duo, provavelmente o assassino, se � que foi cometido assassinato. Isto me lembra as circunst�ncias em que morreu Van Jansen, em Utrecht, em 1834. Lembra do caso, Gregson?</p><p>- N�o, n�o lembro.</p><p>- Pois procure ler a respeito... Realmente, deve faz�-lo. N�o h� nada de novo sob o sol. Tudo j� foi feito.</p><p>Enquanto falava, seus dedos �geis voavam de um lado para outro, apalpando, pressionando, desabotoando, examinando. Os olhos tinham aquela express�o distante que mencionei. Fazia esse exame com tanta rapidez que, dificilmente, algu�m avaliaria o detalhamento com que era processado. Ao final, cheirou os l�bios do homem morto e olhou as solas de suas finas botas de couro.</p><p>- N�o o removeram do lugar. Apenas o necess�rio para o exame.</p><p>- Podem lev�-lo para o necrot�rio - disse. - N�o h� mais nada para examinar.</p><p>Gregson dispunha de uma maca e de quatro homens. Atendendo a seu chamado, eles entraram na sala e ergueram o morto. Nesse momento, uma alian�a caiu e rolou pelo ch�o. Lestrade a apanhou, olhando� para ela deslumbrado.</p><p>- Houve uma mulher aqui - gritou. - Isto � uma alian�a de mulher.</p><p>�Colocou-a na palma da m�o, enquanto falava.</p><p>N�s o cercamos, olhando para a j�ia. N�o havia d�vida de que aquele simples aro de ouro havia adornado o dedo de uma noiva.</p><p>- Isto complica as coisas - disse Gregson. - E, meu Deus, elas j� est�o bastante complicadas.</p><p>- Tem certeza de que n�o as simplifica? - observou Holmes. - N�o vamos descobrir nada simplesmente olhando para esta alian�a. O que foi encontrado em seus bolsos?</p><p>- Temos tudo aqui - disse Gregson, apontando um punhado de objetos que estava sobre um dos degraus mais baixos da escada. - Um rel�gio de ouro, n�mero 97163, da Casa Barraud, de Londres; uma corrente de ouro Albert, maci�a e muito pesada; um anel de ouro com o s�mbolo ma��nico; um alfinete de gravata de ouro, em forma de cabe�a de buldogue, com olhos de rubi; uma carteira de couro russo com cart�es de Enoch J. Drebber, de Cleveland, correspondente �s iniciais E.J.D. na roupa �ntima. N�o trazia carteira de notas, mas dinheiro trocado no valor de sete libras e treze xelins. Tinha uma edi��o de bolso do Decameron{6}�de Boccaccio, com o nome de Joseph Stangerson na primeira folha. Havia, ainda, duas cartas: uma endere�ada a E.J. Drebber e outra a Joseph Stangerson.</p><p>- Para que endere�o?</p><p>- American Exchange, Strand, para serem entregues quando reclamadas pelos destinat�rios. Ambas foram enviadas pela Companhia de Navega��o Guion e tratam da partida de seus barcos de Liverpool. � claro que este pobre homem estava para voltar a Nova York.</p><p>- Investigou esse Stangerson?</p><p>- Imediatamente - disse Gregson. - Enviei an�ncios a todos os jornais e um de meus homens foi ao American Exchange, mas ainda n�o voltou.</p><p>- Fez contato com Cleveland?</p><p>- Telegrafei esta manh�.</p><p>- O que voc� disse?</p><p>- Apresentamos os fatos com os devidos detalhes e dissemos que apreciar�amos qualquer informa��o que pudesse nos ajudar.</p><p>- Perguntou por alguma coisa em particular, algo que lhe parecesse importante?</p><p>- Pedi informa��es sobre Stangerson.</p><p>- Nada mais? N�o h� nenhuma circunst�ncia sobre a qual o caso pare�a se assentar? Ir� telegrafar mais uma vez?</p><p>- Disse tudo o que tinha para dizer � respondeu Gregson, ofendido.</p><p>Sherlock Holmes riu consigo mesmo e parecia querer fazer alguma observa��o quando Lestrade, que permanecia na pe�a em frente, enquanto convers�vamos no corredor, reapareceu em cena, esfregando as m�os com pompa e satisfa��o.</p><p>- Sr. Gregson - disse -, fiz uma descoberta da maior import�ncia. Algo que passaria despercebido, n�o tivesse eu feito um cuidadoso exame das paredes.</p><p>Os olhos do homenzinho brilhavam enquanto ele falava, e - era evidente - estava exultante por ter marcado um ponto contra seu colega.</p><p>- Venham c�! - chamou, voltando para a sala cuja atmosfera parecia, agora, mais leve, devido � remo��o de seu t�trico inquilino. - Fiquem aqui!</p><p>Riscou um f�sforo na bota e ergueu-o at� a parede.</p><p>- Vejam isto! - disse, triunfante.</p><p>J� mencionei que o papel de parede havia se rompido em tiras. Nesse canto da sala, uma tira grande se desprendera, deixando exposto um quadrado amarelado de �spero reboco. Nesse espa�o descoberto, estava rabiscado, em letras de sangue, uma �nica palavra: rache.</p><p>- Que acha disso? - perguntou o detetive, com ares de artista exibindo seu espet�culo. - Ningu�m viu porque estava no canto mais escuro da sala e n�o se pensou em examinar aqui. O assassino ou a assassina escreveu isto com seu pr�prio sangue. Vejam a mancha que escorreu pela parede. Isto, de certa forma, afasta a id�ia de suic�dio. Por que ter� escolhido este canto? Eu explico a voc�s. Observem aquela vela sobre a lareira. Estava acesa na hora e, portanto, este canto era o mais iluminado, em lugar de ser, como agora, o mais escuro da parede.</p><p>- E o que significam essas letras que voc� descobriu? - perguntou Gregson com desd�m.</p><p>- O que significam? Ora, que a pessoa ia escrever o nome feminino Rachel, mas que foi interrompida, antes que pudesse termin�-lo. Guardem minhas palavras: quando este caso come�ar a ser esclarecido, descobrir�o que uma mulher de nome Rachel tem algo a ver com ele. Pode rir, Sr. Sherlock Holmes. O senhor � muito esperto e inteligente, mas ver�, quando tudo tiver terminado, que o velho c�o de ca�a � o melhor.</p><p>- Sinceramente, desculpe! - disse meu companheiro, que o havia irritado com um acesso de riso.</p><p>- Sem d�vida, voc� tem o cr�dito de ser o primeiro de n�s a descobrir esse ind�cio. E, como disse, tudo indica que se trata de algo escrito pelo outro participante do mist�rio da noite passada. Ainda n�o tive tempo para examinar a sala, mas, com sua licen�a, vou faz�-lo agora.</p><p>Enquanto falava, tirou do bolso uma fita m�trica e uma grande lente de aumento redonda. Munido desses dois instrumentos, p�s-se a caminhar pela sala, r�pido, mas silencioso. �s vezes, parava; outras, ficava de joelhos e, em uma ocasi�o, estirou-se de bru�os no ch�o. T�o envolvido estava nessa ocupa��o, que parecia ter esquecido de nossa presen�a, pois falava consigo mesmo, o tempo todo, soltando exclama��es, resmungos, gritos e assobios de est�mulo e coragem.</p><p>Observando-o, era inevit�vel a compara��o com um c�o de ca�a puro-sangue bem treinado, correndo de um lado para outro atr�s da presa e ganindo de ansiedade pelo momento em que iria farej�-la. Por vinte minutos ou mais, ele continuou em suas buscas, aferindo meticulosamente dist�ncias entre marcas invis�veis para mim e, uma vez ou outra, medindo a parede com a fita m�trica num procedimento que me era incompreens�vel. A certa altura, colheu do assoalho, com todo o cuidado, um montinho de p� acinzentado, guardando-o em um envelope. Por fim, examinou com a lente a palavra grafada na parede, analisando cada letra da forma mais detida. Feito isso, pareceu satisfeito, porque guardou a lente e a fita m�trica no bolso.</p><p>- Dizem que g�nio � quem tem uma capacidade infinita para o trabalho - Holmes comentou com um sorriso. - Essa � uma defini��o muito ruim, mas se aplica no caso do trabalho de detetive.</p><p>Gregson e Lestrade haviam observado as manobras de seu companheiro amador com muita curiosidade e com um certo desprezo. Era evidente que eles n�o conseguiam perceber algo que eu come�ara a descobrir: as a��es mais insignificantes de Sherlock Holmes eram totalmente dirigidas a um fim pr�tico e definido.</p><p>- O que acha de tudo isso? - perguntaram.</p><p>- Eu estaria roubando-lhes o cr�dito do caso, se pretendesse ajud�-los - comentou meu amigo. - Voc�s est�o se saindo t�o bem que a interfer�ncia de um terceiro seria lament�vel. - Havia toneladas de sarcasmo em sua voz. - Se voc�s me mantiverem informado do andamento de suas investiga��es � prosseguiu -, terei prazer em ajud�-los no que puder. Enquanto isso, gostaria de falar com o policial que encontrou o corpo. Poderiam me dar o nome e o endere�o dele?</p><p>Lestrade consultou seu caderno de notas.</p><p>- John Rance - disse. - Est� de folga, mas poder� encontr�-lo em Audley Court, 46, Kennington Park Gate.</p><p>Holmes anotou o endere�o.</p><p>- Venha, doutor - disse, dirigindo-se a mim. - Vamos visit�-lo.</p><p>Em seguida, voltou-se para os detetives.</p><p>- Vou dizer-lhes algo que poder� ajud�-los no caso. Houve um homic�dio e o assassino era homem. Tem mais de um metro e oitenta de altura, � jovem, seus p�s s�o pequenos para seu porte, usa botas grosseiras de bico quadrado e fumou um charuto Trichinopoly.</p><p>Chegou aqui com a v�tima num carro de quatro rodas puxado por um cavalo com tr�s ferraduras velhas e uma nova na pata dianteira. � bastante prov�vel que o assassino tenha o rosto corado e que suas unhas da m�o direita sejam bastante longas. S�o apenas alguns detalhes, mas podem ajudar.</p><p>Lestrade e Gregson entreolharam-se com um sorriso de incredulidade.</p><p>- Se esse homem foi assassinado, como foi feito? - perguntou o primeiro.</p><p>- Veneno - disse Sherlock Holmes de forma lac�nica. - Outra coisa, Lestrade - acrescentou, virando-se da porta. - Rache � vingan�a em alem�o. Portanto n�o perca tempo atr�s de nenhuma Rachel.</p><p>Depois desse. lance definitivo, afastou-se, deixando atr�s de si, boquiabertos, os dois rivais.</p><empty-line/></section><section><p><strong>Cap�tulo 4</strong></p><p><strong>O QUE JOHN RANCE TINHA A DIZER</strong></p><empty-line/><p>Era uma hora quando sa�mos da casa n�mero tr�s de Lauriston Gardens. Acompanhei Sherlock Holmes ao posto de tel�grafo mais pr�ximo, de onde ele expediu um longo telegrama. Depois disso, chamou um carro e ordenou ao cocheiro que nos levasse ao endere�o fornecido por Lestrade.</p><p>- Nada melhor que um ind�cio colhido na fonte - observou. - Na realidade, j� tenho opini�o formada sobre o caso, mas ainda podemos saber mais sobre ele.</p><p>- Voc� me espanta, Holmes. � claro que n�o est� t�o seguro quanto aparenta a respeito de todos os detalhes a que se referiu.</p><p>- N�o h� margem para erro - respondeu. � A primeira coisa que observei, quando l� cheguei, foi que as rodas de um carro haviam feito dois sulcos perto do meio-fio. N�o chovera por uma semana antes da noite passada, portanto, se as rodas deixaram marcas t�o profundas, isso s� poderia ter acontecido durante a noite. Al�m disso, percebi as marcas dos cascos. O contorno de um deles estava bem mais marcado que o dos outros tr�s, indicando que uma das ferraduras era nova. Uma vez que o carro esteve l� depois que come�ou a chover, e nenhum carro parou por ali durante a manh�, conforme afirmou Gregson, conclui-se que as marcas foram feitas durante a noite e, por conseguinte, s�o do carro que trouxe os dois indiv�duos para a casa.</p><p>- At� a� parece simples - comentei -, mas e a dedu��o a respeito da altura do homem?</p><p>- Ora, de nove em cada dez casos, a altura de um homem pode ser aferida pela extens�o de seus passos. � um c�lculo simples, mas n�o vou aborrec�-lo com a demonstra��o. Eu tinha suas pegadas no barro, l� fora, e na poeira que havia dentro da casa. Al�m disso, eu podia testar meu c�lculo de outra maneira. Quando algu�m escreve na parede, o faz, instintivamente, � altura dos olhos. Ora, a palavra foi grafada a cerca de um metro e oitenta do ch�o. Foi brincadeira de crian�a.</p><p>- Mas, e a idade? - perguntei.</p><p>- Bem, se um homem pode dar passadas de um metro e vinte sem grande esfor�o, est� em pleno apogeu da forma f�sica. Essa era a largura de um charco no jardim que ele evidentemente atravessou numa passada. As botas finas de couro o contornaram, e os bicos quadrados o saltaram. N�o h� nenhum mist�rio nisso. Tudo que estou fazendo � aplicar na vida real os preceitos de observa��o e dedu��o de que falava no artigo. Algo mais intriga voc�?</p><p>- O que voc� falou sobre as unhas e o charuto Trichinopoly.</p><p>- A palavra foi escrita na parede com um indicador molhado em sangue. Com a lente, pude observar que o reboco foi um pouco arranhado durante o ato, o que n�o teria acontecido se a unha do homem estivesse aparada. Ficou um pouco de cinza espalhada pelo ch�o. Era escura e laminada, como a cinza que s� um Trichinopoly produz. Fiz um estudo especial sobre cinzas de charuto. Na realidade, trata-se de uma monografia sobre o tema. Eu me vanglorio de poder distinguir num relance a cinza de qualquer marca de charuto ou cigarro. S�o nesses detalhes que um detetive especializado se distingue dos Gregsons e dos Lestrades da vida.</p><p>- E quanto ao rosto corado? - perguntei.</p><p>- Ah, isso foi uma ousadia, embora eu n�o tenha d�vida de que estou certo. N�o me pergunte como � que sei tal coisa a esta altura da investiga��o.</p><p>Passei a m�o na testa.</p><p>- Minha cabe�a est� dando voltas - comentei.</p><p>- Quanto mais eu penso, mais misterioso me parece esse caso. Como foi que esses dois homens, se � que eram dois homens, vieram parar nessa casa vazia? O que foi feito do cocheiro que os levou l�? De que modo o assassino compeliu o outro a tomar veneno? E o sangue, de onde veio? Qual teria sido a raz�o do assassinato, uma vez que n�o houve latroc�nio? Por que aquela alian�a de mulher estava l�? E, sobretudo, por que algu�m escreveria a palavra alem� rache antes de sair? Confesso que n�o consigo conciliar todos esses fatos.</p><p>Meu companheiro deu um sorriso de aprova��o.</p><p>- Voc� reuniu as dificuldades da situa��o de modo, ao mesmo tempo, pr�prio e sucinto - disse. - Muita coisa permanece obscura, embora eu j� tenha resolvido os fatos principais. Quanto � descoberta do pobre Lestrade, � apenas uma tentativa de desviar a pol�cia para pistas falsas, simulando ind�cios de que se trata de algo referente a socialismo ou sociedades secretas. A letra a, n�o sei se voc� notou, foi grafada mais ou menos � maneira alem�. Ora, um alem�o geralmente o grafa � latina, quando se trata de atrair � imprensa. Portanto n�o foi escrito por um alem�o, mas por um imitador desajeitado que exagerou seu papel. Apenas um ardil para desviar a investiga��o do caminho certo. N�o vou dizer-lhe mais nada sobre o caso, doutor. Sabe que um m�gico perde o prest�gio ao explicar seu truque. Al�m disso, se eu lhe desvendar meu m�todo de trabalho, acabar� concluindo que eu, afinal de contas, sou um indiv�duo bastante comum.</p><p>- Jamais pensaria assim - respondi. - Voc�, como ningu�m jamais o fez no mundo, aproximou a dedu��o das ci�ncias exatas.</p><p>Meu companheiro enrubesceu de prazer ao ouvir minhas palavras e ao perceber a seriedade com que eu as pronunciava. Eu j� havia observado que ele era t�o sens�vel a elogios a sua arte quanto uma menina a respeito de sua beleza.</p><p>- Vou lhe dizer mais uma coisa - acrescentou.</p><p>- O Sr. Finas Botas de Couro e o Sr. Bicos Quadrados vieram juntos no mesmo carro e caminharam juntos pela senda do jardim da forma mais amig�vel. � prov�vel, at�, que a tenham percorrido de bra�os dados. Entraram na casa e ficaram andando de um lado para outro. Ou melhor, o Sr. Finas Botas de Couro ficou parado, enquanto o Sr. Bicos Quadrados andava.</p><p>Pude ler tudo isso na poeira do assoalho, assim como pude ver que, � medida que conversavam, tornavam-se cada vez mais excitados. A largura crescente das passadas indica isso. Falava o tempo todo, ficando cada vez mais furioso. Ent�o, ocorreu a trag�dia. Disse-lhe tudo o que sei at� o momento; o resto � s�posi��o e conjetura. Temos, no entanto, uma boa base para come�ar a trabalhar. Vamos nos apressar. Pretendo ouvir Norman-Neruda, esta tarde, em um concerto no Hall�.</p><p>Esta conversa ocorreu enquanto nosso carro percorria uma longa sucess�o de ruas escuras e becos tristes. Na rua mais escura e triste delas todas, nosso cocheiro parou subitamente.</p><p>- Ali � Audley Court - disse, apontando para uma passagem estreita numa parede de tijolos desbotados. - Quando voltarem, estarei aqui.</p><p>Audley Court n�o era um local atraente. A passagem estreita conduzia a uma �rea quadrangular pavimentada com lajes e margeada por moradias s�rdidas.</p><p>Abrimos caminho entre bandos de crian�as sujas e varais de roupa j� sem cor at� o n�mero quarenta e seis. A porta era decorada com uma pequena placa de lat�o na qual estava gravado o nome Rance. Perguntamos por ele e soubemos que estava na cama. Fomos encaminhados para uma saleta e l� aguardamos.</p><p>O guarda apareceu logo depois, parecendo um pouco irritado por termos perturbado seu descanso.</p><p>- J� apresentei meu relat�rio no posto - disse.</p><p>Holmes tirou meio soberano{7}�de seu bolso e ficou brincando pensativamente com a moeda.</p><p>- Pensamos que seria melhor ouvir tudo de seus pr�prios l�bios - disse.</p><p>- Terei o m�ximo prazer em contar-lhe tudo - respondeu o guarda com os olhos postos na pequena moeda de ouro.</p><p>- Basta que nos diga, com suas palavras, tudo o que aconteceu.</p><p>Rance sentou-se no sof� e franziu a testa, determinado a n�o omitir nada em sua narrativa.</p><p>- Vou contar toda a hist�ria desde o come�o - disse. - Dou servi�o das dez da noite �s seis da manh�.</p><p>�s onze, houve uma briga no White Hart, mas, fora isto, tudo esteve tranq�ilo. A uma hora come�ou a chover e encontrei Harryuurcner, que faz a ronda em Holland Grove, e ficamos conversando na esquina da Henrietta Street. Um pouco mais tarde, talvez �s duas horas ou pouco depois, resolvi dar uma olhada para ver como andavam as coisas em Brixton Road. A chuva enlameara tudo e n�o se via vivalma por l�, embora um carro ou outro tenha passado por mim. Fiquei andando por ali, pensando em como me cairia bem uma dose de gim quente, quando, de repente, meus olhos deram com uma janela iluminada naquela casa.</p><p>Ora, eu sabia que duas casas em Lauriston Gardens estavam vazias, porque o propriet�rio delas n�o manda limpar os esgotos, apesar do �ltimo inquilino de uma delas ter morrido de febre tif�ide. Fiquei espantado ao ver luz na janela, e suspeitei de que houvesse algo errado. Quando cheguei � porta...</p><p>- Voc� parou e, ent�o, correu ao port�o do jardim - interrompeu Holmes. - Por que fez isso?</p><p>Rance deu um salto e fitou Sherlock Holmes com perplexidade.</p><p>- Foi isso mesmo, senhor - disse -, embora s� Deus saiba como foi que o senhor descobriu. Olhe, quando cheguei � porta, estava tudo t�o quieto e solit�rio que temi estar s� por ali. N�o tenho medo de nada no mundo dos vivos, mas pensei que talvez fosse o sujeito que morreu de tifo, examinando os esgotos que o mataram. Fiquei assustado com a id�ia e corri para o port�o, tentando avistar a lanterna de Murcher, mas n�o havia sinal dele ou de quem quer que fosse.</p><p>- N�o havia ningu�m na rua?</p><p>- Nem uma s� alma, senhor, sequer um cachorro. Ent�o, eu me recompus e voltei. Empurrei a porta e entrei. Estava tudo tranq�ilo l� dentro e eu fui em dire��o � pe�a onde havia luz. Havia uma vela tremeluzindo sobre a lareira... uma vela de cera vermelha... e � sua luz vi...</p><p>- Sim, sei o que viu. Caminhou pela sala v�rias vezes, ajoelhou-se junto ao corpo, depois foi em dire��o � cozinha e..</p><p>John Rance ,p�s-se em p� com uma express�o de susto no rosto e de suspei��o nos olhos.</p><p>- Onde estava escondido para poder ver tudo isso? - gritou. - Est� me parecendo que sabe muito mais do que deveria.</p><p>Holmes riu e atirou seu cart�o sobre a mesa, para que o guarda o pegasse.</p><p>- N�o me prenda por assassinato - disse. � Sou um dos c�es da ca�a, n�o o lobo. Gregson e Lestrade confirmar�o isto. Prossiga. O que fez a seguir?</p><p>Rance voltou a sentar-se, sem, contudo, perder a express�o perturbada.</p><p>- Fui at� o port�o e fiz soar meu apito. Isso trouxe Murcher e mais dois at� mim.</p><p>- A rua estava vazia nesse momento?</p><p>- Bem, estava, pelo menos de qualquer pessoa que valesse alguma coisa.</p><p>- O que quer dizer?</p><p>O rosto do guarda se abriu num sorriso.</p><p>- J� tenho visto muitos b�bados - disse -, mas nenhum t�o alcoolizado como aquele. Estava no port�o quando cheguei, encostado nas grades e cantando a plenos pulm�es Columbine's New fangled Banner, ou algo assim. N�o podia parar em p�, imagine ajudar.</p><p>- Que tipo de homem era?</p><p>John Rance pareceu um pouco irritado com essa digress�o.</p><p>- Era o tipo do beberr�o. Teria sido levado ao posto policial, se n�o estiv�ssemos t�o ocupados.</p><p>- Seu rosto, sua roupa, notou como eram? - rompeu Holmes com impaci�ncia.</p><p>- Notei, sim. Tive de p�-lo em p�, com a ajuda de Murcher. Era um sujeito alto, com rosto avermelhado, a parte de baixo encoberta...</p><p>- Basta! - gritou Holmes. - O que foi feito dele?</p><p>- T�nhamos mais o que fazer para ficar tomando conta dele - respondeu o policial com um tom ofendido. - Deve ter encontrado o caminho de volta para casa.</p><p>- Como estava vestido?</p><p>- Um casac�o marrom.</p><p>- Tinha um chicote na m�o?</p><p>- Um chicote... n�o.</p><p>- Deve t�-lo largado em algum lugar - murmurou meu companheiro. - Por acaso viu ou ouviu barulho de um carro depois disso?</p><p>- N�o.</p><p>- Aqui est� meio soberano para voc� � disse Holmes, pondo-se de p� e pegando o chap�u. - Temo, Rance, que voc� n�o far� carreira na pol�cia. Devia usar a cabe�a, em lugar de t�-la apenas como enfeite. Podia ter ganho sua divisa de sargento ontem � noite. O homem que teve nas m�os � quem tem a chave do mist�rio, � aquele que estamos buscando. N�o h� por que ficar discutindo isso agora, mas sei o que estou dizendo. Venha, doutor.</p><p>Sa�mos em dire��o ao carro, deixando nosso informante um tanto incr�dulo e, sem d�vida, nada confort�vel.</p><p>- Que grande idiota! - Holmes exclamou acre-</p><p>mente, enquanto volt�vamos para casa. - Pensar que teve uma oportunidade dessas e n�o soube aproveit�-la!</p><p>- Ainda estou sem entender. A descri��o do homem corresponde � sua id�ia sobre a segunda personagem no misterio. Mas por que ele voltaria para casa depois de ter sa�do de l�? N�o � o que os criminosos costumam fazer.</p><p>- A alian�a, homem, a alian�a! Foi por isso que ele voltou. Se n�o tivermos outra maneira para peg�-lo, sempre poderemos atra�-lo com essa j�ia. Eu vou peg�-lo, doutor, aposto dois contra um que vou peg�-lo. Tenho que lhe agradecer por tudo. Eu n�o teria vindo, n�o fosse por voc�. E teria perdido o mais interessante estudo com que j� me deparei: um �Estudo em vermelho�, hein? Por que n�o usarmos um pouco a linguagem art�stica? O fio vermelho do crime entremeia-se � meada descolorida da vida. Nossa miss�o � desenrol�-lo, isol�-lo, expondo-o em toda sua extens�o. E, agora, vamos ao almo�o e, depois, assistir Norman-Neruda. Suas introdu��es e toda sua execu��o s�o espl�ndidas. Como � aquela pecinha de Chopin, que ele toca de forma t�o genial? Tra-l�-l�-lira-lira-l�.</p><p>Recostado no carro, o c�o de ca�a amador cantarolava tal qual uma calandra, enquanto eu meditava sobre as m�ltiplas facetas da mente humana.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 5</strong></p><p><strong>nosso an�ncio atrai um visitante</strong></p><p>As atividades daquela manh� haviam sido excessivas para minha sa�de abalada e, � tarde, eu estava exausto. Depois que Holmes saiu para o concerto, deitei no sof�, pretendendo dormir umas duas horas. Foi in�til. Estava demasiado excitado com tudo o que acontecera e minha mente se enchera das mais estranhas fantasias e suspeitas. Fechava os olhos e via diante de mim a fisionomia contra�da e simiesca do homem assassinado. T�o sinistra fora a impress�o produzida por aquele rosto que me era dif�cil sentir qualquer coisa que n�o fosse gratid�o por quem retirara seu dono desse mundo. Se alguma vez fei��es humanas revelaram o v�cio em sua forma mais maligna, foi, sem d�vida, nos tra�os de Enoch J. Drebber, de Cleveland. Reconhecia, no entanto, que era preciso haver justi�a e que a deprava��o da v�tima n�o constitu�a atenuante aos olhos da lei.</p><p>Quanto mais pensava no caso, mais extraordin�ria me parecia a hip�tese de meu companheiro de que o homem havia sido envenenado. Lembrava como havia cheirado os l�bios do morto e n�o duvidava de que havia detectado algo que fundamentasse essa id�ia. Se n�o fosse veneno, o que teria causado a morte do sujeito, j� que n�o estava ferido nem apresentava marcas de estrangulamento? Por outro lado, de quem seria todo aquele sangue derramado no ch�o? N�o havia sinais de luta, nem a v�tima possu�a qualquer arma com a qual pudesse ter ferido o antagonista. Sentia que, enquanto todas essas quest�es permanecessem sem resposta, n�o seria f�cil para mim nem para Holmes conciliar o sono. O comportamento sereno e autoconfiante de meu amigo convenciam-me de que ele havia formado uma teoria que explicava todos os fatos, embora eu n�o pudesse imaginar, sequer por um instante, que teoria era essa.</p><p>Holmes voltou bem tarde, de modo que n�o poderia ter estado no concerto o tempo todo. O jantar j� estava servido quando ele chegou.</p><p>- Foi magn�fico! - comentou ao sentar-se. - Lembra-se do que Darwin{8}�disse sobre a m�sica? Afirmou que o poder de produzi-la e apreci�-la existiu na ra�a humana antes mesmo da l�ngua. Talvez por isso sejamos t�o influenciados por ela. H�, em nossas almas, vagas mem�rias daqueles s�culos nebulosos em que o mundo vivia sua inf�ncia.</p><p>- Essa, de fato, � uma id�ia bastante ampla...</p><p>- Nossas id�ias precisam ser t�o amplas quanto a natureza, caso queiramos interpret�-la - respondeu.</p><p>- O que h�? Voc� n�o parece tranq�ilo. O caso de Brixton Road o perturbou.</p><p>- Para ser sincero, sim. Era para eu ter ficado menos sens�vel ap�s as experi�ncias no Afeganist�o: Vi companheiros serem feitos em peda�os na batalha de Maiwand sem perder o controle.</p><p>- Entendo isso. � que neste caso h� um mist�rio estimulando a imagina��o. Quando n�o h� imagina��o, n�o h� horror. Viu o jornal da tarde?</p><p>- N�o.</p><p>- Traz um relato bastante bom do caso. Mas n�o menciona o fato de que, quando o corpo foi erguido, uma alian�a de mulher caiu no ch�o. �timo que n�o o tenha feito.</p><p>- Por qu�?</p><p>- Olhe este an�ncio - respondeu. � Mandei um para cada jornal ap�s os acontecimentos desta manh�.</p><p>Estendeu-me o jornal e olhei para o lugar indicado. Era o primeiro an�ncio da coluna �Achados�.</p><p>Foi encontrada uma alian�a de ouro, esta manh�, em Brixton Road, entre a Taverna White Hart e Holland Grove. Entrar em contato com Dr. Watson, Baker Street, 221 B, entre oito e nove da noite.</p><p>- Desculpe-me por ter usado seu nome - disse.</p><p>- Se tivesse usado o meu, algum desses policiais idiotas iria reconhec�-lo e se intrometer no assunto.</p><p>- Tudo bem. Mas suponha que apare�a algu�m. N�o tenho alian�a nenhuma.</p><p>- Ah, sim, voc� tem - disse, entregando-me uma. - Esta servir�. � quase id�ntica � verdadeira.</p><p>- E quem voc� espera que responda ao an�ncio?</p><p>- Ora, o homem do casac�o marrom. Nosso corado amigo das biqueiras quadradas. Se n�o vier em pessoa, mandar� um c�mplice.</p><p>- N�o vai achar perigoso demais?</p><p>- De jeito nenhum. Se minha teoria sobre o caso estiver correta, e tenho todos os motivos para achar que est�, esse homem arriscar� qualquer coisa para n�o perder a alian�a. Minha tese � de que ele a deixou cair enquanto se debru�ava sobre o corpo de Drebber e, na hora, n�o percebeu. S� depois de ter deixado a casa, descobriu que a perdera e voltou com pressa, mas a pol�cia j� estava no lugar, gra�as a sua falha de deixar a vela acesa. Teve, ent�o, que fingir uma bebedeira para afastar as suspeitas que sua presen�a no port�o poderia levantar. Agora, ponha-se no lugar dele. Recapitulando tudo, deve ter achado poss�vel ter perdido a alian�a no caminho, ap�s ter deixado a casa. O que ter� feito, ent�o? Deve ter procurado ansiosamente nos jornais da tarde, nos an�ncios de achados e perdidos, na esperan�a de encontrar alguma coisa. Seus olhos devem ter brilhado quando encontrou meu an�ncio. Deve ter exultado. Por que temeria uma armadilha? A seus olhos, nada h� que conecte o achado da alian�a com o assassinato. Deve vir. Vir� e voc� vai v�-lo dentro de uma hora.</p><p>- E a�? - perguntei.</p><p>- Oh, pode deixar comigo. Eu cuido disso. Voc� tem alguma arma?</p><p>- Tenho meu velho rev�lver de servi�o e alguns cartuchos.</p><p>- � bom limp�-lo e deixar carregado. O homem est� desesperado e, embora venha aqui desprevenido, � melhor ficarmos preparados.</p><p>Fui para meu quarto e segui seu conselho. Quando voltei com a arma, a mesa j� havia sido arrumada e Holmes estava envolvido com sua ocupa��o preferida: brincar com o arco no violino.</p><p>- A situa��o est� se definindo - disse, quando entrei. - Acabo de receber a resposta de meu telegrama para a Am�rica. Minha teoria est� correta.</p><p>- E qual �? - perguntei de modo um tanto abrupto.</p><p>- Meu violino precisa de cordas novas - observou. - Coioque seu rev�lver no bolso. Quando o sujeito chegar, fale com naturalidade. Deixe o resto comigo. N�o o assuste olhando-o demasiado.</p><p>- Agora s�o oito horas - comentei, olhando o rel�gio.</p><p>- Sim, deve estar aqui dentro de poucos minutos.</p><p>Abra a porta s� um pouquinho. Assim. Deixe a chave do lado de dentro. Obrigado. Este � um estranho livro antigo que encontrei ontem numa banca: De Jure inter-gentes. Foi publicado em latim, em Li�ge, nos Pa�ses Baixos, em 1642. O rei Carlos ainda tinha a cabe�a sobre os ombros quando este livrinho marrom foi impresso.</p><p>- Quem imprimiu?</p><p>- Philippe de Croy, seja l� quem for. Na folha de rosto, em tinta meio apagada, est� escrito: �Ex libris Gulielmi Whyte�. Quem ter� sido esse William Whyte? Algum advogado pragm�tico do s�culo XVII, suponho. Tem algo de legalidade em sua caligrafia. Acho que nosso homem est� vindo.</p><p>A campainha havia soado fortemente enquanto ele falava. Holmes levantou-se suavemente e moveu sua cadeira em dire��o � porta. Ouvimos os passos da criada no vest�bulo e o ru�do brusco do trinco da porta.</p><p>- O Dr. Watson mora aqui? - perguntou uma voz clara, mas rouca. N�o ouvimos a resposta da criada, mas a porta foi fechada e algu�m come�ou a subir as escadas. Os passos eram incertos e arrastados. Um ar de surpresa invadiu o rosto de meu companheiro enquanto os ouvia. O som vinha lentamente pelo corredor. Ouvimos uma batida fraca na porta.</p><p>- Entre - respondi.</p><p>� minha ordem, em lugar do homem violento que esperava, entrou capengando na sala uma mulher velha e enrugada. Parecia estar ofuscada pelo repentino brilho da luz da sala e, ap�s fazer uma mesura, ficou piscando os olhos embaciados e remexendo nos bolsos os dedos tr�mulos e nervosos. Olhei para meu companheiro, tinha no rosto uma tal express�o de desconsolo que mal pude me conter e n�o rir.</p><p>A velha mostrou o jornal da tarde, apontando nosso an�ncio.</p><p>- Foi isso que me trouxe aqui, cavalheiros - disse, fazendo outra mesura -, uma alian�a encontrada em Brixton Road. Pertence a minha filha Sally, casada h� apenas um ano. Seu marido � camareiro num navio da Union e n�o quero imaginar o que ele diria se, voltando para a casa, encontrasse a mulher sem a alian�a. Ele j� � grosseiro no normal, mas � muito mais quando bebe. Se querem saber, ontem � noite ela foi ao circo com...</p><p>- Essa � a sua alian�a? - perguntei.</p><p>- Gra�as a Deus! - exclamou a velha. � Sally vai ficar feliz esta noite. � esta a alian�a.</p><p>- E qual � seu endere�o? - perguntei, pegando um l�pis.</p><p>- Duncan Street, 13, em Houndsditch. � bem distante daqui.</p><p>- Brixton Road n�o fica entre nenhum circo e Houndsditch - interrompeu Holmes bruscamente.</p><p>A velha virou o rosto e o encarou com seus olhos mi�dos e avermelhados.</p><p>- O cavalheiro perguntou qual o meu endere�o - respondeu. - Sally mora numa pens�o em Mayfield Place, 3, Peckham.</p><p>- E seu sobrenome �...?</p><p>- Sawyer, e o dela � Dennis, pois � casada com Tom Dennis. Rapaz esperto, direito, quando est� no mar. Ningu�m � melhor do que ele na companhia. Mas, em terra firme, as mulheres e a bebida...</p><p>- Aqui est� sua alian�a, Sra. Sawyer - mterrompi, obedecendo a um sinal de Holmes. - Sem d�vida, pertence a sua filha e fico feliz em poder devolv�-la a seu verdadeiro dono.</p><p>Balbuciando muitas b�n��os e express�es de gratid�o, a velha colocou a j�ia em seu bolso e arrastou-se escada abaixo. Sherlock Holmes levantou-se, assim que ela saiu, e correu para seu quarto. Voltou alguns segundos depois, vestindo uma capa e um cachecol.</p><p>- Vou segui-la - disse, apressado. - Deve ser uma c�mplice e vai me levar at� ele. Espere por mim.</p><p>Mal a porta havia se fechado atr�s de nossa visitante e Sherlock Holmes j� estava descendo a escada.</p><p>Olhando pela janela, podia ver a mulher caminhando com dificuldade no outro lado da rua, seguida a curta dist�ncia por seu perseguidor.</p><p>Pensei comigo mesmo: �Ou sua teoria est� totalmente errada ou ele est� a caminho de esclarecer todo o mist�rio�.</p><p>N�o era necess�rio que Holmes pedisse para esper�-lo. N�o conseguiria dormir antes de saber em que tinha dado aquela aventura.</p><p>Holmes sa�ra em torno das nove e eu n�o tinha id�ia da hora em que voltaria. Sentei e fiquei fumando calmamente meu cachimbo e folheando a esmo p�ginas da Iiie de Boh�me, de Henri Murger. Soaram dez horas e ouvi as passadas da empregada em dire��o � cama. �s onze, os passos altivos da senhoria desfilaram por minha porta com o mesmo destino. Era quase meia-noite quando ouvi o som da chave de Holmes.</p><p>No momento em que entrou, vi que n�o se sa�ra bem. Em seu rosto, o riso e o desgosto pareciam estardisputando o prevalecimento, at� que, vencendo o primeiro, ele explodiu em uma sincera gargalhada.</p><p>- Por nada no mundo eu deixaria que o pessoal da Scotland Yard soubesse disso - exclamou, deixando-se cair na poltrona. - Tenho zombado tanto deles que jamais deixariam que esquecesse o que me aconteceu. Mas consigo rir do que houve, porque sei que n�o me trar� nenhuma desvantagem no final da ca�ada.</p><p>- Mas, afinal, o que aconteceu?</p><p>- Oh, n�o me importo de contar uma hist�ria que dep�e contra mim. Ou�a, a criatura caminhou um pouco e come�ou a mancar e dar sinal de estar com os p�s machucados. Da� a pouco parou e fez sinal para um carro que passava. Procurei me aproximar para ouvir o endere�o, mas n�o era necess�rio, porque ela o disse em voz alta o suficiente para que fosse ouvido do outro lado da rua. �Leve-me para Durlcan Street, 13, em Houndsditch�, disse ela. A hist�ria come�ava a parecer verdadeira e, vendo-a entrar tranq�ilamente no carro, pendurei-me atr�s do ve�culo. Todo detetive deveria ser perito nessa arte. Bem, l� fomos n�s, sacolejando rua afora e n�o paramos at� chegar ao endere�o em quest�o. Saltei antes que cheg�ssemos � porta e me pus a andar calmamente, como se passeasse. Vi o carro parar. O cocheiro saltou, abriu a porta e ficou parado esperando. Ningu�m saiu. Quando passei por ele, examinava fren�tico o carro vazio, soltando a mais variada cole��o de pragas que j� ouvi. N�o havia o menor vest�gio de passageiro e o homem vai levar algum tempo para receber por aquela corrida. Fiz perguntas na casa n�mero treze e soube que era de um respeit�vel forrador de paredes de nome Keswick. L� ningu�m tinha ouvido falar de Sawyer ou de Dennis.</p><p>- Voc� n�o vai me dizer - comentei, perplexo - que aquela velha fraca e manca foi capaz de saltar do carro em movimento sem que voc� ou o cocheiro a vissem?</p><p>Velha coisa nenhuma! - disse Sherlock Holmes de forma brusca. - Deve ser um homem vivo, �gil e excelente ator. Uma montagem excelente! Viu que estava sendo seguido, sem d�vida, e usou esse recurso para me enganar. Isso demonstra que o homem que perseguimos n�o � t�o solit�rio quanto pensamos. Ao contr�rio, tem amigos dispostos a correr riscos por ele. Mas, doutor, o senhor parece exausto. Ou�a meu conselho: v� dormir.</p><p>Eu estava, de fato, muito cansado e, portanto, obedeci ao que dizia. Deixei Holmes sentado frente ao fogo j� sem chamas da lareira e, alta noite, ainda ouvia os lamentos baixos e melanc�licos de seu violino.</p><p>Sabia que ele ainda estava pensando no singular problema que tinha que resolver.</p><empty-line/></section><section><p><strong>Cap�tulo 6</strong></p><p><strong>tobias gregson mostra o que pode fazer</strong></p><empty-line/><p>Os jornais do dia seguinte s� falavam do �Mist�rio de Brixton�, como passaram a denominar o caso.</p><p>Todos traziam amplas mat�rias a respeito e alguns acrescentavam chamadas especiais.</p><p>Havia na imprensa algumas informa��es novas para mim. Ainda guardo v�rias delas em meu �lbum de recortes junto a alguns sum�rios do crime. Aqui vai um resumo do que saiu:</p><p>O Daily Telegraph afirmava que, na hist�ria do crime, poucas trag�dias apresentavam caracter�sticas t�o estranhas. O nome alem�o da v�tima, a aus�ncia de motivos aparentes, a sinistra inscri��o na parede, tudo sugeria envolvimento de refugiados pol�ticos e revolucion�rios. Os socialistas tinham muitas ramifica��es na Am�rica e, sem d�vida, o morto havia infringido alguma de suas leis n�o escritas e sa�ram em seu encal�o. Depois de r�pidas refer�ncias ao Vehmgericht, � �gua-tofana, aos carbon�rios, � marquesa de Brinvilliers, � teoria darwniana, aos princ�pios ae mamus e aos assassinatos da Ratcliff Highway, o artigo conclu�a criticando o governo e propondo um controle mais austero sobre os estrangeiros que viviam na Inglaterra.</p><p>O Standart comentava que esse tipo de fato ocorria, de h�bito, quando os liberais estavam no governo.</p><p>Brotavam da inquieta��o das massas e do conseq�ente enfraquecimento da autoridade. O morto era um cavalheiro americano que tinha vivido algumas semanas na metr�pole. Ficara hospedado na pens�o de madame Charpentier, em Torquay Terrace, em Camberwell.</p><p>Em suas viagens, era acompanhado pelo secret�rio particular, Joseph Stangerson. Ambos haviam se despedido da dona da pens�o na ter�a-feira, dia quatro do corrente, e partido para a esta��o Euston com a inten��o manifesta de tomar o expresso para Liverpool. Depois disso, tinham sido vistos juntos na plataforma. Nada mais se soube deles at� que o corpo do Sr. Drebber foi, como se sabe, descoberto em uma casa vazia de Brixton Road, a milhas de Euston. Como havia ido para l� e como encontrara seu destino, essas eram quest�es ainda envoltas em mist�rio. Nada se sabia sobre o paradeiro de Stangerson. Afirmava, ainda, o jornal: �Ficamos felizes em saber que os oficiais da Scotland Yard, Sr. Lestrade e Sr. Gregson, est�o ambos encarregados do caso. J� se sabe por antecipa��o que t�o renomados policiais desvendar�o com rapidez o caso�</p><p>Segundo o Daily News, n�o restavam d�vidas de que o crime era de natureza pol�tica. O despotismo e o �dio ao liberalismo por parte dos governos continentais, afirmava, fizeram com que desembarcassem em nossas praias um grande n�mero de homens que poderiam ser excelentes cidad�os se conseguissem esquecer o que suportaram em suas terras. Entre eles havia um r�gido c�digo de honra e qualquer infra��o era punida com a morte. Todos os esfor�os deveriam ser envidados no sentido de encontrar Stangerson, o secret�rio, para que fornecesse detalhes sobre h�bitos particulares da v�tima. Um grande passo havia sido dado com a descoberta do endere�o da casa onde haviam se hospedado, avan�o que se devia tributar � sagacidade e � determina��o do Sr. Gregson, da Scotland Yard.</p><p>Sherlock Holmes e eu lemos essas not�cias � mesa do caf� e elas pareciam diverti-lo muito.</p><p>- Eu j� disse que, haja o que houver, Lestrade e Gregson, sem sombra de d�vida, levar�o o m�rito!</p><p>- Depende de como tudo terminar.</p><p>- Ora, amigo, n�o faz diferen�a. Se prenderem o homem, ser� gra�as aos esfor�os dos dois. Se o deixarem escapar, ser� apesar dos esfor�os deles. Cara, eu ganho; coroa, voc� perde. Fa�am eles o que fizerem, ter�o admiradores.�<emphasis>Un sot trouve toujours un plus sot qui l'admire</emphasis><emphasis>{9}</emphasis>�.</p><p>- O que vem a ser isso? - exclamei, porque, nesse momento, ouvia o ru�do de muitos passos no vest�bulo e nas escadas, acompanhados por aud�veis express�es de desgosto da senhoria.</p><p>- � a for�a policial dos detetives da Baker Street - disse Holmes gravemente e, enquanto falava, irromperam na sala meia d�zia dos moleques mais sujos e andrajosos que eu j� vira.</p><p>- Aten��o! - gritou Holmes em tom incisivo.</p><p>Os seis moleques sujos formaram fila, parecendo grosseiras estatuetas. - No futuro, mandem Wiggins sozinho para relatar e os demais fiquem esperando na rua.</p><p>Voc� encontrou, Wiggins?</p><p>- N�o, senhor - disse um dos garotos.</p><p>- Tinha d�vidas se voc� conseguiria. Continuem trabalhando at� descobrir. Aqui est� o pagamento. - Entregou um xelim a cada um. - Agora podem ir e voltem com melhores not�cias na pr�xima vez.</p><p>Fez um gesto com a m�o e eles correram escada abaixo como ratos e, no momento seguinte, j� ouv�amos suas vozes em algazarra na rua.</p><p>- Tira-se mais de um desses pequenos mendigos do que de uma d�zia de policiais - observou Holmes.</p><p>- A simples imagem de algu�m que aparente ser um policial � o suficiente para selar os l�bios das pessoas. Esses garotos, por�m, v�o a toda parte e ouvem de tudo. S�o muito vivos, tamb�m, e tudo o que precisam � de organiza��o.</p><p>- Voc� os est� empregando para que trabalhem no caso da Brixton Road?</p><p>- Sim, h� um ponto do qual preciso me certificar.</p><p>� apenas uma quest�o de tempo. Olhe! Em compensa��o, vamos ouvir novidades agora. L� vem Gregson, descendo a rua com a beatitude gravada em cada tra�o de seu rosto. Vem para c�, tenho certeza. Sim, est� parando. Aqui est�!</p><p>Houve um forte toque da campainha e, em poucos segundos, o detetive loiro subia as escadas, tr�s degraus a cada passo, parando em nossa sala.</p><p>- Meu caro amigo - exclamou, sacudindo a m�o inerte de Holmes. - D�-me os parab�ns, tornei o caso todo t�o claro quanto o dia.</p><p>Uma sombra de ansiedade pareceu toldar o expressivo rosto de meu companheiro.</p><p>- Quer dizer que est�o na pista certa? - perguntou.</p><p>- Pista certa? ! N�s temos o homem atr�s das grades!</p><p>- E quem �?</p><p>- Arthur Charpentier, subtenente da Marinha de Sua Majestade - exclamou Gregson pomposamente, esfregando as m�os gordas e inflando o peito.</p><p>Sherlock Holmes soltou um suspiro de al�vio e descontraiu-se num sorriso.</p><p>- Sente-se e experimente um desses charutos - disse. - Estamos ansiosos para saber como resolveu tudo. Aceita u�sque e �gua?</p><p>- Acho que sim - respondeu o detetive. � Os grandes esfor�os dos �ltimos dois dias me deixaram exausto. N�o tanto pelo esfor�o f�sico, compreenda, mas pela tens�o mental. O senhor saber� avaliar, Sr. Holmes, porque ambos trabalhamos com o c�rebro.</p><p>- O senhor me honra muito - disse Holmes com gravidade. - Conte como chegou a uma conclus�o t�o gratificante.</p><p>O detetive sentou-se na poltrona e, de forma complacente, soltava baforadas de charuto. De repente, deu uma palmada na coxa e caiu na risada.</p><p>- O divertido nisso tudo - disse - � que o bobo do Lestrade, que se considera t�o esperto, foi atr�s da pista errada. Est� buscando o secret�rio Stangerson, que tem tanto a ver com o caso quanto um nen� que ainda n�o nasceu. N�o duvido de que at� j� o tenha prendido.</p><p>A id�ia o divertia tanto, que ele riu at� se sufocar.</p><p>- E como conseguiu a pista?</p><p>- Bem, eu vou contar tudo sobre isso. Mas � claro, Dr. Watson, que isso deve ficar estr�tamente entre n�s. A primeira dificuldade que tive de enfrentar foi descobrir os antecedentes do americano. Outro teria esperado at� que seus an�ncios fossem respondidos ou que algu�m se adiantasse dando informa��es espontaneamente. Esse, por�m, n�o � o modo de Tobias Gregson trabalhar. Lembra do chap�u ao lado do homem morto?</p><p>- Sim - disse Holmes. - Fabrica��o de John Underwood &amp; Sons, da Camberwell Road, 129.</p><p>Gregson murchou nesse momento.</p><p>- N�o pensei que tivesse reparado nisso - disse.</p><p>- Esteve l�?</p><p>- N�o.</p><p>- Ah! - disse Gregson, aliviado. - N�o deveria ter negligenciado uma oportunidade, por menor que fosse.</p><p>- Para um grande c�rebro, nada � pequeno - destacou Holmes em tom sentencioso.</p><p>- Bem, fui at� Underwood e perguntei se haviam vendido um chap�u daquele tamanho e com aquelas caracter�sticas. Ele olhou em seus livros e encontrou logo o registro. Havia mandado o chap�u ao Sr. Drebber, que morava na Pens�o Charpentier, em Torquay Terrace. Foi assim que consegui o endere�o.</p><p>- Esperto... muito esperto! - murmurou Sherlock Holmes.</p><p>- Em seguida, visitei madame Charpentier - continuou o detetive. - Encontrei-a muito p�lida e aflita.</p><p>Sua filha estava na sala tamb�m. Uma gra�a de menina! Tinha os olhos vermelhos e seus l�bios tremiam enquanto eu falava com ela. Isso n�o me escapou. Comecei a desconfiar. O senhor conhece a sensa��o, Sr. Holmes, quando sentimos estar na pista certa: um arrepio nos nervos. �J� soube da morte misteriosa de seu �ltimo h�spede, Sr. Enoch J. Drebber, de Cleveland?�, perguntei. A m�e moveu a cabe�a. Parecia n�o ser capaz de dizer uma s� palavra, A filha irrompeu em l�grimas. Mais do que nunca, senti que sabiam algo sobre o assunto.</p><p>�- A que horas o Sr. Drebber deixou sua casa para pegar o trem?�</p><p>�- �s oito horas - disse, engolindo em seco para controlar a agita��o. - Seu secret�rio, Sr. Stangerson, disse que havia dois trens: um �s nove e quinze e outro �s onze horas. EIe pretendia pegar o primeiro.�</p><p>�- E foi a �ltima vez que o viu?�</p><p>- Uma mudan�a terr�vel ocorreu no rosto da mulher - prosseguiu o detetive - quando fiz essa pergunta. Ela ficou l�vida. Passaram-se alguns segundos antes que ela pudesse pronunciar uma �nica palavra - �sim� -, e numa voz rouca e pouco natural. Houve sil�ncio por um momento e, ent�o, a filha falou com voz clara e serena.</p><p>�- Nada de bom vem da mentira, m�e. Vamos ser sinceras com o cavalheiro. N�s vimos, sim, o Sr. Drebber depois disso.�</p><p>�- Deus a perdoe - disse madame Charpentier, jogando os bra�os para cima e afundando na cadeira.</p><p>- Voc� assassinou seu irm�o.�</p><p>�- Arthur preferiria que cont�ssemos a verdade - respondeu a menina com firmeza.�</p><p>�- � melhor contar tudo que sabem - disse. - Meias verdades s�o piores que mentiras. Al�m disso, voc�s n�o imaginam quanto sabemos a respeito.�</p><p>�- Voc� ser� a respons�vel, Alice! - gritou a m�e e, voltando-se para mim, prosseguiu: - Vou lhe contar tudo, senhor. N�o v� imaginar que minha agita��o se deva a algum temor de que meu filho tenha participado desse caso horr�vel. Ele � totalmente inocente.</p><p>Mas tenho medo de que, a seus olhos e aos olhos de outros, ele possa parecer envolvido. Isso, sem d�vida, � imposs�vel. Seu car�ter superior, sua profiss�o, seus antecedentes jamais permitiriam qualquer comprometimento.�</p><p>�- O melhor que tem a fazer � uma confiss�o completa dos fatos - respondi. - Se seu filho for inocente, o que disser n�o vai piorar a situa��o.�</p><p>�- Talvez, Alice, fosse melhor deixar-nos a s�s.</p><p>- Tendo dito isso, a filha se retirou. - Eu n�o pretendia contar-lhe nada disso, mas, j� que a minha pobre filha tomou a dianteira, n�o tenho alternativa. E j� que decidi falar, vou contar tudo sem a omiss�o de nenhum detalhe.�</p><p>�- � a atitude mais s�bia - respondi.�</p><p>�- O Sr. Drebber esteve conosco em torno de tr�s semanas. Ele e seu secret�rio, o Sr. Stangerson, estiveram viajando pelo continente. Reparei que havia uma etiqueta de Copenhague em cada uma de suas malas, o que demonstrava ter sido essa sua parada anterior. Stangerson era um homem calmo e reservado, exatamente o oposto de seu patr�o que, lamento dizer, era grosseiro nos h�bitos e rude nas maneiras. J� na noite em que chegou, embriagou-se e ficou p�ssimo. E, na realidade, nunca se podia dizer que estivesse s�brio ap�s o meio-dia. Tratava as empregadas de modo desagradavelmente permissivo e �ntimo. O pior de tudo foi que, em pouco tempo, assumiu a mesma atitude com minha filha Alice e, mais de uma vez, dirigiu-se a ela de uma forma que, felizmente, ela � muito inocente para entender. Certa ocasi�o, chegou a tom�-la nos bra�os e a abra��-la, um ultraje que levou seu pr�prio secret�rio a reprov�-lo por uma conduta t�o indigna.�</p><p>�- Mas por que suportou isso tudo? - perguntei. - Entendo que pode se livrar de seus h�spedes quando quer.�</p><p>- Madame Charpentier corou diante da pertin�ncia de minha observa��o.</p><p>�- Ah, que bom se eu o tivesse despachado no mesmo dia em que chegou - disse. - Mas foi uma tenta��o danada. Estavam pagando, cada um, uma libra por dia de di�ria, portanto, quatorze libras por semana, e estamos na baixa esta��o. Sou vi�va, e ter um filho na Marinha tem me custado caro. N�o queria perder o dinheiro. Fiz o que me pareceu melhor. No entanto a �ltima do Sr. Drebber foi demais, e pedi-lhe que sa�sse. Essa foi a raz�o pela qual se foi.�</p><p>- E depois?�</p><p>�- Fiquei com o cora��o aliviado quando ele partiu... Meu filho est� de folga agora, mas n�o lhe contei nada disso, porque ele tem o temperamento violento e � louco pela irm�. Quando fechei a porta atr�s dos dois, foi como se um peso tivesse sido retirado de mim. Pois menos de uma hora depois soou a campainha e era o Sr. Drebber voltando. Estava muito excitado e, sem d�vida, bastante embriagado. Entrou na sala onde eu estava com minha filha e fez umas observa��es confusas sobre ter perdido o trem. Voltou-se, ent�o, para Alice e, na minha frente, prop�s-lhe fugir com ele. Disse que ela era maior e que lei nenhuma podia impedi-la, que tinha dinheiro de sobra para gastar e que devia ir com ele sem se importar com a velha. Disse-lhe que viveria como uma princesa. A pobre Alice estava t�o apavorada que tentou escapar, mas ele a pegou pelo pulso e, � for�a, levou-a at� a porta. Gritei e, nesse momento, Arthur, meu filho, apareceu. O que aconteceu, ent�o, eu n�o sei. Ouvi maldi��es e os sons confusos de uma briga. Estava apavorada e n�o levantava a cabe�a. Quando finalmente olhei, Arthur estava rindo, junto � porta, com uma bengala na m�o. Disse que o distinto cavalheiro n�o iria mais nos importunar, mas que iria segui-lo para ver o que ele pretendia. Apanhou, ent�o, o chap�u e saiu para a rua. Na manh� seguinte, soubemos da misteriosa morte de Drebber.�</p><p>- Essas declara��es - continuou o detetive - foram feitas por madame Charpentier entre pausas e indecis�es. �s vezes falava t�o baixo que eu mal podia entend�-la. Taquigrafei o que ela dizia para evitar a possibilidade de erro.</p><p>- Que excitante! - disse Sherlock Holmes com um bocejo. - O que aconteceu depois?</p><p>- Quando madame Charpentier terminou - prosseguiu o detetive - vi que todo o caso dependia de um �nico ponto. Olhei-a fixamente, de um modo que sempre funciona com mulheres, e, ent�o, perguntei-lhe a que horas seu filho tinha voltado.</p><p>�- N�o sei - respondeu.�</p><p>�- N�o sabe?�</p><p>�- N�o, ele tem a chave da porta e entra quando quer.�</p><p>�- Depois que a senhora foi para cama, ent�o?�</p><p>�- Sim.�</p><p>�- A que horas foi isso?�</p><p>�- Por volta das onze horas.�</p><p>�- Ent�o, seu filho esteve ausente umas duas horas?�</p><p>�- Sim.�</p><p>�- Talvez umas quatro ou cinco horas?�</p><p>�- � poss�vel.�</p><p>�- O que fez durante esse tempo?�</p><p>�- N�o sei - respondeu empalidecendo de tal forma que at� seus l�bios perderam a cor.�</p><p>- Depois disso, � evidente, n�o havia nada mais a fazer. Descobri onde estava o �oficial� Charpentier, levei dois policiais comigo e o prendi. Quando pus a m�o em seu ombro e disse-lhe para vir conosco sem reagir, ele replicou com aud�cia:</p><p>�- Suponho que estejam me prendendo como suspeito da morte daquele patife do Drebber.�</p><p>- Como n�o hav�amos mencionado nada nesse sentido, minhas suspeitas aumentaram.</p><p>- Sem d�vida - comentou Holmes.</p><p>- Ele ainda trazia consigo a pesada bengala que, segundo sua m�e, havia levado quando saiu atr�s de Drebber. � um bast�o de carvalho maci�o.</p><p>- Qual a sua teoria, ent�o?</p><p>- Bem, a minha teoria � de que ele seguiu Drebber at� Brixton Road. L�, os dois tiveram uma acalorada discuss�o no meio da qual Drebber foi atingido pela bengala, talvez no meio do est�mago, que o matou sem deixar marca. Chovia tanto que ningu�m andava nas ruas, e Charpentier arrastou o corpo de sua v�tima para a casa vazia. Quanto � vela, ao sangue, ao escrito na parede e ao anel, podern ser apenas truques para desviar a pol�cia para pistas falsas.</p><p>- Muito bom! - disse Holmes em tom encorajador. - De fato, Gregson, voc� fez progressos. Voc� vai longe!</p><p>- �, sem falsa mod�stia, eu conduzi tudo muito bem - respondeu com orgulho o detetive. - O rapaz prestou depoimento espontaneamente. Disse que, ap�s ter seguido Drebber por algum tempo, este percebeu o que acontecia e tomou um carro para se ver livre dele.</p><p>Voltando, ent�o, para casa, encontrou um colega da Marinha e deram um longo passeio juntos. Quando perguntei onde vivia esse colega, ele n�o conseguiu dar uma resposta satisfat�ria. Tudo se encaixa perfeitamente. O que me diverte � pensar em Lestrade, que saiu atr�s da pista falsa. Temo que ele n�o consiga ir muito longe. Mas, vejam s�, � o pr�prio Lestrade que est� aqui, em carne e osso.</p><p>De fato, era mesmo Lestrade. Subira as escadas enquanto convers�vamos e entrava, agora, na sala.</p><p>N�o se via, por�m, a seguran�a e a boa apar�ncia que, habitualmente, o caracterizavam. Seu rosto estava perturbado e suas roupas sujas e desalinhadas. Era evidente que tinha v�ndo com a inten��o de consultar Sherlock Holmes, mas ao perceber a presen�a do colega ficara embara�ado. Parou no meio da sala, mexendo nervosamente o chap�u e sem saber o que fazer.</p><p>- Este caso � dos mais extraordin�rios � disse por fim - e dos mais incompreens�veis que j� vi.</p><p>- Ah, voc� acha assim, n�o �, Lestrade! - exclamou Gregson, triunfante. - Achei que chegaria a essa conclus�o. Conseguiu encontrar Joseph Stangerson?</p><p>- O secret�rio, Joseph Stangerson - disse Lestrade com gravidade -, foi assassinado no Hotel Halliday, �s seis horas desta manh�.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 7</strong></p><p><strong>Uma luz nas trevas</strong></p><empty-line/><p>A informa��o trazida por Lestrade era t�o grave e t�o inesperada que ficamos pasmos os tr�s. Gregson ergueu-se de sua cadeira e engoliu o resto de seu u�sque com �gua. Fiquei olhando em sil�ncio para Sherlock Holmes. Seus l�bios estavam comprimidos e suas sobrancelhas franzidas.</p><p>- Stangerson tamb�m! - murmurou. - A trama se complica.</p><p>- J� estava bastante complicada antes � grunhiu l.estrade, pegando uma cadeira. - Parece que interrompi um conselho de guerra ou algo assim.</p><p>- Voc�... est� mesmo certo dessa informa��o que nos deu? - gaguejou Gregson.</p><p>- Eu acabo de vir do quarto dele - disse Lestrade. - Fui o primeiro a descobrir o que aconteceu.</p><p>- Est�vamos ouvindo o ponto de vista de Gregson sobre o caso - observou Holmes. - Importa-se de nos contar o que viu e o que fez?</p><p>- N�o fa�o obje��es - respondeu Lestrade, sentando-se. - Confesso com franqueza que, na minha opini�o, Stangerson estava envolvido na morte de Drebber. Este �ltimo acontecimento mostrou que eu estava completamente errado. Centrado numa id�ia �nica, procurei descobrir o que tinha sido feito do secret�rio. Foram vistos juntos na esta��o Euston, em torno das oito e trinta da noite do dia tr�s. �s duas da manh�, Drebber foi encontrado em Brixton Road. A quest�o com a qual eu me debatia era descobrir o que ele fizera entre oito e trinta e a hora do crime, e o que havia feito depois. Telegrafei a Liverpool, dando uma descri��o do homem e recomendando que controlassem os barcos americanos. Ent�o, eu me pus a trabalhar, visitando hot�is e pens�es nos arredores de Euston. Minha teoria era que, se Drebber e seu companheiro tivessem se separado, o previs�vel era que este �ltimo se alojasse em algum lugar perto da esta��o para passar a noite e voltar para l� na manh� seguinte.</p><p>- Eles devem ter, antecipadamente, combinado um ponto de encontro - observou Holmes.</p><p>- Exato. Passei a noite de ontem investigando sem nenhum resultado. Esta manh� comecei muito cedo e, �s oito horas, j� estava no Hotel Halliday, na Little George Street. Quando perguntei se um Sr. Stangerson estava hospedado l�, de imediato responderam afirmativamente.</p><p>�- Sem d�vida, o senhor � o cavalheiro que ele aguarda - disseram. - H� dois dias que ele espera por algu�m.�</p><p>�- Onde est� ele agora? - perguntei.�</p><p>�- No andar de cima, dormindo. Pediu para ser acordado �s nove.�</p><p>�- Vou subir e falar com ele logo - disse.�</p><p>- Achei que meu repentino aparecimento iria deix�-lo nervoso e poderia fazer com que deixasse escapar algo. O empregado disp�s-se a me mostrar o quarto: era no segundo andar e chegava-se a ele por um pequeno corredor. Ele indicou-me a porta e j� estava para descer quando vi algo que fez com que eu me sentisse mal, apesar de meus vinte anos de experi�ncia. Por baixo da porta, corria um pequeno filete vermelho de sangue que serpenteava pelo corredor, formando uma po�a perto do rodap� da parede em frente. Gritei, fazendo o empregado voltar. Ele quase desmaiou quando viu o sangue. A porta estava fechada por dentro, mas n�s arremessamos os ombros contra ela e a arrombamos.</p><p>A janela do quarto estava aberta e, junto dela, descomposto, jazia o corpo de um homem em roupa de dormir. J� estava morto h� algum tempo, pois seus membros estavam frios e r�gidos. Quando o desvi�mos, o empregado o reconheceu de imediato como sendo o mesmo homem que alugara o quarto sob o nome de Joseph Stangerson. A causa da morte fora uma profunda punhalada do lado esquerdo, que deve ter penetrado o cora��o. E agora vem a parte mais estranha do caso. O que voc� imagina que encontrei sobre o cad�ver?</p><p>Senti um arrepio na pele e um pressentimento de horror, mesmo antes de Sherlock Holmes ter respondido.</p><p>- A palavra rache, escrita em letras de sangue - disse.</p><p>- Exato! - disse Lestrade com voz atemorizada.</p><p>Ficamos todos em sil�ncio por um tempo. Havia algo met�dico e incompreens�vel nos feitos desse assassino desconhecido que tornava ainda mais assustadores seus crimes. Meus nervos, fortes o suficiente no campo de batalha, latejavam agora.</p><p>- O assassino foi visto - continuou Lestrade.</p><p>- O leiteiro, indo a caminho do trabalho, descia pelo beco que liga as cavalari�as ao fundo do hotel. O menino notou que uma escada, geralmente deixada l�, estava erguida em dire��o a uma janela escancarada do segundo andar. Depois de passar, olhou para tr�s e viu um homem descendo por ela. Descia de modo t�o calmo e expl�cito que o rapaz imaginou que fosse algum carpinteiro ou encanador a servi�o do hotel. N�o lhe deu muita aten��o, embora pensasse que era muito cedo para que o indiv�duo j� estivesse trabalhando. Teve a impress�o de que o homem era alto, tinha o rosto corado e vestia um longo casaco marrom. Deve ter permanecido algum tempo no quarto depois do assassinato, porque encontramos �gua manchada de sangue na bacia, onde ele deve ter lavado as m�os, e marcas nos len��is, onde ele deliberadamente limpou seu punhal.</p><p>Olhei para Holmes, ao perceber que a descri��o do assassino concordava exatamente com a que ele fizera. No entanto n�o havia sinal de alegria ou satisfa��o em seu rosto.</p><p>- N�o encontrou alguma coisa no quarto que pudesse fornecer uma pista? - perguntou.</p><p>- Nada. Stangerson tinha a carteira de Drebber em seu bolso, mas parece que isso costumava acontecer, uma vez que ele era encarregado dos pagamentos. Havia oitenta e poucas libras nela, mas nada foi retirado. Sejam quais forem os motivos desses crimes t�o extraordin�rios, pode-se dizer que roubo n�o � um deles. N�o havia pap�is ou anota��es nos bolsos da v�tima, exceto um �nico telegrama, datado em Cleveland, cerca de um m�s atr�s, contendo as palavras, �J. H. Est� na Europa�. N�o havia nome do remetente.</p><p>- Nada mais? - perguntou Holmes.</p><p>- Nada de importante. O romance que ele lia antes de dormir estava ca�do na cama e seu cachimbo estava em uma cadeira a seu lado. Um copo de �gua estava sobre a mesa e, no peitoril da janela, havia uma caixinha de unguento contendo duas pilulas.</p><p>Sherlock Holmes saltou de sua cadeira com uma exclama��o de alegria.</p><p>- O �ltimo elo! - gritou, exultante. - Meu caso est� completo!</p><p>Os dois detetives o olharam com espanto.</p><p>- Tenho, agora, em minhas m�os - disse, confiante, meu companheiro -, todos os fios desse emaranhado. H�, � claro, detalhes a serem esclarecidos, mas n�o tenho d�vidas a respeito dos fatos principais, a partir do momento que Drebber deixou Stangerson na esta��o at� a descoberta do corpo desse �ltimo. � como se eu tivesse visto tudo com meus pr�prios olhos. Vou dar-lhes uma prova do que sei. Voc� pegou essas p�lulas?</p><p>- Tenho-as aqui - disse Lestrade, mostrando uma caixinha branca. - Eu as peguei e, tamb�m, a carteira e o telegrama, para deix�-los em seguran�a no posto policial. Recolhi as p�lulas por acaso, porque, sinceramente, n�o dei nenhuma import�ncia a elas.</p><p>- Deixe que eu veja - pediu Holmes. � Doutor - disse, virando-se para mim -, agora, me diga se s�o p�lulas comuns.</p><p>N�o eram, sem d�vida. De cor cinza-p�rola, eram pequenas, redondas e quase transparentes quando olhadas contra a luz.</p><p>- A julgar pela leveza e transpar�ncia, devem ser sol�veis em �gua - observei.</p><p>- Exato - respondeu Holmes. - E agora voc� poderia buscar aquele pobre cachorrinho, doente h� tanto tempo, que a senhoria queria que voc� pusesse fim a suas dores ontem?</p><p>Fui l� embaixo e voltei com o cachorro nos bra�os.</p><p>A respira��o dif�cil e o olhar vidrado do terrier indicavam que ele n�o estava longe do fim. De fato, o focinho branco anunciava que ele havia transposto os limites previstos de exist�ncia canina.</p><p>Coloquei-o sobre uma almofada no tapete.</p><p>- Vou, agora, dividir uma dessas p�lulas em duas - disse Holmes e, tirando o canivete do bolso, transformou as palavras em a��o. - Uma das metades devolvemos � caixa para futuras investiga��es. A outra metade vou p�r neste copo de vinho com uma colher de ch� de �gua. Percebem que nosso amigo doutor est� certo, pois a p�lula se dissolve logo.</p><p>- Isso pode ser muito interessante - disse Lestrade com o tom ressentido de quem suspeita que caiu no rid�culo. - No entanto n�o consigo ver em que se relaciona com a morte do Sr. Joseph Stangerson.</p><p>- Calma, amigo, calma! Ver� em seguida que tem tudo a ver. Vou, agora, misturar um pouco de leite para a mistura ficar mais agrad�vel e ver�o que o cachorro vai beb�-la sem demora.</p><p>Enquanto falava, verteu o conte�do do copo de vinho em um pires e colocou-o frente ao terrier, que, rapidamente, o lambeu todo. A seriedade de Sherlock Holmes nos impressionou tanto que sentamos todos em sil�ncio, olhando o animal com aten��o e esperando algum efeito surpreendente. No entanto nada acontecia. O cachorro continuava deitado sobre a almofada, respirando com dificuldade, mas, segundo parecia, nem melhor nem pior do que estava antes de beber a mistura.</p><p>Holmes havia tirado o rel�gio e, como passavam os minutos sem que se visse qualquer resultado, uma express�o de profundo pesar e desapontamento surgiu em seu rosto. Mordeu os l�bios, tamborilou os dedos na mesa e mostrou todos os sinais de impaci�ncia. Estava t�o abalado que, com sinceridade, senti pena dele.</p><p>Os dois detetives, por�m, sorriam sutilmente, nada aborrecidos com a situa��o.</p><p>- N�o pode ser coincid�ncia! - exclamou, saltando da cadeira e caminhando nervoso de um lado para outro da sala. - � imposs�vel que seja uma mera coincid�ncia. As mesmas p�lulas de que suspeitei no caso de Drebber s�o encontradas ap�s a morte de Stangerson. E s�o in�cuas? O que significa? � claro que o meu racioc�nio inteiro n�o pode ser falso. � imposs�vel! E, no entanto, este pobre cachorro sequer piorou. Ah, j� sei! J� sei!</p><p>Com um grito agudo de alegria, correu at� a caixa, partiu a outra p�lula em duas partes, dissolveu-a, acrescentou leite e deu ao terrier. A l�ngua do infeliz animal mal parecia ter tocado na mistura e seus membros come�aram a se agitar em convuls�o. Logo caiu r�gido e sem vida como se tivesse sido fulminado por um raio.</p><p>Sherlock Holmes deu um longo suspiro e enxugou o suor da testa.</p><p>- Eu deveria ter tido mais confian�a - disse. - J� deveria saber, a estas alturas, que, quando um fato parece ser contr�rio a uma longa seq��ncia de dedu��o, demonstra, invariavelmente, ter alguma outra interpreta��o. Das duas p�lulas na caixa, uma era do veneno mais terr�vel e a outra completamente inocente. Devia ter percebido isso antes mesmo de ver a caixa.</p><p>Esta �ltima afirma��o me pareceu t�o surpreendente que eu mal acreditava que ele estivesse em seu ju�zo perfeito. Mas ali estava o cachorro morto para provar que suas conjeturas estavam corretas. Aos poucos, a nebulosidade se afastava de forma gradual de minha mente e eu come�ava a ter uma vaga, mas ainda sombria percep��o da verdade.</p><p>- Tudo isso parece-lhes estranho � continuou Holmes - porque, no in�cio das investiga��es, n�o deram import�ncia � �nica pista real que havia diante dos olhos. Tive a grande sorte de capt�-la e tudo o mais que aconteceu s� confirmou minha suposi��o inicial e, sem d�vida, deu logicidade a toda a seq��ncia.</p><p>Assim, aquelas coisas que os deixavam perplexos, tornando o caso ainda mais confuso, serviam para esclarecer e fortificar minhas conclus�es. � um erro confundir estranheza com mist�rio. O crime mais comum pode ser o mais misterioso, porque n�o apresenta caracter�sticas novas ou especiais capazes de fornecer outras dedu��es. Este assassinato teria sido infinitas vezes mais dif�cil de revelar se o corpo da v�tima simplesmente tivesse sido encontrado na rua sem nenhum desses outr�{10}�e das caracter�sticas sensacionais que o tornaram t�o not�vel. Esses detalhes estranhos, em lugar de tornarem o caso mais dif�cil, acabaram fazendo-o mais f�cil.</p><p>Gregson, que ouvira todo esse discurso com consider�vel impaci�ncia, n�o conseguiu mais se conter.</p><p>- Ou�a aqui, Sr. Sherlock Holmes - disse. - Estamos prontos a reconhecer que � um homem inteligente e que tem seus pr�prios m�todos de trabalho. Mas, agora, queremos algo mais do que serm�es e teoria. A quest�o � apanhar o culpado. Expus minha vers�o e parece que estava errado. Charpentier n�o poder� ser acusado do segundo crime. Lestrade foi atr�s de seu homem, Stangerson, e parece que ele est� errado tamb�m. O senhor soltou insinua��es aqui, sugest�es ali, e parece saber mais do que n�s. Chegou o momento em que nos sentimos com direito a perguntar-lhe diretamente o que sabe a respeito. Pode dizer quem � o culpado?</p><p>- N�o posso deixar de reconhecer que Gregson est� certo, senhor - observou Lestrade. - N�s dois tentamos, mas n�o tivemos sucesso. O senhor mencionou mais de uma vez, desde que cheguei, que tinha todas as coincid�ncias necess�rias. Seguramente, n�o ir� ocult�-las por mais tempo.</p><p>- Qualquer atraso na captura do assassino - comentei - pode significar tempo para que cometa novas atrocidades.</p><p>Embora pressionado por todos, Holmes parecia indeciso. Continuou a caminhar de um lado a outro da sala, com a cabe�a baixa e as escuras sobrancelhas cerradas, como costumava ficar quando mergulhado em seus pensamentos.</p><p>- N�o haver� mais assassinatos - disse, finalmente, parando de modo abrupto e olhando para n�s. - N�o se preocupem com isso. Perguntaram se eu sei o nome do assassino. Eu sei. O que em si n�o significa muito, se comparado com a possibilidade de p�r as m�os nele. Isso eu espero fazer em breve. Tenho grandes esperan�as de consegui-lo a minha maneira, mas � coisa que exige um cuidado especial, porque terei que tratar com um homem astuto e desesperado, apoiado, conforme tive ocasi�o de provar, por outro t�o esperto quanto ele. Enquanto esse homem n�o imaginar que algu�m est� na pista, haver� alguma possibilidade de apanh�-lo. Mas, se ele tiver a mais leve suspeita, mudar� de nome e desaparecer� num instante entre os quatro milh�es de habitantes desta cidade grande. Sem querer ofend�-los, devo dizer que considero esses homens melhores que a for�a policial, e por essa raz�o n�o solicitei a ajuda de voc�s. Se eu fracassar, � claro que serei o respons�vel por essa omiss�o. J� estou preparado para isso. No momento, posso prometer que, quando tiver condi��es de entrar em contato, sem com isso comprometer meus planos, eu o farei.</p><p>Gregson e Lestrade n�o pareciam estar nada satisfeifos nem com a promessa nem com a alus�o depreciativa � pol�cia. O primeiro ficou vermelho at� � raiz dos seus cabelos cor de palha, enquanto os olhos redondos do outro brilhavam pela curiosidade e pelo ressentimento. N�o chegaram a dizer nada, porque ouviu-se uma batida na porta e o jovem Wiggins, porta-voz dos moleques da rua, introduziu na sala sua figura desagrad�vel e insignificante.</p><p>- Por favor, senhor - disse, passando a m�o na testa. - O carro est� esperando l� embaixo.</p><p>- Bom menino! - disse Holmes com brandura.</p><p>- Por que n�o adotam esse modelo na Scotland Yard? - prosseguiu, tirando um par de algemas de a�o de uma gaveta. - Vejam como funciona bem essa mola. Fecham-se num instante.</p><p>- O modelo antigo � bastante bom � observou Lestrade -, se encontrarmos o homem em quem coloc�-las.</p><p>- Muito bem, muito bem - sorriu Holmes. - O cocheiro poder� me ajudar com a bagagem. Pe�a-lhe para subir, Wiggins.</p><p>Fiquei surpreso ao ouvir meu companheiro falar como se fosse fazer uma viagem, uma vez que nada tinha me falado a respeito. Havia uma mala na sala. Ele pegou-a e come�ou a afivel�-la. Estava ocupado nisso, quando o cocheiro entrou.</p><p>- Ajude-me com essa fivela, cocheiro - disse, ficando de joelho sobre a mala, sem virar a cabe�a.</p><p>O sujeito se aproximou, com um ar provocador e parecendo aborrecido. Estendeu as m�os para ajudar.</p><p>Nesse instante, ouviu-se um estalido agudo, um ru�do met�lico, e Sherlock Holmes p�s-se de p�.</p><p>- Cavalheiros! - gritou, com os olhos brilhantes. - Quero apresentar-lhes o Sr. Jefferson Hope, assassino de Enoch Drebber e Joseph Stangerson.</p><p>Aconteceu tudo num instante. Foi t�o r�pido que n�o podia entender o que estava acontecendo. Tenho uma lembran�a n�tida daquele momento: a express�o triunfante de Holmes e o timbre de sua voz; a express�o assombrada e selvagem do cocheiro, olhando para as algemas cintilantes que haviam surgido em seus pulsos como num passe de m�gica.</p><p>Por um instante ficamos petrificados. Parec�amos est�tuas. Ent�o, com um rugido desarticulado de fera, o prisioneiro livrou-se de Holmes e precipitou-se em dire��o � janela. Os vidros e os caixilhos n�o resistiram.</p><p>Mas antes que seu corpo transpusesse completamente a janela, Gregson, Lestrade e Holmes saltaram sobre ele como c�es de ca�a. Trouxeram o homem de volta e, ent�o, teve in�cio uma luta terr�vel. Ele era t�o forte e t�o furioso que os quatro fomos derrubados v�rias vezes. Parecia ter a for�a convulsiva de um homem durante um ataque epil�tico. Seu rosto e suas m�os estavam terrivelmente machucados pelo vidro, mas a perda de sangue n�o diminu�a sua resist�ncia. Somente quando Lestrade conseguiu segurar o len�o que o sujeito tinha ao pesco�o, quase o estrangulando, � que ele percebeu a inutilidade de lutar. Mesmo assim, s� nos sentimos seguros quando amarramos seus p�s e suas m�os. Feito isso, levantamos cansados e ofegantes.</p><p>- Temos seu carro esperando - disse Sherlock Holmes. - Servir� para lev�-lo � Scotland Yard. E, agora, senhores - continuou com um sorriso am�vel -, chegamos ao final do nosso pequeno mist�rio. Fiquem � vontade para fazer as perguntas que desejarem.</p><p>N�o h� perigo de que eu me recuse a respond�-las.</p></section><section><p><strong><emphasis/></strong></p><empty-line/><p><strong><emphasis/></strong></p><p><strong><emphasis>2� Parte</emphasis></strong></p><p><strong>O PA�S DOS SANTOS</strong></p></section><section><p><strong>Cap�tulo 1</strong></p><p><strong>na grande plan�cie alcalina</strong></p><empty-line/><p>Na regi�o central do grande continente norte-americano, estende-se um deserto �rido e repulsivo que, durante muito tempo, serviu de obst�culo ao avan�o da civiliza��o. Da Sierra Nevada ao Nebrasca, do rio Yellowstone, ao norte, at� o Colorado, ao sul, formou-se uma regi�o de desola��o e sil�ncio. A natureza, por�m, n�o � uniforme nesse lugar terr�vel. Ora apresenta altas montanhas encimadas por neve, ora vales soturnos e sombrios. Rios impetuosos correm para canyons escarpados. Imensas plan�cies ficam brancas de neve no inverno e, no ver�o, tornam-se cinzentas pela poeira alcalina e salitrosa que as recobre. Em tudo, no entanto, persistem as caracter�sticas de uma regi�o est�ril, inacess�vel e miser�vel.</p><p>N�o h� habitantes nesse lugar de desespero. Um bando de Pawnees ou Blackfeet{11}�pode, uma vez ou outra, atravess�-lo em busca de outras terras para ca�a, mas o mais valente dos bravos se alivia ao deixar para tr�s essas plan�cies aterrorizantes e voltar para as pradarias. O coiote se esconde na vegeta��o rasteira, o abutre bate as asas pesadamente pelo ar e o desajeitado urso cinzento se arrasta pelas ravinas escuras, colhendo o que encontra pelas rochas para sobreviver. S�o os �nicos habitantes desse deserto.</p><p>N�o se encontra no mundo inteiro vista mais t�trica que essa que se descortina da encosta norte da Sierra Blanco{12}�<emphasis>,</emphasis>�At� onde a vista alcan�a, estendem-se grandes faixas de terreno plano manchadas pela poeira alcalina e interrompidas por pequenos bosques formados pela vegeta��o raqu�tica dos chaparrais. No extremo limite do horizonte, ergue-se uma longa cadeia de picos montanhosos com cumes escarpados salpicados de neve. Em t�o grande extens�o de terra, n�o se percebe sinal de vida ou de algo relacionado a ela. No met�lico azul do c�u n�o voam p�ssaros nem h� movimento no ch�o agreste e cinzento. Reina por toda a parte um profundo sil�ncio. Por mais que se procure, n�o se consegue ouvir o mais leve ru�do nesse deserto imponente.</p><p>Nada existe al�m do sil�ncio, um sil�ncio absoluto e opressor.</p><p>Foi dito n�o haver vida nessa vasta plan�cie, o que seria totalmente verdadeiro se uma trilha n�o se estendesse pelo deserto at� desaparecer na dist�ncia, conforme se avista da Sierra Blanco. Est� sulcada de rodas e marcada pelos p�s de in�meros aventureiros. Ao longo dessa senda, espalham-se objetos claros que brilham ao sol, em contraste com a areia opaca e alcalina. Aproxime-se e observe! S�o ossos. Uns, grandes e grosseiros; outros, menores e delicados. Os primeiros s�o de gado; os �ltimos, de homens. Essa macabra rota desenvolve-se por quase dois mil e quinhentos quil�metros e podese segui-la pelos despojos daqueles que tombaram durante o percurso.</p><p>No dia quatro de maio de mil oitocentos e quarenta e sete, um solit�rio viajante contemplava esse cen�rio.</p><p>Tinha tal apar�ncia que poderia ser tomado por um g�nio ou um dem�nio daquela regi�o. Um observador teria dificuldade em dizer se tinha quarenta ou sessenta anos. O rosto era magro e macilento e a pele, escura e seca como um pergaminho, estava repuxada sobre os ossos salientes. Os longos cabelos e barba escuros estavam salpicados de branco, os olhos afundavam nas �rbitas e ardia neles um brilho pouco natural. A m�o que segurava o rifle era t�o descarnada quanto a de um esqueleto. Para manter-se em p�, precisou apoiar-se na arma. No entanto a estatura alta e a complei��o dos ossos sugeriam uma constitui��o forte e firme. O rosto muito magro, por�m, e as roupas que pendiam frouxas dos membros esquel�ticos, denunciavam a causa daquela apar�ncia decr�pita e senil. O homem estava morrendo... morrendo de fome e de sede.</p><p>Ele havia se arrastado pela ravina at� essa pequena eleva��o na esperan�a de vislumbrar sinais de �gua.</p><p>Agora, a grande plan�cie salgada se estendia diante de seus olhos e, tamb�m, o cintur�o long�nquo de montanhas agrestes, sem que visse qualquer vegeta��o que comprovasse a presen�a de umidade. N�o vislumbrava em t�o vasto panorama um �nico vest�gio de esperan�a. Seus olhos ardentes e perscrutadores examinaram o norte, o leste e o oeste e ele percebeu, ent�o, que aquela err�ncia chegaria a seu final e que ali, na aridez daquele deserto, ele iria morrer.</p><p>- Por que Wro aqui, em lugar de ser numa cama macia, vinte anos atr�s? - murmurou, sentando-se ao abrigo de uma pedra.</p><p>Antes de sentar-se, descansou no ch�o a arma in�til e um fardo grande amarrado por um xale cinza que viera carregando no ombro direito. Parecia ser demasiado pesado para as suas for�as, porque quando o trouxe ao ch�o foi com uma certa viol�ncia. Nesse mstante, ouviu-se do fardo cinzento um leve gemido e apareceu uma carinha assustada, com olhos castanhos muito brilhantes, seguida de dois punhos mi�dos e muito magros.</p><p>- Voc� me machucou! - disse em tom queixoso uma voz infantil.</p><p>- Desculpe - respondeu o homem, penitenciando-se. - N�o tive inten��o.</p><p>Enquanto falava, desembrulhou o xale cinza, fazendo aparecer uma linda menininha de uns cinco anos de idade. Os sapatos delicados e o elegante vestido rosa com aventalzinho atestavam cuidados maternos. A crian�a estava p�lida e abatida, mas seus bra�os e pernas saud�veis demonstravam ter ela sofrido menos que seu companheiro.</p><p>- Como est� agora? - perguntou ele com ansiedade, porque ela continuava esfregando os cachos dourados e curtos que lhe cobriam a parte de tr�s da cabe�a.</p><p>- D� um beijo que passa - disse a menina com convic��o, mostrando a ele a parte machucada. � � o que a mam�e faz. Onde est� ela?</p><p>- Sua m�e se foi, mas n�o vai demorar muito e voc� estar� com ela.</p><p>- Ela se foi?! - surpreendeu-se a menininha. - Engra�ado, n�o se despediu de mim. � o que sempre faz, mesmo quando vai tomar ch� com a tia. J� faz tr�s dias que n�o volta. Est� muito seco, n�o? N�o temos �gua ou algo para comer?</p><p>- N�o, n�o temos nada, querida. Voc� s� precisa ser um pouco paciente e logo tudo ficar� bem. Encoste sua cabecinha em mim, assim, e ir� se sentir melhor. N�o � f�cil falar com os l�bios ressequidos, mas acho melhor dizer a quantas andamos. O que � que voc� tem a�?</p><p>- Uma coisa bonita! � muito linda! � exclamou com entusiasmo a menina, mostrando-lhe dois fragmentos de mica. - Quando voltarmos para casa, vou d�-los a meu irm�o Bob.</p><p>- Em breve voc� ver� coisas mais belas do que essa - disse o homem com firmeza. - � s� esperar um pouco. Eu ia lhe contar que... lembra quando deix�mos o rio?</p><p>- Claro.</p><p>- Bem, pensamos que ir�amos encontrar outro rio logo, veja s�. Mas algo saiu errado. Compassos, mapa, ou o que seja, n�o funcionaram. N�o apareceu �gua. S� temos algumas gotas para voc� e... e...</p><p>- E voc� n�o pode se lavar - falou ela com seriedade, olhando para seu rosto empoeirado.</p><p>- N�o, nem beber. Veja, o Sr. Bender foi o primeiro a ir; depois, foi o �ndio Pete; a seguir, a Sra. McGregor; logo, Johnny Hones e, depois, querida, foi sua m�e.</p><p>- Ent�o, mam�e tamb�m morreu! - gritou a menina, escondendo o rosto no avental e solu�ando amargamente.</p><p>- Sim, todos se foram, exceto voc� e eu. Ent�o pensei que poder�amos encontrar �gua nesta dire��o. Pus voc� no ombro e caminhei at� aqui. A situa��o, por�m, n�o parece ter melhorado nada. N�o h� muita chance para n�s agora.</p><p>- Quer dizer que vamos morrer? - perguntou a crian�a, refreando os solu�os e erguendo o rostinho banhado de l�grimas.</p><p>- Acho que � o que vai acontecer.</p><p>- Por que n�o me disse? - perguntou, rindo com alegria. - Voc� me deu um susto. Se a gente vai morrer, ent�o logo estaremos com mam�e.</p><p>- Sim, querida, voc� estar�.</p><p>- E voc� tamb�m. Eu vou contar-lhe como voc� foi bom para mim. Aposto que vai nos esperar na porta do c�u com um grande jarro de �gua e muitos bolinhos quentes, tostados dos dois lados, como eu e Bob gostamos. Quando vai ser?</p><p>- N�o sei... Mas n�o vai demorar.</p><p>Os olhos do homem estavam fixos no horizonte ao norte. Na ab�bada azul do c�u, apareceram tr�s pequenas manchas que aumentavam de tamanho a cada momento, t�o r�pido se aproximavam. Logo se viu que eram tr�s grandes p�ssaros. Voaram em c�rculos sobre a cabe�a dos dois andarilhos e pousaram em algumas rocas acima deles. Eram abutres, as aves de rapina do oeste. Esse aparecimento era o pren�ncio da morte.</p><p>- Galos e galinhas - exclamou a menina com entusiasmo, apontando para aqueles vultos agourentos e batendo palmas para faz�-los voar. - Este lugar foi feito por Deus?</p><p>- Claro que foi! - disse seu companheiro, surpreendido com a pergunta inesperada.</p><p>- Ele fez tamb�m Illinois e Missouri � continuou a menina. - Acho que algu�m mais fez este lugar, porque n�o � t�o bem-feito como l�. Esqueceram de p�r �gua e �rvores.</p><p>- O que acha de fazermos uma ora��o? - perguntou o homem com pouca seguran�a.</p><p>- Ainda n�o � noite.</p><p>- N�o importa. N�o � muito comum, mas pode ficar certa de que ele n�o se importa. Diga as ora��es que rezava todas as noites na carro�a, quando est�vamos na plan�cie.</p><p>- Por que n�o reza tamb�m? - perguntou a menina com curiosidade.</p><p>- N�o lembro mais como se reza - respondeu.</p><p>- A �ltima vez que rezei eu tinha a metade do tamanho deste rifle. Acho, no entanto, que nunca � tarde demais. Comece a rezar que eu vou repetindo o que disser.</p><p>- Ent�o precisa se ajoelhar e eu tamb�m � disse ela, estendendo o xale no ch�o. - Voc� tem que p�r as m�os assim. Faz a gente se sentir bem.</p><p>Era uma cena estranha, mas s� havia abutres para assisti-la. Lado a lado, ajoelharam no xale estreito os dois andarilhos: a menina tagarela e o destemido e calejado aventureiro. O rostinho rechonchudo dela e a face angulosa e descarnada dele estavam voltados para o c�u sem nuvem, em ora��o piedosa dirigida a um ser tem�vel, diante do qual se prostravam. As duas vozes, uma fina e clara, a outra grave e rouca, se uniam em ora��o por clem�ncia e perd�o. A ora��o terminou e os dois voltaram para a sombra da rocha. A crian�a adormeceu aninhada contra o peito largo de seu protetor. Ele velou seu sono por algum tempo, mas a natureza foi mais forte. Por tr�s dias e tr�s noites ele n�o se havia permitido descanso ou repouso. Suas p�lpebras foram se fechando lentamente sobre os olhos fatigados e a cabe�a pendeu mais e mais sobre o peito, at� que a barba grisalha misturou-se aos cachos dourados da crian�a e ambos ca�ram no mesmo sono profundo e sem sonhos.</p><p>Tivesse o andarilho permanecido acordado por mais meia hora e seus olhos teriam visto um estranho espet�culo. Muito al�m dali, no extremo limite da plan�cie alcalina, levantava-se uma poeira, muito fraca no in�cio, e dif�cil de ser distinguida das brumas da dist�ncia, mas que gradualmente ficava mais alta e mais larga at� formar uma s�lida e bem definida nuvem. Essa nuvem continuou a crescer at� ficar evidente que s� poderia ser levantada por uma grande quantidade de criaturas em movimento. Em terras mais f�rteis, um observador concluiria tratar-se da aproxima��o de uma daquelas grandes manadas de b�falos que pastam nas pradarias. Obviamente, era imposs�vel acontecer tal coisa em regi�o t�o �rida. � medida que o torvelino de poeira chegava mais perto do solit�rio penhasco, onde repousavam os dois viajantes, come�avam a surgir da areia os toldos de lona das carro�as e as figuras dos cavaleiros armados. A apari��o revelou-se uma grande caravana avan�ando para oeste. Mas que caravana!</p><p>Quando sua vanguarda atingiu o sop� das montanhas, a retaguarda ainda n�o era vis�vel no horizonte. Por toda a imensid�o da plan�cie estendia-se o serpenteante desfile de carro�as e carro��es, de homens montados e homens a p�. Numerosas mulheres cambaleavam sob a carga que levavam, crian�as andavam vacilantes ao lado das carro�as ou espiavam entre os toldos claros.</p><p>Era evidente que aquele n�o era um grupamento comum de imigrantes, mas algum povo n�made compelido, pela for�a das circunst�ncias, a procurar novas terras. Dele elevava-se para o ar um confuso alarido, um ru�do surdo produzido por aquela massa humana, misturado ao rangido das rodas e ao relincho dos animais.</p><p>Forte como era, o barulho n�o foi suficiente para despertar os dois cansados viajantes que dormiam mais acima.</p><p>� frente da coluna iam uns vinte ou mais cavaleiros de fei��es graves e duras, vestidos com escuros trajes de confec��o caseira e armados com rifles. Quando chegaram � base do penhasco, fizeram alto e formaram um breve conselho entre si.</p><p>- As fontes ficam � direita, irm�os - disse um deles, de l�bios salientes, cabelo grisalho e rosto bem barbeado.</p><p>- Seguindo pela direita de Sierra Blanco, alcan�aremos o Rio Grande - disse outro.</p><p>- N�o temam a falta d'�gua! - exclamou um terceiro. - Aquele que a fez brotar das pedras n�o abandonar� os seus eleitos!</p><p>- Am�m! Am�m! - responderam todos.</p><p>Iam prosseguir a viagem quando um dos mais jovens e de vis�o mais apurada exclamou, apontando para o penhasco escarpado acima deles. No alto da rocha, ondulava algo rosado, cujo brilho contrastava com o fundo cinza das pedras. Diante dessa vis�o, todos sofrearam os cavalos e prepararam as armas. Novos cavaleiros vieram a galope para refor�ar a vanguarda. A palavra �peles-vermelhas� estava em todas as bocas.</p><p>- N�o pode haver �ndios aqui - disse o homem mais velho, que parecia estar no comando.</p><p>- J� passamos pelos Pawnees e n�o h� outras tribos antes das grandes montanhas.</p><p>- Vou at� l� verificar, Irm�o Stangerson � disse um do grupo.</p><p>- Eu tamb�m! Eu tamb�m! - gritaram muitas vozes.</p><p>- Deixem seus cavalos aqui embaixo. Ficaremos aguardando - disse o homem mais velho.</p><p>Nesse mesmo momento, os cavaleiros jovens desmontaram, prenderam seus cavalos e iniciaram a subida daquela �ngreme encosta que despertara a curiosidade do grupo. Avan�aram r�pidos e silenciosos, com a seguran�a e a habilidade de exploradores experientes.</p><p>Da plan�cie l� embaixo, os outros podiam v�-los saltando de pedra em pedra, at� que seus vultos se destacassem contra o c�u. O jovem que dera o alarme os guiava. De repente, seus seguidores viram-no erguer os bra�os, como se algo o tivesse espantado. Quando se juntaram a ele, reagiram do mesmo modo diante da cena que seus olhos descortinavam.</p><p>No pequeno plat� que existia no cimo da eleva��o, havia um grande e solit�rio rochedo. Nele estava estendido um homem alto, com fei��es marcantes, barba comprida e em estado de grande fraqueza. A placidez do rosto e a regularidade da respira��o revelavam que dormia. A seu lado, estava deitada uma menininha.</p><p>Seus bra�os alvos e roli�os abra�avam o pesco�o escuro e m�sculo do homem. A cabecinha de cabelos dourados descansava contra o peito de sua t�nica de veludilho. Os l�bios rosados da menina estavam entreabertos, mostrando uma fileira regular de dentes brancos e um sorriso travesso pousado nas fei��es infantis. Nas perninhas claras e gordas vestia meias brancas e sapatos finos com fivelas reluzentes, em estranho contraste com os membros compridos e esqu�lidos de seu companheiro. Na borda do rochedo, acima desse estranho par, pousavam solenemente tr�s abutres que, ao perceberem os rec�m-chegados, soltaram roucos gritos de decep��o e al�aram v�o de imediato.</p><p>Os gritos das aves repugnantes despertaram os adormecidos, que olharam ao redor espantados. O homem p�s-se de p� vacilante e olhou para a plan�cie, t�o desolada no momento em que adormecera e, agora, tomada por grande quantidade de homens e animais. Seu rosto assumiu uma express�o de incredulidade e ele passou a m�o ossuda sobre os olhos.</p><p>- Deve ser isto o que chamam de del�rio - murmurou.</p><p>A menina ficou a seu lado, agarrada a sua t�nica, e nada dizia, mas olhava tudo com o olhar espantado e inquiridor da inf�ncia.</p><p>O grupo de resgate, por�m, logo os convenceu de que seu aparecimento n�o era ilus�o. Um deles pegou a crian�a e colocou-a no ombro, enquanto outros dois seguraram seu esqu�lido companheiro, ajudando-o a dirigir-se �s carro�as.</p><p>- Meu nome � John Ferrier - explicou o andarilho. - Eu e a menina somos os sobreviventes de um grupo de vinte e uma pessoas. Morreram todos de fome e de sede l� na dire��o sul.</p><p>- � sua filha?</p><p>- Acho que agora � - respondeu desafiante. - � minha porque eu a salvei. Ningu�m vai tir�-la de mim.</p><p>Chama-se Lucy Ferrier, de agora em diante. E voc�s, quem s�o? - prosseguiu, olhando com curiosidade para seus robustos e bronzeados salvadores. � Parece que formam uma multid�o.</p><p>- Somos uns dez mil - d�sse um dos jovens. - Somos os perseguidos filhos de Deus, os escolhidos do Anjo Merona.</p><p>- Nunca ouvi falar nele - disse o andarilho. - Parece ter escolhido um bando de gente.</p><p>- N�o zombe do que � sagrado - disse o outro, ressentido. - Acreditamos nas sagradas escrituras gravadas em caracteres eg�pcios em l�minas de ouro batido e entregues ao santo Joseph Smith, em Palmira. Viemos de Nauvoo, no estado de Illinois, onde erguemos nosso templo. Buscamos um ref�gio para nos abrigar dos homens violentos e sem Deus, mesmo que esse abrigo seja no cora��o do deserto.</p><p>O nome Nauvoo evidentemente evocou lembran�as em John Ferrier.</p><p>- Entendo - disse. - Voc�s s�o m�rmons.</p><p>- Sim, somos m�rmons - responderam a uma s� voz.</p><p>- E para onde est�o indo?</p><p>- N�o sabemos. A m�o de Deus nos guia na pessoa de nosso Profeta. Voc� ir� v�-lo. Ele dir� o que faremos com voc�.</p><p>Estavam, agora, na base da eleva��o e uma multid�o de peregrinos os cercavam: mulheres de rostos p�lidos e humildes; crian�as saud�veis e alegres; homens s�rios e impacientes. Muitas foram suas exclama��es de surpresa e de piedade quando perceberam a tenra idade da menina e o estado miser�vel do homem. A escolta de ambos n�o parou, foi em frente, seguida por grande quantidade de m�rmons, at� chegar a uma carro�a que se distinguia das demais pelo tamanho maior e pela apar�ncia suntuosa e cuidada. Puxavam-na seis cavalos, enquanto as demais estavam atreladas a dois ou, no m�ximo, quatro animais. Ao lado do cocheiro sentava-se um homem que n�o devia ter mais do que trinta anos, mas que tinha a cabe�a s�lida e a express�o resoluta pr�prias de um l�der. Estava lendo um livro de lombada escura, mas deixou de faz�-lo com a aproxima��o de toda aquela gente. Ouviu atentamente o relato do epis�dio. Voltou-se ent�o para os dois extraviados.</p><p>- Se n�s os levarmos conosco - falou com solenidade -, ser� como crentes em nossa religi�o. N�o temos lobos em nosso rebanho. Ser� melhor que seus ossos se calcinem no deserto a que se transformem no in�cio de putrefa��o que ir� corromper a fruta toda.</p><p>Vir�o conosco sob essa condi��o?</p><p>- Irei com voc�s sob quaisquer condi��es - respondeu Ferrier com tal �nfase que mesmo os graves Anci�os{13}�n�o puderam evitar um sorriso.</p><p>Somente o l�der manteve seu ar severo e impressionante.</p><p>- Encarregue-se dele, Irm�o Stangerson - disse.</p><p>- D�-lhe comida e bebida, e � crian�a tamb�m. Igualmente ser� responsabilidade sua inici�-lo em nosso credo sagrado. J� nos atrasamos muito. Em frente! Em frente para Si�o!</p><p>- Em frente! Em frente para Si�o! - gritou a multid�o de m�rmons.</p><p>As palavras ecoaram ao longo da extensa caravana, passando de boca em boca at� definhar em um confuso murm�rio a dist�ncia. Estalaram os chicotes, as rodas rangeram. As carro�as come�aram a mover-se e logo a caravana serpenteava mais uma vez deserto afora.</p><p>O Anci�o a quem os dois resgatados haviam sido confiados levou-os para sua carro�a, onde uma refei��o os aguardava.</p><p>- Voc�s devem ficar aqui - disse. - Em poucos dias estar�o recuperados dessa exaust�o. Enquanto isso, lembrem-se de que, de agora em diante, pertencem a nossa religi�o para sempre. Foi Brigham Young quem disse, e ele falou com a voz de Joseph Smith, que � a voz de Deus.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 2</strong></p><p><strong>a flor do utah</strong></p><empty-line/><p>Este n�o � o lugar para rememorar as prova��es e as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes m�rmons at� alcan�ar seu para�so final. Das margens do Mississ�pi �s escarpas ocidentais das Montanhas Rochosas, eles lutaram com uma persist�ncia quase sem precedentes na hist�ria. Os selvagens, os animais ferozes, a fome, a sede, a fadiga, a doen�a, todos os obst�culos que a natureza podia colocar no caminho foram vencidos pela tenacidade anglo-sax�nica. No entanto a longa viagem e os freq�entes temores abalaram mesmo os mais fortes entre eles. N�o houve um s� que n�o ca�sse sobre os joelhos, em fervorosa ora��o, � vista do amplo vale de Utah banhado de sol, e ouvindo da boca de seu l�der que aquela era a terra prometida e que aqueles campos virgens seriam deles para todo o sempre.</p><p>Young logo revelou-se t�o h�bil administrador quanto chefe determinado. Mapas e cartas foram preparados projetando a futura cidade. Nos arredores, as terras foram divididas e distribu�das segundo a posi��o de cada indiv�duo. O comerciante dedicou-se a seu neg�cio e o artes�o a seu of�cio. Ruas e pra�as surgiram na cidade como num passe de m�gica. No campo, homens cercavam e drenavam; aravam e plantavam.</p><p>O ver�o seguinte encontrou a terra coberta pelo ouro dos trigais. Tudo prosperava naquela estranha comunidade. Acima de tudo, o grande templo, constru�do no centro da, cidade, tornava-se cada vez maior e mais alto. Desde as primeiras luzes da manh� at� as �ltimas do anoitecer, as batidas do martelo e o ru�do das serras eram incessantes no monumento que os imigrantes ergueram �quele que os conduzira s�os e salvos por entre tantos perigos.</p><p>Os resgatados, John Ferrier e a menina que partilhara de sua sorte e tinha sido adotada por ele como filha, acompanharam os m�rmons at� o fim de sua peregrina��o. A pequena Lucy Ferrier ficava muito � vontade na carro�a do Anci�� Stangerson, moradia que ela dividia com as tr�s esposas do m�rmon e com seu filho, um rapazinho de doze anos, teimoso e precoce. Tendo superado, com a facilidade da inf�ncia, o choque causado pela perda da m�e, Lucy logo se tornou a preferida das mulheres e adaptou-se � nova vida na casa ambulante de teto de lona. Enquanto isso, Ferrier, recuperado de suas priva��es, distinguia-se como um guia �til e um infatig�vel ca�ador.</p><p>Conquistou t�o rapidamente a estima de seus novos companheiros que, quando chegaram ao fim da peregrina��o, foi decidido, por unanimidade, que ele receberia uma por��o de terra t�o vasta e t�o f�rtil quanto qualquer um dos colonos, com exce��o do pr�prio Young, e de Stangerson, Kemball, Johnston e Drebber, que eram os quatro oficiais mais importantes da Igreja.</p><p>Na terra que assim adquiriu, John Ferrier construiu uma s�lida casa de toros de madeira, que recebeu tantos acr�scimos em anos sucessivos que acabou se transformando numa espa�osa moradia. Era um homem dotado de senso pr�tico, t�o h�bil nos neg�cios quanto no uso das m�os. Sua f�rrea constitui��o permitia-lhe trabalhar dia e noite, lavrando e melhorando suas terras. Sendo assim, seu lote e tudo que pertencia a ele prosperaram extraordinariamente. Em tr�s anos, era o de melhor condi��o entre seus vizinhos, em seis, um sujeito abastado, em nove, um homem rico e, em doze, n�o havia, em toda Salt Lake City, meia d�zia de homens que pudessem se comparar com ele. Do grande mar interior at� as distantes montanhas Wahsatch n�o existia nome mais conhecido que o de John Ferrier.</p><p>Em apenas um ponto, apenas um, ele feria as suscetibilidades de seus confrades. N�o houve argumento ou persuas�o que o induzisse a formar um har�m como seus companheiros. Nunca justificou a persistente recusa, satisfazendo-se em manter firme e resolutamente sua decis�o. Alguns o acusavam de ter pouca convic��o religiosa; outros, de ser t�o �vido por dinheiro que relutava em aumentar despesas. Outros, ainda, falavam em um antigo amor, e numa mo�a loira que havia se consumido de paix�o na costa atl�ntica. Fosse qual fosse a raz�o, Ferrier permaneceu radicalmente celibat�rio.</p><p>Em qualquer outro aspecto, por�m, ele vivia de acordo com a religi�o da jovem comunidade, conquistando a fama de ser um homem reto e ortodoxo.</p><p>Lucy Ferrier cresceu na casa de madeira e em tudo assistia seu pai adotivo. O ar puro da montanha e o b�lsamo dos pinheiros foram a ama e m�e da menina. Ano ap�s ano, ela ficava mais alta e mais forte, o rosto mais corado e o passo mais el�stico. Muitos daqueles que passavam pela estrada principal, ao longo das terras de Ferrier, reviveram pensamentos esquecidos no tempo do mar aquela figura jovem e �gil passeando pelos trigais ou galopando no cavalo de seu pai com a desenvoltura e a gra�a de uma verdadeira filha do oeste. Foi assim que o bot�o se transformou em flor, e o ano em que seu pai foi o mais rico entre todos os fazendeiros foi o mesmo em que ela se tornou a mais bela mo�a americana que poderia ser encontrada na costa do Pac�fico.</p><p>N�o foi o pai, no entanto, o primeiro a descobrir que a menina havia se transformado em mulher. Em tais casos, isso raramente acontece. � uma mudan�a muito sutil e demasiado gradual para ser medida por datas.</p><p>Menos do que todos percebe-o a pr�pria jovem, antes que o timbre de uma voz ou o toque de uma m�o deixe seu cora��o pulsando forte dentro do peito. S� ent�o ela descobre, com um misto de orgulho e temor, que uma natureza nova e mais forte despertou dentro dela. Poucas n�o evocam esse dia, lembrando o pequeno acidente que anunciou o surgimento dessa vida nova. Na vida de Lucy Ferrier, o epis�dio foi bastante s�rio em si mesmo, al�m da influ�ncia futura que teria em seu destino e no de muitas outras pessoas.</p><p>Era uma c�lida manh� de junho e os Santos dos �ltimos Dias estavam t�o ocupados quanto as abelhas, cuja colm�ia haviam escolhido para seu emblema. Nos campos e nas ruas soava o mesmo zunido de trabalho humano. Desciam as estradas poeirentas longas filas de mulas carregadas, todas a caminho do oeste, porque irrompera a febre de ouro na Calif�rnia, e a rota por terra atravessava a cidade dos Eleitos. Havia tamb�m rebanhos de ovelhas e bois vindos de pastagens distantes, filas de imigrantes cansados, homens e cavalos, todos fatigados pela intermin�vel jornada.</p><p>Por entre essa mistura, abrindo caminho com a habilidade de uma amazona perfeita, galopava Lucy Ferrier, com o lindo rosto corado pelo exercicio e os longos cabelos castanhos soltos ao vento. O pai lhe dera uma incumb�ncia para cumprir na cidade e ela estava empenhada nisso, como em tantas outras vezes, com toda a intrepidez da juventude, pensando apenas em sua tarefa e em como agiria. Os empoeirados viajantes a olhavam com espanto e mesmo os �ndios impass�veis, enrolados em suas peles, cederam em seu costumeiro estoicismo, encantando-se com a beleza da mo�a cara-p�lida.</p><p>Ela j� havia atingido a entrada da cidade quando se deparou com a estrada bloqueada por uma grande manada, conduzida por meia d�zia de vaqueiros rudes vindos das plan�cies. Impaciente, tentou ultrapassar esse obst�culo, avan�ando com seu cavalo no que parecia ser um vazio no meio do gado. Mal ela havia entrado, no entanto, e os animais fecharam-se atr�s dela, deixando-a inteiramente cercada pela corrente em movimento de gado de chifres longos e olhos ferozes.</p><p>Acostumada como era a lidar com gado, ela n�o se alarmou, aproveitando todas as oportunidades para avan�ar com seu cavalo, na esperan�a de abrir caminho.</p><p>Por desgra�a, tenha sido por acidente ou des�gnio, os chifres de uma das reses bateram violentamente nos flancos do cavalo, excitando-o at� a loucura. De imediato, o animal empinou-se nas patas traseiras, relinchando com f�ria, e p�s-se a saltar e a corcovear de tal maneira que teria derrubado qualquer cavaleiro menos experiente. A situa��o era muito perigosa. Cada pulo do cavalo assustado o colocava contra os chifres novamente, deixando-o mais enlouquecido. Tudo que ela p�de fazer foi manter-se sobre a sela, uma vez que um escorreg�o significaria uma morte terr�vel sob as patas de animais pesados e enfurecidos.</p><p>N�o sendo acostumada a enfrentar emerg�ncias, sua cabe�a come�ou a dar voltas e foi perdendo o controle das r�deas. Sufocada pela crescente nuvem de poeira e tamb�m pela exala��o dos animais em luta, ela teria desistido de resistir e se desesperado, se uma voz amiga, a seu lado, n�o lhe garantisse que seria socorrida. No mesmo momento, uma m�o morena e musculosa conteve pelas r�deas o cavalo assustado, for�ando caminho entre a manada at� lev�-la para fora dali.</p><p>- Espero que n�o esteja ferida, senhorita - disse com respeito seu salvador.</p><p>Ela olhou para seu rosto escuro e en�rgico e riu com vontade.</p><p>- Estou terrivelmente assustada - disse com ar ing�nuo. - Quem diria que Poncho ficaria com medo de um punhado de vacas?</p><p>- Gra�as a Deus, voc� conseguiu se manter na sela - disse o rapaz com ar s�rio.</p><p>Era um rapaz alto, de apar�ncia rude, montava um cavalo forte, vestia as roupas toscas de um ca�ador e levava um longo rifle sobre o ombro.</p><p>- Voc� deve ser a filha de John Ferrier - observou. - Vi quando saiu cavalgando de casa. Quando estiver com ele, pergunte-lhe se lembra dos Jefferson Hope, de Saint Louis. Se � o mesmo Ferrier, meu pai e ele foram muito ligados.</p><p>- N�o seria melhor ir l� em casa fazer-lhe a pergunta diretamente? - perguntou com cuidado.</p><p>O rapaz pareceu gostar do que ela sugeria. Seus olhos escuros brilharam de satisfa��o.</p><p>- Farei isso - disse. - Passamos dois meses nas montanhas e n�o estamos nada apresent�veis para visitas. Ter� que nos aceitar como estamos.</p><p>- Papai tem muito a agradecer-lhe e eu tamb�m - respondeu. - Ele me quer m�ito. Se aquele gado me pisoteasse, ele jamais se recuperaria.</p><p>- Nem eu - disse o rapaz.</p><p>- Voc�? Bem, n�o vejo em que faria alguma diferen�a para voc�. Sequer � nosso amigo.</p><p>O rosto do rapaz ficou t�o triste com a observa��o que fez Lucy Ferrier sorrir.</p><p>- N�o quis dizer isso - ela comentou. - Naturalmente, a partir de agora voc� � um amigo. Venha nos ver. Agora preciso ir ou papai n�o me confiar� mais seus interesses. Adeus.</p><p>- Adeus - respondeu ele, erguendo o chap�u de abas largas e inclinando-se sobre a m�o mi�da da jovem.</p><p>Ela fez o cavalo dar volta, chicoteou-lhe com o rebenque e disparou como uma flecha pela ampla estrada, erguendo uma nuvem de poeira.</p><p>O jovem Jefferson Hope voltou para junto de seus companheiros triste e taciturno. Estivera com eles nas Montanhas Nevadas em busca de prata e voltavam agora para Salt Lake City na esperan�a de levantar capital suficiente para a explora��o de veios que haviam descoberto. Como os outros, havia se fixado nesse pensamento at� que o repentino incidente o levasse para outra dire��o.</p><p>A vis�o daquela bela mo�a, franca e saud�vel como as brisas da Sierra, ati�ara intensamente seu cora��o inflamado e selvagem. Quando ela desapareceu de sua vista, percebeu que uma crise irrompera em sua vida e que nem as especula��es com a prata nem qualquer outra quest�o seriam de tanta import�ncia para ele como este novo e absorvente interesse. O amor que brotava em seu cora��o n�o era a repentina e vol�vel fantasia de um rapazinho, mas a paix�o feroz e selvagem de um homem de vontade forte e temperamento dominador. Costumava ter sucesso em todos os empreendimentos. Jurou a si mesmo que n�o falharia agora, se a vit�ria dependesse do esfor�o e da perseveran�a de que um homem � capaz de ter.</p><p>Visitou John Ferrier nessa mesma noite, e muitas vezes depois, at� seu rosto se tornar familiar na propriedade. Isolado no vale e absorvido em seu trabalho, John tivera poucas oportunidades de saber o que se passara no mundo exterior nos �ltimos doze anos. Jefferson Hope p�de inform�-lo a respeito de uma maneira tal que interessou tanto ao pai quanto � filha. Havia sido pioneiro na Calif�rnia e contou muitas hist�rias estranhas sobre fortunas feitas e desfeitas naqueles dias desregrados. Tamb�m fora batedor, la�ador, explorador de prata e vaqueiro. Onde quer que houvesse aventuras, l� estava Jefferson Hope. Em pouco tempo, tornou-se o amigo preferido do velho fazendeiro, que discorria sobre suas qualidades com eloq��ncia. Nessas ocasi�es, Lucy ficava em sil�ncio, mas o rosto corado e a felicidade nos olhos brilhantes demonstravam com bastante clareza que seu jovem cora��o n�o lhe pertencia mais. O pai, sem mal�cia, pode n�o ter observado esses sintomas, mas, com certeza, n�o passaram despercebidos ao homem que havia conquistado a afei��o da mo�a.</p><p>Num final de tarde de ver�o, ele veio galopando pela estrada e parou ao port�o. Lucy estava na entrada da casa e veio encontr�-lo. Hope jogou as r�deas sobre a cerca e percorreu com rapidez a senda que conduzia � casa.</p><p>- Vou partir, Lucy - disse, tomando as m�os da mo�a nas suas, e olhando seu rosto com ternura.</p><p>- N�o vou lhe pedir que venha comigo agora, mas estar� pronta para me acompanhar quando eu voltar?</p><p>- E quando ser�? - perguntou ela, enrubescendo e rindo.</p><p>- Daqui a dois meses, no m�ximo. Virei busc�-la e voc� vir� comigo, minha querida. Ningu�m poder� impedir isso.</p><p>- E papai? - perguntou.</p><p>- Ele j� consentiu, contanto que mantenhamos aquelas minas rendendo. N�o tenho medo quanto a isso.</p><p>- Bem, � claro que se voc� e papai j� combinaram tudo, n�o h� mais nada a dizer - murmurou ela com o rosto apoiado no peito largo do rapaz.</p><p>- Gra�as a Deus! - disse ele com voz rouca, inclinando-se para beij�-la. - Est� tudo resolvido, ent�o. Quanto mais eu me demorar, mais dif�cil ser� partir. Est�o me esperando no canyon. Adeus, minha querida... adeus! Voltar� a me ver dentro de dois meses.</p><p>Separou-se dela enquanto falava e, saltando sobre o cavalo, galopou com f�ria, sem olhar ao redor, como se temesse abalar sua decis�o se contemplasse o que estava deixando. Ela permaneceu no port�o, olhos postos nele at� que desaparecesse na dist�ncia. Caminhou, ent�o, de volta a casa e era a mo�a mais feliz de todo Utah.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 3</strong></p><p><strong>john ferrier fala com o profeta</strong></p><empty-line/><p>Tr�s semanas se passaram desde que Jefferson Hope e seus companheiros haviam partido de Salt Lake City. John Ferrier sentia pesar-lhe o cora��o quando pensava na volta do jovem e na iminente perda da filha adotiva. No entanto o rosto feliz e radiante da mo�a reconciliou-o com a id�ia melhor do que qualquer argumento. Bem no fundo de seu resoluto cora��o, ele j� tinha decidido que nada o induziria a permitir que sua filha casasse com um m�rmon. N�o considerava esse tipo de uni�o um casamento, mas sim uma vergonha e uma desgra�a. Fosse qual fosse sua opini�o a respeito da doutrina m�rmon, sobre esse ponto era inflex�vel.</p><p>N�o podia, por�m, abrir a boca sobre o assunto, porque, naqueles dias, era perigoso expor uma opini�o heterodoxa na Terra dos Santos.</p><p>Sim, era muito perigoso. Tanto que mesmo os mais santos mal ousavam sussurrar suas opini�es religiosas e s� o faziam com respira��o contida, temendo que suas palavras fossem mal interpretadas e provocassem uma r�pida rea��o contra elas. As antigas v�timas da persegui��o haviam se transformado, agora, em perseguidores, na acep��o mais terr�vel do termo. Nem a Inquisi��o de Sevilha, nem o Vehmgericht alem�o, sequer as Sociedades Secretas da It�lia colocaram em movimento uma m�quina t�o formid�vel quanto a que estendia sua sombra sobre o estado de Utah.</p><p>Sua invisibilidade e o mist�rio que a cercava faziam a organiza��o duplamente terr�vel. Parecia ser onisciente e onipotente, embora n�o fosse vista ou ouvida. O homem que se levantasse contra a Igreja desaparecia, e ningu�m ficava sabendo para onde tinha ido nem o que lhe acontecera. A esposa e os filhos ficavam aguardando-o em casa, mas ele nunca voltava para contar como havia se sa�do nas m�os de seus ju�zes secretos.</p><p>Uma palavra precipitada ou um ato irrefletido eram seguidos pelo aniquilamento e, no entanto, ningu�m sabia qual a natureza daquele poder suspenso sobre a cabe�a de todos. N�o surpreende que as pessoas vivessem tremendo de medo e que, mesmo no meio do deserto, n�o ousassem murmurar as d�vidas que as oprimiam.</p><p>A princ�pio, esse vago e terr�vel poder era exercido apenas contra os recalcitrantes que, tendo abra�ado a f� m�rmon, quiseram, mais tarde, pervert�-la ou abandon�-la. Em breve, por�m, aumentou seu raio de a��o. O n�mero de mulheres adultas escasseava, e poligamia sem uma popula��o feminina que a suporte n�o passa de uma doutrina est�ril. Come�aram, ent�o, a surgir estranhos rumores. Comentava-se que imigrantes foram assassinados e suas terras saqueadas em regi�es onde n�o havia �ndios. Em seguida, surgiam novas mulheres no har�m dos Anci�os, mulheres que choravam e definhavam, trazendo nos rostos os tra�os de um horror intermin�vel. Andarilhos que permaneciam nas montanhas falavam de bandos de homens armados, embu�ados, silenciosos e escondidos que passavam por eles na escurid�o. Tais hist�rias e rumores ganharam forma e subst�ncia, afirma��o e confirma��o, e, finalmente, um nome definido. At� hoje, nos solit�rios ranchos do oeste, o nome do Bando dos Danitas ou dos Anjos Vingadores � algo sinistro e agourento.</p><p>O conhecimento mais profundo da organiza��o que produzia feitos t�o terr�veis s� servia para aumentar, em lugar de diminuir, o horror que inspirava na mente das pessoas. N�o se sabia quem era membro dessa sociedade implac�vel. Os nomes dos que participavam nas fa�anhas de sangue e viol�ncia praticadas por raz�es pretensamente religiosas eram guardados em absoluto segredo. O melhor amigo a quem se confidenciassem d�vidas, a respeito do Profeta e de sua miss�o, podia ser um dos que surgiria � noite para infligir a ferro e fogo uma horr�vel repara��o. Por isso, todos temiam seu vizinho e ningu�m falava das coisas que secretamente levavam dentro de si.</p><p>Uma bela manh�, John Ferrier estava de sa�da para os campos de trigo quando ouviu o estalido do ferrolho e, olhando pela janela, viu um homem de meia-idade, forte, cabelos claros, caminhando pela senda. O cora��o subiu-lhe � boca, pois era ningu�m mais ningu�m menos que o grande Brigham Young em pessoa. Perturbado, porque sabia que essa visita n�o pressagiava nada de bom, Ferrier correu � porta para saudar o chefe m�rmon. Este, por�m, recebeu com frieza as sauda��es e seguiu o dono da casa at� a sala de visitas com uma express�o de severidade.</p><p>- Irm�o Ferrier - disse ele, pegando uma cadeira e olhando o fazendeiro fixamente, por sob os c�lios claros -, os verdadeiros crentes t�m sido bons amigos seus. N�s o encontramos faminto no deserto e compartilhamos com voc� nossa comida, n�s o trouxemos a salvo para o Vale dos Escolhidos. N�s lhe demos uma �tima por��o de terra e permitimos que enriquecesse sob nossa prote��o. N�o � verdade?</p><p>- Sem d�vida - respondeu John Ferrier.</p><p>- Como retribui��o a tudo isso s� apresentamos uma condi��o: isto �, que voc� deveria abra�ar a verdadeira f�, adaptando-se a seus costumes. Isso foi o que voc� prometeu fazer e, se � verdade o que dizem, � isso que tem negligenciado.</p><p>- Como negligenciei?! - perguntou Ferrier, erguendo as m�os, indignado. - N�o contribu� para o fundo comum? N�o freq�ento o templo? N�o...?</p><p>- Onde est�o suas esposas? - perguntou Young, olhando ao redor. - Chame-as que quero cumpriment�-las.</p><p>- � verdade que n�o me casei - respondeu Ferrier. - Mas as mulheres eram poucas e muitos reclamavam mais do que eu. Eu n�o estava s�, tinha minha filha para me atender.</p><p>- � dessa filha que quero lhe falar - disse o chefe m�rmon. - Ela cresceu e se tornou a flor de Utah e tem agradado os olhos de homens de alta posi��o nesta terra.</p><p>John Ferrier reprimiu um gemido.</p><p>- H� hist�rias sobre damas quais prefiro n�o acreditar... hist�rias de que estaria prometida a um homem que n�o � da nossa f�. Deve ser mexerico de gente desocupada. Qual � o d�cimo terceiro mandamento da lei do santo Joseph Smith? �Toda mo�a de verdadeira f� deve casar com um dos eleit�s; se ela se unir a um infiel, cometer� um grave pecado.� Sendo assim, n�o � poss�vel que voc�, professando a verdadeira religi�o, permita que sua filha viole nossas leis.</p><p>Ferrier n�o respondeu, ficou mexendo nervosamente no chicote.</p><p>- Toda a sua f� ser� testada a partir desse �nico ponto. Assim � que ficou decidido pelo Sagrado Conselho dos Quatro. Sua filha � jovem e n�o queremos que se case quando tiver cabelos grisalhos, mas tampouco ser� privada de escolha. N�s, Anci�os, j� temos muitas novilhas{14}�, mas nossos filhos precisam ter as suas. Stangerson tem um filho e Drebber tamb�m. Qualquer um dos dois receberia com agrado sua filha em casa. Deixe-a escolher entre os dois. S�o jovens e ricos e ambos professam a verdadeira religi�o. O que diz a isso?</p><p>Ferrier permaneceu em sil�ncio por algum tempo com o cenho franzido.</p><p>- Conceda-nos algum tempo - disse afinal. - Minha filha � muito jovem... mal tem idade para casar.</p><p>- Ela ter� um m�s para escolher - disse Young, erguendo-se da cadeira. - No final desse prazo ela dever� dar sua resposta.</p><p>Quando ia cruzar a porta, ele se voltou com o rosto vermelho e os olhos fuzilantes.</p><p>- Teria sido melhor para voc�, John Ferrier - vociferou -, que voc� e ela estivessem calcinando os ossos na Sierra Blanco do que opondo suas fracas vontades �s ordens dos Quatro Sagrados!</p><p>Com um amea�ador gesto de m�o cruzou a porta, e Ferrier ouviu seus passos pesados esmagando o cascalho da senda.</p><p>Ainda estava sentado com o cotovelo apoiado no joelho, pensando em como falaria para sua filha sobre esse assunto, quando sentiu o toque macio de uma m�o sobre a sua e, erguendo os olhos, viu-a em p� a seu lado. Um olhar a seu rosto p�lido e assustado revelou-lhe que ela escutara o que havia acontecido.</p><p>- N�o pude evitar - disse, em resposta a seu olhar. - A voz dele ecoava pela casa. Oh, pai, pai, o que vamos fazer?</p><p>- N�o se assuste - respondeu ele, puxando-a para si e acariciando com a m�o grande e calejada os cabelos castanhos da mo�a. - Resolveremos isso de um jeito ou de outro. Voc� n�o mudou de id�ia a respeito do rapaz, n�o foi?</p><p>Um solu�o e um aperto em sua m�o foram a �nica resposta dela.</p><p>- N�o, claro que n�o. E eu n�o acreditaria, mesmo que voc� dissesse o contr�rio. � um belo rapaz e � crist�o, o que o faz melhor que esses sujeitos daqui, apesar de todas as suas rezas e serm�es. H� um grupo saindo para Nevada amanh�. Vamos dar um jeito de enviar uma mensagem a ele para que saiba a situa��o em que estamos. Se conhe�o esse rapaz, ele vir� para c� com mais rapidez que o tel�grafo el�trico.</p><p>Lucy riu entre l�grimas da compara��o do pai.</p><p>- Quando vier, ele nos aconselhar� sobre o melhor a fazer. Mas � com voc�, pai, que estou preocupada. A gente ouve... ouve tantas hist�rias horr�veis envolvendo pessoas que se opuseram ao Profeta. Sempre acontecem coisas terr�veis a elas.</p><p>- Mas n�s ainda n�o nos opusemos a ele - respondeu o pai. - Teremos tempo para tomar precau��es quando isso acontecer. Temos um m�s inteiro diante de n�s. No final do prazo, � melhor fugirmos de Utah.</p><p>- Ir embora de Utah?</p><p>- N�o temos outra coisa para fazer.</p><p>- E as terras?</p><p>- Vamos reunir todo o dinheiro que pudermos e deixar o resto para tr�s. Para falar a verdade, Lucy, n�o � a primeira vez que penso em fazer isso. N�o me agrada ceder para homem nenhum, como fazem esses sujeitos para o Profeta. Sou um americano livre e tudo isso � novo para mim. Acho que sou velho demais para mudar. Se ele se meter nesta propriedade, pode receber uma carga de chumbo.</p><p>- Mas eles n�o v�o nos deixar sair - objetou a mo�a.</p><p>- Espere at� Jefferson voltar e resolveremos tudo. At� l�, n�o se desgaste, querida, nem fique de olhos inchados, sen�o ele vai cobrar isso de mim quando olhar para voc�. N�o h� nada a temer e n�o h� perigo algum.</p><p>John Ferrier pronunciou essas palavras de conforto em tom confiante, mas Lucy n�o p�de deixar de notar que, aquela noite, ele fechou as portas com uma aten��o especial e, tamb�m cuidadosamente, limpou e carregou a antiga e enferrujada carabina que ficava pendurada na parede de seu quarto.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 4</strong></p><p><strong>fuga desesperada</strong></p><empty-line/><p>Na manh� seguinte � entrevista com o Profeta m�rmon, John Ferrier foi a Salt Lake City e, tendo encontrado a pessoa que conhecia e que estava a caminho das Montanhas Nevadas, confiou-lhe sua mensagem a Jefferson Hope. Nela relatava ao jovem o iminente perigo que os amea�ava, explicando a import�ncia de seu regresso. Feito isso, sentiu-se mais tranq�ilo e voltou para a fazenda mais aliviado.</p><p>Ao aproximar-se de sua casa, surpreendeu-se ao ver cavalos atados �s traves do port�o. Mais surpreso ficou ao entrar, quando encontrou dois rapazes instalados em sua sala de visitas. Um deles, de rosto comprido e p�lido, acomodara-se na cadeira de balan�o, deixando os p�s apoiados sobre a estufa. O outro, um jovem com pesco�o de touro, fei��es grosseiras e volumosas, estava em p�, frente � janela, com as m�os enfiadas nos bolsos, assoviando um hino conhecido. Ambos cumprimentaram Ferrier com um aceno de cabe�a no momento em que ele entrou. U que estava na cadeira de balan�o iniciou a conversa.</p><p>- Talvez n�o nos conhe�a - disse ele. � Este aqui � o filho do Anci�o Drebber e eu sou Joseph Stangerson. Viajamos juntos pelo deserto quando o Senhor estendeu-lhe sua m�o, trazendo-o para o rebanho verdadeiro.</p><p>- Como far� com todas as na��es quando achar que chegou a hora - disse o outro com voz nasalada.</p><p>- Ele m�i devagar, mas sua farinha � fin�ssima.</p><p>John Ferrier assentiu com frieza. J� imaginava quem seriam seus visitantes.</p><p>- Viemos aqui a conselho de nossos pais - continuou Stangerson - a fim de pedir a m�o de sua filha para aquele de n�s que o senhor e ela preferirem. Como tenho apenas quatro esposas e o irm�o Drebber, aqui, tem sete, parece-me que sou eu quem necessita mais.</p><p>- Nada disso, Irm�o Stangerson! - exclamou o outro. - A quest�o n�o � quantas esposas temos, mas quantas podemos sustentar. Meu pai doou-me seus moinhos e, de n�s dois, sou o mais rico.</p><p>- No entanto minhas perspectivas s�o melhores - disse o outro, acalorado. - Quando o Senhor chamar meu pai, herdarei seu curtume e sua f�brica de produtos de couro. Al�m disso, sou o mais velho e o de melhor posto na Igreja.</p><p>- Deixemos que a mo�a decida - replicou o jovem Drebber, sorrindo afetadamente para sua pr�pria imagem refletida na vidra�a. - Deixaremos isso por conta dela.</p><p>Durante esse di�logo, John Ferrier permaneceu � porta, fervendo de raiva, mal contendo a vontade de chicotear as costas de seus visitantes com o rebenque que segurava.</p><p>- Um momento - disse por fim, aproximando-se deles com passadas largas. - Quando minha filha os chamar, podem vir, mas at� l� n�o quero ver suas caras de novo.</p><p>Os dois jovens m�rmons o olharam com espanto.</p><p>Na opini�o deles, a competi��o entre ambos pela m�o da mo�a era a mais alta honra que poderiam render tanto a ela quanto a seu pai.</p><p>- H� duas sa�das nesta sala - gritou Ferrier. - Ali est� a porta e ali a janela. Qual delas preferem usar?</p><p>Seu rosto bronzeado parecia t�o selvagem e t�o amea�adoras suas m�os descarnadas que os visitantes se puseram em p� e bateram em r�pida retirada. O velho fazendeiro seguiu-os at� a porta.</p><p>- Avisem-me quando decidirem quem dever� ser o noivo - disse com sarcasmo.</p><p>- Vai pagar por isso! - gritou Stangerson, branco de raiva. - Desafiou o Profeta e o Conselho dos Quatro. Vai se arrepender at� o �ltimo de seus dias.</p><p>- A m�o do Senhor Ihe ser� pesada! - gritou o jovem Drebber. - Ela se erguer� para esmag�-lo!</p><p>- Ent�o eu come�arei a destrui��o! � exclamou Ferrier, furioso.</p><p>Ele teria corrido para o andar de cima em busca de sua carabina, se Lucy n�o o tivesse segurado pelo bra�o, detendo-o. Antes que pudesse escapar dela, ouviu o ru�do dos cascos dos cavalos e percebeu que estavam fora de seu alcance.</p><p>- Hip�critas! Velhacos! - exclamou, enxugando o suor da testa. - Prefiro v�-la na sepultura, minha menina, que casada com um deles.</p><p>- Eu tamb�m, pai - respondeu ela, decidida. - Mas Jefferson logo estar� aqui.</p><p>- Sim. Ele n�o vai demorar. E quanto mais cedo melhor, porque eu n�o sei qual ser� o pr�ximo movimento deles.</p><p>Sem d�vida, aquele era o momento para que algu�m, capaz de dar conselho e ajuda, viesse em socorro do velho e rijo fazendeiro e de sua filha adotiva.</p><p>Em toda a hist�ria da col�nia, jamais houvera um caso de franca desobedi�ncia � autoridade dos Anci�os.</p><p>Se pequenos erros eram punidos com tanta severidade, qual n�o seria a sina daquele arqui-rebelde? Ferrier sabia que sua fortuna e posi��o n�o o protegeriam de nada. Outros t�o prestigiados e t�o ricos quanto ele j� haviam desaparecido antes, sendo seus bens doados � Igreja. Ferrier era um homem de coragem, mas tremia ao pensar nos vagos e sombrios terrores que pairavam sobre sua cabe�a. Podia enfrentar com firmeza qualquer perigo conhecido, mas esse suspense o enervava.</p><p>Procurava ocultar da filha seus temores e fingia fazer pouco de tudo aquilo. Ela, por�m, o amava muito e percebia com clareza que ele estava tenso.</p><p>Ferrier esperava receber alguma mensagem ou manifesta��o de Young sobre sua conduta. E n�o estava errado, embora ela tenha vindo de maneira inesperada.</p><p>Na manh� seguinte, quando levantou, encontrou, para sua surpresa, um pequeno peda�o de papel pregado � coberta de sua cama por um alfinete, bem � altura de seu peito. Nele estava escrito em letras de imprensa grandes e mal desenhadas:</p><p>�Restam vinte e nove dias para que se corrija, e ent�o...�</p><p>As retic�ncias eram mais aterradoras que qualquer outra amea�a. A maneira como aquele aviso chegara a seu quarto deixava John Ferrier totalmente perplexo, uma vez que os empregados dormiam fora da casa e as portas e janelas estavam bem fechadas. Ele amassou o papel e n�o disse nada � filha, mas seu cora��o estava gelado de pavor. Os vinte e nove dias, ficava evidente, eram o que restava do m�s prometido a Young.</p><p>Que tipo de for�a ou coragem poderia opor a um inimigo armado com t�o misteriosos poderes? A m�o que espetara aquele alfinete poderia t�-lo golpeado no cora��o e ele jamais saberia quem o matava.</p><p>Ferrier ficou ainda mais abalado na manh� seguinte. Estavam sentados � mesa para o desjejum quando Lucy apontou para cima com uma exclama��o de surpresa. No centro do teto havia sido riscado, aparentemente com um ti��o aceso, o n�mero vinte e oito. Para a mo�a, isso era inintelig�vel, e o pai n�o lhe deu nenhum esclarecimento. Naquela noite ele pegou sua arma e ficou de guarda, observando. N�o viu nem ouviu nada. No entanto, na manh� seguinte, um enorme vinte e sete fora pintado no lado de fora da porta.</p><p>Assim foi, dia ap�s dia, e, sempre, com a chegada da manh�, ele via que seus inimigos invis�veis tinham feito o registro, marcando, de algum modo impressionante, quantos dias ainda lhe restavam daquele m�s de gra�a. �s vezes, os n�meros fatais surgiam nas paredes; outras, no assoalho; e, ocasionalmente, em pequenos cartazes fixados sobre as grades ou port�o dos jardins. Por mais que vigiasse, John Ferrier n�o conseguia descobrir de onde vinham aqueles avisos di�rios.</p><p>Sobrevinha-lhe um horror quase supersticioso quando os enxergava. Tornou-se p�lido e extenuado e trazia nos olhos a express�o perturbada dos animais perseguidos. Ele s� tinha uma esperan�a na vida, agora, e era a chegada do jovem ca�ador que estava em Nevada.</p><p>Faltavam vinte dias e, logo, apenas quinze; os quinze reduziram-se para dez e n�o havia not�cias do rapaz ausente. Os n�meros iam minguando sem que houvesse sinal dele. Toda vez que ouvia algu�m cavalgando pela estrada, ou um carreteiro gritando para os animais, o velho fazendeiro corria ao port�o, pensando que, finalmente, chegava socorro. Por fim, quando ele viu o n�mero cinco passar para quatro e este para tr�s, desanimou, perdendo toda a esperan�a de escapar. Sozinho e com um conhecimento limitado das montanhas que cercavam o lugar, ele come�ou a perceber sua impot�ncia. As estradas mais movimentadas eram rigidamente vigiadas e ningu�m podia passar por elas sem uma licen�a do Conselho. Por qualquer caminho que fosse, n�o conseguiria evitar a amea�a que pendia sobre ele.</p><p>Ainda assim, o velho n�o hesitou em sua decis�o de perder a vida antes de consentir com o que ele considerava uma desonra para a filha.</p><p>Certa noite, ele sentou-se, a s�s, mergulhado intensamente em seus problemas e buscando, em v�o, uma maneira de resolv�-los. Pela manh�, havia surgido o n�mero dois na parede da casa e o dia seguinte seria o �ltimo do prazo concedido. O que aconteceria ent�o?</p><p>Sua imagina��o era tomada pelas mais vagas e terr�veis fantasias. E sua filha? O que seria dela depois que ele se fosse? N�o haveria mesmo como escapar da rede invis�vel que se erguera ao redor deles? Deixou cair a cabe�a sobre a mesa e solu�ou diante de sua pr�pria impot�ncia.</p><p>Mas o que era aquilo? Ouvira um leve ru�do de arranhadura, baixinho, mas bem percept�vel no sil�ncio da noite. Vinha da porta da casa. Ferrier esgueirou-se at� o vest�bulo e ficou ouvindo atentamente. Houve uma pausa durante alguns minutos e, ent�o, repetiu-se o som baixo e insidioso. Sem d�vida, algu�m estava batendo suavemente na almofada da porta. Seria o assass�no que, no meio da noite, vinha cumprir as ordens criminosas do tribunal secreto? Ou algum agente marcando a chegada do �ltimo dia da gra�a? John Ferrier concluiu que a morte repentina seria melhor que a expectativa que lhe abalava os nervos e lhe gelava o sangue. Deu um salto � frente, puxou o ferrolho e abriu a porta de relance.</p><p>L� fora tudo estava calmo e silencioso. Era uma linda noite e as estrelas piscavam brilhantemente no c�u.</p><p>O pequeno jardim estendia-se diante dos olhos do fazendeiro cercado pelo port�o e pelas grades. Mas nele ou na estrada n�o havia qualquer ser humano. Ferrier, com um suspiro de al�vio, olhou para a esquerda e para a direita at� que, baixando os olhos em dire��o a seus p�s, viu, com o maior espanto, um homem de bru�os estendido no ch�o, bra�os e pernas estendidos.</p><p>T�o nervoso ficou que teve que encostar-se contra a parede, levando a m�o � garganta para refrear o desejo de gritar. Seu primeiro pensamento foi que aquele homem prostrado era um moribundo ou um ferido, mas p�de logo observar que ele rastejava pelo solo r�pido e silencioso como uma serpente. Quando entrou em casa, ergueu-se, fechou a porta e mostrou ao fazendeiro at�nito o rosto corajoso e a express�o decidida de Jefferson Hope.</p><p>- Bom Deus! - sussurrou John Ferrier. - Voc� me assustou! O que fez voc� vir at� aqui dessa maneira?</p><p>- Me d� comida - pediu o outro com a voz rouca. - N�o tive tempo para comer ou beber nada nas �ltimas quarenta e oito horas.</p><p>Lan�ou-se sobre a carne fria e o p�o que ainda estavam sobre a mesa de jantar de Ferrier, devorando-os vorazmente.</p><p>- E Lucy est� enfrentando isso bem? - perguntou ap�s ter satisfeito sua fome.</p><p>- Sim. N�o conhece a dimens�o do perigo - respondeu.</p><p>- Ainda bem. A casa est� cercada por todos os lados. Por isso rastejei at� aqui. Eles podem ser muito espertos, mas n�o o suficiente para agarrar um ca�ador Washoe.</p><p>Fe rerrier se sentia um novo homem, agora que contava com um aliado t�o dedicado. Segurou a m�o calosa do jovem e a apertou afetuosamente.</p><p>- Tenho orgulho de ser seu amigo - disse. - Muito poucos viriam aqui partilhar o perigo e as dificuldades que enfrentamos.</p><p>- Est� certo - respondeu o jovem ca�ador. - Sinto muito respeito pelo senhor, mas, se estivesse sozinho nesta hist�ria, eu pensaria duas vezes antes de p�r minha cabe�a no vespeiro. � Lucy que me traz aqui, e, antes que qualquer coisa aconte�a a ela, creio que haveria em Utah uma pessoa a menos na fam�lia Hope.</p><p>- O que vamos fazer?</p><p>- Amanh� � o �ltimo dia, e estar� perdido, a menos que aja hoje � noite. Tenho uma mula e dois cavalos esperando no Canyon da �guia. Quanto tem em dinheiro?</p><p>- Dois mil d�lares em ouro e cinco mil em notas.</p><p>- � o bastante. Tenho mais ou menos isso tamb�m. Temos que ir para Carson pelas montanhas. � melhor acordar Lucy. Ainda bem que os criados n�o dormem na casa.</p><p>Enquanto Ferrier se ausentava para preparar a filha para a viagem a ser feita imediatamente, Jefferson Hope fez um pacote com todos os comest�veis que encontrou, e encheu um garraf�o com �gua. Sabia por experi�ncia que eram poucas as fontes nas montanhas e distantes entre si. Mal terminou seus preparativos, o fazendeiro voltou com a filha vestida e pronta para partir. O encontro dos namorados foi caloroso, mas r�pido, porque os minutos eram preciosos e havia muito a ser feito.</p><p>- Temos que partir j� - disse Jefferson Hope, falando em voz baixa mas decidida, como quem conhece a enormidade do perigo, mas est� preparado para enfrent�-lo. - As entradas da frente e dos fundos est�o guardadas, mas, com cuidado, podemos sair pela janela lateral e cruzar os campos. Uma vez na estrada, estaremos a apenas tr�s quil�metros da ravina, onde est�o as montarias. Quando alvorecer, estaremos em plenas montanhas.</p><p>- E se formos detidos? - perguntou Ferrier.</p><p>Hope bateu na coronha do rev�lver que se avolumava � frente de sua t�nica.</p><p>- Se eles forem muitos para n�s, levaremos dois ou tr�s conosco - falou com um sorriso sinistro.</p><p>Foram apagadas todas as luzes da casa e, pela janela escura, Ferrier olhou os campos que tinham sido seus e que, agora, iria abandonar para sempre. H� muito preparava-se para tal sacrif�cio. A honra e a felicidade de sua filha superavam qualquer pesar pela fortuna arruinada. Tudo parecia t�o calmo e feliz - �rvores sussurrantes e uma ampla e silenciosa extens�o de trigo - que era dif�cil pensar que ali se ocultava uma amea�a de morte. No entanto o rosto p�lido e r�gido do jovem ca�ador revelava que, enquanto se aproximava da casa, havia visto o suficiente para saber o que o esperava.</p><p>Ferrier levava a bolsa com o ouro e as notas, Jefferson Hope carregava a parca provis�o e a �gua, enquanto Lucy trazia um pequeno embrulho com alguns de seus pertences mais valiosos. Abriram a janela muito lenta e cuidadosamente e esperaram at� que uma nuvem densa escurecesse um pouco mais a noite.</p><p>Ent�o, um por um atravessaram o pequeno jardim.</p><p>Com a respira��o contida e agachados, esgueiraram-se at� abrigar-se na sebe, e foram contornando-a at� atingir uma abertura que dava para os campos de trigo.</p><p>Tinham acabado de atingir esse ponto quando o jovem segurou seus dois companheiros, puxando-os para a sombra, onde permaneceram calados e tr�mulos.</p><p>Era uma sorte que a vida na pradaria houvesse dado a Jefferson Hope ouvidos de lince. Mal tinham se abaixado, ouviram o pio melanc�lico do mocho soando a alguns metros deles. De imediato, foi respondido por outro pio a pouca dist�ncia dali. No mesmo momento, um vulto vago e escuro emergia da abertura pela qual tinham passado, repetindo o pio lastimoso.</p><p>Um segundo homem apareceu na escurid�o.</p><p>- Amanh� � meia-noite - disse o primeiro, parecendo ser o chefe. - Quando o mocho piar tr�s vezes.</p><p>- Est� bem - replicou o outro. - Devo informar o Irm�o Drebber?</p><p>- Sim, e que ele informe aos outros. Nove por sete!</p><p>- Sete por cinco! - respondeu o outro, e as duas figuras desapareceram em dire��es opostas. As �ltimas palavras, sem d�vida, eram uma esp�cie de senha e contra-senha. Quando o som dos passos dos dois homens desapareceu na dist�ncia, Jefferson Hope p�s-se em p� e, ajudando seus companheiros a passar pela abertura, liderou o percurso atrav�s da planta��o, na maior velocidade poss�vel, amparando e quase carregando a mo�a, nos momentos em que suas for�as pareciam faltar.</p><p>- Depressa! Depressa! - sussurrava ele, vez por outra. - Estamos atravessando a linha dos sentinelas. Tudo depende de nossa rapidez. Depressa!</p><p>Uma vez na estrada, foi tudo mais r�pido. S� encontraram algu�m uma vez e, ent�o, esgueiraram-se para uma planta��o, evitando, assim, serem reconhecidos.</p><p>Antes de alcan�arem a cidade, o ca�ador desviou para uma trilha acidentada e estreita que conduzia �s montanhas. Dois picos escuros e denteados surgiram da escurid�o. O desfiladeiro entre os cumes era o Canyon da �guia, onde estavam os cavalos.</p><p>Com instinto certeiro, Jefferson Hope pegou seu caminho entre os penhascos gigantescos, seguindo ao longo de um rio seco at� alcan�ar um recanto isolado escondido entre as rochas. L� os fi�is cavalos haviam ficado amarrados. A mo�a foi colocada sobre a mula, o velho Ferrier e sua sacola de dinheiro sobre um dos cavalos, enquanto Jefferson Hope puxava o terceiro animal pela trilha escarpada e perigosa.</p><p>O caminho desnorteava qualquer um que n�o estivesse acostumado a enfrentar a natureza em seus aspectos mais selvagens. De um lado, elevava-se um rochedo com uns trezentos metros de altura, negro, r�gido e amea�ador, com longas colunas bas�lticas sobre sua superf�cie �spera como se fossem costelas de um monstro petrificado. Do outro, uma confus�o selvagem de rochas e fragmentos de pedras impossibilitava qualquer avan�o. Havia entre os dois lados uma trilha irregular, t�o estreita em alguns lugares que tinham que caminhar em fila indiana, e t�o acidentada que apenas cavaleiros experimentados poderiam atravess�-la toda. Mesmo assim, apesar de todos os perigos e dificuldades, o cora��o dos fugitivos estava aliviado, pois cada passo aumentava a dist�ncia entre eles e o terr�vel despotismo do qual tentavam escapar.</p><p>No entanto logo tiveram uma prova de que ainda estavam dentro da jurisdi��o dos Santos. Haviam alcan�ado a parte mais agreste e mais isolada do passo, quando a jovem soltou um grito de pavor e apontou para o alto. Na rocha da qual se divisava a trilha, destacava-se, n�tida e escura contra o c�u, a figura de um sentinela solit�rio. Ele tamb�m havia percebido os viajantes e sua interpela��o militar soou no sil�ncio da ravina:</p><p>- Quem vem l�?</p><p>- Viajamos para Nevada - respondeu Jefferson Hope, com a m�o sobre o rifle que pendia da sela.</p><p>Podiam ver o guardi�o solit�rio, com o dedo na arma, observando-os como se n�o estivesse satisfeito com a resposta.</p><p>- Com permiss�o de quem? - perguntou.</p><p>- Dos Quatro Sagrados - respondeu Ferrier.</p><p>Sua experi�ncia com os m�rmons o havia ensinado que aquela era a autoridade mais alta � qual poderia se referir.</p><p>- Nove por sete! - gritou o sentinela.</p><p>- Sete por cinco! - respondeu Jefferson Hope de imediato, lembrando a contra-senha que ouvira no jardim.</p><p>- Passem e que o Senhor os acompanhe! - disse a voz mais acima.</p><p>Al�m daquele posto de sentinela, a trilha se alargava e os cavalos podiam prosseguir a trote. Olhando para tr�s, podiam ver o guarda solit�rio apoiado sobre sua arma. Compreenderam, ent�o, que haviam ultrapassado o �ltimo posto do povo escolhido e que a liberdade os aguardava � frente.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 5</strong></p><p><strong>os anjos vingadores</strong></p><empty-line/><p>Durante toda a noite atravessaram intrincados desfiladeiros e caminhos irregulares salpicados de pedras.</p><p>Mais de uma vez se perderam, mas a familiaridade de Hope com as montanhas permitia que reencontrassem a trilha novamente. Quando rompeu a manh�, depararam-se com uma cena maravilhosa e de selvagem beleza. Em todas as dire��es, grandes picos nevados os cercavam, parecendo que espreitavam um sobre o outro at� desaparecerem no horizonte long�nquo. T�o escarpadas eram as encostas rochosas que os pinheiros e os lari�os pareciam suspensos sobre a cabe�a deles, dando a impress�o de que bastaria uma simples rajada de vento para que despencassem sobre os passantes. Esse temor n�o era apenas uma ilus�o, pois aquele vale est�ril estava entulhado de �rvores e rochas que haviam ca�do de modo similar. No exato momento em que passavam, uma enorme rocha despencou num estrondo rouco, ctespertando ecos nas gargantas silenciosas e assustando os cavalos extenuados, que se puseram a galope.</p><p>Quando o sol se levantou lentamente no horizonte oriental, os picos das gigantescas montanhas foram se iluminando um ap�s o outro, como l�mpadas em um festival, at� que ficassem todos rubros e brilhantes.</p><p>Esse magn�fico espet�culo animou o cora��o dos tr�s fugitivos, renovando-lhes as energias. Pararam junto a uma torrente impetuosa que brotava de uma ravina e deram de beber aos cavalos, participando de um r�pido desjejum. Lucy e o pai gostariam de ter descansado um pouco mais, mas Jefferson Hope foi inexor�vel.</p><p>- A esta altura, j� est�o no nosso rastro - disse.</p><p>- Tudo vai depender de nossa velocidade. Uma vez em Carson, a salvo, poderemos descansar pelo resto de nossas vidas.</p><p>Durante o dia inteiro enfrentaram a travessia pelos desfiladeiros e, � tardinha, calcularam haver se distanciado uns cinq�enta quil�metros de seus inimigos. � noite, escolheram a base de uma sali�ncia rochosa em que as pedras ofereciam certa prote��o contra o vento gelado. Aconchegaram-se uns aos outros para que se aquecessem e aproveitaram umas poucas horas de sono. Antes que amanhecesse, contudo, puseram-se de p� e novamente a caminho. N�o tinham visto nenhum sinal de perseguidores e Jefferson Hope come�ou a pensar que j� estavam praticamente fora do alcance da terr�vel organiza��o em cuja ira haviam incorrido. N�o sabiam que dist�ncia alcan�ava aquela m�o nem qu�o pr�xima estava de apanh�-los e aniquil�-los.</p><p>Por volta da metade do segundo dia de fuga, as poucas provis�es que levaram come�aram a escassear.</p><p>Isso, no entanto, provocou pouco desconforto ao ca�ador, porque havia ca�a nas montanhas e, com freq��ncia, em ocasi�es anteriores, ele dependera de seu rifle para prover a subsist�ncia. Escolheu um recanto abrigado, empilhou uns galhos secos e fez uma boa fogueira para que seus companheiros pudessem se aquecer, uma vez que estavam a uns mil e quinhentos metros acima do n�vel do mar e o ar era frio e cortante naquelas alturas.</p><p>Hope prendeu os animais, deu adeus a Lucy, jogou a arma sobre os ombros e partiu em busca da ca�a que porventura se atravessasse em seu caminho. Voltando-se, viu o velho e a mo�a agachados perto do fogo aceso, enquanto os tr�s animais permaneciam im�veis ao fundo. Depois, os rochedos se interpuseram, escondendo-os de sua vista.</p><p>Ele andou por uns tr�s quil�metros, atravessando uma ravina ap�s outra sem sucesso, embora, pelas marcas deixadas nas cascas das �rvores, e tamb�m por outras indica��es, julgasse haver numerosos ursos nas imedia��es. Finalmente, depois de duas ou tr�s horas de busca infrut�fera, quando, sem esperan�as, j� pensava em voltar, ergueu os olhos e viu algo que lhe encheu de satisfa��o.</p><p>Na borda de um penhasco inclinado, noventa ou cem metros acima, viu um animal semelhante a um carneiro, mas com um par de chifres gigantescos. O chifre-comprido - porque era assim que o animal se chamava - provavelmente cumpria a fun��o de guardi�o de um rebanho invis�vel ao ca�ador. Por sorte, o animal ia em dire��o contr�ria e n�o o viu. Deitando-se de bru�os, Hope apoiou o rifle sobre uma pedra e fez uma longa e cuidadosa pontaria antes de puxar o gatilho.</p><p>O animal saltou no ar, trope�ou por um instante na borda do precip�cio e rolou para o vale mais abaixo.</p><p>Era um animal muito pesado para ser carregado, e o ca�ador contentou-se em cortar-lhe um quarto e parte do flanco. Com o trof�u sobre o ombro, apressou-se em voltar, pois a noite se aproximava. Mal come�ara a andar, no entanto, percebeu a dificuldade com que se defrontava. Na ansiedade em que estava, havia ultrapassado as ravinas conhecidas e, agora, n�o era f�cil reencontrar o caminho que percorrera. O vale em que estava dividia-se e subdividia-se em muitas gargantas, t�o parecidas entre si que era imposs�vel distinguilas. Entrou por uma delas e andou um quil�metro e meio, ou um pouco mais, at� chegar a uma corrente vinda das montanhas que, ele tinha certeza, nunca vira antes. Convencido de ter seguido o caminho errado, tentou outro, mas o resultado foi o mesmo.</p><p>Anoitecia rapidamente e j� estava quase escuro quando, por fim, Hope encontrou-se em um desfiladeiro que lhe era familiar. Mesmo assim, n�o foi f�cil manter-se no caminho certo, porque a lua ainda n�o havia aparecido e os altos penhascos das margens faziam a escurid�o ainda mais profunda. Sobrecarregado com o que levava, cansado pelo esfor�o dispendido, ele cambaleava, animado pelo pensamento de que cada passo o aproximava de Lucy e, al�m disso, de que levava consigo o suficiente para garantir-lhes alimenta��o para o resto da jornada.</p><p>Finalmente atingiu a entrada do desfiladeiro onde deixara os companheiros. Mesmo na escurid�o podia reconhecer o contorno dos penhascos que o cercavam.</p><p>Imaginou que Ferrier e Lucy deveriam estar aguardando-o com ansiedade, pois estivera ausente por umas cinco horas. Satisfeito, levou as m�os � boca, fazendo ecoar por todo o vale um forte �al��, como sinal de que estava se aproximando. Parou, aguardando uma resposta. Nada ouviu al�m de seu pr�prio grito, que ecoou pelas ravinas tristes e silenciosas, voltando a seus ouvidos em repeti��es incont�veis. Gritou mais uma vez, mais alto do que na primeira e, de novo, n�o ouviu sequer um sussurro dos amigos que deixara pouco tempo atr�s. Um terror vago e inomin�vel apossou-se dele.</p><p>Precipitou-se, fren�tico, deixando cair a preciosa ca�a em sua agita��o.</p><p>Quando dobrou a curva, teve uma vis�o ampla do lugar onde a fogueira fora acesa. Ardia ainda uma pilha de ti��es vermelhos l�, mas era evidente n�o ter sido reavivada a partir da hora em que sa�ra. O mesmo sil�ncio mortal reinava por toda parte. Seus temores se transformaram em certeza e ele correu. Nem um �nico ser vivo se via perto do que restara da fogueira: animais, homem e mulher haviam desaparecido.</p><p>Era demasiado evidente que um terr�vel e repentino desastre ocorrera durante sua aus�ncia: um desastre que atingira a todos, mas que n�o deixara pistas.</p><p>Confuso e aturdido pelo golpe, Jefferson Hope sentiu sua cabe�a girar e teve que apoiar-se no rifle para n�o cair. Mas ele era, essencialmente, um homem de a��o e recuperou-se logo de sua moment�nea impot�ncia. Pegou um ti��o meio consumido da fogueira sem labaredas, soprou-o at� conseguir uma chama e, com essa ajuda, p�s-se a examinar o pequeno acampamento. O ch�o tinha marcas de v�rios cascos de cavalo, o que indicava que um grande grupo de cavaleiros rendera os fugitivos, e a dire��o das pegadas revelava que, depois disso, retornaram a Salt Lake City. Teriam levado os dois com eles? Jefferson Hope quase se convencera disso, quando seus olhos ca�ram sobre algo que fez estremecer cada nervo de seu corpo. Pouco al�m, a um lado do acampamento, encontrou um montinho de terra avermelhada que, ele tinha certeza, n�o estava l� antes. N�o havia como se enganar, era uma sepultura recente. O jovem ca�ador aproximou-se e percebeu uma forquilha sobre ela com um papel enfiado na bifurca��o do graveto. A inscri��o sobre o papel era breve, mas suficiente:</p><p>John Ferrier</p><p>Origin�rio de Salt Lake City</p><p>Falecido a 4 de agosto de 1860</p><empty-line/><p>Ent�o, fora-se aquele velho forte que deixara h� t�o pouco tempo, e esse era o seu �nico epit�fio! Jefferson Hope olhou desesperado ao redor para ver se havia uma segunda sepultura, mas n�o viu nada. Lucy fora levada por seus perseguidores terr�veis para cumprir o destino que lhe tinham tra�ado: ser uma das mulheres do har�m do filho de algum Anci�o. Quando o jovem compreendeu que esse seria o fim inevit�vel da mo�a e, tamb�m, sua impot�ncia para evit�-lo, desejou estar como o velho fazendeiro, em sua �ltima e silenciosa morada.</p><p>Mais uma vez, por�m, seu esp�rito combativo afastou a letargia provocada pelo desespero. Se nada mais lhe restava, podia, ao menos, dedicar sua vida � vingan�a. Homem de paci�ncia e perseveran�a ind�mitas, Jefferson Hope sabia tamb�m persistir na vingan�a. Aprendera com os �ndios entre os quais havia vivido. Enquanto permanecia em p�, junto do fogo que restara, sentiu que a �nica coisa capaz de amenizar sua dor seria a retribui��o completa e absoluta a seus inimigos, concretizada por suas pr�prias m�os. Sua vontade f�rrea e sua energia infatig�vel seriam devotadas, ele assim se determinou, a uma �nica finalidade. Com o rosto p�lido e contra�do, voltou ao lugar onde deixara cair a ca�a e, tendo ati�ado o fogo moribundo, cozinhou o suficiente para durar alguns dias. Embrulhou a comida e, mesmo cansado, retomou o caminho das montanhas, seguindo a trilha dos Anjos Vingadores.</p><p>Por cinco dias, p�s doloridos e exausto, ele percorreu os desfiladeiros que atravessara a cavalo. � noite, acomodava-se entre as rochas para umas poucas horas de sono. Antes do dia romper, no entanto, j� havia retomado seu caminho. No sexto dia alcan�ou o Canyon da �guia, local de in�cio da desventurada fuga. Dali, podia ver a Terra dos Santos. Debilitado e exausto, apoiou-se no rifle e ergueu o punho descarnado sobre a cidade silenciosa que se estendia abaixo dele. Enquanto a observava, percebeu que havia bandeirolas em algumas das ruas principais e outros ind�cios de festa. Ainda especulava sobre o que poderia ser aquilo, quando ouviu o bater de cascos de cavalos e viu um cavaleiro avan�ando em sua dire��o. Aproximando-se, reconheceu tratar-se de um m�rmon chamado Cowper, a quem prestara servi�os em diversas ocasi�es. Abordou-o com a inten��o de descobrir qual tinha sido o destino de Lucy.</p><p>- Sou Jefferson Hope. Deve lembrar-se de mim.</p><p>O m�rmon olhou para ele com indisfar��vel espanto. De fato, n�o era f�cil reconhecer naquele andarilho roto e desalinhado, com rosto cadav�rico e olhos de f�ria selvagem, o jovem e garboso ca�ador de outros tempos. Certificando-se da identidade do mo�o, a surpresa do homem transformou-se em consterna��o.</p><p>- Voc� � louco em vir aqui! - exclamou. - Corro risco de vida se nos virem conversando. H� uma ordem de pris�o contra voc�, expedida pelos Quatro Sagrados, por ter ajudado os Ferrier a fugir.</p><p>- N�o tenho medo deles nem de sua ordem - respondeu Hope com seriedade. - Voc� deve saber algo a respeito, Cowper. Por tudo que lhe for mais sagrado, pe�o que me responda a algumas perguntas. Temos sido amigos. Por Deus, n�o se recuse a me responder.</p><p>- O que quer saber? - perguntou o m�rmon pouco � vontade. - Seja r�pido. As pr�prias rochas t�m ouvidos e as �rvores, olhos.</p><p>- O que aconteceu a Lucy Ferrier?</p><p>- Casou-se ontem com o jovem Drebber. Coragem, homem, coragem! N�o lhe sobra muita vida.</p><p>- N�o se preocupe comigo - disse Hope com voz fraca. At� seus l�bios haviam perdido a cor e deixara-se cair sobre a rocha em que se encontrava. - Casou-se, voc� disse?</p><p>- Casou-se ontem. � por isso que a Casa dos Donativos est� embandeirada. Houve uma discuss�o entre Drebber e Stangerson sobre quem deveria ficar com ela. Ambos tomaram parte do grupo de persegui��o. Stangerson foi quem matou o pai da mo�a, o que parecia dar-lhe maior direito. Mas quando a discuss�o foi levada ao Conselho, como o partido de Drebber era mais forte, o Profeta deu a mo�a para ele. No entanto nenhum dos dois ficar� com ela. Vi a morte em seu rosto ontem. Parece mais um fantasma que uma mulher. J� vai?</p><p>- Sim, vou - respondeu Jefferson Hope, que havia se erguido. Seu rosto parecia esculpido em m�rmore, t�o r�gida e dura era sua express�o, os olhos ardendo em brilho funesto.</p><p>- Para onde vai?</p><p>- N�o importa - respondeu.</p><p>P�s a arma sobre o ombro, e caminhou em grandes passos em dire��o ao desfiladeiro. De l�, foi para o cora��o das montanhas, onde habitam as feras selvagens. Mas, entre todas, n�o havia nenhuma mais feroz e perigosa que Jefferson Hope.</p><p>A previs�o do m�rmon cumpriu-se exatamente.</p><p>Fosse pela terr�vel morte do pai ou pelos efeitos do odioso casamento a que fora obrigada, a pobre Lucy n�o levantou a cabe�a nunca mais. Foi se consumindo e morreu dentro de um m�s. Seu est�pido marido, que a desposara principalmente por causa das propriedades de John Ferrier, n�o demonstrou nenhum grande pesar por seu padecimento. Suas outras esposas, por�m, lamentaram a morte e velaram seu corpo na v�spera do sepultando, de acordo com o costume m�rmon. Estavam ainda reunidas em torno do caix�o, nas primeiras horas da manh�, quando, com indiz�vel espanto e temor, viram a porta ser aberta e entrar um homem em farrapos, com express�o selvagem e marcas da exposi��o � intemp�rie.</p><p>Sem um olhar ou uma palavra �s mulheres aninhadas ao redor, Hope dirigiu-se para a branca e silenciosa forma que abrigara em vida a alma pura de LucyFerrier. Parou junto ao corpo, pousou com rever�ncia os l�bios na fria testa da mo�a e, tomando sua m�o, retirou a alian�a do dedo.</p><p>- Ela n�o ser� enterrada com isto! - rugiu com ferocidade.</p><p>E, antes que fosse dado alarme, desceu veloz as escadas e desapareceu. T�o estranho e r�pido fora o epis�dio que os que o assistiram teriam duvidado do que aconteceu, ou tido dificuldade em convencer algu�m do evento, n�o fosse o fato ineg�vel de que o aro de ouro que caracterizava Lucy como esposa havia desaparecido.</p><p>Durante alguns meses, Jefferson Hope perambulou pelas montanhas, levando uma vida selvagem e acalentando o feroz desejo de vingan�a que se apossara dele.</p><p>Na cidade, contavam-se hist�rias sobre uma figura fantasmag�rica que era vista vagando pelos sub�rbios ou assombrando os solit�rios desfiladeiros das montanhas.</p><p>Uma vez, uma bala entrou assoviando pela janela de Stangerson e achatou-se contra a parede a poucos cent�metros dele. Noutra ocasi�o, quando Drebber passava sob um penhasco, uma enorme pedra despencou sobre ele, que escapou de uma morte horr�vel atirando-se de frente contra o solo. Os dois jovens m�rmons n�o demoraram a descobrir a raz�o desses atentados contra suas vidas e organizaram sucessivas expedi��es �s montanhas, na esperan�a de capturar ou matar o inimigo.</p><p>N�o tiveram nenhum sucesso. Ent�o, adotaram a precau��o de jamais andar a s�s ou sair ap�s escurecer, al�m de manter suas casas sob vigil�ncia. Depois deum tempo, como mais nada foi visto ou ouvido do inimigo, relaxaram essas medidas, confiando que o tempo teria acalmado o desejo de vingan�a de Jefferson Hope.</p><p>Muito longe disso, o �dio do jovem apenas aumentara. Seu car�ter era r�gido e implac�vel e a predomin�ncia da id�ia de vingan�a apossara-se t�o completamente dele que n�o deixava espa�o para qualquer outra emo��o. Mas ele era, acima de tudo, um homem pr�tico. Logo percebeu que nem mesmo sua privilegiada constitui��o f�sica suportaria a incessante tens�o a que era submetida. A exposi��o permanente � intemp�rie e a falta de alimenta��o sadia o estavam consumindo.</p><p>Se morresse como um c�o, no meio das montanhas, o que seria de sua vingan�a? No entanto, se persistisse, sem d�vida essa era a morte que teria. Percebeu que, desse modo, estava fazendo o jogo do inimigo. Ent�o, relutante, voltou �s velhas minas de Nevada para recuperar a sa�de e amealhar dinheiro suficiente para persistir em seu objetivo sem passar priva��es.</p><p>Sua inten��o era ausentar-se por um ano, no m�ximo, mas um conjunto de circunst�ncias imprevistas impediu-o de afastar-se das minas por quase cinco anos.</p><p>Findo esse tempo, a lembran�a do que passara e o desejo de vingan�a estavam t�o vivos quanto naquela noite memor�vel em que permaneceu junto � sepultura de John Ferrier.</p><p>Disfar�ado e sob um nome falso, ele voltou a Salt Lake City, sem se preocupar com o que poderia lhe acontecer, contanto que conseguisse fazer o que considerava justi�a. L�, por�m, m�s not�cias o aguardavam.</p><p>Acontecera um cisma entre o Povo Eleito uns meses antes. Alguns membros jovens da Igreja se rebelaram contra a autoridade dos Anci�os e o resultado fora o afastamento de um certo n�mero de descontentes, que partiram de Utah e abandonaram a cren�a. Entre estes estavam Drebber e Stangerson. E ningu�m sabia para onde haviam ido. Diziam que Drebber conseguira converter boa parte de sua propriedade em dinheiro e que partira como um homem rico, enquanto Stangerson, seu companheiro, era comparativamente pobre.</p><p>N�o existia nenhum ind�cio, no entanto, do paradeiro deles.</p><p>Muitos homens, por vingativos que fossem, teriam desistido de qualquer id�ia de desforra diante dessa dificuldade. Jefferson Hope, por�m, n�o vacilou por um momento sequer. Com os poucos recursos que possu�a, e mais o que ganhava nos empregos que conseguia aqui e ali, viajou pelos Estados Unidos, de cidade em cidade, atr�s de seus inimigos. Os anos se passavam, seu cabelo preto j� estava grisalho, e ele continuava, como um c�o de ca�a humano, a mente concentrada no �nico objetivo a que devotara sua vida.</p><p>Finalmente sua perseveran�a foi recompensada.</p><p>Bastou apenas o olhar de relance de um rosto pela janela para revelar-lhe que os homens que perseguia estavam em Cleveland, em Ohio. Voltou para o alojamento miser�vel com todo o plano de vingan�a montado.</p><p>Aconteceu que Drebber, no momento em que olhou pela janela, reconheceu o vagabundo que passava pela rua, lendo em seus olhos o desejo homicida.</p><p>Acompanhado de Stangerson, que havia se tornado seu secret�rio, Drebber correu a um juiz de paz, declarando que sua vida e a do amigo corriam perigo por causa do �dio e do ci�me de um antigo rival. Na mesma noite, Jefferson Hope foi detido e, n�o tendo condi��o de pagar a fian�a, ficou preso algumas semanas.</p><p>Quando, por fim, foi posto em liberdade, soube que a casa de Drebber estava vazia e que ele e seu secret�rio haviam partido para a Europa.</p><p>Mais uma vez o vingador se frustrara e, de novo, o �dio concentrado o impelia a continuar a persegui��o.</p><p>No entanto precisava de dinheiro e teve que voltar, por algum tempo, ao trabalho, economizando cada d�lar para a pr�xima viagem.</p><p>Por fim, tendo reunido o suficiente para sobreviver, partiu para a Europa, seguindo a pista dos inimigos de cidade em cidade, ganhando a vida com trabalhos subalternos, sem, contudo, alcan�ar os fugitivos.</p><p>Quando chegou a S�o Petersburgo, eles haviam partido para Paris. Seguiu-os at� l� e ficou sabendo que tinham acabado de viajar para Copenhague. � capital dinamarquesa chegou, tamb�m, com uns dias de atraso, porque tinham viajado para Londres, onde, finalmente, a persegui��o atingiu seu objetivo.</p><p>Quanto ao que ocorreu l�, o melhor a fazer � citar o pr�prio relato do velho ca�ador, conforme ficou registrado no di�rio do Dr. Watson, a quem j� devemos tanto.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 6</strong></p><p><strong>continua��o das mem�rias</strong></p><empty-line/><p><strong>
  do dr. john watson</strong></p><empty-line/><p>A resist�ncia furiosa de nosso prisioneiro n�o parecia indicar nenhuma ferocidade em rela��o a n�s, pois, ao se perceber impotente, sorriu de maneira af�vel e disse que esperava n�o ter nos machucado durante a luta.</p><p>- Com certeza v�o me levar para o posto policial - disse a Sherlock Holmes. - Tenho um carro estacionado � porta. Se soltarem minhas pernas, vou andando at� l�. N�o sou mais t�o leve para ser carregado quanto era antes.</p><p>Gregson e Lestrade se entreolharam como se achassem a proposta um tanto atrevida, mas Holmes aceitou a palavra do prisioneiro e retirou a toalha com que prendera seus tornozelos. O homem ergueu-se e espichou as pernas, querendo ter certeza de que estava livre. Lembro-me de que pensei comigo mesmo, olhando-o, que raramente vira um homem de constitui��o t�o forte.</p><p>Al�m disso, em seu rosto moreno e bronzeado havia uma express�o en�rgica e determinada t�o formid�vel quanto sua for�a f�sica.</p><p>- Se houver uma vaga para chefe de pol�cia, voc� � o mais indicado para ela - comentou ele, olhando com grande admira��o para meu companheiro de moradia. - A maneira como seguiu minha pista � uma garantia disso.</p><p>- � melhor virem comigo - disse Holmes aos dois detetives.</p><p>- Posso lev�-los - ofereceu-se Lestrade.</p><p>- Muito bem. E Gregson ficar� dentro do carro comigo. O senhor, tamb�m, doutor. Interessou-se pelo caso e poder� segui-lo at� o final.</p><p>Concordei satisfeito e descemos todos juntos. O prisioneiro n�o fez qualquer tentativa de fugir. Caminhou calmamente para o carro que havia sido seu e n�s o seguimos. Lestrade subiu para a bol�ia, chicoteou o cavalo e, em pouco tempo, cheg�vamos a nosso destino. Fomos introduzidos numa sala pequena onde um inspetor de pol�cia anotou o nome do prisioneiro e dos homens que ele assassinara. O oficial era um homem imperturb�vel, de rosto p�lido, que cumpria suas obriga��es de modo mec�nico e indiferente.</p><p>- O prisioneiro comparecer� perante os magistrados durante esta semana - disse. - Enquanto isso, senhor Jefferson Hope, h� algur�za coisa que deseje declarar? Devo avis�-lo que o que disser ficar� registrado e poder� ser usado contra o senhor.</p><p>- Tenho muita coisa a declarar - respondeu lentamente o prisioneiro. - Quero contar a hist�ria toda aos cavalheiros.</p><p>- N�o acha melhor reservar-se para o julgamento? - perguntou o inspetor.</p><p>- Talvez eu nem venha a ser julgado - respondeu. - mao se surpreendam. N�o estou pensando em suic�dio. O senhor � m�dico?</p><p>Virou seus olhos escuros e febris para mim ao fazer a pergunta.</p><p>- Sim, sou - respondi.</p><p>- Ent�o, ponha a m�o aqui - disse com um sorriso, movendo suas m�os algemadas em dire��o ao peito.</p><p>Assim fiz e percebi de imediato a como��o interna. As paredes do peito pareciam vibrar e tremer como uma fr�gil edifica��o em cujo interior funcionasse um poderoso maquinismo. No sil�ncio da sala, eu podia ouvir um som seco e um zumbido que provinham da mesma fonte.</p><p>- Ora! - exclamei. - Voc� tem um aneurisma da aorta!</p><p>- � como o chamam - respondeu, placidamente. - Fui a um m�dico na semana passada e ele me disse que isso vai estourar dentro de alguns dias. Tem piorado nos �ltimos anos. Fiquei assim naquela �poca em que vivia exposto ao tempo e mal alimentado nas montanhas de Salt Lake. Mas eu j� fiz meu trabalho e n�o me importo de morrer agora. Gostaria, no entanto, de deixar relatado tudo o que aconteceu: N�o quero ser lembrado como um assassino comum.</p><p>O inspetor e os dois detetives tiveram uma r�pida discuss�o sobre a conveni�ncia de permitir a ele que contasse sua hist�ria.</p><p>- O senhor acha, doutor, que h� um risco de vida imediato? - perguntou o inspetor.</p><p>- Tudo indica que sim - respondi.</p><p>- Nesse caso, certamente � nosso dever, no interesse da justi�a, tomar seu depoimento - declarou o inspetor. - � livre para apresentar seu relato, senhor, mas volto a adverti-lo de que suas palavras ser�o consideradas.</p><p>- Com sua licen�a, vou me sentar - disse o prisioneiro, passando da palavra � a��o. - Esse aneurisma me deixa cansado com facilidade e a briga que tivemos meia hora atr�s n�o melhora em nada a situa��o. Estou � beira da sepultura e n�o iria mentir para voc�s. Tudo que eu disser ser� a mais absoluta verdade e n�o me interessa o uso que os senhores far�o do que ir�o ouvir.</p><p>Com essas palavras, Jefferson Hope reclinou-se na cadeira e iniciou sua extraordin�ria narrativa. Falava de modo calmo e met�dico, como se os epis�dios que narrava fossem comuns. Posso atestar a precis�o do que foi dito, porque tive acesso ao caderno de Lestrade, no qual as palavras do prisioneiro foram registradas tal qual foram proferidas.</p><p>- N�o lhes interessa saber a raz�o pela qual eu odiava esses homens - disse ele. - Basta saber que eram culpados da morte de dois seres humanos, pai e filha, e que, por isso, j� tinham perdido o direito � pr�pria vida. Depois de todo o tempo transcorrido ap�s o crime, era imposs�vel para mim apresentar queixa contra eles em qualquer tribunal. No entanto eu sabia que eram culpados e decidi ser o juiz, os jurados e o executor deles ao mesmo tempo. Os senhores teriam feito o mesmo, se, sendo dotados de sentimento humano, estivessem em meu lugar.</p><p>�A mo�a de quem falei ia casar-se comigo, h� vinte anos, mas foi obrigada a tornar-se esposa de Drebber, o que a aniquilou. Retirei a alian�a de seu dedo de morta jurando que os �ltimos pensamentos de Drebber seriam sobre o crime pelo qual morreria castigado.</p><p>Levei a alian�a sempre comigo, e segui a ele e a seu c�mplice, pelos dois continentes, at� agarr�-los. Pensavam que me deixariam cansado. N�o conseguiram. Se eu morrer amanh�, o que � prov�vel, morro sabendo que cumpri meu dever neste mundo e que o cumpri bem.</p><p>Os dois est�o mortos e por minhas m�os. N�o tenho mais nada a esperar ou a desejar.</p><p>�Eles eram ricos e eu, um homem pobre; n�o era, portanto, f�cil para mim segui-los. Quando cheguei a Londres, j� estava com os bolsos vazios, e percebi que precisava fazer alguma coisa para sobreviver. Conduzir e montar cavalos sempre foi t�o natural para mim quanto caminhar, de modo que me apresentei ao propriet�rio de uma empresa de carros e consegui logo o emprego. Tinha que entregar uma determinada quantia semanal ao dono do neg�cio e o que a ultrapassasse ficaria comigo. Raramente rendia alguma coisa, mas eu conseguia sobreviver de alguma forma. O dif�cil foi aprender a circular, porque, confesso, dentre todos os labirintos que foram inventados, esta cidade � a mais confusa. Tinha a meu lado um mapa de Londres e, quando localizei os principais hot�is e esta��es da cidade, eu me sa� muito bem.</p><p>�Levou algum tempo at� que eu descobrisse onde viviam os dois cavalheiros. Investiguei aqui e ali e, finalmente, dei com eles. Estavam em uma pens�o em Camberwell, no outro lado do rio. Assim que os descobri, soube que estavam em minhas m�os. Tinha deixado crescer a barba, e n�o havia possibilidade de que me reconhecessem. Iria raste�-los e persegui-los at� chegar a hora certa. N�o os deixaria escapar uma outra vez.</p><p>�Estiveram perto de faz�-lo, mas eu os seguia por onde quer que andassem. �s vezes ia atr�s deles em meu carro; outras, a p�. Mas da primeira forma era melhor, porque n�o podiam ficar distantes de mim. Somente bem cedo pela manh� ou bem tarde � noite � que eu conseguia ganhar algum dinheiro e, sendo assim, comecei a dever a meu patr�o. No entanto isso n�o me preocupava, tudo o que queria era p�r as m�os nos dois.</p><p>��Eles eram, por�m, muito espertos. nunca iam imaginar que pudessem estar sendo seguidos, porque nunca sa�am a s�s, nem mesmo depois de escurecer. Andei atr�s deles por duas semanas, sem perder um s� dia, e nunca os vi separados. Drebber estava b�bado a metade do tempo, mas Stangerson permanecia vigilante.</p><p>Observava-os de manh� � noite, sem ter a menor oportunidade. Mas n�o desanimava, alguma coisa me dizia que se aproximava o momento. Meu �nico temor era que esta coisa em meu peito explodisse antes da hora, deixando meu trabalho incompleto.</p><p>�Por fim, uma noite em que eu estava subindo e descendo a Torquay Terrace, que � como se chama a rua onde estavam hospedados, vi um carro parar em frente � porta da pens�o. Uma bagagem foi trazida para fora e, pouco depois, sa�ram Drebber e Stangerson e tomaram um carro. Chicoteei meu cavalo, sem perd�-los de vista, aborrecido com a possibilidade de que fossem trocar de acomoda��es. Saltaram na esta��o Euston. Deixei um menino tomando conta de meu cavalo e segui-os at� a plataforma. Ouvi perguntarem pelo trem de Liverpool; o guarda respondeu que tinha acabado de partir e que s� haveria outro dentro de algumas horas. Stangerson pareceu irritado com isso, mas Drebber, ao contr�rio, demonstrava satisfa��o. Cheguei t�o perto deles, em meio � agita��o toda, que pude ouvir cada palavra que disseram. brebber disse que tinha um pequeno assunto pessoal a resolver e que, se o outro o esperasse, logo se reuniria a ele. Seu companheiro protestou, lembrando que haviam combinado permanecer juntos. Drebber respondeu que se tratava de um assunto delicado e que precisava ir s�. N�o entendi o que Stangerson respondeu, mas o outro explodiu em pragas, lembrando-lhe que era um assalariado a seu servi�o e que n�o podia pretender dar-lhe ordens. O secret�rio perceneu que era melhor recuar, e limitou-se a combinar que, caso perdesse o �ltimo trem, iria encontr�-lo no Hotel Halliday. Drebber, ent�o, respondeu que estaria na esta��o antes das onze e afastou-se.</p><p>�O momento pelo qual eu esperava h� tanto tempo finalmente havia chegado. Juntos podiam proteger-se um ao outro, mas, separados, ficavam a minha merc�. No entanto n�o agi com precipita��o. Meus planos j� estavam feitos. N�o h� prazer na vingan�a se aquele que nos ofendeu n�o tiver tempo para perceber quem o est� atacando e por qu�. Tinha feito meus planos para que meu inimigo compreendesse que estava pagando por seu antigo pecado. Aconteceu que, dias antes um cavalheiro que fora ver algumas casas em Brixton Road havia esquecido a chave de uma delas em meu carro. Reclamou-a na mesma noite e eu a devolvi, mas, no intervalo, tirei o molde da chave e mandei fazer uma duplicata. Desse modo, pude ter acesso a, pelo menos, um lugar nesta grande cidade onde poderia fazer algo sem ser interrompido. Como atrair Drebber a essa casa era o dif�cil problema que eu tinha que resolver.</p><p>�Descendo a rua, ele entrou num e noutro bar permanecendo quase meia hora no �ltimo deles. Quando saiu, caminhou cambaleante, demonstrando que passara da conta. � minha frente ia um cup� e Drebber o fez parar. Segui-o t�o de perto que o focinho de meu cavalo n�o ficou a mais de um metro de seu cocheiro durante todo o percurso. Cruzamos a ponte de Waterloo e percorremos quil�metros de rua at� que, para minha surpresa, voltamos � rua da pens�o onde ele se hospedara. N�o conseguia imaginar por que raz�o ele voltava para aquela casa, mas fui em frente e estacionei meu carro a uns cem metros dali. Ele entrou na pens�o e o cup� foi embora.�</p><p>- Por favor, me d�em um copo de agua. tenho a boca seca de tanto falar.</p><p>Alcancei-lhe um copo e ele bebeu toda a �gua.</p><p>- Assim est� melhor - disse. - Bem, eu fiquei esperando por um quarto de hora, ou mais, quando, de repente, ouvi barulho de pessoas brigando dentro da casa. No momento seguinte, a porta escancarou-se e apareceram dois homens. Um era Drebber e o outro um jovem que eu nunca vira antes: O rapaz agarrava Drebber pelo colarinho e, quando chegaram ao alto da escada, deu-lhe um empurr�o e um pontap� que o lan�aram no meio da rua.</p><p>�- Canalha! - gritou o rapaz, brandindo a bengala. - Vou lhe ensinar como se insulta uma mo�a s�ria!</p><p>�Ele estava t�o furioso que poderia ter despeda�ado Drebber a bengaladas, se o patife n�o descesse cambaleante a rua o mais r�pido que suas pernas o permitiam. Correu at� a esquina e, vendo meu carro; fez sinal e entrou.</p><p>�- Leve-me para o Hotel Halliday - disse.</p><p>�Quando eu o tive dentro de meu carro, meu cora��o pulsava no peito com tanta alegria que temi fosse aquele meu �ltimo momento, uma vez que o aneurisma poderia n�o suportar a tens�o. Eu dirigia devagar, pensando qual seria a melhor coisa a fazer. Poderia lev�-lo diretamente para o campo e l�, em alguma estrada deserta, ter minha �ltima entrevista com ele. J� estava quase decidido quando ele pr�prio resolveu o problema para mim. A vontade de beber o dominava mais uma vez, e ele ordenou que eu parasse em frente a uma casa de bebidas. Entrou, depois de dizer que eu deveria esperar por ele. Permaneceu l� at� a hora de fechar-se o estabelecimento e, quando saiu, estava t�o b�bado que percebi estar com todo o jogo em minhas m�os.</p><p>�N�o pensem que pretendia mat�-lo a sangue frio. Se o fizesse, estaria cumprindo a mais estrita justi�a, mas n�o era o que eu queria. H� muito decidira dar-lhe uma oportunidade de sobreviver, caso soubesse aproveit�-la. Entre os muitos of�cios que exerci na Am�rica, durante minha vida de andarilho, fui, uma vez, porteiro e varredor do laborat�rio da Universidade de York. Um dia, o professor deu uma aula sobre venenos e mostrou aos estudantes alguns alcal�ides, como os chamava, que extra�ra de certo veneno usado em flechas na Am�rica do Sul. Afirmou que eram t�o potentes que a menor por��o provocava morte imediata. Localizei o frasco onde o preparado era guardado e, quando todos se foram, retirei um pouquinho para mim. Tinha uma boa pr�tica em farm�cia, de modo que transformei aquele alcal�ide em duas pequenas p�lulas sol�veis e pus cada uma em uma caixinha junto a uma p�lula similar, mas sem o veneno. Decidi que, quando chegasse a hora do encontro com os dois cavalheiros, cada um escolheria sua p�lula e eu engoliria as p�lulas restantes. Seria um m�todo igualmente mortal, mas bem menos ruidoso que disparar com um rev�lver atrav�s de um len�o. Desse dia em diante, sempre carreguei comigo as caixinhas com as p�lulas e, agora, era chegado o momento de us�-las.</p><p>�Estava mais perto de uma hora do que da meia-noite. A noite era fria e tenebrosa; soprava um vento furioso e chovia torrencialmente. Por mais feio que fosse o tempo l� fora, por dentro eu estava euf�rico. Tanto que desejava gritar de pura alegria. Se algum dos senhores j� se consumiu por alguma coisa, sonhando com ela por vinte longos anos e, de repente, conseguiu t�-la ao alcance da m�o, ent�o poder� compreender como eu me sentia. Acendi um charuto e puxei umas baforadas para acalmar meus nervos, mas minhas m�os tremiam e mirihas t�mporas latejavam de excita��o. Enquanto dirigia, podia ver Jonn Ferrier e a doce Lucy me olhando e sorrindo para mim no escuro, de modo t�o n�tido como vejo voc�s nesta sala. Durante todo o percurso eles estiveram a minha frente, um de cada lado do cavalo, at� eu parar diante da casa em Brixton Road.</p><p>�N�o se via vivalma por ali e n�o se ouvia nenhum som, exceto o da chuva caindo. Quando olhei pela janelinha do carro, vi Drebber todo encolhido, dormindo seu sono de b�bado. Sacudi-o pelo bra�o.</p><p>�- Est� na hora de descer - avisei.</p><p>�- Muito bem, cocheiro - respondeu.</p><p>�Imagino que tenha pensado estar chegando ao hotel que havia mencionado, porque desceu sem dizer nada e me seguiu pelo jardim. Eu tive que ficar ao lado dele para mant�-lo firme, porque n�o se mantinha sobre as pr�prias pernas. Quando chegamos � porta, eu a abri e fiz com que entrasse na sala. Dou minha palavra que, durante o tempo todo, o pai e a filha caminhavam a nossa frente.</p><p>�- Est� escuro como o diabo! - disse ele, arrastando os p�s.</p><p>�- Logo teremos luz - falei, riscando um f�sforo e acendendo uma vela de cera que trouxera comigo.</p><p>- E agora, Enoch Drebber - continuei, virando-me para ele e erguendo a vela � altura do rosto -, quem sou eu?</p><p>�Ele me fitou por um momento com olhos turvos e embriagados, mas logo vi brotar neles o horror que convulsionou suas fei��es, revelando que me identificara. Cambaleou com o rosto l�vido, enquanto eu via o suor lhe inundar a testa e ouvia seus dentes batendo como castanholas. Diante de semelhante quadro, encostei-me � porta e dei uma gargalhada. Sempre imaginei que a vingan�a seria doce, mas n�o esperava ser tomado por tal contentamento como o que sentia agora.</p><p>- �Cachorro! - exclamei. - 'Tenho seguido seu rastro de Salt Lake City a S�o Petersburgo, e voc� sempre me escapou. Agora, finalmente, suas andan�as chegaram ao fim, porque um de n�s dois jamais voltar� a ver o sol se levantar.</p><p>�Ele se contra�a cada vez mais � medida que eu falava e podia ver em seu rosto que ele me julgava louco. E eu, de fato, estava naquele momento. O sangue martelava minhas t�mporas e penso que teria sofrido um ataque qualquer, se n�o o tivesse esguichado pelo nariz, o que me deu al�vio.</p><p>�- O que pensa agora de Lucy Ferrier? - gritei, trancando a porta e sacudindo a chave diante de seu rosto. - O castigo demorou a chegar, mas finalmente o alcan�ou!</p><p>�Vi tremerem os l�bios do covarde enquanto ele falava. Teria suplicado por sua vida, se n�o estivesse certo de que seria in�til.</p><p>�- Voc� vai me assassinar? - gaguejou.</p><p>�- N�o haver� nenhum assassinato - respondi.</p><p>- Quem fala de assassinato quando se trata de matar um c�o raivoso? Que piedade teve de minha pobre amada, quando a afastou do pai trucidado para lev�-la a seu har�m maldito e indecente?</p><p>�- N�o fui eu que matei o pai dela! - exclamou.</p><p>�- Mas foi voc� que despeda�ou seu cora��o inocente - vociferei, estendendo a caixinha diante dele.</p><p>- Deixe que Deus julgue entre n�s dois. Escolha uma e engula. H� morte em uma e vida noutra. Vamos ver se existe justi�a na terra ou se somos dirigidos pelo acaso.</p><p>�Acovardado, ele se p�s a gritar e tentou fugir, suplicando piedade, mas puxei minha faca e a encostei em sua garganta at� faz�-lo obedecer. Ent�o, engoli a p�lula restante e ficamos em p�, encarando um ao outro, em sil�ncio, por um minuto ou mais, esperando para saber quem viveria e quem iria morrer. Jamais esquecerei a express�o que lhe cobriu o rosto quando come�ou a sentir as primeiras dores, an�ncio de que o veneno estava em seu organismo. Eu me pus a rir e sacudi o anel de noivado de Lucy frente a seus olhos. Foi apenas por um momento, porque a a��o do alcal�ide � r�pida. Um espasmo de dor contorceu-lhe o rosto, ele estendeu as m�os para frente, cambaleou e, ent�o, com um grito rouco, caiu pesadamente sobre o ch�o. Virei-o com o p� e coloquei a m�o sobre seu cora��o. N�o batia. Ele estava morto!</p><p>�O sangue estivera correndo de meu nariz, mas eu n�o percebera. N�o sei o que foi que me deu a id�ia de escrever na parede com ele. Talvez a inten��o perversa de colocar a pol�cia na pista errada, porque me sentia animado e de cora��o leve. Recordei o caso de um alem�o encontrado morto em Nova York com a palavra rache escrita acima dele. Na ocasi�o, os jornais atribu�ram o caso a sociedades secretas. Supus que, aquilo que confundira os nova-iorquinos, confundiria, tamb�m, os londrinos. Ent�o, molhei o dedo em meu pr�prio sangue e escrevi a mesma palavra num lugar conveniente na parede. Caminhei, depois disso, em dire��o a meu carro e vi que n�o havia ningu�m nos arredores, porque a noite continuava horr�vel. J� havia percorrido uma certa dist�ncia quando pus a m�o no bolso onde costumava levar a alian�a de Lucy e percebi que n�o estava l�. Fiquei atordoado com isso, porque era a �nica lembran�a que guardava dela. Imaginando que devia t�-la deixado cair quando me debrucei sobre o corpo de Drebber, voltei e, estacionando o carro em uma rua lateral, corri ousadamente para a casa. Eu estava disposto a qualquer aud�cia antes de perder a alian�a.</p><p>Chegando l�, esbarrei com um policial que estava saindo, e a �nica forma de escapar de suas suspeitas foi fingir que estava totalmente embriagado.</p><p>�Foi assim que Enoch Drebber encontrou seu fim. Tudo que me restava a fazer era dar o mesmo castigo a Stangerson, para que pagasse seu d�bito com John Ferrier. Sabia que estava hospedado no Hotel Halliday e fiquei perambulando pelos arredores o dia inteiro, mas ele n�o apareceu. Deve ter suspeitado de algo, quando Drebber n�o compareceu ao encontro. Stangerson era esperto e nunca afrouxava a guarda. Se pensava, por�m, que me manteria afastado, ficando dentro do hotel, estava completamente enganado. Logo descobri qual a janela de seu quarto. Na manh� seguinte, usando uma das escadas que eram deixadas na passagem atr�s do hotel, subi at� l� mal o dia clareava. Despertei-o, avisando que tinha chegado a hora dele responder pela vida que havia tirado tanto tempo atr�s. Descrevi-lhe a morte de Drebber e ofereci a ele a mesma escolha das p�lulas envenenadas. Em lugar de aceitar a oportunidade de salva��o que eu lhe oferecia, saltou da cama e voou em meu pesco�o. Para defender-me, apunhalei-o no cora��o. Daria no mesmo, em qualquer caso, porque a Provid�ncia n�o iria permitir que aquela m�o culpada pegasse outra que n�o fosse a p�lula envenenada.</p><p>�Tenho pouco mais a dizer, e ainda bem, porque estou no fim de minhas for�as. Continuei trabalhando por mais um dia ou dois, esperando juntar o dinheiro suficiente para voltar � Am�rica. Estava parado no estacionamento quando um menino maltrapilho perguntou se havia um cocheiro l� chamado Jefferson Hope e dizendo que um cavalheiro precisava de um carro na Baker Street, 221 B. Fui at� l� sem suspeitar de nada e tudo o que sei � que, no momento seguinte, este jovem aqui punha algemas em meus pulsos, com efici�ncia nunca vista. Esta � toda minha hist�ria, cavalheiros. Podem me considerar um assassino, mas, em minha opini�o, sou um instrumento da justi�a como voc�s tamb�m o s�o.�</p><p>T�o emocionante fora a narrativa daquele homem e t�o impressionante seu comportamento que hav�amos permanecido calados e absortos. At� mesmo os detetives profissionais, acostumados como eram a todos os aspectos do crime, demonstraram estar vivamente interessados na hist�ria de Jefferson Hope. Quando concluiu, ficamos alguns momentos num sil�ncio quebrado apenas pelo ru�do do l�pis de Lestrade no papel, que dava os retoques finais em seu relato taquigrafado.</p><p>- H� apenas um ponto sobre o qual eu gostaria de ter um esclarecimento - disse, por fim, Sherlock Holmes. - Quem era o c�mplice que se apresentou para recuperar a alian�a quando publiquei o an�ncio?</p><p>O prisioneiro piscou o olho para meu amigo de modo jocoso.</p><p>- Posso contar-lhe meus segredos � respondeu -, mas n�o ponho outras pessoas em encrenca. Vi seu an�ncio e pensei que tanto poderia ser uma cilada quanto, de fato, ser a j�ia que buscava. Meu amigo disp�s-se a ir ver. Penso que n�o vai deixar de admitir que ele se saiu muito bem.</p><p>- Sem d�vida! - exclamou Holmes com �nfase.</p><p>- Agora, senhores - observou o inspetor com gravidade -, vamos cumprir com as formalidades legais. Na quinta-feira, o prisioneiro ser� levado a tribunal e a presen�a dos senhores ser� exigida. At� l�, eu serei respons�vel por ele.</p><p>Tocou uma sineta enquanto falava e Jefferson Hope foi conduzido por dois guardas, enquanto meu amigo e eu deixamos o posto policial e pegamos um carro em dire��o a Baker Street.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 7</strong></p><p><strong>Conclus�o</strong></p><empty-line/><p>T�nhamos sido todos convocados a comparecer perante os magistrados na quinta-feira. Mas, quando esse dia chegou, n�o havia mais necessidade de nosso testemunho. Um juiz mais alto tomara o assunto em suas m�os, e Jefferson Hope fora intimado a um tribunal que o julgaria com absoluta justi�a. Na mesma noite ap�s sua captura, o aneurisma estourou e, pela manh�, ele foi encontrado estirado sobre o piso da cela, com um pl�cido sorriso estampado no rosto. Era como se, em seus momentos finais, recapitulando a vida que levara, tivesse conclu�do que fora �til e que cumprira sua miss�o.</p><p>- Gregson e Lestrade ficar�o furiosos com essa morte - observou Holmes, quando coment�vamos o caso na noite seguinte. - Acabou-se a grande publicidade que esperavam ter.</p><p>- N�o vejo que grande participa��o tiveram nessa captura - respondi.</p><p>- O que voc� traz neste mundo n�o tem nenhuma import�ncia - replicou meu companheiro com amargura. - A quest�o � o que os outros acreditam que voc� fez. N�o importa - continuou ele mais animado, ap�s uma pausa. - Eu n�o perderia essa investiga��o por nada. N�o houve caso melhor de que me lembre.</p><p>Apesar de simples, apresentou aspectos bastante instrutivos.</p><p>- Simples? ! - exclamei.</p><p>- Bem, na verdade, � dif�cil consider�-lo de outra forma - disse Sherlock Holmes, sorrindo diante de minha surpresa. - A prova de sua intr�nseca simplicidade � que, apenas com a ajuda de algumas dedu��es bastante comuns, fui capaz de prender o criminoso em tr�s dias.</p><p>- �, isso � verdade - concordei.</p><p>- J� comentei com voc� que um detalhe fora do comum funciona mais como uma orienta��o do que como um obst�culo. Para resolver problemas semelhantes, o fundamental � saber raciocinar de modo retrospectivo. � um procedimento de grande utilidade e muito f�cil, apesar das pessoas recorrerem pouco a ele. Nos assuntos do dia-a-dia, o mais conveniente � raciocinar para frente e, assim, a outra forma de pensar acaba sendo negligenciada. Para cinq�enta pessoas que raciocinam sinteticamente, h� apenas uma que raciocina de modo anal�tico.</p><p>- Confesso que n�o estou entendendo bem o que quer dizer - falei.</p><p>- N�o esperava que o fizesse. Deixe ver se consigo ser mais claro. A maioria das pessoas, quando ouvem a descri��o de uma seq��ncia de eventos, s�o capazes de dizer qual o prov�vel resultado deles. Alinham mentalmente esses acontecimentos e deduzem o que vir� a acontecer. H� poucas pessoas, no entanto, que, conhecendo um resultado, s�o capazes de desmont�-lo interiormente e recompor cada etapa do processo que levou a tal conclus�o. � dessa faculdade que falo, quando me refiro a raciocinar retrospectivamente ou de forma anal�tica.</p><p>- Compreendo.</p><p>- Este foi um caso em que s� se tinha o resultado e todo o resto ficou por nossa conta descobrir. Deixe eu tentar mostrar as diferentes etapas de meu racioc�nio. Vamos come�ar pelo princ�pio. Como sabe, cheguei a casa a p� e com a mente livre de qualquer impress�o. Naturalmente, comecei pelo exame da rua e l�, conforme j� lhe expliquei, vi com clareza as marcas de um carro que, foi confirmado na investiga��o que fiz, havia estado na casa durante a noite. Tive certeza de que era um carro de aluguel, e n�o um particular, pela bitola estreita das rodas. O que costuma circular em Londres � bem mais estreito que a carruagem de um cavalheiro.</p><p>�Esse foi o primeiro ponto ganho. Caminhei, ent�o, vagarosamente pela trilha do jardim, que era de solo argiloso, muito bom para guardar impress�es. Sem d�vida aquilo pareceu a voc� apenas um lama�al pisoteado, mas para meus olhos treinados cada marca tinha um significado. N�o h� ramo da ci�ncia da investiga��o que seja t�o importante e t�o negligenciado quanto a arte de identificar pegadas. Por sorte, sempre me dediquei muito a isso e a pr�tica constante fez com que se tornasse em mim uma segunda natureza. Notei as pesadas pegadas do agente policial, mas reparei tamb�m na dos dois homens que primeiro passaram pelo jardim. Era f�cil dizer que eram anteriores, porque em alguns lugares suas pegadas haviam sido inteiramente apagadas pelas que vieram depois. Formei, ent�o, o segundo elo de minha cadeia, que me dizia que os visitantes noturnos eram dois, um deles de estatura not�vel (conforme calculei pela largura de seus passos) e o outro elegantemente vestido, a julgar pela marca pequena e distinta deixada por suas botas.</p><p>�Quando entrei na casa, essa suposi��o foi confirmada. O homem bem cal�ado jazia a minha frente. O alto, portanto, cometera o assassinato, se � que houvera um. A v�tima n�o apresentava ferimentos aparentes, mas a express�o perturbada em sua face me garantia que tinha pressentido seu destino antes de ser abatido por ele. Quem morre de doen�a card�aca, ou de outra s�bita causa natural, jamais apresenta fei��es t�o dram�ticas.</p><p>�Ao cheirar os l�bios do homem morto, percebi um ligeiro odor acre, e conclu� que ele havia sido for�ado a beber veneno. Confirmei isso em vista da express�o de �dio e de medo em sua face. Cheguei a tal resultado pelo m�todo de exclus�o, pois nenhuma outra hip�tese se adaptaria aos fatos. N�o imagine que foi uma id�ia muito incomum. A administra��o for�ada de veneno n�o �, de maneira nenhuma, algo novo nos anais do crime. Os casos de Dolsky, em Odessa, e de Leturier, em Montpellier, teriam ocorrido logo a um toxicologista.</p><p>�Agora, vinha a grande quest�o: por qu�? N�o era roubo o m�vel do crime, uma vez que nada tinha sido levado. Seria algo ligado � pol�tica? Ou a uma mulher? Com essa quest�o eu me debatia. Desde o in�cio, eu me havia inclinado a essa �ltima suposi��o. Assassinos pol�ticos fazem seu servi�o e desaparecem. Aquele assassinato, ao contr�rio, tinha sido cometido deliberadamente e o executante deixara suas marcas na sala inteira, mostrando que ele havia estado l� o tempo todo. Devia ser um problema pessoal e n�o pol�tico, uma vez que a vingan�a fora t�o met�dica. Quando a inscri��o foi descoberta na parede, convenci-me mais do que nunca de que estava certo. Era evidente que se tratava de um artif�cio para despistar. Quando a alian�a foi encontrada, no entanto, tudo se confirmou. Era evidente que o assassino a usara para lembrar a v�tima de alguma mulher morta ou ausente. Foi nessa altura que perguntei a Gregson se, no telegrama enviado a Cleveland, ele pedira informa��es a respeito de algum ponto em particular na vida pregressa de Drebber. Ele respondeu, voc� lembra, negativamente.</p><p>�Passei, ent�o, a fazer um cuidadoso exame da pe�a, o que confirmou minha opini�o a respeito da altura do assassino, al�m de fornecer detalhes adicionais, como o charuto Trichinopoly e o comprimento das unhas. Eu havia chegado � conclus�o, uma vez que n�o existiam sinais de luta, de que o sangue que manchava o ch�o escorrera do nariz do assassino tal era sua excita��o. Pude perceber que a dire��o do sangue coincidia com a de seus p�s. � raro que um homem, a menos que tenha complei��o sang��nea, perca tanto sangue devido � tens�o do momento. Assim, arrisquei o palpite de que o criminoso era um homem robusto e de rosto corado. Os fatos provaram que eu estava com a raz�o.</p><p>�Depois que sa� da casa, fui fazer o que Gregson negligenciara. Telegrafei ao chefe de pol�cia de Cleveland, restringindo meu pedido de informa��es �s circunst�ncias relacionadas ao casamento de Enoch Drebber.</p><p>A resposta foi conclusiva. Soube que Drebber j� havia solicitado prote��o policial contra um antigo rival em um caso de amor, cujo nome era Jefferson Hope e que, no momento, estava na Europa. Fiquei, ent�o, sabendo que j� tinha a chave do mist�rio nas m�os e que s� restava apanhar o assassino.</p><p>�Estava convicto de que o homem que entrara na casa com Drebber n�o era outro sen�o aquele que dirigia o carro. As marcas na estrada me revelaram que o cavalo havia ficado andando de um lado para outro, o que n�o teria acontecido se algu�m estivesse tomando conta dele. Ent�o, onde estaria o cocheiro, se n�o dentro de casa? Mais uma vez, seria absurdo supor que um homem em ju�zo perfeito cometesse um crime deliberado em presen�a de uma terceira pessoa que poderia tra�-lo. Por �ltimo, supondo que um homem quisesse seguir outro atrav�s de Londres, que melhor sa�da do que transformar-se em cocheiro de aluguel? Todas essas considera��es levavam-me � conlus�o irresist�vel de que Jefferson Hope poderia ser encontrado entre os cocheiros da metr�pole.</p><p>�Se havia se transformado num deles, n�o existia raz�o para acreditar que tivesse deixado de s�-lo. Ao contr�rio, pelo seu ponto de vista, qualquer mudan�a repentina iria atrair a aten��o sobre ele. Era prov�vel, portanto, que, pelo menos por um tempo, ele continuasse exercendo a mesma fun��o. N�o havia nenhuma raz�o para supor que estivesse sob nome falso. Por que trocaria de nome num pa�s onde ningu�m o conhecia? Organizei, ent�o, minha patrulha de detetives de meninos de rua e mandei-os investigar sistematicamente todos os propriet�rios de carro de aluguel em Londres, at� que encontrassem o homem que eu queria. Voc� ainda deve ter clara lembran�a de como eles foram bem sucedidos e de qu�o r�pido tirei vantagem disso. O assassinato de Stangerson foi um incidente totalmente inesperado, mas, de qualquer modo, dif�cil de ser evitado. E foi atrav�s desse assassinato, como voc� bem o sabe, que tive acesso �s p�lulas, de cuja exist�ncia j� havia suspeitado. Voc� v� que a hist�ria toda foi um encadeamento l�gico de seq��ncias sem a menor falha ou interrup��o.�</p><p>- � fant�stico! - exclamei. - Seus m�ritos deveriam ser publicamente reconhecidos. Voc� devia publicar um relato do caso. Se n�o o fizer, eu o farei por voc�!</p><p>- Fa�a como quiser, doutor - respondeu. - Veja isto! - acrescentou, estendendo-me um jornal. Olhe o que diz!</p><p>Era a edi��o do Eco daquele dia, e o par�grafo por ele indicado era a respeito do caso em quest�o.</p><p>�O p�blico�, dizia o jornal, �perdeu uma oportunidade sensacional com a repentina morte de Hope, o suspeito pela morte de Enoch Drebber e Joseph Stangerson. � prov�vel que os detalhes do caso jamais cheguem a ser conhecidos, embora saibamos por fonte segura que o crime foi o resultado de uma antiga disputa sentimental, na qual amor e mormonismo tiveram sua parte. Consta que ambas as v�timas, quando jovens, pertenceram � religi�o dos Santos dos �ltimos Dias, e Hope, o prisioneiro morto, tamb�m provinha de Salt Lake City. Se o caso n�o tiver outras conseq��ncias, ter� servido, ao menos, para evidenciar, de maneira not�vel, a efici�ncia de nossa for�a policial. Funcionou, tamb�m, como uma li��o aos estrangeiros, de que � melhor que resolvam suas contendas em casa, em lugar de transferi-las para solo brit�nico. N�o � nenhum segredo que os cr�ditos de t�o brilhante captura pertencem inteiramente aos conhecidos investigadores da Scotland Yard, os senhores Lestrade e Gregson. Ao que parece, o indiv�duo foi preso na resid�ncia de um certo Sr. Sherlock Holmes, ele pr�prio um detetive amador que demonstra certo talento para a investiga��o.</p><p>Contando com tais mestres, � de se esperar que, com o tempo, o Sr. Holmes adquira parte da habilidade de Gregson e Lestrade. Espera-se que os dois oficiais recebam algum certificado como reconhecimento por seus servi�os�.</p><p>- N�o foi o que eu lhe disse que aconteceria quando tudo come�ou! - exclamou Sherlock Holmes com uma risada. - A� temos o resultado de nosso �Estudo em vermelho�: dar-lhes um certificado de reconhecimento p�blico.</p><p>- N�o importa - respondi. - Tenho todos os fatos registrados em meu di�rio e o p�blico ir� conhec�-los. At� l�, voc� pode desfrutar a consci�ncia do sucesso, como aquele avarento romano:�<emphasis>Populus me sibilat, at mihi plaudo Ipse domi simul ac nummos contemplar in arca'.</emphasis><emphasis>{15}</emphasis></p><p>*</p><p>FIM</p></section><section><p>�{1}�<emphasis>(Thomas Carlyle (1795-1881). Escritor ingl�s, autor de numerosa obra no campo da hist�ria e do pensamento social. (N. do T.)</emphasis></p><p>{2}�<emphasis>(Pequenas pe�as melodiosas, sentimentais e espirituosas que comp�em as v�r�as cole��es dos Lieder uhne Worte (Can��es sem palavras), de Mendelssohn (compositor e regente alem�o, 1809-1847). (N. do T.)</emphasis></p><p>{3}�<emphasis>(Matem�tico grego, viveu na primeira metade do s�culo III a.C., autor de Elementos, obra dividida em treze livros, um dos mais not�veis comp�ndios de Matem�tica. (N. do T.)</emphasis></p><p>{4}�<emphasis>(Personagem criado pelo poeta, cr�tico e ficcionista americano Edgar Allan Poe (1809-1849). Dupin � considerado o primeiro detetive do romance policial. (N. do T.)</emphasis></p><p>{5}�<emphasis>(�mile Gaboriau (1835-1873), ficcionista franc�s, autor de narrativas policiais que celebrizaram seu personagem, o detetive Lecoq. (N. do T.)</emphasis></p><p>{6}�<emphasis>(Cole��o de contos picarescos de Boccaccio (1313-1375), escritor italiano. (N. do T.)</emphasis></p><p>{7}�<emphasis>(Moeda inglesa de ouro equivalente a dez xelins. (N. do T.)</emphasis></p><p>{8}�<emphasis>(Charles Robert Darwin (1809-1882), naturalista brit�nico cuja teoria da evolu��o atrav�s da sele��o natural causou uma revolu��o na ci�ncia biol�gica. (N. do T.)</emphasis></p><p>{9}�<emphasis>(Um tolo sempre encontra algu�m ainda mais tolo que o admira. (N. do T.)</emphasis></p><p>{10}�<emphasis>(Em franc�s, no original. Tem o sentido de exagero, excessivo. (N. do T.)</emphasis></p><p>{11}�<emphasis>(Tribos abor�genes dos Estados Unidos da Am�rica. (N. do T.)</emphasis></p><p>{12}�<emphasis>(Conforme original. (N. do T.)</emphasis></p><p>{13}�<emphasis>(Oficiais religiosos que ocupam alto cargo na hierarquia da Igreja M�rmon. (N. do T.)</emphasis></p><p>{14}�<emphasis>(Herber C. Kemball, em um de seus serm�es, empregou esse afetuoso ep�teto para referir-se a suas cem esposas. (N. do A.)</emphasis></p><p>{15}�(O povo me vaia, mas eu me aplaudo, quando contemplo o dinheiro em minha arca. (N. do T.)</p></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>O Sinal dos Quatro</strong></p></section><section><p><strong>Cap�tulo 1</strong></p><p><strong>a ci�ncia da dedu��o</strong></p><p><strong/></p><p>
    S<emphasis>herlock Holmes pegou o frasco de coca�na no consolo da</emphasis>�lareira e tirou a seringa de inje��es hipod�rmicas do estojo de marroquim. Com os dedos longos, brancos e nervosos ajustou a agulha delicada e arrega�ou a manga esquerda da camisa. Ficou pensativo por algum tempo, olhando para as marcas e cicatrizes no antebra�o, causadas pelas cont�nuas picadas. Finalmente, introduziu a ponta fina, apertou o �mbolo e recostou-se na poltrona, com um suspiro prolongado de satisfa��o.</p><p>Tr�s vezes por dia, durante muitos meses, eu tinha assistido a esta opera��o, mas n�o conseguia me acostumar a ela. Pelo contr�rio, cada dia eu ficava mais irritado com esse espet�culo, e todas as noites a minha consci�ncia me acusava de covarde por n�o protestar.</p><empty-line/><p>Mil vezes eu dissera a mim mesmo que lavava as m�os neste caso. Havia no ar indolente do meu amigo tamanha frieza, que ningu�m ousaria permitir-se a menor liberdade. As suas grandes qualidades, o seu jeito superior e o conhecimento que eu tinha das suas faculdades extraordin�rias me intimidavam e me faziam recuar.</p><empty-line/><p>Mesmo assim, naquela tarde, fosse por causa do Beaune que eu tinha tomado no almo�o ou por uma irrita��o maior diante do seu desembara�o, senti de repente que devia protestar.</p><empty-line/><p>� O que � hoje � perguntei � morfina ou coca�na? Ele ergueu os olhos languidamente do velho livro�em letra g�tica que abrira, e respondeu:</p><empty-line/><p>� � coca�na, em solu��o de 7%. Quer experimentar?</p><empty-line/><p>� N�o � respondi asperamente. � O meu organismo ainda n�o se recuperou da campanha no Afeganist�o. N�o ag�enta esses excessos.</p><empty-line/><p>Ele sorriu da minha veem�ncia e disse:</p><empty-line/><p>� Talvez voc� tenha raz�o, Watson. Parece-me que sua influ�ncia no f�sico � nefasta. Mas � t�o estimulante para o esp�rito e deixa a mente t�o clara que os efeitos secund�rios n�o t�m muita import�ncia.</p><empty-line/><p>� Mas pense no que isso vai lhe custar � observei com seriedade. � O seu c�rebro pode, como diz, ser estimulado, mas por um processo patol�gico e m�rbido que envolve uma altera��o nos tecidos e pode, no m�nimo, provocar uma fragilidade permanente. Voc� bem sabe como a rea��o � terr�vel. � uma coisa que n�o vale a pena. Por que � que voc� deveria, por causa de um prazer passageiro, arriscar-se a perder a grande capacidade com que foi dotado? Lembre-se de que n�o lhe falo apenas como um camarada, mas como um m�dico que tem uma certa responsabilidade pela sua sa�de.</p><empty-line/><p>Ele n�o pareceu ofendido. Pelo contr�rio, juntou as pontas dos dedos e apoiou os cotovelos nos bra�os da poltrona como se estivesse saboreando a conversa.</p><empty-line/><p>� O meu esp�rito � disse ele � rebela-se contra a estagna��o. D�em-me problemas, muito trabalho, o mais complicado criptograma ou a mais intrincada an�lise e eu estarei no meu meio. Ent�o, dispensarei todos os estimulantes artificiais. Detesto a rotina mon�tona da exist�ncia. Anseio pela exalta��o mental. Foi por isso que escolhi a minha profiss�o especial. Ou melhor, eu a criei, porque sou o �nico no mundo.</p><empty-line/><p>� O �nico detetive particular? � perguntei, erguendo as p�lpebras.</p><empty-line/><p>� O �nico detetive consultor particular � respondeu. � Eu sou o �ltimo e supremo recurso nos casos criminais. Quando Gregson, Lestrade ou Athelney Jones ficam desorientados, o que, ali�s, � o estado normal neles, trazem-me o caso para que o examine. Eu verifico os dados, como um perito, e dou uma opini�o de especialista. Nesses casos, n�o reivindico o m�rito. Meu nome n�o aparece nos jornais. O trabalho em si, o prazer de descobrir uma �rea para exercitar as minhas faculdades s�o a minha maior recompensa. Voc� mesmo teve ocasi�o de observar o meu m�todo de trabalho no caso de Jefferson Hope.</p><empty-line/><p>� Isso � verdade! � eu disse, com lealdade. � Nunca em minha vida houve algo que me impressionasse tanto. Eu at� transformei esse caso numa pequena brochura, com o t�tulo um tanto fant�stico de�<emphasis>Um estudo em vermelho</emphasis>.</p><empty-line/><p>Ele abanou a cabe�a tristemente:</p><empty-line/><p>� Eu dei uma olhada nesse trabalho e, na verdade, n�o posso felicit�-lo por ele. A investiga��o �, ou deveria ser, uma ci�ncia exata e, portanto, deve ser tratada da mesma forma fria, sem emo��o. Voc� tentou dar-lhe um sabor rom�ntico, e o efeito � o mesmo que transformar uma hist�ria de amor, ou uma fuga rom�ntica na quinta proposi��o de Euclides.</p><empty-line/><p>� Mas o romance l� est� � reagi. � Eu n�o posso desprezar os fatos.</p><empty-line/><p>� Alguns fatos deviam ter sido suprimidos, ou, pelo menos, devia ter observado um sentido correto de propor��o ao tratar deles. O �nico ponto da quest�o que merecia ser mencionado era o curioso racioc�nio anal�tico dos efeitos para as causas, por meio do qual consegui desvendar tudo.</p><empty-line/><p>Fiquei magoado com esta cr�tica a um trabalho que eu fizera especialmente para agradar-lhe.</p><empty-line/><p>Confesso tamb�m que me irritava a vaidade, que parecia exigir que cada linha do meu folheto fosse dedicada a exaltar seus feitos. Por mais de uma vez eu tinha observado que havia vaidade por tr�s do modo tranq�ilo e did�tico do meu companheiro.</p><empty-line/><p>Entretanto, n�o fiz nenhuma observa��o, e fiquei sentado afagando minha perna ferida. Algum tempo antes ela fora atingida por uma bala Jezail e, embora n�o me impedisse de andar, do�a sempre que o tempo mudava.</p><empty-line/><p>� Minha atividade ampliou-se recentemente at� o continente � disse Holmes depois de um sil�ncio, enchendo de novo o cachimbo. � Na semana passada fui consultado por Fran�ois le Villard, que, como voc� provavelmente sabe, passou a dirigir h� pouco tempo o servi�o policial franc�s. Tem a capacidade c�ltica da intui��o r�pida, mas tem defici�ncias quanto aos conhecimentos essenciais ao desenvolvimento supremo da sua arte. O caso dizia respeito a um testamento e tinha algumas caracter�sticas interessantes. Mencionei-lhe dois casos semelhantes, um ocorrido em Riga, em 1857, e o outro em Saint Louis, em 1871, que sugeriram a ele a verdadeira solu��o. A� est� a carta que recebi dele esta manh�, agradecendo-me o aux�lio.</p><empty-line/><p>Estendeu-me uma folha dobrada de papel estrangeiro. Num relance vi uma profus�o de pontos de exclama��o entre alguns�<emphasis>magnifique coup-de-ma�tre e tours de force</emphasis>, que demonstravam a grande admira��o do franc�s.</p><empty-line/><p>� Fala como um disc�pulo dirigindo-se ao mestre � comentei.</p><empty-line/><p>� Oh! ele exagera o meu aux�lio � disse Holmes com displic�ncia. � Ele pr�prio tem um talento consider�vel. Tem duas das tr�s qualidades essenciais ao detetive perfeito: capacidade de observa��o e de dedu��o. Faltam-lhe conhecimentos, mas isso vir� com o tempo. Ele est� agora traduzindo os meus pequenos trabalhos para o franc�s.</p><empty-line/><p>� Seus trabalhos?</p><empty-line/><p>� Ah, n�o sabia? � disse ele rindo. � � verdade, cometi o delito de escrever v�rias monografias. Todas sobre assuntos t�cnicos. Aqui tem uma, por exemplo: � sobre a�<emphasis>Diferen�a entre as cinzas dos v�rios tipos de tabaco</emphasis>. Eu relaciono 140 tipos de fumo de charuto, cigarro e cachimbo, com ilustra��es mostrando a diferen�a das cinzas. � um ponto sempre controverso nos casos criminais e que muitas vezes constitui o fio da meada. Se voc� puder determinar com seguran�a que um assassinato foi cometido por um homem que estava fumando um�<emphasis>lunkah</emphasis>�indiano, isso obviamente restringe o campo de investiga��es. Para o olho treinado, h� tanta diferen�a entre as cinzas de dois fumos diferentes como entre um repolho e uma batata.</p><empty-line/><p>� Voc� tem um talento especial para os detalhes � observei.</p><empty-line/><p>� Dou-lhes um valor muito grande. Esta � a minha monografia sobre pegadas, com algumas observa��es sobre o uso do gesso para conservar as�<emphasis>impress�es</emphasis>. Aqui est� tamb�m um trabalhinho curioso sobre a influ�ncia do of�cio na forma da m�o, com reprodu��es das m�os de revestidores de telhados, marinheiros, calafates, compositores, tecel�es e lapidadores. � um assunto de grande interesse pr�tico para a investiga��o cient�fica, principalmente nos casos de corpos n�o reclamados, ou para descobrir os antecedentes dos criminosos. Mas eu estou cansando voc� com esta minha mania.</p><empty-line/><p>� De modo algum � respondi com sinceridade.</p><empty-line/><p>� Isto me interessa muito, principalmente desde que o vi aplicar os seus m�todos. Mas falou h� pouco sobre observa��o e dedu��o. Acho que, at� um certo ponto, uma influi na outra.</p><empty-line/><p>� Sim, talvez... � respondeu, encostando-se voluptuosamente na poltrona e tirando do cachimbo baforadas azuladas. � Por exemplo: a observa��o me mostra que voc� esteve esta manh� na ag�ncia postal da Wigmore Street e a dedu��o indica que foi passar um telegrama.</p><empty-line/><p>� Exato! Perfeito nos dois pontos! Mas confesso que n�o sei como chegou a essa conclus�o. Foi uma resolu��o repentina, e n�o falei sobre isso a ningu�m.</p><empty-line/><p>� Pois � a pr�pria simplicidade � observou ele, rindo da minha surpresa. � T�o absurdamente simples que qualquer explica��o � sup�rflua; mas, mesmo assim, serve para definir os limites da observa��o e da dedu��o. A observa��o me diz que no peito do seu p� h� um pouco de terra avermelhada. Exatamente em frente � ag�ncia de Wigmore Street retiraram o cal�amento e jogaram terra para fora, que ficou acumulada de uma forma que � imposs�vel passar por ali sem que ela entre pelo sapato. A cor avermelhada da terra, que eu saiba, n�o se encontra em nenhum outro lugar da vizinhan�a. At� aqui � a observa��o. O resto foi dedu��o.</p><empty-line/><p>� E por que deduziu que era um telegrama?</p><empty-line/><p>� Porque eu sabia que voc� n�o escreveu nenhuma carta, j� que fiquei sentado aqui na sua frente a manh� inteira. Estou vendo na sua escrivaninha um grande ma�o de cart�es-postais e uma folha de selos. O que iria fazer no correio, a n�o ser passar um telegrama? Eliminando todos os outros fatores, o que sobra tem que ser o verdadeiro.</p><empty-line/><p>� Neste caso, acertou inteiramente � disse depois de alguns minutos de reflex�o. � Mas, como voc� disse muito bem, o caso � bastante simples. Acha que seria impertin�ncia minha se eu quisesse testar suas teorias num caso mais dif�cil?</p><empty-line/><p>� Pelo contr�rio � respondeu-me. � Vai at� evitar que eu tome uma segunda dose de coca�na. Eu adoraria examinar algum outro problema que voc� queira me apresentar.</p><empty-line/><p>� Ouvi voc� dizer que � dif�cil uma pessoa ter um objeto de uso constante sem deixar nele a marca de sua individualidade de tal modo que um bom observador n�o a descubra. Bem, tenho aqui um rel�gio que passou a me pertencer h� pouco tempo. Quer ter a bondade de dar a sua opini�o sobre o car�ter ou os h�bitos do seu �ltimo dono?</p><empty-line/><p>Entreguei-lhe o rel�gio, intimamente divertido com a experi�ncia que eu julgava imposs�vel, e que serviria para dar-lhe uma li��o, devido ao tom dogm�tico que adotava quase sempre. Ele examinou o rel�gio, olhou atentamente o mostrador, abriu-o e examinou o mecanismo, primeiro a olho nu e depois com uma poderosa lente convexa. Eu mal podia conter o riso diante de sua express�o desanimada, at� que fechou a tampa e devolveu-me o rel�gio.</p><empty-line/><p>� H� muito poucos dados � observou. � Limparam o rel�gio recentemente, e isso me subtraiu o que havia nele de mais sugestivo.</p><empty-line/><p>� Tem raz�o, fizeram uma limpeza nele antes de o mandarem para mim.</p><empty-line/><p>No meu �ntimo, eu acusava o meu amigo de dar uma desculpa fraca e pouco convincente para encobrir o seu fracasso. Que informa��es ele poderia obter se n�o tivessem limpado o rel�gio?</p><empty-line/><p>� Apesar de incompleta, a minha pesquisa n�o foi totalmente in�til � observou ele, olhando para o teto com olhos opacos e sonhadores. � Talvez eu esteja errado, mas acho que o rel�gio pertencia a seu irm�o mais velho, que o herdou de seu pai.</p><empty-line/><p>� Isto, sem d�vida, voc� descobriu pelas iniciais�<emphasis>H. W.</emphasis>�da tampa.</p><empty-line/><p>� Exatamente. O�<emphasis>W</emphasis>�sugeriu-me o seu pr�prio nome. A data do rel�gio � de uns cinq�enta anos atr�s e as iniciais t�m o mesmo tempo que o rel�gio; portanto, foi feito para a �ltima gera��o. Em geral, as j�ias pertencem ao filho mais velho, que quase sempre tem o mesmo nome do pai. O seu pai, se me lembro bem, j� morreu h� anos. O rel�gio estava, portanto, com o seu irm�o.</p><empty-line/><p>� At� a�, tudo bem � disse eu. � Mais alguma coisa?</p><empty-line/><p>� O seu irm�o era um homem desorganizado, muito desorganizado e descuidado. Recebeu recursos para ter um belo futuro, mas jogou fora suas oportunidades. Viveu alguns anos na pobreza com alguns intervalos curtos de prosperidade, e, por fim, adquiriu o h�bito de embriagar-se e morreu. Foi o que pude concluir.</p><empty-line/><p>Levantei-me da cadeira e comecei a andar pelo quarto, agitado e muito magoado.</p><empty-line/><p>� Isto � indigno de voc�, Holmes � eu disse. � N�o acreditaria nunca que fosse capaz de chegar a esse ponto. Pelo que vejo, andou indagando a respeito da hist�ria do meu irm�o infeliz e quer me fazer crer que s�o dedu��es feitas a partir de bases imagin�rias. Voc� quer que eu acredite que descobriu tudo isso no rel�gio? Isto � cruel e, para falar com franqueza, tem um toque de charlatanismo.</p><empty-line/><p>� Meu caro doutor � disse ele gentilmente �, pe�o que aceite minhas desculpas. Olhando o caso como um problema abstrato, esqueci que � uma coisa pessoal e dolorosa para voc�. Por�m, garanto-lhe que nem sabia que voc� tinha um irm�o at� o momento em que me mostrou este rel�gio.</p><empty-line/><p>� Neste caso, como soube de todas estas coisas? S�o absolutamente corretas nos menores detalhes!</p><empty-line/><p>� Ent�o tive muita sorte! Tudo o que disse era para mim apenas prov�vel. N�o pensei que fosse t�o preciso.</p><empty-line/><p>� Mas n�o foi simples adivinha��o?</p><empty-line/><p>� Ah! n�o, nunca adivinho. � um p�ssimo h�bito, que destr�i a capacidade l�gica. Parece-lhe extraordin�rio porque voc� n�o seguiu o encadeamento de pensamentos nem observou os pequenos fatos dos quais dependem as conseq��ncias maiores. Por exemplo: comecei verificando que o seu irm�o era descuidado. Observando a parte inferior da caixa do rel�gio, v�-se que ele n�o s� est� amassado em dois lugares, como tamb�m est� muito arranhado porque ele tinha o h�bito de p�r no mesmo bolso, junto com o rel�gio, outros objetos, como chaves ou moedas. Certamente n�o � uma grande fa�anha presumir que um homem que trata assim um rel�gio caro � descuidado. Nem � absurdo achar que quem herda um objeto desse valor disp�e de recursos.</p><empty-line/><p>Balancei a cabe�a para mostrar que acompanhava seu racioc�nio.</p><empty-line/><p>� Na Inglaterra, os agiotas que recebem um rel�gio como garantia do empr�stimo costumam raspar o n�mero da etiqueta com a ponta de um alfinete dentro da caixa. Com a minha lente, vi quatro desses n�meros na caixa, e conclu� que por v�rias vezes o seu irm�o esteve em dificuldades financeiras, e que tamb�m teve momentos de prosperidade, do contr�rio n�o teria podido retirar o objeto empenhado. Finalmente pe�o-lhe que olhe para a chapa interna onde est� o buraco da chave. Veja as centenas de arranh�es em volta do buraco; s�o marcas das vezes em que a chave escorregou. A chave de um homem s�brio nunca produziria todos esses arranh�es, ao passo que os rel�gios dos homens que se embriagam t�m essas marcas. D�o corda � noite e, assim, deixam os vest�gios da m�o vacilante. Onde est� o mist�rio disso?</p><empty-line/><p>� Est� claro como a luz do sol � respondi.</p><empty-line/><p>� Lamento a minha injusti�a com voc�. Devia ter confiado mais na sua capacidade fant�stica. Est� investigando algum caso no momento?</p><empty-line/><p>� Nenhum. Da� a coca�na. N�o posso viver sem uma atividade cerebral. A que mais se deve dedicar a vida? Olhe pela janela. Pode haver um mundo mais triste, horrendo e in�til? Veja como o nevoeiro amarelado corre pela rua e � impelido para as casas sombrias. O que poder� haver de mais irremediavelmente prosaico e material? Para que servem os poderes, doutor, quando n�o h� campo para exerc�-los? O crime � comum, a exist�ncia � comum, e as qualidades n�o t�m fun��o na Terra, a n�o ser as comuns.</p><empty-line/><p>Eu ia dar uma resposta a este coment�rio quando a nossa senhoria, com uma batida seca, entrou na sala trazendo um cart�o numa bandeja de metal.</p><empty-line/><p>� Uma mo�a quer falar com o senhor � disse ela, dirigindo-se ao meu companheiro.</p><empty-line/><p>� Srta. Mary Morstan � ele leu. � Hum! N�o me lembro desse nome. Pe�a para subir, sra. Hudson. N�o v�, doutor, prefiro que fique.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 2</strong></p><p><strong>a exposi��o do caso</strong></p><empty-line/><p>
    A�<emphasis>srta. Morstan entrou com passo firme e uma apar�ncia</emphasis>�de seriedade. Era uma jovem loura, pequena, delicada, de luvas e vestida com apuro. Apesar disso, havia uma simplicidade e uma sobriedade no seu traje, que sugeriam que ela era uma pessoa de poucos recursos. O vestido era de um bege-acinzentado escuro, liso e sem enfeites, e usava um chap�u da mesma cor sombria, s� real�ado por uma pena branca de um lado. O rosto n�o tinha fei��es regulares nem tra�os de beleza, mas sua express�o era doce e am�vel, e os seus grandes olhos azuis transmitiam simpatia e espiritualidade. Com a experi�ncia a respeito de mulheres de muitos pa�ses de tr�s diferentes continentes, nunca tinha visto uma fisionomia em que transparecesse t�o claramente uma natureza refinada e sens�vel. Quando ela se sentou, no lugar que Holmes lhe indicava, tremiam os l�bios e as m�os, e ela exibia todos os sinais de uma grande agita��o interior.</p><p>� Procurei-o, sr. Holmes � disse ela �, porque uma vez o senhor conseguiu resolver uma pequena complica��o dom�stica que atormentava a minha patroa, a sra. Forrester. Ela ficou bem impressionada com sua bondade e sua per�cia.</p><empty-line/><p>� Sra. Cecil Forrester � repetiu Holmes, pensativo.</p><empty-line/><p>� Creio que lhe prestei um pequeno servi�o. Em todo caso, se n�o me engano, o problema era dos mais simples.</p><empty-line/><p>� Ela n�o pensava assim. Mas, pelo menos, o senhor n�o dir� o mesmo do meu. � dif�cil imaginar alguma coisa mais estranha, mais totalmente inexplic�vel do que a situa��o em que me encontro.</p><empty-line/><p>Holmes esfregou as m�os e seus olhos brilharam. Inclinou-se na cadeira com uma express�o de intensa concentra��o no rosto de tra�os n�tidos como os de um falc�o.</p><empty-line/><p>� Conte o seu caso � disse ele num tom vivo, entusiasmado.</p><empty-line/><p>Senti que estava numa situa��o desconfort�vel e levantei-me, desculpando-me.</p><empty-line/><p>Para meu grande espanto, ela fez um gesto com a m�o e disse:</p><empty-line/><p>� Se o seu amigo quiser ter a bondade de ficar, me prestar� um grande servi�o.</p><empty-line/><p>Voltei para a minha cadeira.</p><empty-line/><p>� Em resumo � continuou ela � os fatos s�o estes: Meu pai era oficial no regimento da �ndia. Mandoume para c� quando eu era pequena, ap�s a morte de minha m�e. Mas eu n�o tinha parentes na Inglaterra. Puseram-me num col�gio interno em Edimburgo, e fiquei l� at� os 17 anos. Em 1878, meu pai, que era o oficial mais antigo do regimento, obteve um ano de licen�a e veio para a Inglaterra. Telegrafou-me de Londres, dizendo que tinha chegado s�o e salvo e que eu viesse logo. Deu o endere�o do Hotel Langham. A mensagem, lembro-me bem, estava cheia de bondade e amor. Logo que cheguei a Londres, fui ao Langham e me informaram que o capit�o Morstan estava hospedado l�, mas que sa�ra na noite anterior e ainda n�o voltara. Esperei o dia inteiro sem ter not�cias dele. Nessa noite, a conselho do gerente do hotel, comuniquei o fato � pol�cia, e na manh� seguinte publicamos um an�ncio em todos os jornais. As nossas indaga��es n�o deram nenhum resultado, e desde esse dia nunca mais ouvi uma palavra a respeito de meu pai. Ele voltou � p�tria com o cora��o cheio de esperan�a, pensando que ia encontrar um pouco de paz e conforto, e, em vez disso...</p><empty-line/><p>Ela p�s a m�o na garganta, e um solu�o sufocado interrompeu a frase.</p><empty-line/><p>� Quando foi isso? � perguntou Holmes, abrindo seu caderno de anota��es.</p><empty-line/><p>� Ele desapareceu no dia 3 de dezembro de 1878, h� quase dez anos.</p><empty-line/><p>� E a bagagem?</p><empty-line/><p>� Ficou no hotel. N�o se encontrou nada ali que fornecesse uma pista � roupas, livros, e uma por��o de coisas das ilhas Andam�. Ele era um dos oficiais encarregados da guarda dos degredados ali.</p><empty-line/><p>� Ele tinha amigos aqui?</p><empty-line/><p>� Que eu saiba, s� um, o major Sholto, do mesmo regimento, o 34<sup>o</sup>�de infantaria de Bombaim. O major viera algum tempo antes e morava no Alto Norwood. � claro que entramos em contato com ele, mas o major nem sabia que seu colega estava na Inglaterra.</p><empty-line/><p>� Um caso singular � observou Holmes.</p><empty-line/><p>� Ainda n�o lhe falei do detalhe mais estranho do caso. H� mais ou menos seis anos � para ser mais exata, no dia 4 de maio de 1882 � apareceu um an�ncio no�<emphasis>Times</emphasis>�pedindo o endere�o da srta. Mary Morstan e afirmando que era um assunto do interesse dela. N�o dava nome nem endere�o. Nessa �poca, eu tinha come�ado a trabalhar na casa da sra. Cecil Forrester como preceptora. Aconselhada por ela, publiquei o meu endere�o na coluna de an�ncios. No mesmo dia recebi pelo correio uma caixinha de papel�o que continha uma p�rola muito grande e lustrosa. Mas n�o havia nada escrito. Desde ent�o, todo ano, na mesma data, recebo uma p�rola igual dentro de uma caixa igual sem a menor indica��o do remetente. Foram examinadas por um perito, que disse serem de um tipo rar�ssimo e de valor consider�vel. Podem verificar que s�o bel�ssimas � disse.</p><empty-line/><p>Ela abriu uma caixinha e mostrou-me seis p�rolas, das mais bonitas que eu j� vira.</p><empty-line/><p>� A sua exposi��o � interessant�ssima � disse</p><empty-line/><p>Holmes. � Aconteceu mais alguma coisa?</p><empty-line/><p>� Sim, senhor. Hoje mesmo. E foi por isso que eu vim aqui. Esta manh� recebi esta carta, talvez seja melhor que o senhor mesmo leia.</p><empty-line/><p>� Obrigado � disse Holmes. � O envelope tamb�m, por favor. Carimbo postal Londres, S. W. Data 7 de julho. Uuh! A marca de um polegar no canto. Provavelmente do carteiro. Papel da melhor qualidade. Envelope de seis pence o pacote. Homem cuidadoso no seu papel de carta. Nenhum endere�o.</p><empty-line/><p><emphasis/></p><empty-line/><p><emphasis>�Esteja na terceira pilastra do lado esquerdo do Lyceum Theatre esta noite, �s 19 horas. Se estiver desconfiada, traga duas pessoas amigas. Voc� tem sido lesada, mas lhe ser� feita justi�a. N�o traga a pol�cia. Se trouxer, estragar� tudo. Seu amigo desconhecido.�</emphasis></p><p><emphasis/></p><empty-line/><p>� Na verdade isto � um belo misteriozinho. O que pretende fazer, srta. Morstan?</p><empty-line/><p>� � exatamente o que eu queria lhe perguntar.</p><empty-line/><p>� Neste caso, certamente devemos ir � a senhora e eu � e... sim, o dr. Watson � o homem ideal. A carta diz dois amigos. Ele e eu j� trabalhamos juntos antes.</p><empty-line/><p>� Mas ser� que ele vai querer ir? � ela perguntou com uma s�plica na voz e no olhar.</p><empty-line/><p>� Ficarei muito orgulhoso e feliz � eu disse com veem�ncia � se puder ser-lhe �til.</p><empty-line/><p>� Voc�s s�o muito bons � ela respondeu. � Vivo muito isolada e n�o tenho amigos a quem recorrer. Devo estar aqui �s seis horas, n�o?</p><empty-line/><p>� Sim, mas n�o pode se atrasar. H� um outro ponto ainda. A letra da carta � a mesma das caixas das p�rolas?</p><empty-line/><p>� Tenho-as aqui � disse, mostrando seis peda�os de papel.</p><empty-line/><p>� A senhora � uma cliente modelo. Tem a verdadeira intui��o das coisas. Deixe-me ver. � Holmes espalhou os pap�is sobre a mesa, olhou alternadamente para todos eles. � As letras est�o disfar�adas, menos a da carta, mas n�o pode haver d�vida quanto ao autor. Veja como o irresist�vel �y� sai natural e a volta do �s� final. Sem d�vida, foram feitos pela mesma pessoa. Eu n�o gostaria de dar falsas esperan�as, srta. Morstan, mas existe alguma semelhan�a entre esta letra e a de seu pai?</p><empty-line/><p>� N�o pode haver nada mais diferente.</p><empty-line/><p>� Imaginava ouvir isso mesmo. Bem, estaremos esperando �s 18 horas. Deixe que estes pap�is fiquem comigo. At� l� vou examinar a quest�o; s�o apenas 15:30h. At� logo.</p><empty-line/><p>� At� logo � disse a nossa visita, e com um olhar bondoso e inteligente para n�s, tornou a guardar no seio a caixinha das p�rolas e saiu apressada.</p><empty-line/><p>Fiquei � janela vendo-a caminhar rapidamente pela rua, at� que o chap�u bege de pena branca desapareceu no meio da multid�o.</p><empty-line/><p>� Que mulher atraente � eu disse ao meu companheiro quando voltei.</p><empty-line/><p>Ele enchera de novo o cachimbo e estava recostado com os olhos fechados.</p><empty-line/><p>� �?... � disse indolentemente. � Eu n�o reparei...</p><empty-line/><p>� Na verdade, voc� � um aut�mato, uma m�quina de calcular. �s vezes, h� em voc� alguma coisa positivamente desumana.</p><empty-line/><p>Ele sorriu tranq�ilamente.</p><empty-line/><p>� � muito importante n�o deixar que as caracter�sticas pessoais influenciem o nosso julgamento. Para mim, um cliente � uma unidade, apenas um dado de um problema. Os fatores emocionais s�o advers�rios da clareza de racioc�nio. Eu asseguro-lhe que a mulher mais encantadora que j� conheci foi enforcada por ter envenenado tr�s criancinhas para receber o seguro de vida. E o homem mais repelente que conhe�o � um filantropo que j� gastou quase meio milh�o com os mendigos de Londres.</p><empty-line/><p>� Mas neste caso...</p><empty-line/><p>� Eu nunca fa�o exce��es. Uma exce��o contesta a regra. J� teve oportunidade de estudar o car�ter pela escrita? O que acha das garatujas deste sujeito?</p><empty-line/><p>� � uma letra leg�vel e regular � respondi. � Um homem ocupado com certa for�a de car�ter.</p><empty-line/><p>Holmes meneou a cabe�a.</p><empty-line/><p>� Olhe para as letras de haste; mal chegam � altura das pequenas. Aquele�<emphasis>�d�</emphasis>�podia ser um�<emphasis>�a�</emphasis>�e o�<emphasis>�i�</emphasis>�podia ser um�<emphasis>�e�.</emphasis>�Pessoas de car�ter sempre diferenciam as letras de haste, por mais ileg�vel que seja a sua caligrafia. H� hesita��o no�<emphasis>�k�</emphasis>�e auto-estima nas mai�sculas. Vou sair agora, tenho de obter algumas informa��es. Recomendo-lhe este livro, um dos mais not�veis j� escritos:�<emphasis>Martyrdom of Man</emphasis>, de Winwood Reade. Estarei de volta dentro de uma hora.</p><empty-line/><p>Sentei-me junto � janela com o livro na m�o, mas meus pensamentos estavam muito distantes das especula��es ousadas do autor. Meu esp�rito foi atr�s da nossa visita, o seu sorriso, o tom quente e profundo da sua voz, o estranho mist�rio que pesava sobre a sua vida. Se ela estava com 17 anos na �poca do desaparecimento do pai, devia ter agora 27. Doce idade, quando a mocidade perde sua inibi��o e torna-se mais sensata pela experi�ncia. Ent�o sentei-me e fiquei meditando at� que os meus pensamentos se tornaram t�o perigosos que corri para a minha escrivaninha e mergulhei furiosamente no mais recente tratado de patologia. Quem era eu � um cirurgi�o do Ex�rcito, com uma perna fraca e uma conta banc�ria ainda mais fraca � para ousar pensar em coisas assim? Ela era uma unidade, o dado do problema � nada mais. Se meu futuro era negro, seria melhor encar�lo como um homem do que tentar ilumin�-lo apenas com castelos no ar.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 3</strong></p><p><strong>em busca da solu��o</strong></p><empty-line/><p>
    J<emphasis>� eram cinco e meia quando Holmes voltou. Vinha alegre</emphasis>, entusiasmado, de excelente humor, um estado de �nimo que, no seu caso, se alternava com crises terr�veis de depress�o.</p><p>� N�o h� grande mist�rio nesse caso � disse ele, tomando o ch� que eu servira.</p><empty-line/><p>� Os fatos parecem admitir uma �nica explica��o.</p><empty-line/><p>� O qu�? J� achou a solu��o?</p><empty-line/><p>� Bem, isto seria um exagero. Apenas descobri um dado sugestivo, mas � muito sugestivo. Ainda faltam detalhes. Acabo de descobrir, consultando os n�meros atrasados do�<emphasis>Times</emphasis>, que o major Sholto, do Alto Norwood, que pertencera ao 34<sup>o</sup>�Regimento de Infantaria de Bombaim, morreu no dia 28 de abril de 1882.</p><empty-line/><p>� Talvez eu seja obtuso, Holmes, mas n�o consigo ver o que isto sugere.</p><empty-line/><p>� N�o? Voc� me surpreende. Ent�o veja. O capit�o Morstan desaparece. A �nica pessoa em Londres que ele pode ter visitado � o major Sholto, que afirmava que nem sabia que ele havia chegado. Quatro anos depois, Sholto morre. Passada uma semana, a filha do capit�o Morstan recebe um presente de grande valor que se repete todos os anos, e agora vem esta carta dizendo que ela foi prejudicada. A que preju�zo ela se refere, a n�o ser o de terem-na privado do pai? E por que os presentes come�aram a aparecer logo depois da morte de Sholto? Ser� que o herdeiro de Sholto sabe alguma coisa do mist�rio e deseja compens�-la de alguma forma? Voc� acha que pode haver outra alternativa que explique os fatos?</p><empty-line/><p>� Mas que compensa��o estranha! E feita de uma maneira singular! E por que ele escreveria agora e n�o h� seis anos? E a carta ainda fala em fazer justi�a! Que justi�a deve ser feita? Seria demais supor que o pai dela ainda vive. Que se saiba, esta � a �nica injusti�a que sofreu.</p><empty-line/><p>� H� dificuldades, � claro que h� dificuldades � disse Holmes pensativo � mas a nossa excurs�o noturna dever� resolv�-las. A� vem o cup� com a srta. Morstan dentro. Est� tudo pronto? Ent�o � melhor descermos, porque j� est� passando da hora.</p><empty-line/><p>Apanhei o meu chap�u e a bengala mais pesada, mas notei que Holmes apanhara o rev�lver na gaveta e metera-o na algibeira. Era claro que ele esperava que nossa noite fosse importante...</p><empty-line/><p>A srta. Morstan vinha agasalhada num casaco escuro e seu rosto expressivo estava calmo, embora p�lido. N�o seria mulher se n�o se sentisse embara�ada numa situa��o t�o estranha como aquela. Mas, ainda assim, o seu autocontrole era perfeito, e respondeu prontamente �s perguntas adicionais que Holmes lhe fez.</p><empty-line/><p>� O major Sholto era um grande amigo de meu pai. As cartas que me escrevia estavam cheias de refer�ncias a ele. Ele e meu pai comandaram as tropas nas ilhas Andam� e por isso tiveram grande conviv�ncia. Encontrei entre os documentos de meu pai um papel muito curioso, mas que ningu�m conseguiu entender. Acho que n�o tem a menor import�ncia, mas lembrei-me de que poderia gostar de v�-lo e trouxe-o comigo. Est� aqui...</p><empty-line/><p>Holmes desdobrou o papel com cuidado e estendeu-o sobre os joelhos. Ent�o, examinou-o metodicamente com a lente dupla.</p><empty-line/><p>� Este papel � de fabrica��o indiana � observou. � Esteve pregado numa t�bua durante algum tempo. Parece ser a planta de parte de um grande edif�cio, com muitas salas, corredores e passagens. Num certo ponto h� uma cruzinha feita com tinta vermelha e acima est� escrito a l�pis �3,37 a partir da esquerda�, j� meio apagado. No canto esquerdo h� um curioso hier�glifo como quatro cruzes numa linha com os bra�os encostando uns nos outros. Ao lado est� escrito em letras grosseiras �<emphasis>O sinal dos quatro</emphasis>�� Jonathan Small, Mahomet Singh, Abdullah Khan, Dost Akbar.� N�o me parece realmente que isto tenha rela��o com a sua hist�ria. No entanto �, evidentemente, um documento importante. Foi conservado cuidadosamente num caderno de notas, porque os dois lados est�o limpos.</p><empty-line/><p>� Foi no caderno dele que o encontramos.</p><empty-line/><p>� Ent�o guarde-o com cuidado, srta. Morstan, porque talvez seja �til, mais tarde. Come�o a suspeitar que o nosso caso pode ser mais profundo e sutil do que julguei a princ�pio. Preciso rever as minhas suposi��es.</p><empty-line/><p>Recostou-se no carro e percebi, pelas p�lpebras semicerradas e pelo olhar vago, que estava concentrado em seus pensamentos. A srta. Morstan e eu tagarel�vamos em voz baixa, a respeito da nossa expedi��o e do seu poss�vel resultado; mas nosso companheiro manteve a mais impenetr�vel reserva at� o fim do trajeto.</p><empty-line/><p>Ainda n�o eram 19 horas de uma tarde de setembro. O dia tinha sido sombrio e um nevoeiro �mido e denso envolvia a cidade toda. Nuvens cor de chumbo desciam tristemente sobre as ruas enlameadas. No Strand, os lampi�es pareciam borr�es de luz difusa que projetavam pequenos c�rculos brilhantes na cal�ada escorregadia. O brilho amarelo que vinha das vitrinas espalhava-se no ar �mido e lan�ava uma luz sombria e vacilante na rua cheia de gente.</p><empty-line/><p>Eu tinha a impress�o de que havia algo de sobrenatural e fantasmag�rico naquela prociss�o infind�vel de rostos que flutuavam por aquelas estreitas faixas de luz, algumas caras tristes, outras alegres, umas felizes, outras sofredoras... Como toda a humanidade, iam da sombra para a luz, e depois voltavam para a sombra. Eu n�o sou muito impression�vel, mas a tarde pesada e triste, e o estranho caso em que est�vamos envolvidos deixavam-me nervoso e deprimido. E bastava olhar para a srta. Morstan para ver que sofria como eu. S� Holmes conseguia ficar imune a influ�ncias insignificantes. De vez em quando abria o caderno de notas sobre os joelhos e, � luz da lanterna de bolso, escrevia notas ou n�meros.</p><empty-line/><p>� entrada do Lyceum Theatre a multid�o era compacta. Havia um cont�nuo vaiv�m de cabriol�s e cup�s livrando-se da sua carga de homens de camisas reluzentes e mulheres cobertas de brilhantes. Mal chegamos � terceira coluna, que era a do nosso encontro, fomos abordados por um sujeito baixo, escuro, vivo, vestido de cocheiro.</p><empty-line/><p>� S�o os senhores que acompanham a srta. Morstan? � perguntou.</p><empty-line/><p>� Eu sou a srta. Morstan, e estes dois senhores s�o meus amigos.</p><empty-line/><p>Ele pousou sobre n�s um par de olhos admiravelmente penetrantes e inquiridores.</p><empty-line/><p>� Desculpe-me, senhorita � disse ele num tom rabugento �, mas tenho de pedir-lhe que me d� a sua palavra de que nenhum destes senhores � da pol�cia.</p><empty-line/><p>� Dou-lhe a minha palavra.</p><empty-line/><p>Ele deu um assobio agudo e surgiu um garoto que trouxe um cup� e abriu a porta. O homem que falara conosco subiu para a bol�ia e n�s entramos. Mal acab�vamos de nos acomodar quando o cocheiro deu uma chicotada no cavalo, e passamos a correr pelas ruas cobertas de neblina.</p><empty-line/><p>A situa��o era curios�ssima. �amos para um lugar desconhecido, com um fim tamb�m desconhecido. Ou o convite era um perfeito logro � o que era uma hip�tese inconceb�vel � ou a nossa jornada teria um resultado important�ssimo. O comportamento da srta. Morstan continuava a ser resoluto e tranq�ilo. Tentei entret�-la e diverti-la com as minhas reminisc�ncias do Afeganist�o, mas, para dizer a verdade, eu pr�prio estava t�o excitado com a situa��o e t�o curioso sobre o que ia acontecer, que as minhas hist�rias foram se arrastando. Ela diz agora que naquela noite contei uma hist�ria sobre um mosquete que surgiu na entrada da minha barraca de madrugada e que eu atirei com uma espingarda de dois canos num filhote de tigre. No in�cio eu tinha uma id�ia do lugar para onde nos dirig�amos, mas em pouco tempo, com a pressa, o nevoeiro e o pouco conhecimento que eu tinha de Londres, perdi a no��o e s� sabia que est�vamos indo para longe.</p><empty-line/><p>Mas Sherlock Holmes nunca se confundia, e, enquanto o cup� passava por pra�as e tortuosas ruas secund�rias, ele ia dizendo os nomes de todas elas.</p><empty-line/><p>� Rochester Row � disse ele �, Vincent Square. Agora vamos sair na Vauxhall Bridge Road. Parece que estamos indo para os lados do Surrey. Eu imaginava isso. Agora estamos na ponte. Podemos ver uns trechos do rio.</p><empty-line/><p>V�amos de fato uns peda�os do T�misa com os lampi�es brilhando na �gua silenciosa; mas o carro voava e logo entramos num labirinto de ruas do outro lado do rio.</p><empty-line/><p>Holmes ia dizendo os nomes.</p><empty-line/><p>� Wordsworth Road, Priory Road, Lark Hall Lane, Stockwell Place, Robert Street, Cold Harbour Lane. N�o me parece que estejam nos levando para regi�es muito elegantes.</p><empty-line/><p>De fato, t�nhamos chegado a um bairro suspeito e repugnante. Longas filas de casas sombrias de tijolos eram iluminadas apenas pela claridade difusa e fraca das tabernas nas esquinas. Em seguida surgiram fileiras de�<emphasis>villas</emphasis>�de dois andares com um pequeno jardim na frente, e outra vez mais filas de constru��es novas de tijolos � os tent�culos do monstro que a cidade gigantesca impele para os arredores.</p><empty-line/><p>Por fim, o cup� parou na terceira casa de um loteamento novo. Nenhuma das outras casas estava habitada e aquela diante da qual paramos estava t�o escura como as vizinhas, vendo-se apenas um filete de luz na janela da cozinha. Quando batemos, um criado hindu, vestido com t�nica branca, um turbante amarelo na cabe�a e uma larga faixa tamb�m amarela, abriu imediatamente a porta. Havia uma estranha incoer�ncia nesta figura oriental ali � porta de uma casa ordin�ria num sub�rbio de terceira classe.</p><empty-line/><p>� O�<emphasis>sahib</emphasis>�os espera � disse ele, e enquanto falava, ouvimos uma voz esgani�ada que vinha do interior da casa.</p><empty-line/><p>� Traga-os,�<emphasis>khitmutgar{1}�</emphasis>�� exclamou. � Traga-os j�.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 4</strong></p><p><strong>a hist�ria do homem calvo</strong></p><empty-line/><p>
    S<emphasis>eguimos o hindu por um corredor s�rdido, mal-iluminado</emphasis>�e mal mobiliado, at� uma porta do lado direito, que ele abriu. Um clar�o amarelado iluminou-nos. No centro do foco de luz estava um homem de pequena estatura, cabe�a grande com ralos cabelos avermelhados em volta, sobre as orelhas, e o cr�nio descoberto, reluzente, como o cume de uma montanha no meio do arvoredo. Ele torcia as m�os, e seu rosto mudava constantemente de express�o, ora rindo, ora contraindo as fei��es. A natureza lhe dera um l�bio pendente e uma fila de dentes amarelos salientes, que ele procurava disfar�ar passando repetidamente a m�o pela parte inferior do rosto. Apesar da calv�cie, dava a impress�o de ser jovem. E, realmente, acabara de fazer trinta anos.</p><p>� Um seu criado, srta. Morstan � repetia numa voz aguda, fraca. � Um seu criado, meus senhores. Queiram entrar no meu refugiozinho. Pequeno, mas mobiliado a meu gosto. Um o�sis de arte no lament�vel deserto da parte sul de Londres.</p><empty-line/><p>Ficamos todos espantados com a apar�ncia da sala para onde nos tinham levado. Naquela casa triste, parecia t�o deslocada como um diamante de primeira �gua engastado em lat�o!</p><empty-line/><p>Cortinas caras e brilhantes e magn�ficas tape�arias cobriam as paredes do aposento, onde havia tamb�m vasos orientais e pinturas ricamente emolduradas.</p><empty-line/><p>O tapete era preto e �mbar, e t�o grosso que os p�s se enterravam agradavelmente nele, como num leito de musgo. Duas grandes peles de tigre, atiradas no meio da sala, aumentavam a sugest�o do fausto oriental, assim como o enorme narguil� posto a um canto. Uma l�mpada de prata do feitio de uma pomba pendia do centro do teto por um fio dourado quase invis�vel. Enquanto queimava, enchia o ar com um aroma leve e sutil.</p><empty-line/><p>� Eu sou Tadeu Sholto � disse o homenzinho agitado e risonho. � Naturalmente voc� � a srta. Morstan. E estes senhores...</p><empty-line/><p>� Este � o sr. Sherlock Holmes e este � o dr. Watson.</p><empty-line/><p>� Um m�dico, hein? � ele exclamou, excitado.</p><empty-line/><p>� Trouxe o estetosc�pio? Posso pedir-lhe... se quisesse ter a bondade? Tenho s�rias d�vidas sobre a minha v�lvula mitral; se quisesse ter a bondade. Na aorta eu posso confiar, mas queria a sua opini�o sobre a v�lvula.</p><empty-line/><p>Auscultei-lhe o cora��o, como pedia, mas n�o encontrei nada de anormal; a n�o ser o fato de que estava num acesso de medo, porque tremia dos p�s � cabe�a.</p><empty-line/><p>� N�o h� motivo para o seu mal-estar. Tudo parece perfeitamente normal.</p><empty-line/><p>� Desculpe a minha ansiedade, srta. Morstan � ele disse vagamente �, eu sofro muito e suspeitava da v�lvula h� muito tempo. Estou content�ssimo de ouvir que est� tudo normal. Se seu pai, srta. Morstan, tivesse poupado o cora��o da tens�o, ainda poderia estar vivo.</p><empty-line/><p>Quase esbofeteei o homem por causa da brutalidade com que se referiu a um assunto t�o delicado. A srta. Morstan empalideceu at� a raiz dos cabelos.</p><empty-line/><p>� Meu cora��o me dizia que ele tinha morrido � disse ela.</p><empty-line/><p>� Posso dar-lhe todas as informa��es sobre isso e, al�m do mais, fazer justi�a. E farei, independentemente do que o meu irm�o Bartolomeu possa dizer. Estou muito satisfeito com o fato de que estes seus amigos tenham vindo! N�o s� para acompanh�-la, mas tamb�m para testemunhar o que tenho a dizer-lhe. N�s tr�s podemos enfrentar o meu irm�o Bartolomeu, mas sem a presen�a de estranhos � ningu�m da pol�cia, nem funcion�rios do governo. N�s podemos resolver tudo de maneira satisfat�ria entre n�s, sem interfer�ncias. Nada incomoda mais Bartolomeu do que a publicidade.</p><empty-line/><p>Sentou-se num sof� baixo, piscando de modo inquiridor seus olhos de um azul-claro aguado...</p><empty-line/><p>� De minha parte � disse Holmes � o que quer que voc� tenha a dizer, daqui n�o passar�.</p><empty-line/><p>Balancei a cabe�a para mostrar que concordava.</p><empty-line/><p>� Est� bem. Est� bem! Aceita um c�lice de chianti, srta. Morstan? Ou de t�cai?5�Eu n�o uso outros vinhos. Quer que abra uma garrafa? N�o? Bem. Certamente n�o a incomoda o cheiro do fumo, o aroma bals�mico do fumo oriental. Estou um pouco nervoso e o meu narguil� � incompar�vel como sedativo.</p><empty-line/><p>P�s-se a fumar, e a fuma�a fazia bolhas na �gua do bojudo narguil�.</p><empty-line/><p>N�s tr�s nos sentamos em semic�rculo, com as cabe�as inclinadas para a frente, de m�o no queixo, enquanto o sujeitinho esquisito, com a sua grande cabe�a reluzente, fumava pouco � vontade no centro.</p><empty-line/><p>� Quando decidi fazer-lhe este relato, podia terlhe dado logo o meu endere�o, mas receei que desconsiderasse o meu pedido e trouxesse consigo gente desagrad�vel. Ent�o tomei a liberdade de arranjar as coisas de modo que o meu criado Williams pudesse v�-la antes de ser visto. Eu tenho absoluta confian�a na discri��o dele, e ele tinha ordem de n�o prosseguir se ficasse desconfiado. Voc� deve me desculpar por estas precau��es, mas eu sou um homem muito reservado, devia dizer de gosto apurado, e n�o h� nada mais antiest�tico do que um policial. Tenho uma repugn�ncia natural por todas as manifesta��es do materialismo grosseiro. Raramente tenho contato com a multid�o. Como v�, vivo envolvido numa atmosfera de eleg�ncia. Posso considerar-me um patrono das artes. � o meu fraco. Aquela paisagem � um Corot aut�ntico, e embora um especialista possa p�r em d�vida a origem daquele Salvador Rosa, ningu�m pode ter a m�nima d�vida sobre o Bouguereau. Tenho um fraco pela escola francesa moderna.</p><empty-line/><p>� Desculpe-me, sr. Sholto � disse a srta. Morstan.</p><empty-line/><p>� Pediu-me que viesse porque tinha alguma coisa para me contar. J� � tarde e eu desejaria que a entrevista fosse a mais curta poss�vel.</p><empty-line/><p>� Com certeza vai levar algum tempo � ele disse � porque teremos de ir a Norwood para falar com Bartolomeu. Iremos todos para convenc�-lo. Ele est� zangado porque tomei a atitude que me pareceu justa. Tive uma discuss�o violenta com ele ontem � noite. N�o imaginam que sujeito terr�vel ele � quando se zanga.</p><empty-line/><p>� Se temos de ir a Norwood, � melhor irmos de uma vez � atrevi-me a dizer.</p><empty-line/><p>Ele riu tanto que as orelhas ficaram vermelhas.</p><empty-line/><p>� Isso daria certo. N�o sei o que ele diria se aparec�ssemos l� de repente, sem saberem de certos detalhes. Tenho de dizer-lhes que h� alguns pontos da hist�ria que eu pr�prio ignoro e s� posso dizer-lhes o que sei. Meu pai, como certamente j� adivinharam, era o major John Sholto, do Ex�rcito da �ndia. Voltou h� uns 11 anos e veio morar em Pondicherry Lodge, no Alto Norwood. Tinha prosperado na �ndia e, quando voltou, trouxe uma fortuna consider�vel, uma grande cole��o de curiosidades de valor e uma por��o de criados indianos. P�de comprar uma casa para ele e viver com muito luxo. O meu irm�o g�meo, Bartolomeu, e eu �ramos os �nicos filhos. Lembro-me perfeitamente da sensa��o que o desaparecimento do capit�o Morstan causou. Lemos nos jornais todos os detalhes e, sabendo que era um amigo do nosso pai, discutimos abertamente o caso na sua presen�a. Ele costumava participar das especula��es que faz�amos sobre o que poderia ter acontecido.</p><empty-line/><p>Nem por um momento suspeitamos que ele trazia escondido no cora��o o tremendo segredo: que ele era a �nica pessoa que conhecia o destino de Arthur Morstan. Mas sab�amos que algu�m, que algum mist�rio, algum perigo real amea�ava nosso pai. Ele tinha medo de sair sozinho e tinha sempre como porteiros dois lutadores profissionais em Poudicherry Lodge. Williams, que os trouxe aqui esta noite, era um deles. Ele j� foi campe�o de pesos-leves na Inglaterra. Nosso pai nunca nos disse o que o amedrontava, mas tinha uma evidente avers�o por homens com pernasde-pau. E uma vez atirou num homem com uma perna-de-pau, que provou depois ser um negociante honrado e inofensivo em busca de encomendas. Ele teve que pagar uma grande indeniza��o para abafar o caso. N�s pens�vamos que era simplesmente uma mania dele, mas os acontecimentos nos fizeram mudar de opini�o. No in�cio de 1882, meu pai recebeu uma carta da �ndia que o deixou muito abalado. Ele quase desmaiou quando a abriu na hora do almo�o, e desde esse dia ficou doente, at� que morreu. Nunca soubemos o que dizia a carta, mas vi, quando estava com ela na m�o, que era curta e escrita numa letra muito ruim. Ele sofria h� muito tempo de uma dilata��o no ba�o, mas desse dia em diante ele piorou rapidamente e no final de abril soubemos que n�o havia mais esperan�a, e que ele desejava fazer-nos uma confid�ncia. Quando entramos no seu quarto, ele estava reclinado sobre almofadas e respirava com dificuldade. Pediu que tranc�ssemos a porta e que fic�ssemos ao lado da cama. Ent�o, segurando nossas m�os, com a voz entrecortada pela emo��o e pela dor, fez uma revela��o importante. Vou tentar repetir suas palavras:</p><empty-line/><p>� �S� h� uma coisa que me pesa na consci�ncia neste momento supremo. A maneira como procedi para com a �rf� do infeliz Morstan. A maldita avareza, que tem sido minha companheira durante a vida, impediu-me de entregar-lhe o tesouro que devia pertencer-lhe. Mas eu mesmo n�o me utilizei dele, de t�o cega e insensata que � a avareza. O mero sentimento da posse tinha tanto valor para mim que eu n�o podia tolerar a id�ia de partilh�-lo com outra pessoa. Nem aquele fio de p�rolas que est� ao lado do vidro de quinino eu tive coragem de repartir com ela, embora eu tenha deixado ali com a inten��o de envi�-lo para ela. Mas voc�s, meus filhos, dar�o a ela uma boa parte do tesouro de Agra. Mas, antes de eu morrer... nada. N�o mandem nada, nem as p�rolas...</p><empty-line/><p>Afinal, muitos homens t�o doentes quanto eu acabaram se recuperando.</p><empty-line/><p>� �Vou dizer-lhes como Morstan morreu. Ele sofria do cora��o h� muitos anos, mas escondia de todos. S� eu sabia. Quando est�vamos na �ndia, por uma s�rie not�vel de circunst�ncias, chegamos a ter um tesouro consider�vel. Trouxe-o para a Inglaterra e, na noite em que Morstan chegou, ele veio imediatamente para c� reclamar a sua parte. Veio a p� da esta��o e foi recebido pelo meu velho e fiel Lal Chowdar, que j� morreu. Morstan e eu divergimos quanto � divis�o e chegamos a trocar palavras �speras. Morstan pulou da cadeira num paroxismo de raiva, e de repente p�s a m�o sobre o cora��o, o rosto ficou escuro e caiu para tr�s, batendo com a cabe�a na quina do cofre que continha o tesouro. Quando me aproximei dele, verifiquei horrorizado que estava morto.</p><empty-line/><p>� �Durante muito tempo fiquei sem a��o, pensando no que deveria fazer. O meu primeiro impulso, � claro, foi tentar conseguir socorro; mas lembrei-me de que tudo era contra mim e que eu seria imediatamente acusado de assassinato. A sua morte no momento em que discut�amos e a pancada que ele levou na cabe�a quando caiu seriam provas contra mim. Uma investiga��o oficial com certeza iria revelar fatos sobre o tesouro, a respeito do qual eu queria guardar segredo. Ele me dissera que ningu�m sabia para onde ele tinha ido. Achei que n�o era necess�rio que algu�m viesse a saber. Ainda estava meditando sobre o assunto quando, ao erguer os olhos, vi Lal Chowdar na porta. Entrou silenciosamente e fechou a porta. �N�o tenha medo,�<emphasis>sahib</emphasis>�, disse ele, �ningu�m precisa saber que o senhor o matou. Vamos escond�lo, que � o mais seguro.� �Mas eu n�o o matei�, eu disse. Lal Chowdar balan�ou a cabe�a e sorriu: �Eu ouvi tudo,�<emphasis>sahib</emphasis>, eu ouvi a discuss�o, e ouvi a pancada. Mas a minha boca nunca se abrir� para revel�-lo. Todos est�o dormindo na casa. Vamos lev�-lo.� Isto foi o suficiente para que eu me decidisse. Se o meu pr�prio criado n�o podia acreditar na minha inoc�ncia, como eu haveria de esperar que acreditassem nela 12 negociantes idiotas que formariam o j�ri? Lal Chowdar e eu cuidamos do corpo naquela noite, e alguns dias depois os jornais de Londres falavam do misterioso desaparecimento de Morstan. Pelo que eu estou contando, voc�s podem ver que n�o posso ser considerado culpado neste caso. Meu erro est� no fato de ter ocultado n�o s� o corpo, mas tamb�m o tesouro, e ter conservado a parte de Morstan como se fosse minha. Mas desejo que a restituam. Cheguem os ouvidos perto dos meus l�bios. O tesouro est� escondido no...�</p><empty-line/><p>� Nesse instante, houve uma transforma��o medonha no seu rosto: os olhos ficaram fixos, com uma express�o selvagem; o queixo caiu, e ele gritou numa voz que nunca pude esquecer: �N�o o deixem entrar. Por Cristo, n�o o deixem entrar.� Ambos olhamos espantados para a janela atr�s de n�s, para onde ele dirigia o olhar esgazeado. L� de fora, no escuro, um rosto olhava para n�s. Via-se bem o nariz apertado contra a vidra�a. Era uma cara barbuda, os olhos ferozes, selvagens, e uma express�o de maldade. Corremos at� a janela, mas o homem fugira. Quando voltamos, a cabe�a de meu pai pendia para o lado e o pulso tinha parado de bater. Vasculhamos o jardim naquela noite, mas n�o descobrimos o menor sinal do intruso, a n�o ser uma �nica pegada debaixo da janela, nitidamente vis�vel no canteiro. Mas como s� havia aquele �nico vest�gio, achamos que t�nhamos imaginado aquele rosto na janela. Entretanto, pouco tempo depois, tivemos uma prova de que havia agentes secretos agindo em volta de n�s. A janela do quarto de meu pai foi encontrada aberta de manh�, todos os arm�rios e gavetas haviam sido remexidos e sobre o seu peito havia um peda�o de papel rabiscado com as palavras�<emphasis>O sinal dos quatro</emphasis>. Nunca soubemos o que significava a frase nem quem era o intruso. Pelo que pudemos verificar, n�o roubaram nada do que pertencia a meu pai, apesar de tudo ter sido revirado. Como era natural, eu e meu irm�o associamos este incidente ao medo que perseguira meu pai durante sua vida, mas isto ainda � um mist�rio absoluto para n�s.</p><empty-line/><p>O homenzinho fez uma pausa para tornar a acender o narguil� e ficou pensando durante alguns minutos. Est�vamos todos absorvidos em sua extraordin�ria narrativa. No momento em que ele falou da morte do pai dela, a srta. Morstan ficou mortalmente p�lida e pensei que ia desmaiar. Mas ela dominou-se bebendo um copo d��gua, que eu, discretamente, enchera com o l�quido de uma garrafa de cristal de Veneza que estava numa mesa pr�xima. Sherlock Holmes estava recostado em sua cadeira com uma express�o abstrata e as p�lpebras ca�das sobre os olhos brilhantes. Quando olhei para ele, lembrei-me de que naquele mesmo dia ele se queixara amargamente da rotina vulgar da vida. Agora, ele tinha de resolver um problema que exercitaria ao m�ximo sua sagacidade. Tadeu Sholto olhava para n�s, orgulhoso do efeito que sua hist�ria produzira, e depois continuou, entre as baforadas que tirava do narguil�.</p><empty-line/><p>� Meu irm�o e eu ficamos muito excitados com a hist�ria do tesouro. Durante semanas e meses cavamos e revolvemos todo o jardim sem resultado. Era enlouquecedor lembrar que nosso pai ia dizer o lugar do esconderijo no momento em que morreu. Pod�amos imaginar o esplendor das riquezas desaparecidas pelo colar de p�rolas que ele tirara. Tivemos uma pequena discuss�o sobre este colar. As p�rolas eram, evidentemente, de grande valor, e ele n�o desejava reparti-las porque, aqui entre n�s, ele tinha um pouco o defeito de meu pai. Ele achava que, se repart�ssemos as p�rolas, suscitar�amos desconfian�as que acabariam nos trazendo problemas. S� consegui que me deixasse procurar o endere�o da srta. Morstan e que lhe mandasse, a intervalos regulares, uma p�rola de cada vez, para que ela, pelo menos, ficasse com a parte que lhe cabia.</p><empty-line/><p>� Foi uma boa id�ia � disse a nossa companheira com sinceridade. � Foi muita bondade da sua parte.</p><empty-line/><p>O homenzinho moveu a m�o, num gesto de desaprova��o.</p><empty-line/><p>� N�s �ramos os seus deposit�rios. Foi deste ponto de vista que eu encarei o caso, ainda que n�o fosse esta a opini�o do meu irm�o Bartolomeu. N�s t�nhamos uma boa fortuna. Eu n�o desejava mais. Al�m disso, seria de p�ssimo gosto tratar uma mo�a de modo t�o vil.�<emphasis>�Le mauvais go�t m�ne au crime.�{2}</emphasis>�Os franceses t�m uma maneira muito clara de dizer estas coisas. Divergimos a tal ponto nessa quest�o, que achei melhor ter minha pr�pria casa, e sa� de Pondicherry Lodge, trazendo comigo o velho�<emphasis>khitmutgar</emphasis>�e Williams. Mas ontem eu soube que acontecera uma coisa muito importante. O tesouro tinha sido descoberto. Imediatamente entrei em contato com a srta. Morstan, e agora s� nos resta ir at� Norwood e exigir a nossa parte. Expliquei o meu ponto de vista ao meu irm�o ontem � noite, e se n�o formos bem-vindos, somos pelo menos esperados por Bartolomeu.</p><empty-line/><p>Tadeu Sholto calou-se e ficou se remexendo no seu luxuoso sof�. Ficamos todos em sil�ncio, pensando no novo rumo que o misterioso caso tomara. Holmes foi o primeiro a levantar-se.</p><empty-line/><p>� Procedeu bem do in�cio ao fim � disse ele. � � bem poss�vel que, em troca, possamos esclarecer o que ainda est� obscuro. Mas como a srta. Morstan notou h� pouco, j� � tarde, e � melhor prosseguir no caso o quanto antes.</p><empty-line/><p>Nosso novo amigo apagou imediatamente o narguil� e tirou de tr�s de uma cortina um sobretudo muito comprido, com colarinho e punhos de astrac�. Abotoou-o at� embaixo, embora a noite estivesse abafada, e completou a toalete pondo um bon� de pele de coelho com abas compridas cobrindo-lhe as orelhas, de modo que, de todo o corpo, s� se via o rosto inst�vel e doentio.</p><empty-line/><p>� Minha sa�de � delicada � disse enquanto nos levava pelo corredor. � Em breve estarei inv�lido.</p><empty-line/><p>Nosso cup� estava esperando e certamente o programa j� fora combinado previamente, porque o cocheiro partiu a galope. Tadeu Sholto falou o tempo todo, numa voz que se elevava acima do ru�do das rodas.</p><empty-line/><p>� Bartolomeu � um rapaz inteligente. Como imaginam que ele descobriu onde estava o tesouro? Ele chegou � conclus�o de que ele devia estar dentro de casa; ent�o, passou a procurar na casa inteira, em cada canto, n�o deixando de examinar nem um cent�metro. Entre outras coisas, ele descobriu que a constru��o tinha 22 metros de altura, mas que, juntando as alturas de todos os quartos e dando os espa�os entre eles, o que ele verificou por meio de sondagens, o total n�o passava de 21 metros; faltava, portanto, um metro. Ele s� podia estar no alto do pr�dio. Fez um buraco no teto do quarto mais alto e l� realmente descobriu um pequeno s�t�o que tinha sido tapado e que ningu�m conhecia. No centro estava o cofre, sobre duas vigas de madeira. Desceu-o pelo buraco e ele est� l�. Bartolomeu calcula o valor das j�ias em meio milh�o de libras esterlinas, pelo menos.</p><empty-line/><p>Ao ouvir esta soma gigantesca, olhamos estarrecidos uns para os outros. A srta. Morstan, se consegu�ssemos garantir os seus direitos, se transformaria de uma modesta professora na herdeira mais rica da Inglaterra.</p><empty-line/><p>Um amigo leal se alegraria com uma not�cia dessas, mas envergonho-me de confessar que meu ego�smo envolveu a minha alma e o meu cora��o ficou pesado como chumbo. Procurei algumas palavras de congratula��es, mas n�o consegui dizer nada, deixei cair a cabe�a, estonteado com o papaguear do nosso homenzinho. Era sem d�vida um hipocondr�aco, e parecia-me que ele desfiava um ros�rio intermin�vel de sintomas e implorava informa��es sobre a composi��o e a a��o de in�meras panac�ias, algumas das quais ele trazia numa bolsa de couro. Espero que ele n�o se lembre das minhas respostas. Holmes contou que me ouviu recomendar-lhe que n�o tomasse mais de duas gotas de �leo de r�cino e ao mesmo tempo receitar como sedativo grandes doses de estriquinina. O caso � que fiquei aliviado quando o cup� parou com um solavanco e o cocheiro saltou para abrir a portinhola.</p><empty-line/><p>� Estamos em Pondicherry Lodge, srta. Mary Morstan � disse Tadeu Sholto, ajudando-a a descer.</p><empty-line/><p>5�Vinho licoroso produzido na Hungria.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 5</strong></p><p><strong>a trag�dia de pondicherry lodge</strong></p><empty-line/><p>
    E<emphasis>ram quase 23 horas quando chegamos � �ltima etapa da</emphasis>�nossa aventura daquela noite. T�nhamos deixado para tr�s o nevoeiro da cidade grande e aqui a noite estava l�mpida. Um vento morno soprava do oeste e nuvens pesadas moviam-se lentamente pelo c�u, com uma meia-lua aparecendo entre elas de vez em quando. A claridade era suficiente para se ver a dist�ncia, mas Tadeu tirou uma das lanternas da carruagem para que enxerg�ssemos melhor o caminho.</p><p>Pondicherry Lodge ficava no meio de um terreno cercado por um muro de pedra muito alto com cacos de vidro na parte superior. Uma estreita porta de ferro era a �nica entrada. Foi nela que o nosso guia bateu, com pancadas semelhantes �s de um carteiro.</p><empty-line/><p>� Quem est� a�? � gritou de dentro uma voz �spera.</p><empty-line/><p>� Sou eu, McMurdo. Voc� j� devia conhecer a minha maneira de bater!</p><empty-line/><p>Ouviu-se um resmungo e um barulho de chaves. A porta abriu-se pesadamente e um homem baixo, de peito robusto, apareceu iluminando-nos com uma lanterna que tamb�m iluminava seu rosto protuberante e os olhos que piscavam desconfiados.</p><empty-line/><p>� � o sr. Tadeu? Mas quem s�o os outros? N�o tenho ordem do patr�o para receb�-los.</p><empty-line/><p>� Como n�o, McMurdo? Isso muito me admira. Eu disse ontem a meu irm�o que iria trazer hoje alguns amigos.</p><empty-line/><p>� Ele n�o saiu do quarto hoje o dia inteiro, sr. Tadeu, e eu n�o tenho ordens para receb�-los. O senhor sabe muito bem que tenho de cumprir as ordens. Posso deix�-lo entrar, mas os seus amigos t�m de ficar onde est�o.</p><empty-line/><p>Era um obst�culo inesperado. Tadeu olhava para todos os lados, desnorteado.</p><empty-line/><p>� Isto n�o est� certo, McMurdo. Deve ser suficiente para voc� que eu me responsabilize por eles. H� uma mo�a conosco. N�o posso deix�-la esperando na estrada a esta hora.</p><empty-line/><p>� Sinto muito, sr. Tadeu � disse o porteiro com firmeza. � Podem ser seus amigos e n�o ser amigos do patr�o. Ele me paga bem para cumprir a minha obriga��o e hei de cumpri-la. N�o conhe�o nenhum dos seus amigos.</p><empty-line/><p>� Oh, sim, voc� conhece, McMurdo � gritou Sherlock Holmes. � N�o creio que voc� possa ter-se esquecido de mim. N�o se lembra do amador que lutou tr�s�<emphasis>rounds</emphasis>�com voc� no Alison na noite em seu benef�cio, h� quatro anos?</p><empty-line/><p>� Oh! sr. Sherlock Holmes � gritou o lutador.</p><empty-line/><p>� Como pude deixar de reconhec�-lo! Se em vez de ficar a� quieto tivesse me dado um daqueles seus socos no queixo, eu teria logo sabido com quem lidava. Ah, o senhor � um dos que n�o aproveitam os seus dotes! Podia ir longe se continuasse a lutar.</p><empty-line/><p>� Voc� est� vendo, Watson? Se todo o resto falhar, ainda tenho esta profiss�o cient�fica � disse Holmes, rindo. � Tenho certeza de que o nosso amigo agora n�o vai nos deixar aqui fora no frio.</p><empty-line/><p>� Entre, senhor, entrem todos � ele respondeu.</p><empty-line/><p>� Sinto muito, sr. Tadeu, mas as ordens s�o rigorosas. Precisava poder confiar nos seus amigos antes de deix�-los entrar.</p><empty-line/><p>Dentro, um caminho de cascalho aberto num terreno abandonado levava a uma habita��o enorme, quadrada e prosaica, mergulhada na escurid�o, com exce��o de um lado, onde batia o luar. O tamanho do pr�dio sombrio, com o seu sil�ncio sepulcral, causou um frio no cora��o. Nem o pr�prio Tadeu se sentia � vontade e a lanterna balan�ava na sua m�o tr�mula.</p><empty-line/><p>� N�o posso compreender isto � dizia ele. � Deve haver algum engano. Eu disse a Bartolomeu que viria hoje com toda a certeza. E n�o h� luz no quarto dele. N�o sei o que fazer.</p><empty-line/><p>� Ele costuma proteger a casa assim? � perguntou Holmes.</p><empty-line/><p>� Ele segue os h�bitos de meu pai. Ele era o filho predileto, e �s vezes eu penso que meu pai deve ter contado a ele muito mais coisas do que para mim. Aquela janela onde a lua est� batendo � a do quarto de Bartolomeu. Est� muito claro, mas acho que a luz n�o vem de dentro.</p><empty-line/><p>� N�o, nenhuma! � disse Holmes. � Mas vejo o brilho de uma luz naquela janelinha ao lado da porta.</p><empty-line/><p>� Aquele � o quarto da governanta. � onde fica a velha sra. Bernstone. Ela pode nos dizer alguma coisa. Ser� que se importam de esperar aqui um momento? Porque se entrarmos todos juntos e ela n�o souber da nossa chegada, pode assustar-se. Mas ou�am, o que � isso?</p><empty-line/><p>Ergueu a lanterna. Sua m�o tremia tanto que os c�rculos de luz oscilavam em torno de n�s. A srta. Morstan agarrou o meu pulso e ficamos todos com os cora��es pesados, agu�ando os ouvidos. Do casar�o escuro vinham, no sil�ncio da noite, os sons mais tristes e plangentes do mundo, gritos, queixumes entrecortados de uma mulher assustada.</p><empty-line/><p>� � a sra. Bernstone � disse Sholto. � � a �nica mulher na casa. Esperem aqui. Volto j�.</p><empty-line/><p>Correu at� a porta e bateu da sua maneira habitual. Vimos que uma mulher alta o recebeu � porta e que ficou muito contente ao v�-lo.</p><empty-line/><p>� Oh, sr. Tadeu, meu senhor, como estou contente por ter vindo; como estou contente, sr. Tadeu, meu senhor!</p><empty-line/><p>N�s ouvimos as suas exclama��es de alegria at� que a porta se fechou e a sua voz se transformou num murm�rio mon�tono.</p><empty-line/><p>O nosso guia tinha nos deixado a lanterna. Holmes girou-a em volta, observou atentamente a casa e examinou os mont�es de entulho que enchiam o terreno. A srta. Morstan e eu ficamos juntos, de m�os dadas. O amor � uma coisa maravilhosamente sutil, porque ali est�vamos n�s, que nunca nos v�ramos antes desse dia, e nenhuma palavra, nem sequer um olhar afetuoso hav�amos trocado at� ent�o, e mesmo assim, neste momento aflitivo, nossas m�os se aproximaram instintivamente. Fiquei maravilhado depois, mas, naquele momento, parecia a coisa mais natural aproximar-me dela e, como ela me disse muitas vezes depois, havia nela tamb�m o instinto de voltar-se para mim em busca de conforto e prote��o. De modo que ficamos de m�os dadas como duas crian�as e uma grande paz invadiu nossos cora��es, apesar de todas as coisas obscuras que nos rodeavam.</p><empty-line/><p>� Que lugar esquisito � disse ela, olhando em volta. � Parece que soltaram aqui todas as toupeiras da Inglaterra. Eu j� vi um lugar parecido num morro perto de Ballarat, onde uns engenheiros estiveram fazendo prospec��o.</p><empty-line/><p>� E pela mesma raz�o � disse Holmes. � S�o os vest�gios das buscas ao tesouro. Deve lembrar-se de que eles levaram seis anos procurando. N�o admira que o terreno pare�a um areal.</p><empty-line/><p>Nesse momento a porta abriu-se de repente e Tadeu Sholto saiu correndo com as m�os na cabe�a e os olhos cheios de terror.</p><empty-line/><p>� Aconteceu alguma coisa com Bartolomeu � gritou. � Estou assustado. Meus nervos n�o v�o suportar isto.</p><empty-line/><p>Na verdade, estava quase chorando de medo e a sua fisionomia doentia, repuxada, emoldurada pelo astrac� do colarinho, tinha a express�o de desamparo de uma crian�a horrorizada.</p><empty-line/><p>� Vamos entrar � disse Holmes no seu tom firme e brusco.</p><empty-line/><p>� Venham, venham � suplicou Tadeu. � N�o estou em condi��es de tomar qualquer provid�ncia.</p><empty-line/><p>Fomos com ele at� o quarto da governanta, que ficava do lado esquerdo do corredor. A velha estava andando de um lado para outro com o olhar assustado e inquieto, apertando os dedos, mas a presen�a da srta. Morstan pareceu acalm�-la.</p><empty-line/><p>� Deus aben�oe o seu rosto tranq�ilo e doce! � exclamou com um suspiro hist�rico. � Ver voc� me faz bem. Oh, mas passei por uma prova dolorosa este dia.</p><empty-line/><p>Nossa companheira afagou a m�o magra e rude da velha, disse-lhe algumas palavras bondosas de conforto que fizeram voltar a cor ao seu rosto.</p><empty-line/><p>� O patr�o trancou-se e n�o h� meio de me responder � ela explicou. � Fiquei o dia inteiro � espera, porque ele gosta de ficar s� com freq��ncia. Uma hora atr�s desconfiei que havia alguma coisa errada, e subi para espiar pela fechadura. O senhor deve ir, sr. Tadeu, deve ir e olhar o senhor mesmo. Vi muitas vezes o sr. Bartolomeu triste e alegre durante dez anos, mas nunca, nunca o vi com uma cara daquelas.</p><empty-line/><p>Sherlock segurou a lanterna e foi na frente, porque Tadeu Sholto estava t�o abalado que os dentes batiam; tive de ampar�-lo para subir as escadas porque seus joelhos tremiam tanto que n�o conseguia andar. Por duas vezes Holmes tirou a lente para examinar uns sinais que me pareciam simples n�doas de poeira na passadeira de fibra que substitu�a o tapete da escada. Ele ia devagar, degrau a degrau, segurando a luz baixa, olhando atentamente para os dois lados. A srta. Morstan tinha ficado com a governanta apavorada.</p><empty-line/><p>O terceiro lance da escada acabava num corredor estreito e comprido, com um painel de tape�aria indiana do lado direito e tr�s portas � esquerda. Holmes seguiu por ele do mesmo modo vagaroso e met�dico, enquanto n�s �amos logo atr�s, com as nossas sombras negras que se estendiam pelo corredor. A terceira porta era a que procur�vamos. Holmes bateu, mas n�o se ouviu nenhuma resposta, e ent�o tentou abri-la � for�a. Mas estava trancada por dentro, e com um ferrolho largo e resistente que pudemos ver quando erguemos a lanterna. Apesar da chave virada, era poss�vel ver pelo buraco da fechadura. Sherlock abaixou-se e logo se levantou, respirando com for�a.</p><empty-line/><p>� H� alguma coisa diab�lica nisto, Watson � disse ele, mais emocionado do que eu jamais o vira. � O que acha?</p><empty-line/><p>Abaixei-me para espiar e recuei horrorizado. O luar enchia o quarto, que estava claro, com uma luminosidade difusa e vacilante. Olhando diretamente para mim e solta no ar, porque tudo embaixo estava na sombra, via-se uma cara, a mesma cara de Tadeu.</p><empty-line/><p>Era a mesma cabe�a grande e reluzente, a mesma franja de cabelo vermelho, a mesma cor macilenta. Mas as fei��es estavam imobilizadas num ricto horr�vel, tinham uma imobilidade anormal, que naquele quarto enluarado e silencioso era mais chocante que qualquer esgar ou contor��o.</p><empty-line/><p>Era t�o parecido com o nosso amigo que me virei para verificar se ele estava ali conosco. Ent�o lembrei-me de que ele nos tinha dito que eram g�meos.</p><empty-line/><p>� Isto � horr�vel! � disse eu a Holmes. � O que faremos?</p><empty-line/><p>� Temos que arrombar a porta � ele respondeu, e jogou-se contra ela com todo o peso do corpo.</p><empty-line/><p>A porta rangeu, gemeu, mas n�o cedeu. Ent�o, todos juntos nos atiramos sobre ela, que cedeu de repente com estrondo, impelindo-nos para dentro do quarto de Bartolomeu Sholto.</p><empty-line/><p>Ele parecia ter sido montado como um laborat�rio qu�mico. Uma fileira dupla de garrafas com tampas de vidro estava arrumada ao longo da parede em frente � porta, e a mesa estava cheia de bicos de Bunsen, tubos de ensaio e retortas. Nos cantos viamse garrafas verdes com �cidos, protegidas por inv�lucros de vime. Uma destas parecia ter sido entornada ou quebrada, porque um l�quido escuro escorria pelo ch�o, enchendo o ar com um cheiro desagrad�vel, semelhante ao do breu. Uma escada de m�o estava a um lado do quarto, no meio de um monte de ripas e gesso, e acima disso, no teto, havia um buraco de tamanho suficiente para deixar passar um homem. No ch�o, junto � escada, estava jogado um comprido rolo de corda. Ao lado da mesa, numa poltrona de madeira, o dono da casa estava sentado, todo dobrado, a cabe�a ca�da sobre o ombro esquerdo com aquele sorriso impenetr�vel e sinistro no rosto.</p><empty-line/><p>O corpo r�gido e frio indicava que estava morto havia algumas horas. Tive a impress�o de que n�o s� as fei��es, mas tamb�m todos os seus membros estavam torcidos e virados de uma forma fant�stica. Sobre a mesa havia um instrumento muito especial: uma vareta escura com uma cabe�a de pedra semelhante a um martelo, toscamente amarrada com barbante grosso. Ao lado, um peda�o de papel com algumas palavras rabiscadas. Holmes olhou para aquilo, e depois mostrou-me.</p><empty-line/><p>� Est� vendo? � disse, erguendo significativamente as sobrancelhas.</p><empty-line/><p>� luz da lanterna, eu li com um estremecimento de horror:�<emphasis>O sinal dos quatro</emphasis>.</p><empty-line/><p>� Pelo amor de Deus, o que significa tudo isto? � perguntei.</p><empty-line/><p>� Significa assassinato � disse ele, inclinando-se sobre o cad�ver. � Ah! Eu j� esperava! Olhe aqui!</p><empty-line/><p>Holmes apontava para uma coisa que parecia um espinho comprido e escuro, enterrado na pele pouco acima da orelha.</p><empty-line/><p>� Parece um espinho � eu disse.</p><empty-line/><p>� � um espinho. Pode tir�-lo. Mas tenha cuidado, porque est� envenenado.</p><empty-line/><p>Tirei-o com dois dedos e saiu t�o depressa que quase n�o deixou marca. Uma pequena mancha de sangue mostrava onde tinha sido a perfura��o.</p><empty-line/><p>� Tudo isto � um mist�rio insol�vel para mim. Em vez de se esclarecer, torna-se cada vez mais obscuro.</p><empty-line/><p>� Pelo contr�rio � respondeu Holmes. � A cada instante fica mais claro. Eu s� preciso de mais alguns elos para completar a corrente.</p><empty-line/><p>Desde que entr�ramos no quarto, t�nhamos esquecido completamente da presen�a de Tadeu. Ele ainda estava parado � porta, a pr�pria imagem do terror, torcendo as m�os e lamentando-se. De repente, rompeu num choro agudo e lastimoso.</p><empty-line/><p>� O tesouro sumiu! � dizia. � Roubaram o tesouro. L� est� o buraco por onde n�s o descemos. Fui eu que o ajudei! Eu fui a �ltima pessoa a v�-lo. Deixei-o aqui ontem � noite e ouvi a porta ser trancada enquanto eu descia a escada.</p><empty-line/><p>� Que horas eram?</p><empty-line/><p>� Dez horas. E agora est� morto, a pol�cia vir� e vai suspeitar de mim. Oh, sim! Tenho certeza de que vai. Mas os senhores n�o pensam assim, n�o � verdade? Certamente n�o pensam. Se tivesse sido eu, n�o iria traz�-los aqui, n�o �? Oh, meu Deus, sinto que vou enlouquecer.</p><empty-line/><p>Ele agitava os bra�os e batia os p�s numa esp�cie de acesso convulsivo.</p><empty-line/><p>� N�o h� nenhum motivo para estar com medo, sr. Sholto � disse Holmes com bondade, pousando a m�o no ombro dele. � Siga o meu conselho e v� ao posto contar o caso � pol�cia. Ofere�a-se para ajud�-los em tudo que for poss�vel. N�s o esperaremos aqui.</p><empty-line/><p>O homenzinho obedeceu meio espantado e ouvimos seus passos vacilantes quando desceu a escada no escuro.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 6</strong></p><p><strong>sherlock holmes faz</strong></p><empty-line/><p><strong>
  uma demonstra��o</strong></p><empty-line/><p>
    A<emphasis>gora, Watson � disse Holmes esfregando as m�os</emphasis>��, temos meia hora para n�s. Vamos empreg�-la bem. Como lhe disse, o caso est� quase todo esclarecido, mas n�o devemos cometer erros por causa do excesso de confian�a. Embora pare�a simples agora, o caso pode ter alguma coisa mais profunda por tr�s.</p><p>� Simples! � exclamei.</p><empty-line/><p>� Certamente � disse ele, com um certo ar de professor que d� uma explica��o aos alunos. � Fa�a o favor de sentar-se naquele canto, para que suas pegadas n�o compliquem o caso. E agora, m�os � obra. Em primeiro lugar, como essas pessoas vieram e como foram embora? A porta n�o foi aberta desde ontem. E a janela?</p><empty-line/><p>Levou a lanterna at� l�, murmurando suas observa��es mais para si mesmo do que para mim:</p><empty-line/><p>� Janela fechada por dentro, moldura s�lida, n�o h� gonzos de lado. Vamos abri-la: nenhum cano de �gua perto. Telhado inacess�vel. Apesar disso, um homem entrou pela janela. Choveu um pouco ontem � noite. Temos a marca de um p� no parapeito. E aqui est� uma marca redonda de lama, que se repete ali, no ch�o e outra vez perto da mesa. Veja aqui, Watson. � realmente uma bela demonstra��o.</p><empty-line/><p>Olhei para os discos n�tidos de lama.</p><empty-line/><p>� Isso n�o � uma pegada � eu disse.</p><empty-line/><p>� � algo muito mais valioso para n�s. � a marca de uma perna-de-pau. Voc� pode ver, no parapeito da janela temos a marca da bota. Uma bota pesada com um salto largo de metal e ao lado est� a marca do toco de madeira.</p><empty-line/><p>� � o homem da perna-de-pau!</p><empty-line/><p>� Exatamente. Mas havia mais algu�m, um c�mplice h�bil e eficiente. Voc� poderia escalar aquele muro, doutor?</p><empty-line/><p>Olhei para fora pela janela aberta. A lua brilhava ainda sobre o �ngulo da casa. Est�vamos a uns 18 metros do ch�o e, para onde quer que olhasse, n�o se via nada onde se pudesse p�r o p�, nem sequer uma fenda no muro.</p><empty-line/><p>� � completamente imposs�vel.</p><empty-line/><p>� Sem aux�lio �. Mas suponha que um amigo lhe atirasse aqui de cima esta boa corda que vejo ali no canto, e a amarrasse naquele enorme gancho na parede. Parece-me que, neste caso, se voc� fosse �gil, poderia subir com perna-de-pau e tudo. Voltaria como veio, e o seu c�mplice iria puxar a corda, tir�-la do gancho, fechar a janela por dentro com o trinco e sair como entrou. Como um pequeno detalhe, deve-se observar � ele continuou, examinando a corda � que o nosso homem da perna-de-pau, apesar de subir com perfei��o, n�o � um marinheiro de profiss�o. N�o tem as m�os calejadas; com a lente, descobri mais de uma mancha de sangue, principalmente no fim da corda, e da� conclu� que ele escorregou com tanta velocidade que arrancou pele das m�os.</p><empty-line/><p>� Est� tudo muito bem, mas a coisa fica cada vez mais inintelig�vel. E o c�mplice? Como ele entrou?</p><empty-line/><p>� Ah, sim, o c�mplice � repetiu Holmes, pensativo. � H� pontos muito interessantes sobre este c�mplice. � por causa dele que este caso deixa de ser vulgar. Creio que este c�mplice fez a sua estr�ia nos anais do crime neste pa�s, pois casos semelhantes inspiram-se na �ndia e, se n�o me falha a mem�ria, na Seneg�mbia.</p><empty-line/><p>Eu insisti:</p><empty-line/><p>� Mas como ele entrou? A porta est� trancada, a janela � inacess�vel. Ser� que foi pela chamin�?</p><empty-line/><p>� A grade � pequena demais � respondeu Holmes.</p><empty-line/><p>� Eu j� tinha pensado nisso.</p><empty-line/><p>� Ent�o como foi? � continuei insistindo.</p><empty-line/><p>� Voc� n�o aplica os meus preceitos � disse, meneando a cabe�a. � Quantas vezes j� lhe disse que, quando tiver eliminado o imposs�vel, o que fica,�<emphasis>por mais improv�vel que seja</emphasis>, deve ser a verdade? Sabemos que ele n�o entrou pela porta, nem pela janela, nem pela chamin�. Tamb�m sabemos que n�o podia estar escondido no quarto, porque n�o havia onde se esconder. Logo, por onde ele veio?</p><empty-line/><p>� Pelo buraco do teto! � gritei.</p><empty-line/><p>� Certamente. Deve ter sido assim... Se tiver a bondade de segurar a lanterna para mim, estenderemos nossas pesquisas ao quarto de cima, o quarto secreto onde foi achado o tesouro.</p><empty-line/><p>Subiu pela escada e, segurando uma viga com a outra m�o, i�ou-se at� o s�t�o. Depois, abaixando-se para alcan�ar a lanterna, segurou-a, enquanto eu subia. O quarto em que entramos tinha mais ou menos 3 metros de comprimento por dois de largura; o ch�o era todo de barrotes ligados por ripas e gesso, de modo que para andar era preciso saltar de trave em trave. O teto formava a cimalha e era evidentemente a parte interna do verdadeiro telhado. N�o havia nenhum tipo de m�vel e uma grossa camada de poeira, acumulada durante anos, cobria o ch�o.</p><empty-line/><p>� Olhe para isto � Holmes p�s a m�o na parede e disse: � � um al�ap�o que leva para fora do telhado. Empurrando-o, temos o pr�prio telhado acabando num �ngulo. Portanto, foi por aqui que entrou o n<sup>o</sup>�1. Vamos ver se achamos mais vest�gios da sua individualidade.</p><empty-line/><p>Ele aproximou a lanterna do ch�o e, pela segunda vez naquela noite, vi surgir no seu rosto uma express�o de espanto. Quando segui seu olhar, fiquei gelado. O ch�o estava coberto de marcas de p�s descal�os, n�tidas, perfeitamente desenhados, mas que n�o chegavam � metade do tamanho do p� de um homem comum.</p><empty-line/><p>� Holmes � eu disse num sussurro � foi uma crian�a que fez esta coisa horrenda!</p><empty-line/><p>Ele j� tinha recuperado o sangue-frio.</p><empty-line/><p>� Eu fiquei atordoado no primeiro momento � disse Holmes. � Mas � perfeitamente natural. A mem�ria falhou-me, sen�o eu teria adivinhado. N�o h� mais nada para ver aqui. Vamos descer.</p><empty-line/><p>� Mas, afinal, qual � a sua opini�o sobre as marcas de p�s? � perguntei ansioso quando descemos novamente.</p><empty-line/><p>� Meu caro Watson, tente analisar por si mesmo � respondeu-me, ligeiramente impaciente. � Conhece o meu m�todo. Aplique-o, e ser� instrutivo comparar os resultados.</p><empty-line/><p>� N�o imagino nada que possa explicar os fatos.</p><empty-line/><p>� Muito em breve tudo parecer� claro para voc� � disse de modo evasivo. � Acho que n�o h� mais nada importante aqui, mas vou ver.</p><empty-line/><p>Pegou a lente e uma fita m�trica e percorreu o quarto, medindo, comparando, examinando com o seu nariz fino e comprido quase junto ao ch�o e os olhos dilatados, cintilantes e atentos como os de um p�ssaro. Seus movimentos eram t�o r�pidos, silenciosos e furtivos, semelhantes aos de um c�o de ca�a treinado farejando uma pista, que eu n�o pude deixar de pensar que ele seria um criminoso terr�vel se aplicasse sua energia e sagacidade contra a lei em vez de aplic�-las em sua defesa. Enquanto examinava tudo, resmungava consigo mesmo, e finalmente soltou um grito de satisfa��o:</p><empty-line/><p>� Estamos com sorte. Agora devemos ter muito pouca dificuldade. O n<sup>o</sup>�1 teve a infelicidade de pisar no alcatr�o. Voc� pode ver a linha da borda do seu pezinho, passando rente a essa coisa malcheirosa. Quebraram a garrafa e o l�quido escorreu.</p><empty-line/><p>� E ent�o? � perguntei.</p><empty-line/><p>� O que temos j� � suficiente. Conhe�o um cachorro que � capaz de seguir este cheiro at� o fim do mundo. Se uma matilha conseguir seguir o rastro de um arenque atrav�s de um condado, como um c�o ensinado n�o conseguir� seguir um cheiro desagrad�vel como este? � como uma soma em regra de tr�s. A resposta devia dar-nos... Ol�! Aqui est�o os representantes da lei.</p><empty-line/><p>Pod�amos ouvir passos pesados e o som de vozes embaixo. A porta do�<emphasis>hall</emphasis>�fechou-se com um estrondo.</p><empty-line/><p>� Antes que eles cheguem � disse Holmes �, ponha a sua m�o aqui no bra�o e na perna deste pobre coitado. O que sente?</p><empty-line/><p>� Os m�sculos est�o duros como uma pedra � respondi.</p><empty-line/><p>� Exatamente. Est�o muito mais retesados do que habitualmente em�<emphasis>rigor mortis</emphasis>. Juntando isso com a contor��o da face e o riso hipocr�tico, ou�<emphasis>risus sardonicus</emphasis>, como chamavam os autores antigos, qual a conclus�o que isto sugere?</p><empty-line/><p>� Morte causada por algum poderoso alcal�ide vegetal, uma subst�ncia semelhante � estriquinina, que provocaria o t�tano � respondi.</p><empty-line/><p>� Foi o que me ocorreu logo que vi os m�sculos repuxados do rosto. Quando entramos, procurei saber como o veneno fora introduzido no organismo e descobri o espinho, que tinha sido lan�ado sem muita for�a no couro cabeludo. Observe que o lugar atingido � o que estaria virado na dire��o do buraco do teto se ele estivesse sentado direito na cadeira. Agora, examine o espinho.</p><empty-line/><p>Apanhei-o cautelosamente e o examinei perto da lanterna. Era comprido, pontudo e preto, e lustroso na ponta, como se alguma subst�ncia pastosa tivesse secado nele. A ponta tinha sido aparada e afilada com um canivete.</p><empty-line/><p>� Esse espinho � da Inglaterra? � ele perguntou.</p><empty-line/><p>� N�o �, com toda certeza.</p><empty-line/><p>� Com todos estes dados, voc� poderia tirar alguma conclus�o correta. Mas como as for�as regulares est�o chegando, as auxiliares t�m de bater em retirada.</p><empty-line/><p>Enquanto ele falava, os passos se aproximaram pelo corredor, e um homem muito gordo, com uma roupa e um andar pesado, entrou no quarto. Era muito corado, corpulento e plet�rico, mas com um par de olhinhos vivos que surgiam por entre as p�lpebras empapu�adas. Atr�s dele vinha um inspetor de uniforme e o ainda tr�mulo Tadeu Sholto.</p><empty-line/><p>� Isto � que � um neg�cio � gritou ele com voz �spera �, um belo neg�cio. Mas quem s�o estes aqui? A casa parece estar cheia como uma coelheira!</p><empty-line/><p>� Eu acho que deve lembrar-se de mim, sr. Athelney Jones � disse Holmes tranq�ilamente.</p><empty-line/><p>� Ah, � claro. � o sr. Sherlock Holmes, o te�rico. Lembrar-me de voc�! Jamais esquecerei a li��o que nos deu sobre causas, dedu��es e efeitos no caso do cofre das j�ias de Bishopgate. � verdade que nos p�s na pista certa, mas foi mais por sorte do que por uma boa orienta��o.</p><empty-line/><p>� Era um caso de racioc�nio muito simples.</p><empty-line/><p>� Ora, vamos. N�o se envergonhe de confessar. Mas por que tudo isto? N�o � este o caso. H� fatos positivos aqui � n�o h� lugar para teorias. Foi uma sorte que eu estivesse em Norwood por causa de outro crime. Estava na delegacia quando fui chamado. Na sua opini�o, de qu� o homem morreu?</p><empty-line/><p>� Ah, este caso n�o se presta �s minhas teoriza��es � disse secamente.</p><empty-line/><p>� N�o, n�o. Ainda assim, n�o se pode negar que voc� acerta �s vezes. Meu caro! Compreende-se. Porta trancada, desaparecimento de j�ias no valor de meio milh�o. Como estava a janela?</p><empty-line/><p>� Fechada, mas h� marcas de p�s no parapeito.</p><empty-line/><p>� Est� bem. Se estava fechada, as marcas podem n�o ter nada a ver com o resto. Isto � trivial. O homem pode ter morrido de um ataque, mas h� o desaparecimento das j�ias. Tamb�m tenho a minha teoria. �s vezes tenho estes lampejos. Fa�a o favor de sair, sargento, e o senhor tamb�m, sr. Sholto. O seu amigo pode ficar. O que � que pensa a respeito, Holmes? Sholto diz que esteve com o irm�o ontem � noite. O irm�o morreu de repente e Sholto fugiu com o tesouro. O que acha?</p><empty-line/><p>� E a� o morto, com muita delicadeza, levanta-se e tranca a porta por dentro.</p><empty-line/><p>� Unh! H� uma falha a�. Vamos aplicar o bom senso. Este Tadeu Sholto esteve com o irm�o, houve uma discuss�o, isto n�s sabemos. O irm�o morreu e as j�ias desapareceram. Disto tamb�m sabemos. Ningu�m mais viu o irm�o depois que Tadeu saiu. Ele n�o se deitou. Tadeu est�, evidentemente, bastante perturbado. O seu aspecto n�o � nada atraente. Voc�s v�em que estou lan�ando os fios em volta de Tadeu e a rede come�a a apert�-lo.</p><empty-line/><p>� Ainda n�o tem todos os fatos � disse Holmes.</p><empty-line/><p>� Esta lasca de madeira, que tenho todos os motivos para acreditar que est� envenenada, estava enterrada no couro cabeludo, onde ainda se pode ver a marca. Este bilhete estava na mesa e ao lado havia este curioso instrumento com uma extremidade de pedra. Como tudo isto se encaixa na sua teoria?</p><empty-line/><p>� Confirma-a em todos os aspectos � disse o detetive gordo de maneira pomposa. � A casa est� repleta de curiosidades da �ndia. Foi Tadeu quem trouxe o espeto envenenado e usou-o de maneira criminosa como qualquer outra pessoa o faria. O bilhete � um logro, � uma venda com que querem tapar nossos olhos... A �nica d�vida �: como ele teria sa�do? Ora... pelo teto, ali est� um buraco.</p><empty-line/><p>Com muita agilidade para o seu tamanho, ele subiu a escada e passou para o s�t�o. Logo em seguida ouvimos sua voz exultante anunciando a descoberta do al�ap�o.</p><empty-line/><p>� Ele pode descobrir alguma coisa � disse Holmes, sacudindo os ombros. � De vez em quando tem lampejos de raz�o:�<emphasis>Il n�y a pas des sots si incommodes que ceux qui ont de l�esprit!{3}</emphasis></p><empty-line/><p>� Est�o vendo? � disse Athelney Jones, voltando pelas escadas. � Os fatos s�o melhores que as teorias, no fim das contas. A minha opini�o est� confirmada. H� um al�ap�o que se comunica com o telhado, e est� meio aberto.</p><empty-line/><p>� Fui eu que o abri.</p><empty-line/><p>� Oh!... Ent�o tinha reparado nele? � Ele parecia ter ficado surpreso com a descoberta. � Pois bem, quem quer que o tenha percebido, ele prova que o nosso cavalheiro p�de escapulir. Inspetor!</p><empty-line/><p>� Pronto! � responderam do corredor.</p><empty-line/><p>� Pe�a ao sr. Sholto para entrar. Sholto, � meu dever inform�-lo de que qualquer coisa que disser ser� usada contra voc�. Est� preso em nome de S. M. a Rainha, como culpado da morte de seu irm�o.</p><empty-line/><p>� Est�o vendo? Eu bem que tinha dito! � exclamou o pobre homem, levantando as m�os e olhando para n�s.</p><empty-line/><p>� N�o se aflija com isso, sr. Sholto � disse Holmes.</p><empty-line/><p>� Acho que posso prometer-lhe que o livrarei disso.</p><empty-line/><p>� N�o prometa demais, sr. Te�rico, n�o v� prometendo demais � interrompeu o detetive. � Pode achar o caso depois mais dif�cil do que lhe parece agora.</p><empty-line/><p>� Sr. Jones, n�o s� livrarei o sr. Sholto, como tamb�m darei ao senhor de presente o nome e a descri��o de uma das duas pessoas que estiveram neste quarto ontem � noite. O nome, tenho todos os motivos para acreditar que seja o de Jonathan Small. � um homem sem instru��o, baixo, �gil, que n�o tem a perna direita e usa uma perna-de-pau j� gasta na parte interna. A bota que usa no p� esquerdo tem sola quadrada com uma tira de ferro em torno do salto; � um homem de meia-idade, muito queimado de sol. J� foi condenado a trabalhos for�ados. Estas poucas indica��es podem ajud�-lo, juntamente com o fato de que est� com a pele ferida na palma da m�o. O outro homem...</p><empty-line/><p>� Ah! O outro? � perguntou Athelney Jones num tom de esc�rnio, mas mesmo assim impressionado, como pude ver facilmente, com a precis�o do outro.</p><empty-line/><p>� O outro � um personagem curioso � disse Sherlock virando-lhe as costas. � Espero apresentarlhe o par dentro de pouco tempo. Watson, quero falar com voc�.</p><empty-line/><p>Levou-me para o patamar da escada.</p><empty-line/><p>� Esta ocorr�ncia inesperada afastou-nos do objetivo principal da nossa jornada.</p><empty-line/><p>� Estava pensando exatamente nisso. N�o � justo que a srta. Morstan fique nesta casa amaldi�oada.</p><empty-line/><p>� N�o. � Voc� tem de lev�-la para casa. Ela mora com a sra. Cecil Forrester, em Lower Camberwell, que n�o � muito longe. Fico aqui � sua espera, se quiser voltar. Mas quem sabe est� cansado?</p><empty-line/><p>� De modo algum. Acho que n�o poderei descansar enquanto n�o souber mais sobre este caso fant�stico. Tenho assistido a muitas desgra�as, mas dou-lhe a minha palavra de que esta sucess�o de acontecimentos extraordin�rios, nesta noite, abaloume profundamente. E j� que chegamos a este ponto, quero acompanh�-lo at� o fim.</p><empty-line/><p>� A sua presen�a vai ser de grande utilidade � respondeu Holmes. � Trabalharemos de modo independente, e deixemos que esse pateta do Jones fique exultante com qualquer bobagem que consiga elaborar. Depois que voc� deixar a srta. Morstan, quero que v� a Pinchin Lane, n<sup>o</sup>�3, quase � beira-mar, em Lambeth. A terceira casa do lado direito � de um passarinheiro que se chama Sherman. Chame pelo velho Sherman e, com os meus cumprimentos, digalhe que preciso de�<emphasis>Toby</emphasis>�imediatamente. E voc� ir� trazer o�<emphasis>Toby</emphasis>�no carro.</p><empty-line/><p>� � um c�o, imagino.</p><empty-line/><p>� � um mesti�o original que tem um faro admir�vel. Eu prefiro o aux�lio de�<emphasis>Toby</emphasis>�ao de todos os policiais de Londres juntos.</p><empty-line/><p>� Ent�o vou traz�-lo. J� � uma hora. Se eu conseguir outro cavalo, estarei aqui antes das tr�s horas.</p><empty-line/><p>� E eu � disse Holmes � vou ver o que consigo saber com a sra. Bernstone e com o criado hindu, que o sr. Tadeu disse que dorme no s�t�o cont�guo ao outro. Depois vou estudar os m�todos do grande Jones e ouvir os seus sarcasmos pouco delicados.�<emphasis>�Wir sind gewohnt dass die Menschen verh�hen was sie nicht verstehen.�{4}</emphasis>�Goethe � sempre vigoroso.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 7</strong></p><p><strong>o epis�dio do barril</strong></p><empty-line/><p>
    A�<emphasis>pol�cia tinha um cabriol� � disposi��o, e nele levei</emphasis>�a srta. Morstan para casa. Como toda mulher angelical, a srta. Morstan suportou tudo serenamente enquanto sentiu que precisava dar apoio a uma pessoa mais fraca que ela, e por isso encontrei-a tranq�ila ao lado da pobre governanta apavorada. Mas no cabriol� n�o teve mais for�as e desmaiou, e depois chorou descontroladamente, por ter passado por experi�ncias t�o terr�veis durante as aventuras daquela noite.</p><p>Depois ela me disse que me achara frio e distante naquele dia. Ela nem imaginou a luta que se travava no meu �ntimo e o esfor�o para me manter afastado. O meu amor e a minha compreens�o se dirigiam para ela como quando, antes, tomara no jardim as suas m�os nas minhas. Senti que anos de uma vida cheia de conven��es n�o poderiam me fazer conhecer melhor a sua natureza doce e corajosa do que este �nico dia de experi�ncias estranhas.</p><empty-line/><p>Mas havia dois pensamentos que me impediam de confessar-lhe o meu afeto. Ela estava fraca e desamparada, com os nervos e o esp�rito abalados. Seria um abuso falar de amor naquele momento.</p><empty-line/><p>Pior ainda, ela estava rica. Se Holmes fosse bemsucedido nas suas investiga��es, ela seria uma das maiores herdeiras da Inglaterra. Seria justo, honesto, que um cirurgi�o a meio soldo se aproveitasse da intimidade que o acaso lhe proporcionara? Ser� que ela n�o iria me ver como a um reles ca�ador de fortunas? Era intoler�vel pensar que essa id�ia pudesse passar pela sua mente. Este tesouro de Agra interp�s-se como uma barreira intranspon�vel entre n�s.</p><empty-line/><p>Eram quase duas horas quando chegamos � casa da sra. Cecil Forrester. As criadas j� tinham se recolhido, mas a sra. Forrester se interessara tanto pela mensagem que a srta. Morstan recebera que ficou esperando a sua volta. Foi ela mesma quem abriu a porta; era uma mulher de meia-idade, graciosa, e fiquei contente de v�-la passar um bra�o em volta da cintura da outra com ternura e falar-lhe num tom maternal.</p><empty-line/><p>Estava claro que ela n�o era apenas uma subordinada paga, mas uma amiga respeitada. Fui apresentado e a sra. Forrester pediu-me que entrasse para lhe contar nossa aventura. Mas expliquei-lhe a import�ncia da minha tarefa e prometi visit�-la e relatar as novidades sobre o caso. Ao retornar ao cabriol�, olhei para tr�s e ainda hoje tenho a impress�o de ver o pequeno grupo na escada formado pelas graciosas figuras unidas, a porta entreaberta, por onde se escoava a luz do�<emphasis>hall</emphasis>, o bar�metro e os prendedores de metal das passadeiras da escada. Era tranq�ilizador, em meio ao acontecimento tenebroso em que est�vamos envolvidos, ter ao menos um r�pido vislumbre de um lar ingl�s tranq�ilo. E quanto mais eu pensava no que acontecera, mais tenebroso e obscuro aquilo me parecia. Enquanto rodava pelas ruas silenciosas, iluminadas a g�s, ia recordando a extraordin�ria sucess�o de acontecimentos. Havia um problema original, que, agora, pelo menos, estava claro. A morte do capit�o, a remessa das p�rolas, o an�ncio, a carta... todos estes fatos estavam esclarecidos. Mas eles nos levaram unicamente a um mist�rio mais profundo e muito mais tr�gico.</p><empty-line/><p>O tesouro indiano, o curioso plano encontrado nos pap�is de Morstan, a cena estranha da morte do major Sholto, a descoberta do tesouro imediatamente seguida do assassinato do descobridor, os detalhes singulares do crime, as pegadas, a arma esquisit�ssima, as palavras do bilhete correspondendo �s que estavam escritas no mapa de Morstan formavam um labirinto que um homem menos talentoso que o meu companheiro de casa se veria atrapalhado para esclarecer.</p><empty-line/><p>Pinchin Lane era uma fila de casas miser�veis de dois andares na parte mais baixa de Lambeth. Tive que bater mais de uma vez at� que me atendessem.</p><empty-line/><p>Mas, finalmente, vi o brilho de uma vela por tr�s da r�tula e um rosto olhou da janela de cima.</p><empty-line/><p>� V�-se embora, seu vagabundo b�bado. Se bater de novo, eu abro os canis e solto 43 c�es em cima de voc�.</p><empty-line/><p>� Se quiser soltar um, � o que me basta.</p><empty-line/><p>� V�-se embora � gritou a voz. � Tenho um chicote aqui e vou us�-lo na sua cabe�a se n�o for embora logo.</p><empty-line/><p>� Mas eu quero um cachorro � gritei.</p><empty-line/><p>� Eu n�o quero conversa � berrou o sr. Sherman.</p><empty-line/><p>� Ou�a bem... vou contar at� tr�s e ent�o vai sentir o chicote.</p><empty-line/><p>� O sr. Sherlock Holmes� � comecei a falar... As palavras m�gicas provocaram um efeito imediato. Ele fechou a janela e num minuto a porta se abria.</p><empty-line/><p>Sherman era um velho magro, descarnado, de ombros ca�dos, pesco�o musculoso e �culos azuis.</p><empty-line/><p>� Um amigo do sr. Sherlock Holmes � sempre bem-vindo. Entre, por favor. Mas n�o chegue perto desse texugo porque ele morde. Seu malcriado, queria dar uma dentada no cavalheiro?</p><empty-line/><p>Falava assim com uma fuinha que enfiara a cabe�a de olhos vermelhos pelas grades da gaiola.</p><empty-line/><p>� N�o ligue, meu senhor, � uma�<emphasis>pregui�a</emphasis>, n�o tem garras, ela anda pela casa porque liquida com os insetos. O senhor deve me desculpar por ter sido um pouco grosseiro no in�cio, mas a crian�ada bate muitas vezes a� na porta para me aborrecer. O que � que o sr. Sherlock Holmes quer?</p><empty-line/><p>� Quer um dos seus c�es.</p><empty-line/><p>� Deve ser o�<emphasis>Toby</emphasis>.</p><empty-line/><p>� � exatamente esse.</p><empty-line/><p>��<emphasis>Toby</emphasis>�mora no n<sup>o</sup>�7, aqui � esquerda.</p><empty-line/><p>Moveu-se devagar com a sua vela por entre a exc�ntrica fam�lia de animais que reunira em torno dele. � luz vacilante da vela eu notava que havia olhos que nos espreitavam aborrecidos, sonolentos, de todos os lados. At� as vigas acima das nossas cabe�as estavam cheias de aves que mudavam pregui�osamente de posi��o quando as nossas vozes perturbavam seu sono.�<emphasis>Toby</emphasis>�era um bicho feio, de p�lo comprido, orelhas ca�das, mesti�o, pardo e branco, com um andar vacilante e desajeitado.</p><empty-line/><p>Depois de hesitar um pouco, aceitou um tablete de a��car que Sherman me dera, selando assim a nossa alian�a, e ele foi comigo no carro sem dificuldade. Tinham acabado de soar tr�s horas no rel�gio do pal�cio quando cheguei a Pondicherry Lodge. O ex-lutador McMurdo tamb�m tinha sido preso para averigua��es, e tanto ele como o sr. Sholto foram levados para o posto policial. Dois guardas estavam no port�o, mas deixaram-me entrar com o cachorro quando mencionei o nome de Holmes. Ele estava na porta, com as m�os nos bolsos, fumando seu cachimbo.</p><empty-line/><p>� Ah, ah! Voc� o trouxe. Bom bicho. � Athelney Jones saiu. � Tivemos uma grande exibi��o de energia depois que voc� saiu. Ele prendeu n�o s� o pobre Tadeu, mas tamb�m o porteiro, a governanta e o criado indiano. O lugar est� � nossa disposi��o, mas h� um sargento l� em cima. Deixe o c�o a� e venha c�.</p><empty-line/><p>Amarramos�<emphasis>Toby</emphasis>�� mesa do vest�bulo e subimos. O quarto estava como o deixamos, e a �nica diferen�a era que o cad�ver fora coberto com um len�ol. Um sargento com um ar enfastiado estava encostado a um canto.</p><empty-line/><p>� Empreste-me a sua lente, sargento � disse Sherlock. � Agora prenda este peda�o de cart�o no meu pesco�o de modo que fique pendurado na minha frente. Obrigado. Agora tenho de tirar as meias e as botas. Voc� deve lev�-las l� para baixo, Watson; eu vou subir por a� um pouco. Molhe o meu len�o em alcatr�o. Pronto. Venha agora ao s�t�o comigo um instante.</p><empty-line/><p>Subimos pelo buraco. Holmes dirigiu a luz para as marcas de p�s na poeira.</p><empty-line/><p>� Quero que repare bem nestas marcas. N�o observa nelas nada de estranho?</p><empty-line/><p>� Elas foram feitas por uma crian�a ou uma mulher baixa.</p><empty-line/><p>� Al�m do tamanho. V� alguma coisa?</p><empty-line/><p>� Parecem pegadas como qualquer outra.</p><empty-line/><p>� De jeito nenhum! Veja! Aqui est� a marca de um p� direito. Vou marcar agora com o meu. Qual � a diferen�a?</p><empty-line/><p>� Os dedos do seu p� est�o juntos e a outra marca mostra os dedos separados uns dos outros.</p><empty-line/><p>� Exatamente. Lembre-se disto. Agora v� at� aquela janela e cheire o parapeito. Eu fico aqui por causa do len�o que tenho na m�o.</p><empty-line/><p>Fiz como ele pediu e logo senti um cheiro forte de alcatr�o.</p><empty-line/><p>� Foi a� que ele p�s o p� ao sair. Se�<emphasis>voc�</emphasis>�p�de sentir o cheiro, devo pensar que�<emphasis>Toby</emphasis>�n�o ter� dificuldade. V� l� embaixo, solte o c�o e procure�<emphasis>Blondin</emphasis>.</p><empty-line/><p>Quando cheguei l� fora, vi Holmes no telhado como um enorme pirilampo andando de gatinhas pela calha. Eu o perdi de vista quando ele passou atr�s de um grupo de chamin�s, mas reapareceu logo, para tornar a desaparecer no lado oposto.</p><empty-line/><p>Quando dei a volta, achei-o sentado num dos beirais, num canto.</p><empty-line/><p>� � voc�, Watson?</p><empty-line/><p>� Sou eu.</p><empty-line/><p>� Foi aqui. O que � aquilo preto l� embaixo?</p><empty-line/><p>� Um barril de �gua.</p><empty-line/><p>� Est� coberto?</p><empty-line/><p>� Est�.</p><empty-line/><p>� N�o h� sinais de que uma escada tenha sido apoiada nele?</p><empty-line/><p>� N�o.</p><empty-line/><p>� Que patife. � um lugar perigoso. Se ele p�de subir, eu posso descer por aqui. O barril parece bastante firme. L� vai... de qualquer maneira.</p><empty-line/><p>Ouviu-se o ru�do dos p�s de Holmes se arrastando e a lanterna come�ou a descer com firmeza pela parede. Depois, com a luz na m�o, chegou ao barril, e dali pulou para o ch�o.</p><empty-line/><p>� Era f�cil segui-lo � disse, enfiando as meias e as botas. � As telhas estavam soltas em todo o trajeto por onde passou, e na pressa ele perdeu isto, que confirma o meu diagn�stico, como voc�s, m�dicos, dizem.</p><empty-line/><p>O que ele me mostrava era um saco pequeno de embira colorida e com umas contas de cores vivas presas em volta. Pelo tamanho e formato, parecia uma cigarreira. Dentro havia seis espinhos de madeira escura, pontudos de um lado, redondos do outro, como o que fora usado para ferir Bartolomeu Sholto.</p><empty-line/><p>� S�o coisas infernais � disse Holmes. � N�o v� se arranhar com eles. Estou contente por t�-los encontrado. � prov�vel que ele s� tivesse estes. Assim, n�o precisamos ter muito medo de que sejamos mimoseados com algum na nossa pele. Voc� � capaz de enfrentar uma caminhada dif�cil de uns dez quil�metros, Watson?</p><empty-line/><p>� Mas com toda certeza � respondi.</p><empty-line/><p>� A sua perna ag�enta?</p><empty-line/><p>� Ag�enta.</p><empty-line/><p>� Aqui est� o cachorrinho. O bom e velho�<emphasis>Toby</emphasis>. Cheire,�<emphasis>Toby</emphasis>, cheire... � Ele encostou o len�o embebido em alcatr�o no focinho do c�o, que estava com as pernas bambas afastadas, aspirando o len�o como um conhecedor aspiraria o�<emphasis>bouquet</emphasis>�de uma boa safra de vinho.</p><empty-line/><p>Holmes atirou o len�o longe, amarrou uma corda grossa no pesco�o do mesti�o e levou-o para perto do barril de �gua. O bicho come�ou a dar uma s�rie de latidos agudos, tr�mulos e, com o nariz perto do ch�o e a cauda no ar, come�ou a seguir o rastro numa rapidez que mal consegu�amos acompanhar.</p><empty-line/><p>O c�u come�ara a clarear e j� era poss�vel enxergar a uma certa dist�ncia na luz fria e cinzenta. A casa quadrada e s�lida, com as suas escuras janelas vazias e paredes altas e nuas, se elevava, triste e desamparada, atr�s de n�s. Atravessamos o terreno da casa rodeando fossos e buracos. O espa�o todo, com os seus montes de lixo espalhados e os arbustos raqu�ticos, tinha um aspecto est�ril, abandonado, que combinava bem com a trag�dia que ali se desenrolara.</p><empty-line/><p>Ao chegar ao muro que cercava o jardim,�<emphasis>Toby</emphasis>�foi andando pela sua sombra, ganindo, e finalmente parou num canto onde havia uma faia nova que o cobria. No canto formado pelas duas paredes, tinham sido tirados v�rios tijolos, as fendas estavam desgastadas e com as bordas arredondadas, como se tivessem sido usadas como escada. Holmes subiu e, pegando o c�o, atirou-o para o outro lado.</p><empty-line/><p>� Olhe a marca da m�o do perna-de-pau � ele mostrou quando eu subi. Veja a leve mancha de sangue na cal branca. Foi uma sorte que n�o tenha chovido forte desde ontem. O cheiro vai se conservar na estrada, apesar da dianteira de 28 horas que eles t�m sobre n�s.</p><empty-line/><p>Eu confesso que tinha minhas d�vidas quando pensei no tr�fego movimentado no caminho para Londres neste intervalo. Mas meus receios logo desapareceram.�<emphasis>Toby</emphasis>, sem hesitar nem desviar-se, ia andando no seu bamboleio caracter�stico. Era �bvio que o cheiro desagrad�vel do alcatr�o se sobrepunha a todos os outros.</p><empty-line/><p>� N�o pense que o �xito da minha investiga��o depende do fato de o sujeito ter ou n�o pisado nessa subst�ncia; o que sei agora me permitiria rastre�-los de muitas outras maneiras. Este � o mais r�pido e, j� que a sorte o colocou nas nossas m�os, seria conden�vel desprez�-lo. Entretanto, impediu que o caso fosse o belo problema intelectual que prometia ser.</p><empty-line/><p>� Garanto-lhe, Holmes, que fico maravilhado com os meios que voc� usa para obter resultados neste caso, ainda mais do que no assassinato de Jefferson Hope. Este aqui parece mais profundo e inexplic�vel. Como voc� p�de, por exemplo, descrever com tanta seguran�a o homem da perna-de-pau?</p><empty-line/><p>� Ah, meu rapaz, � a pr�pria simplicidade. N�o quero ser teatral. � tudo claro e n�tido. Dois oficiais que comandam a guarda dos degredados ficam sabendo de um segredo importante a respeito de um tesouro enterrado. Um ingl�s chamado Jonathan Small desenha um mapa para eles. Deve lembrar que vimos o nome no mapa do capit�o; ele assinou em seu pr�prio nome e nos de seus s�cios,�<emphasis>O sinal dos quatro</emphasis>, como ele o chama de modo um tanto dram�tico. Ajudados por este mapa, os oficiais, ou um deles, descobrem o tesouro e o trazem para a Inglaterra, deixando, vamos supor, de cumprir alguma das condi��es. E ent�o por que Jonathan n�o foi buscar o tesouro? A resposta � �bvia. O mapa tem a data da �poca em que Morstan teve mais contato com os degredados. Jonathan Small n�o pegou o tesouro porque ele e seus s�cios eram degredados, e n�o podiam sair.</p><empty-line/><p>� Mas isto � pura especula��o.</p><empty-line/><p>� � mais do que isso. � a �nica hip�tese que pode explicar os fatos. Vamos ver pelo desenrolar dos acontecimentos. O major Sholto vive em paz durante alguns anos, feliz com a posse do tesouro. Ent�o recebe uma carta da �ndia que o deixa muito assustado. O que era?</p><empty-line/><p>� Uma carta dizendo que os homens que ele enganara haviam sido libertados.</p><empty-line/><p>� Ou tinham fugido. Esta hip�tese � muito mais prov�vel, porque ele devia saber quando a pena terminaria. N�o teria sido uma surpresa para ele. O que fez ent�o? P�s-se em guarda contra o homem da perna-de-pau, um homem branco; note, porque ele quase matou um comerciante branco que pensou ser o outro. S� havia o nome de um homem branco no mapa, os outros s�o de indianos e maometanos, n�o h� outro branco. Portanto, podemos garantir que o homem da perna-de-pau � Jonathan Small. Voc� acha que este racioc�nio � falho?</p><empty-line/><p>� N�o. � claro e conciso.</p><empty-line/><p>� Agora ponha-se no lugar de Jonathan Small. Vamos olhar a quest�o do ponto de vista dele. Small vem para a Inglaterra com a dupla inten��o de recuperar o que considerava seu direito e de vingar-se do homem que o enganara. Descobriu onde Sholto morava, e provavelmente estabeleceu liga��es com algu�m dentro da casa. Talvez o copeiro, esse Lal Rao, que n�o vimos. A sra. Bernstone n�o aprecia o seu car�ter. Mas Small n�o conseguiu saber onde o tesouro estava escondido, porque ningu�m sabia de nada, a n�o ser o major e um criado fiel, que tinha morrido. Um dia, Small fica sabendo que o major est� para morrer. Desesperado, com medo de que ele morra levando consigo o segredo, arrisca-se a enfrentar o obst�culo dos guardas at� chegar � janela do quarto do moribundo, e s� n�o entra porque os dois filhos estavam presentes. Entretanto, louco de raiva do morto, entra no quarto naquela noite, vasculha os pap�is na esperan�a de descobrir uma indica��o qualquer sobre o tesouro e finalmente deixa como lembran�a da sua visita a curta inscri��o naquele papel. Esse ato certamente foi premeditado; ainda que tivesse assassinado o major, ele teria deixado o bilhete como um sinal de que n�o era um crime comum, mas, do ponto de vista dos quatro s�cios, uma esp�cie de ato de justi�a. Conceitos bizarros e extravagantes como este s�o muito comuns nos anais do crime, e costumam fornecer informa��es valiosas sobre o criminoso. Est� seguindo o meu racioc�nio?</p><empty-line/><p>� Perfeitamente.</p><empty-line/><p>� O que Jonathan podia fazer? Ele s� podia continuar a vigiar secretamente as tentativas de encontrar o tesouro. � poss�vel que sa�sse da Inglaterra e s� voltasse de tempos em tempos. Ent�o o s�t�o � descoberto e ele � logo avisado, o que indica que tinha um aliado dentro da casa. Jonathan, com a sua perna-de-pau, est� totalmente impossibilitado de chegar ao quarto de Bartolomeu Sholto, que fica no alto. Traz consigo um c�mplice curioso, que vence a dificuldade, mas molha o p� descal�o em alcatr�o. Por isso vem o�<emphasis>Toby</emphasis>, e uma caminhada de 10 quil�metros para um cirurgi�o a meio soldo, com um tend�o de Aquiles arruinado.</p><empty-line/><p>� Mas foi o c�mplice e n�o Jonathan quem cometeu o crime.</p><empty-line/><p>� Exatamente. E contra a vontade de Jonathan, a julgar pelo modo como ele bateu com os p�s quando entrou no quarto. Ele n�o tinha nada contra Bartolomeu e teria preferido que o c�mplice o tivesse amarrado e amorda�ado. N�o queria mat�-lo; mas foi inevit�vel. O c�mplice n�o controlou os seus instintos ferozes e o veneno fez o seu trabalho. Jonathan deixou a sua lembran�a, desceu o tesouro at� o ch�o e foi atr�s. Foi assim que as coisas aconteceram, at� onde eu posso imaginar. Naturalmente, ele deve ter a apar�ncia de um homem de meia-idade e deve estar queimado de sol, depois de servir num forno como as ilhas Andam�s. Pode-se calcular a altura pelo comprimento das passadas e sabemos que ele usa barba. Voc� deve lembrar-se de que foi um indiv�duo peludo que impressionou Tadeu quando ele o viu � janela. N�o sei se h� mais alguma coisa.</p><empty-line/><p>� E o c�mplice?</p><empty-line/><p>� Ah, sim. Tamb�m n�o � um grande mist�rio. Mas dentro de pouco tempo voc� saber� tudo sobre isto. Como est� agrad�vel a manh�. Veja aquela nuvenzinha que flutua como uma pluma cor-de-rosa de algum gigantesco flamingo. Agora a orla vermelha do sol caminha para o nevoeiro de Londres. Ele brilha sobre muitas pessoas, mas aposto que nenhuma delas est� empenhada numa miss�o mais estranha do que eu e voc�. Como nos sentimos pequenos com as nossas ambi��es e lutas insignificantes diante das grandes for�as elementares da natureza! Como vai com o seu Jean-Paul?{5}</p><empty-line/><p>� Menos mal. Tenho-o estudado por Carlyle.</p><empty-line/><p>� Era como seguir o regato at� o lago que lhe deu origem. Ele faz uma observa��o curiosa, mas profunda. Diz ele que a prova principal da verdadeira grandeza no homem � a compreens�o da sua mesquinhez. Ele afirma, como v�, um poder de compara��o e de aprecia��o que �, em si mesmo, uma prova de nobreza. H� muito alimento para o esp�rito em Richter. Voc� trouxe uma pistola?</p><empty-line/><p>� Tenho a minha bengala.</p><empty-line/><p>� � poss�vel que tenhamos necessidade de alguma coisa desse tipo se acertarmos a pista. Deixo Jonathan para voc�, mas se o outro oferecer resist�ncia, terei de mat�-lo com um tiro.</p><empty-line/><p>Enquanto falava, tirou o rev�lver e, ap�s carreg�lo, tornou a coloc�-lo no bolso do lado direito.</p><empty-line/><p>Durante este tempo v�nhamos seguindo o rumo de�<emphasis>Toby</emphasis>�pelas estradas meio rurais ladeadas de vilas que levavam � metr�pole. Mas agora est�vamos come�ando a atravessar muitas ruas onde trabalhadores e oper�rios das docas j� estavam em atividade e mulheres desmazeladas abriam as portas e varriam as escadas da entrada.</p><empty-line/><p>As tabernas das esquinas dos quarteir�es estavam come�ando a funcionar e homens mal-encarados apareciam esfregando as mangas nas barbas depois da liba��o matutina. Uns cachorros esquisitos latiram e olharam espantados para n�s, mas o nosso inimit�vel�<emphasis>Toby</emphasis>�n�o olhou nem para a esquerda nem para a direita, e foi seguindo com o nariz rente ao ch�o.</p><empty-line/><p>T�nhamos atravessado Streatham, Brixton, Camberwell, e agora est�vamos em Kennington Lane, que t�nhamos alcan�ado pelas ruas a leste do Oval. Os homens que persegu�amos pareciam ter feito um caminho em ziguezague; provavelmente para n�o chamarem aten��o. Em nenhum momento seguiram pela rua principal quando havia uma rua paralela secund�ria que pudesse servir. Ao p� de Kennington Lane viraram � esquerda para Bond Street e Miles Street. No lugar onde esta rua passa a ser Knight�s Place,�<emphasis>Toby</emphasis>�parou, mas come�ou a correr para tr�s e para a frente com uma orelha levantada e outra ca�da, a pr�pria imagem da indecis�o canina. Depois passou a andar em c�rculo, olhando para n�s de vez em quando como se pedisse a nossa compreens�o por seu embara�o.</p><empty-line/><p>� O que � que o c�o tem? � resmungou Holmes.</p><empty-line/><p>� Eles certamente n�o tomaram um cabriol�, nem foram embora num bal�o.</p><empty-line/><p>� Talvez tenham parado aqui durante algum tempo � eu sugeri.</p><empty-line/><p>� Ali, est� bem, ele j� descobriu a pista outra vez � disse o meu companheiro em tom de al�vio.</p><empty-line/><p>De fato, depois de fungar em volta novamente, ele se decidiu e partiu de repente com uma energia e uma disposi��o que ainda n�o tinha mostrado. O cheiro parecia agora ainda mais forte porque ele nem precisava farejar o ch�o, mas deu um pux�o na corda e saiu correndo. Eu podia ver pelo brilho dos olhos de Holmes que ele achava que est�vamos nos aproximando do fim da nossa jornada. Passamos por Nine Elms e chegamos ao dep�sito de madeira de Broderick e Nelson, logo depois da taberna White Eagle.</p><empty-line/><p>Foi ent�o que o cachorro, fren�tico de excita��o, voltou-se para o cercado onde os serradores j� estavam trabalhando.�<emphasis>Toby</emphasis>�correu pelo meio das aparas e serragens por uma al�ia estreita at� uma passagem entre duas pilhas de madeira e finalmente, com um latido triunfante, saltou sobre um barril que ainda estava no carrinho-de-m�o em que tinha sido trazido. Com os olhos piscando e a l�ngua pendente,�<emphasis>Toby</emphasis>�ficou em cima do barril olhando para n�s, � espera de um sinal de aprova��o.</p><empty-line/><p>Os aros do barril e as rodas do carrinho tinham sido untadas com alcatr�o e o ar estava impregnado do cheiro. Sherlock e eu olhamos desconsolados um para o outro e explodimos ao mesmo tempo numa gargalhada incontrol�vel.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 8</strong></p><p><strong>os auxiliares de baker street</strong></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><empty-line/><p>
    E�<emphasis>agora? � perguntei. �</emphasis>�Toby�<emphasis>perdeu sua fama de</emphasis>�infal�vel!</p><p>� Ele agiu de acordo com as instru��es que recebeu � disse Holmes, tirando-o de cima do barril e levando-o para fora do dep�sito. � Se lembrarmos a quantidade de alcatr�o transportada em carro�as em Londres diariamente, n�o � de admirar que o nosso rastro tenha sido atravessado por outro. � muito usado agora, principalmente para secar a madeira. O pobre�<emphasis>Toby</emphasis>�n�o deve ser censurado.</p><empty-line/><p>Temos que voltar ao rastro primitivo, suponho.</p><empty-line/><p>� Temos � disse Holmes � e felizmente n�o � muito longe. Evidentemente, o que confundiu o cachorro na esquina de Knight�s Place foi que havia dois rastros indo em dire��es opostas. Seguimos o caminho errado. S� nos resta seguir o outro.</p><empty-line/><p>N�o houve dificuldade. No local em que se enganara,�<emphasis>Toby</emphasis>�come�ou a andar num amplo c�rculo e finalmente partiu numa nova dire��o.</p><empty-line/><p>� Espero que agora ele n�o nos leve ao lugar de onde veio o barril � observei.</p><empty-line/><p>� J� tinha pensado nisso. Mas repare que ele vai pela cal�ada e o barril s� podia ir pelo meio da rua. Agora estamos no caminho certo.</p><empty-line/><p><emphasis>Toby</emphasis>�nos levava agora para a beira do rio, passando por Belmont Place e Prince�s Street. No fim da Broad Street ele correu em dire��o � beira da �gua, onde havia um pequeno cais de madeira.�<emphasis>Toby</emphasis>�levou-nos at� a extremidade do cais e parou ganindo e olhando para a �gua escura que corria diante de n�s.</p><empty-line/><p>� Estamos sem sorte � disse Holmes. � Pegaram um bote aqui.</p><empty-line/><p>Havia v�rios botes e lanchas por ali. Levamos�<emphasis>Toby</emphasis>�a todos eles, por�m, por mais que fungasse, n�o fez o menor sinal de reconhecimento.</p><empty-line/><p>Perto do tosco embarcadouro havia uma casa pequena de tijolos com uma placa de madeira pendurada na segunda janela, na qual estava escrito em grandes letras�<emphasis>�Mordecai Smith�</emphasis>, e mais abaixo�<emphasis>�Embarca��es para alugar, por hora ou por dia�</emphasis>. Uma segunda tabuleta em cima da porta informava que tamb�m havia uma lancha a vapor � informa��o confirmada por uma grande pilha de coque no molhe. Sherlock olhou em torno e seu rosto adquiriu uma express�o sinistra.</p><empty-line/><p>� As coisas n�o v�o bem. Estes malandros s�o muito mais espertos do que eu esperava. Parece que esconderam as suas pistas. Receio que tenha havido algum arranjo pr�vio por aqui.</p><empty-line/><p>Ele estava se aproximando da porta da casa quando ela se abriu e um menino de 6 anos, de cabelos encaracolados, saiu correndo, seguido por uma mulher gorda e corada com uma grande esponja na m�o, que gritava:</p><empty-line/><p>� Vem c�, Jack. Deixa eu te limpar. Vem c�, filhinho. Se teu pai chega e te v� assim, vamos ter de ouvir serm�o.</p><empty-line/><p>� Oh, amiguinho � disse Holmes espertamente.</p><empty-line/><p>� Que malandro de faces rosadas. O que � que voc� gostaria de ter, Jack?</p><empty-line/><p>O menino pensou um momento e disse:</p><empty-line/><p>� Queria um xelim.</p><empty-line/><p>� Voc� n�o gostaria mais de outra coisa?</p><empty-line/><p>� Gostaria mais de dois xelins � respondeu o prod�gio, depois de pensar um pouco.</p><empty-line/><p>� Ent�o, aqui est�. Pegue! Que bela crian�a, sra. Smith.</p><empty-line/><p>� Deus o aben�oe, meu senhor, ele � muito travesso, me d� muito trabalho, principalmente quando o meu marido fica fora por alguns dias.</p><empty-line/><p>� O sr. Smith n�o est�? � disse Holmes, desapontado... � Lamento, porque queria muito falar com ele.</p><empty-line/><p>� Saiu desde ontem de manh� e, para lhe dizer a verdade, estou come�ando a ficar preocupada. Mas se � por causa de algum bote, talvez eu possa resolver.</p><empty-line/><p>� Desejava alugar a lancha a vapor.</p><empty-line/><p>� Ora veja, meu senhor, foi justamente na lancha a vapor que ele saiu. � isso o que me deixa intrigada, porque sei que o carv�o que levaram n�o podia dar para ir a Woolwich e voltar. Se ele tivesse ido na barca, eu n�o ficaria preocupada, porque muitas vezes ele tem ido a trabalho at� Gravesend, e se houvesse muito o que fazer, ficaria por l�. Mas para que serve uma lancha a vapor sem carv�o?</p><empty-line/><p>� Pode ter comprado carv�o por a�, em qualquer cais.</p><empty-line/><p>� Poderia, mas n�o costuma fazer isso. Ele reclama muito dos pre�os que cobram... Al�m disso, n�o gosto daquele homem de perna-de-pau, de cara feia e fala estrangeira. O que � que ele anda querendo sempre por aqui?</p><empty-line/><p>� Um homem de perna-de-pau? � disse Holmes um tanto surpreso.</p><empty-line/><p>� Sim, senhor, um sujeito moreno, com cara de macaco, que procurou o meu marido v�rias vezes. Foi ele que apareceu ontem � noite. Mas n�o � s� isso: o meu marido sabia que ele vinha, porque j� tinha a lancha preparada. Digo-lhe tudo, meu senhor, porque estou preocupada com essas coisas.</p><empty-line/><p>� Mas, minha cara sra. Smith � disse Holmes, dando de ombros � est� se assustando � toa. Como a senhora</p><empty-line/><p>pode dizer que foi o homem da perna-de-pau que veio ontem � noite? Como pode ter tanta certeza?</p><empty-line/><p>� Pela voz, senhor. Eu o reconheci pela voz grossa e tenebrosa. Bateu na janela � mais ou menos �s tr�s horas � e disse: �Salta, camarada, � hora de render a guarda.� O meu velho acordou o Jim, que � o meu filho mais velho, e foram os dois sem me dizer nada. Eu ouvia perfeitamente a perna-de-pau batendo nas pedras.</p><empty-line/><p>� E o homem estava s�?</p><empty-line/><p>� N�o sei. Mas n�o ouvi mais ningu�m.</p><empty-line/><p>� Pois sinto muito, porque eu queria a lancha. Tenho ouvido muitos elogios a respeito dela. Deixeme lembrar o nome...</p><empty-line/><p>� A�<emphasis>Aurora</emphasis>, meu senhor.</p><empty-line/><p>� N�o � uma lancha velha, verde, muito larga, com uma lista amarela?</p><empty-line/><p>� Claro que n�o. � a mais elegante que anda pelo rio. Est� pintada de novo, � preta, com duas listas vermelhas.</p><empty-line/><p>� Obrigado. Espero que tenha logo not�cias do sr. Smith. Eu vou descer o rio e se vir a�<emphasis>Aurora</emphasis>, direi ao sr. Smith que a senhora est� preocupada. Chamin� preta, n�o foi o que disse?</p><empty-line/><p>� N�o, senhor. Preta com uma faixa branca.</p><empty-line/><p>� Ah, � verdade, os lados � que s�o pretos. Bom dia, sra. Smith. Ali est� um barqueiro com uma canoa, Watson. Vamos tom�-la para atravessar o rio.</p><empty-line/><p>Quando nos sentamos no banco da canoa, Holmes disse:</p><empty-line/><p>� O melhor sistema com este tipo de gente � n�o mostrar que a informa��o � importante para voc�. Se eles desconfiam que tem import�ncia, fecham-se como uma ostra e n�o h� jeito de tirar-lhes mais nada. Se ficar ouvindo a contragosto, como aconteceu, dir�o tudo o que quisermos saber.</p><empty-line/><p>� O nosso itiner�rio agora parece claro � eu disse.</p><empty-line/><p>� O que � que faria, ent�o?</p><empty-line/><p>� Tomaria uma lancha e iria pelo rio atr�s da�<emphasis>Aurora</emphasis>.</p><empty-line/><p>� Meu amigo, isto seria uma empreitada colossal. Ela pode ter ido parar em qualquer cais em um dos lados do rio, daqui at� Greenwich. Depois da ponte h� um verdadeiro labirinto de desembarcadouros. Levaria dias e dias at� descobri-los, se tent�ssemos sozinhos.</p><empty-line/><p>� Chame a pol�cia, ent�o.</p><empty-line/><p>� N�o quero. Eu s� chamarei Athelney Jones no �ltimo momento. Ele n�o � m� pessoa e n�o gostaria de fazer nada que possa prejudic�-lo profissionalmente. Mas quero resolver o caso por minha conta, agora que j� fomos t�o longe.</p><empty-line/><p>� Poder�amos ao menos pedir informa��es aos guardas dos cais.</p><empty-line/><p>� Seria pior, bem pior. Nossos homens ficariam sabendo que estavam sendo perseguidos de perto e podiam sair do pa�s. � o que est�o procurando fazer, mas enquanto pensarem que est�o seguros, n�o ter�o pressa. A energia de Jones ser� �til para divulgar informa��es para a imprensa. Assim, os fugitivos pensar�o que a pol�cia est� na pista errada.</p><empty-line/><p>� Ent�o, o que vamos fazer? � perguntei quando desembarcamos perto da penitenci�ria de Millbank.</p><empty-line/><p>� Pegar este cabriol�, ir para casa tomar nosso�<emphasis>breakfast</emphasis>�e dormir uma hora. Est� escrito que passaremos em claro esta noite outra vez. Pare numa ag�ncia dos correios, cocheiro. Ficaremos com�<emphasis>Toby</emphasis>, porque ele ainda pode ser �til.</p><empty-line/><p>Fomos ao correio de Great Peter Street, e Holmes mandou o seu telegrama.</p><empty-line/><p>� Para quem pensa que era? � perguntou quando retomamos nosso trajeto.</p><empty-line/><p>� N�o tenho a menor id�ia.</p><empty-line/><p>� Voc� se lembra do grupo da for�a policial de Baker Street que utilizei no caso Jefferson Hope?</p><empty-line/><p>� Lembro � eu disse rindo.</p><empty-line/><p>� Este � um caso em que o seu aux�lio ser� inestim�vel. Se eles falharem, tenho outros recursos, mas quero experiment�-los primeiro. Aquele telegrama foi para o meu sujo tenentezinho Wiggins, e espero que ele chegue com o seu bando antes de acabarmos o�<emphasis>breakfast</emphasis>.</p><empty-line/><p>J� passava das oito horas, e depois de todas as coisas excitantes daquela noite, eu esperava uma rea��o forte. Estava lento e cansado, com o esp�rito perturbado e o corpo mo�do. N�o tinha o entusiasmo profissional que impulsionava o meu companheiro, nem podia encarar o caso como um problema abstrato, simples e intelectual. At� a morte de Bartolomeu, eu n�o tinha ouvido nada de bom sobre ele que me fizesse sentir antipatia pelos assassinos. Mas a quest�o do tesouro modificava o caso. Ele, ou parte dele, pertencia por direito � srta. Morstan. Enquanto houvesse uma possibilidade de recuper�-lo, eu dedicaria todo o meu esfor�o para conseguir isso. Na verdade, se eu o encontrasse, ele a colocaria fora do meu alcance para sempre.</p><empty-line/><p>Mas que amor seria esse, ego�sta e inferior, se este pensamento me detivesse? Se Holmes trabalhava para encontrar os criminosos, eu tinha um motivo dez vezes mais forte para encontrar o tesouro de qualquer maneira.</p><empty-line/><p>Um bom banho em Baker Street e roupas limpas me reanimaram admiravelmente.</p><empty-line/><p>Quando voltei � sala, o�<emphasis>breakfast</emphasis>�j� estava na mesa. Holmes servia o caf�.</p><empty-line/><p>� Est� aqui � disse ele, rindo e mostrando um jornal aberto. � O en�rgico Jones e o onipresente rep�rter se encarregaram de tudo. Mas voc� j� est� farto disto. � melhor que trate primeiro do seu presunto com ovos.</p><empty-line/><p>Tirei o jornal da m�o dele e li a not�cia curta intitulada�<emphasis>�Caso misterioso no Alto Norwood...�</emphasis></p><empty-line/><p>�Por volta da meia-noite de ontem�, dizia o�<emphasis>Standard</emphasis>, �o sr. Bartolomeu Sholto, de Pondicherry Lodge, Alto Norwood, foi encontrado morto em seu quarto, em circunst�ncias que indicam crime e trai��o. At� onde sabemos, nenhum vest�gio de viol�ncia foi encontrado no corpo do sr. Bartolomeu, mas uma cole��o valiosa de j�ias da �ndia que o morto herdara de seu pai desapareceu. A descoberta foi feita primeiro pelo sr. Sherlock Holmes e pelo dr. Watson, que tinham ido � casa do sr. Bartolomeu com o sr. Tadeu Sholto, irm�o do morto. Por uma singular coincid�ncia, o sr. Athelney Jones, o conhecido agente da for�a da pol�cia, estava em Norwood, no posto policial, e em meia hora chegava ao local.</p><empty-line/><p>�Sua habilidade, treinada e experiente, logo se concentrou na deten��o dos criminosos, o que resultou na pris�o do irm�o, Tadeu Sholto, da governanta, sra. Bernstone, um copeiro hindu, Lal Rao, e o porteiro, McMurdo. � fora de d�vida que o ladr�o ou ladr�es tinham perfeito conhecimento do interior da casa. Com os seus conhecimentos t�cnicos e sua capacidade de observa��o r�pida, o sr. Jones descobriu logo que os criminosos n�o podiam ter entrado pela porta nem pela janela, e, portanto, devem ter entrado pelo telhado da casa, e dali passaram por um al�ap�o para um quarto que se comunicava com o do morto. Este fato foi facilmente esclarecido e provou que o roubo foi premeditado. A a��o r�pida e en�rgica dos representantes da lei demonstra a grande vantagem da presen�a, nessas ocasi�es, de uma mente esclarecida e forte. Isto fornece um argumento �queles que desejariam ver os nossos detetives mais descentralizados e em contato mais direto e efetivo com os casos que t�m o dever de investigar.�</p><empty-line/><p>� N�o est� pomposo? � disse Holmes, engolindo o caf�. � O que voc� acha?</p><empty-line/><p>� Acho que escapamos por um triz de sermos presos tamb�m...</p><empty-line/><p>� Eu tamb�m acho. Mas n�o responderia pela nossa seguran�a agora se ele tiver outro de seus acessos de energia.</p><empty-line/><p>Nesse momento ouvimos um toque forte da campainha e a voz alta da nossa senhoria, a sra. Hudson, num gemido de consterna��o e medo.</p><empty-line/><p>� Por Deus, Holmes � eu disse, levantando-me um pouco. � Acho que eles est�o realmente atr�s de n�s.</p><empty-line/><p>� N�o, n�o � nada t�o ruim assim. � a for�a auxiliar de Baker Street, a n�o-oficial.</p><empty-line/><p>Em seguida, ouvimos o ru�do de p�s descal�os que subiam correndo a escada, um tumulto de vozes, e 12 garotos sujos e esfarrapados precipitaram-se na sala. Havia entre eles uma certa disciplina, apesar da entrada tumultuada, porque num instante eles ficaram em fila, olhando para n�s com rostos ansiosos.</p><empty-line/><p>Um deles, mais alto e mais velho, ficou na frente com um ar de superioridade que era c�mico naquele espantalhozinho de m� reputa��o.</p><empty-line/><p>� Recebi o seu recado, senhor � disse ele � e trouxe logo o pessoal. Tr�s xelins e um pence para as passagens.</p><empty-line/><p>� A� est� � disse Holmes, dando-lhe umas moedas de prata. � De hoje em diante, voc� se entende comigo, Wiggins, e eles com voc�. N�o posso ter a casa invadida assim. Em todo o caso, � bom que todos ou�am as instru��es. Eu quero saber onde est� uma lancha chamada�<emphasis>Aurora</emphasis>, que pertence a Mordecai Smith, preta com duas listas vermelhas, chamin� preta com uma faixa branca. Est� em algum ponto do rio. Quero que um rapaz fique no lugar onde Mordecai Smith mora, no cais em frente a Millbank, para avisar se o barco voltar. Dividam o trabalho entre voc�s, de modo que possam fiscalizar as duas margens ao mesmo tempo. Assim que souberem de alguma coisa, venham me avisar. Compreenderam bem?</p><empty-line/><p>� Sim, senhor � disse Wiggins.</p><empty-line/><p>� O pagamento de costume, e um guin�u a mais para quem descobrir a lancha. A� t�m um dia adiantado. Agora podem ir.</p><empty-line/><p>Deu um xelim a cada um, e eles sumiram pela escada abaixo. Um minuto depois eu os vi correndo pela rua.</p><empty-line/><p>� Se a lancha estiver no rio, eles v�o encontr�-la</p><empty-line/><p>� disse Holmes, levantando-se e acendendo o cachimbo. � Esses garotos podem ir a toda parte, ver tudo, ouvir disfar�adamente todo mundo. Espero ouvir, antes de anoitecer, que eles a descobriram. Enquanto isso, n�o podemos fazer nada, a n�o ser esperar. N�o podemos retornar � pista interrompida enquanto n�o encontrarmos a�<emphasis>Aurora</emphasis>�ou o sr. Mordecai Smith.</p><empty-line/><p>��<emphasis>Toby</emphasis>�podia comer estes restos � eu sugeri. � Vai deitar-se, Holmes?</p><empty-line/><p>� N�o, n�o estou cansado. Tenho uma constitui��o curiosa. N�o me lembro de ter ficado alguma vez cansado por causa de trabalho, mas a ociosidade me deixa completamente exausto. Vou fumar e pensar neste caso estranho, em que a nossa loura cliente nos meteu. Se algum dia houve um caso f�cil, foi este. N�o existem tantos homens com pernas-de-pau, mas o outro deve ser �nico!...</p><empty-line/><p>� O outro de novo!</p><empty-line/><p>� Eu n�o quero fazer mist�rio sobre ele. Mas voc� deve formar a sua pr�pria opini�o. Analise os dados que tem. Pegadas pequenas, dedos que nunca foram comprimidos por cal�ado, p�s descal�os, um bast�o com a ponta de pedra, grande agilidade e pequenos dardos envenenados... O que deduz de tudo isso?</p><empty-line/><p>� J� sei... um selvagem! Talvez um dos tais indianos, s�cios de Jonathan Small.</p><empty-line/><p>� N�o me parece � disse Sherlock. � Logo que eu vi sinais de armas ex�ticas, tive essa id�ia, mas a caracter�stica das pegadas me obrigou a rever minha opini�o. Alguns habitantes da pen�nsula indiana s�o baixos, mas mesmo assim n�o deixariam aquelas marcas. O hindu tem p�s finos e compridos. Os maometanos, que usam sand�lias, t�m o dedo grande muito separado dos outros porque geralmente a correia passa entre eles. Os dardos tamb�m s� podiam ter sido atirados por uma zarabatana. Ent�o, onde vamos achar o selvagem?</p><empty-line/><p>� Na Am�rica do Sul! � arrisquei.</p><empty-line/><p>Ele estendeu a m�o e apanhou um livro grosso na estante.</p><empty-line/><p>Este � o primeiro volume de um dicion�rio geogr�fico, que est� sendo publicado agora. Pode ser considerado uma autoridade de primeira ordem. Vejamos o que tem aqui: Andam� � ilhas situadas a 540 quil�metros ao norte de Sumatra, na ba�a de Bengala. Unh! O que vem a ser isto tudo? Clima �mido, bancos de coral, tubar�es, Port-Blair, acampamentos de degredados, Rutland Island, algodoeiros. Ah, aqui est�!</p><empty-line/><p><emphasis>Os abor�gines das ilhas Andam� podem reivindicar o t�tulo de ra�a de menor estatura da terra, embora alguns antrop�logos apontem os abor�gines da �frica, os �ndios da Am�rica e os habitantes da Terra de Fogo. A altura m�dia deles � inferior a 1,20 metro, embora se encontrem muitos adultos bem mais baixos. S�o atrevidos, rabugentos e intrat�veis, mas podem ser amigos quando se consegue conquistar sua confian�a.</emphasis></p><empty-line/><p>Lembre-se disto, Watson. Agora ou�a o resto com aten��o.</p><empty-line/><p><emphasis>S�o naturalmente horrendos, t�m a cabe�a grande e disforme, olhos pequenos, e ferozes, e fei��es deformadas. T�m p�s e m�os extraordinariamente pequenos, e s�o t�o ferozes e intrat�veis que todas as tentativas de aproxima��o dos funcion�rios ingleses falharam em todos os n�veis. Eles sempre foram o terror dos n�ufragos, fazendo saltar os miolos dos sobreviventes com bast�es de ponta de pedra ou atirando-lhes os seus dardos envenenados. Estes massacres sempre terminam com um festim de canibais.</emphasis></p><empty-line/><p>� Que povo bonito e am�vel, Watson! Se este sujeito tivesse feito as coisas por sua conta, o caso teria sido bem mais horroroso. Eu imagino, mesmo do jeito que aconteceu, quanto Small n�o teria dado para ter dispensado a colabora��o dele.</p><empty-line/><p>� Mas como ele arranjou um companheiro t�o singular?</p><empty-line/><p>� Isso � querer saber muito! Mas como j� sabemos que Small veio das ilhas Andam�, n�o admira que esse nativo de l� tenha vindo com ele. Quando chegar a ocasi�o, n�s o saberemos. Escute, Watson, voc� parece estar bem cansado. Deite-se ali no sof�, vou faz�-lo dormir com o meu violino.</p><empty-line/><p>Apanhou-o num canto, e eu estava me esticando numa posi��o c�moda quando ele come�ou uma �ria melodiosa, lenta, sonhadora. Provavelmente era de sua autoria, porque ele tinha um talento not�vel para improvisar. Lembro-me vagamente dos seus membros descarnados, da express�o s�ria e dos movimentos do arco. Depois tive a impress�o de estar flutuando tranq�ilamente num mar de sons suaves at� que me encontrei na terra dos sonhos, com os olhos doces de Mary Morstan me fitando.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 9</strong></p><p><strong>a corrente se quebra</strong></p><empty-line/><p>
    A<emphasis>cordei no fim da tarde, revigorado e com novo �nimo.</emphasis>�Sherlock Holmes ainda estava sentado como eu o deixara, com a diferen�a de que tinha deixado de lado o violino e estava mergulhado num livro.</p><p>Ele me olhou quando me mexi e notei que seu rosto estava sombrio e perturbado.</p><empty-line/><p>� Voc� dormiu como um anjo. Receei que a nossa conversa o acordasse.</p><empty-line/><p>� N�o ouvi nada. Ent�o teve not�cias?</p><empty-line/><p>� Infelizmente, n�o. Confesso que estou surpreso e desapontado. A esta hora eu esperava ter alguma informa��o precisa. Wiggins veio aqui h� pouco. Diz que n�o h� o menor sinal da lancha. � um contratempo irritante este, porque cada hora que passa � importante.</p><empty-line/><p>� Posso fazer alguma coisa? Agora estou perfeitamente descansado e pronto para outra excurs�o noturna.</p><empty-line/><p>� N�o, n�o podemos fazer nada. S� esperar. Se formos n�s mesmos, pode chegar algum aviso na nossa aus�ncia e as coisas se atrasarem ainda mais. Voc� pode fazer o que quiser, mas eu preciso permanecer no meu posto.</p><empty-line/><p>� Ent�o vou a Camberwell visitar a sra. Forrester. Ela me pediu ontem.</p><empty-line/><p>� Por causa da sra. Forrester? � perguntou Holmes com um olhar ir�nico.</p><empty-line/><p>� Por causa da srta. Morstan tamb�m, � claro. Elas estavam ansiosas por saber o que est� acontecendo.</p><empty-line/><p>� Eu n�o lhes contaria muita coisa � disse Holmes.</p><empty-line/><p>� N�o se deve confiar totalmente nas mulheres... nem mesmo nas melhores.</p><empty-line/><p>N�o parei para discutir este sentimento cruel.</p><empty-line/><p>� Estarei de volta daqui a uma ou duas horas.</p><empty-line/><p>� Muito bem. Boa sorte. Mas j� que voc� vai atravessar o rio, pode levar o�<emphasis>Toby</emphasis>�de volta, porque acho que n�o vamos mais precisar dele.</p><empty-line/><p>Sa� levando o cachorro e meia libra para o velho naturalista de Pinchin Lane. Em Camberwell, encontrei a srta. Morstan um tanto cansada depois das emo��es da v�spera, mas ansiosa para ouvir as novidades. A sra. Forrester tamb�m estava curiosa. Contei-lhes o que t�nhamos feito, mas suprimindo as partes mais tenebrosas da trag�dia. De modo que falei da morte de Sholto, mas sem dizer como tinha sido executada. Apesar de todas as minhas omiss�es, ainda tiveram muitos motivos de assombro e susto.</p><empty-line/><p>� � um romance � exclamou a sra. Forrester. � Uma mulher roubada, um tesouro de meio milh�o, um negro canibal e um rufi�o de perna-de-pau. Fazem o papel do drag�o convencional ou do conde malvado.</p><empty-line/><p>� E dois cavaleiros errantes para o salvamento � disse a srta. Morstan, olhando para mim com brilho no olhar.</p><empty-line/><p>� A sua fortuna, Mary, depende do resultado desta busca. Mas acho que n�o est� muito entusiasmada. Imagine s� o que n�o valer� ser t�o rica e ter o mundo aos seus p�s!</p><empty-line/><p>Senti uma grande alegria ao constatar que ela n�o mostrava sinal de orgulho com a perspectiva. Pelo contr�rio, fez um movimento com a cabe�a altiva, como se fosse um assunto que lhe despertasse pouco interesse.</p><empty-line/><p>� O que mais me preocupa � o pobre Tadeu! � ela disse. � O resto n�o � t�o grave. Acho que ele procedeu com extrema bondade e honradez em tudo isto. � nosso dever livr�-lo desta acusa��o terr�vel e infundada.</p><empty-line/><p>Estava anoitecendo quando sa� de Camberwell e j� tinha escurecido quando cheguei a casa. O livro e o cachimbo do meu amigo estavam ao lado da cadeira, mas ele tinha desaparecido. Olhei em torno esperando ver um bilhete, mas n�o havia nada.</p><empty-line/><p>� O sr. Holmes saiu? � perguntei � sra. Hudson quando ela veio descer as persianas.</p><empty-line/><p>� N�o, senhor. Foi para o quarto. E depois, disse num sussurro:</p><empty-line/><p>� Estou preocupada com a sa�de dele.</p><empty-line/><p>� Por qu�, sra. Hudson?</p><empty-line/><p>� Veja se n�o � esquisito. Depois que o senhor saiu, ele come�ou a andar de um lado para o outro sem parar, a tal ponto que eu fiquei cansada de ouvir seus passos. Depois ele ficou falando sozinho, e toda vez que a campainha tocava, ele vinha perguntar: �O que foi, sra. Hudson?� Agora fechou-se no quarto, mas posso ouvi-lo andando o tempo todo. Espero que n�o fique doente. Eu me arrisquei a falar-lhe de um calmante, mas zangou-se comigo, porque me olhou de tal maneira que ainda n�o sei como sa� da sala.</p><empty-line/><p>� N�o acho que tenha motivo para se preocupar, sra. Hudson. J� o vi assim muitas vezes. Ele est� preocupado com um assunto, e isto o deixa inquieto.</p><empty-line/><p>Tentei falar num tom despreocupado com a nossa senhoria, mas eu mesmo me assustei quando, durante a longa noite, ouvia de vez em quando seus passos pelo quarto, sabendo quanto o seu esp�rito agu�ado ficava irritado com esta in�rcia involunt�ria.</p><empty-line/><p>Na primeira refei��o ele estava abatido e macilento, com umas rosetas de febre nas faces.</p><empty-line/><p>� Voc� est� se matando, meu velho. Ficou andando a noite inteira.</p><empty-line/><p>� � verdade, n�o consegui dormir. Este problema infernal est� me consumindo. � demais ser frustrado por um obst�culo t�o insignificante, depois de se vencer todo o resto. Sei quem s�o os homens, a lancha, tudo, e n�o consigo descobri-los. Usei todos os meios � minha disposi��o e outros agentes, e nada consegui, nem a sra. Smith teve not�cias do marido. Daqui a pouco chegarei � conclus�o de que afundaram a embarca��o. Mas, quanto a isto, h� s�rias d�vidas.</p><empty-line/><p>� Ou a sra. Smith nos indicou uma pista falsa.</p><empty-line/><p>� N�o, isso pode ser descartado. Andei investigando e a lancha existe.</p><empty-line/><p>� Ela poderia ter subido o rio?</p><empty-line/><p>� Tamb�m pensei nessa hip�tese e uma turma de investigadores ir� at� Richmond. Se n�o tiver not�cias hoje, eu mesmo irei amanh� procurar os homens, em vez da embarca��o. Mas estou certo de que hoje saberei alguma coisa.</p><empty-line/><p>Mas nada soubemos. Nem uma palavra de Wiggins ou dos outros agentes. Quase todos os jornais mencionavam a trag�dia de Norwood. Todos eram hostis ao infeliz Tadeu. N�o havia detalhes novos, a n�o ser a informa��o de que o inqu�rito come�aria no dia seguinte. De tarde fui a Camberwell levar not�cias do nosso insucesso �s duas mulheres, e quando voltei, encontrei Holmes desalentado e triste. Mal respondia �s minhas perguntas, e ficou a tarde inteira ocupado com uma an�lise qu�mica misteriosa que inclu�a o aquecimento de retortas e destila��o de vapores, que acabou com um cheiro t�o horr�vel que me fez sair da sala.</p><empty-line/><p>Nas primeiras horas da manh� ouvi o tinido dos tubos de ensaio, o que me indicava que ele ainda estava �s voltas com a sua malcheirosa experi�ncia. Assim que amanheceu, acordei com um sobressalto e fiquei surpreso ao v�-lo ao lado da minha cama com uma roupa ordin�ria de marinheiro, uma jaqueta grossa e um len�o vermelho no pesco�o.</p><empty-line/><p>� Vou descer o rio, Watson. Fiquei pensando no assunto e acho que � o �nico meio. Vale a pena tentar, de qualquer modo.</p><empty-line/><p>� Ent�o posso ir com voc�?</p><empty-line/><p>� N�o. Voc� ser� muito mais �til aqui, como meu substituto. Vou contrariado, pois tenho certeza de que durante o dia vir� algum recado, embora Wiggins ontem n�o tivesse mais qualquer esperan�a. Quero que abra todos os bilhetes ou telegramas e que proceda como achar melhor. Posso confiar?</p><empty-line/><p>� Com certeza.</p><empty-line/><p>� Temo que n�o possa telegrafar para mim porque ainda nem sei onde vou estar. Se tiver sorte, n�o vou demorar. Mas antes de voltar, vou saber alguma coisa, seja como for.</p><empty-line/><p>N�o tive not�cias dele at� a hora do almo�o. Ao abrir o�<emphasis>Standard</emphasis>, descobri que havia uma nova alus�o ao caso.</p><empty-line/><p>Com rela��o � trag�dia de Norwood, dizia o jornal, temos motivos para acreditar que seja ainda mais complexa e misteriosa do que parecia a princ�pio. Novas evid�ncias demonstraram que � imposs�vel que o sr. Tadeu Sholto esteja envolvido no crime. Ele e a governanta, sra. Bernstone, foram postos em liberdade ontem � tarde. Parece, entretanto, que a pol�cia tem uma pista para descobrir os verdadeiros culpados e que o sr. Athelney Jones, da Scotland Yard, a est� seguindo com a sua conhecida energia e sagacidade. Esperam-se novas pris�es a qualquer momento.</p><empty-line/><p>� � quase satisfat�rio. Pelo menos, Tadeu est� livre. Qual ser� a nova pista? Mas parece uma desculpa costumeira, usada sempre que a pol�cia se perde.</p><empty-line/><p>Atirei o jornal na mesa, mas nesse instante meus olhos deram com este an�ncio:</p><empty-line/><p><emphasis>Desaparecido</emphasis>: � Gratifica-se com 5 libras quem der informa��es � sra. Smith, no Smith�s Wharf, ou em Baker Street 221 B, sobre onde encontrar Mordecai Smith, barqueiro, e seu filho Jim, que sa�ram de Smith�s Wharf �s tr�s horas da manh� de ter�a-feira �ltima, na lancha a vapor�<emphasis>Aurora</emphasis>, preta com listas vermelhas, chamin� preta e branca.</p><empty-line/><p>Evidentemente, o an�ncio era coisa de Holmes. O endere�o de Baker Street era a prova.</p><empty-line/><p>Fiquei impressionado com a engenhosidade da id�ia, porque o an�ncio podia ser lido pelos fugitivos, que n�o veriam nele nada al�m da ansiedade da esposa pelo desaparecimento do marido.</p><empty-line/><p>Que dia longo! Toda vez que batiam na porta ou que eu ouvia um passo mais forte na cal�ada, imaginava que era Holmes voltando, ou a resposta ao an�ncio. Tentei ler, mas o meu pensamento se desviava para a nossa estranha busca e para a dupla de vil�es que persegu�amos. Eu me perguntava se haveria por acaso algum erro fundamental no racioc�nio do meu amigo. Ser� que ele n�o estaria sofrendo uma enorme decep��o? N�o seria poss�vel que o seu esp�rito vivo e imaginativo tivesse constru�do a sua teoria baseado em premissas falsas? Nunca o tinha visto enganar-se, mas mesmo a pessoa de racioc�nio mais afiado pode se equivocar.</p><empty-line/><p>Ele podia ter-se enganado por causa da sua l�gica ultra-refinada � por sua prefer�ncia pelas explica��es sutis e bizarras quando uma mais direta e comum lhe ca�a prontinha nas m�os. Por outro lado, eu mesmo tinha verificado a evid�ncia e ouvido os motivos das suas dedu��es. Quando recordei a longa cadeia de acontecimentos curiosos, alguns triviais, mas todos tendendo para a mesma dire��o, n�o podia negar que, mesmo que a explica��o de Holmes fosse incorreta, a teoria verdadeira devia ser igualmente outr�e e assombrosa.</p><empty-line/><p>�s 15 horas, ouvi um toque forte na campainha, uma voz autorit�ria no sagu�o e, para meu grande espanto, vi o sr. Athelney Jones em pessoa. Mas ele estava muito diferente do profissional de bom senso, brusco e imperioso, que assumira o caso de Norwood com tanta confian�a. Tinha uma express�o abatida e a sua atitude era humilde, quase de quem se desculpa.</p><empty-line/><p>� Bom dia, bom dia. Pelo que ouvi, o sr. Holmes n�o est�.</p><empty-line/><p>� N�o est� e n�o sei quando voltar�. Talvez queira esper�-lo. Sente-se e prove um destes charutos.</p><empty-line/><p>� Obrigado, n�o tenho vontade � disse, limpando o rosto com um len�o de seda vermelha.</p><empty-line/><p>� E um u�sque com soda?</p><empty-line/><p>� Bem, meio copo. Est� muito quente para a esta��o, e eu tenho tanta coisa para me aborrecer, para me tirar a paci�ncia. Sabe qual � a minha teoria sobre este caso de Norwood?</p><empty-line/><p>� Lembro-me de ter dito.</p><empty-line/><p>� Pois bem, fui obrigado a reconsiderar. Tinha amarrado a minha rede firmemente em torno de Sholto e ele escapou por um buraco no meio. Apresentou um �libi que n�o p�de ser posto em d�vida. Desde que saiu do quarto do irm�o esteve sempre com algu�m. Portanto, n�o podia ser ele quem subiu pelos telhados e al�ap�es. � um caso obscuro e o meu cr�dito profissional est� em jogo. Gostaria muito de ter um pequeno aux�lio.</p><empty-line/><p>� Todos n�s precisamos de ajuda �s vezes.</p><empty-line/><p>� O seu amigo Holmes � um homem admir�vel � disse ele num tom velado de confid�ncia. � N�o se deixa vencer. Tenho-o visto intervir em uma por��o de casos e nunca houve nenhum que ele deixasse de esclarecer. Ele � irregular nos seus m�todos e talvez apressado em formular teorias, mas, de modo geral, teria sido um agente magn�fico, n�o receio diz�-lo. Recebi esta manh� um telegrama dele, pelo qual deduzo que consegui uma pista desse caso. Veja a�.</p><empty-line/><p>Tirou o telegrama do bolso e mostrou-me. Vinha de Poplar, expedido ao meio-dia.</p><empty-line/><p>V� imediatamente para Baker Street. Se n�o tiver voltado, espere-me. Estou na pista do bando do caso Sholto. Poder� vir conosco esta noite, se quiser acompanhar o final.</p><empty-line/><p>� Parece uma boa not�cia. � evidente que ele encontrou a pista outra vez � eu disse.</p><empty-line/><p>� Ah, ent�o ele tamb�m tinha se enganado! � exclamou Jones, com evidente satisfa��o. � At� os melhores de n�s podem ser enganados �s vezes. Isto pode ser um rebate falso, mas, como representante da lei, � meu dever n�o deixar escapar nenhuma oportunidade. Est�o batendo. Talvez seja ele.</p><empty-line/><p>Ouvimos na escada o passo pesado de algu�m que ofegava como se estivesse sem f�lego. Uma ou duas vezes parou, como se a subida lhe fosse muito penosa, mas finalmente chegou � porta e entrou. A apar�ncia correspondia exatamente ao som que ouvimos. Era um homem idoso, vestindo roupa de marinheiro, a velha jaqueta abotoada at� o pesco�o. As costas eram arqueadas, os joelhos tr�mulos e a respira��o era penosa como a de um asm�tico.</p><empty-line/><p>Apoiado a um cajado grosso de carvalho, movia os ombros num esfor�o para respirar. Tinha um len�o colorido em volta do queixo e pouco se podia ver do seu rosto al�m de um par de olhos viv�ssimos sob espessas sobrancelhas brancas e longas su��as brancas tamb�m. Deu-me a impress�o de um marinheiro de primeira classe que tivesse envelhecido e ficado na mis�ria.</p><empty-line/><p>� Que � que h�, meu velho?</p><empty-line/><p>Ele olhou em torno lentamente, do jeito pr�prio de um velho, e perguntou:</p><empty-line/><p>� O sr. Sherlock Holmes est�?</p><empty-line/><p>� N�o, mas estou no seu lugar. Pode dar-me qualquer recado que tiver para ele.</p><empty-line/><p>� Mas � s� com ele que eu queria falar.</p><empty-line/><p>� Mas estou lhe dizendo que sou seu substituto. Ser� sobre a embarca��o de Mordecai Smith?</p><empty-line/><p>� �. Sei muito bem onde ela est�. Tamb�m sei onde est�o os homens que ele procura, e tamb�m sei onde est� o tesouro. Sei tudo, tudo.</p><empty-line/><p>� Pois diga o que sabe e eu transmitirei a ele.</p><empty-line/><p>� Eu queria dizer para ele � repetiu, com a obstina��o impertinente de uma pessoa idosa.</p><empty-line/><p>� Ent�o espere por ele.</p><empty-line/><p>� N�o, n�o. N�o posso perder um dia inteiro para ser agrad�vel a ningu�m. Se o sr. Holmes n�o est�, ele que trate de descobrir a hist�ria sozinho. Eu n�o simpatizo com nenhum de voc�s dois e por isso n�o direi coisa nenhuma.</p><empty-line/><p>Ele virou-se para a porta, mas Athelney Jones ficou na frente dele.</p><empty-line/><p>� Espere um pouco, meu amigo. Voc� tem uma informa��o importante. N�o pode ir embora assim. Voc� ficar� aqui, quer queira quer n�o, at� o nosso amigo voltar.</p><empty-line/><p>O velho fez um movimento na dire��o da porta, mas Jones encostou-se nela e o velho reconheceu a inutilidade da resist�ncia.</p><empty-line/><p>� Bonito tratamento este � disse furioso, batendo com o cajado no ch�o. � Venho para tratar com um cavalheiro e encontro dois sujeitos que nunca vi na minha vida, que me agarram e me tratam desse jeito.</p><empty-line/><p>� N�o perder� nada � disse-lhe. � Ser� indenizado pelo dia perdido. Sente-se aqui no sof� e n�o esperar� muito tempo.</p><empty-line/><p>Ele foi andando com a cara fechada e sentou-se com o rosto apoiado nas m�os. Jones e eu recome�amos a fumar os charutos e retomamos a conversa. Mas, de repente, ouvimos a voz de Holmes.</p><empty-line/><p>� Acho que deviam me oferecer um charuto tamb�m!...</p><empty-line/><p>N�s dois estremecemos nas nossas cadeiras: Holmes estava sentado perto de n�s, com uma express�o divertida.</p><empty-line/><p>� Holmes � exclamei, at�nito! � Voc� aqui? Onde est� o velho?</p><empty-line/><p>� Aqui est� o velho � respondeu, puxando uma cabeleira branca. � Aqui est� ele, cabeleira, su��as, sobrancelhas, tudo. Eu achei que meu disfarce estava bom, mas nunca pensei que passaria neste teste.</p><empty-line/><p>� Ah, seu malandro! � gritou Jones encantado. � Voc� daria um ator de m�o cheia. A tosse era perfeita e os seus joelhos tr�mulos valiam 10 libras por semana. S� o brilho dos olhos lembrou-me voc�. Mas n�o escapou de n�s com facilidade.</p><empty-line/><p>� Trabalhei o dia inteiro naquela ca�ada � disse, acendendo o charuto. � Sabe que uma boa parte da classe dos criminosos j� me conhece, sobretudo depois que o nosso amigo aqui deu para publicar alguns dos meus casos. Por isso s� posso continuar nessa guerra disfar�ado. Recebeu o meu telegrama?</p><empty-line/><p>� � por isso que estou aqui.</p><empty-line/><p>� Como vai indo o caso?</p><empty-line/><p>� N�o deu em nada. Tive de soltar dois dos prisioneiros e n�o h� provas contra os outros dois.</p><empty-line/><p>� N�o h� de ser nada. Vamos dar-lhe outros dois para o lugar desses. Mas tem que ficar sob as minhas ordens. Voc� vai receber todo o cr�dito oficial, mas tem que seguir as minhas instru��es. Est� combinado?</p><empty-line/><p>� Perfeitamente, se me ajudar a p�r a m�o nos homens.</p><empty-line/><p>� Bom. Em primeiro lugar, quero uma embarca��o da pol�cia, r�pida, uma lancha a vapor, que deve estar nas escadas de Westminster �s 19 horas.</p><empty-line/><p>� Isso � f�cil, porque h� sempre uma por l�. Mas posso telefonar para me certificar.</p><empty-line/><p>� Quero tamb�m dois homens valentes para o caso de resist�ncia.</p><empty-line/><p>� Levaremos dois ou tr�s na embarca��o. O que mais?</p><empty-line/><p>� Quando prendermos os homens, pegaremos o tesouro. Garanto que ser� um grande prazer para o meu amigo aqui levar a caixa diretamente para a mo�a a quem metade dele pertence por direito. Deixe que ela seja a primeira a abri-lo. Hein, Watson?</p><empty-line/><p>� Seria um grande prazer para mim.</p><empty-line/><p>� Isso n�o ser� uma maneira correta de proceder � disse Jones meneando a cabe�a. � Mas a coisa toda � irregular, e parece-me que o melhor � fechar os olhos. Depois, o tesouro ter� de ser entregue �s autoridades at� a conclus�o do inqu�rito oficial.</p><empty-line/><p>� Naturalmente. N�o custa nada. H� outro ponto. Eu queria muito saber de alguns detalhes sobre este caso do pr�prio Jonathan Small. Sabe que eu gosto de estudar os detalhes dos casos que investigo. N�o far� obje��o a uma entrevista particular com ele, aqui na minha casa ou em qualquer outro lugar, desde que ele seja vigiado?</p><empty-line/><p>� Bem, voc� tem o dom�nio da situa��o. Eu ainda n�o tive nenhuma prova da exist�ncia desse Small. Mas se voc� o apanhar, n�o vejo como poderei recusar-lhe a entrevista com ele.</p><empty-line/><p>� Ent�o est� entendido.</p><empty-line/><p>� Perfeitamente. H� mais alguma coisa?</p><empty-line/><p>� Apenas insisto que jante conosco, o que faremos daqui a meia hora. Tenho ostras e um casal de patos selvagens, com alguns vinhos brancos escolhidos. Watson, voc� ainda n�o conheceu os meus m�ritos como dono de casa.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 10</strong></p><p><strong>O fim do ilh�u</strong></p><empty-line/><p>
    N<emphasis>ossa refei��o foi alegre. Quando estava disposto</emphasis>, Holmes conversava maravilhosamente, e naquela noite estava muito disposto. Parecia estar numa grande excita��o nervosa. Nunca o vira t�o brilhante. Falou sobre v�rios assuntos em r�pida sucess�o: autos sacramentais, cer�mica medieval, violinos Stradivarius, o budismo no Ceil�o e sobre os navios de guerra do futuro, tratando de cada um como se tivesse feito um estudo especial.</p><p>Seu humor brilhante indicava a rea��o � depress�o dos dias anteriores.</p><empty-line/><p>Jones mostrou um temperamento soci�vel nas suas horas de lazer e tratou de jantar como um�<emphasis>bon vivant</emphasis>. Eu me sentia feliz com a id�ia de que est�vamos perto do fim da nossa tarefa e apropriei-me um pouco da alegria de Holmes. Durante o jantar, nenhum de n�s mencionou o caso que nos reunira ali.</p><empty-line/><p>Depois da refei��o, Holmes olhou para o rel�gio e encheu tr�s c�lices de vinho do Porto, dizendo:</p><empty-line/><p>� Um brinde ao sucesso da nossa expedi��o. E h� muito que j� dev�amos ter sa�do. Tem uma pistola, Watson?</p><empty-line/><p>� Tenho o meu velho rev�lver de servi�o na minha escrivaninha.</p><empty-line/><p>� � melhor lev�-lo. Sempre � bom estar preparado. O cabriol� j� est� esperando. Pedi que viesse �s 18:30h.</p><empty-line/><p>Quando chegamos ao cais de Westminster, um pouco depois das sete, a lancha j� nos esperava. Holmes examinou-a.</p><empty-line/><p>� H� alguma coisa que revele que � da pol�cia?</p><empty-line/><p>� A lanterna verde do lado.</p><empty-line/><p>� Ent�o mande tirar.</p><empty-line/><p>Feita a mudan�a, entramos e partimos. Sentamonos � popa. Havia um homem ao leme, um maquinista e dois corpulentos agentes da pol�cia � frente.</p><empty-line/><p>� Para onde vamos? � perguntou Jones.</p><empty-line/><p>� Para a Torre. Diga-lhes que parem em frente a Jacobson�s Yard.</p><empty-line/><p>A embarca��o era realmente muito r�pida. Passamos pelas filas de barca�as carregadas como se elas estivessem paradas. Holmes sorriu com satisfa��o quando alcan�amos um barco a vapor e o ultrapassamos.</p><empty-line/><p>� Acho que somos capazes de pegar qualquer coisa no rio.</p><empty-line/><p>� N�o digo tanto. Mas poucas lanchas podem competir com esta.</p><empty-line/><p>� Temos que pegar a�<emphasis>Aurora</emphasis>�e ela tem fama de ser muito r�pida. Vou contar-lhe o que aconteceu, Watson. Lembra-se de que eu estava aborrecido por me sentir tolhido por um obst�culo t�o insignificante?</p><empty-line/><p>� Lembro.</p><empty-line/><p>� Pois bem, dei um descanso � minha mente mergulhando numa experi�ncia qu�mica. Um dos nossos maiores estadistas disse que a melhor maneira de descansar era mudar de trabalho. E � mesmo. Quando consegui dissolver o hidrocarbono em que trabalhava, voltei ao problema de Sholto e pensei de novo sobre o caso. Os meus rapazes tinham subido e descido o rio sem resultado. A lancha n�o estava em nenhum desembarcadouro ou cais, nem tinha voltado. Mas dificilmente iriam afund�-la para apagar seus vest�gios, mas ficava de p� a hip�tese se todo o resto falhasse. Eu sabia que esse Small era astuto, mas n�o o julgava capaz de uma id�ia sutil. Essas id�ias costumam resultar de uma educa��o apurada. Refleti que, como ele estava em Londres h� algum tempo, j� que temos prova de que mantinha vigil�ncia constante sobre Pondicherry Lodge, dificilmente poderia sair do pa�s de repente, mas precisaria de algum tempo, mesmo que fosse apenas um dia para organizar suas coisas. Era esta a probabilidade, de qualquer modo.</p><empty-line/><p>� O argumento me parece fraco � eu disse.</p><empty-line/><p>� Certamente ele preparou tudo antes de p�r m�os � obra.</p><empty-line/><p>� N�o creio. O seu covil deve ser seguro demais para que se desfizesse dele antes de ter conclu�do o neg�cio. Mas h� outra coisa: Jonathan Small deve ter compreendido que o aspecto peculiar do companheiro, por mais que o tenha vestido e disfar�ado, iria levantar suspeitas e possivelmente seria associado � trag�dia de Norwood. Ele � bastante esperto para perceber isto. Sa�ram do esconderijo de noite, protegidos pela escurid�o, e ele devia querer estar de volta antes de o dia clarear. Ora, eles foram buscar a lancha depois das tr�s horas, conforme disse a sra. Smith. Eles tinham pouco tempo, e o movimento ia come�ar dali a uma hora, mais ou menos. Portanto, achei que n�o deviam ter ido para muito longe. Pagaram bem o sil�ncio de Smith, reservaram a lancha para o momento de fugir e correram para casa com o cofre. Em duas noites tinham tempo de ver pelos jornais a dire��o que a pol�cia tomava, e se houvesse alguma suspeita, aproveitariam a noite para fugir e pegar algum navio em Gravesend ou em Down, onde sem d�vida j� tinham comprado passagens para a Am�rica ou para as col�nias.</p><empty-line/><p>� Mas, e a lancha? N�o podiam t�-la levado para casa.</p><empty-line/><p>� Exatamente. Compreendi que, apesar da sua invisibilidade, a lancha n�o podia estar longe. Imagineime no lugar de Small e pensei no que faria nesse caso. Ele provavelmente achou que mandar a lancha de volta ou guard�-la num cais seriam maneiras de facilitar a persegui��o se a pol�cia estivesse na pista dele. Como poderia escond�-la e t�-la � m�o quando precisasse? Ent�o pensei no que eu faria se me visse numa situa��o dessas. S� havia um meio. Levar a lancha a um estaleiro para mudar suas caracter�sticas. Poderia ent�o voltar para o ancoradouro, onde ficaria realmente escondida e, ao mesmo tempo, � minha disposi��o em poucas horas.</p><empty-line/><p>� Parece simples.</p><empty-line/><p>� S�o exatamente estas coisas simples que costumam passar despercebidas. Decidi trabalhar nesse sentido. Parti naquele inofensivo traje de marinheiro e perguntei em todos os estaleiros rio abaixo, e nada consegui saber em 15; mas no d�cimo sexto � no Jacobson � eu soube que a�<emphasis>Aurora</emphasis>�lhes fora entregue dois dias antes por um homem de perna-de-pau, com umas instru��es sobre o leme. �N�o h� nada errado com o leme�, disse o mestre. �L� est� ela com as suas listas vermelhas.� Naquele instante quem iria aparecer? Mordecai Smith, o dono. Estava meio b�bado. Eu n�o o conhecia, mas ele berrou seu nome e o da lancha, e disse que precisava dela �s 20 horas em ponto. �N�o se esque�a�, disse ele, �porque tenho dois cavalheiros que n�o podem ficar esperando�. Ele tinha sido bem pago porque nadava em dinheiro, distribuindo xelins aos homens. Eu o segui por algum tempo, mas ele entrou num botequim. Ent�o voltei ao estaleiro e, pegando no caminho um dos meus rapazes, deixei-o de sentinela vigiando a lancha. Ele est� na beira do rio e acenar� com o len�o quando eles sa�rem. N�s vamos ficar por a� no rio para agarrar os homens, tesouro e tudo.</p><empty-line/><p>� Voc� planejou tudo muito bem, sejam ou n�o os nossos homens � disse Jones. � Mas se o caso estivesse nas minhas m�os, eu deixaria um grupo de policiais no estaleiro Jacobson e prenderia todos eles quando chegassem.</p><empty-line/><p>� Isso n�o ocorreria nunca. Este Small � muito vivo. Mandar� algu�m na frente e se houver alguma coisa suspeita, adiar� a viagem para a outra semana.</p><empty-line/><p>� Mas podia ter seguido Mordecai Smith, e assim descobriria o esconderijo.</p><empty-line/><p>� E teria perdido o meu dia. Aposto cem contra um como Smith n�o sabe onde eles est�o. Enquanto ele tiver bebida e bom pagamento, por que faria perguntas? Eles mandam recados. J� pensei em todas as possibilidades, e esta � a melhor.</p><empty-line/><p>Quando passamos diante do centro financeiro e comercial de Londres, os �ltimos raios de sol douravam o alto da Catedral de St. Paul. Quando chegamos � Torre, o crep�sculo deixava a cidade na penumbra.</p><empty-line/><p>� L� est� Jacobson�s Yard � disse Holmes, apontando para um local cheio de mastros e apetrechos de navio para os lados do Surrey. Vamos cruzar devagarzinho por aqui, encobertos por estas filas de barca�as.</p><empty-line/><p>Tirou do bolso um bin�culo e ficou observando a margem por algum tempo.</p><empty-line/><p>� Estou vendo a minha sentinela no seu posto � observou � mas n�o h� sinal do len�o.</p><empty-line/><p>� Se desc�ssemos um pouco o rio e esper�ssemos por eles � sugeriu Jones, ansioso.</p><empty-line/><p>Nesse momento est�vamos todos ansiosos, at� os policiais e os tripulantes, que tinham uma id�ia muito vaga do que estava para acontecer.</p><empty-line/><p>� N�o temos o direito de achar que a vit�ria est� garantida � respondeu Holmes. � � quase certo, dez contra um, que eles descer�o o rio, mas quem poder� garantir? Daqui n�s vemos a entrada do estaleiro e eles n�o poder�o nos ver. A noite ser� clara e cheia de luzes. Devemos ficar onde estamos. Veja como as pessoas se amontoam em torno do cercado.</p><empty-line/><p>� Est�o saindo do trabalho no estaleiro.</p><empty-line/><p>� Gentinha suja, mas todos eles t�m em si uma centelha imortal. Ao olhar para eles, ningu�m diria isso. Estranho enigma � o homem.</p><empty-line/><p>� H� quem diga que � uma alma escondida num animal � comentei.</p><empty-line/><p>� Winwood Reade trata bem do assunto � disse Holmes. � Ele nota que, embora o homem seja individualmente um enigma insol�vel, quando est� em grupo torna-se uma certeza matem�tica. Por exemplo, voc� n�o pode nunca prever com exatid�o o que um homem vai fazer, mas pode prever o que um grupo far�. Os indiv�duos variam, mas as coletividades s�o constantes. � o que dizem os estat�sticos. N�o � um len�o? Com toda a certeza vejo uma coisa branca flutuar.</p><empty-line/><p>� � o nosso rapaz � gritei. � Posso v�-lo muito bem.</p><empty-line/><p>� E ali vai a�<emphasis>Aurora</emphasis>�� exclamou Holmes. � E corre como um dem�nio. Maquinista, pra frente a todo vapor. Siga aquela lancha de luz amarela. Por Deus, nunca me perdoarei se n�o a alcan�armos.</p><empty-line/><p>Ela tinha deslizado, sem ser vista, pela entrada do estaleiro e passado entre algumas pequenas embarca��es, de modo que p�de tomar uma grande dianteira antes que a v�ssemos. Agora ela descia o rio rente � margem numa corrida vertiginosa. Jones olhava com express�o s�ria e disse, sacudindo tristemente a cabe�a:</p><empty-line/><p>� Ela � muito r�pida. Duvido que a alcancemos.</p><empty-line/><p>� Temos de alcan��-la � rosnou Holmes entre dentes. � Maquinista, for�a! For�a m�xima. Nem que tenha de estourar a embarca��o, precisamos peg�-los!</p><empty-line/><p>Corr�amos que era uma beleza!</p><empty-line/><p>As fornalhas rugiam e as poderosas m�quinas zuniam como um grande cora��o de metal. A proa pontuda cortava a �gua mansa do rio e formava duas ondas encrespadas � direita e � esquerda. A cada trepida��o das m�quinas n�s salt�vamos e estremec�amos como uma coisa viva. Um grande holofote amarelo na nossa proa iluminava a �gua � nossa frente. Logo adiante havia uma sombra escura que indicava onde estava a�<emphasis>Aurora</emphasis>�e a espuma branca agitada atr�s dela mostrava a velocidade com que corria.</p><empty-line/><p>Passamos como um raio por entre barca�as, vapores, navios mercantes de um lado e outro. Vozes gritavam � nossa passagem, mas a�<emphasis>Aurora</emphasis>�avan�ava e n�s a segu�amos de perto.</p><empty-line/><p>� Alimentem essa m�quina, homens! N�o poupem carv�o. For�a, homens! � gritava Holmes, olhando para a casa das m�quinas e recebendo em cheio no seu rosto aquilino e ansioso o clar�o das fornalhas.</p><empty-line/><p>� Acho que chegamos mais perto � disse Jones sem tirar os olhos da�<emphasis>Aurora</emphasis>.</p><empty-line/><p>� Tenho certeza � eu disse. � Em poucos minutos a alcan�aremos.</p><empty-line/><p>Mas nesse momento, a nossa m� estrela quis que um vaporzinho, que rebocava tr�s barca�as, se atravessasse na nossa frente. Foi com dificuldade que evitamos a colis�o e, at� que as contorn�ssemos e volt�ssemos a correr, a�<emphasis>Aurora</emphasis>�j� avan�ara uns bons 200 metros. Mas ainda estava bem � vista, e o crep�sculo hesitante se transformava numa noite clara estrelada. As caldeiras estavam no m�ximo e a nossa fr�gil embarca��o vibrava e rangia com a energia feroz com que estava sendo impelida.</p><empty-line/><p>J� t�nhamos passado as Docas da West India e chegado a Deptford Reach, e sub�amos de novo depois de contornar a Isle of Dogs. Desaparecera a sombra escura que v�amos diante de n�s e a�<emphasis>Aurora</emphasis>�aparecia nitidamente.</p><empty-line/><p>Jones dirigiu o foco do holofote para ela, a fim de ver bem quem estava l� dentro. Havia um homem sentado � popa com um volume preto entre os joelhos, sobre o qual se inclinava. Ao lado estava uma massa negra que parecia um c�o da Terra Nova. Um rapazinho segurava o leme, e ao clar�o da fornalha pude ver o velho Smith nu at� a cintura, ativando o vapor na luta pela vida. No in�cio eles talvez n�o soubessem com certeza se n�s os est�vamos perseguindo ou n�o, mas agora, vendo que acompanh�vamos todos os seus movimentos, n�o podiam mais duvidar.</p><empty-line/><p>Em Greenwich, est�vamos uns 200 metros atr�s deles, em Blackwell, j� a uns 150. Eu tinha perseguido muita gente, em muitos pa�ses, durante a minha carreira movimentada, mas nunca tive sensa��o igual � que me deu esta doida ca�ada humana pelo T�misa. Com firmeza fomos chegando perto, metro a metro. No sil�ncio da noite pod�amos ouvir o resfolegar da m�quina deles. O homem que estava sentado na popa continuava inclinado movendo os bra�os, como se estivesse fazendo alguma coisa, e de vez em quando levantava-se como para medir a dist�ncia que nos separava deles, e que era cada vez menor. Jones deu-lhes ordem de parar. Est�vamos a uma dist�ncia de quatro botes deles. As duas embarca��es continuavam numa corrida vertiginosa. Era um trecho desimpedido no rio, que tinha Barking Level de um lado e a melanc�lica Plumstead Marshes na outra margem. Quando ouviu nosso grito, o homem que estava na popa levantou-se amea�ador, e sacudiu os punhos cerrados para n�s, praguejando em voz alta.</p><empty-line/><p>Era um homem alto e forte, e na posi��o ereta em que estava, pude ver que a perna-de-pau come�ava na coxa direita. Ao som de seus gritos estridentes e furiosos, houve um movimento na massa preta que estava na coberta. Um homenzinho preto levantou-se: o menor homem que eu j� vira, com uma cabe�a grande e disforme, e um tufo de cabelos desgrenhados. Holmes j� tinha puxado o seu rev�lver e eu peguei o meu ao ver aquela criatura deformada e selvagem.</p><empty-line/><p>Ele estava embrulhado num manto escuro, uma esp�cie de cobertor que o envolvia e s� deixava o rosto de fora. Mas este rosto era suficiente para que um homem passasse uma noite em claro.</p><empty-line/><p>Nunca tinha visto uma fisionomia t�o profundamente marcada pela bestialidade e por tra�os de crueldade. Os olhos pequenos brilhavam, ardendo numa luz sombria, e os l�bios grossos e revirados mostravam os dentes arreganhados, amea�ando-nos com uma f�ria meio animal.</p><empty-line/><p>� Se ele fizer um movimento, atirem � disse Holmes.</p><empty-line/><p>Para chegarmos at� eles faltava apenas a dist�ncia de um bote. Parece que os estou vendo: o homem branco com as pernas abertas praguejando e o maldito an�o, com a sua cara horrenda e rangendo os dentes enormes e amarelos, iluminados pela luz do nosso holofote.</p><empty-line/><p>Foi bom que pud�ssemos v�-los t�o nitidamente. Nesse instante, o an�o tirava de sob o manto que o cobria uma pe�a redonda de madeira e a colocava na boca. As nossas pistolas ressoaram juntas. Ele rodopiou, estirou os bra�os e caiu na �gua com um solu�o. Ainda vi seu olhar venenoso, amea�ador, entre as ondula��es das �guas.</p><empty-line/><p>Na mesma hora o homem da perna-de-pau atirouse ao leme e moveu-o com for�a, dirigindo a embarca��o para a margem sul enquanto n�s pass�vamos a poucos metros de sua popa. Demos a volta rapidamente e ficamos atr�s dela, mas a�<emphasis>Aurora</emphasis>�j� estava perto da margem. Era um lugar deserto, onde a lua iluminava um extenso trecho pantanoso com grandes po�as d��gua estagnada e camadas de vegeta��o apodrecida.</p><empty-line/><p>A lancha, com um ru�do surdo, foi de encontro ao banco de lama com a proa levantada e a popa dentro da �gua. O fugitivo saltou, mas a perna-de-pau afundou no solo movedi�o. Ele lutava e se debatia em v�o. N�o conseguia dar um passo, nem para tr�s nem para a frente.</p><empty-line/><p>Ele gritava numa raiva impotente e batia freneticamente com o outro p� na lama, mas todos os seus esfor�os e movimentos s� o faziam enterrar-se cada vez mais na areia viscosa. Quando a nossa lancha encostou, ele j� estava enterrado t�o fundo que foi preciso pux�-lo com uma corda amarrada nos seus ombros, como se fosse um tubar�o. Os dois Smith, pai e filho, estavam sentados, com express�o taciturna, na sua lancha, mas vieram para o nosso barco, obedientemente, quando chamamos.</p><empty-line/><p>Tiramos a�<emphasis>Aurora</emphasis>�da areia e a rebocamos.</p><empty-line/><p>Um s�lido cofre de ferro, de artesanato indiano, estava na coberta. Era, sem d�vida, o mesmo que continha o tesouro fatal dos Sholto. Estava sem chave, e era pesad�ssimo. N�s o levamos com cuidado para a nossa cabine. Quando subimos lentamente o rio, vasculhamos a �gua com o holofote em todas as dire��es, mas n�o descobrimos sinal do ilh�u.</p><empty-line/><p>Olhem aqui disse Holmes, mostrando a escotilha... Se n�o tivessemos atirado depressa com os rev�lveres... ali, exatamente atr�s do lugar onde fic�vamos, estava cravado um daqueles dardos assassinos que n�s conheciamos bern. Ele deve ter passado entre n�s no momento em que atiramos.</p><empty-line/><p>Holmes sorriu e sacudiu os ombros com a sua habitual indiferen�a, mas eu confesso que flquei aterrado s� de pensar na morte horr�vel que passara t�o perto de n�s naquela noite.</p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong>Cap�tulo 11</strong></p><p><strong>o fabuloso tesouro de agra</strong></p><empty-line/><p>
    N<emphasis>osso prisioneiro estava sentado na cabine diante da</emphasis>�caixa de ferro que lhe dera tanto trabalho e que ele esperara tanto para conseguir. Era um sujeito muito queimado de sol, de olhos atrevidos, com o rosto cor de mogno marcado por uma rede de linhas e rugas, que indicavam uma vida dura ao ar livre.</p><p>Havia uma singular proemin�ncia do seu queixo barbudo, indicando um homem que n�o desiste facilmente dos seus objetivos. Devia ter mais ou menos 50 anos, porque o cabelo preto encaracolado j� estava entremeado de fios brancos. A sua fisionomia, quando estava relaxada, n�o era repulsiva, embora as sobrancelhas grossas e o queixo agressivo lhe dessem, no momento da raiva, uma express�o terr�vel. Estava sentado agora com as m�os algemadas no colo, a cabe�a inclinada sobre o peito, olhando para a caixa que fora a causa de todos os seus crimes. Pareceu-me que na sua atitude contida havia mais tristeza do que raiva. Num momento em que olhou para mim vi nos seus olhos um brilho que parecia de tro�a.</p><empty-line/><p>� Ent�o, Jonathan Small � disse Holmes, acendendo um charuto �, lamento que tenhamos chegado a este ponto.</p><empty-line/><p>� Eu tamb�m � respondeu com franqueza. � N�o creio que possa me livrar desta embrulhada. Juro-lhe, pela B�blia, que nunca levantei a m�o contra Sholto. Foi aquele c�o do inferno, o Tonga, que lhe atirou um dardo envenenado. Eu n�o tive nada com isso. Senti tanto como se fosse um parente meu. Eu ainda procurei deter o dem�nio puxando a corda, mas n�o dava para desfazer o que j� estava feito.</p><empty-line/><p>� Pegue um charuto � disse Holmes. � E � melhor tomar um gole, que voc� est� muito molhado. Como voc� podia esperar que um homem t�o pequeno e fraco pudesse dominar o sr. Sholto enquanto voc� subia pela corda?</p><empty-line/><p>� Parece que o senhor viu tudo! A verdade � que eu esperava encontrar o quarto vazio. Conhecia bem os h�bitos da casa e era a hora de o sr. Sholto descer para cear. N�o tenho necessidade de guardar segredo. S� posso defender-me dizendo a verdade. Se fosse o velho major, eu o teria matado sem piedade. Eu o esfaquearia com a mesma despreocupa��o com que fumo este charuto. Mas estava escrito que eu tinha de esbarrar neste Sholto filho, com quem nunca tive nenhuma desaven�a.</p><empty-line/><p>� Voc� est� sob as ordens do sr. Athelney Jones, da Scotland Yard. Ele vai lev�-lo at� a minha casa, onde me contar� tudo exatamente como aconteceu. Deve falar com toda a clareza, porque, se o fizer, talvez eu possa ser �til a voc�. Acho que posso provar que o veneno agiu com tamanha rapidez que, quando voc� entrou no quarto, o homem j� estava morto.</p><empty-line/><p>� E foi isso mesmo. Nunca tive na minha vida um choque igual, no momento em que o vi com os dentes arreganhados e a cabe�a ca�da sobre o ombro, quando entrei pela janela. Aquilo me abalou muito. Acho que eu teria matado Tonga se ele n�o tivesse fugido. Foi por isso que ele deixou l� o bast�o e os dardos, o que ajudou a p�r voc�s na nossa pista. O que n�o sei � como conseguiram nos descobrir. N�o sinto animosidade em rela��o aos senhores por causa disso. Mas � bem curioso � disse ele com um sorriso amargo � que eu, que podia reivindicar meio milh�o, tenha gasto metade da minha vida construindo um quebra-mar nas Andam�s e provavelmente passarei a outra metade cavando esgotos em Dartmoor. Maldito o dia em que encontrei o negociante Achmet e fiquei sabendo da exist�ncia do tesouro de Agra, que s� tem trazido maldi��es aos que o possuem. Trouxe a morte para ele, medo e culpa para o major Sholto e, para mim, escravid�o pela vida inteira.</p><empty-line/><p>Jones enfiou a cabe�a e os ombros na cabine e observou:</p><empty-line/><p>� Uma festa em fam�lia. Holmes, vou tomar um gole do seu frasco. Bem, acho que devemos nos felicitar uns aos outros. � uma pena n�o termos apanhado o outro vivo, mas n�o tivemos escolha. Confesse, Holmes, que foi duro. Mas n�o se podia fazer mais.</p><empty-line/><p>� Tudo est� bem quando acaba bem � disse Holmes. � Mas eu n�o sabia que a�<emphasis>Aurora</emphasis>�corria tanto.</p><empty-line/><p>� Smith diz que � uma das lanchas mais r�pidas do rio e que se ele tivesse outro homem para ajud�-lo, jamais o pegar�amos. Ele jura que n�o sabia nada do neg�cio de Norwood.</p><empty-line/><p>� N�o sabia mesmo. Nem uma palavra � exclamou nosso prisioneiro. � Escolhi a lancha dele porque soube que era r�pida. N�o lhe dissemos nada, pagamos bem e ele ia receber uma bela quantia se tiv�ssemos chegado ao�<emphasis>Esmeralda</emphasis>�em Gravesend, que vai para o Brasil.</p><empty-line/><p>� Se ele n�o procedeu mal, nada de mal acontecer� com ele. Embora sejamos r�pidos na captura de quem procuramos, n�o temos a mesma rapidez em conden�-los.</p><empty-line/><p>Era divertido notar como o vaidoso Jones j� come�ava a assumir ares de import�ncia na captura. Pelo ligeiro sorriso que brincava nos l�bios de Sherlock, via-se que o discurso n�o fora desperdi�ado.</p><empty-line/><p>� N�s vamos primeiro a Vauxhall Bridge � disse Jones �, onde o dr. Watson desembarcar� com o cofre. Eu n�o preciso dizer-lhe que assumo uma grande responsabilidade consentindo nisto. � extremamente irregular, mas trato � trato. Mas sou obrigado, por for�a do dever, a mandar um inspetor para acompanh�-lo, j� que est� com uma carga t�o valiosa. � uma pena que n�o tenhamos a chave para fazermos primeiro o invent�rio. Teremos de arromb�-lo. Onde est� a chave, homem?</p><empty-line/><p>� No fundo do rio � disse Small secamente.</p><empty-line/><p>� N�o precisava nos dar este trabalho desnecess�rio. Voc� j� nos deu trabalho suficiente. N�o preciso recomendar-lhe o m�ximo de cuidado, doutor. Volte a Baker Street com o cofre. Voc� nos encontrar� l�, a caminho da delegacia.</p><empty-line/><p>Deixaram-me em Vauxhall com o pesado cofre, acompanhado por um agente mal-humorado e maleducado. Um quarto de hora depois eu estava na casa da sra. Cecil Forrester. A criada pareceu surpresa com uma visita t�o tarde. A sra. Forrester tinha sa�do e ainda n�o voltara. Mas a srta. Morstan estava na sala; ent�o fui at� a sala com o cofre nos bra�os, deixando o prestativo inspetor no cabriol�. A srta. Morstan estava sentada perto da janela aberta, com um vestido branco de um tecido di�fano, lev�ssimo, com um leve toque de vermelho no pesco�o e na cintura.</p><empty-line/><p>A luz suave de um abajur iluminava a mo�a recostada numa cadeira de palha, brincando no seu rosto grave e doce, e dando um brilho met�lico dos cachos de sua farta cabeleira.</p><empty-line/><p>Um bra�o alvo pendia ao lado da cadeira, e a sua postura mostrava a melancolia que a envolvia. Mas ao ouvir os meus passos, levantou-se rapidamente, corando de surpresa e prazer.</p><empty-line/><p>� Ouvi um cabriol� chegar e parar, mas pensei que fosse a sra. Forrester que tivesse voltado mais cedo. Nem sonhava que pudesse ser o senhor. Que not�cias me trouxe?</p><empty-line/><p>� Trouxe mais do que not�cias � eu disse, pousando a caixa sobre a mesa e falando num tom exuberante e jovial, embora meu cora��o estivesse pesado.</p><empty-line/><p>� Trouxe-lhe uma coisa que vale todas as not�cias do mundo. Trouxe-lhe uma fortuna!</p><empty-line/><p>� Ent�o � este o cofre? � ela perguntou friamente, olhando a caixa de ferro.</p><empty-line/><p>� �... este � o grande tesouro de Agra. Metade pertence a voc� e a outra metade a Tadeu Sholto. Ter�o alguns milhares cada um. Pense nisto. Uma renda anual de 10 mil libras. Deve haver poucas mo�as mais ricas na Inglaterra. N�o � glorioso?</p><empty-line/><p>Acho que exagerei o meu entusiasmo, e que ela percebeu um tom pouco sincero nas minhas congratula��es, porque ela ergueu as sobrancelhas e olhoume com curiosidade.</p><empty-line/><p>� Se tenho isso tudo, devo a voc�.</p><empty-line/><p>� N�o, a mim n�o, ao meu amigo Sherlock Holmes. Ainda que tivesse toda a vontade do mundo, eu jamais conseguiria descobrir uma pista que p�s � prova at� o g�nio anal�tico dele. Apesar disso, quase o perd�amos no �ltimo momento.</p><empty-line/><p>� Pe�o-lhe que se sente e me conte como tudo aconteceu, dr. Watson � ela disse.</p><empty-line/><p>Fiz um resumo do que tinha acontecido desde o nosso �ltimo encontro: o novo m�todo de Holmes para encontrar a�<emphasis>Aurora</emphasis>�e o �xito; o aparecimento de Athelney Jones, a nossa expedi��o � tarde e a ca�ada feroz pelo T�misa. Ela ouviu o relato das nossas aventuras com os l�bios entreabertos e os olhos cintilantes. Quando falei do dardo que por um triz n�o nos atingira, ela ficou t�o p�lida que temi que desmaiasse.</p><empty-line/><p>� N�o � nada � disse ela quando eu quis ir buscar �gua para borrifar-lhe o rosto. � J� estou bem. Foi um choque saber do perigo que correram por minha causa!</p><empty-line/><p>� Est� tudo acabado, n�o foi nada. N�o lhe contarei mais detalhes tenebrosos. Vamos falar agora de coisas mais alegres. Aqui est� o tesouro. Tive licen�a para traz�-lo, pensando que gostaria de ser a primeira a v�-lo.</p><empty-line/><p>� Seria do maior interesse para mim � ela disse. Mas n�o havia ansiedade na sua voz. Ela compreen-</p><empty-line/><p>deu que seria indelicado de sua parte n�o demonstrar interesse por um pr�mio que custara tanto para ser conquistado.</p><empty-line/><p>� Que cofre bonito � disse, examinando-o. � � um trabalho indiano?</p><empty-line/><p>� � trabalho em metal feito em Benares.</p><empty-line/><p>� E como � pesado! � exclamou, tentando levant�lo. � S� a caixa deve valer muito. Onde est� a chave?</p><empty-line/><p>� Small atirou-a no T�misa � eu respondi. � D�-me o ati�ador do fog�o.</p><empty-line/><p>Na frente da caixa havia uma imagem de Buda sentado. Enfiei por baixo da figura a ponta do ferro e levantei a tampa. A fechadura partiu-se com um estrondo. Com as m�os tremendo, ergui a tampa. Ficamos at�nitos. O cofre estava vazio!</p><empty-line/><p>N�o admirava que fosse pesado. O trabalho de ferro tinha quase dois cent�metros de espessura em toda a volta. Era maci�o, bem-feito e s�lido; um cofre feito para carregar objetos de grande valor. Mas n�o havia nenhum sinal de j�ias dentro; estava completamente vazio.</p><empty-line/><p>� O tesouro est� perdido � disse a srta. Morstan calmamente.</p><empty-line/><p>Quando ouvi estas palavras e compreendi o que elas significavam, tive a impress�o de que uma grande sombra se afastava da minha alma. Eu n�o sabia o mal que este tesouro me fizera at� este momento, quando finalmente eu me livrava deste peso. N�o h� d�vida de que era ego�sta, desleal, errado; mas a �nica coisa que eu percebia agora era que aquela barreira de ouro n�o estava mais entre n�s.</p><empty-line/><p>� Gra�as a Deus! � suspirei do fundo da alma.</p><empty-line/><p>Ela me olhou com um sorriso repentino e inquiridor:</p><empty-line/><p>� Por que diz isso?</p><empty-line/><p>� Porque agora voc� est� ao meu alcance novamente � eu disse, segurando-lhe a m�o. Ela n�o a retirou. � Porque a amo, Mary, t�o sinceramente quanto se pode amar uma mulher. Porque este tesouro, estas riquezas fechavam meus l�bios. Agora que se foram, posso dizer quanto a amo! Por isso eu disse �Gra�as a Deus�.</p><empty-line/><p>� Ent�o, eu tamb�m direi gra�as a Deus � ela murmurou quando a puxei para perto de mim.</p><empty-line/><p>Algu�m pode ter perdido um tesouro, mas o que sabia � que eu ganhara um naquela noite.</p></section><section><p><strong>Cap�tulo 12</strong></p><p><strong>a estranha narrativa de jonathan</strong></p><empty-line/><p>
    O�<emphasis>inspetor que ficou esperando era muito paciente</emphasis>, porque me demorei um tempo infinito.</p><p>Seu rosto tornou-se sombrio quando eu lhe mostrei que o cofre estava vazio.</p><empty-line/><p>� L� se vai a recompensa � disse ele com tristeza. � Quando n�o h� dinheiro, n�o h� pagamento. Esta noite de trabalho valeria uma nota de 10 libras para mim e para Sam Brown, se o tesouro fosse encontrado.</p><empty-line/><p>� O sr. Tadeu Sholto � um homem rico, esteja certo de que ser� gratificado, com tesouro ou sem tesouro.</p><empty-line/><p>Mas o agente sacudiu a cabe�a, desapontado:</p><empty-line/><p>� � um mau neg�cio, e o sr. Jones tamb�m vai pensar assim.</p><empty-line/><p>A sua previs�o estava correta porque o policial empalideceu quando lhe mostrei o cofre vazio em Baker Street. Tinham acabado de chegar, ele, Holmes e o prisioneiro, porque tinham parado no caminho. O meu companheiro estendeu-se na sua poltrona com a sua express�o ap�tica habitual e Small sentou-se em frente e, imperturb�vel, cruzou a perna-de-pau sobre a outra. Quando mostrei a caixa vazia, recostou-se na cadeira e caiu na gargalhada.</p><empty-line/><p>� Isso � coisa sua, Small � disse Jones, irritado.</p><empty-line/><p>� �. Eu o escondi num lugar onde nunca poder�o ir busc�-lo � disse exultante. � O tesouro � meu, e j� que n�o posso ter a minha parte, ningu�m ter� coisa alguma dele. J� disse que nenhum ser vivo tem direito a ele, al�m de tr�s homens que moram nas barracas dos degredados nas Andam� e eu. Sei agora que n�o posso us�-lo, e eles tamb�m n�o. Fiz tudo para mim mesmo e para eles. N�s agimos sempre juntos sob�<emphasis>O sinal dos quatro</emphasis>. Tenho a certeza de que eles teriam feito exatamente o que eu fiz. Joguei o tesouro no T�misa para que n�o fosse parar nas m�os de descendentes ou parentes de Sholto ou de Morstan. N�o foi para enriquec�-los que demos cabo de Achmet. Podem achar o tesouro no lugar onde est�o a chave e o pequeno Tonga. Quando vi que a sua lancha ia nos alcan�ar, pus tudo em lugar seguro. Para o trabalhinho de hoje n�o h� rubis.</p><empty-line/><p>� Voc� est� nos enganando, Small � disse Jones asperamente. � Se voc� quisesse jogar o tesouro no rio, teria sido mais f�cil jogar com a caixa e tudo.</p><empty-line/><p>� Seria mais f�cil para mim jogar e mais f�cil para voc�s o recuperarem � ele respondeu, olhando de soslaio. � O homem que foi suficientemente inteligente para me ca�ar daquele jeito tamb�m o seria para pegar uma caixa de ferro no fundo do rio. Agora que as j�ias est�o espalhadas por cinco milhas ou mais, ser� muito mais dif�cil. Custou-me muito fazer isso, quase enlouqueci quando vi que estavam nos perseguindo. Mas n�o vale a pena afligir-me. Tive altos e baixos na minha vida, e aprendi que n�o se deve chorar pelo leite derramado.</p><empty-line/><p>� Isto � um assunto muito s�rio, Small � disse o policial. � Se tivesse colaborado com a justi�a em vez de prejudic�-la dessa maneira, teria atenuantes no julgamento.</p><empty-line/><p>� Justi�a! � rosnou o ex-degredado. � Uma bela justi�a! De quem � esta riqueza, se n�o � nossa? Seria justo que eu desistisse em favor de outros que nunca esperaram por isso? Veja quanto tempo eu esperei. Vinte longos anos naquele p�ntano cheio de febres, o dia inteiro trabalhando debaixo daqueles mangues, a noite inteira acorrentado nas cabanas imundas dos degredados, picado pelos mosquitos, torturado pela mal�ria, amea�ado o tempo todo pelos malditos policiais negros que gostam de fazer mal aos brancos. Foi assim que eu vivi esperando a posse do meu tesouro, e vem o senhor me falar de justi�a, porque acho insuport�vel a id�ia de que paguei este pre�o para outros o desfrutarem! Preferiria ser atingido por um dos dardos de Tonga do que viver numa cela de condenado, sabendo que outro homem est� num pal�cio desfrutando o dinheiro que deveria ser meu.</p><empty-line/><p>Small tinha deixado cair a m�scara de estoicismo e tudo isto saiu num turbilh�o de palavras enquanto seus olhos queimavam e as algemas batiam com o movimento febril das m�os.</p><empty-line/><p>Compreendi, ao ver a f�ria e a paix�o do homem, que o terror do major, ao saber que o degredado ludibriado estava na sua pista, n�o fora exagerado nem injustificado.</p><empty-line/><p>� Voc� se esquece de que n�s n�o sabemos nada desta hist�ria � disse Holmes tranq�ilamente. � Ainda n�o ouvimos a sua hist�ria e n�o podemos avaliar at� que ponto a justi�a inicialmente estava do seu lado.</p><empty-line/><p>� O senhor me fala sempre com muita gentileza, embora seja ao senhor que eu devo agradecer estes braceletes que est�o nos meus pulsos. Mas n�o guardo ressentimento por isso. � tudo justo e feito abertamente. Se quer ouvir a minha hist�ria, eu n�o pretendo escond�-la. Tudo o que eu disser � a pura verdade, como Deus manda que se diga. E ficarei muito agradecido se puser um copo perto de mim para molhar os bei�os quando ficar com sede.</p><empty-line/><p>� Eu sou de Worcestershire, nascido perto de Pershore. Acho que ainda vai encontrar um grupo de Smalls morando por l�, se os procurar. Pensei muitas vezes em ir dar uma olhada por l�, mas o certo � que nunca fui muito benquisto na fam�lia e duvido que a minha visita lhes desse prazer. S�o todos gente s�ria que vai � missa, pequenos agricultores, conhecidos e respeitados na terra, enquanto eu sempre fui um tanto vadio. Mas, quando estava com</p><empty-line/><p>18 anos, deixei de lhes dar trabalho porque me meti numa embrulhada com uma mo�a, de que s� pude me livrar alistando-me como soldado e juntando-me ao 3o Buffs que estava indo para a �ndia. Mas eu n�o estava destinado a ser soldado por muito tempo. Eu mal tinha aprendido a segurar o mosquet�o quando, imprudentemente, fui nadar no Ganges. Por sorte o sargento John Holder, da minha companhia, estava l� na mesma hora. Ele era um dos melhores nadadores da tropa. Um crocodilo veio na minha dire��o quando estava bem no meio do rio e arrancou minha perna direita com a mesma efic�cia com que o faria um bom cirurgi�o, bem acima do joelho. Com o susto e o sangue que perdi, desmaiei e teria morrido afogado se Holder n�o me agarrasse e me levasse para a margem. Fiquei cinco meses no hospital por causa disto, e quando finalmente pude sair com esta pernade-pau presa � minha coxa, estava inv�lido para o Ex�rcito, e incapacitado para exercer qualquer atividade que exigisse movimento.</p><empty-line/><p>� Como podem imaginar, eu estava completamente sem sorte nessa �poca, um aleijado e in�til, embora ainda n�o tivesse 20 anos! Mas a minha desventura em breve se transformou numa b�n��o. Um homem chamado Abel White, que tinha ido para l� cultivar anil, queria um feitor para vigiar os carregadores e faz�-los trabalhar. Por acaso ele era amigo do nosso coronel, que tinha se interessado por mim desde o acidente. Para encurtar a hist�ria, o coronel me recomendou para a fun��o. Como a maior parte do trabalho tinha de ser feita a cavalo, a minha perna n�o era obst�culo, porque podia me firmar na sela com a coxa.</p><empty-line/><p>� O que eu tinha de fazer era percorrer as planta��es, vigiar os homens no trabalho e informar sobre os vadios. O pagamento era muito bom, tinha alojamentos confort�veis e me contentava em passar o resto da minha vida numa planta��o de anil. O sr. Abel White era um homem bondoso e �s vezes entrava na minha cabana para fumar um cachimbo comigo, porque ali as pessoas brancas se sentem mais pr�ximas umas das outras do que na terra natal.</p><empty-line/><p>� Nunca fiquei muito tempo no caminho da sorte. De repente, sem nenhum ind�cio pr�vio, estourou uma grande revolta. Um dia a �ndia vivia aparentemente tranq�ila e pac�fica como Surrey ou Kent; no dia seguinte estava transformada num perfeito inferno, com 200 mil dem�nios negros soltos. � claro que os�<emphasis>senhores</emphasis>�sabem o que aconteceu, e melhor do que eu porque leram,�<emphasis>e eu n�o sei ler</emphasis>. Eu s� sei o que vi com os meus pr�prios olhos. A nossa planta��o era num lugar chamado Mutra, perto da divisa das prov�ncias do noroeste. Todas as noites eram iluminadas pelos inc�ndios nos bangal�s e todos os dias passavam pelas nossas propriedades grupos de europeus com mulheres e filhos para Agra, onde ficavam mais perto das tropas. O sr. Abel White era teimoso. Meteu na cabe�a que tinham exagerado a dimens�o do caso e que a revolta acabaria t�o subitamente como tinha come�ado, e l� ficava ele sentado na varanda, bebendo u�sque e fumando charutos, enquanto o pa�s pegava fogo em volta.</p><empty-line/><p>� Claro que ficamos ao lado dele, eu e Dawson, que, auxiliado pela esposa, cuidava da escritura��o e da administra��o.</p><empty-line/><p>� Bem, um belo dia a coisa estourou em casa. Eu tinha passado o dia numa planta��o distante, e voltava para casa devagar, � tardinha, quando vi de repente uma coisa confusa no fundo de um precip�cio, onde corria um regato. Fui at� l� para ver o que era e senti o cora��o gelado, quando descobri que era a esposa de Dawson cortada em tiras e meio devorada por chacais e hienas. Um pouco mais adiante estava o pr�prio Dawson de bru�os, morto, com um rev�lver descarregado na m�o, com quatro soldados hindus mortos uns sobre os outros diante dele. Puxei as r�deas do cavalo, perguntando a mim mesmo para que lado eu deveria ir. Mas nesse instante vi nuvens negras de fuma�a saindo do bangal� de Abel White, e as chamas que come�avam a irromper pelo telhado. Eu sabia que n�o poderia ajudar o meu patr�o e com certeza seria massacrado. Do lugar onde eu estava podia ver centenas de dem�nios negros com jaquetas vermelhas dan�ando e rugindo em volta da casa queimada. Alguns me viram e fizeram fogo, e as balas passaram por cima da minha cabe�a. Meti-me ent�o pelas planta��es de arroz e de madrugada vi-me a salvo dentro dos muros de Agra.</p><empty-line/><p>� Mas, como ficou provado, ali tamb�m a seguran�a n�o era grande. Toda a popula��o estava agitada como uma colm�ia de abelhas. Em qualquer lugar onde os ingleses podiam se juntar em grupos, eles mantinham apenas o terreno que ocupavam. Em todos os outros lugares, eles eram fugitivos desamparados. Era uma luta de milh�es contra centenas; e a parte mais cruel daquilo era que aqueles homens contra os quais lut�vamos � pe�es, cavaleiros e atiradores � eram as nossas pr�prias tropas que t�nhamos ensinado e treinado, que ali estavam manejando as nossas armas, soprando as nossas cornetas. Em Agra estava o 3<sup>o</sup>�regimento dos fuzileiros de Bengala, alguns�<emphasis>sikhs</emphasis>, duas tropas a cavalo e uma bateria de artilharia. Um corpo de volunt�rios de empregados e negociantes tinha sido organizado e eu juntei-me a eles com perna-de-pau e tudo. Sa�mos ao encontro dos rebeldes em Shahgunge no in�cio de julho e os obrigamos a recuar durante algum tempo, mas a nossa p�lvora acabou e tivemos que voltar � cidade.</p><empty-line/><p>� Receb�amos as piores not�cias de todos os lados, o que n�o era de espantar, porque, se olharmos para o mapa, veremos que est�vamos mesmo no centro da revolta. Lucknow fica a uns 150 quil�metros a leste e Cawnpore, mais ou menos o mesmo ao sul. Por toda parte s� havia torturas, afrontas e assassinatos. A cidade de Agra era um lugar grande, formigando de fan�ticos e ferozes adoradores de todos os dem�nios. Os nossos poucos homens perdiam-se naquelas ruas estreitas e sinuosas.</p><empty-line/><p>� O nosso comandante atravessou o rio e tomou posi��o no velho forte de Agra. N�o sei se algum dos senhores j� leu ou ouviu alguma coisa sobre esse forte. � um lugar muito estranho, o mais estranho que j� vi, e olhe que j� me meti em cantos muito esquisitos.</p><empty-line/><p>� Em primeiro lugar, � enorme. Acho que o terreno murado tem muitos acres e acres. H� uma parte constru�da recentemente que abrigou a nossa guarni��o, al�m de mulheres, crian�as, mantimentos e tudo o mais, e ainda sobrou muito espa�o. Mas esta parte n�o � nada se comparada ao tamanho da antiga, onde ningu�m vai e que est� abandonada aos escorpi�es e bichos de toda esp�cie. Tem enormes salas desertas, corredores sinuosos, compridos l� dentro, de modo que as pessoas podem se perder facilmente ali. � por isso que raramente algu�m entra l�. Mas, de vez em quando, um grupo com tochas ia at� l� para explora��o.</p><empty-line/><p>� O rio banha a frente do forte e assim o protege, mas dos lados e atr�s existem muitas entradas que precisavam ser vigiadas, tanto no forte antigo como no novo, onde estavam aquarteladas as nossas tropas. Tinham pouca gente, uma quantidade de homens que mal dava para vigiar os cantos dos pr�dios e para usar os rifles. Portanto, era imposs�vel manter uma guarda eficiente em cada um dos in�meros port�es. O que fizemos foi organizar uma casa de guarda central no meio do forte e deixar cada port�o sob a responsabilidade de um branco e de dois ou tr�s nativos. Eu tinha sido escolhido para fazer sentinela durante certas horas da noite numa porta isolada no lado sudoeste do pr�dio. Dois�<emphasis>sikhs</emphasis>�estavam sob o meu comando e eu tinha ordem de atirar � menor suspeita, para que viesse logo um aux�lio da guarda central. Mas, como a guarda ficava a uns duzentos passos de dist�ncia e ainda havia entre n�s um labirinto de passagens e corredores, eu duvidava que chegassem a tempo de fazer alguma coisa em caso de ataque.</p><empty-line/><p>� Eu estava muito orgulhoso de ter este pequeno comando, j� que eu era um recruta inexperiente e, al�m do mais, aleijado. Durante duas noites fiquei de sentinela com os meus dois hindus. Eram altos, rapag�es de apar�ncia feroz, Mahomet Singh e Abdullah Khan, ambos guerreiros experientes que tinham pegado em armas contra n�s em Chilian Wallah. Falavam ingl�s razoavelmente bem, mas pouca coisa conseguia arrancar deles. Preferiam ficar juntos e bater papo a noite inteira no seu estranho dialeto�<emphasis>sikh</emphasis>.</p><empty-line/><p>� Eu costumava ficar do lado de fora do port�o olhando o rio largo e sinuoso l� embaixo e as luzes tr�mulas da grande cidade. O rufar dos tambores, o ru�do dos tant�s hindus e os gritos dos rebeldes, b�bados de �pio e fumo, eram suficientes para lembrarnos durante a noite inteira dos perigosos vizinhos do outro lado do rio. De duas em duas horas, o oficial de servi�o costumava fazer a ronda dos postos para ver se estava tudo bem.</p><empty-line/><p>� A terceira noite de sentinela estava escura e suja, com uma chuva mi�da impertinente. Era muito ma�ante ficar em p� no port�o horas e horas num tempo daqueles.</p><empty-line/><p>� Tentei v�rias vezes fazer os�<emphasis>sikhs</emphasis>�falarem, mas sem muito sucesso. �s duas horas as rondas passaram e quebraram por um momento a monotonia da noite. Vendo que os meus companheiros n�o queriam conversa, peguei o meu cachimbo e pousei o mosquete para acender um f�sforo.</p><empty-line/><p>� Num instante fui subjugado pelos dois�<emphasis>sikhs</emphasis>. Um deles pegou a minha arma e apontou-a para a minha cabe�a enquanto o outro encostou um punhal na minha garganta e jurou entre dentes que o enterraria se eu desse um passo.</p><empty-line/><p>� O meu primeiro pensamento foi que eles estavam combinados com os rebeldes e que aquilo era o in�cio de um assalto.</p><empty-line/><p>� Se a porta ca�sse nas m�os dos soldados hindus, o local teria de se render e as mulheres e crian�as seriam tratadas como em Cawnpore. Talvez os senhores estejam pensando que quero me justificar, mas doulhes a minha palavra de que quando pensei nisso, mesmo sentindo na garganta a ponta do punhal, abri a boca para gritar e chamar a guarda, ainda que este fosse o �ltimo som que me sa�sse da garganta. O homem que me segurava parece que adivinhou o meu pensamento, porque, mesmo enquanto eu tentava me livrar dele, murmurou:</p><empty-line/><p>� �N�o fa�a nenhum barulho. O forte est� bastante seguro. N�o h� c�es rebeldes deste lado do rio.� � Suas palavras pareciam sinceras, e eu sabia que se levantasse a voz, eu seria um homem morto. Portanto, esperei em sil�ncio para saber o que eles queriam de mim.</p><empty-line/><p>� �Escute,�<emphasis>sahib</emphasis>�, disse o mais alto e feroz, o que se chamava Abdullah Khan, �ou voc� se torna um dos nossos agora ou tem de ser silenciado para sempre. O neg�cio � grande demais para que hesitemos. Ou voc� passa para o nosso lado, de corpo e alma, jurando pela cruz dos crist�os, ou o seu corpo esta noite vai ser jogado no fosso e n�s passaremos por cima dele para nos juntarmos aos nossos irm�os do ex�rcito rebelde. N�o h� meio-termo. Escolha: viver ou morrer? S� podemos dar-lhe mais tr�s minutos para decidir, porque o tempo est� passando e tudo tem de ser feito antes que a ronda passe de novo.�</p><empty-line/><p>� �Como posso decidir?�, perguntei. �Voc�s n�o disseram o que querem de mim. Mas desde j� lhes digo que se for alguma coisa contra a seguran�a do forte, n�o v�o conseguir nada. Pode guardar a faca e tratar da vida.�</p><empty-line/><p>� �N�o � nada contra o forte�, disse ele. �N�s apenas lhe pedimos que fa�a aquilo que os seus patr�cios v�m fazer aqui. Queremos torn�-lo rico. Se quiser ser um dos nossos esta noite, n�s lhe juramos, pela faca nua, e pelo triplo juramento que nenhum�<emphasis>sikh</emphasis>�pode quebrar, que voc� ter� um belo quinh�o na partilha. A quarta parte do tesouro ser� sua. Est� bem claro?�</p><empty-line/><p>� �Mas que tesouro � esse? � claro que estou pronto para enriquecer, mas preciso saber o que farei para isso.�</p><empty-line/><p>� �Jure, ent�o�, disse ele, �pelos ossos de seu pai, pela honra de sua m�e, pela cruz da sua f�, que n�o erguer� a m�o nem abrir� a boca contra n�s, nem agora nem depois.�</p><empty-line/><p>� �Juro�, respondi, �contanto que o forte n�o corra perigo.�</p><empty-line/><p>� �Ent�o meu companheiro e eu juramos tamb�m que voc� ter� a quarta parte do tesouro, que ser� dividido igualmente entre n�s quatro.�</p><empty-line/><p>� �Mas somos tr�s�, eu disse.</p><empty-line/><p>� �N�o. Dost Akbar tamb�m deve ter a sua parte.�</p><empty-line/><p>� �Enquanto esperamos por eles, podemos contarlhe a hist�ria. Mahomet Singh fica no port�o para nos avisar quando chegarem.�</p><empty-line/><p>� �A coisa foi assim,�<emphasis>sahib</emphasis>, eu conto para voc� porque sei que um juramento obriga um�<emphasis>feringhee</emphasis>�e que podemos confiar em voc�. Se fosse um hindu mentiroso, podia jurar por todos os deuses dos seus falsos templos que o seu sangue iria manchar a minha faca e o seu corpo ir acabar na �gua. Mas o�<emphasis>sikh</emphasis>�conhece os ingleses e o ingl�s conhece o�<emphasis>sikh</emphasis>. Ou�a o que tenho para lhe dizer.�</p><empty-line/><p>� �H� um raj� nas prov�ncias do Norte que possui imensas riquezas, embora seu territ�rio seja pequeno. Herdou muita coisa do pai e tem conseguido juntar ainda mais. Mas prefere guardar seu ouro em vez de gast�-lo.�</p><empty-line/><p>� �Quando estourou a revolta, ele estava em cima do muro, de boa vontade com uns e com outros; com os soldados hindus e com o comandante dos ingleses.�</p><empty-line/><p>� �Mas em pouco tempo ele achou que chegara o dia dos brancos, porque por toda parte ele s� ouvia falar das mortes e derrotas deles. Ainda assim, como � precavido, fez l� os seus planos de modo que, independentemente do que acontecesse, pelo menos metade do seu tesouro ficaria para ele. O que era constitu�do de prata e ouro ele guardou nos subterr�neos do pal�cio. Mas as pedras mais preciosas e as p�rolas mais lindas ele guardou num cofre de ferro e mandou, por um servo de confian�a disfar�ado de mercador, para o forte de Agra para ficar ali at� que a paz fosse restabelecida.�</p><empty-line/><p>� �Assim, se os rebeldes vencessem, ele teria o seu dinheiro, mas se fossem os ingleses, suas j�ias estariam salvas. Mas, dividindo assim a fortuna, ele aderiu � causa dos soldados hindus quando sentiu que eram mais fortes.�</p><empty-line/><p>� �Note bem,�<emphasis>sahib</emphasis>, que, ao fazer isso, o que lhe pertence passa a ser um direito daqueles que ficaram fi�is �s suas id�ias. Esse falso mercador, que viaja sob o nome de Achmet, est� agora em Agra e quer chegar at� o forte. Como companheiro de viagem ele traz o meu irm�o de cria��o, Dost Akbar, que sabe do segredo. Akbar prometeu traz�-lo esta noite por este lado do forte, escolhido propositadamente. Deve vir por a�, e aqui vai encontrar Mahomet e eu. O lugar � deserto e ningu�m deve saber da sua chegada. Ningu�m mais no mundo saber� de Achmet e o grande tesouro do raj� ser� dividido entre n�s. O que acha disto,�<emphasis>sahib</emphasis>?�</p><empty-line/><p>� Em Worcestershire, a vida de um homem parece ser uma coisa importante e sagrada. Mas � muito diferente quando em torno da gente s� h� fogo e sangue e voc� j� se acostumou a ver mortos a todo instante. Que Achmet vivesse ou morresse era indiferente para mim, como a luz ou o ar; mas, ao ouvir falar do tesouro, meu cora��o bateu forte, e pensei no que faria com ele na minha terra e como a minha gente ficaria estarrecida quando visse o vagabundo voltar com os bolsos cheios de moedas de ouro. Eu j� tinha decidido. Mas Abdullah, pensando que eu hesitava, falou de novo.</p><empty-line/><p>� �Lembre,�<emphasis>sahib</emphasis>, que se este homem for apanhado pelo comandante, ser� enforcado ou fuzilado, e as j�ias ir�o para o governo, e ningu�m ter� uma rupia.�</p><empty-line/><p>� �As j�ias ficar�o t�o bem conosco como nos cofres do estado. H� o suficiente para nos enriquecer e fazer de n�s chefes poderosos. Ningu�m saber� de nada porque aqui estamos afastados de todos. Diga novamente,�<emphasis>sahib</emphasis>, se devemos consider�-lo um dos nossos ou se devemos encar�-lo como nosso inimigo.�</p><empty-line/><p>� �Estarei com voc�s de corpo e alma.�</p><empty-line/><p>� �Est� bem�, ele respondeu, devolvendo-me a arma. �Bem v� que confiamos em voc�, porque a sua palavra, como a nossa, n�o pode ser quebrada. Agora, s� precisamos esperar meu irm�o e o mercador.�</p><empty-line/><p>� �O seu irm�o sabe dessas inten��es?�, perguntei.</p><empty-line/><p>� �O plano � dele. Foi ele quem pensou em tudo. Agora vamos para a porta e dividimos a vigil�ncia com Mahomet.�</p><empty-line/><p>� A chuva continuava, porque era o come�o da esta��o das chuvas. Nuvens pesadas e escuras cruzavam o c�u, e pouco se podia ver. Havia um fosso profundo bem diante da nossa porta, mas em alguns lugares a �gua quase secara e era f�cil atravess�-lo. Parecia-me estranho estar ali com aqueles dois indianos selvagens esperando um homem que caminhava confiante para a morte.</p><empty-line/><p>� De repente percebi o brilho de uma lanterna encoberta do outro lado do fosso, que desapareceu atr�s das trincheiras e depois apareceu de novo, vindo lentamente na nossa dire��o.</p><empty-line/><p>� �A� est�o eles�, exclamei.</p><empty-line/><p>� �D� o alerta,�<emphasis>sahib</emphasis>, como de costume�, murmurou Abdullah. �N�o devem desconfiar. Mande-nos entrar com eles e n�s faremos o resto enquanto voc� fica aqui de sentinela.�</p><empty-line/><p>� �Prepare a lanterna para reconhec�-lo e verificar que � realmente o homem.�</p><empty-line/><p>� A luz movia-se sempre, ora parando, ora avan�ando, at� que vimos no fosso duas figuras escuras. Deixei que descessem a ribanceira, patinhassem no atoleiro e subissem at� a metade do caminho antes de gritar o alerta.</p><empty-line/><p>� �Quem vem l�?�, eu disse num tom meio baixo.</p><empty-line/><p>� �Amigos�, foi a resposta.</p><empty-line/><p>� Levantei a lanterna e projetei a luz sobre eles. O primeiro era um�<emphasis>sikh</emphasis>�enorme com uma barba preta que ia at� a cintura. A n�o ser em exposi��o, nunca vi homem daquela altura. O outro era um sujeito baixo, gordo, redondo, com um grande turbante amarelo e um embrulho na m�o coberto com um xale. Parecia tremer de medo, porque as m�os se agitavam como se ele estivesse com mal�ria e virava a cabe�a para a esquerda e para direita, com os olhinhos brilhantes piscando como um rato quando se arrisca a sair do seu buraco.</p><empty-line/><p>� Fiquei arrepiado ao pensar que iam mat�-lo, mas lembrei-me do tesouro e o meu cora��o ficou duro como uma pedra. Quando ele viu que eu era branco, deu um gritinho de alegria e veio correndo na minha dire��o.</p><empty-line/><p>� �Imploro a sua prote��o,�<emphasis>sahib</emphasis>, a sua prote��o para o infeliz mercador Achmet. Atravessei toda a Rajpootana em busca de abrigo no forte de Agra. Fui roubado, espancado e enganado por ser amigo da companhia. Bendita seja esta noite em que mais uma vez consigo seguran�a para mim e para minhas poucas posses.�</p><empty-line/><p>� �O que tem nesse embrulho?�, eu perguntei.</p><empty-line/><p>� �Uma caixa de ferro com umas lembran�as de fam�lia, que n�o t�m valor para as outras pessoas, mas que eu lamentaria perder. Mas n�o sou um mendigo e eu o recompensarei,�<emphasis>sahib</emphasis>, e ao seu governador tamb�m, se quiserem dar-me a prote��o que imploro.�</p><empty-line/><p>� Eu n�o conseguiria me conter se falasse mais tempo com o homem. Quanto mais olhava para a sua cara gorda assustada, mais dif�cil me parecia assassin�-lo a sangue-frio. Era melhor acabar com aquilo.</p><empty-line/><p>� �Levem-no � casa da guarda�, eu disse.</p><empty-line/><p>� Os dois�<emphasis>sikhs</emphasis>�ficaram ao lado dele e o gigante foi andando atr�s, e entraram pelo port�o escuro. Nunca vi ningu�m caminhar para a morte t�o calmamente! Fiquei no port�o com a lanterna.</p><empty-line/><p>� Eu podia ouvir os passos ressoando pelos corredores desertos. De repente, os passos cessaram e ouvi vozes, ru�do de luta e de pancadas. Pouco depois ouvi, aterrorizado, o barulho de uma correria vindo na minha dire��o e a respira��o ofegante de um homem que corria. Virei a minha lanterna para a passagem e vi o homem gordo correndo como o vento, com a cara ensang�entada, e atr�s dele, saltando como um tigre, o�<emphasis>sikh</emphasis>�grande de barba preta, com uma faca reluzindo nas m�os. Nunca tinha visto algu�m correr tanto como aquele homenzinho. Ele estava quase escapando do�<emphasis>sikh</emphasis>�e eu vi que se conseguisse passar por mim e chegar do lado de fora, ele fugiria. Senti que meu cora��o amolecia outra vez de piedade, mas novamente a lembran�a do tesouro voltou a endurec�-lo.</p><empty-line/><p>� Quando ele passou correndo por mim, meti-lhe o rifle entre as pernas e ele rolou como um coelho abatido. Antes que pudesse levantar-se, o�<emphasis>sikh</emphasis>�estava sobre ele e enterrava a faca duas vezes no cora��o. O homem n�o deu um gemido nem moveu um m�sculo. Ficou onde ca�ra. Talvez tivesse quebrado o pesco�o na queda. Os senhores v�em que estou cumprindo a minha promessa. O que estou contando a voc�s foi o que aconteceu, palavra por palavra, mesmo que seja contra mim.</p><empty-line/><p>Small parou e estendeu as m�os algemadas para pegar o u�sque com �gua que Holmes tinha preparado para ele.</p><empty-line/><p>Eu estava horrorizado com o homem, n�o s� pelo caso tenebroso que ele narrava, como tamb�m pelo cinismo e petul�ncia com que o fazia. Qualquer que fosse o castigo que o aguardasse, eu sabia que ele nunca teria a minha benevol�ncia.</p><empty-line/><p>Sherlock e Jones estavam sentados com as m�os nos joelhos, profundamente interessados na hist�ria, mas as suas fisionomias revelavam o mesmo horror. Small deve ter notado, porque da� em diante eu percebi um tom de desconfian�a na sua voz, e sua atitude tamb�m mudou.</p><empty-line/><p>� Foi tudo muito ruim, n�o h� d�vida � continuou ele. � Mas eu queria saber quem no meu lugar recusaria uma parte de um tesouro sabendo que essa recusa significaria uma facada no pesco�o. Al�m do mais, era a minha vida ou a dele. Se o tivesse deixado sair, tudo teria sido descoberto e eu teria sido submetido a uma corte marcial e fuzilado, porque as pessoas n�o eram muito indulgentes numa �poca como aquela.</p><empty-line/><p>� Continue � disse Holmes secamente.</p><empty-line/><p>� N�s tr�s o carregamos. Ele era muito pesado, apesar de ser baixo. Mahomet ficou de guarda na porta. N�s o levamos para um lugar previamente preparado pelos�<emphasis>sikhs</emphasis>. Era um pouco distante, com uma passagem sinuosa que levava a um sal�o vazio com as paredes em ru�nas. O ch�o tinha afundado num canto, formando uma sepultura natural. Atiramos o corpo ali, cobrimos com tijolos soltos e quebrados e voltamos em busca do tesouro. Ele estava onde o homem o deixara cair quando fora atacado pela primeira vez. � a mesma caixa que est� a� sobre a mesa. Tinha uma chave pendurada num cord�o de seda. Quando a abrimos, a luz da lanterna fez brilhar uma cole��o de pedras preciosas de que eu s� tinha id�ia pela leitura dos romances quando era rapazinho em Pershore. Seu brilho cegava! Depois de admirar as j�ias, n�s as tiramos da caixa e fizemos uma lista. Havia 143 brilhantes de primeira �gua, incluindo um que era chamado de �Gr�o-Mogol� e dizem que era o segundo maior do mundo; havia 97 fin�ssimas esmeraldas, 170 rubis, alguns pequenos, 40 diamantes, 210 safiras, 61 �gatas e uma grande quantidade de �nix olho-de-gato, turquesas e outras pedras, cujos nomes eu sem sabia. Al�m disso, havia quase trezentas p�rolas fin�ssimas, 12 das quais montadas numa pequena coroa. Ali�s, n�o encontrei estas p�rolas no cofre quando o recuperei. Depois que contamos a nossa fortuna, guardamos tudo de novo no cofre e fomos mostr�-lo a Mahomet. Renovamos o juramento de continuar juntos e sermos fi�is ao nosso segredo. Concordamos em esconder o cofre num lugar seguro at� que o pa�s ficasse em paz novamente, e ent�o dividi-lo igualmente entre n�s. Achamos in�til dividir naquela hora, porque se pedras t�o valiosas fossem encontradas em nosso poder provocariam suspeita. Al�m disso, n�o havia lugar no forte para guardar tudo aquilo. Levamos o cofre para o mesmo sal�o onde t�nhamos deixado o cad�ver e ali, sob alguns tijolos da parede mais bem conservada, fizemos um buraco e guardamos o tesouro. Marcamos com aten��o o lugar e no dia seguinte fiz quatro mapas, um para cada um, com�<emphasis>O sinal dos quatro</emphasis>�no fim, porque t�nhamos jurado agir sempre unidos para que nenhum ficasse prejudicado. Foi este juramento que, com a m�o no cora��o, garanto nunca ter quebrado.</p><empty-line/><p>� N�o vale a pena contar aos senhores sobre a revolta. Depois que Wilson tomou D�lhi e sir Colin libertou Lucknow, o resto aconteceu depressa.</p><empty-line/><p>� Chegaram novas tropas e Nana Sahib desapareceu na fronteira. Um destacamento de atiradores foi para Agra e expulsou os�<emphasis>pandies</emphasis>. Parecia que o pa�s ia se pacificando e n�s quatro come��vamos a ver se aproximar a hora em que poder�amos dar o fora com nosso tesouro em seguran�a. Mas, quando menos esper�vamos, fomos presos pelo assassinato de Achmet. Foi assim: quando o raj� entregou as j�ias a Achmet, sabia que ele era um homem de toda a confian�a, mas como as pessoas no Oriente s�o muito desconfiadas, o raj� destacou um segundo servo ainda mais fiel para vigiar o primeiro. O segundo homem tinha ordem de n�o perder Achmet de vista, e seguiu-o como uma sombra. Naquela noite, ele o viu entrar por aquele port�o sob a minha guarda. Pensou que ele tivesse se refugiado no forte e entrou tamb�m no dia seguinte, mas n�o conseguiu descobrir nenhum vest�gio de Achmet. Achou aquilo t�o estranho que falou sobre isso com o sargento, que o repetiu ao comandante. Foi feita uma busca completa e descobriram o cad�ver. Assim, quando pens�vamos estar seguros, fomos presos e julgados por assassinato, n�s tr�s porque �ramos as sentinelas de guarda no port�o naquela noite, e o quarto porque souberam que estava junto com a v�tima. N�o foi dita nem uma palavra a respeito das j�ias durante o julgamento porque o raj� havia sido deposto e fora expulso da �ndia. Ningu�m se interessava mais por ele.</p><empty-line/><p>� Mas o assassinato foi esclarecido e os quatro dados como coniventes no crime. Os tr�s�<emphasis>sikhs</emphasis>�foram condenados a trabalhos for�ados perp�tuos, enquanto eu fui condenado � morte, mas depois minha pena foi comutada e passou a ser igual � dos meus camaradas. A situa��o em que ficamos era singular: os quatro amarrados por uma perna, com muito poucas possibilidades de sair, embora cada um de n�s tivesse um segredo que nos permitiria viver num pal�cio se pud�ssemos utiliz�-lo. Era desesperador ter de sofrer as provoca��es e maldades de qualquer burocrata insignificante, comer arroz e beber �gua, com uma fortuna fant�stica esperando do lado de fora.</p><empty-line/><p>� N�o sei como n�o enlouqueci. Mas sempre fui teimoso e por isso me submeti e fui ag�entando e esperando uma oportunidade.</p><empty-line/><p>� Finalmente, ela parecia ter chegado. Fui transferido de Agra para Madras, e de l� para Blair Island, nas Andam�s. H� muito poucos degredados brancos nesta guarni��o e, como desde o in�cio me comportei bem, em pouco tempo passei a gozar de certos privil�gios. Deram-me uma cabana em Hope Town, que � um lugarejo na encosta de Mount Harriett, e muita liberdade. Era um lugar terr�vel, um foco de febres, em torno do qual viviam os canibais, sempre prontos a lan�ar uns dardos envenenados contra n�s quando viam uma oportunidade. T�nhamos de cavar fossos, plantar inhame e fazer mais uma d�zia de coisas, e com isso fic�vamos ocupados o dia inteiro; mas no fim da tarde t�nhamos um pouco de tempo livre. Entre outras coisas, aprendi a preparar rem�dios com o m�dico e absorvi um pouco dos conhecimentos dele. O tempo todo eu procurava uma oportunidade de fugir, mas o lugar ficava a centenas de quil�metros e quase n�o havia vento naqueles mares, de modo que era dific�limo sair de l�. O m�dico, dr. Somerton, era um rapaz divertido e os outros oficiais, jovens como ele, reuniam-se no alojamento dele � tarde para jogar cartas. O gabinete onde eu costumava preparar os rem�dios ficava cont�guo � sala dele, separado apenas por uma pequena janela. Quando me sentia muito s�, ia para l�, apagava a luz e ficava ali vendo-os jogar e ouvindo a conversa. Eu gosto muito de jogo, e ver outros jogarem j� era para mim um prazer. Havia o major Sholto, o capit�o Morstan e o tenente Brown, que comandavam as tropas nativas, al�m do m�dico e de dois ou tr�s empregados da pris�o, que se divertiam num jogo bom, astuto, mas inofensivo.</p><empty-line/><p>� Uma coisa logo me deixou impressionado. Os civis sempre ganhavam, enquanto os militares perdiam. Eu n�o estou dizendo que havia alguma coisa errada, mas era isso que acontecia. Estes sujeitos das pris�es quase n�o faziam outra coisa a n�o ser jogar, de modo que conheciam o jogo como profissionais, enquanto os outros, que jogavam como passatempo, atiravam as cartas sem pensar. Noite ap�s noite os militares iam empobrecendo, e quanto menos tinham, mais jogavam. O major era o que mais perdia. A princ�pio pagava em notas e ouro, mas em pouco tempo o ouro foi escasseando e ele passou a pagar somas grandes em notas de pequeno valor. �s vezes ganhava um pouco, e criava �nimo, mas depois a sorte mudava e ele perdia ainda mais.</p><empty-line/><p>� Seu humor piorava a cada dia, e ele come�ou a beber mais do que lhe convinha. Uma noite perdeu muito mais do que habitualmente. Eu estava sentado na minha cabana quando ele e o capit�o Morstan passaram cambaleando a caminho de seus alojamentos. Eles eram amigos �ntimos e nunca se separavam. O major estava desesperado com os preju�zos.</p><empty-line/><p>� �Est� tudo perdido, Morstan�, ele disse quando passou pela minha cabana. �Estou arruinado.�</p><empty-line/><p>� �Tolices, meu velho�, disse o outro batendo-lhe no ombro. �Eu tamb�m j� estive em dificuldades terr�veis, mas...�</p><empty-line/><p>� Isto foi tudo o que eu ouvi, mas fora o bastante para fazer-me pensar. Dois dias depois o major Sholto estava passeando pela praia e aproveitei para falar com ele.</p><empty-line/><p>� �Eu queria o seu conselho, major�, eu disse.</p><empty-line/><p>� �O que �, Small?�, perguntou, tirando o charuto da boca.</p><empty-line/><p>� �Queria perguntar-lhe a quem deve ser entregue um tesouro escondido. Eu sei onde est� um que vale meio milh�o, e como n�o posso utiliz�-lo, pensei que o melhor seria entreg�-lo �s autoridades e talvez isso servisse para a redu��o da minha pena.�</p><empty-line/><p>� �Meio milh�o, Small?�, disse ofegante, olhando-me fixamente para verificar se eu falava a s�rio.</p><empty-line/><p>� �Exatamente, senhor, em j�ias e p�rolas. Ele est� l� esperando que algu�m ponha a m�o nele. E o interessante � que o dono � um fora-da-lei e n�o pode reclamar a propriedade, de modo que pertence a quem o achar.�</p><empty-line/><p>� �Ao governo, Small�, ele suspirou, �pertence ao governo.�</p><empty-line/><p>� Mas falou isto de uma maneira indecisa e intimamente eu sabia que tinha despertado seu interesse.</p><empty-line/><p>� �Ent�o acha que devo dar a informa��o ao governador-geral?�, perguntei com toda a calma.</p><empty-line/><p>� �Bem, bem, n�o v� fazer nada com precipita��o para n�o se arrepender. Preciso primeiro saber de tudo, Small. Conte-me o que aconteceu.�</p><empty-line/><p>� Contei-lhe a hist�ria toda com pequenas altera��es para que ele n�o identificasse os lugares. Quando acabei, ele ficou absorto nos seus pensamentos. Pelo tremor dos seus l�bios eu via que estava sendo travada uma luta interior.</p><empty-line/><p>� �Isto � um caso grave, Small�, disse por fim. �N�o deve falar sobre isto a ningu�m, e conversaremos em breve.�</p><empty-line/><p>� Duas noites mais tarde, ele e o seu amigo Morstan vieram � minha cabana j� alta noite com uma lanterna.</p><empty-line/><p>� �Eu quero que o capit�o Morstan ou�a a hist�ria diretamente de voc�, Small.�</p><empty-line/><p>� Repeti o que j� contara.</p><empty-line/><p>� �Parece verdade, n�o acha? Pode haver confian�a?�</p><empty-line/><p>� O capit�o Morstan fez um sinal afirmativo.</p><empty-line/><p>� �Bem, Small�, disse o major. �N�s estivemos conversando a respeito, Morstan e eu; e chegamos � conclus�o de que este seu segredo n�o � um assunto do governo; afinal de contas, � uma quest�o particular sua, e voc� tem o direito de agir como achar melhor. Resta agora saber quanto voc� pede por ele. N�s estamos dispostos a fazer a transa��o, ou pelo menos estud�-la, se pudermos chegar a um acordo.�</p><empty-line/><p>� Ele tentava falar de maneira fria e desinteressada, mas seus olhos brilhavam de cobi�a e excita��o.</p><empty-line/><p>� �Quanto a isso, cavalheiros�, respondi, tamb�m tentando mostrar frieza, mas t�o entusiasmado quanto ele; �s� h� um acordo poss�vel para um homem na minha situa��o. Quero que ajudem a libertar-me e aos meus tr�s companheiros. Passar�o ent�o a ser nossos s�cios e n�s lhes daremos um quinto do lote para dividirem entre si.�</p><empty-line/><p>� �Ora, a quinta parte. N�o � muito tentador.�</p><empty-line/><p>� �Daria 50 mil libras por cabe�a.�</p><empty-line/><p>� �Mas como obter a sua liberdade? Bem sabe que o que pede � imposs�vel.�</p><empty-line/><p>� �Nem tanto�, respondi. �Pensei em tudo, nos menores detalhes. O �nico obst�culo � nossa fuga � n�o podermos obter uma embarca��o adequada para a viagem e provis�es para tanto tempo. H� muitos iates e barcos em Calcut� e em Madras que serviriam ao nosso objetivo. Podem conseguir-nos um. Daremos um jeito de embarcar � noite, e se nos deixarem em qualquer lugar da costa indiana, ter�o cumprido a sua parte no acordo.�</p><empty-line/><p>� �Se fosse s� um�, ele disse.</p><empty-line/><p>� �Ou tudo ou nada�, respondi. �N�s juramos. Sempre juntos, os quatro.�</p><empty-line/><p>� �Como voc� v�, Morstan, Small � homem de palavra. N�o quer trair os amigos. Acho que podemos confiar nele.�</p><empty-line/><p>� �� um neg�cio sujo�, respondeu o outro. �Mas, como voc� diz, o dinheiro vai proteger nosso trabalho.�</p><empty-line/><p>� �Est� bem, Small�, disse o major, �o melhor � ver. Em primeiro lugar, naturalmente, precisamos verificar a veracidade da hist�ria. Diga-me onde o cofre est� escondido e conseguirei uma licen�a para ir � �ndia no navio deste m�s verificar tudo.�</p><empty-line/><p>� �Mais devagar�, eu disse, esfriando � medida que ele se entusiasmava. �Primeiro preciso do consentimento dos meus tr�s camaradas. J� lhe disse que tem de ser assim: ou para os quatro ou para nenhum.�</p><empty-line/><p>� �Que absurdo! O que esses tr�s negros t�m a ver com o nosso acordo?�</p><empty-line/><p>� �Pretos ou azuis�, eu disse, �s�o meus s�cios e continuar�o sendo.�</p><empty-line/><p>� Acabamos combinando um segundo encontro, do qual participaram Mahomet Singh, Abdullah Khan e Dost Akbar. Discutimos novamente o assunto e por fim chegamos a um acordo.</p><empty-line/><p>� �Combinamos dar aos oficiais plantas da parte do forte de Agra e marcar o lugar na parede onde o tesouro estava escondido. O major Sholto iria � �ndia para confirmar a veracidade da nossa hist�ria. Se encontrasse a caixa, ele a deixaria l�, mandaria para n�s um pequeno iate equipado e abastecido para a viagem, que nos esperaria perto de Rutland Island e com o qual seguir�amos, e depois voltaria ao seu posto. Ent�o o capit�o Morstan pediria licen�a, iria encontrar-se conosco em Agra, e ali dividir�amos o tesouro, e ele levaria o seu quinh�o e o do major. Tudo isto foi selado com os juramentos mais solenes que a mente podia imaginar e os l�bios podiam pronunciar. Passei a noite toda fazendo as duas plantas, que ficaram prontas de manh� e foram assinadas com�<emphasis>O sinal dos quatro</emphasis>.</p><empty-line/><p>� Eu j� estou cansando voc�s com a minha longa hist�ria e sei que o meu amigo Jones est� impaciente para trancafiar-me. Encurtando: o vil�o Sholto foi para a �ndia e nunca mais voltou. O capit�o Morstan mostrou-me o nome dele numa lista de passageiros de um vapor que partiu pouco tempo depois. Morrera um tio dele, deixando-lhe uma fortuna, e ele abandonou o Ex�rcito. Foi assim que tratou daquela maneira cinco homens que confiaram nele. Morstan foi pouco depois a Agra e confirmou o desaparecimento do tesouro. O velhaco tinha-o roubado e n�o cumpriu as condi��es em troca das quais n�s lhe t�nhamos vendido o segredo. A partir da� passei a viver para a vingan�a. Pensava nela dia e noite. Tornou-se uma obsess�o para mim. N�o me importava com a lei nem com as gal�s. Fugir, encontrar Sholto, apertar-lhe o pesco�o eram o meu �nico pensamento. At� o tesouro de Agra passara a ser secund�rio. O principal era matar Sholto.</p><empty-line/><p>� J� me propus a muita coisa na minha vida e sempre levei o meu objetivo at� o fim. Passaram-se anos enfadonhos at� que chegasse o meu dia. Eu disse a voc�s que tinha aprendido algumas no��es de medicina. Um dia, o dr. Somerton ficou de cama, com febre, e um nativo foi agarrado na floresta por um bando de for�ados. Estava � morte e tinha fugido para um lugar isolado, a fim de morrer tranq�ilo. Tratei dele, embora fosse pe�onhento como uma cobra, e ao fim de alguns meses ele estava bom e j� andava. Ele desenvolveu uma esp�cie de afei��o por mim. N�o tinha vontade de voltar �s suas florestas e ficava sempre rondando a minha cabana. Aprendi a falar um pouco o seu dialeto e isto fez com que ele gostasse ainda mais de mim.</p><empty-line/><p>� Tonga � era este o seu nome � era um �timo marinheiro e tinha uma canoa grande. Quando vi que era muito dedicado e faria tudo para me agradar, tive esperan�a de poder fugir. Conversei com ele a respeito. Combinamos que ele traria a canoa numa determinada noite at� um velho cais que nunca era vigiado e ele me apanharia ali. Recomendei que trouxesse v�rias caba�as de �gua e uma por��o de inhames, cocos e batatas-doces.</p><empty-line/><p>� Ele era fiel e sincero, o pequeno Tonga. Nenhum homem jamais teve camarada mais fiel. Na noite combinada, a canoa estava no cais. Mas, por acaso, havia uma sentinela ali � um�<emphasis>pathan</emphasis>�perverso que nunca perdia uma oportunidade de me insultar ou prejudicar. Sempre desejei vingar-me e agora surgia a ocasi�o. Era como se o destino o tivesse posto no meu caminho naquela noite para que eu me vingasse antes de ir embora da ilha. Ele estava na praia, de costas para mim, com a carabina no ombro. Eu olhei em volta procurando uma pedra para estourar seus miolos, mas n�o achei. Ent�o, tive uma id�ia singular, que me indicou onde eu poderia obter uma arma. Sentei-me na escurid�o e desamarrei a minha pernade-pau. Em tr�s pulos, estava perto dele, que ainda tentou p�r a carabina em posi��o de tiro, mas eu dei-lhe uma pancada em cheio, que lhe afundou o cr�nio. Voc�s podem ver que a madeira ficou rachada. Ca�mos juntos, porque eu n�o consegui equilibrar-me, mas quando me levantei, ele estava im�vel. Saltei para a canoa e em uma hora est�vamos em alto-mar. Tonga tinha trazido tudo quanto possu�a: armas e deuses. Entre outras coisas, tinha um arp�o comprido de bambu e algumas esteiras de coco de Andam� que usei para fazer uma esp�cie de vela. Durante dez dias ficamos vagando, confiando na sorte, e no d�cimo primeiro fomos recolhidos por um navio mercante que ia de Cingapura para Jid�, levando peregrinos malaios. Era um grupo singular e em pouco tempo fizemos camaradagem com eles. Tinham uma grande qualidade: deixavam-nos � vontade e n�o faziam perguntas. Se eu fosse contar todas as minhas aventuras e incidentes de viagem, ficar�amos aqui at� de manh�. Andamos de um lado para o outro, e sempre acontecia alguma coisa que nos afastava de Londres. Mas nunca deixei de pensar no meu objetivo. Chegava a sonhar com Sholto. Mil vezes o matei em sonho. Finalmente, h� uns quatro anos, chegamos � Inglaterra. N�o foi dif�cil descobrir onde ele morava e tratei de saber se ele tinha vendido o tesouro ou se ainda o conservava. Fiz amizade com uma pessoa que podia me ajudar � evito dizer nomes porque n�o quero deixar mais ningu�m em apuros � e descobri que as j�ias ainda estavam com ele. Tentei aproximar-me de Sholto, mas ele vivia muito bem protegido por dois capangas, al�m dos filhos e do�<emphasis>khitmutgar</emphasis>.</p><empty-line/><p>� Mas um dia eu soube que ele estava � morte. Corri imediatamente para o jardim, com medo de que ele morresse com o seu segredo. Olhei pela janela, e o vi na cama, com os filhos ao seu lado.</p><empty-line/><p>� Eu teria entrado pronto para lutar com os tr�s, mas quando olhei para ele, o queixo estava ca�do e vi que tinha morrido. Entrei no quarto nessa mesma noite para ver se nos seus pap�is havia alguma indica��o do lugar onde as j�ias estavam escondidas.</p><empty-line/><p>� N�o havia uma linha. Voltei desesperado, como era natural. Antes de ir embora, lembrei-me de que se algum dia me encontrasse com os meus amigos�<emphasis>sikhs</emphasis>, eles teriam ao menos a satisfa��o de saber que eu tinha deixado algum sinal do nosso �dio. Assim, rabisquei o sinal de n�s quatro, como estava na planta, e preguei-o no peito dele. Era demais que ele fosse para o t�mulo sem uma lembran�a dos homens que tinha roubado e atrai�oado.</p><empty-line/><p>� Vivemos durante este tempo todo do dinheiro que ganhava nas feiras exibindo o pobre Tonga como canibal, fazendo-o comer carne crua e dan�ando as suas dan�as de guerra. Eu ia acompanhando, mesmo de longe, o que acontecia em Pondicherry Lodge e durante alguns anos n�o houve novidades, a n�o ser o fato de que andavam procurando o tesouro. Mas, finalmente, chegou a not�cia que eu esperava h� tanto tempo.</p><empty-line/><p>� O tesouro fora encontrado. Estava no alto da casa, no laborat�rio de Bartolomeu Sholto.</p><empty-line/><p>� Fui logo at� l� e dei uma olhada no local. Mas n�o sabia como eu iria subir com a minha pernade-pau.</p><empty-line/><p>� Entretanto, eu soube que havia um al�ap�o no telhado, e tamb�m a hora da ceia do sr. Sholto. Achei que podia servir-me de Tonga. Levei-o comigo, e tamb�m uma corda comprida que ele enrolou na cintura. Ele subia como um gato e num instante entrou pelo telhado, mas, por azar, Bartolomeu Sholto ainda estava no quarto e Tonga achou que mat�-lo era uma atitude muito inteligente, porque quando subi pela corda, encontrei-o todo empertigado, orgulhoso como um pav�o. Ficou espantad�ssimo quando bati nele com a corda e o censurei pela sua sede de sangue.</p><empty-line/><p>� Peguei o cofre, atirei-o para fora e escorreguei pela corda, deixando antes sobre a mesa�<emphasis>o sinal dos quatro</emphasis>, para mostrar que as j�ias tinham finalmente voltado para aqueles que tinham mais direito a elas.</p><empty-line/><p>� Tonga ent�o puxou a corda, fechou a janela e voltou por onde entrara.</p><empty-line/><p>� Acho que n�o tenho mais nada para contar. Eu tinha ouvido um marinheiro falar da velocidade da lancha de Smith � a�<emphasis>Aurora</emphasis>�� e pensei logo que seria a embarca��o ideal para a nossa fuga.</p><empty-line/><p>� Combinei com o velho Smith e prometi-lhe uma soma consider�vel se nos pusesse a salvo no navio.</p><empty-line/><p>� Ele desconfiou de que havia alguma coisa suspeita no caso, mas n�o sabia do que se tratava. Tudo isto � a verdade, e se a contei n�o foi para diverti-los, porque, afinal de contas, me apanharam, mas por achar que a minha melhor defesa � justamente n�o ocultar coisa alguma, mas fazer com que todos saibam como fui ludibriado pelo major Sholto e que sou inocente no caso da morte do filho dele.</p><empty-line/><p>� Um relato not�vel � disse Holmes. � Uma conclus�o conveniente para um caso extremamente interessante. N�o h� nada novo para mim na �ltima parte da sua narrativa, a n�o ser o fato de que trouxe sua pr�pria corda. N�o sabia disto. A prop�sito, eu esperava que Tonga tivesse perdido todos os dardos, mas ele conseguiu atirar um contra n�s no barco.</p><empty-line/><p>� Ele perdeu todos, realmente. O �nico que restou foi o que estava na zarabatana.</p><empty-line/><p>� Ah, claro. N�o tinha pensado nisso � disse Holmes.</p><empty-line/><p>O degredado perguntou gentilmente a Holmes se n�o queria interrog�-lo sobre algum outro detalhe.</p><empty-line/><p>� Obrigado, acho que n�o � respondeu o meu companheiro.</p><empty-line/><p>� Bem, Holmes � disse Athelney Jones �, voc� � um homem que merece condescend�ncia. Todos n�s sabemos que voc� � um grande conhecedor do crime; mas dever � dever, e eu j� fui longe demais fazendo o que voc� e o seu amigo me pediram. Eu me sentirei mais tranq�ilo quando o nosso contador de hist�rias estiver trancafiado. O cabriol� est� esperando e dois agentes l� embaixo. Agrade�o-lhes muito a ajuda. Naturalmente, ser�o necess�rios no julgamento. Boa-noite.</p><empty-line/><p>� Boa noite, cavalheiros � disse Small.</p><empty-line/><p>� Passe na frente, Small � ordenou Jones quando sa�ram. � Tomarei cuidado para que voc� n�o me bata com a sua perna-de-pau como fez com o amigo das ilhas Andam�...</p><empty-line/><p>� A� est� o fim do nosso pequeno drama � observei depois de fumar durante algum tempo em sil�ncio.</p><empty-line/><p>� Receio que seja a �ltima oportunidade de estudar de maneira pr�tica os seus m�todos. A srta. Morstan concedeu-me a honra de me aceitar como futuro marido.</p><empty-line/><p>Ele rosnou, sombrio:</p><empty-line/><p>� Eu tamb�m j� receava isso � mas n�o posso felicit�-lo.</p><empty-line/><p>Fiquei um tanto magoado e perguntei:</p><empty-line/><p>� Tem algum motivo para n�o gostar da minha escolha?</p><empty-line/><p>� N�o tenho nenhum. Acho que ela � uma das mo�as mais encantadoras que conheci e que foi muito �til nesta quest�o. Teve uma intui��o decisiva, e a prova disso foi o cuidado com que conservou a planta de Agra e a separou dos outros pap�is do pai. Mas o amor � uma coisa emocional, e tudo que � emocional op�e-se � fria raz�o, que eu coloco acima de tudo. Eu n�o me casarei nunca, a menos que perca a raz�o.</p><empty-line/><p>� Acredito � eu disse rindo � que a minha raz�o sobreviver� � prova. Voc� parece cansado.</p><empty-line/><p>� E estou. � a rea��o a essa tens�o. Vou ficar mole como um trapo durante uma semana.</p><empty-line/><p>� � extraordin�rio como aquilo que em outro homem eu chamaria de pregui�a pode se alternar com seus acessos de espl�ndida energia e vigor.</p><empty-line/><p>� � verdade � ele respondeu. � Tenho tend�ncias de um refinado vadio e tamb�m as de um sujeito ativ�ssimo. Eu penso com freq��ncia nesses versos de Goethe:</p><empty-line/><p><emphasis>Schade dass die Natur nur einen Mensch aus dir schuf, Denn zum w�rdigen Mann war und zum Schelmen der Stoff.{6}�</emphasis></p><p>� Ali�s, a prop�sito desse caso de Norwood, voc� viu que eles tinham um aliado dentro de casa, que s� podia ser Lal Rao, o copeiro, de modo que Jones realmente teve a honra exclusiva de apanhar um peixe na sua rede.</p><empty-line/><p>� A divis�o n�o me parece justa. Foi voc� que fez o trabalho todo. Eu arranjei nele uma esposa; Jones fica com o m�rito. O que sobra para voc�, Sherlock?</p><empty-line/><p>� Para mim fica a garrafa de coca�na que est� ali � disse ele, estendendo sua comprida m�o branca para apanh�-la.</p><p>*</p><p>FIM</p></section><section><p>{1}�<emphasis>(�Criado�, em hindi. (N. do T.)�</emphasis></p><p>{2}�<emphasis>(�O mau gosto leva ao crime.� (N. do T.)�</emphasis></p><p>{3} <emphasis>(�N�o h� tolos mais inc�modos do que os que t�m esp�rito.� (N. do T.)</emphasis></p><p>{4}�<emphasis>(�� comum vermos os homens zombarem do que n�o podem compreender.�</emphasis><emphasis>(N. do T.)</emphasis></p><p>{5} <emphasis>(Johann Paul Friedrich Richter, dito Jean-Paul, escritor alem�o (1763-1825),</emphasis><emphasis>alia a sensibilidade ao humor e � ironia. (N. do T.)�</emphasis></p><p>{6} <emphasis>(�Pena que a natureza fizesse de ti um s� indiv�duo, / porque havia mat�ria</emphasis><emphasis>para um homem digno e para um patife.� (N. do T.)</emphasis></p></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>As Aventuras de Sherlock Holmes</strong></p></section><section><p><strong>Esc�ndalo na bo�mia</strong></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p></section><section><p>Parte �nica</p><empty-line/><p>Para Sherlock Holmes, ela � sempre a mulher. Poucas vezes ouvi-o mencion�-la sob qualquer outro nome. A seus olhos ela ofusca e predomina sobre todo seu sexo. N�o � que ele sentisse uma emo��o assim como amor por Irene Adler. Todas as emo��es, e essa em particular, eram abomin�veis � sua mente fria e precisa, embora admiravelmente equilibrada. Ele era, em minha opini�o, a m�quina mais perfeita de racioc�nio e observa��o que o mundo jamais viu - mas, como amante, ter-se-ia colocado em posi��o falsa. Nunca se referia �s paix�es sem zombar e escarnecer delas. Eram admir�veis para o observador, excelentes para arrancar o v�u que encobre as motiva��es e as a��es dos homens. Mas para um raciocinador treinado admitir essa intrus�es em seu temperamento delicado e precisamente ajustado seria o mesmo que introduzir um fator perturbador que poderia p�r em d�vida todas as suas conclus�es racionais. Areia em um instrumento sens�vel, ou uma racha em uma de suas poderosas lentes, n�o seria maior dist�rbio que uma emo��o forte em uma natureza como a sua. No entanto, s� havia uma mulher para ele, e essa mulher era a ex-Irene Adler, uma recorda��o meio duvidosa e suspeita.</p><p>Vira Holmes muito pouco ultimamente. Meu casamento nos separara. Minha felicidade t�o completa e meu interesse todo concentrado no lar, o que sucede com o homem que pela primeira vez se v� senhor de sua pr�pria casa, eram suficientes para ocupar toda minha aten��o; enquanto que Holmes, que detestava qualquer forma de sociedade com toda a for�a de sua alma bo�mia, continuava em nossos aposentos na Baker Street, afundado em velhos livros, passando alternadamente, de semana em semana, da coca�na � ambi��o, da sonol�ncia da droga � feroz energia de sua intensa natureza. Como sempre, ainda se sentia profundamente atra�do pelo estudo do crime e ocupava suas vastas faculdades mentais e extraordin�rios poderes de observa��o em seguir os ind�cios e elucidar os mist�rios que haviam sido dados por insol�veis pela pol�cia oficial. De quando em quando ouvia alguma coisa sobre suas aventuras: fora chamado a Odessa com rela��o ao assassinato de Trepoff, esclarecera a singular trag�dia dos irm�os Atkinson em Trincomalee e finalmente desempenhara com sucesso uma delicada miss�o para a fam�lia real da Holanda. Fora esses sinais de atividade que eu simplesmente compartilhava com todos os leitores da imprensa di�ria, pouco sabia de meu ex-amigo e companheiro.</p><p>Uma noite - foi no dia 2 de mar�o de 1888 - voltava de uma visita a um doente (pois voltara a praticar medicina) e meu caminho me levou � Baker Street. Ao passar em frente � porta t�o familiar, que mentalmente sempre associo a meu namoro e aos sombrios acontecimentos do Estudo Vermelho, senti forte desejo de ver Holmes novamente e saber como estava utilizando seus extraordin�rios poderes. Seus aposentos estavam brilhantemente iluminados e, ao olhar para cima, vi sua figura alta e magra passar duas vezes, uma silhueta escura contra a cortina. Andava de um lado para o outro, r�pido e impaciente, o queixo afundado no peito e as m�os cruzadas nas costas. Para mim, que conhecia todos os seus estados de esp�rito e todos os seus h�bitos, essa atitude revelava tudo. Estava trabalhando novamente. Emergira dos sonhos criados pela droga e estava seguindo entusiasticamente a pista de algum novo mist�rio. Toquei a campainha e fui levado � sala que fora antigamente em parte minha tamb�m.</p><p>N�o demonstrou nada ao me ver - n�o era expansivo. Mas acho que ficou contente de me ver. Sem dizer nada, mas com um olhar bondoso, fez sinal para uma poltrona, jogou-me sua carteira de charutos e indicou uma garrafa de bebida e um sif�o a um canto. Ficou, ent�o, de p� em frente � lareira e olhou para mim com aquele seu olhar introspectivo.</p><p>- O matrim�nio lhe fez bem - comentou. - Acho, Watson, que engordou tr�s quilos e meio desde a �ltima vez que o vi.</p><p>- Tr�s - respondi.</p><p>- � mesmo? Pensei que fosse um pouco mais. Um pouquinho mais, acho, Watson. E estou vendo que voltou a exercer a medicina. N�o me disse que pretendia voltar a trabalhar.</p><p>- Ent�o como sabe?</p><p>- Vi, deduzi. Como � que sei que recentemente voc� se molhou muito e que tem uma empregada muito desajeitada e descuidada?</p><p>- Meu caro Holmes, - disse - isso � demais. Na certa teria sido queimado vivo se tivesse vivido uns s�culos atr�s. � verdade que fui passear no campo quinta-feira e voltei para casa encharcado. Mas como mudei de roupa n�o posso imaginar como voc� descobriu isso. Quanto a Mary Jane, � mesmo incorrig�vel e minha esposa j� a despediu. Mas isso tamb�m n�o sei como voc� adivinhou.</p><p>Deu uma risadinha para dentro e esfregou as m�os de longos dedos sens�veis.</p><p>- Muito simples - disse. - Meus olhos me dizem que no lado de dentro do sapato de seu p� esquerdo, exatamente onde a luz da lareira est� batendo, o couro est� arranhado por seis cortes quase paralelos. Obviamente esses arranh�es foram causados por algu�m que tentou raspar a lama que secara em volta da sola, e que n�o foi muito cuidadosa. Da� minha dedu��o dupla de que voc� sofria com mau tempo e que tinha em casa um exemplar mal�volo, cortador de botas, da classe dom�stica de Londres. Quanto a voc� clinicar, se um cavalheiro entra em meus aposentos cheirando a iodo, com uma mancha negra de nitrato de prata no indicador direito e uma sali�ncia no lado do chap�u mostrando onde escondeu o estetosc�pio, seria muito burro se n�o visse logo que era membro ativo da profiss�o m�dica.</p><p>N�o pude deixar de rir diante da facilidade com que ele explicava o processo de suas dedu��es. - Quando ou�o voc� enumerar suas raz�es - comentei - tudo me parece t�o ridiculamente simples que eu poderia facilmente fazer o mesmo, mas a cada exemplo sucessivo de seu racioc�nio fico completamente confuso, at� voc� explicar o processo. No entanto, acho que meus olhos s�o t�o bons quanto os seus.</p><p>- Isso mesmo - respondeu, acendendo um cigarro e jogando-se em uma poltrona. - Voc� v�, mas n�o observa. A diferen�a � clara. Por exemplo, viu muitas vezes os degraus que levam do hall a esta sala, n�o �?</p><p>- Sim.</p><p>- Quantas vezes?</p><p>- Bem, algumas centenas.</p><p>- Ent�o quantos s�o?</p><p>- Quantos? N�o sei.</p><p>- A� est�. Voc� n�o observou. No entanto, viu. Era isso que queria dizer. Sei que h� dezessete degraus porque vi e observei. Por falar nisso, j� que est� interessado nesses pequenos problemas, e teve a bondade de registrar uma ou duas das minhas experi�ncias, talvez ache isso interessante. - Estendeu uma folha grossa de papel rosado que estivera todo o tempo aberta sobre a mesa. - Veio na �ltima entrega de correspond�ncia - disse. - Leia em voz alta.</p><p>N�o havia data, nem assinatura, nem endere�o. Li:</p><p>- �Hoje � noite, �s quinze para as oito, receber� a visita de um cavalheiro que deseja consult�-lo sobre assunto da maior import�ncia. Os servi�os que prestou recentemente a uma das Casas Reais da Europa provaram que � pessoa em que se pode confiar assuntos importantes de uma magnitude que n�o se pode exagerar. Essa informa��o sua foi por muitas pessoas dada. Em casa a essa hora esteja ent�o e n�o leve a mal se uma m�scara o visitante usar�.</p><p>- � realmente um mist�rio - comentei. - Que acha que significa isso?</p><p>- N�o tenho os fatos ainda. � erro grave formular teorias antes de obter os fatos. Sem querer, come�amos a torcer os fatos para se adaptarem �s teorias, em vez de formular teorias que se ajustem aos fatos. Mas quanto ao bilhete, o que deduz dele?</p><p>Examinei cuidadosamente a caligrafia e o papel.</p><p>- O homem que escreveu isso - falei finalmente procurando imitar o processo de meu companheiro - era provavelmente uma pessoa de recursos. Papel desta qualidade custa pelo menos meia coroa o pacote. � excepcionalmente grosso.</p><p>Excepcional, � isso mesmo - disse Holmes. - Esse papel n�o � ingl�s. Segure-o contra a luz.</p><p>Fiz o que mandava e vi um E mai�sculo com um g pequeno, um P e um G grandes com um t pequeno tecidos no papel.</p><p>- Que deduz disso? - perguntou Holmes.</p><p>- Deve ser o nome do fabricante, sem d�vida.</p><p>- Nada disso. O G com o t pequeno quer dizer Gesellschaft, que em alem�o significa Companhia. � uma abreviatura, � claro, reparei. E agora o Eg. Vamos olhar no Dicion�rio Geogr�fico. - Tirou um volume marrom pesado das estantes. - Eglow, Eglonitz... aqui est�, Egria. Fica em pa�s de l�ngua alem�...na Bo�mia, n�o muito longe de Carlsbad. �Not�vel por ter sido a cena da morte de Wallenstein, e por numerosas f�bricas de vidro e de papel�. Ha, lia, meu amigo, que diz disso? - Seus olhos brilhavam e desprendeu uma grande nuvem azul e triunfante do cigarro.</p><p>- O papel foi feito na Bo�mia - respondi.</p><p>- Exatamente. E o homem que escreveu o bilhete � alem�o. Reparou na constru��o peculiar da frase �Essa informa��o sua foi por muitas pessoas dada�. Um franc�s ou um russo nunca escreveria isso. � uma constru��o tipicamente alem�. Portanto, s� resta descobrir o que deseja esse alem�o que escreve em papel da Bo�mia e prefere usar uma m�scara que mostrar o rosto. E a� vem ele, se n�o me engano, para resolver todas as nossas d�vidas. �Enquanto falava, ouviu-se o som surdo de cascos de cavalos e rodas rangendo contra o meio-fio, seguidos do ru�do insistente da campainha. Holmes assoviou.</p><p>- Uma parelha, pelo barulho - disse. - � - continuou, olhando pela janela - um belo caleche e uma linda parelha. Cento e cinq�enta guin�us cada animal. H� muito dinheiro nesse caso, Watson, mesmo que n�o haja nada mais.</p><p><strong>- Acho melhor eu sair, Holmes.</strong></p><empty-line/><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p>- Nada disso, Doutor. Fique onde est�. Fico perdido sem meu Boswell. E isso parece ser interessante. Seria uma pena n�o assistir.</p><p>- Mas seu cliente...</p><p>- N�o importa. Posso precisar de seu aux�lio e ele tamb�m. A� vem ele. Sente naquela poltrona, Doutor, e d�-nos toda sua aten��o.</p><p>Um passo lento e pesado, que se fizera ouvir na escada e no corredor, parou do outro lado da porta. Seguiu-se uma pancada forte e autorit�ria.</p><p>- Entre - disse Holmes.</p><p>Entrou um homem que n�o podia ter menos de um metro e noventa e cinco de altura, com o tronco e os membros de um H�rcules. Suas roupas eram de uma riqueza que, na Inglaterra, era considerada prova de mau gosto. Largas tiras de astrac� riscavam horizontalmente as mangas e a frente do casaco, e o manto azul-escuro jogado sobre os ombros era forrado de seda cor-de-fogo e preso no pesco�o por um broche feito de um berilo flamejante. Botas cobrindo a metade das pernas, enfeitadas no alto com luxuosa pele marrom, completavam a imagem de opul�ncia barbaresca. Segurava em uma das m�os um chap�u de abas largas e usava na parte superior do rosto uma meia m�scara preta que aparentemente ajustara naquele momento, pois os dedos ainda a tocavam ao entrar. Pelo que se via da parte inferior do rosto, parecia ser um homem de personalidade forte, com um l�bio grosso, pendente, e um queixo comprido que sugeria resolu��o que chegava �s raias da obstina��o.</p><p>- Recebeu meu bilhete? - perguntou em voz profunda e �spera com, forte sotaque alem�o. - Disse que viria v�-lo. - Olhou de um para o outro, como se n�o soubesse a quem se dirigir.</p><p>- Tenha a bondade de se sentar - disse Holmes. - Este � meu amigo e colega, Dr. Watson, que ocasionalmente faz a gentileza de me ajudar em meus casos. A quem tenho a honra de dirigir a palavra?</p><p>- Pode me tratar de Conde von Kramm, um nobre da Bo�mia. Espero que este cavalheiro, seu amigo, seja um homem de honra e discri��o a quem posso confiar um assunto da maior import�ncia. Se n�o, prefiro comunicar-me com o senhor a s�s.</p><p>Levantei-me para sair, mas Holmes segurou meu bra�o e me empurrou na poltrona.</p><p>- Ou n�s dois, ou ningu�m - disse. - Pode dizer na frente deste cavalheiro tudo que quer dizer a mim.</p><p>O Conde sacudiu os ombros largos. - Ent�o � melhor come�ar - disse - pedindo a ambos absoluto segredo por dois anos, depois disso o assunto n�o ter� nenhuma import�ncia. No momento - n�o � exagero dizer que � t�o importante que pode influenciar a hist�ria da Europa.</p><p>- Prometo - disse Holmes.</p><p>- Eu tamb�m.</p><p>- Perdoem esta m�scara - continuou o estranho visitante. - A pessoa augusta a quem sirvo deseja que seu agente n�o seja conhecido pelos senhores e devo confessar desde j� que o t�tulo que acabei de me conferir n�o � exatamente o meu.</p><p>- Percebi isso - disse Holmes secamente.</p><p>- As circunst�ncias s�o extremamente delicadas e todas as precau��es devem ser tomadas para abafar o que se pode tornar um esc�ndalo imenso e comprometer seriamente uma das fam�lias reinantes da Europa. Para falar claramente, o assunto envolve a grande Casa de Ornistein, herdeiros do trono da Bo�mia.</p><p>Tamb�m percebi isso - murmurou Holmes, acomodando-se na poltrona e fechando os olhos.</p><p>- Nosso visitante lan�ou um olhar surpreso � figura l�nguida e relaxada do homem que certamente havia sido recomendado como tendo o racioc�nio mais incisivo e sendo o agente mais ativo da Europa. Holmes abriu os olhos devagar e fitou o gigantesco cliente com impaci�ncia.</p><p>- Se Sua Majestade se dignar a expor seu caso - comentou - ficaria em posi��o de ajud�-lo.</p><p>O homem saltou da cadeira e andou de um lado para o outro, visivelmente perturbado. Ent�o, com um gesto de desespero, arrancou a m�scara do rosto e atirou-a no ch�o. - Est� certo - exclamou - sou o Rei. Por que tentar encobri-lo?</p><p>- Realmente, por qu�? - murmurou Holmes. - Antes de Sua Majestade dizer qualquer coisa, j� sabia que era Wilhelin Gottsreich Sigismond von Ornistein, Gr�o-Duque de Cassel-Falstein e herdeiro do trono da Bo�mia.</p><p>- Mas o senhor deve compreender - disse nosso estranho visitante, sentando-se novamente e passando a m�o pela testa ampla e branca - o senhor deve compreender que n�o estou habituado a tratar desses neg�cios pessoalmente. Entretanto o assunto era t�o delicado que n�o podia confi�-lo a um agente sem me colocar totalmente em seu poder. Vim de Praga inc�gnito para consult�-lo.</p><p>- Ent�o, por favor, consulte-me - respondeu Holmes, fechando os olhos de novo.</p><p>- Os fatos s�o essencialmente os seguintes: h� uns cinco anos, durante uma longa visita a Vars�via, conheci a famosa aventureira Irene Adler. Sem d�vida conhece esse nome.</p><p>- Tenha a bondade de procurar em meu arquivo, Doutor - murmurou Holmes sem abrir os olhos. Por muitos anos colecionara resumos de informa��es sobre pessoas e coisas diligentemente e era dif�cil mencionar uma pessoa ou um assunto sobre o qual n�o pudesse imediatamente fornecer dados. Nesse caso, encontrei a biografia dela entre um rabino hebraico e um comandante que escrevera uma monografia sobre os peixes do fundo do mar.</p><p>- Deixe-me ver - disse Holmes. - Hum! Nasceu em Nova J�rsei em 1858. Contralto... La Scala...Hum! Prima-dona da �pera Imperial de Vars�via... Sim. Retirou-se do palco... Mora em Londres... muito bem, a Sua Majestade, pelo visto, envolveu-se com essa jovem, escreveu-lhe umas cartas comprometedoras e agora quer reav�-las.</p><p>- Precisamente. Mas como...</p><p>- Houve um casamento secreto?</p><p>- N�o.</p><p>- Nenhum contrato ou compromisso legal?</p><p>- N�o.</p><p>- Ent�o n�o compreendo Sua Majestade. Se essa jovem senhora apresentasse as cartas para fins de chantagem, ou outros, como poderia provar sua autenticidade?</p><p>- Pela caligrafia.</p><p>- Podia ser falsificada.</p><p>- Meu papel de cartas pessoal.</p><p>- Roubado.</p><p>- Meu sinete.</p><p>- Imitado.</p><p>- Minha fotografia.</p><p>- Comprada.</p><p>- Ela tamb�m saiu na fotografia.</p><p>- Oh! Que pena! Sua Majestade realmente foi indiscreto.</p><p>- Estava louco e fora de mim.</p><p>- Comprometeu-se seriamente.</p><p>- Eu era apenas o Pr�ncipe Herdeiro nessa �poca. Era jovem. S� tenho trinta anos agora.</p><p>- � preciso reav�-la.</p><p>- Tentamos e fracassamos.</p><p>- Sua Majestade deve pagar. Temos de compr�-la.</p><p>- Ela n�o quer vend�-la.</p><p>- Roub�-la, ent�o.</p><p>- Foram feitas cinco tentativas. Duas vezes ladr�es pagos por mim revistaram sua casa. Uma vez desviamos sua bagagem quando viajava. Duas vezes armamos uma emboscada para ela. N�o conseguimos nada.</p><p>- Nenhum sinal da fotografia?</p><p>- Absolutamente nenhum.</p><p>Holmes deu uma risada. - � um problema bem interessante - disse.</p><p>- Mas muito grave para mim - retorquiu o Rei, em tom apreensivo.</p><p>- Bastante grave, � certo. E o que ela pretende fazer com a fotografia?</p><p>- Arruinar-me.</p><p>- Mas como?</p><p>- Estou prestes a me casar.</p><p>- J� sabia.</p><p>- Com Clotilde Lothman von Saxe-Meningen, a segunda filha do Rei da Escandin�via. Talvez conhe�a os princ�pios r�gidos de sua fam�lia. Ela mesma � a ess�ncia da delicadeza. A sombra de uma d�vida quanto � minha conduta seria o suficiente para acabar tudo.</p><p>- E Irene Adler?</p><p>- Amea�a mandar-lhe a fotografia. E � capaz de faz�-lo. Sei que o far�. O senhor n�o a conhece, mas ela tem uma alma de a�o. Tem o rosto da mais bela das mulheres, e a mentalidade do mais resoluto dos homens. Para me impedir de casar com outra mulher, n�o h� nada que hesite em fazer, absolutamente nada.</p><p>- Tem certeza que ainda n�o a mandou?</p><p>- Tenho.</p><p>- Por qu�?</p><p>- Porque disse que mand�-la-ia no dia em que fosse anunciado o noivado. Isso ser� na pr�xima segunda-feira.</p><p>- Bem, ent�o temos ainda tr�s dias - disse Holmes, bocejando. - Ainda bem, pois tenho um ou dois assuntos importantes para tratar no momento. Sua Majestade certamente ficar� em Londres por enquanto?</p><p>- Claro. Pode me encontrar no Langliam, sob o nome de Conde von Kramm.</p><p>- Ent�o lhe mandarei umas linhas contando nosso progresso.</p><p>- Por favor. Ficarei ansioso.</p><p>- E quanto a dinheiro?</p><p>- Tem carta branca.</p><p>- Totalmente?</p><p>- Garanto-lhe que daria uma das prov�ncias do meu reinado para conseguir aquela fotografia.</p><p>- E quanto �s despesas imediatas?</p><p>O Rei tirou uma bolsa de camur�a de debaixo do manto e a depositou sobre a mesa.</p><p>- Cont�m trezentas libras em ouro e setecentas em notas - disse.</p><p>Holmes rabiscou um recibo numa p�gina de seu caderno de notas e estendeu-a para o Rei.</p><p>- E o endere�o dela? - perguntou.</p><p>- Briony, na Avenida Serpentina, em St. John's Wood.</p><p>Holmes anotou-o. - Mais uma pergunta, - disse, - de que tamanho era a fotografia?</p><p>- Aproximadamente quinze por dez cent�metros, montada com Passe-Partout.</p><p>- Ent�o, muito boa-noite, Sua Majestade, e espero em breve ter boas not�cias. E boa-noite, Watson - acrescentou, quando as rodas do caleche rolavam pela rua. - Se tiver a bondade de vir aqui amanh� de tarde, �s tr�s horas, gostaria de discutir esse assunto com voc�.</p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p>* * *</p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p>Exatamente �s tr�s horas apresentei-me na Baker Street, mas Holmes n�o havia voltado ainda. A senhoria informou-me que sa�ra de casa logo ap�s as oito horas da manh�. Sentei-me junto � lareira decidido a esper�-lo, n�o importa por quanto tempo. J� estava muito interessado na investiga��o, pois embora n�o apresentasse aspectos sombrios e estranhos como os dois crimes que relatei anteriormente, a natureza do caso e a situa��o de emin�ncia do cliente davam-lhe um car�ter todo especial. Na verdade, fora a natureza da investiga��o encetada por meu amigo, havia algo em sua perfeita compreens�o de uma situa��o, em seu racioc�nio agudo, incisivo, que tornava para mim um prazer estudar seu sistema de trabalho e seguir os m�todos r�pidos e sutis com que desvendava os mist�rios mais indeslind�veis. Estava t�o acostumado a seus constantes sucessos que a possibilidade de fracasso nem sequer me ocorria.</p><p>Eram quase quatro horas quando a porta se abriu e entrou um cavalari�o com apar�ncia de embriagado, sujo e barbado, com o rosto inflamado e roupas vergonhosas. Embora acostumado com os espantosos poderes de disfarce de meu amigo, tive de olhar tr�s vezes antes de me convencer que era ele mesmo. Com um gesto de cabe�a, desapareceu no quarto, de onde saiu cinco minutos depois, respeit�vel novamente em um temo de tweed. Com as m�os nos bolsos, esticou as pernas em frente da lareira e riu alegremente por uns minutos.</p><p>- Realmente - exclamou, e engasgou; e riu de novo at� ser for�ado a se recostar na cadeira, exausto.</p><p>- O que foi?</p><p>- � muito engra�ado. Estou certo de que voc� n�o pode adivinhar como passei a manh� e o que fiz.</p><p>- N�o posso nem imaginar. Suponho que estava observando os costumes e talvez a casa da Srta. Irene Adler.</p><p>- Isso mesmo, mas os acontecimentos foram bastante ins�litos. Vou lhe contar. Sa� de casa pouco ap�s oito horas esta manh�, como um cavalari�o desempregado. Existe grande compreens�o e uni�o entre homens que lidam com cavalos. Seja um deles, e saber� tudo que est� acontecendo. Achei Briony Lodge sem dificuldade. � uma pequena e requintada vila, com um jardim nos fundos, de dois andares, com a frente rente � rua. Uma boa fechadura na porta. Grande sal�o � direita, bem mobiliado, com longas janelas indo quase at� o ch�o e aqueles ferrolhos ingleses absurdos que at� uma crian�a pode abrir. Nos fundos n�o havia nada especial, s� que a janela da passagem pode ser alcan�ada do telhado da cocheira. Andei em volta e examinei-a de todos os lados, mas n�o vi nada mais de interessante.</p><p>- Desci ent�o a rua e encontrei, como esperava, uma estrebaria num beco que corre ao lado de um dos muros do jardim. Ajudei os cavalari�os a tratar dos cavalos e recebi em troca dois penies, um copo de cerveja, dois pacotes de fumo picado e toda a informa��o que poderia desejar sobre a Srta. Adler, para n�o mencionar uma meia d�zia de pessoas na vizinhan�a que n�o me interessavam nem um pouco, mas cujas biografias tive de ouvir em detalhe.</p><p>- E quanto a Irene Adler? - perguntei.</p><p>- Ah, enlouqueceu todos os homens por aqueles lados. � a coisa mais linda do planeta. Assim dizem todos os homens da Estrebaria Serpentina. Vive pacatamente, canta em concertos, sai para dar um passeio todas as tardes �s cinco horas e volta �s sete em ponto para jantar. Raramente sai em outras horas, exceto quando est� cantando. Tem somente um visitante, mas esse � muito freq�ente. � moreno, bonito e arrojado; vai l� todos os dias pelo menos uma vez, muitas vezes duas. � o Sr. Godflrey Norton, advogado da Corte. Veja a vantagem de fazer amizade com um cocheiro de aluguel. Em casa uma d�zia de vezes e sabia tudo sobre ele. Quando ouvi tudo que tinha a dizer, andei de um lado a outro perto de Briony mais uma vez para planejar minha campanha.</p><p>- Godfrey Norton era evidentemente um fator importante. � advogado. Isso � de mau agouro. Qual seria o relacionamento dos dois e qual o objetivo das visitas constantes? Ela seria sua cliente, sua amiga ou sua amante? Se fosse a primeira, provavelmente teria transferido a fotografia para as m�os dele. Se fosse a �ltima, isso era menos prov�vel. A resposta a essa pergunta decidiria se eu devia continuar meu trabalho em Briony Lodge ou desviar minha aten��o para os aposentos do cavalheiro. Era uma quest�o delicada, e ampliava o campo de investiga��o. Receio ser ma�ante com todos esses detalhes, mas tenho de lhe mostrar esses pequenos problemas para que voc� compreenda a situa��o.</p><p>- Sou todo aten��o - respondi.</p><p>- Pesava os fatos mentalmente quando um cabriol� parou em frente de Briony Lodge e saltou um cavalheiro. Era um homem extremamente bonito, moreno, de fei��es aquilinas e bigode... evidentemente o homem que haviam mencionado. Parecia estar com grande pressa, gritou ao cocheiro que esperasse e passou rapidamente pela empregada que abrira a porta com o ar de um homem que estava perfeitamente em casa.</p><p>- Ficou na casa aproximadamente meia hora e pude entrev�-lo pelas janelas do salgo, passeando de um lado para o outro, falando excitadamente e gesticulando com os bra�os. N�o consegui v�-la. Depois ele saiu, parecendo mais apressado que antes. Ao entrar no cabriol�, puxou um rel�gio do bolso e consultou-o.</p><p>- Dirija como um dem�nio, - gritou - primeiro para Gross e Hankey na Regent Street e depois para a Igreja de Sta. M�nica na Edgware Road. - Meio guin�u se fizer isso em vinte minutos!</p><p>- L� se foram e estava pensando se devia segui-los quando surgiu no beco um pequeno e elegante landau, o cocheiro ainda meio desabotoado, com a gravata completamente torta e as pontas dos arreios fora das fivelas. Nem chegou a parar, ela saiu correndo pela porta e se atirou dentro. S� a vi um instante, mas era uma mulher linda, um homem morreria de bom grado por seu rosto. - � Igreja de Sta. M�nica, Jolin, - exclamou - e uma libra em ouro se chegar l� em vinte minutos.</p><p>- Era bom demais para perder, Watson. Debatia se devia sair correndo ou me segurar atr�s de seu landau. quando surgiu um cabriol� na rua. O cocheiro olhou dubiamente um passageiro t�o mal vestido, mas entrei rapidamente antes que pudesse fazer obje��es. - � Igreja de Sta. M�nica - disse-lhe. - Uma libra em ouro se chegar l� em vinte minutos. Eram vinte e cinco para as doze horas e era evidente o que estava acontecendo.</p><p>- O cocheiro foi a toda velocidade. Nunca andei t�o depressa, mas os outros chegaram a nossa frente. O cabriol� e o landau com os cavalos cobertos de suor estavam em frente � porta quando cheguei. Paguei o homem e entrei na igreja �s pressas. L� dentro s� havia os dois que eu seguira e um sacerdote de sobrepeliz, que parecia discutir com eles. Os tr�s se amontoavam em frente do altar. Subi lentamente a nave lateral como qualquer pessoa que entrasse casualmente em uma igreja. De repente, para meu espanto, os tr�s junto ao altar viraram-se e Godfrey Norton veio correndo at� a mim.</p><p>- Gra�as a Deus - exclamou. - Voc� serve. Venha! Venha!</p><p>- O que h�? - perguntei.</p><p>- Venha, homem, venha, s� temos tr�s minutos, ou n�o ser� legal.</p><p>- Fui quase arrastado at� o altar e antes de saber onde estava, murmurava respostas que eram segredadas em meu ouvido e asseverava coisas que desconhecia totalmente, ajudando, de modo geral, a ligar Irene Adler, solteira, a Godfrey Norton, solteiro. Tudo levou s� uns instantes e l� estava o cavalheiro me agradecendo de um lado e a dama do outro, enquanto o sacerdote sorria � minha frente. Foi a situa��o mais absurda em que jamais me encontrei e foi por isso que ri tanto h� pouco. Parece que havia alguma irregularidade na licen�a e o sacerdote recusou-se a cas�-los sem uma testemunha, e surgi a tempo de evitar que o noivo tivesse de sair pelas ruas � procura de um padrinho. A noiva deu-me uma libra em ouro e pretendo us�-la na corrente do rel�gio em mem�ria dessa ocasi�o.</p><p>- Isso foi totalmente inesperado - eu disse - e agora?</p><p>- Bem, meus planos estavam seriamente amea�ados. O par poderia partir a qualquer momento e era necess�rio tomar medidas imediatas e en�rgicas. Mas ao chegar � porta da igreja, eles se separaram, indo ele de volta a seus aposentos e ela de volta a casa. - Irei passear no Parque �s cinco como de costume - ela disse ao se despedir dele. N�o ouvi nada mais. Partiram em dire��es opostas e fui tomar minhas provid�ncias.</p><p>- Quais?</p><p>- Carne fria e um copo de cerveja - respondeu, tocando a campainha. - Estava ocupado demais para pensar em comida, e provavelmente estarei mais ocupado ainda hoje � noite. Por falar nisso, Doutor, preciso de sua ajuda.</p><p>- Ser� um prazer.</p><p>- N�o se importa de desrespeitar a lei?</p><p>- Nem um pouco.</p><p>- Nem de correr risco de ser preso?</p><p>- N�o, se for em uma boa causa.</p><p>- Ah, a causa � excelente!</p><p>- Ent�o estou �s suas ordens.</p><p>- Sabia que podia contar com voc�.</p><p>- Mas que deseja que eu fa�a?</p><p>- Quando a Sra. Turner trouxer a bandeja explicarei tudo. Agora - disse, servindo-se com entusiasmo da comida simples que a senhoria trouxera - tenho de falar enquanto como, pois n�o h� muito tempo. S�o quase cinco horas. Dentro de duas horas devemos estar no local da a��o. A Srta. Irene, ou Sra., agora, volta de seu passeio �s sete. Devemos estar em Briony Lodge � sua espera.</p><p>- E ent�o?</p><p>- Deixe isso Por minha conta, j� providenciei o que vai acontecer. S� h� uma coisa em que devo insistir. Voc� n�o vai interferir, aconte�a o que acontecer. Entende?</p><p>- Devo ficar neutro?</p><p>- N�o deve fazer nada. Provavelmente haver� algum pequeno dist�rbio. N�o se meta. No fim serei levado para a casa. Quatro ou cinco minutos depois a janela do sal�o se abrir�. Voc� deve se colocar perto dessa janela aberta. Fique me olhando, pois serei vis�vel a voc�.</p><p>- Sim.</p><p>- E quando erguer a m�o... assim... voc� jogar� dentro da sala o que eu lhe der para jogar e, ao mesmo tempo, gritar� �Fogo�. Compreendeu?</p><p>- Perfeitamente.</p><p>- N�o � nada demais - disse, tirando do bolso um rolo do tamanho de um charuto. - � uma pequena bomba de fuma�a com uma espoleta em cada ponta para que exploda sozinha. Sua tarefa � simplesmente essa. Quando lan�ar seu grito de fogo, este ser� repetido por v�rias pessoas. Pode ent�o se dirigir para o fim da rua e eu o encontrarei l� em dez. minutos. Fui bem claro?</p><p>- Devo ficar neutro, perto da janela, olhar para voc� e, quando der o sinal, atirar esse objeto, gritar �Fogo� e esperar por voc� no fim da rua.</p><p>- Exatamente.</p><p>- Ent�o pode confiar totalmente em mim.</p><p>- Excelente. Acho que est� na hora de me preparar para o novo papel que tenho de desempenhar.</p><p>Desapareceu no quarto e voltou dentro de poucos minutos disfar�ado em um cl�rigo protestante af�vel e pouco inteligente. O chap�u preto de abas largas, as cal�as frouxas, a gravata branca, o sorriso simp�tico e apar�ncia geral de benevol�ncia eram completamente convincentes. N�o � s� que os disfarces de Holmes eram excelentes; sua express�o, maneir�smos, sua pr�pria alma parecia variar com qualquer papel que representasse. O palco perdeu um grande ator, assim como a ci�ncia perdeu um raciocinador de primeira, quando ele se tomou um especialista em crimes.</p><p>Eram seis e quinze quando sa�mos da Baker Street e ainda faltavam dez minutos para as sete quando chegamos � Avenida Serpentina. J� escurecia, e as l�mpadas se estavam acendendo enquanto passe�vamos em frente de Briony Lodge esperando a chegada de sua ocupante. A casa era exatamente como a imaginara pela descri��o sucinta de Holmes, mas o local parecia menos privativo do que esperava. Para uma pequena rua em uma vizinhan�a pacata era excepcionalmente animada. Havia um grupo de homens mal vestidos fumando e rindo em uma esquina, um amolador com sua roda, dois guardas flertando com uma ama e v�rios rapazes bem vestidos que passeavam fumando charutos.</p><p>- Veja - disse Holmes enquanto pass�vamos vagarosamente em frente da casa - esse casamento simplifica muito as coisas. A fotografia agora � uma arma de dois gumes. � prov�vel que ela tenha a mesma relut�ncia que seja vista pelo Sr. Godfrey Norton que o nosso cliente de que sua Princesa a veja... o problema �... onde vamos encontrar a fotografia?</p><p>- Realmente, onde?</p><p>- N�o � prov�vel que a carregue consigo. � grande demais para isso. N�o seria f�cil de esconder em roupas de mulher. Sabe que o Rei � capaz de armar-lhe uma cilada e mandar revist�-la. Duas tentativas j� foram feitas. Podemos ter certeza que n�o a leva consigo.</p><p>- Ent�o, aonde?</p><p>- Seu banqueiro ou seu advogado. H� essa possibilidade dupla. Mas estou inclinado a achar que nenhuma das duas � verdade. As mulheres s�o muito inclinadas a segredos e gostam de seus pr�prios esconderijos. Por que a entregaria a outra pessoa? Pode confiar em sua pr�pria guarda, mas n�o pode evitar que alguma influ�ncia indireta ou pol�tica seja exercida com sucesso em um homem de neg�cios. Al�m disso, lembre-se que resolvera us�-la dentro de poucos dias. Deve estar onde possa facilmente peg�-la. Deve estar em sua pr�pria casa.</p><p>- Mas a casa foi revistada duas vezes.</p><p>- N�o quer dizer nada. N�o sabiam onde olhar.</p><p>- E voc� vai olhar aonde?</p><p>- N�o vou precisar procurar.</p><p>- Como?</p><p>- Vou deixar que ela me mostre.</p><p>- Mas ela se recusar�.</p><p>- N�o poder� recusar. Mas ou�o o ru�do de rodas. � sua carruagem. Agora obede�a minhas ordens ao p� da letra.</p><p>Enquanto falava, vimos o brilho das luzes de uma carruagem fazendo a curva da avenida. Era um pequeno e elegante landau que parou � porta de Briony Lodge. Ao parar, um dos homens da esquina correu para abrir a porta na esperan�a de ganhar uma moeda, mas foi empurrado por outro que acorrera com a mesma inten��o. Irrompeu uma violenta briga, aumentada pelos dois guardas que tomaram o partido de um dos homens, e pelo amolador, que ficou do lado do outro.</p><p>Houve troca de golpes e em um segundo a senhora, que descia da carruagem, era o centro de um monte de homens que se batiam ferozmente, usando os punhos e cacetes. Holmes se atirou no meio do grupo para proteger a senhora; mas ao chegar junto dela, deu um grito e caiu no ch�o, com o sangue correndo pelo rosto. Ao v�-lo ca�do, os guardas fugiram em uma dire��o e os homens na outra, enquanto que um grupo de pessoas bem vestidas que olhavam a briga sem tomar parte nela se aproximou para ajudar a senhora e o homem machucado. Irene Adler, como eu ainda a chamava, subira os degraus correndo; mas parou no topo, sua figura magn�fica delineada contra as luzes do hall, olhando a rua.</p><p>- O cavalheiro est� muito machucado? - perguntou.</p><p>- Est� morto - disseram v�rias vozes.</p><p>- N�o, n�o, ainda vive - gritou algu�m. - Mas estar� morto antes que conseguir lev�-lo para o hospital.</p><p>- � um homem muito corajoso - disse uma mulher. - Teriam tirado a bolsa e o rel�gio da mo�a se n�o fosse ele. Era um bando perigoso. Ah, ele est� respirando.</p><p>- N�o pode ficar aqui na rua. Podemos lev�-lo l� para dentro, senhora?</p><p>- Claro. Podem lev�-lo para o sal�o. H� um sof� confort�vel. Por aqui, por favor!</p><p>Lenta e solenemente levaram-no para Briony Lodge e o depositaram na sala principal enquanto eu observava os acontecimentos do meu posto perto da janela.</p><p>Acenderam as l�mpadas mas n�o correram as cortinas, de forma que podia ver Holmes deitado no sof�. N�o sei se ele sentia remorsos naquele momento pelo papel que representava, mas sei que nunca me senti t�o envergonhado em toda a minha vida quando vi a linda criatura contra quem eu conspirava, e a gra�a e a bondade com que tratava do homem acidentado. Entretanto, seria uma trai��o a Holmes se me recusasse agora a desempenhar o papel de que me encarregara. Endureci meu cora��o e tirei a bomba do casaco. Afinal de contas, pensei, n�o iremos mago�-la. Estamos apenas evitando que magoe outra pessoa.</p><p>Holmes sentara no sof� e o vi fazer um gesto como se precisasse de ar. Uma empregada correu para abrir a janela. No mesmo instante eu o vi erguer a m�o e a este sinal atirei minha bomba na sala gritando: �Fogo�. Mal terminara e toda a multid�o de espectadores, bem e mal vestidos, cavalheiros, cavalari�os e empregadas, unira-se num �nico brado de �Fogo!�. Nuvens espessas de fuma�a encheram a sala e sa�ram pela janela. Vislumbrei vultos correndo e um momento ap�s a voz de Holmes, assegurando a todos que havia sido um falso alarma. Deslizando por entre a multid�o, caminhei para a esquina e dez minutos depois alegrei-me de sentir o bra�o de meu amigo no meu e de me afastar da cena da confus�o. Ele andou rapidamente e em sil�ncio por alguns minutos, at� que entramos em uma das ruas desertas que levam � Estrada Edgware.</p><p>- Muito bem-feito, Doutor - observou. - N�o podia ter sido melhor. Tudo est� bem.</p><p>- Tem a fotografia.</p><p>- Sei onde est�.</p><p>- E como descobriu?</p><p>- Ela me mostrou, como disse que faria.</p><p>- Ainda n�o entendi.</p><p>- N�o quero ser misterioso - disse, rindo. - Foi muito simples. Voc� viu, certamente, que todo mundo na rua era meu c�mplice. Foram todos contratados por uma noite. Ent�o, quando houve a briga, tinha um pouco de tinta vermelha na palma da m�o. Avancei, ca�, esfreguei a m�o no rosto e tornei-me um espet�culo digno de pena. � um truque muito velho.</p><p>- Isso tamb�m eu imaginei.</p><p>- Levaram-me ent�o para dentro. Ela teve que concordar. Que mais poderia fazer? E para a sala, que era exatamente onde eu suspeitava que estava a fotografia. Estaria l�, ou em seu quarto, e eu estava decidido a descobrir onde. Colocaram-me no sof�, fiz um gesto pedindo mais ar, foram for�ados a abrir a janela e voc� teve sua chance.</p><p>- Como � que isso ajudou voc�?</p><p>- Era muito importante. Quando uma mulher pensa que sua casa est� pegando fogo, seu instinto � correr imediatamente para a coisa a que d� maior valor. � um impulso incontrol�vel. e mais de uma vez j� me aproveitei dele. Foi muito �til no caso do Esc�ndalo Darlington e tamb�m no do Castelo Amsworth. Uma mulher casada agarra seu beb�, uma solteira pega sua caixa de j�ias. Era claro para mim que a nossa jovem dama prezava acima de tudo aquilo que n�s busc�vamos. Correria para ver se estava segura. O alarma foi muito bem-feito. A fuma�a e os gritos eram bastantes para abalar nervos de a�o. Ela reagiu lindamente. A fotografia est� em um recesso atr�s de um painel logo acima do cord�o da campainha � direita. Foi direto l� e vi-a de relance quando a puxou para fora. Quando gritei que era um alarma falso, tomou a coloc�-la no lugar, lan�ou um olhar para a bomba, saiu correndo da sala e n�o a vi mais. Levantei, pedi desculpas, sa� da casa, hesitando se deveria tentar apanhar a fotografia ou n�o; mas o cocheiro entrara na sala e me observava atentamente. Achei mais seguro esperar. A precipita��o poderia prejudicar tudo.</p><p>- E agora? - perguntei.</p><p>- Nossa busca est� praticamente terminada. Virei aqui amanh� com o Rei e com voc�, se nos quiser acompanhar. Ficaremos na sala, esperando a senhora, mas � prov�vel que quando ela chegar n�o encontre nem n�s, nem a fotografia. Talvez seja um prazer para Sua Majestade recuper�-la com suas pr�prias m�os.</p><p>- E quando voltar� l�?</p><p>- �s oito da manh�. Ela n�o estar� de p�, e teremos toda a liberdade. Temos de agir rapidamente, pois esse casamento pode mudar completamente sua vida e seus h�bitos. Vou telegrafar imediatamente para o Rei.</p><p>Hav�amos chegado � Baker Street e parado em frente � porta. Holmes procurava a chave nos bolsos quando algu�m passou e disse:</p><p>- Boa-noite, Sr. Sherlock Holmes.</p><p>Havia v�rias pessoas na cal�ada no momento, mas a voz parecia vir de um esbelto jovem encasacado que passara apressadamente.</p><p>- J� ouvi essa voz antes - comentou Holmes, olhando a rua sombria. - Que diabo, quem poderia ser?</p><p>Dormi na Baker Street aquela noite e est�vamos ocupados com caf� e torradas quando o Rei da Bo�mia entrou �s pressas.</p><p>- Conseguiu! - exclamou, segurando os ombros de Sherlock Holmes e olhando-o no rosto com entusiasmo.</p><p>- Ainda n�o.</p><p>- Mas tem esperan�as?</p><p>- Tenho.</p><p>- Ent�o vamos. Estou impaciente.</p><p>- Precisamos de uma carruagem.</p><p>- N�o, a minha est� � espera.</p><p>- Isso simplifica tudo.</p><p>Descemos e fomos imediatamente para Briony Lodge.</p><p>- Irene Adler casou-se - disse Holmes.</p><p>- Casou! Quando?</p><p>- Ontem.</p><p>- Mas com quem?</p><p>- Com um advogado ingl�s chamado Norton.</p><p>- Mas n�o pode anim�-lo?</p><p>- Espero que sim.</p><p>- Por que espera isso?</p><p>- Porque Sua Majestade n�o precisaria mais ter receio de qualquer problema futuro. Se n�o ama Sua Majestade, n�o h� raz�o para interferir com os planos de Sua Majestade.</p><p>- � verdade. Bem! Gostaria que ela fosse da mesma classe que eu. Que rainha ela seria. Caiu em sil�ncio melanc�lico at� chegarmos � Avenida Serpentina.</p><p>A porta de Briony Lodge estava aberta e uma mulher idosa estava no topo dos degraus. Olhou-nos com olhos sarc�sticos ao saltarmos da carruagem.</p><p>- O Sr. Sherlock Holmes, n�mero 6?</p><p>- Sim, eu sou o Sr. Holmes - respondeu meu companheiro, olhando-a com curiosidade e bastante espanto.</p><p>- Muito bem, minha patroa disse que era prov�vel que o senhor viesse. Partiu esta manh� com o esposo, pelo trem das 5h11min da esta��o Charing Cross, para o Continente.</p><p>- O qu�! - Sherlock Holmes deu um passo atr�s, p�lido de surpresa e desgosto. - Quer dizer que deixou a Inglaterra?</p><p>- Para nunca mais voltar.</p><p>- E os pap�is? - perguntou o Rei em voz rouca. - Est� tudo perdido.</p><p>- Veremos. - Holmes atirou-se para dentro da casa, correu para o sal�o seguido pelo Rei e por mim. A mob�lia estava espalhada em todas as dire��es, estantes desmontadas, gavetas abertas, como se ela tivesse revirado tudo antes de sua fuga. Holmes correu para o cord�o da campainha, deslizou um pequeno painel e, metendo a m�o dentro, puxou uma fotografia e uma carta. A fotografia era de Irene Adler em traje a rigor, a carta era endere�ada a: �Sr. Sherlock Holmes. Para ser guardada at� virem busc�-la�. Meu amigo abriu-a e n�s tr�s a lemos juntos. Datava da meia-noite anterior e dizia o seguinte:</p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p>�Meu caro sr. Sherlock Holmes: Realmente foi formid�vel. Enganou-me completamente. N�o tive a menor suspeita at� o alarma de fogo. Mas ent�o, quando vi como tinha me tra�do, comecei a pensar. Fui avisada a seu respeito h� meses. Disseram-me que se o Rei empregasse um agente, certamente seria o senhor.</p><p>E deram-me seu endere�o. E apesar de tudo isso, o senhor fez com que eu revelasse o que queria saber. Mesmo quando fiquei desconfiada, achei dif�cil pensar mal de um cl�rigo t�o am�vel, t�o bondoso. Mas sabe que tamb�m sou uma atriz profissional. Vestir-me de homem � comum para mim. Freq�entemente aproveito a vantagem da liberdade que isso me d�. Mandei o cocheiro vigi�-lo, fui l� em cima, vesti minhas roupas de passeio, como as chamo, e desci exatamente quando o senhor sa�a.</p><p>Segui-o at� sua porta e verifiquei que eu era realmente objeto de interesse do c�lebre Sr. Sherlock Holmes. Ent�o, muito imprudentemente, desejei-lhe boa-noite e fui procurar meu marido nas salas da Corte.</p><p>Concordamos ambos que a fuga era o melhor recurso quando enfrentando um advers�rio de tais propor��es; assim, encontrar� o ninho vazio quando chegar amanh�. Quanto � fotografia, seu cliente pode ficar descansado. Amo e sou amada por um homem melhor que ele. O Rei pode fazer o que quiser sem nenhum empecilho de uma pessoa com quem procedeu muito mal. S� a guardo para me proteger, e para preservar uma arma que sempre me garantir� contra qualquer medida que ele possa vir a tomar no futuro. Deixo uma fotografia que ele talvez goste de possuir; e sou, prezado Sr. Sherlock Holmes, mui atenciosamente,</p><p>Irene Norton, Adler�</p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p>- Que mulher... que mulher - exclamou o Rei da Bo�mia, quando terminamos a leitura. - N�o lhe disse como era esperta e decidida? N�o teria dado uma rainha maravilhosa? N�o � uma pena que n�o fosse da minha classe?</p><p>- Pelo que vi dessa dama ela parece, realmente, ser de um n�vel diferente de Sua Majestade - disse Holmes friamente. - Lamento n�o ter podido concluir o neg�cio de Sua Majestade de maneira mais satisfat�ria.</p><p>- Ao contr�rio, meu caro senhor - retorquiu o Rei. - N�o poderia ser mais satisfat�rio. Sei que sua palavra � inviol�vel. A fotografia est� t�o segura quanto se estivesse queimando na lareira.</p><p>- Fico contente de Sua Majestade pensar assim.</p><p>- Sou-lhe eternamente grato. Diga-me como posso recompens�-lo. Este anel... - Tirou um anel de esmeralda em forma de serpente do dedo e ofereceu-o na palma da m�o.</p><p>- Sua Majestade tem uma coisa que prezo ainda mais - disse Holmes.</p><p>- Basta dizer.</p><p>- Essa fotografia.</p><p>O Rei olhou-o com espanto.</p><p>- A fotografia de Irene! - exclamou. - Certamente, se quiser.</p><p>- Agrade�o a Sua Majestade. Ent�o nada mais h� a fazer. Tenho a honra de desejar-lhe uma boa manh�. - Cumprimentou-o e, virando sem observar a m�o que o Rei lhe estendera, encaminhou-se comigo para casa.</p><p>E foi assim que um grande esc�ndalo amea�ou o reinado da Bo�mia, e que os melhores planos do Sr. Sherlock Holmes foram destru�dos pela intelig�ncia de uma mulher. Ele costumava tro�ar da esperteza das mulheres, mas ultimamente n�o o tenho ouvido assim fazer. E quando fala de Irene Adler, ou quando se refere � sua fotografia, � sempre sob o t�tulo honrado de a mulher.</p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong>a liga ruiva</strong></p><empty-line/><empty-line/><p>A Liga Ruiva fora fazer uma visita a meu amigo, o Sr. Sherlock Holmes, um dia de outono no ano passado, e encontrei-o em conversa animada com um senhor idoso muito gordo, de rosto corado e cabelos cor-de-fogo. Com uma desculpa pela minha intrus�o, ia me retirar quando Holmes me puxou abruptamente para dentro da sala e fechou a porta.</p><p>- N�o poderia ter vindo em hora melhor, meu caro Watson - disse cordialmente.</p><p>- Pensei que estivesse ocupado.</p><p>- E estou. Muito ocupado.</p><p>- Ent�o posso esperar na sala ao lado.</p><p>- De forma alguma. Este cavalheiro, Sr. Wilson, tem sido meu companheiro e assistente em muitos dos meus casos de maior sucesso e n�o tenho d�vida que ser� muito �til no seu tamb�m.</p><p>O cavalheiro gordo ergueu-se em sua cadeira e cumprimentou-me ligeiramente com a cabe�a, lan�ando um r�pido olhar curioso de seus olhinhos rodeados de gordura.</p><p>- Experimente o sof� - disse Holmes, voltando � sua poltrona e juntando as pontas dos dedos, como era seu costume quando contemplava um problema. - Sei, meu caro Watson, que voc� compartilha meu amor por tudo que � bizarro e fora das conven��es e da rotina do dia-a-dia. Demonstrou sua aprecia��o pelo entusiasmo com que relatou e, se me perdoa, at� embelezou tantas aventuras minhas.</p><p>- Seus casos na verdade t�m sido muito interessantes para mim - observei.</p><p>- Lembre que comentei outro dia, pouco antes de embarcarmos no problema muito simples apresentado pela Srta. Mary Sutherland, que para obter efeitos estranhos e combina��es extraordin�rias temos que apelar para a pr�pria vida, que � sempre muito mais audaz que qualquer esfor�o da imagina��o.</p><p>- Uma proposi��o de que tomei a liberdade de duvidar.</p><p>- Sim, Doutor, mas apesar disso voc� tem de vir para o meu lado, sen�o amontoarei fato em cima de fato at� que seu racioc�nio desmonte sob seu PC8o e reconhe�a que estou certo. Bem, o Sr. Jabez Wilson, aqui presente, teve a bondade de vir ver-me esta manh� e come�ar uma narrativa que promete ser das mais singulares que ou�o h� muito tempo. J� me ouviu comentar que as coisas mais estranhas s�o muitas vezes ligadas n�o aos grandes, mas aos crimes menores e, ocasionalmente, na verdade, � d�vida de que algum crime tenha sido realmente cometido. Pelo que ouvi at� agora, � imposs�vel dizer se o presente caso � ou n�o exemplo de crime, mas o curso dos acontecimentos � certamente dos mais estranhos que j� ouvi. Talvez, Sr. Wilson, o senhor possa ter a bondade de recome�ar sua narrativa. Pe�o isso n�o s� porque meu amigo Dr. Watson n�o ouviu o princ�pio, mas tamb�m porque a natureza peculiar da hist�ria deixa-me ansioso para colher todos os detalhes poss�veis de seus l�bios. Em geral, quando tenho alguma indica��o do curso dos acontecimentos, posso guiar-me pelos milhares de outros casos semelhantes que me v�m � mem�ria. Neste caso, sou for�ado a admitir que os fatos s�o, pelo que sei, �nicos.</p><p>O corpulento cliente estufou o peito com algum orgulho e tirou um jornal sujo e amarrotado do bolso de dentro do sobretudo. Enquanto olhava a coluna de an�ncios com a cabe�a esticada para a frente e o jornal aberto no joelho, examinei-o cuidadosamente e tentei, � moda de meu companheiro, ler as indica��es apresentadas por suas roupas e sua apar�ncia.</p><p>N�o consegui muito, entretanto, com essa inspe��o. Nosso visitante parecia um comerciante ingl�s tradicional, obeso, pomposo e lerdo. Usava cal�as cinzentas quadriculadas meio largas, um palet� preto n�o muito limpo, aberto, e um colete com uma corrente de metal amarelo com um peda�o quadrado de metal pendurado como ornamento. Um chap�u gasto e um sobretudo marrom-desbotado com gola de veludo enrugado repousavam em uma cadeira a seu lado. Por mais que olhasse, n�o havia nada de especial sobre o homem exceto os cabelos vermelho-flamejantes e a express�o de profundo desgosto e descontentamento em seu rosto.</p><p>Sherlock Holmes observou minha ocupa��o e sacudiu a cabe�a com um sorriso quando notou meu olhar inquisitivo. - Al�m do fato �bvio de que em alguma ocasi�o fez trabalhos bra�ais, que cheira rap�, que pertence � Ma�onaria, que esteve na China e que tem escrito muito ultimamente, n�o posso deduzir nada mais.</p><p>O Sr. Jabez Wilson ergueu-se a meio da cadeira, com o indicador no jornal e os olhos fixos em meu companheiro.</p><p>- Como, em nome dos c�us, o senhor sabe tudo isso, Sr. Holmes? - perguntou. - Como sabe, por exemplo, que fiz trabalhos bra�ais? � verdade, comecei como carpinteiro de bordo.</p><p>- Suas m�os, meu caro senhor. Sua m�o direita � bem maior que a esquerda. Trabalhou com ela, e os m�sculos s�o mais bem desenvolvidos.</p><p>- Bem, o rap�, ent�o, e a Ma�onaria.</p><p>- N�o insultarei sua intelig�ncia contando como deduzi isso, especialmente porque, contra as regras r�gidas de sua ordem, o senhor usa um arco e compasso no alfinete de gravata.</p><p>- Ah, sim, esqueci isso.</p><p>- Que mais poderia ser o significado de um direito t�o lustroso bra�o direito gasto perto do cotovelo, onde o senhor o apoia na mesa.</p><p>- Bem, e a China?</p><p>- O peixe tatuado logo acima de seu pulso direito s� pode na China. Fiz um pequeno estudo de marcas de tatuagem, at� contribu� para a literatura sobre o assunto, uma dos peixes s� existe na China. Quando, al�m, de pendurada em sua corrente de rel�gio, tudo se torna ainda mais simples.</p><p>O Sr. Jabez Wilson riu gostosamente - Ora, ora, pensei de in�cio que era uma verdadeira fa�anha mental, mas estou vendo que tudo muito f�cil.</p><p>- Estou come�ando a acreditar, Watson - disse Holmes.</p><p>- Sim, encontrei - respondeu, com o dedo grosso no meio da coluna. - Aqui est�. Isso foi o come�o de tudo. Tomei o jornal e li o seguinte:</p><empty-line/><p>A Liga Ruiva. - finado um membro partido, Pensilv�nia, EUA, existe agora outra vaga que d� direito a da Liga receber um sal�rio de quatro fibras por semana por servi�os puramente nominais. Todos os homens ruivos de perfeita sa�de f�sica e Mental de mais de vinte e um anos de idade podem candidatar-se. Apresente-se em pessoa na segunda-feira �s onze horas a Duncan Ross, nos escrit�rios da liga, 7 Pope's Court, Rua Fleet�.</p><empty-line/><p>- Que Diabo significa isso? - exclamei, depois de ler duas vezes o extraordin�rio an�ncio.</p><p>- � um pouco fora do comum, comentou. - E agora, Sr. Wilson, comece a falar e conte tudo sobre si mesmo, sua fam�lia e o efeito que esse an�ncio teve em sua vida. Primeiro, anote o jornal e a data.</p><p>- � o Morning Chronicle de 27 de abril de 1890. De dois meses atr�s.</p><p>- Muito bem. E agora, Sr. Wilson?</p><p>- Bem, � como estava lhe contando, Sr. Sherlock Holmes - disse enxugando a testa. - Tenho uma pequena loja de penhores na Coburg, perto do Centro. N�o � muito grande nos �ltimos anos. Antigamente tinha dois assistentes, mas agora s� tenho um. E seria problema pagar seu ordenado, mas ele concordou em ganhar a metade, para aprender o neg�cio.</p><p>- Como se chama esse rapaz de t�o boa vontade? - perguntou Sherlock Holmes.</p><p>- Seu nome � Vincent Spaulding e n�o � nenhum rapaz. � dif�cil dizer quantos anos tem. N�o poderia ter um assistente melhor, Sr. Holmes. E sei muito bem que ele poderia estar muito melhor de vida, ganhar o dobro do que lhe pago. Mas, afinal de contas, se est� satisfeito, por que botar id�ias na cabe�a dele?</p><p>- Realmente, por qu�? O senhor tem muita sorte em ter um empregado que ganha menos do que o pre�o do mercado. N�o � uma experi�ncia muito comum nos dias de hoje. Acho que seu assistente � t�o not�vel quanto esse an�ncio.</p><p>- Ah, tem seus defeitos tamb�m - continuou o Sr. Wilson. - Nunca vi um camarada t�o louco por fotografia. Agarrado com a m�quina quando devia estar melhorando seus conhecimentos e depois se afundando no por�o para revelar fotografas, como um coelho em sua toca. � seu maior defeito. Mas, de modo geral, � bom empregado. N�o tem v�cios.</p><p>- Continua trabalhando com o senhor?</p><p>- Sim, senhor. Ele e uma mo�a de quatorze anos, que cozinha um pouco e faz a limpeza. � s� o que tenho em casa, pois sou vi�vo e nunca tive fam�lia. Vivemos muito pacatamente, os tr�s. Mantemos a casa, pagamos as contas, e nada mais.</p><p>- A primeira coisa que nos abalou foi esse an�ncio. Spaulding entrou no escrit�rio, exatamente h� oito semanas, com esse jornal na m�o e disse:</p><p>- Daria tudo para ser ruivo, Sr. Wilson.</p><p>- Por qu�?, perguntei.</p><p>- Ora, disse, h� outra vaga na Liga dos Ruivos. Vale uma pequena fortuna para quem a ocupar e parece que h� mais vagas do que candidatos e os membros do Conselho est�o desatinados sem saber o que fazer com o dinheiro. Se pudesse mudar a cor dos cabelos, aqui est� um ninho maravilhoso prontinho para mim.</p><p>- Mas de que se trata, ent�o?, perguntei. Sabe, Sr. Holmes, sou um homem muito caseiro e como meus neg�cios v�m a mim e n�o preciso sair � sua procura, �s vezes passo semanas a fio sem sair � rua. Por isso n�o sei o que est� acontecendo l� fora e sempre gosto de ouvir as not�cias.</p><p>- Nunca ouviu falar na Liga dos Homens Ruivos? - perguntou, de olhos esbugalhados.</p><p>- Nunca.</p><p>- Estou surpreso, pois o senhor podia ser candidato a uma das vagas.</p><p>- Quanto vale uma vaga?, perguntei.</p><p>- Olhe, somente umas duzentas por ano, mas o trabalho � leve e n�o ia interferir com outras ocupa��es.</p><p>- Bem, isso me fez prestar aten��o, pois os neg�cios n�o t�m sido muito bons nos �ltimos anos e esse dinheiro extra viria a calhar.</p><p>- Conte-me tudo que sabe, disse.</p><p>- Bem, ele respondeu, mostrando o an�ncio, pode ver aqui que h� vaga na Liga e d� o endere�o onde deve ir para maiores detalhes. Pelo que sei, a Liga foi fundada por um milion�rio americano, Ezekiah Hopkins, que era um homem muito peculiar. Ele era ruivo e tinha muita simpatia pelos ruivos e quando morreu descobriram que deixara sua enorme fortuna a curadores, com instru��es para que aplicassem os juros em facilitar a vida de homens de cabelos ruivos. Pelo que ouvi dizer, pagam muito bem e h� muito pouco a fazer.</p><p>- Mas, comentei, h� milh�es de homens ruivos que devem ter se candidatado.</p><p>- N�o tantos assim, respondeu. Repare, � limitado a londrinos de vinte e um anos. Esse americano come�ou em Londres, quando era jovem. Queria beneficiar a cidade. E tamb�m ouvi dizer que n�o adianta se seu cabelo for ruivo-claro, ou ruivo-escuro, tem de ser o vermelho-vivo, cor-de-fogo. Se o senhor quisesse, Sr. Wilson, bastava se apresentar, mas talvez n�o valha a pena se incomodar por umas centenas de libras.</p><p>- Bem, � verdade, cavalheiros, como podem ver, que meu cabelo � bem cor-de-fogo. Ent�o achei que, se houvesse concorr�ncia, teria tanta chance de vencer quanto qualquer outro. Vincent Spaulding parecia saber tanto sobre o assunto que achei que podia ser �til, ent�o mandei que fechasse a loja e viesse comigo. Estava pronto a tirar um dia de folga, assim fechamos tudo e fomos ao endere�o dado no an�ncio.</p><p>- Espero nunca ver um espet�culo desses, Sr. Holmes. Do Norte, Sul, Leste e Oeste, todos os homens com um vest�gio de vermelho nos cabelos vieram � cidade, em resposta ao an�ncio. A Rua Fleet estava entupida de homens de cabelos vermelhos e a Pra�a Pope parecia um caminh�o cheio de laranjas. Nunca pensei que houvesse tantos ruivos no pa�s inteiro. Eram de todos os tons poss�veis: cor-de-palha, de lim�o, de laranja, de tijolo, de barro... mas, como Spaulding disse, n�o havia muitos de leg�tima cor-de-fogo. Quando vi quantos estavam esperando, quis desistir, mas Spaulding n�o deixou. N�o sei como conseguiu, mas empurrou e acotovelou at� que atravessamos a multid�o e chegamos aos degraus que levavam ao escrit�rio. Havia duas filas nas escadas, uma subindo, esperan�osa, outra descendo, desanimada.</p><p>- Sua experi�ncia foi muito interessante - disse Holmes, quando seu cliente parou e refrescou a mem�ria com uma imensa pitada de rap�. - Por favor, continue sua narrativa.</p><p>- O escrit�rio continha apenas duas cadeiras de madeira e uma mesa de pinho, atr�s da qual sentava um pequeno homem com cabelos ainda mais vermelhos que os meus. Dizia algumas palavras a cada candidato que se aproximava e sempre conseguia encontrar alguma coisa de errado que os desqualificava. Obter uma vaga n�o parecia ser assim t�o f�cil. Mas quando chegou a nossa vez o homenzinho foi mais favor�vel a mim do que aos outros e fechou a porta quando entramos, para termos alguma privacidade.</p><p>- Este � o Sr. Jabez Wilson, disse meu assistente, que deseja ocupar uma vaga na Liga.</p><p>- Muito apropriado, respondeu o outro. Tem todos os requisitos. N�o me lembro de ter visto outro assim. Deu um passo atr�s, inclinou a cabe�a e olhou meu cabelo at� eu ficar encabulado. De repente avan�ou, segurou minha m�o e me congratulou pelo meu sucesso.</p><p>- Seria uma injusti�a hesitar, disse. Mas vai me perdoar, tenho certeza, por tomar uma precau��o �bvia. Dizendo isso, segurou meus cabelos com ambas as m�os e puxou at� eu gritar de dor. Seus olhos est�o cheios de l�grimas, disse, me soltando. Tudo est� como devia ser. Mas temos de ter cuidado, pois j� fomos enganados duas vezes com perucas e com tinta. Poder-lhes-ia contar hist�rias que os deixariam desiludidos com a natureza humana. Foi at� a janela e gritou em voz alta que a vaga havia sido preenchida. As exclama��es dos desapontados subiram at� n�s e a multid�o dispersou em dire��es diferentes, at� que n�o havia mais nenhum ruivo a n�o ser o gerente e eu.</p><p>- Meu nome, disse ele, � Duncan Ross e sou um dos benefici�rios do fundo deixado por nosso nobre benfeitor. O senhor � casado, Sr. Wilson? Tem fam�lia?</p><p>Respondi que n�o.</p><p>- Ah!, disse, muito grave. Isso � mau, muito mau! Sinto muito ouvi-lo dizer isso. O fundo �, naturalmente, para a propaga��o dos ruivos, assim como para sua manuten��o. � extremamente infeliz que seja solteiro.</p><p>- Fiquei triste com isso, Sr. Holmes, pois pensei que n�o ia conseguir a vaga afinal. Mas depois de pensar uns instantes, ele disse que n�o fazia mal.</p><p>- Se fosse outra pessoa, disse, isso poderia ser fatal, mas devemos fazer uma concess�o considerando a cor de seus cabelos. Quando poder� assumir seu cargo?</p><p>- Bem, � um pouco dif�cil, pois tenho o meu neg�cio, respondi.</p><p>- Ora, n�o se importe com isso, Sr., disse Vincent Spaulding. Posso tomar conta disso para o senhor.</p><p>- Qual seria o hor�rio?, perguntei.</p><p>- Das dez �s duas.</p><p>- O neg�cio de penhores, Sr. Holmes, funciona mais � noite, especialmente nas quintas e sextas, perto do dia de pagamento, portanto, me convinha ganhar alguma coisa nas manh�s. Al�m disso, sabia que meu assistente era bom e que poderia resolver qualquer problema que surgisse.</p><p>- Isso me conv�m, disse. E quanto ao pagamento?</p><p>- Quatro libras por semana.</p><p>- E o trabalho?</p><p>- Onze, puramente nominal.</p><p>- O que chama de puramente nominal?</p><p>- Bem, tem de estar no escrit�rio, ou pelo menos no pr�dio, todo o tempo. Se sair, perde sua posi��o para sempre. O testamento � muito claro nesse ponto. N�o preencher� as condi��es se ausentar do pr�dio nesse per�odo. Somente quatro horas por dia e n�o pensaria em sair - respondi. - Nenhuma desculpa ser� aceita, disse o Sr. Duncan Ross, nem doen�a, nem neg�cios, nem qualquer outra coisa. Tem de ficar aqui, ou perde esta posi��o.</p><p>- E o trabalho?</p><p>- � copiar a Enciclop�dia Brit�nica. O primeiro volume est� ali. O senhor fornece tinta, canetas e papel e n�s fornecemos essa mesa e cadeira. Pode come�ar amanha?</p><p>- Certamente, respondi.</p><p>- Ent�o, at� logo, Sr. Jabez Wilson, e deixe-me cumpriment�-lo mais uma vez pela posi��o importante que teve a sorte de conseguir. Levou-me at� a porta e fui para casa com meu assistente, sem saber o que dizer ou fazer, pois estava t�o contente com minha sorte.</p><p>- Pensei no assunto o dia inteiro e � noite estava deprimido, pois me convenci que tudo isso devia ser uma grande fraude, embora n�o pudesse imaginar qual o motivo. Parecia totalmente imposs�vel que algu�m tivesse feito tal testamento e que pagassem essa quantia simplesmente para copiar a Enciclop�dia Brit�nica. Vincent Spaulding fez tudo para me animar, mas na hora de dormir eu tinha mentalmente cancelado tudo. Mas de manh� resolvi que ia ver, de qualquer maneira, e comprei um vidrinho de tinta e uma pena, sete folhas de papel alma�o, e fui para a Pra�a Pope.</p><p>- Para minha surpresa tudo estava certinho. A mesa estava pronta para mim e o Sr. Duncan Ross estava l� para me ver come�ar a trabalhar. Lan�ou-me na letra A e saiu, mas disse que voltaria de vez em quando para ver como eu ia. �s duas horas desejou-me um bom-dia, cumprimentou-me pelo que tinha feito at� ent�o e trancou a porta do escrit�rio quando sa�.</p><p>- Isso continuou por v�rios dias, Sr. Holmes, e no s�bado o gerente entrou e colocou quatro libras de ouro na mesa pelo trabalho de uma semana. O mesmo aconteceu na semana seguinte, e na outra. Todo dia eu chegava �s dez e sa�a �s duas. Aos poucos o Sr. Duncan Ross come�ou a vir s� uma vez de manh� e depois de algum tempo, nem isso. Mas � claro que eu n�o ousava sair da sala nem por um minuto, pois n�o tinha certeza quando ele viria e o lugar era t�o bom e t�o conveniente para mim que n�o arriscaria perd�-lo.</p><p>- Passaram-se oito semanas assim, e eu escrevera sobre Abades, e Arqueiros e Arte, e Arquitetura e esperava entrar no B muito em breve. Gastei um bocado em papel e quase enchera uma prateleira, quando tudo terminou.</p><p>- Terminou?</p><p>- Sim, senhor. Esta manh�. Fui trabalhar, como de costume, �s dez horas, mas a porta estava fechada e trancada, e havia um peda�o de papel preso com uma tacha. Aqui est�, pode ver. Estendeu um papel que dizia:</p><p>��A Liga Ruiva foi extinta. 9 de outubro de 1890�.</p><p>Sherlock Holmes e eu estudamos a breve not�cia e o rosto tristonho do cliente at� que o lado c�mico do assunto predominou e ambos come�amos a rir.</p><p>- N�o vejo nada de engra�ado - disse nosso cliente, com o rosto t�o vermelho quanto seus cabelos de fogo. - Se s� podem rir de mim, vou procurar aux�lio em outro lugar.</p><p>- N�o, n�o - exclamou Holmes, fazendo-o sentar novamente. - N�o perderia seu caso de maneira nenhuma. � maravilhosamente original. Mas me perdoe se disser que h� alguma coisa um pouquinho engra�ada em tudo isso. Diga-me, o que fez quando viu o papel na porta?</p><p>- Fiquei estatelado, senhor. N�o sabia o que fazer. Perguntei nas salas ao lado, mas ningu�m sabia nada. Finalmente, fui procurar o senhorio, que � um contador que mora no andar t�rreo, e perguntei se podia me dizer o que tinha acontecido com a Liga Ruiva. Ele disse que nunca ouvira falar nisso. Ent�o perguntei quem era o Sr. Duncan Ross. Respondeu que n�o conhecia o nome.</p><p>- Bem, eu disse, o cavalheiro da sala n� 4.</p><p>- Ora, o homem de cabelos vermelhos?</p><p>- Sim.</p><p>- Ah!, respondeu. Seu nome era William Morris. Era um advogado e estava usando a sala temporariamente at� seu escrit�rio ficar pronto. Mudou-se ontem.</p><p>- Onde posso encontr�-lo?</p><p>- No seu novo endere�o. Ele me deu, sim. Rua Frei Eduardo, 17, perto de S. Paul.</p><p>- Fui at� l�, Sr. Holmes, mas quando cheguei vi que era uma f�brica de r�tulas artificiais e ningu�m l� ouvira falar do Sr. William Morris ou do Sr. Duncan Ross.</p><p>- O que fez ent�o? - perguntou Holmes.</p><p>- Fui para casa e pedi a opini�o de meu assistente, mas ele n�o p�de me ajudar. S� disse que esperasse e talvez soubesse alguma coisa pelo correio. Mas isso n�o era bastante, Sr. Holmes. N�o queria perder essa posi��o sem lutar, por isso vim aqui procurar o senhor, pois sabia que d� conselhos a pessoas em apuros.</p><p>- E fez muito bem - retorquiu Holmes. - Seu caso � altamente original e terei muito prazer em estud�-lo. Pelo que me contou, acho poss�vel que tenha conseq��ncias muito mais graves do que pode parecer.</p><p>- J� s�o graves bastante - exclamou o Sr. Jabez Wilson. - Perdi quatro libras por semana.</p><p>- No que lhe diz respeito - comentou Holmes - n�o vejo o que possa reclamar dessa extraordin�ria Liga. Pelo contr�rio, o senhor ganhou umas trinta libras, al�m de ter aprendido alguma coisa copiando a letra A. N�o perdeu nada.</p><p>- N�o senhor. Mas quero descobrir quem s�o e qual era seu objetivo em fazer essa brincadeira, se � que era brincadeira, comigo. Custou bem caro, exatamente trinta e duas libras.</p><p>- Vamos tentar esclarecer isso para o senhor, Sr. Wilson. Primeiro, deixe-me fazer-lhe umas perguntas. Esse seu assistente que chamou sua aten��o para o an�ncio... quanto tempo est� com o senhor?</p><p>- Naquela ocasi�o, mais ou menos um m�s.</p><p>- Como o conheceu?</p><p>- Respondeu a um an�ncio.</p><p>- Foi o �nico candidato?</p><p>- N�o, houve uma d�zia.</p><p>- Por que o escolheu?</p><p>- Por que tinha boa vontade e trabalhava barato.</p><p>- Pela metade do pre�o, na verdade.</p><p>- Sim.</p><p>- Como � esse Vincent Spaulding?</p><p>- Baixo, gorducho, de movimentos muito r�pidos, rosto sem p�los, apesar de ter pelo menos trinta anos. Tem uma mancha branca de �cido na testa.</p><p>Holmes empertigou-se na cadeira, visivelmente excitado.</p><p>- � o que pensei - disse. - Por acaso notou se tem as orelhas furadas para brincos?</p><p>- Sim, senhor. Ele disse que uma cigana fizera isso quando ele era crian�a.</p><p>- Hum - disse Holmes, recostando-se, pensativo.</p><p>- Ah, sim. Acabei de deix�-lo.</p><p>- E seus neg�cios correram bem em sua aus�ncia?</p><p>- N�o posso me queixar.</p><p>- Muito bem, Sr. Wilson. Terei o prazer de lhe dar uma not�cia sobre esse assunto dentro de um dia ou dois. Hoje � s�bado, espero que na segunda-feira tenha chegado a uma conclus�o.</p><p>- Bem, Watson, - disse Holmes, quando nosso visitante saiu - o que acha disso tudo?</p><p>- N�o acho nada - respondi, com toda a franqueza. - � um neg�cio muito misterioso.</p><p>- Em geral - retorquiu Holmes - quanto mais bizarra uma coisa, menos misteriosa �. Os crimes comuns � que s�o realmente dif�ceis, da mesma maneira que um rosto comum � o mais dif�cil de identificar.</p><p>- O que vai fazer? - perguntei.</p><p>- Fumar - respondeu. - � problema para tr�s cachimbos e pe�o que n�o fale comigo por cinq�enta minutos. - Enroscou-se na cadeira, com os joelhos encostando no nariz adunco, e l� ficou, de olhos fechados, com o cachimbo de barro preto se projetando da boca como o bico de um p�ssaro estranho. Cheguei � conclus�o que adormecera, e cabeceava de sono eu mesmo, quando de repente saltou da cadeira com o gesto de um homem que tivesse tomado uma resolu��o e colocou o cachimbo na prateleira acima da lareira.</p><p>- Est�o tocando em St. James' Hall hoje � tarde - disse. - o que acha, Watson? Seus doentes podem dispensar voc� por algumas horas?</p><p>- N�o tenho nada a fazer hoje. Minha clientela nunca me absorve muito.</p><p>- Ent�o pegue seu chap�u e vamos. Vou passar pela cidade primeiro e podemos almo�ar no caminho. Notei que h� muitas pe�as alem�s no programa, que me agradam muito mais que a m�sica italiana ou francesa. � introspectiva, e quero ser introspectivo. Vamos!</p><p>Fomos de metr� at� Aldersgate e uma curta caminhada nos levou � Pra�a Saxe-Coburg, cena da hist�ria singular que ouv�ramos de manh�. Era um lugar pequeno, mesquinho, onde quatro filas de casas de tijolo de dois andares, encardidas, enfrentavam uma �rea cercada, onde um gramado de grama e mato e umas moitas desbotadas lutavam heroicamente contra a atmosfera carregada de fuma�a. Tr�s bolas douradas e um cartaz marrom onde estava escrito �JABEZ WILSON� em letras brancas proclamavam, na casa da esquina, o lugar onde nosso cliente ruivo tinha seu neg�cio. Sherlock Holmes parou em frente da casa e a examinou detalhadamente, com a cabe�a inclinada de lado e os olhos brilhando entre p�lpebras semicerradas. Depois seguiu rua acima e voltou, olhando ainda atentamente para as casas. Finalmente voltou para a loja de penhores e, ap�s bater vigorosamente na cal�ada com a bengala duas ou tr�s vezes, foi at� a porta e bateu. Foi imediatamente aberta por um rapaz de ar esperto, imberbe, que o convidou a entrar.</p><p>- Obrigado - disse Holmes - s� queria saber o caminho do Strand.</p><p>- Terceira � direita, quarta � esquerda - respondeu o assistente e fechou a porta.</p><p>- Rapaz esperto, esse - observou Holmes enquanto nos afast�vamos. - Na minha opini�o � o quarto homem mais esperto de Londres, e n�o aposto que n�o seja o terceiro. Sei alguma coisa sobre ele.</p><p>- Evidentemente - eu disse - o assistente do Sr. Wilson � respons�vel por grande parte desse mist�rio da Liga Ruiva. Estou certo de que voc� perguntou o caminho somente para v�-lo.</p><p>- Ele n�o.</p><p>- O que, ent�o?</p><p>- Os joelhos de suas cal�as.</p><p>- E o que viu?</p><p>- O que esperava ver.</p><p>- Por que bateu na cal�ada?</p><p>- Meu caro Doutor, est� na hora de observar, n�o de falar. Somos estranhos em territ�rio inimigo. Sabemos algo sobre a Pra�a Saxe-Coburg. Vamos agora explorar os caminhos atr�s dela.</p><p>A estrada em que nos encontramos quando viramos a esquina da Pra�a Coburg era um contraste t�o grande quanto a frente e as costas de um quadro. Era uma das art�rias principais que levava o tr�nsito da cidade para o Leste e para o Oeste. O asfalto estava completamente bloqueado por um duplo fluxo constante, enquanto que as cal�adas estavam negras com a multid�o de pedestres. Era dif�cil conceber, ao olhar as lindas lojas e imponentes edif�cios, que est�vamos logo atr�s da pra�a estagnada e desbotada que acab�vamos de deixar.</p><p>- Deixe-me ver - disse Holmes, de p� na esquina e olhando em volta. Gostaria de me lembrar da ordem das casas, � um dos meus hobbies conhecer bem Londres. Ali est� Mortimer, a tabacaria, a lojinha de jornais, a Coburg do Banco City and Suburban, o Restaurante Vegetariano e o armaz�m de carruagens de McFarlane. Isso nos leva ao outro quarteir�o. E agora, Doutor, j� fizemos nosso trabalho e est� na hora de nos divertir. Um sandu�che e uma x�cara de caf� e depois � terra do violino, onde tudo � do�ura e delicadeza e harmonia, e n�o h� nenhum cliente ruivo para nos aborrecer com seus problemas.</p><p>Meu amigo era um m�sico entusiasta, e n�o s� tocava muito bem, como era compositor de grande m�rito. Passou a tarde inteira na poltrona de orquestra mergulhado na mais perfeita felicidade, abalando delicadamente os longos dedos finos no compasso da m�sica, com o rosto sorrindo brandamente e olhos l�nguidos e sonhadores, totalmente diferente de Holmes, o ca�ador de homens; Holmes o implac�vel, de mente agu�ada, perseguidor de criminosos. Em sua personalidade singular, essa dualidade de natureza se estava alternadamente, e sua extrema precis�o e ast�cia representavam, como sempre pensei, a rea��o contra o estado po�tico e contemplativo que ocasionalmente predominava. Essa oscila��o de sua natureza o levava do extremo a uma energia devoradora; e, como eu bem sabia, ele se tornava verdadeiramente terr�vel quando, dias a fio, ficava sentado em sua poltrona afundado em improvisa��es e na famosa cole��o de edi��es de livros. Era ent�o que a �nsia da ca�ada o atingia subitamente, e que seus poderes brilhantes subiam ao n�vel da intui��o, e aqueles que desconheciam seus m�todos o olhavam de banda, como se fosse um homem de conhecimentos n�o revelados a outros mortais. Quando o vi aquela tarde, absorto na m�sica, senti que algo ia muito mal.</p><p>- Quer ir para casa, sem d�vida, Doutor - observou, ao sairmos.</p><p>- Sim, acho melhor.</p><p>- E eu tenho algo a fazer que vai levar algumas hora. Esse caso da Coburg � bastante grave.</p><p>- Por que grave?</p><p>- Um consider�vel crime est� sendo planejado. Tenho quase certeza absoluta que temos tempo de sust�-lo. Mas como hoje � s�bado, isso complica as coisas. Vou precisar de seu aux�lio hoje � noite.</p><p>- A que horas?</p><p>- Dez est� bem.</p><p>- Estarei na Baker Street �s dez.</p><p>- Muito bem. Um momento, Doutor. Pode haver algum perigo. Leve seu rev�lver do Ex�rcito no bolso. - Acenou com a m�o, virou-se e imediatamente sumiu na multid�o.</p><p>Eu n�o sou mais parvo que meus semelhantes, mas sempre me senti oprimido por uma sensa��o de minha pr�pria estupidez quando lidava com Sherlock Holmes. Dissera que era um homem tem�vel, um homem que poderia estar envolvido em jogadas perigosas. Tentei resolver o enigma, mas desisti desanimado e pus o assunto de lado at� que a noite trouxesse uma explica��o.</p><p>Faltavam quinze para as nove quando sa� de casa e atravessei o Parque da Rua Oxford at� a Baker Street. Dois cabriol�s estavam parados � porta e, ao entrar no corredor, ouvi o som de vozes vindo de dentro. Ao entrar na sala, encontrei Holmes conversando animadamente com dois homens, um dos quais reconheci como sendo Peter Jones, agente oficial da pol�cia. O outro era um homem alto e magro, de rosto triste, com um chap�u e um fraque opressivamente respeit�vel.</p><p>- O grupo est� completo - disse Holmes, abotoando o casaco o pegando um chicote junto � parede. - Acho que conhece o Sr. Jones, da Scotland Yard. Deixe-me apresent�-lo ao Sr. Merryweather, que ser� nosso companheiro na aventura de hoje � noite.</p><p>- Estamos aos pares novamente como o senhor v�, Doutor.</p><p>Jones disse, de maneira pomposa: - Nosso amigo aqui � maravilhoso para com ca�adas. S� precisa de um c�o velho para ajud�-lo a pegar a ca�a.</p><p>- Espero que a ca�ada n�o seja de todo infrut�fera - observou o Merryweather sombriamente.</p><p>- Pode ter toda confian�a no Sr. Holmes, senhor - disse o agente de pol�cia com ar superior. - Tem seus m�todos especiais, que s�o um pouco te�ricos e fant�sticos, mas tem tudo para um detetive. N�o � exagero dizer que uma ou duas vezes, como no caso do tesouro de Agra, ele estava mais certo do que a for�a.</p><p>- Oh, se � o senhor que o diz, Sr. Jones, est� tudo bem! - disse respeitosamente. - Mas devo confessar que sinto falta do meu jogo. O primeiro s�bado � noite em mais de vinte e sete anos que perco o jogo.</p><p>- Acho que vai descobrir - observou Sherlock Holmes - que as partidas de hoje � noite ser�o as mais altas de sua vida e o jogo muito mais excitante. Para o senhor, Sr. Merryweather, ser�o aproximadamente trinta mil libras; e para voc�, Jones, ser� o homem que voc� tanto queria preender.</p><p>- John Clay, o assassino, ladr�o, arrombador e fals�rio. � um rapaz jovem, Sr. Merryweather, mas est� � cabe�a de sua profiss�o, e preferiria votar nele do que em qualquer outro criminoso de Londres. � um homem, esse jovem John Clay. Seu av� era um duque real, e ele freq�entou as universidades de Eton e Oxford. Seu c�rebro � t�o astuto quanto seus dedos, e, embora encontremos sinais dele em toda parte, nunca sabemos onde � que o homem est�. Rouba um banco na Esc�cia uma semana e angaria fundos para construir um orfanato na Cornu�lia na semana seguinte. Estou em sua pista h� anos, e nem sequer consegui v�-lo at� hoje.</p><p>- Espero ter o prazer de apresent�-los hoje. Tamb�m tive um ou dois epis�dios com o Sr. John Clay e concordo que est� � frente. J� passa das dez, entretanto, e est� na hora de irmos. Tomem o primeiro carro, que Watson e eu seguiremos no segundo.</p><p>Sherlock Holmes n�o estava muito comunicativo durante a longa via, e recostou-se no carro cantarolando as m�sicas que ouvira durante a tarde. Chocalhamos por um labirinto infinito de ruas iluminadas a g�s at� sa�rem na rua.</p><p>- Estamos perto - comentou meu amigo. - Esse camarada Merryweather, � diretor de um banco e est� pessoalmente interessado nesse assunto. N�o � m� pessoa, embora seja um perfeito exemplar em sua profiss�o. Tem uma grande virtude: tem a coragem de um c�o e a tenacidade de uma lagosta quando enfia as garras em algu�m. Aqui, est�o � nossa espera.</p><p>Hav�amos chegado � mesma estrada apinhada de carruagens em que estiv�ramos naquela manh�. Despedimos os cabriol�s e passamos por estreito corredor e atravessamos uma porta lateral que o Sr. Merryweather abriu para n�s. Dentro havia uma pequena passagem que terminava em um tremendo port�o de ferro. Esse foi tamb�m aberto e levava a um lan�o de degraus de pedra em caracol que terminava em outro port�o maci�o. O Sr. Merryweather parou para acender uma lanterna e nos conduziu ent�o por uma passagem escura, cheirando a terra �mida, e, ap�s abrir uma terceira porta, a um imenso por�o ou caverna, na qual se empilhavam caixas volumosas e caixotes.</p><p>- N�o estamos muito vulner�veis l� de cima - observou Holmes, segurando a lanterna e olhando em volta.</p><p>- Nem por baixo - disse o Sr. Merryweather, batendo com a bengala nas pedras que forravam o ch�o. - Mas que � isso, parecem ocas - exclamou, erguendo os olhos surpresos.</p><p>- Pe�o-lhe encarecidamente que fique quieto - disse Holmes severamente. - J� p�s em perigo o sucesso de nossa expedi��o. Posso lhe pedir a gentileza de sentar em uma dessas caixas e n�o interferir?</p><p>O solene Sr. Merryweather sentou-se em um caixote, com uma express�o injuriada, e Holmes ajoelhou-se no ch�o e, com a lanterna e uma lente, come�ou a examinar detalhadamente as fendas entre as pedras. Uns poucos segundos foram suficientes e p�s-se de p� novamente, satisfeito, colocando a lente no bolso.</p><p>- Temos pelo menos uma hora � nossa frente - comentou - porque nada podem fazer at� que o bom agiota esteja quieto na cama. Ent�o n�o perder�o um segundo, pois quanto mais cedo terminarem seu trabalho, mais tempo ter�o para escapar. Estamos no momento, Doutor, como sem d�vida deve ter adivinhado, no por�o da ag�ncia de um dos bancos principais de Londres. O Sr. Merryweather � o presidente e ele lhe explicar� por que h� raz�es para os criminosos mais audaciosos de Londres estarem muito interessados neste por�o no momento.</p><p>- � nosso ouro franc�s - murmurou o presidente. - Tivemos v�rios avisos de que poderia ser feita uma tentativa de assalto.</p><p>- Seu ouro franc�s?</p><p>- Sim. H� alguns meses, tivemos oportunidade de aumentar nossas reservas e tomamos um empr�stimo de trinta mil napole�es do Banco da Fran�a. � sabido que n�o t�nhamos desempacotado o dinheiro e que ele continuava em nosso por�o. O caixote no qual estou sentado cont�m dois mil napole�es arrumados entre camadas de folhas de chumbo. Nossa reserva de ouro � muito maior no momento do que � normal em uma �nica ag�ncia e os diretores estavam muito receosos.</p><p>- E com raz�o - comentou Holmes. - E agora est� na hora de fazermos nossos planos. Espero que dentro de uma hora as coisas se resolvam. Nesse �nterim, Sr. Merryweather, devemos colocar um anteparo naquela lanterna escura.</p><p>- E ficar no escuro?</p><p>- Receio que sim. Trouxe um baralho comigo e pensei que poder�amos jogar cartas. Mas vejo que os preparativos do inimigo est�o t�o avan�ados que n�o podemos arriscar uma luz. E, em primeiro lugar, temos de escolher nossas posi��es. S�o homens audazes, e embora tenhamos surpresas, podem nos fazer algum mal. Ficarei atr�s dessa caixa e os senhores se escondam atr�s daquelas. Quando jogar alguma luz em cima deles, fechem o c�rculo rapidamente. Se atirarem, Watson, n�o hesite em fazer fogo sobre eles.</p><p>Coloquei o rev�lver, engatilhado, sobre a caixa atr�s da qual me escondi. Holmes escureceu a lanterna e nos deixou em completa escurid�o, a mais negra que jamais vira. O cheiro de metal quente permanecia para nos lembrar que a luz continuava l�, pronta a ser revelada quando necess�rio. Para mim, com os nervos tensos de espera, havia algo deprimente no s�bito negrume e no ar frio e �mido da caverna.</p><p>- S� t�m uma sa�da - murmurou Holmes - pela casa, para a Pra�a Saxe-Coburg. Espero que tenha feito o que lhe pedi, Jones?</p><p>- Um inspetor e dois oficiais est�o � espera na porta da frente.</p><p>- Ent�o tapamos todos os buracos. E agora temos de ficar calados.</p><p>Como o tempo custou a passar! Quando comparamos impress�es depois, fora s� uma hora e um quarto, mas me pareceu ent�o que a noite j� havia passado e a madrugada estava raiando acima de n�s. As pernas e bra�os me do�am, pois temia mudar de posi��o e meus nervos estavam na maior tens�o; os ouvidos estavam t�o agu�ados que ouvia perfeitamente a respira��o de meus companheiros e chegava at� a distinguir a inspira��o mais pesada do corpulento Jones e a nota fina e alta do presidente do banco. Do meu lugar, podia olhar sobre a caixa em dire��o ao ch�o. De repente meus olhos vislumbraram o reluzir de uma luz.</p><p>A princ�pio era somente uma centelha no ch�o de pedra. Depois aumentou at� se tomar uma linha amarela e ent�o, sem nenhum ru�do ou aviso, uma fenda pareceu se abrir e surgiu uma m�o, muito branca, quase feminina, que apalpou o centro da pequena �rea iluminada. Por um minuto ou mais a m�o, com seus dedos contorcidos, projetou-se do ch�o. Depois retirou-se t�o s�bito quanto havia aparecido e tudo foi escurid�o novamente, exceto a �nica centelha que marcava a fenda entre as pedras.</p><p>Esse desaparecimento, entretanto, foi apenas moment�neo. Com um movimento brusco, uma das largas pedras brancas foi virada de lado e deixou um buraco quadrado escancarado pelo qual jorrava a luz de uma lanterna. Na borda surgiu um rosto jovem que olhou vivamente ao redor e ent�o, com uma das m�os em cada lado da abertura, foi-se erguendo at� emergirem os ombros e finalmente um joelho se apoiar na borda. Mais um instante, e estava de p� junto ao buraco e puxava um companheiro para cima, esguio e pequeno como ele mesmo, com rosto p�lido e cabelos cor-de-fogo.</p><p>- Tudo bem - murmurou. - Voc� tem o form�o e os sacos. Deus meu! Pule, Rachei, pule que eu me defendo. Sherlock Holmes saltara e segurara o intruso pelo colarinho. O outro mergulhou no buraco e ouvi o ru�do de fazenda rasgando quando Jones agarrou-o pelo palet�. A luz reluziu no cano de um rev�lver, mas o chicote de Holmes bateu no pulso do homem e a pistola caiu no ch�o de pedra.</p><p>- N�o adianta, John Clay - disse Holmes calmamente - voc� n�o tem a menor chance.</p><p>- Estou vendo - respondeu o outro, completamente senhor de si. - Acho que meu companheiro est� bem, embora voc� tenha ficado com a aba de seu casaco.</p><p>- H� tr�s homens esperando por ele na porta - disse Holmes.</p><p>- Olhe, � mesmo? Parece que tomou todas as provid�ncias necess�rias. Devo cumpriment�-lo.</p><p>- E eu a voc� - respondeu Holmes. - Sua id�ia ruiva foi uma novidade e muito eficiente.</p><p>- Vai ver seu companheiro novamente daqui a pouco - disse Jones- Ele � mais r�pido em descer por buracos do que eu. Estenda as m�os para eu colocar as algemas.</p><p>- Pe�o que n�o me toque com suas m�os imundas - disse nosso prisioneiro quando as algemas fecharam-se ruidosamente em seus punhos. - Talvez n�o saiba que tenho sangue azul nas veias. E tenha a bondade de se dirigir a mim sempre dizendo �senhor� e �por favor�.</p><p>- Est� bem - disse Jones, casquinando uns risinhos ir�nicos. - Bem, teria a bondade, senhor, de marchar l� para cima, onde poderemos pegar um cabriol� para levar sua alteza � delegacia.</p><p>- Assim est� melhor - disse John Clay serenamente. Fez uma cortesia a n�s tr�s e saiu calmamente sob a cust�dia do detetive.</p><p>- Realmente, Sr. Holmes - disse o Sr. Merryweather, ao sairmos do por�o - n�o sei como o banco pode lhe agradecer ou recompensar. N�o h� d�vida que o senhor descobriu e derrotou da maneira mais completa uma das mais audazes tentativas de assalto a banco de que jamais tive conhecimento em minha vida toda.</p><p>- Tinha uma ou duas contas a acertar com o Sr. John Clay - disse Holmes. - Tive algumas despesas com esse assunto, que espero que o banco cubra, mas fora disso considero-me amplamente recompensado por uma experi�ncia que �, de muitas formas, �nica, e por ter ouvido a extraordin�ria narrativa da Liga Ruiva.</p><empty-line/><p>* * *</p><empty-line/><p>- Sabe, Watson, - explicou de manh� cedinho, quando tom�vamos um u�sque com soda na Baker Street - era perfeitamente �bvio desde o in�cio que o �nico motivo poss�vel de toda essa hist�ria fant�stica do an�ncio da Liga e a Enciclop�dia Brit�nica era o de afastar esse agiota; algumas horas todos os dias. Foi uma maneira curiosa de alcan�ar o objetivo, mas � dif�cil sugerir uma melhor. Sem d�vida alguma a id�ia criativa de Clay pela associa��o com a cor dos cabelos.</p><p>As quatro libras por semana eram uma isca para atra�-lo, e o que era isso para eles, que jogavam com milhares? Colocaram o an�ncio; um bandido ocupa o escrit�rio tempor�rio, o outro o instiga a se candidatar, e juntos conseguem garantir sua aus�ncia todas as manh�s, a semana inteira. Desde que ouvi dizer que o assistente trabalhava por metade do sal�rio normal, vi que havia uma raz�o muito forte para querer esse lugar.</p><p>- Mas como p�de adivinhar qual era a raz�o?</p><p>- Se houvesse mulheres na casa, teria suspeitado de uma intriga mais vulgar. Mas esse n�o era o caso. O neg�cio era pequeno e n�o havia nada na casa que justificasse preparativos t�o elaborados e gastos t�o grandes. Ent�o tinha alguma coisa fora da casa. O que poderia ser? Pensei no amor do sujeito pela fotografia e seu h�bito de desaparecer no por�o. O por�o. A� esta o fim dessa meada embaralhada. Investiguei, ent�o, e descobri que se tratava de um dos mais frios e audazes criminosos de Londres. Estava fazendo alguma coisa no por�o que necessitava muitas horas por dia durante meses e meses. Mais uma vez, o que poderia ser? N�o pude imaginar nada, a n�o ser um t�nel para outro pr�dio.</p><p>- Estava nesse ponto em minhas dedu��es quando fomos visitar a cena da a��o. Surpreendi voc� quando bati na cal�ada com minha bengala. Estava verificando se o por�o vinha at� a frente da casa. N�o vinha. Ent�o toquei a campainha e, como esperava, o assistente atendeu. T�nhamos tido algumas escaramu�as, mas nunca nos hav�amos visto antes. Mal olhei para seu rosto; queria ver seus joelhos. Voc� mesmo deve ter observado como estavam gastos, passados e manchados. Revelavam aquelas horas e horas de escava��o. S� o que faltava ent�o era saber por que estavam cavando. Dei a volta � esquina, vi que o Banco City and Suburban dava fundos para a casa e senti que resolvera o problema. Quando voc� foi para casa ap�s o concerto, fiz uma visita � Scotland Yard e ao presidente do banco e o resultado foi o que voc� viu.</p><p>- E como sabia que fariam essa tentativa hoje � noite? - perguntei.</p><p>- Bem, quando fecharam os escrit�rios da Liga era sinal de que a presen�a do Sr. Jabez Wilson n�o mais importava. Em outras palavras, haviam terminado o t�nel. Mas era essencial que o usassem logo, pois podia ser descoberto, ou o ouro podia ser removido. S�bado era mais conveniente que qualquer outro dia, pois dava dois dias para efetuarem a fuga. Por essas raz�es, esperava que viessem hoje � noite.</p><p>- Deduziu tudo lindamente - exclamei com admira��o. - � uma longa cadeia mas cada elo � verdadeiro.</p><p>- Salvou-me do enfado - respondeu, bocejando. - Deus, j� o sinto se apossando de mim. Toda minha vida � um esfor�o para escapar do enfado do cotidiano. Esses pequenos problemas ajudam.</p><p>- E � um benfeitor da humanidade - retorqui.</p><p>Encolheu os ombros. - Bem, talvez, afinal de contas, sirva para alguma coisa - observou.</p><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong>um caso de identidade</strong></p><p>� Meu caro amigo � disse Sherlock Holmes, quando est�vamos sentados diante da lareira em seus aposentos na Baker Street �, a vida � infinitamente mais estranha do que qualquer fantasia concebida pelo homem. N�o ousar�amos imaginar coisas que s�o meros lugares-comuns da exist�ncia. Se pud�ssemos voar por aquela janela de m�os dadas, pairar sobre esta grande cidade, remover delicadamente os telhados e espiar as coisas esquisitas que est�o acontecendo, as estranhas coincid�ncias, os planos, os objetivos contr�rios, as maravilhosas cadeias de acontecimentos agindo atrav�s de gera��es e levando aos resultados mais absurdos, isso tornaria toda a fic��o, com suas conven��es e conclus�es �bvias, corriqueira e desinteressante.</p><p>� N�o estou convencido de que isso seja verdade � respondi. � Os casos relatados nos jornais s�o, em geral, vulgares e desprovidos de imagina��o. Nos relat�rios da</p><p>pol�cia o realismo chega a um limite extremo, mas o resultado n�o �, deve-se dizer, nem fascinante nem art�stico.</p><p>� Uma certa sele��o e a discri��o devem ser usadas para produzir um efeito realista � observou Holmes. � Isso falta nos relat�rios da pol�cia, que enfatizam mais, talvez, as banalidades dos ju�zes e n�o os detalhes que, para um observador, cont�m a ess�ncia da quest�o. Pode acreditar, n�o h� nada mais ins�lito que o corriqueiro.</p><p>Sorri e abanei a cabe�a. � Compreendo que voc� pense assim � disse. � Evidentemente, na sua posi��o de conselheiro extra-oficial e que ajuda todo mundo que est� completamente desorientado, em tr�s continentes, voc� entra em contato com tudo que h� de estranho e bizarro. Mas aqui � peguei o jornal que ca�ra no ch�o � podemos testar isso na pr�tica. Eis a primeira manchete: �Marido trata mulher com crueldade�. Ocupa meia coluna, mas sei tudo o que vai dizer, mesmo sem ler. Existe, naturalmente, a outra mulher, a bebida, o empurr�o, a pancada, o machucado, a irm� ou senhoria que tem pena dela. O escritor mais cru n�o poderia inventar nada mais nu e cru.</p><p>� Na verdade, seu exemplo � infeliz para seu argumento � disse Holmes, tirando o jornal das minhas m�os e dando uma olhada no artigo. � � o caso da separa��o dos Dundas e, por acaso, investiguei alguns detalhes dele. O marido n�o bebia, n�o havia nenhuma outra mulher, e a queixa quanto ao comportamento dele consistia no fato de que adquirira o h�bito de terminar todas as refei��es tirando a dentadura e atirando-a na esposa, o que, voc� h� de convir, n�o � coisa que ocorra � imagina��o do escritor comum. Tome uma pitada de rap�, doutor, e reconhe�a que tenho raz�o a respeito desse seu exemplo.</p><p>Estendeu uma caixinha de rap� de ouro velho, com uma enorme ametista no centro. Seu esplendor contrastava tanto com sua maneira simples de viver que n�o pude deixar de fazer um coment�rio.</p><p>� Ah � disse ele �, esqueci que n�o o vejo h� v�rias semanas. � uma pequena lembran�a do rei da Bo�mia pelo meu aux�lio do caso dos pap�is de Irene Adler.</p><p>� E o anel? � perguntei, olhando um maravilhoso brilhante que reluzia em seu dedo.</p><p>� Veio da fam�lia real da Holanda, mas o assunto em rela��o ao qual eu os ajudei � t�o delicado que n�o posso confi�-lo nem mesmo a voc�, que teve a bondade de escrever sobre um ou dois dos meus pequenos problemas.</p><p>� E tem algum que esteja estudando no momento? � perguntei, interessado.</p><p>� Uns dez ou 12, mas nenhum muito interessante. S�o importantes, voc� compreende, sem serem interessantes. Descobri que, em geral, � em assuntos n�o muito importantes que h� campo para a observa��o e para a r�pida an�lise de causa e efeito que d� tanto encanto a uma investiga��o. Os crimes maiores tendem a ser mais simples, pois quanto maior o crime, mais �bvio costuma ser o motivo. Nesses casos, exceto em um que me foi encaminhado de Marselha, n�o h� nenhum ponto interessante. Mas � poss�vel que tenha algo melhor dentro de poucos minutos, pois vem um de meus clientes, se n�o me engano.</p><p>Erguera-se e estava olhando por entre as cortinas a rua sombria de Londres. Ao me aproximar, vi que na cal�ada oposta estava uma mulher corpulenta com um abrigo de peles no pesco�o e uma enorme pluma vermelha em um chap�u de abas largas, inclinado sobre uma orelha, � maneira da duquesa de Devonshire. Debaixo dessa imensa prote��o, espreitava nossas janelas, nervosa e hesitante, enquanto o corpo oscilava de um lado para o outro e os dedos inquietos mexiam nos bot�es das luvas. De repente, num arremesso, como o nadador que se atira n��gua, atravessou rapidamente a rua e ouvimos o som agudo da campainha.</p><p>� J� vi esses sintomas antes � disse Holmes, jogando o cigarro na lareira. � Oscilar na cal�ada sempre significa um caso amoroso. Ela gostaria de conselhos, mas receia que o assunto seja delicado demais para ser comunicado a algu�m. E mesmo aqui ainda podemos perceber diferen�as. Quando uma mulher foi gravemente enganada por um homem, ela n�o oscila, e o sintoma habitual � um puxador de campainha quebrado. Aqui podemos presumir que se trata de um caso amoroso, mas que a jovem n�o est� zangada e sim perplexa, ou magoada. Mas a� vem ela em pessoa para esclarecer o assunto.</p><p>Enquanto ele falava, ouviu-se uma pancada na porta e o rapazinho de libr� entrou para anunciar a srta. Mary Sutherland, enquanto a pr�pria surgia atr�s da pequena figura dele como um navio mercante atr�s de um pequeno rebocador. Sherlock Holmes a recebeu com a sua conhecida cortesia e, fechando a porta, f�-la sentar-se numa poltrona, examinando-a minuciosamente, embora parecendo distra�do, como era seu costume.</p><p>� A senhorita n�o acha � disse finalmente � que com sua miopia � um pouco cansativo bater tanto � m�quina?</p><p>� No in�cio era mesmo � ela respondeu � mas agora sei onde est�o as letras sem precisar olhar. � Ent�o, percebendo de repente o verdadeiro significado das palavras dele, teve um sobressalto e olhou-o, com medo e espanto estampados em seu rosto largo e bem-humorado. � O senhor ouviu falar de mim, sr. Holmes � exclamou �, do contr�rio, como poderia saber isso?</p><p>� N�o importa � disse Holmes, rindo �, � parte de meu neg�cio saber coisas. Talvez eu esteja treinando para ver coisas que os outros n�o percebem. Se n�o fosse assim, por que a senhora me consultaria?</p><p>� Vim procur�-lo por indica��o da sra. Etherege, cujo marido o senhor encontrou t�o facilmente quando a pol�cia e todo mundo o consideravam morto. Oh, sr. Holmes, como gostaria que o senhor fizesse o mesmo por mim. N�o sou rica, mas ainda tenho 100 libras por ano al�m do que ganho com a datilografia, e as daria de bom grado para saber o que foi feito do sr. Hosmer Angel.</p><p>� Por que veio me consultar com tanta pressa? � perguntou Sherlock Holmes, juntando as pontas dos dedos e olhando para o teto.</p><p>Novamente um olhar de surpresa surgiu no rosto da srta. Mary Sutherland. � �, sa� �s pressas de casa � disse � porque fiquei zangada de ver como o sr. Windibank, isto �, meu pai, estava encarando tudo com tranq�ilidade. Ele n�o quis ir � pol�cia, e n�o quis vir procurar o senhor e, finalmente, como ele n�o ia fazer nada e continuava dizendo que n�o havia nada de errado, fiquei furiosa, peguei minhas coisas �s pressas e vim ver o senhor.</p><p>� Seu pai? � disse Holmes. � Seu padrasto, certamente, j� que o nome � diferente?</p><p>� Sim, meu padrasto. Eu o chamo de pai, embora soe engra�ado, porque ele � apenas cinco anos e dois meses mais velho do que eu.</p><p>� E sua m�e ainda vive?</p><p>� Ah, sim, mam�e est� viva e muito bem. N�o fiquei nada contente, sr. Holmes, quando ela se casou novamente logo depois da morte de meu pai, e com um homem que � quase 15 anos mais mo�o do que ela. Meu pai era bombeiro na Estrada Tottenham Court, e deixou um bom neg�cio de heran�a, que mam�e continuou com o sr. Hardy, o assistente, mas quando o sr. Windibank apareceu, fez com que ela vendesse o neg�cio, pois ele era muito superior como vendedor de vinhos. Conseguiram 4.700 libras por tudo, que n�o foi nem a metade do que papai conseguiria se estivesse vivo.</p><p>Eu esperava que Sherlock Holmes ficasse impaciente com essa narrativa inconseq�ente, mas, ao contr�rio, ele ouvia com a maior aten��o.</p><p>� Sua pequena renda � perguntou � vem da venda do neg�cio?</p><p>� Oh, n�o senhor, isso � separado, foi deixado para mim por meu tio Ned, de Auckland. S�o t�tulos da Nova Zel�ndia que rendem 4,5%. Duas mil e quinhentas libras, mas s� posso mexer nos juros.</p><p>� A senhorita me interessa muito � disse Holmes. � E como recebe a consider�vel quantia de 100 por ano, e mais o que ganha com seu trabalho, sem d�vida a senhorita viaja um pouco e se diverte bastante. Creio que uma mo�a solteira pode viver muito bem com uma renda de cerca de 60 libras por ano.</p><p>� Poderia viver com muito menos, sr. Holmes, mas compreenda que, enquanto eu viver em casa, n�o quero ser um fardo para eles, por isso usam meu dinheiro para as despesas. Claro que isso � s� enquanto eu ficar com eles. O sr. Windibank recebe os juros todos os trimestres e d� o dinheiro para minha m�e, e eu vivo muito bem com o que ganho com minha m�quina de escrever. Cobro 2 pence por p�gina e quase sempre bato de 15 a vinte p�ginas por dia.</p><p>� Deixou bem clara sua situa��o � disse Holmes. � Este � meu amigo, dr. Watson. Pode falar na frente dele com toda franqueza. Agora, tenha a bondade de nos contar sobre sua liga��o com o sr. Hosmer Angel.</p><p>O rosto da srta. Sutherland ficou corado e ela brincou nervosamente com a franja do casaco. � Eu o conheci no baile dos gasistas � disse. � Eles costumavam mandar entradas para papai quando era vivo e depois se lembraram de n�s e mandaram para mam�e. O sr. Windibank n�o queria que n�s f�ssemos. Nunca queria que f�ssemos a lugar nenhum. Ficava furioso at� quando eu queria ir a um piquenique da escola num domingo. Mas dessa vez eu resolvi ir, e ia mesmo, pois que direito ele tinha de me proibir? Ele disse que essas pessoas n�o eram dignas de n�s, mas todos os amigos de meu pai iam estar l�. E disse que eu n�o tinha nenhuma roupa decente para usar, e eu tinha meu vestido de veludo roxo que ainda nem tirara da gaveta, muito menos usado. Finalmente, quando viu que n�o podia fazer nada, foi para a Fran�a numa viagem de neg�cios e n�s fomos, mam�e e eu, com o sr. Hardy, que tinha sido assistente de papai, e foi l� que conheci o sr. Hosmer Angel.</p><p>� Imagino � disse Holmes � que, quando o sr. Windibank voltou da Fran�a, ficou muito aborrecido porque a senhorita foi ao baile.</p><p>� Ora, at� que ele reagiu muito bem. Riu e encolheu os ombros, e disse que n�o adiantava negar nada a uma mulher, pois ela arranjaria um jeito de fazer o que quisesse.</p><p>� Bem. Ent�o no baile dos gasistas a senhorita conheceu um cavalheiro chamado Hosmer Angel.</p><p>� Sim, senhor. Nos conhecemos naquela noite e ele nos visitou no dia seguinte para saber se t�nhamos chegado bem a casa, e depois disso n�s o encontramos... isto �, sr. Holmes, eu me encontrei com ele duas vezes para fazer um passeio, mas depois disso papai voltou e o sr. Hosmer Angel n�o podia mais ir l� em casa.</p><p>� N�o?</p><p>� Bem, o senhor compreende, papai n�o gostava disso. N�o queria nenhuma visita e costumava dizer que uma mulher devia sentir-se feliz em casa com sua pr�pria fam�lia. Mas como eu dizia � minha m�e, uma mulher quer sua pr�pria fam�lia, para come�ar, e eu ainda n�o tinha a minha.</p><p>� Mas o sr. Hosmer Angel n�o fez nenhuma tentativa de v�-la novamente?</p><p>� Bem, meu pai ia � Fran�a novamente uma semana depois, e Hosmer escreveu dizendo que seria melhor e mais seguro n�o nos vermos at� que ele viajasse. Pod�amos nos escrever nesse �nterim, e ele costumava mandar uma carta todos os dias. Eu pegava a correspond�ncia todas as manh�s, e assim meu pai n�o precisava saber de nada.</p><p>� A senhora estava noiva dele nessa ocasi�o?</p><p>� Ah, sim, sr. Holmes. Ficamos noivos depois do primeiro passeio que demos. Hosmer... o sr. Angel... era tesoureiro de uma firma na rua Leadenhall... e...</p><p>� Que firma?</p><p>� Esse � o problema, sr. Holmes, eu n�o sei.</p><p>� E onde ele morava?</p><p>� Dormia no escrit�rio.</p><p>� E n�o sabe o endere�o?</p><p>� N�o... s� que era na rua Leadenhall.</p><p>� Para onde mandava suas cartas, ent�o?</p><p>� Para a ag�ncia do correio da rua Leadenhall, para serem apanhadas l�. Ele disse que se eu mandasse as cartas para o escrit�rio, os outros empregados iam fazer tro�a dele por receber cartas de uma mo�a, ent�o sugeri bater � m�quina, como ele fazia com as dele, mas n�o quis, e disse que quando eu escrevia � m�o, ele sentia que vinham diretamente de mim, mas quando eram datilografadas, parecia que a m�quina se colocava entre n�s. Isso mostra como ele gostava de mim, sr. Holmes, e como pensava em todas essas coisinhas.</p><p>� Muito sugestivo � disse Holmes. � � um antigo axioma meu que as pequenas coisas s�o infinitamente mais importantes. Pode lembrar-se de outras pequenas coisas sobre o sr. Hosmer Angel?</p><p>� Era muito t�mido, sr. Holmes. Preferia andar comigo ao entardecer, quando escurecia, e n�o durante o dia, porque dizia que detestava chamar aten��o. Era muito retra�do e um verdadeiro cavalheiro. At� sua voz era delicada. Contou que tinha tido uma infec��o grave das am�gdalas quando era crian�a e isso o deixara com a garganta enfraquecida e uma maneira de falar meio hesitante, em voz muito baixa. Andava sempre muito bem-vestido, muito limpo, e tinha olhos fracos, como eu, por isso usava �culos escuros para proteg�-los do sol.</p><p>� Bem, e o que aconteceu quando o sr. Windibank, seu padrasto, voltou da Fran�a?</p><p>� O sr. Hosmer Angel foi l� em casa de novo e prop�s que nos cas�ssemos antes de papai voltar. Ele estava muito s�rio e me fez jurar sobre a B�blia que, independentemente do que acontecesse, eu sempre seria fiel a ele. Mam�e disse que ele estava certo por me fazer jurar, que era sinal de sua paix�o por mim. Mam�e estava do lado dele desde o in�cio e at� parecia gostar dele mais do que eu. Ent�o, quando eles passaram a falar em casamento dentro de uma semana, comecei a perguntar sobre papai, mas ambos disseram que eu n�o devia me preocupar, bastava contar a ele depois do casamento, e mam�e disse que ela acertaria tudo com ele. N�o gostei disso, sr. Holmes. Era engra�ado pedir o seu consentimento, j� que ele era s� alguns anos mais velho do que eu, mas n�o queria fazer nada escondido, de modo que escrevi a papai em Bordeaux, onde a companhia tinha escrit�rios, mas a carta me foi devolvida na manh� do casamento.</p><p>� N�o o encontrou, ent�o?</p><p>� N�o, porque ele partira de volta para a Inglaterra pouco antes de ela chegar.</p><p>� Ah! Isso foi azar. O casamento estava marcado, ent�o, para a sexta-feira. Ia ser na igreja?</p><p>� Sim, senhor, mas muito simples. Seria na igreja St. Saviour, perto de King�s Cross, e depois ir�amos almo�ar no Hotel St. Pancras. Hosmer veio nos buscar num cabriol�, mas como �ramos duas e n�o cabiam tr�s, ele nos fez entrar e tomou uma caleche de quatro rodas, que era o �nico carro de aluguel na rua �quela hora. Chegamos primeiro � igreja e quando a caleche chegou, ficamos esperando que ele saltasse, mas ningu�m saltou, e quando o cocheiro desceu da bol�ia e olhou para dentro, n�o havia ningu�m! O cocheiro disse que n�o podia imaginar o que tinha acontecido, pois vira direitinho quando ele subiu. Isso foi sexta-feira passada, sr. Holmes, e n�o vi nem ouvi nada desde ent�o que possa dar sequer uma id�ia do que aconteceu com ele.</p><p>� Parece que a senhora foi tratada de maneira infame � disse Holmes.</p><p>� Ah, n�o! Ele era bom e gentil demais para fazer isso. Ora, a manh� inteira ele ficou me dizendo que, n�o importava o que acontecesse, eu devia ser fiel a ele; e que mesmo que alguma coisa completamente inesperada sucedesse para nos separar, eu devia lembrar-me sempre de que estava comprometida com ele e que ele voltaria para mim mais cedo ou mais tarde. Era uma conversa um pouco estranha para o dia do casamento, mas o que aconteceu prova que havia um motivo.</p><p>� Isso � verdade. Sua opini�o, ent�o, � que alguma cat�strofe inesperada aconteceu com ele?</p><p>� Sim, senhor. Acredito que ele previu algum perigo, ou n�o teria falado assim. E ent�o o que ele previra aconteceu.</p><p>� Mas n�o tem nenhuma id�ia do que poderia ter sido?</p><p>� Nenhuma.</p><p>� Mais uma pergunta. Como sua m�e reagiu a isso?</p><p>� Ela ficou muito zangada e disse que eu nunca mais deveria mencionar o assunto.</p><p>� E seu pai? Contou-lhe tudo?</p><p>� Sim, e parece que ele pensou o mesmo que eu, que alguma coisa grave tinha acontecido e que eu teria not�cias de Hosmer algum dia. Como ele disse, por que motivo algu�m me levaria at� a porta da igreja e depois me deixaria? Se ele tivesse me pedido dinheiro emprestado, ou se tivesse se casado comigo e transferido meu dinheiro para ele, a� haveria uma raz�o. Mas Hosmer era muito independente quanto a dinheiro e nunca olharia para um tost�o meu. Mas, ent�o, o que poderia ter acontecido? E por que ele n�o escreveu? Oh, fico quase louca pensando nisso! E n�o consigo fechar os olhos � noite. � Tirou um lencinho da bolsa e come�ou a solu�ar.</p><p>� Vou examinar o caso para a senhorita � disse Holmes, erguendo-se � e n�o tenho d�vida de que chegaremos a algum resultado definitivo. Por enquanto, deixe que eu carregue esse fardo e n�o pense mais no assunto. Acima de tudo, procure apagar o sr. Hosmer Angel de sua mente, como ele se apagou de sua vida.</p><p>� Ent�o acha que nunca mais o verei?</p><p>� Receio que n�o.</p><p>� Mas o que aconteceu com ele?</p><p>� Esse problema fica em minhas m�os. Gostaria de uma descri��o exata dele, e tamb�m cartas dele que a senhora possa me emprestar.</p><p>� Pus um an�ncio no s�bado passado � ela disse. � Aqui est� o recorte do jornal, e aqui est�o quatro cartas dele.</p><p>� Obrigado. E seu endere�o?</p><p>� Lyon Place, 31, Camberwell.</p><p>� O endere�o do sr. Angel a senhora nunca soube, n�o � mesmo? Qual � o endere�o do escrit�rio de seu pai?</p><p>� Ele viaja para a firma Westhouse &amp; Marbank, os grandes importadores de vinho, na Fenchurch Street.</p><p>� Obrigado. Seu relato foi muito claro. Deixe os pap�is aqui e lembre-se do conselho que lhe dei. Esque�a o incidente, e n�o deixe que afete sua vida.</p><p>� O senhor � muito bondoso, sr. Holmes, mas n�o posso fazer isso. Serei fiel a Hosmer. Estarei pronta quando ele voltar.</p><p>Apesar do chap�u absurdo e do rosto pouco expressivo, havia algo nobre nessa f� singela de nossa cliente que inspirava respeito. Deixou o pequeno pacote de pap�is sobre a mesa e saiu, prometendo voltar sempre que fosse chamada.</p><p>Sherlock Holmes ficou sentado em sil�ncio durante alguns minutos, com as pontas dos dedos coladas, as pernas esticadas e os olhos grudados no teto. Depois tirou do descanso o velho cachimbo de barro que era seu conselheiro e, ap�s acend�-lo, recostou-se na poltrona, envolto em nuvens espessas de fuma�a, com um ar langoroso.</p><p>� Um estudo interessante, aquela mo�a � observou. � Achei-a muito mais interessante que o seu probleminha que, ali�s, � bastante comum. Se consultar meus arquivos, encontrar� casos semelhantes, como em Andover, em 1877, e um caso parecido em Haia, no ano passado. A id�ia � muito velha, mas havia um ou dois detalhes que eram novidade para mim. Mas a pr�pria mo�a era muito instrutiva.</p><p>� Parece que voc� viu nela muita coisa que � completamente invis�vel para mim � comentei.</p><p>� Invis�vel, n�o. Voc� n�o observou bem, Watson. N�o sabia onde procurar, e assim perdeu tudo que era importante. N�o consigo fazer voc� compreender a import�ncia das mangas, os ind�cios das unhas dos polegares ou as grandes quest�es que podem surgir de um cord�o de sapato. Agora, o que voc� deduziu da apar�ncia daquela mo�a? Descreva.</p><p>� Bem, usava um chap�u de palha de abas largas, de cor cinzenta, com uma pluma vermelho-tijolo. O casaco era preto, bordado com mi�angas pretas, com uma franja de pequenos ornamentos pretos. O vestido era marrom, mais escuro que caf�, com um babadinho de pel�cia roxa no pesco�o e nas mangas. As luvas eram cinzentas e havia um buraco no indicador direito. N�o vi suas botas. Usava brincos de ouro pequenos, redondos, pendurados e tinha uma apar�ncia geral de estar bem de vida, de uma maneira vulgar, confort�vel, meio relaxada.</p><p>Sherlock Holmes bateu palmas e deu uma risadinha.</p><p>� Realmente, Watson, voc� est� fazendo grandes progressos. Saiu-se muito bem mesmo. � verdade que n�o viu nada importante, mas aprendeu o m�todo e tem um bom olho para cores. Nunca confie na impress�o geral, amigo, concentre-se nos detalhes. Em um homem, talvez seja melhor observar primeiro os joelhos das cal�as. Na mulher, olho sempre para as mangas. Como voc� observou, essa mo�a tinha pel�cia nas mangas, e a pel�cia � um material excelente para mostrar vest�gios. A linha dupla, pouco acima do punho, onde a datil�grafa encosta na mesa, estava maravilhosamente definida. A m�quina de costura manual deixa uma marca semelhante, mas somente no bra�o esquerdo e do lado mais afastado do polegar, em vez de ser na parte mais larga, como neste caso. Olhei ent�o para o rosto e, vendo a depress�o causada por �culos nos dois lados do nariz, arrisquei um coment�rio sobre miopia e datilografia, o que pareceu surpreend�-la.</p><p>� Surpreendeu a mim.</p><p>� Mas, certamente, era �bvio. Fiquei, ent�o, muito surpreso e interessado quando olhei para baixo e vi que, embora as botas que usava n�o fossem totalmente diferentes, n�o eram realmente um par, pois uma tinha a biqueira enfeitada e a outra era completamente lisa. Uma estava abotoada somente em dois dos cinco bot�es, e a outra, no primeiro, no terceiro e no quinto. Ora, quando voc� v� uma mo�a vestida com esmero em tudo mais, que saiu de casa com botas diferentes e meio desabotoadas, n�o � nenhuma grande dedu��o dizer que saiu �s pressas.</p><p>� E o que mais? � perguntei, profundamente interessado, como sempre ficava, pelo racioc�nio incisivo de meu amigo.</p><p>� Notei, de passagem, que escrevera um bilhete antes de sair de casa, mas depois de estar toda vestida. Voc� viu que a luva direita estava rota no indicador, mas aparentemente n�o notou que tanto a luva quanto o dedo estavam manchados de tinta roxa. Escrevera com pressa e enfiara a pena no tinteiro fundo demais. Devia ter sido esta manh�, ou a mancha n�o estaria ainda t�o n�tida no dedo. Tudo isso � muito divertido, embora bastante elementar; mas tenho de trabalhar, Watson. Incomoda-se de ler para mim a descri��o do sr. Hosmer Angel no an�ncio?</p><p>Aproximei o recorte da luz. �Desaparecido�, dizia, �na manh� do dia 14, um cavalheiro chamado Hosmer Angel. Cerca de 1,68 metro, robusto, tez morena, cabelos pretos, ligeiramente careca no topo, costeletas pretas e bigode espesso, �culos escuros, ligeiro defeito de fala. Vestia, quando foi visto pela �ltima vez, sobrecasaca preta com lapelas de seda, colete preto, corrente de ouro �Albert� e cal�as cinzas de Harris, com polainas marrons sobre botas de el�stico. Sabe-se que trabalhava em um escrit�rio na rua Leadenhall. Qualquer pessoa que...� etc., etc.</p><p>� Isto basta � disse Holmes. � Quanto �s cartas � continuou, lan�ando um olhar para o pacote �, s�o muito comuns. Nenhuma pista do sr. Angel nelas, nada de excepcional, exceto que cita Balzac uma vez. Mas h� algo not�vel que sem d�vida impressionar� voc�.</p><p>� S�o datilografadas � comentei.</p><p>� N�o s� isso, mas a assinatura tamb�m. Veja a precis�o de �Hosmer Angel� no fim da p�gina. H� uma data, veja, mas n�o o endere�o do remetente, s� o nome da rua, o que � bastante vago. O detalhe da assinatura � muito sugestivo, acho que podemos at� dizer que � conclusivo.</p><p>� De qu�?</p><p>� Meu caro amigo, ser� poss�vel que voc� n�o veja como isso influencia o caso?</p><p>� N�o posso dizer que vejo, a n�o ser que ele quisesse negar a autoria das cartas se houvesse alguma a��o por quebra de promessa movida contra ele.</p><p>� N�o, n�o � isso. Mas, vou escrever duas cartas que devem resolver a quest�o. Uma � para uma firma na cidade, a outra � para o padrasto da mo�a, o sr. Windibank, perguntando se pode vir aqui amanh� �s 18 horas. � bem melhor tratar de neg�cios com os homens da fam�lia. E agora, doutor, n�o podemos fazer nada at� que cheguem as respostas a essas cartas, portanto, vamos arquivar nosso probleminha por enquanto.</p><p>Eu tinha raz�es de sobra para acreditar nos poderes sutis de racioc�nio de meu amigo e em sua extraordin�ria energia quando em a��o e por isso senti que ele devia ter bases muito s�lidas para manter essa atitude confiante diante do mist�rio singular que lhe fora apresentado para resolver. S� o vira fracassar uma vez, no caso do rei da Bo�mia e a fotografia de Irene Adler, mas quando lembrava o estranho caso do e as extraordin�rias circunst�ncias ligadas ao , sentia que s� uma trama extremamente complicada escaparia a seus poderes de an�lise.</p><p>Ent�o, deixei-o fumando ainda o cachimbo preto de barro, convencido de que ao voltar na noite seguinte veria que tinha nas m�os todas as chaves que nos levariam � identidade do noivo desaparecido da srta. Mary Sutherland.</p><p>Um caso profissional de extrema gravidade me ocupou nessa ocasi�o e passei o dia inteiro ao lado da cama de um paciente. Eram quase 18 horas quando pude sair e pegar um cabriol� para ir � Baker Street, receoso de chegar tarde demais para assistir ao final de nosso pequeno mist�rio. Mas encontrei Sherlock Holmes sozinho, meio adormecido, enroscado no fundo de sua poltrona. Uma cole��o formid�vel de vidros e tubos de ensaio, e o odor acre de �cido clor�drico demonstravam que passara o dia fazendo aquelas experi�ncias qu�micas de que tanto gostava.</p><p>� Ent�o, j� encontrou a solu��o? � perguntei ao entrar.</p><p>� Sim, era o bissulfato de baritina.</p><p>� N�o, n�o, do mist�rio! � exclamei.</p><p>� Oh, isso! Estava pensando no sal em que estava trabalhando. N�o havia mist�rio nenhum, embora, como eu disse ontem, alguns detalhes fossem interessantes. O �nico inconveniente � que n�o h� nenhuma lei, eu receio, que se aplique a esse patife.</p><p>� Quem era ele, e qual seu objetivo ao abandonar a srta. Sutherland?</p><p>Mal dissera essas palavras e Holmes ainda nem abrira a boca para responder, quando ouvimos passos pesados no corredor e uma batida na porta.</p><p>� � o padrasto da mo�a, o sr. James Windibank � disse Holmes. � Escreveu dizendo que estaria aqui �s 18 horas. Entre!</p><p>O homem que entrou era de altura m�dia, robusto, de uns 30 anos de idade, barbeado, moreno, com um jeito insinuante e af�vel e um par de olhos cinzentos extremamente penetrantes. Lan�ou um olhar inquiridor a cada um de n�s, colocou a cartola reluzente sobre o m�vel da sala e, com um ligeiro cumprimento de cabe�a, sentou-se na cadeira mais pr�xima.</p><p>� Boa-noite, sr. James Windibank � disse Holmes. � Creio que isto aqui � uma carta datilografada pelo senhor, na qual combinou de vir aqui �s 18 horas!</p><p>� Sim, senhor. Receio estar um pouco atrasado, mas n�o sou totalmente dono de mim mesmo, sabe. Sinto muito que a srta. Sutherland o tenha incomodado a respeito desse assunto, pois acho muito melhor n�o lavar esse tipo de roupa suja em p�blico. Ela veio contra a minha vontade, mas � uma mo�a muito excit�vel, muito impulsiva, como deve ter percebido, e n�o � f�cil control�-la quando mete uma id�ia na cabe�a. Evidentemente, n�o dei muita import�ncia ao senhor porque n�o est� ligado �s autoridades oficiais, mas n�o � nada agrad�vel ver um problema de fam�lia como esse espalhado por a�. Al�m do mais, � uma despesa in�til, pois como o senhor poderia achar esse tal de Hosmer Angel?</p><p>� Pelo contr�rio � disse Holmes calmamente �, tenho absoluta certeza de que conseguirei descobrir o sr. Hosmer Angel.</p><p>O sr. Windibank levou um susto e deixou cair as luvas. � Fico muito contente em ouvir isso � disse.</p><p>� � curioso � observou Holmes � que uma m�quina de escrever tenha realmente caracter�sticas t�o individuais quanto a caligrafia de uma pessoa. A n�o ser que sejam novas em folha, n�o h� duas m�quinas que escrevam exatamente da mesma maneira. Algumas letras ficam mais gastas que outras, e algumas gastam mais de um lado que de outro. Repare que nesse seu bilhete, sr. Windibank, h� sempre um �e� um pouco borrado e um ligeiro defeito na curva superior do �r�. H� mais 14 caracter�sticas, mas estas duas s�o as mais �bvias.</p><p>� Usamos essa m�quina para toda a correspond�ncia do escrit�rio e naturalmente est� um pouco gasta � respondeu nosso visitante, olhando atentamente para Holmes com seus olhinhos muito vivos.</p><p>� E agora vou mostrar-lhe um estudo realmente muito interessante, sr. Windibank � continuou Holmes. � Estou pensando em escrever, um dia desses, mais uma pequena monografia sobre a m�quina de escrever e sua rela��o com o crime. � um assunto ao qual tenho dedicado bastante aten��o. Tenho aqui quatro cartas que supostamente vieram do homem desaparecido. S�o todas batidas � m�quina. Em todas elas, n�o s� os �es� est�o borrados e os �rs� defeituosos, como tamb�m poder� observar, se quiser usar minha lente de aumento, a presen�a das outras 14 caracter�sticas que mencionei.</p><p>O sr. Windibank saltou da cadeira e pegou o chap�u. � N�o posso perder tempo com esse tipo de conversa fant�stica, sr. Holmes � disse. � Se pode pegar esse homem, v� peg�-lo e avise-me quando estiver tudo acabado.</p><p>� Certamente � disse Holmes, dando uns passos � frente e trancando a porta. � Comunico, ent�o, que j� o peguei!</p><p>� O qu�! Onde? � gritou o sr. Windibank, com o rosto subitamente l�vido e olhando em volta como um rato preso numa ratoeira.</p><p>� Ah, assim n�o... assim n�o � disse Holmes suavemente. � N�o h� maneira de sair dessa, sr. Windibank. � transparente demais, e n�o foi nada elogioso o senhor dizer que seria imposs�vel para mim resolver uma quest�o t�o simples. Isso mesmo! Sente-se, e vamos conversar.</p><p>Nosso visitante caiu em uma cadeira com a fisionomia arrasada e o suor brilhando na testa. � N�o... n�o poder�o me processar � balbuciou.</p><p>� Receio que esteja certo. Mas, aqui entre n�s, Windibank, de uma maneira mesquinha, foi o golpe mais cruel, ego�sta e desnaturado que jamais vi. Deixe-me agora relatar o que sucedeu e corrija-me se eu estiver errado.</p><p>O homem estava sentado na cadeira com a cabe�a afundada no peito, como se estivesse completamente aniquilado. Holmes estendeu as pernas e apoiou os p�s no canto da lareira, e recostando-se com as m�os nos bolsos, come�ou a falar mais para si mesmo do que para n�s, pelo que parecia.</p><p>� O homem casou-se com uma mulher muito mais velha que ele pelo dinheiro dela � disse � e desfrutava o uso do dinheiro da filha enquanto ela vivesse com eles. Era uma quantia consider�vel para pessoas da sua posi��o, e sua perda teria feito uma grande diferen�a. Valia a pena fazer um esfor�o para conserv�-la. A filha tinha uma personalidade af�vel e boa, era afetiva e meiga, portanto era evidente que, com suas qualidades pessoais e sua pequena renda, n�o ficaria solteira por muito tempo. Seu casamento significaria, naturalmente, a perda de 100 libras por ano. Ent�o, o que faz seu padrasto para evitar isso? Adota a estrat�gia de mant�-la fechada em casa e de proibir que procure a companhia de pessoas de sua idade. Mas logo verificou que isso n�o daria certo para sempre. Ela ficou irrequieta, insistiu nos seus direitos e finalmente anunciou sua decis�o firme de ir a um certo baile. E o que faz seu esperto padrasto ent�o? Concebe uma id�ia que d� mais cr�dito � sua imagina��o que a seu cora��o. Com a cumplicidade e ajuda de sua mulher, disfar�ou-se, cobriu esses olhos penetrantes com �culos escuros, mascarou o rosto com costeletas e bigode espessos, reduziu a voz vibrante a um murm�rio insinuante e, muito seguro devido � miopia da mo�a, apareceu como o sr. Hosmer Angel, afastando os poss�veis namorados pela t�cnica de se tornar um deles.</p><p>� Foi s� uma brincadeira de in�cio � gemeu nosso visitante. � Nunca pensamos que ela se envolvesse dessa maneira.</p><p>� Talvez n�o. Seja como for, a mo�a se envolveu profundamente e, convencida de que seu padrasto estava na Fran�a, nunca suspeitou de trai��o. Ficou lisonjeada com a aten��o do cavalheiro e o efeito foi intensificado pela manifesta��o de admira��o por parte de sua m�e. Ent�o o sr. Angel come�ou a visitar a casa, pois era �bvio que deveria ir o mais longe poss�vel para obter um resultado satisfat�rio. Houve v�rios encontros e um noivado que, finalmente, iria evitar que a afei��o da mo�a fosse dedicada a outro. Mas n�o era poss�vel dissimular para sempre. Essas viagens simuladas � Fran�a eram realmente muito inc�modas. O que restava fazer era, evidentemente, dar um final t�o dram�tico que deixasse uma impress�o permanente na pobre mo�a, o que evitaria que ela olhasse para qualquer outro pretendente por muito tempo. Da� os tais votos de fidelidade feitos sobre a B�blia, e tamb�m as alus�es � possibilidade de alguma coisa acontecer na pr�pria manh� do casamento. James Windibank queria que a srta. Sutherland ficasse t�o amarrada a Hosmer Angel, e t�o incerta quanto ao que lhe havia sucedido, que durante os dez anos seguintes, pelo menos, n�o desse aten��o a nenhum outro homem. Levou-a at� a porta da igreja, e ent�o, como n�o podia ir mais longe, desapareceu convenientemente, usando o velho truque de entrar por uma porta do carro de quatro rodas e sair pela outra. Acho que foi isso o que aconteceu, sr. Windibank!</p><p>Nosso visitante recuperara um pouco da seguran�a enquanto Holmes falava, e ergueu-se da cadeira com uma express�o de frio desprezo em seu rosto p�lido.</p><p>� Pode ser que tenha sido assim, e pode ser que n�o, sr. Holmes � disse �, mas se o senhor � t�o esperto, deve ser suficientemente esperto para saber que � o senhor que est� transgredindo com a lei agora, n�o eu. N�o fiz nada ilegal desde o in�cio, mas enquanto ficar com a porta trancada, o senhor est� sujeito a uma a��o por assalto e constrangimento ilegal.</p><p>� Como diz, a lei n�o pode toc�-lo � disse Holmes, destrancando e escancarando a porta � no entanto, n�o existe um homem que mere�a mais ser punido. Se a mo�a tem um irm�o ou um amigo, ele deveria dar-lhe uma surra de chicote. Por Deus! � continuou, enrubescendo ao ver a zombaria estampada no rosto do homem � n�o faz parte de meu dever para com meus clientes, mas tenho um chicote bem � m�o e acho que vou... � Deu dois passos r�pidos, mas antes que pudesse p�r a m�o no chicote, ouviu-se o ru�do de passos apressados na escada, a porta pesada bateu, e da janela vimos o sr. James Windibank correndo a toda a velocidade pela rua.</p><p>� Mas que patife de sangue-frio! � disse Holmes, rindo e atirando-se outra vez na sua poltrona. � Esse sujeito ir� de crime em crime at� fazer algo realmente mau, e ent�o acabar� na forca. Esse caso, em certos aspectos, n�o era completamente destitu�do de interesse.</p><p>� N�o consigo acompanhar todas as etapas do seu racioc�nio � comentei.</p><p>� Ora, era �bvio desde o in�cio que esse tal de sr. Hosmer Angel devia ter um motivo muito forte para agir de forma t�o curiosa, e era igualmente �bvio que o �nico homem beneficiado por esse incidente, pelo que sab�amos, era o padrasto. Depois o fato de que os dois homens nunca apareciam juntos, e um surgia quando o outro estava fora, era bastante sugestivo, assim como os �culos escuros e a voz estranha, que indicavam disfarce, como tamb�m as costeletas espessas. Essas minhas suspeitas foram confirmadas pela sua atitude peculiar de bater sua assinatura � m�quina, o que, naturalmente, fazia supor que sua caligrafia era t�o familiar que a mo�a reconheceria at� mesmo essa pequena amostra. Esses fatos isolados, aliados a outros menores, todos apontavam na mesma dire��o.</p><p>� E como os verificou?</p><p>� Depois que localizei o homem, foi f�cil obter confirma��o. Conhecia a firma para a qual ele trabalhava. Peguei a descri��o do an�ncio, eliminei tudo que poderia ser um disfarce � costeletas, �culos, a voz � e mandei-a para a firma, pedindo que me informassem se coincidia com a descri��o de algum de seus caixeiros-viajantes. J� havia percebido as peculiaridades da m�quina de escrever, e escrevi para o pr�prio homem, pedindo que viesse aqui. Como esperava, sua resposta foi batida � m�quina, e revelava os mesmos defeitos triviais, mas caracter�sticos. Recebi pelo correio uma carta de Westhouse &amp; Marbank, da rua Fenchurch, dizendo que a descri��o combinava perfeitamente com a de seu empregado James Windibank. E foi tudo!</p><p>� E a srta. Sutherland?</p><p>� Se contar a ela, n�o vai acreditar em mim. Lembre-se do velho prov�rbio persa: �H� perigo para aquele que pega o filhote do tigre, e perigo tamb�m para aquele que rouba a ilus�o de uma mulher.� H� tanta sabedoria em Hafiz quanto em Hor�cio, e o mesmo conhecimento da vida.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o mist�rio do vale boscombe</strong></p><empty-line/><p>Eu e a minha mulher est�vamos, uma manh�, a tomar o pequeno almo�o, quando a criada trouxe um telegrama.</p><p>Era de Sherlock Holmes e dizia assim:</p><p>"Tem alguns dias livres? Acabaram de contactar-me do Oeste de Inglaterra por causa da trag�dia do Vale Boscombe. Gostaria que viesse comigo.</p><p>Ar e paisagem perfeitos. �Partida de Paddington �s 11 e 15.�</p><p>"Que te parece, querido?" - perguntou a minha mulher olhando para mim. - "Vais?"</p><p>"Realmente n�o sei o que dizer. Tenho uma enorme lista de espera neste momento."</p><p>"Oh, o Anstruther faz o trabalho por ti. Ultimamente tens andado p�lido. Acho que uma mudan�a de ares te faria bem, al�m de saber que te interessas muito pelos casos de Sherlock Holmes."</p><p>"Seria ingrato se n�o me interessasse, pois ganhei bastante com um deles." - respondi eu.</p><p>"Mas, se vou, tenho de come�ar j� a fazer as malas. S� tenho meia hora.�; A minha experi�ncia de vida de campanha no Afeganist�o teve, pelo menos, o efeito de fazer de mim um viajante r�pido e preparado.</p><p>As coisas de que necessitava eram poucas e simples e, por isso, em menos tempo do que o previsto, j� estava no cabriol�, com a minha mala, a caminho da esta��o de Paddington. Sherlock Holmes andava para cima e para baixo na plataforma.</p><p>A sua estatura parecia ainda mais alta e esguia devido � capa de viagem cinzenta e comprida e ao justo bon� de pano.</p><p>"Foi mesmo bom ter vindo, Watson" - disse ele. - "� realmente muito importante para mim ter algu�m de confian�a a acompanhar-me. A ajuda local ou n�o serve de nada ou � prejudicial. Guarde os dois lugares do canto que eu vou buscar os bilhetes."</p><p>T�nhamos uma carruagem s� para n�s, se n�o fosse a confus�o de pap�is que Holmes levava consigo. Foi lendo alguns deles. Intervalava para tomar notas e para meditar, at� passarmos Reading. Depois, juntou-os numa bola gigantesca e atirou-os para o porta-bagagens que ficava por cima dos bancos.</p><p>"Ouviu falar do caso?" - perguntou.</p><p>"Nem uma palavra. J� n�o leio o jornal h� dias."</p><p>"A imprensa de Londres n�o fez descri��es muito completas. Acabei de passar os olhos por todos os jornais mais recentes para apreender as particularidades. Parece, segundo creio, mais um desses casos simples que se tornam extremamente dif�ceis."</p><p>"Parece paradoxal."</p><p>"Mas � exatamente assim. A singularidade � quase sempre uma pista. Quanto mais comum e desprovido de caracter�sticas um crime �, mais dif�cil se torna desvend�-lo. Contudo, neste caso, fizeram acusa��es bastante s�rias contra o filho do homem assassinado."</p><p>"Ent�o � um assass�nio?"</p><p>"Bem, pensa-se que sim. N�o darei nada como certo at� ter oportunidade de tratar disso pessoalmente. Explicar-lhe-ei em que p� as coisas se encontram - tanto quanto pude perceber - em algumas palavras.</p><p>O Vale Boscombe � um distrito n�o muito longe de Ross, em Herefordshire. O maior propriet�rio de terras nesse local, � o Sr. John Turner, que fez fortuna na Austr�lia tendo voltado � terra natal h� alguns anos atr�s. Uma das quintas que possu�a, a de Hatherley, foi deixada ao Sr. Charles McCarthy, que tamb�m era um ex-australiano. Os dois homens conheceram-se nas col�nias. Por isso, era natural que, quando regressassem, se estabelecessem o mais perto poss�vel um do outro. Turner era, aparentemente, o mais rico. Por isso, McCarthy tornou-se seu rendeiro, mas continuou, no entanto, em perfeita igualdade de circunst�ncias pois eram insepar�veis. McCarthy tinha um filho, um rapaz de dezoito anos e Turner, uma filha �nica da mesma idade, mas nenhum deles vivia com a respectiva mulher.</p><p>Parecia que evitavam a sociedade das fam�lias inglesas vizinhas e que viviam isolados, apesar de ambos gostarem de desporto. Eram frequentemente vistos nos encontros de corridas dos arredores. McCarthy tinha dois criados - um homem e uma rapariga. Turner tinha uma quantidade consider�vel de criados, pelo menos meia d�zia. Foi tudo o que pude saber das duas fam�lias. Agora, vamos aos fatos.</p><p>No dia 3 de Junho - isto �, na passada Segunda-feira - McCarthy deixou a casa em Hatherley, cerca das tr�s da tarde, e foi para a piscina de Boscombe que � um pequeno lago formado pelas �guas do regato que corre no Vale Boscombe. De manh�, tinha estado fora, em Ross, com o criado e disse ao homem que se despachasse, pois tinha um encontro importante �s tr�s horas. N�o regressou vivo desse encontro. Da quinta de Hatherley at� � piscina de Boscombe � um quarto de milha e duas pessoas viram-no passar pelo terreno. Uma era uma velhota, cujo nome n�o � mencionado, e a outra era William Crowder, o guarda do Sr. Turner. Ambas as testemunhas afirmam que o Sr. McCarthy ia sozinho. O guarda acrescenta que, passados alguns minutos, viu passar o filho de McCarthy, James McCarthy, na mesma dire��o do pai, com a arma debaixo do bra�o. Para a testemunha, o pai ainda se avistava na altura em que o filho o seguia. N�o voltou a pensar no assunto at� saber, � tardinha, da trag�dia que tinha ocorrido.</p><p>Os dois McCarthys foram vistos, depois, quando William Crowder, o guarda, os perdeu de vista. A piscina de Boscombe � rodeada por bosques que t�m pouca relva e algumas canas. Uma rapariga de catorze anos, Patience Moran, que � filha do gerente da propriedade do Vale Boscombe, estava num dos bosques a apanhar flores. Declara que, enquanto l� estava, viu, na margem do bosque, perto do lago, o Sr. McCarthy e o filho e que ambos pareciam estar a discutir violentamente.</p><p>Ouviu o Sr. McCarthy-pai, a falar para o filho de um modo agressivo e viu o McCarthy-filho levantar a m�o para atingir o pai. Ficou t�o assustada com a sua viol�ncia que fugiu e, quando chegou a casa, contou � m�e que tinha visto os dois McCarthys a discutir, perto da piscina Boscombe e que receava que fossem lutar. Mal disse estas palavras, apareceu em casa o jovem McCarthy, a correr, dizendo que encontrou o pai, morto, no bosque e pedindo ajuda ao gerente da propriedade. Estava muito excitado, sem arma e sem chap�u e a sua m�o e manga direitas estavam manchadas de sangue fresco. Seguindo-o, encontraram o corpo morto do pai, estendido na relva, junto � piscina. A cabe�a tinha sido atingida por golpes sucessivos com uma arma pesada e dura. Os ferimentos podiam muito bem ter sido infligidos pelo punho da arma do jovem McCarthy, a qual foi encontrada na relva a alguns passos do corpo. Nestas circunst�ncias o rapaz foi instantaneamente preso. Com o veredicto de Assass�nio Volunt�rio, foi, na Quarta-feira, levado diante dos magistrados em Ross, que transferiram o caso para o tribunal criminal. S�o estes os fatos principais, tal como foram apresentados pelo m�dico legista e pelo tribunal da</p><p>�pol�cia.�</p><p>"N�o posso imaginar um caso mais terr�vel" - observei eu. - "As evid�ncias apontam, sem d�vida, para o criminoso."</p><p>"As evid�ncias circunstanciais s�o muito enganadoras" - respondeu Holmes pensativo. - �Podem parecer apontar diretamente para uma coisa mas, se mudarmos um pouco o nosso ponto de vista, podemos v�-las apontar de um modo inflex�vel para outra coisa inteiramente diferente�. Contudo, deve �se confessar que o caso parece excessivamente grave contra o jovem e que � realmente poss�vel ser ele o culpado.</p><p>H�, no entanto, muita gente na vizinhan�a e, entre eles, a menina Turner, filha do propriet�rio da terra vizinha que, acreditando na sua inoc�ncia, contratou Lestrade, de quem se deve lembrar, relacionado com o caso "O Est�dio Escarlate" no qual era detetive particular. �Lestrade um pouco baralhado, remeteu-me o caso e � por isso que dois homens de meia idade est�o a voar em dire��o a Leste, a 50 milhas � hora, em vez de estarem a tomar calmamente o pequeno almo�o, em casa.�</p><p>"Receio" - disse eu - "que os fatos sejam t�o �bvios que pouco sucesso v� ter com este caso."</p><p>"N�o h� nada mais decepcionante do que um fato evidente." - respondeu rindo.</p><p>"Al�m disso, podemos ter a sorte de encontrar alguns fatos �bvios que n�o o sejam tanto para o Sr. Lestrade. Conhece-me bem demais para pensar que estou a gabar-me quando afirmo que ou confirmarei ou destruirei a teoria dele, utilizando m�todos que � incapaz de usar ou mesmo de perceber. Vou-lhe dar um exemplo: Fixei claramente que no seu quarto, a janela fica do lado direito e contudo, pergunto-me se o senhor Lestrade notou uma coisa t�o evidente como essa."</p><p>"Realmente..."</p><p>"Meu caro amigo, conhe�o-o bem. Conhe�o a disciplina militar que o caracteriza. Barbeia-se todas as manh�s e, nesta esta��o, � luz do sol: o seu barbear � cada vez menos perfeito para tr�s, do lado esquerdo, at� se tornar positivamente desleixado � medida que se aproxima do �ngulo do maxilar; claro que este lado � menos iluminado do que o outro. N�o posso crer que um homem com os seus h�bitos se tivesse a cara igualmente iluminada, ficasse satisfeito com tal resultado. S� cito isto como exemplo trivial de observa��o e infer�ncia. � aqui que reside o segredo da minha profiss�o e � poss�vel que nos seja �til � investiga��o que temos pela frente. H� um ou dois pontos despercebidos que surgiram no inqu�rito e que vale a pena serem considerados."</p><p>"Quais s�o?"</p><p>"Parece que a deten��o do presum�vel culpado n�o ocorreu de imediato mas sim depois do regresso � quinta Hatherley. Quando o inspetor da pol�cia o informou de que estava preso, replicou que n�o estava surpreendido e que era isso que merecia. Esta sua observa��o teve o efeito natural de remover qualquer d�vida que pudesse ter ficado no esp�rito do j�ri."</p><p>"Foi uma confiss�o" - gritei.</p><p>"N�o, pois foi seguido por um protesto de inoc�ncia."</p><p>"Mas, depois desta s�rie acusat�ria de acontecimentos era, pelo menos, uma declara��o sem qualquer credibilidade."</p><p>"Pelo contr�rio" - disse Holmes - "� a primeira nesga de luz que, de momento, consigo encontrar em tantas nuvens. Contudo, por mais inocente que possa ser, n�o seria t�o imbecil ao ponto de n�o ver que as circunst�ncias estavam contra ele. Se parecesse surpreso com a sua deten��o ou se se fingisse indignado, acharia tudo isso muito suspeito, porque tal surpresa ou raiva n�o seria natural nessas circunst�ncias e, contudo, pareceria ser a melhor pol�tica para um homem manhoso. A sua franca aceita��o da situa��o apontam-no como um homem inocente ou ent�o um homem dum consider�vel autodom�nio e firmeza. A sua refer�ncia ao merecimento tamb�m seria natural, se considerarmos que ficou perante o corpo morto do pai. N�o h� d�vidas que nesse dia esquecera as obriga��es de filho, ao discutir com ele. H� ainda, de acordo com a mi�da, cuja revela��o � t�o importante, o fato de levantar a m�o para o atingir. A auto-recrimina��o e contri��o presentes na sua observa��o, parecem-me demonstrativas duma mente sadia muito mais do que culpada."</p><p>Abanei a cabe�a. - "Foram enforcados muitos homens com evid�ncias maiores." - observei.</p><p>"Realmente � verdade. E muitos homens foram enforcados injustamente."</p><p>"Qual � a vers�o do jovem sobre o assunto?"</p><p>"N�o �, receio, muito encorajadora para sua defesa, apesar de haver dois ou tr�s pontos muito sugestivos. Encontr�-los-� aqui e poder� ler voc� mesmo."</p><p>Apanhou do seu mont�o de pap�is um exemplar do jornal local, Herefordshire e, virando a folha, apontou para um par�grafo no qual o infeliz jovem fez a sua declara��o sobre o que se passara. Instalei-me num canto da carruagem e li, cuidadosamente. Dizia assim:</p><p>"O Sr. James McCarthy, filho �nico do falecido foi ent�o chamado e declarou o que se segue:"</p><p>�Estive ausente de casa, em Bristol, durante tr�s dias e s� regressei na manh� de Segunda-feira passada, dia 3�. O meu pai n�o estava em casa quando cheguei e a criada disse-me que ele tinha ido a Ross, com John Cobb, o criado. Logo ap�s a minha chegada ouvi as rodas da charrete e, olhando pela janela, vi-o sair e percorrer apressadamente o p�tio, apesar de n�o saber em que dire��o ia. Ent�o, peguei na minha arma e fui na dire��o da piscina de Boscombe, com a inten��o de visitar a cria��o de coelhos que fica do outro lado. A caminho, vi William Crowder, o guarda - como ele pr�prio declarou � mas n�o � verdade que eu ia atr�s do meu pai. N�o fazia a menor id�ia que ele estava � minha frente. A cerca de 100 jardas da piscina ouvi o grito de - Cooee! - que era um sinal habitual entre mim e o meu pai. Ent�o, apressei-me e encontrei-o na piscina. Pareceu-me muito surpreendido ao ver-me e perguntou-me, bastante rudemente, o que fazia eu ali.</p><p>Iniciou-se uma conversa que o levou a barafustar comigo e quase a atacar-me, pois o meu pai tinha um temperamento muito violento. Vendo que se estava a exaltar demais, deixei-o para voltar � quinta Hatherley. Ainda n�o tinha andado 150 jardas quando ouvi um horroroso grito que me fez voltar atr�s.</p><p>Encontrei o meu pai a expirar, no ch�o, com a cabe�a terrivelmente ferida.</p><p>Larguei a arma e peguei-o nos bra�os, mas expirou quase instantaneamente.</p><p>Ajoelhei-me diante dele por alguns minutos e, depois, regressei a casa do gerente da propriedade a pedir ajuda.</p><p>N�o vi ningu�m junto dele quando voltei e n�o fa�o id�ia como � que se feriu. N�o era um homem popular, pois era frio e exigente mas, tanto quanto sei, n�o tinha inimigos declarados.</p><p>Nada mais sei sobre o assunto.</p><p>O magistrado: O seu pai disse alguma coisa antes de morrer?</p><p>Testemunha: Murmurou algumas palavras mas s� consegui perceber a alus�o a um rato.</p><p>O magistrado: O que entende por isso?</p><p>Testemunha: N�o tem qualquer significado para mim. Pensei que estava a delirar.</p><p>O magistrado: Porque � que o senhor e o seu pai discutiram?</p><p>Testemunha: Preferia n�o responder.</p><p>O magistrado: Lamento ter de insistir.</p><p>Testemunha: � realmente imposs�vel dizer-lhe. Asseguro-lhe que n�o tem nada a ver com a trag�dia que se seguiu.</p><p>O magistrado: � o Tribunal que tem de decidir. N�o preciso de lhe dizer que a sua recusa em responder prejudicar� consideravelmente o seu caso em futuros procedimentos que possam surgir.</p><p>Testemunha: continuo a recusar.</p><p>O magistrado: Pelo que percebi, o grito Cooee - era um sinal comum entre o senhor e o seu pai?</p><p>Testemunha: Era.</p><p>O magistrado: Como � poss�vel, ent�o, que ele o tenha proferido antes de o ver e sem saber que voc� tinha voltado a Bristol?</p><p>Testemunha: (bastante baralhada): N�o sei.</p><p>Um jurado: N�o viu nada que lhe levantasse suspeitas quando ouviu o grito e voltou, encontrando o seu pai mortalmente ferido?</p><p>Testemunha: Absolutamente nada.</p><p>O magistrado: O que quer dizer?</p><p>Testemunha: Estava t�o perturbado e preocupado em chegar junto ao meu pai, que n�o pensei em mais nada a n�o ser nele. Contudo, tenho a vaga impress�o de que, � medida que avan�ava, estava algo no ch�o, � minha esquerda. Pareceu-me algo cinzento, um casaco ou talvez uma manta. Quando me levantei, olhei em redor mas j� l� n�o estava nada.</p><p>N�o sabe o que era?</p><p>N�o! Tinha a sensa��o de que havia algo ali.</p><p>A que dist�ncia do corpo?</p><p>Umas doze jardas, mais ou menos.</p><p>E a que dist�ncia da orla do bosque?</p><p>Mais ou menos � mesma.</p><p>Ent�o, se o retiraram foi na altura em que o senhor estava a doze jardas dele?</p><p>Sim, de costas para l�.</p><p>�Isto concluiu o interrogat�rio da testemunha.�</p><p>"Estou a ver" - disse eu, dando uma olhadela � coluna do jornal - "que o magistrado nas suas observa��es conclusivas, foi bastante severo com o jovem McCarthy. Chama a aten��o, e com raz�o, para a discrep�ncia entre o pai lhe ter dado o sinal antes de o ver e tamb�m da sua recusa em fornecer detalhes da conversa com o pai e da refer�ncia estranha �s palavras que o pai proferiu ao morrer. Joga tudo, como ele refere, contra o filho."</p><p>Holmes riu-se para si pr�prio e refastelou-se no seu lugar.</p><p>- "Tanto voc� como o magistrado est�o atormentados com a mesma coisa" - disse ele - �descobrir alega��es fortes em favor do jovem�. N�o v� que lhe deu cr�dito alternadamente por ter demasiada imagina��o e ao mesmo tempo t�o pouca? T�o pouca, por n�o conseguir inventar um motivo para a discuss�o, com que poderia ganhar o agrado do j�ri; demasiada por envolver a sua consci�ncia com algo t�o exagerado como � a refer�ncia ao rato e ao incidente do desaparecimento da pe�a de roupa. N�o, senhor. Analisemos este caso, partindo do princ�pio de que o que o rapaz disse � verdade e veremos a que nos conduz essa hip�tese.</p><p>Eis o que penso e nada mais direi at� estarmos na cena da a��o. Almo�amos em Swindon. �Creio que estaremos l� dentro de vinte minutos.�</p><p>J� eram quatro horas quando, finalmente, depois de passarmos o maravilhoso vale Stroud nos encontramos sobre o enorme e cintilante Severn, na pequena e bela cidade rural de Ross. Um homem esguio, tipo detetive, furtivo e de olhar astuto, esperava-nos na plataforma. Apesar do casaco castanho claro e das polainas de couro que usava, pren�ncio da sua origem r�stica, n�o tive dificuldade em reconhecer Lestrade da Scotland Yard. Com ele, fomos at� "Hereford Arms", onde j� havia um quarto preparado para n�s.</p><p>"Pedi uma carruagem" - disse Lestrade, quando nos sentamos para o ch�.</p><p>"Conhe�o o seu dinamismo e sei que n�o ficaria contente enquanto n�o estivesse na cena do crime."</p><p>"Foi muito am�vel e lisonjeiro da sua parte." � respondeu Holmes. - "� inteiramente uma quest�o de press�o atmosf�rica."</p><p>Lestrade pareceu admirado. "N�o percebo" - disse ele.</p><p>"Como est� o term�metro? Vinte e nove, vejo. N�o h� vento nem nuvens no c�u. Tenho uma caixa cheia de cigarros que precisam de ser fumados e o sof� � muito superior aos que se costumam ver nos abomin�veis hot�is de campo. N�o acho prov�vel usar a carruagem esta noite."</p><p>Lestrade riu-se indulgentemente: "Com certeza j� tirou as suas conclus�es a partir dos jornais"disse ele. - �O caso � t�o claro como �gua e quanto mais avan�armos, mais claro se torna�. Contudo, � evidente, n�o podemos recusar nada a uma senhora, principalmente a uma senhora t�o distinta. Ouviu falar de si e quer a sua opini�o, apesar de lhe ter dito, repetidas vezes, que n�o havia nada que o senhor pudesse fazer, que eu j� n�o tivesse feito.</p><p>�� por isso que, valha-me Deus, ela tem a carruagem aqui � porta.�</p><p>Mal acabou de falar quando entrou, apressadamente, no quarto, uma das jovens mais maravilhosas que alguma vez vi. Os seus olhos violeta brilhavam, tinha os l�bios entreabertos e um rosado nas faces. Toda a sua natural reserva ficava confundida pela sua extrema excita��o e preocupa��o. - "Oh, Sr. Sherlock Holmes!" - gritou, olhando para mim e para Holmes e, finalmente, com a r�pida intui��o de mulher, concentrando-se no meu companheiro - �Estou t�o contente por ter vindo�. Vim aqui s� para lhe dizer isto. Sei que James n�o fez nada do que o acusam. Tenho a certeza e quero que comece a sua investiga��o sabendo disso. N�o tenha d�vidas.</p><p>Conhecemo-nos desde crian�as e reconhe�o os seus defeitos como ningu�m; mas ele � t�o terno que n�o faria mal a uma mosca.</p><p>�Uma tal acusa��o � absurda para qualquer um que o conhe�a.�</p><p>"Espero conseguir ilib�-lo, menina Turner" - disse Sherlock Holmes. - "Pode confiar que farei o que estiver ao meu alcance."</p><p>"Mas leu os testemunhos? Tirou alguma conclus�o? N�o v� nenhuma fuga, nenhuma falha? N�o acha que ele � inocente?"</p><p>"Acho muito prov�vel."</p><p>"Muito bem!" - gritou ela, voltando-se para tr�s e olhando com ar de desafio para Lestrade. - "Est� a ouvir? Ele deu-me esperan�as."</p><p>Lestrade encolheu os ombros. - "Receio que o meu colega tenha sido um pouco r�pido demais a tirar conclus�es" � disse ele.</p><p>"Mas est� certo. Oh! Sei que est� certo. James nunca fez isso. E quanto � discuss�o com o pai, tenho a certeza que a raz�o por que n�o contou ao magistrado, foi porque eu estava metida no assunto."</p><p>"Em que sentido?" - perguntou Holmes.</p><p>�N�o � altura de esconder nada�. James e o pai tinham diverg�ncias em rela��o a mim. O Sr. McCarthy queria muito que cas�ssemos. Eu e o James sempre gostamos muito um do outro, como irm�os mas, � claro, James � jovem e conhece ainda muito</p><p>pouco da vida. Por isso, como � natural, n�o queria casar j�.</p><p>�Ent�o houve discuss�es e esta, tenho a certeza, foi uma delas.�</p><p>"E o seu pai?" - perguntou Holmes. "Era a favor de tal uni�o?"</p><p>"Opunha-se a isso. S� o Sr. McCarthy � que era a favor."</p><p>Corou ligeiramente quando Holmes lhe lan�ou um dos seus fortes olhares interrogadores.</p><p>"Obrigado pela informa��o" - disse ele. "Posso falar com o seu pai, se o vir amanh�?"</p><p>"Lamento, mas o m�dico n�o deixa."</p><p>"O m�dico?"</p><p>�Sim, n�o sabe�? O meu pobre pai nunca foi muito forte mas isto abalou-o demasiado. Foi para a cama e o Dr. Willows diz que ele est� mal e que o seu sistema nervoso est� alterado.</p><p>�McCarthy foi o �nico homem que conheceu o meu pai, nos velhos tempos, em Vit�ria.�</p><p>"Ah! Em Vit�ria! � importante."</p><p>"Sim, nas minas."</p><p>"Ah! Claro, nas ninas de ouro onde, pelo que sei, o Sr. Turner fez fortuna."</p><p>"Sim, com certeza."</p><p>"Obrigado, menina Turner. Deu-me uma grande ajuda."</p><p>"Vai dizer-me, se tiver not�cias amanh�. Com certeza vai � pris�o ver James. Oh, se for, Sr. Holmes, diga-lhe que sei que ele est� inocente."</p><p>"Com certeza, menina Turner."</p><p>"Agora tenho de ir para casa, pois o meu pai est� muito doente e precisa de mim. Adeus e que Deus o ajude na sua tarefa."</p><p>Apressou-se a sair, t�o impulsivamente como entrara, e ouvimos as rodas da sua carruagem ir pela rua abaixo.</p><p>"Estou indignado consigo, Holmes" - disse Lestrade, com dignidade, depois de alguns minutos de sil�ncio. - "Porque � que criou esperan�as que poder� vir a desapontar? N�o tenho o cora��o de manteiga mas chamo a isso crueldade."</p><p>"Acho que estou a ver o modo como vou ilibar James McCarthy" - disse Holmes. "Tem autoriza��o para o visitar na pris�o?"</p><p>"Sim, mas s� n�s os dois."</p><p>"Ent�o vou reconsiderar a minha decis�o em rela��o a ir hoje. Ainda temos tempo de apanhar o comboio para Hereford e v�-lo esta noite?"</p><p>"Absolutamente."</p><p>"Ent�o vamos. Watson, receio que lhe v� custar a passar o tempo, mas s� estarei ausente algumas horas."</p><p>Fui com eles � esta��o e depois vagueei pelas ruas da cidadezinha, voltando seguidamente para o hotel, onde me deitei no sof� e tentei interessar-me por uma novela de capa e espada. O d�bil enredo da hist�ria era, contudo, t�o fraco comparado com o profundo mist�rio deste caso que surpreendi a minha aten��o a vaguear, constantemente, da fic��o para o fato. Abandonei-me inteiramente a considerar os acontecimentos do dia. Supondo que a hist�ria do infeliz rapaz era verdadeira, ent�o, que diabo de coisa, que calamidade t�o impens�vel e extraordin�ria ter� ocorrido entre o momento em que se separou do pai e o momento em que, chamado pelos seus gritos voltou, apressadamente, � clareira da floresta? Foi algo terr�vel e mortal. O que teria sido? A natureza dos ferimentos n�o sugerir� algo aos meus instintos m�dicos?</p><p>Toquei � campainha e pedi o seman�rio local, que continha o relato textual do inqu�rito. Na deposi��o do m�dico ficou declarado que o ter�o posterior do osso parietal esquerdo e a metade esquerda do osso occipital tinham sido esmagados por</p><p>pesado golpe infligido por arma branca. Registrei isto na cabe�a. Um golpe desses tinha sido obrigatoriamente infligido por tr�s.</p><p>Isto era, de certo modo, a favor do acusado pois, quando o viram discutir, estava face a face com o pai. Mas esta prova n�o adiantaria grande coisa, j� que a v�tima podia ter-se virado de costas antes de ter sido atingida. Contudo, era capaz de valer a pena chamar a aten��o de Holmes para o fato.</p><p>Depois, haveria a refer�ncia estranha ao rato. O que poderia significar? N�o podia ter sido em del�rio. Um homem que morre dum golpe s�bito, habitualmente, n�o delira. N�o! � mais prov�vel que fosse uma tentativa de explicar como encontrou a morte. Mas o que poderia aquilo indicar?</p><p>Dei volta aos miolos para encontrar uma explica��o plaus�vel. Havia ainda o incidente da pe�a de roupa cinzenta vista pelo jovem McCarthy. Se fosse verdade, o assassino devia ter deixado cair parte da sua roupa a fugir, provavelmente o seu casaco, e teve a aud�cia de voltar atr�s e lev�-lo, no instante em que o filho se ajoelhara virado de costas, a doze passos de dist�ncia. Tudo isto � um emaranhado de mist�rios e improbabilidades.</p><p>N�o considerei a opini�o de Lestrade pois ainda tinha f� em Sherlock Holmes que n�o perdia a esperan�a at� porque cada novo fato parecia refor�ar a sua convic��o sobre a inoc�ncia do jovem McCarthy.</p><p>Sherlock Holmes voltou tarde. Veio s�, pois Lestrade ficara hospedado na cidade.</p><p>"A temperatura ainda est� elevada" - notou ele ao sentar-se. - "� muito importante que n�o chova antes de verificarmos o terreno. Por outro lado, um homem deve estar no seu melhor para um trabalho t�o interessante como este, e n�o quero faz�-lo depois duma viagem longa e cansativa. Vi o jovem McCarthy."</p><p>"E que soube por ele?"</p><p>"Nada."</p><p>"N�o esclareceu nada?"</p><p>"Nada de nada. Cheguei a pensar que ele sabia quem era o assassino e quem o estava a proteger, mas agora acho que est� t�o baralhado como n�s. N�o � um rapaz muito inteligente apesar do seu agrad�vel olhar e de ter bom cora��o."</p><p>"N�o deve ter muito bons gostos" - frisei eu - "se realmente for verdade que era adverso ao casamento com uma pessoa t�o encantadora como � a menina Turner."</p><p>�Ah, a� h� uma hist�ria muito dolorosa�. Esse rapaz � loucamente, doentiamente apaixonado por ela, mas h� dois anos, quando n�o passava dum rapazinho, e mesmo antes de a conhecer - pois ela estivera afastada durante 5 anos numa escola</p><p>particular - o idiota agradou-se duma criada de bar, em Bristol, e casou-se com ela pelo registro!</p><p>Ningu�m sabe nada do assunto, mas pode imaginar a loucura que deve ser para ele ser repreendido por fazer n�o o que adoraria fazer mas o que sabe que lhe � absolutamente imposs�vel. Foi este furor que o fez erguer as m�os quando o pai, no seu �ltimo encontro o tentou impelir a fazer uma proposta � menina Turner.</p><p>Por outro lado, n�o tinha meios para se sustentar a si pr�prio e o pai, que era um homem muito duro, p�-lo-ia fora de casa se soubesse a verdade. Foi com a sua mulher que passou os �ltimos tr�s dias em Bristol sem o pai saber onde ele estava.</p><p>Note bem isto. � muito importante. Contudo, h� males que v�m por bem pois a criada, sabendo pelos jornais que ele estava metido em sarilhos e na imin�ncia de ser enforcado, quis livrar-se dele e escreveu-lhe dizendo que j� tinha um marido em Bermuda Dockyard e que por isso n�o havia qualquer rela��o entre ambos. �Acho que esta not�cia confortou o jovem McCarthy de tudo o que sofreu.�</p><p>"Mas, se est� inocente, quem � o assassino?"</p><p>"Ah! Quem? Chamo a sua aten��o para dois pontos em particular. Um � que o falecido tinha um encontro marcado com algu�m, na piscina, e que esse algu�m n�o podia ser o filho porque estava ausente e o pai n�o sabia quando � que ele regressava. O segundo ponto � o fato de terem ouvido o falecido gritar �Cooee�!" sem saber que o filho voltara. Estes s�o os pontos cruciais dos quais depende este caso. E agora, vamos falar do George Meredith, se faz favor, e deixaremos os pontos menos importantes para amanh�."</p><p>N�o chovia como Holmes previra e, a manh� despertou radiosa e sem nuvens. �s nove horas Lestrade mandou vir a carruagem e fomos � quinta Hatherley e � piscina de Boscombe.</p><p>"H� not�cias muito importantes esta manh�" � observou Lestrade.</p><p>"Diz-se que o Sr. Turner, do Concelho, est� t�o doente que n�o lhe d�o muitos dias de vida."</p><p>"Um homem idoso, presumo!" - disse Holmes.</p><p>"Cerca de 60 anos; mas a sua constitui��o debilitou-se devido � sua vida no estrangeiro e tem estado adoentado desde h� algum tempo. Este assunto afetou-o bastante. Era um velho amigo de McCarthy e, devo acrescentar, seu benfeitor, pois soube que lhe arrendou a quinta Hatherley de gra�a."</p><p>"� verdade! Que interessante!" - disse Holmes.</p><p>"Oh, claro! Ajudou-o de muitas maneiras. Toda a gente fala da sua bondade para com ele."</p><p>"� mesmo! N�o acha estranho que o Sr. McCarthy, que parece ter poucas posses, e que devia tantas obriga��es a Turner ainda fale em casar o seu filho com a filha de Turner, que �, provavelmente, herdeira da propriedade e ainda por cima de um modo t�o certo, como se tratasse duma mera proposta que daria origem a tudo o resto? Ainda se torna mais estranho, sabendo n�s que o pr�prio Turner � contr�rio � id�ia. Foi isso que nos disse a filha. N�o deduz nada, da�?"</p><p>"J� chegamos � dedu��o e �s infer�ncias" - disse Lestrade piscando os olhos.</p><p>"Acho muito dif�cil encarar os fatos sem procurar teorias e id�ias."</p><p>"Tem raz�o" - disse Holmes gravemente. "ter� muita dificuldade em perceber os fatos."</p><p>"De qualquer modo alcancei um fato que o senhor parece ter dificuldade em sustentar" - respondeu Lestrade com vivacidade.</p><p>"E qual �?"</p><p>"O fato de McCarthy s�nior ter sido morto por McCarthy j�nior e todas as teorias em contr�rio n�o passarem de balelas."</p><p>"Bem, as balelas �s vezes d�o os seus frutos" - disse Holmes rindo. - "Mas ou me engano muito ou ali � esquerda tem a quinta Hatherley."</p><p>"Sim, � verdade". Era um edif�cio-grande, agrad�vel � vista, com dois andares, telhado de lousa, com grandes manchas amarelas de l�quenes nas paredes cinzentas. Contudo, as persianas desenhadas e as chamin�s sem fumo, conferiam um aspecto de debilidade, apesar do peso do terror ainda pairar sobre ele. Batemos � porta e a criada, a pedido de Holmes, mostrou-nos as botas que o patr�o cal�ava no momento da sua morte e tamb�m as do filho, apesar de n�o ser o par que na altura ele usava. Tendo considerado bem tudo isto, a partir de sete ou oito pontos diferentes, Holmes quis ir ao p�tio, donde nos conduziu ao caminho sinuoso que conduzia � piscina de Boscombe. Sherlock Holmes transformava-se quando estava na pista de alguma coisa. Quem conhecesse apenas o pensador silencioso e o l�gico de Baker Street n�o o reconheceria agora. O seu rosto corava e escurecia.</p><p>As sobrancelhas eram duas espessas linhas pretas, enquanto os olhos brilhavam por baixo delas com um brilho met�lico. O seu rosto estava inclinado para baixo, os ombros arqueados, os l�bios comprimidos e as veias salientavam-se como o cordel dum chicote no seu pesco�o comprido e vigoroso. As narinas pareciam dilatar com apetite puramente animal de quem fareja ca�a e o seu pensamento estava t�o concentrado na investiga��o que qualquer pergunta ou achega n�o obtinha resposta ou, se obtinha, n�o passava dum r�pido e impaciente rosnar. Vagarosa e silenciosamente andou pelos caminhos que atravessavam prados e bosques at� � piscina de Boscombe. O solo estava �mido e pantanoso, como o de todo o distrito, e havia muitas marcas de p�s tanto no carreiro como entre a erva curta que despontava lateralmente. �s vezes, Holmes apressava-se, outras vezes, detinha-se, im�vel e, uma vez, deu uma volta silenciosa ao prado. Eu e Lestrade �amos atr�s dele; o detetive, indiferente e desdenhoso; eu, por�m, olhava para o meu amigo com o interesse motivado pela convic��o de que todas as suas a��es se dirigiam ao fim em vista.</p><p>A piscina de Boscombe, que � um pequeno len�ol de �gua ladeado de canas, est� situada no limite da quinta Hatherley e do parque privado do abastado Sr. Turner.</p><p>Na parte superior dos bosques que a rodeiam, no lado mais afastado da piscina, os pinheiros cresciam abundantemente e havia uma apertada faixa de relva encharcada, cerca de 20 passos entre a extremidade das �rvores e os canaviais que</p><p>enquadram o lago. Lestrade mostrou-nos o local exato em que o corpo foi encontrado e, realmente, o ch�o estava t�o encharcado que se podiam ver claramente as marcas deixadas pela queda do homem atingido. Para Holmes, como pude ver pela sua face ansiosa e os seus olhos indagadores, muitas outras coisas podiam ser recriadas pela an�lise da relva. Andou de um lado para o outro, como um c�o a farejar alguma coisa e, depois, voltou-se para o meu companheiro.</p><p>"O que foi fazer � piscina?" - perguntou.</p><p>"Andei a investigar. Pensei que devia haver uma arma ou outro ind�cio. Mas o qu�?"</p><p>"Oh, basta, basta! N�o tenho tempo. Essa marca de p� esquerdo, torto, est� fora de quest�o. Uma toupeira podia tra��-la e, ali, desapareceu entre as canas. Oh, teria sido t�o simples se eu c� tivesse vindo antes deles aparecerem como uma manada de b�falos a chafurdarem isto tudo. Aqui est� o local repleto de marcas onde veio toda a gente mais o gerente da propriedade. Uns seis ou oito p�s � volta do corpo. Mas aqui h� marcas separadas dos mesmos p�s."</p><p>Tirou as lentes e deitou-se no seu imperme�vel para ter uma vis�o melhor.</p><p>"Estas s�o as marcas dos p�s do jovem McCarthy. Caminhou duas vezes e uma vez correu velozmente pois as solas est�o profundamente marcadas e os tac�es mal se v�em. Isto confirma a sua hist�ria. Correu quando viu o pai no ch�o. E aqui est�o as marcas dos p�s do pai, quando andava dum lado para o outro. Ent�o o que � isto? � a marca da coronha da arma que ficou marcada quando o rapaz ficou de p� a ouvir o pai. E isto? Ah, ah! O que temos aqui? As pontas dos p�s, as pontas dos p�s! Tamb�m s�o quadradas; que esquisitas! V�m e v�o e voltam outra vez - claro para ir buscar a pe�a de roupa. E agora, de onde v�m?" - Correu para cima e para baixo, �s vezes sem resultado, outras vezes, encontrando marcas, at� estarmos, confortavelmente, no extremo do bosque, � sombra duma grande faia, a maior �rvore dos arredores. Holmes marcou o caminho at� � parte extrema e deitou-se, uma vez mais, dando um gritinho de satisfa��o.</p><p>Permaneceu ali por muito tempo, remexendo as folhas e os paus secos, apanhando para um envelope o que parecia p� e examinando, com as lentes, n�o s� o ch�o mas tamb�m a casca da �rvore ao seu alcance. Uma pedra entalhada estava ca�da no musgo, e Sherlock examinou e recolheu tamb�m isto. Depois, caminhou pelo bosque at� atingir a estrada principal, onde todas as marcas desapareciam.</p><p>"Foi um caso de consider�vel interesse" - disse ele, voltando aos seus modos habituais. - "Imagino que esta casa cinzenta, � direita, deve ser a casa do guarda. Acho que vou entrar e falar com Moran e, talvez, escrever um bilhete. Depois de fazer isto regresso. Podem ir andando para a carruagem que eu j� vou ter convosco."</p><p>Demoramos quase dez minutos a chegar � carruagem e voltamos a Ross. Holmes continuava com a pedra que tinha apanhado no bosque.</p><p>"Isto deve interess�-lo, Lestrade." - notou ele, mostrando a pedra. - "O assass�nio foi cometido com isto."</p><p>"N�o vejo marcas."</p><p>"N�o h� nenhumas."</p><p>"Ent�o como � que sabe?"</p><p>"A relva estava a nascer por baixo dela. S� l� estava h� alguns dias. N�o h� sinais do local de onde foi extra�da. Corresponde aos ferimentos. N�o h� marcas de qualquer outra arma."</p><p>"E o assassino?"</p><p>"� um homem alto, canhoto, coxo da perna esquerda, usa botas de ca�a, de solas grossas, capa cinzenta, fuma charutos indianos, usa uma tabaqueira e traz um canivete rombo no bolso. H� muitas outras indica��es, mas estas s�o suficientes para nos ajudar na nossa busca."</p><p>Lestrade riu-se.</p><p>"Lamento continuar um c�ptico" - disse ele. - "As teorias est�o muito bem, mas temos de lidar com o j�ri brit�nico que � cabe�a dura."</p><p>"A ver vamos" - respondeu Holmes, calmamente. - "O senhor usa o seu m�todo pr�prio e eu o meu. Esta tarde vou estar ocupado e devo voltar a Londres no comboio da tardinha."</p><p>"E deixar o caso por acabar?"</p><p>"N�o, acabado."</p><p>"Mas, o mist�rio?"</p><p>"Est� resolvido."</p><p>"Ent�o quem � o criminoso?"</p><p>"O homem que descrevi."</p><p>"Mas quem � ele?"</p><p>"Com certeza n�o � dif�cil descobrir. Os arredores n�o s�o assim t�o povoados."</p><p>Lestrade encolheu os ombros. "Sou um homem pr�tico" � disse ele - "e realmente, n�o posso ir por a� fora � procura dum homem canhoto e coxo. Seria motivo de riso da Scotland Yard."</p><p>"Muito bem" - disse Holmes, silenciosamente. - "Dei-lhe uma oportunidade. Chegamos aos seus aposentos. Adeus. Deixo-lhe um bilhete antes de partir."</p><p>Tendo deixado Lestrade nos seus aposentos, fomos para o nosso hotel onde encontramos o almo�o na mesa. Holmes estava silencioso e embrenhado nos seus pensamentos, com uma express�o de sofrimento no rosto como algu�m que se encontra numa situa��o perplexa.</p><p>"Olhe para aqui, Watson" - disse ele quando levantaram a mesa. - "Sente-se nesta cadeira e deixe-me falar um pouco para si. N�o sei o que fazer e apreciarei muito o seu conselho. Acenda um charuto e deixe-me falar." "Fa�a o favor."</p><p>"Bem, agora, considerando este caso, h� dois pontos acerca da narrativa do jovem McCarthy que me chamaram � aten��o quase instantaneamente, apesar de me terem impressionado em seu favor e a si contra. Um foi o fato do pai, de acordo com o seu relato, ter gritado �Cooee�!" antes de o ver. O outro foi a sua refer�ncia singular ao rato. Murmurou diversas palavras, percebe, mas foi s� essa que o filho apanhou. Agora �, deste ponto de vista duplo, que a nossa busca deve partir e come�armos por presumir que o que o rapaz disse � absolutamente verdade."</p><p>�E ent�o o �Cooee��?</p><p>�Bem, obviamente n�o era dirigido ao filho�. O filho, pensava ele, estava em Bristol. Foi por mera coincid�ncia que o ouviu.</p><p>O "Cooee!" destinou-se a atrair a aten��o daquele, fosse quem fosse, com quem tinha encontro marcado. Mas "Cooee" � um distinto grito australiano que se usa entre australianos. �H� uma forte indica��o de que a pessoa que McCarthy esperava tivesse vivido na Austr�lia.�</p><p>"E ent�o o rato?"</p><p>Sherlock Holmes pegou num papel dobrado que trazia no bolso, e alisou-o na mesa. "� um mapa da col�nia de Vit�ria" � disse ele. - "Telegrafei para Bristol, a noite passada."</p><p>P�s a m�o em parte do mapa. - "O que l�?" - perguntou ele.</p><p>"Ballarato" - li eu.</p><p>"E agora?" - disse ele, levantando a m�o.</p><p>"BALLARATO!" "� mesmo. Foi a palavra que o homem pronunciou e da qual o filho s� apanhou as duas �ltimas s�labas. Estava a tentar dizer o nome do assassino. Tal e qual Ballarato."</p><p>"Maravilhoso!" - exclamei.</p><p>"� �bvio. E agora, como v�, encurtei consideravelmente o campo de an�lise. A posse da pe�a de roupa cinzenta foi o terceiro ponto que, garantindo que a afirma��o do filho estava correta, � uma certeza. Chegamos agora, a partir de coisas vagas, a uma concep��o definitiva de um australiano de Ballarato com um capote cinzento."</p><p>"Com certeza."</p><p>- �E um que estava de certeza em casa, no distrito, pois s� pela quinta ou pela propriedade � que se pode chegar � piscina, onde os estranhos dificilmente podem vaguear.�</p><p>"Realmente."</p><p>"Ent�o, vem a nossa expedi��o de hoje. Examinando o solo, obtive os detalhes triviais que forneci ao imbecil Lestrade, sobre a personalidade do criminoso."</p><p>"Mas como os obteve?"</p><p>"Conhece o meu m�todo. � fundado na observa��o do trivial."</p><p>"O peso, sei que o pode avaliar pela profundidade das marcas dos passos. As botas, tamb�m se podiam adivinhar pelos tra�os."</p><p>"Sim, eram umas botas caracter�sticas."</p><p>"Sim, mas o fato de ser coxo?"</p><p>"A impress�o do p� direito era sempre menos n�tida do que a do p� esquerdo. Punha menos peso nele. Porqu�? Porque coxeava - era coxo."</p><p>"E ser canhoto?"</p><p>"Voc� mesmo se admirou com a natureza do ferimento, como o m�dico o descreveu. O golpe foi dado mesmo por tr�s e, contudo, do lado esquerdo. Como � que isso era poss�vel se o homem n�o fosse canhoto? Tinha permanecido atr�s da �rvore durante a conversa entre pai e filho. At� l� fumou. Encontrei cinza de charuto que o meu conhecimento especial de cinza de tabaco, me permite afirmar que era um charuto Indiano. Tenho, como sabe, devotado muita aten��o a isto, e escrito uma pequena monografia de cinzas de 140 variedades de tabaco de cachimbo, charuto e cigarro. Depois de ter descoberto a cinza, olhei em volta e descobri a beata entre o musgo para onde ele a atirou. Era de um charuto indiano, da variedade que � fabricada em Roterd�o."</p><p>"E a boquilha?"</p><p>"Vi que a ponta n�o tinha estado na sua boca. Portanto ele usava uma boquilha. A ponta tinha sido cortada, mas o corte n�o era muito certo, por isso, deduzi que tinha sido feito com um canivete rombo."</p><p>"Holmes" - disse eu - "teceu uma rede � volta deste homem, da qual ele n�o pode escapar e salvou uma vida inocente como se tivesse cortado a corda que o estava a enforcar. O culpado �..."</p><p>"O Sr. John Turner" - gritou o criado do hotel abrindo a porta da nossa sala e conduzindo um visitante.</p><p>O homem que entrou era uma figura estranha e impressionante.</p><p>Os seus passos vagarosos, o seu coxear e os seus ombros inclinados davam-lhe um aspecto de decr�pito e, contudo, as suas fei��es duras, profundamente marcadas e os seus membros enormes, mostravam que possu�a uma for�a f�sica e um car�ter fora do vulgar. A sua barba emaranhada, o seu cabelo grisalho e despenteado e as sobrancelhas inclinadas combinavam-se, dando-lhe um aspecto de dignidade e poder. Mas a face era dum branco cinza, enquanto os l�bios e os cantos das narinas</p><p>estavam tingidos de azul. Era not�rio, � primeira vista, que ele estava �s portas duma doen�a cr�nica mortal.</p><p>"Por favor, sente-se no sof�" - disse Holmes gentilmente. - "Recebeu o meu bilhete?"</p><p>"Sim, o gerente da propriedade entregou-mo. Disse que me queria ver para evitar o esc�ndalo."</p><p>"Pensei que as pessoas falariam se eu fosse ao Pal�cio da Justi�a."</p><p>"E porque � que me queria ver?" - olhou para o meu companheiro com desespero no olhar, como se a sua pergunta j� tivesse resposta.</p><p>"Sim" - disse Holmes, respondendo mais ao olhar do que �s palavras. - "Sei tudo sobre McCarthy."</p><p>O velho escondeu o rosto nas m�os. - "Deus me ajude!" - exclamou. - "N�o deixaria que acusassem o jovem e teria contado tudo se incriminassem o rapaz."</p><p>"Fico contente por ouvir isso" - disse Holmes gravemente.</p><p>"J� teria falado se n�o fosse a minha pobre filha. Ia destro�ar-lhe o cora��o - vai destro�ar-lhe o cora��o saber que estou preso."</p><p>"Pode n�o acontecer isso" - disse Holmes.</p><p>"O qu�?"</p><p>"N�o sou agente oficial. Compreendo que foi a sua filha que me pediu para tratar do caso, e estou a atuar no interesse dela. O jovem McCarthy tem, contudo, de ser ilibado."</p><p>"Sou um homem moribundo" - disse o velho Turner. - "Tenho diabetes j� h� muitos anos. O meu m�dico diz que duvida que eu dure um m�s. Contudo, preferia morrer na minha casa, do que na cadeia."</p><p>Holmes levantou-se e sentou-se � mesa com a caneta na m�o e um molho de pap�is � sua frente.</p><p>"Diga-nos a verdade" - disse ele. - "Eu escrevo os fatos. Assina isto e o meu amigo Watson, ser� testemunha. Depois, posso falar na sua confiss�o s� em �ltimo caso, para salvar o jovem McCarthy. Prometo-lhe que n�o a usarei a n�o ser que seja absolutamente necess�rio."</p><p>"Est� bem" - disse o velho. - �A quest�o � saber se eu vivo at� ir ao tribunal�. Isso interessa-me pouco, mas gostaria de poupar Alice desse choque. E agora vou esclarecer-lhe tudo; a a��o demora muito, mas contar n�o demora nada.</p><p>O Sr. Holmes n�o conhecia esse McCarthy que morreu. Ele era o diabo em figura de gente. Digo-lhe de verdade. Deus o afaste das garras dum homem como esse. As suas garras estiveram sobre mim durante estes vinte anos e deu conta da minha vida. Em primeiro lugar, digo-lhe como fiquei em seu poder.</p><p>Foi no in�cio dos anos 60, nas escava��es. Nessa altura, eu era um jovem de sangue na guelra e ousado, pronto a deitar a m�o a qualquer coisa. Comecei a andar com m�s companhias, a beber. N�o tinha cr�dito e, por isso, comecei a roubar e, numa palavra, tornei-me ladr�o.</p><p>�ramos seis, todos com uma vida selvagem, livre, trabalhando de quando em quando, na constru��o de esta��es ou conduzindo os vag�es na estrada, durante as escava��es. Black Jack de Ballarato que foi o nome que ganhei e o nosso grupo ainda hoje � recordado na col�nia como o grupo de Ballarato.</p><p>Um dia, havia um vag�o de ouro que seguia de Ballarato para Melbourne e n�s esperamos por ele e assalt�mo-lo. Eram seis soldados e n�s tamb�m �ramos seis, por isso era mesmo � justa.</p><p>Mas, logo � primeira rajada, acabamos com quatro deles. Contudo, tr�s dos nossos rapazes foram mortos antes de ficarmos com o ouro. Apontei a minha pistola � cabe�a do condutor do vag�o que era esse McCarthy. Dava tudo para o ter morto nessa altura, mas poupei-o apesar de ver os seus olhos malvados, fixos no meu rosto, como para fixar bem cada detalhe. Fugimos com o ouro, tornamo-nos ricos e fomos para Inglaterra sem ningu�m desconfiar de n�s.</p><p>Ali, separei-me dos colegas e decidi levar uma vida calma e respeit�vel. Comprei esta propriedade que, por sorte, estava � venda e dediquei-me a fazer algum bem com o meu dinheiro, para compensar o modo como o tinha ganho. Tamb�m casei e, apesar da minha esposa ter morrido jovem, deixou-me a minha querida Alice. Mesmo quando era ainda beb�, a sua m�o pequenina parecia levar-me no bom caminho, como nunca ningu�m o fizera.</p><p>Numa palavra, virei uma nova p�gina na vida e fiz o melhor que pude para compensar o passado.</p><p>Ia tudo muito bem quando McCarthy me deitou a m�o.</p><p>Tinha ido � cidade fazer um investimento e encontrei-o em Regent Street, com pouca roupa.</p><p>"Aqui estamos, Jack" - disse ele tocando-me no bra�o - "seremos como uma fam�lia para si. Somos apenas dois, eu e o meu filho, e pode, com certeza, tomar conta de n�s. Se n�o o fizer, Inglaterra � uma terra fina de leis duradouras onde h� sempre um pol�cia a quem nos podemos dirigir."</p><p>Bem, e assim vieram eles para o pa�s do oeste; ningu�m os mandou embora e viveram de gra�a nas minhas terras a partir da�. Nunca mais tive descanso nem paz nem perd�o; onde quer que fosse, via o seu rosto matreiro e sorridente em cada esquina. Tudo se tornou pior � medida que Alice cresceu, pois ele sabia que eu receava mais que ela soubesse o meu passado, do que a pr�pria pol�cia.</p><p>Tudo o que ele queria eu dava-lhe, fossem terras, dinheiro ou casas, at� que me pediu uma coisa que eu n�o lhe podia dar.</p><p>Queria Alice.</p><p>O seu filho, como sabe, tinha crescido e a minha filha tamb�m, e como se sabia que eu estava mal de sa�de, era um grande golpe o filho dele ficar na posse de toda a propriedade. Mas, nesse ponto, eu era firme. N�o queria os amaldi�oados haveres dele juntos com os meus; n�o porque eu n�o gostasse do rapaz, mas tinha sangue dele, e isso era suficiente. Mantive-me firme. Ficamos de nos encontrar na piscina, a meio do caminho entre as duas casas, para falarmos do assunto.</p><p>Quando cheguei l�, encontrei-o a falar com o filho, por isso, fumei um charuto e esperei atr�s duma �rvore at� ele ficar s�. Mas, ao ouvir a conversa deles, toda a amargura que sentia veio ao de cima. Estava a impelir o filho para casar com a minha filha, sem se preocupar com o que ela pensava, como se ela fosse uma rapariga da rua.</p><p>Fiquei louco ao pensar que eu e tudo o que tinha de mais querido iam ficar em poder dum homem daqueles. N�o podia eu desapertar o la�o?</p><p>J� era um homem moribundo e desesperado. Apesar de ter a mente s� e de ser forte, sabia que o meu destino estava marcado. Mas a minha mem�ria e a minha filha? Ambas podiam ser salvas se eu o pudesse calar. Foi o que fiz, Sr. Holmes. E f�-lo-ia outra vez. Pequei muito e tenho levado uma vida de mart�rio para pagar esse mal. Mas a minha filha ficar dependente deles, como eu, era o que nunca poderia suportar.</p><p>Matei-o com menos escr�pulos do que se ele fosse o animal mais revoltante e venenoso. O seu grito fez com que o filho aparecesse, mas consegui esconder-me no bosque, apesar de ter de voltar para apanhar o capote que deixara cair, ao fugir.</p><p>�Esta � a hist�ria verdadeira, senhor, tal e qual como se passou.�</p><p>"Bem, n�o sou eu que o vou julgar." - disse Holmes, quando o velho assinou as suas declara��es. - "Espero que nunca estejamos expostos a tal tenta��o."</p><p>"Espero bem que n�o, senhor. O que pretende fazer?"</p><p>"Tendo em conta a sua sa�de, nada. J� sabe que, em breve, ter� de responder pelas suas a��es, perante Deus. Vou guardar a sua confiss�o e, se McCarthy for condenado, serei for�ado a us�-la. Se n�o, nunca ser� vista por qualquer mortal; e o seu segredo, quer vivo, quer morto, ficar� salvo conosco."</p><p>"Ent�o adeus" - disse o velho solenemente. - "Quando o leito da vossa morte chegar, ser� mais f�cil de suportar pela paz que me deram."</p><p>Titubeando e tremendo imenso, saiu vagarosamente do quarto.</p><p>"Deus nos ajude!" - disse Holmes, depois dum longo sil�ncio.</p><p>- Porque � que o destino prega partidas aos vermes mais desprotegidos?</p><p>Nunca ou�o casos semelhantes sem pensar nas palavras de Baxter e dizer:</p><p>"Ali, pela gra�a de Deus, vai Sherlock Holmes."</p><p>James McCarthy foi levado a Tribunal por for�a dum certo n�mero de obje��es levantadas por Holmes e submetido ao conselho de defesa. O velho Turner viveu por mais sete meses, mas j� morreu; e h� todas as indica��es de que o filho e a filha de ambos venham a viver juntos e felizes ignorando a nuvem negra que repousa no passado dos pais.</p><empty-line/><p>**Fim**</p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong>as cinco sementes de laranja</strong></p><empty-line/><p>Quando consulto minhas notas e recorda��es dos casos de Sherlock Holmes entre os anos 1882 e 1890, encontro tantos que se apresentam como estranhos e interessantes que n�o � f�cil saber qual deles escolher ou qual deixar de lado. Alguns, entretanto, alcan�aram publicidade atrav�s dos jornais, ao passo que outros n�o oferecem campo apropriado para salientar aquelas qualidades peculiares que meu amigo possu�a em t�o alto grau e cuja demonstra��o � o objetivo destas p�ginas. Alguns tamb�m frustraram seu racioc�nio anal�tico, e seriam uma esp�cie de narrativa com come�o, mas sem fim, enquanto outros foram apenas parcialmente esclarecidos com explica��es, mas baseiam-se mais em conjecturas do que em provas absolutamente l�gicas, como era tanto do seu gosto. H�, todavia, um desses �ltimos casos que se apresentou t�o estranho nos seus pormenores e t�o surpreendente nos seus resultados, que sou tentado a relat�-lo, a despeito de haver alguns pontos, relacionados com ele, que nunca foram e provavelmente nunca ser�o esclarecidos.</p><p>O ano de 1887 trouxe-nos uma longa s�rie de casos de maior ou menor interesse, dos quais tenho os pormenores. Entre os cabe�alhos desse ano, encontro a hist�ria da aventura Paradol Chamber e da Sociedade dos Mendicantes Amadores, que possu�a um clube luxuoso no por�o de um dep�sito de m�veis; os fatos referentes � perda do barco brit�nico Sophy Anderson; as aventuras singulares do Grice Patersons na ilha de Uffa, e, finalmente, o caso de envenenamento em Camberwell. Neste �ltimo, como devem estar lembrados, Holmes conseguiu, ao dar corda ao rel�gio do defunto, provar que a corda j� havia sido dada umas duas horas antes e que, portanto, fora �quela hora que o falecido se deitara - dedu��o que era da maior import�ncia para o esclarecimento do caso. De todos estes, hei de fazer um resumo qualquer dia; por�m, nenhum deles apresenta fei��es t�o singulares como a corrente de estranhas circunst�ncias que agora me proponho descrever.</p><p>Em fins de setembro as tempestades equinociais haviam come�ado com viol�ncia excepcional. O vento zumbia o dia todo e a chuva tanto batia nas janelas que, mesmo aqui, no cora��o desta grande cidade de Londres, �ramos for�ados a afastar nossos pensamentos da rotina cotidiana e reconhecer a presen�a das grandes for�as da natureza que atemorizam os homens, apesar de toda a sua civiliza��o, como animais selvagens dentro de uma jaula. � medida que a tarde avan�ava, a tempestade aumentava mais e mais, e o vento gritava como uma crian�a na chamin�. Sherlock Holmes estava sentado tristemente ao lado da lareira, revendo suas anota��es sobre crimes, enquanto eu, do outro lado, lia com interesse uma das velhas hist�rias mar�timas de Clark Russell, a ponto de o grito da tempestade l� fora se confundir com a leitura e o barulho da chuva na janela se assemelhar ao clamor das ondas do mar. Minha mulher fora visitar uma tia, e durante alguns dias eu voltara a instalar-me nos meus aposentos da Baker Street.</p><p>- Ou�a - disse eu, olhando para o meu companheiro -, parece-me que ouvi a campainha! Quem viria numa noite destas? Talvez algum amigo seu?</p><p>- Exceto voc�, n�o tenho nenhum - respondeu ele.</p><p>- N�o gosto de visitas.</p><p>- Um cliente, ent�o?</p><p>- Se for, � um caso s�rio. Nada faria um homem sair de casa numa noite e numa hora destas. Parece-me mais prov�vel que seja algum amigo da propriet�ria.</p><p>Sherlock Holmes enganava-se nas suas conjecturas, porque ouvimos passos no corredor e uma pancada na nossa porta.</p><p>Ele estendeu seu comprido bra�o para dar volta ao interruptor do candeeiro que estava junto da sua cadeira e fez incidir a luz sobre a cadeira vazia onde deveria sentar-se o rec�m-chegado.</p><p>- Entre - exclamou ele.</p><p>O homem que entrou era jovem, de uns vinte e dois anos no m�ximo, bem-vestido, de aspecto distinto e cavalheiresco. O guarda-chuva molhado que trazia na m�o e a capa imperme�vel provavam a viol�ncia da chuva. Olhou em volta ansiosamente e, devido � luz do candeeiro, pude notar que seu rosto estava p�lido, os olhos cansados como os de um homem oprimido por grande preocupa��o.</p><p>- Devo pedir-lhes desculpas - lamentou ele, colocando o pincen� de ouro. - Espero n�o os incomodar; receio ter trazido alguns sinais da tempestade e da chuva para dentro da sua confort�vel sala.</p><p>- D�-me sua capa e o guarda-chuva - pediu Holmes.</p><p>- Podem ficar aqui no bengaleiro para irem secando. Vejo que veio do sudoeste.</p><p>- Sim, de Horsham.</p><p>- Essa mistura de barro e gipsita que vejo nas pontas dos seus sapatos � muito caracter�stica.</p><p>- Vim pedir-lhe um conselho.</p><p>- � f�cil de obter.</p><p>- E aux�lio.</p><p>- O que n�o � t�o f�cil.</p><p>- J� ouvi falar a seu respeito, Sr. Holmes. Contou-me o major Prendergast como o salvou do esc�ndalo do Tankerville Club.</p><p>- Ah, decerto. Fora acusado injustamente de ter roubado no jogo.</p><p>- Disse-me que o senhor poderia resolver qualquer problema.</p><p>- Ele exagerou.</p><p>- E que nunca foi vencido.</p><p>- Fui vencido quatro vezes... tr�s vezes por homens, e uma por uma mulher.</p><p>- O que � isso em compara��o com o n�mero dos seus �xitos?</p><p>- � verdade que, geralmente, tenho sido bem sucedido.</p><p>- Ent�o que o seja tamb�m comigo.</p><p>- Pe�o-lhe que puxe sua cadeira para mais perto da lareira e fa�a-me o favor de dar alguns pormenores do seu caso.</p><p>- Que n�o � comum.</p><p>- Nenhum dos casos que v�m ter comigo o s�o. Sou sempre o �ltimo a que recorrem.</p><p>- Em todo caso, duvido que, durante sua longa experi�ncia, tenha ouvido relatar uma s�rie de fatos mais misteriosos e inexplic�veis do que os que ocorreram na minha pr�pria fam�lia.</p><p>- O senhor deixa-me curioso - disse Holmes. - D�-nos os fatos essenciais desde o princ�pio, para que depois eu lhe possa perguntar sobre os pormenores que a mim pare�am de maior import�ncia.</p><p>O jovem puxou a cadeira e estendeu os p�s para a lareira.</p><p>- Meu nome - come�ou ele - � John Openshaw, mas minha vida, tanto quanto posso avaliar, pouco tem a ver com esses horr�veis acontecimentos. � um caso de heran�a; quero poder dar-lhe uma id�ia dos fatos que vou contar desde o in�cio.</p><p>�� preciso que o senhor saiba que meu av� tinha dois filhos: meu tio Elias e meu pai, Joseph. Meu pai possu�a uma pequena f�brica em Coventry, a qual cresceu com o tempo, devido � inven��o da bicicleta. Tirou a patente do pneu inquebr�vel Openshaw, e seu neg�cio prosperou, tanto que conseguiu vend�-lo e aposentar-se com uma boa soma. Meu tio Elias emigrou para a Am�rica, jovem ainda, e tornou-se fazendeiro na Fl�rida, onde dizem que ganhou bastante dinheiro. Por ocasi�o da guerra civil, combateu no ex�rcito de Jackson, e depois sob o comando de Hood, chegando a ser coronel. Quando Lee dep�s as armas, meu tio voltou para a fazenda, onde ficou durante tr�s ou quatro anos. Cerca de 1869 ou 1870, voltou para a Europa e comprou uma pequena herdade do Sussex, perto de Horsham. Havia ganho uma grande fortuna nos Estados Unidos, e a raz�o de ter sa�do de l� fora a grande avers�o que tinha aos negros e o desgosto pela pol�tica republicana ao tornar extensivo aos negros o direito de voto. Era solteiro, esquisito, bravo e impulsivo, usava uma linguagem de baixa condi��o quando estava irado, mas era retra�do. Possu�a um grande jardim e prados ao redor da casa, e ali se movimentava, fazia exerc�cios, embora �s vezes, durante semanas inteiras, nem sequer sa�sse do quarto. Bebia muito conhaque e fumava demais, n�o recebia visitas e n�o queria saber de muitos amigos, nem mesmo do pr�prio irm�o.</p><p>�A mim n�o ligava muito, mas apreciava-me porque quando me viu pela primeira vez eu era um garoto de uns doze anos apenas. Isso foi no ano de 1878, oito ou nove anos depois de sua volta � Inglaterra. Pediu a meu pai que me deixasse viver com ele e foi muito bondoso para mim, a seu modo. Quando n�o estava embriagado, gostava de jogar gam�o comigo. Dava-me os recados para serem transmitidos aos empregados e aos negociantes; portanto, quando eu tinha uns dezesseis anos, era uma esp�cie de patr�o da casa. Todas as chaves eram guardadas por mim, podia fazer o que bem quisesse, contanto que n�o entrasse nos seus aposentos particulares. Havia uma �nica exce��o, uma �gua-furtada que estava sempre trancada e onde ele nunca permitiu a entrada a ningu�m. Com a natural curiosidade de rapaz, eu espreitava pelo buraco da fechadura, mas nunca pude ver mais do que uma cole��o de ba�s velhos e embrulhos, como era natural num quarto de despejo.</p><p>�Um dia, foi em mar�o de 1883, apareceu uma carta com selo do estrangeiro em cima da mesa, perto do prato do coronel. Ele raras vezes recebia correspond�ncia, porque todas as contas eram pagas � vista e n�o tinha amigos que lhe escrevessem.</p><p>�- Da �ndia! - disse ele, olhando a carta. - Carimbo de Pondicherry! O que poder� ser isto?</p><p>�Abriu apressadamente a carta e dela ca�ram para dentro do prato cinco sementes secas de laranja. Ri, mas a risada morreu-me nos l�bios quando vi o rosto dele. A boca estava aberta, os olhos, esbugalhados, a pele adquiriu a cor da terra. Ele olhou espantado para o envelope que ainda segurava na m�o tr�mula.</p><p>�- K. K. K. - gritou e gemeu: - Meu Deus! Meu Deus! Meus pecados deram cabo de mim.</p><p>�- O que �, tio? - bradei eu.</p><p>�- A morte - disse ele, e, levantando-se da mesa, retirou-se para o seu quarto, deixando-me palpitante de horror. Peguei o envelope e vi rabiscada a tinta vermelha, do lado de dentro da dobra e logo acima da goma, a letra �k� em mai�scula, repetida tr�s vezes. N�o havia mais nada sen�o as cinco sementes. Qual seria a raz�o do terror que tanto o acabrunhara? Levantei-me da mesa, e, quando subia a escada, encontrei-o descendo com uma chave velha e enferrujada, que era antigamente da �gua-furtada, numa das m�os, e na outra uma caixinha, semelhante a um cofrezinho.</p><p>�- Podem fazer o que bem entenderem, mas continuarei a resistir - disse ele, soltando uma praga. - Diga a Mary que hoje quero fogo na lareira do meu quarto e mande chamar Fordham, o advogado de Horsham.</p><p>�Fiz o que me havia sido ordenado, e, quando o advogado chegou, convidou-me a subir ao quarto. O fogo estava bem aceso e na lareira havia um monte de cinzas pretas e fofas, como se fossem de papel queimado, ao passo que a caixa de bronze se encontrava aberta ao lado. Olhei a caixa e reparei, com um sobressalto, que na tampa estavam impressas as tr�s letras �k�, iguais �s que pela manh� vira no sobrescrito.</p><p>�- Desejo que voc�, John - disse meu tio -, seja testemunha do meu testamento. Deixo a minha herdade, com todas as suas vantagens e desvantagens, a meu irm�o, seu pai, de quem sem d�vida voc� herdar�, podendo goz�-la em paz e muito bem! Se n�o puder, ou�a o meu conselho, rapaz, deixe-a ao seu maior inimigo. Sinto deixar-lhes uma coisa t�o complicada, mas o mundo pode dar muitas voltas. Fa�a o favor de assinar o documento que o Sr. Fordham lhe apresenta.</p><p>�Assinei o papel indicado e o advogado levou-o. Esse incidente singular, como devem calcular, deixou uma profunda impress�o no meu c�rebro. Pensava e estudava o caso sem entretanto deduzir qualquer coisa que o elucidasse. N�o podia, por�m, livrar-me do pressentimento de que ia acontecer algo de horr�vel. Mas, � medida que as semanas passavam e nada de extraordin�rio ocorria, a impress�o foi se desvanecendo; contudo, notei grande mudan�a em meu tio. Bebia mais ainda e n�o queria a companhia de ningu�m. Passava a maior parte do tempo no quarto, de porta trancada por dentro; �s vezes sa�a dali num frenesi de �brio e corria para o jardim com um rev�lver na m�o, gritando que n�o tinha medo de homem algum e que n�o ia ficar encurralado feito carneiro, nem p�los homens, nem sequer pelo dem�nio. Depois que esses ataques de raiva passavam, entrava tumultuosamente pela porta, fechava-a e trancava-a como um homem que j� n�o tinha coragem para enfrentar o terror que jazia no fundo de sua alma. Em tais ocasi�es, seu rosto, mesmo num dia frio, brilhava com tanto suor como se o tivesse molhado numa bacia de �gua.</p><p>�Bem, para terminar a hist�ria, Sr. Holmes, e para n�o abusar da sua paci�ncia, chegou uma noite em que saiu numa dessas excurs�es �brias, da qual n�o mais voltou. Quando fomos procur�-lo, encontramo-lo de bru�os numa lagoazinha coberta de liquens que ficava ao fundo do jardim.</p><p>�N�o havia sinal de viol�ncia, a �gua tinha pouca profundidade, apenas uns dois p�s; por isso o j�ri, lembrando-se de sua excentricidade, deu o veredicto do caso como tratando-se de suic�dio. Mas eu, que sabia como ele se esquivava at� mesmo a pensar na morte, tive muita dificuldade em persuadir-me de que a tivesse procurado por si pr�prio. O testamento foi executado e meu pai entrou na posse da herdade e de umas catorze mil libras que estavam a seu cr�dito no banco.�</p><p>- Um instante - interpelou Holmes. - Afirmo-lhe que suas declara��es s�o das mais estranhas que jamais ouvi contar. D�-me a data de quando seu tio recebeu a carta e a data do seu suposto suic�dio.</p><p>- A carta chegou a 10 de mar�o de 1883. A morte ocorreu sete semanas depois, na noite de 2 de maio.</p><p>- Obrigado, Continue, por favor.</p><p>- Quando meu pai tomou posse da propriedade de Horsham, pedi-lhe que fizesse um exame minucioso na �gua-furtada que estava sempre fechada. Encontramos a caixa de bronze, embora o conte�do tivesse sido destru�do. Dentro da tampa estava um papelzinho com as iniciais K. K. K. e com as palavras �Cartas, memorandos, recibos e registro�, escritas por baixo. Presumimos que indicavam a natureza dos pap�is que haviam sido destru�dos pelo coronel Openshaw. O resto que ali se encontrava era de pouco valor, exceto muitos pap�is avulsos e carteirinhas que diziam respeito � vida de meu tio na Am�rica. Alguns eram do tempo da guerra civil e demonstravam que ele havia cumprido o seu dever e possu�a reputa��o de bom soldado. Outros narravam a constitui��o dos Estados do sul e falavam a respeito da sua pol�tica, dando a impress�o de que ele havia tomado parte ativa, opondo-se aos pol�ticos que tinham sido mandados do norte.</p><p>�Bem, do come�o de 1884, quando meu pai veio para Horsham, at� janeiro de 1885, tudo correu bem para n�s. No dia 4 desse m�s ouvi meu pai emitir um grito de surpresa quando est�vamos � mesa, ao almo�o. Tinha um envelope aberto numa das m�os e cinco sementes de laranja na palma estendida da outra. Sempre tro�ara da minha hist�ria a respeito do coronel, que considerava exagerada, mas agora ficara intrigado e amedrontado, visto que lhe acontecera a mesma coisa.</p><p>�- Que ser� que isto quer dizer, John? - balbuciou ele.</p><p>�Meu cora��o tornou-se pesado como chumbo.</p><p>�- � a K. K. K. - respondi.</p><p>�� � �Ele olhou para dentro do envelope.</p><p>�- � mesmo - disse ele. - Aqui est�o as mesmas letras. Mas o que � que est� escrito aqui acima delas?</p><p>�- 'Coloque os pap�is sobre o rel�gio de sol' - li, olhando por cima do ombro de meu pai.</p><p>�- Que pap�is? Que rel�gio de sol?</p><p>�- O rel�gio de sol que est� no jardim, n�o h� outro - exclamei. - Por�m, os pap�is devem ser aqueles que foram destru�dos.</p><p>�- Que disparate! - volveu ele. - Estamos num pa�s civilizado e n�o podemos admitir coisas como esta. De onde veio o envelope?</p><p>�- De Dundee - respondi-lhe, olhando para o carimbo.</p><p>�- Alguma brincadeira de mau gosto - disse ele. - Que tenho eu a ver com o rel�gio de sol ou com os pap�is? N�o me incomodo com tais tolices.</p><p>�- Eu com certeza avisaria a pol�cia - exclamei.</p><p>�- Para rirem de mim? Nada disso.</p><p>�- Ent�o permita-me que eu o fa�a.</p><p>�- N�o, pro�bo-o. N�o quero que se levante celeuma por causa de tal coisa.</p><p>�N�o adiantou argumentar com ele, porque era um homem obstinado. Andava, contudo, com o cora��o oprimido. No terceiro dia ap�s a chegada da carta, meu pai foi visitar um velho amigo, o major Freebody, comandante de uma das fortalezas sobre a colina de Portsdown. Fiquei contente com sua ida, pois parecia-me que fora de casa estaria mais resguardado do perigo. Enganei-me. Dois dias depois da sua partida, recebi um telegrama do major implorando-me que partisse imediatamente. Meu pai havia ca�do numa das profundas minas de greda que s�o numerosas naquela regi�o e estava sem sentidos, com o cr�nio partido. Apressei-me a ir ao seu encontro, mas ele faleceu sem recuperar os sentidos. Pelo fato de regressar de Fareham, ao crep�sculo, de o caminho n�o lhe ser familiar e a mina n�o estar cercada, o j�ri n�o hesitou em dizer que fora 'morte por acidente'. Considerei cuidadosamente os fatos em rela��o � sua morte e n�o pude descobrir qualquer coisa que sugerisse assassinato. N�o havia sinais de viol�ncia nem de pegadas no ch�o, nem de assalto, e tamb�m n�o havia not�cias de terem sido vistas pessoas estranhas por l�, mas devo confessar que fiquei perturbado, pois tinha quase certeza de que algum plano diab�lico havia sido bem preparado para apanh�-lo.</p><p>�Foi dessa maneira sinistra que entrei na posse da minha heran�a. Poder� perguntar-me por que n�o a vendo, e responder-lhe-ei que tenho quase a certeza de que nossa infelicidade se relaciona com algum incidente na vida de meu tio, e que o perigo continuaria tanto numa casa como noutra. Foi em janeiro de 1885 que meu pobre pai encontrou a morte, e j� se passaram dois anos e oito meses. Durante todo esse tempo vivi feliz em Horsham, com a esperan�a de que essa maldi��o da fam�lia tivesse passado e que houvesse terminado na �ltima gera��o. Mas era cedo demais; ontem o golpe veio para mim, da mesma forma que para meu pai.�</p><p>O jovem tirou do bolso do colete um envelope amarrotado e, virando-se para a mesa, sacudiu sobre ela cinco pequenas sementes secas de laranja.</p><p>- Este � o envelope - continuou ele -, e o carimbo � de Londres, regi�o leste. Dentro encontram-se as mesmas palavras que estavam na mensagem para meu pai: �K.K. K. Ponha os pap�is sobre o rel�gio de sol�.</p><p>- Que foi que o senhor fez? - perguntou Holmes.</p><p>- Nada.</p><p>- Nada?</p><p>- Para dizer a verdade - e escondeu o rosto nas m�os brancas e magras -, senti-me desamparado e fraco. Senti-me como um pobre coelho quando a cobra est� se aproximando. Parece que estou nas garras de uma irresist�vel, inexor�vel maldi��o, da qual nenhuma precau��o nem previs�o pode resguardar-me.</p><p>- Basta! Basta! - exclamou Sherlock Holmes. - Deve reagir como homem ou estar� perdido. Nada, a n�o ser a for�a moral, pode salv�-lo. N�o � momento para desesperar.</p><p>- J� procurei a pol�cia.</p><p>- Ah!</p><p>- Ouviram minha hist�ria com um sorriso. Estou convencido de que o inspetor j� formulou a opini�o de que as cartas s�o brincadeiras e que as mortes de meus parentes foram verdadeiros acidentes, como o j�ri decidiu, e nada tiveram a ver com os avisos.</p><p>Holmes ergueu as m�os, espantado, e exclamou:</p><p>- Imbecilidade incr�vel!</p><p>- Designaram um policial para ficar em casa comigo.</p><p>- Ele est� com o senhor agora?</p><p>- N�o, as ordens que recebeu s�o para ficar em casa.</p><p>Mais uma vez Holmes se enraiveceu.</p><p>- Por que o senhor n�o veio falar comigo - disse ele -, e, acima de tudo, por que n�o veio logo?</p><p>- Eu n�o sabia. S� hoje, quando contei minha afli��o ao major Prendergast, � que ele me aconselhou a vir falar com o senhor.</p><p>- E j� se passaram dois dias desde que recebeu a carta. Dev�amos ter-nos encontrado antes disso. Suponho que n�o possui mais nada, nenhum pormenor que nos possa ajudar.</p><p>- H� uma coisa - disse John.</p><p>Procurou ent�o no bolso do casaco, e, tirando um peda�o de papel azul descorado, colocou-o sobre a mesa.</p><p>- Tenho uma vaga lembran�a - disse ele - de que no dia em que meu tio queimou os pap�is, eu reparei que os pedacinhos que n�o estavam queimados e que jaziam entre as cinzas eram desta cor. Achei esta �nica folha no ch�o do quarto dele, e sinto-me inclinado a pensar que seja um dos pap�is que talvez se tenha desprendido dos outros, escapando assim � destrui��o. Al�m do fato de se referir �s sementes, n�o sei em que nos possa ajudar. A meu ver, julgo que fazia parte de um di�rio particular. A caligrafia �, sem a menor d�vida, de meu tio.</p><p>Holmes virou o candeeiro e inclinamo-nos sobre a folha de papel, que tinha a margem desigual, como se tivesse sido arrancada de algum livro. Trazia a data �mar�o de 1869� e embaixo achavam-se as seguintes anota��es enigm�ticas:</p><empty-line/><p>�Dia 4 - Hudson veio mesmo. Mesmo programa de costume.</p><p>Dia 7 - Mandei as sementes para MacCauley, Paramore e John Swain, de St. Augustine.</p><p>Dia 9 - MacCauley foi-se.</p><p>Dia 10 - John Swain foi-se.</p><p>Dia 12 - Visitei Paramore. Tudo bem.�</p><empty-line/><p>- Obrigado - disse Holmes, dobrando o papel e devolvendo-o ao nosso visitante. - Agora, de modo algum deve perder um s� instante. N�o perca tempo nem a discutir o que me contou. V� para casa e mexa-se.</p><p>- E o que devo fazer?</p><p>- H� unicamente uma coisa a fazer, mas precisa ser feita j�. Deve colocar o papel que me mostrou dentro da caixa de bronze de que falou. Ponha tamb�m um bilhete dizendo que todos os outros pap�is foram queimados por seu tio, s� restando este. Escreva isto com firmeza e de modo conveniente. Coloque logo a caixa no lugar indicado. Compreendeu?</p><p>- Perfeitamente.</p><p>- N�o pense em vingar-se ou em qualquer outra coisa, por ora. Isso obteremos n�s pela justi�a, mas precisamos tecer uma rede, como eles j� o fizeram. Em primeiro lugar, � preciso remover o perigo iminente que o amea�a. Em segundo, � necess�rio desvendar este mist�rio e punir os culpados.</p><p>- Fico-lhe muito grato, senhor - disse o mo�o, levantando-se e vestindo a capa. - O senhor deu-me vida e esperan�a novamente. Farei tudo o que me aconselhar.</p><p>- N�o perca um instante. E, al�m de tudo, tome cuidado, pois n�o h� d�vida de que o senhor est� sendo amea�ado por um perigo real e iminente. Como � que vai para l�?</p><p>- No trem de Waterloo.</p><p>- N�o s�o vinte e uma horas ainda. As ruas est�o cheias de gente, portanto espero que possa ir com seguran�a. Mesmo assim, n�o deixe de se acautelar.</p><p>- Estou armado.</p><p>- Bem, amanh� come�arei a trabalhar no seu caso.</p><p>- Encontramo-nos em Horsham, ent�o?</p><p>- N�o, seu segredo est� aqui em Londres, e � onde irei procur�-lo.</p><p>- Ent�o voltarei daqui a um ou dois dias e trarei not�cias da caixa e dos pap�is. Seguirei seus conselhos em tudo.</p><p>Deu-nos a m�o e foi embora.</p><p>L� fora o vento uivante e a chuva batiam nas janelas. Aquela hist�ria estranha parecia ter vindo at� n�s por interm�dio dos elementos convulcionados e ter sido soprada como um len�ol de algas numa tempestade, sendo agora absorvida de novo p�los mesmos elementos.</p><p>Durante algum tempo Sherlock Holmes ficou em sil�ncio, a cabe�a pendendo para a frente e os olhos fixos na cadeira, contemplando os carac�is azuis da fuma�a que se seguiam uns aos outros, subindo at� o teto.</p><p>- Penso, Watson - observou ele, afinal -, que, de todos os nossos casos, nenhum pareceu mais fant�stico do que este.</p><p>- Exceto, talvez, O signo dos quatro.</p><p>- � verdade. Foi excepcional. Contudo, este John Openshaw parece-me caminhar entre grandes perigos, muito maiores do que os dos Sholtos.</p><p>- J� sabe em que consistem esses perigos?</p><p>- N�o h� d�vida quanto � sua natureza - respondeu ele.</p><p>- Ent�o quais s�o? Quem � essa K. K. K. e por que persegue esta pobre fam�lia?</p><p>Sherlock Holmes fechou os olhos, colocou os cotovelos sobre os bra�os da poltrona e juntou as pontas dos dedos.</p><p>- O raciocinador ideal - observou ele -, depois de observar um simples fato em todas as suas facetas, deduz n�o s� o encadeamento dos acontecimentos, como tamb�m todos os resultados que se seguir�o. Assim como Cuvier podia descrever corretamente o animal todo pela contempla��o de um simples osso, assim tamb�m o observador que compreendeu perfeitamente um elo numa s�rie de incidentes deve ser capaz de prever acertadamente todos os outros pontos relativos ao caso, tanto antes como depois. Ainda n�o alcan�amos os resultados que s� com a raz�o podem ser atingidos.</p><p>Problemas que t�m embara�ado quem procurava a sua solu��o por meio dos sentidos puderam ser resolvidos simplesmente pelo estudo e pela reflex�o. Para praticar a arte de discernir at� o mais alto grau, � necess�rio que o raciocinador possa utilizar-se de todos os fatos que lhe vieram ao conhecimento; isto, em si, implica que deve possuir um conhecimento de tudo o que possa ser �til ao seu trabalho, o que, mesmo nestes dias de educa��o livre e enciclop�dica, � raro. Tenho procurado obter esses conhecimentos; todavia, se n�o me engano, voc� uma vez, nos primeiros dias da nossa amizade, definiu meus limites de sabedoria de um modo muito preciso.</p><p>- Sim - disse eu, rindo -, era um documento singular. Filosofia, astronomia e pol�tica estavam marcadas com um zero. Bot�nica, vari�vel; geologia, conhecimentos profundos quanto �s manchas de lama da regi�o num raio de noventa quil�metros da cidade. Qu�mica, exc�ntricos; anatomia, sem um sistema fixo; literatura � sensation e anota��es de crimes, sem igual; violinista, pugilista, esgrimista e advogado. Esses, segundo penso, foram os principais resultados da minha an�lise.</p><p>Holmes fez uma careta bem-humorada.</p><p>- Bem - disse ele -, agora sei, como disse naquela ocasi�o, que devemos conservar o cerebrozinho em atividade, cheio de todos os elementos que nos possam ser �teis, e o resto podemos guardar na biblioteca, onde o iremos procurar quando necess�rio. Agora, por essa mesma raz�o, e mais a que nos foi apresentada hoje, devemos juntar todos os nossos recursos. Tenha a bondade de tirar da estante a letra K da Enciclop�dia americana, a�, perto de voc�. Obrigado. Agora vamos ver o que deduzimos da situa��o. Em primeiro lugar podemos presumir que o coronel Openshaw tinha alguma forte raz�o para deixar a Am�rica. Homens da idade dele n�o trocariam de boa vontade seus h�bitos de vida e o clima maravilhoso da Fl�rida por uma cidadezinha provinciana da Inglaterra. Seu excessivo amor pela solid�o, aqui na Inglaterra, sugere a id�ia de que estivesse com medo de algu�m ou de alguma coisa, e por isso formulamos essa hip�tese sobre a raz�o de haver deixado a Am�rica. Quanto ao que ele temia, s� o podemos deduzir ponderando o caso das iniciais medonhas recebidas por ele e seus sucessores.</p><p>- Reparou nos carimbos daquelas cartas?</p><p>- A primeira veio de Pondicherry, a segunda, de Dundee, e a terceira, de Londres.</p><p>- S�o todos portos de mar, e a pessoa que as mandou estava a bordo.</p><p>- Excelente, j� temos uma indica��o. N�o pode haver d�vida alguma de que o remetente estava a bordo de algum navio. Vamos agora ver outro ponto. No caso de Pondicherry, passaram-se sete semanas entre a amea�a e o seu cumprimento; no de Dundee, apenas tr�s ou quatro dias. Isso sugere alguma coisa?</p><p>- Que havia maior dist�ncia a percorrer.</p><p>- A carta tamb�m tinha maior dist�ncia a fazer.</p><p>- � verdade! Ent�o n�o vejo...</p><p>- Pode-se presumir pelo menos que o navio em que o homem ou os homens est�o � um veleiro. Parece que mandaram seu singular aviso ou sinal antes de encetarem a viagem para dar cumprimento � miss�o. Lembre-se da rapidez com que o ato se seguiu � amea�a, quando veio de Dundee. Se tivessem vindo de Pondicherry de barco, teriam chegado quase t�o depressa quanto a carta, mas passaram-se sete semanas. Parece-me que estas sete semanas representam a diferen�a entre o tempo que leva o navio que trouxe a carta e o cargueiro que trouxe o remetente.</p><p>- � muito poss�vel.</p><p>- Mais do que isso, talvez. E agora, veja a urg�ncia deste novo aviso: foi por isso que insisti com o jovem Openshaw para que se acautele. O golpe tem sido dado sempre no fim do tempo necess�rio para os �remetentes� percorrerem o caminho. Por�m, esta veio mesmo de Londres, e n�o podemos contar com qualquer demora.</p><p>- Bondoso Deus! - exclamei eu. - Qual ser� a raz�o desta intermin�vel persegui��o?</p><p>- Os pap�is que Openshaw guardava eram sem d�vida de import�ncia vital para a pessoa ou as pessoas do cargueiro. Parece evidente que h� mais de uma pessoa. Um homem s� n�o podia ter praticado duas mortes de modo a enganar um j�ri. Devem existir v�rios homens no caso, e devem ser pessoas de recursos e de determina��o. Resolveram recuperar os seus pap�is. Desse modo, K. K. K. cessam de ser as iniciais de uma pessoa s�, tornando-se o distintivo de uma sociedade.</p><p>- Mas que sociedade?</p><p>- Nunca ouviu falar na Ku Klux Klan? - perguntou Holmes em voz baixa.</p><p>- Nunca.</p><p>Holmes folheou o livro que tinha sobre os joelhos.</p><p>- Aqui est� - disse ele.</p><p>�O nome Ku Klux Klan deriva da semelhan�a imagin�ria com o som produzido ao se carregar uma espingarda. Essa terr�vel sociedade secreta foi organizada por ex-soldados confederados nos Estados do sul, depois da guerra civil, ramificando-se rapidamente em diversas partes do pa�s, nomeadamente no Tennessee, na Louisiana, na Carolina, na Ge�rgia e na Fl�rida. Era usada com fins pol�ticos, principalmente para aterrorizar os eleitores negros com o assass�nio ou expuls�o do pa�s daqueles que fossem contra os seus m�todos. Suas atrocidades eram precedidas geralmente por um aviso ao homem marcado, de um modo fant�stico, mas reconhec�vel: um ramo de folhas de carvalho, em algumas regi�es, sementes de mel�o ou de laranja, noutras. Ao receber isso, a v�tima podia abjurar abertamente as antigas id�ias ou deixar o pa�s. Se se mantivesse firme e recusasse dar aten��o ao aviso, a morte era certa, e usualmente de modo estranho e imprevisto. T�o perfeita era a organiza��o dessa sociedade e t�o sistem�ticos os seus m�todos, que n�o h� lembran�a de um caso em que o homem a tivesse desprezado, escapando, ou que os autores de qualquer dos casos de ultraje tivessem sido descobertos. Por muitos anos, a sociedade foi forte, apesar dos esfor�os do governo dos Estados Unidos e da comunidade sulista para tentar elimin�-la. Finalmente, em 1869, r�pida e quase totalmente, a sociedade desapareceu, embora tenham ocorrido casos espor�dicos do mesmo tipo desde aquela data.�</p><p>- Repare - disse Holmes - que a repentina desapari��o da sociedade coincide com a sa�da de Openshaw da Am�rica, levando seus pap�is. N�o � de admirar que ele e sua fam�lia tenham alguns dos mais aferrados adeptos a persegui-los. Voc� compreende que esse registro e di�rio podem indicar alguns dos homens mais importantes do sul, e existem muitos que n�o dormir�o sossegadamente at� que os pap�is sejam recuperados.</p><p>- Ent�o, e a p�gina que vimos?</p><p>- � o que se poderia esperar. Se n�o me engano, lemos: �Mandei as sementes para A, B e C�, isto �, mandou o aviso da sociedade para eles. Depois h� sucessivos apontamentos para mencionar que A e B desapareceram ou deixaram o pa�s, e finalmente que C fora visitado, e temo um resultado sinistro para C. Bem, doutor, creio que podemos derramar um pouco de luz sobre esse caso obscuro, e acredito que a �nica chance do jovem Openshaw ser�, entretanto, fazer o que lhe aconselhei. N�o h� mais nada a fazer e a dizer por hoje, por isso d�-me o meu violino e vamos tentar esquecer durante meia hora este tempo miser�vel e o procedimento ainda mais miser�vel dos nossos semelhantes.</p><p>No dia seguinte, a manh� estava clara e o sol brilhava suavemente atrav�s do transparente v�u de nuvens que pairava sobre a grande cidade. Sherlock Holmes estava tomando o seu caf� quando desci do quarto.</p><p>- Desculpe-me n�o ter esperado por voc� - declarou ele -, tenho um dia de grande atividade � minha frente, com pesquisas no caso do jovem Openshaw.</p><p>- Quais s�o os passos que vai dar? - perguntei-lhe.</p><p>- Muito depender� das minhas primeiras pesquisas. Talvez tenha de ir at� Horsham, no fim.</p><p>- Mas n�o ir� l� primeiro?</p><p>- N�o, come�arei aqui na cidade. Toque a campainha e a empregada trar� o seu caf�.</p><p>Enquanto esperava, peguei o jornal, abri-o e dei uma olhada nas manchetes. Li um cabe�alho que me fez gelar o cora��o.</p><p>- Holmes - gritei -, tarde demais.</p><p>- Ah! - disse ele, colocando a ch�vena sobre a mesa -, receava isso. Como foi?</p><p>Falou calmamente, mas vi que estava profundamente comovido. Vi o nome de Openshaw, e o cabe�alho era: �Trag�dia perto da Ponte de Waterloo�. Aqui est� a not�cia:</p><p>�Entre as vinte e uma e vinte e duas horas de ontem, o policial Cook, da Divis�o H, sentinela da Ponte de Waterloo, ouviu um grito pedindo socorro e um barulho de mergulho na �gua. A noite, todavia, estava muito escura e tempestuosa; por isso, apesar do aux�lio de diversos transeuntes, foi de todo imposs�vel efetuar o salvamento. O alarme foi dado e, com o aux�lio da pol�cia costeira, o corpo foi por fim encontrado. Ficou provado ser do jovem cujo nome, como consta do envelope encontrado no seu bolso, era John Openshaw. Conjectura-se que talvez ele se apressasse para apanhar o �ltimo trem da Waterloo Station e que na pressa, sendo grande a escurid�o, tenha perdido o rumo e ca�do da beira de uma das pequenas plataformas para barca�as. No corpo n�o foram encontrados sinais de viol�ncia e n�o pode haver d�vida de que o falecido tenha sido v�tima de um tr�gico acidente, o qual deve ser aproveitado para se chamar a aten��o das autoridades sobre as prec�rias situa��es das plataformas de embarque�.</p><p>Ficamos em sil�ncio por alguns minutos. Holmes estava mais abatido com o choque do que eu jamais o havia visto antes.</p><p>- Isto humilha-me - disse ele por fim. - � um sentimento mesquinho, n�o h� d�vida, mas fere o meu orgulho. Torna-se agora um assunto pessoal, e se Deus me der sa�de, apanharei esses criminosos. Ele veio me pedir aux�lio e eu o mandei embora de encontro � morte!... Pulou da cadeira e andou pela sala numa agita��o incontrol�vel. O rosto sempre p�lido corou, e ele ficou muito tempo fechando e abrindo as m�os longas e magras.</p><p>- Devem ser dem�nios astuciosos - exclamou ele. - Como poderiam t�-lo atra�do l� para baixo? O passeio ao lado do rio n�o � em linha reta para a esta��o. Com certeza havia muita gente na ponta, mesmo numa noite como a passada. Bem, Watson, veremos quem vencer�. Vou sair agora.</p><p>- � pol�cia?</p><p>- N�o. Vou ser eu pr�prio a pol�cia. Quando tiver tecido a teia, podem levar as moscas, mas antes, n�o. Todo aquele dia estive ocupado com meu trabalho profissional e j� era tarde quando voltei � Baker Street. Sherlock Holmes n�o chegara ainda. Eram quase vinte e duas horas quando entrou, p�lido e cansado. Foi ao bufe, partiu um peda�o de p�o, devorou-o apressadamente, fazendo-o descer com um grande gole de �gua.</p><p>- Est� com fome - observei.</p><p>- Morrendo de fome. Nem me lembrava. N�o comi nada desde o caf�.</p><p>- Nada?</p><p>- N�o tive tempo de pensar nisso.</p><p>- E foi bem sucedido?</p><p>- Sim.</p><p>- Tem alguma pista?</p><p>- Tenho-os na palma da m�o. O jovem Openshaw n�o ficar� muito tempo sem ser vingado. Olhe, Watson, vamos imprimir a pr�pria rubrica diab�lica em cima deles. � muito bem pensado.</p><p>- O que quer dizer com isso?</p><p>Tirou uma laranja do aparador e, cortando-a, espremeu as sementes para cima da mesa. Delas retirou cinco, p�-las num envelope e por dentro da dobra escreveu: �S. H. para J. C.� Depois fechou-o e endere�ou-o ao capit�o James Calhoun, brigue Lone Star, Savannah, Ge�rgia.</p><p>- Isto estar� a sua espera quando seu navio chegar ao porto - disse ele, rindo baixinho. - Perder� o sono nessa noite e pressentir� um aviso do destino, como aconteceu ao jovem Openshaw.</p><p>- E quem � esse capit�o Calhoun?</p><p>- O chefe do bando de assassinos. H� outros, e hei de agarr�-los a todos, mas ele ser� o primeiro.</p><p>- Como conseguiu essa pista?</p><p>- Passei o dia inteiro - disse ele - examinando os registros da Companhia Lioyd, seguindo o trajeto de cada embarca��o que aportou em Pondicherry em janeiro e fevereiro de 1883. Havia trinta e seis embarca��es de regular tonelagem que foram anotadas ali durante aqueles meses. Dessas, o Lone Star logo me chamou a aten��o, visto que, embora fosse certo ter vindo de Londres, o nome � o mesmo dado a um dos Estados da Uni�o.</p><p>- Texas, creio.</p><p>- N�o tenho a certeza de qual deles; mas sabia que o navio era de origem americana.</p><p>- E ent�o?</p><p>- Procurei depois nos registros de Dundee, e quando vi que o Lone Star havia estado l� em janeiro de 1885, minhas suspeitas tornaram-se uma certeza. Pedi ent�o informa��es quanto �s embarca��es que est�o presentemente no porto de Londres.</p><p>- Sim?</p><p>- O Lone Star chegou a semana passada. Fui at� as docas, mas o navio havia descido o rio, na mar� desta manha, e estava a caminho de casa, para Savannah. Telegrafei para Gravesend e soube que o navio passara por l� havia poucas horas, e, como o vento era do leste, n�o tenho d�vida de que j� passou por Goodwins, n�o muito longe da ilha de Wight.</p><p>- O que far� voc�, ent�o?</p><p>- Oh, eu tenho-o seguro. Ele e os dois oficiais s�o os �nicos americanos, os outros s�o finlandeses ou alem�es. Tamb�m fiquei sabendo que, ontem � noite, estiveram os tr�s fora do navio. Soube disso pelo estivador que ajudou no carregamento. At� que chegue a Savannah, o vapor com a mala postal ter� levado esta carta, e o cabograma ter� informado a pol�cia de Savannah de que esses tr�s cavalheiros est�o sendo procurados sob a acusa��o de assassinato.</p><p>Todavia, h� sempre uma falha nos planos mais bem delineados: os assassinos de John Openshaw nunca chegaram a receber as sementes que lhes provariam que outro, t�o esperto e t�o decidido como eles, os perseguia. Longas e rigorosas foram as tempestades equinociais daquele ano. Esperamos muito tempo at� ter not�cias do <emphasis>Lone Star</emphasis>, de Savannah, mas n�o conseguimos saber nada. Ouvimos, ap�s muito tempo, que em determinado local, no meio do Atl�ntico, foi visto um mastro quebrado de uma embarca��o balou�ando nos vagalh�es, com as letras �L. S.� nele esculpidas, e � s� isso o que sempre saberemos do destino do <emphasis>Lone Star</emphasis>.</p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong>o homem de l�bio torcido</strong></p><p>Isa Whitney, irm�o do finado elias Whitnesy, D.D., reitor do Col�gio Teol�gico de St. George, era viciado em �pio. Adquirira o h�bito, pelo que eu soube, a partir de um incidente tolo, quando estava na universidade; tendo lido a descri��o de De Quincey de seus sonhos e sensa��es, misturara o tabaco com l�udano, numa tentativa de produzir os mesmos efeitos. Descobriu, como muitos outros, que era um h�bito f�cil de adquirir e dif�cil de abandonar, e por muitos anos continuou escravizado � droga, despertando um misto de horror e compaix�o em seus amigos e parentes. Ainda posso v�-lo agora, com o rosto amarelado e pastoso, p�lpebras ca�das e pupilas reduzidas a pequenos pontos, todo encolhido em uma cadeira, destro�os e ru�nas de um homem nobre.</p><p>Uma noite � foi em junho de 1889 �, minha campainha tocou naquela hora em que o homem d� seu primeiro bocejo e olha para o rel�gio. Empertiguei-me na</p><p>cadeira e minha esposa deixou cair o bordado no colo e fez uma careta de desapontamento.</p><p>� Um cliente! � disse. � Voc� vai ter de sair.</p><p>Gemi, pois acabara de voltar depois de um dia estafante.</p><p>Ouvimos a porta se abrir, algumas palavras apressadas, e depois passos r�pidos no lin�leo. A porta da sala onde est�vamos foi aberta bruscamente e uma senhora, vestida com uma roupa escura e coberta com um v�u, entrou rapidamente.</p><p>� Pe�o desculpas por vir t�o tarde � come�ou, e ent�o, perdendo de repente todo o controle, correu e atirou os bra�os em volta do pesco�o de minha esposa, solu�ando em seu ombro. � Oh! Estou t�o aflita! � exclamou. � Preciso tanto de ajuda.</p><p>� Oh � disse minha esposa, erguendo o v�u que cobria seu rosto �, � Kate Whitney. Como voc� me assustou, Kate! N�o tinha a menor id�ia de que era voc� quando entrou.</p><p>� N�o sabia o que fazer, por isso vim direto aqui.</p><p>Era sempre assim. As pessoas em dificuldades vinham correndo para minha esposa como p�ssaros para um farol.</p><p>� Foi muito bom voc� ter vindo. Agora precisa tomar um pouco de vinho com �gua, sentar-se aqui confortavelmente e nos contar tudo. Ou prefere que mande James para a cama?</p><p>� Oh, n�o, n�o. Quero que o doutor me aconselhe e me ajude tamb�m. � a respeito de Isa. H� dois dias ele n�o aparece em casa. Estou com tanto medo!</p><p>N�o era a primeira vez que falava do problema do marido, a mim, como m�dico; � minha esposa, como velha amiga e companheira de col�gio. Procuramos acalm�-la e confort�-la, buscando palavras apropriadas. Sabia onde estava o marido? Ser� que conseguir�amos traz�-lo de volta?</p><p>Parecia que sim. Tinha uma informa��o segura de que ultimamente, quando sentia necessidade, ele usava uma casa de �pio no extremo leste da cidade. At� ent�o suas orgias haviam sido limitadas a um dia, e voltava sempre, contorcendo-se em espasmos e totalmente alquebrado, � noite. Mas agora esse epis�dio estava durando 48 horas e estava, certamente, em meio � esc�ria das docas, aspirando o veneno ou dormindo sob seu efeito. Era ali que seria encontrado, tinha certeza, no Bar de Ouro, em Upper Swandam Lane. Mas o que devia fazer? Como podia ela, uma mulher jovem e t�mida, entrar num lugar desses e arrancar o marido dos desordeiros que o cercavam?</p><p>A� estava a quest�o, e naturalmente s� havia uma sa�da. Ser� que eu n�o poderia acompanh�-la at� esse lugar? E, pensando bem, por que era preciso que ela fosse at� l�? Eu era m�dico de Whitney e, como tal, tinha certa influ�ncia sobre ele. Seria melhor que eu fosse sozinho. Dei-lhe minha palavra de que o mandaria para casa em um carro de aluguel dentro de duas horas se ele estivesse realmente no endere�o que me dera. E assim, em dez minutos, deixei minha poltrona confort�vel e minha sala alegre e me vi em um carro de aluguel, numa miss�o estranha, como me pareceu na ocasi�o, embora s� o futuro pudesse demonstrar como seria estranha.</p><p>N�o encontrei nenhuma dificuldade na primeira etapa de minha aventura. Upper Swandam Lane � um beco s�rdido, escondido atr�s dos armaz�ns das docas que se alinham ao longo da margem norte do rio, a leste da Ponte de Londres. Entre uma loja de roupas baratas e uma taberna, descendo degraus �ngremes que desapareciam num v�o negro como a boca de uma caverna, encontrei o antro que procurava. Mandei o carro me esperar, desci os degraus, gastos no meio pelo tr�fego cont�nuo de p�s b�bados, e � luz de uma l�mpada a �leo colocada sobre a porta, achei a fechadura e entrei em um quarto de teto baixo, longo e estreito, cheio da fuma�a parda e espessa do �pio, e com beliches de madeira junto �s paredes, como o castelo de proa de um navio de emigrantes.</p><p>Atrav�s da penumbra podia-se vislumbrar com dificuldade corpos deitados em poses fantasticamente estranhas, ombros encolhidos, joelhos dobrados, cabe�as jogadas para tr�s e queixos apontando para o teto e, aqui e ali, um olho escuro e emba�ado virado para o rec�m-chegado. Dentro das negras sombras brilhavam pequenos c�rculos vermelhos, ora vivos, ora fracos, � medida que o veneno ardia ou ia se apagando no bojo dos cachimbos de metal. A maioria estava silenciosa, mas alguns resmungavam para si mesmos e outros falavam entre si em voz baixa e mon�tona, a conversa vindo em roj�es e subitamente terminando em sil�ncio, cada um balbuciando seus pr�prios pensamentos e n�o prestando aten��o �s palavras do vizinho. L� no fundo havia um fogareiro com carv�o em brasa junto ao qual estava sentado um velho alto e magro em um banquinho de tr�s p�s, com o queixo apoiado nas m�os e os cotovelos descansando nos joelhos, contemplando o fogo.</p><p>Quando entrei, um empregado malaio de tez escura correu para mim com um cachimbo e uma dose da droga, apontando para uma cama vazia.</p><p>� Obrigado, n�o vim para ficar � disse. � H� um amigo meu aqui, o sr. Isa Whitney, e quero falar com ele.</p><p>Houve um movimento e uma exclama��o � minha direita e, tentando vencer a penumbra, vi Whitney, p�lido, abatido e sujo, olhando fixamente para mim.</p><p>� Meu Deus! � Watson � disse. � Estava em peti��o de mis�ria, com todos os nervos em espasmo. � Diga-me, Watson, que horas s�o?</p><p>� Quase 23 horas.</p><p>� De que dia?</p><p>� Sexta-feira, 19 de junho.</p><p>� C�us! Pensei que fosse quarta-feira. � quarta-feira, eu sei. Por que est� me assustando assim? � Escondeu o rosto nos bra�os e come�ou a solu�ar.</p><p>� Estou lhe dizendo que � sexta-feira, homem. Sua mulher est� � sua espera h� dois dias. Devia estar envergonhado de si mesmo!</p><p>� E estou. Mas voc� est� errado, Watson, estou aqui h� apenas algumas horas, tr�s cachimbos, quatro... n�o me lembro quantos. Mas vou para casa com voc�. N�o quero amedrontar Kate... pobre Kate. D�-me a m�o! Voc� est� de carro?</p><p>� Sim, tenho um � espera.</p><p>� Ent�o vou nele. Mas devo alguma coisa aqui. Veja quanto devo, Watson. N�o estou bem. N�o posso fazer nada sozinho.</p><p>Desci a passagem estreita entre as duas fileiras de sonhadores, prendendo a respira��o para n�o inspirar os vapores nocivos da droga, procurando o gerente. Ao passar pelo homem alto que estava sentado junto ao fogareiro, senti que puxavam minha manga e uma voz baixa murmurou: �Passe por mim e depois olhe para tr�s�. As palavras soaram bem distintas em meus ouvidos. Olhei para baixo. S� podiam ter vindo do velho ao meu lado, mas ele estava sentado como antes, completamente absorto, muito magro, muito enrugado, curvo pela idade, com um cachimbo de �pio pendurado nos joelhos, como se tivesse ca�do dos dedos subitamente frouxos. Dei dois passos � frente e virei. Foi preciso todo meu autocontrole para evitar que desse um grito de espanto. Virara de costas de modo que ningu�m podia v�-lo, a n�o ser eu. Sua forma se enchera, as rugas haviam desaparecido, os olhos emba�ados haviam recuperado seu brilho e l�, sentado junto ao fogo e rindo da minha surpresa, estava ningu�m menos que Sherlock Holmes. Fez um discreto sinal para que me aproximasse e imediatamente, ao virar o rosto para os outros novamente, voltou a ser um velho senil.</p><p>� Holmes! � exclamei. � O que est� fazendo neste antro?</p><p>� Fale o mais baixo poss�vel � respondeu. � Tenho ouvidos excelentes. Se quiser ter a bondade de se livrar de seu amigo dopado, eu ficaria muito contente de ter uma conversa com voc�.</p><p>� Tenho um cabriol� l� fora.</p><p>� Ent�o, por favor, mande-o para casa nesse carro. Pode confiar nele, pois parece arrasado demais para se meter em encrencas. Vou tamb�m aconselhar que mande pelo cocheiro um bilhete para sua esposa, explicando que est� comigo. Espere l� fora, sairei em cinco minutos.</p><p>Era muito dif�cil recusar qualquer coisa a Sherlock Holmes, pois seus pedidos eram sempre muito precisos e apresentados com um ar tranq�ilo de dom�nio. Mas achei que, depois que Whitney estivesse dentro do carro, minha miss�o estaria praticamente cumprida. Quanto ao resto, n�o poderia querer coisa melhor que me associar a meu amigo em uma dessas aventuras singulares que eram a condi��o normal de sua exist�ncia. Em poucos minutos escrevi meu bilhete, paguei a conta de Whitney, levei-o at� o carro, que vi desaparecer na escurid�o. Em pouco tempo, uma figura decr�pita saiu do antro de �pio e eu descia a rua ao lado de Sherlock Holmes. Por duas ruas ele arrastou os p�s, com as costas curvadas e cambaleando. Ent�o, olhando rapidamente em volta, endireitou-se e deu uma boa gargalhada.</p><p>� Suponho, Watson � disse � que est� imaginando que acrescentei o v�cio de fumar �pio �s inje��es de coca�na e a todas as outras fraquezas sobre as quais voc� me vive dando sua opini�o m�dica.</p><p>� Realmente fiquei espantado de encontrar voc� ali.</p><p>� N�o mais espantado do que eu de ver voc�.</p><p>� Vim procurar um amigo.</p><p>� E eu, um inimigo!</p><p>� Um inimigo?</p><p>� Sim, um de meus inimigos naturais, ou, devo dizer, minha presa natural. Em resumo, Watson, estou no meio de uma investiga��o realmente not�vel, e esperava encontrar algum ind�cio nas digress�es incoerentes desses b�bados, como j� fiz antes. Se fosse reconhecido naquele antro, minha vida n�o valeria um tost�o, pois usei-o muitas vezes para meus pr�prios objetivos, e o bandido do eurasiano, que � o gerente, jurou vingar-se de mim. H� um al�ap�o nos fundos do pr�dio, perto da esquina da Paul�s Warf, que poderia contar estranhas hist�rias do que passou por ele em noites sem lua.</p><p>� O qu�! Quer dizer corpos?</p><p>� Sim, corpos, Watson. Ser�amos homens ricos se tiv�ssemos 1.000 libras para cada pobre-diabo que foi liquidado naquele antro. � a armadilha assassina mais s�rdida de toda a margem do rio e temo que Neville St. Clair tenha entrado l� para n�o sair mais. Nosso cabriol� deveria estar aqui! � P�s os dois dedos indicadores entre os dentes e deu um assobio agudo, um sinal que foi respondido por um assobio semelhante a dist�ncia, seguido em poucos instantes pelo ru�do de rodas e de cascos de cavalo.</p><p>� Bem, Watson � disse Holmes, quando a pequena carruagem surgiu da escurid�o, com dois focos dourados de luz amarela das lanternas laterais �, voc� vem comigo, n�o?</p><p>� Se � que posso ajud�-lo.</p><p>� Ora, um companheiro de confian�a � sempre �til. E um historiador mais ainda. Meu quarto no Cedars tem duas camas.</p><p>� Cedars?</p><p>� Sim. � a casa do sr. St. Clair. Estou hospedado l� enquanto fa�o essa investiga��o.</p><p>� Onde � essa casa?</p><p>� Em Kent, perto de Lee. Temos uma viagem de 11 quil�metros � nossa frente.</p><p>� Mas estou completamente no escuro.</p><p>� Claro que est�. Vai saber de tudo daqui a pouco. Suba aqui! Est� bem, John, n�o vamos precisar de voc�. Aqui est� meia coroa. Fique � minha espera amanh�, por volta das 11 horas. Solte o cavalo! At� logo mais, ent�o!</p><p>Fustigou o cavalo com o chicote e l� fomos n�s, correndo por uma s�rie infinita de ruas sombrias e desertas, que gradativamente se alargaram, at� que voamos por uma ponte larga sobre o rio enlameado que corria pregui�osamente l� embaixo. Diante de n�s estendia-se outra selva de cimento e tijolos, cujo sil�ncio era quebrado somente pelos passos regulares e pesados do policial de guarda, ou as can��es e gritos de algum grupo tardio de p�ndegos. Nuvens altas levadas pelo vento deslizavam lentamente pelo c�u e uma ou duas estrelas brilhavam suavemente aqui e ali nas brechas das nuvens. Holmes conduzia a carruagem em sil�ncio, com o queixo encostado no peito e a apar�ncia de um homem imerso em seus pensamentos, enquanto eu estava sentado a seu lado, curioso para saber o que seria essa nova busca que parecia exigir tanto de seus poderes, mas temendo interromper a corrente de seus pensamentos. J� hav�amos percorrido v�rios quil�metros, e cheg�vamos � orla da faixa de casas suburbanas quando ele se sacudiu, encolheu os ombros e acendeu o cachimbo com ar de quem se convenceu de que estava fazendo o melhor que podia.</p><p>� Voc� tem o grande dom do sil�ncio, Watson � comentou. � Isso faz de voc� um companheiro precioso. Eu que o diga, � maravilhoso para mim ter algu�m com quem falar, pois meus pensamentos n�o s�o nada agrad�veis. Estava pensando no que vou dizer para essa boa mulher hoje � noite, quando for me receber � porta.</p><p>� Est� esquecendo que n�o sei nada sobre o assunto.</p><p>� S� vou ter tempo de lhe contar os fatos antes de chegarmos a Lee. Parece absurdamente simples, mas, n�o sei por qu�, n�o consigo nada em que me basear. O fio � muito longo, sem d�vida nenhuma, mas n�o consigo pegar a ponta em minha m�o. Agora vou relatar o caso clara e concisamente para voc�, Watson, e talvez voc� possa ver uma luz onde tudo � escuro para mim.</p><p>� Prossiga, ent�o.</p><p>� H� alguns anos, mais exatamente em maio de 1884, surgiu em Lee um cavalheiro de nome Neville St. Clair, que parecia ter bastante dinheiro. Comprou uma casa grande, arrumou� maravilhosamente o terreno e, de modo geral, vivia em grande estilo. Pouco a pouco fez amizades na vizinhan�a e, em 1887, casou-se com a filha de um cervejeiro do local, com a qual teve dois filhos. N�o tinha nenhuma ocupa��o, mas tinha interesses em v�rias companhias, e ia � cidade, geralmente pela manh�, voltando no trem das 5:14h da tarde, da rua Carinon. O sr. St. Clair tem atualmente 37 anos de idade, � um homem de h�bitos moderados, um bom marido, pai muito afetuoso, e popular com todos que o conhecem. Devo acrescentar que suas d�vidas totais no momento somam 88 libras, e tem 220 libras depositadas no Banco Capital and Counties. Portanto, n�o h� nenhuma raz�o para se pensar que possa ter qualquer preocupa��o com dinheiro.</p><p>� Na segunda-feira passada, o sr. Neville St. Clair foi � cidade mais cedo do que de costume, comentando, antes de partir, que tinha duas miss�es importantes a cumprir, e que traria para seu filhinho um brinquedo ao voltar. Por mero acaso, sua esposa recebeu um telegrama nessa mesma segunda-feira, pouco depois da sa�da dele, dizendo que um pacote de grande valor que ela estava aguardando acabara de chegar e estava � sua espera nos escrit�rios da Companhia Mar�tima Aberdeen. Se voc� conhece bem Londres, deve saber que os escrit�rios da companhia est�o localizados na rua Fresno, que sai de Upper Swandam Lane, onde me encontrou esta noite. A sra. St. Clair almo�ou, foi � cidade, fez algumas compras, foi at� os escrit�rios da companhia, pegou seu pacote e, exatamente �s 4:35h, seguia por Swandam Lane a caminho da esta��o. Est� me acompanhando at� agora?</p><p>� Est� tudo muito claro.</p><p>� Se � que voc� se lembra, segunda-feira foi um dia excepcionalmente quente, e a sra. St. Clair andava devagar, olhando em volta na esperan�a de ver um carro de aluguel, pois n�o gostava do lugar em que estava. Enquanto andava assim por Swandam Lane, ouviu de repente uma exclama��o ou um grito, e ficou estupefata ao ver o marido olhando para ela e,� parecendo fazer-lhe sinal de uma janela de um segundo andar. A janela estava aberta e ela viu nitidamente seu rosto, que descreveu como terrivelmente agitado. Ele acenou freneticamente e depois desapareceu da janela t�o repentinamente que parecia ter sido puxado para tr�s por alguma for�a irresist�vel. Um detalhe esquisito que ficou registrado em seu vivo olho feminino foi que, embora ele estivesse com um casaco escuro, como o que usava quando sa�ra de casa, n�o tinha nem colarinho nem gravata.</p><p>� Convencida de que havia alguma coisa errada com ele, desceu os degraus correndo, pois a casa era exatamente o antro de �pio onde voc� me encontrou hoje e, irrompendo pela porta, tentou subir as escadas que levam ao primeiro andar. Ao p� das escadas, entretanto, encontrou esse bandido eurasiano de quem falei, que a empurrou para tr�s e, ajudado por um dinamarqu�s, que � seu assistente, jogou-a na rua. Cheia de d�vidas e receios enlouquecedores, saiu correndo pela rua e, por sorte, encontrou na rua Fresno v�rios policiais com um inspetor, todos a caminho de suas rondas. O inspetor e dois policiais a acompanharam de volta e, apesar da resist�ncia do propriet�rio, foram at� o quarto onde o sr. St. Clair havia sido visto pela �ltima vez. N�o havia sinal dele. Na verdade, em todo o andar n�o havia ningu�m, exceto um desgra�ado aleijado, de aspecto horr�vel, que, aparentemente, morava l�. Tanto ele quanto o eurasiano juraram que ningu�m estivera no quarto da frente aquela tarde. Suas negativas foram t�o enf�ticas que o inspetor ficou desconcertado e chegou a acreditar que a sra. St. Clair se tivesse enganado quando, com um grito, ela se atirou sobre uma pequena caixa de madeira que estava sobre a mesa e arrancou a tampa. Dentro estava o brinquedo que seu marido havia prometido ao filho.</p><p>� Essa descoberta e a confus�o evidente do aleijado fizeram o inspetor compreender que o assunto era grave. Os quartos foram examinados cuidadosamente e os resultados apontavam para um crime abomin�vel. O quarto da frente estava mobiliado com simplicidade, como uma sala de estar, e se comunicava com um pequeno quarto de dormir, que dava para os fundos de uma das docas. Entre a doca e a janela do quarto de dormir havia uma faixa de terra estreita que fica seca quando a mar� est� baixa, mas � coberta na mar� alta por um m�nimo de 1,50 metro de �gua. A janela do quarto era larga e abria por baixo. Fazendo um exame, encontraram vest�gios de sangue no peitoril da janela e v�rias gotas espalhadas no ch�o de madeira do quarto. Jogadas atr�s de uma cortina no quarto da frente estavam todas as roupas do sr. Neville St. Clair, com exce��o do casaco. As botas, as meias, o chap�u e o rel�gio... estava tudo l�. N�o havia sinal de viol�ncia em nenhuma das pe�as de roupa e n�o havia vest�gio do sr. Neville St. Clair. Aparentemente, s� poderia ter escapado pela janela, pois n�o descobriram outra sa�da do quarto, e as manchas de sangue no peitoril n�o eram muito promissoras, caso tivesse tentado se salvar a nado, pois a mar� estava no auge no momento da trag�dia.</p><p>� E agora vamos aos vil�es que pareciam estar envolvidos no assunto desde o in�cio. O nativo das �ndias Orientais, o eurasiano, era homem de p�ssimos antecedentes, mas como, pela narrativa da sra. St. Clair, sabia-se que ele estava ao p� da escada poucos segundos depois de seu marido ter aparecido � janela, n�o poderia ter sido mais que um simples c�mplice. Defendeu-se afirmando completa ignor�ncia e garantindo que nada sabia sobre os atos de Hugh Boone, seu inquilino, e que n�o podia explicar de maneira nenhuma a presen�a das roupas do cavalheiro desaparecido.</p><p>� E nada mais sobre o gerente oriental. Agora vamos ao aleijado sinistro que mora no segundo andar do antro de �pio e que certamente foi a �ltima pessoa a ver Neville St. Clair. Seu nome � Hugh Boone e seu rosto medonho � conhecido por todos que freq�entam a cidade. � mendigo profissional, embora finja ser vendedor de f�sforos de cera a fim de evitar os regulamentos da pol�cia. A certa altura da rua Threadneedle, do lado esquerdo, h�, como talvez voc� tenha observado, um pequeno �ngulo na parede. � ali que a criatura se senta todos os dias, de pernas cruzadas, com o pequeno estoque de f�sforos no colo, e como � um espet�culo digno de pena, uma pequena chuva de moedas cai no bon� de couro sujo que fica no ch�o � sua frente. J� observei esse camarada mais de uma vez, antes de imaginar sequer conhec�-lo profissionalmente, e sempre fiquei surpreso com o que consegue acumular em pouco tempo. Sua apar�ncia � t�o extraordin�ria que ningu�m pode passar por ele sem olh�-lo. Uma cabeleira cor-de-laranja, um rosto p�lido desfigurado por uma medonha cicatriz que, ao se contrair, repuxou o l�bio superior, um queixo de buldogue e um par de olhos escuros muito penetrantes, que fazem um contraste singular com a cor dos cabelos; tudo isso o destaca da multid�o comum de mendigos, como tamb�m seu esp�rito humor�stico, pois est� sempre pronto a responder a qualquer brincadeira que algum transeunte fa�a com ele. � esse o homem que agora sabemos que morava no antro de �pio e que foi a �ltima pessoa a ver o cavalheiro que estamos procurando.</p><p>� Mas um aleijado! � comentei. � O que poderia fazer sozinho contra um homem na flor da idade?</p><p>� � aleijado somente porque manca quando anda. Mas em geral parece ser um homem forte e bem-nutrido. Certamente seus conhecimentos de medicina, Watson, provam que a fraqueza de um membro muitas vezes � compensada por uma for�a excepcional nos outros membros.</p><p>� Por favor, continue a hist�ria.</p><p>� A sra. St. Clair desmaiou quando viu o sangue no peitoril da janela, e foi levada at� sua casa de carro pela pol�cia, j� que sua presen�a em nada ajudaria as investiga��es. O inspetor Barton, encarregado do caso, examinou cuidadosamente o pr�dio, mas n�o encontrou nada que esclarecesse o mist�rio. Tinha sido um erro n�o prender Boone imediatamente, pois teve alguns minutos em que podia se ter comunicado com seu amigo, o eurasiano, mas essa falha foi logo remediada; eles o apanharam e revistaram, mas sem encontrar nada que o incriminasse. Havia, � verdade, umas manchas de sangue na manga direita, mas ele mostrou o dedo anular, onde havia um corte perto da unha, e explicou que era da� que vinha o sangue, acrescentando que fora at� a janela pouco antes e que as manchas no peitoril sem d�vida vinham tamb�m de seu dedo. Disse enfaticamente que jamais tinha visto o sr. Neville St. Clair e jurou que a presen�a das roupas em seu quarto era um mist�rio tanto para ele como para a pol�cia. Quanto � declara��o da sra. St. Clair de que tinha visto o marido na janela, declarou que ela devia estar louca ou sonhando. Foi retirado, protestando em alta voz, e levado para a delegacia, enquanto o inspetor permaneceu no pr�dio, na esperan�a de que a mar� baixa revelasse algum novo ind�cio.</p><p>� E assim foi, embora n�o encontrassem na lama o que temiam. Era o casaco do sr. Neville St. Clair, e n�o Neville St. Clair, que foi descoberto quando a mar� baixou. E o que pensa que encontraram nos bolsos?</p><p>� N�o tenho a menor id�ia.</p><p>� �, voc� n�o pode adivinhar. Todos os bolsos estavam cheios de moedas, 421 pennies e 270 em moedas de meio penny. N�o era de admirar que a corrente n�o o tivesse arrastado. Mas um corpo humano � diferente. H� um redemoinho violento entre as docas e a casa. Era bem prov�vel que o casaco, com todo o peso, ficasse na lama enquanto o corpo nu era sugado pelo rio.</p><p>� Mas voc� disse que todas as outras roupas foram encontradas escondidas no quarto. Ent�o o corpo estava vestido somente com um casaco?</p><p>� N�o, mas h� outras maneiras de encarar os fatos. Vamos supor que esse tal Boone tenha jogado Neville St. Clair pela janela, sem ser visto por ningu�m. O que faria ent�o? A primeira id�ia que lhe ocorreria seria livrar-se das roupas que o incriminariam. Ent�o pegaria o casaco e na hora de jog�-lo pela janela se lembraria de que ia flutuar e n�o afundar. N�o tem muito tempo, pois j� ouvira o barulho l� embaixo, quando a sra. St. Clair tentava subir as escadas, e talvez j� tivesse sabido pelo seu c�mplice, o eurasiano, que a pol�cia vinha correndo pela rua. N�o h� um minuto a perder. Corre para o esconderijo onde acumulou os frutos de sua atitude de mendigo e enche os bolsos do casaco com todas as moedas que consegue pegar para garantir que afunde. Atira-o pela janela e teria feito o mesmo com as outras roupas se n�o tivesse ouvido os passos subindo a escada. S� teve tempo de fechar a janela quando a pol�cia chegou.</p><p>� Parece bem poss�vel.</p><p>� Vamos aceitar como uma hip�tese, j� que n�o temos coisa melhor. Boone, como lhe disse, foi preso e levado para a delegacia, mas n�o conseguiram descobrir nada em seu passado que depusesse contra ele. Era conhecido h� anos como mendigo profissional, mas sua vida tinha sido sempre muito tranq�ila e inocente. Assim est�o as coisas no momento, e as perguntas que t�m de ser respondidas, o que Neville St. Clair estava fazendo em um antro de �pio, o que aconteceu com ele enquanto estava l�, onde est� agora e o que Hugh Boone tem a ver com seu desaparecimento, continuam longe de ser esclarecidas. Confesso que n�o me lembro de nenhum caso que tenha tido no passado que parecesse t�o simples de in�cio e que apresentasse tantas dificuldades.</p><p>Enquanto Sherlock Holmes relatava essa s�rie estranha de acontecimentos, t�nhamos percorrido velozmente os sub�rbios da grande cidade e deixado para tr�s as �ltimas habita��es isoladas, e corr�amos agora por uma estrada ladeada de arbustos. Quando ele estava terminando, entretanto, passamos por duas aldeias onde algumas luzes ainda brilhavam nas janelas.</p><p>� Estamos nos arredores de Lee � disse meu companheiro. � Atravessamos tr�s condados nessa curta viagem, come�ando por Middlesex, cortando Surrey em �ngulo e terminando em Kent. Est� vendo aquela luz entre as �rvores? Ali � Cedars, e ao lado daquela luz est� uma mulher cujos ouvidos ansiosos, n�o tenho a menor d�vida, j� perceberam o ru�do dos cascos do nosso cavalo.</p><p>� Mas por que voc� n�o est� conduzindo essa investiga��o de Baker Street? � perguntei.</p><p>� Porque h� muitas perguntas que t�m de ser feitas aqui mesmo. A sra. St. Clair muito gentilmente p�s � minha disposi��o dois quartos, e pode ter certeza de que ela receber� muito bem meu amigo e colega. Detesto encontr�-la, Watson, sem ter nenhuma not�cia do marido. Aqui estamos.</p><p>Paramos diante de uma casa grande no centro de um amplo terreno. Um rapaz da cocheira viera correndo segurar o cavalo e, saltando do carro, segui Holmes pelocaminho estreito e curvo que ia at� a casa. Quando nos aproximamos, a porta se abriu e uma mulher pequena e loura, com um vestido claro de debruado de gaze rosa nos punhos e na gola, surgiu na abertura. De p�, delineada pela luz que jorrava de dentro, uma das m�os na porta, a outra meio levantada, o corpo ligeiramente inclinado para a frente; o rosto de olhos ansiosos e l�bios entreabertos, ela toda era uma pergunta.</p><p>� Ent�o? � exclamou. � Ent�o?</p><p>A�, percebendo que �ramos dois, deu um grito de esperan�a que se transformou em gemido quando viu meu companheiro sacudir a cabe�a e encolher os ombros.</p><p>� Nenhuma not�cia boa?</p><p>� Nenhuma.</p><p>� Mas nenhuma not�cia m�?</p><p>� N�o.</p><p>� Gra�as a Deus. Mas entrem. O senhor deve estar cansado, pois foi um dia muito longo.</p><p>� Este � meu amigo, dr. Watson. Tem sido de import�ncia fundamental para mim em muitos dos meus casos, e por sorte pude traz�-lo comigo para me ajudar nessa investiga��o.</p><p>� Muito prazer em conhec�-lo � disse, apertando minha m�o cordialmente. � Por favor, desculpe qualquer falha em minha hospitalidade, mas o senhor compreende que sofri um golpe terr�vel.</p><p>� Minha cara senhora � respondi �, sou um velho veterano, mas mesmo que n�o fosse, estou vendo que n�o h� necessidade de pedir desculpas. Se puder ser �til � senhora ou a meu amigo, ficarei realmente muito feliz.</p><p>� Agora, sr. Sherlock Holmes � disse a mulher quando entramos em uma sala de jantar bem iluminada, onde uma ceia fria estava arrumada sobre a mesa �, gostaria de lhe fazer uma ou duas perguntas e pedir-lhe que responda com franqueza.</p><p>� Certamente, minha senhora.</p><p>� N�o se preocupe comigo. N�o sou hist�rica nem dada a desmaios. S� quero ouvir sua opini�o sincera.</p><p>� Sobre o qu�?</p><p>� No fundo, no fundo mesmo, o senhor acredita que Neville esteja vivo?</p><p>Sherlock Holmes pareceu ficar constrangido com a pergunta.</p><p>� Com franqueza! � ela repetiu, ainda de p� e olhando penetrantemente para ele, que estava recostado em uma cadeira confort�vel.</p><p>� Com franqueza, minha senhora, n�o.</p><p>� Acha que ele est� morto?</p><p>� Sim.</p><p>� Assassinado?</p><p>� N�o sei. Talvez.</p><p>� E em que dia ele faleceu?</p><p>� Na segunda-feira.</p><p>� Ent�o, sr. Holmes, tenha a bondade de explicar como � que acabei de receber esta carta dele hoje?</p><p>Sherlock Holmes deu um salto da cadeira como se tivesse recebido um choque el�trico.</p><p>� O qu�! � exclamou.</p><p>� Sim, hoje. � Ela sorriu, segurando um papel que agitava no ar.</p><p>� Posso v�-la?</p><p>� Certamente.</p><p>Tirou-a da m�o dela ansiosamente e alisou-a sobre a mesa, puxando a l�mpada para perto e examinando-a com aten��o. Ergui-me e fui olhar por cima do ombro dele. O envelope era de papel barato e tinha o carimbo de Gravesend, datado daquele mesmo dia, ou melhor, do dia anterior, pois j� passava da meia-noite.</p><p>� Que caligrafia grosseira! � murmurou Holmes. � Claro que essa n�o � a letra de seu marido.</p><p>� N�o, mas o que est� dentro �.</p><p>� Noto tamb�m que, quem quer que tenha endere�ado o envelope, teve de parar e ir descobrir o endere�o.</p><p>� Como pode saber disso?</p><p>� Pode ver que o nome est� escrito com tinta preta, que secou sozinha, e o resto est� acinzentado, o que prova que foi usado um mata-borr�o. Se tudo tivesse sido escrito ao mesmo tempo e secado com mata-borr�o, ficaria do mesmo tom cinzento. Esse homem escreveu o nome e depois houve uma pausa at� escrever o endere�o, o que significa que n�o sabia o endere�o de cor. � apenas um detalhe, mas os detalhes s�o muito importantes. Vamos ver a carta agora! Ah! Havia alguma coisa aqui dentro.</p><p>� Sim, um anel. Seu anel com sinete.</p><p>� E a senhora tem certeza de que � a letra de seu marido?</p><p>� Uma delas.</p><p>� O que quer dizer com isso?</p><p>� � a letra dele quando escrevia com pressa. � bem diferente de sua letra normal, mas eu a conhe�o bem.</p><empty-line/><p>Minha querida, n�o fique com medo. Tudo vai dar certo. H� um enorme engano que pode demorar a ser corrigido. Tenha paci�ncia.</p><p>Neville.</p><empty-line/><p>Escrito a l�pis em uma folha de caderno, in-oitavo, nenhuma marca no papel. Posta no correio hoje em Gravesend por um homem com o polegar sujo. Ah! A aba foi colada, se n�o me engano, por algu�m que estava mascando fumo. N�o tem d�vida nenhuma de que � a letra de seu marido?</p><p>� Nenhuma. Neville escreveu esse bilhete.</p><p>� E foi posto no correio hoje em Gravesend. Bem, sra. St. Clair, as nuvens est�o mais leves, embora n�o ouse dizer que tenha passado o perigo.</p><p>� Mas ele tem de estar vivo, sr. Holmes.</p><p>� A n�o ser que tenham falsificado sua letra para nos botar na pista errada. O anel, afinal de contas, n�o prova nada. Pode ter sido tirado dele.</p><p>� N�o, n�o, � a letra dele, tenho certeza!</p><p>� Muito bem. Mas o bilhete pode ter sido escrito na segunda-feira e posto no correio s� hoje.</p><p>� Isso pode ser.</p><p>� Se for assim, muita coisa pode ter acontecido de l� para c�.</p><p>� Oh, o senhor n�o deve me desanimar, sr. Holmes. Sei que est� tudo bem com ele. H� uma compreens�o t�o grande entre n�s que eu saberia se algum mal tivesse acontecido. No mesmo dia em que o vi pela �ltima vez ele se cortou no quarto e, embora eu estivesse na sala de jantar, fui correndo l� para cima, pois tive certeza de que havia acontecido alguma coisa. Ent�o acha que eu teria essa rea��o por uma coisa t�o insignificante e iria ignorar sua morte?</p><p>� Minha experi�ncia � grande demais para negar que a impress�o de uma mulher pode ser mais valiosa que as conclus�es de um raciocinador anal�tico. E esse bilhete realmente � uma prova muito forte para sustentar sua opini�o. Mas se seu marido est� vivo e pode escrever cartas, por que tem de ficar longe da senhora?</p><p>� N�o posso imaginar o motivo.</p><p>� E na segunda-feira n�o disse nada antes de sair?</p><p>� N�o.</p><p>� E a senhora ficou surpresa de v�-lo em Swandam Lane?</p><p>� Muito.</p><p>� A janela estava aberta?</p><p>� Sim.</p><p>� Ent�o ele podia ter chamado a senhora?</p><p>� Podia.</p><p>� No entanto, pelo que entendi, s� deu um grito indistinto?</p><p>� Sim.</p><p>� Um pedido de socorro, foi o que a senhora pensou?</p><p>� Sim. E acenou com as m�os.</p><p>� Mas poderia ter sido um grito de espanto. A surpresa de ver a senhora inesperadamente poderia t�-lo feito erguer as m�os.</p><p>� � poss�vel.</p><p>� E a senhora acha que ele foi puxado para tr�s?</p><p>� Ele desapareceu t�o de repente.</p><p>� Poderia ter saltado para tr�s. A senhora n�o viu mais ningu�m no quarto?</p><p>� N�o, mas aquele homem horr�vel confessou que estava l�, e o eurasiano estava ao p� da escada.</p><p>� Exatamente. Seu marido, pelo que p�de ver, vestia suas roupas comuns?</p><p>� Sim, mas sem o colarinho e a gravata. Vi nitidamente a camisa aberta no pesco�o.</p><p>� Ele j� havia falado algum dia em Swandam Lane?</p><p>� Nunca.</p><p>� Mostrou alguma vez sinais de ter tomado �pio?</p><p>� Nunca.</p><p>� Muito obrigado, sra. St. Clair. Eram estes os pontos principais que eu queria esclarecer. Vamos agora comer alguma coisa e depois nos recolher, porque amanh� poderemos ter um dia muito ocupado.</p><p>Um quarto amplo e confort�vel com duas camas havia sido posto � nossa disposi��o e fui logo para a cama, pois estava cansado depois dessa noite de aventuras. Sherlock Holmes, entretanto, era um homem que, quando tinha um problema a resolver, podia passar dias, at� uma semana, sem descansar, pensando, analisando e reordenando os fatos, examinando-os sob todos os aspectos, at� chegar a uma solu��o ou convencer-se de que n�o tinha dados suficientes. Era evidente que estava se preparando para ficar sentado a noite inteira. Tirou o casaco e o colete, vestiu um roup�o azul e ficou andando pelo quarto, recolhendo os travesseiros da cama e as almofadas do sof� e das poltronas. Com eles, construiu uma esp�cie de div� oriental, no qual se sentou de� pernas cruzadas, com uma bolsa de fumo e uma caixa de f�sforos na sua frente. � luz morti�a da l�mpada, eu o vi sentado, com um velho cachimbo na boca, os olhos fixos no canto do teto, a fuma�a azul subindo no ar, silencioso, im�vel, com a luz se refletindo em suas fei��es aquilinas. Ficou sentado ali enquanto eu adormecia e continuava sentado ali quando uma exclama��o s�bita me acordou e vi o sol de ver�o invadindo o aposento. O cachimbo ainda estava na sua boca, a fuma�a ainda subia em espirais e o quarto estava cheio de fuma�a, mas n�o restava um fiapo do fumo que enchia a bolsa na noite anterior.</p><p>� Acordado, Watson? � ele perguntou.</p><p>� Sim.</p><p>� Est� disposto a dar um passeio?</p><p>� Certamente.</p><p>� Ent�o vista-se. Ningu�m acordou ainda, mas sei onde dorme o rapaz da cocheira e logo o cabriol� estar� pronto. � Sorria para si mesmo enquanto falava, os olhos brilhavam, e parecia um homem diferente do sombrio pensador da noite anterior.</p><p>Enquanto me vestia, olhei o rel�gio. N�o era de estranhar que estivesse todo mundo dormindo. Eram 4:25h. Mal terminara quando Holmes voltou com a informa��o de que o rapaz estava atrelando o cavalo.</p><p>� Quero testar uma teoria minha � disse, cal�ando as botas. � Acho, Watson, que voc� est� diante de um dos maiores idiotas de toda a Europa. Mere�o ser chutado daqui at� Charing Cross. Mas acho que encontrei a chave do caso agora.</p><p>� E onde est�? � perguntei, sorrindo.</p><p>� No banheiro � respondeu. � Oh, n�o, n�o estou brincando � continuou, vendo meu ar incr�dulo. � Acabo de sair de l�, tirei-a de l� e coloquei-a nesta maleta. Vamos, meu rapaz, vamos ver se serve na fechadura.</p><p>Descemos o mais depressa poss�vel e sa�mos para o sol que brilhava l� fora. Nosso� carro e o cavalo estavam � espera na estrada, com o rapaz da cocheira, semivestido, segurando as r�deas. Pulamos para dentro do carro e fomos a toda a velocidade pela estrada de Londres. Algumas carro�as levando hortali�as para a metr�pole estavam na estrada, mas as casas dos dois lados estavam silenciosas e adormecidas, como em uma cidade fantasmag�rica.</p><p>� Em alguns pontos, este caso � muito singular � disse Holmes, chicoteando o cavalo. � Confesso que estava completamente cego, mas � melhor ser s�bio tarde do que nunca.</p><p>Na cidade, os madrugadores j� come�avam a aparecer sonolentos nas janelas quando passamos pelas ruas de Surrey. Percorrendo a ponte de Waterloo, atravessamos o rio, seguimos a Wellington Street, viramos � direita e chegamos � Bow Street. Sherlock Holmes era muito conhecido na pol�cia e os dois guardas que estavam na porta o cumprimentaram. Um deles segurou o cavalo enquanto o outro nos fez entrar.</p><p>� Quem est� de servi�o? � perguntou Holmes.</p><p>� O inspetor Bradstreet, senhor.</p><p>� Ah, Bradstreet, como vai? � Um policial alto e gordo se aproximara pelo corredor de pedra, com o bon� e a jaqueta do uniforme. � Gostaria de falar com voc�, Bradstreet.</p><p>� Claro, sr. Holmes. Venha aqui em minha sala.</p><p>Era uma sala pequena, mobiliada como escrit�rio, com um enorme livro de registros sobre a mesa e um telefone na parede. O inspetor sentou-se atr�s da mesa.</p><p>� Em que posso ajud�-lo, sr. Holmes?</p><p>� � sobre aquele mendigo, Boone. O que foi acusado de estar ligado ao desaparecimento do sr. Neville St. Clair, de Lee.</p><p>� Sim. Ele foi detido para interrogat�rio.</p><p>� Foi o que ouvi. Ele est� aqui?</p><p>� Est� em uma das celas.</p><p>� Est� quieto?</p><p>� Ah, n�o d� trabalho nenhum. Mas � um sujeito muito sujo.</p><p>� Sujo?</p><p>� Sim, � uma luta para conseguir que lave as m�os, e a cara parece a de um carvoeiro. Bem, quando seu caso for decidido, vai tomar um banho desinfetante, e acho que se o senhor o visse, ia concordar comigo que ele est� mesmo precisando.</p><p>� Gostaria muito de v�-lo.</p><p>� � muito f�cil. Venha comigo. Pode deixar a maleta aqui.</p><p>� N�o, prefiro lev�-la comigo.</p><p>� Muito bem. Venha por aqui, por favor. � Levou-nos por um corredor, abriu uma porta gradeada, desceu umas escadas e depois seguimos por outro corredor caiado de branco, com portas dos dois lados.</p><p>� � a terceira � direita � disse o inspetor. � Aqui est�! � Abriu um painel na parte superior da porta e espiou para dentro.</p><p>� Est� dormindo � disse. � Pode v�-lo muito bem.</p><p>N�s dois olhamos pela grade. O prisioneiro estava deitado com o rosto virado para n�s, dormindo um sono pesado, respirando lenta e profundamente. Era um homem de estatura m�dia, vestido com roupas grosseiras, como convinha � sua profiss�o, com uma camisa colorida saindo pelo rasg�o do casaco esfarrapado. Estava, como dissera o inspetor, imundo, mas a sujeira que cobria o rosto n�o ocultava sua fei�ra repulsiva. Um largo verg�o de uma velha cicatriz cortava o rosto do olho at� o queixo e, ao se contrair, repuxara um lado do l�bio superior, de modo que tr�s dentes ficavam expostos numa careta permanente. Os cabelos ruivos desciam pela testa, encobrindo os olhos.</p><p>� � uma beleza, n�o? � comentou o inspetor.</p><p>� Bem que est� precisando de um banho � disse Holmes. � Imaginei isso, e vim preparado. � Abriu a maleta enquanto falava e, para minha surpresa, tirou uma esponja enorme.</p><p>� Ha, ha! O senhor � muito engra�ado! � riu o inspetor.</p><p>� Agora, se tiver a bondade de abrir a porta sem fazer barulho, em poucos instantes ele ser� uma figura muito mais apresent�vel.</p><p>� N�o vejo por que n�o � disse o inspetor. � Assim ele n�o merece as celas da rua Bow, n�o � mesmo? � Enfiou a chave na fechadura e entramos todos silenciosamente. O homem adormecido mexeu-se na cama, mas continuou em sono profundo. Holmes aproximou-se da jarra de �gua, molhou a esponja e depois esfregou-a vigorosamente no rosto do prisioneiro.</p><p>� Deixem-me apresentar-lhes � exclamou � o sr. Neville St. Clair, de Lee, no Condado de Kent.</p><p>Nunca em minha vida tinha visto um espet�culo assim. O rosto do homem descascou sob a esponja como se fosse uma casca de �rvore. A cor parda desapareceu como por m�gica. Sumiram, tamb�m, a horr�vel cicatriz que cruzava o rosto de alto a baixo e o l�bio torcido que dera aquele aspecto repulsivo � sua fisionomia. Um pux�o arrancou a cabeleira ruiva e ali, sentado na cama, estava um homem p�lido, de express�o triste e aspecto refinado, com cabelos pretos e pele clara, esfregando os olhos e olhando em volta com espanto sonolento. Ent�o, percebendo de repente que fora descoberto, deu um grito e atirou-se na cama, escondendo o rosto no travesseiro.</p><p>� Meu Deus! � exclamou o inspetor. � � realmente o homem desaparecido. Eu o reconheci pela fotografia.</p><p>O prisioneiro virou-se com a express�o conformada de um homem que se entrega a seu destino. � Que assim seja � disse. � Por favor, diga-me, de que sou acusado?</p><p>� De ter� eliminado o sr. Neville St.... Ora, vamos l�, n�o pode ser acusado disso, a n�o ser que o acusem de tentativa de suic�dio � disse o inspetor, sorrindo. � Vinte e sete anos servindo na pol�cia e nunca vi coisa igual.</p><p>� Se eu sou o sr. Neville St. Clair, ent�o � �bvio que n�o houve crime nenhum e, portanto, estou detido ilegalmente.</p><p>� Nenhum crime, mas um grande erro foi cometido � interrompeu Holmes. � Teria sido melhor se tivesse confiado em sua esposa.</p><p>� N�o era minha esposa, eram as crian�as � gemeu o prisioneiro. � Deus me perdoe, n�o queria que se envergonhassem do pai. Meu Deus! Que vergonha! O que posso fazer?</p><p>Sherlock Holmes sentou-se ao lado dele na cama e deu-lhe uma pancadinha amig�vel no ombro.</p><p>� Se deixar que o assunto seja esclarecido no tribunal � disse �, claro que n�o poder� evitar a publicidade. Por outro lado, se conseguir convencer as autoridades policiais de que n�o h� realmente motivo para acus�-lo de coisa alguma, n�o vejo por que ser� necess�rio que os detalhes saiam nos jornais. Estou certo de que o inspetor Bradstreet tomaria nota de tudo que quiser nos contar e apresentaria o relato �s autoridades competentes. Assim o caso n�o precisaria chegar ao tribunal.</p><p>� Deus o aben�oe! � exclamou o prisioneiro, emocionado. � Encararia a pris�o, at� mesmo a execu��o, para n�o deixar que meu miser�vel segredo fosse uma m�cula de fam�lia para meus filhos.</p><p>� Voc�s s�o os primeiros a ouvir a minha hist�ria. Meu pai era professor em Chesterfield, onde recebi excelente educa��o. Viajei quando jovem, ingressei no palco e finalmente me tornei rep�rter de um jornal vespertino de Londres. Um dia meu editor quis uma s�rie de artigos sobre os mendigos da metr�pole, e me prontifiquei a escrev�-los. Foi a� que come�aram todas as minhas aventuras. S� mesmo me tornando um mendigo amador � que eu poderia coletar os fatos em que se baseariam os artigos. Quando era ator, aprendi, � claro, todos os truques de maquiagem e fiquei famoso nos camarins pela minha per�cia. Tirei partido agora dessa habilidade. Pintei o rosto e, para adquirir um aspecto ainda mais miser�vel, fiz uma cicatriz horrorosa e repuxei o l�bio com um peda�o de esparadrapo cor-de-pele. Ent�o, com uma cabeleira ruiva e roupas apropriadas, assumi meu posto na parte mais movimentada da cidade, ostensivamente como vendedor de f�sforos, mas, na verdade, como mendigo. Durante sete horas exerci minha profiss�o, e quando voltei para casa � noite, vi, para minha surpresa, que recebera 26 xelins e 4 pence.</p><p>� Escrevi os artigos e n�o pensei mais no assunto at� que, algum tempo depois, avalizei um t�tulo para um amigo que n�o p�de pag�-lo e fui intimado a saldar uma d�vida de 25 libras. Fiquei desesperado, sem saber onde conseguir o dinheiro, mas tive uma id�ia. Pedi ao credor um prazo de 15 dias para pagar, pedi f�rias ao meu patr�o e passei esses dias mendigando na cidade com meu disfarce. Em dez dias consegui o dinheiro e paguei a d�vida.</p><p>� Voc�s podem imaginar como foi dif�cil voltar a trabalhar duramente por duas libras por semana quando sabia que podia ganhar o mesmo em um dia, bastando manchar o rosto com um pouco de tinta, deixar o bon� no ch�o e ficar parado. Foi uma briga longa entre meu orgulho e o dinheiro, mas este ganhou no final e abandonei a reportagem para ficar dia ap�s dia na esquina que escolhera no in�cio, inspirando piedade com meu rosto horrendo e enchendo os bolsos de moedas. S� um homem sabia o meu segredo. Era o gerente de um antro em que me hospedava em Swandam Lane, de onde eu sa�a todas as manh�s como mendigo esqu�lido e � tarde me transformava em homem elegante. Esse sujeito, um eurasiano, era muito bem pago pelos quartos que me alugava, de modo que eu sabia que meu segredo seria bem guardado.</p><p>� Bem, em pouco tempo vi que estava economizando quantias consider�veis. N�o quero dizer que qualquer mendigo nas ruas de Londres possa fazer setecentas libras por ano, o que � menos do que fa�o, em m�dia, mas eu tinha vantagens excepcionais pela minha habilidade em me maquiar e pela facilidade com que dava respostas r�pidas e espirituosas aos ditos que me lan�avam, e isso foi melhorando com a pr�tica at� que me tornei um personagem conhecido na cidade. O dia todo jogavam moedas em meu bon�, algumas at� de prata, e era muito raro n�o fazer pelo menos duas libras por dia.</p><p>� � medida que enriquecia, ficava mais ambicioso, comprei uma casa nos sub�rbios e finalmente me casei, sem que ningu�m suspeitasse qual era a minha verdadeira profiss�o. Minha querida esposa sabia que eu tinha neg�cios na cidade. Mas n�o sabia qual era o tipo de neg�cio.</p><p>� Segunda-feira passada eu terminara meu trabalho e estava me vestindo em meu quarto, no segundo andar do antro de �pio, quando olhei pela janela e vi, para minha surpresa e horror, minha esposa na rua, olhando para mim. Dei um grito de espanto, ergui os bra�os para esconder o rosto e, correndo para meu confidente, o eurasiano, supliquei que n�o deixasse ningu�m subir at� o quarto. Ouvi a voz dela l� embaixo, mas sabia que n�o poderia subir. Rapidamente, arranquei as roupas, vesti o traje de mendigo, pintei o rosto e coloquei a cabeleira. Nem mesmo os olhos de uma esposa poderiam perceber que era um disfarce. Mas ent�o me ocorreu que poderia haver uma busca no quarto e as roupas iriam me trair. Escancarei a janela e com o movimento reabri um pequeno corte que dera na m�o aquela manh�. Agarrei o casaco, pesado por causa das moedas que tirara da sacola de couro onde as carregava e colocara nos bolsos. Atirei-o pela janela, e o vi desaparecer no rio. Ia jogar as outras roupas, mas naquele instante os policiais subiram as escadas correndo e pouco depois, para meu grande al�vio, devo confessar, em vez de ser identificado como o sr. Neville St. Clair, estava sendo preso como seu assassino.</p><p>� Acho que n�o h� mais nada a explicar. Estava decidido a preservar meu disfarce o m�ximo poss�vel, e por isso preferi ficar com o rosto sujo. Sabendo que minha esposa ia ficar tremendamente ansiosa, tirei meu anel de sinete e o entreguei ao eurasiano numa hora em que nenhum policial estava olhando, e tamb�m um bilhete apressado, dizendo a ela que n�o tivesse medo.</p><p>� Esse bilhete s� chegou �s m�os dela hoje � disse Holmes.</p><p>� Meu Deus! Que semana ela deve ter passado!</p><p>� A pol�cia vem observando esse eurasiano � disse o inspetor Bradstreet � e ele deve ter achado dif�cil p�r uma carta no correio sem ser visto. Provavelmente entregou-a a algum marinheiro seu fregu�s, que esqueceu completamente por alguns dias.</p><p>� Foi isso que aconteceu � disse Holmes, balan�ando a cabe�a em sinal de aprova��o. � N�o tenho d�vida nenhuma. Mas nunca foi processado por mendigar?</p><p>� Muitas vezes. Mas o que era uma multa para mim!</p><p>� Tem de parar com isso agora � disse Bradstreet. � Se quer que a pol�cia abafe esse caso, Hugh Boone deve deixar de existir.</p><p>� Juro por tudo que h� de mais valioso para um homem.</p><p>� Nesse caso, acho prov�vel que n�o se tome nenhuma medida. Mas se for encontrado mendigando novamente, tudo vir� � tona. Na verdade, sr. Holmes, estamos todos muito gratos ao senhor por ter esclarecido este assunto. Gostaria de saber como chega �s suas conclus�es.</p><p>� Cheguei a essa conclus�o � respondeu meu amigo � sentado em cinco almofadas e consumindo uma bolsa cheia de fumo de cachimbo. Eu acho, Watson, que se formos para a Baker Street vamos chegar a tempo de tomar o caf�-da-manh�.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a pedra azul</strong></p><p>Visitei meu amigo Sherlock Holmes na segunda manh� depois do Natal, com a inten��o de desejar-lhe as felicidades costumeiras. Ele estava descansando no sof�, envolto em um roup�o roxo, com um suporte de cachimbos � sua direita e uma pilha de jornais da manh�, evidentemente lidos pouco antes, perto da m�o esquerda. Ao lado do sof� havia uma cadeira sem bra�os, nas costas da qual estava pendurado um chap�u de feltro duro, gasto e pu�do, incrivelmente surrado, rasgado em v�rios lugares. Uma lente e uma pin�a no assento da cadeira sugeriam que haviam sido usados para segurar o chap�u e examin�-lo.</p><p>� Voc� est� ocupado � eu disse. � Talvez eu o esteja interrompendo.</p><p>� De maneira alguma. Estou contente de ter um amigo com quem posso discutir minhas conclus�es. O assunto � absolutamente trivial � apontou para o chap�u velho</p><p>� mas h� certos pontos ligados a ele que n�o s�o totalmente desprovidos de interesse e nem mesmo de sabedoria.</p><p>Sentei-me em uma poltrona e aqueci as m�os diante do fogo crepitante, pois ca�ra uma geada e as janelas estavam cobertas de cristais de gelo. � Suponho � observei � que, apesar de sua apar�ncia modesta, este chap�u est� ligado a alguma hist�ria fatal e que � a pista que ir� orient�-lo na solu��o de algum mist�rio e na puni��o de algum crime.</p><p>� N�o, n�o � respondeu Sherlock Holmes, rindo. � � apenas um desses pequenos incidentes exc�ntricos que ocorrem quando h� 4 milh�es de pessoas se empurrando no espa�o de alguns quil�metros quadrados. Entre as a��es e rea��es de uma multid�o t�o compacta podem ocorrer todas as combina��es poss�veis de acontecimentos, e surgir�o muitos probleminhas que podem ser extraordin�rios e bizarros sem ser criminosos. J� tivemos experi�ncias assim.</p><p>� Tantas � comentei � que dos �ltimos seis casos que acrescentei �s minhas anota��es, tr�s n�o envolviam nenhum tipo de crime.</p><p>� Exatamente. Voc� faz alus�o � minha tentativa de recuperar os pap�is de Irene Adler, ao caso singular da srta. Mary Sutherland, e � aventura do homem de l�bio torcido. Ora, n�o tenho d�vida de que este assunto se enquadra na mesma categoria inocente. Voc� conhece Peterson, o porteiro?</p><p>� Sim.</p><p>� Este trof�u pertence a ele.</p><p>� O chap�u � dele.</p><p>� N�o, n�o, ele o encontrou. N�o sabemos quem � o dono. Pe�o-lhe que o observe, n�o como um chap�u maltratado, mas como um problema intelectual. Primeiro, deixe-me dizer-lhe como veio parar aqui. Chegou na manh� de Natal, juntamente com um gordo ganso que neste momento, n�o tenho a menor d�vida, est� assando no fog�o de Peterson. Os fatos s�o os seguintes: por volta das quatro horas do dia de Natal, Peterson, que, como voc� sabe, � um camarada muito honesto, voltava para casa de alguma comemora��o, seguindo pela Tottenham Court Road. � sua frente ele viu, � luz das l�mpadas de g�s, um homem alto, cambaleando ligeiramente, e carregando um ganso branco jogado sobre o ombro. Quando chegou � esquina da Goodge Street, come�ou uma briga entre esse estranho e um grupinho de desordeiros. Um destes derrubou o chap�u do homem, que ergueu a bengala para se defender e, girando-a acima da cabe�a, quebrou a vitrina atr�s dele. Peterson havia corrido para proteger o estranho de seus assaltantes, mas o homem, chocado ao ver que quebrara a vitrina e vendo uma pessoa de uniforme, que parecia um policial vindo em sua dire��o, deixou cair o ganso e saiu correndo, desaparecendo no labirinto de ruas estreitas atr�s da Tottenham Court Road. Os desordeiros tamb�m fugiram quando Peterson chegou, de modo que ficou com a posse do campo de batalha e tamb�m dos despojos da vit�ria, isto �, este chap�u surrado e um ganso de Natal impec�vel.</p><p>� Que, evidentemente, devolveu ao leg�timo dono?</p><p>� Meu caro amigo, a� est� o problema. � verdade que havia um pequeno cart�o amarrado � perna esquerda da ave com a inscri��o �Para a sra. Henry Baker�, e tamb�m � verdade que as iniciais �H. B.� eram bem leg�veis no forro do chap�u. Mas h� milhares de Bakers e centenas de Henry Bakers nesta cidade, e n�o � nada f�cil devolver algo perdido a algum deles.</p><p>� Ent�o, o que foi que Peterson fez?</p><p>� Trouxe tanto o chap�u quanto o ganso para mim na manh� de Natal, sabendo que at� o mais insignificante problema me interessa. Guardamos o ganso at� hoje de manh�, quando ficou evidente que, apesar do tempo frio, seria melhor com�-lo sem demora. Seu descobridor o levou, ent�o, para cumprir o destino final de qualquer ganso, enquanto eu continuei com o chap�u do cavalheiro desconhecido que perdeu seu jantar de Natal.</p><p>� N�o p�s um an�ncio nos jornais?</p><p>� N�o.</p><p>� Ent�o, que pista voc� pode ter quanto � sua identidade?</p><p>� S� o que pudermos deduzir.</p><p>� Do chap�u?</p><p>� Exatamente.</p><p>� Mas est� brincando. O que pode deduzir desse velho chap�u de feltro?</p><p>� Aqui est� minha lente. Conhece meus m�todos. O que pode perceber da personalidade do homem que usou este objeto?</p><p>Peguei o chap�u e virei-o de todos os lados. Era um chap�u preto do feitio comum, arredondado, e extremamente gasto. O forro era de seda vermelha, mas estava muito desbotado. N�o havia marca do fabricante; mas, como Holmes comentara, as iniciais �H. B.� estavam rabiscadas em um lado. A aba estava furada para a inser��o de um el�stico para prender sob o queixo, mas n�o havia el�stico nenhum. De resto, estava rasgado, extremamente empoeirado e manchado em diversos lugares, embora parecesse que tinham sido feitas algumas tentativas de esconder as manchas com tinta de escrever.</p><p>� N�o consigo ver nada � disse, devolvendo-o a meu amigo.</p><p>� Pelo contr�rio, Watson, voc� pode ver tudo, mas voc� n�o raciocina a partir do que v�. � t�mido demais em tirar suas conclus�es.</p><p>� Ent�o, por favor, diga-me, o que voc� deduz desse chap�u?</p><p>Pegou-o e olhou-o daquela sua maneira introspectiva. � Talvez seja menos sugestivo do que poderia ser � comentou �, mas, mesmo assim, h� algumas dedu��es que s�o muito claras e outras que representam pelo menos uma grande probabilidade. � �bvio que o homem era um intelectual e tamb�m que estava muito bem de vida nos �ltimos tr�s anos, embora atualmente esteja passando por dificuldades. Era um homem previdente, mas hoje n�o � tanto, demonstrando uma regress�o moral que, combinada com a decad�ncia financeira, parece indicar alguma m� influ�ncia, provavelmente a bebida, agindo sobre ele. Isso talvez explique tamb�m o fato �bvio de que sua mulher n�o mais o ama.</p><p>� Meu caro Holmes!</p><p>� Entretanto, ele conserva um certo grau de dignidade � continuou, ignorando minha exclama��o. � � um homem de vida sedent�ria, sai muito pouco, est� inteiramente fora de forma, � de meia-idade, tem cabelos grisalhos que cortou h� poucos dias e que trata com lo��o de extrato de lim�o. Estes s�o os fatos mais evidentes que se pode deduzir a partir desse chap�u. A prop�sito, tamb�m � muito pouco prov�vel que haja g�s encanado em sua casa.</p><p>� Voc� deve estar brincando, Holmes.</p><p>� De jeito nenhum. Ser� poss�vel que mesmo agora, depois de eu lhe apresentar essas conclus�es, voc� n�o consiga ver como cheguei a elas?</p><p>� Estou convencido de que sou muito burro, mas tenho de confessar que n�o consigo acompanhar seu racioc�nio. Por exemplo, como deduziu que esse homem era um intelectual?</p><p>Como resposta, Holmes p�s o chap�u na cabe�a. Ele cobriu inteiramente a testa e se apoiou no osso do nariz. � � uma quest�o de capacidade c�bica � explicou. � Um homem com um cr�nio desse tamanho deve ter alguma coisa dentro.</p><p>� E a decad�ncia financeira?</p><p>� Este chap�u tem tr�s anos. Foi nessa �poca que lan�aram esse modelo de abas retas, com as bordas ligeiramente arrebitadas. � um chap�u de �tima qualidade. Olhe essa fita de gorgor�o e o forro de excelente qualidade. Se esse homem p�de comprar um chap�u t�o caro h� tr�s anos e n�o comprou um novo desde ent�o, certamente seu n�vel de vida piorou muito.</p><p>� Bem, isso est� claro. Mas quanto a ser previdente, e a regress�o moral?</p><p>Sherlock Holmes riu. � � previdente por causa disso � explicou, pondo o dedo no pequeno disco com uma al�a que serve para segurar um el�stico. Isso nunca vem com o chap�u. Se ele encomendou um el�stico, � sinal de que � um homem previdente, que estava tomando precau��es contra o vento. Mas como vemos que o el�stico arrebentou e n�o foi substitu�do, � �bvio que � menos previdente agora do que quando comprou o chap�u, o que � prova de enfraquecimento de sua personalidade. Por outro lado, tentou esconder algumas dessas manchas no feltro cobrindo-as com tinta de escrever, o que � sinal de que ainda n�o perdeu totalmente a dignidade.</p><p>� Seu racioc�nio certamente � plaus�vel.</p><p>� Os outros pontos, de que � de meia-idade, que seu cabelo � grisalho e foi recentemente cortado e que usa lo��o de extrato de lim�o podem ser deduzidos a partir de um exame minucioso da parte inferior do forro. A lente mostra uma por��o de pontas de cabelo, evidentemente cortadas por tesoura. Alguma coisa as fez aderir ao forro, e h� um cheiro caracter�stico de lim�o. A poeira, observe bem, n�o � a poeira cinzenta e �spera das ruas, e sim a poeira parda e fofa de dentro de casa, mostrando que o chap�u fica pendurado em casa a maior parte do tempo. As marcas de umidade no interior s�o uma prova conclusiva de que o dono suava em profus�o e, portanto, n�o estava na sua melhor forma f�sica.</p><p>� Mas a mulher dele... voc� disse que ela n�o o amava mais.</p><p>� Este chap�u n�o � escovado h� semanas. Quando eu vir voc�, meu caro Watson, com uma semana de poeira acumulada em seu chap�u e sua esposa deixar voc� sair assim, acharei tamb�m que voc� teve a infelicidade de perder o amor de sua esposa.</p><p>� Mas ele podia ser solteiro.</p><p>� N�o, pois estava levando o ganso para casa para oferecer � mulher. Lembre-se do cart�o preso � perna do ganso.</p><p>� Voc� tem resposta para tudo. Mas como p�de deduzir que n�o h� g�s encanado na casa dele?</p><p>� Uma mancha de cera, ou mesmo duas, pode ser por acaso; mas quando vejo nada menos que cinco, acho que n�o pode haver a menor d�vida de que esse indiv�duo est� em contato freq�ente com cera quente. Provavelmente sobe as escadas � noite com o chap�u em uma das m�os e uma vela acesa na outra. De qualquer modo, n�o poderia nunca arranjar manchas de cera com uma ilumina��o a g�s. Est� satisfeito?</p><p>� Bem, � muito engenhoso � eu disse, rindo �, mas como voc� disse que n�o houve nenhum crime e nada de mal aconteceu, a n�o ser a perda de um ganso, tudo isso me parece um desperd�cio de energia.</p><p>Sherlock Holmes abrira a boca para responder quando a porta foi escancarada e Peterson, o porteiro, entrou correndo na sala com o rosto vermelho e a express�o de um homem completamente perplexo.</p><p>� O ganso, sr. Holmes! O ganso! � exclamou.</p><p>� Ei! O que aconteceu com ele? Ressuscitou e voou pela janela da cozinha? � Holmes mudou de posi��o no sof� para ver melhor o rosto excitado do homem.</p><p>� Olhe aqui, senhor! Veja o que minha mulher encontrou no papo dele. � Estendeu a m�o, mostrando na palma uma pedra azul que cintilava, pouco menor que um gr�o de feij�o, mas t�o pura e resplandecente que brilhava como um ponto de luz na concavidade escura de sua palma.</p><p>Sherlock Holmes endireitou o corpo com um assobio. � Por Deus, Peterson � disse �, isto � um tesouro, realmente! Sabe o que tem na m�o?</p><p>� Um brilhante, senhor! Uma pedra preciosa! Corta vidro como se fosse papel�o.</p><p>� � mais do que uma pedra preciosa. ɠ pedra preciosa.</p><p>� N�o est� dizendo que � a pedra azul da condessa de Morcar! � exclamei.</p><p>� Exatamente. Conhe�o o feitio e o tamanho porque li o an�ncio que colocaram no� nos �ltimos dias. � �nica e de valor inestim�vel, mas a recompensa oferecida, de 1.000 libras, certamente n�o representa nem a vig�sima parte de seu valor de mercado.</p><p>� Mil libras! Nossa Senhora da Miseric�rdia! � O porteiro caiu sentado em uma cadeira e olhou assombrado de um para o outro.</p><p>� Essa � a recompensa, e tenho motivos para supor que h� aspectos sentimentais que levariam a condessa a se desfazer de metade de sua fortuna para recuperar a pedra.</p><p>� Desapareceu, se me lembro bem, no Hotel Cosmopolitan � comentei.</p><p>� Exatamente, no dia 22 de dezembro, cinco dias atr�s. John Horner, um bombeiro, foi acusado de t�-la roubado da caixa de j�ias da senhora. A evid�ncia contra ele era t�o forte que o caso foi encaminhado ao tribunal. Creio que tenho um artigo sobre isso aqui. � Remexeu na pilha de jornais olhando as datas, e finalmente puxou um, dobrou-o e leu o seguinte:</p><empty-line/><p>� Hum! Chega do que aconteceu no Tribunal � disse Holmes, pensativo, deixando de lado o jornal. � O que temos de esclarecer agora � a seq��ncia de acontecimentos que v�o de um estojo de j�ias roubado ao papo de um ganso na Tottenham Court Road. Observe bem, Watson, que nossas pequenas dedu��es assumiram de repente um aspecto muito mais importante e muito menos inocente. Aqui est� a pedra; a pedra veio do ganso, e o ganso veio do sr. Henry Baker, o cavalheiro com o velho chap�u e todas as outras caracter�sticas com as quais tanto enchi sua paci�ncia. De modo que agora precisamos nos empenhar seriamente em encontrar esse cavalheiro e verificar qual foi o papel dele nesse mist�rio. Para isso, devemos tentar primeiro o meio mais simples, e este, sem d�vida alguma, consiste em publicar um an�ncio em todos os jornais vespertinos. Se isso falhar, terei de recorrer a outros meios.</p><p>� O que vai dizer?</p><p>D�-me um l�pis e aquele peda�o de papel. Bem, vejamos:</p><empty-line/><p>Encontrados na esquina da rua Goodge um ganso e um chap�u de feltro preto. O sr. Henry Baker pode reaver os dois apresentando-se �s 18:30h, esta noite, na Baker Street, no 221B.</p><empty-line/><p>Est� bem claro e conciso.</p><p>� Muito. Mas ser� que ele vai ver esse an�ncio?</p><p>� Bem, certamente vai ficar de olho nos jornais, j� que, para um homem pobre, a perda foi grande. Evidentemente, ele ficou t�o amedrontado por ter quebrado a vitrina e pelo aparecimento de Peterson que s� pensou em fugir. Mas depois deve ter se arrependido amargamente do impulso que o fez deixar cair a ave. Al�m disso, a men��o de seu nome far� com que ele veja o an�ncio, pois todas as pessoas que o conhecem v�o chamar sua aten��o. Aqui est�, Peterson, v� depressa � ag�ncia e mande botar isso nos jornais da noite.</p><p>� Quais, senhor?</p><p>� Oh, no e qualquer outro de que voc� se lembre.</p><p>� Sim, senhor. E a pedra?</p><p>� Ah, sim, vou ficar com a pedra. Obrigado. E olhe aqui, Peterson, compre um ganso na volta e deixe aqui comigo, pois precisamos de um ganso para devolver a esse cavalheiro, em lugar daquele que sua fam�lia est� devorando neste momento.</p><p>Quando o porteiro saiu, Holmes pegou a pedra e a segurou contra a luz. � � realmente linda � disse. � Olhe s� como brilha e cintila. Claro que � um n�cleo e foco de crime. Todas as boas pedras s�o. Elas s�o as iscas preferidas do diabo. Nas pedras maiores e mais antigas, cada faceta deve representar um feito sangrento. Esta pedra n�o tem ainda vinte anos. Foi encontrada nas margens do rio Amoy, no sul da China, e tem todas as caracter�sticas do rubi, exceto o fato de que � azul em vez de vermelho. Apesar de ser nova, esta pedra j� tem uma hist�ria sinistra. Houve dois assassinatos, um epis�dio com �cido sulf�rico, um suic�dio e v�rios roubos, tudo por causa desses poucos gramas de carbono cristalizado. Quem poderia imaginar que um brinquedo t�o lindo seria o caminho da forca e da pris�o? Vou tranc�-lo em meu cofre e mandar um bilhete � condessa dizendo que est� em meu poder.</p><p>� Voc� acha que o Horner � inocente?</p><p>� N�o sei ainda.</p><p>� Bem, ent�o acha que o outro, o Henry Baker, tem alguma coisa a ver com esse neg�cio?</p><p>� Acho muito mais prov�vel que Henry Baker seja completamente inocente e n�o tivesse a menor id�ia de que a ave que carregava valesse muito mais do que se fosse feita de ouro maci�o. Mas isso eu vou verificar por meio de um teste muito simples, se tivermos uma resposta ao nosso an�ncio.</p><p>� E n�o pode fazer nada at� l�?</p><p>� Nada.</p><p>� Nesse caso, vou continuar minhas visitas profissionais. Mas voltarei � noite, na hora que voc� mencionou, pois gostaria de ver a solu��o dessa hist�ria t�o confusa.</p><p>� Ser� um prazer t�-lo aqui. O jantar ser� �s 19 horas. Creio que � uma galinha-d�angola. Por falar nisso, considerando o que aconteceu, acho melhor mandar a sra. Hudson examinar seu papo.</p><p>Atrasei-me com um paciente e j� passava das 18:30h quando voltei a Baker Street. Ao me aproximar da casa, vi um homem alto, de bon� escoc�s, com um casaco abotoado at� o queixo esperando diante da porta, no semic�rculo de luz lan�ado atrav�s da clarab�ia. No momento em que eu chegava, a porta se abriu e subimos juntos para os aposentos de Holmes.</p><p>� Sr. Henry Baker, sem d�vida � disse ele, levantando-se da poltrona e recebendo o visitante com grande cordialidade. � Sente-se aqui, perto da lareira, sr. Baker. A noite est� muito fria e estou vendo que sua circula��o est� mais habituada ao ver�o que ao inverno. Ah, Watson, voc� chegou bem na hora. Esse chap�u � seu, sr. Baker?</p><p>� Sim, senhor, sem d�vida nenhuma.</p><p>Era um homem grande, de ombros arredondados, cabe�a maci�a e um rosto largo, inteligente, que terminava em uma barba pontuda castanha entremeada de fios grisalhos. O nariz e as faces um pouco vermelhos e um ligeiro tremor na m�o estendida lembraram-me as dedu��es de Holmes sobre seus h�bitos. O casaco preto russo estava abotoado at� em cima, com a gola virada, e os pulsos magros sa�am das mangas sem sinal de camisa. Falava em voz baixa, abruptamente, escolhendo com cuidado as palavras, e dava a impress�o geral de um homem instru�do, culto, que fora maltratado nas m�os da deusa da fortuna.</p><p>� Guardamos essas coisas por alguns dias � disse Holmes � porque esper�vamos ver um an�ncio seu dando o endere�o. N�o compreendo por que o senhor n�o publicou um an�ncio.</p><p>Nosso visitante deu uma risadinha envergonhada. � O dinheiro anda um pouco escasso esses dias, n�o � como antigamente � comentou. � Estava certo de que o grupo de desordeiros que me atacou tinha levado tanto meu chap�u quanto o ganso. N�o quis gastar mais dinheiro ainda numa tentativa infrut�fera de recuper�-los.</p><p>� Muito natural. Por falar nisso, quanto ao ganso... fomos obrigados a com�-lo.</p><p>� Com�-lo! � Nosso visitante chegou a erguer-se da cadeira, muito excitado.</p><p>� Sim. Se n�o fiz�ssemos isso, ele n�o teria servido para ningu�m. Mas acho que esse outro ganso, que est� sobre o aparador, que tem mais ou menos o mesmo peso e est� muito fresco, servir� da mesma forma.</p><p>� Oh, certamente, certamente! � respondeu logo o sr. Baker, com um suspiro de al�vio.</p><p>� Naturalmente, ainda temos as penas, as pernas, o papo etc. etc. de seu ganso, se o senhor quiser...</p><p>O homem deu uma gargalhada. � Poderiam servir como rel�quias da minha aventura � disse alegremente � mas, fora isso, n�o vejo em que os do finado me possam ser �teis. N�o, senhor, acho que, com sua permiss�o, darei toda minha aten��o � excelente ave que vejo em seu aparador.</p><p>Sherlock Holmes lan�ou-me um olhar significativo, encolheu os ombros.</p><p>� A� est� o seu chap�u, ent�o, e ali est� o seu ganso � disse. � Por falar nisso, poderia me dizer onde adquiriu o outro ganso? Gosto imensamente de aves e poucas vezes vi um ganso t�o bom.</p><p>� Claro, senhor � disse Baker, que se havia levantado e segurava a ave debaixo do bra�o. � Temos um pequeno grupo que freq�enta a Alpha Inn, perto do Museu... trabalhamos no Museu, o senhor entende. Este ano nosso anfitri�o, que se chama Windigate, criou um clube do ganso. Mediante o pagamento de alguns pences todas as semanas, receber�amos um ganso na �poca de Natal. Peguei meus pences, e o resto o senhor j� sabe. Estou muito grato ao senhor, porque um bon� escoc�s n�o combina nem com a minha idade nem com a minha personalidade. Cumprimentou-nos de modo solene, com um ar comicamente pomposo, e saiu.</p><p>� Isso basta para o sr. Henry Baker � disse Holmes, quando a porta se fechou atr�s dele. � � evidente que n�o sabe nada desse assunto. Est� com fome, Watson?</p><p>� N�o muita.</p><p>� Ent�o sugiro que adiemos o jantar para uma ceia e sigamos essa pista enquanto est� quente.</p><p>� Concordo plenamente.</p><p>A noite estava terr�vel, de modo que sa�mos com sobretudos pesados e echarpes de l� enroladas no pesco�o. L� fora as estrelas brilhavam gelidamente em um c�u sem nuvens e a respira��o dos transeuntes explodia em fuma�a no ar como tiros de pistola. Nossos passos ressoavam quando passamos pelo quarteir�o dos m�dicos, Wimpole Street, Harley Street e, cruzando a Wigmore Street, entramos na Oxford Street. Em 15 minutos chegamos a Bloomsbury, ao Alpha Inn, que � um pequeno restaurante na esquina de uma das ruas que levam a Holborn. Holmes abriu a porta do bar e pediu dois copos de cerveja ao dono de rosto vermelho e avental branco.</p><p>� Sua cerveja deve ser excelente, se for igual aos seus gansos � comentou.</p><p>� Meus gansos! � O homem parecia surpreso.</p><p>� Sim. Eu estava conversando h� menos de meia hora com o sr. Henry Baker, que � s�cio de seu clube de gansos.</p><p>� Ah! Sim, compreendo. Mas, senhor, os gansos n�o s�o meus.</p><p>� Ah, n�o? Ent�o de quem s�o?</p><p>� Bem, comprei as duas d�zias de um vendedor em Covent Garden.</p><p>� Ah, sim? Conhe�o alguns deles. Qual foi?</p><p>� O nome dele � Breckinridge.</p><p>� Ah! N�o o conhe�o. Bem, bebamos � sua sa�de e prosperidade. Boa-noite.</p><p>� Agora vamos procurar o sr. Breckinridge � continuou, abotoando o sobretudo quando sa�mos no ar gelado. � Lembre-se, Watson, que, embora tenhamos um simples ganso em uma extremidade dessa cadeia, na outra temos um homem que certamente ser� condenado a sete anos de trabalhos for�ados se n�o conseguirmos provar sua inoc�ncia. � poss�vel que nossas investiga��es s� consigam confirmar sua culpa. Mas, seja como for, estamos seguindo uma pista que a pol�cia n�o descobriu e que caiu em nossas m�os por acaso. Vamos segui-la at� o fim. Em dire��o ao sul e vamos depressa.</p><p>Atravessamos Holborn, descemos a Endell Street e passamos por uma s�rie de corti�os at� chegarmos ao mercado de Covent Garden. Uma das maiores bancas exibia o nome de Breckinridge, e o propriet�rio, um homem com cara de cavalo, de express�o severa e costeletas aparadas, estava ajudando um rapazola a fechar as portas de a�o.</p><p>� Boa noite � disse Holmes. � Est� fazendo muito frio, n�o?</p><p>O propriet�rio concordou com a cabe�a e lan�ou um olhar interrogativo a meu companheiro.</p><p>� Vendeu todos os gansos, pelo que vejo � continuou Holmes, apontando para o balc�o vazio.</p><p>� Posso lhe vender quinhentos amanh� de manh�.</p><p>� Amanh� n�o serve.</p><p>� Bem, tem alguns ali naquela outra banca.</p><p>� Ah, mas o senhor me foi recomendado.</p><p>� Por quem?</p><p>� O propriet�rio do Alpha.</p><p>� Ah, sim. Vendi duas d�zias para ele.</p><p>� Eram lindas aquelas aves. Onde foi que as adquiriu?</p><p>Para meu espanto, essa pergunta enfureceu o homem.</p><p>� Espere a�, cavalheiro � respondeu, com a cabe�a de lado e as m�os nos quadris �, onde � que quer chegar? Diga logo a verdade.</p><p>� Estou falando a verdade. S� queria saber onde o senhor comprou os gansos que vendeu ao Alpha.</p><p>� Muito bem, n�o vou lhe dizer. E agora?</p><p>� Ora, n�o tem import�ncia. Mas n�o sei por que ficou t�o zangado com uma coisa t�o insignificante.</p><p>� Zangado! O senhor ficaria zangado tamb�m se estivesse em meu lugar e fosse t�o amolado por tanta gente. Pago muito bem para ter um artigo bom, e isso devia ser o final da hist�ria, mas s� ou�o: �Onde est�o os gansos?� e �A quem voc� vendeu os gansos?� e �Quanto quer por esses gansos?� At� parece que s�o os �nicos gansos do mundo inteiro, com o rebuli�o que est�o fazendo por causa desses gansos.</p><p>� N�o tenho nada a ver com outras pessoas que tenham vindo aqui fazer perguntas � disse Holmes despreocupadamente. � Se n�o quer nos dizer, ent�o n�o h� mais aposta, � s� isso. Mas estou sempre pronto a apostar em quest�o de aves, e apostei 5 libras que a ave que comi foi criada no campo.</p><p>� Ent�o perdeu suas 5 libras, porque foi criada na cidade � afirmou o propriet�rio.</p><p>� De maneira nenhuma.</p><p>� Estou dizendo que foi.</p><p>� N�o acredito.</p><p>� Pensa que sabe mais do que eu sobre aves, eu, que lido com elas desde que era garoto? Estou lhe dizendo que todos os gansos que foram para o Alpha foram criados na cidade.</p><p>� Nunca vai me convencer disso.</p><p>� Quer apostar?</p><p>� E estaria tirando o seu dinheiro, pois tenho certeza absoluta do que estou dizendo. Mas aposto uma libra de ouro, s� para lhe ensinar a n�o ser t�o teimoso.</p><p>O propriet�rio deu um sorriso satisfeito. � Traga os livros, Bill � disse para o garoto.</p><p>O rapazola trouxe um caderno fino e um livro grande e gorduroso, e colocou-os, um ao lado do outro, sob a l�mpada que pendia do teto.</p><p>� E agora, sr. Sabe-tudo � disse o homem �, pensei que n�o tinha mais nenhum ganso, mas quando terminarmos, vai descobrir que ainda tem um aqui.* Est� vendo este caderno?</p><p>� Sim.</p><p>� Esta � a lista das pessoas de quem compro gansos. Est� vendo? Bem, nesta p�gina est�o os criadores do campo e os n�meros depois dos nomes indicam onde est�o as contas deles no livro grande. Ent�o, vamos ver! Est� vendo esta outra p�gina em tinta vermelha? Esta � a lista dos meus fornecedores da cidade. Agora olhe o terceiro nome. Leia alto para mim.</p><p>� �Sra. Oakshott, 117 Brixton� Road � 249� � leu Holmes.</p><p>� Exatamente. Agora olhe no livro grande.</p><p>Holmes virou at� a p�gina indicada.</p><p>� Aqui est�, �sra. Oakshott, 117 Brixton Road, fornecedora de ovos e aves�.</p><p>� E agora, qual foi o �ltimo item?</p><p>� �22 de dezembro. Vinte e quatro gansos a 7 xelins e 6 pence.�</p><p>� Muito bem. A� est�. E o que diz depois?</p><p>� �Vendidos ao sr. Windigate do Alpha a 12 xelins�.</p><p>� E o que tem a dizer agora, hein?</p><p>Sherlock Holmes fez uma cara profundamente decepcionada. Tirou uma libra de ouro do bolso e atirou-a no balc�o, virando-se para ir embora como um homem que estivesse desgostoso demais para dizer qualquer coisa. Alguns metros adiante, parou ao lado de um poste de luz e deu uma boa gargalhada silenciosa, que era o seu jeito habitual.</p><p>� Quando voc� vir um homem com costeletas parecidas com aquelas e um tal�o de apostas no bolso, pode ter certeza de que conseguir� extrair alguma coisa por meio de uma aposta. � Acho que se eu tivesse posto 100 libras na frente dele, aquele homem n�o me teria dado tantas informa��es como consegui dando-lhe a impress�o de que estava apostando comigo. Bem, Watson, acho que estamos chegando ao fim de nossa investiga��o e minha �nica d�vida � se devemos ir ver essa tal sra. Oakshott agora ou se devemos deixar para amanh�. � evidente, pelo que disse aquele homem, que h� v�rias pessoas, al�m de n�s, interessadas nesse assunto, e...</p><p>Suas palavras foram subitamente interrompidas por uma barulheira na banca que acab�vamos de deixar. Quando nos viramos, vimos um sujeito mi�do, de fei��es de fuinha, no meio de um c�rculo de luz amarela lan�ado pela l�mpada do teto, enquanto Breckinridge, o propriet�rio, na entrada de sua banca, sacudia os punhos furiosamente.</p><p>� J� basta de voc� e seus malditos gansos � berrou. � Voc�s que v�o para o diabo. Se voc� vier me amolar com essa conversa idiota, vou botar o cachorro atr�s de voc�. Traga a sra. Oakshott aqui e eu respondo o que ela quiser, mas o que � que voc� tem a ver com isso? Por acaso comprei os gansos de voc�?</p><p>� N�o, mas um deles era meu � resmungou o homenzinho.</p><p>� Ent�o v� perguntar � sra. Oakshott.</p><p>� Ela me disse para perguntar ao senhor.</p><p>� Ent�o v� perguntar ao rei da Pr�ssia e n�o me amole. N�o ag�ento mais! V� embora! � Ele avan�ou, furioso, e o homenzinho saiu correndo e desapareceu na escurid�o.</p><p>� Ah, isso vai nos poupar uma visita a Brixton Street � murmurou Holmes. � Venha comigo e veremos o que esse camarada tem a dizer. � Passando entre os grupos que rodeavam as bancas, meu companheiro alcan�ou rapidamente o homenzinho e bateu no seu ombro. Ele virou-se para n�s, assustado, e vi � luz das l�mpadas a g�s que o sangue fugira completamente de seu rosto.</p><p>� Quem � o senhor? O que quer de mim? � balbuciou.</p><p>� Pe�o-lhe perd�o � disse Holmes em voz branda �, mas n�o pude deixar de ouvir as perguntas que estava fazendo ao propriet�rio daquela banca. Acho que posso ajud�-lo.</p><p>� O senhor? Quem � o senhor? Como pode saber alguma coisa sobre este assunto?</p><p>� Meu nome � Sherlock Holmes. A minha profiss�o � saber o que os outros n�o sabem.</p><p>� Mas como pode saber alguma coisa sobre isso?</p><p>� Perd�o, sei tudo. Est� procurando descobrir o paradeiro de uns gansos que foram vendidos pela sra. Oakshott, da Brixton Street, a um homem chamado Breckinridge, e por ele ao sr. Windigate, do Alpha, e por este �ltimo a seu clube, do qual o sr. Henry Baker � s�cio.</p><p>� Ah, era exatamente o senhor que eu procurava � exclamou o homenzinho, estendendo as m�os tr�mulas. � Mal posso encontrar palavras para explicar o quanto estou interessado neste assunto.</p><p>Sherlock Holmes fez sinal para uma carruagem que passava. � Nesse caso, � melhor conversarmos em uma sala aconchegante e n�o neste mercado varrido pelo vento � disse. � Mas antes, por favor, diga-me quem tenho o prazer de ajudar.</p><p>O homem hesitou um instante. � Meu nome � John Robinson � respondeu, olhando-o de soslaio.</p><p>� N�o, n�o, seu nome verdadeiro � disse Holmes gentilmente. � � sempre inc�modo fazer qualquer neg�cio com um nome falso.</p><p>O rosto branco do estranho enrubesceu. � Bem � disse �, meu nome verdadeiro � James Ryder.</p><p>� Exatamente. Trabalha na portaria do Hotel Cosmopolitan. Tenha a bondade de entrar nesse carro e daqui a pouco vou contar-lhe tudo que quiser saber.</p><p>O homenzinho ficou olhando de um para o outro com uma express�o amedrontada, meio esperan�osa, como quem n�o sabe se est� na imin�ncia de uma grande surpresa ou de uma cat�strofe. Ent�o, entrou no carro, e em meia hora est�vamos de volta � sala da Baker Street. Nada fora dito durante a viagem, mas a respira��o ofegante de nosso companheiro e as m�os que se entrela�avam e se soltavam tra�am a tens�o nervosa que o dominava.</p><p>� Aqui estamos! � disse Holmes alegremente, quando entramos na sala. O fogo est� acolhedor, com um tempo desses. Parece que est� com frio, sr. Ryder. Sente-se naquela cadeira. Vou s� tirar os sapatos e cal�ar os chinelos antes de resolver seu problema. Ent�o! Quer saber o que aconteceu com os gansos?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Ou melhor, com aquele ganso. Estava interessado, se n�o me engano, em um ganso... branco, com uma barra preta na cauda.</p><p>Ryder estremeceu de emo��o. � Oh, senhor � exclamou �, pode me dizer o que aconteceu com ele?</p><p>� Veio para c�.</p><p>� Para c�?</p><p>� Sim, e mostrou que era uma ave realmente extraordin�ria. N�o me espanto ao ver seu interesse por ele. Botou um ovo depois de morto, o ovinho azul mais lindo, mais brilhante que se possa imaginar. Guardei-o aqui em meu museu.</p><p>Nosso visitante ficou de p�, cambaleando, e agarrou-se no consolo da lareira com a m�o direita. Holmes destrancou o cofre e estendeu a pedra azul, que cintilava como uma estrela, com um brilho frio, ofuscante, multifacetado. Ryder ficou olhando com o rosto contorcido, sem saber se devia reconhec�-la ou fingir ignor�-la.</p><p>� O jogo terminou, Ryder � disse Holmes calmamente. Segure-se, homem, ou vai cair na lareira. Ajude-o a voltar para a cadeira, Watson. Ele n�o tem capacidade de praticar um crime impunemente. D�-lhe um gole de conhaque. Agora sim! Agora est� com um aspecto mais humano. Que vermeele �, realmente!</p><p>Por um instante Ryder estremecera e quase ca�ra, mas o conhaque trouxe o sangue de volta ao seu rosto, ele sentou-se, encarando seu acusador com olhos amedrontados.</p><p>� Tenho quase todos os elos da cadeia em minhas m�os, e todas as provas de que preciso, de modo que h� muito pouca coisa que voc� possa me dizer. Entretanto, mesmo esse pouco deve ser esclarecido para completar o caso. Voc� j� ouvira falar, Ryder, dessa pedra azul da condessa de Morcar?</p><p>� Foi Catherine Cusack que me falou dela � respondeu com voz rouca.</p><p>� Entendo. A criada da condessa. Bem, a tenta��o de uma grande riqueza adquirida com toda a facilidade foi demais para voc�, como j� foi para homens muito melhores antes de voc�. Mas voc� n�o teve muitos escr�pulos em rela��o aos meios que usou. Parece-me, Ryder, que voc� tem tudo para ser um bom vil�o. Sabia que esse Horner, o bombeiro, havia sido envolvido em alguma coisa semelhante no passado e que as suspeitas naturalmente recairiam sobre ele. E o que fez, ent�o? Inventou um conserto qualquer nos aposentos da condessa, voc� e sua c�mplice, Catherine Cusack, e deu um jeito para que ele fosse chamado para fazer o servi�o. Ent�o, depois que ele saiu, voc� roubou a pedra, deu o alarme, e fez com que esse pobre-diabo fosse preso. Depois...</p><p>Ryder atirou-se de repente no tapete e agarrou os joelhos de meu companheiro. � Pelo amor de Deus! Tenha d�! � gritou. � Pense em meu pai, em minha m�e! Ia cortar o cora��o deles! Nunca fiz nada de errado antes. E juro que nunca mais farei uma coisa dessas. Juro sobre a B�blia. Oh, n�o leve isso aos tribunais! Por amor de Jesus Cristo, n�o fa�a isso!</p><p>� Volte para sua cadeira � disse Holmes severamente. � Agora voc� est� de quatro, suplicando caridade, mas nem pensou no pobre do Horner, condenado por� um crime que n�o cometeu.</p><p>� Vou-me embora, sr. Holmes. Sairei do pa�s, senhor. Ent�o a acusa��o contra ele ser� retirada.</p><p>� Hum! Vamos conversar sobre isso. Mas agora queremos ouvir a hist�ria verdadeira do ato seguinte. Como � que a pedra foi parar no ganso e o ganso no mercado? Diga a verdade, pois � a �nica possibilidade que voc� tem de escapar.</p><p>Ryder passou a l�ngua pelos l�bios secos. � Vou contar exatamente o que aconteceu, senhor � disse. � Quando Horner foi preso, pareceu-me que a melhor coisa seria eu sumir com a pedra imediatamente, pois n�o sabia quando a pol�cia podia resolver me revistar ou dar uma busca em meu quarto. N�o havia lugar nenhum no hotel em que eu pudesse esconder a pedra. Sa� como se tivesse sido mandado � rua, e fui at� a casa de minha irm�. Ela se casara com um homem chamado Oakshott e morava na Brixton Street, onde engordava aves para o mercado. A caminho da casa dela, todos os homens que encontrei me pareciam ser policiais ou detetives e, embora estivesse fazendo muito frio, o suor escorria pelo meu rosto antes de chegar � Brixton Street. Minha irm� me perguntou o que havia comigo e por que estava t�o p�lido, mas eu disse que estava muito abalado por causa do roubo no hotel. Ent�o fui at� o quintal dos fundos, fumei um cachimbo e pensei no que ia fazer.</p><p>� Tive um amigo, uma ocasi�o, chamado Maudsley, que enveredou pelo mau caminho e cumpriu senten�a em Pentonville. Um dia n�s nos encontramos e a conversa foi toda sobre ladr�es e como eles se livravam das coisas que roubavam. Tinha certeza de que ele seria leal comigo porque eu sabia umas coisas sobre ele, ent�o resolvi ir a Kilburn, onde ele morava, e contar-lhe tudo. Ele me mostraria como converter a pedra em dinheiro. Mas como chegar at� l� em seguran�a? Pensei na ang�stia que sentira no caminho do hotel at� a casa de minha irm�. Podia, a qualquer momento, ser detido e revistado, e l� estaria a pedra no bolso de meu colete. Eu estava encostado no muro nessa hora, olhando os gansos que gingavam ao meu redor e de repente tive uma id�ia que me mostrou como eu poderia enganar o detetive mais esperto que existisse.</p><p>� Minha irm� dissera algumas semanas antes que eu podia escolher um ganso como presente de Natal e sabia que ela sempre cumpria sua palavra. Ent�o eu ia levar meu ganso agora mesmo e dentro dele eu ia botar minha pedra e levar para Kilburn. Havia um pequeno galp�o no quintal e foi para l� que enxotei um dos gansos, um muito bonito, todo branco, com uma lista preta na cauda. Agarrei a ave e, abrindo o bico, enfiei a pedra em sua garganta, o mais fundo poss�vel. O ganso engoliu, e vi a pedra passar pela goela e entrar no papo. Mas a criatura bateu as asas e lutou, e minha irm� veio ver o que estava acontecendo. Quando me virei para falar com ela, o bicho se soltou e se misturou com os outros.</p><p>� �O que voc� estava fazendo com esse ganso, Jem?�, ela perguntou.</p><p>� �Bem�, respondi, �voc� disse que ia me dar um ganso de presente de Natal, e eu estava vendo qual era o mais gordo.�</p><p>� �Oh�, ela disse, �j� separamos o seu. � aquele branco, grande, que est� ali. S�o 26 ao todo, um para voc�, um para n�s e duas d�zias para o mercado.�</p><p>� �Obrigado, Maggie�, eu disse, �mas se n�o faz diferen�a para voc�, prefiro aquele que estava segurando ainda h� pouco.�</p><p>� �O outro pesa um quilo a mais�, ela insistiu, �e foi engordado especialmente para voc�.�</p><p>� �N�o faz mal. Prefiro o outro, o branco com uma lista, e vou lev�-lo agora mesmo�.</p><p>� �Est� bem, fa�a o que quiser. Ent�o mate a ave e leve.�</p><p>� Bem, fiz o que ela disse, sr. Holmes, e carreguei o ganso at� Kilburn. Contei ao meu amigo o que tinha feito, pois ele era um homem a quem se podia contar essas coisas. Riu at� se engasgar, pegamos uma faca e abrimos o ganso. Meu cora��o quase parou, pois n�o havia sinal da pedra e percebi que ocorrera um erro terr�vel. Larguei o ganso, voltei correndo � casa de minha irm� e fui at� o quintal. N�o havia nenhum ganso.</p><p>� �Onde eles est�o, Maggie?� perguntei.</p><p>� �J� foram para o mercado.�</p><p>� �Para que vendedor?�</p><p>� �Breckinridge, de Covent Garden.�</p><p>� �Mas tinha outro ganso com uma lista preta na cauda?� perguntei. �Igual ao que escolhi?�</p><p>� �Sim, Jem, eram dois com a cauda listada e nunca consegui distinguir um do outro.�</p><p>�Ent�o compreendi tudo e sa� correndo o mais depressa poss�vel para o mercado, mas Breckinridge tinha vendido todos de uma vez e n�o quis dizer uma palavra sequer sobre seu destino. Os senhores ouviram o que ele estava dizendo hoje � noite. Foi assim que sempre me respondeu. Minha irm� pensa que estou ficando louco. �s vezes, eu tamb�m penso isso. E agora... e agora sou um ladr�o aos olhos do mundo sem ter sequer tocado na fortuna pela qual ganhei esta fama. Deus me ajude! Deus me ajude! � Come�ou a solu�ar convulsivamente, com o rosto enterrado nas m�os.</p><p>Houve um longo sil�ncio, quebrado apenas pelos solu�os e pelos dedos de Sherlock Holmes, que batiam na borda da mesa. Ent�o meu amigo se levantou e abriu a porta.</p><p>� Saia! � ordenou.</p><p>� O qu�, senhor! Oh, Deus o aben�oe!</p><p>� Nem mais uma palavra. Saia!</p><p>E n�o era preciso dizer mais nada. Um movimento r�pido, um barulho na escada, uma porta que bateu e passos apressados descendo a rua.</p><p>� Afinal de contas, Watson � disse Holmes, estendendo a m�o para pegar o cachimbo de barro �, n�o sou pago pela pol�cia para suprir suas defici�ncias. Se Horner estivesse em perigo, seria diferente, mas esse camarada n�o vai testemunhar contra ele e este caso ser� encerrado. Acho que estou sendo c�mplice de um crime, mas � poss�vel que esteja salvando uma alma. Este sujeito n�o vai fazer mais nada de errado. Ficou amedrontado demais. Se fosse para a pris�o agora, seria um criminoso pelo resto da vida. Al�m disso, essa �poca do ano � a do perd�o. O acaso colocou em nosso caminho um problema original e sua solu��o � a pr�pria recompensa. Tenha a bondade de tocar a campainha, doutor, e come�aremos outra investiga��o que tamb�m envolve uma ave.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a banda pintada</strong></p><empty-line/><p>Ao olhar as minhas anota��es dos setenta e tantos casos em que, nos �ltimos oito anos, estudei os m�todos de meu amigo Sherlock Holmes, vejo que muitos foram tr�gicos, alguns c�micos e um grande n�mero simplesmente estranho, mas nenhum foi banal; pois, trabalhando como o fazia, por amor � arte e n�o ao dinheiro, recusava se associar a qualquer investiga��o que n�o levasse ao fora do comum, at� ao fant�stico. De todos esses v�rios casos, entretanto, n�o me lembro de nenhum que apresentasse aspectos mais originais que o da fam�lia de Surrey, muito conhecida, os Roylotts de Stoke Moran. Os acontecimentos em quest�o ocorreram no in�cio de minha associa��o com Holmes, quando mor�vamos juntos, como solteiros, na Rua Baker. Teria relatado esse caso antes, mas hav�amos prometido segredo na ocasi�o, e s� fui liberado dessa promessa no m�s passado, pela morte intempestiva da senhora a quem ela havia sido feita. � talvez oportuno que os fatos venham � luz agora, pois tenho raz�es para crer que h� muitos boatos sobre a morte do Dr. Grimesby Roylott que tendem a tomar a quest�o ainda mais terr�vel que a verdade.</p><p>Foi no in�cio de abril do ano de 1883 que acordei uma manh� e encontrei Sherlock Holmes em p� ao lado de minha cama, completamente vestido. Em geral, costumava acordar tarde e, como o rel�gio acima da lareira marcava apenas sete e quinze, pisquei os olhos, surpreso e talvez com um pouco de ressentimento, pois eu tamb�m era muito regular em meus h�bitos.</p><p>- Mil perd�es por acordar voc�, Watson, - disse ele - mas � o que est� acontecendo com todo mundo esta manh�. A Sra. Hudson foi acordada e ent�o me acordou e agora � a sua vez.</p><p>- O que aconteceu? Um inc�ndio?</p><p>- N�o, um cliente. Consta que chegou uma jovem em estado de grande excita��o, que insiste em falar comigo. Est� esperando nesse momento na sala. Ora, quando mo�as de fam�lia saem andando pela cidade a essa hora da manh� e tiram as pessoas da cama, presumo que tenham algo muito importante a comunicar. Se for um caso interessante, tenho certeza que voc� gostaria de acompanh�-lo desde o in�cio. Achei, de qualquer maneira, que devia cham�-lo e lhe dar essa chance.</p><p>- Meu caro amigo, n�o ia perder isso de jeito nenhum.</p><p>Era o meu maior prazer seguir Holmes em suas investiga��es e admirar as dedu��es r�pidas, velozes como intu���es, entretanto sempre ancoradas em uma base l�gica, com que deslindava os mist�rios que lhe eram submetidos. Vesti-me rapidamente e em poucos minutos estava pronto para acompanhar meu amigo � sala. Uma senhora vestida de preto e coberta por um v�u espesso, sentada junto � janela, levantou-se quando entramos.</p><p>- Bom dia, senhora - disse Holmes alegremente. - Meu nome � Sherlock Holmes. Este � meu amigo �ntimo e associado, Dr. Watson, em frente de quem pode falar com toda a franqueza. Ali, ainda bem que a Sra. Hudson teve a boa id�ia de acender a lareira. Por favor, chegue perto do fogo e vou mandar vir uma x�cara de caf� bem quente, pois estou vendo que a senhora est� tremendo.</p><p>- N�o � o frio que me faz tremer - disse a mo�a em voz baixa, mudando de cadeira, como Holmes sugerira.</p><p>- O que ent�o?</p><p>- � medo, Sr. Holmes. � terror. - Ergueu o v�u enquanto falava e pudemos ver que estava realmente em estado abjeto de terror, o rosto contorcido e cinzento, os olhos agitados e amedrontados, como de animal encurralado. As fei��es e a figura eram de uma mulher de uns trinta anos, mas os cabelos eram prematuramente grisalhos e a express�o era fatigada, e ansiosa. Sherlock Holmes analisou-a com um de seus olhares r�pidos e abrangentes.</p><p>- N�o tenha medo - disse, acalmando-a com a voz e, inclinando-se � frente, deu uma leve pancadinha em seu bra�o. - Vamos resolver o problema, seja o que for. Vejo que veio de trem.</p><p>- O senhor sabe quem eu sou?</p><p>- N�o, mas vi a passagem de volta em sua m�o. Deve ter sa�do muito cedo e andou muito tempo em um carro aberto, em estradas de terra, antes de chegar � esta��o.</p><p>A mo�a teve um sobressalto e olhou meu companheiro, surpresa.</p><p>- N�o h� mist�rio nenhum nisso, a senhora - disse ele sorrindo. - A manga esquerda de sua jaqueta est� salpicada de lama em nada menos que sete lugares. As manchas s�o muito frescas. S� um carro aberto deixaria que isso acontecesse, e assim mesmo, s� quando se senta � esquerda do cocheiro.</p><p>- Seja qual for seu racioc�nio, o senhor tem raz�o - ela respondeu. - Sa� de casa antes das seis horas, cheguei a Leatherhead �s seis e vinte e tomei o primeiro trem para Waterloo. Sr. Holmes, n�o ag�ento essa ansiedade nem mais um minuto, ficarei louca se isso continuar. N�o tenho ningu�m a quem recorrer, ningu�m, exceto uma pessoa, que se importe comigo, e ele, pobre coitado, n�o pode me ajudar. Ouvi falar do senhor, Sr. Holmes, foi a Sra. Farintosh, que o senhor ajudou quando ela mais precisava. Foi ela que me deu seu endere�o. Oh, Sr. Holmes, ser� que o senhor pode me ajudar tamb�m, pelo menos jogar alguma luz sobre a profunda escurid�o que me cerca? No momento n�o tenho condi��es de remuner�-lo por seus servi�os, mas vou me um em um ou dois meses e assumirei o controle de minha pr�pria renda e ent�o o senhor ver� que n�o sou ingrata.</p><p>Holmes virou-se para a secret�ria e, abrindo uma gaveta, tirou um pequeno caderno, que consultou.</p><p>- Farintosh - disse. - Ali, sim, lembro-me do caso. Tratava-se de uma tiara de opalas. Acho que foi antes de seu tempo, Watson. Tudo que posso dizer, minha senhora, � que darei a mesma aten��o a seu caso que dei ao caso de sua amiga. Quanto � remunera��o, minha profiss�o � sua pr�pria recompensa, mas a senhora poder� me reembolsar qualquer despesa que eu tenha de fazer, quando for conveniente. E agora, por favor, nos conte tudo que possa ajudar a formar uma opini�o sobre o assunto.</p><p>- Ali! - respondeu nossa visitante. - O horror da minha situa��o � exatamente que meus temores s�o t�o vagos e minhas suspeitas dependem inteiramente de detalhes muito pequenos, que podem parecer banais para qualquer outra pessoa, e at� o homem, acima de todos, a quem tenho o direito de pedir auxilio e conselhos, considera tudo que lhe digo mera fantasia de uma mulher nervosa. Ele n�o diz nada, mas eu vejo pelas respostas vagas que me d�, desviando os olhos para n�o me encarar. Mas ouvi dizer, Sr. Holmes, que o senhor tem olhos que penetram profundamente na imensa maldade do cora��o humano. O senhor poder� me aconselhar como atravessar os perigos que me rodeiam.</p><p>- Sou todo ouvidos, minha senhora.</p><p>- Meu nome � Helen Stotier e moro com meu padrasto, que � o �ltimo sobrevivente de uma das fam�lias mais antigas da Inglaterra, os Roylotts de Stoke Moran, na fronteira Oeste de Surrey. Holmes acenou com a cabe�a. - O nome n�o me � desconhecido - disse.</p><p>- H� tempos a fam�lia era uma das mais ricas da Inglaterra e propriedades se estendiam al�m das fronteiras de Berkshire no Norte e no Oeste. Mas no �ltimo s�culo, quatro herdeiros sucessivos eram de disposi��o dissoluta e perdul�ria e a ru�na da fam�lia foi completada eventualmente por um jogador, na �poca da Reg�ncia. N�o sobrou nada, exceto uns poucos acres de terra e a casa de duzentos anos, soterrada sob uma hipoteca enorme. O �ltimo grande propriet�rio arrastou sua exist�ncia l�, vivendo a vida horr�vel de um aristocrata indigente; mas seu filho �nico, meu padrasto, vendo que tinha de se adaptar a novas situa��es, conseguiu um empr�stimo de um parente, que lhe permitiu formar-se em Medicina e foi para Calcut� onde, devido a sua capacidade profissional e for�a de car�ter, estabeleceu uma grande cl�nica. Em um assomo de raiva, entretanto, surrou o nativo que lhe servia de mordomo at� mat�-lo e escapou por pouco de ser condenado � morte. mesmo, ficou preso muito tempo e depois voltou � Inglaterra, um homem desanimado e amargo.</p><p>- Enquanto Dr. Roylott estava na �ndia, casou-se com minha m�e, a Sra. Stoner, jovem vi�va do General-de-Divis�o Stoner, da Artilharia Bengali. Minha irm� J�lia e eu �ramos g�meas e t�nhamos apenas dois anos quando minha nile casou de novo. Ela possu�a uma quantia consider�vel em dinheiro, nada menos que mil libras por ano, que transmitiu ao Dr. Roylott enquanto resid�ssemos com ele, com a ressalva de que um certo tanto por ano fosse dado a cada uma de n�s na eventualidade de nos casarmos. Pouco ap�s voltarmos � Inglaterra, minha m�e faleceu (morreu h� oito anos, em um desastre de estrada de ferro perto de Crewe). Dr. Roylott abandonou ent�o a tentativa de clinicar em Londres e levou-nos para morar com ele na mans�o ancestral em Stoke Moran. O dinheiro que minha m�e havia deixado bastava para atender a todas as nossas necessidades e n�o parecia haver nenhum obst�culo � nossa felicidade.</p><p>- Mas por essa ocasi�o uma grande mudan�a se efetuou em nosso padrasto. Em vez de fazer amizades e visitar nossos vizinhos, que de in�cio haviam ficado muito contentes de ver um Roylott de Stoke Moran novamente em comando das velhas propriedades, ele se fechou dentro de casa e raramente sa�a, a n�o ser para brigar violentamente com qualquer pessoa que surgisse � sua frente. Certa viol�ncia de temperamento, chegando quase � loucura, tem sido heredit�ria nos homens da fam�lia e, no caso de meu padrasto, creio que havia sido intensificada por sua longa resid�ncia nos tr�picos. Sucedeu-se urna s�rie de brigas vergonhosas e duas terminaram na delegacia at� que finalmente ele se tomou o terror da aldeia e todo mundo fugia quando ele aparecia, pois � tremendamente forte e completamente incontrol�vel em uma de suas f�rias.</p><p>- A semana passada jogou o ferreiro da aldeia dentro de um rio e s� consegui evitar um esc�ndalo pagando todo o dinheiro que consegui arranjar. N�o Unha nenhum amigo, a n�o ser os ciganos e dava permiss�o a esses vagabundos para acampar nos poucos acres cobertos de mato que representam a propriedade da fam�lia, e aceitava em retomo a hospitalidade de suas tendas, acompanhando-os �s vezes durante semanas. Tem, tamb�m, paix�o por animais hindus que lhe s�o mandados por um agente e que passeiam livremente pela propriedade e s�o temidos pelos camponeses quase tanto quanto seu dono. No momento, tem um leopardo hindu e um mandril.</p><p>- Pode imaginar por tudo isso que minha pobre irm� J�lia e eu n�o tivemos vidas muito agrad�veis. Nenhum empregado ficava conosco e durante muito tempo fizemos todo o trabalho dom�stico. J�lia s� tinha trinta anos quando morreu, mas seu cabelo estava quase branco, como o meu est� ficando.</p><p>- Sua irm� morreu, tamb�m?</p><p>- Faleceu h� dois anos, e � sobre a morte dela que quero falar com o senhor. Deve compreender que, vivendo a vida que acabei de descrever, havia poucas possibilidades de ver pessoas de nossa idade e posi��o. T�nhamos, entretanto, uma tia, irm� solteira de minha m�e, a Srta. Honoria Westphail, que mora perto de Harrow, e ocasionalmente t�nhamos permiss�o de visitar essa senhora. J�lia foi v�-la no Natal dois anos atr�s e l� conheceu um capit�o-de-corveta, de quem ficou noiva. Meu padrasto tomou Conhecimento do noivado quando minha irm� voltou e n�o fez obje��o ao casamento. Mas quinze dias antes do dia que fora marcado para a cerim�nia, ocorreu o terr�vel acontecimento que me privou de minha �nica companheira.</p><p>Sherlock Holmes se havia recostado na poltrona e fechado os olhos, com a cabe�a apoiada em urna almofada, mas abriu as p�lpebras a meio e olhou nossa visitante.</p><p>- Fa�a o favor de ser precisa quanto aos detalhes - disse.</p><p>- Isso � muito f�cil, pois todos os acontecimentos desse per�odo horr�vel est�o indelevelmente gravados em minha mem�ria. A mans�o �, corno j� disse, muito velha e s� uma ala ainda � habitada. Os quartos de dormir nessa ala s�o no andar t�rreo e as salas s�o no bloco central do pr�dio. O primeiro quarto � do Dr. Roylott, o segundo de minha irm� e o terceiro � o meu. N�o h� comunica��o entre eles, mas todos tr�s abrem no mesmo corredor. Estou sendo bem clara?</p><p>- Perfeitamente.</p><p>- As janelas dos tr�s quartos abrem sobre o gramado. Naquela noite fatal, Dr. Roylott fora para o quarto cedo, embora soub�ssemos que n�o tinha ido para a cama, pois a irm� estava se sentindo mal com o cheiro dos charutos hindus muito fortes que ele costumava fumar. Saiu de seu quarto e veio para o meu e l� - ficou por algum tempo, conversando sobre o casamento que se aproximava. As onze horas da noite levantou para sair, mas parou � porta e olhou para tr�s.</p><p>- �Diga-me uma coisa, Helen�, falou, �voc� j� ouviu algu�m assoviar no meio da noite?�</p><p>- �Nunca�, respondi.</p><p>- �Ser� que voc� n�o poderia assoviar sem saber, dormindo?�</p><p>- �Claro que n�o. Mas por que pergunta?�</p><p>- �Porque nessas �ltimas noites, cerca de tr�s da manh�, tenho sempre ouvido um assovio baixo, muito claro. Tenho o sono leve e isso me acorda. N�o sei dizer de onde vem, talvez do quarto ao lado, talvez l� de fora. S� queria saber se voc� tamb�m tinha ouvido�.</p><p>- �N�o ouvi nada. Devem ser aqueles ciganos desgra�ados acampados na prioriedade�.</p><p>- Bem prov�vel. Mas se fosse l� fora voc� tamb�m devia ter ouvido�.</p><p>- �Ali, mas meu sono � muito mais pesado que o seu�.</p><p>- �Bem, n�o tem muita import�ncia�. Ela sorriu para mim, fechou a porta e poucos segundos depois ouvi a chave virar na fechadura de seu quarto.</p><p>- Realmente? - disse Holmes. - Era seu costume trancar a porta dos quartos � noite?</p><p>- Sempre.</p><p>- Por qu�?</p><p>- Acho que mencionei que o Doutor tinha um leopardo e um mandril que andavam soltos. N�o nos sent�amos seguras a n�o ser com as portas trancadas.</p><p>- Ah, sim. Por favor, continue sua narrativa.</p><p>- N�o pude dormir aquela noite. Um sentimento impreciso de desgra�a iminente me oprimia. Minha irm� e eu, como sabe, �ramos g�meas e o senhor sabe que la�os muito sutis unem duas almas t�o intimamente aliadas. Era uma noite selvagem. O vento uivava l� fora e a chuva batia contra as janelas. Subitamente, no meio do rumor da ventania, ouvi o grito de uma mulher aterrorizada. Sabia que era a voz de minha irm�. Saltei da cama, enrolei um xale nos ombros e corri para o corredor. Quando abri minha porta me pareceu ouvir um assovio baixo, como minha irm� havia descrito, e poucos momentos depois um som met�lico, como se um bloco de metal tivesse ca�do. Quando me aproximei do quarto dela, vi que. a porta estava aberta balan�ando lentamente nas dobradi�as. Fiquei olhando, horrorizada, sem saber o que estava prestes a sair do quarto. � luz da l�mpada do corredor vi minha irm� surgir na abertura da porta, com o rosto l�vido de terror e as m�os estendidas, como que pedindo socorro, cambaleando como uma b�beda. Corri para junto dela e segurei-a em meus bra�os, mas nesse momento seus joelhos se dobraram e caiu no ch�o. Contorcia-se como se estivesse com dores violentas e os bra�os e pernas estavam retorcidos. A princ�pio pensei que n�o havia me reconhecido, mas quando me inclinei sobre ela gritou de repente em uma voz que jamais esquecerei: �Oh, meu Deus, Helen! Era a banda! A banda pintada!� Havia mais alguma coisa que ela queria dizer e apontou o dedo no ar em dire��o ao quarto do Doutor, mas sofreu mais uma convuls�o que abafou as palavras. Sa� correndo, chamando em voz alta meu padrasto e encontrei-o saindo do quarto, vestindo um roup�o. Quando chegou junto de minha irm�, ela j� estava inconsciente e embora ele tivesse derramado conhaque em sua garganta e mandado buscar aux�lio m�dico na aldeia, tudo foi em v�o e ela morreu sem recobrar os sentidos. Esse foi o horr�vel fim da minha querida irm.</p><p>- Um momento, - disse Holmes - tem certeza sobre o assovio e o som met�lico? Est� pronta a jurar sobre isso?</p><p>- Foi isso que o juiz me perguntou no inqu�rito. Tenho uma impress�o muito forte que ouvi isso, mas com o barulho da tempestade e os ru�dos naturais em uma casa t�o velha, talvez tenha me enganado.</p><p>- Sua irm� estava vestida?</p><p>- N�o, estava de camisola. Na m�o direita tinha os restos de um f�sforo queimado e na esquerda uma caixa de f�sforos.</p><p>- Demonstrando que acendera um f�sforo e olhara em volta quando ouviu o barulho. Isso � importante. E quais foram as conclus�es do inqu�rito?</p><p>- O magistrado encarregado de casos de morte suspeita investigou o caso com muito cuidado, pois a conduta do Dr. Roylott h� muito tempo tinha se tomado not�ria em todo o Condado, mas n�o conseguiu encontrar nenhuma causa de morte satisfat�ria. Meu testemunho mostrou que a porta havia sido trancada por dentro e que as janelas estavam bloqueadas por persianas antigas com barras largas de ferro, que eram tamb�m trancadas todas as noites. As paredes foram sondadas e ficou provado que eram s�lidas, e o ch�o tamb�m foi examinado minuciosamente, com o mesmo resultado. A chamin� � larga, mas � vedada por quatro barras. � absolutamente certo, portanto, que minha irm� estava completamente sozinha quando morreu. Al�m disso, n�o havia nenhuma marca de viol�ncia nela.</p><p>- E quanto � possibilidade de ser veneno?</p><p>- Os m�dicos a examinaram, mas n�o encontraram nada.</p><p>- Ent�o de que acha que essa pobre mo�a morreu?</p><p>- Creio que ela morreu de medo e de choque nervoso, embora n�o saiba o que a amedrontou.</p><p>- Os ciganos estavam acampados na propriedade nessa ocasi�o?</p><p>- Sim, quase sempre tem alguns acampados l�.</p><p>- Ah, e o que deduziu dessa refer�ncia a uma banda, uma banda pintada?</p><p>- �s vezes penso que foi somente um del�rio, outras que talvez estivesse se referindo a uma banda de pessoas, talvez os pr�prios ciganos. Talvez os len�os pintados que usam na cabe�a tivesse sugerido essas estranhas palavras.</p><p>Holmes sacudiu a cabe�a como um homem que est� longe de ter encontrado uma solu��o satisfat�ria.</p><p>- Est� bastante obscuro - comentou. - Por favor, continue.</p><p>- Passaram-se dois anos desde ent�o e minha vida, at� h� pouco, tem sido mais solit�ria que nunca. Mas h� um m�s, um amigo querido, que conhe�o h� muitos anos, deu-me a honra de me pedir em casamento. O nome dele � Armitage, Percy Armitage, o segundo filho do Sr. Armitage, de Crane Water, perto de Reading. Meu padrasto n�o fez nenhuma oposi��o ao casamento e a cerim�nia ser� na primavera. H� dois dias come�aram a fazer uns consertos na ala Oeste do pr�dio e a parede de meu quarto foi parcialmente demolida, assim tive de me mudar para o quarto em que morreu minha irm� e dormir na mesma cama em que ela dormia. Imagine, ent�o, meu arrepio de horror quando � noite passada, enquanto tentava dormir, pensando em seu terr�vel destino, subitamente ouvi no sil�ncio da noite o assovio que fora o pren�ncio de sua morte. Pulei da cama e acendi a l�mpada, mas n�o vi nada no quarto. Fiquei abalada demais para voltar para a cama, ent�o me vesti e assim que o dia clareou, sa� de mansinho, peguei um carro na Estalagem Crown, que fica em frente, e fui at� Leatherhead, de onde vim esta manh� s� para ver o senhor e pedir seu aux�lio.</p><p>- Fez muito bem - disse meu amigo. - Mas contou tudo que sabe?</p><p>- Sim, tudo.</p><p>Srta. Stoner, n�o � verdade. A senhora est� Protegendo seu padrasto. - O que quer dizer com isso?</p><p>Em resposta, Holmes puxou para tr�s o babado de renda preta que encobria a m�o que nossa visitante repousava sobre o joelho. Cinco pequenas manchas l�vidas, as marcas de quatro dedos e um polegar, estavam gravadas no punho alvo.</p><p>- Isso � uma crueldade - disse Holmes.</p><p>A mo�a enrubesceu e cobriu o punho machucado. - Ele � um homem muito duro - disse. - Talvez n�o conhe�a sua pr�pria for�a.</p><p>Houve um longo sil�ncio, enquanto Holmes descansava o queixo nas m�os e contemplava o fogo crepitante.</p><p>- � um assunto bem complexo - disse finalmente. - H� milhares de detalhes que gostaria de conhecer antes de decidir o que fazer. No entanto, n�o temos um minuto a perder. Se f�ssemos a Stoke Moran hoje, seria poss�vel vermos os quartos sem que seu padrasto soubesse?</p><p>- Por coincid�ncia, ele disse que vinha � cidade hoje para tratar de assuntos importantes. � prov�vel que fique o dia inteiro e nesse caso n�o haveria nenhum problema. Temos uma empregada agora, mas � velha e tola e � f�cil desviar sua aten��o.</p><p>- Excelente. Voc� n�o faz nenhuma obje��o a essa viagem, Watson?</p><p>- De maneira nenhuma.</p><p>- Ent�o iremos ambos. E a senhora, o que vai fazer?</p><p>- J� que estou aqui, h� uma ou duas coisas que gostaria de fazer. Mas voltarei pelo trem das doze horas e estarei l� � sua espera.</p><p>- Pode nos aguardar tarde. Eu tamb�m tenho algumas coisas a fazer. N�o quer esperar e tomar caf�?</p><p>- N�o, preciso ir. J� me sinto mais leve, desde que confiei meu problema aos senhores. Ser� um prazer rev�-los hoje � tarde. - Desceu o v�u sobre o rosto e se retirou da sala.</p><p>- E o que acha disso tudo, Watson? - perguntou Sherlock Holmes, reclinando-se na poltrona.</p><p>- Parece ser urna hist�ria profundamente sinistra.</p><p>- Bastante sinistra.</p><p>- No entanto, se a mo�a est� certa em dizer que o ch�o e as paredes s�o s�lidas e que a porta, janela e chamin� s�o impenetr�veis, ent�o sua irm� estava sem d�vida alguma sozinha quando chegou a seu estranho fim.</p><p>- E o que diz dos assovios noturnos e das palavras t�o esquisitas da mo�a ao morrer?</p><p>- N�o sei o que pensar.</p><p>- Quando voc� combina a id�ia de assovios durante a noite, a presen�a de um bando de ciganos que s�o �ntimos desse velho m�dico e o fato de que temos todas as raz�es para acreditar que o m�dico est� interessado em evitar o casamento de sua enteada, a refer�ncia, � hora da morte, a uma banda, ou um bando, e, finalmente, o fato de que a Srta. Helen Stoner ouviu um barulho met�lico, que poderia ter sido causado por uma dessas barras de metal que seguram as venezianas ao voltar a sua posi��o, acho que temos base suficiente para pensar que o mist�rio pode ser esclarecido seguindo essa linha.</p><p>- Mas o que foi que os ciganos fizeram?</p><p>- N�o posso imaginar.</p><p>- Vejo muitas obje��es a essa teoria.</p><p>- Eu tamb�m. E precisamente por essa raz�o que vamos a Stoke Moran esta tarde. Quero ver se as obje��es s�o fatais ou se podem ser explicadas. Mas o que � isso, diabos!</p><p>A exclama��o fora arrancada de meu companheiro porque a porta havia sido abruptamente aberta e um homem enorme surgira no v�o. Suas roupas eram uma mistura curiosa de profissional e agricultor, uma cartola preta, um casaco de fraque comprido, perneiras altas e um chicote pendendo da m�o. Era t�o alto que a cartola tocava o topo do v�o da porta e a largura dos ombros quase bloqueava a abertura. Um rosto grande, riscado de mil rugas, queimado pelo sol em uma tonalidade amarela e marcado por todos os sentimentos malignos, virava de um para o outro, enquanto os olhos fundos, biliosos e o nariz afilado e descamado lhe davam um ar de ave de rapina feroz.</p><p>- Qual dos senhores � Holmes? - perguntou esse fantasma.</p><p>- Meu nome, senhor, mas gostaria de saber o seu - disse meu companheiro, com toda calma.</p><p>- Dr. Gr�mesby Roylott, de Stoke Moran.</p><p>- Muito prazer, Doutor - disse Holmes, com suavidade. - Tenha a bondade de sentar.</p><p>- Nada disso. Minha enteada esteve aqui. Eu a segui. O que ela lhe contou?</p><p>- Est� um pouco frio para essa �poca do ano - disse Holmes.</p><p>- O que ela lhe contou? - berrou o velho, furioso.</p><p>- Mas ouvi dizer que as flores da primavera est�o brotando - continuou meu amigo, imperturb�vel.</p><p>- Ha! Est� querendo me enganar, n�o �? - disse nosso novo visitante, dando um passo � frente e sacudindo o chicote. - Conhe�o o senhor, seu bandido! J� ouvi falar do senhor. � Holmes, o intrometido.</p><p>Meu amigo sorriu.</p><p>- Holmes, o intruso!</p><p>O sorriso ficou mais pronunciado.</p><p>- Holmes, o empregadinho da Scotland Yard.</p><p>Holmes riu gostosamente. - Sua conversa � muito divertida - disse. - Quando sair, tenha a bondade de fechar a porta, pois est� criando uma corrente de ar.</p><p>- Vou quando tiver dito o que vim dizer. N�o ouse se intrometer em meus neg�cios. Sei que a Srta. Stoner esteve aqui. Eu a segui! Sou um inimigo perigoso. Olhe s�. - Avan�ou rapidamente, pegou o ati�ador de fogo e vergou-o ao meio com as enormes m�os morenas.</p><p>- Tenha o cuidado de ficar fora de meu alcance - rosnou e, atirando o ati�ador retorcido na lareira, arremessou-se fora da sala.</p><p>- Parece um sujeito muito am�vel - disse Holmes, rindo. - N�o sou t�o grande quanto ele, mas se tivesse se demorado um pouco mais, ia lhe mostrar que minhas m�os n�o s�o mais fracas que as dele. - Enquanto falava, pegou o ati�ador de a�o e com r�pido esfor�o endireitou-o novamente.</p><p>- Imagine a ousadia dele de me confundir com a for�a oficial de detetives! Esse incidente d� mais sabor � nossa pequena investiga��o, entretanto, e s� espero que nossa amiguinha n�o venha a sofrer por sua imprud�ncia em se deixar seguir por esse bruto. E agora, Watson, vamos tomar caf� e depois vou dar um passeio at� a Associa��o dos Doutores em Direito Civil, onde espero conseguir umas informa��es que poder�o nos ajudar nesse assunto.</p><p>Eram quase treze horas quando Sherlock Holmes voltou de sua excurs�o. Trazia na m�o uma folha de papel azul, coberta de anota��es e n�meros.</p><p>- Vi o testamento da esposa falecida - disse. - Para determinar seu signi-ficado exato, fui obrigado a calcular os pre�os atuais dos investimentos a que se refere. A renda total, que na �poca em que ela faleceu era aproximadamente mil e cem libras por ano, agora, devido � queda dos pre�os da agricultura, n�o passa de setecentas e cinq�enta libras. Cada uma das filhas tem direito a urna renda de duzentas e cinq�enta libras ao se casar. � evidente, portanto, que se ambas as mo�as tivessem se casado, aquela beleza ficaria com muito pouco dinheiro, e mesmo se s� uma casasse, ele j� n�o ficaria bem de vida. Meus esfor�os essa manh� n�o foram em v�o, pois provaram que ele tem motivos de sobra para impedir que isso acontecesse. E agora, Watson, isso � s�rio demais para permitir demoras, especialmente porque o velho sabe que estamos interessados em seus neg�cios, portanto, se voc� est� pronto, vamos pegar um carro e ir para Waterloo. Ficaria muito grato se voc� colocasse um rev�lver no bolso. Um Eley n� 2 � excelente argumento para cavalheiros que d�o n�s em ati�adores de a�o. Isso e uma escova de dentes � tudo que precisamos.</p><p>Em Waterloo, tivemos a sorte de pegar um trem para Leatherlicad, onde alugamos um carro na estalagem da esta��o e andamos seis ou sete quil�metros pelas lindas estradas rurais de Surrey. O dia estava perfeito, o sol brilhava e unias nuvens esgar�adas navegavam no c�u. As �rvores e as sebes se revestiam corri os primeiros p�lidos rebentos da primavera e o ar estava perfumado em o cheiro agrad�vel de terra �mida. Para mim, pelo menos, havia um estranho contraste entre a doce promessa da primavera e a investiga��o sinistra que nos levava por esses caminhos. Meu companheiro sentava � frente do carro, de bra�os cruzados, o chap�u cobrindo os olhos, o queixo afundado no peito, imerso em, seus pensamentos. De repente, teve um sobressalto, bateu em meu ombro e apontou para os campos.</p><p>- Olhe l�! - disse.</p><p>Um parque se estendia por uma colina suave, terminando em um bosque denso no ponto mais alto. L�, por entre os galhos das �rvores, divisava-se o telhado cinzento e alto, em v�rias �guas, de uma velha mans�o.</p><p>- Stoke Moran? - perguntou.</p><p>- Sim, senhor, � a casa do Dr. Grimesby Roylott - respondeu o cocheiro.</p><p>- Est�o fazendo um trabalho de constru��o ali - disse Holmes. - � l� que vamos.</p><p>- L� � a aldeia, - disse o cocheiro, apontando para um agrupamento de telhados � esquerda - mas se quer ir � mans�o, � mais perto seguir o caminho que atravessa o campo. � ali, onde est� aquela senhora.</p><p>- E a senhora, se n�o me engano, � a Srta. Stoner - observou Holmes, protegendo os olhos com a m�o. - Sim, acho melhor fazer o que sugeriu.</p><p>Saltamos, pagamos o cocheiro, e o carro voltou para Leatherhead.</p><p>- Achei melhor - disse Holmes, quando caminh�vamos - que ele pensasse que est�vamos aqui como arquitetos, ou por alguma raz�o profissional. Talvez assim n�o v� comentar nossa presen�a. Boa tarde, Srta. Stoner. Est� vendo que cumprimos nossa promessa.</p><p>Nossa cliente dessa manh� se apressara em vir em nosso encontro, com o rosto cheio de alegria. - Estava ansiosa � sua espera - exclamou, apertando nossa m�o. - Tudo deu maravilhosamente certo. Dr. Roylott foi � cidade e � pouco prov�vel que volte antes de escurecer.</p><p>- Tivemos o prazer de conhecer o Doutor - disse Holmes e em poucas palavras contou o que sucedera. A Srta. Stoner empalideceu.</p><p>Meu Deus! - exclamou. - Ent�o ele me seguiu,</p><p>� o que parece.</p><p>� t�o astucioso que nunca sei como me defender dele. Que ser� que vai dizer quando voltar?</p><p>- Ele deve se precaver, pois talvez descubra que h� algu�m mais astucioso que ele em seu encal�o. Deve trancar sua porta hoje � noite. Se ele ficar violento, vamos lev�-la para a casa de sua tia em Harrow. Agora vamos aproveitar o tempo de que dispomos. Por favor, leve isso imediatamente aos quartos que queremos examinar.</p><p>O pr�dio era de pedra cinzenta, corri a parte central alta e duas alas laterais curvas, como as garras de um caranguejo. Em urna dessas alas, as janelas estavam quebradas e cobertas com t�buas, o telhado desabado, as paredes esburacadas. A parte central estava ligeiramente melhor e a ala direita era comparativamente moderna. As persianas nas janelas e a fuma�a azul saindo das chamin�s mostravam que era ali que a fam�lia residia. Haviam constru�do um andaime na parede dos fundos e algumas pedras estavam quebradas, mas n�o se via sinal dos trabalhadores quando nos aproximamos. Holmes andou lentamente de um lado para o outro no gramado mal cortado e examinou minucioso em tudo.</p><p>- Essa aqui deve ser do quarto em que costumava dormir, a do centro era do quarto de sua irm� e aquela ali � do quarto do Dr. Roylott?</p><p>- Exatamente. Mas agora estou dormindo no quarto do centro.</p><p>- Devido � constru��o, pelo que entendi. Por falar nisso, n�o parece haver nenhuma raz�o urgente para consertar aquela parede dos fundos.</p><p>- N�o havia raz�o nenhuma. Acho que foi s� uma desculpa para me tirar do meu quarto.</p><p>- Ali! Isso � sugestivo. Bem, do outro lado dessa ala estreita h� um corredor que d� para os tr�s quartos. H� janelas nesse corredor?</p><p>- Sim, mas s�o muito estreitas, pequenas demais para dar passagem a algu�m.</p><p>- E como a senhora e sua irm� trancavam as portas � noite, n�o era poss�vel entrar nos quartos daquele lado. Quer ter a bondade de ir para seu quarto, fechar as janelas e trancar as persianas com as barras.</p><p>A Srta. Stoner atendeu o pedido e Holmes, ap�s cuidadoso estudo, tentou de todas as maneiras for�ar as persianas, sem sucesso. N�o havia nem uma fresta na qual se pudesse introduzir uma mina para suspender a barra. Testou as dobradi�as com a lente, mas eram de ferro s�lido, embutidas na alvenaria maci�a. - Hum! - exclamou, co�ando o queixo, perplexo. - Minha teoria apresenta certas dificuldades. Ningu�m poderia passar por essa janela com a tranca no lugar. Bem, vejamos se o interior pode nos dar alguma luz.</p><p>Uma pequena porta lateral levava ao corredor pintado de branco, no qual as tr�s portas se abriam. Holmes recusou examinar o terceiro quarto, ent�o fomos diretamente ao segundo, aquele em que a Srta. Stoner estava dormindo atualmente e em que sua irm� falecera. Era um quarto pequeno e modesto, com o teto baixo e uma lareira aberta, � maneira das velhas casas de campo. Em um canto, uma c�moda escura, uma cama coberta de branco em outra parede e uma penteadeira � esquerda da janela eram toda a mob�lia, com duas pequenas cadeiras de vime e um tapete no centro do quarto. As t�buas do assoalho e o forro das paredes eram de carvalho escuro, t�o velho e desbotado que deveria datar da constru��o da casa. Holmes puxou uma das cadeiras para um canto e sentou, silencioso, deixando os olhos correrem em volta, observando todos os detalhes do c�modo.</p><p>- Essa campainha toca aonde? - perguntou finalmente, apontando para um grosso cord�o pendurado junto da cama, com a borla repousando sobre o travesseiro.</p><p>- No quarto da empregada.</p><p>- Parece mais novo que tudo mais no quarto.</p><p>- Sim, foi instalada h� uns dois anos.</p><p>- Foi sua irm� que pediu isso?</p><p>- N�o, acho que nem chegou a us�-la. Sempre nos servimos a n�s mesmo - Realmente? Ent�o me parece desnecess�rio instalar um cord�o t�o bonito. Desculpem-me um momento enquanto examino o ch�o. - Esticou-se de cara para baixo com a lente na m�o, depois engatinhou. rapidamente para c� e para l�, examinando minuciosamente as frestas entre as t�buas. Terminando, fez o mesmo com os pain�is das paredes. Finalmente, caminhou para a cana e ficou algum tempo olhando para ela e para a parede atr�s. No final, pegou o cord�o da campainha e puxou-o com for�a.</p><p>- Ora, � falso - disse.</p><p>- N�o toca?</p><p>- N�o, nem est� ligado a nenhum fio. Isso � muito interessante. Podem ver que est� pendurado em um gancho logo acima da pequena abertura de ventila��o.</p><p>- Que absurdo! N�o tinha reparado isso antes.</p><p>- Muito estranho! - resmungou Holmes, puxando o cord�o. - H� uma ou duas coisas muito esquisitas nesse quarto. Por exemplo, o construtor deve ser um idiota, fazendo uma abertura de ventila��o para outro quarto, quando podia simplesmente abrir na parede externa!</p><p>- Isso tamb�m foi feito h� pouco tempo - disse a mo�a.</p><p>- Na mesma �poca que o cord�o de campainha - comentou Holmes.</p><p>- �, houve algumas mudan�as na mesma ocasi�o.</p><p>- Todas s�o muito interessantes... cord�es de campainha que n�o tocam, ventiladores que n�o ventilam. Com sua permiss�o, Srta. Stoner, vamos agora investigar o outro quarto.</p><p>O quarto do Dr. Grimesby Roylott era maior que o de sua enteada, mas mobiliado com a mesma simplicidade. Uma cairia estreita, uma prateleira cheia de livros, a maioria t�cnicos, uma poltrona ao lado da cama, uma cadeira de madeira contra a parede, uma mesa redonda e um grande cofre de ferro eram as coisas principais. Holmes andou lentamente em volta e examinou todos os objetos com aten��o.</p><p>- O que est� aqui dentro? - perguntou, batendo no cofre.</p><p>- Os documentos de meu padrasto.</p><p>- Ali! Viu o conte�do, ent�o?</p><p>- S� uma vez, anos tr�s. Lembro-me que estava cheio de pap�is.</p><p>- N�o h� um gato l� dentro, por acaso?</p><p>- N�o. Que id�ia esquisita!</p><p>- Bem, veja s� isso. - Pegou um pequeno pires com leite que estava em cima do cofre.</p><p>- N�o, n�o temos nenhum gato. Mas h� um leopardo e um mandril.</p><p>- Ali, sim, � claro! Bem, um leopardo � apenas um gato grande, mas um pequeno pires n�o parece suficiente para satisfazer sua sede. H� uma coisa que gostaria de estabelecer. - Agachou-se em frente da cadeira de madeira e examinou o assento com a maior aten��o.</p><p>- Obrigado. Isso est� resolvido - disse, erguendo-se e guardando a lente no bolso. - Ora! Aqui est� urna coisa interessante.</p><p>O objeto que atra�ra sua aten��o era uma pequena correia de cachorro pendurada em um canto da cama. Havia sido amarrada, formando uma la�ada.</p><p>O que acha disso, Watson?</p><p>� uma correia comum. Mas n�o sei por que deram uma la�ada. - Isso n�o � comum, pois n�o? Ali, meu Deus, � um mundo malvado e quando um homem inteligente se vira para o crime, isso � o pior de tudo. Acho que j� vi o suficiente, Srta. Stoner e, com sua permiss�o, vamos l� para fora, no gramado.</p><p>Nunca havia visto o rosto de meu amigo t�o sombrio e sua testa t�o franzida quanto nesse momento. Passeamos para c� e para l� v�rias vezes e nem a Srta. Stoner nem eu ousamos interromper seus pensamentos, at� que ele despertou.</p><p>- � essencial, Srta. Stoner, - disse finalmente - que fa�a exatamente o que vou lhe dizer.</p><p>- Certamente que farei tudo que disser. O assunto � grave demais para qualquer hesita��o. Sua vida pode depender disso.</p><p>- Asseguro-lhe que estou totalmente em suas m�os. - Em primeiro lugar, meu amigo e eu vamos passar a noite em seu</p><p>A Srta. Stoner e eu o olhamos com espanto.</p><p>- Sim, tem de ser assim. Deixe-me explicar. Creio que aquilo ali � a estalagem da aldeia.</p><p>- Sim.</p><p>- Muito bem. De l� pode-se ver suas janelas?</p><p>- Certamente.</p><p>- Retire-se para seu quarto, sob pretexto de estar com dor de cabe�a, assim que seu padrasto regressar. Quando ele se deitar, abra as persianas de seu quarto, coloque a l�mpada na janela como sinal para n�s e ent�o leve tudo que poder� precisar para o quarto que costumava ocupar. Tenho certeza que, apesar das obras, pode ficar l� por uma noite.</p><p>- Sem d�vida alguma.</p><p>- O resto fica em nossas m�os.</p><p>- Mas o que vai fazer?</p><p>- Vamos passar a noite em seu quarto e vamos investigar a causa desse barulho que a vem perturbando.</p><p>- Acho, Sr. Holmes, que o senhor j� descobriu o que � - disse a Srta. Stoner, pondo a mio no bra�o de meu companheiro.</p><p>- Talvez.</p><p>- Ent�o por piedade me diga qual foi a causa da morte de minha irm�.</p><p>- Prefiro ter mais provas antes de falar.</p><p>- Pode pelo menos me dizer se minha id�ia est� certa e ela morreu de susto.</p><p>- N�o, acho que n�o. Acho que provavelmente houve uma causa mais real. E agora, Srta. Stoner, temos de deix�-la, pois se o Dr. Roylott voltar e nos vir, nossa viagem ter� sido em v�o. At� logo e tenha coragem, pois se fizer exatamente o que lhe disse, pode ter certeza que muito em breve afastaremos os perigos que a amea�am.</p><p>Sherlock Holmes e eu n�o tivemos dificuldade em alugar um quarto e sala na Estalagem Crown. Eram no segundo andar e de nossa janela v�amos claramente a ala habitada da Mans�o de Stoke Moran. Ao entardecer, vimos Dr. Grimesby Roylott chegar de carro, sua figura enorme obscurecendo o rapazinho que guiava o carro. Este teve certa dificuldade em abrir o pesado port�o de ferro e ouvimos os gritos roucos do Doutor e vimos a f�ria com que sacudiu os punhos para o rapaz. O carro seguiu a alameda e pouco depois vimos uma luz s�bita surgir entre as �rvores quando a foi acesa em uma das salas.</p><p>- Sabe uma coisa, Watson, - disse Holmes enquanto sent�vamos na escurid�o que se aprofundava. - Estou sentindo alguns escr�pulos em levar voc� comigo esta noite. H� um elemento real de perigo.</p><p>- Posso ser �til?</p><p>- Sua presen�a pode ser muito valiosa.</p><p>- Ent�o irei.</p><p>- � muita bondade sua.</p><p>- Voc� fala em perigo. Evidentemente viu mais naqueles quartos do que eu.</p><p>- N�o, mas creio que deduzi mais. Imagino que voc� viu o mesmo que</p><p>- N�o vi nada demais, exceto o cord�o da campainha, e qual a finalidade daquilo, confesso que nem posso imaginar.</p><p>- Viu a abertura de ventila��o tamb�m?</p><p>- Sim, mas n�o acho que seja uma coisa t�o extraordin�ria ter uma pequena abertura entre dois quartos. Era t�o pequena que nem um rato poderia passar.</p><p>Moran.</p><p>- Sabia que �amos encontrar um ventilador antes de virmos a Stoke</p><p>- Meu caro Holmes!</p><p>- Sim, sabia. Lembre-se que a Srta. Stoner d�sse que a irm� estava sentindo o ' cheiro do charuto do Dr. Roylott. Isso sugere imediatamente que deve haver uma comunica��o entre os dois quartos. S� podia ser muito pequena, sen�o teria sido notada por ocasi�o do inqu�rito policial. Deduzi que deveria ser uma abertura de ventila��o.</p><p>- Mas que mal pode haver nisso?</p><p>Bem, h� pelo menos uma coincid�ncia curiosa de datas. Faz-se uma abertura de ventila��o, pendura-se um cord�o de campainha e uma senhora que dorme naquela cama morre. Isso n�o lhe diz nada?</p><p>- N�o consigo ver nenhuma liga��o.</p><p>- Observou alguma coisa muito peculiar naquela cama?</p><p>- N�o.</p><p>- Estava presa ao ch�o. J� viu isso antes?</p><p>- N�o me lembro de ter visto.</p><p>- A mo�a n�o podia mudar a cama de lugar. Ficava sempre na mesma posi��o em rela��o � abertura e ao cord�o, que nunca fora para puxar e soar a campainha.</p><p>- Holmes, - exclamei - come�o a ver vagamente onde voc� quer chegar. Chegamos a tempo de evitar um crime sutil e horrendo.</p><p>- Bastante sutil e bastante horrendo. Quando um m�dico envereda pelo caminho do crime, � um �timo criminoso. Tem sangue-frio e tem conheci-mentos. Palmer e Pritchard eram profissionais de primeira. Esse homem � muito competente, mas acho, Watson, que vamos ser mais ainda. Mas veremos muitos horrores esta noite, antes que termine. Por Deus do c�u, vamos fumar um cachimbo e pensar em coisas mais agrad�veis por algumas horas.</p><p>Cerca de nove horas da noite, a luz entre as �rvores foi apagada e tudo ficou escuro na dire��o da mans�o. Duas horas se arrastaram e ent�o subita-mente, quando davam onze horas, uma �nica luz forte brilhou exatamente � nossa frente.</p><p>- � o sinal para n�s - disse Holmes, ficando de p�. - Vem da janela do meio.</p><p>Ao sairmos, trocou algumas palavras com o dono da estalagem, explicando que �amos visitar um amigo e era poss�vel que pass�ssemos a noite l�. Em instantes, est�vamos na estrada escura, com um vento frio soprando e uma luz amarela brilhando em nossa frente para nos guiar em nossa miss�o sombria.</p><p>N�o houve grande dificuldade em entrar na propriedade, pois a velha muralha do parque se estava desmoronando. Caminhando por entre as �rvores, chegamos ao gramado, atravessamos e estamos prestes a entrar pela janela quando de uma moita de rodo emergiu o que parecia ser uma crian�a horrenda e disforme, que se atirou na grama com as pernas e bra�os contorcidos e depois correu rapidamente pelo gramado e sumiu na escurid�o.</p><p>- Meu Deus! - murmurei. - Voc� viu?</p><p>Holmes ficou, por instantes, t�o espantado quanto eu. Sua m�o se fechou com for�a em meu punho, mas logo riu baixinho e chegou os l�bios ao meu ouvido.</p><p>- � uma fam�lia muito interessante - disse. - Era o mandril.</p><p>Esquecera os animais de estima��o estranhos do Dr. Roylott. Havia um leopardo, tamb�m. Talvez ca�sse sobre nossos ombros a qualquer momento. Confesso que me senti melhor quando, ap�s seguir o exemplo de Holmes e tirar os sapatos, vi que estava dentro do quarto. Meu companheiro fechou as persianas sem fazer barulho, mudou a l�mpada para a mesa e olhou em volta. Estava tudo exatamente como durante o dia. Depois chegou perto de mim, fez uma trombeta das m�os e murmurou em meu ouvido, t�o baixinho que apenas pude distinguir as palavras.</p><p>- O menor ru�do ser� fatal a nossos planos.</p><p>Acenei com a cabe�a para mostrar que entendera.</p><p>- Temos de ficar no escuro, pois ele poderia ver a luz pelo ventilador.</p><p>Acenei novamente.</p><p>- N�o durma; sua vida depender� disso. Fique com o rev�lver � m�o caso seja necess�rio us�-lo. Vou sentar na beira da cama; sente naquela cadeira.</p><p>Tirei o rev�lver do bolso e coloquei-o no canto da mesa.</p><p>Holmes trouxera uma bengala longa e fina, que colocou na cama a seu lado. Junto dela, botou a caixa de f�sforos e um peda�o de vela. Apagou ent�o a l�mpada e ficamos no escuro.</p><p>Como poderei jamais esquecer aquela vig�lia horr�vel? N�o ouvia nada, nem mesmo uma respira��o, mas sabia que meu companheiro estava sentado ali de olhos abertos, a poucos passos de mim, no mesmo estado de tens�o nervosa em que eu me encontrava. As persianas cortavam qualquer raio de luz que pudesse penetrar e aguardamos na mais completa escurid�o. De fora, vinha o grito ocasional de alguma ave noturna e uma vez, bem em nossa janela, um gemido felino que nos disse que o leopardo estava em liberdade. Muito ao longe ouvimos os tons profundos do rel�gio da par�quia que batia as horas. Como custavam a passar aquelas horas! Meia-noite, e uma hora, e duas e tr�s, e continu�vamos sentados silenciosamente esperando que acontecesse seja o que for.</p><p>Subitamente vislumbramos uma luz na dire��o da abertura de ventila��o, que desapareceu imediatamente, mas foi seguida de um cheiro forte de �leo queimado e metal aquecido. Algu�m no quarto ao lado acendera uma lanterna apagada. Ouvi um som leve de movimento e depois tudo ficou novamente em sil�ncio, embora o cheiro ficasse mais forte. Por uma meia hora fique! sentado com os ouvidos atentos. Ouvi ent�o de repente outro ru�do, um som muito leve, como de um pequeno jato de vapor escapando de uma chaleira. No mesmo instante em que o ouvi, Holmes saltou da cairia, acendeu um f�sforo e bateu furiosamente com a bengala no cord�o de campainha.</p><p>- Est� vendo, Watson? - gritou. - Est� vendo?</p><p>Mas n�o vi nada. Quando Holmes riscou o f�sforo, ouvi um assovio baixo, bem claro, mas o brilho s�bito em meus olhos cansados n�o me deixou ver o que meu amigo fustigava com tanta f�ria. S� pude ver que seu rosto estava muito p�lido e cheio de horror e asco.</p><p>Parara de bater no cord�o e estava olhando para a abertura quando o sil�ncio da noite foi quebrado pelo grito mais horr�vel que jamais ouvi. Foi cres-cendo e crescendo, um berro rouco de dor e medo e raiva, todos misturados. Dizem que l� na aldeia, e mesmo na par�quia distante, esse grito arrancou aqueles que dormiam de suas camas. Congelou nossos cora��es e fiquei olhando para Holmes e ele para mim, at� que os �ltimos ocos morreram no sil�ncio de onde vieram.</p><p>- Que quer dizer isso? - disse em voz entrecortada.</p><p>- Quer dizer que est� tudo terminado - respondeu Holmes. - E talvez, no final das contas, seja para melhor. Pegue seu rev�lver e vamos ao quarto do Dr. Roylott.</p><p>Com uma express�o grave, acendeu a l�mpada e se dirigiu para o corredor. Em frente ao quarto do Doutor, bateu � porta duas vezes sem obter resposta. Ent�o virou a ma�aneta e entrou, comigo em seus calcanhares, de pistola em m�o.</p><p>Foi uma cena singular com que nos deparamos. Sobre a mesa havia uma lanterna escura com a portinhola meio aberta, jogando um feixe brilhante de luz sobre o cofre de ferro, cuja porta estava aberta. Junto � mesa, na cadeira de madeira, sentava Dr. Grimesby Roylott, enrolado em longo roup�o cinzento, com os tornozelos nus expostos e os p�s metidos em chinelos vermelhos. Tinha no colo a correia com a la�ada que t�nhamos visto durante o dia. O queixo apontava para cima e os olhos estavam fixos, num olhar r�gido horrendo, no canto do teto. Rodeando a testa, tinha uma banda amarela esquisita, com pintinhas marrons, que parecia estar muito apertada. N�o se mexeu quando entramos, nem fez nenhum barulho.</p><p>- A banda! A banda pintada! - murmurou Holmes.</p><p>Dei um passo � frente. Em um instante, a estranha banda come�ou a se mover e surgiu em meio o cabelo a cabe�a triangular achatada e o pesco�o inchado de uma serpente asquerosa.</p><p>- � uma Arait, a cobra mais venenosa da �ndia! - exclamou Holmes. - Ele morreu dentro de dez segundos da mordida. A viol�ncia, realmente, recai sobre os violentos e o que arma a armadilha acaba caindo nela. Vamos guardar essa v�bora em seu covil e poderemos ent�o levar a Srta. Stoner para um lugar seguro e notificar a pol�cia do Condado.</p><p>Enquanto falava, tirou a correia do colo do morto, jogou a la�ada no pelo do r�ptil e o arrancou do medonho poleiro, levando-o a dist�ncia para o cofre de ferro, onde o trancou.</p><p>Esses s�o os verdadeiros fatos da morte do Dr. Grimesby Roylott de Stoke Moran. N�o � necess�rio prolongar uma narrativa que j� se tomou por demais extensa para dizer como demos a triste not�cia � mo�a apavorada, como a levamos no trem da manh� para a casa de sua boa tia em Harrow e como o lento processo de inqu�rito policial chegou � conclus�o de que o Doutor havia encontrado a morte quando brincava imprudentemente com um perigoso r�ptil de estima��o. O pouco que ainda n�o soa sobre o caso me foi dito por Sherlock Holmes quando volt�vamos � cidade no dia seguinte.</p><p>- Eu chegara - disse ele - a uma conclus�o totalmente errada, o que demonstra, meu caro Watson, como � perigoso raciocinar com bases insufici-entes. A presen�a dos ciganos, o uso da palavra �banda� pela pobre mo�a para explicar o que vira de vislumbre � luz de um f�sforo foram suficientes para me botar em uma pista inteiramente errada. S� posso me dar o m�rito de que reconsiderei minha posi��o imediatamente quando ficou claro que qualquer perigo que amea�asse o ocupante do quarto n�o poderia vir nem da janela nem da porta. Minha aten��o foi atra�da rapidamente para a abertura de ventila��o e para o cord�o da campainha pendurado ao lado da cama, corno j� comentei com voc�. A descoberta de que o cord�o era simulado e que a estava presa ao ch�o dera origem � suspeita de que o cord�o servia de ponte para alguma coisa que passasse pela abertura e viesse at� a cama. Ocorreu-me logo a id�ia de uma cobra e quando soube que o Doutor tinha uma s�rie de animais da �ndia, achei que estava na pista certa. A id�ia de usar uma forma de veneno que n�o pudesse ser descoberta por nenhum teste qu�mico era exatamente a que ocorreria a um homem inteligente e inescrupuloso que havia exercido a Medicina no Oriente. A rapidez com que esse veneno tivesse efeito tamb�m era, de seu ponto de vista, uma vantagem. E qual seria o policial que ia descobrir os dois pequenos pontinhos que mostravam onde as duas presas venenosas haviam feito seu servi�o. Pensei, ent�o, no assovio. � claro que tinha de chamar a cobra de volta antes que a luz do dia a revelasse � v�tima. Treinou-a, provavelmente usando o pires de leite que vimos, a voltar quando chamada. Colocava-a no buraco de ventila��o a hora que julgasse, apropriada, certo de que ela deslizaria pela corda e cairia na cama. Poderia ou n�o morder a ocupante, talvez essa escapasse todas as noites, durante uma semana, mas mais cedo ou mais tarde a cobra a atacaria.</p><p>- Chegara a essas conclus�es antes mesmo de entrar em seu quarto. Uma inspe��o da cadeira mostrou que tinha o h�bito de ficar em p� no assento, o que, � claro, era necess�rio a fim de alcan�ar a abertura. O cofre, o pires de leite e a la�ada na correia foram suficiente para qualquer d�vida que porventura ainda tivesse. O ru�do met�lico ouvido pela Srta. Stoner era obviamente causado pelo padrasto, ao fechar rapidamente a porta do cofre ao colocar dentro seu terr�vel ocupante. Tendo chegado a essa conclus�o, voc� j� sabe que medidas tomei para obter as provas. Ouvi a criatura sibilar, como voc� tamb�m deve ter ouvido, e imediatamente acendi a l�mpada e ataquei-a.</p><p>E conseq�entemente a fez recuar pela abertura.</p><p>E tamb�m a fiz virar-se contra seu dono do outro lado. Alguns golpes da minha bengala atingiram o alvo e despertaram sua f�ria, fazendo-a atacar a primeira pessoa que viu. Dessa maneira, sou, sem d�vida alguma, indiretamente, respons�vel pela morte do Dr. Grimesby Roylott, e posso afirmar que n�o vai pesar indevidamente em minha consci�ncia.</p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong>o polegar do engenheiro</strong></p><empty-line/><p>De todos os problemas que foram submetidos a meu amigo Sherlock Holmes durante os anos de nossa associa��o, somente dois foram trazidos por mim: o do polegar do Sr. Hatherley e o da loucura do Coronel Warburton. Dos dois, o �ltimo talvez tenha proporcionado um campo maior para um observador perspicaz e original, mas o primeiro foi t�o estranho de in�cio e t�o dram�tico nos detalhes, que talvez mere�a mais ser relatado, ainda que tenha dado menos oportunidades a meu amigo para os m�todos dedutivos de racioc�nio com os quais; conseguia resultados t�o not�veis. A hist�ria foi narrada mais de uma vez nos jornais, creio, mas, como todas essas narrativas, seu efeito � muito menor quando compactado em meia coluna impressa do que quando os fatos evoluem lentamente diante de seus olhos e o mist�rio � gradativamente esclarecido � medida que cada nova descoberta fornece um passo que leva eventualmente � verdade. Na ocasi�o, as circunst�ncias deixaram profunda impress�o em mim e o lapso de dois anos pouco enfraqueceu a imagem.</p><p>Foi no ver�o de 1889, pouco depois de meu casamento, que sucederam os acontecimentos que vou resumir. Eu voltara a exercer minha profiss�o e abandonara finalmente Holmes em seus aposentos na Rua Baker, embora o visitasse constantemente e ocasionalmente at� o convencesse a abandonar seus h�bitos bo�mios e vir nos ver. Meus clientes se haviam tomado bem numerosos e como eu morava n�o muito longe da Esta��o de Paddington, tinha alguns funcion�rios de l� como pacientes. Um deles, que eu havia curado de uma doen�a dolorosa e de longa dura��o, n�o se cansava de apregoar minhas virtudes e de me mandar todos os sofredores sobre os quais tinha alguma influ�ncia.</p><p>Uma manh�, pouco antes das sete horas, fui acordado pela empregada batendo � porta para anunciar que dois homens haviam vindo de Paddington e estavam esperando no consult�rio. Vesti-me �s pressas, pois sabia por experi�ncia. Que casos de estrada de ferro raramente eram banais, e apressei-me a descer. Enquanto descia, meu velho aliado, o guarda, saiu da sala e fechou bem a porta.</p><p>Ele est� aqui dentro - murmurou, apontando com o polegar por cima do ombro. - Ele est� bem.</p><p>- 0 que � ent�o? - perguntei, pois seus gestos sugeriam que era alguma estranha criatura que tinha encarcerado em minha sala.</p><p>- � um novo doente - murmurou. - Achei que devia vir com ele aqui, eu mesmo, assim ele n�o podia escapar. Ele est� a� dentro, s�o e salvo. Tenho de ir agora, Doutor, tenho meus deveres, assim como o senhor. - E assim se foi, sem me dar tempo sequer de lhe agradecer.</p><p>Entrei em meu consult�rio e encontrei um cavalheiro sentado junto � mesa. Estava vestido sobriamente, com um temo de tweed mesclado, e um bon� de fazenda macia que tirara e colocara em cima de meus livros. Uma das m�os estava enrolada em um len�o, que estava todo manchado de sangue. Era jovem, n�o tinha mais que vinte e cinco anos e o rosto era acentuadamente m�sculo, mas estava extremamente p�lido e deu-me a impress�o de um homem que estava profundamente agitado e usando toda sua for�a de vontade para se controlar.</p><p>- Sinto muito acord�-lo t�o cedo, Doutor - disse. - Mas sofri um acidente muito s�rio durante a noite. Vim de trem hoje de manh� e quando perguntei em Paddington onde poderia encontrar um m�dico, um camarada muito am�vel me trouxe aqui. Dei um cart�o � empregada, mas vejo que ela o deixou em cima daquela mesinha.</p><p>Peguei o cart�o e li: "Sr. Victor Hatherley, Engenheiro hidr�ulico, 16-A Rua Victoria (39 andar)". Era esse o nome, profiss�o e endere�o de meu visitante matutino. - Desculpe por t�-lo feito esperar - disse, sentando em minha poltrona. - Acaba de chegar de uma viagem noturna, pelo que diz o que em si s� � uma ocupa��o mon�tona.</p><p>- Oh, a noite que passei nunca poderia ser chamada de mon�tona - respondeu, rindo. Continuou rindo em tom alto e agudo, recostando-se na cadeira e sacudindo-se todo. Todos os meus instintos de m�dico se revoltaram com essas gargalhadas.</p><p>- Pare! - gritei. - Controle-se! - E enchi um copo com �gua de uma garrafa.</p><p>N�o adiantou nada. Era uma dessas explos�es hist�ricas que acontecem com uma personalidade forte quando uma grande crise finalmente passa. Eventualmente voltou ao normal, muito cansado e com o rosto vermelho.</p><p>- Fiz um papel de idiota - disse em voz rouca.</p><p>- N�o foi nada. Beba isso! - Derramei um pouco de conhaque no copo com �gua e a cor come�ou a voltar a suas faces.</p><p>- Agora estou melhor! - disse. - Ent�o, Doutor, tenha a bondade de tratar do meu polegar, ou melhor, do lugar onde era o meu polegar.</p><p>Desenrolou o len�o e estendeu a m�o. At� meus nervos endurecidos estremeceram-se. Quatro dedos se projetavam, e uma horrenda superf�cie vermelha e esponjosa onde o polegar deveria estar. Havia sido brutalmente cortado ou arrancado das ra�zes.</p><p>- C�us! - exclamei. - Que ferida horr�vel. Deve ter sangrado muito.</p><p>- Sim, sangrou. Desmaiei quando aconteceu e acho que fiquei desacordado muito tempo. Quando voltei a mim vi que ainda estava sangrando enrolei o len�o bem apertado no pulso, segurando com um peda�o de pau.</p><p>Excelente! 0 senhor devia ter sido um cirurgi�o.</p><p>� uma quest�o de hidr�ulica, sabe, e a� tenho conhecimentos.</p><p>Isso foi feito - disse, examinando a ferida - com um instrumento pesado e afiado.</p><p>- Com uma machadinha de a�ougueiro.</p><p>- Presumo que foi um acidente.</p><p>- De maneira nenhuma.</p><p>- 0 qu�, um ataque.</p><p>- Decididamente.</p><p>- 0 senhor est� me deixando horrorizado.</p><p>Limpei a ferida, lavei-a e fiz um curativo. Ele ag�entou tudo sem estremecer, embora mordesse o l�bio de vez em quando.</p><p>- Que tal? - perguntei, quando terminei.</p><p>- Excelente! Com seu conhaque e seu curativo j� me sinto outro homem. Estava muito fraco, pois passei por muitas coisas.</p><p>- Talvez seja melhor n�o falar no assunto. Evidentemente o deixa muito nervoso.</p><p>- Oh, n�o, agora n�o. Tenho de contar minha hist�ria � pol�cia, mas, entre n�s, se n�o fosse pela prova evidente dessa minha ferida, ficaria muito surpreso se acreditassem em mim, pois minha hist�ria � realmente extraordin�ria e n�o tenho provas para confirm�-la. E mesmo que acreditassem em mim, as pistas que posso lhes dar s�o t�o - vagas que � muito duvidoso se jamais se poder� fazer justi�a.</p><p>- Ah! - exclamei. - Se trata de um problema que o senhor gostaria que fosse resolvido, recomendaria altamente que fosse consultar - meu amigo, Sherlock Holmes, antes de ir � pol�cia.</p><p>- Oh, ouvi falar desse homem - respondeu meu visitante - e ficaria muito contente se ele se encarregasse do assunto, embora tenha de usar a pol�cia oficial tamb�m. Pode me dar uma apresenta��o para ele?</p><p>- Farei melhor que isso. Vou lev�-lo l� eu mesmo.</p><p>- Ficaria imensamente grato ao senhor.</p><p>- Vamos chamar um carro e iremos juntos. Chegaremos bem a tempo de tomar caf� com ele. Sente-se bastante bem para isso?</p><p>- Sim. N�o me sentirei aliviado enquanto n�o contar minha hist�ria.</p><p>- Ent�o minha empregada chamar� um carro e estarei de volta em um instante. - Subi as escadas correndo, expliquei o sucedido � minha esposa rapidamente e em cinco minutos estava dentro de um carro, levando meu novo paciente para a Rua Baker.</p><p>Sherlock Holmes estava, como eu esperava, descansando em sua sala de estar, vestindo um roup�o e lendo os an�ncios pessoais do enquanto fumava seu cachimbo de antes do caf�, composto de todas as sobras de fumo do dia anterior, cuidadosamente secas e amontoadas em um canto da prateleira sobre a lareira. Recebeu-nos com sua amabilidade calma, mandou vir mais ovos e bacon e nos acompanhou em uma lauta refei��o. Quando terminamos, sentou nosso novo conhecido no sof�, colocou uma almofada atr�s de sua cabe�a e um copo de conhaque com �gua a seu alcance.</p><p>- � f�cil de ver que sua experi�ncia n�o foi muito comum, Sr. Hatherley - disse. - Por favor, fique deitado e sinta-se completamente � vontade. Conte-nos o que puder, mas pare quando se sentir cansado, e se fortifique com um pouco desse estimulante.</p><p>- Obrigado, - disse meu paciente - mas me sinto outro homem desde que o Doutor fez o curativo, e acho que seu caf� da manh� completou a cura. Vou tomar o menos poss�vel de seu valioso tempo, por isso come�arei imediatamente a relatar minhas extraordin�rias experi�ncias.</p><p>Holmes estava sentado em sua ampla poltrona, com a express�o de cansa�o, com p�lpebras pesadas, que encobria sua natureza aguda e perspicaz e eu � sua frente, enquanto ouv�amos em sil�ncio a estranha hist�ria que nosso visitante nos contou.</p><p>- � preciso dizer que sou �rf�o e solteiro, moro sozinho em quartos alugados em Londres. Minha profiss�o � de engenheiro hidr�ulico e tive consider�vel experi�ncia de trabalho durante os sete anos que passei como estagi�rio na grande firma Venriar &amp; Matheson, em Greenwich. H� dois anos, tendo completado meu est�gio e tamb�m tendo herdado uma quantia adequada pela morte de meu pobre pai, decidi estabelecer-me por conta pr�pria e aluguei salas na Rua Victoria.</p><p>- Suponho que todo mundo passa pelo mesmo quando est� come�ando a vida e abre um escrit�rio. Em dois anos, s� o que me apareceu foram tr�s consultas e um pequeno servi�o, nada mais. Minha renda bruta n�o passa de vinte e sete libras e dez xelins. Todos os dias, das nove da manh� at� as quatro da tarde ficava em minha pequena sala, at� que comecei a acreditar que nunca teria uma clientela.</p><p>- Ontem, entretanto, quando estava pensando em fechar o escrit�rio, meu empregado entrou para dizer que um cavalheiro queria falar comigo sobre um trabalho. Trouxe um cart�o com o nome de "Coronel Lysander Stark" impresso. Logo em seguida veio o pr�prio Coronel, um homem bastante alto e extremamente magro. Acho que nunca vi um homem t�o magro assim. 0 rosto se resumia em nariz e queixo e a pele das faces estava esticada sobre os ossos protuberantes. No entanto, essa magreza parecia coisa natural e n�o fruto de alguma doen�a, pois seus olhos eram brilhantes, seus movimentos cheios de energia e sua postura confiante. Estava vestido sobriamente e julguei que deveria ter uns quarenta anos.</p><p>- 'Sr. Hatherley?�, indagou, com ligeiro sotaque alem�o. "0 senhor foi recomendado, Sr. Hatherley, como sendo uma pessoa eficiente em sua profiss�o e tamb�m ornamente discreto e capaz de guardar um segredo" Cumprimentei-o, sentindo-me lisonjeado com essas palavras, como qualquer rapaz da minha idade. 'Posso indagar quem me recomendou?-, perguntei.</p><p>- 'Talvez seja melhor n�o dizer por enquanto. �A mesma pessoa me informou que o senhor � �rf�o e solteiro e reside sozinho em Londres.�</p><p>- 'Terrivelmente correto�, respondi, "mas permita-me observar que nada disso tem a ver com minha capacidade profissional. N�o � sobre um assunto profissional que o senhor quer falar comigo?�.</p><p>- "Sem d�vida alguma. Mas o senhor viu que tudo que digo tem uma o de ser. Tenho um trabalho para o senhor, mas � essencial que haja segredo absoluto, entende, segredo absoluto, e naturalmente � mais f�cil obter isso de um homem que mora sozinho do que um que reside no seio da fam�lia."</p><p>- Se prometer guardar segredo, retorquiu, "pode ter certeza absoluta que cumprirei o prometido".</p><p>Ele me olhou fixamente enquanto eu falava e me pareceu que nunca vira um olhar t�o desconfiado e inquisitivo.</p><p>- Ent�o, promete? Perguntou finalmente.</p><p>- "Sim, prometo. "</p><p>- "Sil�ncio completo e absoluto, antes, durante e depois? Nenhuma refer�ncia ao assunto, nem oral, nem por escrito�?</p><p>- "J� lhe dei minha palavra".</p><p>- "Muito bem." Levantou-se de repente e, atravessando a sala como um rel�mpago, abriu a porta. 0 corredor estava deserto.</p><p>- Muito bem, disse, voltando. "Sei que os empregados �s vezes ficam curiosos sobre os neg�cios de seus patr�es. Agora podemos falar em seguran�a". Puxou a cadeira para junto da minha e come�ou a me fixar novamente com aquele olhar inquisitivo e pensativo.</p><p>- Uma sensa��o de repulsa e alguma coisa semelhante ao medo come�ou a se apossar de mim, vendo as excentricidades desse homem esquel�tico. Nem mesmo meu medo de perder um cliente podia me impedir de mostrar minha impaci�ncia.</p><p>- Te�o-lhe que declare a que veio senhor disse-lhe. "Meu tempo � muito valioso". Deus me perdoe por esta �ltima frase, mas falei sem pensar:</p><p>- O que acha de cinq�enta guin�us por uma noite de trabalho? Perguntou.</p><p>- �Maravilhoso.�</p><p>- "Estou dizendo uma noite de trabalho, mas uma hora seria mais apropriado. Apenas quero sua opini�o sobre uma m�quina hidr�ulica de estampar que n�o est� funcionando bem. Se nos mostrar o que est� errado, n�s mesmos a consertaremos. 0 que acha de uma incumb�ncia dessas?"</p><p>- �O trabalho parece ser pouco e a remunera��o excelente�.</p><p>- Precisamente. Queremos que venha hoje � noite pelo �ltimo trem.</p><p>- "Aonde?"</p><p>- "A Eyford, em Berkshire. � um lugarejo perto da fronteira de Oxfordshire, a dez quil�metros de Reading. H� um trem de Paddington que o deixar� l� aproximadamente as onze e quinze".</p><p>- "Muito bem."</p><p>- "Irei busc�-lo com um carro".</p><p>- "Fica longe da esta��o?".</p><p>- "Sim, nossa pequena propriedade fica no meio do mato. S�o uns dez quil�metros da esta��o de Eyford".</p><p>- "Ent�o n�o chegaremos antes da meia-noite. Imagino que n�o h� chance nenhuma de um trem de volta. Serei obrigado a passar a noite l�".</p><p>Podemos arranjar acomoda��es para o senhor.</p><p>"� um pouco inc�modo. N�o seria poss�vel ir a uma hora mais conveniente?"</p><p>- "Achamos melhor o senhor ir � noite. � para recompens�-lo por qualquer inconveni�ncia que estamos pagando ao senhor, um rapaz jovem e desconhecido, um honor�rio que compraria a opini�o dos maiores de sua profiss�o. Mas � claro que se o senhor quiser desistir do neg�cio, tem toda a liberdade".</p><p>- Pensei nos cinq�enta guin�us e como me seriam �teis. "De maneira nenhuma", respondi. O maior prazer em fazer o que deseja. Gostaria, entretanto, de entender um pouco melhor o que � exatamente que o senhor quer que eu fa�a.</p><p>- 'Pois n�o. � muito natural que a promessa de segredo que extra�mos' do senhor o fa�a ficar curioso. N�o quero que se comprometa � coisa alguma sem saber do que se trata. Suponho que n�o haja risco nenhum de algu�m nos escutar?</p><p>- "Absolutamente."</p><p>- "Ent�o � o seguinte. 0 senhor deve saber que greda de um produto valioso e que s� � encontrada em um ou dois lugares na Inglaterra, pois n�o�?</p><p>- "J� ouvi dizer".</p><p>- "H� algum tempo comprei uma pequena propriedade, muito pequena, a uns doze quil�metros de Reading. Tive a sorte de descobrir que havia um dep�sito de greda em um dos meus campos. Ao examin�-lo, entretanto, vi que esse dep�sito era relativamente pequeno e fazia liga��o com dois muito maiores, um � direita e outro � esquerda, ambos nas propriedades de meus vizinhos. Esses bons homens n�o sabiam absolutamente que suas terras continham o que era equivalente a uma mina de ouro. Naturalmente, meu interesse seria comprar suas terras antes que descobrissem seu verdadeiro valor, mas, infelizmente, n�o tinha capital para isso. Compartilhei o segredo com alguns amigos meus e eles sugeriram que come��ssemos a trabalhar secretamente em nosso pequeno dep�sito e assim ganhar�amos o suficiente para comprar as terras dos vizinhos. � isso que vimos fazendo por algum tempo e, para auxiliar as opera��es, fizemos uma prensa hidr�ulica. Essa prensa, como j� expliquei, n�o est� funcionando bem e queremos sua opini�o. Contudo, guardamos nosso segredo zelosamente e se fosse sabido que temos engenheiros hidr�ulicos vindo � nossa casa isso despertaria suspeitas e se os fatos viessem � tona, seria adeus � possibilidade de adquirir essas terras e realizar nossos planos. � por isso que fiz o senhor prometer que n�o dir� a ningu�m que vai hoje � noite. Espero que tenha explicado tudo claramente".</p><p>- "Compreendo" respondi. "A �nica coisa que n�o entendi bem � qual � a utilidade de uma prensa hidr�ulica na extra��o de greda de prisioneiro, que, pelo que sei, � escavada da terra como pedra de uma pedreira".</p><p>- "Ali!" ele disse displicentemente. "Temos nosso processo especial. Comprimimos a terra em tijolos para poder remov�-los sem revelar o que cont�m. Mas isso � mero detalhe. Contei-lhe toda nossa hist�ria, Mr. Hatherley, e demonstrei que confio no senhor". Ergueu-se enquanto falava. "Vou esper�-lo, ent�o, em Eyford. �s 1 1h15m."</p><p>- "Estarei l� com certeza".</p><p>- "Nem uma palavra a ningu�m." Lan�ou-me um longo olhar inquisitivo e, com um aperto de m�os, saiu apressado da sala.</p><p>- Bem, quando pensei em tudo isso com calma fiquei, como devem imaginar muito espantado com essa s�bita incumb�ncia que havia recebido. Por um lado, � claro, estava contente, pois os honor�rios eram pelo menos dez vezes mais do que teria pedido se fosse eu que tivesse feito o pre�o e era poss�vel que esse servi�o levasse a outros. Por outro lado, a express�o e a maneira de meu cliente causaram uma impress�o muito desagrad�vel em mim e n�o achei que a explica��o sobre a greda de prisioneiro fosse raz�o suficiente para essa visita � meia-noite e para justificar sua ansiedade de que eu n�o dissesse nada a ningu�m. Mas apesar disso, pus de lado meus receios, fiz uma lauta refei��o, fui para Paddington e comecei minha viagem, obedecendo fielmente � recomenda��o de n�o dizer nada a ningu�m.</p><p>- Em Reading mudei n�o s� de vag�o, mas tamb�m de esta��o. Consegui pegar, entretanto, o �ltimo trem para Eyford e cheguei � pequena e escura esta��o depois de onze horas. Fui o �nico passageiro a saltar l� e n�o havia ningu�m na plataforma, exceto um porteiro sonolento, com uma lanterna. Quando pelo port�o, entretanto, encontrei meu conhecido da manh� esperando no escuro, do outro lado. Sem dizer uma palavra, pegou meu bra�o e levou-me rapidamente para um carro, cuja porta estava aberta. Fechou as janelas dos dois lados, deu urnas pancadinhas na madeira e o carro se arremessou � frente a toda velocidade.</p><p>- Um cavalo s�? - perguntou Holmes.</p><p>- S� um.</p><p>- Notou de que cor era?</p><p>- Sim, vi � luz das lanternas laterais quando entrava no carro. Era um cavalo baio.</p><p>- Com apar�ncia cansada?</p><p>- N�o, descansado e vigoroso.</p><p>- Obrigado. Desculpe a interrup��o. Por favor, continue sua hist�ria. � muito interessante.</p><p>- L� n�s fomos pelo menos por uma hora. 0 Coronel Lysander Stark havia dito que eram somente uns dez quil�metros, mas achei, pela velocidade em que and�vamos e o tempo que levamos que deviam ser pelo menos uns quinze. Sentou-se a meu lado em sil�ncio todo o tempo e vi mais de uma vez, quando olhei para ele, que estava me olhando com grande intensidade. As estradas pareciam n�o ser muito boas naquela regi�o, pois sacudimos e balan�amos de um lado para o outro todo o tempo. Tentei olhar pelas janelas para ver onde est�vamos, mas o vidro era fosco e n�o pude ver nada, s� a mancha de uma luz ocasional. De vez em quando dizia alguma coisa para quebrar a monotonia da viagem, mas o Coronel respondia em monoss�labos; e a conversa morria. Finalmente os solavancos da estrada cederam lugar a um caminho de cascalho e o carro parou. 0 Coronel Lysander Stark saltou e, quando o segui, puxou-me rapidamente para uma varanda que se abria � nossa frente. Sa�mos, por assim dizer, diretamente do carro para o hall de entrada, de forma que n�o pude nem ver a frente da casa. No minuto em que transpus a soleira da porta, esta se fechou atr�s de n�s e ouvi o ru�do das rodas do carro que se afastava.</p><p>- Estava totalmente escuro dentro de casa e o Coronel tateou em volta procurando f�sforos e resmungando baixinho. Subitamente uma porta se abriu na outra extremidade da passagem e uma longa faixa dourada de luz se estendeu em nossa dire��o. Alargou-se e uma mulher surgiu com uma l�mpada que segurava acima da cabe�a, empurrando o rosto para a frente e olhando para n�s. Pude ver que era bonita e pelo brilho da luz no vestido escuro que usava, vi que era de uma fazenda de boa qualidade. Disse algumas palavras em uma l�ngua estrangeira e o tom era como se estivesse fazendo uma pergunta e quando meu companheiro respondeu com um monoss�labo rude ela estremeceu tanto que a l�mpada quase caiu de sua m�o. 0 Coronel Stark foi at� ela, murmurou qualquer coisa em seu ouvido e a�, empurrando-a em dire��o ao quarto de onde viera, veio para mim novamente com a l�mpada na m�o.</p><p>- Te�o-lhe que tenha a bondade de esperar neste quarto uns minutos disse, abrindo outra porta. Era um quarto pequeno, mobiliado simplesmente com uma mesa redonda no centro, na qual estavam espalhados v�rios livros em alem�o. 0 Coronel Stark colocou a l�mpada sobre um harm�nio perto da porta. "N�o o farei esperar muito," disse, e desapareceu na escurid�o.</p><p>- Lancei um olhar nos livros sobre a mesa e apesar de n�o saber alem�o, vi que dois eram tratados sobre ci�ncias e os outros, livros de poesia. Fui at� a janela, esperando ver alguma coisa da paisagem, mas estava coberta por pesadas t�buas de carvalho. Era uma em extraordinariamente silenciosa. Ouvi o tique-taque de um velho rel�gio em alguma parte do corredor, mas fora isso, tudo era sil�ncio. Uma vaga sensa��o de mal-estar come�ou a se apoderar de mim. Quem eram esses alem�es e o que estavam fazendo, morando nesse lugar estranho, t�o longe de tudo? E que lugar era esse? Estava a doze ou quinze quil�metros de Eyford, era tudo que sabia, mas se ao Norte, Sul, Leste ou Oeste, n�o tinha a menor id�ia. Reading e possivelmente outras cidades grandes talvez estivessem nesse raio e, portanto o lugar poderia n�o ser t�o isolado assim. No entanto, tinha certeza, pela profundidade do sil�ncio, que est�vamos no campo. Andei de um lado para o outro cantarolando baixinho para espantar o medo e sentindo que estava fazendo jus a meus honor�rios de cinq�enta guin�us.</p><p>- De repente, sem o menor som preliminar que servisse de aviso no sil�ncio total, � porta da sala abriu-se lentamente. A mulher surgiu na abertura, a escurid�o do corredor �s suas costas, a luz amarela de minha l�mpada caindo sobre seu lindo e aflito rosto. Vi logo que estava aterrorizada e o sangue gelou em minhas veias. Ela ergueu um dedo tr�mulo para fazer sinal de sil�ncio e murmurou umas palavras em ingl�s hesitante, lan�ando os olhos, como os de um animal amedrontado, para o corredor escuro.</p><p>- "Eu iria," disse, procurando, ou assim me pareceu ficar calma. "Eu iria. N�o ficaria aqui. N�o h� nenhum bem para o senhor fazer aqui".</p><p>- "Mas, minha senhora," respondi, "n�o fiz ainda o que vim fazer aqui. N�o posso ir embora sem ver a m�quina".</p><p>- "N�o vale a sua pena esperar," ela continuou. "Pode passar pela porta. Ningu�m impede". E ent�o, vendo que sorri e sacudi a cabe�a, abandonou qualquer reserva, avan�ou, torcendo as m�os e implorou: "Por amor de Deus! Ir embora daqui antes que seja tarde demais!"</p><p>- Mas sou um pouco teimoso por natureza e sempre pronto a me envolver em alguma coisa quando h� algum obst�culo no caminho. Pensei em minha remunera��o de cinq�enta guin�us, em minha viagem cansativa e na desagrad�vel noite que parecia me aguardar. Seria isso tudo �-toa? Por que iria embora sem ter executado minha incumb�ncia e sem ser pago o que me era devido? Essa mulher poderia at� ser uma louca. Ficando firme, por conseguinte, embora ela tivesse me abalado mais do que queria confessar, abanei novamente a cabe�a e declarei minha inten��o de ficar onde estava. Ela estava prestes a continuar a me implorar quando uma porta bateu acima de n�s e ouvimos passos na escada. Ficou escutando um segundo, fez um gesto de desespero e sumiu t�o repentina e silenciosamente quanto tinha vindo.</p><p>- Os rec�m-chegados eram o Coronel Lysander Stark e um homem baixo e atarracado com uma barbicha saindo das dobras do queixo e papada, que me foi apresentado como o Sr. Ferguson.</p><p>- Triste � meu secret�rio e gerente - disse o Coronel. Acidentalmente, tinha a impress�o que deixara esta porta fechada. Receio que tenha sentido a corrente de ar.</p><p>- Pelo contr�rio, respondi r�pido, "abri a porta eu mesmo, pois achei a sala um pouco abafada".</p><p>- Lan�ou-me um de seus olhares desconfiados. "Talvez seja melhor irmos ao trabalho, ent�o," disse: "0 Sr. Ferguson e eu vamos lev�-lo para ver a m�quina".</p><p>- "Talvez seja bom botar o chap�u".</p><p>- N�o, n�o � preciso. � dentro da casa.</p><p>- "0 qu�, est�o escavando greda de dentro de casa?"</p><p>-N�o, n�o. Apenas a comprimimos aqui. Mas n�o importa isso! S� queremos que examine a m�quina e nos diga o que est� errado com ela.</p><p>- Subimos junto, o Coronel primeiro com a l�mpada, o gerente gordo e eu seguindo. A velha casa era um labirinto, com corredores, passagens, escadas estreitas em espiral e portas pequenas e baixas com soleiras gastas por gera��o e gera��o que as haviam atravessado. N�o havia tapetes e nenhum sinal de mob�lia acima do andar t�rreo, o reboco ca�a das paredes e a umidade emergia em manchas esverdeadas; de aspecto doentio. Tentei manter uma apar�ncia desligada, mas n�o havia esquecido os avisos da linda senhora, embora os tivesse ignorado, e fiquei de olho em meus dois companheiros. Ferguson parecia ser um homem moroso e calado, mas vi pelo pouco que disse que, pelo menos, era meu compatriota.</p><p>- 0 Coronel Lysander Stark parou finalmente diante de uma porta baixa, que destrancou. Dentro havia um pequeno quarto quadrado, no qual n�s tr�s mal cab�amos ao mesmo tempo. Ferguson ficou do lado de fora e o Coronel me fez entrar.</p><p>- "Estamos agora", disse, "dentro da pr�pria prensa hidr�ulica e seria profundamente desagrad�vel para n�s se algu�m resolvesse lig�-la. 0 teto deste pequeno quarto �, na realidade, a extremidade do Pistorn que desce com uma for�a de muitas toneladas para esse ch�o de metal. H� pequenas colunas laterais de �gua do lado externo que recebem a for�a e a transmitem e multiplicam da maneira que o senhor conhece. A m�quina est� funcionando, mas est� um pouco dura e perdeu um pouco de sua for�a. Tenha a bondade de examin�-la e nos mostrar o que devemos fazer para repar�-la".</p><p>- Tomei a l�mpada dele e examinei minuciosamente a m�quina. Era realmente gigantesca e capaz de exercer enorme press�o. Quando fui para o lado de fora e apertei as alavancas que a controlavam, vi logo pelo som sibilante que havia um vazamento que permitia a regurgita��o de �gua atrav�s de um dos cilindros laterais. Um exame sucessivo revelou que uma veda��o de borracha na cabe�a de uma haste encolhera e n�o mais vedava adequadamente o encaixe em que operava. Era claramente isso que estava causando a perda de for�a e mostrei a meus companheiros, que ouviram meus coment�rios atentamente e fizeram algumas perguntas pr�ticas sobre a maneira de proceder para corrigir o defeito. Quando tinha explicado tudo a eles, voltei ao quartinho e olhei bem em volta, para satisfazer minha curiosidade. Era �bvio que a hist�ria da greda de prisioneiro era uma inven��o, pois era absurdo imaginar que uma m�quina t�o poderosa era usada para uma finalidade inadequada. As paredes eram de madeira, mas o ch�o de ferro era cavado, como uma calha, e quando fui examin�-lo vi uma crosta de dep�sito mineral em todo ele. Agachei-me e estava procurando raspar um pouco para ver o que era, quando ouvi uma exclama��o em alem�o e vi o rosto cadav�rico do Coronel me olhando.</p><p>- O que est� fazendo a�? Perguntou.</p><p>- Fiquei zangado de ter sido enganado por uma hist�ria t�o complicada como a que tinha me contado. "Estava admirando sua greda de prisioneiro," respondi. "Acho que poderia aconselh�-lo melhor sobre sua m�quina se soubesse exatamente qual � sua finalidade".</p><p>- No momento exato em que pronunciei essas palavras arrependi-me de minha ousadia. 0 rosto dele endureceu e os olhos cinzentos faiscaram.</p><p>- "Muito bem," disse, "vai saber tudo sobre a m�quina". Deu um passo atr�s, bateu a pequena porta e virou a chave na fechadura. Corri para a porta e puxei a ma�aneta, mas estava trancada e a porta n�o cedeu a meus pontap�s e pancadas. "Ol�!", gritei. "Ou, Coronel! Abra a porta!"</p><p>- E de repente, no sil�ncio, ouvi um som que gelou o sangue em minhas veias. Era o ru�do met�lico das alavancas e o som sibilante do cilindro que vazava. Ele ligara a m�quina. A l�mpada ainda estava no ch�o, onde a deixara quando examinara a calha. Pela sua luz, vi que o teto negro estava descendo sobre mim, lentamente, aos arrancos, mas, como ningu�m sabia melhor que eu, com uma for�a que dentro de um minuto me esmagaria. Atirei-me, gritando, contra a porta e tentei arrancar a fechadura com as unhas. Implorei o Coronel para me deixar sair, mas o cruel rumor de alavancas abafou meus gritos. 0 teto estava apenas tr�s ou quatro palmos acima de minha cabe�a e com a m�o erguida podia sentir a superf�cie dura e �spera. Ent�o me ocorreu que a dor da morte dependeria muito da posi��o em que me encontrasse. Se deitasse de rosto para baixo o peso cairia sobre minha espinha e estremeci ao pensar nos ossos se quebrando. Talvez fosse mais f�cil deitar de costas, mas ser� que teria a coragem de ficar olhando aquela sombra negra fatal descendo sobre mim? J� n�o podia mais ficar de p�, quando vislumbrei algo que trouxe uma torrente de esperan�a para meu pobre cora��o.</p><p>- J� havia dito que embora o ch�o e o teto fossem de ferro, as paredes eram de madeira. Quando olhei em volta apressadamente pela �ltima vez, vi uma linha fina de luz amarela entre duas t�buas, que se alargou cada vez mais � medida que um pequeno painel era aberto. Por um instante n�o pude acreditar que fosse realmente uma porta que me salvava da morte, mas logo a seguir atirei-me para a abertura e ca� meio desmaiado do outro lado. 0 painel fechou-se atr�s de mim, mas o som da l�mpada. Se espatifando e logo ap�s o ru�do met�lico das duas chapas de metal provaram como tinha escapado por pouco.</p><p>- Voltei a mim com algu�m puxando minha m�o e me encontrei deitado no ch�o de pedra de um corredor estreito, com uma mulher inclinada sobre mim me puxando com a m�o esquerda segurando uma vela com a direita. Era a mesma boa amiga cujos avisos t�o tolamente eu havia ignorado.</p><p>"Eles aqui estar�o j�, j�. Ver�o que n�o est� 19. Oh, n�o perca o t�o precioso tempo, venha! "</p><p>Dessa vez, pelo menos, n�o desprezei seus conselhos. Fiquei de p�, cambaleando, e corri com ela pelo corredor e por uma escada circular. Esta nos levou a outra passagem mais larga e justamente quando a alcan�amos ouvimos o som de passos apressados e duas vozes gritando, uma em resposta � outra, do andar em que est�vamos e do andar de baixo. Minha protetora parou e olhou em volta, como quem n�o v� sa�da. Ent�o abriu uma porta que levava. a um quarto, onde, pela janela aberta, entrava o luar, banhando o ch�o.</p><p>"� sua �nica chance", disse, "� alto, mas talvez possa pular".</p><p>Enquanto falava, surgiu urna luz no fim da passagem e vi o vulto magro do Coronel Lysander Stark avan�ando rapidamente com uma lanterna em uma das m�os e uma arma parecida com uma machadinha de a�ougueiro na outra. Atravessei o quarto correndo e olhei pela janela. 0 jardim � luz da lua parecia t�o calmo e doce e seguro, e estava a menos de dez metros. Subi no peitoril, mas hesitei em pular at� ouvir o que ia se passar entre minha salvadora e o bandido que me perseguia. Se ela fosse maltratada, apesar de todo o perigo voltaria para socorr�-la. Mal pensara isso, quando ele chegou � porta, empurrando-a de lado, mas ela o abra�ou e tentou det�-lo.</p><p>- "Fritz! Fritz! ", exclamou em ingl�s. "Lembre sua promessa depois da �ltima vez. Voc� disse que n�o ia ser assim nunca mais. Ele guardar� segredo! Oh, ele guardar� segredo!"</p><p>- "Voc� est� louca, Elise!", ele berrou, lutando para se livrar. "Voc� vai estragar tudo. Ele viu demais. Solte-me, vamos!" Jogou-a de lado e, correndo para a janela, golpeou-me com a pesada arma. Eu deixara o corpo cair e estava me segurando ao peitoril com as m�os quando ele me atacou. Senti uma dor vaga, afrouxei os dedos e ca� no jardim a meus p�s.</p><p>- Fiquei aturdido, mas n�o me machuquei com a queda. Levantei e sa� correndo por entre os arbustos o mais velozmente poss�vel, pois sabia que ainda n�o estava fora de perigo. De repente, enquanto corria, comecei a me sentir tonto e fraco. Olhei minha m�o, que latejava e ent�o, pela primeira vez, vi que meu polegar havia sido decepado e o sangue corria da ferida. Consegui enrolar meu len�o na mio, mas os ouvidos come�aram a zumbir e ca� desmaiado entre as roseiras.</p><p>- N�o sei quanto tempo fiquei desacordado. Deve ter sido por muitas horas, pois a lua j� se fora do c�u e come�ava a amanhecer quando abri os olhos. Minhas roupas estavam ensopadas de orvalho e a manga do casaco estava coberta de sangue do polegar ferido. A dor na m�o me fez recordar todos os detalhes da aventura noturna e fiquei de p�, sentindo que talvez ainda n�o estivesse a salvo de meus perseguidores. Mas, para minha surpresa, quando olhei em volta, n�o vi nem a casa nem o jardim. 0 lugar onde ca�ra do era um �ngulo de uma sebe pr�xima � estrada e logo adiante havia um pr�dio longo e baixo que, ao me aproximar, provou ser a mesma esta��o aonde chegara � noite anterior. Se n�o fosse pela ferida na m�o, tudo que se passara durante �quelas horas horr�veis poderia ter sido um pesadelo.</p><p>- Meio tonto, entrei na esta��o e perguntei pelo trem da manh�. Havia um para Reading dentro de uma hora. 0 mesmo porteiro estava de servi�o. Perguntei-lhe se ouvira falar de um Coronel Lysander Stark. N�o sabia quem era. Vira um carro � noite anterior esperando por mim? N�o, n�o vira. Havia uma delegacia perto dali? Sim, a uns quatro quil�metros.</p><p>- Era longe demais para ir andando, fraco e doente como me sentia. Resolvi esperar at� chegar � cidade para contar minha hist�ria � pol�cia. Passava um pouco das seis quando cheguei e fui primeiro tratar de minha m�o e foi entro que o Doutor teve a bondade de me trazer aqui. Estou colocando meu caso em suas m�os e farei exatamente o que o senhor mandar.</p><p>Ficamos ambos em sil�ncio ap�s ouvir essa extraordin�ria narrativa. Depois Sherlock Holmes tirou da prateleira um dos grandes volumes onde guardava seus recortes.</p><p>- Aqui est� um an�ncio que lhe vai interessar - disse. - Saiu em todos os jornais cerca de um ano atr�s. Ou�am: "Perdido no dia 9 do corrente, o Sr. Jeremiah Hayling, de 26 anos, engenheiro hidr�ulico. Saiu de casa �s dez horas da noite e n�o foi mais visto. Vestia." etc.etc. Ali! Isso foi � �ltima vez que o Coronel precisou consertar sua m�quina, sem d�vida alguma.</p><p>Disse. - C�us! - exclamou meu paciente. - Ent�o isso explica o que a mo�a</p><p>- Certamente. � bem claro que o Coronel era um homem calculista e desesperado, firmemente decidido que nada ia atrapalhar sua jogada, como os piratas de antigamente, que n�o deixavam nenhum sobrevivente nos barcos que capturavam. Bem, os minutos s�o preciosos e se o senhor se sente bastante bem, vamos imediatamente � Scotland Yard e em seguida a Eyford.</p><p>Umas tr�s horas depois est�vamos a caminho de Reading e de l� � pequena aldeia em Berkshire. 0 grupo era composto de Sherlock Holmes, o engenheiro hidr�ulico, Inspetor Bradstreet da Scotland Yard, um detetive e eu. Bradstreet abrira um mapa da regi�o sobre o assento e se ocupava em desenhar um c�rculo tendo como centro Eyford.</p><p>- Aqui est� - disse. - Esse c�rculo tem um raio de doze quil�metros partindo da aldeia. 0 lugar que procuramos deve estar dentro dessa linha. 0 senhor disse doze quil�metros, n�o foi?</p><p>- Aproximadamente. Foi mais ou menos uma hora de viagem.</p><p>- E acha que o trouxeram de volta toda essa dist�ncia quando estava inconsciente?</p><p>- Devem ter feito isso. Tenho uma recorda��o confusa de ter sido carregado e posto em algum lugar.</p><p>- 0 que n�o posso entender - disse eu - � por que n�o o mataram quando o encontraram desmaiado no jardim. Talvez o vil�o tenha se enternecido com as s�plicas da mo�a.</p><p>- N�o acho isso prov�vel. Nunca vi uma cara mais implac�vel em toda minha vida.</p><p>- Breve saberemos tudo disse Bradstreet. - Bem, desenhei o c�rculo e s� gostaria de saber em que ponto dentro dele vamos encontrar as pessoas que procuramos.</p><p>- Acho que posso determinar isso - disse Holmes calmamente.</p><p>- Ali! - exclamou o inspetor. - Ent�o j� formou sua opini�o? Bem, vamos l�. Vejamos quem concorda com o senhor. Eu digo que � no Sul, pois l� � mais deserto.</p><p>- E eu digo Leste - aventurou meu paciente.</p><p>- Eu acho que � Oeste - disse o detetive. - L� h� v�rias pequenas aldeias.</p><p>- Minha opini�o � o Norte - eu disse - porque l� n�o h� colinas e nosso amigo n�o disse que o carro tivesse subido nenhuma inclina��o.</p><p>- Ora - disse o inspetor, rindo - n�o poder�amos divergir mais. Cobrimos todos os pontos do compasso. Sr. Holmes, qual � seu voto decisivo?</p><p>- Est�o todos errados.</p><p>- Mas n�o podemos estar todos errados.</p><p>- Ali, sim, podem. Esse � o ponto que escolho - e colocou o dedo bem no centro do c�rculo. - � aqui que os encontraremos.</p><p>- Mas e a viagem de doze quil�metros? - exclamou Hatherley.</p><p>- Seis de ida e seis de volta. Nada mais simples. 0 senhor mesmo disse que o cavalo n�o estava cansado quando entrou no carro. Como poderia ser assim se tivesse andado doze quil�metros em estradas p�ssimas?</p><p>- Realmente, seria um �timo estratagema - observou Bradstreet, pensativo. - � claro que n�o pode haver d�vidas quanto � natureza desse bando.</p><p>- Nenhuma - disse Holmes. - S�o cunhadores de moedas falsas, em grande escala, e usavam a m�quina para formar a am�lgama que substitui a prata.</p><p>- H� muito tempo que sab�amos que havia um bando muito astuto trabalhando nisso - disse o inspetor. - Estavam cunhando milhares de meias coroas. Conseguimos seguir sua pista at� Reading, mas l� os perdemos, pois conseguiram nos despistar de tal maneira que provavam que eram velhos profissionais. Mas agora, gra�as a essa oportunidade fortuita, acho que vamos peg�-los finalmente.</p><p>Mas o inspetor estava enganado, pois esses criminosos estavam destinados a escapar � justi�a. Quando chegamos � esta��o de Eyford vimos uma coluna gigantesca de fuma�a saindo de um grupo de �rvores na vizinhan�a, pairando como uma imensa pluma de avestruz sobre a paisagem.</p><p>- A casa pegando fogo? - perguntou Bradstreet, quando o Um seguia sua viagem.</p><p>Sim, senhor - respondeu o chefe da esta��o.</p><p>- Quando come�ou?</p><p>- Ouvi dizer que foi durante a noite, mas piorou muito e est� queimando toda.</p><p>- De quem � a casa?</p><p>- Do Dr. Becher.</p><p>- Diga-me - interrompeu o engenheiro - se Dr. Becher � um alem�o muito magro, com um nariz fino e comprido?</p><p>0 chefe da esta��o deu uma boa gargalhada. - N�o senhor, o Dr. Becher � ingl�s e n�o h� ningu�m na par�quia que tenha uma barriga maior. Mas ele tem um h�spede, ouvi dizer que � um paciente dele, que � estrangeiro e que bem precisa de um pouco da boa carne de Berkshire para cobrir seus ossos.</p><p>Mal ele acabara de falar, est�vamos todos nos apressando em dire��o ao inc�ndio. A estrada subiu uma pequena colina e � nossa frente surgiu um grande pr�dio baixo jorrando fogo por todas as janelas e frestas, enquanto no jardim tr�s carros de bombeiros lutavam em v�o para conter as chamas.</p><p>- � este mesmo! - exclamou Hatherley, profundamente excitado. - Ali est� a estrada de saibro e as roseiras onde ca�. A segunda janela foi de onde pulei.</p><p>- Bem, pelo menos - disse Holmes - o senhor teve sua vingan�a. N�o h� d�vida de que foi sua l�mpada de querosene que, quando comprimida pela prensa, tocou fogo nas paredes de madeira e certamente eles estavam ocupados demais em persegui-lo para notar. Agora fique de olhos abertos para ver se seus amigos de ontem � noite est�o no meio da multid�o, embora receie que a essas horas j� estejam a muitos quil�metros de dist�ncia.</p><p>E os receios de Holmes se realizaram, pois desde esse dia n�o mais se ouviu falar da linda mo�a, o sinistro alem�o ou o moroso ingl�s. Aquela manh�, muito cedo, um campon�s vira uma carro�a com v�rias pessoas e umas caixas volumosas indo rapidamente em dire��o a Reading, mas a� se perdia a pista dos fugitivos e nem mesmo a engenhosidade de Holmes conseguiu descobrir o menor ind�cio de seu paradeiro.</p><p>Os bombeiros ficaram muito perturbados com as coisas estranhas que encontraram dentro da casa, especialmente quando descobriram um polegar humano recentemente decepado no peitoril de uma janela. Ao entardecer, finalmente, seus esfor�os foram recompensados e conseguiram dominar as chamas, mas a� o telhado j� havia desmoronado e o pr�dio todo estava reduzido a ru�nas, s� se salvando uns cilindros retorcidos e canos de ferro, n�o restando nada mais da maquinaria que custara tanto ao nosso desafortunado engenheiro hidr�ulico. Descobriram grandes massas de n�quel e estanho em um barrac�o, mas nenhuma moeda, o que pode explicar a presen�a das caixas volumosas na carro�a.</p><p>Como nosso engenheiro hidr�ulico foi levado do jardim ao lugar onde recobrou os sentidos poderia ter sido um mist�rio para sempre se n�o fosse a terra macia, que contou sua hist�ria. Fora evidentemente carregado por duas pessoas, uma das quais; tinha p�s excepcionalmente pequenos e a outra, excepcionalmente grandes. 0 que era mais prov�vel � que o ingl�s silencioso, sendo menos audaz e tamb�m menos sanguin�rio que seu companheiro, tivesse ajudado a mulher a levar o homem inconsciente para fora de perigo.</p><p>- Bem, - disse nosso engenheiro, muito triste, ao tomarmos nossos lugares para voltar a Londres - que mau neg�cio eu fiz! Perdi meu polegar e perdi honor�rios de cinq�enta guin�us e, afinal de contas, o que ganhei?</p><p>- Experi�ncia - disse Holmes, rindo. - Indiretamente, pode ser de muito valor. � s� contar sua hist�ria e ganhar� a reputa��o de excelente companhia para o resto de seus dias.</p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong>o nobre solteiro</strong></p><empty-line/><p>O CASAMENTO DO LORDE ST. Simon, e a maneira curiosa por que terminou, h� muito deixou de ser assunto de interesse nos c�rculos exaltados em que o infeliz noivo se movimenta. Esc�ndalos novos o obscureceram e os detalhes picantes atra�ram os bisbilhoteiros e os fizeram esquecer esse drama de quatro anos atr�s. Como tenho raz�es para acreditar, entretanto, que os fatos verdadeiros nunca foram revelados ao p�blico em geral, e como meu amigo, Sherlock Holmes, teve importante papel em esclarecer o mist�rio, acho que as mem�rias dele n�o ficariam completas sem um esbo�o desse epis�dio not�vel.</p><p>Faltavam poucas semanas para meu casamento, nos dias em que ainda compartilhava os alojamentos de Holmes na Rua Baker, quando ele chegou em casa uma tarde ap�s ter sa�do para passear a p� e encontrou uma carta na mesa da entrada esperando por ele. Eu ficara em casa o dia todo, pois o tempo virara, de repente, e chovia com ventos fortes de outono e a bala que trazia na perna como rel�quia da campanha do Afeganist�o estava latejando persistentemente. Sentado em uma poltrona e com as pernas esticadas em uma cadeira, havia me rodeado de jornais at� que, saturado com as not�cias do dia, os jogara de lado e ficara parado olhando o enorme monograma em relevo, encimado de uma coroa, que estava sobre a mesa, pensando em quem poderia ser o nobre que escrevia a meu amigo.</p><p>- Aqui est� uma ep�stola nobre - comentei, quando ele entrou. - A correspond�ncia da manh�, se estou bem lembrado, consistia em contas da peixaria.</p><p>- �, minha correspond�ncia pelo menos tem o encanto de ser variada - respondeu, sorrindo. - E as cartas dos mais humildes geralmente s�o as mais interessantes. Isso parece um desses convites sociais muito pouco desej�veis, que exigem que um homem minta ou que se caceteie.</p><p>Abriu o envelope e lan�ou um olhar no conte�do.</p><p>- Ora, talvez isso seja interessante.</p><p>- N�o � social, ent�o?</p><p>- N�o, estritamente profissional.</p><p>- E � de um cliente nobre?</p><p>- Um dos mais nobres da Inglaterra.</p><p>- Meu caro amigo, dou-lhe os parab�ns.</p><p>- Asseguro-lhe, Watson, sem pretens�es, que a posi��o social de meu cliente vale menos para mim do que o interesse de seu caso. � poss�vel, entretanto, que as duas coisas existam nessa nova investiga��o. Voc� tem lido os jornais assiduamente nos �ltimos dias, n�o tem?</p><p>- � o que parece - disse com pesar, apontando a pilha de jornais no canto da sala. - N�o tinha nada mais a fazer.</p><p>- Ainda bem, pois voc� poder-me-� talvez p�r em dia. N�o leio nada a n�o ser os an�ncios pessoais e as not�cias criminais. Os primeiros s�o sempre muito instrutivos. Mas se voc� tem acompanhado as not�cias recentes deve ter lido sobre Lorde St. Simon e seu casamento.</p><p>- Ah, sim, com muito interesse.</p><p>- �timo. A carta que tenho aqui � do Lorde St. Simon. Vou ler para voc� e ent�o vai pegar esses jornais e me contar tudo que sabe sobre o assunto. Eis aqui o qu� ele diz:</p><p>"Prezado Sr. Sherlock Holmes:</p><p>Lorde Backwater me assegura que posso confiar inteiramente em seu discernimento e discri��o. Decidi, portanto, fazer-lhe uma visita para consult�-lo sobre um acontecimento doloroso que ocorreu com refer�ncia a meu casamento. O Sr. Lestrade, da Scotland Yard, j� est� agindo nesse assunto, mas me assegurou que n�o tem nenhuma obje��o � sua coopera��o e acha mesmo que pode ser �til. Irei �s quatro horas da tarde e se por acaso o senhor tiver outra coisa marcada a essa hora, espero que a desmarque, pois esse assunto � da m�xima import�ncia.</p><p>Atenciosamente,</p><p>ROBERT ST. SIMON"</p><p>- � datada de Grosvenor Mansions, escrita com pena de ave e o nobre lorde manchou o dedo mindinho direito com tinta - observou Holmes, dobrando a carta.</p><p>- Falou em quatro horas. J� s�o tr�s. Estar� aqui dentro de uma hora.</p><p>- Tenho o tempo justo, com seu auxilio, para me inteirar do assunto. Olhe os jornais e arrume os artigos por ordem de data, enquanto vejo exatamente quem � nosso cliente. - Pegou um volume vermelho em uma prateleira de livros perto da lareira. - Aqui est� - disse, sentando e abrindo o volume no colo. - "Robert Walsingliam de Vere St. Simon, segundo filho do Duque de Balmoral" - Hum! - "Armas: Azul-celeste, tr�s estrepes na parte superior do escudo sobre uma faixa. Nasceu em 1846". Est� com quarenta e um anos, maduro para se casar. Foi Subsecret�rio das Col�nias em uma das �ltimas administra��es. O Duque, seu pai, foi Secret�rio do Exterior. Herdaram sangue dos Platagenet diretamente e dos Tudor pelo lado materno. Ha! N�o h� nada muito instrutivo em tudo isso. Acho que tenho de apelar para voc�, Watson, para algo mais s�lido. N�o h� problema em encontrar o que quero porque os fatos s�o bem recentes e o assunto me impressionou. N�o mencionei a voc� porque sabia que estava investigando um assunto e n�o gosta que outras quest�es interfiram.</p><p>- Ali, est� se referindo �quele pequeno problema do caminh�o de mudan�a de Grosvenor Square? Isso j� foi resolvido, embora fosse evidente desde o in�cio. Por favor, d�-me o resultado de sua pesquisa nos jornais.</p><p>- Aqui est� a primeira not�cia que encontrei, na coluna pessoal do Moming Post e datada, como v�, de umas semanas atr�s. "Foi contratado o casamento que, se os boatos estiverem certos, realizar-se-� muito breve, entre Lorde Robert St. Simon, segundo filho do Duque de Balmoral, e a Srta. Hatty Doran, filha �nica de Aloysius Doran, de S�o Francisco, Calif�rnia". � s�.</p><p>- Breve e sucinto - comentou Holmes, estendendo as pernas longas e finas para o fogo.</p><p>- Saiu um par�grafo ampliando isso em um dos jornais sociais na mesma semana. Ali, est� aqui. "Breve haver� um pedido de prote��o no mercado de casamentos, pois o princ�pio atual de com�rcio livre est� prejudicando nosso produto nacional. Uma por uma a dire��o das casas nobres da Gr�-Bretanha est� passando �s m�os de nossa lindas primas do outro lado do Atl�ntico. A semana passada adicionou mais um � lista de pr�mios que foram arrebatados por essas encantadoras invasoras. Lorde St. Simon, que demonstrou por mais de vinte anos estar � prova das setas do pequeno deus, anunciou definitivamente seu pr�ximo casamento com a Srta. Hatty Doran, a fascinante filha de um milion�rio da Calif�rnia. A Srta. Doran, cuja figura graciosa e rosto impressionante atra�ram muita aten��o nas festividades de Westbury House, � filha �nica e dizem que seu dote ser� em excesso de um milh�o, com mais expectativas no futuro. Como � sabido que o Duque de Balmoral foi for�ado a vender seus quadros nos �ltimos anos e como Lorde St. S�mon n�o tem nenhuma propriedade, exceto a pequena quinta de Birchmoor, � �bvio que a herdeira californiana n�o � a �nica a ganhar com uma alian�a que permitir� que ela fa�a a transi��o f�cil e comum, nesses dias, de uma dama republicana para um t�tulo de nobreza inglesa".</p><p>- Mais alguma coisa? - perguntou Holmes, bocejando.</p><p>- Sim, muita. H� outra not�cia no Morning Post dizendo que o casamento seria muito quieto, na igreja de St. George, Hanover Square, que s� meia d�zia de amigos �ntimos eram convidados e que o grupo iria para a casa mobiliada em Lancaster Gate, alugada pelo Sr. Aloysius Doran. Dois dias depois, isto �, quarta-feira passada, h� umas poucas linhas dizendo que o casamento se realizara e a lua-de-mel seria na propriedade de Lorde Backwater, perto de Petersfield. Essas foram as not�cias antes do desaparecimento.</p><p>- Antes do qu�? - perguntou Holmes, espantado.</p><p>- Da mo�a desaparecer.</p><p>- Quando foi que desapareceu?</p><p>- No almo�o ap�s o casamento.</p><p>- Realmente? Isso est� ficando muito mais interessante do que parecia. Bastante dram�tico, at�.</p><p>- �. Achei que era um pouco fora do comum.</p><p>- � freq�ente desaparecerem antes da cerim�nia e ocasionalmente durante a lua-de-mel, mas n�o me lembro de nenhum caso como esse. Por favor, d�-me todos os detalhes.</p><p>- Devo avis�-lo que s�o muito incompletos.</p><p>- Talvez possamos complet�-los.</p><p>- Foi tudo relatado em uma �nica not�cia do jornal da manh� de ontem, que vou ler para voc�. A manchete �: "Ocorr�ncia Singular em Casamento Elegante":</p><p>"A fam�lia de Lorde Robert St. Simon est� profundamente consternada com os epis�dios estranhos e dolorosos que ocorreram com rela��o a seu casamento. A cerim�nia, conforme an�ncio breve nos jornais de ontem, teve lugar na manh� anterior, mas somente agora foi poss�vel confirmar os estranhos rumores que correm t�o persistentemente. Apesar dos esfor�os de amigos para abafar a quest�o, a aten��o do p�blico foi t�o despertada que de nada adianta fingir ignorar o que � agora assunto discutido em toda parte".</p><p>"A cerim�nia na igreja de St. George em Hanover Square foi muito simples, com a presen�a somente do pai da noiva, Sr. Aloysius Doran, a Duquesa de Balmoral, Lorde Backwater, Lorde Eustace e Lady Clara St. Simon (o irm�o mais mo�o e a irm� do noivo) e Lady Alicia Whittington. O casal e convidados, ap�s a cerim�nia, dirigiram-se � casa do Sr. Aloysius Doran em Lancaster Gate, onde seria servido o almo�o. Parece que houve uma confus�o causada por uma mulher, cujo nome n�o � sabido, que tentou for�ar a entrada na casa, alegando que tinha uma liga��o qualquer com Lorde St. Simon. O mordomo e o lacaio s� conseguiram expuls�-la depois de urna cena prolongada e desagrad�vel. A noiva, que felizmente entrara em casa antes dessa inoportuna interrup��o, sentara � mesa com os convidados e de repente se queixara de mal-estar, deixando a mesa e se retirando para o quarto. Quando sua aus�ncia se prolongou e come�aram os coment�rios, seu pai foi ver o que acontecia e soube pela empregada que ela fora rapidamente ao quarto, pegara um casaco e um chap�u e sa�ra �s pressas. Um dos lacaios declarou que vira uma senhora sair de casa de casaco e chap�u, mas n�o acreditou que fosse sua patroa, pois pensava que ela estava com os convidados. Quando verificou que a filha desaparecera, o Sr. Aloysius Doran, juntamente com o noivo, comunicou-se imediatamente com a pol�cia e extensas investiga��es est�o sendo efetuadas que provavelmente resultar�o em um esclarecimento r�pido desse mist�rio. At� uma hora avan�ada � noite passada, entretanto, nada se sabia sobre o paradeiro da mo�a desaparecida. Fala-se em possibilidade de um crime e h� boatos de que a pol�cia prendeu a mulher que causara o dist�rbio, acreditando que, por ci�me ou qualquer outra raz�o, pode estar ligada ao estranho desaparecimento da noiva".</p><p>- S� isso?</p><p>- S� mais um pequeno item em outro jornal da manh�, que � bem sugestivo.</p><p>- E qual �?</p><p>- Que a Srta. Flora Millar, a mulher que causou o dist�rbio, foi realmente presa. Consta que foi dan�arina no Allegro e que conhecia o noivo h� v�rios anos. N�o h� mais nenhum detalhe e o caso est� agora em suas m�os.</p><p>- E parece ser extremamente interessante. N�o o teria perdido por coisa alguma desse mundo. Mas a campainha est� tocando, Watson, e o rel�gio marca uns minutos depois das quatro, portanto deve ser o nosso nobre cliente. Nem pense em ir embora, Watson, pois prefiro mil vezes ter uma testemunha, nem que seja s� para checar minha pr�pria mem�ria.</p><p>- Lorde Robert St. Simon - anunciou o criado, abrindo a porta. Entrou um cavalheiro de rosto agrad�vel e educado, p�lido e com um nariz imponente, algo de petulante na curva da boca e o olhar firme de um homem acostumado a comandar e ser obedecido. Tinha uma maneira viva e animada, mas a apar�ncia em geral era de mais idade, pois os ombros eram um pouco curvos e os joelhos dobravam ligeiramente ao andar. O cabelo, tamb�m, quando tirou o chap�u de abas viradas, estava grisalho ao redor do rosto e ralo no topo da cabe�a. As vestimentas apuradas chegavam quase ao exagero: colarinho alto, sobrecasaca preta, colete branco, luvas amarelas, sapatos de verniz e polainas claras. Avan�ou lentamente na sala, virando a cabe�a de um lado para o outro e balan�ando na m�o direita o cord�o que prendia o pincen� de ouro.</p><p>- Boa tarde, Lorde St. Simon - disse Holmes, levantando e fazendo um cumprimento. - Por favor, sente-se naquela poltrona. Este � meu amigo e colega, Dr. Watson. Chegue-se mais perto da lareira e vamos conversar.</p><p>- � um assunto muito doloroso para mim, como pode facilmente imaginar, Sr. Holmes. Estou profundamente magoado. Soube que o senhor j� lidou com v�rios assuntos delicados da mesma natureza, embora duvide que tenham sido da mesma classe social.</p><p>- N�o, foram de classe mais alta.</p><p>- Como?</p><p>- Meu �ltimo cliente da mesma natureza foi um rei.</p><p>- Oh! N�o tinha nenhuma id�ia. Que rei?</p><p>- O rei da Escandin�via.</p><p>- O qu�! Ele perdeu a esposa?</p><p>- O senhor deve compreender - disse Holmes com suavidade - que trato os assuntos de meus outros clientes com a mesma discri��o que prometo ao senhor.</p><p>- Claro! Est� certo! Est� certo! Por favor me perdoe. Quanto ao meu caso, estou pronto a lhe dar todas as informa��es que possam lhe ajudar a formar uma opini�o.</p><p>- Obrigado. J� estou a par do que saiu nos jornais, e nada mais. Presumo que a imprensa est� correta. Esse artigo, por exemplo, sobre o desaparecimento da noiva, Lorde St. Simon lan�ou os olhos no artigo.</p><p>- Sim, est� correto, at� onde vai.</p><p>- Mas preciso de muito mais antes de poder formar uma opini�o. Acho que poderei chegar aos fatos mais rapidamente se lhe fizer perguntas.</p><p>- Por favor, prossiga.</p><p>- Quando conheceu a Srta. Hatty Doran?</p><p>- Em S�o Francisco, um ano atr�s.</p><p>- Estava viajando pelos Estados Unidos?</p><p>- Sim.</p><p>- Ficou noivo, ent�o?</p><p>- N�o.</p><p>- Mas ficaram amigos?</p><p>- Achava sua companhia divertida e ela sabia disso.</p><p>- O pai dela � muito rico?</p><p>- Dizem que � o homem mais rico na costa do Pac�fico.</p><p>- Como foi que ele ganhou dinheiro?</p><p>- Em minera��o. H� poucos anos, n�o tinha nada. Ent�o encontrou ouro, fez investimentos e enriqueceu rapidamente.</p><p>- Bem, qual sua impress�o pessoal sobre o car�ter da jovem... de sua esposa?</p><p>O nobre balan�ou o pincen� nervosamente e fitou a lareira.</p><p>- Sabe, Sr. Holmes, minha esposa tinha vinte anos quando o pai ficou rico. At� ent�o, vivia no acampamento da mina, vagava pelos bosques e montanhas e sua educa��o vela mais da natureza do que de uma sala de aulas. Ela � uma menina traquinas, com uma personalidade forte, livre e selvagem, liberada de qualquer esp�cie de tradi��es. � impetuosa... vulc�nica, deveria dizer. Toma uma decis�o rapidamente e age sem o menor medo. Por outro lado, ter-lhe-ia dado o nome que tenho a honra de possuir - tossiu discretamente - se n�o achasse que, no fundo, era uma mulher nobre. Acredito que seja capaz de se sacrificar heroicamente e que qualquer coisa desonesta lhe seria profundamente repugnante.</p><p>- Tem uma fotografia dela?</p><p>- Trouxe isso comigo. - Abriu um medalh�o e mostrou-nos o rosto de uma mulher muito linda. N�o era uma fotografia e sim uma miniatura em marfim e o artista conseguira transmitir o efeito do cabelo negro lustroso, os grandes olhos escuros e os l�bios encantadores. Holmes contemplou-a por muito tempo, com ar grave. Depois fechou o medalh�o e devolveu-o a Lorde St. Simon.</p><p>- A mo�a veio a Londres, ent�o, e se encontraram novamente?</p><p>- Sim, o pai a trouxe para tomar parte nessa �ltima temporada social. Encontrei-a v�rias vezes, fiquei noivo dela e agora nos casamos.</p><p>- Trouxe consigo, pelo que soube, um dote consider�vel.</p><p>- Moderadamente. N�o mais do que � comum em minha fam�lia.</p><p>- E esse dote, naturalmente, fica com o senhor, j� que o casamento � um feito de compensamento?</p><p>- Realmente, ainda n�o indaguei sobre esse assunto.</p><p>- Muito natural. O senhor viu a Srta. Doran na v�spera do casamento?</p><p>- Sim.</p><p>- Ela estava bem, alegre?</p><p>- Muito bem. Falou longamente sobre o que �amos fazer no futuro.</p><p>- Curioso. Isso � muito interessante. E quanto � manh� do dia do casamento.</p><p>- Estava muito animada... isto �, pelo menos at� depois da cerim�nia.</p><p>- E notou alguma mudan�a, ent�o?</p><p>- Bem, para dizer a verdade, notei ent�o os primeiros sinais, que j� conhecia, de que estava ficando um pouco mal-humorada. Mas foi um incidente muito trivial e n�o pode ter nada a ver com o caso.</p><p>- Gostaria que me contasse, apesar disso.</p><p>- Olhe, � muito infantil. Ela deixou cair o buqu� de noiva quando sa�amos da igreja. Est�vamos passando por um banco e o buqu� caiu nele. Demorou um instante, mas o cavalheiro que estava sentado no banco entregou-lhe o buqu�, que parecia intato. Mas quando disse qualquer coisa a ela, respondeu-me abruptamente. E no carro, a caminho de casa, parecia estar absurdamente agitada com esse incidente insignificante.</p><p>- Ah, sim? Disse que o cavalheiro estava sentado no banco. Ent�o havia outras pessoas presentes, que n�o os convidados?</p><p>- Ah, sim. � imposs�vel evitar isso quando a igreja est� aberta.</p><p>- Esse cavalheiro n�o era um amigo de sua esposa?</p><p>- N�o, n�o. Chamei-o de cavalheiro por mera cortesia, mas era uma pessoa muito comum. N�o reparei muito nele. Mas realmente acho que nos estamos desviando do assunto.</p><p>- Ent�o Lady St. Simon voltou do casamento menos alegre do que antes. O que fez quando entrou novamente em casa de seu pai?</p><p>- Eu a vi conversando com a empregada.</p><p>- E quem � sua empregada?</p><p>- Seu nome � Alice. � americana e veio da Calif�rnia com ela.</p><p>- Uma criada pessoal?</p><p>- Sim, e me parecia que tomava muitas liberdades. Mas � claro que na Am�rica essas coisas s�o muito diferentes.</p><p>- Quanto tempo ficou falando com essa Alice?</p><p>- Ah, uns minutos. N�o prestei aten��o, estava pensando em outras...</p><p>- N�o ouviu o que estavam falando?</p><p>- Lady St. Simon disse qualquer coisa sobre "apossar-se das terra". Usava muito linguagem de minera��o. N�o tenho a menor id�ia do que queria dizer.</p><p>- A g�ria americana �s vezes � muito expressiva. E o que fez sua esposa quando acabou de falar com a criada?</p><p>- Entrou na sala de almo�o.</p><p>- Em seu bra�o?</p><p>- N�o, sozinha. Era muito independente nessas pequenas coisas. Quando est�vamos sentados uns dez minutos levantou-se de repente, murmurou umas desculpas e saiu da sala. E n�o voltou.</p><p>- Mas essa empregada, Alice, pelo que entendi, declarou que ela foi ao quarto, cobriu o vestido de noiva com um longo casaco, botou um chap�u e saiu da casa.</p><p>- Exatamente. E foi depois vista andando em Hyde Park em companhia de Flora Millar, uma mulher que est� agora presa e que j� havia criado um dist�rbio em casa do Sr. Doran naquela manh�.</p><p>- Ah, sim. Gostaria de mais detalhes sobre essa mo�a e suas rela��es com ela.</p><p>Lorde St. Simon encolheu os ombros e levantou as sobrancelhas.</p><p>- Somos amigos por muitos anos. Devo dizer, amigos �ntimos. Ela costumava dan�ar no Allegro. Fui bastante generoso com ela, e n�o tem raz�o de reclamar, mas o senhor sabe como s�o as mulheres, Sr. Holmes. Flora era uma pessoa encantadora, mas tinha um g�nio violento e era muito dedicada a mim. Escreveu cartas horrorosas quando soube que ia me casar e, para dizer a verdade, a raz�o por que quis um casamento t�o simples foi porque temi que houvesse um esc�ndalo na igreja. Ela foi at� a porta do Sr. Doran logo que chegamos da igreja e tentou for�ar a entrada, dizendo coisas horr�veis de minha esposa e chegando at� a amea��-la, mas eu previra a possibilidade de suceder algo semelhante e dera instru��es aos empregados, que logo conseguiram mand�-la embora. Ficou quieta quando viu que n�o adiantava fazer esc�ndalo.</p><p>- Sua esposa ouviu isso?</p><p>- N�o, gra�as a Deus.</p><p>- E foi vista andando com essa mesma mulher depois disso?</p><p>- Sim. � isso que o Sr. Lestrade, da Scotland Yard, considera muito grave. Acha que Flora atraiu minha esposa e armou alguma cilada horr�vel para ela.</p><p>- Bem, � poss�vel.</p><p>- O senhor concorda, ent�o?</p><p>- N�o disse que fosse prov�vel. E o senhor concorda?</p><p>- Acho que Flora n�o machucaria uma mosca.</p><p>- O ci�me � capaz de transformar as pessoas. E qual � sua teoria quanto ao que sucedeu?</p><p>- Bem, na verdade vim aqui em busca de uma teoria e n�o para apresentar uma. Dei-lhe todos os fatos. J� que me pergunta, entretanto, posso dizer que me ocorreu a possibilidade de que toda essa excita��o e a consci�ncia de que havia dado um gigantesco passo social causaram algum dist�rbio nervoso em minha esposa.</p><p>- Em resumo, quer dizer que ela ficou subitamente louca?</p><p>- Bem, quando penso que ela deu as costas... n�o vou dizer a mim, mas a tanto que muitas pessoas aspiraram em v�o... n�o posso explicar os acontecimentos de nenhuma outra maneira.</p><p>- Essa, tamb�m, n�o deixa de ser uma hip�tese - disse Holmes, sorrindo. - E agora, Lorde St. Simon, creio que tenho quase todos os fatos. Posso perguntar se estavam sentados � mesa de forma a poder ver pela janela?</p><p>- Pod�amos ver o outro lado da rua e o parque.</p><p>- Muito bem. Creio que n�o � preciso det�-lo por mais tempo. Entrarei em contato com o senhor.</p><p>- Se tiver a sorte de resolver esse caso - disse nosso cliente, erguendo-se.</p><p>- J� o resolvi.</p><p>- Hein? O que disse?</p><p>- Disse que j� o resolvi.</p><p>- Ent�o onde est� minha esposa?</p><p>- Isso � um detalhe que lhe darei muito em breve.</p><p>Lorde St. Simon sacudiu a cabe�a.</p><p>- Receio que seja preciso cabe�as mais s�bias que a sua e a minha - observou e, fazendo um cumprimento majestoso e antiquado, retirou-se.</p><p>- Muita bondade de Lorde St. Simon dar-me a honra de colocar minha cabe�a no mesmo n�vel da sua - disse Sherlock Holmes, rindo. - Acho que vou tomar um u�sque com soda e fumar um charuto depois de todas essas perguntas. J� chegara �s minhas conclus�es sobre esse caso antes de nosso cliente entrar nessa sala.</p><p>- Meu caro Holmes!</p><p>- Tenho anota��es sobre v�rios casos semelhantes, embora nenhum fosse t�o r�pido, como j� observei. Esse exame todo serviu para transformar minha hip�tese em certeza. Provas circunstanciais s�o �s vezes muito convincentes, como quando voc� encontra uma truta no leite, para citar o exemplo de Thoreau.</p><p>- Mas eu ouvi tudo que voc� ouviu.</p><p>- Sem ter, entretanto, o conhecimento de casos anteriores que tanto me ajuda. Houve um caso paralelo em Aberdeen alguns anos atr�s e algo em linhas muito semelhantes em Munique um ano depois da guerra franco-prussiana. � um desses casos... mas, veja, aqui vem Lestrade! Boa tarde, Lestrade! Pegue um copo no aparador e h� charutos naquela caixa.</p><p>O detetive oficial vestia uma jaqueta grossa e uma echarpe que lhe davam decididamente uma apar�ncia n�utica e carregava na m�o uma sacola de lona preta. Com um ligeiro cumprimento de cabe�a, sentou-se e acendeu o charuto que lhe fora oferecido.</p><p>- O que est� acontecendo? - perguntou Holmes, com os olhos brilhando. - N�o parece muito contente.</p><p>- E n�o estou. E esse caso infernal do casamento St. Simon. N�o tem nem p� nem cabe�a.</p><p>- Realmente! Voc� me surpreende.</p><p>- Quem j� ouviu uma hist�ria t�o confusa? Todos os ind�cios escapam por entre meus dedos. Trabalhei nisso o dia todo.</p><p>- E parece que se molhou muito - disse Holmes, pondo a m�o na manga da jaqueta.</p><p>- �, est�vamos dragando o rio Serpentine.</p><p>- Meu Deus do c�u, para qu�?</p><p>- Em busca do corpo de Lady St. Simon.</p><p>Sherlock Holmes recostou-se na poltrona e deu uma gargalhada.</p><p>- Dragaram tamb�m a bacia do chafariz de Trafalgat Square? - perguntou, ainda rindo.</p><p>- Por qu�? O que quer dizer com isso?</p><p>- Porque voc� tem a mesma probabilidade de encontrar a mo�a l�!</p><p>Lestrade lan�ou um olhar zangado a meu companheiro.</p><p>- Suponho que voc� sabe, de tudo - resmungou.</p><p>- Bem, acabei de ouvir a hist�ria, mas j� cheguei a uma conclus�o.</p><p>- Ah, � mesmo! Ent�o pensa que o rio n�o tem nada a ver com o assunto?</p><p>- Acho muito pouco prov�vel.</p><p>- Ent�o talvez possa ter a bondade de explicar como � que encontramos isso no rio? - Abriu a sacola enquanto falava e jogou no ch�o um vestido de noiva de seda, um par de sapatos de cetim branco e uma coroa e v�u de noiva, tudo desbotado e encharcado de �gua. - Veja s� - disse, colocando uma alian�a nova em cima da pilha. - A� est� uma noz para o senhor quebrar, Sr. Holmes.</p><p>- Ah, realmente - disse meu amigo, soprando an�is de fuma�a no ar. - Tirou isso tudo do rio?</p><p>- N�o. Foi tudo encontrado flutuando perto da margem por um guarda florestal. Foram identificadas como sendo as roupas dela e me parece que se as roupas estavam l�, o corpo estaria por perto.</p><p>- Seguindo seu racioc�nio brilhante, o corpo de qualquer um deve ser achado perto de seu guarda-roupa. E por favor diga-me onde pretende com isso?</p><p>- H� algum ind�cio ligando Flora Millar ao desaparecimento da mo�a.</p><p>- Receio que isso seja um pouco dif�cil.</p><p>- � mesmo? - exclamou Lestrade, com aspereza. - E eu receio, Sr. Holmes, que n�o seja muito pr�tico com suas dedu��es e suas hip�teses. J� cometeu dois erros em dois minutos... Esse vestido compromete a Srta. Flora.</p><p>- Como?</p><p>- H� um bolso no vestido. No bolso h� uma carteira. Nessa carteira um bilhete. E aqui est� o bilhete. - Bateu com o papel na mesa � sua frente. - Ou�a s� isso: "Voc� me ver� quando tudo estiver pronto. Venha imediatamente. F. H. W�. A minha teoria, desde o in�cio, foi que Lady St. Simon foi levada por um ardil de Flora Millar e que esta, certamente com c�mplices, � respons�vel por seu desaparecimento. Aqui, assinado com suas iniciais, est� o bilhete que, sem d�vida, foi enfiado sorrateiramente em sua porta, e que a levou a se entregar a eles.</p><p>- Muito bem, Lestrade - disse Holmes, com um sorriso. - Voc� realmente est� indo muito bem. Deixe-me ver. - Pegou o papel desinteressadamente, mas ficou logo alerta e soltou uma exclama��o de prazer. - Isso � realmente importante - disse.</p><p>- Ah, acha mesmo?</p><p>- Extremamente. Dou-lhe os parab�ns.</p><p>Lestrade ficou de p� e se inclinou para olhar, triunfante.</p><p>- Mas olhe s�! - exclamou. - Est� olhando o lado errado.</p><p>- Pelo contr�rio, este � o lado certo.</p><p>- O lado certo? Est� louco! � aqui que est� o bilhete escrito a l�pis, deste lado.</p><p>- E desse � o que parece ser um peda�o de uma conta de hotel, que me interessa profundamente.</p><p>- N�o tem nada de interessante nisso. J� olhei antes - disse Lestrade. - "4 de outubro, quarto 8 xelins, caf� da manh� 2 xelins e 6 penies, coquetel 1 xelim, almo�o 2 xelins e 6 penies, copo de xerez 8 penies". N�o vejo nada de importante nisso.</p><p>- Provavelmente n�o. Mas � muito importante, assim mesmo. Quanto ao bilhete, tamb�m � importante, ou pelo menos as iniciais o s�o, portanto, humilha��o; dou-lhe parab�ns novamente.</p><p>- J� perdi tempo demais - disse Lestrade, de p�. - Acredito em trabalho e n�o em sentar em frente da lareira elaborando lindas teorias. Uma boa tarde para o senhor, Sr. Holmes, e vamos ver qual de n�s resolve esse problema. Pegou as roupas, meteu-as na sacola o foi em dire��o � porta.</p><p>- Apenas uma sugest�o, Lestrade - disse Holmes, arrastando as palavras, antes que sumisse seu rival. - Vou-lhe dar a verdadeira solu��o. Lady St.Simon � um mito. N�o existe e nunca existiu essa pessoa.</p><p>Lestrade olhou meu companheiro com compaix�o. Virou-se depois para mim, bateu na testa tr�s vezes, sacudiu solenemente a cabe�a e saiu depressa.</p><p>Mal havia fechado a porta atr�s de si e Holmes j� se levantara e vestira o sobretudo.</p><p>- Tem alguma raz�o em falar de trabalho - comentou. - Acho, Watson, que vou deixar voc� com seus jornais por um pouco.</p><p>Passava das cinco horas quando Sherlock Holmes saiu, mas n�o tive ocasi�o de me sentir s�, pois dentro de uma hora chegou um homem com uma enorme caixa chata. Abriu-a com o aux�lio de um rapazola que viera junto e, para minha grande surpresa, uma ceia gastron�mica come�ou a ser arrumada na modesta mesa de mogno de nosso alojamento. Um par de galinhas-d'angola, um fais�o, uma torta de p�t� de foie gras, com um grupo de garrafas vetustas e poeirentas. Ap�s arrumar essas os dois visitantes sumiram, como o g�nio das Noites da Ar�bia, sem qualquer explica��o, exceto que tudo estava pago e tinha sido encomendado para entrega nesse endere�o.</p><p>Pouco antes de nove horas Sherlock Holmes entrou, animado. As fei��es estavam graves, mas os olhos brilhavam, o que me fez pensar que n�o tinha ficado desapontado em suas conclus�es.</p><p>- Trouxeram a ceia - disse, esfregando as m�os.</p><p>- Parece que est� esperando visitas. Puseram a mesa para cinco pessoas.</p><p>- Sim, acho que vamos ter companhia - disse. - Estou surpreso que Lorde St. Simon n�o tenha chegado ainda. Ah! Acho que estou ouvindo seus passos na escada.</p><p>Era realmente nosso visitante da manh� que entrou apressadamente, balan�ando o cord�o do pincen� mais vigorosamente que nunca, e com um ar muito perturbado nas fei��es aristocr�ticas.</p><p>- Meu mensageiro o encontrou, ent�o? - perguntou Holmes.</p><p>- Sim, e devo confessar que o conte�do muito me espantou. Est� seguro do que disse?</p><p>- Absolutamente.</p><p>Lorde St. Simon caiu em uma cadeira e passou a m�o pela testa.</p><p>- O que dir� o Duque - murmurou - quando souber que um membro da fam�lia sofreu tal humilha��o?</p><p>- Foi mero acidente. N�o concordo que haja havido nenhuma humilha��o.</p><p>- Ah, olha essas coisas de outro ponto de vista.</p><p>- N�o vejo como ningu�m seja culpado. N�o posso imaginar como a mo�a poderia ter agido de outra forma, embora seja lastim�vel que tenha usado m�todos t�o abruptos. Mas como n�o tem m�e, n�o havia ningu�m para aconselh�-la nessa crise.</p><p>- Foi uma ofensa, senhor, uma ofensa p�blica - disse St. Simon, batendo com os dedos na mesa.</p><p>- Deve ser tolerante com essa pobre mo�a, colocada em situa��o t�o dif�cil.</p><p>- N�o serei tolerante. Estou muito zangado, realmente, e fui vergonhosamente usado.</p><p>- Acho que ouvi a campainha - disse Holmes. - �, ou�o passos na entrada. Se n�o posso persuadi-lo a ser leniente nesse assunto, Lorde St. Simon, trouxe aqui um defensor que talvez seja mais bem-sucedido. - Abriu a porta e fez entrar uma dama e um cavalheiro. - Lorde St. Simon - disse - permita-me apresentar-lhe o Sr. e a Sra. Francis Hay Moulton. A senhora, acho eu, o senhor j� conhece.</p><p>� vista dos rec�m-chegados nosso cliente ficara de p�, muito empertigado, com os olhos baixos e uma das m�os enfiadas no peito da sobrecasaca, a verdadeira imagem da dignidade ofendida. A senhora dera um passo em sua dire��o e estendera a m�o, mas ele continuara de olhos baixos. Tanto melhor para ele, talvez, pois o rosto suplicante dela era dif�cil de resistir.</p><p>- Voc� est� zangado, Robert: - ela disse. - Bem, acho que tem toda a raz�o.</p><p>- Tenha a bondade de n�o pedir desculpas a mim - disse Lorde St. Simon amargamente.</p><p>- Ah, sim, sei que o tratei muito mal, e devia ter falado com voc� antes de partir. Mas estava muito perturbada e desde que vi Frank n�o sabia o que estava fazendo ou dizendo. Foi um milagre que n�o ca�sse no ch�o desmaiada l� mesmo em frente ao altar.</p><p>- Talvez, Sra. Moulton, preferisse que meu amigo e eu sa�ssemos da sala enquanto explica tudo?</p><p>- Se � que posso dar minha opini�o, - disse o cavalheiro desconhecido - j� t�m havido segredos demais nesse neg�cio. Por mim, gostaria que toda a Europa e a Am�rica ouvissem tudo. - Era um homem pequeno, musculoso, queimado do sol, com fei��es agudas e uma maneira alerta.</p><p>- Ent�o contarei nossa hist�ria agora mesmo - disse a senhora. - Este aqui � o Frank e nos encontramos em 1881, na mina de McQuire, perto das Montanhas Rochosas, onde o Pai estava trabalhando nas terras de minera��o que arrendara. Frank e eu ficamos noivos, mas um dia o Pai encontrou um veio muito bom e ficou rico, enquanto que o pobre Frank tinha uma concess�o que n�o deu em nada. Quanto mais rico o Pai ficava, mais pobre ficava o Frank. Finalmente o Pai n�o quis mais ouvir falar de nosso noivado e me levou embora para S�o Francisco. Frank n�o desistiu, entretanto, e me seguiu at� l�, e n�s nos v�amos sem meu pai saber de nada. Ficaria muito zangado se soubesse, ent�o nos escond�amos dele. Frank disse que iria embora fazer sua fortuna e n�o voltaria para me buscar enquanto n�o tivesse tanto dinheiro quanto meu pai. Ent�o prometi que esperaria por ele para sempre e que n�o me casaria com ningu�m mais enquanto ele vivesse. "Ent�o por que n�o nos casamos agora mesmo", ele disse, "e a� ficarei noivo de voc�. E direi que sou seu marido enquanto n�o voltar para busc�-la". Bem, conversamos um pouco e ele tinha, arrumado tudo t�o direitinho, com o sacerdote pronto, � espera, que nos casamos ali mesmo. E ent�o Frank foi embora em busca da fortuna e voltei para meu pai.</p><p>- A pr�xima not�cia que tive era de que Frank estava em Montana e depois foi trabalhar em minas no Arizona e depois disso tive not�cias do Novo M�xico. Depois veio um artigo longo no jornal sobre um acampamento de mineiros que havia sido atacado pelos �ndios apache e o nome do Frank estava na lista dos que haviam sido mortos. Desmaiei quando li isso e fiquei muito doente durante meses. O Pai pensou que tinha alguma doen�a rara e me levou a todos os m�dicos de S�o Francisco. N�o tive nenhuma not�cia por mais de um ano, e nunca duvidei que Frank estivesse realmente morto. Ent�o Lorde St. Simon veio a S�o Francisco e n�s viemos a Londres e arranjaram esse casamento, e meu pai ficou muito contente, mas eu sentia todo o tempo que nenhum homem neste mundo poderia tomar o lugar do meu pobre Frank em meu cora��o. Mesmo assim, se me casasse com Lorde St. Simon, claro que teria cumprido meu dever com ele. N�o se pode ordenar o amor, mas os atos sim. Fui at� o altar com ele decidida a ser a melhor esposa poss�vel. Mas podem imaginar o que senti quando entrei na igreja e vi Frank olhando para mim de um dos bancos. Primeiro pensei que fosse um fantasma, mas quando olhei de novo, ele ainda estava l�, com uma esp�cie de interroga��o nos olhos, como se me estivesse perguntando se estava contente ou triste de v�-lo. Foi um milagre eu n�o ter desmaiado. S� sei que tudo estava virando e as palavras do sacerdote eram como um zumbido de abelhas em meus ouvidos. N�o sabia o que fazer. Deveria interromper a cerim�nia e fazer uma cena na igreja? Olhei novamente para ele e parecia que sabia o que eu estava pensando, pois ergueu um dedo aos l�bios fazendo sinal de sil�ncio. Depois vi que rabiscava em um peda�o de papel e sabia que estava escrevendo para mim. Quando passei pelo banco dele ao sair da igreja, deixei cair meu buqu� e ele enfiou o bilhete em minha m�o quando devolveu as flores. Era uma linha s�, pedindo que me encontrasse com ele quando me desse o sinal. Claro que nunca duvidei por um instante que meu primeiro dever era para com ele e decidi fazer exatamente o que ele mandasse.</p><p>- Quando voltei a casa contei � minha criada, que o conhecera na Calif�rnia, e sempre gostara muito dele. Mandei que n�o dissesse nada a ningu�m, mas que arrumasse umas roupas e deixasse meu casaco e chap�u a m�o. Sei que devia ter falado com Lorde St. Simon, mas era extremamente dif�cil em frente de sua m�e e todos os ilustres convidados. Resolvi fugir e contar tudo depois. N�o fiquei sentada nem dez minutos � mesa quando vi Frank pela janela, do outro lado da rua. Fez sinal para mim e come�ou a andar em dire��o ao parque. Fui at� o quarto, vesti o casaco e fui atr�s dele. Uma mulher veio atr�s de mim, falando qualquer coisa sobre Lorde St. Simon (parece, pelo pouco que ouvi, que ele tinha um segredo tamb�m antes do casamento), mas consegui me livrar dela e logo alcancei Frank. Tomamos um carro juntos e fomos para um quarto que ele alugara em Gordon Square, e isso foi meu verdadeiro casamento depois de todos esses anos de espera. Frank fora prisioneiro dos apache e fugira, fora para S�o Francisco, descobrira que eu o considerava morto e tinha ido para a Inglaterra, seguiu-me at� aqui e me encontrou na manh� do meu casamento.</p><p>- Vi no jornal - explicou o americano. - Dava o nome dela e a igreja, mas n�o dizia onde ela morava.</p><p>- Conversamos ent�o sobre o que dever�amos fazer e Frank era a favor de contar tudo, mas eu estava t�o envergonhada que s� queria desaparecer e nunca mais ver nenhum deles, s� mandar umas linhas para o Pai para dizer que estava viva. Era horr�vel para mim pensar em todos aqueles lordes e ladies sentados em volta da mesa de almo�o, esperando que eu voltasse. Ent�o Frank pegou minhas roupas e tudo, fez um pacote e, para que n�o servisse de pista, jogou em algum lugar onde ningu�m ia encontr�-lo. Era prov�vel que estiv�ssemos a caminho de Paris amanh�, mas esse cavalheiro, o Sr. Holmes, veio nos procurar esta tarde, embora n�o consiga imaginar como ele nos encontrou, e mostrou claramente e com muita bondade que eu estava errada e Frank tinha raz�o, e que dev�amos contar toda a verdade. Ofereceu-nos a oportunidade de falar com Lorde St. Simon sozinho, e ent�o viemos a seus aposentos imediatamente. Agora, Robert, voc� ouviu a hist�ria toda e sinto muito se o magoei, mas espero que voc� n�o fique muito sentido comigo.</p><p>Lorde St. Simon n�o relaxara sua atitude r�gida, mas ouvira com a testa franzida e os l�bios comprimidos toda essa longa narrativa.</p><p>- Perdoe-me, - disse - mas n�o � meu costume discutir assuntos pessoais �ntimos em p�blico.</p><p>- Ent�o n�o vai me perdoar? N�o vai apertar minha m�o antes que eu me v�?</p><p>- Oh, claro, se isso lhe d� prazer. - Estendeu a m�o e apertou friamente a m�o que ela lhe estendeu.</p><p>- Esperava - sugeriu Holmes - que nos acompanhasse em uma pequena ceia.</p><p>- Acho que est� pedindo demais - respondeu o nobre. - Posso ser for�ado a aceitar esses recentes acontecimentos, mas n�o devem esperar que os comemore. Acho que, com sua permiss�o, vou me retirar agora, desejando a todos uma muito boa-noite. - Incluiu todos no cumprimento de cabe�a e saiu da sala.</p><p>- Ent�o espero que pelo menos o casal me honre com sua companhia - disse Sherlock Holmes. - E sempre um prazer conhecer um americano, Sr. Moulton, pois sou uma pessoa que acredita que a loucura de um monarca e a idiotice de um Ministro em anos passados n�o evitar� que nossos filhos sejam algum dia cidad�os do mesmo pa�s debaixo de uma bandeira que ser� uma combina��o da inglesa e da americana.</p><p>- Esse caso foi bem interessante - disse Holmes quando os visitantes haviam sa�do. - Serve para demonstrar claramente como a explica��o de um mist�rio pode ser muito simples, mesmo quando de in�cio pare�a inexplic�vel. Nada podia ser mais inexplic�vel. Nada podia ser mais natural que a seq��ncia de acontecimentos conforme narrada por essa senhora, e nada mais estranho que o resultado quando visto, por exemplo, pelo Sr. Lestrade da Scotland Yard.</p><p>- Voc� n�o estava errado, ent�o?</p><p>- Desde o princ�pio dois fatos foram muito �bvios para mim. Um era que a mo�a estava disposta a se submeter � cerim�nia de casamento, o outro que se arrependera disso poucos minutos ap�s voltar a casa. � evidente que alguma coisa tinha acontecido durante a manh� para faz�-la mudar de id�ia. O que poderia ter sido? N�o poderia ter falado com ningu�m quando estava fora de casa, pois estava acompanhada pelo noivo. Ent�o teria visto algu�m? Se tivesse teria sido algu�m da Am�rica, pois tinha passado t�o pouco tempo neste pa�s que n�o poderia ter permitido que ningu�m tivesse adquirido uma import�ncia t�o grande que bastava v�-lo para mudar seus planos completamente. Veja que j� chegamos, por um processo de exclus�o, � id�ia de que ela deveria ter visto um americano. Ent�o quem poderia ser esse americano? E por que teria tanta influ�ncia sobre ela? Poderia ser amante; poderia ser um marido. Sua juventude havia, eu sabia, sido passada em cenas rudes e sob condi��es estranhas. J� havia chegado a esse ponto antes de ouvir a narrativa de Lorde St. Simon. Quando nos: contou sobre o homem no banco da igreja, da mudan�a no estado de esp�rito da noiva, da maneira t�o �bvia de conseguir passar um bilhete, deixando cair o buqu�, da conversa com a criada confidencial e a alus�o muito significativa a se apossar de terras, que em linguagem dos mineiros quer dizer tomar posse daquilo a que outra pessoa j� tem direito, a situa��o ficou absolutamente clara. Ela fugira com um homem, e esse homem era um amante ou um marido anterior, e as probabilidades eram a favor dessa �ltima hip�tese.</p><p>- E como foi que os encontrou?</p><p>- Talvez tivesse sido dif�cil, mas nosso amigo Lestrade tinha essa informa��o nas m�os e n�o lhe deu valor. As iniciais eram, claro, de grande import�ncia, mas mais valioso ainda era saber que nessa semana ele pagara a conta em um dos hot�is mais exclusivos de Londres.</p><p>- Como sabia que era exclusivo?</p><p>- Pelos pre�os exclusivos. Oito xelins por um quarto e oito penies por um copo de xerez mostravam que se tratava de um dos hot�is mais caros. N�o h� muitos em Londres que cobram esses pre�os. No segundo que visitei na Avenida Northumberland vi pelo registro que Francis H. Moulton, um cavalheiro americano, sa�ra no dia anterior e vendo os itens de sua conta encontrei exatamente os mesmos que vira na duplicata da conta. A correspond�ncia era para ser enviada a 226 Gordon Square, por conseguinte me encaminhei para l� e tive a sorte de encontrar o casal amoroso em casa. Arrisquei dar-lhes uns conselhos paternais e lhes mostrar que seria melhor, de todos os lados, que esclarecessem sua posi��o ao p�blico em geral e a Lorde St. Simon em particular. Convidei-os a se encontrar com ele aqui, e como viu, obriguei-o a comparecer.</p><p>- Mas sem resultado nenhum - comentei. - A atitude dele n�o foi nada elegante.</p><p>- Ah! Watson, - disse Holmes, sorrindo - talvez voc� tamb�m n�o fosse nada elegante se, depois de todo o trabalho de fazer a corte e se casar, voc� se encontrasse privado no mesmo momento de sua esposa e de uma fortuna. Acho que devemos julgar Lorde St. Simon com muita compaix�o e agradecer os c�us que n�o � prov�vel que jamais nos encontremos na mesma situa��o. Puxe sua cadeira para perto e d�-me meu violino, pois nosso �nico problema agora � como passar essas noites sombrias de outono.</p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong>a coroa de berilo</strong></p><empty-line/><p>�� � - HOLMES - disse uma manh� quando olhava a rua de nossa janela arredondada - tem um louco passando na rua. � uma l�stima que a fam�lia dele o deixe sair sozinho.</p><p>Meu amigo levantou-se pregui�osamente da poltrona onde reclinava e ficou junto de mim, com as m�os nos bolsos do roup�o, olhando sobre meu ombro. Era uma manh� brilhante de fevereiro, fria e seca, e a neve do dia anterior ainda cobria o ch�o reluzindo � luz do sol de inverno. No meio da Rua Baker havia sido mastigada pelos carros, formando uma massa escura, lamacenta, mas dos dois lados da rua e ao longo dos caminhos amontoava-se em flocos cintilantemente brancos. A cal�ada cinzenta havia sido limpa e raspada, mas ainda estava perigosamente escorregadia e poucas pessoas haviam se aventurado a sair. Na verdade, ningu�m vinha andando da dire��o da Esta��o Metropolitana exceto esse �nico cavalheiro cuja conduta exc�ntrica atra�ra minha aten��o.</p><p>�� � � �Era um homem de seus cinq�enta anos, alto, cheio de corpo e imponente, com um rosto maci�o, de fei��es acentuadas. Estava vestido em estilo s�brio mas luxuoso, com uma sobrecasaca preta, chap�u reluzente, polainas marrons e cal�as cinzento-p�rola muito bem talhadas. Mas seus gestos eram um contraste absurdo com a dignidade de suas roupas e fei��es, pois estava correndo aos arrancos, dando pulinhos de vez em quando, como um homem cansado que n�o est� habituado a usar as pernas. Enquanto corria dessa maneira irregular, sacudia as m�os e a cabe�a, e contorcia o rosto em caretas extraordin�rias.</p><p>�� � �- O que h� com esse homem? - perguntei. - Est� olhando o n�mero das casas.</p><p>�� � �- Acho que est� vindo para c� - disse Holmes, esfregando as m�os.</p><p>�� � �- Aqui?</p><p>�� � �- Sim. Creio que vem me consultar profissionalmente. Estou reconhecendo os sintomas. Ali! N�o disse? � � �Enquanto falava, o homem chegou ofegante � nossa porta e tocou a campainha com tal for�a que a casa toda � � � ressoou o clangor.</p><empty-line/><p>�� � � �Poucos instantes depois estava em nossa sala, ainda ofegante e gest�culando ainda, mas com um olhar t�o triste e desesperado que nossos sorrisos morreram e ficamos cheios de horror e compaix�o. Levou um tempo para conseguir falar, balan�ando o corpo e puxando os cabelos, como algu�m que tivesse alcan�ado o limite de suas for�as e estivesse prestes a ter um colapso. De repente, ficando em p�, bateu com a cabe�a contra a parede com tanta for�a que ambos corremos para ele e o arrastamos para o centro da sala. Sherlock Holmes o empurrou na poltrona e, sentando a seu lado, deu pancadinhas em sua �m�o e falou com ele em voz calma e suave, que sabia t�o bem empregar.</p><p>�� � �- Veio aqui me contar sua hist�ria, n�o foi? - disse. - Est� muito cansado, veio t�o depressa. Procure descansar um pouco e recobrar o f�lego e depois terei muito prazer em estudar qualquer problema que tenha para me contar.</p><p>�� � � �O homem ficou sentado por um minuto ou mais respirando fundo e procurando conter a emo��o. Depois passou o len�o na testa, comprimiu os l�bios e virou de frente para n�s.</p><p>�� � �- Naturalmente pensam que sou louco - disse.</p><p>�� � �- Vejo que est� muito abalado, que aconteceu algo muito grave - respondeu Holmes.</p><p>�� � �- S� Deus sabe! Algo que chega a abalar minha raz�o de t�o inesperado e t�o terr�vel. A desgra�a p�blica talvez pudesse encarar, embora seja um homem de car�ter e reputa��o impec�veis. Desgra�a pessoal tamb�m sucede a todos n�s. . . mas as duas ao mesmo tempo, e de forma t�o horr�vel, � bastante para me levar � loucura. Al�m disso, n�o sou s� eu. Os mais nobres do pa�s v�o sofrer tamb�m, se n�o encontrarmos uma solu��o para esse horr�vel problema.</p><p>�� � �- Por favor, controle-se, senhor - disse Holmes. - Conte-me calmamente quem � o senhor e o que aconteceu.</p><p>�� � �- Meu nome - respondeu nosso visitante - deve ser-lhe familiar. Sou Alexander Holder, da firma banc�ria Holder &amp; Stevenson, da Rua Threadneedle.</p><empty-line/><p>�� � � �O nome era realmente muito conhecido e pertencia ao s�cio majorit�ri da segunda maior firma banc�ria privada da cidade de Londres. 0 que poderia ter acontecido para deixar um dos principais cidad�os da grande metr�pole nesse estado lastim�vel? Aguardamos, cheios de curiosidade, at� que, com grande esfor�o, ele se preparou para contar sua hist�ria.</p><empty-line/><p>�� � �- Sinto que o tempo � precioso - disse - e � por isso que corri para c� quando o inspetor de pol�cia sugeriu que devia procurar obter sua coopera��o. Vim para a Rua Baker de metr� e de l� a p�, correndo, pois vi que os carros estavam indo muito devagar, com toda essa neve. � por isso que fiquei sem f�lego, pois sou um homem que n�o faz nenhum exerc�cio. Estou me sentindo melhor agora e vou lhe dar os fatos o mais resumida e claramente poss�vel.</p><p>�� � �- Os senhores naturalmente sabem que o sucesso de uma firma banc�ria depende tanto de nossa habilidade em encontrar investimentos remunerativos para nossos fundos quanto da capacidade de aumentar nossos conhecimentos e o n�mero de nossos depositantes. Uma das formas mais lucrativas de investir dinheiro � em forma de empr�stimos, quando as garantias s�o inquestion�veis. Temos feito muito nesse campo nos �ltimos anos e h� muitas fam�lias nobres a quem temos emprestado grandes quantias, usando como garantia seus quadros, bibliotecas, ou prataria.</p><p>�� � �- Ontem pela manh� estava sentado em meu escrit�rio no banco quando um dos empregados trouxe um cart�o. Tive um sobressalto quando vi o nome, pois era... bem, talvez mesmo para os senhores seja melhor dizer somente que era um nome conhecido no mundo inteiro, um dos nomes mais altos, mais nobres, mais exaltados da Inglaterra. Fiquei assombrado com tanta honra e quando ele entrou, tentei expressar meus sentimentos, mas ele come�ou logo a falar de neg�cios com o ar de quem quer se livrar rapidamente de uma tarefa desagrad�vel.</p><p>�� � �- "Sr. Holder", disse, "fui informado que o senhor tem o costume de emprestar dinheiro".</p><p>�� � � �"A firma faz isso quando a garantia � boa", respondi.</p><p>�� � � �"� absolutamente essencial para mim" disse, "conseguir cinq�enta mil libras imediatamente. Poderia, � claro, obter essa soma insignificante com meus amigos, mas prefiro que seja um neg�cio e tratar desse neg�cio eu mesmo. Em minha posi��o, o senhor h� de compreender que n�o conv�m uma pessoa ficar devendo favores a ningu�m".</p><p>�� � - "Por quanto tempo, se me permite perguntar, vai precisar dessa quantia?" perguntei.</p><p>�� � - "Na pr�xima segunda-feira devo receber uma grande quantia que me � devida e certamente lhe pagarei ent�o o que me adiantar agora, e mais os juros que acho de direito cobrar. Mas � absolutamente essencial que eu tenha esse dinheiro imediatamente".</p><p>�� � - Teria o maior prazer de adiantar-lhe essa quantia do meu pr�prio bolso sem mais dizer", eu disse, "se n�o fosse um pouco acima de meu alcance. Por outro lado, se for fazer isso em nome da firma, para ser justo com meu s�cio devo insistir que, mesmo em seu caso, todas as precau��es comerciais sejam tomadas".</p><p>�� �- "Prefiro mil vezes que seja assim", disse, levantando uma caixa de couro preto, quadrada, que depositara ao lado da cadeira. "Sem d�vida j� ouviu falar da coroa de berilos?"</p><p>�� �- "Um dos bens p�blicos mais preciosos do Imp�rio", observei.</p><p>�� �- "Exatamente". Abriu o estojo e dentro, engastada em veludo macio cor-de-came repousava a magn�fica j�ia a que se referira. "S�o trinta e nove berilos enormes", disse, "e o pre�o do trabalho em ouro � incalcul�vel. A avalia��o mais baixa � o dobro do que lhe pedi. Estou pronto a lhe deixar a coroa em garantia'.</p><p>Peguei o precioso estojo em minhas m�os e olhei um tanto perplexo da coroa para meu ilustre cliente.</p><p>�� �- "Duvida de seu valor?" perguntou.</p><p>�� �- "De maneira nenhuma. Duvido somente..."</p><p>�� �- "Se � correto deix�-la aqui. Pode ficar descansado quanto a isso. Nunca faria uma coisa dessas se n�o tivesse certeza absoluta de que dentro de quatro dias posso reav�-la. � simplesmente uma quest�o de tempo. A garantia � suficiente?"</p><p>�� � -"Amplamente".</p><p>�� � - O senhor compreende, Sr. Holder, que estou dando uma grande prova da confian�a que deposito no senhor, com base em tudo que me disseram a seu respeito. Confio no senhor n�o s� para ser discreto e n�o dizer uma s� palavra sobre esse neg�cio, como tamb�m para cercar essa coroa com todas as poss�veis precau��es, pois � desnecess�rio dizer que causaria um enorme esc�ndalo p�blico se alguma coisa acontecesse com ela. Qualquer dano seria t�o grave quanto sua perda total, pois n�o h� no mundo inteiro berilos iguais a esses e seria totalmente imposs�vel substitu�-los. Vou deix�-la com o senhor, entretanto, com toda a confian�a, e virei busc�-la pessoalmente segunda-feira de manh�.</p><empty-line/><empty-line/><empty-line/><p>�� � - Vendo que meu cliente estava ansioso para ir, nada mais disse. Chamei o caixa e dei ordem para que pagasse a quantia de cinq�enta mil libras em notas de mil. Quando fiquei novamente sozinho, com o precioso estojo � minha frente, n�o pude deixar de pensar com algum receio na imensa responsabilidade que representava para mim. N�o havia d�vida que, j� que se tratava de um bem nacional, haveria um esc�ndalo horr�vel se acontecesse qualquer coisa com a j�ia. Cheguei a me arrepender de haver consentido em ficar com ela. Era tarde demais, no entanto, para mudar de id�ia. Tranquei o estojo em meu cofre pessoal e voltei a meu trabalho.</p><p>�� � - Quando terminou o dia, achei que seria imprudente deixar uma coisa t�o preciosa no escrit�rio. Cofres de banqueiros j� haviam sido arrombados no passado, por que n�o aconteceria o mesmo com o meu? Se isso acontecesse, em que posi��o terr�vel iria me encontrar! Decidi, por conseguinte, que nos pr�ximos dias iria carregar o estojo comigo de um lado para outro, de modo que nunca ficasse longe de meus olhos. Tendo resolvido isso, chamei um carro e fui para minha casa em Streaffiam, carregando a j�ia comigo. S� respirei livremente quando a levei para meus aposentos e a tranquei em uma gaveta no meu quarto de vestir.</p><p>�� � �- Agora preciso dizer algo sobre minha casa, Sr. Holmes, pois quero que compreenda bem a situa��o. Meu empregado e meu lacaio dormem fora de casa, e podem ser postos de lado completamente. Tenho tr�s empregadas que est�o comigo h� muitos anos e que s�o de absoluta confian�a. Uma outra, Luroy Parr s� trabalha para mim h� alguns meses.</p><p>Muito bonita e tem atra�do muitos admiradores, que �s vezes ficam rondando a casa. � o �nico defeito que encontrei nela, mas acredito que seja uma boa mo�a em todos os respeitos.</p><p>�� � �- Isso � quanto aos empregados. Minha fam�lia, em si, � t�o pequena que n�o levar� muito tempo para descrev�-la. Sou vi�vo e tenho um filho �nico, Arthur. Ele tem sido um desgosto para mim, Sr. Holmes, um grande desgosto. N�o tenho d�vidas de que a culpa � minha. Todos dizem que eu o estraguei. � muito prov�vel que seja verdade. Quando minha querida esposa faleceu, senti que ele era tudo que me restava para amar. N�o suportava ver o sorriso desaparecer de seu rosto nem por um instante. Nunca lhe neguei coisa alguma. Talvez tivesse sido melhor para n�s dois se eu tivesse sido mais rigoroso, mas s� queria o bem dele.</p><p>�� � �- Naturalmente minha inten��o era que ele herdasse meu neg�cio, mas n�o tinha inclina��o para isso. Era muito inst�vel, muito aloucado e, para dizer a verdade, n�o lhe podia confiar grandes quantias de dinheiro. Quando era ainda muito jovem, tomou-se s�cio de um clube muito aristocr�tico onde, com suas maneiras encantadoras, logo ficou �ntimo de homens com muito dinheiro e h�bitos extravagantes. Aprendeu a jogar cartas com paradas muito altas e apostar em cavalos at� que teve que vir a mim repetidas vezes implorando que adiantasse algum dinheiro em sua mesada para pagar as d�vidas de jogo. Tentou mais de uma vez largar a companhia perigosa dessas pessoas, mas todas as vezes a influ�ncia de seu amigo, Lorde George Bumwell, foi forte bastante para traz�-lo de volta.</p><p>�� � �-E, na verdade, n�o me espanto de que um homem como Lorde George Bumwell tivesse tanta influ�ncia sobre ele, pois o trouxe muitas vezes � minha casa e vi que eu mesmo mal podia resistir � fascina��o dele. � mais velho que Arthur, um homem vivido, que j� foi a toda parte, j� viu tudo e fez tudo, de conversa brilhante e grande beleza pessoal. No entanto quando penso nele friamente, longe da magia de sua presen�a, tenho a certeza, observando sua maneira c�nica de falar e a express�o que �s vezes vejo em seus olhos, que � um homem em quem n�o se pode confiar. � isso que penso e minha querida Mary tamb�m, com sua intui��o feminina.</p><p>�� � �- S� falta descrever Mary. � minha sobrinha, mas quando meu irm�o faleceu h� cinco anos e a deixou sozinha no mundo, eu a adotei e desde ent�o a considero minha filha. � um raio de sol em minha casa. . . doce, meiga, linda, uma excelente dona-de-casa, tudo que se pode querer em uma mulher. � meu bra�o direito. N�o sei o que faria sem ela. Em uma coisa jamais me contrariou. J� duas vezes meu rapaz a pediu em casamento, pois gosta muito dela, mas das duas ela o recusou. Acho que se h� algu�m que poderia bot�-lo no bom caminho, � ela, e que o casamento poderia mudar o curso de sua vida. Mas agora, meu Deus! � tarde demais, tarde demais!</p><p>�� � �- Agora, Sr. Holmes, o senhor conhece as pessoas que moram em minha casa e posso continuar a minha triste hist�ria.</p><p>�� � � �Quando est�vamos tomando caf� na sala aquela noite, ap�s o jantar, contei a Arthur e Mary o que me havia acontecido e que o tesouro precioso estava naquele momento sob nosso teto, suprimindo apenas o nome de meu cliente. Lucy Parr, que servira o caf�, havia deixado a sala, tenho certeza, mas n�o posso jurar que a porta estivesse fechada. Mary e Arthur ficaram muito interessados e quiseram ver a famosa coroa, mas achei melhor n�o mexer nela.</p><p>�� � � - Onde a botou? perguntou Arthur.</p><p>�� � � - Em uma gaveta em meu quarto de vestir.</p><p>�� � � - Bem, espero que n�o haja um roubo em casa hoje � noite, disse</p><p>Arthur.</p><p>�� � �- Est� trancada, observei.</p><p>�� � �- Ora, qualquer chave serve para abrir aquela sua c�moda velha. Quando era mais jovem eu mesmo a abri com a chave do arm�rio do quarto de dep�sito.</p><p>�� � �- Ele muitas vezes dizia coisas desse g�nero sem falar a s�rio e n�o dei aten��o ao que disse. Seguiu-me at� meu quarto aquela noite, entretanto, com o rosto muito s�rio.</p><p>�� � �- Olhe aqui, papai, disse, de olhos baixos. �Pode me dar duzentas libras?�</p><p>�� � �- N�o, n�o posso! respondi rispidamente.Tenho sido generoso demais com voc� em mat�ria de dinheiro.</p><p>�� � �- Tem sido muito bondoso, respondeu, mas preciso desse dinheiro, ou n�o poderei jamais aparecer no clube novamente.</p><p>�� � �- Isso seria �timo! exclamei.</p><p>�� � �- Talvez, mas n�o quer que eu saia de l� desonrado, retrucou. N�o aguentaria a desgra�a. Tenho de arranjar esse dinheiro de qualquer maneira, e se n�o vai me dar, tenho de procurar outro jeito.</p><empty-line/><p>�� � � � Fiquei muito zangado, pois era a terceira vez que me pedia dinheiro nesse m�s.</p><p>�� � �- N�o ver� mais um tost�o meu, gritei, e com isso ele deu um cumprimento de cabe�a e saiu do quarto sem dizer mais nada.</p><empty-line/><p>�� � � � Depois que ele saiu, destranquei a gaveta da c�moda, vi que meu tesouro estava seguro e tranquei-a novamente. Em seguida percorri a casa para verificar que tudo estava trancado, um dever que cabe geralmente a Mary, mas que achei melhor que eu pr�prio o fizesse essa noite. Quando descia as escadas, vi Mary junto � janela do hall, que fechou e trancou quando me aproximava.</p><empty-line/><p>�� � �- Diga-me, papai, disse, parecendo, achei, um pouco perturbada, deu licen�a a Lucy para sair hoje � noite?</p><p>�� � �- Claro que n�o.</p><p>�� � �- Ela acaba de entrar pela porta dos fundos. Tenho certeza que foi s� at� o port�o do lado para ver algu�m, mas acho que isso n�o � muito seguro n�o devemos deixar que continue.</p><p>�� � �- Deve falar com ela de manh�, ou, se preferir, eu mesmo falo. Tem certeza de que est� tudo trancado?</p><p>�� � �- Certeza absoluta, papai. Dei-lhe um beijo de boa-noite e fui para meu quarto, adormecendo quase imediatamente.</p><empty-line/><p>�� � � �Estou tentando contar tudo que se possa relacionar com o caso, Sr. Holmes, mas pe�o que fa�a perguntas sobre qualquer coisa que n�o lhe pare�a bastante clara.</p><p>�� � �- Pelo contr�rio, sua narrativa � extremamente l�cida.</p><p>�� � �- A parte a que vou chegar agora � que quero que seja especialmente clara. N�o tenho sono pesado e a ansiedade que estava sentindo sem d�vida concorreu para torn�-lo mais leve ainda. Cerca de duas horas da manh�, fui acordado por algum ru�do dentro de casa. Cessou antes que estivesse totalmente acordado, mas tive a impress�o que uma janela fora fechada mansamente em algum lugar. Fiquei deitado com os ouvidos atentos. De repente, para meu horror, ouvi o som distinto de passos no quarto ao lado. Sa� da cama tremendo de medo e olhei pelo canto da porta de meu quarto de vestir.</p><empty-line/><p>�� � - "Arthur! " gritei, "seu vil�o! Ladr�o! Como ousa tocar nessa coroa?"</p><p>�� � - A lamparina de g�s estava baixa, como a deixara, e meu desgra�ado filho, vestindo somente a camisa e cal�as, estava de p� perto da luz com a coroa nas m�os. Parecia estar torcendo a ponta, ou querendo arranc�-la com toda a for�a. Ouvindo minha voz, deixou-a cair e ficou p�lido como um morto. Peguei a coroa e examinei-a. Uma das pontas de ouro, com tr�s berilos, estava faltando.</p><p>�� � - "Seu canalha!" gritei, fora de mim de tanta raiva. "Voc� a destruiu! Desonrou-me para sempre! Onde est�o as pedras que voc� roubou?"</p><p>�� � - "Roubei!" exclamou.</p><p>�� � - "Sim, seu ladr�o"' berrei, sacudindo-o pelos ombros.</p><p>�� � - "N�o est� faltando nenhuma pedra. N�o pode estar faltando", disse.</p><p>�� � - "Est�o faltando tr�s. E voc� sabe onde est�o. Ser� que vou ter de cham�-lo de mentiroso, al�m de ladr�o? N�o vi voc� com meus pr�prios olhos tentando arrancar mais um peda�o?"</p><p>�� � - "J� me insultou demais", disse, "n�o vou suportar mais nada. N�o direi nenhuma palavra sobre isso, j� que resolveu me insultar. Deixarei sua casa de manh� e vou tentar minha vida sozinho".</p><p>�� �- "S� a deixar� nas m�os da pol�cia!" gritei, louco de desgosto e raiva. "Vou investigar esse assunto at� o fim".</p><p>�� �- "N�o vai conseguir arrancar nada de mim", disse com uma viol�ncia que nunca pensei pudesse demonstrar. "Se quer chamar a pol�cia, ent�o eles que descubram o que puderem".</p><empty-line/><p>�� � -A essa altura, a casa toda acordara, pois eu gritara de raiva. Mary foi a primeira a correr a meu quarto e quando viu a coroa e a cara de Arthur, compreendeu tudo e, com um grito, caiu desmaiada. Mandei a empregada buscar a pol�cia e coloquei a investiga��o em suas m�os imediatamente. Quando o inspetor e um pol�cial entraram em casa, Arthur, que estava de p� sombriamente com os bra�os cruzados, perguntou se era minha inten��o acus�-lo de roubo. Respondi que n�o era mais assunto privado, que estava no dom�nio p�blico, j� que a coroa era um bem nacional. Estava decidido que a lei tomaria conta de tudo.</p><p>�� �- "Pelo menos", ele pediu, "n�o me fa�a prender imediatamente. Seria para seu bem, assim como para o meu, se eu pudesse deixar a casa por cinco minutos".</p><p>�� �- "Para poder fugir, ou esconder o que voc� roubou", respondi. E ent�o, ficando consciente da terr�vel posi��o em que me encontrava, implorei que se lembrasse que n�o s� minha honra, mas a honra de algu�m muito mais alto que eu, estava em jogo, e que ia causar um esc�ndalo que revolucionaria a na��o. Poderia evitar tudo se me dissesse o que fizera com as tr�s pedras que faltavam.</p><p>�� � - 'Tem que encarar melhor o fato", supliquei. - Foi pego em flagrante e nenhuma confiss�o tomaria sua culpa mais odiosa. Se voc� fizer o que est� em seu poder e nos disser onde est�o os berilos, tudo ser� esquecido e perdoado".</p><p>�� �- 'Guarde seu perd�o para quem o pedir", respondeu, virando as costas com desd�m.</p><empty-line/><p>�� � � �Vi que estava por demais endurecido para que minhas palavras o atingissem. S� havia uma coisa a fazer. Chamei o inspetor e mandei prend�-lo. Deram imediatamente uma busca, n�o s� em sua pessoa, como em seu quarto e todos os lugares da casa onde poderia ter escondido as pedras, mas n�o encontraram vest�gios delas, e nem o rapaz abriu a boca, apesar de todas as nossas s�plicas e amea�as. Hoje de manh� foi removido para uma cela e eu, depois de passar por todas as formalidades policiais, vim aqui correndo para lhe implorar que use sua per�cia para esclarecer o assunto. A pol�cia confessou abertamente que, no momento, n�o pode fazer nada. Pode gastar tudo que for necess�rio. J� ofereci uma recompensa de mil libras. Meu Deus, que vou fazer! Perdi minha honra, minhas pedras e meu filho, tudo em uma noite s�. Olha, que vou fazer!</p><p>�� � � �Segurou a cabe�a com as m�os e balan�ou o corpo de um lado para o outro, murmurando baixinho como uma crian�a cujo sofrimento se tivesse tornado insuport�vel.</p><p>�� � � �Sherlock Holmes ficou sentado em sil�ncio por alguns minutos, com a testa franzida e os olhos fixos no fogo.</p><p>�� � �- O senhor recebe muito? - perguntou.</p><p>�� � �- Niro, a n�o ser meu s�cio e sua fam�lia e ocasionalmente amigos de Arthur. Lorde George Bumwell foi l� v�rias vezes ultimamente. Ningu�m mais, acho.</p><p>�� � �- Sai muito socialmente?</p><p>�� � �- Arthur sai. Mary e eu ficamos em casa. Nenhum de n�s dois gosta muito de sair.</p><p>�� � �- Isso n�o � comum para uma mo�a.</p><p>�� � �- Ela � muito quieta. Al�m disso, n�o � t�o mo�a assim. J� tem vinte</p><p>�� � �- O que aconteceu, pelo que disse, parece que a abalou muito tamb�m.</p><p>�� � �- Profundamente! Est� pior ainda do que eu.</p><p>�� � �- Nenhum dos dois tem a menor d�vida de que seu filho � culpado?</p><p>�� � �- Como podemos ter, quando eu o vi, com meus pr�prios olhos, com a coroa nas m�os?</p><p>�� � �- N�o considero isso uma prova conclusiva. 0 resto da coroa foi danificado de alguma maneira?</p><p>�� � �- Sim, ela ficou torcida.</p><p>�� � �- N�o acha, ent�o, que talvez ele estivesse tentando consert�-la?</p><p>�� � �- Deus o aben�oe! Est� fazendo o que pode por ele e por mim. Mas � uma tarefa imposs�vel. 0 que estaria fazendo l�, em primeiro lugar? Se era inocente, por que n�o disse logo?</p><p>�� � - Precisamente. E se fosse culpado, por que n�o inventou uma mentira? Seu sil�ncio, a meu ver, pode ser pelas duas raz�es. H� v�rios pontos singulares nesse caso. 0 que a pol�cia achou do barulho que o acordou?</p><p>�� � �- Acharam que poderia ter sido causado por Arthur, fechando a porta de seu quarto.</p><p>�� � �- Muito pouco prov�vel! Um homem com a inten��o de praticar um crime n�o iria bater uma porta e acordar a casa inteira. E o que disseram do desaparecimento das pedras?</p><p>�� � �- Ainda est�o sondando o assoalho e examinando a mob�lia na esperan�a de encontr�-las.</p><p>�� � �- Pensaram em procurar fora da casa?</p><p>�� � �- Sim, t�m demonstrado uma energia extraordin�ria. J� examinaram o jardim inteiro minuciosamente.</p><p>�� � �- Bem, meu caro senhor, - disse Holmes, - n�o � �bvio para o senhor agora que esse assunto � muito mais complexo do que o senhor ou a pol�cia pensaram de in�cio? Pareceu-lhe ser um caso muito simples; para mim, parece extremamente complicado. Considere o que sua teoria representa. 0 senhor sup�e que seu filho saiu da cama, foi, com grande risco, a seu quarto, abriu sua c�moda, tirou a coroa, quebrou � for�a um peda�o, foi para outro lugar, escondeu tr�s pedras das trinta e nove t�o bem que ningu�m conseguiu ach�-las e depois voltou com as outras trinta e seis para o quarto onde se expunha ao mais grave risco de ser encontrado. Agora lhe pergunto, essa teoria � v�lida?</p><p>�� � �- Mas n�o existe outra - exclamou o banqueiro, com um gesto de desespero. - Se seus motivos eram inocentes, por que n�o os explica?</p><p>�� � �- � nosso dever descobrir isso, respondeu Holmes, por isso agora, se me permite, Sr. Holder, vamos para Streatharn juntos, passar uma hora olhando mais atentamente os detalhes.</p><empty-line/><p>�� � � � Meu amigo insistiu que os acompanhasse em sua expedi��o, o que estava ansioso por fazer, pois minha curiosidade e compaix�o haviam sido despertadas pela hist�ria que t�nhamos acabado de ouvir. Confesso que a culpa do filho do banqueiro me parecia t�o evidente quanto a seu infeliz pai, mas ainda tinha tanta confian�a na opini�o de Holmes que senti que devia haver bases,se ter esperan�a, j� que ele n�o estava satisfeito com a explica��o dada. Pai n�o disse uma palavra a caminho do long�nquo sub�rbio ao Sul da cidade. Ficou sentado com o queixo afundado no peito e o chap�u puxado sobre os olhos, imerso em profundos pensamentos. Nosso cliente parecia ter adquirido novo �nimo com o pequeno vislumbre de esperan�a que fora apresentado e chegou at� a conversar livremente comigo sobre seus neg�cios. Uma curta viagem de trem e um percurso a p� ainda mais curto nos levaram a Fairbank, a modesta resid�ncia do firiancista.</p><empty-line/><p>�� � � � Fairbank era uma casa quadrada de bom tamanho, de pedras brancas, um pouco distante da rua. Uma entrada da largura de duas carruagens e um gramado vestido de neve se estendiam em frente at� os dois grandes port�es de ferro que barravam a entrada. � direita havia um agrupamento denso de arbustos que levava a um caminho estreito entre duas sebes se estendendo da estrada at� a porta da cozinha e- formando a entrada de servi�o. � esquerda corria a vereda que levava � estrebaria e que n�o ficava dentro da propriedade, era uma via p�blica, embora pouco usada. Holmes nos deixou parados em frente � porta e andou lentamente em redor da casa, cruzou a frente, seguiu a entrada de servi�o e, dando a volta pelo jardim, a vereda que ia para a estrebaria. Demorou tanto que o Sr. Holder e eu fomos para a sala de jantar e esperamos junto � lareira. Est�vamos sentados em sil�ncio quando a porta se abriu e uma mo�a entrou. Era acima da altura m�dia, esbelta, com cabelos e olhos escuros, que pareciam mais escuros ainda em contraste com a pele muito p�lida. Acho que nunca vi um rosto de mulher t�o p�lido. Os l�bios tamb�m eram descorados, mas os olhos estavam vermelhos de chorar. Quando entrou silenciosamente na sala senti o impacto de sua profunda dor, muito mais do que com o banqueiro de manh�, o que era surpreendente, pois era �bvio que era uma mulher forte, com imensa capacidade de autocontrole. Ignorando minha presen�a, foi direto ao tio e passou a m�o pelos seus cabelos, num gesto meigo e carinhoso.</p><p>�� � �- Deu ordem para que soltassem Arthur, n�o foi, papai? - perguntou.</p><p>�� � �- N�o, n�o, minha filha, temos que levar essa investiga��o ao fim.</p><p>�� � �- Mas tenho certeza que ele � inocente. Sabe o que s�o os instintos de uma mulher. Sei que ele n�o fez nada de mal e o senhor vai se arrepender de ter sido t�o severo.</p><p>�� � �- Por que ficou calado, se � inocente?</p><p>�� � �- Quem sabe? Talvez porque estivesse muito zangado de o senhor ter �desconfiado dele.</p><p>�� � �- Como poderia deixar de suspeit�-lo, se o vi com meus pr�prios olhos com a coroa nas m�os?</p><p>�� � �- Oh, mas s� pegara nela para olhar. Oh, por favor, acredite em mim, sei que � inocente. Deixe isso de lado, n�o diga nada mais. � horr�vel pensar em nosso querido Arthur na pris�o!</p><p>�� � �- N�o vou deixar nada de lado at� as pedras serem encontradas... nunca, Mary! Sua afei��o por Arthur a est� cegando quanto �s horr�veis conseq��ncias para mim. Em vez de abafar o assunto, trouxe um cavalheiro de Londres para fazer uma investiga��o mais minuciosa.</p><p>�� � - Esse cavalheiro? - perguntou, virando para mim.</p><p>�� � - N�o, seu amigo. Queria ficar s�. Est� andando pela vereda da estrebaria nesse momento.</p><p>�� � - A vereda da estrebaria? - Ergueu as sobrancelhas escuras. - 0 que espera encontrar l�? Ali, deve ser ele que chega. Espero, senhor, que consiga provar o que tenho certeza, � verdade, que meu, primo Arthur � inocente desse crime.</p><p>�� � �- Concordo inteiramente com a senhora e espero, como a senhora, que possa prov�-lo - disse Holmes, voltando para o capacho para sacudir a neve dos sapatos. - Creio que tenho a honra de me dirigir � Srta. Mary Holder. Posso fazer-lhe uma ou duas perguntas?</p><p>�� � �- Certamente, senhor, se � para ajudar a esclarecer esse horr�vel mist�rio.</p><p>�� � �- N�o ouviu nada � noite passada?</p><p>�� � �- Nada, at� meu tio come�ar a falar em voz alta. Ouvi isso, e desci.</p><p>�� � �- Fechou todas as janelas e portas a noite anterior. Trancou todas as janelas?</p><p>�� � �- Sim.</p><p>�� � �- Estavam todas trancadas esta manh�?</p><p>�� � �- Estavam.</p><p>�� � �- Tem uma empregada que tem um namorado? Acho que comentou com seu tio � noite passada que ela sa�ra para v�-lo?</p><p>�� � �- Sim, e foi ela que nos serviu na sala e que talvez tenha ouvido os coment�rios de meu tio sobre a coroa.</p><p>�� � �- Entendo. Est� sugerindo que ela podia ter sa�do para contar ao namorado e que os dois podem ter planejado o roubo.</p><p>�� � �- Mas de que adiantam todas essas teorias vagas - exclamou o banqueiro impaciente - quando lhe disse que vi Arthur com a coroa nas m�os?</p><p>�� � �- Espere um pouco, Sr. Holder. Voltaremos a esse ponto. Com respeito a essa mo�a, Srta. Holder. A senhora a viu voltar pela porta da cozinha, suponho?</p><p>�� � �- Sim. Quando fui verificar se a porta estava trancada, encontrei-a entrando sorrateiramente. Vi o homem, tamb�m, no escuro.</p><p>�� � �- A senhora o conhece?</p><p>�� � �- Sim. � o rapaz que traz nossas verduras. Seu nome � Francis</p><p>�� � �- Ele estava - disse Holmes - � esquerda da porta, isto �, tinha ido mais longe no caminho do que era necess�rio para alcan�ar a porta?</p><p>�� � �- Sim.</p><p>�� � �- E � um homem que tem uma perna de pau?</p><p>Algo parecido com o medo invadiu os olhos escuros expressivos da mo�a.</p><p>�� � �- O senhor � como um m�gico - disse. - Como sabia isso? - Sorriu, mas o rosto magro de Holmes continuou completamente s�rio.</p><p>�� � �- Gostaria muito de ir l� em cima agora - disse. - Provavelmente vou querer examinar o lado de fora novamente. Talvez seja melhor olhar as janelas de baixo antes de subir.</p><p>�� � � �Foi rapidamente de uma a outra, parando apenas na grande janela que dava do hall para a vereda da cocheira. Esta ele abriu, e examinou cuidadosamente o peitoril com a poderosa lente.</p><p>�� � �- Agora vamos subir - disse.</p><empty-line/><p>�� � � �O quarto de vestir do banqueiro era mobiliado simplesmente, com um tapete cinza, uma grande c�moda e um espelho longo. Holmes foi primeiro at� � c�moda e examinou a fechadura.</p><p>�� � �- Qual foi a chave que foi usada para abri-la? - perguntou.</p><p>�� � �- A que meu filho mesmo mencionou, a do arm�rio no quarto que serve de dep�sito de lenha.</p><p>�� � �- E onde est� essa chave?</p><p>�� � �- � essa que est� a� em cima.</p><empty-line/><p>�� � � �Sherlock Holmes pegou a chave e abriu a c�moda.</p><p>�� � �- � uma fechadura silenciosa - disse. - N�o � de admirar que n�o o tenha acordado. Esse estojo, presumo, cont�m a coroa. Vamos dar uma vista de olhos. - Abriu o estojo e, depositou-o sobre a mesa. Era uma amostra magn�fica da arte de joalheria e as trinta e seis pedras, mais lindas que j� vi. Em um dos lados da coroa havia um peda�o quebrado, deixando uma beira irregular, onde a ponta que segurava tr�s pedras havia sido arrancada.</p><p>�� � �- Bem, Sr. Holder, - disse Holmes - aqui est� uma ponta que corresponde � que foi infelizmente perdida. Pe�o-lhe que tente quebr�-la.</p><p>�� � � �O banqueiro recuou horrorizado. - Nem pensaria em fazer uma coisa - disse.</p><p>�� � �- Ent�o eu mesmo fa�o. - Holmes exerceu a m�xima press�o sobre a ponta, mas nada aconteceu. - Senti que cedia um pouco, - disse - mas, embora tenha uma for�a excepcional nos dedos, levaria um tempo enorme para quebrar um peda�o. Um homem comum n�o conseguiria. E ent�o, o que pensa que aconteceria se conseguisse quebrar a coroa, Sr. Holder? Haveria um estalo como um tiro de rev�lver. Vai me dizer que tudo isso aconteceu a poucos passos de sua cama e que o senhor n�o ouviu nada?</p><p>�� � �- N�o sei o que pensar. Tudo est� muito obscuro.</p><p>�� � �- Mas talvez fique mais claro � medida que prosseguirmos. 0 que a senhora pensa, Srta. Holder?</p><p>�� � �- Confesso que estou t�o perplexa quanto meu tio.</p><p>�� � �- Seu filho n�o usava sapatos nem chinelos quando o viu?</p><p>�� � �- N�o usava nada a n�o ser as cal�as e a camisa.</p><p>�� � �- Obrigado. Na verdade fomos favorecidos com uma sorte extraordin�ria nessa investiga��o e ser� inteiramente nossa culpa se n�o conseguirmos elucidar o mist�rio. Com sua permiss�o, Sr. Holder, continuarei minhas investiga��es l� fora.</p><empty-line/><p>�� � � �Saiu sozinho, a pedido seu, pois explicou que pegadas desnecess�rias tornariam sua tarefa mais dif�cil. Trabalhou por uma hora ou mais, voltando finalmente com os p�s carregados de neve e as fei��es impenetr�veis como sempre.</p><empty-line/><p>�� � �- Acho que vi tudo que h� para ver, Sr. Holder - disse. - Posso servi-lo melhor voltando a meus aposentos.</p><p>�� � �- Mas as pedras, Sr. Holmes. Onde est�o elas?</p><p>�� � �- N�o posso dizer.</p><p>�� � � �0 banqueiro torceu as m�os.</p><p>�� � �- Nunca mais as verei! - exclamou. - E meu filho? 0 senhor me d� alguma esperan�a?</p><p>�� � �- Minha opini�o n�o se modificou em nada.</p><p>�� � �- Mas, pelo amor de Deus, qual foi esse drama que ocorreu em minha casa ontem � noite?</p><p>�� � �- Se o senhor pode ir me ver na Rua Baker amanh� de manh� entre nove e dez horas terei o prazer de fazer o poss�vel para tornar tudo mais claro. Entendo que me d� carte blanche para agir pelo senhor, desde que recupere as pedras, e que n�o h� limite para a quantia que tenha de despender.</p><p>�� � �- Daria toda minha fortuna para reaver as pedras.</p><p>�� � �- Muito bem. Estudarei o assunto de agora at� l�. At� logo. � poss�vel que eu tenha de voltar aqui antes de hoje � noite.</p><empty-line/><p>�� � � � Era evidente para mim que meu companheiro j� chegara a uma conclus�o, embora n�o tivesse a menor id�ia de qual poderia ser. V�rias vezes na viagem de volta � casa tentei sond�-lo nesse ponto, mas ele sempre desviou a conversa para outro assunto, at� que desisti. N�o eram ainda tr�s horas quando nos encontramos novamente em nossa sala. Foi depressa para o quarto e desceu dentro de poucos minutos vestido como um vagabundo. Com a gola do casaco pu�do e lustroso levantada, uma echarpe vermelha suja e botas gastas, era um perfeito esp�cime da classe.</p><p>�� � �- Acho que estou pass�vel - disse, olhando-se no espelho acima da lareira. - Gostaria que viesse comigo, Watson, mas receio que n�o d� certo. Pode ser que esteja na pista certa ou pode ser que esteja perseguindo um fantasma, breve saberei qual dos dois. Espero estar de volta dentro de poucas horas.</p><empty-line/><p>�� � � � Cortou uma fatia de carne do pernil que estava em cima do aparador, colocou-a entre duas fatias de pio e, enfiando essa rude refei��o no bolso, partiu em sua expedi��o.</p><p>�� � � � Estava terminando meu ch� quando voltou, evidentemente de �timo bom humor, balan�ando na m�o uma velha bota com el�stico dos lados. Atirou-a em um canto e serviu-se de ch�.</p><p>�� � �- S� parei um instante - disse. - Vou sair de novo agora mesmo.</p><p>�� � �- Onde vai?</p><p>�� � �- Oh, do outro lado de West End. Talvez demore bastante. N�o espere por mim, posso chegar muito tarde.</p><p>�� � �- Como est�o indo as coisas?</p><p>�� � �- Oh, mais ou menos. N�o posso me queixar. Fui at� Streatham, mas n�o falei com ningu�m na casa. � um problema muito interessante, desses que pago para solucionar. Mas n�o posso ficar aqui conversando, tenho de trocar essas roupas rales e voltar a ser um homem respeit�vel.</p><empty-line/><p>�� � � �Vi pelo seu jeito que tinha fortes raz�es para estar satisfeito, mais que suas palavras deixavam transparecer. Os olhos brilhavam e havia at� um pouco de cor em suas faces amareladas. Subiu as escadas depressa e pouco ap�s ouvi a porta do quarto bater, o que queria dizer que estava novamente em campo.</p><p>Esperei at� a meia-noite, mas n�o havia sinal dele, assim recolhi-me a meu quarto. Era comum ficar fora de casa dias e noites a fio quando seguia uma pista e essa demora em nada me espantou. N�o sei a que horas voltou,quando desci para o caf� no dia seguinte, l� estava ele com uma x�cara de caf� em uma das m�os e o jornal na outra, com o ar repousado e bem-arrumado como sempre.</p><empty-line/><p>�� � �- Perdoe-me ter come�ado sem voc�, Watson, - disse - mas deve se lembrar que nosso cliente tem hora marcada hoje cedo.</p><p>�� � �- Ora, j� passa das nove - respondi. - Acho que � ele que est� chegando. Ouvi a campainha.</p><empty-line/><p>�� � � � Era, realmente, nosso amigo, o banqueiro. Fiquei chocado com a transforma��o que se operara nele, pois o rosto, normalmente largo e maci�o, estava agora emaciado e murcho, e os cabelos pareciam bem mais brancos. Entrou de maneira cansada e let�rgica que era muito mais dolorosa que a viol�ncia do dia anterior e se deixo u cair na poltrona que puxei � frente para ele.</p><empty-line/><p>�� � � - N�o sei o que fiz para ser castigado dessa forma - disse.Apenas dois dias era um homem feliz e pr�spero, sem nenhum problema. Agora enfrento uma velhice solit�ria e sem honra. Um desgosto vem atr�s do outro. Minha sobrinha Mary me abandonou.</p><p>�� � �- Abandonou-o?</p><p>�� � �- Sim. Sua cama est� manh� n�o havia sido ocupada, seu quarto estava vazio e havia um bilhete para mim na mesa do bar. Disse-lhe ontem � noite, com pesar, sem m�goa nenhuma, que se tivesse casado com meu rapaz talvez tudo tivesse sido diferente. Talvez n�o devesse ter dito isso. � a isso que ela se refere nesse bilhete: "Meu querido tio: Sinto que fui eu que lhe trouxe esses problemas e que se tivesse agido diferente essa desgra�a n�o teria acontecido. N�o posso, com essa id�ia no pensamento, nunca mais ser feliz debaixo de seu teto e sinto que devo deix�-lo para sempre. N�o se preocupe com meu futuro, pois est� garantido. E, acima de tudo, n�o procure por mim, pois de nada adiantar� e ser� �pior para mim. Na vida e na morte, serei sempre a que muito lhe quer. Mary". 0 que quer dizer com esse bilhete, Sr. Holmes? Acha que indica suic�dio?</p><p>�� � �- N�o, n�o, nada disso. � talvez a melhor solu��o. Acho, Sr. Holder, que o senhor est� chegando ao fim de suas tribula��es.</p><p>�� � - Ah! 0 senhor est� dizendo isso! 0 senhor ouviu alguma coisa, Sr. Holmes, o senhor descobriu alguma coisa! Onde est�o as pedras?</p><p>�� � �- N�o considera mil libras cada uma um pre�o excessivo?</p><p>�� � �- Pagaria at� dez.</p><p>�� � �- Isso n�o ser� necess�rio. Tr�s mil libras s�o bastante. E h� uma pequena recompensa, acredito. Tem seu tal�o de cheques consigo? Aqui est� uma pena. � melhor fazer o cheque para quatro mil libras.</p><empty-line/><p>�� � � � Com um ar aturdido o banqueiro preencheu o cheque. Holmes foi at� a secret�ria, tirou um peda�o triangular de ouro com tr�s pedras cravadas e jogou-o sobre a mesa.Com uma exclama��o de alegria, nosso cliente o agarrou.</p><p>�� � �- O senhor conseguiu! - balbuciou. - Estou salvo! Estou salvo!</p><p>A rea��o de alegria foi t�o violenta quanto sua dor havia sido, e apertou as pedras contra o peito.</p><p>�� � �- H� mais uma coisa que o senhor deve, Sr. Holder - disse Sherlock Holmes, novamente.</p><p>�� � �- Devo! - Pegou a pena. - Diga quanto e pagarei.</p><p>�� � �- N�o, a d�vida n�o comigo. 0 senhor deve um pedido de desculpa, com toda humildade, �quele nobre rapaz, seu filho.</p><p>�� � �- Ent�o n�o foi Arthur que roubou as pedras?</p><p>�� � �- Eu lhe disse ontem e repito hoje que n�o foi ele.</p><p>�� � �- Tem certeza! Ent�o vamos ter com ele imediatamente, para lhe dizer que sabemos a verdade.</p><p>�� � �- Ele j� sabe. Quando esclareci tudo tive uma entrevista com ele e vendo que n�o ia me contar a hist�ria, eu �contei a ele. Sendo assim, teve de confessar que eu estava com a raz�o e acrescentou uns pequenos detalhes que ainda n�o estavam bem claros para mim. Suas not�cias de hoje, entretanto, talvez o fa�am falar.</p><p>�� � �- Pelo amor de Deus, diga-me ent�o que mist�rio extraordin�rio �esse!</p><p>�� � �- Vou lhe dizer e vou lhe mostrar as etapas que atravessei para chegar a uma conclus�o. E deixe-me dizer em primeiro lugar o que � mais dif�cil de falar e mais dif�cil para o senhor ouvir. Houve um entendimento entre sua sobrinha, Mary, e Lorde George BumweU. Fugiram juntos.</p><p>�� � �- Minha Mary? Imposs�vel!</p><p>�� � �- Infelizmente, � mais do que poss�vel, � um fato. Nem o senhor nem seu filho conheciam o verdadeiro car�ter desse homem quando o admitiram em seu c�rculo de fam�lia. � um dos homens mais perigosos da Inglaterra, um jogador arruinado, um vil�o completamente desesperado, um homem sem cora��o nem consci�ncia. Sua sobrinha n�o sabia nada de homens assim. Quando murmurou seu amor por ela, como fizera com centenas antes dela, ficou convencida de que s� ela tocara seu cora��o. S� o dem�nio sabe o que ele lhe disse, mas finalmente ela se tornou seu instrumento e tinha o costume de v�-lo quase todas as noites.</p><p>�� � �- N�o posso, n�o quero acreditar nisso! - exclamou o banqueiro, de rosto l�vido.</p><p>�� � �- Vou lhe contar o que aconteceu em sua casa aquela noite. Sua sobrinha, quando viu que o senhor tinha ido para seu quarto, desceu sorrateiramente e conversou com seu amante pela janela que d� para o caminho da estrebaria. Ele ficou tanto tempo de p� ali que seus p�s comprimiram a neve, deixando marcas. Ela contou-lhe sobre a coroa, despertando sua gan�ncia por ouro e ele a convenceu a obedecer suas ordens. N�o tenho d�vida alguma que ela amava o senhor, mas h� mulheres que o amor de um homem destr�i todos os outros amores e acho que ela era uma dessas. Mal ouvira as instru��es que ele lhe dava quando viu o senhor descendo as escadas e fechou a janela rapidamente falando da empregada e seu namorado de perna de pau, o que era verdade absoluta.</p><p>�� � �- Seu filho, Arthur, foi para a cama ap�s o encontro com o senhor, mas n�o conseguiu dormir devido a sua preocupa��o com a d�vida do clube. No meio da noite ouviu passos leves passando por sua porta, ent�o levantou e, olhando da porta, ficou surpreso de ver sua prima caminhando pelo corredor at� desaparecer em seu quarto de vestir. Completamente at�nito, o rapaz enfiou umas roupas e esperou no escuro para ver o que iria acontecer. Pouco depois ela saiu do quarto e, � luz da l�mpada do corredor, seu filho viu que levava a preciosa coroa nas m�os. Ela desceu as escadas e ele, tremendo de horror, correu e se escondeu atr�s da cortina perto de sua porta, de onde podia ver o que se passava no hall abaixo. Viu-a abrir a janela sorrateiramente, entregar a coroa a algu�m na escurid�o e fech�-la novamente, correndo de volta para o quarto e passando bem perto de onde ele se escondia.</p><p>�� � � � Enquanto ela estava em cena, n�o podia agir sem expor a mulher que amava. Mas no momento em que ela desapareceu no quarto compreendeu que o isso seria para o senhor e como era importante procurar consertar a situa��o. Correu pelas escadas, assim como estava, descal�o, abriu a janela,e correu pelo caminho, onde podia ver um vulto escuro ao luar. Lorde George Bumwe� tentou fugir, mas Arthur o pegou e houve uma briga entre eles, seu filho puxando um lado da coroa e seu advers�rio, o outro. Na confus�o, seu filho bateu em Lorde George e feriu-o no olho. De repente alguma coisa arrebentou e seu filho, vendo que estava com a coroa nas m�os, voltou correndo, fechou a janela, subiu a seu quarto e acabara de notar que a coroa estava retorcida e procurava consert�-la quando o senhor surgiu em cena.</p><p>�� � �- Ser� poss�vel? - balbuciou o banqueiro.</p><p>�� � �- Ent�o o senhor �insultando-o no momento em que ele achava que merecia seu mais profundo agradecimento. N�o podia explicar a verdade dos fatos sem trair a quem certamente n�o merecia a menor considera��o. Tomou o ponto de vista mais cavalheiresco, entretanto, e guardou segredo.</p><p>�� � �- E � por isso que ela gritou e desmaiou quando viu a coroa - exclamou o Sr. Holder. - Olhe, meu Deus! Que cego idiota eu fui! E ele me pedindo para sair por cinco minutos! Meu pobre rapaz queria ver se o peda�o que faltava estava no local da briga. Como fui injusto com ele!</p><p>�� � �- Quando cheguei � sua casa - continuou Holmes - fui logo examinar cuidadosamente em volta para ver se havia qualquer pista na neve que pudesse me ajudar. Sabia que n�o ca�ra mais neve desde a noite anterior e tamb�m que houvera geada e a neve congelara, preservando qualquer impress�o. Segui a entrada de servi�o, mas essa estava pisada e repisada e as pegadas eram indistintas. Logo al�m, no entanto, do outro lado da porta da cozinha, uma mulher estivera falando com um homem, e uma marca redonda de um lado mostrava que tinha uma perna de pau. Pude at� ver que eles haviam sido interrompidos, pois a mulher correra de volta para a porta, como provavam as impress�es profundas da ponta dos p�s e muito leve no calcanhar, enquanto que perna-de-pau esperara um pouco e depois fora embora. Pensei na ocasi�o que se poderia tratar da empregada e seu namorado, de quem o senhor j� me falara, e isso foi confirmado posteriormente. Passei pelo jardim sem ver nada al�m de pegadas sem dire��o precisa, que julguei serem da pol�cia, mas quando cheguei ao caminho da estrebaria encontrei a hist�ria escrita na neve � minha frente.</p><p>�� � �- Havia uma linha dupla de pegadas de um homem de botas e uma segunda linha dupla que vi com satisfa��o pertencia a um homem descal�o. Tive imediatamente certeza, pelo que o senhor me dissera, que essa �ltima era de seu filho. 0 primeiro andara em ambas as dire��es, mas o outro correra rapidamente e, como em certos lugares suas pegadas estavam em cima das depress�es causadas pelas botas, era evidente que ele seguira o outro. Segui as marcas e descobri que levavam � janela do hall, onde as botas haviam desgastado a neve enquanto esperava. Fui ent�o para o outro extremo, que era a uns cem metros; ou mais. Vi onde as botas virara, onde a neve estava toda pisada e amassada, como se tivesse havido uma luta, e finalmente, onde algumas gotas de sangue haviam ca�do, para provar que estava certo.Correra ent�o pelo caminho e outras pequenas manchas de sangue mostravam que era ele que estava machucado. Quando alcan�ou a estrada na outra extremidade, vi que a neve havia sido retirada e foi o fim dessa pista.</p><p>�� � �- Ao entrar na casa, entretanto, examinei, como deve se lembrar, o peitoril da janela do hall com a lente e pude logo ver que algu�m havia sa�do por ela. Pude distinguir o esbo�o de dedos e calcanhar onde um p� molhado se apoiara ao entrar. Estava ent�o come�ando a formar uma imagem do que havia acontecido. Um homem esperara do lado de fora da janela, algu�m lhe trouxera a j�ia; esse ato fora visto por seu filho, que o perseguira, lutara com ele, ambos puxaram a coroa e a combina��o de seus esfor�os causou danos que nenhum dos dois sozinho poderia causar. Seu filho voltara com a j�ia, mas deixara um peda�o nas m�os do advers�rio. At� a�, tudo bem. A quest�o agora era: quem era o homem, e quem lhe dera a coroa?</p><p>�� � �- � um velho preceito meu que quando se exclui o imposs�vel, o que resta, n�o importa qu�o improv�vel seja, deve ser a verdade. Sabia que n�o fora o senhor que trouxera a coroa, ent�o s� restava sua sobrinha ou as empregadas. Mas se fossem as empregadas, por que seu filho se deixaria acusar em seu lugar? N�o poderia haver nenhuma raz�o. Mas amava sua prima e portanto havia uma excelente raz�o para guardar seu segredo, especialmente por se tratar de um segredo vergonhoso. Quando me lembrei que o senhor a vira perto daquela janela e que ela desmaiara quando viu a coroa novamente, minha suposi��o tornou-se uma certeza.</p><p>�� � �- E quem poderia ser seu c�mplice? Um namorado, evidentemente, pois quem mais poderia anular o amor e gratid�o que sentia pelo senhor? Sabia que sa�am pouco, que seu c�rculo de amigos era muito limitado. Mas Lorde George Burnwell era parte desse c�rculo. J� ouvira falar dele como sendo homem de p�ssima reputa��o no que diz respeito a mulheres. Deveria ter sido ele que usava aquelas botas e ficara com as pedras. Mesmo sabendo que Arthur -o desmascarara, devia estar convencido que estava seguro, pois o rapaz n�o podia dizer uma palavra sem comprometer sua pr�pria fam�lia.</p><p>�� � �- Seu bom senso lhe dir� o que fiz em seguida. Disfarcei-me como um vagabundo, fui at� a casa de Lorde George, consegui fazer amizade com seu criado de quarto, soube que seu patr�o havia dado um corte no rosto na noite anterior e finalmente confirmei tudo comprando, por seis xelins, um par de seus sapatos velhos. Com esses na m�o, fui at� Streatharn e verifiquei que correspondiam perfeitamente �s pegadas.</p><p>�� � �- Vi um sujeito mal vestido no caminho ontem � noite - disse o Sr. Holder.</p><p>�� � �- Precisamente. Era eu. Quando vi que tinha meu homem, vim para casa e troquei de roupa. 0 papel que tive de desempenhar ent�o era bastante delicado, pois sabia que n�o era poss�vel processar para evitar um esc�ndalo, e que um vil�o t�o astuto logo veria que est�vamos de m�os amarradas. Fui v�-lo. A princ�pio, naturalmente, negou tudo. Mas quando lhe contei em detalhes tudo que havia acontecido, tentou me amea�ar e pegou uma arma pendurada na parede. Conhecia meu homem, entretanto, encostei uma pistola em sua cabe�a antes que pudesse me atingir. A� ficou um pouco mais razo�vel. Disse-lhe que lhe pagar�amos uma quantia adequada pelas pedras em seu poder, mil fibras cada uma. Isso provocou sua primeira rea��o de arrependimento at� ent�o. "Que diabos!" disse, "vendi por seiscentos as tr�s". Consegui obter dele o endere�o do comprador com a promessa de que n�o seria processado. Fui logo procurar o outro e depois de muito barganhar, consegui as pedras por mil libras cada. Em seguida fui ver seu filho, disse-lhe que estava tudo bem e eventualmente fui para a cama cerca de duas horas da manh�, depois do que posso chamar de um dia duro de trabalho.</p><p>�� � �- Um dia que salvou a Inglaterra de um grande esc�ndalo p�blico - disse o banqueiro, levantando-se. - Sr. Holmes, n�o tenho palavras com que lhe agradecer, mas ver� que sei expressar minha gratid�o pelo que o senhor fez. Sua per�cia realmente excedeu tudo que j� ouvira falar. E agora vou voando para meu filho, para pedir perd�o pela injusti�a que cometi com ele. Quanto ao que me disse sobre a pobre Mary, estou desolado. Nem mesmo sua per�cia me pode dizer onde ela se encontra nesse momento.</p><p>�� � �- Acho que podemos dizer com certeza - retorquiu Holmes - que ela est� onde est� Lorde George. � tamb�m certo que, sejam quais forem seus pecados, breve receber�o castigo mais que suficiente.</p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong>as tiras roxas</strong></p><empty-line/><p>- PARA O HOMEM que ama a arte por amor � arte, - observou Sherlock Holmes, jogando de lado o caderno de an�ncios do Daily � muitas vezes em sua manifesta��es menos importantes e mais humildes que encontra o maior prazer. Fico contente de notar, Watson, que voc� compreendeu isso t�o bem que nessas narrativas de nossos casos que voc� teve a bondade de redigir e, devo acrescentar, algumas vezes embelezar, tem dado destaques n�o tanto �s muitas causes e julgamentos sensacionais em que tomei parte e sim �queles incidentes que podem ter sido triviais em si mesmos, mas que davam ensejo �s faculdades de dedu��o e s�ntese l�gica que Mo minha especialidade.</p><p>- No entanto - respondi, sorrindo - n�o consigo ser completamente absolvido da acusa��o de sensacionalismo imputada a meus relatos.</p><p>- Errou, talvez, - comentou, pegando uma brasa com a tenaz e acendendo o longo cachimbo de cerejeira que substitu�a o de barro quando estava em estado de esp�rito discursivo e n�o meditativo - errou, talvez, em tentar dar vida e cor a cada uma de suas declara��es, em vez de se limitar � tarefa de registrar o racioc�nio r�gido de causa e efeito, que � realmente o �nico aspecto not�vel de tudo isso.</p><p>- Parece-me que lhe tenho sempre feito justi�a nisso - disse com alguma frieza, pois me sentia repelido pelo ego�smo que mais de uma vez observara como sendo um fator importante no car�ter de meu amigo.</p><p>- N�o, n�o � ego�smo, nem vaidade - disse, respondendo, como era seu costume, meus pensamentos e n�o minhas palavras. - Se exijo justi�a para com minha arte, � porque � uma coisa impessoal, uma coisa fora de mim mesmo. O crime � comum. A l�gica � rara. Portanto, deve enfatizar a l�gica e n�o o crime. Voc� rebaixou o que deveria ser uma s�rie de confer�ncias para uma s�rie de contos.</p><p>Era uma manh� fria no in�cio da primavera e est�vamos sentados, ap�s o caf� da manh�, em frente de um fogo crepitante na lareira da velha sala na Rua Baker. Uma neblina espessa se enrolava entre as casas pardas e as janelas em frente emergiam como manchas escuras e informes das grinaldas amarelas e pesadas. A l�mpada estava acesa e refletia na toalha branca, reluzindo na porcelana e nos metais, pois a mesa ainda estava posta. Sherlock Holmes estivera muito quieto a manh� toda, lendo os an�ncios de todos os jornais, at� que afinal, desistindo aparentemente da busca, emergira como muito bom humor para me fazer uma prele��o sobre minhas falhas liter�rias.</p><p>- Ao mesmo tempo, - comentou, ap�s uma pausa na qual ficou puxando por seu longo cachimbo e olhando o fogo - voc� n�o pode ser acusado de sensacionalismo, pois uma grande percentagem desses casos em que voc� teve a bondade de se interessar n�o lida com crimes, no sentido estritamente legal. Aquele assunto em que tentei auxiliar o Rei da Bo�mia, a experi�ncia singular da Srta. Mary Sutherland, o problema do homem com o l�bio torcido e o incidente do nobre solteiro, foram todos assuntos que. est�o fora do alcance da lei. Mas ao evitar o sensacional, temo que voc� tenha ca�do no trivial.</p><p>- No final, talvez tenha sido, - respondi - mas acredito que os m�todos s�o originais e interessantes.</p><p>- Bobagem, meu caro amigo, o p�blico, o grande p�blico que nada observa, n�o sabe distinguir um tecel�o pelos seus dentes nem um compositor pelo seu polegar esquerdo e n�o liga para as nuan�as delicadas de an�lise e dedu��o! Mas, na verdade, se voc� � trivial, n�o posso culp�-lo, pois os dias dos grandes casos j� passaram. 0 homem, pelo menos o homem criminoso, perdeu toda a iniciativa e a originalidade. Quanto ao meu neg�cio particular, parece que est� degenerando em uma ag�ncia para reaver l�pis perdidos e dar conselhos a mo�as de pensionato. Acho que cheguei ao fundo do barril, entretanto. Esse bilhete que recebi hoje de manh� marca o ponto zero. Leia! - Atirou uma folha de papel amassado para mim.</p><p>Vinha de Montague Place, datada da noite anterior, e dizia:</p><p>"Caro Sr. Holmes: Estou ansiosa para consult�-lo sobre se devo ou n�o aceitar uma posi��o de governanta que me foi oferecida. Irei v�-lo �s dez e meia amanh� de manh�, se n�o for inconveniente. Atenciosamente, VIOLET HUNTER".</p><p>- Conhece essa mo�a? perguntei.</p><p>- N�o.</p><p>- S�o dez e meia.</p><p>- Sim, e n�o tenho d�vida que � ela que est� tocando a campainha.</p><p>- Talvez seja mais interessante do que voc� pensa. Lembre-se que o caso da pedra azul, que parecia ser apenas um capricho � primeira vista, tomou-se uma investiga��o s�ria. Esse caso tamb�m pode ser assim.</p><p>- Espero que sim! Mas as d�vidas muito em breve se dissipar�o, pois, se n�o me engano, aqui est� a pessoa em quest�o.</p><p>Enquanto falava, a porta se abrira e entrara uma mo�a. Estava vestida modestamente mas bem arrumada e tinha um rosto alegre, alerta, cheio de sardas e a maneira en�rgica de uma mulher que tem de ganhar a vida.</p><p>- Perdoe-me por incomod�-lo, - disse, dirigindo-se a meu companheiro, que se erguera para cumpriment�-la - mas passei por uma experi�ncia muito estranha e como n�o tenho pais ou parentes a quem posta recorrer, achei que talvez o senhor pudesse ter a bondade de me dizer o que fazer.</p><p>- Tenha a bondade de se sentar, Srta. Hunter. Terei muito prazer em fazer o que estiver a meu alcance para ajud�-la.</p><p>Vi que Holmes ficara bem impressionado com a maneira e as palavras de sua nova cliente. Examinou-a detalhadamente como era seu costume e se preparou, de olhos fechados, juntando as pontas dos dedos, para ouvir sua hist�ria.</p><p>- Sou governanta h� cinco anos - disse - da fam�lia do Coronel Spence Munro, mas h� dois meses o Coronel foi transferido Para Halifax na Nova Esc�cia e levou seus filhos para a Am�rica com ele, de modo que fiquei sem emprego. Anunciei nos jornais e respondi a an�ncios, mas sem sucesso. Finalmente o pouco dinheiro que economizara tinha quase ido embora e estava desesperada sem saber o que fazer.</p><p>- H� uma ag�ncia muito conhecida para governantas no West End chamada Westaway e l� ia mais ou menos uma vez por semana para ver se tinha aparecido qualquer coisa que me pudesse servir. Westaway era o nome do dono da ag�ncia, mas a gerente era a Srta. Stoper. Ela fica sentada em sua pequena sala e as senhoras que est�o procurando emprego esperam em uma ante-sala e entram uma por uma quando ela consulta o livro de registro e v� se tem alguma coisa que possa servir.</p><p>- Quando estive l� a semana passada, fui levada � pequena sala, como de costume, mas vi que a Srta. Stoper n�o estava sozinha. Um homem imensamente gordo com rosto sorridente e papadas enormes que faziam dobras e dobras sobre o pesco�o estava sentado a seu lado, com �culos pendurados no nariz, olhando intensamente cada mo�a que entrava. Quando entrei saltou na cadeira e virou rapidamente para a Srta. Stoper:</p><p>- "Essa serve", disse, "n�o poderia pedir coisa melhor. Excelente! Excelente! " Parecia muito entusiasmado e esfregava as m�os com alegria. Parecia t�o satisfeito que era um prazer olhar para ele.</p><p>- "Est� procurando um lugar, senhorita?" perguntou.</p><p>- "Sim, senhor".</p><p>- "Como governanta?"</p><p>- "Sim, senhor".</p><p>- "E quanto quer ganhar?"</p><p>- "Ganhava quatro libras por m�s com o Coronel Spence Munro".</p><p>- "Que absurdo! Explora��o... explora��o!" exclamou, jogando as</p><p>m�os para o ar. "Como se pode oferecer essa mis�ria para uma mo�a com</p><p>todos os seus atrativos e dons?"</p><p>- "Meus dons, senhor, s�o menos que o senhor pensa", respondi. "Um</p><p>pouco de franc�s, um pouco de alem�o, m�sica, desenho..."</p><p>- "Ora, ora!" exclamou. Isso n�o interessa. A quest�o �, a senhora tem</p><p>ou n�o tem as maneiras e comportamento de uma dama? � isso, em resumo. Se n�o tem, n�o serve para criar uma crian�a que algum dia pode desempenhar papel importante na hist�ria do pa�s. Mas se tem, ent�o como pode um cavalheiro pedir que tenha a condescend�ncia de aceitar uma soma t�o insignificante? Seu sal�rio comigo, minha senhora, come�aria com cem libras por ano.</p><p>- O senhor pode imaginar, Sr. Holmes, que para mim, necessitada como estava, essa oferta parecia boa demais para ser verdade. o cavalheiro, entretanto, vendo talvez a express�o de d�vida em meu rosto, abriu a carteira e tirou urna nota.</p><p>- "� tamb�m meu h�bito", disse sorrindo de maneira agrad�vel at� que os olhos se tomaram meras frestas entre as dobras de gordura do rosto, "fazer um adiantamento a minhas mo�as de metade de seu sal�rio, afim de que possam enfrentar as despesas de viagem e de guarda-roupa".</p><p>- Pareceu-me que nunca havia conhecido um homem t�o fascinante e com tanta considera��o. Como j� estava devendo a meus fornecedores, o adiantamento era muito conveniente, no entanto havia qualquer coisa de esquisito nessa transa��o, que me fez querer saber um pouco mais antes de me comprometer totalmente.</p><p>- "Posso perguntar onde o senhor mora?"</p><p>- "Em Hampshire. Um lugar rural encantador. As Faias Roxas, sete quil�metros al�m de Winchester. � lindo no campo, cara senhora, e a casa � uma velha casa de campo".</p><p>- "E minhas obriga��es, senhor? Gostaria de saber quais s�o".</p><p>- "Uma crian�a. . . um garotinho de seis anos. Se pudesse v�-lo matar baratas com o chinelo! Bate! Bate! Bate! Tr�s mortas em um piscar de olhos! Reclinou-se na cadeira e deu gargalhadas.</p><p>Fiquei um pouco espantada com esse tipo de divers�o para uma crian�a, mas as gargalhadas do pai me fizeram achar que talvez estivesse brincando.</p><p>- "Ent�o meus deveres consistem exclusivamente em tomar conta de um menino?-</p><p>- 'N�o exclusivamente, n�o exclusivamente, minha cara senhorita", exclamou. "Seus deveres ser�o, como estou certo que seu bom senso lhe diria, obedecer qualquer ordem que minha esposa lhe der, desde que sejam sempre ordens que uma dama pode cumprir. N�o v� nenhum problema nisso, pois n�o?"</p><p>- "Terei prazer em ser �til".</p><p>- "Muito bem. Quanto a roupas, por exemplo. Temos nossas manias, sabe. Somos exc�ntricos, mas de bom cora��o. Se lhe ped�ssemos para usar qualquer roupa que lhe d�ssemos, n�o faria obje��o a nosso pequeno capricho, pois n�o?"</p><p>- "N�o", respondi, muito espantada com suas palavras.</p><p>- "Ou, para sentar aqui, ou sentar ali, isso n�o lhe seria ofensivo".</p><p>- "Para cortar o cabelo bem curto antes de vir trabalhar".</p><p>- N�o acreditei no que ouvia. Como deve ter observado, Sr. Holmes, meus cabelos s�o bastos e de um tom pouco comum de castanho. � muito elogiado. Nunca aceitaria a id�ia de sacrific�-los, dessa maneira.</p><p>- "Receio que isso seja imposs�vel" respondi. Estava me observando ansiosamente com seus olhinhos pequenos e vi que seu rosto escureceu com minhas palavras.</p><p>- "Sinto muito, mas isso � essencial disse. "� uma mania de minha esposa o os caprichos das senhoras, como sabe, devem ser satisfeitos. Ent�o n�o quer cortar os cabelos?"</p><p>- "N�o, senhor, realmente n�o posso", respondi com frieza.</p><p>- "Ah, muito bem. � pena, porque em todos os aspectos a senhora nos servia bem. Nesse caso, Srta. Stoper, � melhor inspecionar mais - algumas de suas mo�as".</p><p>- A gerente estivera tempo todo ocupada com pap�is, sem dizer nenhuma palavra, mas agora me olhou com uma express�o t�o aborrecida que perdera uma bela comiss�o com minha recusa.</p><p>- "Quer que seu nome continue em nosso livro?" perguntou.</p><p>- "Por favor, Srta. Stoper".</p><p>- "Bem, realmente, n�o adianta muito, j� que recusa as melhores ofertas desta maneira", disse asperamente. 'N�o pode esperar que fa�amos for�a para conseguir outro cargo desses para a senhorita. Um muito bom dia, Srta. Hunter". Bateu na campainha, sobre a mesa e o criado me levou para fora da sala.</p><p>- Bem, Sr. Holmes, quando cheguei em casa e encontrei muito pouco que comer e duas ou tr�s contas sobre a mesa, comecei a me perguntar se n�o tinha feito urna tolice. Afinal de contas, se essa pessoas tinham manias esquisitas o esperavam ser obedecidas em quest�es t�o extraordin�rias, pelo menos estavam prontas a pagar por sua excentricidade. Muito poucas governantas na Inglaterra ganham cem libras por ano. Al�m do mais, de que me valia meu cabelo? Muitas pessoas ficam melhor de cabelos curtos e talvez eu fosse uma dela. No dia seguinte estava inclinada a achar que cometera um erro, e no outro dia, fiquei convencida disso. J� tinha quase vencido meu orgulho e me preparado para voltar � ag�ncia e perguntar se o lugar j� fora ocupado, quando recebida carta do pr�prio cavalheiro. Est� aqui comigo, e vou ler para o senhor:</p><p>"As Faias Roxas, perto de Winchester.</p><p>PREZADA SRTA. HUNTER: A Srta. Stoper teve a bondade de me dar seu endere�o e estou lhe escrevendo para perguntar se por acaso a senhora reconsiderou sua decis�o. Minha esposa est� ansiosa para que venha trabalhar para n�s, pela descri��o que lhe fiz. Estamos dispostos a lhe pagar trinta libras por trimestre. Isto �, cento e vinte libras por ano, para recompens�-la por qualquer inconveni�ncia que nossas excentricidades possam lhe causar. Na realidade, n�o s�o dif�ceis de atender. Minha esposa gosta muito de um tom especial de azul-el�trico e gostaria que a senhora usasse um vestido dessa cor dentro de casa, pela manh�. N�o � preciso gastar dinheiro adquirindo um vestido, entretanto, pois j� temos um que pertenceu � minha querida filha Alice (que agora reside em Filad�lfia), que acho que lhe serviria muito bem. E quanto a sentar aqui ou ali, ou se divertir da maneira que lhe for indicada, isso n�o deve lhe causar nenhum inconveniente. No que diz respeito a seus cabelos, � sem d�vida nenhuma uma pena, especialmente porque n�o pude deixar de reparar como s�o lindos, em nosso breve encontro, mas receio ter de ficar firme nesse ponto e s� espero que o aumento de sal�rio a recompense pela perda. Suas obriga��es com a crian�a s�o realmente muito leves. Tente mudar de id�ia e irei esper�-la com o carro em Winchester.</p><p>Atenciosamente,</p><p>JEPHRO RUCASTLE".</p><p>- ESSA � A CARTA que acabei de receber, Sr. Holmes, e resolvi aceitar. Pensei, entretanto, que antes de dar o �ltimo passo gostaria de submeter a quest�o ao senhor.</p><p>- Bem, Srta. Hunter, se j� resolveu, isso encerra o assunto - disse Holmes, sorrindo.</p><p>- Mas n�o me aconselha a recusar?</p><p>- Confesso que n�o � um lugar que gostaria de arranjar para minha irm�, se a tivesse.</p><p>- O que quer dizer isso tudo, Sr. Holmes?</p><p>- Ali, n�o tenho fatos suficientes. N�o sei dizer. Talvez a senhora tenha alguma opini�o?</p><p>- Bem, achei que s� poderia haver uma explica��o. O Sr. Rucastle parece ser muito bondoso e ter bom g�nio. � poss�vel que sua esposa seja doente mental e que ele queira esconder o fato para que n�o seja levada para algum asilo, e fa�a todas as suas vontades para evitar que tenha uma crise.</p><p>- � realmente uma solu��o poss�vel. Na verdade, como est�o as coisas, � a mais prov�vel. Mas de qualquer maneira, n�o parece uma fam�lia boa para uma mo�a.</p><p>- Mas o dinheiro, Sr. Holmes, o dinheiro!</p><p>- Sim, claro, o sal�rio � muito bom, bom demais. � isso que me preocupa. Por que lhe pagariam cento e vinte libras por ano quando podem escolher quem quiser e pagar somente quarenta? Deve haver uma raz�o muito forte atr�s de tudo isso.</p><p>- Achei que se lhe contasse as circunst�ncias o senhor compreenderia mais tarde, se precisar de seu aux�lio. Vou me sentir muito melhor se souber que o senhor est� me apoiando.</p><p>- Olhe, pode se sentir assim, e ir em paz. Asseguro-lhe que seu pequeno problema promete ser o mais interessante que me surgiu h� muitos meses. H� alguma coisa de muito original em alguns aspectos. Se sentir d�vidas ou achar que est� em perigo...</p><p>- Perigo! Que perigo est� antevendo?</p><p>Holmes sacudiu gravemente a cabe�a. - Deixaria de ser um perigo se pud�ssemos defini-lo - disse. - Mas a qualquer hora do dia ou da noite, um telegrama me levaria a seu lado para ajud�-la.</p><p>- Isso � o bastante. - Levantou-se prontamente da cadeira sem um vest�gio de ansiedade no rosto. - Irei para Hampshire sem nenhuma preocupa��o agora. Vou escrever para o Sr. Rucastle imediatamente, sacrificar meu pobre cabelo e irei para Winchester amanh� - Despediu-se de n�s com umas palavras de agradecimento para Holmes e saiu.</p><p>- Pelo menos - eu disse, quando ouvimos seus passos firmes e r�pidos na escada - parece ser uma mo�a que sabe se defender muito bem.</p><p>- E precisa ser - disse Holmes, gravemente. - Se n�o estou errado, teremos not�cias dela dentro de alguns dias.</p><p>N�o demorou muito para se realizar a profecia de meu amigo. Passaram-se quinze dias e muitas vezes pensei nela, imaginando em que estranho desvio da experi�ncia humana essa mo�a solit�ria se encontraria. O sal�rio fora do comum, as condi��es curiosas, as obriga��es t�o leves... tudo levava a crer que se tratava de alguma coisa anormal, embora fosse imposs�vel para mim determinar se era uma excentricidade ou uma trama, se o homem era um filantropo ou um vil�o. Quanto a Holmes, notei que muitas vezes ficava sentado por meia hora, com um ar abstrato e testa franzida, mas quando eu mencionava o assunto, tirava-o do pensamento com um gesto da m�o. - Fatos! Fatos! Fatos! - exclamava, impaciente. - N�o posso fazer tijolos sem barro. - Mas sempre acabava resmungando que nenhuma irm� dele jamais aceitaria um lugar desses.</p><p>O telegrama que recebemos eventualmente chegou tarde da noite, justamente quando estava pensando em me recolher e Holmes se preparava para uma dessas pesquisas que duram toda a noite a que ele freq�entemente se entregava, quando o deixava inclinado sobre uma retorta e tubo de ensaio � noite e o encontrava na mesma posi��o quando descia para o caf� da manh�. Abriu o envelope amarelo e depois de olhar a mensagem, estendeu-a para mim.</p><p>- Veja qual � o hor�rio dos trens no guia Bradshaw - disse, e voltou a suas experi�ncias qu�micas.</p><p>A mensagem era breve e urgente:</p><p>"Por favor esteja no Hotel Black Swan em Winchester ao meio-dia amanh�", dizia. "Venha! Estou desesperada".</p><p>- Voc� vai comigo? - perguntou Holmes, erguendo os olhos.</p><p>- Gostaria de ir.</p><p>- Veja os trens, ent�o.</p><p>- H� um trem �s nove e meia - disse, olhando o Bradshaw. - Chega em Winchester �s onze e trinta.</p><p>- Esse serve muito bem. Talvez seja melhor adiar minha an�lise das acetonas para estar em boa forma de manh�.</p><p>As onze horas da manh� seguinte, est�vamos quase chegando � antiga capital inglesa. Holmes se afundara nos jornais a viagem inteira, mas depois de passarmos a fronteira de Hampshire jogou-os de lado e come�ou a admirar a paisagem. Era um dia de primavera ideal, um c�u azul-claro, salpicado de pequenas nuvens brancas felpudas que navegavam do Leste para o Oeste. O sol brilhava, mas havia um friozinho no ar que despertava a energia de um homem. Por toda a parte nos campos, at� as colinas de Aldershot, os telhadinhos vermelhos e cinzentos das fazendas espreitavam por entre o verde-claro da folhagem nova.</p><p>- N�o est� tudo fresquinho e lindo? - exclamei com o entusiasmo de um homem acabado de sair da neblina da Rua Baker.</p><p>Mas Holmes sacudiu a cabe�a, muito s�rio.</p><p>- Voc� sabe, Watson, que � uma das maldi��es de um c�rebro como o meu que vejo tudo com refer�ncia ao meu assunto especial. Voc� olha para essas casas espalhadas e fica impressionado com sua beleza. Eu olho para elas e a �nica id�ia que me ocorre � a sensa��o de seu isolamento e da impunidade com que os crimes podem ser cometidos dentro delas.</p><p>- Deus meu! - exclamei. - Quem iria associar a id�ia de crime com essas velhas casas?</p><p>- Elas me enchem de horror. Acredito firmemente, Watson, baseado em minha experi�ncia, que os mais baixos e vis becos de Londres n�o apresentam uma hist�ria de pecados mais horr�veis que os belos e sorridentes campos.</p><p>- Voc� me apavora!</p><p>- Mas a raz�o � �bvia. A press�o da opini�o p�blica pode conseguir na cidade o que a lei n�o consegue. N�o existe um beco t�o vil que o grito de uma crian�a torturada, ou a pancada dada por um b�bedo n�o provoquem a simpatia e indigna��o dos vizinhos e o mecanismo da justi�a est� perto que uma palavra de queixa pode p�r em movimento e s� h� um passo entre o crime e o banco dos r�us. Mas olhe para essas casas isoladas, cada uma cercada por seus campos, cheias na maior parte dos pobres e ignorantes que mal conhecem a lei. Pense nos atos de, crueldade demon�aca, a maldade escondida, que continuam ano ap�s ano nesses lugares, e ningu�m fica sabendo. Se essa mo�a que nos pediu aux�lio tivesse ido morar em Winchester, n�o teria receio que nada lhe acontecesse. S�o os sete quil�metros de campo que tomam a situa��o perigosa. Se bem que parece que n�o foi amea�ada.</p><p>- N�o. Se pode vir a Winchester para nos encontrar quer dizer que tem liberdade de sair.</p><p>- Exatamente. Tem sua liberdade.</p><p>- O que pode estar acontecendo, ent�o? Pode sugerir alguma explica��o?</p><p>- Imaginei sete explica��es diferentes e todas se encaixam nos fatos, at� onde sabemos. Mas qual delas � correta s� pode ser determinado com a informa��o nova que certamente vamos encontrar � nossa espera. Bem, l� est� a torre da catedral e breve ouviremos tudo que a Srta. Hunter tem para nos contar.</p><p>O Hotel Black Swan � uma estalagem de grande fama na Rua High, pertinho da esta��o e l� encontramos a mo�a esperando por n�s. Alugara uma sala e o almo�o nos aguardava sobre a mesa.</p><p>- Estou t�o contente de terem vindo - disse com fervor. - � tanta bondade sua. Mas n�o sei mesmo o que fazer. Seus conselhos s�o de imenso valor para mim.</p><p>- Por favor conte-nos o que aconteceu.</p><p>- Vou contar e tenho de ser r�pida, pois prometi ao Sr. Rucastle que voltaria antes das tr�s horas. Consegui sua permiss�o para vir � cidade hoje de manh�, embora ele n�o saiba o que vim fazer.</p><p>- D�-nos tudo em sua devida ordem. - Holmes estendeu as longas pernas magras para o fogo e se preparou para ouvir.</p><p>- Em primeiro lugar, devo dizer que, de modo geral, n�o tenho sido maltratada pelo Sr. e Sra. Rucastle. Fa�o apenas justi�a em dizer isso. Mas n�o os compreendo e estou preocupada com eles.</p><p>- O que n�o compreende?</p><p>- A raz�o de sua conduta. Mas vou contar exatamente como sucedeu. Quando cheguei, o Sr. Rucastle foi me encontrar e me levou de carro a Faias Roxas. �, como ele dissera, lindamente situada, mas n�o � bonita, � apenas urna casa grande, quadrada, pintada de branco, mas toda manchada de mofo e limo. Tem bastante terreno em volta, bosques de tr�s lados e no quarto um campo que desce at� a estrada de Southampton, que faz uma curva a uns cem metros da porta da frente. O terreno em frente pertence � casa, mas os bosques em volta fazem parte da propriedade de Lorde Southerton. Um grupo de faias roxas logo em frente da porta deu nome � casa.</p><p>- Meu patr�o mesmo me levou at� l�, am�vel como sempre, e �quela noite me apresentou � sua esposa e � crian�a. N�o h� verdade nenhuma, Sr. Holmes, na hip�tese que nos pareceu prov�vel em seus aposentos na Rua Baker. A Sra. Rucastle n�o � louca. � uma mulher calada, p�lida, muito mais jovem que o marido, acho que n�o tem mais que trinta anos, enquanto ele deve ter uns quarenta e cinco. Deduzi, pela conversa, que est�o casados cerca de sete anos, que ele era vi�vo, e que sua �nica filha do primeiro matrim�nio � a que foi para a Filad�lfia. O Sr. Rucastle me disse particularmente que a raz�o por que ela os deixou � que sentia uma avers�o irracional pela madrasta. Como a filha n�o podia ter menos de vinte anos, imagino que sua posi��o junto � jovem esposa de seu pai n�o pode ter sido muito confort�vel.</p><p>- A Sra. Rucastle parecia desbotada mentalmente quanto fisicamente. N�o me causou impress�o favor�vel nem desfavor�vel. Era completamente apagada. Era f�cil de ver que se dedicava apaixonadamente ao marido e ao pequeno filho. Seus olhos cinzento-claros iam de um a outro constantemente, notando e antecipando todos os seus desejos. Ele era muito bondoso com ela, de sua maneira rude e expansiva, e em geral pareciam muito felizes. No entanto, essa mulher tinha algum desgosto secreto. Multas vezes ficava perdida em seus pensamentos, com uma express�o profundamente triste. Mais de uma vez a surpreendi chorando. Pensei algumas vezes que fosse a disposi��o do filho que a preocupava, pois nunca vi uma crian�a t�o mimada e de t�o mau g�nio. � pequeno para a idade, com uma cabe�a desproporcionalmente grande. Parece passar a vida inteira alternando entre acessos de f�ria e intervalos de mau humor. Sua �nica id�ia de divertimento � torturar qualquer criatura menor e mais fraca e demonstra consider�vel talento em planejar a captura de camundongos, passarinhos o insetos. Mas prefiro n�o falar dessa crian�a, Sr. Holmes, e na verdade, n�o tem nada a ver com a minha hist�ria.</p><p>- Gosto de todos os detalhes, - disse meu amigo - mesmo que pare�am irrelevantes.</p><p>- Procurarei n�o omitir nada importante. A �nica coisa desagrad�vel na casa, que me impressionou logo, � a apar�ncia e conduta dos empregados. H� s� dois, um homem e sua mulher. Que � o nome do homem, � um homem rude, grosseiro, de cabelos e barba grisalhos, que cheira sempre � bebida. Duas vezes, desde que estou com elos, ficou completamente b�bedo, o Sr. Rucastle pareceu nem notar. Sua mulher � muito alta e forte, de cara amarrada, t�o calada quanto a Sra. Rucastle e muito menos amig�vel. Foi um casal muito desagrad�vel, mas felizmente passo a maior parte do tempo no quarto de crian�as e em meu pr�prio quarto, que ficam um ao lado do outro em um canto do pr�dio.&gt;&gt;</p><p>- Nos primeiros dois dias ap�s chegar em Faias Roxas minha vida correu mansamente. No terceiro, a Sra. Rucastle desceu logo ap�s o caf� da manh� e murmurou algum coisa no ouvido do marido.</p><p>- "Ah, sim", - disse ele, virando para mim, "a senhora, Srta. Hunter, por ter atendido nossos caprichos e cortado seus cabelos. Garanto-lhe que n�o alterou em nada sua, bela apar�ncia. Vamos ver agora como lhe assenta o vestido azul-el�trico. A senhora vai encontr�-lo estendido em sua cama e se quiser ter a bondade de vesti-lo, ficaremos ambos muito gratos .</p><p>- O vestido que encontrei � minha espera em de um tom peculiar de azul. A fazenda era excelente, mas mostrava sinais evidentes de j� ter sido usam do antes. N�o podia um servir melhor se tivesse sido feito para mim. O Sr. e a Sra. Rucastle expressaram uma admira��o, quando me viram, que me pareceu muito exagerada, de t�o veemente. Estavam me esperando no sal�o, que � muito grande, estendendo-se por toda a frente da casa, com tr�s grandes janelas que v�o at� o ch�o. Uma cadeira estava colocada perto da janela do meio, com as costas viradas para ela. Pediram que sentasse nela e ent�o o Sr. Rucastle, passeando de um lado para o outro, come�ou a contar as hist�rias mais engra�adas que jamais ouvira. N�o podem imaginar como era c�mico e ri at� ficar cansada. A Sra. Rucastle, entretanto, que n�o possui senso humor�stico, evidentemente, nem sequer sorriu e ficou sentada com as m�os no colo e uma express�o triste e ansiosa. Ap�s cerca de uma hora, o Sr. Rucastle subitamente comentou que estava na hora de come�ar os deveres do dia e que eu podia trocar de roupa e ir ter com o pequeno Edward no quarto de crian�as.</p><p>- Dois dias depois a mesma coisa aconteceu em circunst�ncias exatamente id�nticas. Novamente troquei de vestido, novamente sentei em frente da janela, mas de costas, e novamente ri �s gargalhadas das hist�rias engra�adas que meu patr�o contava. Depois deu-me um romance de capa amarela e, virando minha cadeira um pouco de lado para que minha pr�pria sombra n�o ca�sse sobre a p�gina, pediu-me que lesse em voz alta. l� por uns dez minutos, come�ando no meio de um cap�tulo e de repente, no meio de uma frase, mandou que eu parasse e fosse mudar de roupa.</p><p>- O senhor bem pode imaginar, Sr. Holmes, como fiquei curiosa quanto ao significado dessa encena��o. Tinham sempre o cuidado, observei, de que eu n�o ficasse de frente para a janela e fiquei obcecada pelo desejo de ver o que estava acontecendo nas minhas costas. A princ�pio parecia imposs�vel, mas logo descobri uma maneira. Meu espelho de m�o havia quebrado, ent�o tive a id�ia feliz de esconder um pedacinho no len�o. Na pr�xima ocasi�o, no meio de uma gargalhada, levei o len�o aos olhos e consegui, com jeito, ver o que estava atr�s de mim. Confesso que fiquei desapontada. N�o vi nada.</p><p>- Pelo menos, essa foi minha primeira impress�o. Ao olhar de novo, entretanto, percebi que havia um homem parado na estrada de Southampton, um homem pequeno, barbado, vestido de cinzento, que parecia olhar em minha dire��o. A estrada � muito usada e geralmente h� algu�m passando por ela. Mas esse homem estava encostado na grade que cercava nosso campo e olhando com toda a aten��o. Abaixei o len�o e lancei um olhar para a Sra. Rucastle, vendo seus olhos fixos em mim atentamente. N�o falou nada, mas tenho certeza que adivinhou que tinha um espelho na m�o e vira o que estava atr�s de mim. Levantou-se imediatamente.</p><p>- "H� um homem impertinente na estrada que est� olhando para a Srta. Hunter".</p><p>- "Algum amigo seu, Srta. Hunter" ele perguntou.</p><p>- "N�o. N�o conhe�o ningu�m nessa regi�o".</p><p>- "Ora! Que impertin�ncia! Por favor, vire o fa�a sinal para ele ir embora .</p><p>- "N�o seria melhor ignor�-lo?"</p><p>- "N�o, n�o, ele ficaria por a� para sempre. Por favor, vire e fa�a um</p><p>sinal com a m�o".</p><p>- Fiz o que mandava e ao mesmo tempo a Sra. Rucastle fechou a cortina. Isso foi h� uma semana e desde ent�o n�o sentei mais � janela nem usei o vestido azul, nem vi o homem na estrada.</p><p>- Tenha a bondade de continuar - disse Holmes. - Sua narrativa promete ser muito interessante.</p><p>- Receio que seja um pouco desorganizada e talvez n�o haja muita rela��o entre os diferentes incidentes de que vou falar. No primeiro dia que passei em Faias Roxas o Sr. Rucastle me levou a um pequeno anexo que fica perto da porta da cozinha. Ao nos aproximarmos, ouvi o retinir agudo de uma corrente e o som de algum grande animal se mexendo.</p><p>- "Olhe aqui!" disse o Sr. Rucastle, mostrando-me uma fresta entre de duas t�buas. "N�o � uma beleza?"</p><p>- Olhei e vi dois olhos brilhantes e um vulto vago encolhido na escurid�o.</p><p>- "N�o tenha medo", disse meu patr�o, rindo de meu sobressalto.</p><p>� apenas Carlo, meu c�o mastim. Digo que � meu, mas na verdade o velho Toller � a �nica pessoa que pode fazer qualquer coisa com ele. S� come uma vez por dia, e muito pouco assim mesmo, de modo que est� sempre faminto. Toller o solta todas as noites e Deus ajude o invasor que ele pegue com seus dentes. Por favor, nunca, por raz�o nenhuma, ponha o p� fora da porta � noite, pois sua vida n�o valer� nada".</p><p>- O aviso n�o foi � toa, pois duas noites depois estava olhando pela janela de meu quarto aproximadamente �s duas horas da manh�. Era uma noite linda de luar e o gramado em frente da casa estava prateado e quase t�o vivo quanto de dia. Estava enlevada pela beleza pac�fica da cena quando percebi que alguma coisa se movia sob a sombra das faias roxas. Quando emergiu no luar vi o que era. Era um c�o gigantesco, do tamanho de um bezerro, castanho-amarelado, de mand�bulas pendentes, focinho preto e ossos imensos quase perfurando a carne. Atravessou lentamente o gramado e desapareceu nas sombras do outro lado. Essa sentinela horrivelmente silenciosa gelou meu sangue nas veias, o que acho que nenhum ladr�o poderia fazer.</p><p>- E agora tenho urna experi�ncia muito estranha a lhes contar. Como sabem, cortei o cabelo em Londres e coloquei-o, em um grande cacho, no fundo da mala. Uma noite, depois da crian�a ir para a cama, comecei a me distrair examinando a mob�lia de meu quarto. Havia uma velha c�moda no quarto, com as duas gavetas de cima vazias e abertas e a de baixo trancada. J� enchera as duas primeiras com minha roupa e ainda tinha umas coisas para guardar. Fiquei, naturalmente, irritada por n�o poder usar a terceira gaveta. Ocorreu-me a id�ia de que poderia ter sido trancada por mero acaso, ent�o peguei minhas chaves e tentei abrir a gaveta. Logo a primeira serviu perfeitamente e abri-a. S� havia uma coisa dentro, mas tenho certeza que nunca poder�o adivinhar o que era. O meu cacho de cabelo.</p><p>- Peguei-o e examinei-o. Era da mesma cor peculiar e da mesma espessura. Mas ent�o vi corno era imposs�vel. Como poderia meu cabelo estar trancado naquela gaveta? Com m�os tr�mulas, abri minha mala, tirei o que estava dentro e l� no fundo estava o meu cacho. Coloquei os dois juntos e garanto-lhes que eram id�nticos. N�o � extraordin�rio? Por mais que pensasse, n�o consegui entender o que significava. Coloquei o cacho estranho de volta na gaveta e n�o disse nada aos Rucastles, pois achei que fora errado de minha parte abrir uma gaveta que eles haviam fechado.</p><p>- Sou por natureza muito observadora, como deve ter notado, Sr. Holmes, e logo tinha mentalmente uma id�ia clara da disposi��o de todos os aposentos da casa. Havia uma ala, entretanto, que parecia n�o ser habitada. Havia uma porta em frente da porta dos aposentos dos Tollers que dava para essa ala, mas estava sempre trancada. Um dia, entretanto, quando eu subia as escadas, encontrei o Sr. Rucastle saindo dessa porta com as chaves na m�o e uma express�o no rosto que o tomava muito diferente do homem gordo e jovial a quem estava acostumada. As faces estavam vermelhas, a testa franzida de raiva e as veias salientes. Trancou a porta e passou por mim apressadamente sem dizer uma palavra, nem olhar para mim.</p><p>- Isso despertou minha curiosidade, e quando passeava com a crian�a, fui at� o lado de onde podia ver as janelas dessa parte da casa. Havia quatro em fileira, tr�s das quais estavam somente sujas, mas a quarta estava tapada com t�buas de madeira. Todas estavam evidentemente desertas. Enquanto passeava de um lado para o outro, o Sr. Rucastle chegou at� mim, alegre e jovial como sempre.</p><p>- "Ali!" disse, "n�o me julgues rude se passei pela senhora sem dizer nenhuma palavra. Estava preocupado com assuntos de neg�cios".</p><p>- Garanti que n�o ficara ofendida. "Por falar nisso", disse, "parece que tem muitos quartos vazios l� em cima e um deles tem uma janela coberta de madeira".</p><p>- "Meu hobby � fotografia", respondeu. "L� � minha c�mara escura. Mas, meu Deus! Que mo�a observadora! Quem podia imaginar isso? Quem podia imaginar isso?" Falou em tom brincalh�o, mas n�o havia nada de brincalh�o em seus olhos ao olhar para mim. S� vi suspeita e irrita��o em seu olhar.</p><p>- Bem, Sr. Holmes, do momento em que compreendi que havia alguma coisa naqueles quartos que eu n�o devia ver, fiquei ansiosa para revist�-los. N�o era s� curiosidade, embora seja muito curiosa. Era mais como que um de obriga��o, um sentimento de que alguma coisa boa poderia acontecer se conseguisse entrar naqueles quartos. Fala-se muito do instinto feminino. Talvez fosse o instinto feminino que me fazia sentir isso. Seja como for ele, era o que sentia. E fiquei atenta a qualquer possibilidade de atravessar a porta proibida.</p><p>- Foi ontem que tive essa chance. Devo dizer-lhes que al�m do Sr. Rucastle, tanto Toller quanto sua mulher t�m alguma coisa a fazer nesses quartos desertos e urna vez o vi sair com uma sacola preta grande. Ultimamente ele tem bebido muito e ontem � tarde estava completamente b�bedo. Quando subi, l� estava a chave na porta. N�o tenho d�vida nenhuma que foi ele que a deixou l�. O Sr. e a Sra. Rucastle estavam l� embaixo e a crian�a com eles, portanto a oportunidade era �tima. Virei a chave devagar, abri a porta o entrei.</p><p>- Havia um pequeno corredor � minha frente, sem papel nas paredes e sem tapete, que virava � direita na outra extremidade. Nesse trecho havia tr�s portas; a primeira e a terceira estavam abertas. Davam para quartos vazios, empoeirados, um com duas janelas e o outro com uma, t�o sujas que a luz da tarde mal penetrava. A porta do meio estava fechada e atravessada por uma barra de ferro larga, com um cadeado preso a um anel de ferro fixo na parede em uma ponta e amarrada com uma grossa corda na outra. A porta tamb�m estava trancada e n�o havia sinal de chave. Essa porta fortificada correspondia claramente � janela coberta de t�buas, mas pude ver pelo pouco de luz que escapava por baixo que o quarto n�o estava totalmente �s escuras. Enquanto estava parada olhando essa porta sinistra e pensando em que segredo esconderia, ouvi de repente o som de passos dentro do quarto e vi uma sombra passar de um lado para o outro, delineada pela luz debaixo da porta. Um medo louco e irracional se apossou de mim, Sr. Holmes. Meus nervos tensos n�o ag�entaram mais, virei e corri como se uma m�o horrenda estivesse atr�s de mim, agarrando a saia de meu vestido. Corri pelo corredor, atravessei a porta e ca� nos bra�os do Sr. Rucastle, que estava do lado de fora.</p><p>- "Ent�o", disse com um sorriso, "era a senhora. Achei que devia ser quando vi a porta aberta".</p><p>- "Estou com tanto medo!" disse ofegante.</p><p>- "Minha cara senhora! Minha cara senhora!" N�o imagina corno sua voz era suave e acariciante. "O que lhe deu tanto medo, minha cara?"</p><p>- Mas a voz era macia demais. Ele exagerou. Fiquei prevenida contra ele.</p><p>- "Fiz a tolice de entrar nessa ala deserta", respondi. "Estava tudo t�o escuro, t�o calado que fiquei com modo e sa� correndo. Olhe, corno � solit�rio a� dentro!"</p><p>- "Foi s� isso?" disse, olhando-me atentamente.</p><p>- "Sim, por que pergunta?"</p><p>- "Por que acha que tranco esta porta?"</p><p>- "Claro que n�o sei".</p><p>- "Para evitar a entrada de pessoas que n�o t�m nada a fazer l� dentro. Entende?" Sorria ainda da maneira mais am�vel.</p><p>- "Estou certa de que se soubesse..."</p><p>- "Bem, agora sabe. E se ousar atravessar essa porta de novo..." em um segundo o sorriso se transformou em uma careta de raiva e me olhou com a cara de dem�nio, "eu a jogo ao mastim".</p><p>- Fiquei t�o aterrorizada que n�o sei o que fiz. Suponho que passei por ele correndo e fui para meu quarto. N�o me lembro de nada at� me encontrar na cama, tremendo dos p�s � cabe�a. Ent�o pensei no senhor, Sr. Holmes. N�o podia continuar a morar l� sem alguma ajuda. Estava com medo da casa, do homem, da mulher, dos empregados, at� da crian�a. Todos me pareciam horr�veis. Se conseguisse trazer o senhor aqui, tudo estaria bem. Naturalmente, podia ter fugido da casa, mas minha curiosidade era t�o forte quanto meu medo. Tomei logo uma decis�o. Ia lhe mandar um telegrama. Coloquei o chap�u e o casaco, fui at� o tel�grafo, que fica quase a um quil�metro da casa e voltei me sentindo muito melhor. Senti uma d�vida terr�vel quando me aproximei da porta de que o c�o podia estar solto, mas me lembrei que Toller havia bebido tanto que estava inconsciente e sabia que ele era o �nico que tinha alguma influ�ncia sobre a criatura selvagem, ou que se aventuraria a solt�-la. Entrei sem que nada me acontecesse e fiquei acordada metade da noite de alegria, sabendo que ia v�-lo. N�o tive problema em obter permiss�o para vir a Winchester hoje de manh�, mas tenho de voltar antes das tr�s, pois o Sr. e a Sra. Rucastle v�o sair para fazer uma visita e s� voltar�o � noite e tenho de tomar conta da crian�a. Essas s�o as minhas aventuras, Sr. Holmes, e ficaria muito grata se me dissesse o que tudo isso significa e, acima de tudo, o que devo fazer.</p><p>Holmes e eu ouv�ramos essa extraordin�ria hist�ria estupefatos. Meu amigo se levantou e andou de um lado para o outro com as m�os nos bolsos e uma express�o profundamente grave.</p><p>- Toller ainda est� b�bedo? - perguntou.</p><p>- Sim. Ouvi a mulher dele dizer � Sra. Rucastle que n�o podia fazer nada com ele.</p><p>- Isso � bom. E os Rucastles v�o sair hoje � tarde?</p><p>- Sim.</p><p>- Existe um por�o com uma boa fechadura?</p><p>- Sim, a adega.</p><p>- A senhora agiu, aparentemente, em tudo isso como uma mo�a muito corajosa e sensata, Srta. Hunter. Acha que pode realizar mais uma proeza? N�o lhe pediria isso se n�o achasse que � uma mulher excepcional.</p><p>- Posso tentar. O que �?</p><p>- Iremos a Faias Roxas �s sete horas, meu amigo e eu. Os Rucastles j� teriam sa�do a essa hora e Toller estar�, espero, incapacitado. S� resta a Sra. Toller, que poder� dar o alarma. Se pudesse mand�-la � adega, sob algum pretexto, e tranc�-la � chave facilitaria imensamente tudo.</p><p>- Isto posso fazer.</p><p>- Excelente! Examinaremos cuidadosamente o assunto. Naturalmente, s� h� uma explica��o admiss�vel. A senhora foi levada l� para se fazer passar por outra pessoa, e essa pessoa est� presa no quarto trancado. Isso � �bvio. E quanto � identidade da prisioneira, n�o tenho d�vidas de que se trata da filha, Srta. Alice Rucastle, que, se estou bem lembrado, diziam tinha ido para a Am�rica. A senhora foi escolhida, evidentemente, porque se parecia com ela em altura, corpo e cor de cabelo. O dela fora cortado, provavelmente por alguma doen�a e portanto o seu tinha de ser cortado tamb�m. Por um acaso a senhora encontrou o cacho de cabelo dela. O homem na estrada era, sem d�vida, um amigo dela, talvez seu noivo e certamente como a senhora usava o vestido da mo�a e se parecia tanto com ela, ficou convencido pelas suas gargalhadas, quando a via, e depois pelo seu gesto, que a Srta. Rucastle estava perfeitamente feliz e que n�o mais desejava suas aten��es. O c�o � solto � noite para evitar que ele tente se comunicar com ela. At� a� est� tudo claro. O que h� de mais s�rio nesse caso � o g�nio da crian�a.</p><p>- Que diabos tem isso a ver com o resto? - exclamei.</p><p>- Meu caro Watson, voc� como m�dico est� sempre procurando entender as tend�ncias de uma crian�a pelo estudo dos pais. N�o v� que o inverso � igualmente v�lido? Freq�entemente come�o a compreender a personalidade dos pais pelo estudo de seus filhos. O g�nio dessa crian�a � incrivelmente mau e cruel, uma crueldade sem raz�o e quer herde isso de seu sorridente pai, como suspeito, ou de sua m�e, isso � um mau agouro para a pobre mo�a que est� em suas m�os.</p><p>- Estou certa que o senhor tem raz�o, Sr. Holmes - exclamou nossa cliente. - Estou me lembrando de mil coisas que confirmam que o senhor encontrou a solu��o. Oh, n�o devemos perder um segundo em levar algum aux�lio a essa pobre criatura.</p><p>- Devemos ser circunspectos, pois estamos lidando com um homem muito astuto. N�o podemos fazer nada at� �s sete horas. A� estaremos l� com a senhora e n�o levar� muito tempo para resolvermos o mist�rio.</p><p>Cumprimos nossa palavra, pois �s sete em ponto chegamos a Faias Roxas, deixando o carro em uma hospedaria na estrada. O grupo de �rvores, com suas folhas escuras brilhando como metal polido � luz do sol poente, era suficiente para distinguir a casa, mesmo que a Srta. Hunter n�o estivesse na porta, sorrindo.</p><p>- Conseguiu? - perguntou Holmes.</p><p>Pancadas altas vieram de algum lugar embaixo da casa.</p><p>- � a Sra. Toller presa na adega - disse, - O marido est� roncando no ch�o da cozinha. Aqui est�o as chaves dele, que s�o duplicatas das do Sr. Rucastle.</p><p>- A senhora trabalhou muito bem mesmo! - disse Holmes, com entusiasmo. - Agora nos mostre o caminho e logo veremos o final desse neg�cio negro.</p><p>Subimos as escadas, abrimos a porta, seguimos um corredor e nos encontramos em frente da porta que a Srta. Hunter descrevera. Holmes cortou a corda grossa e retirou a barra. Experimentou, ent�o, v�rias chaves, sem sucesso. Nenhum som vinha de dentro do quarto e o sil�ncio fez Holmes franzir a testa.</p><p>- Espero que n�o seja tarde demais - disse. - Acho, Srta. Hunter, que � melhor entrarmos sem a senhora. Vamos, Watson, ponha o ombro contra a porta e veremos se n�o conseguimos entrar.</p><p>Era uma porta velha e fr�gil e cedeu aos nossos esfor�os unidos. Juntos entramos no quarto. Estava vazio. N�o havia nenhuma mob�lia, exceto um colch�o de palha, uma pequena mesa e uma cesta cheia de roupas. Uma clarab�ia no teto estava aberta e a prisioneira fugira.</p><p>- Houve alguma coisa criminosa aqui - disse Holmes. - O vil�o adivinhou as inten��es da Srta. Hunter e carregou sua v�tima.</p><p>- Mas como?</p><p>- Pela clarab�ia. Logo saberemos como conseguiu. - Segurou-se nas bordas da abertura e olhou o telhado. - Ali, sim - exclamou. - Aqui est� uma escada, encostada na beira do telhado. Foi assim que a levou.</p><p>- Mas � imposs�vel - disse a Srta. Hunter. - Essa escada n�o estava a� quando os Rucastles sa�ram.</p><p>- Ele deve ter voltado ent�o. Estou lhe dizendo que � um homem esperto e perigoso. N�o ficaria surpreso se esses passos que estou ouvindo na escada fossem dele. Acho, Watson, que seria aconselh�vel voc� ficar de pistola em punho.</p><p>Mal acabara de falar, quando surgiu um homem � porta do quarto, um homem muito gordo com um cacete na m�o. A Srta. Hunter gritou e se encolheu junto � parede quando o viu, mas Sherlock Holmes avan�ou e enfrentou-o.</p><p>- Vil�o! - disse. - Onde est� sua filha?</p><p>O homem gordo olhou em volta e depois para a clarab�ia aberta.</p><p>- Eu � que tenho de perguntar isso! - berrou. - Ladr�es! Espi�es e ladr�es! Peguei voc�s, n�o �? Est�o em meu poder. Tornarei conta de voc�s! - Virou de costas e desceu as escadas o mais r�pido poss�vel.</p><p>- Foi buscar o c�o! - exclamou a Srta. Hunter.</p><p>- Tenho meu rev�lver - eu disse.</p><p>- � melhor fechar a porta da frente - disse Holmes e descemos as escadas correndo. Mal chegamos quando ouvimos os latidos do c�o e um grito de agonia, com o ru�do horr�vel de dentes triturando, que arrepiava de ouvir. Um homem idoso de cara vermelha e membros tr�mulos saiu cambaleando de uma porta lateral.</p><p>- Meu Deus! - gritou. - Algu�m. soltou o c�o. Ele n�o come h� dois dias. Depressa, depressa, ou ser� tarde demais!</p><p>Holmes e eu sa�mos correndo para casa, com Toller correndo atr�s. L� estava o imenso e faminto animal com o focinho preto afundado na garganta de Rucastle, enquanto este se retorcia no ch�o e gritava. Chegando perto, estourei seus miolos e caiu de lado com os dentes brancos ainda agarrados nas dobras do pesco�o do vil�o. Com muito esfor�o, separamos os dois e carregamos o homem horrivelmente estra�alhado mas ainda vivo para dentro de casa, colocando-o no sof� da sala. Despachamos o Toller repentinamente s�brio para dar a not�cia � sua mulher e fiz o que podia para aliviar sua dor. Est�vamos todos em seu redor quando a porta se abriu e uma mulher alta e magra entrou na sala.</p><p>- Sra. Toller! - exclamou a Srta. Hunter.</p><p>- Sim, senhora. O Sr. Rucastle me soltou quando voltou, antes de subir. Ah, senhora, � uma pena que n�o tivesse me dito o que estava indo, pois eu lhe diria que todo seu esfor�o seria em v�o.</p><p>- Ah! - disse Holmes, olhando atentamente para ela. � claro que a Sra. Toller sabe mais sobre isso que qualquer outra pessoa.</p><p>- Sim, senhor, sei, e estou pronta a contar tudo que sei.</p><p>- Ent�o, por favor, sente-se e fale, pois h� v�rios pontos em que devo confessar que ainda estou no escuro.</p><p>- Vou deixar tudo claro para o senhor - respondeu - e j� teria feito isso se tivesse conseguido sair do por�o. Se houver um inqu�rito policial sobre isso, lembre-se que fiquei de seu lado e que era amiga da Srta. Alice.</p><p>- Ela nunca se sentiu feliz em casa, a Srta. Alice, desde que o pai se casou novamente. Ela ficou meio abandonada e n�o podia dar opini�o em coisa alguma. Mas s� ficou muito ruim para ela depois que conheceu o Sr. Fowler em casa de uma amiga. Pelo que pude saber, a Srta. Alice tinha herdado alguma coisa diretamente, mas era t�o quieta e paciente que nunca falava nisso e deixava tudo nas m�os do Sr. Rucastle. Ele sabia que estava seguro, mas quando surgiu a chance de um marido, que pediria tudo a que tinha direito por lei, ent�o o pai achou que estava na hora de acabar com tudo isso. Queria que ela assinasse um papel de forma que, casasse ou n�o, ele poderia usar o dinheiro dela. Quando ela recusou, ficou atr�s dela at� que ela teve uma febre cerebral e durante seis semanas ficou entre a vida e a morte. Finalmente melhorou, magra como um esqueleto, e com o lindo cabelo cortado rente. Mas isso n�o alterou o rapaz que gostava dela e continuou fiel como poucos homens s�o.</p><p>- Ah, - disse Holmes - acho que o que teve a bondade de nos contar esclarece bem as coisas e posso deduzir o resto. O Sr. Rucastle, presumo, recorreu ent�o a essa forma de pris�o?</p><p>- Sim, senhor.</p><p>- E trouxe a Srta. Hunter de Londres para se livrar da persist�ncia desagrad�vel do Sr. Fowler.</p><p>- Foi isso mesmo, senhor.</p><p>- Mas o Sr. Fowler, sendo perseverante, corno todos os homens do mar devem ser, cercou a casa e, travando conhecimento com a senhora, conseguiu com certos argumentos, met�licos ou n�o, convenc�-la que seus interesses eram iguais aos dele.</p><p>- O Sr. Fowler era um cavalheiro de palavras bondosas e m�o aberta -disse a Srta. Toller serenamente.</p><p>- E dessa forma conseguiu que seu marido tivesse bastante bebidas � m�o e que uma longa escada estivesse pronta assim que seu patr�o saiu.</p><p>- O senhor est� certo, senhor, foi assim mesmo que aconteceu.</p><p>- Estou certo que lhe devemos um pedido de desculpas, Sra. Toller -disse Holmes. - A senhora certamente esclareceu tudo que nos perturbava. E a� vem o m�dico do Condado e a Sra. Rucastle e acho, Watson, que � melhor levarmos a Srta. Hunter para Winchester, pois parece que nosso ZOCUS Stand� no momento � altamente duvidoso.</p><p>E assim foi solucionado o mist�rio da casa sinistra com as faias roxas em frente. O Sr. Rucastle sobreviveu, mas ficou para sempre um homem alquebrado, mantido vivo somente pelos cuidados de sua devotada esposa. Vivem ainda com seus velhos empregados, que provavelmente sabem tanto sobre o passado de Rucastle que ele acha dif�cil se separar deles. O Sr. Fowler e a Srta. Rucastle casaram, por licen�a especial, em Southampton no dia seguinte ao de sua fuga e ele agora foi designado pelo governo para um posto na Ilha de Mauritius. Quanto � Srta. Violet Hunter, meu amigo Holmes, para meu grande desapontamento, n�o manifestou mais nenhum interesse nela desde que cessou de ser o centro de um de seus problemas, � agora diretora de uma escola particular em Walsall, onde creio que faz grande sucesso.</p><empty-line/><p>*</p><p>FIM</p><empty-line/></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>Mem�rias de Sherlock Holmes</strong></p><empty-line/></section><section><p><strong>silver blaze</strong></p><p>� Lamento, Watson, mas preciso ir � disse Holmes, quando nos sent�vamos para o breakfast , certa manh�.</p><p>� Ir! Para onde?</p><p>� Dartmoor. King�s Pyland.</p><p>N�o me surpreendi. Na verdade, o que me espantava era o fato de ele ainda n�o ter se envolvido naquele caso extraordin�rio, tema das conversas de um extremo a outro da Inglaterra. Meu amigo havia passado o dia inteiro perambulando pela sala, cabisbaixo, cenho franzido, abastecendo e reabastecendo o cachimbo com fumo negro e forte, surdo a minhas perguntas ou observa��es. Novas edi��es de todos os jornais nos eram enviadas pelo jornaleiro e atiradas a um canto depois de uma olhada superficial. Apesar do seu sil�ncio, eu sabia perfeitamente sobre o que ele estava meditando. Perante o p�blico havia apenas um problema capaz de desafiar</p><p>a sua capacidade anal�tica: o estranho desaparecimento do favorito da Copa Wessex e o tr�gico assassinato do seu treinador. Quando Holmes anunciou de repente a inten��o de ir at� o� local da trag�dia, fez, portanto, apenas o que eu previa e esperava que fizesse.</p><p>� Teria muito prazer em acompanh�-lo, caso n�o atrapalhe � falei.</p><p>� Meu caro Watson, voc� me faria um imenso favor se viesse comigo. E creio que n�o desperdi�ar� seu tempo, porque h� aspectos deste caso que o tornam absolutamente singular. Acho que chegaremos no momento exato de pegar o trem em Paddington. Explicarei melhor o assunto durante o trajeto. E eu ficaria grato se voc� levasse o seu excelente bin�culo.</p><p>E foi assim que, cerca de uma hora mais tarde, eu estava num canto de um vag�o de primeira classe a caminho de Exeter, enquanto Sherlock Holmes, com seu rosto atento contornado pelo bon� de viagem com protetor de orelhas, mergulhava rapidamente na pilha de edi��es recentes dos jornais que havia comprado em Paddington. Reading j� tinha ficado para tr�s quando ele atirou a �ltima debaixo do banco e ofereceu-me a sua charuteira.</p><p>� Estamos andando bem � disse, olhando pela janela e depois verificando o rel�gio. � Nossa velocidade no momento � de 80 quil�metros hor�rios.</p><p>� N�o reparei nos postes de marca��o da estrada.</p><p>� Nem eu. Mas os postes telegr�ficos desta linha ficam a 60 metros um do outro, o que simplifica o c�lculo. Suponho que j� tenha lido a respeito do assassinato de John Straker e do desaparecimento de � Li o que publicaram o e o � � um desses casos em que a arte do racioc�nio deve ser usada mais para a triagem de detalhes que para a obten��o de novas evid�ncias. A trag�dia foi t�o incomum, t�o completa e de tamanha import�ncia pessoal para tanta gente, que estamos sofrendo de um excesso de suposi��es, conjecturas e hip�teses. A dificuldade � distinguir entre estrutura do fato � do fato absoluto, ineg�vel � e os acr�scimos de te�ricos e rep�rteres. E ent�o, situando-nos sobre esta base s�lida, � nosso dever verificar quais as conclus�es que podem ser tiradas e quais os pontos especiais que servem de eixo a todo o mist�rio. Na noite de ter�a-feira, recebi telegramas do coronel Ross, o propriet�rio do cavalo, e do inspetor Gregory, encarregado de investigar o caso, solicitando a minha coopera��o.</p><p>� Ter�a � noite! Mas hoje � quinta de manh�. Por que n�o viajou ontem?</p><p>� Porque cometi um erro, meu caro Watson, uma ocorr�ncia mais freq�ente do que pensaria quem me conhecesse apenas atrav�s das suas mem�rias. O fato � que n�o acreditei na possibilidade de que o cavalo mais extraordin�rio da Inglaterra permanecesse oculto por muito tempo, principalmente numa regi�o t�o escassamente povoada como o norte de Dartmoor. Ontem, hora ap�s hora, esperei ouvir a not�cia de que ele fora encontrado e de que a pessoa que o roubou era tamb�m o assassino de John Straker. Mas quando despontou outro dia e descobri que, al�m de prenderem o jovem Fitzroy Simpson, nada fora feito, achei que era hora de agir. Mesmo assim, acho que, de certo modo, o dia de ontem n�o foi perdido.</p><p>� Elaborou alguma teoria?</p><p>� Pelo menos consegui captar os fatos essenciais do caso. Vou enumer�-los para voc�, pois n�o h� nada melhor para esclarecer uma situa��o do que exp�-la a outra pessoa. E dificilmente poderia esperar a sua colabora��o se n�o lhe mostrar o nosso ponto de partida.</p><p>Recostei-me nas almofadas fumando um charuto enquanto Holmes, inclinando-se para a frente, com o indicador longo e fino sublinhando os pontos na palma da m�o esquerda, fez um resumo dos acontecimentos que resultaram na nossa viagem.</p><p>� � descendente de Somomy e tem uma ficha t�o brilhante quanto o seu famoso antepassado. Est� agora com cinco anos e conquistou para o coronel Ross, seu feliz propriet�rio, todos os pr�mios do turfe. At� o momento da cat�strofe ele era o favorito da Copa Wessex, pagando 3 para 1. Sempre foi um dos grandes favoritos do p�blico das corridas e at� agora nunca o desapontou, de modo que, mesmo quando o risco era grande, imensas somas de dinheiro eram apostadas nele. � �bvio, portanto, que h� muita gente interessada em impedir que esteja presente ao ser dada a partida na pr�xima ter�a-feira.</p><p>� Este fato, naturalmente, � bem conhecido, em King�s Pyland, onde fica o haras de treinamento do coronel. Todas as precau��es foram tomadas para proteger o favorito. O treinador, John Straker, � um j�quei aposentado que correu com as cores de Ross at� ficar pesado demais. Trabalhou para o coronel durante cinco anos como j�quei e sete como treinador, e sempre demonstrou que era zeloso e honesto. Ele tinha tr�s rapazes sob suas ordens, porque o haras era pequeno, com apenas quatro cavalos no total. Um dos rapazes fica sempre de vigia � noite na cavalari�a, enquanto os outros dormem no celeiro. Os tr�s t�m um car�ter irrepreens�vel. John Straker, que � casado, mora numa casa pequena, a cerca de 200 metros da cavalari�a. Sem filhos, tem uma criada e vive confortavelmente. A regi�o � muito deserta, mas cerca de 1 quil�metro ao norte h� um punhado de casinhas constru�das por um empreiteiro de Tavistock, para serem usadas por enfermos e outras pessoas que queiram desfrutar o ar puro de Dartmoor. A pr�pria Tavistock fica cerca de 3 quil�metros a oeste, enquanto do outro lado do p�ntano, tamb�m a 3 quil�metros, fica um haras de treinamento maior, Mapleton, que pertence a Backwater e � dirigido por Silas Brown. Em todas as outras dire��es, a regi�o � completamente deserta, habitada apenas por um punhado de ciganos. Esta era a situa��o geral na noite de segunda-feira, quando ocorreu a cat�strofe.</p><p>� Ao anoitecer, os cavalos foram exercitados e levados como sempre, e, �s 21 horas, as cavalari�as foram trancadas. Dois dos rapazes foram at� a casa do treinador, onde cearam na cozinha, enquanto o terceiro, Ned Hunter, permaneceu de guarda. Alguns minutos depois das nove, a empregada, Edith Baxter, levou para a cavalari�a a ceia dele, que consistia num prato de carneiro ao curry. N�o levou bebida, porque havia um po�o na cavalari�a e, pelo regulamento, o rapaz que fica de vigia s� pode beber �gua. A empregada levava uma lanterna, porque estava muito escuro e o caminho atravessava a �rea descampada do p�ntano.</p><p>� Edith Baxter estava a 30 metros da cavalari�a quando um homem surgiu da escurid�o e mandou que ela parasse. Quando ele penetrou no c�rculo de luz amarelada da lanterna, ela notou que se tratava de uma pessoa com a apar�ncia de um cavalheiro, vestindo um terno cinza de e bon� de pano. Usava polainas e carregava uma pesada bengala de cast�o redondo. Mas ela ficou muito impressionada com a extrema palidez do rosto e com o seu nervosismo. Quanto � idade, achou que passava dos 30.</p><p>� �Pode me dizer onde estou?�, ele perguntou. �Estava quase decidido a dormir no p�ntano quando avistei a luz da sua lanterna.�</p><p>� �Est� perto do haras de King�s Pyland�, respondeu a criada.</p><p>� �Verdade? Que sorte! Soube que um dos rapazes da cavalari�a dorme sozinho ali todas as noites. Deve estar levando o jantar para ele. Tenho certeza de que n�o � orgulhosa a ponto de recusar um vestido novo, n�o � mesmo?� E tirando do bolso do colete um papel branco dobrado: �Entregue isto ao rapaz e ter� o mais lindo vestido que o dinheiro pode comprar.�</p><p>� Assustada com a veem�ncia dele, a mo�a correu at� a janela pela qual costumava entregar as refei��es. Encontrou-a j� aberta, e Hunter estava sentado a uma mesinha, no interior. Tinha come�ado a contar a ele o que havia acontecido, quando o estranho tornou a se aproximar.</p><p>� �Boa-noite�, disse, espiando pela janela. �Gostaria de falar com voc�.�</p><p>� A mo�a jura que, enquanto ele falava, notou a ponta de um papel que sa�a da m�o fechada do homem.</p><p>��O que voc� quer?�, perguntou o rapaz.</p><p>� �Um neg�cio que talvez encha de dinheiro o seu bolso�, respondeu o homem. �Voc�s t�m dois cavalos inscritos na Copa Wessex � e . D� um palpite e n�o sair� perdendo. � verdade que, no peso, poderia dar ao outro uma vantagem de 1/8 de milha em 100 jardas, e que o haras apostou tudo nele?�</p><p>��Ent�o � um daqueles malditos vendedores de palpites?�, perguntou o rapaz. �Vou mostrar o que fazemos com eles em King�s Pyland�. Levantando-se de um salto, atravessou correndo a cavalari�a para soltar o cachorro. A mo�a fugiu para casa, mas, enquanto corria, olhou para tr�s e viu o estranho debru�ado na janela. Um minuto depois, quando Hunter saiu com o c�o, ele havia desaparecido e, embora o rapaz tivesse procurado em volta dos pr�dios, n�o encontrou nenhum vest�gio dele.</p><p>� Um momento! � eu interrompi. � O rapaz deixou a porta destrancada quando saiu correndo com o cachorro?</p><p>� Excelente, Watson, excelente! � murmurou meu amigo. � A import�ncia do detalhe me impressionou tanto que mandei um telegrama urgente a Dartmoor, ontem, a fim de esclarecer a quest�o. O rapaz trancou a porta antes de sair. Quanto � janela, n�o era suficientemente larga para permitir a passagem de um homem.</p><p>� Hunter esperou at� que seus companheiros voltassem e mandou um recado ao treinador, contando o que havia acontecido. Straker ficou preocupado, embora aparentemente n�o tenha percebido o verdadeiro significado da ocorr�ncia. Mas ficou vagamente inquieto, e a sra. Straker, acordando � uma hora, viu que ele estava se vestindo. Em resposta �s perguntas da mulher, disse que n�o conseguia dormir, preocupado com os cavalos, e que iria at� as cavalari�as verificar se estava tudo em ordem. Ela suplicou-lhe que ficasse em casa, porque ouvia a chuva tamborilando nas vidra�as, mas, sem dar ouvidos, ele vestiu um pesado imperme�vel e saiu.</p><p>� A sra. Straker acordou �s sete horas e percebeu que o marido n�o tinha voltado. Vestiu-se depressa, chamou a empregada, e dirigiram-se para as cavalari�as. A porta estava aberta; dentro, encolhido sobre uma cadeira, estava Hunter, mergulhado num estado de profundo estupor. A baia do favorito estava vazia e n�o havia sinal do treinador.</p><p>Os dois rapazes que dormiam no celeiro sobre a sala dos arreios foram despertados rapidamente. N�o tinham ouvido nada durante a noite, porque ambos t�m sono pesado. Hunter estava, obviamente, sob o efeito de alguma droga poderosa, e como n�o conseguissem extrair dele algo que fizesse sentido, deixaram-no dormir, e os dois rapazes e as duas mulheres sa�ram em busca dos desaparecidos. Ainda acreditavam na possibilidade de que o treinador, por algum motivo, tivesse levado o cavalo para um exerc�cio matinal, mas ao subirem a colina pr�xima � casa, de onde se avista todo o p�ntano ao redor, n�o viram sinal do favorito, mas perceberam algo que os advertiu de que estavam diante de uma trag�dia.</p><p>� A cerca de 500 metros das cavalari�as, o sobretudo de John Straker pendia de um arbusto, balan�ando ao vento. Pouco adiante havia uma depress�o circular no solo e no fundo dela encontraram o corpo do infeliz treinador. Tinha a cabe�a despeda�ada por um golpe violento desferido por um objeto pesado e estava com um ferimento na coxa, um corte longo e limpo, evidentemente causado por algum instrumento muito afiado. Mas era evidente que Straker tinha se defendido valentemente dos atacantes, pois segurava na m�o direita uma faca pequena manchada de sangue at� o cabo, e na esquerda uma gravata de seda vermelha e preta, que a empregada reconheceu como a usada na noite anterior pelo estranho que estivera nas cavalari�as.</p><p>� Hunter, ao voltar a si do estupor, confirmou quem era o dono da gravata. Tinha certeza tamb�m de que o mesmo estranho, atrav�s da janela, havia colocado alguma droga na sua comida, deixando assim as cavalari�as sem o seu vigia.</p><p>� Quanto ao cavalo desaparecido, havia provas abundantes na lama que cobria o fundo da depress�o de que ele estivera ali no momento da luta. Mas desde aquela manh� continua desaparecido e, embora tenha sido oferecida uma grande recompensa a quem encontr�-lo e todos os ciganos de Dartmoor estejam alertados, n�o h� not�cias dele. Finalmente, uma an�lise mostrou que os restos da ceia ingerida pelo cavalari�o cont�m uma grande quantidade de �pio, embora o pessoal da casa tenha comido o mesmo carneiro sem qualquer efeito desagrad�vel.</p><p>� Estes s�o os fatos principais do caso, sem o acr�scimo de qualquer suposi��o, e narrados da maneira mais objetiva poss�vel. Vou agora recapitular o que a pol�cia j� fez em rela��o ao assunto.</p><p>� O inspetor Gregory, a quem o caso foi confiado, � um policial de extrema compet�ncia. Se fosse dotado de alguma imagina��o, poderia alcan�ar os postos mais elevados da profiss�o. Ao chegar, logo descobriu e prendeu o homem sobre o qual recaem naturalmente as suspeitas. N�o foi dif�cil encontr�-lo porque morava em uma das casinhas nas redondezas. Parece que seu nome � Fitzroy Simpson. � um homem bem-nascido e educado, que esbanjou a fortuna no turfe e agora se sustenta fazendo algum trabalho discreto e distinto de corretagem de apostas nos clubes esportivos de Londres. Um exame de seu livro revela que apostas no montante de 5 mil libras foram registradas por ele contra o favorito.</p><p>� Ao ser preso, declarou que fora a Dartmoor na esperan�a de obter informa��es sobre os cavalos de King�s Pyland e tamb�m sobre , o segundo favorito, que estava aos cuidados de Silas Brown, do haras de Mapleton. N�o tentou negar que agira na noite anterior conforme haviam descrito, mas afirmou que n�o tinha m�s inten��es. Desejava apenas obter informa��es diretas. Quando lhe mostraram a gravata, ficou muito p�lido e foi incapaz de explicar sua presen�a na m�o do homem assassinado. Suas roupas �midas revelavam que estivera sob a tempestade na v�spera e sua bengala, uma Penang com cast�o de chumbo, seria uma arma que, com golpes repetidos, poderia provocar os ferimentos horr�veis que haviam sido a causa da morte do treinador.</p><p>� Por outro lado, ele n�o tinha nenhum ferimento, embora o estado da faca de Straker revelasse que pelo menos um dos seus assaltantes devia apresentar sua marca. Em resumo, este � o caso, Watson, e se voc� puder me ajudar a esclarecer alguma coisa, eu ficarei eternamente grato.</p><p>Ouvi com o maior interesse a narrativa que Holmes, com sua precis�o caracter�stica, me fez. Embora a maioria dos fatos j� fosse do meu conhecimento, eu n�o avaliara suficientemente sua relativa import�ncia, ou a conex�o entre eles.</p><p>� N�o seria poss�vel que o corte em Straker tivesse sido causado por sua pr�pria faca, em conseq��ncia das convuls�es decorrentes de qualquer ferimento no c�rebro?</p><p>� � mais do que poss�vel. � prov�vel � disse Holmes. � Neste caso, desaparece um dos principais pontos a favor do acusado.</p><p>� Ainda assim n�o consigo compreender qual � a teoria da pol�cia.</p><p>� Temo que, seja qual for a teoria que apresentemos, haver� s�rias obje��es a ela � replicou meu amigo. � A pol�cia imagina, suponho, que esse Fitzroy Simpson, depois de colocar a droga na comida do rapaz e conseguir de algum modo uma duplicata da chave, abriu a porta da estrebaria e retirou o cavalo com a inten��o de faz�-lo desaparecer. Os arreios sumiram, de modo que Simpson deve t�-los colocado no animal. Deixando a porta aberta, ele estava conduzindo o cavalo pelo p�ntano, quando encontrou, ou foi alcan�ado, pelo treinador. Houve uma luta, naturalmente. Simpson estourou os miolos do treinador com sua bengala pesada sem receber qualquer ferimento da faquinha que Straker usou para se defender, e em seguida levou o cavalo para algum esconderijo. � poss�vel tamb�m que o animal tenha fugido durante a luta e esteja vagueando pelo p�ntano. Este � o caso como a pol�cia o v� e, por mais improv�vel que pare�a, todas as outras explica��es s�o mais improv�veis ainda. No entanto, vou verificar rapidamente a quest�o quando estiver no local, e at� l� n�o vejo como podemos fazer algum progresso.</p><p>J� era noite quando chegamos � cidadezinha de Tavistock, que fica, como um relevo num escudo, em meio ao amplo c�rculo de Dartmoor. Dois cavalheiros nos aguardavam na esta��o; um era alto e louro, cabeleira e barba leoninas, olhos azuis penetrantes. O outro era baixo e vivo, de apar�ncia esmerada e elegante, usando casaco longo e polainas, e ostentando mon�culo e su��as pequenas e bem cuidadas. O �ltimo era o coronel Ross, o conhecido desportista, e o primeiro, o inspetor Gregory, um homem que estava adquirindo fama rapidamente no corpo de detetives da pol�cia inglesa.</p><p>� Estou encantado em v�-lo aqui, sr. Holmes � disse o coronel. � O inspetor fez tudo o que se poderia sugerir, mas n�o deixarei pedra sobre pedra para vingar o pobre Straker e recuperar meu cavalo.</p><p>� Alguma nova ocorr�ncia? � perguntou Holmes.</p><p>� Lamento dizer que fizemos pouco progresso � respondeu o inspetor. � Temos uma carruagem l� fora, e como acredito que gostaria de ver o local antes de escurecer, podemos conversar no trajeto.</p><p>Um minuto depois est�vamos instalados num confort�vel landau e atravessando a pitoresca e antiga cidadezinha de Devonshire. O inspetor Gregory estava mergulhado no caso e despejou uma torrente de observa��es, que Holmes intercalava com uma ou outra pergunta ou interjei��o. O coronel Ross recostou-se, com os bra�os cruzados e o chap�u ca�do sobre os olhos, enquanto eu escutava interessado o di�logo entre os dois detetives. Gregory formulava a sua teoria, que era quase exatamente a que Holmes antecipara no trem.</p><p>� A rede est� se fechando em torno de Fitzroy Simpson e, na minha opini�o, ele � o nosso homem. Ao mesmo tempo reconhe�o que as provas s�o puramente circunstanciais, e que uma nova ocorr�ncia poderia mudar tudo.</p><p>� E a faca de Straker?</p><p>� Chegamos � conclus�o de que ele pr�prio se feriu ao cair.</p><p>� Meu amigo, o dr. Watson, sugeriu essa hip�tese quando v�nhamos para c�. Neste caso, o detalhe prejudicaria Simpson.</p><p>� Sem d�vida. Ele n�o tem faca nem qualquer sinal de ferimento. A evid�ncia contra ele � muito forte. Ele tinha muito interesse no desaparecimento do favorito e � suspeito de ter drogado o cavalari�o; esteve, sem d�vida, exposto � tempestade, andava armado com uma bengala pesada e sua gravata foi encontrada na m�o do morto. Creio que temos o suficiente para coloc�-lo diante do j�ri.</p><p>Holmes meneou a cabe�a.</p><p>� Um advogado esperto destruiria tudo isso. Por que ele tiraria o cavalo da cavalari�a? Se quisesse aleij�-lo, por que n�o o faria ali mesmo? Foi encontrada com ele uma duplicata da chave? Qual foi o farmac�utico que lhe vendeu �pio em p�? Acima de tudo, onde poderia ele, um estranho na regi�o, esconder um cavalo, e um cavalo como aquele? Qual a explica��o dele para o papel que pediu � empregada para entregar ao rapaz da cavalari�a?</p><p>� Diz ele que foi uma nota de 10 libras. A nota foi encontrada no bolso dele. Mas os outros obst�culos n�o s�o t�o formid�veis como parecem. Ele conhece a regi�o. Por duas vezes hospedou-se em Tavistock no ver�o. O �pio provavelmente foi trazido de Londres. A chave, depois de servir � sua finalidade, foi jogada fora. O cavalo pode estar no fundo de um dos po�os, ou nas velhas minas da regi�o.</p><p>� O que ele diz a respeito da gravata?</p><p>� Reconhece que � dele e afirma que a perdeu. Mas surgiu um novo elemento no caso que pode explicar por que ele levou o cavalo para fora da estrebaria.</p><p>Holmes agu�ou os ouvidos.</p><p>� Encontramos vest�gios que mostram que um grupo de ciganos acampou na noite de segunda-feira a cerca de 1,5 quil�metro do local do assassinato. Na ter�a, haviam desaparecido. Supondo que houvesse algum trato entre Simpson e esses ciganos, ele n�o poderia estar levando o cavalo at� o acampamento quando foi surpreendido? E os ciganos n�o estariam agora com o animal?</p><p>� � bem poss�vel.</p><p>� O p�ntano est� sendo vasculhado em busca dos ciganos. Tamb�m examinei todas as estrebarias e cavalari�as de Tavistock num raio de 15 quil�metros.</p><p>� H� um outro haras de treinamento bem pr�ximo, n�o �?</p><p>� Sim, � um dado que n�o devemos desprezar. Como , o cavalo deles, estava em segundo nas apostas, eles tinham interesse no desaparecimento do favorito. Sabe-se que Silas Brown, o treinador, tem feito apostas elevadas, e n�o era amigo do pobre Straker. Mas, examinamos as cavalari�as e n�o h� nada que o ligue ao caso.</p><p>� E nada que ligue Simpson aos interesses do haras Mapleton?</p><p>� Absolutamente nada.</p><p>Holmes recostou-se na carruagem e a conversa cessou. Minutos depois, nosso cocheiro parou diante de uma bonita casa de tijolos vermelhos, com telhado de beirais salientes, que ficava na margem da estrada. Um pouco adiante, do outro lado do havia um anexo de telhado cinzento. Em volta, os contornos sem relevo do p�ntano, coloridos de bronze pela vegeta��o crestada, estendiam-se at� o horizonte, interrompidos apenas pelas torres de Tavistock e por um conjunto de casas a oeste, que indicavam as cavalari�as Mapleton. Saltamos todos, com exce��o de Holmes, que continuou recostado, olhos fixos no c�u, inteiramente absorto nos seus pensamentos. S� quando toquei em seu bra�o foi que ele despertou com um sobressalto e desceu da carruagem.</p><p>� Desculpe-me � disse, virando-se para o coronel Ross, que o olhava surpreso. � Estava devaneando.</p><p>Havia um brilho em seus olhos e uma excita��o contida nas suas atitudes que me convenceram, habituado como eu estava ao seu jeito, de que encontrara uma pista, embora n�o pudesse imaginar onde.</p><p>� Prefere ir logo ao local do crime, sr. Holmes? � perguntou Gregory.</p><p>� Acho que prefiro ficar aqui mais um pouco, revendo alguns detalhes. Straker foi trazido para c�, eu presumo.</p><p>� Sim. Est� l� em cima. A inquiri��o ser� amanh�.</p><p>� Ele trabalhou para o senhor v�rios anos, coronel Ross?</p><p>� E sempre o considerei um excelente empregado.</p><p>� Suponho que tenha feito um invent�rio do que encontrou nos bolsos dele no momento da morte, inspetor.</p><p>� Os objetos est�o na sala, caso queira examin�-los.</p><p>� Gostaria muito.</p><p>Entramos todos na sala da frente e nos sentamos em volta da mesa, enquanto o inspetor abria uma caixa de metal e colocava diante de n�s uma pequena pilha de objetos: uma caixa de f�sforos, um toco de vela, um cachimbo A. D. P. de raiz de urze branca, uma bolsa de pele de foca contendo alguns gramas de fumo Cavendish , um rel�gio de prata com corrente de ouro, cinco soberanos de ouro, um estojo de l�pis de alum�nio, alguns pap�is e uma faca de cabo de marfim, de l�mina muito delicada e fixa, com a marca �Weiss &amp; Co., Londres�.</p><p>� Uma faca pouco comum � disse Holmes, examinando-a com aten��o. � Como est� manchada de sangue, presumo que seja a faca encontrada na m�o do morto. Watson, isto � especialidade sua, com certeza.</p><p>� � o que chamamos faca de catarata � eu disse.</p><p>� Foi o que pensei. Uma l�mina muito delicada, destinada a trabalho muito delicado. � um objeto estranho para um homem carregar numa sa�da que prometia problemas, principalmente porque n�o se fechava dentro do bolso.</p><p>� A ponta estava protegida por um disco de corti�a que encontramos ao lado do corpo � disse o inspetor. � A mulher de Straker disse que a faca estava h� dias sobre a penteadeira, e que ele a pegou quando saiu do quarto. Como arma n�o era grande coisa, mas talvez tenha sido a melhor que ele conseguiu encontrar no momento.</p><p>� � poss�vel. E estes pap�is?</p><p>� Tr�s deles s�o recibos de fornecedores de feno. Outro � uma carta de instru��es do coronel Ross. Este � a conta de uma costureira, no valor de 37 libras e 15 pence, enviada por madame Lesurier, de Bond Street, para William Derbyshire. A sra. Straker disse que Derbyshire era amigo de seu marido e �s vezes a correspond�ncia dele era endere�ada para c�.</p><p>� A sra. Derbyshire tem gostos dispendiosos � observou Holmes, olhando para a conta. � Vinte e dois guin�us � uma quantia elevada por um �nico vestido. Mas parece que n�o temos mais nada para descobrir aqui e podemos ir agora at� o local do crime.</p><p>Quando sa�amos da sala, uma mulher que devia estar esperando no corredor aproximou-se e p�s a m�o no bra�o do inspetor. Tinha a fisionomia abatida, magra e ansiosa, com a marca de uma dor recente.</p><p>� Pegaram os criminosos? J� os encontraram? � perguntou, ofegante.</p><p>� N�o, sra. Straker. Mas aqui est� o sr. Holmes, que veio de Londres para nos ajudar. Faremos todo o poss�vel para encontr�-los.</p><p>� Tenho a certeza de que a conheci em Plymouth, numa , h� algum tempo, sra. Straker � falou Holmes.</p><p>� N�o, senhor. Deve estar enganado.</p><p>� Ora, eu seria capaz de jurar. Usava um vestido de seda branca enfeitado com uma pena de pav�o.</p><p>� Nunca tive um vestido assim, senhor.</p><p>� Ah, ent�o estou enganado.</p><p>E com um pedido de desculpas, Holmes saiu atr�s do inspetor. Depois de uma curta caminhada, chegamos � depress�o do terreno onde fora encontrado o corpo. Na borda ficava a moita onde o casaco havia sido pendurado.</p><p>� N�o ventava naquela noite, segundo eu soube � observou Holmes.</p><p>� Exato. Mas chovia muito.</p><p>� Nesse caso, o sobretudo n�o foi atirado pelo vento sobre a moita, e sim colocado ali.</p><p>� Sim, foi colocado sobre a moita.</p><p>� Isso me interessa bastante. Percebo que o solo tem numerosas marcas de p�s. Sem d�vida, muita gente esteve aqui desde a noite de segunda-feira.</p><p>� Um peda�o de tapete foi colocado aqui ao lado, e todos n�s ficamos sobre ele.</p><p>� Excelente.</p><p>� Nesta sacola trago as botas que Straker cal�ava, um dos sapatos de Fitzroy Simpson e uma ferradura de � Meu caro inspetor, o senhor se supera!</p><p>Holmes pegou a sacola, desceu at� o fundo da depress�o e empurrou o tapete mais para o centro. Em seguida, deitando-se de bru�os, queixo apoiado nas m�os, examinou atentamente a lama pisada.</p><p>� Ora! � exclamou de repente. � O que � isto?</p><p>Era um f�sforo de cera meio queimado e t�o recoberto de lama que a princ�pio parecia uma lasca de madeira.</p><p>� N�o sei como me escapou � disse o inspetor, aborrecido.</p><p>� Estava invis�vel, enterrado na lama. S� o encontrei porque eu o estava� procurando.</p><p>� O qu�? Esperava encontr�-lo?</p><p>� Achei que seria prov�vel.</p><p>Tirando as botas da sacola, comparou as marcas de cada uma com as pegadas� impressas no solo. Em seguida subiu at� a borda da depress�o e p�s-se a rastejar entre as urzes e as moitas.</p><p>� Temo que n�o haja outras pegadas � disse o inspetor. Examinei o solo cuidadosamente por cerca de 200 metros em todas as dire��es.</p><p>� Verdade? � disse Holmes, levantando-se. � Eu n�o cometeria a impertin�ncia de fazer isso novamente depois do que disse. Mas gostaria de percorrer o p�ntano antes que escure�a, para reconhecer amanh� o terreno, e acho que vou p�r a ferradura no bolso para dar sorte.</p><p>O coronel Ross, que mostrava alguns sinais de impaci�ncia diante do m�todo de trabalho silencioso e sistem�tico do meu amigo, olhou para o rel�gio.</p><p>� Queria que voltasse comigo, inspetor � falou. � H� v�rios pontos sobre os quais gostaria de ouvir o seu conselho. Preciso saber, principalmente, se, em considera��o ao p�blico, devo retirar o nome do nosso cavalo da rela��o dos participantes da Copa.</p><p>� Com certeza n�o! � exclamou Holmes, decidido. � Eu deixaria o nome na lista.</p><p>O coronel inclinou-se.</p><p>� � um prazer ouvir a sua opini�o, senhor. Poder� encontrar-nos na casa do pobre Straker quando terminar o seu passeio, e ent�o iremos juntos para Tavistock.</p><p>Ele voltou junto com o inspetor, enquanto Holmes e eu caminh�vamos lentamente pelo p�ntano. O sol come�ava a desaparecer por tr�s das estrebarias de Mapleton, e a vasta plan�cie que se estendia diante de n�s coloria-se de dourado, que se transformava em castanho-avermelhado nos lugares onde as urzes e as sar�as eram envolvidas pelo poente. Mas as belezas da paisagem pareciam inexistentes para o meu amigo, mergulhado em profunda medita��o.</p><p>� � por aqui, Watson � disse finalmente. � Podemos deixar um pouco de lado a quest�o de quem matou John Straker e nos concentrarmos em descobrir que fim levou o cavalo. Suponhamos agora que ele tenha se soltado durante ou depois da trag�dia. Para onde iria? O cavalo � um animal muito greg�rio. Deixado � solta, seus instintos o enviariam de volta a King�s Pyland, ou a Mapleton. Por que ficaria correndo pelo p�ntano? J� teria sido avistado a essa altura. E por que os ciganos o roubariam? Essa gente sempre desaparece quando ouve falar em complica��es, porque n�o quer ser importunada pela pol�cia. N�o poderiam vender um cavalo daqueles. Correriam um grande risco e n�o ganhariam nada ficando com ele. Isto � bem claro, com certeza.</p><p>� Ent�o, onde ele est�?</p><p>� J� disse que deve ter ido para King�s Pyland ou para Mapleton. N�o est� em King�s Pyland, portanto deve estar em Mapleton. Vamos trabalhar com esta hip�tese e ver para onde ela nos leva. Nesta parte do p�ntano, como observou o inspetor, o solo � muito duro e seco. Mas h� um declive na dire��o de Mapleton; e pode-se ver daqui que h� uma longa depress�o l� adiante, que devia estar muito �mida na noite de segunda-feira. Se a nossa hip�tese estiver correta, o cavalo deve t�-la atravessado e � ali que devemos procurar sua pista.</p><p>Fomos caminhando rapidamente enquanto convers�vamos e em poucos minutos chegamos � depress�o do terreno. A pedido de Holmes, desci pelo declive da direita e ele pelo da esquerda, mas ainda n�o dera cinq�enta passos quando o ouvi soltar um grito, enquanto acenava para mim. A pata de um cavalo era bem n�tida na terra macia diante dele e a ferradura que retirou do bolso ajustava-se perfeitamente � pegada.</p><p>� Veja o valor da imagina��o � observou Holmes. � � esta qualidade que falta a Gregory. Imaginamos o que poderia ter acontecido, agimos baseados nessa hip�tese e fomos recompensados. Vamos continuar.</p><p>Atravessamos a depress�o pantanosa e percorremos mais de meio quil�metro de relva seca e dura. Novamente o terreno apresentou um declive e encontramos as marcas de ferradura. Tornamos a perd�-las por 1 quil�metro e a reencontr�-las bem perto de Mapleton. Foi Holmes quem as avistou primeiro e as apontou com express�o de triunfo. Uma pegada de homem era vis�vel junto � do cavalo.</p><p>� Antes o cavalo estava sozinho � exclamei.</p><p>� Exatamente. Antes estava sozinho. Ora, o que � isto?</p><p>As pegadas duplas voltavam-se bruscamente na dire��o de King�s Pyland. Holmes assobiou e passamos a segui-las. Ele mantinha os olhos na trilha, mas eu estava um pouco afastado e notei, surpreso, que as mesmas pegadas seguiam na dire��o oposta.</p><p>� Um ponto para voc�, Watson � disse Holmes, quando fiz a observa��o. � Poupou-nos uma longa caminhada que nos faria voltar sobre os nossos pr�prios passos. Vamos seguir as pegadas de volta.</p><p>N�o precisamos andar muito. Terminavam na pavimenta��o de asfalto que conduzia aos port�es das cavalari�as Mapleton. Quando nos aproxim�vamos, um empregado veio correndo na nossa dire��o.</p><p>� N�o queremos estranhos por aqui � ele disse.</p><p>� Eu s� quero fazer uma pergunta � disse Holmes, enfiando o polegar no bolso do colete. � Cinco da manh� seria cedo demais para fazer uma visita ao seu patr�o, o sr. Silas Brown, amanh� de manh�?</p><p>� Se algu�m estiver acordado, ser� ele. � sempre o primeiro a se levantar. Mas a� vem ele, senhor, e poder� responder pessoalmente �s suas perguntas. N�o, n�o, senhor. Eu perderia o emprego se ele me visse aceitar o seu dinheiro. Mais tarde, se quiser.</p><p>Enquanto Sherlock Holmes tornava a colocar no bolso a meia coroa que havia tirado, um homem idoso de apar�ncia feroz saiu pelo port�o, sacudindo o chicote de montar.</p><p>� Que hist�ria � essa, Dawson? Nada de mexericos! V� cuidar do seu trabalho!... Que diabo querem aqui?</p><p>� Dez minutos de conversa, bom senhor � respondeu Holmes, com sua voz mais tranq�ila.</p><p>� N�o tenho tempo para conversar com ociosos. N�o quero saber de estranhos por aqui. Desapare�am, ou ati�arei os c�es.</p><p>Inclinando-se para a frente, Holmes murmurou qualquer coisa no ouvido do treinador, que estremeceu violentamente e corou at� a raiz dos cabelos.</p><p>� � mentira! � gritou. � Uma mentira suja!</p><p>� Muito bem! Vamos discutir o caso aqui em p�blico ou conversar na sua sala?</p><p>� Podem entrar, se quiserem.</p><p>Holmes sorriu.</p><p>� Vou demorar apenas alguns minutos, Watson. Sr. Brown, estou � sua disposi��o.</p><p>Passaram-se uns bons vinte minutos e o vermelho do horizonte se transformara em cinza quando Holmes e o treinador reapareceram. Jamais vi mudan�a t�o grande em t�o pouco tempo como a exibida por Silas Brown. Seu rosto estava extremamente p�lido, a testa coberta de suor, e a m�o que segurava o chicote tremia como um galho de �rvore ao vento. Suas maneiras agressivas haviam desaparecido e ele se encolhia ao lado de meu amigo como um c�o junto ao dono.</p><p>� Suas instru��es ser�o cumpridas. Todas elas � disse.</p><p>� N�o pode haver erros � insistiu Holmes, olhando-o fixamente.</p><p>O outro estremeceu ao perceber a amea�a nos olhos dele.</p><p>� Oh, n�o! N�o haver� erros. Estar� l�. Devo mud�-lo antes ou n�o?</p><p>Holmes pensou um pouco e depois come�ou a rir.</p><p>� N�o, n�o � ele disse. � Vou escrever para voc� a respeito disso. Agora, nada de truques, ou...</p><p>� Pode confiar em mim! Pode confiar!</p><p>� Sim, acho que posso. Bem, ter� not�cias minhas amanh�.</p><p>Virando-se, ignorando a m�o tr�mula que o outro lhe estendia, partimos para King�s Pyland.</p><p>� Poucas vezes encontrei um sujeito t�o agressivo, covarde e falso quanto o Silas Brown � observou Holmes enquanto caminh�vamos.</p><p>� Ele est� com o cavalo?</p><p>� Tentou negar, mas descrevi com tanta exatid�o a sua maneira de agir naquela manh� que ele se convenceu de que eu o estava observando. Voc� deve ter notado o formato peculiar, quadrado, das pegadas, que coincide exatamente com o das botas dele. Claro que nenhum subordinado ousaria fazer uma coisa dessas. Disse a ele que, como era seu h�bito, fora o primeiro a levantar-se e que notara um cavalo vagueando pelo p�ntano. Ele foi busc�-lo e, para sua surpresa, reconheceu pela marca branca na testa � da qual vem o nome do favorito � que a sorte colocara em suas m�os o �nico cavalo capaz de derrotar aquele em que investira o seu dinheiro. Comentei que seu primeiro impulso fora lev�-lo de volta a King�s Pyland e que o dem�nio lhe havia sugerido sumir com o animal at� depois da corrida, ocultando-o em Mapleton. Depois que descrevi todos esses detalhes, ele cedeu, pensando apenas em salvar a pr�pria pele.</p><p>� Mas as cavalari�as foram revistadas.</p><p>� Ora, um velho treinador de cavalos como ele deve conhecer muitos truques.</p><p>� Mas n�o tem medo de deixar o animal nas m�os dele, j� que tem todo interesse em prejudic�-lo?</p><p>� Meu caro amigo, ele o guardar� como a menina dos seus olhos. Sabe que sua �nica esperan�a de escapar � entreg�-lo inc�lume.</p><p>� O coronel Ross n�o me pareceu um homem disposto a mostrar miseric�rdia em nenhuma situa��o.</p><p>� A quest�o n�o est� nas m�os do coronel Ross. Sigo meus pr�prios m�todos e revelo ou escondo o que quiser. � a vantagem de agir extra-oficialmente. N�o sei se observou, Watson, mas as atitudes do coronel foram um tanto ofensivas em rela��o a mim. Agora estou disposto a me divertir um pouco � custa dele. N�o diga uma palavra a ele sobre o cavalo.</p><p>� N�o sem a sua permiss�o, � claro.</p><p>� E este � um aspecto insignificante se comparado � quest�o de quem matou John Straker.</p><p>� E pretende se dedicar ao assunto?</p><p>� Pelo contr�rio. Voltaremos a Londres pelo trem noturno.</p><p>Fiquei perplexo com as palavras do meu amigo. Est�vamos em Devonshire h� poucas horas e o fato de desistir de uma investiga��o iniciada de modo t�o brilhante era totalmente incompreens�vel para mim. N�o consegui arrancar-lhe uma �nica palavra at� voltarmos � casa do treinador. O coronel e o inspetor nos aguardavam na sala.</p><p>� Meu amigo e eu voltaremos para a cidade pelo trem da meia-noite � disse Holmes. � Tivemos a oportunidade de respirar um pouco o excelente ar de Dartmoor.</p><p>O inspetor arregalou os olhos, e os l�bios do coronel contorceram-se num sorriso de esc�rnio.</p><p>� Ent�o n�o espera ser capaz de prender o assassino do pobre Straker � observou.</p><p>Holmes deu de ombros.</p><p>� H� s�rias dificuldades � disse. � Mas tenho esperan�as de que seu cavalo corra na ter�a-feira e pe�o que mantenha o seu j�quei preparado. Pode me conseguir uma foto do sr. Straker?</p><p>O inspetor tirou do bolso um envelope e entregou-o a Holmes.</p><p>� Meu caro Gregory, voc� prev� todos os meus pedidos. Se aguardarem aqui um instante, gostaria de fazer uma pergunta � empregada.</p><p>� Devo dizer que estou muito decepcionado com o nosso consultor de Londres � disse o coronel Ross sem rodeios, quando meu amigo saiu da sala. � Acho que n�o fizemos nenhum progresso com sua vinda aqui.</p><p>� Pelo menos tem a garantia dele de que seu cavalo correr� � observei.</p><p>� Sim, tenho a garantia dele � disse o coronel, dando de ombros. � Mas preferia ter o meu cavalo.</p><p>Eu estava prestes a dizer alguma coisa em defesa do meu amigo quando ele voltou � sala.</p><p>� Agora, senhores, vamos para Tavistock.</p><p>Quando entr�vamos na carruagem, um dos cavalari�os segurou a porta aberta para n�s. Uma id�ia repentina parecia ter ocorrido a Holmes, que se inclinou para a frente e tocou a manga do rapaz.</p><p>� H� algumas ovelhas no Quem cuida delas?</p><p>� Sou eu, senhor.</p><p>� Notou algo de estranho nelas ultimamente?</p><p>� Bem, nada de muito importante. Mas tr�s come�aram a mancar, senhor.</p><p>Percebi que Holmes ficou extremamente satisfeito, porque soltou uma risadinha e esfregou as m�os.</p><p>� Um tiro de longo alcance, Watson. De longo alcance! � ele disse, beliscando o meu bra�o. � Gregory, permita que chame a sua aten��o para essa estranha epidemia entre as ovelhas. Pode seguir, cocheiro!</p><p>O coronel Ross conservava a express�o de quem n�o tinha em alta conta a capacidade do meu amigo, mas percebi pela fisionomia do inspetor que ele ficou profundamente interessado.</p><p>� Considera o fato importante? � perguntou.</p><p>� Extremamente.</p><p>� H� algum ponto para o qual desejaria chamar a minha aten��o?</p><p>� Para o estranho incidente do cachorro durante a noite.</p><p>� O cachorro n�o fez nada durante a noite.</p><p>� � esse o estranho incidente � observou Sherlock Holmes.</p><p>Quatro dias depois, Holmes e eu est�vamos novamente no trem, a caminho de Winchester, para assistir �s corridas da Copa Wessex. O coronel nos encontrou no local marcado, diante da esta��o, e seguimos em sua carruagem para a pista de corridas, que ficava fora da cidade. Ele estava muito s�rio e sua atitude era extremamente fria.</p><p>� N�o tive not�cias do meu cavalo � ele disse.</p><p>� Ser� capaz de reconhec�-lo quando o vir? � perguntou Holmes.</p><p>O coronel zangou-se.</p><p>� Estou no turfe h� vinte anos e nunca me fizeram pergunta mais absurda. At� uma crian�a reconheceria ,com a mancha branca na testa e a perna dianteira malhada.</p><p>� Como v�o as apostas?</p><p>� Bem, isso � que � estranho. Ontem seria poss�vel obter 15 por 1, mas a quantia foi se reduzindo e hoje mal se consegue 3 por 1.</p><p>� Hum! � fez Holmes. � Algu�m soube de alguma coisa, � claro.</p><p>Quando a carruagem se aproximava do palanque especial, olhei para o placar, a fim de verificar os p�reos. Dizia o seguinte:</p><empty-line/><p>Wessex Plate, 50 soberanos cada, com 1.000 soberanos extras para cavalos de 4 e 5 anos. Segundo, 300 libras. Terceiro, 200 libras. Pista nova (1 milha e 5 *)</p><p>1.������� The Negro, propriet�rio: sr. Heath Newton (bon� vermelho, camisa mostarda).</p><p>2.������� Pugilist, coronel Wardlaw (bon� rosa, camisa azul e preta).</p><p>3.������� Desborough, Lorde Blackwater (bon� e camisa amarelos).</p><p>4.������� Silver Blaze, coronel Ross (bon� preto, camisa vermelha).</p><p>5.������� Iris, duque de Balmoral (amarelo com listas pretas).</p><p>8.������� Rasper, lorde Singleford (bon� roxo, camisa preta).</p><empty-line/><p>� Retiramos o outro cavalo e depositamos todas as nossas esperan�as na sua palavra � disse o coronel. � Como? � ofavorito?</p><p>�5 a 4 contra �, gritou o alto-falante �5 a 4 contra 15 a 5 contra 5 a 4 na raia!�</p><p>� L� est�o os n�meros! � exclamei. � E s�o seis.</p><p>� Seis! Ent�o meu cavalo est� correndo! � exclamou o coronel, muito agitado. � Mas n�o o vejo. Minhas cores ainda n�o desfilaram.</p><p>� S� desfilaram cinco. Ele deve vir agora.</p><p>No momento em que eu falava, um vigoroso cavalo baio saiu do recinto de pesagem e passou por n�s, trazendo nas costas as conhecidas cores do coronel � vermelho e preto.</p><p>� Aquele n�o � o meu cavalo � exclamou o propriet�rio. � Aquele animal n�o tem um s� fio branco no corpo. O que foi que fez, sr. Holmes?</p><p>� Bem, bem, vamos ver como ele se sai � disse o meu amigo, imperturb�vel.</p><p>E ficou observando por alguns minutos com o meu bin�culo.</p><p>� �timo! Um excelente p�reo! � exclamou de repente. � L� v�m eles fazendo a curva.</p><p>Da nossa carruagem pod�amos v�-los muito bem quando se aproximavam da reta. Os seis cavalos estavam t�o pr�ximos que um s� tapete cobriria todos eles, mas no meio do percurso, o amarelo do haras Mapleton come�ou a tomar a dianteira. Entretanto, antes de chegarem ao ponto onde est�vamos, perdeu terreno e o cavalo do coronel, adiantando-se, ultrapassou a marca da chegada com uns seis corpos de vantagem sobre o seu rival, e , do duque de Balmoral, chegou em terceiro, com grande atraso.</p><p>� Ganhei a corrida, de qualquer modo � exclamou o coronel, passando a m�o nos olhos. � Confesso que n�o entendo nada. N�o acha que est� na hora de revelar o mist�rio, Sr. Holmes?</p><p>� Sem d�vida, coronel. Saber� de tudo. Vamos todos dar uma espiada no cavalo. Aqui est� ele � continuou, quando entramos no recinto da pesagem, onde s� era permitido o ingresso dos propriet�rios e de seus amigos. � Basta lavar a cabe�a e as pernas com �lcool e encontrar� o velho de sempre.</p><p>� Estou abismado!</p><p>� Encontrei-o nas m�os de um impostor e tomei a liberdade de faz�-lo correr do jeito como foi enviado.</p><p>� Meu caro, o senhor fez maravilhas. O cavalo parece muito bem. Nunca o vi melhor em toda a sua vida. Pe�o mil desculpas por ter duvidado da sua capacidade. Prestou-me um grande favor recuperando o meu cavalo. E faria um favor ainda maior se pudesse descobrir o assassino de John Straker.</p><p>� J� descobri � disse Holmes calmamente.</p><p>O coronel e eu olhamos para ele espantados.</p><p>� J� descobriu? Ent�o, onde est�?</p><p>� Aqui.</p><p>� Aqui! Onde?</p><p>� Em minha companhia, neste momento.</p><p>O coronel ficou vermelho de raiva.</p><p>� Reconhe�o que lhe devo favores, sr. Holmes, mas considero o que acaba de dizer uma piada de mau gosto, ou um insulto.</p><p>Sherlock Holmes riu.</p><p>� Garanto que n�o o associei ao crime, coronel. O verdadeiro assassino est� exatamente atr�s do senhor!</p><p>E avan�ando um passo, pousou a m�o no pesco�o brilhante do puro-sangue.</p><p>� O cavalo! � o coronel e eu gritamos.</p><p>� Sim, o cavalo. E sua culpa ser� menor se eu disser que agiu em defesa� pr�pria e que John Straker era totalmente indigno de sua confian�a. Mas j� soou o sinal. E como devo ganhar no pr�ximo p�reo, vou adiar a explica��o mais detalhada para um momento mais conveniente.</p><p>T�nhamos uma parte de um vag�o Pullman s� para n�s naquela noite, quando voltamos a Londres, e creio que a viagem foi curta tanto para o coronel como para mim, enquanto ouv�amos a narrativa dos fatos ocorridos no haras de treinamento de Dartmoor, na noite de segunda-feira, e como Holmes conseguira destrinch�-los.</p><p>� Confesso que todas as teorias que eu havia elaborado com base nas reportagens dos jornais eram totalmente equivocadas. Mas continham ind�cios e � pena que estes tenham sido ofuscados por detalhes que mascararam a sua verdadeira import�ncia. Fui para Devonshire convencido de que Fitzroy Simpson era o verdadeiro culpado, embora percebesse que as provas contra ele n�o eram definitivas.</p><p>� Ainda na carruagem, no momento em que chegamos � casa do treinador, percebi a grande import�ncia do carneiro ao . Talvez se lembrem de que eu estava distra�do e continuei sentado depois que todos saltaram. Eu me perguntava como podia ter ignorado uma pista t�o �bvia.</p><p>� Confesso que continuo sem saber de que modo isso nos ajudar� � disse o coronel.</p><p>� Foi o primeiro elo na minha cadeia de racioc�nio. O �pio em p� n�o � ins�pido. O sabor n�o � desagrad�vel, mas � percept�vel. Misturado a um prato comum, seria notado, e a pessoa certamente deixaria de lado a comida. O era exatamente o condimento que disfar�aria o gosto. Fitzroy Simpson, um estranho, n�o podia ser absolutamente respons�vel pelo fato de servirem esse prato naquela noite, e seria absurdo supor que, por coincid�ncia, ele apareceria com o �pio em p� justamente na noite em que a comida disfar�aria o sabor. � inconceb�vel. Simpson fica, portanto, eliminado do caso, e a nossa aten��o se concentra em Straker e sua mulher, as duas �nicas pessoas que poderiam ter escolhido carneiro com curry naquela noite. O �pio foi acrescentado depois que o prato foi preparado para o cavalari�o, j� que os outros comeram o carneiro sem nenhum efeito desagrad�vel. Quem se aproximaria daquele prato sem que a empregada percebesse?</p><p>� Antes de resolver esta quest�o, percebi� a import�ncia do sil�ncio do cachorro, pois uma conclus�o verdadeira invariavelmente sugere outras. O incidente com Simpson demonstrou que um c�o era mantido nas cavalari�as e que, embora algu�m tivesse entrado e retirado um cavalo, ele n�o latira o suficiente para despertar os dois rapazes que dormiam no celeiro. � �bvio que o visitante noturno era algu�m que o cachorro conhecia muito bem.</p><p>� Eu j� estava convencido, ou quase convencido, de que John Straker havia descido at� as cavalari�as durante a noite e retirado� daliCom que finalidade? Desonesta, � evidente, caso contr�rio por que teria dopado seu pr�prio cavalari�o? Mas eu n�o descobria o motivo. J� houve casos de treinadores que ganharam muito dinheiro apostando contra seus pr�prios cavalos por interm�dio de agentes e depois impedindo-os de ganhar de modo fraudulento. �s vezes � um j�quei desonesto, �s vezes s�o m�todos mais seguros e sutis. No caso, o que seria? Eu esperava que o conte�do de seus bolsos me ajudasse a chegar a uma conclus�o.</p><p>� E ajudou. N�o devem ter esquecido o punhal pouco comum encontrado na m�o do morto, punhal que nenhum homem sensato escolheria como arma. Como disse o dr. Watson, era um instrumento usado para uma das mais delicadas opera��es cir�rgicas. E seria usado naquela noite para uma opera��o delicada. Com sua grande experi�ncia no turfe, deve saber, coronel Ross, que � poss�vel fazer um pequeno corte subcut�neo nos tend�es da anca de um cavalo sem deixar nenhum vest�gio. Um cavalo submetido a isto come�aria a mancar ligeiramente, o que seria atribu�do a excesso de exerc�cio, ou a um reumatismo brando, mas nunca a uma a��o criminosa.</p><p>� Bandido! Desgra�ado! � exclamou o coronel.</p><p>� Esta � a explica��o do motivo pelo qual John Straker queria levar o cavalo para o p�ntano. Um animal t�o vivo teria despertado os rapazes, por mais profundo que fosse o seu sono, ao sentir a picada de uma l�mina. Era absolutamente necess�rio agir ao ar livre.</p><p>� Eu estava cego! � exclamou o coronel. � Foi para isso que precisou da vela e riscou o f�sforo, � claro.</p><p>� Sem d�vida. Mas, ao examinar seus pertences, tive a sorte de descobrir n�o s� o m�todo do crime, mas tamb�m os motivos. Como homem de sociedade, coronel, sabe que ningu�m carrega no bolso contas alheias. Todos n�s j� temos preocupa��es suficientes para manter em dia as nossas. Conclu� imediatamente que Straker vivia uma vida dupla e mantinha uma outra casa. A natureza da conta revelava que havia uma mulher na hist�ria e que ela gostava de coisas caras. Por mais liberal que voc� seja com os seus empregados, n�o espera que eles comprem vestidos de25 guin�us para suas mulheres. Interroguei a sra. Straker em rela��o ao vestido sem que ela o percebesse e, tendo me certificado de que ela jamais o recebera, anotei o endere�o da costureira e achei que, indo l� com uma foto de Straker, eliminaria com facilidade o fict�cio Derbyshire.</p><p>� Da� em diante tudo ficou f�cil. Straker havia conduzido o cavalo at� uma depress�o do terreno onde a luz ficaria invis�vel. Simpson, na fuga, deixara cair a gravata e Straker a apanhara, talvez com a inten��o de us�-la para amarrar a perna do cavalo. Na depress�o, postou-se atr�s do animal e riscou o f�sforo, mas o cavalo, assustado pela claridade s�bita e dotado do estranho instinto dos animais, que sentem quando algo os amea�a, soltou-se e sua ferradura de a�o atingiu Straker em cheio na testa. Apesar da chuva, ele havia tirado o sobretudo para executar sua delicada tarefa, de modo que, ao cair, a l�mina cortou-lhe a coxa. Deixei tudo bem claro?</p><p>� Maravilhoso! � exclamou o coronel. � Maravilhoso! Como se tivesse visto a cena.</p><p>� Meu lance final, confesso, foi um tiro no escuro. Achei que um homem esperto como Straker n�o iria executar a tarefa delicada de perfurar um tend�o sem praticar um pouco antes. Como teria praticado? Meu olhar caiu sobre as ovelhas, fiz uma pergunta e, para minha surpresa, percebi que a hip�tese era correta.</p><p>� Esclareceu perfeitamente o caso, sr. Holmes.</p><p>� Voltando a Londres, visitei a costureira, que prontamente admitiu que Straker era um excelente fregu�s, chamado Derbyshire, cuja mulher era muito elegante e gostava de vestidos caros. Estou certo de que ela o afundou em d�vidas, conduzindo-o, assim, a este plano infeliz.</p><p>� Explicou tudo, menos um detalhe! � exclamou o coronel. � Onde estava o cavalo?</p><p>� Saiu em disparada pelo p�ntano e foi recolhido por um dos seus vizinhos. Acho que precisamos de uma anistia neste caso... Estamos em Clapham Junction, se n�o me engano, e em menos de dez minutos chegaremos a Victoria. Se quiser fumar um charuto conosco, coronel, ser� um prazer fornecer-lhe qualquer outro detalhe que possa interess�-lo.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o rosto amarelo</strong></p><p>Ao publicar estes resumos baseados nos numerosos casos em que fui testemunha dos dons especiais de meu amigo, e eventualmente ator em algum drama estranho, � natural que eu d� mais aten��o aos seus �xitos do que aos fracassos. E fa�o isso n�o tanto por causa de sua reputa��o � pois quando estava sem saber o que fazer � que sua energia e versatilidade se mostravam mais extraordin�rias � mas porque, nos casos em que fracassou, ningu�m mais teve �xito e a hist�ria permaneceu sem uma conclus�o. Mas, de vez em quando, mesmo quando ele errava, a verdade vinha � tona. Guardo anota��es de meia d�zia de casos desse tipo, entre os quais o do Ritual Musgrave e o que vou contar agora s�o os que apresentam caracter�sticas mais interessantes.</p><p>Sherlock Holmes era homem que raramente fazia exerc�cios pelo simples prazer de se exercitar. Poucos seriam capazes de maior esfor�o muscular, e ele era, sem d�vida, um dos melhores boxeadores de sua categoria que jamais conheci; mas considerava o esfor�o f�sico sem objetivo pura perda de energia, e ele raramente se punha em movimento, a n�o ser quando havia algum motivo profissional. Nessas ocasi�es mostrava-se absolutamente incans�vel. � extraordin�rio que se mantivesse em forma nessas circunst�ncias, mas sua dieta era, em geral, das mais frugais e seus h�bitos t�o simples a ponto de serem quase austeros. Com exce��o do uso ocasional da coca�na, n�o tinha v�cios, e s� recorria � droga em protesto contra a monotonia da exist�ncia, quando os casos eram raros e os jornais desprovidos de interesse.</p><p>Um dia, no in�cio da primavera, ele cedeu a ponto de fazer um passeio comigo no parque, onde os primeiros brotos verdes despontavam nos olmos e os ramos dos castanheiros come�avam a cobrir-se de folhas. Caminhamos durante duas horas, quase sempre em sil�ncio, como conv�m a duas pessoas que se conhecem intimamente. Eram quase 17 horas quando voltamos a Baker Street.</p><p>� Um cavalheiro esteve aqui perguntando pelo senhor � disse o criado ao abrir a porta.</p><p>Holmes lan�ou-me um olhar de censura.</p><p>� Veja para que servem os passeios � tarde! O cavalheiro j� foi embora?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� N�o o convidou a entrar?</p><p>� Sim, senhor, ele entrou.</p><p>� Quanto tempo esperou?</p><p>� Meia hora. Parecia muito agitado. Ficou andando de um lado para outro durante todo o tempo em que esteve aqui. Como eu estava esperando junto � porta, ouvi muito bem. Finalmente ele saiu para o vest�bulo, dizendo: �Esse homem n�o vai chegar nunca?� Foi assim mesmo que ele falou, senhor. �Espere um pouquinho�, eu disse. �Ent�o vou esperar l� fora. Tenho a impress�o de que vou sufocar. Voltarei daqui a pouco.� Saiu e eu n�o consegui det�-lo.</p><p>� Voc� fez o que p�de � disse Holmes, entrando na sala. � muito irritante, Watson. Eu estava precisado urgentemente de um caso e, pela impaci�ncia do homem, este devia ser importante. Veja! O cachimbo que est� na mesa n�o � o seu! Ele deve t�-lo esquecido. Um velho briar, com haste boa e longa, feita do que os especialistas chamam �mbar. Fico imaginando quantos bocais de �mbar verdadeiro existir�o em Londres. Muita gente pensa que um ponto escuro � sinal do artigo genu�no, mas h� uma verdadeira ind�stria especializada em colocar marcas falsas em falso �mbar. O homem devia estar bastante perturbado para esquecer um cachimbo de que, evidentemente, gosta muito.</p><p>� Como sabe que ele gosta do cachimbo? � perguntei.</p><p>� Bem, avalio o custo original do cachimbo em 7 libras e 6 pence. Ele foi consertado duas vezes, uma na haste de madeira e outra na biqueira do �mbar. Cada uma dessas emendas foi feita, como v�, com aros de prata, e pode ter custado mais que o pre�o original do cachimbo. O homem deve gostar muito dele, j� que prefere consert�-lo a comprar um novo pelo mesmo pre�o.</p><p>� Mais alguma coisa? � perguntei, pois Holmes continuava a revirar o cachimbo e a observ�-lo, pensativo, com o seu jeito peculiar.</p><p>Erguendo-o, deu-lhe pancadinhas com o dedo longo e fino, lembrando um professor discorrendo sobre um osso.</p><p>� Cachimbos apresentam, �s vezes, um interesse extraordin�rio. Nada tem mais individualidade, � exce��o de rel�gios e correias de botas. Neste caso, os ind�cios n�o s�o nem muito marcantes, nem muito importantes. O propriet�rio � evidentemente um homem musculoso, canhoto, de h�bitos descuidados e n�o precisa economizar.</p><p>Meu amigo deu a informa��o em tom casual, mas notei que me olhava de relance para ver se eu acompanhava o seu racioc�nio.</p><p>� Acha que � preciso ser rico para fumar um cachimbo de 7 xelins? � perguntei.</p><p>� Esta mistura � Grosvenor e custa 8 pence a on�a � respondeu Holmes, derramando um pouco na palma da m�o. � Como ele poderia obter um fumo excelente por metade do pre�o, n�o precisa economizar.</p><p>� E os outros detalhes?</p><p>� Ele tem o h�bito de acender o cachimbo em lampi�es ou chamas de g�s. Veja como est� queimado de um lado. Claro que um f�sforo n�o provocaria essa mancha. Por que algu�m encostaria uma chama na parte lateral do cachimbo? Mas � imposs�vel acend�-lo num lampi�o sem chamusc�-lo. E est� chamuscado do lado direito. Da� depreendo que se trata de um canhoto. Aproxime o seu cachimbo do lampi�o e veja como, sendo destro, inclina naturalmente o lado esquerdo para a chama. Voc� poderia inverter o gesto de vez em quando, mas n�o sempre. Este foi empunhado constantemente dessa maneira. Al�m disso, o �mbar est� profundamente mordido. S� um homem musculoso, en�rgico e com bons dentes o conseguiria. Mas, se n�o me engano, ele vem subindo a escada. Teremos algo mais interessante do que seu cachimbo para estudar.</p><p>Um instante depois a porta se abriu e um rapaz alto entrou na sala. Vestia um terno cinza-escuro, de uma eleg�ncia discreta, e carregava uma bengala marrom. Calculei que tivesse uns 30 anos, embora na verdade fosse um pouco mais velho.</p><p>� Perd�o � disse, um tanto embara�ado. � Creio que deveria ter batido antes de entrar. Sim, claro que deveria ter batido. O fato � que estou um tanto perturbado e devem me desculpar por isso.</p><p>Passou a m�o pela cabe�a como se estivesse meio aturdido e, em seguida, deixou-se cair numa cadeira.</p><p>� Vejo que n�o dorme h� uma ou duas noites � observou Holmes, com seu jeito tranq�ilo, cordial. � Isso abala mais os nervos do que o trabalho e ainda mais do que o prazer. Permita que pergunte como posso ajud�-lo.</p><p>� Gostaria de ouvir a sua opini�o, sr. Holmes. N�o sei o que fazer. Tenho a impress�o de que toda a minha vida foi destru�da.</p><p>� Quer me contratar como detetive?</p><p>� N�o apenas isso. Quero sua opini�o como homem judicioso � como homem do mundo. Quero saber como agir. Espero em Deus que possa me orientar.</p><p>Falava aos arrancos e fiquei com a impress�o de que era doloroso para ele expressar-se, e que a vontade dominava o tempo todo a sua inclina��o.</p><p>� Trata-se de um assunto muito delicado. Ningu�m gosta de falar de suas quest�es dom�sticas com estranhos. Acho detest�vel discutir a conduta da minha mulher com duas pessoas que nunca vi antes. � horr�vel ter de fazer isso. Mas n�o sei a quem recorrer e preciso de conselho.</p><p>� Meu caro sr. Grant Munro... � come�ou Holmes.</p><p>Nosso visitante levantou-se de um salto.</p><p>� O qu�? Sabe meu nome?</p><p>� Quando quiser manter-se inc�gnito, sugiro que deixe de escrever seu nome no forro do chap�u, ou ent�o vire a copa para a pessoa com quem est� falando � disse Holmes, sorrindo. � Eu ia dizer que meu amigo e eu ouvimos nesta sala muitos segredos estranhos e que tivemos a sorte de levar paz a muitas almas atormentadas. Espero que possamos fazer o mesmo pelo senhor. Como o tempo talvez seja um fator importante, pe�o que me conte os fatos sem mais demora.</p><p>Nosso visitante passou de novo a m�o pela testa, como se fosse extremamente dif�cil contar. Os gestos e as express�es mostravam que ele era um homem reservado, introvertido, com um tra�o de orgulho no temperamento, mais inclinado a esconder suas dores que a exp�-las. De repente, com um gesto brusco da m�o fechada, como algu�m que se liberta de toda a reserva, ele come�ou:</p><p>� Os fatos s�o os seguintes, sr. Holmes. Sou casado h� tr�s anos. Minha mulher e eu nos amamos profundamente e vivemos felizes durante esse per�odo, t�o felizes quanto podem ser duas pessoas unidas. N�o tivemos nenhuma diverg�ncia, nem uma s�, em pensamentos, palavras ou atos. Mas na �ltima segunda-feira surgiu de repente uma barreira entre n�s. Descobri que existe algo na vida e nos pensamentos de minha mulher que ignoro, como se ela fosse uma pessoa qualquer que passa por mim na rua. Estamos afastados um do outro e quero saber por qu�.</p><p>� Antes de prosseguir, quero deixar bem claro, sr. Holmes. Effie me ama. Quanto a isso, n�o h� d�vida. Ela me ama de todo o cora��o e agora mais do que nunca. Eu sei. Eu sinto. N�o quero discutir sobre isto. Um homem sabe muito bem quando uma mulher o ama. Mas, h� este segredo entre n�s, e nossa vida n�o voltar� a ser a mesma at� que ele se esclare�a.</p><p>� Tenha a bondade de me apresentar os fatos, sr. Munro � disse Holmes, um tanto impaciente.</p><p>� Vou contar o que sei a respeito de Effie. Embora muito jovem, com 25 anos apenas, ela era vi�va quando a conheci. Chamava-se sra. Hebron. Foi para os Estados Unidos ainda menina e morou na cidade de Atlanta, onde se casou com esse Hebron, advogado com uma grande clientela. Tiveram uma filha, mas quando houve um surto de febre amarela, o marido e a crian�a morreram. Vi o atestado de �bito. Muito desgostosa, Effie resolveu sair dos Estados Unidos e voltou para morar com uma tia solteira em Pinner, Middlesex. Devo dizer que o marido a deixou em boa situa��o financeira, e que ela tem um capital de 4.500 libras, investido t�o bem por ele que rende em m�dia 7%. Effie estava em Pinner havia seis meses quando a conheci. N�s nos apaixonamos e nos casamos algumas semanas depois.</p><p>� Sou representante de firmas comerciais, minha renda � de setecentas, ou oitocentas libras, de modo que vivemos sem preocupa��es financeiras. Aluguei uma casa bonita, por 80 libras anuais, em Norbury. A propriedade parece estar em pleno campo, embora se encontre bem perto da cidade. H� uma hospedaria, duas casas um pouco adiante e um chal� em frente, do outro lado do campo. Com exce��o dessas constru��es, n�o h� mais nada at� a metade do caminho para a esta��o. Os neg�cios me obrigavam a ir � cidade em determinadas ocasi�es, mas no ver�o eu tinha menos coisas para fazer, e nesses per�odos, em nossa casa de campo, minha mulher e eu vivemos t�o felizes quanto se possa desejar. Garanto que nunca houve uma sombra entre n�s at� que surgiu esse maldito caso.</p><p>� H� uma coisa que preciso dizer antes de continuar. Quando nos casamos, minha mulher transferiu para o meu nome todos os seus bens, contra a minha vontade, porque seria muito desagrad�vel se meus neg�cios corressem mal. Mas Effie insistiu, e assim foi feito. H� cerca de seis semanas ela me procurou.</p><p>� �Jack, quando transferi meu dinheiro para o seu nome, voc� disse que se eu precisasse de alguma quantia, bastaria pedir.�</p><p>� �Certamente. O dinheiro � todo seu.�</p><p>� �Preciso de 100 libras.�</p><p>� Fiquei espantado, porque pensei que ela queria um vestido novo, ou algo semelhante.</p><p>� �Para qu�?�</p><p>� Com um jeito brincalh�o, ela respondeu: �Voc� disse que seria apenas o meu banqueiro, e banqueiros n�o fazem perguntas.�</p><p>� �Se quer mesmo a quantia, � claro que a ter�,� respondi.</p><p>� �Sim, estou falando s�rio.�</p><p>� �E n�o vai me dizer para que voc� quer o dinheiro?�</p><p>� �Um dia, talvez, Jack, mas n�o agora.�</p><p>� Tive de me contentar com isso, embora, pela primeira vez, surgisse um segredo entre n�s. Entreguei-lhe um cheque e n�o pensei mais no assunto. Talvez isso nada tenha a ver com o que aconteceu em seguida, mas achei que devia mencion�-lo.</p><p>� Bem, acabei de contar que h� um chal� perto da nossa casa. H� um descampado entre o chal� e a casa, mas para alcan��-lo � preciso ir at� a estrada e depois entrar por uma alameda. Logo adiante fica um lindo bosque de abetos escoceses, onde eu gostava de passear, porque as �rvores s�o sempre acolhedoras. O chal� estava desocupado havia oito meses, o que era uma pena, pois trata-se de uma constru��o simp�tica de dois andares, com uma varanda em estilo antigo, coberta de trepadeiras. Observei-a diversas vezes, pensando que seria muito agrad�vel morar ali.</p><p>� Bem, na segunda-feira passada, ao anoitecer, eu passeava por aqueles lados quando encontrei um caminh�o vazio vindo da casa e vi uma pilha de tapetes e objetos espalhados pelo gramado diante da varanda.</p><p>Era evidente que o chal� finalmente fora alugado. Passei diante dele e depois parei para observ�-lo, imaginando que tipo de gente teria vindo morar t�o perto de n�s. De repente, percebi que um rosto me observava de uma das janelas do andar superior.</p><p>� N�o sei o que havia naquele rosto, sr. Holmes, mas o fato � que me provocou um calafrio. Eu estava a certa dist�ncia, de modo que n�o podia distinguir as fei��es, mas havia nele algo que n�o era natural nem humano. Foi a impress�o que eu tive. Aproximei-me para olhar mais de perto a pessoa que me observava. Mas o rosto desapareceu de modo t�o repentino que parecia ter sido absorvido pela escurid�o do quarto. Permaneci ali uns cinco minutos, pensando no caso e tentando analisar as minhas impress�es. N�o seria capaz de dizer se o rosto era de homem ou de mulher, por�m o que mais me impressionou foi a cor. Era de uma palidez amarelada, e com uma rigidez espantosamente anormal. Fiquei t�o perturbado que decidi saber mais um pouco a respeito dos novos moradores da casa. Aproximei-me e bati na porta, que foi imediatamente aberta por uma mulher alta e magra, de express�o severa e dura.</p><p>� �O que quer?�, perguntou com um sotaque do norte.</p><p>��Sou seu vizinho. Moro ali�, disse, apontando para minha casa. �Vejo que acabam de se mudar, e pensei que talvez pudesse ajudar em alguma coisa...�</p><p>��Sim, n�s pediremos ao senhor quando for necess�rio�, disse ela, fechando a porta na minha cara.</p><p>� Aborrecido com aquela recep��o grosseira, fiz meia-volta e fui para casa. � noite, embora tentasse pensar em outras coisas, a lembran�a daquela apari��o na janela e da grosseria da mulher voltou � minha mente. Decidi n�o contar nada � minha esposa, porque � uma pessoa nervosa e tensa, e eu n�o queria que ela ficasse com a mesma impress�o desagrad�vel que eu havia tido. Mas antes de adormecer, comentei que a casa vizinha fora alugada. Ela n�o disse nada.</p><p>� Em geral, tenho sono pesado. Minha fam�lia costumava brincar dizendo que nada seria capaz de me despertar durante a noite. Mas naquela noite, fosse por causa da ligeira excita��o provocada pela minha pequena aventura ou por outro motivo qualquer, n�o sei, meu sono foi mais leve que de costume. Ainda meio adormecido, percebi que algo estava acontecendo no quarto e aos poucos percebi que minha mulher se vestira e estava pondo uma capa e o chap�u. J� iria dizer algumas palavras sonolentas de espanto ou censura por causa daqueles preparativos absurdos, quando meus olhos entreabertos fixaram-se no rosto dela, iluminado por uma vela. Mas fiquei mudo de surpresa. Effie estava com uma express�o que eu jamais vira e da qual a julgava incapaz. Estava mortalmente p�lida, a respira��o acelerada. Olhou furtivamente para a cama enquanto ajustava a capa, para ver se me despertara. Ent�o, pensando que eu dormia, saiu silenciosamente do quarto, e instantes depois ouvi um �spero rangido que s� podia ser o da porta de entrada. Sentei-me na cama e bati com os n�s dos dedos na borda para verificar se estava realmente acordado. Ent�o olhei para o rel�gio. Eram tr�s horas. O que minha mulher estaria fazendo numa estrada deserta �s tr�s horas?</p><p>� Fiquei sentado na cama uns vinte minutos, remoendo o assunto e tentando encontrar uma explica��o. Quanto mais pensava no caso, mais extraordin�rio e absurdo ele me parecia. Ainda estava remoendo o assunto quando ouvi a porta se abrindo devagar e passos subindo as escadas.</p><p>� �Onde esteve, Effie?�, perguntei, mal ela entrou.</p><p>� Ela estremeceu violentamente e conteve um grito quando me ouviu falar, e o grito e o estremecimento perturbaram-me mais do que tudo, pois continham algo de profundamente culpado. Minha mulher sempre tivera uma natureza franca, aberta, e fiquei arrepiado ao v�-la esgueirar-se para o seu pr�prio quarto e conter um grito e um estremecimento quando seu marido falou com ela.</p><p>� �Est� acordado, Jack?�, disse, com um riso nervoso. �Pensei que nada seria capaz de despert�-lo.�</p><p>� �Onde esteve?�, repeti, num tom mais severo.</p><p>��N�o admira que voc� esteja surpreso�, disse, dedos tr�mulos ao abrir o fecho da capa. �Creio que nunca fiz uma coisa dessas na minha vida. O fato � que tive a impress�o de sufocar aqui dentro e quis respirar um pouco de ar puro. Creio que teria desmaiado se n�o sa�sse. Fiquei na porta durante alguns minutos e agora estou me sentindo melhor.�</p><p>� Enquanto falava, n�o olhou para mim nem uma vez, e sua voz n�o era a habitual. O que dizia era falso, evidentemente. N�o respondi e virei o rosto para a parede sentindo-me doente, a cabe�a cheia de d�vidas e suspeitas venenosas. O que minha mulher estaria escondendo de mim? Qual seria o objetivo de sua estranha sa�da? Estava convencido de que n�o descansaria at� descobrir o mist�rio, mas n�o tinha �nimo para interrog�-la novamente depois de ter-me mentido. Passei o resto da noite me revirando na cama, elaborando uma teoria ap�s outra, cada qual mais improv�vel que a anterior.</p><p>� Tinha de ir � cidade naquele dia, mas estava t�o perturbado que n�o consegui concentrar-me nos neg�cios. Minha mulher parecia t�o perturbada quanto eu, e pelos r�pidos olhares que me lan�ava, percebi que sabia que eu n�o havia acreditado nas suas palavras e estava sem saber o que fazer. Mal trocamos uma palavra durante o caf�-da-manh�, e logo depois sa� para dar um passeio e pensar no assunto ao ar fresco da manh�.</p><p>� Fui at� o passei uma hora nos jardins e voltei a Norbury por volta de 13 horas. Ao passar pelo chal�, parei um instante para observar as janelas e tentar ver novamente o estranho rosto que me olhara na v�spera. Naquele momento, imagine a minha surpresa, sr. Holmes, quando a porta se abriu de repente e minha mulher saiu para o jardim!</p><p>� Fiquei abismado ao v�-la, mas as minhas emo��es nada foram comparadas �s que se estamparam no rosto dela quando nossos olhares se encontraram. Por um instante, ele deu a impress�o de que queria recuar e entrar novamente na casa. Mas, ao perceber que seria in�til tentar esconder-se, aproximou-se, com o rosto muito p�lido e um olhar apavorado que contrastava com o sorriso.</p><p>� �Ol�, Jack! Vim ver se podia ajudar nossos vizinhos em alguma coisa. Por que est� me olhando assim, Jack? Est� zangado comigo?�</p><p>� �Ent�o foi aqui que voc� veio durante a noite...�</p><p>� �O que voc� quer dizer?�</p><p>� �Voc� veio at� aqui, tenho certeza. Quem s�o essas pessoas que voc� visita em hora t�o absurda?�</p><p>� �Nunca estive aqui antes.�</p><p>� �Como pode me dizer uma coisa que sabe que � falsa? Sua pr�pria voz est� diferente. Quando foi que tive segredos para voc�? Vou entrar nessa casa e esclarecer o assunto.�</p><p>� �N�o, n�o, Jack, pelo amor de Deus!�, arquejou, profundamente abalada.</p><p>� E como eu me dirigisse para a porta, agarrou meu bra�o e puxou-me para tr�s com uma for�a convulsiva.</p><p>� �Imploro que n�o fa�a isso, Jack. Juro que contarei tudo um dia, mas haver� uma desgra�a se voc� entrar naquela casa.�</p><p>� E como eu tentasse desembara�ar-me, agarrou-se a mim, suplicando, fren�tica:</p><p>� �Confie em mim, Jack! Confie por esta vez. Voc� nunca ter� motivos para se arrepender. Sabe que eu n�o guardaria um segredo de voc� caso n�o fosse para poup�-lo. Nossas vidas est�o em jogo nesta quest�o. Se voltar comigo para casa, tudo correr� bem. Se entrar ali � for�a, tudo estar� acabado entre n�s.�</p><p>� Havia tanta seriedade e desespero em sua atitude e em suas palavras que fiquei indeciso diante da porta.</p><p>� �Confiarei em voc� sob uma condi��o, e somente assim. Que este mist�rio termine aqui. Voc� tem liberdade para guardar o seu segredo, mas deve me prometer que n�o haver� novas visitas noturnas, coisa alguma que n�o seja do meu conhecimento. Estou disposto a esquecer o que se passou se prometer que n�o acontecer� mais no futuro.�</p><p>� �Eu tinha certeza de que voc� confiaria em mim!�, exclamou, com um profundo suspiro de al�vio. �Ser� como deseja. Venha, vamos para casa!�</p><p>� E puxando-me pelo bra�o, afastou-me do chal�. Quando olhei para tr�s, vi aquele rosto amarelo p�lido, a nos observar de uma janela do segundo andar. Que liga��o poderia haver entre aquela criatura e minha mulher? E como a mulher grosseira com quem eu falara na v�spera poderia ter qualquer liga��o com ela? Era um enigma estranho e eu sabia que n�o descansaria enquanto n�o o esclarecesse.</p><p>� Fiquei dois dias em casa e minha mulher cumpriu lealmente o nosso acordo, pois, que eu soubesse, n�o arredou p� dali. Mas no terceiro dia, tive provas de que sua promessa solene n�o era suficiente para afast�-la da influ�ncia secreta que a afastava do marido e do dever.</p><p>� Fui � cidade naquele dia, mas voltei no trem das 14:40h, e n�o no das 15:36h, que � meu trem habitual. Quando entrei em casa, a criada surgiu no vest�bulo com uma express�o assustada.</p><p>� �Onde est� sua ama?�, perguntei.</p><p>� �Acho que saiu para dar um passeio�, respondeu.</p><p>� Fiquei imediatamente desconfiado. Corri para cima, a fim de verificar se ela realmente n�o estava em casa. Olhei por acaso por uma das janelas do segundo andar, onde eu estava, e vi a criada com quem tinha acabado de falar correndo na dire��o do chal�. Compreendi logo o que isto significava, � claro. Minha mulher fora para l� e havia pedido � criada que a avisasse caso eu chegasse mais cedo. Enraivecido, desci a escada e sa� de casa decidido a terminar essa hist�ria de uma vez por todas. Vi minha mulher e a criada aproximando-se �s pressas pelo caminho, mas n�o parei para falar com elas. Naquela casa estava o segredo que lan�ava uma sombra sobre a minha vida e jurei que, fosse qual fosse o resultado, eu iria desvendar o mist�rio. Nem bati na porta quando cheguei l�. Girei a ma�aneta e entrei no vest�bulo.</p><p>� O sil�ncio era total no andar t�rreo. Na cozinha, uma chaleira assobiava no fogo e um enorme gato preto estava deitado numa cesta, mas n�o havia sinal da mulher com quem eu tinha falado. Corri para a sala ao lado, mas tamb�m estava deserta. Ent�o subi correndo a escada e encontrei dois quartos desertos. N�o havia ningu�m na casa. Os m�veis e quadros eram dos mais vulgares, exceto no quarto em cuja janela eu tinha visto o rosto estranho. Era um aposento confort�vel e mobiliado com eleg�ncia, e todas as minhas suspeitas explodiram numa chama violenta e amarga quando vi sobre o consolo da lareira uma foto de corpo inteiro de minha mulher, tirada a meu pedido h� apenas tr�s meses.</p><p>� Fiquei ali o suficiente para me certificar de que a casa estava completamente deserta. Sa� com um peso no cora��o como nunca havia sentido antes. Minha mulher apareceu no vest�bulo quando entrei em casa, mas eu estava magoado e furioso demais para falar com ela. Afastando-a, entrei no meu gabinete. Ela me seguiu e entrou tamb�m, antes que eu pudesse fechar a porta.</p><p>� �Lamento ter quebrado a minha promessa, Jack, mas se voc� conhecesse todas as circunst�ncias, tenho certeza de que me perdoaria.�</p><p>� �Ent�o, conte tudo�, exigi.</p><p>� �N�o posso, Jack, n�o posso!�</p><p>� �Enquanto n�o me disser quem est� morando naquela casa e para quem voc� deu a sua fotografia, n�o pode haver confian�a entre n�s dois.�</p><p>� Deixei-a ali e sa� de casa. Isto aconteceu ontem, sr. Holmes, e n�o a vi desde ent�o. E n�o sei mais nada a respeito desse caso estranho. Foi a primeira sombra que surgiu entre n�s e abalou-me tanto que n�o sei o que fazer. Esta manh� ocorreu-me de repente que o senhor poderia me aconselhar, e corri para c�, colocando-me inteiramente em suas m�os. Se existe algum ponto que n�o deixei claro, por favor, pergunte. Acima de tudo, diga o que devo fazer, pois esse desgosto � mais do que posso suportar.</p><p>Holmes e eu ouvimos com o maior interesse aquela hist�ria extraordin�ria, narrada em frases nervosas por um homem profundamente emocionado. Meu amigo ficou em sil�ncio por algum tempo, o queixo apoiado na m�o, perdido em pensamentos.</p><p>� Poderia jurar que era de um homem o rosto que viu na janela? � perguntou finalmente.</p><p>� Nas duas vezes eu estava distante, de modo que n�o poderia afirm�-lo.</p><p>� Mas parece que o rosto deu-lhe uma impress�o desagrad�vel.</p><p>� Tinha uma cor esquisita e uma rigidez estranha nos tra�os. Quando me aproximei, desapareceu bruscamente.</p><p>� Quanto tempo faz que sua mulher lhe pediu as 100 libras?</p><p>� Quase dois meses.</p><p>� Viu alguma foto do primeiro marido dela?</p><p>� N�o. Houve um grande inc�ndio em Atlanta pouco depois da morte dele e todos os documentos de minha mulher foram destru�dos.</p><p>� Mas, ela conservou a certid�o de �bito. Disse que a viu, n�o �?</p><p>� Sim. Ela conseguiu uma c�pia ap�s o inc�ndio.</p><p>� Sabe de algu�m que a conheceu nos Estados Unidos?</p><p>� N�o.</p><p>� Ela alguma vez falou em voltar para l�?</p><p>� N�o.</p><p>� Recebe alguma correspond�ncia?</p><p>� N�o, que eu saiba.</p><p>� Obrigado. Gostaria de refletir sobre o assunto. Se a casa estiver definitivamente desocupada, teremos dificuldades; se, por outro lado, como acho mais prov�vel, os moradores foram prevenidos da sua chegada e sa�ram antes, devem estar de volta, e conseguiremos esclarecer facilmente a quest�o. Aconselho-o a voltar a Norbury e examinar novamente as janelas da casa. Se tiver motivos para acreditar que est� habitada, n�o entre � for�a. Mande um telegrama. Eu e meu amigo estaremos l� uma hora depois de receb�-lo e esclareceremos logo toda a quest�o.</p><p>� E se a casa continuar deserta?</p><p>� Neste caso irei at� l� amanh� e conversaremos sobre o assunto. Adeus e, acima de tudo, n�o se preocupe antes de saber se tem realmente motivos para isso.</p><p>Depois de acompanhar o sr. Grant Munro at� a porta, meu amigo disse:</p><p>� Temo que se trate de um caso desagrad�vel, Watson. O que voc� acha?</p><p>� Parece muito desagrad�vel � concordei.</p><p>� Sim. H� chantagem no caso, ou ent�o estou muito enganado.</p><p>� E quem � o chantagista?</p><p>� Deve ser a criatura que vive no �nico aposento confort�vel da casa e tem a fotografia dela sobre a lareira. H� algo de muito atraente, Watson, naquele rosto l�vido espreitando pela janela. N�o perderia este caso por nada neste mundo.</p><p>� Tem alguma teoria?</p><p>� Sim, provis�ria. Mas ficarei surpreso se n�o estiver correta. O primeiro marido mora no chal�.</p><p>� Por que pensa assim?</p><p>� Como explicar a fren�tica ansiedade para que o segundo marido n�o entre na casa? Os fatos, a meu ver, dizem o seguinte: a mulher casou-se nos Estados Unidos. Descobriu que o marido tinha tra�os de car�ter detest�veis, ou talvez tenha contra�do uma doen�a repulsiva, tornando-se leproso ou imbecil. Fugiu dele viajando para a Inglaterra, mudou de nome e come�ou vida nova, segundo pensava. Estava casada h� tr�s anos e considerava sua situa��o totalmente segura � tendo exibido ao marido o atestado de �bito de algu�m cujo nome adotou � e de repente o primeiro marido, ou quem sabe uma mulher sem escr�pulos que se ligou ao doente, descobriu o paradeiro dela e escreveu amea�ando denunci�-la. Ela pediu 100 libras e tentou comprar o sil�ncio deles, que a perseguem, apesar disso. Quando o marido menciona casualmente que h� novos inquilinos na casa, ela compreende que s�o os seus perseguidores. Espera que ele adorme�a e corre at� l�, tentando convenc�-los a deix�-la em paz. N�o conseguindo, volta na manh� seguinte, o marido a encontra, como contou, saindo da casa. Promete n�o voltar, mas, dois dias depois, a esperan�a de livrar-se daqueles vizinhos detest�veis foi forte demais e ela fez nova tentativa, levando a fotografia que eles provavelmente exigiram. No meio da conversa surge a criada dizendo que o patr�o voltou para casa. A mulher, sabendo que ele iria direto para l�, faz com que os moradores saiam pelos fundos e se escondam no bosque de abetos que fica nas proximidades. Ele encontra a casa deserta. Mas eu me surpreenderia muito se ainda a encontrasse vazia ao observ�-la esta noite. O que acha da minha teoria?</p><p>� Pura suposi��o.</p><p>� Mas, pelo menos, abrange todos os fatos. Se soubermos de novos fatos que n�o se encaixem nela, poderemos reconsiderar. N�o podemos fazer mais nada at� recebermos uma comunica��o do nosso amigo de Norbury.</p><p>Mas n�o foi preciso esperar muito. Ela chegou quando termin�vamos o ch�.</p><empty-line/><p>�A casa continua habitada�, dizia o telegrama. �Vi novamente o rosto na janela. Esperarei o trem das 19 horas e n�o tomarei nenhuma atitude at� chegarem.�</p><empty-line/><p>Ele nos aguardava na plataforma quando saltamos, e na luz da esta��o vimos que estava muito p�lido, tr�mulo e agitado.</p><p>� Continuam l�, sr. Holmes � disse, apoiando a m�o no bra�o do meu amigo. � Vi luzes no chal� quando vinha para c�. Resolveremos tudo agora, de uma vez por todas.</p><p>� Qual � o seu plano? � perguntou Holmes enquanto caminh�vamos pela estrada escura, ladeada de �rvores.</p><p>� Vou entrar � for�a e ver quem mora na casa. Quero que voc�s dois estejam l� como testemunhas.</p><p>� Est� decidido a fazer isso apesar do aviso de sua mulher no sentido de que seria melhor n�o desvendar o mist�rio?</p><p>� Sim, estou decidido.</p><p>� Acho que tem raz�o. Qualquer verdade � prefer�vel a uma d�vida indefinida. � melhor irmos logo. Claro que, do ponto de vista legal, estamos em situa��o irregular, mas creio que vale a pena.</p><p>Era uma noite muito escura, e uma chuva fina come�ou a cair quando sa�mos da estrada e enveredamos pelo caminho estreito e acidentado, com sebes de ambos os lados. O sr. Grant Munro seguia r�pido, impaciente, mas n�s and�vamos aos trope��es, acompanhando-o como pod�amos.</p><p>� L� est�o as luzes da minha casa � disse ele, apontando para cintila��es entre as �rvores. � E aqui est� a casa que pretendo invadir.</p><p>Dobramos uma curva do caminho e demos com uma constru��o bem pr�xima. Uma faixa de luz amarelada mostrava que a porta n�o estava completamente fechada e uma janela do andar superior estava profusamente iluminada. Naquele momento, percebemos um vulto passando diante da veneziana.</p><p>� L� est� a criatura! � exclamou Grant Munro. � Podem ver que h� algu�m ali. Agora sigam-me e resolveremos logo tudo isso.</p><p>Aproximamo-nos da porta, mas de repente surgiu das sombras uma mulher, que se postou na faixa iluminada. Era imposs�vel ver as fei��es dela no escuro, mas estendeu os bra�os num gesto de s�plica.</p><p>� Pelo amor de Deus, n�o entre, Jack! Eu estava com um pressentimento de que voc� viria esta noite. Pense melhor, meu bem! Confie em mim, e nunca ter� motivos para se arrepender.</p><p>� J� confiei demais, Effie! � ele gritou, zangado. � Me largue! Preciso entrar. Meus amigos e eu vamos resolver este assunto de uma vez por todas.</p><p>Empurrou-a para o lado e n�s fomos atr�s dele. Quando ele abriu a porta, uma mulher idosa apareceu correndo e tentou impedi-lo de entrar, mas ele a afastou e come�amos a subir a escada. Grant Munro correu para o quarto iluminado e n�s o seguimos.</p><p>Era uma pe�a acolhedora e bem mobiliada, com duas velas acesas sobre a mesa e duas sobre a lareira. A um canto, inclinada sobre uma escrivaninha, havia algu�m que me pareceu uma garotinha. Estava de costas quando entramos, mas vimos que usava um vestido vermelho e luvas brancas compridas. Quando ele se virou para n�s, soltei uma exclama��o de surpresa e horror. O rosto que nos encarava tinha a colora��o mais estranha que eu j� vira, e os tra�os eram totalmente destitu�dos de express�o. Um instante depois, o mist�rio se esclareceu. Holmes, com uma risada, passou a m�o por tr�s da orelha da crian�a e a m�scara caiu do rosto dela. E vimos uma negrinha retinta, com os dentes brancos � mostra, divertida com o nosso espanto. Desatei a rir, contagiado pela alegria dela, mas Grant Munro ficou olhando para ela im�vel, a m�o apertando a garganta.</p><p>� Meu Deus! O que significa isto?</p><p>� Vou dizer o que significa � exclamou a mulher, entrando no quarto com uma express�o altiva e r�gida no rosto. � Voc� me obrigou, contra minha vontade, a contar-lhe. Agora n�s dois teremos de agir da melhor maneira poss�vel. Meu marido morreu em Atlanta. Minha filha salvou-se.</p><p>� Sua filha!</p><p>Ela tirou do seio um grande medalh�o de prata.</p><p>� Voc� nunca o viu aberto.</p><p>� Pensei que fosse maci�o.</p><p>Ela apertou uma mola e abriu o medalh�o. Dentro havia o retrato de um homem de grande beleza e express�o inteligente, mas revelando tra�os inconfund�veis de sua ascend�ncia africana.</p><p>� Este � John Hebron, de Atlanta. E nunca existiu homem mais nobre sobre a terra. Afastei-me de minha ra�a para casar-me com ele e nem por um instante me arrependi. Infelizmente, nossa �nica filha puxou � fam�lia dele e n�o � minha. Acontece com freq��ncia, e minha pequena Lucy � bem mais escura que o pai. Mas, negra ou branca, � a minha filhinha, a querida da mam�e.</p><p>Ao ouvir aquelas palavras, a garotinha correu para aninhar-se junto � m�e.</p><p>� Quando a deixei nos Estados Unidos, s� o fiz porque sua sa�de era fr�gil e a mudan�a de clima talvez a prejudicasse. Ficou entregue aos cuidados de uma fiel escocesa que havia sido nossa criada. Nem por um instante pensei em rejeit�-la. Mas quando o destino o colocou no meu caminho, Jack, e aprendi a am�-lo, tive medo de falar a respeito da minha filha. Deus me perdoe, mas temi perd�-lo, n�o tive coragem de contar. Precisava escolher entre os dois e, na minha fraqueza, dei as costas � minha pr�pria filha. Durante tr�s anos mantive em segredo sua exist�ncia, mas recebia not�cias dela atrav�s da ama e sabia que estava bem de sa�de. Mas finalmente senti um desejo irresist�vel de rev�-la. Lutei contra ele, mas em v�o. Embora percebesse o perigo, estava decidida a mandar trazer a crian�a, ainda que fosse por algumas semanas. Enviei 100 libras � ama, com instru��es para que alugasse esta casa, de modo que pudesse apresentar-se como vizinha, sem que eu, aparentemente, tivesse alguma liga��o com ela. Levei a cautela a ponto de recomendar-lhe que mantivesse a crian�a dentro de casa durante o dia e cobrisse o rosto e as m�os da menina para que, no caso de algu�m v�-la pela janela, n�o houvesse coment�rios a respeito de uma crian�a negra na vizinhan�a. Se eu tivesse sido menos cautelosa, teria sido mais sensata, por�m estava apavorada com a id�ia de que voc� soubesse a verdade.</p><p>� Foi voc� quem me disse que o chal� fora alugado. Deveria ter esperado at� o dia seguinte, mas n�o consegui dormir de t�o excitada, e acabei me esgueirando para fora de casa, sabendo que � dif�cil acord�-lo. Mas voc� me viu sair e este foi o in�cio dos meus problemas. No dia seguinte, sabia que eu tinha um segredo, mas, numa atitude nobre, n�o tirou vantagem disso. Tr�s dias depois, a ama e a crian�a mal conseguiram escapar pela porta dos fundos enquanto voc� entrava pela da frente. Esta noite, finalmente, ficou sabendo de tudo e eu pergunto o que ser� de n�s, de mim e de minha filha.</p><p>M�os cruzadas no peito, ela esperou a resposta.</p><p>Passaram-se dois longos minutos at� que Grant Munro rompesse o sil�ncio. E sua resposta foi daquelas em que gosto de pensar com carinho. Tomando a menininha nos bra�os, beijou-a e, ainda com ela no colo, estendeu a m�o para a mulher e virou-se para a porta.</p><p>� Podemos conversar mais confortavelmente em casa. N�o sou um homem muito bom, Effie, mas creio que sou melhor do que voc� me julgava.</p><p>Holmes e eu os acompanhamos pela alameda e, quando sa�amos, meu amigo tocou-me o bra�o.</p><p>� Creio que seremos mais �teis em Londres do que em Norbury.</p><p>E n�o disse mais nada sobre o caso at� tarde da noite, quando se dirigia, com uma vela acesa, para o quarto.</p><p>� Watson � ele disse � se algum dia perceber que estou me tornando excessivamente confiante nos meus talentos, ou me dedicando a um caso com menos afinco do que ele merece, fale baixinho no meu ouvido, por favor, a palavra �Norbury� e eu lhe serei infinitamente grato.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o corretor</strong></p><p>Pouco tempo depois do meu casamento, abri um consult�rio no bairro de Paddington. O velho sr. Farquhar, de quem o comprei, tivera excelente clientela, mas a idade e uma doen�a semelhante � dan�a de S�o Vito, que o atacara, reduziram-na consideravelmente. O p�blico, como � natural, parte do princ�pio de que quem cura os outros deve ser sadio, e olha com desconfian�a os poderes curativos de algu�m que parece incapaz de curar a si pr�prio. Assim, � medida que meu antecessor ficava mais fraco, sua clientela diminu�a e, quando eu o substitu�, seus lucros haviam ca�do de 1.200 libras anuais para pouco mais de trezentas. Mas, confiante na minha juventude e energia, eu estava convencido de que em poucos anos a clientela estaria maior do que nunca.</p><p>Nos primeiros tr�s meses ap�s a compra da cl�nica fiquei muito concentrado no trabalho e via muito pouco meu amigo Sherlock Holmes, porque estava ocupado demais para ir at� Baker Street. E ele raramente ia a algum lugar, a n�o ser por motivos profissionais. Portanto, fiquei surpreso quando, certa manh� de junho, enquanto lia o depois do caf�, ouvi a campainha, seguida da voz alta e um tanto estridente do meu velho amigo.</p><p>� Ah, meu caro Watson! � disse, entrando na sala. � Estou encantado em v�-lo. Espero que a sra. Watson esteja inteiramente recuperada das pequenas emo��es ligadas � nossa aventura do .</p><p>� Estamos muito bem, obrigado � respondi, apertando-lhe efusivamente a m�o.</p><p>Sentando-se na cadeira de balan�o, ele continuou:</p><p>� E espero tamb�m que a dedica��o � cl�nica m�dica n�o tenha eliminado completamente o seu interesse pelos nossos problemas dedutivos.</p><p>� Pelo contr�rio � respondi. � Ontem � noite estive relendo minhas antigas anota��es, classificando alguns dos nossos resultados.</p><p>� Espero que n�o considere encerrada a sua colet�nea.</p><p>� De modo algum. O que mais desejo � ter mais algumas dessas experi�ncias.</p><p>� Hoje, por exemplo?</p><p>� Sim, hoje, se quiser.</p><p>� Mesmo que seja em Birmingham?</p><p>� Certamente.</p><p>� E os clientes?</p><p>� Atendo aos do meu vizinho quando ele viaja. Ele est� sempre disposto a pagar a d�vida.</p><p>� Ah, tanto melhor � exclamou Holmes recostando-se na poltrona e observando-me por entre as p�lpebras semicerradas. � Noto que andou adoentado ultimamente. Resfriados de ver�o s�o sempre um tanto irritantes.</p><p>� Estive preso em casa por causa de um forte resfriado na semana passada. Mas pensei que tinha me livrado de todos os vest�gios dele.</p><p>� E livrou-se. Parece muito saud�vel.</p><p>� Ent�o, como soube?</p><p>� Meu caro amigo, tenho os meus m�todos.</p><p>� Dedu��o?</p><p>� Certamente.</p><p>� E como?</p><p>� Seus chinelos.</p><p>Olhei para os chinelos novos de couro que eu estava usando. � Mas como... ?</p><p>Holmes respondeu antes que eu terminasse a pergunta.</p><p>� Seus chinelos s�o novos. N�o devem ter mais que algumas semanas. As solas que voc� me mostra no momento est�o ligeiramente arranhadas. Primeiro pensei que se tinham molhado e depois queimado ao secar. Mas na parte interna h� um pequeno c�rculo de papel com a marca do vendedor. A umidade o teria removido, � claro. Ent�o voc� tem ficado com os p�s estendidos para o fogo, o que algu�m dificilmente faria, mesmo num m�s de junho �mido como este, caso estivesse com a sa�de perfeita.</p><p>Como todos os racioc�nios de Holmes, aquele era a pr�pria simplicidade, depois que ele explicava. Leu o pensamento estampado no meu rosto e seu sorriso tinha um tra�o de amargura ao dizer:</p><p>� Temo que eu me revele demais ao dar explica��es. Resultados sem causas s�o bem mais impressionantes. Est� disposto a ir a Birmingham?</p><p>� � claro. Qual � o caso?</p><p>� Voc� saber� no trem. Meu cliente est� esperando l� fora numa carruagem. Pode sair agora?</p><p>� Um momento.</p><p>Rabisquei um bilhete para o meu vizinho, fui explicar o caso � minha mulher e encontrei-me com Holmes no patamar de entrada.</p><p>� Seu vizinho � m�dico? � perguntou, indicando com a cabe�a a placa de bronze.</p><p>� Sim. Comprou a cl�nica, assim como eu.</p><p>� Clientela antiga?</p><p>� T�o antiga quanto a minha. Os dois consult�rios foram abertos logo que a casa foi constru�da.</p><p>� Neste caso, voc� ficou com a melhor parte.</p><p>� Creio que sim. Mas como � que voc� sabe?</p><p>� Pelos degraus, meu rapaz. Os seus est�o muito mais gastos que os dele... O cavalheiro que est� na carruagem � meu cliente e se chama Hall Pycroft. Permita que o apresente. Chicoteie o cavalo, cocheiro, pois temos o tempo exato para pegar o trem.</p><p>A pessoa diante da qual me sentei era um rapaz de boa estatura, rosto corado, express�o franca, honesta, e com um bigodinho louro. Usava uma cartola lustrada e um s�brio terno preto, que lhe davam a apar�ncia exata daquilo que era � um esperto homem da cidade pertencente � classe denominada mas que fornece excelentes regimentos de volunt�rios e gera uma quantidade maior de bons atletas e desportistas do que qualquer outro grupo destas ilhas. Seu rosto redondo e vermelho era naturalmente animado, mas os cantos da boca pareceram-me inclinados para baixo, numa preocupa��oquase c�mica. S� quando nos encontr�vamos num vag�o deprimeira classe e a caminho de Birmingham � que soube qual o problema que o levara a procurar Sherlock Holmes.</p><p>� Dispomos de setenta minutos � observou Holmes. � Sr. Hall Pycroft, quero que conte ao meu amigo a sua interessante experi�ncia exatamente como me contou e com maiores detalhes, se poss�vel. Ser� �til para mim ouvir novamente a seq��ncia de acontecimentos. Trata-se de um caso, Watson, que pode conter algo, ou n�o conter coisa alguma. Mas apresenta caracter�sticas ins�litas e absurdas, t�o atraentes para voc� como para mim. Agora, sr. Pycroft, n�o voltarei a interromp�-lo.</p><p>Nosso jovem companheiro virou-se para mim com um brilho malicioso nos olhos.</p><p>� O pior da hist�ria � mostrar que sou um perfeito idiota. Talvez tudo d� certo, � claro, e n�o vejo como poderia ter agido de outro modo; mas se perdi meu emprego e n�o obtiver nada em troca, sentirei que fui cr�dulo demais. N�o sou um bom contador de hist�rias, dr. Watson, mas foi isto que aconteceu.</p><p>� Eu trabalhava na Coxon &amp; Woodhouse, de Draper Gardens, mas eles foram atingidos no in�cio da primavera pelo esc�ndalo do empr�stimo venezuelano, como deve se lembrar, e sofreram um duro golpe.</p><p>� Como trabalhei com eles durante cinco anos, o velho Coxon deu-me uma excelente carta de recomenda��o quando houve a quebra. Mas � claro que todos n�s, os corretores, fomos para a rua. �ramos 27. Tentei arranjar um emprego aqui e ali, mas havia muita gente no mesmo barco e passei por apertos durante algum tempo. Ganhava 3 libras semanais na Coxon e tinha economizado umas 70, mas gastei tudo rapidamente. Eu j� estava sem saber o que fazer, mal conseguia dinheiro para comprar envelopes e pagar os selos para responder aos an�ncios. Gastei as solas dos sapatos subindo escadas e parecia continuar t�o longe de arranjar um emprego como no in�cio.</p><p>� Finalmente descobri uma vaga em Mawson &amp; Williams, a grande firma de corretagem de Lombard Street. Creio que corretagem n�o est� entre os seus interesses, mas posso afirmar que se trata de uma das firmas mais pr�speras de Londres. O an�ncio devia ser respondido somente por carta. Enviei meu curr�culo e cartas de recomenda��o, mas sem qualquer esperan�a de conseguir o lugar. A resposta veio prontamente, dizendo que eu deveria me apresentar na segunda-feira seguinte e assumir logo, contanto que minha apar�ncia fosse satisfat�ria. Ningu�m sabe como funcionam essas coisas.H� quem diga que o gerente se limita a enfiar a m�o na pilha de cartas e abrir a primeira que pegar. Seja como for, tive sorte e nunca me senti t�o satisfeito na vida. O sal�rio era uma libra semanal acima do que eu ganhava e minhas obriga��es eram mais ou menos as mesmas que tinha na Coxon.</p><p>� Chegamos agora � parte estranha do caso. Eu morava em Hampstead. Potter�s Terrace, 17 era o endere�o. Bem, eu estava sentado, fumando, na noite em que me prometeram o emprego, quando minha senhoria subiu, trazendo um cart�o que dizia: �Arthur Pinner, financista.� Eu nunca ouvira este nome antes e n�o podia imaginar o que o sujeito queria, mas � claro que o convidei a subir. Era um homem de estatura mediana, cabelos, barba e olhos pretos, nariz um tanto recurvo. Caminhava com passos decididos e falava de modo incisivo, como algu�m que conhecesse o valor do tempo.</p><p>� �Sr. Hall Pycroft?�</p><p>� �Sim, senhor�, respondi, convidando-o a sentar-se.</p><p>� �Trabalhou ultimamente em Coxon &amp; Woodhouse?�</p><p>� �Sim, senhor.�</p><p>� �E pertence agora � equipe da Mawson?�</p><p>� �Exatamente.�</p><p>� �Bem, o fato � que ouvi hist�rias extraordin�rias a respeito do seu talento financeiro. Lembra-se de Parker, que foi gerente da Coxon? Ele fala nisso com freq��ncia.�</p><p>� Claro que fiquei satisfeito ao ouvir isto. Sempre fui bastante ativo no escrit�rio, mas nunca imaginei que se comentasse na cidade a meu respeito em termos elogiosos.</p><p>� �Tem boa mem�ria?�</p><p>� �Razo�vel�, respondi modestamente.</p><p>� �Ficou em contato com o mercado enquanto esteve desempregado?�</p><p>� �Claro. Lia diariamente as cota��es da Bolsa de Valores.�</p><p>� �Isso mostra verdadeira dedica��o! � assim que se prospera! Importa-se que eu fa�a um teste? Vejamos: como est�o as ?�� �Entre 106 e 105 e 1/4.�</p><p>��E a � �104.�</p><p>� �E a �</p><p>� �Entre 7 e 7,6.�</p><p>� �Maravilhoso!�, exclamou, com um gesto exuberante. �Isto comprova tudo o que me disseram. Rapaz, voc� � bom demais para ser um simples corretor da Mawson!�</p><p>� Isso me surpreendeu, como voc�s podem imaginar. Eu disse:</p><p>� �Tem gente que n�o pensa exatamente como o senhor. Foi com muita dificuldade que consegui o emprego e estou muito satisfeito com ele.�</p><p>� �Ora, rapaz, voe mais alto. N�o est� no seu verdadeiro elemento. Vou dizer o que penso a respeito. O que tenho a oferecer � pouco diante da sua capacidade, mas comparado ao que lhe oferece a Mawson, � como a noite para o dia. Vejamos! Quando come�ar� a trabalhar l�?�</p><p>� �Na segunda-feira.�</p><p>� �Vou arriscar uma pequena aposta: voc� n�o ir� para l�.�</p><p>� �N�o vou trabalhar na Mawson?�</p><p>� �N�o, senhor. Nesse dia ser� o gerente-financeiro da Companhia Franco-Midland Hardware Ltda., com 134 filiais em cidades e aldeias da Fran�a, sem contar uma em Bruxelas e outra em San Remo.�</p><p>� Aquilo me tirou o f�lego.</p><p>� �Nunca ouvi falar nessa companhia�, respondi.</p><p>� �� bem prov�vel. O neg�cio funciona discretamente porque o capital � inteiramente privado e a coisa � atraente demais para ser aberta ao p�blico. Meu irm�o, Harry Pinner, � o respons�vel e tem o cargo de diretor-gerente. Ele sabia que eu tinha conhecimento do meio aqui na cidade e pediu-me que escolhesse um bom elemento, um rapaz decidido, cheio de vigor. Parker falou-me a seu respeito e � por isso que estou aqui. S� podemos oferecer-lhe uns m�seros 500 para come�ar...�</p><p>� �Quinhentos por ano!�, exclamei.</p><p>� �S� para come�ar, mas ganhar� uma comiss�o de 1% sobre o total dos neg�cios realizados pelos nossos agentes e garanto-lhe que o montante ser� superior ao seu sal�rio.�</p><p>� �Mas eu n�o sei nada sobre o com�rcio de ferragens.�</p><p>� �Ora, rapaz, voc� entende de finan�as.�</p><p>� Eu estava tonto, mal conseguia ficar sentado na cadeira. Mas, de repente, ocorreu-me uma d�vida.</p><p>� �Serei franco�, eu disse. �A Mawson ofereceu-me apenas 200, mas representa seguran�a. Al�m disso, sei t�o pouco a respeito de sua companhia que...�</p><p>� �Ah! rapaz esperto!�, ele exclamou, encantado. �� exatamente a pessoa que procuramos! N�o se deixa convencer logo de sa�da e tem toda raz�o. Aqui est� uma nota de 100 libras. Se achar que podemos trabalhar juntos, guarde-a no bolso como adiantamento de sal�rio.�</p><p>� �� uma bela quantia. Quando devo assumir o cargo?�</p><p>� �Esteja em Birmingham amanh� �s 13 horas. Tenho aqui no bolso um bilhete que dever� entregar ao meu irm�o. Voc� o encontrar� na Corporation Street, 126-B, onde est�o localizados os escrit�rios provis�rios da firma. � claro que ele precisa confirmar o seu contrato. Mas, c� entre n�s, tudo correr� bem.�</p><p>� �N�o sei como agradecer, sr. Pinner.�</p><p>� �Nem pense nisso, meu rapaz. Voc� merece. H� dois pequenos detalhes, simples formalidades, que preciso acertar com voc�. Tem papel por a�? Escreva, por favor: �Estou inteiramente disposto a trabalhar como gerente-financeiro da Companhia Franco-Midland Hardware Ltda., pelo sal�rio de quinhentas libras�.�</p><p>� Fiz o que ele pediu e o sr. Pinner guardou o papel no bolso.</p><p>� �Mais um detalhe. O que pretende fazer a respeito do emprego na Mawson?�</p><p>� Estava t�o contente que j� tinha esquecido da Mawson.</p><p>� �Vou escrever dizendo que desisto.�</p><p>� �� exatamente o que n�o quero que fa�a. Tive uma discuss�o a seu respeito com o gerente da Mawson. Fui at� l� para indagar a seu respeito e ele teve uma atitude muito grosseira, acusando-me de afast�-lo da firma etc. Acabei perdendo a paci�ncia. �Se querem bons elementos, precisam pagar � altura�, eu disse. �Ele vai preferir o nosso pequeno sal�rio � sua remunera��o exagerada�, replicou o gerente. �Aposto 5 que ele aceitar� a minha oferta e voc�s nunca mais ouvir�o falar nele�. �Combinado! N�s o tiramos da sarjeta e ele n�o nos deixar� com tanta facilidade�. Foi exatamente o que ele disse.�</p><p>� �Que miser�vel!�, exclamei. �Nunca o vi na minha vida. Por que daria prefer�ncia a ele? N�o escreverei coisa alguma, se preferir assim.�</p><p>� ��timo! Prometido?�, ele se levantou. �Estou encantado por ter conseguido um elemento t�o bom para meu irm�o. Aqui est�o a carta e as 100 libras adiantadas. Tome nota do endere�o: Corporation Street, 126-B. E n�o esque�a que a entrevista � amanh� �s 13 horas. Boa-noite. Desejo-lhe toda a sorte que merece.�</p><p>� Foi o que se passou entre n�s, que eu me lembre. Pode imaginar como estava satisfeito, dr. Watson. Que sorte extraordin�ria! Fiquei acordado metade da noite felicitando-me por isso, e no dia seguinte parti para Birmingham num trem que me deixaria na cidade bem antes da entrevista. Levei a mala para um hotel na New Street e depois dirigi-me ao endere�o que me fora dado.</p><p>� Eu estava um quarto de hora adiantado, mas achei que n�o faria diferen�a. O n�mero 126-B era uma passagem entre duas grandes lojas, que terminava numa escada circular de pedra e dava acesso a v�rias salas alugadas para escrit�rios de companhias e profissionais liberais. Os nomes dos inquilinos estavam pintados na parte inferior da parede, mas n�o encontrei o da Companhia Franco-Midland Hardware Ltda. Fiquei parado alguns minutos, muito deprimido, perguntando-me se a hist�ria toda n�o seria um sofisticado logro, quando um homem subiu e se aproximou de mim. Era muito parecido com o sujeito que eu tinha visto na v�spera, a mesma voz e a mesma fisionomia, mas com o rosto escanhoado e o cabelo mais claro.</p><p>� �� o sr. Hall Pycroft?�, perguntou.</p><p>� �Sou.�</p><p>� �Ah! Estava � sua espera. Chegou um pouco antes da hora. Recebi um bilhete do meu irm�o esta manh�, em que ele faz grandes elogios ao senhor.�</p><p>� �Estava procurando o escrit�rio quando o senhor apareceu.�</p><p>� �Ainda n�o mandamos afixar o nome porque s� na semana passada alugamos temporariamente o local. Suba comigo. Vamos conversar.�</p><p>� Eu o segui at� o alto da escada e logo abaixo do telhado havia duas salinhas vazias e empoeiradas, sem tapetes ou cortinas. Eu tinha imaginado um escrit�rio grande, com mesas reluzentes e fileiras de empregados, como eu estava acostumado, e olhei sem muita simpatia para as duas cadeiras e a mesinha que, juntamente com um calend�rio e uma cesta de pap�is, constitu�am todo o mobili�rio.</p><p>� �N�o se decepcione, sr. Pycroft�, disse o homem, vendo a minha express�o. �Roma n�o foi feita em um dia, e temos muito dinheiro nos apoiando, embora n�o haja tend�ncia a gast�-lo em escrit�rios elegantes. Sente-se, por favor, e deixe-me ver sua carta.�</p><p>� Entreguei a carta e ele a leu cuidadosamente.</p><p>� �Meu irm�o Arthur ficou com uma �tima impress�o�, observou �e sei que ele � um juiz muito perspicaz. Adora Londres e eu, Birmingham, mas desta vez vou seguir o conselho dele. Pode considerar-se definitivamente contratado.�</p><p>� �Quais s�o as minhas obriga��es?�, perguntei.</p><p>� �Posteriormente ir� administrar o grande dep�sito em Paris, que lan�ar� uma enxurrada de lou�a inglesa em 134 filiais da Fran�a. A compra ser� realizada dentro de uma semana, mas por enquanto permanecer� em Birmingham, onde nos ser� mais �til.�</p><p>� �De que maneira?�</p><p>� Como resposta ele tirou da gaveta um grande livro vermelho.</p><p>� �Isto � um cat�logo de Paris, que relaciona profiss�o e nomes de pessoas. Quero que o leve para casa e marque todos os vendedores de ferragens e os respectivos endere�os. Ser� muito �til para mim.�</p><p>� �Mas n�o h� listas classificadas?�, sugeri.</p><p>� �N�o s�o confi�veis. O sistema deles � diferente do nosso. Trabalhe com afinco e entregue-me a rela��o na segunda-feira ao meio-dia. At� logo, sr. Pycroft. Se continuar a demonstrar zelo e intelig�ncia, a companhia ser� um excelente patr�o.�</p><p>� Voltei para o hotel com o grande cat�logo debaixo do bra�o e no peito emo��es conflitantes. Por um lado, eu estava definitivamente contratado e tinha 100 libras no bolso. Por outro, a apar�ncia do escrit�rio, a aus�ncia de nome na parede e outros detalhes que impressionam um homem de neg�cios haviam deixado uma impress�o desagrad�vel em rela��o aos meus futuros patr�es. Entretanto, como eu havia recebido dinheiro, atirei-me � tarefa. Passei o domingo trabalhando duro, mas, apesar disso, na segunda-feira eu ainda estava na letra H. Fui procurar meu patr�o e encontrei-o na mesma sala despojada, onde recebi ordens de continuar a tarefa at� quarta-feira. Na quarta ainda n�o havia terminado, de modo que prossegui at� a sexta, isto �, ontem. E ent�o levei a lista ao sr. Harry Pinner.</p><p>� �Muito obrigado. Compreendo a dificuldade da tarefa. Esta rela��o ser� de grande ajuda material.�</p><p>� �Exigiu� algum tempo�, observei.</p><p>� �E agora quero que fa�a uma lista das lojas de m�veis, porque todas tamb�m vendem lou�as.�</p><p>� �Est� bem.�</p><p>� �Apare�a amanh� �s 19 horas para me informar do andamento do trabalho. N�o se mate de trabalhar. Algumas horas no �Day�s Music Hall� � noite n�o o prejudicariam.�</p><p>� Ele riu ao falar e percebi com um arrepio que um dos seus dentes incisivos havia sido muito mal obturado com ouro.</p><p>Sherlock Holmes esfregou as m�os, encantado, e eu olhei com espanto para o nosso cliente.</p><p>� N�o admira que se surpreenda, dr. Watson, mas foi assim. Quando conversei com o outro sujeito em Londres, e ele riu porque eu n�o iria trabalhar na Mawson, notei nele um dente obturado com ouro de maneira id�ntica. Foi o brilho do ouro que chamou minha aten��o nas duas vezes, compreende? Juntando isso ao fato de a fisionomia e voz serem as mesmas e as �nicas coisas diferentes podiam ser conseguidas facilmente com uma navalha ou uma peruca, n�o pude duvidar de que se tratava do mesmo homem. Espera-se que irm�os sejam parecidos, � claro, mas n�o a ponto de terem um dente obturado da mesma maneira. Despedi-me dele e me vi na rua completamente aturdido, sem saber o que fazer. Voltei ao hotel, mergulhei a cabe�a numa bacia de �gua fria e tentei raciocinar. Por que ele me enviara de Londres a Birmingham? Por que chegara ali antes de mim? Por que havia escrito uma carta para si mesmo? Era demais para mim. N�o consegui compreender coisa alguma. De repente, lembrei-me: o que para mim era obscuro seria claro para o sr. Sherlock Holmes. S� tive tempo de tomar o trem noturno, conversar com ele esta manh� e traz�-los comigo a Birmingham.</p><p>Houve um sil�ncio depois que o corretor acabou de contar sua experi�ncia surpreendente. E ent�o, piscando para mim, Sherlock Holmes recostou-se na poltrona com ar satisfeito, mas express�o cr�tica, lembrando um� que acabasse de tomar o primeiro gole de um vinho raro.</p><p>� Excelente, n�o acha, Watson? H� detalhes que me agradam. Creio que uma entrevista com o sr. Arthur Pinner, no escrit�rio provis�rio da Companhia Franco-Midland Hardware Ltda., seria uma experi�ncia interessante para n�s dois, voc� n�o concorda?</p><p>� Mas como? � perguntei.</p><p>� Muito f�cil � disse Hall Pycroft alegremente. � Os dois s�o amigos meus � procura de emprego. Nada mais natural que lev�-los ao diretor-administrativo.</p><p>� Exatamente! � claro! � disse Holmes. � Gostaria de dar uma olhada no cavalheiro e ver se descubro qual � o jogo dele. Que talentos tem voc�, meu amigo, que tornam t�o valiosos os seus servi�os? Ou ser� poss�vel que...</p><p>Come�ou a roer as unhas com olhos fixos na janela, e n�o lhe arrancamos uma s� palavra at� chegarmos � New Street.</p><p>�s 19 horas, n�s tr�s percorremos a Corporation Street, a caminho do escrit�rio da companhia.</p><p>� � in�til chegar antes da hora � disse o nosso cliente. � Aparentemente ele s� vai at� l� para falar comigo porque o local fica deserto at� a hora marcada.</p><p>� Sugestivo � observou Holmes.</p><p>� Foi o que eu disse! � exclamou o rapaz. � L� vai ele caminhando � nossa frente.</p><p>E apontou para um homem baixo, bem-vestido, que andava apressado do outro lado da rua. Observamos que ele estava olhando para um garoto que anunciava a �ltima edi��o de um vespertino e, correndo entre carruagens e �nibus, comprou um exemplar. Ent�o, segurando o jornal com firmeza, desapareceu numa porta.</p><p>� L� vai ele! � exclamou Hall Pycroft. � � naquele pr�dio que fica o escrit�rio da companhia. Venham comigo. Vou esclarecer o caso com a maior facilidade.</p><p>Seguindo-o, subimos cinco andares e nos encontramos diante de uma porta entreaberta, � qual o nosso cliente bateu. Uma voz convidou-o a entrar e penetramos numa sala despojada, sem mob�lia, exatamente como Hall Pycroft havia descrito. Na �nica mesa estava sentado o homem que t�nhamos visto na rua, com o jornal aberto � sua frente. Quando ergueu o rosto, tive a impress�o de que nunca vira fisionomia t�o marcada pela dor. E algo al�m da dor � um horror que poucos homens sentem durante a vida. Tinha a testa coberta de suor, as faces p�lidas como a barriga de um peixe, olhos desvairados, fitando sem ver. Olhou para o rapaz como se n�o o reconhecesse e vi, pela surpresa estampada no rosto do nosso cliente, que aquela n�o era, absolutamente, a apar�ncia habitual do seu chefe.</p><p>� Parece doente, sr. Pinner � exclamou.</p><p>� De fato, n�o estou me sentindo bem � ele respondeu, fazendo um esfor�o evidente para se controlar e umedecendo os l�bios secos enquanto falava. � Quem s�o estes senhores que o acompanham?</p><p>� Este � o sr. Harris, de Bermondsey, e este � o sr. Price, desta cidade � mentiu o rapaz com naturalidade. � S�o amigos meus, profissionais experientes, mas que est�o desempregados h� algum tempo e esperam que talvez consiga uma vaga para eles na companhia.</p><p>� � bem poss�vel! � bem poss�vel! � exclamou o sr. Pinner com um sorriso sinistro. � Sim, certamente faremos alguma coisa pelos dois. Em que ramo trabalha, sr. Harris?</p><p>� Sou contador � respondeu Holmes.</p><p>� Sim, precisaremos de algu�m nessa �rea. E o sr. Price?</p><p>� Sou escriv�o � respondi.</p><p>� Espero que a companhia possa empreg�-los. Eu me comunicarei com os dois assim que chegarmos a uma conclus�o. E agora pe�o que se retirem. Pelo amor de Deus, deixem-me sozinho!</p><p>As �ltimas palavras irromperam como se o controle que evidentemente tentava manter tivesse explodido de repente. Holmes e eu nos entreolhamos e Hall Pycroft deu um passo em dire��o � mesa.</p><p>� Esquece, sr. Pinner, que estou aqui a seu pedido, para receber instru��es suas.</p><p>� Certamente, sr. Pycroft, certamente � respondeu o homem, em tom sereno. � Espere aqui um momento e n�o h� motivo para que seus amigos n�o esperem tamb�m. Estarei inteiramente �s suas ordens dentro de tr�s minutos, se posso abusar tanto de sua paci�ncia.</p><p>Levantou-se com ar muito cort�s e, fazendo uma ligeira inclina��o, desapareceu por uma porta nos fundos da sala e fechou-a.</p><p>� E agora? � murmurou Holmes. � Ser� que vai escapar?</p><p>� Imposs�vel � respondeu Pycroft.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Aquela porta d� para um quarto interno.</p><p>� N�o h� uma sa�da?</p><p>� Nenhuma.</p><p>� O quarto � mobiliado?</p><p>� Ontem estava vazio.</p><p>� Ent�o, o que ele estar� fazendo? H� algo que n�o compreendo neste caso. Se existe algu�m louco de terror, esse homem � Pinner. Por que est� apavorado?</p><p>� Suspeita que somos detetives � sugeri.</p><p>� � isso � concordou Pycroft.</p><p>Holmes meneou a cabe�a.</p><p>� Ele n�o empalideceu. J� estava p�lido quando entramos na sala. � poss�vel que...</p><p>Foi interrompido por �speras batidas vindas do quarto ao lado. � Por que diabo estar� batendo na pr�pria porta? � exclamou o rapaz.</p><p>As batidas repetiram-se, muito mais fortes. Ficamos olhando para a porta e esperamos. Ao olhar para Holmes, percebi que seu rosto se tornava r�gido e ele se inclinava para a frente, profundamente interessado. De repente ouvimos um gorgolejo surdo e uma batida de madeira sobre madeira. Holmes atravessou a sala de um salto e empurrou a porta. Estava fechada por dentro. Seguindo-lhe o exemplo, atiramo-nos contra ela com todo o nosso peso. Uma das dobradi�as cedeu, depois a outra, e a porta caiu com estrondo. Passando sobre ela, entramos no quarto.</p><p>Estava vazio.</p><p>Mas s� nos detivemos por um instante. No canto mais pr�ximo da sala de onde hav�amos sa�do, havia uma segunda porta. Holmes correu para ela e escancarou-a. Um casaco e um colete estavam no ch�o e de um gancho atr�s da porta, o pesco�o enrolado em seu pr�prio suspens�rio, pendia o diretor-administrativo da Companhia Franco-Midland Hardware Ltda. Tinha os joelhos encolhidos e a cabe�a ca�da num �ngulo horr�vel em rela��o ao corpo. A batida de seus calcanhares contra a porta fora o ru�do que interrompera a nossa conversa. No mesmo instante segurei-o pela cintura e levantei-o, enquanto Holmes e Pycroft desatavam o el�stico que� havia desaparecido entre as dobras l�vidas da pele. Em seguida, n�s o carregamos para a outra sala, onde ficou deitado, rosto cinzento, respirando atrav�s de l�bios arroxeados � medonha ru�na do que fora cinco minutos antes.</p><p>� O que acha do estado dele, Watson? � perguntou Holmes.</p><p>Inclinei-me e examinei-o. O pulso estava fraco e intermitente, mas a respira��o come�ava a regularizar-se. As p�lpebras estremeceram, revelando uma nesga branca do globo ocular.</p><p>� Escapou por um triz � falei. � Mas escapou. Abram aquela janela e passem-me a garrafa d��gua.</p><p>Abri o colarinho, despejei �gua fria sobre o rosto e movimentei-lhe os bra�os at� que ele respirou longamente, um hausto natural.</p><p>� Agora � uma quest�o de tempo � disse, virando-lhe as costas.</p><p>Holmes estava ao lado da mesa, as m�os enfiadas nos bolsos da cal�a, cabe�a inclinada.</p><p>Acho que devemos chamar a pol�cia � disse. � Mas confesso que gostaria de apresentar um caso completo quando ela chegar.</p><p>� Para mim � um mist�rio total � disse Pycroft, co�ando a cabe�a. � Por que me trouxeram at� aqui e depois...</p><p>� Ora! Tudo isso est� bem claro � disse. � O que importa � este �ltimo gesto inesperado.</p><p>� Ent�o, compreende o resto?</p><p>� Creio que � bastante �bvio. O que acha, Watson?</p><p>Dei de ombros.</p><p>� Devo confessar que n�o entendi nada.</p><p>� Se voc� considerar os acontecimentos desde o in�cio, eles apontam para uma conclus�o.</p><p>� O que � que voc� pensa a respeito?</p><p>� Bem, a hist�ria gira em torno de dois pontos. O primeiro foi fazer Pycroft escrever uma declara��o segundo a qual ele estava a servi�o desta companhia absurda. N�o percebe como isso � sugestivo?</p><p>� Confesso que n�o entendo.</p><p>� Por que queriam que ele fizesse isso? N�o se trata de neg�cios, porque esses acordos geralmente s�o verbais e n�o havia nenhum motivo para que este fosse uma exce��o. N�o percebe, meu jovem amigo, que estavam muito ansiosos para obter uma amostra da sua caligrafia e que n�o tinham outra maneira de consegui-la?</p><p>� Mas por qu�?</p><p>� Exatamente. Por qu�? Quando respondermos a essa pergunta, teremos feito algum progresso em rela��o ao nosso probleminha. S� pode haver um motivo. Algu�m queria aprender a imitar a sua caligrafia e primeiro precisava conseguir uma amostra. E agora, se passarmos ao segundo ponto, descobriremos que cada qual lan�a sobre o outro uma nova luz. Esse ponto � o pedido de Pinner para que n�o avisasse que desistira do emprego, deixando o gerente daquela firma importante na expectativa de que um certo sr. Hall Pycroft, que ele n�o conhecia, come�aria a trabalhar no escrit�rio a partir de segunda-feira.</p><p>� Meu Deus! � exclamou nosso cliente. � Como fui cego!</p><p>� Percebe agora o motivo do bilhete manuscrito. Suponhamos que algu�m surgisse no seu lugar, escrevendo com uma caligrafia inteiramente diferente da do rapaz que se apresentara para o cargo. � claro que o jogo estaria perdido. Mas, no intervalo, o bandido aprenderia a imitar a sua caligrafia, e garantiria o emprego, j� que, como presumo, ningu�m o conhece naquela firma.</p><p>� Ningu�m � gemeu Hall Pycroft.</p><p>� Muito bem. Claro que era da maior import�ncia impedi-lo de mudar de id�ia e tamb�m entrar em contato com algu�m que poderia dizer-lhe que uma pessoa com o seu nome trabalhava nos escrit�rios da Mawson. Portanto, deram-lhe um bom adiantamento de sal�rio e enviaram-no para as Midlands, onde o sobrecarregaram de trabalho para impedi-lo de ir a Londres, onde poderia descobrir a jogada. Tudo isso est� bastante claro.</p><p>� Mas por que este homem fingiria ser seu pr�prio irm�o?</p><p>� Isto tamb�m � bastante claro. Evidentemente s� h� duas pessoas no golpe. A outra est� trabalhando no seu lugar na Mawson. Esta agia como intermedi�rio at� descobrir que precisaria admitir uma terceira pessoa no jogo para ser o seu patr�o, o que ele n�o estava nem um pouco inclinado a fazer. Modificou a apar�ncia o mais poss�vel e esperou que a semelhan�a que voc� n�o poderia deixar de notar seria atribu�da a tra�os de fam�lia. N�o fosse o feliz acaso da obtura��o de ouro, suas suspeitas nunca se concretizariam.</p><p>Hall Pycroft agitou no ar os punhos fechados.</p><p>� Meu Deus! Enquanto fui enganado, o que estar� o outro Hall Pycroft fazendo na Mawson? Que provid�ncia devemos tomar, sr. Holmes? Diga-me o que fazer!</p><p>� Precisamos telegrafar para a Mawson.</p><p>� S� trabalham at� meio-dia aos s�bados.</p><p>� N�o importa. Talvez haja algum porteiro, ou empregado...</p><p>� Ah, sim! Eles mant�m um guarda permanente por causa do valor das a��es com que lidam. Lembro-me de ouvir esse coment�rio no centro financeiro da cidade.</p><p>� Ent�o, telegrafaremos pedindo que verifique se est� tudo em ordem e se h� um corretor com o seu nome trabalhando l�. Tudo isso � bastante claro. O que n�o est� claro � o fato de que, ao ver-nos, um dos bandidos saiu imediatamente da sala e se enforcou.</p><p>� O jornal! � murmurou uma voz rouca atr�s de n�s.</p><p>O homem estava sentado, p�lido e desfeito, mas de olhar consciente. Suas m�os esfregavam nervosamente a tira vermelha que envolvia seu pesco�o.</p><p>� O jornal! � claro! � exclamou Holmes, muito agitado. Como sou idiota! Pensei tanto na nossa visita que me esqueci do jornal. O segredo est� l�, com certeza.</p><p>Estendeu-o sobre a mesa e soltou uma exclama��o de triunfo.</p><p>� Veja isto, Watson! � um jornal de Londres, a primeira edi��o do Aqui est� o que procuramos. Veja a manchete. �Crime no centro da cidade. Assassinato na Mawson &amp; Williams. Tentativa de Roubo Gigantesco. Captura do Criminoso.� Tome, Watson. Estamos todos ansiosos para ouvir a hist�ria. Tenha a bondade de l�-la em voz alta.</p><p>Pelo destaque que o jornal dera, parecia ser o acontecimento de maior import�ncia na cidade. A mat�ria dizia o seguinte:</p><p>�Uma desesperada tentativa de roubo, culminando na morte de um homem e na captura do criminoso, ocorreu esta tarde na cidade. H� algum tempo a Mawson &amp; Williams � deposit�ria de t�tulos que chegam a um total de mais de 1 milh�o de libras esterlinas. O gerente estava t�o consciente da sua responsabilidade, conseq��ncia dos grandes interesses em jogo, que havia encomendado cofres do �ltimo tipo e havia um guarda armado dia e noite no pr�dio. Consta que na semana passada um novo empregado, chamado Hall Pycroft, foi contratado pela firma. Essa pessoa era ningu�m menos que Beddington, o famoso fals�rio e estelionat�rio que, juntamente com o irm�o, acaba de cumprir pena de cinco anos. Usando de meios que ainda n�o foram esclarecidos, conseguiu obter, com um nome falso, um cargo oficial no escrit�rio, utilizando-o para conseguir moldes de diversas chaves e conhecer a posi��o da casa-forte e dos cofres.�</p><p>Na Mawson, os empregados s� trabalham at� meio-dia de s�bado. O sargento Tuson, da Pol�cia Metropolitana, surpreendeu-se, portanto, ao ver um cavalheiro com uma valise descer as escadas vinte minutos depois das 13 horas. Desconfiado, o sargento o seguiu e, com a ajuda do cabo Pollock, conseguiu prend�-lo, ap�s uma resist�ncia desesperada. Imediatamente ficou claro que um roubo audacioso e gigantesco fora cometido. Quase 100 mil libras em t�tulos de estradas de ferro americanas, al�m de um grande n�mero de a��es de minas e outras companhias, foram encontrados na pasta. Ao examinarem o local, descobriram o corpo do infeliz vigia dobrado e atirado dentro do cofre maior, onde s� seria encontrado na segunda-feira de manh�, n�o fosse a pronta a��o do sargento Tuson. O cr�nio da v�tima havia sido despeda�ado com um golpe dado pelas costas. N�o podia haver d�vida de que Beddington conseguira entrar alegando ter esquecido alguma coisa. Depois de assassinar o vigia, fez uma r�pida limpeza no cofre maior e saiu com o produto do roubo. Seu irm�o, que em geral trabalha com ele, aparentemente n�o participou deste golpe, embora a pol�cia esteja fazendo investiga��es para descobrir o seu paradeiro.�</p><p>� Bem, pouparemos � pol�cia algum trabalho neste sentido � disse Holmes, olhando para a fisionomia transtornada do homem encolhido junto � janela. � A natureza humana � estranhamente complexa, Watson. Veja que at� mesmo um vil�o e assassino � capaz de inspirar afeto, a ponto de o irm�o tentar suicidar-se ao saber que ele est� amea�ado. Mas n�o temos escolha quanto � maneira de agir. O dr. Watson e eu ficaremos de guarda, sr. Pycroft, se quiser ter a bondade de chamar a pol�cia.</p><empty-line/></section><section><p><strong>gloria scott</strong></p><p>Tenho aqui alguns pap�is e acho que valia a pena voc� dar uma olhada � disse o meu amigo Sherlock Holmes, numa noite de inverno em que est�vamos sentados junto � lareira. � S�o documentos referentes ao extraordin�rio caso do Gloria Scott, e esta � a mensagem que matou de horror o juiz de paz Trevor, quando a leu.</p><p>Pegou em uma gaveta um pequeno cilindro emba�ado, retirou o selo e entregou-me um bilhete rabiscado em meia folha de papel cinzento.</p><empty-line/><p>O fornecimento de ca�a para Londres aumenta constantemente. O guarda-ca�a Hudson, segundo acreditamos, contou com o recebimento de papel ca�a-moscas para a preserva��o da vida dos seus fais�es.</p><empty-line/><p>Quando acabei de ler aquela mensagem enigm�tica, vi Holmes rindo da minha express�o.</p><p>� Voc� parece meio aturdido � observou.</p><p>� N�o vejo como este bilhete possa inspirar horror. Parece-me mais grotesco do que qualquer outra coisa.</p><p>� � bem prov�vel. Mas o fato � que� a pessoa que leu, um velho robusto e bem disposto, foi v�tima dele, como se tivesse sido atingido por uma coronhada.</p><p>� Voc� me deixa curioso. Mas por que disse h� pouco que havia motivos muito particulares para que eu examinasse este caso?</p><p>� Porque foi o primeiro em que me envolvi.</p><p>Eu havia tentado muitas vezes saber de meu amigo o que o levara a se interessar pela pesquisa criminal, mas nunca o surpreendera numa hora de disposi��o comunicativa. Naquele momento, inclinou-se para a frente na poltrona e abriu os documentos sobre os joelhos. Depois, acendeu o cachimbo e fumou durante algum tempo antes de me entregar os pap�is.</p><p>� J� me ouviu falar a respeito de V�tor Trevor? Foi o �nico amigo que fiz nos meus dois anos de universidade. Nunca fui muito soci�vel, Watson, preferindo ficar sempre nos meus aposentos elaborando m�todos de racioc�nio e nunca me envolvi muito com os colegas de classe. Com exce��o de esgrima e boxe, eu tinha poucas inclina��es esportivas. Al�m disso, minha linha de estudos era bem diferente da dos meus colegas, de modo que n�o t�nhamos pontos de contato. Trevor era o �nico homem que eu conhecia e isso em conseq��ncia de um incidente: o� dele mordeu meu tornozelo certa manh�, quando eu estava indo para a capela.</p><p>� Foi uma maneira prosaica de fazer amizade, mas eficaz. Fiquei de cama dez dias e Trevor aparecia sempre para saber como eu estava. A princ�pio era apenas uma conversa r�pida, mas em pouco tempo as visitas se prolongaram e antes do fim do trimestre �ramos bons amigos. Ele era um sujeito cordial, vivo, cheio de anima��o e energia, o oposto do meu temperamento em quase todos os aspectos. Mas descobrimos interesses comuns e um verdadeiro elo passou a nos unir quando descobri que ele tamb�m n�o tinha amigos. Finalmente, convidou-me para ir � casa de seu pai, em Donnithorpe, Norfolk. Aceitei a sua hospitalidade durante um m�s inteiro de f�rias.</p><p>� O velho Trevor era evidentemente um homem de posses e prest�gio, juiz de paz e propriet�rio de terras. Donnithorpe � um povoado ao norte de Langmere, no distrito de Broads. A casa era antiga, ampla, com traves de carvalho no teto, paredes de tijolos. Uma bela alameda ladeada de limeiras conduzia � entrada. Os terrenos proporcionavam excelente ca�a aos patos selvagens, �timos locais de pescaria e havia uma biblioteca pequena mas seleta, herdada, segundo entendi, de um antigo morador. A comida era toler�vel, de modo que uma pessoa exigente poderia passar ali um m�s muito agrad�vel.</p><p>� Trevor pai era vi�vo, e meu amigo, filho �nico. Soube que uma irm� morrera de difteria durante uma visita a Birmingham. O pai me despertou muito interesse. Era homem de pouca cultura, mas consider�vel vigor, tanto f�sico como mental. Mal abrira um livro, mas viajara muito, conhecia grande parte do mundo e lembrava-se de tudo o que havia aprendido. Era um homem atarracado, vigoroso, de cabeleira grisalha, rosto bronzeado e olhos azuis t�o vivos que chegavam a parecer ferozes. No entanto era conhecido na regi�o como um homem bondoso e caridoso, que chamava aten��o pela brandura de suas senten�as no tribunal.</p><p>� Uma noite, pouco depois da minha chegada, tom�vamos vinho do Porto ap�s o jantar, quando Trevor filho come�ou a falar sobre os h�bitos de observa��o e dedu��o que eu j� sistematizara, embora ainda n�o percebesse o papel que representariam na minha vida. O velho pensou, evidentemente, que o filho exagerava na descri��o de um ou dois dos meus feitos triviais.</p><p>� Rindo bem-humorado, ele disse:</p><p>� �Sr. Holmes, sou um excelente sujeito. Veja se � capaz de deduzir algo a meu respeito.�</p><p>� �Temo que n�o haja muita coisa a deduzir�, comentei. �Creio que tem estado sob o temor de uma agress�o pessoal nos �ltimos 12 meses.�</p><p>� O riso morreu-lhe nos l�bios e ele me olhou muito surpreso.</p><p>� �Isto � verdade.� E virando-se para o filho: �V�tor, quando desbaratamos aquele grupo de ca�adores ilegais, eles juraram nos matar. E Edward Holly chegou a ser agredido. Desde ent�o fiquei de sobreaviso, embora n�o fa�a id�ia de como descobriu isso.�</p><p>� �O senhor tem uma bengala muito bonita�, respondi. �Pela inscri��o, observei que a possui h� menos de um ano. Mas teve o cuidado de retirar o cast�o e despejar chumbo derretido no orif�cio, transformando-a numa arma poderosa. Conclu� que s� tomaria essas precau��es se temesse algum perigo.�</p><p>� �Mais alguma coisa?�, perguntou, sorrindo.</p><p>� �Lutou boxe durante um bom tempo na juventude.�</p><p>� �Certo novamente. Como descobriu? O meu nariz � meio torto?�</p><p>� �N�o, as orelhas. Elas t�m aquele achatamento e a espessura caracter�sticos dos lutadores de boxe.�</p><p>� �Mais alguma coisa?�</p><p>� �E fez muita escava��o, a julgar pelas calosidades.�</p><p>� �Ganhei toda a minha fortuna em minas de ouro.�</p><p>� �Esteve na Nova Zel�ndia.�</p><p>� �� exato.�</p><p>� �E visitou o Jap�o.�</p><p>� �Absolutamente correto.�</p><p>� �E esteve intimamente associado a algu�m cujas iniciais eram J. A., pessoa que o senhor tem se esfor�ado para esquecer completamente.�</p><p>� O sr. Trevor levantou-se devagar, fixou em mim seus grandes olhos azuis de um jeito estranho e depois caiu para a frente, com o rosto entre as cascas de nozes espalhadas pela mesa, num desmaio profundo.</p><p>� Voc� pode imaginar, Watson, o choque que isso representou para o filho e para mim. Mas o desmaio n�o foi longo. Abrimos o colarinho, jogamos �gua no rosto dele, que arquejou uma ou duas vezes e retesou o corpo.</p><p>� Com um sorriso for�ado, ele disse:</p><p>� �Espero n�o t�-los assustado, rapazes! Embora eu seja um homem robusto, tenho um ponto fraco no cora��o e qualquer coisa me abala. N�o sei como consegue isso, sr. Holmes, mas tenho a impress�o de que todos os detetives reais e fict�cios seriam como crian�as em suas m�os. � para isso que deve orientar a sua vida. Ou�a a palavra de um homem que conhece boa parte do mundo.�</p><p>� E essa recomenda��o, com a avalia��o exagerada do meu talento que a precedeu, foi a primeira coisa que me fez sentir, Watson, que eu poderia transformar em profiss�o aquilo que at� ent�o n�o passava de um Mas naquele momento eu estava muito preocupado com o repentino mal-estar do meu anfitri�o para pensar em outra coisa.</p><p>� �Espero n�o ter dito nada que o magoasse�,� falei.</p><p>� �Tocou num ponto bastante sens�vel, sem d�vida. Posso perguntar como soube e quanto sabe?�</p><p>� Falava em tom de brincadeira, mas o olhar de pavor voltara �s suas pupilas.</p><p>� �� muito simples. Quando descobriu o bra�o para recolher aquele peixe, vi que as letras �J. A.� tinham sido tatuadas na dobra do cotovelo. Eram ainda leg�veis, mas pela apar�ncia borrada e pela mancha na pele em volta ficou claro que foram feitas tentativas para apag�-las. Ent�o, era �bvio que aquelas iniciais representavam algu�m muito pr�ximo, que mais tarde quis esquecer.�</p><p>� �Que olho o senhor tem!�, exclamou com um suspiro de al�vio. �� exatamente, como disse. Mas n�o quero falar no assunto. De todos os fantasmas, os dos velhos amores s�o os piores. Vamos para a sala de bilhar, fumar tranq�ilamente um charuto.�</p><p>� A partir daquele dia, apesar de toda a sua cordialidade, havia sempre um tra�o de desconfian�a nas atitudes do sr. Trevor em rela��o a mim. At� o filho dele percebeu.</p><p>� �Pregou um susto t�o grande no velho que ele vai ficar sempre em d�vida sobre o que voc� sabe e o que ignora.�</p><p>� Ele n�o queria demonstr�-lo, tenho certeza, mas a id�ia estava t�o fixa em sua mente que vinha � tona em cada gesto. Finalmente, convencido de que estava causando embara�os, dei por encerrada a minha visita. Mas um pouco antes da minha partida ocorreu um incidente que posteriormente se revelou muito importante.</p><p>� Est�vamos sentados no gramado, em cadeiras de jardim, n�s tr�s, aproveitando o sol e admirando a vista do vale, quando uma criada apareceu dizendo que havia um homem na porta querendo falar com o sr. Trevor.</p><p>� �Como se chama?�, perguntou o meu anfitri�o.</p><p>� �N�o quis dar o nome.�</p><p>� �Ent�o, o que � que ele quer?�</p><p>� �Disse que conhece o senhor e quer conversar durante alguns minutos.�</p><p>� �Mande-o entrar.�</p><p>� Um instante depois surgia um homenzinho franzino, de maneiras servis e andar desajeitado. Vestia casaco aberto, manchado de alcatr�o na manga, camisa xadrez vermelha e preta, cal�as de brim e pesadas botas muito gastas. O rosto era magro, bronzeado e astuto, exibindo um sorriso perp�tuo que mostrava dentes irregulares e amarelos. As m�os enrugadas estavam meio fechadas, � maneira caracter�stica dos marinheiros. Quando se aproximava pelo gramado, ouvi o sr. Trevor fazer um ru�do semelhante a um solu�o. Saltando da cadeira, correu para a casa. Voltou da� a instantes e senti um cheiro forte de quando ele passou por mim.</p><p>� �Ent�o, o que posso fazer por voc�, meu velho?�</p><p>� O marinheiro olhou para ele de p�lpebras franzidas, com o mesmo sorriso largo estampado no rosto.</p><p>� �N�o me conhece?�, perguntou.</p><p>� �Ora, � Hudson, sem d�vida!�, exclamou o sr. Trevor em tom de surpresa.</p><p>� �Hudson, sim, senhor�, confirmou o marinheiro. �Faz trinta anos ou mais que o vi pela �ltima vez. Est� aqui bem instalado na sua casa e eu continuo comendo carne salgada tirada do barril.�</p><p>� �N�o esqueci os velhos tempos�, disse Trevor, aproximando-se do marinheiro e falando qualquer coisa em voz baixa. Depois, novamente em voz alta: �V� at� a cozinha e lhe dar�o algo para comer e beber. N�o h� d�vida de que conseguirei um emprego para voc�.�</p><p>� �Obrigado, senhor�, disse o marinheiro, levando a m�o � testa. �Acabo de cumprir um contrato de dois anos num velho navio que faz 8 n�s e ainda por cima tem poucos tripulantes. Estou precisando de um descanso. Achei que conseguiria alguma coisa com o sr. Beddoes, ou com o senhor.�</p><p>� �Ah! Sabe onde mora o sr. Beddoes?�</p><p>� �Sei onde moram todos os meus velhos amigos�, disse o sujeito com um sorriso sinistro.</p><p>� E afastou-se com a criada em dire��o � cozinha. O sr. Trevor murmurou alguma coisa a respeito de ter sido companheiro daquele homem no navio quando voltava do trabalho nas minas. E, deixando-nos no gramado, entrou em casa. Uma hora depois, quando entramos, o encontramos estirado e totalmente embriagado no sof� da sala. O incidente deixou-me uma impress�o desagrad�vel e n�o lamentei quando fui embora de Donnithorpe no dia seguinte, porque senti que a minha presen�a era motivo de embara�o para o meu amigo.</p><p>� Tudo isso ocorreu no primeiro m�s das f�rias longas. Voltei ao meu apartamento de Londres, onde passei sete semanas fazendo experi�ncias de qu�mica org�nica. Um dia, quando o outono j� ia adiantado e as f�rias estavam no fim, recebi um telegrama do meu amigo implorando que voltasse a Donnithorpe e dizendo que precisava muito de meu conselho e ajuda. Claro que larguei tudo e mais uma vez segui para o norte.</p><p>� Ele estava � minha espera na esta��o com um ve�culo pequeno e percebi de sa�da que os dois �ltimos meses haviam sido muito dif�ceis para ele. Estava magro e preocupado, perdera o jeito barulhento e cordial que era sua caracter�stica.</p><p>� �Meu velho est� morrendo�, foram as suas primeiras palavras.</p><p>� �Imposs�vel!�, exclamei. �O que aconteceu?�</p><p>� �Apoplexia. Choque nervoso. Esteve por um triz o dia inteiro. N�o sei se o encontraremos com vida.�</p><p>� Como deve imaginar, Watson, fiquei horrorizado ao ouvir aquela not�cia inesperada.</p><p>� �Qual foi a causa?�, perguntei.</p><p>� �Ah! Eis a quest�o. Entre e conversaremos no caminho. Lembra-se daquele sujeito que apareceu na v�spera da sua partida?�</p><p>� �Lembro-me perfeitamente.�</p><p>� �Sabe quem permitimos que entrasse em casa naquele dia?�</p><p>� �N�o tenho a menor id�ia.�</p><p>� �O Dem�nio, Holmes!�</p><p>� Olhei para ele, espantado.</p><p>� �Sim, o pr�prio Dem�nio. N�o tivemos uma �nica hora de descanso desde ent�o. Meu pai nunca mais ergueu a cabe�a a partir daquela noite e agora a vida o aniquilou. Est� de cora��o partido. E tudo por causa do maldito Hudson.�</p><p>� �Que poder ele tinha?�</p><p>� �Eu daria tudo para saber. Meu pai, um homem bom, caridoso! Como teria ca�do nas garras daquele miser�vel? Estou t�o satisfeito porque voc� veio, Holmes! Confio no seu julgamento e na sua discri��o e sei que me aconselhar� da melhor maneira poss�vel.�</p><p>� Dispar�vamos pela estrada branca e regular, com um longo trecho da plan�cie estendendo-se � nossa frente e cintilando na claridade avermelhada do poente. Numa colina � esquerda avistei as altas chamin�s e a bandeira que indicavam a resid�ncia do senhor da regi�o.</p><p>� �Meu pai empregou o sujeito como jardineiro�, disse meu amigo. �E como isso n�o o satisfez, foi promovido a mordomo. Ele parecia dominar a casa. Ele a percorria � vontade e fazia o que bem entendia. As criadas queixaram-se de sua constante embriaguez e da linguagem grosseira. Papai aumentou o ordenado de toda a criadagem para compensar o aborrecimento. O sujeito era capaz de pegar a barca e o melhor rifle de meu pai e sair para pequenas ca�adas. E tudo isso com um ar t�o zombeteiro e insolente que eu seria capaz de esmurr�-lo vinte vezes por dia se fosse um homem de minha idade. Precisei controlar-me ao m�ximo durante todo esse tempo, Holmes, e agora me pergunto se n�o teria sido mais sensato tomar uma atitude.�</p><p>� �As coisas foram de mal a pior, e aquele animal, Hudson, passou a ficar cada vez mais ousado, at� que por fim, quando respondeu de modo insolente ao meu pai na minha presen�a, agarrei-o pelo bra�o e expulsei-o da sala. Afastou-se l�vido, com um olhar venenoso, murmurando mais amea�as do que sua l�ngua poderia expressar. N�o sei o que se passou entre meu pobre pai e ele depois disso, mas papai me procurou no dia seguinte perguntando se eu me importaria de pedir desculpas a Hudson. Eu me recusei, como voc� bem pode imaginar, e perguntei por que ele permitia que um miser�vel como aquele tomasse essas liberdades com ele pr�prio e com sua casa.� �Ah, meu filho, falar � f�cil, mas voc� n�o sabe em que situa��o eu estou. Um dia saber�, V�tor. Eu farei com que saiba, aconte�a o que acontecer! Voc� n�o acredita que seu pai seria capaz de cometer algo de mau, n�o � mesmo?�</p><p>� �Estava muito comovido e trancou-se o dia inteiro no escrit�rio. Vi pela janela que estava escrevendo.�</p><p>� �Naquela noite aconteceu uma coisa que nos causou um grande al�vio: Hudson disse que iria embora. Entrou na sala onde est�vamos sentados depois do jantar e anunciou sua inten��o, com a voz pastosa de um homem meio embriagado.� �Estou farto de Norfolk. Vou para a casa do sr. Beddoes, em Hampshire. Ele ficar� t�o satisfeito em me ver quanto voc� ficou.� �N�o est� saindo daqui aborrecido, n�o �, Hudson?�, disse meu pai, num tom humilde que fez meu sangue ferver. �Ainda n�o recebi o meu pedido de desculpas�, falou, sombrio, olhando na minha dire��o. �V�tor, voc� reconhece que foi um tanto brusco com este sujeito?�, perguntou meu pai, virando-se para mim. �Pelo contr�rio. Acho que n�s dois fomos excessivamente pacientes com ele�,� respondi. �Acha mesmo?�, ele rosnou. �Muito bem, rapaz. Veremos!�</p><p>� �Saiu da sala no seu andar desleixado e meia hora depois foi embora da casa, deixando meu pai extremamente nervoso. Noite ap�s noite eu o ouvia caminhando de um lado para o outro no quarto. Quando ele come�ava a recuperar a tranq�ilidade, ocorreu o golpe.�</p><p>� �Como?�, perguntei, ansioso.</p><p>� �Da maneira mais extraordin�ria. Ontem � noite chegou uma carta endere�ada a meu pai, com o carimbo de Fordingham. Papai a leu, apertou a cabe�a com as m�os e come�ou a correr pelo quarto em pequenos c�rculos, como algu�m que estivesse fora de si. Quando finalmente consegui obrig�-lo a deitar-se no sof�, vi que a boca e as p�lpebras dele estavam repuxados para um lado e percebi que havia sofrido um derrame. O dr. Fordham veio imediatamente e n�s o pusemos na cama; mas a paralisia aumentou e n�o h� sinais de que v� recuperar os sentidos. Acho que dificilmente o encontraremos com vida.�</p><p>� �Estou horrorizado, Trevor! O que haveria nessa carta para provocar um efeito t�o terr�vel?�</p><p>� �Nada. Este � o ponto inexplic�vel do caso. A mensagem era absurda e banal. Ah, Meu Deus. Era o que eu temia!�</p><p>� Enquanto ele falava, contornamos a curva da alameda e vimos, � luz do crep�sculo, que todas as janelas da casa estavam fechadas.</p><p>Corremos para a porta, meu amigo transtornado pela dor. Um senhor vestido de preto veio ao nosso encontro.</p><p>� �Quando foi, doutor?�,� perguntou Trevor.</p><p>� �Assim que voc� saiu.�</p><p>� �Ele recuperou a consci�ncia?�</p><p>� �Por um instante, antes de morrer.�</p><p>� �Algum recado para mim?�</p><p>� �Somente que os documentos est�o na gaveta do fundo do arm�rio japon�s.�</p><p>� Meu amigo subiu com o m�dico at� os aposentos do morto e eu fiquei no escrit�rio, analisando o caso e sentindo-me deprimido como nunca me sentira antes. Qual seria o passado de Trevor � pugilista, viajante, mineiro � e como ficara � merc� daquele marinheiro agressivo? Por que teria desmaiado ao ouvir uma alus�o �s iniciais quase apagadas, tatuadas no seu bra�o, para depois morrer de susto ao receber uma carta de Fordingham? Ent�o lembrei-me de que Fordingham ficava em Hampshire e que o tal sr. Beddoes, a quem o marinheiro iria visitar e provavelmente chantagear, morava naquela regi�o. Portanto, a carta poderia ser de Hudson, o marinheiro, dizendo que tinha revelado o terr�vel segredo que parecia existir, ou ent�o de Beddoes, prevenindo um velho amigo de que a trai��o era iminente. At� a� tudo parecia bem claro. Mas, neste caso, como aquela carta poderia ser banal e grotesca, segundo a descri��o do filho? N�o devia t�-la entendido. Neste caso deveria ser um daqueles engenhosos c�digos secretos que dizem uma coisa e parecem significar outra. Eu precisava ler a carta. Se houvesse algum significado oculto, eu tinha a certeza de conseguir descobri-lo.</p><p>� Fiquei mais de uma hora refletindo sobre a quest�o no escuro, at� que uma criada, em prantos, entrou com um lampi�o, seguida do meu amigo Trevor, p�lido e controlado, trazendo estes documentos que est�o aqui nos meus joelhos. Sentou-se na minha frente, aproximou a l�mpada da borda da mesa e entregou-me um bilhete escrito, como v�, numa �nica folha de papel cinzento: �O fornecimento de ca�a para Londres aumenta constantemente. O guarda-ca�a Hudson, segundo acreditamos, contou com o recebimento de papel ca�a-moscas para a preserva��o da vida dos seus fais�es.�</p><p>� Ao ler o bilhete, fiquei com uma express�o t�o confusa quanto a sua neste momento. Ent�o eu o reli com bastante aten��o. Era �bvio que, como eu imaginara, havia um sentido oculto naquela estranha combina��o de palavras. Ou as palavras �papel ca�a-moscas� e �fais�es� teriam um significado predeterminado? Esse sentido seria arbitr�rio, impedindo qualquer dedu��o. Contudo, n�o me agradava pensar assim, e a presen�a do nome �Hudson� parecia demonstrar que o assunto da mensagem era o que eu havia imaginado e o bilhete fora enviado por Beddoes e n�o pelo marinheiro. Tentei ler de tr�s para diante, mas a combina��o �a vida dos seus fais�es� n�o era promissora. Experimentei palavras alternadas, mas �fornecimento ca�a Londres� n�o parecia ajudar a esclarecer nada. Mas, de repente, a chave do enigma surgiu nas minhas m�os. Percebi que cada terceira palavra, a contar da primeira, servia para fornecer� uma mensagem que levaria o velho Trevor ao desespero.</p><p>� O aviso era curto e seco, como li para o meu amigo:</p><p>�A ca�a terminou. Hudson contou tudo. Fuja se quiser salvar a vida�.</p><p>� V�tor Trevor escondeu o rosto nas m�os tr�mulas.</p><p>� �Sim, deve ser isso. � pior que a morte, porque tamb�m significa a desonra. Mas qual o significado de �guarda-ca�a� e �fais�es�?�</p><p>� �Nada tem a ver com a mensagem, mas poderia significar muita coisa se tiv�ssemos meios de descobrir o remetente. Voc� pode ver que ele come�ou escrevendo: �A ca�a...� etc. Depois, para acompanhar o c�digo preestabelecido, teve que arranjar palavras para preencher os espa�os. Usou as primeiras que lhe vieram � cabe�a e se h� tantas refer�ncias ao esporte, pode-se ter quase certeza de que ele � apaixonado por ca�a ou uma pessoa interessada na cria��o de animais. Sabe alguma coisa a respeito desse Beddoes?�</p><p>� �Agora que voc� mencionou isso, lembro-me de que papai costumava receber convites para ca�ar nas terras dele, no outono.�</p><p>� �Ent�o, n�o h� d�vida de que � ele o autor do bilhete. S� falta descobrir o segredo com que esse marinheiro amea�ava esses dois homens ricos e respeit�veis.�</p><p>� �Temo que seja algo pecaminoso e vergonhoso!�, exclamou meu amigo. �Mas para voc� n�o terei segredos. Aqui est� a declara��o redigida por meu pai quando soube que era iminente o perigo representado por Hudson. Encontrei-a no arm�rio japon�s, como ele dissera ao m�dico. Abra e leia para mim. N�o tenho for�as nem coragem para ler pessoalmente.�</p><p>� Estes s�o os documentos que ele me entregou, Watson. Eu os lerei para voc�, como os li no velho gabinete naquela noite. Est�o endossados no envelope, como voc� pode ver: �Detalhes da viagem do brigue , que zarpou de Falmouth no dia 8 de outubro de 1855 e naufragou a 15� 29� de lat. Norte, 25� 14� de long. Oeste, no dia 6 de novembro�. O documento tem a forma de carta e diz o seguinte:</p><empty-line/><p>Gloria ScottGloria Scott <emphasis>fora usado</emphasis> Gloria ScottGloria Scott HotspurGloria Scott Hotspur</p><empty-line/><p>� No p� da p�gina estava escrito numa letra t�o tr�mula que mal se podia ler:</p><empty-line/><p>� Foi esta a narrativa que li naquela noite para o jovem Trevor, e acho, Watson, que, naquelas circunst�ncias, foi muito dram�tica. O rapaz, desolado, resolveu ir para Terai plantar ch�, e ouvi dizer que prosperou ali. Quanto ao marinheiro e a Beddoes, nunca mais ouvi falar neles ap�s o dia em que li a carta. Os dois desapareceram completamente. N�o foi apresentada queixa � pol�cia, de modo que Beddoes deve ter confundido uma amea�a com um fato. Hudson foi visto rondando pelas imedia��es e a pol�cia acreditou que ele havia liquidado Beddoes e depois fugido. Mas eu acredito que ocorreu exatamente o oposto. O mais prov�vel � que Beddoes, levado ao desespero e julgando-se tra�do, vingou-se de Hudson e fugiu do pa�s, levando todo o dinheiro em que conseguiu p�r as m�os. S�o estes os fatos do caso, doutor, e se forem �teis � sua colet�nea, est�o inteiramente ao seu dispor.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o ritual musgrave</strong></p><p>Uma anomalia que me impressionava com freq��ncia no car�ter de meu amigo Sherlock Holmes era que, embora nos seus sistemas de racioc�nio ele fosse o homem mais cuidadoso e sistem�tico do mundo, e apesar de mostrar um discreto requinte na maneira de vestir, seus h�bitos pessoais eram dos mais exc�ntricos e capazes de levar � loucura um companheiro de quarto. N�o que eu seja muito convencional neste aspecto. O trabalho irregular no Afeganist�o, al�m de uma natural tend�ncia � bo�mia, fez com que eu ficasse mais negligente do que conv�m a um m�dico. Mas eu tenho um limite. Quando encontro algu�m que guarda os charutos no balde do carv�o, o tabaco enfiado num chinelo persa e a correspond�ncia ainda n�o respondida presa com um punhal no meio do consolo da lareira, come�o a considerar-me um verdadeiro santo. Sempre afirmei tamb�m que o tiro ao alvo deve ser praticado ao ar livre, e quando Holmes, num dos seus estranhos humores, resolve instalar-se numa poltrona e adornar a parede fronteira com um patri�tico V.R. feito � bala, sinto que nem a atmosfera nem a apar�ncia de nossa sala ganhar�o com isso.</p><p>Nossos aposentos estavam sempre t�o cheios de produtos qu�micos e rel�quias criminais, que acabavam ocupando os lugares mais absurdos, como a manteigueira, ou at� locais menos desej�veis. Mas os seus pap�is eram o meu grande problema. Holmes tinha horror a destruir documentos, principalmente os relacionados com casos passados, e apenas uma vez por ano, ou a cada dois anos, conseguia coragem para junt�-los e arrum�-los, porque, como mencionei em algum ponto destas mem�rias incoerentes, os surtos de energia apaixonada, quando ele realizava fa�anhas extraordin�rias associadas ao seu nome, eram seguidos de rea��es let�rgicas. Ent�o ficava deitado, segurando o violino ou seus livros, e mal se movia, a n�o ser para se transferir do sof� para a mesa. E assim, m�s ap�s m�s, os pap�is se acumulavam, at� que todos os cantos da sala ficavam cobertos de manuscritos, que n�o deviam ser queimados de modo algum, e s� podiam ser guardados por ele mesmo.</p><p>Numa noite de inverno, quando est�vamos sentados diante da lareira e ele acabara de colar recortes no seu �lbum de ocorr�ncias policiais, arrisquei-me a sugerir que ele poderia ocupar as duas horas seguintes tornando a nossa sala um pouco mais habit�vel. Ele n�o p�de negar a justi�a do pedido e, com express�o melanc�lica, dirigiu-se para o quarto, de onde voltou instantes depois com um grande ba� de metal. Ele o colocou no meio da sala, sentou-se num banquinho diante dele e abriu a tampa. Vi que o ba� j� estava quase cheio de pilhas de documentos atados com fita vermelha e separados em pacotes.</p><p>� H� muitos casos guardados aqui, Watson � disse, lan�ando-me um olhar malicioso. � Acho que se voc� soubesse tudo o que este ba� cont�m, seria capaz de me pedir para tirar alguns daqui, em vez de guardar outros documentos.</p><p>� Ent�o s�o registros dos seus primeiros casos? Muitas vezes desejei ter anota��es desses casos.</p><p>� Sim, meu rapaz. Tudo isto foi feito prematuramente, antes que meu bi�grafo surgisse para me cobrir de gl�ria. � Ele ergueu um pacote ap�s outro, num gesto carinhoso: � Nem todos s�o sucessos, Watson. Mas entre eles h� probleminhas interessantes. Aqui est�o as anota��es referentes aos crimes de Tarleton e o caso de Vamberry, o negociante de vinhos; a aventura da senhora russa e o caso singular da muleta de alum�nio, assim como o depoimento completo de Ricoletti, o perna-de-pau, e sua mulher abomin�vel. E aqui... Ah! Este � realmente algo especial.</p><p>Mergulhou o bra�o at� o fundo do ba� e retirou uma caixinha de madeira com tampa deslizante, do tipo que serve para guardar brinquedos de crian�a. Tirou de dentro um papel amassado, uma chave de bronze de feitio antigo, um gancho de madeira ao qual estava presa uma bola de barbante e tr�s discos de metal enferrujados.</p><p>� Ent�o, meu caro, o que acha disto? � perguntou, sorrindo ao ver a minha express�o.</p><p>� � uma cole��o estranha.</p><p>� Muito estranha. E a hist�ria que a envolve � mais estranha ainda.</p><p>� Estas rel�quias t�m uma hist�ria?</p><p>� Elas � que s�o a hist�ria.</p><p>� O que quer dizer com isso?</p><p>Sherlock Holmes recolheu os objetos um a um e colocou-os em fila na borda da mesa. Depois tornou a sentar-se, e ficou observando-os com um brilho de satisfa��o no olhar.</p><p>� Isto � tudo o que me restou do epis�dio do Ritual Musgrave.</p><p>Eu o ouvira falar do caso mais de uma vez, embora nunca tivesse conhecimento dos detalhes.</p><p>� Gostaria muito que voc� me contasse a hist�ria.</p><p>� E deixasse essa confus�o como est�? � perguntou, com um sorriso malicioso. � Seu esp�rito de ordem n�o suporta muita press�o, Watson. Mas gostaria que voc� acrescentasse este caso aos seus anais, porque h� pontos que o tornam absolutamente singular nos registros criminais deste pa�s ou mesmo, eu acredito, de qualquer outro. Uma colet�nea das minhas pequenas realiza��es seria incompleta se n�o inclu�sse uma narrativa deste caso singular.</p><p>� Voc� deve se lembrar de que a hist�ria do e a minha conversa com o infeliz homem cujo destino eu lhe contei implicaram-me no rumo que se tornou a minha profiss�o. Hoje em dia meu nome � conhecido em toda parte e em geral sou reconhecido pelo p�blico e pela pol�cia como a suprema corte de apela��o em casos duvidosos. Mesmo quando voc� me conheceu, na �poca do caso que batizou de , eu j� havia adquirido uma reputa��o consider�vel, embora n�o muito lucrativa. Portanto, ser� dif�cil para voc� compreender como foi duro a princ�pio e quanto tempo esperei para fazer sucesso na carreira.</p><p>� Ao me mudar para Londres, instalei-me em Montague Street, pertinho do Museu Brit�nico, e ali esperava, preenchendo as minhas muitas horas vagas, com o estudo de todos os ramos da ci�ncia que poderiam tornar-me mais eficiente. De vez em quando surgia algum caso, principalmente por interm�dio de antigos colegas, porque durante os meus �ltimos anos na universidade j� se falava bastante a meu respeito e a respeito dos meus m�todos. O terceiro desses casos foi o Ritual Musgrave e � ao interesse despertado por esse encadeamento singular de ocorr�ncias e �s grandes quest�es que estavam em jogo que atribuo o meu primeiro grande passo em dire��o � posi��o que tenho agora.</p><p>� Reginald Musgrave estudava na mesma faculdade, e eu o conhecia ligeiramente. N�o era muito popular entre os alunos, embora eu sempre tivesse a impress�o de que seu suposto orgulho era, na verdade, uma tentativa de ocultar uma excessiva timidez natural. Tinha apar�ncia aristocr�tica, era magro, de nariz fino e olhos grandes, um jeito l�nguido mas cort�s. E era herdeiro de uma das fam�lias mais antigas do reino, embora pertencesse a um dos ramos mais novos, que se separara dos Musgraves do norte em algum momento do s�culo XVI, estabelecendo-se no oeste, em Sussex, onde a mans�o de Hurlstone talvez seja a mais antiga constru��o habitada existente no condado. Alguma coisa da sua terra natal parecia aderir ao homem e nunca olhei para o seu rosto p�lido e atento, ou para a posi��o da cabe�a, sem associ�-lo a arcadas cinzentas, janelas de pin�zio e a toda a vener�vel ru�na de uma moradia feudal. Conversamos uma ou duas vezes e lembro-me de que ele manifestou profundo interesse pelos meus m�todos de observa��o e dedu��o.</p><p>� Passei quatro anos sem v�-lo, at� que certa manh� ele apareceu no meu quarto, em Montague Street. Pouco mudara. Vestia-se como um rapaz da moda � sempre fora um �, e conservava as maneiras discretas e suaves que o distinguiam no passado.</p><p>� �Como vai a vida, Musgrave?�, perguntei, depois de um cordial aperto de m�os.</p><p>� �Deve ter sabido da morte de meu pai�, disse ele. �Faleceu h� dois anos. Desde ent�o, � claro, precisei administrar a propriedade de Hurlstone. E como sou representante do distrito, tenho andado muito ocupado. Mas soube, Holmes, que voc� passou a aplicar a fins pr�ticos aqueles talentos que costumavam nos surpreender.�</p><p>� �Sim, vivo � custa das minhas faculdades mentais.�</p><p>� �Estou encantado em saber disso, porque o seu conselho seria extremamente valioso para mim no momento. Ocorreram algumas coisas muito estranhas em Hurlstone e a pol�cia n�o conseguiu esclarecer a quest�o, que � de fato extraordin�ria e inexplic�vel.�</p><p>� Voc� pode imaginar com que interesse eu o escutei, Watson. A oportunidade que vinha esperando durante meses de inatividade parecia estar ao meu alcance. No fundo do cora��o eu acreditava ser capaz de vencer onde outros haviam fracassado. E ali estava a oportunidade para testar-me.</p><p>� �Conte com detalhes�, pedi.</p><p>� Reginald Musgrave sentou-se � minha frente e acendeu o cigarro que lhe ofereci.</p><p>� �Deve saber que, embora eu seja solteiro, preciso manter uma grande criadagem em Hurlstone, uma casa ampla e antiga, exigindo muito trabalho de manuten��o. Tenho tamb�m uma reserva de ca�a e nos meses do fais�o re�no um grupo de convidados, de modo que n�o posso ficar sem ajudantes. Ao todo s�o oito criadas, a cozinheira, o mordomo, dois criados e um lacaio. Os jardins e as cavalari�as t�m o seu separado, � claro.</p><p>� �Desses criados, o que est� h� mais tempo a nosso servi�o � Brunton, o mordomo. Ele era um jovem professor desempregado quando meu pai o contratou, mas, como homem de grande energia e car�ter, em pouco tempo tornou-se indispens�vel � fam�lia. Um rapaz bonito, bem proporcionado. Embora esteja conosco h� vinte anos, n�o teria agora mais de 40. Com suas vantagens pessoais e talentos extraordin�rios, porque fala v�rias l�nguas e toca quase todos os instrumentos musicais, � espantoso que se tenha contentado por tanto tempo com esse emprego. Mas creio que achava a vida confort�vel e n�o tinha energia para modific�-la. O mordomo de Hurlstone � sempre lembrado por todos os que nos visitam.</p><p>� �Mas esse homem ideal tem um defeito. � um Don Juan e, como pode imaginar, para algu�m como ele n�o � dif�cil representar o papel numa tranq�ila regi�o campestre.</p><p>� �Enquanto esteve casado, tudo correu bem, mas depois que enviuvou tivemos uma s�rie de aborrecimentos. Alguns meses atr�s t�nhamos esperan�a de que ele assentasse novamente a cabe�a, porque ficou noivo de Rachel Howells, uma das criadas da casa, mas desistiu dela e passou a interessar-se por Janet Tregellis, filha do chefe dos guarda-ca�as. Rachel, que � uma boa mo�a, mas com um arrebatado temperamento gal�s, teve uma febre que lhe afetou ligeiramente o c�rebro e passou a vagar pela casa � ou pelo menos vagava at� ontem � como uma sombra de si mesma. Foi o nosso primeiro drama em Hurlstone. Mas outro drama veio afastar este de nossa mente, e foi precedido pela desonra e demiss�o do mordomo Brunton.</p><p>� �O caso aconteceu assim. Eu disse que o homem � inteligente, e foi essa intelig�ncia que o levou � ru�na, porque estimulou nele uma curiosidade insaci�vel a respeito de coisas que n�o eram absolutamente da sua conta. Eu n�o imaginava a que ponto essa curiosidade o levaria, at� que um simples acidente chamou minha aten��o.</p><p>� �Disse que a casa � ampla. Numa noite da semana passada � na quinta-feira, para ser mais exato �, n�o consegui dormir depois de ter tomado uma x�cara de caf� forte ap�s o jantar. Lutei contra a ins�nia at� as duas horas, quando desisti, me levantei e acendi uma vela com a inten��o de continuar a leitura de um romance. Mas eu deixara o livro na sala de bilhar, de modo que vesti um roup�o e sa� do quarto para ir busc�-lo.</p><p>� �Para chegar � sala de bilhar eu precisava descer um lance de escada e atravessar o patamar que dava para a biblioteca e a sala de armas. Pode imaginar a minha surpresa quando olhei para o corredor e vi um reflexo de luz saindo da porta aberta da biblioteca, porque eu mesmo havia apagado a l�mpada e fechado a porta antes de me deitar. Naturalmente, no primeiro momento pensei que eram ladr�es. As paredes dos corredores de Hurlstone s�o decoradas com trof�us e armas antigas. Peguei um machado de guerra e, deixando a vela para tr�s, segui silenciosamente pelo corredor e olhei pela porta aberta.</p><p>� �Brunton, o mordomo, estava na biblioteca, sentado numa poltrona, inteiramente vestido, segurando um papel que parecia um mapa estendido sobre os joelhos. Estava com a cabe�a apoiada na m�o, pensando. Fiquei im�vel, muito espantado, observando-o do corredor escuro. Uma vela pousada na borda da mesa lan�ava uma luz fraca, mas suficiente para mostrar que ele estava inteiramente vestido. De repente, levantou-se, aproximou-se de uma escrivaninha, destrancou-a e abriu uma das gavetas. Dali retirou um papel e voltou a sentar-se na poltrona. Colocou-o ao lado da vela na borda da mesa e come�ou a l�-lo com a maior aten��o. Indignado diante da tranq�ilidade com que ele examinava os documentos de nossa fam�lia, adiantei-me um passo. Brunton, erguendo a cabe�a, viu-me na porta. Levantou-se de um salto, p�lido de susto, e enfiou no colete o papel semelhante a um mapa e que estivera lendo. �Ent�o � assim que retribui a confian�a que depositamos em voc�! Est� dispensado a partir de amanh�.�</p><p>� �Inclinou-se com o aspecto de um homem totalmente arrasado e saiu sem uma palavra. A vela continuava na mesa e pude dar uma olhada no papel que Brunton havia tirado da gaveta. Para minha surpresa, n�o era nada de importante. Apenas uma c�pia das perguntas e respostas da antiga e singular pr�tica chamada Ritual Musgrave. � uma esp�cie de cerim�nia espec�fica da nossa fam�lia, pela qual cada Musgrave passa h� s�culos, ao atingir a maioridade. Uma coisa de interesse particular e talvez de alguma import�ncia para um arque�logo, como nossos bras�es, e divisas, mas sem nenhuma utilidade pr�tica.�</p><p>� �� melhor voltarmos mais tarde ao documento�, observei.</p><p>� �Se achar realmente necess�rio...�, ele respondeu com certa hesita��o.</p><p>� �Continuando a minha narrativa, tornei a trancar a gaveta, usando a chave que Brunton haviadeixado. Virei-me para sair e fiquei surpreso ao ver que o mordomo tinha voltado e estava diante de mim. �Sr. Musgrave, n�o posso suportar a desonra� disse numa voz rouca de emo��o. �Sempre me orgulhei de estar acima de minha posi��o e a desonra iria me matar. Meu sangue cairia sobre sua cabe�a, senhor � isto � exato � se me levar ao desespero. Se n�o pode me manter aqui depois do que se passou, pelo amor de Deus, permita que eu pe�a demiss�o e saia dentro de um m�s, como se fosse por livre e espont�nea vontade. Isto eu suportaria, sr. Musgrave, mas n�o ser expulso diante de todas as pessoas que conhe�o t�o bem.� �N�o merece muita considera��o, Brunton�, respondi. �Sua conduta � infame. Mas, como est� h� muito tempo na fam�lia, n�o quero desonr�-lo publicamente. Mas um m�s � demais. Saia dentro de uma semana e apresente o motivo que quiser.� �S� uma semana, senhor?�, exclamou, desesperado. �Quinze dias. Quinze dias pelo menos!� �Uma semana!�, repeti. �E considere-se tratado com muita clem�ncia.�</p><p>� �Ele saiu cabisbaixo, um homem arrasado, enquanto eu apagava a vela e voltava para o meu quarto.</p><p>� �Nos dois dias seguintes Brunton dedicou-se o m�ximo poss�vel aos seus deveres. N�o aludi ao que se passara e aguardei com curiosidade o motivo que ele apresentaria para disfar�ar a sua humilha��o. Na terceira manh� ele n�o apareceu, como de costume, para receber as minhas instru��es do dia, ap�s o caf�-da-manh�. Ao sair da sala, encontrei por acaso Rachel Howells, a criada. J� contei que ela estava se recuperando de uma doen�a recente e pareceu-me t�o p�lida e abatida que a censurei por estar trabalhando. �Devia estar na cama. Volte �s suas obriga��es quando estiver melhor.�</p><p>� �Ela olhou-me com uma express�o t�o estranha que comecei a desconfiar de que a febre lhe afetara mesmo o c�rebro. �J� estou bastante forte, sr. Musgrave�, respondeu. �Veremos o que diz o m�dico. Pare de trabalhar agora e, quando descer, avise a Brunton que quero falar com ele.� �O mordomo desapareceu.� �Desapareceu! Como?� �Desapareceu. Ningu�m o viu. N�o est� no quarto. �, foi embora, foi embora!�</p><p>� �E encostou-se na parede gritando e rindo ao mesmo tempo, enquanto eu, horrorizado diante daquele s�bito ataque hist�rico, toquei a campainha para pedir ajuda. A mo�a foi levada para o quarto ainda gritando e solu�ando, enquanto eu perguntava a respeito de Brunton. N�o havia d�vida de que tinha desaparecido. Sua cama n�o fora desfeita; ningu�m o vira depois que ele fora para o quarto na noite anterior; ainda assim era dif�cil descobrir como havia sa�do de casa, j� que as janelas e as portas estavam trancadas pela manh�. Suas roupas, o rel�gio e at� seu dinheiro estavam no quarto, mas o terno preto que costumava vestir havia desaparecido, assim como os chinelos. As botas, por�m, continuavam ali. Para onde teria ido o mordomo Brunton no meio da noite e onde estaria naquele momento?</p><p>� �Claro que revistamos a casa do s�t�o �s adegas, mas n�o encontramos sinal dele. Como disse, a velha casa � um labirinto, principalmente na ala original, agora praticamente desabitada, mas revistamos todas as pe�as e o s�t�o sem descobrir o menor sinal do desaparecido. Era inacredit�vel que ele tivesse ido embora sem levar os seus pertences. Mas onde ele estaria? Chamei a pol�cia local, mas sem resultado. Chovera na noite anterior, e examinamos os gramados e alamedas em torno da casa, mas inutilmente. As coisas estavam nesse p� quando uma nova ocorr�ncia desviou nossa aten��o do mist�rio inicial.</p><p>� �Rachel Howells esteve t�o mal durante dois dias, ora delirando, ora hist�rica, que foi preciso contratar uma enfermeira para cuidar dela noite e dia. Na terceira noite ap�s o desaparecimento de Brunton, a enfermeira, vendo que a doente dormia tranq�ila, cochilou numa poltrona. Ao despertar de manh� cedo, encontrou a cama vazia, a janela aberta, e nenhum sinal de Rachel. N�o foi dif�cil descobrir que dire��o ela havia tomado, pois a partir da janela seguimos as pegadas n�tidas no gramado at� a margem do lago, onde desapareciam junto a uma trilha de cascalho que vai at� os limites da propriedade. O lago ali tem 2,5 metros de profundidade e voc� pode imaginar o que sentimos ao ver as pegadas da pobre mo�a enlouquecida chegarem at� a margem.</p><p>� �Mandamos dragar as �guas imediatamente, decididos a recuperar o corpo, mas n�o encontramos nenhum vest�gio. Por outro lado, veio � tona um objeto dos mais inesperados: uma mala de pano, contendo um amontoado de metal enferrujado e manchado e v�rios peda�os de rocha ou vidro opaco. Este achado estranho foi a �nica coisa que retiramos do lago e, embora fiz�ssemos ontem todas as buscas e indaga��es poss�veis, continuamos ignorando o paradeiro de Rachel Howells e Richard Brunton. A pol�cia do Condado n�o sabe o que fazer e vim procur�-lo como �ltimo recurso.�</p><p>� Voc� pode imaginar, Watson, com que aten��o escutei esta extraordin�ria seq��ncia de acontecimentos, tentando uni-los e descobrir um elo entre eles. O mordomo havia desaparecido. A empregada idem. A empregada amava o mordomo, mas depois teve motivos para odi�-lo. Tinha sangue gal�s, era ardente e apaixonada. Estava profundamente abalada ap�s o desaparecimento do mordomo e havia atirado no lago uma mala contendo objetos estranhos. Todos esses fatores precisavam ser levados em considera��o, mas nenhum conduzia ao �mago da quest�o. Qual o ponto de partida daquela cadeia de acontecimentos? V�amos apenas o fim de uma linha emaranhada.</p><p>� �Preciso ver aquele papel, Musgrave. O papel que o seu mordomo achou que valia a pena examinar mesmo arriscando-se a perder o emprego.�</p><p>� �� um tanto absurdo esse nosso Ritual, mas tem pelo menos o encanto da antiguidade como justificativa. Tenho uma c�pia das perguntas e respostas, se quiser dar uma olhada nela.�</p><p>� Entregou-me este documento que est� aqui, Watson. � o estranho catecismo a que cada Musgrave se submete ao atingir a maioridade. Vou ler as perguntas e respostas:</p><p>� De quem � isto?</p><p>� Daquele que se foi.</p><p>� Quem o ter�?</p><p>� Aquele que vir�.</p><p>� Qual foi o m�s?</p><p>� O sexto a partir do primeiro.</p><p>� Onde estava o sol?</p><p>� Sobre o carvalho.</p><p>� Onde estava a sombra?</p><p>� Debaixo do olmo.</p><p>� A quantos passos?</p><p>� Norte por dez e dez, leste por cinco e cinco, sul por dois e dois, oeste por um e um, e assim debaixo.</p><p>� O que daremos em troca?</p><p>� Tudo o que � nosso.</p><p>� Por que o daremos?</p><p>� Por raz�es de confian�a.</p><p>� �O original n�o tem data, mas a grafia � de meados do s�culo XVII�,� observou Musgrave. �Mas temo que ajude muito na solu��o do mist�rio.�</p><p>� �Pelo menos nos proporciona outro mist�rio ainda mais interessante que o primeiro. � poss�vel que a solu��o de um seja a solu��o do outro. Perdoe, Musgrave, se digo que seu mordomo parece ter sido um homem muito esperto, com uma percep��o mais agu�ada do que dez gera��es de fidalgos.�</p><p>� �N�o entendo. O documento n�o me parece ter qualquer import�ncia pr�tica.�</p><p>� �Pois a mim parece extremamente pr�tico e imagino que Brunton tenha pensado da mesma maneira. � prov�vel que o tenha visto bem antes da noite em que foi surpreendido.�</p><p>� �� bem poss�vel. Nunca tomamos qualquer precau��o para escond�-lo.�</p><p>� �Ele queria simplesmente reavivar a mem�ria naquela �ltima vez. Como voc� disse, ele tinha uma esp�cie de mapa e o estava comparando com o manuscrito. Enfiou-o no bolso quando voc� apareceu?�</p><p>� ��. Mas o que ele teria a ver com esse velho costume da nossa fam�lia, e o que significa toda esta confus�o?�</p><p>� �Creio que n�o ser� muito dif�cil descobrir�, respondi. �Com a sua permiss�o, tomaremos o primeiro trem que segue para Sussex e examinaremos mais profundamente a quest�o no pr�prio local.�</p><p>� Naquela mesma tarde est�vamos em Hurlstone. � poss�vel que voc� tenha visto fotos ou tenha lido descri��es da famosa constru��o antiga, de modo que me limitarei a dizer que a resid�ncia � em forma de L, sendo o bra�o longo a parte mais moderna, e o curto, o n�cleo antigo a partir do qual o outro se desenvolveu. Sobre a porta baixa e pesada, no centro da parte antiga, est� gravada a data de 1607, mas especialistas afirmam que as traves e o trabalho de cantaria s�o bem mais antigos. As paredes de largura extraordin�ria e as min�sculas janelas daquela ala levaram a fam�lia, no �ltimo s�culo, a construir uma ala nova, passando a antiga a ser usada como dep�sito e adega, quando era usada. Um espl�ndido parque, cheio de belas �rvores antigas, rodeia a casa, e o lago a que meu cliente se referiu fica perto da alameda, a cerca de 200 metros da constru��o.</p><p>� Eu j� estava convencido, Watson, de que n�o havia tr�s mist�rios independentes no caso, mas s� um e que se conseguisse interpretar corretamente o Ritual Musgrave, teria na minha m�o a pista que me levaria � verdade referente tanto ao mordomo Brunton como � criada Howells. Concentrei todas as minhas energias nessa dire��o. Por que o mordomo estaria t�o ansioso para dominar aquele antigo ritual? Evidentemente porque via nele algo que escapara a todas aquelas gera��es de aristocratas, e do qual esperava tirar alguma vantagem pessoal. O que seria e como afetaria o seu destino?</p><p>� Ficou �bvio para mim, ao ler o Ritual, que as medidas deviam referir-se a algum local mencionado no resto do documento, e que se pud�ssemos encontr�-lo, estar�amos numa boa pista para descobrir o segredo que os antigos Musgraves haviam julgado necess�rio embalsamar de maneira t�o curiosa. Havia dois pontos de partida, um carvalho e um olmo. Quanto ao carvalho, n�o podia haver d�vidas. Bem na frente da casa, do lado esquerdo da alameda, havia um patriarca entre todos os carvalhos, uma das �rvores mais magn�ficas que j� vi.</p><p>� �Ele j� existia quando o seu Ritual foi redigido?�, perguntei, quando passamos pelo carvalho.</p><p>� �Provavelmente j� estava a� na �poca da conquista normanda. Tem 7 metros de circunfer�ncia.�</p><p>� Um dos pontos que eu determinara estava garantido.</p><p>� �Existem velhos olmos por aqui?�, perguntei.</p><p>� �Havia um muito antigo l� adiante, mas foi atingido por um raio h� dez anos e cortamos o que restou do tronco.�</p><p>� �� poss�vel ver o local onde ele ficava?�</p><p>� �Certamente.�</p><p>� �N�o h� outros olmos?�</p><p>� �Antigos, n�o. Mas temos uma por��o de faias.�</p><p>� �Gostaria de ver o lugar onde ficava o olmo.�</p><p>� T�nhamos vindo de charrete e meu cliente levou-me at� o local antes mesmo de entrarmos na casa. Havia uma cicatriz no gramado naquele ponto, que ficava quase no meio do caminho entre o carvalho e a resid�ncia. Aparentemente minha investiga��o progredia.</p><p>� �Creio que � imposs�vel saber a altura do olmo...�</p><p>� �Posso dizer agora mesmo, 19,20 metros...�</p><p>� �Como sabe?�, eu perguntei, surpreso.</p><p>� �Quando meu velho preceptor me passava exerc�cios de trigonometria, eles eram sempre sobre medidas de altura. Em menino calculei todas as �rvores e constru��es da propriedade.�</p><p>� Era uma sorte inesperada. Estava obtendo os meus dados mais depressa do que imaginara.</p><p>� �Diga-me, o mordomo algum dia fez esta pergunta a voc�?�</p><p>� Reginald Musgrave olhou-me espantado.</p><p>� �Agora que falou nisso... Brunton perguntou-me a respeito da altura da �rvore alguns meses atr�s, por causa de uma discuss�o com um criado.�</p><p>� Era uma excelente not�cia, Watson, porque indicava que est�vamos no caminho certo.</p><p>� Observei o sol. Estava baixo no c�u e calculei que em menos de uma hora ficaria exatamente sobre os ramos mais altos do velho carvalho. Uma das condi��es mencionadas no Ritual estaria ent�o preenchida. E a sombra do olmo significaria o seu ponto extremo; caso contr�rio, o tronco teria sido escolhido como ponto de refer�ncia. Ent�o eu precisava descobrir onde cairia o ponto extremo da sombra quando o sol fosse ocultado pelo carvalho.</p><p>� Deve ter sido muito dif�cil, Holmes, j� que o olmo n�o estava mais l�.</p><p>� Bem, se Brunton era capaz de calcular, eu tamb�m seria. Al�m disso, n�o era realmente uma dificuldade. Fui com Musgrave at� o gabinete dele, e eu mesmo talhei este prego de madeira, ao qual atei este barbante com um n� de metro em metro. Depois peguei uma vara de pescar com 1,80 metro e voltei com meu cliente ao ponto onde estivera o olmo. O sol ro�ava a copa do carvalho. Finquei a vara verticalmente, marquei a dire��o da sombra e a medi. Tinha 2,70 metros de comprimento. O c�lculo era simples, naturalmente. Se uma vara de 1,80 metro lan�ava uma sombra de 2,70 metros, uma �rvore de 19,20 metros projetaria certamente sombra de 28,80 metros, e uma sombra estaria, � claro, em linha com a outra. Medi a dist�ncia, que me levou quase at� a parede da casa, e marquei o lugar com o prego. Pode imaginar a minha alegria, Watson, quando vi, a 5 cent�metros do prego, uma depress�o c�nica no solo. Eu sabia que era a marca deixada por Brunton quando fez a sua medi��o. Eu estava, portanto, na pista dele.</p><p>� A partir dali prossegui cautelosamente, depois de estabelecer os pontos cardeais com a ajuda da minha b�ssola port�til. Dez passos com cada p� levaram-me ao longo da parede da casa. Marquei novamente o local com um prego. Em seguida, medi com cuidado cinco passos para leste e dois para o sul, o que me deixou na soleira da velha porta. Dois passos para oeste significavam que eu precisava avan�ar pelo corredor com piso de pedras, onde estava o ponto indicado pelo Ritual.</p><p>� Nunca senti um tal arrepio de decep��o como aquele, Watson. Por um instante pensei que tinha errado completamente o c�lculo. O sol poente batia em cheio no ch�o do corredor e eu via que as velhas pedras cinzentas, desgastadas pelo uso e que formavam o piso, estavam firmemente cimentadas e com certeza n�o eram deslocadas h� muitos anos. Brunton n�o estivera trabalhando por ali. Bati no piso, mas o som era o mesmo em toda parte, n�o havia sinal de brechas ou rachaduras. Felizmente Musgrave, que come�ava a entender o sentido do meu procedimento e estava t�o excitado quanto eu, tirou do bolso o manuscrito para verificar os meus c�lculos.</p><p>� ��,exclamou. �Esqueceu o .�</p><p>� Eu havia pensado que a palavra queria dizer que dever�amos cavar, mas naquele momento percebi o engano.</p><p>� �Ent�o h� por�es aqui embaixo?�, perguntei.</p><p>� �Sim, t�o antigos quanto a casa. Vamos por esta porta.�</p><p>� Descemos por uma escada circular de pedra e meu amigo, riscando um f�sforo, acendeu uma grande lanterna que estava sobre um barril a um canto. No mesmo instante tornou-se �bvio que finalmente est�vamos no lugar certo e n�o �ramos as �nicas pessoas que o visitavam nos �ltimos tempos.</p><p>� Ele havia sido usado para armazenar lenha, mas as achas, que antes deviam estar espalhadas pelo ch�o, estavam empilhadas dos lados, a fim de deixar um espa�o livre no centro. Nesse espa�o via-se uma laje grande e pesada, com uma argola enferrujada no centro, � qual fora amarrado um grosso cachecol de pastor.</p><p>� �Por Deus! � o cachecol de Brunton! Eu o vi com ele, sou capaz de jurar. O que � que o patife andou fazendo por aqui?�</p><p>� Por sugest�o minha foram chamados dois policiais do condado. E ent�o tentei levantar a laje com a ajuda do cachecol. S� consegui mov�-lo ligeiramente e precisei do aux�lio de um dos policiais para conseguir finalmente afast�-la para o lado. Apareceu um buraco negro embaixo e todos n�s olhamos l� para dentro, enquanto Musgrave, ajoelhado, aproximou a lanterna.</p><p>� Uma pequena c�mara com cerca de 2 metros de profundidade e 1,20 metro de largura surgiu diante de n�s. De um lado havia uma arca baixa de madeira com adornos de bronze, a tampa aberta e uma estranha chave antiga na fechadura. Estava recoberta de espessa camada de poeira. A umidade e os vermes haviam corro�do a madeira, de modo que seu interior se achava revestido de mofo. V�rios discos de metal � velhas moedas, aparentemente �, como este aqui, estavam espalhados no fundo da arca, que n�o tinha mais nada.</p><p>� Naquele momento, por�m, mal demos aten��o � arca, porque nossos olhos foram atra�dos pelo que estava ao lado. Era o vulto de um homem, vestido com um terno preto, agachado, testa inclinada sobre a borda da arca e bra�os estendidos para os lados. A posi��o fizera afluir todo o sangue estagnado para o rosto e ningu�m poderia reconhecer aquela fisionomia alterada, viol�cea; mas a altura, as roupas, os cabelos, eram suficientes para mostrar ao meu cliente, quando ele puxou o corpo, que era de fato do mordomo desaparecido. Estava morto h� dias, mas n�o havia ferimentos ou marcas que indicassem de que modo chegara ao seu horr�vel fim. Depois que o corpo foi carregado para fora da adega, n�s continu�vamos diante de um problema quase t�o grande quanto aquele que t�nhamos de in�cio.</p><p>� Confesso que at� ent�o, Watson, eu estava decepcionado com a investiga��o. Esperava resolver o assunto quando descobrisse o local indicado no Ritual; mas agora eu estava ali, e, aparentemente, t�o distante quanto antes do que a fam�lia havia escondido com t�o complicadas precau��es. � verdade que eu havia descoberto o paradeiro de Brunton, mas precisava descobrir agora o que havia acontecido com ele e que papel fora desempenhado no caso pela mulher desaparecida. Sentei-me num barril a um canto, e refleti cuidadosamente sobre toda a quest�o.</p><p>� Voc� conhece meus m�todos nesses casos, Watson. Coloquei-me no lugar do homem e, depois de avaliar sua intelig�ncia, tentei imaginar como eu teria agido nas mesmas circunst�ncias. A quest�o foi simplificada pelo fato de a intelig�ncia de Brunton ser de primeira ordem, dispensando qualquer concess�o para uma equa��o pessoal, como dizem os astr�nomos. Ele sabia que algo valioso fora escondido e localizara o esconderijo. Havia descoberto que a laje que o cobria era pesada demais para ser erguida por uma s� pessoa. O que faria ent�o? N�o podia pedir ajuda de fora, ainda que fosse algu�m de confian�a, sem abrir portas e correr um risco consider�vel de ser surpreendido. Seria melhor, se poss�vel, conseguir ajuda dentro de casa. Mas a quem poderia pedir? A mo�a fora apaixonada por ele. Um homem sempre acha dif�cil compreender que finalmente perdeu o amor de uma mulher, por pior que a tenha tratado. Ele tentaria, com algumas gentilezas, fazer as pazes com a mo�a Howells e, em seguida, a aliciaria como c�mplice. Juntos iriam � noite ao por�o e conseguiriam erguer a laje. At� a�, eu era capaz de acompanhar suas a��es como se as tivesse testemunhado.</p><p>� Mas para duas pessoas, uma delas mulher, deve ter sido um trabalho dif�cil erguer aquela laje. Um robusto policial de Sussex e eu n�o hav�amos achado f�cil a tarefa. O que fariam para facilit�-la? Provavelmente o que eu mesmo teria feito. Levantei-me e examinei cuidadosamente os peda�os de madeira espalhados pelo ch�o. Quase na mesma hora encontrei o que estava procurando. Uma tora com cerca de 90 cent�metros de comprimento apresentava numa extremidade uma marca acentuada, e v�rias outras estavam achatadas dos lados, como se tivessem sido comprimidos por um grande peso. Evidentemente, � medida que erguiam a laje, iam colocando peda�os de madeira na brecha, at� que finalmente, quando a abertura j� estava suficientemente grande para permitir a passagem, mantiveram-na assim com um peda�o de madeira colocado de trav�s, e que poderia muito bem ter ficado marcado na parte inferior, j� que todo o peso da laje o comprimiria contra a borda oposta. At� ent�o, eu me achava em terreno seguro.</p><p>� Mas, como reconstituir o drama da meia-noite? Era claro que apenas uma pessoa podia introduzir-se na c�mara, e essa pessoa seria Brunton. A mo�a devia ter esperado em cima. O mordomo abriu a arca, passou para ela o conte�do, provavelmente � j� que a arca estava vazia � e depois... E depois, o que teria acontecido?</p><p>� Que explos�o de vingan�a havia eclodido subitamente na alma daquela apaixonada mulher celta ao ver � sua merc� o homem que a tinha repudiado � e talvez mais profundamente do que suspeit�vamos? O peda�o de madeira teria rolado por acaso e deixado Brunton preso no lugar que se transformou na sua sepultura? Ela era culpada apenas do sil�ncio em rela��o ao destino do mordomo? Ou algum s�bito golpe da sua m�o teria atirado longe o apoio, fazendo com que a laje se fechasse? Fosse como fosse, tive a impress�o de ver o vulto dessa mulher ainda segurando o seu tesouro e fugindo desvairada pela escada circular, com os gritos abafados que deixava para tr�s vibrando nos seus ouvidos, juntamente com batidas fren�ticas de m�os contra a laje de pedra que mataria por sufoca��o o seu amante infiel.</p><p>� Era este o segredo do rosto p�lido, dos nervos abalados, das gargalhadas hist�ricas na manh� seguinte. Mas o que havia no cofre? O que ela teria feito com o conte�do? Claro que deviam ser os fragmentos de metal e os calhaus que meu cliente havia retirado do lago. Ela os atirara na �gua na primeira oportunidade a fim de apagar os �ltimos vest�gios do seu crime.</p><p>� Durante cerca de vinte minutos fiquei sentado, im�vel, pensando no caso. Musgrave continuava de p�, muito p�lido, agitando a lanterna e olhando para dentro do buraco.</p><p>� �S�o moedas de Carlos I�, disse, examinando as poucas que ainda restavam no cofre. �Como v�, t�nhamos raz�o ao fixar a data para o Ritual.�</p><p>� �Talvez encontremos outra coisa de Carlos I�, exclamei, quando de repente me ocorreu o prov�vel significado das duas primeiras perguntas do Ritual. �Vamos examinar o conte�do da sacola que foi pescada do lago.�</p><p>� Subimos at� o gabinete e Musgrave colocou diante de mim os fragmentos met�licos. Compreendi que ele devia t�-los considerado de pouca import�ncia, j� que o metal estava quase negro e as pedras, totalmente sem brilho. Esfreguei uma delas na manga e ela cintilou na concavidade da minha m�o. O trabalho de metal tinha a forma de um duplo anel, mas estava entortado, perdendo a forma original.</p><p>� �� preciso ter em mente que o partido realista tinha prest�gio na Inglaterra mesmo ap�s a morte do rei, e que quando finalmente resolveram fugir, devem ter deixado enterrados muitos de seus bens mais preciosos, com a inten��o de voltar e recuper�-los em tempos mais tranq�ilos�,� observei.</p><p>� �Meu antepassado, Ralph Musgrave, era um destacado Cavaleiro, o bra�o direito de Carlos II em suas viagens�, disse meu amigo.</p><p>� �Verdade? Bem, creio que isso nos fornece o �ltimo elo de que precis�vamos. Devo congratul�-lo por tomar posse, embora de modo um tanto tr�gico, de uma rel�quia de grande valor intr�nseco, e de import�ncia ainda maior como curiosidade hist�rica.�</p><p>� �Que rel�quia?�, ele perguntou, espantado.</p><p>� �Nada menos que a antiga coroa dos reis da Inglaterra.�</p><p>� �A coroa!�</p><p>� �Exatamente. Considere o que diz o Ritual. O que diz ele? �A quem pertenceu? �quele que se foi.� Isso ocorreu depois da execu��o de Carlos I. E depois: Quem o ter�? Aquele que vir�, ou seja, Carlos II, cujo advento j� estava previsto. N�o pode haver d�vida de que este diadema amassado e disforme coroou a fronte dos reis Stuart.�</p><p>� �E como foi parar no lago?�</p><p>� �Ah, esta � uma pergunta que levaremos algum tempo para responder.�</p><p>� E esbocei para ele toda a longa cadeia de suposi��es e provas que eu havia elaborado. O crep�sculo havia baixado e a lua brilhava no c�u quando terminei a narrativa.</p><p>� �E por que Carlos II n�o recuperou a coroa quando voltou?�, perguntou Musgrave, guardando a rel�quia na sacola de linho.</p><p>� �Voc� tocou num ponto que provavelmente jamais conseguiremos esclarecer. � poss�vel que o Musgrave que guardava o segredo tenha morrido no intervalo e, por algum lapso, deixou ao seu descendente esta orienta��o sem explicar o que significava. Dessa �poca at� hoje passou de pai para filho, e acabou caindo nas m�os de um homem que desvendou o segredo e perdeu a vida na aventura.�</p><p>� Esta � a hist�ria do Ritual Musgrave, Watson. A coroa continua em Hurlstone, embora houvesse algum empecilho legal e fosse necess�rio pagar uma soma consider�vel para obterem a permiss�o de conserv�-la. Tenho certeza de que se voc� mencionar meu nome, eles ter�o prazer em mostr�-la. Da mulher nunca mais se teve not�cia e o mais prov�vel � que tenha sa�do da Inglaterra, levando a lembran�a do crime para algum pa�s de al�m-mar.</p><empty-line/></section><section><p><strong>os senhores de reigate</strong></p><p>Meu amigo Sherlock Holmes levou algum tempo para se recuperar das tens�es provocadas por sua intensa atividade na primavera de 1887. Toda a quest�o da Companhia Netherland-Sumatra e dos colossais planos do bar�o Malpertuis ainda est� bem viva na mem�ria do p�blico e ligada muito intimamente � pol�tica e �s finan�as para ser assunto adequado a esta s�rie de resumos. Mas o caso levou, de maneira indireta, a um problema singular e complexo, que proporcionou ao meu amigo uma oportunidade para demonstrar o valor de uma arma nova entre as muitas que ele manejava na sua eterna luta contra o crime.</p><p>Consultando minhas anota��es, vejo que foi no dia 14 de abril que recebi um telegrama de Lyons informando que Holmes estava doente no Hotel Dulong. Em 24 horas eu estava ao lado dele, e aliviado por saber que n�o havia nada de grave nos seus sintomas. Sua constitui��o f�rrea cedera sob as tens�es de uma investiga��o que se prolongara por dois meses, per�odo em que nunca trabalhara menos de 15 horas di�rias e mais de uma vez, como me afirmou, ficara em atividade durante cinco dias seguidos. O resultado triunfal de seus esfor�os n�o o salvara da rea��o a um trabalho t�o cansativo. Numa �poca em que a Europa inteira vibrava com o seu nome e ele tinha o quarto literalmente coberto de telegramas de congratula��es, encontrei-o mergulhado na mais profunda depress�o. Nem mesmo o fato de saber que tivera �xito onde a pol�cia de tr�s pa�ses havia fracassado e de ter ludibriado em todos os sentidos o mais requintado vigarista da Europa foram suficientes para arranc�-lo da prostra��o nervosa.</p><p>Tr�s dias depois est�vamos de volta a Baker Street, mas era evidente que meu amigo precisava de uma mudan�a. E a id�ia de uma semana de primavera no campo tamb�m me parecia atraente. Meu velho amigo, o coronel Hayter, que estivera sob os meus cuidados profissionais no Afeganist�o, havia alugado uma casa perto de Reigate, no Surrey, e freq�entemente me convidava para visit�-lo. Na �ltima vez, ele comentara que se meu amigo quisesse me acompanhar, ele teria prazer em oferecer-lhe sua hospitalidade. Foi necess�rio um pouco de diplomacia, mas quando Holmes compreendeu que nosso anfitri�o era solteiro e que ele gozaria da mais ampla liberdade, concordou com meus planos, e uma semana depois de regressarmos de Lyons est�vamos na casa do coronel. Hayter era um velho e excelente militar, que conhecia grande parte do mundo. E descobriu em pouco tempo, como eu esperava, que ele e Holmes tinham muitas coisas em comum.</p><p>Na noite da nossa chegada, est�vamos na sala de armas do coronel, depois do jantar, Holmes estirado no sof�, enquanto Hayter e eu examin�vamos a sua pequena cole��o de armas de fogo.</p><p>� Vou levar uma dessas pistolas l� para cima, para o caso de haver algum alarme � disse ele de repente.</p><p>� Alarme! � exclamei.</p><p>� Sim, temos tido problemas nesta regi�o ultimamente. O velho Acton, um dos magnatas do nosso condado, teve a casa arrombada na segunda-feira passada. N�o houve grandes preju�zos, mas o sujeito continua � solta.</p><p>� Alguma pista? � perguntou Holmes, olhando para o coronel.</p><p>� Ainda n�o. Mas o caso � insignificante, um crimezinho do interior, pequeno demais para a sua aten��o, sr. Holmes, depois desse grande caso internacional.</p><p>Holmes abanou a m�o num gesto de mod�stia ao ouvir o elogio, embora seu sorriso revelasse satisfa��o.</p><p>� Alguma caracter�stica interessante?</p><p>� Creio que n�o. Os ladr�es vasculharam a biblioteca, mas este trabalho rendeu bem pouco. A sala inteira foi revirada, gavetas esvaziadas, prateleiras em desordem, e o resultado foi que desapareceram um volume de , de Pope, dois casti�ais prateados, um peso de pap�is de marfim, um pequeno bar�metro de carvalho e um rolo de barbante!</p><p>� Que extraordin�rio conjunto de objetos! � exclamei.</p><p>� � evidente que os sujeitos agarraram tudo que puderam.</p><p>Holmes grunhiu l� do sof�:</p><p>� A pol�cia do Condado devia dar alguma import�ncia ao caso � falou. � Afinal, � �bvio que...</p><p>Mas eu ergui o dedo num sinal de advert�ncia.</p><p>� Voc� est� aqui para descansar, meu caro. Pelo amor de Deus, n�o se envolva em novos problemas quando seus nervos est�o em farrapos.</p><p>Holmes deu de ombros, lan�ou ao coronel um olhar resignado e a conversa passou para temas menos perigosos.</p><p>Toda a minha cautela profissional estava destinada a ir por �gua abaixo, porque na manh� seguinte o problema se imp�s de tal maneira que foi imposs�vel ignor�-lo. E nossa visita ao campo assumiu caracter�sticas imprevis�veis. Est�vamos tomando o caf�-da-manh� quando o mordomo do coronel irrompeu na sala, ignorando as conveni�ncias.</p><p>� Soube da not�cia, senhor? � arquejou. � Na casa dos Cunninghams, senhor!</p><p>� Roubo! � exclamou o coronel, com a x�cara de caf� suspensa no ar.</p><p>� Homic�dio!</p><p>O coronel assobiou.</p><p>� Meu Deus! Quem foi assassinado? O juiz de paz ou o filho?</p><p>� Nem um nem outro. Foi William, o cocheiro. Abatido com um tiro no cora��o, senhor, e n�o abriu mais a boca.</p><p>� Mas quem o matou?</p><p>� O ladr�o, senhor. Saiu voando como uma bala e escapou. Tinha acabado de quebrar a janela da despensa quando William o surpreendeu, e morreu defendendo a propriedade do patr�o.</p><p>� A que horas?</p><p>� Foi ontem � noite, senhor, por volta da meia-noite.</p><p>� Neste caso, iremos at� l� mais tarde � disse o coronel, voltando tranq�ilamente � refei��o. � Um caso desagrad�vel � acrescentou quando o mordomo saiu. � O velho Cunningham � o morador mais importante da regi�o e um excelente sujeito. Deve estar muito abalado, porque o criado trabalhava para ele h� anos e era muito bom. Devem ser os mesmos bandidos que assaltaram a casa de Acton.</p><p>� E roubaram aquela estranha cole��o de objetos � disse Holmes, pensativo.</p><p>� Exatamente.</p><p>� Hum! Talvez seja a coisa mais simples do mundo, mas � primeira vista � meio estranho, n�o acham? Um bando de ladr�es agindo no campo para variar o cen�rio de suas atividades � coisa de se esperar, mas n�o dariam dois golpes no mesmo distrito com poucos dias de intervalo. Quando falou ontem � noite em tomar precau��es, lembrei-me de que esta regi�o seria a �ltima na Inglaterra para a qual um ladr�o, ou ladr�es, voltaria a aten��o. O que demonstra que ainda tenho muito a aprender.</p><p>� Creio que se trata de algum aprendiz local � disse o coronel. � Neste caso, as resid�ncias de Acton e Cunningham seriam exatamente as que ele procuraria, j� que s�o as maiores.</p><p>� E as mais ricas?</p><p>� Bem, � prov�vel. Mas est�o com um processo que dura anos e sugou os recursos de ambos, eu imagino. O velho Acton alega ser propriet�rio de metade das terras de Cunningham, e os advogados v�m lutando acirradamente na quest�o.</p><p>� Se for um criminoso local, n�o deve ser muito dif�cil encontr�-lo � disse Holmes com um bocejo. � Est� bem, Watson. N�o pretendo me envolver.</p><p>� O inspetor Forrester, coronel � anunciou o mordomo, abrindo a porta.</p><p>O policial, um rapaz elegante, de express�o viva, entrou na sala.</p><p>� Bom-dia, coronel. Espero n�o estar incomodando, mas soube que o sr. Holmes, de Baker Street, est� aqui.</p><p>O coronel indicou meu amigo com um gesto e o inspetor se inclinou.</p><p>� Pensamos que talvez quisesse nos ajudar, sr. Holmes.</p><p>� O destino est� contra voc�, Watson � disse ele, rindo. � Convers�vamos sobre o assunto quando entrou, inspetor. Poderia dar alguns detalhes?</p><p>E quando se recostou na cadeira, naquela pose familiar, compreendi que seria in�til protestar.</p><p>� N�o t�nhamos pistas no caso Acton. Mas neste dispomos de v�rias, e n�o h� d�vida de que se trata da mesma pessoa. O homem foi visto.</p><p>� Ah!</p><p>� Sim, senhor. Mas fugiu como um cervo ap�s o tiro que matou o pobre William Kirwan. O sr. Cunningham viu-o da janela do quarto e o sr. Alec Cunningham viu-o do corredor dos fundos. Faltava um quarto para a meia-noite quando se deu o alarme. O sr. Cunningham acabava de se deitar e o sr. Alec fumava cachimbo, de roup�o. Ambos ouviram William, o cocheiro, pedir socorro, e o sr. Alec correu para baixo, a fim de verificar o que estava acontecendo. Encontrou a porta dos fundos aberta e, ao chegar ao p� da escada, viu dois homens lutando. Um deles disparou, o outro caiu. O assassino atravessou o jardim correndo e saltou a cerca viva. O sr. Cunningham, olhando pela janela</p><empty-line/><p>
  do quarto, viu o sujeito chegar � estrada, mas perdeu-o de vista logo depois. O sr. Alec parou para socorrer o moribundo e assim o assassino conseguiu fugir. Al�m do fato de ser um homem de estatura mediana e vestir roupa escura, n�o temos pista pessoal, mas estamos fazendo investiga��es rigorosas e, se ele for um estranho por aqui, logo o encontraremos.</p><p>� O que esse William fazia ali? Disse alguma coisa antes de morrer?</p><p>� Nem uma palavra. Morava no pavilh�o com a m�e e era um sujeito muito leal. Supomos que tenha ido at� a casa para verificar se estava tudo em ordem. � claro que o caso Acton deixou todo mundo alerta. O ladr�o deve ter arrombado a porta � a fechadura foi for�ada � e logo em seguida William apareceu.</p><p>� William disse alguma coisa � m�e antes de sair?</p><p>� Ela � muito idosa e surda. N�o conseguimos obter nenhuma informa��o. O choque deixou-a atordoada, mas eu soube que ela nunca foi muito inteligente. Mas h� um detalhe muito importante. Vejam!</p><p>Tirou de um caderninho um fragmento de papel e alisou-o sobre o joelho.</p><p>� Isto foi encontrado entre o indicador e o polegar do morto. Parece um peda�o arrancado de uma folha maior. Observem que a hora mencionada � a mesma em que o pobre sujeito morreu. O assassino talvez tenha arrancado dele o resto da folha ou ele pode ter tirado este fragmento da m�o do assassino. D� a impress�o de que havia um encontro marcado.</p><p>Holmes pegou o peda�o de papel, cujo� est� reproduzido aqui.</p><p><strong><image l:href="#6"/></strong></p><p>� Supondo-se que havia um encontro marcado � continuou o inspetor �, � conceb�vel a teoria de que esse William Kirwan, apesar da reputa��o de homem honesto, estivesse de conluio com o ladr�o. Talvez tenha vindo encontr�-lo no local, pode at� t�-lo ajudado a arrombar a porta, e depois os dois se desentenderam.</p><p>� A caligrafia � extraordinariamente interessante � observou Holmes, que a examinava com grande concentra��o. � O caso � bem mais complicado do que imaginei.</p><p>Apoiou a cabe�a nas m�os enquanto o inspetor sorria diante do efeito que seu caso produzia no famoso especialista londrino.</p><p>� Sua �ltima observa��o relativa � possibilidade de haver um entendimento entre o ladr�o e o empregado, e de este papel ser um bilhete marcando encontro entre os dois, � uma hip�tese engenhosa e n�o de todo imposs�vel. Mas este fragmento de escrita sugere...</p><p>Mergulhou novamente a cabe�a nas m�os e permaneceu por alguns minutos na mais profunda medita��o. Quando ergueu a cabe�a, fiquei surpreso ao v�-lo corado e de olhos brilhantes, como antes de adoecer. Levantou-se vivamente, com toda a antiga energia.</p><p>� Sabem de uma coisa? Eu gostaria de dar uma espiada discreta nos detalhes deste caso. Ele cont�m algo que me fascina bastante. Se me permite, coronel, deixarei meu amigo Watson e o senhor, para acompanhar o inspetor e testar a veracidade de uma ou duas id�ias minhas. Voltaremos em meia hora.</p><p>Uma hora e meia se passou antes que o inspetor voltasse, sozinho.</p><p>� O sr. Holmes est� caminhando de um lado para outro no campo l� fora � anunciou. � Quer que n�s quatro vamos juntos � casa.</p><p>� � casa do sr. Cunningham?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Para qu�?</p><p>O inspetor encolheu os ombros.</p><p>� N�o sei exatamente, senhor. C� entre n�s, acho que o sr. Holmes ainda n�o se recuperou totalmente de sua doen�a. Age de maneira estranha e est� muito excitado.</p><p>� N�o precisa ficar alarmado � eu disse. � Geralmente descubro que h� m�todo na loucura dele.</p><p>� H� quem diga que h� loucura no m�todo dele � murmurou o inspetor. � Mas ele est� ansioso para agir, coronel, de modo que ser� melhor irmos logo, se j� estiver pronto.</p><p>Encontramos Holmes caminhando de um lado para outro no campo, a cabe�a inclinada sobre o peito e as m�os enfiadas nos bolsos da cal�a.</p><p>� O caso est� cada vez mais interessante � ele disse. � Watson, sua viagem ao campo foi um sucesso. Passei uma manh� muito agrad�vel.</p><p>� Esteve no local do crime, pelo que eu soube � disse o coronel.</p><p>� Sim, o inspetor e eu fizemos juntos uma boa investiga��o.</p><p>� E foram bem-sucedidos?</p><p>� Encontramos coisas muito interessantes. Contarei tudo quando estivermos a caminho. Antes de mais nada, vimos o corpo daquele homem infeliz. Ele morreu, com certeza, de um disparo de rev�lver.</p><p>� Ent�o tinha alguma d�vida?</p><p>� � bom verificar tudo. Nossa investiga��o n�o foi in�til. Conversamos depois com o sr. Cunningham e o filho, que indicaram o local exato onde o assassino atravessou a cerca do jardim na fuga. � um ponto de grande interesse.</p><p>� Naturalmente.</p><p>� Em seguida visitamos a m�e do pobre coitado. Mas n�o conseguimos nenhuma informa��o. Ela � muito idosa e doente.</p><p>� E qual foi o resultado da investiga��o?</p><p>� A convic��o de que o crime � muito peculiar. Talvez a nossa visita agora possa esclarecer alguma coisa. Creio que n�s dois concordamos, inspetor, que o fragmento de papel encontrado na m�o do morto, em que estava indicada a hora exata de sua morte, � extremamente importante.</p><p>� Isso deveria fornecer uma pista, sr. Holmes.</p><p>� E uma pista. A pessoa que escreveu o bilhete foi o homem que tirou William Kirwan da cama �quela hora. Mas onde est� o resto do papel?</p><p>� Examinei cuidadosamente o terreno na esperan�a de encontr�-lo � disse o inspetor.</p><p>� Foi arrancado da m�o do morto. Por que algu�m estaria t�o ansioso para recuper�-lo? Porque o incriminava. E o que faria com ele? Enfiaria no bolso, provavelmente, sem notar que um fragmento ficara na m�o do morto. Se consegu�ssemos obter o resto do papel, � �bvio que avan�ar�amos bastante na solu��o do mist�rio.</p><p>� Sim, mas como chegar aos bolsos de um criminoso antes de pegar o pr�prio criminoso?</p><p>� Vale a pena meditar no assunto. E h� outro ponto �bvio. O bilhete foi enviado a William. O homem que o escreveu n�o deve ser o mesmo que entregou, porque, neste caso, daria pessoalmente o recado. Quem levou o bilhete? Ou teria vindo pelo correio?</p><p>� Andei investigando � disse o inspetor. � William recebeu uma carta ontem, pelo correio da tarde. O envelope foi destru�do por ele.</p><p>� �timo � exclamou Holmes, dando uma palmada nas costas do inspetor. � Interrogou o carteiro. � um prazer trabalhar ao seu lado. Bem, aqui est� o pavilh�o, e se quiser subir, coronel, eu lhe mostrarei o local do crime.</p><p>Passamos pelo bonito chal� onde morara o homem assassinado e seguimos pela alameda ladeada de carvalhos que conduzia � antiga e bela resid�ncia em estilo Queen Anne, ostentando a marca de Malplaquet sobre o lintel da porta de entrada. Holmes e o inspetor contornaram a casa at� o port�o lateral, separado por um jardim da cerca viva que o isola da estrada. Havia um policial na porta da cozinha.</p><p>� Abra a porta � pediu Holmes. � Era nesta escada que o sr. Cunningham filho estava, e dali avistou os dois homens lutando no lugar onde estamos agora. O sr. Cunningham pai estava na janela � a segunda � esquerda � e viu o sujeito escapar pelo lado esquerdo daquele arbusto. O filho tamb�m viu. Ambos t�m certeza por causa daquela sebe. Ent�o o sr. Alec correu para fora e ajoelhou-se ao lado do ferido. O solo � muito duro, como podem ver, e n�o h� pegadas para nos orientar.</p><p>Enquanto ele falava, dois homens aproximaram-se pela trilha do jardim, depois de contornarem um �ngulo da casa. Um deles era idoso, de express�o en�rgica, rosto enrugado, p�lpebras pesadas; o outro era um rapaz elegante que, com sua express�o viva e sorridente e as roupas de cores alegres, fazia um estranho contraste com o assunto que nos levara at� ali.</p><p>� Continua investigando? � perguntou, dirigindo-se a Holmes. � Pensei que voc�s, londrinos, n�o erravam nunca. N�o parece t�o r�pido, no fim das contas.</p><p>� Precisa conceder-nos algum tempo � disse Holmes, bem-humorado.</p><p>� E v�o precisar mesmo � disse Alec Cunningham. � Aparentemente, n�o h� pista nenhuma.</p><p>� Apenas uma � disse o inspetor. � Achamos que se encontr�ssemos... Meu Deus, sr. Holmes, o que aconteceu?</p><p>O rosto do meu pobre amigo havia assumido de repente a express�o mais assustadora. Rolou os olhos para cima, fisionomia alterada pela dor e, com um gemido abafado, caiu de bru�os no ch�o. Horrorizados diante do ataque repentino e grave, n�s o carregamos para a cozinha, onde foi instalado numa cadeira grande, respirando com dificuldade durante alguns minutos. Afinal, com um pedido de desculpas pelo desmaio, levantou-se.</p><p>� Watson lhes dir� que acabo de me recuperar de uma doen�a grave � explicou. � Sou sujeito a esses ataques nervosos.</p><p>� Quer que mande minha charrete lev�-lo para casa? � perguntou o velho Cunningham.</p><p>� J� que estou aqui, h� um ponto que gostaria de comprovar. � bem f�cil verific�-lo.</p><p>� Qual �?</p><p>� � poss�vel que o pobre William tivesse chegado � casa n�o depois e sim antes do ladr�o. Todos parecem aceitar como ponto pac�fico que, embora a porta tenha sido for�ada, o ladr�o n�o chegou a entrar.</p><p>� Creio que � bastante �bvio � disse o sr. Cunningham gravemente. � Meu filho Alec ainda n�o se deitara e com certeza ouviria algu�m que se movimentasse por aqui.</p><p>� Onde estava sentado?</p><p>� Eu estava fumando no meu quarto de vestir.</p><p>� Qual � a janela?</p><p>� A �ltima � esquerda, ao lado da de meu pai.</p><p>� As luzes nos dois quartos estavam acesas, naturalmente.</p><p>� � claro.</p><p>� H� pontos muito estranhos aqui � disse Holmes, sorrindo. � N�o � extraordin�rio que um ladr�o � e um ladr�o com certa experi�ncia pr�via � invadisse uma casa numa hora em que, como ele podia ver pelas luzes, ainda havia duas pessoas da fam�lia acordadas?</p><p>� Devia ser um sujeito muito frio.</p><p>� � claro que se o caso n�o fosse t�o estranho, n�o precisar�amos recorrer ao senhor para obter uma explica��o � disse o sr. Alec. Mas quanto � sua id�ia de que o homem j� havia roubado a casa antes de William surpreend�-lo, � totalmente absurda. N�o ter�amos encontrado o lugar revirado e dado pela falta dos objetos que ele havia roubado?</p><p>� Depende do tipo de objetos � disse Holmes. � Deve lembrar-se de que lidamos com um ladr�o muito peculiar e que parece ter uma linha de trabalho toda pessoal. Veja, por exemplo, a estranha cole��o de objetos que roubou da casa dos Acton: um rolo de barbante, um peso de pap�is e n�o sei que outras ninharias!</p><p>� Bem, estamos inteiramente em suas m�os, sr. Holmes � disse o velho Cunningham. � Qualquer coisa que o senhor ou o inspetor proponham ser� aceita com certeza.</p><p>� Em primeiro lugar, gostaria que oferecessem uma recompensa. Deve partir dos senhores, porque a pol�cia levaria algum tempo para chegar a um acordo a respeito da quantia, e isto precisa ser feito rapidamente. Tenho aqui um esbo�o, caso n�o se importem em assin�-lo... Cinq�enta libras s�o mais que suficientes, eu acho.</p><p>� Eu daria quinhentas de boa vontade � disse o juiz de paz, pegando o papel e o l�pis que Holmes lhe estendia. � Mas isto n�o est� muito correto � acrescentou, olhando para o documento.</p><p>� Eu escrevi �s pressas.</p><p>� Vejo que come�ou assim: �Tendo em vista que na madrugada de ter�a-feira, faltando um quarto para uma, foi feita uma tentativa...� etc. Era� um quarto para a meia-noite, para ser exato.</p><p>Eu me afligi por causa do erro, pois sabia que Holmes ficaria profundamente abalado com um engano daquele tipo. Era sua especialidade manter-se fiel aos fatos, mas a doen�a recente o havia abalado e aquele pequeno incidente era suficiente para mostrar que ainda estava longe da recupera��o. Ele ficou embara�ado por um momento, enquanto o inspetor erguia as sobrancelhas e Alec Cunningham ca�a na gargalhada. Mas o velho corrigiu o erro e devolveu o papel a Holmes.</p><p>� Mande imprimir o mais depressa poss�vel. Creio que sua id�ia � excelente.</p><p>Holmes guardou cuidadosamente o papel na carteira.</p><p>� E agora seria muito bom visitarmos juntos a casa para verificar se esse ladr�o exc�ntrico, afinal, n�o levou alguma coisa.</p><p>Antes de entrar, Holmes examinou a porta que tinha sido for�ada. Era evidente que haviam usado um cinzel e uma faca resistente para arrombar a fechadura. Eram vis�veis as marcas na madeira, no lugar onde a porta fora empurrada.</p><p>� N�o usam barras? � perguntou.</p><p>� Nunca achamos necess�rio.</p><p>� E n�o t�m cachorro?</p><p>� Sim, mas est� preso do outro lado da casa.</p><p>� A que horas se deitam os criados?</p><p>� Por volta das 22 horas.</p><p>� Soube que William tamb�m se recolhia mais ou menos a essa hora.</p><p>� � exato.</p><p>� Estranho que exatamente nessa noite ele estivesse acordado. Gostaria que nos mostrasse a casa, sr. Cunningham.</p><p>Um corredor de pedra, que dava para a cozinha, conduzia por uma escada de madeira diretamente ao primeiro andar. Terminava num patamar fronteiro � outra escada mais rebuscada, que sa�a do vest�bulo. Para esse patamar davam as portas da sala de visitas e de v�rios quartos, inclusive os dos srs. Cunningham pai e filho. Holmes caminhava devagar, observando a arquitetura da casa. Percebi por sua express�o que seguia uma pista importante, mas n�o consegui imaginar em que dire��o suas dedu��es o conduziam.</p><p>� Sr. Holmes, tudo isto certamente � desnecess�rio � disse o sr. Cunningham meio impaciente. � Meu quarto fica no final da escada e o de meu filho logo depois. Deixo a seu crit�rio verificar se seria poss�vel o ladr�o subir at� aqui sem que perceb�ssemos.</p><p>� Precisa tentar outra pista, na minha opini�o � disse o filho, com um sorriso malicioso.</p><p>� Pe�o que tenham um pouco de paci�ncia. Eu gostaria, por exemplo, de ver at� que ponto se pode avistar a frente da casa pelas janelas. Este � o quarto do seu filho � disse, abrindo uma porta � e aquele, eu presumo, � o quarto de vestir onde ele estava fumando quando foi dado o alarme. Para onde d�o as janelas?</p><p>Ele atravessou o quarto, abriu a porta e deu uma olhada no aposento cont�guo.</p><p>� Espero que esteja satisfeito agora � disse o sr. Cunningham secamente.</p><p>� Obrigado. Acho que vi tudo o que desejava.</p><p>� Ent�o, se for realmente necess�rio, podemos ir para o meu quarto.</p><p>� Se n�o for demasiado inc�modo.</p><p>O juiz de paz deu de ombros e entrou na frente em seu quarto, que era mobiliado com simplicidade e nada tinha de extraordin�rio. Quando atravessava o quarto em dire��o � janela, Holmes recuou de modo que ele e eu f�ssemos os �ltimos do grupo. Ao p� da cama havia uma mesinha quadrada sobre a qual se viam um prato de laranjas e um jarro de �gua. Quando pass�vamos por ela, Holmes, para minha imensa surpresa, inclinou-se na minha frente e deliberadamente derrubou a mesinha. A jarra quebrou-se em mil peda�os e as frutas rolaram para todos os cantos do quarto.</p><p>� Voc� � desajeitado, Watson � disse friamente. � Molhou todo o tapete.</p><p>Abaixei-me, confuso, e comecei a recolher as frutas, compreendendo que por algum motivo o meu amigo queria que eu assumisse a culpa. Os outros fizeram o mesmo, recolocando a mesa no lugar.</p><p>� Ora! Para onde ele foi? � exclamou o inspetor.</p><p>Holmes havia desaparecido.</p><p>� Esperem aqui um instante � disse Alec Cunningham. � Na minha opini�o, o sujeito n�o est� muito bom da cabe�a. Venha comigo, papai. Vamos ver onde ele se meteu!</p><p>Sa�ram �s pressas do quarto, enquanto o inspetor, o coronel e eu ficamos ali, olhando uns para os outros.</p><p>� Palavra que concordo com o sr. Alec � disse o policial. Talvez seja conseq��ncia da doen�a, mas parece-me que...</p><p>Foi interrompido por um grito repentino de �Socorro! Socorro! Assassino!� Com um arrepio, reconheci a voz do meu amigo e sa� correndo do quarto para o patamar. Os gritos, que estavam reduzidos a um murm�rio inarticulado e rouco, vinham do quarto que t�nhamos visto antes. Entrei correndo e fui at� o quarto de dormir. Os dois Cunninghams estavam inclinados sobre o vulto prostrado de Sherlock Holmes, o mais mo�o agarrando-lhe o pesco�o com as duas m�os, enquanto o mais velho torcia-lhe um dos pulsos. No mesmo instante n�s tr�s o libertamos e Holmes levantou-se muito p�lido e evidentemente exausto.</p><p>� Prenda estes homens, inspetor! � arquejou.</p><p>� Sob que acusa��o?</p><p>� O assassinato do cocheiro William Kirwan!</p><p>O inspetor olhou para ele, aturdido.</p><p>� Ora, sr. Holmes... � disse finalmente. � Tenho certeza de que n�o fala a s�rio...</p><p>� Quieto, homem! Olhe para eles! � ordenou Holmes secamente.</p><p>De fato, nunca tinha visto uma confiss�o de culpa t�o nitidamente estampada num rosto humano. O mais velho parecia aturdido. Seu rosto de tra�os bem marcados estava carrancudo. O filho, por sua vez, havia perdido toda a vivacidade que o caracterizava e a ferocidade de um animal selvagem brilhava em seus olhos escuros, distorcendo os tra�os harmoniosos. O inspetor n�o disse nada, mas, aproximando-se da porta, fez soar seu apito. Dois policiais surgiram imediatamente.</p><p>� N�o tenho alternativa, sr. Cunningham. Confio em que tudo isto se revele um erro absurdo, mas compreenda que... Ah! Largue isso!</p><p>Deu um golpe com a m�o e o rev�lver que o rapaz fazia men��o de sacar caiu no ch�o.</p><p>� Guarde isso � disse Holmes, colocando rapidamente o p� sobre a arma. � Ser� �til no julgamento. Mas � disto que realmente precisamos.</p><p>E ergueu um peda�o de papel amassado.</p><p>� O resto do bilhete? � perguntou o inspetor.</p><p>� Exatamente.</p><p>� E onde estava?</p><p>� Onde eu tinha certeza de que estaria. Esclarecerei todo o caso daqui a pouco. Acho, coronel, que o senhor e Watson podem ir para casa. Eu me encontrarei com os dois dentro de uma hora, no m�ximo. O inspetor e eu precisamos conversar com os prisioneiros. Mas estarei de volta para o almo�o, com certeza.</p><p>Sherlock Holmes cumpriu a palavra. Cerca de uma hora depois estava� conosco na sala de fumar do coronel. Vinha acompanhado de um homenzinho idoso, apresentado como o sr. Acton. Em sua resid�ncia fora cometido o primeiro roubo.</p><p>� Queria que o sr. Acton ouvisse o meu relato do caso, pois � natural que ele esteja muito interessado nos detalhes � disse Holmes. � Meu caro coronel, temo que amaldi�oe a hora em que resolveu acolher em sua casa um sujeito complicado como eu.</p><p>� Pelo contr�rio � protestou o coronel. � Considero o maior privil�gio poder acompanhar de perto os seus m�todos de trabalho. Confesso que ultrapassam minhas expectativas e que sou incapaz de compreender os resultados. At� agora n�o vi um s� vest�gio de pista.</p><p>� Temo que minhas explica��es o decepcionem, mas sempre tive o h�bito de deixar bem claros os meus m�todos, seja para o meu amigo Watson, seja para qualquer pessoa que revele por eles um interesse inteligente. Mas, para come�ar, como ainda estou um tanto abalado com a agress�o sofrida no quarto de vestir, creio que tomarei um pouco do seu , coronel. Minhas for�as andam combalidas ultimamente.</p><p>� Espero que n�o sofra outro ataque nervoso.</p><p>Sherlock Holmes deu uma boa risada.</p><p>� Chegaremos l�. Antes farei um relato do caso na sua devida ordem, mostrando os v�rios pontos que orientaram a minha decis�o. Interrompam-me, por favor, se alguma dedu��o n�o estiver bem clara.</p><p>� � da maior import�ncia na arte da detec��o saber distinguir, entre v�rios fatos, quais os triviais e quais os decisivos. Do contr�rio, a energia e a aten��o se dispersariam em vez de se concentrarem. Neste caso eu n�o tinha, desde o in�cio, a menor d�vida de que a chave estava no peda�o de papel encontrado na m�o do morto.</p><p>� Antes de prosseguir, gostaria de chamar a aten��o para o fato de que, se o relato de Alec Cunningham estivesse correto e o assaltante, depois de atirar em William Kirwan, tivesse desaparecido imediatamente, era �bvio que n�o fora ele quem arrancara o papel da m�o do morto. Mas, caso n�o fosse ele, teria que ser o pr�prio Alec Cunningham, pois quando o velho desceu, v�rios criados j� estavam no local. O detalhe � simples, mas o inspetor n�o o percebeu porque partia do pressuposto de que os magnatas da regi�o nada tinham a ver com o caso. Quanto a mim, fa�o quest�o de me desfazer de preconceitos e obedecer docilmente quando os fatos me orientam. Assim, logo na primeira etapa da investiga��o, comecei a olhar com desconfian�a o papel desempenhado pelo sr. Alec Cunningham.</p><p>� Fiz um exame cuidadoso do fragmento de papel que o inspetor nos mostrou. Ficou logo claro para mim que ele era parte de um documento extraordin�rio. Aqui est�. Voc�s notam agora algo de muito sugestivo nele?</p><p>� Tem uma apar�ncia muito desigual � disse o coronel.</p><p>� Meu caro senhor, n�o pode haver a m�nima d�vida de que foi escrito por duas pessoas que tra�avam palavras alternadas. Quando chamo aten��o para os� vigorosos de algumas palavras e pe�o que os comparem �s palavras �quarto� e �meia-noite�, que s�o hesitantes, perceber�o imediatamente o fato. Uma an�lise r�pida das palavras permitir� dizer com toda seguran�a que o �saber� e o �talvez� foram escritas por m�o mais firme e o �que� por outra mais fraca.</p><p>� Por Deus! � claro como o dia! � exclamou o coronel. Por que duas pessoas escreveriam a carta dessa maneira?</p><p>� Era �bvio que se tratava de uma trama escusa, e um deles, que desconfiava do outro, estava decidido que, fosse qual fosse o resultado, ambos teriam responsabilidade igual. � evidente que aquele que escreveu �um� e �para� era o chefe.</p><p>� Como descobriu isto?</p><p>� � poss�vel deduzi-lo do simples estudo comparativo das caligrafias. Mas temos motivos mais fortes do que esse. Se examinarem com aten��o este fragmento, chegar�o � conclus�o de que o homem de caligrafia mais vigorosa escreveu primeiro todas as palavras, deixando em branco as outras para serem preenchidas. Esses espa�os em branco nem sempre foram suficientes e podem notar que o segundo homem teve que comprimir o �quarto� entre as outras duas palavras, revelando que a carta j� havia sido escrita. Aquele que escreveu primeiro foi, sem d�vida, o que planejou toda a hist�ria.</p><p>� Excelente! � exclamou o sr. Acton.</p><p>� Mas bastante superficial � disse Holmes. � Entretanto, chegamos agora a um ponto importante. Talvez ignorem que os especialistas conseguiram determinar a idade das pessoas pela caligrafia com grande exatid�o. Em casos normais � poss�vel situar a pessoa na sua d�cada com razo�vel acerto. Digo casos normais porque a doen�a e a fraqueza f�sica reproduzem os sinais da velhice, ainda que o doente seja mo�o. Neste caso, examinando a caligrafia forte e ousada de um e a outra de apar�ncia fr�gil, mas que conserva a sua legibilidade, embora os tenham come�ado a perder o tra�o, podemos dizer que um era jovem e o outro tinha idade avan�ada, sem ser decr�pito.</p><p>� Excelente! � repetiu o sr. Acton.</p><p>� H� um outro ponto, mais sutil e interessante. Existe algo em comum nas duas caligrafias. Eles pertencem a pessoas consang��neas. � muito �bvio nos , mas para mim h� detalhes menores que indicam a mesma coisa. N�o tenho d�vidas de que poder�o ser encontrados maneirismos de fam�lia nestas duas amostras de caligrafia. Estou apresentando apenas, � claro, os principais resultados do meu exame. H� 23 outras dedu��es que seriam mais interessantes para os especialistas. Todas tendem a refor�ar minha impress�o de que os Cunninghams, pai e filho, escreveram esta carta.</p><p>� Meu passo seguinte foi examinar os detalhes do crime para ver at� que ponto ajudariam. Fui at� a casa com o inspetor e vi tudo o que era necess�rio. O ferimento na cabe�a do morto era, como pude determinar com absoluta certeza, causado por disparo de rev�lver a uma dist�ncia de cerca de 4 metros. N�o havia marcas de p�lvora nas roupas. Era evidente, portanto, que Alec Cunningham mentira ao dizer que os homens estavam lutando quando o tiro foi disparado. Pai e filho concordavam em rela��o ao local por onde o homem fugira para a estrada. Mas acontece que naquele ponto h� um fosso largo, �mido no fundo. Como n�o havia pegadas no fosso, tive certeza absoluta de que os Cunninghams haviam mentido novamente, e tamb�m de que nunca houvera nenhum desconhecido em cena.</p><p>� Precisava ent�o verificar o motivo daquele crime singular. Para isso, tentei primeiro descobrir o motivo do roubo anterior na casa do sr. Acton. Gra�as a uma coisa dita pelo coronel, soube que havia um processo envolvendo o sr. Acton e os Cunninghams. Ocorreu-me logo, � claro, que tinham invadido a biblioteca com a inten��o de obter algum documento importante do caso.</p><p>� Exatamente � disse o sr. Acton. � N�o h� d�vidas quanto �s inten��es. Eu tenho direito incontest�vel sobre metade das terras atuais dos Cunninghams e se eles tivessem encontrado um �nico documento � que felizmente est� no cofre de meus advogados �, sem d�vida prejudicariam o nosso caso.</p><p>� Est�o vendo? � exclamou Holmes, sorridente. � Foi uma tentativa perigosa e desvairada, na qual percebo a influ�ncia do jovem Alec. Nada encontrando, tentaram afastar as suspeitas fazendo com que o caso parecesse um roubo comum. Para isso, carregaram tudo o que encontraram ao alcance das m�os. Essa parte � bastante clara, mas ainda restavam muitos detalhes obscuros. O que eu queria acima de tudo era descobrir a parte desaparecida do bilhete. Tinha certeza de que Alec o arrancara da m�o do morto e estava quase certo de que o enfiara no bolso do roup�o. Onde mais o teria guardado? O �nico problema seria verificar se ainda estava ali. Valia a pena fazer um esfor�o para descobrir, e com esse objetivo todos n�s fomos at� a casa.</p><p>� Os Cunninghams se encontraram conosco, como devem recordar, junto � porta da cozinha. Era essencial que nem sequer se lembrassem da exist�ncia do papel, do contr�rio o destruiriam imediatamente. O inspetor estava a ponto de aludir � import�ncia do detalhe quando, por um feliz acaso, fui acometido de uma esp�cie de ataque, alterando o rumo da conversa.</p><p>� Meu Deus! � exclamou o coronel, rindo. � Quer dizer que desperdi�amos nossa solicitude num falso ataque?</p><p>� Falando como profissional, foi admiravelmente representado � exclamei, olhando surpreso para o homem que vivia a me espantar com novas facetas de sua ast�cia.</p><p>� Trata-se de uma arte muito �til. Quando me recuperei, consegui, gra�as a um artif�cio que talvez tivesse o pequeno m�rito da engenhosidade, que o velho Cunningham escrevesse a palavra �meia-noite� de modo que eu pudesse compar�-la � �meia-noite� escrita no bilhete.</p><p>� Ah, como fui idiota! � exclamei.</p><p>� Percebi que voc� estava penalizado com a minha falha � disse Holmes com um sorriso. � Lamentei causar-lhe a decep��o que eu sei que voc� sentiu. Subimos juntos e, depois de entrar no quarto de vestir e ver o roup�o pendurado atr�s da porta, consegui atirar a mesinha no ch�o, distrair a aten��o de todos e voltar para examinar os bolsos. Mal havia encontrado o papel, que estava onde eu esperava, quando os Cunninghams saltaram em cima de mim. E teriam me assassinado ali mesmo, tenho certeza, n�o fosse a sua pronta ajuda. Sinto at� agora as m�os daquele rapaz na minha garganta e as do pai torcendo-me o pulso para arrancar o papel da minha m�o. Perceberam que eu sabia de tudo e a repentina passagem da seguran�a total para o desespero absoluto deixou-os enlouquecidos.</p><p>��Tive uma conversa com o velho Cunningham sobre o motivo do crime, mais tarde. Ele estava mais calmo, embora o filho se mostrasse um perfeito dem�nio, disposto a estourar os pr�prios miolos e os de qualquer pessoa se conseguisse um rev�lver. Ao ver que o caso contra ele era arrasador, perdeu o �nimo e confessou tudo. Parece que William acompanhara �s escondidas os patr�es na noite em que eles invadiram a casa do sr. Acton e, obtendo assim poder sobre eles, passou a amea��-los de den�ncia, fazendo chantagem. Mas o sr. Alec � um homem perigoso nesse tipo de jogo. Foi um golpe genial de sua parte ver no pavor de ladr�es que agitava a regi�o uma oportunidade de livrar-se do homem que temiam. William foi atra�do e eliminado. E se estivessem com o bilhete inteiro e tivessem prestado um pouco mais de aten��o aos detalhes, � bem poss�vel que ningu�m jamais suspeitasse.</p><empty-line/><p>� E o bilhete? � eu perguntei.</p><p>Sherlock Holmes colocou diante de n�s o documento abaixo:</p><p><strong><image l:href="#8"/></strong></p><p>� � o tipo de coisa que eu esperava � disse Holmes. � N�o conhecemos ainda, � claro, as rela��es entre Alec Cunningham, William Kirwan e Annie Morrison. O resultado demonstra que a isca foi bem colocada. Estou certo de que se interessar�o pelos tra�os heredit�rios revelados nos� e nos . A aus�ncia de pingos nos� na caligrafia do velho � tamb�m bastante caracter�stica. Watson, creio que o seu repouso no campo foi um sucesso incontest�vel. E certamente voltarei amanh� bastante revigorado para Baker Street.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o aleijado</strong></p><p>Certa noite de ver�o, alguns meses ap�s meu casamento eu estava sentado sozinho, fumando o �ltimo cachimbo antes de ir para o quarto, e cochilava sobre um romance, porque o dia de trabalho fora exaustivo. Minha mulher j� havia subido e o ru�do da porta sendo trancada algum tempo depois indicava que os criados tamb�m j� tinham se recolhido. Levantei-me da poltrona e estava sacudindo as cinzas do cachimbo quando de repente ouvi a campainha.</p><p>Olhei para o rel�gio. Eram 23:45h. N�o podia ser uma visita em hora t�o tardia. Um paciente, era claro, e talvez uma consulta que levasse a noite inteira. Resignado, fui at� o vest�bulo e abri a porta. Para minha surpresa, dei com Sherlock Holmes no patamar.</p><p>� Ah, Watson! Esperava chegar a tempo de peg�-lo ainda de p�.</p><p>� Entre, meu caro, por favor.</p><p>� Voc� parece surpreso e n�o sem raz�o! Aliviado tamb�m, eu creio! Hum! Continua fumando aquela mistura� dos tempos de solteiro! A cinza solta no seu casaco � inconfund�vel. � f�cil perceber que voc� est� habituado a usar uniforme, Watson; jamais passar� por civil cem por cento enquanto mantiver o h�bito de levar o len�o na manga. Pode me hospedar esta noite?</p><p>� Com prazer.</p><p>� Voc� disse que tinha acomoda��es para um solteiro e vejo que n�o est� hospedando nenhum cavalheiro no momento. Sua chapeleira anuncia isso.</p><p>� Ficarei encantado se voc� dormir aqui.</p><p>� Obrigado. Vou usar o gancho vago na chapeleira. Lamento ver que voc� teve um oper�rio ingl�s nesta casa. Isto � sinal de problemas. N�o s�o os encanamentos de �gua, espero.</p><p>� N�o. O g�s.</p><p>� Ah! Ele deixou duas marcas de solas tacheadas no seu lin�leo, exatamente no lugar onde incide a luz. N�o, obrigado, jantei em Waterloo, mas fumarei com todo prazer um cachimbo na sua companhia. (sic or.)</p><p>Passei-lhe a minha bolsa de fumo e ele se sentou na minha frente, fumando em sil�ncio durante algum tempo. Eu sabia muito bem que somente um caso importante o traria � minha casa �quela hora, de modo que aguardei pacientemente que ele se decidisse a falar.</p><p>� Vejo que tem trabalhado muito � observou, olhando-me atentamente.</p><p>� Sim, tive um dia muito atarefado. Pode parecer tolice � acrescentei �, mas n�o sei como voc� deduziu isto.</p><p>Holmes riu consigo mesmo.</p><p>� Tenho a vantagem de conhecer os seus h�bitos, meu caro Watson. Quando a sua ronda de visitas � curta, voc� vai a p�, e quando � longa, toma uma carruagem. Noto que suas botas, embora gastas, n�o est�o absolutamente sujas. N�o h� d�vida de que no momento anda bastante ocupado para justificar a carruagem.</p><p>� Excelente! � exclamei.</p><p>� Elementar. � um dos casos em que a pessoa que raciocina pode produzir um efeito que parece extraordin�rio ao interlocutor, porque este deixou de perceber um pequeno detalhe que � a base da dedu��o. O mesmo pode ser dito, meu caro amigo, para o efeito de um de seus resumos, que s�o totalmente falsos, j� que dependem de voc� reter em suas m�os determinados fatores do problema que nunca s�o apresentados ao leitor. No momento estou na posi��o desses mesmos leitores, porque disponho de v�rios fios de um dos casos mais estranhos que jamais intrigaram a mente humana, mas n�o tenho um ou dois que s�o necess�rios para completar a minha teoria. Mas eu os terei, Watson! Eu os terei!</p><p>Seus olhos estavam brilhantes, e as faces, ligeiramente coradas. Por um instante o v�u que protegia sua natureza interior entreabriu-se, mas s� por um instante. Quando olhei novamente para ele, seu rosto readquiria a express�o impass�vel de um pele-vermelha que induzia tanta gente a consider�-lo mais uma m�quina do que um ser humano.</p><p>� O problema apresenta caracter�sticas interessantes � observou. � Posso dizer at� que s�o caracter�sticas de interesse excepcional. J� examinei a quest�o e creio que cheguei perto da solu��o. Se puder me acompanhar nessa �ltima etapa, voc� me prestar� um grande servi�o.</p><p>� Ser� um prazer.</p><p>� Poderia ir a Aldershot amanh�?</p><p>� Tenho certeza de que Jackson se encarregar� dos meus clientes.</p><p>� �timo. Quero sair no trem das 11:10h de Waterloo.</p><p>� Isso me dar� tempo para tomar provid�ncias.</p><p>� Neste caso, se n�o estiver com sono, vou dar-lhe um resumo do que aconteceu e do que falta fazer.</p><p>� Eu estava com sono antes de voc� chegar, mas agora estou completamente acordado.</p><p>� Vou resumir a hist�ria o m�ximo poss�vel sem omitir nenhum fato fundamental. � poss�vel que j� tenha lido alguma reportagem a respeito. Trata-se do suposto assassinato do coronel Barclay, do Royal Munsters, em Aldershot, que estou investigando.</p><p>� N�o soube nada a respeito.</p><p>� Ainda n�o atraiu muita aten��o, a n�o ser local. Os fatos s�o apenas de dois dias atr�s. Em resumo, trata-se do seguinte:</p><p>� O Royal Munsters, como sabe, � um dos mais famosos regimentos irlandeses do Ex�rcito brit�nico. Fez maravilhas tanto na Crim�ia como durante o Motim, e depois distinguiu-se em v�rias outras ocasi�es. Era comandado at� segunda-feira � noite por James Barclay, um corajoso veterano, que come�ou como soldado raso, foi promovido por bravura na �poca do Motim e chegou ao comando do regimento no qual havia carregado um mosquete.</p><p>� O coronel Barclay, quando era sargento, casou-se com uma jovem chamada Nancy Devoy, filha de um antigo sargento mesti�o da mesma corpora��o. Houve, portanto, como voc� pode imaginar, um certo atrito social quando o jovem casal (pois eram ainda jovens) ingressou em novo ambiente. Mas, aparentemente, eles se adaptaram depressa e a sra. Barclay foi sempre muito popular entre as senhoras do regimento, assim como o marido o era entre os outros oficiais. Devo acrescentar que era muito bonita, e ainda hoje, ap�s mais de trinta anos de casada, conserva uma apar�ncia impressionante.</p><p>� A vida familiar do coronel Barclay parece ter sido sempre feliz. O major Murphy, que me contou a maioria dos fatos, afirma que nunca soube de nenhum desentendimento entre os dois. Ele acha que, de modo geral, Barclay era mais dedicado � mulher do que ela ao marido. Ficava muito inquieto se ela se� ausentava por um dia inteiro. Ela, por sua vez, embora dedicada e fiel, parecia menos afetuosa. Contudo, eram considerados no regimento o pr�prio modelo do casal de meia-idade. N�o havia nada em suas rela��es que sugerisse �s pessoas a trag�dia que ocorreria.</p><p>� Parece que o pr�prio coronel Barclay tinha alguns tra�os singulares de temperamento. Era um velho militar geralmente jovial e bem-humorado, mas em certas ocasi�es mostrava-se capaz de ser violento e vingativo. Este aspecto do seu temperamento nunca se manifestava em rela��o � mulher, ao que parece. Outro fato que impressionou o major Murphy e tr�s entre cinco dos oficiais com quem conversei era a estranha depress�o que o acometia de vez em quando. Conforme a express�o do major, o sorriso desaparecia de seus l�bios como que arrancado por m�o invis�vel quando ele participava dos gracejos e brincadeiras na hora do rancho. E ficava dias seguidos mergulhado na mais profunda depress�o. Isto e uma certa dose de supersti��o eram os �nicos tra�os incomuns do seu temperamento observados pelos colegas de farda. Esta �ltima peculiaridade fazia com que ele detestasse ficar sozinho, principalmente depois de anoitecer. Esse tra�o pueril em uma natureza bastante m�scula provocou algumas vezes coment�rios e conjecturas:</p><p>� O primeiro batalh�o do Royal Munsters (o antigo 117o) est� sediado em Aldershot h� alguns anos. Os oficiais casados residem fora dos alojamentos e o coronel, quando era comandante, ocupava uma vila chamada �Lachine�,localizada a cerca de 1 quil�metro do Campo Norte. A casa � cercada de jardins, mas o lado oeste n�o fica a mais de 30 metros da estrada. A criadagem � formada por um cocheiro e duas criadas. Al�m dos patr�es, s�o os �nicos moradores de Lachine,pois os Barclays n�o t�m filhos e n�o costumavam receber visitantes locais.</p><p>� Vamos agora aos fatos ocorridos em Lachine entre 21 e 22 horas da �ltima segunda-feira.</p><p>� A sra. Barclay � membro da Igreja Cat�lica e muito interessada no estabelecimento da Confraria de S�o Jorge, fundada em conex�o com a Capela de Watt Street com o objetivo de distribuir roupas usadas para os pobres. Havia uma reuni�o da Confraria �s 20 horas e a sra. Barclay jantou apressadamente para poder comparecer. O cocheiro ouviu-a fazer uma observa��o banal ao marido, garantindo-lhe que voltaria logo. Chamou ent�o a srta. Morrison, uma jovem que mora na casa ao lado, e as duas sa�ram juntas para a reuni�o. Esta durou quarenta minutos, e eram 21:15h quando a sra. Barclay voltou, depois de deixar em casa a srta. Morrison.</p><p>� Em Lachine h� um aposento usado como sala de estar, que d� para a estrada. Grandes portas de vidro abrem-se para um gramado, que tem 30 metros de extens�o e � separado da estrada apenas por um muro baixo, encimado por uma grade de ferro. Foi para esta sala que a sra. Barclay se dirigiu ao chegar. As venezianas n�o estavam abaixadas, porque a sala raramente era usada � noite, mas a pr�pria sra. Barclay acendeu um lampi�o e tocou a campainha, pedindo a Jane Stewart, a criada, que lhe trouxesse uma x�cara de ch�, o que era contr�rio aos seus h�bitos. O coronel estava na sala de jantar, mas ao perceber que a mulher havia regressado, foi encontr�-la na sala de estar. O cocheiro viu quando ele atravessou o corredor e entrou na sala. Depois disso, ele n�o foi visto novamente com vida.</p><p>� O ch� pedido foi levado dez minutos depois, mas a criada, ao aproximar-se da porta, surpreendeu-se ao ouvir as vozes dos patr�es numa violenta discuss�o. Bateu sem receber resposta e chegou a girar a ma�aneta. Percebeu ent�o que a porta estava trancada por dentro. � natural que tenha ido correndo contar � cozinheira, e as duas, juntamente com o cocheiro, foram at� o vest�bulo para escutar a discuss�o que prosseguia. Todos afirmam que s� ouviram duas vozes, a de Barclay e a de sua mulher. As observa��es do coronel eram feitas em tom brusco e abafado, inaud�vel para os criados. As da senhora eram amargas, e quando ela ergueu a voz, ouviram-na com nitidez repetir v�rias vezes: �Covarde! Covarde!� Esses fragmentos de discuss�o terminaram num repentino grito medonho emitido pelo homem, seguido do ru�do de uma queda, e no grito agudo da mulher. Convencido de que acabava de ocorrer uma trag�dia, o cocheiro aproximou-se da porta e tentou arromb�-la, enquanto os gritos se repetiam l� dentro. N�o conseguiu quebrar a fechadura e as criadas estavam aturdidas demais para ajud�-lo. De repente, teve uma id�ia. Atravessou o vest�bulo e contornou a casa at� o gramado, para onde se abriam as portas-janelas. Uma parte delas estava aberta, o que, pelo que soube, era comum agora no ver�o, e ele entrou na sala com facilidade. A patroa tinha deixado de gritar e estava desmaiada num sof�, enquanto o infeliz militar, os p�s surgindo por cima do bra�o de uma poltrona, a cabe�a no ch�o, junto � guarda da lareira, estava morto, banhado no pr�prio sangue.</p><p>� A primeira id�ia do cocheiro, naturalmente, ao verificar que nada podia fazer pelo patr�o, foi abrir a porta. Mas surgiu ent�o uma dificuldade inesperada e estranha. A chave n�o estava do lado de dentro e ele n�o conseguiu encontr�-la em parte alguma da sala. Tornou a sair pela porta-janela, e voltou depois de chamar um policial e um m�dico. A senhora, sobre quem reca�am naturalmente as maiores suspeitas, foi levada para o quarto, ainda desmaiada. O corpo do coronel foi colocado no sof� e teve in�cio um exame cuidadoso do local da trag�dia.</p><p>� O infeliz veterano apresentava um ferimento irregular na parte de tr�s da cabe�a, obviamente causado por um golpe violento de arma contundente. N�o foi dif�cil adivinhar qual seria a arma. No ch�o, perto do corpo, havia um bast�o de madeira entalhada com um cabo de osso. O coronel possu�a uma cole��o variada de armas trazidas dos diferentes pa�ses onde havia lutado, e a pol�cia levantou a hip�tese de que a bengala era um dos seus trof�us. Os criados negam t�-la visto antes, mas entre as numerosas curiosidades existentes na casa � poss�vel que aquela tivesse passado despercebida. A pol�cia n�o constatou mais nada de import�ncia na sala, exceto o fato inexplic�vel de a chave n�o ter sido encontrada com a sra. Barclay, nem com a v�tima, e nem em qualquer lugar do recinto. A porta teve de ser aberta por um serralheiro de Aldershot.</p><p>� Esta era a situa��o, Watson, quando na manh� de ter�a-feira, a pedido do major Murphy, fui para Aldershot, a fim de colaborar com as investiga��es da pol�cia. Voc� perceber� que o problema j� era interessante, mas as minhas observa��es logo me fizeram perceber que ele era, na verdade, muito mais extraordin�rio do que parecia � primeira vista.</p><p>� Antes de examinar a sala interroguei os criados, mas s� consegui obter fatos j� conhecidos. Um detalhe interessante foi lembrado por Jane Stewart, a criada. Voc� deve recordar que, ao ouvir a discuss�o, ela desceu e voltou com outros criados. Na primeira vez, quando estava sozinha, diz que os patr�es falavam em voz t�o baixa que mal ouviu o que diziam, calculando pelo tom, e n�o pelas palavras, que os dois estavam discutindo. Quando insisti, por�m, lembrou-se de ter ouvido a palavra �David� pronunciada duas vezes pela patroa. O detalhe � da maior import�ncia, porque pode nos indicar o motivo da briga repentina. O nome do coronel, voc� deve lembrar, era James.</p><p>� Havia um detalhe do caso que impressionou profundamente tanto os criados como a pol�cia: o rosto contorcido do coronel. Segundo afirmam, os tra�os estavam imobilizados na mais terr�vel express�o de medo e horror que um rosto humano seria capaz de assumir. Mais de uma pessoa desmaiou ao v�-lo, t�o horr�vel era o efeito. Parecia que ele previra o seu fim e que este lhe causara o mais profundo horror. Claro que este detalhe se encaixava na teoria da pol�cia, isto �, de que o coronel viu sua esposa agredi-lo com inten��o de mat�-lo. O fato de o ferimento se achar na parte posterior da cabe�a n�o era obje��o importante, j� que ele poderia ter-se virado para evitar o golpe. N�o foi poss�vel obter nenhuma informa��o da pr�pria mulher, que perdeu temporariamente o ju�zo em conseq��ncia de uma meningite aguda.</p><p>� A pol�cia informou que a srta. Morrison, que havia sa�do naquela noite com a sra. Barclay, disse que n�o sabia o que poderia ter causado o mau humor de sua amiga, quando ela voltou para casa.</p><p>� Depois de reunir estes fatos, Watson, fumei v�rios cachimbos tentando separar os fundamentais dos meramente acidentais. Sem d�vida alguma, o ponto mais relevante e sugestivo do caso era o estranho desaparecimento da chave. Apesar de busca minuciosa, n�o foi encontrada na sala. Portanto, fora levada dali. Mas nem o coronel nem sua mulher poderiam t�-la levado, isso era bem claro. Neste caso, uma terceira pessoa havia entrado na sala. E essa terceira pessoa s� podia ter entrado pela porta-janela. Achei que um exame cuidadoso da sala e do gramado revelaria ind�cios desse indiv�duo. Voc� conhece meus m�todos, Watson. N�o deixei de aplicar um s� a essa investiga��o. E acabei descobrindo ind�cios, mas bem diferentes daqueles que esperava encontrar. Um homem havia estado na sala depois de atravessar o gramado, vindo da estrada. Consegui encontrar cinco pegadas n�tidas � uma na pr�pria estrada, no ponto em que ele galgara o muro baixo, duas no gramado, e duas muito leves, na madeira encerada perto da janela por onde havia entrado. Aparentemente ele havia atravessado correndo o gramado, porque a marca da parte anterior dos p�s era mais profunda que a do calcanhar. Mas n�o foi o homem que me surpreendeu, e sim seu companheiro.</p><p>� Seu companheiro!</p><p>Holmes tirou do bolso uma grande folha de papel fino e desdobrou-a cuidadosamente sobre os joelhos.</p><p>� O que acha disto? � perguntou.</p><p>O papel estava coberto de marcas de pegadas de um animal de pequeno porte. Patas de cinco dedos com vest�gios de unhas longas, e as marcas inteiras n�o eram maiores do que uma colher de sobremesa.</p><p>� � um cachorro � eu disse.</p><p>� J� ouviu falar de algum c�o que subisse numa cortina? Encontrei marcas n�tidas deixadas por este animal.</p><p>� Um macaco, ent�o?</p><p>� Mas isto n�o � pegada de macaco.</p><p>� Ent�o, o que ser�?</p><p>� Nem c�o, nem gato, nem macaco, nem qualquer animal nosso conhecido. Tentei reconstitu�-lo com base nas medidas. Aqui est�o quatro pegadas do local onde o animal estava im�vel. Como v�, n�o h� mais de 40 cent�metros entre as patas dianteiras e as traseiras. Acrescente a isso o comprimento do pesco�o e da cabe�a e ver� que o animal tem cerca de 60 cent�metros ao todo, provavelmente mais, se tiver cauda. Mas observe esta outra medida. O animal estava em movimento; temos, portanto, a largura do seu passo. Em cada caso n�o ultrapassa 8 cent�metros. Temos aqui a indica��o de um corpo longo ao qual est�o ligadas pernas muito curtas. O animal n�o foi suficientemente gentil para deixar algum p�lo, mas a forma geral deve ser a que indiquei. Al�m disso, � capaz de subir correndo por uma cortina, e � carn�voro.</p><p>� Como deduziu isto?</p><p>� Pelo fato de ter subido correndo a cortina. Havia uma gaiola de can�rio pendurada na janela e, aparentemente, seu objetivo era abocanhar o p�ssaro.</p><p>� Ent�o que animal seria esse?</p><p>� Se eu pudesse identific�-lo, faria um grande progresso no sentido de solucionar o caso. Provavelmente � da fam�lia da doninha ou do arminho. Entretanto, � maior do que qualquer um desses que eu j� tenha visto.</p><p>� Mas, o que tem ele a ver com o crime?</p><p>� Isto tamb�m ainda n�o est� claro. Mas j� descobrimos muita coisa, como voc� pode perceber. Sabemos que havia um homem na estrada assistindo � briga do casal Barclay � as venezianas estavam levantadas e a sala iluminada. Sabemos tamb�m que ele correu pelo gramado, entrou na sala acompanhado do estranho animal e, ou agrediu o coronel, ou � o que tamb�m � poss�vel � o coronel caiu por ter ficado terrivelmente assustado ao v�-lo, cortando a cabe�a na quina da guarda da lareira. Finalmente, temos o estranho fato de que o intruso levou a chave da sala quando saiu.</p><p>� Parece que suas descobertas deixaram o caso ainda mais complicado do que antes � observei.</p><p>� Exatamente. Mostraram que o caso era bem mais complexo do que parecia a princ�pio. Analisei a quest�o e cheguei � conclus�o de que devo abord�-la por outro �ngulo. Mas, Watson, eu n�o estou deixando voc� dormir. Posso muito bem contar tudo a caminho de Aldershot, amanh�.</p><p>� Obrigado, mas voc� foi longe demais para parar agora.</p><p>� � certo que quando a sra. Barclay saiu de casa �s 19:30h, estava bem com o marido. Nunca foi, como j� mencionei, ostensivamente afetuosa, mas o cocheiro a ouviu conversando amigavelmente com o coronel. Mas tamb�m � certo que, ao voltar, ela foi diretamente para a sala onde seria menos prov�vel encontrar o marido e pediu ch�, como faria uma pessoa agitada. E finalmente, quando a marido entrou, irrompeu em violentas recrimina��es. Portanto, entre 19:30h e 21 horas aconteceu alguma coisa que alterou completamente os sentimentos dela em rela��o ao marido. Mas a srta. Morrison esteve ao seu lado durante aquela hora e meia. Tenho certeza absoluta, portanto, de que, apesar da negativa, ela sabia de alguma coisa.</p><p>� Minha primeira hip�tese foi de que houve algum epis�dio entre esta mo�a e o velho soldado, e que ele confessou tudo � esposa. Isso explicaria a raiva na volta e tamb�m o fato de a mo�a negar que tivesse acontecido alguma coisa. A hip�tese n�o seria totalmente incompat�vel com a maioria das palavras ouvidas. Mas havia a refer�ncia a David e a conhecida afei��o do coronel pela mulher pesando contra isso, para n�o mencionar a tr�gica intromiss�o desse outro homem, que poderia, � claro, n�o ter nada a ver com o que aconteceu. N�o foi f�cil tomar uma decis�o, mas, de modo geral, eu estava inclinado a afastar a id�ia de que houve alguma coisa entre o coronel e a srta. Morrison, embora estivesse mais convencido do que nunca de que a mo�a tem a pista do que transformou em �dio o afeto da sra. Barclay pelo marido. Enveredei pelo caminho �bvio, portanto, visitando a srta. Morrison e explicando que eu estava absolutamente convencido de que ela sabia dos fatos e afirmando que sua amiga, a sra. Barclay, poderia parar no banco dos r�us se o caso n�o fosse esclarecido.</p><p>� A srta. Morrison � uma jovem mi�da e et�rea, de olhos t�midos e cabelos louros. Mas n�o lhe faltam arg�cia e bom senso. Ficou refletindo durante algum tempo a respeito das minhas palavras e depois, virando-se para mim com ar decidido, fez esta declara��o extraordin�ria, que resumirei para voc�.</p><p>� �Prometi a minha amiga n�o falar nada sobre o caso, e promessa � promessa. Mas se eu puder realmente ajud�-la, quando ela est� sendo acusada de uma coisa t�o grave e seus pr�prios l�bios est�o selados pela doen�a, creio que estou dispensada do compromisso. Vou contar exatamente o que se passou na noite de segunda-feira.</p><p>� �Est�vamos voltando da Miss�o de Watt Street, por volta de 20:45h, e no caminho t�nhamos que passar por Hudson Street, uma rua muito tranq�ila. H� apenas um lampi�o, do lado esquerdo, e quando nos aproxim�vamos dele, vi um homem caminhando na nossa dire��o, costas muito curvadas, e com uma coisa parecida com uma caixa equilibrada sobre um dos ombros. Parecia aleijado, pois mantinha a cabe�a baixa e caminhava de joelhos inclinados. Quando passamos por ele, o homem ergueu a cabe�a para nos olhar � luz do lampi�o, parou e gritou com uma voz assustadora: �Meu Deus, � Nancy!� A sra. Barclay ficou extremamente p�lida e teria ca�do se aquela criatura horr�vel n�o a tivesse segurado. Eu ia chamar a pol�cia quando ela, para minha surpresa, dirigiu-se ao sujeito em tom polido. �Pensei que tivesse morrido h� trinta anos, Henry�, disse com voz tr�mula. �E estive morto�, respondeu, e era horr�vel ouvir o tom de sua voz.</p><p>� �Tinha o rosto muito moreno, assustador, e olhos brilhantes que me aparecem em sonhos. Os cabelos e as su��as eram grisalhos, e a pele, muito marcada de rugas como uma ma�� murcha.�V� andando um pouco, meu bem�, disse a sra. Barclay. �Quero falar com este homem. N�o h� nada a temer.�</p><p>� �Tentava falar com serenidade, mas continuava extremamente p�lida e mal conseguia articular as palavras, t�o tr�mulos estavam seus l�bios.</p><p>� �Fiz o que ela pediu e os dois conversaram durante alguns minutos. Em seguida, ela desceu a rua de olhos faiscantes e vi o aleijado de p�, junto ao lampi�o, sacudindo no ar os punhos cerrados, como se estivesse enfurecido. Ela n�o pronunciou nenhuma palavra at� chegarmos � minha porta e ent�o, segurando minha m�o, suplicou que eu n�o contasse a ningu�m o que se passara. �� um velho conhecido meu que decaiu na vida�, ela disse. Quando prometi que n�o contaria nada, ela me beijou e depois disso n�o tornei a v�-la. Contei toda a verdade e se n�o a revelei � pol�cia, foi por n�o ter percebido o perigo que corria a minha amiga. Sei que s� pode ser vantajoso para ela que tudo se esclare�a.�</p><p>� Este foi o relato, Watson, e para mim, como pode imaginar, foi como uma luz em noite escura. Tudo o que parecia desconexo antes come�ou logo a ocupar seu lugar verdadeiro, e eu tive um pressentimento sombrio de toda a seq��ncia de acontecimentos. Minha provid�ncia seguinte, � �bvio, foi procurar o homem que tinha impressionado tanto a sra. Barclay. Se ainda estivesse em Aldershot, n�o seria dif�cil encontr�-lo. N�o h� muitos civis ali, e um homem deformado chamaria aten��o. Passei o dia nessa busca e ao anoitecer � ao anoitecer de hoje, Watson � eu o encontrei. Chama-se Henry Wood e mora na rua em que as duas senhoras o encontraram. Est� h� apenas cinco dias no lugar. Fazendo o papel de agente de registros, tive uma conversa muito interessante com a senhoria. O homem � m�gico e ator profissional, e � noite percorre cantinas, onde se exibe. Carrega numa caixa um animal, que parece ter assustado bastante a senhoria. Ela afirma nunca ter visto criatura semelhante. O homem utiliza o animal em algumas das m�gicas, segundo ela contou. Revelou-me tudo isso e tamb�m n�o sabe como o homem consegue viver, de t�o torto que ele �; fala �s vezes numa l�ngua estranha, e nas duas �ltimas noites ela o ouviu gemer e chorar no quarto. Aparentemente tinha dinheiro, mas o dep�sito que pagou inclu�a o que ela achou que era um florim falso. Mostrou-me a moeda, Watson. Era uma rupia indiana.</p><p>� Agora, meu caro amigo, voc� sabe exatamente em que ponto estamos e por que preciso da sua ajuda. � �bvio que, quando as mulheres se afastaram, o homem as seguiu a dist�ncia e assistiu � briga entre marido e mulher pela janela. Depois, entrou na sala e o animal que ele levava na caixa soltou-se. Tudo isto � certo. Mas ele � a �nica pessoa neste mundo capaz de contar exatamente o que aconteceu naquela sala.</p><p>� E voc� pretende interrog�-lo?</p><p>� Certamente... mas na presen�a de uma testemunha.</p><p>� E sou eu a testemunha?</p><p>� Se quiser ter a bondade... Caso o homem seja capaz de esclarecer a quest�o, tudo bem. Se ele se recusar, n�o temos alternativa a n�o ser pedir um mandado de pris�o.</p><p>� Mas como sabe que ele estar� l� quando chegarmos?</p><p>� Tomei certas precau��es. Deixei de guarda um dos meus rapazes de Baker Street. Algu�m que n�o o perder� de vista um instante, para onde quer que ele v�. N�s o encontraremos em Hudson Street amanh�, Watson. Entretanto, eu mesmo seria um criminoso se o impedisse de dormir por mais tempo.</p><p>Era meio-dia quando chegamos ao local da trag�dia e, sob a orienta��o de meu amigo, fomos para Hudson Street. Apesar de sua capacidade de ocultar as emo��es, eu percebia que Holmes estava numa excita��o contida e eu mesmo vibrava com aquele prazer meio esportivo, meio intelectual que invariavelmente sentia quando participava das suas investiga��es.</p><p>� � esta a rua � disse, enveredando por uma ruazinha curta, de casas modestas de dois andares e fachadas de tijolos. � Ah, a� vem Simpson para fazer seu relat�rio.</p><p>� Ele est� em casa, sr. Holmes � anunciou um pequeno �rabe, correndo ao nosso encontro.</p><p>� �timo, Simpson! � aprovou Holmes, dando-lhe um tapinha na cabe�a. � Vamos, Watson. A casa � esta.</p><p>E enviou seu cart�o com o recado de que se tratava de assunto importante. Alguns minutos depois est�vamos diante do homem que procur�vamos. Apesar do dia quente, ele se inclinava sobre o fogo e o quarto min�sculo parecia um forno. Sentado numa cadeira, completamente torto e encolhido, dava uma indescrit�vel impress�o de deformidade, mas o rosto que virou na nossa dire��o, embora moreno e abatido, devia ter sido de uma beleza excepcional. Olhou-nos desconfiado, com olhos amarelados, e sem falar ou levantar-se, fez um gesto indicando duas cadeiras.</p><p>� Sr. Henry Wood, que residia na �ndia, eu creio � disse Holmes, am�vel. � Vim falar a respeito da morte do coronel Barclay.</p><p>� E o que eu saberia a respeito?</p><p>� � o que quero verificar. Deve saber que, se o caso n�o for esclarecido, a sra. Barclay, velha amiga sua, ser� provavelmente julgada por homic�dio.</p><p>O homem estremeceu violentamente.</p><p>� N�o sei quem �, nem como chegou a saber disso, mas jura que � verdade o que est� dizendo?</p><p>� Est�o apenas esperando que ela volte a si para prend�-la.</p><p>� Meu Deus! � da pol�cia?</p><p>� N�o.</p><p>� Ent�o o que � que o senhor teve com este caso?</p><p>� � dever de todos zelar para que a justi�a seja feita.</p><p>� Juro que ela � inocente.</p><p>� Ent�o o culpado � o senhor?</p><p>� N�o, n�o sou.</p><p>� Quem matou o coronel James Barclay?</p><p>� Foi a justi�a divina que o matou. Mas saiba que se eu lhe tivesse estourado os miolos, como tinha inten��o de fazer, ele receberia de minhas m�os apenas aquilo que merecia. Se a pr�pria consci�ncia culpada n�o o tivesse abatido, � bem prov�vel que seu sangue me pesasse sobre a alma. Quer que eu conte a hist�ria? N�o vejo por que n�o deveria, j� que n�o tenho motivos para me envergonhar.</p><p>� Foi assim, senhor. Como v�, agora tenho costas de camelo e costelas completamente tortas, mas houve um tempo em que o cabo Henry Wood era o homem mais elegante do 117o de Infantaria. Est�vamos na �ndia, acantonados, num lugar chamado Bhurtee. Barclay, que morreu h� dias, era sargento da minha companhia. E a estrela do regimento, a mo�a mais bela que j� viveu sobre a terra, era Nancy Devoy, filha do sargento mesti�o. Dois homens a amavam e ela amava um deles. S�o capazes de rir ao olhar para esta pobre coisa agachada diante do fogo e ouvi-la dizer que era a mim que ela amava, por minha bela apar�ncia.</p><p>� Embora o cora��o dela fosse meu, o pai estava decidido a cas�-la com Barclay. Eu era um rapaz irrespons�vel, imprudente, e ele tivera uma forma��o e j� estava destinado � carreira militar. Mas a mo�a conservou-se fiel a mim e parecia que eu a teria para mim, quando estourou o Motim e o pa�s virou um inferno.</p><p>� Nosso regimento estava isolado em Bhurtee, com meia bateria de artilharia, uma companhia de Sikhs e uma por��o de civis, inclusive mulheres. Dez mil rebeldes nos cercavam, alertas como um bando de em volta de uma ratoeira. Na segunda semana, a �gua acabou e era uma quest�o de vida ou morte entrarmos em contato com a coluna do general Neill, que avan�ava para o norte. Era a nossa �nica chance, porque n�o havia possibilidade de abrir caminho � for�a com mulheres e crian�as. Ofereci-me como volunt�rio para avisar o general Neill do perigo que corr�amos. Minha proposta foi aceita e eu conversei a respeito com o sargento Barclay, considerado o melhor conhecedor do terreno. Ele tra�ou um caminho que me permitiria passar pelas linhas rebeldes. �s 22 horas daquela noite parti em miss�o.Tinha mil vidas a salvar, mas eu s� pensava em uma pessoa quando saltei a muralha depois do anoitecer.</p><p>� O caminho passava por um rio seco e esper�vamos que ele me protegesse das sentinelas inimigas. Mas, ao completar uma curva de rastros, ca� no meio de um grupo de seis rebeldes que estava � minha espera na escurid�o. No mesmo instante recebi um golpe na cabe�a, fiquei atordoado, e amarraram meus p�s e m�os. Mas o pior golpe foi vibrado no meu cora��o, ao recuperar os sentidos e ouvir o suficiente para saber que meu camarada, o pr�prio homem que tra�ara o caminho, me tra�ra por interm�dio de um criado nativo, entregando-me ao inimigo.</p><p>� Bem, n�o preciso me estender nesta parte da hist�ria. Sabem agora do que James Barclay era capaz. Bhurtee foi salvo por Neill no dia seguinte, mas os rebeldes levaram-me para seu ref�gio e passei longos anos sem ver um rosto branco. Era torturado e tentava fugir, eles me recapturavam e novamente me torturavam. Podem ver o estado em que me deixaram. Um grupo que fugiu para o Nepal carregou-me e passei ent�o por Darjeeling, onde os montanheses da regi�o assassinaram os rebeldes que me mantinham prisioneiro. Tornei-me escravo deles at� conseguir escapar. Mas, em vez de seguir para o sul, tive de ir para o norte, at� que me encontrei entre afeg�os. Vaguei por ali durante v�rios anos, at� finalmente voltar a Punjab, onde vivi entre os nativos e aprendi a me sustentar com as m�gicas que tinha aprendido. Que utilidade teria para mim, um infeliz aleijado, voltar � Inglaterra, ou procurar os meus antigos camaradas? Nem mesmo o desejo de vingan�a me levaria a isso. Preferia que Nancy e meus companheiros pensassem que Henry Wood havia morrido de p� a que me vissem arrastar-me apoiado num graveto, como um chimpanz�. Ningu�m duvidou que eu estivesse morto e era isso o que eu desejava. Soube que Barclay havia se casado com Nancy e que estava sendo promovido rapidamente no regimento, mas nem isso fez com que eu me manifestasse.</p><p>� A velhice traz a saudade da p�tria. Passei anos sonhando com os campos verdes e as colinas da Inglaterra. Finalmente decidi rev�-los antes de morrer. Economizei o suficiente para a passagem e vim para onde se encontram soldados, pois conhe�o a sua maneira de ser, sei diverti-los, ganhando assim o suficiente para me sustentar.</p><p>� Sua narrativa � muito interessante � disse Sherlock Holmes. � J� soube de seu encontro com a sra. Barclay e que os dois se reconheceram. Suponho que a tenha seguido at� em casa e assistido pela janela � alterca��o com o marido, durante a qual ela deve t�-lo acusado de trair o senhor. Dominado pelos sentimentos, atravessou correndo o gramado e irrompeu na sala.</p><p>� Foi o que fiz. E quando me viu, ele ficou com uma express�o que eu nunca tinha visto em homem nenhum e caiu, batendo com a cabe�a na guarda da lareira. Mas j� estava morto quando caiu. Li a morte no seu rosto com a nitidez com que leio aquele texto sobre a lareira. A minha simples presen�a foi como um tiro no seu cora��o culpado.</p><p>� E depois?</p><p>� Nancy desmaiou e eu peguei a chave que ela segurava, com a inten��o de abrir a porta e pedir socorro. Mas naquele momento achei melhor deixar a situa��o como estava e fugir, pois tudo se voltaria contra mim e meu segredo viria � tona se me prendessem. Na pressa, guardei a chave no bolso e deixei cair a bengala enquanto perseguia Teddy, que escapara da caixa e subira pela cortina. Assim que consegui prend�-lo de novo, fugi o mais depressa poss�vel.</p><p>� Quem � Teddy? � perguntou Holmes.</p><p>Inclinando-se, o homem ergueu a parte dianteira de uma esp�cie de gaiola que estava num canto. No mesmo instante saltou para fora um belo animal de p�lo marrom avermelhado, esguio e �gil, com pernas de arminho, longo bico fino e os mais lindos olhos vermelhos que j� vi num animal.</p><p>� � um mangusto! � exclamei.</p><p>� H� quem o chame assim e h� quem o chame de � disse o homem. � Apanhador de serpentes � como eu o chamo. Teddy � espantosamente r�pido com as cobras. Tenho uma aqui sem as presas e Teddy a agarra todas as noites para divertir o pessoal nas cantinas. Quer saber mais alguma coisa, senhor?</p><p>� Talvez seja preciso recorrer novamente ao senhor se a sra. Barclay estiver em s�rias complica��es.</p><p>� Neste caso, eu me apresentarei, � claro.</p><p>� Mas, do contr�rio, n�o h� necessidade de reavivar esse esc�ndalo que envolve um morto, por mais desprez�vel que tenha sido o seu modo de agir. O senhor teve pelo menos a satisfa��o de saber que durante trinta anos a consci�ncia o censurou amargamente. Ah, l� vai o major Murphy do outro lado da rua. Adeus, Wood. Quero saber se aconteceu alguma coisa de ontem para hoje.</p><p>Conseguimos alcan�ar o major antes que ele chegasse � esquina.</p><p>� Ol�, Holmes! Deve ter sabido que toda essa confus�o deu em nada.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� O inqu�rito est� encerrado. O laudo m�dico demonstrou de modo conclusivo que a morte foi causada por apoplexia. Um caso muito simples, afinal.</p><p>� Bastante superficial � disse Holmes, sorrindo. � Vamos, Watson. Creio que n�o precisam mais de n�s em Aldershot.</p><p>A caminho da esta��o, observei:</p><p>� H� um detalhe que n�o entendi. Se o nome do marido era James e o do outro era Henry, quem era esse tal David?</p><p>� Essa palavra, meu caro Watson, poderia ter me revelado toda a hist�ria se eu fosse o raciocinador ideal que voc� gosta tanto de descrever. Evidentemente, tratava-se de uma censura.</p><p>� Censura?</p><p>� Sim. David sa�a do bom caminho de vez em quando, como sabe, e em certa ocasi�o seguiu o mesmo rumo do sargento James Barclay. Lembra-se daquele caso de Uriah e Betsab�? Meus conhecimentos b�blicos est�o um tanto enferrujados, mas voc� encontrar� a hist�ria no primeiro ou no segundo cap�tulo de Samuel.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o paciente interno</strong></p><p>Ao rever a s�rie um tarto incoerente de recorda��es com que tentei ilustrar algumas das peculiaridades intelectuais do meu amigo Sherlock Holmes, fiquei impressionado com a dificuldade que tive para escolher exemplos que correspondessem em todos os sentidos ao meu objetivo. Porque nos casos em que Holmes fez um de racioc�nio anal�tico e demonstrou o valor dos seus m�todos peculiares de investiga��o, os pr�prios fatos quase sempre revelaram-se t�o t�nues ou vulgares que eu n�o teria a justificativa para apresent�-los ao p�blico. Por outro lado, houve casos freq�entes em que Holmes se envolveu em alguma pesquisa em que os fatos tinham caracter�sticas extraordin�rias e dram�ticas, mas sua participa��o na determina��o das causas foi menos marcante do que eu, como seu bi�grafo, desejaria. O epis�dio que registrei com o t�tulo de e outro mais tarde ligado � perda do� servem como exemplos de Cila e Caribdes, que vivem amea�ando o historiador. � poss�vel que, no caso que me disponho a relatar agora, o papel desempenhado pelo meu amigo n�o tenha sido suficientemente relevante, mas todo o encadeamento de circunst�ncias � t�o extraordin�rio que n�o posso omiti-lo nesta s�rie.</p><p>Era um dia abafado e chuvoso de agosto. As venezianas estavam descidas at� o meio e Holmes se achava enroscado no sof�, lendo e relendo uma carta recebida pela manh�. Quanto a mim, o servi�o na �ndia me ensinara a suportar melhor o calor do que o frio, e uma temperatura de 32� n�o representava nenhum sacrif�cio. Mas o jornal n�o tinha nada de interessante. O Parlamento estava em recesso. Todo mundo havia sa�do da cidade e eu ansiava pelos prados de New Forest ou pelas praias de Southsea. A conta banc�ria em baixa me for�ara a adiar as f�rias. Quanto ao meu amigo, nem o campo nem o mar tinham qualquer atrativo para ele. Adorava estar bem no meio de uma popula��o de 5 milh�es de pessoas, com seus filamentos estendendo-se em todas as dire��es, ligado a qualquer boato ou suspeita de crime n�o solucionado. Apreciar a natureza era uma coisa que n�o estava entre os seus muitos talentos e s� mudava de cen�rio quando desviava sua aten��o de um criminoso da cidade para seguir a pista de outro do campo.</p><p>Percebendo que Holmes estava absorto demais para conversar, deixei de lado o jornal sem interesse e, reclinando-me na poltrona, mergulhei em divaga��es. De repente, a voz do meu amigo interrompeu o meu devaneio.</p><p>� Voc� tem raz�o, Watson. Parece um meio bastante absurdo de resolver a quest�o.</p><p>� Muito absurdo! � exclamei, e percebi de repente que ele havia captado meu pensamento mais �ntimo.</p><p>Retesei-me na cadeira e olhei espantado para ele.</p><p>� Que hist�ria � essa, Holmes? Isto ultrapassa tudo o que eu poderia imaginar.</p><p>Ele deu uma boa risada diante da minha perplexidade.</p><p>� Deve lembrar que algum tempo atr�s, quando li para voc� um trecho de Poe, no qual um raciocinador acompanha os pensamentos n�o expressos de seu companheiro, voc� achou que devia considerar o caso um simples do autor. Quando comentei que tinha o h�bito de fazer a mesma coisa, voc� se mostrou incr�dulo.</p><p>� N�o!</p><p>� Talvez n�o com palavras, meu caro Watson, mas sem d�vida com as sobrancelhas. Quando o vi atirar o jornal no ch�o e mergulhar em medita��o, fiquei feliz com a oportunidade de capt�-la e, finalmente, interromp�-la, provando que estava em sintonia com voc�.</p><p>Mas eu estava longe de me satisfazer com isso.</p><p>� No exemplo que voc� leu para mim � eu disse � a pessoa que fazia dedu��es tirava conclus�es dos atos da pessoa observada. Se me lembro bem, ele trope�ou num monte de pedras, olhou para as estrelas etc. Mas eu estou sentado, quieto, nesta cadeira. Que pistas posso ter fornecido?</p><p>� Voc� est� sendo injusto consigo mesmo. A fisionomia � um meio de que o homem disp�e para expressar as emo��es, e a sua � um servo fiel.</p><p>� Quer dizer que leu meus pensamentos baseado na minha fisionomia?</p><p>� Seus olhos, principalmente. Talvez n�o recorde como teve in�cio o devaneio.</p><p>� N�o, n�o recordo.</p><p>� Ent�o vou dizer. Depois de jogar o jornal para o lado, gesto que atraiu a minha aten��o, ficou sentado meio minuto, sem express�o. Ent�o olhou para o quadro rec�m-emoldurado do general Gordon e vi pela altera��o nos tra�os que voc� havia iniciado uma linha de pensamentos. Mas estes n�o foram muito longe. Seus olhos voltaram-se para o retrato sem moldura de Henry Ward Beecher, que est� sobre seus livros. Olhou ent�o para o alto da parede e sua inten��o era �bvia. Pensou que se o retrato estivesse emoldurado, cobriria aquele espa�o vazio correspondente ao retrato de Gordon, ali adiante.</p><p>� Voc� me acompanhou maravilhosamente! � exclamei.</p><p>� At� a� seria dif�cil errar. Mas seus pensamentos voltaram a Beecher e voc� o olhou com aten��o, como se estudasse o car�ter estampado na fisionomia. E ent�o franziu as p�lpebras, continuando a olhar firme, ar pensativo. Recordava os incidentes da carreira de Beecher. Eu sabia muito bem que voc� seria incapaz de fazer isso sem pensar na miss�o que ele empreendeu a favor do norte, durante a Guerra Civil, porque lembro-me de t�-lo ouvido manifestar profunda indigna��o pela maneira como ele foi recebido pelas camadas mais turbulentas do nosso povo. Voc� tinha sentimentos t�o exaltados sobre isso que eu sabia que n�o pensaria em Beecher sem se lembrar disso tamb�m. Quando, instantes depois, vi seus olhos se afastarem do quadro, suspeitei que sua mente se voltara para a Guerra Civil e, ao observar-lhe o tra�o severo dos l�bios, os olhos brilhantes e as m�os contra�das, tive certeza de que estava pensando na valentia demonstrada pelas duas fac��es naquela luta desesperada. Mas, em seguida, voc� ficou triste, sacudiu a cabe�a. Estava pensando nos sofrimentos, no horror e no desperd�cio de vidas. Sua m�o deslizou at� o antigo ferimento e um sorriso surgiu nos seus l�bios, o que indicou que voc� estava pensando no lado rid�culo desse m�todo de resolver quest�es internacionais. A essa altura, concordei com voc� que era absurdo, e tive o prazer de descobrir que minhas dedu��es estavam corretas.</p><p>� Totalmente! E, embora voc� tenha explicado, confesso que continuo t�o abismado quanto antes.</p><p>� Foi muito superficial, meu caro Watson, asseguro-lhe. Eu n�o me intrometeria, chamando sua aten��o, se voc� n�o tivesse revelado certa incredulidade no outro dia. Mas a noite trouxe uma brisa. O que diz de um passeio por Londres?</p><p>Eu estava cansado da nossa sala acanhada e concordei com prazer. Durante tr�s horas passeamos juntos, observando o eterno caleidosc�pio da vida que flu�a e reflu�a em Fleet Street e no Strand. A conversa caracter�stica de Holmes, com sua atenta observa��o de detalhes e sutil capacidade de dedu��o, me divertiu e me fascinou.</p><p>Eram 22 horas quando voltamos a Baker Street. Uma carruagem esperava � nossa porta.</p><p>� Hum! Carruagem de m�dico. Cl�nico geral, pelo que vejo � observou Holmes. � N�o clinica h� muito tempo, mas tem tido muito trabalho. Veio consultar-nos, eu imagino! Ainda bem que estamos de volta!</p><p>Eu tinha bastante conhecimento dos m�todos de Holmes para acompanhar seu racioc�nio e verificar que a natureza e o estado dos v�rios instrumentos m�dicos na cesta de vime que pendia da lanterna no interior do ve�culo haviam fornecido os detalhes para a r�pida dedu��o. A luz na nossa janela indicava que o visitante tardio era, de fato, para n�s. Curioso para saber o que teria levado um colega de profiss�o � nossa casa a essa hora, acompanhei Holmes at� a sala.</p><p>Um homem p�lido, de rosto comprido e su��as louras, levantou-se da poltrona junto � lareira quando entramos. N�o devia ter mais de 33 ou 34 anos, mas a express�o abatida e a cor doentia da pele revelavam uma vida que havia solapado suas for�as, roubando-lhe a juventude. Tinha um jeito nervoso e t�mido, como o de uma pessoa sens�vel. A m�o branca e magra que apoiou na lareira ao levantar-se era mais de um artista que de um cirurgi�o. Vestia-se com discri��o em tons escuros � casaca preta, cal�a cinzenta, com um toque de cor na gravata.</p><p>� Boa-noite, doutor � disse Holmes amavelmente. � Ainda bem que est� esperando h� poucos minutos apenas.</p><p>� Ent�o falou com o cocheiro?</p><p>� N�o, a vela da mesinha me mostrou. Sente-se, por favor, e diga em que posso servi-lo.</p><p>� Meu nome � dr. Percy Trevelyan e moro em Brook Street, 403.</p><p>� N�o � o autor de uma monografia sobre les�es nervosas obscuras? � eu perguntei.</p><p>Seu rosto p�lido corou de prazer ao verificar que eu conhecia seu trabalho.</p><p>� � t�o raro ouvir falar neste trabalho que achei que ele estava completamente esquecido. Os editores me deram informa��es desanimadoras sobre as vendas. Suponho que seja m�dico.</p><p>� Cirurgi�o aposentado do Ex�rcito.</p><p>� Meu sempre foram as doen�as nervosas. Gostaria de transform�-lo numa especialidade exclusiva, mas � claro que de in�cio � preciso aceitar o que aparece. Mas isto n�o vem ao caso, sr. Sherlock Holmes. Sei que seu tempo � precioso. O fato � que uma seq��ncia de acontecimentos muito estranhos vem ocorrendo ultimamente na minha casa, em Brook Street, e esta noite eles chegaram a tal ponto que achei imposs�vel esperar mais tempo para pedir seu conselho e sua ajuda.</p><p>Sherlock Holmes sentou-se e acendeu o cachimbo.</p><p>� Pode dispor de ambos. Fa�a um relato detalhado dos fatos que o perturbaram, por favor.</p><p>� Um ou dois s�o t�o banais que me envergonho de mencion�-los � respondeu o dr. Trevelyan. � Mas o caso � t�o inexplic�vel e o aspecto que assumiu recentemente � t�o complicado que contarei tudo, e ent�o avaliar� o que � essencial e o que n�o �.</p><p>� Sou obrigado, para come�ar, a falar um pouco a respeito de meus estudos universit�rios. Estudei na Universidade de Londres e espero que n�o pense que estou me gabando indevidamente se disser que minha carreira de estudante foi considerada pelos professores bastante promissora. Depois de me formar, continuei a dedicar-me � pesquisa, ocupando uma fun��o secund�ria no King�s College Hospital. Tive a sorte de atrair bastante interesse com minha pesquisa sobre a patologia da catalepsia, e finalmente conquistando o pr�mio Bruce Pinkerton e uma medalha pela monografia sobre les�es nervosas, � qual o seu amigo acaba de aludir. N�o estarei exagerando se disser que, na �poca, era opini�o geral que eu faria uma bela carreira.</p><p>� Mas o grande obst�culo era a falta de capital. Compreender�o logo que um especialista de objetivos elevados � obrigado a come�ar numa das ruas de Cavendish Square, pagando alugu�is caros e despesas de instala��o. Al�m dessa despesa preliminar, precisar� manter-se durante alguns anos e alugar carruagem e cavalo apresent�veis. Tudo isso estava al�m das minhas possibilidades. Limitava-me a esperar que, fazendo economia, em dez anos eu teria o suficiente para montar a cl�nica desejada. Mas, de repente, um incidente inesperado abriu-me novas perspectivas.</p><p>� Trata-se da visita de um cavalheiro chamado Blessington, que me era completamente desconhecido. Entrou na minha sala certa manh� e foi direto ao assunto.</p><p>� �� Percy Trevelyan, que fez uma carreira t�o destacada e ganhou um pr�mio recentemente?�</p><p>� Respondi que sim.</p><p>� �Responda com franqueza�, ele continuou, �pois descobrir� que � do seu interesse. Tem intelig�ncia para fazer sucesso. Mas tem tato tamb�m?�</p><p>� N�o pude deixar de sorrir diante daquela pergunta inesperada.</p><p>� �Espero ter o suficiente.�</p><p>� �Maus h�bitos? Inclina��o para a bebida?�</p><p>� �Ora, meu senhor!�, exclamei.</p><p>� �Tem raz�o! N�o se preocupe, mas eu precisava perguntar. Com todas essas qualidades, por que n�o est� clinicando?�</p><p>� Dei de ombros.</p><p>� �Vamos, fale!�, disse, com sua maneira expansiva. �� a velha hist�ria. Muita intelig�ncia e pouco dinheiro, n�o �? O que diria se eu o fizesse come�ar em Brook Street?�</p><p>� Olhei para ele , espantado.</p><p>� �� em meu benef�cio, n�o no seu!�, exclamou. �Falarei com toda a franqueza e, se lhe convier, para mim ser� �timo. Tenho alguns milhares para investir e decidi faz�-lo na sua pessoa.�</p><p>� �Mas por qu�?�</p><p>� �� como qualquer outra especula��o e mais segura que a maioria.�</p><p>� �O que � que eu devo fazer, neste caso?�</p><p>� �Digo j�. Eu alugo a casa, providencio as instala��es, pago os criados e administro tudo. De sua parte, basta ocupar a cadeira do consult�rio. Eu lhe darei dinheiro para as despesas e tudo o mais. Depois me dar� 3/4 do que ganhar e ficar� com 1/4 para si mesmo.�</p><p>� Foi esta a estranha proposta que me apresentou o homem chamado Blessington, sr. Holmes. N�o pretendo cans�-lo com o relato da negocia��o. A hist�ria terminou com a minha mudan�a para a casa no ,* e ali comecei a clinicar nas condi��es que ele havia sugerido. Ele veio morar comigo na condi��o de paciente interno. Tinha o cora��o fraco e precisava de acompanhamento m�dico constante. Transformou as duas melhores pe�as do primeiro andar em sala e quarto para ele. Era um homem de h�bitos singulares, n�o gostava de visitas e raramente sa�a. Apesar da vida irregular, em certo sentido era a pr�pria regularidade. Todas as noites, � mesma hora, entrava no consult�rio, examinava os livros, separava 5 xelins e 3 pence de cada libra que eu ganhava e levava o restante para o cofre que havia no seu quarto.</p><p>� Posso afirmar que ele nunca teve motivo para lamentar a especula��o. Desde o in�cio foi um sucesso. Alguns casos bons e a reputa��o que eu havia adquirido no hospital produziram �xito imediato e nos �ltimos dois anos eu o tornei um homem rico.</p><p>� Narrei minha hist�ria e minhas rela��es com o sr. Blessington. S� falta contar o que aconteceu para me trazer aqui esta noite.</p><p>� Algumas semanas atr�s, o sr. Blessington veio me procurar aparentemente muito agitado. Falou de um roubo que teria ocorrido no West End e, lembro-me bem, estava desnecessariamente agitado, afirmando que naquele dia mesmo mandaria colocar fechaduras mais resistentes nas portas e janelas. Passou uma semana nesse estranho estado de agita��o, olhando constantemente pelas janelas e deixando de fazer o curto passeio que em geral precedia o seu jantar. Tive a impress�o de que estava mortalmente apavorado com algu�m ou alguma coisa, mas quando o interroguei a respeito, mostrou-se t�o grosseiro que fui obrigado a mudar de assunto. Com o passar dos dias, o temor come�ou a diminuir, e ele j� voltara aos antigos h�bitos, quando um novo acontecimento deixou-o no estado de prostra��o em que est� agora.</p><p>Aconteceu o seguinte. H� dois dias recebi a carta que vou ler. N�o trazia data nem endere�o.</p><empty-line/><p><emphasis>Um nobre russo, atualmente residindo na Inglaterra, gostaria de solicitar a aten��o profissional do dr. Percy Trevelyan. H� anos � v�tima de ataques de catalepsia, mal em que o dr. Trevelyan � uma autoridade reconhecida. Ele pretende visit�-lo amanh�, �s 18:15h,� caso o dr. Trevelyan julgue de sua conveni�ncia.</emphasis></p><empty-line/><p>� A carta interessou-me profundamente porque a principal dificuldade no estudo da catalepsia � a raridade da doen�a. Podem compreender por que eu estava no consult�rio na hora marcada, quando o assistente mandou o paciente entrar.</p><p>� Era um homem idoso, magro, quieto e vulgar. N�o correspondia de maneira alguma � id�ia que geralmente se faz de um nobre russo. Fiquei ainda mais impressionado com a apar�ncia de seu companheiro. Era um rapaz alto e de bela figura, fisionomia agressiva e fechada, torso e membros de um H�rcules. Segurava o bra�o do outro quando entraram e ajudou-o a sentar-se numa cadeira com cuidados que n�o eram de se esperar em algu�m com aquela apar�ncia.</p><p>� �Perdoe a minha presen�a, doutor�,� disse com ligeiro sotaque. �Este � meu pai e sua sa�de � motivo de grande preocupa��o para mim.�</p><p>� Fiquei comovido com aquela ansiedade filial.</p><p>� �Gostaria de assistir � consulta?�, perguntei.</p><p>� �De modo algum!�, exclamou, com um gesto de horror. �� muito penoso para mim. Se assistisse a mais um ataque de meu pai, tenho certeza de que eu n�o sobreviveria a ele. Meu sistema nervoso � excepcionalmente sens�vel. Com sua permiss�o, ficarei na sala de espera enquanto o examina.�</p><p>� Concordei, naturalmente, e o rapaz se retirou. O paciente e eu mergulhamos no debate do seu caso, enquanto eu fazia anota��es minuciosas. Ele n�o brilhava pela intelig�ncia e suas respostas eram �s vezes obscuras, o que atribu� ao limitado conhecimento do nosso idioma. De repente, enquanto eu escrevia, ele deixou de responder �s minhas perguntas e, ao erguer a cabe�a, tive um choque ao v�-lo sentado muito teso na cadeira, com express�o totalmente vazia e fei��es r�gidas. Estava sofrendo um ataque da sua misteriosa doen�a.</p><p>� Meu primeiro impulso, como acabo de dizer, foi de compaix�o e horror. O segundo, lamento dizer, foi de satisfa��o profissional. Verifiquei a pulsa��o e a temperatura do paciente, testei a rigidez muscular e os reflexos. Nada havia de pronunciadamente excepcional em qualquer desses aspectos, o que estava de acordo com minha experi�ncia pr�via. Eu havia obtido bons resultados em casos assim com a inala��o de nitrato de amido, e aquela oportunidade parecia excelente para testar as suas virtudes. O vidro estava no laborat�rio, de modo que deixei o paciente sentado na cadeira e corri para busc�-lo. Levei algum tempo para encontr�-lo, talvez uns cinco minutos � e ent�o voltei ao consult�rio. Imaginem o meu espanto ao encontrar a sala vazia. O paciente havia desaparecido!</p><p>� Claro que meu primeiro impulso foi correr � sala de espera. O filho tamb�m havia desaparecido. A porta que dava para o vest�bulo estava fechada, mas n�o trancada. Meu ajudante � um rapazinho novo e nem um pouco brilhante. Espera embaixo e sobe correndo a escada para levar os clientes at� a porta quando toco a campainha no consult�rio. Ele n�o tinha ouvido nada e o caso virou um verdadeiro mist�rio. O sr. Blessington voltou do passeio pouco depois, mas n�o contei o que havia acontecido; para falar a verdade, habituei-me ultimamente a me comunicar o menos poss�vel com ele.</p><p>� Bem, pensei que n�o tornaria a ver o russo e o filho. Imaginem a minha surpresa quando na tarde de hoje, � mesma hora, os dois entraram no meu consult�rio, exatamente como haviam feito na v�spera.</p><p>� �Devo-lhe mil desculpas pelo desaparecimento repentino de ontem, doutor�, disse o paciente.</p><p>� �Confesso que fiquei bastante surpreso�,� repliquei.</p><p>� �O fato � que quando me recupero desses ataques, nunca me lembro do que aconteceu antes. Quando voltei a mim, achei que estava numa sala estranha e sa� para a rua meio tonto na hora em que o senhor estava ausente.�</p><p>� �E eu, vendo meu pai sair do consult�rio, pensei que a consulta tinha terminado. S� quando chegamos a casa, percebi o que havia acontecido.�</p><p>� �N�o houve problema, exceto o fato de terem me deixado bastante intrigado�, eu disse, rindo. �Se quiser ter a bondade de se retirar para a sala de espera, continuarei a nossa consulta, que foi interrompida de modo t�o brusco.�</p><p>� Durante cerca de meia hora discuti os sintomas com o paciente e, depois de prescrever um rem�dio, eu o vi sair apoiado no bra�o do filho.</p><p>� J� contei que o sr. Blessington costuma fazer um passeio a essa hora. Ele chegou pouco depois e subiu. Logo em seguida desceu correndo e entrou no consult�rio como um louco.</p><p>� �Quem esteve no meu quarto?�, gritou.</p><p>� �Ningu�m�, eu respondi.</p><p>� �Mentira! Suba e veja!�</p><p>Ignorei a grosseria das suas palavras porque ele parecia estar transtornado de medo. Quando sub�amos, ele apontou v�rias pegadas no tapete claro.</p><p>� �Pretende dizer que essas pegadas s�o minhas?�,� gritou.</p><p>� Eram bem maiores que as dele e bastante recentes. Choveu forte � tarde, como sabem, e os dois pacientes eram as �nicas pessoas que haviam entrado em casa. Era poss�vel que o homem que ficara na sala de espera, por algum motivo, enquanto eu estava ocupado com o pai, tivesse subido ao quarto do meu paciente interno. Nada fora tocado ou roubado, mas as pegadas provavam que a intromiss�o era um fato ineg�vel.</p><p>� O sr. Blessington est� mais abalado com o caso do que me parece razo�vel, embora o assunto seja suficientemente desagrad�vel para abalar a tranq�ilidade de qualquer um. Sentou-se chorando numa poltrona e mal consegui que falasse alguma coisa coerente. Por sugest�o dele recorri ao senhor, e percebi logo a conveni�ncia disso, porque o incidente era muito estranho, embora ele pare�a estar exagerando a sua import�ncia. Se quiserem ir na minha carruagem, poder�o ao menos tranq�iliz�-lo, ainda que dificilmente se possa esperar que expliquem esse fato extraordin�rio.</p><p>Sherlock Holmes escutou a longa narrativa com uma aten��o que mostrava estar profundamente interessado. Sua express�o continuava imperturb�vel, como sempre, mas as p�lpebras ca�am mais pesadas sobre os olhos, a fuma�a enroscava-se mais espessa ao sair do cachimbo, sublinhando cada um dos estranhos epis�dios da narrativa do m�dico. Quando o nosso visitante terminou, Holmes levantou-se sem uma palavra, entregou-me o meu chap�u, apanhou o dele, que estava sobre a mesa, e sa�mos junto com o dr. Trevelyan. Quinze minutos depois salt�vamos diante da resid�ncia do m�dico, em Brook Street, uma daquelas constru��es sombrias, de fachada lisa, que costumamos associar a uma cl�nica do West End. Um rapazinho abriu a porta para n�s e subimos a escada ampla e bem atapetada.</p><p>Mas uma interrup��o estranha nos deixou im�veis. A luz do alto da escada apagou-se de repente e na escurid�o ouvimos uma voz tr�mula gritar:</p><p>� Estou com uma pistola e juro que vou disparar se insistirem em subir!</p><p>� Isto � um absurdo, sr. Blessington! � gritou o dr. Trevelyan.</p><p>� Ah, � o doutor? � disse a voz, num arquejo de al�vio. � Mas os outros senhores s�o de fato quem dizem ser?</p><p>Percebemos que, do escuro, ele nos observava atentamente.</p><p>� Sim, sim, est� bem � disse a voz finalmente. � Podem subir e perdoem as minhas precau��es.</p><p>Ele tornou a acender a l�mpada a g�s que iluminava a escada e n�s nos vimos diante de um homem estranho, cuja apar�ncia e voz revelavam extremo abalo nervoso. Era muito gordo, mas aparentemente j� fora mais, porque a pele pendia do rosto em bolsas fl�cidas, lembrando o focinho de um mastim. Sua pele tinha uma cor doentia e o cabelo louro e ralo parecia estar em p� devido � intensidade da emo��o. Empunhava uma pistola, que guardou no bolso quando nos aproximamos.</p><p>� Boa-noite, sr. Holmes � cumprimentou. � Sou muito grato por ter vindo. Ningu�m precisa mais dos seus conselhos do que eu. Suponho que o dr. Trevelyan tenha contado a inexplic�vel invas�o do meu quarto.</p><p>� Exatamente � disse Holmes. � Quem s�o esses dois homens, sr. Blessington, e por que querem prejudic�-lo?</p><p>Nervoso, o paciente interno respondeu:</p><p>� Ora, � dif�cil saber. Como espera que eu responda a uma pergunta dessas, sr. Holmes?</p><p>� Ent�o n�o sabe?</p><p>� Entrem, por favor. Tenham a bondade de entrar.</p><p>E conduziu-nos ao seu quarto, que era amplo e confortavelmente mobiliado.</p><p>� Est�o vendo aquilo? � disse, apontando para uma grande caixa preta aos p�s da cama. � Nunca fui muito rico, sr. Holmes. S� fiz um investimento na vida, como o dr. Trevelyan deve ter contado. N�o acredito em banqueiros. Jamais confiaria num banqueiro, sr. Holmes. Aqui entre n�s, o pouco que tenho est� naquela caixa, de modo que podem imaginar o que significa para mim saber que pessoas desconhecidas invadiram meu quarto.</p><p>Holmes olhou para Blessington com seu jeito interrogativo e meneou a cabe�a.</p><p>� N�o posso dar-lhe nenhum conselho quando tenta me enganar.</p><p>� Mas j� contei tudo.</p><p>Virando-lhe as costas com um gesto de aborrecimento, Holmes disse:</p><p>� Boa-noite, dr. Trevelyan.</p><p>� E n�o vai me dar nenhum conselho? � exclamou Blessington com a voz tr�mula.</p><p>� Meu conselho � que diga a verdade, senhor.</p><p>Um minuto depois est�vamos na rua, voltando a p� para casa. T�nhamos atravessado Oxford Street e est�vamos no meio da Harley Street quando consegui extrair uma palavra do meu amigo.</p><p>� Lamento t�-lo arrastado para esta miss�o idiota, Watson � disse finalmente. � No fundo, � um caso interessante.</p><p>� N�o entendi quase nada � confessei.</p><p>� � evidente que h� dois homens, talvez mais, por�m dois pelo menos, decididos, por algum motivo, a prejudicar esse Blessington. N�o tenho a menor d�vida de que tanto na primeira como na segunda ocasi�o o rapaz entrou no quarto de Blessington, enquanto seu c�mplice, gra�as a um artif�cio engenhoso, impedia o m�dico de interferir.</p><p>� E a catalepsia?</p><p>� Imita��o fraudulenta, Watson, embora eu n�o ouse sugeri-lo ao nosso especialista. � muito f�cil imitar um ataque. Eu mesmo j� o fiz.</p><p>� E depois?</p><p>� Por mero acaso, Blessington havia sa�do nas duas ocasi�es. O motivo da escolha de uma hora t�o ins�lita para a consulta era evidentemente garantir que n�o houvesse outros pacientes na sala de espera. Acontece que o momento coincidiu com a hora do passeio de Blessington, o que demonstra que n�o estavam a par de sua rotina di�ria. � claro que se quisessem apenas roubar, teriam feito ao menos uma tentativa. Al�m do mais, sei ler nos olhos de um homem quando � pela pr�pria vida que ele teme. � inconceb�vel que o sujeito tenha feito sem o saber dois inimigos t�o vingativos. � certo, portanto, que ele sabe quem s�o esses homens, mas se cala por motivos pessoais. � poss�vel que amanh� n�s o encontremos com uma disposi��o mais comunicativa.</p><p>� N�o haver� outra alternativa conceb�vel, por mais grotesca e improv�vel que seja? � sugeri. � A hist�ria do russo que sofre de catalepsia e apareceu acompanhado do filho n�o seria uma inven��o do dr. Trevelyan, que, por motivos pessoais, entrou no quarto de Blessington?</p><p>Vi � luz de um lampi�o que Holmes sorria, divertido com a minha brilhante sugest�o.</p><p>� Meu caro amigo, foi uma das primeiras solu��es que me ocorreram, mas pude comprovar logo a veracidade da hist�ria do m�dico. O rapaz deixou pegadas no tapete da escada, o que me dispensou de pedir para ver as que havia deixado no quarto. Quando lhe disser que os sapatos eram de biqueira quadrada, e n�o pontuda como os de Blessington, e uns 2,5 cent�metros maiores que as do m�dico, perceber� que n�o pode haver d�vidas quanto � identidade. Mas vamos dormir agora, e eu ficarei surpreso se n�o recebermos not�cias de Brook Street pela manh�.</p><p>A profecia de Sherlock Holmes realizou-se logo, e de maneira dram�tica. �s 7:30h seguinte, quando o dia come�ava a clarear, dei com ele ao lado da minha cama, envolto no roup�o.</p><p>� H� uma carruagem � nossa espera, Watson � ele disse.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� O caso de Brook Street.</p><p>� Novidades?</p><p>� Tr�gicas, mas amb�guas � respondeu, erguendo a veneziana. � Veja �, uma folha de bloco de anota��es com um bilhete rabiscado a l�pis: �Pelo amor de Deus, venha imediatamente � P. T.� Nosso amigo, o m�dico, estava em apuros quando escreveu. Vamos, meu caro amigo, porque o chamado � urgente.</p><p>Quinze minutos depois est�vamos novamente na casa do m�dico. Ele veio correndo ao nosso encontro, com uma express�o de horror estampada no rosto.</p><p>� Que coisa horr�vel! � exclamou, levando as m�os �s t�mporas.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� Blessington suicidou-se!</p><p>Holmes assobiou.</p><p>� Enforcou-se durante a noite!</p><p>Seguimos o m�dico e entramos no que, evidentemente, era sua sala de espera.</p><p>� Nem sei direito o que fa�o � disse Trevelyan. � A pol�cia est� l� em cima. Estou profundamente chocado.</p><p>� Quando o encontrou?</p><p>� Ele faz quest�o que lhe levem uma x�cara de ch� de manh� bem cedo. Quando a empregada entrou no quarto, por volta das sete horas, o infeliz estava pendurado no meio do aposento. Amarrou uma corda no gancho de onde pendia um lustre pesado e saltou de cima da caixa que nos mostrou ontem.</p><p>Holmes ficou im�vel por algum tempo, em profunda medita��o.</p><p>� Com sua permiss�o � disse finalmente �, gostaria de subir e examinar o local.</p><p>Subimos os dois, acompanhados pelo m�dico.</p><p>Deparamos com uma cena horr�vel ao entrar no quarto. Mencionei a impress�o de flacidez que Blessington dava. Pendurado no gancho, essa impress�o era exagerada e intensificada, a ponto de quase n�o parecer humano. O pesco�o estava esticado como o de uma galinha depenada, fazendo com que o resto do corpo parecesse ainda mais obeso e pouco natural. Vestia apenas a roupa de dormir e os tornozelos inchados e p�s desajeitados apareciam, nus, sob o camisol�o. Ao lado do corpo, um inspetor de pol�cia, com express�o atenta, tomava notas num caderninho.</p><p>� Ah, sr. Holmes! � ele saudou quando entramos. � Encantado em v�-lo.</p><p>� Bom-dia, Lanner. Estou certo de que n�o vai me considerar um intruso. Soube dos fatos que resultaram neste caso?</p><p>� Sim, ouvi alguma coisa.</p><p>� J� tem alguma opini�o?</p><p>� Pelo que vejo, o homem enlouqueceu de medo. A cama foi usada, como v�. H� uma marca profunda deixada pelo corpo. Os suic�dios s�o mais freq�entes por volta das cinco horas. Deve ter sido mais ou menos nessa hora que ele se enforcou. Parece uma coisa deliberada.</p><p>� Eu diria que est� morto h� tr�s horas, a julgar pela rigidez dos m�sculos � observei.</p><p>� Notou algo de estranho no quarto? � perguntou Holmes.</p><p>� Encontrei uma chave de parafusos e alguns parafusos no lavat�rio. Parece que ele fumou bastante durante a noite. Aqui est�o quatro pontas de charuto que recolhi na lareira.</p><p>� Hum! � fez Holmes. � Encontrou a charuteira dele?</p><p>� N�o, n�o encontrei nenhuma.</p><p>� Uma caixa de cigarros, neste caso?</p><p>� Sim, estava no bolso do casaco.</p><p>Holmes abriu-a e cheirou o �nico charuto que ela continha.</p><p>� Este � um Havana e os outros s�o charutos diferentes, importados pelos holandeses de suas col�nias nas �ndias Orientais. V�m em geral envoltos em palha e s�o mais finos do que qualquer outra marca.</p><p>Recolhendo as quatro pontas, examinou-as com sua lente de bolso.</p><p>� Dois foram fumados com piteira e dois sem. Dois foram cortados com faca pouco afiada e dois tiveram as extremidades mordidas por dentes excelentes. N�o se trata de suic�dio, sr. Lanner. � um assassinato a sangue-frio, muito bem planejado.</p><p>� Imposs�vel! � exclamou o inspetor.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Por que algu�m haveria de assassinar um homem de um modo t�o grosseiro como enforcamento?</p><p>� � o que precisamos descobrir.</p><p>� Como conseguiram entrar?</p><p>� Pela porta da frente.</p><p>� Estava fechada hoje de manh�.</p><p>� Ent�o foi fechada depois que eles sa�ram.</p><p>� Como sabe?</p><p>� Vi as pegadas deles. Com licen�a. Daqui a alguns instantes darei novas informa��es a respeito.</p><p>Aproximando-se da porta, examinou a fechadura com seu jeito met�dico. Em seguida tirou a chave, que estava do lado de dentro, e examinou-a tamb�m. A cama, o tapete, as cadeiras, a lareira, o corpo e a corda foram verificados, um a um. Finalmente deu-se por satisfeito e, com a minha ajuda e a do inspetor, desceu o corpo e colocou-o deitado, coberto com um len�ol.</p><p>� E a corda? � perguntou.</p><p>� Foi tirada daqui � disse o dr. Trevelyan, puxando um rolo de corda que estava embaixo da cama. � Ele tinha um medo m�rbido de inc�ndios e conservava a corda ao seu lado para fugir pela janela, se a escada estivesse em chamas.</p><p>� Isso deve ter poupado muito trabalho aos homens � disse Holmes, pensativo. � Sim, os fatos s�o bem simples e ficarei surpreso se � tarde n�o conseguir apresentar-lhes tamb�m as raz�es. Vou levar a fotografia de Blessington que est� sobre a lareira. Ela pode me ajudar na investiga��o.</p><p>� Mas n�o nos disse nada � exclamou o m�dico.</p><p>� N�o pode haver d�vidas quanto � seq��ncia dos acontecimentos � falou Holmes. � Eram tr�s homens: o rapaz, o velho e um terceiro, sobre cuja identidade ainda n�o tenho pistas. Os dois primeiros, n�o preciso dizer, s�o os que se fizeram passar pelo conde russo e seu filho, de modo que podemos fazer dos dois uma descri��o completa. Foram introduzidos pelo c�mplice que estava na casa. Permita que lhe d� um conselho, inspetor: prenda o auxiliar que, pelo que soube, est� no emprego h� pouco tempo, n�o �, doutor?</p><p>� Ningu�m sabe onde est� o diabrete! � disse o dr. Trevelyan. � A criada e a cozinheira j� estiveram � procura dele.</p><p>Holmes deu de ombros.</p><p>� Ele desempenhou um papel sem import�ncia neste drama. Depois que os tr�s subiram a escada na ponta dos p�s, o mais velho na frente, seguido do mais mo�o, com o desconhecido atr�s...</p><p>� Meu caro Holmes! � exclamei.</p><p>� N�o pode haver d�vidas quanto � superposi��o das pegadas. Tive a vantagem de poder examin�-las ontem � noite. Eles subiram at� o quarto do sr. Blessington, cuja porta encontraram trancada. Mas, com a ajuda de um arame, for�aram a fechadura. Mesmo sem a lente perceber�o, pelos arranh�es neste recorte da chave, que foi arrombada.</p><p>� Depois de entrarem no quarto, a primeira provid�ncia deve ter sido amorda�ar o sr. Blessington. Talvez ele estivesse adormecido, ou ent�o paralisado de terror, incapaz de gritar. As paredes s�o grossas e � poss�vel que seu grito, se chegou a solt�-lo, n�o tenha sido ouvido.</p><p>� Depois de o amarrarem, � evidente que houve algum tipo de confer�ncia. Provavelmente algo parecido com um processo judicial. Deve ter durado algum tempo, pois os charutos foram fumados ent�o. O mais velho sentou-se naquela cadeira de vime. Foi ele quem usou a piteira. O mais mo�o sentou-se ali e deixou cair um pouco de cinza no camiseiro. O terceiro ficou andando de um lado para outro. Acho que Blessington permaneceu sentado na cama, mas n�o tenho certeza absoluta.</p><p>� A reuni�o terminou com o enforcamento de Blessington. O caso foi preparado com tanta anteced�ncia que, segundo creio, eles trouxeram algum bloco ou polia que servisse de pat�bulo. Aquela chave de parafusos e os parafusos serviriam para fix�-lo, eu acho. Ao notarem o gancho, o trabalho foi poupado, naturalmente. Quando terminaram a tarefa, eles sa�ram, e a porta foi trancada pelo c�mplice.</p><p>Ouvimos com o mais profundo interesse o relato dos acontecimentos daquela noite, que Holmes deduziu a partir de ind�cios t�o sutis e min�sculos que, mesmo depois de apontados por ele, mal consegu�amos acompanh�-lo no racioc�nio. O inspetor saiu logo a fim de investigar o paradeiro do auxiliar, enquanto Holmes e eu volt�vamos a Baker Street para tomar o caf�-da-manh�.</p><p>� Estarei de volta �s 15 horas � disse quando terminamos a refei��o. � O inspetor e o m�dico me encontrar�o aqui a essa hora, quando espero ter esclarecido qualquer ponto obscuro que o caso ainda apresente.</p><p>Nossos visitantes chegaram na hora marcada, mas o meu amigo s� apareceu quando eram 15:45h. Sua express�o dizia que tudo havia corrido bem.</p><p>� Alguma novidade, inspetor?</p><p>� Pegamos o garoto.</p><p>� Excelente. E eu peguei os homens.</p><p>� Pegou os homens!? � n�s tr�s exclamamos.</p><p>� Bem, pelo menos descobri a identidade deles. O que dizia se chamar Blessington �, como eu suspeitava, bastante conhecido da pol�cia, assim como os seus assassinos. Seus nomes s�o Biddle, Hayward e Moffat.</p><p>� A gangue que assaltou o Banco Worthington! � exclamou o inspetor.</p><p>� Exatamente � confirmou Holmes.</p><p>� E Blessington era Sutton?</p><p>� Precisamente.</p><p>� Ent�o, tudo fica claro como cristal! � disse o inspetor.</p><p>Mas Trevelyan e eu nos entreolhamos espantados.</p><p>� Devem lembrar do grande roubo ao banco de Worthington � disse Holmes. � Havia cinco homens envolvidos no caso, estes quatro e um quinto, chamado Cartwright. Tobin, o vigia, foi assassinado, e os ladr�es fugiram com 7 mil libras. Isto aconteceu em 1875. Os cinco foram presos, mas as provas contra eles n�o eram conclusivas. Blessington, ou Sutton, o pior da quadrilha, delatou os outros. Baseado em seu depoimento, Cartwright foi enforcado e os outros tr�s pegaram 15 anos cada. Quando foram postos em liberdade, h� dias, alguns anos antes de completarem a senten�a, sa�ram imediatamente � procura do traidor para vingar a morte do companheiro. Por duas vezes tentaram peg�-lo, mas n�o conseguiram. Na terceira tiveram sorte. H� mais alguma coisa a ser explicada, dr. Trevelyan?</p><p>� Creio que deixou tudo absolutamente esclarecido � respondeu o m�dico. � O dia em que ele apareceu t�o perturbado deve ter sido aquele em que leu no jornal a not�cia da liberta��o dos c�mplices.</p><p>� Exatamente. A hist�ria de roubo era simples despistamento.</p><p>� Mas, por que n�o contou tudo?</p><p>� Conhecendo a natureza vingativa de seus antigos c�mplices, tentava ocultar a sua verdadeira identidade. O segredo era vergonhoso e ele n�o tinha coragem de divulg�-lo. Por mais infeliz que estivesse, encontrava-se ainda sob o escudo da lei brit�nica, e n�o tenho d�vidas, inspetor, de que o senhor zelar� para que, embora o escudo tenha falhado na prote��o, a espada da justi�a esteja presente para vingar.</p><p>Estas foram as circunst�ncias singulares que envolveram o paciente interno e o m�dico de Brook Street. A partir daquela noite, nada mais se soube dos tr�s assassinos, e a Scotland Yard deduziu que se encontravam entre os infelizes passageiros do vapor , que naufragou h� alguns anos com toda a tripula��o nas costas de Portugal, algumas milhas ao norte do Porto. O processo contra o rapazinho auxiliar do m�dico n�o foi adiante por falta de provas e o �Mist�rio de Brook Street�, como foi chamado, nunca chegou a ser inteiramente revelado ao p�blico.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o int�rprete grego</strong></p><p>Durante o longo e estreito realcionamento com Sherlock Holmes, nunca ouvi dele nenhuma refer�ncia � sua fam�lia e muito poucas � inf�ncia. Esta retic�ncia de sua parte aumentou a impress�o pouco humana que ele me transmitia, a ponto de me surpreender �s vezes a observ�-lo como um fen�meno isolado, um c�rebro sem cora��o, t�o desprovido de simpatia humana quanto f�rtil em intelig�ncia. Sua avers�o �s mulheres e pouca inclina��o a fazer novas amizades eram t�picas de um temperamento seco, mas n�o tanto quanto sua omiss�o total de qualquer refer�ncia � fam�lia. E eu passara a acreditar que era �rf�o e sem parentes vivos, at� que um dia, para minha grande surpresa, ele come�ou a falar sobre o irm�o.</p><p>Foi depois do ch�, num crep�sculo de ver�o. A conversa que se desenrolava a esmo, de maneira espasm�dica, passando de bast�es de golfe �s causas da mudan�a na obliq�idade da ecl�ptica, enveredou finalmente pela quest�o do atavismo e das aptid�es heredit�rias. O assunto em debate era at� que ponto um talento espec�fico num indiv�duo seria devido � sua ascend�ncia, e at� que ponto era conseq��ncia da educa��o inicial.</p><p>� Diante de tudo o que me disse, no seu caso parece �bvio que sua capacidade de observa��o e sua facilidade peculiar para a dedu��o devem-se ao seu pr�prio treinamento sistem�tico.</p><p>� At� certo ponto � ele respondeu, pensativo. � Meus antepassados pertenciam � nobreza do campo e parecem ter levado a exist�ncia normal dos de sua classe. Ainda assim, minha inclina��o est� nas minhas veias e talvez tenha sido herdada de minha av�, que era irm� de Vernet, o artista franc�s. A arte no sangue � capaz de assumir as formas mais estranhas.</p><p>� Mas como sabe que � heredit�ria?</p><p>� Porque meu irm�o Mycroft a possui num grau mais acentuado.</p><p>Isso foi novidade para mim. Se houvesse na Inglaterra outro homem com poderes t�o especiais, por que nem a pol�cia nem o p�blico tinham ouvido falar nele? Fiz a pergunta, dando a entender que a mod�stia de meu amigo � que o levava a considerar o irm�o superior a ele. Holmes riu da sugest�o.</p><p>� Meu caro Watson, n�o concordo com os que incluem a mod�stia entre as virtudes. Para o l�gico, todas as coisas devem ser exatamente o que s�o, e subestimar-se � t�o falso quanto exagerar o pr�prio talento. Portanto, quando digo que Mycroft tem maior capacidade de observa��o, pode estar certo de que falo a verdade exata e literal.</p><p>� Ele � mais mo�o que voc�?</p><p>� Sete anos mais velho.</p><p>� Como � poss�vel que ele tenha permanecido no anonimato?</p><p>� Ele � muito conhecido em seu pr�prio c�rculo.</p><p>� Onde?</p><p>� No Clube Di�genes, por exemplo.</p><p>Eu nunca tinha ouvido falar na institui��o e minha fisionomia deve ter demonstrado isso, pois Sherlock Holmes tirou o rel�gio do bolso.</p><p>� O Clube Di�genes � uma das mais estranhas sociedades de Londres, e Mycroft, um dos seus membros mais estranhos. Est� sempre ali desde 16:45h at� 19:40h. S�o 18 horas, e se voc� quiser fazer um passeio neste belo anoitecer, eu terei o maior prazer em apresent�-lo a duas curiosidades.</p><p>Cinco minutos depois est�vamos na rua, caminhando na dire��o de Regentis Circus.</p><p>� Voc� deve estar admirado porque Mycroft n�o usa os seus talentos como detetive. Ele � incapaz disso.</p><p>� Mas voc� n�o disse...!</p><p>� Disse que era superior em dedu��o e observa��o. Se a arte do detetive come�asse e terminasse no racioc�nio feito numa poltrona, meu irm�o seria o maior criminologista que jamais existiu. Mas n�o � ambicioso e n�o tem energia. N�o se preocuparia em verificar suas pr�prias solu��es, e iria preferir que o considerassem equivocado a dar-se ao trabalho de provar que estava certo. Levei-lhe muitas vezes um problema e recebi uma explica��o que mais tarde foi comprovada. Contudo, ele foi totalmente incapaz de lidar com as quest�es pr�ticas que devem ser resolvidas antes de se levar o caso � justi�a.</p><p>� Ent�o n�o � esta a profiss�o dele?</p><p>� De modo algum. O que para mim � um meio de vida, para ele � um simples de diletante. Tem uma cabe�a extraordin�ria para n�meros e faz auditoria nos livros de alguns departamentos do governo. Mycroft mora em Pall Mall e, todas as manh�s dobra a esquina para ir a Whitehall, e volta � noite. Durante o ano inteiro n�o faz outro exerc�cio e n�o � visto em nenhum outro lugar, a n�o ser� no Clube Di�genes, que fica em frente ao seu apartamento.</p><p>� N�o conhe�o o nome.</p><p>� � bem prov�vel. H� muitos homens em Londres que, por timidez ou por misantropia, rejeitam a companhia de seus semelhantes, mas n�o s�o avessos a poltronas confort�veis e �s �ltimas edi��es dos jornais. Foi para servir a essas pessoas que foi fundado o Clube Di�genes. Ele agrupa os homens menos soci�veis e agrup�veis da cidade. Nenhum membro tem permiss�o de dar a m�nima aten��o a qualquer outro. Exceto na Sala dos Estranhos, a conversa n�o � permitida em nenhuma circunst�ncia, e se tr�s transgress�es a essa norma forem levadas ao conhecimento do comit�, o conversador fica sujeito � expuls�o. Meu irm�o � um dos fundadores e eu mesmo acho muito calmante a atmosfera do clube.</p><p>T�nhamos chegado a Pall Mall enquanto convers�vamos e enveredamos pela rua a partir de St. James. A certa dist�ncia do Carlton, Sherlock parou diante de uma porta e, fazendo sinal para que eu ficasse calado, me fez entrar no vest�bulo. Atrav�s do painel de vidro vi uma sala luxuosa, onde um n�mero consider�vel de homens lia os jornais, cada qual no seu canto. Holmes conduziu-me a um pequeno recinto que dava para Pall Mall e, ausentando-se por um instante, voltou com algu�m que s� poderia ser seu irm�o.</p><p>Mycroft Holmes era mais alto e vigoroso do que Sherlock. Seu corpo era robusto, mas o rosto, embora maci�o, conservava algo da vivacidade de express�o t�o not�vel em Sherlock. Os olhos, de um cinzento especialmente claro, pareciam manter aquela express�o distante, introspectiva, que eu observava nos do meu amigo quando ele estava utilizando plenamente os seus talentos.</p><p>� � um prazer conhec�-lo, senhor � disse ele, estendendo a m�o lisa como a nadadeira de uma foca. � Ou�o falar de Sherlock em toda parte desde que o senhor se tornou o bi�grafo dele. E por falar nisso, Sherlock, esperava que voc� me consultasse na semana passada a respeito do caso daquela mans�o. Achei que seria dif�cil demais para voc�.</p><p>� N�o, consegui resolv�-lo � disse meu amigo, sorrindo.</p><p>� Foi Adams, naturalmente.</p><p>� Sim, foi Adams.</p><p>� Eu tinha certeza desde o� in�cio.</p><p>Os dois sentaram-se perto da janela do clube.</p><p>� Este � o lugar ideal para quem quiser estudar a humanidade � observou Mycroft. � Veja que tipos magn�ficos! Repare naqueles dois homens que est�o caminhando na nossa dire��o, por exemplo.</p><p>� O marcador de bilhar e o outro?</p><p>� Exatamente. O que acha do outro?</p><p>Os dois haviam parado diante da janela. Marcas de giz sobre o bolso do colete eram os �nicos sinais de bilhar que notei num deles. O outro era um homem baixinho e moreno, chap�u inclinado para tr�s e v�rios pacotes debaixo do bra�o.</p><p>� Um velho soldado, parece-me � disse Sherlock.</p><p>� E recentemente reformado � observou o irm�o.</p><p>� Serviu na �ndia, pelo que vejo.</p><p>� Como oficial n�o-comissionado.</p><p>� Artilharia Real, imagino � disse Sherlock.</p><p>� E vi�vo.</p><p>� Com filhos, meu caro rapaz. Com filhos.</p><p>� Ora, isso � demais � protestei, rindo.</p><p>� N�o � dif�cil dizer que um homem com aquele porte, express�o autorit�ria e tez curtida de sol � um soldado, mais que um soldado raso, e recentemente chegado da �ndia.</p><p>� O fato de ter deixado o Ex�rcito h� pouco tempo � indicado por usar ainda �botas de muni��o�, como s�o chamadas � observou Mycroft.</p><p>� N�o tem o andar do cavalariano, mas usava o chap�u inclinado para o lado, como demonstra a pele mais clara naquela parte do rosto. O peso indica que n�o podia ser sapador. Serviu na artilharia.</p><p>� E o luto fechado revela que perdeu algu�m muito querido. O fato de estar fazendo compras indica que foi a mulher. Esteve comprando coisas para os filhos, como v�. H� um chocalho, o que mostra que um deles � muito pequeno. � prov�vel que a mulher tenha morrido ao dar � luz. O fato de levar debaixo do bra�o um livro ilustrado indica que h� uma outra crian�a na hist�ria.</p><p>Comecei a perceber o que meu amigo queria dizer ao mencionar os talentos mais perspicazes do irm�o. Olhando para mim, ele sorriu. Mycroft aspirou rap� tirado de uma caixinha de tartaruga e sacudiu os gr�os que ca�ram no casaco, agitando um grande len�o de seda vermelha.</p><p>� Sherlock, tenho algo bem ao seu estilo, um problema singular que me foi apresentado. N�o tive disposi��o para acompanh�-lo, a n�o ser de maneira muito superficial, mas deu-me uma base para especula��es muito agrad�veis. Se estiver interessado nos fatos...</p><p>� Ser� um prazer, meu caro Mycroft.</p><p>O irm�o rabiscou um bilhete numa folha de seu caderninho de anota��es e, tocando a campainha, entregou-o ao gar�om.</p><p>� Pedi ao sr. Melas para vir at� aqui. Ele mora um andar acima do meu. Conhe�o-o ligeiramente, e por isso ele me procurou quando se viu em apuros. O sr. Melas � de origem grega, segundo eu soube, e um ling�ista extraordin�rio. Ganha a vida como int�rprete em tribunais e tamb�m como guia de orientais abastados que se hospedam nos hot�is de Northumberland Avenue. Vou deixar que ele conte � sua maneira a experi�ncia extraordin�ria que viveu.</p><p>Minutos depois apareceu um homem baixo e gordo, cuja tez morena e cabelos pretos indicavam sua origem sulina, embora seu modo de falar fosse o de um ingl�s culto. Trocou um caloroso aperto de m�os com Sherlock Holmes, e seus olhos escuros cintilaram de prazer ao perceber que o especialista estava ansioso por ouvir a sua hist�ria.</p><p>� N�o acho que a pol�cia acredite em mim, palavra � disse em tom lamentoso. � S� porque nunca ouviram falar nisso, pensam que n�o possa existir. Mas eu n�o ficarei descansado enquanto n�o descobrir que fim levou o pobre homem com o rosto emplastrado de esparadrapo.</p><p>� Conte com minha total aten��o � disse Sherlock.</p><p>� Hoje � a noite de quarta-feira � disse o sr. Melas. Ent�o, foi na segunda � noite, h� dois dias apenas, que tudo aconteceu. Sou int�rprete, como o meu vizinho talvez tenha dito. Traduzo todas as l�nguas � ou quase todas �, mas como sou grego de origem e tenho nome grego, � a este idioma em particular que me associam. H� anos sou o principal int�rprete do idioma em Londres e muito conhecido nos hot�is.</p><p>� Sou procurado com freq��ncia nas horas mais estranhas. S�o estrangeiros em dificuldades, ou viajantes que chegam tarde e precisam dos meus servi�os. N�o me surpreendi, portanto, quando na segunda-feira � noite um certo sr. Latimer, rapaz muito bem-vestido, procurou-me na minha casa, pedindo que o acompanhasse no cabriol� que aguardava � porta. Um amigo grego fora visit�-lo a neg�cios, explicou, e como s� sabia falar a sua l�ngua, os servi�os de um int�rprete eram indispens�veis. Deu-me a entender que a casa ficava um tanto distante, em Kensington, e parecia muito apressado, fazendo-me entrar no cabriol� assim que chegamos � rua.</p><p>� Disse cabriol�, mas logo me perguntei se n�o estaria numa carruagem. O ve�culo era mais espa�oso que a maioria dos que desgra�adamente circulam em Londres e o estofamento, embora em mau estado, era de boa qualidade. O sr. Latimer sentou-se na minha frente e partimos, atravessando Charing Cross e enveredando pela Shaftesbury Avenue. Est�vamos em Oxford Street quando me arrisquei a fazer uma observa��o a respeito do caminho tortuoso que faz�amos para chegar a Kensington, mas as palavras morreram-me nos l�bios diante da conduta extraordin�ria do meu companheiro.</p><p>� Come�ou exibindo um cajado enorme carregado no cast�o com chumbo tirado do bolso e movimentou-o de um lado para outro diversas vezes, como se quisesse testar seu peso e na for�a. Em seguida, sem uma palavra, colocou-o no banco ao seu lado. Depois levantou os vidros dos dois lados e eu descobri, espantado, que estavam recobertos de jornal para impedir que eu olhasse pelas janelas.</p><p>� �Lamento tirar-lhe a vis�o, sr. Melas. O fato � que n�o tenho inten��o de permitir que veja o local para onde estamos indo. Seria inconveniente para mim se conseguisse encontrar novamente o caminho.�</p><p>� Como imaginam, fiquei abismado ao ouvir essas palavras.</p><p>Meu companheiro era um homem forte, de ombros largos e, mesmo sem a arma, eu n�o teria a menor chance, se lutasse com ele.</p><p>� �� uma conduta extraordin�ria, sr. Latimer�, gaguejei. �Deve saber que o que est� fazendo � totalmente ilegal.�</p><p>� �� uma liberdade que tomo, sem d�vida, mas ser� compensado. Mas devo preveni-lo, sr. Melas, que se a qualquer momento desta noite tentar dar um alarme, ou fizer alguma coisa contr�ria aos meus interesses, descobrir� que corre perigo. Pe�o que n�o esque�a que ningu�m sabe onde est� e que, nesta carruagem ou na minha casa, acha-se em meu poder.�</p><p>� As palavras foram pronunciadas com serenidade, mas em tom �spero e bastante amea�ador. Fiquei calado, perguntando a mim mesmo qual seria o motivo para me raptarem de modo t�o extraordin�rio. Fosse qual fosse, ficara evidente que era in�til resistir. Restava-me esperar para ver o que aconteceria.</p><p>� Viajamos durante quase duas horas sem que eu tivesse a menor pista do nosso destino. �s vezes o ru�do de pedras indicava um caminho cal�ado, outras vezes o deslizar suave e silencioso sugeria asfalto, mas, al�m dessa varia��o de sons, n�o havia nada que me ajudasse a descobrir onde est�vamos. O papel que recobria os vidros n�o deixava passar a luz e uma cortina azul fora puxada sobre o vidro dianteiro. Eram 19:15h quando sa�mos de Pall Mall e meu rel�gio mostrava que eram 21:10h quando finalmente a carruagem parou. Meu companheiro arriou o vidro e vi de relance uma porta em arco, baixa, sobre a qual ardia uma l�mpada. Fui tirado �s pressas do ve�culo, enquanto a porta se abria e eu me vi no interior da casa, captando a vaga impress�o de um gramado e �rvores de ambos os lados da entrada. Mas eu n�o saberia dizer se era um jardim particular ou se est�vamos no campo.</p><p>� Havia uma l�mpada colorida no interior com uma chama t�o baixa que eu mal conseguia enxergar, a n�o ser que estava num vest�bulo amplo com quadros nas paredes. Nessa luz fraca percebi que a pessoa que abrira a porta era um homenzinho de meia-idade, de ombros ca�dos e express�o zangada. Quando se virou para n�s, um reflexo de luz revelou que usava �culos.</p><p>� �� este o sr. Melas, Harold?�, perguntou.</p><p>� ��.�</p><p>� �Muito bem! Muito bem! Espero que n�o leve a mal, sr. Melas. O caso � que n�o pod�amos dispens�-lo. Se agir corretamente, n�o ter� motivos para se lamentar, mas se tentar algum truque, pe�a a Deus que o ajude!�</p><p>� Falava aos arrancos, nervoso, frases entremeadas de risadinhas, mas deu-me a impress�o de estar dominado pelo medo.</p><p>� �O que querem de mim?�, perguntei.</p><p>� �Apenas que fa�a algumas perguntas a um senhor grego que est� nos visitando e transmita as respostas dele. Mas n�o diga nada al�m do que lhe pedirem ou � nova risadinha nervosa � lamentar� o dia em que nasceu.�</p><p>� Enquanto falava, abriu uma porta e levou-me a uma sala que parecia suntuosamente mobiliada, mas tamb�m estava iluminada por uma �nica l�mpada de chama bastante reduzida. A pe�a era ampla e o fato de meus p�s afundarem nos tapetes indicava sua riqueza. Vi de relance poltronas forradas de veludo, uma lareira alta de m�rmore branco, junto � qual havia uma armadura que me pareceu japonesa. Sob a l�mpada havia uma cadeira e o senhor idoso fez sinal para que eu me sentasse. O rapaz desapareceu e voltou de repente por outra porta, trazendo um homem vestido com uma esp�cie de roup�o solto, que se aproximou lentamente de n�s. Quando entrou no c�rculo de luz que me permitia v�-lo com mais nitidez, estremeci de horror. Estava extremamente p�lido e magro, e tinha os olhos saltados e brilhantes de algu�m cuja energia interior ultrapassa as for�as f�sicas. Mas o que me chocou, al�m dos sinais de fraqueza, foi o rosto grotescamente recoberto de esparadrapo, com uma faixa larga tapando-lhe a boca.</p><p>� �Trouxe a lousa, Harold?�, perguntou o velho, enquanto aquele estranho personagem deixou-se cair numa cadeira. �As m�os est�o soltas? D�-lhe o l�pis. O senhor far� as perguntas, sr. Melas, e ele escrever� as respostas. Pergunte primeiro se est� disposto a assinar os pap�is.�</p><p>Os olhos do homem cintilaram, enfurecidos.</p><p>� �Nunca�, escreveu em grego na lousa.</p><p>� �Sob nenhuma condi��o?�, perguntei, a pedido do nosso tirano.</p><p>� �Somente se eu a vir casada na minha presen�a por um sacerdote grego que eu conhe�a.�</p><p>� O homem soltou uma risadinha venenosa.</p><p>� �Neste caso, sabe o que o aguarda?�</p><p>� �N�o importa o que possa me acontecer.�</p><p>� Estes s�o exemplos das perguntas e respostas que constitu�ram a nossa estranha conversa meio falada e meio escrita. Pediram-me para perguntar v�rias vezes se ele assinaria o documento e recebi sempre a mesma resposta indignada. Mas logo ocorreu-me uma id�ia feliz. Passei a acrescentar pequenas senten�as a cada pergunta, no in�cio inocentes, a fim de verificar se um dos homens percebia qualquer coisa, e depois, ao ver que n�o mostravam nenhum sinal de compreens�o, iniciei um jogo mais perigoso. Nossa conversa foi mais ou menos a seguinte:</p><p>� �N�o conseguir� nada com essa obstina��o. N�o importa. Seu destino est� em suas m�os.� N�o importa. Esta propriedade jamais ser� sua. N�o cair� nas m�os de bandidos. Sair� daqui em liberdade se assinar.� N�o assinarei jamais. N�o est� fazendo nenhum favor a ela.� Quero ouvir a resposta diretamente dela. Poder� v�-la se assinar. Ent�o, nunca mais tornarei a v�-la. .�</p><p>Mais cinco minutos, sr. Holmes, e eu obteria toda a hist�ria, na cara dos homens. A minha pergunta seguinte teria esclarecido a quest�o, mas naquele instante a porta se abriu e uma mulher entrou na sala. N�o a vi com nitidez suficiente, mas sei que era alta e graciosa, de cabelos pretos, e vestia uma esp�cie de bata branca flutuante.</p><p>� �Harold! N�o ag�entei mais!�, ela falava ingl�s com sotaque.</p><p>� �Fico t�o solit�ria l� em cima, somente com... Oh, meu Deus, � Paul!�</p><p>� As �ltimas palavras foram pronunciadas em grego. No mesmo instante o homem, num esfor�o supremo, arrancou o esparadrapo da boca, e gritando �Sophy! Sophy!� correu a abra��-la. Mas o abra�o durou apenas um instante, pois o rapaz agarrou a mulher e arrastou-a para fora da sala, enquanto o mais velho facilmente dominava a v�tima enfraquecida, arrastando-a para a outra porta. Vendo-me sozinho por um instante na sala, levantei-me com a vaga id�ia de obter uma pista a respeito da casa onde estava. Felizmente, por�m, n�o fiz coisa alguma, pois quando ergui a cabe�a, dei com o homem mais velho parado na porta e olhando para mim.</p><p>� �Quieto, sr. Melas. Deve ter percebido que lhe permitimos tomar conhecimento de assunto muito particular. N�o o ter�amos incomodado se o nosso amigo que fala grego, e iniciou as negocia��es, n�o fosse obrigado a voltar para o Oriente. Era necess�rio encontrar algu�m para substitu�-lo, e ficamos sabendo dos seus talentos.�</p><p>� Inclinei-me.</p><p>� �Aqui est�o 5 libras�, ele disse, aproximando-se. �Espero que sejam suficientes. Mas lembre-se�, e, com um risinho, bateu de leve no meu peito, �se falar com algu�m a respeito deste caso, a uma s� pessoa que seja, que Deus tenha miseric�rdia de sua alma.�</p><p>� N�o sei expressar a repulsa e o horror que aquele homenzinho de apar�ncia insignificante me inspirou. Eu o via com mais nitidez agora que a luz incidia sobre ele. Tinha tra�os aquilinos, tez p�lida, barba curta e pontuda, desgrenhada e maltratada. Ao falar, aproximou o rosto do meu. Seus l�bios e p�lpebras estavam em cont�nuo movimento, como os de algu�m que sofresse da doen�a de S�o Guido. Ocorreu-me tamb�m que aquele risinho estranho era sintoma de uma doen�a nervosa. O terror que seu rosto inspirava vinha dos olhos cinza-a�o, de brilho frio, revelando, em suas profundezas, uma crueldade inexor�vel.</p><p>� �Ficaremos sabendo, se voc� falar no assunto. Temos nossos canais de informa��o. A carruagem est� � sua espera e meu amigo o acompanhar�.�</p><p>� Fizeram-me atravessar �s pressas o vest�bulo e entrar no ve�culo, e nessa hora pude ver de relance as �rvores e um jardim. O sr. Latimer seguiu-me de perto e sentou-se na minha frente sem pronunciar uma palavra. Percorremos em sil�ncio a dist�ncia intermin�vel, vidros fechados, at� que finalmente, pouco depois da meia-noite, a carruagem parou.</p><p>� �Salte aqui, sr. Melas�, disse o meu companheiro. �Lamento deix�-lo t�o longe de sua casa, mas n�o h� alternativa. Qualquer tentativa sua de seguir a carruagem resultar� em dano para a sua pessoa.�</p><p>� Abriu a porta e mal tive tempo de saltar, pois o cocheiro chicoteou o cavalo e o ve�culo se afastou ruidosamente. Olhei em torno, espantado. Estava numa esp�cie de descampado coberto de arbustos de tojo. Ao longe estendia-se uma fileira de casas. Uma luz brilhava aqui e ali nos pavimentos superiores. Do lado oposto vi os sinais vermelhos de uma estrada de ferro.</p><p>� A carruagem j� havia desaparecido. Olhei em volta, perguntando a mim mesmo onde estaria quando percebi que algu�m se aproximava na escurid�o. Quando estava perto, vi que se tratava de um carregador da estrada de ferro.</p><p>� �Pode me dizer que lugar � este?�, perguntei.</p><p>� �Wandsworth Common�, respondeu.</p><p>� �Posso pegar algum trem para a cidade?�</p><p>� �Se caminhar cerca de 1,5 quil�metro, chegar� a Clapham Junction a tempo de pegar o �ltimo trem para Victoria.�</p><p>� Foi assim que terminou a minha aventura, sr. Holmes. N�o sei onde estive, ou com quem falei, nada sei al�m do que acabo de contar. Mas sei que h� algo de muito torpe e quero ajudar aquele infeliz, se for poss�vel. Contei a hist�ria ao sr. Mycroft Holmes na manh� seguinte e, mais tarde, � pol�cia.</p><p>Ficamos em sil�ncio por algum tempo, depois de ouvir essa narrativa extraordin�ria. E ent�o Sherlock olhou para o irm�o.</p><p>� Alguma provid�ncia? � perguntou.</p><p>Mycroft pegou o� que estava sobre uma mesinha.</p><empty-line/><p>Quem puder fornecer qualquer informa��o sobre o paradeiro de um senhor grego chamado Paul Kratides, de Atenas, e que n�o fala ingl�s, receber� uma recompensa. Recompensa similar ser� entregue a quem der informa��es referentes a uma senhora grega, cujo primeiro nome � Sophy. X 2473.</p><empty-line/><p>Foi publicado em todos os jornais. N�o houve resposta.</p><p>� E a Lega��o da Gr�cia?</p><p>� J� indaguei. N�o sabem de nada.</p><p>� Um telegrama ao chefe de pol�cia de Atenas, ent�o?</p><p>� Sherlock concentrou toda a energia da fam�lia � comentou Mycroft, virando-se para mim. � Fique com o caso e avise-me se conseguir algum resultado.</p><p>� Combinado � disse meu amigo, levantando-se. � Eu me comunicarei com voc� e tamb�m com o sr. Melas. Mas, se eu fosse o senhor, eu ficaria bastante alerta, pois devem saber pelos an�ncios que os traiu.</p><p>Enquanto caminh�vamos para casa, Holmes entrou numa ag�ncia dos tel�grafos e enviou v�rios telegramas.</p><p>� Nosso ser�o n�o foi desperdi�ado, Watson � observou. � Alguns dos meus casos mais interessantes chegaram-me por interm�dio de Mycroft. O problema que acabamos de ouvir, embora s� possa admitir uma explica��o, tem caracter�sticas singulares.</p><p>� Espera solucion�-lo?</p><p>� Sabemos tanta coisa a respeito que seria estranho se n�o descobr�ssemos o resto. Voc� mesmo j� deve ter elaborado alguma teoria que explique os fatos que acabamos de ouvir.</p><p>� Sim, uma teoria vaga.</p><p>� Qual � a sua id�ia?</p><p>� Parece �bvio que a mo�a grega foi seq�estrada pelo jovem ingl�s chamado Harold Latimer.</p><p>� Seq�estrada onde?</p><p>� Atenas, talvez.</p><p>Sherlock Holmes meneou a cabe�a.</p><p>� O rapaz n�o falava uma s� palavra de grego. A mo�a falava ingl�s razoavelmente, donde se deduz que estava na Inglaterra h� algum tempo, e que ele n�o esteve na Gr�cia.</p><p>� Ent�o, presume-se que ela veio uma vez em visita � Inglaterra e que Harold a convenceu a fugir com ele.</p><p>� Isso � mais prov�vel.</p><p>� Ent�o o irm�o � pois creio que esse � o parentesco � veio da Gr�cia para interferir. Imprudentemente, colocou-se � merc� do rapaz e de seu s�cio mais velho. Agarraram-no e usaram de viol�ncia para obrig�-lo a assinar pap�is que transferiam para o nome deles a fortuna da mo�a, da qual ele deve ser o administrador. Ele se recusa a assinar. Para negociar precisam de um int�rprete e se apoderam do pobre sr. Melas, depois de usar outra pessoa. A mo�a n�o � informada da chegada do irm�o e fica sabendo por mero acaso.</p><p>� Excelente, Watson! � exclamou Holmes. � Creio que n�o est� muito longe da verdade. Temos todas as cartas na m�o e s� devemos temer algum ato repentino de viol�ncia por parte deles. Se nos derem tempo, n�s os pegaremos.</p><p>� Mas como encontraremos a casa?</p><p>� Se nossas conjecturas estiverem corretas, o nome da mo�a �, ou era, Sophy Kratides. N�o ser� dif�cil encontr�-la. � a nossa maior esperan�a, pois o irm�o, naturalmente, n�o passa de um completo estranho. Claro que se passou algum tempo desde que esse Harold travou rela��es com a mo�a. Semanas, pelo menos, at� o irm�o saber na Gr�cia e vir para c�. Se os jovens estavam vivendo juntos nesse per�odo, � prov�vel que obtenhamos alguma resposta ao an�ncio de Mycroft.</p><p>Enquanto convers�vamos, chegamos � nossa casa, em Baker Street. Holmes subiu na frente e, ao abrir a porta da sala, soltou uma exclama��o de surpresa. Olhando por cima do ombro dele, levei um susto igual. Mycroft estava sentado numa poltrona, fumando.</p><p>� Entre, Sherlock! Entre, senhor! � falou tranq�ilo, sorrindo diante da nossa surpresa. � N�o esperava tanta energia de minha parte, n�o �, Sherlock? Mas este caso me atrai.</p><p>� Como veio at� aqui?</p><p>� Passei por voc�s num cabriol�.</p><p>� Aconteceu alguma coisa?</p><p>� Recebi uma resposta ao meu an�ncio.</p><p>� Ah!</p><p>� Chegou alguns minutos depois que sa�ram.</p><p>� E que dizia?</p><p>Mycroft Holmes tirou do bolso um papel.</p><p>Aqui est�, escrita com pena sobre papel creme, por um homem de meia-idade e constitui��o franzina.</p><empty-line/><p>Senhor, diz ele, em resposta ao seu an�ncio de hoje quero informar que conhe�o muito bem a senhora em quest�o. Se quiser me visitar, eu lhe darei alguns detalhes de sua dolorosa hist�ria. Ela reside no momento em The Myrtles, Beckenham.</p><p>Seu, atenciosamente,</p><p>������ J. Davenport.</p><empty-line/><p>� Remeteu a carta de Lower Brixton � observou Mycroft Holmes. � N�o acha que devemos ir agora tomar conhecimento desses detalhes, Sherlock?</p><p>� Meu caro Mycroft, a vida do irm�o � mais valiosa do que a hist�ria da irm�. Creio que devemos ir � Scotland Yard procurar o inspetor Gregson e seguir direto para Beckenham. Sabemos que h� um homem condenado � morte e cada hora que passa � decisiva.</p><p>� � melhor pegarmos o sr. Melas no caminho � sugeri. � Vamos precisar de um int�rprete.</p><p>� Excelente! � aprovou Sherlock Holmes. � Mande o garoto buscar uma carruagem e partiremos imediatamente.</p><p>Abriu a gaveta da escrivaninha enquanto falava e notei que enfiava o rev�lver no bolso. Em resposta ao meu olhar, disse:</p><p>� Sim, pelo que soubemos, estamos lidando com uma gangue muito perigosa.</p><p>Era quase noite quando chegamos a Pall Mall, onde morava o sr.Melas. Um senhor acabava de vir busc�-lo de carruagem.</p><p>� Sabe para onde foi? � perguntou Mycroft Holmes.</p><p>� N�o, senhor � respondeu a mulher que abriu a porta. � Sei apenas que saiu de carruagem com um senhor.</p><p>� E ele deu o nome?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Era um rapaz alto, bonito, moreno?</p><p>� N�o, senhor. Era um cavalheiro baixinho, de �culos, rosto magro, mas muito simp�tico. Ria o tempo todo.</p><p>� Vamos! � disse Sherlock Holmes bruscamente. � O caso est� ficando s�rio! � observou enquanto nos dirig�amos � Scotland Yard. � Aquela gente seq�estrou Melas de novo. Ele � um homem sem coragem f�sica, como eles sabem pela experi�ncia da noite passada. O bandido conseguiu aterroriz�-lo com sua simples presen�a. Querem, sem d�vida, os seus servi�os profissionais, mas depois de us�-lo v�o querer castig�-lo pelo que devem considerar uma trai��o.</p><p>Nossa esperan�a era que, tomando o trem, pud�ssemos chegar a Beckenham t�o depressa ou mais que de carruagem. Mas, ao chegarmos � Scotland Yard, levamos mais de uma hora para encontrar o inspetor Gregson e cumprir as formalidades legais que nos permitiriam entrar na casa. Eram 21:45h, portanto, quando chegamos a London Bridge e levamos mais meia hora para saltarmos na plataforma de Beckenham. Um percurso de 1 quil�metro levou-nos a � uma casa ampla e escura, separada da estrada pelos jardins que a cercavam. Dispensamos a carruagem e percorremos juntos a alameda.</p><p>� As janelas est�o todas fechadas � observou o inspetor. A casa parece deserta.</p><p>� Os p�ssaros abandonaram o ninho � disse Holmes.</p><p>� Por que pensa assim?</p><p>� Uma carruagem pesada, carregada de bagagens, passou por aqui h� uma hora.</p><p>O inspetor riu.</p><p>� Vi as marcas das rodas � luz do port�o. Mas como sabe da bagagem?</p><p>� Deve ter observado as mesmas marcas seguindo na dire��o oposta. Mas as que saem s�o bem mais profundas, a ponto de podermos dizer com certeza que o ve�culo levava um peso consider�vel.</p><p>� O senhor � um pouco complicado demais para mim � disse o inspetor, dando de ombros. � N�o ser� f�cil for�ar aquela porta. Mas tentaremos se ningu�m nos atender.</p><p>Bateu com for�a a aldrava, puxou a campainha, mas inutilmente. Holmes, que havia desaparecido, voltou da� a instantes.</p><p>� Abri uma janela � anunciou.</p><p>� Ainda bem que est� do lado da lei e n�o contra ela, sr. Holmes � observou o inspetor, quando percebeu a habilidade com que meu amigo havia for�ado a fechadura. � Creio que, nestas circunst�ncias, podemos entrar sem esperar convite.</p><p>Um ap�s outro penetramos no sal�o que era, evidentemente, aquele em que havia estado o sr. Melas. O inspetor acendeu a lanterna e vimos as duas portas, a cortina, a l�mpada e a armadura de malha japonesa que ele havia descrito. Na mesa viam-se dois copos, uma garrafa vazia de e osrestos de uma refei��o.</p><p>� O que � isto? � perguntou Holmes de repente.</p><p>Im�veis, ouvimos um som baixo, semelhante a um gemido, vindo de algum lugar acima de nossas cabe�as. Holmes correu para a porta e foi at� o vest�bulo. O ru�do vinha do segundo andar. Ele subiu a escada correndo, seguido de perto pelo inspetor e por mim, enquanto Mycroft nos acompanhava t�o depressa quanto seu corpo volumoso lhe permitia.</p><p>No segundo andar ficamos diante de tr�s portas. Era da porta do meio que sa�am os sons sinistros, que �s vezes passavam de um murm�rio rouco a um lamento agudo. Estava trancada, mas com a chave do lado de fora. Holmes abriu-a e entrou correndo. Mas saiu no mesmo instante, com a m�o na garganta.</p><p>� � carv�o! � ele gritou. � Vamos esperar um pouco. Ele se dissipar�.</p><p>Espiando para dentro, vimos que a �nica luz existente no quarto provinha de uma chama azul, ba�a, que ardia num pequeno trip� colocado no centro. A chama lan�ava um c�rculo l�vido e estranho sobre o assoalho e, nas sombras mais adiante, vislumbramos duas silhuetas agachadas contra a parede. Pela porta aberta sa�a um horr�vel cheiro venenoso, que nos fez arquejar e tossir. Holmes correu para o alto da escada, a fim de aspirar ar fresco e, entrando novamente no quarto, escancarou a janela e atirou o trip� ao jardim.</p><p>� Entraremos dentro de um minuto � arquejou, saindo outra vez �s pressas. � Onde encontraremos uma vela? Duvido que seja poss�vel riscar um f�sforo naquele ar. Mantenha a lanterna perto da porta e n�s os tiraremos de l�, Mycroft. Agora!</p><p>Entramos correndo, agarramos os homens envenenados e os arrastamos para o patamar. Estavam ambos de l�bios azulados e inconscientes, rostos inchados e congestionados, olhos saltando das �rbitas. As fisionomias estavam t�o alteradas que, se n�o fosse pela barba preta e a silhueta atarracada, n�o ter�amos reconhecido o int�rprete grego, que se despedira de n�s horas antes no Clube Di�genes. Tinha m�os e p�s amarrados e sobre um olho havia marcas de um golpe violento. O outro homem, amarrado de modo id�ntico, era alto e estava no �ltimo est�gio da magreza. Tinha no rosto v�rias marcas de esparadrapo formando um desenho grotesco. Parou de gemer quando o deitamos no ch�o, e uma olhada de relance para ele mostrou-me que, pelo menos no seu caso, hav�amos chegado tarde demais. O sr. Melas, por�m, estava vivo, e em menos de uma hora, com a ajuda de am�nia e , tive a satisfa��o de v�-lo abrir os olhos e saber que minha m�o o havia trazido de volta do vale sombrio onde todos os caminhos se encontram.</p><p>A hist�ria que ele contou foi simples e confirmou as minhas dedu��es. O visitante, ao entrar em casa, havia tirado da manga um punhal, aterrorizando-o de tal modo com a id�ia de morte instant�nea e inevit�vel, que fora f�cil seq�estr�-lo pela segunda vez. De fato, era quase hipn�tico o efeito que o bandido cheio de risos exercera sobre o infeliz ling�ista, pois s� falava nele de m�os tr�mulas e faces p�lidas. Fora levado rapidamente a Beckenham, atuando como int�rprete na segunda entrevista, mais dram�tica ainda que a primeira. Os dois ingleses amea�aram o prisioneiro de morte imediata se ele n�o concordasse com suas exig�ncias. Finalmente, vendo-o indiferente a todas as amea�as, jogaram-no de volta � pris�o. Depois de acusarem Melas de trai��o, por causa dos an�ncios publicados em todos os jornais, tinham-no atordoado com um golpe de bengala. Ele n�o se lembrava de mais nada at� nos ver inclinados sobre ele.</p><p>Este foi o caso estranho do Int�rprete Grego, cuja explica��o continua envolta em certo mist�rio. Conseguimos descobrir, comunicando-nos com o senhor que respondeu ao an�ncio, que a infeliz senhora pertencia a uma rica fam�lia grega e que estava na Inglaterra em visita a amigos. Nessa ocasi�o conhecera um rapaz chamado Harold Latimer, que exercera tamanha influ�ncia sobre ela a ponto de convenc�-la a fugir com ele. Os amigos, escandalizados com o fato, tinham se limitado a informar o irm�o em Atenas e lavado as m�os. O irm�o, chegando � Inglaterra, cometera a imprud�ncia de se colocar � merc� de Latimer e de seu s�cio, chamado Wilson Kemp, um homem de p�ssimos antecedentes. Os dois, ao descobrirem que, por ignorar o idioma, ele estava indefeso em suas m�os, mantiveram-no prisioneiro, tentando, por meio de viol�ncia e de fome, obrig�-lo a ceder-lhes os bens dele pr�prio e da irm�. Mantinham-no na casa sem o conhecimento da mo�a, e o esparadrapo no rosto tinha o objetivo de dificultar sua identifica��o, caso ela chegasse a v�-lo. Mas a percep��o feminina reconhecera-o imediatamente atrav�s do disfarce quando, por ocasi�o da visita do int�rprete, encontrara-o pela primeira vez. Mas a pobre mo�a tamb�m era prisioneira, pois n�o havia mais ningu�m na casa, exceto o empregado que servia de cocheiro e sua mulher, ambos instrumentos dos conspiradores. Ao verem que o segredo fora revelado e que o prisioneiro n�o seria coagido, os dois bandidos, levando a mo�a, abandonaram em poucas horas a casa alugada, depois de se vingarem, segundo julgavam, do homem que os havia desafiado e daquele que os tra�ra.</p><p>Meses depois, recebemos de Budapeste um estranho recorte de jornal. Dizia que dois ingleses que viajavam com uma mulher haviam morrido de maneira tr�gica, ambos apunhalados. A pol�cia h�ngara achava que haviam brigado e infligido um ao outro ferimentos mortais. Holmes, contudo, tinha uma opini�o diferente e afirma at� hoje que se consegu�ssemos encontrar a mo�a grega, saber�amos como haviam sido vingados os males feitos a ela e ao irm�o.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o tratado naval</strong></p><p>O m�s de Julho subseq�ente ao meu casamento tornuou-se memor�vel gra�as a tr�s casos interessantes em que tive o privil�gio de acompanhar Sherlock Holmes e estudar seus m�todos. Eles est�o registrados em minhas anota��es com os seguintes t�tulos: �A aventura da segunda mancha�, �A aventura do tratado naval� e �A aventura do capit�o cansado�. O primeiro envolve interesses t�o importantes e incrimina tantas fam�lias destacadas do reino que durante muitos anos ser� imposs�vel traz�-lo a p�blico. Mas nenhum caso em que Holmes se envolveu mostrou com tanta nitidez o valor de seus m�todos anal�ticos ou impressionou t�o profundamente as pessoas que trabalharam com ele. Ainda conservo um relat�rio fiel da entrevista em que ele demonstrou os fatos verdadeiros do caso a Dubugue, da pol�cia de Paris, e a Fritz von Waldbaun, o conhecido perito de Dantzig, que haviam desperdi�ado suas energias em quest�es secund�rias. Mas s� depois da chegada do novo s�culo a hist�ria poder� ser revelada sem risco. Enquanto isso, passo ao segundo da minha lista, que tamb�m prometia, a certa altura, ser de import�ncia nacional, e foi marcado por v�rios incidentes que lhe d�o um car�ter especial.</p><p>Em meus tempos de escola, eu fora muito amigo de um garoto chamado Percy Phelps, que tinha mais ou menos a minha idade, embora estivesse duas turmas � minha frente. Percy era um garoto muito inteligente. Arrebatou todos os pr�mios que a escola distribu�a, acabando por conquistar uma bolsa de estudos que o levou a continuar sua carreira triunfante em Cambridge. Tinha excelentes rela��es e, mesmo quando n�o pass�vamos de garotinhos, sab�amos que o irm�o da m�e dele era lorde Holdhurst, o grande pol�tico conservador. Esse importante parentesco de pouco lhe serviu na escola; pelo contr�rio, ach�vamos emocionante persegui-lo no recreio, agredindo-o nos tornozelos com um bast�o de cr�queteMas as coisas mudaram quando ele ingressou no mundo exterior. Ouvi falar vagamente de seus talentos e, gra�as � influ�ncia que o protegia, conquistou um bom cargo no Foreign Office. Da� em diante esqueci-me completamente dele, at� que esta carta recordou-me sua exist�ncia:</p><empty-line/><p><emphasis>Briarbrae, Woking</emphasis></p><p><emphasis>Meu caro Watson,</emphasis></p><p><emphasis>Estou certo de que se lembra de �Tadpole� Phelps, que cursava o quinto ano quando voc� estava no terceiro. � poss�vel at� que tenha ouvido dizer que gra�as � influ�ncia do meu tio consegui um bom lugar no Foreign Office, em cargo de confian�a e prest�gio, at� que uma desgra�a terr�vel destruiu completamente a minha carreira.</emphasis></p><p><emphasis>In�til expor os detalhes do medonho acontecimento. Se concordar com o meu pedido, � prov�vel que eu os revele a voc�. Acabo de me recuperar de 9 semanas de febre alta, mas sinto-me ainda extremamente fraco. Acha que poderia trazer o seu amigo, sr. Holmes, para conversar comigo? Gostaria de ouvir a opini�o dele sobre o caso, embora as autoridades me assegurem que n�o h� nada a fazer. Procure traz�-lo o mais depressa poss�vel. Cada minuto parece uma hora enquanto vivo neste horr�vel suspense. Diga ao sr. Holmes que se n�o pedi antes a sua orienta��o n�o foi por desdenhar dos talentos dele e sim porque estive fora de mim depois do golpe. Agora estou novamente em meu ju�zo perfeito, embora n�o ouse pensar muito no caso, temendo uma reca�da. Continuo t�o fraco que esta carta precisou ser ditada. Procure traz�-lo.</emphasis></p><p><emphasis>Seu velho colega,</emphasis></p><p><emphasis>Percy Phelps</emphasis>.</p><empty-line/><p>Ao ler a carta, algo me comoveu. Qualquer coisa de lamentoso nos reiterados apelos para que eu levasse Holmes. Fiquei t�o comovido que, embora o caso fosse dif�cil, eu tentaria, pois sabia que Holmes amava muito a sua arte e estava sempre t�o disposto a ajudar um cliente quanto este a receber ajuda. Minha mulher concordou comigo em que eu deveria me comunicar imediatamente com ele, de modo que uma hora ap�s o caf�-da-manh� eu estava de volta ao velho apartamento de Baker Street.</p><p>Holmes, de roup�o, estava sentado � sua mesinha e totalmente concentrado em uma pesquisa qu�mica. Uma grande retorta fervia furiosamente sobre a chama azulada de um bico de Bunsen e as gotas destiladas condensavam-se num grande recipiente de 2 litros. Meu amigo mal ergueu a vista quando entrei e eu, vendo que a experi�ncia era importante, sentei-me numa poltrona e aguardei. Ele mexeu em v�rios recipientes, colhendo gotas de cada uma de suas pipetas de vidro, e finalmente trouxe para a mesa um tubo de ensaio que continha uma solu��o. Com a m�o direita segurava um peda�o de papel de litmo.</p><p>� Voc� chegou num momento cr�tico, Watson � falou. � Se este papel continuar azul, tudo bem. Caso fique vermelho, isto significa que um homem morrer�.</p><p>Mergulhou-o no tubo de ensaio e imediatamente o papel adquiriu uma colora��o vermelho-sujo, opaco.</p><p>� Hum! O que eu esperava! Estarei �s suas ordens daqui a um instante, Watson. Voc� encontrar� fumo no chinelo persa.</p><p>Virou-se para a escrivaninha e rabiscou v�rios telegramas, que foram entregues ao mensageiro. Em seguida jogou-se na poltrona em frente e ergueu os joelhos, enla�ando com os dedos os tornozelos magros.</p><p>� Um homic�dio muito comum � ele disse. � Imagino que voc� tenha algo mais interessante. Voc� � a ave de mau agouro do crime, Watson. Do que se trata?</p><p>Entreguei-lhe a carta, que ele leu com a maior aten��o.</p><p>� Revela pouco, n�o acha? � observou ao devolv�-la.</p><p>� Quase nada.</p><p>� Mas a caligrafia � interessante.</p><p>� A caligrafia n�o � dele.</p><p>� Exatamente. � de mulher.</p><p>� De homem, sem d�vida! � protestei.</p><p>� N�o, de mulher. E mulher de temperamento incomum. No in�cio de uma investiga��o � importante saber que o cliente est� em estreito contato com algu�m de natureza excepcional, seja para o bem ou para o mal. J� estou interessado no caso. Se estiver pronto, iremos imediatamente para Woking visitar esse diplomata que est� em apuros e a mulher para quem ele dita as suas cartas.</p><p>Tivemos a sorte de pegar logo um trem em Waterloo e em pouco menos de uma hora est�vamos entre os abetos e as urzes de Woking. era uma casa grande e isolada, constru�da em terreno extenso, a poucos minutos da esta��o. Depois de entregar nossos cart�es, fomos levados at� um sal�o mobiliado com eleg�ncia, onde apareceu pouco depois um senhor um tanto gordo, que nos recebeu com muita cordialidade. Devia estar mais perto dos 40 anos que dos 30, mas era t�o corado e tinha olhos t�o alegres, que dava a impress�o de ser um garoto gorducho e levado.</p><p>� Ainda bem que vieram � disse, apertando-nos as m�os efusivamente. � Percy perguntou pelos dois a manh� inteira. O meu pobre amigo agarra-se a qualquer esperan�a. Os pais dele pediram-me que os recebesse, pois a simples men��o do caso � muito penosa para eles.</p><p>� Ainda n�o conhecemos os detalhes � observou Holmes. � Noto que n�o pertence � fam�lia.</p><p>O homem� pareceu surpreso, e depois, baixando a vista, come�ou a rir.</p><p>� Notou o �J.H.� no meu medalh�o. Por um momento pensei que se tratasse de algo muito inteligente. Joseph Harrison � o meu nome, e como Percy vai se casar com minha irm� Annie, serei parente por afinidade. Encontrar�o minha irm� no quarto dele, porque � ela quem vem cuidando dele nos �ltimos dois meses. Ser� melhor subirmos logo, porque sei que ele est� muito impaciente.</p><p>O quarto ao qual nos conduziram ficava no mesmo andar do sal�o. Estava mobiliado, em parte como sala de estar, em parte como quarto de dormir, com flores artisticamente arrumadas em todos os recantos. Um rapaz muito p�lido e abatido estava deitado num sof� perto da janela aberta, por onde entravam os perfumes do jardim e o ar c�lido do dia de ver�o. Junto dele estava uma mulher, que se levantou quando entramos.</p><p>� Quer que eu saia, Percy? � ela perguntou.</p><p>Segurando-lhe a m�o, ele a reteve.</p><p>� Como vai, Watson? � ele perguntou cordialmente. � N�o o reconheceria com esse bigode e creio que voc� tamb�m seria incapaz de jurar que sou eu. Este � o seu c�lebre amigo, sr. Sherlock Holmes, eu presumo.</p><p>Apresentei-o em poucas palavras e nos sentamos. O rapaz gordo havia desaparecido, mas a irm� continuou segurando a m�o do inv�lido. Era vistosa e atraente, um tanto baixa e roli�a para uma perfeita simetria, mas com bela tez cor de oliva, grandes olhos negros e farta cabeleira da mesma cor. Seu colorido acentuado tornava ainda mais p�lido, desgastado e abatido o rosto do rapaz.</p><p>� N�o pretendo desperdi�ar seu tempo � disse ele, erguendo-se um pouco no sof�. � Vou direto ao assunto, sem pre�mbulos. Eu era um homem feliz e bem-sucedido, sr. Holmes, e �s v�speras do meu casamento uma desgra�a repentina e terr�vel destruiu todas as minhas perspectivas.</p><p>� Como Watson deve ter-lhe contado, eu estava no Foreign Office por influ�ncia de meu tio, lorde Holdhurst, e cheguei rapidamente a um cargo de confian�a. Quando meu tio se tornou ministro do Exterior no atual governo, confiou-me v�rias miss�es sigilosas, eu as cumpri com �xito e isso fez com que ele depositasse uma confian�a absoluta na minha capacidade e tato.</p><p>� H� quase dez semanas � para ser mais exato, no dia 23 de maio � ele me chamou ao seu gabinete particular, e depois de me cumprimentar pelo bom trabalho que havia realizado, informou que me confiaria uma miss�o sigilosa.</p><p>� Ele pegou um rolo de papel cinzento que estava na escrivaninha e disse:</p><p>� �Este � o original daquele tratado secreto entre a Inglaterra e a It�lia sobre o qual, lamento dizer, alguns boatos j� chegaram � imprensa. � fundamental que nada mais seja divulgado. As embaixadas da Fran�a e da R�ssia pagariam uma quantia imensa para tomar conhecimento do conte�do destes pap�is. Eles n�o sairiam do meu gabinete se n�o fosse absolutamente necess�rio mandar copi�-los. Voc� tem escrivaninha na sua sala?�</p><p>� �Tenho, sim, senhor.�</p><p>� �Ent�o, leve o tratado e tranque-o ali. Deixarei instru��es para que voc� permane�a aqui depois que os outros sa�rem, a fim de poder copi�-lo � vontade, sem medo de ser observado. Quando terminar, volte a trancar o original e a c�pia na sua escrivaninha e venha me entregar pessoalmente os documentos amanh� de manh�.�</p><p>� Levei os documentos e...</p><p>� Um momento � interrompeu Holmes. � Estavam sozinhos durante essa conversa?</p><p>� Totalmente.</p><p>� Numa sala ampla?</p><p>� Com 9 metros de lado.</p><p>� Estavam no centro?</p><p>� Sim, mais ou menos.</p><p>� E falavam em voz baixa?</p><p>� Meu tio fala sempre em voz muito baixa. Eu quase n�o falei.</p><p>� Obrigado � disse Holmes, fechando os olhos. � Continue, por favor.</p><p>� Fiz exatamente o que ele mandou e esperei at� que todos sa�ssem. Um dos funcion�rios que trabalham na minha sala, Charles Gorot, tinha uma tarefa atrasada para p�r em dia, de modo que eu o deixei ali enquanto sa�a para jantar. Quando voltei, ele j� havia sa�do. Eu estava ansioso para terminar o trabalho, pois sabia que Joseph, o sr. Harrison, que acabam de conhecer, estava na cidade e iria para Woking pelo trem das 23 horas. Se fosse poss�vel, eu gostaria de peg�-lo tamb�m.</p><p>� Quando examinei o tratado, vi logo que era t�o importante que meu tio n�o exagerara quando falou sobre ele. Sem entrar em detalhes, posso dizer que definia a posi��o da Gr�-Bretanha em rela��o � Tr�plice Alian�a e antecipava a pol�tica que este pa�s adotaria no caso de a armada francesa conseguir o dom�nio total da italiana no Mediterr�neo. As quest�es que ele abordava eram puramente navais. O documento trazia as assinaturas de altos dignit�rios. Li rapidamente as p�ginas e comecei a copi�-las.</p><p>� Era um longo documento escrito em franc�s, contendo 26 artigos independentes. Copiava o mais depressa poss�vel, mas �s 21 horas estava apenas no 9o artigo e pareceu-me in�til tentar pegar o trem. Comecei tamb�m a ficar sonolento e vagaroso, tanto em conseq��ncia do jantar como de um longo dia de trabalho. Uma x�cara de caf� me despertaria. Um cont�nuo permanece a noite inteira num cub�culo ao p� da escada. Ele tem o h�bito de preparar caf� num fogareiro a �lcool para os funcion�rios que trabalhem fora do expediente. Toquei a campainha para cham�-lo.</p><p>� Para minha surpresa, foi uma mulher quem atendeu, pessoa idosa, alta, de fei��es grosseiras, usando um avental. Explicou que era a mulher do cont�nuo e que fazia a faxina. Pedi a ela que me trouxesse caf�.</p><p>� Copiei mais dois artigos e ent�o, mais sonolento do que antes, levantei-me e caminhei de um lado para o outro da sala, a fim de esticar as pernas. O caf� ainda n�o havia chegado e fiquei imaginando qual seria o motivo da demora. Abri a porta e desci o corredor para descobrir. H� um corredor mal-iluminado, que sai da sala onde eu estava trabalhando e constitui a sua �nica via de acesso, e que termina numa escada em curva, com o cub�culo do cont�nuo no t�rreo. No meio da escada h� um pequeno patamar, de onde sai outro corredor formando um �ngulo reto. O segundo conduz, por uma escadinha, a uma porta lateral usada pelos criados e tamb�m por alguns funcion�rios, por ser o caminho mais curto para quem vem da Charles Street.</p><p>� Obrigado. Creio que compreendo bem � disse Sherlock Holmes.</p><p>� � da maior import�ncia que observem este ponto. Desci a escada at� o vest�bulo, onde encontrei o cont�nuo profundamente adormecido no cub�culo, o bule de caf� fervendo sobre o fogareiro a �lcool, a �gua espirrando pelo ch�o. Estendi a m�o para sacudir o homem, que continuava ferrado no sono, quando uma campainha soou bem alto sobre a cabe�a dele, que acordou sobressaltado.</p><p>� �Sr. Phelps!�, exclamou, olhando-me, aturdido.</p><p>� �Desci para saber se meu caf� est� pronto.�</p><p>� �Pus a chaleira para ferver e adormeci, senhor.�</p><p>� Olhou para mim e, em seguida, para a campainha que continuava vibrando, cada vez mais espantado.</p><p>� �Se o senhor estava aqui, quem tocou a campainha?�, perguntou.</p><p>� �Campainha? Que campainha � esta?�</p><p>� �A da sala onde o senhor estava trabalhando.�</p><p>� Tive a impress�o de que uma m�o gelada apertava meu cora��o. Algu�m estava na sala onde meu precioso tratado ficara sobre a mesa. Corri como um doido pela escada e atravessei o corredor. N�o havia ningu�m no corredor, sr. Holmes. N�o havia ningu�m na sala. Tudo estava exatamente como eu havia deixado, exceto os documentos entregues aos meus cuidados. A c�pia continuava na mesa e o original havia desaparecido.</p><p>Holmes retesou-se na cadeira e esfregou as m�os. Percebi que o problema era do tipo que ele gostava.</p><p>� O que fez ent�o? � murmurou.</p><p>� Percebi imediatamente que o ladr�o devia ter subido a escada depois de entrar pela porta lateral. � claro que eu o teria encontrado se ele viesse pelo lado oposto.</p><p>� Tem certeza de que n�o estava escondido o tempo todo na sala, ou no corredor que acaba de descrever como mal-iluminado?</p><p>� � totalmente imposs�vel. Nem um rato se ocultaria na sala ou no corredor. N�o h� esconderijo poss�vel.</p><p>� Obrigado. Continue, por favor.</p><p>� O cont�nuo, vendo pela minha palidez que algo terr�vel acontecera, havia me seguido pela escada. Atravessamos o corredor e descemos os degraus �ngremes que levam a Charles Street. A porta estava fechada, mas n�o trancada. N�s a abrimos e fomos at� a rua. Lembro-me nitidamente de que naquele instante soaram tr�s pancadas no rel�gio de uma igreja pr�xima. Eram 21:45h.</p><p>� Isto � da maior import�ncia � observou Holmes, fazendo uma anota��o no punho da camisa.</p><p>� A noite estava muito escura e ca�a uma chuva fina e quente. N�o havia ningu�m em Charles Street, mas no final, em Whitehall, o tr�fego era intenso, como sempre. Corremos pela cal�ada, cabe�a descoberta como est�vamos, e na esquina encontramos um policial.</p><p>� �Houve um roubo�, eu disse, arquejante. �Um documento de valor imenso foi roubado do Foreign Office. Passou algu�m por aqui?�</p><p>� �Cheguei aqui h� 15 minutos, senhor. S� uma pessoa passou nesse tempo: uma mulher alta e idosa, com um xale Paisley.�</p><p>� �Ah, era minha mulher�, disse o cont�nuo. �N�o passou mais ningu�m?�</p><p>� �Ningu�m.�</p><p>� �Ent�o o ladr�o deve ter sa�do pelo outro lado�, disse o sujeito, puxando-me pela manga.</p><p>� Mas eu n�o estava convencido, e as tentativas que ele fez para me afastar aumentaram a minha desconfian�a.</p><p>� �Para que lado foi a mulher?�, perguntei.</p><p>� �N�o sei, senhor. Eu a vi passar, mas n�o tinha motivo especial para reparar nela. Parecia estar com pressa.�</p><p>� �H� quanto tempo foi isso?�</p><p>� �H� alguns minutos.�</p><p>� �Nos �ltimos cinco minutos?�</p><p>� �Bem, n�o poderia ser mais que isso.�</p><p>� �O senhor est� perdendo tempo e cada minuto � importante�, disse o cont�nuo. �Minha mulher nada tem a ver com isso. Vamos para o outro lado da rua. Bem, se n�o vier, eu vou.�</p><p>� E saiu correndo na dire��o oposta. Eu o alcancei num instante e segurei-o pela manga.</p><p>� �Onde � que voc� mora?�</p><p>� �Em Ivy Lane, no 16, Brixton. Mas n�o se deixe levar a uma pista falsa, sr. Phelps. Venha para o outro lado da rua e vamos ver se descobrimos alguma coisa.�</p><p>� Eu nada tinha a perder seguindo o conselho dele e, acompanhados do policial, caminhamos rapidamente at� a rua movimentada, com transeuntes passando em todas as dire��es, ansiosos para chegarem a um local abrigado naquela noite de chuva. N�o havia nenhum policial que pudesse nos dizer quem tinha passado por ali.</p><p>� Voltamos ao escrit�rio e revistamos as escadas e os corredores sem o menor resultado. O corredor que dava na sala era forrado com lin�leo claro, que fica marcado com facilidade. N�s o examinamos cuidadosamente, mas n�o encontramos nenhum sinal de pegadas.</p><p>� Tinha chovido a tarde toda?</p><p>� Desde as 19 horas, mais ou menos.</p><p>� Ent�o, por que a mulher que entrou na sala por volta das 21 horas n�o deixou marcas de sapatos enlameados?</p><p>� Ainda bem que fez essa observa��o. Isso me ocorreu na ocasi�o. As faxineiras t�m o h�bito de tirar as botas no cub�culo do cont�nuo e cal�ar chinelos.</p><p>� � claro. Portanto, n�o havia marcas, embora a noite fosse chuvosa. A seq��ncia de acontecimentos � extremamente interessante. O que fez ent�o?</p><p>� Examinamos tamb�m a sala. N�o h� possibilidade de uma porta secreta e as janelas ficam a uns 9 metros do ch�o. Ambas estavam fechadas por dentro. O tapete elimina a possibilidade de um al�ap�o e o teto � do tipo comum, caiado de branco. Aposto a minha vida que quem roubou os pap�is s� poderia ter passado pela porta.</p><p>� E a lareira?</p><p>� N�o h� lareira e sim uma estufa. A corda da campainha est� presa ao fio � direita da minha mesa. Quem a tocou deve ter ido direto � escrivaninha. Mas por que um criminoso tocaria a campainha? � um mist�rio insol�vel.</p><p>� O incidente, com certeza, � incomum. O que fez em seguida? Examinou a sala, presumo, para ver se o intruso havia deixado vest�gios � uma ponta de charuto, uma luva ca�da, um grampo ou algo semelhante?</p><p>� N�o encontramos nada.</p><p>� Algum cheiro?</p><p>� N�o pensamos nisso.</p><p>� O cheiro de fumo seria importante nesse tipo de investiga��o.</p><p>� Eu n�o fumo, de modo que teria sentido qualquer cheiro de tabaco. N�o havia nenhuma pista. O �nico fato concreto foi que a mulher do cont�nuo � sra. Tangey � o nome dela � saiu �s pressas do local. Ele n�o conseguiu dar nenhuma explica��o, a n�o ser que ela costuma ir para casa �quela hora. O policial e eu achamos que o melhor seria peg�-la antes que pudesse passar adiante os documentos, se estivessem com ela.</p><p>O alarme chegou � Scotland Yard e o sr. Forbes, o detetive, veio imediatamente e assumiu o caso com bastante energia. Pegamos um fiacre e em meia hora est�vamos no endere�o que o cont�nuo havia dado. Uma jovem abriu a porta. Soubemos que era a filha mais velha da sra. Tangey. A m�e ainda n�o havia chegado e ficamos esperando.</p><p>� Cerca de dez minutos depois, algu�m bateu � porta e cometemos um erro grave, pelo qual assumo a responsabilidade. Em vez de abrirmos a porta, deixamos que a mo�a o fizesse. Ouvimos quando ela disse: �Mam�e, tem dois homens aqui � sua espera�. Logo depois ouvimos passos apressados no corredor. Forbes abriu a porta da sala e corremos para a pe�a dos fundos, ou cozinha, mas a mulher havia chegado antes. Fitou-nos com olhos desafiadores e ent�o, reconhecendo-me de repente, manifestou absoluto espanto.</p><p>� �� o sr. Phelps, do escrit�rio!�, exclamou.</p><p>� �Quem pensava que �ramos quando fugiu de n�s?�, perguntou o detetive.</p><p>� �Pensei que eram os cobradores. Tivemos problemas com um comerciante.�</p><p>� �A desculpa n�o serve�, replicou Forbes. �Temos motivos para acreditar que retirou um documento importante do Foreign Office e correu at� aqui para escond�-lo. Ter� que nos acompanhar � Scotland Yard para ser revistada.�</p><p>� Ela protestou e resistiu em v�o. Chamaram uma carruagem e n�s tr�s voltamos nela, n�o sem antes examinar a cozinha e principalmente o fog�o, para ver se ela teria escondido os pap�is no instante em que ficou sozinha. Mas n�o havia sinais de cinzas ou papel picado. Quando chegamos � Scotland Yard, ela foi entregue a uma policial para ser revistada. Esperei agoniado at� que ela voltasse com o relat�rio. N�o havia sinal de documentos.</p><p>� Pela primeira vez fui dominado pelo horror da situa��o em toda a sua plenitude. At� ent�o eu estivera agindo, e a atividade entorpecera meu racioc�nio. Tinha tanta certeza de que ia recuperar logo o documento que n�o ousara pensar nas conseq��ncias, caso isso n�o ocorresse. Mas nada me restava a fazer e havia tempo de sobra para compreender a minha situa��o. Era horr�vel! Watson dir� que na escola eu era um menino nervoso e sens�vel. � o meu temperamento. Pensei no meu tio e nos seus colegas de Gabinete, na vergonha que eu traria para eles, para mim mesmo e para todos os que estavam ligados a mim. O que importava que eu fosse a v�tima de um acidente extraordin�rio? N�o havia desculpas para acidentes quando estavam em jogo interesses diplom�ticos. Estava arruinado, vergonhosa e desesperadamente arruinado. N�o sei o que fiz. Acho que fiz uma cena. Tenho uma vaga lembran�a de um grupo de policiais me rodeando e tentando me acalmar. Um deles levou-me at� Waterloo e me embarcou no trem para Woking. Creio que teria me acompanhado at� em casa se n�o fosse o dr. Ferrier, que mora perto de mim e tomou o mesmo trem. O m�dico muito gentilmente encarregou-se de me trazer, o que foi bom, porque tive uma crise na esta��o e ao chegar a casa estava praticamente louco.</p><p>� Pode imaginar o susto da fam�lia quando foi despertada pela campainha do m�dico e me encontrou nessas condi��es. A pobre Annie e minha m�e ficaram desoladas. O dr. Ferrier ouvira o suficiente do detetive, na esta��o, para explicar o que havia acontecido, e a hist�ria n�o melhorou a situa��o. Era evidente que eu estava gravemente enfermo, de modo que Joseph tirou as coisas deste quarto alegre, que passou a ser o meu quarto de doente. E estou aqui h� nove semanas, sr. Holmes, inconsciente, ou delirando com febre alta. N�o fossem a srta. Harrison e os cuidados m�dicos, eu n�o estaria aqui conversando com o senhor. Ela cuidava de mim durante o dia e uma enfermeira ficava comigo � noite, pois em meus acessos de loucura eu era capaz de qualquer coisa. Aos poucos fui recobrando a raz�o, mas somente nos �ltimos tr�s dias recuperei inteiramente a mem�ria. �s vezes gostaria que isso n�o tivesse acontecido. A primeira coisa que fiz foi telegrafar ao sr. Forbes, o encarregado do caso. Ele veio at� aqui e assegurou-me que, embora tivessem feito todo o poss�vel, n�o se descobriu nenhuma pista. O cont�nuo e a mulher foram investigados, mas isso n�o ajudou a esclarecer o caso. As suspeitas da pol�cia reca�ram sobre o jovem Gorot que, como devem lembrar, tinha ficado no escrit�rio at� mais tarde naquela noite. O fato de estar trabalhando em hor�rio extraordin�rio e o sobrenome franc�s s�o os �nicos pontos que poderiam despertar suspeitas; mas, para ser exato, s� comecei a trabalhar depois que ele saiu, e sua fam�lia � de origem huguenote, embora t�o inglesa nas simpatias e tradi��es quanto eu ou voc�s. Nada se encontrou que o incriminasse em nenhum� aspecto, e o caso foi encerrado. Recorro � sua ajuda, sr. Holmes, como a minha �ltima esperan�a. Se n�o fizer nada por mim, minha honra e minha posi��o estar�o perdidas para sempre.</p><p>O doente deixou-se cair nos travesseiros, exausto pela longa narrativa, enquanto a mo�a dava-lhe um copo contendo algum rem�dio estimulante. Holmes ficou sentado em sil�ncio, com a cabe�a inclinada para tr�s e os olhos fechados, em atitude que pareceria de indiferen�a a um estranho, mas que eu sabia ser sinal da mais intensa concentra��o.</p><p>� Seu relato foi t�o expl�cito que tenho poucas perguntas a fazer � disse finalmente. � Mas h� uma extremamente importante. Contou a algu�m que tinha esta tarefa especial para executar?</p><p>� A ningu�m.</p><p>� Nem mesmo � srta. Harrison, por exemplo?</p><p>� N�o. N�o voltei a Woking entre o momento em que recebi a ordem e aquele em que comecei a execut�-la.</p><p>� E ningu�m de sua fam�lia passou pelo escrit�rio por acaso, para v�-lo?</p><p>� Ningu�m.</p><p>� Algu�m sabia como chegar � sua sala?</p><p>� Sim, todos a conheciam.</p><p>� � claro que, se n�o disse nada a ningu�m a respeito do tratado, estas perguntas s�o irrelevantes.</p><p>� N�o disse nada.</p><p>� Sabe alguma coisa a respeito do cont�nuo?</p><p>� Nada, a n�o ser que � um velho soldado.</p><p>� De que regimento?</p><p>� Ouvi dizer que foi do Coldstream Guards.</p><p>� Obrigado. Conseguirei detalhes com Forbes, sem d�vida. As autoridades s�o excelentes para acumular fatos, embora nem sempre saibam utiliz�-los. Que coisa linda � uma rosa!</p><p>Passando pelo sof�, aproximou-se da janela aberta e ergueu a haste de uma rosa de adorno e p�s-se a examinar a atraente mistura de vermelho e verde. Era uma nova faceta do seu temperamento, pois eu nunca o vira demonstrar qualquer interesse pela natureza.</p><p>� A dedu��o nunca � t�o necess�ria como na religi�o � disse ele, recostando-se nas venezianas. � Pode ser transformada em ci�ncia exata pela pessoa que raciocina. A mais elevada afirma��o da bondade da Provid�ncia reside, para mim, nas flores. Tudo o mais, nossos talentos, desejos, alimentos, s�o necess�rios, em primeira inst�ncia, � nossa vida. Mas esta rosa � algo extra. Seu perfume e sua cor s�o um adorno da vida, n�o uma condi��o da exist�ncia. Somente a bondade doa algo extra. Repito, portanto, que temos muito a esperar das flores.</p><p>Percy Phelps e a mo�a olharam para Holmes com surpresa e decep��o. Ele estava devaneando com a rosa entre os dedos, um devaneio que durou alguns minutos e foi interrompido pela mo�a.</p><p>� V� alguma possibilidade de resolver o mist�rio, sr. Holmes? � perguntou, com certa aspereza.</p><p>� O mist�rio! � exclamou, voltando � realidade concreta. � Seria absurdo negar que o caso � nebuloso e complicado, mas prometo estudar a quest�o e comunicar qualquer detalhe que venha a me impressionar.</p><p>� V� alguma pista?</p><p>� Voc� me forneceu sete, mas � claro que preciso examin�-las antes de me pronunciar acerca do seu valor.</p><p>� Suspeita de algu�m?</p><p>� Suspeito de mim mesmo.</p><p>� O qu�?</p><p>� De chegar a conclus�es precipitadas.</p><p>� Ent�o volte para Londres e teste as suas conclus�es.</p><p>� Conselho excelente, srta. Harrison � disse Holmes, erguendo-se. � Creio, Watson, que � o melhor que temos a fazer. N�o se entregue a falsas esperan�as, sr. Phelps. O caso � muito complicado.</p><p>� N�o vou conseguir descansar at� tornar a v�-lo! � exclamou o diplomata.</p><p>� Voltarei amanh� pelo mesmo trem, embora o mais prov�vel � que o meu relat�rio seja negativo.</p><p>� Deus o aben�oe pela promessa de voltar � exclamou o nosso cliente. � Sinto-me reanimado s� de saber que algo est� sendo feito. Por falar nisso, recebi uma carta de lorde Holdhurst.</p><p>� Ah! E o que ele disse?</p><p>� Uma carta fria, mas n�o �spera. Creio que minha doen�a grave me salvou disso. Repetiu que o assunto era de m�xima import�ncia e acrescentou que n�o seria tomada nenhuma medida em rela��o ao meu futuro � refere-se, naturalmente, � minha demiss�o � at� que eu estivesse recuperado e tivesse oportunidade de compensar o meu deslize.</p><p>� Razo�vel e cheio de considera��o � observou Holmes. � Vamos, Watson. Temos um longo dia de trabalho pela frente na cidade.</p><p>O sr. Joseph Harrison levou-nos at� a esta��o e pouco depois tom�vamos um trem de Portsmouth. Holmes mergulhou em profunda medita��o e mal abriu a boca at� ultrapassarmos a esta��o de Clapham Junction.</p><p>� � muito agrad�vel chegar a Londres por uma dessas linhas elevadas, que permitem ver as casas do alto.</p><p>Pensei que estivesse brincando, pois o panorama era deprimente; mas ele explicou:</p><p>� Veja aqueles grupos de constru��es isoladas e altas, erguendo-se acima dos telhados como ilhas de tijolo num mar cor de chumbo.</p><p>� Os internatos.</p><p>� Far�is, meu rapaz! Far�is iluminando o futuro! C�psulas contendo centenas de pequenas sementes, das quais brotar� a Inglaterra melhor e mais s�bia do futuro. Suponho que Phelps n�o beba.</p><p>� Creio que n�o.</p><p>� Tamb�m acho. Mas precisamos levar em conta todas as possibilidades. O pobre-diabo meteu-se em grandes apuros e n�o sei se conseguiremos tir�-lo disso. O que achou da srta. Harrison?</p><p>� Uma mo�a de temperamento en�rgico.</p><p>� Sim, mas � boa pessoa, se n�o me engano. Ela e o irm�o s�o filhos �nicos de um fabricante de ferro de Northumberland. Phelps apaixonou-se por ela quando viajou no inverno passado e a mo�a veio para ser apresentada � fam�lia dele, escoltada pelo irm�o. E ent�o ocorreu o esc�ndalo e ela ficou para cuidar do noivo, enquanto o irm�o, Joseph, vendo-se em situa��o confort�vel, permaneceu tamb�m. Andei fazendo algumas investiga��es independentes. Mas hoje ser� um dia de pesquisas.</p><p>� Meus clientes... � comecei.</p><p>� Se achar que seus casos s�o mais interessantes que os meus... � disse Holmes, com certa aspereza.</p><p>� Eu pretendia dizer que meus clientes podem me dispensar por um ou dois dias. � a �poca menos movimentada do ano.</p><p>� �timo � disse ele, recuperando o bom humor... � Ent�o examinaremos juntos o assunto. Creio que devemos come�ar por uma visita a Forbes. Ele provavelmente pode nos contar todos os detalhes de que precisamos para descobrir de que lado o caso deve ser abordado.</p><p>� Voc� disse que tinha uma pista.</p><p>� Temos v�rias, mas s� podemos testar sua validade com novas investiga��es. O crime mais dif�cil de solucionar � aquele sem finalidade. Este n�o �. Quem lucra com ele? O embaixador franc�s, o russo, ou quem conseguisse vender aos dois o documento. E lorde Holdhurst.</p><p>� Lorde Holdhurst!</p><p>� � conceb�vel que um estadista se encontre em situa��o de n�o lamentar que o documento tenha sido acidentalmente destru�do.</p><p>� N�o um estadista com a ficha honrosa de lorde Holdhurst.</p><p>� � uma possibilidade e n�o podemos ignor�-la. Visitaremos hoje o ilustre lorde, para verificar se ele � capaz de nos dizer alguma coisa. Enquanto isso, j� providenciei investiga��es.</p><p>� J�?</p><p>� Sim. Passei telegramas da esta��o de Woking para todos os vespertinos de Londres. Este an�ncio ser� publicado nos jornais.</p><p>Entregou-me uma folha arrancada de uma caderneta, onde tinha rabiscado a l�pis:</p><empty-line/><p>�Recompensa de 10 libras. � O n�mero do cabriol� que deixou um passageiro no Foreign Office ou nas imedia��es, em Charles Street, por volta de 21:45h de 23 de maio. Respostas para Baker Street, 221-B.�</p><empty-line/><p>� Tem certeza de que o ladr�o chegou num cabriol�?</p><p>� Se n�o chegou, � indiferente. Mas se o sr. Phelps est� certo ao dizer que n�o existe esconderijo na sala ou nos corredores, ent�o a pessoa veio de fora. Se veio de fora numa noite chuvosa e n�o deixou marcas no lin�leo examinado minutos depois de sua passagem, � muito prov�vel que tenha chegado num ve�culo. Sim, creio que podemos deduzir com seguran�a que se trata de um cabriol�.</p><p>� � plaus�vel.</p><p>� Esta � uma das pistas a que me referi, e pode levar-nos a uma descoberta. E h� a hist�ria da sineta, que � a caracter�stica mais marcante do caso. Por que a sineta tocaria? O ladr�o teria feito isso num gesto de desafio? Ou seria algu�m que estava com o ladr�o e queria impedir o crime? Ou teria sido um acidente? Ou...?</p><p>Ele mergulhou novamente numa concentra��o intensa e silenciosa. Mas como estava habituado a todas as suas mudan�as de humor, achei que lhe ocorrera uma nova possibilidade.</p><p>Eram 15:20h quando chegamos ao terminal e, ap�s um almo�o apressado no partimos para a Scotland Yard. Holmes j� havia telegrafado para Forbes e ele estava � nossa espera. Era um homem baixinho, esperto, de express�o viva e nem um pouco am�vel. Mostrou-se glacial, principalmente quando soube do objetivo da visita.</p><p>� Ouvi falar dos seus m�todos, sr. Holmes � disse secamente. � Est� sempre pronto a usar todas as informa��es que a pol�cia coloca � sua disposi��o, e depois encerra o caso por conta pr�pria lan�ando descr�dito sobre n�s.</p><p>� Ao contr�rio. Dos �ltimos 53 casos que investiguei, meu nome s� apareceu em quatro, e a pol�cia recebeu todo o cr�dito pelos outros 49. N�o o culpo por ignorar o detalhe. � jovem e inexperiente. Mas se quiser progredir em sua nova fun��o, trabalhar� comigo e n�o contra mim.</p><p>� Gostaria de ouvir uma ou duas sugest�es � disse o detetive, mudando de atitude. � At� agora n�o obtive cr�dito nenhum neste caso.</p><p>� Que provid�ncias tomou?</p><p>� Tangey, o cont�nuo, vem sendo seguido. Deixou os Guards com boa ficha, e n�o encontramos nada contra ele. Mas a mulher n�o presta. Acho que ela sabe mais a respeito dos documentos do que aparenta.</p><p>� Mandou segui-la?</p><p>� Destacamos uma das mulheres para a tarefa. A sra. Tangey bebe e uma policial conversou com ela duas vezes, quando estava embriagada, mas nada conseguiu.</p><p>� Soube que uns cobradores estiveram na casa.</p><p>� Sim, mas a d�vida foi paga.</p><p>� De onde veio o dinheiro?</p><p>� De fonte limpa. Ele recebeu a pens�o e o casal n�o tem dado mostras de estar rico.</p><p>� Que explica��o ela deu para o fato de ter atendido ao chamado quando o sr. Phelps pediu caf�?</p><p>� Disse que o marido estava muito cansado e quis poup�-lo.</p><p>� Isto combina com o fato de ele ter sido encontrado, minutos depois, adormecido na cadeira. Ent�o n�o h� nada contra eles, exceto o car�ter da mulher. Perguntou por que ela saiu apressada naquela noite? A pressa atraiu a aten��o do policial.</p><p>� Era mais tarde do que o hor�rio habitual e queria chegar logo a casa.</p><p>� Comentou com ela que o senhor e Phelps, que sa�ram pelo menos vinte minutos depois, chegaram antes dela?</p><p>� Explicou o fato pela diferen�a entre um �nibus e um cabriol�.</p><p>� Esclareceu por que, ao chegar a casa, correu para a cozinha?</p><p>� Era ali que guardava o dinheiro para pagar aos cobradores.</p><p>� Ela tem resposta para tudo. Perguntou se, ao sair, encontrou algu�m, ou viu algu�m rondando na Charles Street?</p><p>� N�o viu ningu�m, a n�o ser o policial.</p><p>� Parece que a interrogou minuciosamente. Que outras provid�ncias tomou?</p><p>� O funcion�rio, Gorot, foi seguido durante essas nove semanas, mas sem resultados. N�o podemos provar nada contra ele.</p><p>� Mais alguma coisa?</p><p>� N�o dispomos de nenhuma outra pista para seguir, nenhum ind�cio de qualquer tipo.</p><p>� Formulou alguma teoria a respeito do toque da campainha?</p><p>� Confesso que n�o sei o que pensar sobre isso. Fosse quem fosse, era uma pessoa muito fria para soar o alarme daquela maneira.</p><p>� Sim, foi uma atitude estranha. Muito obrigado pelas informa��es. Se eu conseguir p�r o sujeito em suas m�os, ter� not�cias minhas. Vamos, Watson!</p><p>� Aonde vamos agora? � perguntei quando sa�mos do escrit�rio.</p><p>� Vamos entrevistar lorde Holdhurst, ministro do Gabinete e futuro da Inglaterra.</p><p>Tivemos a sorte de descobrir que lorde Holdhurst ainda estava em seu gabinete de Downing Street. Quando Holmes enviou o seu cart�o, fomos conduzidos imediatamente � sua presen�a. O estadista recebeu-nos com sua velha e conhecida cortesia, fazendo-nos sentar em luxuosas poltronas ao lado da lareira. De p� no tapete entre n�s, silhueta alta e magra, tra�os aquilinos no rosto pensativo, cabelos prematuramente grisalhos, parecia representar um tipo pouco comum � um nobre em toda a acep��o da palavra.</p><p>� Conhe�o-o de nome, sr. Holmes � ele disse com um sorriso. � E � claro que n�o vou fingir que ignoro o motivo da sua visita. S� houve nestas salas uma ocorr�ncia que exigiria a sua aten��o. Posso saber em nome de quem est� agindo?</p><p>� No do sr. Percy Phelps � respondeu Holmes.</p><p>� Ah, o meu infeliz sobrinho. Deve compreender que o nosso parentesco torna ainda mais dif�cil, para mim, proteg�-lo. Receio que o incidente tenha um efeito muito prejudicial sobre a carreira dele.</p><p>� E se o documento for encontrado?</p><p>� O caso seria diferente, � claro.</p><p>� Gostaria de fazer-lhe uma ou duas perguntas, lorde Holdhurst.</p><p>� Ser� um prazer prestar-lhe qualquer informa��o ao meu alcance.</p><p>� Foi nesta sala que deu as instru��es para que o documento fosse copiado?</p><p>� Foi.</p><p>� Ent�o, dificilmente algu�m teria ouvido.</p><p>� Isto est� fora de cogita��o.</p><p>� Disse a algu�m que pretendia mandar fazer uma c�pia do tratado?</p><p>� De modo algum.</p><p>� Tem certeza?</p><p>� Absoluta.</p><p>� Se o senhor n�o contou a ningu�m e o sr. Phelps tamb�m n�o, e ningu�m mais sabia do assunto, ent�o a presen�a do ladr�o na sala foi puramente acidental. Ele viu a oportunidade e aproveitou-a.</p><p>O estadista sorriu.</p><p>� Isso est� fora da minha especialidade.</p><p>Holmes refletiu um instante.</p><p>� H� um outro ponto muito importante que gostaria de discutir com o senhor. Pelo que entendi, o senhor temia graves conseq��ncias se os detalhes do tratado fossem divulgados.</p><p>Uma sombra cobriu a fisionomia expressiva do estadista.</p><p>� Sim, conseq��ncias muito graves.</p><p>� E elas se concretizaram?</p><p>� Ainda n�o.</p><p>� Se o tratado tivesse chegado, digamos, ao Minist�rio do Exterior da Fran�a, ou da R�ssia, o senhor saberia.</p><p>� Sim, saberia � disse lorde Holdhurst, grave.</p><p>� Ent�o, como j� se passaram quase dez semanas e nada se soube, n�o � justo supor que, por algum motivo, o tratado n�o chegou �s m�os deles?</p><p>Lorde Holdhurst deu de ombros.</p><p>� Seria dif�cil supor, sr. Holmes, que o ladr�o levaria o tratado para casa a fim de emoldur�-lo e pendur�-lo na parede.</p><p>� Talvez esteja esperando um pre�o melhor.</p><p>� Se esperar mais um pouco, n�o obter� coisa alguma. O tratado deixar� de ser secreto dentro de alguns meses.</p><p>� Isto � muito importante � observou Holmes. � Pode-se supor tamb�m, � claro, que o ladr�o tenha adoecido subitamente...</p><p>� Um ataque de febre cerebral, por exemplo? � perguntou o estadista, com um r�pido olhar para Holmes.</p><p>� Eu n�o disse isso � rebateu Holmes, imperturb�vel. � E agora, lorde Holdhurst, j� tomamos muito do seu precioso tempo e lhe desejamos um bom-dia.</p><p>� Pleno �xito na sua investiga��o, seja quem for o criminoso � respondeu o nobre, com uma inclina��o de despedida.</p><p>� � um excelente sujeito � comentou Holmes quando sa�mos em Whitehall. � Mas precisa lutar para manter sua posi��o. N�o � rico e tem muitos encargos. Notou que as botas dele levaram meia-sola? Agora, Watson, n�o o afastarei por mais tempo de suas leg�timas obriga��es. N�o farei mais nada hoje, a menos que receba uma resposta ao an�ncio do cabriol�. Mas, ficaria muito grato se me acompanhasse a Woking amanh�, pelo mesmo trem que tomamos hoje.</p><p>Encontrei-o na manh� seguinte e viajamos juntos para Woking. Ele n�o obtivera nenhuma resposta relativa ao an�ncio ou qualquer informa��o que ajudasse a esclarecer o caso. Quando queria, ele adquiria a completa imobilidade de um pele-vermelha e n�o consegui deduzir de sua atitude se estava ou n�o satisfeito com o andamento do caso. Conversou, lembro-me, sobre o sistema Bertillon de medidas e manifestou sua entusi�stica admira��o pelo s�bio franc�s.</p><p>Encontramos o nosso cliente ainda aos cuidados da enfermeira dedicada, mas com uma apar�ncia bem melhor que a da v�spera. Levantou-se do sof� e cumprimentou-nos sem dificuldade quando entramos.</p><p>� Alguma novidade? � perguntou vivamente.</p><p>� Meu relat�rio, como eu esperava, � negativo � disse Holmes. � Conversei com Forbes e com seu tio, e encaminhei uma ou duas investiga��es que podem dar algum resultado.</p><p>� Ent�o n�o desanimou?</p><p>� De modo algum.</p><p>� Deus o aben�oe por essas palavras! � exclamou a srta. Harrison. � Se conservarmos nosso �nimo e nossa paci�ncia, a verdade vir� � tona.</p><p>� Temos mais coisas para contar ao senhor do que o senhor para n�s � disse Phelps, voltando a sentar-se no sof�.</p><p>� Eu esperava que tivesse alguma coisa.</p><p>� Sim, vivemos esta noite uma aventura que poderia ter s�rias conseq��ncias graves. � Seu rosto ficou muito s�rio e algo semelhante ao medo brilhou nos seus olhos. � Come�o a acreditar que sou o piv� involunt�rio de uma conspira��o monstruosa, e que tanto a minha honra como a minha vida est�o amea�adas.</p><p>� Ah! � fez Holmes.</p><p>� Parece incr�vel, pois, que eu saiba, n�o tenho um s� inimigo no mundo. Contudo, ap�s a experi�ncia desta noite n�o posso chegar a outra conclus�o.</p><p>� Fale, por favor.</p><p>� A noite passada foi a primeira que dormi sem a enfermeira no quarto. Sentia-me bem melhor e achei que podia dispens�-la. Mas deixei uma lamparina acesa. Por volta das duas horas eu estava mergulhado num sono leve e de repente fui despertado por um ru�do fraco. Parecia um rato roendo uma t�bua. Fiquei escutando durante algum tempo, com a impress�o de que era essa a causa. Mas o ru�do ficou mais forte e de repente ouvi um estalido met�lico na janela. Sentei-me na cama, espantado. N�o havia d�vidas quanto � origem dos sons. O mais leve fora causado por um instrumento introduzido na brecha entre as venezianas e o segundo, pela fechadura sendo for�ada.</p><p>Houve ent�o uma pausa de uns dez minutos, como se a pessoa estivesse esperando para verificar se o ru�do havia me acordado. Escutei ent�o um leve estalido e a janela abriu-se devagar. N�o podendo suportar a tens�o, pois meus nervos j� n�o s�o os mesmos, saltei da cama e abri a janela. Havia um homem agachado no peitoril. N�o o vi bem porque desapareceu na mesma hora. Estava envolto numa esp�cie de capa, que ocultava a parte inferior do rosto. De uma coisa estou certo: ele empunhava uma arma. Parecia um punhal. Vi nitidamente o brilho da l�mina quando ele se virou para fugir.</p><p>� Muito interessante � comentou Holmes. � O que fez ent�o?</p><p>� Eu teria saltado a janela para persegui-lo se estivesse mais forte. Toquei a campainha e despertei a casa toda. Isso levou algum tempo, porque a sineta toca na cozinha e os criados dormem l� em cima. Gritei, e isso atraiu Joseph, que acordou os outros. Joseph e o criado encontraram pegadas no canteiro em frente � janela, mas o tempo anda t�o seco ultimamente que acharam in�til procurar pegadas no gramado. Contudo, um ponto da cerca que contorna o jardim mostra sinais, dizem eles, de que algu�m saltou sobre ela, quebrando-a na parte superior. N�o chamei a pol�cia local porque achei melhor ouvir antes a sua opini�o.</p><p>A narrativa do nosso cliente teve um efeito extraordin�rio sobre Sherlock Holmes. Levantando-se, ele come�ou a andar de um lado para outro, numa excita��o incontrol�vel.</p><p>� As desgra�as nunca v�m sozinhas � disse Phelps sorrindo, embora fosse evidente que o epis�dio o deixara um tanto abalado.</p><p>� Sua dose de desgra�as n�o foi pequena � observou Holmes. � Acha que poderia dar uma volta em torno da casa comigo?</p><p>� Sim, gostaria de tomar um pouco de sol. Joseph vir� tamb�m.</p><p>� E eu tamb�m � disse a srta. Harrison.</p><p>� Acho melhor n�o ir � disse Holmes, meneando a cabe�a. � Vou pedir-lhe que fique sentada exatamente onde est�.</p><p>A mo�a voltou a sentar-se com ar aborrecido. Mas o irm�o veio conosco e sa�mos os quatro, contornando o gramado at� chegarmos � janela do jovem diplomata. Como ele tinha dito, havia pegadas no canteiro, mas estavam muito confusas e pouco n�tidas. Holmes inclinou-se sobre elas por um instante e depois levantou-se, encolhendo os ombros.</p><p>� N�o creio que se possa obter grande coisa aqui. Vamos contornar a casa e verificar por que o ladr�o escolheu especificamente este quarto. A meu ver, as janelas grandes do sal�o e da sala de jantar seriam mais atraentes para ele.</p><p>� S�o mais vis�veis da estrada � sugeriu o sr. Joseph Harrison.</p><p>� � claro. H� esta porta que ele poderia ter experimentado. Para que serve?</p><p>� � a entrada de servi�o. Fica trancada � noite, naturalmente.</p><p>� J� houve alguma ocorr�ncia semelhante aqui?</p><p>� Nunca � respondeu nosso cliente.</p><p>� Voc�s guardam prataria em casa, ou qualquer coisa que possa atrair ladr�es?</p><p>� Nada de valor.</p><p>Holmes andou em volta da casa com as m�os nos bolsos e um ar de desinteresse que n�o era habitual.</p><p>Virando-se para Joseph Harrison, disse:</p><p>� A prop�sito, soube que encontrou o lugar onde o sujeito pulou a cerca. Vamos dar uma espiada.</p><p>O rapaz conduziu-nos ao local onde a parte superior da cerca estava rachada. Dali pendia um pedacinho de madeira. Holmes arrancou-o e o examinou com olho cr�tico.</p><p>� Acha que isto foi feito esta noite? Parece mais antigo, n�o �?</p><p>� Bem, � poss�vel.</p><p>� N�o h� sinais de que algu�m tenha saltado do outro lado. N�o, creio que aqui n�o encontraremos nada. Vamos voltar ao quarto e conversar sobre o assunto.</p><p>Percy Phelps caminhava muito devagar, apoiado no bra�o do futuro cunhado. Holmes atravessou rapidamente o gramado e chegamos � janela aberta do quarto bem antes dos outros.</p><p>� Srta. Harrison � disse Holmes, falando com gravidade. � Deve permanecer onde est� o dia inteiro. Que nada a afaste da�. � de import�ncia vital.</p><p>� Sim, se quiser, sr. Holmes � disse a mo�a, surpresa.</p><p>� Quando subir para se deitar, tranque a porta deste quarto e guarde a chave. Prometa que far� isto.</p><p>� E Percy?</p><p>� Ele ir� para Londres conosco.</p><p>� E eu fico aqui?</p><p>� � em benef�cio dele. Poder� ajud�-lo! Depressa, prometa!</p><p>Ela fez que sim no instante em que os dois se aproximavam.</p><p>� Por que est� sentada a� � toa, Annie? � perguntou o irm�o. Venha para o sol!</p><p>� N�o, obrigada, Joseph. Estou com um pouco de dor de cabe�a e este quarto � maravilhosamente fresco e silencioso.</p><p>� O que pretende fazer agora, sr. Holmes? � perguntou nosso cliente.</p><p>� Ao investigar este epis�dio secund�rio, n�o podemos perder de vista a quest�o principal. Seria de grande ajuda se viesse conosco a Londres.</p><p>� Agora?</p><p>� Assim que achar conveniente. Digamos, dentro de uma hora.</p><p>� Estou me sentindo bem melhor. Se puder de fato ajudar...</p><p>� Ajudar� muito.</p><p>� Talvez queiram que eu passe a noite na cidade.</p><p>� Era o que eu ia sugerir.</p><p>� Ent�o, se meu amigo noturno repetir a visita, descobrir� que o p�ssaro desapareceu. Estamos em suas m�os, sr. Holmes. Diga exatamente o que quer que fa�amos. Talvez prefira que Joseph nos acompanhe, para cuidar de mim.</p><p>� N�o. Meu amigo Watson � m�dico e far� isso. Almo�aremos aqui, se permitir, e depois iremos os tr�s para a cidade.</p><p>Tudo se passou como ele sugeriu e a srta. Harrison recusou-se a sair do quarto, seguindo a sugest�o de Holmes. Eu n�o conseguia imaginar qual era o objetivo das manobras de meu amigo, a menos que fosse manter a mo�a longe de Phelps. Este, satisfeito com a recupera��o e a perspectiva de agir, almo�ou conosco na sala. Mas Holmes guardava para n�s uma surpresa ainda mais espantosa. Depois de nos acompanhar at� a esta��o, anunciou calmamente que n�o pretendia sair de Woking.</p><p>� H� dois ou tr�s pontos que quero esclarecer antes de voltar a Londres � disse. � Sua aus�ncia me ajudar� em certos aspectos, sr. Phelps. Quando chegar a Londres, Watson, siga imediatamente para Baker Street com o nosso amigo e fique ao seu lado at� eu voltar. Ainda bem que s�o velhos colegas de escola. Devem ter muito o que conversar. O sr. Phelps pode dormir no quarto de h�spedes esta noite e eu estarei de volta para tomar o caf�-da-manh� com os dois. H� um trem que me deixar� em Waterloo �s oito horas.</p><p>� E a nossa investiga��o em Londres? � perguntou Phelps, desapontado.</p><p>� Podemos fazer isso amanh�. Creio que no momento sou mais �til aqui.</p><p>� Diga ao pessoal em que espero voltar amanh� � noite � gritou Phelps quando o trem come�ou a se afastar da plataforma.</p><p>� N�o pretendo voltar a � respondeuHolmes, acenando alegremente, enquanto a esta��o ficava para tr�s.</p><p>Phelps e eu conversamos durante a viagem, mas nenhum dos dois conseguiu encontrar um motivo satisfat�rio para aquele novo acontecimento.</p><p>� Creio que ele quer descobrir alguma pista a respeito da tentativa de assalto de ontem � noite, se � que foi assalto. Quanto a mim, n�o acredito que se tratasse de um ladr�o comum.</p><p>� O que pensa a respeito, ent�o?</p><p>� N�o sei se a culpa � dos meus nervos abalados, mas acredito que haja uma intriga pol�tica � minha volta e que, por algum motivo que escapa � minha compreens�o, os conspiradores querem me matar. Parece exagerado e absurdo, mas considere os fatos! Por que um ladr�o tentaria for�ar a janela de um quarto onde n�o havia esperan�a de conseguir um bom saque, e por que viria empunhando uma faca?</p><p>� Tem certeza de que n�o era um instrumento de arrombador?</p><p>� N�o, era uma faca. Vi nitidamente o brilho da l�mina.</p><p>� Mas por que algu�m o perseguiria com tanta hostilidade?</p><p>� Ah, esta � a quest�o!</p><p>� Se Holmes for da mesma opini�o, isso explicar� sua maneira de agir, n�o acha? Supondo que sua teoria esteja correta, se ele agarrar o homem que o amea�ou ontem � noite, ter� feito grande progresso no sentido de descobrir quem roubou o tratado naval. � absurdo supor que voc� tenha dois inimigos, um que o rouba enquanto o outro amea�a sua vida.</p><p>� Mas o sr. Holmes disse que n�o ia a � Eu o conhe�o h� algum tempo e nunca soube que fizesse algo sem um bom motivo.</p><p>E com isso nossa conversa passou para outros temas.</p><p>Mas o dia foi cansativo para mim. Phelps ainda estava debilitado em conseq��ncia da doen�a prolongada e seus problemas o haviam deixado irritadi�o e nervoso. Procurei inutilmente interess�-lo no Afeganist�o, na �ndia, em quest�es sociais, em qualquer coisa que afastasse seus pensamentos do problema. Voltava sempre ao tratado perdido, ruminando, imaginando, especulando sobre o que Holmes estaria fazendo, que medidas lorde Holdhurst tomaria e que not�cias receber�amos pela manh�. Ao anoitecer, seu nervosismo tornou-se doloroso.</p><p>� Tem confian�a impl�cita em Holmes? � ele perguntou.</p><p>� Eu o vi fazer coisas extraordin�rias.</p><p>� Mas j� chegou a esclarecer um caso t�o misterioso como este?</p><p>� Sem d�vida. Eu o vi resolver casos mais intrincados que este.</p><p>� Mas estavam em jogo interesses t�o grandes?</p><p>� Isso eu n�o sei. Mas sei com certeza que atuou por solicita��o de tr�s das casas reinantes europ�ias em quest�es de import�ncia vital.</p><p>� Voc� o conhece bem, Watson. � um sujeito t�o enigm�tico que nunca sei exatamente o que pensar dele. Acha que ele est� otimista? Que espera bons resultados?</p><p>� Ele n�o disse nada.</p><p>� Mau sinal.</p><p>� Pelo contr�rio. Notei que quando est� desnorteado sempre o demonstra. Quando est� seguindo uma pista mas ainda n�o tem certeza de que seja a correta � que ele fica mais taciturno. Agora, meu caro, n�o podemos ajud�-lo ficando nervosos. De modo que pe�o que v� se deitar para estar descansado amanh�, sejam quais forem os acontecimentos que nos aguardem.</p><p>Consegui finalmente convenc�-lo a seguir meu conselho, embora soubesse que, como ele estava muito excitado, talvez n�o dormisse. E sua inquieta��o era contagiosa, porque eu tamb�m fiquei rolando na cama boa parte da noite, remoendo o estranho problema, elaborando uma centena de teorias, cada qual mais imposs�vel que a outra. Por que Holmes ficara em Woking? Por que havia pedido � srta. Harrison para permanecer no quarto o dia inteiro? Por que tivera o cuidado de n�o informar aos moradores de que pretendia ficar nas proximidades? Fiquei quebrando a cabe�a at� adormecer, na tentativa de encontrar uma explica��o que abrangesse todos os fatos.</p><p>Eram sete horas quando acordei e me dirigi imediatamente para o quarto de Phelps. Encontrei-o abatido e exausto ap�s uma noite insone. A primeira coisa que fez foi perguntar se Holmes j� havia chegado.</p><p>� Chegar� na hora que prometeu, nem um minuto a menos ou a mais.</p><p>Minhas palavras estavam corretas. Pouco depois das oito horas, um cabriol� parou � porta e dele saltou nosso amigo. Da janela vimos que ele tinha a m�o esquerda envolta em ataduras e estava muito s�rio e p�lido. Entrou em casa, mas levou algum tempo para subir a escada.</p><p>� Parece um homem derrotado � exclamou Phelps.</p><p>Fui obrigado a confessar que ele tinha raz�o.</p><p>� Afinal, a pista do caso provavelmente est� aqui na cidade.</p><p>Phelps gemeu.</p><p>� N�o sei por qu�, mas esperava muita coisa na volta dele. N�o estava com a m�o enrolada assim ontem. O que ter� acontecido?</p><p>� Est� ferido, Holmes? � perguntei, quando meu amigo entrou na sala.</p><p>� � s� um arranh�o, e por culpa minha � respondeu, cumprimentando-nos com um aceno de cabe�a. � Este seu caso, sr. Phelps, � um dos mais misteriosos que j� investiguei.</p><p>� Temia que o considerasse dif�cil demais.</p><p>� Foi uma experi�ncia extraordin�ria.</p><p>� Essa atadura indica complica��es � observei. � Quer nos contar o que aconteceu?</p><p>� Depois do caf�, meu caro Watson. Lembre-se de que respirei 45 quil�metros do ar de Surrey esta manh�. Suponho que n�o tenha chegado nenhuma resposta ao meu an�ncio referente ao cabriol�. Bem, n�o se pode acertar sempre.</p><p>A mesa estava posta e, quando eu estava prestes a tocar a campainha, a sra. Hudson entrou com ch� e caf�. Minutos depois trouxe as travessas cobertas e n�s tr�s nos sentamos � mesa. Holmes esfaimado, eu, curioso, e Phelps no mais sombrio estado depressivo.</p><p>� A sra. Hudson mostrou-se � altura da ocasi�o � observou Holmes, descobrindo um prato de galinha ao . � Sua � um tanto limitada, mas, como escocesa, tem uma boa id�ia do que seja um O que � que voc� tem a�, Watson?</p><p>� Presunto e ovos � respondi.</p><p>� �timo. O que deseja, sr. Phelps? Galinha ao , ovos, ou o senhor mesmo se servir�?</p><p>� Obrigado. N�o consigo comer nada.</p><p>� Ora, vamos! Experimente esse prato que est� na sua frente.</p><p>� N�o, obrigado. Prefiro n�o comer mesmo.</p><p>� Neste caso � disse Holmes, com uma piscadela maliciosa � n�o far� obje��o a me ajudar a servir.</p><p>Phelps ergueu a tampa e na mesma hora deu um grito e ficou im�vel, t�o p�lido quanto a travessa que olhava. Sobre ela estava um pequeno cilindro de papel azul-acinzentado. Pegando-o, devorou-o com os olhos e em seguida come�ou a dan�ar loucamente pela sala, apertando-o contra o peito e gritando de alegria. Logo depois deixou-se cair numa poltrona, t�o enfraquecido e exausto das pr�prias emo��es que precisamos obrig�-lo a tomar para evitar que desmaiasse.</p><p>� Calma! Calma! � disse Holmes em tom tranq�ilizador, batendo-lhe no ombro. � Foi um erro apresent�-lo assim t�o bruscamente. Mas Watson dir� que nunca resisto a um toque dram�tico.</p><p>Tomando-lhe a m�o, Phelps beijou-a.</p><p>� Que Deus o aben�oe! Salvou a minha honra.</p><p>� Bem, a minha tamb�m estava em jogo. Garanto que � t�o odioso para mim fracassar num caso como seria para o senhor falhar numa miss�o.</p><p>Phelps guardou o precioso documento no bolso interno do casaco.</p><p>� N�o tenho coragem de adiar por mais tempo o seu mas estou louco para saber como o conseguiu e onde o encontrou.</p><p>Sherlock Holmes tomou uma x�cara de caf� e concentrou-se no presunto com ovos. Depois, levantando-se, acendeu o cachimbo e instalou-se na sua poltrona.</p><p>� Vou contar primeiro o que fiz e ent�o como o consegui. Depois de deix�-los na esta��o fiz um agrad�vel passeio pela admir�vel paisagem de Surrey at� uma aldeia encantadora chamada Ripley, onde tomei ch� na estalagem, tendo a precau��o de encher meu frasco de bolso e acrescentar alguns sandu�ches. Fiquei ali at� a noite, quando voltei a Woking. Cheguei � estrada que passa por pouco depois de escurecer.</p><p>Esperei at� que o caminho ficasse deserto � n�o � muito movimentado em hora nenhuma do dia, parece-me. Depois, pulei o muro e entrei no jardim.</p><p>� O port�o n�o estava aberto? � perguntou Phelps.</p><p>� Estava, mas tenho tend�ncias peculiares nesses assuntos. Escolhi o lugar onde ficam os tr�s abetos e, protegido por eles, aproximei-me sem ser visto por ningu�m da casa. Agachei-me entre os arbustos e rastejei de um para o outro � prova disso � o estado lament�vel dos joelhos das minhas cal�as � at� chegar a uma moita de rododendros bem em frente � janela do seu quarto. Ali, agachado, aguardei os acontecimentos.</p><p>� A veneziana n�o estava abaixada e vi a srta. Harrison lendo junto � mesa. Eram 22:15h quando ela fechou o livro, abaixou as venezianas e saiu. Ouvi quando ela fechou a porta e tive certeza de que havia girado a chave na fechadura.</p><p>� A chave? �� exclamou Phelps.</p><p>� Sim. Dei instru��es � srta. Harrison para trancar a porta pelo lado de fora e levar a chave quando fosse dormir. Ela cumpriu rigorosamente todas as minhas ordens e sem a sua coopera��o esse papel n�o estaria agora no seu bolso. Ela saiu, as luzes se apagaram e eu permaneci agachado na moita de rododendros.</p><p>Era uma bela noite, mas a vig�lia foi cansativa. Naturalmente, envolvia o tipo de emo��o que um desportista sente quando est� junto a um rio esperando a ca�a de grande porte. Mas a espera foi longa � quase t�o longa, Watson, quanto a que vivemos naquele quarto sinistro, estudando o problema da �Banda pintada�. O rel�gio da igreja de Woking marcava os quartos de hora e mais de uma vez pensei que ele havia parado. Finalmente, por volta das duas horas, ouvi de repente o leve ru�do de um ferrolho sendo empurrado e o estalido de uma chave. Logo depois a porta de servi�o abriu-se e o sr. Joseph Harrison surgiu � luz da lua.</p><p>� Joseph! � exclamou Phelps.</p><p>� Estava com a cabe�a descoberta, mas havia jogado nos ombros uma capa negra para poder ocultar rapidamente o rosto, caso houvesse algum alarme. Caminhou silenciosamente � sombra da parede, e quando chegou � janela, enfiou uma faca de l�mina comprida na brecha entre as venezianas, empurrou o ferrolho e abriu-a.</p><p>� De onde estava eu podia ver perfeitamente o interior do quarto e acompanhar todos os seus movimentos. Ele acendeu as duas velas que ficam sobre a lareira e em seguida levantou a ponta do tapete perto da porta. Ent�o inclinou-se e ergueu um peda�o de madeira quadrado, do tipo que costuma ser deixado para permitir o acesso de bombeiros �s juntas dos encanamentos de g�s. Aquele cobria, para ser exato, a junta em forma de T que leva o g�s � cozinha. Ele retirou do esconderijo o cilindro de papel, recolocou a t�bua, arrumou o tapete, apagou as velas e caiu direto nos meus bra�os, j� que eu esperava por ele em frente � janela.</p><p>� O sr. Joseph foi mais agressivo do que eu o imaginava. Avan�ou para mim de faca em punho e tive de jog�-lo ao ch�o duas vezes, recebendo um corte nos dedos, para conseguir domin�-lo. Olhou-me com f�ria assassina com o �nico olho capaz de ver quando terminamos, mas ele cedeu e entregou-me os documentos. De posse deles, eu o libertei, mas telegrafei a Forbes esta manh�, dando todos os detalhes. Se ele for bastante r�pido para pegar o p�ssaro, tudo bem! Mas se, como desconfio, encontrar o ninho vazio, tanto melhor para o governo. Imagino que lorde Holdhurst, de um lado, e o sr. Phelps, de outro, preferem que o caso n�o chegue � justi�a.</p><p>� Meu Deus! � arquejou nosso cliente. � Quer dizer que nessas dez longas semanas de agonia os documentos roubados estavam no pr�prio quarto onde eu fiquei?</p><p>� Exatamente.</p><p>� E Joseph! Joseph, bandido e ladr�o!</p><p>� Hum! Creio que o car�ter de Joseph � mais complexo e perigoso do que pode parecer � primeira vista. Soube esta manh� que ele sofreu grandes perdas jogando na bolsa e est� disposto a qualquer coisa para melhorar sua sorte. Sendo um homem profundamente ego�sta, quando surgiu a oportunidade, n�o levou em conta a felicidade da irm�, ou a sua reputa��o.</p><p>Percy Phelps afundou na poltrona.</p><p>� Estou completamente zonzo. O que disse me deixou aturdido.</p><p>No seu modo did�tico, Holmes observou:</p><p>� No seu caso, a principal dificuldade estava no excesso de evid�ncias. Os elementos vitais estavam encobertos pelos irrelevantes. Entre todos os fatos que nos foram apresentados era preciso escolher os que julg�vamos essenciais e depois coloc�-los em ordem, a fim de reconstituir esta extraordin�ria cadeia de acontecimentos. Comecei a suspeitar de Joseph quando voc� disse que pretendia viajar para casa com ele naquela noite. Era muito prov�vel, portanto, que ele passasse pelo Foreign Office � bem conhecido dele � a caminho da esta��o. Quando eu soube que algu�m havia tentado entrar no quarto onde ningu�m, exceto Joseph, poderia ter escondido alguma coisa � voc� nos contou que Joseph havia sido desalojado quando chegou com o m�dico �, minhas suspeitas transformaram-se em certeza, principalmente porque a tentativa foi feita na primeira noite em que a enfermeira estava ausente, mostrando que o intruso estava a par do que acontecia na casa.</p><p>� Como fui cego!</p><p>� Os fatos, conforme os concebi, s�o os seguintes: Joseph Harrison entrou no pr�dio do Foreign Office pela porta da Charles Street e, conhecendo o caminho, seguiu direto para a sua sala logo que voc� saiu. N�o vendo ningu�m, tocou a sineta e no mesmo instante reparou no papel que estava sobre a mesa. Um olhar de relance mostrou que a sorte havia colocado ao seu alcance um documento oficial de imenso valor. Guardou-o imediatamente no bolso e saiu. Passaram-se alguns minutos, conforme deve lembrar, antes que o cont�nuo sonolento chamasse a sua aten��o para a sineta. Foi o suficiente para o ladr�o escapar.</p><p>� Ele foi para Woking pelo primeiro trem e, depois de examinar o documento, certificou-se que era de fato de imenso valor e escondeu-o num lugar que julgou muito seguro, com a inten��o de retir�-lo um ou dois dias depois e lev�-lo � Embaixada da Fran�a, ou onde quer que obtivesse um bom pre�o. Mas ent�o houve a sua chegada repentina. Ele, sem um aviso pr�vio, foi afastado do quarto e dali em diante sempre havia pelo menos duas pessoas presentes, impedindo-o de recuperar o tesouro. A situa��o deve ter sido de enlouquecer. Finalmente achou que chegara a oportunidade. Tentou entrar no quarto para pegar o documento, mas foi impedido pela sua vig�lia. Talvez recorde que n�o tomou o rem�dio habitual para dormir.</p><p>� Eu me lembro.</p><p>� Imagino que ele tomou alguma medida para que o rem�dio fosse eficaz e esperava encontr�-lo inconsciente. Compreendi que repetiria a tentativa sempre que pudesse faz�-lo com seguran�a. O fato de ter sa�do do quarto deu-lhe a oportunidade desejada. Mantive ali a srta. Harrison o dia inteiro para que ele n�o passasse � nossa frente. E ent�o, dando-lhe a impress�o de que o terreno estava livre, fiquei de guarda, como descrevi. J� sabia que os documentos estariam no quarto, mas n�o queria levantar todas as t�buas do assoalho para encontr�-los. Deixei que ele os tirasse do esconderijo, poupando-me um trabalho imenso. H� algum ponto que queira esclarecer?</p><p>� Por que ele entrou pela janela na primeira vez, quando podia ter entrado pela porta? � perguntei.</p><p>� Para chegar � porta teria que passar por sete quartos. Al�m disso, andaria pelo gramado com facilidade. Mais alguma coisa?</p><p>� Acha que ele tinha inten��o de me assassinar? � perguntou Phelps. � A faca era um simples instrumento.</p><p>� � poss�vel � disse Holmes, dando de ombros. � S� posso dizer com certeza que o sr. Joseph Harrison � um cavalheiro em cuja miseric�rdia eu n�o confiaria muito.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o problema final</strong></p><p>� com o cora��o pesado que pego a pena para escrever as �ltimas p�ginas onde registrarei os talentos especiais que distinguiam meu amigo, o sr. Sherlock Holmes. De modo incoerente e, percebo-o, inteiramente inadequado, procurei narrar as minhas estranhas experi�ncias em sua companhia, desde o acaso que nos reuniu por ocasi�o de , at� a �poca de sua interfer�ncia na quest�o do , que teve o resultado ineg�vel de impedir uma grave crise internacional. Era minha inten��o parar ali, sem mencionar o acontecimento que gerou tamanho vazio em minha vida que nem mesmo a passagem de dois anos conseguiu amenizar. Mas fui obrigado, pelas cartas recentes em que o coronel James Moriarty defende a mem�ria do irm�o, a colocar diante do p�blico os fatos exatamente como aconteceram. S� eu conhe�o a verdade absoluta a respeito do assunto, e estou certo de ter chegado o momento em que ocult�-la n�o</p><p>traz benef�cio a ningu�m. Que eu saiba s� houve tr�s relatos na imprensa: o do� de 6 de maio de 1891, o comunicado da Reuters nos jornais ingleses de 7 de maio, e finalmente as cartas recentes a que me referi. Destes, o primeiro e o segundo foram extremamente condensados, enquanto o �ltimo �, como mostrarei agora, uma distor��o completa dos fatos. Cabe a mim contar pela primeira vez o que realmente aconteceu entre o professor Moriarty e Sherlock Holmes.</p><p>Devo lembrar que, depois do meu casamento e do in�cio na cl�nica particular, as rela��es estreitas que eu tinha com Holmes modificaram-se at� certo ponto. Ele ainda me procurava de tempos em tempos, quando desejava um companheiro nas suas investiga��es, mas essas ocasi�es tornaram-se cada vez mais raras, at� que no ano de 1890 registrei apenas tr�s casos. No inverno daquele ano e no in�cio da primavera de 1891, 1i nos jornais que ele fora contratado pelo governo franc�s para investigar um assunto de suprema import�ncia, e recebi dois bilhetes dele, um de Narbonne e outro de N�mes, dos quais depreendi que sua estada na Fran�a seria longa. Foi com certa surpresa, portanto, que eu o vi entrar no meu consult�rio na noite de 24 de abril. Pareceu-me mais p�lido e magro que de costume.</p><p>� Sim, tenho trabalhado demais � comentou, mais em resposta ao meu olhar que �s minhas palavras. � Tenho sido um tanto pressionado ultimamente. Importa-se que eu feche as venezianas?</p><p>A �nica luz da sala provinha da l�mpada sobre a mesa, junto � qual eu estava lendo. Holmes, andando devagar junto � parede, fechou as venezianas com um gesto brusco e trancou-a com a barra.</p><p>� Est� com medo de alguma coisa? � perguntei.</p><p>� Estou, sim.</p><p>� De qu�?</p><p>� Pistolas de ar.</p><p>� Meu caro Holmes! O que quer dizer com isso?</p><p>� Voc� me conhece o suficiente, Watson, para saber que n�o sou absolutamente um homem nervoso. Ao mesmo tempo, � estupidez e n�o coragem ignorar um perigo que est� pr�ximo. Quer me dar um f�sforo?</p><p>Deu uma profunda tragada no cigarro, como se ficasse grato ao seu efeito tranq�ilizador.</p><p>� Devo me desculpar pela visita tardia e suplicar que seja suficientemente desprovido de preconceitos para permitir que eu saia daqui a pouco de sua casa saltando o muro dos fundos.</p><p>� Mas o que significa tudo isso?</p><p>Estendeu a m�o e vi � luz da l�mpada que os n�s de dois dedos estavam arranhados e sangrando.</p><p>� Como v�, n�o se trata de ninharia � falou, sorrindo. � Pelo contr�rio, � bastante s�lido para quebrar a m�o de um homem. A sra. Watson est� em casa?</p><p>� Est� fora, visitando a fam�lia.</p><p>� Verdade? Ent�o est� sozinho?</p><p>� Inteiramente.</p><p>� Ent�o fica mais f�cil propor que passe uma semana comigo no Continente.</p><p>� Onde?</p><p>� Em qualquer lugar. N�o faz diferen�a.</p><p>Havia alguma coisa muito estranha naquela hist�ria. Holmes n�o costumava tirar f�rias sem objetivo, e algo no seu rosto p�lido e abatido me dizia que seus nervos estavam em extrema tens�o. Leu a pergunta nos meus olhos e, juntando as pontas dos dedos e apoiando os cotovelos nos joelhos, explicou a situa��o.</p><p>� E prov�vel que nunca tenha ouvido falar no professor Moriarty.</p><p>� Nunca.</p><p>� Sim, este � o engenho e a maravilha de toda a hist�ria! O homem permeia Londres e ningu�m ouviu falar nele. � isto que o coloca no �pice dos registros criminais. Afirmo com toda seriedade, Watson, que se eu pudesse derrotar esse homem, livrar a sociedade dele, acharia que a minha carreira havia chegado ao auge e estaria disposto a adotar um estilo de vida mais sereno. C� entre n�s, os casos recentes em que fui �til � fam�lia real da Escandin�via e � Rep�blica da Fran�a deixaram-me em condi��es de viver uma vida tranq�ila, que � mais do meu agrado, concentrando-me em pesquisas qu�micas. Mas n�o poderia descansar, Watson, n�o ficaria sentado tranq�ilo na minha poltrona se soubesse que um homem como o professor Moriarty anda impunemente pelas ruas de Londres.</p><p>� O que ele fez?</p><p>� Sua carreira � extraordin�ria. � um homem bem-nascido e de excelente cultura, dotado pela natureza de um talento matem�tico excepcional. Com 21&#x202F;anos escreveu um tratado sobre o Teorema Bin�rio, que fez sucesso na Europa inteira. Com base nisso conquistou a c�tedra de Matem�tica numa de nossas universidades menores e, ao que tudo indicava, tinha pela frente uma carreira brilhante. Mas suas tend�ncias heredit�rias s�o do tipo diab�lico. H� uma disposi��o criminosa no seu sangue que, em vez de se modificar, ficou mais acentuada, tornando-se infinitamente mais perigosa devido � sua extraordin�ria capacidade mental. Boatos sinistros espalharam-se pela cidade universit�ria e ele acabou sendo obrigado a renunciar � c�tedra e vir para Londres, onde se estabeleceu como instrutor do Ex�rcito. Isto � o que se sabe em geral. Mas o que vou contar agora � o que eu descobri.</p><p>� Como voc� sabe, Watson, ningu�m conhece t�o bem como eu os altos c�rculos criminais de Londres. H� anos venho percebendo uma for�a por tr�s do criminoso, um grande talento organizador que procura obstruir a a��o da Justi�a e proteger o malfeitor. Repetidamente, em casos dos mais variados tipos � falsifica��o, roubo, homic�dio � senti a presen�a dessa for�a e percebi sua a��o em muitos dos crimes n�o-solucionados em que n�o fui pessoalmente consultado. H� anos tento rasgar o v�u que encobre isso, e finalmente consegui encontrar o fio da meada e segui-lo. E ele me conduziu, ap�s mil voltas tortuosas, ao ex-professor Moriarty, a celebridade matem�tica.</p><p>� Ele � o Napole�o do crime, Watson. � o organizador de metade do que h� de maligno e de quase tudo que passa despercebido nesta grande cidade. � um g�nio, um fil�sofo, um pensador abstrato. Sua intelig�ncia � excepcional. Fica im�vel como uma aranha no centro da teia, mas a teia tem milhares de ramifica��es, das quais ele conhece cada tremor. Ele mesmo pouco faz. Apenas planeja. Mas seus agentes s�o numerosos e esplendidamente organizados. Se h� um crime a cometer, um documento a roubar, uma casa a ser invadida, um homem a ser liquidado � a informa��o � transmitida ao professor, o neg�cio organizado e executado. O agente pode ser surpreendido. Neste caso surge dinheiro para a fian�a ou a defesa. Mas o poder central que utiliza o agente nunca � apanhado. Nem sequer se suspeita quem seja. Foi esta a organiza��o que encontrei por dedu��o, Watson, dedicando toda a minha energia a desmascar�-la e dissolv�-la.</p><p>� Mas o professor est� rodeado de salvaguardas t�o habilmente arquitetadas que, por mais que eu tentasse, parecia imposs�vel obter provas que o condenassem num tribunal. Conhece meus talentos, meu caro Watson, e no entanto, depois de tr�s meses fui obrigado a admitir que havia encontrado finalmente um advers�rio do meu n�vel intelectual. Meu horror diante de seus crimes transformou-se na admira��o de sua habilidade. Mas finalmente ele cometeu um erro � um pequeno erro � que foi demais para ele, porque eu estava bem pr�ximo, no seu encal�o. Surgiu a oportunidade e, a partir desse ponto, teci minha rede em volta dele e agora est� tudo pronto para fech�-la. Dentro de tr�s dias, ou seja, na pr�xima segunda-feira, o caso estar� no ponto, e o professor, com todos os principais integrantes da sua gangue, cair� nas m�os da pol�cia. Haver� ent�o o maior julgamento criminal do s�culo, o esclarecimento de mais de quarenta mist�rios, e forca para todos. Mas se agirmos antes da hora, eles podem escapulir de nossas m�os no �ltimo instante.</p><p>� Se eu pudesse ter feito isso sem que o professor Moriarty soubesse, tudo correria bem. Mas ele era esperto demais para isso. Percebeu todas as minhas a��es para lan�ar a rede � sua volta. Tentou escapulir v�rias vezes, mas eu o impedi. Se uma narrativa detalhada desta luta silenciosa fosse escrita, estaria entre os duelos mais brilhantes da hist�ria policial. Nunca cheguei antes a esse ponto, e nunca fui t�o pressionado pelo advers�rio. Ele deu golpes fundos, mas consegui solap�-lo. Esta manh� tomei as �ltimas provid�ncias e faltam apenas tr�s dias para terminar o caso. Estava sentado em meu quarto, refletindo sobre o assunto, quando a porta se abriu e o professor Moriarty surgiu na minha frente.</p><p>� Meus nervos s�o firmes, Watson, mas confesso que estremeci ao ver o pr�prio homem que estivera t�o presente nos meus pensamentos ali, na soleira da minha porta. Sua apar�ncia era bastante familiar. Muito alto e magro, sua testa forma uma curva branca e os olhos s�o profundamente engastados no rosto escanhoado. P�lido e de express�o asc�tica, conserva nos seus tra�os alguma coisa do professor. Os ombros s�o curvados em conseq��ncia de muito estudo e a cabe�a inclina-se para a frente, sempre oscilando de um lado para o outro, como um r�ptil. Ficou me observando com grande curiosidade nos olhos de p�lpebras franzidas.</p><p>� �Voc� tem menos desenvolvimento frontal do que eu esperava�, ele disse finalmente. �� um h�bito perigoso levar armas de fogo carregadas no bolso do roup�o.�</p><p>� O fato � que, mal ele entrou, percebi o imenso perigo que eu corria. Para ele, a �nica fuga poss�vel seria silenciar-me. Num instante eu havia passado o rev�lver da gaveta para o bolso, apontando para ele sob o roup�o. Ao ouvir a observa��o, tirei a arma e coloquei-a sobre a mesa. Ele continuou a sorrir e a piscar, mas algo em seus olhos deixou-me satisfeito por ter a arma � m�o.</p><p>� �� evidente que n�o me conhece�,� disse ele.</p><p>� �Pelo contr�rio, � evidente que o conhe�o�, repliquei. �Sente-se, por favor. Posso ceder-lhe cinco minutos, se tiver algo a dizer.�</p><p>� �Tudo o que tenho a dizer j� passou pela sua mente.�</p><p>� �Ent�o � prov�vel que minha resposta tenha passado pela sua�, repliquei.</p><p>� �E insiste?�</p><p>� �Sem d�vida alguma.�</p><p>� Enfiou a m�o no bolso e eu peguei a pistola que estava na mesa, mas ele se limitou a tirar uma caderneta onde havia rabiscado algumas datas.</p><p>� �Atravessou o meu caminho no dia 4 de janeiro�, ele disse . �No dia 23 aborreceu-me; em meados de fevereiro fui seriamente perturbado; no final de mar�o, meus planos foram completamente prejudicados; e agora, no final de abril, por causa de sua persegui��o permanente, corro o risco de perder a liberdade. A situa��o est� se tornando insuport�vel.�</p><p>� �Tem alguma sugest�o a fazer?�,� perguntei.</p><p>� �Precisa desistir, sr. Holmes�, disse, balan�ando a cabe�a. �Precisa mesmo.�</p><p>� �Depois da segunda-feira�, eu disse.</p><p>� �Ora, ora! Estou certo de que um homem com a sua intelig�ncia sabe que s� h� uma sa�da neste caso. Precisa recuar. Agiu de forma tal que s� nos resta um recurso. Foi um verdadeiro prazer intelectual ver a maneira como lidou com este caso, e digo sinceramente que lamentaria ser obrigado a tomar uma medida extrema. Est� sorrindo, mas asseguro-lhe que ela seria tomada.�</p><p>� �O perigo faz parte do meu trabalho�, observei.</p><p>� �N�o se trata de perigo. � destrui��o inevit�vel. Est� no caminho n�o s� de um indiv�duo, mas tamb�m de uma organiza��o poderosa, cuja extens�o total, apesar de toda a sua intelig�ncia, ainda n�o conseguiu perceber. Ter� de se afastar, sr. Holmes, ou ser� pisoteado.�</p><p>� �O prazer desta conversa est� fazendo com que eu me descuide de um trabalho importante que me espera em outro lugar � disse, levantando-me.�</p><p>� Ele tamb�m se levantou e me fitou em sil�ncio, meneando tristemente a cabe�a.</p><p>� �Bem, � uma pena, mas fiz o que pude�, disse finalmente. �Conhe�o todos os lances do seu jogo. N�o pode agir antes da segunda-feira. Foi um duelo entre n�s dois, sr. Holmes. Espera levar-me aos tribunais. Afirmo que nunca sentarei no banco dos r�us. Espera me derrotar. Afirmo que isso jamais acontecer�. Se � bastante inteligente para me destruir, pode estar certo de que farei o mesmo em rela��o ao senhor.�</p><p>� �Elogiou-me de v�rias maneiras, sr. Moriarty�, repliquei. �Permita que eu retribua dizendo que se estivesse certo da primeira eventualidade, aceitaria com alegria a �ltima, no interesse p�blico.�</p><p>� �Prometo uma, n�o a outra�, replicou, amea�ador e, voltando-me as costas encurvadas, saiu piscando da sala.</p><p>� Esta foi a minha estranha entrevista com o professor Moriarty. Confesso que me deixou uma impress�o desagrad�vel. Sua maneira de falar, precisa e suave, transmite uma sinceridade que um simples fanfarr�o n�o conseguiria. Voc� dir�, � claro: �Por que n�o recorre � pol�cia?� O motivo � que eu estou convencido de que o golpe ser� dado por seus agentes. Tenho todas as provas neste sentido.</p><p>� J� foi agredido?</p><p>� Meu caro Watson, o professor Moriarty n�o � homem que deixe a grama crescer sob os p�s. Sa� ao meio-dia para cuidar de um neg�cio em Oxford Street. Quando passei pela esquina da Bentinck Street com Welbeck Street, um ve�culo puxado por dois cavalos que corriam furiosamente passou por mim como um raio. Saltei para a cal�ada, escapando por uma fra��o de segundo. O ve�culo veio de Marylebone Lane e desapareceu num instante. Depois disso fui andando pela cal�ada, Watson, mas quando passava pela Vere Street, um tijolo caiu do telhado de uma casa, despeda�ando-se aos meus p�s. Chamei a pol�cia e mandei examinar o local. Havia telhas e tijolos empilhados no telhado, destinados a algum conserto, e queriam que eu acreditasse que o vento atirara o tijolo na rua. Eu sabia que n�o era isso, claro, mas n�o podia prov�-lo. Tomei um cabriol� e consegui chegar ao apartamento de meu irm�o, em Pall Mall, onde passei o dia. Depois vim para a sua casa e no caminho fui atacado por um vagabundo armado de um bast�o. Consegui domin�-lo e a pol�cia o prendeu, mas afirmo com a mais absoluta certeza que n�o descobrir�o jamais qualquer liga��o entre o cavalheiro em cujos dentes incisivos eu feri os n�s dos dedos e o professor de matem�tica aposentado, que deve estar resolvendo problemas a uns 15 quil�metros daqui. N�o se surpreender� agora, Watson, com o fato de eu ter fechado as venezianas logo que entrei na sala e ter pedido permiss�o para sair desta casa por um lugar menos vis�vel do que a porta da frente.</p><p>Eu sempre admirara a coragem do meu amigo, mas nunca tanto quanto naquele instante em que ele contava serenamente uma seq��ncia de incidentes que resultavam num dia de horror.</p><p>� Quer passar a noite aqui? � perguntei.</p><p>� N�o, meu amigo. Voc� me acharia um h�spede perigoso. Tenho meus planos e tudo correr� bem. O caso foi t�o longe que eles podem agir sem a minha ajuda para prend�-lo, embora a minha presen�a seja necess�ria para conden�-lo. � �bvio, portanto, que o melhor a fazer � me ausentar nos dias que restam para a pol�cia agir. Seria um grande prazer se voc� fosse comigo ao Continente.</p><p>� Minha clientela est� tranq�ila e tenho um vizinho prestativo. Gostaria de ir com voc�.</p><p>� Amanh� de manh�?</p><p>� Se for necess�rio.</p><p>� Sim, � muito necess�rio. Ent�o, estas s�o as minhas instru��es, e suplico, meu caro Watson, que as siga ao p� da letra, pois est� jogando comigo um jogo duplo contra o mais inteligente dos criminosos e o mais poderoso sindicato do crime da Europa. Agora, escute! Voc� despachar� a bagagem que pretende levar por um mensageiro de confian�a, esta noite, sem endere�o, para a esta��o de Victoria. De manh� mande chamar um cabriol�. Que seu criado n�o pegue nem o primeiro nem o segundo que apare�am. Entre no carro e siga para o Strand, no extremo da Lowther Arcade, dando o endere�o ao cocheiro escrito num papel, com o pedido de que ele n�o o jogue fora. Fique com o dinheiro da corrida na m�o e no instante em que o ve�culo parar, atravesse correndo a Arcade, de modo a chegar ao outro extremo �s 9:15h. Encontrar� uma pequena berlinda � espera junto ao meio-fio, conduzida por um sujeito com uma capa negra e a gola forrada de vermelho. Entre no ve�culo e chegar� a Victoria a tempo de pegar o expresso Continental.</p><p>� Onde o encontrarei?</p><p>� Na esta��o. O segundo carro da primeira classe est� reservado para n�s.</p><p>� O carro � o nosso ponto de encontro, ent�o?</p><p>� �.</p><p>Foi in�til pedir a Holmes que passasse a noite na minha casa. Era evidente que temia trazer problemas para quem o hospedasse, e por isso saiu logo. Com algumas palavras apressadas a respeito dos nossos planos para o dia seguinte, levantou-se. Acompanhei-o at� o jardim. Ele pulou o muro que dava para a Mortimer Street e, assobiando imediatamente para chamar um cabriol�, ouvi que se afastava.</p><p>De manh� segui ao p� da letra as instru��es de Holmes. O cabriol� foi escolhido com tantas precau��es que n�o poderia ter sido colocado ali para n�s. Logo ap�s o caf� fui para Lowther Arcade, que atravessei a toda a velocidade. Uma carruagem estava � espera, dirigida por um cocheiro robusto envolto numa capa preta. No instante em que entrei ele chicoteou o cavalo e saiu em disparada para a esta��o de Victoria. Quando desci, ele manobrou a carruagem e partiu sem olhar na minha dire��o.</p><p>At� ent�o tudo havia corrido perfeitamente. A bagagem estava � minha espera e n�o tive dificuldade em descobrir o vag�o indicado por Holmes, tanto mais que era o �nico do trem com a placa de �Reservado�. Meu �nico motivo de ansiedade era o fato de Holmes n�o ter aparecido. O rel�gio da esta��o mostrava que faltavam apenas sete minutos para a hora da partida. Procurei inutilmente entre os grupos de viajantes e as pessoas que deles se despediam o vulto esguio do meu amigo. N�o vi sinal dele. Passei alguns minutos ajudando um vener�vel padre italiano, que tentava em mau ingl�s fazer o carregador compreender que a bagagem devia ser remetida para Paris. Depois, olhando em torno mais uma vez, voltei ao vag�o, onde descobri que o carregador, apesar do aviso, havia me dado o padre italiano como companheiro de viagem. Expliquei que sua presen�a era uma intromiss�o, mas inutilmente, pois meu italiano era ainda mais limitado que o ingl�s dele, de modo que encolhi os ombros, resignado, e continuei a olhar pela janela, � espera do meu amigo. Tive um arrepio de medo quando pensei que sua aus�ncia poderia significar um golpe ocorrido durante a noite. As portas j� estavam fechadas e o apito soou quando...</p><p>� Meu caro Watson, voc� nem sequer se dignou desejar-me bom-dia � disse uma voz.</p><p>Virei-me, num espanto incontrol�vel. O idoso cl�rigo voltou o rosto para mim. No mesmo instante as rugas desapareceram, o nariz se afastou do queixo, o l�bio inferior recolheu-se, a boca deixou de murmurar, os olhos ba�os recuperaram o brilho, a silhueta encurvada endireitou-se. Logo em seguida, toda a estrutura desabou novamente, e Holmes desapareceu t�o depressa quanto havia aparecido.</p><p>� Meu Deus! � exclamei. � Voc� me assustou.</p><p>� Todas as precau��es s�o necess�rias � murmurou. � Tenho motivos para acreditar que est�o na minha pista. Ah, l� vem o pr�prio Moriarty.</p><p>O trem j� tinha come�ado a se mover. Olhando para tr�s, vi um homem alto abrindo caminho furiosamente entre a multid�o, agitando a m�o como se quisesse fazer parar o trem. Tarde demais, pois ganh�vamos velocidade rapidamente e logo depois sa�amos da esta��o.</p><p>� Apesar de todas as precau��es, escapamos por pouco, voc� v� � disse Holmes, rindo.</p><p>Levantou-se e, despindo a batina preta e o chap�u que faziam parte do disfarce, guardou-os numa valise.</p><p>� Leu o jornal da manh�, Watson?</p><p>� N�o.</p><p>� Ent�o n�o soube do que aconteceu em Baker Street?</p><p>� Baker Street?</p><p>� Atearam fogo ao nosso apartamento ontem � noite. N�o houve grande preju�zo.</p><p>� Meu Deus, Holmes! Isso � intoler�vel!</p><p>� Devem ter perdido completamente a minha pista depois que prenderam o meu agressor, do contr�rio n�o imaginariam que eu voltaria para casa. Mas tomaram a precau��o de vigiar voc� e foi isso que trouxe Moriarty � esta��o de Victoria. Teria cometido algum deslize na vinda?</p><p>� Fiz exatamente o que voc� sugeriu.</p><p>� Encontrou a carruagem?</p><p>� Encontrei. Estava esperando.</p><p>� Reconheceu o cocheiro?</p><p>� N�o.</p><p>� Era o meu irm�o Mycroft. Em casos deste tipo � uma vantagem circular sem a ajuda de um mercen�rio. Mas precisamos planejar agora o que faremos com Moriarty.</p><p>� Este trem � expresso e, como faz conex�o com o vapor, creio que nos livramos completamente dele.</p><p>� Meu caro Watson, � evidente que n�o percebeu o que eu queria dizer quando afirmei que esse homem � meu equivalente intelectual. Acha que se fosse eu o perseguidor me deixaria dissuadir por um obst�culo t�o insignificante? Por que o menospreza a tal ponto?</p><p>� O que ele far�?</p><p>� O que eu faria.</p><p>� O que voc� faria, ent�o?</p><p>� Tomaria um trem especial.</p><p>� Mas deve ser tarde.</p><p>� De modo algum. Este trem p�ra em Canterbury e � preciso esperar pelo menos um quarto de hora pelo vapor. Ele nos alcan�ar� ali.</p><p>� At� parece que somos n�s os criminosos. Vamos mandar prend�-lo assim que chegarmos.</p><p>� Seria arruinar o trabalho de tr�s meses. Pegar�amos o peix�o, mas os peixinhos escapariam por todas as malhas da rede. Na segunda-feira pegaremos todos. N�o, prend�-lo � inadmiss�vel.</p><p>� Ent�o, o que faremos?</p><p>� Saltaremos em Canterbury.</p><p>� E depois?</p><p>� Depois seguiremos at� Newhaven e de l� para Dieppe. Moriarty far� novamente o que eu faria. Seguir� para Paris, descobrir� a nossa bagagem e aguardar� dois dias no dep�sito. Enquanto isso, compraremos duas malas de pano, incentivaremos os fabricantes dos pa�ses pelos quais viajarmos, e seguiremos tranq�ilamente para a Su��a, via Luxemburgo e Basil�ia.</p><p>Sou um viajante muito experimentado para me importar com a perda de bagagem, mas confesso que me aborreci com a id�ia de ser obrigado a fazer desvios e a me esconder de um homem cuja ficha era negra de incont�veis inf�mias. Mas era evidente que Holmes entendia a situa��o com mais clareza que eu. Portanto saltamos em Canterbury, descobrindo que precisar�amos esperar uma hora pelo trem para Newhaven.</p><p>Eu ainda olhava com melancolia o trem que desaparecia rapidamente com a minha bagagem quando Holmes puxou-me pela manga e apontou para a linha.</p><p>� J� est� chegando, v�?</p><p>Ao longe, entre as florestas de Kent, erguia-se uma fina coluna de fuma�a. Um minuto depois avistamos um vag�o e a locomotiva voando pela curva ampla que terminava na esta��o. Mal tivemos tempo para nos esconder atr�s de uma pilha de bagagem quando o trem passou ruidoso, lan�ando um jorro de ar quente no nosso rosto.</p><p>� L� vai ele � disse Holmes, enquanto observ�vamos o vag�o oscilando sobre os dormentes. � H� limites para a intelig�ncia do nosso amigo, como v�. Seria um golpe de mestre se ele tivesse deduzido o que eu deduzi e agido de acordo.</p><p>� E o que ele teria feito se nos alcan�asse?</p><p>� N�o h� a menor d�vida de que me mataria. Contudo, o jogo � para duas pessoas. A quest�o agora � saber se devemos fazer um almo�o antecipado aqui ou correr o risco de morrer de fome antes de chegarmos ao de Newhaven.</p><p>Viajamos para Bruxelas naquela noite e passamos dois dias na cidade, seguindo no terceiro dia para Estrasburgo. Na manh� de segunda-feira Holmes telegrafou para a pol�cia de Londres e � noite encontramos a resposta � nossa espera no hotel. Ele rasgou o envelope e, com uma praga, atirou o telegrama na lareira.</p><p>� Eu devia ter adivinhado! � gemeu. � Ele escapou!</p><p>� Moriarty?</p><p>� Prenderam toda a gangue, menos ele. Escapuliu. � claro que quando sa� do pa�s, n�o sobrou ningu�m capaz de enfrent�-lo. Mas pensei que havia colocado toda a jogada nas m�os deles. Acho que � melhor voc� voltar para a Inglaterra, Watson.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Porque de agora em diante serei uma companhia perigosa. Aquele homem n�o tem mais o que fazer. E est� perdido se voltar a Londres. Se conhe�o bem o temperamento dele, vai concentrar todas as energias em se vingar de mim. Foi o que disse em nossa r�pida conversa e acho que falava s�rio. Volte para a sua clientela, � o que recomendo.</p><p>N�o era uma sugest�o atraente para um velho lutador e tamb�m um velho amigo. Sentados na sala de jantar em Estrasburgo, discutimos a quest�o durante meia hora, mas na mesma noite continuamos a viagem, seguindo para Genebra.</p><p>Durante uma semana muito agrad�vel passeamos pelo vale do R�dano. Depois, mudando de dire��o em Leuk, seguimos para o Passo Gemmi, ainda coberto de neve, e dali, atravessando Interlaken, chegamos a Meiringen. Foi uma viagem encantadora. Embaixo, o verde fr�gil da primavera e, no alto, o branco virgem do inverno; mas eu sabia que nem por um instante Holmes esquecia a sombra que o amea�ava. Nas acolhedoras aldeias alpinas, ou nos solit�rios passos das montanhas eu percebia, pelo r�pido exame de todas as fisionomias que cruzavam o nosso caminho, que ele estava convencido de uma coisa: por mais que viaj�ssemos, n�o conseguir�amos nos livrar do perigo que seguia nossos passos.</p><p>Certa vez � lembro-me �, quando cruz�vamos o Gemmi e caminh�vamos �s margens do melanc�lico Daubensee, uma pedra grande se deslocou da encosta � nossa direita, rolou e caiu no lago atr�s de n�s. No mesmo instante Holmes subiu correndo a encosta e, de p� num ponto elevado, olhou em todas as dire��es. Em v�o, nosso guia assegurou-lhe que a queda de uma pedra era um fato corriqueiro na primavera, naquele ponto. Ele n�o disse nada, mas sorriu para mim com o ar de quem v� a realiza��o daquilo que esperava.</p><p>Mas, mesmo conservando-se alerta, nunca se mostrou deprimido. Pelo contr�rio, n�o me lembro de t�-lo visto t�o exuberante. Aludia repetidamente ao fato de que, se pudesse ter certeza de que a sociedade se livraria do professor Moriarty, ele encerraria alegremente a sua carreira.</p><p>� Chegaria a dizer, Watson, que n�o vivi de todo em v�o � observou. � Se meus registros fossem encerrados esta noite, eu olharia o fato com serenidade. O ar de Londres � mais suave por causa de minha presen�a. Em mais de mil casos, creio que n�o usei meus talentos nem uma s� vez do lado errado. Ultimamente tenho sido tentado a estudar os problemas da natureza, e n�o os mais superficiais, produtos de nossa sociedade artificial. Suas mem�rias estar�o encerradas, Watson, no dia em que eu coroar a minha carreira com a captura ou a elimina��o do mais perigoso e inteligente criminoso da Europa.</p><p>Serei breve, mas exato, no pouco que me resta contar. N�o � um assunto em que me demore de boa vontade, mas sei que tenho o dever de n�o omitir nenhum detalhe.</p><p>Foi no dia 3 de maio que chegamos � aldeia de Meiringen, onde nos hospedamos no Englisher Hof, ent�o administrado por Peter Steiler, pai. Nosso anfitri�o era um homem inteligente e falava um ingl�s excelente, pois trabalhara durante tr�s anos como gar�om no Grosvenor Hotel de Londres. Seguindo o seu conselho, sa�mos juntos na tarde do dia 4, com a inten��o de transpor as colinas e passar a noite na aldeia de Rosenlaui. Recebemos recomenda��es insistentes para n�o ultrapassarmos de modo algum as quedas de Reichenbach, que ficam no meio da subida da montanha, sem fazer um pequeno desvio para admir�-las.</p><p>Na verdade, � um lugar assustador. A torrente, aumentada pela neve derretida, mergulha num tremendo abismo, de onde a espuma jorra como fuma�a de uma casa em chamas. A garganta onde o rio se projeta � uma brecha profunda, cercada de rochedos brilhantes, negros como carv�o, que vai se estreitando at� formar um po�o fervilhante de profundidade incalcul�vel. O po�o transborda e lan�a a torrente para diante por cima de sua borda irregular. O longo jato de �gua verde que desce ruidosamente sem cessar e a espessa cortina de espuma saltando eternamente para o alto deixam as pessoas tontas com o seu constante rodopio e clamor. De p� junto � borda, observamos as cintila��es da �gua caindo l� embaixo, sobre as pedras negras, e ouvimos o grito meio humano que subia do abismo juntamente com a espuma.</p><p>A trilha contorna uma parte da queda para permitir sua vis�o completa, mas termina bruscamente, e o viajante � obrigado a voltar por onde veio. T�nhamos come�ado o caminho de volta quando avistamos um rapazinho su��o que se aproximava correndo com uma carta na m�o. O papel trazia o timbre do hotel que acab�vamos de deixar e era dirigida a mim pelo hoteleiro. Minutos depois de sairmos, chegara uma senhora inglesa nos �ltimos est�gios da tuberculose; passara o inverno em Davos Platz e viajava para se encontrar com amigos em Lucerna quando sofrera uma s�bita hemorragia. Achavam que s� viveria algumas horas, mas seria um grande consolo para ela ver um m�dico ingl�s, e se eu pudesse voltar etc. etc... O bom Steiler afirmou num� que ele pr�prio consideraria um grande favor pessoal, j� que a senhora se recusava terminantemente a consultar um m�dico su��o, e ele sentia que tinha grande responsabilidade no caso.</p><p>O apelo era do tipo que eu n�o podia ignorar. Imposs�vel recusar o pedido de uma compatriota que morria em terra estrangeira. Contudo, tive escr�pulos em abandonar Holmes. Combinamos, finalmente, que ele ficaria com o jovem mensageiro su��o como guia e companheiro at� que eu voltasse de Meiringen. Meu amigo ficaria algum tempo na catarata e depois seguiria devagar pela montanha na dire��o de Rosenlaui, onde eu me encontraria com ele � noite. Quando me virei, vi Holmes, encostado numa pedra e com os bra�os cruzados, olhando a torrente. Esta deveria ser a �ltima vez que o veria neste mundo.</p><p>Quando eu estava perto do fim da descida, olhei para tr�s. Era imposs�vel, daquele ponto, ver a queda, mas avistei a trilha em curva que contorna a montanha e chega at� ela. Um homem caminhava rapidamente pela trilha, lembro-me bem. Vi sua silhueta escura nitidamente desenhada contra o fundo verde. Reparei nele e na energia com que caminhava, mas sumiu da minha mente quando apressei o passo para voltar ao hotel.</p><p>Talvez tenha levado pouco mais de uma hora para chegar a Meiringen. O velho Steiger estava na entrada do hotel.</p><p>� Espero que ela n�o tenha piorado � disse, aproximando-me depressa.</p><p>Uma express�o de surpresa surgiu no rosto dele, e ao primeiro tremor de suas sobrancelhas, meu cora��o pesou como chumbo.</p><p>� N�o escreveu isto? � perguntei, tirando a carta do bolso. N�o h� nenhuma inglesa doente no hotel?</p><p>� Claro que n�o � exclamou. � Mas o papel tem o cabe�alho do hotel! Ah, deve ter sido escrita por aquele ingl�s alto que chegou depois que voc�s sa�ram. Ele disse...</p><p>Mas n�o esperei as explica��es do hoteleiro. Apavorado, eu j� corria pela rua da aldeia em dire��o � trilha que acabara de descer. Levara uma hora para voltar. Apesar de todos os meus esfor�os, duas se passaram at� que eu chegasse novamente � catarata de Reichenbach. Vi o bast�o de Holmes ainda apoiado � rocha onde o tinha deixado, mas n�o havia sinal dele. Gritei inutilmente. A �nica resposta foi o eco de minha voz reverberando pelas montanhas.</p><p>Foi a vis�o do bast�o que me deixou gelado e tonto. Ele n�o tinha seguido para Rosenlaui. Permanecera naquela trilha de 1 metro, com a parede a pique de um lado e o abismo do outro, at� que seu inimigo o alcan�asse. O jovem su��o tamb�m desaparecera. Estava a soldo de Moriarty, provavelmente, e deixara os dois juntos. O que teria acontecido, ent�o? Quem iria contar o que aconteceu?</p><p>Fiquei ali um ou dois minutos procurando controlar-me, pois estava dominado pelo horror. Lembrei-me ent�o dos m�todos do pr�prio Holmes e tentei us�-los para reconstituir a trag�dia. Era bem f�cil, infelizmente! Durante a nossa conversa n�o t�nhamos ido at� o final da trilha, e o bast�o marcava o ponto onde hav�amos parado. O solo enegrecido fica permanentemente macio por causa do jorro incessante de espuma e at� um p�ssaro deixaria ali a sua marca. Dois pares de pegadas estavam nitidamente impressos na trilha, afastando-se de onde eu me encontrava. Nenhum voltava. A alguns metros do final, o solo estava enlameado e pisoteado, os arbustos e plantas que ladeavam o abismo, quebrados e enlameados. Deitei-me de bru�os e espiei para baixo, com a espuma jorrando � minha volta. Havia escurecido e eu via apenas, aqui e ali, a cintila��o da umidade nas paredes negras, e ao longe, nas profundezas da garganta, o brilho da �gua em torvelinho. Gritei, mas somente o grito meio humano da queda voltou aos meus ouvidos.</p><p>Mas queria o destino que, afinal, eu recebesse uma �ltima palavra do meu amigo e camarada. Eu disse que o bast�o estava encostado no rochedo que se projetava para a trilha. No alto desse rochedo, o brilho de alguma coisa chamou minha aten��o e, erguendo a m�o, encontrei a cigarreira de prata que ele costumava levar no bolso. Quando a peguei, um papel que estava embaixo voou e caiu no ch�o. Ao desdobr�-lo, vi que eram tr�s p�ginas rasgadas do caderninho de notas e endere�adas a mim. Era caracter�stico de Holmes que o endere�o fosse n�tido, a caligrafia clara e firme como se ele estivesse escrevendo em seu escrit�rio.</p><empty-line/><p>Meu caro Watson,</p><p>Escrevo estas poucas linhas por cortesia do sr. Moriarty, que me aguarda para a discuss�o final das quest�es que nos separam. Ele me fez um resumo dos m�todos pelos quais evitou a pol�cia inglesa e se manteve informado a respeito dos nossos movimentos. Isto confirma, sem d�vida, o elevado conceito que tenho dos seus talentos. � um prazer pensar que conseguirei livrar a sociedade dos efeitos da sua presen�a, embora tema que seja a um pre�o capaz de causar sofrimento aos amigos e especialmente a voc�, meu caro Watson. Mas j� lhe expliquei que minha carreira havia chegado a um ponto cr�tico e nenhuma forma de conclus�o me seria mais agrad�vel do que esta. Na verdade, se me permite uma confiss�o completa, eu tinha certeza de que a carta de Meiringen era falsa e deixei que voc� partisse convencido de que algo semelhante aconteceria. Diga ao inspetor Patterson que os documentos de que ele precisa para condenar a gangue est�o no escaninho M, num envelope azul, com a inscri��o �Moriarty�. Tomei todas as provid�ncias relativas aos meus bens antes de sair da Inglaterra e as confiei ao meu irm�o Mycroft. Meus cumprimentos � sra. Watson, e creia que permane�o, meu caro amigo</p><p>Seu, sinceramente,</p><p>Sherlock Holmes</p><empty-line/><p>Poucas palavras ser�o suficientes para contar o que falta. Uma investiga��o realizada por especialistas deixou poucas d�vidas de que uma luta pessoal entre os dois terminou, como n�o poderia deixar de ser em tal situa��o, na queda de ambos, atracados um ao outro, no abismo. Qualquer tentativa de recuperar os corpos seria totalmente in�til e ali, nas profundezas daquele medonho caldeir�o de �gua rodopiante e espuma, ficar�o sepultados para sempre o mais perigoso criminoso e o maior defensor da justi�a de toda uma gera��o. O rapaz su��o nunca mais foi encontrado e n�o h� d�vida de que se tratava de um dos numerosos agentes empregados por Moriarty. Quanto � gangue, o p�blico ainda deve recordar que as provas acumuladas por Holmes desbarataram completamente a organiza��o. A m�o do morto pesou sobre cada um deles. Do seu terr�vel chefe, poucos detalhes vieram � tona durante o processo, e se fui agora obrigado a fazer uma exposi��o de sua carreira, foi devido aos defensores insensatos que tentaram limpar a sua mem�ria atacando aquele que considerarei para sempre o melhor e o mais s�bio dos homens.</p><p>*</p><p>FIM</p><empty-line/></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>A volta de Sherlock Holmes</strong></p></section><section><p><strong>a aventura da casa vazia</strong></p><empty-line/><p>Foi na primavera de 1894 que toda Londres ficou interessada, e o mundo da alta sociedade atemorizado, pelo assassinato do Ronald Adair em circunst�ncias bastante extraordin�rias e inexplic�veis. O p�blico j� ficara sabendo dos detalhes do crime que surgiram durante a investiga��o policial, mas uma boa parte foi suprimida na ocasi�o, j� que as alega��es para a instaura��o do processo eram t�o esmagadoramente s�lidas que n�o era necess�rio divulgar todos os fatos. Somente agora, depois de quase dez anos, � que estou autorizado a fornecer os elos que faltam, e que completam aquela cadeia memor�vel. O crime era, por si mesmo, interessante, mas aquele interesse n�o era nada para mim, comparado � seq��ncia incr�vel que me causou mais choque e surpresa do que qualquer acontecimento da minha vida de aventuras. Mesmo agora, depois deste longo intervalo, eu fico emocionado quando penso nele, sentindo mais uma vez aquela</p><p>s�bita torrente de alegria, espanto e incredulidade que engolfou minha mente. Deixem-me dizer a esse p�blico, que tem mostrado algum interesse por esses vislumbres que eu ocasionalmente lhe tenho dado sobre os pensamentos e as a��es de um homem bastante not�vel, que n�o deve me censurar por eu n�o ter dividido meu conhecimento com ele, pois eu deveria ter considerado isso meu primeiro dever, se n�o tivesse sido impedido por uma proibi��o de seus pr�prios l�bios, e que s� foi retirada no terceiro dia do m�s passado.</p><p>Pode-se imaginar que minha liga��o �ntima com Sherlock Holmes tenha provocado meu profundo interesse pelo crime, e que depois de seu desaparecimento nunca deixei de ler com cuidado os v�rios problemas que surgiram diante do p�blico. E at� tentei, mais de uma vez, para minha pr�pria satisfa��o, empregar seus m�todos nas solu��es, embora com resultados med�ocres. N�o havia nenhum, no entanto, que me atra�sse tanto quanto esta trag�dia de Ronald Adair. Ao ler o depoimento no inqu�rito, que levou a um veredicto, por assassinato premeditado, contra pessoa ou pessoas desconhecidas, eu percebi mais claramente do que nunca a perda que a comunidade sofrera com a morte de Sherlock Holmes. Existem pontos sobre este caso estranho que, eu tinha certeza, o teriam atra�do especialmente, e os esfor�os da pol�cia seriam suplantados ou, mais provavelmente, antecipados pela observa��o treinada e a mente alerta do principal detetive da Europa. Todos os dias, enquanto cumpria minha rotina, eu revolvia o caso na minha cabe�a e n�o achava explica��o que me parecesse adequada. Sob o risco de contar uma hist�ria j� contada, vou recapitular os fatos como eram conhecidos do p�blico na �poca da conclus�o do inqu�rito.</p><p>O Ronald Adair era o segundo filho do conde de Maynooth, naquela �poca governador de uma das col�nias australianas. A m�e de Adair retornara da Austr�lia para se submeter a uma opera��o de catarata, e ela, seu filho Ronald e sua filha Hilda viviam juntos no n�mero 427 de Park Lane. Os jovens freq�entavam a melhor sociedade � at� onde se sabia, n�o tinham nenhum inimigo ou v�cio especial. Ele esteve casado com a srta. Edith Woodley, de Carstairs, mas o compromisso fora rompido com consentimento m�tuo alguns meses antes, e n�o havia nenhum sinal de que tivesse deixado para tr�s qualquer sentimento muito profundo. O resto de sua vida girava num c�rculo estreito e convencional, pois seus h�bitos eram tranq�ilos e sua natureza, sem emo��o. Mas foi sobre este jovem aristocrata bonach�o que a morte se abateu, na forma� mais estranha e inesperada entre 22 horas e 23:20h de 30 de mar�o de 1894.</p><p>Ronald Adair gostava de cartas � jogando constantemente, mas nunca com apostas que pudessem prejudic�-lo. Era membro dos clubes de jogos de cartas Baldwin, Cavendish e Bagatelle. Ficou provado que depois do jantar, no dia de sua morte, participou de um jogo de u�ste no �ltimo desses clubes. Tamb�m jogara l� � tarde. O depoimento dos que jogaram com ele � . Murray,� John Hardy e o coronel Moran � revelava que o jogo era o u�ste e que havia um justo equil�brio no baixar das cartas. Adair poderia ter perdido 5 libras, n�o mais. Sua fortuna era consider�vel e uma perda assim n�o o afetaria de maneira nenhuma. Jogava quase todos os dias num ou noutro clube, mas era um jogador prudente e geralmente ganhava. Verificou-se no depoimento que, em parceria com o coronel Moran, realmente ganhara 420 libras de uma s� vez, algumas semanas antes, de Godfrey Milner e lorde Balmoral. Era assim sua hist�ria recente, como se apurou no inqu�rito.</p><p>Na noite do crime, ele voltou do clube exatamente �s 22 horas. Sua m�e e sua irm� estavam fora, passando a noite com um parente. A criada disse no depoimento que ouviu quando ele entrou no quarto da frente do segundo andar, geralmente usado como sala de estar. Ela acendera a lareira e, como fizesse fuma�a, abrira a janela. Nenhum som foi ouvido na sala at� as 23:20h, a hora da volta de� Maynooth e sua filha. Desejando dar-lhe boa-noite, tentou entrar no quarto do filho. A porta estava trancada por dentro, e n�o houve nenhuma resposta aos seus gritos e batidas. Conseguiram ajuda e arrombaram a porta. O jovem infeliz foi encontrado deitado perto da mesa. Sua cabe�a fora horrivelmente mutilada por uma bala explosiva de rev�lver, mas n�o se encontrou nenhum tipo de arma no aposento. Sobre a mesa estavam duas notas de 10 libras cada e mais 17 libras, sendo dez em moedas de prata e ouro, o dinheiro arrumado em pequenas pilhas de valores variados. Havia tamb�m algumas cifras num peda�o de papel, com os nomes de alguns amigos dos clubes ao lado, e da� surgiu a hip�tese de que antes de morrer ele estivesse tentando organizar uma lista de seus ganhos e perdas nas cartas.</p><p>Um r�pido exame das circunst�ncias s� serviu para tornar o caso mais complexo. Em primeiro lugar, n�o havia nenhum motivo para que o rapaz trancasse a porta por dentro. Havia a possibilidade de o assassino ter feito isso e depois ter fugido pela janela. Entretanto, a queda era de pelo menos 6 metros, e um canteiro de a�afr�es em pleno vi�o fica bem embaixo. Nem as flores nem a terra mostravam sinais de terem sido mexidas, nem havia marcas na estreita faixa de grama que separava a casa da rua. Aparentemente, portanto, foi o pr�prio rapaz quem trancou a porta. Mas como foi que a morte chegou at� ele? Ningu�m poderia ter subido at� a janela sem deixar vest�gios. Supondo que um homem atirou pela janela, ele teria de ser um atirador excepcional para poder, com um rev�lver, causar um ferimento t�o mortal. Park Lane � uma via p�blica muito movimentada; h� um ponto de cabriol�s de aluguel a menos de 100 metros da casa. Ningu�m ouvira o tiro. E, mesmo assim, havia o homem morto, e a bala de rev�lver, que havia se expandido como um cogumelo, como fazem as balas de ponta mole, e causou um ferimento que deve ter provocado morte instant�nea. Eram essas as circunst�ncias do mist�rio de Park Lane, complicadas ainda mais pela aus�ncia total de motivo, j� que, como eu disse, ningu�m sabia que o jovem Adair tivesse algum inimigo, e n�o foi feita nenhuma tentativa para tirar o dinheiro ou valores do quarto.</p><p>Todo dia eu analisava estes fatos, tentando encontrar uma teoria que abrangesse todos eles, e descobrir aquela linha de menor resist�ncia, que meu pobre amigo afirmava ser o ponto de partida de toda investiga��o. Confesso que fiz poucos progressos. � noite, perambulei pela Park e s� dei por mim l� pelas seis horas, em Oxford Street, no final de Park Lane. Um grupo de vadios na cal�ada, todos olhando para uma janela, me fez ir em dire��o � casa que viera olhar. Um homem alto e magro, com �culos coloridos, que eu suspeitava fortemente ser um detetive � paisana, estava expondo alguma teoria pr�pria, enquanto os outros o rodeavam para ouvir o que ele dizia. Fiquei o mais perto poss�vel dele, mas suas observa��es me pareceram absurdas, de modo que fui embora um pouco desapontado. Ao fazer isto, esbarrei num homem velho e deformado que estivera ali atr�s de mim, e derrubei muitos dos livros que ele estava carregando. Lembro-me de que, enquanto os recolhia, notei o t�tulo de um deles, , e me ocorreu que o sujeito deveria ser algum pobre bibli�filo que, por neg�cio ou por colecionava livros antigos. Tentei me desculpar pelo incidente, mas era evidente que aqueles livros, que eu maltratei de modo t�o desastrado, eram objetos muito preciosos aos olhos de seu dono. Com um grunhido de descontentamento, deu meia-volta e vi suas costas encurvadas e as su��as brancas desaparecerem na multid�o.</p><p>Minhas observa��es sobre o n�mero 427 de Park Lane n�o ajudaram muito a esclarecer o problema que me interessava. A casa era separada da rua por um muro baixo e uma grade, n�o mais do que 1,5 metro de altura no total. Portanto, era muito f�cil para qualquer um entrar no jardim, mas a janela era totalmente inacess�vel, j� que n�o havia nenhuma calha ou qualquer coisa que pudesse ajudar o mais decidido dos homens a escal�-la. Mais intrigado do que nunca, voltei pelo mesmo caminho para Kensington. Eu n�o estava h� mais de cinco minutos no meu gabinete quando a empregada entrou para dizer que uma pessoa queria falar comigo. Para minha surpresa n�o era outro sen�o o estranho e velho colecionador de livros, seu rosto severo e murcho, espreitando-me por entre tufos de cabelos brancos, e seus livros preciosos, pelo menos uma d�zia deles, apertados sob o seu bra�o direito.</p><p>� Est� surpreso de me ver, senhor � disse ele, numa voz estranha e �spera.</p><p>Admiti que estava.</p><p>� Bem, tenho uma consci�ncia, senhor, e quando por acaso eu o vi entrando nesta casa, enquanto eu vinha mancando atr�s, pensei comigo mesmo, vou dar uma entradinha e visitar aquele homem bondoso, e dizer-lhe que se tive uma atitude um pouco rude, n�o foi por mal, e que estou muito agradecido a ele por apanhar meus livros.</p><p>� Voc� se incomoda demais por uma coisa banal � eu disse. � Posso perguntar como soube quem eu era?</p><p>� Bem, senhor, se n�o for uma liberdade muito grande, sou seu vizinho, pois encontrar� minha pequena livraria na esquina de Church Street, e muito contente por v�-lo, com certeza. Talvez o senhor mesmo os colecione. Aqui est�o , e � uma pechincha, qualquer um deles. Com cinco volumes poderia preencher aquela lacuna na segunda prateleira. Parece desarrumada, n�o?</p><p>Virei a cabe�a para olhar a prateleira atr�s de mim. Quando me virei novamente, Sherlock Holmes estava sorrindo para mim, do outro lado da minha mesa. Levantei-me, encarei-o por alguns segundos com total espanto, e depois parece que desmaiei pela primeira e �ltima vez na minha vida. Com certeza uma nuvem cinzenta rodopiou diante dos meus olhos, e quando se dissipou, descobri que meu colarinho estava aberto e senti o restinho do gosto de nos l�bios. Holmes estava curvado sobre minha cadeira, de cantil na m�o.</p><p>� Meu caro Watson � disse a voz t�o conhecida �, eu lhe devo mil desculpas. N�o sabia que ficaria t�o abalado.</p><p>Agarrei-o pelos bra�os.</p><p>� Holmes! � gritei. � � voc� mesmo. Voc� est� vivo mesmo? � poss�vel que tenha conseguido escalar aquele abismo horr�vel?</p><p>� Espere um momento � disse ele. � Tem certeza de que � capaz de discutir coisas? Eu lhe provoquei um choque grave com a minha reapari��o desnecessariamente dram�tica.</p><p>� Estou bem, mas realmente, Holmes, eu mal posso acreditar nos meus olhos. Meu Deus! Pensar que voc� � de todos os homens � estaria no meu gabinete � eu o segurei novamente pela manga e senti por baixo o bra�o magro e rijo. � Bem, de qualquer modo, voc� n�o � um esp�rito � disse eu. � Meu caro amigo, estou radiante por v�-lo. Sente-se e conte como saiu com vida daquele abismo terr�vel.</p><p>Ele sentou-se na minha frente e acendeu um cigarro com seu antigo jeito displicente. Estava vestido com a sobrecasaca desmazelada do vendedor de livros, mas o resto daquele indiv�duo estava empilhado na mesa � os cabelos brancos e os velhos livros. Holmes parecia at� mais magro e vivo do que antes, mas havia um tom branco de morte no seu rosto de fei��es aquilinas que indicava que sua vida, ultimamente, n�o fora muito saud�vel.</p><p>� Estou feliz por me esticar, Watson � disse. � N�o � brincadeira quando um homem alto tem que diminuir sua estatura durante v�rias horas. Agora, meu caro amigo, no caso dessas explica��es, n�s temos pela frente, se puder pedir a sua coopera��o, uma noite de trabalho dif�cil e perigoso. Talvez seja melhor eu lhe fazer um resumo de toda a situa��o quando o trabalho estiver terminado.</p><p>� Estou cheio de curiosidade. Prefiro ouvir agora.</p><p>� Vir� comigo esta noite?</p><p>� Quando e onde quiser.</p><p>� Isto �, de fato, como nos velhos tempos. N�s precisamos de um pequeno jantar antes de ir. Bem, ent�o sobre aquele abismo. N�o tive grandes dificuldades em sair dele, pela simples raz�o de que jamais estive nele.</p><p>� Jamais esteve nele?</p><p>� N�o, Watson, nunca. Meu bilhete para voc� era absolutamente genu�no. Tive pouca d�vida de que tivesse chegado ao fim da minha carreira quando percebi aquela silhueta um tanto sinistra do falecido professor Moriarty, de p� sobre a trilha estreita que levava � seguran�a. Li nos seus olhos um prop�sito inexor�vel. Portanto, troquei alguns coment�rios com ele e obtive sua permiss�o para escrever a pequena nota que voc� recebeu depois. Deixei-a com meu ma�o de cigarros e minha bengala, e andei ao longo da trilha, Moriarty ainda nos meus calcanhares. Quando cheguei ao final, parei, acuado. Ele n�o tinha arma, mas correu na minha dire��o e jogou seus bra�os longos em torno de mim. Ele sabia que seu pr�prio jogo estava acabado, sentia-se ansioso para se vingar em mim. Cambaleamos juntos pela borda da cachoeira. Mas tenho algum conhecimento de , ou o m�todo japon�s de luta corpo-a-corpo, o que me foi muito �til mais de uma vez. Esquivei-me de suas garras, e ele, com um grito horr�vel, rolou desvairado por alguns segundos, tentando agarrar o ar com as duas m�os. Mas, apesar de todos os esfor�os, n�o conseguiu se equilibrar e caiu. Olhando por sobre a borda, eu o vi cair um bom peda�o. Depois bateu numa pedra, quicou e caiu n��gua.</p><p>Escutei com assombro a sua explica��o, que Holmes ia contando entre baforadas de seu cigarro.</p><p>� Mas as pistas! � gritei. � Eu vi, com meus pr�prios olhos, que dois desceram a trilha e nenhum voltou.</p><p>� J� chegarei nesta parte. No instante em que o professor Moriarty desapareceu, me dei conta da oportunidade realmente extraordin�ria e feliz que o acaso colocara no meu caminho. Eu sabia que Moriarty n�o era o �nico homem que me jurara de morte. Havia pelo menos tr�s outros cujo desejo de vingan�a contra mim s� iria aumentar com a morte de seu l�der. Todos eram homens extremamente perigosos. Um ou outro com certeza me pegaria. Por outro lado, se todo mundo se convencesse de que eu estava morto, esses homens agiriam com liberdade e logo se revelariam e, mais cedo ou mais tarde, eu poderia destru�-los. A� seria o momento de anunciar que ainda continuava na terra dos vivos. A mente funcionou t�o depressa que acho que pensei tudo isto antes de o professor Moriarty chegar ao fundo da Cachoeira Reichenbach.</p><p>� Levantei-me e examinei a parede rochosa atr�s de mim. No seu resumo pitoresco do que aconteceu, que li com grande interesse alguns meses depois, voc� afirma que a parede era a pique. N�o era bem assim. Na verdade, ela possu�a alguns pequenos pontos de apoio e havia ind�cios de uma reentr�ncia. O penhasco era t�o alto que escal�-lo era uma impossibilidade �bvia, e tamb�m era imposs�vel voltar pela trilha sem deixar algumas marcas. Eu deveria, � verdade, ter colocado minhas botas ao contr�rio, como j� fiz em ocasi�es semelhantes, mas a vis�o de tr�s trilhas em uma dire��o sugeriria, com certeza, uma fraude. Em suma, era melhor que eu arriscasse a escalada. N�o foi uma tarefa agrad�vel, Watson. A cachoeira rugia ao meu lado. N�o sou uma pessoa fantasiosa, mas lhe dou minha palavra de que julguei ter escutado a voz de Moriarty gritando para mim do fundo do abismo. Um erro teria sido fatal. Mais de uma vez, quando tufos de capim sa�am nas minhas m�os ou meus p�s escorregavam nas sali�ncias da rocha, pensei que era o meu fim. Mas lutei para subir, e finalmente alcancei uma reentr�ncia profunda e coberta de um musgo verde e macio, onde podia ficar sem ser visto, no mais perfeito conforto. Eu estava estirado ali quando voc�, meu caro Watson, e todos que o seguiam investigavam, da maneira mais simp�tica e ineficiente, as circunst�ncias da minha morte.</p><p>� Por fim, quando todos voc�s tiraram suas conclus�es inevit�veis e totalmente err�neas, voltaram ao hotel e fiquei sozinho. Eu imaginara que havia chegado ao fim de minhas aventuras, mas um incidente bastante inesperado mostrou que ainda havia mais surpresas para mim. Uma rocha enorme, vinda l� de cima, passou por mim com estrondo, bateu na trilha e rolou para dentro do abismo. Por um instante pensei que fosse um acidente, mas logo depois, olhando para cima, vi a cabe�a de um homem contra o c�u quase escuro, e outra pedra bateu na reentr�ncia em que eu estava estirado, a menos de 30 cent�metros da minha cabe�a. Naturalmente, o significado disso era �bvio, Moriarty n�o estivera ali sozinho. Um comparsa � e aquele �nico vislumbre bastou para me mostrar que o c�mplice era um homem perigoso � c�mplice ficara de guarda enquanto o professor me atacava. De uma certa dist�ncia, sem ser visto por mim, fora testemunha da morte do seu amigo e da minha fuga. Ficara esperando e depois, dando a volta no topo do penhasco, tentara obter �xito onde seu companheiro falhara.</p><p>� N�o me demorei muito pensando no assunto, Watson. Novamente vi aquele rosto sinistro olhando por cima do penhasco, e soube que viria outra pedra. Arrastei-me para a trilha. Acho que n�o poderia ter feito aquilo a sangue-frio. Era cem vezes mais dif�cil do que me levantar. Mas eu n�o tinha tempo para pensar no perigo, pois outra pedra passou zunindo por mim enquanto eu me segurava na borda da sali�ncia. No meio da descida, escorreguei mas, gra�as a Deus, aterrissei, rasgado e sangrando, sobre a trilha. Sa� correndo, atravessei mais 10 quil�metros pelas montanhas no escuro, e uma semana depois eu estava em Floren�a, certo de que ningu�m no mundo sabia o que acontecera comigo.</p><p>� S� tinha um confidente � meu irm�o Mycroft. Tenho de lhe pedir muitas desculpas, meu caro Watson, mas era important�ssimo que voc� pensasse que eu estava morto, e era quase certo que voc� n�o teria escrito um relato t�o convincente da minha morte dram�tica se n�o acreditasse realmente nela. V�rias vezes nos �ltimos tr�s anos peguei uma caneta para escrever a voc�, mas sempre temi que sua amizade afetuosa por mim o levasse a cometer alguma indiscri��o que pudesse trair o meu segredo. Por esse motivo, me afastei de voc� esta noite, quando derrubou meus livros, pois eu estava em perigo �quela hora, e qualquer demonstra��o de surpresa e emo��o de sua parte chamaria aten��o para minha identidade e acarretaria resultados deplor�veis e irrepar�veis. Tive de confiar em Mycroft para obter o dinheiro de que precisava. As coisas em Londres n�o correram t�o bem quanto eu desejava, porque o julgamento da gangue de Moriarty deixou em liberdade dois de seus membros mais perigosos, meus inimigos mais vingativos. Portanto, viajei durante dois anos pelo Tibete, e me diverti visitando Lhassa, e passando alguns dias com o chefe Lama. Voc� deve ter lido a respeito das not�veis explora��es de um noruegu�s chamado Sigerson, mas tenho certeza de que nunca lhe ocorreu que estava recebendo not�cias do seu amigo. Depois passei pela P�rsia, dei uma olhada em Meca e fiz uma visita curta, mas interessante, ao califa, em Cartum, cujos resultados comuniquei ao Minist�rio das Rela��es Exteriores. Voltando � Fran�a, passei alguns meses numa pesquisa sobre os derivados do alcatr�o, que fiz num laborat�rio em Montpellier, no sul da Fran�a. Conclu�do isto para minha satisfa��o, e sabendo que apenas um dos meus inimigos ficara agora solto em Londres, eu estava prestes a voltar quando meu deslocamento foi apressado pelas not�cias deste not�vel Mist�rio de Park Lane, que n�o s� me atraiu por suas pr�prias caracter�sticas, mas tamb�m parecia oferecer algumas oportunidades pessoais muito peculiares. Vim logo para Londres, me recolhi em Baker Street, deixei a sra. Hudson hist�rica e descobri que Mycroft conservara meus aposentos e pap�is exatamente como sempre estiveram. De� modo que, meu caro Watson, �s 14 horas de hoje eu me encontrava na minha velha poltrona, no meu velho quarto e desejando apenas ver meu velho amigo Watson na outra cadeira, que ele ocupou com tanta freq��ncia.</p><p>Esta foi a incr�vel narrativa que ouvi naquela noite de abril � uma narrativa que seria inteiramente inacredit�vel para mim, se n�o fosse confirmada pela vis�o real da figura alta e magra e da face ansiosa e viva que eu pensara nunca mais ver. De certo modo, ele sabia de minha pr�pria e triste afli��o, mostrava sua simpatia mais nas maneiras do que nas palavras.</p><p>� O trabalho � o melhor ant�doto para a tristeza, meu caro Watson � disse ele �, e eu tenho um bocado de trabalho para n�s dois esta noite, e se ele for conclu�do com �xito, bastar� para justificar a vida de um homem neste planeta.</p><p>Pedi em v�o para que ele me contasse mais.</p><p>� Voc� vai ver e ouvir o suficiente at� amanh� � ele respondeu. � N�s temos tr�s anos de passado para discutir. Vamos nos limitar a isso at� as 21:30h, quando ent�o come�aremos a not�vel aventura da casa vazia.</p><p>Era realmente como nos velhos tempos, quando, �quela hora, eu me sentei ao lado dele num cabriol�, rev�lver no bolso, e a excita��o da aventura no cora��o. Holmes estava frio, sombrio e silencioso. Quando as luzes dos postes batiam sobre a sua fisionomia austera, eu via que as sobrancelhas estavam franzidas em medita��o e os l�bios comprimidos. N�o sabia que monstro selvagem n�s est�vamos prestes a ca�ar na selva escura do crime de Londres, mas tinha certeza, pela conduta deste mestre-ca�ador, que a aventura era das mais s�rias � embora o sorriso sard�nico que rompia de vez em quando a sua melancolia austera indicasse pouca sorte para o objeto da nossa busca.</p><p>Eu imaginara que est�vamos indo para Baker Street, mas Holmes mandou o cabriol� parar na esquina da Cavendish Square. Observei que, quando saltou, deu uma olhada atenta para a direita e para a esquerda, e, a cada esquina subseq�ente, ele tomava os maiores cuidados para se assegurar de que n�o estava sendo seguido. Nosso trajeto, certamente, era singular. O conhecimento que Holmes tinha dos atalhos de Londres era extraordin�rio, e nesta ocasi�o ele passou rapidamente, e com passo seguro, por uma s�rie de garagens e est�bulos de cuja exist�ncia eu nunca soubera. Sa�mos finalmente numa estrada pequena, ladeada de casas velhas e austeras, que nos levou a Manchester Street, e da� para Blandford Street. Ali ele desceu rapidamente por uma passagem estreita, entrou por um port�o de madeira num p�tio deserto e ent�o abriu com uma chave a porta dos fundos de uma casa. Entramos juntos, e ele a fechou atr�s de n�s.</p><p>O lugar estava totalmente escuro, mas para mim era evidente que se tratava de uma casa vazia. Nossos p�s estalavam no assoalho nu, e minha m�o estendida tocou uma parede, cujo papel estava rasgado em tiras. Os dedos finos e frios de Holmes se fecharam em torno do meu pulso e me conduziram atrav�s de um sagu�o, at� que percebi vagamente a l�gubre clarab�ia na bandeira da porta. Ali, Holmes virou de repente para a direita, e nos encontramos numa sala ampla, quadrada, vazia, muito escura nos cantos, mas fracamente iluminada no centro pelas luzes que vinham da rua. Como n�o havia nenhum poste pr�ximo e o vidro da janela estivesse opaco devido ao p�, pod�amos apenas vislumbrar os vultos um do outro ali dentro. Meu amigo p�s a m�o no meu ombro e os l�bios perto do meu ouvido.</p><p>� Voc� sabe onde estamos? � sussurrou.</p><p>� Certamente aquela � Baker Street � respondi, olhando atrav�s da janela opaca.</p><p>� Exatamente. Estamos em Camden House, que fica em frente aos nossos velhos aposentos.</p><p>� Mas por que estamos aqui?</p><p>� Porque tem uma vista excelente daquele pitoresco bloco de edif�cios. Posso pedir-lhe o inc�modo, meu caro Watson, de chegar um pouco mais perto da janela, tomando cuidado para n�o se mostrar, e ent�o olhar para os nossos velhos aposentos, o ponto de partida de tantos dos nossos pequenos contos de fadas? Veremos se a minha aus�ncia de tr�s anos eliminou totalmente o meu poder de surpreend�-lo.</p><p>Rastejei para a frente e olhei para a janela conhecida. Assim que bati os olhos nela, engasguei e soltei um grito de assombro. A parte transparente da janela estava abaixada e uma luz forte estava ardendo na sala. A sombra de um homem sentado numa cadeira l� dentro era um vulto negro, forte, contra o anteparo luminoso da janela. N�o havia erro quanto � postura da cabe�a, os ombros quadrados, a aspereza dos tra�os. O rosto� estava meio de lado, e o efeito era o mesmo de uma dessas silhuetas negras que nossos av�s adoravam fazer. Era uma reprodu��o perfeita de Holmes. Fiquei t�o surpreso que estendi minha m�o para ter certeza de que o pr�prio homem estava ao meu lado. Ele estremecia com um riso silencioso.</p><p>� Ent�o? � perguntou.</p><p>� Meu Deus! � exclamei. � � maravilhoso.</p><p>� Acredito que a idade n�o faz definhar nem deteriora minha multiplicidade infinita � disse ele, e percebi na sua voz o prazer e o orgulho que o artista sente com sua pr�pria cria��o. � Parece realmente comigo, n�o?</p><p>� Estaria pronto a jurar que era voc�.</p><p>� O m�rito da execu��o cabe a Oscar Meunier, de Grenoble, que passou alguns dias fazendo a moldagem. � um busto de cera. O resto eu mesmo arranjei durante minha visita a Baker Street esta tarde.</p><p>� Mas por qu�?</p><p>� Porque, meu caro Watson, tenho os mais fortes motivos para desejar que certas pessoas pensem que eu estava l�, enquanto, na verdade, eu estava em outro lugar.</p><p>� E voc� pensou que os quartos estavam sendo vigiados?</p><p>� Eu que estavam.</p><p>� Por quem?</p><p>� Pelos meus velhos inimigos, Watson. Pela encantadora sociedade cujo l�der jaz na Cachoeira Reichenbach. Voc� deve se lembrar que eles, e s� eles, sabiam que eu ainda estava vivo. Acreditavam que mais cedo ou mais tarde eu voltaria aos meus aposentos. Eles o vigiavam permanentemente, e esta manh� me viram chegar.</p><p>� Como voc� sabe?</p><p>� Porque reconheci o vigia deles quando dei uma olhada pela janela. � um sujeito inofensivo chamado Parker, ladr�o por profiss�o e um not�vel tocador de berimbau. N�o liguei para ele. Mas prestei muita aten��o na pessoa muito mais terr�vel que estava atr�s dele, o amigo �ntimo de Moriarty, o homem que atirou as rochas do penhasco, o criminoso mais perigoso e cheio de manhas de Londres. � este que est� atr�s de mim esta noite, Watson, e este � o homem que ignora que n�s � que estamos atr�s dele.</p><p>Os planos de meu amigo iam se revelando aos poucos. Deste recuo conveniente, os observadores estavam sendo observados e os rastreadores rastreados. Aquela sombra angulosa l� em cima era a isca e n�s, os ca�adores. Ficamos juntos em sil�ncio no escuro observando as figuras apressadas que iam e vinham diante de n�s. Holmes estava mudo e im�vel; mas posso afirmar que se mantinha bastante alerta e que ele examinava atentamente o fluxo de passantes. Era uma noite fria e agitada, e o vento soprava cortante pela rua comprida. Muita gente ia e vinha, a maioria agasalhada em seus casacos e cachec�is. Uma ou duas vezes tive a impress�o de que vira a mesma pessoa antes, e notei especialmente dois homens, que pareciam estar se protegendo do vento no v�o da porta de uma casa um pouco mais adiante. Tentei chamar a aten��o de meu amigo para eles; mas Holmes deu um pequeno resmungo de impaci�ncia e continuou a olhar para a rua. Mais de uma vez ele mexeu com o p� e bateu de leve com os dedos na parede. Era evidente que ele come�ava a irritar-se e que seus planos n�o corriam como planejara. Por fim, quando a meia-noite se aproximava e a rua aos poucos ficava vazia, ele ficou andando de um lado para outro na sala, numa agita��o incontrol�vel. Eu ia fazer um coment�rio, quando levantei os olhos para a janela iluminada e tive de novo uma surpresa quase t�o grande quanto a anterior. Puxei o bra�o de Holmes e apontei para cima.</p><p>� A sombra se moveu! � gritei.</p><p>N�o era mais o perfil, e sim as costas que agora estavam viradas para n�s.</p><p>Tr�s anos certamente n�o aplainaram a aspereza do seu temperamento ou sua impaci�ncia com uma intelig�ncia menos ativa que a sua.</p><p>� � claro que se moveu � disse ele. � Ser� que sou uma pessoa t�o desastrada e rid�cula, Watson, que montaria uma fraude �bvia, esperando que alguns dos homens mais espertos da Europa fossem enganados por ela? Estamos nesta sala h� duas horas, e a sra. Hudson fez mudan�as naquela figura oito vezes, ou uma vez a cada 15 minutos. Ela as faz pela frente, para que sua sombra nunca seja vista. Ah! � Ele aspirou com for�a, uma respira��o excitada e estridente. Naquela luz fraca, vi sua cabe�a esticada para a frente, toda a sua postura r�gida de aten��o. L� fora a rua estava absolutamente deserta. Os dois homens deveriam estar ainda de tocaia na porta da casa, mas eu n�o podia mais v�-los. Tudo estava quieto e escuro, menos aquela brilhante tela amarela � nossa frente, com a figura negra desenhada no centro. De novo, no sil�ncio total, ouvi aquela nota fina e sibilante, que revelava intensa excita��o sufocada. Um instante depois, ele me puxou para tr�s, para o canto mais escuro da sala, e senti sua m�o tapando minha boca, num sinal de advert�ncia. Os dedos que me agarravam estavam tremendo. Nunca vira meu amigo t�o emocionado, mas a rua escura ainda estava deserta e sem movimento diante de n�s.</p><p>Mas de repente me dei conta daquilo que seus sentidos mais agu�ados j� haviam percebido. Um som baixo e dissimulado chegou aos meus ouvidos vindo n�o da dire��o de Baker Street, mas de tr�s da casa onde est�vamos escondidos. Uma porta se abrira e se fechara. Logo depois, passos soaram pela passagem � passos que deveriam ser silenciosos, mas que ecoavam asperamente pela casa vazia. Holmes se agachou de costas para a parede e eu fiz o mesmo, com a m�o segurando a coronha do meu rev�lver. Procurando na escurid�o, divisei o contorno vago de um homem, uma sombra mais negra que o escuro da porta aberta. Ele parou por um instante e depois entrou na sala, curvado e amea�ador. Estava a menos de 3 metros de n�s, uma figura sinistra, e eu me preparara para receber o seu bote, antes de perceber que ele n�o sabia da nossa presen�a. Passou perto de n�s, foi at� a janela e a abriu uns 15 cent�metros, suavemente e sem ru�do. Ao se erguer at� o n�vel dessa abertura, a luz da rua, n�o mais diminu�da pelo vidro empoeirado, bateu em cheio no seu rosto. O homem parecia estar fora de si de t�o excitado. Seus olhos brilhavam como estrelas, e seus tra�os se agitavam convulsivamente. Era um homem idoso, com um nariz fino e protuberante, uma testa alta e calva, e um bigode enorme e grisalho. Um chap�u alto de molas foi puxado para a nuca e uma camisa de noite, com peitilho, apareceu pelo sobretudo aberto. Seu rosto era magro e moreno, marcado por linhas profundas e ferozes. Carregava na m�o o que parecia ser uma bengala mas, ao ser deixada no ch�o, fez um som met�lico. Ent�o tirou um objeto volumoso do bolso do sobretudo e se ocupou com alguma tarefa que terminou num clique agudo e alto, como se uma mola ou ferrolho tivesse entrado no lugar. Ainda ajoelhado no ch�o, inclinou-se para a frente e empregou toda sua for�a e seu peso em alguma barra, resultando num barulho estridente, longo e confuso, que acabou uma vez mais num forte clique. Ent�o ele se endireitou, e vi que o que carregava era uma esp�cie de arma com a coronha curiosamente deformada. Ele a abriu pela culatra, p�s alguma coisa dentro e fechou a tranca. A�, agachou-se e descansou a ponta da barra na borda da janela aberta, vi seu longo bigode cair por cima da coronha e seu olho brilhar, enquanto mirava. Ouvi um pequeno suspiro de satisfa��o quando encostou a coronha no ombro, e vi o surpreendente alvo, o homem negro no fundo amarelo, bem vis�vel na extremidade da sua al�a de mira. Ficou r�gido e im�vel por um instante. Ent�o seu dedo apertou o gatilho. Houve um silvo alto e estranho, e um barulho de vidro quebrado. Naquele instante Holmes pulou como um tigre nas costas do atirador e o jogou com a cara no ch�o. Num segundo o sujeito estava de p� novamente e, com um esfor�o convulsivo, agarrou Holmes pela garganta, mas bati na sua cabe�a com o cabo do meu rev�lver e ele caiu no ch�o mais uma vez. Pulei sobre ele, e enquanto o segurava, meu companheiro deu um assobio agudo num apito. Ouvimos o barulho de passos apressados na cal�ada e dois policiais uniformizados e um detetive � paisana entraram correndo pela porta da frente e surgiram dentro da sala.</p><p>� � voc�, Lestrade? � perguntou Holmes.</p><p>� Sim, sr. Holmes. Eu mesmo me encarreguei desta tarefa. � bom v�-lo de volta a Londres, senhor.</p><p>� Acho que voc� quer uma pequena ajuda extra-oficial. Tr�s assassinatos sem solu��o em um ano n�o o ajudar�o, Lestrade. Mas voc� conduziu o Mist�rio Molesey abaixo do seu normal, ou seja, o conduziu muito bem.</p><p>N�s todos hav�amos nos levantado, nosso prisioneiro, muito ofegante, tinha um policial robusto de cada lado. Alguns vadios j� se aglomeravam na rua. Holmes foi at� a janela, fechou-a e abaixou as persianas. Lestrade trouxera duas velas, e os policiais acenderam as lanternas. Finalmente eu podia dar uma boa olhada no prisioneiro.</p><p>Era um rosto extremamente viril mas sinistro o que estava voltado para n�s. Com a testa de um fil�sofo e a boca de um libertino, o homem deve ter come�ado com grande capacidade para o bem ou para o mal. Mas ningu�m poderia olhar para seus cru�is olhos azuis, com as p�lpebras c�nicas e ca�das, ou para o nariz agressivo e feroz e as sobrancelhas cerradas e amea�adoras sem perceber os sinais mais evidentes de perigo da natureza. N�o prestava aten��o em nenhum de n�s, mas seus olhos permaneciam fixos no rosto de Holmes, com uma express�o na qual �dio e assombro se misturavam. � Seu dem�nio! � ele continuava a murmurar. � Seu dem�nio esperto, esperto!</p><p>� Ah, coronel! � disse Holmes, ajeitando o colarinho desarrumado. � �Viagens acabam como encontros de amantes�, como diz a velha can��o. Creio n�o ter tido o prazer de v�-lo desde que me dispensou aquelas aten��es, enquanto eu estava na sali�ncia sobre a Cachoeira Reichenbach.</p><p>O coronel ainda encarava meu amigo como um homem em transe. � Seu dem�nio manhoso, manhoso! � era tudo o que conseguia dizer.</p><p>� Ainda n�o os apresentei � disse Holmes. � Este, cavalheiros, � o coronel Sebastian Moran, do Ex�rcito indiano de Sua Majestade, o melhor atirador de armas pesadas que o nosso Imp�rio Oriental j� produziu. Acho que estou certo, coronel, em dizer que sua cole��o de tigres continua sem rivais?</p><p>O velho feroz n�o disse nada, mas ainda fitava meu amigo. Com seus olhos selvagens e o bigode eri�ado, parecia-se maravilhosamente com um tigre.</p><p>� Pergunto-me como um estratagema t�o simples poderia enganar um t�o velho � disse Holmes. � Ele deve ser muito familiar para voc�. N�o prendeu um garotinho debaixo de uma �rvore, ficou acima dele com o seu rifle, e esperou pela isca para alimentar seu tigre? Esta casa vazia � a minha �rvore e voc�, o meu tigre. Provavelmente voc� tinha outras armas de reserva para o caso de haver muitos tigres, ou na suposi��o desagrad�vel de falhar na pontaria. Estas � apontou � sua volta � s�o minhas outras armas. A compara��o � perfeita.</p><p>O coronel Moran deu um pulo para a frente com um rugido de �dio, mas foi puxado para tr�s pelos guardas. A f�ria em seu rosto era terr�vel de se ver.</p><p>� Confesso que voc� tinha uma pequena surpresa para mim � disse Holmes. � Eu n�o previ que voc� iria usar pessoalmente esta casa vazia e essa conveniente janela da frente. Eu imaginei que voc� agiria da rua, onde meu amigo Lestrade e seus homens joviais estavam esperando por voc�. Com exce��o disso, tudo correu como eu esperava.</p><p>O coronel Moran virou-se para o inspetor:</p><p>� Voc� pode ou n�o ter uma causa justa para me prender � disse ele �, mas pelo menos n�o existe motivo para me submeter � tagarelice deste cidad�o. Se eu estou nas m�os da lei, que as coisas sejam feitas de uma maneira legal.</p><p>� Bem, isto � razo�vel � disse Lestrade. � N�o tem mais nada a dizer, sr. Holmes, antes de irmos?</p><p>Holmes apanhara do ch�o a poderosa arma de press�o e estava examinando seu mecanismo.</p><p>� Uma arma �nica e admir�vel � disse ele �, silenciosa e com um poder tremendo: eu sabia de Von Herder, o mec�nico alem�o cego, que a fabricara por ordem do falecido professor Moriarty. H� anos eu sabia de sua exist�ncia, embora nunca tenha tido a oportunidade de segur�-la. Recomendo a sua aten��o especial, Lestrade, e tamb�m para as balas que a carregam.</p><p>� Pode confiar-nos a sua guarda, sr. Holmes � disse Lestrade enquanto o grupo todo se dirigia para a porta. � Algo mais a dizer?</p><p>� Quero apenas perguntar que acusa��o vai escolher.</p><p>� Que acusa��o, senhor? Ora, naturalmente a tentativa de assassinato do sr. Sherlock Holmes.</p><p>� N�o, Lestrade. N�o tenho a inten��o de aparecer neste caso. A voc�, e somente a voc�, cabem os cr�ditos da pris�o not�vel que fez. Sim, Lestrade, eu o congratulo! Com sua habitual e feliz mistura de aud�cia e esperteza, voc� o pegou.</p><p>� Peguei-o! Peguei quem, sr. Holmes?</p><p>� O homem que toda a per�cia tem procurado em v�o � o coronel Sebastian Moran, que atirou no Ronald Adair com uma bala explosiva, de uma arma de ar comprimido, pela janela aberta do segundo andar em frente ao n�mero 427 de Park Lane, no dia 30 do m�s passado. Esta � a acusa��o, Lestrade. E agora, Watson, se puder ag�entar a corrente de ar da janela quebrada, creio que meia hora no meu gabinete, fumando um charuto, pode lhe proporcionar alguma divers�o proveitosa.</p><empty-line/><p>Nossos velhos aposentos estavam intactos devido � supervis�o de Mycroft Holmes e aos cuidados da sra. Hudson. � verdade que, quando entrei, vi uma bagun�a incomum, mas todos os velhos pontos de refer�ncia continuavam em seus lugares. L� estavam o canto da qu�mica e a mesa de pinho manchada de �cido. Numa prateleira havia v�rios cadernos enormes de notas e livros de refer�ncia, que muitos dos nossos concidad�os adorariam queimar. Os diagramas, o estojo do violino e o conjunto do cachimbo � at� mesmo o chinelo persa que continha o tabaco � vi todos ali assim que dei uma olhada em volta. Havia dois ocupantes na sala � um, a sra. Hudson, que sorriu para n�s quando entramos; o outro, o estranho boneco que desempenhara um papel importante na aventura noturna. Era um modelo cor de cera do meu amigo, feito de maneira t�o admir�vel que era um fac-s�mile exato. Ficava num pequeno pedestal, com um velho chambre de Holmes, t�o bem colocado que, da rua, a ilus�o era absolutamente perfeita.</p><p>� Espero que tenha tomado todas as precau��es, sra. Hudson � disse Holmes.</p><p>� Entrei l� de joelhos, senhor, exatamente como me mandou.</p><p>� Excelente. Trabalhou muito bem. Viu por onde a bala passou?</p><p>� Sim, senhor. Receio que tenha estragado seu bonito busto, pois passou direto pela cabe�a e se esborrachou na parede. Peguei-a no tapete. Aqui est�!</p><p>Holmes mostrou-me a bala. � Uma bala de rev�lver macia, Watson, est� vendo? � genial isto, pois quem imaginaria uma coisa dessa sendo disparada de uma espingarda de ar? Tudo bem, sra. Hudson. Estou muito grato pela sua ajuda. E agora, Watson, deixe-me v�-lo uma vez mais sentado em sua velha poltrona, pois quero discutir v�rios detalhes com voc�.</p><p>Tirara a sobrecasaca surrada e agora era o velho Holmes no roup�o cor de rato que tirara do seu busto.</p><p>� Os nervos do velho n�o perderam sua firmeza, nem seus olhos a crueldade � disse ele com uma risada, enquanto examinava a testa esmigalhada de seu busto.</p><p>� Bem no meio da parte posterior da cabe�a, direitinho atrav�s do c�rebro. Era o melhor atirador da �ndia, e acho que existem poucos melhores em Londres. Ouviu falar no seu nome?</p><p>� N�o, n�o ouvi.</p><p>� Ora, ora, assim � a fama. Mas, se me lembro bem, voc� n�o tinha ouvido o nome do professor James Moriarty, que foi um dos maiores c�rebros do s�culo. Quer apanhar o �ndice de biografias na estante?</p><p>Virava as p�ginas pregui�osamente, recostado na cadeira e soltando grandes baforadas do cachimbo.</p><p>� Minha cole��o de M � �tima � comentou. � O pr�prio Moriarty � suficiente para tornar qualquer letra ilustre, e aqui est�o Morgan, o envenenador, Merridew, de abomin�vel lembran�a, e Mathews, que arrancou com um soco o meu canino esquerdo na sala de espera de Charing Cross, e finalmente, eis o nosso amigo desta noite.</p><p>Estendeu-me o livro, e li:</p><empty-line/><p>Desempregado. Antigamente no Primeiro Batalh�o dos Pioneiros de Bangalore. Nascido em Londres em 1840. Filho de� Augustus Moran, C. B., que foi embaixador brit�nico na P�rsia. Educado em Eton e Oxford. Serviu na campanha de Jowaki, na campanha afeg�, Charasiab (despachos), Sherpur e Cabul. Autor de� (1881), (1884). Endere�o: Conduit Street. Clubes: O Anglo-Indiano, o Tankerville e o Clube Bagatelle de Cartas.</p><empty-line/><p>Na margem estava escrito, com a letra firme de Holmes:</p><empty-line/><p>O segundo homem mais perigoso de Londres.</p><empty-line/><p>� � assombroso � eu disse ao devolver o livro. � A carreira deste homem � a de um soldado honrado.</p><p>� � verdade � respondeu Holmes. � At� certo ponto ele agiu corretamente. Sempre foi um homem de nervos de a�o, e conta-se ainda na �ndia a hist�ria de como se arrastou por um escoadouro atr�s de um tigre devorador de homens ferido. Existem �rvores, Watson, que crescem at� certa altura e de repente desenvolvem um desvio disforme. Voc� perceber� isso com freq��ncia nos seres humanos. Tenho uma teoria segundo a qual o indiv�duo reproduz no seu desenvolvimento toda a evolu��o de seus antepassados e que uma mudan�a repentina, para o bem ou para o mal, surge em conseq��ncia de alguma� forte influ�ncia ocorrida em sua linhagem.</p><p>� Isto com certeza � bem fantasioso.</p><p>� Bem, n�o vou insistir neste ponto. Seja qual for a causa, o coronel Moran come�ou a comportar-se mal. Sem qualquer esc�ndalo p�blico, ainda tornou a �ndia quente demais para abrig�-lo. Reformou-se, veio para Londres e adquiriu de novo m� fama. Nessa �poca, foi requisitado pelo professor Moriarty, para quem trabalhou durante algum tempo como chefe da equipe. Moriarty o abastecia generosamente de dinheiro e o utilizou em apenas um ou dois trabalhos de primeira categoria, que nenhum criminoso comum poderia realizar. Voc� deve ter alguma lembran�a da morte da sra. Stewart, de Lauder, em 1887. N�o? Bem, estou certo de que Moran estava por tr�s disso, mas nada p�de ser provado. Foi t�o esperto que, mesmo quando a quadrilha de Moriarty foi desbaratada, n�s n�o conseguimos incrimin�-lo. Voc� se lembra de que naquela data, quando fui visit�-lo em seus aposentos, fechei as venezianas com medo das armas de ar comprimido? � claro que voc� pensou que eu era um lun�tico. Eu sabia o que estava fazendo, porque tinha conhecimento da exist�ncia dessa arma not�vel, e sabia tamb�m que um dos maiores atiradores do mundo estaria atr�s de mim. Quando fomos para a Su��a, ele nos seguiu com Moriarty e, sem sombra de d�vida, foi ele quem me proporcionou aqueles malditos cinco minutos na sali�ncia de Reichenbach.</p><p>� Pode imaginar que li aqueles pap�is com aten��o durante minha estada na Fran�a, � espera de alguma oportunidade de peg�-lo pelo p�. Assim que ele estivesse livre em Londres, minha vida n�o valeria absolutamente nada. Noite e dia sua sombra estaria no meu encal�o, e cedo ou tarde ele teria sua oportunidade. O que eu poderia fazer? N�o poderia simplesmente atirar nele, ou eu mesmo iria para o banco dos r�us. N�o adiantaria apelar para um juiz. Eles n�o poderiam interferir com energia no que, para eles, pareceria uma suspeita insensata. Portanto, n�o poderia fazer nada. Mas olhava as not�cias de crimes, sabendo que mais cedo ou mais tarde eu o pegaria. A� veio a morte desse Ronald Adair. Minha oportunidade chegara finalmente. Pelo que eu sabia, n�o era certo que o coronel Moran tivesse feito isso? Ele jogara cartas com o rapaz, seguira-o do clube at� em casa, atirara nele atrav�s da janela aberta. Sobre isso n�o havia d�vidas. S� as balas seriam suficientes para enforc�-lo. Comecei a trabalhar logo. Fui visto pela sentinela que, eu sabia, iria chamar a aten��o do coronel para a minha presen�a. Ele n�o deixaria de ligar a minha volta repentina ao seu crime e ficaria terrivelmente alarmado. Eu tinha certeza de que ele tentaria me tirar do caminho e usaria sua arma mortal com este prop�sito. Deixei para ele um �timo alvo na janela e, tendo avisado a pol�cia de que poder�amos precisar dela � falando nisso, Watson, voc� descobriu a presen�a deles na porta com grande exatid�o �, ocupei o lugar que me pareceu ser um bom posto de observa��o, sem nunca ter imaginado que ele escolheria o mesmo lugar para o seu ataque. Agora, meu caro Watson, quer que eu explique mais alguma coisa?</p><p>� Sim � eu disse. � Voc� n�o esclareceu qual o motivo do coronel Moran para assassinar o Ronald Adair.</p><p>� Ah, meu caro Watson, aqui entraremos nos dom�nios da conjectura, onde a mais l�gica das mentes pode falhar. Cada um pode formular sua pr�pria hip�tese em cima da evid�ncia existente, e a sua pode estar t�o correta quanto a minha.</p><p>� Tem uma, ent�o?</p><p>� Acho que n�o � t�o dif�cil explicar os fatos. Foi revelado no inqu�rito que o coronel Moran e o jovem Adair tinham, entre eles, ganhado uma soma consider�vel. Agora, sem d�vida Moran jogava sujo � disso eu sabia h� muito tempo. Acho que, no dia do crime, Adair descobriu que Moran andava trapaceando. � prov�vel que tenha falado com ele em particular e tenha amea�ado denunci�-lo, a menos que desistisse voluntariamente de ser membro do clube, e prometesse n�o jogar cartas de novo. � improv�vel que um jovem como Adair fizesse logo um esc�ndalo terr�vel, expondo um homem t�o conhecido e mais velho que ele. Certamente agiu como imaginei. A exclus�o de seus clubes significaria a ru�na para Moran, que vivia de seus ganhos nas cartas, conseguidos de modo desonesto. Portanto, assassinou Adair, que �quela hora estava tentando descobrir quanto dinheiro deveria devolver, j� que n�o poderia lucrar com o jogo sujo do seu parceiro. Trancou a porta para que as mulheres n�o o surpreendessem e insistissem em saber o que ele estava fazendo com aqueles nomes e as moedas. Aprovado?</p><p>� N�o tenho d�vida de que voc� descobriu a verdade.</p><p>� Ser� confirmada ou contestada no julgamento. Enquanto isso, o coronel Moran n�o nos atrapalhar� mais. A famosa arma de ar de Von Herder ir� enfeitar o museu da Scotland Yard e mais uma vez o sr. Sherlock Holmes est� livre para dedicar sua vida a examinar aqueles probleminhas interessantes que a vida complexa de Londres apresenta com tanta fartura.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura do</strong></p><empty-line/><p><strong>
  construtor de norwood</strong></p><p>� Do ponto ponto de vista de um perito criminal� � disse ao sr. Sherlock Holmes �, Londres transformou-se numa cidade singularmente desinteressante desde a morte do saudoso professor Moriarty.</p><p>� Duvido que encontre muitos cidad�os decentes que concordem com voc� � respondi.</p><p>� Bem, bem, n�o devo ser ego�sta � ele disse com um sorriso, enquanto afastava sua cadeira da mesa, depois do caf�-da-manh�. � A comunidade com certeza � a ganhadora e ningu�m � o perdedor, a n�o ser o pobre perito sem trabalho, cuja ocupa��o desapareceu. Com aquele homem na �rea, cada jornal matutino apresentava possibilidades infinitas. Freq�entemente, Watson, o menor tra�o, a indica��o mais vaga j� bastavam para me dizer que o grande c�rebro maligno estava ali, assim como</p><p>os menores tremores nas bordas da teia lembram-nos da aranha que se oculta no centro. Furtos insignificantes, assaltos audaciosos, afrontas sem prop�sito � quem tivesse a pista poderia juntar tudo num conjunto interligado. Para o estudioso cient�fico do alto mundo do crime, nenhuma capital da Europa oferecia as vantagens que Londres tinha ent�o. Mas agora... � encolheu os ombros numa deprecia��o bem-humorada do estado de coisas para o qual ele pr�prio contribu�ra.</p><p>Na �poca de que falo, Holmes tinha reaparecido havia alguns meses, e, a seu pedido, eu vendera minha cl�nica e voltara a dividir com ele os antigos aposentos em Baker Street. Um jovem m�dico chamado Verner comprara minha pequena cl�nica em Kensington, pagando sem obje��es o alto pre�o que ousei pedir � um incidente que s� se explicou alguns anos depois, quando descobri que Verner era um parente distante de Holmes e, na verdade, fora o meu amigo quem dera o dinheiro.</p><p>Nossos meses de parceria n�o foram t�o desprovidos de casos como ele afirmara, pois descobri, examinando minhas anota��es, que este per�odo inclui o caso dos pap�is do ex-presidente Murillo, e tamb�m o caso chocante do barco a vapor holand�s ,que quase nos custou a vida. Entretanto, sua natureza fria e orgulhosa era sempre avessa a qualquer tipo de aplauso p�blico, intimando-me, nos termos mais rigorosos, a n�o dizer uma palavra sobre ele, seus m�todos ou suas vit�rias � uma proibi��o que, como j� expliquei, s� agora foi retirada.</p><p>Sherlock Holmes recostara-se na cadeira ap�s seu protesto lamentoso e estava desdobrando sem pressa o jornal matutino, quando nossa aten��o foi atra�da por um tremendo toque da campainha, seguido de uma pancada oca, como se algu�m estivesse batendo na porta de fora com a m�o fechada. Assim que ela se abriu, houve um tumulto no sagu�o, passos r�pidos subindo a escada e logo depois um jovem fora de si, com um olhar selvagem, p�lido, desalinhado e palpitante, irrompeu na sala. Olhou alternadamente para n�s dois e, diante de nosso olhar inquiridor, percebeu que era preciso alguma desculpa para esta entrada sem cerim�nia.</p><p>� Desculpe-me, sr. Holmes! � exclamou. � N�o deve me censurar. Estou quase louco, sr. Holmes, sou o infeliz John Hector McFarlane.</p><p>Ele se anunciou como se bastasse o nome para explicar sua visita e seus modos, mas eu podia ver, pelo rosto inexpressivo do meu amigo, que n�o significava mais para ele do que para mim.</p><p>� Pegue um cigarro, sr. McFarlane � disse ele, estendendo-lhe sua cigarreira. � Estou certo de que, com os seus sintomas, meu amigo aqui, o dr. Watson, lhe prescreveria um sedativo. O tempo tem estado t�o quente nesses �ltimos dias. Agora, se o senhor estiver um pouco melhor, eu gostaria que se sentasse naquela cadeira e nos contasse calma e lentamente quem � e o que deseja. Mencionou seu nome como se eu devesse conhec�-lo, mas asseguro-lhe que, a n�o ser os fatos �bvios de que � solteiro, advogado, ma�om e asm�tico, n�o sei mais nada sobre o senhor.</p><p>Familiarizado como estava com os m�todos do meu amigo, n�o foi dif�cil para mim acompanhar suas dedu��es e observar as roupas desalinhadas, o ma�o de pap�is legais, o berloque do rel�gio e a respira��o que as sugerira. Mas nosso cliente ficou espantado.</p><p>� Sim, sou tudo isso, sr. Holmes, e tamb�m o homem mais infeliz de Londres neste momento. Por Deus, n�o me abandone, sr. Holmes! Se vierem me prender antes de eu terminar minha hist�ria, fa�a com que me d�em tempo para que possa lhe contar toda a verdade. Poderia ir para a cadeia feliz, se soubesse que o senhor estaria trabalhando por mim do lado de fora.</p><p>� Prender voc�! � disse Holmes. � Isto � realmente muito grati... muito interessante. Sob que acusa��o voc� espera ser preso?</p><p>� Sob a acusa��o de assassinar o sr. Jonas Oldacre, de Lower Norwood.</p><p>O rosto expressivo do meu amigo mostrava uma simpatia que, receio, n�o estava totalmente isenta de satisfa��o.</p><p>� Pobre de mim � disse ele. � H� poucos instantes, no caf�-da-manh�, eu estava dizendo ao meu amigo, dr. Watson, que os casos sensacionais haviam desaparecido dos nossos jornais.</p><p>Nosso visitante estendeu a m�o tr�mula e pegou o� que ainda estava sobre os joelhos de Holmes.</p><p>� Se o tivesse lido, senhor, teria visto logo com que inten��o vim aqui esta manh�. Sinto-me como se meu nome e meu infort�nio estivessem na boca de todos. � Mostrou-nos a p�gina central. � Aqui est� e, com sua permiss�o, vou l�-lo para o senhor. Escute isto, sr. Holmes. O cabe�alho �: �Caso Misterioso em Lower Norwood. Desaparecimento de um Conhecido Construtor. Suspeita de Assassinato e Inc�ndio Premeditado. Pista para o Criminoso.� Esta � a pista que eles j� est�o seguindo, sr. Holmes, e sei que ela conduz infalivelmente a mim. Fui seguido desde a esta��o da Ponte de Londres, e tenho certeza de que est�o apenas esperando pelo mandado para me prenderem. Isto vai partir o cora��o de minha m�e � vai partir o cora��o dela! � Ele torcia as m�os de ang�stia e se balan�ava para a frente e para tr�s na cadeira.</p><p>Olhei com interesse para esse homem, que era acusado de ser o autor de um crime violento. Era bonito e louro, de um modo desbotado e neutro, com olhos azuis amedrontados e um rosto escanhoado, uma boca sens�vel e delicada. Devia ter uns 27 anos, seu modo de vestir e seu procedimento eram os de um cavalheiro. Do bolso de seu sobretudo claro de ver�o sobressa�a o ma�o de pap�is que revelava sua profiss�o.</p><p>� Devemos aproveitar o tempo que temos � disse Holmes. � Watson, voc� faria a gentileza de pegar o jornal e ler o tema em quest�o?</p><p>Abaixo dos cabe�alhos incisivos que nosso cliente citara, li o seguinte relato sugestivo:</p><p>� Na noite de ontem, ou bem cedo esta manh�, ocorreu um incidente em Lower Norwood que aponta, como se receia, para um crime grave. O sr. Jonas Oldacre � um conhecido morador daquele sub�rbio, onde, durante muitos anos, manteve seu neg�cio como construtor. O sr. Oldacre � solteiro, tem 52 anos de idade e mora em Deep Dene House, no terminal Sydenham da estrada do mesmo nome. Tinha fama de ser um homem exc�ntrico, reservado e modesto. H� alguns anos praticamente se retirou do neg�cio, no qual dizem que acumulou uma fortuna consider�vel. Entretanto, ainda existe um pequeno dep�sito de madeiras nos fundos da casa, e na noite passada, por volta da meia-noite, foi dado o alarme: uma pilha de lenha estava pegando fogo. Os bombeiros chegaram logo ao local, mas a madeira seca queimou com muita f�ria, e n�o foi poss�vel apagar o inc�ndio at� que a pilha toda fosse consumida. At� esse ponto o fato parecia um acidente comum, mas novos ind�cios parecem apontar para um crime grave. Causou surpresa a aus�ncia, no local do inc�ndio, do dono do estabelecimento, e procedeu-se a um interrogat�rio, que apurou que ele desaparecera da casa. Um exame do seu quarto revelou que a cama n�o fora desarrumada, o cofre que havia l� estava aberto, v�rios pap�is importantes estavam espalhados pelo ch�o e, finalmente, que havia sinais de luta mortal, sendo encontrados vest�gios de sangue pelo quarto, e uma bengala de carvalho, cujo cabo tamb�m mostrava manchas de sangue. Sabe-se que o sr. Jonas Oldacre recebeu em seu quarto um visitante naquela noite, e a bengala encontrada foi identificada como de propriedade desta pessoa, um jovem advogado de Londres chamado John Hector McFarlane, s�cio da Graham e McFarlane, no n�mero 426 dos edif�cios Gresham, E. C. A pol�cia acredita dispor de ind�cios que fornecem um motivo bem convincente para o crime, e n�o h� d�vida de que se far�o progressos sensacionais.</p><empty-line/><p>MAIS TARDE:</p><empty-line/><p>Surgiram rumores, enquanto imprimimos, de que o sr. John Hector McFarlane j� foi preso sob a acusa��o de assassinato do sr. Jonas Oldacre. � certo, pelo menos, que um mandado foi expedido. Existem mais ind�cios sinistros na investiga��o em Norwood. Al�m dos sinais de luta no quarto do infeliz construtor, sabe-se agora que as portas envidra�adas de seu quarto (que fica no primeiro andar) foram encontradas abertas; que h� marcas como se um objeto grande tivesse sido atirado na pilha de madeira e, finalmente, afirma-se que restos carbonizados foram descobertos entre as cinzas do inc�ndio. A teoria da pol�cia � a de que um crime, dos mais sensacionais, foi cometido, que a v�tima foi morta a pauladas em seu pr�prio quarto, seus pap�is revirados e seu corpo sem vida jogado na pilha de madeira, que foi ent�o acesa, para esconder todos os vest�gios do crime. A condu��o da investiga��o criminal foi deixada nas m�os experientes do inspetor Lestrade, da Scotland Yard, que est� seguindo as pistas com sua energia e sagacidade costumeiras.</p><empty-line/><p>Sherlock Holmes ouviu, de olhos fechados e com as pontas dos dedos unidas, este relato incr�vel.</p><p>� O caso certamente tem alguns pontos interessantes � disse ele com seu� jeito indolente. � Em primeiro lugar, sr. McFarlane, posso perguntar como ainda est� em liberdade, j� que parece haver ind�cios suficientes para justificar sua pris�o?</p><p>� Moro em Torrington Lodge, Blackheath, com meus pais, sr. Holmes, mas na noite passada, tendo de trabalhar at� muito tarde com o sr. Jonas Oldacre, pernoitei num hotel em Norwood, e vim de l� para o trabalho. N�o sabia nada sobre este caso at� estar no trem, quando li o que acabou de ouvir. Percebi logo o perigo horr�vel da minha situa��o e corri para p�r o caso em suas m�os. N�o tenho d�vida de que teria sido preso no escrit�rio ou em casa. Um homem me seguiu desde a esta��o da Ponte de Londres e n�o duvido que... Meu Deus! O que � isto?</p><p>Houve um toque de campainha, seguido de passos pesados na escada. Logo depois, nosso velho amigo Lestrade apareceu � porta. Por cima do seu ombro vi um ou dois policiais uniformizados do lado de fora.</p><p>� Sr. John Hector McFarlane? � perguntou Lestrade.</p><p>Nosso infeliz cliente levantou-se, p�lido.</p><p>� Prendo-o pelo assassinato premeditado do sr. Jonas Oldacre, de Lower Norwood.</p><p>McFarlane virou-se para n�s com um gesto de desespero, e afundou de novo na cadeira como algu�m que se sentisse derrotado.</p><p>� Um momento, Lestrade � disse Holmes. � Meia hora a mais ou a menos n�o far� diferen�a, e o cavalheiro estava para nos dar um resumo deste caso interessante e que pode nos ajudar a esclarec�-lo.</p><p>� Creio que n�o h� dificuldade em esclarec�-lo � disse Lestrade, inflex�vel.</p><p>� Mas, com sua permiss�o, eu gostaria muito de ouvir o relato dele.</p><p>� Bem, sr. Holmes, � dif�cil para mim recusar-lhe qualquer coisa, pois j� foi �til para a pol�cia uma ou duas vezes no passado, e n�s lhe devemos muito na Scotland Yard � disse Lestrade. � Enquanto isso, devo ficar com o meu prisioneiro, e aviso-lhe que qualquer coisa que diga pode depor contra ele.</p><p>� N�o espero nada melhor � disse nosso cliente. � Tudo que pe�o � que escute e reconhe�a a verdade absoluta.</p><p>Lestrade consultou o rel�gio. � Tem meia hora � avisou.</p><p>� Devo explicar primeiro � disse McFarlane � que n�o sabia nada sobre o sr. Jonas Oldacre. Eu o conhecia de nome porque meus pais mantinham rela��es com ele, mas depois se afastaram. Portanto, fiquei muito surpreso quando ontem, l� pelas 15 horas, ele entrou no meu escrit�rio, na cidade. Mas fiquei ainda mais espantado quando me disse o objetivo de sua visita. Tinha na m�o v�rias folhas de caderno cobertas com texto manuscrito � aqui est�o � e as deixou sobre a minha mesa.</p><p>� �Aqui est� o meu testamento�, disse ele. �Quero que o senhor, McFarlane, o coloque numa forma legal apropriada. Vou me sentar aqui enquanto faz isso.�</p><p>� Pus-me a copi�-lo, e o senhor pode imaginar o meu assombro quando descobri que, com algumas exce��es, deixara todas as suas posses para mim. Era um homem pequeno e estranho, parecido com um fur�o, com pestanas brancas e, quando ergui os olhos para ele, encontrei seus penetrantes olhos cinzentos fixos em mim com uma express�o divertida. Mal podia acreditar nos meus pr�prios sentidos enquanto lia os termos do testamento; mas ele explicou que era solteiro, com quase nenhum parente vivo, que tinha conhecido meus pais quando era jovem e que sempre ouvira falar de mim como um rapaz muito digno, e estava certo de que seu dinheiro estaria em boas m�os. Naturalmente, eu s� pude balbuciar os meus agradecimentos. O testamento foi devidamente terminado, assinado e testemunhado pelo meu escriv�o. Est� aqui no papel azul, e estas notas, como j� expliquei, s�o o rascunho. O sr. Jonas Oldacre me informou ent�o que havia v�rios documentos � alugu�is de edif�cios, t�tulos de propriedade, hipotecas, certificados de subscri��o de a��es e assim por diante, que eu precisava ver e entender. Disse que sua cabe�a n�o ficaria tranq�ila at� que a coisa toda estivesse pronta, e me pediu para ir � sua casa em Norwood aquela noite, levando o testamento comigo, para acertar tudo.</p><p>� �Lembre-se, meu rapaz, nem uma palavra a seus pais sobre isto, at� que tudo esteja pronto. Guardaremos isto como uma pequena surpresa para eles.� Ele insistiu muito nesse ponto e me fez prometer.</p><p>� Pode imaginar, sr. Holmes, que eu n�o estava num estado de esp�rito para lhe recusar nada. Era o meu benfeitor e tudo o que eu queria era satisfazer seus desejos em cada detalhe. Portanto, mandei um telegrama para� casa dizendo que tinha um neg�cio importante para resolver e que era imposs�vel calcular quanto tempo me atrasaria. O sr. Oldacre dissera que gostaria que eu jantasse com ele �s 21 horas, pois n�o estaria em casa antes dessa hora. Mas, tive certa dificuldade em achar sua casa e j� estava quase meia hora atrasado quando cheguei. Encontrei-o...</p><p>� Um momento! � interrompeu Holmes. � Quem abriu a porta?</p><p>� Uma senhora de meia-idade, que era a governanta, suponho.</p><p>� Presumo que tenha sido ela quem mencionou o seu nome?</p><p>� Exatamente � disse McFarlane.</p><p>� Continue, por favor.</p><p>McFarlane enxugou a testa �mida e continuou a narrativa:</p><p>� Essa senhora me levou at� uma sala de estar onde estava servido um jantar frugal. Mais tarde, o sr. Jonas Oldacre me levou at� o seu quarto, onde havia um cofre pesado. Ele o abriu e pegou uma pilha de documentos, que examinamos juntos. Terminamos entre 23 horas e meia-noite. Ele comentou que n�o dever�amos perturbar a governanta. Fez com que eu sa�sse pela porta envidra�ada que ficara aberta o tempo todo.</p><p>� A veneziana da janela estava abaixada?</p><p>� N�o tenho certeza, mas creio que estava apenas � meia altura. Sim, lembro-me de que ele a levantou para abrir a janela. Eu n�o conseguia achar a minha bengala, e ele disse: �N�o tem import�ncia, meu rapaz, eu o verei com freq��ncia agora, espero, e eu a guardarei at� que volte para apanh�-la�. Deixei-o l�, o cofre aberto e os pap�is em pilhas sobre a mesa. Era t�o tarde que n�o poderia voltar a Blackheath, de modo que passei a noite no Anerley Arms, e n�o soube de mais nada at� que li sobre este caso horr�vel de manh�.</p><p>� N�o h� mais nada que gostaria de perguntar, sr. Holmes? � disse Lestrade, cujas sobrancelhas se ergueram uma ou duas vezes durante este relato.</p><p>� N�o at� que tenha ido a Blackheath.</p><p>� Voc� quer dizer a Norwood � comentou Lestrade.</p><p>� Ah, sim, sem d�vida � o que pretendia dizer � afirmou Holmes, com seu sorriso enigm�tico. Lestrade aprendera, por mais experi�ncias do que podia se lembrar, que aquela mente afiada como l�mina podia trespassar o que era impenetr�vel para ele. Vi que olhava� com curiosidade para o meu amigo.</p><p>� Acho que gostaria de ter uma palavra com o senhor � disse ele para Holmes. � Agora, sr. McFarlane, dois de meus homens est�o l� na porta, e h� um carro esperando. � O infeliz jovem se levantou com um �ltimo olhar suplicante para n�s, e saiu da sala. Os policiais o levaram para o cabriol�, mas Lestrade ficou.</p><p>Holmes apanhara as p�ginas do rascunho do testamento e as estava examinando com o maior interesse.</p><p>� Existem alguns detalhes a respeito deste documento, Lestrade, n�o �? � disse ele, entregando-os.</p><p>O policial olhou para eles com uma express�o confusa.</p><p>� Posso ler as primeiras linhas, e as do meio da segunda p�gina, e uma ou duas no final. S�o n�tidas como se fossem impressas � disse ele �, mas a escrita entre elas � muito ruim, e h� tr�s lugares em que n�o consigo ler nada.</p><p>� O que voc� deduz da�? � disse Holmes.</p><p>� Bem, o que� deduz dele?</p><p>� Que foi escrito num trem. A caligrafia boa representa paradas, a ruim significa movimento, e a muito ruim, passando por desvios. Um perito diria que isto foi escrito numa linha suburbana, j� que em nenhum outro lugar, a n�o ser na periferia de uma cidade grande, haveria uma sucess�o t�o r�pida de desvios. Admitindo que ele passou a viagem toda fazendo o testamento, ent�o o trem era um expresso, s� parando uma vez entre Norwood e a Ponte de Londres.</p><p>Lestrade come�ou a rir.</p><p>� O senhor � demais para mim quando come�a com suas teorias, sr. Holmes � disse ele. � O que isso tem a ver com o caso?</p><p>� Bem, isso confirma a hist�ria do rapaz de que o testamento foi escrito por Jonas Oldacre durante sua viagem ontem. � curioso � n�o �? � que um homem escreva um documento t�o importante de maneira t�o displicente. Isso sugere que ele n�o achava que iria ter muita import�ncia pr�tica. Se um homem fosse escrever um testamento que n�o quisesse efetivar nunca, ele o faria desta maneira.</p><p>� Bem, ele escreveu ao mesmo tempo a sua pr�pria senten�a de morte � disse Lestrade.</p><p>� Oh, acha isso?</p><p>� Voc� n�o?</p><p>� Bem, � poss�vel, mas o caso ainda n�o est� claro para mim.</p><p>� N�o est� claro? Bem, se aquilo n�o est� claro, o que estar? Temos um rapaz que de repente descobre que, se um certo homem idoso morrer, ele herdar� uma fortuna. O que ele faz? N�o diz nada a ningu�m, mas inventa que tem de ir visitar seu cliente, sob algum pretexto, aquela noite. Espera at� que a outra pessoa da casa esteja na cama, e ent�o, no isolamento do quarto de um homem, assassina-o, queima seu corpo na pilha de madeira e vai para um hotel da vizinhan�a. As manchas de sangue no quarto e tamb�m na bengala s�o muito t�nues. � prov�vel que imaginasse que seu crime fosse sem sangue, e pensou que se o corpo fosse consumido, ocultaria todos os tra�os do m�todo da morte � tra�os que, por algum motivo, apontariam para ele. Isso tudo n�o � �bvio?</p><p>� Isto me impressiona, meu bom Lestrade, por ser uma ninharia �bvia demais � disse Holmes. � Voc� n�o acrescenta imagina��o �s suas outras grandes qualidades, mas se o conseguir por um instante, ponha-se no lugar deste rapaz; escolheria a noite seguinte � prepara��o do testamento, para cometer seu crime? N�o pareceria perigoso, para voc�, fazer uma rela��o t�o pr�xima entre os dois incidentes? Al�m disso, escolheria uma ocasi�o em que sabiam que voc� estava na casa, quando uma empregada o deixara entrar? E, finalmente, voc� se esfor�aria para ocultar o corpo e mesmo assim deixa sua pr�pria bengala como um sinal de que foi o criminoso? Confesse, Lestrade, que tudo isso � muito improv�vel.</p><p>� Com rela��o � bengala, sr. Holmes, sabe t�o bem quanto eu que em geral um criminoso � um indiv�duo perturbado, e faz coisas que um homem equilibrado evitaria. Muito provavelmente ele estava com medo de voltar ao quarto. D�-me outra teoria que se encaixe nos fatos.</p><p>� Poderia facilmente dar meia d�zia � disse Holmes. � Aqui, por exemplo, est� uma muito poss�vel e mesmo prov�vel. Vou d�-la de gra�a para voc�. O velho est� mostrando documentos que s�o de valor evidente, um vagabundo passa e os v� pela janela, cuja persiana s� est� � meia altura. O advogado sai. Entra o vagabundo! Pega a bengala que v� ali, mata Oldacre e vai embora depois de queimar o corpo.</p><p>� Por que o vagabundo queimaria o corpo?</p><p>� Quanto a isso, por que McFarlane o faria?</p><p>� Para esconder alguma prova.</p><p>� Possivelmente o vagabundo queria esconder que havia sido cometido um crime.</p><p>� E por que ele n�o levou nada?</p><p>� Porque n�o eram pap�is que ele pudesse negociar.</p><p>Lestrade balan�ou a cabe�a, embora me desse a impress�o de estar menos seguro do que antes.</p><p>� Bem, sr. Sherlock Holmes, pode procurar o seu vagabundo, e enquanto faz isso, n�s seguraremos o nosso homem. O futuro mostrar� quem est� certo. Mas atente para este ponto, sr. Holmes: at� onde sabemos, nenhum dos pap�is foi roubado, e nosso prisioneiro � o �nico homem no mundo que n�o tinha motivo para tir�-los de l�, j� que era o herdeiro leg�timo, e teria a posse deles de qualquer maneira.</p><p>Meu amigo pareceu impressionado por esta observa��o.</p><p>� N�o nego que a evid�ncia, em alguns aspectos, � muito forte em favor de sua teoria � disse ele. � S� desejo lembrar que existem outras teorias poss�veis. Como voc� disse, o futuro decidir�. At� logo! Acho que durante o dia vou dar um pulo a Norwood e ver como est� se saindo.</p><p>Quando o detetive foi embora, meu amigo levantou-se e fez seus preparativos para o dia de trabalho com a express�o alerta de um homem que tem pela frente uma tarefa adequada.</p><p>� Meu primeiro movimento, Watson � disse ele, enquanto se metia na sua sobrecasaca �, tem de ser, como eu disse, na dire��o de Blackheath.</p><p>� Por que n�o Norwood?</p><p>� Porque n�s temos neste caso um incidente singular vindo junto com outro incidente singular. A pol�cia est� cometendo o erro de concentrar sua aten��o no segundo, porque este parece ser o �nico realmente criminoso. Mas para mim � evidente que a maneira l�gica de solucionar o caso � come�ar tentando jogar alguma luz sobre o primeiro incidente � o curioso testamento, feito t�o repentinamente, e para um herdeiro t�o inesperado. Pode ajudar a simplificar o que veio depois. N�o, meu caro amigo, n�o acho que voc� possa me ajudar. N�o existe nenhuma perspectiva de perigo, ou nem sonharia em sair sem voc�. Creio que quando o vir � noite, estarei apto a dizer que pude fazer algo por este jovem infeliz que se colocou sob a minha prote��o.</p><p>J� era tarde quando meu amigo voltou, e pude ver, num olhar de relance para o seu rosto fatigado e ansioso, que as grandes esperan�as com que come�ara n�o se realizaram. Durante uma hora ficou arranhando seu violino, tentando acalmar seu esp�rito agitado. Finalmente deixou o instrumento e come�ou a fazer um relato detalhado de suas desventuras.</p><p>� Est� tudo dando errado, Watson; o mais errado poss�vel. N�o dei o bra�o a torcer diante de Lestrade, mas no fundo da minha alma acredito que pela primeira vez o sujeito est� no caminho certo e n�s no errado. Todos os meus instintos v�o num sentido e todos os fatos noutro, e receio que os j�ris brit�nicos ainda n�o tenham alcan�ado este n�vel de intelig�ncia quando derem prefer�ncia �s minhas teorias e n�o aos fatos de Lestrade.</p><p>� Voc� foi a Blackheath?</p><p>� Sim, Watson, estive l�, e descobri rapidamente que o saudoso Oldacre era um grandiss�ssimo cafajeste. O pai de McFarlane tinha sa�do para procurar o filho. A m�e estava em casa � pequenina, rechonchuda, de olhos azuis, tr�mula de medo e indigna��o. � claro que ela n�o podia admitir nem mesmo a possibilidade de culpa dele. Mas n�o manifestou nem surpresa nem pesar pela morte de Oldacre. Pelo contr�rio, falou dele com tal rancor que estava inconscientemente refor�ando a tese da pol�cia, pois, naturalmente, se o seu filho a ouviu falar desse homem desta maneira, ficaria predisposto contra ele com �dio e viol�ncia. �Ele se parecia mais com um macaco maligno e manhoso do que com um ser humano�, disse ela, �e sempre foi assim, desde que era jovem�.</p><p>� Voc� o conhecia naquela �poca? � perguntei.</p><p>� �Sim, na verdade o conhecia bem; era um antigo pretendente meu. Gra�as a Deus tive o bom senso de me afastar dele e me casar com um homem melhor, embora mais pobre. Estava noiva dele, sr. Holmes, quando ouvi uma hist�ria chocante de como ele soltou um gato num avi�rio, e fiquei t�o horrorizada com sua crueldade brutal que n�o quis ter mais nada a ver com ele.� Ela foi at� uma escrivaninha, pegou a fotografia de uma mulher, horrivelmente desfigurada e mutilada com uma faca. �� a minha fotografia�, e disse: �Ele a enviou para mim neste estado na manh� de meu casamento, junto com sua maldi��o.�</p><p>� �Bem�, eu disse, �pelo menos ele a perdoou agora, pois deixou todas as suas posses para seu filho.�</p><p>� �Nem meu filho nem eu queremos nada de Jonas Oldacre, vivo ou morto!�, exclamou ela, com coer�ncia. �Existe um Deus no c�u, sr. Holmes, e o mesmo Deus que puniu esse homem perverso mostrar�, em Seu justo tempo, que as m�os de meu filho s�o inocentes do sangue dele.�</p><p>� Bem, tentei um ou dois outros ind�cios, mas n�o consegui chegar a nada que pudesse ajudar a nossa hip�tese, e h� v�rios pontos que v�m contra ela. Finalmente desisti e fui para Norwood.</p><p>� Este lugar, Deep Dene House, � uma casa de campo grande e moderna, nos fundos de seu terreno, com moitas de louro na frente. � direita e a uma certa dist�ncia da estrada estava o p�tio de lenha que foi o cen�rio do inc�ndio. Aqui est� um esbo�o do mapa, numa folha do meu caderno. Esta janela � esquerda � a que d� para o quarto de Oldacre. Da estrada, voc� pode olhar l� para dentro. Este foi o �nico consolo que tive hoje. Lestrade n�o estava l�, mas seu bra�o direito fez as honras. Tinham acabado de achar uma preciosidade. Haviam passado a manh� inteira remexendo as cinzas da pilha de madeira queimada e, al�m dos restos org�nicos torrados, encontraram v�rios discos de metal descoloridos. Examinei-os com cuidado, e n�o havia d�vida de que eram bot�es de cal�a. At� percebi que um deles estava marcado com o nome de �Hyams�, que era o alfaiate de Oldacre. Ent�o examinei a �rea cuidadosamente � procura de sinais e vest�gios, mas esta seca deixou tudo duro como ferro. N�o havia nada para ser visto, a n�o ser que um corpo ou fardo fora atirado numa pequena sebe de alfena, que est� ao lado da pilha de madeira. Tudo isso, claro, se encaixa na teoria oficial. Rastejei pelo jardim com um sol de agosto nas minhas costas, mas me levantei depois de uma hora sem saber mais do que antes.</p><p>� Bem, depois deste fiasco, fui para o quarto e o revistei tamb�m. As manchas de sangue eram muito t�nues, simples borr�es e descolora��es, mas, sem d�vida alguma, frescas. A bengala j� tinha sido retirada, mas l� as marcas tamb�m eram superficiais. N�o h� d�vida de que a bengala pertencia ao nosso cliente. Ele admite isso. Pegadas dos dois homens podiam ser notadas no tapete, mas nenhuma de uma terceira pessoa, o que � novamente uma decep��o para n�s. Eles est�o aumentando seu escore, enquanto n�s ainda estamos na estaca zero.</p><p>� S� tive um pequeno lampejo de esperan�a � e de novo n�o deu em nada. Examinei o conte�do do cofre, cuja maior parte havia sido retirada e colocada em cima da mesa. Os pap�is foram postos em envelopes selados, dos quais um ou dois a pol�cia abrira. N�o eram, pelo que pude ver, de grande valor, nem a caderneta do banco mostrava que o sr. Oldacre estava numa situa��o t�o boa. Mas me pareceu que nem todos os pap�is estavam ali. Havia alus�es a certos documentos � possivelmente os mais valiosos � que n�o consegui encontrar. Isto, � claro, se pud�ssemos prov�-lo definitivamente, viraria o argumento de Lestrade contra ele mesmo; pois quem roubaria algo se soubesse que o herdaria em breve?</p><p>� Por fim, tendo vasculhado todos os livros e n�o encontrando nenhuma pista, tentei a sorte com a governanta, a sra. Lexington � pequenina, morena e silenciosa, com olhos desconfiados e obl�quos. Ela poderia nos contar algo, se quisesse � estou convencido disso. Mas era muito fechada. Sim, deixara o sr. McFarlane entrar �s 21:30h. Desejou que sua m�o tivesse secado antes de fazer aquilo. Foi para a cama �s 22:30h. Seu quarto ficava no outro lado da casa, e n�o podia ouvir nada do que se passou. O sr. McFarlane tinha deixado o chap�u e, tanto quanto sabia, a bengala, no sagu�o. Foi acordada pelo alarme de inc�ndio. Seu pobre, querido patr�o certamente fora assassinado. Ele tinha inimigos? Ora, todo homem tem inimigos, mas o sr. Oldacre era muito fechado, e s� se relacionava com as pessoas na �rea de trabalho. Ela vira os bot�es e tinha certeza de que pertenciam �s roupas que ele vestira na noite passada. A pilha de madeira estava muito seca, pois n�o chovera durante um m�s. Queimou como uma isca inflam�vel, e quando chegou ao local, n�o se via nada al�m das chamas. Ela e todos os bombeiros sentiram o cheiro de carne queimada que vinha de l�. N�o sabia nada sobre os pap�is nem sobre a vida particular do sr. Oldacre.</p><p>� A� est�, meu caro Watson, o relato de um fracasso. E ainda assim � e ainda assim � ele cerrou as m�os num paroxismo de convic��o. � Eu que est� tudo errado. Sinto isso nos meus ossos. Existe algo que ainda n�o apareceu, e aquela governanta sabe o que �. Havia uma esp�cie de desafio irritado em seus olhos, que s� se explica pelo conhecimento culposo. Entretanto, � melhor n�o falarmos mais nisso, Watson; mas, a n�o ser que algum feliz acaso nos apare�a, receio que o Caso do Desaparecimento de Norwood n�o figurar� nas cr�nicas dos nossos �xitos, dos quais prevejo que um p�blico paciente tomar� conhecimento, cedo ou tarde.</p><p>� Decerto � disse eu � a apar�ncia do homem ajudaria em qualquer j�ri?</p><p>� Este � um argumento perigoso, meu caro Watson. Lembra-se daquele assassino terr�vel, Bert Stevens, que queria que o pus�ssemos em liberdade em 1887? J� houve algum rapaz mais bem-educado, com apar�ncia de aluno de uma escola de catecismo?</p><p>� � verdade.</p><p>� A menos que consigamos elaborar uma teoria alternativa, este homem est� perdido. Voc� dificilmente pode achar uma falha na acusa��o que agora pode ser apresentada contra ele, e toda investiga��o a mais tem servido para refor��-la. Falando nisso, h� um pequeno detalhe curioso em rela��o a esses pap�is que pode nos servir como ponto de partida de uma investiga��o. Ao examinar a caderneta do banco, descobri que o saldo pequeno era causado principalmente por grandes somas que foram retiradas durante o ano passado para o sr. Cornelius. Confesso que estou interessado em saber quem seria este sr. Cornelius, com quem um construtor aposentado manteve transa��es t�o vultosas. Ser� poss�vel que ele tenha tido um dedo no caso? Cornelius podia ser um corretor, mas n�o encontramos nenhum certificado de subscri��o de a��es que correspondesse a esses pagamentos grandes. Depois do fracasso de outras indica��es, minhas pesquisas devem se concentrar agora no banco, para descobrir o cavalheiro que se apresentou para descontar estes cheques. Mas receio, meu caro amigo, que o nosso caso termine de modo ingl�rio, com Lestrade enforcando nosso cliente, o que certamente ser� um triunfo para a Scotland Yard.</p><p>N�o sei se Sherlock Holmes conseguiu dormir aquela noite, mas, quando desci para o caf�-da-manh�, encontrei-o p�lido e fatigado, seus olhos brilhantes reluziam ainda mais devido �s sombras escuras ao redor deles. O tapete em volta da sua cadeira estava coberto de pontas de cigarro e com as edi��es recentes dos jornais matutinos. Um telegrama estava aberto sobre a mesa.</p><p>� O que acha disso, Watson? � perguntou, atirando-o para mim.</p><p>Era de Norwood, e dizia o seguinte:</p><empty-line/><p>Importante ind�cio novo em m�os. Culpa de McFarlane definitivamente estabelecida. Aconselho abandonar caso.</p><p>Lestrade.</p><empty-line/><p>� Isso parece ser s�rio � eu disse.</p><p>� � o pequeno canto de vit�ria de Lestrade � respondeu Holmes, com um sorriso amargurado. � E ainda pode ser prematuro abandonar o caso. Afinal, importante ind�cio novo � uma faca de dois gumes, e pode cortar numa dire��o bem diferente da que Lestrade imagina. Tome o seu caf�, Watson, sairemos juntos e veremos o que podemos fazer. Sinto-me como se precisasse de sua companhia e apoio moral hoje.</p><p>Meu amigo n�o tomou o caf�-da-manh�, pois uma de suas peculiaridades era que em seus momentos mais intensos ele n�o se permitia nenhuma comida, e eu sabia que confiava demais na sua for�a de ferro, at� que desmaiava de pura inani��o. �No momento n�o posso gastar energia e for�a dos nervos para a digest�o�, ele diria, em resposta aos meus conselhos m�dicos. Sendo assim, n�o me surpreendi quando nessa manh� ele deixou sua comida intacta e foi comigo para Norwood. Um grupo de observadores m�rbidos ainda estava reunido em volta de Deep Dene House, que era uma casa de campo suburbana tal como eu imaginara. Dentro dos port�es, Lestrade encontrou-se conosco, seu rosto corado com a vit�ria, seus modos triunfantemente brutos.</p><p>� Bem, sr. Holmes, j� provou que estamos errados? Achou o seu vagabundo? � exclamou.</p><p>� Ainda n�o cheguei a nenhuma conclus�o � respondeu o meu amigo.</p><p>� Mas n�s chegamos � nossa ontem, e agora ela prova que � correta; assim, deve reconhecer que desta vez estamos um pouco � sua frente, sr. Holmes.</p><p>� Sua express�o mostra que aconteceu algo incomum � disse Holmes.</p><p>Lestrade riu alto.</p><p>� O senhor n�o gosta de ser derrotado, assim como n�s � ele disse. � Um homem n�o pode esperar que tudo saia sempre � sua maneira, pode, dr. Watson? Sigam por aqui, cavalheiros, e acho que posso convenc�-los de uma vez por todas que foi John McFarlane quem cometeu este crime.</p><p>Ele nos levou por um corredor e chegamos a um sagu�o.</p><p>� Foi aqui que o jovem McFarlane deve ter vindo para apanhar seu chap�u, depois de o crime ter sido cometido � disse ele. � Agora olhem para isto. � Com uma rapidez dram�tica, acendeu um f�sforo, e � sua luz vimos uma mancha de sangue na parede branca. Quando ele aproximou o f�sforo, vi que era mais do que uma mancha. Era a n�tida impress�o de um polegar.</p><p>� Olhe para ela com sua lente de aumento, sr. Holmes.</p><p>� Sim, estou fazendo isso.</p><p>� Sabe que duas impress�es de polegar nunca s�o iguais?</p><p>� Ouvi algo deste tipo.</p><p>� Bem, ent�o, queira comparar esta impress�o com a do jovem McFarlane, em cera, que eu mandei tirar esta manh�.</p><p>Quando ele comparou as duas, n�o era necess�rio usar uma lente de aumento para se ver que elas eram, sem sombra de d�vida, do mesmo polegar. Era evidente para mim que o nosso cliente estava perdido.</p><p>� Isto � definitivo � disse Lestrade.</p><p>� Sim, � definitivo � repeti involuntariamente.</p><p>� � definitivo � disse Holmes.</p><p>Alguma coisa no seu tom chamou minha aten��o, e me virei para ele. Ocorrera uma mudan�a extraordin�ria em seu rosto. Estava com uma express�o de contentamento interior. Seus olhos brilhavam como estrelas. Parecia que estava fazendo um esfor�o desesperado para reprimir um ataque de riso.</p><p>� Pobre de mim! Pobre de mim! � ele disse afinal. � Bem, agora, quem teria pensado nisso? E como as apar�ncias podem ser enganadoras! Parece um rapaz t�o bom! � uma li��o para n�s n�o confiarmos no nosso pr�prio julgamento, n�o �, Lestrade?</p><p>� Sim, alguns de n�s tendem a ser convencidos, sr. Holmes � disse Lestrade. A insol�ncia do homem era enlouquecedora, mas n�o pod�amos nos ofender com isso.</p><p>� Que coisa providencial que o rapaz tenha apertado seu polegar direito na parede ao pegar seu chap�u no cabide! Um ato bastante natural, tamb�m, se pensarmos nisso. � Holmes aparentemente estava calmo, mas todo o seu corpo estremecia de excita��o contida enquanto falava.</p><p>� Por falar nisso, Lestrade, quem fez esta descoberta not�vel?</p><p>� Foi a governanta, sra. Lexington, quem chamou a aten��o do policial da noite para ela.</p><p>� Onde estava o policial?</p><p>� Ele ficou de guarda no quarto onde o crime foi cometido, para que nada fosse tocado.</p><p>� Mas por que a pol�cia n�o viu esta marca ontem?</p><p>� Ora, n�o t�nhamos nenhum motivo especial para examinar com cuidado o sagu�o. Al�m disso, n�o � um lugar muito vis�vel, como pode constatar.</p><p>� N�o, n�o, claro que n�o. Suponho que n�o haja d�vida de que a marca estava a� ontem.</p><p>Lestrade olhou para Holmes como se pensasse que ele estivesse fora de si. Confesso que eu mesmo fiquei surpreso com seu jeito ir�nico e sua observa��o irritada.</p><p>� N�o sei se pensa que McFarlane saiu da cadeia na calada da noite para refor�ar a prova contra ele mesmo � disse Lestrade. � Desafio qualquer perito no mundo a me dizer se n�o � a marca do polegar dele.</p><p>� Esta �, inegavelmente, a marca do seu polegar.</p><p>� Ent�o, isto � suficiente � disse Lestrade. � Sou um homem pr�tico, sr. Holmes, e, quando consigo minhas provas, chego �s minhas conclus�es. Se tiver algo a me dizer, estarei escrevendo meu relat�rio na sala de estar.</p><p>Holmes havia recobrado sua calma, embora eu ainda pudesse detectar sinais de regozijo na sua express�o.</p><p>� Pobre de mim, este � um acontecimento muito triste, Watson, n�o �? � disse ele. � E mesmo assim existem detalhes singulares sobre ele que d�o esperan�as ao nosso cliente.</p><p>� Estou encantado por ouvir isso � eu disse calorosamente. � Receava que estivesse tudo acabado para ele.</p><p>� N�o chegaria a ponto de dizer isso, meu caro Watson. O fato � que existe uma falha grave nesse ind�cio, ao qual nosso amigo d� tanta import�ncia.</p><p>� � mesmo, Holmes? Qual �?</p><p>� Apenas isto: eu que aquela marca n�o estava l� ontem quando examinei o sagu�o. E agora, Watson, vamos dar uma voltinha ao sol.</p><p>Com a mente confusa, mas com um cora��o que voltava a ter alguma esperan�a, acompanhei meu amigo numa caminhada pelo jardim. Holmes escolhia um lado da casa de cada vez e o examinava com grande interesse. Depois entrou e percorreu o pr�dio inteiro, do por�o ao s�t�o. A maioria dos aposentos estava sem mob�lia, mas mesmo assim Holmes os inspecionou detalhadamente. Por fim, no corredor do �ltimo andar, que passava por tr�s quartos vazios, ele manifestou contentamento.</p><p>� H� realmente alguns aspectos muito singulares neste caso, Watson � disse. � Acho que � hora de confiarmos no nosso amigo Lestrade. Ele deu sua risadinha � nossa custa, e talvez possamos fazer o mesmo com ele, se minha interpreta��o deste problema se mostrar correta. Sim, sim, acho que sei como podemos abord�-lo.</p><p>O inspetor da Scotland Yard ainda estava escrevendo na sala de visitas quando Holmes o interrompeu.</p><p>� Entendi que voc� estava escrevendo o relat�rio deste caso � disse ele.</p><p>� E estou.</p><p>� N�o acha que pode ser um pouco prematuro? N�o consigo deixar de pensar que o seu ind�cio est� incompleto.</p><p>Lestrade conhecia o meu amigo bem demais para desprezar suas palavras. Largou a caneta e olhou para ele com curiosidade.</p><p>� O que quer dizer, sr. Holmes?</p><p>� Apenas que h� uma testemunha importante que ainda n�o viu.</p><p>� Pode apresent�-la?</p><p>� Acho que posso.</p><p>� Ent�o fa�a isso.</p><p>� Farei o poss�vel. Quantos policiais voc� tem?</p><p>� Tenho tr�s aqui perto.</p><p>� Excelente! � disse Holmes. � Posso perguntar se eles s�o grandes, homens robustos com vozes potentes?</p><p>� N�o tenho d�vida de que s�o, embora n�o consiga ver o que as suas vozes t�m a ver com isso.</p><p>� Talvez eu possa ajud�-lo a ver isso, e mais uma ou duas outras coisas tamb�m � disse Holmes. � Mande chamar os seus homens e eu tentarei.</p><p>Cinco minutos depois, tr�s policiais estavam no sagu�o.</p><p>� Fora da casa encontrar�o grande quantidade de palha � disse Holmes. � Pe�o a voc�s que tragam dois molhos dela. Creio que vai ajudar a fazer aparecer a testemunha de que eu necessito. Muito obrigado. Acho que tem alguns f�sforos no bolso, Watson. Agora, sr. Lestrade, pe�o que todos me acompanhem ao �ltimo patamar.</p><p>Como j� mencionara, havia um corredor largo ali, que passava por tr�s quartos vazios. Numa extremidade do corredor est�vamos todos n�s, conduzidos por Sherlock Holmes, os policiais sorrindo e Lestrade encarando meu amigo com espanto, expectativa e esc�rnio se alternando em suas fei��es. Holmes ficou diante de n�s com a express�o de um ilusionista que est� fazendo seu n�mero.</p><p>� Voc� poderia, por gentileza, mandar um de seus subordinados buscar dois baldes de �gua? Ponham a palha no ch�o aqui, longe da parede, dos dois lados. Agora acho que j� estamos prontos.</p><p>O rosto de Lestrade come�ou a ficar vermelho e furioso.</p><p>� N�o sei se est� fazendo uma brincadeira conosco, sr. Sherlock Holmes � disse ele. � Se sabe de alguma coisa, pode muito bem cont�-la para n�s sem toda essa tolice.</p><p>� Eu lhe asseguro, meu bom Lestrade, que tenho um �timo motivo para tudo o que fa�o. � prov�vel que se lembre de que ca�oou de mim algumas horas atr�s, quando o sol parecia brilhar a seu favor; portanto, voc� tem de me conceder um pouco de pompa e cerim�nia agora. Watson, quer abrir aquela janela e depois jogar um f�sforo na ponta da palha?</p><p>Fiz isso, e levada pela corrente de ar, uma coluna de fuma�a cinza encheu o corredor, enquanto a palha seca crepitava e ardia.</p><p>� Agora vamos ver se conseguimos arranjar essa testemunha para voc�, Lestrade. Pe�o-lhes que gritem juntos �fogo!� Agora, ent�o: 1, 2, 3...</p><p>� Fogo! � gritamos todos.</p><p>� Obrigado. Vou incomod�-los mais uma vez.</p><p>� Fogo!</p><p>� S� mais uma vez, cavalheiros, e todos juntos.</p><p>� Fogo! � O grito deve ter ecoado por toda Norwood.</p><p>O grito mal havia morrido, quando aconteceu uma coisa espantosa. Uma porta se abriu de repente no lugar que parecia ser uma parede s�lida no final do corredor, e um homem pequeno e mirrado saiu correndo como um coelho para fora da toca.</p><p>� Excelente! � disse Holmes, calmamente. � Watson, um balde de �gua sobre a palha. Est� bom! Lestrade, permita-me apresent�-lo � nossa principal testemunha desaparecida, sr. Jonas Oldacre.</p><p>O inspetor olhou para o rec�m-chegado com uma surpresa desconcertada. Este, piscando por causa da luz brilhante do corredor, olhava com curiosidade para n�s e para o fogo que ardia. Era um rosto odioso � manhoso, perverso, maligno, com olhos astutos, de um cinza-claro com pestanas brancas.</p><p>� O que � isto? � perguntou Lestrade finalmente. � O que esteve fazendo todo este tempo, hein?</p><p>Oldacre deu um sorriso for�ado, recuando diante da cara vermelha e furiosa do inspetor.</p><p>� N�o fiz nenhum mal.</p><p>� Nenhum mal? Voc� fez o que p�de para levar � forca um homem inocente. Se n�o fosse por estes cavalheiros aqui, n�o sei se n�o teria conseguido.</p><p>A criatura desprez�vel come�ou a choramingar.</p><p>� Estou certo, senhor, de que foi s� uma brincadeira.</p><p>� Oh! Uma brincadeira, n�o foi? N�o vai achar gra�a na sua vez, eu lhe prometo. Levem-no para baixo e o mantenham na sala de visitas at� que eu chegue. Sr. Holmes � continuou, depois que eles sa�ram �, eu n�o podia falar diante dos policiais, mas n�o me importo de dizer, na presen�a do dr. Watson, que esta foi a coisa mais brilhante que j� fez, embora seja um mist�rio para mim como a fez. Salvou a vida de um homem inocente e evitou um grande esc�ndalo, que arruinaria minha reputa��o na pol�cia.</p><p>Holmes sorriu e deu um tapinha no ombro de Lestrade.</p><p>� Em vez de ser arruinada, meu caro, descobrir� que a sua reputa��o foi enormemente aumentada. Fa�a algumas altera��es naquele relat�rio que estava escrevendo, e eles entender�o como � dif�cil jogar areia nos olhos do inspetor Lestrade.</p><p>� E o senhor n�o quer que seu nome apare�a?</p><p>� De modo algum. O trabalho � a pr�pria recompensa. Talvez eu tamb�m tenha algum cr�dito num dia distante, quando permitir que o meu zeloso historiador espalhe seus pap�is mais uma vez � hein, Watson? Bem, agora vamos ver onde esse rato estava escondido.</p><p>Havia um aposento de ripas e gesso junto ao corredor, a 2 metros do final, com uma porta engenhosamente disfar�ada nele. Era iluminado por meio de brechas no beiral do telhado. Alguns m�veis e um suprimento de comida e �gua estavam ali, juntamente com alguns livros e pap�is.</p><p>� Esta � a vantagem de ser um construtor � disse Holmes quando sa�mos. � Era capaz de fazer seu pr�prio esconderijo sem nenhum c�mplice � a n�o ser, � claro, aquela sua preciosa governanta, que eu n�o demoraria em colocar na sua bagagem, Lestrade.</p><p>� Seguirei o seu conselho. Mas como descobriu este lugar, sr. Holmes?</p><p>� Conclu� que o sujeito estava escondido nesta casa. Quando medi um corredor e descobri que era 2 metros menor que o seu correspondente abaixo, ficou bem claro onde ele estava. Imaginei que n�o teria sangue-frio para ficar quieto depois de um alarme de inc�ndio. � claro que n�s poder�amos ter entrado e o capturado, mas me diverti fazendo com que ele se denunciasse. Al�m do mais, devia-lhe um pequeno embuste, Lestrade, pela sua tro�a da manh�.</p><p>� Bem, senhor, conseguiu empatar comigo nisso. Mas como soube que ele estava de fato na casa?</p><p>� A marca do polegar, Lestrade. Voc� disse que era definitiva; e era, num sentido muito diferente. Eu sabia que n�o estava l� no dia anterior. Presto muita aten��o nos detalhes, como j� deve ter observado, e tinha examinado o sagu�o e me certificado de que a parede estava limpa. Portanto, fora feita durante a noite.</p><p>� Mas como?</p><p>� Muito simples. Quando aqueles pacotes foram selados, Jonas Oldacre fez McFarlane segurar um dos selos, colocando o seu polegar na cera mole. Isto pode ser feito t�o r�pida e naturalmente que duvido que o rapaz se lembre. Muito provavelmente isso aconteceu, e Oldacre n�o tinha id�ia de como us�-lo. Remoendo o caso em seu ref�gio, ele percebeu de repente que poderia forjar uma prova contra McFarlane usando aquela impress�o de polegar. Era a coisa mais simples do mundo para ele fazer uma impress�o em cera do selo, umedec�-la com o sangue que poderia tirar de uma pequena alfinetada, e colocar a marca na parede durante a noite, com suas pr�prias m�os ou com as da governanta. Se examinar os documentos que ele levou para sua toca, aposto que encontrar� o selo com a marca do polegar.</p><p>� Maravilhoso! � disse Lestrade. � Maravilhoso! Est� tudo claro como cristal, do jeito como explica. Mas qual � o objetivo desta imensa fraude?</p><p>Divertia-me ver como o comportamento arrogante do inspetor mudara rapidamente para o de uma crian�a fazendo perguntas ao professor.</p><p>� Ora, n�o acho muito dif�cil explicar. O cavalheiro que agora est� nos esperando l� embaixo � uma pessoa muito astuta, maliciosa e vingativa. Sabe que uma vez ele foi rejeitado pela m�e de McFarlane? N�o sabe! Eu lhe disse que deveria ir primeiro a Blackheath e depois a Norwood. Bem, essa ferida, se a considerarmos assim, envenenava-lhe a mente cruel e ardilosa, e durante toda a vida desejou vingan�a, mas nunca via sua oportunidade. Durante o ano passado, e talvez no anterior tamb�m, as coisas correram mal para ele � especula��es secretas, acho � e ele descobre que est� em m� situa��o. Resolve dar um calote nos seus credores e, com esse objetivo, paga grandes cheques em favor de um certo sr. Cornelius, que �, imagino, ele mesmo com outro nome. Ainda n�o localizei esses cheques, mas n�o tenho d�vida de que est�o depositados sob aquele nome em alguma cidade do interior onde Oldacre, de tempos em tempos, levava uma vida dupla. Pretendia mudar de nome, pegar seu dinheiro e desaparecer, come�ando uma vida nova em outro lugar.</p><p>� �, isso � bem prov�vel.</p><p>� Pensou que, se desaparecesse, tiraria os perseguidores da sua pista e, ao mesmo tempo, iria se vingar de modo esmagador de sua antiga namorada se desse a impress�o de que fora assassinado pelo filho �nico dela. Era uma obra-prima de maldade, e ele a conduziu como um mestre. A id�ia do testamento, que daria um motivo �bvio para o crime, a visita secreta sem o conhecimento dos pais, a reten��o da bengala, o sangue e os restos de animais e os bot�es na pilha de madeira, tudo isso � admir�vel. Era uma rede da qual me parecia, algumas horas atr�s, n�o haver escapat�ria. Mas ele n�o tinha aquele dom supremo do artista: saber quando parar. Queria melhorar o que j� estava perfeito � apertar ainda mais a corda em torno do pesco�o de sua desgra�ada v�tima � e a� arruinou tudo. Vamos descer, Lestrade. Quero fazer uma ou duas perguntas a ele.</p><p>A criatura maligna estava sentada em sua pr�pria sala de visitas, com um policial de cada lado.</p><p>� Foi uma brincadeira, meu bom senhor � um trote, nada mais � ele gemia sem parar. � Eu lhe asseguro, senhor, que eu s� me escondi para ver o efeito do meu desaparecimento, e tenho certeza de que n�o seria t�o injusto a ponto de imaginar que eu permitiria que algum mal acontecesse ao pobre rapaz McFarlane.</p><p>� Isso � o j�ri que vai decidir � disse Lestrade. � De qualquer modo, n�s o prendemos sob acusa��o de conspira��o, se n�o por tentativa de homic�dio.</p><p>� E voc� com certeza vai descobrir que os seus credores confiscar�o a conta banc�ria do sr. Cornelius � disse Holmes.</p><p>O homenzinho estremeceu e virou seus olhos malignos para o meu amigo.</p><p>� Tenho muito que agradecer a voc� � ele disse. � Talvez algum dia eu pague a minha d�vida.</p><p>Holmes sorriu com indulg�ncia.</p><p>� Imagino que, durante alguns anos, o seu tempo estar� muito ocupado � disse ele. � Falando nisso, o que foi que colocou na pilha de madeira, al�m de suas cal�as? Um cachorro morto, coelhos ou o qu�? N�o quer dizer? Pobre de mim, quanta indelicadeza sua! Ora, ora, arriscaria dizer que um casal de coelhos serviria de explica��o para o sangue e para os restos torrados. Se algum dia escrever um resumo disto, Watson, pode usar os coelhos para o seu objetivo.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura dos</strong></p><empty-line/><p><strong>
  homenzinhos dan�antes</strong></p><p>Holmes estava sentado em sil�ncio havia algumas horas, com as suas costas longas e magras curvadas sobre um recipiente qu�mico, no qual despejava algum produto malcheiroso. Seu queixo estava enterrado no peito, e ele parecia um p�ssaro estranho e encolhido, com uma plumagem cinza-fosca e um topete preto.</p><p>� Ent�o, Watson � ele disse de repente �, voc� n�o pretende investir em a��es sul-africanas?</p><p>Dei um gemido de espanto. Embora eu estivesse acostumado aos curiosos talentos de Holmes, esta intromiss�o repentina nos meus pensamentos mais �ntimos era completamente inexplic�vel.</p><p>� Como � que sabe disso? � perguntei.</p><p>Ele girou em seu tamborete, com um tubo de ensaio fumegante na m�o e um</p><p>brilho divertido nos olhos fundos.</p><p>� Ora, Watson, confesse que foi apanhado inteiramente de surpresa � disse ele.</p><p>� Fui mesmo.</p><p>� Devia fazer voc� assinar um papel dizendo isso.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Porque daqui a cinco minutos vai dizer que isso tudo � muito simples.</p><p>� Tenho certeza de que n�o direi nada desse tipo.</p><p>� Veja, meu caro Watson � p�s o tubo de ensaio no seu suporte e come�ou a falar como um professor se dirigindo � sua classe �, n�o � realmente dif�cil elaborar uma s�rie de dedu��es, cada uma dependente de sua antecessora e simples em si mesma. Se, depois de fazer isso, simplesmente deitamos por terra todas as dedu��es centrais e apresentamos ao p�blico o ponto de partida e a conclus�o, podemos produzir efeitos espantosos, embora possivelmente falsos. Portanto, n�o foi realmente dif�cil, pela observa��o do sulco entre seu dedo indicador e o polegar esquerdos, perceber que voc� pretende investir seu pequeno capital nas minas de ouro.</p><p>� N�o vejo nenhuma liga��o.</p><p>� Provavelmente n�o; mas posso mostrar-lhe rapidamente uma liga��o estreita. Aqui est�o os elos que faltam nessa cadeia simples: 1) Voc� tinha giz entre seu dedo e o polegar esquerdos quando voltou do clube na noite passada. 2) Voc� passa giz a� quando joga bilhar, para fixar o taco. 3) Nunca joga bilhar, a n�o ser com Thurston. 4) Voc� me disse, quatro semanas atr�s, que Thurston tinha uma op��o sobre algumas propriedades na �frica do Sul que expiraria em um m�s, e que ele queria dividi-la com voc�. 5) Seu tal�o de cheques est� trancado na minha gaveta, e voc� n�o me pediu a chave. 6) Voc� n�o pensa em investir o seu dinheiro desta maneira.</p><p>� Como � absurdamente simples! � exclamei.</p><p>� De fato! � disse ele, um pouco irritado. � Todo problema passa a ser infantil depois que � explicado a voc�. Aqui est� um inexplicado. Veja o que pode fazer com isto, caro Watson. Atirou um peda�o de papel sobre a mesa, e virou-se de novo para a sua an�lise qu�mica.</p><p>Olhei com espanto para os hier�glifos absurdos que estavam no papel.</p><p>� Mas, Holmes, � um desenho de crian�a � exclamei.</p><p>� Oh, � o que pensa?</p><p>� O que mais poderia ser?</p><p>� Isso � o que o sr. Hilton Cubitt, de Riding Thorpe Manor, Norfolk, est� muito ansioso para saber. Este pequeno enigma veio pela primeira remessa e ele viria depois, no pr�ximo trem. A campainha est� tocando, Watson. N�o me surpreenderia se fosse ele.</p><p>Ouvimos passos pesados na escada e logo depois entrou um homem alto, corado e bem barbeado, cujos olhos claros e bochechas vermelhas indicavam uma vida passada bem longe da neblina de Baker Street. Parecia trazer junto com ele um sopro forte, fresco e revigorante do ar litor�neo quando entrou. Depois de nos cumprimentar com um aperto de m�o, estava prestes a se sentar quando seu olhar pousou no papel com as marcas curiosas que eu havia examinado e deixado sobre a mesa.</p><p>� Bem, sr. Holmes, o que acha delas? � perguntou. � Disseram-me que gostava de mist�rios estranhos, e n�o acredito que encontre um mais estranho do que esse. Mandei o papel primeiro, para que tivesse tempo de examin�-lo antes da minha chegada.</p><p>� � de fato uma cria��o curiosa � disse Holmes. � � primeira vista parece ser uma brincadeira de crian�a. Consiste em algumas figurinhas rid�culas dan�ando no papel em que est�o desenhadas. Por que d� import�ncia a uma coisa t�o grotesca?</p><p>� Eu nunca daria, sr. Holmes. Mas a minha mulher d�. Isso a est� matando de medo. Ela n�o diz nada, mas vejo terror nos seus olhos. Por isso quero tirar tudo a limpo.</p><p>Holmes segurou o papel de modo que a luz do sol batesse em cheio nele. Era uma p�gina arrancada de um caderno. As marcas eram feitas a l�pis, e dispunham-se desta maneira:</p><p><image l:href="#14"/></p><p>Holmes examinou o papel por algum tempo e depois, dobrando-o com cuidado, guardou-o em sua agenda de bolso.</p><p>� Este caso promete ser muito interessante e incomum � disse ele. � O senhor me deu alguns detalhes em sua carta, sr. Hilton Cubitt, mas agradeceria se repetisse tudo, por gentileza, para o meu amigo, dr. Watson.</p><p>� N�o sou um bom contador de hist�rias � disse nosso visitante, torcendo nervosamente as m�os grandes e fortes. Perguntem-me qualquer coisa que eu n�o deixe clara. Come�arei na �poca do meu casamento, no ano passado, mas, antes de tudo, quero dizer que, embora n�o seja um homem rico, minha fam�lia est� em Riding Thorpe h� cerca de cinco s�culos, e que n�o existe fam�lia mais conhecida no condado de Norfolk. No ano passado, vim a Londres para o jubileu, e me hospedei numa pens�o, na pra�a Russell, porque Parker, o vig�rio de nossa par�quia, estava l�. Havia uma jovem americana � Patrick era o sobrenome � Elsie Patrick. De certo modo nos tornamos amigos, e antes do final do m�s eu estava t�o apaixonado quanto um homem poderia estar. N�s nos casamos discretamente num cart�rio e voltamos a Norfolk como marido e mulher. Pode achar loucura, sr. Holmes, que um homem de uma fam�lia tradicional possa se casar com uma mulher desta maneira, sem saber nada do seu passado ou de sua fam�lia, mas compreenderia se a visse e a conhecesse.</p><p>� Elsie foi muito correta em rela��o a isso. N�o posso dizer que ela n�o me deu muitas oportunidades de desistir, se eu quisesse faz�-lo. �Tive alguns relacionamentos muito desagrad�veis na minha vida�, ela disse. �Quero esquecer tudo sobre eles. Prefiro nunca aludir ao passado, pois isso � muito doloroso para mim. Se me quiser, Hilton, ficar� com uma mulher que n�o tem nada do que se envergonhar; mas voc� ter� de se contentar com a minha palavra, e me permitir silenciar sobre tudo o que me aconteceu at� o dia em que passei a ser sua. Se estas condi��es forem muito duras, ent�o volte para Norfolk, e me deixe na vida solit�ria em que me encontrou.� Foi s� na v�spera do nosso casamento que ela me disse essas palavras. Eu lhe respondi que aceitava ficar com ela nas suas pr�prias condi��es, e tenho cumprido minha palavra.</p><p>� Bem, estamos casados h� um ano e temos sido muito felizes. Mas, um m�s atr�s, em fins de junho, foi que percebi os primeiros sinais de problemas. Um dia minha esposa recebeu uma carta dos Estados Unidos. Vi o selo americano. Ficou branca como a morte, leu a carta e a jogou no fogo. N�o comentou nada sobre isso, e eu tamb�m n�o, porque promessa � promessa; mas ela n�o teve uma hora de tranq�ilidade desde aquele momento. H� sempre um olhar de medo em seu rosto � como se estivesse sempre esperando, na expectativa. Ela faria melhor confiando em mim. Descobriria que sou seu melhor amigo. Mas at� que fale, n�o posso dizer nada. Acredite, ela � uma mulher sincera, sr. Holmes, e qualquer problema que tenha ocorrido no passado n�o foi por culpa sua. Sou um simples propriet�rio rural de Norfolk, mas n�o existe um homem na Inglaterra que preze tanto a honra de sua fam�lia quanto eu. Ela sabe disso muito bem, e sabia antes de se casar comigo. N�o a mancharia � estou certo disso.</p><p>� Bem, agora chego � parte mais estranha de minha hist�ria. H� cerca de uma semana � foi na ter�a-feira da semana passada � descobri, no peitoril de uma das janelas, v�rias figurinhas dan�antes absurdas. Estavam riscadas a giz. Pensei que fora o garoto da estrebaria quem as desenhara, mas o rapaz jurou que n�o sabia nada sobre aquilo. De qualquer modo, apareceram ali durante a noite. Mandei lav�-las, e s� depois mencionei o fato � minha esposa. Para minha surpresa, ela as levou a s�rio e me implorou que, se aparecesse mais alguma, eu a deixasse ver. N�o apareceu nada durante uma semana, e ent�o ontem de manh� achei este papel ca�do perto do rel�gio de sol no jardim. Mostrei-o a Elsie, e ela desmaiou. Desde ent�o parece uma mulher num sonho, meio aturdida, com o terror permanentemente nos olhos. Foi quando escrevi e mandei o papel para o senhor. N�o era uma coisa que eu pudesse levar para a pol�cia, pois eles ririam de mim, mas o senhor me dir� o que fazer. N�o sou um homem rico, mas se algum perigo estiver amea�ando minha esposa, gastaria at� meu �ltimo� para proteg�-la.</p><p>Era um sujeito digno, este homem do velho solo ingl�s � simples, direto e gentil, com seus grandes e honestos olhos azuis, o rosto largo e bonito. Sua express�o demonstrava amor e confian�a na esposa. Holmes ouvira sua hist�ria com a maior aten��o e agora estava sentado, em medita��o silenciosa, durante algum tempo.</p><p>� N�o acha, sr. Cubitt � disse ele por fim �, que o seu melhor procedimento seria fazer um apelo direto � sua esposa, e pedir que ela divida o seu segredo com o senhor?</p><p>Hilton Cubitt balan�ou sua cabe�a imponente.</p><p>� Uma promessa � uma promessa, sr. Holmes. Se Elsie quisesse me contar, ela o faria. Do contr�rio, n�o for�arei uma confid�ncia sua. Mas eu tenho motivo para adotar minha pr�pria linha de a��o � e o farei.</p><p>� Ent�o eu o ajudarei de todo o cora��o. Em primeiro lugar, ouviu falar de algum estranho pelas redondezas?</p><p>� N�o.</p><p>� Presumo que seja um lugarejo muito tranq�ilo. Qualquer cara nova provocaria coment�rios?</p><p>� Na vizinhan�a pr�xima, sim. Mas temos v�rios balne�rios pequenos, n�o muito distantes. E os fazendeiros aceitam h�spedes.</p><p>� Estes hier�glifos certamente t�m um significado. Se for um sentido puramente arbitr�rio, talvez nos seja imposs�vel decifr�-lo. Se, por outro lado, for sistem�tico, n�o tenho d�vidas de que chegaremos ao fundo disto. Mas esta amostra espec�fica � t�o curta que n�o posso fazer nada, e os fatos que me trouxe s�o t�o vagos que n�o tenho uma base para a investiga��o. Sugiro que volte a Norfolk, fique de olhos abertos, e fa�a uma c�pia exata de qualquer figura dan�ante que apare�a. � uma pena que n�o tenha uma reprodu��o daqueles que foram feitos a giz no peitoril da janela. Fa�a tamb�m uma investiga��o discreta sobre algum estranho na vizinhan�a. Quando tiver conseguido algum novo ind�cio, venha aqui outra vez. � o melhor conselho que posso lhe dar, sr. Hilton Cubitt. Se houver qualquer novo� acontecimento urgente, estarei sempre pronto a sair e ir at� sua casa em Norfolk.</p><p>A entrevista deixou Sherlock Holmes muito pensativo, e v�rias vezes nos dias que se seguiram, eu o vi tirar do seu caderno aquele peda�o de papel e olhar longa e seriamente para as curiosas figuras desenhadas nele. Entretanto, n�o comentou nada sobre o caso at� uma tarde, h� mais ou menos duas semanas. Eu estava saindo quando ele me chamou.</p><p>� Seria melhor voc� n�o sair, Watson.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Porque recebi um telegrama, esta manh�, de Hilton Cubitt. Lembra-se de Hilton Cubitt, dos homenzinhos dan�antes? Ele vai chegar � Liverpool Street �s 13:20h. Pode estar aqui a qualquer momento. Deduzi, pelo seu telegrama, que ocorreram alguns incidentes importantes.</p><p>N�o tivemos que esperar muito, pois o nosso propriet�rio rural de Norfolk veio t�o depressa quanto podia um cabriol�. Parecia deprimido e preocupado, com os olhos cansados e a testa marcada.</p><p>� Esse neg�cio est� me dando nos nervos, sr. Holmes � disse ele, enquanto afundava numa poltrona como um homem exausto. � � p�ssimo voc� sentir que est� cercado por algu�m invis�vel e desconhecido que est� planejando alguma coisa, ainda por cima, quando sabe que isto est� matando sua esposa aos poucos, e a� chega ao m�ximo que a carne e o sangue podem ag�entar. Ela est� se consumindo por causa disso � definhando diante dos meus olhos.</p><p>� Ela j� disse alguma coisa?</p><p>� N�o, sr. Holmes, n�o disse. Mesmo assim houve vezes em que a pobre mo�a quis falar, mas n�o consegui convenc�-la a dar esse passo arriscado. Tentei ajud�-la, mas confesso que o fiz de modo desajeitado, e a amedrontei. Falou de minha fam�lia antiga, de nossa reputa��o no condado e de nosso orgulho da honra imaculada, e sempre senti que est�vamos chegando ao ponto, mas de algum modo nos desvi�vamos antes de chegar l�.</p><p>� Mas descobriu alguma coisa por conta pr�pria?</p><p>� Muito, sr. Holmes. Tenho uma grande quantidade de novos homenzinhos dan�antes para o senhor examinar e, o que � mais importante, eu vi o sujeito.</p><p>� O qu�, o homem que os desenha?</p><p>� Sim, eu o vi trabalhando. Mas contarei tudo para o senhor pela ordem. Quando voltei de minha visita, a primeira coisa que vi na manh� seguinte foi uma nova safra de homenzinhos dan�antes. Estavam desenhados na porta preta de madeira do galp�o de ferramentas, que fica ao lado do jardim, dando diretamente para as janelas da frente. Peguei uma c�pia exata, e aqui est�. � Desdobrou um papel e o deixou sobre a mesa. Eis a c�pia dos hier�glifos:</p><p><image l:href="#5"/></p><p>�� Excelente! � exclamou Holmes. � Excelente! Por favor, continue.</p><p>� Quando tirei a c�pia, apaguei as marcas, mas dois dias depois, apareceu um novo desenho. Tenho uma c�pia dele aqui.</p><p><image l:href="#4"/></p><p>Holmes esfregou as m�os, exultante.</p><p>� Nosso material est� se acumulando rapidamente � disse ele.</p><p>� Tr�s dias depois uma mensagem escrita num papel foi deixada no rel�gio de sol, presa por uma pedra. Aqui est�. Os caracteres s�o, como v�, iguais aos do �ltimo. Depois deste, resolvi ficar � espreita; ent�o peguei meu rev�lver e me sentei no meu est�dio, de onde se avista o gramado e o jardim. Por volta das duas horas, eu estava sentado � janela, tudo escuro, com exce��o do luar l� fora, quando ouvi passos atr�s de mim, e apareceu minha esposa de roup�o. Ela me implorou que fosse para a cama. Disse-lhe francamente que queria ver quem estava fazendo essas brincadeiras absurdas conosco. Ela respondeu que era algum trote sem sentido, e que eu n�o devia dar import�ncia.</p><p>� �Se isso o irrita tanto, Hilton, pod�amos viajar, voc� e eu, e assim evitar este aborrecimento.�</p><p>� �O qu�, ser posto para fora de minha pr�pria casa por um engra�adinho?�, eu disse. �Mas todo o condado iria rir de n�s.�</p><p>� �Ora, venha para a cama�, disse ela, �e falaremos sobre isso de manh�.�</p><p>� De repente, enquanto falava, vi seu rosto ficar mais branco que o luar e suas m�os se crisparam no meu ombro. Algo se movera na sombra do galp�o de ferramentas. Vi uma figura escura, furtiva, que se arrastou e agachou em frente � porta. Segurando minha arma, eu ia sair correndo quando minha esposa jogou seus bra�os em torno de mim e me segurou com muita for�a. Tentei me desvencilhar dela, mas se agarrou a mim desesperadamente. Por fim me livrei, e quando abri a porta e cheguei ao galp�o, a criatura j� tinha ido embora. Entretanto, deixara uma marca de sua presen�a, pois na porta havia quase o mesmo conjunto de homenzinhos dan�antes que j� havia aparecido por duas vezes, e que eu copiara naquele papel. N�o havia sinal do sujeito em lugar nenhum, embora eu tivesse procurado por toda parte. E o mais incr�vel � que deve ter estado l� o tempo todo, pois quando examinei a porta de manh�, ele tinha feito mais alguns desenhos, abaixo da linha que j� vira.</p><p>� Tem esse �ltimo desenho?</p><p>� Sim, � muito curto, mas fiz uma c�pia dele. Est� aqui.</p><p>De novo nos mostrou um papel. A nova dan�a tinha esta forma:</p><p><image l:href="#3"/></p><p>� Diga-me � continuou Holmes, e eu podia ver pelos seus olhos que estava muito excitado �, isto era um mero adendo ao primeiro ou parecia estar inteiramente separado?</p><p>� Estava num painel diferente da porta.</p><p>� Excelente! Este � de longe o mais importante dos nossos objetivos. Enche-me de esperan�as. Agora, sr. Hilton Cubitt, por favor, continue seu relato interessant�ssimo.</p><p>� N�o tenho mais nada a dizer, sr. Holmes, a n�o ser que fiquei irritado com minha esposa naquela noite por ter me segurado, quando poderia ter apanhado aquele canalha fuj�o. Ela disse que eu podia ter me machucado. Por um instante veio � minhamente a id�ia de que ela temia que acontecesse algum mal a , pois eu estava certo de que ela conhecia aquele homem e sabia o que aqueles sinais queriam dizer. Mas havia um tom na sua voz, sr. Holmes, e algo em seus olhos que n�o permitiam d�vidas, e estou certo de que era na minha pr�pria seguran�a que ela pensava. Aqui est� todo o caso, e agora quero seu conselho sobre como proceder. Minha id�ia � colocar meia d�zia de meus rapazes nos arbustos e, quando esse sujeito aparecer novamente, dar-lhe uma recep��o que o far� nos deixar em paz daqui para a frente.</p><p>� Receio que o caso seja profundo demais para estes rem�dios t�o simples � disse Holmes. � Quanto tempo pode ficar em Londres?</p><p>� Tenho de voltar ainda hoje. De modo algum deixaria minha mulher sozinha a noite toda. Ela est� muito nervosa e me implorou para que eu voltasse.</p><p>� Acho que est� certo. Mas se ficasse, eu poderia voltar com o senhor em um ou dois dias. Enquanto isso, vai deixar comigo esses pap�is, e � muito prov�vel que eu possa fazer-lhe uma visita em breve e esclarecer alguma coisa sobre seu caso.</p><p>Sherlock Holmes manteve a sua calma profissional at� que o nosso visitante foi embora, mas para mim, que o conhecia t�o bem, era f�cil notar que estava extremamente excitado. No momento em que as largas costas de Hilton Cubitt desapareceram pela porta, meu amigo correu para a mesa, abriu os peda�os de papel com os homenzinhos dan�antes � sua frente, e se lan�ou � elabora��o de um c�lculo intrincado. Durante duas horas eu o observei enquanto cobria o papel de letras e figuras, e estava t�o absorvido em seu problema que evidentemente esquecera a minha presen�a. Algumas vezes fazia progressos, e cantava e assobiava enquanto trabalhava; em outras mostrava-se confuso e fazia longos discursos, com as sobrancelhas cerradas e o olhar distante. Finalmente ele pulou de sua cadeira com um grito de satisfa��o, e come�ou a andar de um lado para o outro na sala, esfregando as m�os. Ent�o escreveu um longo telegrama num formul�rio. �Se minha resposta a isto vier como espero, voc� ter� um belo caso para acrescentar � sua cole��o, Watson�, disse ele. �Espero que possamos ir a Norfolk amanh�, e levar ao nosso amigo algumas novidades sobre o segredo que o preocupa.�</p><p>Confesso que estava curioso, mas sabia que Holmes gostava de fazer suas revela��es na hora que achasse conveniente e � sua maneira; de modo que esperei at� que quisesse confiar em mim.</p><p>Mas houve um atraso na resposta do telegrama, e seguiram-se dois dias de impaci�ncia, durante os quais Holmes ficava com os ouvidos atentos a cada toque da campainha. Na noite do segundo dia chegou uma carta de Hilton Cubitt. Estava tudo bem com ele, exceto que uma longa inscri��o aparecera naquela manh� no pedestal do rel�gio de sol. Incluiu uma c�pia dela, que � reproduzida aqui:</p><p><image l:href="#9"/></p><p>Holmes curvou-se durante alguns minutos sobre este friso grotesco, e ent�o, de repente, deu um pulo, com uma exclama��o de surpresa e consterna��o. Seu rosto estava crispado de ansiedade.</p><p>� N�s deixamos este caso ir longe demais � disse ele. � H� algum trem para North Walsham esta noite?</p><p>Peguei o hor�rio dos trens. O �ltimo acabara de sair.</p><p>� Ent�o devemos tomar o caf�-da-manh� bem cedo e pegar o primeiro de amanh� � disse Holmes. � Precisam da nossa presen�a com urg�ncia. Ah! Aqui est� o nosso esperado cabograma. Um momento, sra. Hudson, talvez haja uma resposta. N�o, � exatamente como eu esperava. Com esta mensagem, n�o devemos perder nem uma hora para deixar Hilton Cubitt saber como v�o as coisas, porque � uma rede bem estranha e perigosa esta em que o nosso simples propriet�rio de terras de Norfolk est� metido.</p><p>Era realmente, e quando cheguei ao final sinistro da hist�ria que me parecia ser apenas infantil e bizarra, senti mais uma vez o horror e a consterna��o que me dominavam. Gostaria de ter um final mais alegre para contar aos meus leitores, mas estas s�o as cr�nicas dos fatos e devo seguir, at� o momento decisivo, a estranha s�rie de acontecimentos que por alguns dias fizeram de Riding Thorpe Manor um nome conhecido em toda a Inglaterra.</p><p>Mal chegamos em North Walsham e mencionamos o nome de nosso destino, o chefe de esta��o correu at� n�s. �Suponho que sejam detetives de Londres?�, disse ele.</p><p>Um olhar de irrita��o passou pelo rosto de Holmes.</p><p>� O que o faz pensar assim?</p><p>� Porque o inspetor Martin, de Norwich, acabou de passar por aqui. Mas talvez os senhores sejam cirurgi�es. Ela n�o est� morta � ou n�o estava, segundo os �ltimos relatos. Talvez ainda tenham tempo de salv�-la, embora seja para a forca.</p><p>A express�o de Holmes mostrava ansiedade.</p><p>� N�s estamos indo para Riding Thorpe Manor � disse ele �, mas n�o ouvimos nada sobre o que aconteceu l�.</p><p>� Algo terr�vel � disse o chefe da esta��o. � Foram baleados, o sr. Hilton Cubitt e a esposa. Ela atirou nele e depois em si mesma � � o que dizem os empregados. Ele est� morto e ela, desenganada. Meu Deus, meu Deus, uma das fam�lias mais antigas do condado de Norfolk e uma das mais honradas.</p><p>Sem uma palavra, Holmes correu at� a carruagem, e durante os sete longos quil�metros do trajeto n�o abriu a boca. Raras vezes o vi t�o desconsolado. Esteve inquieto durante toda a viagem, e notei que folheara os jornais da manh� com uma aten��o ansiosa, mas agora a repentina concretiza��o de seus piores temores deixou-o numa melancolia confusa. Recostou-se no assento, perdido em especula��es tristes. Ainda assim, havia muita coisa � nossa volta que nos interessasse, pois pass�vamos pelo campo, t�o singular quanto qualquer outro na Inglaterra, onde alguns chal�s representam a popula��o de hoje em dia, enquanto, por todo lado, enormes igrejas de torres quadradas levam-se na paisagem verde e contam a gl�ria e a prosperidade da velha East Anglia. Por fim surgiu a orla violeta do mar do Norte por sobre a borda verde da costa de Norfolk, e o condutor apontou com seu chicote para dois telhados de tijolos e madeira que se projetavam de um bosque. �Aquela � Riding Thorpe Manor�, ele disse.</p><p>Ao passarmos pela entrada de colunas, observei diante dela, ao lado da quadra de t�nis, o galp�o de ferramentas preto e o rel�gio de sol com o pedestal, com os quais t�nhamos associa��es t�o estranhas. Um homem baixo e ativo, com um bigode enorme, acabara de descer de uma carruagem. Apresentou-se como o inspetor Martin, da pol�cia de Norfolk, e ficou muito surpreso quando ouviu o nome do meu amigo.</p><p>� Oh, sr. Holmes, o crime s� foi cometido �s tr�s horas. Como p�de ouvir falar dele em Londres e estar no local ao mesmo tempo que eu?</p><p>� Eu o previ. Vim com a esperan�a de evit�-lo.</p><p>� Ent�o deve ter um ind�cio importante que ignoramos, pois dizia-se que eles eram um casal muito unido.</p><p>� S� tenho o ind�cio dos homenzinhos dan�antes � disse Holmes. � Explicarei tudo a voc� depois. Enquanto isso, j� que � tarde demais para evitar a trag�dia, estou ansioso para usar o conhecimento que possuo, a fim de que a justi�a seja feita. Vai me incluir na sua investiga��o ou prefere que eu aja de modo independente?</p><p>� Ficaria orgulhoso de saber que estamos trabalhando juntos, sr. Holmes � disse o inspetor com sinceridade.</p><p>� Nesse caso, gostaria de ouvir os depoimentos e examinar o local sem demora.</p><p>O inspetor Martin teve o bom senso de deixar meu amigo fazer as coisas a seu modo, contentando-se em anotar cuidadosamente os resultados. O cirurgi�o local, um homem idoso, de cabelos brancos, acabara de vir do quarto da sra. Hilton Cubitt, e nos informou que seus ferimentos eram graves mas n�o necessariamente fatais. A bala atravessara a regi�o frontal do c�rebro, e ela provavelmente levaria algum tempo at� recobrar a consci�ncia. Quanto a saber se ela fora baleada ou atirara em si mesma, ele n�o se arriscava a dar nenhuma opini�o definitiva. Certamente a bala fora disparada de muito perto. Encontramos uma �nica pistola no quarto, da qual dois cartuchos tinham sido esvaziados. O sr. Hilton Cubitt fora atingido no cora��o. Tamb�m era poss�vel que tivesse atirado nela e depois em si mesmo, ou que ela fora a criminosa, pois o rev�lver estava no ch�o, entre os dois.</p><p>� Ele foi retirado? � perguntou Holmes.</p><p>� N�o retiramos nada, a n�o ser a senhora. N�o pod�amos deix�-la ca�da no ch�o, ferida.</p><p>� H� quanto tempo est� aqui, doutor?</p><p>� Desde as quatro horas.</p><p>� Mais algu�m?</p><p>� Sim, o guarda aqui.</p><p>� E tocou em alguma coisa?</p><p>� Nada.</p><p>� Agiu com muita discri��o. Quem o chamou?</p><p>� A criada, Saunders.</p><p>� Foi ela quem deu o alarme?</p><p>� Ela e a sra. King, a cozinheira.</p><p>� Onde est�o agora?</p><p>� Na cozinha, eu acho.</p><p>� Pois ent�o � melhor ouvir logo a hist�ria delas.</p><p>O velho sagu�o, com pain�is de carvalho e janelas altas, fora transformado em corte de investiga��o. Holmes sentou-se numa cadeira grande e antiga, seus olhos inexor�veis brilhando no rosto ansioso. Podia ler neles o firme prop�sito de dedicar sua vida a esta quest�o, at� que o cliente, que ele n�o conseguira salvar, fosse vingado. O elegante inspetor Martin, o velho m�dico do campo, de cabelos brancos, eu e um robusto policial da vila complet�vamos aquele grupo estranho.</p><p>As duas mulheres contaram sua hist�ria de modo bem claro. Foram acordadas pelo som de uma explos�o, seguido por outro, um minuto depois. Desceram juntas a escada. A porta do est�dio estava aberta e uma vela estava acesa sobre a mesa. O patr�o estava ca�do no centro do quarto, com o rosto para o ch�o. Estava morto. Perto da janela sua esposa estava agachada, com a cabe�a apoiada na parede. Estava horrivelmente ferida, com o lado do rosto vermelho de sangue. Respirava pesadamente, mas n�o era capaz de dizer nada. O corredor, bem como o quarto, estava cheio de fuma�a e com cheiro de p�lvora. Certamente a janela ficara fechada e trancada por dentro. As duas mulheres eram positivas sobre este ponto. Imediatamente foram chamar o m�dico e o policial. Depois, com a ajuda do criado e do rapaz da estrebaria, levaram a patroa ferida para o quarto. Ela e o marido tinham usado a cama. Ela estava vestida � ele estava com o roup�o sobre o pijama. Nada fora mexido no est�dio. At� onde sabiam, nunca houve uma discuss�o entre marido e mulher. Sempre os consideraram um casal muito unido.</p><p>Estes eram os pontos principais do depoimento das empregadas. Em resposta ao inspetor Martin, afirmaram que todas as portas estavam trancadas por dentro e que ningu�m poderia ter fugido da casa. Em resposta a Holmes, ambas se recordaram do cheiro da p�lvora, desde o momento em que sa�ram de seus quartos, no �ltimo andar. �Recomendo a sua aten��o especial para este fato�, disse Holmes ao seu colega de profiss�o. �E agora acho que estamos em condi��es de fazer um exame completo no quarto.�</p><p>O est�dio mostrou ser um aposento pequeno, repleto de livros em tr�s lados, e com uma escrivaninha de frente para uma janela comum, que dava para o jardim. Demos aten��o primeiro ao corpo do infeliz propriet�rio de terras, que estava estendido no ch�o do quarto. Sua roupa desarrumada mostrava que tinha sido acordado repentinamente. A bala fora disparada contra ele de frente e permanecera em seu corpo depois de penetrar no cora��o. Sua morte certamente foi instant�nea e indolor. N�o havia marcas de p�lvora no seu roup�o nem nas m�os. De acordo com o m�dico, a mulher tinha manchas no rosto, mas nenhuma na m�o.</p><p>� A aus�ncia destas �ltimas n�o significa nada, ao passo que sua presen�a significa tudo � disse Holmes. � A menos que a p�lvora de um cartucho mal colocado espirre para tr�s, uma pessoa pode dar v�rios tiros sem deixar tra�o. Sugeriria que o corpo do sr. Cubitt fosse removido agora. Suponho, doutor, que ainda n�o recuperou a bala que feriu a senhora.</p><p>� Ser� necess�ria uma opera��o dif�cil para que isso possa ser feito. Mas ainda h� quatro cartuchos no rev�lver. Dois foram disparados e dois ferimentos foram causados, de modo que cada bala pode ser respons�vel por eles.</p><p>� Parece que sim � disse Holmes. � Talvez possa explicar tamb�m a bala que t�o obviamente lascou a borda da janela?</p><p>Ele se virara de repente, e seu dedo longo e magro apontava para um buraco feito diretamente na baixa janela corredi�a, menos de 1 cent�metro acima do parapeito.</p><p>� Ora! � exclamou o inspetor. � Como viu isso?</p><p>� Porque o procurei.</p><p>� Maravilhoso! � disse o m�dico do campo. � O senhor est� certo. Ent�o um terceiro tiro foi disparado e, portanto, uma terceira pessoa esteve presente. Mas quem teria sido, e como conseguiu ir embora?</p><p>� Este � o problema que estamos prestes a resolver agora � disse Sherlock Holmes. � Lembra-se, inspetor Martin, de que quando as empregadas disseram que, ao sa�rem de seus quartos, logo perceberam um cheiro de p�lvora, eu comentei que esse detalhe era extremamente importante?</p><p>� Sim, senhor; mas confesso que n�o consegui entender o motivo.</p><p>� Isso sugere que, na hora dos disparos, a janela e a porta estavam abertas. Do contr�rio, o cheiro da p�lvora n�o teria se espalhado t�o rapidamente pela casa. Para isto era preciso uma corrente de ar no quarto. Mas a porta e a janela ficaram abertas por muito pouco tempo.</p><p>� Como prova isso?</p><p>� Porque a vela n�o havia pingado.</p><p>� Excelente! � exclamou o inspetor. � Excelente!</p><p>� Tendo certeza de que a janela estava aberta na hora da trag�dia, imaginei que devia haver uma terceira pessoa no caso, que ficou do lado de fora desta abertura e atirou atrav�s dela. Qualquer tiro dirigido a essa pessoa poderia acertar o caixilho. Olhei e l� estava, � claro, a marca da bala!</p><p>� Mas como � que a janela foi fechada e trancada?</p><p>� O primeiro impulso da mulher foi o de fechar e trancar a janela. Mas, ah! o que � isto?</p><p>Era uma bolsa de mulher que estava sobre a mesa do est�dio � uma bolsa pequena e elegante de couro de crocodilo e prata. Holmes a abriu e retirou o seu conte�do. Havia 25 notas de uma libra do Banco da Inglaterra, presas por um el�stico de borracha da �ndia � e nada mais.</p><p>� Isto precisa ser guardado, pois vai aparecer no julgamento � disse Holmes, enquanto entregava a bolsa e seu conte�do ao inspetor. � Agora � necess�rio tentar esclarecer alguma coisa sobre essa terceira bala que, pelo lascado da madeira, foi disparada de dentro do quarto. Gostaria de ver de novo a sra. King, a cozinheira. Disse, sra. King, que foi acordada por uma explos�o alta. Quando disse isso, queria dizer que parecia ser mais alta do que a segunda?</p><p>� Bem, senhor, ela me arrancou do sono, por isso � dif�cil dizer. Mas me pareceu bem alta.</p><p>� N�o acha que poderiam ser dois tiros disparados quase ao mesmo instante?</p><p>� N�o posso afirmar isso, senhor.</p><p>� N�o tenho d�vidas de que foi assim. Creio que j� esgotamos tudo o que este quarto poderia nos mostrar, inspetor Martin. Se quiser, por gentileza, dar uma volta comigo, veremos que novos ind�cios o jardim tem para nos apresentar.</p><p>Um canteiro de flores se estendia at� a janela do est�dio, e todos n�s soltamos uma exclama��o, quando nos aproximamos. As flores estavam ca�das e a terra macia, cheia de pegadas. Eram p�s grandes e masculinos, com o bico do sapato especialmente longo e fino. Holmes vasculhou a grama e as folhas como um c�o de ca�a atr�s de um p�ssaro ferido. Ent�o, com um grito de satisfa��o, curvou-se e pegou um pequeno cilindro cor de bronze.</p><p>� Como eu pensava � ele disse �, o rev�lver tinha um ejetor, e aqui est� o terceiro cartucho. Penso realmente, inspetor Martin, que o nosso caso est� quase completo.</p><p>O rosto do inspetor provinciano mostrou seu grande assombro com o r�pido e magistral progresso da investiga��o de Holmes. No in�cio mostrara certa disposi��o para impor a pr�pria posi��o, mas agora estava cheio de admira��o e pronto a seguir sem questionar o caminho que Holmes indicasse.</p><p>� De quem o senhor suspeita? � perguntou.</p><p>� Chegarei l� mais tarde. Existem v�rios pontos neste problema que ainda n�o posso explicar para voc�s. Agora que j� cheguei t�o longe, � melhor continuar na minha pr�pria linha, e ent�o esclarecer este caso inteiro de uma vez por todas.</p><p>� Como queira, sr. Holmes, at� que peguemos nosso homem.</p><p>� N�o quero fazer mist�rios, mas � imposs�vel, no momento da a��o, entrar em explica��es longas e complexas. Tenho todos os fios da meada em minha m�o. Mesmo que essa senhora nunca recobre a consci�ncia, podemos reconstituir os fatos da noite passada, e garantir que seja feita justi�a. Antes de mais nada, gostaria de saber se existe algum hotel na vizinhan�a chamado �Elrige�s�.</p><p>Os criados foram interrogados, mas nenhum deles ouvira falar de tal lugar. O rapaz da estrebaria lan�ou alguma luz no assunto, lembrando que um fazendeiro com aquele nome vivia a alguns quil�metros dali, na dire��o de East Ruston.</p><p>� � uma fazenda isolada?</p><p>� Muito isolada, senhor.</p><p>� Talvez eles ainda n�o tenham sabido nada sobre o que aconteceu aqui durante a noite.</p><p>� Talvez n�o, senhor.</p><p>Holmes pensou um pouco, e ent�o um curioso sorriso apareceu em seu rosto.</p><p>� Sele um cavalo, meu rapaz � disse. � Gostaria que levasse um bilhete � fazenda de Elrige.</p><p>Tirou do bolso os� v�rios peda�os de papel dos homenzinhos dan�antes. Com eles na sua frente, trabalhou durante algum tempo na escrivaninha. Finalmente entregou um bilhete ao garoto, com instru��es para s� entreg�-lo nas m�os da pessoa a quem estava endere�ado, e, principalmente, n�o responder a nenhuma pergunta que lhe fizessem. Vi o verso da nota, endere�ada numa letra irregular e espalhada, muito diferente da habitual escrita precisa de Holmes. Era dirigida ao sr. Abe Slaney, fazenda de Elrige, East Ruston, Norfolk.</p><p>� Creio, inspetor � observou Holmes �, que seria bom telegrafar para pedir uma escolta, porque talvez tenha um prisioneiro particularmente perigoso para levar � cadeia do condado. Certamente o rapaz que vai levar esta nota chegar� antes do seu telegrama. Se houver algum trem � tarde para a cidade, Watson, acho melhor peg�-lo, pois tenho uma an�lise qu�mica interessante para acabar, e esta investiga��o est� caminhando rapidamente para um desfecho.</p><p>Quando o jovem foi despachado com a nota, Sherlock Holmes deu suas instru��es aos empregados. Se aparecesse alguma visita procurando pela sra. Hilton Cubitt, nenhuma informa��o deveria ser-lhe dada a respeito de sua situa��o, e ela deveria ser conduzida imediatamente � sala de visitas. Enfatizou estes pontos com a maior seriedade. Por fim, dirigiu-se � sala de visitas, com a observa��o de que agora o neg�cio estava fora de nossas m�os, e que dev�amos passar o tempo o melhor que pud�ssemos at� conseguirmos ver o que nos estava reservado. O doutor tinha ido cuidar dos seus outros pacientes, e s� o inspetor e eu ficamos.</p><p>� Creio que posso ajud�-los a passar uma hora de modo interessante e proveitoso � disse Holmes, puxando sua cadeira at� a mesa, e espalhando � sua frente os v�rios pap�is nos quais estavam desenhados os grotescos homenzinhos dan�antes. � Quanto a voc�, amigo Watson, devo-lhe uma compensa��o por ter deixado sua curiosidade natural insatisfeita por tanto tempo; ao senhor, inspetor, todo o incidente deve t�-lo interessado como um not�vel estudo profissional. Devo contar-lhe, antes de tudo, as circunst�ncias curiosas ligadas �s consultas pr�vias que o sr. Hilton Cubitt me fez em Baker Street. � Ele ent�o recapitulou os fatos de que j� falamos. Tenho aqui estas inscri��es singulares, diante das quais algu�m poderia sorrir, se n�o tivessem mostrado que foram as precursoras de uma trag�dia t�o terr�vel. Estou familiarizado com todas as formas de escrita secreta, e eu mesmo sou o autor de uma monografia banal sobre o assunto, na qual analiso 160 c�digos diferentes, mas confesso que este era inteiramente novo para mim. O objetivo daqueles que o inventaram aparentemente seria ocultar que estes caracteres continham uma mensagem, dando a id�ia de que eram meros rabiscos de crian�as.</p><p>� Entretanto, tendo reconhecido que os s�mbolos representavam letras, e tendo aplicado as regras que servem para qualquer forma de escrita secreta, a solu��o ficou bem f�cil. A primeira mensagem entregue a mim era t�o curta que era imposs�vel fazer algo mais do que dizer, com alguma certeza, que o s�mbolo������� representava o E. Como sabem, o E � a letra mais comum no alfabeto ingl�s, e predomina de modo t�o not�vel, que mesmo numa senten�a curta podemos esperar encontr�-la com muita freq��ncia. Dos 15 s�mbolos da primeira mensagem, quatro eram os mesmos, portanto seria razo�vel apont�-los como E. � verdade que em alguns casos a figura segurava uma bandeira e em outros n�o, mas era prov�vel, pela maneira como as bandeiras estavam distribu�das, que eram usadas para dividir as palavras da frase. Aceitei isso como uma hip�tese, e anotei que E era representado por����� .</p><p>� Mas agora vinha a verdadeira dificuldade da pesquisa: a ordem das letras inglesas depois do E n�o � bem demarcada, e qualquer preponder�ncia que possa ser mostrada na m�dia de uma folha impressa pode ser revertida numa �nica frase pequena. De modo aproximado, T, A, O, I, N, S, H, R, D e L s�o a ordem num�rica em que as letras ocorrem; mas T, A, O e I aparecem com freq��ncia quase igual uma da outra, e seria um trabalho infind�vel tentar cada combina��o, at� chegar a um sentido. Portanto, esperei por novo material. Na minha segunda entrevista com o sr. Hilton Cubitt, ele me deu duas outras frases curtas e uma mensagem, que parecia � j� que n�o havia bandeiras � ser uma �nica palavra. Aqui est�o os s�mbolos. Agora, na palavra �nica, consegui dois E, vindo em segundo e quarto lugares num total de cinco letras. Podia ser ��, �� ou ��*. N�o h� d�vida de que a �ltima, em resposta a um apelo, � a mais prov�vel, e as circunst�ncias a apontavam como sendo uma resposta escrita pela senhora. Aceitando isso como correto, podemos dizer agora que os s�mbolos���������������� representam respectivamente N, V e R.</p><p>� Mesmo assim eu estava numa grande dificuldade, mas uma id�ia feliz deu-me v�rias outras letras. Ocorreu-me que se esses apelos vinham, como esperava, de algu�m �ntimo da senhora em sua vida passada, uma combina��o que contivesse dois E, com tr�s letras entre eles, podia muito bem ser o nome �Elsie�. Num exame, descobri que esta combina��o formava o final da mensagem, que se repetia tr�s vezes. Devia ser algum apelo a �Elsie�. Desta maneira consegui meus L, S e I. Mas que apelo seria esse? S� havia quatro letras na palavra que precedia �Elsie� e terminava em E. Certamente a palavra seria ��.** Tentei todas as outras quatro letras, terminando em E, mas n�o consegui encontrar nenhuma que se encaixasse no caso. De modo que agora eu tinha C, O e M, e estava em condi��es de atacar mais uma vez a primeira mensagem, dividindo-a em palavras e colocando pontos para cada s�mbolo ainda desconhecido. Fiz isso, e saiu desta maneira:</p><empty-line/><p>. M . E R E . . E S L . N E.</p><empty-line/><p>� Agora, a primeira letra s� ser A, o que � uma descoberta muito �til, j� que aparece n�o menos do que tr�s vezes nesta frase curta, e o H tamb�m � evidente na segunda palavra. Agora ficou assim:</p><empty-line/><p>AM HERE A. E. SLANE.</p><empty-line/><p>Ou, preenchendo os espa�os �bvios no nome:</p><empty-line/><p>AM HERE ABE SLANEY***</p><empty-line/><p>Tinha tantas letras agora que podia continuar com bastante confian�a na segunda mensagem, que ficou desta forma:</p><empty-line/><p>A . ELRI. ES.</p><empty-line/><p>Aqui s� podia fazer sentido colocando T e G no lugar das letras que faltavam, e supondo que o nome era o de uma casa ou hotel em que estava o autor da mensagem.</p><p>O inspetor Martin e eu ouvimos com o maior interesse o relato completo e claro de como meu amigo obteve os resultados que nos levaram a superar completamente nossas dificuldades.</p><p>� O que fez ent�o, senhor? � perguntou o inspetor.</p><p>� Tinha motivo para supor que este Abe Slaney era americano, porque Abe � uma contra��o americana e uma carta dos Estados Unidos � que foi o ponto de partida de todo o problema. Tamb�m tinha motivos para pensar que havia algum segredo criminoso no assunto. As alus�es da senhora sobre o seu passado e sua recusa em confiar no marido apontavam nessa dire��o. De modo que passei um cabograma ao meu amigo Wilson Hargreave, do Departamento de Pol�cia de Nova York, que mais de uma vez recorreu aos meus conhecimentos do crime de Londres. Perguntei a ele se conhecia o nome Abe Slaney. Aqui est� a resposta: �O bandido mais perigoso de Chicago�. Na mesma noite em que recebi esta resposta, Hilton Cubitt me mandou a �ltima mensagem de Slaney. Trabalhando com as letras conhecidas, ela ficou com esta forma:</p><empty-line/><p>ELSIE . RE . ARE TO MEET THY GO.</p><empty-line/><p>O acr�scimo de um P e um D completaram a mensagem,* que me mostrou que o patife estava passando da persuas�o �s amea�as, e o meu conhecimento a respeito dos bandidos de Chicago fez com que eu achasse que ele transformaria rapidamente suas palavras em a��o. Vim imediatamente para Norfolk com o meu amigo e colega, dr. Watson, mas, infelizmente, apenas a tempo de descobrir que o pior j� tinha acontecido.</p><p>� � um privil�gio trabalhar junto com o senhor em um caso � disse o inspetor com entusiasmo. � Por�m, vai me desculpar se lhe falar francamente. O senhor s� precisa dar respostas a si mesmo, mas eu tenho de prestar contas aos meus superiores. Se este Abe Slaney, que mora em Elrige, � de fato o assassino, e se ele escapou enquanto estou sentado aqui, eu certamente terei s�rios problemas.</p><p>� N�o precisa se preocupar. Ele n�o tentar� escapar.</p><p>� Como sabe?</p><p>� A fuga seria uma confiss�o de culpa.</p><p>� Ent�o vamos prend�-lo.</p><p>� Espero-o aqui a qualquer momento.</p><p>� Mas por que ele viria?</p><p>� Porque escrevi pedindo a ele que viesse.</p><p>� Mas isto � incr�vel, sr. Holmes! Ele viria porque o senhor pediu? Um pedido deste tipo n�o despertaria sua suspeita e o faria fugir?</p><p>� Creio que soube elaborar a carta � disse Sherlock Holmes. � De fato, se n�o me engano, aqui est� o cavalheiro subindo pela estrada.</p><p>Um homem entrava pelo caminho que ia at� a porta. Era alto, bonito e moreno, vestido com um terno de flanela cinza, com um chap�u panam�, uma barba negra eri�ada e um nariz adunco, grande e agressivo, e balan�ando uma bengala enquanto andava. Passou pelo caminho como se o lugar lhe pertencesse, e ouvimos seu toque alto e confiante na campainha.</p><p>� Creio, cavalheiros � disse Holmes calmamente �, que � melhor nos colocarmos atr�s da porta. Toda precau��o � necess�ria ao lidarmos com esse camarada. Vai precisar de suas algemas, inspetor. Pode deixar a conversa comigo.</p><p>Esperamos em sil�ncio por um minuto � um desses minutos dos quais nunca poderemos nos esquecer. Ent�o a porta se abriu e o homem entrou. Num instante Holmes apontou a pistola para sua cabe�a e Martin colocou as algemas nos seus pulsos. Tudo foi feito com tanta rapidez e habilidade que o sujeito estava indefeso antes de perceber que fora atacado. Olhou-nos um a um com seus olhos negros em chamas. Ent�o explodiu numa gargalhada.</p><p>� Bem, cavalheiros, voc�s me pegaram desta vez. Acho que bati em alguma coisa dura. Mas vim em resposta � carta da sra. Hilton Cubitt. N�o me digam que ela est� metida nisso. N�o me digam que ela ajudou a preparar essa armadilha para mim.</p><p>� A sra. Hilton Cubitt foi gravemente ferida e est� � beira da morte.</p><p>O homem deu um grito rouco de dor, que ecoou pela casa.</p><p>� Est� maluco! � gritou, furioso. � Foi ele o atingido, n�o ela. Quem iria machucar a pequena Elsie? Posso t�-la amea�ado � Deus me perdoe! � mas n�o tocaria num fio de cabelo de sua linda cabe�a. Diga que � mentira! Diga que ela n�o est� machucada!</p><p>� Ela foi encontrada, muito ferida, ao lado de seu marido morto.</p><p>Ele mergulhou no sof� com um gemido profundo e cobriu o rosto com suas m�os algemadas. Durante cinco minutos ficou em sil�ncio. Depois ergueu o rosto mais uma vez, e falou com a fria serenidade do desespero.</p><p>� N�o tenho nada a esconder de voc�s, cavalheiros � disse. � Se atirei no homem, ele tamb�m atirou em mim, e n�o h� assassinato nisso. Mas se pensam que eu poderia ter machucado aquela mulher, ent�o n�o me conhecem, nem a ela. Digo-lhes, nunca houve no mundo um homem que amasse uma mulher mais do que eu a amava. Tinha direito a ela. Estava comprometida comigo h� anos. Quem era esse ingl�s para se manter entre n�s? Eu lhes digo que tinha prioridade em rela��o a ela e s� estava reclamando o que era meu.</p><p>� Ela escapou � sua influ�ncia quando descobriu o homem que voc� � � disse Holmes com rispidez. � Fugiu dos Estados Unidos para evit�-lo, e se casou com um cavalheiro respeit�vel na Inglaterra. Voc� a perseguiu, a seguiu, e transformou a vida dela num tormento para induzi-la a abandonar o marido, a quem amava e respeitava, para ir com voc�, de quem tinha medo e �dio. Voc� acabou levando � morte um homem nobre e induzindo sua mulher ao suic�dio. Este � o seu papel neste neg�cio, sr. Abe Slaney, e vai responder por isto � justi�a.</p><p>� Se Elsie morrer, n�o me importo com o que vier a acontecer comigo � disse o americano. Abriu uma das m�os e olhou para um bilhete amassado em sua palma. � Olhe aqui, senhor! � exclamou, com um brilho de suspeita nos olhos �, n�o est� tentando me amedrontar com isto, est�? Se a senhora est� t�o ferida quanto diz, quem foi que escreveu este bilhete? � Ele o jogou sobre a mesa.</p><p>� Eu o escrevi, para traz�-lo aqui.</p><p>� Voc� o escreveu? N�o havia ningu�m fora da Uni�o que conhecesse o segredo dos homenzinhos dan�antes. Como conseguiu escrev�-lo?</p><p>� O que um homem inventa, outro pode descobrir � disse Holmes. � H� um carro chegando para transport�-lo at� Norwich, sr. Slaney. Mas, enquanto isso, tem tempo para reparar um pouco do dano que causou. Sabe que a pr�pria sra. Hilton Cubitt esteve sob s�ria suspeita de ter assassinado o marido, e que foi s� a minha presen�a e o conhecimento que eu possuo que a salvaram da acusa��o? O m�nimo que o senhor deve fazer por ela � esclarecer ao mundo inteiro que ela n�o foi, direta ou indiretamente, respons�vel pelo tr�gico fim dele.</p><p>� N�o pe�o nada mais que isso � disse o americano. � Creio que o melhor que posso fazer por mim mesmo � a verdade nua e crua.</p><p>� � meu dever avis�-lo de que isto vai ser usado contra voc� � exclamou o inspetor, com a sublime honestidade da lei criminal brit�nica.</p><p>Slaney encolheu os ombros.</p><p>� Tentarei isso � disse. � Antes de qualquer coisa, quero que os cavalheiros entendam que conhe�o esta senhora desde que era uma crian�a. �ramos sete numa gangue em Chicago, e o pai de Elsie era o chefe da Uni�o. Era um homem esperto, o velho Patrick. Foi ele quem inventou aquela escrita, que passaria por um desenho de crian�a, a menos que se soubesse a chave dela. Bem, Elsie aprendeu alguns dos nossos m�todos, mas n�o podia suportar o neg�cio, e tinha um pouco de seu pr�prio dinheiro honesto, ent�o passou-nos a perna e foi para Londres. Era minha noiva e teria se casado comigo, acho, se eu tivesse outra profiss�o, mas ela n�o teria conhecido a desgra�a. S� depois que havia casado com este ingl�s � que consegui descobrir onde estava. Escrevi para ela, mas n�o obtive resposta. Depois disso, vim para c� e, como as cartas eram in�teis, coloquei minhas mensagens em lugares onde ela poderia ler.</p><p>� Bem, estou aqui h� 1 m�s. Vivi naquela fazenda, onde tinha um quarto embaixo, e podia entrar e sair todas as noites, sem testemunhas. Fiz de tudo para que Elsie fosse embora. Sabia que lera as mensagens, pois uma vez escreveu uma resposta embaixo de uma delas. Ent�o perdi a calma e comecei a amea��-la. Mandou-me uma carta, ent�o, implorando que eu fosse embora, dizendo que seu cora��o ficaria partido se houvesse algum esc�ndalo envolvendo seu marido. Disse que desceria quando o marido estivesse dormindo, �s tr�s horas, e falaria comigo pela janela de tr�s, se depois eu fosse embora e a deixasse em paz. Ela veio e trouxe dinheiro, tentando me convencer a ir embora. Isto me deixou louco e agarrei seu bra�o, tentando pux�-la atrav�s da janela. Naquele momento entrou o marido com o rev�lver na m�o. Elsie jogou-se no ch�o, e n�s ficamos cara a cara. Tamb�m me agachei e apontei minha arma, a fim de assust�-lo e poder fugir. Ele atirou e errou. Atirei quase ao mesmo tempo, e ele caiu. Sa� correndo pelo jardim e ouvi a janela se fechar atr�s de mim. Esta � a verdade de Deus, cavalheiros, cada palavra dela; e n�o ouvi mais nada sobre isso at� que aquele rapaz veio me entregar um bilhete, que me fez vir at� aqui, como um palerma, e me entregar em suas m�os.</p><p>Um carro havia chegado enquanto o americano falava. Dois policiais uniformizados estavam sentados l� dentro. O inspetor Martin levantou-se e bateu no ombro do seu prisioneiro.</p><p>� � hora de irmos.</p><p>� Posso v�-la primeiro?</p><p>� N�o, ela n�o est� consciente, sr. Sherlock Holmes, s� espero que, se me aparecer novamente um caso importante, eu tenha a sorte de contar com o senhor a meu lado.</p><p>Vimos da janela a partida do cabriol�. Quando me virei, vi o peda�o de papel que o prisioneiro jogara sobre a mesa. Era o bilhete com o qual Holmes o atra�ra.</p><p>� Veja se consegue l�-la, Watson � disse, com um sorriso.</p><p>N�o continha nenhuma palavra, mas esta fila de homenzinhos dan�antes:</p><p><image l:href="#2"/></p><p>� Se usar o c�digo que eu expliquei � disse Holmes �, descobrir� que significa simplesmente ��.* Eu estava certo de que era um convite que ele n�o recusaria, pois nunca imaginaria que pudesse vir de algu�m que n�o fosse a senhora. E assim, meu caro Watson, acabamos desviando os homenzinhos dan�antes para o bem, depois de terem sido com freq��ncia agentes do mal, e acho que cumpri minha promessa de lhe dar algo incomum para o seu caderno. Nosso trem � �s 15:40h, e acho que estaremos de volta a Baker Street para o jantar.</p><p>Apenas uma palavra de ep�logo. O americano, Abe Slaney, foi condenado � morte numa sess�o de inverno do tribunal superior, em Norwich, mas sua pena foi transformada em trabalhos for�ados em considera��o �s circunst�ncias atenuantes e � certeza de que Hilton Cubitt atirou primeiro. Da sra. Hilton Cubitt s� sei que se recuperou completamente, e que ainda permanece vi�va, dedicando sua vida a cuidar dos pobres e administrando as propriedades do marido.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura da ciclista solit�ria</strong></p><p>Entre os anos de 1894 e 1901, o sr. Sherlock holmes foi um homem muito ocupado. Pode-se dizer com certeza que n�o houve nenhum caso p�blico de alguma dificuldade em que ele n�o tenha sido consultado durante esses oito anos, e houve centenas de casos particulares, alguns deles extremamente intrincados e extraordin�rios, nos quais teve uma participa��o importante. Muitos �xitos surpreendentes e algumas derrotas inevit�veis foram o resultado desse longo per�odo de trabalho cont�nuo. Como guardei muitas anota��es detalhadas de todos esses casos, e eu mesmo participei de muitos deles, pode-se imaginar que n�o � uma tarefa muito f�cil saber qual selecionar para apresentar ao p�blico. Mas devo manter minha regra b�sica, e dar prefer�ncia aos casos cujo interesse decorre da engenhosidade e da qualidade dram�tica da solu��o, e n�o tanto da brutalidade do crime. Por este motivo vou apresentar ao leitor os fatos ligados �</p><p>srta. Violet Smith, a ciclista solit�ria de Charlington, e a seq��ncia curiosa de nossa investiga��o, que culminou numa trag�dia inesperada. � verdade que a situa��o n�o admitiu nenhuma demonstra��o not�vel dos poderes pelos quais meu amigo era famoso, mas havia alguns detalhes a respeito do caso que o fizeram se destacar naqueles longos registros de crimes, dos quais recolhi material para estas pequenas narrativas.</p><p>Procurando no meu caderno, descobri que foi num s�bado, dia 23 de abril de 1895, que ouvimos falar pela primeira vez da srta. Violet Smith. Sua visita foi, lembro-me, extremamente inconveniente para Holmes, porque naquele momento ele estava imerso num problema complicado e obscuro, relativo � estranha persegui��o que John Vincent Harden, o conhecido milion�rio do tabaco, vinha sofrendo. Meu amigo, que amava acima de tudo a precis�o e a concentra��o de pensamento, se ressentia de tudo que distra�sse sua aten��o do assunto em que estivesse envolvido. Mesmo assim, sem a aspereza que era estranha a seu temperamento, era imposs�vel recusar-se a ouvir a hist�ria da bela jovem, alta, graciosa e majestosa, que se apresentou na Baker Street tarde da noite e implorou sua ajuda e conselho. Foi in�til dizer que seu tempo j� estava todo tomado, pois a jovem viera determinada a contar sua hist�ria, e era evidente que nenhum tipo de press�o a faria sair da sala antes que o fizesse. Com ar resignado e um sorriso um tanto cansado, Holmes pediu � bela intrusa que se sentasse e nos contasse o que a estava afligindo.</p><p>� Pelo menos n�o pode ser sua sa�de � disse, enquanto seus olhos penetrantes a examinavam �; ciclista t�o ardorosa, deve estar cheia de energia.</p><p>Ela olhou surpresa para os pr�prios p�s, e eu notei um ligeiro arranhado do lado da sola, causado pela fric��o da ponta do pedal.</p><p>� Sim, eu ando muito de bicicleta, sr. Holmes, e isto tem algo a ver com a minha visita de hoje.</p><p>Meu amigo pegou a m�o nua da dama e a examinou com tanta aten��o e t�o pouca emo��o quanto um cientista demonstraria em rela��o a um esp�cime.</p><p>� Vai me desculpar, tenho certeza. � o meu neg�cio � disse, enquanto a soltava. � Quase ca� no erro de supor que voc� praticava datilografia. � claro, � �bvio que � m�sica. Voc� notou as pontas dos dedos espatuladas, Watson, comuns �s duas profiss�es? Mas existe uma espiritualidade no rosto � ela gentilmente o virou para a luz � que uma datil�grafa n�o tem. Esta dama � uma musicista.</p><p>� Sim, sr. Holmes, eu ensino m�sica.</p><p>� No campo, presumo, pela sua complei��o.</p><p>� Sim, senhor, perto de Farnham, nos limites de Surrey.</p><p>� Uma bela regi�o, e cheia das associa��es mais interessantes. Voc� deve se lembrar, Watson, foi l� perto que pegamos Archie Stamford, o falsificador. Agora, srta. Violet, o que lhe aconteceu perto de Farnham, nos limites de Surrey?</p><p>A jovem, com grande clareza e calma, fez o seguinte relato:</p><p>� Meu pai j� morreu, sr. Holmes. Era James Smith, que regia a orquestra no velho Teatro Imperial. Minha m�e e eu ficamos sem um parente no mundo, a n�o ser um tio, Ralph Smith, que foi para a �frica h� 25 anos e desde ent�o nunca mais ouvimos falar dele. Quando meu pai morreu, ficamos muito pobres, mas um dia nos disseram que havia um an�ncio no Times pedindo o nosso endere�o. Pode imaginar como ficamos alegres, pois pensamos que algu�m nos deixara uma fortuna. Fomos procurar o advogado, cujo nome estava no jornal. L� encontramos dois cavalheiros, o sr. Carruthers e o sr. Woodley, que voltavam de uma visita � �frica do Sul. Disseram que o meu tio era amigo deles, que ele falecera alguns meses antes na maior mis�ria, em Joanesburgo, e que lhes solicitara, como �ltimo pedido, que procurassem seus parentes para ver se n�o passavam necessidades. Achamos estranho que o tio Ralph, que n�o ligara para n�s enquanto estava vivo, se preocupasse conosco depois de morto, mas o sr. Carruthers explicou que o motivo era que meu tio acabara de saber da morte de seu irm�o, e se sentiu respons�vel pelo nosso destino.</p><p>� Com licen�a � disse Holmes. � Quando foi essa entrevista?</p><p>� Em dezembro, quatro meses atr�s.</p><p>� Por favor, prossiga.</p><p>� O sr. Woodley me pareceu ser uma pessoa abomin�vel. Estava sempre olhando para mim � um homem ordin�rio, de barba vermelha e rosto gordo, com o cabelo grudado nos dois lados da testa. Achei-o detest�vel � e tenho certeza de que Cyril n�o gostaria que eu conhecesse uma pessoa assim.</p><p>� Oh, Cyril � o nome dele! � disse Holmes, sorrindo.</p><p>A jovem ficou vermelha e riu.</p><p>� Sim, sr. Holmes, Cyril Morton, um engenheiro eletricista, e esperamos nos casar no fim do ver�o. Meu Deus, como consegui come�ar a falar sobre ele? O que quis dizer � que o sr. Woodley era absolutamente odioso, mas o sr. Carruthers, que era um homem muito mais velho, era mais agrad�vel. Era uma pessoa silenciosa, p�lida e sem barba, tinha maneiras polidas e um sorriso am�vel. Perguntou em que situa��o t�nhamos sido deixadas e, ao saber que �ramos pobres, sugeriu que eu fosse dar aulas de m�sica para sua filha �nica, de 10 anos. Eu disse que n�o gostaria de deixar minha m�e, e ele sugeriu ent�o que eu fosse para casa todo fim de semana, e me ofereceu 100 libras por ano, o que certamente era um espl�ndido pagamento. Ent�o acabei aceitando, e fui para a Granja Chiltern, a cerca de 10 quil�metros de Farnham. O sr. Carruthers era vi�vo, mas empregara uma governanta, uma pessoa idosa muito respeit�vel, chamada sra. Dixon, para tomar conta de sua casa. A crian�a era um amor e tudo parecia promissor. O sr. Carruthers era muito gentil e musical, e passamos noites muito agrad�veis juntos. Todo fim de semana eu ia para casa, ficar com minha m�e na cidade.</p><p>� A primeira brecha na minha felicidade foi a chegada do sr. Woodley, do bigode vermelho. Veio para uma visita de uma semana, e oh! pareceram tr�s meses para mim. Era uma pessoa desagrad�vel � arrogante com todos, mas para mim infinitamente pior. Apaixonou-se por mim, e manifestava o seu amor de modo abomin�vel, vangloriava-se de sua riqueza, disse que se me casasse com ele, poderia ter os melhores diamantes de Londres, e finalmente, quando viu que eu n�o teria nada com ele, agarrou-me um dia depois do jantar � ele era terrivelmente forte � e jurou que n�o me deixaria sair at� que o beijasse. O sr. Carruthers entrou e o afastou de mim, e ele ent�o agrediu seu anfitri�o, dando-lhe um soco e cortando o seu rosto. Esse foi o final da visita dele, como pode imaginar. O sr. Carruthers me pediu desculpas no dia seguinte e me garantiu que eu n�o ficaria exposta novamente a um insulto desses. Desde ent�o n�o vi mais o sr. Woodley.</p><p>� E agora, sr. Holmes, cheguei afinal ao motivo especial que me fez vir pedir o seu conselho hoje. Deve saber que todo s�bado de manh� vou de bicicleta at� a esta��o Farnham, para pegar o trem das 12:22h para a cidade. A estrada da Granja Chiltern � muito deserta, principalmente num certo ponto, pois fica a mais de 1 quil�metro entre Charlington Heath, de um lado, e os bosques que circundam Charlington Hall, de outro. N�o existe um trecho de estrada mais ermo, e � muito raro encontrar-se pelo menos uma carro�a ou um campon�s, at� que se chegue � estrada principal, perto de Crooksbury Hill. Duas semanas atr�s eu estava passando por esse lugar, quando olhei por acaso por cima do ombro e vi, a cerca de 200 metros atr�s de mim, um homem tamb�m de bicicleta. Parecia ser de meia-idade, com uma barba curta e escura. Antes de chegar a Farnham, olhei para tr�s, mas o homem tinha sumido, e n�o pensei mais nisso. Mas pode imaginar como fiquei surpresa, sr. Holmes, quando, na minha volta na segunda-feira, vi o mesmo homem no mesmo trecho da estrada. Meu assombro aumentou quando o incidente ocorreu de novo, exatamente como antes, no s�bado e na segunda-feira seguintes. Ele sempre mantinha dist�ncia e n�o me molestava de modo nenhum, mas ainda assim era muito estranho. Comentei o fato com o sr. Carruthers, que pareceu interessado e me disse que havia pedido um cavalo e uma carruagem, para que no futuro eu n�o tivesse de passar sozinha por essas estradas desertas.</p><p>� O cavalo e a carruagem deviam ter vindo esta semana, mas por algum motivo n�o foram entregues, e novamente tive de pedalar at� a esta��o. Isso foi esta manh�. Pode pensar que olhei em volta quando cheguei a Charlington Heath, e l�, com certeza, estava o homem, exatamente como estivera nas duas �ltimas semanas. Ficava sempre t�o longe de mim que n�o podia ver direito seu rosto, mas era com certeza algu�m que eu n�o conhecia. Estava vestido com um terno escuro e um bon� de pano. A �nica coisa em seu rosto que podia ver claramente era a sua barba escura. Hoje n�o fiquei alarmada, mas cheia de curiosidade, e determinada a descobrir quem ele era e o que queria. Desacelerei minha bicicleta, mas ele tamb�m o fez. Ent�o parei de repente, mas ele tamb�m parou. Resolvi preparar uma armadilha para ele. H� uma curva fechada na estrada, e pedalei muito depressa nela, e ent�o parei e esperei. Esperava que ele fizesse a curva e passasse por mim antes de conseguir parar. Mas ele n�o apareceu. Voltei e olhei pela curva. Podia ver 1 quil�metro de estrada, mas ele n�o estava ali. Para tornar a coisa ainda mais incr�vel, n�o existe nenhuma estrada secund�ria neste ponto, por onde ele pudesse ter entrado.</p><p>Holmes exultou e esfregou as m�os. � Este caso com certeza apresenta algumas caracter�sticas espec�ficas � disse. � Quanto tempo decorreu entre o momento em que voc� fez a curva e a sua descoberta de que a estrada estava vazia?</p><p>� Dois ou tr�s minutos.</p><p>� Ent�o ele n�o poderia ter voltado pela estrada, e voc� diz que n�o existe nenhuma estrada secund�ria?</p><p>� Nenhuma.</p><p>� Ent�o ele com certeza tomou uma trilha de um lado ou do outro.</p><p>� N�o poderia ter sido do lado da mata, porque eu o teria visto!</p><p>� Ent�o, pelo processo de exclus�o, chegamos ao fato de que ele foi na dire��o de Charlington Hall, que, como entendi, fica isolada num dos lados da estrada. Algo mais?</p><p>� Nada, sr. Holmes, a n�o ser que fiquei t�o perplexa que achei que n�o ficaria satisfeita at� v�-lo e obter seu conselho.</p><p>Holmes ficou em sil�ncio por um momento.</p><p>� Onde est� o cavalheiro de quem � noiva? � perguntou por fim.</p><p>� Est� na Companhia El�trica Midland, em Coventry.</p><p>� Ele n�o faria uma visita surpresa a voc�?</p><p>� Oh, sr. Holmes! Como se eu n�o o conhecesse!</p><p>� Voc� teve outros admiradores?</p><p>� V�rios, antes de conhecer Cyril.</p><p>� E depois disso?</p><p>� Houve esse homem horr�vel, Woodley, se puder consider�-lo um admirador.</p><p>� Ningu�m mais?</p><p>Nossa bela cliente pareceu um tanto confusa.</p><p>� Quem era ele? � perguntou Holmes.</p><p>� Oh, pode ser uma mera fantasia de minha parte; mas me pareceu algumas vezes que o meu patr�o, sr. Carruthers, se interessa muito por mim. Convivemos com alguma intimidade. Tenho a sua companhia � noite. Ele nunca disse nada. � um perfeito cavalheiro. Mas uma garota sempre sabe.</p><p>� Ah! � Holmes parecia s�rio. � Do que ele vive?</p><p>� � um homem rico.</p><p>� Sem carruagem nem cavalos?</p><p>� Bem, pelo menos est� bem de vida. Mas vai � cidade duas ou tr�s vezes por semana. Est� profundamente interessado no neg�cio de ouro da �frica do Sul.</p><p>� Voc� nos avisar� de qualquer fato novo, srta. Smith. Estou muito ocupado agora, mas arranjarei tempo para fazer algumas investiga��es sobre o seu caso. Enquanto isso, n�o fa�a nada antes de me avisar. Adeus, e creio que s� teremos boas not�cias de voc�.</p><p>� � parte da ordem da natureza que uma garota como essa tenha seguidores � disse Holmes, enquanto fumava, pensativo, o seu cachimbo �, mas n�o em bicicletas em estradas desertas do campo. Algum apaixonado secreto, sem d�vida. Mas h� detalhes curiosos e sugestivos nesse caso, Watson.</p><p>� Que ele s� apare�a naquele trecho?</p><p>� Exatamente. Nossa primeira provid�ncia ser� descobrir quem s�o os donos de Charlington Hall. E sobre a liga��o entre Carruthers e Woodley, j� que parecem ser homens de tipos t�o diferentes. Por que ambos estavam t�o interessados em procurar os parentes de Ralph Smith? Mais um detalhe. Que esp�cie de fam�lia � esta que paga o dobro do pre�o normal a uma governanta mas n�o tem um cavalo, embora more a 10 quil�metros da esta��o? Estranho, Watson � muito estranho!</p><p>� Ir� at� l�?</p><p>� N�o, meu caro amigo, voc� ir� at� l�. Isto pode ser alguma intriga sem import�ncia, e eu n�o posso parar minha outra pesquisa importante por causa desta. Na segunda-feira, voc� chegar� bem cedo em Farnham; ir� esconder-se perto de Charlington Heath; observar� os fatos por si mesmo e agir� segundo o seu pr�prio julgamento. Ent�o, depois de obter informa��es sobre os ocupantes do Hall, voltar� e me contar� tudo. E agora, Watson, nem uma palavra sobre o assunto at� que tenhamos algumas rochas s�lidas onde possamos pisar para encontrar uma solu��o.</p><p>Verificamos com a mo�a que ela tomava, na segunda-feira, o trem que sa�a de Waterloo �s 9:50h; ent�o, sa� cedo e peguei o de 9:13h. Em Farnham, n�o tive dificuldade para saber onde ficava Charlington Heath. Era imposs�vel errar o local da aventura da jovem, pois a estrada passa entre o campo aberto de um lado e um velho bosque de teixos do outro, circundando um parque cheio de �rvores magn�ficas. Havia um port�o principal de pedras cobertas de musgo, cada pilar lateral encimado por emblemas her�ldicos emoldurados, mas al�m dessa passagem central para carruagens, observei muitos pontos onde havia falhas na sebe e trilhas que passavam por elas. A casa era invis�vel da estrada, mas os arredores mostravam tristeza e decad�ncia.</p><p>O campo tinha moitas douradas de tojos floridos, brilhando magnificamente sob a luz do sol da primavera. Fiquei atr�s de uma dessas moitas, a fim de poder ver tanto o port�o da casa como um bom peda�o da estrada de cada lado. Estava deserta quando sa� dela, mas agora eu via um ciclista vindo na dire��o oposta daquela por onde eu havia chegado. Estava vestido com um terno escuro, e notei que tinha uma barba negra. Chegando ao final do terreno de Charlington, pulou da bicicleta e entrou por uma abertura na sebe, desaparecendo de minha vista.</p><p>Quinze minutos depois um segundo ciclista apareceu. Desta vez era a jovem, que vinha da esta��o. Eu a vi olhar em volta ao chegar � sebe de Charlington. Um instante depois o homem surgiu de seu esconderijo, pulou na sua bicicleta e a seguiu. Em todo o vasto campo, estas eram as �nicas figuras m�veis, a graciosa garota sentada bem reta em seu ve�culo, e o homem atr�s dela, curvando-se sobre o guidom com um tra�o curiosamente furtivo em cada movimento. Ela olhou para tr�s e diminuiu a velocidade. Ele diminuiu tamb�m. Ela parou. Ele tamb�m parou na mesma hora, mantendo a dist�ncia de 200 metros atr�s dela. O movimento seguinte dela foi t�o inesperado quanto inteligente. De repente, ela fez a volta e correu na dire��o dele. Mas ele foi t�o r�pido quanto ela e saiu correndo numa fuga desesperada. Ent�o ela voltou � estrada, sua cabe�a altiva no ar, n�o se dignando a tomar conhecimento de seu admirador silencioso. Ele tamb�m se virara, e ainda mantinha a mesma dist�ncia at� que a curva da estrada os escondeu de minha vista.</p><p>Continuei no meu esconderijo, e foi bom ter feito isso, pois logo depois o homem reapareceu, pedalando de volta, lentamente. Entrou no port�o do Hall e desmontou da bicicleta. Durante alguns minutos pude v�-lo de p� entre as �rvores. Suas m�os estavam erguidas e ele dava a impress�o de estar ajeitando a gravata. Depois montou na bicicleta e se afastou de onde eu estava, pelo caminho que ia na dire��o do Hall. Corri pelo campo e olhei por entre as �rvores. L� longe eu podia vislumbrar o velho pr�dio cinzento, com suas chamin�s Tudor, mas o caminho passava por entre uns arbustos densos, e n�o vi mais o ciclista.</p><p>Entretanto, achei que j� tinha feito um bom trabalho naquela manh�, e voltei contente para Farnham. O corretor de im�veis local n�o p�de me dizer nada sobre Charlington Hall, e me recomendou uma firma conhecida em Pall Mall. Parei ali quando voltava para casa, e esbarrei na polidez do representante. N�o, n�o poderia ter Charlington Hall para o ver�o. Eu chegara atrasado. Fora alugada um m�s atr�s. Sr. Williamson era o nome do locat�rio. Era um cavalheiro idoso e respeit�vel. O agente, muito gentil, lamentava n�o poder dizer mais nada, porque os neg�cios dos clientes eram assuntos que ele n�o podia comentar.</p><p>Sherlock Holmes ouviu com aten��o o longo relato que lhe apresentei naquela noite, mas n�o fez o elogio que eu esperava e merecia. Ao contr�rio, seu rosto austero estava mais severo que de costume enquanto comentava as coisas que eu fizera e as que eu n�o havia feito.</p><p>� Seu esconderijo, meu caro Watson, era muito impr�prio. Deveria ter ficado atr�s da sebe, de onde poderia ter uma vis�o melhor desta pessoa interessante. Mas ficou a algumas centenas de metros, e p�de me contar menos ainda que a srta. Smith. Ela acha que n�o conhece o homem; estou convencido de que sim. Do contr�rio, por que ele estaria t�o ansioso para que ela n�o chegasse suficientemente perto para que visse suas fei��es? Voc� o descreveu como curvado sobre o guidom. Disfarce novamente, como v�. Voc� se saiu incrivelmente mal. Ele volta � casa e voc� quer descobrir quem ele �. Vai, ent�o, a um corretor de im�veis em Londres!</p><p>� O que eu deveria ter feito? � exclamei, um tanto exasperado.</p><p>� Ido ao bar mais pr�ximo. � o centro dos mexericos no campo. Eles lhe teriam dito todos os nomes, do patr�o � cozinheira. Williamson? N�o me diz nada. Se � um homem idoso, n�o pode ser este ciclista �gil que foge t�o depressa da persegui��o atl�tica da jovem. O que conseguimos com a sua expedi��o? A confirma��o de que a hist�ria da garota � verdadeira. Nunca duvidei disso. Que existe uma liga��o entre o ciclista e o Hall. Nunca duvidei disso tamb�m. Que o Hall � alugado por Williamson. De que adianta isso? Ora, ora, meu caro, n�o se sinta t�o deprimido. Poderemos descobrir um pouco mais at� o pr�ximo s�bado, e enquanto isso farei uma ou duas pesquisas por minha conta.</p><p>Na manh� seguinte, recebemos um bilhete da srta. Smith, recontando resumida e detalhadamente os incidentes que eu vira, mas a ess�ncia da carta estava no p�s-escrito:</p><empty-line/><p>Tenho certeza de que respeitar� minha confid�ncia, sr. Holmes, quando lhe contar que a minha situa��o aqui ficou dif�cil, devido ao fato de que meu empregador me prop�s casamento. Estou convencida de que seus sentimentos s�o os mais profundos e nobres. Ao mesmo tempo, � claro, estou comprometida. Encarou minha recusa com seriedade, mas tamb�m muito gentilmente. Entretanto, pode compreender que a situa��o est� um pouco tensa.</p><empty-line/><p>� Parece que nossa jovem amiga est� se metendo em dificuldades � disse Holmes, pensativo, ao terminar a carta. O caso apresenta mais �ngulos de interesse e mais possibilidades de desenvolvimento do que eu havia pensado a princ�pio. N�o me faria mal nenhum um dia calmo e pac�fico no campo, e estou disposto a ir l� esta tarde e testar uma ou duas teorias que formulei.</p><p>O dia calmo de Holmes no campo teve um final singular, pois voltou a Baker Street tarde da noite, com o l�bio cortado e um galo na testa, al�m de um ar de dispers�o geral que faria dele um objeto de estudo adequado a uma investiga��o da Scotland Yard. Estava deliciado com suas pr�prias aventuras e ria com gosto ao recont�-las.</p><p>� Fa�o t�o pouco exerc�cio, que � sempre uma amea�a � disse. � Voc� sabe que tenho alguma habilidade no velho e bom esporte ingl�s do boxe. Ocasionalmente, � �til; hoje, por exemplo, eu teria chegado a um humilhante malogro se n�o fosse ele.</p><p>Implorei-lhe que me contasse o que acontecera.</p><p>� Descobri o tal bar no campo que recomendara a voc�, e l� fiz algumas perguntas discretas. Eu estava no bar, e o dono tagarela ia me contando tudo o que eu queria. Williamson � um homem de barbas brancas, e vive sozinho com poucos criados no Hall. Dizem que � ou foi um cl�rigo, mas um ou dois incidentes em sua curta estada no Hall me impressionaram por serem tipicamente n�o-eclesi�sticos. J� fiz algumas perguntas numa ag�ncia clerical, e me disseram que havia um homem com esse nome na classe, cuja carreira tinha sido especialmente sombria. O taberneiro tamb�m me informou que geralmente h� visitas nos fins de semana � �um bando de ricos, senhor� � no Hall, e especialmente um cavalheiro com bigode vermelho, chamado sr. Woodley, que estava sempre l�. T�nhamos chegado neste ponto quando entra ningu�m menos que o pr�prio cavalheiro, que estivera bebendo sua cerveja no sal�o do bar e ouvira toda a nossa conversa. Quem era eu? O que eu queria? Por que estava fazendo perguntas? Sua conversa era bem fluente e seus adjetivos, bem fortes. Terminou a s�rie de desaforos com uma bofetada trai�oeira, que n�o consegui evitar totalmente. Os minutos seguintes foram deliciosos. Foi um direto de esquerda contra um valent�o forte. Sa� dessa como me v�. O sr. Woodley foi para casa de carro�a. Assim terminou minha viagem pelo campo, e devo confessar que, embora agrad�vel, meu dia �s margens de Surrey n�o foi muito mais proveitoso que o seu.</p><p>A quinta-feira nos trouxe outra carta de nossa cliente.</p><empty-line/><p>N�o se surpreender�, sr. Holmes [dizia ela], ao saber que estou deixando o emprego do sr. Carruthers. Nem mesmo o sal�rio alto pode amenizar o desconforto da minha situa��o. No s�bado vim para</p><p>a cidade e n�o pretendo voltar. O sr. Carruthers comprou uma charrete, e agora os perigos da estrada deserta, se � que havia algum perigo, se acabaram.</p><p>A causa principal da minha sa�da n�o � apenas a situa��o tensa com o sr. Carruthers, mas o reaparecimento daquele homem abomin�vel, o sr. Woodley. Sempre foi horr�vel, mas parece mais medonho do que nunca, pois d� a impress�o de ter sofrido um acidente e est� muito desfigurado. Eu o vi pela janela, mas alegro-me em dizer que n�o estive com ele. Teve uma longa conversa com o sr. Carruthers, que parecia estar muito nervoso depois. Woodley deve estar nas vizinhan�as, pois n�o dormiu aqui, e ainda assim o vi de relance esta manh�, andando furtivamente entre os arbustos. Eu preferia que houvesse um animal selvagem solto por aqui. Eu o odeio e tenho mais medo dele do que consigo dizer. Como o sr. Carruthers pode ag�entar essa criatura por um momento sequer? Mas todos os meus problemas ir�o terminar s�bado.</p><empty-line/><p>� Assim espero, Watson, assim espero � disse Holmes gravemente. � H� uma grande intriga rondando essa mulher, e � nosso dever cuidar para que ningu�m a moleste at� a sua �ltima viagem. Acho, Watson, que devemos ir at� l� juntos no s�bado de manh� para nos certificarmos de que esta investiga��o curiosa n�o tenha um final desagrad�vel.</p><p>Confesso que at� ent�o eu n�o achava que o caso me parecera mais grotesco e bizarro do que perigoso. Que um homem ficasse � espreita e seguisse uma mulher muito bonita n�o � uma coisa in�dita, e se ele tinha t�o pouca aud�cia que n�o ousava se dirigir a ela, mas at� fugia dela, n�o seria um atacante muito terr�vel. O valent�o Woodley era uma pessoa muito diferente, mas, exceto em uma ocasi�o, n�o molestara nossa cliente, e agora visitara a casa de Carruthers sem incomod�-la. O homem na bicicleta era, sem d�vida, um integrante dos grupos de fim de semana no Hall, dos quais o taberneiro falara, mas quem era ele ou o que seria, isto continuava a ser um mist�rio. Foi a severidade da atitude de Holmes e o fato de que enfiara um rev�lver no bolso antes de sairmos de casa que me impressionaram, com a sensa��o de que poderia haver uma trag�dia por tr�s desta curiosa seq��ncia de acontecimentos.</p><p>A noite chuvosa foi seguida de uma manh� l�mpida, e o campo coberto de grama, com os exuberantes tufos de tojo em flor, parecia ainda mais bonito aos olhos de quem estava cansado das tonalidades cinzentas de Londres. Holmes e eu caminhamos pela estrada larga e poeirenta aspirando o ar fresco da manh�</p><p>e nos deleitamos com o canto dos p�ssaros e com a brisa fresca da primavera. De um lugar mais elevado da estrada perto de Croksbury Hill, pod�amos ver o Hall sombrio aparecendo em meio aos velhos carvalhos, que, mesmo velhos, ainda eram mais novos que a constru��o que circundavam. Holmes apontou para o longo trecho da estrada que serpenteava, uma faixa amarelo-avermelhada, entre o marrom do campo e o verde que brotava nos bosques. Ao longe, um ponto negro, pod�amos ver um ve�culo se movendo em nossa dire��o. Holmes soltou uma exclama��o de impaci�ncia.</p><p>� Eu dei uma margem de meia hora � disse. � Se aquela � a sua charrete, ela deve estar indo tomar o trem mais cedo. Receio, Watson, que passe por Charlington antes de podermos nos encontrar com ela.</p><p>A partir do instante em que passamos deste ponto elevado, n�o consegu�amos mais ver a charrete, mas andamos t�o depressa que a minha vida sedent�ria come�ou a se revelar, e eu fui obrigado a ficar para tr�s. Mas Holmes estava sempre em forma, pois tinha estoques inesgot�veis de energia nervosa aos quais recorrer. Seu passo el�stico nunca diminu�a at� que de repente, quando estava a uns 100 metros � minha frente, parou, e eu o vi erguer a m�o num gesto de dor e desespero. No mesmo instante uma carruagem vazia, com o cavalo a meio galope, as r�deas ca�das, apareceu na curva da estrada, avan�ando ruidosa e rapidamente na nossa dire��o.</p><p>� Tarde demais, Watson, tarde demais! � exclamou Holmes, enquanto eu corria ofegante para o seu lado. � Como eu fui idiota por n�o ter pensado no primeiro trem da manh�! Isto � rapto, Watson, rapto! Assassinato! Os c�us sabem disso! Bloqueie a estrada! Pare o cavalo! Isso mesmo. Agora, pule para dentro e vamos ver se posso reparar as conseq��ncias do meu erro.</p><p>T�nhamos pulado para dentro da carruagem, e Holmes, depois de fazer virar o cavalo, deu-lhe uma chicotada e voamos de volta pela estrada. Ao fazermos a curva, todo o trecho da estrada entre o Hall e o campo estava vazio. Segurei o bra�o de Holmes.</p><p>� Aquele � o homem! � exclamei.</p><p>Um ciclista solit�rio vinha vindo em nossa dire��o. Sua cabe�a estava abaixada e os ombros curvados, enquanto punha toda a sua energia nos pedais. Corria como um atleta. De repente, ergueu o rosto barbado, viu que est�vamos bem perto e pulou fora do ve�culo. A barba negra contrastava estranhamente com a palidez do rosto, e seus olhos estavam brilhantes como se estivesse com febre. Olhou para n�s e para a charrete. Ent�o seu rosto mostrou uma express�o de espanto.</p><p>� Ei! Pare a�! � gritou ele, segurando sua bicicleta para bloquear nosso caminho. � Onde conseguiram essa charrete? Salte, homem! � gritou, tirando uma pistola de um bolso lateral. � Salte, j� disse, ou meterei uma bala no seu cavalo.</p><p>Holmes jogou as r�deas no meu colo e pulou da charrete.</p><p>� Voc� � o homem que quer�amos ver. Onde est� a srta. Violet Smith? � disse com sua maneira r�pida e clara.</p><p>� � o que pergunto a voc�. Est� na charrete dela. Deve saber onde ela est�.</p><p>� Encontramos a charrete na estrada. N�o havia ningu�m nela. Voltamos para ajudar a jovem.</p><p>� Bom Deus! Bom Deus! O que farei? � exclamou o estranho num acesso de desespero. � Eles a capturaram, aquele c�o maldito Woodley e o vig�rio indecente. Venha, homem, venha, se � amigo dela de verdade. Siga-me e a salvaremos, mesmo que tenha de deixar minha carca�a na floresta de Charlington.</p><p>Correu enfurecido, de pistola na m�o, para uma abertura na sebe. Holmes o seguiu, e eu, depois de deixar o cavalo pastando ao lado da estrada, fui atr�s de Holmes.</p><p>� Foi por aqui que eles passaram � disse ele, apontando para as marcas de v�rios p�s na trilha cheia de lama � Ei! Parem um instante! Quem � este na moita?</p><p>Era um garoto de cerca de 17 anos, vestido como mo�o de estrebaria, com tiras de couro e galochas. Estava deitado de costas, os joelhos para cima e um corte horr�vel na cabe�a. Inconsciente, mas vivo. Uma olhada no ferimento me deu a certeza de que n�o havia penetrado o osso.</p><p>� Este � Peter, o rapaz da estrebaria! � exclamou o estranho. � Era ele que levava a mo�a. Os monstros o jogaram para fora e lhe deram pauladas. Deixem-no a�; n�o podemos ajud�-lo, mas podemos salv�-la do pior destino que uma mulher pode ter.</p><p>Corremos como loucos pela trilha, que passava por entre as �rvores. T�nhamos chegado ao bosque que cercava a casa quando Holmes parou.</p><p>� N�o foram para a casa. Aqui est�o suas marcas para a esquerda � aqui, ao lado das moitas de louro. Ah! Exatamente como eu disse.</p><p>Quando falou, ouvimos um grito agudo de mulher � um grito que vibrava com um frenesi de horror � que vinha do amontoado de arbustos verdes e densos � nossa frente. Terminou repentinamente em sua nota mais alta, com um engasgo e um gorgolejo.</p><p>� Por aqui! Por aqui! Est�o no campo de boliche! � exclamou o estranho, correndo por entre os arbustos. � Ah, c�es covardes! Sigam-me, cavalheiros! Tarde demais! Tarde demais! Pelo amor de Deus!</p><p>Chegamos de repente a uma bonita clareira gramada circundada por �rvores antigas. Na outra extremidade, sob a sombra de um enorme carvalho, estava um grupo de tr�s pessoas. Uma delas era uma mulher, nossa cliente, curvada e p�lida, um len�o tapando sua boca. Diante dela estava um jovem de bigode vermelho, brutal e de rosto cruel, as pernas com perneiras bem separadas, uma m�o no quadril, a outra balan�ando o cabo de um chicote, e toda a sua atitude sugeria uma fanfarronice triunfante. Entre eles, um velho de barba cinza, vestindo uma sobrepeliz curta sobre um terno claro de tweed, tinha, evidentemente, celebrado a cerim�nia de casamento, porque colocou no bolso o seu missal quando aparecemos, e dera um tapinha de congratula��es nas costas do noivo sinistro.</p><p>� Est�o casados? � gaguejei.</p><p>� Venham! � exclamou nosso guia; � venham! � Ele correu pela clareira, Holmes e eu atr�s dele. Quando nos aproximamos, a mulher cambaleou at� o tronco da �rvore para se apoiar. Williamson, o ex-cl�rigo, inclinou a cabe�a para n�s com uma polidez ir�nica, e o pulha, Woodley, avan�ou para n�s com uma sonora gargalhada, brutal e exultante.</p><p>� Pode tirar sua barba, Bob � disse. � Eu o conhe�o muito bem. Ora, voc� e seus amigos chegaram bem a tempo de apresent�-los � sra. Woodley.</p><p>A resposta do nosso guia foi singular. Tirou a barba escura que servia de disfarce e a jogou no ch�o, descobrindo um rosto comprido, moreno e barbeado. Ent�o ergueu seu rev�lver e o apontou para o jovem valent�o, que avan�ava para ele com o perigoso chicote balan�ando na m�o.</p><p>� Sim � disse nosso aliado �, eu sou Bob Carruthers, e verei esta mulher livre mesmo que tenha de lutar por isso. Eu lhe disse o que faria se voc� a molestasse, e, por Deus!, cumprirei minha palavra.</p><p>� Est� atrasado. Ela � minha esposa.</p><p>� N�o, ela � sua vi�va.</p><p>Seu rev�lver disparou, e vi o sangue jorrar da frente do colete de Woodley, que girou com um grito e caiu de costas; seu horr�vel rosto vermelho mudando repentinamente para uma manchada palidez mortal. O velho, ainda usando sua sobrepeliz, explodiu numa s�rie de blasf�mias s�rdidas como jamais ouvira, e puxou seu pr�prio rev�lver, mas antes que pudesse levant�-lo, estava olhando para o cano da arma de Holmes.</p><p>� Basta � disse meu amigo com frieza. � Largue essa pistola! Watson, pegue-a! Aponte-a para a cabe�a dele! Obrigado. Voc�, Carruthers, d�-me esse rev�lver. N�o teremos mais viol�ncia. Vamos, largue-o.</p><p>� Mas, quem s�o voc�s?</p><p>� Meu nome � Sherlock Holmes.</p><p>� Meu Deus!</p><p>� J� ouviu falar de mim, pelo que vejo. Representarei a pol�cia oficial at� que ela chegue. Aqui, voc�! � gritou para um amedrontado rapaz de estrebaria</p><p>que aparecera na extremidade da clareira. � Venha aqui. Leve este bilhete o mais depressa poss�vel a Farnham. � Rabiscou algumas palavras numa folha de seu caderno. � Entregue-a ao superintendente na delegacia. At� que ele venha, devo deter todos voc�s sob minha cust�dia pessoal.</p><p>A personalidade forte e imperiosa de Holmes dominou a tr�gica cena, e todos eram fantoches nas suas m�os. Williamson e Carruthers carregaram Woodley ferido at� a casa, e dei o bra�o � mo�a amedrontada. O homem ferido foi deitado em sua cama, e eu o examinei a pedido de Holmes. Levei meu relat�rio at� o lugar onde ele estava sentado, na velha sala de jantar decorada com tape�arias, com os dois prisioneiros diante dele.</p><p>� Ele viver� � eu disse.</p><p>� O qu�! � exclamou Carruthers, pulando da cadeira. � Vou at� l� em cima acabar de vez com ele. Poderia me dizer se aquela garota, aquele anjo, ficar� ligada a Jack Woodley para sempre?</p><p>� N�o precisa se preocupar com isso � disse Holmes. � Existem duas boas raz�es para que ela n�o seja, sob quaisquer circunst�ncias, esposa dele. Em primeiro lugar, podemos questionar o direito do sr. Williamson de realizar um casamento.</p><p>� Eu fui ordenado! � exclamou o velho patife.</p><p>� E tamb�m destitu�do.</p><p>� Uma vez sacerdote, sempre um sacerdote.</p><p>� N�o acho. E sobre a licen�a?</p><p>� N�s t�nhamos uma licen�a para o casamento. Est� aqui, no meu bolso.</p><p>� Ent�o a conseguiu por meio de trapa�a. Mas, de qualquer modo, um casamento for�ado n�o � um casamento, mas sim um delito muito grave, como descobrir� antes de haver terminado. Vai ter tempo para pensar no assunto nos pr�ximos dez anos ou mais, se n�o me engano. E voc�, Carruthers, faria melhor se deixasse a sua pistola no bolso.</p><p>� Come�o a achar que sim, sr. Holmes, mas quando penso em toda a preocupa��o que tive para proteg�-la � pois eu a amava, sr. Holmes, e foi s� a� que soube o que era o amor �, quase fico louco ao pensar que ela estava em poder do maior bruto e tirano da �frica do Sul � um homem cujo nome inspira um terror sagrado de Kimberley a Joanesburgo. Sr. Holmes, pode n�o acreditar, mas desde que aquela garota � minha empregada nunca deixei que ela passasse por esta casa, onde sabia que os patifes se escondiam, sem segui-la na minha bicicleta, s� para ver que n�o lhe acontecia nada de mal. Mantive dist�ncia dela, usei uma barba para que n�o me reconhecesse, pois � uma menina bondosa e cheia de brio e n�o ficaria mais a meu servi�o se soubesse que a estava seguindo pelas estradas do campo.</p><p>� Por que n�o lhe falou do perigo?</p><p>� Porque ent�o, de novo, ela me deixaria e eu n�o ag�entaria isso. Mesmo que n�o pudesse me amar, j� era muito para mim apenas ver sua graciosa forma pela casa, e ouvir o som da sua voz.</p><p>� Bem � eu disse �, chama isso de amor, sr. Carruthers, mas eu o chamaria de ego�smo.</p><p>� Talvez as duas coisas ao mesmo tempo. De qualquer modo, n�o podia deix�-la ir embora. Al�m disso, com essa turma por a�, era bom que ela tivesse algu�m por perto para proteg�-la. Ent�o, quando o cabograma chegou, soube que eles estavam para fazer uma jogada.</p><p>� Que cabograma?</p><p>Carruthers tirou um papel do bolso.</p><p>� Aqui est� � disse.</p><p>Era curto e conciso:</p><empty-line/><p>O velho est� morto</p><empty-line/><p>�Hum! � disse Holmes. � Acho que sei como as coisas aconteceram, e posso entender como esta mensagem, como disse, os deixou loucos. Mas, enquanto espera, deve me contar o que puder.</p><p>O velho miser�vel de sobrepeliz explodiu numa enxurrada de termos ofensivos.</p><p>� Por Deus! � disse � se nos delatar, Bob Carruthers, farei com voc� o que fez com Jack Woodley. Voc� pode choramingar pela garota para satisfazer seu cora��o, isso � problema seu, mas se denunciar seus companheiros para esse detetive � paisana, vai ser a pior coisa que j� fez.</p><p>� Vossa Rever�ncia n�o precisa ficar excitado � disse Holmes acendendo um cigarro. � O caso est� suficientemente claro contra voc� e tudo o que pe�o s�o alguns detalhes para satisfazer minha pr�pria curiosidade. Contudo, se tiver dificuldade para me contar, eu falarei, e ent�o ver� quanta possibilidade tem de me esconder seus segredos. Em primeiro lugar, tr�s de voc�s vieram da �frica do Sul nesse jogo: voc�, Williamson, voc�, Carruthers, e Woodley.</p><p>� Mentira n�mero um � disse o velho; � nunca vi nenhum deles at� dois meses atr�s e nunca estive na �frica na minha vida; portanto, ponha isso em seu cachimbo e fume-o, sr. Abelhudo Holmes!</p><p>� O que ele diz � verdade � observou Carruthers.</p><p>� Ora, ora, dois de voc�s vieram. O Reverend�ssimo � artigo caseiro. Voc�s conheceram Ralph Smith na �frica do Sul. Tinham motivo para acreditar que ele n�o viveria por muito tempo. Descobriram que sua sobrinha herdaria a fortuna dele. Que tal, hein?</p><p>Carruthers assentiu com a cabe�a e Williamson praguejou.</p><p>� Ela era parente pr�xima, sem d�vida, e voc�s sabiam que o velho n�o faria nenhum testamento.</p><p>� N�o podia ler nem escrever � disse Carruthers.</p><p>� De modo que voc�s vieram, dois de voc�s, e procuraram a garota. A id�ia era que um se casaria com ela e o outro teria uma parte da pilhagem. Por algum motivo, Woodley foi escolhido como marido. Por que foi?</p><p>� Ela foi disputada num jogo de cartas durante a viagem. Ele ganhou.</p><p>� Certo. Voc� contratou a garota e l� na sua casa Woodley faria a corte. Ela percebeu o bruto b�bado que ele era, e nunca se interessaria por ele. Enquanto isso, a combina��o foi atrapalhada pelo fato de que voc� se apaixonara pela mo�a. N�o podia mais suportar a id�ia de que esse valent�o a conquistasse?</p><p>� N�o, por Deus, n�o podia.</p><p>� Houve uma discuss�o entre voc�s dois. Ele ficou furioso e come�ou a fazer os seus pr�prios planos.</p><p>� Fico impressionado, Williamson, porque n�o h� muita coisa para contarmos a este cavalheiro � exclamou Carruthers com uma risada amarga. � Sim, discutimos e ele me bateu. Mas nisso estou no mesmo n�vel que ele. Depois, eu o perdi de vista. Foi quando se juntou a este padre renegado aqui. Descobri que se instalaram neste lugar, bem no caminho da garota para a esta��o. Fiquei de olho nela depois disso, pois havia maldade no ar. Eu os via de vez em quando, porque estava ansioso para saber o que tramavam. Dois dias atr�s, Woodley foi � minha casa com este telegrama, que me fez ver que Ralph Smith estava morto. Perguntou se eu continuaria com o neg�cio. Eu disse que n�o. Perguntou se eu queria me casar com a garota e lhe dar uma parte do dinheiro. Respondi que o faria com prazer mas que ela n�o me queria. Ele disse: �Deixe-nos casar primeiro, e depois de uma semana ou duas ela estar� vendo as coisas de um modo diferente.� Eu disse que n�o queria saber de viol�ncia. Ent�o ele foi embora praguejando, como o cafajeste de boca suja que era, e jurando que ainda a possuiria. Ela ia embora neste fim de semana, e consegui uma charrete para lev�-la � esta��o, mas estava t�o inquieto que a segui de bicicleta. Mas ela j� partira e, antes de conseguir alcan��-la, o mal j� havia sido feito. O primeiro sinal que tive sobre isso foi quando vi os dois cavalheiros de volta com sua carruagem.</p><p>Holmes levantou-se e jogou a ponta do cigarro na lareira.</p><p>� Fui muito est�pido, Watson � disse. � Quando, no seu relat�rio, voc� disse que vira um ciclista, e o vira ajeitando a gravata nas moitas, s� isto deveria ter sido suficiente para mim. Contudo, podemos nos congratular por um caso curioso e, em alguns aspectos, �nico. Vejo tr�s dos policiais no caminho, e fico contente de saber que o rapazinho da estrebaria est� apto a acompanh�-los; portanto, � prov�vel que nem ele nem o interessante noivo estejam prejudicados para sempre por suas aventuras desta manh�. Creio, Watson, que na sua qualidade de m�dico, deve ir ver a srta. Smith e lhe dizer que, se estiver suficientemente recuperada, teremos prazer em escolt�-la at� a casa de sua m�e. Se n�o, descobrir� que a insinua��o de que estamos para telegrafar para um jovem eletricista em Midlands completar� a cura. E o senhor, Carruthers, creio que fez o que podia para redimir-se da sua participa��o numa trama perversa. Aqui est� o meu cart�o, senhor, e se o meu depoimento puder ajud�-lo no julgamento, estar� � sua disposi��o.</p><p>No tumulto de nossa atividade incessante, tem sido em geral dif�cil para mim, como o leitor provavelmente observou, rematar minhas narrativas, e dar aqueles detalhes finais que um curioso esperaria. Cada caso tem sido o prel�dio de outro, e depois de acabada a crise, seus atores saem para sempre de nossas vidas atribuladas. Entretanto, descobri uma nota curta no final de meu manuscrito sobre este caso, na qual registrei que a srta. Violet Smith herdou realmente uma grande fortuna, e que ela � agora a esposa de Cyril Morton, s�cio principal de Morton &amp; Kennedy, os famosos eletricistas de Westminster. Williamson e Woodley foram condenados por rapto e tentativa de agress�o, o primeiro pegando sete anos e o outro, dez. Sobre o destino de Carruthers n�o tenho registro, mas estou certo de que sua agress�o n�o foi considerada muito grave pelo tribunal, j� que era Woodley quem tinha fama de ser um valent�o muito perigoso, e acho que alguns meses foram suficientes para satisfazer a necessidade de justi�a.</p></section><section><p><strong>a aventura da priory school</strong></p><p>Tivemos algumas entradas e sa�das dram�ticas em nosso pequeno palco da Baker Street, mas n�o me lembro de nada mais repentino e surpreendente que a primeira apari��o de Thorneycroft Huxtable, M. A., PhD, etc. Seu cart�o, que parecia pequeno demais para carregar o peso de suas distin��es acad�micas, chegou alguns segundos antes dele, e ent�o ele mesmo entrou � t�o forte, pomposo e s�rio que era a pr�pria personifica��o do autocontrole e da solidez. Mesmo assim, a primeira coisa que fez depois que a porta se fechou atr�s dele foi cambalear at� a mesa e dali escorregou para o ch�o � e l� estava aquela figura majestosa prostrada e inconsciente sobre nosso tapete de pele de urso.</p><p>N�s nos levantamos, e por alguns instantes olhamos com silenciosa surpresa para aquele pesado monte de ru�nas que revelava alguma tempestade repentina e fatal l� longe, no oceano da vida. Ent�o Holmes veio com uma almofada para a sua cabe�a</p><p>e eu com brandy para os seus l�bios. O rosto branco e abatido estava marcado por linhas de preocupa��o, as bolsas salientes sob os olhos fechados eram cor de chumbo, os cantos da boca estavam ca�dos, o queixo roli�o por barbear. O colarinho e a camisa mostravam a sujeira de uma viagem longa, e o cabelo eri�ava-se despenteado na cabe�a bem formada. Era um homem cruelmente ferido que jazia � nossa frente.</p><p>� O que � isso, Watson? � perguntou Holmes.</p><p>� Absoluta exaust�o; possivelmente apenas fadiga e fome � eu disse, com o dedo no pulso delgado, onde a corrente da vida flu�a lenta e fr�gil.</p><p>� Passagem de volta de Mackleton, no norte da Inglaterra � disse Holmes, tirando-a do bolso do rel�gio. � Ainda n�o � meio-dia. Com certeza ele gosta de chegar mais cedo.</p><p>As p�lpebras franzidas come�aram a tremer, e agora um par de olhos cinzentos inexpressivos estava olhando para n�s. Um momento depois o homem se levantou com dificuldade, o� rosto rubro de vergonha.</p><p>� Perdoe-me esta fraqueza, sr. Holmes, tenho estado um pouco sobrecarregado. Agradeceria se me dessem um copo de leite e biscoitos, n�o tenho d�vida de que vou melhorar. Vim pessoalmente, sr. Holmes, para garantir que voltaria comigo. Receava que nenhum telegrama o convenceria da absoluta urg�ncia do caso.</p><p>� Quando estiver completamente recuperado...</p><p>� J� estou bem de novo. N�o posso entender como fiquei t�o fraco. Gostaria, sr. Holmes, que viesse comigo a Mackleton no pr�ximo trem.</p><p>Meu amigo balan�ou a cabe�a.</p><p>� Meu colega, dr. Watson, poderia lhe dizer que estamos muito ocupados no momento. Estou trabalhando neste caso dos Documentos Ferrers, e o assassinato de Abergavenny est� indo a julgamento. Somente algo muito importante me tiraria de Londres no momento.</p><p>� Importante! � Nosso visitante jogou as m�os para o alto. � N�o ouviu nada sobre o rapto do filho �nico do duque de Holdernesse?</p><p>� O qu�!, o ex-ministro do gabinete?</p><p>� Exatamente. Tentamos manter isso fora dos jornais, mas houve alguns rumores no Globe da noite passada. Pensei que pudessem ter chegado aos seus ouvidos.</p><p>Holmes estendeu o bra�o magro e longo e pegou o volume �H� em sua enciclop�dia de refer�ncias.</p><p>� �Holdernesse, sexto duque, K.G., P.C.�, metade do alfabeto! �bar�o Beverley, conde de Carston�. Meu Deus, que lista! �Governador do condado de Hallamshire desde 1900. Casou-se com Edith, filha de sir Charles Appledore, em 1888. Herdeiro e filho �nico, lorde Saltire; propriet�rio de cerca de 250 acres. Min�rios em Lancashire e Gales. Endere�os: Carlton House Terrace; Holdernesse Hall, Hallamshire; Castelo Carston, Bangor, Gales. Ministro da Marinha em 1872; secret�rio-geral de Estado por...� Ora, ora, este homem � com certeza um dos grandes da Coroa!</p><p>� O maior e talvez o mais rico. Estou sabendo, sr. Holmes, que o senhor mant�m um n�vel muito elevado em assuntos profissionais, e que est� preparado para trabalhar apenas pelo amor ao trabalho. Entretanto, posso lhe dizer que Sua Gra�a j� me notificou que um cheque de 5 mil libras ser� dado � pessoa que puder dizer-lhe onde est� seu filho, e outras 1.000 a quem puder lhe informar o nome do homem ou homens que o pegaram.</p><p>� � uma oferta principesca � disse Holmes. � Watson, creio que devemos acompanhar o dr. Huxtable de volta ao norte da Inglaterra. E agora, dr. Huxtable, depois que tiver tomado aquele leite, vai me dizer, por gentileza, o que aconteceu, quando, como e, finalmente, o que o dr. Huxtable, da Priory School, perto de Mackleton, tem a ver com o caso, e por que s� vem tr�s dias depois do acontecimento � o estado de seu queixo mostra a data � para pedir meus humildes servi�os.</p><p>Nosso visitante tomara o leite com biscoitos. A luz voltara aos seus olhos e a cor � sua face, enquanto se sentava com grande vigor e lucidez para explicar a situa��o.</p><p>� Devo inform�-los, cavalheiros, que a Priory � uma escola preparat�ria da qual sou fundador e diretor. Huxtable�s Sidelights on Horace talvez possa lembrar-lhes o meu nome. Sem exce��o, a Priory � a melhor e a mais seleta escola preparat�ria da Inglaterra. Lorde Leverstoke, o conde de Blackwater, sir Cathcart Soames � todos me confiaram seus filhos. Mas eu senti que minha escola atingira o seu auge quando, h� tr�s semanas, o duque de Holdernesse enviou o sr. James Wilder, seu secret�rio, para me comunicar que o jovem lorde Saltire, de 10 anos, seu �nico filho e herdeiro, ia ser confiado aos meus cuidados. Eu estava longe de pensar que isto seria o prel�dio da mais arrasadora desgra�a da minha vida.</p><p>� O rapaz chegou no dia 1o de maio, o come�o do per�odo de ver�o. Era um jovem encantador, e logo conquistou nossas boas gra�as. Devo dizer-lhe� � acho que n�o estou sendo indiscreto, mas meias confid�ncias s�o absurdas num caso assim � que ele n�o era inteiramente feliz em casa. N�o � segredo que a vida de casado do duque n�o era pac�fica, e terminou numa separa��o por consentimento m�tuo, e a duquesa fixou resid�ncia no sul da Fran�a. Isto havia ocorrido pouco tempo antes, e sabe-se que o garoto ficou muito solid�rio com a m�e. Depois da sa�da dela de Holdernesse Hall ficou abatido, e foi por esse motivo que o duque o mandou para o meu estabelecimento. Em duas semanas o rapaz sentia-se em casa conosco e, aparentemente, estava muito feliz.</p><p>� Ele foi visto pela �ltima vez na noite de 13 de maio, ou seja, na noite da �ltima segunda-feira. Seu quarto era no segundo andar e chegava-se l� por um outro aposento grande, onde dois garotos dormiam. Esses garotos n�o viram nem ouviram nada, de modo que � certo que o jovem Saltire n�o saiu por esse caminho. Sua janela estava aberta, e h� uma hera resistente que vai at� o ch�o. N�o podia deixar pegadas l� embaixo, mas com certeza � a �nica sa�da poss�vel.</p><p>� Seu desaparecimento foi descoberto �s sete horas de ter�a-feira. A cama estava desarrumada. Tinha se vestido, antes de se ir, com o uniforme habitual do col�gio, de jaqueta preta do Eton e cal�as cinza-escuro. N�o havia sinais de que algu�m tivesse entrado no quarto, e � certo que nada como gritos ou luta foi ouvido, j� que Caunter, o rapaz mais velho do quarto ao lado, tem um sono muito leve.</p><p>� Quando o desaparecimento de lorde Saltire foi descoberto, imediatamente convoquei todo mundo do col�gio � rapazes, professores e empregados. Foi ent�o que constatamos que lorde Saltire n�o fugira sozinho. Heidegger, o professor alem�o, sumira. Seu quarto ficava no segundo andar, na extremidade mais afastada da casa, do mesmo lado que o do lorde. Sua cama tamb�m estava desarrumada, mas aparentemente foi embora s� meio vestido, porque sua camisa e suas meias estavam no ch�o. Sem d�vida desceu pela hera, j� que pod�amos ver suas pegadas no ponto em que chegou ao canteiro. Sua bicicleta estava guardada num pequeno dep�sito perto desse canteiro, e tamb�m desaparecera.</p><p>� Estava comigo h� dois anos e veio com as melhores refer�ncias, mas era um homem silencioso, fechado, n�o muito popular entre professores ou alunos. N�o se conseguiu achar nenhum vest�gio dos fugitivos, e agora, na manh� de quinta-feira, n�o sabemos mais do que na ter�a. � claro que foi feita logo uma investiga��o em Holdernesse Hall. Fica a apenas alguns quil�metros, e pensamos que, num s�bito ataque de saudades de casa, ele voltara para seu pai, mas ningu�m sabia dele. O duque est� muito agitado e, quanto a mim, voc�s viram por si mesmos o estado de esgotamento nervoso a que o suspense e a responsabilidade me reduziram. Sr. Holmes, se ainda n�o usou todos os seus talentos, imploro-lhe que o fa�a agora, pois nunca em sua vida teve um caso que merecesse tanto sua utiliza��o.</p><p>Sherlock Holmes ouvira com o maior interesse o relato do infeliz diretor de escola. Suas sobrancelhas contra�das e a profunda ruga entre elas demonstravam que n�o precisava de nenhuma exorta��o para se concentrar num problema que, al�m dos grandes interesses envolvidos, apelava t�o diretamente para seu amor �s coisas complexas e incomuns. Ele puxou seu caderno de notas e escreveu um ou dois lembretes.</p><p>� O senhor foi muito negligente por n�o ter vindo me procurar mais cedo � ele disse com seriedade. � Recorreu � minha investiga��o com uma desvantagem muito grave. ɠ inconceb�vel, por exemplo, que essa hera e o canteiro n�o tivessem fornecido nada a um observador experiente.</p><p>� N�o pode me censurar, sr. Holmes. Sua Gra�a queria muito evitar qualquer esc�ndalo p�blico. Receava que a infelicidade de sua fam�lia fosse mostrada ao mundo. Tem um horror profundo de qualquer coisa desse tipo.</p><p>� Mas houve alguma investiga��o oficial?</p><p>� Sim, senhor, e foi decepcionante. Uma pista prov�vel foi obtida, j� que soubemos que um garoto e um homem jovem foram vistos saindo de uma esta��o vizinha pelo trem da manh�. Somente na noite passada tivemos a not�cia de que a dupla foi encontrada em Liverpool, e ficou provado que n�o tinham nenhuma liga��o com o caso. Foi ent�o, em meu desespero e desapontamento, ap�s uma noite em claro, que vim direto ao senhor, no primeiro trem da manh�.</p><p>� Suponho que a investiga��o local foi relaxada enquanto se seguia essa pista falsa?</p><p>� Foi abandonada por completo.</p><p>� De modo que perdemos tr�s dias. O caso foi conduzido da maneira mais deplor�vel.</p><p>� Tamb�m acho e concordo.</p><p>� Ainda assim o problema deve ter uma solu��o definitiva. Ficaria muito feliz em poder encontr�-la. Pode fazer alguma liga��o entre o rapaz e esse professor alem�o?</p><p>� Nenhuma.</p><p>� Ele estava na turma desse professor?</p><p>� N�o, nunca trocou uma palavra com ele, pelo que sei.</p><p>� Isso certamente � muito estranho. O garoto tinha uma bicicleta?</p><p>� N�o.</p><p>� Alguma outra bicicleta estava faltando?</p><p>� N�o.</p><p>� Tem certeza?</p><p>� Absoluta.</p><p>� Bem, n�o sugere seriamente que o alem�o foi embora na calada da noite com sua bicicleta, levando o garoto nos bra�os?</p><p>� Claro que n�o.</p><p>� Ent�o qual � a sua teoria a respeito?</p><p>� A bicicleta pode ter sido uma simula��o. Pode ter sido escondida em algum outro lugar, e os dois foram embora a p�.</p><p>� Pode ser, mas parece uma simula��o um tanto absurda, n�o? Existem outras bicicletas no dep�sito?</p><p>� Muitas.</p><p>� Ele n�o teria escondido um par, se desejasse dar a impress�o de que foram embora com elas?</p><p>� Suponho que esconderia.</p><p>� Claro que esconderia. A teoria da simula��o n�o funciona. Mas o incidente � um excelente ponto de partida para uma investiga��o. Afinal, uma bicicleta n�o</p><p>� uma coisa f�cil de se esconder ou destruir. Uma outra pergunta. Ningu�m veio visitar o rapaz no dia anterior ao seu desaparecimento?</p><p>� N�o.</p><p>� Recebeu alguma carta?</p><p>� Sim, uma carta.</p><p>� De quem?</p><p>� De seu pai.</p><p>� O senhor abre as cartas dos garotos?</p><p>� N�o.</p><p>� Como sabe que era do pai dele?</p><p>� O bras�o estava no envelope, sobrescritado na caligrafia firme e caracter�stica do duque. Al�m disso, o duque se lembra de t�-la escrito.</p><p>� Quando recebeu outra carta antes dessa?</p><p>� Nenhuma durante v�rios dias.</p><p>� Ele recebeu alguma vez carta da Fran�a?</p><p>� N�o, nunca.</p><p>� O senhor v� o objetivo das minhas perguntas, � claro. Ou o garoto foi levado � for�a ou fugiu por vontade pr�pria. Neste �ltimo caso, espera-se que algum est�mulo vindo de fora seja necess�rio para que um rapaz t�o jovem fa�a uma coisa assim. Se n�o recebeu nenhuma visita, ent�o esse est�mulo deve ter vindo por carta, e por isso estou tentando descobrir com quem ele se correspondia.</p><p>� Receio n�o poder ajud�-lo muito. Pelo que sei, a �nica pessoa que escrevia para ele era o pr�prio pai.</p><p>� Que escreveu para ele no mesmo dia de seu desaparecimento. As rela��es entre pai e filho eram amig�veis?</p><p>� Sua Gra�a nunca � muito simp�tico com ningu�m. Est� completamente envolvido em grandes quest�es p�blicas, e � inacess�vel a todas as emo��es comuns. Mas era sempre carinhoso com o menino, � sua maneira.</p><p>� Mas o garoto n�o estava solid�rio com a m�e?</p><p>� Sim.</p><p>� Ele disse isso?</p><p>� N�o.</p><p>� O duque, ent�o?</p><p>� Meu Deus, n�o!</p><p>� Ent�o como o senhor podia saber?</p><p>� Tive algumas conversas confidenciais com o sr. James Wilder, secret�rio de Sua Gra�a. Foi ele quem me deu informa��es sobre os sentimentos de lorde Saltire.</p><p>� Sei. Falando nisso, essa �ltima carta do duque � foi encontrada no quarto do rapaz, depois que ele foi embora?</p><p>� N�o, ele a levou consigo. Creio, sr. Holmes, que j� � hora de irmos para Euston.</p><p>� Vou chamar uma carruagem. Em 15 minutos estaremos � sua disposi��o. Se est� telegrafando para casa, sr. Huxtable, seria melhor deixar que as pessoas na sua vizinhan�a pensem que a investiga��o ainda continua sendo feita em Liverpool ou qualquer outro lugar que imaginar. Enquanto isso, farei um trabalhinho discreto em sua pr�pria casa, e talvez a pista n�o esteja t�o fria que dois velhos perdigueiros como eu e Watson n�o possamos segui-la.</p><p>Aquela noite nos encontrou na atmosfera fria e envolvente da regi�o do Peak, onde ficava� o famoso col�gio do dr. Huxtable. J� estava escuro quando chegamos l�. Havia um cart�o na mesa do sagu�o, e o mordomo sussurrou alguma coisa para o seu patr�o, que se virou para n�s bastante agitado.</p><p>� O duque est� aqui � disse. � Ele e o sr. Wilder est�o no escrit�rio. Venham, cavalheiros, e os apresentarei.</p><p>Eu j� estava, � claro, familiarizado com as fotografias do famoso homem de estado, mas em pessoa ele era muito diferente do seu retrato. Era um indiv�duo alto e solene, vestido com capricho, com um rosto magro e bem desenhado, e um nariz grotescamente curvo e longo. A pele era de uma palidez mortal, contrastando com a barba longa e afilada, de um vermelho vivo, que descia pelo colete branco, com a corrente do rel�gio brilhando pela abertura. Essa era a figura majestosa que nos olhava com firmeza do centro do tapete de pele do dr. Huxtable. A seu lado estava um homem muito jovem, que imaginei tratar-se de Wilder, o secret�rio particular. Era baixo, nervoso e alerta, com olhos azuis inteligentes e tra�os expressivos. Foi ele quem come�ou logo a conversa, num tom incisivo e positivo.</p><p>� Cheguei esta manh�, dr. Huxtable, tarde demais para impedi-lo de partir para Londres. Soube que o seu objetivo era convidar o sr. Sherlock Holmes a assumir a condu��o deste caso. Sua Gra�a est� surpreso, dr. Huxtable, com o fato de o senhor ter tomado tal atitude sem consult�-lo.</p><p>� Quando soube que a pol�cia havia falhado...</p><p>� Sua Gra�a n�o est� convencido de que a pol�cia falhou.</p><p>� Mas certamente, sr. Wilder...</p><p>� Est� ciente, dr. Huxtable, de que Sua Gra�a est� particularmente ansioso para evitar qualquer esc�ndalo p�blico. Prefere ter o menor n�mero poss�vel de pessoas sabendo do seu segredo.</p><p>� Isso pode ser facilmente� remediado � disse o intimidado doutor �; o sr. Sherlock Holmes pode voltar a Londres pelo primeiro trem da manh�.</p><p>� Dificilmente, doutor, dificilmente � disse Holmes, com sua voz mais suave. � Este ar do norte � agrad�vel e revigorante, de modo que proponho passar alguns dias em seu territ�rio, e ocupar minha mente da melhor maneira poss�vel. Se me hospedarei sob o seu teto ou no hotel da vila, certamente � o senhor quem vai decidir.</p><p>Eu podia perceber que o infeliz doutor estava no �ltimo grau de indecis�o, do qual foi arrancado pela voz sonora e profunda do duque de barba vermelha, que soou como um gongo.</p><p>� Concordo com o sr. Wilder, dr. Huxtable, que seria melhor ter me consultado. Mas j� que o sr. Holmes � de sua confian�a, seria absurdo n�o nos beneficiarmos de seus servi�os. Longe de ir para o hotel, sr. Holmes,� seria um prazer se viesse se hospedar comigo em Holdernesse Hall.</p><p>� Agrade�o a Sua Gra�a. Para o objetivo da minha investiga��o, creio que � melhor para mim ficar no local do mist�rio.</p><p>� Como queira, sr. Holmes. Qualquer informa��o que eu ou o sr. Wilder possamos lhe fornecer est�, � claro, � sua disposi��o.</p><p>� Talvez seja necess�rio visit�-lo no Hall � disse Holmes. � Gostaria apenas de lhe perguntar agora, senhor, se chegou a pensar em alguma explica��o para o misterioso desaparecimento do seu filho?</p><p>� N�o, senhor, nenhuma.</p><p>� Desculpe-me por aludir a algo t�o doloroso para o senhor, mas n�o tenho alternativa. Acha que a duquesa tem alguma coisa a ver com o caso?</p><p>O grande ministro mostrou uma hesita��o percept�vel.</p><p>� N�o creio � disse por fim.</p><p>� A outra explica��o �bvia � que o garoto foi raptado com o objetivo de se pedir resgate. N�o recebeu nenhum pedido deste tipo?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Mais uma pergunta, Sua Gra�a. Soube que o senhor escreveu a seu filho no dia em que esse incidente ocorreu.</p><p>� N�o, escrevi um dia antes.</p><p>� Exato. Mas ele a recebeu no dia seguinte?</p><p>� Sim.</p><p>� Havia algo em sua carta que poderia t�-lo abalado ou induzido a tomar essa atitude?</p><p>� N�o, senhor, certamente que n�o.</p><p>� O senhor mesmo p�s a carta no correio?</p><p>A resposta do nobre foi interrompida pelo seu secret�rio, que falou com certa irrita��o.</p><p>� Sua Gra�a n�o tem o h�bito de mandar as cartas pessoalmente � disse. � Essa carta foi deixada com outras em cima da escrivaninha, e eu mesmo as coloquei na mala postal.</p><p>� Tem certeza de que ela estava entre as outras?</p><p>� Sim, observei isso.</p><p>� Quantas cartas Sua Gra�a escreveu naquele dia?</p><p>� Vinte ou trinta. Tenho um grande volume de correspond�ncia. Mas isso certamente � irrelevante.</p><p>� N�o inteiramente � disse Holmes.</p><p>� De minha parte � continuou o duque � aconselhei a pol�cia a desviar sua aten��o para o sul da Fran�a. J� disse que n�o creio que a duquesa incentivasse um ato t�o monstruoso, mas o rapaz tinha umas opini�es muito erradas, e � poss�vel que tenha fugido para ela, ajudado e instigado por esse alem�o. Acho, dr. Huxtable, que podemos voltar agora para o Hall.</p><p>Eu podia perceber que Holmes ainda queria fazer outras perguntas, mas os modos r�spidos do nobre mostravam que a entrevista estava no fim. Era evidente que, para a sua natureza aristocr�tica, essa discuss�o sobre assuntos familiares �ntimos com um estranho era muito desagrad�vel e que ele temia que qualquer nova pergunta lan�asse uma luz mais intensa nos recantos discretamente sombrios de sua hist�ria ducal.</p><p>Depois que o nobre e seu secret�rio sa�ram, meu amigo lan�ou-se com sua energia t�pica � investiga��o.</p><p>Os aposentos do garoto foram examinados com cuidado, o que n�o levou a nada, a n�o ser � absoluta convic��o de que a �nica sa�da era pela janela. O quarto e os bens do professor alem�o n�o forneceram outras pistas. No caso dele, a trilha na hera foi provocada pelo seu peso, e vimos, � luz de uma lanterna, a marca no canteiro onde seus p�s tocaram o ch�o. Esta marca na grama verde e curta era a �nica testemunha material deixada nesta inexplic�vel fuga noturna.</p><p>Sherlock Holmes saiu da casa sozinho e s� voltou depois das 23 horas. Obtivera um grande mapa topogr�fico da �rea, e o levou ao meu quarto, onde o abriu em cima da cama, e, depois de colocar a luz do abajur diretamente sobre seu centro, come�ou a examin�-lo, apontando de vez em quando para algum lugar de interesse com a parte fumegante, cor de �mbar, do seu cachimbo.</p><p>� Este caso me interessa cada vez mais, Watson � disse. � Decididamente existem pontos interessantes ligados a ele. Neste est�gio inicial, quero que veja estas caracter�sticas geogr�ficas que podem ter muito a ver com nossa investiga��o.</p><p>� Olhe este mapa. Este quadro escuro � a Priory School. Colocarei um ponto sobre ele. Agora, esta linha � a estrada principal. Veja que depois do col�gio ela vai para leste e para oeste, e tamb�m que n�o existem estradas secund�rias por mais de 1 quil�metro, nos dois sentidos. Se esses dois foram embora pela estrada, foi por esta estrada.</p><p>� Exatamente.</p><p>� Por um acaso feliz e singular, podemos verificar at� certo ponto o que passou por esta estrada na noite em quest�o. Neste lugar, onde est� agora meu cachimbo, um policial estava de guarda da meia-noite �s seis horas. �, como v�, o primeiro cruzamento para leste. Este homem diz que n�o se ausentou do posto por um instante sequer, e garante que nem o garoto nem o homem poderiam ter passado por ali sem serem vistos. Falei com o policial esta noite, e me pareceu ser uma pessoa confi�vel. Isso fecha esta sa�da. Temos agora que lidar com a outra. H� uma hospedaria aqui, a Red Bull, cuja propriet�ria est� doente. Ela chamou um m�dico em Mackleton, mas ele s� chegou pela manh�, pois estava fora, num outro caso. O pessoal do hotel ficou alerta a noite toda, esperando a chegada dele, e um ou outro estava sempre de olho na estrada. Afirmaram que ningu�m passou. Se o depoimento deles � verdadeiro, ent�o podemos bloquear o oeste, e tamb�m estamos em condi��es de afirmar que os fugitivos n�o usaram a estrada de maneira nenhuma.</p><p>� Mas, e a bicicleta? � objetei.</p><p>� Perfeitamente. Chegaremos j� na bicicleta. Continuando nosso racioc�nio: se estas pessoas n�o foram pela estrada, devem ter cruzado o campo para o norte ou para o sul da casa. Isso � certo. Vamos comparar um e outro. Ao sul da casa, como v�, h� um terreno grande de terra ar�vel, cortado em campos pequenos, com muros de pedra entre eles. Aqui, admito que uma bicicleta � imposs�vel. Podemos descartar a id�ia. Vejamos o norte do terreno. Aqui h� um bosque, chamado Ragged Shaw, e do lado mais distante h� um p�ntano grande e ondulado, Lower Gill Moor, que se estende por 10 quil�metros e se eleva gradualmente. Aqui, num lado dessa regi�o isolada, est� Holdernesse Hall, a pouco mais de 10 quil�metros pela estrada, mas a apenas 6 pelo p�ntano. � uma plan�cie particularmente desolada. Alguns fazendeiros t�m pequenos terrenos, onde criam ovelhas e gado bovino. � exce��o destes, as aves e os ma�aricos s�o os �nicos habitantes at� que se chegue � estrada principal de Chesterfield. H� uma igreja ali, alguns chal�s e um hotel. Depois dali os precip�cios tornam-se mais �ngremes. Com certeza � aqui para o norte que a nossa busca deve seguir.</p><p>� Mas e a bicicleta? � insisti.</p><p>� Ora, ora! � disse Holmes com impaci�ncia. � Um bom ciclista n�o precisa de uma auto-estrada. A plan�cie � cortada por trilhas e era lua cheia. Ei, o que � isso?</p><p>Houve uma batida nervosa na porta e logo depois o dr. Huxtable estava dentro do quarto. Segurava um bon� de cr�quete azul com um distintivo branco no alto.</p><p>� Afinal temos uma pista! � exclamou. � Gra�as a Deus! Finalmente estamos na trilha do pobre garoto! Este � o seu bon�.</p><p>� Onde foi encontrado?</p><p>� Numa carro�a de ciganos que acamparam na plan�cie. Foram embora na ter�a-feira. Hoje a pol�cia os alcan�ou e examinou a caravana. Encontrou isto.</p><p>� Como explicam isso?</p><p>� Esquivaram-se e mentiram: disseram que o encontraram no campo na ter�a de manh�. Eles sabem onde ele est�, os patifes! Gra�as a Deus est�o todos trancafiados. O medo da lei ou o dinheiro do duque certamente arrancar�o deles tudo o que sabem.</p><p>� At� aqui tudo bem � disse Holmes quando o doutor finalmente saiu do quarto. � Pelo menos confirma a teoria de que � para o lado de Lower Gill Moor que devemos esperar resultados. A pol�cia n�o fez nada realmente no local, a n�o ser a pris�o desses ciganos. Olhe aqui, Watson! H� um rio que corta o campo. Voc� o v� marcado aqui no mapa. Em alguns trechos se alarga num brejo. Est� exatamente na regi�o entre Holdernesse Hall e o col�gio. � in�til procurar pegadas em outro lugar neste tempo seco, mas naquele ponto certamente h� uma possibilidade de ter sido deixada alguma marca. Eu o chamarei amanh� bem cedo e tentaremos esclarecer alguma coisa desse mist�rio.</p><p>O dia estava come�ando a clarear quando acordei e vi a figura alta e magra de Holmes � minha cabeceira. J� estava todo vestido e, aparentemente, havia sa�do antes.</p><p>� Dei uma olhada no canteiro e no dep�sito das bicicletas � disse. � Tamb�m dei uma voltinha por Ragged Shaw. Agora, Watson, h� chocolate pronto no quarto ao lado. Devo pedir-lhe que se apresse, pois temos um grande dia pela frente.</p><p>Seus olhos brilhavam e seu rosto estava corado com a satisfa��o do mestre-de-obras que v� o trabalho pronto � sua frente. Um Holmes muito diferente, este homem ativo e alerta, do sonhador introspectivo e p�lido de Baker Street. Ao olhar para aquela figura �gil, sustentado por uma energia nervosa, senti que era um dia realmente ativo o que nos esperava.</p><p>Mas tivemos a maior decep��o. Com grandes esperan�as, andamos pelo campo avermelhado e turfoso, cortado por milhares de trilhas de ovelhas at� que chegamos no trecho verde-claro e largo que assinalava o p�ntano entre n�s e Holdernesse. Se o menino tivesse ido para casa, certamente teria de passar por ali, e n�o podia passar sem deixar vest�gios. Mas nenhum sinal dele ou do alem�o podia ser visto. Com o rosto sombrio, meu amigo vasculhava a margem observando atentamente cada mancha na superf�cie musgosa. Havia pegadas de ovelhas em profus�o, e num ponto, alguns quil�metros abaixo, vacas deixaram suas marcas. Nada mais.</p><p>� Verifica��o n�mero 1 � disse Holmes, olhando com tristeza para a extens�o ondulante do campo. � H� um outro brejo mais abaixo e uma passagem estreita no meio. Ora viva! O que temos aqui?</p><p>T�nhamos chegado a uma pequena faixa preta de trilha. No meio dela, claramente marcada no solo fofo, estavam as marcas de uma bicicleta.</p><p>� Hurrah! � exclamei. � Conseguimos.</p><p>Mas Holmes estava balan�ando a cabe�a e seu rosto mostrava mais confus�o e expectativa do que alegria.</p><p>� Uma bicicleta, certamente, mas n�o a bicicleta � disse. � Conhe�o 42 impress�es diferentes deixadas por pneus. Este, como v�, � um Dunlop, com um remendo na parte externa. Os pneus de Heidegger eram Palmer, que deixam listras longitudinais. Aveling, o professor de matem�tica, estava certo sobre isso. Portanto, n�o � o rastro de Heidegger.</p><p>� Do garoto, ent�o?</p><p>� Possivelmente, se pudermos provar que ele estava com uma bicicleta. Mas falhamos completamente nisso. Esta trilha, como se percebe, foi feita por algu�m que vinha da dire��o da escola.</p><p>� Ou na dire��o dela?</p><p>� N�o, n�o, meu caro Watson. A marca mais profunda � claramente a da roda traseira, sobre a qual todo o peso se ap�ia. Percebemos v�rios pontos onde ela cruzou e modificou a marca menos funda da roda dianteira. Sem d�vida estava se afastando do col�gio. Pode ou n�o ter alguma liga��o com a nossa busca, mas n�s a seguiremos para tr�s, antes de irmos mais adiante.</p><p>Fizemos isso, e ap�s algumas centenas de metros perdemos as pistas, quando sa�mos da por��o pantanosa do campo. Seguindo a trilha para tr�s, chegamos em outro local, cortado por um curso d��gua. Aqui, mais uma vez, estava a marca da bicicleta, embora quase apagada pelos cascos de vacas. Depois disso, n�o havia mais sinal, mas a trilha ia direto para Ragged Shaw, o bosque que dava nos fundos do col�gio. A bicicleta deve ter sa�do deste bosque. Holmes sentou-se numa pedra e apoiou o queixo nas m�os. Fumei dois cigarros antes que ele se movesse.</p><p>� Ora, ora � disse ele por fim. � � poss�vel, claro, que um homem esperto tenha trocado os pneus de sua bicicleta para n�o deixar marcas conhecidas. O criminoso que for capaz de um racioc�nio desses � o homem com o qual eu ficaria orgulhoso de trabalhar. Deixaremos esta quest�o em suspenso e voltaremos para o nosso brejo, pois h� muita coisa para ser explorada.</p><p>Continuamos nossa pesquisa sistem�tica da borda da parte encharcada do p�ntano e logo nossa perseveran�a foi gloriosamente recompensada. Do outro lado da parte mais baixa do loda�al havia uma trilha pantanosa. Holmes deu um grito de satisfa��o ao chegar mais perto. Uma impress�o igual a uma fina tira de tel�grafo passava bem no centro dela. Eram os pneus Palmer.</p><p>� Aqui est� Herr Heidegger, com certeza! � exclamou Holmes, exultante. � Meu racioc�nio parece ter sido correto, Watson.</p><p>� Dou-lhe meus parab�ns.</p><p>� Mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Ande com cuidado fora da trilha. Agora vamos seguir as marcas. Creio que n�o nos levar�o muito longe.</p><p>Mas descobrimos, enquanto avan��vamos, que esta parte do p�ntano � intercalada de partes macias e, embora perd�ssemos com freq��ncia a trilha de vista, sempre consegu�amos encontr�-la de novo.</p><p>� Est� notando � disse Holmes � que o ciclista est� agora aumentando o ritmo? N�o h� d�vida. Olhe esta marca, em que temos os dois pneus n�tidos. Um est� t�o fundo quanto o outro. Isso s� pode significar que o ciclista est� jogando todo o peso sobre o guidom, como um homem faz quando est� correndo. Por Deus! Ele caiu.</p><p>Havia um borr�o largo e irregular cobrindo alguns metros da trilha. Ent�o havia algumas pegadas, e o reaparecimento dos pneus.</p><p>� Uma derrapagem � sugeri.</p><p>Holmes segurou um galho esmagado de tojo em flor. Vi com horror que as flores amarelas estavam todas manchadas de vermelho. Na trilha, e tamb�m entre as urzes, havia manchas escuras de sangue coagulado.</p><p>� Mau! � disse Holmes. � Mau! Olhe bem, Watson! Nem uma passada desnecess�ria! O que vemos aqui? Ele caiu ferido, levantou-se, montou de novo e continuou. Mas n�o existem outras marcas. Gado nesta outra trilha. N�o ter� sido atingido por um touro? Imposs�vel! Mas n�o vejo pegadas de mais ningu�m. Devemos continuar, Watson. Certamente com manchas, al�m da trilha, para nos guiar, ele n�o pode nos escapar agora.</p><p>Nossa busca n�o foi muito longa. As marcas dos pneus come�aram a fazer curvas fant�sticas na trilha molhada e brilhante. De repente, ao olhar para diante, vi o brilho de metal por entre os tufos de tojo. De l� tiramos uma bicicleta, com pneus Palmer, um dos pedais amassado, e toda a parte dianteira horrivelmente lambuzada e babada de sangue. Do outro lado dos arbustos, aparecia um sapato. Demos a volta, e l� estava o infeliz ciclista. Era um homem alto, com uma barba grande e �culos, sem uma das lentes que devia ter ca�do. A causa de sua morte era um horr�vel golpe na cabe�a, que partiu o cr�nio. O fato de ele ter conseguido continuar depois de receber um golpe assim revelava sua vitalidade e coragem. Estava de sapatos, mas sem meias, e seu casaco aberto mostrava uma camiseta de dormir por baixo. Era sem d�vida o professor alem�o.</p><p>Holmes desvirou o corpo com cuidado e o examinou com muita aten��o. Depois sentou-se pensativo por algum tempo, e eu podia ver pelas sobrancelhas franzidas que, na sua opini�o, esta descoberta sinistra n�o fora um grande progresso na nossa investiga��o.</p><p>� � um pouco dif�cil saber o que fazer, Watson � disse por fim. � Minha disposi��o � no sentido de continuar esta investiga��o, pois j� perdemos muito tempo e n�o podemos desperdi�ar mais uma hora. Por outro lado, devemos informar a pol�cia a respeito da descoberta, e providenciar para que tomem conta do corpo deste pobre sujeito.</p><p>� Eu poderia levar um bilhete.</p><p>� Mas preciso da sua companhia e ajuda. Espere um momento! Tem algu�m ali cortando turfa. Traga-o aqui, e ele guiar� a pol�cia.</p><p>Trouxe o campon�s e Holmes despachou o homem assustado com o bilhete para o dr. Huxtable.</p><p>� Agora, Watson � disse �, descobrimos duas pistas esta manh�. Uma � a bicicleta com os pneus Palmer, e vemos onde isto acabou. A outra � a bicicleta com o Dunlop remendado. Antes de iniciarmos esta investiga��o, vamos tentar entender o que sabemos realmente, para tirar o m�ximo disto e separar o essencial do acidental.</p><p>� Antes de tudo, quero lhe dizer que o garoto com certeza saiu por vontade pr�pria. Ele desceu pela janela e foi embora, sozinho ou com mais algu�m. Isto � certo.</p><p>Assenti.</p><p>� Bem, agora, voltemos ao infeliz professor alem�o. O garoto estava completamente vestido quando fugiu. Portanto, j� sabia o que ia fazer. Mas o alem�o saiu sem as meias. Com certeza agiu �s pressas.</p><p>� Sem d�vida.</p><p>� Por que saiu? Porque, da janela do seu quarto, viu a fuga do garoto; porque quis ir atr�s dele e traz�-lo de volta. Pegou sua bicicleta, perseguiu o rapaz, e nessa persegui��o encontrou a morte.</p><p>� Assim parece.</p><p>� Agora chego � parte decisiva do meu racioc�nio. A atitude natural de um homem ao perseguir um garoto seria a de correr atr�s dele. Ele saberia que conseguiria alcan��-lo. Mas o alem�o n�o faz isso. Vai pegar sua bicicleta. Soube que era um ciclista excelente. N�o faria isso, se n�o visse que o garoto tinha algum meio r�pido de fuga.</p><p>� A outra bicicleta.</p><p>� Continuemos nossa reconstitui��o. Ele foi morto a 7 quil�metros do col�gio � n�o por uma bala, o que at� mesmo um garoto poderia disparar, mas por um golpe violento, desferido por um bra�o vigoroso. O garoto, portanto, teve um companheiro na sua fuga. E foi uma fuga r�pida, pois andaram 7 quil�metros antes que um �timo ciclista os alcan�asse. E ainda pesquisamos o ch�o em volta do local da trag�dia. O que encontramos? Alguns rastros de gado, nada mais. Dei uma grande volta por a�, e n�o existem trilhas a menos de 50 metros. Um outro ciclista poderia n�o ter tido nada com o assassinato, e l� tamb�m n�o havia pegadas humanas.</p><p>� Holmes! � exclamei �, isto � imposs�vel!</p><p>� Admir�vel! � disse ele. � Uma observa��o esclarecedora. � imposs�vel do modo como falei, entretanto posso, em algum aspecto, ter falado de modo equivocado. Pois voc� viu por si mesmo. Pode sugerir alguma falha?</p><p>� Ele n�o poderia ter fraturado o cr�nio numa queda?</p><p>� Num loda�al, Watson?</p><p>� Estou desorientado.</p><p>� Tsc, tsc, j� resolvemos problemas piores. Pelo menos temos muito material; se ao menos pud�ssemos us�-lo. Venha ent�o e, depois do Palmer, vamos ver o que o Dunlop com a parte remendada tem a nos oferecer.</p><p>Pegamos a trilha e a seguimos por algum tempo, mas o p�ntano logo se elevava numa curva longa cheia de tufos de urze, e deixamos o riacho para tr�s. N�o se podia mais esperar ajuda alguma de trilhas. Do lugar onde vimos pela �ltima vez o pneu Dunlop, pod�amos ter ido tamb�m para Holdernesse Hall, cujas torres majestosas apareciam alguns quil�metros � nossa esquerda, ou para uma vila pequena e pardacenta que ficava � nossa frente, e indicava a posi��o da estrada principal de Chesterfield.</p><p>Quando nos aproximamos do hotel� repugnante e miser�vel, com o s�mbolo de um galo de briga sobre a porta, Holmes deu um s�bito gemido, e agarrou meu ombro para n�o cair. Tivera um desses estiramentos violentos que deixam um homem desamparado. Com dificuldade foi at� a porta, onde um homem idoso e moreno estava acocorado, fumando um cachimbo preto de barro.</p><p>� Como vai, sr. Reuben Hayes? � perguntou Holmes.</p><p>� Quem s�o voc�s e como descobriram t�o depressa o meu nome? Disse o campon�s com um brilho de desconfian�a nos olhos espertos.</p><p>� Ora, ele est� impresso na placa acima de sua cabe�a. E f�cil reconhecer um homem que � o dono da pr�pria casa. Suponho que n�o tenha algo como uma carro�a nos seus est�bulos.</p><p>� N�o, n�o tenho.</p><p>� Mal posso apoiar meu p� no ch�o.</p><p>� N�o o ponha no ch�o.</p><p>� Mas n�o posso andar.</p><p>� Bem, ent�o pule.</p><p>A atitude do sr. Reuben Hayes estava longe de ser am�vel, mas Holmes a encarou com um bom humor admir�vel.</p><p>� Olhe aqui, meu amigo � disse. � Isto � realmente um dilema muito desagrad�vel para mim. N�o vejo como continuar.</p><p>� Nem eu � disse o estalajadeiro mal-humorado.</p><p>� O assunto � muito importante. Eu lhe ofereceria 1 libra pelo uso de uma bicicleta.</p><p>O homem prestou mais aten��o.</p><p>� Aonde querem ir?</p><p>� Para Holdernesse Hall.</p><p>� Amigos do duque, suponho? � disse o propriet�rio, observando nossas roupas manchadas de lama com olhos ir�nicos.</p><p>Holmes sorriu, complacente.</p><p>� De qualquer maneira, ele ficar� contente em nos ver.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Porque lhe trazemos not�cias de seu filho desaparecido.</p><p>O estalajadeiro teve um sobressalto vis�vel.</p><p>� O qu�, voc�s est�o na pista dele?</p><p>� Ele foi visto em Liverpool. Esperam encontr�-lo a qualquer hora.</p><p>De novo uma mudan�a percept�vel passou pelo rosto forte e barbado. Ele ficou am�vel de repente.</p><p>� Tenho menos motivos para desejar o bem do duque do que muitos homens � disse � porque uma vez fui o cocheiro-chefe, e ele me tratou de modo cruel. Foi ele quem me p�s na rua sem explica��es, por causa da palavra de um negociante de milho mentiroso. Mas fico contente em saber que o jovem lorde foi visto em Liverpool, e vou ajud�-los a levar a not�cia at� o Hall.</p><p>� Obrigado � disse Holmes. � Vamos comer algo primeiro. Depois pode trazer a bicicleta.</p><p>� Eu n�o tenho uma bicicleta.</p><p>Holmes mostrou uma libra.</p><p>� J� lhe disse, homem, que n�o tenho. Deixarei que levem dois cavalos at� o Hall.</p><p>� Bem, bem � disse Holmes �, falaremos sobre isso depois que tivermos comido alguma coisa.</p><p>Quando ficamos sozinhos na cozinha de paredes de pedras, foi espantoso como o tornozelo estirado se recuperou depressa. J� era quase noite e n�o hav�amos comido nada desde a manh�, de modo que gastamos um bom tempo em nossa refei��o. Holmes estava perdido em seus pensamentos e uma ou duas vezes foi at� a janela e olhou para fora, s�rio. Ela dava para um p�tio miser�vel. No canto mais afastado havia uma forja, onde um rapaz sujo estava trabalhando. Do outro lado ficavam os est�bulos. Holmes estava sentado ap�s uma dessas excurs�es, quando de repente pulou de sua cadeira com uma exclama��o.</p><p>� Por Deus, Watson, creio que conseguimos! � gritou. � Sim, sim, deve ser isso. Watson, lembra-se de ter visto alguma trilha de vacas hoje?</p><p>� Sim, v�rias.</p><p>� Onde?</p><p>� Ora, por todo lado. No brejo, e tamb�m na trilha, e perto do lugar onde o pobre Heidegger morreu.</p><p>� Exato. Agora, Watson, quantas vacas voc� viu no campo?</p><p>� N�o me lembro de ter visto nenhuma.</p><p>� � estranho, Watson, que v�ssemos rastros durante todo o nosso trajeto, mas nem uma vaca. Muito estranho, Watson, hein?</p><p>� Sim, � estranho.</p><p>� Agora, Watson, fa�a um esfor�o de mem�ria. Pode ver aqueles rastros na trilha?</p><p>� Sim, posso.</p><p>� Recorda-se de que os rastros eram algumas vezes assim, Watson � disp�s algumas bolinhas de p�o deste modo � : : : : : � e outras assim � : . : . : . : . � e ocasionalmente deste jeito . . . . . . .� Pode se lembrar disso?</p><p>� N�o, n�o posso.</p><p>� Mas eu posso. Posso jurar que � assim. Mas voltaremos l� para verificar isso. Como fui� cego, n�o confirmando minha conclus�o.</p><p>� E qual � a sua conclus�o?</p><p>� Apenas que existe uma vaca not�vel que anda, trota e galopa. Por Deus! Watson, n�o foi nenhum c�rebro de taberneiro do interior que imaginou um como esse. A costa parece estar livre, a n�o ser por aquele rapaz na forja. Vamos dar uma escapada e ver o que pudermos.</p><p>Havia dois cavalos maltratados no est�bulo em ru�nas. Holmes levantou a pata traseira de um deles e riu.</p><p>� Ferraduras velhas, mas ferrado recentemente; ferraduras velhas, mas cravos novos. Este caso promete ser um cl�ssico. Vamos passar por fora.</p><p>O rapaz continuava seu trabalho sem ligar para n�s. Notei os olhos de Holmes virarem-se para a esquerda e para a direita, por entre os restos de ferro e madeira que se espalhavam pelo ch�o. Mas, de repente escutamos passos atr�s de n�s, e l� estava o dono da hospedaria, o cenho franzido sobre os olhos selvagens, as fei��es contorcidas pela raiva. Segurava uma pequena bengala de cabo met�lico, e avan�ou de modo t�o amea�ador que me senti confortado por ter meu rev�lver no bolso.</p><p>� Seus espi�es do inferno! � gritou o homem. � O que est�o fazendo a�?</p><p>� Ora, sr. Reuben Hayes � disse Holmes friamente �, algu�m poderia pensar que o senhor est� com medo de que descubramos alguma coisa.</p><p>O homem controlou-se com um esfor�o violento, e sua boca cruel abriu-se num sorriso falso, que era mais amea�ador que o seu olhar carrancudo.</p><p>� Voc�s podem descobrir tudo o que quiserem em minha oficina � disse. � Mas olhe aqui, senhor, n�o gosto de sujeitos que ficam bisbilhotando na minha casa sem minha permiss�o; portanto, quanto mais cedo pagarem sua conta e sa�rem daqui, mais agradecido eu ficaria.</p><p>� Tudo bem, sr. Hayes, n�o fizemos por mal � disse Holmes. � Estivemos dando uma olhada em seus cavalos, mas creio que irei a p�, afinal. N�o � longe, eu acho.</p><p>� N�o mais de 3 quil�metros at� os port�es do Hall. � pela estrada da esquerda. � Ficou nos observando com olhos sombrios at� que sa�mos de sua propriedade.</p><p>N�o fomos muito longe pela estrada, pois Holmes parou assim que a curva fez com que sa�ssemos do campo de vis�o daquele homem.</p><p>� Estivemos quentes naquela hospedaria, como dizem as crian�as � comentou. � Parece que fica mais frio � medida que me afasto. N�o, n�o, n�o posso deixar isso.</p><p>� Estou convencido � eu disse � que esse Reuben Hayes sabe de tudo. Nunca vi um vil�o t�o �bvio.</p><p>� Oh! ele o impressionou tanto assim? H� os cavalos, a forja. Sim, � um lugar interessante, esse Galo de Briga. Acho que devemos dar uma outra olhada nele, de modo mais discreto.</p><p>Uma colina suave, longa, pontilhada de pedras calc�rias, estendia-se atr�s de n�s. Hav�amos sa�do da estrada e est�vamos subindo a colina quando, ao olhar na dire��o de Holdernesse Hall, vi um ciclista pedalando rapidamente.</p><p>� Abaixe-se, Watson! � exclamou Holmes, batendo no meu ombro. Mal hav�amos sumido de vista quando o homem passou rapidamente por n�s, na estrada. Por entre as nuvens de poeira, vislumbrei um rosto p�lido e agitado � um rosto com o horror estampado em cada tra�o, a boca aberta, os olhos vidrados. Era como uma estranha caricatura do esperto James Wilder que v�ramos na noite anterior.</p><p>� O secret�rio do duque! � exclamou Holmes. � Venha Watson, vamos ver o que ele vai fazer.</p><p>Escalamos de pedra em pedra, at� que minutos depois chegamos a um ponto do qual pod�amos ver a porta da frente do hotel. A bicicleta de Wilder estava encostada na parede lateral. Ningu�m se movia pela casa, nem conseguimos ver algu�m nas janelas. Devagar o crep�sculo chegou, enquanto o sol mergulhava atr�s das torres de Holdernesse Hall. Ent�o, na escurid�o, vimos as duas lanternas laterais acesas de uma carruagem no p�tio do est�bulo do hotel, e logo depois ouvimos o barulho de cascos chegando � estrada e partindo em grande velocidade na dire��o de Chesterfield.</p><p>� O que acha disso, Watson? � sussurrou Holmes.</p><p>� Parece uma fuga.</p><p>� S� havia um homem na carruagem, pelo que pude ver. Bem, certamente n�o era o sr. James Wilder, pois ele est� ali, em frente � porta.</p><p>Um quadrado vermelho de luz se acendera na escurid�o. No meio dele estava o vulto negro do secret�rio, a cabe�a inclinada para a frente, espreitando a noite. Era evidente que esperava algu�m. Por fim, passos na estrada, uma outra figura ficou vis�vel por um instante contra a luz, a porta bateu e tudo ficou escuro novamente. Cinco minutos depois uma l�mpada foi acesa num quarto do primeiro andar.</p><p>� Parece ser uma categoria curiosa de fregueses essa do Galo de Briga � disse Holmes.</p><p>� O bar fica do outro lado.</p><p>� Exato. Estes s�o o que podemos chamar de convidados particulares. Agora, que diabo est� o sr. James Wilder fazendo naquela espelunca a essa hora da noite, e quem � o sujeito que vem para encontr�-lo ali? Vamos, Watson, precisamos realmente nos arriscar e tentar investigar isto um pouco mais de perto.</p><p>Descemos juntos at� a estrada e nos aproximamos silenciosamente da porta do hotel. A bicicleta ainda estava encostada na parede. Holmes acendeu um f�sforo para examinar o pneu traseiro, e eu o ouvi rir baixinho quando a luz incidiu sobre um pneu Dunlop remendado. Bem acima de n�s estava a janela iluminada.</p><p>� Preciso dar uma olhada l�, Watson. Se voc� inclinar as costas e se apoiar na parede, acho que conseguirei.</p><p>Logo depois, seus p�s estavam nos meus ombros; por�m mal chegou l� em cima e j� estava embaixo de novo.</p><p>� Venha, meu amigo � disse �, nosso dia de trabalho foi bastante longo. Creio que j� conseguimos tudo o que pod�amos. � uma longa caminhada at� o col�gio, e quanto mais cedo come�armos, melhor.</p><p>Ele mal abriu a boca durante aquela caminhada cansativa atrav�s do campo, e n�o entramos no col�gio quando chegamos l�, mas fomos para a esta��o de Mackleton, de onde ele enviou alguns telegramas. Tarde da noite eu o ouvi consolando o dr. Huxtable, prostrado pela trag�dia da morte do seu professor, e mais tarde ainda entrou no meu quarto, t�o alerta e vigoroso como estivera quando come�amos naquela manh�. � Est� tudo indo bem, meu amigo � disse ele. � Prometo que antes de amanh� � noite teremos encontrado a solu��o do mist�rio.</p><p>�s 11 horas seguinte meu amigo e eu est�vamos andando pela famosa alameda de teixos de Holdernesse Hall. Entramos pela magn�fica porta elisabetana e fomos levados ao escrit�rio de Sua Gra�a. L� encontramos o sr. James Wilder, s�rio e cort�s, mas com alguns vest�gios daquele terror selvagem da noite ainda vis�veis em seus olhos furtivos e na express�o crispada.</p><p>� Veio ver Sua Gra�a? Desculpe, mas o fato � que o duque n�o est� l� muito bem. Ficou muito abalado com as not�cias tr�gicas. Recebemos um telegrama do dr. Huxtable ontem � tarde, que nos informou da descoberta de voc�s.</p><p>� Preciso ver o duque, sr. Wilder.</p><p>� Mas ele est� no quarto dele.</p><p>� Ent�o preciso ir ao quarto dele.</p><p>� Creio que ele est� na cama.</p><p>� Vou v�-lo l�.</p><p>O jeito frio e implac�vel de Holmes mostrou ao secret�rio que era in�til discutir com ele.</p><p>� Muito bem, sr. Holmes, eu direi a ele que est� aqui.</p><p>Depois de uma demora de uma hora, o grande nobre apareceu. Seu rosto estava mais cadav�rico do que nunca, seus ombros estavam curvados e parecia ser um homem muito mais velho que na manh� anterior. Cumprimentou-nos com uma cortesia solene e sentou-se � sua escrivaninha, a barba vermelha caindo em ondas na mesa.</p><p>� E ent�o, sr. Holmes? � disse.</p><p>Mas os olhos de meu amigo estavam fixos no secret�rio, que estava de p� atr�s da cadeira do patr�o.</p><p>� Creio, Sua Gra�a, que eu poderia falar mais francamente sem a presen�a do sr. Wilder.</p><p>O homem ficou p�lido como um fantasma e lan�ou um olhar mal�volo para Holmes.</p><p>� Se Sua Gra�a desejar...</p><p>� Sim, sim, seria melhor voc� ir. Agora, sr. Holmes, o que tem para dizer?</p><p>Meu amigo esperou at� que a porta se fechasse atr�s do secret�rio relutante.</p><p>� O fato, Sua Gra�a � disse �, � que o meu colega, dr. Watson, e eu temos a garantia do dr. Huxtable de que foi oferecida uma recompensa neste caso. Gostaria de ouvir a confirma��o de seus pr�prios l�bios.</p><p>� Certamente, sr. Holmes.</p><p>� Se fui informado corretamente, ela � de 5 mil libras para quem lhe disser onde est� seu filho?</p><p>� Exatamente.</p><p>� E outras 1.000 para quem disser o nome da pessoa ou pessoas que o mant�m preso?</p><p>� Exatamente.</p><p>� Neste �ltimo est�o inclu�dos, sem d�vida, n�o somente aqueles que o levaram, mas tamb�m aqueles que conspiram para que ele continue na situa��o atual?</p><p>� Sim, sim � exclamou o duque, impaciente. � Se fizer bem o seu trabalho, sr. Sherlock Holmes, n�o ter� motivo para reclamar de um tratamento mesquinho.</p><p>Meu amigo esfregou as m�os magras com uma express�o de avidez que me surpreendeu, pois conhecia seus h�bitos frugais.</p><p>� Creio que vejo o tal�o de cheques de Sua Gra�a sobre a mesa � ele disse. � Ficaria contente se fizesse um cheque de 6 mil libras. Talvez fosse melhor cruz�-lo. O Capital and Counties Bank, filial da Oxford Street, � o meu agente.</p><p>Sua Gra�a sentou-se austera e rigidamente na sua cadeira e olhou de modo severo para meu amigo.</p><p>� Isto � uma brincadeira, sr. Holmes? N�o � nem de longe um assunto para divertimento.</p><p>� De modo algum, Sua Gra�a. Nunca fui t�o s�rio em minha vida.</p><p>� O que significa, ent�o?</p><p>� Quero dizer que ganhei a recompensa. Sei onde est� seu filho e conhe�o pelo menos alguns daqueles que o mant�m preso.</p><p>A barba do duque ficou mais agressivamente vermelha do que nunca contra sua face branca, p�lida.</p><p>� Onde ele est�? � gaguejou.</p><p>� Est�, ou estava na noite passada, no hotel Galo de Briga, a cerca de 3 quil�metros dos seus port�es.</p><p>O duque recostou-se na sua cadeira.</p><p>� E quem o senhor acusa?</p><p>A resposta de Sherlock Holmes foi estarrecedora. Deu rapidamente um passo � frente e tocou o duque no ombro.</p><p>� Eu acuso o senhor � disse. � E agora, Sua Gra�a, eu lhe pe�o aquele cheque.</p><p>Nunca me esquecerei do aspecto do duque ao pular e jogar as m�os como algu�m que est� afundando num abismo. Depois, com um extraordin�rio esfor�o de autocontrole aristocr�tico, sentou-se e afundou o rosto nas m�os. Passaram-se alguns minutos antes que falasse.</p><p>� O que � que sabe? � perguntou afinal, sem levantar a cabe�a.</p><p>� Eu os vi juntos ontem a noite.</p><p>� Algu�m mais sabe, al�m do seu amigo?</p><p>� N�o falei com mais ningu�m.</p><p>O duque pegou uma caneta com a m�o tr�mula e abriu o tal�o de cheques.</p><p>� Vou honrar minha palavra, sr. Holmes. Farei o seu cheque, por mais inconveniente que seja para mim, a informa��o que conseguiu. Quando o oferecimento foi feito pela primeira vez, mal sabia do rumo que os acontecimentos poderiam tomar. Mas o senhor e seu amigo s�o homens discretos, n�o, sr. Holmes?</p><p>� Mal posso compreend�-lo, Sua Gra�a.</p><p>� Devo esclarecer tudo, sr. Holmes. Se apenas os senhores sabem desse incidente, n�o h� motivo para que isso v� mais longe. Creio que 12 mil libras � a soma que lhe devo, n�o �?</p><p>Mas Holmes sorriu e sacudiu a cabe�a.</p><p>� Temo, Sua Gra�a, que as coisas talvez n�o possam ser resolvidas t�o facilmente. A morte do professor do col�gio tem de ser explicada.</p><p>� Mas James n�o sabia nada daquilo. N�o pode responsabiliz�-lo por isso. Foi trabalho desse valent�o brutal que ele teve o azar de empregar.</p><p>� Tenho a opini�o, Sua Gra�a, de que quando um homem se envolve num crime, � moralmente culpado de qualquer outro crime que venha a ocorrer em conseq��ncia do primeiro.</p><p>� Moralmente, sr. Holmes. Sem d�vida est� certo. Mas provavelmente n�o aos olhos da lei. Um homem n�o pode ser condenado por um assassinato a que n�o esteve presente, e ao qual abomina e detesta tanto quanto o senhor. Assim que soube do fato, ele me fez uma confiss�o completa, de tanto remorso e horror que sentia. N�o perdeu uma hora para despedir o assassino. Oh, sr. Holmes, o senhor tem de salv�-lo � tem de salv�-lo! Pe�o-lhe que o salve! � O duque abandonara um �ltimo esfor�o de autocontrole e estava andando de um lado para o outro no quarto com o rosto transtornado e as m�os crispadas no ar. Finalmente controlou-se e sentou-se novamente � escrivaninha. � Aprecio sua conduta, por ter vindo aqui antes de falar com mais algu�m � disse. � Pelo menos, podemos discutir como minimizar este esc�ndalo terr�vel.</p><p>� Exato � disse Holmes. � Creio, Sua Gra�a, que isso s� pode ser feito com absoluta franqueza entre n�s. Estou disposto a ajudar Sua Gra�a com o m�ximo de minha habilidade, mas, para fazer isso, preciso entender todo o caso at� o �ltimo detalhe. Percebi que as suas palavras se referiam ao sr. James Wilder, e que ele n�o � o assassino.</p><p>� N�o, o assassino fugiu.</p><p>Sherlock Holmes sorriu discretamente.</p><p>� Sua Gra�a n�o deve ter ouvido praticamente nada sobre minha reputa��o, ou n�o imaginaria que seja t�o f�cil fugir de mim. O sr. Reuben Hayes foi preso em Chesterfield, com base na minha informa��o, �s 23 horas da noite passada. Recebi um telegrama do chefe da pol�cia local antes de sair do col�gio esta manh�.</p><p>O duque recostou-se em sua cadeira e olhou assombrado para o meu amigo.</p><p>� Parece ter poderes sobre-humanos � disse. � Ent�o Reuben Hayes foi preso? Fico contente em ouvir isso, se n�o afetar o destino de James.</p><p>� Seu secret�rio?</p><p>� N�o, senhor, meu filho.</p><p>Foi a vez de Holmes olhar espantado.</p><p>� Confesso que isso � inteiramente novo para mim, Sua Gra�a. Pe�o-lhe que seja mais expl�cito.</p><p>� N�o esconderei nada do senhor. Concordo com o senhor que a franqueza absoluta, por mais dolorosa que seja para mim, � a melhor pol�tica nesta situa��o desesperada � qual a tolice e o zelo de James nos deixaram. Quando eu era mais jovem, sr. Holmes, amei com um amor que s� ocorre uma vez na vida. Pedi a dama em casamento, mas ela recusou, alegando que essa uni�o arruinaria minha carreira. Se ela tivesse vivido, eu com certeza nunca teria me casado com outra pessoa. Ela morreu e deixou esse filho �nico que, por ela, abriguei, e dei a ele carinho e cuidados. N�o pude assumir a paternidade dele diante do mundo, mas lhe dei a melhor educa��o, e desde que se tornou adulto eu o mantenho perto de mim. Ele descobriu meu segredo, e presumiu desde ent�o que tem direitos sobre mim e julgou-se com poder de provocar um esc�ndalo que seria desastroso para mim. Sua presen�a tem rela��o com o desfecho infeliz do meu casamento. Acima de tudo, odiava meu jovem herdeiro leg�timo desde o in�cio, com um �dio persistente. Pode perguntar por que, nestas circunst�ncias, ainda conservo James sob o meu teto. Respondo que foi porque posso ver o rosto de sua m�e no dele, e que em considera��o a ela n�o h� fim para o meu longo sofrimento. Todos os seus bonitos gestos tamb�m � n�o h� um s� gesto dele que n�o sugira nem me traga � lembran�a. N�o pude mand�-lo embora. Mas temia tanto que ele pudesse fazer mal a Arthur � isto �, lorde Saltire �, que o despachei por seguran�a para o col�gio do dr. Huxtable.</p><p>� James entrou em contato com esse sujeito, Hayes, porque ele era um arrendat�rio meu, e James agia como cobrador. O sujeito foi um patife desde o come�o mas, de algum modo extraordin�rio, James ficou �ntimo dele. Teve sempre uma queda por companhias de baixo n�vel. Quando James decidiu raptar lorde Saltire, foi dos servi�os deste homem que se serviu. Lembra-se que escrevi a Arthur no �ltimo dia. Bem, James abriu a carta e incluiu uma nota pedindo a Arthur que o encontrasse num pequeno bosque chamado Ragged Shaw, que fica perto do col�gio. Usou o nome da duquesa, e desse modo conseguiu que o rapaz viesse. Naquela noite James foi de bicicleta � estou lhe contando o que ele mesmo me confessou � e disse a Arthur, que encontrou no bosque, que a m�e dele queria v�-lo, que ela o estava esperando no campo e que se voltasse ao bosque � meia-noite encontraria um homem com um cavalo, que o levaria at� ela. O pobre Arthur caiu na armadilha. Foi ao encontro marcado e topou com esse Hayes, que trazia um p�nei. Arthur montou, e foram juntos. Parece � embora James s� tenha sabido ontem � que eles foram perseguidos, que Hayes abateu seu perseguidor com sua bengala, e que o homem morreu devido aos ferimentos. Hayes levou Arthur para a sua hospedaria, o Galo de Briga, onde foi confinado num quarto do andar superior, aos cuidados da sra. Hayes, uma mulher bondosa, mas inteiramente dominada pelo marido violento.</p><p>� Bem, sr. Holmes, era esta a situa��o quando o vi pela primeira vez, dois dias atr�s. N�o tinha a menor id�ia da verdade, tanto quanto o senhor. O senhor me perguntar� qual foi o motivo que levou James a praticar tal ato. Respondo que havia muito de irracional e fan�tico no �dio que nutria por meu herdeiro. Do seu ponto de vista, ele pr�prio deveria ser o herdeiro de todas as minhas propriedades, e se ressentia profundamente das leis sociais que tornavam isto imposs�vel. Ao mesmo tempo, tinha tamb�m uma raz�o definitiva. Estava ansioso para que eu rompesse o v�nculo, e achava que tinha poder para isso. Queria fazer uma barganha comigo � devolver Arthur se eu rompesse o v�nculo, e assim deixar-lhe os meus bens por meio de testamento. Ele sabia que eu n�o pediria de boa vontade a ajuda da pol�cia. Digo que ele iria me propor essa barganha; mas, na verdade, n�o fez isso, porque os acontecimentos se precipitaram e ele n�o teve tempo de p�r em pr�tica os seus planos.</p><p>� O que arruinou todo este plano perverso foi a sua descoberta do corpo desse tal Heidegger. James ficou horrorizado com a not�cia. Soubemos ontem, quando est�vamos juntos neste escrit�rio. O dr. Huxtable mandou um telegrama. James foi dominado por tanto remorso e agita��o que as minhas suspeitas, que nunca estiveram inteiramente ausentes, transformaram-se no mesmo instante em certeza, e eu o acusei do ato. Fez uma confiss�o completa e volunt�ria. Depois me implorou que eu guardasse seu segredo por tr�s dias, a fim de dar ao seu desventurado c�mplice uma chance de salvar a vida cheia de culpa. Concordei � como sempre � �s suas s�plicas e imediatamente James correu at� o Galo de Briga para avisar Hayes e lhe proporcionar um meio de fuga. N�o podia ir l� de dia sem provocar coment�rios, mas, assim que a noite caiu, fui correndo ver meu querido Arthur. Encontrei-o a salvo e bem, mas horrorizado pelo terr�vel ato que testemunhara. De acordo com minha promessa, e contra a minha vontade, consenti em deix�-lo l� por tr�s dias, sob os cuidados da sra. Hayes, j� que era evidente a impossibilidade de informar � pol�cia onde ele estava sem lhes dizer tamb�m quem era o assassino, e eu n�o conseguia imaginar como aquele assassino poderia ser punido sem arruinar o meu infeliz James. Pediu franqueza, sr. Holmes, e cumpri a palavra, pois agora contei-lhe tudo, sem apelar para rodeios ou subterf�gios. Use da mesma franqueza comigo.</p><p>� Eu o farei � disse Holmes. � Em primeiro lugar, Sua Gra�a, devo dizer-lhe que se colocou numa posi��o muito s�ria aos olhos da lei. O senhor foi conivente com um delito grave e ajudou a fuga de um assassino, pois n�o duvido que qualquer dinheiro levado por James Wilder para ajudar seu c�mplice na fuga veio do bolso de Sua Gra�a.</p><p>O duque se mexeu na cadeira.</p><p>� Esta �, realmente, uma quest�o muito grave. Ainda mais conden�vel, na minha opini�o, Sua Gra�a, � a sua atitude em rela��o ao seu filho mais novo. O senhor o deixou nesse antro por tr�s dias.</p><p>� Sob promessas solenes...</p><p>� O que s�o promessas para pessoas como essas? O senhor n�o tem garantias de que ele n�o ser� levado embora novamente. Em favor do seu filho mais velho culpado, exp�s seu inocente filho mais novo a um perigo iminente e desnecess�rio. Foi uma atitude injustific�vel.</p><p>O orgulho do senhor de Holdernesse n�o estava acostumado a ser t�o ferido em sua pr�pria resid�ncia ducal. O sangue avermelhou a sua testa alta, mas sua consci�ncia o fez ficar mudo.</p><p>� Eu o ajudarei, mas sob uma condi��o. Que chame o lacaio e deixe-me dar-lhe as ordens que quiser.</p><p>Sem uma palavra, o duque pressionou a campainha. Um criado entrou.</p><p>� Ficar� feliz em saber � disse Holmes � que o seu jovem patr�o foi encontrado. � desejo do duque que a carruagem v� imediatamente ao hotel Galo de Briga para trazer lorde Saltire para casa.</p><p>� Agora � disse Holmes, depois que o lacaio saiu alegre �, tendo assegurado o futuro, podemos ser mais clementes com o passado. N�o estou em miss�o oficial, e n�o h� motivo, desde que os fins da justi�a sejam cumpridos, para revelar tudo o que sei. Quanto a Hayes, n�o digo nada. A forca o espera e n�o faria nada para salv�-lo. O que ele contar� n�o posso saber, mas n�o tenho d�vida de que Sua Gra�a poderia faz�-lo entender que � do interesse dele ficar calado. Do ponto de vista da pol�cia, ele teria raptado o garoto com o objetivo de pedir um resgate. Se eles n�o descobrirem por si mesmos, n�o vejo motivo para que eu os ajude a ter uma vis�o mais ampla. Contudo, devo avisar Sua Gra�a que a perman�ncia do sr. James Wilder em sua casa s� pode resultar em infort�nio.</p><p>� Sei disso, sr. Holmes, e j� est� acertado que ele ir� embora para sempre, e tentar� fazer fortuna na Austr�lia.</p><p>� Nesse caso, Sua Gra�a, desde que o senhor mesmo percebeu que toda a infelicidade do seu casamento foi causada pela presen�a dele, sugeriria que fizesse as corre��es que pudesse em rela��o � duquesa, e que tentasse reatar as rela��es que foram interrompidas de modo t�o inconveniente.</p><p>� Isso tamb�m j� foi resolvido, sr. Holmes. Escrevi � duquesa esta manh�.</p><p>� Ent�o � disse Holmes, levantando-se � creio que meu amigo e eu podemos nos congratular pelos v�rios resultados felizes de nossa visitinha ao norte. H� um outro ponto sobre o qual desejo um esclarecimento. Esse sujeito, Hayes, ferrara seus cavalos com ferraduras que imitavam pegadas de vacas. Foi com o sr. Wilder que aprendeu este ardil t�o extraordin�rio?</p><p>O duque ficou pensativo por um instante, com uma express�o de surpresa no rosto. Depois abriu uma porta e nos levou at� um aposento amplo, decorado como um museu. Foi at� uma caixa de vidro num canto, e apontou para a inscri��o.</p><p>� Estas ferraduras � lia-se � foram desencavadas do fosso de Holdernesse Hall. S�o para o uso de cavalos, mas s�o moldadas embaixo com uma placa de a�o, fendida, a fim de despistar perseguidores. Sup�e-se que pertenceram a alguns dos bar�es saqueadores de Holdernesse, na Idade M�dia.</p><p>Holmes abriu a caixa e, umedecendo o dedo, passou-o pela ferradura. Uma fina camada de lama recente ficou em sua pele.</p><p>� Obrigado � disse, enquanto recolocava o vidro. � � a segunda coisa mais interessante que vi no norte.</p><p>� E a primeira?</p><p>Holmes dobrou seu cheque e o colocou com cuidado em seu caderno. � Sou um homem pobre � disse, enquanto o acariciava e o jogava no fundo do seu bolso interno.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura de black peter</strong></p><p>Nunca vi meu amigo em t�o boa forma, tanto mental quanto f�sica, como no ano de 1895. Sua fama crescente atra�ra uma imensa clientela, e eu seria acusado de indiscri��o se me referisse � identidade de alguns dos ilustres clientes que passaram pela nossa humilde soleira na Baker Street. Mas Holmes, como todos os grandes artistas, vivia pelo amor � arte e, salvo no caso do duque de Holdernesse, raramente o vi pedir uma grande recompensa pelos seus inestim�veis servi�os. Ele era t�o indescrit�vel � ou t�o caprichoso � que freq�entemente recusava sua ajuda ao poderoso e rico, quando o problema n�o o atra�a, mas seria capaz de dedicar semanas da mais intensa concentra��o ao caso de algum cliente humilde que tivesse aquelas qualidades estranhas e dram�ticas que apelavam para sua imagina��o e desafiavam seu talento.</p><p>Nesse memor�vel ano de 1895, uma sucess�o curiosa e incongruente de casos</p><p>ocupara sua aten��o, come�ando com a famosa investiga��o da morte s�bita do cardeal Tosca � uma investiga��o realizada por ele segundo o desejo expresso de Sua Santidade o papa � at� a pris�o de Wilson, o not�rio treinador de can�rios, que eliminou uma fonte de corrup��o do extremo leste de Londres. Logo ap�s estes dois casos famosos veio a trag�dia de Woodman�s Lee, e as circunst�ncias misteriosas que cercaram a morte do capit�o Peter Carey. Nenhum registro dos feitos do sr. Sherlock Holmes estaria completo se n�o inclu�sse um relato deste caso incomum.</p><p>Durante a primeira semana de julho, meu amigo se ausentava com tanta freq��ncia e por tanto tempo que eu percebi que estava metido em alguma coisa. O fato de que v�rios homens de apar�ncia rude aparecessem durante esse per�odo perguntando pelo capit�o Basil me fez compreender que Holmes estava trabalhando em algum lugar usando um dos seus numerosos disfarces e nomes com os quais ocultava sua identidade. Ele tinha pelo menos cinco pequenos ref�gios em �reas diferentes de Londres, nos quais podia mudar de personalidade. Ele n�o me falou nada a respeito desse neg�cio, e eu n�o tinha o costume de for�ar uma confid�ncia. O primeiro sinal positivo que ele me deu do rumo que sua investiga��o estava tomando foi algo extraordin�rio. Holmes sa�ra antes do caf�-da-manh� e eu havia me sentado para tomar o meu quando ele entrou apressado na sala, com o chap�u na cabe�a e uma lan�a enfiada como um guarda-chuva debaixo do bra�o.</p><p>� Meu Deus, Holmes! � exclamei. � Voc� n�o vai me dizer que estava andando a� por Londres com essa coisa.</p><p>� Fui at� o a�ougue e voltei.</p><p>� O a�ougue?</p><p>� E voltei com muito apetite. N�o se pode duvidar, meu caro Watson, do valor do exerc�cio antes do caf�-da-manh�. Mas posso apostar que voc� n�o vai adivinhar que tipo de exerc�cio eu fiz.</p><p>� Nem vou tentar.</p><p>Holmes deu uma risadinha enquanto se servia de caf�.</p><p>� Se voc� tivesse observando os fundos da loja de Allardyce, teria visto um porco morto pendurado em um gancho preso no teto, e um cavalheiro em mangas de camisa perfurando-o furiosamente com esta arma. Eu era essa pessoa vigorosa, e fiquei satisfeito por constatar que, sem usar a minha for�a, eu consigo trespassar o porco com um s� golpe. Ser� que voc� gostaria de tentar?</p><p>� De jeito nenhum. Mas por que estava fazendo isso?</p><p>� Porque eu achava que tinha uma liga��o indireta com o mist�rio de Woodman�s Lee. Ah, Hopkins, recebi seu telegrama ontem � noite e estava esperando voc�. Entre e sente-se conosco.</p><p>Nosso visitante era um homem extremamente atento, de 30 anos, vestido com um discreto terno de tweed, mas que conservava a postura ereta de algu�m acostumado a usar uniforme. Eu reconheci logo Stanley Hopkins, um jovem inspetor de pol�cia, em cujo futuro Holmes tinha grandes esperan�as, enquanto ele, por sua vez, demonstrava a admira��o e o respeito de um aluno pelos m�todos cient�ficos do famoso amador. O rosto de Hopkins estava com uma express�o sombria, e ele se sentou com um ar de profundo des�nimo.</p><p>� N�o, obrigado, senhor. Eu tomei caf� antes de vir para c�. Passei a noite na cidade, porque vim ontem para fazer um relato.</p><p>� E o que voc� tinha para relatar?</p><p>� Um fracasso, senhor, um fracasso completo.</p><p>� N�o fez nenhum progresso?</p><p>� Nenhum.</p><p>� Meu Deus! Preciso examinar esse assunto.</p><p>� Gostaria que fizesse isso, sr. Holmes. � a minha primeira grande oportunidade, e eu n�o sei o que fazer. Pelo amor de Deus, venha me dar uma ajuda.</p><p>� Bem, bem, acontece que eu j� li todos os depoimentos dispon�veis, inclusive� o relat�rio da investiga��o, com certo cuidado. Por falar nisso, o que acha daquela bolsa para tabaco encontrada no local do crime? N�o h� nenhuma pista ali?</p><p>Hopkins pareceu surpreso.</p><p>� A bolsa era do pr�prio homem. Suas iniciais estavam do lado de dentro. E era de pele de foca � e ele era um velho ca�ador de focas.</p><p>� Mas ele n�o tinha cachimbo.</p><p>� N�o, senhor, n�o encontramos nenhum cachimbo. Na verdade, ele fumava muito pouco, e mesmo assim ele podia guardar um pouco de fumo para os seus amigos.</p><p>� Sem d�vida. Eu s� mencionei isso porque, se eu estivesse lidando com o caso, usaria isso como ponto de partida da minha investiga��o. Mas o meu amigo, o dr. Watson, n�o sabe nada a respeito deste assunto, e n�o me faria mal nenhum ouvir novamente a seq��ncia dos fatos. Fa�a um resumo dos pontos principais.</p><p>Stanley Hopkins tirou um peda�o de papel do bolso.</p><p>� Tenho aqui algumas datas que lhes mostrar�o a carreira do homem morto, o capit�o Peter Carey. Nasceu em 1845 � 50 anos de idade. Era o mais ousado e bem-sucedido ca�ador de focas e baleias. Em 1883 comandou o pesqueiro a vapor Sea Unicorn, de Dundee. Fez ent�o v�rias viagens sucessivas com �xito e no ano seguinte, 1884, se aposentou. Depois disso, viajou durante alguns anos e finalmente comprou uma pequena propriedade chamada Woodman�s Lee, perto de Forest Row, no Sussex. Viveu ali durante seis anos e l� morreu h� uma semana.</p><p>� Havia alguns detalhes muito estranhos sobre o homem. Na sua vida comum, era um puritano convicto � um sujeito silencioso e sombrio. Ele morava com a esposa, sua filha de 20 anos e duas criadas. Estas duas eram trocadas constantemente, porque a situa��o nunca era muito animadora, e �s vezes ficava insustent�vel. O homem estava permanentemente b�bado e, quando lhe subia � cabe�a, era um perfeito dem�nio. Sabia-se que levava a esposa e a filha para fora de casa no meio da noite e as a�oitava no parque at� que a vila inteira fosse despertada pelos gritos delas.</p><p>� Uma vez ele foi intimado por causa de uma tentativa feroz de agress�o contra o velho vig�rio, que fora visit�-lo para queixar-se de sua conduta. Em suma, sr. Holmes, teria de procurar muito para encontrar um homem mais perigoso que Peter Carey, e ouvi dizer que agia da mesma maneira quando comandava seu navio. Era conhecido pelo apelido de Black Peter, e recebeu o nome n�o s� por causa de sua tez morena e a cor de sua barba imensa, mas tamb�m por suas extravag�ncias que eram o terror de todos � sua volta. N�o preciso dizer que era detestado e evitado por todos os vizinhos, e que n�o ouvi uma s� palavra de pesar sobre seu fim terr�vel.</p><p>� Deve ter lido no relat�rio do inqu�rito sobre a cabine do homem, sr. Holmes, mas talvez seu amigo n�o saiba disso: ele mesmo construiu uma casinha de madeira � sempre a chamou de �cabine� � a algumas centenas de metros de sua casa, e era ali que dormia todas as noites. Era uma cabana pequena de um �nico c�modo de 5 metros por 3. Guardava a chave no bolso, fazia sua pr�pria cama, ele mesmo a limpava e n�o permitia que outros p�s atravessassem a soleira. Ela tem janelas pequenas de cada lado, cobertas por cortinas e que nunca s�o abertas. Uma dessas janelas dava para a estrada principal e quando havia luz ali � noite, as pessoas a apontavam para os outros e ficavam imaginando o que Black Peter estaria fazendo. Esta � a janela, sr. Holmes, que nos deu um dos poucos fragmentos de evid�ncia que apareceram no inqu�rito.</p><p>� O senhor lembra que um pedreiro chamado Slater, que vinha a p� de Forest Row por volta de uma hora � dois dias antes do assassinato �, parou ao passar por perto e olhou para o quadrado de luz que ainda brilhava por entre as �rvores. Ele jura que a sombra da cabe�a de um homem de perfil era claramente vis�vel na cortina, e que esta sombra com certeza n�o era a de Peter Carey, que ele conhecia bem. Era a de um homem com barba, mas essa barba era curta e eri�ada para a frente de um modo diferente da do capit�o. � o que ele diz, mas tinha ficado durante duas horas no bar e h� uma certa dist�ncia entre a estrada e a janela. Al�m disso, isto se refere � segunda-feira e o crime foi cometido na quarta.</p><p>� Na ter�a, Peter Carey estava num de seus piores humores, inflamado pela bebida e t�o selvagem quanto uma perigosa besta danada. Ficou perambulando pela casa e as mulheres corriam quando o ouviam chegar. Tarde da noite, foi para sua pr�pria cabana. Por volta das duas horas, sua filha, que dormia com a janela aberta, ouviu um grito de pavor vindo daquela dire��o, mas n�o era raro ele rosnar e gritar quando estava b�bado, de modo que ela n�o tomou conhecimento. Ao se levantar �s sete horas, uma das criadas notou que a porta da cabana estava aberta, mas era t�o grande o terror que o homem inspirava que s� ao meio-dia algu�m se arriscaria a ir ver o que acontecera com ele. Espreitando pela porta aberta, tiveram uma vis�o que as fez vir correndo, com os rostos p�lidos, para a vila. Em uma hora eu estava no local e j� assumia o comando do caso.</p><p>� Ora, tenho nervos resistentes como sabe, sr. Holmes, mas dou-lhe minha palavra que senti um arrepio quando enfiei a cabe�a dentro daquela casinha. Estava zumbindo como um harm�nio com as moscas e varejeiras; o ch�o e as paredes pareciam um matadouro. Ele a chamava de cabine, e era uma cabine com certeza, pois a gente podia pensar que estava num barco. Havia um beliche de um lado, um ba� de marinheiro, mapas e cartas mar�timas, um retrato do Sea Unicorn, uma fila de di�rios de bordo numa prateleira, tudo exatamente como se esperaria que fosse a cabine de um capit�o. E ali, no meio do quarto, estava o pr�prio homem � seu rosto crispado como uma alma perdida atormentada, e sua grande barba raiada voltada para cima em sua agonia. Um arp�o de a�o fora enfiado no seu peito largo e penetrara fundo na madeira da parede atr�s dele. Ele estava pregado como um inseto num cart�o. � claro que estava morto, e desde o instante em que dera o �ltimo grito de agonia.</p><p>� Conhe�o seus m�todos, senhor, e os apliquei. Antes de permitir que qualquer coisa fosse mexida, examinei com o maior cuidado o ch�o do lado de fora e tamb�m o assoalho no quarto. N�o havia pegadas.</p><p>� Quer dizer que n�o viu nenhuma?</p><p>� Garanto-lhe, senhor, que n�o havia nenhuma.</p><p>� Meu bom Hopkins, j� investiguei muitos crimes, mas ainda n�o vi nenhum cometido por uma criatura voadora. Desde que o criminoso tenha duas pernas, tem de haver alguma marca, alguma esfoladura, alguma modifica��o insignificante que pode ser detectada por um pesquisador cient�fico. � inacredit�vel que esse aposento salpicado de sangue n�o contivesse vest�gios que pudessem nos ajudar. Contudo, percebi pelo inqu�rito que havia certos objetos que deixou de inspecionar?</p><p>O jovem inspetor encolheu-se ao ouvir os coment�rios ir�nicos do meu amigo.</p><p>� Fui um tolo em n�o cham�-lo naquela ocasi�o, sr. Holmes. Mas isso s�o �guas passadas. Sim, havia v�rios objetos no quarto que exigiam aten��o especial. Um era o arp�o com que o crime foi cometido. Fora retirado de uma estante na parede. Dois outros permaneceram l�, e havia um lugar vago para o terceiro. No cabo estava gravado �S. S. Sea Unicorn, Dundee�. Isto parece indicar que o crime foi cometido num momento de f�ria e que o assassino pegou a primeira arma que encontrou � m�o. O fato de o crime ter sido cometido �s duas horas, e de Peter Carey ainda estar completamente vestido, sugere que ele tinha um encontro com o assassino, o que � confirmado pelo fato de que uma garrafa de rum e dois copos usados estavam em cima da mesa.</p><p>� Sim � disse Holmes �, creio que as duas dedu��es s�o admiss�veis. Havia alguma outra bebida al�m do rum no quarto?</p><p>� Sim. Havia um c�ntaro contendo brandy e u�sque na arca. Mas isto n�o � importante para n�s, j� que as garrafas estavam cheias e ainda n�o tinham sido usadas.</p><p>� Por tudo isso, a presen�a delas tem import�ncia � disse Holmes. � Mas vamos ouvir algo mais sobre os objetos que lhe parecem ter alguma coisa a ver com o caso.</p><p>� Havia essa tabaqueira sobre a mesa.</p><p>� Em que parte da mesa?</p><p>� Estava no centro. Era de couro ordin�rio de foca � o couro de cerdas curtas, com uma tira de couro para amarrar. Por dentro da aba estava gravado �P.C.�. Havia meia on�a de tabaco forte de navio l� dentro.</p><p>� Excelente! O que mais?</p><p>Stanley Hopkins tirou do bolso um caderninho de anota��es forrado com um tecido grosso de l�. A parte externa estava enrugada e gasta, as folhas desbotadas. Na primeira p�gina estavam escritas as iniciais �J.H.N.� e a data �1883.� Holmes o colocou na mesa e o examinou do seu jeito minucioso, enquanto Hopkins e eu olh�vamos por cima dos ombros dele. Na segunda p�gina estavam impressas as letras �C.P.R.� e depois vinham v�rias p�ginas de n�meros. Outro t�tulo era �Argentina�, outro �Costa Rica� e outro �S�o Paulo�, cada um com p�ginas de s�mbolos e n�meros depois.</p><p>� O que acha disto? � perguntou Holmes.</p><p>� Parecem listas� de a��es da Bolsa de Valores. Pensei que �J.H.N.� fossem as iniciais de um corretor e que �C.P.R.� talvez fosse seu cliente.</p><p>� Tente Canadian Pacific Railway � disse Holmes.</p><p>Stanley Hopkins praguejou baixinho e bateu na coxa com a m�o fechada.</p><p>� Que tolo eu fui! � exclamou. � � claro que � isso. Ent�o �J.H.N.� s�o as �nicas iniciais que temos de descobrir. J� examinei as velhas listas da Bolsa de Valores e n�o consegui achar ningu�m em 1883, na casa ou entre os outros corretores, cujas iniciais correspondessem a essas. Mesmo assim acho que esta pista � a mais importante que tenho. Talvez concorde, sr. Holmes, que h� uma possibilidade de que estas iniciais sejam as da segunda pessoa que esteve presente � em outras palavras, do assassino. Tamb�m insisto que o aparecimento no caso de um documento relacionado com a grande quantidade de a��es valiosas nos d� pela primeira vez alguma indica��o de um motivo para este crime.</p><p>O rosto de Sherlock Holmes mostrava que ele fora apanhado de surpresa por este novo fato.</p><p>� Devo admitir os dois pontos � disse. � Confesso que este caderninho de anota��es, que n�o apareceu no inqu�rito, modifica qualquer opini�o que eu tenha formado. Eu havia elaborado uma teoria do crime na qual n�o encontro lugar para isto. Tentou procurar alguns dos t�tulos mencionados aqui?</p><p>� Est�o sendo feitas investiga��es agora nos escrit�rios, mas receio que os registros completos destes acionistas sul-americanos estejam na Am�rica do Sul, e que sejam necess�rias algumas semanas at� que possamos rastrear as a��es.</p><p>Holmes estivera examinando a capa do caderno com sua lente de aumento.</p><p>� Certamente existe aqui alguma descolora��o � disse.</p><p>� Sim, senhor, � uma mancha de sangue. Eu lhe disse que peguei o livro do ch�o.</p><p>� A mancha de sangue estava em cima ou embaixo?</p><p>� No lado pr�ximo �s t�buas.</p><p>� O que prova, � claro, que o livro foi largado depois que o crime foi cometido.</p><p>� Exatamente, sr. Holmes. Observei esse detalhe e imaginei que foi largado pelo assassino na sua fuga apressada. Estava perto da porta.</p><p>� Suponho que nenhum destes t�tulos foi encontrado entre os bens do morto.</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Tem algum motivo para suspeitar de roubo?</p><p>� N�o, senhor. Nada parece ter sido tocado.</p><p>� Este com certeza � um caso muito interessante. Ent�o havia uma faca, n�o?</p><p>� Uma faca de estojo, ainda na sua bainha. Estava aos p�s do morto. A sra. Carey a identificou como sendo de propriedade do marido.</p><p>Holmes ficou pensando durante algum tempo.</p><p>� Bem � disse por fim �, acho que tenho de sair e dar uma olhada.</p><p>Stanley Hopkins deu um grito de alegria.</p><p>� Obrigado, senhor. Na verdade, tirar� um peso da minha consci�ncia.</p><p>Holmes balan�ou o dedo na dire��o do inspetor.</p><p>� Teria sido uma tarefa mais f�cil uma semana atr�s � disse. Mas mesmo agora minha visita pode n�o ser totalmente infrut�fera. Watson, se dispuser de tempo, ficaria muito grato pela sua companhia. Se chamar uma carruagem, Hopkins, estaremos prontos para partir para Forest Row em 15 minutos.</p><empty-line/><p>Saltando na pequena esta��o � margem da estrada, percorremos alguns quil�metros em meio aos restos espalhados de bosques, que haviam sido parte da grande floresta que por muito tempo manteve os sax�es invasores a dist�ncia � a impenetr�vel weald,* por sessenta anos o baluarte da Inglaterra. Vastas por��es dela foram desmatadas, porque este � o local das primeiras usinas sider�rgicas do pa�s, e as �rvores foram cortadas para fundir o min�rio. Agora os campos mais ricos do norte absorveram o of�cio e nada, a n�o ser estes bosques devastados e grandes marcas na terra, mostra o trabalho do passado. Aqui, numa clareira sobre a encosta verdejante de uma colina, ficava uma casa de pedra, comprida e baixa, onde se chegava por um caminho tortuoso que passava pelos campos. Mais perto da estrada e cercada por arbustos em tr�s lados, havia uma pequena cabana, uma janela e a porta se abrindo na nossa dire��o. Era o cen�rio do crime.</p><p>Stanley Hopkins nos levou primeiro para a casa, onde nos apresentou a uma mulher maltratada e de cabelos grisalhos, a vi�va do homem assassinado, cujo rosto descarnado, com rugas profundas e uma express�o furtiva de terror no fundo dos olhos vermelhos revelava os anos de dureza e maus-tratos a que fora submetida. Com ela estava a filha, uma garota p�lida e loura, cujos olhos tinham um brilho desafiador enquanto nos dizia que estava contente por seu pai estar morto, e que aben�oava a m�o que o matara. Era uma p�ssima fam�lia a que Black Peter Carey formara para si, e foi com al�vio que nos encontramos de novo sob a luz do sol e andando por um caminho que fora trilhado pelos p�s do morto.</p><p>A cabana era uma moradia das mais simples, paredes de madeira, teto de telhas de ard�sia, uma janela ao lado da porta e uma outra nos fundos. Stanley Hopkins tirou a chave do bolso e a colocara na fechadura quando parou, com uma express�o atenta e surpresa no rosto.</p><p>� Algu�m tentou for��-la � disse.</p><p>N�o havia d�vida sobre isso. A madeira estava cortada, e os arranh�es apareciam brancos na pintura, como se tivessem sido feitos naquele instante. Holmes estivera examinando a janela.</p><p>� Algu�m tentou for�ar isto tamb�m. Seja quem for, n�o conseguiu entrar. Deve ser um ladr�o muito med�ocre.</p><p>� Esta � uma coisa extraordin�ria � disse o inspetor. � Eu� podia jurar que estas marcas n�o estavam aqui ontem � noite.</p><p>� Algum curioso da vila, talvez � sugeri.</p><p>� Bastante improv�vel. Poucos deles ousariam entrar nesta propriedade, muito menos for�ar a entrada na cabine. O que acha disso, sr. Holmes?</p><p>� Acho que o acaso est� sendo muito bom conosco.</p><p>� Quer dizer que a pessoa voltar�?</p><p>� � muito prov�vel. Ele veio esperando encontrar a porta aberta. Tentou entrar com a l�mina de um pequeno canivete. N�o conseguiu. O que ele faria?</p><p>� Voltaria na noite seguinte com uma ferramenta mais �til.</p><p>� � o que eu diria. Ser� uma falha nossa se n�o estivermos aqui para receb�-lo. Enquanto isso, deixe-me ver o interior da cabine.</p><p>As marcas da trag�dia tinham sido removidas, mas a mob�lia dentro do pequeno aposento ainda estava como na noite do crime. Durante duas horas, com a mais intensa concentra��o, Holmes examinou cada objeto, mas seu rosto mostrava que a busca n�o fora bem-sucedida. Apenas uma vez parou em sua investiga��o paciente.</p><p>� Tirou alguma coisa desta prateleira, Hopkins?</p><p>� N�o, n�o tirei nada.</p><p>� Algo foi retirado. H� menos p� neste canto da prateleira do que em qualquer outro lugar. Deveria haver um livro neste lugar. Talvez fosse uma caixa. Bem, n�o posso fazer mais nada. Vamos andar por esses lindos bosques, Watson, e dedicar algumas horas aos p�ssaros e �s flores. Encontraremos o senhor mais tarde, Hopkins, e vamos ver se podemos chegar mais perto desse cavalheiro que fez esta visita noturna.</p><p>Passava das 23 horas quando montamos nossa pequena emboscada. Hopkins preferia deixar a porta da cabana aberta, mas Holmes era de opini�o que isto despertaria suspeitas no estranho. A fechadura era bastante simples e era preciso apenas uma l�mina forte para pux�-la. Holmes sugeriu tamb�m que dever�amos esperar n�o dentro da cabana, mas do lado de fora, entre os arbustos que cresciam perto da janela dos fundos. Assim ter�amos condi��es de observar nosso homem se acendesse uma luz, e descobrir o objetivo de sua visita noturna clandestina.</p><p>Foi uma vig�lia longa e melanc�lica, e mesmo assim provocou um pouco da emo��o que o ca�ador sente enquanto espreita perto do bebedouro, esperando a chegada da presa sedenta. Que criatura selvagem era aquela que nos apareceria da escurid�o? Seria um feroz tigre do crime, que s� poderia ser capturado se lut�ssemos contra garras e unhas, ou seria algum chacal esquivo, perigoso apenas para os fracos e desprotegidos?</p><p>Em absoluto sil�ncio nos agachamos entre os arbustos, esperando pelo que viesse. No in�cio os passos de alguns alde�os retardat�rios ou o som de vozes provenientes da vila aliviaram nossa vig�lia, mas uma a uma essas interrup��es desapareceram ao longe e uma quietude absoluta nos envolveu, quebrada apenas pelo toque dos sinos da igreja distante, que indicava o avan�o da noite, e pelo farfalhar de uma chuva fina caindo nas folhagens que nos cobriam.</p><p>J� passava de 2:30h, e era a hora mais escura antes do raiar do dia, quando nos sobressaltamos com um clique baixo, mas agudo, vindo da dire��o do port�o. Algu�m tinha entrado pelo caminho. De novo houve um sil�ncio longo, e eu come�ara a pensar que fora um alarme falso quando ouvimos um passo furtivo do outro lado da cabana e logo depois um arranh�o e um tinido met�lico. O homem tentava for�ar a porta. Desta vez sua habilidade era maior, ou sua ferramenta melhor, pois houve um s�bito estalido e o rangido de dobradi�as. Depois um f�sforo foi aceso e logo em seguida a luz fraca de uma vela encheu o interior da cabana. Atrav�s da cortina fina nossos olhos estavam fixos na cena l� dentro.</p><p>O visitante noturno era um jovem magro e fraco, com um bigode preto que real�ava a palidez mortal do rosto. N�o tinha muito mais de 20 anos. Nunca vi nenhum ser humano que parecesse sentir medo t�o lastim�vel, pois seus dentes estavam batendo visivelmente, e todos os seus membros tremiam. Vestia-se como um cavalheiro, com um colete Norfolk, um cal��o folgado e um chap�u de pano na cabe�a. Ficamos observando enquanto ele olhava em volta com express�o assustada. Depois deixou o casti�al sobre a mesa e desapareceu de nossa vista num dos cantos. Voltou com um livro grande, um dos di�rios de bordo que formavam uma fila na prateleira. P�s o livro na mesa e virou rapidamente as folhas at� que chegou ao que procurava. Ent�o, com um gesto de raiva de suas m�os crispadas, fechou o livro, colocou-o de volta no canto e apagou a luz. Mal havia se virado para sair da cabana quando a m�o de Hopkins agarrou o colarinho do sujeito, e ouvi seu arquejo alto de terror ao compreender que fora apanhado. A vela foi acesa de novo e l� estava nosso infeliz prisioneiro, tremendo e encolhido na m�o do detetive. Ele se sentou sobre a arca e olhou indefeso para cada um de n�s.</p><p>� Agora, meu camarada � disse Stanley Hopkins �, quem � voc�, e o que quer aqui?</p><p>O homem endireitou-se e nos encarou com um esfor�o de autocontrole.</p><p>� S�o detetives, eu suponho? � disse. � Imaginam que estou ligado � morte do capit�o Peter Carey. Eu lhes garanto que sou inocente.</p><p>� Veremos isso � disse Hopkins. � Antes de mais nada, qual � o seu nome?</p><p>� � John Hopley Neligan.</p><p>Vi Holmes e Hopkins trocarem um r�pido olhar.</p><p>� O que est� fazendo aqui?</p><p>� Posso falar confidencialmente?</p><p>� N�o, claro que n�o.</p><p>� Por que eu lhe diria?</p><p>� Se n�o tiver resposta, pode ser pior para voc� no julgamento.</p><p>O jovem estremeceu.</p><p>� Bem, eu lhes direi � concordou. � Por que n�o? E ainda assim odeio pensar neste velho esc�ndalo ganhando uma nova vida. J� ouviu falar de Dawson e Neligan?</p><p>Pude ver, pelo rosto de Hopkins, que ele nunca ouvira, mas Holmes ficou muito interessado.</p><p>� Quer dizer os banqueiros do West Country � disse. � Eles faliram, arruinaram metade das fam�lias do condado de Cornwall e Neligan desapareceu.</p><p>� Exatamente. Neligan era meu pai.</p><p>Finalmente est�vamos conseguindo algo positivo e mesmo assim parecia haver uma enorme dist�ncia entre um banqueiro foragido e o capit�o Peter Carey pregado � parede com um de seus pr�prios arp�es. Todos n�s ouvimos atentamente as palavras do rapaz.</p><p>� Meu pai foi o verdadeiro atingido. Dawson se aposentara. Eu tinha apenas 10 anos de idade naquela �poca, mas era suficientemente crescido para sentir a vergonha e o horror de tudo aquilo. Sempre se disse que meu pai roubou todos os t�tulos e fugiu. N�o � verdade. Ele acreditava que se lhe dessem tempo para vend�-los, tudo ficaria bem e todos os credores seriam pagos integralmente. Partiu em seu pequeno iate para a Noruega um pouco antes de ser expedido o seu mandado de pris�o. Posso me lembrar da �ltima noite, quando deu adeus � minha m�e. Ele nos deixou uma lista dos t�tulos que estava levando e jurou que voltaria com sua honra limpa, e que nenhum dos que confiaram nele iria sofrer. Bem, nunca mais se ouviu falar nele. Tanto ele como o iate sumiram completamente. Acredit�vamos, minha m�e e eu, que os dois, com os t�tulos que levavam, estavam no fundo do mar. Mas t�nhamos um amigo fiel, que � um homem de neg�cios, e foi ele quem descobriu pouco tempo atr�s que alguns dos t�tulos que estavam com meu pai reapareceram no mercado de Londres. Voc�s podem imaginar nossa surpresa. Passei meses procurando-os e por fim, depois de muitas d�vidas e dificuldades, descobri que o vendedor original fora o capit�o Peter Carey, o dono desta cabana.</p><p>� Naturalmente fiz algumas investiga��es sobre o homem. Descobri que esteve no comando de uma baleeira que voltava dos mares do �rtico na mesma �poca em que meu pai atravessava para a Noruega. O outono daquele ano foi tempestuoso, e houve uma longa sucess�o de ventos fortes ao sul. O iate de meu pai pode muito bem ter sido empurrado para o norte pelos ventos e l� ter sido encontrado pelo barco do capit�o Peter Carey. Se foi assim, o que aconteceu com meu pai? De qualquer modo, se pudesse mostrar, pelo testemunho de Peter Carey, como estes t�tulos chegaram ao mercado, seria uma prova de que meu pai n�o os vendeu e que n�o visava ao lucro pessoal quando os levou.</p><p>� Vim para Sussex com a inten��o de ver o capit�o, mas foi nessa ocasi�o que ocorreu sua morte terr�vel. Li no inqu�rito uma descri��o da cabine dele que dizia que velhos di�rios de bordo de sua embarca��o eram conservados ali. Ocorreu-me que, se pudesse ver o que aconteceu no m�s de agosto de 1883 a bordo do Sea Unicorn, poderia esclarecer o mist�rio do destino de meu pai. Na noite passada tentei chegar a esses di�rios, mas n�o consegui abrir a porta. Esta noite tentei de novo e consegui, mas descobri que as p�ginas relativas �quele m�s haviam sido arrancadas do livro. Foi naquele momento que me vi prisioneiro em suas m�os.</p><p>� Isso � tudo? � perguntou Hopkins.</p><p>� Sim, isso � tudo. � Seus olhos se esquivaram quando falou.</p><p>� N�o tem mais nada a nos dizer?</p><p>Ele hesitou.</p><p>� N�o, n�o h� nada.</p><p>� N�o esteve aqui antes da noite passada?</p><p>� N�o.</p><p>� Ent�o, como explica isso? � exclamou Hopkins, enquanto mostrava o caderninho acusador, com as iniciais de nosso prisioneiro na primeira p�gina e a mancha de sangue na capa.</p><p>O pobre rapaz desmoronou. Mergulhou o rosto nas m�os e tremia todo.</p><p>� Onde o conseguiu? � murmurou. � N�o sabia. Pensei que o perdera no hotel.</p><p>� Isso � o suficiente � disse Hopkins com frieza. � O que quer que ainda tenha a dizer, o far� no tribunal. Vir� comigo at� a delegacia. Bem, sr. Holmes, estou muito agradecido ao senhor e ao seu amigo por terem vindo me ajudar. Sua presen�a acabou sendo desnecess�ria, e eu teria chegado a este final bem-sucedido sem o senhor, mas mesmo assim estou grato. Foram reservados quartos para voc�s no Hotel Brambletye, de modo que podemos ir juntos at� a vila.</p><p>� Bem, Watson, o que acha disso? � perguntou Holmes, na viagem de volta na manh� seguinte.</p><p>� Posso ver que n�o est� satisfeito.</p><p>� Oh, sim, meu caro Watson, estou perfeitamente satisfeito. Ao mesmo tempo, os m�todos de Stanley Hopkins n�o me inspiram confian�a. Estou decepcionado com Stanley Hopkins. Eu esperava uma atua��o melhor dele. Deve-se procurar sempre uma poss�vel alternativa, e se precaver contra ela. � a primeira regra da investiga��o criminal.</p><p>� Qual � ent�o a alternativa?</p><p>� A linha de investiga��o que eu mesmo venho seguindo. Pode n�o dar em nada. N�o poderia dizer. Mas pelo menos eu a seguirei at� o fim.</p><p>V�rias cartas estavam esperando por Sherlock Holmes em Baker Street. Pegou uma delas, abriu-a e explodiu numa risada de regozijo triunfante.</p><p>� Excelente, Watson! A alternativa progride. Tem formul�rios de telegramas? Escreva algumas mensagens para mim: �Sumner, Ag�ncia de barcos, estrada Ratcliff. Mande tr�s homens, para chegar amanh� de manh�. � Basil.� Este � o meu nome por aqueles lados. A outra �: �Inspetor Stanley Hopkins, 46, Lord Street, Brixton. Venha para o caf�-da-manh� amanh� �s 9:30h. Importante. Telegrafar se n�o puder. � Sherlock Holmes.� �, Watson, este caso infernal me prendeu por dez dias. Com isto eu o tirarei completamente da minha presen�a. Amanh� acredito que ouviremos falar nele pela �ltima vez.</p><p>Exatamente na hora marcada o inspetor Stanley Hopkins apareceu e nos sentamos para tomar o �timo caf�-da-manh� que a sra. Hudson preparara. O jovem detetive estava de bom humor por causa de seu �xito.</p><p>� Tem certeza de que sua solu��o � a correta? � perguntou Holmes.</p><p>� N�o poderia imaginar um caso mais completo.</p><p>� N�o me parece conclusivo.</p><p>� O senhor me espanta, sr. Holmes. O que mais algu�m poderia querer?</p><p>� Sua explica��o abrange todos os pontos?</p><p>� Sem d�vida alguma. Descobri que o jovem Neligan chegou ao Hotel Brambletye no mesmo dia do crime. Veio com o falso objetivo de jogar golfe. Seu quarto era no primeiro andar, e podia sair quando quisesse. Naquela noite foi ao Woodman�s Lee, viu Peter Carey na cabana, discutiu com ele e o matou com o arp�o. Depois, horrorizado com o que fizera, fugiu da cabana, deixando cair o caderno de anota��es que levara para interrogar Peter Carey sobre os diferentes t�tulos. Deve ter observado que alguns deles estavam marcados com um ponto, e os outros � a grande maioria � n�o. Os que est�o marcados foram encontrados no mercado de Londres, mas os outros, presumivelmente, ainda estavam com Carey, e o jovem Neligan, de acordo com seu pr�prio depoimento, estava ansioso para reav�-los a fim de fazer a coisa certa pelos credores de seu pai. Depois de sua fuga, ele n�o ousou se aproximar da cabana durante algum tempo, mas por fim obrigou-se a fazer isso para obter a informa��o de que precisava. Tudo isto n�o � simples e �bvio?</p><p>Holmes sorriu e balan�ou a cabe�a.</p><p>� Parece haver um �nico sen�o, Hopkins: que isto � intrinsecamente imposs�vel. J� tentou enfiar um arp�o num corpo? N�o? Tsc, tsc, meu caro deve realmente prestar aten��o nestes detalhes. Meu amigo Watson poderia contar-lhe que passei uma manh� inteira nesse exerc�cio. N�o � f�cil, e requer um bra�o forte e experiente. Mas este golpe foi dado com tanta viol�ncia que a ponta da arma cravou-se profundamente na parede. Voc� imagina que esse jovem an�mico seria capaz de um ataque t�o assustador? � ele o homem que bebeu rum e �gua com Peter Carey na calada da noite? Era dele o perfil visto na cortina duas noites antes? N�o, n�o, Hopkins, � uma pessoa diferente e mais terr�vel a que devemos procurar.</p><p>O rosto do detetive ficava cada vez mais decepcionado enquanto Holmes falava. Suas esperan�as e ambi��es iam por �gua abaixo. Mas n�o abandonaria sua posi��o sem luta.</p><p>� N�o pode negar que Neligan estava presente naquela noite, sr. Holmes. O livro provar� isso. Imagino que tenho provas suficientes para satisfazer a um j�ri, mesmo que o senhor esteja em condi��es de achar defeitos nelas. Al�m disso, sr. Holmes, pus a m�o no meu homem. Quanto a esta pessoa terr�vel do senhor, onde est�?</p><p>� Creio que est� l� embaixo � disse Holmes com serenidade. � Acho, Watson, que seria bom p�r aquele rev�lver ao alcance da m�o. � Levantou-se e deixou um peda�o de papel escrito sobre a mesa. � Agora estamos prontos � disse.</p><p>Ouvimos uma conversa em vozes grosseiras do lado de fora, e agora a sra. Hudson abria a porta para dizer que havia tr�s homens perguntando pelo capit�o Basil.</p><p>� Deixe-os entrar um por um � disse Holmes.</p><p>O primeiro que entrou era um homem pequeno, um estupendo Ribston, com as bochechas rosadas e su��as de uma penugem branca. Holmes tirara uma carta do bolso.</p><p>� Qual � o nome? � perguntou.</p><p>� James Lancaster.</p><p>� Desculpe-me, Lancaster, mas o lugar est� ocupado. Aqui est� meio soberano pelo inc�modo. Fique naquela sala e espere alguns minutos.</p><p>O segundo era um sujeito alto, magro, com cabelos escorridos e rosto p�lido. Seu nome era Hugh Pattins. Tamb�m foi recusado, recebeu seu meio soberano e a ordem de esperar.</p><p>O terceiro candidato era um homem de apar�ncia not�vel. Um rosto de buldogue feroz era emoldurado por uma mistura de cabelo e barba, e dois olhos escuros e atrevidos brilhavam por tr�s da cobertura das sobrancelhas cerradas e proeminentes. Cumprimentou-nos e ficou parado do jeito dos marinheiros, revirando o chap�u nas m�os.</p><p>� Seu nome? � perguntou Holmes.</p><p>� Patrick Cairns.</p><p>� Arpoador?</p><p>� Sim, senhor. Vinte e seis viagens.</p><p>� Dundee, suponho?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� E pronto para come�ar num barco de explora��o?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Qual o sal�rio?</p><p>� Oito libras por m�s.</p><p>� Poderia come�ar imediatamente?</p><p>� Assim que pegasse meu equipamento.</p><p>� Tem seus pap�is?</p><p>� Sim, senhor. � Tirou um ma�o de pap�is amarelados e gordurosos do bolso. Holmes deu uma olhada neles e os devolveu.</p><p>� Voc� � exatamente o homem que quero � disse. � O contrato est� naquela mesa. Se assin�-lo, tudo estar� resolvido.</p><p>O homem do mar cambaleou pela sala e pegou a caneta. � Devo assinar aqui? � perguntou, curvando-se sobre a mesa.</p><p>Holmes debru�ou-se sobre o ombro dele e passou as duas m�os pelo pesco�o dele.</p><p>� Isto servir� � disse.</p><p>Ouvi um clique de a�o e um rugido como o de um touro enfurecido. Logo depois Holmes e o marujo estavam rolando pelo ch�o. Era um homem de uma for�a t�o grande que, mesmo com as algemas que Holmes agilmente colocara em seus pulsos, teria subjugado rapidamente o meu amigo se Hopkins e eu n�o tiv�ssemos corrido em sua ajuda. Somente quando pressionei a boca fria do meu rev�lver contra sua t�mpora � que ele compreendeu que qualquer resist�ncia seria in�til. Amarramos seus tornozelos com uma corda e nos levantamos ofegantes por causa da luta.</p><p>� Devo pedir desculpas, Hopkins � disse Sherlock Holmes. � Receio que os ovos mexidos estejam frios. Mas aproveitar� melhor do resto de seu desjejum, considerando-se que levou o caso a uma conclus�o triunfante.</p><p>Stanley Hopkins estava mudo de assombro.</p><p>� N�o sei o que dizer, sr. Holmes � murmurou finalmente, com o rosto vermelho. � Parece que tenho feito papel de tolo desde o come�o. Compreendo, agora, o que nunca devia ter esquecido, que eu sou o pupilo e o senhor, o mestre. Mesmo depois de ter visto o que fez, n�o sei como fez ou o que isso significa.</p><p>� Ora, ora � disse Holmes, bem-humorado. � Todos aprendemos por experi�ncia, e a sua li��o desta vez � que nunca deve perder de vista a alternativa. Estava t�o concentrado no jovem Neligan que n�o conseguiu precisar em Patrick Cairns o verdadeiro assassino de Peter Carey.</p><p>A voz possante do marinheiro interrompeu nossa conversa.</p><p>� Olhe aqui, senhor � disse �, n�o reclamo de estar amarrado desta maneira, mas gostaria que chamassem as coisas pelos seus nomes corretos. Voc�s dizem que eu assassinei Peter Carey, eu digo que matei Peter Carey, e a� est� toda a diferen�a. Talvez n�o acreditem no que digo. Talvez pensem que estou lhes contando uma mentira.</p><p>� Em absoluto � disse Holmes. � Vamos ouvir o que tem a dizer.</p><p>� Vou contar logo, e, por Deus, cada palavra ser� verdadeira. Eu conhecia Black Peter, e quando ele puxou sua faca, espetei-o bem fundo com o arp�o, pois sabia que era ele ou eu. Foi assim que ele morreu. Podem chamar isto de assassinato. De qualquer maneira, prefiro morrer com uma corda no pesco�o do que com a faca de Black Peter no meu cora��o.</p><p>� Como chegou l�? � perguntou Holmes.</p><p>� Vou contar-lhe tudo desde o in�cio. Apenas deixe-me sentar um pouco, para que possa falar mais facilmente. Foi em 1883 que aconteceu � em agosto daquele ano. Peter Carey era o comandante do Sea Unicorn, e eu era o segundo arpoador. Est�vamos saindo de uma �rea de gelo a caminho de casa, com vento contr�rio e um temporal de uma semana no sul, quando encontramos uma pequena embarca��o que fora empurrada para o norte pelo vento. S� havia um homem nela � um homem de terra firme. A tripula��o pensou que ela iria afundar e partiu para a costa da Noruega num barco a remo. Acho que todos se afogaram. Bem, trouxemos esse homem para bordo, e ele e o capit�o tiveram uma longa conversa na cabine. Toda sua bagagem, que trouxemos junto com ele, se resumia a uma caixa de metal. Pelo que sei, o nome do sujeito nunca foi mencionado, e na segunda noite desapareceu, como se nunca tivesse estado l�. Disseram que se jogara no mar, ou ca�ra nas �guas turbulentas que atravess�vamos. Somente um homem sabia o que acontecera com ele, eu, porque, com meus pr�prios olhos, vi o capit�o amarrar os calcanhares dele e jog�-lo por cima da balaustrada no meio da noite escura, dois dias antes de avistarmos os far�is das Shetlands.</p><p>� Bem, guardei o que eu sabia para mim, e esperei para ver o que iria acontecer. Quando chegamos � Esc�cia, isso foi facilmente abafado, e ningu�m fez perguntas. Um estranho morrera por acidente, e ningu�m tinha nada o que perguntar. Pouco depois Peter Carey desistiu do mar, e passaram-se muitos anos at� que eu descobrisse onde estava. Imaginei que ele havia feito aquilo para ficar com o que havia na caixa, e que poderia agora me pagar bem pelo meu sil�ncio.</p><p>� Descobri onde estava por interm�dio de um marinheiro que o encontrara em Londres, e fui l� para arrancar dinheiro dele. Na primeira noite ele estava bem razo�vel, e pronto a me dar uma quantia que me permitisse largar o mar para sempre. �amos acertar tudo dois dias mais tarde. Quando cheguei, encontrei-o quase totalmente b�bado e num p�ssimo humor. Sentamo-nos, bebemos e mentimos sobre os velhos tempos, mas quanto mais ele bebia, menos eu gostava de olhar para o rosto dele. Eu tinha visto aquele arp�o na parede e pensei que poderia precisar dele antes de sair. Ent�o, afinal, ele veio para cima de mim, praguejando e bufando, com o homic�dio nos olhos e uma grande faca de mola na m�o. N�o teve tempo de tir�-la da bainha antes que eu o espetasse com o arp�o. Deus! que grito ele deu! e seu rosto sempre aparece nos meus sonhos. Fiquei ali, com o sangue dele espirrando � minha volta, e esperei um pouco, mas tudo estava tranq�ilo, de modo que me acalmei de novo. Olhei em volta, e l� estava a caixa de metal na prateleira. De qualquer maneira, eu tinha tanto direito a ela quanto Peter Carey, de modo que eu a apanhei e sa� da cabana. Como um tolo, deixei minha tabaqueira sobre a mesa.</p><p>� Agora vou lhes contar a parte mais interessante de toda a hist�ria. Mal havia sa�do da cabana quando escutei algu�m se aproximando, e me escondi entre os arbustos. Um homem chegou sorrateiramente, entrou na casinha, deu um grito como se tivesse visto um fantasma, e se afastou o mais depressa que p�de, at� que o perdi de vista. Quem ele era ou o que queria n�o posso dizer. De minha parte, andei mais de 10 quil�metros, peguei um trem em Tunbridge Wells e assim cheguei a Londres, sem saber de mais nada.</p><p>� Ora, quando fui examinar a caixa, descobri que n�o havia nenhum dinheiro ali, apenas pap�is que eu n�o ousaria vender. Perdera minha influ�ncia sobre Black Peter e fiquei abandonado em Londres sem um xelim. S� restou o meu of�cio. Vi estes an�ncios sobre arpoadores, e altos sal�rios, fui at� a companhia de navega��o e me mandaram aqui. Isto � tudo o que sei, e repito que se matei Black Peter, a lei deveria me agradecer, pois poupei a eles o custo de uma corda de c�nhamo.</p><p>� Um relato muito claro � disse Holmes, levantando-se e acendendo o cachimbo. � Acho, Hopkins, que voc� n�o deveria perder tempo em levar seu prisioneiro para um lugar mais seguro. Esta sala n�o � pr�pria para uma cela, e o sr. Patrick Cairns ocupa um espa�o muito grande no nosso tapete.</p><p>� Sr. Holmes � disse Hopkins �, n�o sei como expressar minha gratid�o. Mesmo agora n�o entendo como chegou a esse resultado.</p><p>� Simplesmente tendo a boa sorte de seguir a pista certa desde o in�cio. � poss�vel que, se soubesse deste caderninho de anota��es, tivesse ido por outro caminho, como voc� fez. Mas tudo que ouvi apontava numa s� dire��o. A for�a espantosa, a habilidade no uso do arp�o, o rum com �gua, a tabaqueira de pele de foca com um tabaco ordin�rio � tudo isso apontava para um marujo que tivesse sido pescador de baleias. Estava convencido de que as iniciais �P.C.� na tabaqueira eram uma coincid�ncia, e n�o as de Peter Carey, j� que ele fumava raramente, e nenhum cachimbo foi encontrado na cabine. Lembre-se de que perguntei se tinham encontrado u�sque e brandy l�. Voc� disse que sim. Quantos homens de terra firme iriam beber rum quando podiam ter outras bebidas? Sim, eu tinha certeza de que era um marinheiro.</p><p>� E como o encontrou?</p><p>� Meu caro senhor, o problema ficara bem simples. Se era um homem do mar, s� poderia ser algu�m que tivesse estado com ele no Sea Unicorn. Pelo que sei, n�o viajou em nenhum outro barco. Passei tr�s dias telegrafando para Dundee, e no fim desse prazo, tinha os nomes da tripula��o do Sea Unicorn em 1883. Quando encontrei Patrick Cairns entre os arpoadores, minha pesquisa estava chegando ao final. Deduzi que o homem provavelmente estava em Londres, e que queria sair do pa�s por algum tempo. Portanto passei alguns dias no East End, organizei uma expedi��o ao �rtico, apresentei condi��es bastante tentadoras para arpoadores que iriam trabalhar para o capit�o Basil � e fiquei esperando para ver o resultado!</p><p>� Maravilhoso! � exclamou Hopkins. � Maravilhoso!</p><p>� Deve conseguir a liberta��o do jovem Neligan o mais depressa poss�vel � disse Holmes. � Acho que voc� deve a ele algumas desculpas. A caixa de metal deve ser devolvida a ele, mas, � claro, os t�tulos que Peter Carey vendeu est�o perdidos para sempre. L� est� o cabriol�, Hopkins, e pode levar o seu homem. Se precisar de mim para o julgamento, meu endere�o e o de Watson ser� em algum lugar da Noruega � mandarei os detalhes depois.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura de charles augustus milverton</strong></p><p>J� se passaram anos desde que os incidentes de que falo aconteceram, e mesmo assim � com hesita��o que me refiro a eles. Durante muito tempo, mesmo com a m�xima discri��o e retic�ncia, teria sido imposs�vel divulgar os fatos, mas agora a principal pessoa envolvida est� fora do alcance da lei dos homens, e com algumas supress�es a hist�ria pode ser contada de uma maneira que n�o prejudique ningu�m. Conta uma experi�ncia absolutamente �nica na carreira do sr. Sherlock Holmes e na minha pr�pria. O leitor me desculpar� se eu oculto a data ou qualquer outro fato pelo qual possa identificar a verdadeira ocorr�ncia.</p><p>T�nhamos sa�do para uma das nossas caminhadas vespertinas, Holmes e eu, e voltamos mais ou menos �s 18 horas de uma noite fria e nevoenta de inverno. Quando Holmes acendeu a l�mpada, vimos um cart�o na mesa. Ele olhou para o cart�o e depois, com uma exclama��o de desgosto, atirou-o no ch�o. Eu o apanhei e li:</p><empty-line/><p>CHARLES AUGUSTUS MILVERTON</p><p>Appledore Towers, Hampstead.</p><p>Agente.</p><empty-line/><p>� Quem � ele? � perguntei.</p><p>� O pior homem de Londres � respondeu Holmes, sentando-se e esticando as pernas diante do fogo. � Tem alguma coisa atr�s do cart�o?</p><p>Virei-o.</p><p>� �Estarei a� �s 18:30h � C.A.M.� � li.</p><p>� Hum! Est� para chegar. Voc� sente um arrepio, uma sensa��o de avers�o, Watson, quando est� diante das serpentes do zool�gico, e v� as criaturas escorregadias, venenosas e deslizantes, com seus olhos de morte e a express�o perversa e achatada? Bem, � esta a impress�o que Milverton me d�. Tive de lidar com cinq�enta assassinos em minha carreira, mas nem o pior deles me inspirou tanta repulsa quanto a que eu tenho por esse sujeito. E mesmo assim n�o posso evitar de fazer neg�cios com ele, na verdade, ele est� aqui a convite meu.</p><p>� Mas quem � ele?</p><p>� Eu lhe direi, Watson. � o rei dos chantagistas. Que os c�us protejam o homem, e ainda mais a mulher, cujo segredo e reputa��o ca�rem em poder de Milverton! Com um rosto sorridente e um cora��o de pedra, ele pressionar� e pressionar� at� extrair tudo deles. O sujeito � um g�nio � sua maneira e teria se destacado em algum of�cio mais interessante. Seu m�todo � o seguinte: ele deixa que se saiba que pode pagar quantias elevadas por cartas que comprometem pessoas ricas e de posi��o. Recebe estas coisas n�o s� de criados e empregadas, mas freq�entemente de rufi�es elegantes, que ganharam a confian�a e a afei��o de mulheres de boa-f�. Ele n�o lida com m�os avarentas. Por acaso sei que pagou 700 libras a um lacaio por um bilhete de duas linhas, cujo resultado foi a ru�na de uma fam�lia nobre. Tudo que est� no mercado vai para Milverton, e h� centenas de pessoas nesta cidade grande que empalidecem ao ouvir seu nome. Ningu�m sabe onde suas garras cair�o, pois � muito rico e muito esperto para agir sem pensar. Ele � capaz de guardar sua carta durante anos at� jog�-la no momento em que estar� valendo mais. Eu disse que era o pior homem de Londres, e lhe perguntaria como algu�m poderia comparar o valent�o, que com o sangue quente agride sua parceira, com este homem, que, metodicamente e por prazer, tortura a alma e atormenta os nervos, para aumentar a sua fortuna j� grande?</p><p>Poucas vezes eu ouvira meu amigo falar com uma emo��o t�o intensa.</p><p>� Mas certamente � eu disse � o sujeito deve estar ao alcance da lei?</p><p>� Tecnicamente, sem d�vida, mas na pr�tica n�o. O que lucraria uma mulher, por exemplo, em coloc�-lo na pris�o por alguns meses se a pr�pria ru�na dela vir� logo depois? Suas v�timas n�o ousam reagir. Se algum dia chantagear uma pessoa inocente, a� podemos peg�-lo, mas ele � esperto como o pr�prio Diabo. N�o, n�o, precisamos encontrar outros meios de lutar contra ele.</p><p>� E por que ele est� aqui?</p><p>� Porque uma cliente ilustre colocou seu caso penoso em minhas m�os. � lady Eva Blackwell, a debutante mais bonita da �ltima temporada. Vai se casar daqui a duas semanas com o conde de Dovercourt. Esse dem�nio tem v�rias cartas imprudentes � imprudentes, Watson, nada pior � que foram escritas a um jovem pobre do campo. Isso bastaria para romper o compromisso. Milverton mandar� as cartas ao conde, a menos que uma grande soma lhe seja paga. Fui incumbido de me encontrar com ele e fazer o melhor acordo que puder.</p><p>Naquele instante houve um barulho e um estardalha�o na rua. Olhando para baixo, vi uma parelha e uma carruagem majestosas, as lanternas brilhantes iluminando as acetinadas ancas dos nobres cavalos castanhos. Um lacaio abriu a porta, e desceu um homem baixo e forte, com um casac�o de astrac� felpudo. Um minuto depois ele estava em nossa sala.</p><p>Charles Augustus Milverton era um homem de uns 50 anos, com uma cabe�a grande e intelectual, um rosto redondo, gordo e liso, um perp�tuo sorriso g�lido, e dois vivos olhos verdes que brilhavam por detr�s dos �culos largos com aro de ouro. Havia alguma coisa da benevol�ncia do sr. Pickwick em sua apar�ncia, prejudicada apenas pela falsidade do sorriso fixo e pelo brilho cruel dos olhos vivos e penetrantes. Sua voz era macia e suave como sua fisionomia, enquanto avan�ava com uma m�o pequena e gorda estendida, murmurando seu pesar por n�o nos ter encontrado em sua visita anterior. Holmes ignorou a m�o estendida e olhou para ele com um rosto de pedra. O sorriso de Milverton se ampliou, ele encolheu os ombros, tirou o casac�o e o colocou com a maior tranq�ilidade sobre as costas da cadeira. Ent�o sentou-se.</p><p>� Este cavalheiro? � ele disse, fazendo um sinal na minha dire��o. � Ele � discreto? � direito?</p><p>� O dr. Watson � meu amigo e parceiro.</p><p>� Muito bom, sr. Holmes. Foi apenas no interesse de sua cliente que perguntei. O assunto � t�o delicado...</p><p>� O dr. Watson j� est� a par.</p><p>� Ent�o podemos tratar do neg�cio. O senhor diz que est� agindo em nome de lady Eva. Ela lhe deu poderes para aceitar minhas condi��es?</p><p>� Quais s�o elas?</p><p>� Sete mil libras.</p><p>� E a alternativa?</p><p>� Meu caro senhor, � doloroso para mim falar nisso, mas se o dinheiro n�o for pago no dia 14, com certeza n�o haver� casamento no dia 18. � Seu sorriso insuport�vel estava mais complacente do que nunca.</p><p>Holmes pensou por um instante.</p><p>� O senhor me parece � disse, por fim � considerar as coisas como certas. � claro que conhe�o o conte�do dessas cartas. Minha cliente com certeza far� o que eu lhe aconselhar. Eu lhe direi para contar ao seu futuro marido a hist�ria toda e confiar em sua generosidade.</p><p>Milverton deu uma risadinha.</p><p>� O senhor evidentemente n�o conhece o conde � disse.</p><p>Pela express�o desconcertada no rosto de Holmes eu podia ver que n�o.</p><p>� Qual � o mal que h� nessas cartas? � perguntou.</p><p>� Elas s�o entusiasmadas, muito entusiasmadas � respondeu Milverton. � A dama era uma correspondente encantadora. Mas asseguro-lhe que o conde de Dovercourt n�o as apreciaria. Mas desde que pensa o contr�rio, deixaremos como quer. � puramente uma quest�o de neg�cios. Se acha que � melhor para sua cliente que estas cartas sejam colocadas nas m�os do conde, ent�o seria, de fato, uma tolice pagar uma soma de dinheiro t�o grande para reav�-las. � Levantou-se e pegou seu casaco de astrac�.</p><p>Holmes estava p�lido de raiva e mortifica��o.</p><p>� Espere um pouco � disse. � O senhor est� indo muito r�pido. N�s com certeza faremos tudo para evitar um esc�ndalo num assunto t�o delicado.</p><p>Milverton voltou a se sentar em sua cadeira.</p><p>� Tinha certeza de que veria tudo por esse �ngulo � disse, satisfeito.</p><p>� Ao mesmo tempo � Holmes continuou � lady Eva n�o � uma mulher rica. Asseguro-lhe que duas mil libras seriam um baque em suas reservas e que a soma que pede est� inteiramente fora de suas possibilidades. Portanto, pe�o-lhe que modere sua exig�ncia, e que devolva as cartas pelo pre�o que mencionei, que �, eu lhe garanto, o m�ximo que pode conseguir.</p><p>O sorriso de Milverton alargou-se e seus olhos piscaram de um jeito engra�ado.</p><p>� Sei que � verdade o que diz a respeito dos recursos da dama � disse. � Mesmo assim deve admitir que a ocasi�o do casamento dela � o momento adequado para seus amigos e parentes fazerem um pequeno esfor�o em seu benef�cio. Eles poder�o hesitar na escolha de um presente de casamento conveniente. Posso garantir a eles que este pequeno ma�o de cartas daria mais alegria do que todos os candelabros e manteigueiras de Londres.</p><p>� � imposs�vel � disse Holmes.</p><p>� Pobre de mim, pobre de mim, que infelicidade! � exclamou Milverton, pegando um grosso livro de bolso. � N�o posso deixar de pensar que as damas s�o imprudentes em n�o fazer um esfor�o. Olhe isto! � Pegou um bilhetinho com um bras�o no envelope. � Isto pertence a � bem, talvez n�o seja justo dizer o nome at� amanh� de manh�. Mas a� estar� nas m�os do marido dela. E tudo porque n�o vai obter uma quantia desprez�vel que poderia conseguir se vendesse seus diamantes. � uma pena! Agora, lembra-se do repentino fim do casamento entre a honourable srta. Miles e o coronel Dorking? Apenas dois dias antes do casamento, havia um par�grafo no Morning Post dizendo que estava tudo acabado. E por qu�? � quase inacredit�vel, mas a soma rid�cula de duas mil libras teria resolvido toda a quest�o. N�o � lament�vel? E aqui eu o encontro, um homem sensato, hesitando em rela��o �s condi��es quando o futuro e a honra de sua cliente est�o em jogo. O senhor me surpreende, sr. Holmes.</p><p>� O que digo � verdade � respondeu Holmes. � O dinheiro n�o poder� ser conseguido. Com certeza � melhor para o senhor pegar a soma substancial que lhe ofere�o do que arruinar a vida de uma mulher, algo que n�o lhe daria nenhum lucro?</p><p>� A� o senhor comete um erro, sr. Holmes. Uma revela��o me beneficiaria muito de modo indireto. Tenho oito ou dez casos semelhantes amadurecendo. Se circulasse entre eles que eu fizera de lady Eva um exemplo cruel, eu iria encontr�-los muito mais propensos � raz�o. Percebe o meu ponto de vista?</p><p>Holmes pulou da cadeira.</p><p>� Fique atr�s dele, Watson! N�o o deixe sair! Agora, senhor, mostre-nos o conte�do desse caderno.</p><p>Milverton deslizara rapidamente para o canto da sala e ficou com as costas contra a parede.</p><p>� Sr. Holmes, sr. Holmes � disse, abrindo o casac�o e exibindo a coronha de um rev�lver grande, que se projetava de dentro do bolso inteiro. � Esperava que fizesse algo original. Isto vem sendo feito t�o freq�entemente, e o que tem trazido de bom? Asseguro-lhe que estou armado at� os dentes, e perfeitamente preparado para usar minhas armas, sabendo que a lei me apoiar�. Al�m disso, sua suposi��o de que eu traria as cartas aqui num caderninho � totalmente equivocada. Eu n�o faria algo t�o tolo. E agora, cavalheiros, tenho uma ou duas entrevistas esta noite e � um longo caminho at� Hampstead. � Adiantou-se, pegou o casaco, p�s a m�o no rev�lver e virou-se para a porta. Peguei uma cadeira, mas Holmes balan�ou a cabe�a, e a coloquei no ch�o de novo. Com uma curvatura, um sorriso e uma piscadela, Milverton saiu da sala, e alguns minutos depois ouvimos a porta da carruagem bater e o barulho das rodas ao se afastarem.</p><p>Holmes sentou-se im�vel diante do fogo, as m�os enfiadas nos bolsos da cal�a, o queixo afundado no peito, os olhos fixos nas brasas incandescentes. Durante meia hora ficou silencioso e im�vel. Depois, com a atitude de um homem que tomou uma decis�o, levantou-se e foi para o seu quarto. Pouco depois, um jovem oper�rio, descontra�do com um cavanhaque e uma bengala, acendeu seu cachimbo de barro no lampi�o antes de descer para a rua. � Estarei de volta daqui a algum tempo, Watson � disse, e desapareceu na noite. Compreendi que come�ara sua campanha contra Charles Augustus Milverton, mas nem sonhava com o estranho rumo que aquela campanha iria tomar.</p><p>Durante alguns dias Holmes entrou e saiu em horas diferentes nesses trajes, mas, fora a observa��o de que passava o tempo em Hampstead, e que esse tempo n�o era desperdi�ado, n�o sabia nada do que ele estava fazendo. Mas, finalmente, numa noite tempestuosa, violenta, quando o vento assobiava e batia contra as janelas, voltou de sua �ltima expedi��o, e depois de tirar o disfarce, sentou-se diante do fogo e riu com vontade, do seu jeito �ntimo e silencioso.</p><p>� Voc� me chamaria de um homem casadouro, Watson?</p><p>� Claro que n�o.</p><p>� Voc� se interessaria em saber que estou noivo.</p><p>� Meu caro amigo! Eu o congrat...</p><p>� Da empregada de Milverton.</p><p>� Meu Deus, Holmes!</p><p>� Eu queria informa��es, Watson.</p><p>� Tem certeza de que n�o foi longe demais?</p><p>� Era um passo extremamente necess�rio. Sou um bombeiro com um neg�cio em expans�o, de nome Escott. Tenho passeado e conversado com ela todas as noites. Por Deus, essas conversas! Mas consegui tudo o que queria. Conhe�o a casa de Milverton como a palma de minha m�o.</p><p>� Mas, e a garota, Holmes?</p><p>Ele encolheu os ombros.</p><p>� N�o se pode evitar isso, meu caro Watson. Deve-se jogar as cartas da melhor maneira poss�vel quando um pr�mio desses est� na mesa. Entretanto, alegro-me em dizer que tenho um rival detestado, que com certeza me mataria assim que lhe virasse as costas. Que noite espl�ndida temos!</p><p>� Gosta desse tempo?</p><p>� Serve ao meu objetivo, Watson, pretendo assaltar a casa de Milverton esta noite.</p><p>Fiquei sem ar e minha pele gelou ao ouvir essas palavras, murmuradas lentamente num tom de resolu��o. Assim como um raio na noite mostra num instante todos os detalhes de uma paisagem selvagem, eu vi na mesma hora todas as poss�veis conseq��ncias de uma a��o deste tipo � a deten��o, a captura, a carreira honrada terminando num fracasso irrepar�vel em desgra�a, meu amigo ficando � merc� do odioso Milverton.</p><p>� Pelo amor de Deus, Holmes, pense no que est� fazendo! � exclamei.</p><p>� Meu caro amigo, j� fiz todas as an�lises. Nunca sou precipitado em meus atos nem escolheria um caminho t�o radical, e, na verdade, t�o perigoso se algum outro fosse poss�vel. Vamos encarar o assunto justa e claramente. Suponho que vai admitir que esta a��o seja moralmente justific�vel, embora tecnicamente criminosa. Assaltar a casa dele n�o � mais que pegar � for�a aquele caderninho � a��o que voc� estava preparado para me ajudar.</p><p>Remo� aquilo em minha cabe�a.</p><p>� Sim � eu disse�, � moralmente justific�vel j� que o nosso objetivo � pegar apenas os objetos que est�o sendo usados com um objetivo ilegal.</p><p>� Exato. J� que � moralmente justific�vel, tenho de considerar apenas a quest�o do risco pessoal. Com certeza um cavalheiro n�o pode se preocupar muito com isso, quando uma dama precisa desesperadamente da ajuda dele, certo?</p><p>� Estar� numa posi��o duvidosa.</p><p>� Ora, isto faz parte do risco. N�o h� nenhuma outra maneira poss�vel de recuperar essas cartas. A infeliz dama n�o tem o dinheiro, e n�o h� ningu�m entre os seus parentes em quem possa confiar. Amanh� � o �ltimo dia do prazo e, a menos que consigamos essas cartas hoje, esse vil�o cumprir� a sua palavra e causar� a ru�na dela. Portanto, devo abandonar minha cliente � sua sorte ou devo jogar esta �ltima cartada. Aqui entre n�s, Watson, � um duelo esportivo entre esse sujeito, Milverton, e eu. Ele tem, como viu, todas as chances, mas meu amor-pr�prio e minha reputa��o me obrigam a lutar at� o fim.</p><p>� Bem, n�o gosto disso, mas suponho que deva ser assim � eu disse. � Quando come�amos?</p><p>� Voc� n�o vir�.</p><p>� Ent�o voc� n�o ir� � eu disse. � Dou-lhe minha palavra de honra � e nunca deixei de cumpri-la na vida � que irei at� a delegacia e contarei tudo, a menos que me deixe participar desta aventura com voc�.</p><p>� N�o pode me ajudar.</p><p>� Como sabe disso? N�o pode adivinhar o que vai acontecer. De qualquer modo minha decis�o est� tomada. Outras pessoas al�m de voc� t�m amor-pr�prio, e mesmo reputa��es.</p><p>Holmes parecera irritado, mas seu cenho se desanuviou e ele me deu um tapinha no ombro.</p><p>� Bem, bem, meu caro amigo, que seja assim. Dividimos este aposento durante muitos anos, e seria divertido se termin�ssemos dividindo a mesma cela. Sabe, Watson, n�o me importo de confessar a voc� que sempre achei que eu daria um criminoso bastante eficiente. Esta � a chance da minha vida nesse sentido. Olhe aqui! � Tirou um pequeno estojo de couro de uma gaveta e, abrindo-o, exibiu v�rios instrumentos brilhantes. � Este � um moderno conjunto de primeira classe para assaltos, com um p�-de-cabra niquelado, cortador de vidro com ponta de diamante, chaves-mestras, e todos os aperfei�oamentos que a marcha da civiliza��o exige. Aqui tamb�m est� a minha lanterna. Tudo est� em ordem. Voc� tem um par de sapatos silenciosos?</p><p>� Tenho t�nis com sola de borracha.</p><p>� Excelente! E uma m�scara?</p><p>� Posso fazer duas de seda preta.</p><p>� Vejo que tem uma inclina��o forte e natural para este tipo de coisa. Muito bem, voc� faz as m�scaras. Vamos fazer uma refei��o fria antes de come�ar. Agora s�o 21:30h. �s 23 horas iremos at� Church Row. � uma caminhada de 15 minutos de l� at� Appledore Towers. Estaremos trabalhando antes de meia-noite. Milverton tem o sono pesado, e se recolhe �s 22:30h em ponto. Com alguma sorte, estaremos de volta mais ou menos �s duas horas, com as cartas de lady Eva em meu bolso.</p><p>Holmes e eu vestimos nossos trajes a rigor, para darmos a impress�o de estar voltando do teatro. Na Oxford Street pegamos um cabriol� e nos dirigimos a um endere�o em Hampstead. L� pagamos a viagem e, com os nossos pesados casacos abotoados, pois fazia um frio cortante e o vento parecia passar por dentro de n�s, caminhamos pela beira da estrada.</p><p>� � um assunto que requer tratamento delicado � disse Holmes. � Estes documentos est�o num cofre no gabinete do sujeito, e esse gabinete � vizinho ao quarto dele. Por outro lado, como todos esses homens baixos e atarracados que prosperam, � um dorminhoco plet�rico. Agatha � a minha noiva � diz que, entre os criados, h� a piada de que � imposs�vel acordar o patr�o. Tem um secret�rio que � dedicado aos interesses dele, e nunca sai do gabinete durante o dia. Por isso � que estamos indo � noite. Tem um monstro de cachorro que vagueia pelo jardim. Encontrei-me tarde com Agatha nas duas �ltimas noites, e ela tranca a fera para que eu possa passar. Esta � a casa, o chef�o est� em seu pr�prio territ�rio. Pelo port�o � agora � direita, entre os louros. Devemos colocar nossas m�scaras aqui, eu acho. Veja, n�o h� luz em nenhuma das janelas, e tudo est� correndo esplendidamente.</p><p>Com nossas m�scaras de seda preta, que nos transformava em duas das figuras mais agressivas de Londres, fomos at� a casa silenciosa e sombria. Uma esp�cie de varanda coberta se estendia de um lado da casa, com v�rias janelas e duas portas.</p><p>� Aquele � o quarto dele � sussurrou Holmes. � Esta porta d� direto dentro do gabinete. � a melhor para n�s, mas est� trancada e aferrolhada, e far�amos barulho demais tentando entrar. Venha por aqui. H� uma estufa que d� para a sala de visitas.</p><p>O lugar estava trancado, mas Holmes removeu um c�rculo de vidro e girou a chave por dentro. Logo depois fechou a porta atr�s de n�s e passamos a ser delinq�entes aos olhos da lei. O ar quente e denso da estufa e as fragr�ncias ricas e sufocantes de plantas ex�ticas nos chegaram � garganta. Holmes pegou minha m�o no escuro e me conduziu rapidamente por canteiros de arbustos que ro�avam nossas faces. Ele tinha poderes not�veis, cultivados com cuidado, de ver na escurid�o. Ainda segurando minha m�o, abriu uma porta, e percebi vagamente que entr�ramos numa sala grande na qual haviam fumado um charuto pouco tempo antes. Continuou seu caminho por entre a mob�lia, abriu outra porta e a fechou atr�s de n�s. Estendendo a m�o, senti v�rios casacos que estavam pendurados em uma parede, e compreendi que estava num corredor. Passamos por ele, e Holmes abriu suavemente uma porta do lado direito. Alguma coisa passou correndo por n�s e meu cora��o foi at� a boca, mas sorri quando percebi que era o gato. Uma lareira estava acesa nesta outra sala, de novo o ar estava pesado com a fuma�a de tabaco. Holmes entrou nas pontas dos p�s, esperou que o seguisse, e ent�o fechou delicadamente a porta. Est�vamos no gabinete de Milverton, e um reposteiro ao fundo indicava a entrada para o quarto dele.</p><p>Era um bom fogo, e a sala estava iluminada por ele. Perto da porta vi o brilho de um interruptor el�trico, mas era desnecess�rio, mesmo se fosse seguro, lig�-lo. De um lado da lareira havia uma cortina pesada que encobria a janela saliente que v�ramos de fora. Do outro lado havia uma porta que dava na varanda. Uma mesa ficava no centro, com uma cadeira girat�ria de couro vermelho brilhante. Em frente havia uma larga estante, com um busto de m�rmore de Palas-Atena em cima. No canto, entre a estante e a parede, ficava um cofre alto e verde, a luz do fogo se refletindo nos puxadores de metal polido na parte da frente. Holmes aproximou-se e olhou. Depois foi at� a porta do quarto e parou com a cabe�a inclinada, ouvindo atentamente. Nenhum som vinha de dentro. Enquanto isso, me ocorreu que seria melhor assegurar nossa retirada pela outra porta; ent�o a examinei. Para meu espanto, n�o estava trancada nem aferrolhada. Toquei o bra�o de Holmes e ele virou o rosto mascarado naquela dire��o. Vi que estremeceu, e estava evidentemente t�o surpreso quanto eu.</p><p>� N�o gosto disso � sussurrou, com os l�bios bem perto do meu ouvido. � N�o consigo entender. De qualquer modo, n�o temos tempo a perder.</p><p>� Posso fazer algo?</p><p>� Sim, fique perto da porta. Se ouvir algu�m vindo, tranque-a por dentro e poderemos sair como entramos. Se vierem pelo outro caminho, podemos passar pela porta se nosso trabalho estiver terminado, ou nos escondermos atr�s dessas cortinas da janela. Entendeu?</p><p>Balancei a cabe�a e fiquei ao lado da porta. Meu medo inicial passara, e agora ficava excitado com um sabor mais picante do que experimentara quando �ramos os defensores da lei em vez de seus desafiantes. O nobre objetivo de nossa miss�o, a consci�ncia de que era altru�sta e cavalheiresca, o car�ter infame do nosso advers�rio, tudo ampliava o interesse esportivo da aventura. Longe de sentir culpa, alegrava-me e exultava com nossos perigos. Com admira��o, via Holmes desenrolar seu estojo de instrumentos e escolher sua ferramenta com a calma e a meticulosidade cient�fica de um cirurgi�o que faz uma opera��o delicada. Sabia que a abertura de cofres era um hobby particular seu, e compreendia a satisfa��o que lhe dava enfrentar aquele monstro verde e dourado, o drag�o que tinha em seu est�mago a reputa��o de v�rias damas decentes. Arrega�ando os punhos de sua casaca � colocara seu sobretudo numa cadeira �, Holmes tirou duas furadeiras, um p�-de-cabra e v�rias chaves-mestras. Fiquei na porta do centro, prestando aten��o em cada uma das outras, pronto para qualquer emerg�ncia, embora, na verdade, meus planos fossem um tanto vagos a respeito do que deveria fazer se f�ssemos interrompidos. Por meia hora, Holmes trabalhou com energia concentrada, deixando uma ferramenta, pegando outra, manuseando-as com a for�a e a delicadeza de um mec�nico treinado. Finalmente ouvi um clique, a grande porta verde se abriu e dentro vi de relance v�rios ma�os de pap�is, cada um selado, amarrado e identificado. Holmes tirou um, mas era dif�cil ler com o fogo bruxuleante, e pegou sua pequenina lanterna, pois seria muito perigoso, com Milverton no quarto ao lado, acender a l�mpada el�trica. De repente o vi parar, escutar atentamente e, logo depois, ele fechou a porta do cofre, pegou o sobretudo, jogou as ferramentas dentro dos bolsos e correu para tr�s da cortina, mandando-me fazer o mesmo.</p><p>S� quando me escondi foi que ouvi o que alarmara os seus sentidos agu�ados. Havia um barulho em algum lugar dentro da casa. Uma porta bateu um pouco distante. Ent�o um murm�rio confuso, surdo, se transformou nas passadas pesadas e ritmadas que se aproximavam com rapidez. Estavam no corredor. Pararam diante da porta da sala. A porta se abriu. Houve um barulho �spero quando se acendeu a luz el�trica. A porta se fechou de novo, e o bafo pungente de um charuto forte chegou �s nossas narinas. Depois os passos continuaram para tr�s e para a frente, para tr�s e para a frente, a poucos metros de n�s. Por fim ouvimos o estalido de uma cadeira, e os passos cessaram. Ent�o uma chave estalou na fechadura, e ouvi o farfalhar de pap�is.</p><p>At� aqui n�o ousara olhar para fora, mas agora afastei delicadamente a divis�o das cortinas � minha frente e olhei pela abertura. Pela press�o do ombro de Holmes contra o meu, sabia que tamb�m estava observando. Bem � nossa frente, e quase ao nosso alcance, estavam as costas largas de Milverton. Era evidente que calcul�ramos mal os movimentos dele, que nunca estivera em seu quarto, e sim sentado em alguma sala para fumar ou jogar bilhar, na ala mais afastada da casa, cujas janelas n�o t�nhamos visto. Sua cabe�a grande e grisalha, com a parte calva brilhante, era vis�vel bem � nossa frente. Ele estava recostado na cadeira de couro vermelho, as pernas esticadas, um charuto comprido preto pendurado no canto da boca. Vestia um casaco semimilitar, cor de sangue, com o colarinho de veludo preto. Segurava um documento legal extenso, que lia com displic�ncia, enquanto soprava c�rculos de fuma�a de tabaco. Sua pose tranq�ila e sua atitude confort�vel n�o indicavam que sairia logo.</p><p>Senti a m�o de Holmes segurar a minha e me dar um aperto confortador, como se dissesse que a situa��o estava sob controle, e que ele permanecia calmo. N�o tinha certeza se ele vira o que parecia �bvio de minha posi��o, isto �, que a porta do cofre n�o estava bem fechada, e que Milverton poderia a qualquer momento ver isso. Por conta pr�pria decidi que, se estivesse certo, pela fixa��o do seu olhar, de que ele havia percebido, eu pularia imediatamente para fora, jogaria meu sobretudo sobre a cabe�a dele, o amarraria, e deixaria o resto com Holmes. Mas Milverton n�o olhou. Estava indolentemente concentrado nos pap�is em sua m�o, p�ginas e p�ginas foram viradas enquanto ele seguia a argumenta��o do advogado. Pelo menos, pensei, quando acabar de ler o documento e de fumar o charuto, ir� para o quarto. Mas antes que tivesse chegado ao final dos dois, houve um fato extraordin�rio que mudou nossos pensamentos para outro canal.</p><p>V�rias vezes eu observara que Milverton olhava para o rel�gio, e uma vez chegou a levantar-se e sentara-se de novo com um gesto de impaci�ncia. Mas a id�ia de que ele pudesse ter um encontro numa hora t�o estranha nunca me ocorreu at� que um som fraco chegou aos meus ouvidos, vindo da varanda. Milverton largou seus pap�is e sentou-se r�gido na cadeira. O som se repetiu, e ent�o houve uma batida delicada na porta. Milverton levantou-se e abriu.</p><p>� Ora � disse secamente �, est� quase meia hora atrasada.</p><p>Ent�o era esta a explica��o para a porta destrancada e a vig�lia noturna de Milverton. Ouvi o leve farfalhar de um vestido de mulher. Eu havia fechado a abertura entre as cortinas quando o rosto de Milverton se virara na nossa dire��o, mas agora me arriscava com muito cuidado a abri-la de novo. Ele voltara ao seu assento, o charuto ainda se projetando do canto da boca num �ngulo insolente. Diante dele, bem sob o foco de luz, estava uma mulher morena, alta e esbelta, um v�u sobre o rosto, um manto ao redor do queixo. Sua respira��o era r�pida e ofegante, e cada cent�metro de sua figura flex�vel tremia sob forte emo��o.</p><p>� Bem � disse Milverton � fez-me perder uma boa noite de repouso, minha querida. Espero que prove que valeu a pena. N�o podia vir em nenhuma outra hora, hein?</p><p>A mulher meneou a cabe�a.</p><p>� Ora, se n�o podia, n�o podia. Se a condessa � uma patroa dif�cil, voc� tem agora sua chance de se vingar dela. Valha-me Deus, por que est� tremendo? Est� tudo bem. Controle-se. Agora, vamos aos neg�cios. � Tirou um caderninho de anota��es da gaveta da escrivaninha. � Voc� diz que tem cinco cartas que comprometem a condessa D�Albert. Quer vend�-las. Eu quero compr�-las. At� aqui, tudo bem. S� falta acertar o pre�o. Gostaria de examinar as cartas, � claro. Se elas forem realmente bons exemplares... Meu Deus, � voc�?</p><p>A mulher, sem uma palavra, levantara o v�u e deixara cair o manto do queixo. Era um rosto bem definido, moreno e bonito que encarava Milverton � um rosto com um nariz longo e curvo, sobrancelhas cerradas e escuras, olhos cintilantes e uma boca firme com l�bios finos e um sorriso perigoso.</p><p>� Sou eu � ela disse �, a mulher cuja vida voc� arruinou.</p><p>Milverton sorriu, mas o medo vibrou em sua voz. � Voc� era t�o obstinada � disse. � Por que me levou a tais extremos? Asseguro-lhe que n�o machucaria uma mosca por vontade pr�pria, mas todo homem tem seu neg�cio, e o que eu podia fazer? Fiz um pre�o acess�vel �s suas posses. Voc� n�o pagou.</p><p>� Ent�o mandou as cartas ao meu marido e ele � o homem mais nobre que j� existiu, um homem com quem nunca mereci casar � partiu seu cora��o valoroso e morreu. Lembra-se de que noite passada, quando vim por aquela porta, eu lhe pedi e implorei sua miseric�rdia, e voc� riu na minha cara como est� tentando rir agora, s� que seu cora��o covarde n�o impede que seus l�bios fiquem tremendo. Sim, nunca pensou em me ver aqui de novo, mas foi aquela noite que me ensinou como poderia encontrar-me com voc� cara a cara, e sozinhos. Bem, Charles Milverton, o que tem a dizer?</p><p>� N�o pense que pode me intimidar � disse ele, erguendo-se. � Tenho apenas que levantar a voz e poderia chamar meus criados, e voc� seria presa. Mas darei um desconto pela sua raiva natural. Saia imediatamente por onde veio e n�o direi mais nada.</p><p>A mulher continuou parada com a m�o enfiada no decote e o mesmo sorriso sinistro em seus l�bios delicados.</p><p>� N�o arruinar� mais vidas como arruinou a minha. N�o torturar� mais cora��es como torturou o meu. Livrarei o mundo de uma coisa venenosa. Tome isto, seu cachorro � e isto! � e isto! � e isto!</p><p>Tirara um pequeno rev�lver brilhante e esvaziou cartucho ap�s cartucho no corpo de Milverton, o cano a menos de 60 cent�metros da camisa dele. Ele se curvou e depois caiu sobre a mesa, tossindo furiosamente e se debatendo em meio aos pap�is. Depois ficou de p�, recebeu outro tiro e rolou no ch�o. � Voc� me pegou! � exclamou, e ficou im�vel. A mulher olhou para ele com aten��o e enfiou o salto do sapato no rosto virado para cima. Olhou de novo, mas n�o havia nenhum som ou movimento. Ouvi um barulho �spero, o ar da noite soprou dentro da sala aquecida e a vingadora foi embora.</p><p>Nenhuma interfer�ncia de nossa parte poderia ter salvo o homem desta sina, mas quando a mulher descarregou bala ap�s bala no corpo tr�mulo de Milverton, estive a ponto de sair, e senti o aperto frio e forte de Holmes no meu pulso. Compreendi todo o argumento daquela press�o firme que me conteve � n�o era assunto nosso, a justi�a alcan�ara um vil�o, que t�nhamos nossos pr�prios deveres e objetivos, que n�o dever�amos perder de vista. Mas a mulher tinha acabado de sair correndo da sala quando Holmes, com passos r�pidos e silenciosos, chegou � outra porta. Girou a chave na fechadura. No mesmo instante ouvimos vozes</p><p>na casa e o som de passos apressados. Os tiros de rev�lver tinham acordado todos na casa. Com absoluta frieza, Holmes deslizou at� o cofre, encheu os bra�os com ma�os de cartas e os jogou no fogo. Fez isso outra vez e outra vez, at� que o cofre ficasse vazio. Algu�m mexeu na ma�aneta e bateu do lado de fora da porta. Holmes olhou em volta com rapidez. A carta que havia sido a mensageira da morte para Milverton estava sobre a mesa, salpicada com o sangue dele. Holmes atirou-a entre os pap�is em chamas. Depois tirou a chave da porta externa, passou comigo por ela e a trancou por fora. � Por aqui, Watson � disse �, podemos escalar o muro do jardim nesta dire��o.</p><p>Eu n�o podia acreditar que um alarme se espalhasse t�o rapidamente. Olhando para tr�s, a enorme casa parecia uma �nica luz. A porta da frente estava aberta e pessoas corriam pelo caminho. O jardim inteiro estava cheio de gente, e um sujeito deu um grito quando sa�mos da varanda e corremos a toda. Holmes parecia conhecer perfeitamente o terreno, e avan�ou depressa por entre uma planta��o de arbustos, eu colado nele, e nosso perseguidor mais pr�ximo bem atr�s de n�s. Um muro de quase 2 metros de altura barrava o nosso caminho, mas ele pulou para o topo, e da� para o outro lado. Ao fazer o mesmo, senti a m�o do homem atr�s de mim agarrar meu tornozelo, mas me livrei e pulei sobre uma crista coberta de musgo. Ca� de cara entre alguns arbustos, mas Holmes me p�s de p� num instante, e juntos corremos pela grande extens�o do campo de Hampstead. T�nhamos corrido quase 3 quil�metros, eu suponho, at� que Holmes finalmente parou e ficou escutando atentamente. Atr�s de n�s tudo era sil�ncio absoluto. Despist�ramos nossos perseguidores e est�vamos seguros.</p><empty-line/><p>T�nhamos tomado nosso caf�-da-manh� e est�vamos fumando nosso cachimbo matutino, no dia seguinte � incr�vel experi�ncia que relatei, quando o sr. Lestrade, da Scotland Yard, muito solene, foi conduzido at� a nossa modesta sala de estar.</p><p>� Bom-dia, sr. Holmes � disse � bom-dia. Posso lhe perguntar se est� muito ocupado agora?</p><p>� N�o t�o ocupado que n�o possa escut�-lo.</p><p>� Pensei que, talvez, se n�o tiver nada especial no momento, pudesse nos ajudar num caso extraordin�rio ocorrido a noite passada em Hampstead.</p><p>� Pobre de mim! � disse Holmes. � O que foi?</p><p>� Um assassinato � o assassinato mais dram�tico e incr�vel. Sei o quanto se interessa por essas coisas, e consideraria um grande favor se fosse a Appledore Towers e nos ajudasse com o seu conselho. N�o � um crime comum. Est�vamos de olho nesse sr. Milverton j� h� algum tempo, e c� entre n�s, era meio vil�o. Sabe-se que tinha em seu poder pap�is que usava para fazer chantagens. Todos esses pap�is foram queimados pelos assassinos. Nenhum objeto de valor foi levado, e � prov�vel que os criminosos fossem homens de boa posi��o, cujo �nico objetivo seria o de evitar um esc�ndalo p�blico.</p><p>� Criminosos? � perguntou Holmes. � Plural?</p><p>� Sim, eram dois. Quase foram apanhados em flagrante. Temos as pegadas deles, a descri��o deles, aposto dez contra um como os encontraremos. O primeiro era um sujeito muito veloz, mas o segundo foi pego pelo ajudante de jardineiro, e s� conseguiu fugir ap�s uma luta. Era um homem de altura m�dia e forte � maxilar quadrado, pesco�o grosso, bigode e uma m�scara sobre os olhos.</p><p>� � muito vago � disse Sherlock Holmes. � Ora, poderia ser a descri��o de Watson!</p><p>� � verdade � disse o inspetor, confuso. � Poderia ser a descri��o de Watson.</p><p>� Bem, receio n�o poder ajud�-lo, Lestrade � disse Holmes. � O fato � que conhecia esse sujeito, Milverton, eu o considerava um dos homens mais perigosos de Londres, e acho que em certos crimes a lei n�o pode intervir e, portanto, at� certo ponto, justificam uma vingan�a particular. N�o, n�o adianta discutir. J� me decidi. Minhas simpatias est�o mais com os criminosos do que com a v�tima, e n�o pegarei este caso.</p><p>Holmes n�o me dissera uma s� palavra sobre a trag�dia que testemunhamos, mas notei a manh� inteira que estava muito pensativo, e me deu a impress�o, pelos seus olhos vagos e o jeito abstra�do, de um homem que se esfor�a para relembrar algo. Est�vamos no meio do nosso almo�o quando ele se levantou de repente. � Por Deus, Watson, descobri! � exclamou. � Pegue seu chap�u! Venha comigo! � Correu o mais depressa que p�de pela Baker Street e ao longo da Oxford Street, at� quase chegarmos ao Regent Circus. Ali, do lado esquerdo, h� uma vitrine cheia de retratos das celebridades e beldades do dia. Os olhos de Holmes se fixaram em um deles, e, seguindo seu olhar, vi o retrato de uma dama r�gia e majestosa, em trajes da Corte, com uma grande tiara de diamantes sobre a nobre cabe�a. Olhei para o nariz curvo e delicado, para as sobrancelhas bem delineadas, a boca reta e o pequenino queixo resoluto. Ent�o prendi a respira��o ao ler o vener�vel t�tulo do grande nobre e homem de estado de quem ela fora esposa. Meus olhos encontraram-se com os de Holmes, que p�s o dedo nos l�bios enquanto nos afast�vamos da vitrine.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura dos seis napole�es</strong></p><p>N�o era raro que o sr. Lestrade, da Scotland Yard, aparecesse para nos visitar � noite, e Sherlock Holmes gostava dessas visitas, pois lhe permitiam saber tudo o que acontecia na chefatura de pol�cia. Em troca das not�cias que Lestrade trazia, Holmes estava sempre disposto a ouvir com aten��o os detalhes de algum caso em que o detetive estivesse envolvido e, ocasionalmente, era capaz, sem qualquer interfer�ncia ativa, de dar uma id�ia ou sugest�o extra�da de sua vasta experi�ncia e do seu conhecimento.</p><p>Nesta noite em particular, Lestrade falara do tempo e dos jornais. Depois ficou em sil�ncio, pensativo, dando baforadas no seu charuto. Holmes olhou atentamente para ele.</p><p>� Algo not�vel no momento? � perguntou.</p><p>� Oh, n�o, sr. Holmes, nada muito especial.</p><p>� Ent�o me fale sobre isso.</p><p>Lestrade sorriu.</p><p>� Bem, sr. Holmes, � in�til negar que h� algo em minha mente. Mas � um neg�cio t�o absurdo que hesitei em incomod�-lo com isso. Por outro lado, embora seja banal, � sem d�vida interessante, e sei que gosta de tudo que seja fora do comum. Mas, na minha opini�o, fica mais na linha do dr. Watson do que na nossa.</p><p>� Doen�a? � disse eu.</p><p>� Loucura, ou algo assim. E uma loucura estranha, tamb�m. N�o imaginava que existisse algu�m nos dias de hoje que tivesse tanto �dio de Napole�o I a ponto de quebrar toda est�tua dele que v�.</p><p>Holmes afundou-se na cadeira.</p><p>� N�o � minha especialidade � disse.</p><p>� Exato. Foi o que eu disse. Mas quando o homem pratica um roubo a fim de quebrar as imagens que n�o s�o dele, isto o afasta do doutor e o aproxima do policial.</p><p>Holmes endireitou-se na cadeira novamente.</p><p>� Roubo! Isto � mais interessante. Conte-me os detalhes.</p><p>Lestrade pegou seu caderno de anota��es e refrescou a mem�ria em suas p�ginas.</p><p>� O primeiro caso relatado ocorreu h� quatro dias � disse ele. � Foi na loja de Morse Hudson, que tem um estabelecimento para a venda de pinturas e esculturas na Kennington Road. O assistente havia sa�do da parte da frente da loja por um instante quando ouviu o barulho de alguma coisa se quebrando. Correu at� l� e encontrou um busto de gesso de Napole�o, que estava junto com v�rias outras obras de arte sobre o balc�o, totalmente espatifado. Correu para a rua, mas, embora muitos passantes dissessem ter visto um homem saindo apressado da loja, n�o conseguiu ver ningu�m nem descobriu meios de identificar o patife. Parecia ser um desses atos absurdos de vandalismo que ocorrem de tempos em tempos, e foi isso que ele informou a um guarda na mesma hora. A pe�a de gesso n�o valia mais do que alguns xelins, e o caso todo parecia uma infantilidade para merecer uma investiga��o especial.</p><p>� Mas o segundo caso foi mais grave e tamb�m mais estranho. Ocorreu na noite passada.</p><p>� Na Kennington Road, e a algumas centenas de metros da loja de Morse Hudson, mora um conhecido m�dico chamado dr. Barnicot, que tem uma grande clientela no lado sul do T�misa. Sua resid�ncia e principal consult�rio ficam na Kennington Road, mas tem um setor de cirurgia e farm�cia na Lower Brixton Road, a 3 quil�metros de l�. Este dr. Barnicot � um entusi�stico admirador de Napole�o, e a sua casa � cheia de livros, pinturas e rel�quias do imperador franc�s. H� pouco tempo ele comprou de Morse Hudson duas c�pias em gesso da famosa cabe�a de Napole�o feita pelo escultor franc�s Devine. Colocou uma delas no sagu�o da casa, na Kennington Road, e a outra no consolo da lareira do setor de cirurgia, em Lower Brixton. Bem, quando o dr. Barnicot chegou esta manh�, ficou surpreso ao descobrir que sua casa fora assaltada durante a noite, mas que nada tinha sido levado a n�o ser a cabe�a de gesso do sagu�o. Ela fora levada para fora e esmigalhada selvagemente contra o muro do jardim, junto ao qual foram encontrados fragmentos espalhados.</p><p>Holmes esfregou as m�os.</p><p>� Isto com certeza � uma novidade � disse.</p><p>� Imaginei que gostaria. Mas ainda n�o cheguei ao final. O dr. Barnicot tinha de estar na sua sala de opera��es ao meio-dia, e o senhor pode imaginar o seu espanto quando, ao chegar l�, descobriu que a janela fora aberta durante a noite, e que os peda�os quebrados do segundo busto estavam espalhados por todo o aposento. Foi esmigalhado em pedacinhos bem no lugar onde ficava. Em nenhum dos casos havia qualquer vest�gio que nos pudesse dar uma pista do criminoso ou lun�tico que fizera esses estragos. Agora, sr. Holmes, o senhor tem os fatos.</p><p>� Eles s�o estranhos, para n�o dizer grotescos � disse Holmes. � Posso perguntar se os dois bustos esmagados nos aposentos do dr. Barnicot eram c�pias exatas do que foi destru�do na loja de Morse Hudson?</p><p>� Foram tirados do mesmo molde.</p><p>� Este fato vai contra a teoria de que o homem que os quebra est� influenciado por algum �dio generalizado contra Napole�o. Se levarmos em conta as centenas de estatuetas do grande imperador que devem existir em Londres, seria demais supor a coincid�ncia de que um iconoclasta aleat�rio come�aria, por acaso, por tr�s exemplares do mesmo busto.</p><p>� Bem, penso como o senhor � disse Lestrade. � Por outro lado, este Morse Hudson � o fornecedor de bustos daquela parte de Londres, e estes tr�s eram os �nicos que tinham estado na sua loja durante anos. De modo que, embora, como diz, existam centenas de estatuetas em Londres, � muito prov�vel que estas tr�s fossem as �nicas naquele distrito. Portanto, um fan�tico local come�aria com eles. O que acha, dr. Watson?</p><p>� N�o h� limites para a monomania � respondi. � Existe a condi��o que os psic�logos franceses modernos chamaram de id�e fixe, que pode ser insignificante num car�ter, e acompanhada de completa sanidade em todos os outros aspectos. Um homem que tenha lido profundamente sobre Napole�o, ou que possivelmente tenha algum mal heredit�rio de fam�lia por causa da grande guerra, poderia perfeitamente criar uma id�e fixe e sob sua influ�ncia ser capaz de atos fant�sticos.</p><p>� Isto n�o serve, meu caro Watson � disse Holmes, balan�ando a cabe�a �, pois nenhuma dimens�o da id�e fixe daria condi��es ao nosso interessante monoman�aco de descobrir onde estavam esses tais bustos.</p><p>� Bem, como voc� explica isso?</p><p>� N�o tento explicar. Apenas observaria que h� um certo m�todo nos procedimentos exc�ntricos do cavalheiro. Por exemplo, no sagu�o do dr. Barnicot, onde qualquer ru�do poderia acordar a fam�lia, o busto foi levado para fora antes de ser quebrado, ao passo que no setor de cirurgia, onde havia menos perigo de alarme, foi esmagado no lugar onde estava. O caso parece ridiculamente banal, e mesmo assim n�o ouso chamar nada de trivial quando me lembro de que alguns dos meus casos mais cl�ssicos tiveram um in�cio nada promissor. Lembre-se, Watson, como o horr�vel caso da fam�lia Abernetty me chamou a aten��o primeiro pelo sulco que a salsa fizera na manteiga num dia quente. Portanto n�o posso sorrir ante seus tr�s bustos quebrados, Lestrade, e ficarei muito grato a voc� se me informar de qualquer fato novo nesta s�rie t�o estranha de acontecimentos.</p><p>O fato que meu amigo esperava veio de uma forma mais r�pida e infinitamente mais tr�gica do que ele podia ter imaginado. Ainda estava me vestindo em meu quarto, na manh� seguinte, quando ouvi uma batida na porta e Holmes entrou com um telegrama na m�o. Leu-o em voz alta:</p><empty-line/><p>Venha imediatamente, 131 rua Pitt, Kensington.</p><p>Lestrade.</p><empty-line/><p>� Ent�o, o que �? � perguntei.</p><p>� N�o sei � pode ser qualquer coisa. Mas suspeito que � a continua��o da hist�ria das estatuetas. Nesse caso o nosso amigo, o destruidor de imagens, come�ou suas opera��es numa outra parte de Londres. H� caf� na mesa, Watson, e tenho um cabriol� esperando na porta.</p><p>Em meia hora cheg�vamos � rua Pitt, um lugarzinho atrasado e tranq�ilo bem ao lado de uma das mais agitadas correntes da vida de Londres. O n�mero 131 era um de uma fila de resid�ncias, caixotes horizontais, respeit�veis e nada rom�nticas. Quando nos aproximamos, vimos a cerca em frente � casa tomada por um grupo curioso. Holmes assobiou.</p><p>� Por Deus! � homic�dio premeditado, no m�nimo. Nada menos do que isso atrairia o garoto de recados de Londres. H� um ato de viol�ncia indicado nos ombros curvos e no pesco�o esticado daquele sujeito. O que � isso, Watson? Os degraus do alto est�o lavados e os outros, secos. Muitas pegadas, de qualquer maneira! Ora, ora, l� est� Lestrade na janela da frente, e logo saberemos de tudo.</p><p>O policial nos recebeu com uma express�o bastante grave e nos conduziu a uma sala de estar, onde um senhor idoso, muito inquieto e agitado, vestido com um roup�o de flanela, andava de um lado para o outro. Foi-nos apresentado como o dono da casa, sr. Horace Harker, do Sindicato Central da Imprensa.</p><p>� � o caso do busto de Napole�o de novo � disse Lestrade. � Parecia interessado ontem � noite, sr. Holmes, ent�o pensei que gostaria de estar presente agora que o caso assumiu um aspecto muito mais grave.</p><p>� O que aconteceu ent�o?</p><p>� Um assassinato. Sr. Harker, poderia contar a estes cavalheiros exatamente o que ocorreu?</p><p>O homem de roup�o virou-se para n�s com uma express�o melanc�lica.</p><p>� � algo extraordin�rio � disse � que a vida inteira eu tenha conseguido not�cias de outras pessoas, e agora que uma verdadeira not�cia surge por minha causa estou t�o confuso e atordoado que n�o consigo juntar duas palavras. Se tivesse vindo aqui como jornalista, teria me entrevistado e publicado duas colunas em todos os jornais vespertinos. Mas agora estou espalhando c�pias valiosas, contando minha hist�ria repetidas vezes para uma multid�o de pessoas diferentes, e eu mesmo n�o posso fazer uso disso. Mas ouvi seu nome, sr. Sherlock Holmes, e se puder ao menos explicar este assunto estranho, me sentirei recompensado pelo trabalho de lhe contar a hist�ria.</p><p>Holmes sentou-se e escutou.</p><p>� Tudo parece girar em torno daquele busto de Napole�o que comprei para esta sala h� cerca de quatro meses. Eu o comprei barato no Harding Brothers, ao lado da esta��o de High Street. Grande parte do meu trabalho jornal�stico � feito � noite, e freq�entemente escrevo at� de madrugada. Foi assim hoje. Estava sentado em meu ref�gio, que fica nos fundos do alto da casa, por volta das tr�s horas, quando ouvi alguns sons l� embaixo. Fiquei prestando aten��o, mas n�o se repetiram, e conclu� que vinham de fora. Ent�o, de repente, cinco minutos depois, ouvi um grito horr�vel � o som mais pavoroso, sr. Holmes, que jamais ouvi. Fiquei paralisado de horror durante um ou dois minutos, peguei o ati�ador e desci. Quando entrei nesta sala, encontrei a janela da frente escancarada e logo notei que o busto desaparecera do consolo da lareira. Por que um ladr�o levaria uma coisa dessas est� al�m da minha compreens�o, pois era apenas uma pe�a de gesso e sem qualquer valor.</p><p>� Pode ver por si mesmo que qualquer pessoa que sa�sse por aquela janela aberta poderia alcan�ar os degraus da frente com uma longa caminhada. Era evidente que o ladr�o fizera isto; portanto, dei a volta e abri a porta. Saindo na escurid�o, quase ca� em cima de um homem morto, que estava ali no ch�o. Voltei correndo para procurar uma luz, e l� estava o pobre sujeito, um grande talho na garganta e todo o local inundado de sangue. Estava de costas, os joelhos para cima e a boca horrivelmente aberta. Eu o verei sempre nos meus sonhos. S� tive tempo de soprar meu apito de pol�cia, e ent�o devo ter desmaiado, porque n�o vi mais nada at� que encontrei um policial em p� ao meu lado no sagu�o.</p><p>� Bem, quem era o assassinado? � perguntou Holmes.</p><p>� N�o h� nada que indique quem ele era � disse Lestrade. � Ver� o corpo no necrot�rio, mas n�o fizemos nada com ele at� agora. � um homem alto, bronzeado, muito forte, n�o mais de 30 anos. Est� vestido pobremente e mesmo assim n�o parece ser um oper�rio. Uma faca de mola com cabo de chifre estava na po�a de sangue ao lado dele. Se foi a arma usada no crime ou se pertencia ao morto, n�o sei. N�o havia nome algum em suas roupas e nada nos bolsos, exceto uma ma��, alguns cord�es, um mapa de Londres de 1 xelim e uma fotografia. Aqui est�.</p><p>Fora tirada evidentemente pelo instant�neo de uma c�mera pequena. Mostrava um homem simiesco, vivo, anguloso, com as sobrancelhas grossas e uma proje��o muito peculiar da parte inferior do rosto, como o focinho de um babu�no.</p><p>� E o que aconteceu com o busto? � perguntou Holmes, depois de um exame atento do retrato.</p><p>� Tivemos not�cias dele pouco antes de voc�s chegarem. Foi encontrado no jardim da frente de uma casa vazia na estrada Campden House. Estava quebrado em peda�os. Estou indo v�-lo agora. Quer vir comigo?</p><p>� Claro. Preciso apenas dar uma olhada por a�. Examinou o tapete e a janela. � O sujeito tinha pernas muito compridas ou era muito �gil � disse. � Com uma �rea embaixo, n�o seria nenhuma fa�anha alcan�ar aquele parapeito da janela e abri-la. Voltar seria relativamente simples. Vir� conosco ver os restos de seu busto, sr. Harker?</p><p>O desconsolado jornalista sentara-se � escrivaninha.</p><p>� Devo sentar e fazer alguma coisa com isto � disse � embora n�o tenha d�vida de que as primeiras edi��es dos jornais da noite j� tenham sa�do repletas de detalhes. � como a minha sorte! Lembram-se de quando o pavilh�o caiu, em Doncaster? Bem, eu era o �nico jornalista ali, e meu jornal foi o �nico que n�o teve um relato sobre aquilo, porque eu estava abalado demais para escrev�-lo. E agora estarei muito atrasado, com um assassinato cometido na minha pr�pria soleira.</p><p>Ao sairmos da sala, ouvimos sua caneta escrever, chiando sobre o papel.</p><p>O local onde os fragmentos do busto foram encontrados ficava a umas centenas de metros dali. Pela primeira vez v�amos a imagem do grande imperador, que parecia instigar um �dio t�o destrutivo e fren�tico na mente do desconhecido. Estava estilha�ada em peda�os espalhados sobre a grama. Holmes pegou v�rios deles e os examinou com cuidado. Eu estava convencido, pelo seu rosto atento e sua atitude determinada, de que finalmente tinha uma pista.</p><p>� Ent�o? � perguntou Lestrade.</p><p>Holmes encolheu os ombros.</p><p>� Ainda temos um longo caminho a seguir � disse. � E ainda assim � e ainda assim � bem, temos alguns fatos sugestivos sobre os quais trabalhar. A posse deste busto insignificante era mais valiosa, aos olhos desse estranho criminoso, do que uma vida humana. Este � um ponto. Depois h� o fato singular de que n�o o quebrou dentro da casa, ou bem perto fora dela, se quebrar fosse seu �nico objetivo.</p><p>� Ficou assustado e se afobou ao se encontrar com o outro sujeito. Mal sabia o que estava fazendo.</p><p>� Bem, isto � muito prov�vel. Mas gostaria de chamar sua aten��o para a posi��o desta casa, em cujo jardim o busto foi destru�do.</p><p>Lestrade olhou para ele.</p><p>� Era uma casa vazia, de modo que ele sabia que n�o seria perturbado no jardim.</p><p>� Sim, mas h� uma outra casa vazia mais acima na rua pela qual ele deve ter passado antes de vir at� esta. Por que n�o o quebrou l�, j� que � evidente que cada metro que carregasse a imagem aumentaria o risco de algu�m encontr�-lo?</p><p>� Desisto � disse Lestrade.</p><p>Holmes apontou para a luz da rua sobre nossas cabe�as.</p><p>� Ele podia ver o que fazia aqui, e n�o podia l�. Foi este o motivo.</p><p>� Por Deus! � verdade � disse o detetive. � Agora que penso nisso, o busto do dr. Barnicot n�o foi quebrado muito longe de sua l�mpada vermelha. Bem, sr. Holmes, que faremos com este fato?</p><p>� Lembr�-lo, registr�-lo. Podemos encontrar alguma coisa mais tarde que se relacionar� com isto. Que provid�ncias prop�e que tomemos agora, Lestrade?</p><p>� A maneira mais pr�tica de descobrirmos isso, na minha opini�o, � identificar o morto. N�o deve ser dif�cil. Quando tivermos descoberto quem ele � e quem s�o seus parceiros, teremos um bom come�o para saber o que ele estava fazendo na rua Pitt na noite passada, e quem foi que o encontrou e o matou na soleira da porta do sr. Horace Harker. N�o acha?</p><p>� Sem d�vida; e mesmo assim n�o � o modo pelo qual eu conduziria o caso.</p><p>� O que faria, ent�o?</p><p>� Oh, n�o deve deixar que eu o influencie de maneira alguma. Sugiro que continue em sua pr�pria linha e eu na minha. Depois poderemos comparar resultados, e cada um complementar� o outro.</p><p>� Muito bem � disse Lestrade.</p><p>� Se estiver voltando para a rua Pitt, deve ver o sr. Horace Harker. Diga-lhe que j� tenho uma opini�o e que � certo que um perigoso lun�tico homicida, com devaneios napole�nicos, esteve na casa dele ontem � noite. Ser� �til para o artigo dele.</p><p>Lestrade encarou-o.</p><p>� N�o acredita seriamente nisso?</p><p>Holmes sorriu.</p><p>� N�o? Bem, talvez n�o. Mas estou certo de que isso interessar� ao sr. Horace Harker e aos assinantes do Sindicato Central de Imprensa. Agora, Watson, creio que teremos um dia de trabalho longo e bem complexo. Eu agradeceria, Lestrade, se pudesse nos encontrar em Baker Street �s 18 horas. At� l�, eu gostaria de ficar com esta fotografia, encontrada no bolso do morto. � poss�vel que eu tenha de pedir a sua companhia e ajuda para uma pequena expedi��o que farei esta noite, se minha cadeia de racioc�nio estiver correta. At� l�, adeus e boa sorte!</p><p>Sherlock Holmes e eu fomos juntos para High Street, onde paramos na loja Harding Brothers, na qual o busto fora adquirido. Um jovem assistente informou-nos que o sr. Harding estaria ausente at� a tarde, e que ele pr�prio era um novato e n�o podia nos dar nenhuma informa��o. O rosto de Holmes mostrava seu desapontamento e irrita��o.</p><p>� Ora, ora, n�o podemos esperar obter tudo o que queremos, Watson � disse por fim. � Voltaremos � tarde, j� que o sr. Harding n�o chegara antes disso. Estou, como sem d�vida j� deve ter suspeitado, tentando rastrear esses bustos at� sua origem, para descobrir se h� algo especial que possa explicar seu destino estranho. Vamos procurar o sr. Morse Hudson, da Kennington Road, e ver se ele pode esclarecer alguma coisa sobre o problema.</p><p>Uma caminhada de uma hora nos levou ao estabelecimento do negociante de imagens. Era um homem baixo, atarracado, com rosto vermelho e maneiras irritadi�as.</p><p>� Sim, senhor, no meu balc�o, senhor � disse. � Para que pagamos impostos e taxas eu n�o sei, quando qualquer valent�o pode entrar e quebrar nossas mercadorias. Sim, senhor, fui eu quem vendeu ao dr. Barnicot suas duas estatuetas. Vergonhoso, senhor! Uma conspira��o niilista � � o que penso disto. Ningu�m, a n�o ser um anarquista, sairia por a� quebrando estatuetas. Republicanos vermelhos � � como os chamo. De quem consegui as estatuetas? N�o vejo o que tem a ver com isso. Bem, se quer realmente saber, comprei-as de Gelder &amp; Co., na Church Street, em Stepney. � uma firma bastante conhecida no ramo e est� nele h� vinte anos. Quantos eu tinha? Tr�s � dois mais um s�o tr�s � dois do dr. Barnicot e um esmigalhado � luz do dia em meu pr�prio balc�o. Se eu conhe�o esta fotografia? N�o, n�o conhe�o. Sim, conhe�o. Ora, � Beppo. Era uma esp�cie de pau-para-toda-obra italiano, que se tornou �til na loja. Podia esculpir um pouco, e dourar e fazer trabalhos avulsos. O sujeito foi embora na semana passada e n�o soube mais nada a respeito dele desde ent�o. N�o, n�o sei de onde veio ou para onde foi. N�o tinha nada contra ele enquanto esteve aqui. Foi embora dois dias antes de o busto ser esmagado.</p><p>� Bem, isto � tudo o que poder�amos esperar de Morse Hudson � disse Holmes quando sa�mos da loja. Temos esse Beppo como um fator comum, ambos em Kennington e em Kensington, portanto vale uma ida de 15 quil�metros. Agora, Watson, vamos at� Gelder &amp; Co., de Stepney, a causa e origem dos bustos. Ficarei surpreso se n�o conseguirmos alguma ajuda ali.</p><p>Numa r�pida sucess�o passamos pela periferia da Londres da moda, a Londres dos hot�is, Londres teatral, Londres liter�ria, Londres comercial e, finalmente, Londres mar�tima, at� que chegamos a uma cidade � beira do rio, com 100 mil almas, onde os corti�os se sufocam com os detritos da Europa. Aqui, numa grande via p�blica, outrora moradia dos mercadores ricos da cidade, encontramos os trabalhos de escultura que procur�vamos. Do lado de fora havia um p�tio grande cheio de obras de pedra monumentais. Dentro, um amplo aposento no qual cinq�enta oper�rios esculpiam ou modelavam. O gerente, um alem�o grande e louro, nos recebeu civilizadamente e deu respostas claras �s perguntas de Holmes. Uma olhada em seus livros mostrou que centenas de pe�as foram moldadas da c�pia de m�rmore da cabe�a de Napole�o de Devine, mas que as tr�s que foram mandadas para Morse Hudson h� um ano ou mais eram a metade de um lote de seis, e as outras tr�s foram enviadas para Harding Brothers, de Kensington. N�o havia raz�o para que aquelas seis fossem diferentes das outras pe�as. N�o podia sugerir nenhuma causa poss�vel para que algu�m quisesse destru�-las � na verdade, ele riu da id�ia. O pre�o total delas era de 6 xelins, mas o revendedor poderia conseguir 12 ou mais. A pe�a foi tirada em dois moldes, um de cada lado da face, e depois estes dois perfis de gesso de Paris foram unidos para fazer o busto completo. O trabalho era feito em geral por italianos, na sala em que est�vamos. Quando ficavam prontos, os bustos eram colocados numa mesa no corredor para secar, e depois eram guardados. Isto era tudo o que podia nos dizer.</p><p>Mas a exibi��o da fotografia teve um efeito not�vel no gerente. Seu rosto ficou vermelho de raiva, e seu cenho se franziu sobre os olhos teut�nicos azuis.</p><p>� Ah, o patife! � exclamou. � Sim, na verdade eu o conhe�o muito bem. Este sempre foi um estabelecimento respeit�vel, e na �nica vez que tivemos a pol�cia aqui foi por causa desse sujeito. Foi h� mais de um ano. Ele esfaqueou outro italiano na rua, e depois veio para o trabalho com a pol�cia nos calcanhares, e foi preso aqui. Beppo era seu nome � seu segundo nome eu nunca soube. Bem mere�o o castigo por empregar um homem com um rosto desse. Mas era um bom trabalhador � um dos melhores.</p><p>� Quanto tempo ele ficou preso?</p><p>� O homem sobreviveu e ele saiu em 1 ano. N�o tenho d�vida de que est� livre agora, mas n�o teve a coragem de aparecer por aqui. Temos um primo dele aqui e creio que pode lhe dizer onde ele est�.</p><p>� N�o, n�o! � exclamou Holmes �, nem uma palavra ao primo, nem uma palavra, eu lhe pe�o. O assunto � muito importante, e quanto mais me aprofundo nele, mais importante parece ficar. Quando se referiu em seu livro � venda das pe�as, observei que a data era 3 de junho do ano passado. Poderia me dar a data em que Beppo foi preso?</p><p>� Posso lhe dizer pela lista de pagamento � respondeu o gerente. � Sim � continuou, depois de virar algumas p�ginas � seu �ltimo pagamento foi no dia 20 de maio.</p><p>� Obrigado � disse Holmes. � N�o creio que precise abusar mais do seu tempo e da sua paci�ncia. � Com uma �ltima palavra de advert�ncia de que ele n�o devia falar mais nada a respeito das nossas pesquisas, sa�mos de l� para prosseguir em nossa miss�o.</p><p>A tarde j� estava bem adiantada quando conseguimos comer um lanche r�pido num restaurante. Um an�ncio de jornal na entrada dizia �Viol�ncia em Kensington. Assassinato por um Louco� e o conte�do mostrava que o sr. Horace Harker tivera afinal seu artigo publicado. Duas colunas estavam ocupadas com um relato sensacional e floreado de todo o incidente. Holmes o apoiou no galheteiro e leu enquanto comia. Uma ou duas vezes ele deu uma risadinha.</p><p>� Est� tudo certo, Watson � disse. � Ou�a isto:</p><empty-line/><p>� bom saber que n�o h� diferen�a de opini�o a respeito deste caso, j� que o sr. Lestrade, um dos membros mais experientes da pol�cia, e o sr. Sherlock Holmes, o conhecido perito consultor, chegaram � conclus�o de que a grotesca s�rie de incidentes, que terminou de maneira t�o tr�gica, foi motivada por loucura e n�o por crime premeditado. A �nica explica��o para esses fatos � a aberra��o mental.</p><empty-line/><p>� A imprensa, Watson, � uma institui��o extremamente valiosa, se a gente souber como us�-la. E agora, se j� acabou, voltaremos a Kensington e veremos o que o gerente do Harding Brothers tem a dizer sobre o assunto.</p><p>O fundador daquele grande emp�rio provou ser um homenzinho agitado e enrugado, muito esperto e r�pido, calvo e com uma l�ngua �gil.</p><p>� Sim, senhor, j� li sobre o relato nos jornais da noite. O sr. Horace Harker � cliente nosso. N�s lhe fornecemos os bustos alguns meses atr�s. Encomendamos tr�s bustos daquele tipo � Gelder &amp; Co., de Stepney. Foram todos vendidos. Para quem? Oh, creio que consultando nosso livro de vendas posso lhe dizer facilmente. Sim, temos registros aqui. Uma para o sr. Harker, v�, e uma para o sr. Josiah Brown, de Laburnum Lodge, Laburnum Vale, Chiswick, e uma para o sr. Sandeford, da estrada Lower Grove, Reading. N�o, nunca vi o rosto que me mostra nessa fotografia. Dificilmente o esqueceria, n�o �, pois nunca vi ningu�m mais feio. Se temos italianos empregados? Sim, senhor, temos v�rios entre nossos oper�rios e limpadores. Eles poderiam dar uma olhada neste livro de vendas se quisessem. N�o h� nenhum motivo para vigiar aquele livro. Bem, bem, � um neg�cio muito estranho, e espero que me informem se algo aparecer em suas investiga��es.</p><p>Holmes tomara muitas notas durante o depoimento do sr. Harding, e pude ver que estava plenamente satisfeito com o rumo que o caso estava tomando. Mas n�o fez nenhum coment�rio, exceto que, se n�o corr�ssemos, chegar�amos atrasados para o nosso encontro com Lestrade. De fato, quando chegamos a Baker Street, o detetive j� estava l�, e o encontramos andando de um lado para o outro numa impaci�ncia febril. O ar de import�ncia mostrava que seu dia n�o fora em v�o.</p><p>� E ent�o? � perguntou. � Qual foi a sorte, sr. Holmes?</p><p>� Tivemos um dia muito ocupado e n�o inteiramente perdido � explicou meu amigo. � Estivemos com os varejistas e os fabricantes. Posso reconstituir a hist�ria de cada busto desde o in�cio.</p><p>� Os bustos! � exclamou Lestrade. � Ora, ora, o senhor tem seus pr�prios m�todos, sr. Sherlock Holmes, e n�o serei eu a falar uma palavra contra eles, mas acho que tive um dia de trabalho melhor que o seu. Identifiquei o morto.</p><p>� N�o diga.</p><p>� E descobri a causa do crime.</p><p>� Espl�ndido.</p><p>� Temos um inspetor especialista em Safron Hill e na parte italiana. Bem, este morto tinha uma esp�cie de emblema cat�lico no pesco�o, e isto, junto com sua cor, me fizeram pensar que era do sul. O inspetor o reconheceu assim que p�s os olhos nele. Seu nome � Pietro Venucci, de N�poles, e � um dos maiores cortadores de gargantas de Londres. � ligado � M�fia, que, como sabe, � uma sociedade pol�tica secreta, impondo suas decis�es por meio de assassinatos. Agora, veja como o caso come�a a se esclarecer. O outro sujeito possivelmente tamb�m � italiano e membro da M�fia. De algum modo desobedeceu as regras. Pietro � posto na sua trilha. Provavelmente a fotografia que encontramos em seu bolso � a do pr�prio homem, para que ele n�o esfaqueasse a pessoa errada. Ele persegue o sujeito, v� quando ele entra numa casa, espera por ele do lado de fora e na luta recebe seu pr�prio ferimento mortal. O que acha disso, sr. Sherlock Holmes?</p><p>Holmes bateu palmas em aprova��o.</p><p>� Excelente, Lestrade, excelente! � exclamou. � Mas n�o entendi como explica a destrui��o dos bustos.</p><p>� Os bustos! N�o pode nunca deixar de pensar nestes bustos. Afinal, isso n�o � nada; furto de pouca monta, seis meses no m�ximo. � o assassinato que estamos realmente investigando, e lhe digo que estou juntando todos os fios em minhas m�os.</p><p>� E a pr�xima etapa?</p><p>� � muito simples. Irei com o inspetor Hill at� a parte italiana para descobrir o homem que est� naquela fotografia, e o prenderei sob a acusa��o de assassinato. Quer vir conosco?</p><p>� Acho que n�o. Imagino que podemos atingir nosso objetivo de uma maneira mais simples. N�o posso dizer ao certo, porque tudo depende, bem, tudo depende de um fator que est� completamente fora de nosso controle. Mas tenho grandes esperan�as � na verdade, a rela��o � exatamente de 2 para 1 �, se vier conosco esta noite, de poder ajud�-lo a pegar o sujeito.</p><p>� Na parte italiana?</p><p>� N�o, creio que Chiswick � o endere�o onde temos mais probabilidade de encontr�-lo. Se vier comigo esta noite a Chiswick, Lestrade, prometo ir com voc� � parte italiana amanh�, e o atraso n�o causar� nenhum preju�zo. E agora, acho que algumas horas de sono nos fariam bem, pois n�o pretendo sair antes das 23 horas e � pouco prov�vel que voltemos antes de o dia amanhecer. Jantar� conosco, Lestrade, e depois poder� se acomodar no sof� at� a hora de partirmos. Enquanto isso, Watson, agradeceria se chamasse um mensageiro, porque tenho uma carta para mandar e � importante que seja despachada imediatamente.</p><p>Holmes passou a noite pesquisando nos arquivos dos velhos jornais, que entulhavam um dos nossos quartos de badulaques. Quando finalmente desceu, foi com uma express�o de triunfo nos olhos, mas n�o nos revelou nada sobre os resultados de sua pesquisa. De minha parte, seguira passo a passo os m�todos pelos quais ele reconstitu�ra os v�rios meandros deste complexo e, embora ainda n�o conseguisse perceber aonde chegar�amos, entendi claramente que Holmes esperava que esse criminoso grotesco fizesse uma tentativa de atacar os dois bustos remanescentes, um dos quais, eu me lembrava, estava em Chiswick. Sem d�vida o objetivo de nossa viagem era peg�-lo em flagrante, e n�o podia deixar de admirar a esperteza com que meu amigo inserira uma pista falsa no jornal, para dar ao sujeito a id�ia de que poderia continuar impunemente o seu projeto. N�o me surpreendi quando Holmes sugeriu que eu levasse o meu rev�lver. Ele mesmo pegara seu chicote de ca�a, que era sua arma favorita.</p><p>Uma carruagem estava na porta �s 23 horas, e nela nos dirigimos para um lugar do outro lado da ponte Hammersmith, onde o cocheiro recebeu ordem para esperar. Uma caminhada curta nos levou a uma rua escondida, ladeada de casas agrad�veis, cada uma com seu pr�prio terreno. Sob a luz de um poste lemos �Vila Laburnum� na coluna do port�o de uma delas. Os ocupantes, evidentemente, haviam se recolhido para dormir, pois tudo estava escuro, exceto por uma luzinha sobre a porta principal, que fazia um c�rculo impreciso no caminho do jardim. A cerca de madeira que separava o terreno da rua projetava uma densa sombra negra no lado de dentro, e era ali que est�vamos agachados.</p><p>� Receio que tenhamos uma espera longa � sussurrou Holmes. � Podemos agradecer �s estrelas por n�o estar chovendo. N�o creio que possamos nos arriscar nem mesmo a fumar para passar o tempo. Entretanto, aposto 2 contra 1 como conseguiremos alguma coisa como recompensa pelo nosso trabalho.</p><p>Mas nossa vig�lia acabou n�o sendo t�o longa quanto Holmes imaginara, e terminou de modo bastante repentino e singular. Num instante, sem o menor ru�do para nos prevenir de sua chegada, o port�o do jardim se abriu e um vulto escuro, r�pido e �gil como um macaco, correu pelo caminho do jardim. N�s o vimos passar ligeiro pela luz lan�ada de cima da porta e desaparecer na sombra negra da casa. Houve uma pausa longa, durante a qual prendemos a respira��o, e ent�o um leve som de coisa quebrada nos chegou aos ouvidos. A janela estava sendo aberta. O barulho cessou e de novo houve um longo sil�ncio. O sujeito estava andando pela casa. Vimos o brilho repentino de uma lanterna dentro da sala. O que ele procurava evidentemente n�o estava l�, porque vimos novamente a luz atrav�s de outra persiana, e depois por outra.</p><p>� Vamos at� a janela aberta. N�s o apanharemos quando saltar para fora � sussurrou Lestrade.</p><p>Mas antes que nos mov�ssemos, o homem surgiu de novo. Quando ele saiu e ficou na parte iluminada, vimos que carregava alguma coisa branca sob o bra�o. Olhou atentamente em volta. O sil�ncio da rua deserta o tranq�ilizou. Virando as costas para n�s, p�s no ch�o sua carga, e logo depois ouvimos o som de uma batida �spera, seguida de um barulho de objetos batendo. O homem estava t�o concentrado no que fazia que n�o ouviu nossos passos quando corremos pela grama. Com um pulo de tigre Holmes estava em suas costas, e um instante depois Lestrade e eu o seguramos pelos pulsos, e as algemas foram colocadas. Ao vir�-lo em nossa dire��o, vi um rosto hediondo e p�lido, com uma express�o furiosa e contorcida, e eu sabia que era realmente o homem da fotografia que hav�amos procurado.</p><p>Mas n�o era ao nosso prisioneiro que Holmes dava aten��o. Agachado na soleira da porta, dedicava-se a um exame cuidadoso do que o homem trouxera da casa. Era um busto de Napole�o, igual ao que v�ramos pela manh�, e fora quebrado em fragmentos semelhantes. Com cuidado, Holmes levou cada peda�o para a luz, mas eles n�o se diferenciavam em nada de qualquer outro peda�o espatifado de gesso. Acabara de fazer seu exame quando a luz do sagu�o se acendeu, a porta se abriu e o dono da casa, uma figura jovial, gorducha, de cal�a e camisa, apareceu.</p><p>� Sr. Josiah Brown, suponho? � perguntou Holmes.</p><p>� Sim, senhor; e o senhor, sem d�vida, � o sr. Sherlock Holmes? Recebi o bilhete que mandou pelo mensageiro, e fiz exatamente como me disse. Trancamos cada porta por dentro e esperamos pelos acontecimentos. Bem, estou contente por ver que pegaram o patife. Espero, cavalheiros, que entrem e tomem um lanche.</p><p>Mas Lestrade estava ansioso para levar o homem para um local seguro; de modo que em poucos minutos nossa carruagem foi chamada e est�vamos todos os quatro indo para Londres. Nosso prisioneiro n�o dizia uma palavra, mas nos observava com seus olhos embaciados, e uma vez, quando minha m�o parecia estar ao seu alcance, tentou mord�-la como um lobo faminto. Ficamos na delegacia o suficiente para descobrir que uma revista em suas roupas n�o revelou nada a n�o ser uns poucos xelins e uma longa faca de bainha, cujo cabo tinha muitos vest�gios de sangue recente.</p><p>� Est� tudo certo � disse Lestrade quando sa�amos. � Hill conhece toda essa gente e dar� um nome a ele. O senhor descobrir� que minha teoria sobre a M�fia ser� correta. Mas tenho certeza de que lhe devo muitos agradecimentos, sr. Holmes, pela efici�ncia com que deitou as m�os nele. Ainda n�o estou entendendo tudo.</p><p>� Receio que seja uma hora um pouco tardia para explica��es � disse Holmes. � Al�m disso, existem um ou dois detalhes que ainda n�o est�o completos, e este � um daqueles casos em que � melhor ir at� o fim. Se vier aos meus aposentos mais uma vez amanh� �s 18 horas, acho que poderei lhe mostrar que mesmo agora voc� ainda n�o captou o significado completo deste neg�cio, que apresenta algumas caracter�sticas que o tornam absolutamente original na hist�ria do crime. Se eu chegar a permitir que escreva a hist�ria de mais alguns de meus probleminhas, Watson, posso prever que encher� suas p�ginas com o relato da aventura singular dos bustos napole�nicos.</p><p>Quando nos encontramos novamente na noite seguinte, Lestrade tinha muitas informa��es relacionadas com o nosso prisioneiro. Seu nome, parece, era Beppo, sobrenome desconhecido. Era um vagabundo conhecido na col�nia italiana. J� fora um h�bil escultor e levava uma vida honesta, mas passou a trilhar os caminhos do mal e j� estivera preso duas vezes � uma por furto, e outra, como j� sab�amos, por esfaquear um conterr�neo. Sabia falar ingl�s perfeitamente. Seus motivos para destruir os bustos ainda eram desconhecidos, e ele se recusava a responder a qualquer pergunta sobre o assunto, mas a pol�cia descobriu que estes mesmos bustos poderiam muito bem ter sido feitos por suas pr�prias m�os, j� que estava envolvido nesse tipo de trabalho no estabelecimento de Gelder &amp; Co. Holmes ouviu com aten��o cort�s todas essas informa��es, muitas das quais j� eram do nosso conhecimento, mas eu, que o conhecia t�o bem, podia ver que seus pensamentos estavam em outro lugar, e percebi uma mistura de agita��o e expectativa por baixo da m�scara que adotara. Por fim, endireitou-se na cadeira e seus olhos brilharam. Algu�m tocara a campainha. Um instante depois ouvimos passos na escada, e um homem idoso, de rosto vermelho e su��as grisalhas, entrou apressado. Na m�o direita carregava uma antiga mala de viagem, que p�s sobre a mesa.</p><p>� O sr. Sherlock Holmes est� aqui?</p><p>Meu amigo inclinou-se e sorriu. � Sr. Sandeford, de Reading, suponho? � disse.</p><p>� Sim, senhor, receio estar um pouco atrasado, mas os trens estavam horr�veis. Escreveu para mim sobre um busto que est� em meu poder.</p><p>� Exatamente.</p><p>Tenho sua carta aqui. Diz: �Desejo possuir uma c�pia do Napole�o de Devine, e estou disposto a pagar 10 libras pelo que est� com o senhor.� Est� correto?</p><p>� Perfeitamente.</p><p>� Fiquei muito surpreso com sua carta, pois n�o posso imaginar como soube que eu possu�a esse objeto.</p><p>� � claro que deve ter ficado surpreso, mas a explica��o � muito simples. O sr. Harding, de Harding Brothers, contou-me que lhe vendeu a �ltima c�pia, e me deu seu endere�o.</p><p>� Oh, ent�o foi assim? Ele lhe disse quanto paguei por ela?</p><p>� N�o, n�o disse.</p><p>� Bem, sou um homem pr�spero, embora n�o muito rico. Dei apenas 15 xelins pelo busto, e acho que deveria saber disso antes de eu lhe tomar 10 libras.</p><p>� Estou certo de que seu escr�pulo faz a sua honra, sr. Sandeford. Mas eu disse o pre�o e pretendo pag�-lo.</p><p>� Bem, � muito bonito de sua parte, sr. Holmes. Trouxe o busto comigo, como me pediu. Aqui est�! � abriu a mala e afinal vimos colocado sobre nossa mesa um exemplar inteiro daquele busto que j� v�ramos mais de uma vez em fragmentos.</p><p>Holmes pegou um papel no bolso e p�s uma nota de 10 libras sobre a mesa.</p><p>� Gostaria que fizesse a gentileza de assinar aquele papel, sr. Sandeford, na presen�a destas testemunhas. � apenas para dizer que transfere para mim qualquer poss�vel direito que j� tenha tido sobre o busto. Sou um homem met�dico, como v�, e nunca se sabe o rumo que os acontecimentos podem tomar depois. Obrigado, sr. Sandeford; aqui est� seu dinheiro, e lhe desejo uma boa noite.</p><p>Quando nosso visitante desapareceu, os movimentos de Sherlock Holmes atra�ram nossa aten��o. Come�ou por tirar um pano branco limpo de um arm�rio, colocando-o sobre a mesa. Depois depositou o busto rec�m-adquirido no centro do pano. Finalmente, pegou seu chicote e deu uma chicotada no Napole�o bem no alto da cabe�a. A pe�a se despeda�ou e Holmes curvou-se ansiosamente sobre os fragmentos espalhados. Logo depois, com um grito de triunfo, pegou um peda�o, no qual estava grudado um objeto redondo e escuro, como uma ameixa num pudim.</p><p>� Cavalheiros � exclamou �, deixem-me apresent�-los � famosa p�rola negra dos B�rgias.</p><p>Lestrade e eu ficamos em sil�ncio por um instante, e, ent�o, num impulso espont�neo, come�amos a bater palmas, como num momento culminante de uma pe�a bem elaborada. Um rubor se espalhou pela face p�lida de Holmes, e ele se curvou para n�s � como um mestre dramaturgo que recebe a homenagem de sua plat�ia. Era nessas ocasi�es que ele deixava por um instante de ser uma m�quina de racioc�nio e tra�a sua paix�o humana por admira��o e aplauso. A mesma natureza singularmente orgulhosa e reservada que se afastava com desd�m da notoriedade p�blica era capaz de ir �s suas profundezas pela admira��o e pelo elogio espont�neos de um amigo.</p><p>� Sim, cavalheiros � disse �, � a p�rola mais famosa no mundo atualmente, e tive a sorte de, pela cadeia de racioc�nio indutivo, segui-la desde o quarto do pr�ncipe de Colonna, no Hotel Dacre, onde foi perdida, at� o interior disto, o �ltimo dos seis bustos de Napole�o que foram feitos por Gelder &amp; Co., de Stepney. Deve se lembrar, Lestrade, da sensa��o causada pelo desaparecimento dessa j�ia valiosa, e das tentativas in�teis da pol�cia de Londres para recuper�-la. Eu mesmo fui consultado, mas n�o consegui ajudar a esclarecer o caso. As suspeitas reca�ram sobre a empregada da princesa, que era italiana e tinha um irm�o em Londres, mas n�o conseguimos encontrar nenhuma liga��o entre eles. O nome dessa empregada era Lucretia Venucci, e n�o tenho d�vida de que esse Pietro que foi assassinado duas noites atr�s era o irm�o dela. Estive vendo as datas nos velhos arquivos do jornal, e descobri que o desaparecimento da p�rola ocorreu exatamente dois dias antes da pris�o de Beppo por algum crime de viol�ncia � um fato que aconteceu na f�brica de Gelder &amp; Co., exatamente quando esses bustos estavam sendo feitos. Agora voc�s v�em claramente a seq��ncia de fatos, embora vejam, � claro, numa ordem inversa da que se apresentaram a mim. Beppo estava de posse da p�rola. Deve t�-la roubado de Pietro, deve ter sido c�mplice dele, o intermedi�rio entre Pietro e sua irm�. N�o nos importa qual dessas � a solu��o correta.</p><p>� O principal � que ele tinha a p�rola, e naquele momento, quando ela estava com ele, foi perseguido pela pol�cia. Correu para a f�brica em que trabalhava e sabia que tinha apenas alguns minutos para esconder aquele objeto imensamente valioso, que, do contr�rio, seria encontrada com ele quando fosse alcan�ado. Seis pe�as de gesso estavam secando no corredor. Uma delas ainda estava mole. Num instante Beppo, um escultor habilidoso, fez um pequeno buraco no gesso mole, colocou a p�rola, e com alguns toques cobriu a abertura novamente. Era um �timo esconderijo. Possivelmente ningu�m iria descobri-lo. Mas Beppo foi condenado a um ano de pris�o, e nesse per�odo os seis bustos se espalharam por Londres. Ele n�o podia saber qual continha o seu tesouro. S� quebrando-os � que poderia ver. Mesmo se os sacudisse, n�o adiantaria nada, pois como o gesso estava mole, era poss�vel que a p�rola aderisse a ele � como, de fato, aconteceu. Beppo n�o se desesperou, e conduziu sua pesquisa com bastante engenho e perseveran�a. Por interm�dio de um primo que trabalha na Gelder, descobriu as firmas que compraram os bustos. Conseguiu emprego com Morse Hudson, e assim achou tr�s deles. A p�rola n�o estava l�. Depois, com a ajuda de algum empregado italiano, conseguiu descobrir para onde os outros tr�s bustos tinham ido. O primeiro estava com Harker. Ali ele foi seguido por seu c�mplice, que o responsabilizou pela perda da p�rola e foi apunhalado na luta que se seguiu.</p><p>� Se era um c�mplice, por que carregaria a fotografia dele? � perguntei.</p><p>� Como um meio de localiz�-lo, se quisesse saber dele por interm�dio de uma terceira pessoa. Essa era a raz�o �bvia. Bem, depois do assassinato, calculei que Beppo provavelmente iria acelerar e n�o retardar seus movimentos. Ficaria com receio de que a pol�cia descobrisse seu segredo, e ent�o apressou-se antes que eles pudessem chegar � sua frente. � claro que eu n�o podia afirmar que ele n�o encontrara a p�rola no busto de Harker. Eu nem mesmo tinha certeza de que era a p�rola, mas era evidente para mim que ele procurava alguma coisa, j� que passou com o busto por outras casas para quebr�-lo num jardim que tinha um poste. Como o busto de Harker era um de tr�s, suas chances eram exatamente como lhes disse � 2 contra 1 para a p�rola estar l� dentro. Ent�o faltavam dois bustos, e era �bvio que ele iria primeiro para o busto de Londres. Avisei os moradores da casa, para evitar uma segunda trag�dia, e fomos at� l�, com os melhores resultados. Nessa ocasi�o, � claro, eu tinha certeza de que era a p�rola dos B�rgias aquilo que est�vamos procurando. O nome do homem assassinado ligava um fato ao outro. S� restava um busto � o de Reading � e a p�rola tinha de estar l�. Eu o comprei do dono na presen�a de voc�s � e aqui est�.</p><p>Ficamos em sil�ncio por um instante.</p><p>� Bem � disse Lestrade �, j� o vi lidar com muitos casos, sr. Holmes, mas nunca vi um t�o primoroso como este. N�o temos ci�mes do senhor na Scotland Yard. N�o, estamos muito orgulhosos do senhor, e se for l� amanh�, n�o haver� um �nico homem, do inspetor mais antigo ao guarda mais novo, que n�o ficar� contente em lhe apertar as m�os.</p><p>� Obrigado! � disse Holmes. � Obrigado! � e quando se virou, tive a impress�o de que estava mais comovido pelas suaves emo��es humanas do que jamais o vira. Logo depois, ele voltava a ser o pensador frio e pr�tico de sempre. � Guarde a p�rola no cofre, Watson � disse � e tire os pap�is do caso de falsifica��o da Conk-Singleton. Adeus, Lestrade. Se esbarrar em algum probleminha, ficarei feliz se puder lhe dar uma ou duas pistas para a solu��o.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura dos tr�s estudantes</strong></p><p>Foi no ano de 1895 que uma combina��o de fatos, que n�o preciso mencionar, fez com que Sherlock Holmes e eu pass�ssemos algumas semanas numa de nossas grandes cidades universit�rias, e foi durante esse per�odo que a pequena mas instrutiva aventura que estou prestes a relatar nos aconteceu. � �bvio que qualquer detalhe que ajudasse o leitor a identificar exatamente o col�gio ou o criminoso seria imprudente e ofensivo. Um esc�ndalo t�o doloroso deve poder ser esquecido. Mas, com a devida discri��o, o incidente pode ser descrito, j� que serve para ilustrar algumas daquelas qualidades pelas quais meu amigo era not�vel. Tentarei, no meu relato, evitar termos que sirvam para limitar os acontecimentos a um lugar espec�fico, ou dar uma pista sobre as pessoas envolvidas.</p><p>Est�vamos morando naquela �poca em aposentos mobiliados perto de uma biblio-</p><p>teca onde Sherlock Holmes fazia algumas pesquisas trabalhosas em antigos documentos ingleses � pesquisas que levaram a resultados t�o chocantes que podem at� ser objeto de uma de minhas futuras narrativas. Assim est�vamos, quando numa noite recebemos a visita de um conhecido, o sr. Hilton Soames, tutor e professor do Col�gio de St. Luke. O sr. Soames era um homem alto e magro, de temperamento nervoso e excit�vel. Sempre soube que ele era irrequieto, mas nessa ocasi�o em particular estava numa agita��o t�o incontrol�vel que era evidente que algo incomum ocorrera.</p><p>� Espero, sr. Holmes, que possa dispor de algumas horas de seu valioso tempo. Tivemos um incidente muito doloroso em St. Luke, e na verdade, n�o fosse pelo feliz acaso de sua presen�a na cidade, eu n�o saberia o que fazer.</p><p>� Estou muito ocupado agora, e n�o quero ser perturbado � respondeu meu amigo. � Preferiria que pedisse a ajuda da pol�cia.</p><p>� N�o, n�o, meu caro senhor; isso � totalmente imposs�vel. Quando a lei � chamada, n�o se pode voltar atr�s, e este � um daqueles casos em que, pela boa reputa��o do col�gio, � essencial evitar um esc�ndalo. Sua discri��o � t�o conhecida quanto seus talentos; o senhor � o �nico homem no mundo que pode me ajudar. Eu lhe imploro, sr. Holmes, que fa�a o que puder.</p><p>O estado de esp�rito do meu amigo n�o havia melhorado desde que fora privado da atmosfera familiar da Baker Street. Sem seus cadernos de anota��es, seus produtos qu�micos e sua desorganiza��o dom�stica, era um homem desagrad�vel. Encolheu os ombros numa concord�ncia rude, enquanto nosso visitante despejava sua hist�ria com palavras apressadas e uma gesticula��o agitada.</p><p>� Devo lhe explicar, sr. Holmes, que amanh� � o primeiro dia do exame para a Bolsa de Estudos Fortescue. Sou um dos examinadores. Minha mat�ria � o grego, e o primeiro teste consiste num grande trecho de tradu��o grega que o candidato nunca viu. Este trecho � impresso no papel da prova e naturalmente seria uma imensa vantagem se o candidato pudesse prepar�-lo antes. Por esse motivo tomamos muito cuidado para que o papel seja mantido em segredo.</p><p>� Hoje, por volta das 15 horas, as provas do exame chegaram dos impressores. O exerc�cio consiste em meio cap�tulo de Tuc�dides. Eu tinha de l�-lo com cuidado, para que o teste estivesse absolutamente correto. �s 16:30h minha tarefa ainda n�o estava conclu�da. Mas eu havia prometido tomar ch� no aposento de um amigo, de modo que deixei a prova sobre a minha escrivaninha. Fiquei ausente por mais de uma hora.</p><p>� O senhor sabe, sr. Holmes, que as portas do nosso col�gio s�o duplas � por dentro uma folha verde e por fora uma pesada de carvalho. Ao me aproximar da porta de fora, fiquei surpreso ao ver uma chave nela. Por um momento pensei que deixara minha pr�pria chave ali, mas, sentindo-a no meu bolso, achei que estava tudo bem. A �nica duplicata que existia, pelo que sabia, era a que pertencia ao meu criado, Bannister � um homem que cuida de meu aposento h� dez anos, e cuja honestidade est� absolutamente acima de suspeita. Descobri que a chave era de fato dele, que ele entrara no meu quarto para saber se eu queria ch�, e que a deixara por descuido na porta quando saiu. Sua entrada no meu quarto deve ter ocorrido poucos minutos ap�s eu ter sa�do. O esquecimento da chave n�o teria import�ncia em qualquer outra ocasi�o, mas nesse dia provocou as conseq��ncias mais deplor�veis.</p><p>� No instante em que olhei para a mesa, percebi que algu�m mexera nos pap�is. A prova tinha tr�s folhas longas. Eu as deixara todas juntas. Mas encontrei uma no ch�o, outra na mesinha perto da janela, e a terceira estava onde a deixara.</p><p>Holmes mexeu-se pela primeira vez.</p><p>� A primeira p�gina no ch�o, a segunda na janela, a terceira onde o senhor a deixara � disse.</p><p>� Exato, sr. Holmes. O senhor me surpreende. Como pode saber disso?</p><p>� Por favor, continue seu relato.</p><p>� Por um instante imaginei que Bannister tomara a liberdade imperdo�vel de examinar meus pap�is. Mas ele negou isso com a maior honestidade, e estou convencido de que falava a verdade. A alternativa era a de que algu�m que passava viu a chave na porta, soube que eu havia sa�do e entrou para ver os pap�is. Uma grande soma de dinheiro est� em jogo, pois a bolsa de estudos � muito valiosa e um homem inescrupuloso poderia muito bem se arriscar a fim de obter uma vantagem sobre seus colegas.</p><p>� Bannister ficou muito transtornado com o incidente. Quase desmaiou quando descobriu que os pap�is, sem d�vida, tinham sido remexidos. Dei-lhe um pouco de brandy e o deixei prostrado numa cadeira, enquanto examinava cuidadosamente o quarto. Logo vi que o intruso havia deixado outros vest�gios de sua presen�a al�m dos pap�is amarrotados. Sobre a mesa, perto da janela, havia v�rias lascas de um l�pis que fora apontado. Um peda�o quebrado de ponta estava ali tamb�m. Evidentemente, o patife copiou o papel com muita pressa, quebrou a ponta de seu l�pis, e teve de fazer uma ponta nova nele.</p><p>� Excelente! � disse Holmes, que estava recobrando seu bom humor � medida que sua aten��o no caso aumentava. � A sorte est� sendo sua amiga.</p><p>� Isto n�o � tudo. Tenho uma nova escrivaninha com uma �tima superf�cie em couro vermelho. Posso jurar, e Bannister tamb�m, que era lisa e sem manchas. Agora descobri um corte bem vis�vel com cerca de 7 cent�metros de comprimento � n�o um simples arranh�o, mas realmente um corte. N�o apenas isso, mas sobre a mesa encontrei uma pequena bola de pasta ou argila preta, com part�culas de algo parecido com p� de serra. Estou certo de que essas marcas foram deixadas pelo homem que mexeu nos pap�is. N�o havia pegadas e nenhum outro ind�cio para identific�-lo. N�o sabia o que fazer quando de repente lembrei-me de que o senhor estava na cidade, e vim direto para p�r o assunto em suas m�os. Ajude-me, sr. Holmes. Veja o meu dilema. Tenho de encontrar o homem ou ent�o o exame ser� adiado at� que sejam preparados novos testes, e como isto n�o pode ser feito sem explica��o, haver� um esc�ndalo abomin�vel, que lan�ar� uma mancha n�o apenas na faculdade, mas tamb�m na universidade. Acima de tudo, quero resolver o assunto calma e discretamente.</p><p>� Ficarei feliz em examinar e dar-lhe o conselho que puder � disse Holmes, levantando-se e colocando seu sobretudo. � O caso n�o � inteiramente destitu�do de interesse. Algu�m o visitou em seu quarto depois que recebeu os pap�is?</p><p>� Sim, o jovem Daulat Ras, um estudante indiano, que mora no mesmo andar, entrou para perguntar alguns detalhes do exame.</p><p>� Foi por isso que ele entrou?</p><p>� Sim.</p><p>� E os pap�is estavam sobre a sua mesa?</p><p>� Creio que estavam enrolados.</p><p>� Mas podiam ser reconhecidos como provas?</p><p>� Possivelmente.</p><p>� Ningu�m mais entrou no seu quarto?</p><p>� N�o.</p><p>� Algu�m mais sabia que essas provas estariam l�?</p><p>� Ningu�m, a n�o ser o impressor.</p><p>� E esse homem, Bannister, sabia?</p><p>� N�o, com certeza n�o. Ningu�m sabia.</p><p>� Onde est� Bannister agora?</p><p>� Estava muito mal, pobre rapaz. Deixei-o prostrado na cadeira. Estava com muita pressa para vir falar com o senhor.</p><p>� Deixou sua porta aberta?</p><p>� Tranquei os pap�is antes.</p><p>� Ent�o tudo se resume nisto, sr. Soames: que, a menos que o estudante indiano tenha reconhecido o ma�o como sendo as provas, o homem que as copiou encontrou-as por acaso, sem saber que estavam ali.</p><p>� Assim me parece.</p><p>Holmes deu um sorriso enigm�tico.</p><p>� Bem � disse �, vamos em frente. N�o � um dos seus casos, Watson � mental, n�o f�sico. Est� bem, venha, se quiser. Agora, sr. Soames � �s suas ordens!</p><p>A sala de estar de nosso cliente se abria, por uma comprida janela baixa, de r�tula, para o antigo p�tio interno, coberto de l�quens, da velha faculdade. Uma porta g�tica, em arco, dava para uma escadaria de pedras gastas. No primeiro andar ficava a sala do tutor. Acima ficavam tr�s estudantes, um em cada andar. J� estava escurecendo quando chegamos ao local do nosso problema. Holmes parou e olhou atentamente para a janela. Depois se aproximou, e, ficando na ponta dos p�s com o pesco�o espichado, olhou para dentro do quarto.</p><p>� Ele deve ter entrado pela porta. N�o h� passagem, a n�o ser a vidra�a � disse o nosso guia.</p><p>� Pobre de mim! � disse Holmes, e sorriu de um modo estranho quando olhou para o nosso companheiro. � Bem, se n�o h� nada que possamos extrair daqui, � melhor entrarmos.</p><p>O professor destrancou a porta externa e nos levou at� seu quarto. Ficamos na entrada enquanto Holmes examinava o tapete.</p><p>� Acho que n�o existem marcas aqui � disse. � Dificilmente poder�amos esperar encontrar alguma num dia t�o seco. Parece que seu criado se recuperou. Deixou-o numa cadeira, disse. Que cadeira?</p><p>� Perto da janela, ali.</p><p>� Sei. Perto desta pequena mesa. Podem entrar agora. J� terminei de examinar o tapete. Vamos pegar a mesinha primeiro. E claro, o que aconteceu est� muito claro. O homem entrou e tirou os pap�is, folha por folha, da mesa central. Colocou-os sobre a mesa da janela, porque de l� poderia ver se o senhor viesse pelo campo, e fugir.</p><p>� Na verdade, n�o poderia � disse Soames � porque entrei pela porta lateral.</p><p>� Ah, isso � �timo! Bem, de qualquer modo, era essa a id�ia dele. Deixe-me ver as tr�s folhas. Nenhuma impress�o digital � nenhuma! Bem, ele pegou esta primeira e a copiou. Quanto tempo levaria para fazer isso, usando toda limita��o poss�vel? Quinze minutos, n�o menos. Depois a deixou cair e pegou a seguinte. Estava no meio desta quando seu retorno o obrigou a uma retirada muito apressada � muito apressada, pois n�o teve tempo de p�r novamente no lugar os pap�is que poderiam revelar que estivera ali. N�o ouviu passos apressados na escada ao entrar pela porta externa?</p><p>� N�o, n�o posso dizer que ouvi.</p><p>� Bem, ele escreveu t�o furiosamente que quebrou o l�pis, e teve, como observam, de apont�-lo de novo. Isto � interessante, Watson. O l�pis n�o era desses comuns. Era maior que o tamanho comum, com a ponta macia, a cor externa era azul-escuro, o nome do fabricante estava impresso em letras prateadas, e o peda�o remanescente tem apenas cerca de 3 cent�metros de comprimento. Procure um l�pis assim, sr. Soames, e ter� o seu homem. Quando eu acrescentar que ele tem uma faca larga e muito afiada, ter� uma ajuda adicional.</p><p>O sr. Soames ficou meio atordoado com esta enxurrada de informa��es. � Posso compreender os outros pontos � disse � mas, realmente, nesta quest�o do comprimento...</p><p>Holmes pegou um pequeno fragmento com as letras NN e um espa�o claro de madeira depois deles.</p><p>� V�?</p><p>� N�o, acho que mesmo agora...</p><p>� Watson, sempre cometi uma injusti�a com voc�. Existem outros. O que poderia ser este NN? Est� no final de uma palavra. O senhor sabe que Johann Faber � o mais famoso nome de fabricante. N�o est� claro que o que foi deixado do l�pis � o que termina o Johann? � Aproximou a mesinha da luz el�trica. � Eu achava que se o papel� no qual ele escreveu fosse fino, poderia ter ficado alguma marca nesta face polida. N�o, n�o vejo nada. N�o creio que haja algo mais para ser visto aqui. Agora, a mesa central. Esta bolinha �, presumo, a massa pastosa e preta de que me falou. Vejo que � quase piramidal na forma e escavada. Como diz, parece haver gr�os de p� de serra nela. Ah, isto � muito interessante. E o corte � um rasg�o mesmo, pelo que vejo. Come�a com um fino arranh�o e termina num buraco fundo. Estou muito grato ao senhor por chamar minha aten��o para este caso, sr. Soames. Para onde d� aquela porta?</p><p>� Para o meu quarto.</p><p>� J� esteve l� desde sua aventura?</p><p>� N�o, sa� diretamente para procurar o senhor.</p><p>� Gostaria de dar uma olhada. Que quarto antigo e elegante! Talvez o senhor pudesse fazer a gentileza de esperar um minuto, at� que eu tenha examinado o assoalho. N�o, n�o vejo nada. E a cortina? Pendura suas roupas atr�s dela. Se algu�m fosse obrigado a se esconder neste quarto, o faria ali, j� que a cama e o arm�rio s�o muito baixos. Ningu�m aqui, suponho?</p><p>Quando Holmes abriu a cortina, senti, por uma certa rigidez e a cautela de seus movimentos, que estava preparado para uma emerg�ncia. Na verdade, a cortina aberta n�o revelou nada, a n�o ser tr�s ou quatro pe�as de vestu�rio penduradas em uma fila de cabides. Holmes virou-se e inclinou-se de repente para o ch�o.</p><p>� Oh! O que � isto? � perguntou ele.</p><p>Era uma pequena pir�mide de uma subst�ncia preta parecida com betume, exatamente como aquela que estava na mesa do escrit�rio. Holmes examinou-a sobre a palma da m�o perto da l�mpada.</p><p>� Nosso visitante parece ter deixado vest�gios no seu quarto, assim como na sala de estar, sr. Soames.</p><p>� O que ele poderia querer ali?</p><p>� Creio estar suficientemente claro. O senhor voltou por um caminho inesperado e ele n�o o percebeu at� que j� estava bem perto da porta. O que poderia fazer? Recolheu tudo o que poderia tra�-lo e correu para o seu quarto para se esconder.</p><p>� Meu Deus, sr. Holmes, quer dizer que durante todo o tempo em que estive falando com Bannister neste aposento t�nhamos o homem prisioneiro sem que ao menos soub�ssemos disso?</p><p>� � o que acho.</p><p>� Certamente h� outra alternativa, sr. Holmes. N�o sei se j� observou a janela do meu quarto.</p><p>� Com r�tula, molduras de chumbo, tr�s janelas separadas, uma delas girando em gonzos, suficientemente larga para permitir a entrada de um homem.</p><p>� Exato. E d� para um �ngulo do p�tio em que � parcialmente invis�vel. O homem deve ter feito sua entrada por aqui, deixando marcas ao passar pelo quarto, e finalmente, encontrando a porta aberta, escapou por ali.</p><p>Holmes sacudiu a cabe�a com impaci�ncia.</p><p>� Sejamos pr�ticos � disse. � Entendi que disse que h� tr�s estudantes que usam esta escada, e que habitualmente passam pela sua porta?</p><p>� Sim.</p><p>� E todos eles est�o inscritos para esse exame?</p><p>� Sim.</p><p>� Tem algum motivo para suspeitar de um mais do que dos outros?</p><p>Soames hesitou.</p><p>� � uma quest�o muito delicada � disse. � N�o gosto de lan�ar suspeitas quando n�o existem provas.</p><p>� Vamos ouvir as suspeitas. Procurarei as provas.</p><p>� Eu lhe darei uma id�ia ent�o, em poucas palavras, do car�ter dos tr�s homens que moram nesses quartos. O mais novo deles � Gilchrist, um �timo aluno e atleta, joga no time de r�gbi e no de cr�quete pela faculdade, e ganhou o primeiro pr�mio na corrida de obst�culos e no salto em dist�ncia. � um rapaz humano, bom. Seu pai era o famoso sir Jabez Gilchrist, que se arruinou</p><p>no turfe. Meu aluno ficou muito pobre, mas � persistente e trabalhador. Ele se sair� bem.</p><p>� No segundo andar mora Daulat Ras, o indiano. � um rapaz quieto, introvertido, como a maioria dos indianos. Vai bem nos estudos, exceto no grego, que � sua mat�ria mais fraca. � met�dico e calmo.</p><p>� O terceiro andar pertence a Miles McLaren. � um aluno brilhante quando quer estudar � um dos intelectos mais brilhantes da universidade; mas � dispersivo, desobediente e sem princ�pios. Quase foi expulso por causa de um esc�ndalo de cartas no primeiro ano. Ficou vadiando todo este per�odo, e deve estar muito preocupado com esse exame.</p><p>� Ent�o � dele que o senhor suspeita?</p><p>� N�o ousaria ir t�o longe. Mas, dos tr�s, � talvez o menos improv�vel.</p><p>� Certo. Agora, sr. Soames, vamos ver o seu criado, Bannister.</p><p>Era um sujeito pequeno, p�lido, grisalho, sem barba, de uns 50 anos. Ainda sofria com a s�bita perturba��o na calma rotina de sua vida. Seu rosto redondo tremia de nervosismo e seus dedos n�o conseguiam ficar parados.</p><p>� Estamos investigando este assunto triste, Bannister � disse seu patr�o.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Soube � disse Holmes � que deixou sua chave na porta.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� N�o � muito estranho que tenha feito isto justamente no dia em que aqueles pap�is estavam l� dentro?</p><p>� Foi muito azar, senhor. Mas j� fiz isso outras vezes.</p><p>� Quando entrou no aposento?</p><p>� Eram cerca de 16:30h. � a hora do ch� do sr. Soames.</p><p>� Quanto tempo ficou l�?</p><p>� Quando vi que ele n�o estava, sa� logo.</p><p>� Olhou estes pap�is na mesa?</p><p>� N�o, senhor � decerto que n�o.</p><p>� Como foi que deixou a chave na porta?</p><p>� Estava com a bandeja de ch� nas m�os. Pensei em voltar para buscar a chave. Depois esqueci.</p><p>� A porta externa tem um fecho de mola?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Ent�o estava aberta o tempo todo?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Qualquer um que estivesse no quarto poderia sair?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Quando o sr. Soames voltou e o chamou, o senhor estava muito perturbado?</p><p>� Sim, senhor. Nunca aconteceu uma coisa dessas nos muitos anos em que estou aqui. Quase desmaiei, senhor.</p><p>� Entendo. Onde estava quando come�ou a passar mal?</p><p>� Onde eu estava, senhor? Ora, aqui, perto da porta.</p><p>� Isso � estranho, porque se sentou naquela cadeira perto do outro canto. Por que passou direto por estas outras cadeiras?</p><p>� N�o sei, senhor, n�o me importava onde sentasse.</p><p>� N�o creio realmente que tivesse muita consci�ncia disso, sr. Holmes. Parecia muito mal � bem p�lido.</p><p>� Ficou aqui quando seu patr�o saiu?</p><p>� Apenas por um minuto ou dois. Depois tranquei a porta e fui para o meu quarto.</p><p>� De quem suspeita?</p><p>� Oh, n�o me arriscaria a dizer, senhor. N�o creio que haja algum cavalheiro nesta universidade capaz de uma atitude dessas. N�o, senhor, n�o acredito nisso.</p><p>� Obrigado, j� basta � disse Holmes. � Oh, mais uma coisa. N�o mencionou a nenhum dos tr�s cavalheiros a que serve que sumiu alguma coisa?</p><p>� N�o, senhor � nem uma palavra.</p><p>� N�o viu nenhum deles?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Muito bem. Agora, sr. Soames, vamos dar um passeio por esse p�tio, se quiser.</p><p>Tr�s quadrados amarelos de luz brilhavam acima de n�s.</p><p>� Seus tr�s passarinhos est�o nos ninhos � disse Holmes, olhando para cima. � Oh! O que � aquilo? Um deles parece estar inquieto.</p><p>Era o indiano, cuja silhueta negra apareceu de repente na persiana. Andava rapidamente de um lado para o outro no quarto.</p><p>� Gostaria de dar uma olhadinha em cada um deles � disse Holmes. � � poss�vel?</p><p>� N�o h� dificuldade � respondeu Soames. � Esta ala de quartos � a mais antiga da faculdade, e n�o � raro que visitantes passem por ela. Venham, e eu os conduzirei pessoalmente.</p><p>� Sem nomes, por favor! � disse Holmes, ao batermos na porta de Gilchrist. Um rapaz alto, magro, de cabelos louros, a abriu, e pediu que entr�ssemos, quando percebeu nossa inten��o. Dentro havia algumas pe�as de arquitetura medieval realmente curiosas. Holmes se encantou tanto com uma delas que insistiu em desenh�-la em seu caderninho de anota��es, quebrou a ponta de seu l�pis, teve de pedir um emprestado ao nosso anfitri�o, e por fim tamb�m uma faca para apontar o seu pr�prio. O mesmo estranho incidente ocorreu nos aposentos do indiano � um sujeito baixo, silencioso, nariz em gancho, que nos olhava com desconfian�a, e ficou evidentemente alegre quando os estudos arquitet�nicos de Holmes chegaram ao fim. N�o percebi que em ambos os casos Holmes conseguira a pista que procurava. Somente no terceiro a nossa visita foi um malogro. A porta externa n�o se abriu quando batemos, e nada mais substancial do que uma torrente de palavras grosseiras veio l� de dentro. � N�o me interessa quem voc�s sejam. Podem ir para o inferno! � rugiu a voz encolerizada. � Amanh� � o exame, e n�o serei ultrapassado por ningu�m.</p><p>� Um rapaz rude � disse nosso guia, enrubescendo de raiva quando volt�vamos pela escada. � � claro que n�o percebeu que era eu quem estava batendo � porta, mas mesmo assim sua conduta foi muito descort�s e, nas atuais circunst�ncias, muito suspeita.</p><p>A resposta de Holmes foi curiosa.</p><p>� Pode me dizer a sua altura exata? � perguntou.</p><p>� Na verdade, sr. Holmes, n�o posso garantir isso. � mais alto que o indiano, n�o tanto quanto Gilchrist. Suponho que tenha mais ou menos 1,80 metro de altura.</p><p>� Isto � muito importante � disse Holmes. � E agora, sr. Soames, desejo-lhe uma boa noite.</p><p>Nosso guia exclamou em voz alta, surpreso e desapontado. � Meu Deus, sr. Holmes, certamente n�o vai me deixar assim de repente! Parece n�o compreender a situa��o. Amanh� � o exame. Tenho de tomar uma atitude definitiva esta noite. N�o posso permitir que seja realizado se um dos pap�is foi copiado. A situa��o deve ser resolvida.</p><p>� Deve deixar como est�. Voltarei amanh� cedo e resolverei a quest�o. � poss�vel que at� l� eu esteja em condi��o de indicar alguma linha de a��o. Enquanto isso, n�o mude nada � nada.</p><p>� Muito bem, sr. Holmes.</p><p>� Pode ficar tranq�ilo. Certamente encontraremos uma maneira de sair desta dificuldade. Levarei a argila preta comigo, e tamb�m as pontas de l�pis. Adeus.</p><p>Quando sa�mos na escurid�o do p�tio, olhamos de novo para as janelas. O indiano ainda andava pelo quarto. Os outros estavam invis�veis.</p><p>� Bem, Watson, o que acha disto? � perguntou Holmes quando chegamos � rua principal. � Quase um jogo de sal�o � uma esp�cie de brincadeira com tr�s cartas, n�o? L� est�o seus tr�s homens. Tem de ser um deles. Escolha. Qual � o seu?</p><p>� O sujeito da boca suja no �ltimo andar. � o que tem as piores notas. Mas o indiano � um rapaz ardiloso, tamb�m. Por que estaria andando pelo quarto o tempo todo?</p><p>� N�o h� nada demais nisso. Muitos homens fazem isso quando tentam decorar alguma coisa.</p><p>� Ele nos olhava de um modo estranho.</p><p>� E voc� tamb�m faria a mesma coisa se um bando de estranhos aparecesse quando estivesse se preparando para um exame no dia seguinte e cada momento fosse valioso. N�o, n�o vejo nada de estranho nisso. Os l�pis tamb�m, e facas � tudo satisfat�rio. Mas aquele sujeito realmente me intriga.</p><p>� Quem?</p><p>� Ora, Bannister, o criado. Qual � a jogada dele nesta hist�ria?</p><p>� Pareceu-me um homem perfeitamente honesto.</p><p>� Tamb�m tive essa impress�o. Esta � a parte intrigante. Por que um homem perfeitamente honesto... Ora, ora, aqui est� uma grande papelaria. Devemos come�ar por ali.</p><p>Havia apenas quatro papelarias ao todo, na cidade, e em cada uma Holmes apresentou suas pontas de l�pis e pediu uma duplicata. Todos concordaram que era um tamanho incomum de l�pis e que raramente era guardado em estoque. Meu amigo n�o pareceu deprimido por esse fracasso, mas deu de ombros, numa resigna��o meio c�mica.</p><p>� Mal, meu caro Watson. Esta, a melhor e �nica pista definitiva, deu em nada. Mas, na verdade, tenho poucas d�vidas de que possamos construir uma prova suficiente sem ela. Por Deus! meu caro amigo, s�o quase 21 horas, e a senhoria falou algo sobre ervilhas �s 19:30h. Assim como seu eterno tabaco, Watson, e sua irregularidade �s refei��es, espero que os abandone, e que eu compartilhe dessa sua derrocada � mas n�o antes de termos resolvido o problema do tutor nervoso, do criado descuidado e dos tr�s estudantes empreendedores.</p><p>Holmes n�o fez nenhuma outra alus�o ao assunto naquele dia, embora ficasse sentado, perdido em pensamentos por muito tempo ap�s o nosso jantar atrasado. �s oito, entrou em meu quarto quando eu estava acabando de me vestir.</p><p>� Bem, Watson � disse �, � hora de irmos a St. Luke. Pode ficar sem o caf�-da-manh�?</p><p>� Com certeza.</p><p>� Soames ficar� numa agita��o terr�vel at� que possamos lhe dizer algo de positivo.</p><p>� Tem algo de concreto para dizer a ele?</p><p>� Creio que sim.</p><p>� Chegou a uma conclus�o?</p><p>� Sim, meu caro Watson, resolvi o mist�rio.</p><p>� Mas que nova prova voc� conseguiu?</p><p>� Ah�! N�o foi � toa que sa� da cama no hor�rio inconveniente das seis horas. Tive duas horas de trabalho duro e percorri pelo menos 7 quil�metros com algo para mostrar depois disso. Olhe s�!</p><p>Mostrou a m�o. Na palma havia tr�s pequenas pir�mides de argila preta pastosa.</p><p>� Mas, Holmes, voc� s� tinha duas ontem.</p><p>� E mais uma esta manh�. � razo�vel afirmar que do lugar de onde veio a no 3 vieram tamb�m as de nos 1 e 2. N�o �, Watson? Bem, vamos logo acabar com a afli��o do nosso amigo Soames.</p><p>O infeliz tutor estava num estado de lament�vel agita��o quando o encontramos em seus aposentos. Poucas horas depois come�aria o exame, e ele ainda estava no dilema entre tornar p�blicos os fatos ou permitir que o culpado competisse pela valiosa bolsa de estudos. Mal podia ficar parado, t�o grande era a sua agita��o mental, e correu para Holmes com as duas m�os ansiosamente estendidas.</p><p>� Gra�as aos c�us que veio! Temia que tivesse desistido, em desespero. O que devo fazer? O exame deve ser realizado?</p><p>� Sim, deixe que seja feito, sem d�vida.</p><p>� Mas, e o patife?</p><p>� Ele n�o competir�.</p><p>� Sabem quem �?</p><p>� Creio que sim. Se esse assunto n�o se tornar p�blico, devemos nos atribuir certos poderes e nos transformar em uma pequena corte marcial particular. Voc� a�, por favor, Soames! Watson, voc� aqui! Ficarei na poltrona no centro. Acho que agora estamos suficientemente imponentes para atemorizar uma mente culpada. Por gentileza, toque a campainha!</p><p>Bannister entrou e estacou com evidente surpresa e medo ante o nosso aspecto judicial.</p><p>� Por favor, feche a porta � disse Holmes. � Agora, Bannister, por favor, conte-nos a verdade sobre o incidente de ontem.</p><p>O homem ficou branco at� a raiz dos cabelos.</p><p>� Eu lhe disse tudo, senhor.</p><p>� Nada para acrescentar?</p><p>� Nada, senhor.</p><p>� Bem, ent�o devo fazer algumas sugest�es ao senhor. Quando se sentou naquela cadeira ontem, foi para esconder algum objeto que estaria neste aposento?</p><p>O rosto de Bannister estava l�vido.</p><p>� N�o, senhor, claro que n�o.</p><p>� � apenas uma sugest�o � disse Holmes com suavidade. � Eu admito francamente que n�o tenho como prov�-lo. Mas me parece muito poss�vel que, no momento em que o sr. Soames estava de costas, voc� tenha libertado o homem que estava escondido naquele quarto.</p><p>Bannister passou a l�ngua nos l�bios secos.</p><p>� N�o havia nenhum homem, senhor.</p><p>� Ah, � uma pena, Bannister. At� agora pode ter falado a verdade, mas agora sei que mentiu.</p><p>O rosto do homem mostrou uma express�o de desafio mal-humorado.</p><p>� N�o havia nenhum homem, senhor.</p><p>� Ora, ora, Bannister!</p><p>� N�o, senhor, n�o havia ningu�m.</p><p>� Nesse caso, n�o pode nos dar mais nenhuma informa��o. Poderia, por favor, permanecer no aposento? Fique ali, perto da porta do quarto. Agora, Soames, vou lhe pedir a gentileza de ir ao quarto do jovem Gilchrist, e pedir-lhe para vir at� o seu.</p><p>Logo depois o tutor voltou trazendo o estudante. Era um belo tipo de homem, alto, esbelto e �gil, com andar el�stico e um rosto agrad�vel e franco. Seus olhos azuis encararam cada um de n�s e por fim fixaram-se, com uma express�o de grande susto, em Bannister, no canto mais afastado.</p><p>� Por favor, feche a porta � disse Holmes. � Agora, sr. Gilchrist, estamos a s�s aqui, e mais ningu�m precisa saber do que se passou entre n�s. Podemos perfeitamente ser francos. Queremos saber, sr. Gilchrist, como o senhor, um homem honrado, veio a cometer um ato como o de ontem?</p><p>O infeliz jovem deu um passo para atr�s e lan�ou um olhar a Bannister, um olhar cheio de horror e reprova��o.</p><p>� N�o, n�o, sr. Gilchrist, eu n�o disse nem uma palavra, nem uma palavra! � exclamou o criado.</p><p>� N�o, mas o fez agora � disse Holmes. � Agora, senhor, deve perceber que, depois das palavras de Bannister, sua situa��o � cr�tica, e sua �nica chance � uma confiss�o franca.</p><p>Por um momento, Gilchrist, com as m�os postas, tentou controlar seu tremor. Depois ficou de joelhos ao lado da mesa e, cobrindo o rosto com as m�os, explodiu numa torrente de solu�os convulsivos.</p><p>� Ora, ora � disse Holmes suavemente �, errar � humano, e pelo menos ningu�m pode acus�-lo de ter sido um criminoso insens�vel. Talvez fosse mais f�cil para voc� se eu contasse ao sr. Soames o que aconteceu, e voc� poderia me corrigir se eu estiver errado. Posso fazer isso? Bem, n�o se preocupe em responder. Ou�a, e ver� que n�o lhe farei nenhuma injusti�a.</p><p>� Desde o momento, sr. Soames, em que me disse que ningu�m, nem mesmo Bannister, poderia ter contado que os pap�is estavam em seu escrit�rio, o caso come�ou a tomar uma forma definida em minha mente. O impressor, � claro, pode ser descartado. Ele poderia examinar os pap�is em sua pr�pria gr�fica. Do indiano tamb�m n�o desconfiei. Se as provas estivessem num ma�o, ele provavelmente n�o poderia saber o que eram. Por outro lado, parecia uma coincid�ncia incr�vel que um homem ousasse entrar no aposento, e que por acaso fosse no dia exato em que os pap�is estavam na mesa. O homem que entrou sabia que os pap�is estavam ali. Como foi que soube?</p><p>� Quando me aproximei de seu escrit�rio, examinei a janela. O senhor me advertiu, supondo que eu estivesse pensando na possibilidade de que algu�m, � luz do dia, sob as vistas de todas aquelas salas em frente, tivesse for�ado a entrada por ali. Essa id�ia era absurda. Eu estava medindo a altura que um homem precisaria ter para ver, ao passar, que pap�is estavam na mesa central. Tenho 1,80 metro de altura, e consegui fazer isso com esfor�o. Ningu�m mais baixo teria possibilidade. Agora v� que tinha raz�o em pensar que, se um de seus tr�s estudantes fosse um homem de altura incomum, ele seria o observador mais prov�vel.</p><p>� Entrei e lhe fiz confid�ncias a respeito das sugest�es sobre a mesinha do canto. Da mesa central n�o pude deduzir nada, at� que, na sua descri��o de Gilchrist, o senhor mencionou que ele era um atleta de salto em dist�ncia. Ent�o a coisa toda ficou clara para mim num instante, e s� precisei de algumas provas para confirmar, que obtive rapidamente.</p><p>� O que ocorreu foi isto: este rapaz passara a tarde na pista de atletismo, onde esteve praticando saltos. Voltou carregando seus t�nis para saltos, que t�m, como sabe, v�rias travas pontudas. Ao passar por sua janela, viu, por causa de sua grande estatura, essas provas sobre a mesa, e imaginou o que seriam. N�o teria ocorrido nada de mal se ele, ao passar por sua porta, n�o tivesse notado a chave que fora esquecida pelo descuido do criado. Um s�bito impulso o impeliu a entrar e ver se eram realmente as provas. N�o era uma expedi��o perigosa, porque podia dizer simplesmente que entrara para fazer uma pergunta.</p><p>� Bem, quando viu que eram de fato as provas, foi impelido pela tenta��o. Colocou seus t�nis sobre a mesa. O que foi que p�s naquela cadeira perto da janela?</p><p>� Luvas � disse o jovem.</p><p>Holmes olhou de modo triunfante para Bannister. � Deixou as luvas na cadeira e pegou as provas, folha por folha, para copi�-las. Pensou que o tutor iria voltar pelo port�o principal, e que poderia v�-lo. Como sabemos, ele voltou pelo port�o lateral. De repente o ouviu perto da porta. N�o havia escapat�ria poss�vel. Esqueceu as luvas, mas pegou os t�nis e correu para dentro do quarto. Note que o arranh�o na mesa � superficial de um lado, mas profundo na dire��o da porta do quarto. S� isso � suficiente para nos mostrar que o t�nis foi puxado naquela dire��o, e que o culpado se refugiou l�. A terra que estava em volta da trava foi deixada na mesa, e uma segunda amostra amoleceu e caiu no quarto. Posso acrescentar que fui � pista de atletismo esta manh�, vi que a argila preta pegajosa � usada na pista de saltos, e levei uma amostra dela, juntamente com um pouco do p� de serra ou casca fina que se joga sobre ela para evitar que o atleta escorregue. Falei a verdade, sr. Gilchrist?</p><p>O estudante estava em p�.</p><p>� Sim, senhor, � verdade � disse.</p><p>� Meu Deus! N�o tem mais nada a dizer? � exclamou Soames.</p><p>� Sim, senhor, tenho, mas o choque desta revela��o vergonhosa me desnorteou. Tenho aqui uma carta, sr. Soames, que escrevi para o senhor de madrugada, no meio de uma noite sem sossego. Foi antes de saber que minha falta fora descoberta. Aqui est�, senhor. Ver� que disse �Decidi n�o prestar esse exame. Ofereceram-me um cargo na Pol�cia da Rod�sia, e vou partir para a �frica do Sul imediatamente�.</p><p>� Estou realmente contente por ouvir que voc� n�o pretendia tirar proveito de sua vantagem injusta � disse Soames. � Mas por que mudou de id�ia?</p><p>Gilchrist apontou para Bannister.</p><p>� Ali est� o homem que me colocou no caminho certo � disse.</p><p>� Vejamos agora, Bannister � disse Holmes. � Deve estar claro para voc�, pelo que eu falei, que s� voc� poderia ter deixado este jovem sair, j� que ficou no escrit�rio, e deve ter trancado a porta quando saiu. Quanto � fuga dele pela janela, era inacredit�vel. Pode esclarecer este �ltimo detalhe do mist�rio e nos dizer o motivo desse seu ato?</p><p>� Seria muito simples, senhor, se soubesse, mas, com toda a sua esperteza, era imposs�vel que pudesse saber. Houve um tempo, senhor, em que fui mordomo do velho sir Jabez Gilchrist, o pai deste jovem cavalheiro. Quando ficou arruinado, vim para a faculdade como criado, mas nunca me esqueci de meu antigo patr�o s� porque ele estava em m� situa��o. Cuidei de seu filho o m�ximo que pude, em nome dos velhos tempos. Bem, senhor, quando entrei neste quarto ontem, quando o alarme foi dado, a primeira coisa que vi foram as luvas de couro do sr. Gilchrist em cima daquela cadeira. Conhecia bem aquelas luvas e compreendi sua mensagem. Se o sr. Soames as visse, tudo estaria acabado. Voei para aquela cadeira, e nada me tirou de l� at� que o sr. Soames correu para ir procur�-lo. Ent�o saiu o pobre patr�ozinho, com quem eu brincara, pulando nos meus joelhos, e confessou tudo para mim. N�o seria natural, senhor, que o salvasse, e tamb�m n�o seria natural que eu tentasse falar com ele da mesma maneira que seu pai o faria, e o fizesse compreender que n�o poderia se beneficiar de um ato desses? Pode me condenar, senhor?</p><p>� N�o, realmente � disse Holmes com veem�ncia, levantando-se. � Bem, Soames, creio que esclarecemos seu probleminha, e nosso caf�-da-manh� nos espera em casa. Venha, Watson! Quanto a voc�, rapaz, acredito que um futuro brilhante o espera na Rod�sia. Uma vez voc� se rebaixou. Vamos ver no futuro, a que altura pode chegar.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura do pincen� dourado</strong></p><p>Quando olho para os tr�s grandes volumes manuscritos que cont�m nosso trabalho no ano de 1894, confesso que � dif�cil para mim, em meio a material t�o vasto, selecionar os casos mais interessantes e, ao mesmo tempo, mais adequados para demonstrar os talentos especiais que fizeram a fama do meu amigo. Ao virar as p�ginas, vejo as anota��es sobre a hist�ria repulsiva da vela vermelha e a morte terr�vel de Crosby, o banqueiro. Aqui tamb�m encontro um relato da trag�dia de Addleton, e o estranho conte�do do antigo t�mulo ingl�s. O famoso caso da sucess�o de Smith-Mortimer tamb�m ocorreu neste per�odo, assim como a persegui��o e a pris�o de Huret, o assassino do boulevard � fa�anha que rendeu a Holmes uma carta de agradecimentos assinada pelo presidente da Fran�a e a Ordem da Legi�o de Honra. Cada um desses poderia ser uma narrativa, mas, no todo, acho que nenhum deles re�ne tantos detalhes singulares de</p><p>interesse quanto o epis�dio de Yoxley Old Place, que inclui n�o somente a morte lament�vel do jovem Willoughby Smith, mas tamb�m os acontecimentos subseq�entes que lan�aram uma curiosa luz sobre as causas do crime.</p><p>Era uma noite violenta de tempestade, no fim de novembro. Holmes e eu fic�ramos sentados em sil�ncio durante toda a noite, ele ocupado com uma lente poderosa, decifrando os remanescentes da inscri��o original de um palimpsesto, eu mergulhado num tratado recente sobre cirurgia. L� fora o vento soprava na Baker Street, enquanto a chuva batia com for�a nas janelas. Era estranho ali, no centro da cidade, com 15 quil�metros de obras feitas pelo homem de cada lado, sentir o punho de ferro da natureza, e estar consciente de que, para a imensa for�a dos elementos, Londres inteira n�o era mais do que os mont�culos de terra que pontilham os campos. Fui at� a janela e olhei para a rua deserta. As luzes ocasionais brilhavam ao longo da rua lamacenta e no pavimento reluzente. Uma �nica carruagem ia espalhando �gua no seu caminho, saindo do final da Oxford Street.</p><p>� Bem, Watson, � bom que n�o tenhamos de sair esta noite � disse Holmes, pondo de lado a lente e enrolando o palimpsesto. � J� fiz o suficiente por hoje. � muito trabalho para os olhos. Na minha opini�o, n�o h� nada mais excitante do que os relatos de Abbey da segunda metade do s�culo XV. Ei, ei! O que � isso?</p><p>Em meio ao zumbido do vento, ouvimos as batidas das patas de um cavalo, e o ru�do de uma roda raspando no meio-fio. A carruagem que eu vira parou diante da nossa porta.</p><p>� O que ele pode querer? � perguntei, quando um homem saltou.</p><p>� Querer? Ele quer a n�s. E n�s, meu pobre Watson, queremos sobretudos, cachec�is, galochas e toda a ajuda que o homem j� inventou para enfrentar o clima. Espere um pouco! A carruagem est� indo embora! Ainda h� esperan�a. Ele teria mandado esperar se quisesse que n�s o acompanh�ssemos. Corra l� embaixo, Watson, meu caro amigo, e abra a porta, pois o bom sujeito j� ficou muito tempo na soleira.</p><p>Quando a luz do sagu�o caiu sobre o nosso visitante noturno, n�o tive dificuldade em reconhec�-lo. Era o jovem Stanley Hopkins, um detetive promissor, por cuja carreira Holmes v�rias vezes demonstrara muito interesse.</p><p>� Ele est�? � perguntou com ansiedade.</p><p>� Venha, meu caro � disse a voz de Holmes l� de cima. � Espero que n�o tenha nenhum plano para n�s numa noite como esta.</p><p>O detetive subiu as escadas e a luz brilhou em sua reluzente capa de chuva. Ajudei-o a tir�-la, enquanto Holmes fazia uma labareda da tora na lareira.</p><p>� Agora, meu caro Hopkins, aproxime-se e aque�a seus dedos � disse. � Aqui est� um charuto, e o doutor tem uma receita de �gua quente e lim�o que � um �timo rem�dio numa noite igual a esta. Deve ser algo muito importante que o trouxe aqui nesta ventania.</p><p>� Realmente, sr. Holmes. Tive uma tarde atribulada, juro. Viu alguma coisa sobre o caso Yoxley nas �ltimas edi��es dos jornais?</p><p>� N�o vi hoje nada mais recente do que o s�culo XV.</p><p>� Bem, foi s� um par�grafo e estava todo errado, de modo que n�o perdeu nada. Bem, eu n�o perdi tempo. Foi em Kent, a 10 quil�metros de Chatham e a 4 da linha f�rrea. Telegrafaram-me �s 15:15h, cheguei a Yoxley Old Place �s 17 horas, iniciei as investiga��es, voltei a Charing Cross pelo �ltimo trem e vim direto, de carruagem, falar com o senhor.</p><p>� O que significa que n�o tem id�ias muito claras sobre seu caso?</p><p>� Significa que n�o tenho a menor id�ia a respeito dele. At� onde posso perceber, � o neg�cio mais complicado que j� tive e, mesmo assim, � primeira vista parece t�o simples que ningu�m poderia se enganar. N�o h� um motivo, sr. Holmes. � isto o que me preocupa � n�o consigo achar um motivo. Aqui est� um homem morto � n�o se pode negar isso �, mas, pelo que vejo, n�o h� nenhum motivo para que algu�m� quisesse lhe fazer mal.</p><p>Holmes acendeu um charuto e recostou-se em sua cadeira. Vamos ouvir essa hist�ria � disse.</p><p>� Tenho os fatos bem claros � disse Stanley Hopkins. � Tudo o que quero agora � saber o que significam. A hist�ria, tanto quanto sei, � a seguinte. Alguns anos atr�s esta casa no campo, Yoxley Old Place, foi comprada por um velho, que deu o nome de professor Coram. Era um inv�lido, que ficava na cama metade do tempo, e na outra metade andava mancando pela casa com uma bengala ou era empurrado ao ar livre pelo jardineiro, numa cadeira de rodas. Era muito querido pelos poucos vizinhos que o visitavam, e tinha ali a fama de ser um homem muito instru�do. Sua casa tinha uma velha governanta, sra. Marker, e uma empregada, Susan Tarlton. Estas estavam com ele desde sua chegada, e pareciam ser mulheres de car�ter excelente. O professor est� escrevendo um livro erudito, e achou necess�rio, h� cerca de um ano, contratar um secret�rio. Os dois primeiros que tentou n�o deram certo, mas o terceiro, o sr. Willoughby Smith, um jovem que acabara de sair da universidade, parece que era exatamente o que seu empregador queria. Seu trabalho consistia em escrever todas as manh�s o que o professor ditava, e geralmente passava a noite procurando refer�ncias e trechos que se relacionavam com o trabalho do dia seguinte. Esse Willoughby Smith n�o tinha nada que o desabonasse, nem no tempo de garoto, em Uppingham, nem como estudante em Cambridge. Vi suas recomenda��es e todas diziam que ele era um sujeito decente, tranq�ilo e trabalhador, sem nenhum ponto fraco. E mesmo assim este foi o cara que encontrou a morte esta manh�, no escrit�rio do professor, em circunst�ncias que s� apontam para um assassinato.</p><p>O vento rugia e batia nas janelas. Holmes e eu chegamos mais perto do fogo enquanto o jovem inspetor, lentamente e ponto por ponto, desenrolava sua narrativa estranha.</p><p>� Se procurassem por toda a Inglaterra � disse �, suponho que n�o encontrariam uma casa mais independente e livre de influ�ncias externas. Podiam se passar semanas inteiras sem que nenhum deles atravessasse o port�o do jardim. O professor mergulhava em seu trabalho e n�o existia para mais nada. O jovem Smith n�o conhecia ningu�m nas vizinhan�as e vivia exatamente como o seu patr�o. As duas mulheres n�o tinham nada que as tirasse da casa. Mortimer, o jardineiro, que conduz a cadeira de rodas, � um pensionista do Ex�rcito � um ex-combatente da guerra da Crim�ia, de excelente car�ter. N�o mora na casa, mas num chal� de tr�s quartos, no fundo do jardim. Estas s�o as �nicas pessoas que o senhor encontraria nos terrenos de Yoxley Old Place. Ao mesmo tempo, o port�o do jardim fica a 100 metros da estrada principal, que vai de Londres a Chatham. Ele se abre com um trinco, e n�o h� nada que impe�a qualquer um de entrar.</p><p>� Agora vou lhes contar o depoimento de Susan Tarlton, a �nica pessoa que p�de dizer algo de concreto sobre o assunto. Era de manh�, entre 11 horas e meio-dia. Ela estava naquele momento pendurando umas cortinas no quarto da frente, no segundo andar. O professor Coram ainda estava na cama, pois quando o tempo est� ruim, ele raramente se levanta antes do meio-dia. A governanta estava ocupada com algum trabalho nos fundos da casa. Willoughby Smith estivera em seu quarto, que ele usa como sala de estar, mas a empregada o ouviu passar naquele momento pelo corredor e descer para o escrit�rio, logo abaixo dela. N�o o viu, mas disse que n�o podia confundir seus passos firmes e r�pidos. N�o ouviu a porta do escrit�rio se fechar, mas aproximadamente um minuto depois ela ouviu um grito horr�vel no aposento do primeiro andar. Era um grito selvagem e rouco, t�o estranho e pouco natural que tanto poderia ter vindo de um homem como de uma mulher. No mesmo instante houve um baque pesado, que fez estremecer a velha casa, e depois tudo ficou em sil�ncio. A empregada ficou petrificada por um momento, e depois, recobrando a coragem, correu para baixo. A porta do escrit�rio estava fechada e ela a abriu. Dentro, o sr. Willoughby Smith estava esticado no ch�o. No in�cio n�o viu nenhum ferimento, mas ao tentar levant�-lo, viu que havia sangue escorrendo da parte de tr�s do pesco�o. Estava perfurado por um ferimento pequeno mas muito profundo, que cortou a art�ria car�tida. O instrumento que causara o ferimento estava no tapete ao lado dele. Era uma dessas facas de lacre que se encontram em escrivaninhas antigas, com cabo de marfim e l�mina fixa. Fazia parte das pe�as da pr�pria mesa do professor.</p><p>� Primeiro a criada pensou que o jovem Smith j� estivesse morto, mas ao despejar um pouco de �gua da garrafa em sua testa, ele abriu os olhos por um instante. � O professor � ele murmurou � foi ela. � A empregada est� pronta a jurar que foram estas as palavras exatas. Ele tentou desesperadamente dizer mais alguma coisa e ergueu no ar a m�o direita. E ent�o caiu morto.</p><p>� Enquanto isso, a governanta tamb�m chegara ao local, mas tarde demais para escutar as palavras do jovem agonizante. Deixando Susan com o corpo, correu at� o quarto do professor. Ele estava sentado na cama, horrivelmente agitado, pois ouvira o suficiente para se convencer de que algo terr�vel tinha acontecido. A sra. Marker pode jurar que o professor ainda estava de pijama, e que de fato era imposs�vel para ele se vestir sem a ajuda de Mortimer, que tinha ordem de vir ao meio-dia. O professor afirma que ouviu o grito distante, mas que n�o sabe de mais nada. N�o pode dar nenhuma explica��o a respeito das �ltimas palavras do jovem. �� O professor � foi ela�, mas pensa que foram causadas por um del�rio. Acredita que Willoughby Smith n�o tinha nem um inimigo no mundo, n�o pode imaginar nenhum motivo para o crime. Sua primeira provid�ncia foi mandar Mortimer, o jardineiro, procurar a pol�cia local. Pouco depois o policial-chefe chegou. Nada foi tocado antes que eu chegasse l�, e foram dadas ordens rigorosas para que ningu�m andasse pelos caminhos que levam at� a casa. Era uma oportunidade espl�ndida de p�r em pr�tica suas teorias, sr. Sherlock Holmes. N�o � preciso mais nada.</p><p>� Exceto o sr. Sherlock Holmes � disse o meu amigo, com um sorriso um tanto amargo. � Fale a este respeito. O que acha disto tudo?</p><p>� Devo pedir-lhe primeiro, sr. Holmes, para olhar este esbo�o da casa, que dar� uma id�ia geral da localiza��o do escrit�rio do professor e de v�rios detalhes do caso. Isto o ajudar� a acompanhar minha investiga��o.</p><p>Desdobrou o desenho, que reproduzo aqui, e o colocou sobre os joelhos de Holmes. Levantei-me e, ficando atr�s de Holmes, examinei-o por sobre os ombros dele.</p><p>� � muito prim�rio, � claro, e s� mostra os pontos que me parecem essenciais. O resto o senhor ver� pessoalmente depois. Agora, antes de tudo, supondo que o assassino entrou na casa, como ele ou ela fez isso? Sem d�vida pelo caminho do jardim e pela porta dos fundos, que d� acesso direto ao escrit�rio. Qualquer outro caminho seria muito complicado. A fuga tamb�m deve ter sido feita por este trajeto porque, das duas outras sa�das do aposento, uma estava bloqueada por Susan quando ela desceu correndo as escadas e a outra leva diretamente ao quarto do professor. Portanto, concentrei minha aten��o imediatamente no caminho do jardim, que estava encharcado pela chuva recente e com certeza mostraria qualquer pegada.</p><p>� Meu exame me mostrou que estava lidando com um criminoso prudente e experiente. Nenhuma pegada foi encontrada no caminho. Mas n�o havia d�vida de que algu�m passara pela faixa de grama que margeia o caminho, e que fez isso para evitar deixar uma pista. N�o consegui achar nada que fosse uma impress�o n�tida, mas a grama estava amassada e sem d�vida algu�m havia passado. S� poderia ter sido o assassino, j� que nem o jardineiro nem qualquer outra pessoa estivera ali de manh�, e a chuva s� come�ara durante a noite.</p><p>� Um momento � disse Holmes. � Para onde vai este caminho?</p><p>� Para a estrada.</p><p>� Quanto tem de comprimento?</p><p>� Cem metros ou mais.</p><p>� No ponto em que o caminho passa pelo port�o, voc� pode com certeza seguir a trilha?</p><p>� Infelizmente, o caminho ali � cal�ado.</p><p>� Bem, e na pr�pria estrada?</p><p>� N�o, ela est� um atoleiro.</p><p>� Tsc, tsc! Bem, ent�o essas pegadas na grama estavam indo ou vindo?</p><p>� Era imposs�vel dizer. N�o havia um contorno definido.</p><p>� Um p� grande ou pequeno?</p><p>� N�o consegui distinguir.</p><p>Holmes deu uma exclama��o de impaci�ncia.</p><p>� Tem chovido forte e soprado um furac�o desde ent�o � disse. � Ser� muito mais dif�cil decifrar agora isso do que aquele palimpsesto. Bem, n�o se pode fazer mais nada. O que voc� fez, Hopkins, ap�s ter certeza de que n�o tinha certeza de nada?</p><p>� Tenho certeza de muita coisa, sr. Holmes. Sabia que algu�m entrara na casa clandestinamente. Em seguida examinei o corredor. � forrado com esteiras de coqueiro e n�o tinha marca de esp�cie alguma. Isto me levou ao escrit�rio. � um aposento com poucos m�veis. A pe�a principal � uma grande escrivaninha com um arm�rio fixo. Esta secret�ria consiste numa coluna dupla de arm�rios,</p><p>com uma pequena estante central entre eles. As gavetas estavam abertas, o arm�rio trancado. Parece que as gavetas ficavam sempre abertas, e nada de valor era guardado nelas. Havia alguns pap�is importantes no arm�rio, mas sem sinal de que tivessem sido tocados, e o professor garante que n�o estava faltando nada. � certo que nenhum roubo foi cometido.</p><p>� Chego agora ao corpo do jovem. Foi encontrado perto do m�vel, e logo � esquerda dele, como est� marcado no esbo�o. A estocada foi dada no lado direito do pesco�o e de tr�s para a frente, portanto � quase imposs�vel que fosse auto-infligida.</p><p>� A menos que ele tivesse ca�do sobre a faca � disse Holmes.</p><p>� Exato. A id�ia passou pela minha cabe�a. Mas encontramos a faca a uma certa dist�ncia do corpo, de modo que isso parece imposs�vel. Al�m disso, � claro, temos as pr�prias palavras do moribundo. E, por fim, h� esta prova muito importante que foi encontrada na m�o direita fechada do morto.</p><p>Stanley Hopkins tirou do bolso um pequeno embrulho de papel. Abriu-o e revelou um pincen� dourado, com duas pontas de cord�o de seda preta penduradas na ponta. � Willoughby Smith tinha uma �tima vis�o � continuou. � N�o h� d�vida de que isto foi tirado do rosto ou da pessoa do assassino.</p><p>Sherlock Holmes pegou o pincen� e o examinou com a maior aten��o e interesse. Colocou-o em seu pr�prio nariz. Tentando ler com ele, foi at� a janela e olhou para a rua ainda com ele, examinou-o detalhadamente sob a luz do abajur e, finalmente, com uma risadinha, sentou-se � mesa e escreveu algumas linhas num peda�o de papel, que jogou para Stanley Hopkins.</p><p>� � o m�ximo que posso fazer por voc� � disse. � Pode ser �til.</p><p>O espantado detetive leu a nota em voz alta. Dizia:</p><empty-line/><p>Procura-se uma mulher de boas maneiras, vestida como uma dama. Tem um nariz notavelmente proeminente, com olhos bem juntos. Tem uma testa franzida, uma express�o de curiosidade, e provavelmente ombros ca�dos. H� ind�cios de que recorreu a um oculista pelo menos duas vezes durante os �ltimos meses. Como seus �culos t�m um grau muito forte, e como os oculistas n�o s�o muito numerosos, n�o ser� dif�cil descobri-la.</p><empty-line/><p>Holmes sorriu ante o assombro de Hopkins, que deve ter se refletido em sua express�o.</p><p>� Decerto minhas dedu��es s�o a pr�pria simplicidade � disse. � Seria dif�cil enumerar os objetos que oferecem um campo melhor para dedu��es quanto um par de �culos, especialmente um t�o not�vel quanto este. Que pertencem a uma mulher eu deduzo pela sua delicadeza, e tamb�m, � claro, pelas �ltimas palavras do moribundo. Quanto a ser uma pessoa refinada e bem-vestida, � por serem os �culos, como percebe, feitos de ouro maci�o, e � inconceb�vel que algu�m que tenha �culos assim fosse desleixado em outros aspectos. Descobrir� que os prendedores s�o muito largos para o seu nariz, mostrando que o nariz da dama era muito grande na base. Este tipo de nariz � geralmente pequeno e grosso, mas h� um n�mero suficiente de exce��es para que seja dogm�tico ou que insista nesse ponto em minha descri��o. Meu pr�prio rosto � estreito, e mesmo assim n�o consigo colocar meus olhos no centro desses �culos, nem perto do centro. Portanto, os olhos desta dama s�o bem pr�ximos dos lados do nariz. Perceber�, Watson, que os �culos s�o c�ncavos e de um grau incomum. A dama cuja vis�o sempre foi t�o limitada durante toda a vida por certo tem as caracter�sticas f�sicas de uma vis�o assim, que s�o percebidas na testa, nas sobrancelhas e nos ombros.</p><p>� Sim � eu disse �, posso entender cada um de seus argumentos. Mas confesso que n�o consigo imaginar como chegou �s duas visitas ao oculista.</p><p>Holmes pegou os �culos.</p><p>� Ver� � disse � que os prendedores est�o cobertos com finos peda�os de corti�a para suavizar a press�o no nariz. Um deles est� desbotado e um pouco gasto, mas o outro � novo. Evidentemente um caiu e foi recolocado. Diria que o mais antigo deles n�o est� ali mais que alguns meses. Eles s�o exatamente iguais, de modo que deduzi que a dama voltou ao mesmo estabelecimento na segunda vez.</p><p>� Meu Deus, � maravilhoso! � exclamou Hopkins, num �xtase de admira��o. � E pensar que tive todas essas evid�ncias nas m�os e nunca soube disso! Mas eu pretendia percorrer todos os oculistas de Londres.</p><p>� � claro que vai. Enquanto isso, tem mais alguma coisa para nos contar sobre o caso?</p><p>� Nada, sr. Holmes. Creio que agora o senhor sabe tanto quanto eu � talvez mais. Andamos investigando para saber se algum estranho foi visto nas estradas do campo ou na esta��o ferrovi�ria. N�o ouvimos falar de ningu�m. O que me incomoda � a completa falta de motivo para o crime. Ningu�m consegue sugerir nem uma id�ia de motivo para ele.</p><p>� Ah! a� n�o estou em condi��o de ajud�-lo. Mas suponho que quer a nossa presen�a l� amanh�.</p><p>� Se n�o for pedir demais, sr. Holmes. H� um trem de Charing Cross para Chatham �s seis horas, e estaremos em Yoxley Old Place entre oito e nove horas.</p><p>� Ent�o iremos nele. Seu caso com certeza tem alguns aspectos muito interessantes, e gostaria de examin�-lo. Bem, j� � quase uma hora, e seria melhor dormirmos algumas horas. Creio que pode se ajeitar muito bem no sof� em frente ao fogo. Acenderei minha l�mpada a �lcool, e lhe darei uma x�cara de caf� antes de sairmos.</p><p>A tempestade havia desaparecido no dia seguinte, mas a manh� estava fria quando come�amos nossa viagem. Vimos o frio sol de inverno aparecer por sobre os p�ntanos do T�misa e os trechos longos e sombrios do rio, que sempre associarei � nossa persegui��o ao homem da ilha Andama do in�cio de nossa carreira. Ap�s uma viagem longa e cansativa, chegamos a uma pequena esta��o que ficava a alguns quil�metros de Chatham. Enquanto atrelavam um cavalo numa charrete na estalagem local, tomamos um r�pido caf�-da-manh�, de modo que est�vamos prontos para o caso quando finalmente chegamos em Yoxley Old Place. Um policial veio ao nosso encontro no jardim.</p><p>� Bem, Wilson, alguma novidade?</p><p>� N�o, senhor � nada.</p><p>� Nenhuma informa��o sobre algum estranho?</p><p>� N�o, senhor. L� na esta��o eles t�m certeza de que nenhum estranho chegou ou saiu ontem.</p><p>� Fizeram pesquisas nos hot�is e pens�es?</p><p>� Sim, senhor; n�o h� ningu�m que possa nos ajudar.</p><p>� Bem, � apenas uma curta caminhada at� Chatham. Qualquer um pode ficar l� ou tomar o trem sem ser visto. Este � o caminho do jardim de que lhe falei, sr. Holmes. Dou-lhe minha palavra de que n�o havia nenhuma marca aqui ontem.</p><p>� De que lado estavam as marcas na grama?</p><p>� Deste lado, senhor. Esta estreita faixa de grama entre o caminho e o canteiro de flores. N�o vejo as marcas agora, mas elas eram vis�veis ontem.</p><p>� Sim, sim, algu�m passou por aqui � disse Holmes, inclinando-se sobre a faixa de grama. � Nossa dama deve ter dado seus passos com cuidado, j� que de um lado ela teria deixado pegadas no caminho, e no outro, uma trilha ainda mais n�tida no canteiro fofo.</p><p>� Sim, senhor, ela deve ter mantido a calma.</p><p>Vi uma express�o atenta passar no rosto de Holmes.</p><p>� Disse que ela deve ter voltado por este caminho?</p><p>� Sim, senhor, n�o h� outro.</p><p>� Nesta faixa de grama?</p><p>� Certamente, sr. Holmes.</p><p>� Hum! Foi uma atitude bem estranha � bem estranha. Mas acho que j� esgotamos tudo aqui no caminho. Vamos adiante. Este port�o do jardim costuma ficar aberto, suponho? Ent�o nosso visitante tinha apenas de entrar. A id�ia de assassinato n�o estava em sua mente, do contr�rio teria trazido alguma arma em vez de pegar aquela faca na escrivaninha. Avan�ou por este corredor sem deixar nenhum vest�gio nestas esteiras de coqueiro. Depois chegou ao escrit�rio. Quanto tempo ficou ali? N�o temos meios de saber.</p><p>� N�o mais que alguns minutos, senhor. Esqueci de lhe dizer que a sra. Marker, a governanta, esteve aqui fazendo a limpeza pouco tempo antes � cerca de 15 minutos, diz ela.</p><p>� Bem, isto nos d� um limite. Nossa dama entra neste c�modo, e o que faz? Vai at� a escrivaninha. Para qu�? N�o por causa de alguma coisa nas gavetas. Se houvesse ali algo de valor para ela, certamente estaria trancado. N�o, era alguma coisa no arm�rio de madeira. Ei, o que � este arranh�o na sua superf�cie? Acenda um f�sforo, Watson. Por que n�o me falou disto, Hopkins?</p><p>A marca que estava examinando come�ava na parte de bronze no lado direito da fechadura e se estendia por cerca de 8 cent�metros, onde arranhara o verniz da superf�cie.</p><p>� Eu o notei, sr. Holmes, mas sempre existem arranh�es ao redor de uma fechadura.</p><p>� Este � recente, bem recente. Veja como o bronze brilha no lugar onde foi arranhado. Um arranh�o mais antigo teria a mesma cor da superf�cie. Observe com a minha lente. Ali est� o verniz, tamb�m, como terra de cada lado de um sulco. A sra. Marker est� a�?</p><p>Uma mulher idosa, de fisionomia triste, entrou no escrit�rio.</p><p>� Tirou o p� desta secret�ria ontem de manh�?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Notou este arranh�o?</p><p>� N�o senhor, n�o notei.</p><p>� Tenho certeza de que n�o, pois um espanador teria removido estas lascas de verniz. Quem tem a chave deste arm�rio?</p><p>� O professor a guarda na corrente de seu rel�gio de bolso.</p><p>� � uma chave simples?</p><p>� N�o, senhor, � uma chave do tipo Chubb.</p><p>� Muito bem, sra. Marker, pode ir. Agora estamos fazendo algum progresso. Nossa dama entra no quarto, vai at� o arm�rio, e o abre, ou, pelo menos, tenta. Enquanto est� concentrada nisso, o jovem Willoughby Smith entra no aposento. Na sua pressa para tirar a chave, faz este arranh�o na porta. Ele a v�, e ela pega o objeto mais pr�ximo, que por acaso era aquela faca, e o ataca para domin�-lo. O golpe � fatal. Ele cai e ela foge, com ou sem o objeto que viera buscar. Susan, a empregada, est� aqui? Algu�m poderia ter sa�do por aquela porta depois que voc� ouviu o grito, Susan?</p><p>� N�o, senhor, � imposs�vel. Antes de descer as escadas, n�o vi ningu�m no corredor. Al�m disso, a porta n�o foi aberta, do contr�rio eu teria escutado.</p><p>� Isto determina a sa�da. Ent�o n�o h� d�vida de que a dama saiu por onde entrou. Soube que este outro corredor d� apenas para o quarto do professor. H� alguma sa�da por ali?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Iremos por ele e tomaremos o depoimento do professor. Ei, Hopkins! isto � muito importante, muito importante mesmo. O corredor do professor tamb�m</p><p>� forrado com esteiras de coqueiro.</p><p>� Bem, senhor, o que tem isto?</p><p>� N�o v� nenhuma liga��o com o caso? Bem, bem, n�o vou insistir nisso. Sem d�vida estou enganado. Mesmo assim me parece sugestivo. Venha comigo e me apresente.</p><p>Atravessamos o corredor, que era do mesmo comprimento do que dava no jardim. No final havia um pequeno lance de escada que terminava numa porta. Nosso guia bateu e depois fez-nos entrar no quarto do professor.</p><p>Era um aposento muito grande, cercado de grande quantidade de livros que transbordavam das prateleiras e estavam empilhados nos cantos, ou por todo lado, em caixas. A cama ficava no centro do quarto, e nela, recostado em travesseiros, estava o dono da casa. Raras vezes vi uma pessoa t�o estranha. Era um rosto fino e descarnado o que estava virado para n�s, com olhos escuros penetrantes que brilhavam em buracos fundos sob as sobrancelhas cerradas e salientes. Os cabelos e a barba eram brancos, mas esta era curiosamente mesclada de amarelo ao redor da boca. Um cigarro queimava em meio ao emaranhado de cabelos brancos, e o ar do quarto estava f�tido por causa do ac�mulo da fuma�a de tabaco. Ao esticar a m�o para Holmes, percebi que ela tamb�m estava amarelada de nicotina.</p><p>� � um fumante, sr. Holmes? � perguntou, falando um ingl�s caprichado, com um curioso sotaque afetado. � Por favor, pegue um cigarro. E o senhor? Posso recomend�-los, pois s�o preparados especialmente por Ionides, de Alexandria. Ele me manda mil de cada vez, e sinto dizer que preciso encomendar um novo suprimento a cada quinzena. Mau, senhor, muito mau, mas um velho tem poucos prazeres. O fumo e o meu trabalho � � tudo o que me resta.</p><p>Holmes acendera um cigarro e dava r�pidas olhadas por todo o quarto.</p><p>� Fumo e meu trabalho, mas agora apenas fumo � exclamou o velho. � Ai de mim! Que interrup��o fatal! Quem poderia prever cat�strofe t�o terr�vel? Um jovem t�o estimado! Eu lhe garanto que, ap�s um treinamento de alguns meses, ele era um assistente admir�vel. O que acha do caso, sr. Holmes?</p><p>� Ainda n�o tirei uma conclus�o.</p><p>� Ficarei agradecido ao senhor se puder lan�ar alguma luz onde tudo � t�o misterioso para n�s. Para um pobre estudioso e inv�lido como eu, um golpe desse � paralisante. Parece que perdi a faculdade de pensar. Mas o senhor � um homem de a��o � � um homem de casos. � parte da rotina di�ria de sua vida. Pode conservar seu equil�brio em qualquer emerg�ncia. Temos sorte, de fato, em t�-lo do nosso lado.</p><p>Holmes andava de um lado para o outro no quarto enquanto o professor falava. Observei que fumava com uma rapidez extraordin�ria. Era evidente que compartilhava com nosso anfitri�o o gosto pelos cigarros alexandrinos novos.</p><p>� Sim, senhor, � um golpe esmagador � disse o velho. � � o meu magnum opus � a pilha de pap�is sobre a mesa do outro lado. � a minha an�lise dos documentos encontrados nos mosteiros coptas da S�ria e do Egito, um trabalho que penetrar� fundo nas bases da religi�o revelada. Com minha sa�de debilitada, n�o sei se algum dia poderei termin�-lo, agora que fiquei sem meu assistente. Meu Deus! Ora, sr. Holmes, o senhor � um fumante ainda mais r�pido do que eu.</p><p>Holmes sorriu.</p><p>� Sou um conhecedor � disse, pegando outro cigarro da caixa � o quarto � e acendendo-o na ponta daquele que havia terminado. � N�o o incomodarei com nenhuma inquiri��o demorada, professor Coram, j� que eu soube que estava na cama na hora do crime e n�o podia saber coisa alguma sobre ele. Gostaria de perguntar apenas isso: o que pensa que o pobre rapaz quis dizer com suas �ltimas palavras: �O professor � foi ela�?</p><p>O professor meneou a cabe�a.</p><p>� Susan � uma garota do interior � disse � e o senhor sabe da incr�vel estupidez dessa gente. Creio que o pobre rapaz murmurou algumas palavras incoerentes, delirantes, e que ela as transformou nesta mensagem sem sentido.</p><p>� Sei. O senhor n�o tem alguma explica��o pr�pria para a trag�dia?</p><p>� Possivelmente um acidente, possivelmente � apenas entre n�s � um suic�dio. Os jovens t�m seus problemas secretos � algum caso de amor, talvez, do qual nunca soubemos. � uma suposi��o mais prov�vel do que assassinato.</p><p>� Mas, e o pincen�?</p><p>� Ah! Sou apenas um estudioso � um homem de sonhos. N�o posso explicar as coisas pr�ticas da vida. Mas, mesmo assim, sabemos, meu amigo, que os desafios de amor podem assumir formas estranhas. De qualquer modo, pegue outro cigarro. � um prazer ver algu�m apreci�-los tanto. Um leque, uma luva, �culos � quem sabe que objetos podem ser carregados como prenda ou tesouros, quando um homem p�e fim � sua vida? Este cavalheiro fala de pegadas na grama, mas, afinal, � f�cil nos enganarmos num detalhe deste tipo. Quanto � faca, pode muito bem ter sido jogada longe do infeliz quando ele caiu. � poss�vel que eu esteja falando como uma crian�a, mas a mim parece que Willoughby Smith foi ao encontro do seu destino por suas pr�prias m�os.</p><p>Holmes parecia impressionado pela teoria assim apresentada e continuou a andar de um lado para o outro durante algum tempo, perdido em pensamentos e consumindo cigarro ap�s cigarro.</p><p>� Diga-me, professor Coram � falou por fim �, o que h� no arm�rio da escrivaninha?</p><p>� Nada que atra�sse um ladr�o. Pap�is de fam�lia, cartas de minha pobre esposa, diplomas de universidades que me homenagearam. Aqui est� a chave. Pode ver por si mesmo.</p><p>Holmes pegou a chave e a olhou por um momento, depois a devolveu.</p><p>� N�o, n�o creio que me ajudaria � disse. � Eu preferiria ir tranq�ilamente at� o jardim e refletir sobre o caso. Existe algo a ser dito sobre a teoria de suic�dio que me apresentou. Devemos nos desculpar por perturb�-lo, professor Coram, e prometo que n�o o incomodaremos mais at� depois do almo�o. �s 14 horas voltaremos, e lhe informaremos sobre qualquer coisa que possa ter ocorrido nesse intervalo.</p><p>Holmes estava estranhamente distra�do e ficou andando no caminho do jardim durante algum tempo em sil�ncio.</p><p>� Tem alguma pista? � perguntei, afinal.</p><p>� Depende daqueles cigarros que fumei � disse. � � poss�vel que eu esteja redondamente enganado. Os cigarros me dir�o.</p><p>� Meu caro Holmes � exclamei � como diabo...</p><p>� Ora, ora, ver� por si mesmo. Se n�o, nenhum mal ser� cometido. � claro que sempre teremos a pista do oculista para seguir, mas pego um atalho sempre que posso. Ah! aqui est� a bondosa sra. Marker! Vamos ver se temos cinco minutos de conversa proveitosa com ela.</p><p>Acho que j� observei antes que Holmes tinha, quando queria, um jeito especialmente insinuante com as mulheres, que conseguia ganhar rapidamente a confian�a delas. Na metade do tempo que ele havia mencionado, despertou a boa vontade da governanta e estava conversando com ela como se a conhecesse h� anos.</p><p>� Sim, sr. Holmes, � como o senhor diz. Ele de fato fuma algo terr�vel. O dia inteiro e �s vezes a noite inteira, senhor. Tenho visto aquele quarto de manh� � bem, senhor, pensaria que era o nevoeiro de Londres. O jovem sr. Smith tamb�m fumava, mas n�o tanto quanto o professor. Sua sa�de � bem, n�o sei se � melhor ou pior fumar.</p><p>� Ah! � disse Holmes. � Mas faz perder o apetite.</p><p>� Bem, n�o sei nada sobre isso, senhor.</p><p>� Suponho que o professor quase n�o come nada.</p><p>� Bem, � vari�vel. Direi isso por ele.</p><p>� Aposto como ele n�o tomou caf� hoje de manh� e n�o almo�ar� depois de todos aqueles cigarros que o vi consumir.</p><p>� Bem, o senhor estava l� fora, ao que parece, porque ele tomou um caf�-da-manh� refor�ado hoje. N�o me lembro de t�-lo visto comer tanto, e ele pediu um bom prato de costeletas para o almo�o. Eu mesma estou surpresa, pois desde que entrei naquele escrit�rio ontem e vi o jovem sr. Smith ca�do l� no ch�o, n�o consigo nem olhar para comida. Bem, h� de tudo neste mundo, e o professor n�o perdeu o apetite.</p><p>Ficamos a manh� inteira perambulando pelo jardim. Stanley Hopkins tinha ido at� a vila para investigar alguns rumores de uma mulher estranha que fora vista por algumas crian�as na estrada de Chatham na manh� anterior. Quanto ao meu amigo, toda a sua energia habitual parecia t�-lo abandonado. Nunca o vira lidar com um caso de maneira t�o indiferente. Nem mesmo as novidades trazidas por Hopkins, de que encontrara crian�as, e que elas sem sombra de d�vida tinham visto uma mulher que correspondia exatamente � descri��o</p><p>de Holmes, e usando �culos ou pincen�, conseguiram despertar algum sinal de interesse maior. Ficou mais atento quando Susan, que nos esperava para o almo�o, soltou a informa��o de que achava que o sr. Smith sa�ra para dar uma caminhada ontem de manh�, e que s� voltou meia hora antes de ocorrer a trag�dia. Eu n�o conseguia ver nenhuma liga��o com o caso, mas percebi que Holmes o encaixava no quadro que formara em sua mente. De repente, pulou da cadeira e olhou para o rel�gio. � Duas horas, cavalheiros � disse. � Temos de subir para nos encontrar com nosso amigo, o professor.</p><p>O velho acabara de almo�ar, e seu prato vazio demonstrava o bom apetite que sua governanta lhe atribu�ra. Era, de fato, uma figura esquisita ao virar para n�s sua cabeleira branca e os olhos brilhantes. O eterno cigarro pendurado na boca. Estava vestido e sentado numa poltrona perto da lareira.</p><p>� Bem, sr. Holmes, j� esclareceu o mist�rio? � Ele empurrou a grande caixa de cigarros que estava em cima da mesa na dire��o do meu amigo. Holmes esticou a m�o ao mesmo tempo, e os dois derrubaram a caixa. Por um minuto ou dois, todos n�s ficamos de joelhos catando cigarros nos lugares mais imposs�veis. Quando nos levantamos de novo, notei que os olhos de Holmes brilhavam e suas faces estavam coloridas. Somente numa crise � que eu vira esses sinais de batalha no ar.</p><p>� Sim � disse �, eu o esclareci.</p><p>Stanley Hopkins e eu o encaramos, espantados. Algo parecido com esc�rnio surgiu no rosto magro do velho professor.</p><p>� Verdade! No jardim?</p><p>� N�o, aqui.</p><p>� Aqui! Quando?</p><p>� Neste momento.</p><p>� Com certeza est� brincando, sr. Sherlock Holmes. Obriga-me a dizer-lhe que este � um assunto s�rio demais para ser tratado dessa maneira.</p><p>� Imaginei e testei cada elo de minha cadeia, professor Coram, e estou certo de que faz sentido. Quais s�o os seus motivos, ou que papel exatamente o senhor desempenha neste estranho neg�cio, ainda n�o posso dizer. Dentro de alguns minutos provavelmente ouvirei de seus pr�prios l�bios. Enquanto isso, reconstituirei o passado para ajud�-lo, pois o senhor pode saber qual a informa��o de que ainda preciso.</p><p>� Uma dama entrou ontem em seu escrit�rio. Veio com a inten��o de pegar certos documentos que estavam no m�vel da sua escrivaninha. Ela trouxe sua pr�pria chave. Tive a oportunidade de examinar a sua, e n�o encontrei a ligeira descolora��o que o arranh�o feito no verniz teria provocado. O senhor, portanto, n�o era um c�mplice, e ela veio sem o seu conhecimento, segundo tudo indica, para roub�-lo.</p><p>O professor soprou uma nuvem de seus l�bios. � Isto � muito interessante e instrutivo � disse. � N�o tem mais nada a acrescentar? Com certeza, sabendo tanto sobre essa dama, pode dizer tamb�m o que foi feito dela.</p><p>� Tentarei fazer isso. Em primeiro lugar, ela foi apanhada por seu secret�rio, e o atacou para escapar. Estou inclinado a considerar esta cat�strofe um acidente infeliz, porque estou convencido de que a dama n�o tinha inten��o de provocar um ferimento t�o grave. Um assassino n�o vem desarmado. Horrorizada com o que havia feito, fugiu rapidamente do local da trag�dia. Infelizmente para ela, perdera seu pincen� durante a luta, e, como era muito m�ope, ficava realmente indefesa sem ele. Fugiu por um corredor, que pensava ser aquele por onde tinha vindo � ambos eram forrados de esteiras de coqueiro � e s� quando era tarde demais percebeu ter entrado no corredor errado, e que sua retaguarda estava bloqueada. O que podia fazer? N�o podia voltar. N�o podia ficar parada onde estava. Tinha de continuar. Continuou. Subiu uma escada, abriu uma porta e viu-se no seu quarto.</p><p>O velho sentou-se boquiaberto, encarando Holmes com selvageria. Surpresa e medo estampavam-se em sua express�o. Depois, com esfor�o, deu de ombros e explodiu num riso falso.</p><p>� Est� tudo muito bem, sr. Holmes � disse. � Mas h� uma pequena falha nesta sua espl�ndida teoria. Eu estava no quarto, e n�o sa� durante o dia inteiro.</p><p>� Estou sabendo disso, professor Coram.</p><p>� E quer dizer que eu poderia ficar deitado naquela cama e n�o perceber que uma mulher entrara no meu quarto?</p><p>� Nunca disse isso. O senhor estava ciente disso. Falou com ela. Reconheceu-a. Ajudou-a a fugir.</p><p>Novamente o professor explodiu num riso nervoso. Levantara-se, e seus olhos brilhavam como brasas.</p><p>� Est� louco! � exclamou. � Est� falando de modo insano. Ajudei-a a fugir? Onde ela est� agora?</p><p>� Est� ali � disse Holmes, e apontou para um arm�rio alto no canto do quarto.</p><p>Vi o velho jogar os bra�os para o alto, uma convuls�o terr�vel passou por seu rosto feroz, e ele caiu na cadeira. No mesmo instante, o arm�rio para o qual Holmes apontara se abriu, girando sobre os gonzos, e uma mulher saiu rapidamente para o quarto. � O senhor est� certo! � ela gritou, num estranho sotaque estrangeiro. � Est� certo! Eu estou aqui.</p><p>Estava marrom de poeira, e coberta com as teias de aranha das paredes de seu esconderijo. Seu rosto tamb�m estava manchado de sujeira, mas, mesmo sem isso, n�o poderia ter sido bonita, pois tinha exatamente as caracter�sticas f�sicas que Holmes adivinhara, com o acr�scimo de um queixo comprido e obstinado. Por causa de sua cegueira natural e com a mudan�a da escurid�o para a claridade, ela ficou parada como se estivesse aturdida, piscando e tentando ver onde est�vamos e quem �ramos. E mesmo assim, apesar de todas essas desvantagens, havia certa nobreza em sua postura � uma gra�a no queixo arrogante e na cabe�a erguida, que inspirava certo respeito e admira��o.</p><p>Stanley Hopkins p�s a m�o no bra�o dela e a intimou como sua prisioneira, mas ela o afastou com delicadeza, e ainda assim com uma dignidade irresist�vel que provocava obedi�ncia. O velho recostou-se em sua cadeira com o rosto tr�mulo e a encarou com olhos melanc�licos.</p><p>� Sim, senhor, sou sua prisioneira � ela disse. � De onde estava eu pude ouvir tudo e sei que conhecem a verdade. Confesso tudo. Fui eu quem matou o rapaz. Mas o senhor est� certo, o senhor que disse ter sido um acidente. Nem sabia que era uma faca o que eu tinha apanhado porque no meu desespero peguei qualquer coisa da mesa e o ataquei para que me deixasse ir embora. � a verdade o que estou dizendo.</p><p>� Madame � disse Holmes �, tenho certeza de que � a verdade. Temo que a senhora n�o esteja passando bem.</p><p>Ela estava com uma cor horr�vel, ainda mais p�lida sob as manchas de poeira escuras em seu rosto. Sentou-se de um lado da cama; depois se reanimou.</p><p>� Tenho pouco tempo aqui � disse � mas gostaria que soubessem de toda a verdade. Sou a esposa deste homem. Ele n�o � ingl�s. � russo. N�o direi seu nome.</p><p>Pela primeira vez o velho se manifestou. � Deus a aben�oe, Anna! � exclamou. � Deus a aben�oe!</p><p>Ela lan�ou um olhar de profundo desd�m na dire��o dele. � Por que se apega tanto a essa sua vida miser�vel, Sergius? � disse. � Fez mal a muitos e nenhum bem a ningu�m, nem mesmo a voc�. Mas n�o serei eu que farei arrebentar esta corda fr�gil antes que Deus o permita. J� tenho muito peso em minha alma desde que cruzei a soleira desta casa maldita. Mas eu preciso falar, ou ser� tarde demais.</p><p>� J� disse, cavalheiros, que sou a esposa deste homem. Ele tinha 50 anos e eu era uma garota boba de 20 quando nos casamos. Foi numa cidade da R�ssia, uma universidade � n�o direi o nome do lugar.</p><p>� Deus a aben�oe, Anna! � murmurou o velho de novo.</p><p>� �ramos reformistas � revolucion�rios � niilistas, o senhor entende. Ele, eu e muitos outros. Ent�o vieram tempos de dificuldades, um delegado de pol�cia foi morto, muitos foram presos, queriam provas, e para salvar a pr�pria vida e ganhar uma grande recompensa, meu marido traiu sua pr�pria esposa e seus companheiros. Sim, fomos todos presos por causa da confiss�o dele. Alguns de n�s foram para a forca e outros, para a Sib�ria. Eu estava entre estes �ltimos, mas minha pena n�o era perp�tua. Meu marido veio para a Inglaterra com seus ganhos il�citos e viveu em paz desde ent�o, tendo consci�ncia de que, se a irmandade soubesse onde ele estava, n�o demoraria nem uma semana para fazer justi�a.</p><p>O velho esticou uma m�o tr�mula e pegou um cigarro. � Estou em suas m�os, Anna � disse. � Sempre foi muito boa para mim.</p><p>� Ainda n�o contei o tamanho da sua inf�mia � disse ela. � Entre nossos companheiros da Ordem, havia um que era meu melhor amigo. Era nobre, generoso, bondoso � tudo o que meu marido n�o era. Odiava viol�ncia. �ramos todos culpados � se isto era culpa � mas ele n�o o era. Sempre nos escrevia tentando nos dissuadir dessa causa. Estas cartas o teriam salvado. Meu di�rio tamb�m, no qual, dia ap�s dia, contara meus sentimentos em rela��o a ele e a opini�o de cada um de n�s. Meu marido encontrou e guardou tudo, o di�rio e as cartas. Escondeu-os e tentou por todos os meios tirar a vida do rapaz. N�o conseguiu, mas Alexis foi mandado preso para a Sib�ria, onde agora, neste momento, trabalha numa mina de sal. Pense nisso, seu vil�o, seu vil�o!... agora, agora, neste exato momento, Alexis, um nome que voc� n�o merece pronunciar, trabalha e vive como um escravo, e ainda assim tenho sua vida em minhas m�os e o deixarei ir.</p><p>� Sempre foi uma mulher nobre, Anna � disse o velho, soltando uma baforada de seu cigarro.</p><p>Ela havia se levantado, mas sentou-se de novo com um pequeno grito de dor.</p><p>� Preciso terminar � disse. � Quando minha pena acabou, sa� � procura do di�rio e das cartas, que, se fossem enviados ao governo russo, ajudariam na liberta��o de meu amigo. Sabia que meu marido viera para a Inglaterra. Ap�s meses de procura descobri onde estava. Sabia que ainda possu�a o di�rio, pois quando estava na Sib�ria, certa vez recebi uma carta dele, censurando-me e citando alguns trechos de suas p�ginas. Mas estava certa de que, com sua natureza vingativa, nunca me entregaria essas coisas espontaneamente. Deveria consegui-lo por mim mesma. Com este objetivo contratei um agente de uma firma de detetives particulares, que entrou na casa de meu marido como secret�rio � foi o seu segundo secret�rio, Sergius, o que o deixou t�o apressadamente. Ele descobriu que os pap�is eram guardados na estante, e conseguiu um molde da chave. N�o podia ir mais longe. Forneceu-me um mapa da casa e me disse que de manh� o escrit�rio ficava sempre vazio, pois o secret�rio estava ocupado aqui em cima. Ent�o, finalmente, criei coragem e vim para pegar os pap�is pessoalmente. Consegui, mas a que pre�o!</p><p>� Tinha acabado de apanhar os pap�is e estava trancando o arm�rio, quando o rapaz me pegou. J� o tinha visto naquela manh�. Ele me encontrou na estrada e eu perguntei a ele onde morava o professor Coram, sem saber que ele era seu empregado.</p><p>� Exato! Exato! � disse Holmes. � O secret�rio voltou e contou ao seu patr�o a respeito da mulher que encontrara. Ent�o, em seu �ltimo suspiro, tentou mandar uma mensagem: que era ela � aquela com quem acabara de falar.</p><p>� O senhor precisa me deixar terminar � disse a mulher, numa voz imperativa, e o seu rosto se contraiu como se estivesse com dor. � Quando ele caiu, corri para fora do aposento, escolhi a porta errada e me encontrei no quarto de meu marido. Disse-me para desistir. Mostrei-lhe que, se fizesse aquilo, sua vida estava em minhas m�os. Se me entregasse � justi�a, eu o denunciaria � irmandade. N�o que eu estivesse pensando em mim mesma, mas � que desejava cumprir meu objetivo. Ele sabia que eu faria o que disse � que seu pr�prio destino estava envolvido com o meu. Por este motivo, e por nenhum outro, ele me escondeu. Jogou-me naquele esconderijo escuro � uma rel�quia dos velhos tempos, que s� ele conhecia. Fazia suas refei��es no pr�prio quarto, para poder me dar parte de sua comida. Concordamos que quando a pol�cia sa�sse da casa, eu fugiria durante a noite e n�o voltaria mais. Mas de algum modo o senhor descobriu nossos planos. � Tirou de dentro de seu vestido um pequeno pacote. � Estas s�o minhas �ltimas palavras � disse; � aqui est� o pacote que salvar� Alexis. Confio-o � sua honra e ao seu amor � justi�a. Pegue-o! O senhor o entregar� � embaixada russa. Agora, j� cumpri meu dever, e...</p><p>� Segurem-na! � gritou Holmes. Correu at� o outro lado do quarto e tirou um pequeno frasco da m�o dela.</p><p>� Tarde demais! � disse ela, deitando-se na cama. � Tarde demais! Tomei o veneno antes de sair de meu esconderijo. Minha cabe�a est� rodando! Estou indo! Pe�o-lhe, senhor, que se lembre do pacote.</p><p>� Um caso simples, e mesmo assim, em certos aspectos, muito instrutivo � observou Holmes, na viagem de volta para a cidade. � Dependia desde o come�o do pincen�. Mas sem a sorte de o moribundo t�-lo agarrado, n�o sei se conseguir�amos ter chegado � solu��o. Estava claro para mim, pelo grau das lentes, que o seu usu�rio ficaria muito cego e desamparado sem eles. Quando me pediu para acreditar que ele havia andado por uma estreita faixa de grama sem dar um �nico passo em falso, notei, como deve se lembrar, que seria um desempenho digno de nota. Em minha mente o defini como um desempenho imposs�vel, a n�o ser no caso improv�vel de que tivesse um segundo par de �culos. Assim, fui obrigado a considerar seriamente a hip�tese de que ela havia permanecido na casa. Ao perceber a semelhan�a entre os dois corredores, ficou claro que ela poderia facilmente cometer esse erro, e, neste caso, era evidente que devia ter entrado no quarto do professor. Portanto, eu estava atento para qualquer coisa que confirmasse essa suposi��o, e examinei o quarto detalhadamente, buscando algo que se assemelhasse a um esconderijo. O tapete parecia inteiri�o e firmemente preso, portanto desisti da id�ia da exist�ncia de um al�ap�o. Poderia muito bem haver uma sa�da por tr�s dos livros. Como sabe, esses acessos s�o comuns nas velhas bibliotecas. Observei que os livros estavam empilhados no ch�o em todos os outros lugares, mas aquele arm�rio foi deixado livre. Esta, ent�o, deveria ser a porta. N�o consegui ver marca que me guiasse, mas o tapete estava desbotado, o que merecia uma investiga��o. Da� fumei uma grande quantidade daqueles excelentes cigarros, e joguei as cinzas por todo o espa�o diante daquele arm�rio suspeito. Era um truque simples, mas extremamente eficaz. Depois desci e verifiquei, em sua presen�a, Watson, sem voc� perceber a inten��o de minhas perguntas, que o consumo de comida do professor aumentara � como algu�m esperaria, se estivesse alimentando uma segunda pessoa. Depois voltamos ao quarto, quando, derrubando a caixa de cigarros, obtive uma �tima vis�o do ch�o, e pude ver bem claramente, pelos tra�os deixados nas cinzas de cigarro, que o prisioneiro, em nossa aus�ncia, tinha sa�do de seu esconderijo. Bem, Hopkins, aqui estamos em Charing Cross, e eu o congratulo por ter levado seu caso a uma conclus�o bem-sucedida. Est� indo para a chefatura, sem d�vida. Acho, Watson, que voc� e eu iremos juntos � embaixada russa.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura do �three-quarter�</strong></p><empty-line/><p><strong>
  desaparecido</strong></p><p>Est�vamos acostumados a receber telegramas estranhos na Baker Street, mas lembro-me especialmente de um que chegou numa melanc�lica manh� de fevereiro, h� sete ou oito anos, e deixou Holmes intrigado durante uns 15 minutos. Estava endere�ado a ele, e dizia o seguinte:</p><empty-line/><p>Por favor espere-me. Terr�vel infort�nio.</p><p>Three-quarter direito desaparecido, indispens�vel amanh�.</p><p>Overton.</p><empty-line/><p>� Carimbo postal de Strand e despachado �s 22:36h � disse Holmes, lendo-o e relendo-o. � O sr. Overton estava evidentemente bastante excitado quando o mandou e, em conseq��ncia, um tanto incoerente. Bem, acho que ele estar� aqui depois que eu tiver dado uma olhada no Times, e ent�o saberemos de tudo. At� mesmo o problema mais insignificante seria bem-vindo nestes dias mon�tonos.</p><p>De fato as coisas tinham estado meio paradas conosco, e eu aprendera a temer esses per�odos de inatividade, pois sabia por experi�ncia que o c�rebro do meu companheiro era t�o anormalmente ativo que era perigoso deix�-lo sem material com que pudesse trabalhar. Durante anos eu o afastei gradativamente das drogas, que certa vez chegaram a amea�ar sua not�vel carreira. Agora eu sabia que em condi��es normais ele n�o procurava est�mulo artificial, mas tinha consci�ncia de que o dem�nio n�o estava morto, apenas dormia, e sabia que era um sono leve e o despertar ficava muito pr�ximo quando, em per�odos de ociosidade, observava a tens�o no rosto austero de Holmes e a melancolia de seus olhos parados e inescrut�veis. Portanto, aben�oei esse sr. Overton, quem quer que fosse, j� que viera, com sua mensagem enigm�tica, interromper a perigosa calma que traria mais perigo ao meu amigo do que todas as borrascas de sua vida tempestuosa.</p><p>Como esper�ramos, o telegrama foi logo seguido de seu remetente, e o cart�o do sr. Cyril Overton, Trinity College, Cambridge, anunciou a chegada de um rapaz enorme, 16 stone* de ossos e m�sculos s�lidos, que ocupou a moldura da porta com seus ombros largos, e olhou para n�s com o rosto agrad�vel crispado de ansiedade.</p><p>� Sr. Sherlock Holmes?</p><p>Meu amigo inclinou-se.</p><p>� Estive na Scotland Yard, sr. Holmes. Conversei com o inspetor Stanley Hopkins. Aconselhou-me a procur�-lo. Disse que o caso, pelo que lhe parecia, estava mais em sua linha do que na da pol�cia oficial.</p><p>� Por favor, sente-se e me fale do assunto.</p><p>� � terr�vel, sr. Holmes � simplesmente terr�vel! N�o sei como meus cabelos n�o est�o grisalhos. Godfrey Staunton � j� ouviu falar dele, n�o? � simplesmente o piv� do nosso time. Gostaria de perder dois e ter Godfrey na minha linha de three-quarter. Quando est� passando, arremessando ou driblando, n�o h� ningu�m que se compare a ele; e ent�o, ele sumiu, e pode destruir todos n�s. O que devo fazer? � o que lhe pergunto, sr. Holmes. H� o Moorhouse, primeiro reserva, mas ele � treinado para ser zagueiro, e sempre penetra pela direita no scrum, em vez de ficar fora, ao longo da linha lateral. � um �timo place-kick, � verdade, mas n�o tem nenhum bom senso, e n�o consegue disparar de jeito algum. Ora, Morton ou Johnson, os volantes de Oxford, poderiam dribl�-lo. Stevenson � bastante r�pido, mas n�o poderia chutar da linha 25, e um three-quarter que n�o consegue pegar a bola no ar n�o merece um lugar no time. N�o, sr. Holmes, estamos derrotados, a menos que me ajude a encontrar Godfrey Staunton.</p><p>Meu amigo ouvira com divertida surpresa este longo relato, despejado com extraordin�rio vigor e convic��o, cada ponto sendo acompanhado do tapinha de uma m�o forte sobre o joelho do narrador. Quando nosso visitante se calou, Holmes estendeu a m�o e pegou a letra �S� de seu livro de cita��es. Pela primeira vez procurou em v�o naquela mina de informa��es variadas.</p><p>� Existe um Arthur H. Staunton, o jovem ferreiro em ascens�o � disse � e havia Henry Staunton, a quem ajudei a enforcar, mas Godfrey Staunton � um nome novo para mim.</p><p>Foi a vez de o nosso visitante parecer surpreso.</p><p>� Ora, sr. Holmes, pensei que soubesse das coisas � disse. � Suponho, ent�o, que se nunca ouviu falar de Godfrey Staunton, n�o conhece tamb�m Cyril Overton?</p><p>Holmes concordou, bem-humorado.</p><p>� Ora! � exclamou o atleta. � Eu fui o primeiro reserva da Inglaterra contra Nova Gales do Sul, e dirigi o time da universidade durante este ano inteiro. Mas isso n�o � nada! N�o pensei que houvesse uma �nica alma na Inglaterra que n�o conhecesse Godfrey Staunton, o craque three-quarter, em Cambridge, Blackheath e de cinco Internacionais. Meu Deus! sr. Holmes, onde tem vivido?</p><p>Holmes sorriu diante do assombro ing�nuo do jovem gigante.</p><p>� O senhor vive num mundo diferente do meu, sr. Overton � mais c�ndido e saud�vel. Minhas ramifica��es se estenderam a muitos setores da sociedade, mas nunca, fico feliz em dizer, ao esporte amador, que � a melhor coisa da Inglaterra, e a mais s�lida. Contudo, sua visita inesperada esta manh� mostra-me que, mesmo nesse mundo de ar puro e belos jogos, pode haver trabalho para mim. Portanto, agora, meu caro senhor, pe�o-lhe que se sente e me conte, devagar e com calma, exatamente o que aconteceu, e como deseja que o ajude.</p><p>O rosto do jovem Overton adquiriu o aspecto enfastiado do homem que est� mais acostumado a usar seus m�sculos do que suas faculdades mentais; mas por etapas, com muitas repeti��es e partes obscuras que omitirei nesta narrativa, colocou diante de n�s a sua hist�ria.</p><p>� Foi assim, sr. Holmes. Como j� disse, sou o t�cnico do time de r�gbi da universidade de Cambridge, e Godfrey Staunton � o meu melhor homem. Amanh� jogaremos contra Oxford. Ontem, fomos todos para l�, e nos instalamos no hotel particular de Bentley. �s 22 horas dei uma volta e cuidei para que todos os rapazes fossem para a cama, pois acredito em treinamento rigoroso e muito sono para manter um time em forma. Troquei uma palavra ou duas com Godfrey antes que ele entrasse. Ele me pareceu p�lido e aborrecido. Perguntei-lhe qual era o problema. Disse-me que estava bem � apenas um pouco de dor de cabe�a. Desejei-lhe boa-noite e o deixei. Meia hora depois, o porteiro contou-me que um sujeito mal-encarado, com uma barba, apareceu com um bilhete para Godfrey. Ele n�o tinha se deitado, e o bilhete foi levado ao seu quarto. Godfrey o leu e caiu em uma cadeira como se tivesse levado uma machadada. O porteiro ficou t�o apavorado que ia me chamar, mas Godfrey o impediu, tomou um gole de �gua, e se recomp�s. Depois desceu, disse algumas palavras ao homem que esperava no sagu�o, e os dois sa�ram juntos. A �ltima vez que o porteiro os viu, estavam quase correndo pela rua, na dire��o de Strand. Esta manh� o quarto de Godfrey estava vazio, sua cama n�o estava desarrumada e suas coisas foram encontradas do mesmo jeito que tinham sido vistas no dia anterior. Sa�ra rapidamente com esse estranho e desde ent�o n�o se ouviu mais nada sobre ele. N�o creio que volte. Godfrey era um esportista at� a medula dos ossos, e n�o teria interrompido seus treinamentos e deixado seu treinador se n�o fosse por um motivo muito forte para ele. N�o, sinto que ele foi embora para sempre e nunca mais o veremos de novo.</p><p>Sherlock Holmes ouviu com a mais profunda aten��o esta narrativa singular.</p><p>� O que fez ent�o? � perguntou.</p><p>� Telegrafei para Cambridge para saber se tinham alguma not�cia dele por l�. Ningu�m o viu.</p><p>� Ele poderia ter voltado para Cambridge?</p><p>� Sim, h� um trem que sai �s 23:15h.</p><p>� Mas, pelo que soube, ele n�o o tomou?</p><p>� N�o, n�o foi visto l�.</p><p>� O que fez depois?</p><p>� Telegrafei a lorde Mount-James.</p><p>� Por que a lorde Mount-James?</p><p>� Godfrey � �rf�o, e lorde Mount-James � seu parente mais pr�ximo � seu tio, eu acho.</p><p>� Certo. Isto lan�a uma luz nova sobre o caso. Lorde Mount-James � um dos homens mais ricos da Inglaterra.</p><p>� Foi o que ouvi Godfrey dizer.</p><p>� E seu amigo era muito ligado a ele?</p><p>� Sim, era o herdeiro dele, e o velho est� quase com 80 anos � e doente, tamb�m. Dizem que podia passar giz no seu taco de bilhar com os n�s dos dedos. Nunca deu a Godfrey 1 xelim em sua vida, pois � um completo miser�vel, mas tudo vir� para ele, com certeza.</p><p>� Conhece lorde Mount-James?</p><p>� N�o.</p><p>� Que motivo teria seu amigo para ir procur�-lo?</p><p>� Bem, alguma coisa o estava preocupando na noite anterior, e se tivesse rela��o com dinheiro, � poss�vel que fosse procurar o parente mais pr�ximo, que tinha tanto, embora, pelo que tenho ouvido, n�o teria muita possibilidade de consegui-lo. Godfrey n�o gostava muito do velho. N�o iria se pudesse evitar.</p><p>� Ora, ora, logo poderemos verificar isso. Se seu amigo foi procurar seu parente, lorde Mount-James, voc� ent�o tem de explicar a visita desse sujeito mal-encarado t�o tarde da noite, e a agita��o que sua chegada provocou.</p><p>Cyril Overton p�s as m�os na cabe�a. � N�o tenho a menor id�ia � disse.</p><p>� Bem, tenho o dia vago, e gostaria de examinar o caso � disse Holmes. � Devo recomendar-lhe com veem�ncia que fa�a seus preparativos para o jogo sem nenhuma refer�ncia a este jovem cavalheiro. Deve ter sido, como diz, uma necessidade imperiosa que o fez partir dessa maneira, e a mesma necessidade talvez o conserve l�. Vamos juntos at� o hotel para ver se o porteiro pode acrescentar alguma informa��o nova sobre o assunto.</p><p>Sherlock Holmes era um mestre na arte de obter a confian�a de uma testemunha humilde, e logo, na privacidade do quarto abandonado de Godfrey Staunton, extraiu dele tudo o que tinha para contar. O visitante da noite anterior n�o era um cavalheiro, nem um oper�rio. Era simplesmente o que o porteiro descreveu como �um sujeito de apar�ncia comum�, 50 anos, barba grisalha, rosto p�lido, vestido com discri��o. Parecia agitado. O porteiro notou que suas m�os tremiam quando lhe entregou o bilhete. Godfrey Staunton meteu o bilhete no bolso. Staunton n�o apertou a m�o do homem no sagu�o. Trocaram algumas frases, das quais ele s� distinguiu uma �nica palavra: �tempo�. Ent�o correram para fora do jeito j� descrito. Eram 22:30h pelo rel�gio do sagu�o.</p><p>� Deixe-me ver � disse Holmes, sentando-se na cama de Staunton. � � o porteiro diurno, n�o?</p><p>� Sim, senhor, deixo meu trabalho �s 23 horas.</p><p>� O porteiro noturno n�o viu nada, suponho?</p><p>� N�o, senhor, um grupo de teatro chegou tarde. Ningu�m mais.</p><p>� Esteve trabalhando o dia todo ontem?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Levou alguma mensagem ao sr. Staunton?</p><p>� Sim, senhor, um telegrama.</p><p>� Ah! Isto � interessante. A que horas foi isso?</p><p>� Por volta das 18 horas.</p><p>� Onde estava o sr. Staunton quando a recebeu?</p><p>� Aqui no seu quarto.</p><p>� O senhor estava presente quando ele a abriu?</p><p>� Sim, senhor, esperei para ver se havia alguma resposta.</p><p>� Bem, havia?</p><p>� Sim, senhor, ele escreveu uma resposta.</p><p>� Foi o senhor quem a levou?</p><p>� N�o, ele a levou pessoalmente.</p><p>� Mas escreveu-a em sua presen�a?</p><p>� Sim, senhor. Eu estava parado aqui na porta, e ele com as costas voltadas para aquela mesa. Quando acabou de escrever, ele disse: �Tudo bem, porteiro, eu mesmo a entregarei�.</p><p>� Com que ele a escreveu?</p><p>� Com uma caneta, senhor.</p><p>� O formul�rio de telegrama era um desses sobre a mesa?</p><p>� Sim, senhor, era o que estava em cima.</p><p>Holmes levantou-se. Pegando os formul�rios, levou-os para perto da janela e examinou com cuidado o que estava por cima.</p><p>� � uma pena que n�o tenha escrito a l�pis � disse, devolvendo-os e encolhendo os ombros em sinal de desapontamento. � Como sem d�vida deve ter observado com freq��ncia, Watson, a impress�o geralmente passa atrav�s do papel � um fato que j� dissolveu v�rios casamentos felizes. Entretanto, n�o achei nenhuma marca aqui. Mas percebi com satisfa��o que ele escreveu com uma pena de ponta grossa e n�o duvido que encontraremos algumas impress�es nesta folha de mata-borr�o. Ah, com certeza s�o estas!</p><p>Tirou uma folha do bloco e nos mostrou o seguinte hier�glifo:</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Cyril Overton ficou muito excitado.</p><p>� Leve-a para perto do espelho! � exclamou.</p><p>� Isto � desnecess�rio � disse Holmes. � O papel � fino, e o verso nos mostrar� a mensagem. Aqui est�. � Ele a virou e lemos:</p><p><image l:href="#7"/></p><p>� Ent�o este � o final do telegrama que Godfrey Staunton despachou poucas horas antes de seu desaparecimento. Existem pelo menos seis palavras da mensagem que nos escaparam; mas o que permaneceu � �Fique conosco pelo amor de Deus!� � prova que este jovem via um perigo imenso que se aproximava e do qual algu�m poderia proteg�-lo. �Conosco�, lembre-se! Outra pessoa estava envolvida. Quem, a n�o ser o homem de rosto p�lido e barba grisalha, parecia estar t�o nervoso? E quem era a terceira for�a a quem pedia ajuda contra um perigo amea�ador? Nossa investiga��o j� fica mais concentrada nisso.</p><p>� Temos apenas de descobrir para quem era endere�ado o telegrama � sugeri.</p><p>� Exato, meu caro Watson. Sua reflex�o, embora profunda, j� havia passado pela minha mente. Mas creio que j� notou que, se for a uma ag�ncia de correio e pedir para ver o canhoto da mensagem de uma outra pessoa, haver� certa m� vontade por parte dos funcion�rios para atend�-lo. H� muita burocracia nesses assuntos. Mas acho que, com um pouco de delicadeza e finura, o objetivo pode ser alcan�ado. Enquanto isso, gostaria de, na sua presen�a, sr. Overton, dar uma olhada nestes pap�is que foram deixados em cima da mesa.</p><p>Havia v�rias cartas, contas e cadernos de anota��es, que Holmes folheou e examinou com dedos velozes e nervosos, e olhos penetrantes, dardejantes. � Nada aqui � disse, por fim. � A prop�sito, suponho que seu amigo era um rapaz muito saud�vel � nada errado com ele?</p><p>� Tem sa�de de ferro.</p><p>� J� o viu doente alguma vez?</p><p>� Nem por um dia. Certa vez teve uma tosse seca, e outra deslocou a r�tula, mas isso n�o foi nada.</p><p>� Talvez ele n�o fosse t�o forte quanto voc� sup�e. Talvez tenha tido algum problema secreto. Com sua permiss�o, guardarei um ou dois desses pap�is no bolso, para o caso de terem rela��o com nossa investiga��o futura.</p><p>� Um momento, um momento! � exclamou uma voz impertinente. Olhamos e nos deparamos com um homenzinho idoso e estranho, sacudindo-se e contorcendo-se � porta. Vestia-se de preto desbotado, com um chap�u de abas largas e uma gravata branca folgada � o efeito geral era o de um vig�rio do campo ou acompanhante de enterros contratado por um dono de casa funer�ria. Mas,� apesar de sua apar�ncia andrajosa e at� mesmo rid�cula, sua voz tinha um timbre �spero, e sua atitude, uma intensidade que exigia aten��o.</p><p>� Quem � o senhor, e com que direito mexe nos pap�is desse cavalheiro? � perguntou.</p><p>� Sou um detetive particular, e estou tentando explicar o desaparecimento dele.</p><p>� Ah �, �? E quem o chamou, hein?</p><p>� Este cavalheiro, amigo do sr. Staunton, me foi enviado pela Scotland Yard.</p><p>� E quem � o senhor?</p><p>� Sou Cyril Overton.</p><p>� Ent�o foi voc� quem me mandou um telegrama. Meu nome � lorde Mount-James. Vim t�o r�pido quanto era poss�vel pelo �nibus de Bayswater. Quer dizer que contratou um detetive?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� E est� preparado para cobrir os gastos?</p><p>� N�o tenho d�vida, senhor, que o meu amigo Godfrey, quando o encontrarmos, poder� fazer isso.</p><p>� E se nunca for encontrado, hein? Responda-me!</p><p>� Nesse caso, sem d�vida, sua fam�lia...</p><p>� Nada disso, senhor! � gritou o homenzinho. � N�o me pe�a nem 1 p�ni � nem 1 p�ni! Entenda isso, sr. detetive! Sou toda a fam�lia que esse rapaz tem, e lhe digo que n�o sou o respons�vel. Se ele tem perspectivas futuras � porque nunca esbanjei dinheiro, e n�o pretendo come�ar a fazer isso agora. Quanto �queles pap�is com os quais tomou tantas liberdades, devo lhe dizer que, no caso de haver algo de valor entre eles, o senhor ser� intimado a fazer um relat�rio sobre o uso que far� deles.</p><p>� Muito bem, senhor � disse Sherlock Holmes. � Posso lhe perguntar, nesse meio-tempo, se tem alguma teoria pr�pria para o desaparecimento do rapaz?</p><p>� N�o, senhor, n�o tenho. Ele � suficientemente grande e adulto para cuidar de si mesmo, e se � t�o bobo a ponto de se perder, eu me recuso totalmente a aceitar a responsabilidade de procur�-lo.</p><p>� Entendo sua posi��o � disse Holmes, com um brilho malicioso nos olhos. � Talvez n�o compreenda muito a minha. Parece que Godfrey Staunton era um homem muito pobre. Se foi raptado, n�o deve ter sido por algo que possu�a. A fama de sua riqueza j� se espalhou, lorde Mount-James, e � bem poss�vel que um bando de ladr�es tenha seq�estrado seu sobrinho para conseguir dele algumas informa��es sobre sua casa, seus h�bitos e seu tesouro.</p><p>O rosto do nosso pequeno e desagrad�vel visitante ficou branco como sua gravata.</p><p>� C�us, senhor, que id�ia! Nunca imaginei tal inf�mia! Quantos patifes desumanos existem no mundo! Mas Godfrey � um bom rapaz � um rapaz leal. Nada o faria trair seu velho tio. Mandarei toda a prataria para o banco esta noite. Enquanto isso, n�o poupe esfor�os, sr. detetive! Imploro-lhe que n�o deixe pedra sobre pedra para traz�-lo de volta em seguran�a. Quanto ao dinheiro, bem, at� 5 ou 10 libras, pode sempre contar comigo.</p><p>Mesmo com essa disposi��o de esp�rito atenuada, o nobre miser�vel n�o p�de nos dar nenhuma informa��o que nos ajudasse, pois sabia pouco da vida particular do sobrinho. Nossa �nica pista consistia no telegrama truncado, e com uma c�pia dele na m�o Holmes tentou encontrar um segundo elo para sua cadeia. Havia se desembara�ado de lorde Mount-James, e Overton fora conversar com os outros membros do time sobre a desgra�a que se abatera sobre eles.</p><p>Havia um posto telegr�fico a pouca dist�ncia do hotel. Paramos do lado de fora.</p><p>� Vale a pena tentar, Watson � disse Holmes. � � claro que com uma autoriza��o poder�amos obrig�-los a nos mostrar os canhotos, mas ainda n�o chegamos nesse est�gio. N�o creio que se lembrem de rostos num lugar t�o movimentado. Vamos arriscar.</p><p>� Desculpe incomod�-la � ele disse, com seu jeito brando, para a jovem que estava atr�s do gradil � h� algum engano em rela��o a um telegrama que mandei ontem. N�o recebi nenhuma resposta, e receio que devo ter esquecido de p�r meu nome no final. Pode me dizer se foi isso?</p><p>A jovem folheou um ma�o de canhotos.</p><p>� A que horas foi isso? � perguntou.</p><p>� Pouco depois das 18 horas.</p><p>� Para quem ele era?</p><p>Holmes p�s o dedo nos l�bios e deu uma olhada para mim. � As suas �ltimas palavras eram �Pelo amor de Deus�, ele sussurrou de modo confidencial � estou muito ansioso por n�o receber nenhuma resposta.</p><p>A jovem separou um dos formul�rios.</p><p>� � este. N�o tem nome � disse ela, deixando-o sobre o balc�o.</p><p>� Ent�o, claro, � por isso que n�o recebi nenhuma resposta � disse Holmes. � Meu Deus, como fui est�pido! Bom-dia, senhorita e muito obrigado por me tranq�ilizar. � Ele deu uma risadinha e esfregou as m�os quando chegamos � rua de novo.</p><p>� E ent�o? � perguntei.</p><p>� Estamos progredindo, meu caro Watson, estamos progredindo. Tinha sete diferentes esquemas para conseguir dar uma olhada naquele telegrama, mas dificilmente podia esperar ter sucesso na primeira tentativa.</p><p>� E o que conseguiu?</p><p>� Um ponto de partida para a nossa investiga��o. � Chamou uma carruagem. � King�s Cross Station � disse.</p><p>� Faremos uma viagem, ent�o?</p><p>� Sim, acho que devemos ir a Cambridge juntos. Todos os ind�cios apontam nessa dire��o.</p><p>� Diga-me � perguntei, enquanto pass�vamos pela Gray�s Inn Road �, j� tem alguma suspeita quanto � causa do desaparecimento? De todos os que j� tivemos, n�o me lembro de outro cujos motivos fossem t�o misteriosos. Com certeza n�o imagina que possa ter sido raptado para fornecer informa��es sobre seu tio rico.</p><p>� Confesso, meu caro Watson, que isso n�o me parece uma explica��o muito prov�vel. Mas impressionou-me por ser a que mais interessou �quele velho e desagrad�vel.</p><p>� Foi o que aconteceu; mas quais s�o suas alternativas?</p><p>� Poderia mencionar v�rias. Deve admitir que � curioso e sugestivo que este incidente tenha ocorrido na v�spera desse jogo importante, e tenha envolvido o �nico homem cuja presen�a parece essencial ao sucesso do time. Pode ser, � claro, uma coincid�ncia, mas � interessante. O esporte amador n�o tem apostas, mas uma grande quantidade de apostas externas ocorre entre o p�blico, e � poss�vel que seja lucrativo para algu�m pegar um atleta, assim como um bandido do turfe faz com um cavalo de corrida. A� est� uma explica��o. A segunda mais �bvia � que este rapaz realmente � o herdeiro de uma grande propriedade e, por mais modestas que sejam suas posses agora, n�o � imposs�vel que tenha sido tramado um compl� para seq�estr�-lo e pedir um resgate.</p><p>� Essas teorias n�o levam em conta o telegrama.</p><p>� � verdade, Watson. O telegrama permanece ainda como a �nica coisa concreta que temos, e n�o devemos permitir que nossa aten��o se desvie dele. � para esclarecer o objetivo deste telegrama que estamos agora a caminho de Cambridge. O rumo da nossa investiga��o est� indefinido no momento, mas ficarei muito surpreso se antes do anoitecer n�o tivermos resolvido o caso, ou feito um progresso consider�vel.</p><p>J� estava escuro quando chegamos � velha cidade universit�ria. Holmes tomou uma carruagem de aluguel na esta��o e mandou que nos levasse � casa do dr. Leslie Armstrong. Poucos minutos depois, par�vamos diante de uma mans�o na rua mais movimentada. Entramos e, ap�s uma longa espera, fomos levados ao consult�rio, onde encontramos o doutor sentado � sua mesa.</p><p>O meu grau de afastamento de minha profiss�o era demonstrado pelo fato de que eu nunca tinha ouvido falar de Leslie Armstrong. Agora sei que ele n�o � apenas um dos diretores da escola de medicina da universidade, mas tamb�m um pensador famoso na Europa em mais de um ramo da ci�ncia. Mas mesmo sem conhecer seu hist�rico brilhante, ningu�m deixaria de se impressionar s� de olhar para o homem, o rosto quadrado, maci�o, os olhos melanc�licos sob as sobrancelhas cerradas, e o molde gran�tico do maxilar inflex�vel. Um homem de car�ter s�lido, com a mente alerta, severo, austero, controlado, formid�vel � foi assim que vi o dr. Leslie Armstrong. Segurou o cart�o do meu amigo, e nos olhou com uma express�o n�o muito contente em suas fei��es duras.</p><p>� J� ouvi falar no seu nome, sr. Sherlock Holmes, e sei qual � a sua profiss�o � uma das quais n�o aprovo de jeito nenhum.</p><p>� Nisso, doutor, o senhor est� de acordo com todos os criminosos do pa�s � disse meu amigo, tranq�ilamente.</p><p>� Na medida em que seus esfor�os t�m por objetivo a supress�o do crime, senhor, devem ter o apoio de todos os membros sensatos da comunidade, embora n�o duvide que a m�quina oficial seja mais do que suficiente para esta finalidade. Onde seu of�cio est� mais sujeito a cr�ticas quando se intromete nos segredos particulares das pessoas, quando revolve assuntos de fam�lia que ficam melhor escondidos, e quando incidentalmente desperdi�a o tempo de homens que s�o mais ocupados que o senhor. Agora, por exemplo, eu deveria estar escrevendo um tratado em vez de conversar com o senhor.</p><p>� Sem d�vida, doutor; mesmo assim a conversa pode ser mais importante que o tratado. Incidentalmente, posso lhe dizer que estamos fazendo o inverso daquilo que o senhor, com justi�a, critica; estamos tentando evitar algo como exposi��o p�blica de assuntos privados, o que necessariamente acontece, quando o caso est� nas m�os da pol�cia. Pode olhar-me simplesmente como um pioneiro irregular, que vai � frente das for�as regulares do pa�s. Vim para lhe perguntar sobre o sr. Godfrey Staunton.</p><p>� O que tem ele?</p><p>� O senhor o conhece, n�o?</p><p>� � meu amigo �ntimo.</p><p>� Sabe que ele est� desaparecido?</p><p>� Ah, n�o diga! � N�o houve nenhuma mudan�a de express�o nas fei��es rudes do doutor.</p><p>� Saiu do seu hotel na noite passada � n�o foi visto desde ent�o.</p><p>� Sem d�vida ele voltar�.</p><p>� Amanh� � o jogo de r�gbi da universidade.</p><p>� N�o tenho simpatia por esses jogos infantis. O destino do rapaz me interessa profundamente, pois o conhe�o e gosto dele. O jogo de futebol n�o est� dentro de meus horizontes de modo algum.</p><p>� Pe�o sua simpatia, ent�o, pela minha investiga��o a respeito do destino do sr. Godfrey Staunton. Sabe onde ele est�?</p><p>� Claro que n�o.</p><p>� N�o o viu desde ontem?</p><p>� N�o, n�o o vi.</p><p>� O sr. Staunton era um homem saud�vel?</p><p>� Perfeitamente.</p><p>� J� o viu doente alguma vez?</p><p>� Nunca.</p><p>Holmes atirou uma folha de papel diante dos olhos do doutor. � Ent�o talvez explique este recibo de uma conta de 13 guin�us, paga por Godfrey Staunton no m�s passado ao dr. Leslie Armstrong, de Cambridge. Tirei-a do meio dos pap�is que estavam na mesa dele.</p><p>O doutor ficou vermelho de raiva.</p><p>� N�o creio que haja qualquer motivo para dar-lhe uma explica��o, sr. Holmes.</p><p>Holmes recolocou a conta em seu caderninho de anota��es. � Se prefere uma explica��o em p�blico, ela vir� mais cedo ou mais tarde � disse. � J� lhe disse que posso abafar o que os outros poderiam publicar, e o senhor seria mais sensato se confiasse em mim.</p><p>� N�o sei nada sobre isso.</p><p>� Teve not�cias do sr. Staunton de Londres?</p><p>� Certamente que n�o.</p><p>� Meu Deus, meu Deus; o correio de novo! � Holmes suspirou, entediado. � Um telegrama muito urgente foi despachado para o senhor de Londres por Godfrey Staunton, �s 18:15h de ontem � um telegrama que est� sem d�vida associado ao desaparecimento dele � e mesmo assim n�o ouviu falar dele. Isto � bastante conden�vel. Com certeza irei � delegacia daqui e registrarei uma queixa.</p><p>O dr. Leslie Armstrong pulou da sua cadeira, e seu rosto sombrio estava crispado de f�ria.</p><p>� Pedirei que saia de minha casa, senhor � disse. � Pode dizer ao seu patr�o, lorde Mount-James, que n�o quero ter nada a ver com ele ou com seus agentes. N�o, senhor � nem mais uma palavra! � Tocou a campainha furiosamente. � John, mostre a sa�da a esses cavalheiros! � Um mordomo pomposo levou-nos rapidamente at� a porta, e nos vimos na rua. Holmes come�ou a rir.</p><p>� O dr. Leslie Armstrong com certeza � um homem de energia e car�ter � disse. � Ainda n�o vi um homem que, se dirigisse seus talentos para isso, fosse mais adequado para preencher a lacuna deixada pelo ilustre Moriarty. E agora, meu pobre Watson, aqui estamos n�s, abandonados e sem amigos nesta cidade nada hospitaleira, que n�o podemos deixar sem abandonar nosso caso. Este pequeno hotel bem em frente � casa de Armstrong � especialmente conveniente para as nossas necessidades. Se pedir um quarto de frente e comprar o que for necess�rio para a noite, terei tempo de fazer algumas investiga��es.</p><p>Mas essas poucas investiga��es acabaram demorando mais do que Holmes imaginara, porque ele s� voltou ao hotel quase 21 horas. Estava p�lido e desanimado, empoeirado, exausto e com fome. Uma sopa fria estava posta sobre a mesa, e quando suas necessidades foram satisfeitas e seu cachimbo foi aceso, sentiu-se pronto para adotar aquela vis�o meio c�mica e totalmente filos�fica que lhe era natural quando seus casos iam mal. O som das rodas de uma carruagem o fez se levantar e olhar pela janela. Uma carruagem e um par de cavalos pardos, sob a luz do lampi�o a g�s, pararam diante da porta do doutor.</p><p>� Ficou fora durante tr�s horas � disse Holmes �, saiu �s 18:30h e agora est� de volta. Isto d� um raio de uns 15 quil�metros, e ele faz isso uma, e ocasionalmente, duas vezes por dia.</p><p>� Coisa n�o muito incomum para um m�dico no exerc�cio da profiss�o.</p><p>� Mas Armstrong n�o � um m�dico praticante. � um professor e consultor, mas n�o liga para a cl�nica geral, que o distrai de seu trabalho liter�rio. Ent�o, por que faz estas viagens longas, que devem ser muito cansativas para ele, e quem � que visita?</p><p>� Seu cocheiro...</p><p>� Meu caro Watson, duvida de que foi a ele que perguntei primeiro? N�o sei se a causa foi sua pr�pria deprava��o, ou o est�mulo de seu patr�o, mas ele foi suficientemente rude para lan�ar o c�o contra mim. Mas nem o c�o nem o homem gostaram de minha bengala, e a incurs�o n�o deu em nada. As rela��es foram cortadas depois disso, e outras perguntas ficaram fora de quest�o. Tudo o que consegui eu soube por um nativo amig�vel no p�tio deste hotel. Foi ele quem me falou dos h�bitos do doutor e de suas viagens di�rias. Nesse instante, para confirmar suas palavras, a carruagem chegou � porta.</p><p>� N�o podia segui-la?</p><p>� Excelente, Watson! Voc� est� brilhante esta noite. De fato a id�ia passou pela minha cabe�a. Existe, como deve ter notado, uma loja de bicicletas ao lado do nosso hotel. Corri at� l�, aluguei uma bicicleta, e estava pronto para partir antes que a carruagem estivesse fora de minha vista. Rapidamente a alcancei, e ent�o, mantendo a discreta dist�ncia de mais ou menos 100 metros, acompanhei suas luzes at� estarmos quase fora da cidade. Percorremos um longo trecho na estrada do campo, quando um incidente um pouco mortificante ocorreu. A carruagem parou, o doutor saltou, caminhou com rapidez at� o lugar onde eu tamb�m havia parado,� me disse de uma maneira bem ir�nica que temia que a estrada fosse muito estreita, e que desejava que sua carruagem n�o impedisse a passagem de minha bicicleta. Nada teria sido mais admir�vel do que esta maneira de colocar as coisas. Passei imediatamente pela carruagem, e, continuando na estrada principal, pedalei por alguns quil�metros, depois parei num lugar conveniente para ver se a carruagem passaria. Mas n�o havia sinal dela, ficando evidente, portanto, que tinha entrado em uma das v�rias estradas secund�rias que eu havia notado. Pedalei de volta, mas de novo n�o vi sinal da carruagem, e agora, como percebe, ela voltou depois de mim. � claro que no in�cio eu n�o tinha nenhum motivo particular para ligar essas viagens ao desaparecimento de Godfrey Staunton, e estava apenas disposto a investig�-las com a justificativa de que tudo que se relaciona com o dr. Armstrong nos interessa no momento, mas agora que descobri que vigia atentamente qualquer pessoa que possa segui-lo nestas excurs�es, o caso passa a ser mais importante, e n�o ficarei satisfeito at� que o tenha esclarecido.</p><p>� Podemos segui-lo amanh�.</p><p>� Podemos? N�o � t�o f�cil quanto pensa. N�o est� familiarizado com o cen�rio dos campos de Cambridge, est�? N�o s�o adequados para algu�m se esconder. Todas estas terras pelas quais passei esta noite s�o t�o planas e limpas como a palma de sua m�o, e o homem que estamos seguindo n�o � nenhum bobo, como demonstrou claramente esta noite. Telegrafei a Overton, para que nos informe sobre qualquer novo acontecimento em Londres neste endere�o, e enquanto isso, s� podemos concentrar nossa aten��o no dr. Armstrong, cujo nome a prestativa jovem do correio permitiu-me ler no canhoto da mensagem urgente de Staunton. Ele sabe onde est� o rapaz � quanto a isso eu juro, e se ele sabe, ent�o deve ser culpa nossa se n�o conseguimos saber tamb�m. Por enquanto devemos admitir que o truque singular est� sob seu comando, e como sabe, Watson, n�o � meu costume deixar o jogo nesta situa��o.</p><p>Mesmo assim o dia seguinte n�o nos aproximou da solu��o do mist�rio. Um bilhete foi enviado ap�s o caf�-da-manh�, e Holmes o passou para mim com um sorriso.</p><empty-line/><p>Senhor [dizia]:</p><p>Posso lhe assegurar que est� perdendo tempo em seguir meus movimentos. Tenho, como descobriu na noite passada, uma janela na parte de tr�s de minha carruagem,� se quer um passeio de 30 quil�metros que o levar� de volta ao ponto de partida, precisa apenas me seguir. Enquanto isso, posso inform�-lo que me espionar n�o ajudar� de modo algum o sr. Godfrey Staunton, e estou convencido de que o melhor que pode fazer por aquele cavalheiro seria voltar imediatamente para Londres e dizer ao seu patr�o que � incapaz de encontr�-lo. Seu tempo em Cambridge certamente ser� desperdi�ado.</p><p>Cordialmente,</p><p>Leslie Armstrong</p><empty-line/><p>� Um antagonista declarado e honesto � esse doutor � disse Holmes. � Bem, ele excita minha curiosidade,� preciso realmente saber o que acontece antes de deix�-lo.</p><p>� A carruagem est� na porta dele agora � eu disse. � L� est� ele entrando nela. Vi que ele olhou para nossa janela ao fazer isso. Acha que devo tentar minha sorte com a bicicleta?</p><p>� N�o, n�o, meu caro Watson! Com todo o respeito pela sua arg�cia, n�o creio que seja um advers�rio para o ilustre doutor. Acho poss�vel chegar ao nosso objetivo por meio de algumas explora��es independentes que farei. Devo deix�-lo com seus pr�prios afazeres, pois o aparecimento de dois estranhos perguntadores numa cidadezinha sonolenta desperta mais mexericos do que eu gostaria. Sem d�vida vai descobrir algumas paisagens para entret�-lo nesta cidade vener�vel, e espero trazer um relato mais favor�vel antes do anoitecer.</p><p>Entretanto, uma vez mais meu amigo estava destinado a ficar desapontado. Voltou � noite, cansado e sem �xito.</p><p>� Tive um dia infrut�fero, Watson. Sabendo a dire��o em que o doutor costuma ir, passei o dia visitando todas as cidadezinhas daquele lado de Cambridge, comparando informa��es com taberneiros e outros estabelecimentos em que se sabe das not�cias locais. Percorri um bom peda�o. Chesterton, Histon, Waterbeach e Oakington foram explorados, e cada um deles foi decepcionante. O aparecimento di�rio de uma carruagem e uma parelha dificilmente deixaria de ser notado naquelas paragens sonolentas. O doutor marcou um ponto de novo. H� algum telegrama para mim?</p><p>� Sim, eu o abri. Aqui est�:</p><empty-line/><p>Pergunte por Pompey a Jeremy Dixon, Trinity College.</p><empty-line/><p>� N�o entendi.</p><p>� Oh, est� bem claro. � do nosso amigo Overton, e � em resposta a uma pergunta minha. Mandarei um bilhete ao sr. Jeremy Dixon, e ent�o n�o tenho d�vida de que nossa sorte vai mudar. Falando nisso, h� alguma not�cia sobre o jogo?</p><p>� Sim, o jornal vespertino local fez um excelente relato em sua �ltima edi��o. O Oxford ganhou por um gol e dois tries. A �ltima frase da descri��o diz:</p><empty-line/><p>A derrota dos Light Blues pode ser inteiramente atribu�da � lament�vel aus�ncia do craque internacional Godfrey Staunton, que foi sentida em todos os momentos do jogo. A falta de entrosamento entre a linha de three-quarter e sua fragilidade tanto no ataque como na defesa mais do que neutralizou os esfor�os de um time s�lido e diligente.</p><empty-line/><p>� Ent�o as previs�es do nosso amigo Overton estavam corretas � disse Holmes. � Pessoalmente estou de acordo com o dr. Armstrong,� futebol n�o est� no meu horizonte. Vou cedo para a cama hoje, porque estou prevendo que amanh� pode ser um dia cheio.</p><p>Fiquei horrorizado quando vi Holmes na manh� seguinte, pois estava sentado diante do fogo segurando sua fina seringa hipod�rmica. Associei aquele instrumento � �nica fraqueza de sua natureza, e temi o pior quando a vi cintilando em sua m�o. Ele riu ao ver minha express�o de afli��o e a deixou sobre a mesa.</p><p>� N�o, n�o, meu caro amigo, n�o h� motivo para alarme. Nesta ocasi�o n�o � um instrumento do mal, mas ser� a chave que desvendar� nosso mist�rio. Nesta seringa deposito todas as minhas esperan�as. Acabei de voltar de uma pequena expedi��o de reconhecimento, e tudo est� favor�vel. Tome um bom caf�-da-manh�, Watson, pois pretendo ficar na pista do dr. Armstrong hoje, e quando estiver nela n�o vou parar para descansar ou comer at� chegar � sua toca.</p><p>� Nesse caso � eu disse � seria melhor levar conosco nosso desjejum, pois ele est� saindo cedo. Sua carruagem j� est� esperando.</p><p>� N�o se preocupe. Deixe-o ir. Ele seria mais esperto se tomasse um caminho por onde eu n�o o pudesse seguir. Quando voc� tiver terminado, des�a comigo e eu o apresentarei a um detetive que � um grande especialista no trabalho que temos pela frente.</p><p>Quando descemos, segui Holmes at� o est�bulo, onde abriu a porta de uma esp�cie de jaula e libertou um cachorro malhado, atarracado, de orelhas ca�das, algo entre um beagle e um c�o de ca�a.</p><p>� Deixe-me apresent�-lo a Pompey � disse. � Pompey � o orgulho dos farejadores locais � n�o muito veloz, como sua constitui��o mostrar�, mas um c�o seguro numa pista. Bem, Pompey, voc� pode n�o ser veloz, mas acho que ser� r�pido demais para uma dupla de cavalheiros de meia-idade de Londres, de modo que tomarei a liberdade de atar esta tira de couro em sua coleira. Agora, garoto, venha e mostre o que pode fazer. � Levou-o at� o port�o da casa do doutor. O c�o farejou por um instante, e depois, com uivo agudo de excita��o, correu pela rua, puxando a tira de couro, em seu esfor�o para andar mais depressa. Em meia hora est�vamos fora da cidade,� correndo por uma estrada do campo.</p><p>� O que fez, Holmes? � perguntei.</p><p>� Um ardil batido e vener�vel, mas �til nesta ocasi�o. Fui at� o p�tio do doutor esta manh� e esvaziei minha seringa cheia de erva-doce na roda traseira. Um farejador seguir� a erva-doce daqui at� a China, e nosso amigo, Armstrong, teria que atravessar um rio para tirar Pompey de sua pista. Oh, o patife esperto! Foi assim que me despistou naquela noite.</p><p>O cachorro saiu de repente da estrada principal e entrou numa pastagem. Meio quil�metro adiante havia outra estrada larga, e a trilha virava para a direita, em dire��o � cidade que acab�ramos de deixar. A estrada fazia uma curva para o sul da cidade e continuava no sentido oposto ao daquele de onde partimos.</p><p>� Este d�tour foi inteiramente para nosso benef�cio, ent�o? � disse Holmes. � N�o admira que minhas perguntas aos habitantes dos lugarejos n�o tenham dado em nada. O doutor com certeza jogou com vontade, e gostaria de saber o motivo de um disfarce t�o elaborado. Esta deve ser a vila de Trumpington, � nossa direita. E, por Deus! A� est� a carruagem fazendo aquela curva. R�pido, Watson � r�pido, ou estamos perdidos!</p><p>Pulou um port�o para dentro de um campo, puxando o relutante Pompey atr�s dele. Mal nos escond�ramos atr�s de uma sebe quando a carruagem passou. Vi o dr. Armstrong l� dentro, os ombros curvados, a cabe�a escondida nas m�os, a pr�pria imagem da ang�stia. Eu podia perceber pela express�o grave do meu amigo que ele tamb�m tinha visto.</p><p>� Temo que haja algum fim sombrio para a nossa busca � disse. � N�o levar� muito tempo at� sabermos. Venha, Pompey! Ah, � o chal� no campo!</p><p>N�o havia d�vida de que t�nhamos chegado ao fim da nossa jornada. Pompey corria e uivava impacientemente do lado de fora do port�o, onde as marcas das rodas da carruagem ainda eram vis�veis. Uma trilha ia at� a entrada do chal� isolado. Holmes amarrou o c�o na sebe e corremos para l�. Meu amigo bateu na portinha r�stica duas vezes sem obter resposta. Ainda assim o chal� n�o estava vazio, pois um som baixo chegava aos nossos ouvidos � uma esp�cie de murm�rio de afli��o e desespero que era indescritivelmente melanc�lico. Holmes parou, indeciso,� ent�o olhou para a estrada que acabara de atravessar. Uma carruagem estava chegando, e ele reconheceu aqueles cavalos pardos.</p><p>� Por Deus, o doutor est� voltando! � exclamou Holmes. � Isso esclarece tudo. Estamos prestes a ver o que significa, antes que ele chegue.</p><p>Abriu a porta e entramos no sagu�o. O murm�rio soava alto em nossos ouvidos at� que se tornou um longo e profundo lamento de ang�stia. Vinha l� de cima. Holmes subiu correndo, e eu o segui. Empurrou uma porta meio fechada, e n�s dois paramos estarrecidos diante do que vimos.</p><p>Uma mulher, jovem e bonita, estava morta sobre a cama. Seu rosto calmo, com os olhos azuis opacos bem abertos, olhava para cima, por entre uma grande confus�o de cabelos dourados. Aos p�s da cama, meio sentado, meio ajoelhado, o rosto coberto pelas roupas, estava um rapaz, cujo corpo sacudia-se violentamente com seus solu�os. Estava t�o mergulhado em sua grande dor que n�o olhou para cima, at� que a m�o de Holmes pousou em seu ombro.</p><p>� � o sr. Godfrey Staunton?</p><p>� Sim, sim, sou eu � mas voc�s est�o muito atrasados. Ela est� morta.</p><p>O homem estava t�o atordoado que n�o conseguimos convenc�-lo de que n�o �ramos m�dicos mandados em seu aux�lio. Holmes tentava dizer algumas palavras de consolo e explicar o alarme que seu s�bito desaparecimento provocou nos amigos dele quando ouvimos passos na escada, e surgiu � porta o rosto maci�o e austero do dr. Armstrong.</p><p>� Ent�o, cavalheiros � disse �, chegaram ao seu destino e com certeza escolheram um momento particularmente delicado para sua� intromiss�o. N�o brigaria na presen�a da morte, mas lhes asseguro que se eu fosse mais mo�o, sua conduta monstruosa n�o ficaria impune.</p><p>� Desculpe-me, dr. Armstrong, creio que h� um mal-entendido � disse meu amigo, com dignidade. � Se quiser descer conosco, acho que cada um de n�s poder� esclarecer ao outro alguma coisa sobre este caso infeliz.</p><p>Um minuto depois, n�s e o m�dico carrancudo est�vamos na sala de estar, no andar de baixo.</p><p>� E ent�o, senhor? � ele perguntou.</p><p>� Gostaria que compreendesse, em primeiro lugar, que n�o estou contratado por lorde Mount-James, e que minhas simpatias nesse assunto s�o inteiramente contra o nobre. Quando um homem desaparece, � meu dever descobrir seu paradeiro, mas, depois de fazer isso, o caso termina no que me diz respeito, e desde que n�o haja nada de criminoso, fico muito mais ansioso para evitar esc�ndalos p�blicos do que para lhes dar publicidade. Se, como imagino, n�o h� nenhuma infra��o da lei neste caso, pode confiar totalmente na minha discri��o e na minha coopera��o para manter os fatos longe dos jornais.</p><p>O dr. Armstrong deu um passo r�pido � frente e apertou a m�o de Holmes.</p><p>� O senhor � um bom sujeito � disse. � Julguei-o mal. Gra�as aos c�us o meu escr�pulo em deixar o pobre Staunton sozinho nessa situa��o me fez voltar e, assim, conhecer o senhor. Sabendo tanto quanto o senhor sabe, a situa��o pode ser explicada muito facilmente. Um ano atr�s, Godfrey Staunton hospedou-se em Londres por algum tempo, e apaixonou-se pela filha da senhoria, com quem se casou. Era t�o boa quanto bonita, e t�o inteligente quanto boa. Nenhum homem se envergonharia de uma esposa assim. Mas Godfrey era o herdeiro desse velho nobre rabugento, e estava certo de que a not�cia de seu casamento seria o fim de sua heran�a. Eu conhecia bem o rapaz, e o amava por suas excelentes qualidades. Fiz tudo o que pude para ajud�-lo a manter as coisas em ordem. Fizemos o poss�vel para ocultar o fato de todos, pois quando um rumor desses corre por a�, n�o demora muito para que todos fiquem sabendo. Gra�as a este chal� isolado e � sua pr�pria discri��o, Godfrey foi bem-sucedido at� agora. Ningu�m conhecia o segredo deles, a n�o ser eu e um excelente criado, que no momento foi a Trumpington buscar ajuda. Mas, por fim, houve um golpe terr�vel, sob a forma de uma perigosa doen�a de sua esposa. Era uma tuberculose pulmonar do tipo mais virulento. O pobre garoto ficou quase louco de dor, e mesmo assim tinha de ir a Londres para aquele jogo, pois n�o podia deixar de jogar sem explica��es que revelariam seu segredo. Tentei consol�-lo com o telegrama, e ele me mandou um em resposta, implorando-me para fazer tudo o que pudesse. Este era o telegrama que o senhor parece ter visto, de uma maneira inexplic�vel. N�o contei a ele sobre a urg�ncia da situa��o, pois sabia que n�o poderia fazer nada aqui, mas contei a verdade para o pai da mo�a e ele, muito injustificadamente, a comunicou a Godfrey. O resultado � que ele veio direto para c� num estado de quase del�rio, e tem ficado nesse mesmo estado, ajoelhado aos p�s da cama dela, at� que esta manh� a morte p�s um fim aos sofrimentos dela. Isto � tudo, sr. Holmes, e tenho certeza de que posso confiar na sua discri��o e na do seu amigo.</p><p>Holmes apertou a m�o do m�dico.</p><p>� Venha, Watson � ele disse, e sa�mos daquela casa de luto para a p�lida luz do sol de um dia de inverno.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura de abbey grange</strong></p><p>Foi numa manh� gelada, depois de uma noite de frio cortante, no final do inverno de 1897, que fui acordado por uma batida em meu ombro. Era Holmes. A vela em sua m�o iluminava seu rosto ansioso e ele me revelou num olhar que havia algo errado.</p><p>� Venha, Watson, venha! � exclamou. � O jogo est� em andamento. Nem uma palavra! Vista-se e venha!</p><p>Dez minutos depois est�vamos num cabriol�, passando pelas ruas silenciosas a caminho da esta��o de Charing Cross. Os primeiros e fracos raios do sol de inverno come�avam a aparecer, e pod�amos ver vagamente as silhuetas ocasionais de algum oper�rio madrugador ao passar por n�s, borrado e indistinto no opalescente nevoeiro de Londres. Holmes aconchegou-se em seu casaco grosso, e eu fiquei contente por fazer a mesma coisa, porque o ar estava muito gelado, e nenhum de n�s</p><p>havia quebrado o jejum.</p><p>S� depois de ter tomado um pouco de ch� quente na esta��o e ocupado nossos lugares no trem de Kent, ficamos suficientemente dispostos, ele para falar e eu para ouvir. Holmes tirou um bilhete do bolso e o leu em voz alta:</p><empty-line/><p>Abbey Grange, Marsham, Kent,</p><p>3:30h.</p><empty-line/><p>Meu caro sr. Holmes:</p><p>Estaria muito agradecido por sua ajuda imediata no que promete ser um caso bastante not�vel. � algo da sua especialidade. A n�o ser pelo fato de liberar a dama, cuidarei para que tudo seja mantido exatamente como encontrei, mas imploro-lhe que n�o perca um instante, pois � dif�cil manter sir Eustace l�.</p><p>Cordialmente,</p><p>Stanley Hopkins.</p><empty-line/><p>� Hopkins j� me chamou sete vezes, e em cada ocasi�o seus apelos foram inteiramente justificados � disse Holmes. � Aposto como cada um dos casos dele j� foi para a sua cole��o, e devo admitir, Watson, que voc� tem uma certa capacidade de sele��o, que compensa muita coisa que eu deploro em suas narrativas. Seu h�bito desastroso de olhar para tudo sob o ponto de vista de uma hist�ria e n�o de um exerc�cio cient�fico arruinou o que poderia ter sido uma s�rie de demonstra��es instrutivas e at� mesmo cl�ssicas. Voc� omite um trabalho da maior fineza e delicadeza, a fim de se estender em detalhes sensacionais que podem excitar, mas provavelmente n�o podem instruir o leitor.</p><p>� Por que voc� mesmo n�o os escreve? � perguntei com azedume.</p><p>� Escreverei, meu caro Watson, escreverei. No momento, como sabe, estou muito ocupado, mas pretendo dedicar meus �ltimos anos � prepara��o de um livro que ir� enfocar toda a arte da investiga��o em um volume. Nossa pesquisa atual parece ser um caso de assassinato.</p><p>� Acha ent�o que sir Eustace est� morto?</p><p>� Eu diria isso. A caligrafia de Hopkins revela muita agita��o, e ele n�o � um homem emotivo. Sim, creio que houve viol�ncia, e que o corpo foi deixado para nossa inspe��o. Um mero suic�dio n�o faria com que ele me chamasse. Quanto � libera��o da dama, parece que estava trancada em seu quarto durante a trag�dia. Estamos lidando com a alta sociedade, Watson, papel crepitante, monograma �E.B.�, bras�o de armas, endere�o pitoresco. Creio que o amigo Hopkins vai se manter � altura de sua reputa��o, e que teremos uma manh� interessante. O crime foi cometido ontem, antes da meia-noite.</p><p>� Como pode afirmar?</p><p>� Pela verifica��o dos trens, e calculando os hor�rios. A pol�cia local tinha de ser chamada, eles tinham de se comunicar com a Scotland Yard, Hopkins tinha de sair, e ele, por sua vez, teve de me chamar. Tudo isto ocupa uma noite de trabalho. Bem, aqui estamos na esta��o Chiselhurst, e logo tiraremos nossas d�vidas.</p><p>Uma viagem de alguns quil�metros por caminhos estreitos do campo nos levou at� o port�o de um parque, que foi aberto por um velho porteiro, cuja face crispada refletia algum grande desastre. A avenida atravessava um parque imponente, entre filas de velhos olmos, e terminava numa casa grande e baixa, com colunas na frente, em estilo paladiano. A ala central,� evidentemente, era muito antiga e coberta de musgo, mas as grandes janelas mostravam que tinham sido feitas reformas recentes, e uma ala da casa parecia ser inteiramente nova. A figura jovem e o rosto atento e ansioso do inspetor Stanley Hopkins nos esperavam na porta aberta.</p><p>� Estou grato por ter vindo, sr. Holmes. E o senhor tamb�m, dr. Watson. Mas, na verdade, se pudesse voltar no tempo, n�o os teria incomodado, pois desde que a dama voltou a si, relatou o caso de maneira t�o clara que n�o nos restou muita coisa a fazer. Lembra-se daquela gangue de assaltantes de Lewisham?</p><p>� Qual, os tr�s Randalls?</p><p>� Exatamente; o pai e dois irm�os. � trabalho deles. N�o tenho d�vida. Fizeram um trabalho em Sydenham h� 15 dias, foram vistos e descritos. Muito frios para fazer outro t�o depressa e t�o perto, mas foram eles, sem a menor d�vida. � caso para enforcamento desta vez.</p><p>� Ent�o sir Eustace est� morto?</p><p>� Sim, sua cabe�a foi golpeada com seu pr�prio ati�ador de lareira.</p><p>� Sir Eustace Brackenstall, disse-me o motorista.</p><p>� Exato � um dos homens mais ricos de Kent. � Lady Brackenstall se encontra na sala de estar. Pobre senhora, passou por uma experi�ncia terr�vel. Parecia quase morta, quando a vi pela primeira vez. Acho que � melhor voc�s irem at� l� para ouvir o seu relato dos fatos. Depois examinaremos juntos a sala de jantar.</p><p>Lady Brackenstall n�o era uma pessoa comum. Raras vezes vi uma figura t�o graciosa, uma presen�a t�o feminina e um rosto mais bonito. Era loura, cabelos dourados, olhos azuis e sem d�vida teria a complei��o perfeita que combina essas cores, n�o fossem os acontecimentos recentes que a deixaram abatida e tensa. Seus sofrimentos eram t�o f�sicos como mentais, porque sobre um dos olhos aparecia uma horr�vel incha��o roxa, que sua criada, uma mulher alta e austera, molhava o tempo todo com vinagre e �gua. A dama estava deitada, exausta, num sof�, mas seu olhar r�pido e observador, quando entramos no aposento, e a express�o atenta de suas fei��es bonitas mostravam que nem seu ju�zo nem sua coragem tinham sido abalados por sua terr�vel experi�ncia. Vestia um roup�o folgado azul e prata, mas um vestido de noite preto, bordado com vidrilhos, estava a seu lado no sof�.</p><p>� J� lhe contei tudo o que aconteceu, sr. Hopkins � disse ela, cansada. � O senhor n�o poderia repeti-lo por mim? Bem, se acha necess�rio, direi a estes cavalheiros o que ocorreu. Eles j� estiveram na sala de jantar?</p><p>� Achei que seria melhor que ouvissem primeiro a hist�ria contada pela senhora.</p><p>� Ficarei satisfeita quando conseguirem solucionar as coisas. � horr�vel para mim pensar nele ainda estendido l�. � Ela estremeceu e enterrou o rosto nas m�os. Ao fazer isso, as mangas do roup�o largo deslizaram, deixando � mostra seus antebra�os. Holmes soltou uma exclama��o.</p><p>� A senhora tem outros ferimentos, madame! O que � isso? � Duas marcas bem vermelhas apareciam num dos bra�os brancos e roli�os. Ela o cobriu rapidamente.</p><p>� N�o � nada. N�o tem nenhuma liga��o com este neg�cio horrendo desta noite. Se o senhor e seu amigo se sentarem, eu lhes contarei tudo o que puder.</p><p>� Sou a esposa de sir Eustace Brackenstall. Estive casada durante um ano, mais ou menos. Acho que n�o adianta tentar esconder que nosso casamento n�o era feliz. Receio que todos os nossos vizinhos lhe digam isso, mesmo que eu tentasse negar. Talvez a culpa em parte fosse minha. Fui educada na atmosfera mais livre e menos convencional do sul da Austr�lia, e esta vida inglesa, com suas formalidades e sua rigidez, n�o � adequada para mim. Mas o motivo principal est� no fato, conhecido de todos, de que sir Eustace era um b�bado inveterado. Estar com um homem assim durante uma hora � desagrad�vel. Pode imaginar o que significa, para uma mulher sens�vel e decidida, estar presa a ele noite e dia? � um sacril�gio, um crime, uma inf�mia dizer que um casamento assim � obrigat�rio. Digo que estas suas leis monstruosas atrair�o uma maldi��o sobre a terra � Deus n�o permitir� que essa perversidade continue. � Por um momento ela se sentou, ruborizada, e seus olhos brilhavam abaixo da terr�vel marca na sobrancelha. Depois a m�o forte e suave da criada austera acomodou sua cabe�a na almofada, e o �dio selvagem transformou-se num solu�o impetuoso. Por fim continuou:</p><p>� Eu lhes contarei sobre a noite passada. Talvez os senhores saibam que nesta casa todos os criados dormem na ala nova. Este bloco central inclui os aposentos principais, com a cozinha nos fundos e nosso quarto em cima. Minha criada, Theresa, dorme no quarto acima do meu. N�o h� mais ningu�m, e nenhum som poderia alertar aqueles que est�o na ala mais distante. Os ladr�es deviam saber disso, ou n�o teriam agido do modo como fizeram.</p><p>� Sir Eustace foi para o quarto por volta de 22:30h. Os criados j� tinham se retirado para seus aposentos. Apenas minha empregada estava de p�, e permanecia em seu quarto no alto da casa at� que eu precisasse de seus servi�os. Fiquei sentada neste quarto at� depois das 23 horas, entretida com um livro. Ent�o dei uma volta para ver se tudo estava em ordem antes de subir. Era meu costume fazer isso pessoalmente, pois, como j� expliquei, nem sempre era poss�vel confiar em sir Eustace. Entrei na cozinha, na copa, na sala de armas, sala de bilhar, sala de visitas, e, finalmente, na sala de jantar. Ao me aproximar da janela, coberta com cortinas grossas, senti de repente o vento soprar no meu rosto, e percebi que estava aberta. Puxei a cortina para o lado e me vi cara a cara com um homem idoso de ombros largos, que acabara de entrar na sala. A janela � grande, do tipo porta-janela, que na verdade � uma porta que d� para o jardim. Estava segurando a vela do quarto acesa e, com sua luz, vi atr�s do homem dois outros, prestes a entrar. Dei um passo para tr�s, mas o sujeito me alcan�ou num instante. Segurou-me primeiro pelo pulso e depois pela garganta. Abri a boca para gritar, mas ele me deu um golpe violento com o punho no olho e me derrubou no ch�o. Devo ter ficado inconsciente por alguns minutos porque, quando voltei a mim, descobri que haviam cortado a corda da campainha, e me amarrado bem firme � cadeira de carvalho que fica na cabeceira da mesa de jantar. Estava t�o firmemente atada que n�o podia me mover, e um len�o em minha boca me impedia de emitir qualquer som. Foi nesse instante que meu marido entrou na sala. Evidentemente ouvira algum som suspeito e veio preparado para a cena que encontrou. Estava vestido com uma camisa de dormir e cal�as, com seu porrete favorito, de ameixeira brava, na m�o. Arremeteu contra os assaltantes, mas um outro � era o velho � abaixou-se, pegou o ati�ador da lareira e deu-lhe uma pancada horr�vel ao passar por ele. Caiu com um gemido e n�o se moveu mais. Desmaiei de novo, mas deve ter sido tamb�m por apenas alguns minutos, durante os quais estive insens�vel. Quando abri os olhos, descobri que haviam recolhido a prataria do aparador e bebido uma garrafa de vinho que ficava l�. Cada um deles tinha uma garrafa na m�o. J� lhes disse, creio, que um era idoso, com uma barba, e os outros jovens, calvos. Devem ser o pai e seus dois filhos. Conversaram entre eles, sussurrando. Depois se aproximaram e se certificaram de que eu estava bem presa. Finalmente, foram embora, fechando a janela atr�s deles. Quase 15 minutos depois consegui arrancar o len�o da boca. Quando fiz isso, meus gritos atra�ram a criada. Os outros criados foram logo avisados e enviados para chamar a pol�cia local, que na mesma hora informou Londres. Isto � realmente tudo o que posso lhes contar, cavalheiros, e espero que n�o seja necess�rio repetir essa hist�ria t�o dolorosa mais uma vez.</p><p>� Alguma pergunta, sr. Holmes? � disse Hopkins.</p><p>� N�o vou impor mais nenhum sacrif�cio � paci�ncia e ao tempo de Lady Brackenstall � disse Holmes. � Antes de ir para a sala de jantar, gostaria de ouvir sua experi�ncia. � Olhou para a criada.</p><p>� Eu vi os homens antes de eles entrarem na casa � disse. � Quando estava sentada � janela do meu quarto, vi tr�s homens � luz do luar, perto do port�o da casa do porteiro, mas n�o pensei em nada naquele momento. Mais de uma hora depois ouvi minha patroa gritar e corri para baixo, para encontr�-la, pobre cordeirinho, exatamente como ela diz, e ele no ch�o, com sangue e miolos espalhados pelo quarto. Era o suficiente para deixar uma mulher fora de si, amarrada ali, e seu pr�prio vestido manchado, mas nunca lhe faltou coragem, desde que era a srta. Mary Fraser, de Adelaide, e Lady Brackenstall, de Abbey Grange, de fato n�o aprendeu novos caminhos. J� a interrogaram por muito tempo, cavalheiros, e agora ela vai para seu pr�prio quarto, com sua velha Theresa, para ter o descanso de que tanto precisa.</p><p>Com delicadeza maternal, a mulher magra colocou o bra�o ao redor de sua patroa e a conduziu para fora do aposento.</p><p>� Esteve com ela a vida inteira � disse Hopkins. � Cuidou dela quando beb�, e veio para a Inglaterra quando sa�ram da Austr�lia pela primeira vez, h� 18 meses. O nome dela � Theresa Wright, e � do tipo de criada que n�o se encontra mais hoje em dia. Por aqui, sr. Holmes, por favor!</p><p>O interesse profundo desaparecera do rosto expressivo de Holmes, e eu sabia que, junto com o mist�rio, todo o encanto do caso havia sumido. Ainda faltava efetuar uma pris�o, mas o que eram esses patifes vulgares para que ele sujasse suas m�os com eles? Um especialista impenetr�vel e culto que descobre ter sido chamado para um caso de sarampo experimentaria um pouco da irrita��o que eu lia nos olhos do meu amigo. Ainda assim a cena na sala de jantar de Abbey Grange era suficientemente estranha para atrair sua aten��o e reacender seu interesse, que minguava.</p><p>Era um aposento amplo e alto, com um teto de carvalho esculpido, com pain�is tamb�m de carvalho, e uma �tima cole��o de cabe�as de cervos e armas antigas nas paredes. Ao fundo estava a porta-janela da qual j� ouv�ramos falar. Tr�s janelas menores no lado direito enchiam o aposento com o frio sol de inverno. � esquerda havia uma lareira larga e funda, com um consolo de carvalho maci�o. Ao lado da lareira estava uma pesada cadeira de carvalho, com bra�os e barras transversais na parte debaixo. De um lado e de outro da pe�a de madeira trabalhada e vazada havia uma corda avermelhada, amarrada em cada lado da madeira cruzada embaixo. Quando a dama foi libertada, a corda tinha sido tirada dela, mas os n�s que foram feitos ainda estavam l�. Estes detalhes s� chamaram nossa aten��o depois, pois nossos pensamentos estavam totalmente concentrados no terr�vel objeto que jazia sobre o tapete de pele de tigre diante da lareira.</p><p>Era o corpo de um homem alto, de boa complei��o, cerca de 40 anos de idade. Estava deitado de costas, o rosto para cima, com os dentes brancos brilhando por entre a barba curta e preta. Suas duas m�os fechadas erguiam-se acima da cabe�a e um porrete pesado estava ao seu lado. Suas fei��es morenas, bonitas e aquilinas estavam contorcidas num espasmo de �dio vingativo, que deu ao seu rosto de morto uma terr�vel express�o demon�aca. Estivera obviamente em sua cama quando o alarme fora dado, pois vestia um camisol�o rid�culo, bordado, e seus p�s descal�os projetavam-se das cal�as. Sua cabe�a estava terrivelmente machucada, e toda a sala era testemunha da ferocidade do golpe que o abatera. Ao seu lado achava-se o pesado ati�ador, entortado pelo golpe. Holmes examinou o objeto e a indescrit�vel destrui��o que causara.</p><p>� Deve ser um homem forte, esse velho Randall � notou.</p><p>� Sim � disse Hopkins. � Tenho alguns registros do sujeito, e ele � um indiv�duo desordeiro.</p><p>� Voc� n�o dever� ter dificuldades para peg�-lo.</p><p>� Nem um pouco. Estivemos procurando por ele, e h� ind�cios de que fugiu para os Estados Unidos. Agora que sabemos que a gangue est� aqui, n�o vejo como eles possam escapar. J� espalhamos a not�cia em todos os portos, e uma recompensa ser� oferecida antes do anoitecer. O que me intriga � terem feito algo t�o louco, sabendo que a dama poderia descrev�-los e que n�o deixar�amos de reconhecer a descri��o.</p><p>� Exato. Era de se esperar que tivessem silenciado lady Brackenstall tamb�m.</p><p>� Talvez n�o tenham percebido � sugeri � que ela se recobrara do desmaio.</p><p>� � prov�vel. Se ela parecia sem sentidos, n�o lhe tirariam a vida. E quanto a este pobre sujeito, Hopkins? Ouvi algumas hist�rias estranhas sobre ele.</p><p>� Era um homem de bom cora��o quando estava s�brio, mas um perfeito dem�nio quando estava b�bado, ou mesmo meio b�bado, pois raras vezes o ficava inteiramente. O diabo parecia encarnar nele nessas ocasi�es, e ele era capaz de tudo. Pelo que ouvi, apesar de sua riqueza e do t�tulo, quase veio parar na pol�cia uma ou duas vezes. Houve um esc�ndalo por ter embebido um c�o em petr�leo e ateado fogo no animal � o c�o de sua esposa, para piorar as coisas � e s� foi contido com dificuldade. Depois jogou uma garrafa na criada, Theresa Wright � houve uma confus�o a respeito disso. Em resumo, e aqui entre n�s, ser� uma casa mais alegre sem ele. O que est� olhando agora?</p><p>Holmes estava ajoelhado, examinando com grande aten��o os n�s na corda vermelha com que a mulher fora amarrada. Depois, observou cuidadosamente</p><p>a ponta cortada e esfiapada no lugar em que havia sido partida quando o ladr�o a puxou para baixo.</p><p>� Quando isto foi puxado, a campainha da cozinha deve ter tocado bem alto � observou.</p><p>� Ningu�m podia ouvi-la. A cozinha fica bem nos fundos da casa.</p><p>� Como � que o ladr�o poderia saber que ningu�m a ouviria? Como ousou puxar a corda da campainha de uma maneira t�o imprudente?</p><p>� Exato, sr. Holmes, exato. Tocou na pergunta que fiz a mim mesmo v�rias vezes. N�o h� d�vida de que esse sujeito conhecia a casa e seus h�bitos. Devia saber perfeitamente bem que todos os criados estariam em suas camas �quela hora, relativamente cedo, e que ningu�m ouviria a campainha tocar na cozinha. Portanto, devia estar em contato com um dos criados. Isto � evidente. Mas s�o oito criados e todos de �timo car�ter.</p><p>� Se outros fatores s�o iguais � disse Holmes �, suspeitar�amos daquela em cuja cabe�a o patr�o jogou uma garrafa. Mesmo assim, isso significaria trair a patroa a quem essa mulher parece t�o dedicada. Ora, ora, isto � o de menos, e quando pegar Randall, provavelmente n�o encontrar� dificuldades para agarrar seus c�mplices. A hist�ria da dama parece ser confirmada, se � que precisa de confirma��o, por todos os detalhes que vemos diante de n�s. � Foi at� a porta-janela e a abriu. � N�o h� marcas aqui, mas o ch�o est� duro como ferro, e ningu�m esperaria que houvesse marcas. Vejo que as velas do consolo foram acesas.</p><p>� Sim, foi com a luz delas, e com a da vela do quarto da dama, que os ladr�es enxergaram o caminho dentro da casa.</p><p>� E o que eles levaram?</p><p>� Bem, n�o levaram muita coisa � apenas meia d�zia de objetos de prata do aparador. Lady Brackenstall acha que eles pr�prios estavam t�o perturbados com a morte de sir Eustace que n�o saquearam a casa, como normalmente teriam feito.</p><p>� Sem d�vida isso � verdade, e mesmo assim beberam vinho, eu acho.</p><p>� Para relaxar os nervos.</p><p>� Exatamente. Estes tr�s copos no aparador n�o foram tocados, suponho?</p><p>� Sim, e a garrafa est� como a deixaram.</p><p>� Vamos dar uma olhada nela. Ora, ora! O que � isso?</p><p>Os tr�s copos estavam juntos, todos eles com marcas de vinho, e um deles contendo res�duos da pel�cula que se forma na superf�cie do vinho velho. A garrafa estava perto deles, com 2/3 de bebida, e ao seu lado havia uma rolha comprida e muito manchada. Sua apar�ncia e a poeira sobre a garrafa mostravam que n�o era de vinho comum que os assassinos gostavam.</p><p>O comportamento de Holmes tinha mudado. Sua express�o indiferente desaparecera, e eu via novamente um brilho de interesse em seus olhos penetrantes e fundos. Levantou a rolha e examinou-a atentamente.</p><p>� Como a tiraram? � perguntou.</p><p>Hopkins apontou para uma gaveta meio aberta. Dentro havia toalhas de mesa e um grande saca-rolhas.</p><p>� Lady Brackenstall disse que o saca-rolhas foi usado?</p><p>� N�o, lembre-se de que ela estava sem sentidos no momento em que a garrafa foi aberta.</p><p>� Exato. Para falar a verdade, o saca-rolhas n�o foi usado. Esta garrafa foi aberta com um saca-rolhas de bolso, provavelmente de um canivete, que n�o tinha mais do que uns 4 cent�metros de comprimento. Se examinar o alto da rolha, vai observar que o saca-rolhas foi colocado tr�s vezes antes de extra�-la. Ela jamais foi trespassada. Este saca-rolhas comprido a teria trespassado e extra�do com um �nico pux�o. Quando agarrar esse sujeito, vai descobrir que ele tem um desses canivetes m�ltiplos em seu poder.</p><p>� Excelente! � disse Hopkins.</p><p>� Mas essas garrafas me intrigam, confesso. Lady Brackenstall viu realmente os tr�s homens bebendo, n�o?</p><p>� Sim, ela foi clara nesse ponto.</p><p>� Ent�o isso � o final. O que h� mais para ser dito? E ainda assim, deve admitir que os tr�s copos s�o not�veis, Hopkins. O qu�? N�o v� nada de not�vel? Ora, ora, deixe estar. Talvez, quando um homem tem conhecimento e poderes especiais como os meus, isso o estimula a procurar uma explica��o complexa quando uma mais simples est� ao seu alcance. � claro que pode ser simples casualidade, quanto �s garrafas. Bem, bom-dia, Hopkins, n�o creio que possa ser �til a voc�, e parece que seu caso � muito claro. Avise-me quando Randall for preso, e sobre outras novidades que possam ocorrer. Acredito que logo teremos de congratul�-lo por uma conclus�o bem-sucedida. Venha, Watson, acho que podemos nos dedicar a coisas mais proveitosas em casa.</p><p>Durante nossa viagem de volta eu podia ver pelo rosto de Holmes que ele estava muito intrigado com algo que observara. De vez em quando, com esfor�o, conseguia afastar a impress�o e conversar como se o caso estivesse claro, mas depois as d�vidas lhe voltavam, e suas sobrancelhas carregadas e olhos absortos mostravam que seus pensamentos iam de novo para a grande sala de jantar de Abbey Grange, na qual esta trag�dia noturna ocorrera. Por fim, num impulso repentino, quando nosso trem estava saindo de uma esta��o suburbana, ele pulou para a plataforma e me puxou para fora atr�s dele.</p><p>� Desculpe-me, meu caro amigo � disse ele enquanto olh�vamos os �ltimos vag�es do nosso trem desaparecendo numa curva �, sinto fazer de voc� a v�tima do que pode parecer um mero capricho, mas por minha vida, Watson, eu simplesmente n�o posso deixar o caso nessa situa��o. Todos os meus instintos protestam contra isso. Est� errado � est� tudo errado �, juro que est� errado. E ainda assim a hist�ria da dama estava completa, a confirma��o da criada foi suficiente, o detalhe era preciso. O que tenho para contestar isso? Tr�s copos de vinho, isso � tudo. Mas se eu n�o tivesse dado as coisas como certas, se tivesse conferido tudo com o cuidado que deveria ter demonstrado, ter�amos abordado o caso de novo, e se n�o tivesse nenhuma hist�ria estereotipada para torcer minhas id�ias, ser� que eu n�o teria descoberto algo mais definido com o qual pudesse continuar? � claro que teria. Sente-se neste banco, Watson, at� que chegue um trem para Chiselhurst, e permita-me mostrar-lhe o ind�cio, implorando-lhe primeiro que tire da cabe�a a id�ia de que tudo o que a criada ou sua patroa disseram tem necessariamente de ser verdade. A personalidade encantadora da dama n�o deve desvirtuar nosso julgamento.</p><p>� Com certeza existem detalhes na hist�ria dela que, se olharmos com sangue-frio, despertar�o nossa suspeita. Esses ladr�es tiveram um ganho consider�vel em Sydenham 15 dias atr�s. Algo sobre eles e suas fisionomias apareceu nos jornais, e naturalmente seriam lembrados por qualquer um que desejasse uma hist�ria em que ladr�es imagin�rios tomassem parte. Para falar a verdade, assaltantes que fizeram um bom ganho em seu neg�cio, em geral, ficam contentes em apenas desfrutar seu lucro em paz sem embarcar num outro empreendimento perigoso. Al�m disso, n�o � comum ladr�es agirem t�o cedo, n�o � comum golpearem uma dama para evitar que ela grite, j� que qualquer um imaginaria que este � o caminho certo para faz�-la gritar, � incomum cometerem assassinato quando o seu n�mero � suficiente para subjugar um homem, � incomum contentarem-se com uma pilhagem limitada quando havia muito mais ao seu alcance, e por fim, diria que foi muito estranho homens desse tipo deixarem uma garrafa meio vazia. Todos estes fatos pouco comuns n�o o impressionam, Watson?</p><p>� O efeito cumulativo deles com certeza � consider�vel, e mesmo assim cada um deles separadamente � bastante poss�vel. A coisa mais extraordin�ria de todas, ao que me parece, � que a mulher estivesse amarrada � cadeira.</p><p>� Bem, n�o estou muito convencido disso, Watson, pois � evidente que deveriam t�-la matado ou ent�o a amarrado de modo que n�o pudesse dar um alarme imediato da fuga deles. Mas de qualquer modo mostrei que h� um certo elemento de improbabilidade na hist�ria da dama, n�o �? E agora, al�m de tudo isso, vem o incidente com os copos de vinho.</p><p>� O que t�m os copos de vinho?</p><p>� Pode v�-los de mem�ria?</p><p>� Vejo-os claramente.</p><p>� Disseram-nos que tr�s homens beberam neles. Isto lhe parece prov�vel?</p><p>� Por que n�o? Havia vinho em cada copo.</p><p>� Exato. Mas s� havia borra em um deles. Deve ter notado o fato. O que isto lhe sugere?</p><p>� O �ltimo copo enchido tinha mais probabilidade de conter a borra.</p><p>� Nada disso. A garrafa estava cheia de borra e � inconceb�vel que os dois primeiros copos estivessem puros e o terceiro com muita borra. H� duas explica��es poss�veis, e apenas duas. Uma � que depois de ter sido enchido o segundo copo, a garrafa foi violentamente agitada, e assim o terceiro recebeu a borra. Isto n�o parece prov�vel. N�o, n�o, estou convencido de que estou certo.</p><p>� Ent�o, o que sup�e?</p><p>� Que apenas dois copos foram usados, e que os restos de ambos foram despejados no terceiro, para dar a falsa impress�o de que tr�s pessoas estiveram l�. Desse modo, toda a borra ficaria no �ltimo copo, n�o? Sim, estou convencido de que � isso. Mas se eu tiver encontrado a explica��o verdadeira deste pequeno fen�meno, ent�o num instante o caso passa do lugar-comum para o extraordin�rio, pois s� pode significar que lady Brackenstall e sua criada mentiram deliberadamente, que n�o se deve acreditar em nenhuma palavra da hist�ria delas, que t�m algum motivo muito forte para encobrir o verdadeiro criminoso, e que devemos imaginar o caso por nossa conta, sem qualquer ajuda delas. Esta � a miss�o que temos pela frente, e aqui, Watson, est� o trem de Sydenham.</p><p>O pessoal de Abbey Grange ficou muito surpreso com a nossa volta, mas Sherlock Holmes, descobrindo que Stanley Hopkins sa�ra para informar � chefatura, apossou-se da sala de jantar, trancou a porta por dentro e dedicou-se, durante duas horas, a uma daquelas investiga��es minuciosas e trabalhosas que formam a base s�lida sobre a qual suas brilhantes dedu��es se ap�iam. Sentado num canto como um estudante interessado que observa a demonstra��o do professor, acompanhei cada passo daquela pesquisa memor�vel. A porta-janela, o tapete, a cadeira, a corda � cada um deles foi examinado com cuidado e devidamente analisado. O corpo do infeliz baronete havia sido removido, e tudo o mais permanecia como v�ramos pela manh�. Finalmente, para meu assombro, Holmes subiu no maci�o consolo da lareira. Muito acima de sua cabe�a estavam pendurados alguns cent�metros da corda vermelha que ainda estavam atados ao fio. Durante muito tempo ficou olhando para ela, e depois, numa tentativa de chegar mais perto, apoiou o joelho numa prateleira de madeira na parede. Isto fez com que sua m�o ficasse a poucos cent�metros do peda�o partido da corda, mas n�o precisava tanto, pois era a pr�pria prateleira que parecia atrair sua aten��o. Por fim, pulou para o ch�o com uma exclama��o de contentamento.</p><p>� Est� tudo bem, Watson � disse. � Temos nosso caso � um dos mais memor�veis da nossa cole��o. Mas, meu Deus, como fui est�pido, e quase cometi o grande erro da minha vida! Agora, acho que, com alguns elos que faltam, minha cadeia est� quase completa.</p><p>� Descobriu os seus homens?</p><p>� Homem, Watson, homem. Apenas um, mas uma pessoa terr�vel. Forte como um le�o � veja pelo golpe que amassou aquele ati�ador! Quase 1,90m de altura, �gil como um esquilo, h�bil com os dedos e, finalmente, com uma incr�vel presen�a de esp�rito, pois toda essa hist�ria engenhosa � um plano seu. Sim, Watson, deparamo-nos com um trabalho de um indiv�duo not�vel. E mesmo assim, com aquela corda da campainha, ele nos forneceu uma pista que n�o nos deixa d�vida alguma.</p><p>� Onde estava a pista?</p><p>� Bem, se puxasse uma corda de campainha, Watson, onde esperaria que ela se rompesse? Com certeza no ponto em que est� atada ao fio. Por que arrebentaria 8 cent�metros antes do lugar, como aconteceu?</p><p>� Porque est� pu�da ali?</p><p>� Exatamente. Esta ponta, que podemos examinar, est� pu�da. Ele foi suficientemente esperto para fazer isso com seu canivete. Mas a outra ponta n�o est�. N�o poderia observar daqui, mas se estivesse sobre o consolo da lareira, veria que est� cortada sem qualquer marca de desgaste. Pode-se reconstituir o que aconteceu. O homem precisava da corda. N�o a puxaria por temer dar</p><p>o alarme tocando a campainha. O que faz? Pula para o consolo da lareira, n�o a alcan�a, p�e o joelho na prateleira � ver� a marca na poeira � e ent�o pega o canivete para lan�ar-se sobre a corda. N�o consegui alcan�ar o lugar por uma diferen�a de pelo menos 7 cent�metros � e da� eu deduzo que ele � pelo menos 7 cent�metros mais alto do que eu. Olhe para aquela marca no assento da cadeira de carvalho! O que � isso?</p><p>� Sangue.</p><p>� Sem d�vida � sangue. S� isto p�e a hist�ria da dama fora de cogita��o. Se ela estava sentada na cadeira quando o crime foi cometido, como apareceu esta marca? N�o, n�o, ela foi colocada na cadeira depois da morte do marido. Aposto como o vestido negro mostra uma marca semelhante a esta. Ainda n�o encontramos nosso Waterloo, Watson, mas esta � nossa Marengo, porque come�a em derrota e acaba em vit�ria. Agora gostaria de trocar algumas palavras com a enfermeira, Theresa. Devemos ser cautelosos por enquanto, se quisermos obter a informa��o de que precisamos.</p><p>Era uma pessoa interessante, esta austera enfermeira australiana � taciturna, desconfiada, indelicada; demorou algum tempo para que as maneiras agrad�veis de Holmes e a franca aceita��o de tudo o que ela dizia a abrandassem, fazendo-a exibir uma amabilidade correspondente. N�o tentou esconder seu �dio pelo patr�o falecido.</p><p>� Sim, senhor, � verdade que jogou a garrafa em mim. Ouvi quando ele xingou minha patroa, e eu lhe disse que ele n�o ousaria falar assim se o irm�o dela estivesse l�. Foi ent�o que ele jogou a garrafa em mim. Teria atirado uma d�zia se tivesse, mas deixou minha mo�a bonita em paz. Sempre a tratou mal, e ela era orgulhosa demais para reclamar. Nunca me contar� tudo o que ele fez a ela. Nunca me falou daquelas marcas no bra�o que o senhor viu esta manh�, mas sei muito bem que resultaram de um golpe com um alfinete de chap�u. O dem�nio fingido � Deus me perdoe por falar assim dele, agora que est� morto! Mas era um dem�nio, se algum j� andou pela Terra. Era todo do�ura quando o conhecemos � h� apenas 18 meses, e n�s duas sentimos como se fossem 18 anos. Ela acabara de chegar a Londres. Sim, era sua primeira viagem � nunca tinha se afastado de casa antes. Conquistou-a com seu t�tulo, seu dinheiro e suas falsas maneiras de Londres. Se ela cometeu um erro, j� pagou por ele se alguma mulher o fez. Em que m�s n�s o conhecemos? Bem, digo-lhe que foi logo depois que chegamos. Desembarcamos em junho, foi em julho. Casaram-se em janeiro do ano passado. Sim, ela est� na sala de estar novamente, e n�o tenho d�vida de que o atender�, mas o senhor n�o deve exigir muito dela, porque j� ag�entou mais do que podia.</p><p>Lady Brackenstall estava recostada no mesmo sof�, mas parecia mais animada do que antes. A criada entrou conosco, e come�ou novamente a tratar do ferimento na sobrancelha de sua patroa.</p><p>� Espero � disse a dama � que n�o tenha vindo para me interrogar de novo.</p><p>� N�o � respondeu Holmes na sua voz mais suave �, n�o vou perturb�-la desnecessariamente, lady Brackenstall, e tudo que quero � tornar as coisas mais f�ceis para a senhora, pois estou convencido de que � uma mulher que j� passou por muitas prova��es. Se me tratar como um amigo e confiar em mim, ver� que corresponderei � sua confian�a.</p><p>� O que quer que eu fa�a?</p><p>� Que me conte a verdade.</p><p>� Sr. Holmes!</p><p>� N�o, n�o, lady Brackenstall � � in�til. Deve ter ouvido falar da minha modesta reputa��o. Aposto tudo no fato de que sua hist�ria � pura inven��o.</p><p>A patroa e a criada olharam para Holmes com rostos p�lidos e olhos amedrontados.</p><p>� O senhor � um sujeito insolente! � exclamou Theresa. � Est� querendo dizer que minha patroa contou uma mentira?</p><p>Holmes levantou-se da cadeira.</p><p>� N�o tem nada para me contar?</p><p>� J� lhe contei tudo.</p><p>� Pense mais uma vez, lady Brackenstall. N�o � melhor ser franca?</p><p>Por um instante seu rosto bonito mostrou hesita��o. Depois algum novo pensamento o fez fechar-se como uma m�scara.</p><p>� J� lhe disse tudo o que sabia.</p><p>Holmes pegou o chap�u e encolheu os ombros. � Desculpe-me � disse, e sem dizer mais nada sa�mos do aposento e da casa. Havia um lago no parque, e meu amigo se encaminhou para l�. Estava todo congelado, mas um �nico buraco foi deixado para a cordialidade de um cisne solit�rio. Holmes olhou para ele e passou pelo port�o da casa. Ali escreveu um bilhete para Stanley Hopkins e o deixou com o porteiro.</p><p>� Pode ser um tiro no alvo ou um erro, mas estamos fazendo algo por nosso amigo Hopkins, apenas para justificar esta segunda visita � disse. � Ainda n�o lhe confiarei tudo. Creio que nosso pr�ximo local de opera��es ser� a ag�ncia de navega��o da linha Adelaide-Southampton, que fica ao final de Pall Mall, se me lembro bem. Existe uma segunda linha de navios que ligam o sul da Austr�lia � Inglaterra, mas procuraremos primeiro a maior.</p><p>O cart�o de Holmes, mandado ao gerente, garantiu uma aten��o imediata, e ele n�o demorou a obter a informa��o de que precisava. Em junho de 1895, apenas um de seus navios chegou ao porto de origem. Era o Rock of Gibraltar, seu maior e melhor vapor. Uma olhada na lista de passageiros mostrou que</p><p>a srta. Fraser, de Adelaide, e sua criada viajaram nele. O navio estava agora em algum lugar ao sul do Canal de Suez, a caminho da Austr�lia. Seus oficiais eram os mesmos de 1895, com uma exce��o. O primeiro oficial, sr. Jack Crocker, foi promovido a capit�o e iria assumir o comando do seu novo navio, o Bass Rock, que ia partir de Southampton dentro de dois dias. Morava em Sydenham mas devia vir aquela manh� para receber instru��es, se quis�ssemos esperar por ele.</p><p>N�o, o sr. Holmes n�o desejava falar com ele, mas gostaria de saber mais sobre seus antecedentes e seu car�ter.</p><p>Sua ficha era magn�fica. N�o havia um s� oficial na esquadra que se comparasse a ele. Quanto ao seu car�ter, era confi�vel no trabalho, mas um sujeito violento e desesperado quando estava fora do deck de seu navio � cabe�a-quente, irrit�vel, mas leal, honesto e de bom cora��o. Essa era a ess�ncia da informa��o com a qual Holmes deixou o escrit�rio da companhia Adelaide-Southampton. Depois foi at� a Scotland Yard, mas, em vez de entrar, ficou sentado na carruagem com o cenho franzido, perdido em pensamentos. Por fim, foi at� o posto telegr�fico de Charing Cross, mandou uma mensagem, e, finalmente, voltamos mais uma vez a Baker Street.</p><p>� N�o, n�o podia fazer isso, Watson � disse, quando entramos nos nossos aposentos. � Depois que o mandado fosse expedido, nada neste mundo o salvaria. Uma ou duas vezes em minha carreira senti que causei mais preju�zo real com minha descoberta do criminoso do que ele jamais provocou com seu crime. Aprendi a prud�ncia agora, prefiro fazer brincadeiras com a justi�a da Inglaterra do que com minha pr�pria consci�ncia. Vamos saber um pouco mais antes de agirmos.</p><p>Antes do anoitecer, recebemos a visita de Stanley Hopkins. As coisas n�o estavam andando bem para ele.</p><p>� Acredito que o senhor � um m�gico, sr. Holmes. Algumas vezes chego a pensar que o senhor tem poderes que n�o s�o humanos. Agora, como diabos p�de saber que a prataria roubada estava no fundo daquele lago?</p><p>� Eu n�o sabia.</p><p>� Mas me aconselhou a examin�-lo.</p><p>� Conseguiu, ent�o?</p><p>� Sim, consegui.</p><p>� Estou contente por t�-lo ajudado.</p><p>� Mas n�o me ajudou. Tornou o caso ainda mais dif�cil. Que esp�cie de ladr�es s�o esses que roubam prataria e a jogam no lago mais pr�ximo?</p><p>� Foi com certeza um comportamento bastante exc�ntrico. Apenas desenvolvi a id�ia de que se a prataria foi levada por pessoas que n�o a queriam � que s� a levaram para disfar�ar, como de fato aconteceu �, ficariam ansiosos para se livrar dela.</p><p>� Mas por que tal id�ia passou pela sua cabe�a?</p><p>� Bom, pensei que isso era poss�vel. Quando sa�ram pela porta-janela, l� estava o lago com um pequeno e tentador buraco no gelo, bem diante dos seus narizes. Poderia haver um esconderijo melhor?</p><p>� Ah, um esconderijo � isso � melhor! � exclamou Stanley Hopkins. � Sim, sim, vejo tudo agora! Era cedo, havia gente nas ruas, ficaram com medo de serem vistos com a prataria, de modo que afundaram os objetos no lago, pretendendo voltar para apanhar tudo quando n�o houvesse risco. Excelente, sr. Holmes � isto � melhor do que sua id�ia de disfarce.</p><p>� Talvez, voc� tem uma teoria admir�vel. N�o tenho d�vida de que minhas pr�prias id�ias s�o bem absurdas, mas deve admitir que acabaram descobrindo a prata.</p><p>� Sim, senhor � sim. Tudo obra sua. Mas tive um p�ssimo contratempo.</p><p>� Um contratempo?</p><p>� Sim, sr. Holmes. A gangue de Randall foi presa em Nova York esta manh�.</p><p>� Meu Deus, Hopkins! Isto com certeza derruba sua teoria de que eles cometeram um assassinato em Kent na noite passada.</p><p>� � desastroso, sr. Holmes � absolutamente desastroso. Mas existem outras gangues de tr�s elementos al�m dos Randall, ou deve ser alguma nova gangue da qual a pol�cia nunca ouviu falar.</p><p>� Talvez, � perfeitamente poss�vel. O qu�! Est� indo embora?</p><p>� Sim, sr. Holmes, n�o poderei descansar enquanto n�o chegar ao fundo desse neg�cio. N�o tem nenhuma pista para me dar?</p><p>� J� lhe dei uma.</p><p>� Qual?</p><p>� Ora, eu sugeri um disfarce.</p><p>� Mas por qu�, sr. Holmes, por qu�?</p><p>� Ah, essa � a quest�o, � claro. Mas recomendo que pense na id�ia. Provavelmente vai descobrir que h� alguma coisa nela. N�o vai ficar para jantar? Bem, adeus, e informe-nos sobre o andamento do caso.</p><p>O jantar havia terminado e a mesa j� fora tirada quando Holmes voltou a tocar no assunto. Acendera seu cachimbo, e os p�s metidos em chinelos estavam pr�ximos ao agrad�vel calor da lareira. De repente olhou para seu rel�gio.</p><p>� Espero novidades, Watson.</p><p>� Quando?</p><p>� Agora � dentro de poucos minutos. Aposto como pensou que agi mal com Stanley Hopkins agora h� pouco.</p><p>� Confio em seu julgamento.</p><p>� Uma resposta muito sensata, Watson. Deve encarar isto deste modo: o que eu sei n�o � oficial, o que ele sabe � oficial. Tenho direito a um julgamento pessoal, mas ele n�o. Ele deve revelar tudo, ou ser� um traidor do seu servi�o. Num caso duvidoso, eu n�o o deixaria em situa��o constrangedora, de modo que guardo minhas informa��es at� que eu tenha uma id�ia mais clara do assunto.</p><p>� Mas quando ser� isso?</p><p>� J� est� na hora. Voc� agora vai presenciar a �ltima cena de um drama pequeno e not�vel.</p><p>Houve um ru�do na escada, e nossa porta foi aberta para deixar entrar o exemplar masculino mais bonito que j� passara por ela. Era um jovem muito alto, bigode dourado, olhos azuis, com uma pele que deve ter sido bronzeada pelo sol tropical, e um passo el�stico que demonstrava ser o corpo enorme t�o �gil quanto forte. Fechou a porta e ficou parado com as m�os fechadas e a respira��o ofegante, mostrando uma certa emo��o contida.</p><p>� Sente-se, capit�o Crocker. Recebeu meu telegrama?</p><p>Nosso visitante afundou-se numa poltrona, mirando-nos com um olhar de curiosidade.</p><p>� Recebi seu telegrama e vim no hor�rio que me pediu. Ouvi dizer que foi at� o escrit�rio. N�o havia jeito de evit�-lo. Vou ouvir o pior. O que vai fazer comigo? Prender-me? Fale, homem! N�o pode ficar sentado a� e brincar comigo como um gato com um rato.</p><p>� D�-lhe um charuto � disse Holmes. � Morda-o, capit�o Crocker, e n�o deixe seus nervos se descontrolarem. Eu n�o estaria sentado aqui fumando com o senhor se achasse que era um criminoso comum, pode estar certo disto. Seja franco comigo e podemos fazer algo de bom. Brinque comigo e eu o destruirei.</p><p>� O que quer que eu fa�a?</p><p>� Que me fa�a um relato verdadeiro de tudo que aconteceu em Abbey Grange na noite passada � um relato verdadeiro, lembro-lhe, sem acrescentar nem omitir nada. J� sei tanta coisa que se voc� se afastar um cent�metro do correto, soprarei este apito de pol�cia da minha janela e o caso escapar� de minhas m�os para sempre.</p><p>O marinheiro pensou um pouco. Depois bateu na perna com sua grande m�o bronzeada.</p><p>� Vou arriscar � exclamou. � Acredito que o senhor seja um homem leal e de palavra, e vou contar-lhe a hist�ria toda. Mas antes vou dizer uma coisa. No que me toca, n�o me arrependo de nada e n�o tenho medo de nada; faria tudo outra vez e ficaria orgulhoso. Mas � a dama, Mary � Mary Fraser � porque eu jamais a chamarei por nome maldito.</p><p>Quando penso que a estou envolvendo em problemas, eu, que daria a minha vida apenas para v�-la sorrir, fico arrasado. Ainda assim � ainda assim � o que mais poderia ser feito? Eu lhes contarei minha hist�ria, cavalheiros, e ent�o vou lhes perguntar, de homem para homem, o que mais poderia ter feito?</p><p>� Devo retroceder um pouco. O senhor parece saber de tudo, portanto suponho que saiba que a conheci quando era uma passageira e eu primeiro oficial do Rock of Gibraltar. Desde o primeiro dia, foi a �nica mulher para mim. Cada dia daquela viagem eu a amava mais e desde ent�o tenho me ajoelhado na calada da noite e beijado o conv�s daquele navio porque sabia que seus p�s amados tinham caminhado por ele. Nunca teve um compromisso comigo. Tratava-me melhor do que qualquer mulher j� tratara um homem. N�o tenho queixas a fazer. Tudo era amor de minha parte e companheirismo e amizade da parte dela. Quando nos separamos, ela era uma mulher livre, mas eu nunca poderia ser um homem livre de novo.</p><p>� Quando voltei do mar na vez seguinte, soube do casamento dela. Ora, por que n�o poderia se casar com quem quisesse? T�tulo e dinheiro � quem poderia lidar com isso melhor do que ela? Nascera para tudo o que � bonito e luxuoso. N�o fiquei magoado com seu casamento. N�o fui t�o ego�sta a esse ponto. Apenas fiquei contente pela boa sorte que atravessou seu caminho, e que ela n�o tivesse ido atr�s de um marujo sem dinheiro. Foi assim que amei Mary Fraser.</p><p>� Bem, nunca pensei que iria v�-la novamente, mas na �ltima viagem fui promovido, e o novo navio ainda n�o havia sido lan�ado ao mar, de modo que tive de esperar por alguns meses com meu pessoal em Sydenham. Um dia, no campo, encontrei Theresa Wright, sua velha criada, que me contou tudo sobre ela, sobre ele, sobre todas as coisas. Digo-lhes, cavalheiros, aquilo quase me deixou maluco. Esse c�o b�bado ousou levantar a m�o para ela, cujos sapatos ele n�o merecia lamber! Encontrei-me de novo com Theresa. Depois encontrei-me com a pr�pria Mary � e mais uma vez. Ent�o deixamos de nos encontrar. Mas outro dia eu soube que minha viagem iria come�ar dentro de uma semana, e decidi v�-la mais uma vez antes de partir. Theresa sempre foi minha amiga, porque amava Mary e odiava aquele vil�o quase tanto quanto eu. Foi ela que me falou sobre os h�bitos da casa. Mary costumava ficar sentada lendo em seu quarto, no andar t�rreo. Aproximei-me silenciosamente naquela noite e bati na janela. A princ�pio ela n�o quis abrir, mas eu sabia que agora ela me amava e n�o podia deixar que eu ficasse ali fora naquela noite gelada. Ela sussurrou-me para dar a volta at� a grande janela da frente, e a encontrei aberta, de modo a me deixar entrar na sala de jantar. Novamente ouvi de seus pr�prios l�bios coisas que fizeram meu sangue ferver, e de novo amaldi�oei esse bruto que maltratava a mulher que eu amava. Bem, cavalheiros, estava com ela perto da janela, na maior inoc�ncia, Deus � meu juiz, quando ele entrou como um louco na sala, chamou-a do nome mais ofensivo que se pode usar para uma mulher, e a espancou no rosto com a bengala que tinha na m�o. Eu havia agarrado o ati�ador e foi uma luta justa entre n�s dois. Veja aqui, no meu bra�o, onde foi o primeiro golpe. Ent�o foi a minha vez, e o ataquei como se fosse uma ab�bora podre. Acha que me arrependo? N�o! Era a vida dele ou a minha, mas muito mais que isso, era a vida dele ou a dela, pois como podia deix�-la em poder desse louco? Foi assim que o matei. Fiz mal? Bem, ent�o o que cada um dos senhores teria feito, se estivesse em minha situa��o?</p><p>� Ela gritou quando ele a golpeou, e isso atraiu a velha Theresa, que estava no quarto de cima. Havia uma garrafa de vinho na prateleira, eu a abri e despejei um pouco entre os l�bios de Mary, pois estava quase morta pelo choque. Depois eu mesmo tomei um gole. Theresa estava fria como gelo, e foi seu o plano, tanto quanto meu. Dev�amos fazer parecer que ladr�es tinham feito aquilo. Theresa ficou repetindo a nossa hist�ria para a patroa enquanto eu subia e cortava a corda da campainha. Depois a amarrei na cadeira e desgastei a ponta da corda para parecer natural, pois poderiam se perguntar por que diabos um ladr�o teria subido l� para cort�-la. Ent�o peguei alguns pratos e jarros de prata, para dar a id�ia de roubo, e as deixei ali, com ordens de darem o alarme 15 minutos depois da minha sa�da. Joguei os objetos de prata no lago e fui para Sydenham, sentindo que pelo menos uma vez na vida eu fizera realmente um bom trabalho noturno. E esta � a verdade, toda a verdade, sr. Holmes, mesmo que custe o meu pesco�o.</p><p>Holmes ficou fumando durante algum tempo em sil�ncio. Depois atravessou a sala e apertou a m�o do nosso visitante.</p><p>� Isto � o que eu penso � disse. � Sei que cada palavra � verdadeira, porque voc� n�o disse praticamente nenhuma palavra que eu n�o soubesse. S� um acrobata ou um marinheiro poderiam alcan�ar a corda da campainha do lugar da prateleira, e s� um marinheiro poderia ter dado os n�s com que a corda foi amarrada na cadeira. A dama s� teve contato com marinheiros uma vez, e foi na viagem dela, e era algu�m de sua classe, j� que tentava tanto proteg�-lo, mostrando assim que o amava. V� como foi f�cil para mim p�r as m�os em voc�, depois que comecei a seguir a trilha certa.</p><p>� Pensei que a pol�cia nunca iria perceber nossa artimanha.</p><p>� E a pol�cia ainda n�o o fez, nem ir�, na minha opini�o. Agora, olhe aqui, capit�o Crocker, este � um assunto muito s�rio, embora eu esteja inclinado a admitir que agiu instigado pela maior provoca��o a que um homem pode ser submetido. N�o tenho certeza de que na defesa de sua pr�pria vida sua a��o n�o ser� considerada leg�tima. Contudo, � um j�ri brit�nico que vai decidir. Enquanto isso tenho tanta simpatia por voc� que, se preferir desaparecer nas pr�ximas 24 horas, prometo-lhe que ningu�m o impedir�.</p><p>� E ent�o tudo ser� divulgado?</p><p>� Com certeza ser� divulgado.</p><p>O marinheiro ficou vermelho de raiva.</p><p>� Que esp�cie de proposta � esta para se fazer a um homem? Conhe�o o suficiente da lei para saber que Mary seria arrolada como c�mplice. Acha que eu a deixaria sozinha para enfrentar a pol�cia, enquanto eu fugia? N�o, senhor, deixe que fa�am o pior comigo, mas, pelo amor de Deus, sr. Holmes, descubra alguma maneira de deixar minha pobre Mary longe dos tribunais.</p><p>Holmes, pela segunda vez, apertou a m�o do marinheiro.</p><p>� Eu estava apenas testando o senhor, e falou a verdade o tempo todo. Bem, � uma grande responsabilidade que assumo, mas j� dei a Hopkins uma pista excelente, e se ele pr�prio n�o souber se aproveitar disto, n�o posso fazer mais nada. Olhe aqui, capit�o Crocker, faremos isso em conformidade com a lei. Voc� � o prisioneiro. Watson, voc� � um j�ri brit�nico, e jamais conheci um homem mais apropriado para representar um. Sou o juiz. Agora, cavalheiro do j�ri, j� ouviu o depoimento. Declara o prisioneiro culpado ou inocente?</p><p>� Inocente, meu senhor � eu disse.</p><p>� Vox populi, vox Dei. Est� absolvido, capit�o Crocker. Desde que a lei n�o descubra outra v�tima, est� livre de mim. Volte com esta dama em um ano e deixe o futuro de ambos justificar a senten�a que proferimos esta noite!</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura da segunda mancha</strong></p><p>Eu pretendia que a �Aventura de Abbey Grange� fosse a �ltima das proezas do meu amigo, sr. Sherlock Holmes, que eu iria relatar ao p�blico. Esta minha decis�o n�o era devida � falta de material, j� que tenho anota��es de centenas de casos aos quais nunca fiz infer�ncia, nem foi causada pela diminui��o do interesse por parte de meus leitores pela personalidade singular e os m�todos �nicos deste homem not�vel. O verdadeiro motivo est� na relut�ncia que o sr. Holmes demonstrou em rela��o � publica��o constante de suas experi�ncias. Enquanto estava atuando em sua profiss�o, os registros de seus sucessos tinham algum valor pr�tico para ele, mas desde que saiu definitivamente de Londres e se dedica ao estudo e � cria��o de abelhas em Sussex Downs, passou a detestar a fama, e me pediu categoricamente que seus desejos a esse respeito fossem estritamente observados. Foi s� quando fiz um apelo � que obtive a promessa de que �A aventura da</p><p>segunda mancha� poderia ser publicada no momento oportuno, convencendo-o de que era bastante apropriado que esta longa s�rie de epis�dios culminasse no caso internacional mais importante para o qual j� fora chamado, que por fim consegui o seu consentimento para que um relato do incidente cuidadosamente guardado em segredo fosse afinal divulgado para o p�blico. Se, ao contar a hist�ria, eu parecer um tanto vago em certos detalhes, o p�blico rapidamente entender� que h� um �timo motivo para minha retic�ncia.</p><p>Portanto, foi num ano, e mesmo numa d�cada, que devem permanecer indeterminados, que numa manh� de ter�a-feira, no outono, encontramos dois visitantes de fama europ�ia entre as paredes dos nossos modestos aposentos da Baker Street. O primeiro, austero, nariz protuberante, olhos de �guia e aspecto dominador, n�o era outro sen�o o ilustre lorde Bellinger, duas vezes primeiro-ministro da Inglaterra. O outro, moreno, de tra�os n�tidos, elegante, quase ainda na meia-idade, e dotado de beleza de corpo e alma, era o right honourable Trelawney Hope, secret�rio dos Assuntos Europeus, e o estadista mais destacado do pa�s. Sentaram-se lado a lado no sof� cheio de pap�is, e era f�cil ver pelos rostos cansados e ansiosos que um assunto da maior import�ncia os trouxera at� ali. As m�os magras e cheias de veias azuladas do primeiro-ministro agarravam o cabo de marfim de seu guarda-chuva, e seu rosto ossudo e austero olhava sombriamente de Holmes para mim. O secret�rio dos Assuntos Europeus cofiava nervosamente o bigode e brincava com o fecho da corrente do rel�gio.</p><p>� Quando descobri minha perda, sr. Holmes, �s oito horas, informei logo o primeiro-ministro. Foi por sugest�o dele que viemos procurar o senhor.</p><p>� Informaram a pol�cia?</p><p>� N�o, senhor � disse o primeiro-ministro, no seu conhecido estilo r�pido e decidido. � N�o fizemos isso, nem � poss�vel fazer. Informar a pol�cia seria, em �ltima an�lise, um meio de divulgar para o p�blico. � exatamente isso que desejamos evitar em particular.</p><p>� E por qu�, senhor?</p><p>� Porque o documento em quest�o � t�o importante que a sua publica��o poderia muito facilmente � quase posso dizer provavelmente � causar complica��es na Europa no mesmo instante. N�o seria exagero dizer que a paz ou a guerra dependem desse documento. Talvez n�o o recuperemos mais, a n�o ser que a sua recupera��o seja feita com o m�ximo segredo, pois tudo o que desejam aqueles que o levaram � que seu conte�do seja do conhecimento de todos.</p><p>� Entendo. Agora, sr. Trelawney Hope, ficaria muito agradecido se me contasse exatamente em que circunst�ncias o documento desapareceu.</p><p>� Isso pode ser feito em muito poucas palavras, sr. Holmes. A carta � pois era uma carta de uma pot�ncia estrangeira � foi recebida seis dias atr�s. Sua import�ncia era t�o grande que nunca a deixei em meu cofre, mas eu a levava todas as noites para minha casa, em Whitehall Terrace, guardando-a no meu quarto, trancada numa caixa de correspond�ncia. Estava l� na noite passada. Disto tenho certeza. Eu abri a caixa enquanto me vestia para jantar e vi o documento ali dentro. Esta manh� ele havia sumido. A caixa de correspond�ncia ficara ao lado do copo sobre meu toucador a noite inteira. Tenho sono leve, e minha esposa tamb�m. N�s dois estamos dispostos a jurar que ningu�m poderia ter entrado no quarto durante a noite. Ainda assim, repito que o papel sumiu.</p><p>� A que horas o senhor jantou?</p><p>� �s 19:30h.</p><p>� Isto foi quanto tempo antes de ir para a cama?</p><p>� Minha esposa tinha ido ao teatro. Esperei por ela. Eram 23:30h quando fomos para o nosso quarto.</p><p>� Ent�o durante quatro horas a caixa de correspond�ncia ficou sem vigil�ncia?</p><p>� Ningu�m tem permiss�o para entrar naquele aposento a n�o ser a faxineira pela manh�, e meu criado de quarto, ou a criada de minha esposa, durante o resto do dia. S�o todos criados fi�is que est�o conosco h� algum tempo. Al�m disso, nenhum deles poderia saber que havia algo mais valioso do que os pap�is comuns do departamento naquela caixa de correspond�ncia.</p><p>� Quem sabia da exist�ncia daquela carta?</p><p>� Ningu�m na casa.</p><p>� Certamente sua esposa sabia.</p><p>� N�o, senhor. N�o comentei nada com minha mulher at� que perdi o papel esta manh�.</p><p>O primeiro-ministro balan�ou a cabe�a em sinal de aprova��o.</p><p>� J� conhe�o h� muito tempo, senhor, o seu senso de dever p�blico � disse ele. � Estou convencido de que, no caso de um segredo desta import�ncia, ele se sobreporia aos mais �ntimos la�os dom�sticos.</p><p>O secret�rio se inclinou.</p><p>� N�o me faz mais do que justi�a, senhor. At� esta manh� nunca disse uma s� palavra � minha esposa sobre o assunto.</p><p>� Ela poderia ter adivinhado?</p><p>� N�o, sr. Holmes, n�o poderia � nem qualquer outra pessoa.</p><p>� J� perdeu algum documento antes?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Quem mais na Inglaterra sabia da exist�ncia dessa carta?</p><p>� Todos os membros do gabinete foram informados a respeito dela ontem, mas o compromisso de segredo que cerca todas as reuni�es do gabinete foi refor�ado pela advert�ncia solene do primeiro-ministro. Meu Deus, pensar que em poucas horas eu mesmo o perderia! � Seu belo rosto estava retorcido num espasmo de desespero, e suas m�os puxavam os cabelos. Por um momento tivemos um vislumbre de um homem natural, impulsivo, ardente e bastante sens�vel. Mas logo a m�scara aristocr�tica foi recolocada, e a voz suave retornou. � Al�m dos membros do gabinete, existem dois, possivelmente tr�s funcion�rios do minist�rio que sabiam da carta. Ningu�m mais na Inglaterra, sr. Holmes, eu lhe garanto.</p><p>� Mas, e fora?</p><p>� Acredito que ningu�m fora da Inglaterra a viu, a n�o ser o homem que a escreveu. Estou convencido de que seus ministros... que os canais oficiais normais n�o foram utilizados.</p><p>Holmes refletiu durante algum tempo.</p><p>� Agora, senhor, devo lhe perguntar mais detalhadamente o que � este documento, e por que seu desaparecimento teria conseq��ncias t�o graves?</p><p>Os dois homens do governo trocaram um r�pido olhar e as sobrancelhas cerradas do primeiro-ministro se franziram.</p><p>� Sr. Holmes, o envelope � comprido, fino, com uma cor azul clara. Tem um selo de lacre vermelho impresso com um le�o agachado. Est� endere�ado, numa caligrafia grande e vigorosa, para o...</p><p>� Receio, senhor � disse Holmes � que, por mais interessantes e mesmo essenciais que esses detalhes possam ser, minha investiga��o deve ir �s ra�zes das coisas. O que era a carta?</p><p>� Isso � um segredo de estado da maior import�ncia, e receio n�o poder contar-lhe, nem penso que isso seja necess�rio. Se com a ajuda dos poderes que diz possuir o senhor conseguir achar esse envelope que descrevi, ter� prestado um bom servi�o ao seu pa�s, e receber� a recompensa que pudermos conceder.</p><p>Sherlock Holmes levantou-se com um sorriso.</p><p>� Os senhores s�o dois dos homens mais ocupados do pa�s � disse �, e da minha maneira modesta tamb�m tenho muitos compromissos. Sinto muito n�o poder ajud�-los neste assunto, e qualquer continua��o desta entrevista seria uma perda de tempo.</p><p>O primeiro-ministro levantou-se num pulo com aquele brilho forte e intenso nos olhos profundos diante dos quais um gabinete havia se atemorizado. � N�o estou acostumado, senhor � come�ou, mas controlou sua raiva e voltou a sentar-se. Durante um minuto ou mais ficamos em sil�ncio. Ent�o o velho estadista encolheu os ombros.</p><p>� Devemos aceitar suas condi��es, sr. Holmes. Sem d�vida est� certo, e � insensato esperar que aja sem confiarmos inteiramente no senhor.</p><p>� Concordo com o senhor � disse o jovem.</p><p>� Ent�o lhe contarei, confiando em sua honra e na de seu colega, dr. Watson. Apelarei tamb�m para seu patriotismo, pois n�o posso imaginar maior desgra�a para o pa�s do que a divulga��o desse caso.</p><p>� Pode confiar plenamente em n�s.</p><p>� A carta, ent�o, vem de um certo potentado estrangeiro que foi incomodado por alguns recentes acontecimentos coloniais deste pa�s. Foi escrita apressadamente e sob sua pr�pria responsabilidade. Investiga��es mostraram que seus ministros n�o sabem de nada sobre isso. Ao mesmo tempo, est� redigida de uma maneira t�o impr�pria e certas frases nela t�m um car�ter t�o provocador, que sua publica��o resultaria, sem d�vida, no mais perigoso estado de exalta��o neste pa�s. Haveria tamanha agita��o, senhor, que eu n�o hesitaria em dizer que menos de uma semana depois da publica��o daquela carta este pa�s estaria envolvido numa grande guerra.</p><p>Holmes escreveu um nome numa folha de papel e o entregou ao primeiro-ministro.</p><p>� Exatamente. Foi ele. E � esta carta � esta carta que pode muito bem significar o gasto de milh�es e o desperd�cio de centenas de milhares de vidas humanas � que foi perdida desta maneira inexplic�vel.</p><p>Comunicou ao remetente?</p><p>� Sim, senhor, enviamos um telegrama em c�digo.</p><p>� Talvez ele deseje a publica��o da carta.</p><p>� N�o, senhor, temos fortes motivos para acreditar que ele j� compreende que agiu de maneira indiscreta e precipitada. Seria um golpe maior para ele e para seu pa�s do que para n�s, se essa carta for divulgada.</p><p>� Se � assim, a quem interessa que essa carta seja divulgada? Por que algu�m desejaria roub�-la ou public�-la?</p><p>� A�, sr. Holmes, o senhor entra nas �reas da alta pol�tica internacional. Mas se considerar a situa��o europ�ia, n�o ter� dificuldades em perceber o motivo. A Europa inteira � um campo armado. Existem duas ligas que fazem um equil�brio justo do poderio militar. A Gr�-Bretanha mant�m a balan�a. Se entrasse em guerra contra uma confedera��o, isso garantiria a supremacia da outra, quer entrassem quer n�o na guerra. Percebeu?</p><p>� Muito claramente. Ent�o interessa aos inimigos desse potentado possuir e publicar essa carta, a fim de provocar um rompimento de rela��es entre o pa�s dele e o nosso?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� E para quem esse documento seria enviado se ca�sse nas m�os de um inimigo?</p><p>� Para qualquer uma das grandes chancelarias da Europa. Est� provavelmente indo nessa dire��o agora, t�o depressa quanto um vapor pode lev�-la.</p><p>O sr. Trelawney Hope deixou a cabe�a cair sobre o peito e gemeu alto. O primeiro-ministro p�s a m�o delicadamente em seu ombro.</p><p>� Foi um azar seu, meu caro amigo. Ningu�m pode culp�-lo. N�o foi negligente com nenhuma precau��o. Agora, sr. Holmes, sabe de todos os fatos. Que atitude o senhor recomenda?</p><p>Holmes balan�ou a cabe�a com pesar.</p><p>� O senhor acredita que, a menos que esse documento seja recuperado, haver� guerra?</p><p>� Acho que � muito prov�vel.</p><p>� Ent�o, senhor, prepare-se para a guerra.</p><p>� Esta � uma declara��o penosa, sr. Holmes.</p><p>� Considere os fatos, senhor. � inconceb�vel que tenha sido levada depois das 23:30h, pois disse-me que o sr. Hope e a esposa estavam no quarto desde essa hora at� o momento em que o desaparecimento foi notado. Ent�o, foi retirada ontem � noite, entre 19:30h e 23:30h, provavelmente mais perto do primeiro hor�rio, j� que, seja quem for que a tenha apanhado, evidentemente sabia que estava ali e naturalmente a pegaria o mais cedo poss�vel. Agora, senhor, se um documento desta import�ncia fosse levado �quela hora, onde poderia estar neste momento? Ningu�m tem motivo para ret�-lo. Foi transferido com rapidez para os que precisam dele. Qual a possibilidade que temos agora de apanh�-lo ou mesmo de localiz�-lo? Est� fora de nosso alcance.</p><p>O primeiro-ministro levantou-se do sof�.</p><p>� O que diz � perfeitamente l�gico, sr. Holmes. Sinto que o assunto est� de fato fora de nossas m�os.</p><p>� Vamos presumir, apenas como racioc�nio, que o documento foi levado pela criada ou pelo criado de quarto.</p><p>� S�o ambos servi�ais antigos e leais.</p><p>� Creio que o senhor disse que o seu quarto fica no segundo andar, que n�o h� nenhuma entrada de fora e que de dentro ningu�m poderia subir sem ser visto. Ent�o, deve ter sido algu�m de casa que a levou. A quem o ladr�o a entregaria? A um dos v�rios espi�es internacionais e agentes secretos, cujos nomes me s�o um pouco familiares. Existem tr�s que podem ser considerados os l�deres, cabe�as da profiss�o. Come�arei minha pesquisa saindo e descobrindo se cada um deles est� em seu posto. Se um estiver sumido � principalmente se desapareceu desde a noite passada �, teremos alguma indica��o do lugar para onde o documento foi.</p><p>� Por que ele estaria desaparecido? � perguntou o secret�rio de Assuntos Europeus. � Ele levaria a carta para uma embaixada em Londres, provavelmente.</p><p>� Aposto que n�o. Esses agentes trabalham de modo independente, e suas rela��es com as embaixadas em geral s�o tensas.</p><p>O primeiro-ministro fez um sinal afirmativo com a cabe�a.</p><p>� Creio que est� certo, sr. Holmes. Ele levaria um pr�mio t�o valioso ao quartel-general com suas pr�prias m�os. Acho que sua linha de a��o � excelente. Enquanto isso, Hope, n�o podemos deixar de lado todas as nossas outras tarefas por causa desse infort�nio. Se houver alguma novidade durante o dia, n�s entraremos em contato com o senhor, e certamente o senhor nos informar� dos resultados de suas pr�prias pesquisas.</p><p>Os dois homens com um cumprimento sa�ram da sala.</p><p>Depois que nossos ilustres visitantes foram embora, Holmes acendeu o cachimbo em sil�ncio e ficou sentado durante algum tempo, perdido em seus pensamentos. Eu abri o jornal matutino e estava absorvido no relato de um crime sensacional que havia ocorrido em Londres na noite anterior, quando meu amigo soltou uma exclama��o, levantou-se e deixou seu cachimbo na borda da lareira.</p><p>� Sim � disse �, n�o h� maneira melhor de abordar o caso. A situa��o � desesperadora, mas n�o irremedi�vel. Mesmo agora, se pud�ssemos ter certeza de quem levou a carta, � bem prov�vel que ainda n�o a tenha passado adiante. Afinal, tudo � uma quest�o de dinheiro com esses sujeitos, e tenho o tesouro da Inglaterra atr�s de mim. Se estiver no mercado, eu o comprarei � se significar mais 1 p�ni no imposto de renda. � poss�vel que o sujeito o tenha guardado para ver que ofertas aparecem deste lado, antes de tentar a sorte no outro. S� existem tr�s capazes de jogar um jogo t�o audacioso � s�o Oberstein, La Rothiere e Eduardo Lucas. Verei cada um deles.</p><p>Dei uma olhada no jornal da manh�.</p><p>� � o Eduardo Lucas, da rua Godolphin?</p><p>� Sim.</p><p>� Voc� n�o o ver�.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� Foi assassinado em sua casa ontem � noite.</p><p>Meu amigo tem me surpreendido com tanta freq��ncia ao longo de nossas aventuras que foi com um sentimento de exulta��o que percebi como eu o surpreendera. Ele olhou espantado, e ent�o tirou o jornal das minhas m�os. Este era o par�grafo que estivera lendo quando ele se levantou da cadeira.</p><empty-line/><p>Assassinato em Westminster</p><p>Um crime com caracter�sticas misteriosas foi cometido na noite passada no n�mero 16 da rua Godolphin, uma das casas antigas e isoladas do s�culo XVIII, que ficam entre o rio e a abadia, quase � sombra da grande torre do Parlamento. Nesta mans�o pequena mas elegante morava h� alguns anos o sr. Eduardo Lucas, conhecido nos c�rculos da sociedade pela sua personalidade encantadora, bem como pela merecida fama de ser um dos melhores tenores amadores do pa�s. O sr. Lucas � solteiro, tem 34 anos de idade, e sua criadagem � formada pela sra. Pringle, uma velha governanta, e por Mitton, seu criado de quarto. A governanta se recolhe cedo e dorme no alto da casa. O criado estava fora � noite, visitando um amigo em Hammersmith. Das 22 horas em diante, o sr. Lucas ficou sozinho em casa. O que ocorreu durante aquele tempo ainda n�o se sabe, mas quando eram 23:45h, o guarda Barrett, que passava pela rua Godolphin, notou que a porta do n�mero 16 estava entreaberta. Bateu, mas n�o teve resposta. Percebendo uma luz na sala da frente, bateu de novo, mas sem resposta. Ent�o empurrou a porta e entrou. O aposento estava num estado de desordem selvagem, com a mob�lia toda empurrada para um lado e uma cadeira de cabe�a para baixo bem no centro. Ao lado dessa cadeira, e ainda agarrando uma das pernas dela, estava o infeliz dono da casa. Fora apunhalado bem no cora��o e deve ter morrido instantaneamente. A faca com a qual o crime foi cometido era uma adaga indiana curvada, tirada de um painel de armas orientais que enfeitava uma das paredes. Roubo n�o parece ter sido o motivo para o crime, pois n�o houve tentativa de levar as pe�as valiosas do aposento. O sr. Eduardo Lucas era t�o conhecido e popular que seu destino violento e misterioso despertou um doloroso interesse e uma grande emo��o num vasto c�rculo de amigos.</p><empty-line/><p>� Bem, Watson, o que acha disso? � perguntou Holmes, depois de uma longa pausa.</p><p>� � uma coincid�ncia assombrosa.</p><p>� Uma coincid�ncia! Aqui est� um dos tr�s homens que hav�amos mencionado como poss�veis atores neste drama, e ele encontra uma morte violenta no mesmo hor�rio em que, pelo que sabemos, o drama foi encenado. S�o grandes os ind�cios de que isso n�o pode ser uma coincid�ncia. Nenhum n�mero poderia express�-los. N�o, meu caro Watson, os dois fatos est�o ligados � t�m de estar ligados. Cabe a n�s descobrir a liga��o.</p><p>� Mas agora a pol�cia j� deve saber de tudo.</p><p>� N�o tudo. Eles sabem tudo o que viram na rua Godolphin. N�o sabem � e nem devem saber � nada de Whitehall Terrace. S� n�s conhecemos os dois fatos,</p><p>e podemos estabelecer a liga��o entre eles. Existe um ponto �bvio que, de qualquer modo, atrairia minhas suspeitas para Lucas. Rua Godolphin, Westminster, � uma caminhada de apenas alguns minutos at� Whitehall Terrace. Os outros agentes secretos que mencionei moram no distante West End. Portanto era mais f�cil para Lucas do que para os outros estabelecer uma conex�o ou receber uma mensagem dos criados do secret�rio para Assuntos Europeus � uma coisa pequena, e ainda assim, quando acontecimentos est�o limitados a um per�odo de algumas horas, ela pode ser essencial. Ora! O que temos aqui?</p><p>A sra. Hudson havia aparecido com o cart�o de uma dama numa bandeja. Holmes olhou-o, ergueu as sobrancelhas e me entregou o cart�o.</p><p>� Diga a lady Trelawney Hope que tenha a bondade de subir � disse.</p><p>Logo depois nosso modesto apartamento, j� t�o procurado aquela manh�, teve a honra de receber a mulher mais graciosa de Londres. Eu ouvira falar com freq��ncia da beleza da filha mais nova do duque de Belminster, mas nenhuma descri��o dela, e nenhuma observa��o das fotografias em preto-e-branco haviam me preparado para o charme sutil e delicado e a colora��o bonita daquela cabe�a encantadora. Mesmo assim, ao v�-la naquela manh� de outono, n�o era a beleza a primeira coisa a impressionar o observador. O rosto era encantador, mas estava p�lido de emo��o, os olhos brilhavam, mas era o brilho da febre, a boca sens�vel estava fechada e contra�da num esfor�o de autocontrole. Terror � n�o beleza � era o que saltava aos olhos quando nossa famosa visitante parou por um instante na porta aberta.</p><p>� Meu marido esteve aqui, sr. Holmes?</p><p>� Sim, madame, esteve aqui.</p><p>� Sr. Holmes, eu lhe imploro que n�o conte a ele que estive aqui. � Holmes fez uma curvatura com frieza, e indicou uma cadeira � dama.</p><p>� A sua condi��o de dama me coloca numa posi��o muito delicada. Por favor, sente-se e diga o que deseja, mas receio n�o poder fazer nenhuma promessa incondicional.</p><p>Ela atravessou a sala e sentou-se de costas para a janela. Era uma presen�a majestosa � alta, graciosa e intensamente feminina.</p><p>� Sr. Holmes � disse, e suas m�os de luvas brancas se juntavam e se separavam enquanto falava �, vou falar com franqueza com o senhor, na esperan�a de induzi-lo tamb�m a falar francamente. Existe uma confian�a absoluta entre mim e meu marido em todos os assuntos, menos em um. Este � a pol�tica. Sobre isso, seus l�bios est�o selados. N�o me conta nada. Agora, soube que houve um incidente dos mais deplor�veis em nossa casa na noite passada. Sei que um papel desapareceu. Mas como o assunto � pol�tica, meu marido se recusa a confiar em mim. Agora � essencial � essencial, eu digo � que eu o entenda direito. O senhor � a �nica pessoa, al�m desses pol�ticos, que conhece os fatos verdadeiros. Portanto eu lhe imploro, sr. Holmes, que me conte exatamente o que aconteceu e quais as conseq��ncias. Conte-me tudo, sr. Holmes. N�o deixe que qualquer considera��o pelos interesses de seu cliente o silencie, pois lhe asseguro que seria melhor para os interesses dele, se ao menos ele pudesse ver isso, se confiasse totalmente em mim. O que era esse papel que foi roubado?</p><p>� Madame, o que me pede � realmente imposs�vel.</p><p>Ela deu um gemido e mergulhou o rosto nas m�os.</p><p>� Deve compreender que isto � assim, madame. Se seu marido acha melhor que a senhora ignore esse assunto, caber� a mim, que apenas soube dos fatos verdadeiros sob a promessa de segredo profissional, contar o que ele se recusou a fazer? N�o � justo me pedir isso. � a ele que deve perguntar.</p><p>� Eu perguntei a ele. Vim procurar o senhor como �ltimo recurso. Mas se n�o me contar nada de definitivo, sr. Holmes, pode me fazer um grande favor se me esclarecer um detalhe.</p><p>� Qual, madame?</p><p>� A carreira pol�tica de meu marido pode ser prejudicada por causa deste incidente?</p><p>� Bem, madame, a menos que seja solucionado, pode com certeza ter um efeito muito infeliz.</p><p>� Ah! � respirou profundamente, como algu�m cujas d�vidas foram esclarecidas.</p><p>� Mais uma pergunta, sr. Holmes. Por uma express�o que meu marido deixou escapar ao primeiro choque do desastre, compreendi que a perda desse documento poderia provocar terr�veis conseq��ncias.</p><p>� Se ele disse isso, com certeza n�o posso neg�-lo.</p><p>� De que tipo s�o?</p><p>� N�o, madame, novamente me pergunta mais do que posso responder.</p><p>� Ent�o n�o tomarei mais o seu tempo. N�o posso conden�-lo, sr. Holmes, por ter se negado a falar mais livremente, e o senhor, por sua vez, n�o pensar� o pior de mim por desejar, embora contra a vontade dele, compartilhar as ansiedades de meu marido. De novo pe�o-lhe que n�o lhe diga nada sobre minha visita.</p><p>Olhou para n�s da porta, e tive uma �ltima impress�o daquele bonito rosto apavorado, dos olhos atemorizados e da boca contra�da. Depois foi embora.</p><p>� Agora, Watson, o sexo fr�gil � o nosso departamento � disse Holmes com um sorriso, quando o farfalhar de saias desapareceu no momento em que a porta da frente foi fechada. � Qual � a jogada da bela dama? O que ela realmente queria?</p><p>� Com certeza o que ela disse � claro e sua ansiedade � muito natural.</p><p>� Hum! Pense na apar�ncia dela, Watson � seu comportamento, sua excita��o contida, sua inquieta��o, sua insist�ncia em fazer perguntas. Lembre-se de que vem de uma casta de gente que n�o demonstra a menor emo��o.</p><p>� Ela com certeza estava muito emocionada.</p><p>� Lembre-se tamb�m da curiosa vivacidade com que nos garantiu que era melhor para o marido que ela soubesse de tudo. O que queria dizer com isso? E deve ter observado, Watson, como agiu para que a luz ficasse �s suas costas. N�o queria que v�ssemos sua express�o.</p><p>� Sim, escolheu a �nica cadeira da sala.</p><p>� Ainda assim os motivos das mulheres s�o inescrut�veis. Recorda-se da mulher em Margate de quem eu suspeitei pelo mesmo motivo. Sem p� no nariz � aquilo acabou sendo a solu��o correta. Como se pode construir nessa areia movedi�a? A mais trivial a��o delas pode significar enormidades, ou a mais extraordin�ria conduta delas pode depender de um grampo para cabelo ou de uma pin�a. Adeus, Watson.</p><p>� Vai sair?</p><p>� Sim, darei um pulo at� a rua Godolphin com nossos amigos da pol�cia oficial. A solu��o do nosso problema est� com Eduardo Lucas, embora deva admitir que n�o tenho nenhuma id�ia da forma que pode assumir. � um erro fundamental teorizar antes de se conhecerem os fatos. Fique de guarda, meu bom Watson, e receba quaisquer novos visitantes. Devo encontr�-lo no almo�o, se puder.</p><p>Durante todo aquele dia e no outro e no outro, Holmes pemaneceu num estado de esp�rito que seus amigos chamariam de taciturno e outros de mal-humorado. Entrava e sa�a, fumava sem parar, tocava alguns acordes em seu violino, mergulhava em devaneios, devorava sandu�ches em horas irregulares, e quase n�o respondia �s perguntas casuais que eu lhe fazia. Era evidente que as coisas n�o iam bem com ele nem com sua busca. N�o disse nada sobre o caso, e foi pelos jornais que soube dos detalhes do inqu�rito, e da pris�o, e posterior liberta��o, de John Mitton, o criado de quarto do falecido. O j�ri de instru��o apresentou o �bvio homic�dio premeditado, mas os participantes ainda permaneciam desconhecidos. Nenhum motivo foi sugerido. A sala estava cheia de objetos de valor, mas nada foi levado. Os pap�is do morto n�o foram tocados. Foram examinados com cuidado, e mostraram que ele era um estudioso atento da pol�tica internacional, um tagarela infatig�vel, um not�vel poliglota e um incans�vel escritor de cartas. Tinha contatos freq�entes com os principais pol�ticos de v�rios pa�ses. Mas nada de sensacional foi descoberto entre os documentos que enchiam suas gavetas. Quanto �s suas rela��es com mulheres, pareciam ter sido prom�scuas, mas superficiais. Tinha muitas rela��es, mas poucas amigas entre elas, e ningu�m a quem amasse. Seus h�bitos eram regulares, sua conduta inofensiva. Sua morte era um mist�rio absoluto e com a probabilidade de permanecer assim.</p><p>Quanto � pris�o de John Mitton, o criado de quarto, foi um ato de desespero, como uma alternativa � total inatividade. Mas nenhum processo poderia ser mantido contra ele. Havia visitado amigos em Hammersmith naquela noite. O �libi era perfeito. � verdade que partiu de volta para casa numa hora que lhe permitiria estar em Westminster antes que o crime fosse descoberto, mas sua pr�pria explica��o, de que fizera a p� uma parte do caminho, parecia muito prov�vel por causa da beleza da noite. Chegou de fato � meia-noite e parecia estar transtornado pela trag�dia inesperada. Sempre teve boas rela��es com seu patr�o. V�rios objetos de propriedade do morto � particularmente uma caixinha de l�minas � foram encontrados no quarto do criado, mas ele explicou que eram presentes do falecido, e a governanta confirmou a hist�ria. Mitton esteve a servi�o de Lucas durante tr�s� anos. � digno de nota que Lucas n�o levava Mitton quando ia ao continente. �s vezes ficava em Paris durante tr�s meses, mas Mitton ficava encarregado da casa da rua Godolphin. Quanto � governanta, n�o ouviu nada na noite do crime. Se seu patr�o recebeu alguma visita, ele mesmo a deixou entrar.</p><p>De modo que durante tr�s manh�s o mist�rio continuou, pelo que pude acompanhar nos jornais. Se Holmes sabia mais, guardou para si mesmo, mas, ao me contar que o inspetor Lestrade fazia-lhe confid�ncias sobre o caso, deduzi que estava a par de todas as novidades. No quarto dia apareceu um longo telegrama de Paris que parecia resolver toda a quest�o.</p><empty-line/><p>A pol�cia parisiense acaba de fazer uma descoberta [dizia o Daily Telegraph] que levanta o v�u existente em torno do tr�gico destino do sr. Eduardo Lucas, que teve uma morte violenta na noite da �ltima segunda-feira, na rua Godolphin, Westminster. Nossos leitores se lembrar�o de que o falecido foi encontrado apunhalado em seu quarto e que alguma suspeita recaiu em seu criado, mas foi afastada com um �libi. Ontem uma senhora, conhecida como mme. Henri Fournaye, que mora numa pequena casa isolada na rua Austerlitz, foi denunciada �s autoridades por seus criados como sendo louca. Um exame mostrou que ela de fato desenvolveu uma mania de forma perigosa e permanente. Na investiga��o a pol�cia descobriu que mme. Henri Fournaye s� voltou de uma viagem</p><p>a Londres na ter�a-feira passada, e h� ind�cios que a ligam ao crime de Westminster. Uma compara��o de fotografias provou de modo conclusivo que o sr. Henri Fournaye e Eduardo Lucas eram na verdade a mesma pessoa, e que o falecido, por algum motivo, levava uma vida dupla em Londres e Paris. Mme. Fournaye, que � de origem mesti�a, tem um temperamento extremamente excit�vel, e sofreu no passado de ataques de ci�mes que chegaram ao del�rio. Levantou-se a hip�tese de que foi num desses ataques que ela cometeu o crime terr�vel que causou tanta sensa��o em Londres. Seus movimentos na noite de segunda-feira ainda n�o foram reconstitu�dos, mas sem d�vida uma mulher que corresponde � descri��o dela atraiu muita aten��o na esta��o de Charing Cross na manh� de ter�a-feira, por causa do seu aspecto transtornado e da viol�ncia de seus gestos. Portanto, � prov�vel que o crime tenha sido cometido quando estivesse fora de si ou que seu efeito imediato fosse o de levar a infeliz mulher ao del�rio. No momento ela � incapaz de fazer um relato coerente do passado, e os m�dicos n�o d�o esperan�as de recupera��o da raz�o. H� evid�ncias de que uma mulher, que pode ter sido mme. Fournaye, foi vista durante algumas horas na noite de segunda-feira rondando a casa da rua Godolphin.</p><p>� O que acha disto, Holmes? � Eu li em voz alta o artigo, enquanto ele terminava o caf�-da-manh�.</p><p>� Meu caro Watson � disse ao se levantar da mesa, passando a andar de um lado para o outro na sala �, voc� � muito paciente, mas se n�o lhe contei nada nos �ltimos tr�s dias, � porque n�o h� nada para dizer. Mesmo agora, esta reportagem de Paris n�o nos ajuda muito.</p><p>� Com certeza � definitivo no que se refere � morte do sujeito.</p><p>� A morte do homem � um mero incidente � um epis�dio banal � em compara��o com o nosso objetivo real, que � localizar esse documento e evitar uma cat�strofe na Europa. Apenas uma coisa importante aconteceu nesses �ltimos tr�s dias, e � o fato de que nada aconteceu. Tenho not�cias quase de hora em hora do governo, e � certo que em nenhum lugar na Europa existem sinais de problemas. Agora, se esta carta estivesse perdida � n�o, ela n�o pode estar perdida � mas se n�o est� perdida, onde pode estar? Quem est� com ela? Por que est� sendo retida? Esta � a quest�o que bate em minha cabe�a como um martelo. Foi de fato uma coincid�ncia a morte de Lucas na noite em que a carta desapareceu? Ser� que a carta chegou at� ele? Se chegou, por que n�o est� entre seus pap�is? Esta sua esposa louca a ter� levado consigo? Se levou, estar� em sua casa em Paris? Como eu poderia procur�-la sem levantar suspeitas da pol�cia francesa? � um caso, meu caro Watson, em que a justi�a � t�o perigosa para n�s quanto para os criminosos. Cada m�o humana est� contra n�s, e ainda assim os interesses em jogo s�o colossais. Se eu conseguir concluir com �xito este caso, isto com certeza representar� o coroamento glorioso da minha carreira. Ah, aqui est�o as �ltimas da frente de combate! Deu uma olhada r�pida no bilhete que segurava. � Ora! Lestrade parece ter notado algo de interessante. Ponha seu chap�u, Watson, e caminharemos juntos at� Westminster.</p><p>Era a minha primeira visita ao local do crime � uma casa alta, com os fundos estreitos, escura, empertigada, formal e s�lida como o s�culo em que fora constru�da. As fei��es de buldogue de Lestrade nos olharam da janela da frente, e ele nos cumprimentou calorosamente quando um policial corpulento abriu a porta e nos deixou entrar. O aposento ao qual fomos levados era aquele em que o crime fora cometido, mas n�o havia mais nenhum vest�gio dele, a n�o ser uma mancha feia e irregular no tapete. Esse tapete era um pequeno quadrado de l� no centro da sala, cercado por um bonito assoalho de madeira, em blocos quadrados, bastante polidos. Sobre a lareira havia um magn�fico painel de armas, uma das quais fora usada naquela noite tr�gica. Perto da janela havia uma escrivaninha suntuosa, e cada detalhe da casa, as pinturas, os tapetes e o papel de parede, tudo indicava um gosto luxuoso quase efeminado.</p><p>� Viu as novidades de Paris? � perguntou Lestrade.</p><p>Holmes confirmou.</p><p>� Nossos amigos franceses parecem ter acertado no alvo desta vez. Sem d�vida � como eles dizem. Ela bateu � porta � visita de surpresa, eu creio, porque ele levava sua vida em compartimentos estanques �, deixou-a entrar, pois n�o podia deix�-la na rua. Ela disse-lhe como o localizara, e o censurou. Uma coisa levou � outra, e ent�o com aquela adaga t�o acess�vel o fim chegou logo. Mas n�o foi feito tudo num instante, pois estas cadeiras estavam espalhadas por toda a sala e ele tinha uma na m�o, como se tentasse manter a mulher afastada com ela. Est� tudo t�o claro como se tiv�ssemos visto.</p><p>Holmes ergueu as sobrancelhas.</p><p>� E ainda assim me procurou?</p><p>� Ah, sim, isso � um outro assunto � uma ninharia, mas o tipo de coisa pela qual o senhor se interessa � esquisito, sabe, e o que se pode chamar de bizarro. N�o tem nada a ver com o fato principal � n�o pode ter, pela apar�ncia.</p><p>� O que �, ent�o?</p><p>� Bem, o senhor sabe, depois de um crime deste tipo tomamos muito cuidado para manter as coisas na mesma posi��o. Nada foi removido. Guardas se encarregam disso dia e noite. Esta manh�, como o homem foi enterrado e a investiga��o terminou � no que se relaciona com a sala �, pensamos em dar uma arrumada por aqui. Este tapete. V�, n�o � pregado no ch�o, apenas colocado a�. Tivemos de levant�-lo. Encontramos...</p><p>� Sim? Voc�s encontraram...</p><p>O rosto de Holmes ficou tenso de ansiedade.</p><p>� Ora, tenho certeza de que n�o adivinharia o que encontramos nem em 100 anos. V� esta mancha no tapete? Bem, uma grande quantidade deve ter passado atrav�s dele, n�o?</p><p>� Sem d�vida.</p><p>� Bem, ficar� surpreso ao saber que n�o h� uma mancha correspondente no assoalho de madeira clara.</p><p>� Nenhuma mancha! Mas deve ter...</p><p>� Sim, � o que diz. Mas o fato � que n�o tem.</p><p>Pegou a ponta do tapete, levantou-a e mostrou que realmente era como ele dissera.</p><p>� Mas o lado de baixo est� t�o manchado quanto o de cima. Deveria ter deixado uma marca.</p><p>Lestrade exultava com o prazer de ter deixado intrigado o perito famoso.</p><p>� Agora, vou dar a explica��o. H� uma segunda mancha, mas em outra parte do tapete, e l�, de fato, estava uma grande quantidade de sangue derramado sobre o quadrado branco do assoalho antigo. � O que acha disso, sr. Holmes?</p><p>� Ora, � muito simples. As duas manchas na verdade se correspondem, mas o tapete foi trocado de lado. Como era quadrado e despregado, isto p�de ser feito com facilidade.</p><p>� A pol�cia n�o precisa do senhor para concluir que o tapete foi invertido. Isto est� bem claro, pois as manchas ficam uma sobre a outra � se o colocar deste modo. Mas o que quero saber � quem o deslocou e por qu�?</p><p>Eu podia ver pelo rosto r�gido de Holmes que estava vibrando de excita��o interior.</p><p>� Olhe aqui, Lestrade � disse �, aquele guarda no corredor ficou em seu posto o tempo todo?</p><p>� Sim, ficou.</p><p>� Bem, siga meu conselho. Interrogue-o com cuidado. N�o o fa�a diante de n�s. Esperaremos aqui. Leve-o para a sala dos fundos. Pergunte a ele como ousou fazer entrar pessoas e deix�-las sozinhas nesta sala. N�o lhe pergunte se fez isso. Fale como se tivesse certeza. Diga-lhe que sabe que algu�m esteve aqui. Pressione-o. Diga-lhe que uma confiss�o total � sua �nica possibilidade de perd�o. Fa�a exatamente o que lhe digo!</p><p>� Por Deus, se ele souber, eu o afastarei! � exclamou Lestrade. Correu para o sagu�o e alguns momentos depois sua voz arrogante soou nos fundos da casa.</p><p>� Agora, Watson, agora! � exclamou Holmes com uma impaci�ncia exaltada. Toda a for�a demon�aca do homem escondida atr�s daquele comportamento indiferente explodiu num paroxismo de energia. Arrancou o tapete do ch�o, e num instante estava com as m�os e os joelhos no ch�o, pressionando para baixo cada um dos quadrados de madeira. Um deles girou de lado quando ele colocou a unha em sua borda. Abria-se como a tampa de uma caixa. Uma pequena cavidade negra abriu-se embaixo. Holmes meteu nela sua m�o impaciente e a retirou com um rugido agudo de raiva e desapontamento. Estava vazia.</p><p>� Depressa, Watson, depressa! Encaixe de novo! � A tampa de madeira foi recolocada, e o tapete acabara de ser posto no lugar quando ouviram a voz de Lestrade no corredor. Ele encontrou Holmes apoiado languidamente na lareira, resignado e paciente, tentando disfar�ar seus bocejos irreprim�veis.</p><p>� Desculpe-me por t�-lo deixado esperando, sr. Holmes. Posso ver que est� bastante entediado com todo esse caso. Bem, ele confessou, tudo certo. Venha aqui dentro, MacPherson. Deixe estes cavalheiros ouvirem a respeito de sua conduta indesculp�vel.</p><p>O policial corpulento, muito vermelho e arrependido, aproximou-se.</p><p>� Eu achei que n�o tinha nada de mal, senhor. A jovem veio at� a porta ontem � tarde � errou de casa, ela disse. E ent�o come�amos a conversar. � muito solit�rio, quando se fica de guarda aqui o dia inteiro.</p><p>� Bem, o que aconteceu, ent�o?</p><p>� Ela queria ver o lugar onde o crime foi cometido � lera sobre ele nos jornais. Era uma jovem muito respeit�vel, bem-educada, senhor, e n�o vi mal nenhum em deix�-la dar uma olhada. Quando viu aquela marca no tapete, caiu no ch�o e ficou como se estivesse morta. Corri para os fundos e peguei um pouco de �gua, mas n�o consegui reanim�-la. Ent�o sa�, dobrei a esquina e fui at� o Ivy Plant em busca de brandy, e quando o trouxe, a jovem j� se recuperara e sa�ra � envergonhada, eu diria, e sem coragem de me encarar.</p><p>� E sobre aquele tapete que foi mo�do?</p><p>� Bem, senhor, estava um pouco enrugado, � claro, quando voltei. Ora, ela caiu sobre ele, e ele fica num assoalho polido sem nada para segur�-lo no lugar. Eu o endireitei depois.</p><p>� � uma li��o para voc� aprender que n�o pode me enganar, guarda MacPherson � disse Lestrade com dignidade. � Sem d�vida pensou que sua falta no cumprimento do dever nunca seria descoberta, e ainda assim uma ligeira olhada naquele tapete foi suficiente para me convencer de que algu�m fora admitido na sala. Sorte sua, meu rapaz, que n�o esteja faltando nada, sen�o j� estaria na rua Queer. Lamento t�-lo chamado por causa de uma coisa t�o insignificante, sr. Holmes, mas achei que o fato de a segunda mancha n�o corresponder � primeira interessaria ao senhor.</p><p>� Com certeza foi muito interessante. Esta mulher s� esteve aqui uma vez, guarda?</p><p>� Sim, senhor, apenas uma.</p><p>� Quem era ela?</p><p>� N�o sei o nome, senhor. Estava respondendo a um an�ncio sobre datilografia e veio ao n�mero errado � uma jovem muito agrad�vel e gentil, senhor.</p><p>� Alta? Bonita?</p><p>� Sim, senhor, era uma mulher alta e jovem. Pode-se dizer que ela era bonita. Talvez alguns dissessem que era muito bonita. �Oh, guarda, deixe-me dar uma olhada!�, ela disse. Tinha um jeito elegante e persuasivo, como se poder dizer, e pensei que n�o havia nada de mal em apenas deix�-la espiar pela porta.</p><p>� Como estava vestida?</p><p>� Discretamente, senhor. Uma capa longa, at� os p�s.</p><p>� A que horas foi isso?</p><p>� Estava anoitecendo. Come�avam a acender os postes quando eu voltei com o brandy.</p><p>� Muito bom � disse Holmes. � Venha, Watson, creio que temos um trabalho mais importante num outro lugar.</p><p>Quando sa�mos da casa, Lestrade permaneceu na sala da frente, enquanto o guarda arrependido abria a porta para n�s. Holmes virou-se no degrau e mostrou algo em sua m�o. O policial olhou atentamente.</p><p>� Meu Deus, senhor! � exclamou, com uma express�o de assombro. Holmes p�s o dedo nos l�bios, enfiou a m�o no bolso da frente, e come�ou a rir enquanto desc�amos a rua. � Excelente! � disse. � Venha, amigo Watson, a cortina se levanta para o �ltimo ato. Ficar� aliviado em saber que n�o haver� guerra nenhuma, que o right honourable Trelawney Hope n�o sofrer� nenhum golpe em sua carreira, que o soberano indiscreto n�o receber� puni��o alguma por sua indiscri��o, que o primeiro-ministro n�o ter� de lidar com nenhuma complica��o europ�ia, e que, com um pouco de tato e esperteza de nossa parte, ningu�m perder� 1 p�ni sequer pelo que foi um incidente muito perigoso.</p><p>Enchi-me de admira��o por este homem extraordin�rio.</p><p>� Voc� solucionou o caso! � exclamei.</p><p>� Quase, Watson. Alguns detalhes ainda n�o foram esclarecidos. Mas j� temos tanto que ser� uma falha nossa se n�o conseguirmos saber o resto. Iremos direto a Whitehall Terrace e levaremos o caso at� o fim.</p><p>Quando chegamos � resid�ncia do secret�rio para Assuntos Europeus, foi por lady Hilda Trelawney Hope que Holmes perguntou. Fomos levados para a sala de visitas.</p><p>� Sr. Holmes! � disse a dama, e seu rosto estava vermelho de indigna��o. � Isto � com certeza muito injusto e mesquinho de sua parte. Queria, como expliquei, manter em segredo minha visita ao senhor, receando que meu marido soubesse que eu estava me intrometendo em seus neg�cios. E mesmo assim o senhor me compromete vindo aqui e demonstrando desse modo que existem rela��es de neg�cios entre n�s.</p><p>� Infelizmente, madame, n�o tive alternativa. Fui encarregado de recuperar este papel extremamente importante. De modo que devo lhe pedir, madame, que fa�a a gentileza de coloc�-lo em minhas m�os.</p><p>A dama ficou de p� num pulo, e a cor desapareceu de seu bonito rosto num instante. Seus olhos ficaram vidrados � ela cambaleou �, e pensei que iria desmaiar. Depois, com grande esfor�o, recobrou-se do choque, e seu rosto demonstrava assombro e idigna��o.</p><p>� O senhor... o senhor me insulta, sr. Holmes.</p><p>� Ora, ora, madame, isso � in�til. Entregue a carta.</p><p>Ela correu para a campainha.</p><p>� O mordomo lhes mostrar� a sa�da.</p><p>� N�o a toque, lady Hilda. Se o fizer, todos os meus esfor�os para evitar um esc�ndalo ser�o frustrados. Entregue a carta e tudo ficar� bem. Se colaborar comigo, posso ajeitar tudo. Se trabalhar contra mim, terei de exp�-la.</p><p>Ela parou, desafiadora, as fei��es majestosas, os olhos fixos nos dele como se lesse a sua alma. Sua m�o estava na campainha, mas ela n�o ousara toc�-la.</p><p>� Est� tentando me amedrontar. N�o � uma atitude muito adequada a um homem, sr. Holmes, vir aqui e intimidar uma mulher. O senhor diz que sabe de algo. O que sabe?</p><p>� Por favor, sente-se, madame. Vai se machucar se cair a�. N�o falarei enquanto n�o se sentar. Obrigado.</p><p>� Dou-lhe cinco minutos, sr. Holmes.</p><p>� Um � suficiente, lady Hilda. Sei de sua visita a Eduardo Lucas, que lhe entregou o documento, sei de seu engenhoso retorno ao aposento na noite passada, e a maneira pela qual tirou a carta de seu esconderijo sob o tapete.</p><p>Ela o encarou com um rosto cadav�rico e engoliu em seco duas vezes antes de poder falar.</p><p>� Est� louco, sr. Holmes... o senhor est� louco! � exclamou finalmente.</p><p>Ele tirou um peda�o de papel�o do bolso. Era o rosto de uma mulher cortado de um retrato.</p><p>� Trouxe isto porque pensei que poderia ser �til � disse. � O policial a reconheceu.</p><p>Ela deu um gemido e apoiou a cabe�a no encosto da cadeira.</p><p>� Vamos, lady Hilda. A senhora est� com a carta. O caso ainda pode ser consertado. N�o desejo criar-lhe problemas. Minha obriga��o termina quando eu devolver a carta perdida ao seu marido. Siga o meu conselho e seja franca comigo. � sua �nica chance.</p><p>Sua coragem era admir�vel. Mesmo agora n�o se deixava vencer.</p><p>� Afirmo de novo, sr. Holmes, que est� absolutamente enganado.</p><p>Holmes levantou-se da cadeira.</p><p>� Sinto muito pela senhora, lady Hilda. Fiz o m�ximo que pude. Vejo que foi tudo em v�o.</p><p>Ele tocou a campainha. O mordomo entrou.</p><p>� O sr. Trelawney Hope est� em casa?</p><p>� Ele estar� em casa, senhor, �s 12:45h.</p><p>Holmes olhou para seu rel�gio.</p><p>� Ainda faltam 15 minutos � disse. � Muito bem, eu esperarei.</p><p>Mal o mordomo fechara a porta, lady Hilda ajoelhou-se aos p�s de Holmes, as m�os estendidas, o rosto bonito erguido e molhado de l�grimas.</p><p>� Oh, poupe-me, sr. Holmes! Poupe-me! � implorou, numa s�plica fren�tica. � Pelo amor de Deus, n�o conte a ele! Amo-o tanto! N�o seria capaz de provocar uma �nica mancha em sua vida, e sei que isto partiria seu cora��o nobre.</p><p>Holmes ergueu a dama. � Estou grato, madame, por ter dado ouvidos � raz�o, mesmo neste �ltimo instante! N�o temos tempo a perder. Onde est� a carta?</p><p>Ela correu at� uma escrivaninha, destrancou-a e tirou um envelope azul comprido.</p><p>� Aqui est�, sr. Holmes. Gostaria de nunca t�-la visto!</p><p>� Como podemos devolv�-lo? � murmurou Holmes. R�pido, r�pido, devemos pensar em alguma maneira! Onde est� a caixa de correspond�ncia?</p><p>� Aqui no quarto dele.</p><p>� Que golpe de sorte! Depressa, madame, traga-a aqui!</p><p>Logo depois ela apareceu com uma caixa vermelha na m�o.</p><p>� Como a abriu antes? Tem uma duplicata da chave? Sim, � claro que tem. Abra-a!</p><p>De seu decote, lady Hilda tirou uma chave pequena. A caixa foi aberta. Estava entulhada de pap�is. Holmes enfiou o envelope azul no meio deles; entre as folhas de um outro documento. A caixa foi fechada, trancada e levada de volta para o quarto.</p><p>� Agora estamos prontos para receb�-lo � disse Holmes. � Ainda temos dez minutos. Estou fazendo o poss�vel para acobert�-la, lady Hilda. Em troca, vai passar esse tempo me contando francamente o verdadeiro significado deste caso extraordin�rio.</p><p>� Sr. Holmes, eu lhe contarei tudo � exclamou a dama. � Oh, sr. Holmes, eu preferiria cortar minha m�o direita a dar a ele um momento de m�goa! N�o existe uma mulher em toda Londres que ame seu marido como eu o amo, e ainda assim, se ele soubesse como agi � como fui induzida a agir �, nunca me perdoaria. Pois preza tanto sua pr�pria honra que ele n�o poderia esquecer ou perdoar um lapso na honra dos outros. Ajude-me, sr. Holmes! Minha felicidade, a felicidade dele, nossas pr�prias vidas est�o em jogo!</p><p>� Depressa, madame, o tempo est� acabando!</p><p>� Era uma carta minha, sr. Holmes, uma carta indiscreta escrita antes do meu casamento � uma carta boba, de uma garota impulsiva e rom�ntica. N�o fiz por mal, e mesmo assim ele a acharia criminosa. Se tivesse lido essa carta, toda sua confian�a em mim seria destru�da para sempre. J� se passaram anos desde que a escrevi. Pensei que todo esse assunto estivesse esquecido. Ent�o, afinal, ouvi deste homem, Lucas, que ela havia passado para suas m�os, e que ele a entregaria ao meu marido. Implorei sua miseric�rdia. Ele disse que devolveria a carta se eu lhe entregasse um certo documento que descreveu, e que estava na caixa de correspond�ncia do meu marido. Tinha uma esp�cie de espi�o no escrit�rio que lhe falou sobre a sua exist�ncia. Ele me garantiu que meu marido n�o seria prejudicado. Ponha-se na minha situa��o, sr. Holmes! O que eu deveria fazer?</p><p>� Contar tudo ao seu marido.</p><p>� N�o podia, sr. Holmes, n�o podia! De um lado, parecia ser a ru�na certa, e de outro, por mais terr�vel que parecesse tirar um papel de meu marido, ainda mais sobre um assunto pol�tico, n�o podia compreender as conseq��ncias, enquanto em mat�ria de amor e confian�a era tudo muito claro para mim. Eu o fiz, sr. Holmes! Tirei um molde da chave. Esse homem, Lucas, fez uma duplicata. Abri a caixa de correspond�ncia dele, tirei o papel e o levei � rua Godolphin.</p><p>� O que aconteceu l�, madame?</p><p>� Bati na porta da maneira combinada. Lucas a abriu. Fui atr�s dele at� a sala, deixando a porta do sagu�o entreaberta, pois temia ficar sozinha com aquele homem. Lembro-me de que havia uma mulher do lado de fora quando entrei. Nosso neg�cio foi feito logo. Ele estava com a minha carta em sua mesa, e eu lhe entreguei o documento. Ele me deu a carta. Nesse momento ouvimos um barulho � porta. Passos no corredor. Lucas afastou rapidamente o tapete, jogou o documento em algum esconderijo ali e o cobriu.</p><p>� O que aconteceu depois disso parece um pesadelo. Vi um rosto moreno e louco, transtornado, ouvi uma voz de mulher que gritava em franc�s: �Minha espera n�o foi em v�o. Afinal, afinal encontrei voc� com ela!� Houve uma luta feroz. Eu o vi com uma cadeira na m�o, uma faca brilhava na dela. Fugi correndo da cena horr�vel, da casa, e somente na manh� seguinte, no jornal, � que soube do desfecho terr�vel. Aquela noite eu estava feliz porque tinha a minha carta, e ainda n�o sabia o que o destino iria trazer.</p><p>� Foi na manh� seguinte que percebi que apenas trocara um problema por outro. A ang�stia de meu marido com a perda do documento me doeu no cora��o. Mal pude me controlar para n�o me ajoelhar diante dele e lhe contar o que havia feito. Mas isso seria de novo uma confiss�o do passado. Vim procurar o senhor naquela manh� para compreender a plena dimens�o do meu ato. Desde o instante em que compreendi, eu s� pensava em trazer de volta o papel do meu marido. Ainda devia estar no lugar onde Lucas o colocara, porque fora escondido antes que aquela mulher horr�vel entrasse na sala. N�o fosse a chegada dela, eu n�o saberia onde ficava o esconderijo. Como eu poderia entrar na sala? Durante dois dias fiquei vigiando o lugar, mas a porta nunca foi deixada aberta. Na noite passada fiz minha �ltima tentativa. O que fiz e como me sa� o senhor j� sabe. Trouxe o papel de volta e pensei em destru�-lo, j� que n�o via um jeito de devolv�-lo sem confessar ao meu marido a minha culpa. C�us, ou�o seus passos na escada!</p><p>O secret�rio para Assuntos Europeus entrou agitado na sala.</p><p>� Alguma novidade, sr. Holmes, alguma novidade? � exclamou.</p><p>� Tenho algumas esperan�as.</p><p>� Ah, gra�as aos c�us! � Seu rosto ficou radiante. � O primeiro-ministro vai almo�ar comigo. Posso contar a ele sobre as suas esperan�as? Ele tem nervos</p><p>de a�o, mas sei que mal tem conseguido dormir desde esse incidente terr�vel. Jacobs, poderia pedir ao primeiro-ministro para subir? Quanto a voc�, querida, este � um assunto pol�tico. Espere na sala de jantar. Estaremos l� daqui a alguns minutos.</p><p>A atitude do primeiro-ministro era controlada, mas pude ver pelo brilho de seus olhos e pelo tremor de suas m�os ossudas que estava t�o excitado quanto seu jovem colega.</p><p>� Creio que tem algo a contar, sr. Holmes?</p><p>� Puramente negativo por enquanto � respondeu meu amigo. � Investiguei cada ponto onde poderia estar, e tenho certeza de que n�o h� perigo algum a temer.</p><p>� Mas isso n�o � suficiente, sr. Holmes. N�o podemos viver eternamente nesse vulc�o. Precisamos ter algo definitivo.</p><p>� Tenho esperan�as de consegui-lo. � por isso que estou aqui. Quanto mais penso no assunto, mais fico convencido de que a carta nunca saiu desta casa.</p><p>� Sr. Holmes!</p><p>� Se tivesse sa�do, a esta altura j� teria sido publicada, com certeza.</p><p>� Mas por que algu�m a pegaria para deix�-la em sua pr�pria casa?</p><p>� N�o tenho certeza de que algu�m a pegou.</p><p>� Ent�o como ela pode ter sa�do da caixa de correspond�ncia?</p><p>� N�o estou convencido de que ela chegou a sair da caixa de correspond�ncia.</p><p>� Sr. Holmes, esta brincadeira � muito importuna. Eu lhe asseguro que a carta saiu da caixa.</p><p>� O senhor examinou a caixa desde ter�a de manh�?</p><p>� N�o. N�o foi necess�rio.</p><p>� Provavelmente apenas deu uma olhada superficial.</p><p>� Imposs�vel, eu afirmo.</p><p>� Mas n�o estou convencido disso. Sei que essas coisas acontecem. Presumo que haja outros pap�is ali. Ora, pode ter sido misturada com os outros.</p><p>� Estava bem em cima.</p><p>� Algu�m pode ter sacudido a caixa e t�-la tirado do lugar.</p><p>� N�o, n�o, estava tudo em ordem.</p><p>� Bem, isto pode ser resolvido facilmente, Hope � disse o primeiro-ministro. � Traga a caixa de correspond�ncia.</p><p>O secret�rio tocou a campainha.</p><p>� Jacobs, traga minha caixa de correspond�ncia. Isto � uma perda de tempo idiota, mas, se nada mais ir� convenc�-lo, isso ser� feito. Obrigado, Jacobs,</p><p>ponha-a aqui. Sempre guardei a chave na corrente do meu rel�gio. Aqui est�o os pap�is, veja. Carta do lorde Merrow, relat�rio de sir� Charles Hardy, memorando de Belgrado, notas sobre as taxas de gr�os russo-germ�nicas, carta de Madri, bilhete do lorde Flowers � Meu Deus! O que � isto? Lorde Bellinger! Lorde Bellinger!</p><p>O primeiro-ministro viu o envelope azul na m�o dele.</p><p>� Sim, � ele � e a carta est� intacta. Hope, eu lhe dou os parab�ns.</p><p>Obrigado! Obrigado! Que peso me tirou do cora��o. Mas isto � inconceb�vel... � imposs�vel. Sr. Holmes, o senhor � um feiticeiro, um adivinho! Como descobriu que estava aqui?</p><p>� Porque sabia que n�o estava em nenhum outro lugar.</p><p>� N�o consigo acreditar em meus olhos! � Ele correu para a porta.</p><p>� Onde est� minha esposa? Preciso dizer-lhe que est� tudo bem. Hilda! Hilda! � ouvimos sua voz nas escadas.</p><p>O primeiro-ministro olhou para Holmes piscando os olhos.</p><p>� Ora, senhor � disse. � H� mais coisa nisso do que aquilo que parece � primeira vista. Como � que a carta voltou para a caixa?</p><p>Holmes desviou-se sorridente do exame atento daqueles olhos cintilantes.</p><p>� Tamb�m temos nossos segredos diplom�ticos � disse e, pegando o seu chap�u, virou-se para a porta.</p><p>*</p><p>FIM</p><empty-line/></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>O C�o dos Baskervilles</strong></p></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>dedicat�ria</strong></p><p>Meu caro Robinson, foi seu relato de uma lenda do oeste da Inglaterra que primeiro me sugeriu a id�ia desta pequena hist�ria. Por isso e pela ajuda que me deu em seu desenvolvimento, obrigado.</p><p>Sinceramente seu,</p><p>A. Conan Doyle.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o sr. sherlock holmes</strong></p><p>O sr. Sherlock Holmes, que costumava se levantar muito tarde, a n�o ser nas raras ocasi�es em que passava a noite toda acordado, estava sentado � mesa do caf�. De p� diante da lareira, eu apanhei a bengala que o nosso visitante esquecera na noite anterior. Era um belo peda�o de madeira grossa, de cast�o redondo, do tipo conhecido como Penang lawyer.* Logo abaixo do cast�o havia um anel de prata com quase 2,5 cent�metros de largura. �A James Mortimer, M.R.C.S.,** dos seus amigos do C.C.H.�, estava gravado nele, com a data �1884�. Era exatamente o tipo de bengala que o antiquado m�dico de fam�lia costumava usar � majestosa, resistente e que inspirava confian�a.</p><p>� Bem, Watson, o que acha dela?</p><p>Holmes estava sentado de costas para mim, e eu n�o havia dado a ele nenhuma indica��o do que fazia no momento.</p><p>� Como voc� soube o que eu estava fazendo? Acho que voc� tem olhos atr�s da cabe�a.</p><p>� Tenho, pelo menos, um bule de caf� bem polido folheado de prata diante de mim � ele disse. � Mas, fale, Watson, o que voc� deduz da bengala do nosso visitante? J� que, infelizmente, n�o o encontramos aqui, e como n�o temos nenhuma id�ia do que desejava, este souvenir acidental passa a ser importante. Deixe-me ouvir sua descri��o do homem por meio de um exame da bengala.</p><p>� Acho � disse eu, seguindo at� onde podia os m�todos do meu amigo � que o dr. Mortimer � um m�dico idoso, bem-sucedido e muito estimado, j� que aqueles que o conhecem deram-lhe este testemunho de sua estima.</p><p>� �timo! � disse Holmes. � Excelente!</p><p>� Acho tamb�m que � grande a probabilidade de ele ser um m�dico rural que faz a maioria das suas visitas a p�.</p><p>� Por que acha isso?</p><p>� Porque esta bengala, embora originalmente muito bonita, tem sido t�o maltratada que dificilmente posso imaginar um m�dico da cidade usando-a. A grossa ponteira de ferro est� gasta; portanto, � evidente que ele tem caminhado muito com ela.</p><p>� Perfeitamente l�gico! � disse Holmes.</p><p>� E ainda h� os �amigos do C.C.H.�. Imaginaria isso como sendo Alguma Coisa de Ca�a,*** o grupo de ca�adores locais cujos membros possivelmente receberam dele alguma assist�ncia cir�rgica, e que, em retribui��o, tenham lhe dado um pequeno presente.</p><p>� Realmente, Watson, voc� est� se superando � disse Holmes, empurrando sua cadeira para tr�s e acendendo um cigarro. � Sinto-me obrigado a dizer que, em todas as hist�rias que teve a bondade de escrever a respeito das minhas pequenas proezas, voc� costuma subestimar a sua pr�pria capacidade. Talvez voc� mesmo n�o seja luminoso, mas voc� � um condutor da luz. Algumas pessoas, mesmo n�o dotadas de genialidade, t�m um poder not�vel de estimul�-la. Confesso, meu caro amigo, que lhe devo muito.</p><p>Ele nunca havia falado tanto sobre isso antes, e devo admitir que suas palavras me deram um intenso prazer, porque muitas vezes eu ficara magoado com a sua indiferen�a pela minha admira��o e pelas tentativas que fizera para dar publicidade aos seus m�todos. Fiquei orgulhoso tamb�m ao pensar que havia dominado tanto o seu sistema a ponto de aplic�-lo de forma a obter sua aprova��o. Ele tomou a bengala de minhas m�os e examinou-a por alguns minutos. Depois, com uma express�o de interesse, largou o cigarro, levou a bengala at� a janela e examinou novamente com uma lupa.</p><p>� Interessante, embora elementar � ele disse ao voltar para o seu canto favorito do sof�. � H� certamente uma ou duas indica��es na bengala. Elas nos d�o a base para v�rias dedu��es.</p><p>� Alguma coisa me escapou? � perguntei com alguma presun��o. � Espero n�o ter deixado de perceber nada importante.</p><p>� Receio, meu caro Watson, que a maioria das suas conclus�es esteja errada. Quando eu disse que voc� me estimulava, eu quis dizer, para ser franco, que, ao notar os seus enganos, algumas vezes fui conduzido na dire��o da verdade. N�o que voc� esteja inteiramente errado neste caso. O homem � certamente um m�dico do campo. E anda um bocado.</p><p>� Ent�o eu estava certo.</p><p>� At� esse ponto.</p><p>� Mas isso era tudo.</p><p>� N�o, n�o, meu caro Watson, n�o tudo, de modo algum tudo. Eu sugeriria, por exemplo, que � mais prov�vel que um presente a um m�dico seja dado por um hospital do que por um grupo de ca�adores, e que, quando as iniciais �C.C.� s�o colocadas antes desse hospital, as palavras �Charing Cross� surgem naturalmente.</p><p>� Talvez voc� tenha raz�o.</p><p>� A probabilidade est� nessa dire��o. E se considerarmos isto uma hip�tese de trabalho, temos uma nova base da qual come�ar a reconstitui��o do nosso visitante desconhecido.</p><p>� Bem, ent�o, supondo que �C.C.H.� signifique �Charing Cross Hospital�, que outras dedu��es podemos fazer?</p><p>� N�o h� nenhuma �bvia? Voc� conhece os meus m�todos. Aplique-os!</p><p>� S� posso pensar na conclus�o �bvia de que o homem clinicou na cidade antes de ir para o campo.</p><p>� Acho que podemos nos aventurar um pouco al�m disto. Considere o seguinte. Em que ocasi�o seria mais prov�vel que este presente fosse dado? Quando os seus amigos se reuniriam para demonstrar-lhe a sua estima? Obviamente no momento em que o dr. Mortimer retirou-se do servi�o do hospital para come�ar a clinicar por conta pr�pria. Sabemos que existiu um presente. Achamos que houve uma mudan�a de um hospital da cidade para uma cl�nica no campo. Neste caso, estar�amos indo longe demais na nossa dedu��o se diss�ssemos que o presente foi por ocasi�o da mudan�a?</p><p>� Isso certamente parece prov�vel.</p><p>� Agora, voc� observar� que ele n�o podia fazer parte da equipe do hospital, j� que s� um homem bem estabelecido numa cl�nica londrina poderia ter uma posi��o dessas, e um homem assim n�o iria se meter no campo. O que ele era, ent�o? Se ele estava no hospital e apesar disso n�o fazia parte da equipe, s� podia ser o cirurgi�o residente ou o m�dico residente, pouco mais que um estudante do �ltimo ano. E ele saiu h� cinco anos, a data est� na bengala. Portanto, o seu m�dico de fam�lia, s�rio, de meia-idade, evaporou-se, meu caro Watson, e surge um sujeito jovem, com menos de 30 anos, am�vel, sem ambi��o, distra�do, e dono de um c�o de estima��o, que eu descreveria, de modo aproximado, como sendo maior do que um terrier e menor do que um mastim.</p><p>Ri com incredulidade quando Sherlock Holmes recostou-se no seu sof� e soltou an�is tr�mulos de fuma�a em dire��o ao teto.</p><p>� Quanto � �ltima parte, n�o tenho nenhum meio de conferir � eu disse �, mas, pelo menos, n�o � dif�cil descobrir alguns detalhes sobre a idade e a carreira profissional do homem. � Da minha pequena prateleira de livros de medicina tirei o cat�logo dos m�dicos e procurei o nome. Havia v�rios Mortimers, mas s� um podia ser o nosso visitante. Li em voz alta o seu registro.</p><p>Mortimer, James, M.R.C.S., 1882, Grimpen Dartmoor, Devon. Cirurgi�o residente, de 1882 at� 1884, do Hospital Charing Cross. Vencedor do Pr�mio Jackson de Patologia Comparada, com o ensaio intitulado �A Doen�a � uma Revers�o?�. Membro correspondente da Sociedade Sueca de Patologia, autor de �Algumas Anomalias do Atavismo� (Lancet, 1882). �Progredimos?� (Journal of Psychology, mar�o de 1883). M�dico oficial das par�quias de Grimpen, Thorsley e High Barrow.</p><empty-line/><p>� Nenhuma men��o �queles ca�adores locais, Watson � disse Holmes com um sorriso maroto �, mas um m�dico rural, como voc� observou com muita perspic�cia. Acho que estou razoavelmente justificado em minhas dedu��es. Quanto aos adjetivos, eu disse, se me lembro bem, am�vel, sem ambi��o e distra�do. Segundo minha experi�ncia, s� um homem am�vel neste mundo recebe provas de estima, s� um homem sem ambi��o abandona uma carreira em Londres por uma no campo, e s� um homem distra�do deixa a sua bengala e n�o o seu cart�o de visitas ap�s esperar uma hora na sala da gente.</p><p>� E o cachorro?</p><p>� Tem o h�bito de carregar esta bengala atr�s do seu dono. J� que � uma bengala pesada, o cachorro a segura com for�a pelo meio, e as marcas dos seus dentes s�o vis�veis. A mand�bula no cachorro, como mostra o espa�o entre estas marcas, � larga demais, na minha opini�o, para um terrier, e n�o suficientemente larga para um mastim. Poderia ser, sim, por Deus, � um spaniel de p�los encaracolados.</p><p>Ele havia se levantado e atravessado a sala enquanto falava. Agora parou na janela. Havia tamanha convic��o em sua voz que ergui os olhos, surpreso.</p><p>� Meu caro amigo, como voc� pode ter tanta certeza disso?</p><p>� Pelo simples motivo de que estou vendo o pr�prio cachorro no degrau da nossa porta, e a� est� o toque de campainha do seu dono. N�o saia, Watson, pe�o-lhe. Ele � seu irm�o de profiss�o e a sua presen�a pode ser �til para mim. Agora � o momento dram�tico do destino, Watson, quando se ouve um passo na escada que est� caminhando para dentro da vida da gente, e n�o se sabe se para o bem ou para o mal. O que o dr. James Mortimer, o homem de ci�ncia, pede a Sherlock Holmes, o especialista em crimes? Entre!</p><p>A apar�ncia do nosso visitante foi uma surpresa para mim, j� que estava esperando um cl�nico rural t�pico. Ele era um homem muito alto e magro, com um nariz comprido como um bico, que se projetava entre dois olhos cinzentos, vivos, muito juntos, e faiscando por tr�s de um par de �culos com aros de ouro. Estava vestido de modo profissional, mas bastante desleixado, porque sua sobrecasaca estava suja e suas cal�as, pu�das. Embora fosse jovem, suas costas compridas j� estavam curvadas e ele caminhava com um impulso da cabe�a para a frente, e um aspecto geral de atenta benevol�ncia. Quando entrou, seus olhos ca�ram sobre a bengala na m�o</p><p>de Holmes, e ele correu para ela com uma exclama��o de alegria. � Estou t�o contente � ele disse. � Eu n�o tinha certeza se a havia deixado aqui ou no escrit�rio da companhia de navega��o. Eu n�o perderia essa bengala por nada neste mundo.</p><p>� Um presente, vejo � disse Holmes.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Do Hospital Charing Cross?</p><p>� De um ou dois amigos de l� por ocasi�o do meu casamento.</p><p>� Meu Deus, meu Deus, isso � mau! � disse Holmes sacudindo a cabe�a.</p><p>O dr. Mortimer piscou, um pouco espantado.</p><p>� Por que isso foi mau?</p><p>� Apenas porque o senhor desorganizou as nossas pequenas dedu��es. O seu casamento, diz o senhor?</p><p>� Sim. Eu me casei, de modo que deixei o hospital e com ele todas as esperan�as de clinicar. Foi necess�rio para montar um lar.</p><p>� Vamos, vamos, afinal de contas n�o estamos t�o errados � disse Holmes. � E agora, dr. James Mortimer...</p><p>� Senhor, cavalheiro, senhor � um humilde M.R.C.S.</p><p>� E um homem de mente precisa, evidentemente.</p><p>� Um diletante da ci�ncia, sr. Holmes, um apanhador de conchas nas praias do grande oceano desconhecido. Presumo que seja ao sr. Sherlock Holmes que eu esteja me dirigindo e n�o...</p><p>� N�o, este � o meu amigo dr. Watson.</p><p>� Prazer em conhec�-lo, senhor. Ouvi mencionarem o seu nome ligado ao do seu amigo. O senhor me interessa muito, sr. Holmes. Dificilmente eu teria esperado um cr�nio t�o dolicocef�lico ou um desenvolvimento supra-orbital t�o bem marcado. O senhor permitiria que eu passasse o dedo pela sua fissura parietal? Um molde do seu cr�nio, senhor, at� que o original fique dispon�vel, seria um ornamento para qualquer museu antropol�gico. N�o � minha inten��o ser grosseiro, mas confesso que cobi�o o seu cr�nio.</p><p>Sherlock Holmes indicou uma cadeira ao nosso visitante. � Percebo que o senhor � um entusiasta na sua linha de pensamento, como sou da minha � disse ele. � Observo pelo seu indicador que o senhor faz os seus pr�prios cigarros. N�o hesite em acender um.</p><p>O homem tirou do bolso papel e fumo, e enrolou um no outro com uma habilidade surpreendente. Ele tinha dedos longos e tr�mulos t�o �geis e inquietos quanto as antenas de um inseto.</p><p>Holmes estava em sil�ncio, mas os seus r�pidos olhares penetrantes revelaram-me o interesse que ele tinha pelo nosso curioso companheiro.</p><p>� Presumo, senhor � disse ele por fim � que n�o foi simplesmente com o objetivo de examinar o meu cr�nio que o senhor me deu a honra de passar por aqui ontem � noite e novamente hoje?</p><p>� N�o, senhor, n�o; embora esteja feliz por ter tido a oportunidade de fazer isso tamb�m. Vim procur�-lo, sr. Holmes, porque reconheci que eu mesmo sou um homem pouco pr�tico, e porque me defrontei de repente com um problema muito grave e extraordin�rio. Reconhecendo, como reconhe�o, que o senhor � o segundo maior especialista da Europa...</p><p>� Realmente, senhor! Posso saber quem tem a honra de ser o primeiro? � perguntou Holmes com alguma aspereza.</p><p>� Para o homem de mente estritamente cient�fica, a obra de monsieur Bertillon deve ter sempre um forte apelo.</p><p>� Ent�o n�o � melhor o senhor consult�-lo?</p><p>� Eu disse, senhor, para a mente estritamente cient�fica. Mas como um homem de neg�cios pr�ticos, o senhor � reconhecido como �nico. Espero, senhor, n�o ter inadvertidamente...</p><p>� S� um pouco � disse Holmes. � Acho, dr. Mortimer, que o senhor agiria de modo sensato se, sem mais delongas, tivesse a bondade de me contar objetivamente qual a natureza exata do problema para o qual pede a minha ajuda.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a maldi��o dos baskervilles</strong></p><p>� Tenho no meu bolso um manuscrito � disse o dr. James Mortimer.</p><p>� Percebi quando o senhor entrou na sala � disse Holmes.</p><p>� � um manuscrito antigo.</p><p>� Do in�cio do s�culo XVIII, a menos que seja uma falsifica��o.</p><p>� Como pode dizer isso, senhor?</p><p>� O senhor deixou � mostra uns 5 cent�metros dele, que eu pude observar durante todo o tempo em que esteve falando. Seria um mau especialista aquele que n�o conseguisse saber a data de um documento com a precis�o aproximada de uma d�cada. Talvez o senhor tenha lido a minha pequena monografia sobre o assunto. Acho que esse � de 1730.</p><p>� A data exata � 1742. � O dr. Mortimer tirou-o do bolso de cima. � Este documento</p><p>de fam�lia foi entregue aos meus cuidados por sir Charles Baskerville, cuja morte s�bita e tr�gica h� cerca de tr�s meses causou muita como��o em Devonshire. Posso dizer que era seu amigo, bem como seu m�dico assistente. Ele era um homem en�rgico, astuto, pr�tico e t�o sem imagina��o quanto eu. Mas levava este documento muito a s�rio, e sua mente estava preparada exatamente para esse tipo de fim que acabou tendo.</p><p>Holmes estendeu a m�o para o manuscrito e o abriu sobre os joelhos.</p><p>� Voc� pode observar, Watson, o uso alternado do s longo e curto. Essa � uma das v�rias indica��es que me permitiram determinar a data.</p><p>Olhei por cima do seu ombro para o papel amarelo e a escrita desbotada. Em cima estava escrito �Mans�o Baskerville�, e embaixo, em n�meros grandes rabiscados, �1742�.</p><p>� Parece que � uma esp�cie de relato.</p><p>� Sim, o relato de uma lenda que corre na fam�lia Baskerville.</p><p>� Mas acho que o senhor quer me consultar a respeito de alguma coisa mais recente e pr�tica.</p><p>� Muito recente. � um assunto muito pr�tico e muito urgente, que precisa ser decidido em 24 horas. Mas o manuscrito � curto e est� intimamente ligado ao caso. Com sua permiss�o, vou l�-lo para o senhor.</p><p>Holmes recostou-se na cadeira, juntou as pontas dos dedos e fechou os olhos com ar de resigna��o. O dr. Mortimer aproximou o manuscrito da luz, e leu, numa voz alta e desafinada, esta narrativa antiga e curiosa:</p><empty-line/><p>Sobre a origem do C�o dos Baskervilles houve muitos relatos, mas como eu descendo em linha direta de Hugo Baskerville, e como ouvi a hist�ria de meu pai, que tamb�m a ouviu do seu, eu a registrei acreditando que ela ocorreu do modo como est� relatada aqui. E gostaria que voc�s acreditassem, meus filhos, que a mesma Justi�a que pune o pecado tamb�m pode perdo�-lo com benevol�ncia, e que nenhuma condena��o � t�o pesada que n�o possa ser anulada pela prece e pelo arrependimento. Ent�o aprendam com esta hist�ria a n�o temer os frutos do passado, de modo que as paix�es conden�veis, que fizeram nossa fam�lia sofrer de maneira t�o atroz, n�o sejam novamente o motivo de nossa desgra�a.</p><p>Saibam ent�o que na �poca da Grande Rebeli�o (cuja hist�ria escrita pelo lorde Clavendon merece a aten��o de voc�s, e eu recomendo sinceramente) este solar de Baskerville foi dado ao Hugo com este sobrenome, e n�o se pode negar que ele era um homem violento, profano e �mpio. Isto, na verdade, seus vizinhos podem ter perdoado, j� que santos nunca floresceram nessas regi�es, mas havia nele uma tend�ncia cruel e insolente que tornou seu nome conhecido em todo o oeste. Acontece que este Hugo se apaixonou (se, de fato, uma paix�o t�o sinistra pode ser chamada por um nome t�o luminoso) pela filha de um pequeno propriet�rio rural que tinha terras perto da propriedade de Baskerville. Mas a jovem, que era discreta e de boa reputa��o, sempre o evitava, porque temia a m� fama do seu nome.</p><p>Num Dia de S�o Miguel (29 de setembro), este Hugo, com cinco ou seis de seus amigos desocupados e perversos, invadiu a fazenda e levou a jovem, sabendo que o pai e os irm�os dela n�o estavam em casa. Eles levaram a jovem para a mans�o e a instalaram num quarto no segundo andar, enquanto Hugo e seus amigos se acomodaram no andar de baixo para uma longa bebedeira, como costumavam fazer todas as noites. Mas a pobre mo�a, no andar de cima, estava a ponto de enlouquecer com a cantoria, os gritos e as terr�veis blasf�mias que vinham do t�rreo, porque diziam que as palavras usadas por Hugo Baskerville quando estava b�bado eram do tipo que podia atrair a maldi��o para o homem que as proferia.</p><p>Por fim, impelida pelo medo, ela fez uma coisa que poderia ter intimidado o homem mais corajoso e mais �gil, porque com a ajuda da hera crescida que cobria (e ainda cobre) a parede sul, ela desceu pelo beiral e foi para sua casa atravessando o p�ntano, uma dist�ncia de 3 l�guas entre a mans�o e a fazenda do seu pai.</p><p>Pouco tempo depois, Hugo deixou seus amigos para levar comida e bebida � com outras coisas piores, possivelmente � para sua prisioneira, e descobriu que a gaiola estava vazia e que o p�ssaro fugira. Ent�o, parece que ele ficou como algu�m possu�do pelo dem�nio, porque desceu correndo as escadas, entrou na sala de jantar, pulou por cima da grande mesa fazendo voar canecas e trinchantes, e gritou diante de todo o grupo que naquela mesma noite iria entregar seu corpo e sua alma �s For�as do Mal se conseguisse agarrar a rapariga. E enquanto os estr�inas ficavam horrorizados diante da f�ria do homem, um mais perverso, ou talvez mais b�bado que o resto, gritou que eles deveriam p�r os cachorros atr�s dela. Ao ouvir isso, Hugo saiu correndo da casa, gritando para os mo�os da estrebaria que selassem sua �gua e soltassem os c�es. Dando a eles um len�o de cabe�a da mo�a, Hugo os ati�ou, e partiram pelo p�ntano sob o luar.</p><p>Durante algum tempo os companheiros de farras ficaram boquiabertos, sem entender direito o que acontecera t�o depressa. Mas logo suas mentes confusas despertaram e compreenderam o que estava prestes a ser feito naquele terreno pantanoso. Houve um rebuli�o generalizado, alguns apanhando suas pistolas, outros procurando os cavalos, e alguns, mais garrafas de vinho. Mas, finalmente, recuperando um pouco da raz�o, todos eles, 13 no total, montaram nos cavalos e come�aram a persegui��o.</p><p>A lua brilhava no c�u, e eles galoparam lado a lado pelo caminho que a mo�a devia ter seguido se estivesse indo para sua pr�pria casa.</p><p>Depois de percorrerem uma ou duas milhas, eles viram um pastor e, aos gritos, perguntaram se ele tinha visto a persegui��o. E o homem, segundo a hist�ria, ficou t�o aterrorizado que mal conseguia falar, mas acabou dizendo que vira a pobre mo�a, com os c�es na pista dela. �Mas eu vi mais do que isso�, ele disse, �porque Hugo Baskerville passou por mim em sua �gua negra, e atr�s dele vinha correndo um c�o do inferno, t�o assustador que Deus n�o permita jamais que uma fera dessas me persiga.�</p><p>Os fidalgos rurais b�bados amaldi�oaram o pastor e seguiram em frente. Mas logo suas peles gelaram, porque um tropel aproximou-se pelo p�ntano e a �gua negra, coberta de espuma branca, passou por eles com a r�dea ca�da e a sela vazia. Depois os farristas cavalgaram bem juntos, porque estavam apavorados, mas ainda seguiram pelo brejo, embora cada um deles, se estivesse s�, ficaria muito satisfeito em virar a cabe�a do seu cavalo para voltar. Cavalgando lentamente, acabaram encontrando os c�es. Estes, embora conhecidos por sua bravura e sua ra�a, estavam ganindo, amontoados no alto de uma encosta ou barranco, como o chamamos, no p�ntano, alguns se afastando furtivamente e outros, com os p�los das costas eri�ados e os olhos fixos, observaram o estreito vale que se estendia abaixo deles.</p><p>O grupo parou, os homens mais s�brios, como se pode imaginar, do que quando partiram. A maioria deles n�o avan�aria de maneira alguma, mas tr�s, os mais afoitos, ou talvez os mais b�bados, seguiram em frente, descendo o barranco. Este se abria num largo espa�o no qual havia duas daquelas grandes pedras que ainda podem ser vistas ali, que foram colocadas por alguns povos esquecidos nos dias de antanho. A lua estava brilhando sobre a clareira, e ali no meio jazia a infeliz mo�a, onde havia ca�do, morta de medo e fadiga. Mas n�o foi a vis�o do corpo dela, nem tampouco a do corpo de Hugo Baskerville que estava perto dela, que arrepiou os cabelos destes tr�s fanfarr�es temer�rios, mas sim o fato de que, em cima de Hugo e estra�alhando a sua garganta, estava uma coisa hedionda, uma fera grande e preta com a forma de um c�o, por�m maior do que qualquer c�o que olhos mortais jamais tenham visto. E enquanto eles olhavam, a coisa arrancou um peda�o da garganta de Hugo Baskerville, e quando esta virou seus olhos chamejantes e as mand�bulas gotejantes para eles, os tr�s soltaram gritos de medo e fugiram � r�dea solta, ainda gritando, pelo p�ntano. Dizem que um deles morreu naquela mesma noite em conseq��ncia do que tinha visto, e os outros dois n�o passaram de homens alquebrados pelo resto de suas vidas.</p><p>Essa � a hist�ria, meus filhos, do aparecimento do c�o que dizem ter perseguido a fam�lia t�o cruelmente desde ent�o. Se eu a registrei � porque aquilo que se conhece claramente produz menos terror do que aquilo que � apenas insinuado e imaginado. Nem se pode negar que muitas pessoas da fam�lia t�m tido mortes infelizes, que foram repentinas, sangrentas e misteriosas. Contudo, que n�s possamos nos abrigar na bondade infinita da Provid�ncia, que n�o puniria para sempre os inocentes al�m da terceira ou quarta gera��o, como amea�a a Sagrada Escritura. A essa Provid�ncia, meus filhos, eu os recomendo, e os aconselho a t�tulo de cautela, evitar atravessar o p�ntano naquelas horas sombrias em que as for�as do mal est�o exaltadas.</p><p>(De Hugo Baskerville para os seus filhos Rodger e John, com instru��es para n�o dizerem nada disso � sua irm� Elizabeth.)</p><empty-line/><p>Quando o dr. Mortimer terminou de ler esta narrativa singular, empurrou os �culos para a testa e ficou olhando para Sherlock Holmes. Este bocejou e atirou seu cigarro no fogo.</p><p>� Bem? � disse ele.</p><p>� O senhor n�o acha isso interessante?</p><p>� Para um colecionador de contos de fadas.</p><p>O dr. Mortimer tirou do bolso um jornal dobrado.</p><p>� Agora, sr. Holmes, daremos ao senhor alguma coisa um pouco mais recente. Este � o Devon County Chronicle de 14 de maio deste ano. � um curto relato dos fatos relativos � morte de sir Charles Baskerville, que ocorreu alguns dias antes dessa data.</p><p>Meu amigo se inclinou um pouco para a frente e sua express�o tornou-se atenta. Nosso visitante recolocou os �culos e come�ou:</p><empty-line/><p>A recente morte s�bita de sir Charles Baskerville, cujo nome foi mencionado como o prov�vel candidato liberal do Devon Central nas pr�ximas elei��es, lan�ou uma sombra sobre o condado. Embora sir Charles tenha residido na Mans�o Baskerville por um per�odo relativamente curto, seu car�ter af�vel e sua extrema generosidade conquistaram a afei��o e o respeito de todos que tiveram contato com ele. Nesta �poca de nouveaux riches � animador encontrar um caso em que o herdeiro de uma antiga fam�lia do condado que enfrentou um per�odo ruim seja capaz de fazer sua pr�pria fortuna e traz�-la de volta consigo para restaurar a grandeza arruinada da sua estirpe. Sir Charles, como � do conhecimento geral, ganhou grandes somas de dinheiro na especula��o sul-africana. Mais prudente do que aqueles que continuam at� a roda da fortuna voltar-se contra eles, teve seus lucros e voltou para a Inglaterra com eles. Faz apenas dois anos desde que ele foi morar na Mans�o Baskerville, e todo mundo comenta a respeito dos seus grandes planos de reconstru��o e melhoramentos que foram interrompidos com sua morte. N�o tendo filhos, era seu desejo, manifestado abertamente, que toda a regi�o devesse, enquanto ele fosse vivo, se beneficiar de sua boa sorte, e muitos ter�o motivos pessoais para lamentar o seu fim prematuro. Seus donativos generosos para as obras de caridade locais e do condado foram relatados com freq��ncia nestas colunas.</p><p>N�o se pode dizer que as circunst�ncias relacionadas com a morte de sir Charles tenham sido inteiramente esclarecidas pelo inqu�rito, mas pelo menos foi feito o suficiente para afastar os rumores gerados pela supersti��o local. N�o h� qualquer motivo para suspeitar de crime ou imaginar que a morte pudesse decorrer sen�o de causas naturais. Sir Charles era vi�vo, e um homem do qual se pode dizer que, em certos aspectos, era exc�ntrico. Apesar da sua fortuna consider�vel, tinha gostos pessoais simples, e seus empregados na Mans�o Baskerville eram um casal chamado Barrymore, o marido na fun��o de mordomo e a mulher, de governanta. O testemunho deles, confirmado pelo de v�rios amigos, tende a mostrar que a sa�de de sir Charles estava comprometida h� algum tempo, indicando especialmente alguma afec��o do cora��o, que se manifestava em mudan�as de colora��o, falta de ar e crises agudas de depress�o nervosa. O dr. James Mortimer, o m�dico assistente e amigo do falecido, testemunhou o mesmo efeito.</p><p>Os fatos do caso s�o simples. Sir Charles Baskerville todas as noites, antes de se deitar, tinha o h�bito de percorrer a famosa Al�ia dos Teixos da Mans�o Baskerville. O depoimento dos Barrymores mostra que este era o seu costume. No dia 4 de maio, sir Charles havia anunciado sua inten��o de partir no dia seguinte para Londres, e havia ordenado a Barrymore que preparasse a sua bagagem. Naquela noite ele saiu, como de h�bito, para o seu passeio durante o qual costumava fumar um charuto. Ele jamais voltou. � meia-noite, Barrymore, encontrando a porta da sala ainda aberta, ficou assustado e, com uma lanterna, saiu � procura do seu patr�o. O dia tinha sido �mido, e as marcas dos p�s de sir Charles foram seguidas com facilidade pela al�ia. Na metade desse caminho h� um port�o que d� para o brejo. Havia vest�gios de que sir Charles ficara parado ali por algum tempo. Ele ent�o seguiu pela al�ia, e foi na extremidade oposta dela que o corpo foi descoberto. Um fato que n�o foi explicado � a declara��o de Barrymore de que as marcas dos p�s do seu patr�o se modificaram a partir do momento em que ele passou pelo port�o, e que, dali em diante, parecia que ele estava andando nas pontas dos p�s. Um certo Murphy, um cigano negociante de cavalos, estava nessa hora no p�ntano n�o muito distante, mas, segundo sua pr�pria confiss�o, parece que n�o estava bem devido � bebida. Ele afirma que ouviu gritos, mas � incapaz de dizer de que dire��o eles vinham. Nenhum sinal de viol�ncia foi encontrado no corpo de sir Charles, e embora o depoimento do m�dico mencionasse uma deforma��o facial quase inacredit�vel, t�o grande que o dr. Mortimer a princ�pio recusou-se a acreditar que era o seu amigo e paciente que jazia diante dele, foi explicado que esse � um sintoma n�o raro nos casos de dispn�ia e morte por exaust�o card�aca. Esta explica��o foi confirmada pelo exame post mortem, que revelou uma doen�a org�nica j� antiga, e o j�ri de instru��o apresentou um veredicto de acordo com a prova m�dica. � bom que assim seja, porque obviamente � da maior import�ncia que o herdeiro de sir Charles se instale na Mans�o e continue as boas obras que foram t�o lamentavelmente interrompidas. Se a descoberta prosaica do magistrado n�o tivesse posto um fim �s hist�rias rom�nticas que eram cochichadas a respeito do caso, teria sido dif�cil encontrar um inquilino para a Mans�o Baskerville. Sabe-se que o parente mais pr�ximo � sir Henry Baskerville, se ainda estiver vivo, filho do irm�o mais mo�o de sir Charles Baskerville. O jovem, quando se ouviu falar dele pela �ltima vez, estava na Am�rica, e est�o sendo iniciadas investiga��es com o objetivo de inform�-lo da sua boa sorte.</p><empty-line/><p>O dr. Mortimer dobrou novamente o seu jornal e o enfiou no bolso.</p><p>� Esses s�o os fatos p�blicos, sr. Holmes, em rela��o � morte de sir Charles Baskerville.</p><p>� Devo agradecer-lhe � disse Sherlock Holmes � por chamar minha aten��o para um caso que certamente apresenta algumas caracter�sticas interessantes. Vi alguns coment�rios no jornal na �poca, mas estava extremamente preocupado com aquele pequeno caso dos camafeus do Vaticano, e na minha ansiedade de servir ao papa, deixei de acompanhar� casos ingleses interessantes. Este artigo, diz o senhor, cont�m todos os fatos p�blicos?</p><p>� Cont�m.</p><p>� Ent�o vamos ver os particulares. � Ele recostou-se, juntou as pontas dos dedos e assumiu sua express�o mais impass�vel e judiciosa.</p><p>� Ao fazer isso � disse o dr. Mortimer, que havia come�ado a mostrar sinais de uma emo��o forte �, estou contando o que n�o confiei a ningu�m. Meu motivo para n�o revel�-los no inqu�rito do magistrado � que um homem de ci�ncia evita ficar publicamente na posi��o que pare�a endossar uma supersti��o popular. Eu tinha ainda um outro motivo: de que a Mans�o Baskerville, como diz o jornal, certamente permaneceria desocupada se fosse feita qualquer coisa para aumentar a sua reputa��o j� bastante sinistra. Achei que esses dois motivos justificavam minha decis�o de contar bem menos do que eu sabia, j� que nenhuma vantagem pr�tica podia resultar disso, mas com o senhor n�o tenho nenhum motivo para n�o ser franco.</p><p>� O p�ntano tem poucos habitantes e aqueles que s�o vizinhos acabam tendo muito contato. Por este motivo eu via bastante sir Charles Baskerville. Com exce��o do sr. Frankland, da Mans�o Lafter, e do sr. Stapleton, o naturalista, n�o h� nenhum outro homem instru�do, num raio de muitos quil�metros. Sir Charles era um homem retra�do, mas a sua doen�a fez com que nos encontr�ssemos, e o interesse pela ci�ncia alimentou nossa amizade. Ele havia trazido muitas informa��es cient�ficas da �frica do Sul, e passamos juntos muitas noites agrad�veis discutindo a anatomia dos bosqu�manos e dos hotentotes.</p><p>� Nos �ltimos meses era cada vez mais evidente que o sistema nervoso de sir Charles estava no m�ximo da tens�o. Ele havia levado excessivamente a s�rio esta lenda que li para os senhores, tanto que, embora caminhasse em seus pr�prios terrenos, nada o induziria a sair para o p�ntano � noite. Por mais incr�vel que possa parecer ao senhor, ele estava sinceramente convencido de que um destino horr�vel pairava sobre sua fam�lia, e certamente os registros que p�de dar a respeito de seus ancestrais n�o eram encorajadores. A id�ia de alguma presen�a horr�vel o perseguia constantemente, e em mais de uma ocasi�o ele me perguntou se em minhas visitas m�dicas � noite eu tinha visto alguma vez uma criatura estranha ou ouvira o latido de um c�o. A �ltima pergunta ele me fez v�rias vezes, e sempre com uma voz que vibrava de excita��o.</p><p>� Lembro-me bem de que fui de carro at� sua casa � noite, cerca de tr�s semanas antes do acontecimento fatal. Por acaso ele estava junto � porta da sala. Eu desci da minha charrete, parei diante dele e vi que seu olhar passava por cima do meu ombro e se fixava em alguma coisa atr�s de mim com a mais medonha express�o de horror. Virei-me rapidamente e tive tempo apenas de vislumbrar alguma coisa que achei que era um grande bezerro preto passando pelo alto da entrada. Ele ficou t�o agitado e assustado que acabei indo at� o ponto onde o animal havia estado e dei uma olhada em volta, procurando por ele. Mas ele desaparecera, e o incidente pareceu causar a pior impress�o em sua mente. Fiquei com ele a noite toda, e foi nessa ocasi�o, para explicar a emo��o que havia demonstrado, que ele me confidenciou essa narrativa que li para o senhor quando cheguei. Menciono este pequeno epis�dio porque ele assume certa import�ncia diante da trag�dia que se seguiu, mas eu estava convencido na ocasi�o de que o assunto era completamente banal e que a agita��o dele n�o tinha nenhuma justifica��o.</p><p>� Era a conselho meu que sir Charles estava prestes a ir para Londres. Eu sabia que seu cora��o estava abalado, afetado, e a ansiedade constante na qual ele vivia, embora a causa dela pudesse ser quim�rica, estava, evidentemente, tendo um efeito grave sobre a sua sa�de. Achei que alguns meses em meio �s distra��es da cidade fariam com que ele voltasse um novo homem. O sr. Stapleton, um amigo comum que estava muito preocupado com o seu estado de sa�de, tinha a mesma opini�o. No �ltimo instante ocorreu esta terr�vel cat�strofe.</p><p>� Na noite da morte de sir Charles, Barrymore, o mordomo, que fez a descoberta, mandou Perkins, o criado, a cavalo, me chamar, e como eu estava acordado at� tarde, pude chegar � Mans�o Baskerville uma hora ap�s o acontecimento. Conferi e confirmei todos os fatos que foram mencionados no inqu�rito. Segui as pegadas pela Al�ia dos Teixos, vi o ponto junto ao port�o do p�ntano onde ele pareceu ter esperado, observei a mudan�a de forma das pegadas depois deste ponto, notei que n�o havia nenhuma outra pegada al�m das de Barrymore no saibro macio, e finalmente examinei com cuidado o corpo, que n�o havia sido tocado at� a minha chegada. Sir Charles jazia de bru�os, com os bra�os abertos, os dedos enterrados no ch�o, e com suas fei��es convulsionadas por alguma emo��o forte, a tal ponto que eu quase n�o poderia jurar pela sua identidade. N�o havia nenhum ferimento f�sico de qualquer esp�cie. Mas Barrymore fez uma declara��o falsa no inqu�rito. Ele disse que n�o havia marcas no ch�o em volta do corpo. Ele n�o observou nenhuma. Mas eu observei � a alguma dist�ncia, mas recentes e n�tidas.</p><p>� Pegadas?</p><p>� Pegadas.</p><p>� De homem ou de mulher?</p><p>O dr. Mortimer olhou de modo estranho para n�s por um instante, e sua voz se transformou quase num sussurro quando respondeu: � Sr. Holmes, eram pegadas de um c�o gigantesco!</p><empty-line/></section><section><p><strong>o problema</strong></p><p>Confesso que, diante destas palavras, um tremor percorreu-me o corpo. Havia um fr�mito na voz do m�dico que mostrava que ele pr�prio estava profundamente emocionado com o que havia nos contado. Holmes inclinou-se para a frente em sua excita��o e seus olhos tinham o brilho duro e seco que exibiam quando ele estava vivamente interessado.</p><p>� O senhor viu isto?</p><p>� T�o nitidamente como o estou vendo.</p><p>� E o senhor n�o disse nada?</p><p>� O que adiantava?</p><p>� Como foi que ningu�m mais viu?</p><p>� As marcas estavam a uns 20 metros do corpo e ningu�m atribuiu a elas qualquer import�ncia. Acho que n�o teria feito isso se n�o conhecesse esta lenda.</p><p>� H� muitos c�es pastores de ovelhas no brejo?</p><p>� Sem d�vida, mas este n�o era nenhum c�o pastor de ovelhas.</p><p>� O senhor diz que ele era grande?</p><p>� Enorme.</p><p>� Mas ele n�o se aproximou do corpo?</p><p>� N�o.</p><p>� Que tipo de noite era?</p><p>� �mida e fria.</p><p>� Mas n�o estava chovendo realmente?</p><p>� N�o.</p><p>� Como � a al�ia?</p><p>� H� duas filas de sebes de teixos antigos com 4 metros de altura e impenetr�veis. O caminho no meio tem uns 3 metros de largura.</p><p>� H� alguma coisa entre as sebes e o caminho?</p><p>� Sim, h� uma faixa de grama com cerca de 2 metros de largura de cada lado.</p><p>� Sei que a sebe de teixos � interrompida num ponto por um port�o.</p><p>� Sim, o port�o de cancela que d� para o p�ntano.</p><p>� H� alguma outra abertura?</p><p>� Nenhuma.</p><p>� De modo que para se chegar � Al�ia dos Teixos � preciso percorr�-la a partir da casa ou ent�o entrar pelo port�o do p�ntano?</p><p>� H� uma sa�da pela cabana do jardim na extremidade oposta.</p><p>� Sir Charles chegou at� ela?</p><p>� N�o; ele estava ca�do a uns cinq�enta passos dela.</p><p>� Agora, diga-me, dr. Mortimer, e isto � importante, as marcas que o senhor viu eram sobre o caminho e n�o sobre a grama?</p><p>� Nenhuma marca podia aparecer na grama.</p><p>� Elas estavam do mesmo lado do caminho que o port�o do p�ntano?</p><p>� Sim, estavam na extremidade do caminho, no mesmo lado que o port�o.</p><p>� O senhor provocou meu interesse. Outro ponto. O port�o estava fechado?</p><p>� Fechado e com cadeado.</p><p>� Qual era a altura dele?</p><p>� Cerca de 1,20 metro de altura.</p><p>� Ent�o qualquer um podia ter passado por cima dele?</p><p>� Sim.</p><p>� E que marcas o senhor viu junto ao port�o?</p><p>� Nenhuma em particular.</p><p>� Santo Deus! Ningu�m examinou?</p><p>� Sim, eu mesmo examinei.</p><p>� E n�o encontrou nada?</p><p>� Estava tudo muito confuso. Sir Charles, evidentemente, ficou parado ali por cinco ou dez minutos.</p><p>� Como sabe disso?</p><p>� Porque a cinza havia ca�do duas vezes do seu charuto.</p><p>� Excelente! Este � um colega, Watson, do nosso estilo. Mas as marcas?</p><p>� Ele havia deixado suas pr�prias marcas por todo aquele pequeno trecho de saibro. N�o consegui perceber nenhuma outra.</p><p>Sherlock Holmes bateu com a m�o no joelho num gesto de impaci�ncia.</p><p>� Se ao menos eu estivesse l�! � exclamou ele. � Esse � evidentemente um caso de interesse extraordin�rio, e que oferece imensas oportunidades ao especialista cient�fico. Essa p�gina de saibro na qual eu poderia ter lido tanta coisa foi apagada h� muito tempo pela chuva e desfigurada pelos tamancos dos camponeses curiosos. Oh, dr. Mortimer, dr. Mortimer, pensar que o senhor podia ter me chamado! O senhor tem realmente de explicar muita coisa.</p><p>� Eu n�o podia cham�-lo, sr. Holmes, sem revelar estes fatos ao mundo, e j� apresentei os meus motivos para n�o desejar fazer isso. Al�m disso... al�m disso...</p><p>� Por que hesita?</p><p>� Existe uma �rea em que o mais arguto e o mais experiente dos detetives fica impotente.</p><p>� O senhor quer dizer que a coisa � sobrenatural?</p><p>� N�o digo isso de modo positivo.</p><p>� N�o, mas o senhor evidentemente acha isso.</p><p>� Desde a trag�dia, sr. Holmes, chegaram aos meus ouvidos v�rios incidentes dif�ceis de conciliar com a ordem estabelecida da natureza.</p><p>� Por exemplo?</p><p>� Descobri que, antes do terr�vel acontecimento, v�rias pessoas viram uma criatura no p�ntano que corresponde a este dem�nio de Baskerville, e que n�o podia ser qualquer animal conhecido da ci�ncia. Todos eles concordam que era uma criatura enorme, luminosa, horr�vel e espectral. Interroguei estes homens, um deles um campon�s bronco, um ferreiro e um fazendeiro da �rea do p�ntano, e todos contam a mesma hist�ria desta apari��o horr�vel, correspondendo exatamente ao C�rbero da lenda. Garanto-lhe que o terror impera na regi�o e que � quase imposs�vel achar um homem que atravesse o p�ntano � noite.</p><p>� E o senhor, um homem de ci�ncia treinado, acredita que ele seja sobrenatural?</p><p>� Eu n�o sei em que acreditar.</p><p>Holmes encolheu os ombros.</p><p>� At� agora limitei as minhas investiga��es a este mundo � ele disse. � De uma maneira modesta combati o mal, mas enfrentar o pr�prio Pai do Mal seria, talvez, uma tarefa ambiciosa demais. Contudo, o senhor tem de admitir que a pegada � concreta.</p><p>� O c�o original era suficientemente real para estra�alhar a garganta de um homem, e apesar disso era tamb�m diab�lico.</p><p>� Vejo que o senhor se passou inteiramente para os supernaturalistas. Mas agora, dr. Mortimer, diga-me isto. Se o senhor sustenta estas opini�es, por que veio me consultar, afinal de contas? O senhor me diz ao mesmo tempo que � in�til investigar a morte de sir Charles, e que deseja que eu fa�a isso.</p><p>� Eu n�o disse que desejava que o senhor fizesse isso.</p><p>� Ent�o, como posso ajud�-lo?</p><p>� Aconselhando-me a respeito do que devo fazer com sir Henry Baskerville, que vai chegar � Esta��o de Waterloo � o dr. Mortimer olhou para o seu rel�gio � dentro de exatamente uma hora e 15 minutos.</p><p>� Sendo ele o herdeiro?</p><p>� Sim. Com a morte de sir Charles, investigamos o paradeiro deste jovem cavalheiro e descobrimos que era fazendeiro no Canad�. Pelas informa��es que recebemos, ele � um sujeito excelente em todos os aspectos. N�o falo agora como m�dico, mas como deposit�rio dos bens e executor do testamento de sir Charles.</p><p>� N�o h� nenhum outro pretendente, presumo?</p><p>� Nenhum. O outro �nico parente que conseguimos localizar foi Rodger Baskerville, o ca�ula dos tr�s irm�os dos quais o pobre sir Charles era o mais velho. O segundo irm�o, que morreu mo�o, � o pai desse Henry. O terceiro, Rodger, era a ovelha negra da fam�lia. Ele prov�m da velha estirpe dominadora dos Baskervilles, e era a pr�pria imagem, dizem-me, do retrato de fam�lia do velho Hugo. Criou na Inglaterra um ambiente insuport�vel para ele, fugiu para a Am�rica Central e morreu l� em 1876 de febre amarela. Henry � o �ltimo dos Baskervilles. Em uma hora e cinco minutos vou encontrar-me com ele na Esta��o de Waterloo. Recebi um telegrama dizendo que ele chegou a Southampton esta manh�. Agora, sr. Holmes, o que o senhor me aconselha a fazer com ele?</p><p>� Por que ele n�o pode ir para a casa dos seus pais?</p><p>� Parece natural, n�o parece? Mas lembre-se de que todos os Baskervilles que v�o para l� acabam tendo um destino perverso. Tenho certeza de que se sir Charles pudesse ter falado comigo antes de sua morte, teria me avisado para n�o trazer este, o �ltimo da velha ra�a e o herdeiro de grande fortuna, para esse lugar mortal. E, no entanto, n�o se pode negar que a prosperidade de toda a regi�o pobre e desolada depende da sua presen�a. Todo o bom trabalho que foi feito por sir Charles ficar� arruinado se n�o houver nenhum morador na Mans�o. Receio estar influenciado demais pelo meu pr�prio interesse �bvio na quest�o, e � por isso que trago o caso para a sua an�lise e pe�o o seu conselho.</p><p>Holmes refletiu durante algum tempo.</p><p>� Falando claramente, a quest�o � esta � disse ele. � Em sua opini�o h� uma influ�ncia diab�lica que faz de Dartmoor uma moradia insegura para um Baskerville � essa � a sua opini�o?</p><p>� Pelo menos posso chegar ao ponto de dizer que h� algumas provas de que talvez seja este o caso.</p><p>� Exatamente. Mas se a sua teoria sobrenatural estiver correta, ela poderia prejudicar o jovem em Londres t�o facilmente como no Devonshire. Um dem�nio com poderes apenas locais, como uma sacristia paroquial, seria uma coisa inconceb�vel.</p><p>� O senhor coloca a quest�o de modo mais irreverente, sr. Holmes, do que provavelmente o faria se entrasse em contato pessoal com estas coisas. Ent�o a sua opini�o, pelo que entendo, � que o rapaz estar� t�o seguro no Devonshire quanto em Londres. Ele chega dentro de cinq�enta minutos. O que o senhor recomenda?</p><p>� Eu recomendo, senhor, que tome um cabriol�, chame o seu spaniel que est� arranhando a minha porta da frente, e siga para Waterloo para esperar sir Henry Baskerville.</p><p>� E depois?</p><p>� E depois n�o diga absolutamente nada a ele at� eu decidir o que fazer a respeito do caso.</p><p>� Quanto tempo vai levar para o senhor decidir?</p><p>� Vinte e quatro horas. �s dez horas, amanh�, dr. Mortimer, eu ficaria muito grato se o senhor vier me visitar aqui, e ajudaria meus planos para o futuro se o senhor trouxesse sir Henry Baskerville consigo.</p><p>� Farei isso, sr. Holmes. � Ele rabiscou o hor�rio do encontro no punho da sua camisa e saiu apressado, do seu jeito estranho, perscrutador e distra�do. Holmes o fez parar no alto da escada.</p><p>� Apenas mais uma pergunta, dr. Mortimer. O senhor diz que antes da morte de sir Charles Baskerville v�rias pessoas viram esta apari��o no p�ntano?</p><p>� Tr�s pessoas viram.</p><p>� Alguma a viu depois?</p><p>� N�o ouvi falar de nenhuma.</p><p>� Obrigado. Bom-dia.</p><p>Holmes voltou para a sua poltrona com aquele olhar calmo de satisfa��o interior que significava que ele tinha pela frente uma tarefa adequada ao seu talento.</p><p>� Vai sair, Watson?</p><p>� A menos que possa ajud�-lo.</p><p>� N�o, meu caro amigo, � no momento da a��o que recorro a voc� em busca de ajuda. Mas isto � espl�ndido, realmente �nico sob alguns pontos de vista. Quando passar pela loja de Bradley, quer pedir a ele para mandar meio quilo do mais forte fumo picado inferior? Obrigado. Seria bom se voc� achasse conveniente n�o voltar antes do anoitecer. Ficaria ent�o muito satisfeito de comparar impress�es a respeito deste problema extremamente interessante que nos foi apresentado esta manh�.</p><p>Eu sabia que o meu amigo tinha necessidade de isolamento e solid�o nessas horas de intensa concentra��o mental, durante as quais ele pesava cada part�cula de prova, elaborava teorias alternativas, comparava umas com as outras e decidia que pontos eram essenciais e quais os irrelevantes. Portanto passei o dia no meu clube e s� voltei a Baker Street � noite. Eram quase 21 horas quando entrei na sala novamente.</p><p>Minha primeira impress�o quando abri a porta foi de que havia irrompido um inc�ndio, porque a sala estava t�o cheia de fuma�a que a luz do abajur sobre a mesa estava obscurecida. Mas quando entrei, meus temores desapareceram, porque foram os vapores acres de fumo forte e ordin�rio que atacaram minha garganta e me fizeram tossir. Atrav�s da fuma�a tive uma vaga vis�o de Holmes em seu roup�o, encolhido numa poltrona com o cachimbo preto de barro entre os l�bios. Havia v�rios rolos de papel � sua volta.</p><p>� Pegou um resfriado, Watson? � disse ele.</p><p>� N�o, � esta atmosfera envenenada.</p><p>� Suponho que esteja bastante espessa, agora que voc� a menciona.</p><p>� Espessa! Est� intoler�vel.</p><p>� Abra a janela, ent�o! Percebo que voc� esteve no seu clube o dia inteiro.</p><p>� Meu caro Holmes!</p><p>� Estou certo?</p><p>� Claro, mas como...</p><p>Ele riu da minha express�o confusa.</p><p>� H� uma frescura encantadora irradiando de voc�, Watson, o que torna um prazer exercitar as modestas faculdades que eu possua � sua custa. Um cavalheiro sai de casa num dia chuvoso e lamacento. Volta imaculado � noite com o brilho ainda em seu chap�u e suas botas ainda brilhando. Portanto, ele permaneceu im�vel o dia inteiro. Ele � um homem que n�o tem amigos �ntimos. Onde, ent�o, podia ter estado? N�o � �bvio?</p><p>� Bem, � bastante �bvio.</p><p>� O mundo est� cheio de coisas �bvias que por acaso ningu�m jamais observa. Onde voc� acha que eu estive?</p><p>� Im�vel tamb�m.</p><p>� Pelo contr�rio, estive no Devonshire.</p><p>� Em esp�rito?</p><p>� Exatamente. Meu corpo permaneceu nesta poltrona e consumiu em minha aus�ncia, lamento observar, dois bules grandes de caf� e uma quantidade incr�vel de fumo. Depois que voc� saiu, eu mandei pedir � Casa Stamford o mapa topogr�fico desta parte do p�ntano, e meu esp�rito pairou sobre ele o dia inteiro. Fiquei orgulhoso por conseguir localizar o que eu queria.</p><p>� Um mapa em escala grande, presumo?</p><p>� Muito grande. � Ele desenrolou uma parte e segurou-a sobre o joelho. � Aqui voc� tem a �rea espec�fica que nos interessa. Essa � a Mans�o Baskerville no meio.</p><p>� Com uma floresta em volta dela?</p><p>� Exatamente. Imagino que a Al�ia dos Teixos, embora n�o assinalada com esse nome, deve se estender ao longo desta linha, com o p�ntano, como voc� percebe, � direita dele. Este pequeno grupo de constru��es aqui � o povoado de Grimpen, onde o nosso amigo dr. Mortimer tem o seu quartel-general. Num raio de 8 quil�metros, como voc� v�, h� apenas algumas moradias dispersas. Aqui est� a Mans�o Lafter, que foi mencionada na narrativa. H� uma casa indicada aqui que pode ser a resid�ncia do naturalista, Stapleton, se bem me lembro, era o seu nome. Aqui est�o duas casas de fazenda na �rea do p�ntano, High Tor e Foulmire. Depois, a 22 quil�metros de dist�ncia, a grande pris�o de condenados de Princetown. Entre estes pontos dispersos e em torno deles estende-se o p�ntano desolado e sem vida. Este, ent�o, � o palco no qual a trag�dia foi encenada, e no qual podemos ajudar a encen�-la novamente.</p><p>� Deve ser um lugar agreste.</p><p>� Sim, o cen�rio � apropriado. Se o dem�nio deseja participar dos assuntos dos homens...</p><p>� Ent�o voc� mesmo est� se inclinando para a explica��o sobrenatural.</p><p>� Os agentes do dem�nio podem ser de carne e osso, n�o podem? H� duas perguntas � nossa espera no come�o. A primeira � se, afinal de contas, foi cometido algum crime; a segunda �, qual � o crime e como ele foi cometido? Naturalmente, se a hip�tese do dr. Mortimer estiver correta, e estivermos lidando com for�as que est�o al�m das leis normais da natureza, isso ser� o fim da nossa investiga��o. Mas temos a obriga��o de verificar todas as outras hip�teses antes de recairmos nesta. Acho que fecharemos essa janela outra vez, se voc� n�o se importar. � uma coisa estranha, mas acho que uma atmosfera concentrada ajuda a concentrar as id�ias. N�o levo isso a ponto de entrar numa caixa para pensar, mas esse � o resultado l�gico das minhas convic��es. Voc� pensou no caso?</p><p>� Sim, pensei um bocado nele durante o dia.</p><p>� O que acha dele?</p><p>� � muito confuso.</p><p>� Ele certamente tem um car�ter pr�prio. H� pontos caracter�sticos nele. Aquela mudan�a nas pegadas, por exemplo. O que acha disso?</p><p>� Mortimer disse que o homem caminhara nas pontas dos p�s naquela parte da al�ia.</p><p>� Ele repetiu apenas o que algum tolo havia dito no inqu�rito. Por que um homem iria caminhar na ponta dos p�s pela al�ia?</p><p>� O que ele estava fazendo ent�o?</p><p>� Ele estava correndo, Watson, correndo desesperadamente, fugindo para salvar a vida, correndo at� estourar o cora��o e cair morto de bru�os.</p><p>� Correndo de qu�?</p><p>� A� est� o nosso problema. H� indica��es de que o homem estava louco de medo antes mesmo de come�ar a correr.</p><p>� Como pode dizer isso?</p><p>� Estou presumindo que a causa dos seus receios chegou at� ele atrav�s do p�ntano. Se foi assim, e isso parece muito prov�vel, s� um homem que tivesse perdido o ju�zo correria para longe de casa em vez de correr para ela. Se o depoimento do cigano pode ser considerado verdadeiro, ele correu soltando gritos de socorro na dire��o onde havia menos probabilidade de obter ajuda. Depois, novamente, quem ele estava esperando naquela noite, e por que estava esperando por essa pessoa na Al�ia dos Teixos e n�o em sua pr�pria casa?</p><p>� Voc� acha que ele estava esperando algu�m?</p><p>� O homem era idoso e doente. Podemos compreender o fato de ele passear � noite, mas o ch�o estava �mido e a noite inclemente. Seria natural que ele ficasse parado por cinco ou dez minutos, como o dr. Mortimer, com um senso mais pr�tico do que eu atribuiria a ele, deduziu a partir da cinza do charuto?</p><p>� Mas ele sa�a toda noite.</p><p>� Acho pouco prov�vel que ele esperasse no port�o do p�ntano todas as noites. Pelo contr�rio, o ind�cio � que ele evitava o p�ntano. Naquela noite ele esperou ali. Era a noite anterior � partida dele para Londres. A coisa toma forma, Watson. Torna-se coerente. Queria que me desse o violino, e adiaremos todos os outros pensamentos a respeito deste assunto at� nos encontrarmos com o dr. Mortimer e sir Henry Baskerville de manh�.</p><empty-line/></section><section><p><strong>sir henry baskerville</strong></p><p>A mesa do nosso caf� foi tirada cedo e Holmes esperou de roup�o a entrevista prometida. Nossos clientes foram pontuais, porque o rel�gio acabara de bater dez horas quando o dr. Mortimer entrou, seguido pelo jovem baronete. Este era um homem baixo, �gil, de olhos escuros, com cerca de 30 anos de idade, de constitui��o muito vigorosa, sobrancelhas pretas espessas e um rosto forte, belicoso. Usava um terno de tweed de cor avermelhada e tinha a apar�ncia maltratada pelo clima de quem passou a maior parte do seu tempo ao ar livre, mas havia algo em seu olhar firme e na calma confian�a da sua postura que indicavam o cavalheiro.</p><p>� Este � sir Henry Baskerville � disse o dr. Mortimer.</p><p>� Oh, sim � disse ele � e o estranho, sr. Sherlock Holmes, � que se o meu amigo aqui n�o tivesse proposto vir visit�-lo esta manh�, eu teria vindo por minha pr�pria conta. Sei que o senhor resolve pequenos enigmas, e tive um esta manh�</p><p>que precisa de mais esfor�o mental do que sou capaz de dedicar a ele.</p><p>� Sente-se, por favor, sir Henry. Ser� que entendi o senhor dizer que teve uma experi�ncia not�vel desde que chegou a Londres?</p><p>� Nada muito importante, sr. Holmes. Apenas uma brincadeira, provavelmente. Foi esta carta, se � que se pode cham�-la de carta, que recebi esta manh�.</p><p>Ele p�s um envelope sobre a mesa, e n�s todos nos inclinamos sobre ele. Era de tipo comum, de cor acinzentada. O endere�o, �sir Henry Baskerville, Hotel Northumberland�, estava escrito em letras de f�rma irregulares; o carimbo, �Charing Cross�; e a data do envio, a noite anterior.</p><p>� Quem sabia que o senhor iria para o Hotel Northumberland? � perguntou Holmes olhando atentamente para o nosso visitante.</p><p>� Ningu�m podia saber. N�s s� decidimos depois que me encontrei com o dr. Mortimer.</p><p>� Mas o dr. Mortimer sem d�vida j� estava hospedado l�?</p><p>� N�o, fiquei na casa de um amigo � disse o m�dico. � N�o havia nenhuma indica��o poss�vel de que pretend�amos ir para este hotel.</p><p>� Hum! Algu�m parece estar profundamente interessado em seus movimentos. � Ele tirou do envelope metade de uma folha de papel alma�o dobrada em quatro. Ele a abriu e estendeu na mesa. No centro dela, uma �nica frase havia sido formada com palavras impressas, cortadas e coladas, sobre ela. Dizia:</p><empty-line/><p>Se o senhor d� valor � sua vida ou � sua sanidade mental, mantenha-se afastado do p�ntano.</p><p>�S� a palavra �p�ntano� estava escrita � tinta.</p><p>� Agora � disse sir Henry Baskerville � talvez o senhor me diga, sr. Holmes, que diabo significa isso, e quem � que se interessa tanto pelos meus neg�cios?</p><p>� O que o senhor acha disso, dr. Mortimer? O senhor deve admitir que n�o h� nada de sobrenatural quanto a isso.</p><p>� N�o senhor, mas isso pode muito bem vir de algu�m que esteja convencido de que a coisa � sobrenatural.</p><p>� Que coisa? � perguntou sir Henry vivamente. � Parece-me que todos os senhores, cavalheiros, sabem muito mais do que eu sobre os meus pr�prios neg�cios.</p><p>� O senhor vai saber de tudo antes de sair desta sala, sir Henry. Prometo-lhe isso � disse Sherlock Holmes. � No momento, n�s nos limitaremos, com a sua permiss�o, a este documento muito interessante, que deve ter sido montado e posto no correio ontem � noite. Voc� tem o Times de ontem, Watson?</p><p>� Est� aqui no canto.</p><p>� Por favor, pode me dar a p�gina de dentro, com os editoriais? � Ele deu uma olhada r�pida por ela, correndo os olhos pelas colunas. � Artigo principal, este, sobre o livre com�rcio. Permitam que eu leia um trecho dele.</p><empty-line/><p>Voc�s podem ser levados a imaginar que o seu pr�prio ramo especial de com�rcio ou a sua pr�pria ind�stria ser�o estimulados por uma tarifa protecionista, mas � evidente que essa legisla��o a longo prazo deve manter a riqueza afastada do pa�s, diminuir o valor das nossas importa��es e piorar as condi��es gerais de vida nesta ilha.</p><empty-line/><p>� O que acha disso, Watson? � exclamou Holmes com grande alegria, esfregando as m�os com satisfa��o. � Voc� n�o acha que esse � um sentimento admir�vel?</p><p>O dr. Mortimer olhou para Holmes com um ar de interesse profissional, e sir Henry Baskerville virou para mim um par de olhos escuros intrigados.</p><p>� Eu n�o entendo muito de tarifas e coisas desse g�nero � ele disse � mas parece-me que sa�mos um pouco do assunto no que diz respeito a esse bilhete.</p><p>� Pelo contr�rio, acho que estamos particularmente quentes na pista, sir Henry. Watson aqui conhece mais a respeito dos meus m�todos do que o senhor, mas receio que nem mesmo ele tenha entendido totalmente a import�ncia desta frase.</p><p>� N�o, confesso que n�o vejo nenhuma rela��o.</p><p>� E apesar disso, meu caro Watson, h� uma rela��o t�o �ntima que uma � extra�da da outra. �Voc�s�, �sua�, �seu�, �vida�, �valor�, �manter afastado�, �da�. Os senhores n�o v�em agora de onde estas palavras foram tiradas?</p><p>� Com os diabos, o senhor tem raz�o! Ora, se isso n�o � esperteza! � exclamou sir Henry.</p><p>� Se ainda restou alguma d�vida, isso � resolvido pelo fato de que �mantenha-se afastado� e �da� est�o cortadas em um peda�o.</p><p>� Ora veja, � isso mesmo!</p><p>� Realmente, sr. Holmes, isto supera qualquer coisa que eu pudesse ter imaginado � disse o dr. Mortimer, olhando para o meu amigo com assombro. � Posso compreender que algu�m dissesse que as palavras foram tiradas de um jornal, mas que o senhor soubesse qual, e ainda acrescentasse que elas vieram do editorial, � realmente uma das coisas mais not�veis que j� vi. Como conseguiu isso?</p><p>� Presumo, doutor, que o senhor possa distinguir o cr�nio de um negro do de um esquim�?</p><p>� Com toda certeza.</p><p>� Mas como?</p><p>� Porque esse � o meu passatempo especial. As diferen�as s�o �bvias. A crista supra-orbital, o �ngulo facial, a curva do maxilar, a...</p><p>� Mas este � o meu passatempo especial, e as diferen�as s�o igualmente �bvias. Para mim, h� tanta diferen�a entre o tipo burgu�s pesado de um artigo do Times e a impress�o desleixada de um vespertino de meio p�ni quanto pode haver entre o seu negro e o seu esquim�. A detec��o de tipos � um dos ramos mais elementares de conhecimento para o especialista em crimes, embora eu confesse que certa vez, quando era muito mo�o, confundi o Leeds Mercury com o Western Morning News. Mas um editorial do Times � completamente diferente, e estas palavras n�o podiam ter sido tiradas de nenhum outro. Como isso foi feito ontem, a probabilidade maior era a de encontrarem as palavras no exemplar de ontem.</p><p>� At� onde posso acompanh�-lo ent�o, sr. Holmes � disse sir Henry Baskerville �, algu�m cortou esta mensagem com uma tesoura...</p><p>� Tesoura de unha � disse Holmes. � O senhor pode ver que era uma tesoura de l�minas muito curtas, j� que quem cortou teve de dar duas tesouradas em �manter afastado�.</p><p>� Realmente. Algu�m, ent�o, cortou a mensagem com uma tesoura de l�mina curta, colocou-a com goma...</p><p>� Cola � disse Holmes.</p><p>� Com cola sobre o papel. Mas quero saber por que a palavra �p�ntano� teve de ser escrita � tinta.</p><p>� Porque ele n�o conseguiu encontr�-la impressa. As outras palavras eram todas simples e podiam ser encontradas em qualquer exemplar, mas �p�ntano� era menos comum.</p><p>� Ora, � claro, isso explicaria o fato. O senhor notou mais alguma coisa nessa mensagem, sr. Holmes?</p><p>� H� uma ou duas indica��es. No entanto, houve o maior cuidado para eliminar todas as pistas. O endere�o, o senhor observa, est� escrito em letras de f�rma irregulares. Mas o Times � um jornal que raramente � encontrado em m�os de pessoas que n�o tenham instru��o superior. Podemos concluir, portanto, que a carta foi composta por um homem instru�do que desejava passar por n�o instru�do, e seu esfor�o para disfar�ar sua pr�pria caligrafia sugere que o senhor pode conhec�-la, ou vir a conhecer. Novamente, o senhor pode observar que as palavras n�o est�o coladas numa linha precisa, mas que algumas est�o muito mais altas do que as outras. �Vida�, por exemplo, est� completamente fora do seu lugar adequado. Isso pode indicar descuido ou pode indicar agita��o e pressa por parte do autor. De modo geral, acho que a �ltima hip�tese � mais forte, j� que o assunto era evidentemente importante, e � pouco prov�vel que o autor dessa carta fosse descuidado. Se ele estava com pressa, isso suscita a pergunta interessante do motivo da sua pressa, j� que qualquer carta postada at� o in�cio da manh� chegaria a sir Henry antes que ele sa�sse do hotel. Ser� que o autor receava uma interrup��o? E de quem?</p><p>� Estamos entrando agora no campo das conjecturas � disse o dr. Mortimer.</p><p>� Digamos melhor, no campo em que avaliamos as probabilidades e escolhemos as mais prov�veis. Isso � o uso cient�fico da imagina��o, mas sempre temos alguma base concreta a partir da qual come�amos as nossas especula��es. Agora, o senhor pode chamar de palpite, sem d�vida, mas tenho quase certeza de que este endere�o foi escrito num hotel.</p><p>� Como � que o senhor pode dizer isso?</p><p>� Se o senhor examin�-lo com cuidado, ver� que tanto a caneta como a tinta causaram problemas ao autor. A caneta respingou duas vezes numa �nica palavra, e secou tr�s vezes num endere�o curto, mostrando que havia pouca tinta no tinteiro. Ora, uma caneta ou tinteiro particular raramente chegam a este estado, e a combina��o dos dois deve ser bastante rara. Mas o senhor conhece a tinta de hotel e a caneta de hotel, onde � raro conseguir qualquer outra coisa. Sim, posso dizer quase sem hesita��o que se consegu�ssemos examinar as cestas de pap�is dos hot�is em volta de Charing Cross at� encontrarmos os restos do editorial recortado do Times, poder�amos p�r as m�os diretamente na pessoa que mandou esta mensagem estranha. Oh! O que � isto?</p><p>Ele estava examinando atentamente o papel alma�o sobre o qual estavam coladas as palavras, segurando-o apenas a uns 5 cent�metros dos olhos.</p><p>� Bem?</p><p>� Nada � disse ele, largando-o. � � uma meia folha de papel vazia, sem sequer uma marca d��gua. Acho que extra�mos o m�ximo que pudemos desta carta curiosa; e agora, sir Henry, aconteceu mais alguma coisa interessante desde que chegou a Londres?</p><p>� Bem, n�o, sr. Holmes. Acho que n�o.</p><p>� O senhor n�o observou ningu�m segui-lo ou vigi�-lo?</p><p>� Parece que entrei direto na trama de um romance barato � disse o nosso visitante. � Por que diabo algu�m deveria me seguir ou me vigiar?</p><p>� Estamos chegando a isso. O senhor n�o tem mais nada a nos comunicar antes de entrarmos nesta quest�o?</p><p>� Bem, isso depende do que o senhor considere que mere�a ser contado.</p><p>� Acho que qualquer coisa fora da rotina normal da vida merece ser comunicada.</p><p>Sir Henry sorriu.</p><p>� N�o conhe�o muita coisa da vida inglesa ainda, porque passei quase todo o meu tempo nos Estados Unidos e no Canad�. Mas espero que perder uma das botas da gente n�o fa�a parte da rotina da vida aqui.</p><p>� O senhor perdeu uma de suas botas?</p><p>� Meu caro senhor! � exclamou o dr. Mortimer � isso � apenas um extravio. O senhor a encontrar� quando voltar ao hotel. O que adianta incomodar o sr. Holmes com ninharias deste tipo?</p><p>� Bem, ele me perguntou sobre qualquer coisa fora da rotina.</p><p>� Exatamente � disse Holmes �, por mais tolo que o incidente possa parecer. O senhor perdeu uma bota?</p><p>� Bem, ela foi extraviada, de qualquer forma. Pus as duas do lado de fora da minha porta ontem � noite, e havia apenas uma de manh�. N�o consegui saber nada do sujeito que as limpa. O pior de tudo � que eu s� comprei o par ontem � noite no Strand, e nunca as usei.</p><p>� Se o senhor nunca as usou, por que precisava deix�-las do lado de fora para serem limpas?</p><p>� Eram botas de couro e nunca foram envernizadas. Foi por isso que as deixei do lado de fora.</p><p>� Pelo que entendi, ao chegar a Londres ontem o senhor saiu imediatamente e comprou um par de botas?</p><p>� Eu comprei uma por��o de coisas. O dr. Mortimer foi comigo. O senhor compreende, se vou ser um propriet�rio rural l� no sul, devo me vestir de acordo, e talvez eu tenha ficado um pouco descuidado em meus h�bitos l� no oeste. Entre outras coisas, comprei estas botas marrons, dei 6 d�lares por elas, e uma delas foi roubada antes mesmo de us�-las.</p><p>� Parece uma coisa especialmente in�til para se roubar � disse Sherlock Holmes. � Confesso que concordo com o dr. Mortimer e acho que a bota desaparecida ser� encontrada em pouco tempo.</p><p>� E agora, cavalheiros � disse o baronete com decis�o �, parece-me que j� falei bastante sobre o pouco que sei. � hora de os senhores cumprirem sua promessa e fazerem um relato completo a respeito do caso.</p><p>� O seu pedido � muito razo�vel � respondeu Holmes. � Dr. Mortimer, acho que o senhor deveria contar a sua hist�ria como contou para n�s.</p><p>Assim estimulado, nosso amigo cient�fico tirou seus pap�is do bolso e apresentou todo o caso como havia feito na manh� anterior. Sir Henry Baskerville ouviu com a maior aten��o, e com algumas exclama��es de surpresa.</p><p>� Bem, parece que recebi uma heran�a com uma vingan�a � ele disse quando a longa narrativa terminou. � Naturalmente, ouvi falar do c�o desde que era crian�a. � a hist�ria favorita da fam�lia, embora eu nunca pensasse em lev�-la a s�rio antes. Mas, quanto � morte do meu tio, bem, tudo parece estar fervendo na minha cabe�a, e ainda n�o consigo entender direito. O senhor parece n�o ter decidido se isso � um caso para um policial ou um padre.</p><p>� Exatamente.</p><p>� E agora h� este caso da carta para mim no hotel. Suponho que isso se encaixe no seu lugar.</p><p>� Isso parece mostrar que algu�m sabe mais do que n�s sobre o que acontece no p�ntano � disse o dr. Mortimer.</p><p>� E tamb�m � disse Holmes � que algu�m n�o est� com m�s inten��es a seu respeito, j� que o avisa do perigo.</p><p>� Ou talvez ele deseje, para seus pr�prios objetivos, me afugentar.</p><p>� Bem, naturalmente isso � poss�vel tamb�m. Estou muito grato, dr. Mortimer, por apresentar-me um problema que oferece v�rias alternativas interessantes. Mas a quest�o pr�tica que temos de decidir agora, sir Henry, � se o senhor deve ou n�o ir para a Mans�o Baskerville.</p><p>� Por que n�o deveria ir?</p><p>� Parece perigoso.</p><p>� O senhor quer dizer perigo por parte deste dem�nio da fam�lia ou quer dizer perigo por parte de seres humanos?</p><p>� Bem, � isso que temos de descobrir.</p><p>� De qualquer modo, minha resposta � a mesma. N�o h� nenhum dem�nio no inferno, sr. Holmes, e n�o h� nenhum homem na terra que possa me impedir de ir para o lar da minha pr�pria gente, e o senhor pode considerar esta como a minha resposta definitiva. � Suas sobrancelhas escuras se uniram e seu rosto se ruborizou enquanto falava. Era evidente que o temperamento ardente dos Baskervilles n�o estava extinto neste seu �ltimo representante. � Enquanto isso � ele disse � mal tive tempo de pensar em tudo que os senhores me contaram. � dif�cil para um homem ter de compreender e decidir t�o depressa. Eu gostaria de passar uma hora tranq�ila sozinho para decidir. Bem, olhe aqui, sr. Holmes, s�o 11:30h agora, e vou voltar diretamente para o meu hotel. O que acha de o senhor e seu amigo, o dr. Watson, aparecerem para almo�ar conosco �s 14 horas? Poderei dizer-lhe mais claramente ent�o o que acho dessa coisa toda.</p><p>� Isso � conveniente para voc�, Watson?</p><p>� Perfeitamente.</p><p>� Ent�o os senhores podem nos esperar. Devo chamar um cabriol�?</p><p>� Prefiro caminhar, porque este caso me perturbou bastante.</p><p>� Irei junto com o senhor, com prazer � disse seu amigo.</p><p>� Ent�o vamos nos encontrar novamente �s 14 horas. Au revoir, e bom-dia!</p><p>Ouvimos os passos dos nossos visitantes descendo a escada e a batida da porta da frente. Num instante, Holmes havia se transformado do sonhador l�nguido no homem de a��o.</p><p>� Seu chap�u e botas, Watson, depressa! N�o temos um minuto a perder! � Correu para o seu quarto de roup�o e estava de volta alguns segundos depois com uma sobrecasaca. Descemos a escada correndo e sa�mos. O dr. Mortimer e Baskerville ainda eram vis�veis a cerca de 180 metros � nossa frente na dire��o da Oxford Street.</p><p>� Devo ir correndo e faz�-los parar?</p><p>� Por nada deste mundo, meu caro Watson. Estou absolutamente satisfeito com a sua companhia, se voc� tolerar a minha. Nossos amigos s�o espertos, porque certamente a manh� est� muito bonita para uma caminhada.</p><p>Ele apressou o passo at� que reduzimos � metade a dist�ncia que nos separava. Depois, ainda permanecendo 90 metros atr�s, entramos na Oxford Street e depois na Regent Street. Os nossos amigos pararam uma vez e olharam para uma vitrina, e Holmes fez a mesma coisa. Um instante depois ele deu um grito de satisfa��o e, seguindo a dire��o dos seus olhos ansiosos, vi que um cabriol� com um homem dentro, que havia parado do outro lado da rua, estava agora avan�ando outra vez lentamente.</p><p>� L� est� o nosso homem, Watson! Venha! Daremos uma boa olhada nele, se n�o pudermos fazer mais nada.</p><p>Nesse instante percebi uma barba preta cerrada e um par de olhos penetrantes voltarem-se para n�s atrav�s da janela lateral do cabriol�. Na mesma hora a portinhola do teto foi erguida, alguma coisa foi gritada para o cocheiro e o cabriol� voou como um louco pela Regent Street. Holmes olhou em volta ansioso � procura de outro, mas n�o havia nenhum vazio � vista. Depois saiu em persegui��o numa corrida louca pelo meio da corrente do tr�fego, mas a dist�ncia era muito grande e o cabriol� j� havia desaparecido.</p><p>� Esta agora! � disse Holmes, aborrecido quando saiu, ofegante e p�lido de vergonha, do meio da mar� de ve�culos. � J� viu tanta m� sorte e tanta incapacidade tamb�m? Watson, Watson, se voc� � um homem honesto, ir� registrar isto tamb�m e contrapor aos meus �xitos!</p><p>� Quem era o homem?</p><p>� N�o tenho a menor id�ia.</p><p>� Um espi�o?</p><p>� Bem, era evidente, pelo que ouvimos, que Baskerville foi acompanhado muito de perto por algu�m desde que est� na cidade. De outro modo, como podiam saber t�o depressa que ele escolhera o Hotel Northumberland? Se eles o seguiram no primeiro dia, conclu� que o seguiriam tamb�m no segundo. Voc� deve ter observado que fui duas vezes at� a janela enquanto o dr. Mortimer estava lendo a sua lenda.</p><p>� Sim, lembro-me.</p><p>� Eu estava procurando ociosos na rua, mas n�o vi nenhum. Estamos lidando com um homem esperto, Watson. Esta quest�o penetra muito fundo, e embora eu ainda n�o tenha decidido se � uma influ�ncia benigna ou maligna que est� em contato conosco, estou sempre consciente da sua for�a e determina��o. Quando os nossos amigos sa�ram, eu os segui imediatamente na esperan�a de identificar seus acompanhantes invis�veis. Ele foi t�o astuto que n�o se arriscou a seguir a p�, mas tomou um cabriol� a fim de poder esperar escondido ou ultrapass�-los depressa, e assim escapar � aten��o deles. O m�todo dele teve a vantagem adicional de, se eles tomassem um cabriol�, ele j� estar preparado para segui-los. Mas tem uma desvantagem �bvia.</p><p>� Ficar nas m�os do cocheiro.</p><p>� Exatamente.</p><p>� Que pena n�o termos anotado o n�mero!</p><p>� Meu caro Watson, por mais inepto que eu tenha sido, voc� com certeza n�o imagina que deixaria de anotar o n�mero? Dois-sete-zero-quatro � o nosso homem. Mas isso n�o adianta nada para n�s por enquanto.</p><p>� N�o vejo como voc� poderia ter feito mais.</p><p>� Ao observar o cabriol�, eu devia ter me virado instantaneamente e caminhado na dire��o oposta. Podia ent�o ter pegado calmamente um segundo cabriol� e seguido o primeiro a uma dist�ncia respeit�vel, ou melhor ainda, ter ido para o Hotel Northumberland e esperado l�. Quando o nosso desconhecido tivesse seguido Baskerville at� em casa, poder�amos ter tido a oportunidade de jogar o seu pr�prio jogo com ele, e ver para onde ia. Do jeito que est�, por uma ansiedade indiscreta, da qual o nosso advers�rio tirou vantagem com extraordin�ria rapidez e energia, tra�mo-nos e perdemos o nosso homem.</p><p>Est�vamos passeando lentamente pela Regent Street durante esta conversa, e o dr. Mortimer com o seu companheiro haviam desaparecido h� muito tempo.</p><p>� N�o h� nenhum sentido em segui-los � disse Holmes. � O seguidor fugiu e n�o voltar�. Devemos ver que outras cartas temos em m�os, e jog�-las com decis�o. Voc� pode jurar que reconhece o homem dentro do cabriol�?</p><p>� Posso jurar apenas quanto � barba.</p><p>� E eu tamb�m, e da� concluo que provavelmente � uma barba falsa. Um homem esperto numa miss�o t�o delicada n�o precisa de uma barba, a n�o ser para esconder suas fei��es. Entre aqui, Watson!</p><p>Ele entrou num dos escrit�rios de mensageiros do bairro, onde foi saudado calorosamente pelo gerente.</p><p>� Ah, Wilson, vejo que n�o se esqueceu do pequeno caso no qual tive a sorte de ajud�-lo?</p><p>� N�o senhor, realmente n�o. O senhor salvou o meu bom nome e talvez a minha vida.</p><p>� Meu caro amigo, voc� exagera. Lembro-me, Wilson, de que voc� tem entre os seus rapazes um garoto chamado Cartwright, que demonstrou certa capacidade durante a investiga��o.</p><p>� Sim senhor, ele ainda est� conosco.</p><p>� Pode cham�-lo? Obrigado! E eu gostaria de trocar esta nota de 5 libras.</p><p>Um garoto de 14 anos, com uma fisionomia inteligente e perspicaz, havia atendido ao chamado do gerente. Ele agora estava parado contemplando com grande rever�ncia o famoso detetive.</p><p>� Empreste-me o cat�logo de hot�is � disse Holmes. � Obrigado! Agora, Cartwright, aqui est�o os nomes de 23 hot�is, todos nas vizinhan�as de Charing Cross. Est� vendo?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Voc� vai visitar cada um destes.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Voc� come�ar�, em cada caso, dando ao porteiro do lado de fora 1 xelim. Aqui est�o 23 xelins.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Voc� dir� a ele que deseja ver o papel usado de ontem. Voc� dir� que um telegrama importante extraviou-se e que voc� o est� procurando. Compreendeu?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Mas o que voc� est� procurando realmente � a p�gina central do Times com alguns buracos cortados nela com tesoura. Aqui est� um exemplar do Times. � esta p�gina. Voc� pode reconhec�-la facilmente, n�o pode?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Em cada caso, o porteiro do lado de fora mandar� chamar o porteiro do sagu�o, a quem voc� dar� tamb�m 1 xelim. Voc� ent�o ficar� sabendo, provavelmente em 20 casos dos 23, que o lixo do dia anterior foi queimado ou retirado. Nos outros tr�s casos, mostrar�o a voc� um monte de pap�is e voc� procurar� esta p�gina do Times entre eles. Ser� muito dif�cil encontr�-la. Aqui est�o mais 10 xelins para o caso de alguma emerg�ncia. Mande um telegrama com informa��es para Baker Street antes da noite. E agora, Watson, falta apenas descobrir por telegrama a identidade do cocheiro, n�mero dois-sete-zero-quatro, e depois vamos entrar numa das galerias de quadros da Bond Street e passar o tempo at� a hora de irmos para o hotel.</p><empty-line/></section><section><p><strong>tr�s fios partidos</strong></p><p>Sherlock Holmes tinha, num grau bastante not�vel, a capacidade de desligar sua mente � vontade. Durante duas horas, o estranho caso no qual t�nhamos sido envolvidos pareceu estar esquecido, e ele ficou inteiramente absorvido pelos quadros dos mestres belgas modernos. Ele s� falou sobre arte, da qual tinha as id�ias mais primitivas, desde que sa�mos da galeria at� chegarmos ao Hotel Northumberland.</p><p>� Sir Henry Baskerville est� l� em cima � sua espera � disse o empregado. � Ele me pediu� para lev�-lo at� l� assim que chegasse.</p><p>� O senhor permite que eu examine o seu registro? � perguntou Holmes.</p><p>� Claro.</p><p>O livro mostrava que dois nomes haviam sido acrescentados ap�s o de Baskerville. Um era Theophilus Johnson e fam�lia, de Newcastle; o outro, a sra. Oldmore</p><p>e criada, de High Lodge, Alton.</p><p>� Certamente esse deve ser o mesmo Johnson que eu conhecia � disse Holmes ao recepcionista. � Um advogado, n�o �, de cabelos grisalhos e que anda mancando?</p><p>� N�o, senhor, este � o sr. Johnson, o dono da mina de carv�o, um cavalheiro muito ativo, n�o mais velho do que o senhor.</p><p>� O senhor n�o est� enganado quanto ao seu ramo?</p><p>� N�o senhor; ele usa este hotel h� muitos anos, e � muito conhecido aqui.</p><p>� Ah, isso encerra o assunto. A sra. Oldmore, tamb�m; parece que me lembro do nome. Desculpe minha curiosidade, mas muitas vezes ao se visitar um amigo encontra-se outro.</p><p>� Ela � uma senhora inv�lida, cavalheiro. Seu marido certa vez foi prefeito de Gloucester. Ela sempre vem para c� quando est� na cidade.</p><p>� Muito obrigado; acho que n�o a conhe�o. Determinamos um fato muito importante com estas perguntas, Watson � ele continuou em voz baixa ao subirmos a escada juntos. � Sabemos agora que as pessoas que est�o t�o interessadas em nosso amigo n�o se hospedaram no mesmo hotel. Isso significa que, embora elas estejam, como vimos, muito ansiosas para vigi�-lo, n�o querem que ele as veja. Este � um fato muito sugestivo.</p><p>� O que ele sugere?</p><p>� Sugere...� ol�, meu caro amigo, que diabo aconteceu?</p><p>Ao chegarmos ao alto da escada, esbarramos no pr�prio sir Henry Baskerville. Seu rosto estava rubro de c�lera e ele segurava uma bota velha e empoeirada numa das m�os. Estava t�o furioso que mal conseguia falar, e quando falou, foi num dialeto muito mais variado e mais t�pico do oeste do que qualquer coisa que t�nhamos ouvido dele pela manh�.</p><p>� Parece que est�o me fazendo de trouxa neste hotel! � ele exclamou. � Eles v�o descobrir que come�aram a fazer travessuras com o homem errado, a menos que tenham cuidado. Que diabo, se aquele sujeito n�o conseguir achar a minha bota desaparecida, haver� problemas. Posso suportar uma brincadeira com bom humor, sr. Holmes, mas eles exageraram um pouco desta vez.</p><p>� Ainda est� procurando a sua bota?</p><p>� Sim, senhor, e pretendo encontr�-la.</p><p>� Mas o senhor n�o disse que era uma bota marrom nova?</p><p>� E era, senhor. E agora � uma bota preta velha.</p><p>� O qu�! O senhor n�o quer dizer...</p><p>� � exatamente isso o que quero dizer. Eu tinha apenas tr�s pares neste mundo, o marrom novo, o preto velho e o de couro envernizado, que estou usando. Ontem � noite levaram um p� do meu marrom, e hoje roubaram um do preto. Bem, entendeu? Fale homem, e n�o fique parado olhando!</p><p>Um gar�om alem�o agitado havia aparecido no local.</p><p>� N�o, senhor; investiguei no hotel inteiro, mas n�o ouvi uma palavra a respeito.</p><p>� Bem, ou essa bota volta antes do anoitecer ou irei ver o gerente e dizer a ele que vou embora deste hotel.</p><p>� Ela ser� encontrada, senhor, prometo que se o senhor tiver um pouco de paci�ncia, ela ser� encontrada.</p><p>� Fa�a com que seja, porque esta � a �ltima coisa minha que perderei neste covil de ladr�es. Bem, bem, sr. Holmes, o senhor vai me desculpar por incomod�-lo por causa de uma coisa t�o insignificante.</p><p>� Acho que isso merece bem o inc�modo.</p><p>� Ora, o senhor parece levar isso muito a s�rio.</p><p>� Como o senhor explica isso?</p><p>� Eu simplesmente n�o tento explicar. Parece a coisa mais louca e estranha que j� me aconteceu.</p><p>� A mais estranha, talvez... � disse Holmes, pensativo.</p><p>� O que o senhor mesmo conclui disso?</p><p>� Bem, ainda n�o afirmo que compreendi. Este seu caso � muito complexo, sir Henry. Quando considerado em conjunto com a morte do seu tio, n�o tenha certeza de que entre todos os quinhentos casos de import�ncia capital de que cuidei existe um que seja t�o misterioso. Mas temos v�rios fios em nossas m�os, e as probabilidades s�o de que um ou outro deles nos guie para a verdade. Podemos perder tempo seguindo o fio errado, por�m mais cedo ou mais tarde devemos encontrar o certo.</p><p>Tivemos um almo�o agrad�vel, no qual pouco foi dito sobre o assunto que nos reuniu. Foi na sala particular para a qual fomos depois que Holmes perguntou a Baskerville quais eram as suas inten��es.</p><p>� Ir para a Mans�o Baskerville.</p><p>� E quando?</p><p>� No fim da semana.</p><p>� No fim das contas � disse Holmes � acho que a sua decis�o � sensata. Tenho ind�cios de que o senhor est� sendo seguido em Londres, e entre os milh�es desta grande cidade � dif�cil descobrir quem s�o estas pessoas ou qual pode ser o objetivo delas. Se as inten��es delas forem m�s, elas podem fazer-lhe uma maldade, e seremos impotentes para impedi-la. O senhor n�o sabe, dr. Mortimer, que o senhor foi seguido esta manh� ao sair da minha casa?</p><p>O dr. Mortimer estremeceu violentamente.</p><p>� Seguido! Por quem?</p><p>� Isso, infelizmente, � o que n�o posso dizer-lhe. O senhor tem entre os seus vizinhos ou conhecidos em Dartmoor algum homem com uma barba preta abundante?</p><p>� N�o, ou, deixe-me ver, sim. Barrymore, o mordomo de sir Charles, tem uma barba preta abundante.</p><p>� Ah! Onde est� Barrymore?</p><p>� Tomando conta da Mans�o.</p><p>� � melhor verificarmos se ele est� realmente l�, ou se h� alguma possibilidade de estar em Londres.</p><p>� Como se pode fazer isso?</p><p>� D�-me um formul�rio de telegrama. �Est� tudo pronto para sir Henry?� Isso resolver�. Enderece para o sr. Barrymore, Mans�o Baskerville. Qual � a ag�ncia de tel�grafo mais pr�xima? Grimpen. Muito bem. Mandaremos um segundo telegrama para o agente do correio, Grimpen: �Telegrama para o sr. Barrymore, a ser entregue em m�os. Se ausente, por favor devolva o telegrama para sir Baskerville, Hotel Northumberland.� Esse segundo deve nos informar antes da noite se Barrymore est� no seu posto no Devonshire ou n�o.</p><p>� Isso mesmo � disse Baskerville. � A prop�sito, dr. Mortimer, quem � este Barrymore, afinal?</p><p>� Ele � filho do velho zelador, que morreu. Eles cuidam da Mans�o h� quatro gera��es. Pelo que sei, ele e a mulher s�o um casal t�o respeit�vel quanto qualquer um do condado.</p><p>� Ao mesmo tempo � disse Baskerville � est� bastante claro que, desde que n�o haja ningu�m da fam�lia na Mans�o, estas pessoas t�m uma casa �tima e enorme, e nada para fazer.</p><p>� Isso � verdade.</p><p>� Barrymore foi beneficiado no testamento de sir Charles? � perguntou Holmes.</p><p>� Ele e a mulher receberam quinhentas libras cada.</p><p>� Ah! Eles sabiam que iam receber isto?</p><p>� Sim; sir Charles gostava muito de falar sobre os legados do seu testamento.</p><p>� Isso � muito interessante.</p><p>� Espero � disse o dr. Mortimer � que o senhor n�o encare com desconfian�a todos que receberam um legado de sir Charles, porque eu tamb�m recebi 1.000 libras que foram deixadas para mim.</p><p>� � mesmo? E algu�m mais?</p><p>� Havia v�rias quantias insignificantes para pessoas e um grande n�mero de obras p�blicas de caridade. O resto foi todo para sir Henry.</p><p>� E de quanto era esse resto?</p><p>� Setecentas e quarenta mil libras.</p><p>Holmes ergueu as sobrancelhas com surpresa. � Eu n�o sabia que havia uma soma t�o gigantesca envolvida � disse ele.</p><p>� Sir Charles tinha fama de ser rico, mas n�s n�o sab�amos a dimens�o dessa riqueza at� que examinamos as suas a��es. O valor total dos bens chegava perto de 1 milh�o.</p><p>� Santo Deus! Esse � um pr�mio pelo qual um homem pode muito bem lan�ar-se num jogo desesperado. E mais uma pergunta, dr. Mortimer. Supondo que aconte�a alguma coisa ao nosso jovem amigo aqui � o senhor perdoar� a hip�tese desagrad�vel! �, quem herdaria os bens?</p><p>� Como Rodger Baskerville, o irm�o ca�ula de sir Charles, morreu solteiro, os bens iriam para os Desmonds, que s�o primos distantes. James Desmond � um cl�rigo idoso de Westmoreland.</p><p>� Obrigado. Estes detalhes t�m grande interesse. Conheceu o sr. James Desmond?</p><p>� Sim; uma vez ele veio ao sul visitar sir Charles. � um homem de apar�ncia vener�vel e uma vida de santidade. Lembro-me de que ele se recusou a aceitar qualquer doa��o de sir Charles, embora este insistisse.</p><p>� E este homem de gostos simples seria o herdeiro da fortuna de sir Charles?</p><p>� Ele seria o herdeiro da propriedade, porque isso est� vinculado. Seria tamb�m o herdeiro do dinheiro, a menos que fosse disposto em testamento de outra forma pelo dono atual, que pode, naturalmente, fazer o que quiser com ele.</p><p>� E o senhor fez o seu testamento, sir Henry?</p><p>� N�o, sr. Holmes, n�o fiz. N�o tive tempo, porque s� ontem � que soube como andavam as coisas. Mas, de qualquer maneira, acho que o dinheiro deve acompanhar o t�tulo e a propriedade. Essa era a id�ia do meu pobre tio. Como o propriet�rio vai restaurar as gl�rias dos Baskervilles se n�o tiver dinheiro suficiente para manter a propriedade? Casa, terras e d�lares devem andar juntos.</p><p>� Exatamente. Bem, sir Henry, estou de acordo com o senhor quanto � conveni�ncia da sua ida para Devonshire sem demora. H� apenas uma condi��o que devo impor. Que o senhor certamente n�o deve ir sozinho.</p><p>� O dr. Mortimer volta comigo.</p><p>� Mas o dr. Mortimer tem a sua cl�nica para cuidar, e a casa dele fica a quil�metros de dist�ncia da sua. Mesmo com toda a boa vontade do mundo, ele talvez n�o possa ajud�-lo. N�o, sir Henry, o senhor deve levar algu�m consigo, um homem de confian�a, que esteja sempre ao seu lado.</p><p>� Ser� que o senhor� mesmo n�o poderia vir, sr. Holmes?</p><p>� Se as coisas chegarem a uma crise, vou fazer for�a para estar presente; mas o senhor pode compreender que, com a minha extensa clientela para atender e com os constantes apelos que recebo de v�rios lugares, � imposs�vel, para mim, ficar ausente de Londres por um tempo indefinido. No momento, um dos nomes mais respeitados da Inglaterra est� sendo maculado por um chantagista, e s� eu posso impedir um esc�ndalo desastroso. O senhor ver� como � imposs�vel, para mim, ir a Dartmoor.</p><p>� Quem o senhor recomendaria, ent�o?</p><p>Holmes p�s a m�o no meu bra�o.</p><p>� Se o meu amigo quisesse se encarregar disso, n�o h� nenhum homem melhor para ter ao lado quando o senhor estiver num aperto. Ningu�m pode dizer isso com mais convic��o do que eu.</p><p>A proposta me pegou de surpresa, mas antes que eu tivesse tempo de responder, Baskerville pegou minha m�o e apertou-a calorosamente.</p><p>� Bem, isso � realmente bondade sua, dr. Watson � disse ele. � O senhor sabe como eu sou, e sabe tanto sobre o assunto quanto eu. Se o senhor vier para a Mans�o Baskerville e me fizer companhia, nunca me esquecerei disso.</p><p>A promessa de aventura sempre me fascinou, e fiquei lisonjeado com as palavras de Holmes e com a ansiedade com que o baronete saudou-me como companheiro.</p><p>� Irei com prazer � eu disse. � N�o sei como poderia empregar melhor o meu tempo.</p><p>� E voc� me manter� minuciosamente informado � disse Holmes. � Quando surgir uma crise, como surgir�, direi a voc� como deve agir. Ser� que s�bado tudo estar� pronto?</p><p>� Isso seria conveniente, dr. Watson?</p><p>� Perfeitamente.</p><p>� Ent�o s�bado, a menos que lhe diga o contr�rio, nos encontraremos no trem das 10:30h que sai de Paddington.</p><p>Hav�amos nos levantado para ir embora quando Baskerville deu um grito de triunfo e, mergulhando num dos cantos da sala, apanhou uma bota marrom debaixo da secret�ria.</p><p>� Minha bota perdida! � ele exclamou.</p><p>� Que todas as nossas dificuldades possam desaparecer t�o facilmente! � disse Sherlock Holmes.</p><p>� Mas isso � uma coisa muito estranha � comentou o dr. Mortimer. � Eu revistei esta sala cuidadosamente antes do almo�o.</p><p>� E eu tamb�m � disse Baskerville. � Cada cent�metro dela.</p><p>� Com certeza n�o havia nenhuma bota aqui.</p><p>� Nesse caso, o gar�om deve t�-la colocado a� enquanto est�vamos almo�ando.</p><p>O alem�o foi chamado, mas afirmou n�o saber nada a respeito, e as indaga��es tamb�m n�o conseguiram esclarecer isso. Outro item havia sido acrescentado �quela s�rie constante e aparentemente sem sentido de pequenos mist�rios que haviam ocorrido numa r�pida sucess�o. Deixando de lado toda a hist�ria sombria da morte de sir Charles, t�nhamos uma s�rie de incidentes inexplic�veis, todos no per�odo de dois dias, que inclu�am o recebimento da carta em letra de f�rma, o espi�o de barba preta no cabriol�, o desaparecimento da bota marrom nova, a perda da bota preta velha, e agora a volta da bota marrom nova. Holmes ficou sentado em sil�ncio no cabriol� quando voltamos para Baker Street, e eu sabia, pela sua testa contra�da e pela fisionomia ansiosa, que sua mente, como a minha pr�pria, estava tentando imaginar algum esquema no qual todos estes epis�dios estranhos e aparentemente desconexos pudessem ser encaixados. Durante toda a tarde e boa parte da noite ele ficou sentado, fumando e meditando.</p><p>Pouco antes do jantar, ele recebeu dois telegramas. O primeiro dizia:</p><empty-line/><p>Acabei de saber que Barrymore est� na Mans�o Baskerville.</p><empty-line/><p>O segundo:</p><empty-line/><p>Visitei 23 hot�is como ordenado, mas, lamento informar, incapaz de descobrir qualquer vest�gio de folha cortada do Times. Cartwright.</p><empty-line/><p>� L� se v�o dois dos meus fios, Watson. N�o h� nada mais estimulante do que um caso em que tudo vai contra voc�. Temos de procurar outro rastro.</p><p>� Ainda temos o cocheiro que levou o espi�o.</p><p>� Exatamente. Telegrafei ao registro oficial para obter seu nome e endere�o. N�o ficaria surpreso se isto fosse uma resposta � minha pergunta.</p><p>Mas o toque da campainha resultou em algo mais satisfat�rio do que uma resposta, porque a porta se abriu e entrou um sujeito de aspecto rude que era, evidentemente, o pr�prio homem.</p><p>� Recebi um recado do escrit�rio central de que um cavalheiro neste endere�o esteve perguntando pelo dois-sete-zero-quatro � disse ele. � Guiei meu cabriol� estes sete anos e nunca tive uma palavra de queixa. Vim direto da cocheira para c� perguntar-lhe pessoalmente o que tem contra mim.</p><p>� N�o tenho nada contra voc�, meu bom homem � disse Holmes. � Pelo contr�rio, tenho meio soberano para voc� se me der uma resposta clara �s minhas perguntas.</p><p>� Bem, tive um dia bom, n�o h� d�vida � disse o cocheiro com um sorriso. � O que o senhor deseja perguntar, cavalheiro?</p><p>� Antes de tudo, o seu nome e endere�o, no caso de precisar de voc� outra vez.</p><p>� John Clayton, Turpey Street, 3 em Burough. Meu cabriol� � da Cocheira de Shipley, perto da Esta��o de Waterloo.</p><p>Sherlock Holmes tomou nota.</p><p>� Agora, Clayton, fale-me sobre o passageiro que veio observar esta casa hoje de manh�, �s dez horas, e depois seguiu os dois cavalheiros pela Regent Street.</p><p>O homem pareceu surpreso e um pouco embara�ado. � Ora, n�o adianta eu lhe contar coisas, porque o senhor j� parece saber tanto quanto eu � disse ele. � A verdade � que o cavalheiro me disse que era detetive e que eu n�o devia contar nada sobre ele a ningu�m.</p><p>� Meu bom amigo, este � um caso muito s�rio, e voc� pode ficar numa posi��o muito ruim se tentar esconder alguma coisa de mim. Voc� diz que o seu passageiro contou que era detetive?</p><p>� Sim, disse.</p><p>� Quando foi que ele disse isto?</p><p>� Quando foi embora.</p><p>� Ele disse mais alguma coisa?</p><p>� Ele mencionou o nome.</p><p>Holmes lan�ou um olhar r�pido de triunfo para mim. � Oh, ele mencionou seu nome, foi? Isso foi imprudente. Qual foi o nome que ele mencionou?</p><p>� O nome dele � disse o cocheiro � era Sherlock Holmes.</p><p>Nunca vi meu amigo mais surpreso do que ao ouvir a resposta do cocheiro. Por um momento ele ficou sentado, pasmo, em sil�ncio. Depois estourou numa gostosa gargalhada.</p><p>� Um toque, Watson, um toque ineg�vel! � ele disse. � Sinto uma l�mina t�o �gil e flex�vel como a minha pr�pria. Ele me atingiu em cheio desta vez. Ent�o o nome dele era Sherlock Holmes, n�o �?</p><p>� Sim senhor, esse era o nome do cavalheiro.</p><p>� Excelente! Diga-me onde o pegou e tudo que aconteceu.</p><p>� Ele me pegou �s 9:30h na Trafalgar Square. Disse que era detetive e me ofereceu 2 guin�us se eu fizesse exatamente o que ele queria o dia inteiro e n�o fizesse nenhuma pergunta. Concordei com muita satisfa��o. Primeiro seguimos at� o Hotel Northumberland e esperamos ali at� que dois cavalheiros sa�ram e tomaram um cabriol� da fila. Seguimos o cabriol� deles at� ele parar em algum lugar aqui perto.</p><p>� Nesta mesma porta � disse Holmes.</p><p>� Bem, n�o posso garantir, mas ouso dizer que meu passageiro sabia tudo a respeito. Paramos mais ou menos na metade da rua e esperamos uma hora e meia. Depois os dois cavalheiros passaram por n�s, caminhando, e seguimos pela Baker Street e pela...</p><p>� Eu sei � disse Holmes.</p><p>� At� descermos 3/4 da Regent Street. Ent�o meu passageiro levantou a portinha e gritou para eu seguir direto para a Esta��o de Waterloo o mais depressa poss�vel. Chicoteei a �gua e chegamos l� em menos de dez minutos. Depois ele pagou seus 2 guin�us, como combinado, e entrou na esta��o. S� que, no momento em que estava indo embora, virou-se e disse: �Pode ser que lhe interesse saber que esteve transportando o sr. Sherlock Holmes.� Foi assim que vim a saber o nome.</p><p>� Compreendo. E voc� n�o o viu mais?</p><p>� N�o depois que ele entrou na esta��o.</p><p>� E como voc� descreveria o sr. Sherlock Holmes?</p><p>O cocheiro co�ou a cabe�a. � Bem, ele n�o � um cavalheiro muito f�cil assim de descrever. Eu daria a ele 40 anos de idade, e era de altura m�dia, 5 a 7 cent�metros mais baixo do que o senhor. Estava vestido como um gr�-fino, tinha uma barba preta, quadrada na ponta, e o rosto p�lido. N�o sei o que posso dizer al�m disso.</p><p>� Cor dos olhos?</p><p>� N�o, n�o posso dizer isso.</p><p>� Nada mais que voc� possa se lembrar?</p><p>� N�o, senhor, nada.</p><p>� Bem, ent�o, aqui est� o seu meio soberano. H� outro esperando por voc� se puder trazer mais informa��es. Boa-noite!</p><p>� Boa-noite, cavalheiro, e obrigado!</p><p>John Clayton foi embora sorrindo e Holmes virou-se para mim, encolheu os ombros e exibiu um sorriso triste.</p><p>� L� se vai o nosso terceiro fio, e acabamos onde come�amos � disse ele. � Que patife esperto! Ele sabia o nosso n�mero, sabia que sir Henry Baskerville havia me consultado, identificou quem eu era na Regent Street, imaginou que eu conseguira o n�mero do cabriol� e poria as m�os no cocheiro, e assim mandou de volta este recado audacioso. Olhe, Watson, desta vez conseguimos um inimigo digno de n�s. Levei um xeque-mate em Londres. Posso apenas desejar-lhe melhor sorte no Devonshire. Mas n�o estou tranq�ilo quanto a isso.</p><p>� A isso o qu�?</p><p>� Quanto a mandar voc�. Esse � um neg�cio desagrad�vel, Watson, um neg�cio desagrad�vel e perigoso, e quanto mais fico sabendo a respeito, menos gosto dele. Sim, meu caro amigo, voc� pode rir, mas dou-lhe a minha palavra de que ficarei muito satisfeito de t�-lo de volta s�o e salvo em Baker Street mais uma vez.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a mans�o baskerville</strong></p><p>Sir Henry Baskerville e o dr. Mortimer estavam prontos no dia marcado, e partimos para o Devonshire. O sr. Sherlock Holmes foi comigo at� a esta��o e deu-me as �ltimas instru��es e conselhos.</p><p>� N�o vou predispor sua mente sugerindo teorias ou suspeitas, Watson � ele disse. � Quero que voc� simplesmente me comunique os fatos da maneira mais completa poss�vel, e pode deixar que eu elaboro as teorias.</p><p>� Que tipo de fatos? � perguntei.</p><p>� Qualquer coisa que possa parecer ter rela��o, mesmo indireta, com o caso, e principalmente as rela��es entre o jovem Baskerville e seus vizinhos ou qualquer novo detalhe a respeito da morte de sir Charles. Eu mesmo fiz algumas investiga��es nos �ltimos dias, mas acho que os resultados foram negativos. S� uma coisa parece ser certa � que o sr. James Desmond, que � o herdeiro seguinte, � um cavalheiro</p><p>idoso com um temperamento muito am�vel, de modo que esta persegui��o n�o parte dele. Acho que podemos elimin�-lo inteiramente dos nossos c�lculos. Restam as pessoas que realmente estar�o em volta de sir Henry Baskerville no p�ntano.</p><p>� N�o seria bom, em primeiro lugar, livrar-se deste casal Barrymore?</p><p>� De maneira alguma. Voc� n�o poderia cometer um erro maior. Se eles forem inocentes, seria uma injusti�a cruel, e se forem culpados, estar�amos desistindo de todas as� possibilidades de pormos a culpa neles. N�o, n�o, vamos mant�-los na nossa lista de suspeitos. Depois h� um criado na Mans�o, se me lembro bem. H� dois fazendeiros na �rea do p�ntano. H� o nosso amigo, dr. Mortimer, que acredito ser totalmente honesto, e h� sua mulher, de quem n�o sabemos nada. H� este naturalista, Stapleton, e h� sua irm�, que dizem ser uma mo�a atraente. H� o sr. Frankland, da Mans�o Lafter, que � tamb�m um fator desconhecido, e h� mais um ou dois vizinhos. Estas s�o as pessoas nas quais voc� deve concentrar sua aten��o.</p><p>� Farei o melhor que puder.</p><p>� Voc� tem armas, suponho.</p><p>� Sim, achei bom lev�-las.</p><p>� Com toda certeza. Fique com o rev�lver perto de voc� noite e dia, e nunca esque�a as precau��es.</p><p>Nossos amigos j� haviam reservado um vag�o de primeira classe, e estavam esperando por n�s na plataforma.</p><p>� N�o, n�o temos nenhuma novidade � disse o dr. Mortimer em resposta �s perguntas do meu amigo. � Posso jurar uma coisa: n�o fomos seguidos durante os �ltimos dois dias. Nunca sa�mos sem manter uma vigil�ncia estrita, e ningu�m poderia ter escapado � nossa aten��o.</p><p>� Os senhores ficaram sempre juntos, presumo?</p><p>� Exceto ontem � tarde. Geralmente dedico um dia � pura divers�o quando venho � cidade, de modo que o passei no Museu do Col�gio de Cirurgi�es.</p><p>� E eu fui olhar as pessoas no parque � disse Baskerville. � Mas n�o tivemos nenhum tipo de problema.</p><p>� Foi imprudente, da mesma forma � disse Holmes sacudindo a cabe�a com uma express�o grave. � Pe�o-lhe, sir Henry, que n�o saia sozinho. Alguma grande infelicidade pode acontecer-lhe se sair. Achou a sua outra bota?</p><p>� N�o, senhor, est� perdida para sempre.</p><p>� Realmente, isso � muito interessante. Bem, adeus � ele acrescentou quando o trem come�ou a deslizar pela plataforma. � Tenha em mente, sir Henry, uma das frases daquela antiga lenda que o dr. Mortimer leu para n�s, e evite o p�ntano nas horas de escurid�o, quando as for�as do mal est�o exaltadas.</p><p>Olhei para a plataforma quando j� est�vamos distantes, e vi a figura alta e austera de Holmes im�vel, e olhando fixamente para n�s.</p><p>A viagem foi r�pida e agrad�vel, e passei o tempo aprofundando as rela��es com os meus dois companheiros e brincando com o spaniel do dr. Mortimer. Em poucas horas a terra marrom havia se tornado avermelhada, o tijolo havia mudado para o granito, e vacas vermelhas pastavam em campos bem cercados de sebes, onde o capim vi�oso e a vegeta��o mais luxuriante revelavam um clima mais rico, embora mais �mido. O jovem Baskerville olhava ansiosamente pela janela e gritava de prazer ao reconhecer as caracter�sticas familiares do cen�rio do Devon.</p><p>� Eu estive em boa parte do mundo desde que sa� daqui, dr. Watson � ele disse � mas nunca vi um lugar que se comparasse a esse.</p><p>� Nunca vi um homem do Devonshire que n�o jurasse por seu condado � comentei.</p><p>� Isso depende da estirpe dos homens tanto quanto do condado � disse o dr. Mortimer. � Um olhar para o nosso amigo aqui revela a cabe�a redonda do celta, que tem em seu interior o entusiasmo celta e a for�a do afeto. A cabe�a do pobre sir Charles era de um tipo muito raro, meio ga�lica, meio hib�rnico em suas caracter�sticas. Mas o senhor era muito jovem quando viu pela �ltima vez a Mans�o de Baskerville, n�o era?</p><p>� Eu era um adolescente quando meu pai morreu, e nunca tinha visto a Mans�o, porque ele morava numa casinha na costa sul. De l� eu fui direto para a casa de um amigo na Am�rica. Digo aos senhores que tudo � t�o novo para mim quanto para o dr. Watson, e estou extremamente ansioso para ver o p�ntano.</p><p>� Est�? Ent�o o seu desejo � facilmente atendido, porque a� est� a sua primeira vis�o do p�ntano � disse o dr. Mortimer, apontando pela janela do vag�o.</p><p>Acima dos quadrados verdes dos campos e da curva baixa de um bosque, erguia-se ao longe uma colina cinzenta e melanc�lica, com um estranho cume denteado, indistinto e vago na dist�ncia, como alguma paisagem fant�stica num sonho. Baskerville ficou olhando fixamente para ela por um longo tempo, e vi na sua fisionomia ansiosa o quanto ela representava para ele, esta primeira vis�o daquele lugar estranho em que os homens do seu sangue haviam exercido o poder por tanto tempo e deixado sua marca t�o profunda. L� estava ele sentado, com o seu terno de tweed e o seu sotaque americano, no canto de um prosaico vag�o de estrada de ferro, e ainda assim, enquanto eu olhava para o seu rosto moreno e expressivo, sentia mais do que nunca que ele era um verdadeiro descendente daquela longa linhagem de homens de sangue nobre, belicosos e dominadores. Havia orgulho, coragem e for�a em suas sobrancelhas espessas, narinas sens�veis e olhos grandes amendoados. Se naquele p�ntano amea�ador tiv�ssemos que enfrentar uma investiga��o dif�cil e perigosa, este era pelo menos um camarada por quem se podia correr um risco com a certeza de que ele tamb�m o enfrentaria corajosamente.</p><p>O trem parou numa pequena esta��o � margem da estrada e n�s descemos. Do lado de fora, depois da cerca branca baixa, uma charrete com um par de cavalos de pernas curtas estava esperando. Nossa chegada era, evidentemente, um grande acontecimento, porque o chefe da esta��o e os carregadores se aglomeraram � nossa volta para levar a bagagem. Era um lugar campestre encantador e simples, mas fiquei surpreso ao observar que junto ao port�o havia dois homens com uniformes escuros de soldados, que se inclinaram sobre seus fuzis curtos e olharam atentamente para n�s quando passamos. O cocheiro, um sujeitinho de fei��es grosseiras contorcidas, saudou sir Henry Baskerville, e em alguns minutos est�vamos voando pela larga estrada branca. Pastagens onduladas subiam em curva de ambos os lados, e velhas casas com front�es apareciam por entre a espessa folhagem verde, mas atr�s os campos tranq�ilos e iluminados pelo sol apareciam sempre, escuros contra o c�u crepuscular, com a curva extensa e sombria do p�ntano interrompida pelas colinas sinistras e denteadas.</p><p>A charrete entrou numa estrada secund�ria e fizemos uma curva ascendente atrav�s de caminhos desgastados por s�culos de rodas, margens altas dos dois lados, pesadas de musgo gotejante e samambaias. Fetos bronzeados e espinheiros mosqueados brilhavam � luz do sol poente. Ainda subindo, passamos por uma ponte estreita de granito e contornamos um c�rrego barulhento que descia borbulhando rapidamente, espumando e bramindo por entre os matac�es cinzentos. Tanto a estrada como o c�rrego atravessavam por um vale denso de carvalhos e abetos enfezados. A cada volta, Baskerville soltava uma exclama��o de prazer, olhando ansioso em volta e fazendo perguntas intermin�veis. A seus olhos tudo parecia lindo, mas para mim um tom de melancolia pairava sobre os campos que mostravam t�o claramente a marca do ano que terminava. Folhas amarelas atapetavam os caminhos e ca�am esvoa�ando sobre n�s quando pass�vamos. O ru�do das nossas rodas desapareu quando passamos atrav�s de montes de vegeta��o apodrecida, tristes oferendas, como me pareceram, para a natureza lan�ar diante da carruagem do herdeiro dos Baskervilles que voltava.</p><p>� Oh! � gritou o dr. Mortimer. � O que � isto?</p><p>Uma curva �ngreme de terreno coberto de urzes, um contraforte afastado do p�ntano, estava diante de n�s. No alto, r�gido e n�tido como uma est�tua eq�estre sobre o seu pedestal, estava um soldado montado, moreno e s�rio, com o fuzil suspenso em posi��o sobre o seu antebra�o. Ele estava vigiando a estrada pela qual viaj�vamos.</p><p>� O que � isto, Perkins? � perguntou o dr. Mortimer.</p><p>Nosso cocheiro virou-se um pouco no assento.</p><p>� H� um condenado fugido de Princetown, senhor. Faz tr�s dias que ele fugiu, e os guardas vigiam todas as estradas e todas as esta��es, mas at� agora n�o o viram. Os fazendeiros por aqui n�o gostam disso, senhor, isto � verdade.</p><p>� Bem, sei que eles ganham 5 libras se puderem dar informa��es.</p><p>� Sim, mas a possibilidade das 5 libras � muito pouco, se comparada com a possibilidade de ter a garganta da gente cortada. O senhor compreende, n�o � como qualquer condenado comum. Este � um homem que n�o se det�m diante de nada.</p><p>� Quem � ele?</p><p>� � Selden, o assassino de Notting Hill.</p><p>Eu me lembrava bem do caso, porque Holmes havia se interessado por ele devido � ferocidade peculiar do crime e � brutalidade que havia caracterizado todas as a��es do assassino. A comuta��o da sua pena de morte fora devida a algumas d�vidas quanto � sua plena sanidade, t�o atroz foi a sua conduta. Nossa charrete havia chegado ao alto de uma eleva��o e diante de n�s surgiu a enorme extens�o do p�ntano, salpicada de picos rochosos, retorcidos e escarpados. Um vento frio nos deixou tremendo. Em algum ponto ali, naquela plan�cie desolada, estava emboscado este homem perverso, escondido numa toca como um animal feroz, com o cora��o cheio de perversidade contra toda a ra�a que o havia expulsado do seu meio. S� faltava isto para completar a sinistra sugestividade da extens�o vazia, o vento frio e o c�u que escurecia. At� Baskerville ficou em sil�ncio e apertou mais o seu sobretudo em volta dele.</p><p>Hav�amos deixado os campos f�rteis para tr�s. Viramos e olhamos para eles, com os raios inclinados de um sol baixo transformando os c�rregos em fios de ouro e brilhando sobre a terra vermelha agora revirada pelo arado e o emaranhado das florestas. A estrada diante de n�s ficou mais desolada e agreste sobre as encostas castanho-avermelhadas e verde-oliva, salpicadas de matac�es gigantescos. De vez em quando pass�vamos por uma casinha, com paredes e telhados de pedra, sem nenhuma trepadeira para quebrar o seu perfil severo. De repente olhamos para dentro de uma depress�o parecida com uma x�cara, salpicada de carvalhos e abetos enfezados que tinham sido torcidos e inclinados pela f�ria de anos de tempestades. Duas torres altas e estreitas erguiam-se sobre as �rvores. O cocheiro apontou com o seu chicote.</p><p>� A Mans�o Baskerville � disse ele.</p><p>Seu patr�o havia se levantado e estava olhando com as faces coradas e os olhos brilhantes. Alguns minutos mais tarde hav�amos chegado aos port�es da casa do porteiro, uma confus�o fant�stica de rendilhado em ferro batido, com pilares corro�dos pelo tempo de cada lado, manchados de l�quens e encimados pelas cabe�as de urso dos Baskervilles. A casa do porteiro era uma ru�na de granito preto e costelas ou caibros nus, mas diante dele havia um pr�dio novo, meio constru�do, o primeiro fruto do ouro sul-africano de sir Charles.</p><p>Pelo port�o entramos na avenida, onde as rodas foram silenciadas novamente entre as folhas, e as velhas �rvores formavam com seus galhos um t�nel sombrio sobre as nossas cabe�as. Baskerville estremeceu quando olhou para o longo caminho escuro no qual a casa tremeluzia como um fantasma na extremidade oposta.</p><p>� Foi aqui? � ele perguntou em voz baixa.</p><p>� N�o, n�o, a Al�ia dos Teixos fica do outro lado.</p><p>O jovem herdeiro olhou em volta com o rosto sombrio.</p><p>� N�o � de espantar que o meu tio achasse que ia ter problemas num lugar como este � disse ele. � Ele � capaz de assustar qualquer homem. Vou instalar uma fila de lampi�es el�tricos aqui dentro de 6 meses, e voc�s n�o o reconhecer�o mais, com mil velas Swan e Edison bem aqui diante da porta do vest�bulo.</p><p>A avenida abria-se numa ampla extens�o de relva, e a casa estava diante de n�s. Na claridade que diminu�a pude ver que o centro era um pesado bloco de constru��o do qual se projetava uma varanda. Toda a frente estava coberta de hera, com um trecho aparado aqui e ali onde uma janela ou um bras�o aparecia atrav�s do v�u escuro. Deste bloco central erguiam-se as torres g�meas, antigas, com ameias, e perfuradas por muitas seteiras. � direita e � esquerda das torres ficavam alas mais recentes de granito preto. Uma luz ba�a brilhava atrav�s das pesadas janelas g�ticas, e da alta chamin� que se erguia do telhado �ngreme subia uma �nica coluna de fuma�a preta.</p><p>� Bem-vindo, sir Henry! Bem-vindo � Mans�o Baskerville!</p><p>Um homem alto havia sa�do da sombra da varanda para receber a charrete. O vulto de uma mulher destaca-se contra a luz amarela do vest�bulo. Ela saiu e ajudou o homem a retirar nossas malas.</p><p>� O senhor n�o se importa se eu for direto para casa, sir Henry? � perguntou o dr. Mortimer. � Minha mulher est� me esperando.</p><p>� O senhor n�o ficar� para jantar conosco?</p><p>� N�o, preciso ir. Provavelmente encontrarei algum trabalho � minha espera. Eu ficaria para mostrar-lhe a casa, mas Barrymore ser� um guia melhor do que eu. Adeus, e n�o hesite nunca, � noite ou de dia, em mandar me chamar se eu puder ser-lhe �til.</p><p>O barulho das rodas desapareceu no caminho enquanto sir Henry e eu entr�vamos no vest�bulo, e a porta bateu pesadamente atr�s de n�s. Era um �timo aposento em que nos encontr�vamos, grande, majestoso e pesadamente apainelado com traves enormes de carvalho escurecido pelo tempo. Na grande lareira antiquada, atr�s de altos c�es de ferro, um fogo de lenha crepitava e estalava. Sir Henry e eu estendemos as m�os para ele, porque est�vamos entorpecidos pela longa viagem. Depois ficamos olhando em volta para a janela alta e estreita de vitral antigo, os lambris de carvalho, as cabe�as de veado, os bras�es de armas nas paredes, todos escuros e sombrios � luz velada da l�mpada central.</p><p>� � exatamente como eu imaginava � disse sir Henry. � N�o � o pr�prio retrato de um velho lar de fam�lia? E pensar que esta � a mesma mans�o na qual minha gente morou durante quinhentos anos. Parece solene pensar nisso.</p><p>Vi seu rosto moreno iluminar-se de entusiasmo infantil enquanto olhava � sua volta. A luz batia sobre ele no lugar onde estava parado, mas sombras longas estendiam-se pelas paredes e pendiam como um dossel preto acima dele. Barrymore havia voltado dos nossos quartos, para onde levara nossa bagagem. Ele parou diante de n�s com a atitude controlada de um criado bem treinado. Era um homem de aspecto not�vel, alto, bonito, com uma barba preta quadrada, p�lido e de fei��es distintas.</p><p>� O senhor desejaria que o jantar fosse servido imediatamente?</p><p>� Est� pronto?</p><p>� Dentro de alguns minutos, senhor. Os senhores encontrar�o �gua quente em seus quartos. Minha mulher e eu ficaremos felizes, sir Henry, de permanecermos com o senhor at� que tome suas novas provid�ncias, mas o senhor h� de compreender que nas novas circunst�ncias esta casa exigir� uma criadagem consider�vel.</p><p>� Que novas circunst�ncias?</p><p>� S� quis dizer, senhor, que sir Charles levava uma vida muito reclusa, e n�s pod�amos cuidar das suas necessidades. O senhor, naturalmente, vai querer ter mais companhia, de modo que vai precisar de mudan�as em sua criadagem.</p><p>� Voc� quer dizer que sua mulher e voc� desejam sair?</p><p>� S� quando for conveniente para o senhor, sir Henry.</p><p>� Mas a sua fam�lia est� conosco h� v�rias gera��es, n�o �? Eu lamentaria come�ar minha vida aqui rompendo uma velha liga��o de fam�lia.</p><p>Percebi alguns sinais de emo��o no rosto p�lido do mordomo.</p><p>� Eu tamb�m sinto isso, senhor, e minha mulher tamb�m. Mas, para dizer a verdade, senhor, n�s �ramos muito ligados a sir Charles, a sua morte foi um choque e tornou este ambiente muito penoso para n�s. Receio que nunca mais tenhamos tranq�ilidade de esp�rito na Mans�o Baskerville.</p><p>� Mas o que voc� pretende fazer?</p><p>� N�o tenho nenhuma d�vida, senhor, de que seremos bem-sucedidos nos estabelecendo por conta pr�pria com algum neg�cio. A generosidade de sir Charles nos deu os meios para isso. E agora, senhor, talvez seja melhor eu lhes mostrar os seus quartos.</p><p>Uma galeria quadrada com balaustrada corria em volta do alto do velho vest�bulo, com acesso por uma escada dupla. Deste ponto central sa�am dois longos corredores por toda a extens�o do pr�dio, para os quais se abriam todos os quartos. O meu era na mesma ala que o de Baskerville, e quase ao lado do dele. Estes quartos pareciam ser muito mais recentes do que a parte central da casa, e o papel claro e numerosas velas ajudaram a diminuir a impress�o sombria que eu tivera ao chegar.</p><p>Mas a sala de jantar vizinha do sagu�o era um lugar de sombra e escurid�o. Era um c�modo comprido com um degrau que separava o estrado onde a fam�lia se sentava da parte inferior reservada aos seus dependentes. Numa extremidade, havia uma galeria de menestr�is. Traves negras cruzavam-se acima de nossas cabe�as, com um teto escurecido pela fuma�a acima delas. Com filas de archotes chamejantes para ilumin�-la, e a cor e a rude hilaridade de um banquete de antigamente, ela poderia ter se suavizado; mas agora, quando dois cavalheiros de roupas pretas estavam sentados no pequeno c�rculo de luz lan�ado por uma l�mpada velada, a voz de uma pessoa ficava abafada e o esp�rito submisso. Uma sombria fila de ancestrais, com os trajes mais variados, desde o cavalheiro elisabetano at� o d�ndi da Reg�ncia, contemplava-nos do alto e nos intimidava com a sua companhia silenciosa. Falamos pouco, e fiquei satisfeito quando a refei��o terminou e pudemos ir para a moderna sala de bilhar e fumar um cigarro.</p><p>� Palavra, esse n�o � um lugar muito alegre � disse sir Henry. � Suponho que a gente possa se adaptar a ele, mas sinto-me um pouco deslocado atualmente. N�o me admiro que o meu tio ficasse um pouco apreensivo de morar inteiramente sozinho numa casa como essa. Mas, se isso lhe conv�m, iremos deitar cedo esta noite, e talvez as coisas possam parecer mais alegres pela manh�.</p><p>Afastei as cortinas antes de ir para a cama e olhei pela janela. Ela dava para o espa�o gramado que ficava diante da porta do vest�bulo. Mais al�m, as �rvores de dois bosques gemiam e se agitavam com o vento que aumentava. Uma meia-lua surgia entre as nuvens que corriam. � sua luz fria, vi al�m das �rvores uma orla de rochas e a curva baixa e extensa do p�ntano melanc�lico. Fechei a cortina, achando que a minha �ltima impress�o estava de acordo com o resto.</p><p>Mas essa n�o foi bem a �ltima. Sentia-me cansado e mesmo assim alerta, virando-me inquieto de um lado para o outro, procurando o sono que n�o vinha. Ao longe, um carrilh�o batia os quartos de hora, mas, fora isso, um sil�ncio mortal pesava sobre a velha casa. E ent�o, de repente, ouvi um som n�tido e inconfund�vel. Eram os solu�os de uma mulher, o arquejo abafado e reprimido de uma pessoa dilacerada por uma m�goa incontrol�vel. Sentei-me na cama e fiquei ouvindo atentamente. O barulho n�o podia ter sido longe e certamente era na casa. Durante meia hora esperei com cada nervo desperto, mas n�o ouvi nenhum outro som al�m do carrilh�o e do farfalhar da hera na parede.</p><empty-line/></section><section><p><strong>os stapletons da casa de merripit</strong></p><p>A fresca beleza da manh� seguinte ajudou a apagar de nossas mentes a impress�o sombria e cinzenta deixada pela nossa primeira experi�ncia na Mans�o Baskerville. Quando sir Henry e eu nos sentamos para tomar caf�, a luz do sol entrava pelas janelas altas, projetando manchas coloridas dos bras�es de armas que as cobriam. Os lambris escuros brilhavam como bronze aos raios dourados, e era dif�cil perceber que este era realmente o c�modo que enchera tanto nossas almas de melancolia na noite anterior.</p><p>� Acho que � a n�s mesmos e n�o � casa que temos de culpar! � disse o baronete. � Est�vamos cansados da viagem e enregelados do passeio de charrete, de modo que ficamos com uma impress�o sombria do lugar. Agora estamos descansados e bem, portanto tudo est� alegre outra vez.</p><p>� Mas n�o era s� uma quest�o de imagina��o � respondi. � O senhor, por exemplo,</p><p>ouviu algu�m, uma mulher, eu acho, solu�ando durante a noite?</p><p>� Isso � curioso, porque quando eu estava meio adormecido, acho que ouvi alguma coisa desse tipo. Esperei bastante tempo, mas n�o ouvi mais nada, e conclu� que era tudo um sonho.</p><p>� Eu ouvi distintamente, e tenho certeza de que era realmente uma mulher solu�ando.</p><p>� Devemos perguntar a respeito imediatamente. � Ele tocou a campainha e perguntou a Barrymore se ele podia explicar o fato. Pareceu-me que as fei��es p�lidas do mordomo ficaram um pouco mais p�lidas quando ouviu a pergunta do seu patr�o.</p><p>� H� apenas duas mulheres na casa, sir Henry � ele respondeu. � Uma � a copeira, que dorme na outra ala. A outra � a minha mulher, e posso afirmar que o som n�o pode ter vindo dela.</p><p>Mas ele mentiu quando disse isso, porque depois do caf� encontrei por acaso a sra. Barrymore no longo corredor, com o sol batendo em cheio no seu rosto. Ela era uma mulher grande, impass�vel, de fei��es grosseiras e com uma express�o severa e im�vel na boca. Mas seus olhos reveladores estavam vermelhos e olharam para mim por entre p�lpebras inchadas. Fora ela, ent�o, quem chorara durante a noite, e se chorara, seu marido devia saber disso. Contudo, ele havia assumido o risco �bvio da descoberta afirmando que n�o fora ela. Por que ele havia feito isto? E por que ela chorara t�o amargamente? Em torno desse homem p�lido, bonito e de barba preta j� estava se acumulando uma atmosfera de mist�rio e de melancolia. Fora ele o primeiro a encontrar o corpo de sir Charles, e t�nhamos apenas a sua palavra para todas as circunst�ncias que levaram � morte do velho. Seria poss�vel que fosse Barrymore, afinal de contas, que v�ramos no cabriol� na Regent Street? A barba podia ter sido a mesma. O cocheiro havia descrito um homem um pouco mais baixo, mas essa impress�o podia facilmente ter sido equivocada. Como eu poderia tirar essa d�vida? Obviamente a primeira coisa a fazer era falar com o agente do correio de Grimpen e descobrir se o telegrama tinha sido entregue realmente nas m�os de Barrymore. Qualquer que fosse a resposta, eu deveria pelo menos ter alguma coisa para informar a Sherlock Holmes.</p><p>Sir Henry tinha muitos documentos para examinar ap�s o caf�, de modo que o momento era prop�cio para a minha excurs�o. Foi uma caminhada agrad�vel de 4,5 quil�metros pela margem do p�ntano, levando-me por fim a um lugarejo triste, onde os dois pr�dios maiores, que eram a estalagem e a casa do dr. Mortimer, se destacavam do resto. O agente do correio, que era tamb�m o dono do armaz�m da aldeia, lembrava-se bem do telegrama.</p><p>� Claro, senhor � disse ele �, mandei entregar o telegrama ao Sr. Barrymore, exatamente como foi ordenado.</p><p>� Quem o entregou?</p><p>� Meu filho aqui. James, voc� entregou o telegrama ao sr. Barrymore na mans�o na semana passada, n�o entregou?</p><p>� Sim, papai, entreguei.</p><p>� Nas m�os dele? � perguntei.</p><p>� Bem, ele estava l� em cima no s�t�o naquela hora, de modo que n�o pude entreg�-lo em suas pr�prias m�os, mas entreguei-o nas m�os da sra. Barrymore, e ela prometeu entregar a ele imediatamente.</p><p>� Voc� viu o sr. Barrymore?</p><p>� N�o, senhor. Eu disse ao senhor que ele estava no s�t�o.</p><p>� Se voc� n�o o viu, como sabe que ele estava no s�t�o?</p><p>� Bem, a mulher dele certamente devia saber onde ele estava � disse o agente do correio irritado. � Ele n�o recebeu o telegrama? Se houve algum engano, compete ao pr�prio sr. Barrymore reclamar.</p><p>Parecia in�til prosseguir no interrogat�rio, mas estava claro que, apesar do truque de Holmes, n�o t�nhamos nenhuma prova de que Barrymore n�o estivesse em Londres o tempo todo. Suponhamos que assim fosse � suponhamos que o mesmo homem tivesse sido o �ltimo a ver sir Charles vivo e o primeiro a seguir o novo herdeiro quando este voltou � Inglaterra. E da�? Seria ele o instrumento de outros ou ele tinha algum des�gnio sinistro pr�prio? Que interesse podia ter em perseguir a fam�lia Baskerville? Pensei no estranho aviso cortado do editorial do Times. Seria isso obra sua ou seria obra de algu�m dedicado a contrariar os seus planos? O �nico motivo conceb�vel era aquele que havia sido sugerido por sir Henry, que se a fam�lia pudesse ser afugentada, um lar confort�vel e permanente estaria garantido para os Barrymores. Mas certamente essa explica��o seria totalmente inadequada para justificar o planejamento detalhado e sutil que parecia estar tecendo uma teia invis�vel em torno do jovem baronete. O pr�prio Holmes havia dito que nunca tiveram um caso mais complexo em toda a sua longa s�rie de investiga��es sensacionais. Rezei enquanto caminhava de volta pela estrada triste e solit�ria, para que o meu amigo pudesse em breve estar livre de suas preocupa��es e tirasse esta pesada carga de responsabilidade dos meus ombros.</p><p>De repente meus pensamentos foram interrompidos pelo ru�do de p�s correndo atr�s de mim e por uma voz que chamava o meu nome. Virei-me, esperando ver o dr. Mortimer, mas para minha surpresa era um estranho que estava me perseguindo. Era um homem pequeno, magro, bem barbeado, com express�o afetada, louro e de queixo pequeno, entre 30 e 40 anos de idade, vestido com um terno cinzento e usando um chap�u de palha. Uma caixa de metal para esp�cimes bot�nicos pendia do seu ombro e ele segurava uma rede verde para borboletas em uma das m�os.</p><p>� O senhor certamente vai desculpar minha presun��o, dr. Watson � disse ele ao chegar ofegante ao lugar onde eu estava. � Aqui no p�ntano somos pessoas simples e n�o esperamos pelas apresenta��es formais. O senhor provavelmente deve ter ouvido o meu nome do nosso amigo comum, Mortimer. Eu sou Stapleton, da Casa de Merripit.</p><p>� A sua rede e a sua caixa teriam me revelado a mesma coisa � eu disse � porque eu sabia que o sr. Stapleton era naturalista. Mas como o senhor me reconheceu?</p><p>� Eu fui visitar Mortimer, e ele me mostrou, da janela do seu consult�rio, quando o senhor passou. Como o nosso caminho fica na mesma dire��o, pensei que pudesse alcan��-lo e apresentar-me. Espero que sir Henry n�o tenha piorado com a sua viagem.</p><p>� Ele est� muito bem, obrigado.</p><p>� Est�vamos todos com medo de que, ap�s a triste morte de sir Charles, o novo baronete se recusasse a morar aqui. � pedir muito a um homem rico vir para c� e enterrar-se num lugar como este, mas n�o preciso dizer-lhe que isso significa muito para a regi�o. Sir Henry n�o tem, suponho, nenhum medo supersticioso a respeito?</p><p>� N�o acho que isso seja prov�vel.</p><p>� O senhor certamente conhece a lenda do c�o diab�lico que persegue a fam�lia.</p><p>� Ouvi falar disso.</p><p>� � extraordin�rio como os camponeses s�o cr�dulos por aqui! Qualquer um deles est� pronto a jurar que viu essa criatura no p�ntano. � Ele falou com um sorriso, mas tive a impress�o de que ele encarava o assunto de modo mais s�rio. � A hist�ria empolgou a imagina��o de sir Charles, e n�o tenho nenhuma d�vida de que isso provocou o seu fim tr�gico.</p><p>� Mas como?</p><p>� Seus nervos estavam t�o excitados que o aparecimento de qualquer c�o podia ter tido um efeito fatal sobre o seu cora��o doente. Imagino que ele tenha visto realmente alguma coisa do g�nero naquela �ltima noite na Al�ia dos Teixos. Eu receava que pudesse ocorrer algum desastre, porque eu gostava muito do velho e sabia que o seu cora��o estava fraco.</p><p>� Como o senhor sabia disso?</p><p>� Meu amigo Mortimer me contou.</p><p>� O senhor acha, ent�o, que algum c�o perseguiu sir Charles, e que, em conseq��ncia disso, ele morreu de medo?</p><p>� O senhor tem alguma explica��o melhor?</p><p>� Eu n�o cheguei a nenhuma conclus�o.</p><p>� E o sr. Sherlock Holmes chegou?</p><p>As palavras me tiraram a respira��o por um instante, mas um olhar para o rosto pl�cido e os olhos firmes do meu companheiro mostraram que n�o pretendia causar nenhuma surpresa.</p><p>� � in�til para n�s fingir que n�o o conhecemos, dr. Watson � disse ele. � As hist�rias do seu detetive chegaram at� n�s aqui, e o senhor n�o pode exalt�-lo sem que o senhor mesmo seja reconhecido. Quando Mortimer me disse o seu nome, n�o p�de negar a sua identidade. Se o senhor est� aqui, quer dizer que o pr�prio sr. Sherlock Holmes est� interessado no caso, e estou naturalmente curioso para saber a opini�o dele.</p><p>� Receio n�o poder responder a essa pergunta.</p><p>� Posso perguntar-lhe se ele vai nos honrar com uma visita?</p><p>� Ele n�o pode sair da cidade no momento. Tem outros casos que precisam da sua aten��o.</p><p>� Que pena! Ele podia esclarecer alguma coisa nesse caso que � t�o misterioso para n�s. Mas quanto �s suas pr�prias pesquisas, se houver alguma maneira de lhe ser �til, espero que me diga. Se eu tiver alguma indica��o quanto � natureza das suas suspeitas, ou como o senhor pretende investigar o caso, talvez eu possa, mesmo agora, dar-lhe alguma ajuda ou conselho.</p><p>� Afirmo-lhe que estou aqui simplesmente em visita ao meu amigo sir Henry, e que n�o preciso de nenhum tipo de ajuda.</p><p>� Excelente! � disse Stapleton. � O senhor est� absolutamente certo sendo prudente e discreto. Fui censurado com justi�a pelo que acho que foi uma intromiss�o injustific�vel, e prometo-lhe que n�o mencionarei o assunto outra vez.</p><p>T�nhamos chegado a um ponto onde um caminho estreito coberto de relva desviava-se da estrada e entrava pelo p�ntano. � direita havia uma colina �ngreme salpicada de matac�es que em �pocas passadas fora cortada para extra��o de granito. A face que estava voltada para n�s formava uma escarpa escura, com samambaias e espinheiros brotando dos seus nichos. De uma eleva��o distante sa�a um penacho de fuma�a cinzenta.</p><p>� Uma caminhada n�o muito longa por este caminho do p�ntano conduz � Casa de Merripit � ele disse. � Talvez o senhor possa dispor de uma hora para que eu tenha o prazer de apresent�-lo � minha irm�.</p><p>Meu primeiro pensamento foi que eu devia estar ao lado de sir Henry. Mas depois me lembrei da pilha de pap�is e contas que cobriam a mesa do seu escrit�rio. Eu n�o podia ajud�-lo nisso. E Holmes havia dito expressamente que eu devia averiguar os vizinhos do p�ntano. Aceitei o convite de Stapleton, e entramos juntos pelo caminho.</p><p>� � um lugar maravilhoso, o p�ntano � ele disse olhando em volta para as descidas ondulantes, longas ondas verdes com cristas de granito irregular emergindo em vagalh�es fant�sticos. � A gente nunca se cansa do p�ntano. O senhor n�o pode imaginar os segredos maravilhosos que ele cont�m. � t�o grande, t�o desolado e t�o misterioso!</p><p>� O senhor o conhece bem, ent�o?</p><p>� Estou aqui apenas h� dois anos. Os residentes me chamariam de um rec�m-chegado. Chegamos pouco depois de sir Charles se estabelecer. Mas a minha disposi��o me levou a explorar todas as partes da regi�o em volta, e acho que deve haver poucos homens que a conhecem melhor do que eu.</p><p>� Ele � t�o dif�cil assim de se conhecer?</p><p>� Muito dif�cil. O senhor v�, por exemplo, esta grande plan�cie para o norte, com as estranhas colinas despontando nela. O senhor observa alguma coisa not�vel nisso?</p><p>� Seria um lugar �timo para um galope.</p><p>� O senhor naturalmente pensaria assim e essa id�ia custou v�rias vidas antes. Est� vendo aqueles pontos verdes brilhantes espalhados por ela?</p><p>� Sim, parecem mais f�rteis do que o resto.</p><p>Stapleton riu.</p><p>� Esse � o grande charco de Grimpen � disse ele. � Um passo em falso ali significa a morte para um homem ou um animal. Ontem mesmo vi um dos p�neis do brejo indo para dentro dele. Ele n�o saiu mais. Vi sua cabe�a por muito tempo tentando sair do loda�al, mas ele acabou sendo sugado para baixo. Mesmo nas esta��es secas � um perigo atravess�-lo, mas depois das chuvas deste outono, � um lugar horr�vel. E apesar disso consigo ir at� o meio dele e voltar vivo. Meu Deus, l� est� outro desses miser�veis p�neis!</p><p>Alguma coisa marrom estava se mexendo e se agitando entre a vegeta��o. Ent�o um pesco�o comprido projetou-se para cima, contorcendo-se e lutando desesperadamente, e um grito horr�vel ecoou pelo p�ntano. Ele me deixou gelado de horror, mas os nervos do meu companheiro pareciam ser mais fortes do que os meus.</p><p>� L� se foi! � disse ele. � O p�ntano o tragou. Dois em dois dias, e muitos outros, talvez, porque eles adquirem o h�bito de ir l� em tempo seco e nunca aprendem a diferen�a at� que o p�ntano os agarra. � um lugar ruim, o grande charco de Grimpen.</p><p>� E o senhor diz que consegue penetrar nele?</p><p>� Sim, h� um ou dois caminhos que um homem muito �gil pode tomar. Eu os descobri.</p><p>� Mas por que o senhor desejaria entrar num lugar t�o horr�vel?</p><p>� Bem, o senhor est� vendo as colinas al�m? Elas s�o realmente ilhas cercadas por todos os lados pelo p�ntano intranspon�vel, que se espalhou em torno delas ao longo dos anos. � ali que est�o as plantas raras e as borboletas, se a gente tiver esperteza para alcan��-las.</p><p>� Algum dia eu tentarei.</p><p>Ele olhou para mim com uma express�o de surpresa.</p><p>� Pelo amor de Deus esque�a essa id�ia � disse ele. � O seu sangue cairia sobre a minha cabe�a. Afirmo-lhe que n�o haveria a menor possibilidade de o senhor voltar vivo. � s� me lembrando de certos pontos de refer�ncia complexos que sou capaz de fazer isso.</p><p>� Oh! � exclamei. � O que � isso?</p><p>Um gemido longo e baixo, indescritivelmente triste, cruzou o p�ntano. Ele encheu o ar, mas era imposs�vel dizer de onde vinha. De um murm�rio surdo ele aumentou at� um rugido profundo, e depois diminuiu novamente, reduzindo-se a um murm�rio melanc�lico e latejante outra vez. Stapleton olhou para mim com uma express�o curiosa no rosto.</p><p>� Lugar estranho, o p�ntano! � ele disse.</p><p>� Mas o que � isso?</p><p>� Os camponeses dizem que � o C�o dos Baskervilles chamando sua presa. Eu j� o ouvi uma ou duas vezes antes, mas nunca t�o alto assim.</p><p>Olhei em volta, com um calafrio de medo no cora��o, para a imensa plan�cie ondulada mosqueada de manchas verdes de juncos. Nada se mexia sobre a vasta extens�o, exceto um par de corvos que crocitavam alto num pico rochoso atr�s de n�s.</p><p>� O senhor � um homem instru�do. O senhor n�o acredita numa bobagem dessas � eu disse. � Na sua opini�o, qual � a origem de um som t�o estranho?</p><p>� Os charcos fazem ru�dos estranhos �s vezes. � a lama se acomodando, ou a �gua subindo, ou algo assim.</p><p>� N�o, n�o, isso era a voz de um ser vivo.</p><p>� Bem, talvez fosse. O senhor j� ouviu uma galinhola real gritando?</p><p>� N�o, nunca ouvi.</p><p>� � uma ave muito rara, praticamente extinta na Inglaterra agora, mas tudo � poss�vel no p�ntano. Eu n�o ficaria surpreso de saber que o que ouvimos foi o grito da �ltima das galinholas reais.</p><p>� Essa foi a coisa mais fant�stica e estranha que j� ouvi em minha vida.</p><p>� Sim, pode-se dizer que esse � um lugar bastante misterioso. Olhe para a encosta da colina l� longe. O que acha que � aquilo?</p><p>Toda a encosta �ngreme estava coberta de c�rculos cinzentos de pedra, pelo menos uns vinte deles.</p><p>� O que s�o? Redis de ovelhas?</p><p>� N�o, s�o as casas dos nossos dignos ancestrais. O homem pr�-hist�rico vivia em aglomera��o no p�ntano, e como ningu�m em particular viveu ali desde ent�o, encontramos todas as suas pequenas instala��es exatamente como ele a deixou. Estas s�o as cabanas sem os telhados. O senhor pode ver at� a lareira e o leito deles se tiver a curiosidade de entrar.</p><p>� Mas isso � uma cidade. Quando ela foi habitada?</p><p>� O homem neol�tico � sem data.</p><p>� O que eles faziam?</p><p>� Levavam seu gado para pastar nestas encostas, e aprenderam a extrair o estanho quando a espada de bronze come�ou a substituir o machado de pedra. Olhe para o grande fosso na colina oposta. Aquela � a marca deles. Sim, o senhor encontrar� alguns pontos muito singulares no p�ntano, dr. Watson. Oh, desculpe-me um instante! Certamente � uma Cyclopides.</p><p>Uma pequena borboleta ou mariposa havia atravessado voando o nosso caminho, e num instante Stapleton estava correndo com uma energia e uma velocidade extraordin�rias em sua persegui��o. Para minha consterna��o, a criatura voou direto para o grande p�ntano, e o meu companheiro n�o parou sequer por um instante, saltando de tufo em tufo atr�s dela com a sua rede verde balan�ando no ar. Suas roupas cinzentas sem avan�o irregular, em ziguezague, aos arrancos, faziam com que ele pr�prio parecesse uma mariposa gigantesca. Eu estava parado observando a sua persegui��o com uma mistura de admira��o pela sua atividade extraordin�ria e medo de ele dar um passo em falso no p�ntano trai�oeiro, quando ouvi o ru�do de passos, e, virando-me, encontrei uma mulher perto de mim no caminho. Ela tinha vindo da dire��o em que o penacho de fuma�a indicava a posi��o da Casa de Merripit, mas a depress�o do p�ntano a havia escondido at� ela estar bem perto.</p><p>Eu n�o podia duvidar que esta fosse a senhorita Stapleton, de quem me haviam falado, j� que as damas de qualquer maneira deviam ser poucas no p�ntano, e lembrei-me de que algu�m a descrevera como sendo uma beleza. A mulher que se aproximou de mim era certamente isso, e de um tipo muito fora do comum. N�o podia haver um contraste maior entre irm�o e irm�, porque Stapleton tinha tonalidade neutra com cabelos claros e olhos cinzentos, enquanto ela era mais morena do que qualquer outra que eu tivesse visto na Inglaterra, magra, elegante e alta. Ela tinha um rosto orgulhoso, finamente cinzelado, t�o regular que poderia parecer impass�vel se n�o fosse a boca sens�vel e os lindos olhos escuros, ansiosos. Com o seu talhe perfeito e o vestido elegante, ela era, realmente, uma apari��o estranha no desolado caminho do p�ntano. Seus olhos estavam voltados para seu irm�o quando me virei, e depois ela apressou o passo na minha dire��o. Eu havia erguido meu chap�u e estava prestes a fazer algum coment�rio explicativo quando as palavras dela viraram todos os meus pensamentos numa nova dire��o.</p><p>� Volte! � ela disse. � Volte direto para Londres imediatamente.</p><p>S� consegui ficar olhando para ela em est�pida surpresa. Seus olhos brilhavam sobre� mim e ela bateu no ch�o com o p�, de um jeito impaciente.</p><p>� Por que devo voltar? � perguntei.</p><p>� N�o posso explicar. � Ela falou numa voz baixa, ansiosa, com uma curiosa dic��o balbuciante. � Mas pelo amor de Deus, fa�a o que lhe pedi. Volte e nunca mais ponha os p�s no p�ntano outra vez.</p><p>� Mas eu acabei de chegar.</p><p>� Homem, homem! � exclamou ela. � O senhor n�o pode perceber quando um aviso � para o seu pr�prio bem? Volte para Londres! Parta esta noite! Saia deste lugar a qualquer custo! Sil�ncio, meu irm�o est� chegando! Nem uma palavra do que eu disse. O senhor se incomoda de apanhar aquela orqu�dea para mim ali adiante? H� uma grande quantidade de orqu�deas aqui, embora, naturalmente, o senhor esteja bastante atrasado para ver as belezas do lugar.</p><p>Stapleton havia abandonado a persegui��o e voltava ofegante e corado pelo esfor�o.</p><p>� Ol�, Beryl! � disse ele, e pareceu-me que o tom da sua sauda��o n�o era inteiramente cordial.</p><p>� Bem, Jack, voc� est� muito ofegante.</p><p>� Sim, estive perseguindo uma Cyclopides. Ela � muito rara e dificilmente � encontrada no fim do outono. Que pena t�-la perdido! Ele falou de modo despreocupado, mas seus pequenos olhos claros viravam incessantemente da mo�a para mim.</p><p>� Voc�s se apresentaram por conta pr�pria, posso ver.</p><p>� Sim. Eu estava dizendo a sir Henry que era tarde demais para ele ver as verdadeiras belezas do p�ntano.</p><p>� Ora, quem voc� pensa que ele seja?</p><p>� Imagino que deva ser sir Henry Baskerville.</p><p>� N�o, n�o � eu disse. � Apenas um humilde plebeu, mas sou amigo dele. Meu nome � dr. Watson.</p><p>Uma onda de afli��o passou pelo seu rosto expressivo. � Estivemos falando sem nos entender � disse ela.</p><p>� Ora, voc�s n�o tiveram muito tempo para falar � comentou o irm�o dela com os mesmos olhos perscrutadores.</p><p>� Eu falei como se o dr. Watson fosse um residente em vez de ser apenas um visitante � disse ela. � N�o deve importar muito para ele se � cedo ou tarde para as orqu�deas. Mas o senhor vir�, n�o �, ver a Casa de Merripit?</p><p>Uma curta caminhada levou-nos at� l�, uma casa desolada do p�ntano, antigamente a fazenda de algum criador nos velhos tempos de prosperidade, mas agora reformada e transformada numa moradia moderna. Um pomar cercava-a, mas as �rvores, como � comum no p�ntano, eram enfezadas e murchas, e o lugar inteiro tinha um aspecto miser�vel e melanc�lico. Fomos recebidos por um estranho empregado velho, mirrado, com um casaco cor de ferrugem que parecia combinar com a casa. Mas dentro, havia salas grandes mobiliadas com uma eleg�ncia na qual eu parecia reconhecer o gosto da dama. Quando olhei de suas janelas para o p�ntano intermin�vel salpicado de granito ondulando sem interrup��o at� o horizonte mais distante, fiquei maravilhado com aquilo que podia ter trazido este homem de instru��o superior e esta mulher linda para morarem num lugar desses.</p><p>� Lugar estranho para escolher, n�o �? � disse ele como se respondesse ao meu pensamento. � E apesar disso, conseguimos nos sentir bastante felizes, n�o �, Beryl?</p><p>� Bastante felizes � disse ela, mas n�o havia nenhum tom de convic��o nas palavras dela.</p><p>� Eu tive um col�gio � disse Stapleton. � Era no norte do pa�s. O trabalho para um homem do meu temperamento era mec�nico e pouco interessante, mas o privil�gio de viver com os jovens, de ajudar a moldar aquelas mentes mo�as e de imprimir nelas o pr�prio car�ter e os ideais da gente, era muito importante para mim. Mas a sorte estava contra n�s. Uma grave epidemia assolou o col�gio e tr�s dos meninos morreram. Ele nunca se refez do golpe, e grande parte do meu capital foi engolido de modo irrecuper�vel. E ainda assim, apesar da perda da companhia encantadora dos meninos, eu consegui superar a minha pr�pria infelicidade e me alegrar porque, com o meu gosto pela bot�nica e pela zoologia, encontro um campo ilimitado de trabalho aqui, e minha irm� � t�o dedicada � natureza quanto eu. Tudo isto, dr. Watson, passou na sua cabe�a devido � sua express�o quando examinou o p�ntano da nossa janela.</p><p>� Certamente passou pela minha cabe�a que isso podia ser um pouco mon�tono, menos para o senhor, talvez, do que para a sua irm�.</p><p>� N�o, n�o, nunca acho mon�tono � ela disse rapidamente.</p><p>� Temos livros, temos os nossos estudos, e temos vizinhos interessantes. O dr. Mortimer � um homem muito instru�do em sua pr�pria especialidade. O pobre sir Charles era tamb�m um companheiro admir�vel. N�s o conhec�amos bem e sentimos a sua falta mais do que posso dizer. O senhor acha que seria intromiss�o minha se eu fosse visitar esta tarde sir Henry para conhec�-lo?</p><p>� Estou certo de que ele ficaria encantado.</p><p>� Ent�o talvez o senhor mencionasse que pretendo fazer isso. Da nossa maneira humilde, poderemos ajudar a tornar as coisas mais f�ceis para ele at� se acostumar com o seu novo ambiente. O senhor quer subir, dr. Watson, e examinar a minha cole��o de lepid�pteros? Acho que � a mais completa do sudoeste da Inglaterra. Quando o senhor tiver terminado de examin�-la, o almo�o estar� quase pronto.</p><p>Mas eu estava ansioso para voltar ao meu posto. A melancolia do p�ntano, a morte do infeliz p�nei, o estranho som que havia sido associado � lenda sinistra dos Baskervilles, todas estas coisas cobriam meus pensamentos de tristeza. Depois, por cima destas impress�es mais ou menos vagas, viera o aviso definido e distinto da senhorita Stapleton, dado com tanta seriedade que eu n�o podia duvidar de que havia algum motivo grave e profundo por tr�s dele. Resisti a todas as press�es para ficar para o almo�o, e iniciei imediatamente a minha viagem de volta, tomando o caminho coberto de relva pelo qual t�nhamos vindo.</p><p>Mas parece que havia algum atalho para aqueles que o conheciam, porque antes de chegar � estrada, fiquei espantado ao ver a senhorita Stapleton sentada numa pedra ao lado do caminho. Seu rosto estava maravilhosamente corado pelo esfor�o.</p><p>� Vim correndo para alcan��-lo, dr. Watson � disse ela. � N�o tive tempo nem de p�r o meu chap�u. N�o devo parar, porque o meu irm�o pode dar pela minha falta. Eu queria dizer ao senhor que lamento o est�pido engano que cometi pensando que o senhor fosse sir Henry. Por favor esque�a as palavras que eu disse, que n�o se aplicam ao senhor de modo algum.</p><p>� Mas n�o posso esquec�-las, senhorita Stapleton � eu disse. � Sou amigo de sir Henry, e o seu bem-estar me preocupa muito. Diga-me por que a senhorita estava t�o ansiosa para que sir Henry voltasse para Londres.</p><p>� Um capricho de mulher, dr. Watson. Quando o senhor me conhecer melhor, compreender� que nem sempre consigo explicar os motivos das coisas que digo ou fa�o.</p><p>� N�o, n�o. Lembro-me da excita��o na sua voz. Lembro-me da express�o dos seus olhos. Por favor, por favor, seja franca comigo, senhorita Stapleton, porque desde que cheguei aqui estou consciente das sombras � minha volta. A vida passou a ser como o grande charco de Grimpen, com pequenos trechos verdes em toda parte nos quais a gente pode se afundar e sem nenhum guia para indicar o caminho. Explique-me, ent�o, o que foi que a senhorita quis dizer, e prometo-lhe transmitir o seu aviso a sir Henry.</p><p>Uma express�o de d�vida passou pelo seu rosto, mas seus olhos estavam firmes outra vez quando me respondeu.</p><p>� O senhor d� muita import�ncia a isso, dr. Watson � disse ela. � Meu irm�o e eu ficamos muito chocados com a morte de sir Charles. N�s o conhec�amos intimamente, porque o seu passeio favorito era pelo p�ntano at� a nossa casa. Ele ficou profundamente impressionado pela maldi��o que pairava sobre a sua fam�lia, e quando ocorreu esta trag�dia, eu senti naturalmente que devia haver algum fundamento para os receios que ele havia manifestado. Fiquei aflita, portanto, quando outro membro da fam�lia veio morar aqui, e achei que ele devia ser prevenido do perigo que correr�. Isso era tudo que eu queria transmitir.</p><p>� Mas qual � o perigo?</p><p>� O senhor conhece a hist�ria do c�o?</p><p>� Eu n�o acredito nessas bobagens.</p><p>� Mas eu acredito. Se o senhor tiver qualquer influ�ncia sobre sir Henry, afaste-o de um lugar que sempre foi fatal para a sua fam�lia. O mundo � grande. Por que ele iria querer morar num lugar perigoso?</p><p>� Porque este � o lugar perigoso. Essa � a natureza de sir Henry. Receio que se a senhorita n�o puder me dar uma informa��o mais precisa do que esta, ser� imposs�vel faz�-lo se mudar.</p><p>� Eu n�o posso dizer nada com precis�o, porque n�o sei nada com precis�o.</p><p>� Eu lhe faria mais uma pergunta, senhorita Stapleton. Se a senhorita n�o quis dizer mais do que isto quando falou comigo pela primeira vez, por que a senhorita n�o queria que o seu irm�o ouvisse o que disse? N�o h� nada a que ele, ou qualquer outra pessoa, possa objetar.</p><p>� Meu irm�o est� muito ansioso para que a Mans�o seja habitada, porque ele acha que isso � bom para as pessoas pobres do p�ntano. Ele ficaria com muita raiva se soubesse que eu disse alguma coisa que pudesse induzir sir Henry a ir embora. Mas cumpri o meu dever agora e n�o direi mais nada. Preciso voltar ou ele dar� pela minha falta e desconfiar� que falei com o senhor. Adeus! � Ela virou-se, e em poucos minutos havia desaparecido por entre as rochas espalhadas, enquanto eu, com minha alma cheia de vagos receios, segui meu caminho para a Mans�o Baskerville.</p><p>A partir deste ponto, seguirei o curso dos acontecimentos transcrevendo minhas pr�prias cartas para o sr. Sherlock Holmes que est�o diante de mim, sobre a mesa. Falta uma p�gina, mas as outras est�o exatamente como foram escritas, e revelam os meus sentimentos e suspeitas naquele momento de modo mais preciso do que a minha mem�ria pode fazer, embora seja n�tida a respeito destes tr�gicos acontecimentos.</p><empty-line/></section><section><p><strong>primeiro relat�rio do dr. watson</strong></p><p>Mans�o Baskerville, 13 de outubro</p><empty-line/><p>Meu caro Holmes:</p><p>Minhas cartas e telegramas anteriores mantiveram-no bastante bem informado a respeito de tudo que tem ocorrido neste canto do mundo esquecido por Deus. Quanto mais tempo se fica aqui, mais o esp�rito do p�ntano impregna a alma da gente com a sua vastid�o e tamb�m com o seu encanto sombrio. Quando se est� sobre o seu seio, deixam-se todos os vest�gios da Inglaterra moderna para tr�s, mas, por outro lado, toma-se consci�ncia em toda parte das casas e do trabalho do povo pr�-hist�rico. Por todos os lados, enquanto se anda, a gente v� as casas destas pessoas esquecidas, com seus t�mulos e enormes monolitos que se sup�e terem marcado seus templos. Quando olhamos para suas cabanas de pedra cinzenta contra as encostas</p><p>cortadas das colinas, deixamos nossa pr�pria �poca para tr�s, e se virmos um homem vestido de peles e peludo engatinhar para fora da sua porta baixa, pondo uma flecha com ponta de s�lex na corda do seu arco, acharemos que sua presen�a ali � mais natural do que a nossa pr�pria. O estranho � que eles tenham vivido t�o concentrados no lugar que deve sempre ter sido um solo muito est�ril. N�o sou nenhum arque�logo, mas posso imaginar que eles constitu�am uma ra�a esbulhada e avessa �s guerras que foi obrigada a aceitar aquilo que nenhuma outra ocuparia.</p><p>Mas tudo isto n�o tem rela��o com a miss�o para a qual voc� me mandou e provavelmente ser� muito pouco interessante para a sua mente extremamente pr�tica. Ainda me lembro da sua completa indiferen�a quanto a saber se o sol girava em torno da Terra ou a Terra em torno do sol. Portanto, vou voltar aos fatos relativos a sir Henry Baskerville.</p><p>Se voc� n�o recebeu nenhum relat�rio nos �ltimos dias � porque at� hoje n�o havia nada de importante a comunicar. Ent�o ocorreu um fato bastante surpreendente, que contarei a voc� no devido tempo. Mas, antes de tudo, � preciso que voc� conhe�a alguns dos outros fatores da situa��o.</p><p>Um destes, em rela��o ao qual pouco falei, � o condenado fugido no p�ntano. H� um motivo forte agora para crer que ele foi embora, o que � um grande al�vio para os chefes de fam�lia desta regi�o. Passou-se uma quinzena desde a sua fuga, durante a qual ele n�o foi visto e nada se ouviu falar sobre ele. � inconceb�vel que ele possa ter ficado no p�ntano durante todo esse tempo. Naturalmente, no que diz respeito ao seu esconderijo, n�o h� nenhuma dificuldade. Qualquer uma destas cabanas de pedra lhe proporcionaria um lugar conveniente. Mas n�o h� nada para comer, a menos que ele pegasse e matasse uma das ovelhas do p�ntano. Achamos, portanto, que ele foi embora, e os fazendeiros isolados dormem melhor por causa disso.</p><p>Somos quatro homens capazes nesta casa, de modo que podemos cuidar bem de n�s mesmos, mas confesso que tenho tido momentos de inquieta��o quando penso nos Stapletons. Eles moram a quil�metros de qualquer ajuda. H� uma criada e um empregado velho, a irm� e o irm�o, este um homem muito forte. Eles ficariam impotentes nas m�os de um sujeito desesperado como este criminoso de Notting Hill, se ele por acaso conseguisse entrar. Tanto sir Henry como eu estamos preocupados com a situa��o deles, e sugeriu-se que Perkins, o criado, fosse dormir l�, mas Stapleton n�o quer ouvir falar nisso.</p><p>O fato � que o nosso amigo, o baronete, come�a a demonstrar um interesse consider�vel pela nossa bela vizinha. N�o � de admirar, porque o tempo pesa muito neste lugar solit�rio para um homem ativo como ele, e ela � uma mulher muito fascinante e bonita. H� algo tropical e ex�tico em rela��o a ela que fez um contraste singular com o seu irm�o frio e pouco emotivo. Mas ele tamb�m d� a impress�o de chamas ocultas. Ele tem certamente uma influ�ncia muito marcante sobre ela, porque eu a vi olhar continuamente para ele enquanto falava, como se estivesse procurando aprova��o para o que dizia. Espero que ele seja bom para ela. H� um brilho seco nos olhos dele, e uma express�o firme nos seus l�bios finos, que demonstra uma natureza positiva e possivelmente cruel. Voc� o achar� um estudo interessante.</p><p>Ele veio visitar Baskerville naquele primeiro dia, e na manh� seguinte nos levou para que v�ssemos o ponto onde se sup�e que a lenda do cruel Hugo tenha tido sua origem. Foi uma excurs�o de alguns quil�metros pelo p�ntano at� um lugar t�o desolado que poderia ter sugerido a hist�ria. Encontramos um vale curto entre picos rochosos ondulados que levam a um espa�o aberto, coberto de relva. No meio do vale erguem-se duas pedras grandes, gastas e agu�adas na extremidade superior, a ponto de parecerem as presas enormes e corro�das de algum animal monstruoso. Ele correspondia em tudo ao cen�rio da antiga trag�dia. Sir Henry ficou muito interessado e perguntou a Stapleton mais de uma vez se ele acreditava realmente na possibilidade da interfer�ncia do sobrenatural nos assuntos dos homens. Ele falou em tom de brincadeira, mas era evidente que levava a s�rio. Stapleton foi cauteloso nas suas respostas, mas foi f�cil perceber que ele dizia menos do que podia, e que n�o expressava totalmente sua opini�o em considera��o aos sentimentos do baronete. Ele nos contou casos semelhantes em que fam�lias haviam sofrido alguma influ�ncia maligna, e nos deixou com a impress�o de que compartilhava da opini�o popular sobre a quest�o.</p><p>No caminho de volta, paramos para almo�ar na Casa de Merripit, e foi l� que sir Henry conheceu a senhorita Stapleton. Desde o primeiro momento em que a viu pareceu ficar bastante atra�do por ela, e tive quase certeza de que o sentimento era rec�proco. Ele referiu-se a ela v�rias vezes ao voltarmos para casa, e desde ent�o dificilmente se passa um dia em que n�o vejamos o irm�o e a irm�. Eles jantaram aqui esta noite, e h� alguma combina��o para n�s irmos jantar com eles na pr�xima semana. Poder�amos imaginar que essa uni�o agradaria a Stapleton, mas, apesar disso, mais de uma vez surpreendi uma express�o de extrema desaprova��o em seu rosto quando sir Henry estava dando alguma aten��o � sua irm�. Ele � muito ligado a ela, sem d�vida, e levaria uma vida solit�ria sem ela, mas poderia parecer o m�ximo do ego�smo se ele se interpusesse no caminho de um casamento t�o brilhante para ela. Contudo, estou certo de que ele n�o deseja que a intimidade deles se transforme em amor, e v�rias vezes observei que ele tem se esfor�ado para impedi-los de ficar t�te-�-t�te. A prop�sito, suas instru��es para que eu nunca deixe sir Henry sair sozinho ficar�o muito mais complicadas de cumprir se um romance for acrescentado �s nossas outras dificuldades. Minha popularidade seria logo prejudicada se eu fosse cumprir suas ordens ao p� da letra.</p><p>Outro dia, quinta-feira para ser mais exato, o dr. Mortimer almo�ou conosco. Ele esteve escavando um t�mulo em Long Down e conseguiu um cr�nio pr�-hist�rico que o enche de grande alegria. Nunca houve um entusiasta t�o sincero como ele! Os Stapletons chegaram depois, e o bom m�dico levou todos n�s para a Al�ia dos Teixos, a pedido de sir Henry, para nos mostrar exatamente como tudo aconteceu naquela noite fatal. � um passeio longo, melanc�lico, a Al�ia dos Teixos, entre duas paredes altas de sebes aparadas, com uma faixa estreita de grama de cada lado. Na extremidade oposta h� um pavilh�o em ru�nas. Na metade do caminho fica o port�o do p�ntano, onde o velho cavalheiro deixou a cinza do seu charuto. � um port�o branco com um trinco. Al�m dele fica o extenso p�ntano. Lembrei-me da sua teoria a respeito do caso e tentei imaginar tudo que havia ocorrido. Quando o velho parou ali, viu alguma coisa se aproximando pelo p�ntano, alguma coisa que o aterrorizou tanto que ele perdeu o ju�zo e correu at� n�o poder mais, at� morrer de puro horror e exaust�o. L� estava o longo t�nel sombrio pelo qual ele fugiu. E de qu�? Um c�o pastor de ovelhas? Ou um c�o espectral, preto, silencioso e monstruoso? Houve uma influ�ncia humana na quest�o? Ser� que o p�lido e vigilante Barrymore sabe mais do que quis contar? Tudo era misterioso e vago, mas h� sempre a sombra sinistra do crime por tr�s disso.</p><p>Conheci um outro vizinho desde que escrevi da �ltima vez. � o sr. Frankland, da Mans�o Lafter, que mora a uns 6 quil�metros para o sul. � um homem idoso, de rosto corado, cabelos brancos e col�rico. Sua paix�o � pela lei inglesa, e ele gastou uma grande fortuna em a��es judiciais. Ele luta pelo simples prazer de lutar e est� sempre pronto a assumir qualquer um dos lados de uma quest�o, de modo que n�o admira que tenha achado isso um divertimento caro. �s vezes ele fecha uma servid�o de passagem e desafia a par�quia a faz�-lo abrir. Outras vezes arranca com suas pr�prias m�os o port�o de algum homem e afirma que existiu ali um caminho desde tempos imemoriais, desafiando o propriet�rio a process�-lo por invas�o. Ele conhece bastante os direitos senhoriais e comunais, e aplica o seu conhecimento algumas vezes a favor dos alde�os de Fernworthy e outras contra eles, de forma que � periodicamente carregado em triunfo pela rua da aldeia ou queimado em ef�gie, segundo sua �ltima senten�a. Dizem que ele tem cerca de sete processos em curso no momento, o que provavelmente engolir� o resto da sua fortuna, arrancando assim o seu ferr�o e deixando-o inofensivo no futuro. Fora a quest�o da lei, ele parece uma pessoa bondosa, af�vel, e s� o menciono porque voc� insistiu para que eu mandasse alguma descri��o das pessoas que nos cercam. Ele se ocupa atualmente de uma maneira curiosa, porque, sendo astr�nomo amador, tem um excelente telesc�pio com o qual se deita no telhado da sua pr�pria casa e vasculha o p�ntano o dia inteiro na esperan�a de ver o condenado fugido. Se ele limitasse suas energias a isso, tudo estaria bem, mas h� rumores de que ele pretende processar o dr. Mortimer por ter aberto uma sepultura sem a autoriza��o do parente mais pr�ximo, porque ele desenterrou o cr�nio neol�tico do t�mulo em Long Down. Ele ajuda a impedir que nossas vidas se tornem mon�tonas e d� um pequeno al�vio c�mico onde este � muito necess�rio.</p><p>E agora, depois de contar a respeito do condenado fugitivo, dos Stapletons, do dr. Mortimer e de Frankland, da Mans�o Lafter, vou terminar com o que � mais importante e contar-lhe mais sobre os Barrymores, e principalmente sobre o acontecimento surpreendente de ontem � noite.</p><p>Antes de mais nada, sobre o telegrama de teste, que voc� mandou de Londres a fim de confirmar se Barrymore estava realmente aqui. Eu j� expliquei que o testemunho do agente do correio mostra que a experi�ncia foi in�til e que n�o temos nenhuma prova num sentido ou no outro. Eu contei a sir Henry como andavam as coisas, e ele, com seu jeito objetivo, fez Barrymore subir imediatamente e perguntou se ele recebera o telegrama pessoalmente. Barrymore disse que sim.</p><p>� O menino entregou-o em suas pr�prias m�os? � perguntou sir Henry.</p><p>Barrymore pareceu surpreso e meditou durante algum tempo.</p><p>� N�o � disse ele �, eu estava no quarto de guardados na ocasi�o, e minha mulher levou-o para mim l� em cima.</p><p>� Voc� o respondeu pessoalmente?</p><p>� N�o. Eu disse � minha mulher o que deveria responder e ela desceu para escrever.</p><p>� noite ele voltou ao assunto por iniciativa pr�pria.</p><p>� N�o compreendi inteiramente o objetivo das suas perguntas esta manh�, sir Henry � disse ele. � Espero que elas n�o signifiquem que eu tenha feito alguma coisa para perder a sua confian�a.</p><p>Sir Henry teve de garantir a ele que n�o era isso e tranq�iliz�-lo dando-lhe uma boa parte do seu velho guarda-roupa, por ter chegado de Londres toda a bagagem.</p><p>A sra. Barrymore interessa-me. Ela � uma pessoa corpulenta e maci�a, bastante limitada, muito respeit�vel e com tend�ncia ao puritanismo. Voc� dificilmente poderia imaginar uma pessoa menos emotiva. Mas eu contei a voc� que, na primeira noite aqui, eu a ouvi solu�ando amargamente e, desde ent�o, mais de uma vez percebi vest�gios de l�grimas em seu rosto. Alguma m�goa profunda est� sempre consumindo o seu cora��o. �s vezes eu me pergunto se ela tem uma lembran�a de culpa que a persegue, e outras desconfio que Barrymore � um tirano dom�stico. Sempre achei que havia alguma coisa singular e suspeita no car�ter deste homem, mas a aventura da �ltima noite intensificou todas as minhas desconfian�as.</p><p>Mesmo assim, isso pode parecer, em si mesma, uma quest�o secund�ria. Voc� sabe que eu n�o tenho um sono muito profundo, e desde que estou de guarda nesta casa meus cochilos t�m sido mais leves do que nunca. Na noite passada, por volta das duas horas, fui despertado por passos furtivos diante do meu quarto. Levantei-me, abri a porta e olhei para fora. Uma sombra negra comprida estava se arrastando pelo corredor. Ela era projetada por um homem que caminhava de mansinho pelo corredor com uma vela na m�o. Ele estava de cal�a e camisa, sem nada nos p�s. Pude ver apenas a silhueta, mas sua altura me revelou que era Barrymore. Ele caminhava muito devagar e de modo circunspecto, e havia alguma coisa indescritivelmente culpada e furtiva em toda a sua apar�ncia.</p><p>Eu disse a voc� que o corredor � interrompido pelo balc�o que contorna o vest�bulo, mas que continua do lado oposto. Esperei at� que ele tivesse desaparecido e depois o segui. Quando cheguei ao balc�o, ele havia atingido a extremidade do outro corredor, e pude ver pelo brilho da luz atrav�s de uma porta aberta que ele entrara num dos quartos. Mas todos esses quartos est�o sem mob�lia e desocupados, de modo que a expedi��o dele tornou-se mais misteriosa do que nunca. A luz brilhava firmemente como se ele estivesse parado, im�vel. Segui furtivamente pelo corredor o mais silenciosamente poss�vel e olhei pelo canto da porta.</p><p>Barrymore estava agachado junto � janela com a vela erguida contra o vidro. Seu perfil estava meio virado para mim, e sua fisionomia parecia r�gida de expectativa enquanto olhava para a escurid�o do p�ntano. Ele ficou parado observando atentamente durante alguns minutos. Depois soltou um gemido profundo e com um gesto impaciente apagou a luz. Voltei imediatamente para o meu quarto, e pouco depois ouvi os passos furtivos mais uma vez, agora voltando. Muito tempo depois, quando eu havia ca�do num sono leve, ouvi uma chave girar em alguma parte numa fechadura, mas n�o consigo dizer de onde vinha o som. O que tudo isso significa n�o posso imaginar, mas h� algum neg�cio secreto acontecendo nesta casa de sombras, ao fundo do qual chegaremos mais cedo ou mais tarde. N�o o perturbo com as minhas teorias, porque voc� me pediu para fornecer-lhe apenas os fatos. Tive uma longa conversa com sir Henry esta manh�, e fizemos um plano de campanha baseado nas minhas observa��es de ontem � noite. N�o falarei sobre ele agora, mas ele deve tornar o meu pr�ximo relat�rio uma leitura interessante.</p><empty-line/></section><section><p><strong>segundo relat�rio do dr. watson</strong></p><p>Mans�o Baskerville, 15 de outubro</p><empty-line/><p>Meu caro Holmes:</p><p>Se fui obrigado a deix�-lo sem muitas not�cias durante os primeiros dias da minha miss�o, voc� deve reconhecer que estou recuperando o tempo perdido, e que os acontecimentos est�o agora se acumulando em grande quantidade e rapidamente sobre n�s. Em meu �ltimo relat�rio, terminei minha nota principal com Barrymore na janela, e agora j� tenho um estoque que, a menos que eu esteja muito enganado, ir� surpreend�-lo bastante. As coisas tomaram um rumo que eu n�o poderia ter previsto. Em alguns aspectos elas ficaram muito mais claras nas �ltimas 48 horas, e em outros se tornaram mais complicadas. Mas vou contar-lhe tudo e voc� julgar� por si mesmo.</p><p>Antes do caf�, na manh� seguinte � minha aventura, atravessei o corredor e examinei o quarto em que Barrymore tinha estado na noite anterior. A janela para oeste, pela qual ele ficara olhando t�o atentamente, tem, eu notei, uma peculiaridade que as outras janelas da casa n�o t�m, ela domina a vista mais pr�xima do p�ntano. H� uma abertura entre duas �rvores que permite a algu�m, deste ponto de observa��o, olhar diretamente para ela, enquanto que de todas as outras janelas s� se pode ter uma vis�o distante. Portanto, Barrymore, j� que s� esta janela era adequada ao seu objetivo, devia estar procurando alguma coisa ou algu�m no p�ntano.</p><p>A noite estava muito escura, de modo que n�o consigo imaginar como ele podia ter esperado ver algu�m. Ocorreu-me que era poss�vel estar acontecendo alguma intriga amorosa. Isso teria explicado os seus movimentos furtivos e tamb�m a inquieta��o da sua mulher. O homem � um sujeito bonito, com atributos para roubar o cora��o de uma mo�a do campo, de modo que esta teoria parecia ter algo a sustent�-la. Aquela porta se abrindo, que eu ouvi ap�s ter voltado para o meu quarto, podia significar que ele havia sa�do para ter algum encontro clandestino. De modo que fiquei raciocinando de manh�, e conto-lhe o rumo das minhas suspeitas, por mais que o resultado possa ter mostrado que elas eram infundadas.</p><p>Mas qualquer que seja a verdadeira explica��o para os movimentos de Barrymore, achei que a responsabilidade de guard�-la para mim at� poder desvend�-la era mais do que eu podia suportar. Tive uma entrevista com o baronete no seu escrit�rio ap�s o caf� e contei-lhe tudo que eu vira. Ele ficou menos surpreso do que eu havia esperado.</p><p>� Eu sabia que Barrymore andava por a� � noite, e tive vontade de falar com ele a respeito � disse ele. � Ouvi seus passos duas ou tr�s vezes no corredor, indo e vindo, mais ou menos na hora em que voc� mencionou.</p><p>� Talvez toda noite ele v� at� aquela janela � sugeri.</p><p>� Talvez. Se assim for, poderemos segui-lo e ver o que procura. Fico imaginando o que o seu amigo Holmes faria se estivesse aqui.</p><p>� Creio que ele faria exatamente o que o senhor est� sugerindo agora � eu disse. � Ele seguiria Barrymore e veria o que ele faz.</p><p>� Ent�o vamos fazer isso juntos.</p><p>� Mas ele certamente nos ouvir�.</p><p>� O homem � bastante surdo e, de qualquer maneira, devemos arriscar. Vamos ficar sentados em meu quarto esta noite e esperar at� ele passar. � Sir Henry esfregou as m�os com prazer, e era evidente que ele saudava a aventura como um al�vio para a sua vida um tanto mon�tona no p�ntano.</p><p>O baronete havia se comunicado com o arquiteto que preparara os projetos para sir Charles, e com um empreiteiro de Londres, de modo que podemos esperar o in�cio de grandes reformas aqui em breve. Apareceram decoradores e vendedores de m�veis de Plymouth, e � evidente que o nosso amigo tem grandes id�ias e meios para n�o poupar nenhum sacrif�cio ou despesa a fim de restaurar a grandeza da sua fam�lia. Quando a casa estiver reformada e mobiliada de novo, ele s� precisar� de uma esposa para torn�-la completa. C� entre n�s, h� sinais bastante claros de que isto n�o deve demorar se a dama estiver disposta, porque poucas vezes vi um homem mais enamorado por uma mulher do que ele pela nossa linda vizinha, a senhorita Stapleton. Mesmo assim o fluxo do verdadeiro amor n�o corre t�o suavemente como se poderia esperar nestas circunst�ncias. Hoje, por exemplo, sua superf�cie foi perturbada por uma agita��o bastante inesperada que deixou o nosso amigo perplexo e aborrecido.</p><p>Ap�s a conversa que mencionei sobre Barrymore, sir Henry p�s o chap�u e preparou-se para sair. Naturalmente, fiz o mesmo.</p><p>� O qu�! Voc� vem, Watson? � ele perguntou, olhando para mim de uma forma curiosa.</p><p>� Se voc� estiver indo para o p�ntano � eu disse.</p><p>� Sim, vou.</p><p>� Bem, voc� sabe quais as instru��es que eu recebi. Lamento me intrometer, mas voc� ouviu como Holmes insistiu seriamente para eu n�o me afastar, e, principalmente, para voc� n�o ir sozinho at� o p�ntano.</p><p>Sir Henry p�s a m�o no meu ombro com um sorriso simp�tico.</p><p>� Meu caro amigo � ele disse �, Holmes, com toda a sua sabedoria, n�o previu algumas coisas que aconteceram desde que estou no p�ntano. Voc� me compreende? Tenho certeza de que voc� � o �ltimo homem do mundo que desejaria ser um desmancha-prazeres. Preciso sair sozinho.</p><p>Isso me deixou numa situa��o muito esquisita. Eu n�o sabia o que dizer ou fazer, e antes que eu decidisse, ele pegou sua bengala e foi embora.</p><p>Mas quando comecei a pensar no assunto, minha consci�ncia me reprovou amargamente por ter permitido, sob algum pretexto, que ele sumisse da minha vista. Imaginei quais seriam os meus sentimentos se tivesse de confessar a voc� que havia ocorrido uma desgra�a devido ao meu pouco caso pelas suas instru��es. Minhas faces coraram ao pensar nisso. Mesmo agora podia n�o ser tarde demais para alcan��-lo, de modo que parti imediatamente na dire��o da Casa de Merripit.</p><p>Corri pela estrada na minha velocidade m�xima sem ver sinal de sir Henry at� chegar ao ponto onde o caminho do p�ntano se bifurca. Ali, receando ter tomado a dire��o errada, subi numa colina de onde podia ter uma vis�o ampla, a mesma colina cortada pela pedreira escura. Dali, eu o vi imediatamente. Ele estava no caminho do p�ntano, a uns 400 metros de dist�ncia, e ao seu lado havia uma dama que s� podia ser a senhorita Stapleton. Era evidente que havia um entendimento pr�vio entre eles e que o encontro fora marcado. Eles caminhavam devagar, inteiramente absorvidos numa conversa, e eu a vi fazendo pequenos movimentos r�pidos com as m�os como se estivesse sendo muito enf�tica no que estava dizendo, enquanto ele ouvia atentamente e uma ou duas vezes sacudiu a cabe�a em sinal de discord�ncia. Eu estava parado entre as rochas observando-os, sem saber direito o que devia fazer em seguida. Segui-los e interromper a conversa �ntima deles pareceu-me uma ofensa, mas o meu dever era n�o perd�-lo de vista um instante sequer. Agir como espi�o com um amigo era uma tarefa odiosa. No entanto, n�o consegui ver nenhuma alternativa melhor do que observ�-lo da colina e aliviar minha consci�ncia confessando a ele depois o que havia feito. � verdade que se qualquer perigo s�bito o tivesse amea�ado, eu estava longe demais para ajud�-lo, mas, apesar disso, tenho certeza de que voc� concordar� comigo que a situa��o era muito dif�cil, e que n�o havia mais nada que eu pudesse fazer.</p><p>O nosso amigo, sir Henry, e a dama pararam no caminho e ficaram profundamente absorvidos em sua conversa quando percebi de repente que eu n�o era a �nica testemunha do encontro deles. Um farrapo verde flutuando no ar atraiu minha aten��o, e outra olhada me mostrou que este era carregado numa vara por um homem que estava se movendo no meio do terreno irregular. Era Stapleton com a sua rede de borboletas. Ele estava muito mais perto do par do que eu, e parecia estar indo na dire��o deles. Neste instante, sir Henry puxou a senhorita Stapleton para o seu lado. Seu bra�o a envolveu, mas pareceu-me que ela estava fazendo for�a para se afastar dele com o rosto virado. Ele inclinou a cabe�a para a dela, e ela ergueu uma m�o como se estivesse protestando. No momento seguinte os vi se separarem de repente e se virarem apressados. Stapleton era a causa da interrup��o. Ele estava correndo como um louco na dire��o deles, com a sua rede rid�cula pendurada atr�s. Gesticulava e quase dan�ava de excita��o diante dos amantes. O que a cena significava eu n�o conseguia imaginar, mas pareceu-me que Stapleton estava repreendendo sir Henry, que dava explica��es que se tornaram mais irritadas quando o outro se recusou a aceit�-las. A dama estava parada ao lado num sil�ncio altivo. Finalmente Stapleton girou nos calcanhares e fez um sinal chamando a irm� de maneira categ�rica, e ela, ap�s um olhar hesitante para sir Henry, afastou-se ao lado do irm�o. Os gestos irritados do naturalista mostraram que a dama estava inclu�da em sua indigna��o. O baronete ficou parado por um minuto olhando para eles, e depois caminhou lentamente de volta pelo mesmo caminho da ida, com a cabe�a baixa, a pr�pria imagem do abatimento.</p><p>Eu n�o podia imaginar o que tudo isto significava, mas estava profundamente envergonhado de ter testemunhado uma cena t�o �ntima sem o meu amigo saber. Desci a colina correndo e encontrei-me com o baronete embaixo. Seu rosto estava rubro de c�lera e sua fronte enrugada, como algu�m que est� sem saber o que fazer.</p><p>� Ol�, Watson! De onde voc� surgiu? � ele perguntou. � Voc� n�o quer dizer que veio atr�s de mim, apesar de tudo?</p><p>Expliquei tudo a ele: que eu tinha achado imposs�vel ficar atr�s, que eu o havia seguido e que havia testemunhado tudo que ocorrera. Por um instante seus olhos me fuzilaram, mas a minha franqueza dissipou sua raiva, e ele acabou dando um sorriso triste.</p><p>� Podia-se pensar que o meio dessa pradaria fosse razoavelmente seguro para um homem ter privacidade � disse ele � mas, com os diabos, todas as pessoas da regi�o parecem ter sa�do para me ver fazer a corte, e uma corte lament�vel! Onde voc� conseguiu um lugar?</p><p>� Eu estava naquela colina.</p><p>� Na �ltima fila, hein? Mas o irm�o dela estava bem na frente. Voc� viu quando ele apareceu de repente?</p><p>� Sim, vi.</p><p>� Voc� j� teve alguma vez a impress�o de que ele � louco, este irm�o dela?</p><p>� N�o posso dizer que sim.</p><p>� Ouso dizer que n�o. Sempre o considerei bastante s�o at� hoje, mas pode acreditar que um de n�s dois devia estar numa camisa-de-for�a. O que � que h� comigo, afinal de contas? Voc� viveu perto de mim por algumas semanas, Watson. Diga-me francamente, agora! Existe alguma coisa que me impe�a de ser um bom marido para uma mulher que eu ame?</p><p>� Eu diria que n�o.</p><p>� Ele n�o pode ter obje��es quanto � minha posi��o na vida, portanto deve ser de mim mesmo que ele tem birra. O que ele tem contra mim? Que eu saiba nunca magoei nenhum homem ou mulher na vida. Mas, apesar disso, ele n�o me deixaria tocar na ponta dos dedos dela.</p><p>� Ele disse isso?</p><p>� Isso e muito mais. Vou lhe contar, Watson. Eu s� a conhe�o h� algumas semanas, mas desde o in�cio senti que ela era feita para mim, e ela, tamb�m � ela fica feliz quando est� comigo, e isso eu juro. H� uma luz nos olhos de uma mulher que fala mais alto do que as palavras. Mas ele nunca nos deixa ficar juntos, e foi s� hoje que pela primeira vez vi uma possibilidade de trocar algumas palavras com ela sozinho. Ela estava contente de se encontrar comigo, mas quando se encontrou, n�o foi de amor que ela falou, e ela n�o me deixaria falar disso tamb�m se pudesse ter impedido. Ela ficou repetindo que este era um lugar perigoso, e que ela nunca seria feliz enquanto eu n�o fosse embora daqui. Eu disse a ela que desde que a vira n�o estava com nenhuma pressa de ir embora, e que se ela quisesse realmente que eu fosse, a �nica maneira de conseguir isso seria ir comigo. Com isso ofereci em outras tantas palavras para casar-me com ela, mas antes que ela pudesse responder apareceu este irm�o dela, correndo para n�s com a cara de louco. Ele estava simplesmente branco de raiva, e aqueles olhos claros dele estavam incendiados de f�ria. O que eu estava fazendo com a mo�a? Como eu me atrevia a dar-lhe aten��es que eram desagrad�veis para ela? Ser� que eu pensava que por ser um baronete podia fazer o que quisesse? Se ele n�o fosse irm�o dela, eu saberia como responder melhor a ele. De qualquer modo, eu disse a ele que eu n�o tinha motivo para me envergonhar dos meus sentimentos para com sua irm�, e que esperava que ela pudesse me dar a honra de tornar-se minha esposa. Isso n�o pareceu melhorar as coisas, de modo que tamb�m perdi as estribeiras, e respondi-lhe de modo mais acalorado do que devia, talvez, considerando que ela estava ao lado. Portanto, tudo terminou com ele indo embora com ela, como voc� viu, e aqui estou, um homem mais confuso do que qualquer outro neste condado. Diga-me apenas o que tudo isso significa, Watson, e ficarei lhe devendo mais do que posso esperar pagar-lhe.</p><p>Tentei uma ou duas explica��es mas, realmente, eu mesmo estava completamente confuso. O t�tulo do nosso amigo, sua idade, sua fortuna, seu car�ter e sua apar�ncia est�o todos a seu favor, e n�o sei de nada contra ele, a menos que seja este destino tenebroso que pesa sobre sua fam�lia. Que as investidas dele fossem rejeitadas t�o bruscamente sem qualquer refer�ncia aos desejos da pr�pria dama, e que ela aceitasse a situa��o sem protesto, � bastante surpreendente. Mas nossas conjecturas foram postas de lado por uma visita do pr�prio Stapleton naquela mesma tarde. Ele tinha vindo para se desculpar por sua grosseria da manh�, e ap�s uma longa entrevista particular com sir Henry em seu escrit�rio, a conclus�o da conversa deles foi que o rompimento de rela��es estava completamente sanado, e que dev�amos ir jantar na Casa de Merripit na pr�xima sexta-feira como prova disso.</p><p>� Eu n�o digo agora que ele n�o seja louco � comentou sir Henry. � N�o posso esquecer o seu olhar quando correu para mim esta manh�, mas devo admitir que nenhum homem podia pedir desculpas de maneira mais elegante do que ele.</p><p>� Ele deu alguma explica��o para a sua conduta?</p><p>� Sua irm� � tudo em sua vida, ele diz. Isso � bastante natural, e fico satisfeito de ele compreender o valor dela. Eles sempre estiveram juntos, e segundo o que disse, ele � um homem muito solit�rio e tem apenas ela como companhia, de modo que a id�ia de perd�-la foi realmente terr�vel para ele. Ele n�o havia percebido, disse ele, que eu estava criando um v�nculo com ela, mas quando viu com os seus pr�prios olhos que assim era realmente, e que ela podia ser levada para longe dele, ficou t�o chocado que durante algum tempo deixou de ser respons�vel pelo que disse ou fez. Ele lamentava muito tudo que se passara, e reconhecia que era tolice e ego�smo imaginar que podia conservar uma mulher bonita como a sua irm� para si mesmo por toda a vida. Se ela tivesse que deix�-lo, ele preferia que fosse por um vizinho como eu, e n�o por qualquer outro. Mas de qualquer maneira, isso era um golpe para ele, e levaria algum tempo at� que ele estivesse preparado para enfrent�-lo. Ele deixaria de se opor se eu prometesse deixar as coisas como estavam por tr�s meses e me contentasse em cultivar a amizade da mo�a, sem exigir o seu amor. Isso eu prometi, o caso est� nesta situa��o.</p><p>Portanto, a� est� esclarecido um dos nossos pequenos mist�rios. � uma coisa que chegou ao final em algum lugar deste p�ntano no qual estamos nos debatendo. Sabemos agora por que Stapleton encarava com hostilidade o pretendente � m�o da sua irm�, mesmo quando esse pretendente era t�o aceit�vel como sir Henry. E agora passo para outro fio que puxei da meada embara�ada, o mist�rio dos solu�os durante a noite, do rosto manchado de l�grimas da sra. Barrymore, da ida secreta do mordomo at� a janela de treli�a a oeste. Felicite-me, meu caro Holmes, e diga-me que n�o o desapontei como agente, que voc� n�o se arrepende da confian�a que demonstrou ter em mim quando me mandou para c�. Todas estas coisas foram totalmente esclarecidas com o trabalho de uma noite.</p><p>Eu disse �com o trabalho de uma noite� mas, na verdade, foi com o trabalho de duas noites, porque na primeira n�o conseguimos nada. Eu fiquei sentado com sir Henry em seu quarto at� quase tr�s horas, mas n�o ouvimos nenhum tipo de ru�do, exceto do carrilh�o no andar de cima. Foi uma vig�lia muito melanc�lica, e terminou com cada um adormecendo em sua cadeira. Felizmente n�o desanimamos, e resolvemos tentar outra vez. Na noite seguinte diminu�mos a luz da l�mpada e ficamos sentados fumando cigarros, sem fazer o menor ru�do. Foi incr�vel como as horas se arrastaram lentamente, mas fomos ajudados pelo mesmo tipo de interesse paciente que o ca�ador deve sentir ao vigiar a armadilha na qual espera que a ca�a possa cair. Uma badalada, e duas, e j� est�vamos quase desistindo pela segunda vez quando num instante n�s dois nos endireitamos em nossas cadeiras, com todos os nossos sentidos cansados agu�ados mais uma vez. T�nhamos ouvido o estalido de um passo no corredor.</p><p>Ouvimos quando ele passou por n�s muito furtivamente at� desaparecer na dist�ncia. Depois o baronete abriu sua porta devagar e partimos em persegui��o. O nosso homem j� havia contornado a galeria, e o corredor estava todo escuro. Seguimos em frente com cuidado at� alcan�armos outra ala. Chegamos bem a tempo de ver de relance um vulto alto, de barba preta, com os ombros curvos, enquanto ele seguia p� ante p� pelo corredor. Depois ele passou pela mesma porta de antes, e a luz da vela o emoldurou na escurid�o e lan�ou um �nico raio amarelo atrav�s do corredor sombrio. Seguimos furtivamente na dire��o dele, experimentando cada t�bua do assoalho antes de nos atrevermos a p�r todo o nosso peso sobre ela. Hav�amos tomado a precau��o de tirar as botas, mas, mesmo assim, as velhas t�buas gemeram e estalaram sob os nossos passos. Algumas vezes parecia imposs�vel que ele deixasse de ouvir a nossa aproxima��o. Mas, felizmente, o homem � bastante surdo e estava inteiramente concentrado no que fazia. Quando finalmente chegamos � porta e olhamos para dentro, vimos que ele estava agachado junto � janela, com a vela na m�o, o rosto branco e atento comprimido contra a vidra�a, exatamente como eu o vira duas noites antes.</p><p>N�o t�nhamos combinado nenhum plano de a��o, mas o baronete � um homem para quem a maneira mais direta � sempre a mais natural. Ele entrou no quarto e, ao fazer isso, Barrymore deu um salto, com um silvo agudo da respira��o, e ficou de p�, l�vido e tremendo diante de n�s. Seus olhos escuros, brilhando na m�scara branca do seu rosto, estavam cheios de horror e espanto ao olharem fixamente de sir Henry para mim.</p><p>� O que voc� est� fazendo aqui, Barrymore?</p><p>� Nada, senhor. � Sua agita��o era t�o grande que ele mal podia falar, e as sombras saltavam para cima e para baixo com o tremor da sua vela. � Era a janela, senhor. Eu revisto � noite para ver se todas as janelas est�o bem fechadas.</p><p>� No segundo andar?</p><p>� Sim, senhor, todas as janelas.</p><p>� Olhe aqui, Barrymore � disse sir Henry com severidade. � N�s decidimos arrancar a verdade de voc�, de modo que evitar� problemas para voc� se contar o mais r�pido poss�vel. Vamos, agora! Nada de mentiras! O que voc� estava fazendo nessa janela?</p><p>O sujeito olhou para n�s com uma express�o desamparada e torceu as m�os como algu�m que est� no auge da d�vida e da afli��o.</p><p>� Eu n�o estava fazendo nada de errado, senhor. Estava segurando uma vela perto da janela.</p><p>� E por que voc� estava segurando uma vela junto � janela?</p><p>� N�o me pergunte, sir Henry, n�o me pergunte! Dou-lhe minha palavra, senhor, que o segredo n�o me pertence e que n�o posso cont�-lo. Se ele n�o dissesse respeito a ningu�m, s� a mim mesmo, eu n�o tentaria escond�-lo do senhor.</p><p>Uma id�ia s�bita ocorreu-me, e tirei a vela da m�o tr�mula do mordomo.</p><p>� Ele devia estar segurando-a como um sinal � disse eu. � Vamos ver se h� alguma resposta. � Ergui-a como ele tinha feito e fiquei olhando para a escurid�o da noite l� fora. Pude perceber vagamente a massa negra das �rvores e a extens�o mais clara do p�ntano, porque a lua estava atr�s das nuvens. E ent�o dei um grito de regozijo, porque um ponto min�sculo de luz amarela atravessou de repente o v�u escuro, e brilhava firmemente no centro do quadrado negro emoldurado pela janela.</p><p>� L� est� ela! � exclamei.</p><p>� N�o, n�o, senhor, isso n�o � nada, absolutamente nada! � interrompeu o mordomo. � Garanto-lhe, senhor...</p><p>� Mexa a vela de um lado para o outro, Watson! � exclamou o baronete. � Viu, a outra tamb�m se move! Agora, seu patife, voc� nega que isso seja um sinal? Fale, vamos! Quem � o seu c�mplice l� fora, e que conspira��o � esta que vem ocorrendo?</p><p>O rosto do homem adquiriu uma express�o de desafio.</p><p>� Isso � assunto meu, e n�o seu. N�o direi.</p><p>� Ent�o voc� est� despedido j�.</p><p>� Muito bem, senhor. Se tenho de sair, sairei.</p><p>� E voc� sai desacreditado. Com os diabos, voc� devia ter vergonha de si mesmo. Sua fam�lia viveu com a minha durante mais de cem anos sob este teto, e eu encontro voc� aqui metido em alguma trama misteriosa contra mim.</p><p>� N�o, n�o senhor; n�o, n�o contra o senhor! � Era uma voz de mulher, e a sra. Barrymore, mais p�lida e mais horrorizada do que o marido, estava parada na porta. Sua figura volumosa envolta num xale e numa saia seria c�mica se n�o fosse a intensidade da emo��o no seu rosto.</p><p>� Temos de ir, Eliza. Isto � o fim de tudo. Voc� pode arrumar nossas coisas � disse o mordomo.</p><p>� Oh, John, John, levei voc� a isto? A culpa � minha, sir Henry, toda minha. Ele n�o fez nada, a n�o ser para mim, e porque eu pedi.</p><p>� Fale, ent�o! O que significa isso?</p><p>� Meu infeliz irm�o est� morrendo de fome no p�ntano. N�o podemos deix�-lo morrer em nossos pr�prios port�es. A luz � um sinal para ele de que a comida est� pronta, e a luz dele l� fora � para indicar o lugar para onde lev�-la.</p><p>� Ent�o o seu irm�o �...</p><p>� O condenado fugido, senhor � Selden, o criminoso.</p><p>� Essa � a verdade, senhor � disse Barrymore. � Eu disse que o segredo n�o me pertencia e que eu n�o podia cont�-lo ao senhor. Mas agora o senhor o ouviu, e ver� que se existe uma trama, ela n�o � contra o senhor.</p><p>Esta, ent�o, era a explica��o das expedi��es furtivas � noite e da luz na janela. Sir Henry e eu ficamos olhando espantados para a mulher. Seria poss�vel que esta pessoa imperturbavelmente respeit�vel tivesse o mesmo sangue que um dos criminosos mais not�rios do pa�s?</p><p>� Sim, senhor, meu nome era Selden, e ele � meu irm�o ca�ula. N�s o mimamos demais quando ele era menino, e cedemos a ele em tudo at� que ele passou a pensar que o mundo fora feito para o prazer dele, e que podia fazer o que quisesse nele. Depois, quando ele cresceu, se meteu com m�s companhias, e ficou com o diabo no corpo at� partir o cora��o da minha m�e e arrastar o nosso nome na sarjeta. De crime em crime ele afundou cada vez mais, at� que s� a miseric�rdia de Deus livrou-o do cadafalso; mas para mim, senhor, ele foi sempre o garotinho de cabelos anelados que criei e com quem brinquei, como uma irm� mais velha faria. Foi por isso que ele fugiu da pris�o, senhor. Ele sabia que eu estava aqui e que n�o iria recusar-me a ajud�-lo. Quando ele se arrastou at� aqui uma noite, cansado e esfomeado, com os guardas nos seus calcanhares, o que pod�amos fazer? N�s o recebemos, alimentamos e cuidamos dele. Depois o senhor voltou, e meu irm�o achou que ficaria mais seguro no p�ntano do que em qualquer outro lugar at� passar o clamor p�blico, de modo que ficou escondido ali. Mas de duas em duas noites n�s nos certific�vamos de que ele ainda estava l� pondo uma luz na janela e, se houvesse resposta, meu marido levava um pouco de p�o e carne para ele. Cada dia esper�vamos que ele tivesse ido embora, mas enquanto ele estivesse ali, n�o pod�amos abandon�-lo. Essa � toda a verdade, j� que sou uma mulher crist� honesta, e o senhor ver� que, se h� culpa no caso, ela n�o � do meu marido, mas minha, porque foi por mim que ele fez tudo isso.</p><p>As palavras da mulher sa�ram com grande seriedade e impregnadas de convic��o.</p><p>� Isto � verdade, Barrymore?</p><p>� Sim, sir Henry. Cada palavra.</p><p>� Bem, n�o posso culp�-lo por apoiar sua pr�pria mulher. Esque�a o que eu disse. V�o para o seu quarto, voc�s dois, e falaremos mais sobre este assunto de manh�.</p><p>Depois que eles foram embora, olhamos pela janela outra vez. Sir Henry a abrira, e o vento frio da noite bateu em nossos rostos. Ao longe, na dist�ncia negra, ainda brilhava aquele ponto min�sculo de luz amarela.</p><p>� Fico imaginando como ele se atreve � disse sir Henry.</p><p>� Ela deve estar colocada de maneira que s� possa ser vista daqui.</p><p>� � bem prov�vel. A que dist�ncia voc� acha que est�?</p><p>� Longe, junto � Rocha da Fenda, eu acho.</p><p>� Entre 1,5 a 3 quil�metros de dist�ncia.</p><p>� Mal chega a tanto.</p><p>� Bem, n�o pode ser longe, se Barrymore tinha de levar a comida at� l�. E ele est� esperando, esse vil�o, ao lado daquela vela. Com os diabos, Watson, eu vou sair para pegar esse homem!</p><p>A mesma id�ia havia me ocorrido. N�o era como se os Barrymores nos tivessem feito uma confid�ncia. O segredo deles fora confessado � for�a. O homem era um perigo para a comunidade, um patife consumado para quem n�o havia piedade nem desculpa. Estar�amos apenas cumprindo o nosso dever se aproveit�ssemos essa oportunidade de p�-lo de volta no lugar onde n�o pudesse fazer nenhum mal. Com a sua natureza brutal e violenta, outras pessoas teriam de pagar o pre�o se lav�ssemos nossas m�os. Qualquer noite, por exemplo, nossos vizinhos, os Stapletons, poderiam ser atacados por ele, e deve ter sido este pensamento que deixou sir Henry t�o entusiasmado pela aventura.</p><p>� Tamb�m vou � eu disse.</p><p>� Ent�o pegue o seu rev�lver e calce suas botas. Quanto mais cedo partirmos, melhor, j� que o sujeito pode apagar sua luz e ir embora.</p><p>Em cinco minutos est�vamos do lado de fora da casa, come�ando a nossa expedi��o. Corremos por entre os arbustos escuros, cercados pelo gemido mon�tono do vento do outono e o farfalhar das folhas que ca�am. O ar da noite estava pesado com o cheiro de umidade e podrid�o. De vez em quando a lua aparecia entre as nuvens por um instante, mas elas estavam se movendo pelo c�u, e exatamente quando sa�mos no p�ntano, uma chuva fina come�ou a cair. A luz ainda brilhava firmemente adiante.</p><p>� Voc� est� armado? � perguntei.</p><p>� Tenho um chicote de ca�a.</p><p>� Precisamos nos aproximar dele rapidamente, porque dizem que � um sujeito desesperado. Devemos peg�-lo de surpresa e domin�-lo antes que ele possa resistir.</p><p>� Eu pergunto, Watson � disse o baronete �, o que Holmes diria a respeito disto? E quanto � hora da escurid�o em que a for�a do mal est� exaltada?</p><p>Como se fosse uma resposta �s suas palavras, ergueu-se de repente da vasta sombra do p�ntano aquele estranho grito que eu j� ouvira nas margens do grande charco de Grimpen. Ele veio com o vento atrav�s do sil�ncio da noite, um murm�rio longo e profundo, depois um uivo crescente, e em seguida o gemido triste que desapareceu aos poucos. Ele repetiu-se v�rias vezes, com todo o ar pulsando com ele, estridente, selvagem e amea�ador. O baronete agarrou minha manga e seu rosto surgia branco na escurid�o.</p><p>� Meu Deus, o que � isso, Watson?</p><p>� N�o sei. � um som que eles t�m no p�ntano. Eu o ouvi uma vez antes.</p><p>Ele desapareceu, e um sil�ncio absoluto nos envolveu. Ficamos parados, prestando aten��o, mas n�o ouvimos mais nada.</p><p>� Watson � disse o baronete �, foi o grito de um c�o.</p><p>Meu sangue gelou nas veias, porque houve uma pausa em sua voz que revelou o horror s�bito que havia se apoderado dele.</p><p>� Como eles chamam este som? � perguntou ele.</p><p>� Quem?</p><p>� Os moradores da regi�o?</p><p>� Oh, eles s�o pessoas ignorantes. Por que voc� deveria se importar com o modo como eles o chamam?</p><p>� Diga-me, Watson. O que dizem dele?</p><p>Eu hesitei mas n�o pude fugir � pergunta.</p><p>� Eles dizem que � o grito do C�o dos Baskervilles.</p><p>Ele gemeu e ficou em sil�ncio por alguns instantes.</p><p>� Era um c�o � ele disse por fim �, mas parecia vir de quil�metros de dist�ncia, l� de longe, eu acho.</p><p>� Era dif�cil dizer de onde vinha.</p><p>� Ele aumentava e diminu�a com o vento. N�o � essa a dire��o do grande charco de Grimpen?</p><p>� Sim, �.</p><p>� Bem, foi l�. Diga, Watson, voc� n�o acha que era o grito de um c�o? N�o sou crian�a. Voc� n�o precisa ter medo de dizer a verdade.</p><p>� Stapleton estava comigo quando o ouvi da �ltima vez. Ele disse que podia ser o chamado de uma ave estranha.</p><p>� N�o, n�o, era um c�o. Meu Deus, ser� que h� alguma verdade em todas estas hist�rias? Ser� poss�vel que eu esteja realmente em perigo por um motivo t�o misterioso? Voc� n�o acredita nisso, acredita, Watson?</p><p>� N�o, n�o.</p><p>� Mas uma coisa � rir disso em Londres, e outra � ficar parado aqui fora na escurid�o do p�ntano e ouvir um grito desses. E meu tio! Havia a pegada do c�o ao seu lado no lugar onde ele estava ca�do. Tudo se encaixa. N�o acho que eu seja um covarde, Watson, mas esse som pareceu congelar meu pr�prio sangue. Sinta a minha m�o!</p><p>Estava fria como um bloco de m�rmore.</p><p>� Voc� estar� bem amanh�.</p><p>� Acho que n�o vou conseguir tirar esse grito da minha cabe�a. O que voc� acha que devemos fazer agora?</p><p>� Vamos voltar?</p><p>� N�o, com os diabos; sa�mos para pegar o nosso homem e faremos isso. N�s atr�s do condenado, e um c�o do inferno, muito provavelmente, atr�s de n�s. Venha! Levaremos isso at� o fim mesmo que todos os dem�nios do inferno estejam soltos no p�ntano.</p><p>Fomos caminhando, aos trope��es, lentamente pela escurid�o, com o vulto negro das colinas escarpadas � nossa volta e o pontinho amarelo de luz aceso firmemente adiante. N�o h� nada t�o ilus�rio quanto a dist�ncia de uma luz numa noite escura como breu, e �s vezes o brilho parecia estar longe no horizonte e outras, a alguns passos de n�s. Mas, finalmente, conseguimos ver de onde ele vinha, e ent�o ficamos sabendo que est�vamos muito perto. Uma vela gotejante estava enfiada numa fenda das rochas que a ladeavam para evitar o vento e tamb�m para impedir que fosse vista, a n�o ser na dire��o da Mans�o Baskerville. Um peda�o enorme de granito ocultou a nossa aproxima��o, e agachados atr�s dele, olhamos para o sinal luminoso. Era estranho ver esta �nica vela queimando ali no meio do p�ntano, sem nenhum sinal de vida perto dela, apenas a chama isolada, reta, amarela, e o brilho da pedra de cada lado dela.</p><p>� O que faremos agora? � sussurrou sir Henry.</p><p>� Espere aqui. Ele deve estar perto desta luz. Vamos ver se conseguimos enxerg�-lo.</p><p>Mal as palavras sa�ram da minha boca, n�s dois o vimos. Sobre as rochas, na fenda em que a vela queimava, projetava-se um rosto amarelo perverso, um rosto terr�vel de animal, todo enrugado e marcado de paix�es vis. Sujo de lama, com uma barba eri�ada e cabelos emaranhados, podia ter pertencido a um daqueles antigos selvagens que habitavam nas tocas das encostas das colinas. A luz embaixo dele refletia-se em seus olhos pequenos e astutos, que olhavam ferozmente para a direita e a esquerda atrav�s da escurid�o, como um animal manhoso e selvagem que ouviu os passos dos ca�adores.</p><p>Alguma coisa, evidentemente, havia despertado suas suspeitas. Talvez Barrymore tivesse algum sinal particular que deixara de dar, ou o sujeito podia ter algum outro motivo para achar que nem tudo estava bem, mas pude perceber os seus receios no seu rosto cruel. A qualquer momento ele poderia apagar</p><p>a luz e desaparecer na escurid�o. Portanto, saltei para a frente, e sir Henry fez o mesmo. No mesmo instante o condenado gritou uma praga para n�s e atirou uma pedra que se espatifou contra o granito que havia nos protegido. Vi de relance seu vulto baixo, agachado, de constitui��o forte, quando ficou de p� num pulo e virou-se para fugir. No mesmo momento, por um acaso feliz, a lua apareceu entre as nuvens. Corremos pelo alto da colina, e l� estava o nosso</p><p>homem descendo a grande velocidade pelo outro lado, saltando sobre as pedras em seu caminho com a agilidade de um cabrito mont�s. Um tiro certeiro do meu rev�lver poderia t�-lo aleijado, mas eu o trouxera apenas para me defender se fosse atacado, e n�o para atirar num homem desarmado que estava fugindo.</p><p>N�s dois �ramos corredores velozes e razoavelmente bem treinados, mas logo vimos que n�o t�nhamos nenhuma possibilidade de alcan��-lo. N�s o vimos durante muito tempo ao luar, at� ele se transformar apenas num pontinho que corria entre as rochas na encosta de uma colina distante. Corremos at� ficarmos completamente sem f�lego, mas a dist�ncia entre n�s era cada vez maior. Finalmente paramos e nos sentamos, ofegantes, sobre duas rochas, enquanto o v�amos desaparecendo na dist�ncia.</p><p>E foi neste momento que ocorreu uma coisa muito estranha e inesperada. Hav�amos nos levantado das pedras e est�vamos nos virando para ir para casa depois de desistirmos da nossa persegui��o in�til. A lua estava baixa � direita e o pico irregular de um monte de granito erguia-se contra a curva inferior do seu disco prateado. Ali, numa silhueta t�o preta quanto uma est�tua de �bano naquele pano de fundo brilhante, vi o vulto de um homem sobre o pico rochoso. N�o pense que era uma ilus�o, Holmes. Afirmo-lhe que nunca em minha vida vi nada mais nitidamente. At� onde posso julgar, o vulto era de um homem alto e magro. Estava parado com as pernas um pouco afastadas, os bra�os cruzados, a cabe�a inclinada, como se estivesse meditando acima daquela vastid�o deserta de turfa e granito que se estendia diante dele. Ele podia ser o pr�prio esp�rito daquele lugar terr�vel. N�o era o condenado. Este homem estava longe do lugar onde o condenado havia desaparecido. Al�m disso, era um homem muito mais alto. Com um grito de surpresa, fiz sinal para o baronete, mas durante o instante em que eu me virara para segurar o seu bra�o o homem desapareceu. L� estava o pico de granito ainda cortando a borda inferior da lua, mas o seu cume n�o tinha vest�gio nenhum daquele vulto silencioso e im�vel.</p><p>Eu quis ir naquela dire��o e examinar o pico, mas ele estava a uma certa dist�ncia. Os nervos do baronete ainda estavam tremendo por causa daquele grito, que relembrava a hist�ria sinistra da sua fam�lia, e ele n�o estava disposto a novas aventuras. Ele n�o vira este homem solit�rio sobre o pico rochoso e n�o p�de sentir a excita��o que sua estranha presen�a e sua atitude dominadora haviam provocado em mim.</p><p>� Um guarda, sem d�vida � ele disse. � O p�ntano est� cheio deles desde que este sujeito fugiu.</p><p>� Bem, talvez a explica��o dele possa ser a verdadeira, mas eu gostaria de ter alguma outra prova disso. Hoje pretendemos avisar ao pessoal de Princetown onde eles devem procurar o homem desaparecido, mas � duro n�o termos realmente tido a gl�ria de traz�-lo de volta como nosso prisioneiro. Essas s�o as aventuras de ontem � noite, e voc� tem de reconhecer, meu caro Holmes, que me sa� muito bem na quest�o do relat�rio. Muita coisa do que conto a voc� �, sem d�vida, bastante irrelevante, mas ainda acho que � melhor comunicar-lhe todos os fatos e deix�-lo escolher por si mesmo aqueles que sejam mais �teis para voc�, ajudando-o em suas conclus�es. Estamos certamente fazendo algum progresso. No que diz respeito aos Barrymores, descobrimos o motivo dos seus atos, e isso esclareceu muito a situa��o. Mas o p�ntano com os seus mist�rios e os seus estranhos habitantes continua t�o inescrut�vel como sempre. Talvez em meu pr�ximo relat�rio eu consiga esclarecer alguma coisa sobre isto tamb�m. O melhor de tudo seria se voc� pudesse vir at� aqui. De qualquer maneira voc� ter� not�cias minhas outra vez nos pr�ximos dias.</p><empty-line/></section><section><p><strong>resumo do di�rio do dr. watson</strong></p><p>At� agora eu pude citar os relat�rios que enviei durante estes primeiros dias para Sherlock Holmes. Mas agora cheguei a um ponto em que sou obrigado a abandonar este m�todo e confiar mais uma vez nas minhas lembran�as, ajudado pelo di�rio que mantive na �poca. Alguns trechos dele me levar�o de volta �quelas cenas que est�o indelevelmente fixadas com todos os detalhes na minha mem�ria. Continuo, ent�o, a partir da manh� que se seguiu � nossa persegui��o frustrada do condenado e �s nossas outras experi�ncias estranhas no p�ntano.</p><p>16 de outubro. � Um dia triste e nublado com garoa. A casa est� envolta em rolos de nuvens que se erguem de vez em quando para mostrar as curvas mon�tonas do p�ntano, com veias finas, prateadas, nas encostas das colinas e as rochas distantes brilhando nos pontos onde a luz bate sobre suas faces molhadas. A melancolia reina do lado</p><p>de fora e de dentro. O baronete teve uma rea��o l�gubre ap�s as emo��es da noite. Eu mesmo estou consciente de um peso no cora��o e uma sensa��o de perigo iminente � perigo sempre presente, que � mais terr�vel ainda porque n�o consigo defini-lo.</p><p>E ser� que eu n�o tenho motivos para essa sensa��o? Considere a longa seq��ncia de incidentes que apontam para alguma influ�ncia sinistra que est� agindo � nossa volta. H� a morte do �ltimo ocupante da Mans�o, preenchendo com tanta exatid�o as condi��es da lenda da fam�lia, e h� as repetidas informa��es dos camponeses sobre o aparecimento de uma estranha criatura no p�ntano. Duas vezes ouvi com os meus pr�prios ouvidos o som que parecia o latido distante de um c�o. � incr�vel, imposs�vel, que isso esteja realmente fora das leis normais da natureza. Um c�o espectral que deixa pegadas vis�veis e enche o ar com o seu uivo certamente n�o � de se imaginar. Stapleton pode acreditar nessa supersti��o e Mortimer tamb�m; mas se eu tenho uma qualidade, � o bom senso, e nada me far� acreditar numa coisa dessas. Faz�-lo seria descer ao n�vel destes pobres camponeses, que n�o se satisfazem com um simples c�o diab�lico, mas precisam descrev�-lo com a boca e os olhos vomitando o fogo do inferno. Holmes n�o daria ouvidos a essas fantasias, e eu sou seu agente. Mas fatos s�o fatos, e j� ouvi duas vezes este grito no p�ntano. Suponhamos que houvesse realmente um c�o enorme solto ali; isso explicaria boa parte das coisas. Mas onde um c�o desses poderia ficar escondido, onde conseguiria a sua comida, de onde ele vinha, como � que ningu�m o vira de dia? � preciso confessar que a explica��o natural apresenta quase tantas dificuldades quanto a outra. E sempre, fora o c�o, h� o fato da influ�ncia humana em Londres, o homem no cabriol� e a carta que preveniu sir Henry a respeito do p�ntano. Isto, pelo menos, era real, mas tanto podia ter sido obra de um amigo protetor como de um inimigo. Onde est� esse amigo ou inimigo agora? Ele ficou em Londres ou nos seguiu at� aqui? Ser� que ele podia ser o estranho que vi sobre o pico rochoso?</p><p>� verdade que s� o vi uma vez de relance, e mesmo assim h� algumas coisas pelas quais estou pronto a jurar. Ele n�o � ningu�m que eu j� tenha visto aqui, e agora j� conheci todos os vizinhos. O vulto era muito mais alto do que Stapleton, muito mais magro do que Frankland. Poderia ter sido Barrymore, mas n�s o hav�amos deixado para tr�s, e estou certo de que ele n�o poderia ter-nos seguido. Um estranho, ent�o, ainda est� nos seguindo, da mesma forma que um estranho nos seguiu em Londres. Nunca conseguimos nos livrar dele. Se eu pudesse p�r as m�os nesse homem, ent�o poder�amos finalmente estar no fim das nossas dificuldades. Devo agora dedicar todas as minhas energias a este �nico objetivo.</p><p>Meu primeiro impulso foi contar a sir Henry todos os meus planos. Meu segundo impulso, e o mais prudente, � jogar o meu pr�prio jogo e falar o m�nimo poss�vel com qualquer pessoa. Ele � silencioso e distra�do. Seus nervos ficaram estranhamente abalados por aquele som no p�ntano. N�o direi nada que aumente sua ansiedade, mas adotarei minhas pr�prias medidas para alcan�ar minha finalidade.</p><p>Tivemos uma pequena cena esta manh� ap�s o caf�. Barrymore pediu licen�a para falar com sir Henry, e eles ficaram fechados no escrit�rio por algum tempo. Sentado na sala de bilhar, eu ouvi mais de uma vez o som das vozes se elevar, e pude ter id�ia do assunto que estava em discuss�o. Depois de algum tempo, o baronete abriu a porta e me chamou.</p><p>� Barrymore acha que tem motivo de queixa � disse. � Ele acha que foi injusto de nossa parte sair ca�ando o seu cunhado quando ele, por livre e espont�nea vontade, contou-nos o segredo.</p><p>O mordomo estava parado muito p�lido mas muito controlado diante de n�s.</p><p>� Talvez eu tenha me exaltado, senhor � disse ele � e neste caso pe�o que me perdoe. Ao mesmo tempo, fiquei muito surpreso quando ouvi os dois cavalheiros voltarem esta manh� e soube que estiveram perseguindo Selden. O coitado j� tem muito contra o que lutar sem que eu ponha mais gente na sua pista.</p><p>� Se voc� tivesse nos contado por sua livre e espont�nea vontade, teria sido uma coisa diferente � disse o baronete. � Voc� s� nos contou, ou melhor, sua mulher nos contou, quando voc� foi obrigado e n�o p�de evitar.</p><p>� Eu n�o pensei que os senhores fossem se aproveitar disso, sir Henry, realmente n�o pensei.</p><p>� O homem � um perigo p�blico. H� casas isoladas espalhadas pelo p�ntano, e ele � um sujeito que n�o se det�m diante de nada. Basta olhar para o rosto dele para se compreender isso. Veja, a casa do sr. Stapleton, por exemplo, sem ningu�m a n�o ser ele pr�prio para defend�-la. N�o h� seguran�a para ningu�m at� que ele esteja trancado a sete chaves.</p><p>� Ele n�o vai invadir casa nenhuma, senhor. Dou-lhe a minha palavra de honra quanto a isso. Ele nunca mais incomodar� ningu�m neste pa�s outra vez. Garanto-lhe, sir Henry, que dentro de muito poucos dias os arranjos necess�rios ser�o conclu�dos e ele estar� a caminho da Am�rica do Sul. Pelo amor de Deus, senhor, pe�o-lhe para n�o deixar a pol�cia saber que ele ainda est� no p�ntano. Eles desistiram da busca aqui, e ele pode ficar escondido quieto at� poder embarcar. O senhor n�o pode denunci�-lo sem causar problemas para mim e para minha mulher. Pe�o-lhe, senhor, para n�o dizer nada � pol�cia.</p><p>� O que voc� acha, Watson?</p><p>Eu encolhi os ombros. � Se ele realmente sa�sse do pa�s, isso aliviaria os contribuintes de um fardo.</p><p>� Mas e quanto � possibilidade de ele assaltar algu�m antes de ir embora?</p><p>� Ele n�o faria uma loucura dessas, senhor. Fornecemos a ele tudo que ele possa precisar. Cometer um crime seria revelar onde ele est� escondido.</p><p>� Isso � verdade � disse sir Henry. � Bem, Barrymore...</p><p>� Deus o aben�oe, senhor, e obrigado do fundo do meu cora��o! Se ele fosse preso outra vez, isso mataria minha pobre mulher.</p><p>� Imagino que estamos ajudando e favorecendo um crime, Watson. Mas depois do que ouvimos, acho que n�o posso entregar o homem, portanto, est� encerrado. Est� bem, Barrymore, voc� pode ir.</p><p>Com algumas palavras entrecortadas de gratid�o o homem se virou, mas hesitou e ent�o voltou.</p><p>� O senhor foi t�o bom para n�s que eu gostaria de fazer o m�ximo para o senhor em retribui��o. Eu sei uma coisa, sir Henry, e talvez devesse t�-la dito antes, mas foi muito depois do inqu�rito que eu a descobri. Eu ainda n�o disse uma palavra sequer sobre isso a ningu�m. � sobre a morte do pobre sir Charles.</p><p>O baronete e eu ficamos de p�. � Voc� sabe como ele morreu?</p><p>� N�o senhor, isso eu n�o sei.</p><p>� O que �, ent�o?</p><p>� Eu sei por que ele estava no port�o �quela hora. Foi para se encontrar com uma mulher.</p><p>� Encontrar-se com uma mulher? Ele?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� E o nome da mulher?</p><p>� N�o posso dar-lhe o nome, senhor, mas posso dar-lhe as iniciais. As iniciais dela eram L.L.</p><p>� Como voc� sabe disso, Barrymore?</p><p>� Bem, sir Henry, o seu tio recebeu uma carta naquela manh�. Ele costumava receber muitas cartas, porque ele era um homem p�blico e conhecido pelo seu cora��o bondoso, de modo que todo mundo que estava com problemas gostava de recorrer a ele. Mas naquela manh�, por acaso, havia apenas esta carta, de modo que reparei mais nela. Vinha de Coombe Tracey, e estava endere�ada com letra de mulher.</p><p>� Bem?</p><p>� Bem, senhor, n�o pensei mais no assunto, e nunca teria pensado se n�o fosse por minha mulher. Algumas semanas atr�s ela estava limpando o escrit�rio de sir Charles � ele nunca fora mexido desde a sua morte � e encontrou as cinzas de uma carta queimada no fundo da grade. A maior parte dela estava carbonizada, mas uma pequena tira, o fim de uma p�gina, ficou inteira, e o que estava escrito ainda podia ser lido, embora estivesse cinzento num fundo preto. Parecia ser um p�s-escrito no fim da carta, e dizia: �Por favor, como o senhor � um cavalheiro, queime esta carta e esteja no port�o �s 22 horas.� Embaixo estavam assinadas as iniciais L.L.</p><p>� Voc� tem essa tira?</p><p>� N�o, senhor, ela esfarelou-se depois que mexemos nela.</p><p>� Sir Charles recebeu alguma outra carta com a mesma letra?</p><p>� Bem, senhor, eu n�o prestava muita aten��o �s suas cartas. Eu n�o notaria esta se por acaso ela n�o tivesse chegado sozinha.</p><p>� E voc� n�o tem nenhuma id�ia de quem seja L.L.?</p><p>� N�o, senhor. Mas tenho esperan�a de que, se pudermos encontrar essa dama, saberemos mais sobre a morte de sir Charles.</p><p>� N�o consigo compreender, Barrymore, como voc� escondeu esta informa��o importante.</p><p>� Bem, senhor, isso foi logo depois que tivemos aquele nosso pr�prio problema. E tamb�m, senhor, n�s dois gost�vamos muito de sir Charles, considerando tudo que ele tinha feito por n�s. Revolver isto n�o iria ajudar nosso pobre patr�o, e � bom ter cuidado quando h� uma dama envolvida no caso. Mesmo o melhor de n�s...</p><p>� Voc� achou que isso poderia prejudicar a reputa��o dele?</p><p>� Bem, senhor, achei que nada de bom podia resultar disso. Mas agora o senhor foi bom para n�s, e achei que estaria sendo injusto com o senhor se n�o lhe contasse tudo que sei a respeito.</p><p>� Muito bem, Barrymore, pode ir. � Depois que o mordomo saiu, sir Henry virou-se para mim. � Bem, Watson, o que voc� acha desta nova informa��o?</p><p>� Parece que ela deixa a escurid�o mais negra do que antes.</p><p>� Tamb�m acho. Se pelo menos consegu�ssemos identificar L.L., isso poderia esclarecer a coisa toda. Ter�amos avan�ado um pouco. Sabemos que h� uma pessoa que conhece os fatos, basta encontr�-la. O que voc� acha que devemos fazer?</p><p>� Comunicar isso tudo imediatamente a Holmes. Isso dar� a ele a pista que vem procurando. Ou eu muito me engano, ou isso far� com que ele venha para c�.</p><p>Fui imediatamente para o meu quarto e fiz o relat�rio da conversa da manh� para Holmes. Era evidente para mim que ele estivera muito ocupado ultimamente, porque os bilhetes que recebi de Baker Street eram poucos e curtos, sem nenhum coment�rio sobre as informa��es que eu havia fornecido e raras refer�ncias � minha miss�o. Sem d�vida o seu caso de chantagem est� exigindo todo o seu talento. Mesmo assim, este novo fator certamente atrair� sua aten��o e renovar� o seu interesse. Gostaria que ele estivesse aqui.</p><p>17 de outubro. � Caiu uma chuva forte hoje o dia inteiro, fazendo a hera farfalhar e pingando dos beirais. Pensei no condenado l� no p�ntano, frio e sem abrigo. Pobre-diabo! Quaisquer que fossem os seus crimes, ele havia sofrido o bastante para expi�-los. E depois pensei naquele outro, o rosto do cabriol�, o do vulto contra a lua. Ser� que ele tamb�m estaria l� fora naquele dil�vio, o vigilante invis�vel, o homem da escurid�o? � noite, vesti o meu imperme�vel e dei uma longa caminhada pelo p�ntano encharcado, cheio de pensamentos sombrios, com a chuva batendo no meu rosto e o vento assobiando nos meus ouvidos. Que Deus ajude �queles que vagam pelo grande p�ntano agora, porque at� as terras altas firmes est�o se transformando em atoleiro. Encontrei o pico rochoso preto sobre o qual vira o vigilante solit�rio, e do seu cume irregular olhei para as depress�es melanc�licas. Pancadas de chuva passavam pela sua superf�cie avermelhada, e as nuvens pesadas, cor de ard�sia, pairavam baixas sobre a paisagem, cobrindo com espirais cinzentas os lados das colinas fant�sticas. Na depress�o distante � esquerda, meio escondidas pela neblina, as duas torres finas da Mans�o Baskerville surgiam sobre as �rvores. Elas eram os �nicos sinais de vida humana que eu podia ver, com exce��o apenas daquelas cabanas pr�-hist�ricas que se aglomeravam nas encostas das colinas. Em parte alguma havia qualquer sinal daquele homem solit�rio que eu vira no mesmo lugar duas noites antes.</p><p>Quando caminhava de volta, fui alcan�ado pelo dr. Mortimer, que conduzia a sua charrete por uma trilha irregular do p�ntano que sa�a da casa de fazenda isolada de Foulmire. Ele tem sido muito atencioso conosco, e passa quase todos os dias na Mans�o para saber como estamos indo. Ele insistiu para que eu subisse na charrete e me deu uma carona at� em casa. Achei que ele estava muito perturbado pelo desaparecimento do seu pequeno spaniel. Ele havia fugido para o p�ntano e n�o voltara. Consolei-o como pude, mas pensei no p�nei no charco de Grimpen, e imagino que ele n�o ver� o seu cachorrinho outra vez.</p><p>� A prop�sito, Mortimer � eu disse quando nos sacud�amos pela estrada irregular � suponho que haja poucas pessoas que morem nas redondezas que voc� n�o conhe�a.</p><p>� Acho que nenhuma.</p><p>� Ent�o voc� pode me dizer o nome de alguma mulher cujas iniciais sejam L.L.?</p><p>Ele pensou por alguns minutos.</p><p>� N�o � disse ele. � H� alguns ciganos e trabalhadores cujos nomes eu n�o sei, mas entre os fazendeiros ou a pequena nobreza n�o h� ningu�m cujas iniciais sejam essas. Espere um pouco � ele acrescentou ap�s uma pausa. � H� Laura Lyons, as iniciais dela s�o L.L., mas ela mora em Coombe Tracey.</p><p>� Quem � ela? � perguntei.</p><p>� � a filha de Frankland.</p><p>� O qu�! Do velho Frankland, o maluco?</p><p>� Exatamente. Ela se casou com um artista chamado Lyons que veio desenhar no p�ntano. Ele era um patife e a abandonou. A culpa, pelo que ouvi, podia n�o estar inteiramente de um lado. O pai dela cortou rela��es com ela porque ela se casara sem o seu consentimento, e talvez por um ou dois outros motivos tamb�m. De modo que, entre o velho pecador e o jovem, a garota passou por um mau peda�o.</p><p>� De que ela vive?</p><p>� Imagino que o velho Frankland lhe d� uma mesada insignificante, mas n�o pode ser mais, porque os pr�prios neg�cios dele est�o bastante complicados. O que quer que ela possa ter merecido, n�o se pode permitir que ela v� irremediavelmente para o mal. A hist�ria dela se espalhou, e v�rias pessoas daqui fizeram alguma coisa para permitir-lhe ganhar a vida honestamente. Stapleton foi um e sir Charles, outro. Eu mesmo dei uma ninharia. Era para estabelec�-la num neg�cio de datilografia.</p><p>Ele quis saber o objetivo das minhas perguntas, mas consegui satisfazer sua curiosidade sem contar-lhe muita coisa, porque n�o h� nenhum motivo para que tenhamos confian�a em algu�m. Amanh� de manh� irei at� Coombe Tracey, e se eu puder ver esta sra. Laura Lyons, de reputa��o equ�voca, ser� dado um longo passo no sentido de esclarecer um incidente nesta s�rie de mist�rios. Certamente estou adquirindo a sabedoria da serpente, porque quando Mortimer insistiu nas suas perguntas a ponto de ficar inconveniente, perguntei-lhe casualmente de que tipo era o cr�nio de Frankland, e assim s� ouvi ele falar sobre craniologia durante o resto da nossa viagem. N�o foi � toa que morei anos com Sherlock Holmes.</p><p>Tenho apenas um outro incidente para registrar a respeito deste dia tempestuoso e melanc�lico. Foi a minha conversa com Barrymore ainda h� pouco, que me d� mais um trunfo que poderei usar no devido tempo.</p><p>Mortimer havia ficado para jantar, e ele e o baronete jogaram �cart� depois. O mordomo levou o meu caf� at� a biblioteca, e aproveitei a oportunidade para fazer-lhe algumas perguntas.</p><p>� Bem � eu disse � este seu estimado parente partiu ou ainda est� escondido l� longe?</p><p>� N�o sei, senhor. Espero em Deus que tenha ido, porque ele s� nos trouxe problemas aqui! N�o tive not�cias dele desde que deixei comida para ele da �ltima vez, e isso foi h� tr�s dias.</p><p>� Voc� o viu nesse dia?</p><p>� N�o, senhor, mas a comida tinha desaparecido quando fui l� da vez seguinte.</p><p>� Ent�o ele estava l� com certeza?</p><p>� Parece que sim, a menos que o outro homem a tenha apanhado.</p><p>Fiquei sentado com a x�cara de caf� no ar e olhei para Barrymore.</p><p>� Ent�o voc� sabe que h� outro homem?</p><p>� Sim, senhor; h� outro homem no p�ntano.</p><p>� Voc� o viu?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Como sabe disso ent�o?</p><p>� Selden me falou sobre ele, senhor, h� uma semana ou mais. Ele est� escondido tamb�m, mas n�o � um condenado, pelo que entendi. N�o gosto disso, dr. Watson, digo-lhe francamente, senhor, que n�o gosto disso. � Ele falou com uma s�bita seriedade.</p><p>� Agora, ou�a-me, Barrymore! N�o tenho nenhum interesse neste assunto, a n�o ser o do seu patr�o. Vim para c� apenas com o objetivo de ajud�-lo. Diga-me francamente do que � que voc� n�o gosta.</p><p>Barrymore hesitou por um momento, como se estivesse arrependido da sua explos�o ou achasse dif�cil exprimir em palavras os seus pr�prios sentimentos.</p><p>� S�o todas estas extravag�ncias, senhor � exclamou ele por fim acenando em dire��o � janela batida pela chuva que dava para o p�ntano. � H� trai��o em algum lugar, e h� perversidade fervendo, quanto a isso eu juro! Eu ficaria muito satisfeito, senhor, de ver sir Henry voltando para Londres outra vez!</p><p>� Mas o que � que o assusta?</p><p>� Veja a morte de sir Charles! Isso foi p�ssimo, apesar de tudo o que o magistrado disse. Lembre-se dos ru�dos no p�ntano � noite. N�o h� um �nico homem que o atravesse ap�s o p�r-do-sol, mesmo que seja pago para isso. Veja este estranho escondido l� longe, observando e esperando! O que ele est� esperando? O que significa isso? N�o significa nada de bom para ningu�m com o nome de Baskerville, e eu gostaria muito de largar isso tudo no dia em que os novos empregados de sir Henry estivessem prontos para cuidar da Mans�o.</p><p>� Mas quanto a este estranho � eu disse. � Voc� pode me dizer alguma coisa sobre ele? O que diz Selden? Ele descobriu onde ele se esconde, ou o que ele est� fazendo?</p><p>� Ele o viu uma ou duas vezes, mas ele � um fin�rio e n�o conta nada. A princ�pio pensou que ele fosse da pol�cia, mas logo descobriu que ele tinha alguma posi��o pr�pria. Ele era uma esp�cie de cavalheiro, pelo que ele p�de ver, mas n�o conseguiu saber o que ele estava fazendo.</p><p>� E onde foi que ele disse que o homem vivia?</p><p>� Entre as casas antigas na encosta da colina, as cabanas de pedra onde o povo antigo morava.</p><p>� Mas, e quanto � sua comida?</p><p>� Selden descobriu que ele tem um menino que trabalha para ele, que leva e traz tudo que ele precisa. Ouso dizer que ele vai buscar em Coombe Tracey as coisas de que precisa.</p><p>� Muito bem, Barrymore. Podemos falar mais sobre isto em outra ocasi�o. � Depois que o mordomo saiu, fui at� a janela escura e olhei atrav�s de uma vidra�a manchada para as nuvens que passavam e para a silhueta agitada das �rvores varridas pelo vento. A noite estava tempestuosa l� fora, e imaginei como devia estar numa cabana de pedra acima do p�ntano. Que �dio pode ser esse que leva um homem a se esconder num lugar desses numa ocasi�o dessas! E que objetivo profundo e s�rio pode ele ter que exija uma tal prova��o! L�, naquela cabana acima do p�ntano, parece estar o pr�prio centro daquele problema que me perturba t�o dolorosamente. Jurei que n�o se passaria outro dia sem que eu fizesse tudo que um homem pode fazer para chegar ao �mago do mist�rio.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o homem sobre o pico rochoso</strong></p><p>O trecho do meu di�rio particular que constitui o �ltimo cap�tulo atualizou a minha narrativa at� o dia 18 de outubro, ocasi�o em que estes estranhos acontecimentos come�aram a se encaminhar rapidamente para a sua terr�vel conclus�o. Os incidentes dos dias seguintes est�o indelevelmente gravados na minha mem�ria, e posso cont�-los sem recorrer �s anota��es feitas na ocasi�o. Come�o, portanto, no dia seguinte �quele em que eu havia estabelecido dois fatos de grande import�ncia, um que a sra. Laura Lyons, de Coombe Tracey, havia escrito a sir Charles Baskerville e marcado um encontro com ele no lugar e na hora em que ele veio a morrer, o outro, que o homem escondido no p�ntano podia ser encontrado entre as cabanas de pedra na encosta da colina. De posse desses dois fatos, achei que a minha intelig�ncia ou a minha coragem deviam ser insuficientes se eu n�o conseguisse lan�ar mais alguma luz sobre estes lugares misteriosos.</p><p>N�o tive oportunidade de contar ao baronete o que soubera a respeito da sra. Lyons na noite anterior, porque o dr. Mortimer ficou jogando cartas com ele at� muito tarde. Mas no caf�-da-manh� falei-lhe sobre a minha descoberta e perguntei a ele se queria me acompanhar at� Coombe Tracey. A princ�pio ele ficou muito ansioso para ir, mas, pensando bem, achamos que se eu fosse sozinho os resultados podiam ser melhores. Quanto mais formal fosse a visita, menos informa��es conseguir�amos obter. Deixei sir Henry para tr�s, portanto, n�o sem alguns escr�pulos de consci�ncia, e parti de charrete para a minha nova investiga��o.</p><p>Quando cheguei a Coombe Tracey, disse a Perkins para guardar os cavalos e fiz perguntas sobre a dama a quem eu viera interrogar. N�o tive nenhuma dificuldade em descobrir onde morava, um lugar central e conhecido. Uma criada deixou-me entrar sem cerim�nia, e quando cheguei � sala, uma dama que estava sentada diante de uma m�quina de escrever Remington ergueu-se vivamente com um sorriso agrad�vel de boas-vindas. Mas ficou desapontada quando viu que eu era um estranho, e sentou-se novamente, perguntando-me o objetivo da minha visita.</p><p>A primeira impress�o deixada pela sra. Lyons foi de extrema beleza. Seus olhos e cabelos eram do mesmo tom vivo castanho-avermelhado, e suas faces, embora bastante sardentas, estavam coradas pela frescura encantadora de um moreno trigueiro, como o rosa delicado que se esconde no centro da rosa amarela. De admira��o foi, repito, a primeira impress�o. Mas a segunda foi de cr�tica. Havia alguma coisa sutilmente errada no rosto, certa aspereza de express�o, certa dureza, talvez, do olhar, certa frouxid�o da boca que perturbavam sua beleza perfeita. Mas estes, naturalmente, s�o pensamentos posteriores. Naquele momento fiquei apenas consciente de que estava na presen�a de uma mulher muito bonita e que ela estava perguntando o motivo da minha visita. Eu n�o tinha compreendido totalmente, at� aquele instante, como a minha miss�o era delicada.</p><p>� Tenho o prazer � disse eu � de conhecer o seu pai.</p><p>Foi uma apresenta��o desajeitada, e a dama me fez sentir isso.</p><p>� N�o h� nada em comum entre mim e meu pai � disse ela. � N�o devo nada a ele e os amigos dele n�o s�o meus amigos. Se n�o fosse o falecido sir Charles Baskerville e alguns outros cora��es compassivos, eu podia morrer de fome que meu pai pouco se importava.</p><p>� � a respeito do falecido sir Charles Baskerville que vim procur�-la.</p><p>As sardas se projetaram no rosto da dama.</p><p>� O que posso dizer-lhe sobre ele? � perguntou ela, e seus dedos tocaram nervosamente nas teclas da sua m�quina de escrever.</p><p>� A senhora o conhecia, n�o?</p><p>� Eu j� disse que devo muito � sua bondade. Se consigo me manter, � em grande parte devido ao interesse que ele demonstrou pela minha situa��o infeliz.</p><p>� A senhora se correspondia com ele?</p><p>A dama ergueu os olhos rapidamente com um brilho de raiva nos olhos castanhos.</p><p>� Qual � o objetivo destas perguntas? � ela perguntou vivamente.</p><p>� O objetivo � evitar um esc�ndalo p�blico. � melhor eu faz�-las aqui do que o assunto escapar do nosso controle.</p><p>Ela ficou em sil�ncio e seu rosto ainda estava muito p�lido. Finalmente ergueu os olhos com um jeito um tanto desafiador e temer�rio.</p><p>� Bem, vou responder � disse ela. � Quais s�o as suas perguntas?</p><p>� A senhora se correspondia com sir Charles?</p><p>� Certamente escrevi-lhe uma ou duas vezes para agradecer sua delicadeza e sua generosidade.</p><p>� A senhora sabe as datas dessas cartas?</p><p>� N�o.</p><p>� A senhora alguma vez se encontrou com ele?</p><p>� Sim, uma ou duas vezes, quando ele veio a Coombe Tracey. Ele era um homem muito reservado, e preferia fazer o bem discretamente.</p><p>� Mas se a senhora o viu t�o pouco e escreveu t�o pouco, como ele soube o suficiente sobre os seus neg�cios para poder ajud�-la, como a senhora diz que ele fez?</p><p>Ela enfrentou a minha obje��o com a m�xima presteza.</p><p>� Havia v�rios cavalheiros que conheciam a minha triste hist�ria e se uniram para me ajudar. Um foi o sr. Stapleton, um vizinho e amigo �ntimo de sir Charles. Ele foi extremamente bondoso, e foi por interm�dio dele que sir Charles soube do meu caso.</p><p>Eu j� sabia que sir Charles Baskerville havia usado Stapleton como intermedi�rio na sua ajuda aos outros em v�rias ocasi�es, de modo que a afirma��o da dama tinha cunho de verdade.</p><p>� A senhora alguma vez escreveu a sir Charles pedindo a ele para encontrar-se com a senhora? � continuei.</p><p>A sra. Lyons corou de raiva outra vez.</p><p>� Realmente, senhor, esta � uma pergunta muito estranha.</p><p>� Desculpe, madame, mas sou for�ado a repeti-la.</p><p>� Ent�o eu respondo, com certeza n�o.</p><p>� Nem no pr�prio dia da morte de sir Charles?</p><p>A cor desapareceu num instante, e um rosto cadav�rico estava diante de mim. Seus l�bios secos n�o conseguiam dizer o �N�o� que eu mais vi do que ouvi.</p><p>� Certamente sua mem�ria a engana � eu disse. � Posso at� citar um trecho da sua carta. Ela diz �Por favor, por favor, j� que o senhor � um cavalheiro, queime esta carta e esteja no port�o �s 22 horas.�</p><p>Pensei que ela tivesse desmaiado, mas ela se recuperou com um esfor�o supremo.</p><p>� Ser� que n�o existem mais cavalheiros? � ela perguntou ofegante.</p><p>� A senhora faz uma injusti�a a sir Charles. Ele queimou a carta. Mas �s vezes uma carta pode ser leg�vel mesmo quando queimada. A senhora admite agora que a escreveu?</p><p>� Sim, escrevi � ela exclamou, despejando a alma numa torrente de palavras. Eu a escrevi. Por que deveria negar? N�o tenho nenhum motivo para me envergonhar disso. Eu queria que ele me ajudasse. Eu acreditava que se falasse com ele, poderia conseguir a sua ajuda, de modo que pedi a ele para se encontrar comigo.</p><p>� Mas por que numa hora dessas?</p><p>� Porque eu tinha acabado de saber que ele ia para Londres no dia seguinte e podia ficar fora durante meses. Havia motivos que me impediam de chegar l� mais cedo.</p><p>� Mas por que um encontro no jardim em vez de uma visita � casa?</p><p>� O senhor acha que uma mulher pode ir sozinha a essa hora � casa de um solteir�o?</p><p>� Bem, o que aconteceu quando a senhora chegou l�?</p><p>� Eu n�o fui.</p><p>� Sra. Lyons!</p><p>� N�o, juro-lhe por tudo que me � sagrado. N�o fui. Uma coisa interferiu para impedir a minha ida.</p><p>� O que foi?</p><p>� Isso � assunto particular. N�o posso contar.</p><p>� A senhora reconhece ent�o que marcou um encontro com sir Charles na pr�pria hora e no lugar em que ele morreu, mas nega ter comparecido.</p><p>� Essa � a verdade.</p><p>Interroguei-a repetidas vezes, mas n�o consegui ir al�m desse ponto.</p><p>� Sra. Lyons � eu disse quando me levantei depois desta entrevista longa e inconclusiva � a senhora est� assumindo uma responsabilidade muito grande</p><p>e colocando-se numa posi��o bastante falsa por n�o confessar tudo o que sabe. Se eu tiver de pedir o aux�lio da pol�cia, a senhora descobrir� que est� seriamente comprometida. Se a senhora � inocente, por que negou no in�cio ter escrito a sir Charles naquela data?</p><p>� Porque eu receava que fosse tirada alguma conclus�o falsa disso, e que eu me visse envolvida num esc�ndalo.</p><p>� E por que a senhora insistiu tanto para que sir Charles destru�sse a sua carta?</p><p>� Se o senhor tivesse lido a carta, saberia.</p><p>� Eu n�o disse que havia lido toda a carta.</p><p>� O senhor citou uma parte dela.</p><p>� Citei o p�s-escrito. A carta, como disse, foi queimada e ela n�o era inteiramente leg�vel. Pergunto-lhe mais uma vez por que insistiu para que sir Charles destru�sse esta carta que ele recebeu no dia da sua morte?</p><p>� O assunto � muito particular.</p><p>� � mais um motivo para a senhora evitar uma investiga��o p�blica.</p><p>� Vou contar ao senhor, ent�o. Se o senhor ouviu alguma coisa sobre a minha infeliz hist�ria, saber� que fiz um casamento precipitado e tive motivos para me arrepender dele.</p><p>� Ouvi dizer isso.</p><p>� Minha vida tem sido uma persegui��o incessante de um marido que detesto. A lei est� do lado dele, e cada dia enfrento a possibilidade de ele poder me obrigar a ir viver com ele. Na ocasi�o em que escrevi esta carta a sir Charles, eu soubera que havia uma perspectiva de recuperar a minha liberdade se pudesse fazer face a certas despesas. Isso significava tudo para mim, paz de esp�rito, felicidade, amor-pr�prio, tudo. Eu conhecia a generosidade de sir Charles, e achei que se ele ouvisse a hist�ria dos meus pr�prios l�bios, me ajudaria.</p><p>� Ent�o por que a senhora n�o foi?</p><p>� Porque, nesse meio-tempo, recebi ajuda de outra fonte.</p><p>� Ent�o por que a senhora n�o escreveu a sir Charles e explicou isto?</p><p>� Era o que eu faria se n�o tivesse visto a not�cia da sua morte no jornal na manh� seguinte.</p><p>A hist�ria da mulher era coerente, e as minhas perguntas foram incapazes de abal�-la. Eu s� podia confirm�-la descobrindo se ela realmente iniciara a a��o de div�rcio contra seu marido na ocasi�o da trag�dia ou por volta dessa �poca.</p><p>Era pouco prov�vel que ela se atrevesse a dizer que n�o esteve na Mans�o Baskerville se realmente tivesse estado, porque seria necess�ria uma charrete para lev�-la at� l�, e s� poderia ter voltado a Coombe Tracey nas primeiras horas da manh�. Uma excurs�o dessas n�o podia ser mantida em segredo. Portanto, a probabilidade era de que ela estivesse dizendo a verdade ou, pelo menos, parte da verdade. Eu sa� confuso e desanimado. Mais uma vez havia chegado �quele beco sem sa�da que parecia existir em todos os caminhos pelos quais eu tentava chegar ao objetivo da minha miss�o. Mas, apesar disso, quanto mais eu pensava no rosto da mo�a e no seu comportamento, mais eu sentia que alguma coisa estava sendo escondida de mim. Por que ela ficara t�o p�lida? Por que lutara contra cada confiss�o at� que esta fosse extra�da dela � for�a? Por que fora t�o reticente na �poca da trag�dia? Certamente a explica��o de tudo isto n�o podia ser t�o inocente como ela queria me fazer crer. No momento eu n�o podia continuar naquela dire��o, mas devia me voltar para aquela outra pista que tinha de ser procurada entre as cabanas de pedra acima do p�ntano.</p><p>E esse era um rumo muito vago. Percebi isso quando voltava de charrete e notei que colina ap�s colina exibiam vest�gios do povo antigo. A �nica indica��o de Barrymore era de que o estranho morava numa dessas cabanas abandonadas, e centenas delas est�o espalhadas por todo o p�ntano. Mas eu tinha a minha pr�pria experi�ncia como guia, j� que ela havia me mostrado o homem de p� sobre o cume do Pico Rochoso. Esse, ent�o, deveria ser o centro da minha busca. A partir dali eu devia explorar cada cabana do p�ntano at� encontrar a certa. Se este homem estivesse dentro dela, eu tinha de descobrir pelos seus pr�prios l�bios, apontando o meu rev�lver se necess�rio, quem era ele e por que nos seguira por tanto tempo. Ele podia escapar de n�s no meio da multid�o da Regent Street, mas ficaria embara�ado para fazer isso no p�ntano deserto. Por outro lado, se eu encontrasse a cabana e o seu inquilino n�o estivesse dentro dela, eu teria de ficar l�, por mais longa que fosse a vig�lia, at� ele voltar. Holmes o havia perdido em Londres. Seria realmente um triunfo para mim se pudesse ach�-lo, coisa em que meu mestre havia falhado.</p><p>A sorte tinha estado contra n�s v�rias vezes nesta investiga��o, mas agora finalmente ela veio em meu aux�lio. E o mensageiro da boa nova n�o era outro sen�o o sr. Frankland, que estava parado, com as su��as grisalhas e o rosto vermelho, do lado de fora do port�o do seu jardim, que dava para a estrada pela qual eu seguia.</p><p>� Bom dia, dr. Watson � exclamou ele com um bom humor incomum. � O senhor precisa realmente dar um descanso aos seus cavalos e entrar para tomar um c�lice de vinho e me felicitar.</p><p>Meus sentimentos em rela��o a ele estavam longe de ser amistosos depois do que eu ouvira a respeito do modo como tratara a filha, mas eu estava ansioso para mandar Perkins e a charrete para casa, e a oportunidade era boa. Desci e mandei um recado para sir Henry de que voltaria a p� a tempo para o jantar. Depois segui Frankland at� a sala de jantar.</p><p>� � um grande dia para mim, dr. Watson, um dos dias mais memor�veis da minha vida! � exclamou ele com muitas risadinhas. � Realizei uma fa�anha dupla. Quero mostrar a eles nesta regi�o que lei � lei, e que h� um homem aqui que n�o tem medo de invoc�-la. Estabeleci uma servid�o de passagem pelo meio do velho parque de Middleton, bem no meio dele, dr. Watson, a 90 metros da sua pr�pria porta da frente. O que acha disso? Ensinaremos a estes magnatas que eles n�o podem passar tiranicamente sobre os direitos dos plebeus, diabos os levem! E fechei o bosque no lugar onde a fam�lia Fernworthy costumava fazer piqueniques. Esta gente infernal parece pensar que n�o h� nenhum direito de propriedade, e que eles podem invadir o lugar que quiserem com seus pap�is e suas garrafas. Os dois casos decididos, dr. Watson, e os dois a meu favor. N�o tinha um dia desses desde que processei sir John Morland por invas�o, porque ele atirou em seu pr�prio parque.</p><p>� Como diabo o senhor conseguiu isso?</p><p>� Procurei refer�ncias nos livros, dr. Watson. Vale a pena ler � Frankland versus Morland, Tribunal Superior de Justi�a. Custou-me 200 libras, mas consegui minha senten�a.</p><p>� Isso lhe trouxe algum benef�cio?</p><p>� Nenhum, senhor, nenhum. Orgulho-me de dizer que n�o tenho nenhum interesse na quest�o. Ajo inteiramente por um senso de dever p�blico. N�o tenho nenhuma d�vida, por exemplo, de que a fam�lia Fernworthy vai queimar minha ef�gie esta noite. Eu disse � pol�cia, na �ltima vez que eles fizeram isso, que devia impedir estas exibi��es vergonhosas. A pol�cia do Condado est� numa situa��o escandalosa, senhor, e n�o me deu a prote��o a que tenho direito. O caso Frankland versus Regina levar� o assunto ao conhecimento do p�blico. Eu avisei que eles iriam lamentar o tratamento que me dispensaram, e as minhas palavras j� se tornaram realidade.</p><p>� Como assim? � perguntei.</p><p>O velho assumiu uma express�o muito astuta.</p><p>� Porque eu poderia contar a eles o que eles est�o loucos para saber; mas nada me convencer� a ajudar os patifes de alguma maneira.</p><p>Eu estivera procurando alguma desculpa para poder me livrar dos seus mexericos, mas comecei a querer ouvir mais. Eu j� vira o suficiente da natureza caprichosa do velho pecador para compreender que qualquer sinal de interesse seria a maneira mais certa de interromper as suas confid�ncias.</p><p>� Algum caso de invas�o, sem d�vida? � eu disse de maneira indiferente.</p><p>� Ha, ha, meu rapaz, um assunto muito mais importante do que esse! � quanto ao condenado no p�ntano.</p><p>Levei um susto. � O senhor n�o quer dizer que sabe onde ele est�? � perguntei.</p><p>� Talvez eu n�o saiba exatamente onde ele est�, mas tenho certeza absoluta de que posso ajudar a pol�cia a p�r as m�os nele. Nunca lhe ocorreu que a maneira de pegar esse homem � descobrir onde ele consegue a comida, e assim segui-la at� ele?</p><p>Ele certamente parecia estar chegando incomodamente perto da verdade. � Sem d�vida � eu disse. � Mas como o senhor sabe que ele est� em algum lugar do p�ntano?</p><p>� Sei porque vi com os meus pr�prios olhos o mensageiro que leva a comida para ele.</p><p>Meu cora��o ficou apertado por causa de Barrymore. Era uma coisa s�ria cair em poder deste velho abelhudo vingativo. Mas seu coment�rio seguinte tirou um peso da minha alma.</p><p>� O senhor ficaria surpreso de saber que a comida dele � levada por uma crian�a. Eu o vejo todo dia pelo meu telesc�pio do telhado. Ele passa pelo mesmo caminho � mesma hora, e para quem ele estaria levando sen�o para o condenado?</p><p>Isso era sorte, realmente! Mas controlei todo sinal de interesse. Uma crian�a! Barrymore havia dito que o nosso desconhecido era abastecido por um rapaz. Foi na pista dele, e n�o na do condenado, que Frankland havia trope�ado. Se eu conseguisse extrair o que ele sabia, isso podia me poupar uma busca longa e cansativa. Mas incredulidade e indiferen�a eram, evidentemente, minhas cartas mais fortes.</p><p>� Eu diria que � muito mais prov�vel que seja o filho de algum dos pastores do p�ntano levando o jantar do pai.</p><p>O melhor sinal de obje��o p�s fogo no velho autocrata. Seus olhos adquiriram uma express�o maligna para mim e suas su��as grisalhas se eri�aram como as de um gato enfurecido.</p><p>� Ora, dr. Watson! � disse ele apontando para a vastid�o do p�ntano. � Est� vendo aquele pico rochoso negro l� longe? Bem, est� vendo a colina baixa mais adiante, com o espinheiro em cima? Aquela � a parte mais rochosa de todo p�ntano. Acha que um pastor teria probabilidade de ficar num lugar daquele? A sua sugest�o, dr. Watson, � completamente absurda.</p><p>Respondi humildemente que havia falado sem conhecer todos os fatos. Minha humildade agradou-lhe e levou-o a fazer outras confid�ncias.</p><p>� Pode estar certo, dr. Watson, de que tenho muito bons fundamentos antes de chegar a uma opini�o. Vi o menino v�rias vezes com a sua trouxa. Todos os dias, e ocasionalmente duas vezes por dia, pude... mas espere um momento, dr. Watson. Os meus olhos me enganam ou h� no momento alguma coisa se movendo na encosta daquela colina?</p><p>Estava a v�rios quil�metros de dist�ncia, mas pude ver nitidamente um pontinho preto contra o verde e o cinzento.</p><p>� Venha, venha! � exclamou Frankland, ao subir a escada correndo. � O senhor ver� com seus pr�prios olhos e julgar� por si mesmo.</p><p>O telesc�pio, um instrumento enorme montado sobre um trip�, estava sobre as folhas de chumbo do telhado. Frankland grudou o olho nele e deu um grito de satisfa��o.</p><p>� Depressa, dr. Watson, depressa, antes que ele passe por cima da colina!</p><p>L� estava ele, realmente, um menino com uma pequena trouxa sobre o ombro, subindo lentamente a colina com esfor�o. Quando chegou ao topo, vi o vulto misterioso delineado por um instante contra o frio c�u azul. Ele olhou em volta com um jeito furtivo e dissimulado, como algu�m que receia ser seguido. Depois desapareceu sobre a colina.</p><p>� Bem! Estou certo?</p><p>� H� um menino, sem d�vida, que parece ter alguma miss�o secreta.</p><p>� E qual � a miss�o at� um policial de condado pode imaginar. Mas eles n�o ouvir�o de mim nem uma palavra, e imponho-lhe a obriga��o do segredo, tamb�m, dr. Watson. Nem uma palavra! O senhor entende!</p><p>� Como quiser.</p><p>� Eles t�m me tratado de um modo vergonhoso, vergonhosamente. Quando os fatos surgirem no processo Frankland versus Regina, acho que uma onda de indigna��o percorrer� o pa�s. Nada me convenceria a ajudar a pol�cia em qualquer sentido. Eles pouco se importariam que fosse eu, em vez da minha ef�gie, que estes patifes queimassem na estaca. O senhor certamente n�o est� indo embora! O senhor me ajudar� a esvaziar a garrafa para comemorar esta grande ocasi�o!</p><p>Mas eu resisti a todos os seus apelos e consegui dissuadi-lo da sua anunciada inten��o de me acompanhar at� em casa. Fui andando pela estrada enquanto os olhos dele me seguiam, e depois entrei pelo p�ntano e me dirigi para a colina rochosa sobre a qual o menino havia desaparecido. Tudo estava agindo a meu favor, e jurei que n�o seria por falta de energia ou perseveran�a que eu perderia a oportunidade que o destino havia lan�ado no meu caminho.</p><p>O sol j� estava se pondo quando cheguei ao alto da colina, e as longas encostas abaixo estavam verde-douradas de um lado e cinzentas do outro. Uma neblina baixa pairava sobre o horizonte distante, do qual se projetavam as formas fant�sticas dos Picos Rochosos de Belliver e Vixen. Na vasta extens�o n�o havia nenhum som e nenhum movimento. Uma grande ave cinzenta, uma gaivota ou um ma�arico, pairava no espa�o azul do c�u. Ela e eu parec�amos ser as �nicas coisas vivas entre a ab�bada enorme do c�u e o deserto abaixo. O cen�rio �rido, a sensa��o de isolamento e mist�rio e a urg�ncia da minha tarefa provocaram um calafrio no meu cora��o. O menino n�o podia ser visto em lugar nenhum. Mas abaixo de mim, numa fenda das colinas, havia um c�rculo de antigas cabanas de pedra, e no meio delas havia uma que conservava uma cobertura suficiente para servir como prote��o contra o vento. Meu cora��o deu um salto quando a vi. Este devia ser o abrigo onde o estranho se escondia. Por fim meu p� estava no limiar do seu esconderijo, seu segredo estava ao meu alcance.</p><p>Quando me aproximei da cabana, caminhando com tanto cuidado quanto Stapleton teria ao se aproximar da borboleta escolhida com a rede preparada, certifiquei-me de que o lugar havia realmente sido usado como habita��o. Um caminho impreciso por entre as rochas levava at� a abertura dilapidada que servia de porta. Tudo estava em sil�ncio l� dentro. O desconhecido podia estar escondido ali ou podia estar vagando pelo p�ntano. Meus nervos vibravam com a sensa��o de aventura. Jogando meu cigarro para o lado, segurei a coronha do rev�lver, fui rapidamente at� a porta e olhei para dentro. O lugar estava vazio.</p><p>Mas havia muitos sinais de que eu n�o seguira um rastro falso. Ali era certamente o lugar onde o homem morava. Alguns cobertores enrolados num imperme�vel estavam sobre aquela mesma laje de pedra na qual o homem neol�tico certa vez dormira. As cinzas de uma fogueira estavam amontoadas numa grade r�stica. Ao lado dela havia alguns utens�lios de cozinha e um balde com �gua pela metade. Uma confus�o de latas vazias mostrava que o lugar havia sido ocupado por algum tempo, e vi, quando meus olhos ficaram acostumados � luz fraca, uma canequinha e uma garrafa pela metade de aguardente colocadas num canto. No meio da cabana, uma pedra chata servia de mesa, e sobre ele estava uma pequena trouxa de pano, a mesma, sem d�vida, que eu vira pelo telesc�pio no ombro do menino. Continha um peda�o de p�o, uma l�ngua em lata e duas latas de p�ssegos em conserva. Quando as deixei novamente no lugar, ap�s t�-las examinado, meu cora��o deu um pulo ao ver que embaixo havia uma folha de papel com algo escrito. Peguei-a, e foi isto o que li, rabiscado toscamente a l�pis:</p><empty-line/><p>O dr. Watson foi at� Coombe Tracey.</p><empty-line/><p>Durante um minuto fiquei parado ali com o papel na m�o refletindo sobre o sentido desta curta mensagem. Era eu, ent�o, e n�o sir Henry, quem estava sendo seguido por este homem misterioso. Ele n�o havia me seguido pessoalmente, mas havia posto um agente, o menino, talvez, na minha pista, e este era o seu relat�rio. Provavelmente eu n�o tinha dado um passo, desde que estava no p�ntano, que n�o tivesse sido observado e relatado. Sempre havia� aquela sensa��o de uma for�a invis�vel, uma rede fina puxada em volta de n�s com habilidade e delicadeza infinitas, segurando-nos t�o suavemente que s� em algum momento supremo � que se podia perceber que se estava emaranhado em suas malhas.</p><p>Se havia um relat�rio, podia haver outros, de modo que examinei a cabana em busca deles. Mas n�o havia nenhum vest�gio de nada parecido, nem consegui descobrir qualquer sinal que pudesse indicar o car�ter ou as inten��es do homem que morava neste lugar estranho, a n�o ser que ele devia ter h�bitos espartanos e dava pouca import�ncia aos confortos da vida. Quando pensei nas chuvas fortes e olhei para o teto escancarado, compreendi como devia ser forte e imut�vel o objetivo que o havia mantido naquela habita��o in�spita. Seria ele o nosso inimigo maligno, ou era ele por acaso o nosso anjo da guarda? Jurei que n�o deixaria a cabana at� saber.</p><p>Do lado de fora o sol estava se pondo e o horizonte a oeste exibia chamas escarlates e douradas. Seu reflexo era enviado de volta em manchas avermelhadas pelos charcos distantes que ficavam no meio do grande P�ntano de Mire. L� estavam as duas torres da Mans�o Baskerville, e ali uma mancha distante de fuma�a que indicava a aldeia de Grimpen. Entre as duas, atr�s da colina, estava a casa dos Stapletons. Tudo era bonito, suave e tranq�ilo � luz dourada do anoitecer, mas, apesar disso, eu olhava para eles e minha alma n�o participava da paz da natureza, mas tremia diante da incerteza e do terror daquele encontro que cada minuto deixava mais pr�ximo. Com os nervos vibrando, mas um prop�sito firme, sentei-me no interior escuro da cabana e esperei com paci�ncia a chegada do seu morador.</p><p>E ent�o, finalmente, eu o ouvi. De longe veio o ru�do vivo de uma bota batendo numa pedra. Depois outro e mais outro, chegando cada vez mais perto. Encolhi-me no canto mais escuro e engatilhei a pistola no meu bolso, resolvido a n�o me mostrar at� ter a oportunidade de ver alguma coisa do estranho. Houve uma longa pausa que indicou que ele havia parado. Depois, mais uma vez os passos se aproximaram e uma sombra caiu atravessada na abertura da cabana.</p><p>� Est� uma noite encantadora, meu caro Watson � disse uma voz muito conhecida. � Acho realmente que voc� ficar� mais confort�vel fora do que dentro.</p><empty-line/></section><section><p><strong>morte no p�ntano</strong></p><p>Por um momento fiquei sentado sem f�lego, mal conseguindo acreditar nos meus ouvidos. Depois meus sentidos e minha voz voltaram, enquanto um peso esmagador de responsabilidade pareceu ter sido tirado dos meus ombros num instante. Aquela voz fria, incisiva e ir�nica s� podia pertencer a um homem no mundo.</p><p>� Holmes! � exclamei. � Holmes!</p><p>� Saia � disse ele � e, por favor, tome cuidado com o rev�lver.</p><p>Abaixei-me sob a trave da entrada e l� estava ele sentado sobre uma pedra do lado de fora com os olhos cinzentos exibindo uma express�o divertida ao verem o meu espanto. Ele estava magro e cansado, mas sereno e alerta, com seu rosto perspicaz bronzeado pelo sol e maltratado pelo vento. Com seu terno de tweed e bon� de pano, parecia um turista no p�ntano, e havia conseguido, com aquele amor felino pela</p><p>limpeza pessoal que era uma de suas caracter�sticas, que o seu queixo ficasse t�o liso e sua roupa branca t�o perfeita como se estivesse em Baker Street.</p><p>� Nunca fiquei mais satisfeito de ver algu�m em minha vida � eu disse ao apertar-lhe a m�o.</p><p>� Ou mais espantado, hein?</p><p>� Bem, devo confessar que sim.</p><p>� A surpresa n�o foi s� sua, garanto-lhe. Eu n�o sabia que voc� havia descoberto o meu retiro ocasional, e menos ainda que voc� estivesse dentro dele, at� que cheguei a vinte passos da porta.</p><p>� A marca dos meus p�s, suponho?</p><p>� N�o, Watson; acho que n�o conseguiria reconhecer as suas pegadas entre todas as pegadas do mundo. Se voc� quiser mesmo me enganar, deve mudar de charutaria; porque quando vejo a ponta de um cigarro marcada Bradley, Oxford Street, sei que o meu amigo Watson est� nas vizinhan�as. Voc� a ver� ali, ao lado do caminho. Voc� jogou-a ali, sem d�vida, naquele momento supremo em que invadiu a cabana vazia.</p><p>� Exatamente.</p><p>� Foi o que pensei, e conhecendo a sua tenacidade admir�vel, fiquei convencido de que voc� estava sentado de tocaia, com uma arma ao seu alcance, esperando que o morador voltasse. Ent�o voc� pensou realmente que eu fosse o criminoso?</p><p>� Eu n�o sabia quem era voc�, mas estava decidido a descobrir.</p><p>� Excelente, Watson! E como voc� me localizou? Ser� que voc� me viu na noite da ca�ada ao condenado, quando fui t�o imprudente a ponto de permitir que a lua ficasse por tr�s de mim?</p><p>� Sim, eu o vi nesta noite.</p><p>� E sem d�vida revistou todas as cabanas at� chegar a esta?</p><p>� N�o, o seu menino foi observado, e isso me deu uma indica��o de onde procurar.</p><p>� O velho cavalheiro com o telesc�pio, sem d�vida. Na primeira vez n�o consegui entender o que era quando vi a luz brilhando nas lentes. � Ele se levantou e olhou para dentro da cabana. � Ah, vejo que Cartwright trouxe alguns mantimentos. O que � este papel? Ent�o voc� esteve em Coombe Tracey, n�o esteve?</p><p>� Estive.</p><p>� Para ver a sra. Laura Lyons?</p><p>� Exatamente.</p><p>� Muito bem! Nossas pesquisas, evidentemente, t�m sido paralelas, e quando juntarmos os nossos resultados teremos um conhecimento bastante completo do caso.</p><p>� Bem, estou sinceramente satisfeito com o fato de voc� estar aqui, porque a responsabilidade e o mist�rio estavam se tornando grandes demais para os meus nervos. Mas que milagre trouxe voc� aqui, e o que tem feito? Pensei que voc� estivesse em Baker Street trabalhando naquele caso de chantagem.</p><p>� Foi isso que eu quis que voc� pensasse.</p><p>� Ent�o voc� me usou e mesmo assim n�o confia em mim! � exclamei com certa m�goa. � Acho que merecia melhor tratamento de sua parte, Holmes.</p><p>� Meu caro amigo, voc� tem sido inestim�vel para mim neste e em muitos outros casos, e pe�o-lhe que me perdoe se dei a impress�o de fazer um truque com voc�. Na verdade, foi em parte para seu pr�prio bem que fiz isso, e foi a minha avalia��o do perigo que voc� corria que me fez vir at� aqui e examinar o caso pessoalmente. Se eu estivesse com sir Henry e voc�, certamente o meu ponto de vista teria sido igual ao seu, e minha presen�a teria prevenido os nossos tremendos advers�rios para ficarem em guarda. Como est�, pude andar por a� como provavelmente n�o poderia ter feito se estivesse morando na Mans�o, e continuo sendo um fator desconhecido no neg�cio, pronto a lan�ar todo o meu peso num momento decisivo.</p><p>� Mas por que esconder de mim?</p><p>� Porque o fato de voc� saber n�o podia me ajudar, e provavelmente resultaria na minha descoberta. Voc� poderia querer me contar alguma coisa, ou, em sua bondade, teria me trazido um ou outro conforto, e assim correr�amos um risco desnecess�rio. Trouxe Cartwright comigo para c� � voc� se lembra do sujeito baixinho do escrit�rio de mensageiros � e ele tem cuidado dos meus desejos simples: um peda�o de p�o e um colarinho limpo. O que um homem quer mais? Ele me proporcionou um par de olhos extra sobre um par de p�s muito �geis, e ambos t�m sido inestim�veis.</p><p>� Ent�o meus relat�rios foram desperdi�ados! � Minha voz tremeu quando me lembrei das dificuldades e do orgulho com que os havia redigido.</p><p>Holmes tirou um ma�o de pap�is do bolso.</p><p>� Aqui est�o os seus relat�rios, meu caro amigo, e bastante manuseados, garanto-lhe. Tomei provid�ncias excelentes, e eles s� se atrasam um dia em seu caminho. Devo cumpriment�-lo calorosamente pelo zelo e a intelig�ncia que voc� demonstrou num caso extraordinariamente dif�cil.</p><p>Eu ainda estava bastante magoado por ter sido logrado, mas o carinho do elogio de Holmes afastou a raiva da minha mente. Senti tamb�m no meu �ntimo que ele tinha raz�o no que dissera e que era realmente melhor para o nosso objetivo que eu n�o soubesse que ele estava no p�ntano.</p><p>� Assim � melhor � ele disse vendo a sombra desaparecer do meu rosto. � E agora conte-me o resultado da sua visita � sra. Laura Lyons. N�o foi dif�cil, para mim, imaginar que foi para v�-la que voc� tinha ido, porque sei que ela � a �nica pessoa em Coombe Tracey que pode nos ajudar nesse assunto. Na verdade, se voc� n�o tivesse ido hoje, � muito prov�vel que eu fosse amanh�.</p><p>O sol havia se posto e o crep�sculo ca�a sobre o p�ntano. O ar esfriara e n�s entramos na cabana para nos aquecer. Ali, sentados juntos na semi-escurid�o, contei a Holmes a minha conversa com a mulher. Ele ficou t�o interessado que tive que repetir uma parte duas vezes antes que ele se desse por satisfeito.</p><p>� Isto � muito importante � ele disse quando eu terminei. � Preenche uma lacuna que eu n�o conseguira transpor neste caso bastante complexo. Voc� sabe que existe uma grande intimidade entre esta dama e Stapleton?</p><p>� Eu n�o sabia da grande intimidade.</p><p>� N�o pode haver d�vida a respeito disso. Eles se encontram, eles se escrevem, h� um entendimento completo entre eles. Agora, isto coloca uma arma muito poderosa em nossas m�os. Se eu pudesse us�-la pelo menos para afastar sua mulher...</p><p>� Sua mulher?</p><p>� Estou dando a voc� uma informa��o em troca de todas que voc� me deu. A dama que tem passado aqui por senhorita Stapleton �, na verdade, mulher dele.</p><p>� Santo Deus, Holmes! Tem certeza do que est� dizendo? Como ele pode ter permitido que sir Henry se apaixonasse por ela?</p><p>� O fato de sir Henry se apaixonar n�o podia fazer mal a ningu�m, exceto a sir Henry. Ele tomou cuidado para que sir Henry n�o tivesse rela��es com ela, como voc� mesmo observou. Repito que a dama � sua mulher e n�o sua irm�.</p><p>� Mas por que esta impostura elaborada?</p><p>� Por que ele previu que ela seria muito mais �til para ele no papel de uma mulher livre.</p><p>Todos os meus instintos n�o manifestados, minhas desconfian�as vagas, tomaram forma de repente e se concentraram no naturalista. Naquele homem impulsivo, p�lido, com seu chap�u de palha e sua rede de borboletas, tive a impress�o de ver alguma coisa terr�vel, uma criatura de paci�ncia e ast�cia infinitas, com um rosto sorridente e um cora��o assassino.</p><p>� � ele, ent�o, o nosso inimigo, foi ele que nos seguiu em Londres?</p><p>� Foi assim que decifrei o enigma.</p><p>� E o aviso � deve ter vindo dela!</p><p>� Exatamente.</p><p>A forma de alguma vilania monstruosa, entrevista, meio imaginada, surgiu atrav�s da escurid�o que havia me rodeado por tanto tempo.</p><p>� Mas voc� tem certeza disso, Holmes? Como voc� sabe que a mulher � casada com ele?</p><p>� Porque ele at� agora esqueceu-se de contar a voc� um trecho verdadeiro de autobiografia por ocasi�o do primeiro encontro com voc�, e arrisco-me a dizer que se arrependeu disso muitas vezes. Ele foi diretor de um col�gio no norte da Inglaterra. Bem, nada � mais f�cil do que seguir a pista de um diretor de col�gio. Existem ag�ncias escolares por meio das quais se pode identificar qualquer homem que tenha estado na profiss�o. Uma pequena investiga��o mostrou-me que um col�gio acabou arruinado em circunst�ncias atrozes, e que o homem que era o propriet�rio � o nome era diferente � havia desaparecido com a mulher. As descri��es combinam. Quando eu soube que o homem desaparecido se dedicava � entomologia, a identifica��o ficou completa.</p><p>A escurid�o estava diminuindo, mas muita coisa ainda estava escondida pelas sombras.</p><p>� Se esta mulher � realmente casada com ele, onde entra a sra. Laura Lyons? � perguntei.</p><p>� Esse � um dos pontos sobre o qual as suas pr�prias pesquisas lan�aram uma luz. A sua entrevista com ela esclareceu muito a situa��o. Eu n�o sabia sobre o planejado div�rcio entre ela e seu marido. Nesse caso, considerando Stapleton um homem livre, ela sem d�vida pretendia tornar-se mulher dele.</p><p>� E quando ela abrir os olhos?</p><p>� Ora, ent�o podemos encontrar uma dama prestativa. Deve ser a nossa primeira tarefa ir v�-la, n�s dois, amanh�. Voc� n�o acha, Watson, que est� longe do seu pupilo h� bastante tempo? O seu lugar deve ser na Mans�o Baskerville.</p><p>As �ltimas riscas vermelhas haviam desaparecido a oeste, e a noite ca�ra sobre o p�ntano. Algumas estrelas desmaiadas estavam brilhando num c�u violeta.</p><p>� Uma �ltima pergunta, Holmes � eu disse ao me levantar. � Certamente n�o h� nenhuma necessidade de segredo entre mim e voc�. Qual � o significado disso tudo? O que ele procura?</p><p>A voz de Holmes ficou mais baixa quando respondeu.</p><p>� � assassinato, Watson, refinado, a sangue-frio, assassinato premeditado. N�o me pergunte detalhes. Minhas redes est�o se fechando sobre ele, assim como as dele est�o sobre sir Henry, e com a sua ajuda ele j� est� quase � minha merc�. S� h� um perigo que pode nos amea�ar. � ele atacar antes de estarmos prontos para faz�-lo. Mais um dia, dois no m�ximo, e tenho o meu caso completo, mas at� l� cuide do seu pupilo t�o atentamente quanto uma m�e extremosa vigia seu filho doente. A sua miss�o hoje est� justificada, e apesar disso quase cheguei a desejar que voc� n�o tivesse sa�do do lado dele. Ou�a!</p><p>Um grito terr�vel, um brado de horror e ang�stia, explodiu no sil�ncio do p�ntano. Esse grito medonho gelou o sangue em minhas veias.</p><p>� Oh, meu Deus! � eu disse, ofegante. � O que � isso? O que significa isso?</p><p>Holmes levantara-se de um salto, e vi o seu vulto escuro e atl�tico na porta da cabana, com os ombros curvados, a cabe�a esticada para a frente e os olhos perscrutando a escurid�o.</p><p>� Sil�ncio! � ele sussurrou. � Sil�ncio!</p><p>O grito fora alto devido � sua veem�ncia, mas havia ressoado de algum lugar afastado na plan�cie escura. Agora explodia nos nossos ouvidos, mais perto, mais alto, mais urgente do que antes.</p><p>� Onde ele est�? � sussurrou Holmes, e eu percebi pela excita��o da sua voz que ele, o homem de ferro, estava abalado at� a alma. � Onde ele est�, Watson?</p><p>� L�, eu acho. � Apontei para a escurid�o.</p><p>� N�o, l�!</p><p>Novamente o grito de agonia atravessou a noite silenciosa, mais alto e muito mais perto do que nunca. E um novo som misturou-se com ele, um troar sussurrado e profundo, musical e, mesmo assim, amea�ador, aumentando e diminuindo como o murm�rio baixo e constante do mar.</p><p>� O c�o! � exclamou Holmes. � Venha, Watson, venha! Deus nos livre de chegarmos tarde demais!</p><p>Ele tinha come�ado a correr pelo p�ntano, e eu o seguia de perto. Mas agora, de algum lugar em meio ao terreno irregular bem � nossa frente, veio um �ltimo grito desesperado e depois uma pancada forte e ensurdecedora. N�s paramos e ficamos ouvindo. Nenhum outro som rompeu o sil�ncio pesado da noite sem vento.</p><p>Vi Holmes p�r a m�o na testa como um homem distra�do. Ele bateu com os p�s no ch�o.</p><p>� Ele chegou antes de n�s, Watson. Estamos atrasados demais.</p><p>� N�o, n�o, com certeza n�o!</p><p>� Como fui tolo em me conter. E voc�, Watson, veja no que d� abandonar o seu pupilo! Mas, por Deus, se o pior aconteceu, n�s o vingaremos!</p><p>Corremos cegamente pela escurid�o, esbarrando em rochas, abrindo caminho atrav�s de moitas de tojo, subindo ofegantes as colinas e descendo encostas correndo, sempre na dire��o do lugar de onde aqueles sons horr�veis tinham vindo. Em cada eleva��o, Holmes olhava em volta ansiosamente, mas as sombras eram densas sobre o p�ntano e nada se movia na sua superf�cie erma.</p><p>� Consegue ver alguma coisa?</p><p>� Nada.</p><p>� Mas, puxa, o que � aquilo?</p><p>Um gemido baixo havia chegado aos nossos ouvidos. L� estava ele novamente � nossa esquerda! Nesse lado, uma crista de rochas terminava numa escarpa �ngreme que dominava uma encosta juncada de pedras. Na sua superf�cie desigual estava estendido um objeto escuro, irregular. Quando corremos na dire��o dele, o contorno vago assumiu uma forma definida. Era um homem prostrado de bru�os no ch�o, com a cabe�a dobrada embaixo dele num �ngulo horr�vel, os ombros arredondados, e o corpo encolhido como se estivesse no ato de dar um salto mortal. A postura era t�o grotesca que n�o percebi no momento que aquele gemido tinha sido a entrega da sua alma. Nem um sussurro, nem um farfalhar vinha agora do vulto escuro sobre o qual nos curvamos. Holmes p�s a m�o sobre ele e ergueu-a novamente com uma exclama��o de horror. A chama do f�sforo que ele riscou iluminou os seus dedos melados e a po�a horr�vel que se ampliava lentamente, saindo do cr�nio esmagado da v�tima. E iluminou mais uma coisa que revirou nossas entranhas � o corpo de sir Henry Baskerville!</p><p>N�o havia possibilidade de algum de n�s esquecer aquele terno peculiar de tweed avermelhado, o mesmo que ele usara na primeira manh� em que o v�ramos em Baker Street. N�s o vimos de relance, e depois a chama do f�sforo piscou e se apagou, ao tempo em que a esperan�a abandonava nossas almas. Holmes gemeu e seu rosto p�lido brilhava na escurid�o.</p><p>� O animal! O animal! � exclamei com os punhos cerrados. � Oh, Holmes, nunca me perdoarei por t�-lo deixado entregue � pr�pria sorte.</p><p>� A culpa � mais minha do que sua, Watson. Para conseguir que o caso ficasse esclarecido e completo, desperdicei a vida do meu cliente. � o maior golpe que j� sofri em minha carreira. Mas como eu poderia saber, como eu poderia saber que ele iria arriscar a sua vida sozinho no p�ntano apesar de todos os meus avisos?</p><p>� O fato de termos ouvido os gritos dele, meu Deus, aqueles gritos, e mesmo assim sermos incapazes de salv�-lo! Onde est� este c�o feroz que o levou � morte? Ele pode estar escondido entre estas rochas neste momento. E Stapleton, onde ele est�? Ele responder� por isto.</p><p>� Vai responder. Cuidarei disso. Tio e sobrinho foram assassinados, o primeiro morreu de pavor pela pr�pria vis�o de uma fera que ele pensava ser sobrenatural, o outro levado ao seu fim na sua fuga louca para escapar dela. Mas agora temos de provar a rela��o entre o homem e a fera. A n�o ser pelo que ouvimos, n�o podemos nem mesmo jurar que ela existe, j� que sir Henry, evidentemente, morreu da queda. Mas, por Deus, por mais astuto que ele seja, o sujeito estar� em meu poder antes que termine mais um dia!</p><p>Ficamos ali com os cora��es amargurados ao lado do corpo desfigurado, esmagados por este desastre repentino e irrevog�vel que havia levado todos os nossos esfor�os prolongados e cansativos a um fim t�o lament�vel. Depois, quando a lua se ergueu, subimos at� o alto das rochas de cima das quais o nosso pobre amigo havia ca�do, e do cume contemplamos o p�ntano escuro, meio prateado e meio sombrio. Ao longe, a quil�metros de dist�ncia, na dire��o de Grimpen, uma luz amarela firme estava brilhando. Ela s� podia vir da casa isolada dos Stapletons. Com uma praga amarga sacudi meu punho para ela enquanto olhava.</p><p>� Por que n�o podemos peg�-lo logo?</p><p>� O nosso caso n�o est� completo. O sujeito � desconfiado e astuto at� o �ltimo grau. N�o se trata do que n�s sabemos, mas do que podemos provar. Se fizermos um movimento em falso, o vil�o ainda pode nos escapar.</p><p>� O que podemos fazer?</p><p>� Teremos muita coisa para fazer amanh�. Esta noite s� podemos realizar os �ltimos ritos para o nosso pobre amigo.</p><p>Descemos juntos a encosta escarpada e nos aproximamos do corpo, negro e n�tido contra as pedras prateadas. A agonia daquelas pernas retorcidas provocara em mim um espasmo de dor e encheram meus olhos de l�grimas.</p><p>� Temos de pedir ajuda, Holmes! N�s n�o podemos carreg�-lo at� a Mans�o. Santo Deus, voc� est� louco?</p><p>Ele havia soltado um grito e se inclinado sobre o corpo. Agora estava dan�ando, rindo e apertando a minha m�o. Poderia ser este o meu amigo s�rio e controlado? Estes eram fogos escondidos, realmente!</p><p>� Uma barba! Uma barba! O homem tem uma barba!</p><p>� Uma barba?</p><p>� N�o � o baronete, ora, � o meu vizinho, o condenado!</p><p>Com pressa febril viramos o corpo de frente, e aquela barba gotejante estava apontada para a lua fria e clara no alto. N�o podia haver nenhuma d�vida quanto � testa saliente e aos olhos afundados de animal. Era, de fato, o mesmo rosto que havia olhado ferozmente para mim, � luz da vela, de cima da pedra, o rosto de Selden, o criminoso.</p><p>Depois, num instante, tudo ficou claro para mim. Lembrei-me de que o baronete havia me contado que dera o seu velho guarda-roupa a Barrymore. Este o havia passado adiante a fim de ajudar Selden em sua fuga. Botas, camisa, bon�, era tudo de sir Henry. A trag�dia ainda era terr�vel, mas este homem havia pelo menos merecido a morte pelas leis do seu pa�s. Contei a Holmes o que acontecera, com o meu cora��o borbulhando de gratid�o e alegria.</p><p>� Ent�o as roupas causaram a morte do pobre-diabo � disse ele. � � evidente que o c�o foi lan�ado na pista de algum objeto de sir Henry, provavelmente a bota que foi surrupiada do hotel, e assim descobriu este homem. Mas h� uma coisa muito estranha: como foi que Selden, no escuro, soube que o c�o estava na sua pista?</p><p>� Ele deve ter ouvido alguma coisa.</p><p>� Ouvir um c�o no p�ntano n�o provocaria num homem duro como este condenado esse paroxismo de terror, a ponto de se arriscar a ser recapturado gritando desesperadamente por socorro. Pelos seus gritos, ele deve ter corrido uma longa dist�ncia depois de saber que o animal estava na sua pista. Como ele soube?</p><p>� Um mist�rio maior para mim � o motivo por que este c�o, supondo que todas as nossas conjecturas estejam corretas...</p><p>� Eu n�o suponho nada.</p><p>� Bem, ent�o, por que este c�o estava solto esta noite? Suponho que nem sempre ele corra solto pelo p�ntano. Stapleton n�o o deixaria ir a menos que tivesse motivos para pensar que sir Henry estaria l�.</p><p>� Minha dificuldade � a maior das duas, porque eu acho que teremos muito em breve uma explica��o para a sua, ao passo que a minha pode permanecer eternamente um mist�rio. A quest�o agora �: o que devemos fazer com o corpo deste pobre-diabo? N�o podemos abandon�-lo aqui para as raposas e os corvos.</p><p>� Sugiro que o deixemos dentro de uma das cabanas at� conseguirmos nos comunicar com a pol�cia.</p><p>� Exatamente. N�o tenho d�vida de que voc� e eu conseguiremos carreg�-lo at� l�. Ei, Watson, o que � isto? � o pr�prio homem! Nem uma palavra que revele as suas suspeitas, nem uma palavra, ou meus planos ir�o por �gua abaixo.</p><p>Um vulto estava se aproximando de n�s pelo p�ntano, e eu vi o brilho vermelho fraco de um charuto. A lua brilhava sobre ele, e pude distinguir a forma agitada e o andar l�pido do naturalista. Ele parou quando nos viu, e depois avan�ou novamente.</p><p>� Ora, dr. Watson, n�o � o senhor, �? O senhor � o �ltimo homem que eu esperaria ver aqui no p�ntano a esta hora da noite. Mas, meu Deus, o que � isto? Algu�m ferido? N�o, n�o me diga que � o nosso amigo sir Henry! � Ele passou rapidamente por mim e curvou-se sobre o homem morto. Ouvi uma respira��o �spera e o charuto caiu dos seus dedos.</p><p>� Quem, quem � este? � ele gaguejou.</p><p>� � Selden, o homem que fugiu de Princetown.</p><p>Stapleton virou para n�s um rosto horr�vel, mas com um esfor�o supremo havia superado o seu espanto e o seu desapontamento. Ele olhou rapidamente de Holmes para mim.</p><p>� Meu Deus! Que caso mais chocante! Como foi que ele morreu?</p><p>� Parece que partiu o pesco�o caindo sobre estas pedras. Meu amigo e eu est�vamos passeando pelo p�ntano quando ouvimos um grito.</p><p>� Eu ouvi um grito tamb�m. Foi isso que me fez sair. Eu estava preocupado com sir Henry.</p><p>� Por que com sir Henry em particular? � n�o pude deixar de perguntar.</p><p>� Porque eu havia sugerido que ele fosse l� em casa. Quando n�o apareceu, fiquei surpreso e naturalmente preocupado com sua seguran�a quando ouvi gritos no p�ntano. A prop�sito � seus olhos desviaram-se outra vez do meu rosto para o de Holmes �, o senhor ouviu mais alguma coisa al�m de um grito?</p><p>� N�o � disse Holmes. � O senhor ouviu?</p><p>� N�o.</p><p>� O que quer dizer, ent�o?</p><p>� Oh, o senhor conhece as hist�rias que os camponeses contam sobre um c�o fantasma e assim por diante. Dizem que o ouvem � noite no p�ntano. Eu estava imaginando se tinham ouvido um som assim esta noite.</p><p>� N�s n�o ouvimos nada desse tipo � eu disse.</p><p>� E qual � a sua teoria sobre a morte deste pobre homem?</p><p>� N�o tenho nenhuma d�vida de que a ansiedade e o abandono o fizeram perder a cabe�a. Ele correu pelo p�ntano como um desvairado e acabou caindo aqui e quebrando o pesco�o.</p><p>� Essa parece a teoria mais razo�vel � disse Stapleton, e deu um suspiro que julguei indicar seu al�vio. � O que acha disso, sr. Sherlock Holmes?</p><p>Meu amigo inclinou-se num cumprimento.</p><p>� O senhor � r�pido na identifica��o � disse ele.</p><p>� Estivemos � sua espera por aqui desde que o dr. Watson chegou. O senhor chegou a tempo de ver uma trag�dia.</p><p>� Sim, realmente. N�o tenho d�vida de que a explica��o do meu amigo abrange os fatos. Vou levar uma lembran�a desagrad�vel para Londres amanh�.</p><p>� Oh, o senhor volta amanh�?</p><p>� Essa � a minha inten��o.</p><p>� Espero que sua visita tenha lan�ado alguma luz sobre essas ocorr�ncias que t�m nos deixado intrigados.</p><p>Holmes encolheu os ombros.</p><p>� N�o se pode ter sempre o sucesso que se espera. Um investigador precisa de fatos, e n�o lendas ou rumores. N�o foi um caso satisfat�rio.</p><p>Meu amigo falou do seu jeito mais franco e despreocupado. Stapleton ainda olhava fixamente para ele. Depois virou-se para mim.</p><p>� Eu ia sugerir que lev�ssemos este pobre sujeito para a minha casa, mas minha irm� ficaria com tanto medo que n�o me sinto no direito de fazer isso. Acho que se pusermos alguma coisa sobre o seu rosto ele ficar� em seguran�a at� de manh�.</p><p>E assim fizemos. Resistindo ao oferecimento de hospitalidade de Stapleton, Holmes e eu partimos para a Mans�o Baskerville, deixando que o naturalista voltasse sozinho. Olhando para tr�s, vimos o vulto afastando-se lentamente pelo vasto p�ntano, e atr�s dele aquela mancha preta sobre a encosta prateada que mostrava onde estava ca�do o homem que chegara ao seu fim de uma maneira t�o horr�vel.</p><empty-line/></section><section><p><strong>prendendo as redes</strong></p><p>Estamos quase pegando o homem, finalmente � disse Holmes enquanto caminh�vamos pelo p�ntano. � Que descaramento o sujeito tem! Como ele se recomp�s diante do que deve ter sido um choque quando descobriu que o homem errado fora a v�tima da sua trama. Eu disse a voc� em Londres, Watson, e digo-lhe agora outra vez, que nunca tivemos um inimigo mais merecedor da nossa determina��o.</p><p>� Lamento que ele o tenha visto.</p><p>� Eu tamb�m, a princ�pio. Mas n�o havia meio de evitar isso.</p><p>� Que conseq��ncia voc� acha que ter� para os seus planos o fato de ele saber que voc� est� aqui?</p><p>� Isso pode fazer com que ele fique mais cuidadoso, ou pode lev�-lo imediatamente a adotar medidas desesperadas. Como muitos criminosos espertos, ele pode</p><p>confiar demais na sua pr�pria esperteza e imaginar que nos enganou completamente.</p><p>� Por que n�o o prendemos imediatamente?</p><p>� Meu caro Watson, voc� nasceu para ser um homem de a��o. O seu instinto � sempre fazer alguma coisa en�rgica. Mas supondo, s� para argumentar, que mandemos prend�-lo esta noite, como diabos isso nos ajudaria? N�o podemos provar nada contra ele. Essa � a ast�cia diab�lica da coisa! Se ele estivesse agindo por interm�dio de um agente humano, poder�amos obter alguma prova, mas se tivermos que arrastar este cachorr�o para a luz do dia, isso n�o nos ajudar� a p�r uma corda em volta do pesco�o do seu dono.</p><p>� Certamente temos base para um processo.</p><p>� Nem para a sombra de um, apenas suspeitas e conjecturas. V�o rir de n�s no tribunal se chegarmos l� com essa hist�ria e essas provas.</p><p>� H� a morte de sir Charles.</p><p>� Encontrado morto sem uma marca no corpo. Voc� e eu sabemos que ele morreu de puro pavor, e sabemos tamb�m o que o assustou; mas como vamos fazer com que 12 jurados impass�veis acreditem nisso? Que sinais existem de um c�o? Onde est�o as marcas dos seus dentes? � claro que sabemos que um c�o n�o morde um cad�ver e que sir Charles estava morto antes mesmo de o animal alcan��-lo. Mas temos que provar tudo isto, e n�o estamos em condi��es de fazer isso.</p><p>� Bem, ent�o esta noite?</p><p>� N�o estamos em situa��o melhor esta noite. Novamente, n�o h� nenhuma rela��o direta entre o c�o e a morte do homem. N�s nem vimos o c�o. N�s o ouvimos, mas n�o podemos provar que ele estava correndo na pista deste homem. H� uma aus�ncia absoluta de motivo. N�o, meu caro amigo; precisamos nos conformar com o fato de que n�o temos nenhum caso policial no momento, e que vale a pena corrermos qualquer risco a fim de estabelecer um.</p><p>� E como voc� se prop�e a fazer isso?</p><p>� Eu deposito grandes esperan�as no que a sra. Laura Lyons possa fazer por n�s quando a situa��o ficar clara para ela. E tenho o meu pr�prio plano tamb�m. Basta a cada dia o seu mal; mas espero finalmente estar em posi��o vantajosa antes de o dia terminar.</p><p>N�o consegui arrancar mais nada dele, e ele caminhou, perdido nos seus pensamentos, at� os port�es de Baskerville.</p><p>� Voc� vai entrar?</p><p>� Sim; n�o vejo motivo para me esconder mais. Mas uma �ltima palavra, Watson. N�o diga nada sobre o c�o a sir Henry. Deixe-o pensar que a morte de Selden foi como Stapleton queria que acredit�ssemos. Ele ter� maior coragem para a prova��o pela qual ter� de passar amanh�, quando est� convidado, se me lembro bem do seu relat�rio, para jantar com estas pessoas.</p><p>� E eu tamb�m.</p><p>� Ent�o voc� deve se desculpar e ele precisa ir sozinho. Isso ser� conseguido facilmente. E agora, se estamos atrasados demais para jantar, acho que estamos prontos para as nossas ceias.</p><p>Sir Henry ficou mais satisfeito do que surpreso ao ver Sherlock Holmes, porque, durante alguns dias, ele esperara que os acontecimentos recentes o trouxessem de Londres. Mas ele ergueu as sobrancelhas quando descobriu que o meu amigo n�o tinha nenhuma bagagem nem qualquer explica��o para a falta dela. N�s dois atendemos logo �s suas necessidades, e depois, durante uma ceia tardia, explicamos ao baronete a parte da nossa experi�ncia que achamos que ele devia saber. Mas primeiro tive o desagrad�vel dever de dar a not�cia a Barrymore e sua mulher. Para ele isso pode ter sido um al�vio completo, mas ela chorou amargamente em seu avental. Para todo mundo ele era o homem violento, meio animal e meio dem�nio, mas, para ela, Selden continuou sendo sempre o menininho teimoso da sua pr�pria inf�ncia, a crian�a que segurara em sua m�o. Mau, realmente, � o homem que n�o tem uma mulher para prante�-lo.</p><p>� Fiquei me aborrecendo em casa o dia inteiro, desde que Watson saiu de manh� � disse o baronete. � Acho que mere�o algum cr�dito, porque mantive minha promessa. Se eu n�o tivesse jurado que n�o ia sair sozinho, podia ter tido uma noite mais animada, porque recebi um recado de Stapleton convidando-me para ir at� l�.</p><p>� N�o tenho nenhuma d�vida de que o senhor teria tido uma noite mais animada � disse Holmes secamente. � A prop�sito, suponho que o senhor n�o gostaria que estiv�ssemos pranteando o seu corpo com o pesco�o partido.</p><p>Sir Henry abriu os olhos. � Como foi isso?</p><p>� Este pobre desgra�ado estava vestido com as suas roupas. Receio que o seu empregado, que as deu a ele, possa ter problemas com a pol�cia.</p><p>� Isto � pouco prov�vel. N�o havia marca em nenhuma delas, pelo que sei.</p><p>� Isso � sorte dele � na verdade, � sorte para voc�s todos, j� que voc�s est�o do lado errado da lei nesta quest�o. N�o tenho certeza de que, como um detetive consciencioso, meu primeiro dever n�o seja prender todos os que moram nesta casa. Os relat�rios de Watson s�o documentos muito incriminadores.</p><p>� Mas, e quanto ao caso? � perguntou o baronete. � O senhor conseguiu deslindar alguma coisa? Acho que Watson e eu n�o sabemos muito mais desde que viemos para c�.</p><p>� Acho que estarei em condi��es de esclarecer muita coisa para o senhor dentro de pouco tempo. � um caso extremamente dif�cil e complicado. H� v�rios pontos sobre os quais ainda precisamos de esclarecimentos, mas estes vir�o da mesma forma.</p><p>� Tivemos uma experi�ncia, como Watson deve ter contado ao senhor. Ouvimos o c�o no p�ntano, de modo que posso jurar que nem tudo � uma supersti��o vazia. Lidei um pouco com c�es quando estava no Oeste, e conhe�o um quando ou�o. Se o senhor puder amorda�ar esse e prend�-lo numa corrente, estarei pronto a jurar que o senhor � o maior detetive de todos os tempos.</p><p>� Acho que o amorda�arei e o porei numa corrente se o senhor me der a sua ajuda.</p><p>� Farei tudo que o senhor mandar.</p><p>� Muito bem; e vou pedir-lhe tamb�m para fazer isso cegamente, sem perguntar o motivo.</p><p>� Como quiser.</p><p>� Se o senhor fizer isto, acho que o nosso pequeno problema ser� resolvido em breve. N�o tenho nenhuma d�vida...</p><p>Ele parou de repente e ficou olhando fixamente por cima da minha cabe�a para o ar. A luz batia em seu rosto e ele estava t�o atento e t�o im�vel que podia ser o de uma est�tua cl�ssica n�tida, uma personifica��o da vigil�ncia e da expectativa.</p><p>� O que �? � exclamamos.</p><p>Pude perceber, quando baixou os olhos, que ele estava reprimindo alguma emo��o interior. Suas fei��es ainda estavam compostas, mas seus olhos brilhavam com um j�bilo divertido.</p><p>� Desculpe a admira��o de um connoisseur � ele disse ao apontar para a fila de retratos que cobria a parede oposta. � Watson n�o admite que eu conhe�a alguma coisa sobre arte, mas isso � simples ci�me, porque as nossas opini�es sobre o assunto diferem. Mas esta � realmente uma s�rie �tima de retratos.</p><p>� Bem, alegro-me de ouvi-lo dizer isso � disse sir Henry, olhando com certa surpresa para o meu amigo. � Eu n�o tenho a pretens�o de conhecer muito sobre estas coisas, e seria melhor juiz de um cavalo ou de um novilho do que de um quadro. Eu n�o sabia que o senhor encontrava tempo para essas coisas.</p><p>� Eu conhe�o o que � bom quando vejo, e estou vendo agora. Esse � um Kneller, posso jurar, essa dama de seda azul ali, e o cavalheiro robusto com a peruca deve ser um Reynolds. S�o todos retratos de fam�lia, suponho.</p><p>� Todos eles.</p><p>� O senhor sabe os nomes?</p><p>� Barrymore tem me instru�do a respeito, e acho que posso recitar minha li��o razoavelmente bem.</p><p>� Quem � o cavalheiro com o �culo-de-alcance?</p><p>� Esse � o contra-almirante Baskerville, que serviu com Rodney nas �ndias Ocidentais. O homem com o casaco azul e o rolo de papel � sir William Baskerville, que foi presidente de Comiss�es da C�mara dos Comuns na �poca de Pitt.</p><p>� E este cavalheiro na minha frente, aquele com o veludo preto e as rendas?</p><p>� Ah, o senhor tem o direito de saber sobre ele. Esse � a causa de todas as confus�es, o malvado Hugo, que come�ou o C�o dos Baskervilles. � prov�vel que n�o o esque�amos.</p><p>Fiquei olhando com interesse e uma certa surpresa para o retrato.</p><p>� Santo Deus! � disse Holmes. � Ele parece um homem bastante tranq�ilo e de h�bitos pac�ficos, mas ouso dizer que havia um dem�nio escondido em seus olhos. Eu o havia imaginado como uma pessoa mais robusta e fanfarrona.</p><p>� N�o h� nenhuma d�vida quanto � autenticidade, porque o nome e a data, 1647, est�o atr�s da tela.</p><p>Holmes falou pouca coisa al�m disso, mas o retrato do velho p�ndego parecia exercer uma fascina��o sobre ele, e seus olhos continuaram fixos nele durante a ceia. S� mais tarde, quando sir Henry j� havia ido para o seu quarto, � que pude seguir a linha dos seus pensamentos. Ele me levou de volta ao sal�o de banquetes com a vela do seu quarto na m�o, e a aproximou do retrato manchado pelo tempo na parede.</p><p>� Voc� est� vendo alguma coisa ali?</p><p>Olhei para o chap�u de plumas grandes, os cachos encaracolados, o colarinho de renda branca e o rosto severo e franco emoldurado por eles. N�o era um semblante brutal, mas era afetado, r�gido e severo, com uma boca de l�bios finos resolutos e um olhar friamente intolerante.</p><p>� Parece-se com algu�m que voc� conhece?</p><p>� H� alguma coisa de sir Henry no queixo.</p><p>� Apenas uma sugest�o, talvez. Mas espere um instante! � Ele subiu numa cadeira e, segurando a luz na m�o esquerda, cobriu com o bra�o direito o chap�u largo e os longos cachos.</p><p>� Santo Deus! � exclamei, espantado.</p><p>O rosto de Stapleton havia saltado da tela.</p><p>� Ah, voc� est� vendo agora. Meus olhos foram treinados para examinar fisionomias e n�o seus acess�rios. A primeira qualidade de um investigador criminal � poder ver atrav�s de um disfarce.</p><p>� Mas isto � maravilhoso. Podia ser o retrato dele.</p><p>� Sim, esse � um exemplo interessante de revers�o a um tipo ancestral, que parece ser tanto f�sica como espiritual. Um estudo de retratos de fam�lia � suficiente para converter um homem � doutrina da reencarna��o. O sujeito � um Baskerville, isso � evidente.</p><p>� Com pretens�o na sucess�o.</p><p>� Exatamente. Este acaso do retrato nos forneceu um dos elos perdidos mais �bvios. N�s o temos, Watson, n�s o temos, e arrisco-me a jurar que antes de amanh� � noite ele estar� esvoa�ando em nossa rede t�o impotente quanto uma de suas pr�prias borboletas. Um alfinete, uma rolha e um cart�o, e n�s o acrescentaremos � cole��o de Baker Street! � Ele teve um dos seus raros ataques de riso enquanto se afastava do retrato. Eu n�o o ouvira rir muitas vezes, e isso sempre resultou em mau press�gio para algu�m.</p><p>Acordei cedo de manh�, mas Holmes levantou-se mais cedo ainda, porque eu o vi subindo pelo caminho enquanto me vestia.</p><p>� Devemos ter um dia cheio hoje � ele comentou, e esfregou as m�os com a alegria da a��o. � As redes est�o em posi��o, e o arrast�o est� prestes a come�ar. Saberemos, antes de o dia terminar, se pegamos o nosso l�cio grande de queixo fino, ou se ele fugiu atrav�s das malhas.</p><p>� Voc� j� esteve no p�ntano?</p><p>� Mandei um relat�rio de Grimpen para Princetown a respeito da morte de Selden. Acho que posso prometer que nenhum de voc�s ser� incomodado nesse caso. E comuniquei-me tamb�m com o meu fiel Cartwright, que certamente estaria grudado na porta da minha cabana como um c�o na sepultura do seu dono se eu n�o o tivesse tranq�ilizado em rela��o � minha seguran�a.</p><p>� Qual � o pr�ximo passo?</p><p>� Ver sir Henry. Ah, aqui est� ele!</p><p>� Bom-dia, Holmes � disse o baronete. � Voc� parece um general planejando uma batalha com o chefe do seu estado-maior.</p><p>� Essa � a situa��o exata. Watson estava perguntando pelas ordens.</p><p>� E eu tamb�m.</p><p>� Muito bem. Voc� tem um compromisso, pelo que sei, de jantar com os nossos amigos Stapletons esta noite.</p><p>� Espero que voc� venha tamb�m. Eles s�o pessoas muito hospitaleiras, e tenho certeza de que ficariam muito satisfeitos de v�-lo.</p><p>� Acho que Watson e eu teremos de ir para Londres.</p><p>� Para Londres?</p><p>� Sim, acho que poder�amos ser mais �teis l�, nas atuais circunst�ncias.</p><p>O rosto do baronete se encompridou perceptivelmente.</p><p>� Eu esperava que voc�s fossem me ajudar neste caso at� o fim. A Mans�o e o p�ntano n�o s�o lugares muito agrad�veis quando se est� sozinho.</p><p>� Meu caro amigo, voc� tem de confiar em mim cegamente e fazer exatamente o que eu mandar. Pode dizer aos seus amigos que ficar�amos felizes de ter ido com voc�, mas que neg�cios urgentes exigiram a nossa presen�a na cidade. Esperamos voltar logo ao Devonshire. Voc� se lembrar� de dar a eles esse recado?</p><p>� Se voc� insiste nisso.</p><p>� N�o h� nenhuma alternativa, garanto-lhe.</p><p>Vi pela fronte anuviada do baronete que ele estava profundamente magoado pelo que considerava uma deser��o nossa.</p><p>� Quando voc�s desejam ir? � ele perguntou friamente.</p><p>� Imediatamente ap�s o caf�. Iremos de charrete at� Coombe Tracey, mas Watson deixar� suas coisas como garantia de que voltar� para a sua companhia. Watson, mande um bilhete para Stapleton dizendo-lhe que lamenta n�o poder ir.</p><p>� Estou com vontade de ir para Londres com voc�s � disse o baronete. � Por que deveria ficar aqui sozinho?</p><p>� Porque esse � o seu posto de servi�o. Porque voc� me deu a sua palavra de que faria o que lhe mandassem, e estou dizendo para voc� ficar.</p><p>� Est� bem, ent�o ficarei.</p><p>� Mais uma instru��o! Quero que v� de charrete para a Casa de Merripit. Mas mande a charrete de volta e diga-lhes que pretende voltar a p� para casa.</p><p>� A p� pelo p�ntano?</p><p>� �.</p><p>� Mas isso � exatamente o que voc� me avisou tantas vezes para n�o fazer.</p><p>� Desta vez voc� pode fazer isso com seguran�a. Se eu n�o tivesse absoluta confian�a na sua coragem e sua determina��o, n�o sugeriria isso, mas � essencial que o fa�a.</p><p>� Ent�o farei.</p><p>� E se voc� d� valor � sua vida, s� atravesse o p�ntano pelo caminho direto que vai da Casa de Merripit at� a estrada de Grimpen, e que � o seu caminho natural para casa.</p><p>� Farei exatamente o que voc� diz.</p><p>� Muito bem. Gostaria de ir embora logo depois do caf�, para chegar a Londres � tarde.</p><p>Eu fiquei muito espantado com este programa, embora me lembrasse de Holmes ter dito a Stapleton na noite anterior que sua visita terminaria no dia seguinte. Mas n�o passara pela minha cabe�a que ele iria querer que eu fosse com ele, nem conseguia compreender como n�s dois poder�amos ficar ausentes num momento que ele pr�prio afirmara ser decisivo. Mas n�o havia nada a fazer exceto obedecer cegamente, de modo que dissemos adeus ao nosso amigo pesaroso, e duas horas depois est�vamos na esta��o de Coombe Tracey e hav�amos mandado a charrete de volta. Um garotinho estava esperando na plataforma.</p><p>� Alguma ordem, senhor?</p><p>� Voc� vai tomar este trem para a cidade, Cartwright. Quando chegar, mandar� um telegrama para sir Henry Baskerville em meu nome, para dizer que se ele encontrar o caderninho de notas que deixei cair, deve mand�-lo registrado pelo correio para Baker Street.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� E pergunte no escrit�rio da esta��o se h� um recado para mim.</p><p>O menino voltou com um telegrama, que Holmes me entregou. Ele dizia: �Telegrama recebido. Indo para a� com mandado n�o assinado. Chego 17:40h. Lestrade.�</p><p>� Este � uma resposta ao meu desta manh�. Ele � o melhor dos profissionais, eu acho, e podemos precisar da sua ajuda. Agora, Watson, acho que n�o podemos usar melhor o nosso tempo do que visitando a nossa conhecida, sra. Laura Lyons.</p><p>Seu plano de a��o estava come�ando a ficar evidente. Ele usaria o baronete para convencer os Stapletons de que hav�amos realmente ido embora, enquanto na verdade voltar�amos no momento em que provavelmente ser�amos necess�rios. Aquele telegrama de Londres, se mencionado por sir Henry aos Stapletons, deveria afastar as �ltimas suspeitas de suas mentes. Eu j� tinha a impress�o de ver as nossas redes se apertando em torno daquele l�cio de queixo fino.</p><p>A sra. Laura Lyons estava no escrit�rio, e Sherlock Holmes iniciou sua entrevista com uma franqueza e uma objetividade que a deixaram muito espantada.</p><p>� Estou investigando as circunst�ncias que cercaram a morte de sir Charles Baskerville � ele disse. � Meu amigo aqui, o dr. Watson, contou-me o que a senhora havia comunicado a ele, e tamb�m o que a senhora escondeu em rela��o a esse assunto.</p><p>� O que foi que eu escondi? � ela perguntou de modo desafiador.</p><p>� A senhora confessou que pediu a sir Charles para estar no port�o �s 22 horas. N�s sabemos que este foi o lugar e a hora da sua morte. A senhora escondeu qual a rela��o que h� entre estes fatos.</p><p>� N�o h� nenhuma rela��o.</p><p>� Nesse caso a coincid�ncia realmente deve ser extraordin�ria. Mas acho que conseguiremos estabelecer uma rela��o, afinal de contas. Desejo ser absolutamente franco com a senhora. Consideramos este caso como assassinato, e a prova pode implicar n�o s� o seu amigo sr. Stapleton, mas tamb�m a mulher dele.</p><p>A dama saltou da cadeira.</p><p>� Sua mulher! � ela exclamou.</p><p>� O fato n�o � mais segredo. A pessoa que tem passado por sua irm� �, na verdade, sua mulher.</p><p>A sra. Lyons havia se sentado novamente. Suas m�os estavam agarradas aos bra�os da cadeira, e vi que as unhas cor-de-rosa tinham ficado brancas com a press�o.</p><p>� Sua mulher! � ela repetiu. � Sua mulher! Ele n�o � casado.</p><p>Sherlock Holmes encolheu os ombros.</p><p>� Prove-me! Prove-me! E se conseguir fazer isso... � O brilho feroz dos seus olhos foi mais eloq�ente do que quaisquer palavras.</p><p>� Vim preparado para isso � disse Holmes, tirando v�rios documentos do bolso. � Aqui est� uma fotografia do casal tirada em York h� quatro anos. Est� endossada �sr. e sra. Vandeleur�, mas a senhora n�o ter� nenhuma dificuldade em reconhec�-lo, e a ela tamb�m, se a conhece de vista. Aqui est�o tr�s descri��es por escrito, de testemunhas dignas de confian�a, do sr. e da sra. Vandeleur, que nessa �poca tinham o col�gio particular de St. Oliver. Leia-as e diga se pode duvidar da identidade destas pessoas.</p><p>Ela olhou para elas e depois ergueu os olhos para n�s com o rosto im�vel e r�gido de uma mulher desesperada.</p><p>� Sr. Holmes � ela disse �, este homem ofereceu-se para se casar comigo com a condi��o de eu conseguir o div�rcio do meu marido. Ele mentiu para mim, o vil�o, de todas as maneiras poss�veis. Ele jamais me disse uma palavra verdadeira. E por qu�, por qu�? Imaginei que tudo fosse para o meu pr�prio bem. Mas agora vejo que nunca fui nada al�m de um instrumento em suas m�os. Por que devo continuar fiel a ele, que nunca foi fiel a mim? Por que devo tentar proteg�-lo das conseq��ncias dos seus pr�prios atos perversos? Pergunte-me o que quiser, e n�o esconderei nada. Uma coisa eu juro ao senhor, e essa � que quando escrevi a carta, nunca imaginei prejudicar o velho cavalheiro, que foi o meu amigo mais bondoso.</p><p>� Acredito totalmente na senhora, madame � disse Sherlock Holmes. �� A narra��o destes acontecimentos deve ser muito penosa para a senhora, e talvez seja mais f�cil se eu lhe contar o que ocorreu, e a senhora pode me corrigir se eu cometer algum erro. O envio desta carta foi sugerido � senhora por Stapleton?</p><p>� Ele a ditou.</p><p>� Suponho que o motivo que ele deu foi que a senhora receberia ajuda de sir Charles para as despesas legais relativas ao seu div�rcio.</p><p>� Exatamente.</p><p>� E depois que a senhora enviou a carta, ele fez com que desistisse de comparecer ao encontro?</p><p>� Ele me disse que ficaria com o seu orgulho ferido se algum outro homem desse o dinheiro com esse objetivo, e que, embora ele fosse um homem pobre, empregaria o seu �ltimo p�ni para remover os obst�culos que nos separavam.</p><p>� Ele parece ter um car�ter muito coerente. E depois a senhora n�o soube de mais nada at� ler as not�cias da morte no jornal?</p><p>� N�o.</p><p>� E ele a fez jurar que n�o iria contar nada sobre o seu encontro marcado com sir Charles?</p><p>� Fez. Ele disse que a morte foi muito misteriosa, e que certamente desconfiariam de mim se os fatos fossem revelados. Ele me assustou para que eu ficasse em sil�ncio.</p><p>� Exatamente. Mas a senhora nunca desconfiou?</p><p>Ela hesitou e baixou os olhos.</p><p>� Eu o conhecia � disse ela. � Mas se ele tivesse sido fiel a mim, eu seria sempre fiel a ele.</p><p>� Acho que, de modo geral, a senhora escapou com sorte � disse Sherlock Holmes. � A senhora o teria em seu poder e ele sabia disso, e contudo a senhora est� viva. A senhora andou durante alguns meses muito perto da beira do precip�cio. Devemos desejar-lhe bom-dia agora, sra. Lyons, e � prov�vel que a senhora muito em breve tenha not�cias nossas outra vez.</p><p>� O nosso caso est� se completando, e dificuldade ap�s dificuldade est� se desvanecendo diante de n�s � disse Holmes quando est�vamos esperando a chegada do expresso da cidade. � Logo estarei em condi��o de colocar numa �nica narrativa articulada um dos crimes mais estranhos e sensacionais dos �ltimos tempos. Os estudantes de criminologia ir�o se lembrar de incidentes an�logos em Godno, na Pequena R�ssia,* no ano de 1866, e naturalmente h� os assassinatos de Anderson na Carolina do Norte, mas este caso possui algumas caracter�sticas que s�o inteiramente pr�prias. Mesmo agora, n�o temos uma base definida para um processo contra este homem astuto. Mas ficarei muito surpreso se ele n�o estiver bastante definido antes de irmos para a cama esta noite.</p><p>O expresso de Londres entrou resfolegando na esta��o, e um homem pequeno e forte, parecido com um buldogue, saltou de um vag�o da primeira classe. N�s tr�s apertamos as m�os, e vi logo, pelo modo reverente como Lestrade olhava para o meu amigo, que ele aprendera um bocado desde o tempo em que haviam trabalhado juntos pela primeira vez. Pude me lembrar bem do desprezo que as teorias do intelectual costumavam despertar ent�o no homem pr�tico.</p><p>� Alguma coisa boa? � ele perguntou.</p><p>� A maior de muitos anos � disse Holmes. � Temos duas horas antes de precisarmos pensar em partir. Acho que devemos us�-las para jantar, e depois, Lestrade, vamos tirar a cerra��o de Londres da sua garganta dando-lhe um pouco do ar puro da noite de Dartmoor. Nunca esteve l�? Ah, bem, acho que voc� n�o vai se esquecer de sua primeira visita.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o c�o dos baskervilles</strong></p><p>Um dos defeitos de Sherlock Holmes, se � que realmente se pode chamar isso de defeito, era o fato de ser excessivamente avesso a comunicar os seus planos completos a qualquer outra pessoa at� o momento da sua execu��o. Em parte isso vinha sem d�vida da sua pr�pria natureza autorit�ria, que adorava dominar e surpreender aqueles que estavam � sua volta. Em parte, tamb�m, da sua cautela profissional, que o impedia sempre de correr qualquer risco. Mas o resultado era muito penoso para aqueles que estavam agindo como seus agentes e assistentes. Eu havia sofrido com isso muitas vezes, mas nunca tanto quanto durante aquela longa viagem de charrete na escurid�o. A grande prova��o estava diante de n�s; pelo menos est�vamos prestes a fazer o nosso esfor�o final, e apesar disso Holmes n�o havia dito nada, e pude apenas imaginar qual seria o curso da sua a��o. Meus nervos formigaram de expectativa quando, finalmente, o</p><p>vento frio em nossos rostos e os espa�os vazios, escuros, dos dois lados da estrada estreita me indicaram que est�vamos, mais uma vez, de volta ao p�ntano. Cada passo dos cavalos e cada volta das rodas estavam nos levando para mais perto da nossa aventura suprema.</p><p>Nossa conversa foi dificultada pela presen�a do cocheiro da charrete alugada, de modo que fomos obrigados a falar de assuntos banais quando os nossos nervos estavam tensos de emo��o e expectativa. Foi um al�vio para mim, ap�s essa limita��o pouco natural, quando passamos finalmente pela casa de Frankland e vimos que est�vamos chegando perto da Mans�o e do local da a��o. N�s n�o fomos de charrete at� a porta, mas descemos perto do port�o da avenida. A charrete foi paga e mandada imediatamente de volta para Coombe Tracey, enquanto come�amos a caminhar para a Casa de Merripit.</p><p>� Voc� est� armado, Lestrade?</p><p>O pequeno detetive sorriu.</p><p>� Enquanto estiver com as minhas cal�as, tenho um bolso traseiro, e enquanto tiver meu bolso traseiro, tenho algo dentro dele.</p><p>� �timo! Meu amigo e eu tamb�m estamos prontos para emerg�ncias.</p><p>� O senhor est� muito reticente a respeito deste caso, sr. Holmes. Qual � o jogo agora?</p><p>� Um jogo de espera.</p><p>� Palavra, esse n�o parece um lugar muito animado � disse o detetive com um calafrio, olhando em volta para as encostas sombrias da colina e para a cerra��o que pairava sobre o charco de Grimpen. � Vejo as luzes de uma casa na nossa frente.</p><p>� Essa � a Casa de Merripit e o fim da nossa jornada. Devo pedir-lhes que caminhem na ponta dos p�s e que s� falem por sussurros.</p><p>Seguimos cautelosamente pelo caminho como se estiv�ssemos nos dirigindo para a casa, mas Holmes nos deteve quando est�vamos a cerca de 180 metros dela.</p><p>� Aqui est� bom � disse ele. � Estas pedras � direita constituem uma prote��o admir�vel.</p><p>� Vamos esperar aqui?</p><p>� Sim, faremos a nossa pequena emboscada aqui. Entre neste recuo, Lestrade. Voc� j� esteve dentro da casa, n�o esteve, Watson? Pode dizer a posi��o das pe�as? De onde s�o aquelas janelas com treli�as nesta extremidade?</p><p>� Acho que s�o as janelas da cozinha.</p><p>� E aquela ali, t�o iluminada?</p><p>� Aquela certamente � da sala de jantar.</p><p>� As cortinas est�o levantadas. Voc� conhece melhor a disposi��o do terreno. Avance em sil�ncio e veja o que eles est�o fazendo, mas, pelo amor de Deus, n�o deixe que eles percebam que est�o sendo vigiados!</p><p>Desci pelo caminho na ponta dos p�s e agachei-me atr�s de um muro baixo que cercava o pomar raqu�tico. Entrando com cuidado em sua sombra, atingi um ponto de onde podia olhar diretamente pela janela sem cortina.</p><p>Havia apenas dois homens na sala, sir Henry e Stapleton. Estavam sentados de perfil para mim, em lados opostos de uma mesa. Os dois estavam fumando charutos, e havia caf� e vinho diante deles. Stapleton estava falando com anima��o, mas o baronete parecia p�lido e distra�do. Talvez a lembran�a daquela caminhada solit�ria pelo p�ntano de mau agouro estivesse pesando muito em sua mente.</p><p>Enquanto eu os observava, Stapleton levantou-se e saiu da sala, enquanto sir Henry enchia o seu copo outra vez e recostava-se na cadeira, fumando o charuto. Ouvi uma porta rangendo e o ru�do n�tido de botas sobre o saibro. Os passos atravessaram o caminho do outro lado do muro atr�s do qual eu estava agachado. Olhando por cima, vi o naturalista parar diante da porta de uma depend�ncia no canto do pomar. Uma chave girou numa fechadura, e quando ele entrou ali, ouvi um ru�do curioso de luta vindo de dentro. Ele ficou apenas um minuto ali dentro; depois ouvi a chave girar outra vez e ele passou por mim e entrou novamente em casa. Vi quando ele entrou na sala onde estava seu convidado, e voltei cautelosamente para o lugar onde meus companheiros estavam esperando para contar-lhes o que vira.</p><p>� Voc� diz, Watson, que a mulher n�o est� l�? � perguntou Holmes quando eu terminei meu relato.</p><p>� N�o.</p><p>� Onde ela pode estar, ent�o, j� que n�o h� luz em nenhum outro c�modo, exceto na cozinha?</p><p>� N�o posso imaginar onde ela esteja.</p><p>Eu havia dito que sobre o grande charco de Grimpen pairava uma cerra��o branca e densa. Ela estava vindo lentamente em nossa dire��o e se acumulava como um muro daquele lado, baixa mas espessa e bem definida. A lua brilhava sobre ela, e parecia um grande campo de gelo bruxuleante, com os cumes dos picos rochosos distantes como rochas colocadas sobre a sua superf�cie. O rosto de Holmes virou-se para ela e ele resmungou impaciente enquanto observava o seu avan�o lento.</p><p>� Ela est� vindo em nossa dire��o, Watson.</p><p>� Isso � grave?</p><p>� Muito grave, realmente, a �nica coisa na terra que poderia transtornar os meus planos. Ele n�o pode demorar muito agora. J� s�o 22 horas. O nosso �xito e at� a vida dele podem depender da sa�da dele antes que a cerra��o cubra o caminho.</p><p>A noite estava clara e linda acima de n�s. As estrelas brilhavam frias e n�tidas, enquanto uma meia-lua banhava toda a cena com uma luz suave e hesitante. Diante de n�s estava o contorno escuro da casa, com o seu telhado serrilhado e chamin�s eri�adas delineados contra o c�u prateado reluzente. Faixas largas de luz dourada das janelas de baixo estendiam-se pelo pomar e o p�ntano. Uma delas apagou-se de repente. Os criados haviam sa�do da cozinha. Restava apenas o lampi�o da sala de jantar onde os dois homens, o anfitri�o assassino e o convidado inocente, ainda conversavam, fumando seus charutos. A cada minuto aquela n�voa branca feito l� que cobria metade do p�ntano arrastava-se cada vez mais para perto da casa. As primeiras espirais finas dela j� estavam atravessando o quadrado dourado da janela iluminada. O muro oposto do pomar j� estava invis�vel, e as �rvores apareciam em meio a um redemoinho de vapor branco. Enquanto observ�vamos, as espirais da cerra��o envolveram os dois cantos da casa e rolaram lentamente formando uma barreira densa, sobre a qual o andar superior e o telhado flutuavam como uma embarca��o estranha num mar sombrio. Holmes deu um soco col�rico na pedra diante de n�s e bateu com os p�s em sua impaci�ncia.</p><p>� Se ele n�o sair em 15 minutos, o caminho ficar� coberto. Dentro de meia hora n�o conseguiremos ver nossas m�os diante de n�s.</p><p>� Vamos recuar para mais longe, para um terreno mais elevado?</p><p>� Sim, acho que isso seria melhor.</p><p>Assim, � medida que a barreira de cerra��o deslocava-se para a frente, n�s recu�vamos, at� ficarmos a 800 metros da casa, e aquele denso mar branco com a lua prateando sua orla superior, ainda avan�ava lenta e inexoravelmente.</p><p>� Estamos nos afastando muito � disse Holmes. � N�o podemos correr o risco de ele ser alcan�ado antes de poder chegar at� n�s. Devemos ficar onde estamos a todo o custo. � Ele se ajoelhou e colou o ouvido no ch�o. � Gra�as a Deus, acho que o estou ouvindo chegar.</p><p>Um ru�do de passos r�pidos quebrou o sil�ncio do p�ntano. Agachados entre as pedras, olh�vamos atentamente para a barreira com o topo prateado diante de n�s. Os passos ficaram mais altos, e atrav�s da cerra��o, como atrav�s de uma cortina, surgiu o homem que est�vamos esperando. Ele olhou em volta surpreso ao sair na noite clara e estrelada. Depois veio rapidamente pelo caminho, passou perto de onde est�vamos e continuou subindo a longa encosta atr�s de n�s. Enquanto andava, ele olhava constantemente por cima dos ombros, como um homem que estivesse pouco � vontade.</p><p>� Psiu! � fez Holmes, e ouvi o estalido met�lico de uma pistola sendo engatilhada. � Cuidado! Ele est� vindo!</p><p>Havia um ru�do de patas, fraco, �spero e cont�nuo vindo de algum lugar no meio da barreira que se arrastava. A nuvem estava a 40 metros de n�s, e olhamos fixamente para ela, todos os tr�s, sem saber qual o horror que estava prestes a surgir do meio dela. Eu estava junto ao cotovelo de Holmes, e olhei por um instante para o seu rosto. Ele estava p�lido e exultante, com os olhos brilhando ao luar. Mas de repente eles se fixaram em frente num olhar r�gido, e seus l�bios se abriram estupefatos. No mesmo instante Lestrade soltou um grito de terror e jogou-se de bru�os no ch�o. Eu me levantei de um salto, com minha m�o inerte agarrada na pistola, minha mente paralisada pela apari��o medonha que havia saltado sobre n�s das sombras da cerra��o. Era um c�o, um enorme c�o negro como carv�o, mas n�o um c�o que olhos de algum mortal j� tivessem visto. Sa�a fogo de sua boca, seus olhos brilhavam, seu focinho, p�los do pesco�o e papada estavam delineados em chamas bruxuleantes. Nenhum sonho delirante de um c�rebro perturbado podia conceber algo mais selvagem, mais aterrador, mais infernal do que a forma escura e a cara selvagem que surgiu do muro da cerra��o.</p><p>Com saltos longos, a imensa criatura preta estava descendo o caminho aos pulos, seguindo firme os passos do nosso amigo. Ficamos t�o paralisados pela apari��o que permitimos que ela passasse antes de recuperarmos a coragem. Ent�o Holmes e eu atiramos juntos, e a criatura soltou um uivo medonho, que mostrou que pelo menos um a havia atingido. Mas ela n�o parou, e continuou seguindo aos pulos. Mais adiante no caminho, vimos sir Henry olhando para tr�s com o rosto branco iluminado pelo luar, as m�os erguidas de terror, olhando indefeso para a coisa assustadora que o estava perseguindo.</p><p>Mas aquele grito de dor do c�o fizera com que os nossos receios desaparecessem. Se ele era vulner�vel, era mortal, e se pod�amos feri-lo, pod�amos mat�-lo. Nunca tinha visto um homem correr tanto como Holmes correu naquela noite. Sou considerado ligeiro, mas ele me ultrapassou tanto quanto eu ultrapassei o pequeno profissional. Diante de n�s, enquanto vo�vamos pelo caminho, ouvimos grito ap�s grito de sir Henry e o rosnar profundo do c�o. Cheguei a tempo de ver a fera saltar sobre sua v�tima, atir�-la ao ch�o, e lan�ar-se � sua garganta. Mas no instante seguinte Holmes havia disparado cinco tiros do seu rev�lver no flanco da criatura. Com um �ltimo uivo de agonia e uma mordida enraivecida no ar, ela rolou de costas com as quatro patas agitando-se furiosamente, e depois caiu de lado. Eu me abaixei, ofegante, e encostei minha pistola na cabe�a horr�vel, que brilhava fracamente, mas n�o foi necess�rio apertar o gatilho. O c�o gigantesco estava morto.</p><p>Sir Henry jazia inconsciente no lugar onde havia ca�do. Arrancamos o seu colarinho e Holmes murmurou uma prece de gratid�o quando viu que n�o havia nenhum sinal de ferimento e que o socorro havia chegado a tempo. As p�lpebras do nosso amigo j� estremeciam e ele fez um esfor�o d�bil para se mexer. Lestrade enfiou seu frasco de conhaque entre os dentes do baronete, e dois olhos assustados ficaram olhando para n�s.</p><p>� Meu Deus! � sussurrou ele. � O que era isso? O que, em nome dos c�us, era isso?</p><p>� Est� morto, o que quer que seja � disse Holmes. � Liquidamos o fantasma da fam�lia de uma vez por todas.</p><p>S� no tamanho e na for�a era uma criatura terr�vel que estava estendida diante de n�s. N�o era um sabujo puro e n�o era um mastim puro, mas parecia uma combina��o dos dois, ossudo, selvagem, e com o tamanho de uma pequena leoa. Mesmo agora, na imobilidade da morte, as mand�bulas enormes pareciam gotejar uma chama azulada e os olhos pequenos, profundos e cru�is estavam orlados de fogo. Pus a m�o no focinho brilhante, e quando a tirei, meus pr�prios dedos pareciam brasas e brilhavam na escurid�o.</p><p>� F�sforo � eu disse.</p><p>� Um preparado feito com habilidade � disse Holmes, cheirando o animal morto. � N�o h� nenhum cheiro que pudesse interferir no seu faro. Devemos ao senhor muitas desculpas, sir Henry, por t�-lo exposto a este susto. Eu estava preparado para um c�o, mas n�o para uma criatura como esta. E a cerra��o deu-nos pouco tempo para receb�-la.</p><p>� Voc� salvou a minha vida.</p><p>� Depois de ter posto a sua vida em perigo. Voc� tem for�a para se levantar?</p><p>� D�-me mais um gole desse conhaque e estarei preparado para qualquer coisa. Pronto! Agora, se voc� quiser me ajudar. O que voc� pretende fazer?</p><p>� Deix�-lo aqui. O senhor n�o est� preparado para outras aventuras esta noite. Se esperar, um de n�s voltar� com o senhor para a Mans�o.</p><p>Ele tentou levantar-se, cambaleando, mas ainda estava horrivelmente p�lido e tr�mulo. N�s o ajudamos a caminhar at� uma pedra, onde ele se sentou tremendo, com o rosto mergulhado nas m�os.</p><p>� Temos de deix�-lo agora � disse Holmes. � O resto do nosso trabalho precisa ser feito, e cada minuto � importante. Temos o nosso caso completo, e agora queremos apenas o nosso homem.</p><p>� � de 1.000 a 1 a probabilidade de o encontrarmos em casa � ele continuou enquanto volt�vamos rapidamente pelo caminho. � Aqueles tiros devem ter indicado a ele que o jogo terminou.</p><p>� N�s est�vamos a uma certa dist�ncia, e esta cerra��o pode t�-los amortecido.</p><p>� Ele seguiu o c�o para cham�-lo de volta, disso voc�s podem ter certeza. N�o, n�o, ele foi embora a esta altura! Mas revistaremos a casa para confirmar.</p><p>A porta da frente estava aberta, de modo que entramos correndo e fomos de c�modo em c�modo, para espanto de um velho criado tr�pego que se encontrou conosco no corredor. N�o havia nenhuma luz, a n�o ser na sala de jantar, mas Holmes apanhou o lampi�o e n�o deixou nenhum canto da casa inexplorado. N�o conseguimos ver nenhum sinal do homem que est�vamos perseguindo. Mas no andar de cima, a porta de um dos quartos estava trancada.</p><p>� H� algu�m aqui! � gritou Lestrade. � Estou ouvindo um movimento. Abra esta porta!</p><p>Um gemido e um farfalhar fraco vieram do interior. Holmes atingiu a porta logo acima da fechadura com a sola do p� e ela se abriu. Com a pistola na m�o, n�s tr�s entramos correndo no quarto.</p><p>Mas n�o havia ali nenhum sinal daquele vil�o desesperado e desafiador que esper�vamos ver. Em vez disso, nos deparamos com um objeto t�o estranho e t�o inesperado que ficamos parados por um momento olhando para ele, espantados.</p><p>O quarto estava arrumado como um pequeno museu, e as paredes eram cobertas por v�rias caixas com tampas de vidro cheias daquela cole��o de borboletas e mariposas cuja forma��o tinha sido o passatempo deste homem complexo e perigoso. No meio desse quarto havia uma trave vertical, que fora colocada em alguma �poca como suporte das toras de madeira comidas pelo cupim que sustentavam o telhado. Neste poste estava amarrado um vulto, t�o enfaixado e encoberto pelos len��is que tinham sido usados para amarr�-lo que n�o se podia dizer no momento se era de um homem ou de uma mulher. Uma toalha passava em volta da garganta e estava presa atr�s do pilar. Outra cobria a parte inferior do rosto, e sobre ela dois olhos escuros � olhos cheios de dor, vergonha e uma interroga��o horr�vel � nos contemplavam. Num minuto arrancamos a morda�a, desamarramos os la�os, e a sra. Stapleton caiu no ch�o diante de n�s. Quando a sua bela cabe�a caiu sobre o peito, vi o n�tido verg�o vermelho de uma chicotada no seu pesco�o.</p><p>� O animal! � exclamou Holmes. � Aqui, Lestrade, sua garrafa de conhaque! Ponha-a na cadeira! Ela desmaiou de maus-tratos e exaust�o.</p><p>Ela abriu os olhos outra vez.</p><p>� Ele est� em seguran�a? � ela perguntou. � Ele escapou?</p><p>� Ele n�o pode escapar de n�s, madame.</p><p>� N�o, n�o, n�o me refiro ao meu marido. Sir Henry? Ele est� em seguran�a?</p><p>� Est�.</p><p>� E o c�o?</p><p>� Est� morto.</p><p>Ela soltou um longo suspiro de satisfa��o.</p><p>� Gra�as a Deus! Gra�as a Deus! Oh, este vil�o! Veja como ele me tratava! � Ela estendeu os bra�os para fora das mangas e vimos com horror que estavam cobertos de contus�es. � Mas isto n�o � nada, nada! Foram a minha mente e a minha alma que ele torturou e maculou. Eu podia suportar isso tudo, maus-tratos, solid�o, uma vida de impostura, tudo, desde que pudesse me agarrar ainda � esperan�a de que tinha o seu amor, mas agora sei que nisto tamb�m fui seu joguete e seu instrumento. � Ela explodiu num choro emocionado enquanto falava.</p><p>� A senhora n�o deve a ele nenhuma boa vontade, madame � disse Holmes. � Conte-nos, ent�o, onde podemos encontr�-lo. Se a senhora alguma vez o ajudou no mal, ajude-nos agora, e assim pode se redimir.</p><p>� S� h� um lugar para onde ele pode ter fugido � ela respondeu. H� uma velha mina de estanho numa ilha no meio do p�ntano. Era ali que ele guardava o seu c�o e foi ali tamb�m que ele fez preparativos para que pudesse ter um ref�gio. Para l� � que ele fugiria.</p><p>A barreira de cerra��o parecia l� branca do lado de fora da janela. Holmes aproximou dela o lampi�o.</p><p>� Veja � ele disse. � Ningu�m conseguiria encontrar o caminho para dentro do charco de Grimpen esta noite.</p><p>Ela riu e bateu palmas. Seus olhos e dentes brilharam com alegria feroz.</p><p>� Ele pode encontrar o caminho para entrar, mas nunca para sair! � ela exclamou. � Como ele poder� ver as varas de orienta��o esta noite? N�s as plantamos juntos, ele e eu, para marcar o caminho atrav�s do p�ntano. Oh, se eu pudesse ao menos t�-las arrancado hoje. Ent�o realmente os senhores o teriam � sua merc�!</p><p>Era evidente para n�s que qualquer persegui��o seria in�til at� que a cerra��o tivesse se dissipado. Enquanto isso, deixamos Lestrade de posse da casa enquanto Holmes e eu voltamos com o baronete para a Mans�o Baskerville. A hist�ria dos Stapletons n�o podia mais ser escondida dele, mas ele recebeu o golpe corajosamente quando soube a verdade sobre a mulher que havia amado. Mas o choque das aventuras da noite havia abalado seus nervos, e antes de amanhecer ele estava delirando e com febre alta, sob os cuidados do dr. Mortimer. Eles dois estavam destinados a viajar juntos numa volta ao mundo, antes de sir Henry se tornar mais uma vez o homem s�o e robusto que fora antes de se tornar dono daquela propriedade agourenta.</p><p>E agora chego rapidamente � conclus�o desta narrativa singular, na qual tentei fazer o leitor compartilhar aqueles receios sombrios e suspeitas vagas que toldaram as nossas vidas por tanto tempo e terminaram de maneira t�o tr�gica. Na manh� ap�s a morte do c�o, a cerra��o havia se dissipado e fomos guiados pela sra. Stapleton at� o ponto onde eles haviam encontrado o caminho atrav�s do loda�al. A ansiedade e a alegria com que ela nos p�s na pista do seu marido nos ajudaram a compreender o horror da vida desta mulher. N�s a deixamos parada na estreita pen�nsula de terra firme e turfosa que se afunilava para dentro do vasto loda�al. A partir do fim da pen�nsula, uma pequena vara plantada aqui e ali mostrava onde o caminho ziguezagueava de tufo em tufo de juncos por entre estes buracos escumados de verde e atoleiros imundos que barravam o caminho para um estranho. Cani�os aglomerados e plantas aqu�ticas viscosas exalavam um cheiro de podrid�o e um vapor mef�tico e pesado em nossos rostos, enquanto um passo em falso nos deixou mergulhados mais de uma vez at� a coxa no p�ntano escuro e pouco firme, que se agitava por v�rios metros em ondula��es suaves ao redor dos nossos p�s. Sua viscosidade tenaz segurava os nossos calcanhares quando and�vamos, e quando afund�vamos nela, era como se alguma m�o maligna estivesse nos puxando para baixo dentro daquelas profundezas obscenas, t�o feroz e intencional era a press�o com que nos agarrava. S� uma vez vimos um vest�gio de que algu�m havia passado por aquele caminho perigoso antes de n�s. Do meio de um tufo de capim que brotava do lodo, projetava-se uma coisa escura. Holmes abaixou-se at� a cintura quando saiu do caminho para peg�-la, e se n�o estiv�ssemos ali para pux�-lo para fora, talvez ele nunca mais pusesse os p�s em terra firme outra vez. Ele segurava uma velha bota preta no ar. �Meyers, Toronto� estava impresso do lado de dentro do couro.</p><p>� Isso vale um banho de lama � ele disse. � � a bota desaparecida do nosso amigo, sir Henry.</p><p>� Atirada aqui por Stapleton em sua fuga.</p><p>� Exatamente. Ele ficou com ela na m�o depois de us�-la para p�r o c�o no rastro. Ele fugiu quando viu que o jogo havia terminado, ainda segurando-a. E a jogou fora neste ponto da sua fuga. Sabemos pelo menos que ele chegou at� aqui em seguran�a.</p><p>Por�m, n�s n�o est�vamos destinados a saber mais do que isso, embora houvesse muito mais que pud�ssemos imaginar. N�o havia nenhuma possibilidade de encontrar pegadas no p�ntano, porque a lama que subia as cobria rapidamente, mas quando chegamos por fim a um terreno mais firme al�m do brejo, todos n�s as procuramos ansiosamente. Mas n�o vimos nem o mais leve sinal delas. Se a terra contava uma hist�ria verdadeira, ent�o Stapleton nunca chegou �quela ilha de ref�gio, em dire��o � qual ele sa�ra na noite anterior, enfrentando a cerra��o. Em algum lugar no cora��o do grande charco de Grimpen, no fundo da viscosidade imunda do enorme atoleiro que o sorvera, este homem frio e de cora��o cruel est� enterrado para sempre.</p><p>Encontramos muitos vest�gios dele na ilha cercada de lodo onde ele havia escondido o seu aliado selvagem. Um volante enorme e um po�o meio cheio de detritos indicavam a posi��o de uma mina abandonada. Ao lado dela estavam os restos em ru�nas das cabanas dos mineiros, expulsos sem d�vida pelo cheiro infecto do p�ntano em torno. Em uma delas, um grampo de ferro e uma corrente com uma quantidade de ossos ro�dos mostravam onde o animal havia estado confinado. Um esqueleto com um emaranhado de p�los marrons presos a ele jazia entre os detritos.</p><p>� Um cachorro! � disse Holmes. � Por Deus, um spaniel de p�los encaracolados. O pobre Mortimer nunca ver� o seu animal de estima��o outra vez. Bem, pelo que sei, este lugar n�o cont�m qualquer outro segredo que j� n�o tenhamos imaginado. Ele conseguiu esconder o seu c�o mas n�o conseguiu calar sua voz, e da� aqueles gritos que, mesmo � luz do dia, n�o eram agrad�veis de se ouvir. Numa emerg�ncia ele podia guardar o c�o na depend�ncia anexa de Merripit, mas era sempre um risco, e foi s� no dia supremo, que ele considerou o fim de todos os seus esfor�os, que ousou fazer isso. Esta pasta na lata sem d�vida � a mistura luminosa com a qual a criatura era besuntada. Isso foi sugerido, � claro, pela hist�ria do c�o diab�lico da fam�lia, e pelo desejo de amedrontar o velho sir Charles at� mat�-lo. N�o admira que o pobre-diabo do condenado corresse e gritasse, da mesma forma como o nosso amigo fez, e como n�s mesmos ter�amos feito, quando ele viu essa criatura saltando atrav�s da escurid�o do p�ntano na sua pista. Foi um artif�cio esperto, porque, al�m da possibilidade de levar sua v�tima � morte, que campon�s se arriscaria a investigar com muito empenho a respeito dessa criatura se a tivesse visto, como muitos viram, no p�ntano? Eu disse em Londres, Watson, e digo outra vez agora, que nunca t�nhamos ajudado a ca�ar um homem mais perigoso do que esse que jaz l� longe � ele girou seu bra�o comprido em dire��o � imensa extens�o pantanosa, salpicada de manchas verdes que se estendiam at� se fundir com as encostas avermelhadas do p�ntano.</p><empty-line/></section><section><p><strong>um retrospecto</strong></p><p>Era fim de novembro, e Holmes e eu est�vamos sentados, numa noite fria, �mida e nevoenta, ao lado de uma lareira resplandecente em nossa sala da Baker Street. Desde o desfecho tr�gico da nossa visita ao Devonshire, ele esteve ocupado com dois casos da maior import�ncia, no primeiro dos quais havia denunciado a conduta cruel do coronel Upwood em rela��o ao famoso esc�ndalo das cartas do Clube Nonpareil, enquanto no segundo havia defendido a infeliz mme. Montpensier da acusa��o de assassinato que pesava sobre ela em rela��o � morte da sua enteada, mlle. Car�re, a jovem que, como se deve lembrar, foi encontrada seis meses mais tarde viva e casada em Nova York. O meu amigo estava de excelente humor pelo sucesso obtido numa sucess�o de casos dif�ceis e importantes, de modo que pude convenc�-lo a discutir os detalhes do mist�rio de Baskerville. Eu havia esperado pacientemente pela oportunidade, porque sabia que ele nunca permitiria</p><p>que os casos se superpusessem, e que sua mente clara e l�gica fosse desviada do seu trabalho atual para ficar remoendo lembran�as do passado. Mas sir Henry e o dr. Mortimer estavam em Londres, a caminho daquela longa viagem que fora recomendada para a recupera��o dos seus nervos abalados. Eles haviam nos visitado naquela mesma tarde, de modo que era natural que o assunto surgisse para discuss�o.</p><p>� Todo o curso dos acontecimentos � disse Holmes �, do ponto de vista do homem que chamava a si mesmo de Stapleton, era simples e direto, embora para n�s, que no come�o n�o t�nhamos nenhum meio de saber os motivos dos seus atos e pod�amos conhecer apenas uma parte dos fatos, tudo parecesse extremamente complexo. Eu tive a vantagem de duas conversas com a sra. Stapleton, e o caso agora foi t�o completamente esclarecido que n�o sei se h� alguma coisa que tenha permanecido secreta para n�s. Voc� encontrar� algumas anota��es sobre o assunto na letra B da minha lista de casos.</p><p>� Talvez voc� pudesse fazer a gentileza de me dar, de mem�ria, um resumo do curso dos acontecimentos.</p><p>� Certamente, embora n�o possa garantir que tenha todos os fatos em mente. A concentra��o mental intensa tem uma maneira curiosa de apagar o que passou. O advogado que tem o seu caso na ponta da l�ngua e pode discutir com um especialista sobre o seu pr�prio assunto descobre que uma semana ou duas de tribunal afastar� isso tudo da sua cabe�a mais uma vez. De modo que cada um dos meus casos substitui o �ltimo, e mlle. Car�re apagou a minha lembran�a da Mans�o Baskerville. Amanh� algum outro probleminha pode ser submetido � minha aten��o, o que, por sua vez, desalojar� a bela dama francesa e o infame Upwood. No que diz respeito ao caso do c�o, contudo, vou dar-lhe a sucess�o dos fatos da maneira mais aproximada poss�vel, e voc� sugerir� qualquer coisa que eu possa ter esquecido.</p><p>� Minhas investiga��es mostram, fora de qualquer d�vida, que o retrato de fam�lia n�o mentiu, e que este sujeito era realmente um Baskerville. Ele era filho daquele Rodger Baskerville, o irm�o ca�ula de sir Charles, que fugiu com uma reputa��o sinistra para a Am�rica do Sul, onde dizem que morreu sem se casar. Na verdade, ele se casou e teve um filho, este sujeito, cujo nome verdadeiro � o mesmo do seu pai. Ele se casou com Beryl Garcia, uma das beldades da Costa Rica e, tendo roubado uma soma consider�vel de dinheiro p�blico, mudou o nome para Vandeleur e fugiu para a Inglaterra, onde instalou um col�gio a leste de Yorkshire. Seu motivo para tentar este ramo especial de neg�cio foi ter conhecido um tutor tuberculoso na viagem para casa, e ter usado a capacidade deste homem para fazer do empreendimento um sucesso. Mas Fraser, o tutor, morreu, e o col�gio que havia come�ado bem caiu do descr�dito para a inf�mia. Os Vandeleurs acharam conveniente mudar seu nome para Stapleton; e ele trouxe o resto da sua fortuna, seus planos para o futuro e o seu gosto pela entomologia para o sul da Inglaterra. Eu soube no Museu Brit�nico que ele era uma autoridade reconhecida no assunto, e que o nome de Vandeleur estava ligado permanentemente a uma certa mariposa que ele, no seu tempo de Yorkshire, havia sido o primeiro a descrever.</p><p>� Chegamos agora �quela parte da vida dele que acabou tendo um interesse t�o grande para n�s. O sujeito, evidentemente, havia investigado e descoberto que s� duas vidas se interpunham entre ele e uma propriedade valiosa. Quando foi para o Devonshire, seus planos eram, creio, extremamente vagos, mas que ele estava com m�s inten��es desde o in�cio � evidente pela maneira como levou sua mulher consigo disfar�ada como sua irm�. A id�ia de us�-la como chamariz j� estava em sua mente, embora ele talvez n�o tivesse certeza de como os detalhes da sua trama deviam ser organizados. Ele pretendia no fim ter a propriedade, e estava pronto a usar qualquer instrumento ou correr qualquer risco para este fim. Seu primeiro ato foi estabelecer-se o mais perto poss�vel do seu lar ancestral, e o segundo foi cultivar uma amizade com sir Charles Baskerville e com os vizinhos.</p><p>� O pr�prio baronete contou a ele sobre o c�o da fam�lia, e assim preparou o caminho para a sua pr�pria morte. Stapleton, como continuarei a cham�-lo, sabia que o cora��o do velho era fraco e que um choque o mataria. Isso ele soubera pelo dr. Mortimer. Ele ouvira tamb�m que sir Charles era supersticioso e havia levado muito a s�rio esta lenda sinistra. Sua mente engenhosa sugeriu logo um meio de matar o baronete e mesmo assim dificilmente seria poss�vel atribuir a culpa ao verdadeiro assassino.</p><p>� Depois de conceber a id�ia, come�ou a execut�-la com consider�vel finesse. Um planejador comum teria se contentado em trabalhar com um c�o selvagem. O uso de meios artificiais para tornar a criatura diab�lica foi um lampejo de g�nio da parte dele. O c�o ele comprou em Londres de Ross e Mangles, os comerciantes da Fulham Road. Era o mais forte e o mais selvagem que eles tinham. Ele o trouxe para o sul pela linha North Devon e caminhou um trecho grande pelo p�ntano para lev�-lo at� em casa sem despertar coment�rios. Em suas ca�adas de insetos ele j� havia aprendido a penetrar no charco de Grimpen,</p><p>e assim encontrara um esconderijo seguro para a criatura. Ali ele o conservou e esperou a sua oportunidade.</p><p>� Mas demorou algum tempo. O velho cavalheiro n�o podia ser atra�do para fora das suas terras � noite. V�rias vezes Stapleton escondeu-se por perto com o c�o, mas sem resultado. Foi durante estas andan�as infrut�feras que ele, ou melhor, seu aliado, foi visto pelos camponeses, e que a lenda do c�o diab�lico ganhou uma nova confirma��o. Ele esperava que sua mulher pudesse levar sir Charles � ru�na, mas ela se mostrou inesperadamente independente. Ela n�o tentaria enredar o velho cavalheiro numa liga��o sentimental que pudesse entreg�-lo ao seu inimigo. Nem amea�as nem, lamento dizer, pancadas conseguiram demov�-la. Ela n�o queria ter nada a ver com isso, e durante algum tempo Stapleton ficou num impasse.</p><p>� Ele encontrou uma sa�da para as suas dificuldades por meio da oportunidade que sir Charles, que havia expressado amizade por ele, proporcionara, encarregando-o de fazer caridade em seu nome no caso desta infeliz mulher, a sra. Laura Lyons. Apresentando-se como solteiro, ele adquiriu influ�ncia absoluta sobre ela, e deu-lhe a entender que, se ela obtivesse o div�rcio do seu marido, se casaria com ela. Seus planos foram levados de repente a uma fase decisiva quando ele soube que sir Charles estava prestes a deixar a Mans�o a conselho do dr. Mortimer, com cuja opini�o ele pr�prio fingia concordar. Ele devia agir imediatamente ou a sua v�tima podia ficar fora do seu alcance. De modo que pressionou a sra. Lyons para escrever aquela carta, implorando ao velho para conceder-lhe uma entrevista na noite anterior � sua partida para Londres. Depois, por meio de um argumento capcioso, impediu-a de ir, e assim teve a oportunidade que estava esperando.</p><p>� Voltando de charrete � noite de Coombe Tracey, ele chegou a tempo de pegar o seu c�o, lambuz�-lo com esta tinta infernal e levar o animal at� o port�o no qual tinha motivo para esperar encontrar o velho cavalheiro. O c�o, incitado pelo dono, saltou por cima da cancela do port�o e perseguiu o infeliz baronete, que fugiu gritando pela Al�ia dos Teixos. Naquele t�nel sombrio devia realmente ter sido uma cena horr�vel ver aquela criatura imensa preta, com as mand�bulas em chamas e os olhos brilhantes, saltando atr�s da sua v�tima. Ele caiu morto no fim da al�ia de ataque card�aco e terror. O c�o tinha ficado sobre a margem de grama enquanto o baronete correra pelo caminho, de modo que nenhuma pista era vis�vel a n�o ser a do homem. Ao v�-lo ca�do im�vel, a criatura provavelmente aproximou-se para farej�-lo, mas encontrando-o morto, havia se afastado novamente. Foi ent�o que ela deixou a marca que foi realmente observada pelo dr. Mortimer. O c�o foi chamado e levado �s pressas para o seu covil no charco de Grimpen, e ficou um mist�rio que intrigou as autoridades, alarmou a regi�o e finalmente trouxe o caso para o �mbito da nossa observa��o.</p><p>� Isso quanto � morte de sir Charles Baskerville. Voc� percebe a ast�cia diab�lica disso, porque realmente seria quase imposs�vel instaurar um processo contra o verdadeiro assassino. Seu �nico c�mplice n�o poderia jamais denunci�-lo, e a natureza grotesca, inconceb�vel do artif�cio s� serviu para torn�-lo mais eficaz. As duas mulheres relacionadas com o caso, a sra. Stapleton e a sra. Laura Lyons, ficaram muito desconfiadas de Stapleton. A sra. Stapleton sabia que ele tinha planos em rela��o ao velho, e tamb�m da exist�ncia do c�o. A sra. Lyons n�o sabia nenhuma destas coisas, mas ficara impressionada com o fato de a morte ocorrer na ocasi�o de um encontro n�o desmarcado, o que s� ele sabia. Mas ambas estavam sob a influ�ncia dele, e ele n�o tinha nada a recear delas. A primeira metade da sua tarefa fora realizada com sucesso, mas faltava o mais dif�cil.</p><p>� � poss�vel que Stapleton n�o soubesse da exist�ncia de um herdeiro no Canad�. De qualquer maneira ele saberia disso muito em breve pelo seu amigo, o dr. Mortimer, que contou a ele todos os detalhes da chegada de Henry Baskerville. A primeira id�ia de Stapleton foi que este jovem estranho do Canad� talvez pudesse ser morto em Londres, sem chegar a ir at� o Devonshire. Ele n�o confiava na sua mulher desde que ela se recusara a ajud�-lo a preparar uma armadilha para o velho, e n�o se atrevia a deix�-la por muito tempo longe dele com medo de perder a influ�ncia sobre ela. Foi por este motivo que a levou para Londres consigo. Eles se hospedaram, eu descobri, no Hotel Particular Mexborough, na Craven Street, que foi realmente um daqueles visitados pelo meu agente em busca de provas. Ali Stapleton manteve a mulher prisioneira no quarto enquanto ele, disfar�ado com uma barba, seguiu o dr. Mortimer at� Baker Street e depois at� a esta��o e ao Hotel Northumberland. Sua mulher tinha alguma id�ia dos seus planos; mas tinha tanto medo do marido � medo baseado nos maus-tratos brutais �, que n�o se atreveu a escrever para prevenir o homem que ela sabia que estava em perigo. Se a carta ca�sse nas m�os de Stapleton, sua pr�pria vida correria risco. Finalmente, como sabemos, ela recorreu ao expediente de cortar as palavras que formariam a mensagem, e endere�ar a carta numa letra disfar�ada. Ela chegou ao baronete e deu-lhe o primeiro aviso do perigo que corria.</p><p>� Era essencial para Stapleton arranjar alguma pe�a de vestu�rio de sir Henry para que, no caso de ser obrigado a usar o c�o, pudesse ter os meios de lan��-lo na sua pista. Com presteza e aud�cia caracter�sticas, ele cuidou disto imediatamente, e n�o podemos duvidar de que o engraxate ou a camareira do hotel foram bem subornados para ajud�-lo em seu plano. Mas, por acaso, a primeira bota que foi conseguida para ele era nova e, portanto, in�til para o seu objetivo. Ent�o Stapleton fez com que ela fosse devolvida e obteve outra, um incidente muito instrutivo, j� que provou que est�vamos lidando com um c�o verdadeiro, porque nenhuma outra hip�tese poderia explicar esta ansiedade para obter uma bota velha e esta indiferen�a pela nova. Quanto mais outr� e grotesco � um incidente, com mais cuidado ele merece ser examinado, e o pr�prio detalhe que parece complicar um caso �, quando devidamente considerado e cientificamente manipulado, aquele que tem mais probabilidade de elucid�-lo.</p><p>� Depois tivemos a visita dos nossos amigos na manh� seguinte, seguidos sempre por Stapleton no cabriol�. Por conhecer o nosso endere�o e a minha apar�ncia, bem como pela sua conduta geral, estou inclinado a pensar que a carreira criminosa de Stapleton n�o est� limitada de modo algum a este caso isolado de Baskerville. � sugestivo o fato de durante os �ltimos tr�s anos ter havido quatro roubos vultosos na regi�o Oeste, e nenhum criminoso jamais foi preso por qualquer um deles. O �ltimo destes, em Folkestone Court, em maio, foi not�vel pelo disparo a sangue-frio do pajem, que surpreendeu o ladr�o mascarado e solit�rio. N�o tenho d�vida de que Stapleton obteve seus recursos, que estavam acabando, desta maneira, e que durante anos ele tem sido um homem desesperado e perigoso.</p><p>� Tivemos um exemplo da presteza dos seus recursos naquela manh� em que se livrou de n�s com tanto �xito, e tamb�m da sua aud�cia ao mandar de volta o meu pr�prio nome por interm�dio do cocheiro. A partir daquele momento ele compreendeu que eu havia assumido o caso em Londres, e que, portanto, n�o havia nenhuma chance para ele aqui. Ele voltou para Dartmoor e esperou a chegada do baronete.</p><p>� Um momento! � eu disse. � Voc� descreveu a seq��ncia dos acontecimentos corretamente, mas h� um detalhe que voc� deixou inexplicado. O que aconteceu com o c�o quando o seu dono esteve em Londres?</p><p>� Eu dei alguma aten��o a este assunto, e ele de fato � importante. N�o pode haver nenhuma d�vida de que Stapleton tinha um confidente, embora seja pouco prov�vel que ele chegasse a se colocar em seu poder compartilhando todos os seus planos com ele. Havia um velho empregado na Casa de Merripit cujo nome era Anthony. Sua liga��o com os Stapletons era antiga, desde o tempo em que ele dirigiu o col�gio, de modo que ele devia saber que seu patr�o e sua patroa eram realmente marido e mulher. Este homem desapareceu e fugiu do pa�s. � sugestivo o fato de que Anthony n�o � um nome comum na Inglaterra, mas Antonio � em todos os pa�ses hisp�nicos ou hispano-americanos. O homem, como a pr�pria sra. Stapleton, falava ingl�s bem, mas com um curioso sotaque ciciado. Eu mesmo vi este velho atravessar o charco de Grimpen pelo caminho que Stapleton havia demarcado. � muito prov�vel, portanto, que na aus�ncia do seu patr�o fosse ele quem cuidasse do c�o, embora talvez n�o soubesse com que objetivo o animal era usado.</p><p>� Os Stapletons depois foram para o Devonshire, seguidos pouco tempo depois por sir Henry e voc�. Uma palavra agora quanto � minha pr�pria posi��o na ocasi�o. Provavelmente voc� deve se recordar que, quando examinei o papel no qual as palavras impressas foram coladas, fiz um exame minucioso da marca d��gua. Ao fazer isso, segurei-o a poucos cent�metros dos meus olhos e percebi um ligeiro aroma do perfume conhecido como jasmim branco. H� 75 perfumes e por isso � necess�rio que um especialista em crimes consiga distinguir uns dos outros,</p><p>e mais de uma vez ocorreram casos em minha pr�pria experi�ncia que dependiam do seu r�pido reconhecimento. A fragr�ncia sugeria a presen�a de uma dama, e os meus pensamentos j� come�avam a se voltar para os Stapletons. Assim eu havia me certificado do c�o, e havia desconfiado do criminoso antes mesmo de irmos para a regi�o Oeste.</p><p>� O meu plano era vigiar Stapleton. Mas era evidente que eu n�o poderia fazer isso se estivesse com voc�s, j� que ele ficaria em guarda. Portanto, enganei todo mundo, inclusive voc�, e fui para o sul secretamente, quando pensavam que eu estava em Londres. Minhas dificuldades n�o foram t�o grandes como voc� imaginou, embora esses detalhes triviais nunca devam interferir na investiga��o de um caso. Fiquei a maior parte do tempo em Coombe Tracey, e s� usei a cabana do p�ntano quando foi necess�rio ficar perto do local da a��o. Cartwright tinha vindo comigo, e em seu disfarce de menino do campo me deu uma grande ajuda. Eu dependia dele para a comida e a roupa branca limpa. Enquanto eu ficava observando Stapleton, Cartwright ficava freq�entemente observando voc�, de modo que eu podia controlar todos os cord�es.</p><p>� Eu j� disse a voc� que os seus relat�rios me chegavam rapidamente, sendo reenviados na mesma hora de Baker Street para Coombe Tracey. Eles me ajudaram muito, principalmente aquela sorte, incidentalmente verdadeira, da biografia dos Stapletons. Eu consegui determinar a identidade do homem e da mulher, e saber afinal a quantas andava. O caso ficou mais complicado por causa do incidente do condenado foragido e das rela��es entre ele e os Barrymores. Isto tamb�m voc� esclareceu de modo muito eficiente, embora eu j� tivesse chegado �s mesmas conclus�es pelas minhas pr�prias observa��es.</p><p>� Quando voc� me descobriu no p�ntano, eu tinha um conhecimento completo de todo o neg�cio, mas n�o tinha um caso que pudesse ser levado a um j�ri. Nem mesmo a tentativa de Stapleton de atacar sir Henry naquela noite que terminou com a morte do infeliz condenado nos ajudou a provar assassinato contra o nosso homem. Parecia n�o haver nenhuma alternativa a n�o ser peg�-lo em flagrante, e para isso t�nhamos de usar sir Henry como isca, sozinho e aparentemente desprotegido. Fizemos isso, e � custa de um grande choque para o nosso cliente, conseguimos completar o nosso caso e levar Stapleton � sua destrui��o. Que sir Henry tivesse sido exposto a isto �, devo confessar, um fato conden�vel na minha condu��o do caso, mas n�o t�nhamos meio de prever o espet�culo terr�vel e paralisante que o animal apresentou, nem pod�amos prever a cerra��o que permitiu que ele avan�asse sobre n�s t�o inesperadamente. Alcan�amos o nosso objetivo a um custo que tanto o especialista como o dr. Mortimer me garantem que � tempor�rio. Uma viagem longa pode permitir que nosso amigo se recupere n�o s� dos seus nervos abalados, mas tamb�m dos seus sentimentos feridos. Seu amor pela dama era profundo e sincero, e para ele a parte mais triste de todo este caso sinistro foi ter sido enganado por ela.</p><p>� Falta apenas definir o papel que ela desempenhou em tudo isso. N�o pode haver d�vida de que Stapleton exercia uma influ�ncia sobre ela que pode ter sido amor ou pode ter sido medo, ou, muito provavelmente, ambos, j� que elas n�o s�o, de modo algum, emo��es incompat�veis. Era, pelo menos, absolutamente eficaz. Por ordem dele, ela concordou em passar por sua irm�, embora ele esbarrasse nos limites do seu poder quando tentou fazer dela o acess�rio direto do assassinato. Ela estava disposta a avisar sir Henry, desde que pudesse faz�-lo sem implicar seu marido, e ela tentou fazer isso v�rias vezes. O pr�prio Stapleton parece ter tido ci�mes, e quando viu o baronete fazendo a corte � dama, embora isso fizesse parte do seu pr�prio plano, n�o p�de deixar de interromper com uma explos�o apaixonada que revelou a alma ardente que os seus modos retra�dos escondiam de modo t�o esperto. Incentivando a intimidade, ele garantiria a presen�a freq�ente de sir Henry na Casa de Merripit, e assim teria, mais cedo ou mais tarde, a oportunidade que desejava. Mas, no dia da crise, sua mulher voltou-se de repente contra ele. Ela ouvira alguma coisa sobre a morte do condenado, e sabia que o c�o estava sendo guardado na depend�ncia anexa na noite em que sir Henry iria jantar l�. Ela responsabilizou o marido pelo crime planejado, e seguiu-se uma cena furiosa na qual ele revelou pela primeira vez que ela tinha uma rival no seu amor. A fidelidade dela transformou-se num instante num �dio amargo e ele percebeu que ela ia tra�-lo. Portanto, amarrou-a, para que ela n�o tivesse nenhuma possibilidade de avisar sir Henry, e esperava, sem d�vida, que quando toda a regi�o atribu�sse a morte do baronete � maldi��o da sua fam�lia, como certamente faria, poderia recuperar a fidelidade dela, fazendo-a aceitar o fato consumado e manter sil�ncio sobre o que sabia. Nisto acho que, de qualquer maneira, ele cometeu um engano, e que, se n�s n�o estiv�ssemos l�, a sorte dele estaria selada mesmo assim. Uma mulher de sangue espanhol n�o perdoa um insulto desses t�o facilmente. E agora, meu caro Watson, sem recorrer aos meus apontamentos, n�o posso fazer a voc� um relato mais detalhado deste caso curioso. N�o sei se alguma coisa essencial foi deixada sem explica��o.</p><p>� Ele n�o podia ter esperado matar sir Henry de susto como havia feito com o velho tio, com o seu c�o diab�lico.</p><p>� O animal era selvagem e estava esfomeado. Se a sua apar�ncia n�o matasse sua v�tima de susto, pelo menos paralisaria a resist�ncia que ela pudesse oferecer.</p><p>� Sem d�vida. Resta apenas uma dificuldade. Se Stapleton herdasse, como ele poderia explicar o fato de que ele, o herdeiro, estivesse vivendo escondido, com outro nome, t�o perto da propriedade? Como ele poderia reivindic�-la sem despertar suspeitas e d�vidas?</p><p>� Essa � uma grande dificuldade, e receio que voc� esteja pedindo demais quando espera que eu resolva isso. O passado e o presente est�o dentro do campo da minha investiga��o, mas o que um homem pode fazer no futuro � uma pergunta dif�cil de responder. A sra. Stapleton ouviu o marido discutir o problema em v�rias ocasi�es. Havia tr�s condutas poss�veis. Ele podia reivindicar a propriedade da Am�rica do Sul, estabelecer sua identidade diante das autoridades inglesas l�, e assim obter a fortuna sem jamais vir � Inglaterra; ou podia adotar um disfarce sofisticado durante o curto per�odo em que precisasse estar em Londres; ou, novamente, poderia fornecer as provas e documentos a um c�mplice, apresentando-o como herdeiro, e conservando o direito a uma parcela da renda dele. N�o podemos duvidar, pelo que sabemos dele, que ele teria encontrado algum meio de sair da dificuldade. E agora, meu caro Watson, tivemos algumas semanas de trabalho duro, e por uma noite, eu acho, devemos pensar em coisas mais agrad�veis. Tenho um camarote para �Les Huguenots�. Voc� j� ouviu o De Reszkes? Posso pedir-lhe ent�o para estar pronto em meia hora, e vamos parar no Marcini para um jantar no caminho?</p><p>*</p><p>FIM</p><empty-line/></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>O Vale do Medo</strong></p><empty-line/><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis/></strong></p><empty-line/><p><strong><emphasis/></strong></p><p><strong><emphasis>1� Parte</emphasis></strong></p><p><strong>a trag�dia de birlstone</strong></p><empty-line/></section><section><p><strong>O Aviso</strong></p><p>� Penso que... � eu disse.</p><p>� Eu deveria fazer isso � Sherlock Holmes comentou com impaci�ncia.</p><p>Acho que sou um dos mais pacientes mortais, mas admito que fiquei aborrecido com aquela interrup��o sarc�stica.</p><p>� Na verdade, Holmes � eu disse, s�rio � �s vezes voc� � um pouco irritante.</p><p>Ele estava absorto demais em seus pensamentos para dar uma resposta imediata � minha queixa. Curvou-se sobre a mesa, sem ter tocado em nada do que lhe fora servido no caf�-da-manh�, e olhou para a tira de papel que acabara de tirar de um envelope. Depois pegou o envelope, colocou-o perto da luz e examinou cuidadosamente tanto a parte externa quanto a sua dobra.</p><p>� � a letra de Porlock � disse de modo pensativo. � Tenho quase certeza de que</p><p>� a letra de Porlock, embora s� a tenha visto duas vezes. O E grego, floreado em cima, � caracter�stico. Mas se � de Porlock, deve ser algo muito importante.</p><p>Ele estava falando consigo mesmo, e n�o comigo, mas a minha irrita��o desapareceu, substitu�da pelo interesse que aquelas palavras me despertavam.</p><p>� Mas quem, afinal, � Porlock? � perguntei.</p><p>� Porlock, Watson, � um nome de plume, uma simples identifica��o, mas por tr�s disso existe uma personalidade matreira e evasiva. Numa carta anterior ele me disse abertamente que este n�o era seu nome e me desafiou, afirmando que eu jamais o encontraria entre os milh�es de habitantes desta cidade grande. Porlock � importante n�o por ele mesmo, mas pelo homem poderoso ao qual est� ligado. Imagine o peixe-guia com o tubar�o, o chacal com o le�o � qualquer coisa que seja � insignificante ao lado do que � amea�ador. N�o apenas amea�ador, Watson, mas sinistro � e sinistro no mais alto grau. � nesse aspecto que ele me interessa. Voc� j� me ouviu falar do professor Moriarty?</p><p>� O famoso criminoso, t�o famoso entre os bandidos quanto...</p><p>� Modere-se, Watson � Holmes disse num tom de desaprova��o.</p><p>� Eu ia dizer �quanto desconhecido do p�blico�.</p><p>� Assim � mais distinto! � Holmes exclamou. � Voc� est� revelando um certo tipo inesperado de humor baixo contra o qual preciso me proteger, Watson. Ao chamar Moriarty de criminoso, voc� est� dizendo uma cal�nia aos olhos da lei � e nisso reside a gl�ria e a maravilha da quest�o. O maior planejador de todos os tempos, o organizador de todas as crueldades, o c�rebro que controla o submundo: o c�rebro que poderia ter feito ou destru�do o destino de na��es. Este � o homem. Mas ele est� t�o distante da suspeita de todos, t�o imune a julgamentos, t�o admir�vel em sua conduta e na sua capacidade de passar despercebido que por estas palavras de acusa��o que voc� disse ele poderia arrast�-lo aos tribunais e ganhar uma indeniza��o por danos morais. N�o � ele o celebrado autor de A din�mica de um aster�ide, um livro que trata de matem�tica pura num n�vel t�o elevado que, segundo dizem, n�o havia ningu�m na imprensa cient�fica capaz de critic�-lo? Um homem desses � para se difamar? Um doutor desbocado e um professor difamado � esses seriam os pap�is de voc�s dois. Genial, Watson. Mas se eu for indulgente com os menos favorecidos, encontrarei meu lugar no c�u.</p><p>� E eu estarei l� para v�-lo! � eu disse de modo reverente. � Mas voc� estava falando desse tal de Porlock.</p><p>� Ah, sim. O que diz chamar-se Porlock � um elo na cadeia que n�o est� muito distante do elo principal. Porlock n�o � propriamente um elo entre n�s. Ele � a �nica falha nessa cadeia, at� onde eu pude testar.</p><p>� Mas nenhuma cadeia � mais forte que o seu elo mais fraco.</p><p>� Exatamente, meu caro Watson. Da� a extrema import�ncia de Porlock. Levado por algumas aspira��es rudimentares de honestidade e encorajado pela criteriosa estimula��o de uma ocasional nota de 10 libras enviada por m�todos furtivos, ele, por uma ou duas vezes, deu-me informa��es antecipadas de muito valor � aquele tipo de informa��o que prev� e evita o crime em vez de puni-lo. N�o tenho d�vida de que, se n�s tiv�ssemos o c�digo dessa mensagem, ver�amos que ela � importante como eu penso ser.</p><p>Holmes novamente abriu o papel sobre o seu prato vazio. Eu me levantei e, curvando-me a seu lado, vi aquela curiosa inscri��o, disposta da seguinte maneira:</p><empty-line/><p>534 C2 13 127 36 31 4 17 21 41</p><p>DOUGLAS 109 293 5 37 BIRLSTONE</p><p>26 BIRLSTONE 9 47 171</p><empty-line/><p>� O que voc� conclui disso, Holmes?</p><p>� Obviamente � uma tentativa de enviar informa��o secreta cifrada.</p><p>� Mas qual a utilidade de uma mensagem cifrada sem o c�digo?</p><p>� Neste caso, nenhuma.</p><p>� Por que voc� diz �neste caso�?</p><p>� Porque h� muitos c�digos que eu conseguiria ler com a mesma facilidade com que leio os resumos feitos nas colunas de obitu�rio. Essas coisas bobas divertem a intelig�ncia sem fatig�-la. Mas isso aqui � diferente. Est� claro que isso � uma refer�ncia �s palavras nas p�ginas de algum livro. At� eu saber que livro � esse e qual a p�gina n�o posso fazer nada.</p><p>� Mas por que �Douglas� e �Birlstone�?</p><p>� Logicamente porque essas palavras n�o est�o na p�gina citada.</p><p>� Ent�o por que ele n�o mencionou o livro?</p><p>� Sua perspic�cia natural, meu caro Watson, essa ast�cia que delicia seus amigos, certamente evitaria que voc� enviasse o c�digo e a mensagem no mesmo envelope. Se o esquema falha, voc� est� perdido. Desse outro modo, � preciso que os dois sejam extraviados para que haja algum perigo. Nosso segundo mensageiro j� est� atrasado e ficarei surpreso se ele n�o nos trouxer outra carta de explica��o ou, o que � mais prov�vel, o livro a que esses n�meros se referem.</p><p>A previs�o de Holmes concretizou-se poucos minutos depois com a chegada de Billy, o mensageiro, com a carta que est�vamos esperando.</p><p>� A mesma caligrafia � observou Holmes quando abriu o envelope � e desta vez assinada � acrescentou numa voz exultante, enquanto desdobrava a carta. � Veja, Watson, estamos progredindo.</p><p>Mas sua express�o se fechou ao ver o conte�do.</p><p>� Puxa! Isso � muito frustrante! Acho, Watson, que todas as nossas expectativas deram em nada. Espero que Porlock n�o seja prejudicado.</p><empty-line/><p>Prezado sr. Holmes, diz ele, n�o vou continuar nesse caso. � muito perigoso. Ele desconfia de mim. Posso sentir que ele desconfia. Ele se aproximou de mim, de modo inesperado, logo depois de eu ter endere�ado este envelope com a inten��o de lhe enviar a chave do c�digo. Consegui esconder tudo. Se ele tivesse visto, as coisas ficariam ruins para mim. Mas noto suspeita em seus olhos. Por favor, queime a mensagem cifrada, que agora n�o ter� nenhuma utilidade para o senhor.</p><p>Fred Porlock</p><empty-line/><p>Holmes ficou sentado durante algum tempo com a carta entre os dedos e o cenho franzido, enquanto olhava para o fogo.</p><p>� Na verdade � ele disse, finalmente � pode n�o haver nada. Pode ser apenas sua consci�ncia pesada. Sabendo que � um traidor, ele pode ter lido a acusa��o nos olhos do outro.</p><p>� E o outro, eu presumo, � o professor Moriarty?</p><p>� N�o pode ser outro. Quando qualquer um do grupo fala sobre �ele�, sabe-se logo de quem est�o falando. Existe um �ele� predominante para todos eles.</p><p>� Mas o que ele pode fazer?</p><p>� Hum! � uma pergunta complexa. Quando voc� tem um dos c�rebros mais brilhantes da Europa contra voc� e todas as for�as escusas a apoi�-lo, h� possibilidades infinitas. De qualquer modo, nosso amigo Porlock est� muito assustado. Compare com aten��o a caligrafia do bilhete com a do envelope, que foi feita, segundo ele, antes desta visita de mau agouro. Uma � clara e firme; a outra, pouco leg�vel.</p><p>� Por que ele escreveu, afinal? Por que simplesmente n�o desistiu?</p><p>� Porque temia que eu fizesse alguma sindic�ncia sobre ele nesse caso e, assim, lhe causasse algum problema.</p><p>� N�o h� d�vida � eu disse. � � claro. � Eu tinha apanhado a mensagem cifrada e a estava examinando. � � enlouquecedor pensar que este peda�o de papel pode conter um segredo importante e que est� al�m das for�as humanas desvend�-lo.</p><p>Sherlock Holmes empurrou os pratos de comida, nos quais nem tocara, e acendeu o cachimbo fedorento, que era sua companhia na hora das medita��es mais profundas.</p><p>� Isto � o que eu gostaria de saber! � ele disse, recostando-se e olhando para o teto. � Talvez haja alguns pontos que tenham escapado ao seu racioc�nio maquiav�lico. Vamos analisar o problema � luz da raz�o, simplesmente. Esse homem se refere a um livro. Esse � o nosso ponto de partida.</p><p>� O que � um pouco vago.</p><p>� Vamos ver, ent�o, se conseguimos delimit�-lo. No meu modo de ver a coisa, parece menos impenetr�vel. Que indica��es temos sobre este livro?</p><p>� Nenhuma.</p><p>� Bem, bem, na verdade n�o � t�o ruim assim. A mensagem cifrada come�a com um grande 534, n�o �? Podemos partir da hip�tese de que 534 � a p�gina � qual a mensagem se refere. Ent�o nosso livro � um grande, o que j� � alguma coisa. Que outras indica��es temos quanto � natureza desse livro grande? O sinal seguinte � C2. O que voc� acha disso, Watson?</p><p>� Cap�tulo dois, n�o h� d�vida.</p><p>� Nada disso, Watson. Tenho certeza de que voc� concordar� comigo que, se foi dada a p�gina, � desnecess�rio o n�mero do cap�tulo. Al�m disso, se a p�gina 534 est� no cap�tulo dois, o tamanho do primeiro cap�tulo deve ser realmente intoler�vel.</p><p>� Coluna! � eu gritei.</p><p>� Brilhante, Watson. Voc� est� maravilhoso esta manh�. Se n�o for coluna, ent�o ficarei muito desapontado. Ent�o agora, veja bem, come�amos a visualizar um livro grande, impresso em duas colunas, cada uma delas com um comprimento consider�vel, j� que uma das palavras do documento est� indicada como a de n�mero 293. Ser� que esgotamos a l�gica?</p><p>� Temo que sim.</p><p>� Isso � uma injusti�a com voc� mesmo. Tenho outra id�ia brilhante, meu caro Watson. Outro lampejo feliz. Se o livro fosse uma obra rara, ele o enviaria para mim. Em vez disso ele pretendia, antes que seus planos fossem interrompidos, enviar-me a chave do c�digo nesse envelope. Ele diz isso no bilhete. Isso parece indicar que, na opini�o dele, eu n�o teria dificuldade em encontrar o livro. Ele o tem, e imaginou que eu tamb�m o tivesse. Em resumo, Watson, � um livro bastante comum.</p><p>� O que voc� diz parece plaus�vel.</p><p>� Ent�o reduzimos nosso campo de pesquisa a um livro grande, impresso em duas colunas e de uso comum.</p><p>� A B�blia! � eu gritei, triunfante.</p><p>� Bom, Watson, bom! Mas, se � que posso dizer assim, n�o � suficientemente bom. Mesmo se a id�ia fosse minha, eu n�o poderia pensar num livro menos prov�vel de ser lido pelos associados de Moriarty. Al�m disso, as edi��es da Sagrada Escritura s�o tantas que dificilmente ele imaginaria que dois exemplares teriam a mesma pagina��o. O livro que ele menciona deve ser padronizado. Ele tem certeza de que a p�gina 534 dele coincidir� com a minha p�gina 534.</p><p>� Mas muitos poucos livros coincidiriam assim.</p><p>� Exatamente. A� est� nossa salva��o. Nossa pesquisa est� limitada a livros padronizados que se sup�e que qualquer pessoa possua.</p><p>� O Bradshaw!*</p><p>� H� algumas dificuldades, Watson. O vocabul�rio do Bradshaw � vivo e conciso, mas limitado. A sele��o de palavras n�o serviria para o envio de mensagens de car�ter geral. Vamos eliminar o Bradshaw. O dicion�rio � inadmiss�vel pelo mesmo motivo. O que resta ent�o?</p><p>� Um almanaque.</p><p>� Excelente, Watson! Muito me engano se voc� n�o acertou no alvo. Um almanaque! Vamos analisar as caracter�sticas do Almanaque Whitaker. Ele � de uso geral. Tem o n�mero de p�ginas suficiente. � impresso em duas colunas. Embora conciso nas primeiras edi��es, tornou-se, se bem me lembro, bastante descritivo depois. � Ele apanhou o volume na mesa. � Aqui est� a p�gina 534, coluna dois, um consider�vel bloco de informa��es, segundo percebo, sobre o com�rcio e os recursos da �ndia brit�nica. Anote as palavras, Watson. A de n�mero 13 � �Mahratta�. Receio que n�o seja um come�o muito auspicioso. A de n�mero 127 � �governo�, o que pelo menos faz sentido, embora um tanto irrelevante para n�s e para o professor Moriarty. Vamos tentar de novo. O que faz o governo de Mahratta? Ah! A palavra seguinte � �erva-cidreira�. Nada feito, meu bom Watson! Chega!</p><p>Ele dissera aquilo de um modo engra�ado, mas a contra��o de suas sobrancelhas cerradas demonstrava desapontamento e irrita��o. Eu me sentei, desalentado e infeliz, olhando para o fogo. O longo sil�ncio foi quebrado por uma s�bita exclama��o de Holmes, que correu at� um arm�rio e apanhou um livro de capa amarela.</p><p>� Pagamos o pre�o, Watson, de sermos t�o atualizados � ele exclamou. � Vivemos � frente do nosso tempo, e sofremos as penas habituais. Sendo dia 7 de janeiro, n�s muito adequadamente pesquisamos no novo almanaque. � mais do que prov�vel que Porlock tenha tirado sua mensagem do antigo. N�o h� d�vida de que ele nos diria isso caso tivesse escrito sua carta de explica��o. Vamos ver a p�gina 534. A palavra n�mero 13 � �existe�, o que � mais promissor. A palavra 127 � �algum�. Existe algum... � Os olhos de Holmes brilhavam de contentamento e seu dedo fino, agitado, tremia enquanto ele contava as palavras. � �Perigo�. Ah! Ah! Excelente! Escreva a�, Watson. Existe algum perigo-pode-vir-em breve-algu�m. Ent�o temos o nome Douglas. �Rico-agora-em Birlstone House- certeza- Birlstone em risco. A� est�, Watson! O que me diz da raz�o pura e seus resultados? Se no armaz�m vendessem uma coroa de louros, eu mandaria Billy buscar uma.</p><p>Eu estava olhando para a estranha mensagem que havia escrito, enquanto ele a decifrava, numa folha de papel alma�o sobre meu joelho.</p><p>� Que maneira estranha de dizer alguma coisa! � comentei.</p><p>� Ao contr�rio, ele foi extremamente feliz � disse Holmes. � Quando voc� procura numa coluna s� as palavras com as quais expressar o que deseja, dificilmente encontrar� tudo que quer dizer. Voc� � obrigado ent�o a deixar alguma coisa para a intelig�ncia do seu correspondente. O sentido est� perfeitamente claro. Existe alguma coisa planejada contra algu�m chamado Douglas, quem quer que ele seja, que �, como est� dito, um homem rico que mora no interior do pa�s. Ele est� certo (�certeza� foi a palavra mais pr�xima de �certo� que ele encontrou) de que o outro est� em perigo. A� est� o resultado e foi preciso um pouco de an�lise feita com muita habilidade.</p><p>Holmes tinha a alegria impessoal do verdadeiro artista em sua melhor forma, mesmo que se lamentasse quando n�o conseguia atingir o alto n�vel a que aspirava. Ele ainda estava sorrindo por causa do sucesso quando Billy abriu a porta e o inspetor MacDonald, da Scotland Yard, entrou apressado na sala.</p><p>J� iam longe aqueles dias, quase no in�cio do s�culo, quando Alec MacDonald nem sonhava obter a fama nacional que agora conquistara. Ele era um integrante jovem mas confi�vel do grupo de detetives, que se distinguira em v�rios casos que ficaram sob sua responsabilidade. Sua figura alta e robusta revelava uma grande for�a f�sica, enquanto que a cabe�a de formato grande e os olhos fundos e vivos n�o eram provas menos evidentes da intelig�ncia perspicaz que cintilava por baixo daquelas sobrancelhas grossas. Ele era um homem calado, meticuloso, de car�ter obstinado e com um forte sotaque de Aberdeen. Duas vezes, ao longo de sua carreira, Holmes o havia ajudado a resolver casos, sendo que sua �nica recompensa fora a satisfa��o intelectual de enfrentar um problema. Por este motivo, a afei��o e o respeito do escoc�s por seu colega amador eram profundos, e ele os demonstrava pela franqueza com que consultava Holmes em qualquer dificuldade. A mediocridade n�o conhece nada al�m de si mesma, mas o talento reconhece imediatamente o g�nio, e MacDonald tinha talento profissional suficiente para perceber que n�o havia humilha��o alguma em procurar a ajuda de algu�m que, na Europa, era o �nico que poderia ajud�-lo, tanto pelo talento como pela experi�ncia. Holmes n�o era predisposto a amizades, mas era tolerante com aquele escoc�s grandalh�o e sorriu ao v�-lo.</p><p>� O senhor � um p�ssaro madrugador, sr. Mac � ele disse. � Desejo que o senhor encontre o que procura. Receio que isso signifique que h� alguma coisa de errado.</p><p>� Se o senhor dissesse �espero� em lugar de �receio� ficaria mais perto da verdade, na minha opini�o, sr. Holmes � respondeu o inspetor com um sorriso. � Bem, talvez um pequeno trago afastasse essa friagem da manh�. N�o, n�o quero fumar, obrigado. Preciso ir embora, pois as primeiras horas de um caso s�o valiosas, j� que ningu�m conhece os fatos melhor que voc�. Mas... mas...</p><p>O inspetor parou de falar abruptamente e olhava, com total perplexidade, para um peda�o de papel que estava sobre a mesa. Era a folha em que eu anotara a mensagem enigm�tica.</p><p>� Douglas! � ele disse, um pouco confuso. � Birlstone! O que � isso, sr. Holmes? Olha, isso � bruxaria! Em nome do que � mais sagrado, onde o senhor obteve esses nomes?</p><p>� Isto � um c�digo que eu e o dr. Watson tivemos a oportunidade de elucidar. Mas por qu�? O que h� de errado com esses nomes?</p><p>O inspetor olhou para n�s, primeiro para um e depois para o outro, com uma express�o de assombro.</p><p>� Apenas � ele disse � que o sr. Douglas, da Mans�o de Birlstone, foi barbaramente assassinado ontem � noite.</p><empty-line/></section><section><p><strong>Sherlock Holmes se Pronuncia</strong></p><p>Foi um daqueles momentos dram�ticos para os quais meu amigo vivia. Seria um exagero dizer que ele ficou chocado ou nervoso com a revela��o surpreendente. Embora n�o tivesse uma ponta de crueldade em sua forma��o, ele era, sem sombra de d�vida, calejado devido a uma grande viv�ncia. Mas se suas emo��es estavam amortecidas, sua percep��o intelectual encontrava-se extraordinariamente ativa. N�o havia, ent�o, nenhum vest�gio do que eu senti com aquela not�cia curta, mas seu rosto mostrava uma express�o calma e interessada, igual � do qu�mico que v� os cristais decantarem numa solu��o saturada.</p><p>� Extraordin�rio! � disse ele. � Extraordin�rio!</p><p>� O senhor n�o parece surpreso.</p><p>� Interessado, sr. Mac, mas pouco surpreso. Por que eu estaria surpreso? Recebi uma comunica��o an�nima de uma fonte que sei ser importante, avisando-me que</p><p>o perigo amea�a uma certa pessoa. Uma hora depois fico sabendo que esse perigo realmente se concretizou e que a pessoa morreu. Estou interessado, mas, como o senhor v�, n�o estou surpreso.</p><p>Em poucas palavras ele explicou ao inspetor os fatos sobre a carta e o c�digo. MacDonald sentou-se, com o queixo enfiado na m�o, e as grossas sobrancelhas cor-de-areia enroladas em feixes.</p><p>� Eu ia para Birlstone hoje cedo � ele disse. � Vim aqui para lhe perguntar se o senhor gostaria de ir comigo. O senhor e o seu amigo aqui. Mas, pelo que o senhor diz, talvez possamos trabalhar melhor aqui mesmo em Londres.</p><p>� Pois eu penso que n�o � disse Holmes.</p><p>� Com os diabos, sr. Holmes! � gritou o inspetor. � Dentro de um dia ou dois os jornais estar�o cheios de not�cias sobre o mist�rio de Birlstone. Mas que mist�rio, se h� um homem em Londres que previu o crime antes mesmo que ele ocorresse? Temos apenas que p�r as m�os nesse homem e o resto vir� em seguida.</p><p>� N�o h� d�vida, sr. Mac. Mas como o senhor pretende p�r as m�os nesse homem que atende por Porlock?</p><p>MacDonald virou a carta que Holmes lhe entregara.</p><p>� Foi posta no correio em Camberwell. Isso n�o ajuda muito. O nome, como disse o senhor, n�o � verdadeiro. N�o h� muita coisa para seguirmos, na verdade. O senhor n�o disse que havia lhe enviado dinheiro?</p><p>� Duas vezes.</p><p>� E como?</p><p>� Em notas para o correio de Camberwell.</p><p>� O senhor nunca se preocupou em ver quem ia pegar o dinheiro?</p><p>� N�o.</p><p>O inspetor pareceu surpreso e um pouco chocado.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� Porque sou leal. Eu prometi a ele, quando me escreveu pela primeira vez, que n�o tentaria localiz�-lo.</p><p>� O senhor acredita que haja algu�m por tr�s dele?</p><p>� Sei que h� algu�m.</p><p>� Esse professor que ouvi o senhor mencionar?</p><p>� Exatamente.</p><p>O inspetor MacDonald sorriu, e suas p�lpebras estremeceram quando ele olhou para mim.</p><p>� N�o vou esconder, sr. Holmes, que n�s da Divis�o de Investiga��es Criminais pensamos que o senhor desconfia desse professor. Eu mesmo fiz algumas investiga��es sobre isso. Ele parece ser um tipo de homem muito respeit�vel, instru�do e talentoso.</p><p>� Fico feliz que os senhores tenham reconhecido seu talento.</p><p>� Mas n�o se pode deixar de reconhecer. Depois de saber a sua opini�o, resolvi ir v�-lo. Tive uma conversa com ele sobre eclipses. N�o sei dizer como a conversa foi parar nisso. Mas ele tinha uma lanterna refletora e um globo, de modo que me explicou tudo num minuto. Ele me emprestou um livro, mas n�o vejo problema em reconhecer que era um pouquinho profundo demais para mim, embora eu tenha tido uma boa forma��o em Aberdeen. Ele impressiona bastante com aquele rosto magro, os cabelos prateados e o modo solene de falar. Quando ele p�s a m�o no meu ombro, na hora em que eu ia embora, era como a b�n��o do pai quando se sai para enfrentar o mundo cruel.</p><p>Holmes sorriu e esfregou as m�os.</p><p>� �timo! � ele disse. � �timo! Diga-me, meu amigo, esse encontro agrad�vel e tocante foi, eu suponho, no escrit�rio do professor?</p><p>� Foi.</p><p>� Um lugar bonito, n�o �?</p><p>� Muito bom. Muito elegante mesmo, sr. Holmes.</p><p>� O senhor se sentou de frente para a escrivaninha dele?</p><p>� Exatamente.</p><p>� Com o sol nos seus olhos e o rosto dele na sombra?</p><p>� Bem, j� era noite, mas eu lembro que a luz estava virada para o meu rosto.</p><p>� Tinha que ser. O senhor por acaso notou um quadro acima da cabe�a do professor?</p><p>� Eu n�o deixo escapar muita coisa, sr. Holmes. Talvez tenha aprendido com o senhor. Sim, vi o quadro. Uma jovem com a cabe�a sobre as m�os, olhando de lado.</p><p>� Aquele quadro � de Jean Baptiste Greuze.</p><p>O inspetor tentou parecer interessado.</p><p>� Jean Baptiste Greuze � continuou Holmes, juntando as pontas dos dedos e recostando-se bem para tr�s na cadeira � foi um artista franc�s que apareceu entre os anos de 1750 e 1800. Eu me refiro, � claro, ao per�odo de sua carreira. Os cr�ticos atuais fizeram mais do que endossar a grande fama que ele conseguiu entre seus contempor�neos.</p><p>Os olhos do inspetor tinham uma express�o distra�da.</p><p>� N�o seria melhor... � ele disse.</p><p>� Vamos chegar l� � interrompeu Holmes. � Tudo que estou dizendo tem uma rela��o muito direta e vital com o que o senhor chamou de mist�rio de Birlstone. Na verdade, isto pode ser, em certo sentido, considerado a pr�pria causa do mist�rio.</p><p>MacDonald deu um ligeiro sorriso e olhou de modo simp�tico para mim.</p><p>� Suas id�ias s�o muito r�pidas para o meu ritmo, sr. Holmes. O senhor omite um fato ou outro e a� n�o consigo acompanhar. Qual �, afinal, a rela��o entre este pintor morto e o caso de Birlstone?</p><p>� Todo conhecimento � �til para o detetive � observou Holmes. � Mesmo o fato banal de que no ano de 1865 um quadro de Greuze, chamado La Jeune Fille � l�Agneau, alcan�ou mais de 40 mil libras no leil�o de Portalis pode dar in�cio a uma s�rie de reflex�es na sua mente.</p><p>� claro que foi assim. O inspetor parecia agora sinceramente interessado.</p><p>� Posso lembrar-me � continuou Holmes � que � poss�vel averiguar o sal�rio do professor em v�rias fontes confi�veis. Ele recebe setecentas libras por ano.</p><p>� Ent�o, como ele poderia comprar...</p><p>� Exatamente. Como poderia?</p><p>� Sim, � extraordin�rio � disse o inspetor, pensativo. � Continue, sr. Holmes. Estou adorando tudo isso. � maravilhoso.</p><p>Holmes sorriu. Ele sempre se emocionava com uma admira��o sincera � a caracter�stica de um verdadeiro artista.</p><p>� E Birlstone? � ele perguntou.</p><p>� Ainda temos tempo � disse o inspetor, olhando para o rel�gio. Tenho um cabriol� a� na porta, e em menos de vinte minutos estaremos em Victoria Station. Mas sobre o quadro... Pensei que certa vez, sr. Holmes, tivesse me dito que nunca se encontrara com o professor Moriarty.</p><p>� N�o, nunca me encontrei.</p><p>� Ent�o como sabe a respeito dessas coisas?</p><p>� Ah, isso � uma outra quest�o. Estive tr�s vezes no� escrit�rio dele, duas esperando por ele com pretextos diferentes e saindo antes que ele chegasse. Uma vez... bem, mal consigo falar sobre essa vez a um detetive da pol�cia. Foi nessa �ltima ocasi�o que tomei a liberdade de remexer em seus pap�is, com o mais inesperado dos resultados.</p><p>� O senhor achou algo comprometedor?</p><p>� Absolutamente nada. Foi isso que me deixou perplexo. Contudo, agora o senhor sabe da quest�o do quadro. Isso mostra que ele � um homem muito rico. Como conseguiu fortuna? N�o � casado. Seu irm�o mais mo�o � chefe de esta��o numa cidade do oeste. Sua cadeira de professor lhe rende setecentas libras por ano. E ele possui um Greuze.</p><p>� E da�?</p><p>� A conclus�o est� clara.</p><p>� O senhor quer dizer que ele tem uma renda muito grande e que deve ganh�-la de modo ilegal?</p><p>� Exatamente. � claro que tenho outros motivos para pensar assim. Algumas pequenas pistas que levam de modo vago ao centro da teia onde a criatura venenosa e im�vel se oculta. S� menciono o quadro de Greuze porque isso o senhor mesmo observou.</p><p>� Bem, sr. Holmes, admito que o que o senhor diz � interessante. Mais do que interessante � � maravilhoso. Mas vamos esclarecer tudo isso um pouquinho mais, se for poss�vel. O senhor acredita que seja falsifica��o de dinheiro ou roubo? De onde vem esse dinheiro?</p><p>� O senhor j� leu a respeito de Jonathan Wild?</p><p>� Bem, o nome me parece familiar. Personagem de um romance, n�o �? Eu n�o ligo muito para os detetives de romances. S�o uns sujeitos que fazem as coisas e n�o deixam a gente ver como eles fazem. Eles fazem tudo por intui��o e n�o com t�cnica.</p><p>� Jonathan Wild n�o era detetive, nem personagem de romance. Ele foi um mestre do crime. Viveu no s�culo passado, em 1750 ou coisa assim.</p><p>� Ent�o n�o me serve. Sou um homem pr�tico.</p><p>� Sr. Mac, a coisa mais pr�tica que o senhor faria na vida seria ficar calado por tr�s meses e ler a historiografia do crime. Tudo acontece em ciclos, at� o professor Moriarty. Jonathan Wild era a for�a oculta dos criminosos de Londres, aos quais vendia suas id�ias e sua organiza��o por uma comiss�o de 15%. A velha roda continua a girar e tudo que desce torna a subir. J� aconteceu tudo isso antes e acontecer� novamente. Vou contar-lhe uma ou duas coisas sobre Moriarty que lhe interessar�o.</p><p>� � tudo muito interessante.</p><p>� Acontece que eu conhe�o o primeiro elo da cadeia. Uma cadeia com esse Napole�o fracassado numa das pontas e centenas de bandidos, batedores de carteira, chantagistas e trapaceiros na outra ponta, com todo tipo de crime entre as duas. O comandante-em-chefe � o coronel Sebastian Moran, t�o distante, protegido e inacess�vel � justi�a quanto ele mesmo. Quanto o senhor acha que ele lhe paga?</p><p>� Gostaria de saber.</p><p>� Seis mil libras por ano. � o sal�rio pago pelo seu c�rebro, dentro do esp�rito americano de neg�cios. Eu soube desse detalhe por acaso. � mais do que os vencimentos do primeiro-ministro. Isso lhe d� uma id�ia dos rendimentos de Moriarty e da escala em que ele opera. Um outro ponto. Eu me dei ao trabalho de investigar alguns dos �ltimos cheques emitidos por Moriarty. Apenas cheques corriqueiros com os quais ele paga as contas de casa. Eram de seis bancos diferentes. Isso lhe diz alguma coisa?</p><p>� Na verdade � muito estranho. Mas o que o senhor deduz disso?</p><p>� Que ele n�o queria coment�rios sobre sua fortuna. Ningu�m ficaria sabendo, desse modo, quanto ele possui. N�o tenho d�vida alguma de que ele possui vinte contas banc�rias. O grosso da sua fortuna est� no exterior, muito provavelmente no Deutsche Bank ou no Cr�dit Lyonnais. Quando tiver tempo, eu lhe recomendo uma investiga��o sobre o professor Moriarty.</p><p>O inspetor MacDonald ficava mais impressionado com o assunto � medida que a conversa prosseguia. Ele havia se deixado desviar do assunto que o levara at� l�. Agora sua intelig�ncia escocesa pr�tica levou-o de volta ao assunto que tinha a tratar.</p><p>� Mas ele pode se esquivar � disse o inspetor. � O senhor nos desviou do assunto com suas hist�rias interessantes, sr. Holmes. O que realmente interessa � sua observa��o de que existe alguma liga��o entre o professor e o crime. Isso o senhor ficou sabendo pela mensagem que recebeu de Porlock. Ser� que, para nosso interesse pr�tico imediato, poderemos conseguir mais do que isso?</p><p>� Podemos alinhavar algumas id�ias quanto ao motivo do crime. �, segundo pude deduzir de suas observa��es iniciais, um crime inexplic�vel, ou pelo menos inexplicado. Agora, supondo que a origem do crime seja a que suspeitamos, pode haver dois motivos diferentes. Em primeiro lugar, posso dizer-lhe que Moriarty controla seu pessoal com m�o de ferro. A disciplina dele � tremenda. S� h� uma puni��o em seu c�digo. A morte. Agora, podemos supor que este homem que foi assassinado (esse Douglas, cuja morte iminente j� era do conhecimento de um dos subordinados do chef�o do crime) de algum modo traiu o chefe. Sua puni��o seria uma conseq��ncia natural, e do conhecimento de todos � mesmo que fosse apenas para incutir-lhes o medo da morte.</p><p>� Bem, essa � uma sugest�o, sr. Holmes.</p><p>� A outra � que o assassinato tenha sido engendrado por Moriarty no curso normal dos neg�cios. Houve algum roubo?</p><p>� N�o soube de nada a esse respeito.</p><p>� Se houve roubo, isso iria contrariar a primeira hip�tese e refor�aria a segunda. Moriarty pode ter planejado tudo com a promessa de receber parte do lucro, ou ent�o foi muito bem pago para execut�-lo. As duas s�o poss�veis. Mas, qualquer que tenha sido, ou se foi uma terceira combina��o, � l� em Birlstone que devemos investigar. Conhe�o muito bem nosso homem para supor que tenha deixado alguma coisa aqui que pudesse nos levar at� ele.</p><p>� Ent�o, vamos a Birlstone! � exclamou MacDonald, saltando da cadeira. � Puxa! � mais tarde do que eu pensava. Senhores, dou-lhes cinco minutos para se arrumarem, e nada mais.</p><p>� � muito para n�s dois � disse Holmes ao se levantar da cadeira para ir tirar o roup�o e vestir o casaco. � Quando estivermos a caminho, sr. MacDonald, vou pedir-lhe que tenha a bondade de me contar tudo sobre o caso.</p><p>��Tudo sobre o caso� na verdade era muito pouco, embora houvesse evid�ncias de que o caso que t�nhamos em m�os merecia uma grande aten��o dos especialistas. Ele se mostrou animado e esfregou as m�os magras enquanto ouvia os detalhes, poucos mas valiosos. At� aquele dia, t�nhamos passado uma s�rie de semanas sem movimento algum e agora, finalmente, surgia algo interessante para aquele extraordin�rio talento que, como todos os dons especiais, torna-se desinteressante se n�o estiver em uso. A l�mina do c�rebro fica cega e enferruja se n�o for usada. Os olhos de Sherlock Holmes reluziram, seu rosto p�lido adquiriu uma leve cor e todo o seu rosto inquieto brilhou quando recebeu o chamado para o servi�o. No cabriol�, inclinado para a frente, ouvia atentamente a curta narrativa sobre o problema que nos esperava em Sussex. O inspetor baseava-se, segundo nos explicou, numa mensagem que lhe foi enviada pelo trem da manh�. White Mason, o oficial local, era seu amigo, e por isso MacDonald fora avisado mais rapidamente do que era normal na Scotland Yard quando algu�m do interior necessitava de sua ajuda. Quando um agente da capital � chamado para o caso, geralmente as pistas j� foram desfeitas.</p><empty-line/><p>�Prezado Inspetor MacDonald�, dizia a carta que ele leu para n�s. �Segue num envelope anexo uma requisi��o oficial pedindo seus servi�os. Esta � uma carta pessoal. Telegrafe avisando em que trem poder� vir para Birlstone e eu irei esper�-lo. Ou mandarei algu�m se estiver muito ocupado. Este caso � dos grandes. N�o perca tempo. Se conseguir trazer o sr. Holmes, ser� �timo, pois ele pode descobrir alguma coisa. Tudo daria a impress�o de uma cena de teatro se n�o houvesse aquele homem morto. Puxa, esse � dos grandes!�</p><empty-line/><p>� Seu amigo n�o � tolo � observou Holmes.</p><p>� N�o � mesmo. White Mason � um homem muito esperto, se � que posso julgar algu�m.</p><p>� Bem, o senhor sabe de mais alguma coisa?</p><p>� S� que ele nos dar� todos os detalhes quando chegarmos l�.</p><p>� Como o senhor ficou sabendo do sr. Douglas e que ele havia sido horrivelmente assassinado?</p><p>� Estava no relat�rio oficial anexo. L� n�o diz �horr�vel�. Esse n�o � um termo usado oficialmente. Dava o nome de John Douglas. Mencionava que os ferimentos eram na cabe�a, causados pelo disparo de uma espingarda. Mencionava tamb�m a hora do alarme, que foi por volta da meia-noite de ontem. Acrescentava que o caso, sem sombra de d�vida, era assassinato, mas que ningu�m fora detido, e que apresentava caracter�sticas intrigantes e fora do comum. Isso � tudo o que temos at� agora, sr. Holmes.</p><p>� Ent�o, com sua permiss�o, vamos deixar assim, sr. Mac. A tenta��o de elaborar teorias prematuras com base em dados insuficientes � o mal de nossa profiss�o. S� vejo duas coisas concretas no momento: um grande c�rebro em Londres e um homem morto em Sussex. A liga��o que existe entre essas duas coisas � o que vamos investigar.</p><empty-line/></section><section><p><strong>A Trag�dia de Birlstone</strong></p><p>E agora, por um momento, vou pedir licen�a para retirar minha insignificante pessoa e narrar os fatos que ocorreram antes de chegarmos ao local, e segundo informa��es que obtivemos depois. S� desse modo posso fazer com que o leitor avalie as pessoas envolvidas e o estranho ambiente em que seu destino as lan�ou.</p><p>A aldeia de Birlstone � uma pequena e antiga povoa��o de casas constru�das de madeira e alvenaria na parte norte do Condado de Sussex. Durante muitos s�culos o lugar permaneceu imut�vel, mas nos �ltimos anos seu jeito pitoresco e sua localiza��o t�m atra�do um grande n�mero de moradores ricos, cujas vilas se perdem nos bosques das cercanias. Acredita-se, no lugar, que esses bosques sejam o in�cio da imensa floresta de Weald, que se estende at� alcan�ar as plan�cies do norte da Inglaterra. Surgiram v�rias lojas para atender �s necessidades da popula��o, agora</p><p>maior, de modo que se espera que em pouco tempo Birlstone se transforme de um antigo vilarejo em uma cidade moderna. Ali � o centro de uma �rea grande do pa�s, j� que Tunbridge Wells, o mais importante da regi�o, fica a 15 ou 20 quil�metros para leste, al�m dos limites de Kent.</p><p>A cerca de 800 metros da cidade, num antigo parque, famoso por suas grandes faias, situa-se a antiga Casa Senhorial de Birlstone. Parte desta vener�vel constru��o remonta ao tempo das Cruzadas, quando Hugo de Capus construiu uma fortaleza no meio da propriedade, que lhe fora dada pelo Rei Vermelho. Ela foi destru�da por um inc�ndio em 1543 e algumas das suas pedras angulares, marcadas pelo fogo, foram utilizadas, no reinado de James I, para a constru��o de uma casa erguida sobre as ru�nas do castelo feudal. A Casa Senhorial, com suas muitas arestas e suas janelas pequenas em forma de diamante, ainda estava em grande parte do modo como o construtor a entregara no in�cio do s�culo XVII. Dos dois fossos que haviam protegido os antecessores mais guerreiros, o externo estava vazio e tinha agora a humilde fun��o de p�tio da cozinha. O fosso interno ainda estava l�, com seus 12 metros de largura, embora tivesse agora apenas alguns metros de �gua em toda a volta da casa. Uma pequena corrente o abastecia e continuava depois dele, de modo que, embora ele fosse turvo, sua �gua n�o ficava estagnada. O �nico acesso � casa era atrav�s de uma ponte levadi�a, cujas correntes e guinchos h� muito tinham se enferrujado e quebrado. Mas os �ltimos propriet�rios da casa tinham, com uma energia elogi�vel, feito os reparos necess�rios e a ponte levadi�a era capaz n�o apenas de se erguer, mas, de fato, era suspensa toda noite e baixada pela manh�. Assim, retomando o costume dos antigos tempos feudais, a Casa Senhorial era convertida numa ilha durante a noite � um fato que tinha uma rela��o muito direta com o mist�rio que em breve chamaria a aten��o de toda a Inglaterra.</p><p>A casa ficou sem dono durante alguns anos e estava amea�ada de se transformar numa pitoresca decad�ncia quando os Douglas ficaram com ela. Essa fam�lia era formada apenas por duas pessoas: John Douglas e sua esposa. Douglas era um homem not�vel, tanto pelo car�ter como pelo f�sico; sua idade deveria estar em torno dos 50, com o rosto de tra�os firmes, um bigode grisalho, os olhos cinzentos com uma express�o particularmente triste e um corpo musculoso e forte que n�o perdera nada dos tempos de juventude. Ele era alegre e gentil com todos, mas um tanto brusco em seus modos, dando a impress�o de que fora criado numa camada social um pouco inferior � da sociedade de Sussex. Contudo, embora visto com alguma reserva e curiosidade por seus vizinhos mais refinados, em pouco tempo adquiriu uma grande popularidade entre os habitantes do lugar, contribuindo de modo generoso para qualquer campanha e comparecendo aos concertos populares e a outros eventos, onde, sendo um not�vel tenor, estava sempre disposto a cantar alguma coisa. Ele parecia ter muito dinheiro, que, segundo se dizia, ganhara nos garimpos de ouro da Calif�rnia, e ficava patente, pelo que ele e a mulher diziam, que passara uma parte da vida na Am�rica. A boa impress�o produzida por sua generosidade e por seus modos democr�ticos aumentou pela forma de total indiferen�a ao perigo. Embora fraco como cavaleiro, comparecia a todos os rodeios e levava os tombos mais divertidos com sua determina��o de conseguir o melhor de si. Quando o vicariato pegou fogo, ele se distinguiu tamb�m pelo modo destemido como entrou no pr�dio v�rias vezes para salvar alguns pertences, depois que os bombeiros locais j� tinham dado o caso por encerrado, qualificando-o de imposs�vel. Assim, John Douglas, da Casa Senhorial, em cinco anos tinha uma boa reputa��o em Birlstone.</p><p>Sua esposa tamb�m era popular entre as pessoas com as quais se dava, embora, segundo o costume ingl�s, as visitas a estrangeiros que chegassem sem apresenta��es fossem raras. Isso n�o importava muito a ela, j� que escolhera aquele vilarejo por vontade pr�pria e estava muito absorvida, segundo as apar�ncias, no marido e na vida dom�stica. Sabia-se que ela era uma dama inglesa que conhecera o sr. Douglas em Londres, que era vi�vo naquele tempo. Ela era uma mulher linda, alta, morena e elegante, cerca de 20 anos mais jovem que o marido; uma diferen�a que n�o parecia estragar a alegria da vida conjugal. Mas as pessoas que os conheciam melhor observaram algumas vezes que a confian�a entre ambos n�o parecia completa, j� que a esposa era muito reticente sobre o passado do marido ou, o que era mais prov�vel, n�o o conhecia a fundo. Algumas pessoas mais observadoras j� haviam percebido e comentado que a sra. Douglas tinha alguns sinais de doen�a nervosa e que demonstrava uma grande inquieta��o se o marido demorasse a voltar para casa. Num lugarejo calmo, onde qualquer mexerico � bem-vindo, essa fraqueza da senhora da Casa Senhorial n�o passou despercebida e tornou-se mais viva ainda na mem�ria de todos quando ocorreram certos fatos que deram a esse comportamento um significado especial.</p><p>Havia ainda uma outra pessoa que morava naquela casa, embora n�o em car�ter permanente, mas cuja presen�a ali na �poca dos estranhos acontecimentos que ser�o narrados trouxe seu nome a p�blico de forma muito not�ria. Era Cecil James Barker, de Hales Lodge, Hampstead. A sua figura alta e meio desconjuntada j� era conhecida na rua principal de Birlstone, porque ele era um visitante freq�ente e bem-vindo na Casa Senhorial. Ele era mais notado ainda por ser o �nico amigo do passado desconhecido do sr. Douglas a freq�entar sua nova casa inglesa. Barker era sem d�vida alguma um ingl�s, mas por certas observa��es suas ficava claro que conhecera Douglas na Am�rica e que ali tinham sido amigos �ntimos. Ele parecia ser um homem rico, e diziam que era solteiro. Em termos de idade, era mais mo�o que Douglas, no m�ximo 45 anos; alto, elegante e de peito largo, o rosto bem barbeado e com um certo ar de pugilista, sobrancelhas grossas e pretas, e olhos negros dominadores que poderiam, mesmo sem a ajuda das m�os fortes, abrir caminho no meio de uma multid�o hostil. Ele n�o montava a cavalo nem ca�ava, mas passava os dias caminhando pelo velho vilarejo com o cachimbo na boca, ou andando de charrete com seu anfitri�o, ou, na aus�ncia deste, com a esposa dele, percorrendo toda aquela linda regi�o. �Um cavalheiro tranq�ilo, generoso�, dizia Ames, o mordomo. �Mas eu n�o gostaria de ter que enfrent�-lo.� Ele era cordial e �ntimo com Douglas e n�o menos cordial com sua esposa, uma amizade que por mais de uma vez pareceu provocar certa irrita��o no marido, de tal modo que at� mesmo os empregados podiam perceber a irrita��o dele. Esta era a terceira pessoa que estava na fam�lia quando a cat�strofe ocorreu. Quanto aos demais residentes da velha casa, basta citar, entre a criadagem, o empertigado, respeit�vel, capaz Ames, e a sra. Allen, uma pessoa alegre e jovial que ajudava a senhora em algumas tarefas dom�sticas. Os outros seis empregados da casa n�o t�m qualquer rela��o com os acontecimentos de 6 de janeiro.</p><p>Foi �s 23:45h que o primeiro alarme chegou � pequena delegacia de pol�cia local, sob o comando do sargento Wilson, do destacamento de Sussex. O sr. Cecil Barker, muito excitado, correra at� a porta e tocara o sino violentamente. Uma terr�vel trag�dia ocorrera na Casa Senhorial, e o sr. John Douglas tinha sido assassinado. Esse era o conte�do de sua mensagem aflita. Ele voltara correndo para a casa, seguido logo depois pelo sargento, que chegara ao local do crime um pouco depois da meia-noite, ap�s tomar as provid�ncias necess�rias para avisar �s autoridades do Condado que algo de grave estava ocorrendo.</p><p>Ao chegar � Casa Senhorial, o sargento encontrou a ponte abaixada, as janelas abertas e toda a casa num estado de completa confus�o e agita��o. Os criados, p�lidos, estavam todos juntos no hall e o assustado mordomo, com as m�os agitadas, aguardava na entrada. Somente Cecil Barker parecia manter o autocontrole e dominar suas emo��es. Abrira a porta que ficava mais perto da entrada e fizera sinal para o sargento segui-lo. Nesse instante chegou o dr. Wood, o jovial e competente cl�nico geral do vilarejo. Os tr�s homens entraram no local da trag�dia ao mesmo tempo, enquanto o horrorizado mordomo os seguiu para fechar a porta e evitar que as criadas vissem a cena terr�vel.</p><p>O morto estava estendido de costas, com os membros esticados, no centro do escrit�rio. Estava vestido apenas com um roup�o rosado, que encobria suas roupas de dormir. Havia chinelos de feltro nos seus p�s descal�os. O m�dico ajoelhou-se ao lado dele e aproximou o abajur que estava sobre a mesa. Uma olhada na v�tima foi o suficiente para mostrar ao doutor que sua presen�a era dispens�vel. O homem fora atingido violentamente. Ao lado do seu peito estava uma arma curiosa, uma espingarda com os canos serrados perto dos gatilhos. Estava claro que ela fora disparada de perto, e que ele recebera o tiro no rosto, reduzindo a cabe�a quase a p�. Os gatilhos tinham sido amarrados, de modo que o disparo simult�neo fosse mais destruidor.</p><p>O policial estava nervoso e preocupado com a tremenda responsabilidade que ca�ra sobre ele de repente.</p><p>� N�o vamos tocar em nada at� meus superiores chegarem � ele disse com a voz abafada, olhando aterrorizado para aquela cabe�a mutilada.</p><p>� N�o se tocou em nada at� agora � disse Cecil Barker. � Eu me responsabilizo por isso. Os senhores encontraram tudo exatamente como estava.</p><p>� Quando aconteceu? � O sargento apanhara seu caderno de anota��es.</p><p>� Logo depois das 23:30h. Eu ia come�ar a me trocar, ainda estava sentado no quarto, junto � lareira, quando ouvi o estampido. N�o foi muito alto; parecia ter sido abafado. Eu corri logo. Acho que cheguei aqui em menos de trinta segundos.</p><p>� A porta estava aberta?</p><p>� Sim, estava aberta. O coitado do Douglas estava estirado, assim como os senhores v�em agora. A vela que ele trouxera para o escrit�rio estava sobre a mesa. Eu acendi as luzes pouco depois.</p><p>� O senhor n�o viu ningu�m?</p><p>� N�o. Ouvi a sra. Douglas descendo a escada atr�s de mim, e corri para evitar que ela se deparasse com esse espet�culo chocante. A sra. Allen, a governanta, chegou e levou-a dali. Ames j� tinha chegado tamb�m e voltamos ao escrit�rio.</p><p>� Mas tenho certeza de ter ouvido que a ponte ficava suspensa a noite toda.</p><p>� Sim, estava levantada at� que eu a descesse.</p><p>� Ent�o como um assassino poderia ter fugido? � imposs�vel. O sr. Douglas deve ter se matado.</p><p>� Essa foi a nossa primeira id�ia. Mas veja bem. � Barker abriu a cortina e mostrou que a grande janela, em forma de diamante, estava totalmente aberta. � E veja isso. � Ele levantou o abajur e mostrou uma marca de sangue que parecia a pegada de algu�m sobre o parapeito de madeira. Algu�m pisou aqui na hora da fuga.</p><p>� O senhor quer dizer que algu�m conseguiu atravessar o fosso?</p><p>� Exatamente.</p><p>� Ent�o, se o senhor chegou ao quarto em menos de meio minuto depois do crime, essa pessoa ainda devia estar na �gua nessa hora.</p><p>� N�o duvido disso. Por Deus, como eu gostaria de ter chegado at� a janela. Mas a cortina estava fechada, como podem ver, de modo que n�o me passou pela cabe�a. Ent�o ouvi os passos da sra. Douglas, e n�o podia deix�-la entrar no quarto. Seria muito penoso para ela.</p><p>� Horr�vel mesmo! � disse o m�dico, olhando a cabe�a espatifada e as terr�veis marcas em volta. � Nunca vi nada assim desde aquele acidente ferrovi�rio de Birlstone.</p><p>� Mas escute � observou o sargento, que com seu jeito lento e rude ainda estava com a mente voltada para a janela aberta. � Est� bem que o senhor diga que um homem fugiu atravessando o fosso, mas o que eu pergunto �: como ele conseguiu entrar na casa se a ponte estava suspensa?</p><p>� Ah, esse � o problema � disse Barker.</p><p>� A que horas ela foi levantada?</p><p>� Por volta das seis da tarde � disse Ames, o mordomo.</p><p>� Eu tinha informa��es � disse o sargento � de que ela era suspensa ao p�r-do-sol. Isso quer dizer por volta de 16:30h, e n�o �s seis, nessa �poca do ano.</p><p>� O sr. Douglas teve visitas para o ch� � disse Ames. � S� pude suspend�-la depois que todos foram embora. Ent�o, eu mesmo a levantei.</p><p>� Ent�o temos o seguinte � disse o sargento. � Se entrou algu�m estranho, se � que entrou, deve ter passado pela ponte antes das 18 horas e se escondido, at� que o sr. Douglas viesse para o quarto, depois das 23 horas.</p><p>� Exatamente. Todas as noites o sr. Douglas percorria tudo a� por fora antes de entrar para ver se as luzes estavam apagadas. Ent�o ele entrou aqui. O homem estava esperando por ele e o atingiu. Depois fugiu pela janela, deixando a arma. � assim que eu vejo a coisa; nada vai se encaixar melhor.</p><p>O sargento apanhou um cart�o que estava no ch�o, ao lado do morto. As iniciais V. V. e embaixo o n�mero 341 estavam rabiscados a tinta.</p><p>� O que � isto? � ele perguntou.</p><p>Barker olhou com curiosidade.</p><p>� N�o o tinha visto ainda � disse ele. � O assassino deve t�-lo deixado a�.</p><p>� V.V. 341. Isso n�o me diz nada.</p><p>O sargento ficou virando o cart�o entre seus dedos compridos.</p><p>� O que � V.V.? Talvez as iniciais de algu�m. O que o senhor encontrou a�, dr. Wood?</p><p>Era um martelo grande que estava sobre o tapete em frente � lareira. Um martelo bem grande e bem-acabado. Cecil Barker apontou para uma caixa de metal que estava sobre o consolo da lareira.</p><p>� O sr. Douglas estava mudando os quadros de lugar ontem � disse ele. � Eu mesmo o vi sobre aquela cadeira colocando o quadro na parede. Isso explica a presen�a do martelo.</p><p>� � melhor colocarmos o martelo novamente sobre o tapete onde o encontramos � disse o sargento, co�ando a cabe�a com uma express�o intrigada. � Vamos precisar das melhores cabe�as da pol�cia para desvendar tudo. Vamos precisar da ajuda de Londres. � Ele levantou o abajur e caminhou lentamente pelo quarto. � Ei! � ele gritou com a voz excitada, puxando as cortinas para um dos lados. � A que horas essas cortinas foram puxadas?</p><p>� Quando as l�mpadas foram acesas � disse o mordomo. � Devia passar um pouco das quatro horas.</p><p>� Algu�m esteve escondido aqui, tenho certeza. � Ele aproximou o abajur e as marcas de sapatos enlameados ficaram vis�veis no canto da parede. � Estou achando que isso confirma a sua teoria, sr. Barker. Parece que o homem entrou na casa depois das quatro horas, quando as cortinas j� estavam puxadas; e antes das seis, quando a ponte foi suspensa. Ele entrou nesse c�modo porque foi o primeiro que encontrou. N�o havia outro lugar em que pudesse se esconder, de modo que se enfiou atr�s das cortinas. Tudo agora parece claro. � prov�vel que sua id�ia principal fosse assaltar a casa, mas o sr. Douglas apareceu, e ent�o ele o matou e fugiu.</p><p>� � assim que vejo a coisa � disse Barker. � Mas n�o estamos perdendo minutos preciosos? N�o podemos come�ar a vasculhar o pa�s antes que o sujeito desapare�a?</p><p>O sargento ficou pensativo por um momento.</p><p>� N�o h� trem antes das seis da manh�, de modo que ele n�o pode fugir de trem. Se for pela estrada a p�, com as pernas molhadas, com toda certeza algu�m vai estranhar. De qualquer modo, n�o posso sair daqui at� que seja dispensado. E acho que nenhum dos senhores deve sair antes que examinemos mais atentamente tudo isso.</p><p>O m�dico pegou o abajur e estava examinando o corpo mais detidamente.</p><p>� Que marcas s�o essas? � ele perguntou. � Podem ter alguma rela��o com o crime?</p><p>O bra�o direito do morto estava para fora do roup�o, exposto at� o cotovelo. Na metade do antebra�o havia um curioso desenho marrom, um tri�ngulo dentro de um c�rculo, destacando-se de modo vivo na pele p�lida do cad�ver.</p><p>� N�o � tatuagem � disse o m�dico, examinando com sua lente. Nunca vi nada igual. Ele � marcado a ferro, como se faz com o gado. O que significa isso?</p><p>� Admito que n�o sei dizer � respondeu Cecil Barker � mas j� vi essa marca em Douglas certa vez nos �ltimos dez anos.</p><p>� Eu tamb�m � disse o mordomo. � Muitas vezes quando o senhor arrega�ava a manga eu percebia essa marca. Sempre fiquei imaginando o que poderia ser.</p><p>� Ent�o isso n�o tem nada a ver com o crime � disse o sargento. � Mesmo assim � muito estranho. Tudo neste caso � estranho. Sim, o que � isso agora?</p><p>O mordomo soltara um grito de espanto, e estava apontando para a m�o estendida do morto.</p><p>� Levaram a alian�a dele! � ele disse, ofegante.</p><p>� O qu�!</p><p>� Sim, � verdade! O patr�o sempre usava a alian�a de ouro maci�o no dedo m�nimo da m�o esquerda. Aquele anel de pedra ficava sobre ela, e o anel com a cobra enrolada, no terceiro dedo. O anel de pedra e o da cobra est�o a�, mas� a alian�a desapareceu.</p><p>� Ele tem raz�o � disse Barker.</p><p>� O senhor disse � perguntou o sargento � que o anel de pedra ficava sobre a alian�a?</p><p>� Sempre!</p><p>� Ent�o o assassino, ou quem quer que tenha sido, primeiro tirou este anel que o senhor chama de anel de pedra, depois a alian�a, e por fim p�s o anel de pedra no lugar outra vez.</p><p>� Exatamente.</p><p>O policial sacudiu a cabe�a.</p><p>� Acho que quanto antes chamarmos Londres para cuidar do caso, melhor � disse ele. � White Mason � um homem esperto. Jamais deixou de resolver sozinho um caso local. N�o vai demorar muito para que ele chegue e nos ajude. Mas acho que teremos de chamar Londres. De qualquer modo, n�o me envergonho de dizer que isso � demais para o meu gosto.</p><empty-line/></section><section><p><strong>Trevas</strong></p><p>�s tr�s da madrugada, o detetive-chefe de Sussex, atendendo ao chamado urgente do sargento Wilson, de Birlstone, chegara � mans�o numa pequena carruagem puxada por um cavalo resfolegante. Pelo trem das 5:40h da manh� ele enviara sua mensagem � Scotland Yard e ao meio-dia estava na esta��o ferrovi�ria de Birlstone esperando por n�s. O sr. White Mason era um homem tranq�ilo, bem-apessoado, que usava um terno largo de tweed; tinha o rosto corado bem barbeado, o f�sico robusto, as pernas musculosas muito �geis e enfiadas em polainas, parecendo um fazendeiro, um guarda-ca�a aposentado ou qualquer outra coisa, menos um destacado policial de prov�ncia.</p><p>� Temos a� um caso dos grandes, sr. MacDonald � ele ficou repetindo. � Os jornalistas v�o ficar em cima de n�s feito moscas quando descobrirem isso. Espero que possamos terminar nosso trabalho antes que eles metam o nariz na hist�ria e atrapalhem</p><p>nossas pistas. N�o me lembro de nada parecido com esse caso. H� coisas que v�o lhe interessar, sr. Holmes, tenho certeza. E ao senhor tamb�m, dr. Watson, porque os m�dicos dar�o sua palavra antes de terminarmos. Os senhores ficar�o no Westville Arms. N�o h� outro lugar, mas ouvi dizer que � muito limpo e confort�vel. O rapaz levar� suas bagagens. Por aqui, cavalheiros, por favor.</p><p>Um sujeito muito �gil e delicado, esse detetive de Sussex. Em dez minutos todos n�s t�nhamos nos instalado em nossos quartos. Dez minutos depois j� est�vamos sentados na sala de estar da hospedaria e ouv�amos um resumo dos fatos que foram mencionados no cap�tulo anterior. MacDonald de vez em quando fazia uma anota��o, enquanto Holmes estava atento, com a express�o de surpresa e admira��o reverente com que o bot�nico examina uma flor rara e preciosa.</p><p>� Not�vel! � ele disse quando a hist�ria terminou. � Not�vel mesmo! N�o consigo me lembrar de nenhum caso em que as caracter�sticas fossem mais estranhas.</p><p>� Achei mesmo que o senhor iria dizer isso, sr. Holmes � comentou White Mason com satisfa��o. � Estamos bem avan�ados em Sussex. Contei-lhes os fatos at� a hora em que assumi o controle, depois do sargento Wilson, entre tr�s e quatro horas. Na verdade, fiz a coisa evoluir um pouco! Mas eu n�o precisava ter vindo com tanta pressa, pois n�o havia nada de imediato que eu pudesse fazer. O sargento Wilson tinha apurado os fatos. Eu verifiquei tudo, avaliei bem e acrescentaria alguma coisa.</p><p>� E o que seria? � Holmes perguntou, ansioso.</p><p>� Bem, em primeiro lugar, examinei o martelo. O dr. Wood estava l� para me ajudar. N�o encontramos marcas de viol�ncia nele. Pensei que se o sr. Douglas tivesse se defendido com o martelo, poderia ter feito marcas no assassino antes de deix�-lo no tapete. Mas n�o havia mancha alguma.</p><p>� Isso, na verdade, n�o prova nada � observou o inspetor MacDonald. � J� houve muitos assassinatos com martelo sem haver marcas no martelo.</p><p>� Exatamente. N�o prova que ele n�o tenha sido usado. Mas poderia haver manchas, e isso nos teria ajudado. Na verdade, n�o havia nada. Ent�o examinei a arma. Eram cartuchos de chumbo grosso e, como observou o sargento Wilson, os gatilhos estavam amarrados um no outro de modo que, puxando-se a ponta de um, os dois canos disparavam. Quem preparou isso estava decidido a n�o deixar a v�tima com vida. O cano serrado n�o tinha mais de 60 cent�metros de comprimento; a arma podia ser facilmente escondida debaixo de um casaco. N�o havia o nome completo do fabricante, mas as letras �PEN� impressas entre os dois canos e o resto do nome cortado pela serra.</p><p>� Um �P� grande, floreado em cima, o �E� e o �N� menores? � Holmes perguntou.</p><p>� Exatamente.</p><p>� Pennsylvania Small Arms Company. � uma firma americana muito conhecida � disse Holmes.</p><p>White Mason olhou para o meu amigo do mesmo jeito como o cl�nico geral de um vilarejo contempla o especialista da Harley Street que, apenas com uma palavra, pode resolver as dificuldades que o deixam perplexo.</p><p>� Isso � muito �til, sr. Holmes. N�o h� d�vida de que o senhor est� certo. Maravilhoso. Maravilhoso! O senhor sabe o nome de todos os fabricantes de armas do mundo de cor?</p><p>Holmes cortou o assunto abanando a cabe�a.</p><p>� N�o h� d�vida de que � uma espingarda americana � continuou White Mason. � Acho que eu li alguma coisa dizendo que a espingarda de cano serrado � a arma usada em algumas regi�es da Am�rica. Fora o nome inscrito no cano, essa id�ia tinha me ocorrido. H� um ind�cio, ent�o, de que o homem que entrou na casa e matou seu propriet�rio seja americano.</p><p>MacDonald sacudiu a cabe�a.</p><p>� Espere, o senhor est� se adiantando muito � ele disse. � Ainda n�o vi nenhuma prova de que um estranho tivesse entrado na casa.</p><p>� A janela aberta, o sangue no peitoril, o estranho cart�o, marcas de sapato no canto do quarto, a arma.</p><p>� Nada que n�o pudesse ter sido forjado. Douglas era americano, ou morou muito tempo na Am�rica. O sr. Barker tamb�m. N�o � preciso importar um americano para ter procedimentos americanos.</p><p>� Ames, o mordomo...</p><p>� O que tem ele? � de confian�a?</p><p>� Dez anos com o sr. Charles Chandos. �ntegro como uma rocha. Estava com Douglas desde que ele comprou a Casa Senhorial, h� cinco anos. Ele nunca vira uma arma desse tipo na casa.</p><p>� A arma foi feita para ficar escondida. Por isso os canos foram serrados. Caberia em qualquer caixa. Como ele poderia afirmar que n�o havia uma arma assim na casa?</p><p>� Bem, de qualquer modo, ele jamais tinha visto algo assim.</p><p>MacDonald abanou sua obstinada cabe�a escocesa.</p><p>� Ainda n�o estou convencido de que algu�m tenha entrado na casa � disse ele. � Pe�o aos senhores que analisem � seu sotaque de Aberdeen tornara-se mais acentuado ao expor seu argumento. � Pe�o aos senhores que analisem o que significa supor que a arma n�o estava na casa e que todas essas coisas estranhas tenham sido praticadas por algu�m de fora. Ora, � inconceb�vel! N�o faz sentido. Gostaria de ouvi-lo, sr. Holmes, baseado no que foi dito at� aqui.</p><p>� Bem, exponha sua id�ia, sr. Mac � disse Holmes, no seu modo mais formal.</p><p>� O homem n�o era um ladr�o, supondo-se que ele existe. A quest�o do anel e do cart�o sugerem assassinato premeditado por algum motivo particular. Muito bem. Ent�o temos um homem que se enfia numa casa com a inten��o deliberada de cometer um assassinato. Ele sabe, se � que sabe alguma coisa, que ter� dificuldades para fugir, j� que a casa � cercada de �gua. Que arma ele escolheria? Os senhores diriam que a mais silenciosa do mundo. Assim ele poderia esperar, depois que tudo estivesse terminado, escapar pela janela rapidamente, transpor o fosso e fugir. Isso � compreens�vel. Mas � compreens�vel que ele traga a mais barulhenta das armas que poderia escolher, sabendo que ela faria com que qualquer pessoa que estivesse na casa corresse para o local do tiro o mais depressa poss�vel e que talvez ele fosse visto antes que conseguisse atravessar o fosso? � veross�mil, sr. Holmes?</p><p>� Bem, o senhor colocou a quest�o de modo muito dr�stico � respondeu meu amigo, pensativo. � Isso precisa de uma boa justificativa. Posso saber, sr. White Mason, se o senhor examinou o outro lado do fosso logo que chegou, para ver se havia sinais de que algu�m sa�ra por ali?</p><p>� N�o havia nenhum sinal, sr. Holmes. Mas a borda do fosso � de pedra. N�o se pode descobrir muita coisa.</p><p>� Nenhuma pista ou sinal?</p><p>� Nada.</p><p>� Bem... Haveria alguma obje��o, sr. White Mason, � nossa ida at� a casa agora? Talvez haja algum detalhe sugestivo.</p><p>� Eu ia propor exatamente isso, sr. Holmes, mas achei conveniente que estivessem a par dos fatos antes. Imagino que as cenas choquem o senhor... � White Mason olhou com hesita��o para o amador.</p><p>� J� trabalhei com o sr. Holmes antes � disse o inspetor MacDonald. � Ele sabe como agir.</p><p>� Mas ajo do meu modo� � disse Holmes, sorrindo. � Entro num caso para auxiliar a justi�a e o trabalho da pol�cia. Se alguma vez me afastei das autoridades constitu�das foi porque elas se afastaram de mim primeiro. Nunca tive a inten��o de sobrepujar ningu�m. Por�m, sr. White Mason, reivindico o direito de trabalhar � minha maneira e de revelar meus resultados quando achar que devo: de uma s� vez, e n�o por etapas.</p><p>� Garanto que estamos honrados com sua presen�a e em lhe mostrar tudo que sabemos � disse White Mason cordialmente. � Venha tamb�m, dr. Watson, e quando chegar a hora, todos n�s esperamos um lugarzinho no seu livro.</p><p>Descemos a pitoresca rua do vilarejo com olmos podados dos dois lados. Logo adiante ficavam duas antigas pilastras de pedra, manchadas pelo tempo, que tinham no topo algo meio disforme, que outrora fora o feroz le�o de Capus de Birlstone. Uma curta caminhada tendo ao redor tanto gramado e carvalhos como s� se consegue ver nas regi�es rurais da Inglaterra; depois uma s�bita volta, e a casa grande e baixa ao estilo de James I, feita em tijolo pardo, surge diante de n�s com o antiquado jardim, de teixos cortados, nos dois lados. Quando nos aproximamos, vimos a ponte levadi�a de madeira e o fosso bonito e largo, t�o calmo e luminoso quanto o merc�rio na fria claridade do inverno. Tr�s s�culos vividos pela Casa Senhorial, s�culos de nascimentos e chegadas, de dan�as e de encontros de ca�adores. Estranho que agora, ap�s tantos anos, este caso misterioso tenha lan�ado suas sombras sobre as paredes vener�veis. Mas aqueles telhados pontiagudos e as arestas estranhamente projetadas para fora eram um teto adequado para ciladas repugnantes e terr�veis. Quando olhei as janelas que pareciam afundadas em toda aquela estrutura e a externa frente da casa desbotada e cercada de �gua, senti que n�o haveria cen�rio melhor para uma trag�dia como esta.</p><p>� Aquela � a janela � disse White Mason. � Aquela, logo � direita da ponte. Est� aberta, do mesmo jeito como foi encontrada ontem � noite.</p><p>� Parece estreita para um homem passar.</p><p>� Bem, certamente n�o era um gordo. N�o precisamos de suas dedu��es para nos dizer isso, sr. Holmes. Mas tanto o senhor como eu poder�amos passar por ela muito bem.</p><p>Holmes foi at� a margem do fosso e olhou para o outro lado. Ent�o examinou a borda de pedra e a grama em volta.</p><p>� J� dei uma boa olhada, sr. Holmes � disse White Mason. � N�o h� nada l�; nenhum sinal de que algu�m tenha passado por ali. E por que deveria o assassino deixar algum sinal?</p><p>� Exatamente. Por que deveria deixar algum sinal? A �gua est� sempre turva?</p><p>� Geralmente est� desta cor. A correnteza traz o barro.</p><p>� Qual a profundidade?</p><p>� Cerca de meio metro dos lados e um metro no meio.</p><p>� Ent�o podemos afastar a id�ia de o homem ter se afogado ao atravessar?</p><p>� Sim. Nem uma crian�a se afogaria a�.</p><p>Atravessamos a ponte e fomos recebidos por um homem esquisito, velho, desanimado: o mordomo, Ames. O pobre velho estava p�lido e tr�mulo devido ao choque. O sargento do vilarejo, um homem alto, formal, com ar melanc�lico, ainda permanecia em vig�lia no local do crime. O m�dico fora embora.</p><p>� Algum fato novo, sargento Wilson? � perguntou White Mason.</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Ent�o pode ir embora. Voc� j� fez o suficiente. Mandaremos cham�-lo se precisarmos de voc�. O mordomo ficou l� fora. Diga a ele para avisar ao sr. Cecil Barker, � sra. Douglas e � governanta que precisamos falar com eles. Agora, senhores, permitam-me que lhe d� a minha opini�o primeiro, e depois poder�o chegar �s suas pr�prias conclus�es.</p><p>Ele me impressionou, esse policial interiorano. Ele mantinha um bom controle da situa��o e possu�a a mente sensata, clara, calma, que devia ajud�-lo em sua profiss�o. Holmes o ouvia atentamente, sem demonstrar aquela impaci�ncia que um representante oficial costumava despertar nele.</p><p>� Suic�dio ou assassinato? � esta � nossa primeira pergunta, senhores. N�o �? Se foi suic�dio, ent�o temos de acreditar que esse homem come�ou por retirar sua alian�a e escond�-la; que depois ele desceu at� aqui, vestido com o roup�o, pisou com os sapatos cheios de lama no canto do quarto, atr�s da cortina, abriu a janela, p�s sangue no...</p><p>� Com certeza podemos rejeitar essa id�ia � disse MacDonald.</p><p>� Eu tamb�m acho. Suic�dio est� fora de cogita��o. Ent�o houve um assassinato. O que temos de determinar � se ele foi praticado por algum estranho ou por algu�m que se achava na casa.</p><p>� Bem, vamos ouvir a argumenta��o.</p><p>� H� muitas dificuldades em ambos os casos, mas deve ser uma das duas hip�teses. Vamos supor primeiro que o crime foi cometido por uma pessoa, ou pessoas, da casa. Trouxeram o homem aqui para baixo numa hora em que tudo estava quieto embora ningu�m estivesse dormindo. Ent�o fizeram o servi�o com a arma mais estranha e barulhenta do mundo, de forma a anunciar a todos o que acontecera � uma arma que n�o fora vista na casa antes. Isso n�o parece um in�cio muito prov�vel, certo?</p><p>� Realmente n�o parece.</p><p>� Muito bem. Ent�o todos concordam que ap�s ter sido dado o alarme passou-se apenas um minuto, no m�ximo, antes que todos � n�o apenas o sr. Cecil Barker sozinho, embora ele diga ter sido o primeiro, mas tamb�m Ames e os demais � chegassem ao local. Os senhores acreditam que nesse tempo o respons�vel pelo crime tenha tido condi��es de forjar as marcas de sapato no canto do quarto, abrir a janela, deixar o sinal de sangue no parapeito, tirar a alian�a do dedo do morto e todo o resto? � imposs�vel!</p><p>� O senhor exp�s tudo de modo muito claro � disse Holmes. � Estou inclinado a concordar com o senhor.</p><p>� Muito bem. Voltamos, ent�o, � teoria de que o crime foi cometido por algu�m de fora. Ainda temos de encarar algumas dificuldades bem grandes, mas, de qualquer modo, n�o s�o imposs�veis. O homem entrou na casa entre 16:30h e seis horas, quer dizer, entre o anoitecer e a hora em que a ponte foi erguida. Algumas visitas tinham estado aqui e a porta ficara aberta, de modo que n�o havia como evitar sua entrada. Ele podia ser um assaltante comum ou podia ter alguma coisa espec�fica contra o sr. Douglas. J� que o sr. Douglas passou a maior parte da vida na Am�rica, e essa espingarda parece ser uma arma americana, poderia parecer que a desaven�a pessoal � a teoria mais prov�vel. Ele entrou nesse c�modo porque era o primeiro, e escondeu-se atr�s da cortina. Ficou ali at� depois das 23 horas. Nessa hora o sr. Douglas entrou no quarto. Foi um encontro r�pido, se � que houve encontro, pois a sra. Douglas afirma que seu marido sa�ra do lado dela alguns minutos antes de ouvir o disparo.</p><p>� A vela comprova isso � disse Holmes.</p><p>� Exatamente. A vela, que era nova, s� foi queimada um pouco. Ele deve t�-la colocado na mesa antes de ser atacado, pois do contr�rio, logicamente, ela teria ca�do quando ele tombou. Isso mostra que ele n�o foi atacado no momento em que entrou no quarto. Quando o sr. Barker chegou, a l�mpada estava acesa e a vela, apagada.</p><p>� Est� tudo muito claro.</p><p>� Bem, agora podemos reconstituir os fatos com base nisso. O sr. Douglas entra no quarto. Coloca a vela sobre a mesa. Aparece um homem que estava atr�s da cortina. Ele est� armado com essa espingarda. Pede a alian�a, s� Deus sabe por qu�, mas deve ter sido assim. O sr. Douglas atendeu. Depois, ou a sangue-frio ou durante uma luta �, Douglas pode ter apanhado o martelo que foi achado sobre o tapete � ele matou Douglas desse modo horr�vel. Deixou a arma cair e tamb�m, ao que tudo indica, este estranho cart�o � �V.V. 341�, seja l� o que isso signifique �,� fugiu pela janela e atravessou o fosso no mesmo instante em que Cecil Barker descobria o ocorrido. O que acha disso, sr. Holmes?</p><p>� Muito interessante, mas pouco convincente.</p><p>� Ora, seria uma coisa muito absurda se fosse desse jeito. Deve ter acontecido algo pior � exclamou MacDonald. � Algu�m matou o homem, e quem quer que tenha sido, posso provar com facilidade que essa pessoa deve ter agido de outra maneira. O que ele queria deixando que sua fuga fosse dificultada desse jeito? O que ele queria usando uma espingarda quando o sil�ncio era sua �nica chance de escapar? Vamos, sr. Holmes, cabe ao senhor nos dar uma pista, j� que o senhor diz que a teoria do sr. White Mason n�o � convincente.</p><p>Holmes ficara sentado, observando tudo com aten��o, durante esta longa exposi��o, n�o perdendo uma palavra dita, com seus olhos penetrantes movendo-se para a direita e para a esquerda e a testa franzida, sinal de que estava refletindo sobre tudo aquilo.</p><p>� Eu gostaria de saber mais alguma coisa antes de chegar ao ponto de formular uma teoria, sr. Mac � ele disse, ajoelhando-se ao lado do cad�ver. � Puxa! Que estado lastim�vel. Podemos mandar o mordomo entrar por um minuto?... Ames, imagino que voc� tenha visto v�rias vezes essa estranha marca feita a ferro quente no bra�o do sr. Douglas, o tri�ngulo dentro do c�rculo.</p><p>� Freq�entemente, senhor.</p><p>� Voc� nunca ouviu nenhum coment�rio sobre o significado dela?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Ela deve ter causado muita dor na hora em que foi feita. � sem d�vida uma queimadura. Agora, observe bem, Ames, que h� um pequeno curativo no queixo do sr. Douglas. Voc� tinha notado isso quando ele ainda estava vivo?</p><p>� Sim, senhor. Ele havia se cortado ontem de manh� ao fazer a barba.</p><p>� Voc� se lembra de ele ter se cortado outras vezes ao se barbear?</p><p>� H� muito tempo que n�o acontecia.</p><p>� Sugestivo! � disse Holmes. � � claro que pode ser mera coincid�ncia, ou pode revelar um certo nervosismo que indicaria ent�o que ele tinha motivos para temer o perigo. Voc� percebeu alguma coisa de anormal na conduta dele durante o dia de ontem, Ames?</p><p>� Tive a impress�o de que ele estava um pouco impaciente e agitado, senhor.</p><p>� Hum! O ataque pode n�o ter sido totalmente inesperado. Parece que avan�amos um pouco, n�o? Talvez o senhor devesse fazer o interrogat�rio, sr. Mac...</p><p>� N�o, sr. Holmes. O assunto est� em boas m�os.</p><p>� Bem, ent�o passemos a este cart�o... �V.V. 341.� � um papel�o grosseiro. Existe algum papel�o deste tipo na casa?</p><p>� Acho que n�o.</p><p>Holmes atravessou o c�modo, foi at� a escrivaninha e derramou um pouquinho de tinta de cada um dos dois vidros num mata-borr�o.</p><p>� Isso n�o foi escrito aqui � disse ele. � Esta tinta � preta e a outra � vermelha. Isso foi escrito com uma caneta de ponta grossa, e essas s�o de ponta fina. N�o, isso foi escrito em outro lugar, � o que eu diria. Voc� tem alguma id�ia disso que est� escrito, Ames?</p><p>� N�o, senhor, n�o.</p><p>� O que acha, sr. Mac?</p><p>� Me d� a impress�o de algum tipo de sociedade secreta. A mesma deste s�mbolo marcado no bra�o dele.</p><p>� Essa � a minha opini�o tamb�m � disse White Mason.</p><p>� Bem, podemos admitir isso como uma hip�tese e ver se conseguimos alguma coisa desse modo. Um agente dessa tal sociedade entra na casa, espera o sr. Douglas, quase arranca sua cabe�a com essa arma e foge pelo fosso, deixando um cart�o ao lado do morto que, quando a not�cia for publicada nos jornais, mostrar� aos outros membros da sociedade que a vingan�a foi cumprida. Tudo se encaixa. Mas por que essa arma?</p><p>� Exatamente.</p><p>� E por que roubar a alian�a?</p><p>� Isso mesmo.</p><p>� E por que nenhuma pris�o foi feita ainda? J� passa das duas da tarde. Parto do princ�pio de que, desde o amanhecer, todos os policiais, num raio de 50 quil�metros, est�o tentando encontrar um homem estranho que esteja molhado.</p><p>� Est� certo, sr. Holmes.</p><p>� Bem, a menos que ele tenha um esconderijo aqui perto, ou uma muda de roupas � sua espera em algum lugar, vai ser dif�cil n�o agarr�-lo. E mesmo assim ainda n�o o agarraram at� agora. � Holmes se dirigira para a janela e estava examinando com sua lente a marca de sangue sobre o peitoril. � � realmente a marca de uma sola de sapato. � muito larga. Pode-se dizer que � um p� chato. � curioso, porque a marca de lama do canto da parede revela uma sola de algu�m que n�o tem p� chato. Mas essas marcas n�o s�o muito precisas. O que � isso debaixo dessa mesinha?</p><p>� Os halteres do sr. Douglas � disse Ames.</p><p>� Halteres? S� h� um. Onde est� o outro?</p><p>� N�o sei, sr. Holmes. Talvez fosse s� um mesmo. H� muito tempo que eu n�o o via.</p><p>� Um halter... � Holmes disse, s�rio, mas sua observa��o foi interrompida por uma vigorosa batida na porta. Um homem alto, queimado de sol, apar�ncia de competente, bem barbeado, olhou para n�s. N�o tive dificuldade em imaginar que era Cecil Barker, de quem eu j� ouvira falar. Seus olhos penetrantes movimentavam-se rapidamente, com um olhar inquisidor, de um rosto a outro.</p><p>� Desculpem interromper a conversa � disse ele �, mas h� uma novidade.</p><p>� Prenderam algu�m?</p><p>� N�o � algo t�o bom assim. Mas encontraram a bicicleta dele. Ele deixou a bicicleta e fugiu. Venham ver. Est� perto da porta de entrada.</p><p>Encontramos alguns curiosos, uns a cavalo, outros a p�, olhando uma bicicleta que fora retirada de uma moita onde estava escondida. Era uma Rudge-Whitworth toda suja, dando a impress�o de que fizera uma longa viagem. Havia um alforje com uma chave de parafusos e uma latinha de �leo dentro, mas nenhuma pista quanto ao seu propriet�rio.</p><p>� Seria de grande ajuda para a pol�cia � disse o inspetor � se todas essas coisas fossem numeradas e registradas. Mas devemos ficar gratos pelo que temos. Se n�o podemos descobrir para onde ele foi, pelo menos � prov�vel que saibamos de onde veio. Mas, em nome do que � mais sagrado, por que esse sujeito deixou a bicicleta aqui? E como ele foi embora sem ela? N�o temos nenhuma luz neste caso, sr. Holmes.</p><p>� N�o? � disse meu amigo, pensativo. � Estou vendo!</p><empty-line/></section><section><p><strong>Os Personagens do Drama</strong></p><p>� J� viram tudo que queriam no escrit�rio? � perguntou White Mason quando voltamos � casa.</p><p>� Por enquanto sim � disse o inspetor, e Holmes assentiu.</p><p>� Ent�o, talvez agora os senhores gostassem de ouvir o depoimento de algumas pessoas da casa. Podemos usar a sala de jantar, Ames. Por favor, voc� ser� o primeiro. Diga o que sabe.</p><p>O relato do mordomo foi simples e claro, e deu uma impress�o de sinceridade. Ele fora contratado havia cinco anos, na primeira vez em que o sr. Douglas veio a Birlstone. Sabia que o sr. Douglas era rico e que fizera fortuna na Am�rica. Ele sempre fora um patr�o am�vel e atencioso � n�o do tipo ao qual Ames estava acostumado, mas n�o se pode ter tudo. Ele jamais vira algum sinal de apreens�o no sr. Douglas � ao contr�rio, ele era o mais destemido dos homens que conhecera. Ele havia</p><p>ordenado que a ponte levadi�a fosse suspensa toda noite porque era um antigo costume da velha casa, e ele gostava de conservar os costumes antigos. O sr. Douglas raramente ia a Londres ou sa�a do vilarejo, mas no dia anterior ao crime estivera fazendo compras em Tunbridge Wells. Ele, Ames, havia observado certa inquieta��o e nervosismo por parte do sr. Douglas naquele dia, pois ele parecia impaciente e irrit�vel, o que n�o era seu estado normal. Ele n�o havia ido se deitar naquela noite, mas estava na copa, que fica na parte de tr�s da casa, guardando as pratarias, quando ouviu o sino tocar de modo insistente. N�o ouviu disparos, mas dificilmente ouviria, j� que a copa e a cozinha ficam bem no final da casa, e havia muitas portas fechadas e um longo corredor antes de chegar l�. A governanta sa�ra do seu quarto devido ao toque insistente do sino. Eles foram at� a frente da casa juntos. Quando chegaram ao p� da escada, viram a sra. Douglas descendo. N�o, ela n�o estava correndo � n�o lhe pareceu que estivesse especialmente agitada. Quando ela chegou ao final da escada, o sr. Barker saiu correndo do escrit�rio e pediu a ela que subisse novamente.</p><p>� Pelo amor de Deus, volte para o seu quarto! � ele gritou. � O coitado do Jack est� morto. N�o h� nada a fazer. Pelo amor de Deus, suba!</p><p>Depois de ser convencida, a sra. Douglas subiu. Ela n�o gritou. Tamb�m n�o disse nada. A sra. Allen, a governanta, levou-a para cima e ficou com ela no quarto. Ames e o sr. Barker voltaram ao escrit�rio, onde encontraram tudo exatamente como a pol�cia viu. A vela n�o estava acesa naquela hora, mas a l�mpada estava ligada. Olharam pela janela, mas a noite estava muito escura e n�o puderam ver nem ouvir nada. Correram ent�o para o hall, onde Ames acionou o maquinismo que baixava a ponte. O sr. Barker ent�o correu para chamar a pol�cia.</p><p>Esse, em linhas gerais, foi o depoimento do mordomo.</p><p>O relato da sra. Allen, a governanta, foi, de certo modo, uma confirma��o do que dissera seu colega. O quarto da governanta ficava mais perto da frente da casa do que a copa onde Ames estava trabalhando. Ela estava se preparando para deitar quando o toque da campainha despertou sua aten��o. Sua audi��o era um pouco deficiente. Talvez por isso n�o tivesse ouvido o disparo, mas, de qualquer modo, o escrit�rio ficava um pouco distante. Ela ouviu um som que imaginou ser o de uma porta batendo. Isso foi bem antes � pelo menos meia hora antes de o sino tocar. Quando o sr. Ames correu para a parte da frente da casa, ela foi com ele. Viu o sr. Barker, muito p�lido e agitado, saindo do escrit�rio. Ele interceptou a sra. Douglas, que estava descendo a escada. Ele lhe pediu que subisse novamente e ela disse alguma coisa, mas que n�o conseguiu ouvir.</p><p>� Leve-a para cima. Fique com ela! � ele dissera � sra. Allen.</p><p>Ela ent�o levou-a para o quarto e procurou tranq�iliz�-la. A sra. Douglas estava muito agitada, tremendo todo o corpo, mas n�o tentou descer novamente. Ela apenas se sentou diante da lareira do quarto, vestida com o roup�o, e afundou a cabe�a nas m�os. A sra. Allen ficou com ela a maior parte da noite. Quanto aos outros criados, todos j� tinham ido dormir e s� foram acordados pouco antes de a pol�cia chegar. Eles estavam dormindo na outra extremidade da casa e com certeza n�o puderam ouvir nada.</p><p>Essa foi a governanta � que n�o acrescentou nada no interrogat�rio, a n�o ser lamenta��es e manifesta��es de surpresa.</p><p>O sr. Barker falou depois da sra. Allen como testemunha. Quanto �s ocorr�ncias da noite anterior, ele tinha muito pouco a acrescentar ao que j� dissera � pol�cia. Pessoalmente, ele estava convencido de que o assassino fugira pela janela. A mancha de sangue era conclusiva, na sua opini�o, quanto a isso. Al�m do mais, j� que a ponte estava suspensa, n�o havia outro modo de fugir. N�o sabia explicar o que acontecera ao assassino ou por que n�o levara a bicicleta, se � que realmente era dele. Com toda a certeza n�o poderia ter-se afogado no fosso, que em nenhum ponto tinha mais de 1 metro de profundidade.</p><p>Ele tinha uma teoria definitiva sobre o assassinato. Douglas era um homem reservado, e havia algumas passagens de sua vida sobre as quais ele nunca falara. Emigrara da Irlanda para a Am�rica quando era muito jovem. Conseguira subir na vida, e Barker o conheceu na Calif�rnia, onde os dois se tornaram s�cios numa pr�spera minera��o, num lugar chamado Benito Canyon. Eles se sa�am muito bem, mas Douglas de repente vendeu tudo e partiu para a Inglaterra. Ele era vi�vo nessa �poca. Barker, posteriormente, j� com dinheiro, veio morar em Londres. Desse modo retomaram a amizade. Douglas dava-lhe a impress�o de que havia algum perigo rondando sua cabe�a e sempre pensava em sua s�bita partida da Calif�rnia e no fato de ele ter uma casa num local t�o tranq�ilo da Inglaterra como algo relacionado com esse perigo. Pensava que alguma sociedade secreta, alguma organiza��o implac�vel estava na pista de Douglas, e que n�o se deteria at� mat�-lo. Algumas observa��es do outro deram-lhe esta impress�o, embora nunca lhe tivesse dito que sociedade era nem de que modo ele a provocara. Ele s� podia supor que a inscri��o no cart�o tinha alguma rela��o com essa sociedade secreta.</p><p>� Quanto tempo o senhor ficou com Douglas na Calif�rnia? � perguntou o inspetor MacDonald.</p><p>� Cinco anos ao todo.</p><p>� O senhor disse que ele era solteiro?</p><p>� Vi�vo.</p><p>� O senhor sabia de onde era a primeira esposa dele?</p><p>� N�o. Lembro-me de ele ter dito que ela era de origem alem� e cheguei a ver o retrato dela. Era uma mulher muito bonita. Ela morreu de febre tif�ide um ano antes de eu o conhecer.</p><p>� O senhor associa o passado dele a alguma regi�o da Am�rica?</p><p>� Eu o ouvi falar de Chicago. Ele conhecia bem a cidade e havia trabalhado l�. Eu o ouvi falar das zonas de carv�o e ferro. Ele viajou muito naquela �poca.</p><p>� Ele era pol�tico? Essa sociedade tem alguma coisa a ver com pol�tica?</p><p>� N�o. Ele n�o ligava para pol�tica.</p><p>� O senhor tem algum motivo para pensar que essa sociedade seja ligada ao mundo do crime?</p><p>� Ao contr�rio. Nunca encontrei um homem mais correto em minha vida.</p><p>� Havia alguma coisa curiosa sobre a vida dele na Calif�rnia?</p><p>� Ele preferia trabalhar e ficar no nosso garimpo, l� no alto das montanhas. Jamais ia aos lugares em que os outros iam, se pudesse evitar. Foi por isso que pensei logo que algu�m estava atr�s dele. Depois, quando partiu t�o repentinamente para a Europa, tive certeza de que era isso mesmo. Acredito que ele recebeu algum tipo de aviso. Uma semana depois que ele viajou apareceram alguns homens perguntando por ele.</p><p>� Que tipo de homens?</p><p>� Bem, eram do tipo fort�o. Chegaram ao garimpo e queriam saber onde ele estava. Eu disse que tinha ido para a Europa e que eu n�o sabia onde encontr�-lo. Eles n�o estavam com boa inten��o, quanto a isso n�o tive d�vida.</p><p>� Eles eram americanos? Da Calif�rnia?</p><p>� Bem, n�o conhe�o muito bem o pessoal da Calif�rnia. Eles eram americanos, sim. Mas n�o eram mineiros. N�o sei o que eram e fiquei muito feliz quando os vi pelas costas.</p><p>� Isso foi h� seis anos?</p><p>� Quase sete.</p><p>� E o senhor e ele ficaram juntos cinco anos na Calif�rnia, de modo que esse neg�cio foi h� mais de dez anos?</p><p>� Exatamente.</p><p>� Deve ter sido algo muito grave para esperar esses anos todos. N�o deve ter sido uma coisa pequena.</p><p>� Acho que isso o acompanhou a vida inteira. N�o deve ter sa�do nunca da cabe�a dele.</p><p>� Mas se um homem tinha um perigo rondando, e sabia do que se tratava, o senhor n�o acha que ele deveria pedir prote��o � pol�cia?</p><p>� Talvez fosse um tipo de perigo contra o qual n�o pudesse ser protegido. H� uma coisa que o senhor precisa saber. Ele sempre andava armado. Seu rev�lver estava sempre no bolso. Mas, por falta de sorte, ele estava de roup�o e deixara a arma no quarto, ontem � noite. Com a ponte erguida, ele deve ter achado que estava seguro.</p><p>� Eu gostaria de ter essas datas mais precisas � disse MacDonald. � Faz seis anos que Douglas saiu da Calif�rnia. O senhor viajou no ano seguinte, n�o foi?</p><p>� Exatamente.</p><p>� Ele estava casado havia cinco anos. O senhor deve ter chegado na �poca do casamento?</p><p>� Um m�s antes. Eu era seu melhor amigo.</p><p>� O senhor conhecia a sra. Douglas antes do casamento?</p><p>� N�o, n�o conhecia. Fiquei fora da Inglaterra durante dez anos.</p><p>� Mas esteve com ela muitas vezes depois.</p><p>Barker olhou de modo severo para o detetive.</p><p>� O vi muitas vezes depois � respondeu ele. � Se eu a vi foi porque n�o se pode visitar um homem sem deixar de conhecer sua esposa. Se o senhor acha que existe alguma liga��o...</p><p>� Eu n�o acho nada, sr. Barker. Estou fazendo todas as perguntas que possam ajudar no caso. Mas n�o quero ofender ningu�m.</p><p>� Algumas perguntas s�o ofensivas � Barker respondeu, irritado.</p><p>� S� queremos os fatos. � no seu interesse, e no interesse de todos, que eles devem ser esclarecidos. O sr. Douglas aprovava inteiramente sua amizade com a esposa dele?</p><p>Barker ficou mais p�lido, e suas m�os grandes e musculosas estavam contra�das.</p><p>� O senhor n�o tem o direito de fazer uma pergunta dessas! � ele gritou. � O que isso tem a ver com o caso que o senhor est� investigando?</p><p>� Vou repetir a pergunta.</p><p>� Recuso-me a responder.</p><p>� O senhor pode se recusar a responder, mas deve saber que sua recusa j� � uma resposta, pois o senhor n�o se recusaria a responder se n�o tivesse nada a esconder.</p><p>Barker ficou im�vel por um momento, com o rosto contra�do, perdido em reflex�es. Depois ergueu os olhos, sorrindo.</p><p>� Bem, acho que os senhores est�o fazendo apenas seu servi�o, afinal de contas, e n�o tenho o direito de dificultar as coisas. S� pediria que os senhores n�o preocupassem a sra. Douglas com esse assunto, pois tudo o que houve j� � demais. Posso dizer-lhes que o pobre do Jack s� tinha um defeito na vida, e esse defeito era o ci�me. Ele gostava muito de mim � ningu�m poderia gostar mais de um amigo. E era dedicado � sua esposa. Ele gostava que eu viesse aqui e estava sempre mandando me chamar. Mesmo assim, se a esposa dele e eu convers�ssemos ou se ele notasse alguma simpatia entre n�s, era dominado por uma onda de ci�me e perdia a cabe�a, dizendo as piores coisas do mundo. Mais de uma vez eu jurei nunca mais vir aqui por este motivo, mas ent�o ele me enviava cartas arrependidas, suplicantes, dizendo que eu precisava vir. Mas podem acreditar em mim, senhores, que nenhum homem jamais teve uma esposa mais ador�vel e fiel. E lhes digo tamb�m: nenhum amigo jamais foi mais leal do que eu.</p><p>Isso foi dito de modo veemente e emocionado, mas mesmo assim o inspetor MacDonald n�o p�de encerrar o assunto.</p><p>� O senhor sabe � ele disse � que a alian�a do morto foi tirada de seu dedo?</p><p>� � o que parece � disse Barker.</p><p>� O que o senhor quer dizer com �parece�? O senhor sabe que isso � um fato.</p><p>O homem pareceu confuso e hesitante.</p><p>� Quando eu disse �parece�, quis dizer que era poss�vel que ele mesmo tivesse tirado a alian�a.</p><p>� O simples fato de a alian�a ter sumido, independentemente de quem a tirou do dedo, pode sugerir a qualquer um que o casamento e a trag�dia t�m liga��o. Ou ser� que n�o?</p><p>Barker sacudiu seus ombros largos.</p><p>� N�o posso afirmar o que isso sugere � ele respondeu. � Mas se o senhor quer dar a entender que isso poderia se refletir de algum modo no comportamento desta senhora � seus olhos chamejaram por um instante e depois, com um esfor�o evidente, ele controlou suas emo��es � bem, o senhor est� no caminho errado, � o que penso.</p><p>� Acho que n�o tenho mais nada para lhe perguntar, por enquanto � disse MacDonald em tom seco.</p><p>� H� um pequeno detalhe � disse Sherlock Holmes. � Quando o senhor entrou no escrit�rio havia apenas uma vela acesa na mesa, n�o �?</p><p>� Sim, � isso mesmo.</p><p>� Apenas com a luz dessa vela o senhor viu que algo de terr�vel havia acontecido?</p><p>� Exatamente.</p><p>� O senhor imediatamente tocou a campainha para pedir ajuda?</p><p>� Sim.</p><p>� E essa ajuda chegou logo?</p><p>� Em cerca de um minuto.</p><p>� No entanto, quando os outros chegaram, a vela j� estava apagada e a l�mpada acesa. Isso parece not�vel.</p><p>Novamente Barker mostrou sinais de indecis�o.</p><p>� N�o vejo o que isso tem de not�vel, sr. Holmes � ele respondeu depois de uma pausa. � A vela tem uma luz muito fraca. Minha primeira id�ia foi ter uma ilumina��o melhor. O abajur estava na mesa, e ent�o eu o acendi.</p><p>Holmes n�o perguntou mais nada e Barker, olhando alternadamente para cada um de n�s, com um jeito que me pareceu desafiador, virou-se e saiu da sala.</p><p>O inspetor MacDonald enviara um recado � sra. Douglas dizendo que aguardaria por ela em seu quarto, mas ela respondeu que nos encontraria na sala de jantar. Ela entrou na sala finalmente, uma mulher alta e bonita com cerca de 30 anos, reservada e controlada, muito diferente da figura tr�gica e confusa que eu imaginara. � bem verdade que seu rosto estava p�lido e com um ar cansado, demonstrando ter sofrido um grande choque, mas seus modos eram tranq�ilos e suas m�os bem desenhadas, que ela p�s sobre a mesa, estavam t�o firmes quanto as minhas. Seus olhos tristes e atraentes olhavam para cada um de n�s de um jeito curiosamente inquisitivo. Aquela express�o interrogativa transformou-se repentinamente em palavras.</p><p>� Os senhores descobriram alguma coisa? � ela perguntou.</p><p>Seria apenas fruto da minha imagina��o achar que havia um ind�cio de medo, em vez de esperan�a, naquela pergunta?</p><p>� Tomamos todas as provid�ncias poss�veis, sra. Douglas � disse o inspetor. � A senhora pode ter certeza de que nada ser� negligenciado.</p><p>� N�o economize dinheiro � ela disse num tom de voz desanimado, monoc�rdio. � Meu desejo � que sejam feitos todos os esfor�os.</p><p>� Talvez a senhora possa nos dizer algo que esclare�a o problema.</p><p>� N�o se preocupe, tudo que eu sei contarei aos senhores.</p><p>� Soubemos pelo sr. Cecil Barker que a senhora na verdade n�o viu... Que a senhora n�o entrou no c�modo onde ocorreu a trag�dia.</p><p>� � verdade. Ele fez com que eu voltasse l� para cima. Pediu que eu voltasse para o meu quarto.</p><p>� Exatamente. A senhora tinha ouvido o tiro e desceu imediatamente.</p><p>� Vesti meu roup�o e desci.</p><p>� Quando o sr. Barker interceptou a senhora na escada, j� havia passado quanto tempo desde a hora do tiro?</p><p>� Alguns minutos. � dif�cil calcular o tempo numa hora dessas. Ele implorou que eu n�o entrasse no escrit�rio. E garantiu que eu n�o poderia fazer nada. Ent�o a sra. Allen, a governanta, levou-me l� para cima. Tudo parecia um pesadelo.</p><p>� A senhora pode nos dar alguma id�ia de quanto tempo seu marido ficou aqui embaixo antes que a senhora escutasse o tiro?</p><p>� N�o, n�o sei dizer. Antes de descer ele estava no seu quarto de vestir e por isso n�o ouvi quando desceu. Toda noite ele percorria a casa inteira, pois tinha medo de inc�ndio. Era a �nica coisa, que eu saiba, de que ele tinha medo.</p><p>� � a� que eu quero chegar, sra. Douglas. A senhora s� conheceu seu marido na Inglaterra, n�o �?</p><p>� Sim. Est�vamos casados h� cinco anos.</p><p>� A senhora alguma vez o ouviu falar sobre alguma coisa que tivesse acontecido com ele na Am�rica e que pudesse representar algum perigo para ele?</p><p>A sra. Douglas ficou pensativa antes de responder.</p><p>� Sim � ela disse, finalmente. � Sempre senti que havia algum perigo a rond�-lo. Ele se recusava a falar sobre isso comigo. N�o era por falta de confian�a � havia o mais completo amor e confian�a entre n�s �, mas por seu desejo de me manter afastada de qualquer coisa que pudesse me assustar. Ele achava que isso poderia me preocupar, se eu ficasse sabendo de tudo, e ent�o permanecia calado.</p><p>� Como a senhora ficou sabendo, ent�o?</p><p>O rosto da sra. Douglas iluminou-se com um s�bito sorriso.</p><p>� � poss�vel um homem manter um segredo por toda a vida e a esposa que o ama nunca suspeitar? Eu soube disso de v�rias maneiras. Soube pelo modo como se recusava a conversar sobre alguns epis�dios da �poca em que morou na Am�rica. Soube por causa de certas precau��es que ele tomava. Soube pelo modo como ele observava certas pessoas estranhas. Eu estava convencida de que ele tinha alguns inimigos perigosos, que acreditava estarem em sua pista e contra os quais estava sempre prevenido. Eu tinha tanta certeza disso que durante anos ficava aterrorizada quando ele demorava a chegar a casa.</p><p>� Posso saber � perguntou Holmes � quais foram as palavras que chamaram a sua aten��o?</p><p>� �O Vale do Medo� � a senhora respondeu. � Foi essa a express�o que ele usou quando eu lhe perguntei sobre isso. �Estive no Vale do Medo. Ainda n�o sa� de l�.� �Ser� que n�o se consegue sair nunca do Vale do Medo?�, eu perguntei isso quando o vi mais s�rio do que o normal. ��s vezes eu acho que nunca mais sairemos�, ele me respondeu, ent�o.</p><p>� Certamente a senhora lhe perguntou o que ele queria dizer com Vale do Medo.</p><p>� Perguntei. Mas seu rosto ficou muito sombrio e ele abanou a cabe�a. �J� � muito ruim que um de n�s tenha estado em suas trevas�, ele disse. �Queira Deus que isso nunca aconte�a com voc�.� Era algum vale que realmente existe e no qual ele vivera, e onde algo de terr�vel lhe acontecera, quanto a isso tenho certeza, mas n�o posso lhes dizer mais nada.</p><p>� Ele nunca mencionou nomes?</p><p>� Sim. Ele estava delirando de febre uma vez, quando sofreu um acidente durante uma ca�ada. Lembro-me bem que havia um nome que surgia constantemente em sua boca. Ele o pronunciava com raiva e uma esp�cie de horror. McGinty era o nome: chefe McGinty. Eu lhe perguntei, quando ficou bom, quem era esse chefe McGinty e de que ele era chefe. �N�o � meu chefe, gra�as a Deus!�, respondeu. Mas h� uma liga��o entre o chefe McGinty e o Vale do Medo.</p><p>� H� um outro ponto tamb�m � disse o inspetor MacDonald. � A senhora conheceu o sr. Douglas numa pens�o de Londres, n�o foi? E ficaram noivos l�. Havia alguma coisa secreta ou misteriosa sobre o casamento?</p><p>� S� havia o amor. Sempre o amor. Nada de mist�rio.</p><p>� Ele n�o tinha nenhum rival?</p><p>� N�o. Eu era livre...</p><p>� A senhora certamente ficou sabendo que a alian�a dele sumiu. Isso sugere alguma coisa? Supondo que algum inimigo do passado o tenha seguido e cometido o crime, que motivo ele poderia ter para levar sua alian�a?</p><p>Por um instante eu juraria que a sombra de um sorriso passou pelos l�bios dela.</p><p>� Realmente n�o sei dizer � ela respondeu. � Com certeza � uma coisa extraordin�ria.</p><p>� Bem, n�o vamos ret�-la por mais tempo e sentimos muito ter-lhe causado este inc�modo agora � disse o inspetor. � H� outros detalhes, naturalmente, mas falaremos com a senhora � medida que for necess�rio.</p><p>Ela se levantou e novamente percebi aquele olhar r�pido, inquisidor, com o qual ela nos sondava: �Que impress�o meu depoimento causou em voc�s?� era uma pergunta que certamente passara por sua cabe�a. Depois, com um ligeiro aceno de cabe�a, ela saiu da sala.</p><p>� Ela � uma mulher bonita, muito bonita � disse MacDonald, pensativo, depois que a porta se fechou atr�s dela. � Esse Barker com certeza vinha aqui muitas vezes. � do tipo que deve ser atraente para as mulheres. Ele admitiu que o morto era ciumento, e talvez soubesse que motivos tinha para ser ciumento. E h� tamb�m a quest�o da alian�a. N�o se pode passar por cima disso. O homem que tira</p><p>a alian�a de um morto... O que o senhor acha disso, sr. Holmes?</p><p>Meu amigo estava sentado com a cabe�a apoiada nas m�os, mergulhado em reflex�es. Ele ent�o se levantou e tocou a campainha.</p><p>� Ames � ele disse, quando o mordomo entrou �, onde est� o sr. Cecil agora?</p><p>� Vou ver, senhor.</p><p>Voltou pouco depois para dizer que o sr. Barker estava no jardim.</p><p>� Voc� se lembra, Ames, o que o sr. Barker estava cal�ando quando voc� se encontrou com ele ontem � noite no escrit�rio?</p><p>� Sim, sr. Holmes. Estava usando chinelos de feltro. Eu lhe trouxe as botas quando ele ia sair para ir � pol�cia.</p><p>� Onde est�o os chinelos agora?</p><p>� Ainda est�o embaixo da cadeira, no hall.</p><p>� �timo, Ames. Realmente � importante saber quais s�o as pegadas do sr. Barker e as pegadas de pessoas que vieram de fora.</p><p>� Sim, senhor. Posso dizer que percebi que os chinelos estavam manchados de sangue. E os meus tamb�m estavam.</p><p>� Isso � muito natural, considerando-se as condi��es do escrit�rio. �timo, Ames. Chamaremos outra vez se precisarmos de voc�.</p><p>Pouco depois est�vamos no escrit�rio. Holmes trouxera os chinelos que estavam no hall. Como observara Ames, as solas dos dois p�s estavam escuras de sangue.</p><p>� Estranho! � Holmes murmurou ao chegar � janela e examinar os chinelos minuciosamente. � Muito estranho mesmo!</p><p>Com uma de suas pin�as ele colocou o chinelo sobre a mancha de sangue que havia no peitoril. As duas correspondiam perfeitamente. Ele sorriu em sil�ncio para seus colegas.</p><p>O inspetor ficou transfigurado de excita��o. Seu sotaque parecia ter ficado mais acentuado ainda.</p><p>� Puxa! � ele exclamou � n�o h� a menor d�vida! Barker fez essa marca a� na janela. � muito maior do que a marca de qualquer bota. Lembro-me de que o senhor disse que era um p� chato, e aqui est� a explica��o. Mas o que houve afinal, sr. Holmes? O que houve?</p><p>� Bem, o que houve? � meu amigo repetiu, pensativo.</p><p>White Mason ria e esfregava as m�os gordas com uma satisfa��o profissional.</p><p>� Eu disse que era um caso dos grandes! � ele exclamou. � E � mesmo dos grandes!</p><empty-line/></section><section><p><strong>A primeira luz</strong></p><p>Os tr�s detetives tinham muitos detalhes para investigar, de modo que voltei sozinho para nossas modestas acomoda��es na hospedaria do vilarejo. Mas antes de ir para l� dei uma volta pelo curioso jardim de outros tempos que cercava a casa. Filas de teixos muito antigos, cortados em desenhos estranhos, a rodeavam. Na parte interna havia um bonito gramado com um antigo rel�gio de sol no centro. Esse cen�rio tinha um efeito� repousante que fazia muito bem aos meus nervos um tanto perturbados. Naquela atmosfera absolutamente tranq�ila pode-se esquecer de tudo ou lembrar-se apenas com um fant�stico pesadelo daquele escrit�rio sinistro com aquele homem cheio de sangue estendido no ch�o. Mesmo assim, enquanto eu caminhava pelo jardim e tentava mergulhar a alma nessa calma, ocorreu um estranho incidente que me levou de volta � trag�dia e deixou uma impress�o sinistra em minha mente.</p><p>Eu disse que uma seq��ncia de teixos orlava o jardim. Na parte que ficava mais distante da casa eles eram menos espa�ados e formavam uma cerca viva densa. Do outro lado dessa cerca viva, oculto da vis�o de quem viesse do lado da casa, havia um banco de pedra. Ao me aproximar do local, ouvi vozes, distinguindo depois a voz grave de um homem e o riso de uma mulher. Pouco depois cheguei ao final da cerca de teixos e meus olhos bateram na sra. Douglas e em Barker antes que eles percebessem a minha presen�a. A apar�ncia dela chocou-me. Na sala de jantar ela estava s�ria e discreta. Agora toda a simula��o de tristeza desaparecera. Seus olhos brilhavam com a alegria de viver, e o rosto ainda balan�ava, divertido, por causa de alguma observa��o engra�ada de seu companheiro. Ele estava inclinado para a frente, com as m�os apertadas e os antebra�os apoiados nos joelhos, com um sorriso no rosto atrevido e belo. Num instante � mas j� tarde demais � eles recolocaram suas m�scaras s�rias quando me viram. Eles trocaram uma ou duas palavras apressadas e ent�o Barker levantou-se e veio na minha dire��o.</p><p>� Desculpe-me, senhor � ele disse � mas seu nome � dr. Watson?</p><p>Eu assenti de modo frio, que mostrou, ouso dizer, de modo bastante claro, a impress�o que aquela cena havia causado em mim.</p><p>� Achamos que devia ser o senhor, j� que sua amizade com o sr. Sherlock Holmes � muito conhecida. O senhor se incomodaria de falar um instante com a sra. Douglas?</p><p>Eu o segui de cara fechada. Eu conseguia visualizar nitidamente aquela figura morta l� no ch�o. Aqui, algumas horas ap�s sua morte, estavam sua esposa e seu melhor amigo rindo atr�s de uma moita no jardim que fora dele. Cumprimentei a senhora com reserva. Eu havia me preocupado com a tristeza dela na sala de jantar. Agora eu a olhava com indiferen�a.</p><p>� Receio que o senhor me considere insens�vel e sem cora��o � disse ela.</p><p>Eu dei de ombros.</p><p>� N�o � da minha conta � eu disse.</p><p>� Talvez algum dia me d� raz�o. Se o senhor fizesse id�ia...</p><p>� N�o h� necessidade de explicar nada ao dr. Watson � Barker cortou rapidamente. � Como ele mesmo disse, n�o tem nada com isso.</p><p>� Exatamente � eu disse � e por isso pe�o licen�a para continuar minha caminhada.</p><p>� Um momento, dr. Watson! � gritou a mulher, com voz suplicante. � H� uma pergunta que o senhor pode responder com muito mais autoridade que qualquer outra pessoa, e pode ser muito importante para mim. O senhor conhece o sr. Holmes e seu relacionamento com a pol�cia melhor do que qualquer um. Supondo-se que ele fosse informado, de modo confidencial, de alguma coisa, � absolutamente necess�rio que revele isso aos detetives?</p><p>� Sim, � verdade � disse Barker, impaciente. � Ele est� aqui por conta pr�pria ou est� trabalhando juntamente com os outros?</p><p>� Nem sei se eu deveria estar falando sobre isso.</p><p>� Eu lhe pe�o. Eu lhe imploro, dr. Watson, que o senhor responda. Eu lhe asseguro que estar� nos ajudando; ajudando-me muito se nos orientar a respeito disso.</p><p>Havia um tom de sinceridade na voz da mulher, e por um instante esqueci-me de tudo sobre sua leviandade e estava pensando apenas em atender ao seu desejo.</p><p>� O sr. Holmes � um investigador particular � eu disse. � Ele � o seu pr�prio chefe e age de acordo com sua pr�pria opini�o. Ao mesmo tempo, naturalmente, ele � leal com os detetives da pol�cia que estejam trabalhando num mesmo caso, e n�o esconde deles nada que possa ajud�-los a solucionar o problema. Fora isso n�o posso dizer nada mais, a n�o ser encaminh�-la ao sr. Holmes para que a senhora obtenha maiores informa��es.</p><p>Ao dizer isso, fiz um cumprimento erguendo o chap�u e continuei em minha caminhada, deixando-os ainda sentados naquele banco escondido atr�s da cerca de teixos. Olhei para tr�s, ao contornar a extremidade da cerca, e vi que os dois conversavam de modo muito compenetrado, e como olhavam para mim, estava claro que a nossa conversa era o assunto da discuss�o deles.</p><p>� N�o quero saber das confid�ncias dela � disse Holmes quando lhe contei o que acontecera. Ele passara a tarde inteira na Casa Senhorial discutindo o caso com seus dois colegas, e voltou � hospedaria �s cinco horas com muito apetite para tomar o ch� que eu havia pedido para ele. � N�o quero saber de confid�ncias, Watson, pois elas se tornar�o muito embara�osas se houver uma acusa��o de conspira��o e assassinato.</p><p>� Voc� acha que acontecer� isso?</p><p>Ele estava muito alegre e com um jeito jovial.</p><p>� Meu caro Watson, depois que eu devorar aquele quarto ovo estarei em condi��es de p�r voc� a par de toda a situa��o. N�o digo que j� tenhamos elucidado tudo � longe disso �, mas quando encontrarmos o halter que desapareceu...</p><p>� O halter!</p><p>� Puxa, Watson, ser� poss�vel que voc� n�o tenha percebido que o caso gira em torno do halter que sumiu? Bem, bem, n�o precisa ficar triste, pois, c� entre n�s, acho que nem o inspetor Mac, nem o excelente m�dico local compreenderam a import�ncia desse incidente. Um halter, Watson! Considere um atleta com um halter. Imagine o que isso acarretaria: o perigo de uma curvatura na espinha. Surpreendente, Watson; surpreendente!</p><p>Ele estava com a boca cheia de torrada e os olhos com um brilho que revelavam alguma id�ia inusitada, observando meu embara�o intelectual. O seu bom apetite era uma garantia de sucesso, porque eu tinha lembran�as muito vivas de dias e noites em que ele nem tocava na comida, quando sua mente se ocupava com algum problema e seu corpo esguio, �gil, tornava-se mais magro ainda com o ascetismo da completa concentra��o mental. Finalmente ele acendeu o cachimbo e, sentado junto � lareira da hospedaria, falou calmamente e sem seguir uma linha l�gica sobre o caso, como se estivesse pensando alto e n�o fazendo uma afirma��o ponderada.</p><p>� Uma mentira, Watson: uma grande, enorme, intrometida, inflex�vel mentira, � isso que nos espera. � esse o nosso ponto de partida. Toda a hist�ria contada por Barker � uma mentira. Mas a hist�ria de Barker � apoiada pela sra. Douglas. Conseq�entemente, ela est� mentindo tamb�m. Os dois est�o mentindo, conspirando. Ent�o agora temos o problema bem claramente: por que est�o mentindo, e qual a verdade que tentam t�o obstinadamente esconder? Vamos tentar, Watson, voc� e eu, descobrir o que h� por tr�s dessa mentira e reconstituir a verdade.</p><p>� Como eu sei que eles est�o mentindo? Porque � uma inven��o tosca que simplesmente n�o pode ser verdadeira. Veja bem! Segundo a hist�ria que nos contaram, o assassino teve menos de um minuto, ap�s o assassinato, para retirar a alian�a, que estava por baixo de um anel, colocar esse outro anel (coisa que ningu�m faria) e deixar aquele estranho cart�o ao lado da v�tima. Obviamente eu acho tudo isso imposs�vel. Voc� pode argumentar � mas tenho muito respeito por voc�, Watson, para achar que voc� faria isso � que a alian�a pode ter sido retirada antes de ele ter sido assassinado. O fato de que a vela fora acesa pouco antes mostra que n�o houve tempo para conversas. Seria Douglas, j� que dizem que ele era destemido, capaz de entregar sua alian�a assim sem opor resist�ncia, ou devemos imaginar que ele seria capaz de entreg�-la? N�o, n�o, Watson, o assassino ficou sozinho com o morto por algum tempo com a luz acesa. Quanto a isso, n�o tenho a menor d�vida. Mas a espingarda, aparentemente, foi a causa da morte. Conseq�entemente, ela deve ter sido disparada antes da hora que nos disseram. Mas n�o deveria haver d�vida quanto a isso. Estamos diante de uma deliberada conspira��o por parte de duas pessoas que ouviram o disparo: Barker e a esposa de Douglas. Quando eu tiver condi��es, no desenvolvimento das investiga��es, de provar que a marca de sangue sobre o peitoril foi colocada ali deliberadamente por Barker para dar uma pista falsa � pol�cia, voc� ver� que as coisas ficar�o pretas para o lado dele.</p><p>� Agora precisamos nos perguntar a que horas o assassinato realmente ocorreu. At� as 22:30h os criados ainda estavam andando pela casa, de modo que certamente n�o aconteceu antes dessa hora. �s 22:45h todos j� tinham ido para os seus aposentos, com exce��o de Ames, que estava na copa. Fiz alguns testes, depois que voc� veio embora, hoje � tarde, e vi que nenhum ru�do feito por Barker no escrit�rio poderia chegar � copa estando todas as portas fechadas. Mas n�o acontece o mesmo com o quarto da governanta. N�o fica t�o longe assim e de l� eu podia ouvir vozes vagamente, se elas estivessem num tom alto. O som de um disparo � at� certo ponto abafado quando o disparo � feito de muito perto, como sem d�vida aconteceu neste caso. N�o deve ter sido um som muito alto, e mesmo assim, no sil�ncio da noite, deve ter chegado facilmente ao quarto da sra. Allen. Ela �, como nos disse, um tanto surda, mas mesmo assim citou no depoimento que ouviu uma porta bater meia hora antes de ser dado o alarme. Meia hora antes do alarme pode ter sido 22:45h. N�o tenho d�vida de que o que ela ouviu foi o disparo da arma, e que esse foi o exato momento do crime. Se assim for, temos agora que determinar o que o sr. Barker e a sra. Douglas, presumindo que eles n�o s�o os verdadeiros assassinos, ficaram fazendo de 22:45h quando o barulho do disparo os fez descer, at� 23:15h, quando tocaram a campainha e chamaram os criados. O que estavam fazendo e por que n�o deram o alarme imediatamente? � essa pergunta que temos, e quando ela for respondida, teremos dado um passo para a resolu��o do problema.</p><p>� Estou convencido � eu disse � de que existe alguma combina��o entre esses dois. Ela tem de ser uma pessoa insens�vel para ficar rindo de um gracejo poucas horas depois do assassinato do marido.</p><p>� Exatamente. Ela n�o parece se comportar como uma esposa nem mesmo no relato que fez sobre o ocorrido. N�o sou, como voc� sabe, Watson, um grande admirador das mulheres, mas minha experi�ncia de vida me ensinou que h� poucas mulheres, seja qual for o seu relacionamento com o marido, que deixariam as palavras de algu�m se interpor entre elas e o cad�ver do marido. Se algum dia eu me casasse, Watson, desejaria inspirar em minha mulher um sentimento tal que impedisse que ela fosse afastada por uma governanta quando meu corpo estivesse estendido a uns poucos metros dela. Isso foi mal arquitetado, porque at� o investigador mais frio estranharia a falta de lamenta��es dessa mulher. Mesmo que n�o houvesse mais nada, s� isso, para mim, sugeriria a exist�ncia de uma conspira��o.</p><p>� Voc� pensa, ent�o, que a sra. Douglas e Barker s�o mesmo os culpados do assassinato?</p><p>� Suas perguntas, Watson, s�o de uma objetividade aterrorizante � disse Holmes, sacudindo o cachimbo no ar em minha dire��o. � Parecem balas disparadas contra mim. Se voc� partir da id�ia de que a sra. Douglas e Barker sabem a verdade sobre o assassinato e tentam encobri-la, ent�o posso lhe dar uma resposta. Tenho certeza de que eles sabem a verdade. Mas sua proposi��o mais ferina ainda n�o est� muito clara. Vamos analisar as dificuldades que existem.</p><p>� Vamos supor que os dois est�o unidos pelos la�os de um amor proibido e que decidiram se livrar do homem que estava entre eles. � uma suposi��o muito vaga, pois uma investiga��o discreta entre os criados e outras pessoas n�o confirma isso. Pelo contr�rio, h� fortes ind�cios de que os Douglas eram muito ligados um ao outro.</p><p>� Quanto a isso, tenho certeza de que n�o pode ser verdade � eu disse, lembrando-me daquele rosto de mulher lindo e risonho que vi no jardim.</p><p>� Bem, pelo menos eles davam essa impress�o. Mas vamos imaginar que eles fossem um casal muito astuto, que ilude todo mundo a respeito disso e que conspira para matar o marido dela. Acontece que ele � um homem sobre o qual paira algum perigo...</p><p>� Sobre isso s� temos o depoimento deles dois.</p><p>Holmes pareceu preocupado.</p><p>� Entendo, Watson. Voc� defende a teoria segundo a qual tudo que eles disseram desde o in�cio � falso. De acordo com o seu pensamento, nunca houve amea�a nenhuma, nem sociedade secreta, nem o Vale do Medo, nem o chefe Mac-sei-l�-o-qu� ou qualquer outra coisa. Bem, isso � uma generaliza��o muito grande. Vamos ver aonde isso nos leva. Eles inventaram isso para justificar o crime. Ent�o refor�aram a id�ia deixando a bicicleta perto da casa como prova de que algu�m entrou l�. A marca sobre o peitoril sustenta a mesma id�ia. E tamb�m o cart�o sobre o corpo, que deve ter sido preparado na casa. Tudo isso se encaixa na sua hip�tese, Watson. Mas agora chegamos ao ponto em que as coisas n�o se encaixam. Por que uma espingarda com o cano serrado? E ainda por cima americana? Como eles poderiam ter tanta certeza de que o disparo n�o chamaria a aten��o de ningu�m? Foi um mero acaso, se assim se pode chamar, que a sra. Allen n�o tenha sa�do para ver por que a porta batera. Por que os seus dois culpados fizeram tudo isso, Watson?</p><p>� Confesso que n�o sei explicar.</p><p>� Ent�o, novamente se uma mulher e seu amante conspiram para assassinar o marido, ser� que os dois v�o anunciar sua culpa retirando ostensivamente a alian�a do morto ap�s o crime? Voc� acha que isso � prov�vel, Watson?</p><p>� N�o, n�o �.</p><p>� E mais: a id�ia de deixar uma bicicleta escondida l� fora ocorreu a voc�, mas ser� que mesmo o mais obtuso dos detetives n�o perceberia nisso uma pista falsa, j� que a bicicleta era a primeira coisa de que o fugitivo precisaria?</p><p>� N�o consigo imaginar uma explica��o.</p><p>� Mesmo assim, n�o precisa haver uma l�gica nos fatos para que a mente do homem formule uma explica��o. Apenas como um exerc�cio mental, sem supor que seja verdade, deixe-me indicar uma linha de pensamento poss�vel. Ou seja, tudo � fruto de minha imagina��o, mas quantas vezes n�o � a imagina��o a origem da verdade?</p><p>� Vamos supor que havia um segredo, um segredo realmente vergonhoso na vida de Douglas. Isso nos faz pensar que seu assassino seja, vamos supor, algu�m que queira se vingar: algu�m de fora da casa. Essa pessoa, por algum motivo que, confesso, ainda n�o consigo explicar, pegou a alian�a do morto. A vingan�a pode ter a ver com o primeiro casamento dele e o roubo da alian�a, alguma rela��o com isso. Depois que essa pessoa saiu, Barker e a esposa dele chegaram ao escrit�rio. O assassino os convenceu de que qualquer tentativa de det�-lo faria com que fosse revelado um esc�ndalo horr�vel. Os dois se convenceram disso e preferiram deix�-lo sair. Talvez por isso eles tenham abaixado a ponte, o que pode ser feito quase sem provocar ru�do, e depois a levantaram novamente. Ele fugiu, e por algum motivo achou que seria mais seguro ir a p� do que de bicicleta. Por isso deixou-a num local onde s� seria encontrada depois que ele estivesse em seguran�a em algum lugar. At� aqui estamos dentro dos limites da possibilidade, n�o �?</p><p>� Bem, � poss�vel, sem d�vida � eu disse com certa reserva.</p><p>� Precisamos lembrar, Watson, que, o que quer que tenha ocorrido, foi algo inusitado. Bem, agora para continuar nossas suposi��es, os dois � n�o necessariamente os dois culpados � perceberam, ap�s a fuga do assassino, que haviam se colocado numa situa��o em que seria dif�cil provar que n�o cometeram o crime ou nem foram coniventes. Eles ent�o, de modo r�pido e desajeitado, encontraram a sa�da. A marca na janela foi feita com o chinelo manchado de Barker para dar a id�ia de como o assassino fugiu. Eles dois eram as pessoas que deviam ter ouvido o disparo, de modo que n�o deram o alarme quando deviam e sim meia hora depois.</p><p>� E como voc� pretende provar tudo isso?</p><p>� Bem, se algu�m entrou na casa, poder� ser procurado e detido. Esta seria a melhor prova de todas. Caso contr�rio... bem, os recursos cient�ficos ainda n�o foram esgotados. Acredito que uma noite sozinho naquele escrit�rio me ajudaria bastante.</p><p>� Uma noite sozinho!</p><p>� Pretendo ir at� l� agora. Combine isso com o atencioso Ames, que n�o gosta muito de Barker. Vou me sentar naquele escrit�rio e ver se a sua atmosfera me traz alguma inspira��o. Acredito no genius loci. Voc� ri, meu caro Watson. Bem, veremos. A prop�sito, voc� trouxe aquele seu guarda-chuva grande, n�o trouxe?</p><p>� Est� aqui.</p><p>� Bem, vou lev�-lo, se n�o se importa.</p><p>� Claro que n�o... Mas que arma desprez�vel! Em caso de perigo...</p><p>� N�o h� nada de grande, meu caro Watson. Do contr�rio eu certamente pediria a sua ajuda. No momento estou apenas aguardando a volta de meus colegas de Tunbridge Wells, onde no momento est�o tentando encontrar o prov�vel dono da bicicleta.</p><p>O inspetor MacDonald e White Mason s� voltaram das suas investiga��es no come�o da noite, e chegaram radiantes, contando que haviam feito um grande progresso no nosso caso.</p><p>� Olha, vou admitir que eu duvidava que algu�m tivesse entrado na casa � disse MacDonald � mas as d�vidas desapareceram. Identificamos a bicicleta e temos a descri��o do nosso homem, de modo que foi um bom avan�o.</p><p>� Isso me soa como o princ�pio do fim � disse Holmes. � Quero cumprimentar os dois do fundo do meu cora��o.</p><p>� Bem, eu parti do fato de que o sr. Douglas parecera perturbado desde o dia anterior, quando esteve em Tunbridge Wells. Fora em Tunbridge Wells, ent�o, que ele tomara conhecimento de algum perigo. Estava claro, portanto, que se algum homem chegou numa bicicleta, com certeza tinha vindo de Tunbridge Wells. Levamos a bicicleta conosco e a mostramos em diversos hot�is. Foi identificada imediatamente pelo gerente do Eagle Commercial, que disse que ela pertencia a um homem chamado Hargrave, que alugara um quarto l� dois dias antes. A bicicleta e uma pequena valise eram todos os seus pertences. Ele se registrou dizendo ter chegado de Londres, mas n�o deu endere�o. A valise foi fabricada em Londres e dentro s� havia objetos ingleses, mas o homem, sem d�vida alguma, � americano.</p><p>� Bem, bem � disse Holmes, satisfeito � voc�s realmente fizeram um bom trabalho, enquanto eu fiquei sentado com meu amigo elaborando teorias. � uma li��o de como ser pr�tico, sr. Mac.</p><p>� Pois �, sr. Holmes � disse o inspetor com satisfa��o.</p><p>� Mas tudo isso pode se encaixar na sua teoria � eu comentei.</p><p>� Pode ser e pode n�o ser. Mas vamos ouvir o final, sr. Mac. N�o havia nada que identificasse esse homem?</p><p>� T�o pouco que � evidente que ele tomou cuidados para n�o ser identificado. N�o havia nenhum papel ou cartas em seu quarto, nem marcas nas roupas. Havia um mapa de ciclovias da regi�o na mesinha de cabeceira. Ele saiu do hotel ontem, depois do caf�-da-manh�, de bicicleta, e ningu�m mais soube dele at� n�s chegarmos.</p><p>� � isso que me intriga, sr. Holmes � disse White Mason. � Se esse sujeito n�o desejava que as suspeitas reca�ssem sobre ele, o certo seria ter voltado ao hotel e ficado como um turista inocente. Do jeito como ele fez, deveria saber que o gerente do hotel iria comunicar � pol�cia e que seu desaparecimento seria relacionado com o assassinato.</p><p>� Isso � o que seria certo imaginar. Mesmo assim, ele j� comprovou sua esperteza, de qualquer modo, j� que n�o foi apanhado. Mas a descri��o dele... Qual � a descri��o dele?</p><p>MacDonald apanhou o bloco de notas.</p><p>� Aqui s� temos o que nos disseram. Pelo visto n�o observaram nada de particular nele, mas mesmo assim o carregador, o rapaz da portaria e a camareira fizeram a mesma descri��o. Ele � um homem de aproximadamente 1,70 metro de altura, cerca de 50 anos, os cabelos ligeiramente grisalhos, bigode claro, nariz curvo, e um rosto que todos descreveram como amea�ador e desagrad�vel.</p><p>� Fora a express�o, seria quase que a descri��o do pr�prio Douglas � disse Holmes. � Ele tem pouco mais de 50, cabelos e bigodes grisalhos e mais ou menos a mesma altura. Mais alguma coisa?</p><p>� Ele usava um terno cinza-escuro com colete, um sobretudo amarelo e um bon�.</p><p>� E quanto � arma?</p><p>� Tem cerca de meio metro. Podia muito bem caber na valise. Ele poderia carreg�-la dentro do sobretudo sem dificuldade.</p><p>� E como o senhor acha que tudo isso se encaixa no caso?</p><p>� Bem, sr. Holmes � disse MacDonald � quando tivermos agarrado o homem � e o senhor pode ter certeza de que enviei a descri��o dele por tel�grafo assim que a anotei �, poderemos julgar melhor os fatos. Mas mesmo assim, j� progredimos bastante. Sabemos que um americano que diz chamar-se Hargrave chegou a Tunbridge Wells dois dias antes com uma bicicleta e uma valise. Nesta ele guardava uma espingarda de cano serrado. Ent�o veio com o prop�sito deliberado de cometer o crime. Ontem de manh� ele saiu em sua bicicleta com a arma escondida no sobretudo. Ningu�m o viu chegar, at� onde sabemos, mas ele n�o precisa passar pelo vilarejo para chegar aos port�es do parque, e h� muitos ciclistas na estrada. Presumivelmente, ele escondeu logo a bicicleta entre os loureiros, onde foi encontrada, e talvez tamb�m tenha se escondido ali, com os olhos na casa, esperando que o sr. Douglas sa�sse. A arma � estranha para ser usada dentro de casa, mas ele pretendia us�-la do lado de fora, e nesse caso ent�o ela apresentava vantagens �bvias, j� que seria imposs�vel errar, e o barulho de tiros � t�o comum no esporte ingl�s que ningu�m estranharia nada na vizinhan�a.</p><p>� Est� tudo muito claro! � disse Holmes.</p><p>� Bem, o sr. Douglas n�o apareceu. O que ele fez a seguir? Deixou a bicicleta e aproximou-se da casa ao anoitecer. Encontrou a ponte abaixada e ningu�m por perto. Aproveitou a oportunidade pensando, sem d�vida, em dar alguma desculpa se encontrasse com algu�m. N�o encontrou ningu�m. Entrou furtivamente no primeiro c�modo que viu e escondeu-se atr�s da cortina. Dali ele p�de ver a ponte ser levantada e sabia que sua �nica possibilidade de fuga seria pelo fosso. Ele esperou at� 22:45h, quando o sr. Douglas, em sua ronda noturna, entrou no escrit�rio. Ele o acertou e fugiu, como planejado. Ele sabia que o pessoal do hotel falaria sobre a bicicleta e que isso seria uma pista para ach�-lo. Ent�o deixou-a l� e seguiu de alguma outra forma para Londres ou para algum esconderijo seguro que j� tivesse providenciado. O que acha, sr. Holmes?</p><p>� Bem, sr. Mac, muito bom e muito claro at� a�. Esse � o seu final da hist�ria. Meu final � que o crime foi cometido meia hora mais cedo do que o relatado; que a sra. Douglas e o sr. Barker est�o envolvidos numa conspira��o para esconder algo; que eles ajudaram a fuga do assassino (ou, pelo menos, que chegaram ao escrit�rio antes que o assassino tivesse fugido) e que forjaram provas da fuga pela janela, enquanto, com toda certeza, eles mesmos abaixaram a ponte para que o assassino fugisse. � assim que eu vejo a primeira metade.</p><p>Os dois detetives sacudiram a cabe�a.</p><p>� Bem, sr. Holmes, se isso � verdade, sa�mos de um mist�rio e entramos em outro � disse o inspetor de Londres.</p><p>� E, de certa forma, um mist�rio pior � acrescentou White Mason. A senhora nunca esteve na Am�rica em toda a sua vida. Que liga��o ela poderia ter com um assassino americano que fizesse com que o acobertasse?</p><p>� Eu reconhe�o as dificuldades � disse Holmes. � Pretendo fazer uma investiga��o sozinho hoje � noite, e talvez isso possa esclarecer alguma coisa.</p><p>� Podemos ajud�-lo, sr. Holmes?</p><p>� N�o, n�o! Trevas e o guarda-chuva de Watson. Meus desejos s�o simples. E Ames, o leal Ames. N�o h� d�vida de que ele me far� essa concess�o. Todas as minhas linhas de pensamento me levam de volta a uma pergunta b�sica: por que um homem de porte atl�tico desenvolve seu f�sico com um aparelho t�o incomum quanto o halter simples?</p><p>J� era bem tarde da noite quando Holmes voltou de sua investiga��o solit�ria. Dorm�amos num quarto com duas camas, que foi a melhor coisa que a hospedaria p�de nos arranjar. Eu j� estava dormindo quando fui meio despertado pela entrada dele.</p><p>� Como �, Holmes � eu murmurei �, descobriu alguma coisa?</p><p>Ele ficou ao meu lado em sil�ncio, com a vela na m�o. Depois, aquela figura alta e magra se inclinou na minha dire��o.</p><p>� Watson � ele sussurrou � voc� teria medo de dormir no mesmo quarto com um lun�tico, um homem de miolo mole, um idiota que perdeu o ju�zo?</p><p>� De modo algum � eu respondi, perplexo.</p><p>� Que sorte � ele disse, e n�o pronunciou nem mais uma palavra naquela noite.</p><empty-line/></section><section><p><strong>A Solu��o</strong></p><p>Na manh� seguinte, ap�s o caf�, encontramos o inspetor MacDonald e o sr. White Mason sentados no sagu�o da delegacia e conversando de maneira reservada. Na mesa diante deles havia algumas cartas e telegramas, que separavam e anotavam cuidadosamente. Havia tr�s cartas separadas.</p><p>� Ainda na pista do ciclista misterioso? � Holmes perguntou jovialmente. � Quais as �ltimas sobre o malandro?</p><p>MacDonald apontou com pesar para a pilha de correspond�ncia.</p><p>� No momento ele est� sendo procurado em Leicester, Nottinghan, Southampton, Derby, East Ham, Richmond e em outros 14 lugares. Em tr�s deles, East Ham, Leicester e Liverpool, h� uma acusa��o formal contra ele e, na verdade, ele j� foi preso. Parece que o pa�s est� cheio de fugitivos com sobretudos amarelos.</p><p>� Puxa! � disse Holmes, de modo simp�tico. � Agora, sr. Mac e sr. White Mason,</p><p>eu gostaria de lhes dar um conselho muito s�rio. Quando entrei nesse caso com os senhores, disse, como devem se lembrar, que eu n�o lhes apresentaria teorias que n�o estivessem totalmente provadas. Ao contr�rio, eu iria guardando tudo e trabalhando por minha conta at� me convencer de que minhas teorias estavam certas. Por esse motivo n�o estou lhes dizendo agora tudo que tenho em mente. Por outro lado, eu disse que os ajudaria e n�o acho que seja ajud�-los permitir que os senhores desperdicem suas energias num trabalho in�til. Por isso vim aqui para aconselh�-los. E meu conselho se resume nestas palavras: abandonem o caso.</p><p>MacDonald e White Mason olharam com perplexidade para o colega famoso.</p><p>� O senhor o considera sem solu��o? � exclamou o inspetor.</p><p>� Acho que este caso que os senhores est�o tentando resolver � sem solu��o. N�o considero sem solu��o chegar � verdade.</p><p>� Mas esse ciclista. Ele n�o � uma inven��o. Temos a descri��o dele, sua valise, sua bicicleta. Esse sujeito deve estar em algum lugar. Por que n�o haver�amos de peg�-lo?</p><p>� Sim, sim. N�o h� d�vida de que ele est� em algum lugar, e n�o h� d�vida de que vamos peg�-lo. Mas n�o acho que os senhores devam perder seu tempo em East Ham ou Liverpool. Tenho certeza de que podemos chegar ao resultado final de um modo mais direto.</p><p>� O senhor est� escondendo alguma coisa. N�o � justo da sua parte, sr. Holmes. � O inspetor estava aborrecido.</p><p>� O senhor conhece os meus m�todos de trabalho, sr. Mac. Mas vou esconder essas coisas pelo menor tempo poss�vel. Quero apenas verificar certos detalhes, o que pode ser feito prontamente, depois me despe�o e volto para Londres, deixando minhas condena��es inteiramente � sua disposi��o. Eu tenho muita considera��o pelo senhor para agir de outro modo, pois em toda a minha experi�ncia n�o me lembro de nenhum caso mais estranho e interessante.</p><p>� N�o entendo, sr. Holmes. N�s o encontramos ontem � noite quando voltamos de Tunbridge Wells, e o senhor concordou com os resultados a que chegamos. O que aconteceu desde ent�o para que o senhor tenha uma id�ia completamente diferente sobre o caso?</p><p>� J� que o senhor me pergunta, eu passei algumas horas, como disse que ia fazer, na Casa Senhorial ontem � noite.</p><p>� Sim, e o que aconteceu?</p><p>� Ah, s� posso lhe responder de um modo bastante gen�rico por enquanto. A prop�sito, estive lendo uma hist�ria curta, mas muito clara e interessante, sobre aquela velha constru��o, vendida pela modesta soma de 1 p�ni pelo negociante de fumo local. � Holmes puxou do bolso do colete um pequeno peda�o de papel com um esbo�o da Casa Senhorial. � O interesse por uma investiga��o aumenta, meu caro sr. Mac, quando se tem afinidade com a ambienta��o hist�rica do lugar. N�o fique t�o impaciente, pois lhe garanto que mesmo uma descri��o t�o resumida como esta lan�a um pouco de luz sobre o passado. Permita-me dar-lhe uma prova disso. �Mandada erigir no quinto ano do reinado de James I, e localizada no s�tio de uma constru��o muito mais antiga, a Casa Senhorial de Birlstone apresenta um dos melhores exemplos ainda existentes de resid�ncia com fosso da �poca daquele governante...�</p><p>� O senhor est� nos fazendo de bobos, sr. Holmes.</p><p>� Ora, sr. Mac! � a primeira demonstra��o da irrita��o que percebo no senhor. Bem, n�o vou ler isso aqui na �ntegra, j� que o senhor reagiu desse modo. Mas quando eu lhe disser que h� um relato da tomada do lugar por um coronel do Parlamento, em 1644, do fato de Charles ter se escondido l� durante v�rios dias durante a Guerra Civil e, finalmente, da visita que o segundo George fez � casa, o senhor ir� admitir que h� v�rias associa��es de interesse ligadas a esta casa antiga.</p><p>� N�o duvido, sr. Holmes. Mas isso n�o � assunto nosso.</p><p>� N�o �? N�o �? Mente aberta, meu caro sr. Mac, � uma das coisas essenciais em nossa profiss�o. A integra��o de id�ias e os usos indiretos do conhecimento s�o de grande interesse. Desculpe essas observa��es de algu�m que, embora um simples conhecedor do crime, � mais velho e talvez mais experiente que o senhor.</p><p>� Sou o primeiro a admitir isso � disse o detetive com veem�ncia.</p><p>� Bem, bem. Vou deixar a Hist�ria de lado e voltar aos fatos atuais. Estive ontem � noite, como j� disse, na Casa Senhorial. N�o vi nem o sr. Barker nem a sra. Douglas. N�o vi necessidade de perturb�-los, mas gostei de saber que a senhora aparentemente n�o estava abatida e que havia jantado muito bem. Minha visita foi especialmente ao bondoso sr. Ames, com quem troquei algumas amabilidades, que culminaram com a permiss�o dele, sem consultar ningu�m mais, para que eu ficasse sozinho no escrit�rio durante algum tempo.</p><p>� O qu�! Puxa! � eu exclamei.</p><p>� N�o, n�o. Est� tudo em ordem agora. O senhor havia dado permiss�o para isso, sr. Mac, segundo fui informado. O lugar estava com sua arruma��o normal e ali passei um quarto de hora que valeu a pena.</p><p>� O que o senhor fez?</p><p>� Bem, para n�o fazer mist�rio de algo t�o simples, eu estava � procura do halter que desapareceu. Isso sempre significou muito para mim na avalia��o do caso. Acabei encontrando.</p><p>� Onde?</p><p>� Ah! Aqui chegamos ao limiar do inexplorado. Deixe-me avan�ar um pouco mais, s� um pouco mais, e prometo que contarei tudo que sei.</p><p>� Bem, somos obrigados a aceitar suas condi��es � disse o inspetor. � Mas nos dizer para abandonar o caso... Por qu�, em nome de Deus, dever�amos abandonar o caso?</p><p>� Pelo simples motivo, meu caro sr. MacDonald, de que o senhor ainda n�o tem a menor id�ia do que est� investigando.</p><p>� Estamos investigando o assassinato do sr. John Douglas, de Birlstone.</p><p>� Sim, sim. Est� bem. Mas n�o se preocupe em seguir o misterioso cavalheiro da bicicleta. Eu lhe garanto que isso n�o o ajudar�.</p><p>� Ent�o o que o senhor nos sugere fazer?</p><p>� Eu lhe direi exatamente o que fazer, se o senhor fizer o que eu disser.</p><p>� Bem, tenho de admitir que sempre achei que o senhor tinha raz�o, mesmo com suas maneiras estranhas de trabalhar. Farei o que o senhor disser.</p><p>� E o sr. White Mason?</p><p>O detetive do interior olhou desalentadamente de um para o outro. Holmes e seus m�todos eram novos para ele.</p><p>� Bem, se � bom para o inspetor, � bom para mim � ele disse finalmente.</p><p>� �timo! � disse Holmes. � Bem, ent�o recomendo que os dois fa�am uma bela caminhada pelo campo. Dizem que a vista de Birlstone Ridge sobre Weald � not�vel. Poderiam almo�ar em alguma estalagem agrad�vel. Mas como n�o conhe�o nada por aqui, n�o vou fazer nenhuma indica��o. � noite, cansados mas felizes...</p><p>� Olha, isso est� virando piada! � exclamou MacDonald, levantando-se furioso de sua cadeira.</p><p>� Est� bem. Passem o dia como quiserem � disse Holmes, batendo-lhe no ombro. � Fa�am o que quiserem e v�o aonde desejarem, mas encontrem-se comigo aqui antes de escurecer, sem falta. Sem falta, sr. MacDonald.</p><p>� Isso parece mais sensato.</p><p>� Era excelente a id�ia que eu dei, mas n�o insisto, desde que o senhor esteja aqui quando eu precisar. Mas agora, antes de nos separarmos, quero que o senhor escreva um bilhete para o sr. Barker.</p><p>� Sim.</p><p>� Vou ditar, se o senhor preferir. Pronto?</p><p>� �Prezado Senhor, lamento que tenhamos de esvaziar o fosso, na esperan�a de encontrar algo...�</p><p>� � imposs�vel � disse o inspetor. � Eu investiguei.</p><p>� Ora, meu caro senhor! Por favor, fa�a o que lhe pe�o.</p><p>� �... na esperan�a de encontrar algo que possa ajudar em nossas investiga��es. Acertei tudo e os oper�rios chegar�o a� amanh� cedo...�</p><p>� Imposs�vel!</p><p>� �... amanh� cedo, de modo que achei melhor explicar ao senhor com anteced�ncia.�</p><p>� Agora assine e mande por um portador por volta das 16 horas. A essa hora devemos nos encontrar novamente aqui. At� l�, podemos fazer o que bem entendermos, pois posso lhes garantir que esta investiga��o chegou ao ponto final.</p><p>J� come�ava a escurecer quando voltamos a nos encontrar. Holmes estava muito s�rio, eu me sentia curioso, e os detetives, obviamente, com um ar de censura e aborrecimento ao mesmo tempo.</p><p>� Bem, cavalheiros � disse meu amigo em tom grave �, pedi que viessem agora para que testem junto comigo as minhas teorias, e os senhores julgar�o se as observa��es que eu fiz justificam as minhas conclus�es. Ser� uma noite fria e n�o sei quanto tempo nossa expedi��o ir� demorar, de modo que lhes pe�o que vistam seus agasalhos mais quentes. � da m�xima import�ncia que estejamos no lugar certo antes que escure�a, de modo que, com sua permiss�o, come�aremos imediatamente.</p><p>Fomos em dire��o aos limites do parque da Casa Senhorial at� chegarmos a um lugar onde havia uma abertura na cerca que o rodeava. Foi por a� que entramos e ent�o, em meio � semi-escurid�o daquela hora, todos n�s seguimos Holmes at� chegarmos a um local cheio de moitas e que fica quase em frente � porta de entrada principal e � ponte. Esta ainda n�o tinha sido suspensa. Holmes se abaixou atr�s dos loureiros e n�s tr�s fizemos o mesmo.</p><p>� Bem, o que vamos fazer agora? � perguntou MacDonald, um tanto r�spido.</p><p>� Manter nosso esp�rito sossegado e fazer o m�nimo de barulho � respondeu Holmes.</p><p>� Para qu� viemos at� aqui? Eu realmente acho que o senhor deveria nos tratar com maior franqueza.</p><p>Holmes riu.</p><p>� Watson insiste em que eu sou um dramaturgo na vida real � disse ele. � Tenho mesmo um qu� de artista e gosto de uma encena��o bem ensaiada. Com certeza nossa profiss�o seria ins�pida e s�rdida se �s vezes n�o fiz�ssemos um pouco de encena��o a fim de exaltar os resultados a que chegamos. Uma acusa��o brusca, um tapa brutal nos ombros � o que se pode fazer com um d�nouement assim? Mas a dedu��o r�pida, a armadilha sutil, uma certa precis�o do que est� para ocorrer, a defesa de teorias aparentemente ousadas � n�o � tudo isso que constitui o orgulho e a justificativa do nosso trabalho? No momento os senhores vibram com a fascina��o da situa��o e com a intui��o do ca�ador. Onde estaria essa fascina��o se eu tivesse sido preciso como uma tabela de hor�rios? S� pe�o um pouco de paci�ncia, sr. Mac, e tudo se esclarecer�.</p><p>� Espero que o orgulho,� a justificativa e todo o resto venham antes que a gente morra de frio � disse o detetive londrino com uma resigna��o divertida.</p><p>Todos n�s t�nhamos bons motivos para compartilhar desse desejo, pois nossa vig�lia era demorada e dif�cil. Lentamente as sombras foram caindo por sobre a comprida fachada da velha casa. Um mau cheiro carregado de umidade vinha do fosso, fazendo-nos tremer e bater os queixos. Havia uma �nica l�mpada no port�o de entrada e um ponto de luz no escrit�rio onde ocorrera o crime. Todo o resto estava escuro e silencioso.</p><p>� Quanto tempo isso vai durar? � perguntou o inspetor de repente. � E o que estamos esperando?</p><p>� Sei tanto quanto o senhor o tempo que isso vai demorar � Holmes respondeu com certa aspereza. � Se os criminosos programassem a hora dos seus movimentos como as ferrovias fazem, seria muito melhor para todos n�s. Quanto ao que n�s... Bem, isso � o que estamos esperando.</p><p>Quando ele acabou de responder, a luz amarelada do escrit�rio foi ofuscada por algu�m que passava na frente dela de um lado para outro, para l� e para c�. Os loureiros atr�s dos quais nos encontr�vamos ficavam bem em frente � janela e a poucos metros de dist�ncia. Ela foi aberta, fazendo ranger as dobradi�as, e pudemos ver a silhueta da cabe�a e dos ombros de um homem que se debru�ava no peitoril e olhava a escurid�o. Durante alguns minutos ele observou tudo atentamente, de modo furtivo, dissimulado, como algu�m que deseja se certificar de que n�o h� ningu�m observando. Ent�o ele se inclinou para a frente e, no absoluto sil�ncio, percebemos o discreto ru�do de �gua sendo agitada. Parecia que ele estava mexendo na �gua com algo que tinha na m�o. Ent�o, de repente, ele puxou qualquer coisa como um pescador faz depois de fisgar um peixe: um objeto grande, redondo, que obscureceu a luz no momento em que passou pela esquadria da janela.</p><p>� Agora! � gritou Holmes. � Agora!</p><p>Ficamos todos de p�, com nossos membros entorpecidos, enquanto ele, com aquela explos�o de energia que podia fazer dele em certas ocasi�es o homem mais �gil e mais forte que eu j� conhecera, corria pela ponte e tocava violentamente o sino. Ouviu-se o ru�do de pinos sendo destravados do outro lado e o at�nito Ames apareceu na porta. Holmes empurrou-o para o lado sem dizer nada, seguido por todos n�s, e irrompeu no c�modo onde entrara o homem que est�vamos observando.</p><p>A lamparina sobre a mesa era a origem da claridade que hav�amos visto l� de fora. Estava agora na m�o de Cecil Barker, que a levantou na nossa dire��o quando entramos no c�modo. A luz fazia brilhar seu rosto forte, resoluto, escanhoado, e seus olhos amea�adores.</p><p>� Com os diabos, o que significa tudo isso? � ele gritou. � O que est�o procurando?</p><p>Holmes deu uma r�pida olhada pelo escrit�rio e ent�o dirigiu-se rapidamente para um pacote encharcado amarrado com cordas que estava no lugar onde havia sido jogado, debaixo da escrivaninha.</p><p>� Foi atr�s disso que viemos, sr. Barker. Desse pacote que cont�m um halter, e que o senhor acabou de apanhar no fundo do fosso.</p><p>Barker olhou para Holmes mostrando surpresa em seu olhar.</p><p>� Que raios! Como o senhor ficou sabendo? � ele perguntou.</p><p>� Simplesmente porque eu coloquei isso l� no fundo.</p><p>� O senhor colocou l�! O senhor!</p><p>� Talvez eu devesse dizer �recoloquei l� no fundo� � disse Holmes. � O senhor deve se lembrar, inspetor MacDonald, de que eu estava estranhando a falta de um halter. Chamei sua aten��o para isso, mas, devido � press�o de outras ocorr�ncias, o senhor n�o teve muito tempo para examinar o assunto, o que lhe permitiria tirar conclus�es sobre isso. Quando h� �gua por perto e some alguma coisa pesada, n�o � muito dif�cil supor que esse objeto foi jogado na �gua. A id�ia merecia pelo menos ser verificada. Ent�o, com a ajuda de Ames, que me fez entrar at� o escrit�rio, e com o cabo do guarda-chuva do dr. Watson, consegui, ontem � noite, i�ar este pacote e inspecion�-lo. Mas era da maior import�ncia que pud�ssemos provar quem o havia colocado ali. Isso n�s conseguimos por meio do simples artif�cio de avisar que o fosso seria esvaziado amanh�, o que faria com que a pessoa que escondeu o pacote fosse certamente retir�-lo de l� quando a noite ca�sse e a escurid�o lhe permitisse fazer isso. Temos quatro testemunhas que viram quem se aproveitou dessa oportunidade e, portanto, sr. Barker, acho que o senhor agora tem a palavra.</p><p>Sherlock Holmes colocou o pacote molhado em cima da mesa, ao lado da lamparina, e desamarrou a corda que o prendia. Do embrulho ele retirou o halter, que colocou no ch�o perto do outro halter, no canto do escrit�rio. Depois retirou um par de botas.</p><p>� Americanas, como podem ver � ele comentou, apontando para a parte da frente do cal�ado. Depois ele colocou sobre a mesa uma faca comprida, dentro da bainha. Finalmente ele desamarrou uma trouxa de roupas, contendo uma muda completa de roupas de baixo, meias, um terno cinza de tweed e um sobretudo amarelo e curto.</p><p>� As roupas s�o comuns � comentou Holmes � exceto o sobretudo, que tem detalhes bem sugestivos. � Ele o colocou contra a luz, enquanto seus dedos finos e compridos percorriam o casaco. � Aqui, como podem perceber, � o bolso interno, aumentado para dentro do forro de modo a dar espa�o para a espingarda serrada. A etiqueta do alfaiate est� no colarinho: Neale, Outfitter, Vermissa, EUA. Eu passei uma tarde muito proveitosa na biblioteca do p�roco e aumentei meus conhecimentos ao saber que Vermissa � uma pr�spera cidadezinha perto de um dos mais conhecidos vales de carv�o e ferro dos Estados Unidos. Lembro-me, sr. Barker, de que o senhor associou os distritos de carv�o � primeira esposa do</p><p>sr. Douglas, e n�o seria uma dedu��o muito absurda dizer que as letras V.V. no cart�o deixado ao lado do cad�ver possam significar Vale Vermissa, ou que esse vale, que manda emiss�rios para cometer assassinatos, possa ser o Vale do Medo de que ouvimos falar. Isso me parece razoavelmente claro. E agora, sr. Barker, acho que podemos ouvir sua explica��o.</p><p>Foi um espet�culo observar o rosto expressivo de Barker durante a exposi��o do grande detetive. Raiva, surpresa, consterna��o e indecis�o se alternavam. Finalmente ele se refugiou numa ironia um tanto mordaz.</p><p>� O senhor sabe tanto, sr. Holmes. Talvez fosse melhor nos contar mais � ele disse em tom de esc�rnio.</p><p>� N�o tenho d�vida de que eu poderia contar muito mais, sr. Barker, mas teria muito mais gra�a vindo do senhor.</p><p>� Oh, o senhor pensa assim, �? Bem, tudo que posso dizer � que, se existe algum segredo aqui, n�o � meu, e n�o sou a pessoa que deve revel�-lo.</p><p>� Bem, se o senhor vai por esse caminho, sr. Barker � disse o inspetor calmamente �, ent�o devemos mant�-lo sob vigil�ncia at� que tenhamos a autoriza��o para prend�-lo.</p><p>� Podem fazer o que bem entenderem � disse Barker de modo desafiador.</p><p>Pelo que tudo indicava, a conversa estava encerrada, pois bastava olhar para aquele rosto de pedra para perceber que nenhuma peine forte et dure o for�aria a falar contra a vontade. Mas o sil�ncio foi quebrado por uma voz de mulher.</p><p>A sra. Douglas estivera ouvindo tudo pela porta entreaberta, e agora entrava no escrit�rio.</p><p>� Voc� fez muito, Cecil � disse ela. � N�o importa o que aconte�a depois, mas voc� fez bastante por n�s.</p><p>� E fez muito mesmo � comentou Sherlock Holmes em tom s�rio. � Desde o in�cio eu tive muita simpatia pela senhora e devo pedir-lhe que tenha confian�a em nosso bom senso e que confie plenamente na pol�cia. Talvez eu tenha errado ao n�o atender ao pedido que me fez por interm�dio de meu amigo, dr. Watson, mas �quela altura eu tinha bons motivos para acreditar que a senhora estivesse diretamente envolvida no crime. Agora garanto-lhe que j� n�o penso assim. Ao mesmo tempo, h� muita coisa ainda sem explica��o e solicito encarecidamente que a senhora pe�a ao sr. Douglas para nos contar a hist�ria dele.</p><p>A sra. Douglas deu um grito de espanto ao ouvir as palavras de Holmes. Os detetives e eu certamente repetimos esse grito quando percebemos a presen�a de um homem que parecia ter sa�do da parede e que agora avan�ava, saindo da escurid�o do canto do escrit�rio de onde viera. A sra. Douglas virou-se e o abra�ou. Barker apertou sua m�o estendida.</p><p>� � melhor assim, Jack � sua esposa repetia. � Tenho certeza de que assim � melhor.</p><p>� Realmente �, sr. Douglas � disse Sherlock Holmes. � O senhor mesmo achar� melhor.</p><p>O homem piscava enquanto nos olhava ainda meio confuso, pois sa�ra da escurid�o para um ambiente iluminado. Era um rosto extraordin�rio � olhos acinzentados penetrantes, um bigode grisalho cheio e bem aparado, queixo retil�neo e saliente, e a boca com uma express�o ir�nica. Ele olhou detidamente para todos n�s e ent�o, para surpresa minha, avan�ou em minha dire��o e me entregou um ma�o de pap�is.</p><p>� Ouvi falar no senhor � ele disse com um sotaque que n�o era propriamente ingl�s nem americano, mas que era suave e agrad�vel. O senhor � o historiador dessa papelada. Bem, dr. Watson, o senhor nunca teve uma hist�ria como essa em suas m�os e eu gastei meu �ltimo centavo com ela. Conte essa hist�ria do seu jeito. Mas h� fatos, e o senhor n�o pode esconder do p�blico. Fiquei confinado dois dias e passava as manh�s e as tardes, embora n�o houvesse muita claridade naquela ratoeira, pondo tudo em palavras nesses pap�is. � um prazer entreg�-los ao senhor; ao senhor e ao seu p�blico. A� est� a hist�ria do Vale do Medo.</p><p>� Isso pertence ao passado, sr. Douglas � disse Sherlock Holmes com serenidade. � O que desejamos agora � ouvir sua hist�ria sobre o presente.</p><p>� Eu contarei, senhor � disse Douglas. � Posso fumar enquanto falo? Bem, obrigado, sr. Holmes. O senhor tamb�m � fumante, se me lembro bem, e pode imaginar o que � ficar sentado durante dois dias com tabaco no bolso e com medo de que o cheiro do fumo nos denuncie. � Ele se apoiou no consolo da lareira e tragou o charuto que Holmes lhe dera.</p><p>� Ouvi falar no senhor. Nunca imaginei que fosse encontr�-lo. Mas antes de o senhor acabar de ler tudo isso � e ele apontou para os pap�is � concordar� que lhe trouxe algo bem diferente.</p><p>O inspetor MacDonald estivera o tempo todo olhando para aquele homem com uma express�o de assombro.</p><p>� Bem, n�o consigo entender isso! � ele finalmente gritou. � Se o senhor � John Douglas, de Birlstone, a morte de quem estamos investigando h� dois dias, e de onde, afinal, o senhor apareceu agora? O senhor parece ter sa�do de uma cartola de m�gico.</p><p>� Ah, sr. Mac � disse Holmes, sacudindo o dedo com ar de censura � o senhor n�o entenderia esta nova vers�o do esconderijo do rei Charles. Naquele tempo as pessoas s� se escondiam em lugares seguros. E um lugar que j� foi usado uma vez pode ser usado de novo. Eu me convenci de que t�nhamos de encontrar o sr. Douglas debaixo desse teto.</p><p>� E por quanto tempo o senhor pregou esta pe�a em n�s, sr. Holmes? � perguntou o inspetor, furioso. � Quanto tempo o senhor deixou que perd�ssemos numa busca que o senhor sabia que era rid�cula?</p><p>� Nem um minuto, meu caro sr. Mac. S� ontem � noite cheguei a uma opini�o sobre o caso. Como minha teoria s� poderia ser provada hoje � noite, disse ao senhor e ao seu colega para tirarem uma folga durante o dia. Diga, o que mais eu poderia ter feito? Quando encontrei as roupas no fosso, imediatamente ficou claro para mim que o corpo que achamos aqui n�o poderia ser o do sr. John Douglas, e sim o do ciclista de Tunbridge Wells. N�o era poss�vel outra conclus�o. Portanto eu tinha de descobrir onde o sr. Douglas poderia estar, e entre as v�rias possibilidades estava a de que, com a coniv�ncia da esposa e do amigo, ele havia se escondido nesta casa mesmo, que tem lugares adequados para abrigar um fugitivo esperando uma oportunidade melhor para fugir de vez.</p><p>� O senhor descreveu tudo muito bem � disse o sr. Douglas de modo aprovador. � Eu pensei que escaparia da legisla��o inglesa, pois n�o tinha muita certeza a respeito da minha situa��o em rela��o a ela, e al�m disso vi a oportunidade de afastar, de uma vez por todas, esses perdigueiros do meu rastro. Veja bem, do in�cio ao fim n�o fiz nada de que tivesse de me envergonhar, e nada que n�o faria de novo, mas os senhores far�o o seu pr�prio julgamento quando eu lhes contar minha hist�ria. N�o se preocupe em me advertir, inspetor. Estou disposto a encarar a verdade.</p><p>� N�o vou come�ar do princ�pio. Est� tudo ali � ele indicou meu ma�o de folhas � e os senhores achar�o que � uma hist�ria muito estranha. Tudo se resume no seguinte: h� alguns homens que t�m bom motivo para me odiar e que gastar�o at� o �ltimo centavo para saber que me apanharam. Enquanto eu estiver vivo e eles tamb�m, n�o h� seguran�a no mundo para mim. Eles me ca�aram de Chicago � Calif�rnia. Depois me fizeram fugir da Am�rica. Mas quando me casei e me estabeleci aqui neste lugar, pensei que meus �ltimos anos seriam tranq�ilos. Nunca falei � minha mulher sobre isso. Como eu poderia inclu�-la numa coisa dessas? Ela jamais teria um momento de sossego. Ficaria sempre imaginando desgra�as. Acho que ela sabe de alguma coisa, pois posso ter deixado escapar um coment�rio aqui, outro ali: mas at� ontem, depois que os senhores a viram, ela jamais soube de nada. Ela lhes contou tudo que sabia, e o mesmo fez Barker, pois, na noite em que tudo aconteceu, n�o houve muito tempo para explica��es. Agora ela sabe tudo, e teria sido mais prudente se eu tivesse contado tudo a ela antes. Mas era um assunto t�o desagrad�vel, querida... � Ele segurou a m�o dela por um instante � ... e procurei fazer o melhor.</p><p>� Bem, senhores, no dia anterior ao desses acontecimentos eu fui a Tunbridge Wells e vi de relance um homem na rua. Minha mente � r�pida para essas coisas e n�o tive d�vida sobre quem seria ele. Era o pior inimigo que eu tinha entre todos os outros, o que ficara atr�s de mim como um lobo faminto perseguindo uma rena todos esses anos. Eu vi logo que teria problema, e ent�o vim para casa e me preparei para ele. Achei que podia enfrent�-lo sozinho. Houve um tempo em que a minha sorte era conhecida nos Estados Unidos. Nunca duvidei de que essa sorte ainda estivesse do meu lado.</p><p>� Fiquei alerta durante todo o dia seguinte e n�o sa� em momento algum. Isso foi bom, pois do contr�rio ele teria me acertado com aquela espingarda antes mesmo que eu chegasse perto dele. Depois que a ponte foi suspensa (eu ficava mais tranq�ilo quando a ponte era suspensa, � noitinha) eu analisei bem o problema. Nunca imaginei que ele entraria na casa e ficaria esperando por mim. Mas quando fiz minha ronda de roup�o, como era meu costume, t�o logo entrei no escrit�rio pressenti o perigo. Acho que quando um homem j� passou por perigos na vida (e passei por perigos a maior parte da minha), h� uma esp�cie de sexto sentido que acena a bandeira vermelha. Eu vi o sinal de maneira bem n�tida e mesmo assim n�o sei lhes dizer por qu�. Logo depois vi a ponta de uma bota aparecendo por baixo da cortina da janela, e ent�o entendi tudo.</p><p>� Eu tinha apenas uma vela na m�o, mas entrava luz suficiente do hall pela porta, que estava aberta. Eu coloquei a vela na mesa e corri para apanhar o martelo que eu deixara sobre o consolo da lareira. Nesse instante ele saltou em cima de mim. Vi o brilho da l�mina de uma faca e parti para ele com o martelo. Eu o atingi em algum lugar, pois a faca fez barulho ao cair no ch�o. Ele fugiu para tr�s da mesa ligeiro como uma enguia e logo depois puxou a arma de dentro do casaco. Eu o ouvi engatilh�-la, mas eu a segurei antes que ele pudesse fazer o disparo. Eu a segurei pelo cano e lutamos durante um minuto mais ou menos. O fato de t�-la largado significou a morte para ele. Ele jamais deixara acontecer algo assim, mas deixou que a coronha ficasse para baixo durante muito tempo. Talvez tenha sido eu quem puxou o gatilho. Talvez tenha sido nossa luta que provocou o disparo. De qualquer modo, ele levou os dois tiros no rosto, e ali estava eu, olhando para o que restara de Ted Baldwin. Eu o reconhecera na cidade aquele dia e novamente quando veio para cima de mim. Mas sua pr�pria m�e n�o o reconheceria do modo que eu o vi naquela noite. Estou acostumado com coisas desagrad�veis, mas ver aquilo realmente me fez mal.</p><p>� Eu estava apoiado na mesa quando Barker desceu correndo. Ouvi minha esposa vindo tamb�m, e ent�o corri para a porta e a detive. N�o era cena para uma mulher ver. Eu prometi que logo iria para perto dela. Falei alguma coisa com Barker (ele entendeu tudo num relance e esperamos que os outros chegassem). Mas n�o apareceu ningu�m. Ent�o percebemos que eles n�o haviam escutado nada, e que s� n�s sab�amos o que acontecera.</p><p>� Foi nessa hora que tive a id�ia. Fiquei encantado com a genialidade da id�ia. A manga do homem estava levantada e havia a marca da Loja* feita a fogo. Veja aqui.</p><p>O homem que conhec�amos como Douglas suspendeu a manga do seu pr�prio casaco e o punho da camisa para nos mostrar um tri�ngulo marrom dentro de um c�rculo, exatamente como a marca que t�nhamos visto no bra�o do morto.</p><p>� Foi ao ver essa marca que comecei a reparar no resto. Tudo me parecia perfeito. A altura, o cabelo e o corpo se pareciam com os meus. Ningu�m poderia ver o rosto dele, pobre-diabo! Eu trouxe essas roupas aqui para baixo, e em 15 minutos Barker e eu vestimos o roup�o nele, e ele estava como os senhores o encontraram. Amarramos tudo num embrulho, coloquei no meio a �nica coisa pesada que consegui encontrar, e atirei pela janela. O cart�o que ele pretendia deixar sobre o meu corpo ficou ca�do ao lado do dele. Meus an�is foram colocados nos dedos dele, mas na hora da alian�a � ele levantou a m�o musculosa � os senhores mesmos podem ver que eu passei dos limites. Eu nunca a tirei desde o dia em que nos casamos e iria demorar uma eternidade para arranc�-la do meu dedo. De qualquer modo, n�o sei se alguma vez eu quis tir�-la, mas se quis, n�o consegui. Ent�o tivemos de abandonar esse detalhe. Por outro lado, eu apanhei um curativo e o coloquei no lugar onde eu estou usando um. Isto, sr. Holmes, escapou at� ao senhor, que � muito esperto. Pois se o senhor, por acaso, tivesse retirado o curativo, n�o encontraria nenhum corte por baixo dele.</p><p>� Esta era a situa��o. Se eu pudesse ficar escondido por algum tempo e depois fugir para um lugar onde pudesse reencontrar minha �vi�va�, n�s finalmente ter�amos a oportunidade de viver em paz pelo resto de nossas vidas. Esses dem�nios n�o me dariam descanso at� que eu estivesse debaixo da terra, mas se vissem nos jornais que Baldwin pegara o homem que queriam, isso seria o fim de todos os meus problemas. Eu n�o tinha muito tempo para dar explica��es a Barker e a minha mulher, mas eles compreenderam o suficiente para que pudessem me ajudar. Eu sabia tudo sobre esse esconderijo e Ames tamb�m, mas nunca passou pela sua cabe�a lig�-lo ao crime. Eu fui para l� e Barker ficou encarregado de cuidar do resto.</p><p>� Acho que os senhores podem deduzir o que aconteceu. Ele abriu a janela e fez a marca sobre o parapeito para dar id�ia de como o assassino tinha fugido. Era uma coisa extravagante, j� que a ponte estava suspensa, mas n�o havia outra sa�da. Ent�o, depois que estava tudo arrumado, ele tocou o sino com for�a. O que aconteceu depois os senhores sabem. E agora, podem fazer o que acharem melhor. Eu lhes contei a verdade, toda a verdade, portanto, que Deus me ajude! O que eu lhes pergunto agora �: como eu fico perante a legisla��o inglesa?</p><p>O sil�ncio foi quebrado por Sherlock Holmes.</p><p>� A legisla��o inglesa �, em princ�pio, uma legisla��o justa. O senhor n�o receber� dela um castigo pior do que o que merece. Mas eu gostaria de esclarecer como esse homem sabia que o senhor morava aqui, ou como entrou em sua casa, ou onde se escondeu.</p><p>� N�o sei nada sobre isso.</p><p>O rosto de Holmes estava l�vido e s�rio.</p><p>� A hist�ria n�o acabou ainda. Receio que n�o � disse ele. � O senhor pode encontrar perigos piores do que a legisla��o inglesa, ou piores mesmo que seus inimigos americanos. Acho que o senhor ainda corre perigo, sr. Douglas. Aceite meu conselho e continue alerta.</p><p>E agora, leitores pacientes, vou pedir-lhes que venham comigo at� um lugar bem distante da Casa Senhorial, de Birlstone, e distante tamb�m do ano da gra�a no qual fizemos nossa movimentada viagem, que terminou com a estranha hist�ria do homem conhecido como John Douglas. Desejo que voc�s recuem uns vinte anos no tempo, e alguns quil�metros para o oeste, pois assim poderei apresentar-lhes uma narrativa estranha e terr�vel � t�o estranha e t�o terr�vel que voc�s podem achar dif�cil acreditar que tenha acontecido do modo como vou contar. N�o pensem que vou come�ar uma hist�ria sem terminar a outra. � medida que voc�s lerem, perceber�o que n�o � isso. E quando eu tiver descrito esses fatos t�o distantes no tempo e no espa�o e voc�s tiverem esclarecido esse mist�rio do passado, vamos nos encontrar novamente em Baker Street, onde tudo isso, assim como muitos outros acontecimentos extraordin�rios, chegar� ao seu final.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis/></strong></p><empty-line/><p><strong><emphasis/></strong></p><p><strong><emphasis>2� Parte</emphasis></strong></p><p><strong>os scowrers</strong></p><empty-line/></section><section><p><strong>O Homem</strong></p><p>Era o dia 4 de fevereiro do ano de 1875. O inverno fora rigoroso e a neve cobria todos os desfiladeiros das montanhas Gilmerton. Mas a m�quina limpa-trilhos tinha mantido a estrada de ferro aberta e o trem noturno que liga a regi�o de minera��o � das instala��es sider�rgicas arrastava-se pesadamente pela subida �ngreme que vai de Stagville, na plan�cie, a Vermissa, a cidade principal que fica no alto do Vale Vermissa. A partir desse ponto a ferrovia desce na dire��o de Bartons Crossing, Helmdale e do Condado de Merton, que � uma �rea exclusivamente agr�cola. Era uma ferrovia de apenas uma linha, mas a cada entroncamento, e eles s�o numerosos, longas filas de vag�es carregados com carv�o e min�rio de ferro revelam a riqueza oculta que trouxera uma popula��o rude e uma vida laboriosa a esta �rea extremamente deserta dos Estados Unidos da Am�rica.</p><p>Era um lugar deserto mesmo. O primeiro aventureiro que atravessou esse lugar</p><p>dificilmente poderia imaginar que os prados mais bonitos e as pastagens mais vi�osas n�o tinham valor algum se comparados com essa terra triste de montanhas escuras e florestas densas. Acima da mata escura e quase impenetr�vel nas suas encostas, os cumes altos e lisos das montanhas, recobertos de neve, sobressa�am, deixando no centro um vale comprido, tortuoso e fechado. Acima do vale o pequeno trem se arrastava.</p><p>As l�mpadas a �leo tinham acabado de ser acesas no teto do vag�o de passageiros, um vag�o comprido e simples no qual estavam sentadas vinte ou trinta pessoas. A maioria dessas pessoas eram trabalhadores que voltavam do seu trabalho �rduo na parte mais baixa do vale. Pelo menos uma d�zia deles, pelo rosto austero e pelas lanternas que traziam, demonstrava ser mineiros. Estavam sentados em grupo, fumando, e conversavam em voz baixa, olhando ocasionalmente para dois homens que estavam sentados do outro lado do vag�o, cujos uniformes e distintivos indicavam que eram policiais. Muitas mulheres da classe oper�ria e um ou dois viajantes que deviam ser donos de pequenos emp�rios locais constitu�am o resto dos passageiros, com exce��o de um jovem que estava sozinho num canto do carro. � esse homem que nos interessa. Olhem bem para ele, pois vale a pena.</p><p>Ele � um jovem de aspecto saud�vel, altura mediana e n�o muito longe dos 30 anos. Tem os olhos grandes e acinzentados, sagazes, ir�nicos, que de vez em quando piscam de maneira inquisitiva enquanto ele observa, atrav�s dos �culos, as pessoas em volta. � f�cil ver que � uma pessoa soci�vel e possivelmente simples, ansioso para ser cordial com os demais. Qualquer um o tomaria por uma pessoa greg�ria e comunicativa, esperta e de sorriso f�cil. Ainda assim, quem o examina mais detidamente pode perceber uma certa firmeza em seu queixo e uma rigidez nos l�bios que seriam uma advert�ncia de que h� muita coisa por tr�s da fachada desse simp�tico escoc�s de cabelo castanho, e que ele � capaz de deixar sua marca � boa ou m� � em qualquer sociedade em que seja introduzido.</p><p>Depois de fazer um ou dois coment�rios com o mineiro mais pr�ximo, na tentativa de aproxima��o, e recebendo apenas respostas curtas e n�o muito corteses, recolheu-se a um sil�ncio for�ado, olhando pela janela a paisagem quase sem altera��o. N�o era uma imagem alegre. Em meio � crescente escurid�o, o brilho vermelho das fornalhas pulsava nos lados das montanhas. Grandes quantidades de restos de carv�o sa�am dos dois lados e acima ficava o carv�o que ainda seria queimado. Grupos desordenados de casas de madeira, cuja luz das janelas come�ava a mostrar seu contorno, apareciam aqui e ali ao longo da linha, e as muitas esta��es que havia no percurso estavam apinhadas de gente de pele escura. Os vales de ferro e de carv�o do distrito de Vermissa n�o eram lugares freq�entados por pessoas a passeio ou requintadas. Em toda parte havia sinais caracter�sticos da exist�ncia de uma luta dura pela vida, um trabalho �rduo a ser feito, e os trabalhadores fortes e rudes que o executavam.</p><p>O jovem viajante olhava essa terra sombria com um misto de repulsa e interesse, o que revelava que o cen�rio era novo para ele. De tempos em tempos tirava do bolso uma carta volumosa da qual lia alguns trechos e em cuja margem fazia anota��es. A certa altura ele retirou da parte de tr�s da cintura algo que ningu�m poderia imaginar estar nas m�os de um homem t�o distinto como aquele. Era um rev�lver bem grande. Quando ele o segurou inclinado contra a luz, o reflexo sobre a borda das c�psulas no tambor mostrou que ele estava carregado com todas as balas. Ele o recolocou rapidamente no seu bolso secreto, mas n�o antes que o rev�lver tivesse sido notado pelo trabalhador que se sentara no banco em frente.</p><p>� Ol�, companheiro! � disse ele. � Voc� parece bem armado.</p><p>O jovem sorriu um pouco constrangido.</p><p>� � � disse ele. � �s vezes precisamos disso no lugar de onde venho.</p><p>� E onde ser� isso?</p><p>� Venho de Chicago.</p><p>� Um estranho por aqui?</p><p>� �.</p><p>� Talvez voc� tamb�m precise dele aqui � disse o oper�rio.</p><p>� Ser�? � O jovem parecia interessado.</p><p>� N�o ouviu falar da vida aqui?</p><p>� Nada de especial.</p><p>� Puxa, pensei que o pa�s inteiro soubesse. Voc� logo ficar� sabendo. Por que voc� veio?</p><p>� Disseram que sempre havia servi�o para um homem trabalhador.</p><p>� Voc� � do sindicato?</p><p>� Sou.</p><p>� Ent�o acho que vai conseguir trabalho. Tem amigos por aqui?</p><p>� Ainda n�o, mas tenho como faz�-los.</p><p>� De que maneira?</p><p>� Sou membro da Vener�vel Ordem dos Homens Livres. N�o h� cidade onde n�o existe uma Loja. E na Loja encontrarei meus amigos.</p><p>Essa refer�ncia teve um efeito singular no outro. Ele olhou de modo desconfiado para as outras pessoas que estavam no vag�o. Os mineiros continuavam cochichando entre si. Os dois policiais estavam cochilando. Ent�o ele se levantou, sentou-se ao lado do jovem viajante e estendeu a m�o.</p><p>� Toque aqui � ele disse.</p><p>Os dois cumprimentaram-se.</p><p>� Vejo que voc� fala a verdade. Mas � melhor me certificar.</p><p>Ele levantou a m�o direita at� a sobrancelha direita. O jovem viajante imediatamente levantou a m�o esquerda e a colocou sobre a sobrancelha esquerda.</p><p>� As noites escuras s�o desagrad�veis � disse o oper�rio.</p><p>� Para um estranho viajar � o outro completou.</p><p>� Isso basta. Sou o Irm�o Scanlan, Loja 341, Vale Vermisssa. Prazer em v�-lo por aqui.</p><p>� Obrigado. Sou o Irm�o John McMurdo, Loja 29, Chicago. Chefe J. H. Scott. Estou feliz por encontrar um irm�o t�o depressa.</p><p>� Bem, h� muitos por aqui. Em nenhum lugar dos Estados Unidos voc� encontrar� a Ordem em t�o franca expans�o como aqui no Vale Vermissa. Mas podemos dar um jeito pra voc�. N�o posso entender que um sujeito esperto como voc�, sendo do sindicato, n�o encontre trabalho em Chicago.</p><p>� Achei muito trabalho ali � disse McMurdo.</p><p>� Ent�o por que saiu de l�?</p><p>McMurdo fez um sinal com a cabe�a apontando os policiais e sorriu.</p><p>� Acho que esses caras gostariam muito de saber � disse ele.</p><p>Scanlan murmurou em tom amistoso:</p><p>� Alguma encrenca? � perguntou.</p><p>� Muito s�ria.</p><p>� Voc� puxou pena?</p><p>� �, e todo o resto.</p><p>� Foi assassinato?</p><p>� � muito cedo pra se falar dessas coisas � disse McMurdo, como algu�m que fora surpreendido falando mais do que deveria. � Tenho boas raz�es pra sair de Chicago, e pra voc� isso � o bastante. Quem � voc� para ficar perguntando essas coisas?</p><p>Por tr�s dos �culos, seus olhos cinzentos brilharam com um �dio repentino e perigoso.</p><p>� Tudo bem, companheiro. N�o se ofenda. Os rapazes n�o v�o pensar nada de mal sobre voc�, seja l� o que voc� tenha feito. Para onde pretende ir agora?</p><p>� Para Vermissa.</p><p>� � a terceira parada. Onde vai ficar?</p><p>McMurdo puxou um envelope e o aproximou da fraca l�mpada a �leo.</p><p>� Aqui est� o endere�o: Jacob Shafter, Sheridan Street. � uma pens�o que me foi recomendada por um homem que conheci em Chicago.</p><p>� Eu n�o conhe�o, mas Vermissa est� fora do meu setor. Moro em Hobson�s Patch e � aqui que vamos nos despedir. Mas quero lhe dar um conselho antes de nos separarmos. Se voc� tiver algum problema em Vermissa, v� direto procurar o chefe McGinty. Ele � o chefe da Loja de Vermissa e nada acontece por l� sem que ele queira. At� logo, companheiro. Talvez nos encontremos na Loja uma noite dessas. N�o esque�a do que eu disse: se tiver algum problema, v� procurar o Chefe McGinty.</p><p>Scanlan desceu e McMurdo ficou novamente entregue aos seus pensamentos. A noite j� ca�ra e as chamas da fornalha rugiam e saltavam com estr�pito no meio da escurid�o. Com esse fundo sonoro l�gubre, sombras escuras dobravam-se e esticavam-se, retorciam-se e viravam-se, com o movimento das manivelas, ao ritmo de um ru�do incessante.</p><p>� Acho que o inferno deve ser mais ou menos assim � disse uma voz.</p><p>McMurdo virou-se e viu que um dos policiais se ajeitara no banco e olhava a paisagem �rida.</p><p>� Por isso � disse o outro policial � � que eu acho que o inferno deve ser assim. Se l� embaixo for pior que isso, ent�o � muito pior do que eu imagino. Acho que voc� � novo por aqui, rapaz.</p><p>� Bem, e se eu for? � McMurdo respondeu com rispidez.</p><p>� Apenas isso, senhor: deve ter cuidado com os amigos que escolhe. Se eu fosse voc�, n�o come�aria com Mike Scanlan e sua gangue.</p><p>� O que voc� tem a ver com os meus amigos? � McMurdo disse numa voz t�o alterada que todos que estavam no vag�o viraram-se para ver o que acontecia. � Eu pedi algum conselho, ou voc� acha que sou idiota e n�o sei me virar sem voc�? Fale apenas quando lhe perguntarem alguma coisa, e, juro por Deus, se dependesse de mim, voc� ia esperar muito para falar.</p><p>Ele encarou o policial e lhe mostrou os dentes como um c�o ao rosnar.</p><p>Os dois policiais, homens pacatos e de boa �ndole, ficaram perplexos com a veem�ncia com que seus conselhos bem-intencionados foram rejeitados.</p><p>� N�o se ofenda, estrangeiro � disse um deles. � Era um aviso para o seu pr�prio bem, j� que voc� �, como se pode ver, novo por aqui.</p><p>� Sou novo por aqui mas n�o sou novo para voc� nem para gente do seu tipo � gritou McMurdo, furioso. � Acho que voc�s s�o iguais em todos os lugares, impondo seus conselhos quando ningu�m pediu.</p><p>� Talvez nos encontremos em breve � disse um dos guardas, sorrindo. � Voc� foi realmente escolhido a dedo.</p><p>� Eu estava pensando a mesma coisa � observou o outro. � Acho que vamos nos encontrar novamente.</p><p>� N�o tenho medo de voc�s, n�o se enganem � gritou McMurdo. Meu nome � Jack McMurdo, ouviram? Se quiserem me achar, vou ficar na pens�o de Jacob Shafter, na Sheridan Street, Vermissa. N�o estou me escondendo de voc�s, ouviram? N�o se enganem quanto a isso.</p><p>Houve um murm�rio de simpatia e admira��o dos mineiros devido ao comportamento destemido do rec�m-chegado, enquanto os policiais davam de ombros e voltavam a conversar entre eles. Pouco depois o trem entrava na esta��o mal-iluminada, surgindo logo a seguir uma grande claridade, pois Vermissa era a maior cidade daquele circuito. McMurdo pegou sua valise de couro e j� ia saltar quando um dos mineiros o abordou.</p><p>� Puxa, companheiro, voc� sabe mesmo como falar com os tiras � disse numa voz que denotava admira��o. � Foi um prazer ouvi-lo. Deixe-me carregar sua bagagem e lhe mostrar o caminho. Vou passar pela casa de Shafter no caminho para minha casa.</p><p>Seguiu-se um coro amistoso de �boa-noite� quando os outros mineiros passaram por eles na plataforma. Antes mesmo de pisar na esta��o, o violento McMurdo transformara-se numa personalidade em Vermissa.</p><p>O campo fora um lugar de terror, mas a cidade era, a seu modo, at� mais depressiva. L� embaixo, ao longo do vale, havia pelo menos um certo esplendor nos gigantescos fornos e nas nuvens de fuma�a, enquanto a for�a e a perseveran�a do homem encontravam monumentos adequados nas montanhas que ele vasculhara em escava��es monstruosas. Mas a cidade tinha um aspecto morto, feio e s�rdido. A rua principal, devido ao tr�fego, transformara-se numa massa de neve enlameada e marcada pelo sulco das rodas dos ve�culos. As cal�adas eram estreitas e irregulares. O grande n�mero de l�mpadas a �leo servia apenas para mostrar mais nitidamente a s�rie de casas de madeira, cada uma delas com sua varanda dando para a rua, maltratada e suja. Ao se aproximarem do centro da cidade, o cen�rio clareou devido � exist�ncia de uma s�rie de lojas bem-iluminadas, e principalmente por um aglomerado de saloons e casas de jogo, onde os mineiros gastavam seu dinheiro suado mas pago de forma generosa.</p><p>� Ali � o sindicato � disse o guia, apontando para um saloon que tinha uma apar�ncia quase t�o distinta quanto a de um hotel. � Jack MacGinty � o chefe a�.</p><p>� Que tipo de homem ele �? � perguntou McMurdo.</p><p>� O qu�? Voc� nunca ouviu falar no chefe?</p><p>� Como � que eu poderia ter ouvido falar nele se sou novo aqui?</p><p>� Bem, pensei que o nome dele fosse conhecido em todo o pa�s. O nome dele sai sempre nos jornais.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Bem... � o mineiro baixou a voz � ... por causa dos neg�cios.</p><p>� Que neg�cios?</p><p>� Ah, meu bom Deus! Voc� parece inocente, se � que posso dizer isso sem ofend�-lo. S� h� um tipo de neg�cios sobre o qual voc� ouvir� falar aqui. � sobre os neg�cios dos Scowrers.</p><p>� Acho que li alguma coisa sobre os Scowrers em Chicago. � um grupo de assassinos, n�o �?</p><p>� Cala a boca! � gritou o mineiro, parando e olhando perplexo para seu acompanhante. � Mo�o, voc� n�o vai durar muito por aqui se falar assim no meio da rua. Muitos homens morreram por muito menos.</p><p>� Bem, n�o sei nada sobre eles. � apenas o que eu li.</p><p>� N�o estou dizendo que voc� n�o tenha lido a verdade. � O homem olhava em volta com nervosismo enquanto falava, perscrutando as sombras como se tivesse medo de ver um perigo qualquer � espreita. � Se matar � assassinato, ent�o Deus sabe que h� assassinatos. Mas n�o ouse ligar o nome de Jack McGinty aos assassinatos, estrangeiro, pois tudo que se fala chega aos ouvidos dele, e ele n�o � do tipo que perdoa. Bem, � essa a casa que voc� estava procurando. Vai encontrar o velho Jacob Shafter, que administra sua pens�o da mesma forma honesta como vive.</p><p>� Muito obrigado � disse McMurdo e, apertando a m�o do novo conhecido, pegou a valise e tomou o caminho que dava na casa, em cuja porta ele bateu com for�a. A porta foi aberta imediatamente por algu�m muito diferente do que ele esperava.</p><p>Era uma mulher, jovem e muito bonita. Era do tipo alem�o, loura e de pele clara, com o atraente contraste de bonitos olhos escuros com os quais ela examinou o estranho com surpresa e um agrad�vel embara�o, que trouxe um pouco de cor � sua pele clara. Emoldurada pela luminosidade da porta aberta, pareceu a McMurdo que jamais vira uma mulher mais bonita, mais bonita ainda pelo contraste com a tristeza do lugar. Uma linda violeta desabrochando no meio da sujeira das minas n�o teria parecido mais surpreendente. T�o fascinado ele estava que ficou parado olhando para ela sem dizer nada, e foi ela quem quebrou o sil�ncio.</p><p>� Pensei que fosse o papai � disse ela, com um leve e agrad�vel sotaque alem�o. � O senhor veio falar com ele? Ele foi ao centro. Deve voltar a qualquer momento.</p><p>McMurdo continuou a olh�-la com franca admira��o at� que ela baixou os olhos, confusa diante de um visitante t�o desconcertante.</p><p>� N�o, senhorita � disse ele finalmente. � N�o tenho pressa. Recomendaram-me a sua casa para me instalar. Achei que seria um bom lugar e agora tenho certeza de que ser�.</p><p>� O senhor se decide muito depressa � ela disse com um sorriso.</p><p>� S� um cego n�o faria o mesmo � ele respondeu.</p><p>Ela riu ao ouvir o elogio.</p><p>� Entre, senhor � disse ela. � Meu nome � Ettie Shafter, a filha do sr. Shafter. Minha m�e morreu e eu tomo conta da casa. Sente-se perto do fogo, na outra sala, at� meu pai voltar. Ah, a� est� ele. Ent�o o senhor pode acertar tudo com ele.</p><p>Um homem grande, j� idoso, vinha subindo a escada da casa. Em poucas palavras McMurdo explicou sua situa��o. Um homem chamado Murphy dera o endere�o da pens�o, em Chicago. Essa pessoa tinha recebido a indica��o de outra pessoa. O velho Shafter era objetivo. O estrangeiro n�o reclamou de nada, aceitando de imediato todas as condi��es, e, aparentemente, dinheiro n�o era problema. Por 12 d�lares cada semana, pagos antecipadamente, ele teria casa e comida. Foi assim que McMurdo, o fugitivo confesso da Justi�a, instalou-se sob o teto dos Shafters, a primeira etapa de uma longa e nebulosa s�rie de acontecimentos que terminaram num lugar muito distante.</p><empty-line/></section><section><p><strong>O Chefe</strong></p><p>McMurdo era um homem que fazia rapidamente seu nome. Onde quer que estivesse, as pessoas em volta passavam a conhec�-lo. Em apenas uma semana ele se tornara o mais not�rio dos moradores da casa de Shafter. Havia cerca de dez ou 12 h�spedes, mas eram todos trabalhadores honestos ou funcion�rios das lojas, de uma forma��o muito diferente daquela do jovem escoc�s. � noite, quando todos se reuniam, as brincadeiras dele eram as mais vivas, sua conversa, a mais brilhante, e sua can��o, a melhor. A sua alegria era inata e seu magnetismo atra�a o bom humor de todos que estivessem ao seu redor. Mesmo assim, ele mostrava diversas vezes, como fizera no trem, uma capacidade de se enfurecer subitamente e de modo violento, o que lhe valia o respeito e mesmo o temor dos que o viam assim. Com rela��o � lei e a todas as pessoas ligadas a ela, exibia, tamb�m, um c�ustico desprezo que encantava alguns dos seus companheiros</p><p>de pens�o e alarmava outros.</p><p>Logo de in�cio ele deixou bem claro, por sua admira��o incontida, que a filha do dono da pens�o conquistara seu cora��o no instante em que pusera os olhos em sua beleza e gra�a. Ele n�o era um pretendente t�mido. No segundo dia dissera-lhe que a amava, e da� em diante repetia a mesma hist�ria com absoluto descaso pelo que ela pudesse dizer para desencoraj�-lo.</p><p>� Existe outro? � ele examinava. � Bem, pior para esse outro! Ele que se cuide. Vou perder a chance da minha vida e deixar morrer os desejos do meu cora��o por causa de outro? Voc� pode continuar a dizer n�o, Ettie! Chegar� o dia em que voc� dir� sim, e sou suficientemente jovem para esperar.</p><p>Ele era um pretendente perigoso, com sua l�ngua escocesa muito loquaz e seus modos lisonjeiros. Havia nele tamb�m aquele fasc�nio da experi�ncia e de mist�rio que atrai o interesse de uma mulher e, finalmente, o seu amor. Ele podia falar dos maravilhosos vales de County Monaghan, de onde viera, da encantadora e distante ilha, os pequenos montes e verdes prados que pareciam ainda mais belos quando a imagina��o os via daqui dessa terra suja e cheia de neve. De repente ele come�ava a falar nas cidades do norte, de Detroit e dos campos madeireiros de Michigan, de Buffalo e, finalmente, de Chicago, onde ele trabalhara numa serraria. E depois vinha a insinua��o de romances, a sensa��o de que coisas fant�sticas haviam acontecido com ele naquela cidade grande, coisas t�o fant�sticas e �ntimas que n�o podiam nem ser contadas. Ele falou com nostalgia de uma partida s�bita, rompimento de antigos la�os, um recome�o num mundo diferente que acabou sendo nesse vale sombrio, e Ettie escutava, seus olhos negros brilhando com pena e simpatia � esses dois sentimentos que podem se transformar t�o rapidamente e t�o naturalmente em amor.</p><empty-line/><p>McMurdo conseguira um emprego tempor�rio como guarda-livros, pois era um homem muito bem preparado. Isso o mantinha fora de casa a maior parte do dia, e n�o encontrara tempo ainda para ir falar com o chefe da Loja da Vener�vel Ordem dos Homens Livres. Mas ele foi lembrado da sua omiss�o certa noite pela visita de Mike Scanlan, o companheiro que ele conhecera no trem. Scanlan, um homem baixo de rosto severo e com olhos negros muito nervosos, pareceu contente em v�-lo novamente. Depois de um copo ou dois de u�sque, ele contou o motivo de sua visita.</p><p>� McMurdo � ele disse � eu me lembrava do seu endere�o e ent�o tomei a liberdade de procur�-lo. Estou surpreso por voc� ainda n�o ter ido procurar o chefe. Por que, afinal, voc� n�o foi ver o chefe McGinty?</p><p>� Eu precisava arranjar um emprego. Andei ocupado.</p><p>� Voc� tem de encontrar tempo para ele mesmo que n�o tenha tempo pra nada mais. Meu Deus! Cara, voc� � louco de n�o ter ido ao sindicato e registrado seu nome no dia seguinte ao da sua chegada aqui! Se voc� entrar em choque com ele... Bem, voc� n�o deve entrar em choque. � tudo.</p><p>McMurdo mostrou-se um tanto surpreso.</p><p>� Sou membro da Loja h� mais de dois anos e nunca ouvi falar que as tarefas fossem t�o urgentes assim.</p><p>� Talvez n�o sejam em Chicago!</p><p>� Bem, aqui � a mesma sociedade.</p><p>� �? � Scanlan o encarou demoradamente. Havia algo de sinistro em seu olhar.</p><p>� N�o �?</p><p>� Voc� me dir� se � daqui a um m�s. Eu soube que voc� conversou com os guardas depois que eu saltei do trem.</p><p>� Como voc� ficou sabendo?</p><p>� Oh, a not�cia se espalhou. Por aqui as coisas boas e as m�s se espalham.</p><p>� Bem, � verdade. Eu disse �queles cachorros o que achava deles.</p><p>� Meu Deus, McGinty vai gostar muito disso!</p><p>� Ele tamb�m odeia a pol�cia?</p><p>Scanlan deu uma boa gargalhada.</p><p>� V� conhec�-lo, camarada � disse ele, preparando-se para ir embora. � N�o � a pol�cia que ele odeia, mas odiar� voc�, se voc� n�o for l�! Agora ou�a o conselho de um amigo e v� imediatamente!</p><p>Por acaso, na mesma noite McMurdo teve outra visita mais incisiva que insistiu para que ele fizesse a mesma coisa. Talvez suas aten��es para com Ettie estivessem mais evidentes do que antes, ou que elas tenham sido percebidas pelo bom hospedeiro alem�o; mas, qualquer que tenha sido a causa, o dono da pens�o chamou o jovem ao seu escrit�rio e foi direto ao assunto.</p><p>� Parece-me � disse ele � que o senhor est� de olho na minha Ettie. � verdade ou estou enganado?</p><p>� Sim, � verdade � o jovem respondeu.</p><p>� Bem, desejo lhe dizer de sa�da que n�o � poss�vel. Algu�m chegou na sua frente.</p><p>� Ela me disse.</p><p>� Pode ter certeza de que lhe disse a verdade! Mas ela lhe disse quem era?</p><p>� N�o. Eu perguntei, mas ela n�o quis dizer.</p><p>� Eu n�o ousarei dizer. Talvez ela n�o quisesse assust�-lo.</p><p>� Assustar! � McMurdo ficou irritado na mesma hora.</p><p>� � verdade, meu amigo! N�o precisa se envergonhar por ter medo dele. � Teddy Baldwin.</p><p>� E quem � esse cara, afinal?</p><p>� � o chefe dos Scowrers.</p><p>� Scowrers! J� ouvi falar neles. Todo mundo fala em Scowrers, mas sempre sussurrando. Do que � que todos voc�s t�m medo? Quem s�o os Scowrers?</p><p>O dono da pens�o instintivamente baixou a voz, como faziam todos ao falar sobre a terr�vel sociedade.</p><p>� Os Scowrers � disse ele � s�o a Vener�vel Ordem dos Homens Livres.</p><p>O jovem se assustou.</p><p>� E da�? Eu sou membro da Ordem.</p><p>� O senhor?! Eu jamais o receberia em minha casa se soubesse disso. Nem se o senhor pagasse 100 d�lares por semana.</p><p>� O que h� de errado com a Ordem? Ela s� faz caridade e re�ne as pessoas que s�o membros.</p><p>� Pode ser assim em outros lugares. N�o aqui!</p><p>� Como � aqui?</p><p>� Uma sociedade de exterm�nio, � isso que ela �.</p><p>McMurdo riu, incr�dulo.</p><p>� Como o senhor prova isso? � ele perguntou.</p><p>� Provar! N�o h� cinq�enta assassinatos que provem isso? O que me diz de Milman e Van Shorst, e a fam�lia Nicholson, e o velho sr. Hyam, e o pequeno Billy James e os outros? Provar! Ser� que existe algu�m neste vale que n�o a conhe�a?</p><p>� Veja bem � disse McMurdo em tom s�rio. � Quero que o senhor retire o que disse ou ent�o explique melhor. O senhor tem de fazer alguma coisa antes de eu sair desta sala. Ponha-se no meu lugar. Estou na cidade h� pouco tempo. Perten�o a uma sociedade que conhe�o apenas como uma entidade inocente. O senhor a encontra no pa�s inteiro, sempre atuando de modo inocente. Agora que estou pensando em me filiar � Loja daqui, o senhor me diz que ela � uma sociedade de exterm�nio chamada Scowrers. Acho que o senhor me deve uma desculpa ou uma explica��o, sr. Shafter.</p><p>� S� posso lhe dizer o que todo mundo sabe, senhor. Os chefes de uma sociedade s�o os chefes da outra. Se o senhor ofender um, � o outro que vai acert�-lo. Temos muitas provas disso.</p><p>� Isso n�o passa de mexerico! Quero provas! � disse McMurdo.</p><p>� Se o senhor ficar aqui muito tempo, ter� as provas. Mas esqueci que � um deles. Logo, ser� t�o mau quanto os outros. Mas ter� de achar outra pens�o. N�o posso mant�-lo aqui. J� n�o basta ter um deles cortejando minha Ettie sem que eu ouse afast�-lo, e ainda ter outro hospedado em minha casa? Bem, o senhor s� dorme aqui esta noite.</p><p>McMurdo viu que estava sendo afastado tanto do seu quarto confort�vel como da mulher que amava. Ele a encontrou sozinha na sala de estar naquela mesma noite e contou a ela os seus problemas.</p><p>� Na verdade, seu pai acaba de me contar � disse ele. � Eu n�o ligaria muito se fosse apenas pelo quarto. Acredite Ettie, embora eu a conhe�a h� apenas uma semana, voc� � o ar que eu respiro e n�o posso viver sem voc�.</p><p>� Calma, sr. McMurdo! N�o fale assim! � disse a mo�a. � Eu j� lhe falei que o senhor chegou tarde demais, n�o falei? H� um outro, e embora eu n�o tenha prometido me casar com ele logo, n�o posso prometer isso a um outro.</p><p>� Suponha que eu tivesse sido o primeiro, Ettie. Eu teria chance?</p><p>A mo�a enfiou o rosto nas m�os.</p><p>� Eu desejaria que o senhor tivesse sido o primeiro � ela disse, solu�ando.</p><p>McMurdo imediatamente ajoelhou-se diante dela.</p><p>� Pelo amor de Deus, Ettie, esque�a tudo isso! � ele gritou. � Voc� vai estragar sua vida e a minha por causa dessa promessa? Siga a vontade do seu cora��o, puxa! � um guia muito mais seguro do que qualquer promessa feita antes que voc� soubesse o que estava dizendo.</p><p>Ele segurava a m�o branca de Ettie entre as suas m�os fortes e morenas.</p><p>� Diga que voc� ser� minha, e n�s enfrentaremos isso juntos.</p><p>� Longe daqui?</p><p>� N�o, aqui.</p><p>� N�o, n�o, Jack! � Os bra�os dele a envolviam agora. � N�o poderia ser aqui. Voc� n�o poderia me levar para longe?</p><p>O rosto de McMurdo mostrou hesita��o por um instante, mas acabou ficando rijo como granito.</p><p>� N�o, aqui � disse ele. � Vou lutar por voc� contra o mundo, Ettie, aqui mesmo onde estamos!</p><p>� Por que n�o vamos embora?</p><p>� N�o, Ettie, n�o posso ir embora.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Eu nunca mais ergueria minha cabe�a novamente se sentisse que tive de fugir daqui. Al�m do mais, ter medo do qu�? N�o somos pessoas livres num pa�s livre? Se voc� me ama e eu a amo, quem ousar� se intrometer?</p><p>� Voc� n�o sabe, Jack. Voc� est� aqui h� muito pouco tempo. Voc� n�o conhece Baldwin. N�o conhece McGinty e os Scowrers.</p><p>� N�o, n�o os conhe�o, n�o tenho medo deles, e n�o acredito neles! � disse McMurdo. � Vivi no meio de homens rudes, querida, e em vez de ter medo deles, eram sempre eles que acabavam tendo medo de mim. Sempre, Ettie. � uma loucura! Se esses homens, como diz o seu pai, cometeram crime atr�s de crime nesse vale, e se todos os conhecem, por que n�o foram condenados? Responda-me, Ettie.</p><p>� Porque nenhuma testemunha tem coragem de depor contra eles. Quem fizesse isso n�o viveria um m�s, se chegasse a tanto. E tamb�m porque eles t�m sempre homens que juram que o acusado estava longe do local do crime. Mas certamente, Jack, voc� j� deve ter lido sobre isso. Eu sabia que todos os jornais dos Estados Unidos contaram a respeito deles.</p><p>� Sim, eu li alguma coisa, mas pensei que n�o fosse verdade. Talvez esses homens tenham algum motivo para fazer o que fazem. Talvez tenham sido ofendidos e n�o tenham outro modo de se defender.</p><p>� Oh, Jack, n�o fale uma coisas dessas! � assim que ele fala, o outro!</p><p>� Baldwin. Ele fala assim?</p><p>� � por isso que eu o detesto. Oh, Jack, agora posso lhe contar toda a verdade. Eu o odeio com todas as minhas for�as; mas tenho medo dele. Tenho medo por mim, mas, acima de tudo, tenho medo por meu pai. Eu sei que um grande sofrimento nos atingiria se eu ousasse dizer o que realmente sinto. Foi por isso que usei de meias-promessas para me livrar dele. Era nossa �nica esperan�a. Mas se voc� me tirasse daqui, Jack, n�s poder�amos levar papai conosco e viver para sempre longe do perigo desses homens cru�is.</p><p>Novamente o rosto de McMurdo mostrou hesita��o e novamente ficou duro como o granito.</p><p>� N�o acontecer� nada a voc�, Ettie. Nem a seu pai. Quanto aos homens cru�is, espero que voc� possa descobrir que eu sou t�o mau quanto o pior deles antes de ficarmos juntos.</p><p>� N�o, n�o, Jack! Eu confiaria em voc� em qualquer outro lugar.</p><p>McMurdo riu com amargura.</p><p>� Meu Deus, como voc� sabe pouco a meu respeito! Sua alma inocente, querida, n�o pode nem imaginar o que se passa na minha. Mas quem chegou a�?</p><p>A porta se abriu de repente e surgiu um rapaz empertigado com ar de superioridade. Era um jovem atraente, elegante, que tinha mais ou menos a mesma idade e complei��o de McMurdo. Sob o chap�u de feltro com aba larga, que ele n�o se preocupara em tirar, um rosto bonito com olhos frios, dominadores, e um nariz curvo. Ele olhava de modo agressivo para o casal sentado perto da lareira.</p><p>Ettie levantara-se rapidamente, confusa e alarmada.</p><p>� Fico feliz em v�-lo, sr. Baldwin � disse ela. � O senhor chegou mais cedo do que eu esperava. Entre e sente-se.</p><p>Baldwin estava parado no mesmo lugar, com as m�os na cintura, olhando para McMurdo.</p><p>� Quem � ele? � perguntou secamente.</p><p>� Um amigo meu, sr. Baldwin. Um novo inquilino. Sr. McMurdo, posso apresent�-lo ao sr. Baldwin?</p><p>Os dois jovens cumprimentaram-se com um aceno de cabe�a n�o muito cort�s.</p><p>� Talvez a srta. Ettie tenha lhe contado o que h� entre n�s � disse Baldwin.</p><p>� N�o pensei que houvesse alguma coisa entre voc�s dois.</p><p>� N�o? Pode pensar a partir de agora. Fique sabendo que essa garota � minha. E voc� vai achar que a noite est� �tima para dar um passeio.</p><p>� Obrigado, n�o estou com vontade de caminhar.</p><p>� N�o est�? � os olhos selvagens do homem brilharam de raiva. � Talvez esteja com vontade de lutar, sr. Inquilino.</p><p>� E estou mesmo! � exclamou McMurdo, ficando de p�. � Voc� nunca falou uma coisa t�o certa.</p><p>� Pelo amor de Deus, �Jack�! Oh, pelo amor de Deus! � gritava a pobre e confusa Ettie. � Oh, Jack, Jack � ele vai machuc�-lo!</p><p>� Ah, � de "Jack" que voc� o chama? � disse Baldwin, praguejando. � J� est� assim, �?</p><p>� Oh, Ted, seja razo�vel, seja cort�s! Por mim, Ted, se � que voc� me ama, tenha um bom cora��o e perdoe.</p><p>� Eu acho, Ettie, que se voc� nos deixasse sozinhos, poder�amos resolver isso � disse McMurdo com tranq�ilidade. � Ou talvez, sr. Baldwin, o senhor prefira dar uma volta comigo na rua. Est� uma noite linda. H� uns espa�os vazios no pr�ximo quarteir�o.</p><p>� Eu vou acertar as contas com voc� sem ter que sujar as minhas m�os � disse o outro. � Voc� vai se arrepender de ter posto os p�s nesta casa antes de eu acabar com voc�.</p><p>� N�o h� melhor hora do que agora! � gritou McMurdo.</p><p>� Eu mesmo escolho a hora certa, senhor. Deixe isso por minha conta. Veja isso! � ele levantou a manga e mostrou no antebra�o um sinal estranho que parecia ter sido marcado a fogo. Era um c�rculo com um tri�ngulo em seu interior. � Sabe o que significa isso?</p><p>� N�o sei nem quero em saber!</p><p>� Bem, voc� ficar� sabendo. Isso eu lhe prometo. N�o vai demorar muito tempo. Talvez a srta. Ettie possa dizer-lhe algo sobre isso. Quanto a voc�, Ettie, voltar� para mim de joelhos. Ouviu bem? De joelhos! E ent�o eu lhe direi qual ser� o seu castigo. Voc� plantou: juro por Deus que verei voc� colhendo os frutos do que semeou! � ele olhou para os dois com express�o de f�ria. Ent�o virou-se e pouco depois a porta da rua bateu atr�s dele.</p><p>Durante alguns minutos McMurdo e a mo�a ficaram calados. Depois ela lan�ou seus bra�os em volta dele.</p><p>� Oh, Jack, como voc� foi corajoso! Mas n�o adianta nada, tem de ir embora! Hoje ainda, Jack. Hoje ainda! � sua �nica esperan�a. Ele acabar� com a sua vida. Vi isso nos olhos dele. Que chance voc� tem contra uma por��o deles, com o chefe McGinty e toda a for�a da Loja atr�s deles?</p><p>McMurdo afastou os bra�os dela, beijou-a e levou-a gentilmente at� uma cadeira.</p><p>� Puxa! N�o fique perturbada nem tema nada por mim. Eu sou da Loja. Acabei de contar isso ao seu pai. Talvez eu n�o seja melhor do que os outros, portanto n�o pense que eu sou um santo. Talvez voc� tamb�m me odeie agora que lhe contei isso.</p><p>� Odi�-lo, Jack?! Enquanto eu viver jamais poderei sentir isso por voc�. J� ouvi falar que n�o h� nada de mais em pertencer � Loja em outros lugares, a n�o ser aqui. Ent�o por que eu haveria de pensar mal de voc�? Mas se voc� pertence � Loja, Jack, por que n�o vai se apresentar ao chefe McGinty? Depressa, Jack, depressa! Conte sua vers�o primeiro, ou ent�o aqueles miser�veis o pegar�o.</p><p>� Eu estava pensando na mesma coisa � disse McMurdo. � Vou l� agora mesmo tratar disso. Voc� pode dizer ao seu pai que dormirei aqui esta noite e que amanh� cedo procurarei outro lugar para ficar.</p><p>O bar do saloon de McGinty estava superlotado como sempre, pois era o local preferido pelos piores elementos da cidade. O homem era popular, porque tinha uma apar�ncia rude e jovial que servia de m�scara para encobrir muita coisa. Mas fora sua popularidade, o medo que tinham dele em toda a cidade, e, na verdade, num raio de 40 quil�metros, que inclu�a o vale e al�m das montanhas que o delimitavam dos dois lados, era suficiente para manter seu bar cheio, pois ningu�m podia se dar ao luxo de dispensar sua benevol�ncia.</p><p>Al�m dessas for�as secretas, que todos acreditavam que ele exercia de modo impiedoso, ele era um alto funcion�rio p�blico, um membro do conselho municipal e um comiss�rio de estradas, eleito pelos votos dos malfeitores que, por sua vez, esperavam favores em troca. Os impostos e as taxas eram enormes, os servi�os p�blicos eram notoriamente negligenciados, a contabilidade era aprovada por auditores subornados, e os cidad�os decentes eram obrigados a pagar subornos e ficar calados a fim de que algo pior n�o se abatesse sobre eles. Foi assim que, ano ap�s ano, os alfinetes de diamante de McGinty tornaram-se maiores, as correntes de ouro mais pesadas atravessadas num colete mais elegante, e seu saloon se expandia at� amea�ar englobar todo um lado do quarteir�o da Market Square.</p><p>McMurdo empurrou a porta de vaiv�m do saloon e abriu caminho entre a multid�o de homens que estava ali dentro, numa atmosfera carregada de fuma�a de tabaco e com forte cheiro de �lcool. O lugar era muito iluminado e os grandes espelhos que havia em cada parede multiplicavam a ilumina��o espalhafatosa. Havia v�rios gar�ons em manga de camisa preparando bebidas para os clientes que se amontoavam no grande balc�o de metal. No canto do saloon, com o corpo apoiado numa barra e um charuto enfiado no canto da boca, estava um homem alto, forte e musculoso que s� podia ser o pr�prio McGinty. Ele era um gigante de bastos cabelos negros, com a barba cerrada e uma mecha de cabelo caindo sobre o colarinho. Tinha a cor morena dos italianos, e seus olhos negros eram estranhamente sem brilho, e, combinados com um ligeiro estrabismo, davam-lhe uma apar�ncia sinistra. Tudo o mais � suas propor��es perfeitas, fei��es finas e seu modo franco � combinava com o jeito jovial que forjava. Aqui est�, algu�m poderia dizer, um sujeito honesto e fanfarr�o, que tem um cora��o magn�nimo apesar das palavras rudes que diz. Somente quando aqueles olhos negros sem brilho, profundos e impiedosos, voltavam-se para algu�m � que a pessoa se encolhia toda, sentindo que estava frente a frente com uma infinita possibilidade de um dem�nio latente, com uma for�a, uma coragem e uma ast�cia por tr�s que o tornavam mil vezes mais mortal.</p><p>Depois de olhar bem para esse homem, McMurdo abriu caminho de modo rude, com sua aud�cia descuidada, e chegou at� o pequeno grupo de bajuladores que cercava servilmente seu chefe poderoso, rindo de maneira estrondosa ao menor gracejo que ele fizesse. Os atrevidos olhos acinzentados do jovem estranho encararam sem medo, atrav�s dos �culos, aqueles olhos negros sem brilho que se voltaram bruscamente para ele.</p><p>� Bem, rapaz, n�o consigo me lembrar de voc�.</p><p>� Sou novo aqui, sr. McGinty.</p><p>� N�o � t�o novo que n�o possa chamar um cavalheiro pelo seu t�tulo.</p><p>� Ele � o Conselheiro McGinty, rapaz � disse algu�m do grupo.</p><p>� Desculpe, conselheiro. N�o conhe�o bem os costumes do lugar. Mas fui aconselhado a procur�-lo.</p><p>� Bem, aqui estou. Isso aqui � tudo. O que acha de mim?</p><p>� Ainda � cedo. Se seu cora��o for t�o grande quanto o seu corpo, e sua alma t�o boa quanto seu rosto, ent�o n�o pediria mais nada � disse McMurdo.</p><p>� Puxa, voc� tem um forte sotaque escoc�s � disse o dono do saloon, sem saber se deveria brincar com aquele visitante audacioso ou corresponder � sua dignidade. � Ent�o voc� se acha capaz de dar opini�o sobre a minha apar�ncia?</p><p>� Claro.</p><p>� E lhe disseram para me procurar?</p><p>� Sim.</p><p>� E quem lhe disse isso?</p><p>� O Irm�o Scanlan, da Loja 341, Vermissa. Bebo � sua sa�de, conselheiro, e ao nosso encontro. � Ele ergueu o copo que lhe haviam servido e bebeu, erguendo o dedo m�nimo enquanto bebia.</p><p>McGinty, que o observava atentamente, ergueu suas grossas sobrancelhas negras.</p><p>� Oh, ent�o � isso? � disse ele. � Terei de examinar isso melhor, sr. ...</p><p>� McMurdo.</p><p>� Um pouco melhor, sr. McMurdo, porque n�o confiamos nas pessoas por aqui, e nem acreditamos em tudo que nos dizem. Venha um minuto at� aqui, atr�s do bar.</p><p>Havia uma sala pequena cheia de barris. McGinty fechou a porta com todo o cuidado e ent�o sentou-se num dos barris, mordendo o charuto pensativamente, e examinando o outro com os olhos inquietantes. Durante alguns minutos ele ficou em absoluto sil�ncio.</p><p>McMurdo suportou a inspe��o de modo descontra�do, com uma das m�os no bolso do casaco e a outra retorcendo o bigode castanho.</p><p>De repente McGinty inclinou-se para a frente e mostrou um rev�lver de apar�ncia aterradora.</p><p>� Olhe aqui, brincalh�o � disse ele. � Se eu achasse que estava querendo pregar alguma pe�a em n�s, voc� teria bem pouco tempo.</p><p>� Que recep��o estranha � McMurdo respondeu com certa dignidade � para o chefe de uma Loja dar a um novo irm�o.</p><p>� Sim, e � justamente isso que voc� tem de provar � disse McGinty �, e que Deus o ajude se voc� falhar. Onde voc� foi iniciado?</p><p>� Loja 29, Chicago.</p><p>� Quando?</p><p>� Vinte e quatro de junho de 1872.</p><p>� Qual o chefe?</p><p>� James H. Scott.</p><p>� Quem � o seu chefe de distrito?</p><p>� Bartholomew Wilson.</p><p>� Hum! Voc� me parece bem fluente no seu teste. O que voc� faz aqui?</p><p>� Trabalho, como o senhor, mas num trabalho mais modesto.</p><p>� Voc� tem as respostas na ponta da l�ngua.</p><p>� Sim, sempre tive facilidade para me expressar.</p><p>� Voc� � r�pido para agir?</p><p>� � essa a opini�o dos que me conhecem melhor.</p><p>� Bem, podemos test�-lo antes do que voc� imagina. Voc� j� ouviu falar alguma coisa da Loja por aqui?</p><p>� Ouvi que � preciso acertar um homem para se tornar irm�o.</p><p>� Isso � verdade para voc�, McMurdo. Por que saiu de Chicago?</p><p>� O diabo me carregue se eu lhe disser isso.</p><p>McGinty arregalou os olhos. N�o estava acostumado a ouvir respostas desse tipo e isso o divertiu.</p><p>� Por que n�o vai me contar?</p><p>� Porque um irm�o n�o pode mentir para outro.</p><p>� Ent�o a verdade � muito ruim?</p><p>� Pode dizer assim, se prefere.</p><p>� Olhe aqui. Voc� n�o pode esperar que eu, como chefe, admita na Loja algu�m por cujo passado ele n�o pode responder.</p><p>McMurdo pareceu embara�ado. Ent�o tirou do bolso do casaco um recorte de jornal desbotado.</p><p>� O senhor n�o denunciaria um companheiro? � ele perguntou.</p><p>� Eu lhe meto a m�o na cara se voc� disser essas coisas para mim! � McGinty gritou, furioso.</p><p>� O senhor est� certo, conselheiro � disse McMurdo humildemente. � Devo me desculpar. Falei sem pensar. Sei que estou seguro em suas m�os. Olhe esse recorte.</p><p>McGinty passou os olhos pela not�cia sobre o assassinato de Jonas Pinto, no Lake Saloon, Market Street, em Chicago, na semana do Ano-novo de 1874.</p><p>� Coisa sua? � ele perguntou ao devolver o recorte.</p><p>McMurdo assentiu.</p><p>� Por que voc� o matou?</p><p>� Eu estava ajudando o Tio Sam a fazer d�lares. Talvez o meu ouro n�o fosse t�o bom quanto o dele, mas tinham a mesma apar�ncia e era mais barato. Esse tal de Pinto ajudou-me a fazer o derrame...</p><p>� Fazer o qu�?</p><p>� Isso significa p�r os d�lares em circula��o. Depois disse que ia deixar o neg�cio. Talvez fosse mesmo. N�o esperei para ver. Eu simplesmente o matei e fugi para as minas de carv�o.</p><p>� Por que as minas de carv�o?</p><p>� Porque li nos jornais que por l� o pessoal n�o era muito exigente. � McGinty riu.</p><p>� Primeiro voc� foi um falsificador de dinheiro e depois se tornou assassino, e vem para c� achando que seria bem-vindo?</p><p>� Bem, foi isso que aconteceu � McMurdo respondeu.</p><p>� Acho que voc� ir� longe. Diga, voc� ainda pode fazer esse dinheiro?</p><p>McMurdo pegou algumas moedas no bolso.</p><p>� Essas nunca passaram pela Casa da Moeda.</p><p>� N�o diga! � McGinty levou-as at� a luz nas suas m�os enormes e t�o cabeludas quanto as de um gorila. � N�o consigo ver nenhuma diferen�a! Puxa, voc� ser� um irm�o muito �til, � o que eu acho. Temos de agir assim com um homem mau, ou quando s�o dois contra n�s, pois �s vezes precisamos salvar nossa pele, amigo McMurdo. Logo ficar�amos em dificuldades se n�o empurr�ssemos para tr�s quem estava nos empurrando.</p><p>� Acho que vou empurrar os outros com o resto dos rapazes.</p><p>� Voc� me parece ter bastante coragem. Voc� n�o se sobressaltou quando eu apontei a pistola para voc�.</p><p>� N�o era eu que estava correndo perigo.</p><p>� E quem estava?</p><p>� O senhor, conselheiro. � McMurdo tirou do bolso lateral do casaco uma pistola engatilhada. � Eu estava apontando para o senhor o tempo todo. Acho que o meu tiro seria t�o r�pido quanto o seu.</p><p>McGinty ficou vermelho de raiva e depois explodiu numa gargalhada.</p><p>� Puxa! � disse ele. � H� muito tempo que n�o temos nenhum perigo assim t�o perto. Suponho que a Loja saber� se orgulhar de voc�. Bem, que diabo voc� quer? N�o posso falar em particular com um cavalheiro durante cinco minutos sem voc�s me interromperem?</p><p>O bartender ficou embara�ado.</p><p>� Sinto muito, conselheiro, mas � o sr. Ted Baldwin. Ele disse que precisa falar com o senhor agora.</p><p>O recado era desnecess�rio, pois o rosto r�gido e cruel do outro estava olhando por cima do ombro do empregado. Ele empurrou o bartender para fora e fechou a porta.</p><p>� Ent�o � disse ele com um olhar furioso para McMurdo � voc� chegou aqui antes, n�o �? Tenho algo a lhe falar, conselheiro, sobre este homem.</p><p>� Ent�o diga aqui e agora, na minha frente! � gritou McMurdo.</p><p>� Vou falar na hora que eu quiser, do jeito que eu quiser.</p><p>� Sil�ncio, sil�ncio! � disse McGinty levantando-se do barril onde estava sentado. � Isso n�o adianta nada. Temos um novo irm�o aqui, Baldwin, e n�o devemos receb�-lo assim. Aperte a m�o dele, homem, e d� o caso por encerrado.</p><p>� Nunca! � gritou Baldwin, furioso.</p><p>� Eu me ofereci para lutar com ele, se ele acha que eu agi mal � disse McMurdo. � Eu lutarei com as m�os, ou, se isso n�o lhe agradar, lutarei com ele da maneira que escolher. Agora deixarei que o senhor, conselheiro, julgue, como deve fazer um chefe.</p><p>� Qual � o caso?</p><p>� Uma jovem. Ela � livre para se decidir.</p><p>� �? � gritou Baldwin.</p><p>� Entre dois irm�os da Loja eu diria que ela � livre � disse o chefe.</p><p>� Oh, essa � a sua decis�o?</p><p>� Sim, �, Ted Baldwin � disse McGinty, com um olhar duro. � � voc� que vai disputar isso?</p><p>� O senhor vai preterir algu�m que esteve a seu lado durante anos em favor de um homem que o senhor nunca viu antes? O senhor n�o � chefe para sempre, Jack McGinty, e quando chegar a hora de votar...</p><p>O conselheiro partiu para cima dele como um tigre. Suas m�os se fecharam em torno do pesco�o do outro e ele caiu sobre um dos barris. No seu acesso de f�ria ele teria acabado com a vida do outro se McMurdo n�o tivesse interferido.</p><p>� Calma, conselheiro! Pelo amor de Deus, tenha calma! � ele gritou enquanto o puxava para tr�s.</p><p>McGinty afrouxou as m�os e Baldwin, assustado, atordoado e arquejante, com o corpo todo tremendo como algu�m que tivesse chegado � fronteira da morte, sentou-se no barril sobre o qual fora jogado.</p><p>� Voc� est� querendo isso h� muitos dias, Ted Baldwin. Agora voc� conseguiu! � gritou McGinty, com o peito largo arfando. � Talvez voc� pense que se eu for derrotado na vota��o para chefe voc� pegar� o meu lugar. A Loja � que decidir�. Mas enquanto eu for chefe, nenhum homem levantar� a voz para mim ou desacatar� minhas decis�es.</p><p>� N�o tenho nada contra o senhor � murmurou Baldwin, esfregando a garganta.</p><p>� Muito bem, ent�o! � gritou o outro, adotando uma falsa jovialidade. � Todos n�s somos bons amigos e est� tudo encerrado.</p><p>Ele apanhou uma garrafa de champanha na prateleira e come�ou a torcer a rolha.</p><p>� Veja bem � ele continuou, enquanto enchia tr�s copos �, vamos beber em nome da Loja. Depois disso, como voc�s sabem, n�o pode correr sangue entre n�s. Agora, ent�o, a m�o esquerda na minha garganta. Eu lhe pergunto, Ted Baldwin, qual o problema, senhor?</p><p>� As nuvens est�o carregadas � respondeu Baldwin.</p><p>� Mas o sol brilhar� para sempre.</p><p>� Juro que sim.</p><p>Os homens beberam e a mesma cerim�nia foi repetida entre Baldwin e McMurdo.</p><p>� Pronto � gritou McGinty, esfregando as m�os. � Este � o fim da desaven�a. Voc� se submeter� � disciplina da Loja, se tudo der certo, e por aqui a palmat�ria � pesada, como bem sabe o Irm�o Baldwin, e como voc� descobrir� logo, Irm�o McMurdo, se arranjar alguma confus�o.</p><p>� Acredite, n�o pretendo fazer isso � disse McMurdo. Ele estendeu a m�o para Baldwin. � Sou r�pido para brigar e r�pido para perdoar. � o meu sangue quente escoc�s, segundo dizem. Mas pra mim est� tudo terminado, e n�o guardo rancor. Baldwin teve de pegar a m�o estendida, pois os terr�veis olhos do chefe estavam sobre ele. Mas seu rosto carrancudo mostrava que as palavras do outro n�o convenceram.</p><p>McGinty bateu nos ombros dos dois.</p><p>� Hum! Essas mo�as! Essas mo�as! � ele disse. � E pensar que a mesma mulher agrada a dois de meus rapazes. Coisas do diabo. � que a mo�a vai resolver a quest�o, porque est� fora da jurisdi��o do chefe, e Deus seja louvado por isso. J� temos muitas encrencas por aqui sem as mulheres. Voc� tem de se filiar � Loja 341, Irm�o McMurdo. Temos nossos pr�prios meios e m�todos, muito diferentes de Chicago. Nossa reuni�o � s�bado � noite, e se voc� vier, n�s o livraremos para sempre do Vale Vermissa.</p><empty-line/></section><section><p><strong>Loja 341, Vermissa</strong></p><p>No dia seguinte �quela noite de tantos acontecimentos excitantes, McMurdo mudou-se da casa de Jacob Shafter e foi se instalar na pens�o da vi�va MacNamara, na periferia da cidade. Scanlan, seu primeiro conhecimento, feito no trem, teve oportunidade, pouco depois, de mudar-se para Vermissa, e os dois moravam juntos. N�o havia nenhum outro h�spede e a dona da hospedaria era uma velha escocesa simp�tica que deixava os dois � vontade, de forma que tinham liberdade de falar e agir, o que era muito bom para homens que tinham segredos em comum. Shafter ficara menos severo, a ponto de deixar McMurdo fazer as refei��es em sua casa quando quisesse, de modo que sua liga��o com Ettie n�o foi interrompida. Pelo contr�rio, a rela��o tornou-se mais estreita e �ntima � medida que passavam as semanas. McMurdo sentiu-se suficientemente seguro no quarto de sua nova casa para mostrar seus moldes de cunhagem e, sob a condi��o de manter</p><p>segredo, alguns irm�os de Loja eram recebidos l� para v�-los, e cada um deles carregava no bolso alguns exemplares do dinheiro falsificado, certos de que n�o haveria a menor dificuldade em pass�-lo adiante. Por que, dominando arte t�o magn�fica, McMurdo continuava trabalhando era um completo mist�rio para seus companheiros, embora deixasse claro a todos que lhe perguntavam sobre isso que, se n�o tivesse um emprego para manter as apar�ncias, logo a pol�cia estaria atr�s dele.</p><p>J� havia, na verdade, um policial atr�s dele, mas o incidente, por sorte, fez-lhe mais bem do que mal. Depois do primeiro encontro, eram raras as noites em que n�o ia ao saloon de McGinty, a fim de se entrosar melhor com �os rapazes�, que era o t�tulo jovial pelo qual a perigosa quadrilha que infestava o lugar era conhecida entre seus integrantes. Seu jeito impetuoso e destemido de falar fez dele um favorito entre o grupo, enquanto que o modo r�pido e cient�fico pelo qual eliminava seus antagonistas numa disputa de bar fez com que conquistasse o respeito daquela comunidade rude. Mas um outro incidente fez com que os outros o estimassem ainda mais.</p><p>Uma noite, na hora de maior movimento, a porta do saloon se abriu e entrou um homem trajando o uniforme azul da pol�cia das minas de carv�o e ferro. Era uma corpora��o especial criada pelos propriet�rios das minas e das ferrovias a fim de ajudar os efetivos da pol�cia civil, que n�o tinham condi��es de combater o banditismo que aterrorizava a regi�o. Houve um sil�ncio quando o homem entrou, e muitos o olharam com curiosidade, mas as rela��es entre policiais e criminosos s�o especiais em algumas regi�es dos Estados Unidos, e o pr�prio McGinty, que estava atr�s do balc�o, n�o se mostrou surpreso quando o inspetor se misturou aos seus clientes.</p><p>� Um u�sque puro, porque a noite est� fria � disse o oficial. � Acho que n�o nos encontramos antes, conselheiro.</p><p>� O senhor ser� o novo comandante? � perguntou McGinty.</p><p>� Exatamente. Confiamos no senhor, conselheiro, e em outros cidad�os de destaque para nos ajudar a manter a lei e a ordem nesta cidade. Meu nome � capit�o Marvin, da pol�cia das minas.</p><p>� Ficar�amos melhor sem o senhor, capit�o Marvin � disse McGinty secamente. � Porque temos a pol�cia da cidade e n�o precisamos de coisas importadas. As pessoas da sua corpora��o s�o instrumentos pagos pelos homens de dinheiro, contratados por eles para bater ou atirar nas pessoas mais pobres, n�o �?</p><p>� Bem, n�o vamos discutir sobre isso � disse o policial de bom humor. � Acho que cada um faz seu trabalho, mas n�o podemos ter a mesma opini�o sobre ele. � Ele esvaziou seu copo e virou-se para sair quando seus olhos bateram no rosto de Jack McMurdo, que estava apoiado com cotovelo no balc�o. � Ol�! � ele gritou, olhando o outro de cima a baixo. � Aqui est� um velho conhecido.</p><p>McMurdo afastou-se dele.</p><p>� Nunca fui seu amigo nem de nenhum outro maldito policial em toda a minha vida � disse ele.</p><p>� Ser conhecido n�o significa ser amigo � disse o policial, sorrindo. Voc� � Jack McMurdo, de Chicago, tenho certeza, e n�o tente negar.</p><p>McMurdo deu de ombros.</p><p>� N�o estou negando nada � disse ele. � Acha que tenho vergonha do meu nome?</p><p>� Voc� tem bons motivos para isso.</p><p>� Que diabo voc� quer dizer com isso? � ele gritou, fechando os punhos.</p><p>� N�o, n�o, Jack. Gritos n�o adiantam comigo. Eu era oficial em Chicago antes de vir para esse maldito dep�sito de carv�o, e reconhe�o logo um criminoso de Chicago quando ponho os olhos nele.</p><p>O rosto de McMurdo mostrou espanto.</p><p>� N�o me diga que voc� � o Marvin da Central de Chicago! � ele gritou.</p><p>� O mesmo Teddy Marvin, �s suas ordens. N�o esquecemos do assassinato de Jonas Pinto l�.</p><p>� Eu n�o o matei.</p><p>� N�o? Que testemunho imparcial, n�o acha? Bem, voc� fez a coisa de modo not�vel, do contr�rio eles o teriam agarrado. Mas vamos deixar de lado essas coisas do passado porque, aqui entre n�s (e talvez eu esteja me excedendo ao dizer isso), eles n�o t�m como acus�-lo de nada, e Chicago o espera de bra�os abertos.</p><p>� Estou muito bem onde estou.</p><p>� Bem, eu lhe ofereci a sugest�o e voc� � mal-humorado demais para me agradecer.</p><p>� �, acho que voc� tem raz�o, e realmente lhe agrade�o � disse McMurdo, de um modo n�o muito am�vel.</p><p>� Pra mim est� tudo bem, desde que voc� esteja andando dentro da lei � disse o capit�o. � Mas se sair da linha, a� � outra coisa! Ent�o, boa-noite pra voc�. E boa-noite, conselheiro.</p><p>Ele deixou o saloon, mas n�o sem antes criar um her�i ali. O passado de McMurdo em Chicago j� fora comentado antes. Ele desestimulara todas as perguntas com um sorriso, como algu�m que n�o desejasse ser enaltecido por seus feitos. Mas agora a coisa toda estava oficialmente confirmada. Os freq�entadores do bar o rodearam e cumprimentaram com entusiasmo, apertando sua m�o. Ele estava livre da comunidade a partir de ent�o. Ele conseguia beber muito sem demonstrar embriaguez, mas naquela noite, se seu amigo Scanlan n�o estivesse por perto para lev�-lo para casa, o grande her�i certamente teria passado a noite debaixo do balc�o.</p><p>Numa noite de s�bado McMurdo foi apresentado � Loja. Ele pensou que n�o haveria cerim�nia por ter sido iniciado em Chicago; mas em Vermissa havia ritos particulares dos quais todos se orgulhavam, e os postulantes tinham de se submeter a eles. O grupo se reuniu numa grande sala reservada para essa finalidade no sindicato. Cerca de sessenta membros se reuniam em Vermissa, mas esse n�mero nem de longe representava a for�a total da organiza��o, pois havia v�rias outras lojas no vale, e ainda outras espalhadas pelas montanhas que delimitavam o vale. Essas lojas intercambiavam seus membros quando havia neg�cios s�rios em andamento, de modo que os crimes podiam ser praticados por homens estranhos � localidade. Ao todo havia cerca de quinhentas lojas espalhadas pelo distrito mineiro.</p><p>Na despojada sala de reuni�es, os homens sentavam-se em torno de uma mesa comprida. Na lateral ficava uma outra mesa cheia de garrafas e copos e para a qual alguns membros j� estavam olhando. McGinty sentou-se na cabeceira com um chap�u achatado de veludo preto sobre o seu cabelo preto emaranhado e uma estola p�rpura em torno do pesco�o, de modo que parecia um sacerdote presidindo um ritual diab�lico. � sua direita e � sua esquerda ficavam os membros mais destacados da Loja, entre eles o rosto cruel e vistoso de Ted Baldwin. Cada membro usava uma estola ou um medalh�o como emblema de sua categoria. Eram, em sua maioria, homens de meia-idade, mas o resto do grupo era formado por companheiros mais jovens, entre 18 e 25 anos, e que executavam as ordens dos superiores. Entre os mais velhos havia alguns cujas fei��es indicavam almas ferozes e desregradas, mas olhando aqueles soldados era dif�cil acreditar que aqueles jovens vivos e de rosto franco fizessem realmente parte de uma quadrilha de assassinos, cujas mentes sofreram uma tal pervers�o moral que eles sentiam um tremendo orgulho de sua compet�ncia e olhavam com o maior respeito os homens que tinham a fama de fazer o que chamavam de um �trabalho limpo�. Para suas naturezas pervertidas, tornara-se algo divertido e nobre a apresenta��o volunt�ria para a execu��o de servi�os contra homens que nunca os ofenderam, e que, em muitos casos, jamais tinham visto antes. Depois de cometido o crime, discutiam quem havia disparado o tiro mortal, e divertiam-se � e divertiam todos os demais � descrevendo os gritos e contor��es do morto. No in�cio, haviam mostrado certa discri��o em seus trabalhos, mas na �poca em que se passa esta narrativa seus m�todos eram ostensivos, j� que as falhas freq�entes da lei lhes mostraram que, por um lado, ningu�m ousaria testemunhar contra eles, e, por outro, tinham um n�mero ilimitado de testemunhas de confian�a que poderiam utilizar e um tesouro bem forrado do qual poderiam retirar os fundos necess�rios para contratar os melhores advogados do pa�s. Em dez anos de atua��o n�o ocorrera nenhuma pris�o, e o �nico perigo que sempre amea�ara os Scowrers estava nas pr�prias v�timas que, embora fossem muitas e apanhadas de surpresas, podiam, como �s vezes acontecia, deixar sua marca em seus assassinos.</p><p>McMurdo fora advertido de que teria de passar por algumas prova��es, embora ningu�m lhe dissesse em que consistiam. Ele foi levado para outra sala por dois irm�os que o conduziram de modo solene. Pelas frestas da madeira podia ouvir o murm�rio de muitas vozes vindo da sala de reuni�es. Uma ou duas vezes percebeu que falavam em seu nome, e sabia que estavam discutindo sua candidatura. Depois entraram na sala onde ele estava tr�s guardas da sociedade, com uma faixa verde e dourada atravessada no peito.</p><p>� O chefe ordena que seus bra�os sejam amarrados e seus olhos vendados antes de entrar � disse um deles. Os tr�s ent�o retiraram o casaco dele, arrega�aram a manga direita de sua camisa e finalmente amarraram uma corda nos seus bra�os, acima do cotovelo, e a apertaram bem. Depois colocaram um grosso capuz preto em sua cabe�a, que cobria at� a metade do rosto, de modo que ele n�o conseguia enxergar nada. Ent�o foi conduzido at� a sala de reuni�es.</p><p>Estava escuro como breu e sufocante debaixo do capuz. Ele ouvia os ru�dos e o murm�rio das pessoas em torno dele, e depois ouviu a voz de McGinty, lenta e distante.</p><p>� John McMurdo � disse ele �, voc� j� � membro da Vener�vel Ordem dos Homens Livres?</p><p>Ele assentiu.</p><p>� A sua Loja � a 29, de Chicago?</p><p>Ele assentiu novamente.</p><p>� As noites escuras s�o desagrad�veis � disse o chefe.</p><p>� Sim, para um estranho viajar � ele respondeu.</p><p>� As nuvens est�o carregadas.</p><p>� Sim, uma tempestade se aproxima.</p><p>� Os irm�os est�o satisfeitos? � perguntou o chefe.</p><p>Houve um murm�rio geral de aprova��o.</p><p>� Sabemos, irm�o, pela sua marca e pelas senhas, que voc� � realmente um dos nossos � disse McGinty. � Devemos inform�-lo, contudo, que neste distrito e em outros distritos desta regi�o temos alguns ritos, e tamb�m tarefas pr�prias, que precisam de bons homens para execut�-las. Voc� est� preparado para ser testado?</p><p>� Estou.</p><p>� D� um passo � frente para provar isso.</p><p>Logo em seguida ele sentiu duas coisas duras diante de seus olhos, pressionando-os, dando a impress�o de que n�o poderia andar para a frente sem o perigo de perd�-los. Mesmo assim, teve coragem suficiente para andar, e quando se moveu para a frente, a press�o se desfez. Houve um murm�rio de aprova��o.</p><p>� Ele � corajoso � disse algu�m. � Voc� consegue suportar dor?</p><p>� Tanto quanto os outros � respondeu.</p><p>� Teste-o!</p><p>Ele mal conseguiu reprimir um grito, pois uma dor lancinante percorreu seu bra�o. Ele quase desmaiou com o choque repentino que a dor lhe provocou, mas mordeu os l�bios e cerrou os punhos para esconder sua agonia.</p><p>� Posso ag�entar mais ainda � disse.</p><p>Dessa vez ele foi aplaudido. Jamais houvera uma primeira impress�o na Loja t�o boa quanto aquela. Recebeu tapinhas nas costas e o capuz foi retirado da sua cabe�a. Ele ficou piscando e sorrindo em meio aos cumprimentos que recebia dos irm�os.</p><p>� S� mais uma coisa, Irm�o McMurdo � disse McGinty. � Voc� j� fez o juramento de manter segredo e fidelidade, e voc� sabe que o castigo pela quebra desse juramento � a morte instant�nea e inevit�vel?</p><p>� Sei � disse McMurdo.</p><p>� E voc� aceita o comando do chefe atual sob todas as circunst�ncias?</p><p>� Aceito.</p><p>� Ent�o, em nome da Loja 341, Vermissa, eu o cumprimento pelo seu ingresso em nosso mundo de privil�gios e debates. Ponha a bebida sobre a mesa, Irm�o Scanlan, e vamos beber � sa�de do nosso not�vel irm�o.</p><p>O casaco de McMurdo lhe foi devolvido, mas antes de vesti-lo, examinou seu bra�o direito, que ainda do�a muito. Ali, na carne do antebra�o, havia um c�rculo com um tri�ngulo dentro, fundo e vermelho, onde o ferrete fora colocado. Um ou dois dos outros membros levantaram suas mangas e lhe mostraram suas pr�prias marcas da Loja.</p><p>� Todos n�s passamos por isso � disse um deles. � Mas nem todos de modo t�o corajoso quanto voc�.</p><p>� Oh, isso n�o foi nada! � ele disse. Mas a pele queimava e do�a.</p><p>Quando as bebidas que se seguiram � cerim�nia foram servidas, a reuni�o prosseguiu para tratar dos assuntos da Loja. McMurdo, acostumado apenas com os feitos prosaicos de Chicago, ouvia atentamente, demonstrando mais surpresa do que pretendia ao ouvir o que relatavam.</p><p>� O primeiro assunto da pauta � disse McGinty � � esta carta do chefe da Divis�o Windle, de Merton County, Loja 249. Diz ele:</p><empty-line/><p>PREZADO SENHOR: H� um servi�o a ser executado em Andrew Rae, da empresa Rae e Sturmash, propriet�ria de minas de carv�o perto daqui. O senhor se lembra de que sua Loja nos deve uma retribui��o, j� que executamos aquele caso dos dois guardas no outono passado. Se o senhor mandar dois homens dos bons, eles ser�o informados de tudo pelo tesoureiro Higgins, da nossa Loja, cujo endere�o o senhor sabe. Ele dir� a eles quando e onde agir. � Atenciosamente,</p><p>�J. W. Windle, D.M.A.O.F.</p><empty-line/><p>� Windle nunca nos recusou aux�lio nas ocasi�es em que precisamos de um homem ou dois dele emprestados, e n�o devemos negar-lhe ajuda. � McGinty parou e olhou ao redor da mesa com seus olhos sombrios, maldosos. � Quem se apresenta para o trabalho?</p><p>V�rios jovens levantaram as m�os. O chefe olhou para eles com um sorriso aprovador.</p><p>� Voc� serve, Tigre Cormac. Se voc� cuidar disso como fez da �ltima vez, n�o haver� erro. E voc�, Wilson.</p><p>� N�o tenho arma � disse o volunt�rio, ainda um adolescente.</p><p>� � a sua primeira vez, n�o? Bem, voc� tem de come�ar um dia. Ser� um bom come�o para voc�. Quanto � arma, estar� esperando por voc�, acredite. Se voc�s se apresentarem na segunda-feira, dar� tempo de sobra. Voc�s ter�o uma bela recep��o quando voltarem.</p><p>� Desta vez n�o haver� recompensa? � perguntou Cormac, um jovem grandalh�o, de rosto moreno e mal-encarado, cuja ferocidade lhe valera o apelido de Tigre.</p><p>� N�o se preocupe com a recompensa. Voc� s� far� isso pela honra do servi�o. Talvez depois que o servi�o for executado apare�am alguns d�lares.</p><p>� O que esse homem fez? � perguntou o jovem Wilson.</p><p>� Na verdade, isso n�o � da sua conta. Ele foi julgado l�. N�o � problema nosso. Tudo que temos a fazer � executar o servi�o para eles, do mesmo modo como fariam para n�s. Por falar nisso, dois irm�os da Loja de Merton v�o chegar na pr�xima semana para resolver algumas coisas por aqui.</p><p>� Quem s�o eles? � algu�m perguntou.</p><p>� � mais prudente n�o perguntar. Se a gente n�o sabe nada, n�o pode testemunhar, e n�o se arranja encrenca. Mas esses s�o homens que far�o um trabalho limpo.</p><p>� J� n�o � sem tempo! � gritou Ted Baldwin. � As pessoas est�o ficando incontrol�veis por aqui. Na semana passada mesmo tr�s dos nossos homens foram demitidos por Blaker. Ele est� devendo h� muito tempo, mas vai receber o dele direitinho.</p><p>� Receber o qu�? � McMurdo perguntou num sussurro ao seu vizinho de mesa.</p><p>� Um cartucho de chumbo grosso! � gritou o homem, dando uma gargalhada bem alta. � O que acha dos nossos m�todos, irm�o?</p><p>A alma criminosa de McMurdo parecia j� ter absorvido o esp�rito da sociedade perversa da qual agora era membro.</p><p>� Gosto deles � disse. � Aqui � o lugar certo para um cara esperto.</p><p>Muitos dos que estavam perto dele ouviram suas palavras e o aplaudiram.</p><p>� O que houve? � gritou o chefe cabeludo l� da cabeceira da mesa.</p><p>� � esse nosso novo irm�o, senhor, que gosta dos nossos m�todos.</p><p>McMurdo levantou-se por um instante.</p><p>� Eu gostaria de dizer, Vener�vel Chefe, que, se deve ser escolhido um homem, eu gostaria de ser indicado. Para mim seria uma honra ajudar a Loja.</p><p>Houve muitos aplausos quando disse isso. Percebia-se que um novo sol surgia no horizonte. Para alguns dos membros mais velhos, parecia que o progresso era r�pido demais.</p><p>� Eu proponho � disse o secret�rio, Harraway, um velho de barba grisalha e cara de abutre que estava sentado perto do presidente da reuni�o � que o Irm�o McMurdo espere at� que a Loja decida convoc�-lo.</p><p>� Certo, foi isso que eu quis dizer. Estou �s suas ordens � disse McMurdo.</p><p>� A sua vez chegar�, irm�o � disse o presidente. � N�s o consideramos um homem disposto e acreditamos que far� um bom trabalho por aqui. H� uma pequena quest�o hoje � noite na qual voc� poder� ajudar, se assim desejar.</p><p>� Vou esperar algo que valha a pena.</p><p>� Voc� pode ir hoje � noite, pois isso o ajudar� a saber como agimos nessa comunidade. Mais tarde eu direi do que se trata. Por enquanto... � ele olhou para a pauta � tenho mais um ou dois assuntos a tratar antes da reuni�o. Em primeiro lugar, vou pedir ao tesoureiro o nosso balan�o. Tem a pens�o para a vi�va de Jim Carnaway. Ele foi morto fazendo servi�o para a Loja, e n�o queremos que ela fique no preju�zo.</p><p>� Jim foi morto no m�s passado quando tentava matar Chester Wilcox, de Marley Creek � o vizinho de McMurdo lhe disse.</p><p>� Os fundos est�o bem no momento � disse o tesoureiro, tendo � sua frente o extrato do banco. � As firmas t�m sido generosas ultimamente. Max Linder &amp; Co. pagou 500 d�lares para ser deixado em paz. Walker Brothers deu 100 d�lares, mas por minha conta eu devolvi a quantia e pedi 500. Se at� quarta-feira eu n�o receber nada deles, suas m�quinas podem sofrer algum problema. No ano passado tivemos de provocar um inc�ndio em suas instala��es para que se tornassem razo�veis. Ent�o a Se��o Oeste da Companhia de Minera��o pagou sua contribui��o anual. Temos o suficiente em caixa para enfrentar qualquer situa��o.</p><p>� E Archie Swindon? � perguntou um dos irm�os.</p><p>� Ele vendeu a firma e se mudou. O velho safado deixou um bilhete para n�s dizendo que preferia ser um varredor de ruas de Nova York do que propriet�rio de uma grande mina de carv�o sob a press�o de um grupo de chantagistas. Ainda bem que foi embora antes que receb�ssemos o bilhete! Acho que n�o ousar� mostrar a cara neste vale novamente.</p><p>Um homem mais velho, sem barba, com express�o bondosa e a testa larga, levantou-se da cabeceira oposta � do presidente.</p><p>� Sr. tesoureiro � disse � posso lhe perguntar quem comprou a propriedade desse homem que n�s expulsamos daqui?</p><p>� Sim, Irm�o Morris. Quem comprou foi a State and Merton County Railroad Company.</p><p>� E quem comprou as minas de Todman e de Lee que foram postas � venda pelo mesmo motivo no ano passado?</p><p>� A mesma empresa ferrovi�ria, Irm�o Morris.</p><p>� E quem comprou as sider�rgicas de Manson e de Shuman, e de Van Deher e de Atwood, que foram abandonadas ultimamente?</p><p>� Foram todas compradas pela West Gilmerton General Mining Company.</p><p>� N�o consigo entender, Irm�o Morris � disse o presidente � o que pode nos interessar saber quem comprou as empresas, j� que n�o podem lev�-las daqui.</p><p>� Com todo o respeito ao senhor, Vener�vel Chefe, acho que isso nos interessa muito. O processo se arrasta h� dez anos. Estamos aos poucos afastando do com�rcio todos os pequenos negociantes. Qual � o resultado disso? No lugar dessas pessoas v�m grandes companhias, como a estrada de ferro ou a General Iron, cujos diretores ficam em Nova York ou na Filad�lfia e que n�o ligam para as nossas amea�as. Podemos tirar os seus chefes locais, mas isso significa apenas que outros vir�o para os seus lugares. E estamos tornando a coisa perigosa para n�s. Os pequenos n�o podem nos prejudicar. N�o t�m dinheiro nem poder. Desde que n�o arranquemos tudo deles, podem ficar sob nosso poder. Mas se essas grandes empresas acharem que estamos nos interpondo entre elas e o seu lucro, n�o hesitar�o em nos perseguir e nos levar � Justi�a.</p><p>Houve um sil�ncio absoluto depois que essas palavras pessimistas foram ditas, e todos os rostos ficaram sombrios. Eles tinham sido t�o onipotentes durante todo esse tempo, e t�o acostumados � impunidade, que o simples pensamento de que havia uma possibilidade de desforra de tudo aquilo fora banido de suas mentes. Mesmo assim a id�ia provocou um frio arrepio at� no mais despreocupado de todos.</p><p>� A minha opini�o � Morris continuou � � que devemos apertar menos os pequenos. No dia em que todos tiverem ido embora, a for�a desta sociedade desaparecer�.</p><p>As verdades geralmente n�o agradam. Houve manifesta��es de hostilidade enquanto ele retomava seu lugar. McGinty levantou-se com uma express�o sombria.</p><p>� Irm�o Morris � disse � voc� � sempre um pessimista. Desde que os membros da Loja estejam unidos, n�o h� for�a nos Estados Unidos que possa afet�-la. Na verdade, j� n�o aconteceu isso diversas vezes na Justi�a? Na minha opini�o as grandes companhias achar�o mais f�cil pagar do que lutar, da mesma forma que as pequenas empresas. E agora, irm�o � McGinty tirou o chap�u preto de veludo e a estola � a Loja encerrou sua reuni�o de hoje, a n�o ser que algu�m tenha algum assunto a tratar. Chegou a hora de bebermos alguma coisa e de confraterniza��o.</p><p>A natureza humana � mesmo estranha. Ali estavam aqueles homens, para quem um assassinato � coisa normal, que repetidamente abatiam um pai de fam�lia, algum homem contra o qual n�o tinham nada pessoal, sem um sentimento de remorso ou de compaix�o pela vi�va desesperada ou pelos filhos desamparados, e mesmo assim uma m�sica rom�ntica ou enternecedora era capaz de lev�-los �s l�grimas. McMurdo possu�a uma excelente voz de tenor, e se n�o tivesse conquistado a simpatia da Loja antes, teria conseguido quando cantou para eles trechos de I�m Sitting on the Stile, Mary e On the Banks of Allan Water. Nessa mesma noite o novo camarada tornara-se um dos mais populares, marcado antecipadamente com distin��o. Mas eram necess�rias outras qualidades, al�m de um bom relacionamento, para que algu�m se tornasse um Homem Livre respeit�vel, e ele viu um exemplo disso antes de a noite terminar. A garrafa de u�sque circulara pela mesa v�rias vezes e os homens estavam vermelhos e prontos para uma travessura quando seu chefe levantou-se outra vez para se dirigir a eles.</p><p>� Rapazes � disse � h� um homem nesta cidade que deseja confus�o, e cabe a voc�s fazer com que ele consiga isso. Estou falando de James Stanger, do Herald. Voc�s repararam como ele tem falado contra n�s novamente?</p><p>Houve um murm�rio de assentimento intercalado por muitos xingamentos. McGinty pegou um peda�o de papel que estava no bolso do colete.</p><empty-line/><p>�Lei e Ordem!�</p><p>� o t�tulo do artigo. �Imp�rio do Terror nas Minas de Carv�o e Ferro. J� se passaram 12 anos desde que ocorreu o primeiro assassinato que prova a exist�ncia de uma organiza��o criminosa entre n�s. Daquele dia em diante esses ultrajes nunca mais pararam, e agora chegaram ao ponto em que nos transformam no opr�brio do mundo civilizado. � para uma coisa dessas que nossa grande p�tria acolhe os estrangeiros que fogem do despotismo da Europa? � certo que eles se tornem tiranos de homens que lhes deram guarida e que um estado de terrorismo e ilegalidade seja criado sob a sombra acolhedora da bandeira estrelada da liberdade, e que nos aterrorizaria se soub�ssemos de sua exist�ncia numa monarquia do Leste? Os homens s�o conhecidos. A organiza��o � patente e p�blica. Por quanto tempo vamos suport�-la? Poderemos viver desse modo para sempre...</p><empty-line/><p>Eu j� li o suficiente! � gritou o presidente, jogando o papel sobre a mesa. � � isso que ele diz sobre n�s. O que lhes pergunto � o seguinte: o que devemos dizer a ele?</p><p>� Mat�-lo! � gritaram v�rias vozes ferozes.</p><p>� Protesto contra isso � disse o Irm�o Morris, o homem de rosto am�vel e barbeado. � Eu lhes digo, companheiros, nossa m�o � t�o pesada neste vale que chegar� um momento em que todos se unir�o para nos esmagar, buscando sua autodefesa. James Stanger � um velho. Ele � respeitado na cidade e em toda essa regi�o. Seu jornal representa o que h� de mais s�lido no vale. Se ele for eliminado, haver� tamanha agita��o nesse Estado que acabar� nos destruindo.</p><p>� E como conseguiriam nossa destrui��o, sr. Um-Passo-Atr�s? � gritou McGinty. � Com a pol�cia? Metade dos policiais faz parte de nossa folha de pagamento e a outra metade morre de medo de n�s. Ou ser� por meio dos tribunais e dos ju�zes? J� n�o tentaram isso antes? E o que aconteceu?</p><p>� O juiz Lynch pode tentar � disse o Irm�o Morris.</p><p>A sugest�o do companheiro foi recebida com uma manifesta��o geral de raiva.</p><p>� Eu s� preciso levantar meu dedo � gritou McGinty � e ponho duzentos homens nessa cidade para varr�-la de ponta a ponta. � Ent�o, elevando de repente a voz e franzindo as sobrancelhas de modo apavorante, disse: � Veja bem, Irm�o Morris, estou de olho em voc� e j� tem algum tempo. Voc� n�o tem coragem pra nada e quer tirar a coragem dos outros. Ser� muito ruim pra voc� o dia em que o seu nome, Irm�o Morris, estiver em nossa agenda e estou pensando que � l� mesmo que ele deve ser colocado.</p><p>Morris ficou terrivelmente p�lido e seus joelhos pareceram ceder sob seu peso quando caiu sentado em sua cadeira. Levantou os �culos com as m�os tr�mulas e bebeu um gole antes de responder.</p><p>� Pe�o desculpas, Vener�vel Chefe, ao senhor e a todos os irm�os desta Loja se falei mais do que devia. Sou um membro fiel � todos sabem disso � e � o medo que tenho de que algo de ruim aconte�a � Loja que me faz dizer coisas assim. Mas confio mais em seu julgamento do que no meu pr�prio, Vener�vel Chefe. Eu prometo que n�o farei mais isso.</p><p>O rosto do chefe desanuviou-se quando ouviu aquelas palavras de humildade.</p><p>� Muito bem, Irm�o Morris. Eu sentiria muito se fosse obrigado a lhe dar uma li��o. Mas enquanto eu permanecer neste posto seremos uma Loja unida na palavra e na a��o. E agora, rapazes � continuou, olhando para os demais � vou lhes dizer o seguinte: se acontecesse alguma coisa a Stanger, n�s arranjar�amos mais encrenca do que desejamos. Esses editores s�o muito unidos e todos os jornais do Estado pediriam a a��o da pol�cia e at� de tropas. Mas acho que voc�s podem lhe fazer uma advert�ncia bem dura. Voc� pode cuidar disso, Irm�o Baldwin?</p><p>� Claro! � disse o jovem com veem�ncia.</p><p>� Quantos vai querer levar?</p><p>� Uns seis, e dois pra ficarem de guarda na porta. Vou levar voc�, Gower; e voc�, Mansel; voc�, Scanlan e os dois Willabys.</p><p>� Eu prometi ao novato que ele iria � disse o presidente.</p><p>Ted Baldwin olhou para McMurdo com uma express�o de quem n�o esquecera nem perdoara o outro.</p><p>� Muito bem, ele pode vir, se quiser � disse ele, de m� vontade. � � o bastante. Quanto mais cedo formos, melhor.</p><p>A reuni�o se dissolveu com gritos e gargalhadas e cantorias de homens b�bados. O bar ainda estava lotado de gente � toa e alguns dos irm�os permaneceram ali. O pequeno grupo escolhido para o servi�o foi para rua e se subdividiu em pequenos grupos de dois ou tr�s para n�o chamar aten��o. Estava uma noite especialmente fria, e a lua em quarto crescente brilhava no c�u estrelado. Os homens pararam e se reuniram num p�tio em frente a um edif�cio alto. As palavras Vermissa Herald estavam ali em letras douradas entre as janelas excessivamente iluminadas. L� de dentro vinha o ru�do da m�quina impressora.</p><p>� Voc� a� � disse Baldwin a McMurdo. � Voc� fica aqui embaixo, na porta, e cuide para que o caminho esteja livre pra n�s. Arthur Willaby pode ficar com voc�. Os outros v�m comigo. N�o fiquem com medo, rapazes, pois temos uma por��o de testemunhas de que estamos no bar neste exato momento.</p><p>Era quase meia-noite e a rua estava deserta, com exce��o de um ou outro que ainda perambulava por ali a caminho de casa. O grupo cruzou a rua e, empurrando a porta da reda��o do jornal, Baldwin e seus homens entraram no pr�dio e subiram a escada que ficava em frente. McMurdo e o outro permaneceram embaixo. Da sala que ficava logo no andar de cima veio um grito, depois um pedido de socorro e depois o ru�do de passos e de cadeiras caindo. Pouco depois um homem de cabelos grisalhos saiu correndo do pr�dio. Foi agarrado antes que pudesse continuar seu caminho e seus �culos ca�ram bem nos p�s de McMurdo. Ouviu-se a seguir um soco e um gemido. Ele estava no ch�o e recebeu uma s�rie de socos quando todos ca�ram em cima dele. Ele se contorcia e seus membros longos e finos se agitavam com os golpes que recebia. Finalmente pararam de bater nele, mas Baldwin, com seu rosto cruel exibindo um sorriso diab�lico, golpeava a cabe�a do homem, que tentava inutilmente defender-se com os bra�os. Seus cabelos brancos estavam molhados com manchas de sangue. Baldwin ainda estava debru�ado sobre sua v�tima, acertando um soco perverso onde quer que visse uma parte exposta, quando McMurdo correu e o puxou.</p><p>� Voc� vai matar o homem � disse ele. � Pare com isso!</p><p>Baldwin olhou para ele com espanto.</p><p>� V� pro diabo! � ele gritou. � Quem � voc� pra se meter? Voc� que � novo na Loja? V� embora! � Ele ergueu seu bast�o, mas McMurdo puxou a pistola do bolso.</p><p>� V� embora voc�! � ele gritou. � Eu estouro seus miolos se voc� tocar em mim. Quanto � Loja, a ordem do chefe n�o era para matar. E voc�, o que est� fazendo? Est� matando o homem.</p><p>� Ele tem raz�o � disse um dos homens.</p><p>� � melhor voc�s todos sumirem daqui! As janelas est�o todas acesas e daqui a pouco toda a cidade estar� aqui.</p><p>Realmente havia um vozerio pela rua e um grupo de linotipistas e jornalistas estava se juntando na entrada do pr�dio e querendo entrar em a��o. Deixando o corpo inerte e machucado do editor na escada, os criminosos correram e fugiram rapidamente pela rua. Quando chegaram ao sindicato, alguns deles se misturaram aos fregueses do saloon de McGinty, sussurrando para o chefe, em meio ao movimento, que o servi�o tinha sido executado a contento. Outros, e entre eles McMurdo, entraram por ruas transversais e assim, por caminhos mais longos, foram para suas casas.</p><empty-line/></section><section><p><strong>O Vale do Medo</strong></p><p>Quando McMurdo acordou na manh� seguinte, tinha um bom motivo para se lembrar de sua inicia��o na Loja. Sua cabe�a do�a em conseq��ncia da bebida, e seu bra�o, no lugar em que fora marcado com ferro quente, estava ardendo e inchado. Tendo sua pr�pria fonte de renda, ele n�o era muito ass�duo ao trabalho, de modo que tomou seu caf�-da-manh� bem tarde e ficou em casa o resto da manh�, escrevendo uma longa carta para um amigo. Depois leu o Daily Herald. Numa coluna, inclu�da na �ltima hora, ele leu:</p><empty-line/><p>Viol�ncia na Reda��o do Herald. O editor ficou gravemente ferido.</p><empty-line/><p>Contava em resumo o que acontecera na noite anterior, mas ele estava mais a par dos fatos do que o redator. A not�cia terminava da seguinte maneira:</p><empty-line/><p>O assunto agora est� nas m�os da pol�cia, mas n�o se deve esperar que seus esfor�os tenham melhor resultado do que no passado. Alguns dos homens foram reconhecidos e espera-se que algu�m seja preso. A responsabilidade desse ato cabe, como nem precisa ser dito, a essa sociedade infame que por tanto tempo tem mantido nossa comunidade em estado de submiss�o e contra a qual o Herald tem se batido tanto. Os muitos amigos do sr. Stanger se alegrar�o ao saberem que, embora tenha sido surrado de maneira cruel e brutal, e tenha levado violentos golpes na cabe�a, n�o h� risco de vida imediato.</p><empty-line/><p>Em seguida o jornal dizia que guardas das empresas de minera��o, armados com rifles Winchester, foram chamados para proteger a reda��o.</p><p>McMurdo deixou o jornal de lado e estava acendendo seu cachimbo com a m�o tr�mula devido aos excessos da noite anterior quando ouviu uma batida do lado de fora, e sua senhoria entregou-lhe um bilhete que acabara de ser levado por um rapaz. N�o tinha assinatura e dizia o seguinte:</p><empty-line/><p>Eu gostaria de falar com o senhor, mas seria melhor que n�o fosse em sua casa. Estarei ao lado do mastro da bandeira de Miller Hill. Se for at� l� agora, h� uma coisa que � importante para o senhor ouvir</p><p>e importante, para mim, dizer.</p><empty-line/><p>McMurdo leu o recado duas vezes, bastante surpreso, pois n�o podia imaginar o que seria nem quem era o seu autor. Se fosse letra de mulher, teria imaginado que aquilo poderia ser o in�cio de mais uma aventura, coisa t�o normal em sua vida no passado. Mas era letra de homem, e de uma pessoa instru�da. Finalmente, ap�s alguma hesita��o, resolveu ir ver do que se tratava.</p><p>Miller Hill � um parque p�blico malconservado que fica bem no centro da cidade. No ver�o � o local preferido pelas pessoas, mas no inverno fica completamente deserto. Do alto do parque tem-se uma vista geral n�o s� da cidade suja e irregular, mas tamb�m de todo o vale, com suas minas e f�bricas encardindo a neve de cada lado dele, e de suas escarpas cheias de vegeta��o e cobertas de neve. McMurdo subiu o caminho margeado por uma vegeta��o muito rica at� chegar ao restaurante que � o centro das excurs�es de ver�o. Ao lado dele ficava o mastro citado no recado, e junto � base havia um homem com o chap�u inclinado sobre o rosto e a gola do casaco levantada. Quando ele se virou, McMurdo viu que era o Irm�o Morris, o que causara irrita��o no chefe na noite anterior. Eles se cumprimentaram segundo os ritos da Loja.</p><p>� Eu gostaria de lhe falar por um instante, sr. McMurdo � disse o outro, com uma hesita��o que mostrava que o assunto era delicado. � Foi gentileza sua vir at� aqui.</p><p>� Por que n�o p�s seu nome no bilhete?</p><p>� Temos de ser cautelosos, senhor. Nunca se sabe, numa �poca dessas, como uma coisa vai se desenrolar. Nunca se sabe tamb�m em quem confiar e em quem n�o confiar.</p><p>� Mas devemos confiar nos irm�os da Loja, n�o?</p><p>� N�o, n�o. Nem sempre � disse Morris com a voz mais elevada, demonstrando veem�ncia em sua resposta. � Tudo que dizemos, e at� o que pensamos, parece chegar at� aquele homem, McGinty.</p><p>� Olhe aqui � disse McMurdo de modo decidido. � N�o tem nem 24 horas que fiz meu juramento ao chefe. O senhor estaria me pedindo pra quebrar meu juramento?</p><p>� Se � assim que o senhor v� as coisas � disse Morris com ar tristonho �, s� posso lhe dizer que sinto muito por ter-lhe dado o trabalho de vir se encontrar comigo. As coisas v�o mal quando dois cidad�os livres n�o podem trocar id�ias.</p><p>McMurdo, que estava observando seu companheiro com toda a aten��o, relaxou um pouco.</p><p>� Bem, falo apenas por mim � disse ele. � Sou novato, como o senhor sabe, e ainda n�o conhe�o bem as coisas por aqui. N�o devo abrir minha boca, sr. Morris, mas se o senhor acha que deve me dizer alguma coisa, aqui estou para ouvi-lo.</p><p>� E depois ir contar tudo ao chefe McGinty � disse Morris, irritado.</p><p>� O senhor, agora, est� me fazendo uma injusti�a! � exclamou McMurdo.</p><p>� Eu sou fiel � Loja, e lhe digo isso desde j�, mas eu seria um verme se repetisse para outra pessoa qualquer o que o senhor possa vir a me contar em confian�a. O que o senhor disser ficar� comigo, embora eu lhe avise que poder� n�o ter de mim nem ajuda nem simpatia.</p><p>� Eu desisti de procurar uma ou outra � disse Morris. � Posso estar colocando minha vida em suas m�os pelo que vou dizer, mas, mau como o senhor � (e ontem � noite me pareceu que � t�o mau quanto o pior de todos), ainda assim � novo aqui, e sua consci�ncia n�o pode estar t�o insens�vel quanto a deles. Foi por isso que pensei em falar com o senhor.</p><p>� Bem, o que o senhor tem a me dizer?</p><p>� Se o senhor me entregar, maldito seja!</p><p>� Eu j� lhe disse que n�o faria isso.</p><p>� Eu gostaria de lhe perguntar, ent�o, se quando o senhor se filiou � Sociedade dos Homens Livres de Chicago, e fez votos de caridade e fidelidade, por um instante que seja lhe passou pela cabe�a que essa sociedade o levaria ao crime.</p><p>� Se o senhor chama isso de crime... � McMurdo respondeu.</p><p>� Chama de crime! � Morris gritou, sua voz tremendo de raiva. � O senhor ainda n�o viu nada, se � que pode dar outro nome a isso. Foi crime ontem � noite um velho, que poderia ser seu pai, ser espancado at� que seus cabelos brancos ficassem vermelhos de sangue? Foi crime ou o senhor chamaria isso de outra coisa?</p><p>� Alguns diriam que foi uma batalha � disse McMurdo. � Uma guerra entre duas categorias, de modo que cada uma delas luta da melhor maneira que pode.</p><p>� Mas o senhor pensou numa coisa assim quando se filiou � Sociedade dos Homens Livres de Chicago?</p><p>� Posso garantir que n�o.</p><p>� Nem eu quando me filiei a ela na Filad�lfia. Era apenas um clube beneficente e um local de reuni�es. Ouvi ent�o falar nessa sociedade (maldita hora em que esse nome chegou aos meus ouvidos!) e eu me associei para me sentir melhor. Meu Deus, para me sentir melhor! Minha esposa e os tr�s filhos vieram comigo. Abri uma pequena loja na Market Square, e meus neg�cios iam bem. Mas se espalhou a not�cia de que eu era um dos Homens Livres, e fui obrigado a me filiar � Loja local, como o senhor fez ontem � noite. E tenho a marca da vergonha no meu antebra�o, e algo pior em meu cora��o. Descobri que eu estava sob o comando de um mau-car�ter e me vi envolvido nas malhas do crime. O que posso fazer? Cada palavra que pronunciei com a inten��o de melhorar as coisas foi considerada trai��o, como aconteceu ontem � noite. N�o posso ir embora, pois tudo o que possuo � minha loja. Se eu deixar a sociedade, sei que isso significa a morte para mim, e s� Deus sabe o que aconteceria � minha mulher e �s crian�as. Olha, a situa��o � terr�vel. Terr�vel! � Ele cobriu o rosto com as m�os e seu corpo estremecia com solu�os convulsivos.</p><p>McMurdo deu de ombros.</p><p>� O senhor � muito delicado para esse tipo de trabalho � disse ele. � O senhor n�o � a pessoa certa para esse tipo de trabalho.</p><p>� Eu tinha uma consci�ncia e uma religi�o, mas fizeram de mim um criminoso a mais entre eles. Fui designado para um trabalho. Se eu falhasse, sei bem o que me aconteceria. Talvez eu seja um covarde. Talvez seja o fato de eu pensar na minha esposa e nas crian�as que me torne assim. De qualquer modo, fui para executar o servi�o. Acho que essa lembran�a vai me perseguir para sempre. Era uma casa abandonada, a 20 milhas daqui, depois do fim do vale. Eu fiquei do lado de fora da casa, como aconteceu com o senhor ontem. N�o podiam confiar em mim para o servi�o. Os outros entraram. Quando sa�ram, estavam com as m�os vermelhas at� o punho. Enquanto �amos embora, uma crian�a ficou gritando do lado de fora da casa, atr�s de n�s. Era um menino de seus 5 anos que tinha assistido ao assassinato do pai. Eu quase desmaiei com tanta barbaridade, mas mesmo assim tive de manter o rosto sereno e com um sorriso, pois eu bem sabia que se n�o agisse dessa forma a pr�xima casa a ser visitada por eles com suas m�os sanguin�rias seria a minha, e desta vez o meu pequeno Fred � que ficaria chorando pelo pai morto. Mas a� eu j� era um criminoso: c�mplice de um assassinato, perdido neste e tamb�m no outro mundo. Sou cat�lico, mas o padre n�o me perdoaria quando soubesse que sou um Scowrer e estou excomungado de minha f�. Essa � a minha situa��o. E vejo que o senhor vai pelo mesmo caminho, e lhe pergunto qual ser� o fim dele. O senhor est� disposto a ser um assassino a sangue-frio ou podemos fazer alguma coisa que pare com isso?</p><p>� O que o senhor faria? � perguntou McMurdo, de forma direta. � O senhor denunciaria?</p><p>� Deus me livre! � exclamou Morris. � Com certeza s� de pensar nisso eu estaria morto.</p><p>� Claro � disse McMurdo. � Estou achando que o senhor � um homem fraco e que se preocupa demais com o assunto.</p><p>� Se preocupa demais! Espere at� ter vivido aqui mais um pouco. Olhe esse vale l� embaixo. Veja a fumaceira dessas chamin�s que o escurecem. Eu lhe garanto que a nuvem de assassinatos � mais densa e est� mais perto da cabe�a de todas as pessoas. � o Vale do Medo, o Vale da Morte. O terror anda no cora��o das pessoas desde que anoitece at� o amanhecer. Espere, jovem, e aprender� por si mesmo.</p><p>� Bem, eu lhe direi o que penso quando tiver visto mais � comentou McMurdo com indiferen�a. � O que me parece bem claro � que o senhor n�o � o homem certo para o lugar e que quanto antes o senhor vender tudo (se o senhor conseguir um m�nimo pelo seu neg�cio), ser� melhor. O que o senhor disse para mim n�o ir� adiante, mas, eu juro! se eu descobrir que � um informante...</p><p>� N�o, n�o! � gritou Morris, suplicante.</p><p>� Bem, vamos deixar as coisas como est�o. Vou me lembrar do que o senhor me disse e talvez um dia eu volte a falar nisso. Espero que tenha me chamado aqui com boa inten��o. Agora vou para casa.</p><p>� S� mais uma coisa � disse Morris. � Talvez tenham nos visto juntos. Podem querer saber sobre o que fal�vamos.</p><p>� Bem pensado.</p><p>� Eu lhe ofere�o um emprego em minha loja.</p><p>� E eu n�o aceito. Esse � o nosso assunto. Bem, at� logo, Irm�o Morris, e que as coisas melhorem para o senhor no futuro.</p><p>Naquela mesma tarde, enquanto McMurdo estava sentado, fumando, perdido em seus pensamentos, ao lado da lareira da sala de estar, a porta se abriu e surgiu a figura gigantesca do chefe McGinty. Ele fez o sinal e depois, sentando-se em frente ao jovem, olhou-o fixamente durante algum tempo, olhar respondido com a mesma firmeza.</p><p>� N�o gosto muito de visitas, Irm�o McMurdo � ele disse, finalmente. � Acho que perco muito tempo com as pessoas que me visitam. Mas achei que devia circular um pouco e vir v�-lo em sua casa.</p><p>� � um prazer v�-lo aqui, conselheiro � McMurdo respondeu de modo enf�tico, apanhando sua garrafa de u�sque no arm�rio. � � uma honra que eu n�o esperava.</p><p>� Como est� o bra�o? � perguntou o chefe.</p><p>McMurdo torceu um pouco o rosto.</p><p>� N�o esque�o o bra�o � disse ele. � Mas vale a pena.</p><p>� Sim, vale a pena � respondeu o outro � para aqueles que s�o leais e se esfor�am e ajudam a Loja. Sobre o que voc� conversava com o Irm�o Morris hoje de manh� na Miller Hill?</p><p>A pergunta veio de forma t�o repentina que foi bom ele ter a resposta pronta. Ele deu uma ruidosa gargalhada.</p><p>� Morris n�o sabia que eu ganho a vida aqui em casa. N�o deveria mesmo saber, pois para o meu gosto, ele tem escr�pulos demais. Mas � um velho bem-intencionado. Ele achava que eu n�o tinha ocupa��o e que faria uma boa a��o me oferecendo um emprego na loja dele.</p><p>� Ah, foi isso?</p><p>� Sim, foi isso.</p><p>� E voc� recusou?</p><p>� Claro. N�o posso ganhar dez vezes mais no meu quarto em quatro horas?</p><p>� � verdade. Mas se eu fosse voc�, n�o procuraria muito o Morris.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� Bem, acho que porque lhe digo que n�o. Isso � o suficiente para a maioria das pessoas por aqui.</p><p>� Isso pode ser suficiente para a maioria das pessoas, mas n�o � suficiente pra mim, conselheiro � disse McMurdo com atrevimento. � Se o senhor conhece bem os homens, sabe disso.</p><p>Aquele gigante moreno olhou firmemente para ele e sua m�o cabeluda se fechou por um instante em torno da garrafa como se fosse arremess�-la na cabe�a do outro. Ent�o riu do seu jeito barulhento, rude, falso.</p><p>� Voc� � mesmo um gozador � disse ele. � Bem, se deseja saber as raz�es, eu digo. Morris falou alguma coisa contra a Loja?</p><p>� N�o.</p><p>� Nem contra mim?</p><p>� N�o.</p><p>� Bem, isso porque n�o confiava em voc�. Mas ele n�o � um irm�o leal. N�s o conhecemos bem, e por isso o observamos, e estamos esperando apenas a hora de repreend�-lo. Acho que essa hora est� se aproximando. N�o h� lugar para ovelhas sarnentas em nosso rebanho. Mas se voc� andar acompanhado de um homem desleal, podemos pensar que voc� tamb�m � desleal.</p><p>� N�o h� motivo para eu andar com ele, porque n�o gosto dele � McMurdo respondeu. � Quanto a ser desleal, se fosse qualquer outro homem que n�o o senhor, ele n�o diria isso duas vezes.</p><p>� Bem, chega � disse McGinty, esvaziando seu copo. � S� vim lhe avisar. Voc� est� avisado.</p><p>� Eu gostaria de saber � disse McMurdo � como o senhor ficou sabendo que estive conversando com Morris.</p><p>McGinty deu uma gargalhada.</p><p>� Minha fun��o � saber o que acontece nesta cidade � disse ele. � Acho que � melhor voc� me contar tudo que acontece. Bem, est� na hora e s� quero dizer...</p><p>Mas sua despedida foi interrompida de forma inesperada. Com um s�bito estr�pito, a porta da rua se abriu e tr�s homens de rostos circunspectos e olhar duro os encararam por baixo dos chap�us da pol�cia. McMurdo levantou-se e p�s a m�o no seu rev�lver, mas deteve-se ao perceber que dois rifles Winchester estavam apontados para a sua cabe�a. Um homem de uniforme avan�ou pela sala com um rev�lver na m�o. Era o capit�o Marvin, que j� trabalhara em Chicago, e que agora pertencia � pol�cia das minas de carv�o e ferro. Ele sacudiu a cabe�a para McMurdo exibindo um meio sorriso.</p><p>� Eu sabia que o senhor se meteria em encrencas, sr. McMurdo Desonesto de Chicago � disse ele. � N�o pode ficar longe delas, n�o �? Pegue seu chap�u e venha conosco.</p><p>� Acho que o senhor pagar� por isso, capit�o Marvin � disse McGinty. � Quem � o senhor, eu gostaria de saber, para invadir uma casa desse modo e molestar homens honestos e cumpridores da lei?</p><p>� O senhor est� fora disso, conselheiro McGinty � disse o policial. � N�o estamos atr�s do senhor e sim atr�s de McMurdo. O senhor deve nos ajudar e n�o atrapalhar o nosso servi�o.</p><p>� Ele � meu amigo e responderei pela sua conduta � disse o chefe.</p><p>� Pelo que se diz, sr. McGinty, o senhor ter� de responder pela sua pr�pria conduta qualquer dia desses � respondeu o capit�o. � Esse McMurdo era um desonesto antes de vir pra c�, e ainda � um desonesto. Apontem pra ele enquanto o desarmo, guardas.</p><p>� Aqui est� minha arma � disse McMurdo friamente. � Talvez, capit�o Marvin, se n�s dois estiv�ssemos sozinhos frente a frente, o senhor n�o me prendesse com tanta facilidade assim.</p><p>� Onde est� a autoriza��o para prend�-lo? � McGinty perguntou. � Puxa! Tanto faz viver na R�ssia ou em Vermissa enquanto a pol�cia tiver gente assim como o senhor. Isso � uma viol�ncia capitalista e n�o vai ficar assim n�o, eu lhe garanto.</p><p>� O senhor faz da melhor maneira poss�vel o que acha ser seu dever. N�s cuidamos do nosso.</p><p>� De que me acusam? � perguntou McMurdo.</p><p>� De envolvimento no espancamento do editor do Herald, sr. Stanger. N�o � culpa sua que n�o seja uma acusa��o de assassinato.</p><p>� Bem, se � s� isso que t�m contra ele � exclamou McGinty com uma gargalhada �, voc�s podem evitar muitos problemas deixando-o agora mesmo. Esse homem estava comigo l� no meu saloon jogando p�quer at� meia-noite, e posso lhe indicar muitas testemunhas.</p><p>� Isso � problema seu e o senhor pode dizer tudo isso amanh� no tribunal. Enquanto isso, vamos, McMurdo, e fique quietinho se n�o quer ter a cabe�a varada por chumbo. E o senhor se afaste, sr. McGinty, pois aviso que n�o tolero resist�ncia quando estou em servi�o.</p><p>O comportamento do capit�o era t�o determinado que tanto McMurdo quanto seu chefe foram obrigados a aceitar a situa��o. McGinty conseguiu sussurrar algumas palavras para o prisioneiro.</p><p>� E quanto �... � ele fez um gesto com a m�o dando a entender que se referia � m�quina de dinheiro falso.</p><p>� Tudo bem � sussurrou McMurdo, que providenciara um bom esconderijo sob o assoalho.</p><p>� Vou me despedir de voc� � disse o chefe, apertando a m�o do outro. � Vou procurar Reilly, o advogado, e cuidar de toda a defesa. Dou-lhe a minha palavra que eles n�o v�o segurar voc� l�.</p><p>� Eu n�o confiaria nisso. Tomem conta do prisioneiro, voc�s dois, e atirem se ele tentar alguma coisa. Vou revistar a casa antes de sair.</p><p>Marvin realmente revistou a casa, mas aparentemente n�o descobriu nenhuma pista da m�quina de falsificar dinheiro. Quando saiu da casa, ele e seus homens escoltaram McMurdo at� o quartel-general. Anoitecera e ca�a um forte temporal, de modo que as ruas estavam quase desertas, mas mesmo assim alguns vadios seguiram o grupo e, protegidos pela escurid�o, gritavam xingamentos para o prisioneiro.</p><p>� Executem o maldito Scowrer! � eles gritavam. � Executem-no! � Todos riam e zombavam enquanto ele era levado para as depend�ncias da pol�cia. Depois de uma inspe��o r�pida e formal feita pelo oficial de plant�o, foi levado para a cela comum. Ali encontrou Baldwin e mais tr�s criminosos que haviam participado do espancamento na noite anterior, todos detidos naquela tarde e esperando o julgamento, que seria no dia seguinte.</p><p>Mas mesmo no interior dessa fortaleza policial, o bra�o longo dos Homens Livres era capaz de penetrar. Bem tarde da noite chegou um carcereiro com as esteiras enroladas que serviriam de cama para eles. Do meio das esteiras ele tirou duas garrafas de u�sque, alguns copos e um baralho. Passaram uma noite divertida sem se preocupar com o julgamento da manh�.</p><p>E nem tinham motivo para isso, como ficaria provado pelo resultado do julgamento. O juiz n�o poderia, com toda certeza, dar uma senten�a que pudesse remeter o caso a uma inst�ncia superior. De um lado, os linotipistas e jornalistas foram for�ados a admitir que a luz n�o era forte o suficiente para que vissem tudo com clareza, que estavam todos muito perturbados e que ficava muito dif�cil para eles afirmar quem eram os culpados, embora achassem que os acusados estavam entre eles. Interrogados pelo esperto advogado contratado por McGinty, ficaram ainda mais confusos. A v�tima j� dissera que fora tomada de surpresa, devido � rapidez do ataque, e que n�o poderia afirmar nada a n�o ser que o primeiro homem que o atacara usava bigode. Acrescentou que sabia que eles eram Scowrers, j� que ningu�m mais na comunidade tinha motivos para ter inimizade por ele, dizendo ainda que h� muito tempo vinha sendo amea�ado por causa dos editoriais que escrevia. Por outro lado, ficou claramente demonstrado pelo depoimento un�nime e sem hesita��o de seis cidad�os, incluindo-se entre eles um alto funcion�rio municipal, o conselheiro McGinty, que os homens estiveram jogando no sindicato at� uma hora depois de ocorrida a agress�o. Desnecess�rio dizer que o juiz praticamente se desculpou pelo inc�modo a que foram submetidos e criticou implicitamente o capit�o Marvin e a pol�cia pelo excesso de zelo.</p><p>O veredicto foi comemorado com aplausos ruidosos por uma plat�ia na qual McMurdo viu muitos rostos conhecidos. Mas algumas pessoas ficaram quietas, com os l�bios apertados e os olhos demonstrando preocupa��o, enquanto os homens sa�am do banco dos r�us. Uma dessas pessoas, um homem baixo, de barba preta e jeito resoluto, exprimiu seus pensamentos e os de seus companheiros enquanto os ex-prisioneiros passavam por ele.</p><p>� Assassinos desgra�ados! � disse. � Vamos prend�-los um dia.</p><empty-line/></section><section><p><strong>A Pior Hora</strong></p><p>Se faltava alguma coisa para aumentar a popularidade de Jack McMurdo entre seus companheiros, sua pris�o e sua absolvi��o tiveram esse efeito. Um homem fazer alguma coisa, na pr�pria noite em que se filiou � Loja, que o obrigasse a comparecer diante de um juiz era um novo recorde nos registros da sociedade. Ele j� conseguira a reputa��o de um sujeito bastante alegre, um farrista inveterado, e tamb�m um homem de temperamento forte, que n�o aceitaria um insulto nem mesmo do todo-poderoso chefe. Mas, al�m disso, havia impressionado seus camaradas com a id�ia de que entre todos eles n�o havia nenhum com um c�rebro capaz de elaborar t�o rapidamente um plano sanguin�rio, ou cuja m�o fosse mais capaz de executar esse plano. �Ele ser� o rapaz do servi�o perfeito�, comentavam os mais antigos entre si enquanto esperavam a hora em que pudessem dar-lhe um trabalho. McGinty j� tinha bastante gente, mas reconhecia que</p><p>este era especialmente capaz. Ele se sentia como algu�m que segurava pela correia um c�o de ca�a irrequieto. Havia os vira-latas para os servi�os menores, mas algum dia ele soltaria essa criatura sobre suas v�timas. Alguns membros da Loja, Ted Baldwin entre eles, ressentiam-se do r�pido prest�gio do novato e o odiavam por isso, mas tinham muito cuidado com ele, pois estava t�o pronto para lutar como para rir.</p><p>Mas se ele ganhou prest�gio com os companheiros, havia um outro lugar em que seu prest�gio fora por �gua abaixo. O pai de Ettie Shafter n�o queria mais saber dele nem permitia mais que entrasse em sua casa. Ettie estava t�o perdidamente apaixonada que n�o queria perd�-lo, embora seu bom senso a prevenisse do que seria o casamento com um homem tido como criminoso. Certo dia, ap�s uma noite inteira sem conseguir pregar olhos, ela decidiu ir v�-lo, possivelmente pela �ltima vez, e se esfor�ar para afast�-lo daquelas p�ssimas influ�ncias que estavam acabando com ele. Ela foi at� a casa dele, atendendo a um pedido que ele lhe fazia com freq��ncia, e dirigiu-se ao c�modo que usava como sala de estar. Ele estava sentado a uma mesa, de costas para ela, e tinha uma carta diante dele. Uma s�bita vontade infantil de brincar a dominou � tinha apenas 19 anos. Ele n�o ouvira a porta se abrir. Ela se aproximou dele na ponta dos p�s e p�s as m�os suavemente sobre os ombros dele.</p><p>Se ela esperava assust�-lo, com certeza conseguiu, mas de um modo que a assustou tamb�m. Ele deu um salto e segurou o pesco�o dela com a m�o direita. Ao mesmo tempo, com a outra m�o, amassou o papel que estava lendo. Durante algum tempo ficou paralisado, olhando para ela. Ent�o, uma express�o de perplexidade e alegria surgiu em seu rosto, substituindo a ferocidade � ferocidade que a fez recuar aterrorizada, como se em toda a sua vida tranq�ila jamais tivesse visto coisa semelhante.</p><p>� � voc�! � disse ele, erguendo as sobrancelhas. � E pensar que voc� veio falar comigo, minha querida, e eu n�o achei nada melhor pra fazer do que quase estrangul�-la! Venha, querida � e estendeu os bra�os. � Quero que voc� esque�a isso.</p><p>Mas ela ainda n�o conseguira esquecer aquele olhar de medo culpado que vira no rosto dele. Seu instinto feminino dizia-lhe que aquele arroubo n�o era apenas o medo normal de um homem que se assusta. Culpa � era isso � culpa e medo.</p><p>� Acredite, eu estava com o pensamento longe. E voc� entrou t�o de mansinho, com esses seus pezinhos lindos...</p><p>� N�o, n�o. Foi mais que isso, Jack. � Ent�o uma s�bita suspeita a dominou. � Deixe-me ver aquela carta que voc� estava escrevendo.</p><p>� Ah, Ettie, n�o posso fazer isso.</p><p>A suspeita transformou-se em certeza.</p><p>� � para outra mulher! � ela gritou. � Sei que �. Que outro motivo voc� teria para escond�-la de mim? Como vou saber se n�o � casado, voc� que � novo por aqui e ningu�m o conhece?</p><p>� N�o sou casado, Ettie. Eu lhe juro que n�o sou. Voc� � a �nica. Eu juro, em nome de Cristo!</p><p>Ele estava p�lido, falando com tanta sinceridade que ela n�o podia fazer outra coisa a n�o ser acreditar nele.</p><p>� Ent�o por que voc� n�o me mostra a carta?</p><p>� Vou lhe explicar � ele disse. � Prometi n�o mostrar essa carta a ningu�m, e do mesmo modo como n�o quebraria um juramento que tivesse feito a voc�, tenho de manter minha palavra. � assunto da Loja, e nem para voc� eu posso mostrar. E se eu me assustei quando p�s a m�o no meu ombro, ser� que voc� n�o entende que poderia ter sido a m�o de um detetive?</p><p>Ela sentiu que ele estava falando a verdade. Ele a envolveu em seus bra�os e afastou de vez seus temores e d�vidas ao beij�-la.</p><p>� Sente-se aqui perto de mim. � um trono muito feio para uma rainha como voc�, mas � o �nico que seu pobre amor pode lhe oferecer. Ele lhe dar� algo melhor um dia desses. Acho que sim. Agora voc� est� calma de novo, n�o est�?</p><p>� Como posso me sentir bem, Jack, se sei que voc� � um criminoso que vive no meio de criminosos, se n�o sei se algum dia vou ouvir que voc� est� no banco dos r�us por assassinato? McMurdo, o Scowrer: foi assim que um dos nossos h�spedes se referiu a voc� ontem. Isso perfurou meu cora��o como uma faca.</p><p>� Na verdade, palavras duras n�o matam.</p><p>� Mas o que ele disse � verdade.</p><p>� Bem, querida, a coisa n�o � t�o ruim quanto voc� pensa. N�o passamos de homens pobres que estamos tentando � nossa maneira conseguir os nossos direitos.</p><p>Ettie enla�ou o pesco�o do namorado.</p><p>� Saia disso, Jack! Fa�a isso por mim. Pelo amor de Deus, saia disso! Foi para pedir isso que vim at� aqui. Oh, Jack, eu lhe pe�o isso de joelhos. Ajoelhada aqui, diante de voc�, eu pe�o para que desista de tudo isso.</p><p>Ele a levantou e encostou a cabe�a da mo�a no seu peito.</p><p>� Pra falar a verdade, querida, voc� n�o sabe o que est� me pedindo. Como eu poderia desistir se isso significaria quebrar meu juramento e desertar? Se voc� soubesse como est�o as coisas comigo, jamais me pediria isso. Al�m do mais, mesmo se eu quisesse sair, como poderia faz�-lo? Voc� acha que a Loja deixa que um homem a abandone com todos os seus segredos?</p><p>� Pensei nisso, Jack. Planejei tudo. Papai guardou algum dinheiro. Ele est� cansado deste lugar aqui, onde o medo desse pessoal acaba com a nossa vida. Ele est� pronto para partir. Podemos ir juntos para a Filad�lfia ou para Nova York onde estar�amos livres deles.</p><p>McMurdo riu.</p><p>� A Loja tem o bra�o comprido. Voc� acha que ela n�o poderia estend�-lo daqui at� a Filad�lfia ou a Nova York.</p><p>� Bem, podemos ent�o ir para o oeste, para a Inglaterra ou para a Alemanha, de onde o papai veio. Pra qualquer lugar longe deste Vale do Medo.</p><p>McMurdo pensou no velho Morris.</p><p>� Esta � a segunda vez que ou�o algu�m chamar o vale assim � ele disse. � O medo parece estar enraizado em alguns de voc�s.</p><p>� Esse medo pesa em cada minuto de nossas vidas. Voc� acha que Ted Baldwin nos perdoou? Se n�o fosse o fato de ele temer voc�, quais seriam as nossas chances? Se voc� visse como aqueles olhos negros e famintos olham para mim!</p><p>� Puxa! Vou ensin�-lo a ter melhores modos se eu peg�-lo assim. Veja bem, menina. N�o posso sair daqui. N�o posso. Fique sabendo disso de uma vez por todas. Mas se voc� deixar que eu cuide disso do meu jeito, acabo encontrando um modo de sair dessa de maneira honrosa.</p><p>� N�o h� honra numa coisa dessas.</p><p>� � apenas o modo de ver as coisas. Mas se voc� me der seis meses, vou dar um jeito de sair daqui sem sentir vergonha de encarar os outros.</p><p>A mo�a riu de contentamento.</p><p>� Seis meses! � ela disse. � � uma promessa?</p><p>� Bem, podem ser sete ou oito. Mas no m�ximo em um ano vamos deixar o vale para tr�s.</p><p>Foi o m�ximo que Ettie p�de conseguir, e mesmo assim j� era alguma coisa. Havia essa luz ao longe para iluminar a escurid�o do futuro imediato. Ela voltou para a casa do pai com o cora��o mais alegre. Foi o melhor dia desde que Jack McMurdo entrara em sua vida.</p><p>Pode-se pensar que, como membro da sociedade, ele seria informado de todas as suas atividades, mas logo descobriu que a organiza��o era maior e mais complexa do que a simples Loja. At� mesmo o chefe McGinty ignorava muitas coisas, pois havia uma pessoa chamada de delegado do condado, que morava em Hobson�s Patch, mais adiante naquele ramal, e que tinha controle sobre v�rias lojas, que dirigia de modo arbitr�rio e r�gido. McMurdo s� o viu uma vez, um homem astuto, pequeno e de cabelos grisalhos, o andar furtivo e o olhar obl�quo cheio de mal�cia. Evans Pott era o seu nome, e mesmo o grande chefe de Vermissa sentia por ele um pouco de repulsa e medo, do mesmo modo que o gigantesco Danton deve ter sentido em rela��o ao fraco mas perigoso Robespierre.</p><p>Um dia, Scanlan, que era companheiro de pens�o de McMurdo, recebeu um bilhete de McGinty que continha outro bilhete de Evans Pott, que lhe informava estar mandando dois homens dos bons, Lawler e Andrews, que tinham instru��es para agir nas vizinhan�as, embora fosse melhor para o caso que nenhum detalhe fosse revelado. Seria poss�vel o chefe providenciar acomoda��es adequadas e todo o conforto at� que chegasse a hora de os dois agirem? McGinty acrescentou que era imposs�vel algu�m permanecer inc�gnito no sindicato e que, por isso, seria obrigado a pedir para McMurdo e Scanlan acomod�-los por uns dias na pens�o onde moravam.</p><p>Na mesma noite os dois homens chegaram, cada um com uma sacola de m�o como bagagem. Lawler era um homem idoso, astuto, calado e reservado, vestido com uma velha sobrecasaca preta que, juntamente com o chap�u de feltro e a barba irregular e grisalha, davam-lhe o aspecto de um pregador itinerante. Seu companheiro, Andrews, era pouco mais que um menino, alegre e com um rosto franco, com todo o jeito de uma pessoa em f�rias e ansiosa para aproveitar cada minuto do passeio. Os dois eram abst�mios e se comportavam, em tudo, como membros exemplares da sociedade, exceto pelo fato de serem ambos assassinos que demonstraram com freq��ncia que eram os melhores instrumentos para essa associa��o de assassinatos. Lawler j� executara 14 servi�os desse tipo, e Andrews, tr�s.</p><p>Eles eram, como McMurdo descobriu, pessoas sempre dispostas a falar sobre seus feitos do passado, que repetiam com um orgulho meio acanhado, como se tivessem feito um trabalho bom e altru�sta para a comunidade. Mas eram reticentes quanto ao novo servi�o que tinham pela frente.</p><p>� Fomos escolhidos porque nem eu nem o menino aqui bebemos � Lawler explicou. � Sabem que n�s nunca falaremos mais do que devemos. Voc�s n�o devem levar isso a mal, mas s�o ordens do delegado do condado que n�s obedecemos.</p><p>� Certo, todos n�s estamos juntos nisso � disse Scanlan, companheiro de McMurdo, quando os quatro se sentaram para o jantar.</p><p>� Isso � verdade, e vamos falar � be�a sobre o assassinato de Charlie Williams ou o de Simon Bird, ou sobre qualquer outro servi�o do passado. Mas at� esse servi�o terminar, n�o falaremos nada sobre ele.</p><p>� H� certas coisas sobre esse servi�o que eu gostaria de perguntar � disse McMurdo. � Suponho que n�o seja atr�s de Jack Knox, de Ironhill, que voc�s estejam. Eu gostaria de v�-lo recebendo o que merece.</p><p>� N�o, n�o � ele ainda.</p><p>� Nem Herman Strauss?</p><p>� N�o � ele tamb�m.</p><p>� Bem, se voc�s n�o querem dizer, n�o podemos obrig�-los, mas eu gostaria de saber.</p><p>Lawler sorriu e sacudiu a cabe�a. Ele n�o diria nada.</p><p>Apesar da reserva dos dois forasteiros, Scanlan e McMurdo estavam decididos a participar do que chamavam brincadeira. Quando, certa manh�, bem cedo ainda, McMurdo os ouviu descendo a escada, acordou Scanlan e os dois se vestiram rapidamente. Quando j� estavam vestidos, viram que os outros j� tinham sa�do e deixado a porta aberta atr�s de si. N�o tinha amanhecido ainda e com a luz das l�mpadas puderam ver os dois homens na rua a uma certa dist�ncia. Eles os seguiram com muita cautela, procurando n�o fazer ru�do ao pisar na neve espessa.</p><p>A pens�o ficava perto do limite da cidade, e logo chegaram ao cruzamento de estradas que ficava pouco depois da divisa. Havia no local tr�s homens � espera, com os quais Lawler e Andrews falaram rapidamente. Depois seguiram todos juntos. Era claro que seria um servi�o dos grandes, que precisava de muita gente. Chegaram a um ponto de onde partiam diversas trilhas que levavam �s v�rias minas. Os forasteiros tomaram o caminho que ia para Crow Hill, uma grande mina que estava em m�os de gente poderosa e que conseguira, gra�as ao en�rgico e destemido gerente da Nova Inglaterra, Josiah H. Dunn, manter alguma ordem e disciplina durante o longo reinado do terror.</p><p>O dia come�ava a raiar agora, e alguns oper�rios caminhavam lentamente para o trabalho, uns em grupos e outros sozinhos, ao longo daquele caminho escuro.</p><p>McMurdo e Scanlan tamb�m caminhavam, com a aten��o voltada para os homens que estavam seguindo. Uma n�voa espessa os envolvia, e em meio � n�voa soou um apito. Era o sinal dado dez minutos antes de os elevadores descerem e o trabalho come�ar.</p><p>Quando chegaram perto da mina, havia uma centena de oper�rios esperando, batendo com os p�s no ch�o e soprando os dedos, pois estava extremamente frio. Os forasteiros pararam ao lado de um grupo � sombra da casa de m�quinas. Scanlan e McMurdo subiram num monturo de lixo, de onde podiam ver tudo abaixo deles com nitidez. Viram o engenheiro da mina, um escoc�s grande e barbudo chamado Menzies, sair da casa de m�quinas e tocar o apito para que o elevador descesse. Nesse instante um jovem alto, de apar�ncia desleixada mas de rosto s�rio e barbeado, avan�ou rapidamente em dire��o � boca da mina. Enquanto andava, seus olhos bateram no grupo, silencioso e im�vel, junto � casa de m�quinas. Eles tinham tirado</p><p>o chap�u e levantado a gola dos casacos para proteger o rosto. Por um instante o pressentimento da morte p�s sua m�o gelada no cora��o do gerente. Mas pouco depois ele tirou esse pensamento da cabe�a e viu a situa��o apenas como a invas�o da �rea de trabalho por estranhos.</p><p>� Quem s�o voc�s? � ele perguntou, enquanto avan�ava em sua dire��o. � O que est�o querendo aqui?</p><p>N�o houve resposta, mas Andrews deu um passo � frente e atirou na barriga do homem. Os oper�rios que estavam esperando a hora de descer ficaram sem a��o e aterrorizados, como se estivessem paralisados. O gerente p�s as duas m�os sobre o ferimento e se curvou. Depois tentou andar, meio cambaleante, mas outro dos assassinos o acertou, e ele caiu de lado no ch�o, batendo em cheio sobre uma pilha de esc�ria de carv�o. Menzies, o escoc�s, deu um grito de raiva ao presenciar essa cena e partiu para cima dos assassinos com uma ferramenta nas m�os, mas foi interceptado por duas balas que lhe atingiram o rosto e o fizeram cair aos p�s dos seus assassinos. Houve uma movimenta��o dos oper�rios em dire��o aos cad�veres e um grito inarticulado de piedade e raiva, mas um dos forasteiros descarregou o rev�lver atirando para o alto, acima da cabe�a da turba, e todos fugiram e se dispersaram, muitos indo para suas casas, em Vermissa. Quando alguns dos mais corajosos se juntaram novamente e voltaram ao servi�o, a quadrilha assassina j� desaparecera na n�voa fria da manh� sem que nenhuma testemunha fosse capaz de reconhecer algum desses homens que cometeram um crime duplo diante de centenas de pessoas.</p><p>Scanlan e McMurdo voltaram para casa, Scanlan um pouco deprimido, pois este fora o primeiro servi�o desse tipo que ele vira com os pr�prios olhos, e lhe parecera menos divertido do que estava acostumado a pensar. Os gritos terr�veis da mulher do gerente morto perseguiam os dois enquanto corriam de volta � cidade. McMurdo estava absorto e calado, mas n�o demonstrou simpatia pela debilidade do companheiro.</p><p>� Na verdade isso � como uma guerra � ele repetia. � O que � isso, sen�o uma guerra entre eles e n�s? E n�s atacamos onde podemos.</p><p>Houve uma grande festa na sala da Loja, no sindicato, naquela noite, n�o s� pelo assassinato do gerente e do engenheiro da Crow Hill, o que colocaria esta empresa na lista de companhias v�timas de extors�o e do terror da regi�o, mas tamb�m devido a uma vit�ria conseguida pela pr�pria Loja. Seria revelado que quando o delegado do condado enviara cinco homens dos bons a Vermissa para executar um servi�o, tinha pedido que, em troca, fossem escolhidos em Vermissa e enviados secretamente tr�s homens para matar William Hales, da Stake Royal, um dos mais conhecidos e populares propriet�rios de minas do distrito de Gilmerton, um homem que, segundo se dizia, n�o tinha um inimigo sequer, porque era, em todos os aspectos, um empregador-modelo. Mas ele insistira na quest�o de efici�ncia no trabalho e tinha, em conseq��ncia disso, demitido alguns empregados beberr�es e outros indolentes que eram membros da todo-poderosa sociedade. Not�cias amea�adoras pregadas na sua porta n�o enfraqueceram sua decis�o e, assim, num pa�s livre e civilizado, ele se viu condenado � morte.</p><p>A execu��o tinha sido agora convenientemente levada a cabo. Ted Baldwin, que se espregui�ava no lugar de honra ao lado do chefe, tinha sido o chefe da opera��o. Seu rosto corado e seus olhos reluzentes e afogueados eram testemunhas da noite passada em claro e da bebida. Ele e seus dois companheiros haviam passado a noite anterior entre as montanhas. Estavam despenteados e sujos. Mas nenhum her�i que voltasse de um servi�o qualquer poderia ter tido uma recep��o mais calorosa dos companheiros. A hist�ria era contada e recontada entre gritos de entusiasmo e gargalhadas ruidosas. Eles haviam esperado a v�tima voltar para casa, ao anoitecer, instalados no alto de uma colina �ngreme onde o cavalo do homem teria de andar lentamente. Ele estava t�o agasalhado para se proteger do frio que n�o conseguiu puxar a arma. Eles o arrancaram do cavalo e atiraram nele v�rias vezes. Ele gritava pedindo miseric�rdia, e os gritos foram repetidos na Loja, para divertimento dos presentes.</p><p>Nenhum deles conhecia o homem, mas h� um drama eterno num assassinato, e eles haviam mostrado aos Scowrers de Gilmerton que os homens de Vermissa eram pessoas confi�veis. Houve um pequeno contratempo, pois enquanto estavam descarregando seus rev�lveres no corpo im�vel, um homem e a esposa passaram por ali. Algu�m sugeriu que matassem o casal tamb�m, mas os dois eram pessoas que n�o ofereciam perigo e que n�o tinham qualquer liga��o com as minas, de modo que foram severamente advertidos de que deveriam seguir e ficar de boca fechada para que algo ruim n�o acontecesse com eles. E ent�o aquela figura coberta de sangue foi deixada ali como um aviso a todos os empregadores implac�veis, e os tr�s vingadores correram para as montanhas, onde a natureza cont�nua se precipita at� as fornalhas e os montes de esc�ria das minas.</p><p>Aquele fora um grande dia para os Scowrers. A noite ca�ra mais negra ainda sobre o vale. Mas assim como o general astuto escolhe o momento da vit�ria para redobrar seus ataques, para que os inimigos n�o possam ter tempo de se organizar depois da derrota, tamb�m o chefe McGinty, observando toda a opera��o com olhos meditativos e maliciosos, pensara em novo ataque contra os que se opunham a ele. Naquela mesma noite, quando os companheiros meio b�bedos foram embora, ele tocou no bra�o de McMurdo e o levou para aquela sala onde conversaram no seu primeiro encontro.</p><p>� Ou�a, meu rapaz � disse ele. � Finalmente tenho um servi�o �timo para voc�. Ter� o comando dele em suas m�os.</p><p>� Fico feliz em ouvir isso � McMurdo respondeu.</p><p>� Pode levar dois homens com voc�: Manders e Reilly. J� foram avisados sobre o servi�o. Nunca ficaremos sossegados por aqui enquanto Chester Wilcox n�o for liquidado. Voc� ter� a gratid�o de todas as lojas da regi�o das minas se conseguir elimin�-lo.</p><p>� Farei o melhor poss�vel. Quem � ele e onde posso encontr�-lo?</p><p>McGinty tirou seu eterno charuto, meio mordido, meio fumado, do canto da boca, e come�ou a desenhar um diagrama tosco numa p�gina arrancada do seu caderninho de anota��es.</p><p>� Ele � o capataz-chefe da Iron Dike Company. � um cara dif�cil, e antigo primeiro-sargento da guerra, cheio de cicatrizes e j� grisalho. Fizemos duas tentativas, mas n�o tivemos sorte, e Jim Carnaway perdeu sua vida assim. Agora � voc� o encarregado. Essa � a casa, isolada no desvio da Iron Dike, como voc� est� vendo aqui no mapa, sem outra por perto. N�o � bom ir l� de dia. Ele anda armado e atira depressa e com precis�o, sem perguntar nada. Mas � noite, aqui est� ele, com a mulher, os tr�s filhos e uma criada. Voc� n�o pode parar para pensar. � tudo ou nada. Se voc� pudesse colocar uma bolsa com p�lvora na porta da frente com um estopim...</p><p>� O que ele fez?</p><p>� Eu n�o lhe disse que ele acertou Jim Carnaway?</p><p>� Por que ele o acertou?</p><p>� O que isso tem a ver com voc�? Carnaway estava perto da casa dele � noite e ele o acertou. Isso basta pra mim e pra voc�. Voc� tem de fazer a coisa direito.</p><p>� E essa mulher e as crian�as... Liquido tamb�m?</p><p>� Tem de ser, porque, do contr�rio, como vamos peg�-lo?</p><p>� Parece injusto com eles, pois n�o fizeram nada de errado.</p><p>� Que conversa � essa? Quer voltar atr�s?</p><p>� Calma, conselheiro, calma. O que eu j� disse ou fiz que pudesse levar o senhor a pensar que desejo voltar atr�s de uma ordem do chefe da minha Loja? O certo e o errado � o senhor quem decide.</p><p>� Voc� faz isso, ent�o?</p><p>� Claro que farei.</p><p>� Quando?</p><p>� Bem, d�-me uma noite ou duas para que eu possa ver a casa e planejar tudo. Ent�o...</p><p>� �timo � disse McGinty, apertando-lhe a m�o. � Deixo por sua conta. Ser� um dia maravilhoso quando voc� vier nos contar a novidade. Ser� o golpe final para que todos se curvem.</p><p>McMurdo pensou longa e profundamente sobre o servi�o que fora confiado a ele t�o de repente. A casa isolada em que Chester Wilcox morava ficava a cerca de 5 milhas, num vale vizinho. Naquela mesma noite come�ou a preparar sozinho o ataque. J� era dia quando voltou do reconhecimento do lugar. No dia seguinte conversou com seus dois subordinados, Manders e Reilly, jovens impetuosos que estavam t�o excitados como se fossem a uma ca�ada. Duas noites depois encontraram-se fora da cidade, todos armados, e um deles carregando um saco com a p�lvora usada nas minas. Eram duas horas quando chegaram � casa isolada. Ventava muito, e as nuvens passavam rapidamente diante da lua em quarto crescente. Eles haviam sido advertidos para ficarem atentos a emboscadas, de modo que caminhavam cautelosamente, com as armas nas m�os. Mas n�o havia nenhum ru�do, a n�o ser o lamento do vento, e tamb�m n�o havia movimento algum a n�o ser o balan�o dos galhos acima deles. McMurdo foi at� a porta da casa e ficou escutando, mas estava tudo quieto l� dentro. Ent�o ele p�s o saco de p�lvora junto � porta, fez um furo nele com sua faca e colocou o estopim. Quando ficou bem aceso, ele e os dois companheiros sa�ram correndo, e estavam a uma dist�ncia segura, abrigados numa vala, antes que o barulho da explos�o lhes dissesse que o trabalho estava terminado. Nenhum servi�o mais limpo constava dos registros sangrentos da sociedade. Mas todo aquele trabalho t�o bem organizado e audaciosamente executado fora em v�o! Advertido pelo destino de v�rias v�timas, e sabendo que estava marcado para morrer, Chester Wilcox mudara-se com a fam�lia no dia anterior, para um lugar mais seguro e menos conhecido, onde um grupo de policiais tomava conta da casa. Fora uma casa vazia que explodira, e o inflex�vel ex-primeiro-sargento da guerra ainda estava ensinando disciplina aos mineiros da Iron Dike.</p><p>� Deixe-o pra mim � disse McMurdo. � Ele � meu e vou peg�-lo, nem que espere um ano.</p><p>Um voto de agradecimento e confian�a foi aprovado por toda a Loja, e por ora o assunto estava encerrado. Quando, algumas semanas depois, foi noticiado nos jornais que Wilcox morrera numa emboscada, n�o era segredo para ningu�m que McMurdo ainda estava em atividade para acabar o que havia come�ado.</p><p>Eram esses os m�todos da Sociedade dos Homens Livres, e esses os feitos dos Scowrers, por meio dos quais espalhavam o medo naquele distrito grande e rico que por muito tempo foi dominado pela sua terr�vel presen�a. Por que macular estas p�ginas com outros crimes? Eu j� n�o disse o suficiente para mostrar quem eram esses homens e seus m�todos? Esses fatos fazem parte da Hist�ria e h� registros nos quais podem ser lidos os detalhes. Nesses registros pode-se ler sobre o assassinato dos policiais Hunt e Evans porque se atreveram a prender dois membros da sociedade � uma viol�ncia dupla planejada na Loja de Vermissa, e executada a sangue-frio contra dois homens desarmados e indefesos. Pode-se ler tamb�m sobre a morte da sra. Larbey enquanto cuidava do marido, que fora espancado quase at� a morte por ordem do chefe McGinty. A morte do velho Jenkins, seguida pouco depois pela morte do seu irm�o, a mutila��o de James Murdoch, a explos�o da casa da fam�lia Staphouse e o assassinato dos Stendals ocorreram numa sucess�o b�rbara, todos no mesmo inverno terr�vel. A primavera chegara com riachos de �guas agitadas e flores desabrochando. Havia esperan�a em toda a Natureza, mantida por tanto tempo aprisionada; mas n�o havia nenhuma esperan�a para os homens e as mulheres que viviam sob o jugo do terror. Nunca a nuvem que os cobria estivera t�o carregada e sem esperan�a de dissipa��o como no in�cio do ver�o do ano de 1875.</p><empty-line/></section><section><p><strong>Perigo</strong></p><empty-line/><p>Era o auge do imp�rio do terror. McMurdo, que j� fora indicado como l�der, com muita possibilidade de vir um dia a suceder McGinty como chefe, era agora t�o necess�rio nas reuni�es que nada era feito sem sua ajuda e aconselhamento. Por�m, quanto mais popular ele ficava entre os Homens Livres, mais fechadas eram as fisionomias dos que o cumprimentavam nas ruas de Vermissa. Apesar do terror que sentiam, as pessoas estavam tomando coragem para se unir contra seus opressores. Havia rumores sobre reuni�es secretas na reda��o do Herald e sobre distribui��o de armas de fogo entre os cidad�os. Mas McMurdo e seus homens n�o se deixavam perturbar por essas informa��es. Eles eram muitos, decididos e bem armados. Seus advers�rios estavam dispersos e sem for�a. Tudo isso terminaria, como j� acontecera no passado, em conversa fiada e possivelmente em pris�es in�teis. Foi o que disseram McGinty, McMurdo e todos os valent�es.</p><p>Era uma noite de s�bado em maio. S�bado era sempre a noite da Loja, e McMurdo estava saindo de casa para ir at� l� quando Morris, o irm�o mais fr�gil da Ordem, veio v�-lo. Sua fronte estava cheia de rugas de preocupa��o e sua fisionomia agrad�vel estava transtornada e desfigurada.</p><p>� Posso falar francamente, sr. McMurdo?</p><p>� Claro.</p><p>� N�o posso esquecer que uma vez eu lhe abri meu cora��o e que o senhor guardou tudo para si, embora o chefe tenha lhe perguntado sobre nossa conversa.</p><p>� O que mais eu poderia fazer se o senhor confiou em mim? N�o quer dizer que eu tivesse concordado com o que me disse.</p><p>� Eu sei disso. Mas o senhor � uma pessoa com a qual posso falar e me sentir seguro. Tenho um segredo aqui � p�s a m�o sobre o peito � e isso est� acabando com a minha vida. Eu desejaria que isso tivesse acontecido com qualquer um de voc�s, menos comigo. Se eu contar o que �, significar� morte, certamente. Se n�o disser nada, pode ser o fim de todos n�s. Que Deus me ajude. Estou quase perdendo a cabe�a.</p><p>McMurdo olhou para o homem com seriedade. Ele estava tremendo. Despejou um pouco de u�sque num copo e entregou ao outro.</p><p>� Esse � o seu melhor rem�dio � ele disse. � Agora, fale.</p><p>Morris bebeu e seu rosto p�lido ganhou um pouco de cor.</p><p>� Posso contar-lhes tudo numa frase � ele disse. � H� um detetive atr�s de n�s.</p><p>McMurdo olhou para ele, espantado.</p><p>� O qu�? Est� louco � disse ele. � Por aqui n�o est� cheio de policiais e detetives? E que mal eles j� nos fizeram?</p><p>� N�o, n�o. N�o � um homem daqui. Como o senhor disse, n�s os conhecemos e eles podem fazer muito pouco. Mas j� ouviu falar no pessoal de Pinkerton?</p><p>� J� ouvi algumas pessoas falarem nesse nome.</p><p>� Acredite-me, nunca se sabe quando um deles est� atr�s da gente. N�o � algo que se possa escolher. � uma coisa que, uma vez come�ada, n�o p�ra mais at� que, de um modo ou de outro, esteja terminada. Se um homem de Pinkerton estiver mesmo nisso, todos n�s estaremos destru�dos.</p><p>� Temos de mat�-lo.</p><p>� Ah, � a primeira id�ia que lhe ocorre! Ser� tamb�m o pensamento de todos os da Loja. Eu n�o disse que isso tudo iria terminar em assassinato?</p><p>� Qual o problema quanto a assassinato? N�o � uma coisa bastante comum por aqui?</p><p>� Na verdade �, mas n�o cabe a mim apontar o homem que deve morrer. Eu, se fizesse isso, nunca mais teria sossego. Entretanto, s�o as nossas cabe�as que poder�o rolar. Em nome de Deus, o que devo fazer? � ele andava de um lado para outro em meio � agonia da indecis�o.</p><p>Mas suas palavras haviam tocado McMurdo bem fundo. Era f�cil ver que concordava com a opini�o do outro quanto ao perigo e quanto � necessidade de enfrent�-lo. Ele apertou o ombro de Morris e o sacudiu em sua agita��o.</p><p>� Olha aqui, homem � exclamou, exaltado � o senhor n�o ganhar� nada ficando sentado e se lamentando feito uma beata de igreja. Vamos aos fatos. Quem � o sujeito? Onde est�? Como ficou sabendo a respeito dele? Por que veio falar comigo?</p><p>� Vim porque o senhor � o �nico homem que pode me aconselhar. Eu lhe disse que tinha uma loja no Leste antes de vir pra c�. Deixei bons amigos por l�, e um deles trabalha no servi�o telegr�fico. Aqui est� uma carta que recebi dele ontem. Est� na parte de cima da folha. O senhor mesmo pode ler.</p><p>Foi isso que McMurdo leu:</p><empty-line/><p>Como est�o os Scowrers por a�? Lemos muita coisa sobre eles nos jornais. Espero receber not�cias suas em breve. Cinco grandes corpora��es e duas ferrovias est�o decididas a levar o neg�cio a s�rio. Pode apostar que conseguir�o. Est�o decididas mesmo. Pinkerton est� cuidando do caso e seu melhor homem, Birdy Edwards, est� agindo. A coisa vai acabar n�o demora muito.</p><empty-line/><p>Agora leia o P.S.</p><empty-line/><p>� claro que o que escrevi foi o que ouvi no servi�o, de modo que n�o � totalmente garantido. � um c�digo estranho com o qual se lida todos os dias e muita coisa n�o d� pra entender.</p><empty-line/><p>McMurdo ficou sentado em sil�ncio durante algum tempo com a carta em suas m�os ind�ceis. A n�voa se dissipara por um instante e ali estava o abismo diante dele.</p><p>� Mais algu�m sabe disso? � ele perguntou.</p><p>� N�o contei a mais ningu�m.</p><p>� Mas esse homem, o seu amigo, teria outra pessoa a quem provavelmente escreveria?</p><p>� Bem, ele conhece mais um ou dois sujeitos.</p><p>� Da Loja?</p><p>� � bem prov�vel.</p><p>� Eu perguntei porque � prov�vel que ele tenha dado alguma descri��o desse sujeito, Birdy Edwards. Ent�o poder�amos procur�-lo.</p><p>� Bem, � poss�vel. Mas acho que ele n�o o conhece. Ele estava apenas me contando as novidades que lhe chegam devido ao seu servi�o. Como ele poderia conhecer esse homem de Pinkerton?</p><p>McMurdo teve um s�bito estalo.</p><p>� Puxa! � gritou. � Eu o conhe�o. Que bobo fui por n�o me lembrar! Meu Deus, que sorte! Vou cuidar disso sozinho, como se a carta tivesse chegado pra mim. Est� bom assim?</p><p>� � tudo que eu pediria.</p><p>� Ent�o deixe tudo como est� e fique calado. Agora vou at� a Loja e logo, o velho Pinkerton se arrepender� de tudo isso.</p><p>� O senhor o mataria?</p><p>� Quanto menos souber, amigo Morris, mais tranq�ila ficar� sua consci�ncia e melhor o senhor dormir�. N�o fa�a perguntas e deixe as coisas correrem. Eu estou cuidando do caso agora.</p><p>Morris sacudiu a cabe�a com tristeza enquanto sa�a.</p><p>� Sinto que o sangue dele est� nas minhas m�os � disse num resmungo.</p><p>� Autodefesa n�o � assassinato � disse McMurdo, rindo de um jeito sinistro. � � ele ou n�s. Acho que esse cara nos destruiria se o deix�ssemos ficar no vale por algum tempo. Ora, Irm�o Morris, ainda temos que eleg�-lo chefe da Loja, pois o senhor com certeza a salvou.</p><p>Mas estava claro, pela sua atitude, que ele pensava mais seriamente nesta nova intromiss�o do que suas palavras deixavam transparecer. Pode ter sido sua consci�ncia culpada; pode ter sido a fama da organiza��o de Pinkerton; pode ter sido a not�cia de que corpora��es grandes e ricas haviam assumido a tarefa de acabar com os Scowrers; mas qualquer que tenha sido o motivo, sua atitude era a de um homem se preparando para o pior. Todos os pap�is que pudessem incrimin�-lo foram destru�dos antes que sa�sse de casa. Depois disso, deu um longo suspiro de al�vio, pois tinha a impress�o de estar seguro. Mesmo assim o perigo devia estar t�o presente em sua mente que a caminho da Loja passou na casa de Shafter. A entrada dele estava proibida, mas quando bateu na janela, Ettie saiu para encontr�-lo. O ar travesso desaparecera dos seus olhos irrequietos de amante dedicada. Ela viu a mensagem do perigo no rosto s�rio dele.</p><p>� Aconteceu alguma coisa! � ela exclamou. � Oh, Jack, voc� est� em perigo!</p><p>� Sim, mas n�o � muito s�rio, querida. Mesmo assim, � melhor mudar antes que as coisas fiquem piores.</p><p>� Mudar!</p><p>� Prometi a voc� que um dia eu iria. Acho que chegou a hora. Recebi certas not�cias esta noite, m�s not�cias e acho que haver� encrencas s�rias por aqui.</p><p>� A pol�cia?</p><p>� Bem, Pinkerton. Mas voc� n�o deve saber o que � isso nem o que possa significar. Estou muito envolvido nisso tudo e posso ter que cair fora bem depressa. Voc� disse que iria comigo se eu fosse embora.</p><p>� Oh, Jack, seria a sua salva��o.</p><p>� Sou um homem honesto em algumas coisas, Ettie. Eu n�o tocaria num fio do seu cabelo que fosse por nada nesse mundo, nem tiraria voc� um cent�metro que fosse do trono de ouro sobre as nuvens em que sempre a vi. Voc� confia em mim?</p><p>Ela segurou a m�o dele sem dizer nada.</p><p>� Ent�o escute o que vou dizer e fa�a tudo da maneira que eu mandar, pois � nossa �nica sa�da. V�o acontecer coisas neste vale. Sinto isso nos meus ossos. Pode haver muita gente atr�s de n�s. Mas eu sou um s�. Se eu for embora, de dia ou � noite, voc� ter� de ir comigo.</p><p>� Eu vou atr�s de voc�, Jack.</p><p>� N�o, n�o. Voc� deve ir comigo. Se esse vale se fechar pra mim e eu n�o puder voltar mais, como posso deix�-la aqui, talvez tendo que me esconder da pol�cia sem uma possibilidade de enviar uma mensagem a voc�? Conhe�o uma boa senhora no lugar de onde eu vim, e � l� que deixarei voc� at� que possamos nos casar. Voc� vem?</p><p>� Sim, Jack, eu irei.</p><p>� Deus a aben�oe por confiar em mim. Que o fogo do inferno me queime se eu n�o fizer o que prometo. Agora veja bem, Ettie, direi apenas uma palavra a voc�, e quando receber o recado, deixe tudo e v� para o sagu�o da esta��o da ferrovia e me espere at� que v� me encontrar com voc�.</p><p>� Seja dia ou noite, atenderei o seu chamado, Jack.</p><p>Um pouco mais tranq�ilo, agora que j� come�ara a se preparar para fugir, McMurdo seguiu para a Loja. J� estavam todos reunidos, e somente depois de fazer complicados sinais e contra-sinais ele conseguiu passar pelos vigias externos e internos que protegiam os membros da sociedade. Um murm�rio de satisfa��o e de boas-vindas o saudou quando entrou. A grande sala estava lotada, e atrav�s da fuma�a dos cigarros ele viu a cabeleira preta e emaranhada do chefe, a fisionomia hostil de Baldwin, a cara de abutre de Harraway, o secret�rio, e o rosto de mais alguns que estavam entre os l�deres da Loja. Ele gostou que estivessem todos ali para tomar conhecimento das novidades.</p><p>� De fato ficamos contentes com a sua presen�a, irm�o! � exclamou o presidente. � H� certas coisas aqui que precisam de um Salom�o para julg�-las convenientemente.</p><p>� O caso � Lander e Egan � explicou o homem ao seu lado, enquanto ele se sentava. � Os dois reclamam o direito de receber o dinheiro que a Loja vai dar pela morte do velho Crabbe em Stylestown. Mas quem pode dizer qual deles acertou o tiro que matou o velho?</p><p>McMurdo levantou-se e fez sinal com a m�o, pedindo a palavra. A express�o do seu rosto deixou todos atentos. Em sil�ncio, esperaram as palavras dele.</p><p>� Vener�vel Chefe � ele disse num tom solene � tenho um assunto urgente.</p><p>� O Irm�o McMurdo pede urg�ncia � disse McGinty. � � um pedido que, pelas regras da Loja, tem prioridade. Pode falar, irm�o.</p><p>� Vener�vel Chefe e companheiros � disse ele � sou portador de m�s not�cias, mas � melhor que elas sejam anunciadas e discutidas, do que recebermos um golpe sem aviso, o que nos destruiria. Tenho informa��es de que as organiza��es mais poderosas e mais ricas deste Estado uniram suas for�as para nos destruir, e que neste exato momento h� um detetive de Pinkerton, um sujeito chamado Birdy Edwards, trabalhando aqui no vale e recolhendo provas que possam colocar uma corda em volta do pesco�o de muitos de n�s e mandar todos os que est�o nesta sala para uma cela. Esta � a situa��o a ser discutida e para a qual pedi urg�ncia.</p><p>Houve um sil�ncio absoluto na sala. Que foi quebrado pelo presidente.</p><p>� Qual a prova disso, Irm�o McMurdo? � perguntou.</p><p>� Est� na carta que recebi � disse McMurdo. Ele leu o trecho em voz alta. � � uma quest�o de honra para mim n�o dar maiores detalhes sobre a carta, nem pass�-la �s suas m�os, mas garanto que n�o h� mais nada nela que seja do interesse da Loja. Apresento o caso a� voc�s do modo como me foi exposto.</p><p>� Sr. presidente � disse um dos membros mais velhos � j� ouvi falar em Birdy Edwards e que ele tem a fama de ser o melhor homem do servi�o de Pinkerton.</p><p>� Algu�m j� o viu? � perguntou McGinty.</p><p>� Sim � disse McMurdo �, eu j� o vi.</p><p>Houve um murm�rio de perplexidade na sala.</p><p>� Acho que o temos na palma da m�o � ele continuou, com um sorriso de satisfa��o. � Se agirmos bem depressa e de forma inteligente, podemos acabar logo com isso. Se eu merecer sua confian�a e sua ajuda, teremos pouco a temer.</p><p>� O que temos a temer? O que ele pode saber a respeito das nossas atividades?</p><p>� O senhor poderia dizer isso se todos n�s f�ssemos �ntegros como o senhor, conselheiro. Mas esse sujeito tem todos os milh�es dos capitalistas a apoi�-lo. O senhor acha que n�o existe um irm�o mais fraco que possa ser comprado? Assim ele conhecer� nossos segredos. Talvez j� os tenha. S� h� um rem�dio.</p><p>� Que ele jamais saia do vale � disse Baldwin.</p><p>McMurdo assentiu.</p><p>� Certo, Irm�o Baldwin � disse ele. � Voc� e eu tivemos umas diferen�as, mas esta noite voc� disse a palavra certa.</p><p>� Onde ele est�? Onde podemos v�-lo?</p><p>� Vener�vel Chefe � disse McMurdo com veem�ncia � acredito que este assunto seja importante demais para ser discutido por toda a Loja. Deus me livre de duvidar de algum dos presentes, mas se chegar alguma coisa aos ouvidos desse sujeito, acabariam todas as nossas possibilidades de agarr�-lo. Eu sugiro que a Loja eleja uma comiss�o pequena, sr. presidente. O senhor, se me permite sugerir, o Irm�o Baldwin e mais cinco membros. Ent�o poderei falar abertamente sobre o que eu sei e sobre o que penso que deve ser feito.</p><p>A proposta foi aceita imediatamente e a comiss�o escolhida. Al�m do presidente e de Baldwin, foram escolhidos o secret�rio com cara de abutre, Harraway; Tigre Cormac, o jovem e brutal assassino; Carter, o tesoureiro, e os irm�os Willaby, que eram homens destemidos e arrebatados que n�o rejeitariam nada.</p><p>A festan�a habitual na Loja foi r�pida e sem muita euforia, pois havia uma nuvem pairando sobre a cabe�a daqueles homens, e muitos ali come�avam a ver pela primeira vez a nuvem vingadora da lei formando-se naquele c�u t�o sereno sob o qual eles haviam se abrigado por tanto tempo. O terror que eles haviam imposto aos outros estivera sempre t�o afastado de suas vidas que a id�ia de desforra passara a ser algo muito remoto, e por isso parecia t�o alarmante agora que estava bem perto deles. Eles foram embora cedo e deixaram seus l�deres resolver a situa��o.</p><p>� Agora, McMurdo � disse McGinty quando ficaram sozinhos. Os sete homens estavam sentados im�veis em seus lugares.</p><p>� Eu disse h� pouco que conhecia Birdy Edwards � McMurdo explicou. � N�o preciso dizer que ele n�o est� aqui com esse nome. Ele � um homem valente, mas n�o � louco. Ele est� aqui com o nome de Steve Wilson, e est� hospedado em Hobson�s Patch.</p><p>� Como sabe disso?</p><p>� Porque conversei com ele. N�o dei muita import�ncia ao fato na �poca, nem pensaria mais nisso se n�o fosse a carta. Mas agora tenho certeza de que � ele. Eu o encontrei quarta-feira. Ele seria uma parada se tiv�ssemos de enfrent�-lo. Disse que era jornalista e que fazia a pesquisa para um jornal de Nova York. Por um instante eu acreditei. Ele queria saber tudo sobre os Scowrers e sobre o que ele chamou �os ultrajes�. Ele me fez todos os tipos de perguntas, dizendo que eram para o jornal dele. Acreditem que eu n�o contei nada. �Posso pagar pela informa��o�, ele disse. �E pago bem se conseguir um material que agrade ao meu editor.� Eu disse que achava poder lhe dizer algo muito bom e ele me deu uma nota de 20 d�lares pela informa��o. �Voc� ter� dez vezes isso a�, disse ele, �se puder me contar tudo que eu desejo.�</p><p>� O que voc� contou a ele?</p><p>� Alguma coisa que inventei.</p><p>� Como sabe que ele n�o era mesmo um jornalista?</p><p>� Vou contar. Ele desceu em Hobson�s Patch e eu tamb�m. Por acaso entrei no escrit�rio do tel�grafo e ele estava saindo de l�.</p><p>� �Veja isso�, disse o operador, depois que ele saiu. �Acho que dev�amos cobrar o dobro por isso.� �Acho que sim�,� eu disse. Ele tinha preenchido o formul�rio com algo que parecia letra chinesa. �Ele despacha um neg�cio assim todos os dias�, disse o funcion�rio. �Sim�, disse eu. �Deve ser uma not�cia especial para o jornal dele, e ele est� com medo que outros copiem.� Foi isso que o operador pensou e que eu pensei naquele dia. Mas agora penso diferente.</p><p>� Puxa, acho que voc� est� certo! � disse McGinty. � Mas o que acha que devemos fazer em rela��o a isso?</p><p>� Por que n�o sairmos agora mesmo e agarr�-lo? � algu�m sugeriu.</p><p>� Ah, quanto antes, melhor.</p><p>� Eu iria agora mesmo se soubesse onde encontr�-lo � disse McMurdo. � Ele est� em Hobson�s Patch, mas n�o sei em que casa. Tenho um plano, para o caso de aceitarem meu conselho.</p><p>� E que plano � esse?</p><p>� Vou at� l� amanh� de manh� descobrir com o operador onde ele est�. Acho que ele saber� como localiz�-lo. Bem, ent�o digo a ele que sou um dos Homens Livres. Ofere�o todos os segredos da Loja por um certo pre�o. Podem acreditar que ele cair� nessa. Vou dizer que os pap�is est�o na minha casa e que seria conveniente que ele fosse at� l� enquanto as pessoas estiverem fora. Marcamos para as dez da noite e ele v� tudo. Isso vai atra�-lo, n�o?</p><p>� E da�?</p><p>� Voc�s podem planejar o resto. A casa da vi�va MacNamara � uma casa afastada. Ela � confi�vel como o a�o e surda como um poste. Apenas Scanlan e eu estaremos l�. Se eu conseguir que ele v� � eu o informarei se ele prometer ir �, voc�s sete chegariam �s nove horas. Vamos peg�-lo. Se por acaso ele sair vivo, ele poder� falar que Birdy Edwards � realmente um cara de muita sorte.</p><p>� Ou eu muito me engano ou haver� uma vaga no grupo de Pinkerton � disse McGinty. � Fica acertado assim, McMurdo. Amanh�, �s nove, estaremos l� com voc�. Depois que ele entrar e voc� fechar a porta, deixe o resto por nossa conta.</p><empty-line/></section><section><p><strong>A Armadilha para Birdy Edwards</strong></p><p>Como McMurdo havia dito, a casa em que ele morava era isolada e muito conveniente para um crime como o que eles haviam planejado. Ficava no extremo da cidade e bem afastada da estrada. Em qualquer outra situa��o, os conspiradores teriam simplesmente chamado o seu homem, como j� haviam feito muitas vezes antes, e descarregado as armas em seu corpo; mas neste caso era preciso descobrir o quanto ele sabia, como ficara sabendo e o que fora transmitido aos patr�es dele. Era poss�vel que estivessem atrasados demais e que o servi�o j� tivesse sido feito. Se fosse este o caso, eles pelo menos poderiam se vingar do homem que fizera isso. Mas tinham esperan�a de que nada de muito importante tivesse chegado ao conhecimento do detetive, pois, do contr�rio � argumentavam �, ele n�o teria se preocupado em passar aquelas informa��es banais que McMurdo dissera ter-lhe dado. Mas tudo isso eles ouviriam dos l�bios dele. Quando estivesse em</p><p>seu poder, eles encontrariam uma maneira de faz�-lo falar. N�o era a primeira vez que lidavam com uma testemunha indesej�vel.</p><p>McMurdo foi para Hobson�s Patch, como ficara combinado. A pol�cia parecia estar especialmente interessada nele naquela manh�, e o capit�o Marvin � que dissera conhec�-lo h� muito tempo de Chicago � realmente dirigiu-se a ele enquanto esperava na esta��o ferrovi�ria. McMurdo afastou-se e se recusou a falar com o capit�o. Ele voltou da sua miss�o � tarde e encontrou-se com McGinty no sindicato.</p><p>� Ele vem a� � disse.</p><p>� �timo! � aprovou McGinty. O gigante estava em mangas de camisa, com as correntes e emblemas brilhando no peito por cima do seu enorme colete e um diamante cintilando abaixo da barba eri�ada. A bebida e a pol�tica haviam feito do conselheiro um homem muito rico, al�m de poderoso. O mais terr�vel de tudo, portanto, era a possibilidade de cadeia ou de forca que fora mencionada na noite anterior.</p><p>� Voc� acha que ele sabe de muita coisa? � perguntou, ansioso.</p><p>McMurdo sacudiu a cabe�a com pesar.</p><p>� Ele j� est� por aqui h� algum tempo. Pelo menos h� seis semanas. Acho que n�o veio at� aqui para ver a paisagem. Se trabalhou entre n�s durante todo esse tempo com o apoio do dinheiro das ferrovias, deve-se esperar que tenha conseguido algum resultado, e que tenha passado isso adiante.</p><p>� N�o h� nenhum homem fraco na Loja! � gritou McGinty. � S�o todos exemplares. Mesmo assim, ah, meu Deus!, existe aquele pulha do Morris. O que acha dele? Se algum homem tiver que trair a Loja, certamente ser� ele. Estou pensando em mandar dois rapazes at� a casa dele antes de anoitecer para lhe dar uma surra e ver o que conseguem dele.</p><p>� Bem, n�o haveria mal nenhum nisso � disse McMurdo. � N�o vou negar que gosto de Morris e lamentaria se algum mal lhe acontecesse. Uma vez ou duas ele falou comigo sobre assuntos da Loja, e embora n�o pare�a encar�-lo do mesmo modo que n�s, nunca achei que fosse do tipo que delata. Mas n�o quero me interpor entre o senhor e ele.</p><p>� Vou pegar esse velho idiota � disse McGinty, praguejando. � Estou de olho nele desde o ano passado.</p><p>� Bem, o senhor sabe mais sobre isso � disse McMurdo. � Mas, seja l� o que o senhor for fazer, tem de ser amanh�, porque precisamos ficar fora de circula��o at� que o caso Pinkerton esteja resolvido. N�o podemos deixar que a pol�cia nos perturbe hoje.</p><p>� � verdade � disse McGinty. � E vamos saber com Birdy Edwards onde ele obteve as informa��es, nem que ele perca as tripas. Ser� que ele percebeu que era uma armadilha?</p><p>McMurdo riu.</p><p>� Acho que eu o peguei pelo ponto fraco � ele disse. � Se ele tiver uma boa pista sobre os Scowrers, � capaz de segui-la at� o inferno. Peguei o dinheiro dele � McMurdo sorria enquanto mostrava um ma�o de notas. � E muito mais depois que eu lhe mostrar meus pap�is.</p><p>� Que pap�is?</p><p>� Bem, n�o h� papel nenhum. Mas eu disse que havia estatutos e livros de normas para os membros. Ele espera resolver tudo antes de ir embora.</p><p>� Que confian�a! � disse McGinty de modo sinistro. � Ele n�o perguntou por que voc� n�o levava os pap�is at� ele?</p><p>� Como se eu pudesse andar por a� com coisas desse tipo. Sou um homem suspeito, ainda mais depois que o capit�o Marvin falou comigo hoje de manh� na esta��o!</p><p>� Ah, eu fiquei sabendo � disse McGinty. � Acho que a culpa disso ir� recair sobre voc�. Podemos coloc�-lo numa velha mina depois de elimin�-lo, mas, de qualquer modo, n�o podemos nos aproximar do homem que mora em Hobson�s Patch, j� que voc� esteve hoje l�.</p><p>McMurdo deu de ombros.</p><p>� Se fizermos tudo direito, nunca poder�o provar que houve assassinato � disse ele. � Ningu�m poder� v�-lo vindo para a casa depois que escurecer e vou dar um jeito para que ningu�m o veja ir. Agora, conselheiro, vou mostrar-lhe meu plano e pe�o que o senhor passe para os outros. Voc�s chegam antes. Muito bem. Ele chega �s dez horas. Vai bater tr�s vezes para que eu abra a porta. Ent�o fico atr�s dele e fecho a porta. A� ele � nosso.</p><p>� Tudo muito f�cil e claro.</p><p>� Sim, mas o passo seguinte precisa de reflex�o. Ele est� bem armado. Eu o enganei, mas, mesmo assim, � prov�vel que esteja alerta. Suponha que eu o leve a um quarto onde estejam sete homens, quando ele esperava me encontrar sozinho. Haver� tiroteio e algu�m vai se machucar.</p><p>� � verdade.</p><p>� E o barulho far� com que todos os guardas da cidade caiam sobre n�s.</p><p>� Acho que voc� est� certo.</p><p>� � assim que devo pensar. Voc�s todos ficar�o no sal�o � aquele que o senhor viu quando foi falar comigo. Vou abrir a porta para ele, levo-o para a outra sala e deixo-o ali enquanto vou apanhar os pap�is. Isso me dar� oportunidade de lhes dizer como est�o as coisas. Depois volto para onde ele est� com alguns pap�is falsos. Enquanto estiver lendo, eu pulo em cima dele e pego sua arma. Voc�s ouvem o meu chamado e correm. Quanto mais r�pido, melhor, pois ele � forte como eu e pode ser dif�cil de controlar. Mas acho que posso segur�-lo at� voc�s chegarem.</p><p>� � um bom plano � disse McGinty. � A Loja ficar� em d�vida com voc� por isso. Acho que quando eu deixar este posto poderia indicar o homem que me suceder�.</p><p>� Bem, conselheiro, sou pouco mais que um recruta � disse McMurdo, mas seu rosto mostrava o que ele pensava do cumprimento do grande homem.</p><p>Quando voltou para casa, fez seus preparativos para a noite dif�cil que teria pela frente. Primeiramente limpou, lubrificou e carregou sua Smith Wesson. Depois examinou a sala em que o detetive seria pego na armadilha. Era um c�modo grande, com uma mesa comprida no centro e o grande fog�o num canto. Em cada um dos lados havia uma janela. N�o havia postigos, apenas cortinas leves que corriam para os lados. McMurdo examinou-as atentamente. Sem d�vida deve ter-lhe ocorrido que o apartamento era muito devassado para um assunto t�o secreto. Mas sua dist�ncia da estrada compensava essa desvantagem. Finalmente ele discutiu o assunto com o outro inquilino. Scanlan, embora fosse um Scowrer, era um homenzinho inofensivo, fraco demais para se opor � opini�o dos seus companheiros, mas ficava secretamente horrorizado com os atos sanguin�rios que algumas vezes fora obrigado a assistir. McMurdo contou-lhe resumidamente o que iria acontecer.</p><p>� E se eu fosse voc�, Mike Scanlan, passaria a noite longe, e fora de tudo isso. Vai correr muito sangue por aqui antes de amanhecer.</p><p>� Na verdade, Mac � Scanlan disse �, n�o � a vontade que manda em mim, e sim os nervos. Quando eu vi o gerente Dunn cair l� na mina de carv�o, foi demais pra mim. N�o fui feito pra isso. N�o sou como voc� ou McGinty. Se a Loja n�o for pensar mal de mim, farei como voc� disse. E sairei quando anoitecer.</p><p>Os homens chegaram na hora certa, como combinado. Eles eram aparentemente cidad�os respeit�veis, bem-vestidos e limpos, mas um bom conhecedor de fisionomias veria facilmente naquelas bocas e olhos implac�veis que havia poucas esperan�as para Birdy Edwards. N�o havia um homem naquela sala cujas m�os j� n�o tivessem ficado ensang�entadas antes. Eles eram t�o insens�veis para assassinatos quanto um a�ougueiro para desossar um boi. Em primeiro lugar, tanto em apar�ncia quanto em culpa, estava o terr�vel chefe. Harraway, o secret�rio, era um homem magro, mordaz, com um pesco�o longo e fino e os membros irrequietos, nervosos � um homem de incorrupt�vel fidelidade no que se referia �s finan�as da Ordem, e sem no��o alguma de justi�a ou honestidade em rela��o �s outras pessoas. O tesoureiro, Carter, era um homem de meia-idade com um ar impass�vel, bastante rabugento, com uma pele amarelada feito pergaminho. Ele era um organizador competente, e todos os detalhes de cada ataque sa�am de seu c�rebro conspirador. Os dois Willabys eram homens de a��o, jovens altos e �geis, de rostos determinados, enquanto que seu companheiro, Tigre Cormac, um jovem moreno e pesad�o, era temido at� por seus pr�prios camaradas pela ferocidade de seu temperamento. Eram esses os homens reunidos aquela noite sob o teto de McMurdo para o assassinato do detetive de Pinkerton.</p><p>O anfitri�o pusera uma garrafa de u�sque na mesa e eles se apressavam em se embebedar antes do servi�o que tinham pela frente. Baldwin e Cormac j� estavam meio b�bados, e o �lcool despertara toda a ferocidade deles. Cormac p�s as m�os sobre a lareira por um instante � ela estava acesa, porque as noites de primavera ainda eram geladas.</p><p>� Vamos peg�-lo � disse ele.</p><p>� � � comentou Baldwin, ansioso. � Se ele for tratado direitinho, falar� tudo.</p><p>� Ele falar� tudo, n�o se preocupe � disse McMurdo. Ele tinha nervos de a�o, pois, embora toda a responsabilidade do caso fosse dele, seu jeito era frio e despreocupado como sempre. Os outros notaram isso e o cumprimentaram.</p><p>� Voc� � o cara certo para lidar com ele � disse o chefe, de modo aprovador. � Ele n�o perceber� nada at� que voc� esteja com as m�os em seu pesco�o. � uma pena que suas janelas n�o tenham persianas.</p><p>McMurdo puxou as cortinas das duas janelas.</p><p>� Bem, ningu�m pode nos ver aqui dentro agora. Est� quase na hora.</p><p>� Talvez ele n�o venha. Talvez sinta cheiro de perigo � disse o secret�rio.</p><p>� Ele vir�, n�o se preocupem � disse McMurdo. � Ele est� t�o ansioso para vir quanto voc�s para v�-lo. Ou�am!</p><p>Todos se sentaram como bonecos de cera, alguns com os copos no ar a caminho da boca. Ouviram tr�s batidas fortes na porta.</p><p>� Sil�ncio!</p><p>McMurdo levantou a m�o em sinal de advert�ncia. Um olhar de j�bilo surgiu em todos do grupo e eles puseram as m�os nas armas ocultas.</p><p>� N�o fa�am barulho! � McMurdo sussurrou enquanto sa�a da sala, fechando a porta com cuidado.</p><p>Os assassinos esperavam com o ouvido atento. Contaram os passos do companheiro at� a porta. Depois ouviram quando ele abriu a porta. Houve algumas palavras de sauda��o. Depois ouviram uma outra pessoa andando na casa, e a voz de um estranho. Um instante depois ouviu-se a batida da porta e em seguida o ru�do da chave girando na fechadura. A presa estava segura na armadilha. Tigre Cormac deu uma risada alta e o chefe McGinty bateu na boca do outro com a sua m�o grande.</p><p>� Fique quieto, est�pido! � ele sussurrou. � Voc� ainda vai estragar tudo.</p><p>Ouviu-se um murm�rio de conversa vindo da sala ao lado. Parecia uma conversa intermin�vel. Depois a porta se abriu e McMurdo apareceu, com o dedo sobre os l�bios.</p><p>Ele foi at� a cabeceira da mesa e olhou para os outros. Ocorrera uma mudan�a sutil nele. Seu comportamento era como o de algu�m que tem um trabalho importante a executar. Seu rosto estava r�gido como granito. Seus olhos brilhavam com uma excita��o feroz atr�s dos �culos. Ele se tornara visivelmente um l�der. Todos o olhavam com grande interesse, mas ele n�o disse nada. Com o mesmo olhar estranho com que entrara na sala ele olhou para cada um dos homens.</p><p>� Bem � exclamou o chefe McGinty finalmente � ele est� a�? Birdy Edwards est� a�?</p><p>� Sim � McMurdo respondeu lentamente. � Birdy Edwards est� aqui. Birdy Edwards sou eu!</p><p>Passaram-se dez segundos depois dessas palavras, durante os quais a sala parecia estar vazia, t�o profundo era o sil�ncio ali dentro. O assobio de uma chaleira que estava no fogo pareceu �spero e estridente aos ouvidos de todos. Sete rostos p�lidos, todos virados para este homem que os dominava, ficaram im�veis sentindo um grande pavor. Depois, com o ru�do de vidros se partindo, surgiram pelas janelas da sala os canos reluzentes de rifles, enquanto as cortinas eram arrancadas de seu suporte. Ao ver isso, o chefe McGinty deu um gemido de urso ferido e partiu na dire��o da porta meio aberta. Um rev�lver apontado em sua dire��o esperava por ele na porta, com os austeros olhos azuis do capit�o Marvin, da pol�cia das minas, encarando-o firmemente. O chefe recuou e caiu sentado em sua cadeira novamente.</p><p>� O senhor est� mais seguro a�, conselheiro � disse o homem que eles haviam conhecido como McMurdo. � E voc�, Baldwin, se n�o tirar as m�os do rev�lver, ter� problemas. Tire a m�o da�, ou por Deus que eu... Assim, assim est� bem. H� quarenta homens armados em volta da casa e voc�s mesmos podem imaginar que chances ter�o de escapar daqui. Pegue as armas deles, Marvin! � N�o havia resist�ncia poss�vel sob a amea�a daqueles rifles. Os homens foram desarmados. Carrancudos, perplexos e muito assustados, eles continuavam sentados em torno da mesa.</p><p>� Eu gostaria de dizer uma coisa antes de nos separarmos � disse o homem que os havia enganado. � Acho que n�o vamos nos encontrar novamente at� o dia em que voc�s me ver�o l� no tribunal. Vou dizer algo para que voc�s reflitam a respeito daqui at� l�. Agora voc�s sabem o que eu sou. Finalmente posso p�r as cartas na mesa. Eu sou Birdy Edwards, do grupo de Pinkerton. Fui escolhido para desbaratar essa quadrilha. Eu tinha de jogar um jogo dif�cil e perigoso. Ningu�m, ningu�m mesmo, nem a pessoa mais chegada a mim e mais querida sabia que eu estava nesse jogo, exceto o capit�o Marvin aqui e os meus patr�es. Mas tudo terminou hoje, gra�as a Deus, e sou o vencedor!</p><p>Os sete rostos p�lidos e r�gidos olharam para ele. Havia um �dio implac�vel nos olhos desses homens. Ele entendeu aquela amea�a atroz.</p><p>� Talvez voc�s pensem que o jogo ainda n�o terminou. Bem, arrisco minha sorte nisso. Contudo, alguns de voc�s n�o ter�o outra m�o* e h� mais sessenta que, como voc�s, dormir�o na cadeia esta noite. Vou lhes confessar uma coisa: quando me encarregaram desse servi�o, eu n�o acreditava que existia uma sociedade como a de voc�s. Achei que era hist�ria dos jornais, e que eu provaria isso. Disseram-me que tinha a ver com os Homens Livres, e ent�o fui a Chicago e me tornei um deles. Ent�o fiquei com mais certeza do que antes de que tudo n�o passava de hist�ria dos jornais, pois n�o vi nenhum perigo na sociedade, mas apenas coisas boas. Mesmo assim eu tinha que executar meu servi�o e vim para o vale das minas. Quando cheguei aqui, vi que eu estava enganado e que as coisas n�o eram inventadas. Ent�o fiquei para investigar. Nunca matei ningu�m em Chicago. Nunca falsifiquei uma moeda na minha vida. Aquelas moedas que eu dei a voc�s eram t�o verdadeiras quanto qualquer outra que circule por a�, mas eu jamais gastei dinheiro de maneira melhor. Eu queria cair nas gra�as de voc�s e fingi que a pol�cia me procurava. Tudo funcionou como eu imaginei.</p><p>� Eu me filiei � Loja infernal de voc�s e comecei a fazer parte da sociedade. Talvez digam que sou t�o mau quanto voc�s. Podem dizer o que quiserem, j� que consegui agarr�-los. Mas qual � a verdade? Na noite em que eu entrei para a sociedade voc�s espancaram o velho Stanger. Eu n�o consegui avis�-lo, pois n�o houve tempo, mas segurei suas m�os, Baldwin, quando voc� j� ia mat�-lo. Se cheguei a sugerir algumas coisas a fim de manter minha posi��o entre voc�s, eram coisas que eu podia evitar. N�o pude salvar Dunn e Menzies, pois eu n�o sabia o suficiente sobre o caso, mas vou tratar de fazer com que os assassinos deles sejam enforcados. Eu avisei Chester Wilcox, de modo que quando explodi a casa dele, ele e a fam�lia estavam longe, escondidos. Houve muitos crimes que n�o pude evitar, mas se olharem para tr�s e pensarem quantas vezes a v�tima de voc�s voltava para casa por outro caminho, ou estava na cidade quando voc�s iam procur�-la, ou ficava em casa quando voc�s pensavam que a pessoa iria sair. Ent�o voc�s ver�o o meu trabalho.</p><p>� Maldito traidor! � McGinty disse baixinho.</p><p>� Ah, John McGinty, pode me chamar assim se isso alivia o seu sofrimento. Voc� e esses outros iguais a voc� foram inimigos de Deus e dos homens aqui nesta cidade. Foi preciso que um homem se metesse entre voc�s e os pobres-diabos desses homens e mulheres que voc�s mantinham sob suas garras. S� havia um jeito de fazer isso, e eu fiz. Voc� me chama de traidor, mas acho que milhares de pessoas me chamar�o de salvador. Um libertador que foi ao inferno para salv�-las. Vivi tr�s meses neste inferno. Eu n�o passaria por tudo isso de novo. Eu tinha de ficar at� conseguir tudo, at� que cada homem e cada segredo estivesse aqui na minha m�o. Eu teria esperado um pouco mais se n�o tivesse sido informado de que o meu segredo estava come�ando a se espalhar. Chegou uma carta � cidade que lhes informaria de tudo. Ent�o tive de agir, e agir depressa. N�o tenho mais nada a dizer a voc�s, a n�o ser que, quando chegar a minha hora, eu morrerei mais tranq�ilo, pois me lembrarei do trabalho que fiz aqui neste vale. Agora, Marvin, n�o vou ret�-lo mais. Leve-os e acabe logo com isso.</p><p>H� pouco mais a dizer. Scanlan recebeu um bilhete lacrado para ser entregue na casa da srta. Ettie Shafter � uma miss�o que ele aceitara com uma piscadela e um sorriso. Nas primeiras horas da manh�, uma mulher bonita e um homem muito bem protegido embarcaram num trem especial que fora enviado pela empresa ferrovi�ria e fizeram uma viagem tranq�ila, deixando para tr�s a terra do perigo. Foi a �ltima vez que Ettie e seu companheiro puseram os p�s no Vale do Medo. Dez dias depois eles se casaram em Chicago, tendo o velho Jacob Shafter como testemunha do enlace.</p><p>O julgamento dos Scowrers foi realizado longe do lugar onde seus simpatizantes poderiam aterrorizar os guardi�es da lei. Eles lutaram em v�o. Em v�o o dinheiro da Loja � dinheiro arrancado por meio de extors�o em toda aquela regi�o � foi gasto como �gua na tentativa de salv�-los. O depoimento frio, claro, desapaixonado de quem conhecia cada detalhe de suas vidas, da organiza��o e dos seus crimes n�o foi abalado pela ast�cia dos seus defensores. Finalmente, depois de tantos anos, eles foram desmascarados e expostos. Aquela nuvem fora retirada para sempre de cima do vale. McGinty cumpriu seu destino em cima do cadafalso, encolhendo-se de medo e choramingando quando chegou sua hora derradeira. Oito de seus principais seguidores tiveram o mesmo fim. Cinq�enta tiveram pena de pris�o com tempos de reclus�o variados. O trabalho de Birdy Edwards estava terminado.</p><p>Mas, ao contr�rio do que ele pensara, o jogo ainda n�o tinha terminado. Havia outra rodada a ser jogada, e talvez mais outra e mais outra ainda. Ted Baldwin escapara do cadafalso; e os Willabys tamb�m; e o mesmo aconteceu com v�rios dos mais violentos membros da quadrilha. Durante dez anos eles ficaram fora do mundo, e ent�o chegou um dia em que ficaram livres novamente � um dia que Edwards, que conhecia bem esses homens, sabia ser o fim da sua vida tranq�ila. Eles haviam jurado que derramariam o sangue dele como vingan�a pelos seus companheiros. E partiram imediatamente para cumprir a promessa. Ele teve de fugir de Chicago depois de dois atentados que quase foram fatais. A partir da� ficou bem claro que o terceiro n�o falharia. De Chicago ele partiu, j� com o nome trocado, para a Calif�rnia, e foi l� que sua vida por um certo tempo perdeu o encanto, quando Ettie Edwards morreu. Mais uma vez ele quase foi morto, e mais uma vez, com� o nome de Douglas, trabalhou num vale isolado onde, com um s�cio ingl�s chamado Barker, enriqueceu. Por fim chegou um aviso de que seus perseguidores estavam na sua pista novamente e ele partiu � na hora certa � para a Inglaterra. E da� surgiu John Douglas, que pela segunda vez se casou com uma companheira digna e que viveu durante cinco anos como um propriet�rio rural em Sussex � uma vida que terminou com os estranhos acontecimentos de que tomamos conhecimento.</p><empty-line/></section><section><p><strong>Ep�logo</strong></p><p>Os procedimentos policiais e legais haviam terminado e o caso de John Douglas foi enviado a uma inst�ncia superior do Judici�rio. Ent�o ele foi absolvido por ter agido em leg�tima defesa. �Leve-o para fora da Inglaterra a qualquer custo�, Holmes escrevera � esposa dele. �H� certas for�as aqui que podem ser mais perigosas do que aquelas das quais ele escapou. N�o h� seguran�a para o seu marido na Inglaterra.�</p><p>Dois meses se passaram e o caso, at� certo ponto, havia se apagado de nossa lembran�a. Ent�o, certa manh�, chegou um bilhete enigm�tico que fora colocado em nossa caixa do correio. �Valha-me Deus, sr. Holmes! Valha-me Deus!�, dizia aquela carta incomum. N�o havia nem sobrescrito nem assinatura. Eu ri ao ver aquela mensagem estranha, mas Holmes mostrou uma seriedade maior que a habitual.</p><p>� Que estranho, Watson! � ele disse, e ficou sentado durante muito tempo com a testa franzida.</p><p>Mais tarde, naquela mesma noite, a sra. Hudson, nossa senhoria, trouxe o recado de um cavalheiro que desejava ver Holmes dizendo que o assunto era muito importante. Logo atr�s da portadora de sua mensagem entrou o sr. Cecil Barker, nosso amigo da Casa Senhorial. Seu rosto estava desfigurado.</p><p>� Tenho m�s not�cias. Terr�veis mesmo, sr. Holmes � ele disse.</p><p>� Eu temia que fosse isso � disse Holmes.</p><p>� O senhor n�o recebeu nenhum telegrama, recebeu?</p><p>� Recebi um bilhete que parecia um telegrama.</p><p>� � o coitado do Douglas. Dizem que o nome dele � Edwards, mas para mim ele ser� sempre o Jack Douglas, de Benito Canyon. Eu j� lhe disse que eles partiram para a �frica do Sul no Palmyra, h� tr�s semanas.</p><p>� Exatamente.</p><p>� O navio chegou � Cidade do Cabo ontem � noite. Recebi este telegrama da sra. Douglas hoje de manh�:</p><empty-line/><p>Jack caiu no mar durante ventania costas Sta. Helena. Ningu�m sabe como acidente ocorreu. � lvy Douglas</p><empty-line/><p>� Ah, foi assim, �? � disse Holmes, pensativo. � Bem, n�o tenho d�vida de que foi tudo bem preparado.</p><p>� O senhor quer dizer que n�o foi acidente?</p><p>� Claro que n�o foi.</p><p>� Ele foi assassinado?</p><p>� Certamente!</p><p>� Eu tamb�m penso assim. Esses diab�licos Scowrers, esses malditos criminosos vingativos...</p><p>� N�o, n�o, meu senhor � disse Holmes. � H� um toque de mestre aqui. N�o � um simples caso de espingarda de cano serrado e de rev�lveres baratos. Pode-se reconhecer um mestre pelos requintes. Conhe�o muito bem quando Moriarty p�e o seu dedo num caso. Esse crime � de Londres e n�o da Am�rica.</p><p>� Mas por qu�?</p><p>� Porque foi feito por um homem que n�o pode falhar: uma pessoa cuja posi��o depende do fato de que tudo que faz deve dar certo. Um c�rebro privilegiado e uma grande organiza��o foram utilizados para a elimina��o de um homem. � quebrar uma noz com o martelo. Uma extravag�ncia, mas de qualquer modo a noz fica esmagada.</p><p>� O que esse tal homem tem a ver com tudo isso?</p><p>� S� posso dizer que a primeira not�cia que chegou a n�s foi por interm�dio de um dos homens dele. Esses americanos foram bem aconselhados. Tendo um servi�o a ser feito aqui, pediram a participa��o, como qualquer criminoso estrangeiro faria, desse grande consultor de crimes. A partir desse instante a v�tima est� condenada. A princ�pio ele se contentaria em usar sua m�quina para localizar a v�tima dos americanos. Depois indicaria como o caso poderia ser tratado. Finalmente, quando soubesse das falhas do agente enviado, ele pr�prio entraria no caso com o seu toque de mestre. O senhor ouviu quando eu avisei ao seu amigo que o perigo futuro seria maior do que o perigo passado. Eu estava certo?</p><p>Barker bateu com a m�o fechada na testa, demonstrando a impot�ncia de sua raiva.</p><p>� O senhor me diz que devemos parar dessa vez? O senhor acha que ningu�m jamais conseguir� agarrar esse dem�nio?</p><p>� N�o, n�o estou dizendo isso � respondeu Holmes, e seus olhos pareciam estar penetrando no futuro. � N�o digo que ele n�o possa ser vencido. Mas o senhor precisa me dar tempo. O senhor tem de me dar tempo!</p><p>Ficamos todos sentados em sil�ncio durante alguns minutos, enquanto aqueles olhos prof�ticos ainda tentavam romper o v�u.</p><p>*</p><p>FIM</p><empty-line/></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>Os �ltimos Casos de Sherlock Holmes</strong></p></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>Pref�cio</strong></p><p>Os amigos de Sherlock Holmes v�o ficar contentes em saber que ele ainda est� vivo e bem, embora com os movimentos um pouco prejudicados por ataques espor�dicos de reumatismo. Vive, h� muitos anos, numa pequena fazenda sobre as colinas, a 8 quil�metros de Eastbourne, dividindo o tempo entre seus livros de filosofia e apicultura. Durante este per�odo de descanso, ele recusou as mais principescas ofertas para resolver v�rios casos, depois que decidiu que a sua aposentadoria era definitiva. A aproxima��o da guerra alem�, no entanto, fez com que ele pusesse sua not�vel combina��o de atividade intelectual e pr�tica � disposi��o do governo, com resultados hist�ricos contados em �SEU �LTIMO CASO�.</p><p>Acrescentei v�rias aventuras anteriores, guardadas h� bastante tempo nos seus arquivos, a fim de completar o volume.</p><empty-line/><p>John H. Watson, M. D.</p></section><section><p><strong>o caso da vila glic�nia</strong></p></section><section><p><strong>1. A estranha aventura do sr. John Scott Eccles</strong></p><empty-line/><p>Vejo que est� anotado no meu caderno que era um dia gelado, de muito vento, ali pelo final de mar�o de 1892. Holmes recebera um telegrama quando est�vamos almo�ando, e tinha rabiscado uma resposta. N�o disse nada, mas o assunto continuou na sua cabe�a, porque ele ficou parado diante da lareira, pensativo, fumando o cachimbo e olhando de vez em quando para a mensagem. De repente virou-se para mim, com um brilho malicioso nos olhos.</p><p>� Eu acho, Watson, que podemos consider�-lo um homem de letras � ele disse. � Como voc� definiria a palavra �grotesca�?</p><p>� Estranho, not�vel � eu sugeri.</p><p>� Com certeza h� algo mais do que isso � ele disse �, uma implica��o do tr�gico e do terr�vel. Se voc� se lembrar de algumas das narrativas que tem impingido a um</p><p>p�blico paciente, vai perceber com que freq��ncia o grotesco tem se transformado no criminoso. Lembre-se do caso dos homens de cabelos vermelhos. No come�o havia muito de grotesco, e mesmo assim terminou numa desesperada tentativa de roubo. E o caso grotesco das cinco sementes de laranja, que conduziu a uma conspira��o de assassinato. A palavra me deixou de prontid�o.</p><p>� Ela est� a�? � perguntei.</p><p>Ele leu o telegrama em voz alta:</p><empty-line/><p>Acabei de passar pela experi�ncia mais incr�vel e grotesca. Posso consult�-lo?</p><p>Scott Eccles</p><p>Correio de Charing Cross</p><empty-line/><p>� Homem ou mulher? � perguntei.</p><p>� Oh, homem, � claro. Nenhuma mulher enviaria um telegrama com resposta paga. Ela teria vindo.</p><p>� Voc� vai receb�-lo?</p><p>� Meu caro Watson, voc� sabe como ando entediado desde que prendemos o coronel Carruthers. Minha mente � como um carro veloz que se despeda�a todo se n�o for usado para o fim a que se destina. A vida � um lugar-comum, os jornais est�o est�reis, a aud�cia e a aventura parecem ter sumido do mundo do crime. Como pode me perguntar, ent�o, se estou disposto a examinar algum problema novo, por mais banal que possa parecer? Mas, se n�o me engano, a� est� o nosso cliente.</p><p>Ouvimos passos cadenciados na escada e logo em seguida entrou na sala uma pessoa corpulenta, alta, de costeletas grisalhas e aspecto solene respeit�vel. De suas polainas at� os �culos de aros dourados, ele era um membro do Partido Conservador, religioso, ortodoxo e convencional at� o �ltimo grau. A hist�ria de sua vida estava escrita em suas fei��es graves e gestos pomposos. Mas alguma experi�ncia impressionante havia perturbado sua calma natural e deixou sinais nos seus cabelos em desalinho, no rosto vermelho e encolerizado, nas suas maneiras nervosas e agitadas. Foi direto ao assunto.</p><p>� Acabei de passar por uma experi�ncia estranha e desagrad�vel, sr. Holmes � disse ele. � Nunca estive numa situa��o assim em toda a minha vida. � extremamente inconveniente, extremamente chocante. Eu preciso de uma explica��o.</p><p>Ele estava bufando de raiva.</p><p>� Por favor, sente-se, sr. Scott Eccles � disse Holmes, acalmando-o. � Posso lhe perguntar, em primeiro lugar, por que o senhor veio me procurar?</p><p>� Bem, senhor, n�o parecia que o assunto interessasse � pol�cia, mas, depois de conhecer os fatos, o senhor vai admitir que eu n�o podia deixar a situa��o no ponto em que estava. N�o tenho nenhuma simpatia pela classe dos detetives particulares, mas, em todo caso, tendo ouvido falar no seu nome...</p><p>� Certamente. Mas, em segundo lugar, por que o senhor n�o veio imediatamente?</p><p>� O que quer dizer com isso?</p><p>Holmes olhou para o rel�gio.</p><p>� S�o 14:15h � disse. � Seu telegrama foi mandado por volta de uma da tarde. Mas n�o se pode olhar para a sua roupa e sua apar�ncia sem ver que sua perturba��o come�ou no momento em que acordou.</p><p>Nosso cliente alisou os cabelos em desalinho e passou a m�o pelo queixo com a barba por fazer.</p><p>� Tem raz�o, sr. Holmes. N�o me preocupei em me arrumar. Tudo o que eu queria era sair daquela casa. Mas estive fazendo algumas investiga��es antes de vir ver o senhor. Fui at� a casa dos agentes, o senhor sabe, e eles disseram que o aluguel do sr. Garcia estava pago e que estava tudo em ordem na Vila Glic�nia.</p><p>� Calma, calma, meu senhor � disse Holmes, rindo. � O senhor � como o meu amigo, dr. Watson, que tem o p�ssimo h�bito de contar suas hist�rias come�ando pelo fim. Por favor, coordene os pensamentos e me conte, na seq��ncia certa, exatamente por que esses acontecimentos o fizeram sair em busca de conselho e ajuda, despenteado e amarrotado, com botas e colete abotoados de forma errada.</p><p>Nosso cliente olhou para baixo, examinando com pesar sua apar�ncia deplor�vel.</p><p>� Tenho certeza de que estou horr�vel, sr. Holmes, e tenho certeza de que algo assim jamais aconteceu antes em minha vida. Mas vou contar-lhe toda a hist�ria esquisita, e quando eu tiver terminado, o senhor com certeza reconhecer� que h� muita coisa que possa me desculpar.</p><p>Mas a narrativa dele foi cortada pela raiz. Houve um alarido do lado de fora e a sra. Hudson abriu a porta para que dois indiv�duos entrassem, dois sujeitos robustos, com aspecto de pol�cia, um dos quais era conhecido nosso, o inspetor Gregson, da Scotland Yard, um policial en�rgico, cort�s e, dentro de suas limita��es, competente. Apertou a m�o de Holmes e apresentou seu companheiro, inspetor Baynes, da pol�cia de Surrey.</p><p>� Estamos juntos numa ca�ada, sr. Holmes, e nossa pista indicava esta dire��o.</p><p>Virou os olhos de buldogue para o nosso visitante.</p><p>� O senhor � John Scott Eccles, de Popham House, Lee?</p><p>� Sim, sou eu.</p><p>� N�s o seguimos a manh� inteira.</p><p>� Sem d�vida voc� o localizou por causa do telegrama � disse Holmes.</p><p>� Exatamente, sr. Holmes. Pegamos a pista na ag�ncia do correio de Charing Cross e viemos para c�.</p><p>� Mas por que me seguem? O que desejam?</p><p>� Queremos um esclarecimento, sr. Scott Eccles, a respeito dos fatos que resultaram na morte do sr. Aloysius Garcia, da Vila Glic�nia, nos arredores de Esher, ontem � noite.</p><p>Nosso cliente retesou-se na cadeira, com os olhos arregalados e sem um pingo de cor no rosto at�nito.</p><p>� Morto? O senhor disse que ele morreu?</p><p>� Sim, senhor, ele est� morto.</p><p>� Mas, como? Acidente?</p><p>� Assassinato, se j� houve um no mundo.</p><p>� Meu Deus! Isto � terr�vel! O senhor n�o est� dizendo... o senhor n�o est� dizendo que eu sou um suspeito?</p><p>� Foi encontrada uma carta sua no bolso do morto e ficamos sabendo que o senhor pretendia passar na casa dele ontem � noite.</p><p>� Sim, eu passei.</p><p>� Oh, ent�o passou, n�o �?</p><p>Tirou o livro de anota��es do bolso.</p><p>� Espere um pouco, Gregson � disse Sherlock Holmes. � Tudo o que voc� quer � uma simples declara��o, n�o �?</p><p>� E � meu dever prevenir o sr. Scott Eccles que ela pode ser usada contra ele.</p><p>� O sr. Eccles ia nos contar o caso quando voc�s entraram aqui. Eu acho, Watson, que um conhaque com soda vai ajud�-lo. Agora, senhor, sugiro que n�o se importe com o aumento de sua plat�ia e continue sua narrativa exatamente como teria feito se n�o tivesse sido interrompido.</p><p>Ele engolira o conhaque e a cor voltou �s suas faces. Com um olhar desconfiado para o livro de anota��es do inspetor, come�ou imediatamente seu relato extraordin�rio.</p><p>� Sou um celibat�rio � disse ele � e, sendo soci�vel, tenho muitos amigos. Entre eles est� a fam�lia de um cervejeiro chamado Melville, que mora em Albermarle Mansion, Kensington. Foi na casa dele que conheci um jovem chamado Garcia, h� algumas semanas. Ele era, fiquei sabendo, de descend�ncia espanhola, e tinha uma liga��o com a embaixada. Falava ingl�s corretamente, era agrad�vel, e um sujeito simp�tico como nunca vi antes. Come�amos uma s�lida amizade, ele e eu. Ele pareceu gostar de mim desde o in�cio e dois dias depois de nosso encontro ele foi me visitar em Lee. Uma coisa leva � outra, e ele acabou me convidando para passar alguns dias em sua casa em Vila Glic�nia, entre Esher e Oxshott. Ontem � noite fui a Esher para atender ao seu convite. Antes de ir l�, ele j� tinha me contado sobre sua casa. Morava com um caseiro de confian�a, um patr�cio dele, que cuidava de tudo. Esse sujeito falava ingl�s e tomava conta da casa. Tinha tamb�m um magn�fico cozinheiro, ele disse, um mesti�o que tinha encontrado numa de suas viagens, e que podia servir um jantar excelente. Lembro-me de que ele comentou que s� se encontrava uma criadagem estranha no cora��o de Surrey, e eu concordei com ele, embora ela tenha mostrado que era muito mais estranha do que eu pensei. Dirigi-me para l�, mais ou menos 3 quil�metros ao sul de Esher. A casa � grande, afastada da estrada, com um caminho em curva, ladeado de arbustos verdes. � uma constru��o antiga, em ru�nas, num lament�vel estado de desordem. Quando a carruagem parou no caminho coberto de mato, diante da porta manchada e desbotada, eu duvidei de minha sanidade pelo fato de ir visitar um homem que eu mal conhecia. Mas ele mesmo abriu a porta e me cumprimentou com grande cordialidade. Ele me deixou por conta do criado, um sujeito taciturno e moreno que me guiou at� meu quarto, carregando minha mala. O lugar todo era deprimente. Jantamos os dois sozinhos, e embora meu anfitri�o tivesse feito tudo para me entreter, tive a impress�o de que seus pensamentos estavam longe, e ele falava de uma maneira t�o vaga e incoerente que eu mal conseguia entend�-lo. Ficava constantemente batucando com os dedos, ro�a as unhas, e dava outros sinais de impaci�ncia. O jantar propriamente n�o foi nem bem servido, nem foi preparado, e a presen�a do empregado taciturno n�o ajudou a nos alegrar. Eu lhes garanto que muitas vezes durante a noite quis inventar uma desculpa para poder voltar a Lee. Eu me lembro de uma coisa que pode ter alguma rela��o com aquilo que os senhores est�o investigando. N�o dei a m�nima import�ncia na ocasi�o. Quase no fim do jantar o criado entregou a ele um bilhete. Notei que meu anfitri�o ficou ainda mais distra�do e estranho depois que leu a mensagem. Deixou de conversar e ficou sentado, fumando um cigarro atr�s do outro, perdido nos pr�prios pensamentos, mas nada disse sobre o bilhete. Fiquei contente por estar na cama por volta das 11 horas. Um pouco mais tarde Garcia apareceu na porta do meu quarto � estava tudo escuro � e me perguntou se eu tinha tocado a campainha. Eu disse que n�o. Ele se desculpou por me perturbar t�o tarde, dizendo que j� era uma da manh�. Peguei no sono depois disso e dormi profundamente a noite toda. E agora vem a parte impressionante da minha hist�ria. Quando acordei, j� era dia claro, consultei o rel�gio e vi que eram quase nove horas. Eu tinha pedido para ser chamado �s oito, de modo que fiquei espantado com o esquecimento. Levantei-me e toquei a campainha, chamando o empregado. N�o houve resposta. Toquei mais duas vezes, com o mesmo resultado. Ent�o cheguei � conclus�o de que a campainha n�o estava funcionando. Vesti-me apressadamente e desci correndo as escadas, de mau humor, a fim de pedir um pouco de �gua quente. Podem imaginar minha surpresa quando descobri que n�o havia ningu�m l�. Gritei no vest�bulo. Sem resposta. Ent�o fui de quarto em quarto. Tudo deserto. Meu anfitri�o tinha me mostrado na noite anterior qual era o quarto dele, e ent�o bati na porta. Nenhuma resposta. Virei a ma�aneta e entrei. O quarto estava vazio e a cama n�o tinha sido usada. Ele tinha ido embora com os outros. O anfitri�o estrangeiro, o criado estrangeiro, o cozinheiro estrangeiro, todos tinham se evaporado na noite! Esse foi o fim de minha visita � Vila Glic�nia.</p><p>Sherlock Holmes estava esfregando as m�os e sorria satisfeito por poder acrescentar este caso estranho � sua cole��o de epis�dios bizarros.</p><p>� Pelo que estou vendo � ele disse � sua aventura � absolutamente estranha. Posso lhe perguntar, senhor, o que fez ent�o?</p><p>� Fiquei furioso! Minha primeira impress�o foi a de ter sido v�tima de alguma brincadeira absurda. Guardei minhas coisas, fechei a porta da casa e fui para Esher, levando minha mala na m�o. Passei no escrit�rio dos Irm�os Allan, os principais corretores da cidade, e descobri que aquela casa tinha sido alugada naquela firma. Tive a impress�o de que dificilmente o prop�sito daquilo seria o de me fazer de bobo, e que o objetivo principal deveria ser escapar do aluguel. Estamos no fim</p><p>de mar�o, e logo ele teria de fazer o pagamento trimestral. Mas esta teoria n�o funcionou. O agente me agradeceu pelas informa��es, mas me disse que o aluguel tinha sido pago adiantado. Ent�o, parti para a cidade e fui at� a embaixada da Espanha. O homem era desconhecido ali. Depois disso fui � casa de Melville, onde eu havia conhecido Garcia, mas descobri que, na verdade, ele sabia menos sobre Garcia do que eu. Finalmente, quando recebi sua resposta ao meu telegrama, vim at� aqui, j� que soube que o senhor � uma pessoa que d� orienta��o em casos dif�ceis. Mas agora, senhor inspetor, percebo pelo que disse, quando entrou aqui, que o senhor pode continuar na hist�ria e que aconteceu uma trag�dia. Eu lhes asseguro que tudo o que eu disse � a verdade e que, al�m do que lhes contei, n�o sei mais nada sobre o destino desse homem. Meu �nico desejo � ajudar a lei de todas as formas poss�veis.</p><p>� Tenho certeza disso, sr. Scott Eccles, tenho certeza disso � disse o inspetor Gregson num tom amig�vel. � Devo dizer que tudo o que contou est� de acordo com os fatos, da forma como chegaram ao nosso conhecimento. Por exemplo, havia aquele bilhete que chegou durante o jantar. O senhor por acaso viu o que aconteceu com ele?</p><p>� Sim, vi. Garcia o amassou e o jogou no fogo.</p><p>� O que acha disso, sr. Baynes?</p><p>O outro detetive era um homem avermelhado, forte e gordo, cujo rosto grosseiro era salvo por dois olhos extraordinariamente brilhantes, quase ocultos pelas dobras das bochechas e sobrancelhas. Com um sorriso lento ele tirou do bolso um peda�o amassado e sem cor.</p><p>� Foi um trabalho persistente, sr. Holmes, e ele deve ter errado a pontaria. Apanhei isso, que n�o estava queimado, no fundo da lareira.</p><p>Holmes demonstrou sua aprova��o com um sorriso.</p><p>� O senhor deve ter examinado a casa com muito cuidado para achar uma bolinha de papel.</p><p>� Sim, sr. Holmes, � o meu modo de trabalhar. Devo l�-lo, sr. Gregson?</p><p>O londrino concordou com a cabe�a.</p><p>� O bilhete est� escrito num papel creme comum, sem filigrana. Mede um quarto do tamanho of�cio. Foi cortado em dois com uma tesoura pequena. Foi dobrado tr�s vezes e fechado com lacre vermelho, passado com muita pressa e prensado com um objeto chato e oval. Est� endere�ado ao sr. Garcia, Vila Glic�nia. Diz o seguinte:</p><empty-line/><p>Nossas pr�prias cores, verde e branco. Verde aberto, branco fechado. Escada principal, primeiro corredor, s�tima direita, cortina verde. Boa sorte. D.</p><empty-line/><p>� � letra de mulher, com caneta de ponta fina, mas o endere�o foi escrito por outra pessoa ou com outra caneta. Est� mais grosso e mais forte, como podem ver.</p><p>� Uma observa��o not�vel � disse Holmes, dando uma espiada. � Devo cumpriment�-lo, sr. Baynes, pela sua aten��o aos detalhes no seu exame. Talvez possam ser acrescentados alguns detalhes sem import�ncia. Sem d�vida nenhuma o selo oval � de uma abotoadura � que outra coisa teria essa forma? A tesoura era de unhas, curva. Como os dois cortes s�o curtos, pode-se ver nitidamente a mesma curvatura pequena em cada um.</p><p>O detetive provinciano sorriu, satisfeito.</p><p>� Eu pensei que tivesse esgotado tudo sobre o assunto, mas vejo que deixei algumas coisas � disse ele. � Devo dizer que n�o vi nada na nota, exceto que estava ali � disposi��o, e que, como sempre, havia uma mulher metida nisso.</p><p>O sr. Scott Eccles estava visivelmente nervoso na cadeira durante esta conversa.</p><p>� Fico satisfeito por ter encontrado o bilhete, j� que ele confirma a minha hist�ria � ele disse. � Mas fa�o quest�o de salientar que ainda n�o soube o que aconteceu com o sr. Garcia ou seu empregado.</p><p>� Quanto ao sr. Garcia � disse Gregson �, a resposta � f�cil. Foi encontrado morto esta manh� em Oxshott Common, mais ou menos a 1,5 quil�metro de sua casa. A cabe�a dele foi reduzida a uma massa com golpes fortes de um saco de areia ou algum instrumento parecido, que esmagou em vez de machucar. � um lugar isolado e n�o h� nenhuma casa num raio de 400 metros dali. Aparentemente, ele primeiro foi atacado pelas costas, mas o assaltante continuou a acert�-lo mesmo depois que estava morto. Foi um ataque violent�ssimo. N�o existem pegadas nem pistas dos criminosos.</p><p>� Roubado?</p><p>� N�o, n�o houve tentativa de roubo.</p><p>� Isto � muito doloroso... doloroso e terr�vel � disse o sr. Scott Eccles, numa voz lamurienta �, mas � realmente uma coisa estranha. N�o tive nada a ver com o fato de meu anfitri�o ter sa�do numa expedi��o noturna e encontrando um fim t�o tr�gico. Como � que eu vim a ser envolvido no caso?</p><p>� Muito f�cil, senhor � respondeu o inspetor Baynes. � O �nico documento encontrado no bolso do morto era uma carta sua, dizendo que estaria com ele na noite de sua morte. Foi o envelope dessa carta que nos deu o nome e o endere�o do morto. J� passava das nove horas quando chegamos � casa dele e n�o encontramos nem o senhor nem ningu�m mais l�. Telegrafei ao sr. Gregson para prend�-lo em Londres, enquanto eu investigava a Vila Glic�nia. Depois vim para a cidade, encontrei-me com ele e aqui estamos.</p><p>� Agora eu acho que ser� melhor darmos um car�ter oficial a este caso � disse Gregson, levantando-se. � O senhor ir� conosco at� a delegacia, sr. Scott Eccles, e vai nos dar seu depoimento por escrito.</p><p>� Claro, irei agora mesmo. Mas ainda desejo os seus servi�os, sr. Holmes. N�o me�a despesas nem esfor�os para chegar � verdade.</p><p>Meu amigo virou-se para o detetive do interior:</p><p>� Suponho que n�o tenha obje��es a que eu colabore com o senhor.</p><p>� � claro que me sinto extremamente honrado.</p><p>� Em tudo o que fez, o senhor foi muito r�pido e eficiente. Posso lhe perguntar se havia alguma pista sobre a hora exata em que o homem morreu?</p><p>� Ele estava l� desde uma da manh�. Choveu naquela hora e a morte dele, com toda certeza, foi antes disso.</p><p>� Mas isto � totalmente imposs�vel, sr. Baynes! � exclamou nosso cliente. � Posso jurar que foi ele que esteve no meu quarto � uma hora.</p><p>� Not�vel, mas n�o imposs�vel � disse Holmes, sorrindo.</p><p>� Tem alguma pista? � perguntou Gregson.</p><p>� Diante das circunst�ncias, o caso n�o � muito complicado, embora apresente algumas caracter�sticas originais e interessantes. Preciso conhecer melhor os fatos antes de me arriscar a dar uma opini�o final. A prop�sito, sr. Baynes, achou alguma coisa interessante na sua investiga��o, al�m do bilhete?</p><p>O detetive olhou para o meu amigo de modo estranho.</p><p>� Havia � disse ele � uma ou duas coisas muito interessantes. Quando eu tiver terminado na delegacia, talvez o senhor queira ir at� l� e dar-me sua opini�o a respeito delas.</p><p>� Estou � sua inteira disposi��o � disse Sherlock Holmes, tocando a campainha. � Sra. Hudson, conduza estes senhores at� a sa�da e, por favor, envie o menino com este telegrama. Ele deve mandar uma resposta paga de 5 xelins.</p><p>Depois que nossos visitantes sa�ram, ficamos sentados em sil�ncio durante algum tempo. Holmes ficou fumando, com o cenho franzido, a cabe�a inclinada para a frente, caracter�stica de sua ansiedade.</p><p>� Bem, Watson � perguntou, virando-se de repente para mim �, o que voc� acha?</p><p>� N�o percebo nada nesta complica��o do sr. Scott Eccles.</p><p>� Mas, e o crime?</p><p>� Bem, considerando o desaparecimento dos companheiros do homem, eu diria que eles estavam, de algum modo, envolvidos no assassinato, e fugiram da lei.</p><p>� Evidentemente, � um ponto de vista poss�vel. Diante disso, voc� deve admitir, no entanto, que � muito estranho que os dois criados dele estivessem conspirando contra ele e o tivessem atacado na noite em que tinha visita. Ele estava sozinho, � merc� deles, em qualquer outra noite da semana.</p><p>� Ent�o por que fugiram?</p><p>� Isso mesmo. Por que fugiram? � um fato importante. Outro fato importante � a estranha aventura de nosso cliente, sr. Scott Eccles. Agora, meu caro Watson, est� al�m da capacidade humana dar uma explica��o que possa abranger esses dois fatos importantes? Se houvesse uma que inclu�sse o bilhete misterioso com seu palavreado curioso, valeria a pena aceit�-la como uma hip�tese tempor�ria. Se os novos fatos de que tomamos conhecimento se encaixassem na trama, ent�o nossas hip�teses se transformariam gradativamente numa solu��o.</p><p>� Mas qual � a nossa hip�tese?</p><p>Holmes recostou-se na cadeira, com os olhos semicerrados.</p><p>� Voc� tem de admitir, meu caro Watson, que a id�ia de uma brincadeira � imposs�vel. Ocorreram coisas graves em seguida, como a seq��ncia mostrou, e o fato de Scott Eccles ter sido atra�do � Vila Glic�nia tem alguma liga��o com elas.</p><p>� Mas que liga��o poss�vel?</p><p>� Vamos examinar, passo a passo. H�, na apar�ncia, qualquer coisa incomum a respeito desta estranha e repentina amizade entre o jovem espanhol e Scott Eccles. Foi o primeiro que for�ou a situa��o. Ele visitou Eccles no outro extremo de Londres, logo no dia seguinte ao primeiro encontro deles, ficou em contato com ele at� receb�-lo em Esher. Agora, o que ele queria com Eccles? O que Eccles poderia lhe dar? N�o vejo nenhum encanto no homem. N�o � especialmente inteligente � n�o � um homem capaz de agradar ao esp�rito vivo de um latino. Por que, ent�o, ele foi escolhido, entre todas as pessoas que Garcia conheceu, como particularmente adequado ao seu objetivo? Ser� que ele tem alguma qualidade especial que o destaque? Acho que sim. � o tipo convencional do brit�nico respeit�vel e o homem certo para ser testemunha, para impressionar outro brit�nico. Voc� mesmo viu que os dois inspetores nem sonharam em duvidar do seu testemunho, por mais estranho que tenha sido.</p><p>� Mas o que ele deveria testemunhar?</p><p>� Nada, do jeito como as coisas aconteceram, mas tudo, se tivessem acontecido de outra maneira. � assim que vejo a situa��o.</p><p>� Entendo; ele podia servir de �libi.</p><p>� Exatamente, meu caro Watson, ele podia confirmar um �libi. Vamos supor, s� como argumenta��o, que os criados da Vila Glic�nia estivessem conspirando para algum crime. O plano, seja l� o que for, � sair, digamos, antes de uma hora. � poss�vel que, adiantando os rel�gios, eles tenham feito John Scott Eccles ir para a cama mais cedo do que ele pensava, mas, de qualquer modo, parece que, quando Garcia foi lhe dizer que era uma hora, na verdade n�o era mais de meia-noite. Se Garcia pudesse fazer o quer que tivesse de fazer, e voltasse na hora mencionada, evidentemente ele teria uma resposta convincente contra qualquer acusa��o. Ali estava o ingl�s impec�vel, pronto para jurar em qualquer tribunal que o acusado estava na casa o tempo todo. Era um seguro contra o pior.</p><p>� Sim, sim, estou entendendo. Mas, e o desaparecimento dos outros?</p><p>� Ainda n�o tenho todos os fatos, mas n�o creio que existam dificuldades insuper�veis. Ainda assim � um erro afirmar alguma coisa diante desses dados. Sem sentir, voc� acaba torcendo os fatos para que se adaptem �s suas teorias.</p><p>� E o bilhete?</p><p>� O que dizia? �Nossas pr�prias cores, verde e branco.� Parece tratar-se de corrida de cavalo. �Verde aberto, branco fechado.� Isto � claramente uma indica��o. �Escada principal, primeiro corredor, s�tima � direita, cortina verde.� � um encontro. Talvez possamos descobrir um marido ciumento no fim disso a�. Com toda certeza era um empreendimento perigoso. Ela n�o teria dito �Boa sorte� se n�o fosse perigoso. �D� � isto pode ser uma orienta��o.</p><p>� O homem era espanhol. Eu acho que �D� significa Dolores, um nome de mulher bastante comum na Espanha.</p><p>� Bom, Watson, muito bom, mas totalmente inadmiss�vel. Quem escreveu este bilhete certamente � ingl�s. Um espanhol escreveria a outro em espanhol mesmo. Bem, precisamos ter paci�ncia at� que o inspetor volte. Nesse meio-tempo, podemos agradecer ao nosso destino por nos resgatar por algumas horas da insuport�vel fadiga do t�dio.</p><p>A resposta ao telegrama de Holmes chegou antes da volta do detetive de Surrey. Sherlock leu o texto e ia guard�-lo no seu caderno quando notou a curiosidade no meu rosto. Jogou-o para mim, dizendo:</p><p>� Estamos andando em altas esferas � disse ele.</p><p>O telegrama era uma lista de nomes e endere�os:</p><empty-line/><p>Lorde Harringby, The Dingle; sir George Ffolliott, Oxshott Towers; sr. Hynes Hynes, J. P., Purdey Place; sr. James Baker Williams, Forton Old Hall; sr. Henderson, High Gable; Rev. Joshua Stone, Nether Walsling.</p><empty-line/><p>� Esta � uma forma bem pr�tica de limitar nosso campo de opera��o � disse Holmes. � Sem d�vida, Baynes, com sua mente met�dica, j� adotou um plano igual.</p><p>� N�o estou entendendo.</p><p>� Bem, meu caro amigo, j� chegamos � conclus�o de que o bilhete que Garcia recebeu no jantar era um encontro ou uma indica��o. Agora, se a interpreta��o estiver correta, � necess�rio subir uma escada principal e localizar a s�tima porta de um corredor para se chegar ao local indicado; v�-se, portanto, que se trata de um lugar bem grande. Tamb�m � certo que a casa n�o deve ficar a mais de 2 ou 3 quil�metros de Oxshott, j� que Garcia estava andando naquela dire��o e, de acordo com minha interpreta��o dos fatos, esperava estar de volta � Vila Glic�nia a tempo de ter um �libi que valeria at� uma hora. Como deve haver poucas casas grandes perto de Oxshott, adotei o m�todo �bvio de telegrafar aos corretores mencionados por Scott Eccles para obter uma lista delas. Est�o aqui, neste telegrama, e a outra ponta de nossa meada complicada deve estar entre elas.</p><p>Eram quase 18 horas quando chegamos � bela vila de Esher, com o inspetor Baynes nos acompanhando. Holmes e eu hav�amos levado coisas para passar a noite e encontramos aposentos confort�veis no Hotel Bull. Finalmente sa�mos, na companhia do detetive, para nossa visita � Vila Glic�nia. Era uma noite escura e fria de mar�o, com o vento cortante e a chuva batendo em nossos rostos, um cen�rio adequado � regi�o in�spita pela qual passava nosso caminho e ao destino tr�gico a que nos levava.</p><empty-line/></section><section><p><strong>2. O Tigre de San Pedro</strong></p><p>Depois de uma caminhada gelada e melanc�lica, chegamos a um port�o alto de madeira, que dava para uma avenida sombria de castanheiros. Um caminho sinuoso nos levou at� uma casa baixa e escura, que se destacava contra o c�u cinza. Vimos uma luz tr�mula que sa�a de uma janela � esquerda da porta.</p><p>� H� um policial de plant�o � disse Baynes. � Vou bater na janela.</p><p>Caminhou pela grama e bateu com os dedos na vidra�a. Pude ver, pelo vidro emba�ado, um homem dar um pulo da cadeira perto da lareira e escutei um grito �spero vindo de dentro. Pouco depois um policial p�lido de susto e ofegante abriu a porta, com uma vela nas m�os que tremiam.</p><p>� Qual � o problema, Walters? � perguntou Baynes com rispidez.</p><p>O policial enxugou a testa com o len�o e deu um profundo suspiro de al�vio.</p><p>� Estou contente que o senhor tenha vindo. Foi uma vig�lia intermin�vel e eu acho que meus nervos j� n�o s�o t�o bons como eram antigamente.</p><p>� Seus nervos, Walters? Nunca pensei que voc� tivesse um nervo sequer no corpo.</p><p>� Bem, senhor, � esta solid�o, esta casa silenciosa e o neg�cio esquisito na cozinha. Quando o senhor bateu na janela, pensei que ele tivesse voltado...</p><p>� Quem tivesse voltado?</p><p>� O dem�nio, senhor, pelo que sei. Ele estava na janela.</p><p>� O que estava na janela, e quando?</p><p>� Aconteceu h� duas horas, mais ou menos. Eu estava lendo, sentado na cadeira. N�o sei o que me fez levantar a cabe�a, mas havia uma cara me olhando pela vidra�a. E que cara, senhor! De hoje em diante vou v�-la sempre em meus sonhos.</p><p>� Ora, Walters, isto n�o � conversa de um policial.</p><p>� Eu sei, senhor, eu sei, mas ela me assustou e n�o adianta neg�-lo. N�o era preta nem branca, n�o era de nenhuma cor que eu conhe�a, mas uma esp�cie de barro com leite. E tamb�m o tamanho dela � tinha duas vezes o tamanho da sua, inspetor. E o olhar � dois olhos esbugalhados e uns dentes de fera faminta. Vou lhe dizer, senhor, n�o consegui mexer nem um dedo nem respirar enquanto ela n�o sumiu. Corri para fora e dei uma busca nas folhagens, mas gra�as a Deus ela tinha sumido.</p><p>� Se eu n�o soubesse que voc� � um bom homem, Walters, eu teria que fazer um relat�rio contra voc� por causa disso. Se fosse o pr�prio dem�nio, um policial n�o deveria dar gra�as a Deus por n�o t�-lo agarrado. Suponho que tudo isso tenha sido um abalo nervoso e n�o uma vis�o real...</p><p>� Isso tudo, pelo menos, pode ser facilmente verificado � disse Holmes, acendendo sua lanterna de bolso. � Sim � continuou Holmes, depois de examinar a grama � sapato n�mero 45, eu diria. Se o tamanho for proporcional ao p�, com toda a certeza era um gigante.</p><p>� O que aconteceu com ele?</p><p>� Parece que passou pelos arbustos e pegou a estrada.</p><p>� Bem � disse o inspetor, com uma cara s�ria e pensativa �, quem quer que tenha sido, e o que pretendia, por enquanto sumiu e n�s temos coisas mais urgentes para tratar. Sr. Holmes, com sua permiss�o, vou mostrar-lhe a casa.</p><p>Depois de um exame minucioso, os v�rios quartos e salas n�o revelaram quase nada. Aparentemente os inquilinos haviam trazido pouca coisa com eles, ou nada, e toda a mob�lia tinha sido alugada juntamente com a casa. Havia muita roupa deixada ali, com a marca Marx and Co., High Holborn. J� tinham sido feitas perguntas por telegrama, mas Marx nada sabia de seu cliente a n�o ser que era um bom pagador. Entre a bugiganga deixada havia cachimbos, alguns romances, dois deles em espanhol, um rev�lver antiquado e um viol�o.</p><p>� Nada nisso tudo � disse Baynes, andando de quarto em quarto, carregando a vela. � Mas agora, sr. Holmes, chamo sua aten��o para a cozinha.</p><p>Era um aposento na parte de tr�s da casa, sombrio e de teto alto, com uma padiola de palha num canto, que, aparentemente, servira de cama para o cozinheiro. Na mesa, restos do jantar da noite anterior e pratos sujos.</p><p>� Veja isto � disse Baynes. � O que acha?</p><p>Aproximou a vela de um objeto estranho que estava no fundo do arm�rio. Era dif�cil dizer o que tinha sido, de t�o enrugado, murcho e seco que estava. Podia-se apenas dizer que era preto e de couro, e que tinha alguma semelhan�a com uma figura humana an�. No come�o, quando o examinei, pensei que era um negrinho mumificado, depois pensei tratar-se de um macaco muito velho e torcido. Finalmente fiquei em d�vida se era animal ou humano. No meio estava enrolada uma fileira de conchas brancas.</p><p>� Muito interessante; de fato, muito interessante � disse Holmes, olhando a rel�quia sinistra. � Alguma coisa mais?</p><p>Baynes, em sil�ncio, foi at� a pia e levantou a vela. Os membros e o corpo de uma ave grande e branca, selvagemente despeda�ada, ainda com as penas, ainda estava ali. Holmes apontou para as estacas na cabe�a cortada.</p><p>� Um galo branco � disse ele. � Interessant�ssimo!</p><p>� Na verdade, � um caso bem curioso.</p><p>Mas o inspetor Baynes tinha deixado seu trunfo mais sinistro para o final. Apanhou um balde com sangue que estava embaixo da pia. Depois pegou na mesa uma bandeja com pequenos peda�os de ossos carbonizados.</p><p>� Alguma coisa foi morta e queimada. Tiramos tudo isso da lareira. Um m�dico esteve aqui esta manh�. Diz que n�o s�o humanos.</p><p>Holmes sorriu e esfregou as m�os.</p><p>� Devo dar-lhe os parab�ns pelo modo proveitoso como est� conduzindo este caso, inspetor. Sua capacidade, se posso dizer isso sem ofensa, parece superior �s suas oportunidades.</p><p>Os olhinhos do inspetor Baynes brilharam de satisfa��o.</p><p>� Tem raz�o, sr. Holmes. Vegeta-se no interior. Um caso como este aqui d� uma oportunidade a gente, e eu espero resolv�-lo. O que acha destes ossos?</p><p>� Um cordeiro, eu diria, ou um cabrito.</p><p>� E o galo branco?</p><p>� Curioso, sr. Baynes, muito curioso. Eu diria mesmo in�dito.</p><p>� Sim, senhor, nesta casa devia haver gente muito estranha, com costumes bem estranhos. Uma delas est� morta. Ser� que seus companheiros a seguiram e a mataram? Se o fizeram, vamos peg�-los, porque todos os portos est�o vigiados. Mas minhas opini�es s�o diferentes. Sim, senhor, s�o muito diferentes.</p><p>� Ent�o o senhor tem uma teoria?</p><p>� E vou trabalhar nela sozinho, sr. Holmes. Devo� fazer isso para ganhar prest�gio. O senhor tem o nome feito, mas eu ainda tenho que fazer o meu. Ficarei contente em poder dizer no final que eu resolvi o caso sem a sua ajuda.</p><p>Holmes, de bom humor, riu.</p><p>� Ora, ora, inspetor � ele disse. � Siga o seu caminho que eu seguirei o meu. Meus resultados sempre estar�o � sua disposi��o, se quiser. Acho que j� vi tudo o que queria nesta casa e meu tempo pode ser mais bem aproveitado em outro lugar. Au revoir e boa sorte!</p><p>Eu podia dizer, diante de v�rios sinais sutis, que podiam ter passado despercebidos para todos, menos para mim, que Holmes estava numa pista quente. Impass�vel como sempre para o observador casual, havia, mesmo assim, ansiedade e indica��o de tens�o em seus olhos brilhantes e no jeito mais vivo, o que me dizia que o jogo estava em andamento. Como era seu h�bito, nada disse, e eu, como meu h�bito, nada perguntei. Bastava-me participar do jogo e dar minha humilde contribui��o para a pris�o, sem distrair aquele c�rebro concentrado com interrup��es desnecess�rias. No devido tempo, tudo me seria contado.</p><p>Assim, esperei � mas para meu desapontamento crescente, esperei em v�o. Os dias estavam passando e meu amigo n�o fez mais nada. Passou uma manh� na cidade e eu soube por uma refer�ncia casual que ele tinha visitado o Museu Brit�nico. Com exce��o desse passeio, ele passava os dias em longas caminhadas, ou conversando com mexeriqueiros da cidade, com os quais fizera amizade.</p><p>� Tenho certeza, Watson, de que uma semana no campo far� bem a voc� � ele disse. � � muito agrad�vel ver os primeiros brotos verdes nascendo nas sebes e os amentilhos nas aveleiras novamente. Com uma p�, um balde e um livro elementar de bot�nica, pode-se passar dias proveitosos.</p><p>Ele mesmo sa�a com esse material, mas a amostra de plantas que trazia para casa � noite era bem pobre.</p><p>Encontr�vamos de vez em quando, nos nossos passeios, o inspetor Baynes. Quando cumprimentava meu companheiro, seu rosto se abria em sorrisos e seus olhinhos brilhavam. Falava pouco do caso, mas desse pouco v�amos que ele n�o estava insatisfeito com o rumo dos acontecimentos. Entretanto devo admitir que eu fiquei um pouco surpreso quando, uns cinco dias depois do crime, abri o jornal da manh� e vi, em letras garrafais:</p><empty-line/><p>O MIST�RIO DE OXSHOTT</p><p>UMA SOLU��O</p><p>PRIS�O DO SUPOSTO ASSASSINO</p><empty-line/><p>Holmes pulou da cadeira como se tivesse levado uma ferroada quando li a manchete.</p><p>� Meu Deus! � exclamou. � Voc� quer dizer que Baynes o pegou?</p><p>� Parece que sim � eu disse, e li o seguinte relato:</p><empty-line/><p>Quando se soube ontem � noite que foi feita uma pris�o relacionada com o assassinato de Oxshott, houve grande sensa��o em Esher e arredores. Como se sabe, o sr. Garcia, da Vila Glic�nia, foi encontrado morto em Oxshott Common, com sinais de extrema viol�ncia no corpo, e naquela mesma noite seu criado e o cozinheiro desapareceram, o que demonstra a participa��o deles no crime. Pensava-se, mas n�o se conseguiu provar, que o cavalheiro morto tivesse objetos de valor na casa, e que o roubo fora o motivo do crime. O inspetor Baynes envidou todos os esfor�os, j� que est� encarregado do caso, para localizar o esconderijo dos fugitivos, e ele tem bons motivos para crer que eles n�o estavam longe e ficaram escondidos em um local previamente preparado. Mas sabia-se desde o come�o que eles seriam presos, mais cedo ou mais tarde, j� que o cozinheiro, segundo o depoimento de um ou dois fornecedores que o viram pela janela, era um homem de apar�ncia que chamava aten��o � um mulato imenso e medonho, com tra�os acentuados do tipo negr�ide. Ele foi visto depois do crime, porque foi notado e perseguido pelo policial Walters na mesma noite, quando teve a aud�cia de retornar � Vila Glic�nia. O inspetor Baynes, achando que esse retorno deve ter algum objetivo e que poderia, portanto, voltar a acontecer, saiu da casa, mas deixou uma emboscada no matagal pr�ximo. O homem caiu na armadilha e foi capturado ontem � noite, depois de uma luta na qual o policial Downing foi gravemente ferido por uma dentada do selvagem. Espera-se que uma ordem de pris�o seja solicitada pela pol�cia quando o prisioneiro for levado � justi�a, e esperam-se grandes progressos a partir desta pris�o.</p><empty-line/><p>� Temos de ver Baynes imediatamente � exclamou Holmes, apanhando o chap�u. � Vamos peg�-lo antes que parta.</p><p>Sa�mos correndo pela rua do lugarejo e o encontramos, como sup�nhamos, quando ele estava saindo.</p><p>� Leu o jornal, sr. Holmes? � perguntou, com um exemplar na m�o.</p><p>� Sim, Baynes, eu o li. Espero que n�o se ofenda se eu lhe der uma palavra de advert�ncia.</p><p>� De advert�ncia, sr. Holmes?</p><p>� Estive analisando este caso com muito cuidado e acho que o senhor n�o est� no caminho certo. N�o gostaria que se expusesse tanto, a menos que tenha certeza.</p><p>� � bondade sua, sr. Holmes.</p><p>� Asseguro-lhe que falo pelo seu pr�prio bem.</p><p>Tive a impress�o de que uma esp�cie de piscada surgiu rapidamente em um dos olhinhos apertados do sr. Baynes.</p><p>� Combinamos que cada um trabalharia a seu modo, sr. Holmes. E � exatamente isso que estou fazendo.</p><p>� Oh, muito bem � disse Holmes. � N�o me culpe.</p><p>� N�o, senhor. Tenho certeza de que n�o fez por mal. Mas n�s temos nossos pr�prios sistemas, sr. Holmes. O senhor tem o seu, eu tenho o meu.</p><p>� Bem, vamos esquecer o assunto.</p><p>� Disponha sempre de minhas descobertas. Esse sujeito � um perfeito selvagem, forte como um cavalo e feroz como o diabo. Ele mastigou o polegar de Downing at� quase arranc�-lo antes de ser dominado. Mal fala uma palavra em ingl�s e s� conseguimos extrair grunhidos dele.</p><p>� Acha que tem prova de que foi ele que matou o patr�o?</p><p>� Eu n�o disse isso, sr. Holmes, eu n�o disse isso. Temos nossos m�todos. Siga os seus e eu seguirei os meus. O acordo � este.</p><p>Holmes encolheu os ombros quando nos afastamos.</p><p>� N�o estou entendendo o homem. Ele d� a impress�o de que vai falhar. Bem, como ele diz, cada um deve seguir seu pr�prio caminho e ver no que vai dar. Mas h� qualquer coisa no inspetor Baynes que eu n�o estou entendendo.</p><p>� Sente-se nessa cadeira, Watson � disse Holmes, quando voltamos ao nosso aposento no hotel. � Quero deix�-lo a par da situa��o, j� que vou precisar de sua ajuda hoje � noite. Vou mostrar-lhe a evolu��o do caso at� onde eu pude segui-lo. Embora pare�a simples em seus aspectos principais, tem dificuldades surpreendentes para uma pris�o. H� falhas nessa dire��o e n�s temos de san�-las. Vejamos o bilhete que foi entregue a Garcia na noite de sua morte. Vamos esquecer a teoria de Baynes de que os criados de Garcia est�o envolvidos no assunto. A prova disso reside no fato de que foi ele, Garcia, que fez com que Scott Eccles estivesse na sua casa, o que s� pode ter sido feito com o intuito de um �libi. Era Garcia, portanto, que tinha uma tarefa a cumprir e, aparentemente, uma tarefa criminosa naquela noite, durante a qual foi morto. Eu disse �criminosa� porque somente um homem com um intuito criminoso desejaria criar um �libi. Quem, ent�o, poderia mat�-lo? Com toda a certeza a pessoa contra a qual existia o intuito criminoso. At� aqui, parece que estamos pisando em terreno firme. Podemos ver agora um motivo para o desaparecimento da criadagem de Garcia. Todos estavam metidos na mesma miss�o desconhecida. Se fosse bem-sucedida, Garcia voltaria e qualquer suspeita seria descartada pelo testemunho do ingl�s, e tudo ficaria bem. Mas o neg�cio era perigoso e, se Garcia n�o voltasse em determinada hora, era prov�vel que estivesse morto. Ent�o ficou estabelecido que, nesse caso, os dois criados deveriam ir para um lugar j� combinado, de onde poderiam escapar das investiga��es e numa situa��o de tentar novamente mais tarde. Isso explica tudo, n�o?</p><p>Todo o emaranhado pareceu-me claro. Como sempre, fiquei imaginando por que eu n�o percebera tudo antes.</p><p>� Mas por que um dos criados voltou?</p><p>� Podemos supor que, na confus�o da fuga, alguma coisa preciosa, algo que n�o conseguiu levar, tenha ficado ali. Isso poderia explicar a insist�ncia dele, n�o?</p><p>� Bem, qual � o pr�ximo passo?</p><p>� � o bilhete que Garcia recebeu durante o jantar. Mostra um c�mplice na outra ponta. Mas onde estava a outra ponta? J� lhe mostrei que s� podia ser uma casa grande e que a quantidade delas � pequena. Dediquei meus primeiros dias aqui a uma s�rie de passeios nos intervalos de minhas pesquisas de bot�nica e fiz um reconhecimento de todas as casas grandes e um exame da hist�ria de seus ocupantes. Uma casa, e s� uma, despertou minha aten��o. � a famosa e antiga granja de High Gable, a 1 quil�metro e meio de Oxshott e a menos de 1 quil�metro do local da trag�dia. As outras pertencem a pessoas normais e respeit�veis, que vivem afastadas de confus�es. Mas o sr. Henderson, de High Gable, � realmente uma pessoa curiosa, a quem podem acontecer fatos curiosos. A partir da�, concentrei minha aten��o nele e em sua criadagem. Um grupo estranho de pessoas, Watson � o pr�prio homem � o mais estranho de todos. Com uma boa desculpa dei um jeito de falar com o sujeito, mas tive a impress�o de ler nos seus olhos escuros e desconfiados que ele estava a par de minhas verdadeiras inten��es. Tem uns 50 anos, forte, �gil, cabelos grisalhos, sobrancelhas pretas e bastas, anda empinado como um cervo e tem o ar de um imperador � um homem destemido, autorit�rio, com uma vontade f�rrea escondida atr�s de uma pele de pergaminho. Ele tanto pode ser um estrangeiro como algu�m que viveu muito tempo nos tr�picos, j� que � amarelo e seco, mas forte como um chicote. Seu amigo e secret�rio, sr. Lucas, sem d�vida nenhuma � estrangeiro, cor de chocolate, astuto, polido e felino, com um linguajar sutil e venenoso. Voc� est� vendo, Watson, que nos defrontamos com dois grupos de estrangeiros, um na Vila Glic�nia e um em High Gable � de modo que estamos come�ando a suprir nossas falhas. Estes dois homens, amigos �ntimos, s�o o n�cleo da casa, mas h� uma outra pessoa que pode ser ainda mais importante para nosso fim imediato. Henderson tem duas filhas � meninas de 11 e 13 anos. A governanta � a senhorita Burnet, uma inglesa quarentona. Existe ainda um criado de confian�a. Este pequeno grupo forma a fam�lia, porque eles viajam juntos, e Henderson � um grande viajante, sempre se mudando. Faz poucas semanas que ele voltou a High Gable, depois de uma viagem em que ficou ausente durante um ano. Devo acrescentar que ele � muito rico e pode satisfazer todos os seus caprichos. No mais, a casa est� cheia de mordomos, lacaios, arrumadeiras, e a criadagem comum, equipe de uma casa grande de campo. Eu soube de tudo isso pelos bisbilhoteiros do lugar, e em parte por meio de minhas pr�prias observa��es. N�o existe parceiro melhor do que empregados demitidos e ressentidos, e eu tive a sorte de encontrar um. Eu chamo isso de sorte, mas eu n�o o encontraria se n�o estivesse procurando por ele. Como diz Baynes, cada um tem seu m�todo. Foi o meu m�todo que me fez encontrar John Warner, ex-jardineiro de High Gable, despedido num acesso temperamental de seu patr�o com ares de imperador. Ele, por sua vez, tinha amigos na casa, que tamb�m tinham medo e rancor do patr�o. Assim eu tinha a chave para os segredos da casa. Gente curiosa, Watson! N�o quero dizer que j� conhe�o todos, mas, de qualquer modo, gente muito interessante. A casa tem duas alas, os criados moram numa delas e a fam�lia na outra. N�o existe liga��o entre elas, a n�o ser para o criado particular de Henderson, que serve as refei��es da fam�lia. Tudo � levado at� uma certa porta, que faz a liga��o. As crian�as e a governanta dificilmente saem, a n�o ser para o jardim. Henderson nunca sai sozinho. Seu secret�rio moreno � como uma sombra. O mexerico entre os criados � que o patr�o tem um medo terr�vel de alguma coisa. �Vendeu a alma ao diabo a troco de dinheiro e est� esperando que o credor venha exigir o que lhe pertence�, diz Warner. Ningu�m sabe de onde eles vieram ou quem s�o. S�o muito violentos. Por duas vezes Henderson agrediu algumas pessoas com um chicote e s� mesmo sua fortuna e uma boa recompensa o mantiveram afastado da justi�a. Bem, Watson, vamos agora analisar a situa��o a partir destas novas informa��es. Podemos supor que o bilhete tenha vindo dessa casa estranha, e que era um convite para que Garcia executasse algo que j� tinha sido planejado. Quem escreveu o bilhete? Era algu�m de dentro da casa, e era uma mulher. Quem, a n�o ser a senhorita Burnet, a governanta? Nosso racioc�nio parece indicar esse rumo. De qualquer modo, podemos t�-la como hip�tese e ver a que conseq��ncia vai nos levar. Devo acrescentar que o car�ter e a idade da governanta, senhorita Burnet, confirmam minha teoria inicial de que um caso de amor est� fora de cogita��o. Se ela escreveu o bilhete, com toda certeza era amiga e c�mplice de Garcia. O que, ent�o, ela devia fazer se soubesse que ele estava morto? Se ele morreu por causa de algo criminoso, ela jamais diria uma palavra. Assim sendo, ela guardaria, no fundo do cora��o, amargura e �dio contra os assassinos e faria tudo o que pudesse para se vingar deles. Poder�amos ent�o v�-la e us�-la? Este foi meu primeiro pensamento. Mas agora estamos diante de um fato sinistro. Ningu�m mais viu a senhorita Burnet desde a noite do crime. Ela simplesmente sumiu desde aquela noite. Est� viva? Ser� que ela morreu na mesma noite em que atraiu seu amigo? Ou ser� que ela � simplesmente uma prisioneira? Esta � a quest�o que n�s temos que esclarecer. Voc� vai entender a dificuldade da quest�o, Watson. N�o temos nenhuma base para solicitar um mandado de pris�o. Toda a nossa hist�ria pareceria fant�stica se a apresent�ssemos a um juiz. O desaparecimento da mulher n�o vale nada, j� que, naquela criadagem incomum, qualquer um deles pode sumir durante uma semana. E ainda pode ser que ela esteja correndo perigo de vida. Tudo o que eu posso fazer � vigiar a mans�o e deixar meu agente Warner de guarda nos port�es. N�o podemos deixar que uma situa��o assim v� em frente. Se a lei n�o pode fazer nada, n�s devemos correr o risco.</p><p>� O que voc� sugere?</p><p>� Sei onde fica o quarto dela. Podemos alcan��-lo do telhado de uma constru��o anexa. Acho que voc� e eu devemos ir l� esta noite para tentarmos acertar bem no cora��o do mist�rio.</p><p>N�o era uma perspectiva muito tentadora, confesso. A velha casa com sua atmosfera de crime, os habitantes estranhos, os perigos desconhecidos da nossa abordagem e o fato de estarmos nos colocando numa posi��o ilegal, tudo isso contribuiu para diminuir meu entusiasmo. Mas havia qualquer coisa no racioc�nio frio de Holmes que tornava imposs�vel uma desculpa para n�o participar de qualquer aventura para a qual ele me convidasse. Sab�amos que assim, somente assim, poder�amos achar a solu��o. Apertei sua m�o em sil�ncio e a sorte estava lan�ada.</p><p>Mas o destino quis que nossa investiga��o n�o tivesse um fim t�o aventureiro. Eram mais ou menos cinco horas e as primeiras sombras da noite de mar�o j� come�avam a surgir quando um sujeito rude entrou correndo em nosso quarto:</p><p>� Eles partiram, sr. Holmes. Partiram no �ltimo trem. A mulher fugiu e eu a trouxe num cabriol�.</p><p>� Excelente, Warner! � exclamou Holmes, levantando-se de um salto. � Watson, nossos problemas est�o se acabando rapidamente.</p><p>A mulher estava no carro, quase inconsciente por causa de uma exaust�o nervosa. Trazia, no rosto aquilino e magro, sinais de uma trag�dia recente. A cabe�a estava ca�da no peito, e quando ela a ergueu e fixou os olhos amortecidos em n�s, vi que suas pupilas eram pontos negros no centro de grandes �ris cinzentas. Ela tinha sido drogada com �pio.</p><p>� Fiquei de guarda no port�o, como o senhor mandou, sr. Holmes � disse nosso emiss�rio, o jardineiro despedido. � Quando a carruagem saiu, eu a segui at� a esta��o. Ela parecia uma son�mbula, mas quando eles tentaram empurr�-la para dentro do trem, ela acordou e lutou. Eles a arrastaram para dentro do vag�o, mas ela escapou novamente. Eu a socorri e a coloquei no cabriol�, e aqui estamos n�s. Jamais vou me esquecer do rosto que vi na janela do vag�o quando eu a puxei. Minha vida n�o valeria nada se ele voltasse aqui � o olho negro, carrancudo, do diabo amarelo.</p><p>N�s a levamos para cima, at� nosso aposento, e a deitamos num sof�, e alguns goles de caf� forte fizeram seu c�rebro sair da n�voa da droga. Holmes havia chamado Baynes e explicou-lhe rapidamente a situa��o.</p><p>� Sim senhor! Pegou a prova que eu queria � disse o inspetor com veem�ncia, apertando a m�o de meu amigo. � Eu estava desde o in�cio na mesma pista.</p><p>� O qu�? O senhor estava atr�s de Henderson?</p><p>� Ora, sr. Holmes, enquanto o senhor ficava rastejando nas moitas em High Gable, eu estava em cima de uma �rvore do pomar a observ�-lo. Era apenas uma quest�o de ver quem pegaria a prova primeiro.</p><p>� Ent�o, por que prendeu o mulato?</p><p>Baynes deu um risinho.</p><p>� Eu tinha certeza de que Henderson � como ele diz chamar-se � estava desconfiado e que ficaria quieto no mesmo lugar enquanto se sentisse seguro. Prendi o homem errado para faz�-lo crer que n�o est�vamos na sua pista. Sabia que ele tentaria fugir e assim nos daria uma chance de chegar at� a srta. Burnet.</p><p>Holmes p�s a m�o no ombro do inspetor.</p><p>� O senhor vai longe na sua profiss�o. Tem instinto e intui��o � ele disse.</p><p>Baynes corou de prazer.</p><p>� Deixei um guarda � paisana na esta��o durante toda a semana. Onde quer que o pessoal de High Gable v�, ele estar� vigiando. Mas deve ter sido dif�cil para ele quando a srta. Burnet fugiu. Felizmente seu agente a pegou e est� tudo bem. N�o podemos efetuar nenhuma pris�o sem o testemunho dela, de modo que, quanto antes obtivermos um depoimento dela, ser� melhor.</p><p>� Ela est� melhorando rapidamente � disse Holmes, olhando para a governanta. � Mas, diga-me, Baynes, quem � Henderson?</p><p>� Henderson � respondeu o inspetor � � dom Murillo,� antes conhecido como o Tigre de San Pedro.</p><p>O Tigre de San Pedro! A hist�ria completa do homem surgiu rapidamente em minha cabe�a. Ele criou fama como o mais cruel e sanguin�rio tirano que j� governou um pa�s com a m�scara de civiliza��o. Forte, destemido e en�rgico, ele conseguiu impor seus v�cios hediondos a um povo amedrontado durante dez ou 12 anos. Seu nome era um terror em toda a Am�rica Central. No final daquele per�odo houve um levante geral contra ele. Mas ele era t�o cruel quanto esperto, e ao primeiro sinal de problema, transferiu em segredo seus tesouros para um navio tripulado por correligion�rios devotados. No dia seguinte, quando os insurretos atacaram o pal�cio, encontraram tudo vazio. O ditador, suas duas filhas, o secret�rio e sua fortuna escaparam deles. A partir daquele momento ele sumiu no mundo e sua identidade foi motivo para coment�rios freq�entes na imprensa europ�ia.</p><p>� Sim, senhor, dom Murillo, o Tigre de San Pedro � disse Baynes. � Se o senhor procurar, vai descobrir que as cores de San Pedro s�o verde e branco, as mesmas mencionadas no bilhete, sr. Holmes. Ele diz chamar-se Henderson, mas consegui reconstituir seu roteiro desde Paris, Roma, Madri e Barcelona, onde seu navio chegou em 1886. Eles o procuraram o tempo todo para a vingan�a, mas somente agora conseguiram encontr�-lo.</p><p>� Eles o descobriram h� um ano � disse a srta. Burnet, agora sentada e acompanhando a conversa. � Tentaram mat�-lo uma vez, mas um esp�rito maligno o protegia. E agora de novo, Garcia, nobre e corajoso, falhou, e o monstro escapa. Mas vir� um outro, e outro, at� que um dia seja feita justi�a; isso � t�o certo como o nascer do sol.</p><p>As m�os finas da mulher se contra�ram e seu rosto empalideceu de �dio.</p><p>� Mas como a senhorita veio a participar disso? � perguntou Holmes. � Como pode uma inglesa vir a participar desse caso criminoso?</p><p>� Eu me envolvi porque n�o existe outro modo no mundo de se fazer justi�a. A lei inglesa se preocupa com o rio de sangue derramado h� tanto tempo em San Pedro, ou com a riqueza que o homem roubou? Para voc�s, tudo isso pode dar a impress�o de crimes cometidos em outro mundo. Mas n�s sabemos. Aprendemos a verdade por meio da dor e do sofrimento. Para n�s n�o existe um dem�nio no inferno como Juan Murillo e nenhuma paz na vida enquanto suas v�timas ainda clamam por vingan�a.</p><p>� Sem d�vida ele era como a senhorita o descreveu � disse Holmes. � Eu ouvi dizer que ele era cruel. Mas como isso a atingiu?</p><p>� Vou contar-lhe tudo. A pol�tica desse bandido era matar, sob qualquer pretexto, todos os homens que tivessem a possibilidade de tornar-se um rival perigoso para ele. Meu marido � sim, meu nome verdadeiro � sra. Victor Durando � era embaixador de San Pedro em Londres. Foi l� que ele me conheceu e onde nos casamos. Jamais conheci algu�m mais nobre. Infelizmente Murillo ouviu falar de suas qualidades, chamou-o de volta com um pretexto qualquer e ele foi fuzilado. Com uma premoni��o do seu destino, ele se recusou a levar-me com ele. Confiscaram os seus bens e eu fiquei na mis�ria e com o cora��o amargurado. Ent�o, veio a queda do tirano. Ele fugiu, como o senhor acabou de descrever. Mas muitos daqueles cujas vidas ele arruinou, torturando e matando seus parentes, jamais deixariam o assunto esquecido. Uniram-se numa sociedade que s� terminaria quando a miss�o fosse cumprida. Depois que descobrimos que ele era o tal de Henderson, minha miss�o era fazer parte da sua criadagem e manter contato com os outros, deixando-os a par de seus movimentos. Eu poderia fazer isso mantendo minha fun��o de governanta na fam�lia. Ele mal sabia que a mulher que ele via a cada refei��o era a mesma cujo marido ele mandara para a eternidade. Eu sorria para ele, cumpria minhas obriga��es para com as crian�as e aguardava minha vez. Em Paris, fizeram uma tentativa, mas falharam. Fugimos imediatamente, percorrendo em ziguezague toda a Europa a fim de despistar os perseguidores, e finalmente voltamos para esta casa, que ele tinha ocupado na primeira vez que veio � Inglaterra. Mas aqui tamb�m estavam esperando os emiss�rios da justi�a. Sabendo que ele voltaria para c�, Garcia, filho do mais alto dignit�rio em San Pedro, ficou esperando, juntamente com dois amigos fi�is, todos com os mesmos motivos para a vingan�a. Nada se podia fazer durante o dia, j� que Murillo tomava todas as precau��es e nunca sa�a sem seu sat�lite, Lucas, ou Lopez, como era conhecido nos seus dias de poder. Mas, � noite, ele dormia sozinho e o vingador poderia ach�-lo. Certa noite, j� programada, enviei a meus amigos instru��es finais, porque o homem estava permanentemente alerta e sempre mudava de quarto. Eu tinha de verificar se as portas estavam abertas e o sinal, de luz verde ou branca na janela que dava para a alameda, era para indicar que tudo estava bem ou que a tentativa deveria ser adiada. Mas tudo deu errado conosco. De algum modo eu despertei a suspeita de Lopez, o secret�rio. Ele se aproximou sorrateiramente de mim por tr�s e me agarrou quando eu tinha acabado de escrever o bilhete. Ele e o patr�o me arrastaram at� o meu quarto e me acusaram de trai��o. Se eles soubessem como escapar das conseq��ncias do seu ato, teriam me matado na mesma hora. Finalmente, depois de muita discuss�o, chegaram � conclus�o de que minha morte seria muito perigosa. Mas estavam decididos a se livrar de Garcia de uma vez por todas. Eles tinham me amarrado e Murillo torceu meu bra�o at� eu lhe dar o endere�o. Juro que eu o deixaria quebrar meu bra�o se eu soubesse o que aconteceria com Garcia. Lopez endere�ou o bilhete que eu escrevi, selou-o com sua abotoadura e o enviou pelo criado Jos�. N�o sei como eles o mataram, a n�o ser que foi a m�o de Murillo que o liquidou, j� que Lopez ficou me vigiando. Eu acho que eles devem ter ficado esperando entre as moitas que cercam o caminho e o acertaram quando ele passou. No come�o eles queriam deix�-lo entrar na casa e liquid�-lo como um assaltante comum, mas argumentaram que se eles se envolvessem num inqu�rito, a verdadeira identidade deles poderia tornar-se p�blica, e ficariam vulner�veis a ataques futuros. Com a morte de Garcia, talvez parasse a persegui��o, j� que essa morte poderia amedrontar outros encarregados da tarefa. Tudo estaria bem para eles agora, se n�o fosse o fato de eu saber o que haviam feito. Tenho certeza de que minha vida esteve em perigo muitas vezes. Estava presa no meu quarto, com amea�as terr�veis, cruelmente usadas contra minha resist�ncia para quebr�-la � vejam este golpe no meu ombro e manchas nos dois lados de meus bra�os �, e me amorda�aram quando, uma vez, tentei gritar da janela. Continuaram com esta pris�o cruel durante cinco dias, com pouca comida para me manter de p�. Hoje eles me trouxeram um almo�o suculento, mas depois que comi, percebi que tinha sido drogada. Lembro-me de que, numa esp�cie de transe, fui meio desfalecida at� um carro; puseram-me no trem, no mesmo estado. S� a�, quando as rodas estavam quase se movendo, eu compreendi que minha liberdade estava nas minhas m�os. Pulei do trem, eles tentaram me arrastar de volta e, se n�o fosse a ajuda deste bom homem aqui, que me colocou no cabriol�, eu n�o conseguiria escapar. Agora, gra�as a Deus, estou livre deles para sempre.</p><p>Todos n�s ouvimos com aten��o este relato impressionante. Holmes quebrou o sil�ncio:</p><p>� Nossos problemas ainda n�o acabaram � ele disse, sacudindo a cabe�a. � Termina nosso trabalho policial, come�a o legal.</p><p>� Exatamente � eu disse. � Um bom advogado pode apresent�-lo como um gesto de autodefesa. Talvez haja centenas de crimes atr�s disso, mas s� este pode ser julgado.</p><p>� Ora, ora � disse Baynes, todo animado. � Creio que a lei � mais do que isso. Autodefesa � uma coisa. Atrair um homem a sangue-frio com o intuito de mat�-lo � outra, apesar do medo que se possa ter dele. N�o, n�o, todos n�s ficaremos gratificados quando tivermos os habitantes de High Gable no pr�ximo j�ri de Guilford.</p><p>� uma quest�o de hist�ria, no entanto, que ainda demorasse algum tempo at� que o Tigre de San Pedro encontrasse seus executores. Astuto e audacioso, ele e seu companheiro despistaram seus perseguidores, entrando pela porta da frente de uma casa na Edmonton Street e saindo pela dos fundos na pra�a Curzon. Nunca mais foram vistos na Inglaterra. Uns seis meses depois, o marqu�s de Montalva e o sr. Rulli, seu secret�rio, foram mortos nos seus quartos no Hotel Escurial, em Madri.</p><p>O crime foi atribu�do � Organiza��o Niilista e seus autores jamais foram presos.</p><p>O inspetor Baynes nos visitou em Baker Street com um retrato falado do rosto moreno do secret�rio e as fei��es autorit�rias, olhos negros e magn�ticos, sobrancelhas espessas do seu chefe. N�o tivemos d�vida de que, embora tardia, fora feita justi�a.</p><p>� Um caso confuso, meu caro Watson � disse Holmes, � noite, fumando seu cachimbo. � Voc� n�o poder� apresent�-lo naquela forma compacta de que voc� tanto gosta. Ele abrange dois continentes, dois grupos de pessoas misteriosas e � ainda mais complicado pela presen�a extremamente respeit�vel de nosso amigo Scott Eccles, cuja inclus�o mostra que o falecido Garcia tinha uma mente planejadora e um instinto de sobreviv�ncia bem desenvolvido. � impressionante pelo simples fato de que, em meio a um verdadeiro emaranhado de possibilidades, n�s, juntamente com nosso digno colaborador, o inspetor Baynes, tenhamos mantido nossa mente presa aos fatos essenciais e, desta forma, f�ssemos guiados pelo caminho obscuro e tortuoso. Existe ainda algum detalhe que n�o tenha ficado claro para voc�?</p><p>� Qual o objetivo da volta do cozinheiro?</p><p>� Eu acho que a estranha criatura na cozinha pode justific�-la. O homem era um selvagem primitivo, dos confins de San Pedro, e aquilo era o seu fetiche. Quando ele e o companheiro fugiram para o esconderijo preparado � j� ocupado, sem d�vida, por algum c�mplice �, seu comparsa o convenceu a abandonar o objeto comprometedor. Mas o cora��o do mulato estava com o objeto, e ele voltou no dia seguinte, quando, ao sondar pela janela, encontrou o guarda Walters de plant�o. Ele esperou mais tr�s dias, e ent�o sua religi�o, ou sua supersti��o, fez com que ele tentasse de novo. O inspetor Baynes, com sua ast�cia habitual, minimizara o incidente para mim, mas na verdade tinha reconhecido sua import�ncia e deixara uma armadilha, na qual a criatura caiu. Algum outro detalhe, Watson?</p><p>� O p�ssaro esquartejado, o balde de sangue, os ossos carbonizados, o mist�rio todo daquela cozinha esquisita?</p><p>Holmes sorriu enquanto consultava uma anota��o no seu caderno.</p><p>� Passei uma manh� no Museu Brit�nico lendo a respeito disso aqui e de alguns outros pontos. Aqui est� uma explica��o de Eckermann sobre Vodu�smo e Religi�es Negras:</p><empty-line/><p>O verdadeiro seguidor do vodu n�o faz nada importante sem alguns sacrif�cios, cujo objetivo � agradar aos seus deuses impuros. Em casos extremos, esses rituais tomam a forma de sacrif�cios humanos, seguidos de canibalismo. As v�timas mais comuns s�o um galo branco, esquartejado vivo, ou um bode preto, cujo pesco�o � cortado e o sangue queimado.</p><p>� Agora voc� v� que nosso amigo selvagem era bem ortodoxo em seus rituais. � grotesco, Watson � acrescentou Holmes, enquanto fechava lentamente seu caderno de anota��es �, mas, como eu j� tive oportunidade de observar, h� apenas um passo entre o grotesco e o horr�vel.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o caso da caixa de papel�o</strong></p><p>Ao escolher alguns casos t�picos que ilustrem as not�veis qualidades mentais de meu amigo Sherlock Holmes, tenho me esfor�ado ao m�ximo para selecionar os que apresentem o m�nimo de sensacionalismo, ao mesmo tempo oferecendo um vasto campo para seu talento. Infelizmente, por�m, � imposs�vel separar o sensacional do criminoso, e um narrador fica com o dilema de sacrificar detalhes que sejam essenciais ao seu trabalho e, assim, dar uma falsa impress�o do problema, ou ent�o deve usar o assunto que o caso, e n�o a escolha, lhe deu. Com este curto pref�cio, volto-me para minhas anota��es daquilo que foi uma cadeia de acontecimentos estranhos, embora peculiarmente terr�veis.</p><p>Era um dia extremamente quente de agosto. Baker Street parecia um forno, e o brilho do sol na fachada de tijolos amarelos da casa em frente � nossa chegava a doer nos olhos. Era dif�cil acreditar que aquelas paredes eram as mesmas que pareciam</p><p>t�o tristes na neblina do inverno. Nossas venezianas estavam semicerradas e Holmes se encontrava recostado no sof�, lendo e relendo uma correspond�ncia que havia recebido na entrega da manh�.</p><p>Meu tempo de servi�o na �ndia havia me preparado para suportar mais o calor do que o frio, e um term�metro assinalando 35 graus n�o era penoso para mim. Mas o jornal da manh� n�o tinha nada interessante. O Parlamento entrara em recesso. Todo mundo estava fora da cidade e eu ansiava pelo verde de New Forest ou pelas praias de Southsea. Uma conta banc�ria em baixa obrigara-me a adiar minhas f�rias e, quanto ao meu amigo, nem o campo nem o mar o atra�am. Ele adorava ficar misturado no meio de cinco milh�es de pessoas, com suas teias se esticando e correndo entre elas, atento a qualquer rumor ou suspeita de crime misterioso. Entre suas muitas virtudes n�o estava o gosto pela natureza, e sua �nica mudan�a foi quando afastou da cabe�a o criminoso da cidade para perseguir o malandro do campo.</p><p>Vendo que Holmes estava absorto demais para conversar, deixei de lado o jornal insosso e me recostei na cadeira, mergulhando numa divaga��o. De repente a voz do� meu amigo interrompeu meus pensamentos:</p><p>� Voc� tem raz�o, Watson � disse ele. � Na verdade, parece uma forma bastante absurda de se resolver uma disputa.</p><p>� Bastante absurda! � exclamei, e ent�o eu percebi de repente que ele estava lendo os mais rec�nditos pensamentos de minha alma; levantei-me e olhei para ele perplexo.</p><p>� O que � isso, Holmes? � perguntei. � Isso est� al�m de tudo o que eu posso imaginar.</p><p>Ele riu diante da minha perplexidade.</p><p>� Voc� se lembra � disse ele � de que h� algum tempo eu li para voc� um trecho de uma das pe�as de Poe, na qual um camarada segue o racioc�nio mental de seu companheiro � e voc� tratou o assunto como um mero exagero do autor. Quando eu lhe disse que tenho a mania de fazer a mesma coisa, voc� n�o acreditou.</p><p>� Oh, n�o!</p><p>� Talvez n�o com suas palavras, meu caro Watson, mas certamente com suas sobrancelhas. De modo que, quando voc� deixou o jornal de lado e come�ou a divagar, fiquei feliz por ter a oportunidade de ler seus pensamentos e acabar por interromp�-los, como prova de que eu estava em sintonia com voc�.</p><p>Mas eu ainda n�o estava me dando por satisfeito.</p><p>� Naquele exemplo que voc� me mostrou � eu disse �, o raciocinador tirou suas conclus�es dos gestos do homem que ele observava. Se me lembro bem, ele trope�ou num monte de pedras, olhou para as estrelas etc. Mas eu estava aqui, sentado tranq�ilamente na minha cadeira; ent�o, que pistas eu posso ter lhe dado?</p><p>� Voc� est� fazendo injusti�a com voc� mesmo. As fei��es humanas servem para que as pessoas expressem suas emo��es, e as suas s�o aliadas fi�is.</p><p>� Quer dizer que voc� leu a seq��ncia de meus pensamentos a partir de minhas fei��es?</p><p>� Suas fei��es e, principalmente, seus olhos. Talvez voc� n�o se lembre como come�ou seu devaneio.</p><p>� N�o, n�o me lembro.</p><p>� Ent�o vou lhe dizer. Depois de largar o jornal, gesto que chamou minha aten��o, voc� ficou uns trinta segundos com uma express�o vazia. Ent�o seus olhos se fixaram no retrato rec�m-emoldurado do general Gordon, e vi, pela altera��o no seu rosto, que estava come�ando a seguir um pensamento. Mas ele n�o foi muito longe. Seus olhos se fixaram no retrato sem moldura de Henry Ward Beecher, que est� em cima de seus livros, na estante. Depois olhou para a parede e o significado era �bvio. Voc� estava pensando que, se o retrato tivesse moldura, ele serviria para preencher o espa�o vazio e fazer par com o retrato de Gordon, ali.</p><p>� Voc� me acompanhou maravilhosamente! � exclamei.</p><p>� N�o podia estar errado at� aqui. Mas a� seus pensamentos voltaram para Beecher e voc� franziu o cenho, como se estivesse estudando o car�ter nas fei��es dele. Logo depois seus olhos perderam a firmeza, mas voc� continuou a mirar o retrato e seu rosto ficou pensativo. Voc� estava se lembrando dos incidentes na carreira de Beecher. Eu tinha absoluta certeza de que voc� n�o poderia fazer isso sem pensar na miss�o que ele levou a cabo, em nome do norte, durante a Guerra Civil, porque me recordo de que voc� expressou sua indigna��o pelo modo como ele foi recebido pelas pessoas mais barulhentas. Voc� se sentiu t�o indignado com isso que sei muito bem que n�o poderia pensar em Beecher sem se lembrar disso tamb�m. Quando, pouco depois, eu vi seus olhos se afastarem do retrato, suspeitei que seu pensamento se concentrara na Guerra Civil, e quando vi que seus l�bios se cerraram, seus olhos brilharam e suas m�os se crisparam, tive certeza de que voc� estava pensando na bravura que os dois lados mostraram naquela luta desesperada. Mas a�, de novo, seu rosto ficou sombrio; voc� balan�ou a cabe�a. Estava refletindo sobre a tristeza, o horror e o desperd�cio de vidas. Sua m�o pousou sobre seu pr�prio ferimento e um sorriso surgiu em seus l�bios, o que me mostrou que voc� estava pensando no aspecto rid�culo deste m�todo de resolver quest�es internacionais. Nesse ponto concordei com voc� que fora absurdo e fiquei satisfeito em ver que minhas dedu��es estavam corretas.</p><p>� Totalmente! � disse eu. � E agora que explicou tudo, confesso que estou t�o intrigado quanto antes.</p><p>� Foi muito superficial, meu caro Watson, asseguro-lhe. Eu n�o teria chamado sua aten��o se voc� n�o tivesse mostrado certa incredulidade no outro dia. Mas eu tenho em m�os um probleminha cuja solu��o pode ser mais dif�cil do que meu pequeno ensaio sobre leitura de pensamentos. Voc� viu no jornal uma noticiazinha a respeito do conte�do extraordin�rio de um pacote que foi enviado pelo correio � senhorita Cushing, de Cross Street, Croydon?</p><p>� N�o, n�o vi nada.</p><p>� Ah, ent�o ela lhe escapou. Passe-me o jornal. Aqui est�, abaixo da coluna financeira. Ser� melhor voc� mesmo l�-la em voz alta.</p><p>Peguei o jornal que ele me devolveu e li a not�cia. O t�tulo era: �Um pacote macabro�.</p><empty-line/><p>�A senhorita Susan Cushing, que mora em Cross Street, Croydon, foi v�tima do que se pode considerar uma brincadeira particularmente revoltante, a menos que exista algo mais sinistro relacionado com o incidente. �s duas da tarde de ontem, um pacote pequeno, embrulhado com papel marrom, foi entregue pelo carteiro. Dentro havia uma caixa de papel�o, cheia de sal grosso. Ao esvazi�-la, a senhorita Cushing ficou horrorizada ao encontrar duas orelhas humanas, aparentemente arrancadas h� bem pouco tempo. A caixa foi enviada pelo correio de Belfast na manh� do dia anterior. N�o h� indica��o do remetente, e o assunto � ainda mais misterioso porque a senhorita Cushing, uma senhora solteira de seus 50 anos, sempre levou uma vida reclusa e tem poucos conhecidos ou correspondentes e, assim, � um acontecimento raro para ela receber alguma coisa pelo correio. Entretanto, h� alguns anos, quando ela morou em Penge, alugou quartos, na sua casa, para tr�s jovens estudantes de medicina, dos quais ela foi obrigada a se livrar por causa dos h�bitos barulhentos e irregulares deles. A pol�cia acredita que isso pode ter sido perpetrado contra a senhorita Cushing pelos tr�s rapazes, que lhe deviam uma vingan�a e que esperavam assust�-la enviando-lhe rel�quias da sala de disseca��o. Essa hip�tese � sustentada pelo fato de um dos estudantes ser do norte da Irlanda e, de acordo com a senhorita Cushing, de Belfast. Nesse meio-tempo, o assunto est� sendo investigado pelo sr. Lestrade, um de nossos detetives mais competentes, encarregado do caso.�</p><empty-line/><p>� Isto quanto ao Daily Chronicle � disse Holmes quando terminei minha leitura. � Agora quanto ao nosso amigo Lestrade. Tenho um bilhete dele, desta manh�, que diz o seguinte:</p><empty-line/><p>Eu acho que este caso est� bem na sua �rea de atua��o. Temos esperan�a de esclarec�-lo, mas achamos pouco material para trabalhar no assunto. Telegrafamos, � claro, ao correio de Belfast, mas naquele dia foi entregue uma grande quantidade de pacotes e eles n�o t�m meios de identificar este em particular, ou o remetente. A caixa pesa meia libra, � de fumo para cachimbo e n�o nos forneceu nenhuma pista. Parece-me que a hip�tese dos estudantes � a mais plaus�vel, mas se voc� tiver algumas horas livres, ficarei contente em v�-lo aqui. Estarei, durante todo o dia, na casa ou na delegacia.</p><p>� O que voc� acha, Watson? Poder� suportar o calor e ir comigo a Croydon, com a possibilidade de mais um caso para os seus anais?</p><p>� Eu j� estava com saudade de fazer alguma coisa.</p><p>� Vai ter, ent�o. Pe�a a empregada para chamar um t�xi. Estarei pronto em um minuto, assim que trocar minha roupa e encher a cigarreira.</p><p>Choveu enquanto est�vamos no trem e o calor estava mais suport�vel em Croydon do que em Londres. Holmes havia mandado um telegrama, de modo que Lestrade, firme, ativo e atento, como sempre, estava nos esperando na esta��o. Andamos durante cinco minutos at� Cross Street, onde morava a senhorita Cushing. Era uma rua comprida, de casas com fachadas de tijolos, dois andares, elegantes e bem conservadas, com degraus de pedra, e havia pequenos grupos de mulheres de avental conversando nas portas das casas. Lestrade parou na metade da rua e bateu em uma porta, e uma empregada a abriu. A senhorita Cushing estava sentada no quarto da frente, para onde fomos levados. Era uma mulher de rosto pl�cido, com olhos grandes e suaves, cabelos grisalhos em ondas que desciam pelas fontes. Tinha no colo uma cobertura para poltrona e uma cesta com fios de seda multicolorida estava num banquinho ao seu lado.</p><p>� Aquelas coisas medonhas est�o no quarto de despejo � ela disse quando Lestrade entrou. � Gostaria que o senhor as levasse daqui imediatamente.</p><p>� Pois n�o, senhorita Cushing. Eu as deixei aqui para que meu amigo, sr. Holmes, as visse em sua presen�a.</p><p>� Por que em minha presen�a, senhor?</p><p>� Para o caso de ele querer fazer-lhe algumas perguntas.</p><p>� O que adianta me fazer perguntas se eu j� lhe disse que nada sei a respeito disso?</p><p>� Est� certo, madame � disse Holmes, conciliador. � Tenho certeza de que a senhorita j� se aborreceu o suficiente com este neg�cio.</p><p>� De fato, senhor. Sou uma mulher pacata e vivo sozinha. � uma coisa inteiramente nova para mim ver meu nome nos jornais e ter a pol�cia aqui em casa. N�o quero aquelas coisas aqui, sr. Lestrade. Se o senhor quiser v�-las, v� para a casinha do terreiro.</p><p>Era um compartimento apertado no pequeno jardim, na parte traseira da casa. Lestrade entrou e trouxe uma caixa de papel�o amarelo, com um peda�o de papel marrom e um barbante. Havia um banco ali perto, e n�s nos sentamos enquanto Holmes examinava o conte�do que Lestrade lhe entregou.</p><p>� Este barbante � extremamente interessante � disse ele, examinando-o e cheirando-o. � O que acha disso, Lestrade?</p><p>� Foi besuntado.</p><p>� Exatamente. � um peda�o de barbante besuntado. Voc� tamb�m deve ter notado que a senhorita Cushing cortou o barbante com uma tesoura, o que pode ser visto pelos fiapos em cada ponta. Isto � importante.</p><p>� N�o vejo por qu� � disse Lestrade.</p><p>� A import�ncia est� no fato de o n� ter ficado intacto, e este n� � especial.</p><p>� Est� muito apertado. J� tinha notado isso � disse Lestrade com complac�ncia.</p><p>� Basta quanto ao barbante � disse Holmes, sorrindo. Agora, o papel do embrulho. Marrom, com forte cheiro de caf�. Como? N�o tinha observado isso? Acho que n�o h� d�vida a respeito disso. Endere�o escrito com letras bastante irregulares: �Senhorita S. Cushing, Cross Street, Croydon�. Feito com pena de bico grosso, provavelmente uma J, e tinta vagabunda. A palavra �Croydon� foi escrita inicialmente com �i� e depois mudada para �y�. O pacote, portanto, foi mandado por um homem � e a caligrafia � tipicamente masculina � de pouca cultura e n�o acostumado com a cidade de Croydon. At� aqui, tudo bem! A caixa � amarela, pesa meia libra, nada tem de especial a n�o ser duas marcas de polegar no canto inferior esquerdo. Cheia de sal grosso, do tipo usado para conservar peles e outros produtos comerciais. E no meio dele � que est� esse estranho conte�do. � Ele tirou as duas orelhas enquanto falava e as colocou sobre uma t�bua nos joelhos, examinando-as detalhadamente; eu e Lestrade, inclinados ao lado dele, olh�vamos para as rel�quias medonhas e para o rosto pensativo e ansioso do nosso amigo. Finalmente ele as recolocou na caixa e ficou sentado, meditando profundamente.</p><p>� Voc� notou, � claro � ele disse, por fim �, que as orelhas n�o s�o de uma s� pessoa.</p><p>� Sim, eu tinha observado isso. Mas se isto for uma brincadeira de mau gosto de alguns estudantes da sala de disseca��o, seria f�cil para eles enviarem duas orelhas diferentes, como se pertencessem a uma s� pessoa.</p><p>� Exatamente. Mas isto aqui n�o � uma brincadeira de mau gosto.</p><p>� Tem certeza?</p><p>� Tudo indica que n�o �. Corpos da sala de anatomia recebem inje��es de um fluido conservante. Estas orelhas n�o o t�m. S�o frescas, tamb�m. Foram arrancadas com um instrumento sem muito corte, o que dificilmente aconteceria se tivesse sido feito por um estudante de medicina � ele usaria o conservante l�quido, n�o o sal grosso. Repito que n�s n�o temos aqui uma travessura de estudantes, mas estamos frente a um crime grave.</p><p>Um vago arrepio percorreu meu corpo enquanto ouvia as palavras de meu amigo, e vi a gravidade do assunto estampada em suas fei��es. Este prel�dio brutal parecia lan�ar um horror estranho e inexplic�vel no passado. Lestrade, no entanto, sacudiu a cabe�a como uma pessoa n�o inteiramente convencida.</p><p>� H� obje��es � teoria da brincadeira, � claro � disse ele �, mas h� raz�es mais fortes contra a outra. Sabemos que esta mulher levava uma vida tranq�ila e respeit�vel em Penge e tamb�m aqui durante os �ltimos vinte anos. Ela quase nunca ficou fora de casa, por um dia sequer, durante esse tempo. Por que, ent�o, um criminoso lhe enviaria as provas de sua culpa, principalmente quando ela entende t�o pouco do assunto quanto n�s, a n�o ser que seja uma atriz consumada?</p><p>� Este � o problema que n�s temos de resolver � respondeu Holmes �, e de minha parte eu vou partir do pressuposto de que meu racioc�nio est� correto e que foi cometido um duplo assassinato. Uma destas orelhas � de mulher, pequena, delicada, furada para uso de brinco; a outra � de homem, queimada de sol, descorada e tamb�m com um furo para brinco. Provavelmente essas duas pessoas est�o mortas, ou j� ter�amos ouvido o caso antes. Hoje � sexta-feira. O pacote foi enviado na quinta de manh�. A trag�dia aconteceu, ent�o, na ter�a ou na quarta, ou mesmo antes. Se as duas pessoas foram mortas, quem, a n�o ser o assassino, mandaria para a srta. Cushing a prova de seu crime? Podemos supor que o remetente do pacote seja o homem que queremos. Mas ele deve ter tido um motivo muito forte para enviar o pacote � srta. Cushing. Que motivo? Deve ser o de comunicar a ela que o destino se cumpriu, ou para feri-la, talvez; mas, neste caso, ela saberia quem � ele. Ser� que ela sabe? Duvido. Se soubesse, por que chamaria a pol�cia? Ela teria enterrado as orelhas e ningu�m ficaria sabendo de nada. Isso � o que ela faria se quisesse proteger o criminoso. Mas, se n�o quisesse proteg�-lo, diria seu nome. H� um n� aqui que precisa ser desfeito.</p><p>Ele estivera falando em voz alta, rapidamente, olhando absorto por cima da cerca do jardim; mas levantou-se bruscamente e se dirigiu para a casa.</p><p>� Tenho algumas perguntas a fazer � srta. Cushing.</p><p>� Neste caso, vou deix�-lo aqui � disse Lestrade �, porque tenho de cuidar de um outro assunto. Creio que nada mais tenho a ouvir da srta. Cushing. Voc� me encontrar� na delegacia.</p><p>� Passaremos por l� quando formos pegar o trem � respondeu Holmes.</p><p>Pouco depois Holmes e eu est�vamos de volta ao quarto da frente, onde a mulher, impass�vel, continuava trabalhando. Ela deixou o trabalho no colo quando entramos, e nos observou com os olhos azuis perscrutadores, e francos.</p><p>� Tenho certeza, senhor � disse ela �, de que tudo isso � um engano, e que o pacote, na verdade, n�o se destinava a mim. J� disse isso v�rias vezes ao cavalheiro da Scotland Yard, mas ele simplesmente ri de mim. N�o tenho nem um inimigo no mundo inteiro, pelo que sei. Ent�o, por que algu�m iria pregar-me uma pe�a?</p><p>� Tamb�m estou chegando � mesma conclus�o, srta. Cushing � disse Holmes, sentando-se ao lado dela. � Acho que � mais do que prov�vel...</p><p>Ele fez uma pausa e eu fiquei surpreso ao ver que observava, com um interesse especial, o perfil da srta. Cushing. Pude ver, em seu rosto arguto, surpresa e satisfa��o, embora ele tenha readquirido sua express�o impass�vel quando ela se virou para ver o motivo de sua pausa. Olhei para os cabelos grisalhos dela, a touca caprichada, os brinquinhos dourados, fei��es calmas, e nada vi que justificasse a emo��o evidente do meu amigo.</p><p>� Havia uma ou duas perguntas.</p><p>� Oh, estou farta de perguntas! � ela exclamou, impaciente.</p><p>� Eu creio que a senhorita tem duas irm�s.</p><p>� Como sabe disso?</p><p>� Logo que entrei no quarto vi que tem sobre a lareira um retrato de um grupo de tr�s mulheres, uma das quais � a senhorita, sem d�vida, enquanto as outras se parecem muito com a senhorita; assim, n�o havia d�vida sobre o parentesco.</p><p>� O senhor tem raz�o. Aquelas s�o minhas irm�s, Sarah e Mary.</p><p>� E aqui do meu lado h� outro retrato, tirado em Liverpool, de sua irm� mais nova, na companhia de um homem que parece ser um comiss�rio de bordo, pelo uniforme. Vejo que ela era solteira, na �poca.</p><p>� O senhor � um �timo observador.</p><p>� � a minha profiss�o.</p><p>� Bem, o senhor tem raz�o. Mas ela se casou alguns dias depois com o senhor Browner. Ele estava na linha da Am�rica do Sul, mas gostava tanto dela que n�o conseguia ficar longe por muito tempo; de modo que ele se transferiu para os navios da linha Liverpool e Londres.</p><p>� Ah, o Conqueror, talvez?</p><p>� N�o, o May Day, da �ltima vez que ouvi falar. Uma vez Jim veio me ver. Isso foi antes de quebrar a promessa; depois disso, ele sempre bebia quando estava em terra, um pequeno trago j� o deixava completamente louco. Ah, foi um dia fatal quando ele pegou de novo num copo. Primeiro ele se esqueceu de mim, depois brigou com Sarah, e agora que Mary deixou de me escrever, n�o sei como as coisas est�o entre eles.</p><p>Era evidente que a srta. Cushing falava sobre um assunto que a afetava profundamente. Como a maioria das pessoas que levavam uma vida solit�ria, no come�o ela se mostrou reservada, mas acabou tornando-se extremamente comunicativa. Contou-nos v�rios detalhes sobre o cunhado, falou de seus antigos inquilinos, os estudantes de medicina; falou-nos de suas peraltices, dando-nos seus nomes e os dos hospitais. Holmes ouvia tudo com aten��o, fazendo uma pergunta de vez em quando.</p><p>� A respeito da sua segunda irm�, Sarah � disse ele �, imagino que, sendo ambas solteiras, n�o quiseram morar juntas.</p><p>� Ah, o senhor n�o conhece o g�nio de Sarah, do contr�rio nem pensaria numa coisa dessas. Eu tentei quando me mudei para Croydon, e ficamos juntas at� dois meses atr�s, quando tivemos de nos separar. N�o quero falar mal de minha pr�pria irm�, mas ela sempre foi uma intrometida e uma pessoa dif�cil de se contentar.</p><p>� A senhorita est� dizendo que ela brigou com os parentes de Liverpool?</p><p>� Sim, e eles eram ent�o os melhores amigos. Ela foi para l� para ficar perto deles. E agora ela vive acusando Jim Browner. Nos �ltimos seis meses em que esteve aqui s� falava das bebedeiras e dos modos dele. Eu desconfio que ele a pegou fazendo mexericos e lhe passou um sab�o, e fosse esse o come�o de tudo.</p><p>� Obrigado, srta. Cushing � disse Holmes, levantando-se e fazendo uma mesura. � Sua irm� Sarah mora, como disse, em New Street, Wallington? Adeus, e lamento muito que a senhorita tenha sido importunada com um caso que, como diz, n�o tem nada a ver consigo.</p><p>Quando sa�mos, estava passando um carro e Holmes o fez parar.</p><p>� A que dist�ncia fica Wallington?</p><p>� Apenas a 1,5 quil�metro, senhor.</p><p>� Muito bem. Entre, Watson. Temos de malhar enquanto o ferro ainda est� quente. Este caso � simples, mas tem um ou dois detalhes muito interessantes relacionados com ele. Por favor, pare na primeira ag�ncia telegr�fica que encontrar.</p><p>Holmes enviou um telegrama curto, e durante toda a viagem ficou recostado no carro, com o chap�u enterrado at� o nariz para se proteger do sol. Nosso condutor parou diante de uma casa que n�o era diferente da que hav�amos deixado. Meu amigo pediu que nos esperasse, e quando ia bater � porta, esta se abriu e apareceu um jovem, vestido de preto, com um chap�u reluzente.</p><p>� A senhorita Cushing est� em casa? � perguntou.</p><p>� Ela est� muito doente � disse o jovem. � Desde ontem ela est� sofrendo de sintomas cerebrais muito graves. Como seu m�dico, n�o posso permitir que ningu�m a veja. Pe�o-lhe que volte dentro de dez dias.</p><p>Ele cal�ou as luvas, fechou a porta e saiu andando pela rua.</p><p>� Bem, se n�o podemos, n�o podemos � disse Holmes, em tom jovial.</p><p>� Talvez ela n�o pudesse ou mesmo n�o nos dissesse muita coisa.</p><p>� Eu n�o quero que ela me diga nada. S� queria v�-la. Mas acho que consegui o que queria. Leve-nos para um hotel decente, cocheiro, onde possamos almo�ar, e depois disso poderemos ir ver nosso amigo Lestrade na delegacia.</p><p>Fizemos uma refei��o agrad�vel durante a qual Holmes s� falou sobre violinos, contando com grande entusiasmo como ele comprara seu Stradivarius, que valia pelo menos 500 guin�us, de um negociante judeu em Tottenham, Court Road por apenas 55 xelins. Isso o levou a falar de Paganini, e ficamos durante uma hora bebendo vinho, enquanto ele me contou hist�rias e mais hist�rias sobre aquele homem extraordin�rio. Quando chegamos � delegacia, j� era final de tarde, e a luz do sol se transformara numa claridade amena. Lestrade nos aguardava na porta.</p><p>� H� um telegrama para voc�, Holmes � disse ele.</p><p>� Ah! A resposta!</p><p>Abriu o telegrama, deu uma olhada e colocou-o no bolso.</p><p>� Est� tudo bem � ele disse.</p><p>� Descobriu alguma coisa?</p><p>� Descobri tudo!</p><p>� Como? � Lestrade o olhou, estupefato. � Est� brincando?!</p><p>� Nunca falei mais s�rio em minha vida. Foi cometido um crime chocante, e acho que descobri todos os detalhes.</p><p>� E o criminoso?</p><p>Holmes rabiscou algumas palavras nas costas de um de seus cart�es de visita e o passou a Lestrade.</p><p>� Este � o nome dele � disse. � O senhor n�o conseguir� efetuar sua pris�o at� amanh� � noite. Eu gostaria que n�o mencionasse meu nome com rela��o a este caso, j� que prefiro v�-lo relacionado a crimes que apresentem dificuldades para sua elucida��o. Vamos, Watson.</p><p>Partimos para a esta��o, deixando Lestrade com uma express�o de satisfa��o no rosto, olhando para o cart�o que Holmes lhe dera.</p><empty-line/><p>� O caso � disse Holmes, quando j� est�vamos em nossos aposentos em Baker Street, fumando e conversando � � um daqueles em que tivemos de raciocinar para o passado, das causas aos efeitos, como nos casos que voc� relatou com os t�tulos de �Um estudo em vermelho� e �O sinal dos quatro�. Escrevi a Lestrade pedindo-lhe para nos fornecer os detalhes que ainda faltam, e que ele s� vai conseguir depois de prender o homem. Ele certamente vai conseguir isso porque, embora destitu�do de racioc�nio, � t�o persistente quanto um buldogue depois que entende o que tem de fazer e, na verdade, foi justamente a sua tenacidade que o levou at� o topo na Scotland Yard.</p><p>� Quer dizer que o caso ainda n�o est� completo? � perguntei.</p><p>� Nos fatos essenciais, sim. Sabemos quem � o autor do caso revoltante, embora ainda n�o tenhamos identificado uma das v�timas. Voc�, � claro, j� tirou suas pr�prias conclus�es.</p><p>� Eu acho que Jim Browner, o comiss�rio de bordo da linha de Liverpool, � o homem de quem voc� suspeita.</p><p>� Oh, � mais do que suspeita.</p><p>� Mesmo assim n�o vejo mais do que vagos ind�cios.</p><p>� Para mim, ao contr�rio, nada podia ser mais claro. Deixe-me mostrar-lhe os passos principais. Nada sab�amos do caso quando come�amos a trabalhar nele, o que � sempre uma vantagem. N�o t�nhamos teorias prontas. Est�vamos l� simplesmente para observar e tirar conclus�es de nossas observa��es. O que foi que vimos primeiro? Uma senhora respeit�vel e calma, que parecia totalmente inocente de qualquer crime, e um retrato que mostrou ter ela duas irm�s mais jovens. Imediatamente me ocorreu que a caixa podia ser destinada a uma delas. Deixei a id�ia de lado, j� que ela poderia ser abandonada ou confirmada, � nossa vontade, mais tarde. Ent�o fomos para o jardim, como voc� se lembra, e vimos o estranho conte�do da caixinha amarela. O barbante era do tipo usado por marinheiros e logo um bafejo do mar era percept�vel em nossa investiga��o. Quando observei que o n� era comum entre marinheiros, que o pacote havia sido mandado de um porto e que a orelha masculina fora furada para uso de brinco, coisa mais comum entre gente do mar do que de terra, tive certeza de que todos os personagens da trag�dia seriam encontrados entre nossas classes mar�timas. Quando examinei o endere�o no pacote, vi que era para a senhorita S. Cushing. Ora, a irm� mais velha seria, � claro, a senhorita Cushing e, embora sua inicial fosse �S�, poderia pertencer tamb�m a uma das outras duas. Nesse caso ter�amos de reiniciar nossa investiga��o em uma nova base. Assim sendo, entrei na casa com a inten��o de esclarecer este ponto. Eu estava prestes a dizer a ela que me convencera de que fora cometido um equ�voco quando, voc� deve se lembrar, eu parei de repente. O fato � que eu acabara de ver uma coisa que me encheu de surpresa e, ao mesmo tempo, diminuiu consideravelmente o campo de nossa pesquisa. Voc�, como m�dico, Watson, sabe que n�o existe parte do corpo humano que varie tanto quanto uma orelha. Cada uma �, como regra geral, completamente distinta e diferente das demais. No �ltimo n�mero do Jornal Antropol�gico voc� vai encontrar duas pequenas monografias que escrevi sobre o assunto. Portanto, eu tinha examinado as orelhas na caixa com os olhos de um especialista e percebi as particularidades anat�micas. Imagine agora minha surpresa quando, ao olhar para a srta. Cushing, notei que a orelha dela correspondia exatamente � orelha feminina que eu tinha acabado de examinar. O caso era mais do que uma coincid�ncia. Ali estava a mesma aur�cula curta, a mesma curva aberta do l�bulo superior, o mesmo desenho da cartilagem interna. No essencial, era a mesma orelha. Claro que vi logo a enorme import�ncia da observa��o. Era l�gico que a v�tima era um parente, provavelmente bem pr�ximo. Comecei a conversar com ela sobre a fam�lia, e voc� se lembra de que ela nos deu imediatamente detalhes excelentes e valiosos. Em primeiro lugar, o nome da irm� era Sarah, e o endere�o era o mesmo at� recentemente, e assim ficou claro como tinha ocorrido o engano e a quem se destinava o pacote. Ela falou, ent�o, do comiss�rio de bordo, casado com a terceira irm�, e soubemos que, em certa �poca, ele ficou t�o �ntimo da srta. Sarah que ela at� acabou se mudando para Liverpool a fim de ficar perto dos Browners, mas uma briga os afastou mais tarde. Esta briga interrompeu as comunica��es durante meses, de modo que, se Browner tivesse que endere�ar um pacote � srta. Sarah, sem d�vida nenhuma usaria o antigo endere�o. E agora o assunto come�ou a se esclarecer maravilhosamente. Sab�amos da exist�ncia de Browner, um homem impulsivo, de paix�es fortes � lembre-se de que ele abandonou um emprego bem superior a fim de ficar mais perto da esposa; um homem tamb�m sujeito a bebedeiras ocasionais. T�nhamos motivo para supor que sua esposa fora assassinada e que um homem � possivelmente um homem do mar � tamb�m fora morto. Como motivo do crime surge-nos imediatamente o ci�me. Por que a srta. Sarah Cushing deveria receber as provas do crime? Provavelmente porque, durante sua estada em Liverpool, ela, de alguma forma, tinha participado dos acontecimentos que culminaram com a trag�dia. Note que esta linha de navios aporta em Belfast, Dublin e Waterford; dessa forma, supondo-se que Browner tenha cometido o crime e embarcado em seguida no seu navio, o May Day, Belfast seria o primeiro lugar de onde ele poderia enviar sua terr�vel encomenda. Nesta altura, uma segunda solu��o seria poss�vel, e embora a considere muito improv�vel, eu estava decidido a elucid�-la antes de seguir em frente. Um apaixonado frustrado poderia ter matado o sr. e sra. Browner, e a orelha masculina podia ser a do marido. Havia muitas obje��es graves a esta teoria, mas era poss�vel. Ent�o mandei um telegrama ao meu amigo Algar, da pol�cia de Liverpool, e pedi-lhe para verificar se a sra. Browner estava em casa e se o marido tinha embarcado no May Day. Depois disso fomos para Wallington, visitar a srta. Sarah. Em primeiro lugar, eu estava curioso para ver at� que ponto o tipo de orelha da fam�lia estava reproduzido nela. Al�m disso, � l�gico, ela podia nos dar informa��es importantes, mas eu n�o estava muito convencido que ela iria faz�-lo. Ela deve ter ouvido falar no caso no dia anterior, j� que toda Croydon falava do assunto, e ela mesma deve ter compreendido a quem se destinava o pacote. Se ela estivesse disposta a ajudar a pol�cia, j� teria entrado em contato com as autoridades. Entretanto, era nosso dever visit�-la, e fomos. Descobrimos que a not�cia da chegada do pacote � j� que a doen�a dela data desse dia � teve um impacto enorme sobre ela, at� mesmo provocando uma febre cerebral. Estava mais do que claro que ela percebera o significado, mas tamb�m estava claro que n�s ter�amos de esperar algum tempo at� recebermos alguma ajuda da parte dela. Em todo caso, n�o depender�amos totalmente dela. T�nhamos respostas � nossa espera na delegacia, para onde pedi que Algar as enviasse. Nada podia ser mais conclusivo. A casa da sra. Browner estava fechada havia mais de tr�s dias e os vizinhos achavam que ela viajara para o sul, para visitar parentes. Verificou-se nos escrit�rios da companhia que Browner partira a bordo do May Day e eu calculo que ele esteja no T�misa amanh� � noite. Quando ele chegar, o obtuso mas decidido Lestrade estar� esperando por ele, e eu n�o tenho nenhuma d�vida de que completaremos todos os detalhes.</p><p>Sherlock Holmes n�o foi desapontado nas suas esperan�as. Dois dias depois recebeu um envelope volumoso, com um bilhetinho do detetive e um relat�rio datilografado, que cobria v�rias p�ginas de papel alma�o.</p><p>� Lestrade o apanhou � disse Holmes, olhando para mim. � Talvez lhe interesse ouvir o que ele diz.</p><empty-line/><p>Caro sr. Holmes:</p><p>De acordo com o plano que n�s hav�amos elaborado para comprovar nossas hip�teses (o �n�s� aqui � bem interessante, n�o �?), fui para o Cais Albert, ontem, �s seis horas, e entrei no S. S. May Day, pertencente � Liverpool, Dublin and London Steam Packet Company. Ao indagar, soube que havia a bordo um comiss�rio com o nome de James Browner, e que durante toda a viagem ele agiu de uma forma t�o estranha que o capit�o se viu obrigado a dispens�-lo de suas fun��es. Desci � sua cabine e o encontrei sentado num caixote com a cabe�a mergulhada nas m�os, balan�ando-se para a frente e para tr�s. � um sujeito grande e forte, rosto liso e pele bem morena, como Aldridge, aquele que nos ajudou no caso da lavanderia. Ele deu um pulo quando eu lhe falei de minha miss�o, e usei o apito para chamar dois policiais do cais, que estavam pr�ximos, mas ele deu a impress�o de estar completamente desalentado e estendeu tranq�ilamente as m�os para as algemas. N�s o trouxemos para a delegacia, assim como o caixote, porque pensamos que talvez contivesse algo incriminador, mas a n�o ser um fac�o afiado, usado pela maioria dos marinheiros, n�o encontramos nada que nos interessasse. Mas achamos que n�o precisamos de mais provas porque, ao ser levado at� o inspetor, na delegacia, ele pediu para fazer uma declara��o que, � claro, foi anotada exatamente como ele a fez pelo nosso taqu�grafo. Fizemos tr�s c�pias datilografadas, uma das quais estou anexando. O caso � extremamente simples, como eu sempre achei, mas sou grato por ter me ajudado na minha investiga��o.</p><p>Com os melhores agradecimentos,</p><p>Atenciosamente,</p><p>G. Lestrade.</p><empty-line/><p>� Hum! A investiga��o foi realmente bem simples � comentou Holmes � mas eu acho que ele n�o tinha essa opini�o quando nos chamou no in�cio. Em todo caso, vamos ver o que Jim Browner tem a dizer. Esta � a sua declara��o de modo como foi feita perante o inspetor Montgomery, na Delegacia de Pol�cia de Shadwell, e tem a vantagem de ser com as palavras do pr�prio criminoso.</p><empty-line/><p>�Se tenho alguma coisa a dizer? Sim, tenho muito a dizer. Tenho de limpar minha consci�ncia. Podem me enforcar ou podem me deixar em paz. N�o me importa o que voc�s v�o fazer comigo. Digo-lhes que n�o preguei os olhos desde que fiz aquilo e acho que n�o vou conseguir de novo. Algumas vezes � a cara dele, mas geralmente � a dela. Sempre uma ou outra est� na minha frente. Ele me olha carrancudo, amea�ador, mas ela tem uma esp�cie de surpresa no rosto. Oh, coitadinha, ela devia estar surpresa quando viu a morte no rosto que s� mostrava amor por ela. Mas a culpa foi de Sarah, e que a maldi��o de um condenado caia sobre ela e que o sangue lhe apodre�a nas veias. N�o � que eu queira me inocentar. Sei que voltei a beber como o animal que fui. Mas ela teria me perdoado; ela teria continuado ligada a mim, como sempre, se aquela mulher n�o tivesse enegrecido nosso lar. Porque Sarah Cushing me amava � esta � a raiz da hist�ria � e me amou at� que todo o seu amor se transformou num �dio virulento quando viu que eu gostava mais das pegadas de minha mulher na lama do que do seu corpo e sua alma.</p><p>Eram tr�s irm�s. A mais velha era uma boa mulher, a segunda, um dem�nio, e a terceira, um anjo. Sarah tinha 33 anos e Mary 29 quando eu me casei. �ramos muito felizes quando fomos morar juntos, e em toda Liverpool n�o havia ningu�m melhor do que minha Mary. Ent�o convidamos Sarah para passar uma semana conosco, a semana se estendeu para um m�s e, uma coisa levando a outra, ela finalmente ficou sendo uma de n�s. Eu n�o bebia naquela �poca, e est�vamos guardando dinheiro, e tudo estava indo muito bem. Meu Deus, quem poderia pensar que terminaria assim? Quem poderia sonhar com isso? Normalmente eu ficava em casa nos fins de semana e muitas vezes passava a semana toda, se acontecesse de o navio estar sendo carregado, de modo que via freq�entemente minha cunhada, Sarah. Ela era uma bela mulher, alta, morena, ativa e en�rgica, porte solene e um brilho faiscante nos olhos. Mas quando minha pequena Mary estava comigo, eu nunca pensava em Sarah, e isso eu juro como espero a miseric�rdia de Deus. �s vezes parecia que ela gostava de ficar sozinha comigo, ou que gostava de me convidar para passear com ela, mas nunca dei import�ncia a isso. Mas, uma noite, abri meus olhos. Eu havia chegado do navio e vi que minha mulher tinha sa�do, mas Sarah estava em casa.</p><p>� Onde est� Mary? �, perguntei.</p><p>� Oh, ela saiu para pagar algumas contas. � Eu estava impaciente e fiquei andando de um lado para o outro na sala.</p><p>� Voc� n�o consegue ficar feliz durante cinco minutos sem Mary, Jim? �, ela perguntou.</p><p>� � pouco lisonjeiro para mim que voc� n�o se contente com a minha companhia por t�o pouco tempo.</p><p>� Tudo bem, minha cara �, eu disse, estendendo gentilmente minhas m�os para ela, mas ela as segurou por uns segundos e suas m�os estavam queimando como se ela estivesse com febre.</p><p>Olhei-a nos olhos e vi tudo. Ela n�o precisava falar, nem eu. Fiquei s�rio na mesma hora e retirei minhas m�os. Ent�o ela ficou em sil�ncio ao meu lado por um instante e depois, colocando a m�o no meu ombro, disse: "Fique calmo, Jim", e saiu da sala com um riso de esc�rnio.</p><p>Bem, a partir daquela ocasi�o Sarah me odiou de todo o cora��o � e ela � uma mulher que sabe odiar tamb�m. Fui um tolo por ter deixado que ela continuasse conosco � um completo idiota � mas nunca disse uma palavra sequer a Mary, j� que eu sabia que isso iria mago�-la. As coisas continuaram como antes, mas depois de algum tempo percebi uma certa mudan�a em Mary. Ela sempre fora confiante e inocente, mas tornou-se esquisita e desconfiada, querendo saber onde eu estivera e o que fizera, quem me mandava cartas, o que eu tinha nos bolsos, e centenas de coisinhas bobas. A cada dia ela ficava mais estranha, mais irrit�vel, e brig�vamos por qualquer coisa. Fiquei intrigado com tudo isso. Sarah me evitava ent�o, mas ela e Mary eram insepar�veis. Agora entendo que ela estava conspirando malevolamente e envenenando minha mulher contra mim, mas eu era t�o cego que� n�o percebi isso naquela �poca. Ent�o quebrei minha promessa e comecei a beber de novo, mas eu acho que n�o teria recome�ado se Mary tivesse continuado a ser a mesma. Agora ela tinha motivo para ficar desgostosa comigo e a dist�ncia entre n�s come�ou a ficar cada vez maior. E ent�o esse Alec Fairbairn apareceu, e as coisas ficaram ainda piores. Foi para ver Sarah que ele come�ou a aparecer em minha casa, mas logo depois para nos ver, j� que ele era um homem insinuante e fazia amigos com facilidade. Era um sujeito agrad�vel, impetuoso, elegante e esperto, que j� estivera em meio mundo e sabia contar coisas que j� vira. Era uma companhia agrad�vel, n�o nego, e maravilhosamente educado para ser um marinheiro, de modo que eu acho que muitas vezes ele viajou mais como passageiro do que como tripulante. Durante um m�s ele ia todos os dias � minha casa e eu nunca suspeitei que pudesse surgir alguma maldade de suas maneiras suaves e educadas. Ent�o, finalmente alguma coisa despertou minha suspeita, e daquele dia em diante minha paz acabou para sempre. Foi uma coisinha �-toa. Voltei repentinamente para casa e, quando entrei pela porta, notei um brilho de boas-vindas no rosto de minha mulher. Mas quando ela viu que era eu, o brilho sumiu e ela se afastou, com o desapontamento estampado no rosto. Foi o suficiente para mim. N�o podiam ser de ningu�m al�m de Alec Fairbairn os passos que ela confundiu com os meus. Se eu o visse naquele momento, t�-lo-ia matado, porque fico completamente louco quando perco a calma. Mary viu o brilho diab�lico em meus olhos e correu na minha dire��o, colocando as m�os nos meus bra�os:</p><p>� N�o, Jim, n�o! �, suplicou.</p><p>� Onde est� Sarah? �, perguntei.</p><p>� Na cozinha.</p><p>� Sarah! �, gritei quando entrei na cozinha � n�o quero nunca mais que Fairbairn apare�a aqui.</p><p>� Por que n�o? �, ela perguntou.</p><p>� Porque eu estou dando uma ordem.</p><p>� Oh, se meus amigos n�o servem para esta casa, ent�o eu tamb�m n�o sirvo.</p><p>� Pode fazer o que quiser, mas se Fairbairn aparecer de novo por aqui, vou mandar para voc� uma orelha dele como lembran�a.</p><p>Ela ficou amedrontada com meu olhar, eu acho, porque n�o disse uma palavra, e foi-se embora na mesma noite.</p><p>Bem, n�o sei se foi pura maldade dessa mulher ou se ela pensava que podia me colocar contra minha esposa, estimulando o mau comportamento dela. Seja l� como for, ela alugou uma casa a apenas duas ruas de dist�ncia e abriu uma pens�o para marinheiros. Fairbairn costumava ficar l�, e Mary ia tomar ch� com a irm� e Alec. N�o sei quantas vezes ela esteve l�, mas um dia eu a segui, e quando entrei pela porta, Fairbairn fugiu pelo muro do jardim, como o gamb� medroso que ele era. Jurei a minha mulher que eu a mataria se a encontrasse de novo na companhia dele, e a levei de volta comigo, solu�ando e tremendo, branca feito cera. N�o havia mais nenhum vest�gio de amor entre n�s. Eu podia perceber que ela me odiava e me temia, e s� de pensar nisso comecei a beber mais ainda; e ela passou a me desprezar tamb�m. Bem, Sarah achou que n�o podia continuar morando em Liverpool, e voltou, eu acho, para morar com a outra irm� em Croydon; mas as coisas em minha casa continuaram aos trancos como sempre. Chegou, ent�o, esta �ltima semana, com toda a desgra�a e ru�na. Foi assim: t�nhamos partido no May Day para uma viagem de ida e volta de sete dias, mas uma chapa do casco afrouxou e inundou a maquinaria; ent�o tivemos de voltar ao porto para um reparo de 12 horas. Sa� do navio e fui para casa, pensando na surpresa que seria para minha mulher e achando que talvez ela ficasse contente em me ver mais cedo. Pensava assim quando entrei na minha rua, e naquele momento vi um coche passando por mim, e l� dentro estava ela, sentada ao lado de Fairbairn, os dois conversando e rindo, sem perceberem que eu estava ali, vendo tudo da cal�ada. Vou lhes dizer, palavra de honra, que daquele momento em diante eu n�o estava mais senhor de mim mesmo e tudo me parece um sonho quando tento me lembrar. Eu estivera bebendo bastante e as duas coisas juntas viraram minha cabe�a. Tem um neg�cio batendo na minha cabe�a, como uma britadeira, mas naquela manh� parecia que as cataratas do Ni�gara estavam assobiando e zunindo em meus ouvidos. Sa� correndo atr�s do carro. Tinha um pesado bast�o de carvalho nas m�os e lhes digo que estava furioso; mas, enquanto corria, fiquei esperto tamb�m, e me mantive um pouco afastado, para poder v�-los sem ser visto. Logo depois eles desceram na esta��o de trem. Havia muita gente na bilheteria, de modo que cheguei perto deles, sem que me vissem. Compraram passagens para New Brighton. Eu tamb�m, mas fiquei uns tr�s vag�es mais atr�s. Quando chegamos, eles desceram e se dirigiram para a praia, e eu estava sempre a uns 200 metros de dist�ncia. Finalmente os vi alugarem um bote e sa�rem remando, pois era um dia muito quente e certamente eles pensavam que na �gua seria mais refrescante. Era como se eles tivessem sido entregues nas minhas m�os. Havia uma esp�cie de neblina e n�o se conseguia ver mais do que algumas centenas de metros. Tamb�m aluguei um bote e parti atr�s deles. Eu s� conseguia ver uma mancha do bote deles, pois estavam seguindo t�o depressa quanto eu e deviam estar mais ou menos a 1,5 quil�metro da praia, quando eu os alcancei. A neblina era uma esp�cie de cortina ao nosso redor, e l� est�vamos n�s tr�s, no meio. Meu Deus, ser� que vou esquecer a express�o de seus rostos quando descobriram quem estava no barco que se aproximava do deles? Ela gritou. Ele praguejou como um louco e tentou me acertar com um remo, pois viu a morte no meu rosto. Eu me esquivei e o acertei com meu bast�o; estourei a cabe�a dele como um ovo. Eu podia t�-la poupado, talvez, embora estivesse alucinado, mas ela lan�ou os bra�os em volta dele, chorando e se lamentando, chamando-o de �Alec!�. Bati de novo e ela caiu ao lado dele. Eu era uma fera selvagem que tinha acabado de sentir o gosto de sangue. Se Sarah estivesse ali, ela se juntaria a eles, por Deus. Arranquei meu fac�o e... bem, j� disse o suficiente. Senti uma esp�cie de alegria selvagem quando imaginei como Sarah se sentiria ao receber aqueles sinais como resultado de suas intrigas. Amarrei, ent�o, os corpos no barco, quebrei uma t�bua e fiquei ali at� v�-los no fundo. Eu sabia muito bem que o dono do barco iria pensar que eles haviam se perdido na neblina e acabaram indo para o mar. Limpei-me, voltei � terra e embarquei no navio sem que ningu�m desconfiasse do que ocorrera.</p><p>Naquela noite preparei o pacote para Sarah Cushing e no dia seguinte o enviei de Belfast. A� est� toda a verdade da hist�ria. Podem me enforcar, podem fazer o que quiserem comigo, porque n�o conseguir�o me castigar mais do que j� fui castigado. N�o consigo fechar os olhos porque vejo aqueles dois rostos me encarando como quando viram meu bote surgir da neblina. Matei-os rapidamente, mas eles est�o me matando devagar, e se eu passar mais uma noite assim, vou enlouquecer ou morrer antes de amanhecer. O senhor vai me colocar numa cela sozinho? Pelo amor de Deus, n�o fa�a isso, e que o senhor possa ser tratado no dia de sua agonia como me tratar agora.�</p><empty-line/><p>� O que significa isso, Watson? � perguntou Holmes em tom solene, quando terminou de ler o documento. � Para que serve este c�rculo de mis�ria, viol�ncia e medo? Tem de ter uma finalidade, ou ent�o nosso mundo � governado pelo acaso, o que � impens�vel. Mas que finalidade? Eis a� o grande e eterno problema para o qual a raz�o humana est� t�o distante da solu��o como sempre.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o caso do c�rculo vermelho</strong></p><p>� Bem, senhora Warren, n�o vejo por que deva se preocupar, nem vejo por que eu deva gastar meu tempo valioso e interferir no caso. Eu realmente tenho outras coisas com que me ocupar.</p><p>Assim falou Sherlock Holmes, e voltou novamente sua aten��o para o grande �lbum de recortes, no qual estava colocando em ordem parte do seu material mais recente. Mas a senhoria tinha a persist�ncia e a esperteza do sexo feminino. Manteve firmemente o ponto de vista.</p><p>� O senhor deu um jeito num caso para um de meus inquilinos no ano passado, o sr. Fairdale Hobbs...</p><p>� Ah, sim, um casinho simples.</p><p>� Mas ele n�o p�ra de falar nisso � a sua bondade, senhor, e o modo como esclareceu uma situa��o nebulosa. Eu me lembro das palavras dele quando eu mesma</p><p>estava envolvida em d�vidas e trevas. Eu sei que o senhor conseguiria, se quisesse.</p><p>Holmes era acess�vel por meio da lisonja, e tamb�m, justi�a seja feita, pela amabilidade. As duas for�as o fizeram deixar de lado o pincel de goma-ar�bica com um suspiro de resigna��o, e recostar-se na cadeira.</p><p>� Bem, bem, sra. Warren, vamos ouvir sua hist�ria, ent�o. N�o se incomoda se eu fumar? Obrigado. Watson, os f�sforos. A senhora est� preocupada, pelo que sei, porque seu novo inquilino fica trancado no quarto e n�o o v�. Ora, senhora Warren, se eu fosse seu inquilino, com freq��ncia deixaria de me ver durante semanas ou mais.</p><p>� N�o duvido, senhor, mas aqui � diferente. Isto est� me assustando, sr. Holmes. N�o durmo de medo. Escuto os passos apressados dele, andando de um lado para o outro desde cedo at� tarde da noite e n�o v�-lo um instante sequer... tudo isso � mais do que posso suportar. Meu marido tamb�m est� nervoso com isso, como eu, mas ele est� sempre fora de casa, trabalhando o dia todo, enquanto eu n�o tenho paz. Do que ele est� se escondendo? O que foi que fez? Com exce��o da menina, fico completamente sozinha em casa com ele, e isso � mais do que meus nervos podem ag�entar.</p><p>Holmes inclinou-se para a frente e tocou, com seus dedos longos e finos, o ombro da mulher. Ele tinha um poder quase hipn�tico de acalmar quando queria. A express�o de medo desapareceu do rosto dela e os gestos nervosos voltaram ao normal. Ela sentou-se na cadeira que ele indicou.</p><p>� Se eu for cuidar do caso, preciso conhecer todos os detalhes � disse. � Pense com calma. O menor detalhe pode ser essencial. A senhora diz que o homem chegou h� dez dias e lhe pagou uma quinzena de casa e comida?</p><p>� Ele perguntou minhas condi��es. Eu disse 50 xelins por semana. H� uma salinha e um quarto mobiliados no andar superior da casa.</p><p>� E da�?</p><p>� Ele disse: �Vou lhe pagar 5 libras por semana se aceitar as minhas condi��es.� Sou uma mulher pobre, senhor, e meu marido ganha pouco; o dinheiro significa muito para mim. Ele tirou uma nota de 10 libras e ficou a mostr�-la para mim. �Pode receber a mesma quantia durante 15 dias, por muito tempo, se mantiver as condi��es�, ele disse. �Se n�o, nada tenho a tratar com a senhora.�</p><p>� Quais eram as condi��es?</p><p>� Bem, senhor, ele queria ter uma chave da casa. At� a�, tudo bem. Inquilinos sempre a t�m. Ele tamb�m deveria ser deixado inteiramente s� e nunca, sob nenhum pretexto, ser perturbado.</p><p>� Nada de mais nisso, n�o?</p><p>� Parece, senhor, mas isso est� fora de qualquer l�gica. Faz dez dias que ele est� l� e nem meu marido, nem a menina, ningu�m p�s os olhos nele desde ent�o. Escutamos os passos dele, andando de um lado para o outro, de noite, de manh�, de tarde. Com exce��o da primeira noite, ele nunca mais saiu de casa.</p><p>� Oh, ent�o ele saiu na primeira noite, certo?</p><p>� Sim, senhor, e voltou bem mais tarde, depois que todos n�s j� est�vamos deitados. Ele me havia dito, depois que alugou o quarto, que iria agir assim e me pediu para n�o trancar a porta. Eu ouvi quando ele subiu a escada depois da meia-noite.</p><p>� E as refei��es?</p><p>� Foi recomenda��o especial dele que n�s dev�amos, sempre que ele tocasse a campainha, deixar o prato sobre uma cadeira, do lado de fora da porta. Ele tocaria de novo quando tivesse terminado, e n�s pegar�amos o prato na mesma cadeira. Quando ele quer alguma outra coisa, escreve em letra de f�rma num peda�o de papel e deixa ali.</p><p>� Letra de f�rma?</p><p>� Sim, com um l�pis, em letra de f�rma, apenas a palavra e nada mais. Aqui est� uma que trouxe para lhe mostrar. �SABONETE�. Eis outra: �F�SFORO�. Esta ele deixou na primeira manh� �DAILY GAZETTE�. Deixo-lhe o jornal, junto com o caf�, toda manh�.</p><p>� Ora, Watson � disse Holmes, olhando com grande curiosidade para as tiras de papel que a mulher lhe entregara � isto � realmente estranho. Posso entender a reclus�o, mas por que escrever com letra de f�rma? Escrever assim � mais trabalhoso. Por que n�o escrever normalmente? O que significa isso, Watson?</p><p>� Que n�o quer mostrar a caligrafia.</p><p>� E por qu�? Por que a senhoria n�o deve ver sua letra? Pode ser como voc� disse, mas ent�o, por que pedidos t�o lac�nicos?</p><p>� N�o consigo imaginar.</p><p>� Isto abre um campo interessante para uma investiga��o inteligente. As palavras s�o escritas com um l�pis de ponta grossa, bem comum. Note que o papel foi rasgado aqui deste lado, depois que escreveu, de forma que o �S� do �SABONETE� quase foi arrancado. Bem sugestivo, n�o, Watson?</p><p>� Precau��o?</p><p>� Exatamente. � claro que havia alguma marca, impress�o do polegar, algo que pudesse dar uma indica��o da identidade da pessoa. A senhora diz que o homem era de estatura mediana, moreno, de barba. Quantos anos teria?</p><p>� Jovem, n�o mais de 30.</p><p>� Bem, pode me dar mais algumas informa��es?</p><p>� Falava um ingl�s correto, embora eu ache que seja estrangeiro, pelo sotaque.</p><p>� Estava bem-vestido?</p><p>� Muito bem-vestido, um cavalheiro. Roupas escuras, nada que desse na vista.</p><p>� Deu algum nome?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Recebeu cartas ou visitas?</p><p>� Nada.</p><p>� Com certeza a senhora ou a menina entram no quarto de manh�.</p><p>� N�o. Ele mesmo cuida do quarto.</p><p>� Ora, ora! Isto � realmente not�vel. E a bagagem dele?</p><p>� Trazia uma mala marrom grande, nada mais.</p><p>� Parece que n�o temos muito material para nos ajudar. A senhora diz que nada saiu do quarto � absolutamente nada?</p><p>A mulher tirou um envelope da bolsa. Do envelope tirou dois palitos de f�sforo queimados e uma ponta de cigarro, colocando tudo sobre a mesa.</p><p>� Estavam na bandeja dele, hoje cedo. Eu os trouxe porque soube que o senhor tira grandes conclus�es de coisas pequenas.</p><p>Holmes encolheu os ombros.</p><p>� N�o h� nada aqui � ele disse. � Os f�sforos, � claro, foram usados para acender cigarro. Isto est� claro pelo peda�o queimado. Gasta-se a metade do palito ao se acender um cachimbo ou charuto. Mas... caramba! Esta guimba de cigarro � realmente interessante. O cavalheiro tinha barba e bigode, n�o?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� N�o estou entendendo isso. Eu diria que s� pode ter sido fumado por algu�m sem barba. Isso porque, Watson, at� mesmo seu modesto bigode ficaria chamuscado.</p><p>� Uma piteira? � eu sugeri.</p><p>� N�o, n�o. A extremidade n�o mostra isso. N�o poderia haver duas pessoas no quarto, sra. Warren?</p><p>� N�o, senhor. Ele come t�o pouco que nem imagino como consegue se manter vivo.</p><p>� Bem, acho que devemos aguardar mais algum material. Afinal de contas, a senhora n�o tem nada a reclamar. Recebeu o aluguel e ele n�o � um inquilino problem�tico, embora seja fora do comum. Ele lhe paga bem e, se prefere viver trancado, n�o � da sua conta. N�o temos desculpa para nos intrometermos na sua privacidade, at� termos algum motivo para achar que h� algo suspeito. Aceitei o caso e vou ficar atento. Conte-me qualquer novidade e confie na minha ajuda, se for necess�ria.</p><p>� Certamente h� alguns detalhes interessantes neste caso, Watson � disse Holmes depois que a mulher saiu. � Pode muito bem tratar-se de uma coisa banal � excentricidade mesmo, ou ent�o pode ser algo mais profundo do que aparenta na superf�cie. A primeira coisa que chama a aten��o � a possibilidade de que a pessoa que est� agora no quarto seja completamente diferente do homem que o alugou.</p><p>� Por que acha isso?</p><p>� Bem, al�m do toco de cigarro, n�o foi sugestivo o fato de que a �nica vez que o inquilino saiu foi logo depois que alugou o quarto? Ele voltou � ou algu�m voltou � quando qualquer testemunha poss�vel estava fora do caminho. N�o temos nenhuma prova de que a pessoa que voltou seja a mesma que saiu. Al�m do mais, o homem que alugou os aposentos falava bem o ingl�s. Esta outra, no entanto, escreve �F�SFORO�, quando o correto � �F�SFOROS�. Eu acho que a palavra foi tirada de um dicion�rio, que daria o substantivo e n�o o plural. O estilo lac�nico talvez disfarce a falta de conhecimento do ingl�s. Sim, Watson, h� fortes motivos para supor que tenha havido uma troca de inquilinos.</p><p>� Mas com que objetivo?</p><p>� Ah, a� � que est� nosso problema. H� uma linha bastante clara de investiga��o.</p><p>Ele apanhou o livro volumoso em que, dia ap�s dia, arquivava os avisos de desaparecidos nos v�rios jornais londrinos.</p><p>� Puxa vida � disse, folheando as p�ginas �, que coro de gemidos, choros e lamenta��es! Que punhado de acontecimentos estranhos. Mas, com toda certeza, � um campo valios�ssimo para quem se dedica ao estudo do incomum! O nosso inquilino est� sozinho e n�o pode ser abordado por carta sem a quebra do absoluto segredo desejado. Como as not�cias ou mensagens chegam at� ele? Claro que atrav�s de an�ncios em um jornal. Parece n�o haver outra forma e, felizmente, temos de nos ocupar apenas com um jornal. Aqui est�o os recortes do Daily Gazette dos �ltimos 15 dias. �Senhora com um bo� preto no Prince�s Skating Club...�, podemos ir em frente. �Com toda a certeza, Jimmy n�o vai querer magoar o cora��o de sua m�e� isto parece n�o ter import�ncia para n�s. �Se a senhora que desmaiou no �nibus de Brixton...�, ela n�o me interessa. �Todo dia meu cora��o anseia�, lamenta��es infind�veis! Ah, isto j� � poss�vel. Ou�a: �Tenha paci�ncia. Vamos encontrar algum meio de comunica��o seguro. Nesse meio-tempo, esta coluna. G.� Isto foi dois dias depois da chegada do inquilino da sra. Warren. Parece plaus�vel, n�o? O inquilino misterioso pode entender ingl�s, mesmo que n�o saiba escrev�-lo. Vamos ver se conseguimos pegar a pista de novo. Sim... sim... aqui est�, tr�s dias depois: �Estou tomando provid�ncias com �xito. Paci�ncia e prud�ncia. As nuvens h�o de passar. G.� Depois disso, uma semana de sil�ncio. E agora vem algo mais definido: �O caminho est� ficando limpo. Se eu achar meio de me comunicar com sinais, lembre-se do c�digo combinado: 1, A; 2, B, e assim por diante. Voc� logo ter� not�cias. G.� Isto foi no jornal de ontem,</p><p>e hoje n�o h� nada. Tudo se encaixa muito bem no inquilino da sra. Warren. Se esperarmos um pouco, Watson, tenho certeza de que o caso vai ficar ainda mais compreens�vel.</p><p>E assim foi, pois logo de manh� encontrei meu amigo de p�, com as costas voltadas para a lareira e um sorriso de total satisfa��o nos l�bios.</p><p>� Que tal isto aqui, Watson? � perguntou, pegando o jornal na mesa. � �Casa vermelha alta com fachada de pedra branca. Terceiro andar. Segunda janela � esquerda. Depois do anoitecer. G.� Isto basta. Acho que, depois do caf�-da-manh�, devemos fazer um pequeno reconhecimento da vizinhan�a da sra. Warren. Ah, sra. Warren, que novidades nos traz esta manh�?</p><p>Nossa cliente tinha irrompido na sala com tamanho �mpeto que demonstrava que acontecera algo importante.</p><p>� � um caso de pol�cia, sr. Holmes! � berrou ela. � N�o quero mais saber disso! Ele tem de sair de l� com a bagagem! Eu ia subir e falar com ele, s� que resolvi ouvir primeiro seu conselho. Mas minha paci�ncia est� no fim, e quando acontece de baterem no meu marido por causa disso...</p><p>� Bateram no seu marido?</p><p>� De qualquer forma foi maltratado.</p><p>� Mas quem fez isso?</p><p>� Ah, isso � o que queremos saber! Foi hoje de manh�, senhor. Meu marido � o controlador do livro de ponto da firma Morton e Waylight�s, em Tottenham Court Road. Ele sai de casa antes das sete horas. Bem, hoje cedo ele ainda n�o tinha dado dez passos quando dois homens se aproximaram por tr�s, jogaram um palet� em sua cabe�a e o meteram num carro encostado ao meio-fio. Andaram com ele durante uma hora e depois abriram a porta e o jogaram para fora. Ele ficou t�o tonto na estrada que nem viu o que aconteceu com o carro. Quando se levantou, viu que estava em Hampstead Heat; tomou um �nibus de volta para casa e est� l�, deitado no sof�, enquanto eu vim diretamente lhe contar o que aconteceu.</p><p>� Muito interessante � disse Holmes. � Ele notou a apar�ncia dos homens, ouviu-os conversar?</p><p>� N�o, ele est� completamente tonto. S� sabe que foi levantado e atirado como num passe de m�gica. Havia pelo menos dois homens, ou talvez tr�s.</p><p>� E a senhora relaciona este ataque com seu inquilino?</p><p>� Ora, h� 15 anos moramos ali e nunca aconteceu uma coisa assim antes. N�o quero mais saber dele! Dinheiro n�o � tudo! Vou faz�-lo sair de minha casa antes de o dia terminar.</p><p>� Espere um pouco, sra. Warren. N�o fa�a as coisas de modo precipitado. Come�o a achar que este caso � muito mais importante do que pareceu � primeira vista. Est� claro agora que algum perigo est� amea�ando seu inquilino. Tamb�m est� claro que os inimigos dele, esperando-o perto de sua casa, pegaram seu marido por engano, na manh� cheia de neblina. Quando perceberam o engano, eles o soltaram. Podemos apenas supor o que fariam se n�o tivesse sido um engano.</p><p>� Bem, o que devo fazer, sr. Holmes?</p><p>� Gostaria imensamente de ver seu inquilino, sra. Warren.</p><p>� N�o sei como se pode conseguir isso, a n�o ser que o senhor arrombe a porta. Eu sempre o escuto destrancando-a quando des�o, depois de deixar a bandeja para ele.</p><p>� Ele tem de peg�-la. Com toda a certeza podemos nos esconder e v�-lo.</p><p>A mulher pensou por um momento.</p><p>� Bem, senhor, h� um quarto em frente. Eu posso arrumar um espelho, talvez, e o senhor fica atr�s da porta...</p><p>� Excelente! Quando ele almo�a?</p><p>� Ali pelas 13 horas.</p><p>� Eu e o dr. Watson estaremos l�, ent�o. At� mais tarde, sra. Warren.</p><p>�s 12:30h n�s nos ach�vamos nos degraus da casa da sra. Warren, uma casa alta, de tijolos amarelos, em Great Orme Street, uma ruazinha estreita a noroeste do Museu Brit�nico. Como fica perto da esquina, tem uma vista da Howe Street, com casas mais elegantes. Com um risinho de satisfa��o, Holmes apontou para uma das casas, que se destacava das outras.</p><p>� Veja, Watson: �Casa vermelha alta com fachada de pedra branca.� � o lugar para os sinais, sem d�vida. Sabemos o lugar e conhecemos o c�digo; de modo que nossa tarefa ser� simples. H� um cartaz de �Aluga-se� na janela. Evidentemente � um apartamento vazio, ao qual o c�mplice tem acesso. Muito bem, sra. Warren, e agora?</p><p>� Est� tudo preparado para os senhores. Se subirem agora e deixarem os sapatos aqui, eu os instalarei l�.</p><p>Ela arranjara um excelente esconderijo. O espelho fora colocado de tal forma que, sentados no escuro, pod�amos ver toda a porta em frente. Mal t�nhamos nos instalado, depois que a mulher saiu, quando ouvimos uma campainha tocando, o que significava que o misterioso h�spede tinha chamado. Naquele momento a senhoria apareceu com a bandeja, colocou-a sobre a cadeira, perto da porta fechada e foi-se embora, pisando forte. Espremidos no �ngulo da porta, ficamos olhando para o espelho. De repente, depois que os passos da mulher desapareceram, ouvimos uma chave rangendo na porta, a ma�aneta se mexeu e duas m�os finas apareceram e pegaram o prato da cadeira. Mas logo em seguida as mesmas m�os largaram o prato na cadeira e eu vi, rapidamente, um rosto bonito, moreno e aterrorizado olhando para a estreita abertura da nossa porta. Ele bateu a porta rapidamente, trancou-a e tudo ficou em sil�ncio. Holmes puxou-me pela manga e descemos silenciosamente a escada.</p><p>� Voltarei � noite � ele disse � mulher ansiosa. � Acho que n�s podemos analisar melhor o caso em nossos aposentos, Watson.</p><p>� Minha suposi��o, como voc� viu, estava correta � disse Holmes, sentado em sua poltrona. Houve uma substitui��o de inquilinos. O que n�o previ, Watson, era que encontrar�amos uma mulher, e n�o se trata de uma mulher comum.</p><p>� Ela nos viu.</p><p>� Bem, ela viu algo que a assustou. Isto � evidente. A seq��ncia geral dos acontecimentos est� bastante clara, n�o? Um casal procura ref�gio em Londres por causa de um perigo terr�vel e iminente. O tamanho desse perigo pode ser medido pelo rigor das precau��es. O homem, que tem um trabalho qualquer a fazer, precisa deixar a mulher em absoluta seguran�a enquanto ele age. N�o � um problema f�cil, mas ele resolveu de forma original e de maneira t�o eficaz que nem a dona da pens�o, que lhe leva as refei��es, sabe de sua presen�a. Os bilhetes, em letra de f�rma, s�o uma maneira de evitar que descobrissem o sexo dela pela caligrafia. O homem n�o pode aproximar-se da mulher; do contr�rio levar� at� ela os inimigos. Como n�o pode comunicar-se diretamente com ela, recorreu � se��o de an�ncios de um jornal. At� aqui, est� tudo muito claro.</p><p>� Mas qual o motivo disso tudo?</p><p>� Ah, sim, Watson, extremamente pr�tico, como sempre! Qual o motivo disso tudo? O extravagante problema da senhora Warren aumenta um pouco e assume um aspecto ainda mais sinistro quando continuamos. At� aqui podemos dizer o seguinte: esta n�o � uma fuga comum de amor. Voc� viu o rosto da mulher ao sinal de perigo. Ficamos sabendo, tamb�m, que o ataque ao marido da sra. Warren sem d�vida nenhuma era dirigido ao inquilino. Estes alarmes e a desesperada necessidade de segredo, tudo indica ser um caso de vida ou morte. O ataque ao sr. Warren mostra ainda que o inimigo, quem quer que seja, tamb�m n�o est� a par da substitui��o do inquilino. Muito interessante e complexo, Watson.</p><p>� Por que voc� continua? O que tem a ganhar com isso?</p><p>� Sim, o qu�? � pelo amor � arte, Watson. Acho que voc�, quando se formou em medicina, muitas vezes cuidou de doen�as sem pensar em pagamento, n�o?</p><p>� Enriquecimento de meus conhecimentos, Holmes.</p><p>� Essa forma��o n�o acaba nunca, Watson. � uma seq��ncia de li��es, a seguinte ainda mais interessante. Aqui n�s temos um caso instrutivo. N�o h� nem dinheiro nem m�rito nele, mas mesmo assim a gente quer esclarec�-lo. Quando anoitecer, estaremos num est�gio mais avan�ado de nossas investiga��es.</p><p>Ao voltarmos � casa da sra. Warren, a tristeza da noite de inverno de Londres se transformara numa espessa neblina cinza, envolvendo tudo na monotonia de sua cor, quebrada somente pelos ret�ngulos amarelos e vivos das janelas iluminadas. Olhando pela janela, j� dentro da casa, vimos uma luz mais t�nue brilhando no alto, na escurid�o da noite.</p><p>� Algu�m est� andando no quarto � sussurrou Holmes, com o rosto atento e magro encostado na vidra�a. Sim, estou vendo a sombra dele. L� est� ele de novo! Tem uma vela na m�o. Est� olhando para fora, agora. Quer ter a certeza de que ela est� atenta. Come�ou a sinalizar agora. Pegue a mensagem voc� tamb�m, Watson, e poderemos conferir um com o outro. Apenas um sinal... isso � a letra A, com toda a certeza. Olha l�, de novo. Quantos voc� contou? 20. Eu tamb�m. Isso deve ser um T. Significa AT. Bastante compreens�vel. Outro T. Certamente � o come�o da segunda palavra. Agora... TENTA. Ponto. Ser� que � tudo, Watson? ATTENTA n�o significa nada, nem se divid�ssimos em tr�s palavras � AT TEN TA, a menos que TA sejam iniciais de um nome. L� est� ele de novo! O que � isso? ATTE... ora, � a mesma palavra de novo. Curioso, Watson, muito curioso! Recome�ou! AT... ora, repetindo pela terceira vez! ATTENTA tr�s vezes. Quantas vezes vai repetir? N�o, parece que terminou. Ele saiu da janela. O que voc� acha, Watson?</p><p>� Uma mensagem em c�digo, Holmes.</p><p>De repente meu companheiro soltou uma risada de compreens�o.</p><p>� E n�o � um c�digo dif�cil, Watson. Claro, � em italiano. O A significa que � dirigido a uma mulher. �Cuidado�, �Cuidado�, �Cuidado�. E ent�o, Watson?</p><p>� Acho que voc� acertou.</p><p>� Sem d�vida. Uma mensagem muito urgente, repetida tr�s vezes para enfatizar isso. Mas, cuidado com o qu�? Espere um pouco, ele est� voltando � janela.</p><p>Vimos de novo a silhueta do homem agachado e o movimento da pequena luz pela janela, quando recome�ou com os sinais. Foram mais r�pidos do que antes, t�o r�pidos que era dif�cil acompanh�-los.</p><p>� PERICOLO... pericolo... hein? o que �, Watson? Perigo, n�o? Sim, por Deus, � um sinal de perigo. L� vai de novo. Peri... ora, que diabo...</p><p>A luz sumiu de repente, a figura desapareceu da janela e o terceiro andar formava um quadro escuro, no alto do pr�dio, em compara��o com as vidra�as iluminadas. O �ltimo sinal de aviso fora cortado de repente. Como e por quem? O mesmo pensamento ocorreu a n�s dois.</p><p>Holmes levantou-se de um pulo do lugar onde estava agachado, perto da janela.</p><p>� Isto � grave, Watson � ele exclamou. � H� alguma� crueldade acontecendo por l�. Por que essa mensagem pararia assim? Tenho que p�r a Scotland Yard neste caso... e mesmo assim, � muito urgente para que o abandonemos...</p><p>� Devo chamar a pol�cia?</p><p>� Precisamos definir um pouco melhor a situa��o. Pode ter uma interpreta��o mais inocente. Vamos, Watson, vamos agir e ver o que podemos fazer.</p><p>Enquanto segu�amos rapidamente pela Howe Street, olhei para a casa de onde acab�ramos de sair. E l�, destacada na janela superior, pude ver a sombra de uma cabe�a, cabe�a de mulher, perscrutando, tensa e r�gida, a noite l� fora, esperando com ansiedade o rein�cio da mensagem interrompida.</p><p>Um homem, agasalhado com um cachecol e um sobretudo, estava encostado � porta do pr�dio de apartamentos.</p><p>� Holmes! � ele exclamou assim que aparecemos.</p><p>� Ora, Gregson! � respondeu meu amigo, apertando a m�o do detetive da Scotland Yard. � Os amantes sempre se encontram no fim da viagem. O que faz aqui?</p><p>� Espero que sejam os mesmos motivos que o trazem � disse Gregson. � N�o imagino como voc� entrou neste caso.</p><p>� Fios diferentes, mas que levam � mesma meada. Estive observando os sinais.</p><p>� Sinais?</p><p>� Sim, daquela janela. Foram interrompidos. Viemos ver o motivo. Mas j� que o caso est� em suas m�os, eu n�o vejo motivo para continuar.</p><p>� Espere um pouco! � exclamou Gregson, ansioso. � Vou ser honesto com o senhor, pois nunca estive num caso em que n�o me sentisse mais seguro tendo-o ao meu lado. Existe apenas uma sa�da destes apartamentos, portanto n�s o pegamos.</p><p>� Quem � ele?</p><p>� Bem, bem, passamos na sua frente pelo menos uma vez, sr. Holmes. Deve considerar-nos melhor, desta feita.</p><p>Dizendo isso, bateu firme com a bengala no ch�o, e no mesmo instante um cocheiro saltou da carruagem estacionada do outro lado da rua, com um chicote na m�o, e aproximou-se de n�s.</p><p>� Deixe-me apresent�-lo ao sr. Sherlock Holmes � disse Gregson ao cocheiro. � Este � o sr. Leverton, da Ag�ncia Americana Pinkerton.</p><p>� O her�i do mist�rio da caverna de Long Island? � perguntou Holmes � Prazer em conhec�-lo, senhor.</p><p>O americano, um jovem tranq�ilo, com ar eficiente, rosto comprido e bem barbeado, ficou vermelho com o elogio.</p><p>� Estou no maior caso de minha vida agora, sr. Holmes. Se eu puder pegar Gorgiano...</p><p>� O qu�? Gorgiano do C�rculo Vermelho?</p><p>� Oh, ent�o ele j� tem fama na Europa, n�o? Bem, sabemos tudo a respeito dele na Am�rica. Sabemos que est� metido em cinq�enta assassinatos, e mesmo assim ainda n�o temos nada concreto para peg�-lo. Estou na pista dele desde Nova York e faz uma semana que estou de olho nele aqui em Londres, esperando uma desculpa para p�r as m�os nele. O sr. Gregson e eu o seguimos at� aqui e, como s� h� uma porta, ele n�o conseguir� escapar. Tr�s pessoas j� sa�ram dali desde que ele entrou, mas tenho certeza de que ele n�o era nenhuma delas.</p><p>� O sr. Holmes falou a respeito de sinais � disse Gregson. � Espero que ele saiba, como sempre, muitas coisas que ignoramos.</p><p>Holmes explicou, em poucas palavras, como n�s v�amos a situa��o. O americano bateu as m�os, desapontado.</p><p>� Ele est� sabendo de n�s! � exclamou.</p><p>� Por que diz isso?</p><p>� Bem, d� essa impress�o, n�o? Ele est� l�, enviando mensagens a um c�mplice � e h� v�rios de sua quadrilha em Londres. Ent�o, de repente, como diz, quando ele estava avisando que havia perigo, a mensagem foi interrompida. O que significa isso a n�o ser que ele nos viu na rua, da janela onde estava, ou ent�o percebeu de algum modo que o perigo estava perto e que devia agir rapidamente para evit�-lo? O que o senhor sugere, sr. Holmes?</p><p>� Vamos subir imediatamente e ver o que aconteceu.</p><p>� Mas n�o temos um mandado de pris�o contra ele.</p><p>� Ele est� num apartamento vazio, em circunst�ncias suspeitas � disse Gregson. � Por ora, isso nos basta. Depois que o pegarmos, vamos ver se Nova York n�o pode nos ajudar a mant�-lo preso. Eu assumo a responsabilidade por sua pris�o agora.</p><p>Nossos policiais podem n�o primar pela intelig�ncia, mas sempre s�o corajosos. Gregson subiu as escadas para prender o assassino tem�vel com a mesma calma fria e profissional com que teria subido as escadas da Scotland Yard. O detetive da Pinkerton tentou ir na frente, mas Gregson o manteve firmemente atr�s, usando o cotovelo. Os perigos de Londres eram privil�gio da pol�cia londrina.</p><p>A porta do apartamento da esquerda, no terceiro andar, estava meio aberta. Gregson a escancarou. Dentro, tudo era sil�ncio e escurid�o. Risquei um f�sforo e acendi o lampi�o do detetive. Quando a chama firmou-se, todos n�s soltamos uma exclama��o de surpresa. No ch�o havia uma marca recente de sangue. As pegadas vermelhas apontavam na nossa dire��o e conduziam a um outro quarto, cuja porta estava fechada. Gregson a arrombou e ergueu o lampi�o para iluminar bem o ambiente, enquanto n�s espi�vamos ansiosos por cima dos seus ombros.</p><p>No ch�o, no meio do quarto vazio, estava a forma encolhida de um homem enorme, rosto barbeado e moreno, horrivelmente grotesco em sua contor��o, a cabe�a cercada por um halo sinistro de sangue, em meio a uma po�a no ch�o branco.</p><p>Estava com os joelhos encolhidos, as m�os abertas em agonia e, no meio de sua garganta, larga e morena, projetava-se o cabo de um punhal enterrado na carne. Grande como era, o homem deve ter ca�do como um touro abatido com um golpe terr�vel. Ao lado de sua m�o direita estava uma adaga de dois gumes, cabo de chifre, e perto dela uma luva de pelica preta.</p><p>� Meu Deus, � Gorgiano, o Negro! � exclamou o detetive americano. � Algu�m o pegou antes de n�s.</p><p>� Aqui est� a vela na janela, sr. Holmes � disse Gregson. � Mas o que est� fazendo?</p><p>Holmes tinha se adiantado, acendera a vela e a estava passando de um lado a outro da janela. Depois espiou para fora, soprou a vela e a jogou no ch�o.</p><p>� Creio que vai nos ajudar � ele disse.</p><p>Aproximou-se e ficou pensativo, enquanto os dois profissionais examinavam o corpo.</p><p>� O senhor disse que tr�s pessoas sa�ram do pr�dio enquanto estava l� embaixo � disse, finalmente. � O senhor as observou de perto?</p><p>� Sim, sim.</p><p>� Havia um sujeito de uns 30 anos, barba preta, estatura mediana?</p><p>� Sim, foi o �ltimo a passar por mim.</p><p>� Esse � o seu homem, eu acho. Posso dar-lhe sua descri��o e, al�m do mais, temos uma excelente impress�o de suas pegadas. Isso deve ser o suficiente para o senhor.</p><p>� Nem tanto, sr. Holmes, entre as milh�es de pessoas em Londres.</p><p>� Talvez n�o. Por isso achei melhor chamar esta senhora para ajud�-lo.</p><p>Ouvindo estas palavras, n�s nos viramos. Uma mulher, bonita e alta, estava � porta � a misteriosa inquilina de Bloomsbury. Ela avan�ou devagar, o rosto p�lido e apreensivo, os olhos fixos na figura negra no ch�o.</p><p>� Voc�s o mataram! � murmurou. � Oh, Dio mio, voc�s o mataram!...</p><p>Ent�o, ela deu um suspiro profundo e saiu pulando com um grito de alegria. Dan�ou em volta do quarto, batendo as m�os, os olhos escuros brilhando de contentamento, e uma torrente de exclama��es em italiano jorrando dos seus l�bios. Era terr�vel e ao mesmo tempo espantoso ver a mulher t�o alegre com uma vis�o daquelas. Ela parou de repente e olhou para n�s com um ar interrogativo.</p><p>� Mas, voc�s... s�o policiais, n�o? Voc�s mataram Giuseppe Gorgiano, n�o foi?</p><p>� Somos da pol�cia, madame.</p><p>Ela olhou em volta, para os cantos escuros do quarto.</p><p>� Mas, ent�o... onde est� Gennaro? � perguntou. � � meu marido, Gennaro Lucca. Eu me chamo Em�lia Lucca, e viemos de Nova York. Onde est� Gennaro? H� pouco ele me chamou desta janela e eu vim o mais depressa que pude.</p><p>� Eu a chamei � disse Sherlock.</p><p>� O senhor? Como?</p><p>� Seu c�digo n�o era dif�cil, senhora. Desej�vamos sua presen�a aqui, e eu sabia que bastava enviar o sinal de �Vieni� e a senhora apareceria com toda a certeza.</p><p>A bela italiana olhou com espanto para o meu amigo.</p><p>� N�o entendo como o senhor sabe essas coisas � disse ela. � Giuseppe Gorgiano, como foi que ele...</p><p>Ela parou, e ent�o seu rosto se iluminou de alegria e orgulho.</p><p>� Agora estou entendendo! Meu Gennaro! Meu belo e espl�ndido Gennaro, que me protegeu de todo o mal � ele fez isso, com sua pr�pria m�o forte ele matou o monstro! Oh, Gennaro, maravilhoso Gennaro! Que mulher pode ser digna de um homem assim?</p><p>� Bem, senhora Lucca � disse o prosaico Gregson, pondo a m�o na manga da mulher t�o friamente como se ela fosse uma desocupada de Notting Hill � ainda n�o sei o que a senhora � nem quem �, mas j� disse o suficiente para que a levemos at� a Scotland Yard.</p><p>� Um momento, Gregson � disse Holmes. � Eu acho que esta senhora deve estar t�o ansiosa para nos dar informa��es quanto n�s para ouvi-las. A senhora sabe, madame, que seu marido ser� preso e julgado pelo assassinato deste homem aqui? O que disser pode ser usado contra voc�s. Mas se acha que seu marido agiu por motivos que n�o s�o criminosos, e que ele quer que saibamos, ent�o o melhor que a senhora pode fazer para ajud�-lo ser� contar-nos a hist�ria.</p><p>� Agora que Gorgiano est� morto, nada mais nos assusta � ela disse. � Ele era um dem�nio e um monstro, e n�o existe um juiz em todo o mundo que puniria meu marido por t�-lo matado.</p><p>� Neste caso � disse Holmes � sugiro que fechemos esta porta, deixemos tudo do modo como encontramos, e vamos at� o quarto desta mulher a fim de tirarmos nossa conclus�o depois de ouvirmos tudo o que ela tem a nos dizer.</p><p>Meia hora depois n�s est�vamos sentados na apertada sala da signora Lucca, ouvindo a extraordin�ria narrativa dos acontecimentos sinistros, cujo final n�s testemunhamos por acaso. Falava um ingl�s r�pido e fluente, mas n�o muito correto, e que, em nome da clareza, eu vou corrigir.</p><p>� Nasci em Posilippo, perto de N�poles � disse ela � e meu pai chamava-se Augusto Barelli, decano dos advogados e, nessa ocasi�o, deputado daquela regi�o. Gennaro era empregado de meu pai e eu me apaixonei por ele, como se apaixonaria qualquer outra mulher. Ele n�o tinha dinheiro nem posi��o � nada, a n�o ser beleza, for�a e energia � de modo que meu pai se op�s ao nosso casamento. Fugimos, casamo-nos em Bari e eu vendi minhas j�ias para arranjar o dinheiro que nos levaria para os Estados Unidos. Isto aconteceu h� quatro anos, e desde ent�o sempre vivemos em Nova York.</p><p>� No in�cio tivemos muita sorte. Uma vez Gennaro prestou um favor a um senhor italiano � ele o livrou de alguns malfeitores num lugar chamado Bowery, conseguindo, assim, um amigo poderoso. Esse senhor era Tito Castalotte, s�cio majorit�rio da grande firma Castalotte e Zamba, principais importadores de frutas de Nova York. O signor Zamba � paral�tico, e nosso novo amigo, Castalotte, tinha amplos poderes na firma, que empregava mais de trezentas pessoas. Levou meu marido para trabalhar com ele, fez dele chefe de um departamento e mostrou-lhe sua boa vontade em todos os sentidos. O signor Castalotte era um solteir�o e eu acho que considerava Gennaro seu pr�prio filho, e n�s, eu e meu marido, gost�vamos dele como se fosse nosso pai. Hav�amos alugado e mobiliado uma casinha no Brooklyn e nosso futuro parecia garantido quando apareceu aquela nuvem negra que, em breve, iria escurecer nosso c�u.</p><p>� Uma noite, ao voltar do trabalho, Gennaro trouxe um compatriota com ele. Chamava-se Gorgiano e tamb�m viera de Posilippo. Era um homem enorme, como voc�s mesmos viram pelo cad�ver. Ele era enorme n�o apenas no tamanho, mas tudo nele era grotesco, gigantesco, aterrorizante. A voz parecia um trov�o dentro de nossa casa pequena. Mal havia espa�o para seus bra�os e gestos enormes quando falava. Tudo nele era exagerado e monstruoso, suas id�ias, emo��es e paix�es. Ele falava, ou melhor, rugia, com tamanha energia que as outras pessoas s� conseguiam ficar sentadas ouvindo, amedrontadas diante daquela poderosa torrente de palavras. Os olhos fixavam-se como fogo numa pessoa e a dominavam. Era um homem terr�vel e extraordin�rio ao mesmo tempo. Gra�as a Deus, est� morto! Ele voltou muitas vezes � nossa casa. Mas eu percebia que Gennaro ficava infeliz na presen�a dele, assim como eu. Meu pobre marido ficava sentado, p�lido e quieto, ouvindo infind�veis discursos sobre quest�es pol�ticas e sociais, o prato favorito de nosso visitante. Gennaro n�o dizia nada, mas eu, que o conhecia bem, via ang�stia em seu rosto, coisa que nunca vira antes. No in�cio achei que se tratava de avers�o. Mas, pouco a pouco, compreendi que era algo mais do que isso. Era medo � um medo profundo, secreto, imenso. Naquela noite � na noite em que percebi o medo dele � eu o abracei e implorei, pelo amor que tinha por mim e por tudo o que lhe era caro, que n�o me escondesse nada e me dissesse por que raz�o aquele homem imenso tinha tanto dom�nio sobre ele. Gennaro me contou e meu cora��o ficou gelado enquanto eu ouvia. Meu pobre Gennaro, na sua juventude livre e ousada, quando o mundo inteiro parecia estar contra ele, e quase enlouqueceu por causa das injusti�as da vida, ele se filiara a uma sociedade napolitana, o C�rculo Vermelho, aliada dos antigos Carbon�rios. Os juramentos e segredos dessa irmandade eram terr�veis, mas, depois de entrar, n�o era mais poss�vel escapar. Quando n�s fugimos para a Am�rica, Gennaro pensou que tinha se livrado dela para sempre. Imagine o seu horror, certa noite, ao encontrar-se na rua com o homem que o iniciara em N�poles, o gigante Gorgiano, um homem que recebera o apelido de �Morte�, no sul da It�lia, porque tinha tantas mortes nas costas! Ele fora para Nova York fugindo da pol�cia italiana, e j� havia instalado uma filial da terr�vel sociedade no novo pa�s. Gennaro contou-me tudo isso e mostrou-me uma carta, que recebera naquele dia, com um c�rculo vermelho desenhado no alto, informando que haveria uma reuni�o num determinado dia e que a presen�a dele n�o era apenas solicitada, mas exigida mesmo.</p><p>Isso j� era bastante ruim, mas o pior ainda estava por vir. Eu tinha notado que, quando Gorgiano vinha � nossa casa, o que ele fazia com freq��ncia, � noite, conversava muito comigo; e mesmo quando suas palavras eram dirigidas a Gennaro, seus olhos terr�veis, brilhantes e selvagens estavam sempre fixos em mim.</p><p>Uma noite, ele se revelou. Eu havia despertado nele aquilo que ele chamava de �amor� � amor de um selvagem, de um bruto. Gennaro ainda n�o tinha chegado quando ele entrou. Avan�ou e me enla�ou nos bra�os fortes, apertou-me como um urso, me cobriu de beijos e me implorou para ir com ele. Eu estava lutando e gritando quando Gennaro entrou e o atacou. Gorgiano o deixou sem sentidos</p><p>e fugiu dali, e nunca mais voltou. Naquela noite hav�amos feito um inimigo mortal.</p><p>Alguns dias depois houve a reuni�o. Gennaro voltou com uma express�o que me dizia que algo terr�vel tinha acontecido. Era pior do que pod�amos imaginar. Os fundos da sociedade eram obtidos por meio de chantagem contra italianos ricos, e amea�as de viol�ncia, se eles se recusassem a dar dinheiro. Castalotte, nosso benfeitor e amigo, fora abordado e se recusara a se submeter �s amea�as, levando tudo ao conhecimento das autoridades. Decidiram, ent�o, que ele teria de ser transformado num exemplo para evitar que outros tamb�m se rebelassem. Na reuni�o ficou decidido que ele e a casa deveriam ir pelos ares, com uso de dinamite. Houve sorteio para ver quem executaria o plano. Gennaro viu o rosto cruel do nosso inimigo sorrindo para ele quando enfiou a m�o no vaso, na hora do sorteio. N�o h� d�vida de que a coisa tinha sido, de algum modo, preparada antes, porque o disco fatal, com o c�rculo vermelho, saiu na sua m�o � o mandado do crime. Ele tinha de matar seu melhor amigo, ou ent�o ficaria exposto, e eu tamb�m, � vingan�a de seus camaradas. Fazia parte daquele sistema infernal punir aqueles que eles temiam ou odiavam, n�o s� as pr�prias pessoas como tamb�m suas fam�lias; sabendo disso, Gennaro ficou quase louco de apreens�o. Durante aquela noite inteira ficamos sentados, abra�ados, cada um dando for�a ao outro para enfrentar as dificuldades que t�nhamos pela frente.</p><p>O atentado deveria ocorrer na noite seguinte. Ao meio-dia, eu e meu marido est�vamos a caminho de Londres, n�o sem antes avisar nosso benfeitor do perigo, e tamb�m deixando informa��es � pol�cia para proteger a vida dele no futuro.</p><p>O resto os senhores j� sabem. T�nhamos certeza de que nossos inimigos ficariam atr�s de n�s como sombras. Gorgiano tinha motivos pessoais para a vingan�a, mas, de qualquer modo, sab�amos como ele poderia ser impiedoso, esperto e incans�vel. Tanto a It�lia como a Am�rica est�o repletas de hist�rias de seu terr�vel poder. Se ele tivesse de coloc�-lo em a��o, seria agora.</p><p>Meu marido deu um jeito de me arranjar um esconderijo nos poucos dias que t�nhamos de vantagem na fuga, a fim de que eu n�o ficasse exposta a nenhum perigo. Ele, por sua vez, queria estar livre para entrar em contato tanto com a pol�cia italiana como a americana. Eu mesma n�o sei onde ele morava, nem como. Tudo o que sabia era atrav�s das p�ginas de um jornal. Uma vez, ao olhar pela janela, vi dois italianos vigiando a casa e soube que Gorgiano, de alguma forma, descobrira nosso esconderijo. Finalmente Gennaro me falou, pelo jornal, que enviaria sinais de uma determinada janela; mas quando esses sinais vieram, nada mais eram do que avisos de alerta, subitamente interrompidos. Agora est� claro para mim que Gennaro sabia que Gorgiano estava por perto e, gra�as a Deus, meu marido estava preparado quando o outro chegou. E agora, senhores, eu lhes pergunto se temos algo a temer da lei, ou se algum juiz no mundo iria condenar meu marido pelo que ele fez.</p><p>� Bem, sr. Gregson � disse o americano encarando o policial �, eu n�o sei qual o ponto de vista da lei brit�nica a respeito disso, mas creio que em Nova York o marido desta senhora vai receber um voto de agradecimento geral.</p><p>� Ela ter� de vir comigo e falar com o chefe � respondeu Gregson. � Se o que disse for comprovado, creio que ela e o marido n�o t�m muito a temer. Mas o que n�o entendo, sr. Holmes, � como diabo o senhor entrou nesta hist�ria.</p><p>� Cultura, Gregson, cultura. Ainda procurando conhecimento na velha universidade. Bem, Watson, a� voc� tem mais um exemplo do tr�gico e do grotesco para acrescentar � sua cole��o. A prop�sito, ainda n�o s�o oito horas, e esta noite tocam Wagner no Covent Garden! Se n�s nos apressarmos, ainda poderemos pegar o segundo ato.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o caso dos planos do bruce-partington</strong></p><p>Na terceira semana de novembro de 1895, Londres foi envolvida por um nevoeiro denso e escuro. De segunda a quinta-feira eu duvidei se seria poss�vel, de nossa janela em Baker Street, ver a fachada das casas em frente. Holmes passou o primeiro dia catalogando seu volumoso livro de refer�ncias; no segundo e terceiro dias, ficou pacientemente ocupado com um assunto que se transformara recentemente no seu hobby � a m�sica da Idade M�dia. Mas, no quarto dia, quando n�s levantamos das cadeiras ap�s o caf�-da-manh� e vimos a n�voa pesada e insinuante ainda firme e se condensando em manchas oleosas nas vidra�as, a natureza impaciente e ativa de meu amigo n�o ag�entou mais essa monotonia. Ficou andando impaciente pela sala, numa energia febril contida, tamborilando com as unhas nos m�veis, irritado com a falta de a��o.</p><p>� Nada de interessante no jornal, Watson?</p><p>Eu sabia que, ao perguntar sobre algo interessante, Holmes se referia a algo de interesse criminal. Havia not�cias de uma revolu��o, possivelmente guerra, e sobre uma iminente mudan�a de governo, mas estas coisas n�o estavam no horizonte do meu amigo. N�o tinha visto nada que se enquadrasse na modalidade de crime que n�o fosse comum e f�til. Holmes grunhiu e recome�ou suas caminhadas infind�veis.</p><p>� O criminoso de Londres �, com certeza, um sujeito sem imagina��o � disse, numa voz lamurienta como a de um esportista que perde o jogo. � Olhe pela janela, Watson. Veja como as pessoas aparecem indistintamente, mal s�o vistas e j� desaparecem de novo na n�voa. Um ladr�o ou um assassino podia andar por Londres impunemente num dia assim, como um tigre na selva, invis�vel at� o bote fatal na sua v�tima.</p><p>� Houve alguns roubos insignificantes � eu disse.</p><p>Holmes fungou com desd�m.</p><p>� Este palco imenso e sombrio est� montado para algo melhor do que isso. � uma sorte para a comunidade que eu n�o seja um criminoso.</p><p>� Isso � verdade! � eu disse, convicto.</p><p>� Suponha que eu fosse Brooks ou Woodhouse, ou algum dos cinq�enta homens que t�m bons motivos para me matar. Quanto tempo eu conseguiria sobreviver � minha pr�pria persegui��o? Um chamado, uma cilada, e tudo estaria terminado. � bom que n�o haja dias de neblina nos pa�ses latinos � pa�ses t�picos de assassinatos. Por Deus, a� vem algo, finalmente, para quebrar nossa monotonia mortal.</p><p>Era a criada com um telegrama. Holmes o abriu e caiu na gargalhada.</p><p>� Ora, ora! Adivinhe s�? Meu irm�o Mycroft est� vindo a�.</p><p>� E da�?</p><p>� E da�? � como se voc� se encontrasse com um trem numa ruazinha de interior. Mycroft tem seus trilhos e s� anda neles. O apartamento em Pall Mall, o Clube Di�genes, Whitehall, este � o mundo dele. Uma vez � e apenas uma � ele esteve aqui. O que ser� que o fez sair dos trilhos?</p><p>� Ele n�o explica?</p><p>Holmes entregou-me o telegrama do irm�o.</p><empty-line/><p>Preciso falar-lhe sobre Cadogan West. Irei imediatamente.</p><p>Mycroft.</p><empty-line/><p>� Cadogan West? J� ouvi este nome.</p><p>� N�o me lembra nada. Mas para que Mycroft apare�a aqui de repente... Um planeta tamb�m pode sair de sua �rbita! A prop�sito, voc� sabe o que Mycroft �?</p><p>Eu tinha uma vaga lembran�a de alguma informa��o na �poca do caso do int�rprete grego.</p><p>� Voc� me disse que ele tinha um escrit�rio e que trabalhava para o governo brit�nico.</p><p>Holmes deu uma risadinha.</p><p>� Eu n�o conhecia voc� muito bem naquela �poca. Precisamos ser discretos quando falamos de assuntos importantes do governo. Voc� est� certo em pensar que ele trabalha para o governo ingl�s. Voc� tamb�m estaria certo se dissesse que ele �, de vez em quando, o pr�prio governo brit�nico!</p><p>� Meu caro Holmes!</p><p>� Eu sabia que voc� ficaria surpreso. Mycroft recebe 450 libras por ano, permanece numa posi��o subalterna, n�o tem ambi��es de esp�cie alguma, n�o receber� t�tulos nem condecora��es, mas continua sendo o homem mais indispens�vel deste pa�s.</p><p>� Mas, como?</p><p>� Bem, a posi��o dele � �nica. Ele mesmo a criou para si. Nunca houve algo assim antes, nem haver� depois. Ele possui, entre todos os seres vivos, o c�rebro mais met�dico e preciso, com imensa capacidade de estocar fatos. As mesmas faculdades que eu uso para a elucida��o de crimes, ele usa para a sua fun��o espec�fica. As conclus�es de todos os departamentos s�o encaminhadas a ele; ele � a central de filtragem, o servi�o de compensa��o que faz o equil�brio. Todos os outros homens s�o especialistas, mas a especialidade dele � a onisci�ncia. Suponhamos que um determinado ministro necessite de informa��es sobre certo assunto que envolva a Marinha, a �ndia, o Canad� e a quest�o bimet�lica; ele poderia receber orienta��o sobre cada assunto de v�rios departamentos, mas somente Mycroft pode englobar todos eles e dizer, de antem�o, como cada fator afetar� o outro. Eles come�aram usando-o como uma esp�cie de atalho conveniente, mas agora ele se tornou indispens�vel. No seu c�rebro fant�stico tudo est� classificado e pode ser usado imediatamente. Quantas vezes sua palavra determinou a pol�tica nacional! Vive nisso. Ele n�o pensa em mais nada, a n�o ser quando, como exerc�cio mental, cede se eu o chamo e lhe pe�o alguns conselhos sobre alguns de meus modestos problemas. Mas J�piter est� descendo hoje � Terra. Que diabo pode ser isso? Quem � Cadogan West e o que significa para Mycroft?</p><p>� Eu sei! � exclamei, e arranquei um jornal de uma pilha que estava em cima do sof�. � Sim, aqui est�, com certeza. Cadogan West foi o jovem encontrado morto no metr�, na ter�a-feira de manh�.</p><p>Holmes ficou subitamente atento, o cachimbo no ar.</p><p>� Isso deve ser muito s�rio, Watson. Uma morte que faz com que meu irm�o mude seus h�bitos n�o deve ser algo comum. Que diabo Mycroft tem a ver com isso? O caso n�o tinha nada de interessante, se me lembro bem. Aparentemente o jovem tinha ca�do do trem, suicidando-se. N�o tinha sido roubado e n�o havia motivo aparente para se pensar em viol�ncia. N�o foi assim?</p><p>� Houve um inqu�rito � eu disse � e muitos fatos novos apareceram. Olhando com mais aten��o, eu diria que foi um caso curioso.</p><p>� A julgar pelo efeito em meu irm�o, eu diria que se trata de algo extraordin�rio � ele comentou, acomodando-se na poltrona. � Agora, Watson, vamos aos fatos.</p><p>� O nome dele era Arthur Cadogan West. Tinha 27 anos, solteiro, e trabalhava no Arsenal Woolwich.</p><p>� Funcion�rio do governo. Veja a liga��o com o mano Mycroft!</p><p>� Saiu de repente de Woolwich na segunda-feira � noite. Foi visto pela �ltima vez pela noiva, srta. Violet Westbury, que ele deixou repentinamente na neblina �s 19:30h daquela noite. N�o houve briga entre eles e ela n�o consegue achar um motivo para a atitude dele. S� se ouviu falar nele novamente quando o corpo foi encontrado por um funcion�rio de nome Mason, do lado de fora da esta��o Aldgate do metr� de Londres.</p><p>� Quando?</p><p>� O corpo foi encontrado �s seis horas de ter�a. Estava atirado sobre os trilhos, do lado esquerdo da linha que vai para o leste, num ponto da esta��o onde a linha surge do t�nel por onde passa. A cabe�a estava horrivelmente dilacerada, coisa que poderia ter sido causada pela queda do trem. O corpo s� podia atingir o trilho dessa maneira. Se ele tivesse sido arrastado de alguma rua da vizinhan�a, deveria ter passado antes pelas cancelas da esta��o, onde h� sempre bilheteiro. Este detalhe parece certo.</p><p>� Muito bem, o caso est� suficientemente definido. O homem, morto ou vivo, caiu ou foi jogado do trem. At� aqui, est� claro para mim. Continue.</p><p>� Os trens que atravessam os trilhos ao lado dos quais foi encontrado o corpo s�o os que correm do oeste para o leste, alguns apenas metropolitanos e alguns deles de Willesden e alguns entrocamentos distantes. Podemos ter certeza de que o rapaz, quando morreu, viajava nesse sentido bem tarde da noite; mas em que lugar ele entrou no trem � dif�cil determinar.</p><p>� A passagem, � claro, poderia mostrar isso.</p><p>� N�o havia bilhete nos seus bolsos.</p><p>� Sem bilhetes? Ora, Watson, isto � realmente estranho. De acordo com minha experi�ncia, � imposs�vel chegar � plataforma de um trem metropolitano sem mostrar a passagem. Ent�o o jovem provavelmente tinha uma. Ser� que a tiraram dele para ocultar o nome da esta��o de onde ele veio? � poss�vel. Ou ele a ter� deixado cair no trem? Isso tamb�m � poss�vel. Mas a quest�o � interessante. N�o havia sinais de roubo, n�o �?</p><p>� Aparentemente, n�o. Aqui est� uma lista dos pertences dele. A carteira continha duas libras e 15 xelins. Tamb�m tinha um tal�o de cheques da ag�ncia do Capital and Counties Bank em Woolwich. A sua identidade foi descoberta assim. Havia tamb�m dois ingressos para o Teatro Woolwich para aquela mesma noite. Tamb�m havia um pequeno pacote com documentos t�cnicos.</p><p>Holmes deu uma exclama��o de satisfa��o.</p><p>� Finalmente a� est�, Watson! Governo brit�nico, Woolwich, Arsenal, documentos t�cnicos, meu irm�o Mycroft � a cadeia est� completa. Mas, a� vem ele, se n�o me engano, para contar pessoalmente.</p><p>Pouco depois a figura alta e corpulenta de Mycroft Holmes entrou apressada na sala. Pesado e maci�o, havia um ind�cio qualquer de in�rcia nele, mas acima do corpo um tanto desajeitado estava uma cabe�a com uma fronte autorit�ria, uma express�o atenta nos olhos cinzentos, os l�bios firmes e bem desenhados e um conjunto fision�mico sutil; ap�s a primeira olhada a gente se esquecia do corpo volumoso para se lembrar apenas da mente predominante.</p><p>Junto com Mycroft vinha nosso velho conhecido da Scotland Yard, Lestrade, magro e austero. A gravidade dos rostos dos dois anunciava um assunto importante. O policial apertou-nos as m�os sem dizer uma palavra. Mycroft livrou-se de seu sobretudo e caiu pesadamente numa poltrona.</p><p>� Um neg�cio desagradabil�ssimo, Sherlock � disse ele. � Detesto alterar meus h�bitos, mas a necessidade � imperiosa. Na situa��o atual do Si�o, minha aus�ncia do escrit�rio � desastrosa. Mas � uma verdadeira crise. Nunca vi o primeiro-ministro t�o contrariado. O Almirantado... bem, est� em polvorosa como uma colm�ia. Voc� leu sobre o caso?</p><p>� Acabamos de ler. No que consistiam os documentos t�cnicos?</p><p>� Ah, a� est�! Felizmente n�o foram revelados. A imprensa ficaria fren�tica. Os documentos que o infeliz jovem tinha no bolso eram os planos do submarino Bruce-Partington.</p><p>Mycroft Holmes falou com uma solenidade que demonstrava o grau de import�ncia do assunto. Sherlock e eu ficamos na expectativa.</p><p>� Certamente que voc� ouviu falar a respeito disso. Eu achei que todo mundo sabia.</p><p>� Ouvi apenas o nome.</p><p>� Sua import�ncia dificilmente pode ser exagerada. � o segredo de Estado guardado com mais cuidado. Acredite que uma guerra naval ser� imposs�vel dentro do raio de opera��o de um Bruce-Partington. H� dois anos, uma quantia muito grande, camuflada no or�amento, foi usada na aquisi��o do monop�lio da inven��o. Est�o sendo feitos todos os esfor�os para mant�-lo em segredo. Os planos, extremamente complicados, incluem trinta patentes separadas, cada uma essencial ao funcionamento do todo; s�o guardados num cofre-forte especial, num escrit�rio anexo ao arsenal, com portas e janelas � prova de arrombamento. Os planos n�o podiam sair do escrit�rio sob nenhum pretexto. Se o construtor-chefe da Marinha os quisesse consultar, at� mesmo ele era obrigado a ir ao escrit�rio de Woolwich para isso. E agora n�s os encontramos no bolso de um funcion�rio subalterno, morto, no cora��o de Londres. Do ponto de vista oficial, isto � simplesmente terr�vel.</p><p>� Mas voc� os recuperou?</p><p>� N�o, Sherlock, n�o! E a� � que est� a trag�dia! N�o os recuperamos. Foram tirados dez documentos de Woolwich. Havia apenas sete deles no bolso de Cadogan West. Os tr�s mais importantes sumiram, foram roubados, se evaporaram. Voc� tem de deixar tudo de lado, Sherlock. Esque�a seus casos policiais. � um problema internacional vital que voc� tem de solucionar. Como Cadogan West roubou os pap�is, onde est�o os tr�s que faltam, como ele morreu, como o corpo dele foi parar ali, como resolver o problema? Encontre uma resposta para todas estas perguntas e ter� prestado um excelente servi�o � p�tria.</p><p>� Por que voc� mesmo n�o o resolve, Mycroft? Voc� v� tanto quanto eu.</p><p>� � poss�vel, Sherlock. Mas � uma quest�o de ver detalhes. D�-me os detalhes e eu, sentado numa poltrona, lhe darei em troca uma excelente opini�o de perito. Mas correr daqui para l�, interrogar guardas ferrovi�rios, p�r a cara no ch�o com uma lente... n�o � meu m�tier. N�o, voc� � o �nico homem que pode esclarecer o caso. Se deseja ver seu nome na pr�xima lista de honrarias...</p><p>Meu amigo sorriu e sacudiu a cabe�a.</p><p>� Eu trabalho por amor � arte � disse. � Mas o problema certamente apresenta alguns pontos interessantes, e terei prazer em investig�-lo. D�-me mais alguns fatos, por favor.</p><p>� Anotei nesta folha de papel os fatos principais, juntamente com alguns endere�os que lhe ser�o �teis. No momento o guardi�o oficial dos documentos � o famoso perito do governo, sir James Walter, cujas condecora��es e subt�tulos enchem duas linhas de um livro de consulta. Ele passou a vida no servi�o, � um cavalheiro, h�spede bem recebido nas fam�lias mais distintas e, sobretudo, um homem cujo patriotismo est� acima de qualquer suspeita. Ele � um dos dois que possuem a chave do cofre. Devo acrescentar que, sem d�vida nenhuma, os documentos estavam no escrit�rio na segunda-feira, durante o expediente, e que sir James partiu para Londres por volta das tr�s da tarde levando a sua chave. Ele estava na casa do almirante Sinclair, em Barclay Square, durante a maior parte da noite em que ocorreu o incidente.</p><p>� Isso foi verificado?</p><p>� Sim, o irm�o dele, coronel Valentine Walter, viu sua partida de Woolwich, e o almirante Sinclair, sua chegada a Londres; de modo que sir James n�o � mais um fator do problema.</p><p>� E o outro homem que tem a chave, quem � ele?</p><p>� Funcion�rio graduado e desenhista, sr. Sidney Johnson. Tem 40 anos, � casado, cinco filhos. � um sujeito calado, taciturno, mas no conjunto tem uma excelente ficha no servi�o p�blico. N�o � muito popular entre seus companheiros, mas � um bom funcion�rio. De acordo com seu relato, confirmado apenas pela esposa, ele ficou em casa durante toda a noite de segunda-feira, depois que chegou do trabalho, e sua chave nunca saiu da corrente do rel�gio que usa.</p><p>� Fale-nos sobre Cadogan West.</p><p>� Estava h� dez anos no servi�o e sempre fez um bom trabalho. Tem fama de ser irasc�vel e impetuoso, mas � um sujeito s�rio e honesto. Nada temos contra ele. Trabalhava com Sidney Johnson no departamento. Suas fun��es faziam com que ele tivesse contato di�rio e direto com os planos. Ningu�m mais mexia neles.</p><p>� Quem trancou os planos naquela noite?</p><p>� O sr. Sidney Johnson, o funcion�rio graduado.</p><p>� Bem, est� perfeitamente claro quem os tirou. Eles foram encontrados com Cadogan West. Isto parece definitivo, n�o?</p><p>� Parece, Sherlock, e mesmo assim h� muita coisa inexplicada. Em primeiro lugar, por que ele os pegou?</p><p>� Eles n�o s�o valiosos?</p><p>� Ele poderia conseguir facilmente milhares de libras por eles.</p><p>� Ser� que existe algum outro motivo para que ele levasse os documentos para Londres, a n�o ser para vend�-los?</p><p>� N�o, n�o existe.</p><p>� Ent�o temos de trabalhar com essa hip�tese. O jovem West levou os pap�is. E isso ele s� conseguiria com uma chave falsa...</p><p>� V�rias chaves falsas. Ele tinha que abrir a porta do edif�cio e a do escrit�rio.</p><p>� Ent�o ele tinha v�rias chaves falsas. Levou os documentos para Londres a fim de vender o segredo, pensando, sem d�vida, em coloc�-los novamente no cofre na manh� seguinte, antes que dessem pela falta deles. Enquanto estava em Londres, nessa miss�o desleal, ele morreu.</p><p>� Como?</p><p>� Vamos supor que estivesse voltando para Woolwich quando foi morto e atirado do trem.</p><p>� Aldgate, onde foi encontrado o corpo, fica muito depois da esta��o da Ponte de Londres que seria o caminho dele para Woolwich.</p><p>� Podemos imaginar v�rios motivos que o teriam levado a passar da Ponte de Londres. Por exemplo, havia algu�m no vag�o com quem ele estivesse conversando animadamente. A conversa terminou numa cena violenta, na qual ele perdeu a vida. Talvez ele tenha tentado sair do vag�o, caiu nos trilhos e morreu. O outro sujeito fechou a porta. Havia uma densa neblina e n�o se via nada.</p><p>� Com o que sabemos, n�o se poderia dar uma explica��o melhor; mas, mesmo assim, Sherlock, veja quanta coisa voc� deixou de considerar. Vamos supor, s� para um exerciciozinho de argumenta��o, que Cadogan West tenha mesmo decidido levar os documentos para Londres. Naturalmente ele teria marcado um encontro com o agente estrangeiro aqui e deixado a noite livre. Em vez disso, ele comprou dois ingressos para o teatro, acompanhou a noiva at� a metade do caminho e de repente desapareceu.</p><p>� Um embuste! � exclamou Lestrade, que ouvia a conversa com impaci�ncia.</p><p>� E bem original. Essa � a obje��o no 1. Obje��o no 2: vamos supor que ele tenha chegado a Londres e se encontrado com o agente estrangeiro. Tem de levar os documentos de volta de manh� bem cedo, ou o roubo ser� descoberto. Ele levou dez documentos. No seu bolso s� havia sete. O que aconteceu com os outros tr�s? Certamente que ele n�o os deixaria por livre e espont�nea vontade. E onde est� o pagamento por sua trai��o? Era de se esperar que se encontrasse uma grande quantia de dinheiro no seu bolso.</p><p>� Para mim, est� perfeitamente claro � disse Lestrade. � N�o tenho a menor d�vida a respeito do que aconteceu. Ele levou os documentos para vend�-los. Encontrou-se com o agente. N�o entraram em acordo sobre o pre�o. Ele voltou para casa e o espi�o foi com ele. No trem, o agente o matou, pegou os documentos mais importantes e jogou seu corpo do vag�o. Isso explicaria tudo, n�o?</p><p>� Por que ele n�o tinha passagem?</p><p>� Ela indicaria qual a esta��o mais pr�xima da casa do espi�o. Assim sendo, ele tamb�m a tirou do bolso do morto.</p><p>� �timo, Lestrade, muito bom � disse Holmes. � Sua teoria se sustenta. Mas se isto for verdade, ent�o o caso est� no fim. De um lado, o traidor est� morto; de outro, os planos do submarino Bruce-Partington provavelmente j� est�o no Continente. O que podemos fazer?</p><p>� Agir, Sherlock, agir! � exclamou Mycroft, levantando-se. � Todos os meus instintos s�o contr�rios a esta explica��o. Use suas faculdades. V� at� o local do crime. Fale com as pessoas envolvidas. Examine tudo! Em toda a sua carreira voc� nunca teve uma oportunidade como esta para servir ao seu pa�s!</p><p>� Bem, bem � disse Holmes, encolhendo os ombros. � Vamos, Watson! E voc�, Lestrade, poderia, por gentileza, acompanhar-nos por uma ou duas horas? Vamos come�ar nossos trabalhos fazendo uma visita � esta��o Aldgate. At� logo, Mycroft. Mandarei algumas not�cias antes da noite, mas eu j� lhe adianto que n�o deve esperar muita coisa.</p><p>Uma hora mais tarde, Holmes, Lestrade e eu est�vamos na esta��o de Aldgate, no ponto onde as linhas saem do t�nel pouco antes da esta��o. Um senhor idoso, gentil e corado estava ali representando a companhia ferrovi�ria.</p><p>� Este � o lugar onde estava o corpo do rapaz � disse ele, indicando um ponto a 1 metro dos trilhos. � N�o poderia ter ca�do l� de cima porque, como podem ver, os muros s�o inacess�veis. Portanto, s� pode ter vindo do trem, e daquele trem, e, pelo que pudemos verificar, deve ter sido o que passou por volta da meia-noite de segunda-feira.</p><p>� Os vag�es foram examinados em busca de sinais de viol�ncia?</p><p>� N�o existem esses sinais, e tamb�m n�o foi encontrada nenhuma passagem.</p><p>� Encontraram alguma porta aberta?</p><p>� Nenhuma.</p><p>� Obtivemos algumas pistas novas esta manh� � disse Lestrade. � Um passageiro, que vinha no trem metropolitano, ali pelas 23:40h de segunda-feira, declarou ter ouvido um baque surdo, como se um corpo tivesse sido atirado nos trilhos, um pouco antes de o trem chegar � esta��o de Aldgate. Mas havia uma neblina densa e n�o se enxergava nada. Ele n�o comunicou o fato na ocasi�o. Ora, mas que diabo est� acontecendo com o sr. Holmes?</p><p>Meu amigo, de p�, tinha uma express�o de grande interesse no rosto, olhando para os trilhos onde faziam a curva depois do t�nel. Aldgate � um entroncamento e havia uma s�rie de desvios. Seus olhos atentos e vigilantes focalizavam os desvios e eu vi, no seu rosto alerta, o aperto dos l�bios, o tremor das narinas, a contra��o das sobrancelhas espessas, que eu conhecia t�o bem.</p><p>� Os desvios, os desvios � murmurou ele.</p><p>� O que t�m eles? O que est� querendo dizer?</p><p>Suponho que n�o existam muitas esta��es com entroncamentos iguais a esta.</p><p>� N�o, existem bem poucas.</p><p>� E uma curva, tamb�m. Desvios e curvas. Por Deus, se fosse assim...</p><p>� Assim como, sr. Holmes? Tem alguma pista?</p><p>� Uma id�ia... uma suposi��o... nada mais que isso. O caso, de qualquer maneira, ganha em interesse. �nico, perfeitamente �nico e... mesmo assim, por que n�o? N�o vejo sinais de sangue nos trilhos.</p><p>� Quase n�o havia sinais.</p><p>� Mas eu creio que o ferimento foi bem grande.</p><p>� O osso foi esmagado, mas n�o havia um grande ferimento externo.</p><p>� Mesmo assim, era de se esperar sangramento. Ser� que eu poderia inspecionar o trem em que estava o passageiro que ouviu o baque de uma queda na neblina?</p><p>� Receio que n�o, sr. Holmes. Os vag�es do trem foram separados e redistribu�dos.</p><p>� Posso lhe garantir, sr. Holmes � disse Lestrade � que todos os vag�es foram examinados cuidadosamente. Eu mesmo cuidei disso.</p><p>Uma das fraquezas mais �bvias do meu amigo era sua impaci�ncia com intelig�ncias menos brilhantes do que a sua.</p><p>� � poss�vel � disse, afastando-se. � Na verdade, n�o eram os vag�es que eu queria examinar. Watson, fizemos tudo o que era poss�vel por aqui. N�o vamos incomod�-lo mais, sr. Lestrade. Creio que nossas investiga��es, agora, v�o nos levar a Woolwich.</p><p>Na Ponte de Londres ele escreveu um telegrama para o irm�o, que me mostrou antes de despachar:</p><empty-line/><p>Vejo alguma luz na escurid�o, mas pode apagar-se. Enquanto isso, mande, por favor, por um mensageiro que nos espere em Baker Street, lista completa de todos os espi�es estrangeiros ou agentes internacionais que se saiba que est�o na Inglaterra, com endere�os completos.</p><p>Sherlock.</p><empty-line/><p>� Isto ser� muito �til, Watson � disse, quando tomamos o trem para Woolwich. � Evidentemente, temos de ser gratos a Mycroft por nos ter inclu�do no que promete ser um caso realmente not�vel.</p><p>Seu rosto ansioso ainda exibia aquela express�o de energia intensa e concentrada, o que me mostrou que algum ind�cio novo e sugestivo havia aberto uma linha estimulante de racioc�nio. Veja um c�o de ca�a, com orelhas ca�das e rabo pendente, como fica indolentemente nos canis, e compare-o com o mesmo animal ativo, com olhos brilhantes e m�sculos retesados, perseguindo a ca�a � esta foi a mudan�a que ocorreu em Holmes desde a manh�. Era, agora, um homem diferente da figura abatida e inerte, no seu roup�o cinza, caminhando inquieto, apenas algumas horas atr�s, pela nossa sala em Baker Street, cercada pela neblina.</p><p>� Temos material aqui. H� um objetivo. Fui um verdadeiro tolo por n�o ter percebido suas possibilidades.</p><p>� Para mim, tudo ainda continua nebuloso.</p><p>� O final tamb�m � um mist�rio para mim, mas estou com uma id�ia que pode nos levar al�m. O homem morreu em algum outro lugar e seu corpo estava no teto de um vag�o.</p><p>� No teto?</p><p>� Not�vel, n�o? Mas veja os fatos. Seria uma coincid�ncia o fato de o corpo ter sido encontrado exatamente no ponto onde o trem oscila e se sacode, quando passa pelos desvios? N�o � esse o lugar onde se pode esperar que um objeto que esteja no teto caia? Os desvios n�o afetariam um objeto dentro do trem. Ou o corpo caiu do teto ou ocorreu uma coincid�ncia muito curiosa. Mas veja agora a quest�o do sangue. � claro que n�o haveria sinal de sangue nos trilhos se o corpo tivesse sangrado em outro local. Cada fato � sugestivo por si mesmo. Juntos, eles t�m uma for�a cumulativa.</p><p>� E o bilhete tamb�m! � exclamei.</p><p>� Exatamente. N�o encontramos uma explica��o para o desaparecimento do bilhete. E isto explicaria. Tudo se encaixa.</p><p>� Mas suponha que tenha sido assim; ainda estar�amos longe de esclarecer o mist�rio da morte do rapaz. Na verdade, o caso se torna ainda mais complicado, e n�o mais simples.</p><p>� Talvez � disse Holmes, pensativo � talvez.</p><p>Caiu num sil�ncio profundo que durou at� o trem parar finalmente na esta��o Woolwich. Chamou um cabriol� e tirou do bolso a folha de papel de Mycroft.</p><p>� Temos v�rias visitas para fazer esta tarde. Creio que sir James Walter merece nossa aten��o primeiro.</p><p>A casa do famoso perito era uma linda vila, com gramados verdes se estendendo at� o T�misa. A neblina estava se dissipando quando chegamos, e os raios de um sol p�lido come�avam a aparecer. Um mordomo atendeu � porta.</p><p>� Sir James, senhor? � disse, com um rosto solene. � Sir James morreu hoje de manh�.</p><p>� Deus do c�u! � exclamou Holmes. � Como ele morreu?</p><p>� Talvez seja melhor entrar, senhor, e conversar com o irm�o dele, coronel Valentine.</p><p>� Sim, ser� melhor.</p><p>Ele nos levou at� uma sala fracamente iluminada, onde, pouco depois, apareceu um homem alto, simp�tico, com cerca de 50 anos, o irm�o mais novo do cientista que morrera. Seus olhos desvairados, bochechas vincadas, cabelos despenteados, refletiam o golpe repentino que se abatera sobre a casa. Mal conseguia articular as frases quando falou sobre o assunto.</p><p>� Foi um esc�ndalo terr�vel � disse. � Sir James, meu irm�o, era um homem que prezava muito sua honra e n�o conseguiu sobreviver a uma cat�strofe dessas. Sempre teve orgulho da efici�ncia de seu departamento e isso agora foi um golpe fatal.</p><p>� Esper�vamos que ele pudesse nos dar algumas informa��es que nos ajudassem a esclarecer o caso.</p><p>� Eu lhes asseguro que tudo era um mist�rio para ele como � para os senhores e para todos n�s. Ele j� havia posto � disposi��o da pol�cia tudo o que sabia. Naturalmente, ele n�o tinha d�vida de que Cadogan West era o culpado. Mas todo o resto era inconceb�vel.</p><p>� E o senhor sabe de alguma coisa que possa nos ajudar no caso?</p><p>� N�o sei de nada, a n�o ser o que li ou ouvi. N�o quero ser grosseiro, mas os senhores devem entender que no momento estamos muito perturbados, e lhes pe�o que encerremos esta conversa.</p><p>� Isto � realmente um acontecimento inesperado, Watson � disse Sherlock quando voltamos para o carro. � Fico imaginando se a morte foi natural ou se o pobre velho se matou! Se foi suic�dio, pode ser considerado um ind�cio de remorso por neglig�ncia do dever? Vamos deixar essa pergunta para mais tarde. Vejamos, agora, a fam�lia de Cadogan West.</p><p>A m�e do rapaz morava numa casa pequena, mas bem cuidada, nos arredores da cidade. A velha senhora estava abatida demais pela dor para poder nos dar qualquer informa��o �til, mas ao seu lado estava uma jovem p�lida, que se apresentou como a senhorita Violet Westbury, noiva de Cadogan West e a �ltima a v�-lo na noite fatal.</p><p>� N�o consigo encontrar uma explica��o, sr. Holmes � ela disse. � N�o preguei o olho desde a trag�dia, pensando, pensando, pensando, noite e dia, no significado de tudo isso. Arthur era sincero, gentil, o mais patriota dos homens. Ele preferiria arrancar a m�o direita a vender um segredo de Estado confiado � sua guarda. Para todos que o conheciam, isto � absurdo, imposs�vel, irracional.</p><p>� Mas, e os fatos, srta. Westbury?</p><p>� Sim, sim, admito que n�o encontro explica��o para eles.</p><p>� Ele estava precisando de dinheiro?</p><p>� N�o; suas necessidades eram simples e ele ganhava bem. Havia economizado algumas centenas de libras e n�s �amos nos casar no in�cio do pr�ximo ano.</p><p>� Sinais de alguma perturba��o mental? Vamos, srta. Westbury, seja absolutamente franca conosco.</p><p>O olhar atento do meu amigo havia notado alguma mudan�a na atitude dela. A mo�a enrubesceu e hesitou.</p><p>� Sim � disse, finalmente �, eu tinha percebido que havia qualquer coisa na cabe�a dele.</p><p>� H� quanto tempo?</p><p>� Somente na �ltima semana, ou um pouco mais. Ele andava pensativo e preocupado. Uma vez eu lhe perguntei sobre isso. Ele admitiu que havia alguma coisa, relacionada com a sua vida profissional. Ele me disse: �� s�rio demais para que eu fale sobre isso, at� mesmo a voc�.� N�o consegui arrancar mais nada dele.</p><p>Holmes ficou s�rio.</p><p>� Continue, srta. Westbury. Mesmo que pare�a prejudic�-lo, continue. N�o sabemos o que pode resultar disso.</p><p>� Na verdade, n�o tenho mais nada a dizer. Por uma ou duas vezes tive a impress�o de que ele estava para me contar alguma coisa. Certa noite referiu-se � import�ncia do segredo, e eu me lembro de ele dizer que, sem d�vida, espi�es estrangeiros pagariam um bom dinheiro pelos planos.</p><p>Sherlock ficou ainda mais s�rio.</p><p>� Disse que �ramos negligentes a respeito desses assuntos � que seria f�cil para um traidor apoderar-se dos planos.</p><p>� E ele fez esses coment�rios apenas nos �ltimos dias?</p><p>� Sim, recentemente.</p><p>� Fale-nos, agora, da �ltima noite.</p><p>� N�s �amos ao teatro. A neblina estava t�o forte que n�o adiantava tomar um carro. Fomos andando e no caminho passamos perto do escrit�rio. De repente, ele sumiu no meio da neblina.</p><p>� Sem dizer uma palavra?</p><p>� Soltou uma exclama��o, e foi tudo. Eu fiquei esperando, mas ele n�o voltou. Ent�o, fui para casa. Na manh� seguinte, depois que abriram o escrit�rio, eles vieram perguntar. Por volta do meio-dia ficamos sabendo da not�cia horr�vel. Oh, sr. Holmes, se o senhor pudesse pelo menos salvar-lhe a honra. Representava tanto para ele!</p><p>Holmes balan�ou tristemente a cabe�a.</p><p>� Vamos, Watson, temos mais coisas pela frente. Nossa pr�xima parada � o escrit�rio de onde foram retirados os documentos.</p><p>� Se tudo era contra o rapaz antes, agora piorou ainda mais � Holmes comentou quando o t�xi partiu. � Seu casamento d� um motivo para o roubo. Naturalmente ele precisava de dinheiro. Estava com a id�ia na cabe�a, j� que mencionou o assunto. Ele quase transformou a noiva numa c�mplice, revelando-lhe seus planos. Tudo muito mal.</p><p>� Mas, Holmes, afinal de contas seu car�ter n�o vale nada? Por que ele deixaria a noiva no meio da rua e fugiria para cometer um crime?</p><p>� � isso a�! Claro que h� obje��es. Mas � um caso extraordin�rio que tem de ser explicado.</p><p>O sr. Sidney Johnson, o funcion�rio graduado, recebeu-nos no escrit�rio com o respeito que o cart�o de visitas de Holmes sempre impunha. Era um homem magro, carrancudo, de meia-idade, que usava �culos, e estava com o rosto encovado e as m�os tr�mulas em conseq��ncia da tens�o nervosa a que fora submetido.</p><p>� Horr�vel, sr. Holmes, horr�vel. Ouviu falar da morte do chefe?</p><p>� Estamos vindo da casa dele.</p><p>� O lugar est� uma bagun�a. O chefe, morto, Cadogan West, morto, nossos documentos, roubados. E na segunda-feira, �s 17 horas, quando trancamos o escrit�rio, �ramos t�o eficientes quanto qualquer outro departamento a servi�o do governo. Meu Deus, � horr�vel pensar nisso! Que West, entre todos, pudesse fazer uma coisa assim?</p><p>� Ent�o o senhor tem certeza de que ele � o culpado?</p><p>� N�o vejo outra explica��o. E mesmo assim, confiava nele tanto quanto em mim mesmo.</p><p>� A que horas fecharam o escrit�rio na segunda?</p><p>� �s cinco.</p><p>� O senhor mesmo o trancou?</p><p>� Sou sempre o �ltimo a sair.</p><p>� Onde estavam os planos?</p><p>� No cofre. Eu mesmo os coloquei l�.</p><p>� Existe algum vigia para o pr�dio?</p><p>� Sim, mas ele tem outros departamentos para vigiar tamb�m. � um velho soldado e homem de inteira confian�a. Ele n�o viu nada naquela noite, pois havia a neblina.</p><p>� Suponhamos que Cadogan West quisesse entrar no edif�cio tarde da noite; ele precisaria de tr�s chaves para conseguir p�r as m�os nos documentos, n�o � verdade?</p><p>� Sim, de fato. A chave da porta externa, a chave do escrit�rio e a chave do cofre.</p><p>� Sir James Walter e o senhor eram os �nicos que tinham essas chaves?</p><p>� Eu n�o tenho as chaves das portas, s� a chave do cofre.</p><p>� Sir James era um homem de h�bitos regulares?</p><p>� Sim, creio que sim. Pelo que sei, as tr�s chaves sempre ficavam com ele, no mesmo porta-chaves. Eu sempre as via ali.</p><p>� Ele levou o porta-chaves com ele para Londres?</p><p>� Ele disse que sim.</p><p>� O senhor sempre ficou com sua chave?</p><p>� Sempre.</p><p>� Ent�o, Cadogan West, se for o culpado, devia ter uma duplicata. Mas n�o foi encontrada com ele. Outra coisa: se um funcion�rio deste departamento quisesse vender os planos, n�o seria mais simples ele copiar os planos do que levar os originais, como foi feito?</p><p>� Seria necess�rio um grande conhecimento t�cnico para copiar os planos de forma eficiente.</p><p>� Mas suponho que tanto sir James, o senhor ou Cadogan West tinham este conhecimento altamente especializado.</p><p>� Sem d�vida, mas pe�o-lhe que n�o me envolva no assunto, sr. Holmes. De que adianta especular dessa maneira, quando, na verdade, os planos originais foram encontrados com Cadogan West?</p><p>� Bem, de fato � estranho que ele corresse o risco de levar os planos originais quando poderia copi�-los com seguran�a, o que tamb�m serviria aos seus objetivos.</p><p>� Na verdade, � estranho � e mesmo assim ele o fez.</p><p>� Todas as perguntas a respeito deste caso revelam alguma coisa inexplic�vel. E ainda temos tr�s documentos desaparecidos. Pelo que sei, s�o os essenciais.</p><p>� Sim, � verdade.</p><p>� O senhor quer dizer que algu�m que tenha esses tr�s documentos poderia construir um submarino Bruce-Partington sem os outros sete?</p><p>� Foi o que eu disse ao Almirantado. Mas hoje estive analisando os desenhos de novo, e j� n�o tenho tanta certeza assim. As v�lvulas duplas de ajustamento autom�tico est�o desenhadas em um dos documentos recuperados. At� que o pa�s estrangeiro invente algo semelhante, n�o vai conseguir construir o Bruce-Partington. � claro que eles podem superar este problema em breve.</p><p>� Mas os tr�s documentos s�o os mais importantes?</p><p>� Sem d�vida.</p><p>� Creio que vou dar uma volta pelo pr�dio, com sua permiss�o. N�o me ocorre nenhuma outra pergunta que queira lhe fazer.</p><p>Ele examinou a fechadura do cofre, a porta do escrit�rio e, por fim, as folhas de ferro das janelas. Somente quando nos encontr�vamos no gramado, do lado de fora do edif�cio, � que ele ficou extremamente interessado em uma coisa. Havia uma moita de louro perto da janela, e v�rios ramos haviam sido torcidos ou arrancados. Ele os examinou detidamente com a lente, e depois examinou algumas marcas superficiais e pouco n�tidas na terra. Finalmente pediu ao chefe para fechar as janelas de ferro, e me mostrou que elas n�o se encaixavam no centro, o que permitia a qualquer pessoa do lado de fora ver o que acontecia dentro do escrit�rio.</p><p>� Estas marcas est�o prejudicadas pelo atraso de tr�s dias. Podem significar alguma coisa ou nada. Bem, Watson, acho que n�o conseguiremos mais nada em Woolwich. Nossa colheita foi parca. Vamos ver se conseguimos algo melhor em Londres.</p><p>Mas ainda acrescentamos mais um trunfo � nossa pesquisa antes de sairmos da esta��o de Woolwich. O vendedor de passagens nos contou confidencialmente que ele vira Cadogan West � que conhecia de vista � na noite de segunda-feira, e que ele tomara o trem das 20:15h para� a Ponte de Londres. Estava sozinho e comprou uma passagem de terceira classe. O vendedor ficara impressionado na ocasi�o com o jeito excitado e nervoso do rapaz. Tremia tanto que mal conseguiu pegar o troco, e o bilheteiro teve de ajud�-lo. Uma consulta ao quadro de hor�rios mostrou que o de 20:15h era o primeiro trem que Cadogan West poderia ter tomado, depois de deixar a noiva por volta das 19:30h.</p><p>� Vamos reconstituir, Watson � disse Holmes, depois de meia hora de sil�ncio. � N�o estou bem certo se, de todos os nossos casos, j� tivemos um que fosse t�o complicado de resolver. Cada novo ind�cio que desenterramos apenas nos mostra um novo obst�culo adiante. Mas, mesmo assim, creio que j� progredimos bastante. O resultado de nossas investiga��es em Woolwich foi bastante desfavor�vel ao jovem Cadogan West, mas as pistas na janela serviram para uma suposi��o mais favor�vel. Vamos supor, por exemplo, que ele tenha sido abordado por algum agente estrangeiro. Isso pode ter sido feito em condi��es que o impediram de falar a respeito do assunto, mas teria afetado seus pensamentos, como demonstraram os coment�rios que fez para a noiva. Muito bem, vamos supor agora que, quando estava indo com a jovem para o teatro, tenha vislumbrado, na neblina, a figura do agente indo na dire��o do escrit�rio. Ele era um jovem impetuoso, r�pido nas decis�es. Tudo o impelia para o cumprimento do dever. Ele seguiu o homem, chegou at� a janela, viu o roubo dos documentos e perseguiu o ladr�o. Desta maneira superamos a obje��o de que ningu�m roubaria os originais quando podia copi�-los. O estranho tinha de levar os originais. A tese se sustenta at� aqui.</p><p>� E qual o passo seguinte?</p><p>� A� temos problemas. Pode-se imaginar que, nessas circunst�ncias, a primeira atitude do jovem Cadogan fosse prender o bandido e acionar o alarme. Por que n�o agiu assim? Ser� que foi um oficial superior que levou os documentos? Isso explicaria a conduta de Cadogan. Ou ser� que o ladr�o o teria despistado na neblina e West partiu imediatamente para Londres, para chegar antes � casa do agente, supondo-se que soubesse onde ela ficava? O neg�cio deve ter sido de extrema urg�ncia, j� que ele deixou a noiva no meio da neblina e n�o tentou se comunicar com ela. Nossa pista esfria aqui, e h� uma grande lacuna entre essas hip�teses e a descoberta do corpo do rapaz, com sete documentos no bolso, no teto de um vag�o do metr�. Meu instinto me diz que, agora, devo trabalhar na outra ponta. Se Mycroft nos enviou a lista de endere�os, podemos descobrir nosso homem e seguir duas pistas em vez de apenas uma.</p><p>Havia, de fato, uma lista nos aguardando em Baker Street. Um mensageiro do governo a trouxera, em car�ter de urg�ncia, e Holmes deu uma olhada nela, passando-a para mim:</p><empty-line/><p>H� um grande n�mero de peixinhos, mas poucos que bancariam uma parada dessa dimens�o. Os �nicos dignos de aten��o s�o Adolph Meyer, de Great Georg Street, 13, Westminster; Louis La Rothi�re, de Campden Mansions, Notting Hill; e Hugo Oberstein, de Caulfield Gardens, 13, Kensington. Sabe-se que este �ltimo estava na cidade segunda-feira, e que agora foi embora. Fico feliz em saber que vislumbrou alguma luz. O Gabinete aguarda seu relat�rio final com a maior ansiedade. Chegam pedidos urgentes das mais altas esferas. Todas as for�as do Estado est�o � sua disposi��o, caso venha a precisar delas.</p><p>Mycroft.</p><empty-line/><p>� Receio que nem todos os cavalos e homens da rainha poder�o ajudar neste caso � disse Holmes, sorrindo, depois de abrir o grande mapa de Londres sobre os joelhos e inclinar-se sobre ele. � Bem, bem, finalmente as coisas est�o come�ando a ficar a nosso favor. Ora, Watson, acredito honestamente que vamos nos sair bem, no fim das contas.</p><p>Bateu no meu ombro, numa repentina explos�o de alegria.</p><p>� Vou sair agora. Ser� apenas um reconhecimento. N�o vou fazer nada importante sem que meu fiel companheiro e bi�grafo esteja do meu lado. Fique aqui e provavelmente estarei de volta dentro de uma ou duas horas. Se o tempo custar a passar, pegue papel e l�pis e comece a contar como salvamos a Inglaterra.</p><p>Fui contagiado pela sua anima��o, j� que sabia muito bem que ele n�o abandonaria o seu habitual comportamento austero a menos que houvesse um bom motivo para isso. Esperei durante aquele infind�vel in�cio de noite de novembro, impaciente pelo seu retorno. Finalmente, pouco depois das nove da noite, chegou um mensageiro com um bilhete.</p><p>Estou jantando no Restaurante Goldini, Gloucester Road. Por favor, venha logo e me encontre l�. Traga um p�-de-cabra, uma lanterna, um form�o e um rev�lver.</p><p>S. H.</p><empty-line/><p>Belo equipamento para um cidad�o respeit�vel levar pelas ruas escuras e envoltas em neblina! Espalhei tudo discretamente sob o meu sobretudo e me dirigi para o endere�o indicado. L� estava meu amigo, sentado a uma mesa redonda, perto da porta de entrada do bizarro restaurante italiano.</p><p>� J� jantou? �timo, ent�o me acompanhe num caf� e vinho. Experimente um dos charutos da casa. N�o s�o t�o venenosos como se espera. Trouxe as ferramentas?</p><p>� Est�o aqui, no meu sobretudo.</p><p>� Excelente. Deixe-me contar-lhe rapidamente o que andei fazendo, e o que vamos fazer. Deve ser evidente para voc� agora, Watson, que o corpo do jovem foi colocado no teto do vag�o. Isto ficou claro desde o momento em que determinei o fato de que fora do teto, e n�o do interior, que ele havia ca�do.</p><p>� Ele n�o pode ter sido atirado de uma ponte?</p><p>� Eu diria que era imposs�vel. Se voc� examinar os tetos, vai ver que s�o ligeiramente abaulados, e n�o h� grades em volta deles. Portanto, podemos afirmar com certeza que Cadogan West foi colocado ali em cima.</p><p>� E como?</p><p>� Esta era a pergunta que t�nhamos de responder. S� existe uma maneira poss�vel. Voc� sabe que os trens correm fora das galerias subterr�neas em alguns pontos no West End. Eu me lembrava vagamente de que, quando viajei num dos trens, tinha visto algumas janelas logo acima de minha cabe�a. Suponha que um trem pare debaixo de uma delas; seria dif�cil colocar um corpo no teto?</p><p>� Parece que n�o.</p><p>� Temos de nos lembrar do antigo ditado que diz que, quando todas as outras teorias falham, qualquer que seja a que reste, mesmo parecendo improv�vel, deve ser a verdadeira. Aqui, todas as outras teorias falharam. Quando descobri que o mais importante agente estrangeiro, que acabou de sair de Londres, morava numa das casas � margem da linha do metr�, fiquei t�o contente que voc� se surpreendeu com minha alegria.</p><p>� Oh, ent�o era isso, hein?</p><p>� Sim, era isso. O sr. Hugo Oberstein, residente em Caulfield Gardens, 13, passou a ser o meu alvo. Comecei minhas opera��es na Gloucester Road Station, onde um funcion�rio prestativo me acompanhou numa caminhada ao longo da linha, e eu matei minha curiosidade n�o apenas a respeito das janelas traseiras de Caulfield Gardens, que d�o para os trilhos, mas at� sobre o fato mais essencial de que, devido � interse��o de um dos principais ramais, os trens ficam freq�entemente parados ali, naquele local exato, durante alguns minutos.</p><p>� Espl�ndido, Holmes! Voc� descobriu tudo!</p><p>� Nem tanto, Watson, nem tanto. Progredimos, mas o fim ainda est� longe. Bem, depois de verificar as janelas traseiras de Caulfield Gardens, vi a parte da frente e confirmei que, de fato, o passarinho tinha voado da gaiola. Trata-se de uma casa grande e, pelo que pude ver, sem mob�lia nos quartos superiores. Oberstein morava l� apenas com um criado, possivelmente um c�mplice de absoluta confian�a. Temos de nos lembrar de que Oberstein foi para o Continente negociar seu tesouro, mas sem desconfiar que se sabe que est� fugindo; assim sendo, ele n�o tem motivo para temer um mandado de pris�o, e a id�ia de uma visita de um amador em sua casa n�o lhe ocorreria. E � justamente isso o que vamos fazer.</p><p>� N�o conseguir�amos um mandado para uma busca legal?</p><p>� Dificilmente, pela exig�idade de provas.</p><p>� Ent�o, o que podemos fazer?</p><p>� Precisamos saber que tipo de correspond�ncia ele tem em casa...</p><p>� N�o estou gostando disso, Holmes.</p><p>� Meu caro amigo, voc� deve ficar vigiando a rua. Eu farei o trabalho sujo. N�o � hora de escr�pulos. Pense no bilhete de Mycroft, no Almirantado, no Gabinete, nas pessoas importantes que aguardam not�cias. Temos de agir!</p><p>Minha resposta foi levantar-me da mesa.</p><p>� Tem raz�o, Holmes. Temos de agir!</p><p>Ele tamb�m se levantou e apertou minha m�o.</p><p>� Eu sabia que voc� n�o iria se acovardar no fim � disse, e por um segundo vi nos olhos dele algo que se assemelhava a ternura, que nunca vira antes. Mas logo em seguida ele voltou a ser o mesmo homem pr�tico e racional.</p><p>� Fica a uns 800 metros daqui, mas n�o temos pressa. Vamos andando. N�o deixe as ferramentas ca�rem, por favor. Seria uma complica��o bastante desagrad�vel se voc� fosse preso como um sujeito suspeito.</p><p>Caulfield Gardens era uma dessas filas de casas, com fachadas lisas, pilares e p�rticos, produtos caracter�sticos de meados da �poca vitoriana no West End de Londres. Na casa seguinte � que procur�vamos parecia estar havendo uma festa infantil, porque um alarido de vozes de crian�as e o martelar de um piano ressoavam na noite. O nevoeiro ainda continuava e nos ocultava com seu manto amigo. Holmes acendeu a lanterna e iluminou a porta maci�a.</p><p>� Este � um obst�culo dif�cil � disse. � Com certeza, al�m de trancada, deve ter um ferrolho. Ser� melhor irmos para os fundos. H� uma excelente arcada l�, caso tenhamos de nos esconder de algum policial zeloso que resolva aparecer. Ajude-me, Watson, e eu o ajudarei depois.</p><p>Um minuto depois j� est�vamos na �rea. Mal t�nhamos chegado ao lugar protegido pelas sombras quando ouvimos em cima os passos de um policial, andando no meio da neblina. Quando o som cadenciado desapareceu, Holmes come�ou a trabalhar na porta inferior. Eu o vi curvar-se e for�ar a porta at� que, com um estalo seco, ela se abriu. Pulamos para o interior escuro e ele a fechou. Subimos a escada em curva, sem tapete. A luz amarela de sua lanterna brilhou nos vidros de uma janela baixa.</p><p>� Aqui estamos, Watson; deve ser esta...</p><p>Abriu a janela e nessa hora ouvimos um som baixo e �spero que foi aumentando at� transformar-se num rugido alto quando um trem passou por n�s, na escurid�o, como uma flecha. Holmes iluminou o peitoril da janela. Havia uma camada da fuligem deixada pelos trens que passavam, mas a superf�cie preta estava raspada e esfregada em alguns lugares.</p><p>� Veja onde eles colocaram o corpo. Ora, Watson, o que � isto? N�o h� d�vida de que se trata de uma marca de sangue.</p><p>Apontava a marca desbotada no peitoril.</p><p>� Aqui tamb�m, na pedra da escada. A prova est� completa. Vamos ficar aqui at� que pare um trem.</p><p>N�o tivemos de esperar muito tempo. O trem seguinte surgiu do t�nel, como o anterior, mas diminuiu depois a velocidade e ent�o, com os freios gemendo, parou exatamente embaixo do lugar onde est�vamos. A dist�ncia da janela at� o teto dos vag�es n�o era mais do que 1,5 metro, se tanto. Holmes fechou cuidadosamente a janela.</p><p>� Fomos recompensados at� aqui � disse. � O que voc� acha, Watson?</p><p>� Uma obra-prima. Voc� est� se superando.</p><p>� N�o concordo com voc�. A partir do momento em que concebi a id�ia de que o corpo estava no teto de um vag�o, o que, afinal, n�o era assim t�o absurdo, todo o resto foi inevit�vel. Se n�o fossem os altos interesses envolvidos, o caso at� este ponto seria insignificante. Mas ainda temos dificuldades pela frente. Talvez possamos achar algo aqui que nos ajude.</p><p>Subimos a escada de servi�o e entramos nos aposentos do primeiro andar. O primeiro era uma sala de jantar sobriamente mobiliada, mas que n�o tinha nada que nos interessasse. O segundo era um quarto de dormir, nas mesmas condi��es. O seguinte pareceu-nos mais promissor e meu amigo fez um exame met�dico. Estava cheio de livros e pap�is e, evidentemente, tinha sido usado como escrit�rio. Com rapidez e cuidado, Holmes revistou o conte�do de cada gaveta e de cada arm�rio, mas n�o descobriu nada que animasse seu rosto austero. Ao fim de uma hora n�o tinha conseguido nenhum progresso.</p><p>� O c�o matreiro apagou as pistas � disse. � N�o deixou nada que pudesse incrimin�-lo. Ele destruiu ou carregou sua correspond�ncia comprometedora. Esta � nossa �ltima esperan�a.</p><p>Era uma caixinha de estanho que estava em cima da escrivaninha. Holmes a abriu, com uma ferramenta. Dentro, v�rios rolos de papel, cobertos de n�meros e c�lculos, mas sem nenhuma indica��o do que se tratava. A repeti��o das palavras �press�o da �gua� e �press�o por polegada quadrada� sugeria alguma poss�vel rela��o com um submarino. Holmes, impaciente, jogou-os de lado. Restou apenas um envelope que continha pedacinhos de jornal. Despejou-os sobre a mesa e vi logo, pelo seu rosto ansioso, que as esperan�as haviam renascido.</p><p>� O que ser� isto, Watson? Hein? O que ser�? Registro de uma s�rie de mensagens nos an�ncios de um jornal. Pelo tipo de letra e pelo papel, os classificados do Daily Telegraph. Lado superior direito de uma p�gina. Sem datas... mas as mensagens t�m seq��ncia. Esta deve ser a primeira:</p><empty-line/><p>�Esperava receber not�cias mais cedo. Condi��es aceitas. Escreva detalhadamente para endere�o fornecido no cart�o.</p><p>Pierrot.�</p><p>� Em seguida temos:</p><empty-line/><p>�Complexo demais para entendimento. Necessito relat�rio completo. Grana o aguarda quando entregar mercadoria.</p><p>Pierrot.�</p><empty-line/><p>� Depois vem:</p><empty-line/><p>�Assunto pressiona. Devo retirar proposta se n�o cumprir contrato. Marque encontro por carta. Confirmarei em an�ncio.</p><p>Pierrot.�</p><empty-line/><p>� E finalmente:</p><empty-line/><p>�Segunda � noite, depois das nove horas. Duas pancadas. S� n�s. N�o fique t�o desconfiado. Pagamento em dinheiro vivo quando entregar mercadoria.</p><p>Pierrot.�</p><empty-line/><p>� Um registro bem completo, Watson! Se n�s pud�ssemos chegar at� o homem na outra ponta!...</p><p>Sentou-se, perdido nos seus pensamentos, batendo com os dedos na mesa. Finalmente levantou-se:</p><p>� Bem, talvez n�o seja t�o dif�cil, afinal de contas. N�o h� nada mais que possamos fazer aqui, Watson. Acho melhor irmos at� a reda��o do Daily Telegraph para encerrar nosso trabalho de hoje.</p><p>Mycroft Holmes e Lestrade compareceram ao encontro marcado para depois do caf�-da-manh�, no dia seguinte, e Sherlock contou-lhes o que hav�amos feito na noite anterior. O detetive profissional sacudiu a cabe�a ao ouvir nossa confiss�o de arrombadores.</p><p>� N�o podemos fazer essas coisas na pol�cia, sr. Holmes � disse Lestrade. � N�o � de espantar que obtenha mais resultados do que n�s. Mas qualquer dia desses o senhor ir� longe demais e, juntamente com seu amigo, vai se meter em complica��es...</p><p>� Pela Inglaterra, pelo lar e beleza... hein, Watson? M�rtires no altar do pa�s. Mas, o que voc� acha disso tudo, Mycroft?</p><p>� Excelente, Sherlock! Admir�vel! Mas o que pretende fazer com isso?</p><p>Holmes pegou o Daily Telegraph que estava em cima da mesa.</p><p>� Voc� viu a mensagem de Pierrot no jornal de hoje?</p><p>� O qu�? Outra?</p><p>� Sim, aqui est�:</p><empty-line/><p>�Hoje � noite. Mesma hora. Mesmo lugar. Duas pancadas. Import�ncia vital. Sua pr�pria seguran�a em jogo.</p><p>Pierrot.�</p><empty-line/><p>� Por Deus! � exclamou Lestrade. � Se ele comparecer, n�s o pegaremos!</p><p>� Foi esta a minha id�ia, quando mandei colocar o an�ncio. Creio que seria melhor ambos virem conosco ali pelas oito da noite at� Caulfield Gardens, onde possivelmente chegaremos mais perto de uma solu��o.</p><p>Uma das caracter�sticas mais not�veis de Sherlock Holmes era sua capacidade de afastar da cabe�a a a��o e concentrar todos os seus pensamentos em coisas mais leves, quando se convencia de que n�o podia mais fazer um trabalho proveitoso. Lembro-me de que durante a maior parte daquele dia memor�vel ele ficou absorvido numa monografia que estava escrevendo sobre os Moteles Polif�nicos de Lassus. Eu, de minha parte, era totalmente desprovido dessa capacidade de abstra��o, de modo que o dia pareceu-me intermin�vel. A grande import�ncia nacional do assunto, o suspense nos altos escal�es, a natureza da experi�ncia que ir�amos tentar � tudo se combinou para meus nervos. Foi um al�vio para mim quando, finalmente, depois de um jantar leve, come�amos nossa expedi��o.</p><p>Lestrade e Mycroft, de acordo com o combinado, encontraram-se conosco diante da esta��o de Gloucester Road. A porta traseira da casa de Oberstein havia ficado destrancada na noite anterior, e eu tive de entrar por ela e abrir a da frente, j� que Mycroft Holmes se recusara, indignado, a pular as grades. �s nove horas n�s est�vamos sentados no escrit�rio, aguardando pacientemente o nosso homem.</p><p>Passou-se uma hora, depois outra. �s 11, a batida compassada do rel�gio da igreja parecia soar como o naufr�gio de nossas esperan�as. Lestrade e Mycroft agitavam-se nos seus assentos e olhavam repetidamente para seus rel�gios. Holmes estava sentado quieto e calmo, as p�lpebras semicerradas, mas com todos os sentidos alertas. Ao escutar um barulho, ergueu a cabe�a.</p><p>� Ele vem vindo � murmurou.</p><p>Ouvimos passos furtivos do lado de fora, um arrastar de p�s e depois duas batidas secas com a aldrava. Holmes se levantou, indicando-nos com um gesto que dever�amos continuar sentados. A ilumina��o a g�s do vest�bulo nada mais era do que um fiozinho de luz. Ele abriu a porta da rua, e quando uma figura negra passou rapidamente por ele, Holmes fechou e trancou a porta.</p><p>� Por aqui! � n�s o ouvimos dizer, e um instante depois o homem apareceu diante de n�s. Holmes o havia seguido de perto, e quando o visitante se virou para escapar, com um grito de medo e espanto, Holmes o agarrou pelo pesco�o e o atirou no ch�o do c�modo. Antes que o visitante tivesse tempo de recuperar o equil�brio, Holmes trancou a porta e ficou encostado nela. O homem olhou em volta, vacilante, e caiu desmaiado no ch�o. Com a queda, seu chap�u de abas largas caiu, o cachecol deslizou deixando seu rosto � mostra, e vimos as fei��es suaves e delicadas, a barba clara do coronel Valentine Walter.</p><p>Holmes deu um assobio de surpresa:</p><p>� Desta vez voc� pode me descrever como um asno, Watson � ele disse. � N�o era este o p�ssaro que eu esperava encontrar.</p><p>� Quem � ele? � perguntou Mycroft, ansioso.</p><p>� O irm�o mais novo do falecido sir James Walter, chefe do departamento de submarinos. Sim, sim, estou vendo a seq��ncia dos acontecimentos agora. Bem, o homem est� voltando a si. Acho melhor deixarem o interrogat�rio a meu cargo.</p><p>T�nhamos levado o corpo desmaiado para um sof�. O prisioneiro, recobrando os sentidos, sentou-se, olhou em volta com uma express�o apavorada e passou as m�os na testa, como algu�m que n�o consegue acreditar no que v�.</p><p>� O que significa isto? � perguntou. � Vim aqui visitar o sr. Oberstein...</p><p>� J� sabemos de tudo, coronel Walter � disse Holmes. � Como um cavalheiro ingl�s p�de fazer isso � coisa que est� al�m da minha compreens�o. Mas toda a sua correspond�ncia e seu relacionamento com Oberstein s�o de nosso conhecimento, assim como as circunst�ncias ligadas � morte do jovem Cadogan West. Gostaria de aconselh�-lo a tentar diminuir sua pena arrependendo-se e confessando tudo, j� que h� alguns detalhes que s� podemos saber por seu interm�dio.</p><p>O homem gemeu e afundou a cabe�a nas m�os. Esperamos, mas ele continuou em sil�ncio.</p><p>� Eu lhe asseguro � continuou Holmes � que conhecemos todos os fatos principais. Sabemos que o senhor precisava de dinheiro, que fez c�pias das chaves de seu irm�o e que se correspondia com Oberstein, que respondia �s suas cartas por meio de an�ncios classificados no Daily Telegraph. Sabemos que se dirigiu ao escrit�rio de Woolwich na noite de segunda-feira, que foi visto e seguido por West que, possivelmente, tinha algum motivo para desconfiar do senhor. Ele viu seu roubo mas n�o p�de dar o alarme, j� que seria poss�vel que estivesse apenas pegando os documentos para levar para seu irm�o em Londres. Deixando de lado seus problemas pessoais, como bom cidad�o que era, ele o seguiu de perto, na neblina, e ficou nos seus calcanhares at� chegarem a esta mesma casa. A� ele interferiu e foi ent�o, coronel Walter, que o senhor acrescentou � sua trai��o o crime mais terr�vel de assassinato.</p><p>� Eu n�o o matei! Eu n�o o matei! Juro, diante de Deus, que eu n�o o matei! � gritou nosso desprez�vel prisioneiro.</p><p>� Diga-nos, ent�o, como Cadogan West morreu antes de voc�s o atirarem no teto de um trem.</p><p>� Sim, direi. Juro-lhes que direi. Eu fiz o que o senhor contou, confesso-o. Foi exatamente como o senhor falou. Eu tinha de pagar uma d�vida na Bolsa de Valores. Precisava muito de dinheiro, Oberstein me ofereceu 5 mil libras. Foi para salvar-me da ru�na que agi. Mas, quanto ao assassinato, sou t�o inocente quanto o senhor.</p><p>� O que aconteceu, ent�o?</p><p>� Ele j� suspeitava antes, e me seguiu, como o senhor mesmo disse. Eu n�o sabia disso, at� que cheguei nesta porta. O nevoeiro era denso e n�o se enxergava al�m de 2 metros. Eu dei as duas pancadas e Oberstein veio abrir a porta. O jovem surgiu de repente e exigiu que lhe explic�ssemos o que �amos fazer com os documentos. Oberstein tinha um cassetete pequeno, que carregava sempre com ele. Quando Cadogan West tentou entrar � for�a nesta casa, Oberstein o golpeou na cabe�a. O golpe foi mortal. Ele morreu em cinco minutos. Ficou l� no vest�bulo, e n�s n�o sab�amos o que fazer. Ent�o Oberstein teve aquela id�ia do trem, que parava embaixo da janela traseira. Mas primeiro ele examinou os pap�is que eu havia trazido. Disse que tr�s dos documentos eram essenciais e que precisaria ficar com eles. Mas eu disse que ele n�o podia ficar com os planos. Iria haver o diabo em Woolwich se n�o fossem devolvidos. Ele, por�m, disse que tinha de ficar com os pap�is, porque eram t�o t�cnicos que era imposs�vel copi�-los a tempo. Eu afirmei que todos deviam ser recolocados naquela mesma noite no cofre. Ele ficou pensando por um instante e depois disse que tinha encontrado uma solu��o. Ficaria com os tr�s principais e colocaria os outros sete no bolso do rapaz. Quando o corpo fosse encontrado, tudo recairia sobre ele. Eu n�o via outra sa�da e ent�o fizemos o que ele sugerira. Esperamos meia hora na janela at� que um trem parasse. A neblina estava t�o densa que n�o se conseguia ver nada, e n�o tivemos dificuldade em colocar o corpo de West no teto do vag�o. Esse foi o fim do caso, no que me diz respeito.</p><p>� E seu irm�o?</p><p>� Ele n�o disse nada, mas um dia ele me pegou com as suas chaves e acho que desconfiou. Eu vi a suspeita nos seus olhos. Como o senhor sabe, ele n�o ag�entou o golpe.</p><p>Houve um sil�ncio no quarto, quebrado por Mycroft Holmes:</p><p>� Pode reparar o mal que fez? Isso aliviaria a sua consci�ncia e, talvez, o seu castigo.</p><p>� Mas, o que posso fazer?</p><p>� Onde est� Oberstein com os documentos?</p><p>� N�o sei.</p><p>� Ele n�o lhe deu nenhum endere�o?</p><p>� Disse que cartas para o H�tel du Louvre, em Paris, acabariam chegando �s m�os dele.</p><p>� Ent�o a repara��o ainda est� ao seu alcance � disse Sherlock Holmes.</p><p>� Farei tudo o que puder. N�o tenho simpatia por aquele sujeito; afinal, foi minha ru�na e desgra�a.</p><p>� Aqui tem papel e caneta. Sente-se nesta mesa e escreva o que lhe vou ditar. Escreva no envelope o endere�o dado. Isso, est� �timo. Agora, vamos � carta.</p><empty-line/><p>Caro senhor:</p><p>A respeito da nossa transa��o, o senhor j� deve ter visto, a esta altura, que um detalhe essencial est� faltando. Possuo um documento que preencher� essa lacuna. Entretanto, vi-me em novas dificuldades e devo pedir-lhe um novo adiantamento de 500 libras. N�o confio no servi�o do correio nem aceitarei nada a n�o ser ouro ou dinheiro. Poderia encontr�-lo no exterior, mas isso despertaria suspeita, caso eu deixasse o pa�s no momento. Dessa forma, espero encontr�-lo no sal�o de fumar do Hotel Charing Cross, ao meio-dia de s�bado. Lembre-se de que aceitarei somente dinheiro ingl�s ou ouro.</p><p>� Isto ser� o suficiente � continuou Holmes. � Ficarei muito surpreso se n�o atrair o nosso homem.</p><p>E atraiu! � uma quest�o de hist�ria � a hist�ria secreta de um pa�s, que quase sempre � muito mais interessante do que os relatos p�blicos � que Oberstein, ansioso para completar o maior golpe de sua vida, caiu na armadilha e passou 15 anos numa pris�o inglesa. Os valiosos planos do submarino Bruce-Partington foram encontrados em sua bagagem, planos que ele havia posto � venda em todos os centros navais da Europa. O coronel Walter morreu na pris�o, no fim do segundo ano de sua pena. Quanto a Holmes, voltou, reanimado, a cuidar da monografia sobre os Motetes Polif�nicos de Lassus, trabalho que mandara imprimir para distribui��o num c�rculo restrito, e considerado pelos especialistas a �ltima palavra sobre o tema.</p><p>Algumas semanas mais tarde eu soube, por acaso, que meu amigo havia passado um dia em Windsor, de onde voltou com uma bel�ssima esmeralda num prendedor de gravata. Quando lhe perguntei se o havia comprado, respondeu-me que fora presente de certa dama da nobreza, porque ele tivera a felicidade de resolver um pequeno caso do interesse dela. N�o disse mais nada, mas eu acho que posso adivinhar o nome da augusta senhora, e n�o duvido que a esmeralda sempre far� meu amigo se recordar do caso dos planos do submarino Bruce-Partington.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o caso do detetive agonizante</strong></p><p>A senhora Hudson, senhoria de Sherlock Holmes, era uma mulher paciente. Seu apartamento do primeiro andar n�o s� era invadido a toda hora por hordas de pessoas esquisitas e muitas vezes indesej�veis, como tamb�m seu not�vel inquilino tinha uma vida exc�ntrica e irregular, o que deve ter posto � prova a paci�ncia dela. O incr�vel desmazelo dele, sua mania de tocar m�sica nas horas mais impr�prias, suas constantes pr�ticas de tiro ao alvo dentro do quarto, as experimenta��es cient�ficas estranhas e fedorentas, a atmosfera de viol�ncia e perigo que o cercava constantemente, tudo isso provavelmente fazia dele o pior inquilino de Londres. Por outro lado, o aluguel que pagava era nababesco. N�o tenho d�vida de que a casa poderia ter sido comprada com o que Holmes pagou de aluguel pelos aposentos durante os anos em que morei com ele.</p><p>A senhoria o respeitava muit�ssimo e jamais ousou intrometer-se na vida dele,</p><p>por mais estranhas que pudessem ser suas atitudes. Tamb�m gostava muito dele, pois ele demonstrava excepcional gentileza no trato com as mulheres. Sherlock n�o admirava as mulheres e desconfiava delas, mas sempre foi um advers�rio cavalheiresco. Sabendo como era sincera sua preocupa��o com ele, ouvi atentamente a hist�ria que ela me contou, quando veio me ver em minha casa, no segundo ano de meu casamento, falando-me da triste situa��o a que meu velho amigo estava reduzido.</p><p>� Ele est� morrendo, dr. Watson � ela disse. � Faz tr�s dias que est� se afundando e temo que ele n�o viva um dia mais. Ele n�o me deixa chamar um m�dico. Hoje de manh�, quando vi os ossos quase furando a pele do seu rosto, os olhos grandes e brilhantes me fitando, n�o ag�entei mais. �Com sua permiss�o ou sem ela, vou chamar um m�dico agora mesmo�,� eu lhe disse. �Ent�o, que seja o Watson�, ele respondeu. Eu n�o perderia um minuto, ou poder� encontr�-lo morto.</p><p>Fiquei horrorizado, porque eu n�o sabia da doen�a dele. N�o preciso dizer que corri para pegar meu palet� e o chap�u. Enquanto est�vamos indo para Baker Street, pedi-lhe mais detalhes.</p><p>� Posso lhe contar pouca coisa, senhor. Ele andou trabalhando num caso em Rotherhithe, numa ruazinha perto do rio, e voltou com essa doen�a. Deitou-se na quarta-feira � tarde e n�o se levantou mais. Durante estes �ltimos tr�s dias n�o bebeu nem comeu.</p><p>� Deus do c�u! Por que a senhora n�o chamou um m�dico?</p><p>� Ele n�o quer. O senhor bem sabe como ele � autorit�rio. N�o ousei desobedec�-lo. Mas ele n�o ficar� muito tempo neste mundo, como o senhor mesmo vai ver quando puser os olhos nele.</p><p>Era, de fato, um espet�culo deplor�vel. Na luz ba�a de um dia enevoado de novembro, o quarto do doente era um lugar triste, mas o que me gelou o cora��o foi aquele rosto l�vido e descarnado, olhando-me da cama. Seus olhos tinham aquele brilho de febre, havia um vermelho doentio em ambas as faces e crostas escuras nos l�bios; as m�os magras se contorciam incessantemente sobre o cobertor, a voz estava �spera e convulsiva. Quando entrei no quarto, ele continuou deitado, ap�tico, mas ao me ver, seus olhos brilharam como sinal de reconhecimento da minha presen�a.</p><p>� Bem, Watson, parece que o neg�cio vai mal � ele disse numa voz d�bil, mas com um pouco do seu velho jeito despreocupado.</p><p>� Meu caro amigo! � exclamei, aproximando-me dele.</p><p>� N�o se aproxime! Fique afastado! � disse num tom autorit�rio que eu s� ouvia nos momentos de crise. � Se voc� se aproximar de mim, Watson, vou ser obrigado a lhe pedir que saia desta casa.</p><p>� Mas... por qu�?</p><p>� Porque eu quero assim. N�o lhe basta isso?</p><p>A senhora Hudson tinha raz�o. Ele estava mais autorit�rio do que nunca. Mas era lament�vel ver seu esgotamento.</p><p>� Eu s� queria ajudar � expliquei.</p><p>� Exatamente! Mas a melhor ajuda ser� fazer o que estou dizendo!</p><p>� Certamente, Holmes.</p><p>Ele abrandou sua atitude austera.</p><p>� N�o ficou zangado? � perguntou, ofegante.</p><p>Pobre sujeito! Como eu podia ficar zangado vendo-o naquela situa��o angustiante na minha frente?</p><p>� � para o seu pr�prio bem, Watson � disse, numa voz rouca.</p><p>� Para o meu bem?...</p><p>� Eu sei o que est� acontecendo comigo. � uma doen�a dos cules de Sumatra � uma doen�a que os holandeses conhecem mais do que n�s, embora lhe tenham dado pouca import�ncia at� hoje. S� uma coisa � certa � � infalivelmente mortal e tremendamente contagiosa.</p><p>Falava, agora, com uma energia febril, com as m�os magras se contorcendo e se agitando na tentativa de me manter afastado.</p><p>� Contagiosa pelo contato, Watson... sim, pelo contato. Fique longe e tudo estar� bem.</p><p>� Por Deus, Holmes! Voc� acha que o que disse significa alguma coisa para mim, por um instante sequer? N�o me afetaria se se tratasse de um estranho. Imagine se vai me impedir de cumprir meu dever para com um velho amigo.</p><p>Aproximei-me de novo, mas ele me repeliu com um olhar furioso.</p><p>� Se voc� ficar ali, eu falo. Do contr�rio, pode ir embora.</p><p>Tenho um respeito t�o grande pelas qualidades excepcionais de Holmes que sempre me sujeitei �s suas vontades, mesmo quando eu n�o conseguia entend�-las. Mas agora todos os meus instintos profissionais estavam alertas. Ele podia ser meu mestre em qualquer outro lugar, mas aqui eu estava no quarto de um doente.</p><p>� Holmes, voc� est� perturbado. Um homem doente n�o passa de uma crian�a, e � assim que eu vou trat�-lo. Quer voc� goste ou n�o, vou examinar seus sintomas e medic�-lo.</p><p>� Se eu for obrigado a ter um m�dico, querendo ou n�o � ele disse, olhando-me com rancor �, deixe-me, pelo menos, ter um em que eu possa confiar...</p><p>� Ent�o n�o confia em mim?</p><p>� Na sua amizade, sem d�vida. Mas fatos s�o fatos, Watson, e, afinal de contas, voc� � apenas um cl�nico geral com experi�ncia limitada e dotes med�ocres. � doloroso ter de lhe dizer estas coisas, mas voc� n�o me deixa escolha.</p><p>Fiquei profundamente magoado.</p><p>� Esta observa��o � indigna de voc�, Holmes. Ela me mostra claramente o estado de seus nervos. Mas, j� que n�o confia em mim, n�o vou impor meus pr�stimos. Deixe-me trazer sir Jasper Meek, ou Penrose Fisher, ou qualquer um dos melhores m�dicos de Londres. Voc� precisa de um m�dico, e isto � definitivo. Se acha que vou ficar aqui e v�-lo morrer sem que eu o ajude ou traga algum outro m�dico para socorr�-lo, ent�o voc� realmente n�o me conhece.</p><p>� Sei que quer o meu bem, Watson � disse o doente, numa voz mista de solu�o e gemido. � Quer que lhe mostre sua ignor�ncia? O que voc� sabe, por exemplo, sobre a febre de Tapanuli? O que sabe sobre a peste negra de Formosa?</p><p>� Nunca ouvi falar em nenhuma delas.</p><p>� H� muitas doen�as desconhecidas e muitas complica��es patol�gicas estranhas no Oriente, Watson.</p><p>Ele fazia uma pausa depois de cada frase para juntar as for�as que lhe restavam.</p><p>� Aprendi muito durante algumas pesquisas que fiz recentemente, pesquisas de car�ter m�dico-legal. Foi durante uma delas que contra� esta mol�stia. N�o h� nada que voc� possa fazer.</p><p>� Pode ser que n�o. Mas acontece que eu conhe�o o dr. Ainstree, a maior autoridade viva em doen�as tropicais, e ele est� na cidade no momento. N�o adianta fazer obje��es, Holmes; vou agora mesmo busc�-lo.</p><p>Virei-me decidido a sair. Nunca experimentei tamanho choque! Num instante, com um pulo de tigre, o homem agonizante me interceptou. Escutei o estalido seco da chave trancando a porta. Em seguida, cambaleando, ele voltou para a cama, exausto e ofegante, depois do tremendo disp�ndio de energia.</p><p>� N�o vai tirar a chave de mim � for�a, Watson. Eu o prendi, amigo. Voc� est� aqui e aqui vai ficar at� quando eu quiser. Mas vou satisfazer sua vontade.</p><p>Dizia isso em r�pidos arrancos, esfor�ando-se tremendamente para respirar entre uma palavra e outra.</p><p>� Voc� quer apenas o meu bem. Claro que sei disso. Voc� vai faz�-lo, mas d�-me tempo para recuperar minhas for�as. Agora n�o, Watson, agora n�o! S�o quatro horas agora. �s seis poder� ir.</p><p>� Mas isto � loucura, Holmes.</p><p>� Apenas duas horas, Watson. Eu lhe prometo que poder� sair �s seis. Pode esperar?</p><p>� N�o tenho outra alternativa.</p><p>� E n�o tem mesmo, Watson. Obrigado, n�o preciso de ajuda para arrumar as cobertas. Mantenha dist�ncia, por favor. E agora, Watson, h� uma outra condi��o que vou impor. Voc� vai procurar ajuda, mas n�o do m�dico que mencionou; ser� daquele que eu indicar.</p><p>� Est� bem, ent�o.</p><p>� Estas s�o as tr�s primeiras palavras sensatas que voc� diz desde que entrou neste quarto, Watson. Ali na estante voc� vai encontrar alguns livros. Eu estou exausto; fico imaginando como uma bateria se sente quando joga eletricidade num mau condutor. �s seis horas, Watson, continuaremos nossa conversa.</p><p>Mas a conversa estava destinada a ser retomada muito antes da hora combinada, e em circunst�ncias que me provocaram um tremendo susto, igual ao que levei quando ele trancou a porta. Eu havia ficado de p� durante algum tempo olhando a figura silenciosa na cama. O rosto estava quase todo coberto e ele parecia dormir. Incapaz de me concentrar em leituras, eu fiquei andando lentamente pelo quarto, olhando os retratos de criminosos famosos que adornavam as paredes. Finalmente, nessa minha perambula��o, aproximei-me do consolo da lareira. V�rios cachimbos, bolsas de fumo, seringas, canivetes, cartuchos de rev�lver e outros objetos estavam espalhados ali em cima. No meio de tudo isso havia uma caixinha branca e preta de marfim, com uma tampa m�vel. Era um objeto bonito e eu estendi a m�o para peg�-lo e examin�-lo mais de perto quando... Ele deu um grito horr�vel, um berro que deve ter sido ouvido na rua inteira. Quando me virei, vi um rosto convulso e olhos desvairados. Fiquei paralisado, com a caixinha na m�o.</p><p>� Largue isso a�! Agora, Watson, agora!</p><p>Quando recoloquei o objeto no lugar, ele afundou de novo a cabe�a no travesseiro e deu um suspiro de al�vio.</p><p>� Detesto que mexam nas minhas coisas, Watson. Voc� sabe disso. Pare de me atormentar. Voc�, um m�dico, � capaz de mandar uma pessoa para o hosp�cio... Sente-se, homem, e deixe-me descansar!</p><p>O incidente deixou em mim uma impress�o extremamente desagrad�vel. A excita��o, violenta e injustificada, seguida pela brutalidade das palavras, normalmente gentis, tudo me demonstrou sua profunda desorganiza��o mental. De todas as desgra�as, a ru�na de um c�rebro privilegiado � a mais deplor�vel. Fiquei sentado, numa silenciosa mortifica��o, at� chegar a hora marcada.</p><p>Ele parecia ter ficado de olho no rel�gio, como eu, porque eram quase 18 horas quando come�ou a falar com a mesma anima��o febril de antes.</p><p>� Agora, Watson � disse. � Tem dinheiro trocado?</p><p>� Tenho.</p><p>� Moedas?</p><p>� Bastante.</p><p>� Quantas meias-coroas?</p><p>� Cinco.</p><p>� Oh, muito pouco! Muito pouco! Que azar, Watson! Mas voc� pode coloc�-las no bolsinho do rel�gio. Ponha o resto do seu dinheiro no bolso da cal�a. Obrigado. Isso vai ajud�-lo a manter seu equil�brio.</p><p>Estava delirando! Estremeceu e novamente fez um som meio tosse, meio solu�o.</p><p>� Acenda o bico de g�s, Watson, mas tenha todo o cuidado para que ele n�o passe, nem por um momento, da metade de sua pot�ncia. Excelente. N�o, n�o precisa fechar as cortinas. Agora, por favor, ponha algumas cartas e jornais nesta mesa, aqui perto. Obrigado. Agora, um pouco do material do consolo da lareira. Excelente, Watson. Ali est� uma pin�a para os tabletes de a��car. Pegue com ela a caixinha de marfim. Coloque aqui entre os jornais. Est� �timo! Agora pode ir e trazer o sr. Culverton Smith, que mora em Lower Burke Street, no 13.</p><p>Para dizer a verdade, minha vontade de ir buscar um m�dico tinha diminu�do, porque o pobre Holmes estava delirando e me pareceu perigoso deix�-lo sozinho. Entretanto, agora ele estava t�o ansioso para consultar aquela pessoa como estivera obstinado em n�o aceitar antes.</p><p>� Nunca ouvi falar neste nome � eu disse.</p><p>� Possivelmente n�o, meu bom Watson. Talvez fique surpreso ao saber que o homem que mais entende dessa doen�a no mundo n�o � um m�dico, mas um agricultor. O sr. Culverton Smith � um conhecido fazendeiro residente em Sumatra, agora em visita a Londres. Um surto desta mol�stia em sua planta��o, distante de qualquer assist�ncia m�dica, obrigou-o a estud�-la profundamente, com resultados impressionantes. � uma pessoa muito met�dica e eu n�o queria que voc� fosse busc�-lo antes das seis horas porque sei que n�o o encontraria em casa. Se voc� puder convenc�-lo a vir aqui, com sua excepcional experi�ncia da doen�a � assunto que se tornou seu passatempo predileto �, tenho certeza de que ele poder� me ajudar.</p><p>Transcrevo as palavras de Holmes sem quebrar a seq��ncia, n�o mostrando como eram interrompidas pela falta de ar, e as m�os crispadas que indicavam a dor que estava sofrendo. A apar�ncia dele havia piorado nas poucas horas em que eu estivera ali no quarto. As manchas vermelhas no rosto estavam maiores, os olhos mais brilhantes nas cavidades ainda mais escuras e um suor frio surgira na testa. Mas ainda mantinha o tom imperioso ao falar. At� o �ltimo suspiro ele seria sempre o mestre.</p><p>� Conte-lhe exatamente como me deixou. Transmita a impress�o que voc� tem de mim... um homem agonizante... em del�rios... Para falar a verdade, n�o consigo entender por que o leito do mar n�o � uma massa s�lida feita de ostras, j� que elas parecem proliferar tanto. Oh, estou delirando de novo... � estranho como o c�rebro controla o c�rebro! O que eu estava dizendo, Watson?</p><p>� Instru��es para minha conversa com o sr. Culverton Smith.</p><p>� Ah, sim, eu me lembro agora. Minha vida depende disso. Insista com ele, Watson. N�o estamos em boas rela��es. Seu sobrinho... eu desconfiei de algo irregular... e fiz com que ele visse isso. O rapaz teve uma morte horr�vel. Ele tem m�goa de mim. Voc� vai convenc�-lo, Watson. Implore, suplique, traga-o aqui de qualquer maneira. Ele pode me salvar � s� ele!</p><p>� Eu o trarei num carro, mesmo que tenha de arrast�-lo!</p><p>� Nem pense em fazer uma coisa assim! Voc� tem de convenc�-lo a vir. E volte sozinho, antes dele. D� uma desculpa qualquer, mas n�o venha com ele. N�o se esque�a, Watson. N�o me decepcione. Voc� nunca me falhou antes. N�o h� d�vida de que existem inimigos naturais que limitam o aumento das criaturas. Voc� e eu, Watson, fizemos a nossa parte. O mundo deve, ent�o, ser invadido por ostras? N�o, n�o, � horr�vel! Voc� vai transmitir tudo o que est� na sua mente!</p><p>Deixei-o e sa� com a imagem de um intelecto magn�fico tagarelando como uma crian�a retardada. Levei a chave, com medo de ele se trancar no quarto. A sra. Hudson, tr�mula e chorosa, me aguardava no corredor. Quando passei por ela, ainda ouvi a voz aguda e penetrante de Holmes numa cantoria delirante. Na rua, enquanto chamava um carro, um homem aproximou-se de mim em meio � neblina.</p><p>� Como est� o sr. Holmes? � perguntou.</p><p>Era um velho conhecido, o inspetor Morton, da Scotland Yard.</p><p>� Ele est� muito doente � respondi.</p><p>Ele me fitou de um modo estranho. Se n�o fosse perverso demais, eu diria ter visto em seu rosto, � luz do lampi�o, uma esp�cie de alegria...</p><p>� Ouvi falar � ele comentou.</p><p>O cabriol� se aproximou e eu fui embora. Lower Burke Street era uma fila de belas casas, situadas num trecho entre Notting Hill e Kensington. A casa, diante da qual o cocheiro parou, tinha um aspecto de s�bria respeitabilidade, com grades de ferro de estilo antigo, porta maci�a de folha dupla, ornatos de bronze reluzente. Tudo combinava com o solene mordomo que apareceu, enquadrado numa claridade r�sea de uma l�mpada atr�s dele.</p><p>� Sim, o sr. Culverton Smith est�. Dr. Watson? Muito bem, senhor, vou levar-lhe o seu cart�o.</p><p>Meu nome e meu t�tulo humildes pareceram n�o impressionar o sr. Culverton Smith. Pela porta entreaberta ouvi uma voz alta, petulante, penetrante.</p><p>� Quem � ele? O que quer? Ora, Staples, quantas vezes eu tenho de lhe dizer que n�o quero ser incomodado nas minhas horas de estudo?</p><p>Seguiu-se uma s�rie de desculpas do mordomo.</p><p>� Bem, n�o vou receb�-lo, Staples. N�o posso interromper meu trabalho desta forma. N�o estou em casa. Diga-lhe isso. Diga-lhe para voltar amanh� de manh�, se realmente precisa falar comigo.</p><p>Novamente ouvi o murm�rio respeitoso.</p><p>� Bem, bem, diga-lhe isso. Ele pode vir de manh�, ou n�o vir. Meu trabalho n�o pode ser interrompido.</p><p>Pensei em Holmes, se contorcendo doente na cama e talvez contando os minutos at� eu poder levar-lhe ajuda. N�o era hora para cerim�nias. A vida dele dependia de minha presteza. Antes que o mordomo constrangido me desse o recado, eu o empurrei e entrei na sala.</p><p>Com um grito estridente de raiva, um homem levantou-se da espregui�adeira ao lado da lareira. Vi um rosto amarelo e grande, grosseiro e gorduroso, com uma papada acentuada e os olhos amea�adores sob as sobrancelhas espessas e grisalhas fixos em mim. A cabe�a pontuda e calva tinha um pequeno barrete de veludo inclinado sobre um dos lados do cr�nio rosado. A cabe�a era grande, mas quando olhei para ele, vi, com espanto, que o corpo do homem era pequeno e fr�gil, curvado nos ombros e nas costas, como algu�m que tivesse sofrido de raquitismo na inf�ncia.</p><p>� O que significa isso? � perguntou numa voz alta e estridente. � O que significa esta intromiss�o? N�o mandei lhe dizer que s� o receberia amanh� cedo?</p><p>� Lamento muito � eu disse �, mas o assunto n�o pode ser adiado. Sherlock Holmes...</p><p>A men��o ao nome do meu amigo produziu um efeito extraordin�rio no homenzinho. A raiva estampada no rosto sumiu de repente. Sua express�o ficou tensa e alerta.</p><p>� Voc� vem da parte de Holmes?</p><p>� Acabei de deix�-lo.</p><p>� E Holmes, como est�?</p><p>� Terrivelmente doente. Vim por causa disso.</p><p>Ele indicou-me uma cadeira e voltou para o seu lugar. Quando eu estava para me sentar, vi o rosto dele refletido no espelho sobre a lareira. Podia jurar que vi um sorriso malicioso e diab�lico. Mesmo assim tentei convencer-me de que se tratava de algum tique nervoso, porque logo em seguida ele se virou para mim com uma express�o de verdadeira preocupa��o no rosto.</p><p>� Sinto muito ouvi-lo dizer isso. S� conhe�o o sr. Holmes por causa de uns neg�cios que mantivemos, mas tenho grande respeito pelo seu talento e car�ter. Ele � um estudioso do crime como eu o sou das doen�as. Para ele, o criminoso, para mim, o micr�bio. L� est�o minhas pris�es.</p><p>Ao dizer isso, apontou para uma fila de frascos e tubos de ensaio que estavam sobre uma mesa.</p><p>� No meio daquelas culturas gelatinosas est�o cumprindo pena alguns dos piores malfeitores do mundo.</p><p>� � por causa do seu conhecimento especial que Sherlock deseja v�-lo. Ele o tem em alta conta e acha que � o �nico homem em Londres que pode salv�-lo.</p><p>O homenzinho estremeceu e o elegante barrete caiu no ch�o.</p><p>� Por qu�? � perguntou. � Por que o sr. Holmes acha que eu poderia ajud�-lo agora?</p><p>� Por causa de seus conhecimentos sobre doen�as orientais.</p><p>� Mas por que ele acha que a doen�a que contraiu seja oriental?</p><p>� Ele trabalhou recentemente entre marinheiros chineses, nas docas, num caso qualquer.</p><p>O sr. Culverton sorriu com satisfa��o e pegou o barrete do ch�o.</p><p>� Oh, � isso ent�o, hein? Acho que o caso pode n�o ser t�o grave quanto o senhor sup�e. H� quanto tempo ele est� doente?</p><p>� Faz uns tr�s dias.</p><p>� Tem tido del�rios?</p><p>� De vez em quando.</p><p>� Ora, ora, isto me parece grave. Seria desumano n�o atender ao seu pedido de socorro. N�o gosto de interromper os meus estudos, dr. Watson, mas este caso �, de fato, excepcional. Irei imediatamente com o senhor.</p><p>Lembrei-me da recomenda��o de Holmes.</p><p>� Tenho outro compromisso � desculpei-me.</p><p>� Muito bem, irei sozinho, ent�o. Tenho seu endere�o anotado. Prometo que estarei l� dentro de meia hora, no m�ximo.</p><p>Com o cora��o apreensivo, voltei ao quarto de Holmes. Temia que o pior tivesse acontecido na minha aus�ncia. Para meu grande al�vio, por�m, ele tinha melhorado bastante desde que eu sa�ra. Sua apar�ncia ainda era horr�vel, mas n�o estava mais delirando e falava com uma voz fraca, � verdade, por�m com mais lucidez e vivacidade do que o normal.</p><p>� E ent�o, esteve com ele, Watson?</p><p>� Sim, ele est� a caminho.</p><p>� Formid�vel, Watson! Formid�vel! Voc� � o melhor dos mensageiros!</p><p>� Ele queria vir comigo.</p><p>� Mas de maneira alguma. Isto n�o poderia ser. Ele lhe perguntou o que tenho?</p><p>� Eu falei dos chineses no East End...</p><p>� �timo! Bem, Watson, voc� fez tudo o que um bom amigo podia fazer. Pode sair de cena agora.</p><p>� Tenho de esperar para ouvir o diagn�stico dele, Holmes.</p><p>� Claro que sim. Mas tenho motivos para supor que a opini�o dele ser� muito mais franca e valiosa se ele pensar que estamos sozinhos. H� espa�o suficiente para voc� se esconder atr�s da cabeceira da cama, Watson.</p><p>� Holmes!...</p><p>� Receio que n�o haja alternativa, meu amigo. O lugar n�o despertar� suspeita, pois n�o � pr�prio para servir de esconderijo. Creio que � o �nico lugar em que voc� poder� ficar.</p><p>Sentou-se de repente, com uma express�o r�gida no rosto descarnado.</p><p>� A� est� ele, Watson. Depressa, homem, se gosta de mim! E n�o se mexa, aconte�a o que acontecer, seja l� o que for, ouviu bem? N�o diga uma palavra! N�o fa�a um movimento! Apenas fique atento.</p><p>Logo em seguida, seu repentino acesso de energia sumiu, e sua fala, autorit�ria e dominadora, transformou-se no murm�rio vago e baixo de uma pessoa delirante.</p><p>Do esconderijo onde me instalei rapidamente, ouvi passos subindo a escada, a porta do quarto sendo aberta e fechada. Ent�o, para minha surpresa, houve um longo sil�ncio, quebrado apenas pela respira��o pesada e ofegante do doente. Eu podia imaginar o visitante de p� ao lado da cama, olhando para o meu amigo sofredor. Finalmente, o estranho sil�ncio foi rompido.</p><p>� Holmes! Holmes! � chamou o visitante, no tom insistente de algu�m que acorda um dorminhoco. � Pode me ouvir, Holmes?</p><p>Ouvi em seguida um farfalhar de panos, como se ele estivesse sacudindo o doente vigorosamente pelos ombros.</p><p>� � o sr. Smith? � murmurou Holmes. � Duvidava que viesse.</p><p>O outro riu.</p><p>� Eu j� sabia � respondeu. � E mesmo assim, como v�, aqui estou. Retribui��o! Retribui��o!</p><p>� Foi muita bondade... muito nobre de sua parte. Eu respeito os seus conhecimentos especiais.</p><p>O visitante riu, sarc�stico.</p><p>� Verdade? Felizmente, voc� � o �nico homem em Londres que o aprecia. Sabe o que h� com voc�?</p><p>� A mesma doen�a � murmurou Holmes.</p><p>� Ah, ent�o voc� reconhece os sintomas?</p><p>� Demais... demais...</p><p>� Bem, eu n�o deveria ficar surpreso, Holmes. Eu n�o deveria ficar surpreso se fosse a mesma doen�a. Pior para voc�, se for ela. O pobre Victor morreu no quarto dia � um jovem forte e saud�vel. Como voc� disse, na verdade foi surpreendente que ele tivesse contra�do uma remota doen�a asi�tica, em pleno cora��o de Londres � doen�a sobre a qual fiz um estudo especial. Estranha coincid�ncia, Holmes. Voc� foi muito esperto em t�-la notado mas foi falta de caridade sugerir que entre os dois fatos existia rela��o de causa e efeito...</p><p>� Eu sabia que voc� a havia provocado.</p><p>� Oh, sabia, n�o? Bem, n�o podia provar, de qualquer modo. Mas o que acha de ficar me difamando e depois vir rastejando aos meus p�s na hora em que est� com problemas? Que tipo de jogo � esse, hein?</p><p>Ouvi a respira��o dif�cil e entrecortada do doente.</p><p>� Quero �gua! � ele arquejou.</p><p>� Voc� est� no fim, meu caro, mas n�o quero que morra sem escutar algumas coisas que tenho para lhe dizer. � por isso que vou dar-lhe a �gua. A� est�... n�o a beba de uma vez... est� bom. Est� entendendo o que eu digo?</p><p>� Fa�a o que puder por mim � Sherlock murmurou. � �guas passadas n�o movem moinho. Vou tirar da cabe�a o que eu sei, juro que vou. Apenas me cure... e eu esquecerei o que sei...</p><p>� Esquecer o qu�?</p><p>� Ora, sobre a morte de Victor Savage. Acabou de admitir que o matou... Eu vou esquecer isso...</p><p>� Fa�a como quiser, pode esquecer ou n�o. N�o o vejo no banco de testemunhas. Vejo-o dentro de um caix�o, meu caro Holmes, isso eu lhe garanto. Pouco me importa que voc� saiba como meu sobrinho morreu. N�o estamos falando sobre ele. Estamos falando sobre voc�.</p><p>� Sim... sim...</p><p>� O sujeito que me procurou � esqueci seu nome � disse-me que voc� contraiu a doen�a trabalhando no East End, no meio de marinheiros.</p><p>� S� posso achar que foi isso...</p><p>� Voc� se orgulha da sua intelig�ncia, n�o �? Acha que � esperto, hein? Agora voc� encontrou algu�m que � mais esperto do que voc�. Tente lembrar-se, Holmes. N�o acha que pode ter sido contaminado de outra forma?</p><p>� N�o consigo pensar... a lembran�a sumiu... Pelo amor de Deus, me ajude!</p><p>� Sim, vou ajud�-lo. Vou ajud�-lo a se lembrar de onde e como voc� pegou a peste. Gostaria que voc� soubesse disso, antes de morrer.</p><p>� D�-me alguma coisa para aliviar a dor...</p><p>� Est� doendo, hein? Sim, os cules berravam de dor quando estavam perto do fim. � uma esp�cie de c�imbra, imagino.</p><p>� Sim... sim... c�imbras...</p><p>� Bem, de qualquer modo, pode escutar o que tenho a lhe dizer. Escute, ent�o! Voc� se lembra de algum incidente incomum na sua vida, pouco antes de os sintomas aparecerem?</p><p>� N�o, n�o, nada...</p><p>� Pense de novo!</p><p>� Estou muito doente para pensar...</p><p>� Bem, ent�o eu vou ajud�-lo. Chegou alguma coisa pelo correio?...</p><p>� Pelo correio?</p><p>� Uma caixinha, por acaso?</p><p>� Estou desmaiando... vou morrer...</p><p>� Ou�a, Holmes!</p><p>Escutei um ru�do, como se ele estivesse sacudindo o homem agonizante, e eu s� podia ficar quieto no meu esconderijo.</p><p>� Voc� tem de me ouvir! � continuou ele. � Voc� vai me ouvir! Voc� se lembra de uma caixinha... uma caixinha de marfim? Veio no correio de quarta-feira. Voc� a abriu, lembra-se?</p><p>� Sim... sim, eu a abri. Havia uma agulha movida por mola... alguma brincadeira...</p><p>� N�o era nenhuma brincadeira, como vai descobrir � pr�pria custa. Idiota, voc� procurou e achou! Quem lhe pediu para ficar no meu caminho? Se me tivesse deixado em paz, eu n�o o prejudicaria.</p><p>� Eu me lembro � Holmes sussurrou. � A mola! Tirou sangue. Aquela caixinha... aquela caixinha na mesa...</p><p>� Esta mesmo, � claro! E vou lev�-la comigo, no meu bolso, quando sair. L� se vai sua �ltima possibilidade de prova. Mas voc� acabou de ouvir a verdade agora, Holmes, e pode morrer com a certeza de que eu o matei. Voc� sabia demais a respeito do destino de Victor Savage; de modo que resolvi que voc� devia ter o mesmo destino. Voc� est� no fim, Holmes. Vou me sentar aqui e v�-lo morrer.</p><p>A voz de Sherlock Holmes tinha se transformado num murm�rio quase inaud�vel.</p><p>� Como? � perguntou Culverton Smith. � Aumentar a luz do g�s? Ah, as sombras come�am a cair, n�o �? Sim, eu vou aument�-la para poder v�-lo melhor.</p><p>Ele atravessou o quarto e a luz brilhou de repente.</p><p>� Mais alguma coisinha que eu possa fazer, amigo?</p><p>� F�sforo e cigarro.</p><p>Quase gritei de alegria e espanto. Ele estava falando com sua voz� normal � um pouco fraca, talvez, mas aquela voz que eu conhecia. Houve um longo sil�ncio e eu senti que Culverton Smith estava parado, em sil�ncio, olhando espantado para o meu amigo.</p><p>� O que significa isso?... � eu o ouvi perguntar finalmente, num tom seco e �spero.</p><p>� A melhor maneira de se representar com sucesso � identificar-se com o papel � respondeu Holmes. � Dou-lhe minha palavra de que nos �ltimos tr�s dias n�o toquei em comida nem em bebida at� que voc� teve a bondade de me dar aquele copo d��gua. Mas eu senti mais falta foi do fumo. Ah, aqui est�o alguns cigarros!...</p><p>Ouvi quando ele riscou um f�sforo.</p><p>� Assim � muito melhor. Ora, ora, estarei escutando os passos de um amigo?</p><p>De fato, ouvi passos do lado de fora, a porta foi aberta e apareceu o inspetor Morton.</p><p>� Est� tudo bem e este � o seu homem � disse Sherlock Holmes.</p><p>O policial fez as advert�ncias habituais e concluiu:</p><p>� Eu o prendo pelo assassinato de Victor Savage.</p><p>� E pode acrescentar a tentativa de assassinato de Sherlock Holmes � comentou meu amigo com um risinho. � Para poupar trabalho a um inv�lido, o sr. Culverton teve a bondade de fazer o nosso sinal, inspetor, aumentando a luz do g�s. A prop�sito, o seu prisioneiro tem uma caixinha no bolso direito do palet� que seria melhor retirar. Se eu fosse voc�, teria mais cuidado ao mexer nela. Ponha-a aqui. Vai ser muito importante no julgamento.</p><p>Ouvi uma corrida repentina e barulho de luta, e em seguida um tilintar de metais e um grito de dor.</p><p>� Vai apenas se machucar � disse o inspetor. � Fique quieto, est� bem?</p><p>Escutei o ru�do de algemas se fechando.</p><p>� Uma bela armadilha! � gritou o prisioneiro num tom estridente e r�spido. � Isso levar� voc� � cadeia, Holmes, e n�o eu. Ele me pediu para vir aqui cur�-lo. Senti pena e vim. Agora, sem d�vida vai alegar que eu disse alguma coisa que pode inventar, e que vai confirmar suas suspeitas doentias. Pode mentir � vontade, Holmes. Minha palavra sempre vai valer tanto quanto a sua.</p><p>� Meu Deus! � exclamou Holmes. � Esqueci-me totalmente dele! Meu caro Watson, devo-lhe mil desculpas. E pensar que eu me esqueci de voc�! N�o � necess�rio que eu o apresente ao sr. Culverton Smith, porque eu sei que se conheceram h� pouco. O carro est� l� embaixo? Vou acompanh�-lo, inspetor, depois de me vestir, porque posso ser �til na delegacia.</p><p>� Nunca precisei tanto disso � disse Holmes, se reabastecendo com um copo de vinho e bolachas enquanto tirava a maquiagem. � Voc� bem sabe como meus h�bitos s�o irregulares, e fazer o que fiz foi bem mais f�cil para mim do que para a maioria das pessoas. Era indispens�vel que a sra. Hudson ficasse impressionada com o meu estado, j� que ela transmitiria a impress�o a voc�, e voc� a transmitiria a Culverton Smith. Voc� n�o vai ficar zangado, n�o �, Watson? Voc� vai perceber que, entre os seus muitos talentos, n�o h� lugar para a dissimula��o, e que, se soubesse do meu segredo, n�o conseguiria convencer o sr. Smith da necessidade imperiosa de sua presen�a, ponto vital de todo o esquema. Conhecendo a natureza vingativa dele, eu tinha certeza de que ele viria conferir o seu pr�prio trabalho...</p><p>� Mas, e sua apar�ncia, Holmes, seu rosto cadav�rico?...</p><p>� Tr�s dias de jejum total n�o ajudam a embelezar ningu�m, Watson. Quanto ao resto, n�o existe nada que uma boa esponja n�o consiga curar... Com vaselina na testa, beladona nos olhos e crostas de cera nos l�bios a gente consegue produzir um bom efeito. Disfarce � um assunto sobre o qual eu j� pensei em escrever uma monografia. Uma conversinha de vez em quando sobre meias-coroas, ostras ou qualquer outro assunto esquisito pode produzir um efeito convincente de del�rio.</p><p>� Mas por que n�o deixou que eu me aproximasse de voc� quando, na verdade, n�o havia perigo de infec��o?</p><p>� Voc� ainda pergunta, meu caro Watson? Acredita que eu n�o tenha respeito pelos seus dotes m�dicos? Eu podia imaginar que, com seu julgamento perspicaz, voc� iria acreditar que um homem agonizante, embora fraco, n�o apresentasse aumento de temperatura nem pulso? Eu conseguiria enganar voc� a uns 3 metros de dist�ncia. Se n�o conseguisse, quem traria o sr. Smith ao alcance? N�o, Watson, eu n�o mexeria naquela caixinha. Voc� mesmo pode ver, se olhar de lado, por onde a l�mina afiada pula como um dente de v�bora quando a abrimos. Eu diria que o pobre Savage, que se interp�s entre o monstro e a heran�a, foi morto de forma semelhante. Mas minha correspond�ncia � muito variada, como voc� sabe, e eu fico sempre em guarda com rela��o aos pacotes que me chegam. Mas ficou claro para mim que somente fingindo que ele tivera �xito na sua tentativa � que eu poderia conseguir uma confiss�o de culpa. Representei o papel com a perfei��o de verdadeiro artista. Obrigado, Watson, ajude-me a vestir o casaco. Assim que terminarmos tudo na delegacia, creio que alguma coisa bem nutritiva no Simpson n�o seria inconveniente.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o caso do desaparecimento de lady frances carfax</strong></p><p>� Mas por que turco? � perguntou Sherlock Holmes, olhando fixamente para minhas botas. Eu estava deitado em uma cadeira de vime, e meus p�s esticados haviam atra�do sua aten��o sempre vigilante.</p><p>� Ingl�s! � respondi com certa surpresa. � Eu as comprei em Latimer, na Oxford Street.</p><p>Ele sorriu com uma express�o de paci�ncia entediada.</p><p>� O banho! � ele disse. � O banho! Por que o debilitante e caro banho turco em vez do revigorante artigo caseiro?</p><p>� � porque, nesses �ltimos dias, eu me senti velho e reum�tico. Um banho turco � o que chamamos, na medicina, de uma alternativa � um novo ponto de partida, um purificador do sistema. A prop�sito, Holmes, n�o tenho d�vida de que a rela��o</p><p>entre minhas botas e o banho turco � �bvia para uma mente l�gica, mas eu ficaria grato se voc� a explicasse para mim.</p><p>� A seq��ncia do racioc�nio n�o � muito dif�cil, Watson � ele disse, dando uma piscadela maliciosa. � Pertence � mesma categoria elementar de dedu��o que eu precisaria explicar se lhe perguntasse quem estava no carro com voc� hoje de manh�...</p><p>� Eu n�o acho que um novo exemplo seja uma explica��o � respondi com certa aspereza.</p><p>� Bravo, Watson! Uma reclama��o digna e l�gica. Deixe-me ver, quais s�o os pontos? Vejamos, em primeiro lugar, o �ltimo. O t�xi. Observe que voc� tem borrifos na manga esquerda e no ombro do seu casaco. Se voc� tivesse se sentado no meio, com toda a certeza n�o os teria e, caso os tivesse, seriam sim�tricos. Portanto, fica claro que voc� se sentou de um lado. Tamb�m est� claro que tinha um companheiro.</p><p>� Isto � evidente.</p><p>� Tremendamente corriqueiro, n�o?</p><p>� Mas, e as botas e o banho turco?</p><p>� Tamb�m infantis. Voc� tem o h�bito de amarrar suas botas de um certo jeito. Agora eu as vejo amarradas com um la�o duplo e caprichado, o que n�o � o seu modo habitual. Assim voc� as tirou. Quem as arrumou para voc�? Um sapateiro ou o rapaz que trabalha no banho turco. N�o me parece ser o sapateiro, pois suas botas s�o praticamente novas. Ent�o, o que resta? O banho. F�cil, n�o? Mas, por isso tudo, o banho turco serviu para alguma coisa.</p><p>� Para qu�?</p><p>� Voc� disse que tomou o banho porque precisa de uma mudan�a. Deixe-me sugerir-lhe que fa�a uma. Que tal Lausanne, meu caro Watson, com passagens de primeira classe e todas as despesas pagas nababescamente?</p><p>� Espl�ndido! Mas, por qu�?</p><p>Holmes recostou-se na poltrona e tirou o caderninho do bolso.</p><p>� A mulher sem amigos e n�made constitui uma das classes mais perigosas do mundo. Ela � a mais inofensiva e freq�entemente a mais �til dos mortais, mas quase sempre se torna a incitadora de crimes nas outras pessoas. � um p�ssaro migrat�rio, tem meios suficientes para se mudar de um pa�s para outro, e de um hotel para outro. Freq�entemente fica perdida num labirinto de pens�es e hospedarias humildes. � uma galinha perdida num mundo de raposas. Quando desaparece, ningu�m sente sua falta. Temo que algo de ruim tenha acontecido com lady Frances Carfax.</p><p>Fiquei aliviado quando ele passou do geral para o particular. Consultou suas anota��es.</p><p>� Lady Frances � ele continuou � � a �nica descendente direta viva do falecido conde Rufton. As propriedades da fam�lia, como voc� deve se lembrar, passaram para os herdeiros masculinos, de modo que ela ficou com recursos limitados, mas com antigas e extraordin�rias j�ias espanholas de prata e diamantes curiosamente lapidados, aos quais ficou profundamente apegada � t�o apegada que se recusou a deix�-los com seu banqueiro, e sempre os carrega consigo. Uma figura bastante pat�tica essa, lady Frances, uma mulher bonita, no in�cio da meia-idade e, ainda assim, por um estranho acaso, a �ltima descendente daquilo que, h� apenas vinte anos, era uma linhagem ilustre.</p><p>� O que aconteceu com ela?</p><p>� Ah, o que aconteceu a lady Frances? Est� viva ou morta? Este � o nosso problema. Ela � uma mulher de h�bitos regulares e durante quatro anos manteve o h�bito invari�vel de escrever, de duas em duas semanas, uma carta � senhorita Dobney, sua antiga governanta, j� aposentada e que mora em Camberwell. Foi essa senhorita Dobney quem me consultou. J� se passaram quase cinco semanas sem uma �nica palavra. A �ltima carta veio do H�tel National, em Lausanne. Parece que lady Frances saiu de l� e n�o deixou endere�o. Os parentes est�o ansiosos e, como s�o imensamente ricos, n�o v�o economizar para esclarecermos este caso.</p><p>� A senhorita Dobney � a �nica fonte de informa��es? Ela n�o se correspondia com outras pessoas?</p><p>� H� um correspondente que � uma tacada certa, Watson. � o banco. Mulheres solteiras precisam viver, e seus tal�es de cheques s�o di�rios condensados. Ela mant�m conta no Silvester. Dei uma olhada. O pen�ltimo cheque sacado foi para pagar a conta de Lausanne, mas foi um cheque gra�do, o que provavelmente deve t�-la deixado com dinheiro. Desde ent�o, apenas um cheque foi sacado.</p><p>� Em favor de quem, e quando?</p><p>� Para a senhorita Marie Devine. N�o h� nada que mostre onde o cheque foi emitido. Foi descontado no Cr�dit Lyonnais em Montpellier h� menos de tr�s semanas. O total era de 50 libras.</p><p>� E quem � esta senhorita Marie Devine?</p><p>� Tive de descobrir isso tamb�m. Ela era a criada de lady Frances Carfax. Por que esta lhe pagou este cheque ainda n�o sabemos. Mas tenho certeza de que suas pesquisas v�o esclarecer logo o caso.</p><p>� Minhas pesquisas?!</p><p>� Eis a� o motivo de sua saud�vel expedi��o a Lausanne. Voc� sabe que eu n�o posso sair de Londres enquanto o velho Abrahams estiver com tanto medo de morrer. Al�m do mais, em princ�pio, � melhor que eu n�o saia do pa�s. A Scotland Yard se sente �rf� sem a minha presen�a e isso provoca uma excita��o m�rbida entre os criminosos do pa�s. V�, ent�o, meu caro Watson, e se meu humilde conselho pode ser �til � extravagante quantia de 2 pence por palavra, estar� � sua disposi��o noite e dia, neste lado do tel�grafo.</p><p>Dois dias depois eu j� estava no H�tel National, em Lausanne, onde recebi todas as aten��es do sr. Moser, o conhecido gerente. Ele me informou que lady Frances ficara hospedada ali durante v�rias semanas. Todos que a conheciam gostavam muito dela. N�o tinha mais de 40 anos. Ainda era bonita e conservava sinais de ter sido uma mulher ador�vel na juventude. O sr. Moser, o gerente, nada sabia a respeito de j�ias valiosas, mas os empregados haviam notado que no quarto da mulher havia uma mala pesada que estava sempre cuidadosamente trancada. Marie Devine, a criada, era t�o conhecida quanto a patroa. Estava noiva de um dos chefes dos gar��es do hotel, de modo que n�o foi dif�cil descobrir seu endere�o, rue de Trajan, 11, Montpellier. Anotei tudo isso e tive a sensa��o de que nem Sherlock Holmes teria apurado os fatos com tanta rapidez.</p><p>Apenas um detalhe permaneceu obscuro. Nenhuma informa��o de que eu dispunha explicava a partida repentina da mulher. Ela estava muito feliz em Lausanne. Havia todos os motivos para se acreditar que ela pretendia ficar durante toda a temporada no seu luxuoso apartamento que dava para o lago. Mas ela foi embora sem dizer uma palavra, perdendo uma semana de aluguel j� pago. Somente Jules Vibart, o noivo da criada, tinha alguma sugest�o a dar. Ele relacionava a partida repentina � visita, ao hotel, um ou dois dias antes, de um homem alto, moreno e barbudo.</p><p>� Un sauvage... un v�ritable sauvage! � exclamou Jules Vibart.</p><p>O homem morava em algum lugar da cidade, pois fora visto conversando antes com lady Frances na avenida perto do lago. Depois aparecera no hotel e ela se recusara a v�-lo. Ele era ingl�s, mas ningu�m sabia seu nome. Ela foi embora logo depois disso. Jules Vibart e, o que � mais importante, sua noiva pensavam que a visita e a partida tinham uma rela��o de causa e efeito. Jules s� n�o falava sobre uma coisa � o motivo por que Marie deixara a patroa. Sobre isso ele n�o podia ou n�o queria dizer nada. Se eu quisesse saber, deveria ir a Montpellier e perguntar a ela.</p><p>Terminou assim o primeiro cap�tulo de minhas investiga��es. Dediquei o segundo ao lugar para onde lady Frances Carfax foi quando saiu de Lausanne. Sobre este ponto havia um certo mist�rio, o que confirmava a teoria de que ela partira com a inten��o de despistar algu�m. Do contr�rio, por que sua bagagem n�o fora endere�ada abertamente a Baden? Tanto a mulher como a bagagem chegaram � esta��o de Rhenish por uma rota indireta. Fiquei sabendo disso pelo gerente da ag�ncia Cook. Parti, ent�o, para Baden, depois de enviar a Holmes um relato de tudo o que j� fizera e receber, em resposta, um elogio meio ir�nico.</p><p>N�o foi dif�cil seguir a pista dela em Baden. Lady Frances passara 15 dias hospedada no Englischer Hof. Ali fizera amizade com um tal dr. Shlessinger e a esposa, um mission�rio da Am�rica do Sul. Como a maioria das mulheres solit�rias, ela encontrou conforto e ocupa��o na religi�o. Ela foi profundamente afetada pela personalidade marcante do dr. Shlessinger, sua devo��o desinteressada, e pelo fato de estar se recuperando de uma doen�a contra�da no exerc�cio de suas fun��es apost�licas. Ela ajudava a sra. Shlessinger a tomar conta do santo convalescente. Ele passava o dia todo numa espregui�adeira colocada no alpendre, com as duas mulheres como sol�citas enfermeiras, uma de cada lado. Estava preparando um mapa da Terra Santa, com refer�ncia especial ao reino dos Medianistas, sobre os quais estava escrevendo uma monografia. Finalmente, com a sa�de bem melhor, ele e a esposa voltaram para Londres, e lady Frances partira com eles. Isso acontecera apenas tr�s semanas antes, e o gerente nada mais ouvira desde ent�o.</p><p>Quanto � criada, Marie, partira alguns dias antes, chorando, depois de informar �s outras criadas que estava deixando o servi�o definitivamente. O dr. Shlessinger pagara as despesas de todo o grupo antes de partir.</p><p>� A prop�sito � completou o gerente �, o senhor n�o foi o �nico amigo de lady Frances Carfax que perguntou por ela nestes �ltimos dias. H� uma semana, mais ou menos, esteve aqui um senhor com o mesmo prop�sito.</p><p>� Ele deu o nome? � perguntei.</p><p>� N�o, mas ele era ingl�s, embora de um tipo pouco comum.</p><p>� Um selvagem? � arrisquei, ligando os fatos � maneira de meu ilustre amigo Holmes.</p><p>� Exatamente. Esta palavra o descreve muito bem. � um sujeito corpulento, barbudo, queimado de sol, um tipo que ficaria mais � vontade numa pens�o de roceiros do que num hotel de luxo. Um sujeito dur�o, violento eu diria, e algu�m que eu lamentaria irritar.</p><p>O mist�rio come�ava a se definir, com os personagens mais n�tidos � medida que a n�voa ia se dissipando. Aqui estava a mulher boa e piedosa, perseguida em todos os lugares por uma figura sinistra e insistente. Ela o temia, ou n�o teria fugido de Lausanne. Ele a seguiu. Mais cedo ou mais tarde ele a alcan�aria. J� teria conseguido? Seria esse o segredo do prolongado sil�ncio de lady Frances Carfax? Ser� que seus companheiros, pessoas boas, a teriam escondido da viol�ncia e chantagem dele? Que prop�sito terr�vel, que plano obscuro estavam por tr�s de sua persegui��o longa e implac�vel? Este era o problema que eu tinha de resolver.</p><p>Escrevi a Holmes mostrando-lhe com que rapidez e precis�o eu atingira o �mago da quest�o. Sua resposta foi um telegrama pedindo uma descri��o da orelha esquerda do dr. Shlessinger. O conceito de humor de Holmes �s vezes � estranho e ofensivo, de modo que n�o dei aten��o � brincadeira. Na verdade, eu j� havia chegado a Montpellier, com o objetivo de encontrar a criada antes de receber seu telegrama.</p><p>N�o tive dificuldade em localizar a ex-criada e saber tudo o que ela podia me contar. Era uma criatura dedicada, que s� deixara a patroa porque tinha certeza de que ela estava em boas m�os e tamb�m porque seu casamento se aproximava, o que causaria inevitavelmente uma separa��o. A patroa havia demonstrado � ela contou com desgosto � certa irrita��o com ela durante a estada em Baden, e chegara a interrog�-la uma vez, como se desconfiasse de sua honestidade, e isso fez com que a separa��o fosse mais f�cil do que em outras condi��es. A patroa lhe dera 50 libras como presente de casamento. Como eu, tamb�m Marie desconfiava do estranho que fizera a mulher fugir de Lausanne. Ela mesma vira o homem agarrar com viol�ncia o pulso de lady Frances na alameda perto do lago. Era um sujeito terr�vel e selvagem. Ela acreditava que era por medo dele que lady Frances aceitara a companhia dos Shlessinger na volta para Londres. Lady Frances nunca comentara nada com Marie, mas esta sentia que a patroa vivia num permanente estado de nervosismo e apreens�o. Nesta altura de sua descri��o, ela pulou da cadeira com o rosto transtornado, surpreso e aterrorizado.</p><p>� Veja! � exclamou. � O desgra�ado ainda est� a�! � o mesmo homem de quem eu lhe falava!</p><p>Pela janela aberta da sala divisei um homem forte, moreno, com uma barba preta encrespada, descendo lentamente a rua, olhando com ansiedade os n�meros das casas. Estava claro que ele, como eu, tamb�m estava no encal�o da criada. Agindo por impulso, corri para a rua e me aproximei dele.</p><p>� O senhor � ingl�s � disse-lhe eu.</p><p>� E da�? � perguntou, com cara de poucos amigos.</p><p>� Posso saber o seu nome?</p><p>� N�o, n�o pode � respondeu com decis�o.</p><p>A situa��o era estranha, mas o caminho direto � sempre o melhor.</p><p>� Onde est� lady Frances Carfax? � perguntei.</p><p>Ele me fitou, aturdido.</p><p>� O que o senhor fez com ela? Por que a perseguiu? Exijo uma resposta!</p><p>O sujeito soltou um grito de raiva e pulou em cima de mim como um tigre. Sempre soube me defender em muitas brigas, mas o camarada tinha uma garra de a�o e a f�ria de um dem�nio. Apertou minha garganta e eu estava quase perdendo os sentidos quando um oper�rio franc�s barbudo, vestido com uma camisa azul, saiu em disparada do bar do outro lado da rua com um peda�o de pau na m�o e acertou meu atacante com um golpe seco no antebra�o, o que fez com que ele largasse a presa. Ficou por alguns segundos fungando de raiva e sem saber se devia recome�ar o ataque. Finalmente, com um rugido de raiva, ele me largou e entrou na casa da qual eu acabara de sair. Eu me virei para agradecer ao meu salvador, ali parado ao meu lado na rua.</p><p>� Ora, Watson � ele disse � que bela trapalhada voc� aprontou! Acho que ser� melhor voc� voltar comigo para Londres no trem desta noite.</p><p>Uma hora mais tarde, Sherlock Holmes, com sua eleg�ncia e seu estilo habituais, estava sentado no meu quarto no hotel. A explica��o para o seu aparecimento repentino e oportuno era a pr�pria simplicidade, porque, descobrindo que podia sair de Londres, ele decidira adiantar-se a mim no pr�ximo ponto �bvio de minhas investiga��es. Disfar�ado de oper�rio, sentara-se no bar, esperando que eu aparecesse.</p><p>� Voc� fez uma investiga��o extraordinariamente coerente, meu caro Watson � disse ele. � N�o me ocorre agora nenhuma asneira que voc� tenha deixado de fazer. O resultado geral de suas investiga��es foi o de alarmar todo mundo e n�o descobrir coisa alguma.</p><p>� Talvez voc� tivesse feito melhor � respondi magoado.</p><p>� N�o h� �talvez� a respeito disso. Eu fiz melhor. Aqui est� o sr. Philip Green, tamb�m h�spede deste hotel e ele pode ser o ponto de partida para uma investiga��o mais bem-sucedida.</p><p>Haviam trazido um cart�o de visita numa bandeja, e em seguida apareceu o mesmo vil�o barbudo que me atacara na rua. Ele estremeceu quando me viu.</p><p>� O que � isto, sr. Holmes? � perguntou. � Recebi seu recado e vim. Mas o que este homem tem a ver com o caso?</p><p>� Este � meu velho amigo e parceiro dr. Watson, que est� nos ajudando neste caso.</p><p>O estranho estendeu a m�o grande e bronzeada, dizendo algumas palavras de desculpas.</p><p>� Espero n�o t�-lo machucado. Quando o senhor me acusou de t�-la ferido, me descontrolei. Na verdade, n�o respondo por mim nestes �ltimos dias. Meus nervos est�o � flor da pele. A situa��o me desespera. O que eu desejo saber, em primeiro lugar, dr. Watson, � como diabo o senhor ficou sabendo de minha exist�ncia.</p><p>� Estou em contato com a senhorita Dobney, criada de lady Frances Carfax.</p><p>� A velha Susan Dobney com a touca! Lembro-me muito bem dela.</p><p>� E ela se lembra do senhor. Foi naqueles dias... naqueles dias antes de o senhor achar que seria melhor ir para a �frica do Sul.</p><p>� Ah, vejo que conhece toda a minha hist�ria. N�o preciso esconder-lhe nada. Juro-lhe, sr. Holmes, que nunca existiu neste mundo algu�m que amasse uma mulher com tanta devo��o como eu amava Frances. Eu era um jovem devasso, eu sei, mas n�o pior do que tantos de minha idade. Mas o cora��o dela era puro como a neve. Ela n�o podia suportar uma sombra sequer de grosseria. Assim, quando ficou sabendo de algumas coisas que eu havia feito, n�o quis mais falar comigo. E mesmo assim, ela me amava � e isso � o mais estranho �, amava-me tanto a ponto de permanecer solteira durante toda sua santa vida, somente por minha causa. Com o passar do tempo, ganhei a vida em Barbeton e pensei que talvez pudesse procur�-la e abord�-la. Eu sabia que ela ainda estava solteira. Encontrei-a em Lausanne e tentei tudo o que pude. Ela ficou comovida, eu acho, mas sua vontade era forte, e quando a procurei de novo, havia partido. Consegui localiz�-la em Baden e depois de algum tempo ouvi dizer que sua empregada estava aqui. Sou um sujeito rude, vindo de uma vida dif�cil, e quando o dr. Watson falou comigo naqueles termos, perdi o controle. Mas, diga-me, pelo amor de Deus, o que aconteceu com lady Frances?</p><p>� Isto � o que n�s temos de descobrir � respondeu Sherlock Holmes. � Qual � o seu endere�o em Londres, sr. Green?</p><p>� Vai me achar no Langham Hotel.</p><p>� Posso pedir-lhe que volte para l� e fique pronto no caso de eu precisar do senhor? N�o quero alimentar falsas esperan�as, mas pode ter certeza de que ser� feito tudo o que for poss�vel pela seguran�a de lady Frances. N�o posso dizer mais nada, por ora. Vou deixar-lhe este cart�o para que possa entrar em contato conosco. Agora, Watson, se voc� fizer as malas, vou telegrafar � sra. Hudson e pedir que prepare o melhor que puder para dois viajantes famintos �s 7:30h.</p><p>Um telegrama nos aguardava em Baker Street; Holmes o leu, soltando exclama��es de alegria, e o passou para mim. A mensagem dizia �Serrada ou arrancada�, e fora expedida de Baden.</p><p>� O que � isto? � perguntei.</p><p>� � tudo! Talvez voc� se lembre de minha pergunta aparentemente irrelevante sobre a orelha esquerda do mission�rio. Voc� n�o respondeu.</p><p>� Eu j� havia sa�do de Baden e n�o pude perguntar.</p><p>� Exatamente. Por causa disso mandei um telegrama igual ao gerente do Englischer Hof, e aqui est� a resposta.</p><p>� O que significa?</p><p>� Significa, meu caro Watson, que estamos enfrentando um homem excepcionalmente esperto e perigoso. O reverendo dr. Shlessinger, mission�rio vindo da Am�rica do Sul, � ningu�m menos que Holy Peters, um dos vigaristas mais inescrupulosos que a Austr�lia j� produziu � e para um pa�s jovem at� que tem apresentado alguns tipos perfeitos. A especialidade dele � enganar mulheres solit�rias, explorando seus sentimentos religiosos, e sua pseudo-esposa � uma inglesa chamada Fraser, uma colaboradora fiel. A t�tica que ele usou sugeriu-me sua identidade, e seu defeito f�sico � ele foi mordido com viol�ncia numa briga de bar em Adelaide, em 1889 � confirmou minha suspeita. Essa pobre senhora est� nas m�os de uma dupla infernal, que n�o teme nada, Watson. Que esteja morta � uma suposi��o bem plaus�vel. Se estiver viva, com toda a certeza ela se encontra em algum tipo de pris�o e impedida de escrever � srta. Dobney ou a outros amigos. � poss�vel que nem tenha chegado a Londres, ou tenha passado pela cidade; mas a primeira suposi��o � improv�vel porque, pelo sistema de registro, n�o � f�cil para os estrangeiros burlar a pol�cia do continente; a segunda hip�tese tamb�m � improv�vel, j� que esses vigaristas n�o poderiam encontrar um outro local onde seja t�o f�cil manter uma pessoa cativa. Os meus instintos me dizem que ela est� em Londres, mas como no momento n�o temos meios de saber exatamente onde, s� podemos fazer o �bvio, ou seja, jantar e ter paci�ncia. Mais tarde vou dar uma sa�da e conversar com o amigo Lestrade, na Scotland Yard.</p><p>Entretanto, nem a pol�cia oficial nem a pequena mas eficiente organiza��o particular de Holmes foram suficientes para esclarecer o mist�rio. Entre os milh�es de pessoas em Londres, as que procur�vamos estavam invis�veis como se nunca tivessem existido. Foram tentados an�ncios em jornais, sem resultado. Pistas foram seguidas, mas levaram a nada. Todos os antros de criminosos que Shlessinger pudesse freq�entar foram verificados, mas em v�o. Seus antigos comparsas foram vigiados, mas eles n�o se aproximaram dele. Ent�o, de repente, depois de uma semana de suspense, surgiu um raio de luz. Um pingente de prata, de antigo desenho espanhol, foi penhorado em Bovington, em Westminster Road. O sujeito que o penhorara era grande, sem barba, com uma apar�ncia clerical. Naturalmente, o nome e o endere�o que forneceu eram falsos. N�o mencionaram o detalhe da orelha mas a descri��o, com toda a certeza, era a de Shlessinger. Nosso amigo barbudo do Langham Hotel aparecera tr�s vezes � procura de not�cias, na terceira vez uma hora depois de termos recebido novas informa��es... As roupas j� estavam folgadas no seu corpo enorme. Parecia que, pela ansiedade que o consumia, estava definhando a olhos vistos.</p><p>� Se pelo menos o senhor me desse algo para fazer!... � era seu constante lamento. Finalmente Holmes podia satisfaz�-lo.</p><p>� Ele come�ou a penhorar as pe�as. Vamos peg�-lo agora.</p><p>� Mas ser� que isto significa que algo de ruim aconteceu a lady Frances?</p><p>Holmes balan�ou gravemente a cabe�a.</p><p>� Supondo que eles a tenham mantido cativa at� agora, est� claro que n�o a podem libertar sem arriscarem a pr�pria destrui��o. Temos de nos preparar para o pior.</p><p>� O que posso fazer?</p><p>� Essas pessoas o conhecem de vista?</p><p>� N�o.</p><p>� � poss�vel que ele v� a outra loja de penhores no futuro. Nesse caso, precisamos come�ar de novo. Por outro lado, ele obteve bom pre�o e n�o lhe fizeram perguntas, de modo que, se estiver precisando de dinheiro, provavelmente vai voltar a Bovington. Vou lhe dar um cart�o de apresenta��o e eles permitir�o que fique na loja. Se o sujeito aparecer, dever� segui-lo. Mas sem indiscri��es e, sobretudo, nada de viol�ncia. Espero que o senhor n�o fa�a nada sem meu conhecimento e consentimento.</p><p>Durante dois dias o sr. Philip Green n�o nos deu not�cias (ele era, devo dizer, filho do famoso almirante do mesmo nome, comandante da esquadra do mar de Azof, na Guerra da Crim�ia).</p><p>Na noite do terceiro dia ele entrou correndo em nossa sala, p�lido, com todos os m�sculos do corpo possante vibrando de emo��o.</p><p>� N�s o pegamos! N�s o pegamos! � gritava.</p><p>Estava incoerente em sua agita��o; Holmes o acalmou com algumas palavras e f�-lo sentar-se numa poltrona.</p><p>� Calma, conte-nos os fatos pela ordem.</p><p>� Uma hora atr�s ela apareceu. Foi a mulher desta vez, e o pingente que trazia faz par com o anterior. � uma mulher alta, de pele clara, com olhos de um fur�o.</p><p>� � ela � disse Holmes.</p><p>� Quando ela saiu da loja, eu a segui. Andou at� Kennington Road e eu fiquei atr�s dela. Depois entrou em uma loja. Sr. Holmes, era uma funer�ria!</p><p>� Sim? � perguntou Holmes, numa voz vibrante que mostrava a alma impetuosa por tr�s do rosto impass�vel.</p><p>� Ela estava conversando com uma mulher atr�s do balc�o. Eu tamb�m entrei. �� tarde�, eu a ouvi dizer, ou qualquer coisa parecida. A atendente estava pedindo desculpas: �J� devia estar l� a esta altura�, respondeu. �Demorou mais por ser fora do comum�. As duas pararam de falar e me encararam. Fiz uma pergunta qualquer e sa�.</p><p>� O senhor fez muito bem. E a�, o que aconteceu?</p><p>� Quando a mulher saiu, eu estava escondido em um portal. Eu acho que ela j� estava desconfiada, porque olhou em volta. Tomou um t�xi. Tive a sorte de conseguir outro e a segui. Mais tarde ela desceu em frente ao n�mero 36 da Poultney Square, em Brixton. Passei direto, deixei o t�xi na esquina da pra�a e fiquei vigiando a casa.</p><p>� Viu algu�m?</p><p>� Todas as janelas estavam escuras, com exce��o de uma. A cortina estava descida e n�o consegui ver dentro da casa. Eu estava l�, de p�, pensando no que faria em seguida, quando chegou uma carro�a fechada com dois homens. Eles desceram, tiraram alguma coisa da carro�a e a levaram escada acima, at� a porta de entrada. Sr. Holmes, era um caix�o!</p><p>� Ah!</p><p>� Por um segundo eu estive a ponto de invadir a casa. A porta estava aberta para que eles passassem com a encomenda. Foi a pr�pria mulher que a abriu. E eu continuei l�, ela me viu e creio que me reconheceu. Vi que ela estremeceu e fechou rapidamente a porta. Lembrei-me de sua recomenda��o e aqui estou.</p><p>� Fez um belo trabalho � disse Holmes, escrevendo alguma coisa numa folha de papel. � N�o podemos fazer nada legal sem um mandado, e o senhor pode ajudar levando este bilhete �s autoridades e conseguindo um. Pode haver alguma dificuldade, mas eu creio que a venda das j�ias seja suficiente. Lestrade cuidar� de todos os detalhes.</p><p>� Mas eles podem mat�-la nesse meio-tempo. O que significa o caix�o e para quem �, a n�o ser para ela?</p><p>� Vamos fazer tudo o que for poss�vel, sr. Green. N�o perderemos um minuto sequer. Deixe o caso em nossas m�os. E agora, Watson � ele acrescentou, depois que o visitante saiu �, ele far� a pol�cia entrar em a��o. Como sempre, n�s somos as for�as irregulares e temos de seguir nossa linha de a��o. A situa��o me parece t�o desesperadora que qualquer medida extrema se justifica. N�o podemos perder tempo; temos de ir a Poultney Square.</p><p>� Vamos tentar reconstituir a situa��o � disse Holmes enquanto pass�vamos rapidamente pelo edif�cio do Parlamento e entr�vamos na Westminster Bridge. � Esses vigaristas atra�ram a pobre mulher a Londres, depois de a livrarem da empregada fiel. Se ela tivesse escrito alguma carta, teria sido interceptada. Arranjaram alguma casa mobiliada, provavelmente por interm�dio de algum c�mplice. Depois de estabelecidos, fizeram-na prisioneira e se apossaram das j�ias preciosas, objetivo da vigarice desde o in�cio. J� come�aram a vender a fortuna, o que lhes deve parecer seguro a esta altura, pois n�o h� motivo para eles acharem que algu�m se interesse pelo destino de lady Frances Carfax. Se ela fosse libertada, naturalmente os denunciaria. Assim sendo, n�o pode ser libertada. Mas, ao mesmo tempo, n�o podem mant�-la cativa para sempre. Mat�-la � a �nica sa�da.</p><p>� Isto me parece l�gico.</p><p>� Vamos ver agora outra linha de racioc�nio. Quando seguimos duas linhas distintas de pensamento, Watson, acabamos encontrando um ponto qualquer de liga��o que leva � verdade. Vamos come�ar agora n�o da mulher, mas do caix�o, e da� para tr�s. O fato mostra, sem d�vida, que ela est� morta. Indica tamb�m um funeral ortodoxo, com atestado de �bito e os documentos legais. Se eles a tivessem assassinado, iriam enterr�-la num buraco no quintal. Mas, neste caso, tudo est� sendo feito �s claras e de maneira normal. O que significa isso? Certamente eles deram um jeito de ela morrer de uma maneira que enganaria o m�dico,� e simularam uma morte natural � envenenamento, talvez. Mesmo assim me parece estranho que tenham permitido que um m�dico se aproximasse dela, a menos que ele tamb�m fosse um c�mplice, mas � dif�cil acreditar nisso.</p><p>� Mas eles n�o poderiam falsificar um atestado de �bito?</p><p>� � perigoso, Watson, muito perigoso. N�o, n�o acho que eles fariam isso. Pare, cocheiro! Evidentemente aqui � a casa funer�ria, porque acabamos de passar pela loja de penhores. Voc� quer entrar, Watson? Sua apar�ncia inspira confian�a. Pergunte a que horas ser� o enterro de Poultney Square amanh�.</p><p>A mulher da funer�ria respondeu sem hesitar que seria �s oito horas.</p><p>� Est� vendo, Watson, n�o h� mist�rio; tudo �s claras! De algum modo os procedimentos legais foram cumpridos, e eles acham que n�o t�m o que temer. Bem, nada mais resta a n�o ser um ataque direto. Est� armado?</p><p>� Minha bengala!</p><p>� Bem, bem, seremos suficientemente fortes. �Tr�s vezes est� armado quem luta por uma causa justa�. Simplesmente n�o podemos nos dar ao luxo de aguardar a pol�cia ou ficar nos limites da lei. Pode ir embora, cocheiro. E agora, Watson, vamos confiar na nossa sorte, como j� fizemos algumas vezes antes.</p><p>Ele bateu com for�a na porta de uma casa escura e grande, no centro de Poultney Square. Ela foi aberta imediatamente e a silhueta de uma mulher alta apareceu � luz fraca do vest�bulo.</p><p>� Sim, o que desejam? � perguntou rispidamente, espiando-nos na escurid�o.</p><p>� Quero falar com o dr. Shlessinger! � respondeu Holmes.</p><p>� N�o h� ningu�m aqui com este nome � ela disse, tentando fechar a porta; mas Holmes a impediu, colocando o p�.</p><p>� Bem, quero conversar com o homem que mora aqui, seja l� qual for o seu nome � ele insistiu.</p><p>Ela hesitou. Depois abriu a porta.</p><p>� Bem, entrem. Meu marido n�o tem medo de enfrentar nenhum homem no mundo.</p><p>Fechou a porta e nos conduziu a uma sala � direita da entrada, acendendo o lampi�o antes de sair. O sr. Peters estar� aqui num minuto � disse.</p><p>Ela dissera a verdade porque mal t�nhamos tido tempo de dar uma olhada no lugar poeirento e cheio de tra�as em que est�vamos quando uma porta se abriu e um homem alto, rosto bem barbeado e careca entrou silenciosamente na sala. Tinha uma cara redonda e vermelha, bochechas ca�das e um ar de benevol�ncia superficial, contrastando com uma boca que sugeria crueldade.</p><p>� Com certeza deve haver algum engano aqui, cavalheiros � ele disse, numa voz untuosa e sol�cita. � Receio que os senhores tenham se enganado de endere�o. Talvez se tentarem a casa vizinha...</p><p>� Chega, n�o temos tempo a perder � disse Holmes com firmeza. � O senhor � Henry Peters, de Adelaide, ultimamente conhecido como o reverendo dr. Shlessinger, de Baden e da Am�rica do Sul. Tenho tanta certeza disso como de que meu nome � Sherlock Holmes.</p><p>Peters, como o chamarei daqui para a frente, tremeu e encarou seu poderoso advers�rio.</p><p>� Acho que seu nome n�o me atemoriza, sr. Holmes � ele disse com frieza. � Quando um homem tem a consci�ncia tranq�ila, n�o h� o que temer. O que o traz � minha casa?</p><p>� Quero saber o que o senhor fez com lady Frances Carfax, que trouxe de Baden.</p><p>� Eu ficaria contente se o senhor pudesse me dizer onde est� essa senhora � respondeu Peter com frieza. � Tenho uma conta a acertar com ela de quase 100 libras e nada como garantia a n�o ser um par de pingentes falsos que um negociante nem sequer olharia. Ela se ligou � minha mulher e a mim em Baden � � verdade que eu usava outro nome na ocasi�o � e ficou grudada em n�s at� virmos para Londres. Paguei as despesas e a passagem dela. Depois que chegamos aqui ela sumiu e, como eu disse, deixou como pagamento essas j�ias antiquadas. Encontre-a, sr. Holmes, e eu ficarei grato.</p><p>� Eu quero encontr�-la mesmo! � disse Sherlock Holmes. � Vou vasculhar esta casa at� ach�-la.</p><p>� Onde est� seu mandado?</p><p>Holmes mostrou um rev�lver no bolso.</p><p>� Isto vai servir at� que chegue um.</p><p>� Ora, ent�o o senhor � um ladr�o comum.</p><p>� Pode me descrever assim � respondeu Holmes jovialmente. � Meu companheiro tamb�m � um bandido perigoso. E juntos n�s vamos examinar sua casa.</p><p>O homem abriu a porta.</p><p>� Chame a pol�cia, Annie! � gritou.</p><p>Ouvimos o farfalhar de um vestido no corredor e a porta da frente sendo aberta e fechada.</p><p>� Nosso tempo � curto, Watson � disse Holmes. � Se tentar nos impedir, Peters, vai se machucar. Onde est� aquele caix�o que foi trazido para c�?</p><p>� O que quer com ele? Est� ocupado. H� um corpo dentro dele.</p><p>� Preciso ver esse corpo.</p><p>� N�o permitirei.</p><p>� Ent�o ser� sem a sua permiss�o.</p><p>Com um movimento r�pido, Holmes empurrou o sujeito para o lado e entrou no vest�bulo. Diante de n�s havia uma porta semi-aberta. Entramos. Era a copa. Na mesa, sob um candelabro, havia um caix�o. Holmes aumentou a luz do ambiente e abriu a tampa. L� no fundo estava uma figura magrinha. � luz do candelabro vimos um rosto velho e enrugado. Nenhum processo de crueldade, fome ou doen�a poderia transformar o rosto ainda belo de lady Frances Carfax naquela ru�na. O rosto de Holmes mostrou espanto e al�vio.</p><p>� Gra�as a Deus! � murmurou. � � outra pessoa.</p><p>� Ah, o senhor se deu mal pelo menos uma vez, sr. Holmes � disse Peters, que entrara na copa atr�s de n�s.</p><p>� Quem � esta morta?</p><p>� Bem, se quer mesmo saber, � a velha ama de minha mulher, Rose Spender, que encontramos no Asilo de Brixton. N�s a trouxemos para c�, chamamos o dr. Horsom, de Firbank Villas, 13 � se quer saber o endere�o � e tratamos dela, como bons crist�os. Ela morreu no terceiro dia � o atestado de �bito diz senilidade � mas essa � apenas a opini�o do m�dico, e naturalmente o senhor sabe mais. Contratamos os servi�os funer�rios de Stimson and Co., de Kennington Road, que a enterrar� amanh�, �s oito horas. Alguma coisa ilegal nisso tudo, sr. Holmes? Cometeu um erro infantil, e a culpa � toda sua. Daria tudo por uma fotografia de sua cara embasbacada quando abriu o caix�o, esperando encontrar lady Frances Carfax e achando somente uma pobre velha de 90 anos.</p><p>A express�o de Holmes estava impass�vel como sempre diante do sarcasmo de seu advers�rio, mas suas m�os crispadas revelavam seu aborrecimento.</p><p>� Vou vasculhar a casa � disse.</p><p>� Chegaram, finalmente! � exclamou Peters, quando a voz da mulher e passos r�pidos soaram no corredor. � Vamos ver isso. Por aqui, senhores policiais, por favor. Estes dois homens entraram � for�a na minha casa e n�o consigo me livrar deles. Ajudem-me a p�-los para fora.</p><p>No corredor estavam um sargento e um soldado. Holmes tirou seu cart�o do bolso.</p><p>� Este � meu nome e o endere�o. Este aqui � o meu amigo dr. Watson.</p><p>� Ora, n�s o conhecemos muito bem � disse o sargento �, mas o senhor n�o pode ficar aqui sem um mandado.</p><p>� Claro que n�o. Sei perfeitamente disso.</p><p>� Prenda-o! � gritou Peters.</p><p>� Sabemos onde encontrar este cavalheiro se for preciso � disse o sargento num tom solene. � Mas o senhor tem de sair, sr. Holmes.</p><p>Um minuto depois est�vamos novamente na rua. Holmes se mostrava calmo como sempre, mas eu estava fervendo de raiva e humilha��o. O sargento nos havia acompanhado.</p><p>� Lamento muito, sr. Holmes, mas � a lei.</p><p>� Claro, sargento, o senhor n�o poderia agir de outra forma.</p><p>� Espero que haja um bom motivo para sua presen�a l�. Se h� qualquer coisa que eu possa fazer...</p><p>� H� uma senhora desaparecida, sargento, e acreditamos que ela esteja naquela casa. Estou aguardando um mandado.</p><p>� Ent�o vou ficar vigiando, sr. Holmes. Se acontecer qualquer coisa, eu lhe comunicarei.</p><p>Eram apenas 21 horas e n�s continuamos com nossas investiga��es. Primeiro fomos ao Asilo de Brixton, onde descobrimos que realmente um casal caridoso havia aparecido alguns dias antes e levara uma velha, antiga criada, depois de obter autoriza��o legal para isso. Ningu�m ficou surpreso com a not�cia da morte da mulher. O m�dico foi nosso passo seguinte. Ele fora chamado e constatara que a velha estava morrendo de velhice. Na verdade, viu-a morrer e assinou o atestado de �bito.</p><p>� Garanto a voc�s que tudo foi perfeitamente legal e n�o havia nada de estranho no caso � disse ele.</p><p>Ele n�o vira nada de suspeito na casa, a n�o ser o fato curioso de que gente daquela classe n�o tivesse criados. Foi tudo o que p�de nos dizer.</p><p>Finalmente fomos � Scotland Yard. Houve algumas dificuldades em rela��o ao mandado. A demora era inevit�vel. A assinatura do juiz s� poderia ser conseguida na manh� seguinte. Se Holmes aparecesse ali pelas nove horas, poderia ir com Lestrade e tudo seria providenciado. Assim terminou o nosso dia, mas por volta da meia-noite nosso amigo sargento apareceu para dizer que vira luzes nas janelas da casa, mas ningu�m entrara ou sa�ra. S� pod�amos ter paci�ncia e esperar pela manh�.</p><p>Sherlock Holmes estava muito irritado para conversar e muito inquieto para dormir. Deixei-o fumando, com as espessas sobrancelhas negras contra�das e os dedos longos e nervosos tamborilando nos bra�os da poltrona, enquanto tentava vislumbrar alguma solu��o poss�vel para o caso. Escutei-o andando pela casa v�rias vezes durante a madrugada. Finalmente, logo depois que acordei de manh�, ele entrou apressado no meu quarto. Ainda vestia o roup�o, mas suas olheiras profundas e seu rosto p�lido me mostraram que havia passado a noite em claro.</p><p>� A que horas era o enterro? Oito, n�o? � perguntou ansioso. � Bem, j� s�o 7:20h. Puxa, Watson, o que aconteceu com a intelig�ncia que Deus me deu? Depressa, homem, depressa! � quest�o de vida ou morte, 99% de morte e apenas 1% de vida. Jamais me perdoarei se for tarde demais!</p><p>Cinco minutos depois j� est�vamos voando numa carruagem pela Baker Street. J� eram 7:35h quando passamos pelo Big Ben, e �s oito horas entramos na Brixton Road. Mas os outros estavam t�o atrasados quanto n�s. Dez minutos depois, o carro f�nebre ainda se encontrava parado diante da porta da casa, e quando nosso cavalo parou, arquejante, surgiu o caix�o, levado por tr�s homens. Holmes se adiantou e impediu a passagem.</p><p>� Levem isto de volta! � gritou, pondo a m�o no peito do homem que se achava � frente. � Levem isto de volta imediatamente.</p><p>� Mas que diabo significa isso? Vou lhe perguntar de novo: onde est� o mandado? � explodiu Peters, furioso, com o rosto vermelho brilhando do outro lado do caix�o.</p><p>� O mandado est� a caminho. O caix�o deve ficar na casa at� que ele chegue.</p><p>A autoridade na voz de Holmes surtiu efeito nos carregadores. Peters desapareceu de repente dentro da casa e os outros obedeceram �s ordens.</p><p>� Depressa, Watson, depressa! Aqui est� uma chave de fenda � gritou Holmes, depois que colocaram o caix�o sobre a mesa. Aqui est� outra chave para voc�, meu rapaz! Dou-lhe um soberano se tirar a tampa depressa. N�o fa�a perguntas � m�os � obra! �timo! Mais uma vez! De novo! Agora vamos puxar juntos! Est� funcionando! Ah, finalmente!</p><p>Com um esfor�o conjunto puxamos a tampa do caix�o e imediatamente sentimos um cheiro forte e estonteante de clorof�rmio. Dentro, um corpo com a cabe�a envolvida em algod�o embebido no narc�tico. Rapidamente Holmes arrancou tudo e surgiu o rosto inerte e de uma bela mulher de meia-idade. Ele passou os bra�os em volta da mulher, fazendo-a ficar em posi��o sentada.</p><p>� Est� morta, Watson? Ainda respira? Ser� que chegamos tarde demais?</p><p>Durante meia hora tivemos a impress�o de que era tarde demais. Parecia que lady Frances n�o resistira � sufoca��o e � emana��o venenosa do clorof�rmio. Mas depois, finalmente, com respira��o artificial, com todos os recursos dispon�veis, com inje��es de �ter, uma vibra��o de vida, alguns tremores nas p�lpebras, o emba�amento de um espelho, mostraram o lento retorno � vida.</p><p>Pela janela Holmes viu um coche se aproximando.</p><p>� A� est� Lestrade com o mandado. Vai ver que os p�ssaros j� fugiram. E aqui � acrescentou, ao ouvir passos apressados no corredor � est� algu�m que tem mais direito de cuidar desta senhora do que n�s. Bom-dia, sr. Green. Creio que ser� melhor remov�-la o quanto antes. Nesse meio-tempo, o enterro pode prosseguir e a pobre velha que ainda est� no caix�o pode seguir para sua �ltima morada sozinha.</p><p>� Voc� deve acrescentar este caso � sua cole��o, meu caro Watson � disse Holmes, � noite. � � um exemplo de eclipse tempor�rio que acomete at� mesmo as mentes mais equilibradas. Esses deslizes s�o comuns para a maioria dos mortais, e grande ser� aquele capaz de reconhec�-los e san�-los. Quero crer que tenho direito a isso. Passei a noite inteira dando tratos � bola, pensando que uma pista em algum lugar, uma frase solta, uma observa��o curiosa tivessem chegado ao meu conhecimento e eu as tivesse descartado com facilidade. Ent�o, de repente, com as primeiras luzes da manh�, as palavras surgiram � minha frente. Foi a frase da mulher da casa funer�ria, contada por Philip Green. Ele a ouviu dizer: �J� devia estar l� a esta altura. Demorou mais por ser fora do comum�. Ela estava falando do caix�o. Ele era fora do comum. S� podia significar que ele fora feito com medidas especiais. Mas, por qu�? Por qu�? Num segundo lembrei-me do tamanho do caix�o e da pequena forma no fundo. Por que um caix�o t�o grande para um corpo t�o pequeno? Era para deixar espa�o para outro corpo. Os dois corpos seriam enterrados com um s� atestado de �bito. Tudo era t�o claro, apenas eu n�o conseguira enxergar. Lady Frances seria enterrada �s oito horas. Nossa �nica chance era impedir que o caix�o sa�sse da casa. Havia uma possibilidade remota de n�s a encontrarmos com vida, mas ainda assim era uma possibilidade, como o resultado mostrou. Aqueles vigaristas jamais cometeram um assassinato, pelo que sei. Evitariam qualquer viol�ncia at� o fim. Poderiam enterr�-la sem nenhum sinal do modo como morrera, e mesmo que fosse exumada, eles ainda teriam uma chance. Minha esperan�a era que eles tivessem agido dessa forma. Voc� pode reconstituir a cena muito bem. Voc� viu o cub�culo horr�vel onde ela ficou presa tanto tempo. Eles entraram e a dominaram com o clorof�rmio, trouxeram-na para baixo, puseram mais clorof�rmio no caix�o para impedir que ela despertasse e aparafusaram a tampa. Engenhoso, Watson. Isto � novo para mim nos anais do crime. Se nosso ex-mission�rio e a mulher escaparem das garras de Lestrade, tenho certeza de que ainda vou ouvir falar de outros casos brilhantes na carreira futura deles.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o caso do p� do diabo</strong></p><p>� curiosas e recorda��es interessantes ligadas � minha longa e �ntima amizade com Sherlock Holmes, enfrento dificuldades por causa de sua avers�o � publicidade. Seu esp�rito c�nico sempre foi avesso a qualquer aplauso popular, e nada o divertia mais, ao fim de um caso em que tivesse obtido sucesso, do que transferir o m�rito a um policial ortodoxo e ouvir, com um sorriso sarc�stico, o coro de parab�ns para a pessoa errada. Foi, na verdade, por causa desta atitude de meu amigo, e, evidentemente, n�o por falta de material interessante, que nos �ltimos anos eu apresentei ao p�blico uma parte pequena dos meus registros. Minha participa��o em algumas de suas aventuras sempre foi um privil�gio que me impunha discri��o e sil�ncio. Foi, portanto, com grande surpresa que recebi um telegrama de Holmes na �ltima ter�a-feira � ele nunca escreve uma carta quando basta um telegrama � nos seguintes termos:</p><empty-line/><p>�Por que n�o publicar o caso de Cornish - um dos mais estranhos que j� enfrentei?</p><empty-line/><p>N�o sei que fato fez com que ele se lembrasse do caso, ou que capricho motivou seu desejo de que eu o contasse; mas, antes que chegasse outro telegrama cancelando o primeiro, eu me apressei em coligir as anota��es que relatavam o caso com detalhes precisos para apresent�-lo aos meus leitores.</p><p>Foi, ent�o, na primavera de 1897 que a sa�de f�rrea de Holmes come�ou a mostrar alguns sinais de estafa por causa do trabalho constante e duro, agravada, talvez, por sua pr�pria imprud�ncia. Em mar�o daquele ano, o dr. Moore Agar, de Harley Street (cuja dram�tica apresenta��o a Holmes talvez eu conte um dia), deu ordens expressas para que o famoso detetive particular deixasse de lado todos os seus casos e se entregasse a um descanso absoluto, se quisesse evitar um colapso total.</p><p>O estado de sua sa�de era um assunto pelo qual o pr�prio Holmes n�o tinha o m�nimo interesse, j� que seu desprendimento mental era absoluto, mas, finalmente, foi convencido, diante da amea�a de ficar permanentemente inutilizado para o trabalho, a fazer uma mudan�a completa de cen�rio e de ares. Foi assim que, no in�cio da primavera daquele ano, partimos juntos para um pequeno chal�, perto de Poldhu Bay, no ponto extremo da pen�nsula de Cornish.</p><p>Era um ambiente diferente e especialmente adequado ao estado de esp�rito sombrio do meu paciente. Das janelas de nossa pequena casa caiada no alto de um morro coberto de relva, v�amos todo o sinistro semic�rculo Mounts Bay, antiga armadilha para veleiros com sua borda de precip�cios negros e recifes perigosos, nos quais incont�veis homens do mar haviam morrido. A ba�a parecia pl�cida e protegida, com uma brisa do norte, um convite a embarca��es castigadas por tormentas para que entrassem � procura de descanso e prote��o. Ent�o vinha o zumbido do vento, lufadas do sudoeste, arrastando �ncoras, a praia surgindo e a �ltima batalha nos rochedos espumantes. Os navegadores mais experientes se mant�m distantes desse lugar infernal.</p><p>No lado da terra a paisagem ao nosso redor era t�o sombria quanto a do mar. Era uma regi�o de p�ntanos ondulados, isolada e parda, com uma ou outra torre de igreja para indicar a exist�ncia de algum vilarejo naquele fim de mundo. Em todas as dire��es havia sinais de alguma ra�a desaparecida, que tivesse se extinguido e deixado como lembran�a estranhos monumentos de pedra, l�pides irregulares que continham as cinzas carbonizadas dos antepassados e curiosos trabalhos de cer�mica que indicavam um passado pr�-hist�rico. O encanto e mist�rio do lugar, com seu ar sinistro de civiliza��es desaparecidas, eram um desafio � imagina��o de meu amigo, que passava a maior parte do tempo em caminhadas e medita��es solit�rias pelos arredores. O linguajar arcaico de Cornish tamb�m lhe chamara a aten��o, pelo fato de que era origin�rio dos caldeus e em grande parte derivado dos mercadores fen�cios de estanho. Recebeu uma cole��o de livros de filologia e estava se dedicando ao desenvolvimento de uma tese quando de repente, para tristeza minha e desenfreada alegria dele, vimo-nos, at� mesmo ali, mergulhados num problema na nossa porta, que era mais forte, perigoso e infinitamente mais misterioso do que qualquer um dos que nos afastaram de Londres. Nossa vida, simples e pacata, e a saud�vel rotina foram subitamente interrompidas e fomos jogados no meio de um acontecimento que causou emo��o n�o s� em Cornwall mas tamb�m em todo o oeste da Inglaterra. Muitos de meus leitores devem ter alguma lembran�a do que, na �poca, foi chamado de �O Terror de Cornish�, embora a imprensa londrina tenha recebido um relato bastante incompleto. Agora, passados 13 anos, vou contar ao p�blico os verdadeiros detalhes deste caso inconceb�vel.</p><p>Eu disse que torres espalhadas indicavam os vilarejos que pontilhavam esta regi�o de Cornwall. O mais pr�ximo era o povoado de Tredannick Wollas, onde os chal�s de duas centenas de habitantes se agrupavam em torno de uma igreja antiga e cheia de limo. O vig�rio do lugar, sr. Roundhay, gostava de arqueologia, e Holmes fizera amizade com ele por causa disso. Homem de meia-idade, af�vel</p><empty-line/><p>
  e educado, conhecia bem os fatos locais. Uma vez tomamos ch� na par�quia, a convite dele, e assim ficamos conhecendo tamb�m o sr. Mortimer Tregennis, um cavalheiro independente, que ajudava a aumentar os parcos recursos do cl�rigo alugando um quarto em sua casa grande e afastada. Sendo solteiro, o vig�rio ficou contente com isso, embora tivesse pouco em comum com seu inquilino, homem magro, moreno, de �culos, com um andar que dava a impress�o de uma deformidade f�sica. Lembro-me de que durante nossa r�pida visita o vig�rio estava loquaz, mas o outro ficou estranhamente reticente, introspectivo, com um ar infeliz, sentado com os olhos baixos, aparentemente mergulhado nos pr�prios pensamentos.</p><p>Foram estes dois homens que entraram subitamente na nossa acanhada sala de visitas, no dia 16 de mar�o, uma ter�a-feira, logo ap�s o caf�-da-manh�, quando est�vamos sentados e fumando, preparando-nos para nossa excurs�o di�ria pelos arredores.</p><p>� Sr. Holmes � disse o vig�rio com a voz agitada � aconteceu um caso extraordin�rio e tr�gico esta noite. Nunca ouvi falar num neg�cio assim. S� podemos agradecer � Provid�ncia o fato de o senhor estar aqui agora porque, em toda a Inglaterra, � o homem de que mais precisamos.</p><p>Lancei ao vig�rio intruso um olhar pouco amistoso; mas Holmes endireitou-se na cadeira, tirou o cachimbo dos l�bios, atento como um velho c�o de ca�a ao ouvir as trombetas...</p><p>Indicou o sof� ao nervoso visitante, que se sentou ao lado de seu agitado companheiro. O sr. Mortimer Tregennis estava mais controlado do que o cl�rigo, mas suas m�os crispadas e o brilho nos olhos escuros mostravam que estava t�o emocionado quanto o outro.</p><p>� Falo eu ou o senhor? � ele perguntou ao p�roco.</p><p>� Bem, como foi o senhor que fez a descoberta � seja l� o que for � e o senhor vig�rio ficou sabendo de modo indireto, talvez seja melhor que o senhor conte � disse Holmes.</p><p>Olhei para o vig�rio vestido com simplicidade e para seu companheiro em traje formal sentado a seu lado, e me diverti com a surpresa que ambos demonstraram com a simples dedu��o de Sherlock Holmes.</p><p>� Talvez seja melhor eu dizer antes algumas palavras � adiantou-se o vig�rio � e ent�o o senhor decidir� se quer ouvir os detalhes do sr. Tregennis ou se deveremos ir imediatamente at� o local deste acontecimento misterioso. Devo dizer que nosso amigo aqui passou a �ltima noite na companhia de seus dois irm�os, Owen e George, e da irm� Brenda, na casa deles em Tredannick Wartha, perto da velha cruz de pedra. Ele os deixou pouco depois das dez da noite, e eles ficaram jogando cartas na mesa da sala de jantar, em perfeitas condi��es f�sicas e mentais. Esta manh�, como tem o costume de levantar-se cedo, antes de tomar seu caf� ele saiu andando naquela dire��o e foi alcan�ado pela charrete do dr. Richards, que disse ter sido chamado com urg�ncia a Tredannick Wartha. O sr. Mortimer Tregennis foi com ele. Quando chegaram a Tredannick Wartha, depararam com uma situa��o extraordin�ria. Os dois irm�os e a irm� dele estavam sentados � mesa exatamente como ele os tinha deixado, com as cartas ainda espalhadas na mesa e as velas queimadas at� o fim. A irm� estava r�gida e morta na cadeira, enquanto os dois irm�os, um de cada lado dela, estavam rindo, gritando e cantando, completamente fora de si. Todos os tr�s, a mulher morta e os dois loucos, ainda tinham nos rostos a express�o de um terror mortal, horr�vel de se ver. Na casa n�o havia sinal da presen�a de ningu�m, exceto a sra. Porter, velha caseira e cozinheira, que afirmou que dormira profundamente e nada ouvira durante a noite. Nada fora roubado ou desarrumado, e n�o h� nenhuma explica��o sobre o que pode ter apavorado tanto a mulher a ponto de mat�-la e deixar dois homens fortes perderem o ju�zo. Esta � a situa��o, sr. Holmes, em resumo, e se o senhor puder nos ajudar a esclarec�-la, ter� feito um grande trabalho.</p><p>Eu esperava, de algum modo, convencer meu amigo a continuar no repouso que era o objetivo de nossa viagem; mas uma olhada para o seu rosto atento e para sobrancelhas contra�das me disse que minha esperan�a era in�til. Ficou em sil�ncio durante algum tempo, pensando no estranho drama que viera interromper nossa paz.</p><p>� Cuidarei do caso � disse Holmes, finalmente. � Diante do que foi exposto, parece ser um caso de natureza excepcional. O senhor esteve l�, reverendo Roundhay?</p><p>� N�o, sr. Holmes. O sr. Tregennis levou a not�cia at� a par�quia e eu vim correndo consult�-lo.</p><p>� A que dist�ncia fica a casa onde ocorreu a trag�dia?</p><p>� Mais ou menos a 1,5 quil�metro.</p><p>� Ent�o iremos juntos at� l�. Mas, antes de irmos, tenho algumas perguntas a lhe fazer, sr. Mortimer.</p><p>O outro estivera em sil�ncio o tempo todo, mas eu notara que sua agita��o controlada era ainda mais forte do que a do vig�rio. Ficara sentado, com o rosto p�lido e abatido, os olhos ansiosos fixos em Holmes e as duas m�os magras se contorcendo, nervosas. Seus l�bios tremiam enquanto ouvia a trag�dia que se abatera sobre sua fam�lia e seus olhos escuros pareciam ainda refletir um pouco do horror do espet�culo.</p><p>� Pergunte o que quiser, sr. Holmes � respondeu, ansioso. � � horr�vel falar a respeito disso, mas responderei com a verdade.</p><p>� Fale-me a respeito da noite passada.</p><p>� Bem, sr. Holmes, eu jantei l�, como disse o vig�rio, e meu irm�o mais velho, George, convidou-me para um jogo de u�ste logo depois. Eram umas nove horas quando come�amos. �s 22:45h eu sa�. Eu os deixei em volta da mesa, t�o contentes como sempre.</p><p>� Quem o acompanhou at� a porta?</p><p>� A sra. Porter j� se deitara, de modo que sa� sozinho. Fechei a porta atr�s de mim. A janela do c�modo onde eles ficaram tamb�m estava fechada, mas a cortina estava aberta. Hoje de manh� a porta e a janela estavam do mesmo jeito, e n�o havia motivo para pensar que algum estranho tenha estado na casa. E mesmo assim l� estavam eles, doidos varridos, e Brenda morta pelo medo, com a cabe�a inclinada sobre o bra�o da cadeira. Nunca mais vou me esquecer da vis�o daquele quarto pelo resto de minha vida.</p><p>� Os fatos, como o senhor os descreve, s�o extraordin�rios � disse Holmes. � O senhor n�o tem nenhuma id�ia do que possa ter ocorrido com eles?</p><p>� � diab�lico, sr. Holmes, � diab�lico! � exclamou o sr. Mortimer. � N�o � coisa deste mundo. Alguma coisa entrou naquela sala e apagou a luz da raz�o da mente deles. Que maldade humana poderia fazer isso?</p><p>� Receio que, se o assunto n�o for de natureza humana, estar� al�m do meu alcance. Mesmo assim devemos verificar todas as explica��es naturais antes de aceitarmos uma teoria deste tipo. Quanto ao senhor, imagino que por algum motivo estivesse afastado do resto de sua fam�lia, j� que eles moravam juntos e o senhor tem seus pr�prios aposentos.</p><p>� � verdade, sr. Holmes, mas o assunto pertence ao passado e est� enterrado. �ramos uma fam�lia de mineiros de estanho em Redruth, mas vendemos nossa mina a uma companhia e nos aposentamos com o suficiente para o nosso sustento. N�o nego que houve um certo desentendimento quanto � partilha do dinheiro, e isso nos manteve afastados durante algum tempo, mas depois tudo foi esquecido e perdoado, e �ramos bons amigos.</p><p>� Voltando � noite de ontem, quando esteve com eles, lembra-se de alguma coisa que possa esclarecer um pouco esta trag�dia? Pense bem, sr. Tregennis, porque qualquer pista pode me ajudar.</p><p>� N�o me lembro de absolutamente nada, senhor.</p><p>� Seu pessoal estava no estado de esp�rito normal?</p><p>� Nunca vi melhor.</p><p>� Eram pessoas nervosas? Demonstraram alguma vez medo de um perigo iminente?</p><p>� Nada desse tipo.</p><p>� Ent�o n�o tem nada a acrescentar que possa me orientar?</p><p>O sr. Mortimer pensou um pouco.</p><p>� Uma coisa me ocorre agora � disse, finalmente. Quando n�s est�vamos sentados � mesa, fiquei de costas para a janela e George, meu irm�o e parceiro no jogo, estava sentado de frente para ela. Em certo momento eu o vi olhar fixamente sobre meus ombros, tanto que eu tamb�m me virei para olhar. A cortina estava levantada, mas a janela fechada, e mesmo assim pude notar os arbustos do jardim e por um segundo tive a impress�o de ver alguma coisa se movendo ali. N�o pude dizer se era uma pessoa ou um animal, mas eu senti que havia qualquer coisa l� fora. Quando perguntei a George o que ele estava olhando, ele me disse que tivera a mesma impress�o. E isso � tudo o que posso dizer.</p><p>� O senhor investigou?</p><p>� N�o; o caso nos pareceu sem import�ncia.</p><p>� Quando o senhor saiu, ent�o, eles n�o tinham nenhuma premoni��o diab�lica?</p><p>� Claro, nenhuma.</p><p>� N�o entendi direito como o senhor ficou sabendo da trag�dia t�o cedo.</p><p>� Sou um madrugador e geralmente dou um passeio antes do caf�. Eu mal tinha come�ado a andar hoje cedo quando a carruagem do m�dico me alcan�ou. Ele me disse que a velha sra. Porter tinha enviado um menino com uma mensagem urgente. Fui com ele. Quando chegamos l�, vimos aquela cena horrorosa. As velas e a lareira deviam ter se apagado muito tempo antes, e eles ficaram sentados ali, na escurid�o, at� que amanheceu. O m�dico disse que Brenda j� devia estar morta h� pelo menos seis horas. N�o havia sinais de viol�ncia. Ela simplesmente estava ca�da no bra�o da cadeira, com aquela express�o no rosto. George e Owen cantavam trechos de can��es e se contorciam como dois macacos. Oh, foi horr�vel ver aquilo! Eu n�o ag�entei e o m�dico estava branco feito cera. Na verdade, ele caiu numa cadeira, como que desmaiado, e quase morreu tamb�m!...</p><p>� Not�vel! Realmente not�vel! � disse Holmes, levantando-se e pegando o chap�u. � Acho que talvez seja melhor irmos logo para Tredannick Wartha. Confesso que raramente ouvi um caso que, � primeira vista, me parecesse um problema t�o fora do comum.</p><empty-line/><p>Nossas provid�ncias naquela primeira manh� n�o fizeram a investiga��o avan�ar muito. Mas, logo no in�cio, houve um fato que deixou em mim a mais sinistra das impress�es.</p><p>A estradinha que dava no local da trag�dia era estreita e cheia de curvas. Quando est�vamos indo para l�, ouvimos o barulho de uma carruagem vindo atr�s de n�s, e encostamos � beira do caminho para deix�-la passar. Quando passou por n�s, consegui ver na janela um rosto horr�vel e deformado, com um sorriso mal�volo, olhando para n�s. Aquele olhar fixo e os dentes num esgar perverso passaram rapidamente, como uma vis�o medonha.</p><p>� Meus irm�os � gemeu Mortimer Tregennis, com os l�bios brancos. � Eles os est�o levando para o Hosp�cio de Helston.</p><p>Olhamos com horror para a carruagem negra que desaparecia no caminho. Ent�o continuamos em dire��o � casa maldita na qual eles tiveram esse destino tr�gico.</p><p>Era uma resid�ncia grande e clara, mais uma vila do que um chal�, com um jardim grande que, naquela atmosfera de Cornish, j� estava cheio de flores da primavera.</p><p>L� estava a janela da sala que dava para o jardim e atrav�s dela, de acordo com Mortimer Tregennis, deve ter vindo o mal que, pelo simples horror, num instante arruinara o ju�zo de seus irm�os. Holmes andou lentamente pelos canteiros e pela alameda, pensativo, antes de entrarmos na casa.</p><p>Ele estava t�o absorto nos seus pensamentos que, eu me lembro, trope�ou num regador, derramando o conte�do e molhando nossos p�s e o caminho arenoso do jardim. Na casa, fomos atendidos pela velha empregada, sra. Porter, que, ajudada por uma criada jovem, cuidava das necessidades da fam�lia. Respondeu prontamente �s perguntas de Holmes. N�o ouvira nada durante a noite. Seus patr�es estavam em excelente estado de esp�rito nos �ltimos tempos, e ela nunca os vira mais alegres e satisfeitos. De manh�, ao entrar na sala, desmaiara, horrorizada ao ver o quadro medonho em volta da mesa. Quando recobrou os sentidos, abriu a janela para deixar entrar o ar fresco da manh�, saiu pela estrada e mandou um rapaz que trabalha numa fazenda chamar o m�dico. A morta estava na cama dela, no segundo andar, caso quis�ssemos v�-la. Foram necess�rios quatro homens fortes para colocar os dois irm�os dementes no carro do hosp�cio. A velha criada n�o ficaria um dia a mais naquela casa e voltaria naquela mesma tarde para perto de sua fam�lia, em St. Ives.</p><p>Subimos as escadas e vimos a morta. A srta. Brenda Tregennis fora uma garota muito bonita, embora estivesse agora beirando a meia-idade. Seu rosto moreno, bem delineado, era bonito, mesmo depois de morta, mas ainda havia vest�gios da convuls�o de terror, sua �ltima emo��o humana. Fomos at� a sala de jantar, onde ocorrera a trag�dia. Na lareira ainda estavam as cinzas carbonizadas. Na mesa, os quatro candelabros e as velas totalmente consumidas, e as cartas de baralho ainda espalhadas. As cadeiras haviam sido encostadas nas paredes, mas as outras coisas estavam na mesma posi��o da noite anterior. Holmes andou pelo aposento, sentou-se nas v�rias cadeiras, colocando-as nas posi��es anteriores.</p><p>Do interior, verificou que parte do jardim era poss�vel ver da janela; examinou o ch�o, o teto e a lareira. Mas em nenhum momento vi no rosto dele o brilho repentino dos olhos e a contra��o dos l�bios que me teriam revelado que vira alguma luz naquela escurid�o absoluta.</p><p>� Por que uma lareira? � perguntou. � Eles sempre mantinham o fogo aceso nesta sala pequena, nas noites de primavera?</p><p>Mortimer Tregennis explicou que a noite estava fria e �mida. Por causa disso, eles acenderam a lareira depois que ele chegou.</p><p>� O que vai fazer agora, sr. Holmes? � ele perguntou.</p><p>Meu amigo sorriu e p�s a m�o no meu bra�o.</p><p>� Eu acho, Watson, que devo voltar a me envenenar com o fumo, coisa que voc� tem condenado t�o freq�entemente e com raz�o. Com sua permiss�o, cavalheiros, vamos voltar agora para o nosso chal�, porque eu acho que nenhuma novidade vai aparecer agora. Vou analisar os fatos, sr. Tregennis, e se me ocorrer algo, naturalmente comunicarei ao senhor e ao vig�rio. At� l�, desejo-lhes um bom dia.</p><p>Holmes quebrou seu longo sil�ncio muito tempo depois de termos voltado ao chal� de Poldhu. Sentara-se encolhido na sua poltrona, com o rosto magro e contemplativo envolto numa nuvem azul de seu cachimbo, as espessas sobrancelhas castanhas e a testa contra�das, os olhos vazios e distantes. Finalmente, deixou de lado o cachimbo e levantou-se.</p><p>� Assim n�o d�, Watson � disse, com uma risada. � Vamos dar uma caminhada pelos campos e procurar setas de pedra. Ser� mais f�cil ach�-las do que encontrar pistas para o nosso caso. Deixar o c�rebro trabalhar sem aliment�-lo com material suficiente � o mesmo que exigir demais de um motor. Ele se reduz a peda�os. A brisa marinha, a luz do sol, e paci�ncia, Watson... todo o resto vir�.</p><empty-line/><p>� Agora, Watson � disse, enquanto contorn�vamos os rochedos �, vamos definir com calma a nossa posi��o. Vamos nos apegar ao pouco que j� sabemos, de modo que, se houver fatos novos, estaremos prontos para encaix�-los nos devidos lugares. Em primeiro lugar, temos de admitir que nenhum de n�s aceita este caso como intrus�es diab�licas em assuntos humanos. Vamos come�ar tirando essas id�ias da cabe�a. Muito bem. Temos tr�s pessoas que foram perversamente atingidas por um agente humano, consciente ou inconsciente. Isto � l�quido e certo. E agora, quando ocorreu isso? Evidentemente, supondo que o relato do sr. Mortimer Tregennis seja verdadeiro, foi logo depois que ele saiu da casa. Este � um ponto muito importante. A suposi��o � que tenha ocorrido poucos minutos depois. As cartas ainda estavam na mesa. J� passara da hora em que eles costumavam dormir. Mesmo assim n�o mudaram de posi��o nem afastaram as cadeiras. Repito, portanto, que o fato ocorreu logo ap�s a partida do irm�o, e antes das 11 horas. Nosso pr�ximo passo, logicamente, � verificar, at� onde pudermos, os movimentos de Mortimer Tregennis depois que saiu da casa. N�o h� dificuldades quanto a isso, e eles n�o me parecem suspeitos. Voc�, que conhece meus m�todos, tamb�m sabe que, derrubando o regador, consegui uma impress�o mais n�tida de suas pegadas do que conseguiria de outra forma. O caminho cheio de areia a imprimiu maravilhosamente. A noite de ontem estava �mida, como sabe, e n�o foi dif�cil � depois de ter conseguido o modelo � seguir suas pegadas no meio de outras e acompanhar seus movimentos. Parece que ele foi para a par�quia, andando rapidamente. Se Mortimer Tregennis saiu de cena e algu�m de fora perturbou os jogadores, como poderemos descrever essa pessoa e que tipo de horror ela transmitiu? A sra. Porter pode ser descartada. Ela, evidentemente, � inofensiva. Existe alguma prova de que algu�m tenha espiado pela janela do jardim e, de algum modo, provocado um efeito t�o terr�vel naqueles que o viram a ponto de enlouquecerem? A �nica sugest�o neste sentido vem do pr�prio Mortimer Tregennis, que afirmou que seu irm�o mencionou algum movimento no jardim. Isto, sem d�vida, � extraordin�rio, j� que a noite estava chuvosa, nublada e escura. Qualquer um que quisesse assustar aquelas pessoas seria obrigado a encostar a cara na vidra�a para ser visto. H� um canteiro, de mais ou menos 1 metro, perto da janela, mas sem nenhuma marca de p�. Fica dif�cil imaginar como uma pessoa, do lado de fora, conseguiu causar uma impress�o t�o terr�vel no grupo, e n�o descobrimos um motivo plaus�vel para um atentado t�o estranho e complexo. Percebe as nossas dificuldades, Watson?</p><p>� S�o bastante claras � respondi com convic��o.</p><p>� E mesmo assim, com um pouco mais de material, poder�amos provar que elas n�o s�o intranspon�veis. Creio que no meio de seu vasto arquivo, Watson, voc� vai encontrar alguns casos que eram t�o estranhos quanto este. Por enquanto vamos deixar o assunto de lado at� termos mais alguns dados dispon�veis, e vamos dedicar o resto de nossa manh� � persegui��o do homem neol�tico.</p><p>J� devo ter comentado a respeito da capacidade mental do meu amigo em se desligar, mas eu nunca ficara t�o admirado com isso como naquela manh� em Cornwall; durante duas horas ele discorreu sobre os celtas, pontas de flechas e cacos de cer�mica com tanta tranq�ilidade como se n�o houvesse um mist�rio sinistro esperando que ele o esclarecesse.</p><p>S� voltamos ao nosso chal� � tarde e encontramos um visitante nos aguardando, e que nos fez pensar novamente no caso. Ningu�m precisava nos dizer quem era o visitante. O corpo volumoso, o rosto de tra�os marcados e rugas profundas, os olhos ferozes e o nariz de �guia, os cabelos grisalhos que quase varriam o teto do chal�, a barba � loura nas pontas e branca ao redor dos l�bios, a n�o ser pela mancha de nicotina de seu eterno charuto �, tudo isso era t�o conhecido em Londres quanto na �frica, e s� podia ser associado � imponente figura do dr. Leon Sterndale, o grande ca�ador de le�es e explorador.</p><p>Sab�amos de sua presen�a na regi�o e uma ou duas vezes n�s o t�nhamos visto nas estradas locais. Mas ele n�o se aproximara de n�s, nem n�s sequer sonhar�amos fazer isso, j� que todo mundo sabia que fora seu amor pela solid�o que o levara a passar a maior parte dos intervalos entre suas viagens num pequeno bangal� escondido nas matas isoladas de Beauchamp Arriance. Ali entre seus livros e mapas, vivia totalmente solit�rio, cuidando de si mesmo e aparentemente n�o se importando com a vida de seus vizinhos. Portanto, foi uma surpresa para mim ouvi-lo perguntar a Holmes, numa voz ansiosa, se meu amigo havia feito algum progresso na reconstitui��o do misterioso epis�dio.</p><p>� A pol�cia local est� completamente sem a��o � disse o visitante �, mas talvez o senhor, com sua grande experi�ncia, tenha alguma explica��o cab�vel. O motivo de lhe perguntar isso � que, durante as v�rias vezes em que estive aqui, fiquei conhecendo muito bem a fam�lia Tregennis � na verdade, posso at� mesmo cham�-los de primos, pelo lado materno � e o tr�gico destino deles naturalmente foi um tremendo choque para mim. Eu j� estava em Plymouth, a caminho da �frica, mas como fiquei sabendo da not�cia, hoje de manh�, voltei diretamente para c�, a fim de ajudar nas investiga��es.</p><p>Holmes ergueu as sobrancelhas.</p><p>� O senhor, ent�o, perdeu o navio?</p><p>� Tomarei o pr�ximo.</p><p>� C�us! Isso � que � amizade!</p><p>� Eu lhe disse que s�o parentes.</p><p>� � verdade � primos por parte de m�e. A sua bagagem j� estava a bordo?</p><p>� Uma parte; mas a principal ainda est� no hotel.</p><p>� Sei. Mas com certeza a not�cia ainda n�o estava nos jornais de Plymouth hoje de manh�.</p><p>� N�o. Eu recebi um telegrama.</p><p>� Posso saber de quem?</p><p>Uma sombra passou pelo rosto desolado do ca�ador.</p><p>� O senhor faz muitas perguntas, sr. Holmes.</p><p>� � a minha profiss�o.</p><p>Com um esfor�o, o dr. Sterndale recuperou a serenidade.</p><p>� N�o tenho nenhum motivo para n�o lhe dizer. Foi o sr. Roundhay, o vig�rio, que me mandou o telegrama que me trouxe de volta.</p><p>� Obrigado � disse Holmes. � Para responder � sua primeira pergunta, digo que ainda n�o tenho uma id�ia muito precisa do caso, mas tenho grande esperan�a de chegar a uma conclus�o. Seria prematuro dizer mais.</p><p>� O senhor se importaria de me dizer se sua suspeita aponta para alguma dire��o espec�fica?</p><p>� N�o tenho condi��es de responder.</p><p>� Ent�o, perdi meu tempo e n�o devo mais prolongar a visita.</p><p>O famoso ca�ador saiu do chal� irritado e mal-humorado. Holmes o seguiu cinco minutos depois. S� fui v�-lo novamente � noite, quando voltou em passos lentos e com a fisionomia carrancuda, o que me mostrou que n�o progredira nas investiga��es. Deu uma olhada r�pida num telegrama que o aguardava e o jogou no fogo.</p><p>� Veio do Plymouth Hotel, Watson � ele disse. � Fiquei sabendo do nome pelo vig�rio e mandei um telegrama para verificar se a hist�ria do dr. Leon Sterndale era verdadeira. Parece que ele realmente passou l� a noite de ontem e deu ordens para algumas de suas malas seguirem para a �frica, enquanto ele voltava para estar presente nas investiga��es. O que voc� acha, Watson?</p><p>� Ele est� profundamente interessado.</p><p>� Sim, muit�ssimo interessado. H� um fio aqui que ainda n�o conseguimos pegar, e que pode conduzir atrav�s desse emaranhado. �nimo, Watson, porque tenho certeza de que ainda n�o temos todo o material nas m�os. Quando o tivermos, superaremos todas as dificuldades.</p><p>Eu mal suspeitava que as palavras de Holmes se tornariam realidade em pouco tempo, nem imaginava o curso estranho e sinistro que o caso tomaria, abrindo uma nova frente de investiga��o.</p><p>Eu estava me barbeando de manh�, perto da janela, quando ouvi o tropel de cavalos e, ao olhar, vi uma charrete vindo a todo o galope pela estrada. Parou diante da nossa porta e o vig�rio desceu e passou correndo pelo jardim. Holmes j� estava vestido, e descemos rapidamente para receber o visitante. Ele estava t�o nervoso que mal conseguia falar, mas, finalmente, ofegando e arfando, contou-nos sua hist�ria tr�gica.</p><p>� O diabo est� � solta, sr. Holmes! O diabo tomou conta de minha pobre par�quia! � exclamou. � O pr�prio Satan�s est� a�! Estamos � sua merc�!</p><p>O pobre vig�rio estava t�o agitado que parecia dan�ar, uma figura que seria rid�cula se n�o fosse pelo seu rosto p�lido e os olhos assustados. Finalmente conseguiu contar a not�cia terr�vel.</p><p>� O sr. Mortimer Tregennis morreu ontem � noite, exatamente com os mesmos sintomas de sua fam�lia!</p><p>Holmes levantou-se de um salto, com uma energia repentina.</p><p>� Pode levar-nos no seu carro?</p><p>� Sim.</p><p>� Watson, vamos adiar nosso caf�. Sr. Roundhay, estamos inteiramente � sua disposi��o. Depressa, depressa, antes que as coisas sejam desarrumadas.</p><p>O inquilino do vig�rio ocupava dois c�modos, um em cima do outro, num dos �ngulos da casa paroquial. O de baixo era uma sala espa�osa, o outro, o quarto. Ambos davam para um campo de croqu�, que ficava diante das janelas. Hav�amos chegado antes do m�dico e da pol�cia, de modo que tudo estava intocado. Vou descrever a cena exatamente como a vimos naquela nublada manh� de mar�o. Deixou-me uma impress�o que jamais se apagar� de minha mem�ria. A atmosfera do quarto era horrivelmente sufocante e depressiva. A criada, que entrara antes no local, abrira as janelas, do contr�rio estaria ainda pior. Isto era devido, em parte, ao fato de que um lampi�o ainda estava aceso e fumegante sobre a mesa do centro. Ao lado dela estava o morto, recostado na cadeira, a barba rala esticada para a frente, com os �culos puxados sobre a testa, o rosto magro e moreno virado para a janela e contorcido pelo mesmo terror que marcara as fei��es de sua irm�. Seus membros estavam contra�dos e as m�os crispadas, como se tivesse morrido num paroxismo de medo. Estava todo vestido, embora houvesse sinais de t�-lo feito �s pressas. J� sab�amos que havia dormido na cama e que morrera nas primeiras horas da manh�.</p><p>Percebia-se a energia que havia por tr�s da fleuma exterior de Holmes na s�bita mudan�a que se operou nele a partir do momento em que entrou no apartamento. Ficou instantaneamente tenso e alerta, os olhos brilhando, o rosto s�rio, as m�os tr�mulas numa expectativa ansiosa. Andou pela grama ao redor da casa, olhou pela janela, examinou a sala e o quarto em cima, como um c�o de ca�a farejando a presa. Fez uma inspe��o r�pida no quarto e acabou abrindo a janela, o que parece ter-lhe dado novo motivo para excita��o, porque inclinou-se para fora, com exclama��es de interesse e satisfa��o. Em seguida desceu apressadamente a escada e atirou-se pela janela aberta, caindo no gramado, levantou-se e voltou para a sala novamente, com a energia de um ca�ador no rastro da presa.</p><p>Examinou o lampi�o, de um modelo comum, com muita aten��o, fazendo algumas medi��es de sua capacidade. Com a lente, examinou cuidadosamente a fuligem que cobria a parte superior, e raspou um pouco das cinzas que tinham ficado grudadas na superf�cie, colocando-as num envelope que guardou no caderninho de bolso. Finalmente, logo ap�s a chegada do m�dico e de um policial, fez sinal para mim e para o vig�rio e n�s tr�s sa�mos para o gramado.</p><p>� Fico contente em dizer que minha investiga��o n�o foi totalmente in�til � ele contou. � N�o posso ficar aqui para discutir o caso com o policial, mas eu ficaria imensamente grato, sr. Roundhay, se o senhor apresentasse a ele meus cumprimentos e lhe pedisse para prestar aten��o na janela do quarto e no lampi�o da sala. Cada um � bem sugestivo e, juntos, s�o conclusivos. Se a pol�cia quiser mais alguma informa��o, terei prazer em receber qualquer um deles no meu chal�. E agora, Watson, acho que nosso tempo poderia ser mais bem empregado em outro lugar.</p><p>Talvez a pol�cia tenha ficado ressentida com a intromiss�o de um amador, ou pensava que estivesse numa linha promissora de investiga��o. Mas o fato � que durante dois dias n�o tivemos nenhuma not�cia. Holmes passou boa parte desses dois dias fumando e pensando, no chal�, mas na maior parte do tempo deu longas caminhadas solit�rias pelos campos da regi�o, voltando horas depois sem dizer onde estivera.</p><p>Uma experimenta��o dele mostrou-me sua linha de investiga��o. Tinha comprado um lampi�o exatamente igual ao que ficara aceso na casa de Mortimer Tregennis no dia da trag�dia. Ele o encheu com o mesmo fluido usado na par�quia e marcou cuidadosamente o tempo que levava para ser consumido. Outra experi�ncia que fez foi t�o desagrad�vel que provavelmente jamais vou esquecer.</p><p>� Voc� se lembra, Watson � ele comentou certa tarde �, de que existe um ponto comum de semelhan�a nas narrativas que ouvimos. Este ponto � o efeito que a atmosfera de cada ambiente produziu em quem entrou primeiro. Lembre-se de que Mortimer Tregennis, ao descrever a sua �ltima visita � casa dos irm�os, comentou que o m�dico, ao entrar na sala, caiu numa cadeira? Esqueceu? Bem, eu estou lembrado disso. Agora lembre-se de que a sra. Porter, a empregada, nos contou que, quando entrou na sala, ela tamb�m desmaiou, e mais tarde abriu a janela. No segundo caso � a trag�dia do pr�prio Mortimer � voc� certamente se recorda da horr�vel sufoca��o na sala quando chegamos, embora a empregada j� tivesse aberto a janela. Essa empregada, descobri na investiga��o, sentiu-se t�o mal que teve de deitar-se. Voc� vai admitir, Watson, que esses detalhes s�o muito significativos. Em todos eles h� uma indica��o de atmosfera venenosa. Neles havia, tamb�m, combust�o no ambiente � no primeiro, na lareira, e no segundo, no lampi�o. A lareira estava apagada, mas o lampi�o, aceso � uma compara��o do fluido mostra isso � muito tempo depois que amanhecera. Por qu�? Seguramente porque existe alguma liga��o entre as tr�s coisas � a combust�o, a atmosfera sufocante e, finalmente, a loucura ou morte dos infelizes. Est� claro, n�o?</p><p>� Parece que sim.</p><p>� Pelo menos devemos aceit�-la como uma hip�tese plaus�vel. Vamos supor, ent�o, que alguma coisa foi queimada em cada caso e que produziu emana��es que causaram efeitos t�xicos estranhos. No primeiro caso, o da fam�lia Tragennis, a subst�ncia foi posta na lareira. A janela estava fechada mas o fogo produziria fuma�a que sairia em parte pela chamin�. Por isso era de se esperar que os efeitos do veneno fossem menos eficazes do que no segundo caso, em que havia menos escapamento do vapor. O resultado parece mostrar que foi assim, porque, no primeiro caso, apenas a mulher morreu, talvez por ter um organismo mais sens�vel, enquanto os outros manifestaram uma loucura, tempor�ria ou definitiva que, evidentemente, � o primeiro efeito da droga. No segundo caso, o resultado foi completo. Assim sendo, parece que os fatos sustentam a teoria de um veneno que funciona quando � queimado. Com esta seq��ncia de racioc�nio, naturalmente vasculhei a sala de Mortimer Tregennis � procura de algum vest�gio dessa subst�ncia. O �bvio seria encontr�-la no lampi�o. De fato, l� encontrei uma camada de cinza e nas bordas um punhado de p� castanho, ainda n�o consumido. Raspei a metade, como viu, e guardei o material no envelope.</p><p>� Por que s� a metade, Holmes?</p><p>� Meu caro Watson, n�o � do meu feitio atrapalhar o trabalho da pol�cia. Deixei para ela todas as provas que encontrei. O veneno ainda est� l� no lampi�o, se ela quiser examin�-lo. E agora, Watson, vamos acender o nosso lampi�o. Mas vamos tomar o cuidado de deixar a janela aberta para evitar o desaparecimento prematuro de dois dignos membros da sociedade. Sente-se na poltrona, perto da janela aberta, a menos que, como pessoa sensata, n�o queira participar da experi�ncia. Oh, vai me ajudar, n�o? Eu sabia que conhecia o meu Watson. Vou colocar minha poltrona bem em frente � sua, de modo que ficaremos cara a cara e � mesma dist�ncia do veneno. Deixaremos a porta entreaberta. Cada um de n�s estar� numa posi��o que permite vigiar o outro e suspender a experi�ncia se os sintomas forem perigosos. Est� tudo claro? Bem, ent�o vou pegar o p� do envelope � ou o que resta dele � e coloc�-lo no lampi�o aceso. �timo! E agora, Watson, vamos nos sentar e esperar os resultados.</p><p>N�o tivemos de esperar muito. Eu mal havia me sentado quando comecei a sentir um cheiro forte e almiscarado, penetrante, repugnante. � primeira inala��o, meu c�rebro e meus sentidos ficaram fora de controle. Uma nuvem espessa e negra girava na minha frente e meu c�rebro me dizia que nela, ainda que invis�vel mas prestes a saltar sobre os meus sentidos embotados, estava todo o horror, tudo o que havia de monstruoso e incrivelmente perverso no mundo. Formas vagas e indefinidas rodopiavam e dan�avam no meio da nuvem escura, cada uma delas uma amea�a e uma advert�ncia de algo que se aproximava, algo de inenarr�vel chegando � porta, e sua sombra j� bastaria para fulminar minha alma. Um medo gelado me dominou. Senti meus cabelos ficarem em p�, os olhos querendo saltar das �rbitas, a boca aberta e a l�ngua como um peda�o de couro. Dentro de meu c�rebro o turbilh�o era tamanho que alguma coisa acabaria estourando. Tentei gritar e ouvi vagamente o som rouco em que se transformara minha voz, distante e fora de mim.</p><p>Nesse momento, num esfor�o para escapar, rompi aquela n�voa de desespero e vi no rosto de Holmes, branco, r�gido e cheio de terror, a mesma express�o que eu vira no rosto dos mortos. Foi essa vis�o que me deu um momento de lucidez e for�a. Dei um salto da minha poltrona, coloquei os bra�os em volta de Holmes e sa�mos cambaleando pela porta; em seguida nos jogamos na grama e ali ficamos, lado a lado, percebendo apenas a gloriosa luz do sol que irrompia pela infernal nuvem de terror que nos envolvia. Lentamente ela se dissipou na nossa mente, como a neblina dos brejos, at� que recuperamos a calma e a raz�o, e ficamos sentados na grama, limpando o suor viscoso de nossas testas e olhando apreensivos um para o outro, para observar os �ltimos vest�gios da experi�ncia terr�vel pela qual hav�amos acabado de passar.</p><p>� Palavra de honra, Watson! � disse Holmes, finalmente, com voz tr�mula. � Devo-lhe um agradecimento e um pedido de desculpas. Foi uma experi�ncia injustific�vel para mim sozinho, e ainda mais para um amigo. Lamento muito.</p><p>� Voc� sabe � respondi emocionado, pois nunca vira tanto carinho nele antes � que � uma grande alegria e um privil�gio ajud�-lo.</p><p>No mesmo instante Holmes voltou a ser o homem meio ir�nico e c�nico, exibindo sua atitude habitual para com as pessoas que se preocupavam com ele.</p><p>� Seria desnecess�rio nos fazer enlouquecer, meu caro Watson. Um observador casual diria que j� est�vamos loucos quando fizemos a experi�ncia insensata. Confesso que n�o imaginava que o efeito pudesse ser t�o r�pido e intenso.</p><p>Ele entrou correndo no chal� e voltou com o lampi�o fumegante, mantendo-o afastado do rosto, e o atirou num monte de espinheiros.</p><p>� Temos de esperar at� que a sala fique arejada. Suponho, Watson, que j� n�o haja mais nenhuma d�vida a respeito do modo como as trag�dias ocorreram?</p><p>� Nenhuma.</p><p>� Mas o caso continua t�o misterioso como antes. Vamos nos sentar no caramanch�o e analisar o assunto. Parece que aquela coisa maldita ainda est� apertando minha garganta. Temos de admitir que todos os ind�cios apontam Mortimer Tregennis como o autor da primeira trag�dia, embora tenha sido v�tima na segunda. Em primeiro lugar devemos nos lembrar de que houve uma briga na fam�lia, seguida de reconcilia��o. N�o sabemos qual foi a gravidade da briga nem a sinceridade da reconcilia��o. Quando me lembro de Mortimer Tregennis, com sua cara de raposa e os olhinhos maldosos por tr�s dos �culos, n�o consigo ver nele um homem que eu julgaria capaz de perdoar. Bem, em segundo lugar voc� deve se lembrar de que a hist�ria de algu�m andando no jardim, que desviou um pouco nossa aten��o da verdadeira causa da trag�dia, partiu dele. Tinha motivo para tentar nos despistar. E depois, se n�o foi ele mesmo quem jogou a subst�ncia na lareira quando saiu, quem foi? O fato aconteceu logo ap�s a sa�da dele. Se outra pessoa tivesse entrado na casa, a fam�lia certamente teria se levantado da mesa. Al�m do mais, nesta Cornwall pacata, as visitas n�o aparecem depois das dez horas. Temos de aceitar, portanto, que todos os ind�cios apontam para Mortimer Tregennis como o criminoso.</p><p>� Ent�o ele se suicidou?</p><p>� Bem, Watson, diante dos fatos, isso n�o � uma suposi��o imposs�vel. O homem, que tinha na alma a culpa de dar � sua pr�pria fam�lia esse destino, podia muito bem ser levado pelo remorso a fazer o mesmo com ele pr�prio. Entretanto, h� fortes argumentos contra isso. Felizmente existe um homem na Inglaterra que sabe tudo a respeito disso, e eu fiz alguns arranjos para que ele mesmo conte todos os fatos esta tarde. Ah, ele est� chegando um pouco antes da hora. Por aqui, dr. Sterndale. Fizemos uma experi�ncia qu�mica na sala que deixou o ambiente impr�prio para recebermos um visitante t�o ilustre.</p><p>Escutei o rangido do port�o do jardim e surgiu a figura imponente do famoso explorador africano. Ele se dirigiu, um tanto surpreso, para o caramanch�o r�stico onde est�vamos sentados.</p><p>� O senhor me chamou, sr. Holmes. Recebi seu recado h� uma hora e vim, embora n�o saiba por que deva obedecer �s suas intima��es.</p><p>� Talvez possamos esclarecer a quest�o antes de nos separarmos � respondeu Holmes. � Enquanto isso, fico-lhe muito grato por atender � solicita��o. Desculpe-nos por esta recep��o informal ao ar livre, mas meu amigo Watson e eu quase fornecemos um cap�tulo adicional ao que os jornais andam chamando de �O Terror de Cornish�, de modo que preferimos um ar limpo, no momento. Talvez, j� que os assuntos que vamos discutir o afetam pessoalmente, seja bom que conversemos onde n�o haja intrusos nos ouvindo.</p><p>O ca�ador tirou o charuto da boca e olhou para o meu amigo com uma express�o severa.</p><p>� N�o consigo imaginar o que o senhor tem para me dizer que possa me afetar pessoalmente.</p><p>� O assassinato de Mortimer Tregennis.</p><p>Por um momento desejei estar armado. O rosto feroz de Sterndale ficou vermelho de raiva, os olhos brilharam, as veias saltaram na testa enquanto ele avan�ava em dire��o ao meu amigo, com os punhos cerrados. Ele parou de repente, e com grande esfor�o recuperou uma calma fria e r�gida que talvez fosse mais perigosa do que a explos�o de �dio.</p><p>� Vivi tanto tempo entre os selvagens e longe da lei � ele disse � que peguei a mania de fazer justi�a por mim mesmo. Ser� bom que n�o se esque�a disso, sr. Holmes, porque n�o desejo lhe fazer nenhum mal.</p><p>� Eu tamb�m n�o desejo lhe fazer nenhum mal, dr. Sterndale. A maior prova disso � que, sabendo o que sei, mandei chamar o senhor e n�o a pol�cia.</p><p>O visitante sentou-se com um suspiro, talvez intimidado pela primeira vez em sua vida de aventuras. Era dif�cil resistir � seguran�a e � calma que havia na atitude de Holmes. O explorador hesitou, por alguns segundos, com as m�os grandes se abrindo e se fechando em sua agita��o.</p><p>� O que quer dizer? � perguntou, finalmente. � Se se trata de um blefe seu, escolheu a pessoa errada para a tentativa, sr. Holmes. Vamos parar de rodeios. O que o senhor est� insinuando?</p><p>� Vou contar-lhe � disse Holmes � e o motivo por que o fa�o � que espero que franqueza produza franqueza. Meu pr�ximo passo depende de sua defesa.</p><p>� Minha defesa?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Contra o qu�?</p><p>� Contra a acusa��o de matar Mortimer Tregennis.</p><p>Sterndale enxugou a testa com um len�o.</p><p>� Palavra de honra, o senhor est� indo longe demais. Todos os seus sucessos dependem de seu prodigioso poder de blefar?</p><p>� O blefe � respondeu Holmes, com severidade � est� do seu lado, dr. Sterndale, n�o do meu. Como prova, vou contar-lhe alguns fatos nos quais baseei minhas conclus�es. O que primeiro me alertou para o fato de o senhor ter alguma coisa a ver com esse drama foi seu retorno de Plymouth, deixando que algumas de suas malas seguissem para a �frica...</p><p>� Eu voltei...</p><p>� J� ouvi seus motivos e os considero inadequados e pouco convincentes. Deixemos isso de lado. Voltou aqui para me perguntar de quem eu suspeitava. Recusei-me a responder. O senhor, ent�o, foi para a par�quia e durante algum tempo esperou do lado de fora e voltou depois para sua cabana.</p><p>� Como sabe disso?</p><p>� Eu o segui.</p><p>� N�o vi ningu�m.</p><p>� Pode esperar mesmo n�o ver ningu�m quando eu o seguir. Passou a noite acordado na sua cabana, e elaborou planos que p�s em pr�tica logo ao amanhecer. Saiu da cabana bem cedinho, p�s no bolso algumas pedrinhas vermelhas, que ficam num montinho ao lado do seu port�o.</p><p>Sterndale estremeceu e encarou Holmes, aturdido.</p><p>� Percorreu rapidamente a dist�ncia que separa sua cabana da par�quia. Devo dizer que estava usando o mesmo par de t�nis que usa agora. Na par�quia, passou pelo pomar e pela cerca, ficando debaixo da janela de Tregennis. O dia j� estava claro, mas o inquilino ainda dormia. Tirou algumas pedrinhas do bolso e as atirou na janela, logo acima.</p><p>Sterndale levantou-se.</p><p>� Eu acho que o senhor � o pr�prio diabo! � exclamou.</p><p>Holmes sorriu com o cumprimento.</p><p>� Foram necess�rios dois ou tr�s punhados de pedras at� que o inquilino surgisse � janela. O senhor fez-lhe sinal para que descesse. Ele se vestiu apressadamente e desceu at� a� sala. O senhor entrou pela janela. Houve uma conversa r�pida, durante a qual o senhor ficou andando de um lado para o outro na sala. Depois saiu e fechou a janela e ficou esperando no gramado, fumando seu charuto e observando o que acontecia. Finalmente, depois que Tregennis morreu, o senhor foi embora rapidamente, como havia chegado. E agora, dr. Sterndale, como o senhor justifica sua conduta, e quais os motivos de seus atos? Se tentar mentir para mim ou tentar me enganar, dou-lhe minha palavra de que o assunto n�o mais ficar� em minhas m�os.</p><p>O rosto de nosso visitante ficou branco como cera ao ouvir as palavras de acusa��o. Ficou sentado em sil�ncio durante algum tempo com a cabe�a apoiada nas m�os. Depois, com um gesto brusco, tirou da carteira uma foto, que jogou diante de n�s.</p><p>� A� est� por que eu fiz isso � ele disse.</p><p>O retrato mostrava o busto e o rosto de uma mulher lind�ssima. Holmes inclinou-se para olhar.</p><p>� Brenda Tregennis � disse.</p><p>� Sim, Brenda Tregennis � repetiu o visitante. � Eu a amei durante anos. E durante anos ela me amou. Este � o segredo de minha reclus�o em Cornish, que tem intrigado todo mundo. Esse amor me trouxe para perto da �nica coisa no mundo que eu queria. N�o podia me casar com ela, porque tenho uma esposa que me abandonou h� muito tempo e, mesmo assim, pelas leis deplor�veis da Inglaterra, n�o pude me divorciar. Brenda esperou durante anos. Eu tamb�m. E esperamos para ter este final tr�gico.</p><p>Um suspiro profundo fez estremecer aquela figura enorme e ele apertou a garganta sob a barba. Depois, com esfor�o, conseguiu controlar-se e continuou.</p><p>� O vig�rio sabia do nosso segredo. Ele poder� dizer-lhe que ela era um anjo na terra. Foi por isso que me telegrafou e eu voltei. Que me importavam as malas e a �frica quando fiquei sabendo do que acontecera com o meu amor? A� est� o elo que faltava para explicar a minha a��o, sr. Holmes.</p><p>� Prossiga � pediu Holmes.</p><p>O dr. Sterndale tirou do bolso um pacotinho e o colocou na nossa frente. No papel do embrulho estava escrito ��, com uma etiqueta vermelha embaixo, indicando tratar-se de veneno. Empurrou-o em minha dire��o.</p><p>� Sei que o senhor � m�dico. J� ouviu falar desta planta?</p><p>� Raiz p� do diabo. N�o, nunca ouvi.</p><p>� Isto n�o desmerece seu conhecimento profissional � ele continuou � porque eu acho que, com exce��o de um exemplar num laborat�rio de Budapeste, n�o existe outro esp�cime na Europa. Ainda n�o est� devidamente catalogado na farmacop�ia ou nos tratados sobre toxicologia. A raiz tem o formato de um p�, meio humano, meio animal, como o de um bode, da� o nome extravagante dado por um mission�rio bot�nico. � usado como veneno para castigos pelos curandeiros de algumas regi�es da �frica Ocidental, e guardado como segredo entre eles. Consegui esta amostra no distrito de Ubangi, em circunst�ncias muito especiais.</p><p>Abriu o pacote enquanto falava e mostrou um montinho de um p� castanho-avermelhado, parecido com rap�.</p><p>� E da�, senhor? � perguntou Holmes, incisivo.</p><p>� Vou contar-lhe, sr. Holmes, tudo que realmente aconteceu, porque parece que o senhor j� sabe tanto que �, logicamente, do meu interesse que saiba de tudo. J� lhe expliquei o meu relacionamento com a fam�lia Tregennis. Pelo amor � irm�, eu era amigo dos irm�os. Houve um desentendimento entre eles a respeito de dinheiro, o que fez Mortimer afastar-se deles; mas supunha-se que tudo estivesse resolvido, e eu me encontrei com ele depois, como o fizera antes com os outros. Ele era um sujeito astucioso, sutil e vingativo, e v�rias coisas fizeram com que eu suspeitasse dele, mas n�o tinha motivo para uma briga de fato. Um dia, h� apenas duas semanas, ele foi at� meu chal� e eu lhe mostrei algumas de minhas curiosidades africanas. Entre outras coisas, mostrei-lhe este p� e falei das suas estranhas propriedades, que ele estimula os centros nervosos do c�rebro que controlam a emo��o do medo, e que o nativo infeliz que � submetido � prova��o pelo curandeiro da tribo fica louco ou morre. Contei-lhe tamb�m que a ci�ncia europ�ia � incapaz de detect�-lo. Como ele conseguiu a erva eu n�o sei, j� que n�o sa� da sala, mas sem d�vida foi quando eu estava abrindo os arm�rios e procurando coisas nas caixas que ele deu um jeito de pegar um pouco da raiz p� do diabo. Lembro que ele fez perguntas sobre a quantidade e o tempo necess�rios para produzir efeito, mas eu nem sonhava que ele pudesse ter motivos pessoais para perguntar. N�o pensei mais no assunto at� receber o telegrama do vig�rio em Plymouth. O bandido pensava que eu estaria em alto-mar quando recebesse a not�cia, e que eu ficaria perdido na �frica durante anos. Mas voltei imediatamente. Ao ouvir os detalhes, claro que percebi que meu veneno fora usado. Vim falar com o senhor para saber se havia alguma outra explica��o poss�vel. Mas n�o poderia haver. Eu sabia que o assassino era Mortimer Tregennis; pelo amor ao dinheiro, e talvez com a id�ia de que, se seus irm�os enlouquecessem, ele poderia assumir sozinho a tutela dos bens, usou contra eles o p� venenoso, deixando dois irm�os loucos e matando a irm�, a �nica mulher que amei na vida. Ali estava o crime dele. Qual deveria ser o seu castigo? Deveria apelar para a justi�a? Onde estavam as minhas provas? Como eu poderia fazer um j�ri composto de alde�es acreditar numa hist�ria t�o fant�stica? Eu poderia ou n�o. Mas n�o podia dar-me ao luxo de arriscar. Minha alma clamava por vingan�a. J� lhe disse antes, sr. Holmes, que passei grande parte da minha vida longe da lei, e que me acostumei a pratic�-la por mim mesmo. Agora era a ocasi�o. Decidi que o mesmo destino que ele infligira aos outros deveria ser dado a ele tamb�m. Isto, ou ent�o eu faria justi�a com minhas pr�prias m�os. N�o existe na Inglaterra ningu�m que d� menos valor � pr�pria vida do que eu agora. J� lhe disse tudo. O senhor conhece o resto. Como o senhor mesmo contou, sa� bem cedo de minha cabana depois de uma noite insone. Eu j� havia previsto minhas dificuldades para acord�-lo, de modo que apanhei algumas pedras do montinho que o senhor mencionou, e as usei para jogar na janela. Ele desceu e deixou-me entrar pela janela da sala. Eu o acusei do crime e disse que estava ali no papel de juiz e carrasco. Aquele trapo humano afundou-se na cadeira, paralisado ao ver o meu rev�lver. Acendi o lampi�o, coloquei o p� ali e fiquei do lado de fora da janela, pronto para cumprir minha amea�a de mat�-lo caso tentasse sair da sala. Ele morreu em cinco minutos. Meu Deus! O modo como ele morreu! Mas meu cora��o estava duro como uma pedra, porque ele sentiu tudo o que minha amada Brenda tinha sentido antes dele. Esta � a minha hist�ria, sr. Holmes, e talvez, se amasse uma mulher, faria o mesmo. De qualquer maneira, estou nas suas m�os. Pode fazer o que achar melhor. Como j� disse, n�o existe ningu�m que tema a morte menos do que eu.</p><p>Holmes permaneceu sentado em sil�ncio durante algum tempo.</p><p>� Quais eram seus planos? � perguntou, finalmente.</p><p>� Pretendia embrenhar-me na �frica Central. Meu trabalho l� ainda est� pela metade.</p><p>� V� e� fa�a a outra metade � disse Holmes. � Eu, pelo menos, n�o posso impedi-lo.</p><p>O dr. Sterndale levantou-se, uma figura imensa, curvou a cabe�a solenemente num cumprimento e saiu.</p><p>Holmes acendeu o cachimbo e me entregou a bolsa do fumo.</p><p>� Uma fuma�a n�o-venenosa seria uma mudan�a bem-vinda. Acho que voc� concorda, Watson, que este � um final em que n�o devemos interferir. Nossas investiga��es foram independentes, e nossa a��o tamb�m deve ser. Voc� denunciaria o homem?</p><p>� Claro que n�o � respondi.</p><p>� Nunca amei, Watson, mas se o fizesse e a mulher que eu amasse tivesse um fim assim, eu agiria da mesma forma que o nosso destemido ca�ador de le�es. Quem sabe? Bem, Watson, n�o vou ofender sua intelig�ncia contando-lhe o �bvio. As pedras no peitoril da janela foram, � claro, o ponto de partida das minhas investiga��es. N�o havia nada igual no jardim da par�quia. Somente quando minha aten��o foi atra�da para o dr. Sterndale e sua cabana � que achei pedras iguais. O lampi�o aceso em plena luz do dia e os restos do p� eram elos sucessivos de uma seq��ncia l�gica. E agora, caro Watson, acho que devemos tirar o assunto da cabe�a e voltar, com a consci�ncia limpa, ao estudo das ra�zes dos caldeus que, seguramente, podem ser encontradas no ramo cornualh�s da l�ngua celta.</p><empty-line/></section><section><p><strong>seu �ltimo caso</strong></p><p><strong>Um ep�logo de Sherlock Holmes</strong></p><p>Eram nove da noite de 2 de agosto � o mais terr�vel agosto da hist�ria do mundo. Podia-se pensar que a c�lera de Deus j� se abatera violentamente sobre um mundo degenerado, porque havia um sil�ncio apavorante e dava uma sensa��o de expectativa no ar abafado e sufocante. O sol j� havia se posto h� bastante tempo, mas uma f�mbria vermelho-sangue, como uma ferida aberta, era vis�vel no oeste distante. Acima, as estrelas brilhavam, intensamente, e embaixo, havia as luzes vacilantes das embarca��es ancoradas na ba�a.</p><p>Os dois famosos alem�es estavam encostados na prote��o de pedra da alameda do jardim, com a casa comprida e baixa atr�s deles, e olhavam a ampla curva da praia embaixo, aos p�s do grande rochedo sobre o qual Von Bork, como �guia errante, pousara quatro anos antes. Suas cabe�as estavam pr�ximas e eles conversavam num tom baixo e confidencial. As pontas acesas de seus charutos pareciam os olhos em</p><p>brasa de um esp�rito maligno perscrutando a escurid�o.</p><p>Um homem not�vel, este Von Bork � um homem que dificilmente encontraria rival entre todos os dedicados agentes do kaiser. Foram os seus talentos que, antes de mais nada, o faziam dele a pessoa indicada para a miss�o inglesa, a mais importante de todas, e depois que a assumira, esses dotes se tornaram cada vez mais evidentes para a meia d�zia de pessoas no mundo que sabiam da verdade.</p><p>Uma dessas pessoas era seu companheiro na ocasi�o, o bar�o Von Herling, primeiro-secret�rio da miss�o diplom�tica, cujo imenso Mercedes Benz de cem cavalos bloqueava a estradinha, enquanto aguardava para levar seu dono de volta a Londres.</p><p>� Pelo que vejo do rumo dos acontecimentos, voc� estar� de volta a Berlim dentro de uma semana � dizia o secret�rio. Quando chegar l�, meu caro Von Bork, acho que vai se surpreender com a recep��o de boas-vindas que o aguarda. Acontece que eu sei o que se pensa nos altos escal�es a respeito do seu trabalho neste pa�s.</p><p>O secret�rio era um homem alto, forte, corpulento, com um jeito seguro e lento de falar, o que fora sua principal caracter�stica na carreira diplom�tica.</p><p>Von Bork riu.</p><p>� N�o � muito dif�cil tape�-los � comentou. � N�o se pode imaginar um povo mais d�cil e simples.</p><p>� N�o tenho muita certeza disso � observou o outro, pensativo. � Eles t�m limites estranhos e n�s temos de aprender a observ�-los. � esta simplicidade superficial deles que vira uma armadilha para os estrangeiros. A primeira impress�o � que eles s�o completamente flex�veis. Ent�o, de repente, esbarramos em algo muito duro e ficamos sabendo que chegamos ao limite e precisamos nos adaptar ao fato. Por exemplo, eles t�m as suas conven��es insulares que precisam ser respeitadas.</p><p>� Quer dizer �boas maneiras� e coisas desse tipo?</p><p>Von Bork suspirou, como algu�m que tinha sofrido muito.</p><p>� Estou querendo dizer preconceito brit�nico em todas as suas estranhas manifesta��es. Como exemplo, posso citar um dos meus piores erros � permito-me falar dos meus erros porque voc� conhece suficientemente o meu trabalho para saber dos meus sucessos. Foi na minha primeira visita. Fui convidado para uma reuni�o de fim de semana na casa de campo de um membro do Gabinete. A conversa foi espantosamente indiscreta.</p><p>Von Bork concordou com a cabe�a.</p><p>� Eu estava l� � disse secamente.</p><p>� Exatamente. Bem, � claro que eu naturalmente enviei a Berlim um resumo das informa��es. Infelizmente nosso bom chanceler � um tanto desastrado em assuntos dessa natureza e transmitiu uma observa��o que mostrava que ele estava a par do que fora dito. Isto, � �bvio, tornou-me o suspeito direto. Voc� n�o imagina o mal que me fez. Asseguro-lhe que n�o houve nada de delicado com nossos anfitri�es ingleses na �poca. Amarguei aquilo durante dois anos. E agora voc�, com sua pose de esportista...</p><p>� N�o, n�o, eu n�o a considero uma pose. Pose � uma coisa artificial. Isto � completamente espont�neo. Sou um esportista nato. Gosto disto.</p><p>� Bem, isso torna tudo mais f�cil. Voc� compete com eles em corridas de iate, ca�a com eles, joga p�lo, enfrenta-os em qualquer jogo, sua carruagem ganha o pr�mio em Ol�mpia. At� ouvi dizer que luta boxe com os jovens oficiais. Qual � o resultado? Ningu�m o leva a s�rio. Voc� � um �bom sujeito, esportista, um camarada bastante decente para um alem�o�, � beberr�o, bo�mio, freq�entador de cabar�s, farrista. E durante todo o tempo sua pacata casa de campo � o centro de metade das confus�es na Inglaterra, e o cavalheiro esportista � o mais astuto agente do servi�o secreto na Europa. G�nio, meu caro Von Bork � g�nio!</p><p>� Isto � uma lisonja, bar�o. Mas certamente posso afirmar que meus quatro anos neste pa�s n�o foram improdutivos. Nunca lhe mostrei meu pequeno arsenal. Quer entrar um pouquinho, por favor?</p><p>A porta do escrit�rio dava direto no terra�o. Von Bork a empurrou e, indo na frente, ligou o interruptor da luz el�trica. Depois fechou a porta atr�s do vulto corpulento que o seguiu e cerrou cuidadosamente a pesada cortina da janela. S� depois de tomar todas essas precau��es foi que voltou o rosto aquilino e queimado de sol para o visitante.</p><p>� Alguns de meus documentos j� seguiram � disse. � Ontem, quando minha mulher e a empregada partiram para Flushing, levaram os menos importantes. Claro que devo exigir a prote��o da embaixada para os demais.</p><p>� Seu nome j� consta da lista para uma das su�tes. N�o haver� dificuldade com suas malas. Claro, � bem poss�vel que n�o tenhamos de partir. A Inglaterra pode ter deixado a Fran�a entregue ao seu destino. Sabemos que n�o h� nenhuma alian�a entre elas.</p><p>� E a B�lgica?</p><p>� Sim e� a B�lgica tamb�m.</p><p>Von Bork sacudiu a cabe�a.</p><p>� N�o vejo como isso pode acontecer. H� um tratado definido ali. A Inglaterra nunca se recuperar� de tamanha humilha��o.</p><p>� Pelo menos teria paz por algum tempo.</p><p>� Mas, e sua honra?</p><p>� Ora, meu caro, vivemos numa �poca utilit�ria. A honra � uma concep��o medieval. Al�m do mais, a Inglaterra ainda n�o est� pronta. � algo inconceb�vel, mas nem mesmo nossa taxa especial de guerra de 50 milh�es, que se poderia pensar que tornou nosso objetivo t�o evidente como se tiv�ssemos anunciado na primeira p�gina do Times, fez com que este povo sa�sse de sua modorra. De vez em quando se ouve uma indaga��o. � minha fun��o encontrar uma resposta. Mas posso assegurar-lhe que quanto ao essencial � o estoque de muni��es, a prepara��o para ataques de submarinos, os acertos para fabrica��o de explosivos de alta pot�ncia � nada disso est� pronto. N�o se pode, portanto, pensar numa interven��o inglesa, principalmente agora que fomentamos essa infernal guerra civil da Irlanda e tudo o mais para mant�-la voltada para si mesma.</p><p>� Ela tem de pensar no futuro.</p><p>� Ah, isso j� � outro assunto. Imagino que, no futuro, teremos nossos planos bem definidos a respeito da Inglaterra e suas informa��es ser�o vitais para n�s. Ser� hoje ou amanh� com o sr. John Bull.* Se ele preferir hoje, estamos perfeitamente preparados. Se for amanh�, estaremos mais preparados ainda. Tenho certeza de que eles preferir�o lutar com os aliados do que sem eles, mas isso � problema deles. Esta � a semana do destino deles. Mas voc� estava falando de seus documentos.</p><p>Ele sentou-se numa poltrona, com a luz brilhando na cabe�a calva, enquanto fumava tranq�ilamente o charuto.</p><p>A sala grande, forrada de pain�is de carvalho e cheia de estantes de livros, tinha uma cortina numa das extremidades. Quando ela foi puxada, revelou um cofre grande de bronze. Von Bork tirou uma chave pequena da corrente do rel�gio e depois de mexer um pouco na fechadura abriu a porta pesada.</p><p>� Veja! � ele disse, afastando-se e fazendo um sinal com a m�o.</p><p>A luz brilhava intensamente no cofre aberto e o secret�rio da embaixada olhou com vivo interesse os compartimentos cheios de documentos. Cada compartimento tinha� uma etiqueta, e ele viu uma s�rie de t�tulos como Passagens, Defesas de Portos, Avi�es, Irlanda, Egito, Fortifica��es de Portsmouth, Canal da Mancha, Rosythe e muitos outros. Cada compartimento estava abarrotado de documentos e planos.</p><p>� Fant�stico, secret�rio. Deixando o charuto de lado, ele bateu palmas com as m�os gordas.</p><p>� Tudo em quatro anos, bar�o. Nada mau para um cavalheiro beberr�o. Entretanto, a j�ia de minha cole��o ainda est� por chegar e j� tem o seu trono reservado.</p><p>Apontou para um espa�o vazio, sobre o qual se lia: Sinaliza��es Navais.</p><p>� Mas voc� j� tem um �timo dossi�.</p><p>� Documentos antiquados e in�teis. O Almirantado de alguma forma recebeu um alarme e mudou todos os c�digos. Foi um golpe, bar�o � o pior retrocesso em todo o meu trabalho. Mas, gra�as ao meu tal�o de cheques e ao bom Altamont, tudo estar� bem hoje � noite.</p><p>O bar�o consultou o rel�gio e soltou uma exclama��o gutural de desapontamento.</p><p>� Bem, n�o posso mesmo esperar mais. Voc� bem pode imaginar que as coisas est�o acontecendo no momento em Carlton Terrace e n�s todos temos de estar em nossos postos. Eu esperava poder levar novidades de seu grande golpe. Altamont disse a que horas viria?</p><p>Von Bork mostrou-lhe um telegrama:</p><empty-line/><p>Irei sem falta esta noite e levarei novas velas.</p><p>Altamont.</p><p>� Velas, hein?</p><p>� Como v�, ele passa por mec�nico e eu por dono de uma grande garagem. Em nosso c�digo, tudo o que recebo vem com nome de pe�as de motor. Se ele se refere a um radiador, trata-se de um vaso de guerra; se fala de bomba de �leo, � um cruzador, e assim por diante. Velas s�o sinaliza��es mar�timas.</p><p>� De Portsmouth, ao meio-dia � disse o secret�rio, examinando o telegrama. � A prop�sito, quanto voc� lhe pagou?</p><p>� Quinhentas libras por este trabalho especial. � claro que ele tem tamb�m um sal�rio.</p><p>� Um velhaco ganancioso. Esses traidores s�o �teis, mas lamento o dinheiro sujo que lhes damos.</p><p>� Quanto a Altamont, n�o lamento nada. � um ajudante maravilhoso. Pago-lhe bem e ele, pelo menos, entrega a mercadoria, para usar sua pr�pria linguagem. Al�m do mais, ele n�o � um traidor. Garanto-lhe que nosso sentimento germ�nico em rela��o � Inglaterra n�o passa de uma pomba inocente se comparado com a amargura demonstrada por esse irland�s-americano.</p><p>� Oh, um irland�s-americano?</p><p>� Se voc� o ouvisse falar, n�o teria a menor d�vida. Ele parece ter declarado guerra ao ingl�s do rei e ao rei ingl�s. Mas, precisa mesmo ir embora? Ele pode chegar a qualquer momento.</p><p>� N�o, sinto muito, mas j� demorei demais. Esperamos voc� amanh� bem cedo, e quando tiver passado o livro de sinaliza��es pela portinha nas escadas do Duke of York, poder� acrescentar um final glorioso � sua carreira na Inglaterra. O qu�?! Tokay!</p><p>Indicava uma garrafa coberta de poeira que estava ao lado de dois copos numa bandeja.</p><p>� Posso oferecer-lhe um copo antes de ir embora?</p><p>� N�o, obrigado. Mas parece uma festan�a.</p><p>� Altamont tem bom gosto para vinhos e se apaixonou pelo meu Tokay. � um sujeito muito sens�vel e tenho de agrad�-lo nas pequenas coisas. Asseguro-lhe que tive de estud�-lo.</p><p>Haviam sa�do novamente para o terra�o, e l� embaixo, a um toque do motorista, o carro tremeu e sacudiu.</p><p>� Acho que aquelas s�o as luzes de Harwich � disse o secret�rio, vestindo o sobretudo. Tudo parece calmo e em paz. Haver� outras luzes dentro de uma semana, e a costa inglesa ser� um local menos tranq�ilo! Os c�us tamb�m n�o ser�o t�o pac�ficos se tudo o que nosso bom Zeppelin nos prometeu tornar-se realidade. A prop�sito, quem � aquela mulher?</p><p>Atr�s deles, apenas uma janela estava iluminada; ao lado de uma l�mpada, via-se uma velha de rosto vermelho, com uma touca. Estava curvada sobre um bordado e de vez em quando acariciava um enorme gato preto, deitado num banquinho perto dela.</p><p>� � Martha, a �nica empregada que ficou.</p><p>O secret�rio riu.</p><p>� Ela bem que poderia personificar a Inglaterra � comentou � com sua absor��o total e um aspecto de confort�vel sonol�ncia... Bem, au revoir, Von Bork!</p><p>Com um aceno final, entrou no carro, e alguns segundos depois os dois cones dourados dos far�is iluminavam o caminho escuro. O secret�rio recostou-se no banco da luxuosa limusine, pensando na trag�dia iminente da Europa e mal viu quando seu possante carro chegou � estrada, passando por um pequeno Ford que vinha na dire��o contr�ria.</p><p>Von Bork voltou lentamente para o seu escrit�rio, depois que as luzes do carro desapareceram na dist�ncia. Notou que a velha empregada apagara a luz e se retirara. O sil�ncio e a escurid�o da casa eram uma experi�ncia nova para ele, j� que sua fam�lia e a criadagem eram grandes. Entretanto sentia um certo al�vio ao pensar que todos estavam em seguran�a e que, a n�o ser pela velha na cozinha, ele estava sozinho na casa. Havia ainda muita coisa para p�r em ordem no escrit�rio, e ele se entregou ao trabalho at� que seu rosto alerta e simp�tico ficou vermelho com o calor dos documentos que ia queimando. Come�ou a empacotar, cuidadosa e sistematicamente, o precioso conte�do de seu cofre, colocando os documentos numa valise de couro que estava sobre uma mesa. Mal havia come�ado o trabalho quando seus ouvidos alertas perceberam o barulho de um carro ao longe. Na mesma hora soltou uma exclama��o de satisfa��o, fechou a valise, fechou e trancou o cofre e correu para o terra�o a tempo de ver os far�is de um carro pequeno parando diante do port�o. Um passageiro desceu rapidamente e se encaminhou para ele, enquanto o motorista, um sujeito corpulento e idoso com um bigode grisalho, ficou na dire��o, como que resignado a uma longa espera.</p><p>� E ent�o? � perguntou Von Bork, ansioso, correndo ao encontro do visitante.</p><p>Como resposta, o homem sacudiu, triunfante, acima da cabe�a, um embrulho de papel marrom.</p><p>� Pode felicitar-me esta noite, senhor � disse o rec�m-chegado. � Finalmente estou lhe trazendo a sorte grande.</p><p>� As sinaliza��es?</p><p>� Tal qual eu disse no telegrama. Todas elas, sem�foros, c�digos de l�mpadas, tel�grafo � uma c�pia, lembre-se, e n�o o original. O original era muito perigoso. Mas � o neg�cio mesmo, pode ter certeza.</p><p>Deu um tapinha no ombro do alem�o com uma familiaridade rude, que fez o outro se encolher.</p><p>� Entre � disse. � Estou sozinho na casa. Estava apenas esperando isso. Claro que uma c�pia � melhor do que o original. Se o original desaparecesse, eles mudariam tudo de novo. Voc� tem certeza de que est� tudo bem com as c�pias?</p><p>O irland�s-americano havia entrado no escrit�rio e esticado as longas pernas numa poltrona. Era um sujeito alto, magro, de uns 60 anos, com fei��es n�tidas e um cavanhaque que o deixava parecido com uma caricatura do Tio Sam. Do canto da boca pendia um charuto meio fumado e encharcado, que ele acendeu de novo ao se sentar.</p><p>� Vai cair fora? � perguntou, olhando em volta. � Diga-me � acrescentou, quando viu o cofre exposto pela cortina aberta �, ser� que guarda seus documentos naquilo?</p><p>� Por que n�o?</p><p>� Diabo! Numa geringon�a f�cil como esta? E o senhor � um espi�o! Ora, qualquer malandro americano conseguiria arromb�-lo com um abridor de latas! Se eu soubesse que alguma carta minha ia ficar num treco assim, eu seria um palerma se lhe escrevesse.</p><p>� Daria trabalho a qualquer malandro para arrombar o cofre � respondeu Von Bork. � N�o se consegue cortar o metal com nenhuma ferramenta.</p><p>� Mas, e a fechadura?</p><p>� � de combina��o dupla. Sabe o que � isso?</p><p>� Estou por fora � respondeu o americano.</p><p>� Bem, antes de se tentar abrir a fechadura, � necess�rio que se conhe�a uma certa palavra, assim como uma combina��o de n�meros.</p><p>Ele levantou e mostrou um disco duplo em torno da fechadura.</p><p>� O disco de fora � para a palavra, e o de dentro, para os n�meros � explicou.</p><p>� Bom, bom, muito bom.</p><p>� Assim sendo, n�o � t�o f�cil como pensou. Mandei fabric�-lo h� quatro anos, e adivinhe que palavra e que n�mero eu escolhi?</p><p>� N�o fa�o id�ia.</p><p>� Bem, para a palavra escolhi �agosto�, e para os n�meros, �1914�, e a� est�o.</p><p>O rosto do americano revelou surpresa e admira��o.</p><p>� Puxa, mas foi muito bem bolado! Fez um bel�ssimo trabalho!</p><p>� Sim, mesmo naquela �poca, bem poucos de n�s poderiam ter adivinhado a data. Est� a�, e eu parto amanh� cedo.</p><p>� Bem, acho que tem de dar um jeito na minha situa��o tamb�m. N�o vou ficar sozinho neste pa�s maldito. Pelo que sinto, dentro de uma semana ou menos John Bull vai estar de quatro e esbravejando. Quero estar bem longe...</p><p>� Mas voc� n�o � um cidad�o americano?</p><p>� Ora, Jack James tamb�m era cidad�o americano e est� cumprindo pena em Portland este tempo todo. N�o adianta dizer a um tira ingl�s que se � cidad�o americano. Sempre dizem �Aqui, a lei e a ordem s�o brit�nicas�. A prop�sito, senhor, por falar em Jack James, parece que o senhor n�o d� muita cobertura aos seus agentes...</p><p>� O que quer dizer? � perguntou Von Bork rispidamente.</p><p>� Bem, o senhor � o patr�o, n�o �? Cabe ao senhor falar para que eles n�o sejam apanhados. Mas acabam sendo presos, e quando foi que o senhor os socorreu? H� o James...</p><p>� A culpa foi do pr�prio James. Voc� sabe disso. Ele estava muito confiante no servi�o.</p><p>� Ele era um cabe�a-dura, isso � verdade. Mas tamb�m temos Hollis...</p><p>� Ele era um louco.</p><p>� Bem, ficou meio biruta no fim. Um sujeito acaba ficando mesmo meio atarantado quando tem de trabalhar de manh� e � noite com uma centena de sujeitos prontos para lan�ar os tiras atr�s dele. Mas agora temos Steiner...</p><p>Von Bork estremeceu violentamente e o rosto corado empalideceu.</p><p>� O que aconteceu com Steiner?</p><p>� Ora, ele foi apanhado � � isso a�. Invadiram a loja dele ontem � noite, e ele e os documentos est�o na cadeia de Portsmouth agora. O senhor vai embora e o coitado do sujeito vai ag�entar a barra pesada, e vai ter muita sorte se conseguir escapar com vida. � por causa disso que quero estar do outro lado do canal o mais cedo poss�vel.</p><p>Von Bork era um sujeito frio, controlado, mas era f�cil ver que a not�cia o deixara abalado.</p><p>� Como conseguiram chegar at� Steiner? � perguntou. � Este foi o pior golpe.</p><p>� Bem, o senhor quase recebeu um golpe pior ainda, pois acho que os homens est�o atr�s de mim...</p><p>� Voc� n�o fala a s�rio!</p><p>� No duro. Minha senhoria j� foi interrogada, e quando soube disso, vi que era hora de me mandar. Mas o que eu quero saber, senhor, � como os tiras ficam sabendo dessas coisas. Steiner � o quinto homem que o senhor perde desde que estou a seu servi�o e j� sei o nome do sexto, se n�o me virar. Como o senhor explica isso, e n�o fica envergonhado de ver seus homens ca�rem assim?</p><p>Von Bork ficou vermelho.</p><p>� Como ousa falar comigo assim?</p><p>� Se eu n�o ousasse fazer coisas, senhor, n�o estaria a seu servi�o. Mas, vou ser franco. Dizem que voc�s, pol�ticos alem�es, quando um agente acabou o servi�o, n�o lamentam se ele for morto.</p><p>Von Bork levantou-se num pulo.</p><p>� Voc� tem a ousadia de insinuar que eu me livrei de meus pr�prios agentes?</p><p>� N�o chego a tanto, senhor, mas h� um delator ou um galho qualquer em algum lugar, e cabe ao senhor descobrir. De qualquer maneira, eu n�o vou me arriscar mais. Vou para a pequena Holanda, e quanto antes, melhor.</p><p>Von Bork controlou a raiva.</p><p>� Fomos aliados durante tempo demais para brigarmos agora, no momento da vit�ria � disse. � Voc� fez um trabalho espl�ndido e correu riscos, e isso eu n�o posso esquecer. Parta para a Holanda e pegue um navio em Rotterd� que o leve para Nova York. Daqui a uma semana, nenhuma outra linha ser� segura. Agora vou pegar este pacote e guard�-lo com os outros.</p><p>O americano segurava o pacotinho nas m�os, mas n�o fez men��o de entreg�-lo ao alem�o.</p><p>� E que tal o tutu? � perguntou.</p><p>� Que tal o qu�?</p><p>� A bufunfa. O dinheiro. As quinhentas libras. O atirador ultimamente endureceu a barra e tive de amaci�-lo com mais 100 d�lares, ou ent�o o neg�cio pifava para n�s dois. �Nada feito�, ele dizia, e falava s�rio, mas os �ltimos 100 d�lares funcionaram. O neg�cio todo me custou duzentas libras, de modo que n�o ser� justo que eu me desfa�a dele sem receber minha bolada.</p><p>Von Bork sorriu com desd�m.</p><p>� Parece que voc� n�o tem em alta conta a minha honra � disse. � Quer o dinheiro antes de entregar a mercadoria.</p><p>� Bem, senhor, � uma quest�o de neg�cios...</p><p>� Est� bem. Como quiser.</p><p>Sentou-se � mesa e preencheu um cheque, que destacou do tal�o, mas n�o o entregou ao companheiro.</p><p>� Afinal de contas, j� que vamos agir desta maneira, sr. Altamont, n�o vejo por que deva confiar no senhor mais do que confia em mim. Est� me entendendo? � acrescentou, olhando por sobre os ombros para o americano. � Aqui est� o cheque, na mesa. Exijo o direito de examinar o pacote antes que apanhe o dinheiro.</p><p>O americano entregou o material sem dizer uma palavra. Von Bork desfez o n� do barbante e tirou duas folhas de papel que cobriam o embrulho. Ent�o sentou-se, contemplando num sil�ncio aturdido um pequeno livro de capa azul diante dele. Na capa, em letras douradas, estava impresso Manual pr�tico de apicultura. O espi�o-chefe olhou apenas por um segundo o t�tulo estranho. No instante seguinte, uma garra de ferro o segurou pela nuca e uma esponja embebida em clorof�rmio foi colocada diante do seu rosto contorcido.</p><p>� Outro copo, Watson! � disse Sherlock Holmes ao passar a garrafa do Imperial Tokay.</p><p>O motorista gordo, que se sentara � mesa, empurrou seu copo com certa avidez.</p><p>� Um bom vinho, Holmes.</p><p>� Excelente, Watson. Nosso amigo do sof� garantiu-me que veio da adega especial de Franz Josef, do pal�cio Schoenbrunn. Por favor, abra a janela, porque o cheiro de clorof�rmio estraga o paladar.</p><p>O cofre estava aberto e Holmes, de p� diante dele, tirava dossi� por dossi�, examinando cada um com cuidado e colocando-os caprichosamente na valise de Von Bork. O alem�o estava deitado no sof�, dormindo e roncando, com uma correia em volta dos bra�os e outra nas pernas.</p><p>� N�o precisamos ter pressa, Watson. N�o seremos interrompidos. Poderia tocar a campainha? N�o h� ningu�m na casa a n�o ser a velha Martha, que representou o papel com perfei��o. Arrumei para ela este servi�o aqui quando comecei a trabalhar no caso. Ah, Martha vai ficar contente em saber que est� tudo bem.</p><p>A mulher havia aparecido � porta. Fez uma mesura para Holmes, com um sorriso, mas olhou apreensiva para a figura deitada no sof�.</p><p>� Est� tudo bem, Martha. Ele n�o est� ferido.</p><p>� Fico satisfeita com isso, sr. Holmes. A seu modo, foi um bom patr�o. Queria que eu partisse para a Alemanha, ontem, junto com a esposa. Mas isso n�o seria bom para os planos, n�o � verdade, sr. Holmes?</p><p>� N�o, n�o seria mesmo, Martha. Enquanto voc� estivesse aqui, eu ficaria descansado. Esperamos durante algum tempo o seu sinal, hoje � noite.</p><p>� Foi por causa do secret�rio, senhor.</p><p>� Eu sei. O carro dele passou pelo nosso.</p><p>� Achei que n�o iria mais embora. Eu sabia que n�o seria conveniente para os seus planos encontr�-lo aqui.</p><p>� � verdade. Bem, tivemos de aguardar durante meia hora at� ver sua l�mpada apagada e saber que o caminho estava livre. Encontre-se comigo em Londres amanh�, no Claridge Hotel, Martha.</p><p>� Muito bem, senhor.</p><p>� Acho que j� est� com tudo pronto para ir embora.</p><p>� Sim, senhor. Ele mandou sete cartas hoje. Como sempre, anotei os endere�os.</p><p>� Muito bem, Martha. Amanh� dou uma olhada nelas. Boa-noite.</p><p>Depois que a mulher saiu ele continuou.</p><p>� Estes documentos n�o s�o muito importantes porque as informa��es que cont�m naturalmente j� foram mandadas h� muito tempo para o governo alem�o. Estes s�o os originais que n�o podiam sair impunemente do pa�s.</p><p>� Ent�o eles n�o servem para nada.</p><p>� N�o diria tanto, Watson. Pelo menos servem para mostrar ao nosso pessoal o que j� se sabe ou n�o. Devo dizer que muitos destes documentos vieram por meu interm�dio e n�o preciso acrescentar que s�o inteiramente falsos. Seria uma alegria, nos meus �ltimos anos, ver um cruzador alem�o navegar pelo Solem de acordo com um mapa de campo de minas que lhes entreguei. Mas voc�, Watson � ele interrompeu o trabalho e segurou o velho amigo pelos ombros �, eu mal o vi na luz ainda. Como o tempo o trata? Voc� parece o rapaz alegre de sempre.</p><p>� Sinto-me vinte anos mais mo�o, Holmes. Poucas vezes me senti t�o feliz como quando recebi seu telegrama pedindo-me para encontr�-lo em Harwich com o carro. Mas voc�, Holmes... voc� mudou muito pouco, a n�o ser por este horr�vel cavanhaque.</p><p>� S�o os sacrif�cios que fazemos pelo pa�s, Watson � ele disse, alisando o pequeno tufo. � Amanh� isto ser� apenas uma recorda��o desagrad�vel. Com o cabelo cortado e algumas outras modifica��es superficiais, sem d�vida vou reaparecer amanh� no Claridge como eu era antes de topar esta parada... perd�o, Watson; mas meu po�o de puritanismo brit�nico parece estar definitivamente polu�do... antes que esta empreitada americana surgisse em meu caminho.</p><p>� Mas voc� estava aposentado, Holmes. Soubemos que vivia como um verdadeiro eremita entre suas abelhas e seus livros numa pequena fazenda de South Downs.</p><p>� Exatamente, Watson. Aqui est� o fruto de meu tempo de lazer, a magum opus dos �ltimos anos.</p><p>Pegou o livro na mesa e leu em voz alta o t�tulo completo: Manual pr�tico de apicultura, com algumas observa��es sobre a segrega��o da rainha.</p><p>� Eu o escrevi sozinho. Contemplei o fruto de noites em claro e dias atarefados enquanto eu observava os pequenos bandos trabalhando, tal como eu fazia antes com os criminosos de Londres.</p><p>� Mas como voltou a trabalhar?</p><p>� Ah, eu mesmo tenho me perguntado isso. Eu podia ter convencido o ministro das Rela��es Exteriores, mas quando o pr�prio primeiro-ministro tamb�m me deu a honra de visitar minha humilde casa... A verdade, Watson, � que este cavalheiro ali no sof� era bom demais para o nosso pessoal. Estava numa categoria especial. As coisas n�o estavam dando certo e ningu�m conseguia entender por qu�. Suspeitava-se de agentes, e alguns chegaram a ser apanhados, mas havia ind�cios de uma for�a central, secreta e poderosa. Era absolutamente necess�rio descobri-la. Fui pressionado para cuidar do caso. Isto me custou dois anos, Watson, mas eles n�o foram destitu�dos de emo��o. Quando lhe disser que comecei minha peregrina��o em Chicago, que me filiei a uma irlandesa sociedade secreta em Buffalo, que dei muito trabalho � pol�cia de Skibbareen at� chamar a aten��o de um agente do Von Bork, que me recomendou como pessoa de confian�a, voc� vai perceber que o assunto era muito complexo. Desde ent�o, fui honrado com a confian�a do homem, o que n�o impediu que a maior parte de seus planos fosse sutilmente frustrada e que cinco de seus melhores agentes estejam presos. Fiquei de olho neles, Watson, e os apanhei assim que amadureceram. Bem, senhor, espero que esteja melhor!</p><p>Esta �ltima observa��o fora dirigida ao pr�prio Von Bork, que, depois de muito ofegar e piscar, ouvia calado o que Holmes dizia. Explodiu, em seguida, numa furiosa torrente de impreca��es em alem�o, com o rosto contorcido de �dio. Holmes continuou calmamente a pesquisa nos documentos enquanto seu prisioneiro praguejava e amaldi�oava.</p><p>� Embora n�o seja melodioso, o alem�o � a mais expressiva de todas as l�nguas � observou Holmes depois que Von Bork, cansado, parou. � Olal�! � exclamou ao examinar um desenho, antes de coloc�-lo no cofre. � Isto aqui vai p�r outro passarinho na gaiola. Eu n�o imaginava que o tesoureiro fosse um velhaco, embora h� muito tempo estivesse desconfiado dele. Sr. Von Bork, h� um punhado de coisas pelas quais vai ter de responder.</p><p>O prisioneiro, depois de muito esfor�o, conseguira se sentar e olhava para seu captor com incredulidade e �dio.</p><p>� Ainda vou peg�-lo, Altamont � disse lenta e deliberadamente. � Mesmo que leve o resto de minha vida, ainda vou acertar as contas com voc�s!</p><p>� A velha e doce can��o de sempre � ironizou Holmes. � Quantas e quantas vezes j� a ouvi no passado! Era a cantilena favorita do finado professor Moriarty. O coronel Sebastian Moran tamb�m gostava de ento�-la. E eu ainda estou vivo e crio abelhas em South Downs.</p><p>� Maldito seja, duplo traidor! � o alem�o gritou para Holmes, retesando as cordas e com uma f�ria homicida nos olhos.</p><p>� N�o, n�o, n�o sou t�o mau assim � respondeu Holmes, sorrindo. � Como deve ter entendido, o sr. Altamont de Chicago na verdade n�o existe. Usei-o, e ele j� n�o mais existe.</p><p>� Ent�o, quem � voc�?</p><p>� N�o importa quem eu seja, mas j� que o assunto parece interess�-lo, sr. Von Bork, posso dizer-lhe que este n�o � meu primeiro contato com membros de sua fam�lia. No passado fiz uma s�rie de trabalhos na Alemanha e meu nome talvez lhe seja familiar.</p><p>� Gostaria de saber qual � � disse o prussiano, carrancudo.</p><p>� Fui eu quem provocou a separa��o entre Irene Adler e o finado rei da Bo�mia, quando seu primo Heinrich era o enviado imperial. Fui eu quem o salvou de morrer assassinado pelo niilista Klopman, o conde Von und Zu Grafenstein, que era o irm�o mais velho de sua m�e. Fui eu quem...</p><p>Von Bork ficou boquiaberto. � S� existe um homem! � exclamou.</p><p>� Exatamente � disse Holmes.</p><p>Von Bork gemeu e afundou no sof�.</p><p>� E a maior parte das informa��es veio de voc�! � exclamou. � Qual o valor delas? O que foi que eu fiz? Estou arruinado para sempre...</p><p>� Sem d�vida as informa��es que transmiti n�o s�o muito confi�veis � disse Holmes. � Exigiria uma verifica��o e voc�s n�o t�m tempo para fazer isso. Seu almirante vai descobrir que os novos canh�es s�o maiores do que ele esperava e que os cruzadores talvez sejam um pouco mais velozes...</p><p>Von Bork, num gesto de desespero, apertou a pr�pria garganta.</p><p>� H� muitos outros detalhes que, sem d�vida, vir�o � luz no momento pr�prio. Mas o senhor tem uma qualidade rara num alem�o, sr. Von Bork: � um esportista, e n�o vai guardar rancor de mim quando compreender que, depois de tapear tanta gente, finalmente foi tapeado por mim. Afinal de contas, fez o melhor por seu pa�s, e eu fiz o melhor pelo meu. Assim sendo, o que pode ser mais natural? Al�m do mais � acrescentou Holmes, com certa bondade, pondo a m�o no ombro do homem prostrado �, � melhor assim do que cair diante de um inimigo mais implac�vel. Os documentos j� est�o prontos, Watson. Se me ajudar com o prisioneiro, acho que podemos partir para Londres imediatamente.</p><p>N�o foi f�cil levar Von Bork, pois era um sujeito forte e violento. Finalmente, segurando os bra�os dele, os dois amigos o arrastaram lentamente pelo caminho do� jardim, onde o alem�o andara com tanta confian�a e orgulho algumas horas antes, ao receber as congratula��es do famoso diplomata. Ap�s uma luta r�pida, ele foi colocado no banco traseiro do carro, com os p�s e as m�os amarrados. A preciosa maleta foi colocada ao seu lado.</p><p>� Espero que esteja o mais confort�vel poss�vel nesta situa��o � disse Holmes, quando estava tudo pronto. � Posso acender um charuto e coloc�-lo entre seus l�bios?</p><p>Mas as amenidades eram in�teis como o alem�o zangado.</p><p>� Creio que sabe, sr. Sherlock Holmes, que se seu governo o ap�ia neste tratamento, ele se torna um ato de guerra.</p><p>� E o que acha de seu governo e todo este tratamento? � perguntou Holmes, dando um tapinha na valise.</p><p>� O senhor n�o � uma autoridade oficial. N�o tem um mandado de pris�o. O seu procedimento � totalmente ilegal e abusivo.</p><p>� Totalmente � concordou Holmes.</p><p>� Est� seq�estrando um s�dito alem�o.</p><p>� E roubando seus documentos particulares.</p><p>� Bem, reconhece sua situa��o, o senhor e seu c�mplice aqui. Se eu gritar por socorro quando passarmos pela aldeia...</p><p>� Meu caro senhor, se fizesse algo t�o est�pido assim, com toda a certeza iria aumentar os poucos nomes das hospedarias da aldeia, dando-nos sugest�es como �O Prussiano Pendente� como tabuleta! O ingl�s � uma criatura paciente, mas no momento seu �nimo anda um tanto exaltado e seria aconselh�vel n�o inflam�-lo demais. N�o, sr. Von Bork, ir� conosco bem quieto, uma atitude sensata, at� a Scotland Yard, de onde poder� chamar seu amigo, o bar�o Von Herling, e ver se ele ainda o quer no lugar que reservou para o senhor na embaixada. Quanto a voc�, Watson, vai juntar-se a n�s, com sua antiga fun��o, de modo que Londres est� no seu caminho. Fique um pouco comigo aqui no terra�o, pois esta pode ser a �ltima conversa tranq�ila que teremos.</p><p>Os dois amigos se envolveram numa conversa �ntima durante alguns minutos, recordando os dias gloriosos do passado, enquanto o prisioneiro se debatia em v�o, tentando livrar-se das cordas que o prendiam. Quando voltaram para o carro, Holmes apontou para o mar, iluminado pela lua, e balan�ou a cabe�a, pensativo.</p><p>� Vem vindo um vento do leste, Watson.</p><p>� N�o creio, Holmes. Est� muito quente.</p><p>� Meu bom e velho Watson! Voc� � um ponto fixo numa �poca de mudan�as! De qualquer forma vem vindo um vento do leste, como nunca antes varreu a Inglaterra. Ser� frio e amargo, Watson, e muitos de n�s poder�o ser fulminados por sua rajada. Mas, afinal, � a vontade de Deus, e quando passar</p><p>a tempestade, um pa�s mais puro, melhor, mais forte brilhar� ao sol. Ligue a m�quina, Watson, porque est� na hora de nos pormos a caminho. Tenho um cheque de quinhentas libras que preciso descontar logo, pois o sacado � bem capaz de sustar seu pagamento, se puder.</p><empty-line/></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>Hist�rias de Sherlock Holmes</strong></p></section><section><p><strong>pref�cio</strong></p><p>Receio que Sherlock Holmes fique parecido com um desses tenores populares que, tendo sobrevivido � sua �poca, ainda se sentem tentados a fazer repetidas mesuras de despedida para o seu p�blico complacente. Isto tem de acabar, e ele precisa seguir o caminho de todo ser humano, real ou imagin�rio. Gostamos de pensar que existe um limbo fant�stico para os filhos da imagina��o, algum lugar estranho e imposs�vel, onde os beaux de Fielding ainda podem cortejar as belles de Richardson, onde os her�is de Scott ainda podem pavonear-se, os deliciosos Cockneys de Dickens ainda provocam riso, e os mundanos de Thackeray continuam suas carreiras censur�veis. Talvez, em algum canto humilde deste Valhalla,* Sherlock e seu Watson possam encontrar abrigo durante algum tempo, enquanto um detetive mais astuto, com algum companheiro ainda menos astuto, possa ocupar o palco que eles abandonaram.</p><p>Sua carreira foi longa � embora seja poss�vel exager�-la; cavalheiros decr�pitos, que se�aproximaram de mim e afirmaram que as aventuras de Sherlock Holmes constitu�ram a leitura de sua inf�ncia, n�o obtiveram a rea��o que pareciam esperar. Ningu�m deseja que sua idade seja tratada de maneira t�o descort�s. A fria realidade � que Holmes fez o seu d�but com �Um estudo em vermelho� e �O sinal dos quatro�, dois livros pequenos que apareceram entre 1887 e 1889. Foi em 1891 que �Um esc�ndalo na Bo�mia�, o primeiro da longa s�rie de contos, apareceu no The Strand Magazine. O p�blico pareceu gostar e querer mais, de modo que, a partir desta data, 39 anos atr�s, elas t�m sido produzidas a intervalos irregulares e agora totalizam 56 hist�rias, republicadas em As aventuras, Mem�rias, A volta, e Os �ltimos casos, ainda restam estas doze, publicadas durante os �ltimos anos e que s�o editadas aqui, com o t�tulo de Hist�rias de Sherlock Holmes. Ele come�ou suas aventuras bem no meio da Era Vitoriana, continuou durante o curto reinado de Edward e conseguiu conservar seu lugar mesmo durante esta �poca febril. Portanto, seria correto afirmar que os primeiros a ler sobre ele quando eram jovens viveram para ver seus pr�prios filhos crescidos acompanhando as mesmas aventuras, na mesma revista. Este � um exemplo admir�vel da paci�ncia e da lealdade do p�blico brit�nico.</p><p>Ao t�rmino do Mem�rias, eu estava realmente decidido a dar um fim a Holmes, pois sentia que as minhas energias liter�rias n�o deveriam ser direcionadas para um s� canal. Aquela figura p�lida e desengon�ada, de tra�os bem definidos, estava absorvendo uma parte excessiva da minha imagina��o. Realizei a fa�anha, mas, felizmente, nenhum m�dico-legista se pronunciou sobre os despojos, de modo que, depois de um longo intervalo, n�o foi dif�cil para mim responder aos apelos lisonjeiros e explicar meu ato ousado. Nunca me arrependi disto, pois, na pr�tica, n�o achei que esses esbo�os mais leves tenham me impedido de explorar e descobrir minhas limita��es em ramos variados da literatura, como hist�ria, poesia, romances hist�ricos, pesquisa ps�quica e drama. Se Holmes nunca tivesse existido, eu n�o poderia ter realizado mais, embora ele talvez tenha impedido o reconhecimento do meu trabalho liter�rio mais s�rio.</p><p>Portanto, leitor, adeus a Sherlock Holmes! Agrade�o a sua fidelidade e espero que tenha tido alguma recompensa, na forma de distra��o das preocupa��es da vida e de uma estimulante mudan�a de pensamento, que s� podem ser encontradas no reino encantado do romance.</p><empty-line/><p>Arthur Conan Doyle</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura do cliente ilustre</strong></p><p>� Isto agora n�o pode mais causar nenhum preju�zo � foi o coment�rio de Sherlock Holmes quando, pela d�cima vez em muitos anos, pedi seu consentimento para divulgar esta narrativa. E foi assim que, finalmente, obtive permiss�o para relatar o que, de certa forma, foi o momento supremo da carreira do meu amigo.</p><p>Holmes e eu t�nhamos uma fraqueza pelo banho turco. Foi depois de um cigarro, na agrad�vel lassid�o da sala de repouso, que o encontrei menos reticente e mais humano do que em qualquer outro lugar. No andar superior do estabelecimento, na Northumberland Avenue, h� um canto isolado, com dois sof�s um ao lado do outro, e era neles que est�vamos deitados no dia 3 de setembro de 1902, quando come�a minha narrativa. Eu lhe perguntei se estava acontecendo alguma coisa e, como resposta, ele esticou seu bra�o longo, fino e nervoso para fora dos len��is que</p><p>o envolviam e puxou um envelope de dentro do bolso do palet�, que estava pendurado a seu lado.</p><p>� Pode ser algum presun�oso, algum tolo vaidoso; pode ser um caso de vida ou morte � ele disse ao me entregar o bilhete. � N�o sei nada al�m do que esta mensagem me diz.</p><p>A mensagem vinha do Clube Carlton e trazia a data do dia anterior. Estava escrito:</p><empty-line/><p>Sir James Damery apresenta seus cumprimentos ao sr. Sherlock Holmes e lhe far� uma visita amanh� �s 16:30h. Sir James informa que o assunto sobre o qual deseja consultar o sr. Holmes � bastante delicado, e tamb�m muito importante. Ele acredita, portanto, que o sr. Holmes far� o poss�vel para conceder-lhe esta entrevista e que a confirmar� por telefone ao Clube Carlton.</p><p>� N�o preciso dizer que confirmei a entrevista, Watson � disse Holmes quando lhe devolvi o papel. � Sabe alguma coisa sobre esse homem, Damery?</p><p>� Apenas que seu nome � bastante conhecido na sociedade.</p><p>� Bem, posso contar-lhe um pouco mais do que isto. Ele tem, principalmente, a fama de tratar de neg�cios delicados, que precisem ser mantidos em sigilo. Voc� deve se lembrar das negocia��es dele com sir George Lewis sobre o caso do testamento de Hammerford. Ele � um homem do mundo, com uma inclina��o natural para a diplomacia. Portanto, espero que esta n�o seja uma pista falsa, e que ele precise realmente da nossa ajuda.</p><p>� Nossa?</p><p>� Bem, se voc� quiser cooperar, Watson.</p><p>� Eu me sentirei honrado.</p><p>� Ent�o voc� sabe a hora � 16:30h. At� l�, podemos esquecer este assunto.</p><empty-line/><p>Nessa �poca eu estava morando em meus pr�prios aposentos, em Queen Anne Street, mas voltei a Baker Street antes da hora marcada. Pontualmente, meia hora depois das 16 horas, o coronel sir James Damery foi anunciado. N�o � necess�rio descrev�-lo, pois muitos se lembrar�o de sua figura volumosa, fanfarrona, honesta, daquele rosto largo, barbeado e, sobretudo, daquela voz agrad�vel e suave. Seus olhos cinzentos de irland�s irradiavam franqueza, e o bom humor brincava em seus l�bios sorridentes. Sua resplandecente cartola, sua sobrecasaca escura, cada detalhe � da p�rola do alfinete na gravata preta de cetim �s polainas cor-de-alfazema sobre os sapatos envernizados � revelava o cuidado meticuloso no vestir que o tornara famoso.</p><p>� Naturalmente eu esperava encontrar o dr. Watson � ele observou, com uma cort�s inclina��o da cabe�a. Sua colabora��o pode ser muito necess�ria, porque agora iremos lidar, sr. Holmes, com um homem para quem a viol�ncia � familiar e que, literalmente falando, n�o se deter� diante de nada; eu diria que n�o existe homem mais perigoso em toda a Europa.</p><p>� J� tive v�rios advers�rios a quem este termo lisonjeiro foi aplicado � disse Holmes com um sorriso. � N�o fuma? Ent�o vai me desculpar por eu acender meu cachimbo. Se esse homem � mais perigoso do que o falecido professor Moriarty, ou do que o ainda vivo coronel Sebastian Moran, ent�o realmente vale a pena conhec�-lo. Posso perguntar o nome dele?</p><p>� J� ouviu falar do bar�o Gruner?</p><p>� O senhor se refere ao assassino austr�aco?</p><p>O coronel Damery ergueu suas m�os enluvadas e deu uma gargalhada. � Ningu�m pode com o senhor! Maravilhoso! Quer dizer que o senhor j� o classificou de assassino?</p><p>� � minha profiss�o acompanhar os detalhes do crime no Continente. Quem poderia ler a respeito do que aconteceu em Praga e ter alguma d�vida sobre a culpabilidade deste homem? Foram apenas um detalhe t�cnico-legal e a morte suspeita de uma testemunha que o salvaram. Tenho tanta certeza de que ele matou sua mulher, quando ocorreu o chamado �acidente� no Spl�gen Pass, como se eu tivesse presenciado a cena. Soube tamb�m que ele tinha vindo para a Inglaterra e tive um pressentimento de que, mais cedo ou mais tarde, ele me daria trabalho. Bem, o que � que o bar�o Gruner andou aprontando? Presumo que n�o se trate desta velha trag�dia que veio � tona de novo.</p><p>� N�o, � mais s�rio do que isso. Vingar um crime � importante, mas evit�-lo � mais importante ainda. � uma coisa terr�vel, sr. Holmes, presenciar um acontecimento espantoso, uma situa��o cruel, sendo preparada diante de seus olhos, compreender claramente aonde isto conduzir�, e mesmo assim ser totalmente incapaz de evitar o mal. Pode um ser humano ser colocado em situa��o mais dif�cil?</p><p>� Talvez n�o.</p><p>� Ent�o o senhor se compadecer� do cliente em cujo interesse eu estou agindo.</p><p>� Eu n�o sabia que o senhor era apenas um intermedi�rio. Quem � o principal interessado?</p><p>� Sr. Holmes, devo pedir-lhe que n�o insista nesta pergunta. � importante que eu garanta ao senhor que o honrado nome dele n�o foi, de modo algum, envolvido neste assunto. Seus motivos s�o nobres e cavalheirescos no mais alto grau, mas� ele prefere permanecer inc�gnito. N�o preciso dizer-lhe que seus honor�rios estar�o assegurados, e que o senhor ter� absoluta liberdade de a��o. Posso ter certeza de que o nome verdadeiro de seu cliente � pouco importante?</p><p>� Sinto muito � disse Holmes. � Estou acostumado a ter mist�rio de um dos lados dos meus casos, mas ter isto dos dois lados � confuso demais. Receio, sir James, que eu deva me recusar a agir.</p><p>Nosso visitante ficou muito perturbado. Seu rosto largo e sens�vel adquiriu uma express�o de tristeza e decep��o.</p><p>� O senhor dificilmente poder� compreender o efeito de sua atitude, sr. Holmes � ele disse. � O senhor me deixa num dilema muito s�rio, porque tenho certeza� de que o senhor ficaria orgulhoso de aceitar a causa se eu pudesse apresentar-lhe os fatos, mas uma promessa me pro�be de revel�-los. Eu gostaria, pelo menos, de expor-lhe o que posso?</p><p>� Certamente, contanto que fique entendido que eu n�o estou me comprometendo com coisa alguma.</p><p>� Isso est� claro. Em primeiro lugar, o senhor, sem d�vida nenhuma, ouviu falar do general de Merville?</p><p>� De Merville, que se tornou c�lebre em Khyber? Sim, j� ouvi falar dele.</p><p>� Ele tem uma filha, Violet de Merville, jovem, rica, bonita, perfeita, uma mulher maravilhosa em todos os sentidos. E � esta filha, esta mo�a ador�vel e inocente que estamos tentando salvar das garras de um vil�o.</p><p>� Ent�o o bar�o Gruner tem alguma influ�ncia sobre ela?</p><p>� A mais forte de todas no que diz respeito a uma mulher, a influ�ncia do amor. Ele �, como o senhor j� deve ter ouvido falar, extraordinariamente bonito, seu jeito extremamente fascinante, uma voz am�vel, e aquele ar de romance e mist�rio que significa tanto para uma mulher. Dizem que ele tem todo o belo sexo � sua merc� e que j� fez amplo uso deste fato.</p><p>� Mas como p�de um homem destes conhecer uma dama do n�vel da srta. Violet de Merville?</p><p>� Foi numa viagem de iate pelo Mediterr�neo. Os passageiros, embora selecionados, pagaram suas pr�prias passagens. Sem d�vida os promotores s� perceberam o verdadeiro car�ter do bar�o quando j� era tarde demais. O vil�o aproximou-se da fidalga, e com tamanha efic�cia que conquistou totalmente o seu cora��o. Dizer que ela o ama n�o descreve o estado dela. Ela o venera, est� obcecada por ele. Al�m dele, n�o existe mais nada na terra. Ela n�o dar� ouvidos a uma palavra dita contra ele. Fizeram tudo para cur�-la desta loucura, mas foi em v�o. Em resumo, ela pretende casar-se com ele no m�s que vem. Como ela � maior de idade e tem uma vontade de ferro, � dif�cil saber como impedi-la.</p><p>� Ela sabe o que aconteceu na �ustria?</p><p>� O astuto dem�nio contou-lhe todos os s�rdidos esc�ndalos p�blicos de sua vida passada, mas sempre de modo a faz�-lo parecer um m�rtir inocente. Ela aceita inteiramente a vers�o dele e n�o ouvir� nenhuma outra.</p><p>� Valha-me Deus! Mas o senhor, inadvertidamente, n�o revelou o nome de seu cliente? Sem d�vida � o general de Merville.</p><p>O nosso visitante agitou-se na cadeira.</p><p>� Eu poderia engan�-lo dizendo que sim, sr. Holmes, mas isto n�o seria verdade. De Merville est� arrasado. O soldado vigoroso ficou completamente desmoralizado depois deste incidente. Perdeu o vigor, que nunca o abandonou no campo de batalha, e tornou-se um velho fraco e tr�pego, totalmente incapaz de lutar com um patife brilhante e poderoso como esse austr�aco. Mas o meu cliente � um velho amigo, que conhece o general intimamente h� muitos anos e que tem um interesse paternal por esta mo�a, desde que ela usava vestido curto. Ele n�o pode ver esta trag�dia consumar-se sem fazer alguma tentativa de impedi-la. N�o h� nada que a Scotland Yard possa fazer. Foi ele mesmo que sugeriu que o senhor fosse consultado, mas, como j� disse, com a condi��o expressa de que ele n�o seria envolvido pessoalmente na quest�o. Eu n�o duvido, sr. Holmes, que o senhor, com sua capacidade, poderia descobrir facilmente, por interm�dio da minha pessoa, quem � o meu cliente, mas devo pedir-lhe, como ponto de honra, que n�o fa�a isso e que o deixe permanecer inc�gnito.</p><p>Holmes sorriu de maneira esquisita.</p><p>� Acho que posso prometer-lhe isto. Devo acrescentar que seu problema me interessa, e que estarei preparado para investig�-lo. Como poderei manter-me em contato com o senhor?</p><p>� O Clube Carlton me encontrar�. Mas, em caso de urg�ncia, existe um telefone particular, XX.31.</p><p>Holmes, sentado e ainda sorrindo, anotou o n�mero em sua agenda aberta sobre os joelhos.</p><p>� O endere�o atual do bar�o, por favor?</p><p>� Vernon Lodge, perto de Kingston. � uma casa enorme. Ele teve sorte em algumas especula��es um tanto obscuras e � um homem rico, o que o torna, naturalmente, um advers�rio ainda mais perigoso.</p><p>� Ele est� em casa no momento?</p><p>� Sim.</p><p>� Al�m daquilo que voc� j� me disse, pode me dar mais alguma informa��o sobre ele?</p><p>� Ele teve h�bitos dispendiosos. Gosta de cavalos. Jogou p�lo em Hurlingham, durante pouco tempo, mas ent�o este assunto de Praga espalhou-se, e ele foi obrigado a desistir. � um homem com forte inclina��o art�stica. Coleciona livros e quadros. Ele �, eu creio, uma renomada autoridade em cer�mica chinesa, e escreveu um livro sobre o assunto.</p><p>� Uma mente complexa � disse Holmes. � Todos os grandes criminosos a possuem. Meu velho amigo, Charlie Peace, era um ex�mio violinista. Wainwright n�o era um mau artista. Eu poderia citar muitos outros. Bem, sir James, o senhor informar� seu cliente que eu estou concentrando minha aten��o no bar�o Gruner. N�o posso dizer mais nada. Tenho algumas fontes de informa��o particulares, e eu diria que podemos descobrir meios de resolver o assunto.</p><empty-line/><p>Quando o nosso visitante foi embora, Holmes ficou sentado meditando, durante tanto tempo que achei que ele havia se esquecido da minha presen�a. Mas finalmente, ele voltou animado � Terra.</p><p>� Bem, Watson, alguma id�ia? � ele perguntou.</p><p>� Acho que � melhor voc� conhecer a jovem dama pessoalmente.</p><p>� Meu caro Watson, se seu pobre velho pai n�o consegue dissuadi-la, como posso eu, um desconhecido, convenc�-la? Mesmo assim a sugest�o � v�lida, se tudo o mais falhar. Mas acho que devemos come�ar por um �ngulo diferente. Tenho um palpite de que Shinwell Johnson poder� ajudar.</p><p>N�o tive ocasi�o de mencionar Shinwell Johnson nestas narrativas, porque raramente extra� os casos da �ltima fase da carreira do meu amigo. Durante os primeiros anos do s�culo ele tornou-se um assistente valioso. Johnson, lamento dizer, ficou famoso primeiro como um perigoso patife e cumpriu pena duas vezes em Parkhurst. Finalmente arrependeu-se e aliou-se a Holmes, atuando como seu agente no imenso submundo do crime de Londres, e obtendo informa��es que quase sempre eram de import�ncia fundamental. Se Johnson tivesse sido um espi�o da pol�cia, logo teria sido descoberto, mas como ele lidava com casos que nunca iam diretamente para os tribunais, suas atividades nunca foram percebidas por seus companheiros. Com o glamour de suas duas condena��es, ele tinha entrada livre em todos os clubes noturnos, pardieiros e inferninhos de jogo da cidade, e sua capacidade de observa��o r�pida e seu c�rebro �gil fizeram dele um agente ideal para a obten��o de informa��es. E era a ele que Sherlock Holmes queria recorrer agora.</p><p>N�o me foi poss�vel acompanhar os passos imediatos do meu amigo porque eu tinha alguns neg�cios profissionais urgentes, mas marquei um encontro com ele naquela tarde, no Simpson, onde, sentado a uma mesinha na janela da frente e observando o apressado fluxo de vida no Strand, ele me contou um pouco do que acontecera.</p><p>� Johnson est� em a��o. Ele pode encontrar alguma pista nos cantos mais escuros do submundo, porque � l� embaixo, entre as ra�zes obscuras do crime, que devemos procurar os segredos deste homem.</p><p>� Mas se a mo�a n�o quer aceitar o que j� se sabe, por que alguma nova descoberta iria faz�-la mudar de id�ia?</p><p>� Quem sabe, Watson? O cora��o e a mente da mulher s�o para o homem enigmas insol�veis. O homic�dio pode ser perdoado ou explicado, mas algum crime menor pode irritar. O bar�o Gruner me fez uma advert�ncia.</p><p>� Ele o advertiu!</p><p>� Oh, certamente n�o lhe contei os meus planos! Bem, Watson, adoro combater de perto o meu homem. Gosto de encontr�-lo cara a cara e descobrir pessoalmente de que mat�ria ele � feito. Ap�s dar instru��es a Johnson, tomei um t�xi para Kingston e encontrei o bar�o num estado de esp�rito extremamente af�vel.</p><p>� Ele o reconheceu?</p><p>� Quanto a isto n�o houve dificuldade, porque simplesmente mandei entregar-lhe o meu cart�o. Ele � um excelente advers�rio, frio como o gelo, voz macia e t�o tranq�ilizadora como qualquer um de seus m�dicos especialistas, e venenoso como uma cascavel. Ele tem ra�a, um verdadeiro aristocrata do crime, lembrando ao mesmo tempo o ch� das cinco e toda a crueldade do t�mulo. Sim, estou satisfeito por ter voltado minha aten��o para o bar�o Gruner.</p><p>� Voc� disse que ele foi af�vel?</p><p>� Um gato ronronando porque pensa que tem um rato em perspectiva. A afabilidade de certas pessoas � mais mortal do que a viol�ncia de almas mais rudes. Seu cumprimento foi caracter�stico. �Pensei que iria, com toda a certeza, v�-lo mais cedo ou mais tarde, sr. Holmes�, ele disse. �O senhor deve ter sido contratado pelo general de Merville para tentar impedir o meu casamento com a filha dele, Violet. � isso, n�o?�</p><p>� Concordei.</p><p>� �Meu caro�, ele disse, �o senhor apenas arruinar� sua merecida reputa��o. Este n�o � um caso em que possa ter �xito. Seu trabalho ser� infrut�fero, para n�o falar que estar� sujeito a algum perigo. Deixe-me adverti-lo veementemente para que se afaste de vez�.</p><p>� �� curioso�, respondi, �pois � o mesmo conselho que pretendia lhe dar. Respeito a sua intelig�ncia, bar�o, e o pouco que vi de sua personalidade n�o a diminui em meu conceito. Deixe-me expor-lhe isto, de homem para homem. Ningu�m deseja revolver seu passado e deix�-lo excessivamente desconfort�vel. O que passou, passou e o senhor agora est� em �guas tranq�ilas, mas, se insistir neste casamento, vai ati�ar um enxame de inimigos poderosos, que n�o o deixar�o em paz at� que tenham inflamado a Inglaterra o bastante para que o agarrem. Ser� que o jogo vale a pena? Certamente, seria mais prudente deixar a mo�a em paz. N�o seria agrad�vel para o senhor se esses fatos do seu passado fossem levados ao conhecimento dela�.</p><p>� O bar�o tem, embaixo do nariz, pequenas pontas engorduradas de cabelo semelhantes �s curtas antenas de um inseto. Esses cabelos tremiam enquanto o bar�o ouvia, e ele, finalmente, deu uma risadinha.</p><p>� �Desculpe-me por ter achado gra�a, sr. Holmes� ele disse �pois realmente � divertido v�-lo tentando jogar sem ter cartas na m�o. Acho que ningu�m poderia faz�-lo melhor, mas, de qualquer maneira, � um tanto pat�tico. Nenhuma carta na m�o, sr. Holmes nada, nem a menor delas.�</p><p>� �� o que o senhor pensa.�</p><p>� �� o que sei. Deixe-me esclarecer uma coisa para o senhor, porque o meu jogo � t�o forte que posso me dar ao luxo de mostr�-lo. Tive a sorte de conquistar a afei��o dessa dama. Essa afei��o foi-me dedicada apesar de eu ter-lhe contado muito claramente todos os incidentes infelizes da minha vida passada. Tamb�m disse a ela que certas pessoas perversas e mal-intencionadas � espero que o senhor reconhe�a que est� entre elas � iriam contar-lhe essas coisas, e a preveni, para que soubesse como trat�-las. O senhor j� ouviu falar em sugest�o p�s-hipn�tica, sr. Holmes? Bem, o senhor ver� como ela funciona, porque um homem de personalidade pode usar o hipnotismo sem aplicar passes ou outras tolices vulgares. De modo que ela est� preparada para o senhor e, n�o tenho d�vida, ir� conceder-lhe uma entrevista, pois � bastante submissa � vontade paterna � exceto neste assunto.�</p><p>� Bem, Watson, parecia que n�o havia mais nada a dizer, de modo que eu me despedi da maneira mais digna e fria que pude, mas quando eu estava com a m�o na ma�aneta da porta, ele me fez parar.</p><p>� �A prop�sito, sr. Holmes�, ele disse, �o senhor conhece o agente franc�s Le Brun?�</p><p>� �Conhe�o�, respondi.</p><p>� �O senhor sabe o que aconteceu com ele?�</p><p>� �Ouvi dizer que foi espancado por alguns Apaches, no distrito Montmartre, e ficou aleijado para o resto da vida.�</p><p>� �Exatamente, sr. Holmes. Por uma curiosa coincid�ncia, ele estava investigando os meus neg�cios apenas uma semana antes. N�o fa�a o mesmo, sr. Holmes, pois n�o d� sorte. Muitos descobriram isso. Minha �ltima palavra �: siga seu pr�prio caminho e deixe que eu siga o meu. Adeus!�</p><p>� Foi isso, Watson. Voc� agora est� atualizado.</p><p>� O sujeito parece perigoso.</p><p>� Muit�ssimo perigoso. Eu desprezo o fanfarr�o, mas ele � o tipo do homem que diz muito menos do que aquilo que pretende fazer.</p><p>� Voc� precisa interferir? Importa realmente se ele se casar com a mo�a?</p><p>� Considerando que ele, sem d�vida nenhuma, assassinou sua �ltima esposa, eu diria que importa muito. Al�m disso, o cliente! Bem, bem, n�o precisamos discutir isto. Quando voc� terminar seu caf�, ser� melhor vir comigo at� minha casa, pois o jovial Shinwell estar� l� com seu relat�rio.</p><p>N�s o encontramos mesmo; um homem enorme, rude, de rosto vermelho, com olhos pretos e vivos, �nico sinal exterior de uma mente muito �gil. Parece que ele havia penetrado naquilo que era tipicamente o seu mundo, e ao lado dele, no sof�, estava um tipo que ele havia trazido, uma jovem esbelta, vistosa, de rosto p�lido e en�rgico, mas t�o devastada pelo pecado e pela tristeza que era poss�vel perceber os anos terr�veis que haviam deixado nela a sua marca.</p><p>� Esta � a srta. Kitty Winter � disse Shinwell Johnson, balan�ando sua gorda m�o num gesto de apresenta��o. � O que ela n�o sabe � bem, olhe, ela mesma falar�. Botei as m�os nela, sr. Holmes, uma hora depois de ter recebido sua mensagem.</p><p>� Sou f�cil de ser encontrada � disse a jovem. � Que inferno Londres, sempre me encontram. O mesmo endere�o para o Gordo Shinwell. Somos velhos companheiros, o Gordo, voc� e eu. Mas valha-me Deus! H� um outro que devia estar l� embaixo, num inferno ainda pior do que o nosso se houvesse justi�a no mundo. Esse � o homem que o senhor est� procurando, sr. Holmes.</p><p>Holmes sorriu. � Entendo que est� nos desejando boa sorte, srta. Winter.</p><p>� Se eu puder ajudar a lev�-lo para o lugar onde ele devia estar, pode contar comigo � disse a nossa visitante com uma energia feroz. Havia muito �dio no seu rosto branco e decidido, e nos seus olhos em chamas, numa intensidade que as mulheres raramente conseguem atingir, e os homens, nunca.</p><p>� O senhor n�o precisa investigar o meu passado, sr. Holmes. Meu passado n�o � nem bom nem mau. Mas o que sou devo a Adelbert Gruner. Se eu pudesse destru�-lo! � Ela cerrou os punhos furiosamente, erguendo as m�os. � Oh, se eu pudesse arrast�-lo para o fosso onde ele jogou tanta gente!</p><p>� Voc� sabe do que se trata?</p><p>� O Gordo Shinwell me falou a respeito. Ele est� atr�s de alguma outra pobre tola, e desta vez quer se casar com ela. O senhor quer impedi-lo. Bem, certamente o senhor sabe bastante a respeito desse dem�nio para impedir qualquer mo�a decente, em seu ju�zo perfeito, de compartilhar sua vida.</p><p>� Ela n�o est� em seu ju�zo perfeito. Ela est� loucamente apaixonada. J� lhe contaram tudo a respeito dele. Ela n�o se importa.</p><p>� Falaram-lhe sobre o assassinato?</p><p>� Sim.</p><p>� Meu Deus, ela deve ser muito corajosa!</p><p>� Ela refuta tudo como sendo cal�nias.</p><p>� O senhor n�o poderia colocar provas diante de seus olhos est�pidos?</p><p>� Bem, poderia nos ajudar nisso?</p><p>� N�o sou eu mesma uma prova? E se eu ficasse na frente dela e lhe contasse como ele me usou?</p><p>� Voc� faria isto?</p><p>� Se eu o faria? Como n�o!</p><p>� Bem, deve valer a pena tentar. Mas ele contou a ela a maior parte de seus pecados e recebeu seu perd�o, e sei que ela n�o vai querer voltar ao assunto.</p><p>� Eu direi que ele n�o lhe contou tudo � disse a srta. Winter.</p><p>� Soube de mais um ou dois assassinatos al�m daquele que causou tanta confus�o. Ele costumava falar de algu�m, com sua voz aveludada, depois olhava para mim com o olhar firme e dizia: �� Ele morreu em um m�s�. N�o era mentira dele, de modo nenhum. Mas eu prestava pouca aten��o � o senhor compreende, naquele tempo eu o amava. Tudo o que ele fazia eu aceitava, do mesmo modo que esta pobre tola! Houve apenas uma coisa que me chocou. Sim, por Deus! Se n�o fosse por sua l�ngua venenosa e mentirosa, que explica e tranq�iliza, eu o teria deixado naquela mesma noite. Trata-se de um livro que ele tem � um livro de couro marrom com um fecho, e seu bras�o em ouro na parte de fora. Acho que naquela noite ele estava um pouco b�bado, do contr�rio ele n�o teria me mostrado esse livro.</p><p>� O que era este livro?</p><p>� Eu lhe digo, sr. Holmes, este homem coleciona mulheres e tem orgulho de sua cole��o, assim como alguns homens colecionam mariposas ou borboletas. Ele tinha tudo no seu livro. Instant�neos fotogr�ficos, nomes, detalhes, tudo sobre elas. Era um livro abomin�vel � um livro que nenhum homem, mesmo que tivesse vindo da sarjeta, poderia ter organizado. Mas era o livro de Adelbert Gruner, de qualquer modo. �Almas que arruinei�, ele poderia ter escrito isto na capa se tivesse esp�rito. Mas isso n�o vem ao caso porque o livro n�o lhe serviria, e se servisse, o senhor n�o poderia obt�-lo.</p><p>� Onde est� o livro?</p><p>� Como posso lhe dizer onde ele est� agora? Faz mais de um ano que o deixei. Naquela ocasi�o eu sabia onde ele o guardava. Em muitos de seus h�bitos ele parece um gato cuidadoso e ordeiro, de modo que talvez o livro ainda esteja no escaninho da velha escrivaninha, no escrit�rio interno. O senhor conhece a casa dele?</p><p>� Estive no escrit�rio � disse Holmes.</p><p>� Esteve l�? O senhor foi r�pido no seu trabalho, se s� come�ou esta manh�. Talvez o querido Adelbert desta vez tenha encontrado um inimigo � altura. O escrit�rio externo � aquele com as lou�as chinesas � uma grande estante envidra�ada entre as janelas. Atr�s da escrivaninha est� a porta que d� no seu gabinete interno � uma sala pequena, onde ele guarda pap�is e coisas.</p><p>� Ele n�o tem medo de ladr�es?</p><p>� Adelbert n�o � covarde. Nem seu pior inimigo poderia dizer isso dele. Ele sabe se defender. � noite h� um alarme contra ladr�es. Al�m do mais, o que � que tem l� para um ladr�o � a menos que o ladr�o leve toda aquela lou�a bonita?</p><p>� Nada feito � disse Shinwell Johnson com a voz decidida de um especialista. � Nenhum comprador de objetos roubados quer coisas desse tipo, que voc� n�o pode derreter nem vender.</p><p>� Exatamente � disse Holmes. � Bem, agora, srta. Winter, se vier at� aqui amanh� �s cinco horas, eu poderia, enquanto isso, verificar se a sua sugest�o de ver pessoalmente esta mo�a poderia ser arranjada. Estou muit�ssimo grato pela sua coopera��o. N�o preciso dizer que meus clientes levar�o isto em considera��o, prodigamente.</p><p>� De maneira alguma, sr. Holmes � exclamou a jovem. � N�o estou interessada em dinheiro. Deixe-me ver este homem na lama e eu terei conseguido tudo o que quero � na lama, com meu p� na sua maldita cara. Este � o meu pre�o. Estarei com o senhor amanh� ou em qualquer outro dia, contanto que o senhor esteja em sua pista. O Gordo aqui lhe dir� onde me encontrar.</p><empty-line/><p>S� voltei a ver Holmes na noite seguinte, quando jantamos mais uma vez no restaurante do Strand. Ele deu de ombros quando lhe perguntei se teve sorte em sua entrevista. Ent�o contou a hist�ria, que vou reproduzir a meu modo. Seu relato r�spido e seco precisa ser um pouco mais burilado para se tornar mais real.</p><p>� N�o houve nenhuma dificuldade quanto � entrevista � disse Holmes �, pois a mo�a vangloria-se de mostrar uma obedi�ncia filial abjeta em todas as coisas secund�rias, numa tentativa de compensar sua flagrante viola��o desta obedi�ncia no caso do seu noivado. O general telefonou informando que estava tudo preparado, e a impetuosa senhorita Winter compareceu, de acordo com o combinado, de modo que �s 17:30h um t�xi nos deixou em frente ao n�mero 104 da Berkeley Square, onde mora o velho soldado. Um daqueles horr�veis castelos londrinos cinzentos que fariam uma igreja parecer insignificante. Um lacaio nos levou at� uma grande sala de visitas com cortinas amarelas, e l� estava a mo�a nos esperando, s�ria, p�lida, controlada, t�o inflex�vel e distante como uma figura de neve sobre uma montanha.</p><p>� N�o sei como descrev�-la para voc�, Watson. Talvez voc� deva encontr�-la antes de terminarmos, e possa usar seu pr�prio dom da palavra. Ela � bonita, mas com aquela beleza et�rea sobrenatural de uma fan�tica, cujos pensamentos est�o voltados para o alto. J� vi rostos assim nos quadros dos velhos mestres da Idade M�dia. N�o consigo imaginar como uma besta humana p�de botar suas patas depravadas sobre este ser do al�m. Voc� deve ter observado como os extremos se atraem, o espiritual atrai o animal, o homem das cavernas � atra�do pelos anjos. Voc� nunca viu caso pior do que este.</p><p>� � claro que ela sabia o motivo da nossa presen�a � aquele vil�o n�o perdera tempo, envenenando a mente dela contra n�s. A presen�a da srta. Winter, eu creio, deixou-a um pouco assustada, mas ela indicou nossas cadeiras como uma vener�vel abadessa recebendo dois mendigos leprosos. Se a sua cabe�a tem propens�o � soberba, meu caro Watson, fa�a um curso com a srta. Violet de Marville.</p><p>� �Bem, senhor�, ela disse com uma voz que parecia o vento vindo de um iceberg, �seu nome me � familiar. Sei que o senhor veio nos visitar para difamar meu noivo, o bar�o Gruner. Foi s� porque o meu pai pediu que eu o recebo, e advirto-o de antem�o que nada que o senhor� disser poder� me influenciar.�</p><p>� Tive pena dela, Watson. Naquele instante pensei nela como teria pensado numa filha. N�o costumo ser eloq�ente. Uso a cabe�a, n�o o cora��o. Mas realmente argumentei com ela, com todo o ardor de que minha natureza � capaz. Descrevi-lhe a terr�vel situa��o da mulher que s� descobre o car�ter de um homem depois que � sua esposa � uma mulher que tem de se sujeitar a ser acariciada por m�os sanguin�rias e l�bios lascivos. N�o lhe poupei coisa alguma � a vergonha, o medo, a agonia, a desesperan�a de tudo. As minhas palavras apaixonadas n�o conseguiram trazer qualquer colorido �quelas faces de marfim ou um brilho de emo��o �queles olhos ausentes. Pensei no que o canalha havia dito a respeito da influ�ncia p�s-hipn�tica. Podia-se realmente acreditar que ela estava vivendo acima da Terra, em algum sonho ext�tico. Mas n�o havia nada de vago em suas respostas.</p><p>� �Eu o ouvi com paci�ncia, sr. Holmes�, ela disse. � O efeito sobre a minha mente � exatamente o que estava previsto. Sei que Adelbert, meu noivo, teve uma vida tumultuada, que lhe acarretou �dios amargos e a mais injusta das desonras. O senhor � apenas o �ltimo de uma s�rie de pessoas que me contaram cal�nias a seu respeito. Possivelmente est� bem-intencionado, embora eu saiba que � um agente pago e que estaria t�o disposto a agir a favor do bar�o como contra ele. Mas, de qualquer modo, quero que compreenda de uma vez por todas que eu o amo e que ele me ama, e que a opini�o do mundo inteiro n�o significa mais para mim do que o chilrear daqueles p�ssaros do lado de fora da janela. Se a sua natureza nobre, alguma vez, por um instante, degradou-se, pode ser que eu tenha sido especialmente enviada para conduzi-la ao seu verdadeiro n�vel elevado. Eu n�o estou sabendo�, aqui ela olhou minha acompanhante, �quem � esta jovem senhora.�</p><p>� Eu estava prestes a responder quando a mo�a come�ou a falar como um turbilh�o. Se alguma vez voc� viu fogo e gelo face a face, eram aquelas duas mulheres.</p><p>� �Eu vou lhe dizer quem sou!�, ela gritou, saltando da cadeira, a boca retorcida pela emo��o. �Sou sua �ltima amante. Sou uma entre as cem que ele tentou, usou, arruinou e atirou na pilha de refugos, como far� com voc� tamb�m. Sua pilha de refugos mais parece um t�mulo e talvez assim seja melhor. Eu lhe direi, mulher tola, se vier a se casar com este homem, ele ser� como a morte para voc�. Pode ser um cora��o dilacerado, ou talvez, um pesco�o quebrado, mas ele o far�, de uma maneira ou de outra. N�o � por amor a voc� que estou falando. A mim n�o importa que voc� viva ou morra. � por �dio, para contrari�-lo e para devolver-lhe tudo o que me fez. Mas tanto faz e voc� n�o precisa me olhar deste jeito, minha fina senhorita, pois poder� tornar-se inferior a mim antes de terminar com ele.�</p><p>� �Prefiro n�o discutir esses assuntos�, disse a senhorita de Merville friamente. �Deixe-me dizer, de uma vez por todas, que estou ciente dos tr�s incidentes na vida do meu noivo, nos quais ele se enredou com mulheres astuciosas, e que eu estou certa de seu arrependimento sincero por qualquer mal que ele possa ter praticado.�</p><p>� �Tr�s incidentes!�, gritou minha companheira. �Sua tola! Sua tola de uma figa!�</p><p>� �Sr. Holmes, pe�o-lhe que d� esta entrevista por encerrada�, disse a voz gelada. �Recebendo-o e ouvindo-o, obedeci � vontade de meu pai, mas n�o sou obrigada a ouvir os del�rios desta pessoa.�</p><p>� Com uma impreca��o, a srta. Winter precipitou-se para a frente, e se eu n�o a segurasse pelo pulso, teria agarrado pelos cabelos esta mulher encolerizada. Eu a puxei em dire��o � porta e tive a sorte de coloc�-la de volta dentro do t�xi sem uma cena, pois ela estava fora de si de raiva. De maneira controlada, eu mesmo estava furios�ssimo, Watson, porque havia algo indescritivelmente inc�modo na calma indiferen�a, e na suprema autocomplac�ncia daquela mulher que tent�vamos salvar. Portanto agora, mais uma vez, voc� sabe exatamente em que p� estamos, e � evidente que preciso planejar alguma nova jogada, pois esta inicial n�o vai adiantar. Vou ficar em contato com voc�, Watson, pois � muito prov�vel que voc� tenha de representar sua parte, mas talvez a pr�xima jogada seja mais deles do que nossa.</p><p>E foi. Eles deram o golpe, ou melhor, ele deu, porque jamais pude acreditar que a senhorita de Merville tivesse conhecimento disso. Acho que eu seria capaz de mostrar-lhe exatamente onde eu estava quando meus olhos ca�ram sobre o t�tulo de uma not�cia, e uma ang�stia atravessou minha alma. Foi entre o Grand Hotel e a esta��o de Charing Cross, onde um jornaleiro perneta exibia os jornais vespertinos. Isto foi apenas dois dias depois da �ltima conversa. Ali, em letras grandes, estava o terr�vel cabe�alho.</p><empty-line/><p>ASSASSINO</p><p>ATACA</p><p>SHERLOCK</p><p>HOLMES</p><p>Creio que fiquei atordoado durante alguns minutos. Depois, lembro-me vagamente de ter apanhado um jornal, dos protestos do homem a quem eu n�o paguei, e, finalmente, de ficar parado na porta de uma farm�cia enquanto procurava o par�grafo fat�dico. Que dizia o seguinte:</p><p>�Soubemos, com pesar, que o senhor Sherlock Holmes, o famoso detetive particular, foi v�tima, esta manh�, de uma tentativa de homic�dio que o deixou bastante machucado. N�o temos detalhes precisos, mas parece que o fato ocorreu por volta de meio-dia, na Regent Street, em frente ao Caf� Royal. Ele foi atacado por dois homens armados com peda�os de pau e o sr. Holmes levou pancadas na cabe�a e no corpo, ficando com ferimentos que os m�dicos consideram muito graves. Ele foi levado para o hospital de Charing Cross e depois insistiu em ser conduzido para os seus aposentos em Baker Street. Parece que os bandidos que o atacaram eram homens bem-vestidos, que escaparam dos transeuntes que assistiram � cena passando por dentro do Caf� Royal e pela Glasshouse Street, que fica atr�s do Caf�. N�o h� d�vida de que eles pertencem � fraternidade criminosa que tantas vezes teve ocasi�o de lastimar a energia e o talento do homem agora ferido.�</p><p>N�o preciso dizer que mal acabara de dar uma olhada na not�cia e j� saltava para dentro de um coche, seguindo para Baker Street. Encontrei sir Leslie Oakshott, o famoso cirurgi�o, no hall, e sua carruagem esperando no meio-fio.</p><p>� Nenhum perigo imediato � foi o que ele informou. � Dois cortes no couro cabeludo e algumas escoria��es graves. Foram necess�rios muitos pontos. Ele recebeu inje��o de morfina, e o repouso � essencial, mas uma visita de alguns minutos n�o est� totalmente proibida.</p><p>Com esta permiss�o, entrei silenciosamente no quarto em penumbra. O paciente estava acordado, e escutei meu nome num sussurro rouco. A veneziana estava quase toda fechada, mas um raio de sol entrava obliquamente, incidindo na cabe�a enfaixada do homem ferido. Uma mancha vermelha tinha molhado as ataduras brancas. Sentei-me a seu lado e inclinei a cabe�a.</p><p>� Tudo bem, Watson. N�o fique t�o assustado � murmurou ele numa voz muito fraca. � N�o � t�o mau quanto parece.</p><p>� Gra�as a Deus!</p><p>� Como voc� sabe, sou um h�bil esgrimista. Coloquei muitos deles em posi��o de defesa. O segundo homem � que foi demais para mim.</p><p>� O que posso fazer, Holmes? � claro que foi aquele maldito sujeito que os mandou. Irei arrancar-lhe o couro, se me ordenar.</p><p>� Meu velho e bom Watson! N�o podemos fazer nada at� que a pol�cia ponha as m�os neles. Mas sua fuga foi bem preparada. Podemos estar certos disso. Espere um pouco. Tenho meus planos. A primeira coisa � exagerar meus ferimentos. Eles ir�o procur�-lo para saber not�cias. Exagere, Watson. Diga que serei um felizardo se conseguir viver esta semana � concuss�o, del�rio � o que voc� quiser! Voc� n�o pode exagerar demais.</p><p>� E sir Leslie Oakshott?</p><p>� Oh, tudo bem. Ele conhecer� o meu lado pior. Cuidarei disto.</p><p>� Alguma coisa mais?</p><p>� Sim. Diga a Shinwell Johnson para afastar aquela mo�a. Aquelas belezinhas ir�o atr�s dela agora. Naturalmente, eles sabem que ela est� me ajudando neste caso. Se eles ousaram me atacar, n�o � prov�vel que a esque�am. � urgente. Fa�a isto hoje � noite.</p><p>� Vou embora agora. Mais alguma coisa?</p><p>� Coloque meu cachimbo na mesa � e a bolsa de tabaco. Bem! Venha todas as manh�s e faremos nosso plano de a��o.</p><p>Naquela tarde combinei com Johnson que ele levaria a srta. Winter para um sub�rbio tranq�ilo e a manteria escondida at� passar o perigo.</p><p>Durante seis dias o p�blico ficou com a impress�o de que Holmes estava �s portas da morte. Os boletins eram muito sombrios, e havia par�grafos sinistros nos jornais. Minhas visitas constantes deram-me a certeza de que seu estado n�o era t�o grave assim. Sua constitui��o resistente e sua determina��o estavam fazendo maravilhas. Ele estava se recuperando rapidamente e �s vezes eu suspeitava que ele, na verdade, estava melhor do que fingia estar, mesmo para mim. Havia naquele homem um curioso tra�o de discri��o que resultava em muitos efeitos dram�ticos, mas que deixava at� o seu amigo mais �ntimo imaginando quais seriam exatamente os seus planos. Ele levou ao extremo o axioma de que o �nico planejador seguro � o que planeja sozinho. Eu estava mais pr�ximo dele do que qualquer outra pessoa, e mesmo assim estava sempre consciente da dist�ncia entre n�s.</p><p>No s�timo dia os pontos foram retirados, e apesar disso os jornais vespertinos publicaram uma not�cia sobre erisipela. Os mesmos vespertinos noticiaram que eu estava pronto para levar meu amigo, quer ele estivesse bem ou mal. E dizia simplesmente que, entre os passageiros do navio Ruritania, da empresa Cunard, que partia de Liverpool na sexta-feira, estava o bar�o Adelbert Gruner, que tinha de tratar de alguma transa��o financeira importante nos Estados Unidos antes de seu casamento com a srta. Violet de Merville, �nica filha de etc. etc. Holmes ouviu as not�cias com o olhar frio e concentrado, e seu rosto p�lido me mostrou que a not�cia o abalou bastante.</p><p>� Sexta-feira! � ele gritou. � Apenas tr�s dias! Acho que o velhaco quer se colocar fora de perigo. Mas ele n�o o far�, Watson. Por Deus, ele n�o o far�! Agora, Watson, preciso que voc� fa�a uma coisa para mim.</p><p>� Estou aqui para ser �til, Holmes.</p><p>� Bem, ent�o dedique as pr�ximas 24 horas a um estudo intensivo de cer�mica chinesa.</p><p>Ele n�o deu explica��o e eu n�o pedi nenhuma. Por meio de longa experi�ncia eu aprendera a sabedoria da obedi�ncia. Mas quando sa� do seu quarto, desci a Baker Street me perguntando como eu iria cumprir uma ordem t�o estranha. Finalmente, segui para a Biblioteca de Londres, em James�s Square, expus o assunto ao meu amigo Lomax, o bibliotec�rio-assistente, e sa� com um volume respeit�vel debaixo do bra�o.</p><p>Dizem que o advogado que estuda um caso com zelo, mas �s pressas, a fim de interrogar uma testemunha especialista na segunda-feira, no s�bado j� esqueceu todo o conhecimento que foi obrigado a adquirir. Claro que eu agora n�o gostaria de bancar uma autoridade em cer�mica. Mesmo assim, durante toda aquela tarde e toda aquela noite, com um pequeno intervalo para descanso, e durante toda a manh� seguinte, eu estava absorvendo conhecimentos e decorando nomes. Aprendi sobre os carimbos em ouro e prata dos grandes artistas decoradores, sobre o mist�rio das datas c�clicas, os s�mbolos do Hung-wu e sobre as belezas do Yung-lo, sobre os manuscritos de Tang-ying e as gl�rias do per�odo primitivo do Sung e do Yuan. Na tarde seguinte, quando visitei Holmes, j� estava de posse de todas essas informa��es. Ele j� estava fora da cama, embora n�o se pudesse adivinhar isto pelas not�cias publicadas, e estava sentado em sua poltrona preferida, com a cabe�a enfaixada apoiada na m�o.</p><p>� Ora, Holmes � eu disse � quem acredita em jornais pensa que voc� est� morrendo.</p><p>� � esta � ele disse � a impress�o que pretendo dar. E ent�o, Watson, j� aprendeu sua li��o?</p><p>� Pelo menos tentei.</p><p>� �timo. Voc� conseguiria manter uma conversa inteligente sobre o assunto?</p><p>� Creio que sim.</p><p>� Ent�o, pegue aquela caixinha na prateleira sobre a lareira.</p><p>Ele abriu a tampa e tirou um pequeno objeto, cuidadosamente enrolado em magn�fica seda oriental. Desembrulhou-o e fez surgir um pires pequeno e delicado, do mais belo azul-escuro.</p><p>� � preciso segurar com cuidado, Watson. Esta � a verdadeira porcelana chinesa casca de ovo, da dinastia Ming. Nenhuma pe�a mais delicada jamais passou pela Christie�s. Um aparelho completo desta cer�mica � digno de um resgate real � na verdade, n�o se sabe se existe um conjunto completo fora do Pal�cio Imperial de Pequim. Este pires deixaria maluco um verdadeiro conhecedor.</p><p>� O que devo fazer com isto?</p><p>Holmes me estendeu um cart�o onde estava impresso: dr. Hill Barton, 369, Half Moon Street.</p><p>� Este ser� o seu nome esta tarde, Watson. Voc� ir� visitar o bar�o Gruner. Sei alguma coisa a respeito de seus h�bitos, e �s 20:30h ele provavelmente estar� livre. Um bilhete avisar� antes que voc� vai visit�-lo, e voc� dir� que est� levando um exemplar de um aparelho de porcelana Ming muito raro. Voc� pode tamb�m ser um m�dico, j� que este � um papel que voc� pode desempenhar sem duplicidade. Voc� � um colecionador, este aparelho lhe chegou �s m�os, voc� ouviu falar do interesse do bar�o pelo assunto e n�o se recusa a vend�-lo por um determinado pre�o.</p><p>� Que pre�o?</p><p>� Boa pergunta, Watson. Voc� certamente se daria mal se n�o soubesse o pre�o de sua mercadoria. Este pires foi sir James que conseguiu para mim, e suponho que fa�a parte da cole��o do cliente dele. Voc� n�o estar� exagerando se disser que dificilmente pode haver outra pe�a igual no mundo.</p><p>� Eu poderia sugerir que o aparelho fosse avaliado por um especialista.</p><p>� Excelente, Watson! Voc� est� brilhante hoje. Sugira Christie ou Sotheby. A sua delicadeza impede que voc� mesmo determine o pre�o.</p><p>� E se ele n�o quiser me receber?</p><p>� Oh, sim, ele o receber�. Ele sofre da mania de cole��o sob a forma mais aguda � e principalmente deste tipo de cole��o, porque � uma autoridade reconhecida neste assunto. Sente-se Watson, e eu ditarei a carta. N�o h� necessidade de resposta. Voc� simplesmente dir� que vai v�-lo e por qu�.</p><p>A carta era um documento admir�vel, curto, polido e estimulante para a curiosidade de um connaisseur. Foi enviada por um mensageiro. Na mesma noite, com o precioso pires na m�o e o cart�o do dr. Hill Barton no bolso, parti para a minha aventura.</p><empty-line/><p>A beleza da casa e dos jardins indicava que o bar�o Gruner era, como sir James havia dito, um homem muito rico. Um acesso longo e curvo, com arbustos raros de ambos os lados, dava numa grande pra�a de cascalho adornada com est�tuas. A casa foi constru�da por um rei do ouro sul-africano, nos dias do grande boom, e a casa comprida e baixa, com suas pequenas torres nas extremidades, apesar de ser um pesadelo arquitet�nico, era imponente em seu tamanho e solidez. Um mordomo, que mais parecia um bispo, me fez entrar e entregou-me a um lacaio vestido com roupa de pel�cia, que me levou � presen�a do bar�o.</p><p>Ele estava de p� diante de uma grande estante aberta que ficava entre as janelas e que continha parte de sua cole��o chinesa. Quando entrei, ele virou-se, tendo na m�o um pequeno vaso marrom.</p><p>� Queira sentar-se, por favor, doutor � ele disse. � Eu estava examinando meus tesouros e me perguntando se poderia arcar com despesas para aumentar esta cole��o. Este pequeno exemplar Tang, que data do s�culo VII, provavelmente lhe interessaria. Tenho certeza de que nunca viu artesanato mais admir�vel ou um polimento mais magn�fico. O senhor trouxe o pires Ming de que falou?</p><p>Desembrulhei-o cuidadosamente e o entreguei a ele. Ele sentou-se � sua escrivaninha, puxou a l�mpada, pois estava ficando escuro, e passou a examin�-lo. A luz amarela batia em seu rosto, e pude observ�-lo atentamente.</p><p>Era de fato um homem bonito. Sua fama europ�ia de beleza era inteiramente merecida. Sua altura era mediana, mas ele tinha tra�os graciosos e en�rgicos. Seu rosto era moreno, quase oriental, com grandes olhos escuros e l�nguidos que podiam facilmente provocar uma fascina��o irresist�vel nas mulheres. Seu cabelo e o bigode eram negros e lustrosos, e o bigode era curto, pontudo e cuidadosamente encerado. Seus tra�os eram regulares e agrad�veis, com exce��o de sua boca reta de l�bios finos. Se alguma vez vi a boca de um assassino, ali estava ela � um talhe cruel e duro em seu rosto, cerrada, inexor�vel e terr�vel. Ele n�o deveria ter afastado o bigode da boca deixando-a descoberta, pois ela era um sinal de perigo, um aviso da natureza �s suas v�timas. Sua voz era sedutora e suas maneiras perfeitas. Quanto � idade, eu teria calculado um pouco mais de 30 anos, embora seu registro mostrasse mais tarde que ele tinha 42.</p><p>� Muito bonito, realmente muito bonito! � ele disse depois de algum tempo. � E o senhor diz que tem um jogo com meia d�zia deles. O que me intriga � que eu n�o tenha ouvido falar de pe�as t�o magn�ficas. Eu sabia de apenas um na Inglaterra que poderia se comparar a este, mas com certeza n�o est� � venda. Seria indiscri��o se eu lhe perguntasse, dr. Hill Barton, como o obteve?</p><p>� Ser� que isto realmente tem import�ncia? � perguntei com o ar mais displicente que consegui exibir. � O senhor pode ver que a pe�a � genu�na, e quanto ao valor, eu me contento em aceitar a avalia��o de um perito.</p><p>� Muito misterioso � disse ele com um brilho r�pido e desconfiado em seus olhos escuros. Quem negocia com objetos t�o valiosos quer saber tudo sobre a transa��o. Que a pe�a � genu�na, � certo. N�o tenho nenhuma d�vida a esse respeito. Mas suponha � sou obrigado a levar em considera��o todas as possibilidades � que mais tarde fique provado que o senhor n�o tinha o direito de vend�-la?</p><p>� Eu lhe daria uma garantia contra qualquer alega��o deste tipo.</p><p>� Isto, naturalmente, suscitaria a quest�o do m�rito de sua garantia.</p><p>� Meus banqueiros responderiam por isto.</p><p>� Perfeitamente. Mas toda a transa��o me parece um tanto estranha.</p><p>� O senhor pode ou n�o fazer neg�cio � eu disse com indiferen�a. � Fiz a minha primeira oferta ao senhor, pois sabia que era um connaisseur, mas n�o teria nenhuma dificuldade com outros.</p><p>� Quem lhe disse que eu era um connaisseur?</p><p>� Eu sabia que o senhor havia escrito um livro sobre o assunto.</p><p>� J� leu o livro?</p><p>� N�o.</p><p>� Valha-me Deus! � cada vez mais dif�cil entender! O senhor � um connaisseur e colecionador, com uma pe�a muito valiosa em sua cole��o, e mesmo assim nunca se deu ao trabalho de consultar o �nico livro que lhe teria informado o verdadeiro significado e o valor do que possui. Como explica isto?</p><p>� Sou um homem muito ocupado. Sou um m�dico que pratica a medicina.</p><p>� Isto n�o � resposta. Se um homem tem um hobby, dedica-se a ele, sejam quais forem suas outras ocupa��es. No seu bilhete o senhor me disse que era um connaisseur.</p><p>� E sou.</p><p>� Posso fazer-lhe algumas perguntas para test�-lo? Sou obrigado a dizer-lhe, doutor � se realmente � um m�dico �, que este caso est� ficando cada vez mais suspeito. Eu lhe perguntaria o que sabe sobre o imperador Shomu e como o senhor o associa ao Shoso-in, perto de Nara? Valha-me Deus, isto o deixa confuso? Fale-me um pouco a respeito da dinastia Wei, do Norte, e o lugar que ocupa na hist�ria das cer�micas.</p><p>Saltei da cadeira com uma raiva fingida.</p><p>� Isto � intoler�vel, sir � eu disse. � Venho aqui para fazer-lhe um favor e n�o para ser examinado como se fosse um colegial. Meu conhecimento sobre estes assuntos pode ser inferior ao seu, mas, certamente, n�o responderei a perguntas feitas de maneira t�o ofensiva.</p><p>Ele me olhou com firmeza. A languidez havia desaparecido de seus olhos. De repente, eles brilharam de raiva. Houve um cintilar de dentes por entre aqueles l�bios cru�is.</p><p>� Qual � o jogo? O senhor est� aqui como espi�o. O senhor � um emiss�rio de Holmes. Isto � um estratagema contra mim. Ouvi dizer que o sujeito est� morrendo, de modo que ele envia seus instrumentos para me vigiar. O senhor poder� achar mais dif�cil sair daqui do que entrar.</p><p>Ele ficou de p� num salto, e eu recuei, preparando-me para um ataque, pois o homem estava fora de si de raiva. Ele devia ter suspeitado de mim desde o in�cio; certamente este interrogat�rio mostrou-lhe a verdade; mas estava claro que eu n�o conseguiria engan�-lo. Ele enfiou a m�o numa gaveta lateral e tateou com raiva entre os pap�is. Nesse momento, ele ouviu alguma coisa, porque parou e ficou prestando aten��o.</p><p>� Ah! � ele gritou. � Ah! � E correu para dentro do aposento que ficava atr�s dele.</p><p>Em dois passos cheguei at� a porta aberta, e minha mente sempre se recordar� nitidamente da cena ali dentro. A janela que dava para o jardim estava totalmente aberta. Ao lado dela estava Sherlock Holmes parecendo um terr�vel fantasma, a cabe�a envolta em ataduras ensang�entadas, o rosto contra�do e branco. No instante seguinte ele atravessava a brecha da janela, e ouvi o estrondo de seu corpo entre os arbustos de louro do lado de fora. Com um gemido de raiva, o dono da casa precipitou-se atr�s dele at� a janela aberta.</p><p>E ent�o! Aconteceu num instante, e mesmo assim eu vi claramente. Um bra�o � um bra�o de mulher � surgiu por entre as folhagens. Na mesma hora o bar�o deu um grito terr�vel � um uivo que ressoar� eternamente em meus ouvidos. Ele bateu com as duas m�os no rosto e come�ou a correr em c�rculos pelo aposento, batendo com a cabe�a nas paredes. Depois caiu no tapete, rolando e retorcendo-se, enquanto seus gritos ressoavam pela casa.</p><p>� �gua! Pelo amor de Deus, �gua! � ele gritava.</p><p>Peguei uma garrafa numa mesa lateral e corri em seu aux�lio. Neste momento o mordomo e v�rios criados entraram vindos do hall. Lembro que um deles desmaiou quando me ajoelhei ao lado do homem ferido e virei aquele rosto horr�vel para a luz da l�mpada. O �cido sulf�rico estava comendo tudo e pingando das orelhas e do queixo. Um olho j� estava branco e vidrado. O outro, vermelho e inflamado. As fei��es que eu admirara alguns minutos antes pareciam agora uma bela pintura sobre a qual o artista passou uma esponja �mida e imunda. Elas estavam borradas, descoloridas, medonhas, n�o pareciam humanas.</p><p>Em poucas palavras expliquei exatamente o que havia ocorrido, em rela��o ao ataque com o �cido. Alguns saltaram pela janela e outros correram para fora, em dire��o ao gramado, mas estava escuro e come�ara a chover. No meio dos gritos a v�tima enfurecia-se e amea�ava o vingador. � Foi aquela mulher vingativa, Kitty Winter! � ele gritou. � Oh, aquele dem�nio! Ela pagar� por isto! Ela pagar�! Oh, Deus do c�u, esta dor � mais do que eu posso suportar!</p><p>Banhei seu rosto com �leo, coloquei algod�o nas partes em carne viva e dei-lhe uma inje��o de morfina. Toda a desconfian�a que ele tinha de mim desapareceu com o choque, e ele agarrava-se �s minhas m�os como se eu tivesse o poder, ainda agora, de desemba�ar aqueles olhos de peixe morto que se fixavam em mim. Eu poderia ter chorado diante daquela ru�na se n�o me lembrasse muito bem da vida depravada que provocara aquela transforma��o medonha. Era repugnante sentir o toque de suas m�os queimadas, e fiquei aliviado quando o m�dico da fam�lia, e logo depois um especialista, chegaram para me aliviar do meu fardo. Um inspetor de pol�cia tamb�m havia chegado, e eu entreguei a ele o meu verdadeiro cart�o. Teria sido in�til e imprudente agir de outra forma, porque sou quase t�o conhecido de vista pela Scotland Yard quanto o pr�prio Holmes. Em seguida, sa� daquela casa de tristeza e terror. Uma hora depois eu estava em Baker Street.</p><p>Holmes estava sentado em sua cadeira de sempre e parecia muito p�lido e exausto. Al�m de seus ferimentos, mesmo os seus nervos de a�o ficaram abalados pelos acontecimentos da tarde, e ele ouviu com horror o meu relato sobre a transforma��o do bar�o.</p><p>� O pre�o do pecado, Watson � o pre�o do pecado! � ele disse. � Mais cedo ou mais tarde ele ter� de ser pago. Deus sabe que havia pecado suficiente � acrescentou pegando um livro marrom que estava na mesa. Este � o livro de que a mulher falou. Se isto n�o desmanchar o noivado, nada jamais o far�. Mas este livro conseguir�, Watson. Tem de consegui-lo. Nenhuma mulher que se preza poderia suportar isto.</p><p>� � seu di�rio de amor?</p><p>� Ou seu di�rio de lux�ria. Chame isto como quiser. Quando a mulher nos falou do livro, percebi que havia ali uma arma tremenda, se pud�ssemos botar as m�os nele. Na hora, n�o disse nada que revelasse meus pensamentos, pois aquela mulher poderia me trair e contar a ele. Mas refleti sobre o assunto. Depois, esse ataque que sofri deu-me a oportunidade de fazer o bar�o pensar que n�o precisava tomar nenhuma precau��o contra mim. Foi tudo providencial. Eu teria esperado mais um pouco, por�m sua viagem aos Estados Unidos me obrigou a agir. Ele nunca deixaria para tr�s um documento t�o comprometedor. Portanto, precis�vamos agir imediatamente. Um assalto � noite � imposs�vel. Ele toma precau��es. Mas havia uma chance � tarde, se eu pelo menos pudesse ter certeza de que a aten��o dele estaria ocupada. Foi a� que voc� e o seu pires entraram em a��o. No entanto, eu precisava ter certeza do lugar onde estava o livro, e sabia que tinha apenas alguns minutos para agir, porque o meu tempo seria limitado pelos seus conhecimentos de porcelana chinesa. Por isso trouxe a mo�a comigo no �ltimo momento. Como eu poderia ter adivinhado o que continha o pacotinho que ela carregava com tanto cuidado debaixo da capa? Pensei que ela estivesse a meu servi�o, mas parece que a mo�a tinha um trabalho pr�prio a realizar.</p><p>� Ele adivinhou que eu fora mandado por voc�.</p><p>� Eu temia isso. Mas voc� o manteve no jogo o suficiente para que eu pudesse pegar o livro, embora n�o o suficiente para uma fuga despercebida. Ah, sir James, estou muito satisfeito por ter vindo!</p><p>Nosso elegante amigo apareceu, atendendo a uma convoca��o pr�via. Ele ouviu com a maior aten��o o relato de Holmes sobre os acontecimentos.</p><p>� Voc�s fizeram maravilhas � maravilhas! � ele exclamou quando acabou de ouvir a narrativa. � Mas se esses ferimentos s�o t�o terr�veis quanto o dr. Watson os descreve, certamente nosso objetivo de impedir o casamento est� garantido, sem a necessidade de se fazer uso deste livro horrendo.</p><p>Holmes sacudiu a cabe�a.</p><p>� Mulheres do tipo da de Merville n�o agem desta forma. Ela o amaria ainda mais como um m�rtir desfigurado. N�o, n�o. � o seu lado moral, n�o f�sico, que precisamos destruir. Este livro a trar� de volta � terra, n�o sei de mais nada que o conseguisse. Est� escrito com sua pr�pria caligrafia. Ela n�o pode ignor�-lo.</p><p>Sir James levou o livro e o pires precioso. Como eu j� estava atrasado, desci com ele at� a rua. Uma carruagem o esperava. Ele saltou para dentro dela, deu uma ordem apressada ao cocheiro que trazia suas cores no chap�u e partiu rapidamente. Ele jogou metade do seu sobretudo para fora da janela, a fim de cobrir o escudo sobre a almofada da porta, mas eu j� o avistara, devido � luz que vinha da nossa porta. A surpresa me deixou sem ar. Ent�o voltei e subi as escadas, em dire��o � sala de Holmes.</p><p>� Descobri quem � o nosso cliente � exclamei, entusiasmado com a minha grande novidade. � Holmes, ele �...</p><p>� � um amigo leal e um cavalheiro cort�s � disse Holmes, erguendo a m�o para me impedir de continuar. Que isto, agora e para sempre, fique entre n�s.</p><p>N�o sei como foi usado o livro incriminador. Sir James deve ter conseguido isto. Ou � mais prov�vel que uma tarefa t�o delicada tenha sido confiada ao pai da jovem dama. De qualquer modo, o resultado foi aquele que se poderia desejar. Tr�s dias depois apareceu uma nota no The Morning Post dizendo que o casamento do bar�o Adelbert Gruner com a srta. Violet de Merville n�o seria realizado. O mesmo jornal trazia os primeiros depoimentos do processo contra a srta. Kitty Winter, acusada de ter jogado �cido sulf�rico. Surgiram tantas circunst�ncias atenuantes durante o julgamento, que a senten�a, como devem lembrar-se, foi a menor poss�vel para um crime desse tipo. Sherlock Holmes foi amea�ado com uma a��o judicial por roubo e arrombamento, mas quando um objetivo � bom e o cliente � suficientemente ilustre, at� a r�gida lei brit�nica torna-se humana e el�stica. Meu amigo at� agora n�o foi para o banco dos r�us.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura do soldado descorado</strong></p><p>As id�ias de meu amigo Watson, embora limitadas, s�o extremamente obstinadas. Durante muito tempo ele me atormentou para que eu mesmo escrevesse uma aventura que eu tivesse vivido. Talvez eu tenha provocado essa insist�ncia dele, j� que muitas vezes lhe disse que suas narrativas s�o superficiais e o acusei de querer agradar ao gosto popular em vez de limitar-se rigidamente a fatos e n�meros � �Tente voc� mesmo, Holmes�! � ele revidou, e sou obrigado a admitir que, de pena na m�o, come�o realmente a perceber que o assunto deve ser apresentado de modo que possa interessar ao leitor. O caso que vou narrar dificilmente pode falhar neste ponto, pois est� entre os acontecimentos mais estranhos de minha cole��o, embora, por acaso, Watson n�o tenha anota��es sobre ele em sua agenda. Falando do meu velho amigo e bi�grafo, eu aproveito esta oportunidade para frisar que, se carrego um companheiro em minhas v�rias e modestas investiga��es,</p><p>n�o � por sentimentalismo ou capricho, mas porque Watson possui algumas caracter�sticas not�veis, �s quais, em sua mod�stia, ele d� pouca aten��o, exagerando, ao mesmo tempo, as minhas pr�prias realiza��es. Um aliado que prev� minhas conclus�es e o rumo de minhas a��es � sempre perigoso, mas um que encara cada progresso como uma surpresa permanente e o futuro � sempre um livro fechado �, realmente, um auxiliar ideal.</p><p>Descobri no meu caderno de apontamentos que foi em janeiro de 1903, logo ap�s o fim da Guerra dos Bo�res, que recebi a visita do sr. James M. Dodd, um brit�nico grandalh�o, robusto, queimado de sol, de porte ereto. Naquela �poca, o bom Watson me abandonara por causa de uma esposa � a �nica atitude ego�sta de que posso lembrar-me em nossa associa��o. Eu estava s�.</p><p>Tenho o h�bito de sentar-me com as costas para a janela e instalar meus visitantes na cadeira oposta, para que a luz caia em cheio sobre eles. Quando come�ou a entrevista, o sr. Dodd parecia um tanto embara�ado. N�o tentei ajud�-lo, pois seu sil�ncio dava-me mais tempo para observ�-lo. Eu achava que era bom dar ao meus clientes a impress�o de poder, de modo que transmiti a ele algumas de minhas conclus�es.</p><p>� Percebo que o senhor � da �frica do Sul.</p><p>� Sim, senhor � ele respondeu um tanto surpreso.</p><p>� Corpo da Guarda Imperial, imagino.</p><p>� Exatamente.</p><p>� Do batalh�o de Middlesex, sem d�vida.</p><p>� � isto, sr. Holmes, o senhor � um adivinho.</p><p>� Quando um cavalheiro de apar�ncia viril entra em meus aposentos com o rosto queimado de um modo que o sol ingl�s jamais o faria, usando o len�o na manga e n�o no bolso, n�o � dif�cil dizer de onde vem. O senhor usa a barba curta, o que mostra que n�o � da ativa. Tem o estilo de um cavaleiro. Quanto a Middlesex, seu cart�o j� me mostrou que o senhor � um corretor de Throgmorton Street. A que outro regimento poderia pertencer?</p><p>� O senhor v� tudo.</p><p>� N�o vejo mais do que o senhor, mas treinei para perceber o que vejo. Entretanto, sr. Dodd, n�o foi para discutir a ci�ncia da observa��o que o senhor veio me visitar. O que foi que aconteceu em Tuxbury Old Park?</p><p>� Senhor Holmes...!</p><p>� Meu caro senhor, n�o h� nenhum mist�rio. Sua carta veio com este cabe�alho, e como o senhor marcou esta entrevista com muita urg�ncia, est� claro que aconteceu alguma coisa repentina e importante.</p><p>� Sim, realmente. Mas a carta foi escrita � tarde, e muitas coisas aconteceram desde ent�o. Se o coronel n�o tivesse me chutado de sua casa...</p><p>� Ele o chutou?</p><p>� Bem, foi como se o tivesse feito. Ele � um osso duro de roer, o coronel Emsworth. O maior disciplinador do Ex�rcito na sua �poca, e foi uma �poca de linguagem dura, tamb�m. Eu n�o teria suportado o coronel, se n�o fosse por considera��o a Godfrey.</p><p>Acendi meu cachimbo e recostei-me na cadeira.</p><p>� Talvez o senhor queira explicar sobre o que est� falando.</p><p>Meu cliente sorriu maliciosamente.</p><p>� Eu estava quase acreditando que o senhor sabia de tudo sem que ningu�m lhe contasse � ele disse. � Mas vou expor-lhe os fatos, e espero em Deus que seja capaz de me dizer o que significam. Fiquei acordado a noite inteira quebrando a cabe�a, e quanto mais eu penso, mais incr�vel me parece.</p><p>� Quando entrei para o Ex�rcito, em 1901 � exatamente h� dois anos �, o jovem Godfrey Emsworth havia ingressado no mesmo esquadr�o. Ele era o �nico filho do coronel Emsworth � Emsworth, o veterano da Guerra da Crim�ia � e tinha o sangue de um combatente, de modo que n�o � de admirar que tenha se alistado como volunt�rio. N�o havia no regimento rapaz melhor do que ele. Fizemos amizade � o tipo de amizade que s� pode ser feita quando se vive a mesma vida e se participa das mesmas alegrias e tristezas. Ele era o meu camarada � e isso significa muit�ssimo no Ex�rcito. Enfrentamos juntos a tempestade e a bonan�a durante um ano de luta �rdua. Ent�o ele foi ferido por uma bala disparada por uma arma de ca�ar elefantes, numa a��o perto de Diamond Hill, nos arredores de Pret�ria. Recebi uma carta do hospital, na Cidade do Cabo, e outra de Southampton. Desde ent�o, nem mais uma palavra � nem uma linha, sr. Holmes, durante seis meses, talvez mais, e ele � o meu companheiro mais chegado.</p><p>� Bem, quando a guerra acabou e todos n�s voltamos, escrevi ao pai dele e perguntei onde estava Godfrey. N�o houve resposta. Aguardei um pouco e depois escrevi novamente. Desta vez tive uma resposta curta e impertinente. Godfrey tinha partido numa longa viagem pelo mundo e n�o era prov�vel que regressasse antes de um ano. Foi tudo.</p><p>� N�o fiquei satisfeito, sr. Holmes. Tudo me parecia t�o esquisito. Ele era um bom rapaz e n�o iria abandonar um companheiro desta maneira. N�o era o jeito dele. Mais tarde, soube que ele havia herdado muito dinheiro, e tamb�m que o pai e ele nem sempre se davam bem. O velho �s vezes � um tirano, e o jovem Godfrey, genioso demais para ag�entar o pai. N�o, eu n�o estava satisfeito e decidi que iria � raiz do problema. Aconteceu, por�m, que meus neg�cios, depois de dois anos de aus�ncia, precisavam ser postos em ordem, de modo que somente esta semana pude tratar novamente do caso de Godfrey. Mas, j� que vou me dedicar ao problema, pretendo deixar tudo em ordem, a fim de ver este caso terminado.</p><p>O sr. James M. Dodd parecia ser o tipo de pessoa que � prefer�vel se ter como amigo do que como inimigo. Seus olhos azuis eram duros, e sua mand�bula quadrada retesara-se enquanto falava.</p><p>� Bem, o que foi que o senhor fez? � perguntei.</p><p>� Meu primeiro passo foi ir at� a casa dele, em Tuxbury Old Park, perto de Bedford, e ver pessoalmente como estava a situa��o. Por isso escrevi � m�e dele � j� estava farto do velho rabugento � e fiz uma investida direta: Godfrey era meu companheiro, e eu queria muito poder contar a ela nossas experi�ncias comuns; estaria nas redondezas, haveria alguma obje��o etc., etc.? Recebi uma resposta muito am�vel e um oferecimento para que eu passasse a noite l�. Foi por isso que parti na segunda-feira.</p><p>� Tuxbury Old Hill � inacess�vel � fica a 8 quil�metros de qualquer lugar. Na esta��o n�o havia condu��o, de modo que tive de ir a p�, carregando a mala, e j� estava ficando escuro quando cheguei. � uma casa grande, esquisita, no meio de um vasto parque. Eu diria que a casa tem todas as �pocas e estilos, come�ando pelos alicerces elisabetanos e terminando num p�rtico vitoriano. O interior est� repleto de pain�is, tape�arias e velhos quadros meio apagados, uma casa de sombras e mist�rio. Havia um mordomo, o velho Ralph, que parecia ter a mesma idade da casa, e sua esposa, que deve ser mais velha. Ela havia sido governanta de Godfrey, e eu ouvira Godfrey falar dela como a pessoa de quem ele mais gostava depois de sua m�e, de modo que me interessei por ela, apesar de sua apar�ncia exc�ntrica. Tamb�m gostei da m�e dele � uma mulher pequena e d�cil como um camundongo branco. S� o coronel � que eu n�o conseguia engolir.</p><p>� Logo de in�cio tivemos uma pequena discuss�o, e eu teria voltado para a esta��o, se n�o tivesse sentido que com isso eu estaria fazendo o jogo dele. Fui levado diretamente para o seu gabinete de trabalho e l� o encontrei, um homem imenso e curvo, com uma pele doentia e uma barba cinzenta e hirsuta, sentado atr�s da escrivaninha em desordem. Um nariz vermelho e cheio de veias projetava-se como um bico de abutre, e dois cru�is olhos cinzentos olhavam-me com raiva, sob os tufos das sobrancelhas. Agora eu podia entender por que Godfrey raramente falava de seu pai.</p><p>� �Bem, senhor�, ele disse em voz �spera. �Eu gostaria de saber o verdadeiro motivo de sua visita.�</p><p>� Respondi que havia explicado esses motivos em minha carta � sua esposa.</p><p>� �Sim, sim; voc� disse que conheceu Godfrey na �frica. Naturalmente como prova, voc� tem apenas a sua palavra.�</p><p>� �Tenho no bolso as cartas que ele me escreveu.�</p><p>� �Tenha a bondade de me mostrar as cartas.�</p><p>� Ele olhou de relance as duas cartas que lhe entreguei e depois atirou-as de volta.</p><p>� �Bem, e ent�o?�, ele perguntou.</p><p>� �Eu gostava muito de seu filho Godfrey, senhor. Muitos la�os e recorda��es nos uniam. N�o � natural que eu estranhe o seu repentino sil�ncio e queira saber o que aconteceu sobre ele?�</p><p>� �Lembro-me de que j� me correspondi com o senhor e que j� lhe contei o que aconteceu com ele. Ele est� fazendo uma viagem ao redor do mundo. Depois de suas experi�ncias na �frica, sua sa�de ficou abalada e tanto a m�e dele como eu achamos que ele precisava de repouso absoluto e de uma mudan�a de vida. Fa�a-me o obs�quio de transmitir esta explica��o a outros amigos que possam estar interessados no assunto.�</p><p>� �Certamente�, respondi. �Mas talvez o senhor pudesse ter a bondade de me dar o nome do vapor e da companhia pela qual ele viaja, e tamb�m a data da partida. Tenho certeza de que eu conseguiria enviar uma carta para ele.�</p><p>� Meu pedido pareceu deix�-lo n�o s� intrigado, mas tamb�m irritado. Suas sobrancelhas espessas quase cobriram os olhos, e ele bateu os dedos com impaci�ncia na mesa. Finalmente, ergueu os olhos com a express�o de quem vira seu advers�rio no xadrez fazer um movimento perigoso e havia decidido como combat�-lo.</p><p>� �Muitas pessoas, senhor Dodd�, ele disse, �ficariam ofendidas com a sua obstina��o infernal e achariam que esta insist�ncia atingiu o ponto de uma maldita impertin�ncia.�</p><p>� �Deve atribuir isto, senhor, � minha verdadeira amizade pelo seu filho.�</p><p>� �Justamente. J� levei em considera��o este motivo. Mas devo pedir-lhe para desistir destas perguntas. Cada fam�lia tem seus segredos e seus motivos particulares, que nem sempre podem ser explicados a estranhos, apesar de bem-intencionados. Minha esposa est� ansiosa para ouvir o que o senhor tem para contar sobre o passado de Godfrey, mas eu lhe pediria que n�o fizesse perguntas sobre o presente e o futuro. Essas perguntas n�o servem para nada e nos deixam numa situa��o dif�cil e delicada.�</p><p>� De modo que n�o cheguei a nenhuma conclus�o, sr. Holmes. N�o havia como ir al�m disso. Eu podia apenas fingir que aceitava a situa��o e prometer a mim mesmo que jamais descansaria at� esclarecer o destino do meu amigo. Foi uma tarde melanc�lica. Jantamos em sil�ncio, n�s tr�s, em uma sala sombria, velha e desbotada. A senhora me interrogou, ansiosamente, a respeito de seu filho, mas o velho parecia triste e deprimido. Estava t�o aborrecido com toda a situa��o, que arranjei uma desculpa e fui para o meu quarto assim que pude. Era um quarto enorme e simples no andar t�rreo, t�o sombrio quanto o resto da casa, mas sr. Holmes, depois de ter dormido durante um ano na estepe, n�o se pode ser exigente a respeito de alojamentos. Abri as cortinas e olhei para o jardim, notando que a noite estava bonita e a meia-lua resplandecente. Sentei-me, ent�o, perto do fogo que crepitava e, com uma l�mpada ao meu lado, sobre a mesa, tentei me distrair lendo um romance. Mas fui interrompido por Ralph, o velho mordomo, que entrou trazendo mais carv�o.</p><p>� �Pensei que talvez ficasse sem carv�o � noite, senhor. A temperatura est� desagrad�vel e estes quartos s�o frios.�</p><p>� Ele hesitou antes de sair do quarto, e quando olhei, estava parado, e seu rosto enrugado me encarava com um olhar suplicante.</p><p>� �Pe�o-lhe que me perdoe, senhor, mas eu n�o pude deixar de ouvir o que o senhor disse durante o jantar a respeito do meu amo Godfrey. O senhor sabe que minha mulher o amamentou, de modo que posso dizer que sou seu pai adotivo. � natural que a gente se interesse. E o senhor disse que ele se portou bem?�</p><p>� �N�o havia no regimento homem mais corajoso. Uma vez ele me salvou dos rifles dos Bo�res, do contr�rio eu n�o estaria aqui.�</p><p>� O velho mordomo esfregou as m�os descarnadas.</p><p>� �Sim senhor, este � o amo Godfrey, exatamente. Ele sempre foi corajoso. N�o existe no parque uma �nica �rvore em que ele n�o tenha trepado. Ningu�m conseguia impedi-lo. Ele foi um menino admir�vel, oh, senhor, ele foi um homem admir�vel.�</p><p>Fiquei de p� num salto.</p><p>� �Escute aqui!�, gritei. �Voc� disse que ele foi. Voc� fala como se ele estivesse morto. O que significa todo esse mist�rio? O que aconteceu a Godfrey Emsworth?�</p><p>� Agarrei o velho pelos ombros, mas ele recuou.</p><p>� �N�o sei o que o senhor quer dizer. Pergunte ao patr�o pelo amo Godfrey. Ele sabe. N�o cabe a mim interferir.�</p><p>� Ele estava saindo do quarto, mas segurei-o pelo bra�o.</p><p>� �Escute�, disse eu. �Voc� vai responder a uma pergunta antes de sair do quarto, mesmo que eu tenha de prend�-lo aqui a noite inteira. Godfrey est� morto?�</p><p>� Ele n�o conseguiu me encarar. Parecia um homem hipnotizado. A resposta saiu arrastada de seus l�bios. Foi uma resposta terr�vel e inesperada.</p><p>� �Eu pediria a Deus que estivesse!�, ele exclamou, e, libertando-se, saiu do quarto apressadamente.</p><p>� O senhor pode imaginar, sr. Holmes, que eu n�o estava feliz quando voltei para minha cadeira. As palavras do velho pareciam ter apenas uma explica��o. Evidentemente, o meu pobre amigo havia se envolvido em algum crime, ou, pelo menos, em alguma transa��o vergonhosa que manchou a honra da fam�lia. O pai severo mandou o filho para longe, escondeu-o do mundo, com receio de algum esc�ndalo. Godfrey era um sujeito imprudente. Deixava-se influenciar facilmente por outras pessoas. Sem d�vida ca�ra em m�os perversas e foi iludido at� a sua ru�na. Realmente, seria uma pena se fosse isso, mas, mesmo agora, meu dever era procur�-lo e ver se podia ajud�-lo. Eu estava refletindo sobre o assunto quando ergui os olhos, e l� estava Godfrey Emsworth parado na minha frente.</p><p>Meu cliente fez uma pausa como se estivesse muito emocionado.</p><p>� Pe�o-lhe que continue � eu disse. � Seu problema teve algumas caracter�sticas muito estranhas.</p><p>� Ele estava do lado de fora da janela, sr. Holmes, com o rosto comprimido contra o vidro. Eu lhe disse, sr. Holmes, que estivera observando a noite. Quando fiz isso, deixei as cortinas parcialmente abertas. Godfrey apareceu nessa abertura. A janela ia at� o ch�o, e eu pude v�-lo por inteiro, mas foi o seu rosto que chamou minha aten��o. Ele estava mortalmente p�lido; eu nunca tinha visto homem t�o p�lido. Imagino que os fantasmas tenham essa apar�ncia, mas os olhos dele encontraram os meus, e eram olhos de um homem vivo. Ele saltou para tr�s quando percebeu que eu estava olhando para ele e desapareceu na escurid�o.</p><p>� Havia alguma coisa chocante a respeito desse homem, sr. Holmes. N�o era simplesmente aquele rosto de fantasma brilhando na escurid�o, branco como um queijo. Era algo mais sutil do que isso, alguma coisa, alguma coisa oculta, furtiva, alguma coisa criminosa, algo muito diferente daquele rapaz franco e corajoso que eu havia conhecido. Isso deixou uma sensa��o de horror em minha mente.</p><p>� Mas quando um homem brinca de soldado durante um ou dois anos com os Bo�res, mant�m o sangue-frio e age rapidamente. Godfrey mal havia desaparecido, e eu j� estava � janela. Havia um trinco complicado, e demorei algum tempo para abri-lo. Pulei rapidamente a janela e corri pela trilha do jardim na dire��o que achava que ele podia ter tomado.</p><p>� O caminho era longo e a luz n�o muito boa, mas tive a impress�o de que alguma coisa estava se movendo � minha frente. Continuei correndo e gritei o nome dele, mas foi in�til. Quando cheguei ao fim do caminho, havia muitas bifurca��es que conduziam a v�rias depend�ncias externas da casa. Fiquei indeciso e, enquanto estava ali, ouvi distintamente o ru�do de uma porta que se fechava. N�o foi atr�s de mim, na casa, mas � minha frente, em algum lugar na escurid�o. Aquilo foi suficiente, sr. Holmes, para eu ter certeza de que o que eu vira n�o era um fantasma. Godfrey havia fugido de mim e fechado uma porta atr�s dele. Disso eu tinha certeza.</p><p>� N�o havia mais nada que eu pudesse fazer, e passei a noite inquieto, revolvendo o assunto em minha cabe�a e tentando encontrar alguma teoria que pudesse explicar os fatos. No dia seguinte, encontrei o coronel um pouco mais conciliador, e como sua esposa comentou que na vizinhan�a havia alguns locais interessantes, isto me deu o ensejo de perguntar se minha presen�a, por mais uma noite, seria inc�moda. O consentimento do velho, dado com certa m� vontade, permitiu-me fazer observa��es durante um dia inteiro. Eu j� me convencera de que Godfrey estava num esconderijo em algum lugar pr�ximo, mas onde e por qu� eram perguntas que ainda tinham de ser respondidas.</p><p>� A casa � t�o grande e t�o mal planejada, que um regimento poderia esconder-se dentro dela sem que ningu�m ficasse sabendo. Se o segredo estivesse na casa, seria dif�cil desvend�-lo. Mas a porta que ouvi fechar com certeza n�o era da casa. Eu precisava explorar os jardins e ver o que conseguia descobrir. N�o encontrei dificuldades no caminho, pois os velhos estavam ocupados e deixaram-me � vontade.</p><p>� A casa tem muitas depend�ncias externas, mas no fim do jardim, h� uma constru��o isolada, de certo porte � suficientemente grande para servir de moradia a um jardineiro ou ca�ador. Poderia ter sido da� que veio o som daquela porta se fechando? Aproximei-me da casa como quem n�o quer nada, como se estivesse apenas passeando pelos jardins. Quando cheguei perto, um homenzinho barbado, agitado, de casaco preto e chap�u-coco � n�o tinha nada de jardineiro � saiu pela porta. Para meu espanto, ele a trancou e p�s a chave no bolso. Depois olhou para mim espantado.</p><p>� �O senhor � um h�spede da casa?�, perguntou.</p><p>� Expliquei-lhe que sim, e que era amigo de Godfrey.</p><p>� �Que pena que ele esteja viajando, porque teria gostado tanto de me ver�, continuei.</p><p>� �Perfeitamente. Exatamente�, ele disse, com um ar de culpa. �Sem d�vida o senhor vir� novamente numa ocasi�o mais prop�cia.� Ele saiu andando, mas quando me virei, observei que ele estava parado me vigiando, meio escondido pelos loureiros, na extremidade do jardim.</p><p>� Enquanto passava pela casa, observei-a bem, mas as janelas tinham cortinas pesadas, e at� onde foi poss�vel ver, estava vazia. Eu podia estragar meu jogo, e at� receber ordens para me retirar da propriedade se fosse audacioso demais, pois eu tinha consci�ncia de que estava sendo observado. Portanto, voltei para a casa e esperei at� a noite para continuar minha investiga��o. Quando tudo ficou escuro e quieto, saltei a janela e fui caminhando, t�o silenciosamente quanto poss�vel, at� a casa misteriosa.</p><p>� Eu havia dito que a casa tinha cortinas pesadas, mas ent�o descobri que, al�m disso, tinha venezianas. Mas, uma luz sa�a por uma delas, de modo que concentrei nela minha aten��o. Tive sorte, pois a cortina n�o tinha sido totalmente fechada, e ainda havia uma fenda na veneziana, que me permitiu ver o interior da sala. Era uma sala realmente alegre, com uma l�mpada forte e um bom fogo na lareira. � minha frente estava sentado o homenzinho que eu vira de manh�. Ele estava fumando cachimbo e lendo um jornal.</p><p>� Que jornal? � perguntei.</p><p>Meu cliente pareceu aborrecido com a interrup��o de sua narrativa.</p><p>� Que diferen�a faz? � ele perguntou.</p><p>� Isto � extremamente importante.</p><p>� Realmente, n�o prestei aten��o.</p><p>� Talvez o senhor tenha observado se era um jornal de folhas largas, ou aquele tipo menor, como os semanais.</p><p>� Agora que o senhor mencionou isto, ele n�o era grande. Podia ser The Spectator. Mas n�o me lembrei de reparar nesses detalhes, porque havia outro homem sentado, com as costas viradas para a janela, e eu podia ter jurado que este segundo homem era Godfrey. N�o consegui ver seu rosto, mas reconheci a inclina��o de seus ombros. Ele estava apoiado no cotovelo, numa atitude de grande melancolia, o corpo voltado para a lareira. Eu estava indeciso quanto ao que deveria fazer, quando senti uma forte pancada no ombro, e ali estava o coronel Emsworth, ao meu lado.</p><p>� �Por aqui, senhor!�, ele disse em voz baixa. Ele caminhou em sil�ncio at� a casa, eu o segui e fui para o meu quarto. Ele havia apanhado na sala um hor�rio de trens.</p><p>� �H� um trem para Londres que sai �s 8:30h�, ele disse. �A charrete estar� na porta �s oito horas.�</p><p>� Ele estava branco de raiva e, na verdade, eu me sentia numa posi��o t�o dif�cil que s� consegui gaguejar umas desculpas incoerentes, com as quais tentava me justificar alegando minha preocupa��o com meu amigo.</p><p>� �O assunto n�o comporta discuss�o�, ele disse com rispidez. � �O senhor se intrometeu de uma maneira extremamente conden�vel na privacidade de nossa fam�lia. O senhor estava aqui como h�spede e tornou-se um espi�o. Nada mais tenho a dizer, senhor, a n�o ser que n�o desejo v�-lo nunca mais.�</p><p>� Ao ouvir isso, perdi a cabe�a, sr. Holmes, e falei com certa irrita��o.</p><p>� �Vi seu filho, e estou convencido de que, por algum motivo particular, o senhor o est� escondendo. N�o sei quais s�o os seus motivos para escond�-lo dessa maneira, mas tenho certeza de que ele n�o � mais um homem livre. Eu o previno, coronel Emsworth, que enquanto eu n�o estiver convencido quanto � seguran�a e ao bem-estar do meu amigo, n�o desistirei das tentativas de chegar ao fundo do mist�rio e, certamente, n�o me deixarei intimidar por coisa alguma que o senhor possa dizer ou fazer.�</p><p>� O velho tinha um aspecto diab�lico, e realmente pensei que ele fosse me atacar. Eu disse que ele era um velho gigante, macilento e feroz, e embora eu n�o seja uma criatura fraca, teria sido dif�cil defender-me dele. Mas depois de um longo olhar de raiva, ele virou-se e saiu do quarto. Quanto a mim, de manh� tomei o trem que me fora indicado, com a inten��o de vir diretamente ao seu encontro para pedir seu conselho e sua ajuda, conforme j� lhe havia escrito.</p><p>Esse foi o problema que meu visitante me exp�s. Sua solu��o, como o leitor astuto j� deve ter percebido, apresenta algumas dificuldades, porque s�o muito poucas as alternativas que permitem chegar ao fundo da quest�o. Ainda que elementar, o caso tinha detalhes interessantes e novos, o que pode justificar o fato de eu t�-lo registrado nas minhas andan�as. Agora passo a utilizar meu</p><p>j� familiar m�todo de an�lise l�gica, para diminuir o n�mero de hip�teses plaus�veis.</p><p>� Os criados � perguntei. � Quantos criados havia na casa?</p><p>� Acredito que havia apenas o velho mordomo e sua mulher. Eles pareciam viver de maneira muito simples.</p><p>� Ent�o n�o havia criados na casa afastada?</p><p>� Nenhum, a n�o ser que o homenzinho de barba fosse um criado. Mas ele parecia ser uma pessoa de n�vel bem superior.</p><p>� Isso parece muito sugestivo. O senhor percebeu algum ind�cio de que eles estivessem transportando comida de uma casa para outra?</p><p>� Agora que o senhor mencionou essa possibilidade, realmente vi o velho Ralph no jardim, carregando uma cesta e andando em dire��o a essa casa. Na ocasi�o n�o me ocorreu que fosse comida.</p><p>� O senhor fez investiga��es locais?</p><p>� Sim, fiz. Falei com o chefe da esta��o e tamb�m com o estalajadeiro na aldeia. Eu apenas perguntei se eles sabiam alguma coisa sobre o meu velho camarada Godfrey Emsworth. Ambos me garantiram que ele estava fazendo uma viagem ao redor do mundo. Ele havia voltado para casa e depois, quase imediatamente, partiu outra vez. A hist�ria era evidentemente aceita por todos.</p><p>� O senhor n�o comentou nada acerca de suas suspeitas?</p><p>� Nada.</p><p>� Isso foi prudente. Sem d�vida nenhuma, o assunto deve ser investigado. Voltarei com o senhor para Tuxbury Old Park.</p><p>� Hoje?</p><p>Mas na ocasi�o eu estava esclarecendo o caso que o meu amigo Watson descreveu como o da Abbey School, no qual o duque de Greyminster estava t�o profundamente envolvido. Havia tamb�m uma miss�o, que me fora dada pelo sult�o da Turquia e que exigia a��o imediata, j� que, se fosse negligenciada, poderia provocar conseq��ncias pol�ticas das mais graves. Portanto, s� no come�o da semana seguinte, como est� registrado no meu di�rio, pude partir em companhia do sr. James M. Dodd para minha miss�o em Bedfordshire. A caminho de Euston, apanhamos um cavalheiro s�rio e taciturno, com quem eu havia combinado previamente.</p><p>� Este � um velho amigo � eu disse a Dodd. � � poss�vel que a sua presen�a seja inteiramente desnecess�ria, mas por outro lado, pode vir a ser essencial. N�o � preciso, no est�gio atual da investiga��o, aprofundarmo-nos no assunto.</p><p>Sem d�vida as narrativas de Watson acostumaram o leitor ao fato de que eu n�o desperdi�o palavras ou revelo meus pensamentos enquanto um caso estiver realmente sob investiga��o. Dodd pareceu surpreso, por�m nada mais foi dito, e n�s tr�s continuamos juntos a nossa viagem. No trem, fiz a Dodd mais uma pergunta, que eu queria que o nosso companheiro ouvisse.</p><p>� O senhor afirmou que viu o rosto de seu amigo nitidamente na janela, t�o nitidamente que o senhor est� certo de sua identidade?</p><p>� N�o tenho nenhuma d�vida a esse respeito. O nariz dele estava comprimido contra o vidro. A luz da l�mpada ca�a em cheio sobre ele.</p><p>� N�o poderia ter sido algu�m parecido com ele?</p><p>� N�o, era ele mesmo.</p><p>� Mas o senhor disse que ele mudou?</p><p>� Apenas na cor. Seu rosto era � como poderei descrev�-lo? � era de uma brancura de barriga de peixe. Estava descorado.</p><p>� O seu rosto estava todo p�lido por igual?</p><p>� Acho que n�o. Foi a testa que vi nitidamente, porque estava comprimida contra a janela.</p><p>� Voc� o chamou?</p><p>� Na hora fiquei impressionado e horrorizado demais. Depois eu o persegui, como lhe disse, mas sem resultado.</p><p>Meu caso estava praticamente conclu�do, e havia apenas um pequeno incidente que precisava ser esclarecido. Quando, ap�s uma viagem longa, chegamos � velha casa estranha e de constru��o irregular que meu cliente havia descrito, foi Ralph, o velho mordomo, quem abriu a porta. Eu havia solicitado a charrete para o dia todo, e pedi ao meu amigo mais velho para permanecer dentro dela, a menos que o cham�ssemos. Ralph, um sujeito pequeno e enrugado, usava o casaco preto convencional e cal�as cinzentas, com apenas uma variante curiosa. Cal�ava luvas de couro marrom, que ele tirou imediatamente quando nos viu, colocando-as na mesa do vest�bulo ao passarmos por l�. Como Watson deve ter mencionado, tenho os sentidos excepcionalmente desenvolvidos, e senti um cheiro fraco mas penetrante. Parecia que vinha da mesa. Voltei, coloquei l� o meu chap�u, joguei as luvas no ch�o, parei para apanh�-las e tentei aproximar o nariz das luvas. Sim, sem d�vida nenhuma, era da luva que vinha aquele estranho cheiro de alcatr�o. Quando passei em dire��o ao gabinete de trabalho, eu j� havia esclarecido o mist�rio. Ai de mim, se eu tivesse de mostrar minha m�o assim quando contasse a minha hist�ria! Era pelo fato de eu esconder esses elos da cadeia que Watson nunca era capaz de escrever finais sensacionais.</p><p>O coronel Emsworth n�o estava em seu quarto, mas veio depressa ao receber o recado de Ralph. Ouvimos seus passos pesados e r�pidos no corredor. Ele abriu a porta com viol�ncia e entrou apressadamente, com sua barba eri�ada, as fei��es contra�das, o velho mais terr�vel que eu j� vira. Pegou nossos cart�es, rasgou-os e sapateou sobre os peda�os.</p><p>� Eu j� n�o lhe disse, seu intrometido dos infernos, que o senhor deve ficar longe desta propriedade? Nunca mais ouse mostrar sua cara maldita por aqui. Se o senhor entrar aqui de novo sem minha autoriza��o, estarei no meu direito de usar de viol�ncia. Eu o matarei, senhor. Por Deus, eu o farei. Quanto ao senhor � ele disse, virando-se para mim � fa�o-lhe a mesma advert�ncia. Eu conhe�o a sua profiss�o desprez�vel, mas o senhor deve empregar seus supostos talentos em algum outro lugar. N�o h� oportunidade para eles aqui.</p><p>� N�o posso ir embora � disse meu cliente com firmeza �, antes de ouvir do pr�prio Godfrey que ele n�o est� preso.</p><p>Nosso anfitri�o involunt�rio tocou a campainha.</p><p>� Ralph � ele disse �, telefone para a pol�cia da comarca e pe�a ao inspetor para enviar dois policiais. Diga-lhe que h� ladr�es na casa.</p><p>� Um momento � eu disse. � O senhor deve estar ciente, sr. Dodd, de que o coronel Emsworth est� em seus direitos, e que n�o temos autoriza��o legal para estar dentro desta casa. Por outro lado, ele deveria reconhecer que a sua atitude � inteiramente motivada pela amizade que o senhor tem pelo filho dele. Acho que, se me for permitido conversar cinco minutos com o coronel, conseguirei mudar sua opini�o sobre o assunto.</p><p>� Eu n�o mudo t�o facilmente o meu modo de pensar � disse o velho soldado. � Ralph, fa�a o que eu lhe disse. Diabo, o que � que voc� est� esperando? Telefone para a pol�cia!</p><p>� Nada disso � eu disse, encostando-me na porta. � Qualquer interfer�ncia da pol�cia provocaria a cat�strofe que o senhor teme. Tirei do bolso o meu caderno de anota��es e rabisquei uma palavra numa folha solta. � Isto � eu disse, enquanto o entregava ao coronel Emsworth � foi o que nos trouxe aqui.</p><p>Ele olhou fixamente para o que estava escrito, e seu rosto perdeu toda a express�o, menos a de espanto.</p><p>� Como � que o senhor sabe? � ele perguntou com a respira��o ofegante, sentando-se pesadamente em sua cadeira.</p><p>� Faz parte da minha profiss�o saber as coisas. Esse � o meu neg�cio.</p><p>Ele ficou sentado, refletindo, a m�o magra puxando a barba emaranhada. Depois fez um gesto de resigna��o.</p><p>� Bem, se os senhores querem ver Godfrey, podem v�-lo. Eu n�o tive culpa, voc�s me obrigaram. Ralph, diga ao sr. Godfrey e ao sr. Kent que dentro de cinco minutos estaremos l�.</p><p>Cinco minutos depois, atravessamos o jardim e chegamos diante da casa misteriosa. Um homenzinho de barba estava em p� � porta, e seu rosto tinha uma express�o de grande espanto.</p><p>� Isto � muito inesperado, coronel Emsworth � ele disse. � Isto vai atrapalhar nossos planos.</p><p>� N�o posso evit�-lo, senhor Kent. Fomos obrigados. O sr. Godfrey pode nos receber?</p><p>� Sim; ele est� esperando l� dentro. � Ele virou-se e nos conduziu at� um quarto grande, mobiliado de maneira simples. Um homem estava de p�, com as costas viradas para a lareira, e ao avist�-lo, meu cliente saltou para a frente com as m�os estendidas.</p><p>� Ora, Godfrey, meu velho, isto � espl�ndido!</p><p>� N�o me toque, Jimmie. Fique afastado. Sim, voc� pode me olhar espantado. Eu n�o me pare�o mais com Emsworth, o bonito cabo dos lanceiros do Esquadr�o B, n�o �?</p><p>Sua apar�ncia era realmente estranha. Podia-se ver que ele havia sido um homem bonito, com fei��es bem definidas, queimadas pelo sol africano, mas sobre esta superf�cie mais escura havia curiosas manchas esbranqui�adas, que tinham descorado sua pele.</p><p>� � por isto que eu n�o quero visitas � ele disse. � Voc�, eu n�o me importo, Jimmie, mas teria sido melhor sem o seu amigo. Imagino que haja um bom motivo para isto, mas voc� me apanhou desprevenido.</p><p>� Eu queria me certificar de que estava tudo bem com voc�, Godfrey. Eu o vi quando voc� me olhou pela janela naquela noite, e eu n�o podia deixar o assunto de lado enquanto as coisas n�o ficassem esclarecidas.</p><p>� O velho Ralph me contou que voc� estava l�, e n�o pude deixar de dar uma espiada em voc�. Eu esperava que n�o me visse e tive de correr para o meu esconderijo quando ouvi a janela se abrir.</p><p>� Mas, pelo amor de Deus, o que est� havendo?</p><p>� Bem, n�o � uma� hist�ria longa � ele disse, acendendo um cigarro. � Voc� se lembra daquela luta de manh� em Buffelsspruit, nos arredores de Pret�ria, sobre a estrada de ferro oriental? Voc� soube que eu fui ferido?</p><p>� Sim, fiquei sabendo, mas nunca obtive detalhes a esse respeito.</p><p>� Tr�s de n�s se separaram dos outros. O pa�s estava muito dividido, como voc� deve se lembrar. Havia o Simpson Careca, o Anderson e eu. Est�vamos fazendo uma opera��o de limpeza, mas o irm�o b�er estava escondido e apanhou os tr�s. Os outros dois foram mortos. Uma bala para matar elefante atravessou o meu ombro. Mas me segurei no cavalo, e ele galopou alguns quil�metros at� que eu desmaiei e ca� da sela.</p><p>� Quando voltei a mim, estava anoitecendo; levantei-me, sentindo-me muito fraco e doente. Para minha surpresa, um pouco atr�s de mim havia uma casa bem grande, com uma varanda ampla e muitas janelas. Estava um frio terr�vel. Voc� se lembra daquele frio entorpecedor que costumava fazer ao anoitecer, um frio mortal,� arrasador, muito diferente de uma geada saud�vel. Bem, eu estava gelado at� os ossos e minha �nica esperan�a seria chegar at� aquela casa. Fiquei de p� cambaleando e fui me arrastando, quase sem saber o que estava fazendo. Tenho uma vaga lembran�a de ter subido lentamente os degraus, de ter entrado por uma porta que estava aberta, chegado a um quarto grande com muitas camas, e de ter me jogado numa delas com um suspiro de satisfa��o. A cama n�o estava feita, mas isto n�o me preocupou de modo algum. Puxei as cobertas sobre o meu corpo que tiritava de frio e num instante estava dormindo profundamente.</p><p>� De manh�, quando acordei, tive a impress�o de que estava entrando num pesadelo horr�vel, em vez de estar voltando a um mundo normal. O sol africano jorrava atrav�s das grandes janelas sem cortinas, e cada detalhe do dormit�rio grande e pobre, caiado de branco, se destacava de maneira desagrad�vel e clara. Na minha frente estava um homem baixo, parecido com um an�o, com uma cabe�a imensa em forma de bulbo, tagarelando excitadamente em holand�s e balan�ando duas m�os horr�veis, que me pareciam esponjas marrons. Atr�s dele havia um grupo de pessoas que parecia se divertir imensamente com a situa��o, mas senti um arrepio quando olhei para elas. Nenhum deles era um ser humano normal. Todos estavam retorcidos, ou inchados, ou desfigurados de alguma maneira estranha. O riso desses estranhos monstros era horr�vel de se ouvir.</p><p>� Parecia que nenhum deles sabia falar ingl�s, mas a situa��o devia ser esclarecida, pois a criatura de cabe�a grande estava ficando muito zangada e, gritando como uma besta selvagem, p�s suas m�os deformadas em mim e me puxou para fora da cama, sem se importar com o sangue que espirrava da minha ferida. O pequeno monstro era forte como um touro, e n�o sei o que ele poderia ter feito comigo, se a algazarra n�o tivesse atra�do at� o quarto um homem mais velho, evidentemente uma autoridade. Ele disse algumas palavras �speras em holand�s, e o meu perseguidor recuou. Ent�o ele se virou para mim, olhando-me com o maior espanto.</p><p>� �Como � que o senhor veio parar aqui?�, ele perguntou, perplexo. �Espere um pouco! Vejo que est� exausto, e que a ferida em seu ombro precisa de cuidados. Sou m�dico, vou j� tratar da sua ferida. Mas, homem de Deus! O senhor est� correndo perigo muito maior aqui do que no pr�prio campo de batalha. O senhor est� no Hospital de Lepra e dormiu na cama de um leproso.�</p><p>� Preciso dizer-lhe mais, Jimmie? Parece que, em vista de uma batalha que se aproximava, todas aquelas pobres criaturas haviam sido evacuadas no dia anterior. Depois, � medida que os ingleses avan�avam, foram trazidos de volta por este homem, o m�dico superintendente, que me garantiu que, embora acreditando que fosse imune � doen�a, jamais ousaria fazer o que eu havia feito. Ele me colocou em um quarto separado, tratou-me com bondade e, mais ou menos uma semana depois, fui removido para o hospital geral em Pret�ria.</p><p>� Pois a� est� a minha trag�dia. Esperei pelo imposs�vel, mas s� depois que voltei para casa � que as manchas terr�veis que voc� v� em meu rosto me mostraram que eu n�o havia escapado. O que � que eu podia fazer? Fiquei nesta casa isolada. T�nhamos dois criados em quem pod�amos confiar plenamente. Havia uma casa onde eu podia morar. Sob a promessa de segredo, o sr. Kent, que � cirurgi�o, estava disposto a ficar comigo. Isto parecia muito simples. A alternativa era terr�vel � segrega��o entre estranhos, durante toda a vida, sem ter jamais uma esperan�a de liberdade. Mas era necess�rio o segredo absoluto, do contr�rio, mesmo nesta regi�o tranq�ila, poderia haver uma den�ncia e eu seria arrastado para o meu destino terr�vel. At� mesmo voc�, Jimmie � at� mesmo voc� tinha de ser mantido a dist�ncia. Por que meu pai cedeu, n�o consigo imaginar.</p><p>O coronel Emsworth apontou para mim.</p><p>� Foi este cavalheiro que me obrigou a fazer isso. � Ele desdobrou o peda�o de papel no qual havia escrito a palavra Lepra. � J� que ele sabia tanto, achei que seria mais seguro inform�-lo de tudo.</p><p>� � verdade � eu disse. � Quem sabe se de tudo isto n�o resultar� alguma coisa boa? Acho que s� o sr. Kent viu o paciente. Posso perguntar-lhe, senhor, se � uma autoridade nesta doen�a que, segundo meus conhecimentos, pode ser tropical ou subtropical?</p><p>� Possuo o conhecimento normal de que todo m�dico formado � observou com certa aspereza.</p><p>� N�o duvido que o senhor seja muito competente, mas estou certo de que concordar� que, num caso destes, uma segunda opini�o � valiosa. O senhor evitou isto, pelo que entendi, por medo de ser pressionado a isolar o paciente.</p><p>� Realmente � disse o coronel Emsworth.</p><p>� Eu previ esta situa��o � expliquei � e trouxe um amigo, em cuja discri��o pode-se confiar totalmente. Uma vez prestei-lhe um servi�o profissional, e ele est� disposto a aconselh�-lo mais como amigo do que como especialista. Seu nome � sir James Sauders.</p><p>A perspectiva de uma entrevista com lorde Roberts n�o teria provocado, em um subalterno inexperiente, maior assombro e prazer do que aquele que agora se refletia no rosto do sr. Kent.</p><p>� Na verdade, ficarei lisonjeado � ele murmurou.</p><p>� Ent�o pedirei a sir James para vir at� aqui. Ele est� agora l� fora, na carruagem. Enquanto isso, coronel Emsworth, talvez pud�ssemos nos reunir em seu escrit�rio, onde eu lhes darei as explica��es necess�rias.</p><p>E � aqui que sinto falta de Watson. Com perguntas astuciosas e exclama��es de admira��o, ele consegue transformar minha arte insignificante, que n�o passa de bom senso sistematizado, em algo extraordin�rio. Quando eu mesmo narro minhas hist�rias, n�o conto com esta ajuda. Mas explicarei o desenvolvimento de meu racioc�nio, da mesma maneira que o expliquei no escrit�rio do coronel Emsworth � minha pequena plat�ia, que inclu�a a m�e de Godfrey.</p><p>� Esse processo � eu disse � parte da suposi��o de que, quando eliminamos tudo o que � imposs�vel, aquilo que permanece, ainda que improv�vel, deve ser a verdade. Pode ser que permane�am v�rias explica��es, e neste caso faz-se um teste ap�s o outro, at� que um ou outro obtenha uma quantidade convincente de argumentos. N�s agora vamos aplicar este princ�pio ao caso em quest�o. Conforme o que me foi narrado no in�cio, havia tr�s explica��es poss�veis para a reclus�o ou encarceramento deste jovem numa depend�ncia externa da mans�o de seu pai. Havia a suposi��o de que ele estivesse num esconderijo por causa de um crime, ou que estivesse louco e eles quisessem evitar o asilo, ou que pudesse ter contra�do uma mol�stia que exigisse a segrega��o. Eu n�o podia imaginar outras explica��es mais adequadas. Ent�o essas explica��es deviam ser investigadas e comparadas umas com as outras.</p><p>� A hip�tese de um crime n�o resistiu � investiga��o. Naquele distrito, nenhum crime ficou sem solu��o. Eu estava certo disto. Se fosse algum crime ainda n�o descoberto, ent�o, evidentemente, seria do interesse da fam�lia livrar-se do delinq�ente, mand�-lo para fora do pa�s, e n�o mant�-lo oculto em casa. Eu n�o via explica��o para este tipo de conduta.</p><p>� Insanidade seria mais plaus�vel. A presen�a de uma segunda pessoa na depend�ncia externa da casa fazia pensar na possibilidade de um vigia. O fato de ele ter trancado a porta quando saiu refor�ou esta hip�tese e deu id�ia de confinamento. Por outro lado, este confinamento n�o devia ser rigoroso, ou o jovem n�o poderia ter sa�do para ver seu amigo. O senhor h� de se lembrar, sr. Dodd, que eu tateava � procura de detalhes quando lhe perguntei, por exemplo, a respeito da publica��o que o sr. Kent estava lendo. Se tivesse sido The Lancet ou The British Medical Journey, isto teria me ajudado. Mas n�o � ilegal manter um louco numa propriedade privada, contanto que haja uma pessoa qualificada para assisti-lo, e que as autoridades tenham sido devidamente notificadas. Por que, ent�o, todo esse desejo desesperado de segredo? Mais uma vez eu n�o conseguia fazer com que a teoria combinasse com os fatos.</p><p>� Ainda restava a terceira possibilidade, rara e improv�vel, mas na qual tudo parecia se encaixar. A lepra n�o � rara na �frica do Sul. Esse jovem poderia ter contra�do lepra devido a alguma circunst�ncia extraordin�ria. Sua fam�lia ficaria numa situa��o muito desagrad�vel, j� que iria querer livr�-lo da segrega��o. Seria necess�rio um grande sigilo para impedir que os boatos se espalhassem, e para evitar a subseq�ente interfer�ncia das autoridades. Um m�dico dedicado e bem pago para tomar conta do doente poderia ser encontrado facilmente. N�o havia motivo para que o doente n�o pudesse ficar em liberdade depois que escurecesse. A descolora��o da pele � uma conseq��ncia comum da mol�stia. O caso era grave � t�o grave que decidi agir como se a mol�stia j� tivesse sido comprovada. Quando, ao chegar aqui, reparei que Ralph, ao transportar as refei��es, usava luvas impregnadas de desinfetantes, minhas �ltimas d�vidas desapareceram. Uma �nica palavra mostrou ao senhor que o seu segredo havia sido descoberto, e se eu preferi escrever a falar, foi para provar-lhe que poderia confiar em minha discri��o.</p><p>Eu estava terminando esta r�pida an�lise dos fatos quando a porta se abriu e a figura austera do grande dermatologista entrou na sala. Mas desta vez suas fei��es de esfinge estavam descontra�das e havia em seus olhos muito calor humano. Aproximou-se do coronel Emsworth e apertou-lhe as m�os.</p><p>� Quase sempre o meu papel � transmitir not�cias de doen�as, e raramente boas � ele disse. � Este momento � dos mais agrad�veis. N�o � lepra.</p><p>� O qu�?</p><p>� � um caso bem t�pico de pseudolepra ou ictiose, uma doen�a que deixa a pele escamosa, desagrad�vel � vista, persistente, mas possivelmente cur�vel, e certamente n�o-infecciosa. Sim, sr. Holmes, a coincid�ncia � extraordin�ria. Mas seria uma coincid�ncia? Ser� que n�o h� for�as sutis em a��o, sobre as quais sabemos pouco? Temos certeza de que o medo terr�vel que este rapaz sem d�vida sentiu desde que se exp�s ao cont�gio n�o poderia ter produzido um efeito f�sico que simulou aquilo que ele temia? De qualquer modo, dou como garantia minha reputa��o profissional. Mas a senhora desmaiou! Acho que � melhor o dr. Kent ficar com ela at� que se recupere de seu choque de alegria.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura da pedra mazarin</strong></p><p>Para o dr. Watson era agrad�vel encontrar-se mais uma vez no quarto desarrumado, no primeiro andar da Baker Street, que havia sido o ponto de partida de tantas aventuras not�veis. Ele olhou em volta para os gr�ficos cient�ficos na parede, para a bancada queimada pelos �cidos, para a caixa de violino encostada no canto da parede, e para o balde de carv�o, que continha os habituais cachimbos e o tabaco. Finalmente seus olhos pousaram no rosto sorridente e saud�vel de Billy, o jovem mas muito s�bio e discreto, que ajudara a amenizar um pouco a solid�o e o isolamento que cercavam a figura melanc�lica do grande detetive.</p><p>� Nada aqui se modificou, Billy. Voc� tamb�m n�o mudou. Espero que se possa dizer o mesmo a respeito dele.</p><p>Billy olhou com preocupa��o para a porta fechada do quarto de dormir.</p><p>� Acho que ele est� dormindo � ele disse.</p><p>Eram sete da noite de um agrad�vel dia de ver�o, mas o dr. Watson estava suficientemente familiarizado com os hor�rios irregulares de seu velho amigo para se surpreender com o fato.</p><p>� Isto significa um caso, eu presumo.</p><p>� Sim, senhor, no momento ele est� muito empenhado. Estou preocupado com a sua sa�de. Ele est� cada vez mais p�lido e mais magro, e n�o se alimenta. Quando a sra. Hudson perguntou �A que horas gostaria de jantar, sr. Holmes?�, ele respondeu: ��s 19:30h, depois de amanh�.� O senhor sabe como ele se comporta quando est� interessado em algum caso.</p><p>� Sim, Billy, eu sei.</p><p>� Ele est� atr�s de algu�m. Ontem saiu disfar�ado de oper�rio � procura de emprego. Hoje se transformou numa velha. Ele quase me enganou, embora eu j� conhe�a seus m�todos. Billy apontou sorrindo para uma sombrinha deformada que estava apoiada no sof�. � Faz parte do traje da velha senhora � ele disse.</p><p>� Mas o que significa tudo isso, Billy?</p><p>Billy baixou a voz, como algu�m que revela grandes segredos de Estado. � N�o me incomodo de contar ao senhor, mas isto n�o pode ser comentado. Trata-se do caso do diamante da Coroa.</p><p>� O qu� � o assalto das 100 mil libras?</p><p>� Sim, senhor. Eles precisam recuper�-la, senhor. Ora, o primeiro-ministro e o secret�rio do Interior estiveram aqui sentados naquele sof�. O sr. Holmes foi muito gentil com eles. Ele os deixou logo � vontade e prometeu que faria tudo que pudesse. Mas h� lorde Cantlemere...</p><p>� Ah!</p><p>� Sim, o senhor sabe o que isto significa. Ele � intransigente, senhor, se � que posso dizer isso. Eu consigo gostar do primeiro-ministro e n�o tenho nada contra o secret�rio do Interior, que me pareceu um homem civilizado e cort�s; mas n�o consigo tolerar Sua Excel�ncia, o lorde. Nem o sr. Holmes o consegue. Veja o senhor, ele n�o acredita no sr. Holmes e n�o queria que o contratassem. Ele at� prefere que o sr. Holmes fracasse.</p><p>� E o sr. Holmes sabe disso?</p><p>� O sr. Holmes sempre sabe o que � preciso saber.</p><p>� Bem, esperemos que ele n�o falhe e que lorde Cantlemere v� para o diabo. Mas Billy, para que serve aquela cortina na frente da janela?</p><p>� O sr. Holmes mandou coloc�-la h� tr�s dias. Temos uma coisa muito engra�ada atr�s dela.</p><p>Billy adiantou-se e puxou o pano que ocultava o espa�o formado pela janela em curva.</p><p>O dr. Watson n�o p�de reprimir um grito de espanto. Ali estava uma reprodu��o do seu velho amigo, de roup�o e tudo, o rosto um pouco virado para a janela e para baixo, como se estivesse lendo um livro invis�vel, enquanto o corpo estava afundado na poltrona. Billy arrancou a cabe�a e segurou-a no ar.</p><p>� N�s a colocamos em �ngulos diferentes, para que pare�a mais natural. Eu n�o tocaria nela se a persiana n�o estivesse abaixada. Porque, quando est� aberta, pode-se ver isto do outro lado da rua.</p><p>� J� usamos algo semelhante antes.</p><p>� Antes do meu tempo � disse Billy. Ele abriu a cortina da janela e olhou para a rua. � H� indiv�duos que nos espreitam l� do outro lado. Posso ver um sujeito agora na janela. D� uma olhada o senhor mesmo. � Watson havia dado um passo para a frente quando a porta do quarto se abriu e a figura comprida e magra de Holmes apareceu, rosto p�lido e abatido, mas com passos e postura t�o �geis como sempre. Com um �nico salto ele chegou at� a janela e fechou a persiana novamente.</p><p>� Basta, Billy � ele disse. � Voc� est� correndo perigo de vida, meu rapaz, e eu n�o posso ficar sem voc� justamente agora. Ol�, Watson, � bom v�-lo novamente em seus antigos aposentos. Voc� chegou num momento cr�tico.</p><p>� � o que estou vendo.</p><p>� Voc� pode ir, Billy. Este rapaz � um problema, Watson. At� que ponto posso permitir que ele corra perigo?</p><p>� Perigo de qu�, Holmes?</p><p>� De ser morto de repente. Estou esperando alguma coisa esta noite.</p><p>� Esperando o qu�?</p><p>� Ser assassinado, Watson.</p><p>� N�o, n�o, voc� est� brincando, Holmes!</p><p>� At� o meu limitado senso de humor poderia produzir uma piada melhor do que esta. Mas podemos ficar � vontade enquanto isso, n�o podemos? O �lcool � permitido? O acendedor e os charutos est�o no lugar de sempre. Deixe-me v�-lo novamente na sua poltrona habitual. Espero que voc� n�o tenha aprendido</p><p>a desprezar meu cachimbo e meu tabaco deplor�vel. Eles precisam substituir a comida estes dias.</p><p>� Mas por que n�o comer?</p><p>� Porque as faculdades mentais se aprimoram, quando voc� as deixa passar fome. Ora, certamente, como m�dico, meu caro Watson, voc� deve reconhecer que aquilo que a sua digest�o ganha em suprimento sang��neo � subtra�do ao c�rebro. Eu sou c�rebro, Watson. O resto do meu corpo � um mero ap�ndice. Portanto, � o c�rebro que devo levar em considera��o.</p><p>� Mas, e esse perigo, Holmes?</p><p>� Ah, sim; no caso de se concretizar, talvez fosse conveniente que voc� sobrecarregasse sua mem�ria com o nome e o endere�o do assassino. Voc� pode entreg�-lo � Scotland Yard, com minhas sauda��es e uma b�n��o de despedida. O nome � Sylvius � conde Negretto Sylvius. Anote isto, homem, anote! Moorside Gardens, 136, Londres N.W. Anotou?</p><p>O rosto honesto de Watson estava crispado de emo��o. Ele sabia muito bem o imenso risco que Holmes estava correndo e sabia tamb�m que aquilo que ele acabara de dizer era, provavelmente, mais uma atenua��o dos fatos do que um exagero. Watson sempre foi um homem de a��o, e colocou-se � altura da ocasi�o.</p><p>� Inclua-me nisso, Holmes. N�o tenho nada para fazer durante um ou dois dias.</p><p>� Sua moral n�o melhorou nada, Watson. Voc� acrescentou a mentira aos seus outros v�cios. Voc� mostra todos os sinais de um m�dico muito ocupado, com chamados a toda hora.</p><p>� N�o s�o chamados t�o importantes. Mas voc� n�o pode mandar prender esse homem?</p><p>� Sim, Watson, eu poderia. � isto que o deixa t�o preocupado.</p><p>� E por que n�o o faz?</p><p>� Porque n�o sei onde est� o diamante.</p><p>� Ah! Billy me contou � a j�ia da Coroa que sumiu.</p><p>� Sim, a grande pedra amarela Mazarin. Eu joguei a rede e prendi o meu peixe. Mas n�o consegui a pedra. O que adianta mandar prend�-los? Poderemos tornar o mundo melhor, capturando-os. Mas n�o � isso o que me interessa. � a pedra que eu quero.</p><p>� E o conde Sylvius � um de seus peixes?</p><p>� Sim, ele � um tubar�o. Ele morde. O outro � Sam Merton, o lutador de boxe. Sam n�o � um mau sujeito, mas o conde o tem usado. Sam n�o � um tubar�o. Ele � uma grande isca tola. Mas ele tamb�m est� se debatendo em minha rede.</p><p>� Onde est� este conde Sylvius?</p><p>� Passei a manh� inteira muito perto dele. Voc� j� me viu vestido de velha, Watson. Nunca estive mais convincente. Ele chegou a apanhar a sombrinha para mim, uma vez. �Com sua permiss�o, madame�, ele disse, com sotaque italiano, voc� sabe, e com a eleg�ncia do sulista, quando est� disposto, mas a encarna��o do dem�nio quando est� com outra disposi��o de esp�rito. A vida est� repleta de acontecimentos estranhos, Watson.</p><p>� Podia ter ocorrido uma trag�dia.</p><p>� Bem, talvez. Eu o segui at� a velha oficina de Straubenzee, nas Minories. Straubenzee fez a pistola de ar comprimido � um trabalho muito bonito, pelo que sei, e eu imagino que esta pistola est�, neste momento, numa das janelas do outro lado da rua. Voc� viu o boneco? Naturalmente Billy o mostrou a voc�. Bem, ele pode receber a qualquer momento uma bala em sua bonita cabe�a. Ah, Billy, o que �?</p><p>O rapaz entrou na sala com um cart�o numa bandeja. Holmes olhou para o cart�o, com as sobrancelhas erguidas, e um sorriso divertido.</p><p>� O homem, ele pr�prio. Eu dificilmente esperaria isto. Segure a rede com firmeza, Watson! Um homem ousado. Voc� deve ter ouvido falar de sua fama de ca�ador de animais grandes. Seria realmente um final glorioso para a excelente ficha de esportista dele, se ele me acrescentasse a sua cole��o. Isto � uma prova de que ele sente os meus p�s bem perto dos seus calcanhares.</p><p>� Chame a pol�cia.</p><p>� Provavelmente chamarei. Mas n�o agora. Quer olhar com cuidado pela janela, Watson, e ver se h� algu�m parado na rua?</p><p>Watson olhou discretamente.</p><p>� Sim, h� um sujeito mal-encarado perto da porta.</p><p>� Deve ser Sam Merton � o fiel mas um tanto presun�oso Sam. Onde est� o cavalheiro, Billy?</p><p>� Na sala de estar, senhor.</p><p>� Traga-o aqui quando eu tocar a campainha.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Se eu n�o estiver na sala, deixe-o entrar assim mesmo.</p><p>� Sim, senhor.</p><p>Watson esperou at� que a porta fosse fechada e ent�o virou para o seu amigo.</p><p>� Escute aqui, Holmes, isto � simplesmente imposs�vel. Ele � um homem desesperado jogando a sua �ltima cartada. Ele pode ter vindo para mat�-lo.</p><p>� Eu n�o me surpreenderia.</p><p>� Insisto em ficar com voc�.</p><p>� Voc� seria um obst�culo.</p><p>� No caminho dele?</p><p>� N�o, meu caro companheiro � no meu caminho.</p><p>� Bem, n�o posso deix�-lo sozinho.</p><p>� Sim, voc� pode, Watson. E voc� far� isso, pois nunca deixou de jogar o jogo. Tenho certeza de que ir� jog�-lo at� o fim. Este homem veio pelos seus pr�prios interesses, mas pode ficar pelos meus interesses. � Holmes tirou seu bloco de anota��es e escreveu algumas linhas. � Tome um t�xi at� a Scotland Yard e entregue isto a Youghal, do C.I.D. Volte com a pol�cia. A pris�o do sujeito ser� imediata.</p><p>� Eu farei isto com alegria.</p><p>� At� voc� voltar terei tempo suficiente para descobrir onde est� a pedra. � Holmes tocou a campainha. � Acho que sairemos pelo dormit�rio. Esta segunda sa�da � extremamente �til. Prefiro ver meu tubar�o sem que ele me veja, e, como voc� deve se lembrar, tenho minha maneira pr�pria de faz�-lo.</p><p>Portanto, foi para uma sala vazia que, um minuto depois, Billy levou o conde Sylvius. O famoso atirador, desportista e homem de sociedade era um sujeito enorme, moreno, com um formid�vel bigode negro que ocultava uma boca cruel, de l�bios finos, coroada por um nariz longo e curvo como o bico de uma �guia. Ele estava bem-vestido, mas sua gravata brilhante, seu alfinete ofuscante e an�is deslumbrantes produziam um efeito exagerado. Quando a porta se fechou, ele olhou em volta com olhos ferozes e assustados, como algu�m que suspeita de uma armadilha a cada passo. Ent�o ele levou um susto ao ver a cabe�a impass�vel e a gola do roup�o que apareciam por cima da poltrona junto � janela. A princ�pio sua express�o foi de puro assombro. Em seguida, a luz de uma esperan�a terr�vel brilhou em seus escuros olhos de assassino. Ele deu mais uma olhada em volta para ver se n�o havia testemunhas, e ent�o, na ponta dos p�s, com a bengala grossa meio levantada, aproximou-se da figura silenciosa. Ele estava se agachando para o salto e o golpe finais quando uma voz fria e mordaz, vinda da porta aberta do dormit�rio, o cumprimentou.</p><p>� N�o o quebre, conde! N�o o quebre!</p><p>O assassino cambaleou para tr�s, com uma express�o de espanto no rosto. Por um instante ele ergueu novamente a bengala carregada, como se fosse desviar sua viol�ncia do boneco para o original; mas havia alguma coisa naqueles olhos cinzentos decididos e naquele sorriso de zombaria que fez com que abaixasse a m�o.</p><p>� � uma coisa bonitinha � disse Holmes, aproximando-se do boneco. � Tavernier, o modelador franc�s, o fez. Ele � t�o bom em trabalhos de cera quanto seu amigo Straubenzee em pistolas de ar comprimido.</p><p>� Pistolas de ar comprimido, senhor! O que quer dizer?</p><p>� Ponha seu chap�u e sua bengala na mesinha. Obrigado! Por favor, sente-se. O senhor se incomodaria de tirar o seu rev�lver tamb�m? Oh, muito bem, se prefere sentar-se sobre ele. Sua visita realmente � bastante oportuna, porque eu queria muito conversar alguns minutos com o senhor.</p><p>O conde franziu a testa, as sobrancelhas espessas e amea�adoras.</p><p>� Eu tamb�m gostaria de trocar algumas palavras com voc�, Holmes. � por isso que estou aqui. N�o nego que pretendia atac�-lo h� pouco.</p><p>Holmes balan�ou a perna sobre a quina da mesa.</p><p>� Eu imaginei que voc� estava com essa id�ia � ele disse. � Mas por que estas aten��es pessoais?</p><p>� Porque voc� se afastou de seu caminho para me importunar. Porque voc� p�s seus homens na minha pista.</p><p>� Meus homens! Garanto-lhe que n�o!</p><p>� Tolice! Eu mandei que os seguissem. Dois podem jogar este jogo, Holmes.</p><p>� � uma quest�o sem muita import�ncia, mas o senhor talvez possa, por gentileza, tratar-me de senhor quando fala comigo. O senhor deve compreender que, com a minha rotina de trabalho, eu acabaria sendo tratado com intimidade por metade da cole��o de velhacos, e o senhor deve concordar que as exce��es s�o odiosas.</p><p>� Bem, sr. Holmes.</p><p>� Excelente! Mas garanto que o senhor est� enganado quanto aos meus supostos agentes.</p><p>O conde Sylvius deu uma gargalhada insolente.</p><p>� Outras pessoas tamb�m podem observar t�o bem quanto o senhor. Ontem foi um velho temer�rio. Hoje, uma senhora de idade avan�ada. Eles me espionaram o dia inteiro.</p><p>� Na verdade, senhor, isto � um elogio. O velho bar�o Dowson disse-me, na noite antes de ser enforcado, que, no meu caso, o que a lei ganhou o palco perdeu. E agora o senhor d� �s minhas insignificantes caracteriza��es o seu am�vel elogio!</p><p>� Era o senhor, o senhor mesmo?</p><p>Holmes deu de ombros.</p><p>� O senhor pode ver ali no canto a sombrinha que t�o gentilmente me entregou, no Minories, antes que come�asse a suspeitar.</p><p>� Se eu soubesse, o senhor talvez nunca...</p><p>� Tivesse visto este humilde lar novamente. Eu estava ciente disto. Todos n�s temos a lamentar oportunidades desperdi�adas. Como costuma acontecer, o senhor n�o sabia, de modo que aqui estamos!</p><p>As sobrancelhas hirsutas do conde ficaram mais franzidas sobre os seus olhos amea�adores.</p><p>� O que o senhor diz s� piora as coisas. N�o foram os seus agentes, mas o senhor mesmo representando e bisbilhotando. O senhor ent�o admite que estava me seguindo. Por qu�?</p><p>� Ora, conde. O senhor costumava matar le�es na Arg�lia.</p><p>� E da�?</p><p>� Mas por que fazia isso?</p><p>� Por qu�? Como passatempo, por ser excitante, pelo perigo!</p><p>� E, sem d�vida, para livrar o pa�s de uma praga?</p><p>� Exatamente!</p><p>� S�o essas tamb�m as minhas raz�es, em resumo.</p><p>O conde ergueu-se de um salto, e sua m�o, involuntariamente, moveu-se em dire��o ao bolso traseiro.</p><p>� Sente-se, senhor, sente-se. Havia outro motivo mais pr�tico. Eu quero aquele diamante amarelo!</p><p>O conde Sylvius recostou-se novamente na sua cadeira, com um sorriso perverso.</p><p>� Palavra de honra! � ele disse.</p><p>� O senhor sabia que eu o perseguia por isso. O verdadeiro motivo que o trouxe aqui esta noite foi descobrir o que eu sei sobre o assunto e se minha elimina��o � absolutamente necess�ria. Bem, eu diria que, do seu ponto de vista, ela � essencial, porque eu sei tudo a este respeito, menos uma coisa, que o senhor est� prestes a me contar.</p><p>� Oh, realmente! Por favor, o que � que est� lhe faltando saber?</p><p>� Onde est� agora o diamante da Coroa.</p><p>O conde olhou com ironia para o seu amigo.</p><p>� Ah, o senhor quer saber isso, n�o? E como eu poderia lhe dizer onde est� o diamante?</p><p>� O senhor pode, e o senhor vai dizer.</p><p>� Imagine!</p><p>� O senhor n�o pode blefar comigo, conde Sylvius. � Os olhos de Holmes, ao se fixarem no conde, se contra�ram e se iluminaram at� ficarem como dois amea�adores pontos de a�o.</p><p>� O senhor � completamente transparente. Vejo at� o interior de sua mente.</p><p>� Ent�o, naturalmente, o senhor v� onde est� o diamante!</p><p>Holmes bateu palmas, divertido, e ent�o apontou o dedo para ele e disse, tro�ando: � Ent�o o senhor sabe. O senhor admitiu.</p><p>� Eu n�o admiti nada.</p><p>� Bem, conde, se o senhor for razo�vel, poderemos negociar. Do contr�rio, o senhor ser� prejudicado.</p><p>O conde Sylvius virou os olhos para o teto.</p><p>� E o senhor fala em blefe! � ele disse.</p><p>Holmes olhou para ele pensativamente, como um mestre de xadrez que medita sobre um movimento final. Ent�o abriu a gaveta da mesa e tirou uma agenda grossa.</p><p>� Sabe o que guardo neste livro?</p><p>� N�o, senhor, n�o sei!</p><p>� O senhor mesmo.</p><p>� Eu?</p><p>� Sim, o senhor! O senhor est� todo aqui � cada a��o de sua vida depravada e perigosa.</p><p>� Maldito Holmes! � gritou o conde, com os olhos em fogo. � Minha paci�ncia tem limite!</p><p>� Est� tudo aqui, conde: os fatos ver�dicos sobre a morte da velha senhora Harold, que lhe deixou a herdade de Blymer, que o senhor perdeu t�o rapidamente no jogo.</p><p>� O senhor est� sonhando!</p><p>� E a hist�ria completa da vida da srta. Minnie Warrender.</p><p>� Ora! O senhor n�o far� nada com isto!</p><p>� H� muito mais aqui, conde. H� o assalto ao trem de luxo para a Riviera, em 13 de fevereiro de 1892. Aqui, no mesmo ano, o cheque falso contra o Cr�dit Lyonnais.</p><p>� N�o, a� o senhor se engana.</p><p>� Ent�o estou certo em rela��o aos outros. Bem, conde, o senhor � um jogador. Quando o outro jogador tem todos os trunfos, abrir o jogo poupa tempo.</p><p>� O que � que toda essa conversa tem a ver com a j�ia que o senhor mencionou?</p><p>� Devagar, conde. Controle esta mente impaciente! Deixe-me tratar dos assuntos � minha maneira mon�tona. Tenho tudo isto contra o senhor, mas tenho, principalmente, provas concretas contra ambos, o senhor e o seu capanga brig�o, no caso do diamante da Coroa.</p><p>� N�o diga!</p><p>� Conhe�o o cocheiro que o levou a Whitehall e o outro que o trouxe de volta. Sei quem � o porteiro que o viu perto da caixa. Ikey Sanders, que se recusou a cortar o diamante para o senhor. Ikey o delatou e a sua trama foi descoberta.</p><p>As veias saltaram na testa do conde. Suas m�os escuras e peludas se fecharam num espasmo de emo��o reprimida. Ele tentou falar, mas as palavras n�o sa�ram de sua boca.</p><p>� Estas s�o as cartas que eu tenho. Estou pondo todas na mesa. Mas est� faltando uma carta. � o Rei de Diamantes. N�o sei onde est� a pedra.</p><p>� O senhor nunca saber�.</p><p>� N�o? Ora, seja razo�vel, conde. Considere sua situa��o. O senhor ficar� preso durante vinte anos. Sam Merton tamb�m. Que proveito os senhores ir�o tirar do seu diamante? Nenhum! Mas se o senhor o devolver, bem, eu proporia uma trai��o. N�o queremos o senhor ou Sam. Queremos a pedra. Desista dela, e no que me diz respeito, o senhor pode partir livremente, contanto que se comporte no futuro. Se cometer outra falta, bem, ser� a �ltima. Mas, desta vez, minha miss�o � reaver a pedra, n�o � prend�-lo.</p><p>� E se eu me recusar?</p><p>� Ora, ent�o, ai do senhor! Ent�o ser� o senhor e n�o a pedra.</p><p>Billy apareceu, atendendo a um chamado.</p><p>� Acho, conde, que seria conveniente que o seu amigo Sam estivesse presente a esta confer�ncia. Afinal de contas, os interesses dele deveriam estar representados. Billy, h� um cavalheiro grande e feio na cal�ada, diante da porta da frente. Pe�a-lhe para subir at� aqui.</p><p>� E se ele n�o quiser vir, senhor?</p><p>� Nada de viol�ncia, Billy. N�o seja rude com ele. Se voc� lhe disser que o conde Sylvius o chama, ele certamente subir�.</p><p>� O que � que o senhor vai fazer agora? � o conde perguntou quando Billy desapareceu.</p><p>� Meu amigo Watson esteve aqui comigo h� pouco. Contei-lhe que tinha um tubar�o e um peixe-isca na minha rede; agora estou puxando a rede e os dois est�o vindo juntos.</p><p>O conde tinha se levantado da cadeira, e sua m�o estava nas costas. Holmes segurou alguma coisa que estava no bolso do roup�o.</p><p>� Voc� n�o morrer� na sua cama, Holmes.</p><p>� Tenho pensado nisto freq�entemente. E tem muita import�ncia? Afinal de contas, conde, tamb�m � mais prov�vel que a sua morte ocorra na posi��o vertical do que na horizontal. Mas estas previs�es do futuro s�o m�rbidas. Por que n�o nos entregarmos �s ilimitadas alegrias do presente?</p><p>Um brilho repentino e feroz apareceu nos olhos escuros e amea�adores do grande criminoso. Holmes parecia crescer, � medida que ficava mais tenso e mais alerta.</p><p>� N�o adianta apalpar o rev�lver, meu amigo � ele disse com voz tranq�ila. � O senhor sabe muito bem que n�o teria a coragem de us�-lo, mesmo que eu lhe desse tempo para sac�-lo. Os rev�lveres s�o coisas s�rdidas e barulhentas, conde. � melhor permanecer fiel �s pistolas de ar comprimido. Ah, acho que ouvi os passos de fada de seu estimado s�cio. Bom-dia, sr. Merton. Muito mon�tono l� na rua, n�o �?</p><p>O lutador, um jovem robusto, de rosto retangular e uma express�o est�pida e teimosa, estava parado na porta, constrangido, olhando em volta com uma express�o perplexa. O jeito af�vel de Holmes era uma experi�ncia nova para ele, e embora percebesse vagamente que era um jeito hostil, n�o sabia como enfrent�-lo. Ele virou-se para o seu companheiro mais esperto, pedindo ajuda.</p><p>� Que brincadeira � esta agora, conde? O que � que este sujeito quer? O que est� acontecendo? � A voz dele era grave e rouca.</p><p>O conde encolheu os ombros, e foi Holmes quem respondeu.</p><p>� Se me permite resumir, sr. Merton, eu diria que est� tudo terminado.</p><p>O boxeador ainda dirigiu seus coment�rios ao s�cio.</p><p>� O cara a� est� querendo ser engra�ado ou o qu�? Eu n�o estou com disposi��o para brincadeiras.</p><p>� N�o, espero que n�o � disse Holmes. � Acho que posso prometer-lhe que se sentir� ainda menos bem-humorado � medida que a noite avan�ar. Agora, olhe aqui, conde Sylvius. Sou um homem ocupado e n�o posso perder tempo. Vou at� aquele quarto. Por favor, fiquem � vontade durante a minha aus�ncia. O senhor poder� explicar ao seu amigo em que p� est� o caso, sem o constrangimento da minha presen�a. Tentarei tocar a Barcarola, de Hoffmann, no meu violino. Dentro de cinco minutos estarei de volta, para a sua resposta definitiva. O senhor compreendeu qual � a alternativa, n�o? Devemos prend�-lo ou vamos ter a pedra de volta?</p><p>Holmes retirou-se, apanhando no caminho seu violino que estava no canto da parede. Alguns minutos depois eles ouviram, atrav�s da porta fechada do quarto, as notas prolongadas e gemidas de uma m�sica, que parecia vir de um mundo mal-assombrado.</p><p>� O que est� havendo? � perguntou Merton com ansiedade, quando seu c�mplice se virou para ele. � Ele sabe a respeito da pedra?</p><p>� Maldi��o, ele sabe demais. N�o tenho certeza se ele j� n�o sabe tudo a respeito dela.</p><p>� Meu Deus! � O rosto p�lido do boxeador ficou ainda mais branco.</p><p>� Ikey Sanders nos dedurou.</p><p>� Ele fez isso, � ? Vou dar cabo dele mesmo que eu acabe sendo enforcado por isto.</p><p>� Isto n�o vai nos ajudar muito. Precisamos decidir o que vamos fazer.</p><p>� Um instantinho � disse o boxeador, olhando com desconfian�a para a porta do quarto. � Ele � um sujeito escorregadio que precisa ser vigiado. Eu vou acreditar que ele n�o est� escutando?</p><p>� Como ele pode ouvir com o barulho da m�sica?</p><p>� Isto � verdade. Talvez haja algu�m atr�s da cortina. H� cortinas demais nesta sala. � Quando ele olhou em volta, viu de repente, pela primeira vez, o boneco na janela, e ficou olhando e apontando, assustado demais para conseguir falar.</p><p>� Ora, � s� um boneco � disse o conde.</p><p>� Um manequim, n�o? Bem, me assustou! Madame Tussaud n�o est� nesta. � a c�pia viva dele, de roup�o e tudo. Mas as cortinas, conde!</p><p>� Ora, danem-se as cortinas! Estamos perdendo nosso tempo, e temos pouco. Ele pode nos condenar por causa desta pedra.</p><p>� Com os diabos, ele pode!</p><p>� Mas ele nos deixar� escapar se n�s apenas lhe dissermos onde est� a pedra.</p><p>� O qu�? Desistir disto? Desistir de 100 mil libras?</p><p>� � um ou outro.</p><p>Merton co�ou a cabe�a.</p><p>� Ele est� sozinho l� dentro. Vamos dar cabo dele. Se sua luz se apagasse, n�o ter�amos nada a temer.</p><p>O conde sacudiu a cabe�a.</p><p>� Ele est� armado e alerta. Se n�s atirarmos nele, dificilmente conseguiremos escapar de um lugar como este. Al�m disso, � bem prov�vel que a pol�cia tenha conhecimento das provas que ele conseguiu. Ei! O que foi isso?</p><p>Um som impreciso parecia vir da janela. Os dois homens viraram-se num salto, mas, tudo estava quieto. A n�o ser pela estranha figura sentada na poltrona, a sala com certeza estava vazia.</p><p>� Alguma coisa na rua � disse Merton. � Agora, escute aqui, chefe, voc� � o inteligente. Certamente voc� pode imaginar uma sa�da. Se acabar com ele n�o adianta, ent�o compete a voc� achar uma solu��o.</p><p>� Tenho enganado homens melhores do que ele � disse o conde. � A pedra est� aqui, no meu bolso secreto. Eu n�o me arrisco, deixando-a em qualquer outro lugar. Ela pode ser levada para fora da Inglaterra esta noite, e em Amsterd�, antes deste domingo, ser� cortada em quatro peda�os. Ele nada sabe a respeito de Van Seddar.</p><p>� Pensei que Van Seddar ia viajar s� na pr�xima semana.</p><p>� Ele ia. Mas agora ele precisa partir no pr�ximo navio. Um de n�s dois tem de fugir com a pedra e ir at� Lime Street para avis�-lo.</p><p>� Mas o fundo falso n�o est� pronto.</p><p>� Bem, ele precisa lev�-la assim mesmo e correr o risco. N�o temos um minuto a perder. � Novamente, com o senso de perigo que para o desportista torna-se um instinto, ele parou e olhou para a janela. � Sim, certamente foi da rua que veio aquele som quase impercept�vel.</p><p>� Quanto a Holmes � ele continuou �, podemos engan�-lo com a maior facilidade. Veja voc�, o maldito tolo n�o nos prender� se conseguir a pedra. Bem, n�s vamos lhe prometer a pedra. Vamos coloc�-lo atr�s dela numa pista falsa, e antes que ele descubra que a pista � falsa, a pedra estar� na Holanda e n�s estaremos fora do pa�s.</p><p>� Isto me soa bem! � disse Sam Merton, arreganhando os dentes.</p><p>� V� e diga ao holand�s para se apressar. Eu verei este bobalh�o e vou despist�-lo, at� em cima, com uma confiss�o falsa. Vou dizer a ele que a pedra est� em Liverpool. Malditos gemidos; esta m�sica me d� nos nervos! Quando ele descobrir que a pedra n�o est� em Liverpool, ela j� ter� sido dividida e n�s estaremos em alto-mar. Volte aqui, saia da frente do buraco da fechadura. Aqui est� a pedra.</p><p>� Eu n�o sei como voc� tem coragem de carreg�-la com voc�.</p><p>� Onde ela estar� mais segura? Se eu consegui tir�-la de Whitehall, algu�m com certeza poderia tir�-la dos meus aposentos.</p><p>� Vamos dar uma espiada nela.</p><p>O conde Sylvius deu uma olhada nada lisonjeira para o seu c�mplice e ignorou a m�o suja que estava estendida para ele.</p><p>� O que �? Voc� pensa que vou tir�-la de voc�? Olha aqui, chefe, estou ficando cansado dos seus m�todos.</p><p>� Ora, calma; nada de ofensas, Sam. N�o estamos em condi��es de brigar. Venha at� a janela, se quiser ver bem a beldade. Agora segure-a na luz! A�!</p><p>� Obrigado.</p><p>Com um �nico salto Holmes pulou da poltrona do boneco e agarrou a j�ia preciosa. Ele a segurava agora em uma das m�os, enquanto a outra apontava o rev�lver para a cabe�a do conde. Os dois bandidos cambalearam para tr�s, num espanto total. Antes que eles se recuperassem do susto, Holmes tocou a campainha.</p><p>� Nada de viol�ncia, senhores � nada de viol�ncia, pe�o-lhes. Pensem na minha mob�lia! Os senhores devem saber que a situa��o � cr�tica. A pol�cia est� esperando l� embaixo.</p><p>A perplexidade do conde superou sua raiva e o seu medo.</p><p>� Mas como? Com mil diabos! � ele exclamou, ofegante.</p><p>� Sua surpresa � muito natural. O senhor n�o sabia que atr�s daquela cortina h� uma segunda porta, que d� no meu quarto. Eu imaginei que o senhor pudesse ter me ouvido, quando retirei o boneco, mas a sorte estava do meu lado. Isto deu-me a oportunidade de ouvir a sua conversa espirituosa, que teria sido lamentavelmente encerrada se soubessem da minha presen�a.</p><p>O conde fez um gesto de resigna��o.</p><p>� N�s nos damos por vencidos, Holmes. Acho que voc� � o pr�prio dem�nio.</p><p>� De qualquer maneira, n�o estou longe dele � respondeu Holmes com um sorriso cort�s.</p><p>O c�rebro lento de Sam Merton s� conseguiu avaliar a situa��o gradualmente. Finalmente ele rompeu o sil�ncio ao ouvir sons de passos pesados que vinham das escadas l� fora.</p><p>� Tiras do diabo! � ele disse. � Mas o que h� com esse violino desgra�ado? Ainda o ou�o.</p><p>� Ora, ora! � respondeu Holmes. � Voc� est� absolutamente certo. Deixe-o tocar! Esses gramofones modernos s�o uma inven��o not�vel.</p><p>Houve uma invas�o da pol�cia, o clique das algemas, e os criminosos foram levados para o carro que estava esperando. Watson ficou muito tempo com Holmes, cumprimentando-o por esta nova folha acrescentada aos seus louros. Mais uma vez a conversa deles foi interrompida pelo imperturb�vel Billy, com sua bandeja de cart�es.</p><p>� Lorde Cantlemere, senhor.</p><p>� Mande-o subir, Billy. Este � o ilustre fidalgo, que representa os mais altos interesses � disse Holmes. � � uma pessoa excelente e leal, mas bastante antiquado. Vamos deix�-lo � vontade? Devemos nos arriscar a fazer uma brincadeira? Podemos imaginar que ele n�o sabe nada do que aconteceu.</p><p>A porta se abriu, e entrou uma figura magra e austera, com cara de poucos amigos, e su��as ca�das no estilo vitoriano e de um negrume brilhante, que dificilmente combinavam com seus ombros arredondados e seu modo de andar delicado. Holmes adiantou-se cortesmente e apertou uma m�o que n�o respondeu ao cumprimento.</p><p>� Como vai o senhor, lorde Cantlemere? Est� frio, para esta �poca do ano, mas quente dentro de casa. Posso pendurar o seu sobretudo?</p><p>� N�o, obrigado; n�o vou tir�-lo.</p><p>Holmes manteve sua m�o insistentemente sobre a manga.</p><p>� Rogo-lhe que me permita! Meu amigo, o dr. Watson, pode lhe garantir que estas mudan�as de temperatura s�o extremamente perigosas.</p><p>Sua Excel�ncia livrou-se das m�os de Holmes com certa impaci�ncia.</p><p>� Estou perfeitamente confort�vel, senhor. N�o tenho necessidade de ficar aqui. Vim apenas rapidamente, para saber como vai progredindo sua tarefa n�o-autorizada.</p><p>� � dif�cil � muito dif�cil.</p><p>� Eu temia que o senhor fosse achar isso.</p><p>Havia um percept�vel sarcasmo nas palavras e no jeito do velho cortes�o.</p><p>� Todo homem encontra suas limita��es, sr. Holmes, mas pelo menos isto nos cura da fraqueza da presun��o.</p><p>� Sim, senhor, tenho estado muito perturbado.</p><p>� N�o h� d�vida.</p><p>� Principalmente a respeito de um detalhe. Talvez o senhor possa me ajudar.</p><p>� O senhor pede o meu conselho tarde demais. Pensei que o senhor tivesse seus pr�prios m�todos auto-suficientes. Ainda assim estou pronto a ajud�-lo.</p><p>� Veja, lorde Cantlemere, n�s podemos, sem d�vida nenhuma, enquadrar os verdadeiros ladr�es dentro da lei.</p><p>� Quando os tiver capturado.</p><p>� Exatamente. Mas a pergunta � a seguinte: como devemos proceder com o receptador da pedra?</p><p>� N�o � um tanto prematuro?</p><p>� Seria bom ter os nossos planos prontos. Bem, o que o senhor consideraria como evid�ncia final, contra o receptador?</p><p>� A posse da pedra.</p><p>� O senhor o prenderia por causa disto?</p><p>� Evidentemente.</p><p>Holmes raramente ria, mas desta vez chegou muito perto, como se recorda o seu velho amigo Watson.</p><p>� Neste caso, meu caro senhor, tenho o penoso dever de inform�-lo de sua pris�o.</p><p>Lorde Cantlemere ficou muito irritado. Um pouco do antigo ardor coloriu levemente suas faces p�lidas.</p><p>� O senhor � muito confiado, sr. Holmes. Em cinq�enta anos de servi�o p�blico, n�o consigo me recordar de coisa parecida. Sou um homem ocupado, senhor, envolvido em assuntos importantes, n�o tenho tempo nem disposi��o para brincadeiras tolas. Devo dizer-lhe francamente, senhor, que jamais acreditei em seus poderes e que sempre fui de opini�o que o caso estaria mais seguro nas m�os da pol�cia. Sua conduta confirma todas as minhas conclus�es. Tenho a dignidade, senhor, de desejar-lhe boa-noite.</p><p>Holmes havia mudado rapidamente de posi��o, colocando-se entre o nobre e a porta.</p><p>� Um momento, senhor � ele disse. � Sair com a pedra Mazarin seria um crime mais s�rio do que ser encontrado na posse provis�ria dela.</p><p>� Senhor, isto � intoler�vel! Deixe-me passar.</p><p>� Ponha sua m�o no bolso direito do seu sobretudo.</p><p>� O que � que o senhor quer dizer?</p><p>� Vamos, vamos, fa�a o que eu pe�o.</p><p>Um minuto depois o perplexo nobre estava ali, piscando e gaguejando, com a grande pedra amarela em sua m�o tr�mula.</p><p>� O qu�! O qu�! Como pode ser isto, sr. Holmes?</p><p>� Sinto muito, lorde Cantlemere, sinto muito � exclamou Holmes. � Meu velho amigo aqui lhe dir� que tenho o p�ssimo costume de fazer brincadeiras deste tipo. E tamb�m que eu jamais resisto a uma situa��o dram�tica. Tomei a liberdade � admito que exagerei � de colocar a pedra no seu bolso no in�cio da nossa entrevista.</p><p>O velho nobre olhava espantado para a pedra e para o rosto sorridente diante dele.</p><p>� Senhor, estou perplexo. Mas � sim � esta � realmente a pedra Mazarin. Devemos muito ao senhor. O seu senso de humor pode ser, como o senhor admitiu, um pouco deturpado, e a sua exibi��o bastante inoportuna, mas, pelo menos, retiro qualquer reflex�o que eu tenha feito a respeito de seus espantosos poderes profissionais. Mas como...</p><p>� O caso ainda est� pela metade; os detalhes podem esperar. Sem d�vida, lorde Cantlemere, o prazer que sentir� ao relatar este bom resultado ao c�rculo nobre para o qual o senhor retorna agora ser� uma pequena compensa��o pela minha brincadeira. Billy, mostre a sa�da a Sua Excel�ncia, e diga � sra. Hudson que eu ficaria satisfeito se ela pudesse mandar subir jantar para dois o mais cedo poss�vel.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura das tr�s cumeeiras</strong></p><p>Acho que nenhuma de minhas aventuras com Sherlock Holmes come�ou de modo t�o repentino e t�o dram�tico, como aquela que associo a As tr�s cumeeiras. Eu n�o vira Holmes durante alguns dias, e n�o sabia ainda do novo rumo que suas atividades tinham tomado. Mas, naquela manh�, ele estava com vontade de conversar. Eu havia acabado de me instalar na velha e baixa poltrona ao lado do fogo, e ele, com o cachimbo na m�o, havia se sentado encolhido na cadeira oposta. Foi quando nosso visitante chegou. Se eu tivesse dito que um touro louco havia chegado, daria uma impress�o mais exata do que ocorreu.</p><p>A porta foi aberta com viol�ncia, e um negro enorme entrou bruscamente na sala. Ele seria uma figura c�mica, se n�o fosse espantosa, porque estava usando um terno xadrez cinzento, muito espalhafatoso, e uma gravata esvoa�ante cor de salm�o. Seu</p><p>rosto largo e seu nariz achatado estavam projetados para a frente, enquanto seus col�ricos olhos pretos, com um brilho de maldade latente, fitavam n�s dois alternadamente.</p><p>� Qual dos senhores � o sinh� Holmes? � ele perguntou.</p><p>Holmes ergueu seu cachimbo com um sorriso indolente.</p><p>� Oh! � o sinh�, �? � disse nosso visitante, contornando a mesa com passos furtivos. � Olha aqui, sinh� Holmes, n�o meta as m�os nos neg�cios alheios. Deixe que as pessoas cuidem de seus pr�prios neg�cios. Entendeu, sinh� Holmes?</p><p>� Continue falando � disse Holmes. � Est� muito bom.</p><p>� Ah! Est� muito bom? � rosnou o selvagem. � Maldi��o; n�o ser� t�o bom quando eu tiv� tratado oc�. Eu j� lidei com gente de sua laia antes, e eles n�o pareciam estar bons quando eu acabei. Olhe p�ra isto, sinh� Holmes!</p><p>Ele sacudiu o punho enorme e nodoso sob o nariz do meu amigo. Holmes examinou o punho de perto, com ar de grande interesse.</p><p>� Voc� nasceu assim? � ele perguntou. � Ou isto aconteceu gradativamente?</p><p>Pode ter sido o sangue-frio do meu amigo ou o ligeiro ru�do que fiz quando apanhei o ati�ador. De qualquer modo, a atitude do nosso visitante tornou-se menos exuberante.</p><p>� Bem, eu lhe dei um aviso claro � disse ele. � Um amigo meu tem interesses l� para as bandas de Harrow � voc� sabe o que estou querendo diz� � e ele n�o quer que oc� se intrometa. Entendeu? Oc� n�o � a lei, e eu tamb�m n�o sou a lei, e se oc� se mete eu estarei por perto da mesma forma. N�o se esque�a disto.</p><p>� H� j� algum tempo que eu queria encontr�-lo � disse Holmes. � N�o o convido para sentar-se porque n�o gosto do seu cheiro, mas voc� n�o � Steve Dixie, o pugilista?</p><p>� Este � o meu nome, sinh� Holmes, e vou acabar com oc�, esteja certo, se tent� me pass� a conversa.</p><p>� Isto � certamente a �ltima coisa de que voc� precisa � disse Holmes, olhando fixamente a boca medonha do nosso visitante. � Mas, foi a morte do jovem Perkins, na frente do Holborn Bar � O qu�! Voc� n�o vai embora?</p><p>O negro havia saltado para tr�s, e seu rosto ficou cinzento.</p><p>� N�o quero ouvir este tipo de conversa � ele disse. � O que tenho a ver com o tal do Perkins, sinh� Holmes? Eu estava treinando no Bull Ring� em Birmingham, quando este garoto se meteu em encrenca.</p><p>� Sim, voc� vai contar isto ao juiz, Steve � disse Holmes. � Andei observando voc� e Barney Stockdale...</p><p>� Se � assim, que Deus me ajude! Sinh� Holmes...</p><p>� Basta. Saia daqui. Eu agarro voc� quando quiser.</p><p>� Bom-dia, Sinh� Holmes. Espero que n�o tenha raiva deste seu visitante.</p><p>� Terei, a menos que voc� me diga quem o mandou aqui.</p><p>� Ora, isto n�o � nenhum segredo, sinh� Holmes. Foi o mesmo cavalheiro de quem o sinh� acabou de fal�.</p><p>� E quem o mandou agir?</p><p>� Deus me ajude. Eu n�o sei, sinh� Holmes. Ele disse apenas: �Steve, voc� vai ver o sr. Holmes, e diga-lhe que a vida dele n�o estar� segura se ele for para os lados de Harrow.� Esta � toda a verdade.</p><p>Sem esperar por qualquer outra pergunta, nosso visitante saiu da sala, de maneira t�o precipitada como entrou. Holmes bateu as cinzas do cachimbo com um risinho silencioso.</p><p>� Estou satisfeito por voc� n�o ter sido obrigado a quebrar-lhe a carapinha, Watson. Percebi seus movimentos com o ati�ador. Mas, na verdade, ele � um sujeito inofensivo, um beb� grande, musculoso, tolo e fanfarr�o, e acovarda-se facilmente, como voc� viu. Ele faz parte da quadrilha de Spencer John e tomou parte em muitos desses �ltimos trabalhos sujos, que preciso esclarecer quando tiver tempo. Seu superior imediato, Barney, � uma pessoa mais esperta. S�o especializados em assaltos, chantagem, e coisas desse tipo. O que eu quero saber � quem est� por tr�s deles desta vez.</p><p>� Mas por que eles querem intimid�-lo?</p><p>� Trata-se deste caso de Harrow Weald. Isto me fez decidir investigar o assunto, porque se algu�m acha que vale a pena ter tanto trabalho com isso, � porque deve haver alguma coisa a�.</p><p>� Mas, o que ser�?</p><p>� Eu ia dizer-lhe, quando tivemos esse c�mico interl�dio: aqui est� o bilhete da sra. Maberley. Se voc� quiser ir comigo, vamos telefonar a ela e sair imediatamente.</p><empty-line/><p>Prezado sr. Sherlock Holmes, [eu li]</p><p>Houve uma sucess�o de incidentes estranhos comigo em rela��o a esta casa, e eu apreciaria os seus conselhos. O senhor me encontrar� em casa amanh�, a qualquer hora. A casa fica perto da esta��o de Weald. Acho que o meu falecido marido, Mortimer Maberley, foi um dos seus primeiros clientes.</p><p>Respeitosamente,</p><p>Mary Maberley</p><empty-line/><p>O endere�o era �As Tr�s Cumeeiras, Harrow Weald�.</p><p>� � isso! � disse Holmes. � E agora, se voc� disp�e de tempo, Watson, podemos partir.</p><p>Uma curta viagem de trem, e outra mais curta de carruagem, levou-nos at� o endere�o, uma casa de campo de tijolos e madeira, situada num terreno de uns</p><p>4 mil metros quadrados de terras n�o cultivadas. Tr�s pequenas sali�ncias, acima das janelas superiores, faziam uma d�bil tentativa de justificar seu nome. Atr�s havia um melanc�lico bosque de pinheiros ainda n�o crescidos, e o aspecto geral do lugar era pobre e deprimente. Entretanto, verificamos que a casa estava muito bem mobiliada, e a senhora que nos recebeu era uma pessoa de idade, encantadora, e exibia todos os sinais de refinamento e cultura.</p><p>� Lembro-me muito bem de seu marido, madame � disse Holmes �, embora j� fa�a alguns anos que ele usou os meus servi�os, em algum assunto de pouca import�ncia.</p><p>� Talvez o senhor esteja mais familiarizado com o nome de meu filho Douglas.</p><p>Holmes olhou-a com grande interesse.</p><p>� Valha-me Deus! A senhora � a m�e de Douglas Maberley? Eu o conheci ligeiramente. Mas � claro que toda Londres o conhecia. Que criatura magn�fica! Onde ele est� agora?</p><p>� Morto, sr. Holmes, morto! Ele era adido em Roma e morreu l� de pneumonia, no m�s passado.</p><p>� Sinto muito. N�o se consegue associar a morte a um homem como ele. Jamais conheci algu�m com mais vitalidade. Ele viveu intensamente � cada fibra de seu corpo!</p><p>� Intensamente demais, sr. Holmes. Esta foi a sua ru�na. O senhor recorda-se dele, como ele era � alegre e brilhante. O senhor n�o viu a criatura mal-humorada, melanc�lica, pessimista em que ele se transformou. Seu cora��o ficou partido. Em apenas um m�s, tive a impress�o de ver meu intr�pido rapaz garboso transformar-se em um homem descrente e arrasado.</p><p>� Um caso de amor � uma mulher?</p><p>� Ou um dem�nio. Bem, n�o foi para falar de meu pobre rapaz que lhe pedi para vir, sr. Holmes.</p><p>� Dr. Watson e eu estamos �s suas ordens.</p><p>� T�m acontecido coisas muito estranhas. J� faz mais de um ano que estou nesta casa, e como eu queria levar uma vida reclusa, tenho visto muito pouco meus vizinhos. H� tr�s dias, recebi um telefonema de um homem, que se identificou como imobili�rio. Ele me disse que esta casa era exatamente o que convinha a um cliente seu, e que se eu concordasse em vend�-la, n�o haveria obje��es quanto a dinheiro. Isto me pareceu muito estranho, porque h� v�rias casas vazias � venda, que poderiam servir muito bem, mas, naturalmente, fiquei interessada no que ele disse. De modo que fixei um pre�o, que era quinhentas libras a mais do que eu paguei. Ele aceitou imediatamente a proposta, mas acrescentou que o seu cliente desejava comprar tamb�m a mob�lia, e que eu fizesse o pre�o. Alguns destes m�veis s�o de minha antiga casa e, como o senhor pode ver, s�o de muito boa qualidade, de modo que pedi uma quantia bem alta. Ele tamb�m concordou com isto na mesma hora. Eu sempre quis viajar, e o neg�cio era t�o bom que realmente me pareceu que eu poderia ser senhora de mim mesma pelo resto da vida.</p><p>� Ontem o homem veio com o contrato pronto. Felizmente eu o mostrei ao sr. Sutro, meu advogado, que mora em Harrow. Ele me disse: �Este documento � muito estranho. A senhora est� sabendo que, se assin�-lo, n�o poder�, legalmente, retirar nada da casa � nem mesmo seus objetos pessoais?� Quando o homem voltou, � noite, eu chamei sua aten��o para isto e disse-lhe que queria vender apenas a mob�lia.</p><p>� �N�o, n�o; tudo� ele disse.</p><p>� �E minhas roupas? Minhas j�ias?�</p><p>� �Bem, bem, pode ser feita alguma concess�o no que se refere aos seus objetos pessoais. Mas nada dever� ser retirado da casa sem que seja examinado. Meu cliente � um homem muito liberal, mas tem seus caprichos e sua pr�pria maneira de fazer as coisas. Com ele � tudo ou nada.�</p><p>� �Ent�o deve ser nada�, eu disse. E deixamos o assunto assim, mas tudo me pareceu t�o estranho que eu pensei...</p><p>Aqui houve uma interrup��o inusitada.</p><p>Holmes ergueu a m�o pedindo sil�ncio. Em seguida atravessou a sala a passos largos, abriu a porta rapidamente e puxou para dentro uma mulher grande e magra, que ele agarrou pelo ombro. Ela entrou, debatendo-se desajeitadamente, como uma galinha imensa e desengon�ada, cacarejando ao ser arrancada do ninho.</p><p>� Deixe-me em paz! O que � que voc� est� fazendo? � ela gritou com voz estridente.</p><p>� Ora, Susan, o que � isto?</p><p>� Bem, madame, eu estava chegando para perguntar se as visitas iam ficar para o almo�o, quando este homem pulou em cima de mim.</p><p>� Eu a estava ouvindo durante os �ltimos cinco minutos, mas n�o quis interromper sua hist�ria t�o interessante. Apenas um pouco ofegante, Susan, n�o �? Voc� respira forte demais para este tipo de trabalho.</p><p>Susan virou o rosto zangado mas espantado para o seu captor.</p><p>� De qualquer modo, quem � voc�, e que direito tem de me arrastar por a� desse jeito?</p><p>� Foi simplesmente porque eu queria fazer uma pergunta na sua presen�a. Senhora Maberley, mencionou a algu�m que ia escrever-me para fazer uma consulta?</p><p>� N�o, sr. Holmes, eu n�o o fiz.</p><p>� Quem levou sua carta ao correio?</p><p>� Susan.</p><p>� Exatamente. Agora, Susan, para quem foi que voc� escreveu ou mandou um recado dizendo que sua patroa estava pedindo a minha ajuda?</p><p>� Isto � uma mentira. N�o mandei nenhuma mensagem.</p><p>� Ora, Susan, pessoas ofegantes podem n�o viver muito, voc� sabe. Falar mentiras � uma coisa m�. A quem voc� contou?</p><p>� Susan � disse sua patroa �, acredito que voc� seja uma mulher m� e trai�oeira. Lembro-me agora que a vi falando com algu�m, por cima da cerca.</p><p>� Aquilo � s� da minha conta � disse a mulher com raiva.</p><p>� E se eu disser que foi com Barney Stockdale que voc� falou? � perguntou Holmes.</p><p>� Bem, se voc� sabe, por que est� perguntando?</p><p>� Eu n�o tinha certeza, mas agora tenho. Bem, Susan, voc� pode ganhar 10 libras se me disser quem est� por tr�s de Barney.</p><p>� Algu�m que poderia me dar 1.000 libras para cada 10 que voc� tem no mundo.</p><p>� Ent�o, um homem t�o rico? N�o, voc� sorriu � uma mulher rica. Agora que j� fomos t�o longe, voc� pode, tamb�m, dizer-me o nome e receber as 10 libras.</p><p>� Prefiro v�-lo no inferno primeiro.</p><p>� Oh, Susan! Olha a linguagem!</p><p>� Vou dar o fora daqui. J� estou cheia de voc�s todos. Mandarei buscar minha mala amanh� � ela dirigiu-se rapidamente para a porta.</p><p>� Adeus, Susan. Voc� precisa � de um calmante. Bem � ele continuou, passando rapidamente do tom espirituoso para o s�rio quando a porta se fechou atr�s da mulher nervosa e zangada � essa quadrilha deve ser levada a s�rio. Vejam como eles s�o r�pidos no jogo. Sua carta, endere�ada a mim, tinha o selo das dez da noite. E, mesmo assim, Susan informou Barney. Barney teve tempo de ir at� o chefe e receber instru��es; ele ou ela � acho que � �ela� por causa do sorriso de Susan, quando pensou que eu me tivesse enganado � faz um plano. Black Steve � chamado, e eu, na manh� seguinte, �s 11 horas, sou advertido de que devo me manter afastado. Isto � trabalho r�pido, a senhora compreende.</p><p>� Mas, o que eles querem?</p><p>� Sim, este � o problema. Antes da senhora, quem era o dono da casa?</p><p>� Um capit�o da marinha reformado, chamado Ferguson.</p><p>� Alguma coisa digna de men��o, a respeito dele?</p><p>� Nada de que eu soubesse.</p><p>� Eu estava me perguntando se ele teria enterrado alguma coisa. � claro que hoje em dia, quando as pessoas enterram tesouros, o fazem no Banco do Correio. Mas sempre existem alguns malucos. Sem eles o mundo seria ins�pido. A princ�pio pensei em valores enterrados. Mas, neste caso, por que eles iriam querer a mob�lia? A senhora n�o teria por acaso um Rafael ou uma primeira edi��o de Shakespeare sem saber disso?</p><p>� N�o, acho que n�o penso que tenho nada mais raro do que um aparelho de ch� Crown Derby.</p><p>� Isto dificilmente justificaria tanto mist�rio. Al�m disso, por que � que eles n�o dizem abertamente o que querem? Se cobi�am seu aparelho de ch�, eles podem certamente oferecer-lhe um pre�o por ele, sem precisar comprar tudo que a senhora possui. N�o, o que eu acho � que existe alguma coisa que a senhora n�o sabe que tem, e da qual n�o abriria m�o, se soubesse.</p><p>� � isto o que eu penso � eu disse.</p><p>� O dr. Watson concorda, de modo que isso confirma o que eu disse.</p><p>� Bem, sr. Holmes, o que pode ser?</p><p>� Vamos ver se conseguimos chegar a uma conclus�o melhor, apenas com a an�lise mental. A senhora est� nesta casa h� um ano.</p><p>� Quase dois.</p><p>� Tanto melhor. Durante este longo per�odo, ningu�m quis nada da senhora. Agora, de repente, h� tr�s ou quatro dias, a senhora recebeu ofertas urgentes. Que conclus�o a senhora tira disso?</p><p>� Isto pode significar � eu disse � que o objeto, qualquer que seja, acabou de chegar a esta casa.</p><p>� Mais uma vez de acordo � disse Holmes. � Sra. Maberley, h� algum objeto que tenha acabado de chegar?</p><p>� N�o; n�o comprei nada novo este ano.</p><p>� Realmente, isto � estranho. Bem, acho que o melhor que temos a fazer � deixar que as coisas progridam um pouco mais, at� que possamos obter informa��es mais claras. Este seu advogado � um homem competente?</p><p>� O sr. Sutro � extremamente competente.</p><p>� A senhora tem outra criada ou foi a loura Susan, ela pr�pria, quem acabou de bater na porta da frente?</p><p>� Tenho uma mocinha.</p><p>� Tente fazer com que Sutro passe uma ou duas noites na casa, a senhora pode precisar de prote��o.</p><p>� Contra quem?</p><p>� Quem sabe? O caso � misterioso. Se eu n�o conseguir descobrir o que � que eles querem, terei de abordar o assunto pela outra ponta e tentar chegar ao chef�o. O corretor imobili�rio deu algum endere�o?</p><p>� Apenas seu cart�o e sua profiss�o. Haines � Johnson, leiloeiro e avaliador.</p><p>� Acho que n�o iremos encontr�-lo na lista telef�nica. Profissionais honestos n�o escondem seu local de trabalho. Bem, a senhora me informar� sobre qualquer fato novo. Aceitei este caso, e a senhora pode confiar que irei at� o fim.</p><p>Quando passamos pelo vest�bulo, os olhos de Holmes, que n�o deixam escapar nada, descobriram muitas malas e caixas que estavam empilhadas num canto. As etiquetas eram bem vis�veis.</p><p>� �Mil�o�, �Lucernia.� Vieram da It�lia.</p><p>� S�o as coisas do pobre Douglas.</p><p>� A senhora ainda n�o as abriu? H� quanto tempo est�o aqui?</p><p>� Chegaram na semana passada.</p><p>� Mas, a� est� � ora, certamente isto deve ser o elo que faltava. Como � que a senhora sabe que n�o h� nada de valor a� dentro?</p><p>� Isto n�o seria poss�vel, sr. Holmes. O pobre Douglas recebia apenas o seu sal�rio e uma pequena renda anual. O que ele poderia ter de valor?</p><p>Holmes refletiu durante algum tempo.</p><p>� N�o protele mais, sra. Maberley � ele disse finalmente. Mande levar essas coisas para cima, para o seu quarto. Examine-as quanto antes, e veja o que cont�m. Voltarei amanh� e ouvirei seu relato.</p><p>Era evidente que As Tr�s Cumeeiras estava sob vigil�ncia, pois quando contornamos a alta cerca viva no final da rua, l� estava o negro pugilista parado na sombra. N�s nos aproximamos dele de repente, e, naquele lugar ermo, sua figura era medonha e amea�adora. Holmes enfiou depressa a m�o no bolso.</p><p>� Procurando seu rev�lver, sinh� Holmes, n�o �?</p><p>� N�o, meu vidro de perfume, Steve.</p><p>� Est� querendo s� engra�ado, sinh� Holmes.</p><p>� N�o vai ser engra�ado para voc�, Steve, se eu o apanhar. Eu lhe dei um aviso bastante claro esta manh�.</p><p>� Bem, sinh� Holmes, eu pensei sobre o que me disse e n�o quero mais papo sobre este assunto do sinh� Perkins. Se pud� ajud�, sinh� Holmes, estou �s ordens.</p><p>� Ent�o diga-me quem est� por tr�s de voc� neste neg�cio.</p><p>� Que Deus me ajude! Sinh� Holmes, eu falei a verdade antes. Eu n�o sei. Meu chefe Barney me d� as ordem, e isto � tudo.</p><p>� Bem, ponha na sua cabe�a, Steve, que a senhora naquela casa e tudo sob aquele teto est�o sob minha prote��o. N�o se esque�a disto.</p><p>� Est� bem, sinh� Holmes. Vou me lembr�.</p><p>� Eu o fiz temer pela pr�pria pele, Watson � observou Holmes, enquanto caminh�vamos. � Acho que ele teria tra�do seu chefe se soubesse quem era. Foi sorte eu ter conhecimento do grupo de Spencer John, e que Steve fosse um deles. Ora, Watson, este � um caso para Langdale Pike, e vou v�-lo agora. Quando eu voltar, talvez possa estar mais informado sobre o caso.</p><p>N�o vi mais Holmes durante o dia, mas podia imaginar como ele o passou, pois Langdale Pike era seu livro humano de refer�ncias sobre todos os esc�ndalos sociais. Esta criatura esquisita e m�rbida passava as horas que ficava acordado na janela de um clube, em St. James� Street, e era a esta��o receptora e transmissora de todos os mexericos da metr�pole. Dizia-se que ele tinha uma renda de quatro algarismos pelas� not�cias que ele fornecia, toda semana, aos jornais de segunda categoria, que atendiam a um p�blico muito curioso. Se houvesse algum redemoinho ou turbilh�o estranhos, bem l� embaixo, nas profundezas da turva vida londrina, seria registrado na superf�cie com precis�o autom�tica por esse mostrador humano. Holmes ajudava discretamente Langdale a tomar conhecimento de fatos, e �s vezes era ajudado por ele.</p><p>Quando encontrei meu amigo na manh� seguinte em seu quarto, seu comportamento deu-me a certeza de que estava tudo bem, mas, mesmo assim, uma surpresa bastante desagrad�vel estava nos aguardando. Esta surpresa tomou a forma do seguinte telegrama:</p><empty-line/><p>Por favor, venha imediatamente. Casa do cliente assaltada � noite. Pol�cia no caso.</p><p>Sutro</p><empty-line/><p>Holmes deu um assobio. � O drama transformou-se numa crise, e mais depressa do que eu esperava. Por tr�s desse neg�cio h� uma grande for�a-motriz, Watson, o que n�o me surpreende depois do que fiquei sabendo. Este Sutro, naturalmente, � o advogado dela. Acho que cometi um erro, n�o lhe pedindo que passasse a noite de guarda. Este sujeito mostrou claramente que n�o � digno de confian�a. Bem, n�o h� nada que se possa fazer, a n�o ser outra viagem a Harrow Weald.</p><p>Encontramos As Tr�s Cumeeiras completamente diferente da tranq�ila casa de fam�lia do dia anterior. Um pequeno grupo de desocupados havia se reunido no port�o do jardim, enquanto dois policiais estavam examinando as janelas e os canteiros de ger�nios. Dentro da casa encontramos um cavalheiro idoso, de cabelos grisalhos, que se apresentou como o advogado, juntamente com um alvoro�ado e corado inspetor da pol�cia, que cumprimentou Holmes como a um velho amigo.</p><p>� Ora, sr. Holmes, n�o h� qualquer oportunidade para o senhor neste caso. Apenas um caso de assalto comum, e perfeitamente dentro da capacidade da pobre e velha pol�cia. N�o � necess�rio um perito.</p><p>� Tenho certeza de que o caso est� em �timas m�os � disse Holmes. � O senhor acha que � apenas um assalto comum?</p><p>� Perfeitamente. Sabemos muito bem quem s�o os homens e como encontr�-los. � a quadrilha de Barney Stockdale, e aquele negro grand�o est� nessa � ele foi visto nestas redondezas.</p><p>� Excelente! E o que foi que eles levaram?</p><p>� Bem, parece que n�o levaram muita coisa. Fizeram a sra. Maberley dormir com clorof�rmio e a casa foi... Ah! Aqui est� a senhora.</p><p>Nossa amiga do dia anterior, parecendo muito p�lida e doente, tinha entrado na sala, apoiando-se numa pequena criada.</p><p>� O senhor me deu um bom conselho, sr. Holmes � ela disse, sorrindo com pesar. � Ai de mim! Eu n�o o ouvi! N�o quis incomodar o sr. Sutro, de modo que fiquei desprotegida.</p><p>� Eu s� soube hoje de manh� � explicou o advogado.</p><p>� O sr. Holmes aconselhou-me a ficar com algum amigo em casa. N�o dei import�ncia ao seu conselho e paguei por isso.</p><p>� A senhora parece muito doente. Talvez seja dif�cil contar-me o que ocorreu.</p><p>� Est� tudo aqui � disse o inspetor, dando uma pancadinha num volumoso caderno de anota��es.</p><p>� Mesmo assim, se a senhora n�o estiver cansada demais...</p><p>� H� realmente t�o pouco para contar. N�o tenho d�vida de que a malvada da Susan planejou uma maneira de eles entrarem. Eles deviam conhecer a casa muito bem. Durante um minuto tive consci�ncia do pano com clorof�rmio com que taparam� a minha boca, mas n�o sei quanto tempo fiquei sem sentidos. Quando acordei, um dos homens estava ao lado da cama e o outro estava se levantando, tendo na m�o um pacote que retirou da bagagem de meu filho, que estava parcialmente aberta e espalhada no ch�o. Antes que ele conseguisse fugir, dei um pulo e o agarrei.</p><p>� A senhora arriscou-se muito � disse o inspetor.</p><p>� Eu me agarrei a ele, mas ele conseguiu se livrar, e o outro deve ter me golpeado, porque n�o consigo me lembrar de mais nada. Mary, a criada, ouviu o barulho e come�ou a gritar na janela. Isto atraiu a pol�cia, mas os patifes tinham ido embora.</p><p>� O que foi que eles levaram?</p><p>� Bem, n�o acho que esteja faltando alguma coisa de valor. Tenho certeza de que n�o havia nada nas malas do meu filho.</p><p>� Os homens n�o deixaram nenhuma pista?</p><p>� H� uma folha de papel que eu devo ter arrancado do homem a quem me agarrei. Estava no ch�o, todo amassado. A letra � do meu filho.</p><p>� O que significa que n�o tem grande utilidade � disse o inspetor. � Agora, se pertencesse ao ladr�o...</p><p>� Exatamente � disse Holmes. � Que bom senso agu�ado! Mesmo assim, estou curioso para ver este papel.</p><p>O inspetor tirou de sua agenda uma folha de papel alma�o dobrada.</p><p>� Eu nunca deixo passar nada, por mais insignificante que seja � ele disse com certa afeta��o. � Este � o conselho que lhe dou, sr. Holmes. Em 25 anos de experi�ncia, aprendi minha li��o. Existe sempre a possibilidade de uma impress�o digital ou de alguma outra coisa.</p><p>Holmes examinou a folha de papel.</p><p>� O que o senhor acha disto, inspetor?</p><p>� Pelo que posso ver, parece ser o final de um romance exc�ntrico.</p><p>� Pode ser mesmo o final de uma hist�ria exc�ntrica � disse Holmes. � O senhor reparou no n�mero no alto da p�gina? � o n�mero 245. Onde est�o as outras 244 p�ginas?</p><p>� Ora, imagino que os ladr�es apanharam essas folhas. V�o ser muito �teis para eles!</p><p>� Parece uma coisa esquisita entrar numa casa a fim de roubar pap�is como esses. Isto lhe sugere alguma coisa, inspetor?</p><p>� Sim, senhor; sugere que os malandros, na pressa, agarraram o que lhes caiu primeiro na m�o. Desejo que se divirtam com o que roubaram.</p><p>� Por que estariam interessados nas coisas do meu filho? � perguntou a sra. Maberley.</p><p>� Bem, eles n�o encontraram nada de valioso no primeiro andar, de modo que tentaram a sorte no andar de cima. Essa � a minha opini�o. O que acha disso, sr. Holmes?</p><p>� Preciso refletir sobre isto, inspetor. Venha at� a janela, Watson.</p><p>Ent�o, quando ficamos sozinhos, ele leu rapidamente o que estava escrito no peda�o de papel. Come�ava no meio de uma frase e continuava assim:</p><empty-line/><p>...o rosto sangrava muito pelos cortes e golpes, mas isto n�o era nada comparado ao sangramento do seu cora��o, quando ele viu aquele rosto ador�vel, pelo qual estava pronto a sacrificar sua pr�pria vida, contemplando sua agonia e sua humilha��o. Ela sorriu � sim, por Deus! Ela sorriu, como o dem�nio sem cora��o que era, quando ele ergueu os olhos para ela. Foi naquele momento que o amor morreu e nasceu o �dio.</p><p>O homem precisa viver por alguma coisa. Se n�o for pelo seu abra�o, minha senhora, ent�o o ser� certamente pela sua destrui��o e pela minha completa vingan�a.</p><empty-line/><p>� Que maneira estranha de se expressar! � disse Holmes, com um sorriso, ao devolver o papel ao inspetor. O senhor notou como o ele, de repente, mudou para meu? O escritor estava t�o arrebatado pela sua pr�pria hist�ria que, no momento supremo, imaginou que ele pr�prio era o her�i.</p><p>� Parece literatura muito pobre � disse o inspetor, enquanto guardava novamente o papel na sua agenda. � Mas, o senhor j� vai, sr. Holmes?</p><p>� Acho que n�o tenho mais nada a fazer neste caso, agora que ele est� em m�os t�o competentes. A prop�sito, sra. Maberley, a senhora disse que gostaria de viajar?</p><p>� Este sempre foi o meu sonho, sr. Holmes.</p><p>� Para onde gostaria de ir � Cairo, Madeira, Riviera?</p><p>� Oh! Se eu tivesse dinheiro, faria a volta ao mundo.</p><p>� Perfeitamente. A volta ao mundo. Bem, bom-dia. Talvez eu lhe mande um bilhete, � noite. � Quando passamos pela janela, vi, de relance, o inspetor sorrindo e sacudindo a cabe�a. Estes sujeitos muito espertos t�m sempre um qu� de loucura. Foi o que percebi no sorriso do inspetor.</p><p>� Agora, Watson, estamos na �ltima etapa de nossa curta viagem � disse Holmes, quando voltamos mais uma vez ao barulhento centro de Londres. � Acho que devemos esclarecer este assunto imediatamente; e seria bom se voc� pudesse me acompanhar, porque � mais seguro ter uma testemunha quando lidamos com uma dama como Isadora Klein.</p><p>T�nhamos tomado um cabriol� e seguimos velozmente para algum lugar em Grosvenor Square. Holmes estivera mergulhado em seus pensamentos, mas animou-se de repente.</p><p>� A prop�sito, Watson, acho que voc� j� percebeu tudo claramente.</p><p>� N�o, n�o posso dizer isso. S� entendi que vamos ver a senhora que est� por tr�s de toda esta confus�o.</p><p>� Exatamente! Mas esse nome, Isadora Klein, n�o significa nada para voc�? Ela era, � claro, famosa por sua beleza. Nunca houve mulher que se comparasse a ela em beleza. Ela � uma espanhola genu�na, sangue verdadeiro dos altivos conquistadores, e seu povo tem tido l�deres importantes em Pernambuco durante gera��es. Ela casou-se com um alem�o idoso, rei do a��car, Klein, e atualmente � a vi�va mais rica e tamb�m mais ador�vel da face da terra. Ent�o houve um intervalo de aventuras, quando ela satisfez suas pr�prias prefer�ncias. Teve v�rios amantes, e Douglas Maberley, um dos homens mais admir�veis de Londres, foi um deles. Com ele, sem d�vida, foi mais do que uma aventura. Ele n�o era um doidivanas da sociedade, mas um homem forte, orgulhoso, que dava tudo e tamb�m esperava tudo. Mas ela � a belle dame sans merci de romance da fic��o. Quando seu capricho � satisfeito, acaba o interesse, e se a outra parte interessada n�o quiser acreditar, ela sabe como faz�-la compreender.</p><p>� Ent�o, esta era a pr�pria hist�ria dele...</p><p>� Ah! Voc� agora est� juntando as pe�as do quebra-cabe�a. Ouvi dizer que ela est� para se casar com o jovem duque de Lomond, que quase poderia ser seu filho. A m�e do jovem duque pode perdoar a idade, mas, um grande esc�ndalo seria uma coisa diferente, de modo que � imprescind�vel... Ah! Chegamos.</p><p>Era uma das melhores casas de esquina do West End. Um lacaio, que parecia uma m�quina, pegou nossos cart�es e voltou dizendo que a senhora n�o estava em casa. � Ent�o, vamos esperar at� que ela esteja � disse Holmes alegremente.</p><p>A m�quina sucumbiu.</p><p>� N�o est� em casa, significa que n�o est� para os senhores � disse o lacaio.</p><p>� �timo � respondeu Holmes. � Isto significa que n�o teremos de esperar. Por favor, entregue este bilhete � sua patroa.</p><p>Ele escreveu tr�s ou quatro palavras numa folha do seu caderno de anota��es, dobrou-a e entregou-a ao lacaio.</p><p>� O que foi que voc� disse, Holmes? � perguntei.</p><p>� Eu escrevi simplesmente: �Ent�o, ser� a pol�cia?� Acho que isso nos far� entrar.</p><p>E fez � com espantosa rapidez. Um minuto depois est�vamos numa sala de visitas das mil e uma noites, ampla e maravilhosa, numa penumbra, produzida por algumas l�mpadas el�tricas cor-de-rosa. Percebi que a senhora havia chegado �quela idade em que at� mesmo a mulher mais orgulhosa de sua beleza acha a penumbra mais conveniente. Ela se levantou do sof� quando entramos: alta, majestosa, uma figura perfeita, um rosto ador�vel parecido com uma m�scara, dois maravilhosos olhos espanh�is que nos fitavam como se quisessem nos matar.</p><p>� O que significa esta invas�o... e esta mensagem insolente? � ela perguntou, segurando o peda�o de papel.</p><p>� N�o preciso explicar, madame. Respeito demais sua intelig�ncia para fazer isso � embora reconhe�a que a sua intelig�ncia ultimamente tem se enganado.</p><p>� Como assim, senhor?</p><p>� Supondo que seus capangas contratados pudessem me amedrontar, afastando-me do meu trabalho. Com certeza, nenhum homem abra�aria minha profiss�o, se n�o tivesse atra��o pelo perigo. Foi a senhora, portanto, que me for�ou a examinar o caso do jovem Maberley.</p><p>� N�o tenho id�ia do que o senhor est� falando. O que tenho eu a ver com capangas contratados?</p><p>Holmes afastou-se de mau humor.</p><p>� Sim, subestimei sua intelig�ncia. Bem, boa-tarde!</p><p>� Pare! Aonde o senhor vai?</p><p>� � Scotland Yard.</p><p>Ainda n�o hav�amos chegado � metade do caminho para a porta quando ela nos alcan�ou e segurou o bra�o dele. Num minuto, ela se transformara de a�o em veludo.</p><p>� Cavalheiros, venham, sentem-se. Vamos discutir o assunto. Sinto que posso ser franca com o senhor. Acho que o senhor tem os sentimentos de um cavalheiro. Como o instinto feminino descobre isso depressa, sr. Holmes. Vou trat�-lo como se fosse um amigo.</p><p>� N�o posso prometer retribui��o, madame. N�o sou a lei, mas, represento a justi�a at� onde os meus fr�geis poderes alcan�am. Estou pronto a ouvir, e depois lhe direi como vou agir.</p><p>� Sem d�vida, foi uma tolice de minha parte amea�ar um homem corajoso como o senhor.</p><p>� O que realmente foi uma tolice, madame, � que a senhora se colocou em poder de um bando de patifes, que podem fazer chantagem ou tra�-la.</p><p>� N�o, n�o! N�o sou assim t�o ing�nua. J� que lhe prometi ser franca, posso dizer-lhe que ningu�m, a n�o ser Barney Stockdale e Susan, sua mulher, tem a m�nima id�ia de quem seja seu chefe. Quanto a eles, bem � n�o � a primeira... � Ela sorriu e inclinou a cabe�a com uma intimidade encantadora e provocante.</p><p>� Compreendo. A senhora os testou antes.</p><p>� S�o bons c�es de ca�a, que correm silenciosamente.</p><p>� Esses c�es t�m o h�bito de, mais cedo ou mais tarde, morder as m�os que os alimentam. Eles ser�o presos por este assalto. A pol�cia j� est� atr�s deles.</p><p>� Eles receber�o o que lhes couber. � para isso que s�o pagos. Eu n�o vou aparecer neste caso.</p><p>� A menos que eu a fa�a aparecer.</p><p>� N�o, n�o; o senhor n�o faria isso. O senhor � um cavalheiro. Isto � o segredo de uma mulher.</p><p>� Em primeiro lugar, a senhora deve devolver este manuscrito.</p><p>Ela come�ou a rir, e aproximou-se da lareira. Havia uma massa calcinada que ela despeda�ou com o ati�ador. � Devo devolver isto? � ela perguntou. Parecia t�o travessa e delicada, em p� na nossa frente, com um sorriso desafiador, que eu pensei que, entre todos os criminosos de Holmes, este seria o mais dif�cil de encarar. Mas, ele estava imune ao sentimento.</p><p>� Isto sela o seu destino � ele disse friamente. � A senhora � muito r�pida em suas a��es, madame, mas desta vez exagerou.</p><p>Ela jogou o ati�ador no ch�o com raiva.</p><p>� Como o senhor � insens�vel! � ela gritou. � Posso contar-lhe toda a hist�ria?</p><p>� Acho que eu poderia cont�-la � senhora.</p><p>� Mas, o senhor precisa ver tudo com os meus olhos, sr. Holmes. O senhor precisa compreender isto, do ponto de vista de uma mulher, que v� a ambi��o de sua vida inteira ser arruinada no �ltimo momento. Esta mulher deve ser censurada por proteger a si mesma?</p><p>� O pecado inicial foi seu.</p><p>� Sim, sim! Admito isto. Ele era um encanto de rapaz, Douglas, mas acontece que n�o podia se encaixar nos meus planos. Ele queria casar-se � casar-se, sr. Holmes � um plebeu sem um vint�m. Nada menos do que isso o satisfaria. Ent�o, ele ficou obstinado. Pelo fato de eu ter cedido, ele parecia pensar que eu deveria continuar cedendo, e somente a ele. Era intoler�vel. Finalmente tive de faz�-lo compreender isto.</p><p>� Contratando bandidos para espanc�-lo, debaixo da sua pr�pria janela.</p><p>� O senhor, realmente, parece saber de tudo. Bem, � verdade. Barney e os rapazes o afugentaram, e foram, eu reconhe�o, um pouco rudes ao fazerem isto. Mas, o que foi que ele fez ent�o? Eu nunca poderia acreditar que um cavalheiro fosse capaz de agir assim. Ele escreveu um livro, no qual conta sua pr�pria hist�ria. Eu, naturalmente, era o lobo; ele era o cordeiro. Estava tudo l�, com nomes diferentes, � claro, mas, quem, em toda a cidade de Londres, deixaria de reconhecer-nos? O que o senhor diz disto, sr. Holmes?</p><p>� Bem, ele estava no seu direito.</p><p>� Foi como se o ar da It�lia tivesse entrado no seu sangue e trazido com ele o antigo esp�rito italiano cruel. Ele me escreveu e mandou uma c�pia de seu livro para que eu pudesse sentir a tortura da expectativa. Ele disse que havia duas c�pias � uma para mim, outra para seu editor.</p><p>� Como voc� soube que a c�pia do editor n�o chegou ao seu destino?</p><p>� Eu sabia quem era o editor. O senhor sabe, este n�o era o seu �nico romance. Descobri que o editor n�o tinha recebido not�cias da It�lia. Ent�o houve a morte repentina de Douglas. Enquanto o outro manuscrito estivesse solto por a�, eu n�o estaria segura. � claro que ele deveria estar entre os objetos dele, e estes seriam devolvidos � sua m�e. Pus a quadrilha para trabalhar. Um deles introduziu-se na casa como criada. Eu queria fazer a coisa honestamente. Eu o fiz real e verdadeiramente. Estava disposta a comprar a casa e tudo dentro dela. Ofereci qualquer pre�o que ela quisesse pedir. Eu s� tentei da outra maneira quando tudo o mais falhou. Agora, sr. Holmes, concordando em que fui dura demais com Douglas � e Deus sabe, estou arrependida! � o que mais eu poderia fazer com todo o meu futuro em jogo?</p><p>Sherlock Holmes encolheu os ombros.</p><p>� Bem, bem � ele disse � presumo que terei de fazer um acordo, como sempre. Quanto custa uma viagem de primeira classe ao redor do mundo?</p><p>A dama encarou-o com espanto.</p><p>� Poderia ser feita com 5 mil libras?</p><p>� Bem, acho que sim, realmente!</p><p>� Muito bem. Acho que a senhora vai assinar um cheque com esta quantia, e eu providenciarei para que ele chegue � sra. Maberley. A senhora lhe deve uma pequena mudan�a de ares. Enquanto isto, madame � ele disse, apontando-lhe o indicador �, cuidado! Cuidado! N�o poder� brincar, eternamente, com ferramentas afiadas sem acabar cortando essas m�os delicadas.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura do vampiro de sussex</strong></p><p>Holmes leu com aten��o o bilhete que chegava pelo �ltimo correio. Depois, com um sorriso seco, que era sua maneira de rir, jogou-o pra mim.</p><p>� Para uma mistura do moderno com o medieval, do pr�tico com o extremamente fantasioso, acho que isto, certamente, � o limite. O que � que voc� acha disto, Watson?</p><p>Li o seguinte:</p><empty-line/><p>OLD JEWRY 46</p><p>Ref.: Vampiros</p><p>19 de novembro</p><empty-line/><p>SENHOR,</p><p>Nosso cliente, o senhor Robert Ferguson, de Ferguson e Muirhead, corretores de ch�, de Mincing Lane, consultou-nos, atrav�s de uma carta da mesma data, a respeito de vampiros. Como nossa firma � especializada em avalia��o de m�quinas, o assunto dificilmente estaria dentro de nossa �rea de atua��o, e n�s, portanto, recomendamos ao sr. Ferguson que recorresse ao senhor e que lhe expusesse o assunto. N�s n�o nos esquecemos de sua atua��o bem-sucedida no caso de Matilda Briggs.</p><p>Respeitosamente,</p><p>Morrison, Morrison e Dodd</p><p>p. E. J. C.</p><empty-line/><p>� Matilda Briggs n�o era o nome de uma mo�a, Watson � disse Holmes, como quem est� se recordando. � Era um navio que est� associado ao rato gigante de Sumatra, uma hist�ria para a qual o mundo ainda n�o est� preparado. Mas, o que � que n�s sabemos a respeito de vampiros? Ser� que isto tamb�m est� dentro de nossa �rea de atua��o? Qualquer coisa � melhor do que o marasmo, mas, realmente, parece que n�s fomos transportados para um conto de fada de Grimm. Estique o bra�o, Watson, e veja o que o V tem a dizer.</p><p>Inclinei-me para tr�s e apanhei o grande volume do �ndice a que ele se referia. Holmes equilibrou-o sobre os joelhos, e seus olhos percorreram vagarosa e ternamente o registro de casos antigos misturado com as informa��es acumuladas durante uma vida interior.</p><p>� Viagem do Gl�ria Scott � ele leu. � Esse foi um trabalho dif�cil. Lembro que voc� fez um registro deste caso, Watson, embora eu n�o pudesse felicit�-lo pelo resultado. Victor Lynch, o fals�rio Venomous, lagarto venenoso ou gila. Um caso extraordin�rio aquele! Vittoria, a beldade do circo. Vanderbilt e o arrombador de cofres. V�boras, Vigor, o ferreiro prod�gio. Ah! Oi! Bom e velho �ndice. Voc� n�o pode engan�-lo. Ou�a isto, Watson. Vampirismo na Hungria. E, novamente, Vampiros na Transilv�nia. � Ele virou as p�ginas ansiosamente, mas, ap�s um exame r�pido, atento e minucioso, jogou o livro no ch�o com um resmungo de decep��o.</p><p>� � bobagem, Watson, bobagem! O que � que temos a ver com cad�veres que andam e que s� podem ser conservados em seus t�mulos por estacas enfiadas em seus cora��es? Isto � pura loucura.</p><p>� Mas, com certeza � eu disse �, o vampiro nem sempre era um homem morto? Um vivo poderia ter este h�bito. Li, por exemplo, a respeito de velhos que chupavam o sangue dos jovens, a fim de conservar a juventude.</p><p>� Voc� est� certo, Watson. O livro faz alus�o � lenda em uma dessas refer�ncias. Mas, devemos levar a s�rio coisas como essas? Esta ag�ncia est� firme no ch�o e a� deve continuar. O mundo � suficientemente grande para n�s. N�o h� necessidade de procurarmos fantasmas. Acho que n�o podemos levar o sr. Ferguson muito a s�rio. Possivelmente este bilhete � dele e pode esclarecer um pouco o que o est� preocupando.</p><p>Ele apanhou uma segunda carta que tinha ficado despercebida sobre a mesa enquanto ele estivera absorvido com a primeira. Come�ou a l�-la com um sorriso divertido no rosto, que aos poucos foi substitu�do por uma express�o de interesse e de concentra��o intensa. Quando terminou, ficou sentado por algum tempo perdido em seus pensamentos, com a carta pendendo de seus dedos. Por fim, saiu de seu devaneio.</p><p>� Cheeseman�s, Lamberley. Onde fica Lamberley, Watson?</p><p>� Fica em Sussex, sul de Horsham.</p><p>� N�o � muito longe, hein? E Cheeseman�s?</p><p>� Conhe�o aquela regi�o, Holmes. Est� cheia de velhas casas antigas que foram batizadas com os nomes dos homens que as constru�ram h� s�culos. Voc� tem Odley�s, Harvey�s e Carriton�s � as pessoas est�o esquecidas, mas o nome delas sobrevive nas casas.</p><p>� Justamente � disse Holmes com frieza. Esta era uma das peculiaridades de sua natureza orgulhosa e reservada, que, embora registrasse em seu c�rebro qualquer informa��o nova com muita rapidez e exatid�o, raramente deixava que o informante o percebesse. � Acho que vamos saber muito mais a respeito de Cheeseman�s, Lamberley, antes de acabarmos com esta hist�ria. A carta �, como eu esperava, de Robert Ferguson. A prop�sito, ele afirma que o conhece.</p><p>� A mim!</p><p>� � melhor que voc� leia isto.</p><p>Ele me estendeu a carta. Dizia o seguinte:</p><empty-line/><p>Prezado sr. Holmes:</p><p>O senhor me foi recomendado pelos meus advogados, mas, na verdade, o assunto � t�o extraordinariamente delicado que � muito dif�cil discuti-lo. O assunto diz respeito a um amigo, em nome de quem estou agindo. Este cavalheiro casou-se, h� uns cinco anos, com uma senhora peruana, filha de um comerciante peruano, que ele havia conhecido quando tratava de importa��o de nitratos. A senhora era muito bonita, mas o fato de ser estrangeira e de seguir uma religi�o estranha sempre causou uma diverg�ncia de interesses e de sentimentos entre marido e mulher, de modo que, depois de algum tempo, seu amor por ela deve ter arrefecido e ele deve ter come�ado a encarar a sua uni�o como um erro. Ele sentia que havia facetas no car�ter dela que ele nunca conseguia sondar ou compreender. Isto era o mais penoso, porque ela era a esposa mais carinhosa que um homem poderia ter � e absolutamente dedicada, segundo parecia.</p><p>Agora, quanto ao problema, eu o explicarei melhor quando nos encontrarmos. Na verdade, esta carta � apenas para dar-lhe uma id�ia geral da situa��o e para verificar se o senhor teria interesse no assunto. A senhora come�ou a manifestar algumas caracter�sticas bastante estranhas ao seu temperamento, geralmente am�vel e d�cil. O cavalheiro havia se casado duas vezes e tinha um filho da primeira mulher. Este rapaz tinha, agora, 15 anos, um jovem encantador e carinhoso, embora, infelizmente, tivesse sido ferido num acidente na inf�ncia. A esposa foi flagrada duas vezes agredindo este pobre rapaz, sem que tivesse havido provoca��o alguma. Uma vez ela o atacou com uma vara, deixando um grande verg�o em seu bra�o.</p><p>Mas, isto � insignificante quando comparado com sua conduta para com seu pr�prio filho, um menino ador�vel, com menos de 1 ano de idade. Em certa ocasi�o, mais ou menos h� um m�s, esta crian�a havia sido deixada s� pela ama durante alguns minutos. Um grito de dor da crian�a fez a ama voltar. Quando entrou correndo no quarto, ela viu sua patroa debru�ada sobre a crian�a e, aparentemente, mordendo o seu pesco�o. Havia uma pequena ferida no pesco�o, de onde sa�a um fluxo de sangue. A ama ficou t�o horrorizada, que quis chamar o marido, mas a senhora lhe implorou para que n�o o fizesse e deu-lhe 5 libras em troca do seu sil�ncio. Nenhuma explica��o foi dada, e naquela ocasi�o o assunto foi esquecido.</p><p>Mas deixou uma impress�o terr�vel na mente da ama, e desde ent�o ela passou a vigiar a patroa de perto e a proteger atentamente a crian�a, que ela amava, com carinho. Parecia-lhe que, da mesma maneira que ela vigiava a m�e, a m�e tamb�m a vigiava, e que cada vez que ela era obrigada a deixar a crian�a sozinha, a m�e estava esperando para se aproximar da crian�a. Dia e noite a ama protegia a crian�a, e dia e noite a m�e silenciosa e atenta parecia estar � espreita, como um lobo que espera pela ovelha. Isto pode lhe parecer inacredit�vel, mas pe�o-lhe que leve isto a s�rio, pois a vida de uma crian�a e a sanidade mental de um homem podem depender disto.</p><p>Finalmente chegou o dia terr�vel em que os fatos n�o puderam mais ser ocultados do marido. Os nervos da ama haviam cedido; ela n�o podia mais suportar a tens�o e contou tudo ao patr�o. Para ele, parecia uma hist�ria assombrosa, como agora deve lhe parecer. Ele sabia que a mulher era uma esposa amorosa, e exceto pelos ataques ao enteado, uma m�e amorosa. Por que, ent�o, ela iria ferir seu pr�prio filhinho t�o querido? Ele disse � ama que ela estava sonhando, que suas suspeitas eram de uma lun�tica, e que essas acusa��es contra a sua patroa n�o podiam ser toleradas. Enquanto estavam conversando, ouviram um grito de dor. Ama e patr�o correram para o quarto da crian�a. Imagine, sr. Holmes, o que ele sentiu, quando viu sua esposa levantar-se da posi��o em que estava, ajoelhada ao lado do ber�o, e viu sangue no pesco�o da crian�a e no len�ol. Com um grito de horror, ele virou o rosto de sua mulher para a luz e viu sangue em volta de seus l�bios. � Foi ela � ela, acima de qualquer d�vida � quem havia bebido o sangue da crian�a.</p><p>As coisas agora est�o neste p�. Ela est� confinada em seu quarto. N�o houve explica��o. O marido est� quase louco. Ele e eu sabemos muito pouco a respeito de vampirismo, al�m do nome. Pens�vamos que fosse alguma f�bula extraordin�ria, de regi�es estrangeiras. No entanto, aqui, bem no cora��o da inglesa Sussex � bem, tudo isto pode ser discutido com o senhor pela manh�. O senhor me receber�? Usar� sua capacidade extraordin�ria para ajudar um homem desorientado? Neste caso, por favor, telegrafe para Ferguson, Cheeseman�s, Lamberley, e estarei em seus aposentos �s dez horas.</p><p>Atenciosamente,</p><p>Robert Ferguson</p><empty-line/><p>P.S. � Acho que seu amigo Watson jogava r�gbi por Blackheath, quando eu era defesa do Richmond � a �nica apresenta��o pessoal que lhe posso dar!</p><empty-line/><p>� � claro que me lembro dele � eu disse, enquanto colocava a carta na mesa. � O grande Bob Ferguson, o melhor jogador de defesa que o Richmond j� teve. Sempre foi um sujeito bonach�o. � t�pico dele preocupar-se tanto com a situa��o de um amigo.</p><p>Holmes olhou-me pensativamente e sacudiu a cabe�a.</p><p>� Eu nunca sei at� onde voc� pode chegar, Watson � ele disse. � H� possibilidades inexploradas em voc�. Passe um telegrama. Examinaremos o seu caso com prazer.</p><p>� Seu caso!</p><p>� N�o devemos deixar que ele pense que esta ag�ncia � uma casa para doentes mentais. � claro que este � o caso dele. Mande-lhe o telegrama e deixe o assunto para amanh�.</p><p>Exatamente �s dez da manh� seguinte, Ferguson entrou com passos largos em nossa sala. Lembrava-me dele como um homem grande, as partes laterais do corpo protegidas por uma armadura, os membros desembara�ados, e um excelente aproveitamento de velocidade, que o fez passar por muitas defesas advers�rias. Certamente n�o h� nada mais doloroso na vida do que encontrar a ru�na de um excelente atleta que conhecemos em plena juventude. Sua constitui��o robusta havia minguado, seu cabelo louro estava ralo, e seus ombros, curvados. Receio ter� causado nele impress�o semelhante.</p><p>� Ol�, Watson � disse, e sua voz ainda era profunda e cordial. � Voc� n�o parece, absolutamente, o homem que era quando eu o joguei por cima das cordas, no meio da multid�o, no Old Deer Park. Acho que eu tamb�m mudei um pouco. Mas foram estes �ltimos dois dias que me envelheceram. Percebi pelo seu telegrama, sr. Holmes, que n�o adianta eu fingir ser o representante de algu�m.</p><p>� � mais simples tratar diretamente � disse Holmes.</p><p>� Claro que �. Mas o senhor pode imaginar como � dif�cil, quando se est� falando da mulher que se tem a obriga��o de proteger e ajudar. O que posso fazer? Como posso ir � pol�cia com uma hist�ria dessas? No entanto, as crian�as precisam ser protegidas. � loucura, sr. Holmes? � alguma coisa no sangue? O senhor, com a sua experi�ncia, j� teve algum caso semelhante? Pelo amor de Deus, d�-me algum conselho, pois estou perplexo.</p><p>� � muito natural, sr. Ferguson. Agora, sente-se aqui, fa�a mais um esfor�o e d�-me algumas respostas claras. Posso assegurar-lhe que estou longe de estar perplexo e tenho certeza de que encontraremos uma solu��o. Antes de mais nada, diga-me que provid�ncias tomou. A sua esposa ainda est� perto das crian�as?</p><p>� Tivemos uma cena horr�vel. Ela � a mais ador�vel das mulheres, sr. Holmes. Se alguma vez uma mulher amou um homem, com todo o seu cora��o e sua alma, ela me ama. E ficou arrasada por eu ter descoberto este horr�vel, este incr�vel segredo. Ela nem mesmo quis falar. E n�o respondeu �s minhas censuras, apenas ficou me olhando com uma esp�cie de desespero feroz. Depois correu para o seu quarto e trancou-se por dentro. Desde ent�o n�o quer me ver. Ela tem uma criada chamada Dolores, que j� estava com ela antes do casamento, mais uma amiga do que uma criada. Dolores leva-lhe comida.</p><p>� Ent�o a crian�a n�o corre perigo imediato?</p><p>� A sra. Mason, a ama, jurou que n�o a deixar� sozinha, de noite ou de dia. Posso confiar totalmente nela. Estou mais preocupado com o coitado do Jack, porque, como lhe disse na minha carta, ele foi atacado por ela duas vezes.</p><p>� Mas nunca foi ferido?</p><p>� N�o, ela bateu nele com crueldade. � mais terr�vel ainda porque ele � um pobre aleijado inofensivo. � As fei��es abatidas de Ferguson suavizaram-se enquanto falava do filho. � Voc� imaginaria que as condi��es do rapaz suavizariam o cora��o de qualquer um. Uma queda na inf�ncia e uma espinha torta, sr. Holmes. Mas, l� dentro, est� o cora��o carinhoso mais valioso e terno.</p><p>Holmes havia apanhado a carta da v�spera e a estava lendo. � Que outras pessoas o senhor tem em casa, sr. Ferguson?</p><p>� Dois criados que est�o h� pouco tempo conosco. Um cavalari�o, Michael, que dorme na casa. Minha esposa, eu, meu filho Jacky, o beb�, Dolores e a sra. Mason. Isto � tudo.</p><p>� Entendi que o senhor n�o conhecia muito bem sua esposa quando se casou com ela.</p><p>� Eu a havia conhecido poucas semanas antes.</p><p>� H� quanto tempo a criada Dolores est� com ela?</p><p>� Alguns anos.</p><p>� Ent�o Dolores deve conhecer melhor o car�ter de sua esposa do que senhor?</p><p>� Sim, � prov�vel.</p><p>Holmes escreveu um bilhete.</p><p>� Presumo � disse ele � que eu possa ser mais �til em Lamberley do que aqui. Obviamente, este � um caso para uma investiga��o pessoal. Se a senhora continua em seu quarto, nossa presen�a n�o poderia aborrec�-la ou molest�-la. � claro que ficar�amos na hospedaria.</p><p>Ferguson fez um gesto de al�vio.</p><p>� � o que eu esperava, sr. Holmes. H� um trem saindo �s duas da tarde da esta��o Victoria, se o senhor quiser vir.</p><p>� � claro que iremos. Neste momento n�o tenho outros compromissos. Posso oferecer-lhe toda a minha energia. Watson, naturalmente, ir� conosco. Mas h� um ou dois detalhes que eu gostaria de esclarecer antes de partirmos. Esta infeliz senhora, conforme compreendi, parece ter atacado as duas crian�as, seu pr�prio beb� e o seu filho pequeno?</p><p>� � o que lhe digo.</p><p>� Mas, os ataques foram diferentes, n�o? Ela bateu em seu filho.</p><p>� Uma vez com uma vara, e outra vez com muita crueldade, com suas pr�prias m�os.</p><p>� Ela n�o explicou por que bateu nele?</p><p>� N�o, a n�o ser que o odiava. Repetiu isto v�rias vezes.</p><p>� Ora, isto � comum entre as madrastas. Um ci�me p�stumo, dir�amos. A senhora tem uma natureza ciumenta?</p><p>� Sim, muito ciumenta � ciumenta com toda a for�a do seu impetuoso amor tropical.</p><p>� Mas, o rapaz � ele est� com 15 anos, foi o que entendi, e provavelmente tem a mente muito desenvolvida, j� que seu corpo foi limitado em seus movimentos. Ele n�o lhe deu nenhuma explica��o para esses ataques?</p><p>� N�o, ele afirmou que n�o houve motivo.</p><p>� Eram bons amigos em outras ocasi�es?</p><p>� N�o; nunca houve amor entre eles.</p><p>� Mas o senhor diz que ele � carinhoso.</p><p>� Nunca houve no mundo filho mais dedicado. Minha vida � a vida dele. Ele vive absorvido no que digo ou fa�o.</p><p>Mais uma vez Holmes fez anota��es. Durante algum tempo ele ficou sentado, perdido em seus pensamentos.</p><p>� Sem d�vida o senhor e seu filho eram grandes amigos antes deste segundo casamento. Os acontecimentos os aproximaram muito, n�o foi?</p><p>� Realmente, muito mesmo.</p><p>� E o rapaz, tendo uma natureza t�o afetuosa, sem d�vida era dedicado � mem�ria de sua m�e?</p><p>� Muit�ssimo dedicado.</p><p>� Ele parece ser um rapaz bastante interessante. H� um outro detalhe a respeito desses ataques que deve ser esclarecido. Os estranhos ataques contra o beb� e as agress�es ao seu filho ocorreram na mesma ocasi�o?</p><p>� Da primeira vez foi isto o que aconteceu. Foi como se um furor tivesse se apossado dela, e ela houvesse descarregado sua c�lera sobre ambos. Da segunda vez foi s� o Jack que sofreu. A sra. Mason n�o teve queixas a fazer em rela��o ao beb�.</p><p>� Isto certamente complica a situa��o.</p><p>� Eu n�o o compreendo inteiramente, sr. Holmes.</p><p>� � poss�vel que n�o. Elaboramos teorias provis�rias e esperamos que o tempo ou o conhecimento mais amplo as desenvolvam. � um mau h�bito, sr. Ferguson, mas a natureza humana � fraca. Receio que seu velho amigo aqui tenha lhe dado uma opini�o exagerada de meus m�todos cient�ficos. Mas direi apenas que, no est�gio atual, seu problema n�o me parece insol�vel, e que o senhor pode nos aguardar �s duas horas na esta��o Victoria.</p><empty-line/><p>Era a noite de um escuro e nublado dia de novembro, quando, ap�s termos deixado nossas malas no Chequers, Lamberley, seguimos de charrete atrav�s de uma longa e sinuosa estrada de argila, t�pica de Sussex, e finalmente chegamos � antiga e isolada casa de fazenda onde morava Ferguson. Era uma constru��o grande, irregular, muito velha no centro, bem nova nas extremidades, com chamin�s altas estilo Tudor e um telhado muito inclinado, com ret�ngulos de lousa cobertos de l�quens. Os degraus gastos da porta estavam vergados pelo uso, e os azulejos antigos que revestiam o vest�bulo traziam o s�mbolo do construtor � um queijo e um homem. Dentro, os tetos eram nervurados com pesadas vigas de carvalho, e os assoalhos irregulares tinham cedido, formando ondas acentuadas. Um cheiro de velhice e decad�ncia enchia toda a moradia em ru�nas.</p><p>Havia uma sala central muito grande, para onde Ferguson nos conduziu. Ali, numa lareira imensa e antiga com um anteparo de ferro, datada de 1670, crepitava um espl�ndido fogo de lenha.</p><p>Quando olhei em volta, vi que a sala era a mais estranha mistura de datas e lugares: as paredes revestidas de madeira at� a metade podiam perfeitamente ter pertencido ao primeiro propriet�rio, no s�culo XVII. Mas, elas estavam ornamentadas, na parte inferior, com um revestimento em aquarela, moderno e de bom gosto, enquanto em cima, onde a caia��o amarela substituiu o carvalho, estava dependurada uma bonita cole��o de utens�lios e armas sul-americanos que, sem d�vida, havia sido trazida pela senhora peruana, que se encontrava no andar de cima. Holmes levantou-se com aquela curiosidade que brotava de sua mente �vida e examinou-os com aten��o. Voltou ao seu lugar com os olhos pensativos.</p><p>� Ei! � ele gritou. � Ei!</p><p>Um cachorro spaniel que estava deitado num cesto, no canto, come�ou a andar lentamente e com dificuldade na dire��o do seu dono. Suas pernas posteriores moviam-se irregularmente, e seu rabo estava ca�do sobre o assoalho. Ele lambeu a m�o de Ferguson.</p><p>� O que foi, sr. Holmes?</p><p>� O c�o. O que h� com ele?</p><p>� � isto que intriga o veterin�rio. Uma esp�cie de paralisia. Meningite espinhal, ele concluiu. Mas � passageira. Em pouco tempo ele estar� completamente curado � n�o �, Carlo?</p><p>O c�o balan�ou o rabo ca�do em sinal de aquiesc�ncia. Os olhos melanc�licos do c�o fixaram-se em cada um de n�s. Ele sabia que est�vamos discutindo o seu caso.</p><p>� Isto aconteceu de repente?</p><p>� Em uma �nica noite.</p><p>� H� quanto tempo?</p><p>� Pode ter sido h� quatro meses.</p><p>� Extraordin�rio. Muito sugestivo.</p><p>� O que v� o senhor nisto, sr. Holmes?</p><p>� Uma confirma��o do que eu j� havia pensado.</p><p>� Pelo amor de Deus, o que � que o senhor pensa, sr. Holmes? Para o senhor isto deve ser um enigma puramente intelectual, mas, para mim, � vida e morte! Minha esposa, uma suposta assassina, meu filho, em constante perigo. N�o brinque comigo, sr. Holmes. � terrivelmente s�rio.</p><p>O grande defesa do r�gbi estava tremendo da cabe�a aos p�s. Holmes p�s a m�o, num gesto tranq�ilizador, sobre o bra�o de Ferguson.</p><p>� Temo que o senhor v� sofrer, sr. Ferguson, qualquer que seja a solu��o � ele disse. � Eu o pouparia o m�ximo poss�vel. Por enquanto, n�o posso dizer mais nada, mas antes de sair desta casa, espero poder ter alguma coisa definitiva.</p><p>� Queira Deus que o senhor o consiga! Se os senhores me derem licen�a, irei at� o quarto de minha mulher verificar se houve alguma mudan�a.</p><p>Ele ficou ausente alguns minutos, durante os quais Holmes recome�ou sua an�lise das curiosidades na parede. Quando nosso anfitri�o voltou, seu rosto deprimido mostrou claramente que n�o houvera nenhum progresso. Ferguson trouxe uma mo�a alta, esbelta, de pele morena.</p><p>� O ch� est� pronto, Dolores � disse Ferguson. � Veja se a sua patroa tem tudo que possa desejar.</p><p>� Ela est� muito doente! � exclamou a mo�a, olhando revoltada para o seu patr�o. � Ela n�o pede comida. Ela muito doente. Ela precisa doutor. Eu assustada ficar sozinha com ela sem doutor.</p><p>Ferguson olhou para mim com uma express�o interrogativa.</p><p>� Eu� gostaria de poder ajudar.</p><p>� Sua� patroa receberia o dr. Watson?</p><p>� Eu leva ele. Eu n�o pede autoriza��o. Ela precisa doutor.</p><p>� Ent�o irei imediatamente com voc�.</p><p>Segui a mo�a, que estava tr�mula de emo��o, escada acima e ao longo de um velho corredor. No final havia uma porta maci�a refor�ada com ferro. Fiquei impressionado quando olhei para a porta, ao pensar que, se Ferguson tentasse entrar � for�a no quarto onde estava sua mulher, n�o o conseguiria facilmente. A mo�a tirou uma chave do bolso, e as velhas dobradi�as das pesadas e grossas t�buas de carvalho rangeram. Entrei e ela me seguiu rapidamente, aferrolhando a porta por dentro.</p><p>Uma mulher estava deitada na cama e via-se claramente que tinha febre alta. Ela estava apenas semiconsciente, mas, quando entrei, ergueu os belos olhos assustados e fixou-os em mim com apreens�o. Ao ver um estranho, pareceu aliviada, e, com um suspiro, afundou de novo no travesseiro. Aproximei-me dela com algumas palavras tranq�ilizadoras, e ela permaneceu calma enquanto tomei-lhe o pulso e a temperatura. Os dois estavam altos, mas, mesmo assim, tive a impress�o de que seu estado era mais uma excita��o mental e nervosa do que alguma outra doen�a.</p><p>� Ela est� assim h� um ou dois dias. Eu com medo ela morra � disse a mo�a.</p><p>A mulher virou o rosto vermelho e bonito para mim.</p><p>� Onde est� o meu marido?</p><p>� Ele est� l� embaixo e gostaria de v�-la.</p><p>� Eu n�o o verei. Eu n�o o verei. � Depois pareceu estar delirando. � Um diabo! Um diabo! Oh, o que farei com este dem�nio?</p><p>� Posso ajud�-la de alguma maneira?</p><p>� N�o. Ningu�m pode ajudar. Acabou. Tudo est� destru�do. N�o importa o que eu fa�a, est� tudo destru�do.</p><p>A mulher parecia ter algum sonho estranho. Eu n�o conseguia ver o honesto Bob Ferguson como um diabo ou dem�nio.</p><p>� Senhora � eu disse �, seu marido a ama ternamente. Ele est� extremamente aflito com o que est� acontecendo.</p><p>Ela virou novamente para mim seus olhos soberbos.</p><p>� Ele me ama. Sim. Mas e eu, n�o o amo? N�o o amo at� me sacrificar para n�o despeda�ar seu cora��o t�o querido? � assim que o amo. Entretanto, ele p�de pensar que eu � ele p�de me censurar tanto.</p><p>� Ele est� muito triste, mas n�o consegue compreender.</p><p>� N�o, ele n�o pode compreender. Mas deveria confiar.</p><p>� A senhora n�o deseja v�-lo? � eu sugeri.</p><p>� N�o, n�o; n�o posso esquecer aquelas palavras terr�veis, nem a express�o de seu rosto. N�o quero v�-lo. V� agora. O senhor nada pode fazer por mim. Diga-lhe apenas uma coisa. Quero o meu filho. Tenho direitos sobre o meu filho. Esta � a �nica mensagem que posso lhe enviar. Ela virou o rosto para a parede e n�o quis dizer mais nada.</p><p>Voltei � sala, onde Ferguson e Holmes ainda estavam sentados ao lado do fogo. Ferguson ouviu taciturno a narra��o da minha entrevista.</p><p>� Como posso mandar-lhe a crian�a? � ele disse. � Como posso saber que estranhos impulsos podem domin�-la? Como poderei esquecer que ela estava ao lado do ber�o com sangue nos l�bios? � Ele estremeceu com a lembran�a. � A crian�a est� segura com a sra. Mason, e deve permanecer l�.</p><p>Uma criada, vestida com apuro, a �nica coisa moderna que t�nhamos visto na casa, havia trazido ch�. Enquanto ela nos servia, a porta abriu-se, e um jovem entrou na sala. Era um mo�o singular, de rosto p�lido, louro, com olhos azuis expressivos, que brilharam com uma repentina chama de emo��o e alegria quando pousaram no pai. Ele precipitou-se para frente e lan�ou os bra�os em volta do pesco�o do pai, com a espontaneidade de uma jovem carinhosa.</p><p>� Oh, papai � ele exclamou. � Eu n�o sabia que voc� j� estava aqui. Eu teria vindo aqui para encontr�-lo. Oh! estou t�o contente de v�-lo!</p><p>Ferguson desembara�ou-se delicadamente do menino, mostrando um certo constrangimento.</p><p>� Meu velho camarada � ele disse, afagando a loura cabe�a com meiguice. � Eu vim cedo, porque convidei meus amigos, o sr. Holmes e o dr. Watson, a virem at� aqui passar uma tarde conosco.</p><p>� Este � o sr. Holmes, o detetive?</p><p>� Sim.</p><p>O jovem nos olhou de modo penetrante, que me pareceu hostil.</p><p>� Quanto ao seu outro filho, sr. Ferguson? � perguntou Holmes. � Pod�amos conhecer o beb�?</p><p>� Pe�a � sra. Mason para trazer o beb� aqui embaixo � disse Ferguson. O rapaz saiu, gingando de maneira esquisita, e meus olhos de cirurgi�o viram que ele estava sofrendo da coluna. Ele voltou pouco depois, e atr�s dele veio uma mulher alta e magra, carregando nos bra�os uma crian�a muito bonita, de olhos pretos, cabelos dourados, uma magn�fica mistura das ra�as sax�nica e latina. Ferguson era evidentemente dedicado ao beb�, porque segurou-o nos bra�os e o acariciou com muita ternura.</p><p>� N�o consigo imaginar como algu�m pode ter a coragem de fazer-lhe mal � ele resmungou, enquanto olhava para o pequeno ferimento inflamado no pesco�o de querubim.</p><p>Foi nesse momento que olhei por acaso para Holmes e percebi sua express�o extremamente atenta. Seu rosto estava im�vel como se tivesse sido esculpido em marfim velho, e seus olhos, que haviam pousado por um momento no pai e no filho, estavam agora fixos, com viva curiosidade, em alguma coisa do outro lado da sala. Acompanhando seu olhar, eu s� podia imaginar que ele estivesse olhando para fora da janela, para o jardim melanc�lico onde a chuva gotejava. � verdade que um postigo tinha sido fechado do lado de fora at� a metade, obstruindo a vis�o, mas, mesmo assim, era na janela que Holmes fixara sua aten��o. Ent�o ele sorriu, e seus olhos pousaram novamente no beb�. No seu pesco�o rechonchudo havia aquela pequena marca. Holmes examinou-a com aten��o, sem dizer uma palavra. Finalmente, sacudiu um dos punhos com covinhas que se agitavam na frente dele.</p><p>� At� logo, homenzinho. Voc� come�ou a vida de maneira estranha. Ama, eu gostaria de falar com a senhora em particular.</p><p>Ele a levou para um canto e falou com sinceridade durante alguns minutos. Eu s� ouvi as �ltimas palavras, que eram: �Espero que sua ansiedade acabe em breve.� A mulher, que parecia ser uma criatura azeda e silenciosa, retirou-se com a crian�a.</p><p>� Como � a senhora Mason? � perguntou Holmes.</p><p>� N�o muito simp�tica exteriormente, como p�de observar, mas, um cora��o de ouro, e dedicada � crian�a.</p><p>� Voc� gosta dela, Jacky? � Holmes virou-se de repente para o menino. Seu rosto expressivo ficou sombrio e ele sacudiu a cabe�a.</p><p>� Jacky tem simpatias e antipatias muito fortes � disse Ferguson. � Felizmente sou uma de suas simpatias.</p><p>O menino murmurou baixinho e aninhou a cabe�a no peito do pai. Ferguson afastou-o delicadamente.</p><p>� D� uma corrida, Jacky, � ele disse, e observou seu filho com olhos carinhosos at� que ele desaparecesse. � Agora, sr. Holmes � ele continuou, depois que o menino saiu �, sinto que o trouxe aqui inutilmente, pois o que � que o senhor poderia fazer, a n�o ser me oferecer a sua compaix�o? Do seu ponto de vista, este assunto deve ser excessivamente complexo e delicado.</p><p>� Certamente � delicado � disse meu amigo com um sorriso divertido �, mas, at� agora n�o fiquei impressionado com sua complexidade. Era um caso para dedu��o intelectual, e quando esta dedu��o intelectual inicial for confirmada, ponto por ponto, por v�rios incidentes independentes, ent�o o subjetivo se transformar� em realidade e poderemos afirmar com seguran�a que atingimos nosso objetivo. Na verdade, atingi o objetivo antes de sairmos de Baker Street, e o resto foi apenas observa��o e confirma��o.</p><p>Ferguson p�s a m�o enorme sobre a testa enrugada.</p><p>� Pelo amor de Deus, Holmes � disse ele com voz rouca �, se o senhor pode ver a verdade neste caso, n�o me deixe ficar na incerteza. Como � que posso ag�entar? O que devo fazer? N�o quero saber como descobriu os fatos, contanto que os tenha realmente descoberto.</p><p>� Certamente devo-lhe uma explica��o, e o senhor vai receb�-la. Mas, vai me permitir tratar do assunto � minha maneira? A senhora tem condi��es de nos receber, Watson?</p><p>� Ela est� doente, mas perfeitamente racional.</p><p>� Muito bem. S� na presen�a dela podemos esclarecer o assunto. Vamos at� l�.</p><p>� Ela n�o vai querer me ver! � exclamou Ferguson.</p><p>� Ah, sim, ela o ver� � disse Holmes. Ele rabiscou algumas linhas numa folha de papel. � Voc� pelo menos conseguiu entrar, Watson. Voc� me faria a gentileza de entregar este bilhete � senhora?</p><p>Subi novamente e entreguei o bilhete a Dolores, que abriu a porta cautelosamente. Um minuto depois, ouvi um grito que vinha de dentro do quarto, um grito onde a alegria e a surpresa pareciam misturar-se. Dolores olhou para fora.</p><p>� Ela os receber�. Ela vai escutar � ela disse.</p><p>Ferguson e Holmes subiram quando os chamei. Quando entramos no quarto, Ferguson deu um ou dois passos na dire��o da esposa, que se havia erguido no leito, mas ela levantou a m�o para afast�-lo. Ele afundou na poltrona, enquanto Holmes sentou-se ao lado dele, ap�s cumprimentar com uma inclina��o de cabe�a a mulher que o encarava com olhos arregalados de espanto.</p><p>� Acho que podemos dispensar Dolores � disse Holmes. � Ah, muito bem, senhora, se prefere que ela fique, n�o tenho obje��o. Ora, sr. Ferguson, sou um homem ocupado, com muitos chamados, e meus m�todos t�m de ser r�pidos e diretos. A cirurgia mais r�pida � a menos dolorosa. Deixe-me primeiro dizer-lhe aquilo que ir� tranq�iliz�-lo. Sua esposa � uma mulher muito boa, muito carinhosa e muito maltratada.</p><p>Ferguson sentou-se com uma exclama��o de alegria.</p><p>� Prove isto, sr. Holmes, e ficarei eternamente grato.</p><p>� Eu o farei, mas para fazer isto, terei de feri-lo profundamente de outra maneira.</p><p>� N�o me importo, contanto que o senhor justifique minha esposa. Tudo na terra � insignificante comparado a isto.</p><p>� Deixe-me contar-lhe ent�o o desenvolvimento de meu racioc�nio em Baker Street. Para mim, a id�ia de um vampiro era absurda. Coisas desse tipo n�o acontecem na pr�tica criminal na Inglaterra. Mesmo assim, sua observa��o foi precisa. O senhor tinha visto sua esposa levantar-se ao lado do ber�o da crian�a com sangue nos l�bios.</p><p>� Realmente.</p><p>� N�o lhe ocorreu que uma ferida sangrando pode ser sugada por algum outro motivo que n�o seja o de extrair sangue dela? N�o houve uma rainha, na hist�ria inglesa, que sugou uma ferida para extrair veneno dela?</p><p>� Veneno!</p><p>� Um lar sul-americano. Meu instinto sentiu a presen�a daquelas armas na parede, antes que meus olhos as vissem. Podia ter sido outro veneno, mas foi aquele que me ocorreu. Quando vi aquela pequena aljava vazia ao lado do pequeno arco, era justamente aquilo que eu esperava ver. Se a crian�a fosse furada por uma daquelas flechas embebidas em curare ou em alguma outra droga diab�lica, isto significaria morte se o veneno n�o fosse extra�do.</p><p>� E o cachorro! Se algu�m fosse usar um veneno como esse, n�o o experimentaria primeiro, a fim de verificar se n�o havia perdido seu efeito? Eu n�o previ o caso do cachorro, mas pelo menos, compreendi o que havia com ele, e ele se encaixava na minha reconstitui��o.</p><p>� Agora o senhor compreende? Sua esposa temia um ataque desta natureza. Ela viu o ataque consumado e salvou a vida da crian�a, e ainda assim evitou contar-lhe toda a verdade, porque sabia como o senhor amava o menino e temia que isso lhe despeda�asse o cora��o.</p><p>� Jacky!</p><p>� Eu o observei enquanto o senhor acariciava a crian�a, agora h� pouco. Seu rosto estava refletido nitidamente no vidro da janela, onde o postigo formava um fundo. Vi tanto ci�me, um �dio t�o cruel como poucas vezes vi em outro rosto humano.</p><p>� Meu Jacky!</p><p>� O senhor tem de enfrentar isto. � muito penoso porque foi um amor desvirtuado, um amor exageradamente louco pelo senhor, e possivelmente pela sua m�e morta, que instigou sua a��o. Sua pr�pria alma est� consumida pelo �dio por esta espl�ndida crian�a, cuja beleza e sa�de contrastam com sua pr�pria fraqueza.</p><p>� Bom Deus! Isto � inacredit�vel!</p><p>� Eu disse a verdade, senhora?</p><p>A mulher estava solu�ando, com o rosto enterrado nos travesseiros. Ent�o ela virou-se para o marido.</p><p>� Como � que eu podia dizer-lhe, Bob? Eu sabia que seria um golpe para voc�. Seria melhor que eu esperasse e que voc� soubesse por outra pessoa, e n�o por mim. Quando este cavalheiro, que parece ter poderes m�gicos, escreveu que sabia de tudo, fiquei feliz.</p><p>� Acho que um ano no mar seria minha prescri��o para Jacky � disse Holmes, levantando-se de sua cadeira. � Apenas uma coisa continua obscura, madame. Posso entender perfeitamente que tenha atacado Jacky. H� um limite para a paci�ncia de uma m�e. Mas, como teve a coragem de deixar a crian�a nestes dois �ltimos dias?</p><p>� Eu havia contado � sra. Mason. Ela sabia.</p><p>� Exatamente. Eu calculei isso.</p><p>Ferguson estava de p� ao lado da cama, sufocado, as m�os esticadas e tremendo.</p><p>� Imagino que este seja o momento prop�cio para sairmos, Watson � disse Holmes num sussurro. � Se voc� segurar a fiel Dolores por um dos cotovelos, eu a segurarei pelo outro. Bem, agora � ele acrescentou, enquanto fechava a porta atr�s de si �, acho que podemos deixar que resolvam o resto entre eles.</p><empty-line/><p>Tenho apenas mais uma coisa a registrar neste caso. � a carta que Holmes escreveu, como resposta final �quela com a qual come�a esta narrativa. Diz o seguinte:</p><empty-line/><p>BAKER STREET,</p><p>21 de novembro</p><empty-line/><p>Ref.: Vampiros</p><p>PREZADO SENHOR,</p><empty-line/><p>Com refer�ncia � sua carta do dia 19, tomo a liberdade de informar que examinei o caso do seu cliente, sr. Robert Ferguson, da firma de corretores de ch�, Ferguson e Muirhead, de Mincing Lane, e que o assunto chegou a um final satisfat�rio. Com os agradecimentos pela sua recomenda��o,</p><empty-line/><p>Firmo-me, atenciosamente,</p><p>Sherlock Holmes</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura dos tr�s garridebs</strong></p><p>Pode ter sido uma com�dia ou pode ter sido uma trag�dia. Custou a um homem a sua raz�o, a mim dinheiro, e ainda a outro homem as penalidades da lei. Mesmo assim, havia� certamente um elemento de com�dia. Bem, voc�s mesmos dever�o julgar.</p><p>Lembro-me muito bem da data, pois foi no mesmo m�s em que Holmes recusou um t�tulo de nobreza por servi�os que, algum dia, talvez possam ser narrados. Eu s� menciono o assunto de passagem, porque na minha condi��o de s�cio e confidente, tenho a obriga��o de ser particularmente cuidadoso, evitando qualquer indiscri��o. Mas repito que isso me torna capaz de determinar a data, que foi o final do m�s de junho de 1902. Logo ap�s o fim da guerra sul-africana, Holmes tinha passado alguns dias na cama, como era seu h�bito de vez em quando, mas ele apareceu naquela manh� com um documento do tamanho de uma folha de papel alma�o na m�o e</p><p>um brilho divertido nos austeros olhos cinzentos.</p><p>� H� uma oportunidade para voc� fazer dinheiro, amigo Watson � ele disse. � Voc� j� ouviu alguma vez o nome Garrideb?</p><p>Eu disse que n�o.</p><p>� Bem, se voc� conseguir botar as m�os num Garrideb, h� dinheiro nisso.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Ah, � uma longa hist�ria � bastante esquisita tamb�m. Acho que em todas as nossas investiga��es a respeito das complexidades humanas, jamais deparamos com algo mais estranho. O sujeito estar� aqui daqui a pouco, para responder a umas perguntas, de modo que n�o vou revelar o assunto enquanto ele n�o chegar. Mas, enquanto isso, � este o nome que queremos.</p><p>A lista telef�nica estava na mesa ao meu lado, e eu comecei a virar as p�ginas, numa busca sem esperan�a. Mas, para meu espanto, l� estava este estranho nome em seu devido lugar. Dei um grito de vit�ria.</p><p>� Aqui est�, Holmes! Aqui est� ele!</p><p>Holmes tirou o livro da minha m�o.</p><p>� �Garrideb, N�, ele leu, �Little Ryder Street, 136, W�. Lamento desapont�-lo, meu caro Watson, mas este � o pr�prio. Este � o endere�o que est� na carta. Temos de procurar outro nome semelhante a este.</p><p>A sra. Hudson tinha entrado com um cart�o numa bandeja. Peguei-o e dei uma olhada.</p><p>� Ora, aqui est�! � gritei espantado. � Este tem uma inicial diferente. John Garrideb, advogado, Moorville, Kansas, U.S.A.</p><p>Holmes sorriu quando olhou o cart�o. � Acho que voc� ainda precisa fazer outra tentativa, Watson � ele disse. � Este cavalheiro tamb�m j� est� na trama, embora eu n�o esperasse v�-lo esta manh�. Mas ele tem condi��es de nos contar uma por��o de coisas que eu quero saber.</p><p>Um minuto depois ele estava na sala. O sr. John Garrideb, advogado, era baixo, vigoroso, com o rosto redondo, saud�vel e sem barba, caracter�stico de tantos executivos americanos. Seu aspecto geral era gordo e infantil, de modo que tivemos a impress�o de um homem muito jovem e muito sorridente. Mas seus olhos estavam atentos. Raramente vi um par de olhos que demonstrassem uma vida interior mais intensa, t�o brilhantes que eram, t�o atentos, e que expressassem cada mudan�a de pensamento. Seu sotaque era de americano, mas n�o era acompanhado por nenhuma excentricidade de linguagem.</p><p>� Sr. Holmes? � ele perguntou, olhando de um para o outro. � Ah, sim! Seus retratos n�o s�o diferentes do senhor, se � que posso dizer isto. Creio que o senhor recebeu uma carta do meu hom�nimo, sr. Nathan Garrideb, n�o �?</p><p>� Pe�o-lhe que se sente � disse Sherlock Holmes. � Acho que vamos ter muito o que conversar. � Ele apanhou suas folhas de papel alma�o. � O senhor, naturalmente, � o John Garrideb mencionado neste documento. Mas, com certeza, o senhor mora na Inglaterra h� algum tempo.</p><p>� Por que diz isso, sr. Holmes? � pareceu-me ver uma repentina desconfian�a naqueles olhos expressivos.</p><p>� Todo o seu traje � ingl�s.</p><p>O sr. Garrideb deu um sorriso for�ado. � J� li a respeito de suas brincadeiras, sr. Holmes, mas nunca pensei que seria alvo delas. Como foi que o senhor percebeu isto?</p><p>� O talhe dos ombros do seu palet�, o bico de suas botas � algu�m poderia duvidar?</p><p>� Ora, ora, eu n�o sabia que eu era um ingl�s de maneira t�o evidente. Mas os neg�cios trouxeram-me para c� h� algum tempo, de modo que meu traje � quase todo londrino. No entanto, imagino que seu tempo seja precioso, e n�s n�o nos encontramos para falar sobre o estilo de minhas meias. Que tal tratarmos do papel que o senhor tem nas m�os?</p><p>De algum modo, Holmes havia irritado o nosso visitante, cujo rosto gordo adquiriu uma express�o bem menos am�vel.</p><p>� Calma! Calma, sr. Garrideb! � disse meu amigo num tom tranq�ilizador. � O dr. Watson lhe dir� que estes meus pequenos desvios �s vezes acabam mostrando que tinham algo a ver com o assunto. Mas por que o sr. Nathan Garrideb n�o veio com o senhor?</p><p>� Por que cargas d��gua ele o envolveu neste assunto? � perguntou o nosso visitante, com uma repentina explos�o de raiva. Mas, afinal,� que diabo o senhor tem a ver com isto? S�o neg�cios profissionais entre dois cavalheiros, e um deles precisa chamar um detetive! Eu o vi esta manh�, e ele me contou esta brincadeira boba que fez comigo, e � por este motivo que estou aqui. Mas, sinto-me mal do mesmo jeito, por causa disto.</p><p>� Isto n�o o atinge, sr. Garrideb. Foi apenas zelo da parte dele para obter um resultado � resultado que acredito ser igualmente vital para voc�s dois. Ele sabia que eu tinha meios de obter informa��es, e, portanto, era muito natural que recorresse a mim.</p><p>O rosto zangado do nosso h�spede desanuviou-se aos poucos.</p><p>� Bem, isto torna as coisas diferentes � ele disse. � Quando fui v�-lo esta manh�, e ele me disse que havia mandado chamar um detetive, eu apenas pedi o seu endere�o e vim imediatamente para c�. N�o quero a pol�cia intrometendo-se num assunto particular. Mas se o senhor limitar-se a nos ajudar a encontrar o homem, n�o pode haver mal nisto.</p><p>� Bem, � exatamente isto � disse Holmes. � E agora, senhor, j� que est� aqui, seria melhor que o senhor mesmo fizesse um relato claro. Meu amigo aqui ignora os detalhes.</p><p>O sr. Garrideb examinou-me com um olhar pouco amig�vel.</p><p>� Ele precisa saber? � perguntou.</p><p>� N�s costumamos trabalhar juntos.</p><p>� Ora, n�o h� motivo para que isto seja segredo. Vou lhe expor os fatos, da maneira mais resumida que puder. Se o senhor viesse de Kansas, eu n�o precisaria explicar-lhe quem foi Alexander Hamilton Garrideb. Ele fez dinheiro com im�veis e mais tarde na bolsa de cereais de Chicago, mas gastou esta fortuna comprando tanta terra que equivaleria em �rea a um condado ingl�s, ao longo do rio Arkansas, a oeste do Forte Dodge. S�o terras de pasto, de madeira, terras ar�veis e terras que cont�m minerais, e exatamente os tipos de terra que trazem d�lares para quem as possui.</p><p>� Ele n�o tinha parentes ou, se os tinha, eu nunca soube disso. Mas, tinha uma esp�cie de orgulho pela raridade de seu nome. Foi isso que nos aproximou. Eu trabalhava como advogado em Topeka e um dia recebi a visita do velho, e ele estava realmente curioso para conhecer outro homem com seu pr�prio nome. Era um capricho, uma mania, e ele estava decidido a descobrir se havia outros Garridebs no mundo. �Encontre outro�, ele disse. Respondi que eu era um homem ocupado e que n�o podia passar minha vida excursionando pelo mundo � procura de Garridebs. �N�o obstante�, ele disse, �� justamente isto que voc� far� se as coisas acontecerem conforme eu planejei.� Pensei que ele estivesse brincando, mas suas palavras continham uma forte dose de convic��o, como eu iria descobrir em pouco tempo. Porque ele morreu um ano depois de afirmar isso e deixou um testamento. Foi o testamento mais extravagante j� feito no estado de Kansas. Sua propriedade foi dividida em tr�s partes, e eu devo receber uma, com a condi��o de encontrar dois Garridebs, que ir�o repartir o restante. S�o 5 milh�es de d�lares para cada um, mas n�o podemos botar a m�o na heran�a enquanto n�s tr�s n�o ficarmos um ao lado do outro.</p><p>� Era uma oportunidade t�o grande que eu acabei deixando de lado minha profiss�o de advogado e parti � procura de Garridebs. N�o existe nenhum nos Estados Unidos. Procurei cuidadosamente pelo pa�s inteiro, senhor, com um pente-fino, e jamais encontrei um Garrideb. Depois tentei a velha terra. Com certeza havia este nome na lista telef�nica de Londres. H� dois dias eu o procurei e expliquei-lhe o assunto. Mas ele � um homem solit�rio, como eu mesmo, que tem algumas mulheres como parentes, com nenhum homem. O testamento fala em tr�s homens adultos. De modo que, como o senhor v�, ainda falta um, e se o senhor puder ajudar a encontr�-lo, ser� muito f�cil pagar seus honor�rios.</p><p>� Bem, Watson � disse Holmes com um sorriso �, eu disse que era um caso um tanto esquisito, n�o foi? Eu pensei que o jeito seria, obviamente, o senhor anunciar nas colunas de pessoas desaparecidas dos jornais.</p><p>� J� fiz isso, sr. Holmes. N�o recebi nenhuma resposta.</p><p>� Valha-me Deus!</p><p>� Bem, este � sem d�vida um probleminha bastante� curioso. Posso dar uma olhada nisso em minhas horas vagas. A prop�sito, � curioso que o senhor tenha vindo de Topeka. Eu tinha um correspondente l� � ele est� morto agora �, o velho dr. Lysander Starr, que foi prefeito em 1890.</p><p>� O velho e bom dr. Starr! � disse o nosso visitante. � Seu nome ainda � respeitado. Bem, sr. Holmes, acho que a �nica coisa que podemos fazer � inform�-lo a respeito do andamento do caso. Creio que o senhor vai ter not�cias dentro de um ou dois dias.</p><p>Com esta certeza, o nosso amigo americano fez um cumprimento com a cabe�a e saiu.</p><p>Holmes acendeu seu cachimbo e ficou sentado durante algum tempo, com um curioso sorriso no rosto.</p><p>� Bem? � perguntei finalmente.</p><p>� Eu estava refletindo, Watson, apenas isso.</p><p>� Sobre o qu�?</p><p>Holmes tirou o cachimbo da boca.</p><p>� Eu estava me perguntando qual seria o objetivo nesse homem ao nos contar este monte de mentiras. Eu quase perguntei-lhe isso, pois h� ocasi�es em que um ataque brutal direto � a melhor pol�tica, mas achei que seria melhor deix�-lo pensar que nos havia enganado. A� est� um homem com um palet� ingl�s pu�do no cotovelo e cal�as deformadas nos joelhos, com um ano de uso, e no entanto, pelo seu documento e de acordo com o que afirmou, � um americano provinciano, que chegou recentemente a Londres. N�o houve an�ncios nas colunas de pessoas desaparecidas. Voc� sabe que eu n�o perco nenhum desses an�ncios. � o jeito dissimulado de agarrar um p�ssaro, e eu nunca deixaria passar um fais�o desses. N�o conheci nenhum dr. Lysander Starr em Topeka. Toque-o onde quiser e ele � falso. Acho que o sujeito realmente � americano, mas, ele ficou com este seu sotaque polido vivendo anos em Londres. Ent�o, qual ser� o seu jogo, e que motivo haver� por tr�s desta absurda procura de Garridebs? Vale a pena darmos aten��o a esse caso, porque, se o homem for um patife, certamente � um patife complexo e engenhoso. Agora precisamos descobrir se o outro correspondente tamb�m � um embuste. Telefone para ele agora, Watson.</p><p>Fiz isso e ouvi uma voz fina e tr�mula do outro lado da linha.</p><p>� Sim, sim, sou o sr. Nathan Garrideb. O sr. Holmes est�? Eu gostaria muito de dar uma palavrinha com o sr. Holmes.</p><p>Meu amigo segurou o aparelho e ouvi o costumeiro di�logo sincopado.</p><p>� Sim, ele esteve aqui. Compreendo que o senhor n�o o conhe�a... Quanto tempo?... S� dois dias!... Sim, sim, naturalmente � uma perspectiva muito sedutora. O senhor estar� em casa esta noite? Seu hom�nimo n�o estar� a�?... Muito bem, iremos ent�o, pois eu preferiria ter uma conversa informal sem a presen�a dele... dr. Watson ir� comigo... Pela sua carta, percebi que o senhor n�o sai de casa com freq��ncia... Bem, estaremos a� por volta das seis horas. N�o precisa dizer nada ao advogado americano... Muito bem. At� logo!</p><p>Era hora do crep�sculo num agrad�vel entardecer primaveril, e at� mesmo a Little Ryder Street, uma das menores travessas que saem da Edgware Road, perto da velha �rvore Tyburn, de triste mem�ria, parecia dourada e maravilhosa com os raios obl�quos do sol poente. A casa para onde est�vamos indo era grande, antiquada, uma constru��o do in�cio da arquitetura georgiana, com uma fachada lisa de tijolos, interrompida apenas por duas janelas salientes, no andar t�rreo. Nosso cliente morava neste andar t�rreo e, de fato, as janelas baixas eram a parte da frente de uma imensa sala na qual ele passava suas horas de vig�lia. Quando passamos, Holmes apontou para a pequena placa de metal onde estava escrito o curioso nome.</p><p>� � muito antiga, Watson � ele observou, mostrando sua superf�cie gasta. � De qualquer modo � o seu nome verdadeiro, e isto � algo digno de nota.</p><p>A casa tinha uma escada comum, e havia v�rios nomes pintados no sagu�o, alguns indicando escrit�rios, e outros, quartos particulares. N�o era um grupo de apartamentos residenciais, e sim moradias de solteir�es bo�mios. Nosso cliente abriu a porta para n�s e desculpou-se dizendo que a mulher encarregada sa�a �s quatro da tarde. O sr. Nathan Garrideb era um homem muito alto, desengon�ado, magro e calvo, aparentando mais ou menos 60 anos. Ele tinha um rosto cadav�rico, com uma pele sem brilho, morta, pele de um homem que desconhece os exerc�cios. Os �culos grandes redondos e uma saliente e curta barba de bode, combinados com a sua atitude condescendente, davam-lhe uma express�o de curiosidade inquisitiva. Mas o conjunto era agrad�vel, embora exc�ntrico.</p><p>A sala era t�o esquisita quanto o seu inquilino. Parecia um pequeno museu. Era larga e comprida, com guarda-lou�as e arm�rios em toda a volta, repletos de esp�cimes geol�gicos e anat�micos. Havia caixas de borboletas e mariposas de cada lado da entrada. No centro, uma mesa grande estava entulhada de todo tipo de restos, enquanto o comprido tubo de metal de um poderoso microsc�pio destacava-se no meio deles. Quando olhei em volta, fiquei surpreso pela diversidade de interesses desse homem. Aqui estava uma caixa com moedas antigas. L�, um arm�rio com utens�lios de s�lex. Atr�s da mesa central havia um grande guarda-lou�a com ossos de f�sseis. Em cima havia uma fileira de cr�nios de gesso, com nomes como Neandertal, Heidelberg, Cromagnon impressos embaixo. Estava evidente que ele era um estudioso de muitos assuntos. Naquele momento, parado diante de n�s, segurava na m�o direita um peda�o de camur�a, com o qual estava polindo uma moeda.</p><p>� De Siracusa, do melhor per�odo � ele explicou, mostrando a moeda. � Eles degeneraram muito no final. Na sua melhor �poca, eu os considero o m�ximo, embora alguns prefiram a escola alexandrina. Aqui est� uma cadeira, sr. Holmes. Permita-me afastar estes ossos. E o senhor, ah, sim, dr. Watson, se o senhor tivesse a bondade para colocar de lado este vaso japon�s. Os senhores est�o vendo, ao meu redor, os pequenos interesses da minha vida. Meu m�dico me censura pelo fato de eu nunca sair de casa, mas por que eu iria sair, quando tenho tanta coisa que me prende aqui? Posso assegurar-lhes que catalogar adequadamente o conte�do de um desses arm�rios levaria tr�s meses.</p><p>Holmes olhou em volta com curiosidade.</p><p>� Mas o senhor me diz que nunca sai de casa? � Perguntou.</p><p>� Uma vez ou outra vou at� Sotheby�s ou Christie�s. Fora isso, muito raramente saio do meu quarto. N�o sou muito forte e minhas pesquisas s�o muito absorventes. Mas o senhor pode imaginar, sr. Holmes, que surpresa espantosa � agrad�vel, mas espantosa � foi para mim quando soube desta sorte sem igual. S� � necess�rio mais um Garrideb para completar a quest�o, e certamente podemos encontrar algum. Eu tinha um irm�o, mas ele morreu, e parentes do sexo feminino n�o servem. Mas, com certeza, deve haver outros no mundo. Ouvi dizer que o senhor tratou de casos estranhos, e foi por isso que mandei cham�-lo. � claro que este cavalheiro americano est� totalmente certo, e eu deveria ter pedido a opini�o dele primeiro, mas agi com a melhor das inten��es.</p><p>� Acho que o senhor agiu de maneira sensata � disse Holmes. Mas o senhor est� realmente ansioso para adquirir terras na Am�rica?</p><p>� Certamente que n�o, senhor. Nada me convencer� a abandonar minha cole��o. Mas este cavalheiro me garantiu que ele vai comprar a minha parte assim que tivermos reivindicado a posse. Cinco milh�es de d�lares foi a quantia mencionada. Atualmente existem no mercado 12 esp�cimes que preencheriam lacunas em minha cole��o e que n�o posso comprar porque pedem por eles algumas centenas de libras. Pense no que eu poderia fazer com 5 milh�es de d�lares. Ora, tenho o n�cleo de uma cole��o nacional. Serei o Hans Sloane da minha �poca.</p><p>Seus olhos brilharam por tr�s dos �culos. Era �bvio que o sr. Nathan Garrideb faria todo o poss�vel para encontrar um hom�nimo.</p><p>� Vim visit�-lo apenas para conhec�-lo, e n�o h� motivo para que eu interrompa as suas pesquisas � disse Holmes. � Prefiro estabelecer um contato pessoal com aqueles para quem trabalho. Tenho poucas perguntas a lhe fazer, porque estou com a sua narrativa bastante clara no meu bolso e preenchi as lacunas quando o cavalheiro americano me visitou. Entendi que at� esta semana o senhor ignorava a exist�ncia dele.</p><p>� Exatamente. Ele me visitou na ter�a-feira.</p><p>� Ele falou-lhe a respeito de nossa entrevista de hoje?</p><p>� Sim, ele veio diretamente para c�. Estava muito zangado.</p><p>� Por que ele deveria estar zangado?</p><p>� Pensou que fosse alguma considera��o a respeito de sua honra. Mas ele estava bastante satisfeito novamente quando voltou!</p><p>� Ele sugeriu alguma provid�ncia?</p><p>� N�o, senhor, ele n�o sugeriu nada.</p><p>� Ele recebeu ou pediu dinheiro ao senhor?</p><p>� N�o, senhor, nunca!</p><p>� O senhor n�o percebe algum objetivo que ele possa ter em vista?</p><p>� Nenhum, a n�o ser o que ele afirma.</p><p>� O senhor mencionou o nosso encontro marcado pelo telefone?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>Holmes estava perdido em seus pensamentos. Eu podia ver que ele estava intrigado.</p><p>� O senhor tem objetos de grande valor em sua cole��o?</p><p>� N�o senhor. N�o sou um homem rico. Esta � uma boa cole��o, mas n�o � uma cole��o muito valiosa.</p><p>� O senhor n�o tem medo de ladr�es?</p><p>� De modo algum.</p><p>� H� quanto tempo est� nestes aposentos?</p><p>� H� quase cinco anos.</p><p>O interrogat�rio de Holmes foi interrompido por uma pancada na porta. Mas o nosso cliente abriu o trinco da porta, o advogado americano entrou na sala na maior excita��o.</p><p>� Aqui est�! � ele gritou, sacudindo um jornal acima da cabe�a. � Achei que chegaria a tempo de encontr�-lo. Sr. Nathan Garrideb, meus parab�ns! O senhor � um homem rico. Nosso assunto terminou de maneira favor�vel e est� tudo bem. Quanto ao sr. Holmes, s� podemos dizer que lamentamos se lhe demos trabalho inutilmente.</p><p>Ele entregou o jornal ao nosso cliente, que ficou olhando com espanto para um an�ncio assinalado. Holmes e eu nos inclinamos para a frente e lemos o an�ncio por cima de seus ombros. O an�ncio dizia o seguinte:</p><empty-line/><p>HOWARD GARRIDEB</p><p>Fabricante de M�quinas Agr�colas</p><p>Enfeixadores, ceifeiras,</p><p>arados manuais e a vapor,</p><p>furadeiras, arados de grade,</p><p>charretes, carro�as</p><p>e outros implementos.</p><p>Or�amentos para po�os artesianos</p><p>Procurar Grosvenor Buildings, Aston</p><empty-line/><p>� Magn�fico � suspirou nosso anfitri�o. � Isto encerra nossa busca do terceiro homem.</p><p>� Mandei fazer pesquisas em Birmingham � disse o americano �, e o meu agente de l� mandou-me este an�ncio de um jornal local. Precisamos nos apressar e obter a aprova��o do testamento. Escrevi a esse homem e disse-lhe que o senhor ir� v�-lo amanh� � tarde, �s quatro horas, em seu escrit�rio.</p><p>� O senhor quer que eu v� v�-lo?</p><p>� O que diz, sr. Holmes? O senhor n�o acha que seria mais prudente? Aqui estou eu, um americano errante, com uma hist�ria maravilhosa. Por que ele iria acreditar no que eu lhe dissesse? Mas o senhor � um ingl�s, com s�lidas refer�ncias, e ele estar� disposto a tomar conhecimento daquilo que lhe disser. Eu iria com o senhor se quisesse, mas amanh� terei um dia muito cheio, e eu poderia ir depois, se o senhor tivesse algum problema.</p><p>� Bem, h� anos eu n�o fa�o uma viagem assim.</p><p>� N�o � dif�cil, sr. Garrideb. Eu j� me informei sobre as conex�es. O senhor parte ao meio-dia, e dever� estar l� pouco depois das duas horas. Ent�o o senhor poder� estar de volta na mesma noite. Tudo que o senhor ter� de fazer � ver esse homem, explicar o assunto a ele, e obter uma declara��o escrita e juramentada de sua exist�ncia. Pelo amor de Deus! � ele acrescentou com veem�ncia �, levando em considera��o que eu fiz toda essa viagem, do centro dos Estados Unidos at� aqui, certamente � bem pouco se o senhor viajar uns 100 quil�metros, a fim de resolver este assunto.</p><p>� Perfeitamente � disse Holmes. � Acho que o que o cavalheiro diz � verdade.</p><p>O sr. Nathan Garrideb encolheu os ombros com um ar desconsolado. � Bem, se o senhor insiste, irei � ele disse. � � realmente dif�cil para mim recusar-lhe alguma coisa, considerando a esperan�a que o senhor trouxe para a minha vida.</p><p>� Ent�o isto est� combinado � disse Holmes � e, sem d�vida, o senhor me dar� not�cias o mais cedo poss�vel.</p><p>� Eu cuidarei disso � afirmou o americano. � Bem � ele acrescentou, olhando o seu rel�gio �, tenho de ir embora. Passarei por aqui amanh�, sr. Nathan, e irei ao seu embarque para Birmingham. Vai pelo mesmo caminho que eu, sr. Holmes? Bem, ent�o, adeus, e poderemos ter boas not�cias para o senhor amanh� � noite.</p><p>Percebi que o rosto de meu amigo descontraiu-se, quando o americano saiu da sala, e a express�o perplexa e pensativa havia desaparecido.</p><p>� Eu gostaria de examinar a sua cole��o, sr. Garrideb � disse Holmes. � Na minha profiss�o, todo tipo de conhecimento adicional � �til, e esta sua sala � um excelente dep�sito de conhecimentos.</p><p>O rosto de nosso cliente iluminou-se de satisfa��o, e seus olhos brilharam por tr�s de seus �culos enormes.</p><p>� Sempre ouvi dizer que o senhor era um homem muito inteligente � ele disse. � Poderia mostrar-lhe agora, se o senhor tiver tempo.</p><p>� Infelizmente n�o tenho. Mas esses esp�cimes est�o t�o bem identificados e classificados, que dificilmente seria necess�ria a sua explica��o pessoal. Se eu pudesse passar por aqui amanh�, suponho que n�o haveria nenhuma obje��o a que eu os examinasse.</p><p>� De maneira nenhuma. O senhor � muito bem-vindo. Naturalmente, a casa estar� fechada, mas a sra. Saunders fica no por�o at� as 16 horas, e o deixaria entrar com a chave dela.</p><p>� Bem, acontece que estou livre amanh� � tarde. Se o senhor disser uma palavra � sra. Saunders, isto ficaria combinado. A prop�sito, quem � o seu corretor de im�veis?</p><p>Nosso cliente espantou-se com a pergunta.</p><p>� Holloway e Steele, na Edgware Road. Mas por qu�?</p><p>� Eu mesmo sou um pouco arque�logo, quando se trata de casas � disse Holmes, rindo. � Eu estava me perguntando a mim mesmo se esta seria da �poca da rainha Anne ou do estilo georgiano.</p><p>� Georgiano, sem d�vida nenhuma.</p><p>� Realmente. Eu pensei que fosse um pouco anterior. Mas isto pode ser verificado facilmente. Bem, at� logo, sr. Garrideb, e espero que o senhor tenha muito sucesso em sua viagem a Birmingham.</p><p>O corretor imobili�rio ficava perto, mas descobrimos que estava fechado naquele dia, de modo que voltamos a Baker Street. Foi s� depois do jantar que Holmes voltou ao assunto.</p><p>� Nosso probleminha est� chegando ao fim � ele disse. � Voc�, com certeza, j� imaginou a solu��o.</p><p>� Para mim, tudo parece sem p� nem cabe�a.</p><p>� A cabe�a est� bem vis�vel, e os p�s n�s veremos amanh�. Voc� n�o percebeu nada estranho sobre aquele an�ncio?</p><p>� Vi que a palavra arado estava escrita com grafia americana.</p><p>� Oh, voc� notou isto, �? Bem, Watson, voc� est� sempre melhorando. O tip�grafo comp�s o an�ncio do jeito que o recebeu. Depois, buckboards � uma palavra americana, tamb�m. E os po�os artesianos s�o mais comuns entre eles do que entre n�s. Foi um an�ncio tipicamente americano, mas querendo parecer que era de uma firma inglesa. O que voc� acha disso?</p><p>� S� posso imaginar que foi este advogado americano que p�s o an�ncio. Com que objetivo, n�o consigo entender.</p><p>� Bem, h� outras explica��es. De qualquer modo, ele queria fazer com que o bondoso e velho f�ssil fosse at� Birmingham. Isto est� muito claro. Eu poderia ter dito a ele que, evidentemente, sua miss�o n�o teria �xito, mas, pensando melhor, achei que seria conveniente ficar com a �rea livre, deixando-o ir. Amanh�, Watson � bem, o dia de amanh� falar� por si mesmo.</p><empty-line/><p>Holmes levantou-se e saiu cedo. Quando voltou, na hora do almo�o, percebi que seu rosto estava muito sisudo.</p><p>� Este assunto � mais s�rio do que eu esperava, Watson � ele disse. � � justo dizer-lhe isto, embora eu saiba que ser� mais um motivo para voc� arriscar sua cabe�a. Afinal, eu conhe�o bem o meu Watson. Mas h� perigo, e voc� precisava saber disso.</p><p>� Bem, n�o � o primeiro que enfrentamos juntos, Holmes. Espero que n�o seja o �ltimo. Qual � o maior perigo desta vez?</p><p>� Temos de enfrentar um caso muito dif�cil. Identifiquei John Garrideb, o advogado. N�o � outro sen�o o �Matador� Evans, que tem uma fama sinistra de assassino.</p><p>� Acho que isto n�o me� esclareceu nada.</p><p>� Ah! N�o faz parte da sua profiss�o guardar na mem�ria um calend�rio port�til de Newgate. Ontem, fui ver o amigo Lestrade, na Scotland Yard. A Yard pode ter uma car�ncia ocasional de intui��o imaginativa, mas eles s�o l�deres mundiais em mat�ria de efic�cia e m�todo. Achei que podia obter os dados de nosso amigo americano atrav�s dos registros deles. Como pensei, encontrei seu rosto gorducho sorrindo para mim da galeria de retratos de patifes. James Winter, tamb�m chamado Morecroft, tamb�m conhecido como o �Matador� Evans, era o que dizia a identifica��o. Holmes tirou um envelope do bolso. Anotei alguns detalhes do seu dossi�. Idade, 46 anos. Nascido em Chicago. Sabe-se que matou tr�s homens nos Estados Unidos. Escapou da penitenci�ria por meio de influ�ncia pol�tica. Veio para Londres em 1893. Baleou um homem numa mesa de jogo, num clube noturno na estrada Waterloo, em janeiro de 1895. O homem morreu, mas ficou provado que ele havia sido o agressor. O morto foi identificado como Rodger Prescott, famoso trapaceiro e falsificador de moedas de Chicago. Evans, o assassino, foi solto em 1901. Desde ent�o tem estado sob vigil�ncia policial, mas, pelo que se sabe, tem vivido honestamente. Um homem muito perigoso, geralmente carrega armas e est� pronto para us�-las. Este � o nosso p�ssaro, Watson � um p�ssaro de ca�a, voc� deve admitir.</p><p>� Mas qual � o jogo dele?</p><p>� Bem, a coisa come�a a se definir. Estive na ag�ncia imobili�ria. Nosso cliente, como nos contou, est� morando l� h� cinco anos. A casa ficou desocupada durante um ano antes disso. O inquilino anterior era um cavalheiro em geral conhecido como Waldron. No escrit�rio lembravam-se bem da fisionomia de Waldron. Ele havia desaparecido de repente, e ningu�m mais ouviu falar dele. Era um homem alto, barbudo, e muito moreno. Ora, Prescott, o homem que o �Matador� Evans baleou, era, de acordo com a Scotland Yard, um homem alto, moreno, barbudo. Acho que dever�amos aceitar como hip�tese que Prescott, o criminoso americano, morou no mesmo quarto onde o nosso inocente amigo agora tem o seu museu. De modo que, finalmente, temos um elo.</p><p>� E o pr�ximo elo?</p><p>� Bem, agora precisamos procur�-lo.</p><p>Ele tirou um rev�lver da gaveta e me entregou.</p><p>� Tenho o meu velho rev�lver favorito comigo. Se o nosso amigo feroz do oeste tentar fazer jus ao seu apelido, devemos estar preparados. Vou lhe dar uma hora para a sesta, Watson, e depois acho que estar� na hora da nossa aventura na Ryder Street.</p><p>Eram exatamente quatro horas quando chegamos ao curioso apartamento de Nathan Garrideb. A sra. Saunders, a zeladora, estava de sa�da, mas n�o hesitou em nos deixar entrar, porque a porta fecha-se com um trinco de mola, e Holmes prometeu que antes de sair verificaria se estava tudo em ordem. Pouco depois a porta externa foi fechada, vimos o chap�u dela passar em frente � janela, e soubemos que est�vamos sozinhos, no primeiro andar da casa. Holmes examinou rapidamente os aposentos. Havia um guarda-lou�as em um canto escuro e que ficava um pouco afastado da parede. Foi atr�s dele que n�s acabamos nos agachando, enquanto Holmes, num sussurro, fez um resumo de suas inten��es.</p><p>� O �Matador� queria que o nosso am�vel amigo sa�sse do quarto � isto est� muito claro, e como o colecionador nunca sa�a, foi necess�rio um plano para conseguir isto. Aparentemente, toda esta inven��o dos Garrideb n�o tinha outra finalidade. Sou obrigado a dizer, Watson, que h� uma certa ingenuidade sat�nica a�, mesmo que o extravagante nome do inquilino tenha lhe dado uma oportunidade que ele dificilmente teria esperado. Ele tramou seu plano com ast�cia extraordin�ria.</p><p>� Mas o que � que ele pretende?</p><p>� Bem, � isso que queremos descobrir aqui. N�o h� nada a fazer com o nosso cliente por enquanto. � alguma coisa relacionada com o homem que ele assassinou � o homem deve ter sido seu comparsa. H� algum segredo criminoso neste quarto. � assim que eu vejo a coisa. A princ�pio pensei que nosso amigo devia ter na sua cole��o alguma coisa mais valiosa do que ele imaginasse � alguma coisa que merecesse a aten��o de um grande criminoso. Mas, o fato de Rodger Prescott, de triste mem�ria, ter morado nestes aposentos indica algum motivo mais grave. Bem, Watson, n�o h� nada que possamos fazer, a n�o ser ter paci�ncia e ver o que a pr�xima hora nos reservar�.</p><p>Aquela hora n�o custou muito a passar. Nos encolhemos na sombra, aproximando-nos mais um do outro quando ouvimos a porta da rua abrir e fechar. Em seguida ouvimos o ru�do met�lico de uma chave, e o americano estava dentro do quarto. Ele fechou a porta silenciosamente, atr�s dele, olhou em volta com aten��o, para verificar se n�o havia perigo, tirou seu sobretudo e aproximou-se da mesa central como quem sabe exatamente o que tem a fazer e como faz�-lo. Ele arrastou a mesa para um lado, rasgou o quadrado do tapete onde ficava a mesa, enrolou-o, e em seguida, retirando um p�-de-cabra do bolso interno, ajoelhou-se e trabalhou com vigor sobre o assoalho. Naquele momento ouvimos o barulho de t�buas que deslizavam e, um minuto depois, abriu-se um buraco no piso. Evans, o Matador, riscou um f�sforo, acendeu o toco de uma vela e desapareceu de nossas vistas.</p><p>Evidentemente, chegava a nossa vez. Holmes bateu no meu pulso, dando-me um sinal, e juntos nos arrastamos na dire��o da abertura no assoalho. Apesar de nos movermos com cuidado, o velho assoalho deve ter rangido sob os nossos p�s, pois a cabe�a do americano surgiu de repente no espa�o aberto, espreitando ansiosamente em volta. Seu rosto virou-se para n�s, e seus olhos denotavam raiva e frustra��o, suavizando-se, aos poucos, num sorriso envergonhado, quando percebeu que duas pistolas estavam apontadas para a sua cabe�a.</p><p>� Ora, ora � ele disse calmamente, enquanto se arrastava at� a superf�cie. � Acho que dois s�o demais para mim, sr. Holmes. Adivinhou meu jogo, suponho, e me tomou por um bobalh�o desde o in�cio. Bem, senhor, eu me entrego, o senhor me derrotou e...</p><p>Num instante ele havia tirado um rev�lver do peito e disparado dois tiros. Senti um s�bito chamuscar quente, como se um ferro em brasa tivesse sido comprimido contra minha coxa. Ouvi um baque quando a pistola de Holmes desceu sobre a cabe�a do homem. Eu o vi estirado no ch�o, com sangue escorrendo pelo rosto, enquanto Holmes procurava mais armas. Depois os bra�os resistentes do meu amigo ampararam-me e levaram-me at� uma cadeira.</p><p>� Voc� n�o est� ferido, Watson? Por Deus, diga que voc� n�o est� ferido.</p><p>Valia um ferimento � valia muitos ferimentos � conhecer a dimens�o da lealdade e do amor que estavam por tr�s daquela m�scara fria. Os olhos claros e duros ficaram sombrios por um instante, e os l�bios firmes estavam tremendo. Durante um minuto, o �nico, vislumbrei um grande cora��o, bem como uma grande intelig�ncia. Todos os meus anos de servi�os humildes sinceros culminaram naquele momento de revela��o.</p><p>� N�o foi nada, Holmes. � apenas um arranh�o.</p><p>Ele tinha cortado minha cal�a com o seu canivete.</p><p>� Voc� tem raz�o � exclamou ele com um suspiro de al�vio. � � bem superficial. � Seu rosto virou uma pedra enquanto ele olhava com raiva para o nosso prisioneiro, que estava se sentando atordoado. � Por Deus, isto tamb�m � bom para voc�. Se tivesse matado Watson, voc� n�o sairia vivo deste quarto. Agora, senhor, o que tem a dizer em sua defesa?</p><p>Ele n�o tinha nada a dizer em sua defesa. Apenas deitou-se e fez uma cara de poucos amigos. Apoiei-me no bra�o de Holmes, e juntos olhamos para baixo, para dentro do pequeno por�o que havia sido revelado pelo al�ap�o secreto. Ele estava ainda iluminado pela vela que Evans levava para baixo. Demos com os olhos em uma por��o de m�quinas enferrujadas, grandes rolos de papel, uma confus�o de garrafas, e, cuidadosamente arrumados sobre uma pequena mesa, v�rios pacotes pequenos muito bem-feitos.</p><p>� Uma tipografia, um equipamento de fals�rio � disse Holmes.</p><p>� Sim, senhor � disse o nosso prisioneiro, cambaleando, enquanto se levantava e, depois, deixando-se cair numa cadeira. � O maior fals�rio de que Londres teve not�cia. Aquela m�quina de Prescott e aqueles pacotes sobre a mesa eram duas mil notas de Prescott, valendo 100 cada, e prontas para serem passadas em qualquer lugar. Sirvam-se, senhores. Chamem isto de pacto secreto e deixem-me dar o fora.</p><p>Holmes deu uma gargalhada.</p><p>� N�s n�o fazemos coisas desse tipo, sr. Evans. Neste pa�s n�o existe esconderijo seguro para o senhor. Matou esse homem, Prescott, n�o?</p><p>� Sim, senhor, e peguei cinco anos por isso, embora ele � que tivesse me provocado. Cinco anos � quando eu deveria ter recebido uma medalha do tamanho de um prato de sopa. Ningu�m seria capaz de distinguir uma nota Prescott de uma nota do Banco da Inglaterra, e se eu n�o tivesse acabado com ele, ele teria inundado Londres com o seu dinheiro. Eu era a �nica pessoa no mundo que sabia onde ele fazia esse dinheiro. O senhor se admira de que eu quisesse o lugar? E se admira de que, ao encontrar esse louco, esse est�pido, esse ca�ador de insetos, com esse nome esquisito, acocorado bem em cima dele e nunca desocupando os quartos, admira-se de que eu tentasse fazer o m�ximo para obrig�-lo a sair da frente? Talvez eu tivesse sido mais esperto se tivesse dado cabo dele. Teria sido muito f�cil, mas, sou um cara de cora��o mole, que n�o consegue come�ar a atirar, a n�o ser que o outro cara tamb�m tenha uma arma. Mas diga-me, sr. Holmes, o que foi que eu fiz de errado? Eu n�o usei essas m�quinas. Eu n�o feri esse cad�ver ambulante. Do que � que o senhor me acusa?</p><p>� Apenas de tentativa de homic�dio, que eu sabia � disse Holmes. � Mas isso n�o � servi�o nosso. Eles far�o isso na pr�xima etapa. Neste momento, o que queremos � apenas a sua encantadora pessoa. Por favor, Watson, ligue para a Scotland Yard. Eles ficar�o surpresos.</p><p>Portanto, estes s�o os fatos a respeito de Evans, o Matador, e de sua not�vel inven��o dos tr�s Garridebs. Soubemos mais tarde que nosso pobre amigo nunca se refez do choque de seus sonhos desfeitos. Quando o seu castelo no ar desmoronou, enterrou-o sob as ru�nas. Soubemos que ele estava numa cl�nica em Brixton. Foi um dia alegre, na Scotland Yard, quando a tipografia de Prescott foi descoberta, pois, embora eles soubessem de sua exist�ncia, nunca haviam sido capazes, depois da morte do homem, de descobrir onde ela estava. Evans realmente havia prestado um grande servi�o e permitiu que v�rios detetives dormissem mais profundamente o sono merecido, pois o fals�rio � uma classe � parte e um perigo p�blico. Eles teriam contribu�do de bom grado para aquela medalha do tamanho de um prato de sopa que o criminoso havia mencionado, mas um tribunal insens�vel teve uma opini�o menos favor�vel, e o assassino voltou para aquelas trevas das quais acabara de sair.</p><empty-line/></section><section><p><strong>o problema da ponte thor</strong></p><p>Em algum lugar nos cofres do banco Cox e Co., em Charing Cross, existe um ba� de metal, todo amassado e desgastado pelas viagens, destes usados para documentos oficiais, com o meu nome, John H. Watson, M.D., do Ex�rcito Indiano, pintado na tampa. Ele est� abarrotado de pap�is, sendo quase todos registros de casos em que explicamos problemas curiosos que o sr. Sherlock Holmes investigou em diversas ocasi�es. Algumas dessas investiga��es, e n�o as menos interessantes, foram completos fracassos obtusos, e sendo assim, dificilmente poderiam ser narradas, j� que n�o se obteve uma explica��o final. Um problema sem solu��o pode interessar ao estudante, mas dificilmente deixaria de aborrecer o leitor casual. Entre essas hist�rias inacabadas, est� a do sr. James Phillimore, que depois de entrar de novo em casa para apanhar o guarda-chuva, nunca mais foi visto sobre a face da terra. N�o menos interessante � a hist�ria de uma pequena</p><p>embarca��o a vela, Alicia, que, navegando numa manh� de primavera, entrou numa pequena �rea de neblina e jamais saiu, nunca mais se ouviu falar dela ou de sua tripula��o. Um terceiro caso digno de nota � o de Isadore Persano, um conhecido jornalista e duelista que foi encontrado morto com os olhos fixos numa caixa de f�sforos que continha um verme estranho, desconhecido da ci�ncia. Al�m desses casos insond�veis, h� alguns que envolvem segredos particulares de fam�lia numa extens�o que causaria consterna��o em altas esferas, se fosse poss�vel imaginar que eles pudessem ser publicados. N�o preciso dizer que essa quebra de confian�a � impens�vel e que esses registros ser�o separados e destru�dos, agora que o meu amigo tem tempo para dedicar suas energias a esse assunto. Ainda restam muitos casos, de maior ou menor interesse, que eu poderia ter publicado antes se n�o temesse cansar o p�blico, o que poderia refletir-se na reputa��o do homem que eu respeitava acima de todos. Participei de alguns desses casos e posso falar como testemunha ocular, enquanto em outros eu nem estava presente, ou o meu papel foi t�o pequeno que, se eu o narrasse, seria como se fosse narrado por uma terceira pessoa. A narrativa que se segue foi tirada de minha experi�ncia pr�pria.</p><p>Era uma manh� tempestuosa de outubro, e enquanto eu me vestia, observava as �ltimas folhas serem arrancadas, rodopiando ao ca�rem do pl�tano solit�rio que enfeita o p�tio atr�s de nossa casa. Desci para o caf�-da-manh�, preparado para encontrar o meu amigo deprimido, pois, como todos os grandes artistas, ele era facilmente influenciado por aquilo que o cercava. Mas, contr�rio, descobri que ele estava quase acabando de tomar o seu caf�, e que a sua disposi��o de esp�rito estava particularmente brilhante e alegre, com aquela anima��o um tanto sinistra que era caracter�stica de seus momentos mais felizes.</p><p>� Voc� tem algum caso, Holmes? � perguntei.</p><p>� A faculdade de dedu��o certamente � contagiosa, Watson � ele respondeu. � Ela lhe permitiu sondar o meu segredo. Sim, tenho um caso. Ap�s um m�s de trivialidades e estagna��o, as rodas movem-se uma vez mais.</p><p>� Posso participar disso?</p><p>� H� pouca coisa para participar, mas podemos discutir o assunto depois que voc� tiver comido os dois ovos quentes duros com que a nossa nova cozinheira nos obsequiou hoje. O estado dos ovos pode n�o ter nada a ver com o exemplar do romance Family Herald, que vi ontem sobre a mesa do hall. Mesmo assim, um assunto t�o trivial como � o cozinhar um ovo exige aten��o � passagem do tempo, e � incompat�vel com o romance de amor naquele excelente peri�dico.</p><p>Quinze minutos depois a mesa havia sido tirada, e est�vamos sentados frente a frente. Ele tirou uma carta do bolso.</p><p>� Voc� ouviu falar em Neil Gibson, o Rei do Ouro? � ele perguntou.</p><p>� Voc� se refere ao senador americano?</p><p>� Bem, ele j� foi senador por algum estado do oeste; por�m � mais conhecido como o maior magnata da minera��o de ouro do mundo.</p><p>� Sim, ouvi falar dele. Ele viveu na Inglaterra durante algum tempo. Seu nome � muito conhecido.</p><p>� Sim, ele comprou grandes propriedades em Hampshire, h� uns cinco anos. Talvez voc� tenha ouvido falar no fim tr�gico da mulher dele.</p><p>� � claro! Lembro-me disto agora. � por isso que o nome � t�o familiar. Mas, desconhe�o os detalhes.</p><p>Holmes indicou alguns pap�is sobre a cadeira. � Eu n�o podia imaginar que o caso viesse parar nas minhas m�os, do contr�rio j� estaria com a folha corrida pronta � ele disse. � O fato � que o problema, embora sensacional, parece que n�o apresenta nenhuma dificuldade. A personalidade interessante do acusado n�o ofusca a clareza da prova. Esta foi a opini�o dos ju�zes do tribunal de investiga��es, e tamb�m dos autos da pol�cia. O caso agora foi levado ao tribunal do j�ri de Winchester. Temo que seja um neg�cio ingrato. Posso descobrir fatos, Watson, mas n�o posso alter�-los. A menos que surja algum fato inteiramente novo ou inesperado, n�o sei o que meu cliente pode esperar.</p><p>� Seu cliente?</p><p>� Ah, esqueci de lhe contar. Estou pegando sua mania complicada, Watson, de contar uma hist�ria de tr�s para a frente. Voc� deveria ter lido isto primeiro.</p><p>A carta que ele me deu, escrita numa caligrafia n�tida e caprichada, dizia o seguinte:</p><empty-line/><p>CLARIDGE�S HOTEL, 3 de outubro</p><empty-line/><p>CARO sr. SHERLOCK HOLMES,</p><empty-line/><p>N�o posso ver a melhor das mulheres que Deus j� fez ser condenada � morte sem fazer tudo o que for poss�vel para salv�-la. N�o posso explicar os fatos, n�o posso nem mesmo tentar explic�-los, mas sei, fora de qualquer d�vida, que a srta. Dunbar � inocente. O senhor conhece os fatos � quem n�o os conhece? Foi o mexerico no pa�s inteiro. E nunca uma voz se ergueu em sua defesa! � a maldita injusti�a de tudo isto que me enlouquece. Esta mulher tem um cora��o que a impediria de matar uma mosca. Bem, irei amanh� �s 11 horas para ver se o senhor consegue lan�ar algum raio de luz nessa escurid�o. Talvez eu tenha alguma pista e n�o o saiba. De qualquer modo, tudo o que sei, tudo o que tenho e tudo o que sou est�o � sua disposi��o, se o senhor puder salv�-la. Se alguma vez em sua vida o senhor mostrou os seus poderes, use-os agora neste caso.</p><empty-line/><p>Atenciosamente,</p><p>J. Neil Gibson</p><empty-line/><p>� A� est� � disse Sherlock Holmes, batendo as cinzas do cachimbo que costumava fumar ap�s o caf� e enchendo-o novamente devagar. � � este o cavalheiro que estou esperando. Quanto � hist�ria, voc� dificilmente teria tempo de absorver o conte�do de todos estes pap�is, de modo que preciso lhe contar tudo da maneira mais resumida poss�vel, a fim de que possa examinar os autos de um modo inteligente. Este homem representa o maior poder financeiro do mundo, e, pelo que sei, � um homem de um car�ter violento e forte. Ele se casou com uma mulher, a v�tima desta trag�dia, sobre a qual eu nada sei, exceto que ela j� havia passado da juventude, o que era uma infelicidade, j� que uma governanta muito atraente orientava a educa��o de seus filhos pequenos. Estas s�o as tr�s pessoas envolvidas, e o cen�rio � uma magn�fica e antiga casa senhorial, centro de uma herdade hist�rica inglesa. Ent�o, vamos � trag�dia. A esposa foi encontrada nos terrenos da propriedade, a quase 800 metros da casa, tarde da noite, vestida a rigor, com um xale sobre os ombros e uma bala de rev�lver nos miolos. Nenhuma arma foi encontrada perto dela, e quanto ao assassino, n�o encontraram nenhuma pista no local. Nenhuma arma perto dela, Watson � lembre-se disto! Parece que o crime foi cometido tarde da noite, e o corpo foi encontrado por um guarda, por volta das 11 da manh�, quando foi examinado pela pol�cia e por um m�dico, antes de ser carregado para a casa. Est� muito resumido ou voc� est� compreendendo bem?</p><p>� Est� tudo muito claro. Mas por que suspeitar da governanta?</p><p>� Bem, em primeiro lugar, h� alguns ind�cios muito claros. Um rev�lver, com uma c�mara descarregada, e de um calibre que correspondia ao da bala, foi encontrado no fundo do guarda-roupa dela. � Com os olhos fixos, Holmes repetia cada palavra separadamente. � No... fundo... de... seu... guarda-roupa. � Depois ficou em sil�ncio, e percebi que ele havia posto em movimento uma cadeia de pensamentos, e que eu seria tolo se interrompesse. De repente, num �mpeto, ele voltou � vida ativa. � Sim, Watson, ele foi encontrado. Muito comprometedor, hein? Assim pensaram os dois j�ris. Depois, a mulher morta tinha com ela um bilhete marcando um encontro naquele mesmo lugar, e assinado pela governanta. Como pode ser isto? Finalmente, h� o motivo. O senador Gibson � uma pessoa atraente. Se a mulher dele morre, quem estaria mais apta a suced�-la do que a jovem que j� tinha, de acordo com o que se dizia, recebido muitos obs�quios de seu patr�o? Amor, fortuna, poder, tudo dependia de uma vida na meia-idade. Vil, Watson, muito vil!</p><p>� Sim, de fato, Holmes.</p><p>� Ela tamb�m n�o conseguiu apresentar um �libi. Pelo contr�rio, teve de admitir que estava l� embaixo, perto da Ponte Thor � que foi o local da trag�dia � mais ou menos �quela hora. Ela n�o p�de negar isto, porque um alde�o a viu l�.</p><p>� Isto realmente parece decisivo.</p><p>� Por�m, Watson � Por�m! Esta ponte � um simples arco de pedra, com balaustradas laterais � conduz o caminho at� a parte mais estreita de um longo e profundo len�ol d��gua rodeado de juncos. O nome da ponte � Thor Mere. A mulher morta estava no in�cio da ponte. Estes s�o os fatos principais. Mas, se n�o me engano, a� est� o nosso cliente, bem antes da hora marcada.</p><p>Billy abriu a porta, mas o nome que ele anunciou n�o era o que esper�vamos. O sr. Marlow Bates era um desconhecido para n�s. Era um homem insignificante, magro, nervoso, de olhos amedrontados, encolhido e indeciso � um homem que meu olhar de profissional diria estar � beira de um colapso nervoso.</p><p>� O senhor parece agitado, sr. Bates � disse Holmes. � Por favor, sente-se. Posso dispor de pouco tempo para o senhor, porque tenho uma entrevista �s 11 horas.</p><p>� Sei que o senhor tem � murmurou nosso visitante, falando com frases curtas, como algu�m que n�o consegue respirar �, o sr. Gibson est� chegando. O sr. Gibson � o meu patr�o. Sou o administrador de suas propriedades. Sr. Holmes, ele � um vil�o � um vil�o infernal.</p><p>� Que linguagem, sr. Bates.</p><p>� Tenho que ser positivo, sr. Holmes, porque o tempo � t�o curto. Eu n�o quero que ele me encontre aqui por coisa nenhuma deste mundo. Ele est� para chegar. Mas fiquei t�o ocupado que n�o foi poss�vel vir mais cedo. O secret�rio dele, sr. Ferguson, somente me falou da entrevista dele com o senhor esta manh�.</p><p>� E o senhor � o administrador dele?</p><p>� Eu j� lhe dei o aviso pr�vio. Dentro de duas semanas estarei livre dessa maldita escravid�o. Um homem mau, sr. Holmes, mau com todos os que o cercam. Essas caridades p�blicas s�o como um biombo para encobrir todas as suas perversidades particulares. Mas sua esposa foi sua principal v�tima. Ele era brutal com ela � sim, senhor, brutal! Como ela morreu, eu n�o sei, mas tenho certeza de que ele infernizou a vida dela. Ela era uma mulher dos tr�picos, brasileira de nascimento, como o senhor deve saber.</p><p>� N�o; isto me havia escapado.</p><p>� Tropical de nascimento e tropical de natureza. Filha do sol e da paix�o. Ela o amou como estas mulheres podem amar, mas quando os encantos f�sicos dela se acabaram � disseram-me que em outros tempos eles eram muitos � n�o houve nada que o refreasse. Todos n�s gost�vamos dela, t�nhamos pena dela e o odi�vamos pela maneira como a tratava. Mas ele � trai�oeiro e astucioso. Isto � tudo o que tenho a dizer-lhe. N�o o julgue pelas apar�ncias. H� mais coisas por tr�s. Agora vou embora. N�o, n�o, n�o me impe�a de sair. Ele est� quase chegando.</p><p>Olhando assustado para o rel�gio, nosso estranho visitante literalmente correu para a porta e desapareceu.</p><p>� Ora, ora! � disse Holmes, ap�s uma pausa. � O sr. Gibson parece ter uma criadagem muito leal. Mas a informa��o � �til, e agora s� podemos esperar at� que o homem apare�a.</p><p>Exatamente na hora marcada ouvimos passos pesados na escada, e o famoso milion�rio entrou na sala. Assim que o vi, compreendi n�o s� os temores e a antipatia do seu administrador, como tamb�m as maldi��es que tantos rivais nos neg�cios haviam acumulado sobre a sua cabe�a. Se eu fosse um escultor e desejasse idealizar o homem de neg�cios bem-sucedido, com nervos de a�o e uma total falta de consci�ncia, eu escolheria o sr. Neil Gibson como modelo. Sua figura alta, magra e astuta sugeria gan�ncia e voracidade. Um Abraham Lincoln ligado a coisas vis e n�o a coisas superiores daria uma id�ia desse homem. Seu rosto podia ter sido cinzelado em granito, insens�vel, ambicioso, desumano, com sulcos profundos, as cicatrizes de muitas crises. Olhos cinzentos, frios e maliciosos sob as sobrancelhas hirsutas examinaram cada um de n�s. Quando Holmes mencionou meu nome, ele me cumprimentou com a cabe�a, como se n�o tivesse obriga��o de o fazer, e depois, com um jeito altivo e um ar de poder, puxou uma cadeira para perto do meu amigo e sentou-se com os joelhos quase o tocando.</p><p>� Deixe-me dizer-lhe de uma vez, sr. Holmes � ele come�ou �, que para mim, neste caso, o dinheiro nada significa. O senhor pode queim�-lo, se isto ajudar a esclarecer a verdade. Esta mulher � inocente e precisa ser absolvida, e depende do senhor conseguir isto. Fa�a o seu pre�o!</p><p>� Meus honor�rios profissionais est�o baseados numa escala fixa � disse Holmes friamente. � Eu n�o os altero, a n�o ser quando os perd�o totalmente.</p><p>� Bem, se os d�lares n�o fazem diferen�a para o senhor, pense na sua reputa��o. Se o senhor conseguir isto, todos os jornais da Inglaterra e da Am�rica ir�o elogi�-lo. O senhor ser� assunto em dois continentes.</p><p>� Obrigado, sr. Gibson, eu n�o acho que esteja precisando de promo��o. O senhor pode ficar surpreso ao saber que prefiro trabalhar anonimamente, e que � o problema em si que me atrai. Mas, estamos perdendo tempo. Vamos aos fatos.</p><p>� Acho que o senhor encontrar� os fatos principais nos jornais. N�o sei se poderia acrescentar alguma coisa que o ajudasse. Mas se o senhor quiser maiores esclarecimentos a respeito de alguma coisa, bem, estou aqui para d�-los.</p><p>� Bem, h� somente um detalhe.</p><p>� Qual � ele?</p><p>� Quais eram exatamente as rela��es entre o senhor e a senhorita Dunbar?</p><p>O Rei do Ouro estremeceu violentamente e ergueu-se um pouco na cadeira.� Depois recuperou a serenidade.</p><p>� Acredito que o senhor esteja em seu direito � e talvez cumprindo o seu dever � fazendo-me esta pergunta, sr. Holmes.</p><p>� Vamos concordar com esta hip�tese � disse Holmes.</p><p>� Ent�o, posso garantir-lhe que nossas rela��es foram sempre, e apenas, as de um patr�o com uma jovem com quem ele nunca conversava, a n�o ser quando ela estava em companhia dos filhos dele.</p><p>Holmes levantou-se de sua cadeira.</p><p>� Sou um homem muito ocupado, sr. Gibson � ele disse �, e n�o tenho tempo nem gosto por conversas sem objetivo. Desejo-lhe bom-dia.</p><p>Nosso visitante tamb�m se levantara, e sua figura grande e desembara�ada sobressaiu-se acima de Holmes. Havia um brilho de �dio sob aquelas sobrancelhas eri�adas e um pouco de cor em suas faces cavadas.</p><p>� Que diabo o senhor quer dizer com isso, sr. Holmes? O senhor recusa o meu caso?</p><p>� Bem, sr. Gibson, pelo menos eu o estou mandando embora. Pensei que tivesse falado claramente.</p><p>� Suficientemente claro, mas o que h� por tr�s disto? Est� querendo aumentar o pre�o, ou com medo de enfrentar o problema, ou o qu�? Tenho o direito a uma resposta franca.</p><p>� Bem, talvez tenha � disse Holmes. � Eu vou dar-lhe esta resposta. Este caso j� � suficientemente complicado para se come�ar, sem as dificuldades adicionais de informa��es falsas.</p><p>� O senhor est� querendo dizer que eu menti.</p><p>� Bem, eu estava tentando dizer isso da maneira mais delicada poss�vel, mas se o senhor insiste nessa palavra, n�o vou contradiz�-lo.</p><p>Levantei-me de um salto, pois a express�o no rosto do milion�rio era sat�nica em sua intensidade, e ele erguera o punho de um jeito amea�ador. Holmes sorriu languidamente e esticou a m�o para pegar seu cachimbo.</p><p>� N�o seja barulhento, sr. Gibson. Sei que, ap�s o caf�-da-manh�, at� a menor discuss�o � perturbadora. Acho que um passeio no ar da manh� e uma reflex�o tranq�ila ser�o muito ben�ficos para o senhor.</p><p>Com esfor�o, o Rei do Ouro controlou sua f�ria. S� pude admir�-lo, pois com um supremo dom�nio sobre si mesmo ele havia, em um minuto, passado do �dio inflamado � indiferen�a fria e desdenhosa.</p><p>� Bem, � a sua op��o. Suponho que o senhor saiba dirigir seus pr�prios neg�cios. N�o posso faz�-lo tratar do caso contra a sua vontade. Esta manh� o senhor n�o fez nenhum bem a si mesmo, sr. Holmes, pois eu j� venci homens mais fortes do que o senhor. Nenhum homem jamais se op�s a mim e levou a melhor.</p><p>� Muitos disseram isto, e mesmo assim estou aqui � disse Holmes, sorrindo. � Bem, bom-dia, sr. Gibson. O senhor ainda tem muito o que aprender.</p><p>Nosso visitante saiu ruidosamente, mas Holmes continuou fumando num sil�ncio imperturb�vel, com os olhos sonhadores fixos no teto.</p><p>� Qual � a sua opini�o, Watson?</p><p>� Bem, Holmes, devo confessar que quando penso que este � um homem que certamente afastaria qualquer obst�culo do seu caminho, e quando me lembro que a mulher dele pode ter sido um obst�culo e um alvo de desagrado, como aquele homem, Bates, nos contou, parece-me que...</p><p>� Exatamente. E a mim tamb�m.</p><p>� Mas quais eram as suas rela��es com a governanta, e como voc� as descobriu?</p><p>� Blefe, Watson, blefe! Quando analisei o tom apaixonado e nada formal de sua carta, diferente de uma carta de neg�cios, e o comparei com o seu jeito e seu aspecto reservados, ficou claro que havia uma profunda emo��o que se centrava mais na mulher acusada do que na v�tima. � necess�rio compreender as rela��es verdadeiras entre essas tr�s pessoas para podermos chegar � verdade. Voc� viu o ataque frontal que lhe fiz, e como ele o recebeu do modo imperturb�vel. Ent�o blefei para dar-lhe a impress�o de que eu estava absolutamente certo, quando, na verdade, eu estava apenas suspeitando.</p><p>� Ser� que ele volta?</p><p>� � certo que ele voltar�. Ele precisa voltar. Ele n�o pode deixar as coisas como est�o. Ah! n�o � a campainha? Sim, ou�o seus passos. Ora, sr. Gibson, eu estava justamente dizendo ao dr. Watson que o senhor estava um pouco atrasado.</p><p>O Rei do Ouro havia voltado � sala com uma disposi��o mais conciliadora do que quando saiu. Seu orgulho ferido ainda transparecia em seus olhos ressentidos, mas seu bom senso lhe mostrara que precisava se sujeitar, se quisesse atingir seu objetivo.</p><p>� Estive refletindo sobre o assunto, sr. Holmes, e percebi que fui precipitado ao interpretar erroneamente as suas observa��es. O senhor tem motivos para ir direto aos fatos, quaisquer que eles sejam, e eu o respeito mais por isso. Mas, posso assegurar-lhe que as minhas rela��es com a senhorita Dunbar realmente n�o t�m nada a ver com este caso.</p><p>� Isto cabe a mim decidir, n�o �?</p><p>� Sim, suponho que seja assim. O senhor � como um cirurgi�o que quer saber todos os sintomas antes de fazer o diagn�stico.</p><p>� Exatamente. � o que o senhor acaba de dizer. E s� um paciente que tenha o objetivo de enganar seu cirurgi�o ocultaria a realidade de seu caso.</p><p>� Pode ser assim, mas o senhor deve admitir, sr. Holmes, que a maioria dos homens se acanha um pouco quando lhe perguntam, sem rodeios, qual o tipo de rela��o que ele tem com uma mulher � quando h� realmente algum sentimento verdadeiro no caso. Imagino que a maioria dos homens tenha um cantinho particular em suas almas, onde os intrusos n�o s�o bem-vindos. E o senhor de repente intrometeu-se a�. Mas, o objetivo o desculpa, desde que seja para julgar e tentar salv�-la. Bem, as apostas est�o sobre a mesa e a alma aberta, e o senhor pode explor�-la onde quiser. O que � que o senhor deseja?</p><p>� A verdade.</p><p>O Rei do Ouro fez uma pausa, como algu�m que p�e os pensamentos em ordem. Seu rosto carrancudo e marcado por rugas ficou ainda mais sombrio e grave.</p><p>� Posso resumi-la em poucas palavras, sr. Holmes � ele disse finalmente. � H� algumas coisas dolorosas e tamb�m dif�ceis de dizer, de maneira que n�o irei me aprofundar mais do que o necess�rio. Conheci minha mulher quando estive no Brasil � procura de ouro. Maria Pinto era filha de um funcion�rio do governo em Manaus e era muito bonita. Naquela �poca eu era jovem e ardente, mas mesmo agora, quando olho para tr�s com o sangue mais frio e o olhar mais cr�tico, posso ver que sua beleza era rara e maravilhosa. Tinha tamb�m uma natureza profundamente rica, apaixonada, dedicada, tropical, impulsiva, muito diferente das mulheres americanas que eu havia conhecido. Bem, para encurtar a hist�ria, fiquei apaixonado e casei-me com ela. Foi s� quando o amor acabou � e durou anos � que compreendi que n�o t�nhamos nada � absolutamente nada � em comum. Meu amor desapareceu. Se o dela tivesse desaparecido tamb�m, teria sido mais f�cil. Mas, o senhor sabe como s�o as mulheres! Nada do que eu fazia era suficiente para afast�-la de mim. Se fui �spero com ela, at� mesmo brutal, como disseram alguns, foi porque eu sabia que se pudesse matar o seu amor, ou se ele se transformasse em �dio, seria mais f�cil para n�s dois. Mas, nada a modificou. Ela me amava nos bosques ingleses como havia me adorado h� vinte anos atr�s, �s margens do Amazonas. N�o importava o que eu fizesse, ela continuava devotada como sempre.</p><p>� Ent�o chegou a senhorita Grace Dunbar. Ela respondeu ao nosso an�ncio e tornou-se a governanta de nossos dois filhos. Talvez o senhor tenha visto seu retrato nos jornais. O mundo inteiro tem afirmado que ela tamb�m � uma mulher muito bonita. Ora, n�o tenho pretens�o de ser mais moralista do que meus vizinhos e vou admitir para o senhor que eu n�o podia viver sob o mesmo teto que esta mulher, em contato di�rio com ela, sem sentir uma venera��o ardente por ela. O senhor me censura por isso, sr. Holmes?</p><p>� N�o o censuro por sentir isso. Deveria censur�-lo se o senhor manifestasse isso, j� que, de certa forma, a jovem estava sob sua prote��o.</p><p>� Bem, talvez � disse o milion�rio, embora por um momento a censura tivesse feito surgir em seus olhos o velho brilho de �dio. � N�o estou pretendendo parecer melhor do que sou. Creio que durante toda a minha vida fui um homem que tentava conseguir o que queria, e nunca desejei nada mais do que o amor e a posse dessa mulher. Disse-lhe isso.</p><p>� Oh, o senhor fez isso, n�o?</p><p>Holmes podia parecer terr�vel quando tinha a inten��o.</p><p>� Disse-lhe que se pudesse me casar com ela eu o faria, mas, que isto estava fora da minha possibilidade. Disse que dinheiro n�o era problema, e faria o que fosse poss�vel para v�-la feliz e confort�vel.</p><p>� Muito generoso, com certeza � disse Holmes com um sorrido sarc�stico.</p><p>� Veja, sr. Holmes. Vim procur�-lo por uma quest�o de evid�ncia, e n�o por uma quest�o de moral. N�o estou pedindo suas cr�ticas.</p><p>� De qualquer modo, � s� em considera��o � jovem que vou tratar deste caso � disse Holmes com rispidez. � N�o sei se alguma coisa de que ela � acusada �, realmente, pior do que isso que o senhor mesmo admitiu, que o senhor tentou arruinar uma mo�a indefesa que estava sob o seu teto. Alguns de voc�s, homens ricos, precisam aprender que o mundo todo n�o pode ser subornado para fechar os olhos aos seus crimes.</p><p>Para minha surpresa, o Rei do Ouro recebeu a reprimenda com serenidade.</p><p>� � assim que me sinto em rela��o a isto agora. Agrade�o a Deus que os meus planos n�o tenham se concretizado da maneira que eu pretendia. Ela n�o aceitou nada que eu propus, e quis deixar a casa imediatamente.</p><p>� Por que n�o o fez?</p><p>� Bem, em primeiro lugar, outras pessoas dependiam dela, e n�o era f�cil para ela deix�-las em dificuldades, sacrificando suas vidas. Depois que eu jurei � como o fiz � que ela n�o seria molestada novamente, ela consentiu em ficar. Mas, havia outro motivo. Ela sabia da influ�ncia que exercia sobre a minha pessoa, e que ela era mais forte do que qualquer outra influ�ncia no mundo. Ela queria usar isto para o bem.</p><p>� Como?</p><p>� Bem, ela sabia alguma coisa a respeito de meus neg�cios. Eles s�o vastos, sr. Holmes � muito al�m daquilo que um homem comum poderia imaginar. Posso construir ou destruir. E geralmente destruo. E n�o somente pessoas. Foram comunidades, cidades, at� na��es. � um jogo duro, e os fracos s�o postos de lado. Eu jogava por tudo que valesse a pena. Jamais gritava de dor e nunca me preocupava se os outros gritassem. Mas, ela via isso de maneira diferente. Acho que ela estava certa. Ela acreditava e dizia que a fortuna de um homem que fosse maior do que ele necessitasse n�o deveria ser constru�da sobre a ru�na de 10 mil homens deixados sem meios de sobreviv�ncia. Era assim que ela pensava, e creio que ela podia ver al�m dos d�lares, e se preocupava com alguma coisa mais duradoura. Ela descobriu que eu ouvia o que ela dizia e acreditava que estava servindo ao mundo, influenciando minhas a��es. De modo que ela ficou � e foi ent�o que tudo aconteceu.</p><p>� O senhor pode esclarecer isto?</p><p>O Rei do Ouro fez uma pausa de um minuto mais ou menos, a cabe�a entre as m�os, perdido em pensamentos.</p><p>� Est� tudo contra ela. N�o posso negar isto. As mulheres t�m uma vida interior e podem fazer coisas que fogem ao julgamento de um homem. A princ�pio eu estava t�o confuso e perplexo que cheguei a pensar que ela tivesse se conduzido de maneira excepcional e contr�ria � sua natureza. Ocorreu-me uma poss�vel explica��o. Vou dizer-lhe qual foi, sr. Holmes, pelo que ela vale. N�o h� d�vida de que minha esposa era terrivelmente ciumenta. Existe um ci�me da alma que pode ser t�o furioso quanto qualquer ci�me do corpo, e embora minha mulher n�o tivesse motivo � acho que sabia disso � para este �ltimo ela percebia que esta mo�a inglesa exercia sobre a minha mente e minhas a��es uma influ�ncia que ela nunca teve. Era uma influ�ncia para o bem, mas isto n�o melhorava a situa��o. Ela estava louca de �dio, e o calor da Amaz�nia estava sempre em seu sangue. Ela pode ter planejado assassinar a srta. Dunbar � ou, dir�amos, amea��-la com uma arma e assim amedront�-la para que fosse embora. Ent�o pode ter havido uma alterca��o, e a arma disparou e feriu a mulher que a segurava.</p><p>� Esta possibilidade j� me ocorreu � disse Holmes. � De fato, � a �nica alternativa �bvia para assassinato premeditado.</p><p>� Mas ela negou isto terminantemente.</p><p>� Ora, isto n�o � definitivo, �? Pode-se compreender que uma mulher colocada em uma situa��o t�o terr�vel tivesse corrido para casa, e no seu atordoamento continuasse segurando o rev�lver. Ela poderia at� mesmo t�-lo jogado no meio de suas roupas, sem saber direito o que estava fazendo, e quando a arma fosse encontrada, ela poderia tentar esconder seu envolvimento com uma negativa total, j� que toda a explica��o era imposs�vel. O que h� contra esta hip�tese?</p><p>� A pr�pria srta. Dunbar.</p><p>� Bem, talvez.</p><p>Holmes olhou para o rel�gio. � Tenho certeza de que conseguiremos as autoriza��es necess�rias esta manh�, e poderemos chegar a Winchester no trem da tarde. Quando eu tiver me avistado com essa jovem, � bem poss�vel que eu venha a ser mais �til para o senhor no caso, embora eu n�o possa prometer que minhas conclus�es ser�o necessariamente as que o senhor deseja.</p><p>Houve uma certa demora na obten��o do passe oficial, e em vez de chegarmos a Winchester naquele dia, fomos at� Thor Place, a propriedade do sr. Neil Gibson em Hampshire. Ele n�o nos acompanhou, mas t�nhamos o endere�o do sargento Coventry, da pol�cia local, o primeiro a investigar o caso. Era um homem alto, magro, cadav�rico, com um jeito reservado e misterioso, o que fazia supor que ele soubesse ou suspeitasse de muito mais do que se atrevia a dizer. Ele tamb�m usava um truque, o de baixar de repente a voz at� um sussurro, como se tivesse descoberto algo de import�ncia vital, embora a informa��o geralmente fosse sem import�ncia. Por tr�s desses truques ele logo demonstrou ser um sujeito decente e honesto, que n�o era orgulhoso demais para admitir que estava longe do seu elemento, e que receberia de bom grado qualquer ajuda.</p><p>� De qualquer modo, prefiro o senhor � Scotland Yard, sr. Holmes � ele disse. � Se a Scotland Yard � chamada para investigar um caso, ent�o a pol�cia local perde todo o m�rito pelo sucesso e pode ser censurada por falhar. J� o senhor, tenho ouvido dizer que joga limpo.</p><p>� Eu n�o preciso, absolutamente, aparecer de modo algum � disse Holmes, para o evidente al�vio de nosso melanc�lico conhecido. � Se eu conseguir esclarecer o assunto, n�o pe�o para mencionarem meu nome.</p><p>� Bem, isto � muita generosidade de sua parte. E sei que se pode confiar no seu amigo, o dr. Watson. Agora, sr. Holmes, enquanto caminhamos at� o local, h� uma pergunta que eu gostaria de lhe fazer. Eu n�o diria isso a mais ningu�m. � Ele olhou em volta como se n�o ousasse proferir as palavras. � O senhor n�o acha que o pr�prio sr. Neil Gibson poderia ser acusado?</p><p>� Andei analisando isto.</p><p>� O senhor ainda n�o viu a srta. Dunbar. � uma mulher maravilhosa e admir�vel em todos os aspectos. Ele pode ter desejado que a sua mulher sa�sse do caminho. E esses americanos s�o mais r�pidos com pistolas do que a nossa gente daqui. Foi a pistola dele, o senhor sabe.</p><p>� Isto ficou totalmente comprovado?</p><p>� Sim, senhor. Foi uma pistola de um par que ele tinha.</p><p>� Uma de um par? Onde est� a outra?</p><p>� Bem, o cavalheiro tem uma grande quantidade de armas de fogo de um tipo ou de outro. N�s nunca fizemos uma compara��o exata daquela pistola em particular � mas a caixa foi feita para duas.</p><p>� Se � uma de um par, voc�s com certeza teriam condi��es de compar�-las.</p><p>� Bem, est�o todas l� na casa, se o senhor quiser examin�-las.</p><p>� Mais tarde, talvez. Acho melhor darmos uma espiada no local da trag�dia.</p><p>Esta conversa teve lugar na pequena sala da frente do chal� humilde do sargento Coventry, que servia de delegacia de pol�cia. Uma caminhada de mais ou menos 800 metros por um capinzal varrido pelo vento, em tons de ouro e bronze com as samambaias definhando devido ao outono, levou-nos a um port�o lateral que dava no terreno da herdade Thor Place. Uma trilha conduziu-nos atrav�s de reservas de fais�es e depois de uma clareira avistamos a ampla casa de estilo metade Tudor e metade georgiano no alto da colina. Perto de n�s havia um largo comprido repleto de juncos, estreito no centro, onde passava o principal caminho de carruagens sobre uma ponte de pedras, mas crescendo e transformando-se, de cada lado, em pequenos lagos. Nosso guia parou na entrada da ponte e apontou para o ch�o.</p><p>� Era aqui que estava o corpo da sra. Gibson. Usei aquela pedra como ponto de refer�ncia.</p><p>� Ent�o o senhor esteve no local antes que o corpo fosse removido?</p><p>� Sim, mandaram me chamar imediatamente.</p><p>� Quem o chamou?</p><p>� O pr�prio sr. Gibson. Quando foi dado o alarme, saiu correndo da casa com outras pessoas e insistiu em que nada fosse removido at� que a pol�cia chegasse.</p><p>� Isto foi sensato. Fiquei sabendo pelas reportagens dos jornais que o tiro foi dado de perto.</p><p>� Sim, senhor, de muito perto.</p><p>� Perto da fronte direita?</p><p>� Bem atr�s dela, senhor.</p><p>� Em que posi��o estava o corpo?</p><p>� De costas, senhor. Nenhum vest�gio de luta. Nenhuma pegada. Nenhuma arma. O bilhete da srta. Dunbar estava preso dentro de sua m�o esquerda.</p><p>� Preso, diz voc�?</p><p>� Sim, senhor, tivemos muita dificuldade para conseguir abrir os dedos.</p><p>� Isto � muito importante. Exclui a id�ia de que algu�m pudesse ter colocado o bilhete ali depois da morte a fim de fornecer uma pista falsa. Deus meu! O bilhete, como me recordo, era muito curto. �Estarei na Ponte Thor �s nove da noite � G. Dunbar.� N�o foi assim?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� A srta. Dunbar admitiu que escreveu o bilhete?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� Qual foi sua explica��o?</p><p>� Sua defesa foi reservada para o tribunal. Ela n�o quis dizer nada.</p><p>� O problema � bem interessante. A quest�o da carta � muito misteriosa, n�o �?</p><p>� Bem, senhor � disse o guia �, parecia, se � que eu posso me atrever a afirmar isso, o �nico ponto realmente claro em todo o caso.</p><p>Holmes sacudiu a cabe�a.</p><p>� Supondo que a carta seja aut�ntica e que tenha realmente sido escrita, com toda a certeza foi recebida algum tempo antes, digamos uma ou duas horas. Ent�o, por que esta senhora ainda estava com ela na m�o esquerda? Por que a levava com tanto cuidado? Ela n�o tinha necessidade de referir-se � carta durante o encontro. Isto n�o parece estranho?</p><p>� Bem, senhor, da maneira como o senhor fala, talvez pare�a.</p><p>� Gostaria de ficar sentado tranq�ilamente durante alguns minutos e refletir sobre os fatos. � Ele sentou-se sobre a borda de pedra da ponte, e eu pude ver os seus vivos olhos cinzentos observando as �reas em volta. De repente ele se levantou e correu em dire��o ao parapeito do lado oposto, tirou rapidamente sua lente do bolso e come�ou a examinar os relevos das pedras.</p><p>� Isto � curioso � ele disse.</p><p>� Sim, senhor; vimos a lasca de pedra na borda. Suponho que tenha sido feita por algum transeunte.</p><p>A borda de pedra era cinzenta, mas neste ponto estava branca num espa�o n�o maior que uma moeda. Quando examinada de perto, notava-se que a superf�cie estava lascada, como se tivesse sido golpeada por algo afiado.</p><p>� Foi preciso certa viol�ncia para fazer isto � disse Holmes, pensativo. Com sua bengala ele golpeou o parapeito v�rias vezes sem deixar marca. � Sim, foi uma pancada forte. Num lugar curioso, tamb�m. E n�o veio de cima, mas de baixo, porque voc� v� que est� na borda inferior do parapeito.</p><p>� Mas est� distante, a pelo menos 4 metros do corpo.</p><p>� Sim, est� a 4 metros do corpo. Pode n�o ter nada a ver com o caso, mas � um detalhe que merece aten��o. Acho que n�o temos nada mais que nos interesse aqui. Voc� disse que n�o havia pegadas?</p><p>� O ch�o estava duro como ferro, senhor. N�o havia nenhuma marca.</p><p>� Ent�o podemos ir. Vamos primeiramente at� a casa e examinaremos as armas sobre as quais voc� falou. Depois continuaremos at� Winchester, porque eu gostaria de falar com a srta. Dunbar antes de continuar as investiga��es.</p><p>O sr. Neil Gibson ainda n�o voltara da cidade, mas vimos na casa o neur�tico sr. Bates, que nos visitara pela manh�. Ele nos mostrou, com um prazer sinistro, a formid�vel cole��o de armas de fogo de v�rios formatos e tamanhos, que o seu patr�o havia acumulado ao longo de uma vida de aventuras.</p><p>� O sr. Gibson tem seus inimigos, como qualquer pessoa que o conhe�a e conhe�a seus m�todos poderia imaginar � ele disse. � Ele dorme com um rev�lver carregado na gaveta, ao lado de sua cama. � um homem violento, senhor, e h� ocasi�es em que todos n�s temos medo dele. Tenho certeza de que a pobre senhora que morreu estava sempre aterrorizada.</p><p>� O senhor alguma vez testemunhou viol�ncias f�sicas contra ela?</p><p>� N�o, n�o posso dizer isto. Mas ouvi palavras que eram quase t�o perversas � palavras de desprezo frio e mordaz, at� mesmo diante dos criados.</p><p>� Nosso milion�rio n�o parece se distinguir na sua vida particular � observou Holmes enquanto caminh�vamos para a esta��o. � Bem, Watson, fizemos progressos com muitos fatos concretos, alguns deles novos, mas, mesmo assim, parece que estou longe de chegar a uma conclus�o. Apesar da antipatia evidente que o sr. Bates sente por seu patr�o, obtive dele a informa��o de que quando o alarme tocou, ele estava sem d�vida na sua biblioteca. O jantar acabou �s 20:30h, e at� a� tudo estava normal. � verdade que o alarme foi dado um pouco tarde, � noite, mas a trag�dia com certeza ocorreu por volta da hora mencionada no bilhete. N�o h�, absolutamente, qualquer prova de que o sr. Gibson tenha estado fora de casa desde o seu retorno da cidade, �s 17 horas. Por outro lado, a srta. Dunbar, segundo entendi, admite que marcou um encontro com a sra. Gibson na ponte. Ela n�o diz nada al�m disso, j� que seu advogado aconselhou-a a deixar sua defesa para ser feita no tribunal. Temos muitas perguntas essenciais para fazer a esta jovem e n�o ficarei tranq�ilo enquanto n�o falar com ela. Reconhe�o que as suspeitas contra ela me pareceriam muito fortes, se n�o fosse por uma coisa.</p><p>� E que coisa � essa, Holmes?</p><p>� A descoberta da pistola no seu arm�rio.</p><p>� Valha-me Deus, Holmes! � gritei � Este me parece o mais comprometedor de todos os fatos.</p><p>� N�o tanto, Watson. Isto me impressionou, mesmo durante meu primeiro estudo rotineiro, por ser muito estranho, e agora que estou em contato mais direto com o caso, � minha �nica base s�lida para a esperan�a. Precisamos procurar coer�ncia. Onde houver car�ncia disto, devemos suspeitar de fraude.</p><p>� Eu n�o estou entendendo.</p><p>� Bem, Watson, suponha por um momento que n�s o visualizamos na figura de uma mulher, que, de maneira fria e premeditada, est� prestes a se livrar de uma rival. Voc� planejou isto. Um bilhete foi escrito. A v�tima apareceu. Voc� tem a sua arma. O crime � consumado. O crime foi perfeito e completo. Voc� acha poss�vel que, ap�s executar um crime t�o astucioso, voc� iria agora arruinar sua reputa��o de criminoso, esquecendo-se de jogar sua arma naqueles canteiros de juncos ao lado, que a esconderiam para sempre, e voc� precisaria lev�-la com cuidado para casa e guard�-la em seu pr�prio arm�rio, o primeiro lugar em que seria procurada? Seus melhores amigos dificilmente o considerariam um bom planejador, Watson, e, mesmo assim, eu n�o conseguiria imagin�-lo fazendo algo t�o grosseiro como isto.</p><p>� Na emo��o do momento...</p><p>� N�o, n�o, Watson, n�o vou admitir que isto seja poss�vel. Quando um crime � friamente premeditado, os meios de encobri-lo tamb�m s�o friamente premeditados. Espero, portanto, que estejamos diante de um grave engano.</p><p>� Mas h� muita coisa para ser explicada.</p><p>� Bem, vamos come�ar a explicar. Quando voc� muda uma vez seu ponto de vista, a mesma prova que condenava transforma-se em pista para se chegar � verdade. Por exemplo, h� o rev�lver. A srta. Dunbar nega o conhecimento da arma. Em nossa nova hip�tese, ela est� dizendo a verdade quando afirma isso. Portanto, ela foi colocada em seu guarda-roupa. Quem a colocou l�? Algu�m que queria incrimin�-la. N�o seria essa pessoa o verdadeiro criminoso? Voc� v� que chegamos imediatamente a uma linha de investiga��o mais promissora.</p><p>Fomos obrigados a passar a noite em Winchester, porque as formalidades ainda n�o haviam sido conclu�das, mas na manh� seguinte, em companhia do sr. Joyce Cummings, o advogado que estava encarregado da defesa, foi-nos permitido ver a jovem dama em sua cela. Eu esperava, por tudo que ouvira, encontrar uma mulher bonita, mas nunca esquecerei a impress�o que a srta. Dunbar me causou. N�o � de admirar que mesmo o altivo milion�rio tivesse encontrado nela alguma coisa mais poderosa do que ele mesmo � alguma coisa que podia control�-lo e gui�-lo. Sentia-se, tamb�m, quando se olhava para aquele rosto en�rgico, de contornos bem delineados mas sens�vel, que, mesmo que ela fosse capaz de algumas a��es impetuosas, havia uma nobreza de car�ter inata, que a faria influenciar sempre para o bem. Ela era morena, alta, com um porte nobre e uma presen�a imponente, mas seus olhos escuros exibiam a express�o impotente da criatura perseguida, que sente as redes � sua volta, mas n�o consegue ver como escapar da armadilha. Agora, ao perceber a presen�a e a ajuda de meu amigo famoso, um toque de cor surgiu em suas faces descoradas, e uma luz de esperan�a come�ou a brilhar tenuemente no olhar que nos dirigiu.</p><p>� Talvez o sr. Neil Gibson tenha lhe falado alguma coisa sobre o que ocorreu entre n�s � ela disse em voz baixa e aflita.</p><p>� Sim � afirmou Holmes �, n�o precisa se afligir entrando nesta parte da hist�ria. Depois de v�-la estou pronto a aceitar a declara��o do sr. Gibson, quanto � influ�ncia que a senhorita exercia sobre ele e quanto � inoc�ncia de suas rela��es com ele. Mas por que esta situa��o toda n�o foi exposta claramente no tribunal?</p><p>� Parecia-me inacredit�vel que semelhante acusa��o pudesse ser sustentada. Pensei que, se esper�ssemos, tudo deveria se esclarecer sem que f�ssemos obrigados a entrar em detalhes dolorosos da vida �ntima da fam�lia. Mas percebo que, longe de melhorar, as coisas ficaram ainda mais graves.</p><p>� Minha cara jovem � exclamou Holmes com sinceridade �, pe�o-lhe que n�o tenha ilus�es sobre a quest�o. O sr. Cummings aqui lhe asseguraria que todas as cartas est�o neste momento contra a senhorita, e que precisamos fazer tudo o que for poss�vel, se quisermos a absolvi��o. Seria uma fraude cruel fingir que a senhorita n�o est� correndo um perigo muito grande. D�-me toda a ajuda que puder, ent�o, para chegarmos � verdade.</p><p>� N�o ocultarei nada.</p><p>� Fale-nos, ent�o, sobre suas verdadeiras rela��es com a esposa do sr. Gibson.</p><p>� Ela me odiava, sr. Holmes. Odiava-me com todo o ardor de sua natureza tropical. Era uma mulher que n�o faria nada pela metade, e a medida de seu amor pelo seu marido era tamb�m a medida de seu �dio por mim. � prov�vel que ela tenha compreendido mal nossas rela��es. Eu n�o pretendia ofend�-la, mas ela amava t�o intensamente num sentido f�sico, que dificilmente poderia compreender a comunh�o mental e mesmo espiritual que unia seu marido a mim, ou imaginar que era somente o meu desejo de influenciar seu poder para o bem que me prendia sob o seu teto. Posso ver agora que eu estava errada. Nada podia justificar minha perman�ncia se eu era a causa da infelicidade, mas com certeza a infelicidade teria continuado mesmo se eu tivesse sa�do da casa.</p><p>� Agora, srta. Dunbar � disse Holmes �, pe�o-lhe que nos conte exatamente o que ocorreu naquela tarde.</p><p>� Posso contar-lhe a verdade, sr. Holmes, at� o ponto em que a conhe�o, mas n�o estou em condi��es de provar nada, e h� fatos � os mais importantes � que n�o posso explicar e nem imaginar qualquer explica��o para eles.</p><p>� Se voc� encontrar estes fatos, outros podem encontrar a explica��o.</p><p>� Quanto � minha presen�a na Ponte Thor naquela noite, recebi de manh� um bilhete da sra. Gibson. Estava na mesa da sala de aula, e pode ter sido deixado l� por ela mesma. O bilhete implorava-me para ir v�-la na ponte depois do jantar, e dizia que tinha uma coisa importante para dizer e pedia-me para deixar uma resposta no rel�gio de sol, no jardim, porque ela n�o queria que ningu�m soubesse do nosso segredo. Eu n�o via motivo para este mist�rio, mas fiz o que ela pediu, concordando com o encontro. Ela pediu-me para destruir seu bilhete, e eu o queimei na lareira da sala de aula. Tinha muito medo do marido, que a tratava com uma severidade pela qual eu freq�entemente o repreendia, e s� podia imaginar que ela agia dessa maneira porque n�o queria que ele soubesse da nossa conversa.</p><p>� Mas ela guardou sua resposta com muito cuidado.</p><p>� Sim. Fiquei surpresa ao saber que ela estava com o bilhete na m�o quando morreu.</p><p>� Bem, ent�o, o que foi que aconteceu?</p><p>� Fui ao seu encontro, como havia prometido. Quando cheguei � ponte, ela estava me esperando. At� aquele momento eu n�o tinha percebido como aquela pobre criatura me odiava. Ela parecia uma louca � realmente, penso que ela era uma mulher louca, louca de maneira sutil, com aquela desilus�o profunda que as pessoas loucas podem sentir. Como ela podia me encontrar todos os dias com um jeito despreocupado e mesmo assim nutrir por mim, em seu cora��o, uma raiva t�o grande? N�o vou repetir o que ela disse. Ela despejou toda a sua f�ria selvagem com palavras ardentes e terr�veis. Eu nem ao menos respondi � n�o consegui. Foi terr�vel v�-la. Pus as m�os nos ouvidos e sa� correndo. Quando fui embora ela estava em p� na entrada da ponte, ainda gritando suas maldi��es para mim.</p><p>� No mesmo lugar em que foi encontrada depois?</p><p>� A� alguns metros do local.</p><p>� Mas, supondo que ela tenha morrido pouco depois que a senhorita foi embora, n�o ouviu nenhum tiro?</p><p>� N�o, n�o ouvi nada. Mas, na verdade, sr. Holmes, eu estava t�o agitada e horrorizada com aquele terr�vel arrebatamento, que sa� correndo para voltar � paz do meu quarto, e seria incapaz de perceber qualquer coisa que acontecesse.</p><p>� Voc� afirma que voltou ao seu quarto. Voc� saiu novamente de seu quarto antes da manh� seguinte?</p><p>� Sim, quando chegou o aviso de que aquela criatura estava morta, sa� correndo junto com os outros.</p><p>� A senhorita viu o sr. Gibson?</p><p>� Sim, ele acabava de voltar da ponte, quando o vi. Tinha mandado chamar o m�dico e a pol�cia.</p><p>� Ele lhe pareceu muito perturbado?</p><p>� O sr. Gibson � um homem muito forte e muito controlado. Eu n�o creio que ele demonstrasse suas emo��es. Mas eu, que o conhecia t�o bem, podia ver que ele estava profundamente abalado.</p><p>� Vamos agora �quele detalhe t�o importante. A pistola que foi encontrada no seu quarto. A senhorita j� a vira antes?</p><p>� Nunca, juro.</p><p>� Quando foi encontrada?</p><p>� Na manh� seguinte, quando a pol�cia fez a investiga��o.</p><p>� No meio das suas roupas?</p><p>� Sim, embaixo, no meu guarda-roupa, sob os meus vestidos.</p><p>� N�o tem id�ia de quanto tempo a pistola permaneceu l�?</p><p>� N�o estava l� na manh� anterior.</p><p>� Como sabe?</p><p>� Porque arrumei o guarda-roupa.</p><p>� Isto � decisivo. Ent�o algu�m entrou em seu quarto e colocou l� a pistola, a fim de incrimin�-la.</p><p>� Deve ter sido isso.</p><p>� E quando?</p><p>� S� poderia ter sido na hora das refei��es ou nas horas em que eu estava na sala de aula com as crian�as.</p><p>� Como na hora em que recebeu o bilhete?</p><p>� Sim, daquele momento em diante, durante toda a manh�.</p><p>� Obrigado, srta. Dunbar. H� algum outro detalhe que possa me ajudar na investiga��o?</p><p>� N�o, n�o consigo me lembrar de nenhum.</p><p>� Havia sinal de viol�ncia na borda da ponte � a pedra havia sido lascada recentemente, bem do lado oposto ao corpo. A senhorita teria alguma explica��o para isso?</p><p>� Deve ser mera coincid�ncia.</p><p>� Curioso, srta. Dunbar, muito curioso. Por que isto haveria de surgir na mesma ocasi�o da trag�dia, e por que no mesmo lugar?</p><p>� Mas o que poderia ter causado isto? S� uma grande viol�ncia poderia ter provocado esse efeito.</p><p>Holmes n�o respondeu. Seu rosto p�lido e ansioso assumiu de repente aquela express�o tensa e distante que eu havia aprendido a associar �s manifesta��es supremas de seu g�nio. A crise em sua mente era t�o evidente que nenhum de n�s ousou falar, e ficamos sentados, o advogado, a prisioneira e eu, observando-o em seu sil�ncio concentrado e absorto. De repente ele saltou da cadeira, vibrando com uma energia nervosa e com a necessidade urgente de a��o.</p><p>� Venha, Watson, venha! � ele exclamou.</p><p>� O que foi, sr. Holmes?</p><p>� N�o importa, minha cara senhorita. O senhor ter� not�cias minhas, sr. Cummings. Com a ajuda de Deus, que � justo, eu lhe darei uma causa que vai repercutir em toda a Inglaterra. A senhorita Dunbar ter� not�cias amanh� e, enquanto isto, tenha a certeza de que as nuvens est�o se dissipando e que eu tenho esperan�a de que a luz da verdade est� conseguindo aparecer.</p><p>N�o era uma viagem longa de Winchester a Thor Place, mas foi longa para mim, na minha impaci�ncia, enquanto era evidente que para Holmes parecia intermin�vel, porque em sua agita��o, ele n�o conseguia ficar sentado calmamente, e andava pelo vag�o ou tamborilava os dedos longos e sens�veis nas almofadas ao seu lado. Mas de repente, quando nos aproxim�vamos de nosso destino, ele se sentou � minha frente � t�nhamos um carro de primeira-classe s� para n�s � e pondo as m�os nos meus joelhos, olhou-me nos olhos, com aquela express�o travessa t�pica de sua disposi��o de �nimo mais diab�lica.</p><p>� Watson � ele disse �, lembro-me vagamente de que voc� costuma vir armado nessas nossas excurs�es.</p><p>Era bom para ele que fosse assim, porque ele tomava pouco cuidado com sua pr�pria seguran�a quando sua mente estava absorvida por um problema, de modo que mais de uma vez meu rev�lver tinha sido um bom amigo na necessidade. Eu o fiz lembrar-se do fato.</p><p>� Sim, sim, neste sentido sou um pouco distra�do. Mas voc� est� com o rev�lver?</p><p>Tirei o rev�lver do bolso traseiro, uma arma pequena, curta, jeitosa e muito �til. Ele desmontou o gatilho, tirou as balas e examinou-o com cuidado.</p><p>� � pesado, bastante pesado � disse ele.</p><p>� Sim, � uma arma um bocado pesada.</p><p>Ele se concentrou nela durante um minuto.</p><p>� Voc� sabe, Watson � ele disse �, acredito que o seu rev�lver ir� ter uma liga��o muito �ntima com o mist�rio que estamos investigando.</p><p>� Meu caro Holmes, voc� est� brincando.</p><p>� N�o, Watson, estou falando s�rio. Temos de fazer um teste. Se o teste der certo, tudo se esclarecer�. E o teste depender� do desempenho desta pequena arma. Um cartucho fora. Agora, vamos p�r os outros cinco e travar a arma. Assim! Isso aumenta o peso e far� uma reprodu��o melhor.</p><p>Eu n�o tinha no��o do que se passava em sua mente nem ele me esclareceu, mas ficou sentado, perdido em pensamentos, at� que paramos na pequena esta��o de Hampshire. N�s nos apossamos de uma carro�a desmantelada, e em 15 minutos est�vamos na casa do nosso amigo de confian�a, o sargento.</p><p>� Uma pista, sr. Holmes? Qual � a pista?</p><p>� Tudo depende do comportamento do rev�lver do dr. Watson � disse meu amigo. � Aqui est�. Agora, senhor oficial, pode me dar 10 metros de barbante?</p><p>A loja da aldeia forneceu-nos um rolo de barbante resistente.</p><p>� Acho que � disto que precisamos � disse Holmes. � Agora, vamos partir, como espero, para a �ltima etapa da nossa jornada.</p><p>O sol se punha e ia transformando o brejo ondulado de Hampshire num maravilhoso panorama outonal. O sargento, com olhares cr�ticos e incr�dulos, que demonstravam suas d�vidas quanto � sanidade mental do meu amigo, arrastava-se ao nosso lado. � medida que nos aproxim�vamos do cen�rio do crime, pude observar que meu amigo, debaixo de sua frieza habitual, estava profundamente agitado.</p><p>� Sim � ele disse, respondendo a uma observa��o minha �, voc� j� me viu errar o alvo antes, Watson. Tenho instinto para coisas assim, mas algumas vezes n�o d� certo. Esta id�ia parecia-me uma certeza, quando, na cela em Winchester, passou pela minha mente, mas a desvantagem de uma mente �gil � que sempre se podem conceber explica��es alternativas que tornariam falsa a nossa pista. Bem, Watson, nossa �nica chance � experimentar.</p><p>Enquanto caminh�vamos, ele havia amarrado firmemente uma ponta do barbante no cabo do rev�lver. T�nhamos chegado ao local da trag�dia. Com muita aten��o ele marcou, sob a orienta��o do policial, o lugar exato em que o corpo havia ficado estendido. Em seguida procurou no meio do p�ntano e das samambaias, at� encontrar uma pedra bem grande. Ele a amarrou � outra extremidade da corda e dependurou-a sobre o parapeito da ponte, de modo que ela ficou oscilando acima da �gua. Ent�o ele ficou de p� no local do crime fatal, a certa dist�ncia da borda da ponte, com o meu rev�lver na m�o, a corda esticada entre a arma e a pesada pedra do lado mais afastado.</p><p>� Agora vejamos! � ele gritou.</p><p>Ao gritar, levantou a pistola at� a cabe�a e em seguida soltou-a. Em um instante a pistola foi lan�ada rapidamente para longe pelo peso da pedra, e havia se chocado contra o parapeito com um estampido agudo, desaparecendo sobre a amurada, dentro d��gua. Ela mal havia desaparecido e Holmes j� estava ajoelhado ao lado da borda de pedra, e um grito de alegria mostrou que ele havia conseguido o que queria.</p><p>� J� houve alguma vez uma demonstra��o t�o precisa? � ele perguntou. � Veja, Watson, seu rev�lver solucionou o problema! Enquanto falava, mostrou uma segunda lasca de pedra, do mesmo tamanho e formato da primeira, que havia aparecido sobre a borda inferior da balaustrada de pedra.</p><p>� Ficaremos esta noite na hospedaria � ele continuou, enquanto se levantava e encarava o perplexo sargento. � Naturalmente, o senhor vai conseguir um anzol e recuperar facilmente o rev�lver do meu amigo. O senhor tamb�m encontrar� perto dele o rev�lver, a corda e o peso com os quais esta mulher vingativa tentou disfar�ar seu pr�prio crime e lan�ar sobre uma v�tima inocente o �nus de um assassinato. O senhor poder� informar ao sr. Gibson que irei v�-lo de manh�, quando poder�o ser tomadas provid�ncias para a defesa da srta. Dunbar.</p><p>Naquela noite, enquanto est�vamos sentados fumando nossos cachimbos na hospedaria da aldeia, Holmes fez uma r�pida revis�o do que havia acontecido.</p><p>� Receio, Watson � ele disse �, que voc�, ao acrescentar o caso do mist�rio da Ponte Thor aos seus registros, n�o ir� melhorar a reputa��o que eu possa ter adquirido. Minha mente tem estado inativa, ausente, naquela mistura de imagina��o e realidade que � a base da minha arte. Confesso que a lasca na pedra da borda foi uma pista suficiente para sugerir uma solu��o real, e eu me censuro por n�o ter chegado a esta conclus�o mais cedo.</p><p>� � preciso admitir que a mente desta mulher infeliz era h�bil e sutil, de modo que n�o foi muito f�cil decifrar sua trama. N�o creio que em nossas aventuras j� tiv�ssemos encontrado um exemplo mais estranho do que um amor pervertido pode provocar. Se a srta. Dunbar foi sua rival num sentido f�sico ou num sentido puramente mental, parece ter sido aos seus olhos igualmente imperdo�vel. Sem d�vida, ela culpava esta mo�a inocente pela maneira �spera e pelas palavras grosseiras com que seu marido tentava repelir a afei��o dela, demasiadamente expansiva. Sua primeira resolu��o foi p�r fim � pr�pria vida. A segunda, foi fazer isto de modo a envolver sua v�tima numa fatalidade que era muito pior do que qualquer morte repentina.</p><p>� Podemos seguir com muita nitidez suas v�rias provid�ncias, e estas demonstram uma not�vel sutileza de pensamento. Foi arrancado muito habilmente da srta. Dunbar um bilhete que faria parecer que ela havia escolhido o local do crime. Em sua ansiedade para que o bilhete fosse descoberto, ela exagerou um pouco, segurando-o em sua m�o at� o fim. S� este detalhe seria suficiente para despertar suspeitas mais cedo do que o fez.</p><p>� Depois ela pegou um dos rev�lveres do marido � como voc� viu, havia um arsenal em casa � e o guardou para o seu pr�prio uso. Naquela manh�, ela escondeu outro rev�lver semelhante no arm�rio de roupas da srta. Dunbar, depois de descarregar uma bala, o que ela poderia fazer facilmente na floresta sem chamar aten��o. Ent�o ela foi at� a ponte, onde havia engendrado esta maneira engenhosa de livrar-se da arma. Quando a srta. Dunbar apareceu, ela usou seus �ltimos momentos para despejar seu �dio, e depois, quando ela estava longe do ru�do da arma, levou a cabo sua terr�vel inten��o. Cada elo est� agora em seu lugar, e a cadeia est� completa. Os jornais podem perguntar por que o pequeno lago n�o foi dragado no in�cio, mas � f�cil ser s�bio depois do fato, e, de qualquer modo, a extens�o de um lago repleto de juncos n�o � tarefa f�cil, a menos que voc� saiba exatamente o que est� procurando e onde. Bem, Watson, ajudamos uma mulher extraordin�ria e tamb�m um homem formid�vel. Que eles possam, no futuro, unir suas for�as, o que n�o parece improv�vel, e que o mundo financeiro possa descobrir que o sr. Neil Gibson aprendeu alguma coisa naquela sala de aula da tristeza onde nossas li��es terrenas s�o ensinadas.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura do homem que andava de quatro</strong></p><p>Sherlock Holmes sempre achou que eu deveria publicar os fatos estranhos relacionados com o professor Presbury, ao menos para dissipar, definitivamente, os rumores torpes que uns vinte anos antes agitaram a universidade e repercutiram nas sociedades eruditas de Londres. Mas havia certos obst�culos no caminho, e a verdadeira hist�ria deste caso curioso permaneceu sepultada na caixa de metal que cont�m tantos registros das aventuras do meu amigo. Agora, finalmente, obtivemos permiss�o para divulgar os fatos de um dos �ltimos casos apurados por Holmes antes de deixar sua profiss�o. Mesmo agora, ao se expor o assunto diante do p�blico, � preciso manter uma certa retic�ncia e discri��o.</p><empty-line/><p>Foi numa tarde de domingo, no in�cio de setembro de 1903, que recebi de Holmes uma mensagem lac�nica: �Venha imediatamente, se for conveniente � se for�inconveniente, venha assim mesmo. � S. H.� As rela��es entre n�s, naqueles �ltimos tempos, eram peculiares. Ele era um homem met�dico, de h�bitos limitados e concentrados, e eu havia me tornado um deles. Como uma institui��o, eu era como o violino, o tabaco ordin�rio, o velho cachimbo preto, os livros de refer�ncias e outras coisas talvez menos justific�veis. Quando se tratava de um caso de trabalho ativo, e havia necessidade de um companheiro em cujo sangue-frio ele podia depositar um pouco de confian�a, a minha participa��o era �bvia. Mas fora isso, eu tinha serventia. Era um estimulante para a sua mente. Reconfortava-o. Ele gostava de pensar alto na minha presen�a. Dificilmente se poderia dizer que suas observa��es eram dirigidas a mim � muitas delas poderiam ter sido dirigidas aos seus bot�es �, mas,� mesmo assim, tendo virado um h�bito, de certa forma era �til que eu pudesse registrar e fazer observa��es entre um e outro coment�rio. Se eu o irritava devido a uma certa lentid�o met�dica do meu racioc�nio, aquela irrita��o servia para fazer com que suas intui��es e impress�es em combust�o se acendessem mais viva e rapidamente. Em nossa alian�a, esse era o meu humilde papel.</p><p>Quando cheguei a Baker Street, encontrei-o encolhido em sua poltrona, os joelhos para cima, o cachimbo na boca e a testa enrugada pensativamente. Era �bvio que ele estava angustiado com algum problema irritante. Com um aceno, ele indicou minha velha poltrona, mas durante meia hora n�o parecia ter percebido a minha presen�a. Depois, pareceu voltar de repente de seu devaneio, e com seu habitual sorriso esquisito, deu-me as boas-vindas pela volta ao lugar que havia sido, em outros tempos, o meu lar.</p><p>� Voc� vai desculpar minha distra��o, meu caro Watson � ele disse �, apresentaram-me alguns fatos curiosos nessas �ltimas 24 horas e, conseq�entemente, deram origem a algumas especula��es de car�ter mais geral. Penso, seriamente, em escrever uma pequena monografia a respeito do emprego de c�es no trabalho de detetive.</p><p>� Mas certamente, Holmes, este assunto j� deve ter sido explorado � eu disse. � C�es policiais, c�es treinados para farejar e perseguir...</p><p>� N�o, n�o, Watson; quanto a esse aspecto do problema, naturalmente, � �bvio. Mas existe outro aspecto bem mais sutil. Voc� deve lembrar-se daquele caso que voc�, da sua maneira sensacional, associou a Copper Beeches, permitindo-me fazer uma dedu��o dos h�bitos criminosos do pai, muito janota e respeit�vel, pela observa��o da mente do filho.</p><p>� Sim, lembro-me bem disto.</p><p>� Minha dedu��o a respeito dos c�es � an�loga. O c�o reflete a vida da fam�lia. Quem j� viu um c�o brincalh�o numa fam�lia triste ou um cachorro triste numa fam�lia feliz? Pessoas briguentas t�m cachorros briguentos, pessoas perigosas t�m cachorros perigosos, e a disposi��o de �nimo transit�ria de um pode refletir a disposi��o de �nimo do outro.</p><p>Sacudi a cabe�a. � Certamente, Holmes, esta � uma dedu��o um tanto for�ada � eu disse.</p><p>Ele tornou a encher o cachimbo e sentou-se novamente, n�o tomando conhecimento do meu coment�rio.</p><p>� A aplica��o pr�tica do que eu disse est� bem pr�xima do problema que estou investigando. � uma meada embara�ada, voc� compreende, e estou procurando um fio solto. Uma ponta do fio da meada talvez esteja na pergunta: por que o fiel pastor alem�o Roy, do professor Presbury, est� querendo mord�-lo?</p><p>Afundei-me de novo na poltrona um tanto desapontado. Foi por uma quest�o t�o banal que eu havia sido intimado a deixar o meu trabalho? Holmes olhou-me de soslaio.</p><p>� O mesmo velho Watson! � ele disse. � Voc� nunca vai aprender que os problemas mais graves podem depender de coisas m�nimas. Mas n�o parece estranho que um fil�sofo s�brio e idoso � voc� certamente ouviu falar de Presbury, o famoso fisiologista de Camford �, que um homem como este, cujo amigo tem sido seu dedicado c�o pastor, tenha sido atacado duas vezes pelo seu pr�prio cachorro? O que voc� acha disto?</p><p>� O cachorro deve estar doente.</p><p>� Bem, isto tem que ser levado em considera��o. Mas ele n�o ataca ningu�m mais, e, segundo parece, s� molesta seu dono em ocasi�es muito especiais. Curioso, Watson, muito curioso. Mas o jovem sr. Bennett est� adiantado, se � ele quem est� tocando a campainha. Eu gostaria de ter conversado mais com voc�, antes que ele chegasse.</p><p>Ouvimos passos apressados na escada, uma r�pida batida na porta, e logo em seguida o novo cliente apresentou-se. Era um jovem alto, bonito, por volta dos 30, elegante, mas algo em suas maneiras sugeria a timidez do estudante, e n�o a presen�a de esp�rito do homem mundano. Ele apertou a m�o de Holmes e em seguida me olhou um tanto surpreso.</p><p>� Este assunto � muito delicado, sr. Holmes � ele disse � pense no duplo relacionamento que mantenho com o professor Presbury, o particular e o p�blico. Na verdade n�o tenho justificativa para falar diante de uma terceira pessoa.</p><p>� N�o tenha receio, sr. Bennett. O dr. Watson � a pr�pria ess�ncia da discri��o, e posso assegurar-lhe que este � um caso no qual eu, provavelmente, vou precisar de um assistente.</p><p>� Como queira, sr. Holmes. Tenho certeza de que o senhor compreender� que eu tenha algumas reservas nesta quest�o.</p><p>� Voc� compreender� isto, Watson, quando eu lhe disser que este cavalheiro, sr. Trevor Bennett, � o assistente do grande cientista, vive sob seu teto, e est� noivo de sua �nica filha. Devemos concordar que o professor tem o direito de exigir toda a sua lealdade e dedica��o. Mas isto ser� demonstrado melhor tomando-se as necess�rias provid�ncias para esclarecer este estranho mist�rio.</p><p>� Assim espero, sr. Holmes. Este � o meu �nico objetivo. O dr. Watson est� a par da situa��o?</p><p>� N�o tive tempo de explicar-lhe.</p><p>� Ent�o, talvez seja melhor voltar ao in�cio, antes de explicar alguns fatos recentes.</p><p>� Eu mesmo o farei � disse Holmes �, a fim de demonstrar que estou a par da verdadeira seq��ncia dos fatos. O professor, Watson, � um homem famoso na Europa. Sua vida � acad�mica. Nunca houve o menor vest�gio de esc�ndalo. Ele � vi�vo e tem uma filha, Edith. Soube que ele � um homem de car�ter viril e positivo, pode-se afirmar que � quase combativo. Era assim at� alguns meses atr�s.</p><p>� Ent�o, a sua vida normal mudou. Ele tem 61 anos de idade, mas ficou noivo da filha do professor Morphy, seu colega na cadeira de anatomia comparada. N�o era, como percebi, a corte premeditada de um homem de idade madura, mas antes a apaixonada loucura de um jovem, pois ningu�m poderia ter-se mostrado um amante mais devotado. Alice Morphy era uma mo�a perfeita de corpo e alma, de modo que havia todos os motivos para a paix�o do professor. Mesmo assim, ele n�o teve a aprova��o total de sua pr�pria fam�lia.</p><p>� Achamos esta paix�o bastante exagerada � disse o nosso visitante.</p><p>� Exatamente. Exagerada e um pouco impetuosa e artificial. Mas o professor Presbury era rico, e n�o houve qualquer obje��o por parte do pai dela. A filha, contudo, tinha outra opini�o, e j� havia muitos candidatos � sua m�o, e esses, se eram menos desej�veis sob o ponto de vista material, eram, pelo menos, de idade mais adequada. A mo�a parecia gostar do professor apesar de suas excentricidades. O �nico obst�culo era a idade.</p><p>� Nesta ocasi�o, um pequeno mist�rio toldou de repente a rotina da vida do professor. Ele fez o que nunca havia feito antes. Saiu de casa e n�o revelou aonde ia. Ficou fora durante uns 15 dias e voltou muito cansado. N�o fez nenhuma alus�o ao lugar onde havia estado, embora fosse, em geral, o mais franco dos homens. Aconteceu, por�m, que aqui o nosso cliente, sr. Bennett, recebeu uma carta de um colega, estudante em Praga, que dizia que tinha ficado satisfeito por ter visto o professor Presbury em Praga, embora n�o tivesse conseguido falar com ele. Somente desta maneira sua pr�pria fam�lia ficou sabendo onde ele havia estado.</p><p>� Agora vem o mais importante. A partir desta �poca, o professor passou por uma curiosa transforma��o. Ele tornou-se furtivo e dissimulado. Aqueles que o cercavam tinham sempre a impress�o de que ele n�o era o homem que eles haviam conhecido, mas que estava sob alguma influ�ncia tenebrosa que havia ofuscado suas maiores qualidades. Seu intelecto n�o foi afetado, suas confer�ncias continuavam brilhantes como sempre. Mas havia alguma coisa nova, alguma coisa sinistra e imprevista. Sua filha, que lhe era devotada, tentou v�rias vezes reatar o antigo relacionamento e penetrar esta m�scara que o pai parecia ter colocado em si mesmo. O senhor, como percebi, tamb�m tentou, mas foi tudo em v�o. E agora, sr. Bennett, conte-nos, com suas pr�prias palavras, o incidente das cartas.</p><p>� O senhor deve compreender, dr. Watson, que o professor n�o tinha segredos para mim. Se eu fosse seu filho ou seu irm�o mais mo�o, n�o poderia ter desfrutado mais plenamente de sua confian�a. Como seu secret�rio, eu manuseava todos os pap�is que chegavam para ele, e abria e separava sua correspond�ncia. Logo ap�s o seu regresso, tudo isto mudou. Ele me disse que poderiam chegar para ele, de Londres, certas cartas marcadas com uma cruz embaixo do selo. Estas deveriam ser colocadas � parte, para que s� ele as visse. Posso afirmar que muitas destas cartas passaram pelas minhas m�os, traziam as iniciais E. C. e estavam escritas numa caligrafia t�pica de pessoa quase analfabeta. Se ele as respondia, as respostas n�o passavam pelas minhas m�os nem pela cesta onde nossa correspond�ncia era recolhida.</p><p>� E a caixa � disse Holmes.</p><p>� Ah, sim, a caixa. Ao voltar de suas viagens, o professor trouxe uma pequena caixa de madeira. Era a �nica coisa que sugeria uma viagem ao continente, pois era uma daquelas caixas bonitas, entalhadas, que associamos � Alemanha. Ele colocou esta caixa no arm�rio dos equipamentos cient�ficos. Uma vez, procurando uma c�nula, levantei a caixa. Para meu espanto, ele ficou muito zangado e me repreendeu com palavras ferozes pela minha curiosidade. Foi a primeira vez que aconteceu uma coisa dessas, e fiquei profundamente magoado. Tentei explicar-lhe que eu havia tocado na caixa por acaso, mas durante a noite inteira eu percebi que ele me olhava com severidade, e que o incidente estava martelando em sua cabe�a. � O sr. Bennett tirou um pequeno di�rio do bolso. � Isto foi no dia 2 de julho � ele disse.</p><p>� O senhor � realmente uma testemunha admir�vel � disse Holmes. � Eu posso vir a precisar de algumas dessas datas que anotou.</p><p>� Aprendi a ter ordem, entre outras coisas, com o meu ilustre professor. A partir do momento em que observei anormalidades em seu comportamento, senti que era meu dever estudar seu caso. De modo que tenho anotado aqui que foi naquele mesmo dia, 2 de julho, que Roy atacou o professor, quando ele vinha de seu gabinete de trabalho em dire��o ao hall. No dia 11 de julho houve uma cena semelhante, e depois, tenho uma anota��o de mais outra, no dia 20. Depois disso tivemos de isolar Roy na estrebaria. Ele era um animal querido, carinhoso � mas receio estar aborrecendo os senhores.</p><p>O sr. Bennett falou em tom de censura, pois era evidente que Holmes n�o estava escutando. Seu rosto estava r�gido e seus olhos contemplavam distraidamente o teto. Com um esfor�o ele voltou a si.</p><p>� Estranho! Muito estranho! � ele sussurrou. � Estes detalhes eram novos para mim, sr. Bennett. Acho que agora j� recordamos os fatos antigos, n�o �? Mas o senhor falou a respeito de algumas ocorr�ncias recentes.</p><p>O rosto agrad�vel e franco do nosso visitante toldou-se com alguma recorda��o terr�vel. � Isto que vou contar ocorreu anteontem � noite � ele disse. � Por volta das duas da madrugada eu estava na cama, acordado, quando ouvi um som lento e abafado, vindo do corredor. Abri a porta e olhei para fora. Eu deveria explicar que o professor dorme no final do corredor.</p><p>� Em que data? � perguntou Holmes.</p><p>Nosso visitante ficou aborrecido com uma interrup��o t�o irrelevante.</p><p>� Eu disse, senhor, que foi anteontem � noite, isto �, 4 de setembro.</p><p>Holmes sacudiu a cabe�a afirmativamente e sorriu.</p><p>� Por favor, continue � ele disse.</p><p>� Ele dorme no final do corredor e teria que passar em frente � minha porta para chegar � escada. Foi realmente uma experi�ncia aterradora, sr. Holmes. Acho que tenho os nervos t�o fortes quanto qualquer pessoa, mas o que vi me abalou. O corredor estava escuro, a n�o ser por uma janela no meio, que deixava passar uma fresta de luz. Pude perceber que alguma coisa estava vindo pelo corredor, alguma coisa escura e encolhida. Ent�o, de repente, aquilo surgiu na claridade, e vi que era ele. Ele estava engatinhando, sr. Holmes � engatinhando! Ele n�o estava exatamente sobre as m�os e os joelhos. Eu diria que ele estava sobre as m�os e os p�s, com o rosto entre as m�os. Mas parecia mover-se com facilidade. Fiquei t�o paralisado pela vis�o que s� quando ele chegou diante da minha porta que consegui dar um passo � frente e perguntar se poderia ajud�-lo. Sua resposta foi espantosa. Ele p�s-se de p� num salto, dirigiu-me algumas palavras duras, passou por mim correndo e desceu a escada. Esperei cerca de uma hora, mas ele n�o voltou. Devia ser dia claro quando ele voltou ao seu quarto.</p><p>� Bem, Watson, o que acha voc� disto? � perguntou Holmes, como um patologista que apresenta um esp�cime raro.</p><p>� Lumbago, possivelmente. Sei que um ataque grave faz um homem andar exatamente assim, e nada seria mais irritante para os nervos.</p><p>� Meu bom Watson! Voc� sempre nos mant�m com os p�s presos no ch�o. Mas dificilmente poder�amos aceitar a hip�tese de um lumbago, j� que ele foi capaz de ficar de p� num instante.</p><p>� Ele nunca esteve mais saud�vel � disse Bennett. � Na verdade, ele est� mais forte do que em todos esses anos que o conhe�o. Por�m existem os fatos, sr. Holmes. N�o � um caso para a pol�cia, mas n�o sabemos o que fazer, e sentimos, de maneira um tanto estranha, que estamos indo em dire��o a uma cat�strofe. Edith, a srta. Presbury, sente, como eu, que n�o podemos mais esperar passivamente.</p><p>� Este � realmente um caso muito curioso e sugestivo. O que voc� acha disto, Watson?</p><p>� Falando como m�dico � eu disse �, parece um caso para um analista. Os processos cerebrais do velho cavalheiro foram perturbados pelo caso de amor. Ele fez uma viagem ao exterior na esperan�a de vencer esta paix�o. Suas cartas e a caixa podem estar relacionadas com alguma outra transa��o particular, um empr�stimo, talvez, ou certificados de a��es que estariam na caixa.</p><p>� E o cachorro sem d�vida desaprovou o neg�cio. N�o, n�o, Watson, existe algo mais. Bem, s� posso sugerir...</p><p>O que Sherlock Holmes ia sugerir nunca se saber�, pois naquele instante a porta abriu-se e uma jovem entrou na sala. Quando ela apareceu, o sr. Bennett levantou-se rapidamente com uma exclama��o e correu para a frente com as m�os levantadas, para encontrar as que ela j� lhe havia estendido.</p><p>� Edith, querida! N�o � nada de importante, espero?</p><p>� Achei que devia segui-lo. Oh, Jack, ando amedrontada. � horr�vel ficar l� sozinha.</p><p>� Sr. Holmes, esta � a jovem de quem lhe falei. � a minha noiva.</p><p>� Est�vamos chegando a esta conclus�o, n�o � Watson? � Holmes disse com um sorriso. � Presumo, srta. Presbury, que tenha ocorrido algo de novo, e que a senhorita achou que dever�amos saber.</p><p>Nossa nova visitante, uma mo�a viva e bonita, do tipo ingl�s convencional, tamb�m sorriu para Holmes, enquanto se sentava ao lado do sr. Bennett.</p><p>� Quando eu soube que Bennett havia sa�do do hotel, achei que provavelmente o encontraria aqui. � claro que ele me havia dito que ia consult�-lo. Mas, oh, sr. Holmes, o senhor n�o pode fazer nada pelo meu pobre pai?</p><p>� Tenho esperan�as, srta. Presbury, mas o caso ainda est� confuso. Talvez aquilo que a senhorita tem a dizer possa lan�ar uma luz nova sobre o assunto.</p><p>� Foi ontem � noite, sr. Holmes. Ele tinha estado muito esquisito o dia todo. Tenho certeza de que h� momentos em que n�o se recorda do que fez. Ele vive como num sonho estranho. Ontem foi um desses dias. N�o era o meu pai com quem eu vivia. Seu corpo estava l�, mas n�o era realmente ele.</p><p>� Conte-me o que aconteceu.</p><p>� Fui acordada durante a noite pelos latidos furiosos do cachorro. Pobre Roy, ele agora est� acorrentado perto do est�bulo. Devo dizer que sempre durmo com minha porta trancada; porque, como Jack � o sr. Bennett � lhes contar�, todos n�s temos uma sensa��o de perigo iminente. Meu quarto fica no segundo andar. A persiana da minha janela estava suspensa, e era uma noite de luar. Quando eu estava deitada com os olhos fixos no quadrado de luz, ouvindo os latidos fren�ticos do c�o, fiquei assombrada ao ver o rosto de meu pai olhando para dentro, para mim. Sr. Holmes, quase morri de susto e horror. Ali estava ele, o rosto comprimido contra a vidra�a, e uma das m�os parecia estar suspensa, como se fosse levantar a janela. Se aquela janela tivesse sido aberta, acho que teria enlouquecido. N�o foi uma alucina��o, sr. Holmes. N�o se iluda pensando isto. Eu diria que foram vinte segundos, mais ou menos, em que fiquei paralisada observando o rosto dele. Em seguida desapareceu, mas eu n�o consegui, eu n�o consegui pular da cama e ir atr�s dele. Fiquei deitada tremendo at� de manh�. No caf�-da-manh�, seu comportamento foi �spero e irritado, e ele n�o fez qualquer alus�o � aventura da noite. Nem eu, mas dei uma desculpa para vir � cidade, e aqui estou.</p><p>Holmes parecia totalmente surpreso com a narrativa da srta. Presbury.</p><p>� Minha cara jovem, a senhorita afirma que o seu quarto fica no segundo andar. Existe alguma escada grande no jardim?</p><p>� N�o, sr. Holmes, esta � a parte surpreendente disto. N�o h� maneira poss�vel de alcan�ar a janela � e mesmo assim l� estava ele.</p><p>� A data foi 5 de setembro � disse Holmes. Isto certamente complica as coisas.</p><p>Foi a vez de a jovem parecer surpresa. � Esta � a segunda vez que o senhor faz alus�o � data, sr. Holmes � disse Bennett. � � poss�vel que a data tenha alguma rela��o com o caso?</p><p>� � poss�vel, muito poss�vel, mas, no momento, n�o tenho meus dados completos.</p><p>� Ser� que o senhor est� pensando na liga��o entre insanidade e fases da lua?</p><p>� N�o, eu lhe garanto. � um tipo de racioc�nio totalmente diferente. Talvez o senhor possa deixar sua agenda comigo, e eu verificarei as datas. Agora acho, Watson, que a nossa linha de a��o est� perfeitamente clara. Esta jovem nos informou, e tenho a maior confian�a na intui��o dela, de que seu pai se recorda pouco ou nada do que acontece em certas datas. Portanto, vamos fazer-lhe uma visita, como se ele tivesse marcado um encontro conosco nessa data. Ele atribuir� isto � sua pr�pria falta de mem�ria. Assim, come�aremos nossa atua��o observando-o de perto.</p><p>� Isto � excelente � disse o sr. Bennett. � Mas aviso que o professor, �s vezes, � irasc�vel e violento.</p><p>Holmes sorriu. � H� motivos para irmos imediatamente, motivos muito convincentes, se � que minhas teorias est�o certas. Amanh�, sr. Bennett, certamente nos ver� em Camford. Se n�o me falha a mem�ria, h� uma estalagem chamada Chequers; onde o vinho do porto costumava escapar da mediocridade e a roupa de cama era irrepreens�vel. Acho, Watson, que o nosso destino nos pr�ximos dias pode nos levar a lugares menos agrad�veis.</p><p>Na manh� de segunda-feira est�vamos a caminho da famosa cidade universit�ria � um pequeno esfor�o por parte de Holmes, que n�o tinha ra�zes para arrancar, mas, de minha parte, um esfor�o que envolvia planejamento fren�tico, porque, nessa �poca, minha clientela n�o era insignificante. Holmes n�o fez alus�o ao assunto at� nossas maletas chegarem na antiga hospedaria que ele havia mencionado.</p><p>� Acho que podemos surpreender o professor exatamente antes do almo�o. Ele d� aula �s 11 horas e deve fazer um intervalo em casa.</p><p>� Que pretexto ter�amos para visit�-lo?</p><p>Holmes deu uma olhada em sua agenda.</p><p>� Houve um per�odo de exalta��o, no dia 26 de agosto. Vamos supor que nestas ocasi�es ele fique um pouco confuso quanto ao que faz. Se insistirmos que fomos l� para um encontro marcado, acho que ele dificilmente ousar� nos contradizer. Voc� tem a desfa�atez necess�ria para fazer isto?</p><p>� A �nica coisa que podemos fazer � tentar.</p><p>� Excelente, Watson! Uma mistura de Busy Bee e do Excelsior. Devemos tentar � o lema da firma. Um nativo� gentil certamente nos conduzir� at� l�.</p><p>Um desses, na parte posterior de uma charrete, passou conosco velozmente diante de um conjunto de faculdades antigas e, finalmente, virando em uma avenida arborizada, parou � porta de uma bela casa cercada de gramados e coberta de glic�nias purp�reas. O professor Presbury estava, evidentemente, cercado de todos os sinais n�o s� de conforto, mas tamb�m de luxo. Quando paramos, uma cabe�a grisalha apareceu na janela da frente, e notamos um par de olhos vivos, por baixo de sobrancelhas grossas, que nos observava atrav�s de grandes �culos com aro de chifre. Um minuto depois, est�vamos em seu gabinete de trabalho, e o misterioso cientista, cujas excentricidades nos haviam trazido de Londres, estava diante de n�s. N�o havia nenhum sinal de excentricidade nem em seu comportamento nem em sua apar�ncia, pois ele era um homem imponente, grande, circunspecto, de sobrecasaca, com a dignidade de atitude que um conferencista precisa ter. O mais not�vel em seu rosto eram os olhos, penetrantes, observadores, inteligentes, quase astuciosos.</p><p>Ele olhou os nossos cart�es. � Por favor, sentem-se, senhores. Em que lhes posso ser �til?</p><p>Holmes sorriu amavelmente.</p><p>� Era esta a pergunta que eu estava prestes a lhe fazer, professor.</p><p>� A mim, senhor!</p><p>� Deve haver algum engano. Eu soube por interm�dio de outra pessoa que o professor Presbury, de Camford,� precisava dos meus servi�os.</p><p>� Oh, realmente! � Tive a impress�o ver um brilho malicioso nos ardentes olhos cinzentos. � O senhor ouviu isto, n�o foi? Posso perguntar-lhe o nome do seu informante?</p><p>� Sinto muito, professor, mas o assunto era muito confidencial. Se cometi um engano, n�o houve nenhum preju�zo. Posso apenas lamentar.</p><p>� De modo algum. Eu gostaria de aprofundar-me neste assunto. Ele me interessa. O senhor tem alguma coisa escrita, alguma carta ou telegrama, para sustentar sua afirma��o?</p><p>� N�o, n�o tenho.</p><p>� Ser� que o senhor chega a ponto de afirmar que eu o chamei?</p><p>� Eu preferiria n�o responder a nenhuma pergunta � disse Holmes.</p><p>� N�o, eu diria que n�o � disse o professor asperamente. � Contudo, esta �ltima pergunta pode ser respondida muito facilmente sem a sua ajuda.</p><p>Ele atravessou a sala e aproximou-se da campainha. Nosso amigo londrino, sr. Bennett, respondeu ao chamado.</p><p>� Entre, sr. Bennett. Estes dois senhores vieram de Londres com a impress�o de que haviam sido chamados. Voc�, que cuida de toda a minha correspond�ncia, voc� viu alguma coisa endere�ada a uma pessoa chamada Holmes?</p><p>� N�o, senhor � respondeu Bennett, corando.</p><p>� Isto � conclusivo � disse o professor, olhando furioso para o meu amigo. � Agora, senhor � ele inclinou-se para a frente com as duas m�os sobre a mesa �, parece-me que a sua atitude � muito question�vel.</p><p>Holmes deu de ombros.</p><p>� S� posso repetir que lamento termos feito uma intromiss�o desnecess�ria.</p><p>� Isto n�o � suficiente, sr. Holmes! � gritou o velho numa voz alta e esgani�ada, com uma express�o maldosa. Enquanto falava, ele ficou entre n�s e a porta, e sacudiu as duas m�os furiosamente para n�s. � Voc� n�o poder� sair desta t�o facilmente quanto pensa. � Seu rosto estava transtornado, e ele arreganhava os dentes para n�s e falava atabalhoadamente em sua f�ria insensata. Eu estou convencido de que ter�amos tido que lutar para sair da sala se Bennett n�o tivesse interferido.</p><p>� Meu caro professor! � ele exclamou �, considere a sua posi��o! Considere o esc�ndalo dentro da universidade! O sr. Holmes � um homem muito conhecido. O senhor n�o pode trat�-lo com esta descortesia.</p><p>Mal-humorado, o nosso anfitri�o � se � que podemos cham�-lo assim � deixou livre a passagem at� a porta. Ficamos aliviados quando nos vimos fora da casa, na quietude da avenida arborizada. Holmes parecia estar se divertindo muito com o acontecimento.</p><p>� Os nervos de nosso douto amigo est�o um tanto desregulados � ele disse. � Talvez nossa intromiss�o tenha sido um tanto grosseira, mas conseguimos aquele contato pessoal que eu desejava. Mas, valha-me Deus, Watson, ele est� na nossa pista. O vil�o ainda nos persegue.</p><p>Havia o som de p�s correndo atr�s de n�s, mas para meu al�vio, n�o foi o terr�vel professor, mas seu assistente quem apareceu na curva da alameda. Ele chegou ofegante at� n�s.</p><p>� Eu sinto muito, sr. Holmes. Gostaria de pedir desculpas.</p><p>� Meu caro, n�o � preciso. Tudo vale como experi�ncia profissional.</p><p>� Nunca o vi numa disposi��o de �nimo t�o perigosa. Mas ele est� ficando cada vez mais sinistro. O senhor pode compreender agora por que sua filha e eu estamos alarmados. Mas sua mente est� perfeitamente l�cida.</p><p>� L�cida demais � disse Holmes. � Este foi o meu erro de c�lculo. � evidente que a mem�ria dele est� muito mais confi�vel do que eu havia imaginado. A prop�sito,� antes de ir embora podemos ver a janela do quarto da srta. Presbury?</p><p>Bennett avan�ou por entre alguns arbustos, e avistamos um dos lados da casa.</p><p>� L� est�. A segunda da esquerda.</p><p>� Valha-me Deus, parece de dif�cil acesso. No entanto, voc� pode observar que debaixo h� uma trepadeira e, em cima, um cano d��gua que pode servir de apoio para os p�s.</p><p>� Eu mesmo n�o poderia subir ali � disse Bennett.</p><p>� � bem prov�vel que n�o. Seria, com certeza, uma fa�anha perigosa para qualquer homem normal.</p><p>� H� uma outra coisa que eu queria lhe dizer, sr. Holmes. Tenho o endere�o do homem de Londres para quem o professor escreve. Parece que ele escreveu esta manh�, e percebi isto pelo seu mata-borr�o. � uma atitude ign�bil para um secret�rio de confian�a, por�m, o que mais posso fazer?</p><p>Holmes deu uma olhada no papel e enfiou-o no bolso.</p><p>� Dorak � um nome curioso. Eslavo, eu imagino. Bem, isto � um elo importante da cadeia. Voltaremos esta tarde, sr. Bennett. N�o vejo necessidade de ficar aqui. N�o podemos prender o professor porque n�o cometeu nenhum crime, nem podemos deix�-lo confinado, pois n�o se pode provar que esteja louco. Por enquanto n�o se pode tomar nenhuma atitude.</p><p>� Ent�o, que diabo faremos?</p><p>� Um pouco de paci�ncia, sr. Bennett. Logo as coisas v�o melhorar. A menos que eu esteja enganado, na pr�xima ter�a-feira pode haver uma crise. Com certeza nesse dia estaremos em Camford. Enquanto isto, o quadro geral sem d�vida � desagrad�vel, e se a srta. Presbury puder prolongar sua visita...</p><p>� Isto � f�cil.</p><p>� Ent�o deixe-a ficar aqui at� que possamos garantir que n�o h� mais perigo. Enquanto isso, deixe-o fazer o que bem entender e n�o o contradiga. Desde que ele esteja de bom humor, tudo bem.</p><p>� L� est� ele! � disse Bennett num sussurro sobressaltado. Espiando por entre os galhos, vimos a figura alta e ereta sair pela porta do hall e olhar � sua volta. Ele ficou inclinando� para a frente, as m�os balan�ando estendidas � sua frente, virando a cabe�a de um lado para o outro. O secret�rio, com um �ltimo aceno, desapareceu por entre as �rvores, e n�s o vimos logo depois aproximar-se do patr�o. Os dois entraram em casa juntos, entretidos numa conversa que parecia animada e at� mesmo exaltada.</p><p>� Acho que o velho cavalheiro est� exigindo explica��es � disse Holmes, enquanto caminh�vamos para o hotel. � Pelo pouco que pude observar, ele me impressionou pela mente particularmente l�cida e l�gica. Explosivo, sem d�vida, mas, de acordo com o seu ponto de vista, ele tinha motivo para explodir, se puseram detetives em sua pista e ele suspeita que sua pr�pria fam�lia tenha feito isso. Acho que o amigo Bennett est� amea�ado de passar momentos desconfort�veis.</p><p>No caminho, Holmes parou numa ag�ncia do correio e mandou um telegrama. A resposta chegou � tarde, e ele a arremessou para mim. �Visitei a Commertial Road e estive com Dorak. Pessoa agrad�vel, natural da Bo�mia, de idade madura. Dirige grande loja de departamentos. Mercer.�</p><p>� Mercer est� conosco desde o seu tempo � disse Holmes. � � meu auxiliar geral e trata dos trabalhos de rotina. Era importante saber alguma coisa a respeito do homem com quem nosso professor estava se correspondendo t�o secretamente. A nacionalidade dele tem rela��o com a visita do professor a Praga.</p><p>� Gra�as a Deus que pelo menos uma coisa tem rela��o com a outra � eu disse. � No momento parece que estamos nos defrontando com uma longa s�rie de incidentes inexplic�veis, sem rela��o entre eles. Por exemplo, que rela��o pode haver entre um c�o pastor e uma visita � Bo�mia, ou entre ambas as coisas e o homem engatinhando por um corredor durante a noite? Quanto �s suas datas, este � o maior embuste de todos.</p><p>Holmes sorriu e esfregou as m�os. Est�vamos sentados na velha sala de estar do antigo hotel, tendo entre n�s, sobre a mesa, uma garrafa da famosa safra de vinho de que Holmes falara.</p><p>� Bem, agora vamos ver primeiro as datas � ele disse, as pontas dos dedos unidas e o jeito de quem est� falando para uma turma de alunos... � O di�rio desse excelente rapaz mostra que houve problemas no dia 2 de julho, e da� em diante parece que ocorreram com intervalos de nove dias, e pelo que me lembro, com uma �nica exce��o. Assim, o �ltimo ataque na sexta-feira ocorreu no dia 3 de setembro, dia que tamb�m se encaixa na s�rie, assim como o dia 26 de agosto, que o precedeu. A coisa vai al�m da coincid�ncia.</p><p>Fui obrigado a concordar.</p><p>� Ent�o vamos elaborar a teoria provis�ria de que o professor, de nove em nove dias, toma alguma droga forte, que possui um efeito altamente t�xico, mas passageiro. Sua �ndole violenta intensifica-se com isto. Ele aprendeu a tomar esta droga quando estava em Praga, e agora ele a recebe de um intermedi�rio bo�mio de Londres. Tudo isso coincide, Watson!</p><p>� Mas e o cachorro, o rosto na janela, o homem andando de quatro no corredor?</p><p>� Bem, bem, conseguimos come�ar. Eu n�o esperaria novos acontecimentos at� a pr�xima ter�a-feira. Enquanto isso, s� podemos ficar em contato com o amigo Bennett e desfrutar das amenidades desta cidade encantadora.</p><empty-line/><p>Pela manh�, Bennett apareceu para nos trazer as �ltimas informa��es. Como Holmes previu, aquelas horas n�o haviam sido f�ceis para ele. Sem acus�-lo propriamente de ser o respons�vel pela nossa presen�a, o professor dissera palavras muito �speras e rudes, e, evidentemente, sentia-se muito ofendido. Mas esta manh� ele era de novo o mesmo homem e havia feito sua brilhante prele��o habitual para uma classe repleta. � A n�o ser por seus acessos misteriosos � disse Bennett � ele est�, realmente, com mais energia e vitalidade do que eu jamais vi, e seu c�rebro nunca esteve mais l�cido. Mas n�o � ele � em nenhum momento � o homem que conhecemos.</p><p>� N�o creio que voc�s tenham algo a temer agora, pelo menos durante uma semana � respondeu Holmes. � Sou um homem ocupado, e o dr. Watson tem que atender aos seus pacientes. Vamos combinar um encontro aqui, nesta mesma hora, na pr�xima ter�a-feira, e eu ficarei surpreso se antes de irmos embora novamente n�o conseguirmos explicar o que est� acontecendo, mesmo que n�o possamos acabar com os seus problemas. Enquanto isso, mantenha-nos informados pelo correio.</p><p>N�o soube nada a respeito de meu amigo nos dias seguintes, mas na outra segunda-feira recebi um bilhete pedindo-me para encontr�-lo no dia seguinte no trem. Pelo que ele me disse enquanto viaj�vamos para Camford, tudo estava bem, a paz na casa do professor n�o tinha sido perturbada, e sua pr�pria conduta era perfeitamente normal. A mesma coisa nos foi contada pelo pr�prio Bennett, quando nos visitou naquela noite, nos nossos aposentos no Chequers. � Ele teve not�cias de seu correspondente londrino hoje. Chegou uma carta e havia um pequeno pacote, cada um deles com a cruz abaixo do selo, o que me advertiu para n�o tocar neles. N�o ocorreu mais nada.</p><p>� Isto pode ser prova suficiente � disse Holmes carrancudo. � Agora, sr. Bennett, acho que chegaremos a uma conclus�o esta noite. Se minhas dedu��es est�o corretas, teremos a oportunidade de p�r um fim a este assunto. Para conseguir isto, � necess�rio manter o professor sob observa��o. Portanto, sugiro que o senhor fique acordado, e de sobreaviso. Se o ouvir passar diante da sua porta, n�o interrompa seus passos, mas siga-o discretamente, como puder. O dr. Watson e eu n�o estaremos longe. A prop�sito, onde est� a chave daquela caixinha de que me falou?</p><p>� Na corrente do rel�gio dele.</p><p>� Acho que nossas buscas devem ir nessa dire��o. Na pior das hip�teses, n�o deve ser t�o dif�cil arrebentar a fechadura. O senhor tem algum outro homem robusto no local?</p><p>� H� o cocheiro, Macphail.</p><p>� Onde � que ele dorme?</p><p>� Na parte de cima do est�bulo.</p><p>� Talvez precisemos dele. Bem, n�o podemos fazer mais nada at� ver como as coisas se desenrolam. At� logo, espero v�-lo antes do amanhecer.</p><p>Era quase meia-noite quando nos instalamos entre alguns arbustos que ficavam bem em frente � porta de entrada da casa do professor. A noite estava magn�fica mas fria, e ficamos embrulhados nos nossos sobretudos quentes. Havia uma brisa, as nuvens corriam no c�u, encobrindo de vez em quando a meia-lua. Teria sido uma vig�lia desanimadora, se n�o fosse pela expectativa e excita��o que nos faziam prosseguir, e a convic��o de meu amigo de que provavelmente t�nhamos chegado ao fim da estranha seq��ncia de acontecimentos que haviam ocupado a nossa aten��o.</p><p>� Se o ciclo de nove dias � verdadeiro, ent�o o professor estar� p�ssimo esta noite � disse Holmes. � O fato de esses estranhos sintomas terem come�ado depois de sua visita a Praga, de ele estar se correspondendo secretamente com um negociante da Bo�mia em Londres, que provavelmente representa algu�m em Praga, e de ter recebido um pacote dele hoje, tudo isto aponta numa dire��o. O que ele toma e por que toma s�o coisas que ainda n�o sabemos, mas est� bastante claro que procedem de Praga. Ele toma isto com uma orienta��o precisa que regula este sistema de nove dias, que foi o primeiro ponto que chamou minha aten��o. Mas os sintomas que ele apresenta s�o muito estranhos. Voc� observou as articula��es dos dedos dele?</p><p>� Tenho de admitir que n�o.</p><p>� Grossas e calosas, de um jeito totalmente novo em minha experi�ncia. Observe sempre as m�os em primeiro lugar, Watson. Depois os punhos da camisa, os joelhos das cal�as e as botas. Articula��es muito curiosas que s� podem ser explicadas pela forma de locomo��o observada pelo... � Holmes parou, e de repente bateu com a m�o na testa: � Watson, Watson, como eu fui bobo! Parece incr�vel, mas deve ser verdade. Tudo indica uma dire��o. Como eu pude deixar de perceber a conex�o de id�ias? Aquelas articula��es � como eu pude deixar de perceber aquelas articula��es? E o cachorro! E a hera! Com certeza est� na hora de me aposentar e ir morar naquela fazenda pequena dos meus sonhos. Cuidado, Watson! L� est� ele! Teremos a oportunidade de ver com nossos pr�prios olhos.</p><p>A porta do vest�bulo abriu-se lentamente, e vimos a figura alta do professor Presbury contra o fundo iluminado. Ele estava de roup�o. Enquanto permanecia de p�, seu vulto delineado no portal estava ereto, mas inclinado para a frente, com os bra�os pendurados, como quando o vimos pela �ltima vez.</p><p>Ele caminhou para a alameda, e ocorreu nele uma fant�stica transforma��o. Ele foi se encolhendo at� ficar agachado e come�ou a se mover apoiado nas m�os e nos p�s, saltando de vez em quando, como se estivesse transbordando de energia e vitalidade. Passou pela frente da casa e depois a contornou. Quando desapareceu, Bennett passou silenciosamente pela porta do vest�bulo e o seguiu.</p><p>� Venha, Watson, venha! � exclamou Holmes, e n�s passamos por entre os arbustos da maneira mais silenciosa poss�vel, at� chegarmos a um lugar de onde pod�amos ver o outro lado da casa, que estava banhada pela luz da meia-lua. Pod�amos ver nitidamente o professor encolhendo-se junto � parede coberta de hera. Enquanto o observ�vamos, ele come�ou a subir pela planta com incr�vel agilidade. Saltava de galho em galho, com firmeza nos p�s e nas m�os, subindo aparentemente pelo simples prazer de sentir sua for�a, e sem objetivo definido. Com o roup�o batendo dos lados de seu corpo, ele parecia um imenso morcego colado na parede lateral de sua pr�pria casa, um grande remendo quadrado e escuro sobre a parede iluminada pela lua. Logo cansou-se de seu divertimento, e caindo de galho em galho, agachou-se na posi��o anterior e avan�ou em dire��o � cocheira, engatinhando do mesmo modo estranho de antes. O cachorro estava agora do lado de fora, latindo furiosamente, e ficou mais excitado do que nunca quando avistou o seu dono. Estava puxando a corrente e tremendo de impaci�ncia e de raiva. O professor agachava-se deliberadamente, fora do alcance do c�o, e come�ou a provoc�-lo de todas as maneiras poss�veis. Encheu as m�os com cascalho da alameda e jogou na cara do cachorro, cutucou-o com uma vara que havia apanhado, sacudiu as m�os a poucos cent�metros da boca aberta do animal, e tentou, de todas as maneiras, aumentar a f�ria do bicho, que j� estava totalmente descontrolado. Em todas as nossas aventuras, n�o me lembro de ter visto um quadro mais estranho do que o desta figura impass�vel e ainda digna, agachando-se como uma r� no ch�o, e incitando a ferocidade do cachorro, enlouquecido, que saltava e se enfurecia com uma crueldade engenhosa e calculada.</p><p>E ent�o, num instante aconteceu aquilo. N�o foi a corrente que arrebentou, mas a coleira que se soltou, pois tinha sido feita para um terra-nova de pesco�o mais grosso. Ouvimos o barulho do metal caindo, e no instante seguinte cachorro e homem estavam rolando juntos pelo ch�o, um roncando de raiva, o outro gritando em falsete um estranho guincho de terror. A vida do professor ficou por um fio. A criatura selvagem o agarrou justamente pela garganta, seus dentes morderam fundo, e o professor perdeu os sentidos antes que eu pudesse chegar at� eles e separ�-los. Poderia ter sido uma tarefa perigosa para n�s, mas a voz e a presen�a de Bennett fizeram o c�o enorme sossegar imediatamente. A confus�o fez o sonolento e at�nito cocheiro sair de seu quarto sobre a estrebaria. � Eu j� o vi assim antes. Eu sabia que o cachorro iria peg�-lo mais cedo ou mais tarde.</p><p>O c�o foi amarrado, e juntos carregamos o professor para o seu quarto, onde Bennett, que tinha um diploma de m�dico, ajudou-me a cuidar de sua garganta dilacerada. Os dentes afiados haviam passado perigosamente perto da art�ria car�tida, e a hemorragia era grave. Em meia hora o perigo havia passado, eu havia aplicado no paciente uma inje��o de morfina e ele caiu em sono profundo. Depois, e somente depois, � que fomos capazes de olhar um para o outro e de fazer o balan�o da situa��o.</p><p>� Acho que um cirurgi�o especialista deveria examin�-lo � eu disse.</p><p>� Pelo amor de Deus, n�o! � gritou Bennett. � No momento o esc�ndalo est� restrito � nossa pr�pria fam�lia. Conosco est� seguro. Se atravessar estas paredes, nunca mais vai parar. Pense na posi��o dele na universidade. Sua reputa��o europ�ia, os sentimentos de sua filha.</p><p>� Perfeitamente � disse Holmes. � Acho que � poss�vel manter o assunto entre n�s e tamb�m impedir que se repita, agora que temos carta branca. A chave da corrente do rel�gio, sr. Bennett. Macphail vigiar� o paciente e nos informar� se houver alguma mudan�a. Vamos ver o que podemos encontrar na misteriosa caixa do professor.</p><p>N�o havia muita coisa, mas havia o suficiente � um frasco vazio, outro quase cheio, uma seringa hipod�rmica; muitas cartas numa caligrafia dif�cil de entender, e em l�ngua estrangeira. Os selos no envelope mostraram que eram as mesmas cartas que haviam perturbado a rotina do secret�rio, e cada uma delas tinha como remetente �A. Dorak�, da Commercial Road. Eram simples faturas avisando que um novo frasco estava sendo enviado ao professor Presbury, ou recibos acusando o recebimento de dinheiro. Mas havia um outro envelope, numa caligrafia mais leg�vel, e trazendo o selo austr�aco, com o carimbo do correio de Praga. � Aqui est� o nosso material � exclamou Holmes enquanto abria o envelope.</p><empty-line/><p>Prezado colega:</p><p>Desde a sua prezada visita, tenho pensado muito em seu caso e embora nas suas condi��es haja motivos especiais para o tratamento, mesmo assim eu recomendo cautela, j� que meus resultados mostraram que este tratamento n�o � feito sem um certo risco.</p><p>Talvez o soro de antrop�ide fosse melhor. Como lhe expliquei, usei o sangur de cara preta, porque havia um esp�cime dispon�vel. O sangur, naturalmente, � um rastejador e um trepador, enquanto o antrop�ide caminha ereto e � mais aparentado em todos os aspectos.</p><p>Rogo-lhe que tome todas as precau��es poss�veis para que n�o haja revela��es prematuras do processo. Tenho outro cliente na Inglaterra, e Dorak � meu intermedi�rio para ambos.</p><p>Agradeceria seus relat�rios semanais.</p><p>Com toda a estima,</p><p>H. Lowenstein</p><empty-line/><p>Lowenstein! O nome fez com que eu me lembrasse de um recorte de jornal que falava de um obscuro cientista que estava se aventurando por um caminho desconhecido, em busca do segredo do rejuvenescimento e do elixir da vida. Lowenstein de Praga! Lowenstein, com o maravilhoso elixir de energia, proibido de exercer a profiss�o porque se recusava a revelar a sua fonte. Em poucas palavras, disse aquilo de que me recordava. Bennett apanhara um manual de zoologia na estante. � �Sangur� � ele leu � �o grande macaco de cara preta das encostas do Himalaia, o maior e o mais humano dos macacos trepadores.� H� muitos outros detalhes. Bem, sr. Holmes, gra�as ao senhor, � evidente que descobrimos a origem do mal.</p><p>� A verdadeira origem � disse Holmes � est�, naturalmente, naquele caso de amor extempor�neo que deu ao nosso impetuoso professor a id�ia de que ele s� poderia conseguir o que queria transformando-se num jovem. Quando algu�m tenta sobrepor-se � natureza, fica sujeito a perd�-la. O tipo mais desenvolvido de homem pode voltar � vida animal se abandonar a estrada reta do destino. � Ele ficou sentado pensativo, durante alguns minutos, com o frasco na m�o, olhando para o l�quido transparente ali dentro. � Quando eu tiver escrito a este homem e dito a ele que eu o considero criminalmente respons�vel pelos venenos que p�e em circula��o, n�o teremos mais problemas. Mas isto pode se repetir. Outros podem descobrir uma maneira melhor. Existe perigo a�, um perigo muito real para a humanidade. Pense, Watson, que os materialistas, os sensuais, os mundanos, todos iriam prolongar suas vidas sem valor. Os espiritualistas n�o recusariam a convoca��o para alguma coisa mais elevada. Seria a sobreviv�ncia dos menos adequados. Em que esp�cie de cloaca o nosso mundo n�o se transformaria? � De repente o sonhador desapareceu, e Holmes, o homem de a��o, saltou da cadeira. � Acho que n�o h� nada mais a dizer, sr. Bennett. Os v�rios acontecimentos agora se encaixar�o facilmente no plano geral. O c�o, naturalmente, percebeu a mudan�a muito mais depressa do que o senhor. O seu olfato lhe garante isso. Foi o macaco, n�o o professor, que Roy atacou, assim como foi o macaco que implicou com Roy. Para a criatura, subir pela parede foi um prazer, e acho que foi por acaso que o passatempo o levou at� a janela de sua filha. H� um trem cedo para a cidade, Watson, mas acho que antes disso teremos tempo para uma x�cara de ch� no Chequers.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura da juba do le�o</strong></p><p>� muito estranho que me tivesse aparecido, depois que me aposentei, um caso mais complicado e estranho do que qualquer outro que enfrentei em minha longa carreira profissional, e que esse caso tivesse ocorrido, como ocorreu, na minha porta. Isso aconteceu depois que me recolhi � minha casinha, em Sussex, quando j� estava inteiramente dedicado �quela vida tranq�ila em contato com a natureza que eu tanto almejara durante os longos anos passados na melanc�lica Londres. Nesse per�odo de minha vida, o bondoso Watson ficou quase inteiramente fora do alcance de minha vista. Uma visita ocasional nos fins de semana era o m�ximo que nos v�amos. Portanto, tenho que ser o meu pr�prio cronista. Mas se ele estivesse comigo, como ele teria valorizado este acontecimento e o meu triunfo final sobre cada dificuldade! No entanto, como ele n�o estava, tenho que contar minha hist�ria de maneira simples, mostrando, com minhas palavras, cada�passo na dif�cil estrada que se estendia � minha frente enquanto eu investigava o mist�rio da juba do le�o.</p><p>Minha casa de campo est� situada na encosta meridional das colinas, com uma ampla vista do Canal. Nesse ponto o litoral � inteiramente formado de penhascos calc�rios, de onde s� se pode descer por uma �nica trilha extensa, tortuosa, �ngreme e escorregadia. L� embaixo, no fim da trilha, estendem-se centenas de metros de cascalho e seixos, mesmo quando a mar� est� alta. Mas aqui e ali, existem curvas e enseadas que formam espl�ndidas piscinas, que se enchem em cada mar� alta. Esta praia maravilhosa estende-se por alguns quil�metros de cada lado, com exce��o do ponto onde a pequena enseada e a aldeia de Fulworth interrompem o contorno.</p><p>Minha casa fica isolada. Eu, minha velha governanta e minhas abelhas temos toda a propriedade s� para n�s. Contudo, a uns 800 metros de dist�ncia fica o conhecido estabelecimento de ensino de Harold Stackhurst, o Gables, um pr�dio grande onde dezenas de jovens s�o preparados para diversas profiss�es, com um corpo docente composto de muitos professores. O pr�prio Stackhurst, em seu tempo, foi um conhecido remador da Universidade de Oxford e um humanista de conhecimentos muito amplos. Ele e eu ficamos bons amigos desde que cheguei � costa, e ele era o �nico homem que mantinha comigo rela��es t�o cordiais que nos permitiam visitar um ao outro, � noite, sem convite.</p><p>Quase no fim de julho de 1907, houve um temporal violento, com o vento soprando canal acima, carregando as �guas at� a base dos penhascos e deixando uma lagoa com a mudan�a da mar�. Na manh� a que me refiro, o vento havia diminu�do, e toda a natureza estava rec�m-lavada e fresca. Era imposs�vel trabalhar num dia t�o encantador, e eu dei um passeio antes do caf� para aproveitar o ar agrad�vel da manh�. Eu caminhava pela trilha que ia dar na descida �ngreme para a praia. Quando estava andando, ouvi um grito atr�s de mim, e l� estava Harold Stackhurst acenando alegremente para mim.</p><p>� Que bela manh�, sr. Holmes! Achei que deveria convid�-lo para sair.</p><p>� Vejo que pretende ir nadar.</p><p>� Novamente com as suas brincadeiras � ele riu, apalpando seu bolso saliente. � Sim, McPherson saiu cedo, e espero poder encontr�-lo l�.</p><p>Fitzroy McPherson era o professor de ci�ncias, um jovem bonito e forte, cuja vida havia sido prejudicada por um problema no cora��o ap�s uma febre reum�tica, mas ele era um atleta nato, e se destacava em todas as competi��es esportivas que n�o exigissem dele um grande esfor�o. No ver�o e no inverno ele nadava, e como eu tamb�m sou um nadador,� quase sempre ia junto com ele.</p><p>Neste momento avistamos o homem de quem fal�vamos. Sua cabe�a aparecia acima da borda do penhasco onde a trilha termina. Depois, todo o seu corpo apareceu no cume, cambaleando como um b�bado. No instante seguinte, ele jogou as m�os para cima, e com um grito terr�vel caiu com o rosto no ch�o. Stackhurst e eu corremos � devia ser uma dist�ncia de uns 50 metros � e o viramos de costas. Era �bvio que ele estava morrendo. Aqueles olhos fundos e vidrados e as faces horrivelmente p�lidas n�o podiam significar outra coisa. Por um instante, seu rosto readquiriu um sopro de vida e ele sussurrou duas ou tr�s palavras com um ar ansioso de advert�ncia. Sa�ram ligeiras e indistintas, por�m para o meu ouvido, as �ltimas palavras que brotaram dos l�bios dele, num grito agudo, foram �a juba do le�o�. Eram totalmente despropositadas e inintelig�veis, mas eu n�o poderia dar-lhes qualquer outro sentido. Ent�o ele ergueu-se um pouco do ch�o, jogou os bra�os para o alto e caiu de lado. Estava morto.</p><p>Meu companheiro ficou paralisado de terror, mas eu, como se pode imaginar, estava com todos os sentidos alertas. E havia necessidade, porque logo ficou evidente que est�vamos diante de um caso extraordin�rio. O homem estava vestido apenas com seu sobretudo, cal�as e um par de sapatos de lona desamarrados. Quando ele caiu, o sobretudo, que tinha sido simplesmente jogado em volta dos ombros, escorregou, expondo seu tronco. N�s o olhamos com espanto. Suas costas estavam cobertas por tra�os vermelho-escuros, como se ele tivesse sido terrivelmente a�oitado com um fino chicote met�lico. O instrumento com o qual este castigo lhe havia sido infligido era evidentemente flex�vel, porque os horr�veis verg�es compridos e vermelhos acompanhavam a curvatura de seus ombros e do t�rax. Havia sangue gotejando de seu queixo, porque ele mordera o l�bio inferior no auge da agonia. Seu rosto contra�do e retorcido mostrava como fora terr�vel essa agonia.</p><p>Eu estava ajoelhado, e Stackhurst de p� ao lado do corpo quando uma sombra caiu sobre n�s, e percebemos que Ian Murdoch estava ao nosso lado. Murdoch era o preceptor de matem�tica do estabelecimento, um homem alto, moreno e magro, t�o reservado e distante, que ningu�m poderia dizer que era seu amigo. Ele parecia viver em alguma regi�o superior e abstrata de infinitos e sess�es c�nicas, com pouca coisa que o vinculasse � vida normal. Ele era considerado um exc�ntrico pelos estudantes, e teria sido alvo de piadas deles, mas o homem tinha algum sangue estranho e forasteiro que se revelava n�o apenas em seus olhos pretos como carv�o e em seu rosto moreno, mas tamb�m nas ocasionais explos�es de mau humor, que s� poderiam ser descritas como ferozes. Certa vez, importunado por um cachorrinho que pertencia a McPherson, pegou o animal e o arremessou pela vidra�a da janela, uma atitude pela qual Stackhurst certamente o teria demitido, se ele n�o fosse um excelente professor. Assim era o homem estranho e complexo que agora surgia ao nosso lado. Ele parecia estar sinceramente abalado com o que via diante dele, embora o incidente com o cachorro pudesse mostrar que n�o havia grande simpatia entre o morto e ele.</p><p>� Pobre sujeito! Pobre sujeito! O que posso fazer? Como posso ajudar?</p><p>� Voc� estava com ele? Pode nos dizer o que aconteceu?</p><p>� N�o, n�o, eu estava atrasado esta manh�. Eu n�o estava na praia, de modo algum. Eu vim direto do Gables. O que posso fazer?</p><p>� Voc� pode correr at� a delegacia de Fulworth. Conte o que aconteceu, imediatamente.</p><p>Sem uma palavra, ele saiu correndo a toda a velocidade, e eu assumi o controle do caso enquanto Stackhurst, atordoado com a trag�dia, permanecia ao lado do corpo. Minha primeira tarefa, naturalmente, foi verificar quem estava na praia. Da parte mais alta da trilha, eu podia enxergar toda a extens�o da praia, que estava completamente deserta, a n�o ser por dois ou tr�s vultos escuros, que podiam ser vistos ao longe, movendo-se para a aldeia de Fulworth. Depois disso, caminhei lentamente, pela descida da trilha. Havia argila ou marna* mole misturada com calc�rio, e em diversos lugares notei a mesma pegada, subindo e descendo. Ningu�m mais tinha descido at� a praia por esta trilha naquela manh�. Em um lugar notei a impress�o de uma m�o aberta, com os dedos na dire��o do declive. Isto s� poderia significar que o pobre McPherson havia ca�do enquanto subia. Havia tamb�m depress�es arredondadas, o que sugeria que ele havia ca�do de joelhos mais de uma vez. No final da trilha ficava a grande lagoa deixada pela mar� vazante. McPherson se despira �s margens da lagoa, pois l� estava a sua toalha sobre uma das rochas. Estava dobrada e seca, o que levava a crer que, afinal, ele n�o havia entrado na �gua. Uma ou duas vezes, enquanto eu examinava o trecho de cascalho, encontrei pequenas por��es de areia em que se podia ver a marca de seus sapatos de lona, e tamb�m de seus p�s descal�os. Este �ltimo fato provava que ele havia se preparado para o banho, embora a toalha indicasse que ele, na verdade, n�o entrara na �gua.</p><p>E a� estava o problema claramente definido � o mais estranho que eu j� havia confrontado. O homem n�o tinha permanecido na praia mais de 15 minutos. Stackhurst o havia seguido desde Gables, de modo que n�o poderia haver d�vida quanto a isto. Ele tinha ido nadar e havia se despido, como revelavam suas pegadas descal�as. Ent�o, de repente, ele vestira outra vez as roupas �s pressas � elas estavam todas amarrotadas e desamarradas �, e ele voltara sem ter nadado ou, de qualquer modo, sem ter secado o corpo. E o motivo para esta mudan�a de inten��o foi que ele havia sido flagelado de maneira selvagem e desumana, e torturado at� morder os l�bios em sua agonia, e fora abandonado com for�as apenas para se afastar rastejando e morrer. Quem teria praticado este ato t�o b�rbaro? Havia, � verdade, pequenas grutas e cavernas na base do penhasco, mas o sol baixo as iluminava diretamente o interior, e n�o havia lugar para esconderijos. Depois, havia aqueles vultos distantes na praia. Eles pareciam estar longe demais para ter alguma liga��o com o crime, e a ampla lagoa junto �s rochas, onde McPherson tinha a inten��o de tomar banho, ficava entre eles. No mar estavam dois ou tr�s barcos de pesca a uma dist�ncia n�o muito grande. Seus ocupantes podiam ser observados por n�s � vontade. Havia muitos caminhos para a investiga��o, mas nenhum que conduzisse a qualquer resultado evidente.</p><p>Quando finalmente voltei, verifiquei que um pequeno grupo de desocupados havia se aglomerado em volta do corpo. Stackhurst, naturalmente, ainda estava l�, e Ian Murdoch havia acabado de chegar com Anderson, o policial da aldeia, um homem grande, de bigodes ruivos, da s�lida e lenta estirpe de Sussex � uma gente que traz escondida uma boa dose de bom senso por tr�s de uma apar�ncia pesada e silenciosa. Ele ouviu, tomou nota de tudo o que dissemos, e finalmente puxou-me para um lado.</p><p>� Eu gostaria de poder contar com a sua orienta��o, sr. Holmes. Esta � uma tarefa dif�cil pra mim, e se eu me sair mal, Lewes vai me repreender.</p><p>Aconselhei-o a mandar chamar seu superior imediato e um m�dico, e tamb�m que n�o permitisse que nada fosse removido, e que fizessem a menor quantidade poss�vel de pegadas at� que eles chegassem. Enquanto isso, dei uma busca nos bolsos do homem morto. Encontrei um len�o, uma faca grande e uma pequena caixa de cartas de baralho dobrada. Desta caixa sa�a a ponta de um papel, que desdobrei e entreguei ao policial. Nele estava escrito, numa caligrafia malfeita de mulher: �Estarei l�, pode ter certeza. � Maudie.� Podia ser interpretado como um caso de amor, um encontro amoroso, embora n�o houvesse men��o a data e lugar. O policial p�s o papel novamente na caixa de baralho e a enfiou, junto com as outras coisas, no bolso do sobretudo. Ent�o, como n�o me ocorresse mais nada, voltei para minha casa a fim de tomar o caf�-da-manh�, depois de ter providenciado para que se desse uma busca completa no sop� do penhasco.</p><empty-line/><p>Uma ou duas horas depois, Stackhurst estava de volta para dizer-me que o corpo havia sido removido para o Gables, onde seria feito o inqu�rito policial. Trouxe algumas informa��es graves precisas. Como eu esperava, nada foi encontrado nas pequenas cavernas na base do penhasco, mas eles haviam examinado os pap�is na escrivaninha de McPherson, e muitos deles revelavam uma correspond�ncia �ntima com uma certa srta. Maud Bellamy, de Fulworth. Ent�o identificamos a autora do bilhete.</p><p>� A pol�cia tem as cartas � ele explicou. � N�o pude traz�-las. Mas n�o h� d�vida de que aquele era um verdadeiro caso de amor. Entretanto, n�o vejo motivo para associar o caso a este acontecimento terr�vel, a n�o ser pelo fato de que a mo�a havia marcado um encontro com ele.</p><p>� Mas dificilmente numa piscina que todos voc�s costumavam freq�entar � eu comentei.</p><p>� Foi por mero acaso � ele disse � que muitos estudantes n�o estivessem com McPherson.</p><p>� Ser� que foi um mero acaso?</p><p>Stackhurst franziu as sobrancelhas, pensativo.</p><p>� Ian Murdoch os reteve � disse �, ele insistiu com os estudantes para uma demonstra��o de �lgebra antes do caf�. Pobre sujeito, est� completamente arrasado com tudo isso.</p><p>� Entretanto, cheguei � conclus�o de que eles n�o eram amigos.</p><p>� Houve uma �poca em que eles n�o eram amigos. No entanto, h� um ano ou mais, Murdoch tem estado mais pr�ximo de McPherson do que j� esteve de qualquer outra pessoa. Ele n�o � muito simp�tico por natureza.</p><p>� Foi o que entendi. Acho que voc� me contou uma vez a respeito de uma briga porque ele maltratou um cachorro.</p><p>� Isso j� foi esquecido.</p><p>� Mas talvez tenha deixado algum sentimento de vingan�a.</p><p>� N�o, n�o, tenho certeza de que eles eram amigos de verdade.</p><p>� Bem, ent�o devemos investigar o caso da mo�a. Voc� a conhece?</p><p>� Todo mundo a conhece. Ela � a beldade do lugar � uma verdadeira beldade, que despertaria aten��o em qualquer lugar. Eu sabia que McPherson sentia-se atra�do por ela, mas n�o sabia que o caso tinha ido t�o longe quanto essas cartas parecem indicar.</p><p>� Mas, quem � ela?</p><p>� Ela � filha do velho Tom Bellamy, que � dono de todos os barcos e barracas em Fulworth. Ele come�ou como pescador, e agora � homem de algumas posses. Ele e seu filho William tocam o neg�cio.</p><p>� Vamos at� Fulworth para v�-los?</p><p>� Com que pretexto?</p><p>� Oh! podemos achar facilmente um pretexto. Afinal de contas esse pobre homem n�o maltratou a si mesmo desta maneira brutal. Alguma m�o humana estava segurando o cabo daquele chicote, se de fato foi um chicote que causou os ferimentos. O seu c�rculo de amizades neste lugar solit�rio certamente era limitado. Vamos em seu encal�o, em todas as dire��es, e dificilmente deixaremos de descobrir o motivo do crime, o que, por sua vez, poder� levar-nos ao criminoso.</p><p>Teria sido um passeio agrad�vel pelos declives perfumados pelos tomilhos, se as nossas mentes n�o estivessem envenenadas pela trag�dia que hav�amos testemunhado. A aldeia de Fulworth fica num vale e estende-se num semic�rculo em volta da ba�a. Atr�s do antigo povoado, nas encostas, foram constru�das v�rias casas modernas. Foi para uma destas casas que Stackhurst me conduziu.</p><p>� Esta � The Haven, como Bellamy a batizou. A que tem uma torre no canto e telhado de ard�sia. Nada m� para um homem que come�ou do nada. Por Deus, olhe ali!</p><p>O port�o do jardim da The Haven foi aberto e um homem saiu. N�o havia como confundir aquela figura alta, angulosa, solit�ria. Era Ian Murdoch, o matem�tico. Logo depois nos defrontamos com ele na estrada.</p><p>� Ol�! � disse Stackhurst. O homem saudou-nos com a cabe�a, olhou-nos de soslaio com seus estranhos olhos escuros, e teria passado direto por n�s, mas seu superior o fez parar.</p><p>� O que � que voc� est� fazendo aqui? � ele perguntou.</p><p>O rosto de Murdoch ficou vermelho de raiva. � Sou seu subordinado senhor, debaixo do seu teto. Mas n�o tenho que lhe dar satisfa��es de minhas atitudes particulares.</p><p>Os nervos de Stackhurst estavam � flor da pele depois de tudo o que havia suportado. Em outras circunst�ncias talvez ele tivesse esperado. Mas naquela hora ele perdeu completamente a calma.</p><p>� A sua resposta � pura impertin�ncia, sr. Murdoch.</p><p>� A sua pergunta tamb�m foi impertinente.</p><p>� Esta n�o � a primeira vez que tenho de fazer vista grossa para as suas insubordina��es. Esta certamente ser� a �ltima. O senhor, por favor, tome provid�ncias quanto ao seu futuro o mais depressa poss�vel.</p><p>� J� pretendia fazer isto. Perdi hoje a �nica pessoa que tornava o Gables habit�vel.</p><p>Ele saiu andando a passos largos, enquanto Stackhurst, com uma express�o zangada, ficou olhando para ele. � N�o � um homem insuport�vel? � ele gritou.</p><p>A �nica coisa que se fixou na minha mente foi que o sr. Ian Murdoch estava agarrando a primeira oportunidade e preparando caminho para fugir do local do crime. Uma suspeita vaga e nebulosa estava agora come�ando a se formar na minha mente. Talvez a visita aos Bellamy pudesse esclarecer alguma coisa sobre o assunto. Stackhurst acalmou-se e prosseguimos at� a casa.</p><p>O sr. Bellamy era um homem de meia-idade, com uma flamejante barba vermelha. Ele parecia estar muito irritado, e seu rosto ficou logo t�o vermelho quanto sua barba.</p><p>� N�o, senhor, n�o desejo saber de nenhum detalhe. Meu filho aqui � ele disse indicando um jovem forte, com um rosto triste e zangado, no canto da sala de estar � � da mesma opini�o que eu, de que as aten��es do sr. McPherson para com Maud eram ofensivas. Sim, senhor, a palavra casamento nunca foi mencionada, e mesmo assim havia cartas e encontros e muito mais coisas que nenhum de n�s podia aprovar. Ela n�o tem m�e, e somos seus �nicos tutores. Estamos decididos...</p><p>Mas as palavras foram interrompidas pelo aparecimento da pr�pria mo�a. N�o se podia negar que ela enfeitaria qualquer reuni�o no mundo. Quem poderia ter imaginado que uma flor t�o rara crescesse de semelhante raiz e em semelhante atmosfera? As mulheres raramente me atra�ram, porque meu c�rebro sempre governou meu cora��o, mas era imposs�vel olhar para o seu rosto de contornos perfeitos, com todo o suave encanto daquela terra em seu colorido delicado, sem perceber que nenhum jovem poderia cruzar seu caminho inc�lume. Assim era a jovem que abrira a porta com um empurr�o e estava agora, ansiosa e de olhos arregalados, diante de Harold Stackhurst.</p><p>� J� sei que Fitzroy est� morto � ela disse. � N�o tenha medo de me contar os detalhes.</p><p>� Aquele outro cavalheiro nos trouxe a not�cia � explicou o pai.</p><p>� N�o h� motivo para que minha irm� seja envolvida no assunto � resmungou o homem mais jovem.</p><p>A irm� lan�ou-lhe um olhar ir�nico e feroz. � Isto � assunto meu, William. Tenha a bondade de me deixar cuidar do assunto da minha maneira. Dizem que foi cometido um crime. Se eu tiver como ajudar a descobrir quem fez isso, ser� o m�nimo que poderei fazer por ele que se foi.</p><p>Ela ouviu um curto relato de meu amigo com uma concentra��o tranq�ila, o que demonstrou que ela possu�a um car�ter forte, al�m da grande beleza. Maud Bellamy ficar� para sempre na minha lembran�a como a mais completa e extraordin�ria das mulheres. Parece que ela j� me conhecia de vista, porque no final virou-se para mim.</p><p>� Leve-os � justi�a, sr. Holmes. O senhor tem a minha solidariedade e a minha ajuda, sejam eles quem forem. � Tive a impress�o de que ela olhou de modo desafiador para o pai e irm�o enquanto falava.</p><p>� Obrigado � eu disse. � Nestes assuntos, aprecio o instinto da mulher. A senhorita usou a palavra eles. Acha que h� mais de uma pessoa envolvida?</p><p>� Conheci McPherson bastante bem, para saber que ele era um homem corajoso e forte. Uma pessoa sozinha n�o poderia ter cometido aquela atrocidade com ele.</p><p>� Posso dizer-lhe uma palavra em particular?</p><p>� Estou lhe dizendo, Maud, para n�o se envolver no assunto! � gritou o pai, zangado.</p><p>Ela me olhou com um ar despreocupado. � O que posso fazer?</p><p>� Em breve todo mundo conhecer� os fatos, de modo que n�o pode haver nenhum mal em discutirmos os fatos aqui � eu disse. � Eu preferia a privacidade, mas se seu pai n�o permite, ele precisa participar das decis�es. � Ent�o falei a respeito do bilhete que foi encontrado no bolso do homem morto. � � certo que ele ser� mostrado durante o inqu�rito. Posso pedir-lhe que esclare�a o assunto, se puder?</p><p>� N�o vejo motivo para mist�rios � ela respondeu. � Est�vamos noivos, e s� guardamos segredo porque o tio de Fitzroy, que � muito velho, e dizem que est� � morte, poderia t�-lo deserdado se Fitzroy tivesse se casado contra a vontade dele. N�o havia outro motivo.</p><p>� Voc� poderia ter-nos dito � resmungou o sr. Bellamy.</p><p>� Eu o teria feito, meu pai, se o senhor alguma vez tivesse demonstrado solidariedade.</p><p>� Oponho-me ao relacionamento de minha filha com homens de outra condi��o social.</p><p>� Foi o seu preconceito contra ele que impediu que n�s lhe cont�ssemos. Quanto a esse encontro � ela apalpou seu vestido e tirou um bilhete amassado �, era a resposta a este bilhete.</p><empty-line/><p>Querida [dizia a mensagem]</p><empty-line/><p>Ter�a-feira, no antigo local, na praia, logo depois do p�r-do-sol. � a �nica hora em que posso sair. � F.M.</p><p>� Ter�a-feira seria hoje, e eu pretendia encontrar-me com ele esta noite. Virei o papel do outro lado. � Isto n�o veio pelo correio. Como foi que lhe chegou �s m�os?</p><p>� Prefiro n�o responder a esta pergunta. Isto realmente nada tem a ver com o assunto que o senhor est� investigando. Mas responderei espontaneamente sobre qualquer coisa que tenha rela��o com isto.</p><p>Ela cumpriu a palavra, mas n�o disse nada que nos ajudasse na investiga��o. Ela n�o via motivo para pensar que seu noivo tivesse algum inimigo oculto, mas admitiu que tivera muitos admiradores apaixonados.</p><p>� Posso perguntar-lhe se o sr. Ian Murdoch era um deles?</p><p>Ela enrubesceu e pareceu confusa.</p><p>� Houve uma �poca em que pensei que fosse. Mas tudo mudou quando ele compreendeu quais eram as minhas rela��es com Fitzroy.</p><p>Novamente a sombra em volta desse homem estranho parecia estar tomando uma forma definida. Seus antecedentes precisavam ser examinados. Seus aposentos deveriam ser revistados secretamente. Stackhurst era um colaborador de boa vontade, porque em sua mente tamb�m estava se formando uma suspeita. Voltamos da visita a The Haven com a esperan�a de que uma das pontas desta meada embara�ada j� estivesse em nossas m�os.</p><p>Passou-se uma semana. O inqu�rito n�o havia esclarecido o caso, e fora prorrogado at� que se conseguissem novas provas. Stackhurst fizera uma investiga��o discreta a respeito de seu subordinado, e havia sido feita uma busca superficial em seu quarto, mas sem resultado. Pessoalmente, eu havia examinado tudo outra vez, f�sica e mentalmente, mas sem nenhuma conclus�o nova. Em todas as minhas cr�nicas, o leitor n�o encontrar� nenhum caso que me conduzisse t�o completamente ao limite da minha capacidade. Nem a minha imagina��o conseguia conceber uma solu��o para o mist�rio. E ent�o veio o incidente do cachorro.</p><p>Foi minha velha governanta quem primeiro ouviu a respeito do caso, por aquele estranho e primitivo tel�grafo atrav�s do qual as pessoas humildes colhiam as not�cias da zona rural.</p><p>� Hist�ria triste esta, senhor, a respeito do cachorro do sr. McPherson � ela disse uma noite.</p><p>Eu n�o costumo incentivar conversas desse tipo, mas as palavras despertaram a minha aten��o.</p><p>� O que aconteceu com o cachorro de McPherson?</p><p>� Est� morto, senhor. Morreu de tristeza pelo seu dono.</p><p>� Quem lhe contou isto?</p><p>� Ora, senhor, todos est�o comentando isto. Ele ficou terrivelmente abalado e n�o comeu nada durante uma semana. Ent�o, hoje, dois mo�os do Gables o encontraram morto, l� embaixo na praia, senhor, no mesmo lugar onde o seu dono morreu.</p><p>� No mesmo lugar! � As palavras se destacaram n�tidas na minha mem�ria. Tive uma percep��o vaga de que o assunto era fundamental. Que o cachorro tivesse morrido, estava de acordo com a natureza admir�vel e leal dos cachorros. Mas no mesmo lugar! Por que esta praia deserta teria sido fatal para o cachorro? Ser� que ele tamb�m tinha sido sacrificado por causa de alguma rixa vingativa? Seria poss�vel? Sim, a percep��o era vaga, mas alguma coisa j� estava se estruturando em minha mente. Poucos minutos depois eu estava a caminho do Gables, e encontrei Stackhurst em seu escrit�rio. A meu pedido, ele mandou chamar Sudbury e Blount, os dois estudantes que haviam encontrado o cachorro.</p><p>� Sim, ele estava bem na extremidade da piscina � disse um deles. � Deve ter seguido o rastro de seu falecido dono.</p><p>Vi o pequeno e fiel animal, um Terrier Airedale, sobre o tapete do hall. O corpo estava r�gido, os olhos salientes e os membros contorcidos. Havia agonia em cada tra�o.</p><p>Do Gables desci para a piscina. O sol havia desaparecido e a sombra do grande penhasco projetava-se negra na �gua, que tinha um reflexo emba�ado, como uma folha de chumbo. O lugar estava deserto e n�o havia sinal de vida, a n�o ser por dois p�ssaros marinhos circulando no alto e gritando. Na luz que se extinguia, segui com dificuldade o rastro do cachorro na areia, em volta da mesma pedra onde a toalha de seu dono havia sido colocada. Durante muito tempo fiquei ali refletindo enquanto as sombras ficavam mais negras em volta. Minha mente estava repleta de pensamentos que se sobrepunham velozmente. Voc� deve saber o que � ter um pesadelo em que voc� sente que procura alguma coisa importante e que sabe que est� ali, embora esta coisa permane�a, por pouco, fora do seu alcance. Foi assim que eu me senti naquela noite, enquanto fiquei sozinho perto do local da morte. Depois, virei-me e fui caminhando lentamente na dire��o da minha casa.</p><p>Eu havia acabado de chegar � parte mais alta do atalho, quando me lembrei de repente. Como um rel�mpago, lembrei-me daquilo que eu havia tentado agarrar em v�o com tanta ansiedade. Voc� deve saber, ou Watson escreveu em v�o, que eu conservo um vasto dep�sito de conhecimentos diversificados mas n�o correlatos, catalogados sem m�todo cient�fico, mas dispon�veis para as necessidades de meu trabalho. Minha mente � como um dep�sito cheio, com pacotes de todo tipo armazenados em tal quantidade que s� consigo ter uma vaga id�ia do que est� l� dentro. Eu sabia que havia alguma coisa que poderia ter rela��o com este assunto. Era uma id�ia ainda vaga, mas pelo menos eu sabia como poderia torn�-la clara. Era monstruoso, incr�vel, mas era uma possibilidade. Eu faria o teste at� o fim.</p><p>Na minha casa tem um grande s�t�o entulhado de livros. Foi ali que me enfurnei e pesquisei durante uma hora. No fim desse per�odo sa� com um livro pequeno, marrom e prateado. Virei ansiosamente as p�ginas at� o cap�tulo de que me lembrava confusamente. Sim, era realmente uma hist�ria artificial e improv�vel, mas eu n�o descansaria at� me certificar de que poderia realmente ter sido assim. J� era tarde quando fui me deitar, com a mente esperando ansiosamente pelo trabalho do dia seguinte.</p><p>Mas aquele trabalho sofreu uma interrup��o inoportuna. Eu mal havia engolido o meu ch� matinal e estava saindo para a praia, quando apareceu o inspetor Bardle, da pol�cia de Sussex � um homem decidido, corpulento e pesad�o, de olhos pensativos, que agora tinham uma express�o muito preocupada.</p><p>� Sei da sua enorme experi�ncia, senhor � ele disse. � Isto n�o � oficial, e n�o deve ser comentado. Mas, no caso de McPherson, sou francamente contra isto. A quest�o �: devo ou n�o prender algu�m?</p><p>� Est� se referindo ao sr. Ian Murdoch?</p><p>� Sim, senhor. Realmente n�o h� mais ningu�m quando se come�a a pensar. Esta � a vantagem deste lugar isolado. N�s reduzimos a busca a um c�rculo muito pequeno. Se n�o foi ele quem fez isso, ent�o quem foi?</p><p>� O que tem voc� contra ele?</p><p>Ele tinha as mesmas d�vidas que eu. Havia o car�ter de Murdoch, e o mist�rio que parecia flutuar em volta dele. Seus acessos de f�ria, como ficou demonstrado no incidente do cachorro. O fato de que ele tivera uma discuss�o com McPherson no passado, e de que havia algum motivo para se pensar que ele guardasse ressentimento pelas aten��es que McPherson dispensava � senhorita Bellamy. Ele tinha as mesmas informa��es que eu, mas n�o sabia nada de novo, exceto que Murdoch parecia estar fazendo os preparativos para ir embora.</p><p>� Como ficaria a minha situa��o, se eu o deixasse escapar com todas essas provas contra ele? � O homem corpulento e fleum�tico estava muito preocupado.</p><p>� Analise, no seu caso � disse eu �, as lacunas principais. Na manh� do crime, ele p�de comprovar seu �libi. Ele havia estado com seus alunos at� o �ltimo momento, e alguns minutos depois que McPherson apareceu, ele se aproximou de n�s e vinha do lado oposto. Depois, lembre-se de que seria absolutamente imposs�vel que ele, sem ajuda, pudesse ter cometido aquela atrocidade contra um homem t�o forte quanto ele pr�prio.</p><p>� O que poderia ter sido aquilo, a n�o ser um a�oite ou algum tipo de chicote?</p><p>� Voc� examinou as marcas? � perguntei.</p><p>� Eu as vi. O m�dico tamb�m.</p><p>� Mas eu as examinei muito atentamente com uma lente. Elas apresentam algumas peculiaridades.</p><p>� Que peculiaridades, sr. Holmes?</p><p>Fui at� a minha escrivaninha e apanhei uma fotografia ampliada. � Este � o meu m�todo em casos desse tipo � expliquei.</p><p>� O senhor, certamente, faz as coisas com perfei��o, sr. Holmes.</p><p>� Dificilmente eu seria o que sou, se n�o o fizesse. Agora, vejamos este verg�o, que passa em volta do ombro direito. Voc� n�o percebe nada de extraordin�rio?</p><p>� N�o posso dizer que sim.</p><p>� � evidente que os verg�es t�m intensidades desiguais. H� um salpico de sangue aqui e outro ali. H� sinais semelhantes neste outro verg�o aqui embaixo. O que pode significar isto?</p><p>� N�o tenho id�ia. O senhor tem?</p><p>� Talvez sim. Talvez n�o. Eu terei condi��es de dizer algo mais. Qualquer coisa que defina o que produziu aquelas marcas nos aproximar� do criminoso.</p><p>� Esta �, naturalmente, uma id�ia absurda � disse o policial �, mas se uma rede de arame incandescente tivesse sido jogada nas costas dele, ent�o aquelas marcas mais acentuadas representariam os pontos em que as malhas se cruzavam.</p><p>� Uma compara��o bastante engenhosa. Ou devemos dizer um a�oite com muitas cordas duras e pequenos n�s.</p><p>� Por Deus, sr. Holmes, acho que o senhor conseguiu descobrir.</p><p>� Ou talvez a causa seja bem diferente, sr. Bardle. Mas o senhor ainda n�o tem base suficiente para efetuar uma pris�o. Al�m disso, temos aquelas �ltimas palavras � �a juba do le�o�.</p><p>� Eu tenho me perguntado se Ian...</p><p>� Sim, tenho considerado essa possibilidade. Se a primeira palavra poderia ter alguma semelhan�a com Murdoch � mas n�o tem. Ele a disse quase gritando. Tenho certeza de que a palavra era �Juba�.</p><p>� O senhor n�o tem nenhuma alternativa, sr. Holmes?</p><p>� Talvez tenha. Mas n�o quero discutir o assunto at� que haja alguma coisa mais concreta para discutir.</p><p>� E quando ser� isso?</p><p>� Dentro de uma hora, talvez menos.</p><p>O inspetor co�ou o queixo e me olhou com uma express�o de d�vida.</p><p>� Gostaria de poder ver o que o senhor tem em mente, sr. Holmes. Talvez sejam aqueles barcos de pesca.</p><p>� N�o, n�o, eles estavam distantes demais.</p><p>� Bem, ent�o � Bellamy e aquele seu filho grandalh�o? Eles n�o eram muito am�veis com McPherson. Eles poderiam t�-lo maltratado?</p><p>� N�o, n�o, o senhor n�o me vai arrancar nada at� que eu esteja preparado � eu disse com um sorriso. � Agora, inspetor, cada um de n�s tem seu pr�prio trabalho a fazer. O senhor poderia encontrar-se comigo aqui, ao meio-dia.</p><p>N�s est�vamos nesse ponto quando houve uma interrup��o brusca, que foi o come�o do fim. A porta externa foi escancarada, ouvimos passos tr�pegos no corredor, e Ian Murdoch entrou cambaleando na sala, p�lido, desgrenhado, as roupas em total desalinho, as m�os ossudas agarrando-se aos m�veis para n�o cair.</p><p>� Conhaque! Conhaque! � ele disse ofegante, e caiu gemendo no sof�.</p><p>Ele n�o estava s�. Atr�s dele veio Stackhurst, sem chap�u e esbaforido, quase t�o transtornado quanto o outro.</p><p>� Sim, sim, conhaque! � ele exclamou. � O homem est� quase sem f�lego. Fiz tudo o que pude para traz�-lo at� aqui: ele desmaiou duas vezes no caminho.</p><p>Meio copo de bebida pura produziu uma mudan�a extraordin�ria. Ergueu-se, apoiado em um dos bra�os, e sacudiu o casaco dos ombros. � Pelo amor de Deus! �leo, �pio, morfina! � ele gritou. Qualquer coisa para aliviar esta agonia infernal!</p><p>O inspetor e eu gritamos diante do que vimos. Ali, cruzadas sobre o ombro nu do homem, estava o mesmo estranho desenho reticulado de linhas vermelhas e inflamadas que tinha sido o sinal mortal de Fitzroy McPherson.</p><p>A dor, evidentemente, era terr�vel e n�o s� local, porque a respira��o dele parava durante algum tempo, seu rosto ficava preto, e em seguida, arquejando, batia com a m�o sobre o cora��o, enquanto de sua testa pingavam gotas de suor. Ele podia morrer a qualquer momento. Mais e mais conhaque foi despejado em sua garganta, e cada nova dose trazia-o de volta � vida. Chuma�os de algod�o embebidos em �leo de oliva pareciam aliviar a dor intensa provocada pelos estranhos ferimentos. Por fim, a cabe�a dele caiu pesadamente sobre a almofada. Exausto, o organismo tinha se refugiado em seu �ltimo reservat�rio de energia. Era metade sono, metade desmaio, mas, pelo menos, foi um al�vio para a dor.</p><p>Interrog�-lo tinha sido imposs�vel, mas no momento em que nos tranq�ilizamos a respeito de suas condi��es, Stackhurst virou-se para mim.</p><p>� Meu Deus! � ele exclamou. � O que � isso, Holmes? O que � isso?</p><p>� Onde voc� o encontrou?</p><p>� L� na praia. Exatamente onde o pobre McPherson morreu. Se o cora��o deste homem fosse t�o fraco como era o de McPherson, ele n�o estaria aqui agora. Enquanto eu o trazia aqui para cima, mais de uma vez pensei que ele tivesse morrido. O Gables ficava muito distante, por isso eu o trouxe para c�.</p><p>� Voc� o viu na praia?</p><p>� Eu estava caminhando pelo penhasco quando ouvi o grito dele. Ele estava na margem da lagoa, cambaleando como um b�bado. Desci correndo, joguei algumas roupas em cima dele e o trouxe para cima. Pelo amor de Deus, Holmes, use todo o seu talento e n�o poupe esfor�os para afastar a maldi��o deste lugar, pois a vida est� ficando insuport�vel. Voc�, com toda essa sua reputa��o mundial, n�o pode fazer nada por n�s?</p><p>� Acho que posso, Stackhurst. Venha comigo agora! E voc�, inspetor, venha conosco! Vamos ver se n�o conseguiremos entregar esse assassino em suas m�os.</p><p>Deixando o homem inconsciente aos cuidados da minha governanta, n�s tr�s descemos at� a lagoa mort�fera. Ali, sobre os seixos, havia uma pilha de toalhas e roupas deixada pelo homem ferido. Caminhei lentamente em volta da margem, meus companheiros em fila indiana atr�s de mim. A maior parte da lagoa era bastante rasa, mas sob o penhasco, onde a praia formava uma concavidade, tinha aproximadamente 1,5 metro de profundidade. Era para esta parte da lagoa que um nadador naturalmente iria, pois ela formava uma linda piscina verde transparente, clara como cristal. H� uma s�rie de rochas acima desta piscina, na base do penhasco, e eu caminhei ao longo destas rochas, observando ansiosamente as profundezas abaixo de mim. Eu tinha chegado � parte mais funda e mais tranq�ila quando os meus olhos encontraram aquilo que eles estavam procurando, e eu dei um grito de triunfo.</p><p>� Cynea! � gritei. � Cynea! Vejam a juba do le�o!</p><p>O estranho objeto para o qual eu apontava parecia realmente uma massa emaranhada, arrancada da juba de um le�o. Estava sobre uma prateleira de pedra, a uns 90 cent�metros sob a �gua, uma criatura ondulante, vibrante, cabeluda, com listras prateadas entre as suas madeixas amarelas. Ela pulsava com dilata��es e contra��es lentas e pesadas.</p><p>� Ela j� causou bastante preju�zo! Seus dias terminaram! � exclamei. � Ajude-me, Stackhurst! Vamos eliminar o assassino para sempre.</p><p>Havia um grande peda�o de rocha exatamente acima desta prateleira, e n�s o empurramos at� que ele caiu com grande estrondo, espirrando �gua para todos os lados. Quando a ondula��o da �gua cessou, vimos que a pedra que jogamos havia se acomodado embaixo, sobre a prateleira de rocha. Uma borda da membrana amarela agitava-se mostrando que a nossa v�tima estava embaixo da pedra. Uma espuma grossa e oleosa escorreu embaixo da pedra e tingiu a �gua ao redor, subindo lentamente para a superf�cie.</p><p>� Ora, isto me surpreende � exclamou o inspetor. � O que � isto, sr. Holmes? Sou nascido e criado nesta regi�o, mas nunca vi uma coisa assim. Este animal n�o � origin�rio de Sussex.</p><p>� Melhor para Sussex � observei. � Deve ter sido o vento forte do sudoeste que o trouxe. Vamos voltar para casa, voc�s dois, e lhes contarei a terr�vel experi�ncia de algu�m que teve bons motivos para recordar seu pr�prio encontro com o mesmo perigo dos mares.</p><p>Quando chegamos ao meu escrit�rio, vimos que Murdoch havia se recuperado t�o bem que j� podia se sentar. Ele ainda estava confuso e de vez em quando era sacudido por um acesso de dor. Com frases entrecortadas, disse que n�o sabia o que tinha acontecido com ele, exceto que sentiu de repente dores terr�veis, e que fora necess�rio empregar toda a sua for�a de vontade para chegar at� a margem.</p><p>� Aqui est� um livro � eu disse, pegando um pequeno volume � que foi o primeiro a esclarecer aquilo que poderia ter permanecido um mist�rio para sempre. � o Out of Doors, do famoso observador J. G. Wood. O pr�prio Wood por pouco n�o morreu pelo contato com esta criatura maligna, de modo que ele escreveu o livro com pleno conhecimento de causa. Cynea capillata � o nome completo do patife, e ele pode ser t�o perigoso e bem mais doloroso do que a mordida da cobra. Deixe-me fazer-lhes um resumo.</p><p>� �Se o banhista vir uma massa m�vel, arredondada, de membranas e fibras meio castanhas, parecida com a juba de um le�o, e um punhado de papel prateado, ele que se acautele, porque isto � a terr�vel Cynea capillata, que pica.�</p><p>Ser� que o nosso sinistro conhecido poderia ser descrito de maneira mais clara?</p><p>� Depois ele conta o seu encontro com um deles, quando nadava ao largo da costa de Kent. Descobriu que o animal possu�a filamentos quase invis�veis que se estendiam num raio de 15 metros, e que qualquer pessoa dentro daquela circunfer�ncia, partindo do centro mort�fero, corria risco de vida. Mesmo � dist�ncia, o efeito sobre Wood foi quase fatal.</p><p>� �Os numerosos filamentos provocaram listras vermelhas na pele, que, examinadas mais de perto, revelaram pequenos pontos ou p�stulas, que pareciam estar, cada um deles, com uma agulha em brasa atravessando os nervos.�</p><p>� A dor local, como ele explica, era a parte mais insignificante daquele tormento. �As dores atravessaram o peito, fazendo-me cair como se tivesse sido ferido por uma bala. A pulsa��o cessava, e depois o cora��o dava seis ou sete pulos, como se for�asse sua passagem atrav�s do peito.�</p><p>� O animal quase o matou, embora s� tivesse ficado exposto a ele nas �guas agitadas do oceano, e n�o nas �guas calmas e limitadas de uma piscina. Ele disse que depois mal p�de se reconhecer de t�o branco, enrugado e murcho que ficou seu rosto. Ele bebeu conhaque, uma garrafa inteira, e parece que isto salvou sua vida. Aqui est� o livro, inspetor. Deixo-o com o senhor, e n�o pode duvidar que ele cont�m uma explica��o completa da trag�dia do pobre McPherson.</p><p>� E casualmente me isenta de culpa � comentou Ian Murdoch com um sorriso for�ado. � Eu n�o o culpo, inspetor, nem ao sr. Holmes, porque suas suspeitas eram naturais. Sinto que, na v�spera de minha pris�o, eu s� afastei as suspeitas tendo o mesmo destino do meu pobre amigo.</p><p>� N�o, sr. Murdoch. Eu estava j� na pista, e se eu tivesse sa�do t�o cedo quanto pretendia, poderia t�-lo salvado desta experi�ncia terr�vel.</p><p>� Mas como � que o senhor sabia sr. Holmes?</p><p>� Sou um leitor �vido, com uma mem�ria extraordin�ria para coisas sem import�ncia. Aquela frase, �a juba do le�o�, ficou na minha cabe�a. Eu sabia que havia lido isto em algum lugar, num contexto inesperado. O senhor j� percebeu que os termos juba do le�o realmente descrevem o animal. N�o tenho d�vida de que o animal estava flutuando na �gua quando McPherson o viu, e que aquela frase era a �nica pela qual ele poderia nos transmitir um aviso contra a criatura que havia causado sua morte.</p><p>� Bem, pelo menos estou isento de culpa � disse Murdoch, erguendo-se lentamente. � Gostaria de dar duas ou tr�s palavras de explica��o, porque sei o rumo que a investiga��o tomou. � verdade que eu amava aquela jovem, mas desde o dia em que ela escolheu o meu amigo McPherson, meu �nico desejo era ajud�-la a ser feliz. Eu me contentava em ficar de lado e agir como um intermedi�rio. Freq�entemente eu levava seus recados, e foi porque eu merecia a confian�a deles, e porque eu gostava tanto dela que corri para lhe contar sobre a morte de meu amigo, com receio de que algu�m pudesse lhe contar antes, de maneira mais brusca e desumana. Ela n�o lhe contou a respeito de nossa rela��o com medo de que o senhor desaprovasse, e que eu sofresse. Mas com a sua permiss�o, preciso tentar voltar a Gables, porque minha cama ser� muito conveniente.</p><p>Stackhurst estendeu a m�o. � Nossos nervos t�m estado tensos � ele disse. � Perdoe-me o que passou, Murdoch. Iremos nos entender melhor no futuro.</p><p>Eles sa�ram juntos, de bra�os dados, amigavelmente. O inspetor ficou olhando para mim em sil�ncio com seus olhos de boi manso.</p><p>� Bem, o senhor conseguiu! � ele exclamou por fim. � Eu tinha lido a seu respeito, mas nunca acreditei. � maravilhoso!</p><p>Fui obrigado a sacudir a cabe�a. Aceitar um elogio assim seria diminuir nosso pr�prio padr�o.</p><p>� Fui lento no in�cio � lento de um modo conden�vel. Se o corpo tivesse sido encontrado na �gua, dificilmente eu me teria confundido. Foi a toalha que me enganou. O pobre homem nem pensou em secar-se, de modo que fui levado a acreditar que ele n�o entrara na �gua. Por que, ent�o, eu iria pensar no ataque de algum animal marinho? Foi a� que me perdi. Bem, inspetor, eu quase sempre zombo da pol�cia, mas a Cynea capillata quase vingou a Scotland Yard.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura da h�spede velada</strong></p><p>Quando se pensa que Sherlock Holmes esteve no exerc�cio ativo de sua profiss�o durante 23 anos, e que durante 17 anos pude colaborar com ele e guardar anota��es sobre os seus feitos, fica �bvio que possuo uma grande quantidade de material � minha disposi��o. O problema nunca foi encontrar material, mas, sim, selecion�-lo. Existe uma grande cole��o de anu�rios que enchem uma estante, e h� os arquivos repletos de documentos, mat�ria-prima perfeita para o estudioso n�o s� do crime, mas tamb�m dos esc�ndalos sociais e oficiais do fim da era vitoriana. Com rela��o a esses �ltimos, posso afirmar que nada t�m a temer os autores de cartas angustiadas, que imploram para que a honra de suas fam�lias ou a reputa��o de antepassados famosos n�o sejam manchadas. A discri��o e o elevado senso de dignidade profissional que sempre distinguiram o meu amigo ainda s�o utilizados na escolha dessas narrativas, e o sigilo n�o ser� violado. Mas</p><p>condeno, com a maior veem�ncia, as tentativas que foram feitas ultimamente para se conseguir acesso e destruir esses pap�is. A origem destas viol�ncias � conhecida, e se elas se repetirem, tenho a permiss�o de Holmes para afirmar que toda a hist�ria dos pol�ticos, luminares e dos sovinas ser� divulgada para o p�blico. H� pelo menos um leitor que compreender�.</p><p>N�o � sensato supor que cada um desses casos tenha dado a Holmes a oportunidade de demonstrar aqueles dotes raros de instinto e observa��o que tenho procurado revelar nestas narrativas. Algumas vezes, para colher frutos, foi necess�rio muito esfor�o, outras vezes esses frutos ca�ram facilmente em suas m�os. Mas quase sempre as mais terr�veis trag�dias humanas estavam envolvidas nesses casos que lhe deram as menores oportunidades pessoais, e � um destes casos que agora quero registrar. Ao relat�-lo, fiz uma pequena troca de nome e lugar, mas os fatos ocorreram do modo como ser�o expostos a seguir.</p><p>Uma manh� � no final de 1896 � recebi um bilhete apressado de Holmes pedindo a minha presen�a. Quando cheguei, encontrei-o sentado numa sala cheia de fuma�a, e, na cadeira, diante dele, estava uma mulher de idade madura e ar maternal, rechonchuda e bonita, tipo de estalajadeira.</p><p>� Esta � a sra. Merrilow, de South Brixton � disse meu amigo com um aceno de m�o. � A sra. Merrilow n�o faz obje��o ao fumo, Watson, se voc� quiser se entregar aos seus h�bitos imundos. A sra. Merrilow tem uma hist�ria interessante para contar, que talvez resulte em novos acontecimentos em que a sua presen�a pode ser �til.</p><p>� O que eu puder fazer...</p><p>� A senhora deve compreender que se eu for ao encontro da sra. Ronder, preferiria ter uma testemunha. A senhora far� com que ela entenda isto antes da nossa chegada.</p><p>� Deus o aben�oe, sr. Holmes � disse a nossa visitante �, ela est� t�o ansiosa para v�-lo que o senhor poderia levar toda a par�quia atr�s.</p><p>� Ent�o iremos no in�cio da tarde. Vejamos, antes de partir, se os fatos est�o corretos. Se recordarmos os fatos, ser� mais f�cil para o dr. Watson entender a situa��o. A senhora afirma que a sra. Ronder � sua inquilina h� sete anos e que s� viu o rosto dela uma vez.</p><p>� E por Deus, eu gostaria de n�o ter visto! � disse a sra. Merrilow.</p><p>� Ele estava, pelo que entendi, terrivelmente mutilado.</p><p>� Bem, sr. Holmes, o senhor dificilmente diria que aquilo era um rosto. Era esse o aspecto dele. Nosso leiteiro, espreitando uma vez pela janela superior, viu-a de relance e deixou cair a lata e o leite no jardim da frente. Este � o tipo de rosto dela. Quando a vi � apareci quando ela estava desprevenida �, cobriu-se rapidamente e depois disse: �Agora, sra. Merrilow, finalmente a senhora sabe por que nunca suspendo o v�u.�</p><p>� A senhora sabe algo a respeito da hist�ria dela?</p><p>� Absolutamente nada.</p><p>� Ela lhe deu refer�ncias quando veio?</p><p>� N�o, senhor, mas ofereceu pagamento em dinheiro vivo, muito dinheiro. Um quarto do aluguel adiantado ali na mesa e nenhuma discuss�o a respeito das condi��es. Hoje em dia, uma pobre mulher como eu n�o pode se dar ao luxo de recusar uma oportunidade dessa.</p><p>� Ela deu algum motivo para escolher a sua casa?</p><p>� A minha casa fica bem afastada da estrada e � mais isolada do que a maioria. E tamb�m s� aceito um h�spede e n�o tenho fam�lia. Acredito que ela tenha tentado outras e descobriu que a minha era a que mais lhe convinha. � privacidade que ela procura, e est� disposta a pagar por esta privacidade.</p><p>� A senhora afirma que ela nunca mostrou o rosto, a n�o ser naquela vez, por acaso. Bem, esta � uma hist�ria extraordin�ria, muito estranha, e n�o me surpreende que a senhora queira que seja investigada.</p><p>� Eu n�o, sr. Holmes, estou perfeitamente satisfeita, contanto que receba meu aluguel. O senhor n�o poderia ter um inquilino mais sossegado, ou que lhe desse menos problemas.</p><p>� Ent�o, o que fez o assunto vir � tona?</p><p>� A sa�de dela, sr. Holmes. Ela parece estar definhando. E h� alguma coisa terr�vel em sua mente. �Assassino!�, ela grita. �Assassino!� E uma vez a ouvi gritar: �Sua fera cruel! Monstro!� Foi durante a noite, e esses gritos ressoavam pela casa e me davam arrepios. De modo que fui v�-la de manh�. �Sra. Ronder�, eu disse, �se a senhora tem alguma coisa que est� perturbando o seu esp�rito, h� o clero, e h� a pol�cia. A senhora pode conseguir ajuda com um dos dois.� �Pelo amor de Deus, a pol�cia n�o,� ela disse, �e o clero n�o pode mudar o passado. Mesmo assim�, ela disse, �meu esp�rito ficaria aliviado se antes de eu morrer algu�m soubesse da verdade�. �Bem�, falei, �se a senhora n�o quer nem o clero nem a pol�cia, h� esse detetive a respeito do qual n�s lemos� � com o seu perd�o, sr. Holmes. E ela gostou da sugest�o. �Esse � o homem�, ela disse. �Eu me pergunto por que n�o pensei nisso antes. Traga-o aqui, sra. Merrilow, e se ele n�o quiser vir, diga-lhe que sou a mulher de Ronder, produtor do show de feras. Diga isso, e d�-lhe o nome Abbas Parva.� Aqui est� como ela o escreveu, Abbas Parva. �Isto o trar� aqui, se ele � o homem que penso que seja.�</p><p>� E o far�, realmente � comentou Holmes. � Muito bem, sra. Merrilow. Eu gostaria de ter uma conversa particular com o dr. Watson. Esta conversa nos manter� ocupados at� a hora do almo�o. Mais ou menos �s tr�s da tarde, a senhora pode nos esperar em sua casa, em Brixton.</p><p>Nossa visitante mal havia sa�do gingando da sala � nenhum outro verbo pode descrever o modo de caminhar da sra. Merrilow � e Sherlock Holmes atirou-se, com impetuosa energia, sobre a pilha de literatura barata que estava no canto. Durante alguns minutos ouvi o ru�do de folhas sendo viradas e depois, com um grunhido de satisfa��o, ele descobriu o que procurava. Ficou t�o excitado que n�o se levantou, mas ficou sentado no ch�o como um estranho Buda, com as pernas cruzadas, os imensos livros em volta, e um deles aberto sobre os joelhos.</p><p>� Na ocasi�o o caso me preocupou, Watson. Aqui est�o as minhas anota��es na margem para provar isso. Confesso que n�o pude fazer nada em rela��o a esse caso. Mesmo assim, estou convencido de que o investigador estava errado. Voc� n�o se recorda da trag�dia de Abbas Parva?</p><p>� N�o.</p><p>� No entanto voc� estava comigo na ocasi�o. Mas, certamente, minha pr�pria impress�o foi muito superficial, porque n�o havia motivo para prosseguir, e nenhuma das partes havia contratado meus servi�os. Voc� gostaria de ler os jornais?</p><p>� Voc� n�o poderia contar-me os detalhes?</p><p>� Isto � f�cil. Voc� provavelmente vai se lembrar enquanto falo. Ronder, naturalmente, era um nome muito conhecido. Era o rival de Wombwell e de Sanger, um dos maiores diretores de espet�culo de sua �poca. Mas h� provas de que ele come�ou a beber, e que na ocasi�o da trag�dia ele e o seu espet�culo estavam em decad�ncia. A caravana havia parado em Abbas Parva, pequena aldeia em Berkshire, quando ocorreu a trag�dia. Eles estavam a caminho de Wimbledon, viajando por estrada de rodagem, e estavam apenas acampados, e n�o dando espet�culo, porque o lugar era t�o pequeno que n�o pagaria os custos.</p><p>� Eles tinham entre suas atra��es um le�o norte-africano muito bonito. Seu nome era Sahara King, e os dois, Ronder e sua mulher, continuavam a fazer exibi��es dentro da jaula do le�o. Aqui, voc� pode ver, est� uma fotografia da representa��o, e voc� percebe que Ronder mais parecia um porco enorme, e que sua esposa era uma mulher magn�fica. No inqu�rito, depoimentos diziam que havia sinais de que o le�o era perigoso, mas, como de costume, a intimidade provoca neglig�ncia, e n�o se deu import�ncia ao fato.</p><p>� Ronder ou sua mulher costumavam alimentar o le�o � noite. �s vezes ia s� um deles, �s vezes iam os dois, mas eles nunca permitiam que outra pessoa o fizesse, porque acreditavam que enquanto eles o alimentassem, o le�o os veria como benfeitores e nunca os molestaria. Naquela noite, h� sete anos, foram os dois, e aconteceu uma coisa terr�vel, cujos detalhes nunca foram esclarecidos.</p><p>� Parece que todo o acampamento foi acordado, por volta da meia-noite, pelos rugidos do animal e pelos gritos da mulher. Os cavalari�os e outros empregados sa�ram correndo de suas tendas carregando lanternas, e suas luzes revelaram uma cena terr�vel. Ronder estendido no ch�o, a uns 10 metros da jaula � que estava aberta � com a parte posterior da cabe�a esmagada e marcas profundas das garras no couro cabeludo. Perto da porta da jaula, a sra. Ronder estava ca�da de costas, com o animal acocorado e rosnando por cima dela. Ele havia dilacerado o rosto dela de tal maneira que nunca se imaginou que ela pudesse sobreviver. V�rios homens do circo, guiados por Leonardo, o homem forte, e Griggs, o palha�o, afastaram o animal com varas, obrigando-o a pular de volta para dentro da jaula, onde foi imediatamente trancado. Como ele conseguira sair da jaula era um mist�rio. Foi levantada a hip�tese de que o casal pretendia entrar na jaula, mas quando a porta foi aberta, o animal saltou para fora, em cima eles. N�o havia nenhum outro ponto de interesse nos depoimentos, a n�o ser o fato de que a mulher, num del�rio de agonia, gritava a toda hora �Covarde! Covarde!�, enquanto era carregada para a carro�a em que eles moravam. Passaram-se seis meses at� que ela estivesse em condi��es de prestar depoimento, mas o inqu�rito foi devidamente encerrado, com o veredicto �bvio de morte por acidente.</p><p>� Que alternativa se poderia imaginar? � eu perguntei.</p><p>� Voc� pode perfeitamente afirmar isto. Mas havia um ou dois detalhes que preocuparam o jovem Edmunds, da chefatura de pol�cia de Berkshire. Um rapaz esperto, aquele! Mais tarde ele foi mandado para Allahabad. Foi assim que tomei conhecimento do assunto, porque ele veio me visitar e fumou um ou dois cachimbos falando sobre o assunto.</p><p>� Um homem magro, de cabelos louros?</p><p>� Exatamente. Eu tinha certeza de que voc� logo acharia a pista.</p><p>� Mas com que ele estava preocupado?</p><p>� Bem, n�s dois est�vamos preocupados. Foi t�o incrivelmente dif�cil reconstituir a coisa. Olhe para isto do ponto de vista do le�o. Ele � solto. O que � que ele faz? Ele d� meia d�zia de saltos para a frente, o que o leva at� Ronder. Ronder vira-se para fugir � as marcas das garras estavam na parte posterior da cabe�a �, mas o le�o o derruba. Depois, em vez de continuar a saltar e fugir, ele volta at� a mulher que estava perto da jaula, derruba-a e come o seu rosto. Mas aqueles gritos dela pareciam significar que seu marido, de algum modo, a desapontara. O que o pobre-diabo poderia ter feito para ajud�-la? Voc� v� a dificuldade?</p><p>� Perfeitamente.</p><p>� E depois, havia outra coisa. Isso me volta � lembran�a agora, enquanto estou recapitulando o caso. Disseram que exatamente na hora em que o le�o rugiu e a mulher gritou, um homem come�ou a gritar de terror.</p><p>� Esse homem era Ronder, n�o h� d�vida.</p><p>� Ora, se o seu cr�nio foi esmagado, voc� dificilmente esperaria ouvir a voz dele outra vez. Pelo menos duas testemunhas falaram dos gritos de um homem confundidos com os gritos de uma mulher.</p><p>� Eu imagino que todo o acampamento estava gritando naquele momento. Quanto aos outros detalhes, acho que poderia sugerir uma solu��o.</p><p>� Eu gostaria de ouvir.</p><p>� Os dois estavam juntos, a dez passos da jaula, quando o le�o se soltou. O homem virou-se e foi derrubado. A mulher teve a id�ia de entrar na jaula e fechar a porta. Era o seu �nico ref�gio. Ela tentou, e justamente quando alcan�ou a jaula, o animal saltou atr�s dela e a derrubou. Ela ficou com raiva do marido porque, ao se virar ele despertara a f�ria do animal. Se eles o tivessem enfrentado, poderiam t�-lo intimidado. Da� os gritos dela de �Covarde!�.</p><p>� Brilhante, Watson! Apenas um defeito no seu diamante.</p><p>� Qual � o defeito, Holmes?</p><p>� Se os dois estavam a dez passos da jaula, como foi que o animal conseguiu fugir?</p><p>� � poss�vel que eles tivessem algum inimigo que o soltou?</p><p>� E por que o le�o os atacaria com tanta ferocidade, quando estava habituado a brincar e a fazer truques com eles dentro da jaula?</p><p>� Talvez o mesmo inimigo tenha feito alguma coisa para irrit�-lo.</p><p>Holmes parecia meditar e ficou em sil�ncio por alguns minutos.</p><p>� Bem, Watson, em favor de sua teoria existe isto que lhe vou dizer. Ronder era um homem que tinha muitos inimigos. Edmunds contou-me que quando ele estava embriagado era terr�vel. Grandalh�o e abrutalhado, ele praguejava e gritava com todos que se atravessassem em seu caminho. Suponho que aqueles gritos a respeito de um monstro, de que nos falou nossa visitante, sejam reminisc�ncias noturnas do falecido. Mas nossas especula��es ser�o in�teis enquanto n�o tivermos todos os dados. H� uma perdiz fria no aparador e uma garrafa de Montrachet. Vamos recuperar nossas energias antes de fazer-lhes uma visita.</p><p>Quando nossa carruagem nos deixou na casa da sra. Merrilow, encontramos a gorda senhora obstruindo a porta aberta de sua habita��o humilde mas isolada. Estava evidente que sua principal preocupa��o era n�o perder uma inquilina valiosa, e ela nos suplicou, antes de nos conduzir para cima, que n�o diss�ssemos ou fiz�ssemos nada que pudesse provocar uma conseq��ncia t�o indesej�vel. Depois de tranq�iliz�-la, n�s a seguimos pela escada reta e mal-atapetada, e fomos levados at� o quarto da misteriosa inquilina.</p><p>Era um lugar fechado, mofado, mal-arejado, como se podia esperar, j� que sua ocupante raramente sa�a. Por conservar animais em uma jaula, a mulher parecia, por alguma desforra do destino, ter-se tornado ela pr�pria um animal enjaulado. Ela estava sentada numa poltrona quebrada, num canto escuro do quarto. Longos anos de inatividade haviam embrutecido as linhas de seu corpo, mas na �poca ele devia ter sido bonito e ainda era cheio e voluptuoso. Um v�u escuro e grosso cobria o seu rosto, mas o v�u era cortado na altura do l�bio superior e deixava descoberta uma boca de talhe perfeito e um queixo delicadamente arredondado. Pude imaginar que ela, de fato, havia sido uma mulher not�vel. Sua voz, tamb�m, era bem modulada e agrad�vel.</p><p>� Meu nome n�o lhe � estranho, sr. Holmes � ela disse. � Imaginei que o meu nome faria com que viesse.</p><p>� � verdade, embora eu n�o saiba como a senhora tomou conhecimento de que eu estava interessado em seu caso.</p><p>� Eu soube disso quando recuperei a sa�de e fui interrogada pelo sr. Edmunds, o detetive do Condado. Receio ter mentido para ele. Talvez tivesse sido mais sensato dizer a verdade.</p><p>� � sempre mais sensato dizer a verdade. Mas por que a senhora mentiu para ele?</p><p>� Porque o destino de outra pessoa dependia disto. Sei que ele era um ser desprez�vel, mas eu n�o queria que a sua destrui��o pesasse na minha consci�ncia. N�s t�nhamos sido t�o pr�ximos � t�o pr�ximos!</p><p>� Mas este obst�culo foi removido?</p><p>� Sim, senhor. A pessoa a quem me referi est� morta.</p><p>� Ent�o, por que a senhora n�o diz � pol�cia tudo o que sabe?</p><p>� Porque h� uma outra pessoa que deve ser levada em considera��o. Essa outra pessoa sou eu mesma. Eu n�o poderia suportar o esc�ndalo e a publicidade que resultariam de uma investiga��o policial. N�o tenho muito tempo de vida, mas quero morrer tranq�ila. Mesmo assim, eu queria encontrar um homem criterioso a quem pudesse contar minha terr�vel hist�ria, para que, depois de minha morte, tudo pudesse ser compreendido.</p><p>� A senhora me lisonjeia. Mas sou uma pessoa respons�vel. N�o lhe prometo que depois que a senhora tiver falado, eu n�o venha a considerar meu dever relatar o caso � pol�cia.</p><p>� Penso que n�o, sr. Holmes. Conhe�o muito bem o seu car�ter e os seus m�todos, porque acompanhei o seu trabalho durante alguns anos. A leitura foi o �nico prazer que o destino me deixou, e eu perco pouco do que se passa no mundo. Mas, de qualquer modo, vou correr o risco quanto ao uso que o senhor possa fazer da minha trag�dia. Contar tudo ao senhor aliviar� a minha mente.</p><p>� Meu amigo e eu gostar�amos de ouvi-la.</p><p>A mulher levantou-se e tirou de uma gaveta a fotografia de um homem. Evidentemente ele era um acrobata profissional, um homem de um f�sico soberbo, fotografado com os bra�os enormes dobrados sobre o peito inflado, e um sorriso aparecendo sob o bigode espesso � o sorriso presun�oso de um homem de muitas conquistas.</p><p>� Este � Leonardo � ela disse.</p><p>� Leonardo, o homem musculoso que prestou depoimento?</p><p>� Exatamente. E este... este � o meu marido.</p><p>Era um rosto pavoroso � um porco humano, ou melhor, um porco selvagem humano, pois era terr�vel em sua bestialidade. Podia-se imaginar aquela boca perversa mordendo e espumando em sua c�lera, e podiam-se imaginar aqueles olhos, pequenos e corrompidos, espalhando maldade enquanto olhavam o mundo. Fac�nora, tirano e bruto � tudo isto estava escrito naquele rosto de mand�bula grande.</p><p>� Estas duas fotografias ajudar�o os senhores a compreender a minha hist�ria. Eu era uma pobre garota de circo, criada na serragem e dando saltos na argola antes de completar 10 anos. Quando me tornei mulher, este homem me amou, se � que uma concupisc�ncia como a dele pode ser chamada de amor, e num momento infeliz tornei-me sua esposa. Daquele dia em diante eu estava num inferno, e ele era o dem�nio que me atormentava. N�o havia ningu�m no espet�culo que n�o soubesse desse tratamento. Ele me deixava s� por causa de outras mulheres. Quando eu me queixava, ele me amarrava e me chicoteava com seu chicote de montar. Todos tinham pena de mim e todos o detestavam, mas o que podiam fazer? Eles o temiam, todos eles. Pois ele era sempre terr�vel, e sanguin�rio quando estava b�bado. Constantemente estava pronto para atacar e fazer crueldade com os animais, mas tinha muito dinheiro, e para ele as multas nada significavam. Todos os melhores artistas foram embora, e o espet�culo come�ou a entrar em decad�ncia. S� Leonardo e eu sustent�vamos o espet�culo � juntamente com o pequeno Jimmy Griggs, o palha�o. Pobre-diabo, ele n�o tinha muito com que se alegrar, mas fazia o que podia para manter as coisas de p�.</p><p>� Ent�o Leonardo entrou cada vez mais na minha vida. O senhor pode ver como era ele. Eu agora conhe�o a pobreza de esp�rito que se escondia naquele corpo, mas, comparado ao meu marido, ele parecia o anjo Gabriel. Ele tinha pena de mim e me ajudava, at� que a nossa intimidade acabou se transformando em amor � um amor profundo e apaixonado, como eu havia sonhado mas nunca esperara sentir. Meu marido suspeitava, mas acho que ele era t�o covarde quanto tirano, e que Leonardo era o �nico homem que ele temia. Ele vingava-se � sua maneira, torturando-me mais do que nunca. Uma noite, meus gritos trouxeram Leonardo at� a porta da nossa carro�a. Naquela noite, est�vamos � beira de uma trag�dia, e logo o meu amante e eu compreendemos que isto n�o poderia ser evitado. Meu marido n�o devia mais viver. Combinamos que ele deveria morrer.</p><p>� Leonardo tinha um c�rebro inteligente e ardiloso. Foi ele quem planejou. N�o digo isto para culp�-lo, porque eu estava disposta a acompanh�-lo em cada cent�metro do caminho. Mas eu nunca teria imagina��o para pensar num plano desses. Fizemos uma clava � Leonardo a fez � e na parte superior, que era de chumbo, ele fixou cinco longos pregos de a�o com as pontas para fora, com uma extens�o semelhante �s da pata do le�o. Isto serviria para o golpe mortal em meu marido, mas deixando ind�cios de que o le�o que ir�amos soltar � que fizera aquilo.</p><p>� A noite estava escura como breu quando meu marido e eu descemos, como era costume nosso, para alimentar o animal. Carreg�vamos a carne crua num balde de zinco. Leonardo estava esperando na extremidade da grande carro�a, por onde ter�amos que passar antes de chegar � jaula. Leonardo foi lento demais, e n�s passamos por ele antes que ele pudesse atacar meu marido, mas ele nos seguiu na ponta dos p�s, e eu ouvi o ru�do do golpe da clava despeda�ando o cr�nio de Ronder. Meu cora��o pulou de alegria quando ouvi o som do impacto. Corri e abri o ferrolho que segurava a porta de jaula do le�o.</p><p>� E ent�o aconteceu aquela coisa terr�vel. O senhor deve ter ouvido falar como essas criaturas s�o r�pidas para farejar o sangue humano, e como isto os excita. Algum estranho instinto avisara o animal, no mesmo instante, que um ser humano havia sido morto. Quando afastei a grade, o le�o saltou para fora e em um segundo estava em cima de mim. Leonardo poderia ter me salvado. Se tivesse corrido para a frente e atacado o animal com a sua clava, poderia t�-lo acuado. Mas o homem perdeu o sangue-frio. Ouvi seu grito aterrorizado, e depois vi quando ele deu meia-volta e correu. Nesse instante os dentes do le�o atacaram o meu rosto. Seu h�lito quente e asqueroso j� havia me envenenado, e eu mal tinha consci�ncia da dor. Com as palmas das m�os tentei afastar as mand�bulas enfurecidas e manchadas de sangue, e gritei por socorro. Eu percebia que o acampamento estava movimentado, e depois lembro-me confusamente de um grupo de homens, Leonardo, Griggs e outros, puxando-me de sob as patas do animal. Esta cena foi a minha �ltima lembran�a durante muitos meses inc�modos. Quando voltei a mim e me vi no espelho, amaldi�oei aquele le�o � oh, como eu o amaldi�oei �, n�o porque ele havia destru�do minha beleza, mas porque ele n�o havia destru�do a minha vida. Eu s� tinha um desejo, sr. Holmes, e tinha dinheiro suficiente para satisfaz�-lo. Esse desejo era de me cobrir para que meu pobre rosto n�o fosse visto por ningu�m, e de morar onde ningu�m que eu tivesse conhecido antes pudesse me encontrar. Isto era tudo o que eu podia fazer, e � o que tenho feito. Um pobre animal ferido que rastejou at� a sua caverna para morrer � este � o fim de Eugenia Ronder.</p><p>Depois que a infeliz mulher contou a sua hist�ria, ficamos sentados em sil�ncio durante algum tempo. Depois Holmes estendeu seu bra�o longo e afagou-lhe a m�o com uma demonstra��o de compaix�o como eu raramente vira antes.</p><p>� Pobre menina! � ele disse. � Pobre menina! Os caminhos do destino s�o realmente dif�ceis de entender. Se n�o houver alguma compensa��o no futuro, ent�o o mundo � uma brincadeira cruel. Mas o que aconteceu com esse Leonardo?</p><p>� Eu nunca mais o vi nem ouvi nada a respeito dele. Talvez eu estivesse errada por sentir tanta amargura contra ele. Ele poderia logo ter-se enamorado de uma daquelas exc�ntricas com as quais n�s viaj�vamos pelo pa�s, no lugar daquilo que o le�o havia deixado. Mas n�o � t�o f�cil acabar com o amor de uma mulher. Ele havia me deixado sob as garras do animal, ele me abandonou quando eu precisava dele, e mesmo assim eu n�o conseguia convencer-me a lev�-lo � forca. Quanto a mim, eu n�o me preocupava com o que me aconteceria. O que poderia ser mais terr�vel do que a minha vida atual? Mas coloquei-me entre Leonardo e o seu destino.</p><p>� E ele est� morto?</p><p>� Afogou-se no m�s passado, quando tomava banho perto de Margate. Vi a sua morte no jornal.</p><p>� E o que ele fez com a clava de cinco garras, que � a parte mais estranha e engenhosa de toda a sua hist�ria?</p><p>� N�o sei, sr. Holmes. Perto do acampamento h� uma mina de cal com um lago verde e profundo em sua base. Talvez nas profundezas daquele lago...</p><p>� Bem, isto agora n�o tem import�ncia. O caso est� encerrado.</p><p>T�nhamos nos levantado para partir, mas alguma coisa na voz da mulher chamou a aten��o de Holmes. Ele se virou rapidamente para ela.</p><p>� A sua vida n�o lhe pertence � ele disse. � Fique com as m�os afastadas de si mesma.</p><p>� Que utilidade tem a minha vida para algu�m?</p><p>� Como a senhora pode afirmar isso? O exemplo de um sofrimento paciente �, por si s�, a mais preciosa de todas li��es que se poderia dar a um mundo impaciente.</p><p>A resposta da mulher foi terr�vel. Ela ergueu o v�u e aproximou-se da luz.</p><p>� Eu gostaria de saber se o senhor suportaria isto � ela disse.</p><p>Foi horr�vel. N�o h� palavras que possam descrever o contorno de um rosto quando o pr�prio rosto j� n�o existe. Dois lindos olhos castanhos cheios de vivacidade que exibiam tristeza em meio �quela espantosa ru�na tornavam a vis�o ainda mais horr�vel. Holmes ergueu a m�o num gesto de piedade e protesto, e juntos sa�mos do quarto.</p><p>Dois dias depois, quando fui visitar meu amigo, ele apontou com certo orgulho para uma pequena garrafa azul sobre a lareira. Peguei a garrafa. Havia um r�tulo vermelho em que estava escrito �veneno�. Quando abri a garrafa, senti um agrad�vel cheiro de am�ndoa.</p><p>� �cido pr�ssico? � perguntei.</p><p>� Exatamente. Veio pelo correio. �Mando-lhe minha tenta��o. Seguirei o seu conselho.� Era essa a mensagem. Eu acho, Watson, que podemos adivinhar o nome da mulher corajosa que nos enviou isto.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura de shoscombe old place</strong></p><p>Sherlock Holmes ficou curvado durante muito tempo sobre um microsc�pio pequeno. Depois ele endireitou o corpo e olhou para mim com ar triunfante.</p><p>� � cola, Watson � ele disse. � Indiscutivelmente, � cola. Olhe para esses pontos dispersos no campo de vis�o!</p><p>Inclinei-me e ajustei o foco para a minha vista.</p><p>� Esses cabelos s�o fios de um casaco de tweed. As concentra��es cinzentas irregulares s�o poeira. H� c�lulas epiteliais � esquerda. Aquelas bolhas marrons no centro sem d�vida s�o de cola.</p><p>� Bem � eu disse em tom de brincadeira. � Estou disposto a acreditar na sua palavra. Alguma coisa depende disto?</p><p>� � uma prova muito boa � ele respondeu. � No caso de St. Pancras, voc� deve</p><p>se lembrar que foi encontrado um bon� ao lado do policial morto. O homem acusado nega que o bon� seja seu. Mas ele � um fabricante de molduras para quadros, que lida habitualmente com cola.</p><p>� Este � um dos seus casos?</p><p>� N�o, meu amigo Merivale, da Scotland Yard, pediu-me para investigar o caso. Desde que agarrei aquele falsificador de moedas por causa dos res�duos de zinco e cobre na costura do punho de sua camisa, eles come�aram a perceber a import�ncia do microsc�pio � ele olhou com impaci�ncia para o seu rel�gio de bolso. � Eu esperava a visita de um cliente novo, mas ele est� atrasado. A prop�sito, Watson, voc� sabe alguma coisa sobre corridas de cavalos?</p><p>� Eu deveria saber. Pago por isso metade da minha pens�o de guerra.</p><p>� Ent�o farei de voc� o meu �Guia �til para o Turfe�. E o que sabe a respeito de sir Robert Norberton? O nome lhe lembra alguma coisa?</p><p>� Bem, eu diria que sim. Ele mora em Shoscombe Old Place, e eu conhe�o bem o lugar, porque uma vez passei o ver�o l�. Norberton quase entrou na sua �rea de atua��o uma vez.</p><p>� Como foi isso?</p><p>� Foi quando ele chicoteou Sam Brewer, o conhecido agiota da rua Curzon, no Newmarket Heath. Ele quase matou o homem.</p><p>� Ah! Ele parece ser uma pessoa interessante! Ele se satisfaz freq�entemente desta forma?</p><p>� Bem, ele tem fama de ser um homem perigoso. Ele � um dos cavaleiros mais audaciosos da Inglaterra � foi o segundo no Grande Pr�mio Nacional, h� alguns anos. Ele � um daqueles homens que ultrapassam a sua verdadeira gera��o. Ele devia ter vivido na �poca da Reg�ncia como boxeador, atleta, turfista, amante de belas mulheres, e segundo a opini�o corrente, t�o afogado em d�vidas que talvez nunca consiga vir � tona.</p><p>� Excelente, Watson. Um perfil eloq�ente. Parece que conhe�o o homem. Agora, voc� pode me dar uma id�ia do que � Shoscombe Old Place?</p><p>� Apenas que fica situada no centro do parque Shoscombe, e que o famoso haras de Shoscombe e as instala��es para treinamento est�o l�.</p><p>� E o chefe dos treinadores � disse Holmes � � John Mason. Voc� n�o precisa se espantar por eu saber disto, Watson, porque esta � uma carta dele. Mas vamos continuar falando a respeito de Shoscombe. Parece que encontrei um veio rico.</p><p>� Existem os spaniels de Shoscombe � eu disse. � Voc� ouve falar deles em todas as competi��es de cachorros. � a linhagem de cachorros mais perfeita da Inglaterra. Eles s�o o orgulho especial da senhora de Shoscombe Old Place.</p><p>� A mulher de sir Robert Norberton, suponho!</p><p>� Sir Robert nunca se casou. Melhor assim, eu acho, considerando suas perspectivas. Ele mora com a irm� vi�va, lady Beatrice Falder.</p><p>� Voc� quer dizer que ela mora com ele?</p><p>� N�o, n�o. A propriedade pertencia ao falecido marido dela, sir James. Norberton n�o tem direito sobre a propriedade. Ela tem apenas o usufruto, e as propriedades pertencem ao irm�o do marido. Enquanto isso, ela recebe os alugu�is todo ano.</p><p>� E o irm�o Robert gasta esses alugu�is?</p><p>� � mais ou menos isso. Ele � um sujeito terr�vel e deve tornar a vida dela muito dif�cil. Entretanto, soube que ela � dedicada a ele. Mas o que h� de errado em Shoscombe?</p><p>� Ah, � justamente isso que quero descobrir. E aqui est�, espero, o homem que poder� dizer-nos alguma coisa.</p><p>A porta se abriu e o criado deixou entrar um homem alto, de rosto escanhoado, com a express�o firme e austera que s� � encontrada naqueles que t�m que dominar cavalos ou rapazes. O sr. John Mason tinha muitos cavalos e rapazes sob o seu controle, e ele parecia preparado para a tarefa. Inclinou-se com fria autoconfian�a e sentou-se na cadeira que Holmes lhe indicou.</p><p>� O senhor recebeu o meu bilhete, sr. Holmes?</p><p>� Sim, mas o bilhete n�o explicava nada.</p><p>� Era uma coisa delicada demais para que eu pusesse os detalhes numa folha de papel. E complicada demais. Eu s� poderia fazer isso pessoalmente.</p><p>� Bem, estamos � sua disposi��o.</p><p>� Em primeiro lugar, sr. Holmes, acho que o meu patr�o, sir Robert, ficou louco.</p><p>Holmes ergueu as sobrancelhas. � Estamos em Baker Street, n�o em Harley Street* � ele disse. � Mas por que o senhor diz isso?</p><p>� Bem, senhor, quando um homem faz uma coisa exc�ntrica ou duas coisas exc�ntricas, deve haver um motivo para isso, mas quando tudo o que ele faz � exc�ntrico, ent�o o senhor come�a a se espantar. Acredito que Shoscombe Prince e o Derby viraram-lhe a cabe�a.</p><p>� � um potro que vai participar da corrida?</p><p>� O melhor da Inglaterra, sr. Holmes. Se algu�m sabe disso, sou eu. Agora, falarei abertamente com os senhores, porque sei que s�o cavalheiros honrados, e que isto n�o sair� desta sala. Sir Robert resolveu vencer este Derby. Ele est� afundado at� o pesco�o, e esta � a sua �ltima chance. Tudo que ele p�de levantar ou pedir emprestado empregou no cavalo � e com excelentes possibilidades. Agora o senhor pode receber 40 por 1, mas estava mais perto de 100 quando ele come�ou a investir.</p><p>� Mas como pode ser isso, se o cavalo � t�o bom?</p><p>� O p�blico n�o sabe que ele � t�o bom. Sir Robert tem sido inteligente demais para os agenciadores de apostas. Ele usa o cavalo que � meio-irm�o de Prince para os seus passeios. O senhor n�o consegue distingui-los. Mas, quando galopam, h� uma diferen�a entre eles de dois corpos em 800 metros. Ele n�o pensa em mais nada, a n�o ser no cavalo e na corrida. Toda a sua vida se resume nisto. At� agora ele est� conseguindo manter afastados os agiotas. Se o Prince falhar, ele estar� perdido.</p><p>� Parece um jogo um tanto desesperado, mas onde � que entra a loucura?</p><p>� Bem, em primeiro lugar, o senhor s� precisa olhar para ele. N�o acredito que durma � noite. Ele fica nos est�bulos o tempo todo. Seu olhar est� desvairado. Tem sido demais para os seus nervos. Depois, h� o seu procedimento para com lady Beatrice!</p><p>� Ah! Como � isto?</p><p>� Eles sempre foram muito amigos. Tinham os mesmos gostos, e ela amava os cavalos tanto quanto ele. Todos os dias, na mesma hora, ela ia aos est�bulos para v�-los � e, acima de tudo, ela amava o Prince. Ele levantava as orelhas quando ouvia o barulho das rodas de sua carruagem no cascalho, e todas as manh�s ia trotando at� a carruagem para ganhar o seu torr�o de a��car. Mas agora tudo isto acabou.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Bem, ela parece ter perdido todo o interesse pelos cavalos. Faz agora uma semana que ela passa de carruagem pelos est�bulos sem dizer nem mesmo bom-dia!</p><p>� Voc� acha que houve uma briga?</p><p>� E uma briga s�ria, selvagem, rancorosa. Por que outro motivo teria ele dado o spaniel de estima��o dela, que ela amava como se fosse seu filho? Ele deu o animal h� alguns dias para o velho Barnes, que toma conta do Green Dragon, a 4 quil�metros de dist�ncia, em Crendall.</p><p>� Isto realmente parece esquisito.</p><p>� � claro que, com seu cora��o fr�gil e sua hidropisia, n�o se poderia esperar que ela sa�sse muito com ele, mas ele passava duas horas todas as tardes no quarto dela. Ele fazia o m�ximo, porque ela era uma excelente amiga para ele. Mas isto tamb�m acabou. Ele nunca se aproxima dela. E ela est� sentida. Ela est� deprimida, mal-humorada e est� bebendo, sr. Holmes � bebendo como um peixe.</p><p>� Ela bebia antes desse afastamento?</p><p>� Bem, ela bebia um copo ou outro, mas agora bebe freq�entemente uma garrafa inteira numa tarde. Foi o que me contou Stephens, o mordomo. Est� tudo mudado, sr. Holmes, e existe alguma coisa perversa e podre em rela��o a isso. Mas, por outro lado, o que o patr�o faz l� na cripta da velha igreja � noite? E quem � o homem que se encontra com ele l�?</p><p>Holmes esfregou as m�os.</p><p>� Continue, sr. Mason. Est� ficando cada vez mais interessante.</p><p>� Foi o mordomo que o viu sair. Era meia-noite, e chovia a c�ntaros. De modo que, na noite seguinte, eu estava em casa acordado, e de fato o patr�o tornou a sair. Stephens e eu fomos atr�s dele, mas foi um trabalho desagrad�vel, porque teria sido horr�vel se ele nos visse. Ele � um homem terr�vel com os punhos e quando se zanga n�o tem respeito pelas pessoas. De modo que evitamos nos aproximar muito, mas pudemos observ�-lo perfeitamente. Ele estava se dirigindo para a cripta mal-assombrada, e havia um homem esperando por ele l�.</p><p>� O que � esta cripta mal-assombrada?</p><p>� Bem, senhor, h� uma velha capela em ru�nas no parque. � t�o antiga que ningu�m conseguiu determinar a sua data. E debaixo dela h� uma cripta que tem m� fama entre n�s. Durante o dia � um lugar escuro, �mido, deserto, mas poucos naquele Condado teriam coragem de se aproximar dela � noite. Mas o patr�o n�o tem medo. Ele nunca temeu coisa alguma na vida. Mas o que ser� que ele faz l� � noite?</p><p>� Espere um pouco! � disse Holmes. � Voc� diz que h� outro homem l�. Deve ser algum dos seus pr�prios cavalari�os ou algu�m da casa! Voc� precisa apenas descobrir quem � e interrog�-lo.</p><p>� N�o � ningu�m que eu conhe�a.</p><p>� Como � que voc� pode afirmar isto?</p><p>� Porque eu o vi, sr. Holmes. Foi naquela segunda noite. Sir Robert voltou e passou por n�s � por mim e pelo Stephens, que trem�amos no meio dos arbustos como dois coelhinhos, pois havia um pouco de luar naquela noite. Mas ouvimos o outro homem andando por perto, atr�s de n�s. N�o est�vamos com medo dele. De modo que nos levantamos depois que sir Robert passou e fingimos que est�vamos apenas dando uma volta ao luar, e assim nos aproximamos dele de maneira bastante casual e inocente. �Ol�, companheiro! Quem � voc�?�, eu perguntei. Acho que ele n�o nos tinha ouvido chegar, de modo que nos olhou sobre o ombro com cara de quem tinha visto o diabo saindo do inferno. Deu um grito, saiu correndo e desapareceu na escurid�o. Como correu! Ele sumiu num instante e quem era ou o que era, nunca descobrimos.</p><p>� Mas voc� conseguiu v�-lo � luz da lua?</p><p>� Sim, eu seria capaz de reconhecer aquela cara amarela, um cachorro s�rdido, eu diria. O que ele poderia ter em comum com sir Robert?</p><p>Holmes ficou sentado durante algum tempo, perdido em pensamentos.</p><p>� Quem faz companhia a lady Beatrice Falder? � perguntou finalmente.</p><p>� A sua criada, Carrie Evans. Ela est� com lady Beatrice nos �ltimos cinco anos.</p><p>� E, sem d�vida, � dedicada a ela?</p><p>O sr. Mason mexeu-se desconfortavelmente.</p><p>� Ela � bastante dedicada � respondeu, finalmente. � Mas eu n�o sei a quem.</p><p>� Ah! � disse Holmes.</p><p>� Eu n�o posso revelar segredos alheios.</p><p>� Compreendo perfeitamente, sr. Mason. Naturalmente, a situa��o � bastante clara. Pela descri��o que o dr. Watson fez de sir Robert, posso perceber que nenhuma mulher est� fora de perigo com ele. Voc� n�o acha que a briga entre irm�o e irm� pode ser por isto?</p><p>� Bem, o esc�ndalo h� muito tempo est� evidente.</p><p>� Mas ela pode n�o ter percebido isto antes. Suponhamos que ela tenha descoberto tudo de repente. Ela quer se livrar da mulher. O irm�o n�o permite. A inv�lida, com o cora��o fraco e sua incapacidade de se locomover, n�o tem meios de impor sua vontade. A criada odiada ainda est� ligada a ela. A senhora recusa-se a falar, fica mal-humorada, d� para beber. Sir Robert, encolerizado, tira-lhe o spaniel, seu animal de estima��o. Isso tudo n�o faz sentido?</p><p>� Bem, pode fazer... at� aqui.</p><p>� Exatamente! At� aqui. Como tudo isso poderia ter rela��o com as visitas noturnas � velha cripta? N�o podemos encaixar isto em nosso enredo.</p><p>� N�o, senhor, e ainda h� outra coisa que eu n�o consigo encaixar. Por que sir Robert iria querer desenterrar um defunto?</p><p>Holmes endireitou-se na cadeira na mesma hora.</p><p>� N�s s� descobrimos isto ontem, depois que eu havia escrito para o senhor. Ontem, sir Robert estava em Londres, de modo que Stephens e eu descemos at� a cripta. Estava tudo em ordem, senhor, exceto pelo fato de que em um dos cantos havia um peda�o de um corpo humano.</p><p>� Presumo que o senhor tenha informado � pol�cia.</p><p>Nosso visitante deu um sorriso sinistro.</p><p>� Bem, senhor, acho que isto dificilmente os interessaria. Havia apenas a cabe�a e alguns ossos de uma m�mia. Devia ter uns 1.000 anos de idade. Mas n�o estava l� antes. Isto eu posso jurar e Stephens tamb�m. Tinha sido arrumado num canto e coberto com uma t�bua, mas aquele canto sempre esteve vazio antes.</p><p>� O que � que voc�s fizeram com aquilo?</p><p>� Bem, n�s simplesmente deixamos tudo l�.</p><p>� Isto foi prudente. Voc� disse que sir Robert estava fora ontem. Ele j� voltou?</p><p>� Deve voltar hoje.</p><p>� Quando foi que sir Robert deu de presente o cachorro da irm�?</p><p>� Foi exatamente h� uma semana. O animal estava uivando do lado de fora da velha casa do po�o, e sir Robert naquela manh� estava em um de seus dias de mau-humor. Ele apanhou o cachorro, e pensei que o tivesse matado. Depois, ele o entregou a Sandy Bain, o j�quei, e mandou que o levasse para o velho Barnes, no Green Dragon, porque ele n�o queria v�-lo nunca mais.</p><p>Holmes ficou sentado durante algum tempo, refletindo em sil�ncio. Ele acendeu o mais velho e f�tido de seus cachimbos.</p><p>� Eu ainda n�o sei bem o que o senhor quer que eu fa�a neste caso, sr. Mason � ele disse, finalmente. � O senhor pode ser mais preciso?</p><p>� Talvez isto torne as coisas mais claras, sr. Holmes � disse o nosso visitante.</p><p>Tirou do bolso um papel e, desembrulhando-o cuidadosamente, exibiu um peda�o de osso cabornizado.</p><p>Holmes examinou-o com interesse.</p><p>� Onde o senhor conseguiu isto?</p><p>� Existe uma caldeira para aquecimento central no por�o, debaixo do quarto de lady Beatrice. Ficou fora de uso durante algum tempo, mas sir Robert queixou-se de frio e a p�s novamente para funcionar. Harvey toma conta da caldeira � � um dos meus rapazes. Esta manh�, ele veio me mostrar isto, que encontrou enquanto raspava as cinzas com o ancinho. Ele n�o gostou do aspecto disto.</p><p>� Nem eu � disse Holmes. � O que � que voc� acha disso, Watson?</p><p>Tinha sido queimado at� virar carv�o, mas n�o havia d�vida quanto � sua import�ncia anat�mica.</p><p>� � o c�ndilo superior de um f�mur humano � eu disse.</p><p>� Exatamente � Holmes ficou muito s�rio. � A que horas este rapaz cuida da caldeira?</p><p>� Ele faz isso todas as tardes e depois vai embora.</p><p>� Ent�o qualquer um poderia ir at� l� durante a noite?</p><p>� Sim, senhor.</p><p>� � poss�vel entrar l� pelo lado de fora?</p><p>� H� uma porta que d� para fora. H� outra porta que leva, por uma escada, at� o corredor onde fica o quarto de lady Beatrice.</p><p>� Isto � uma coisa complicada, sr. Mason; complicada e um tanto turva. Voc� disse que sir Robert n�o estava em casa ontem?</p><p>� N�o, senhor.</p><p>� Ent�o n�o foi ele quem queimou ossos.</p><p>� Isso � verdade, senhor.</p><p>� Como � o nome daquela hospedaria de que o senhor falou?</p><p>� Green Dragon.</p><p>� H� boa pescaria naquela �rea de Berkshire?</p><p>O franco treinador demonstrou nitidamente, pela express�o de seu rosto, que estava convencido de que mais um lun�tico tinha entrado em sua vida atribulada.</p><p>� Bem, senhor, tenho ouvido falar que h� truta no rio do moinho e l�cio no lago Hall.</p><p>� Isto � suficiente. Watson e eu somos pescadores de primeira, n�o �, Watson? Voc� pode escrever para n�s, daqui por diante, para o Green Dragon. Devemos chegar l� esta noite. N�o preciso lhe dizer que n�o queremos v�-lo, sr. Mason, mas pode mandar um bilhete, e sem d�vida conseguirei encontr�-lo, se precisar do senhor. Quando tivermos descoberto um pouco mais a respeito do assunto, darei a minha opini�o.</p><empty-line/><p>E foi assim que, numa bela noite de maio, Holmes e eu nos encontramos sozinhos num vag�o de primeira classe, indo para a pequena esta��o de Shoscombe, onde o trem s� p�ra a pedido. O bagageiro acima de n�s estava repleto de varas de pescar, molinetes e cestos. Quando chegamos, uma curta viagem de carruagem nos levou a uma taberna antiga, onde um dono, amante do esporte, Josiah Barnes, aceitou com entusiasmo nossos planos de exterminar os peixes da vizinhan�a.</p><p>� O que me diz do lago Hall e da possibilidade de se pescar um l�cio? � Holmes perguntou.</p><p>O rosto do estalajadeiro se anuviou.</p><p>� Isto n�o serve, senhor. O senhor se arrisca a ir parar dentro do lago antes de terminar a sua pescaria.</p><p>� Por qu�?</p><p>� � sir Robert, senhor. Ele tem uma desconfian�a terr�vel dos agenciadores de apostas. Se os senhores, dois estranhos, chegassem assim t�o perto de seus campos de treinamento, ele iria atr�s dos senhores, com toda a certeza. Ele n�o quer se arriscar � n�o sir Robert.</p><p>� Ouvi dizer que ele tem um cavalo que vai correr no Derby.</p><p>� Sim, e � um bom potro. Ele est� apostando todo o nosso dinheiro nessa corrida, e o dele tamb�m. A prop�sito � ele nos olhou com preocupa��o �, presumo que os senhores n�o vieram por causa do turfe.</p><p>� N�o, realmente. Somos apenas dois londrinos fatigados, precisando muito de um pouco do ar puro de Berkshire.</p><p>� Bem, voc�s est�o no lugar certo. H� muito disto por aqui. Mas lembrem-se do que lhes disse sobre sir Robert. Ele � do tipo que bate primeiro e fala depois. Fiquem afastados do parque.</p><p>� Com certeza, sr. Barnes! N�s certamente ficaremos. A prop�sito, aquele spaniel que estava ganindo no sagu�o � um c�o lind�ssimo.</p><p>� E � mesmo. E um spaniel leg�timo da cria��o de Shoscombe. N�o existe melhor na Inglaterra.</p><p>� Eu mesmo gosto muito de cachorros � disse Holmes. � Bem, se � que posso perguntar, quanto custa um cachorro premiado como aquele?</p><p>� Mais do que eu poderia pagar, senhor. Foi o pr�prio sir Robert quem me deu este. E por isso tenho que conserv�-lo numa correia. Se eu o deixasse solto, enquanto o diabo esfrega um olho ele j� teria fugido para o Hall.</p><p>� Estamos juntando alguns trunfos na m�o, Watson � disse Holmes quando o estalajadeiro saiu. � N�o � um jogo f�cil de se jogar, mas poderemos encontrar uma pista dentro de um dia ou dois. A prop�sito, ouvi dizer que sir Robert ainda est� em Londres. Talvez possamos entrar nos dom�nios sagrados esta noite sem temer um ataque dele. H� um ou dois detalhes que eu gostaria de confirmar.</p><p>� Voc� tem alguma teoria, Holmes?</p><p>� Apenas esta, Watson, de que h� uma semana mais ou menos aconteceu alguma coisa que afetou profundamente a vida familiar de Shoscombe. O que seria? Posso imaginar a partir dos efeitos. Eles parecem ser de um tipo estranhamente misto. Mas isso certamente nos ajudar�. S� os casos ins�pidos e sem acontecimentos not�veis n�o t�m solu��o.</p><p>� Analisemos nossos dados b�sicos. O irm�o n�o visita mais a querida irm� inv�lida. Ele d� de presente o seu cachorro favorito. O cachorro dela, Watson! Isto n�o lhe sugere nada?</p><p>� Nada, a n�o ser a raiva do irm�o.</p><p>� Bem, pode ser isso. Ou � bem, h� uma alternativa. Mas, continuando a nossa recapitula��o a partir do in�cio da rixa, se � que existe uma rixa. A senhora fica no seu quarto, altera os seus h�bitos, n�o � vista a n�o ser quando sai de carruagem com a sua criada, recusa-se a parar nos est�bulos para cumprimentar seu cavalo favorito e aparentemente d� para beber. Com isto recapitulamos o caso todo, n�o �?</p><p>� Exceto quanto ao assunto da cripta.</p><p>� Esta � uma outra linha de pensamento. Existem duas, e pe�o-lhe que n�o as confunda. A Linha A, que diz respeito a lady Beatrice, tem um sabor vagamente sinistro, n�o tem?</p><p>� N�o consigo entender nada disso.</p><p>� Bem, agora tomemos a Linha B, que diz respeito a sir Robert. Ele est� desesperado para ganhar o Derby. Ele est� nas m�os dos agiotas, e pode a qualquer momento ir � bancarrota e em horas pode ser tomado pelos credores. Ele � um homem ousado e desesperado. Sua renda prov�m de sua irm�. A criada de sua irm� � o seu instrumento volunt�rio. At� agora parece que estamos em terreno razoavelmente seguro, n�o �?</p><p>� Mas, e a cripta?</p><p>� Ah, sim, a cripta! Vamos supor, Watson � � apenas uma suposi��o infame, uma hip�tese s� para ser discutida �, que sir Robert assassinou sua irm�.</p><p>� Meu caro Holmes, isto � um absurdo.</p><p>� Muito possivelmente, Watson. Sir Robert � um homem de linhagem ilustre. Mas �s vezes encontramos um abutre entre �guias. Vamos discutir um pouco esta suposi��o. Ele n�o poderia fugir do pa�s enquanto n�o convertesse a sua sorte em dinheiro, e isto s� poderia ocorrer com a vit�ria de Shoscombe Prince. Portanto, ele precisa ag�entar firme aqui. Para fazer isso ele teria que se livrar do corpo de sua v�tima, e teria, tamb�m, de encontrar uma substituta que representasse o papel dela. Tendo a criada como confidente, isso n�o seria imposs�vel. O corpo de sua irm� poderia ser levado para a cripta, que � um lugar raramente visitado, e poderia ser destru�do � noite, secretamente, na fornalha, deixando atr�s aquela prova que j� vimos. O que voc� diz sobre isto?</p><p>� Bem, tudo isso � poss�vel, se voc� admite como correta a monstruosa hip�tese inicial.</p><p>� H� uma pequena experi�ncia que podemos tentar amanh�, Watson, para tentar esclarecer o assunto. Enquanto isso, se pretendemos continuar mantendo nossa caracteriza��o, sugiro que convidemos o nosso anfitri�o para tomar um copo de seu pr�prio vinho, e vamos conversar a respeito de enguias, o que parece ser o caminho certo para se conquistar a sua amizade. Podemos descobrir por acaso algum mexerico local �til para a elucida��o do caso.</p><empty-line/><p>De manh�, Holmes descobriu que n�o hav�amos trazido certo tipo de iscas, o que nos absolvia do fato de n�o termos pescado naquele dia. �s 11 horas sa�mos para dar um passeio, e ele obteve permiss�o para levarmos o spaniel preto.</p><p>� � este o lugar � ele disse, quando nos aproximamos dos dois altos port�es do parque, encimados por grifos her�ldicos. � O sr. Barnes me informou que, por volta de meio-dia, a velha dama sai para um passeio, e que a carruagem precisa diminuir a marcha enquanto os port�es s�o abertos. Quando a carruagem atravessar os port�es, e antes que sua velocidade aumente, quero que voc�, Watson, pare o cocheiro fazendo-lhe alguma pergunta. N�o se incomode comigo. Ficarei atr�s deste arbusto de azevinho para observar o que puder.</p><p>N�o foi uma vig�lia longa. Quinze minutos depois, avistamos a grande carruagem amarela aberta descendo a avenida, com dois magn�ficos cavalos pardos. Holmes agachou-se atr�s do arbusto com o cachorro. Fiquei de p� no caminho, balan�ando a bengala despreocupadamente. Um guarda saiu correndo e os port�es foram abertos.</p><p>A carruagem reduziu a marcha, e pude observar bem seus ocupantes. Uma jovem muito pintada, de cabelos louros e olhos atrevidos estava sentada � esquerda. � sua direita estava uma pessoa idosa, de costas encurvadas e uma barafunda de xales ao redor de seu rosto e dos ombros, que indicavam a inv�lida. Quando os cavalos chegaram � estrada, levantei a m�o num gesto autorit�rio, e quando o cocheiro puxou as r�deas, perguntei se sir Robert estava em Shoscombe Old Place.</p><p>No mesmo instante Holmes saiu do esconderijo e soltou o spaniel. Com um grito de alegria, o c�o correu para a carruagem e pulou sobre o degrau. Ent�o, num segundo, seu cumprimento veemente transformou-se em raiva furiosa, e ele mordeu a saia preta que estava sobre o degrau.</p><p>� Vamos em frente! � gritou uma voz �spera. O cocheiro chicoteou os cavalos, e n�s ficamos parados na estrada.</p><p>� Bem, Watson, conseguimos � disse Holmes enquanto atava a correia no pesco�o do spaniel excitado. � Ele pensou que fosse a sua dona e descobriu que era um estranho. Os cachorros n�o se enganam.</p><p>� Mas era a voz de um homem! � exclamei.</p><p>� Exatamente! Temos mais um trunfo nas m�os, Watson, mas, mesmo assim, � preciso jogar com cautela.</p><p>Meu amigo parecia n�o ter outros planos para aquele dia, e n�s realmente usamos nosso equipamento de pesca no rio do moinho, e o resultado foi que tivemos uma travessa de trutas na nossa ceia. S� depois daquela refei��o Holmes demonstrou sinais de atividade revigorada. Uma vez mais encontramo-nos na mesma estrada em que hav�amos estado pela manh�, que dava nos port�es do parque. Uma figura morena e alta estava nos esperando ali, e era o nosso conhecido de Londres, sr. John Mason, o treinador.</p><p>� Boa-noite, senhores � ele disse. � Recebi seu bilhete, sr. Holmes. Sir Robert ainda n�o voltou, mas ouvi dizer que ele � esperado esta noite.</p><p>� A que dist�ncia a cripta fica da casa? � perguntou Holmes.</p><p>� A uns 400 metros.</p><p>� Ent�o acho que poderemos agir sem medo.</p><p>� N�o posso correr este risco, sr. Holmes. Assim que ele chegar, vai querer me ver para saber as �ltimas not�cias de Shoscombe Prince.</p><p>� Compreendo! Neste caso temos que trabalhar sem o senhor. Poder� nos mostrar a cripta e depois ir embora.</p><p>Estava escuro como breu e n�o havia lua, mas Mason nos conduziu pelo prado at� que surgiu na nossa frente uma forma escura que depois vimos ser a antiga capela. Entramos pela brecha que antes havia sido um p�rtico, e o nosso guia, trope�ando em meio aos montes de alvenaria solta, foi at� o canto do edif�cio, onde uma escada �ngreme nos levou para baixo, at� a cripta. Riscando um f�sforo, ele iluminou o lugar melanc�lico � um cheiro f�tido e desagrad�vel, velhas paredes de pedras toscas talhadas e pilhas de esquifes, alguns de chumbo, e alguns de pedra, prolongavam-se de um lado, chegando at� o teto arqueado e cheio de frisos que se perdia nas sombras acima de nossas cabe�as. Holmes tinha acendido sua lanterna, que projetou um min�sculo jato de luz amarelo-vivo sobre a l�gubre cena. Seus raios refletiram-se nas placas dos esquifes, muitos deles adornados com o bras�o de grifos e coroa desta fam�lia antiga que carregava suas honrarias at� mesmo para o port�o da morte.</p><p>� O senhor falou de ossos, sr. Mason. Poderia mostr�-los antes de ir embora?</p><p>� Eles est�o aqui neste canto � o treinador foi at� l� e ficou mudo de espanto quando iluminamos o local. � Eles desapareceram � ele disse.</p><p>� Eu j� esperava por isso � disse Holmes, dando uma risadinha. � Acho que as cinzas deles podem, ainda agora, ser encontradas naquele forno que j� consumiu uma parte.</p><p>� Mas por que algu�m iria querer queimar ossos de um homem que j� est� morto h� mil anos? � perguntou John Mason.</p><p>� � para descobrir isto que estamos aqui � disse Holmes. � Isto pode significar uma busca demorada, e n�o precisamos ret�-lo. Acho que teremos uma solu��o antes do amanhecer.</p><p>Quando John Mason foi embora, Holmes p�s m�os � obra, fazendo um exame cuidadoso dos t�mulos, que iam desde um t�mulo muito antigo, no centro, que parecia ser de um sax�o, passando por uma longa fileira de t�mulos normandos, hugos e odos, at� chegar aos esquifes de sir William e de sir Denis Falder, do s�culo XVIII. Levou uma hora ou mais at� que Holmes chegasse a um esquife de chumbo, colocado em p�, antes da entrada para o subterr�neo. Ouvi seu grito de satisfa��o e tive certeza, pelos seus movimentos apressados mas decididos, de que ele havia atingido o seu objetivo. Com sua lente, ele estava examinando ansiosamente as bordas da tampa pesada. Em seguida tirou do bolso um p�-de-cabra curto, que introduziu numa fenda, suspendendo toda a parte da frente, que parecia estar presa apenas por um par de grampos. Ouviu-se um ru�do, como se algo estivesse sendo rasgado ou despeda�ado, enquanto a tampa cedia, mas ela girou com dificuldade sobre as dobradi�as, revelando parcialmente seu conte�do, antes que f�ssemos interrompidos de modo imprevisto.</p><p>Algu�m estava caminhando em cima, na capela. Era o passo firme e r�pido de quem veio com um objetivo definido e conhecia bem o ch�o onde pisava. Uma luz jorrou de cima das escadas, e um minuto depois o homem que a segurava apareceu emoldurado pelo arco g�tico. Era uma figura medonha, de estatura colossal e jeito feroz. Uma grande lanterna de cocheira, que ele segurava � sua frente, iluminou um rosto en�rgico, um bigode espesso e olhos col�ricos que examinavam cada recesso do subterr�neo, fixando-se por fim, com uma express�o sinistra, em meu amigo e em mim.</p><p>� Quem diabo s�o voc�s? � ele vociferou. � E o que est�o fazendo dentro de minha propriedade? � Ent�o, como Holmes n�o respondesse, avan�ou alguns metros e ergueu uma pesada bengala que carregava. � Voc�s est�o me ouvindo? � gritou. � Quem s�o voc�s? O que est�o fazendo aqui? � Seu bast�o agitou-se no ar.</p><p>Mas, em vez de apavorar-se, Holmes avan�ou� na dire��o dele.</p><p>� Eu tamb�m tenho uma pergunta para fazer-lhe, sir Robert � ele disse no seu tom de voz mais �spero. � Quem est� a� dentro? E o que est� fazendo aqui?</p><p>Ele virou-se e abriu a tampa do caix�o atr�s dele. Sob a luz da lanterna, vi um corpo enfaixado da cabe�a aos p�s em um len�ol, com fei��es horr�veis de bruxa, s� nariz e queixo, olhos opacos e vidrados, num rosto desbotado e em decomposi��o.</p><p>O baronete cambaleou para tr�s com um grito e apoiou-se num sarc�fago de pedra.</p><p>� Como o senhor soube disto? � ele perguntou. E em seguida, novamente com o seu jeito grosseiro: � O que � que os senhores t�m a ver com isto?</p><p>� Meu nome � Sherlock Holmes � disse meu amigo. � Talvez o nome lhe seja familiar. De qualquer modo, meu neg�cio � o mesmo de todos os bons cidad�os � defender a lei. Parece que o senhor tem muito a explicar.</p><p>Sir Robert nos dirigiu um olhar penetrante, mas a voz de Holmes, tranq�ila e fria, e suas maneiras seguras surtiram efeito.</p><p>� Por Deus, sr. Holmes, est� bem � ele disse. � Tudo parece ser contra mim, admito, mas eu n�o podia agir de outra maneira.</p><p>� Gostaria de pensar assim, mas acho que as suas explica��es devam ser dadas � pol�cia.</p><p>Sir Robert encolheu seus ombros largos.</p><p>� Bem, se tiver que ser assim, que seja. Venham at� a casa e poder�o julgar por si mesmos.</p><p>Quinze minutos depois est�vamos no que imaginei ser a sala de armas da casa, pelas armas de fogo enfileiradas atr�s de protetores de vidro. Era uma sala confortavelmente mobiliada, e l� sir Robert deixou-nos a s�s durante alguns momentos. Ao voltar, vinha acompanhado por duas pessoas, uma delas a jovem de rosto muito pintado, que v�ramos na carruagem, a outra, um homem com cara de rato e maneiras desagradavelmente furtivas. Os dois pareciam muito espantados, o que demonstrava que o baronete ainda n�o tivera tempo de explicar-lhes o rumo que os acontecimentos haviam tomado.</p><p>� Estes � disse sir Robert, com um aceno de m�o � s�o o senhor e a senhora Norlett. A senhora Norlett, com o nome de solteira Evans, foi durante alguns anos a criada de confian�a de minha irm�. Eu os trouxe aqui porque acho que o melhor a fazer � explicar aos senhores a verdadeira situa��o, e eles s�o as duas �nicas pessoas no mundo que podem provar o que digo.</p><p>� Isto � necess�rio, sir Robert? O senhor pensou no que est� fazendo? � exclamou a mulher.</p><p>� Quanto a mim, nego completamente toda a responsabilidade � disse o marido dela.</p><p>Sir Robert lan�ou-lhe um olhar de desprezo. � Assumo toda a responsabilidade � disse ele. � Agora, sr. Holmes, ou�a um relato verdadeiro dos fatos.</p><p>� O senhor, evidentemente, investigou meus neg�cios a fundo, ou eu n�o o teria encontrado onde o encontrei. Portanto, o senhor provavelmente j� deve saber que um cavalo preto de minha propriedade vai participar do Derby, e que tudo depender� do �xito dessa corrida. Se meu cavalo vencer, tudo ficar� f�cil. Se perder � bem, n�o ouso pensar nisso!</p><p>� Compreendo a situa��o � disse Holmes.</p><p>� Dependo inteiramente de minha irm� Beatrice. Mas todo mundo sabe que s� minha irm� pode se beneficiar do uso destas propriedades, e apenas enquanto viver. Quanto a mim, estou inteiramente nas m�os dos agiotas. Sempre soube que, se minha irm� morresse, meus credores cairiam sobre os meus bens como um bando de abutres. Tudo me seria tomado, meus cavalos, meus est�bulos, tudo. Bem, sr. Holmes, minha irm� morreu realmente, h� uma semana.</p><p>� E o senhor n�o disse a ningu�m?</p><p>� Como podia faz�-lo? Uma ru�na total me amea�ava. Se eu pudesse protelar as coisas por tr�s semanas, tudo estaria bem. O marido da criada dela � este homem aqui � � um ator. Tivemos a id�ia � eu tive a id�ia � de que ele poderia, durante este curto per�odo, fazer-se passar por minha irm�. Bastava ele aparecer diariamente na carruagem, porque ningu�m precisaria entrar no quarto dela, a n�o ser a criada. N�o foi dif�cil fazer isso. Minha irm� morreu de hidropsia, doen�a de que sofria h� muito tempo.</p><p>� Isto quem vai verificar � o chefe de pol�cia.</p><p>� O m�dico dela atestar� que, durante meses, os sintomas da doen�a j� faziam prever um fim como esse.</p><p>� Bem, o que o senhor fez?</p><p>� O corpo n�o podia ficar l�. Na primeira noite, Norlett e eu o carregamos para a velha casa do po�o, que agora n�o � mais usada. Mas fomos seguidos pelo seu cachorro de estima��o, que ficou latindo na porta, de modo que senti que seria necess�rio um lugar mais seguro. Livrei-me do spaniel, e carregamos o corpo para a cripta da igreja. N�o houve indignidade ou irrever�ncia, sr. Holmes. N�o sinto que eu tenha ofendido a morta.</p><p>� Sua conduta me parece imperdo�vel, sir Robert.</p><p>O baronete sacudiu a cabe�a com impaci�ncia. � � f�cil falar � ele disse. � Talvez o senhor, se estivesse em meu lugar, sentisse de maneira diferente. Ningu�m pode ver todas as suas esperan�as e todos os seus planos se despeda�arem no �ltimo momento sem fazer um esfor�o para salv�-los. Achei que aquele lugar n�o seria indigno para o descanso, se a pus�ssemos durante algum tempo em um dos esquifes dos antepassados de seu falecido marido, que descansavam em terreno j� consagrado. Abrimos aquele esquife, retiramos os conte�dos e a colocamos conforme o senhor a viu. Quanto �s velhas rel�quias que tiramos, n�o pod�amos deix�-las no ch�o da cripta. Norlett e eu as retiramos, e ele desceu � noite e as queimou na fornalha central. Esta � a minha hist�ria, sr. Holmes. Embora o senhor tenha me for�ado a ponto de eu ter que contar mais do que devia.</p><p>Holmes ficou sentado durante algum tempo, refletindo.</p><p>� H� uma falha em sua narrativa, sir Robert � ele disse finalmente. � Suas apostas na corrida e, por conseguinte, suas esperan�as para o futuro estariam de p� mesmo se os seus credores tomassem o seu patrim�nio.</p><p>� O cavalo faz parte do patrim�nio. Por que haveriam eles de se importar com as minhas apostas? Provavelmente eles n�o iriam faz�-lo correr. Meu principal credor, infelizmente, � o meu inimigo mais cruel, um patife, Sam Brewer, que uma vez fui obrigado a chicotear no Newmarket Heath. O senhor acredita que ele tentaria me salvar?</p><p>� Bem, sir Robert � disse Holmes, levantando-se �, � claro que este assunto deve ser encaminhado � pol�cia. Era meu dever esclarecer os fatos e agora devo deix�-los. Quanto � moralidade ou dec�ncia de sua conduta, n�o me cabe manifestar uma opini�o. � quase meia-noite, Watson, e acho que devemos voltar aos nossos humildes aposentos.</p><empty-line/><p>Todos sabem agora que este epis�dio singular teve um final mais feliz do que o procedimento de sir Robert merecia. Shoscombe Prince venceu realmente o Derby, o seu dono embolsou 18 mil libras em apostas, e os credores esperaram at� que a corrida terminasse, quando foram totalmente reembolsados, e ainda sobrou o suficiente para que sir Robert estabelecesse novamente uma boa situa��o na vida. Tanto a pol�cia como o juiz encararam os acontecimentos com indulg�ncia, e al�m de uma censura branda pela demora em registrar o falecimento da senhora, o feliz propriet�rio saiu inc�lume deste estranho incidente, numa vida que superou sombras e promessas, para terminar numa velhice honrada.</p><empty-line/></section><section><p><strong>a aventura do negro aposentado</strong></p><p>Naquela manh�, Sherlock Holmes estava predisposto � melancolia e � filosofia. Sua natureza pr�tica e viva era sujeita a rea��es deste tipo.</p><p>� Voc� o viu? � ele perguntou.</p><p>� Voc� se refere ao velho que acabou de sair?</p><p>� Justamente.</p><p>� Sim, encontrei-o na porta.</p><p>� O que achou dele?</p><p>� Uma criatura pat�tica, in�til e alquebrada.</p><p>� Exatamente, Watson. Pat�tica e in�til. Mas a vida n�o � toda ela pat�tica e in�til? A hist�ria dele n�o � um microcosmo do todo? N�s estendemos a m�o. N�s agarramos. E, no final, o que � que fica em nossas m�os? Uma sombra. Ou pior do que</p><p>uma sombra � a mis�ria.</p><p>� Ele � um dos seus clientes?</p><p>� Bem, acho que eu possa cham�-lo assim. Ele foi mandado pela Scotland Yard. Exatamente como os m�dicos �s vezes mandam os seus doentes incur�veis a um curandeiro. Eles argumentam que n�o podem fazer mais nada e, aconte�a o que acontecer, o paciente n�o poder� ficar pior do que j� est�.</p><p>� Qual � o problema?</p><p>Holmes pegou na mesa um cart�o um tanto sujo. �Josiah Amberley�. � Ele afirma que era o s�cio-minorit�rio de Brickfall e Amberley, fabricantes de materiais art�sticos. Voc� ver� o nome deles impresso em caixas de tinta. Ele ganhou uma boa quantidade de dinheiro, retirou-se dos neg�cios aos 61 anos, comprou uma casa em Lewisham e parou para descansar ap�s uma vida de incessante trabalho pesado. Poder�amos achar que o futuro dele estava assegurado de forma razo�vel.</p><p>� Sim, realmente.</p><p>Holmes olhou de relance para algumas anota��es que ele havia rabiscado nas costas de um envelope.</p><p>� Aposentou-se em 1896, Watson. No in�cio de 1897, casou-se com uma mulher vinte anos mais nova do que ele � uma mulher bonita tamb�m, se � que a fotografia n�o lhe aumenta a beleza. Uma renda suficiente, uma esposa, e tempo para o lazer � parecia que diante dele havia uma estrada reta. Mas, dois anos depois ele est�, como voc� viu, t�o alquebrado e miser�vel como qualquer criatura que se arraste sob o sol.</p><p>� Mas o que foi que aconteceu?</p><p>� A velha hist�ria, Watson. Um amigo trai�oeiro e uma esposa vol�vel. Parece que Amberley tinha um passatempo predileto, o jogo de xadrez. N�o muito longe dele, em Lewisham, mora um jovem m�dico que tamb�m � jogador de xadrez. Tomei nota de seu nome � dr. Ray Ernest. Este m�dico estava freq�entemente na casa, e uma intimidade entre ele e a sra. Amberley era uma conseq��ncia natural, pois voc� precisa admitir que o nosso infeliz cliente possui poucos encantos exteriores, independentemente de suas virtudes interiores. Na semana passada, os dois partiram juntos � paradeiro ignorado. Al�m do mais, a esposa infiel levou, como bagagem pessoal, uma caixa com escrituras do velho, que tamb�m continha grande parte das economias de seu marido. Ser� que poderemos encontrar esta senhora? Poderemos salvar o dinheiro? Um problema banal at� agora, mas vital para Josiah Amberley.</p><p>� O que � que voc� far� a respeito disso?</p><p>� Bem, a pergunta imediata, meu caro Watson, �: o que voc� far�? � se voc� quiser fazer o favor de me representar. Voc� sabe que estou preocupado com o caso dos dois patriarcas coptas, que hoje deveria chegar a um ponto cr�tico. Realmente n�o tenho tempo para ir a Lewisham, mas a prova obtida no local tem um valor especial. O velho estava insistindo muito para que eu fosse, mas expliquei-lhe meu problema. Ele est� disposto a encontrar-se com um representante meu.</p><p>� Sem d�vida � respondi. � Confesso que n�o sei como poderei ser �til, mas quero fazer o melhor que puder. � E foi assim que naquela tarde de ver�o parti para Lewisham, sem imaginar que uma semana depois o caso em que eu estava me envolvendo provocaria a mais inflamada celeuma de toda a Inglaterra.</p><empty-line/><p>J� era tarde da noite quando voltei a Baker Street para prestar contas da minha miss�o. Holmes estava recostado, o corpo magro esticado em sua poltrona, o cachimbo soltando lentas espirais de fuma�a, enquanto suas p�lpebras ca�am sobre os olhos t�o pregui�osamente que ele quase podia ter adormecido, se n�o fosse o fato de que, em toda pausa ou trecho question�vel de minha narrativa, elas se erguiam at� o meio, e dois olhos cinzentos, t�o brilhantes e vivos quanto floretes, trespassavam-me com seu olhar inquisitivo.</p><p>� The Haven � o nome da casa do sr. Josiah Amberley � expliquei. � Acho que isto o interessaria, Holmes. � como um aristocrata indigente que mergulhou na companhia de seus subalternos. Voc� conhece aquele bairro a que me refiro, as mon�tonas ruas de tijolos, as enfadonhas estradas suburbanas. Bem no meio delas est� situada esta velha casa, uma pequena ilha de cultura e de conforto � antiga, cercada por um muro alto, manchado de l�quens e cheio de musgo, o tipo de muro...</p><p>� Deixe a poesia de lado, Watson � disse Holmes com severidade. � Anotei que era um muro alto de tijolos.</p><p>� Exatamente. Eu n�o saberia qual era The Haven, se eu n�o tivesse perguntado a um vagabundo que estava fumando na rua. Tenho minhas raz�es para mencion�-lo. Ele era alto, moreno, com um grande bigode, um homem de apar�ncia um tanto militar. Ele indicou com a cabe�a em resposta � minha pergunta e lan�ou-me um olhar de curiosidade, que um pouco mais tarde me voltou � lembran�a.</p><p>� Eu mal havia atravessado o port�o de entrada quando avistei o sr. Amberley descendo pelo caminho. Eu s� o vira de relance esta manh�, e ele certamente deu-me a impress�o de uma criatura estranha, mas quando o vi em plena luz, sua apar�ncia era ainda mais anormal.</p><p>� � claro que eu o observei, e contudo estou interessado em saber a sua impress�o � disse Holmes.</p><p>� Ele me pareceu um homem literalmente oprimido por preocupa��es. Suas costas estavam curvadas, como se ele carregasse um fardo pesado. Mas n�o era a criatura fraca que eu havia imaginado no in�cio, porque seus ombros e o peito t�m a estrutura de um gigante, embora sua figura v� se afunilando, terminando num par de pernas compridas e magras.</p><p>� O sapato esquerdo enrugado, o direito esticado.</p><p>� N�o observei isto.</p><p>� N�o, voc� n�o o faria. Observei sua perna artificial. Mas prossiga.</p><p>� Fiquei impressionado com os an�is encrespados de seu cabelo grisalho, que apareciam sob o chap�u de palha velho, seu rosto com uma express�o feroz e suas fei��es de tra�os muito marcados.</p><p>� Muito bem, Watson. O que ele disse?</p><p>� Ele come�ou a despejar a hist�ria de suas m�goas. Caminhamos juntos pelo passeio, e � claro que observei bem tudo em volta. Nunca vi um lugar t�o malcuidado. O jardim estava completamente abandonado, dando a impress�o de completa neglig�ncia, que permitiu que as plantas seguissem o caminho da natureza, e n�o o caminho da arte. Como uma mulher decente poderia tolerar esse estado de coisas, n�o sei. A casa tamb�m estava desmazelada at� o �ltimo grau, mas o pobre homem parecia ciente disto e estava tentando remediar a situa��o, porque havia um grande pote de tinta verde no meio do sagu�o, e ele estava carregando uma broxa grossa na m�o esquerda. Ele estivera trabalhando no madeirame.</p><p>� Ele me levou ao seu sujo ref�gio, e tivemos uma longa conversa. Naturalmente ele estava desapontado pelo fato de voc� n�o ter ido. �Eu dificilmente esperava�, ele disse, �que um indiv�duo t�o humilde como eu, principalmente ap�s o meu pesado preju�zo financeiro, pudesse obter a aten��o total de um homem t�o famoso como Sherlock Holmes.�</p><p>� Assegurei-lhe que a quest�o financeira n�o existia. �N�o, � claro, com ele � arte pelo amor � arte�, ele disse, �mas mesmo do lado art�stico do crime, ele poderia ter encontrado aqui algo para investigar. E a natureza humana, dr. Watson � a terr�vel ingratid�o de tudo isto! Quando foi que eu recusei algum pedido dela? Alguma mulher j� foi t�o mimada? E aquele rapaz � ele poderia ter sido meu pr�prio filho. Ele tinha livre entrada em nossa casa. Entretanto, veja como eles me trataram! Oh, dr. Watson, este mundo � terr�vel, terr�vel!�</p><p>� Este foi o estribilho de suas queixas durante uma hora ou mais. Parece que ele n�o suspeitava de um amor il�cito. Eles moravam s�s, a n�o ser por uma criada que vinha de manh� e ia embora �s seis horas. Naquela noite, o velho Amberley, querendo agradar � sua mulher, havia adquirido dois lugares na galeria superior do Teatro Haymarket. No �ltimo momento ela queixou-se de dor de cabe�a e n�o quis ir. Ele foi s�. Parece n�o haver nenhuma d�vida quanto a esse fato, pois ele apresentou o bilhete que trouxera para a sua esposa e que n�o foi usado.</p><p>� Isto � estranho, muito estranho � disse Holmes, cujo interesse pelo caso parecia estar aumentando. � Por favor, continue, Watson. Acho sua narrativa interessant�ssima. Voc� examinou pessoalmente este bilhete? Voc� por acaso n�o anotou o n�mero?</p><p>� Acontece que anotei � respondi com orgulho. � Por acaso era o meu antigo n�mero da escola, 31, e ficou gravado na minha cabe�a.</p><p>� Excelente, Watson! Ent�o a cadeira dele era 30 ou 32.</p><p>� Perfeitamente � respondi um tanto perplexo. � E na fila B.</p><p>� Isto � bastante satisfat�rio. O que mais ele lhe contou?</p><p>� Ele mostrou seu quarto-forte, como ele o chama. � realmente um quarto-forte � como um banco �, com porta de ferro e uma de madeira � � prova de ladr�o, como ele afirmou. Mas parece que a mulher tinha uma duplicata da chave, e os dois juntos tinham carregado umas 7 mil libras, em dinheiro e obriga��es da d�vida p�blica.</p><p>� Obriga��es da d�vida p�blica? Como eles poderiam vender estas obriga��es?</p><p>� Ele disse que havia dado � pol�cia uma lista e esperava que elas n�o fossem vend�veis. Ele voltou do teatro mais ou menos � meia-noite e encontrou a casa saqueada, a porta e a janela abertas, e os dois j� haviam fugido. N�o deixaram nenhuma carta ou mensagem, e desde ent�o ele tamb�m n�o recebeu uma palavra dela. Ele avisou imediatamente � pol�cia.</p><p>Holmes refletiu durante alguns minutos.</p><p>� Voc� disse que ele estava pintando. O que � que ele estava pintando?</p><p>� Bem, ele estava pintando o corredor. Mas j� havia pintado a porta e todas as partes em madeira deste quarto que mencionei.</p><p>� Voc� n�o achou que era uma ocupa��o estranha nestas circunst�ncias?</p><p>� �� preciso fazer alguma coisa para aliviar um cora��o dolorido.� Foi esta a explica��o que ele deu. � esquisito, sem d�vida, mas ele �, evidentemente, um homem esquisito. Ele rasgou uma das fotografias de sua mulher na minha presen�a � rasgou-a furiosamente, numa tempestade de f�ria. �Eu n�o quero nunca mais ver a sua maldita cara�, ele gritou.</p><p>� Mais alguma coisa, Watson?</p><p>� Sim, uma coisa que me impressionou mais do que qualquer outra. Eu fui para a esta��o Blackheath e apanhei o meu trem l�, e exatamente quando o trem estava partindo, vi um homem entrando rapidamente no vag�o pegado ao meu. Voc� sabe que sou um bom fisionomista, Holmes. Sem d�vida nenhuma era o homem alto e moreno com quem falei na rua. Avistei-o uma vez na Ponte de Londres e depois o perdi de vista na multid�o. Mas estou convencido de que ele estava me seguindo.</p><p>� Sem d�vida! Sem d�vida! � disse Holmes. � Um homem alto, moreno, com um bigode grande, voc� diz, com �culos de sol cinzentos?</p><p>� Holmes, voc� � um adivinho. Eu n�o disse isso, mas ele estava com �culos de sol cinzentos.</p><p>� E um alfinete de gravata ma��nico?</p><p>� Holmes!</p><p>� Muito simples, meu caro Watson. Mas vamos tratar de coisas pr�ticas. Devo admitir que o caso, que me parecia t�o absurdamente simples que nem valia a pena eu perder meu tempo com ele, est� assumindo rapidamente um aspecto muito diferente. � verdade que, embora em sua miss�o voc� tenha deixado passar todas as coisas importantes, at� mesmo as coisas que se impuseram � sua aten��o deram origem a graves reflex�es.</p><p>� O que foi que eu deixei escapar?</p><p>� N�o se ofenda, meu caro. Voc� sabe que sou muito impessoal. Ningu�m teria feito melhor. Alguns, possivelmente n�o t�o bem. Mas certamente voc� perdeu alguns pontos fundamentais. Qual � a opini�o dos vizinhos sobre Amberley e sua mulher? Isto certamente � importante. E quanto ao dr. Ernest? Era ele o jovial Lothario que se poderia esperar? Com suas vantagens naturais, Watson, toda mulher � sua auxiliar e sua c�mplice. E a mo�a do correio, ou a mulher do quitandeiro? Posso imaginar voc� cochichando ternas banalidades no ouvido da mo�a no Blue Anchor, e recebendo em troca informa��es concretas. Tudo isto voc� deixou de fazer.</p><p>� Isto ainda pode ser feito.</p><p>� J� foi feito. Gra�as ao telefone e � ajuda da Scotland Yard, geralmente consigo obter aquilo de que necessito sem sair deste quarto. Na verdade, minha informa��o confirma a hist�ria do homem. Ele tem fama, no local, de ser um marido t�o avarento quanto intrat�vel e exigente. Que ele tinha uma grande soma de dinheiro naquele quarto-forte � verdade. Tamb�m � verdade que o jovem dr. Ernest, um homem solteiro, jogava xadrez com Amberley, e� provavelmente fez-se de tolo com a mulher dele. Tudo isto parece muito simples, e seria poss�vel pensar que n�o h� mais para ser dito � mas � mas!</p><p>� Onde est� a dificuldade?</p><p>� Na minha imagina��o, talvez. Bem, deixe isso pra l�, Watson. Vamos fugir deste enfadonho mundo de trabalho di�rio e ouvir m�sica. Carina canta esta noite no Albert Hall, e n�s ainda temos tempo para nos vestir, jantar e nos alegrar.</p><empty-line/><p>De manh�, levantei-me cedo, mas algumas migalhas de torradas e duas cascas de ovos vazias indicaram que meu amigo levantara-se mais cedo ainda. Encontrei um bilhete rabiscado sobre a mesa.</p><empty-line/><p>CARO WATSON</p><p>H� um ou dois pontos que eu gostaria de esclarecer com o sr. Josiah Amberley. Depois que eu tiver feito isso, poderemos desistir do caso � ou n�o. Eu s� lhe pediria para estar dispon�vel por volta das 15 horas, porque talvez eu precise de voc�.</p><p>S. H.</p><empty-line/><p>N�o vi Holmes o dia inteiro, mas na hora marcada ele voltou, grave, preocupado e distante. Nessas ocasi�es era melhor deix�-lo sozinho.</p><p>� Amberley j� esteve aqui?</p><p>� N�o.</p><p>� Ah! Eu o estou aguardando.</p><p>Ele n�o ficou desapontado, porque pouco depois o velho chegou com uma express�o muito intrigada e preocupada.</p><p>� Recebi um telegrama, sr. Holmes. N�o consigo entender. � Ele entregou o telegrama a Holmes, que o leu em voz alta.</p><empty-line/><p>Venha imediatamente, sem falta. Posso dar-lhe informa��es quanto � sua recente perda.</p><p>� Elman. O Vicariato.</p><empty-line/><p>� Despachado de Little Purlington �s 14:10h � disse Holmes. � Little Purlington fica em Essex, eu acho, n�o muito longe de Frinton. Bem, � claro que o senhor partir� imediatamente. Este telegrama, evidentemente, � de uma pessoa respons�vel, o vig�rio do lugar. Onde est� a minha lista telef�nica? Sim, aqui est� ele, J. C. Elman, M. A., morando em Moosmoor, esquina de Little Purlington. Veja o hor�rio dos trens, Watson.</p><p>� �s 17:20h sai um da esta��o de Liverpool Street.</p><p>� Excelente. O melhor que voc� faz � ir com ele, Watson. Ele pode precisar de ajuda ou de conselho. Evidentemente chegamos a uma crise neste assunto.</p><p>Mas nosso cliente n�o parecia nem um pouco ansioso por partir.</p><p>� � completamente absurdo, sr. Holmes � ele disse. � O que esse homem pode saber a respeito do que aconteceu? � perda de tempo e de dinheiro.</p><p>� Ele n�o lhe teria telegrafado se n�o soubesse de alguma coisa. Telegrafe imediatamente avisando que o senhor est� a caminho.</p><p>� Acho que n�o irei.</p><p>Holmes assumiu o seu aspecto mais severo.</p><p>� Isto causaria a pior impress�o tanto na pol�cia quanto em mim mesmo, sr. Amberley, se ao surgir uma pista t�o �bvia o senhor se recusasse a segui-la. N�s sentir�amos que o senhor, realmente, n�o est� levando a s�rio esta investiga��o.</p><p>Nosso cliente pareceu ficar horrorizado com a insinua��o.</p><p>� Ora, � claro que eu irei, se o senhor v� a coisa desta maneira � ele disse. � � primeira vista, parece absurdo supor que este p�roco saiba alguma coisa, mas se o senhor acha...</p><p>� Eu realmente acho � disse Holmes com �nfase, e assim foi decidida nossa viagem. Holmes puxou-me de lado antes de sairmos da sala e deu-me um conselho que mostrou que ele considerava o assunto importante. � O que quer que voc� fa�a, cuide para que ele realmente v� � ele disse. � Se ele abandonar a viagem ou voltar, v� � central telef�nica mais pr�xima e mande-me dizer somente a palavra fugiu. Providenciarei aqui para que este telefonema me alcance onde eu estiver.</p><p>Little Purlington n�o � um lugar f�cil de se chegar, porque fica num ramal. Minha lembran�a da viagem n�o � muito agrad�vel, porque a temperatura estava elevada, o trem vagaroso e o meu companheiro, mal-humorado e calado, quase n�o falou, a n�o ser para fazer uma observa��o ocasional e mordaz sobre a inutilidade de nosso procedimento. Quando finalmente chegamos � pequena esta��o, ainda percorremos 3 quil�metros de charrete at� o vicariato, onde um cl�rigo grande, solene e um tanto pomposo nos recebeu em seu gabinete de trabalho. Nosso telegrama estava diante dele.</p><p>� Bem, cavalheiros � ele perguntou, o que posso fazer pelos senhores?</p><p>� Viemos � expliquei � em resposta ao seu telegrama.</p><p>� Meu telegrama! N�o mandei nenhum telegrama.</p><p>� Estou me referindo ao telegrama que o senhor enviou ao sr. Josiah Amberley, a respeito de sua esposa e seu dinheiro.</p><p>� Se isto � uma piada, senhor, � uma piada de mau gosto � disse o vig�rio, zangado. � Nunca ouvi falar de um cavalheiro com este nome e n�o telegrafei a ningu�m.</p><p>Nosso cliente e eu nos olhamos espantados.</p><p>� Talvez haja algum engano � eu disse. � Ser� que existem dois vicariatos? Aqui est� o telegrama, assinado Elman. Vicariato.</p><p>� S� h� um vicariato, senhor, e apenas um vig�rio, e o telegrama � uma falsifica��o escandalosa, cuja origem certamente ser� investigada pela pol�cia. Enquanto isso, n�o vejo motivo para prolongar esta entrevista.</p><p>Assim o sr. Amberley e eu nos encontramos � beira da estrada, na aldeia que me parecia ser a mais primitiva da Inglaterra. Fomos at� a ag�ncia telegr�fica, mas ela j� estava fechada. Mas havia um telefone na pequena Railway Arms, e por ele consegui entrar em contato com Holmes, que tamb�m se espantou com o resultado da viagem.</p><p>� Muito estranho! � disse a voz distante. � Bastante extraordin�rio! Receio, meu caro Watson, que esta noite n�o haja trem para voc� voltar. Condenei-o, involuntariamente, aos horrores de uma hospedaria rural. Mas, h� sempre a natureza, Watson, a natureza e Josiah Amberley; voc� poder� ficar em contato �ntimo com ambos. � Ouvi sua risada de zombaria enquanto ele desligava.</p><p>Ficou logo evidente que a fama de avarento do meu companheiro era muito merecida. Ele havia se queixado das despesas da viagem, insistira em viajar de terceira classe e agora estava botando a boca no mundo com suas obje��es a uma conta de hotel. Na manh� seguinte, quando finalmente chegamos a Londres, era dif�cil dizer qual de n�s dois estava de pior humor.</p><p>� O senhor deveria ir primeiro a Baker Street � eu disse. � O sr. Holmes pode ter novas instru��es a dar.</p><p>� Se elas n�o valem mais do que as �ltimas, n�o ser�o de muita utilidade � disse Amberley com um olhar carrancudo. Mesmo assim ele continuou em minha companhia. Eu j� havia avisado a Holmes, por telegrama, a hora de nossa chegada, mas encontramos uma mensagem � nossa espera, dizendo que ele estava em Lewisham e que nos aguardaria l�. Foi uma surpresa, mas foi uma surpresa ainda maior descobrir que ele n�o estava s� na sala de estar do nosso cliente. Um homem impass�vel, de olhar severo, estava sentado ao seu lado, um homem moreno, de �culos de sol cinzentos, e um grande alfinete ma��nico em sua gravata.</p><p>� Este � o meu amigo sr. Barker � disse Holmes. � Ele tamb�m est� interessado no seu problema, sr. Josiah Amberley, embora estejamos trabalhando de modo independente. Mas n�s dois temos a mesma pergunta a lhe fazer!</p><p>O sr. Amberley sentou-se pesadamente. Ele teve uma sensa��o de perigo iminente. Percebi isto pela express�o de seus olhos e pela contra��o de suas fei��es.</p><p>� Qual � a pergunta, sr. Holmes?</p><p>� Apenas esta: o que foi que o senhor fez com os corpos?</p><p>O homem ficou de p� num salto e deu um grito rouco. Ele agitou no ar as m�os ossudas. Sua boca estava aberta, e naquele instante ele parecia uma horr�vel ave de rapina. Num abrir e fechar de olhos, tivemos o vislumbre do verdadeiro Josiah Amberley, um dem�nio com uma alma t�o deformada quanto o seu corpo. Quando ele caiu novamente em sua cadeira, bateu com a m�o nos l�bios, como para abafar a tosse. Holmes saltou sobre sua garganta como um tigre e torceu seu rosto em dire��o ao ch�o. Uma bala branca caiu por entre os seus l�bios ofegantes.</p><p>� Nada de golpes, Josiah Amberley. As coisas devem ser feitas com honestidade e em ordem. E agora, Barker?</p><p>� Tenho uma carruagem na porta � disse o nosso taciturno companheiro.</p><p>� S�o algumas poucas centenas de metros at� a esta��o. Iremos juntos. Voc� pode ficar aqui, Watson. Estarei de volta dentro de meia hora.</p><p>O velho negro tinha a for�a de um le�o naquele seu corpo imenso, mas ficou impotente nas m�os dos dois detetives experientes. Fazendo um rebuli�o e se contorcendo, ele foi arrastado para a carruagem, e eu fiquei na minha solit�ria vig�lia na casa agourenta. Mas Holmes voltou antes do previsto e veio em companhia de um jovem e elegante inspetor de pol�cia.</p><p>� Deixei Barker cuidar das formalidades � disse Holmes. � Voc� ainda n�o conhecia Barker, Watson. Ele � o meu odiado rival que mora na praia do Surrey. Quando voc� falou de um homem alto, moreno, n�o me foi dif�cil completar o retrato. Ele tem v�rios casos bem-sucedidos, n�o tem, inspetor?</p><p>� Ele realmente interferiu algumas vezes � o inspetor respondeu com reserva.</p><p>� Os m�todos que ele usa sem d�vida s�o irregulares, como os meus pr�prios. As irregularidades �s vezes s�o �teis, n�o �? Voc�, por exemplo, sendo obrigado a avisar que tudo o que o acusado disser pode ser usado contra ele, jamais poderia ter blefado com este velhaco, obrigando-o a fazer praticamente uma confiss�o.</p><p>� Talvez n�o. Mas ter�amos chegado l� de qualquer maneira, sr. Holmes. N�o pense que n�o t�nhamos nossas pr�prias opini�es a respeito deste caso, e que n�o ter�amos agarrado o homem. O senhor perdoar� por nos sentirmos melindrados quando o senhor entra no caso com m�todos que n�o podemos usar, e assim roubando-nos o cr�dito.</p><p>� N�o haver� esse roubo, MacKinnon. Garanto-lhe que daqui por diante vou sumir, e quanto a Barker, ele n�o fez nada, a n�o ser aquilo que eu lhe disse.</p><p>O inspetor pareceu bastante aliviado.</p><p>� � muita generosidade de sua parte, sr. Holmes. Elogios ou censuras podem significar pouco para o senhor, mas para n�s � muito diferente quando os jornais come�am a fazer perguntas.</p><p>� Perfeitamente. Mas eles far�o perguntas de qualquer maneira, portanto seria conveniente ter as respostas. O que voc� dir�, por exemplo, quando o rep�rter inteligente e ousado lhe perguntar quais foram exatamente os detalhes que despertaram as suas suspeitas e finalmente deram-lhe uma certa convic��o quanto aos fatos reais?</p><p>O inspetor pareceu intrigado.</p><p>� Acho que ainda n�o obtivemos fatos reais, sr. Holmes. O senhor afirmou que o prisioneiro, na presen�a de tr�s testemunhas, praticamente confessou ao tentar se suicidar, que havia assassinado a mulher e o amante dela. Que outros fatos o senhor tem a apresentar?</p><p>� O senhor tomou provid�ncias para uma busca?</p><p>� H� tr�s policiais a caminho.</p><p>� Ent�o o senhor logo obter� o mais �bvio de todos os fatos. Os corpos n�o podem estar longe. Examine os por�es e o jardim. N�o levar� muito tempo para escavar os lugares prov�veis. Esta casa � mais velha do que os canos d��gua. Deve haver um po�o abandonado em algum lugar. Tente a sua sorte l�.</p><p>� Mas como � que o senhor soube disto, e como isto foi feito?</p><p>� Vou mostrar-lhe primeiramente como isto foi feito e depois darei a explica��o que lhe � devida e mais ainda ao meu paciente amigo aqui, cuja ajuda tem sido inestim�vel desde o in�cio. Mas antes vou dar-lhes uma id�ia da mentalidade do homem. � uma mentalidade muito pouco comum, tanto assim que acho mais prov�vel que o seu destino seja o Broadmoor do que a forca. Ele tem, em alto grau, o tipo de mente que associamos mais � natureza medieval italiana do que � mentalidade brit�nica moderna. Ele era um avarento infeliz que fez sua mulher t�o desgra�ada por causa da sua mesquinhez, que ela se tornou presa f�cil para qualquer aventureiro. Esse aventureiro apareceu em cena na pessoa deste m�dico jogador de xadrez. Amberley sobressa�a-se no xadrez � um ind�cio de mente ardilosa. Como todos os avarentos, ele era um homem ciumento, e seus ci�mes transformaram-se em loucura furiosa. Certo ou errado, ele suspeitou de um amor il�cito. Decidiu se vingar, e planejou tudo com intelig�ncia diab�lica. Venham c�!</p><p>Holmes nos conduziu pelo corredor com tanta seguran�a como se tivesse morado na casa, e parou em frente � porta aberta do quarto-forte.</p><p>� Hum! Que cheiro forte de tinta! � exclamou o inspetor.</p><p>� Esta foi a nossa primeira pista � disse Holmes. � O senhor pode agradecer � observa��o do dr. Watson por isto, embora ele falhasse na dedu��o. Isto me botou na pista. Por que este homem estaria, numa ocasi�o dessas, enchendo a casa de odores fortes? Obviamente para encobrir outros cheiros que ele quisesse disfar�ar � algum cheiro criminoso que despertasse suspeitas. Ent�o veio a id�ia de um quarto, como os senhores est�o vendo aqui, com a porta de ferro e uma de madeira, um quarto hermeticamente fechado. Juntem esses dois fatos, e aonde eles nos conduzem? Eu s� poderia confirmar isto examinando pessoalmente a casa. Eu j� tinha certeza de que o caso era grave, porque havia examinado o quadro dos lugares vendidos na bilheteria do teatro Haymarket � outro alvo do dr. Watson � e verificado que nem a cadeira 30 nem a 32 da fila B da galeria superior haviam sido ocupadas naquela noite. Portanto, Amberley n�o estivera no teatro, e seu �libi caiu por terra. Ele cometeu um erro feio quando permitiu que o meu astuto amigo visse o n�mero da cadeira comprada para a sua mulher. Ent�o surgiu a pergunta: como eu poderia inspecionar a casa? Enviei um agente meu � aldeia mais impratic�vel que pude imaginar e fiz o homem ir l�, numa hora em que seria imposs�vel para ele voltar no mesmo dia. Para evitar qualquer imprevisto, o dr. Watson o acompanhou. O nome do bondoso vig�rio tirei, naturalmente, da lista telef�nica. Est� claro para voc�s?</p><p>� � magistral � disse o inspetor, numa voz reverente.</p><p>� N�o havendo perigo de ser interrompido, passei a arrombar a casa. O arrombamento sempre foi para mim uma profiss�o alternativa, se eu tivesse querido adot�-la, e n�o tenho d�vida de que eu me tornaria um dos melhores. Observem o que descobri. Voc�s est�o vendo o cano de g�s aqui, ao longo do rodap�. Muito bem. Ele sobe no canto da parede, e h� uma torneira aqui. O cano corre para dentro do quarto-forte, como os senhores podem ver, e termina naquela ros�cea de gesso, no centro do teto, onde fica escondido pela ornamenta��o. O final do cano � bem aberto. A qualquer momento, abrindo a torneira do lado de fora, o quarto poderia ficar cheio de g�s. Com a porta de madeira e a de ferro fechadas e a torneira completamente aberta, eu n�o daria dois minutos de consci�ncia a qualquer pessoa trancada naquele quarto. Com que estratagema diab�lico ele os fez cair na armadilha n�o sei, mas uma vez dentro do quarto, eles estavam � sua merc�.</p><p>O inspetor examinou o cano com interesse. � Um dos nossos agentes mencionou o cheiro de g�s � ele disse �, mas, naturalmente, na ocasi�o a janela e a porta estavam abertas, e havia o cheiro de tinta. Ele come�ara o trabalho de pintura no dia anterior, de acordo com a sua hist�ria. Mas, e depois, sr. Holmes?</p><p>� Bem, ent�o ocorreu um incidente que para mim foi um tanto inesperado. Eu estava entrando pela janela da copa, ao amanhecer, quando senti uma m�o na gola do meu casaco, e ouvi uma voz que dizia: �Agora, seu patife, o que � que voc� est� fazendo aqui dentro?� Quando consegui virar a cabe�a, deparei com os �culos coloridos do meu amigo e rival, o sr. Barker. Foi uma curiosa confraterniza��o, e n�s dois tivemos que rir. Parece que ele fora contratado pela fam�lia do dr. Ray Ernest para fazer algumas investiga��es, e havia chegado � mesma conclus�o quanto a uma trai��o. Ele havia observado a casa durante alguns dias e reconheceu o dr. Watson como uma das pessoas mais obviamente suspeitas que visitaram o local. Ele dificilmente poderia ter prendido Watson, mas quando viu um homem subindo pelo lado de fora da janela da copa, acabou-se o seu impedimento. � claro que contei a ele em que p� estavam as coisas, e continuamos juntos a investiga��o.</p><p>� Por que ele? Por que n�o n�s?</p><p>� Porque era minha id�ia fazer aquele pequeno teste que deu um resultado t�o maravilhoso. Creio que voc�s n�o teriam ido t�o longe.</p><p>O inspetor sorriu.</p><p>� Bem, talvez n�o. Entendi que o senhor prometeu sair agora do caso, e que vai passar para n�s todos os resultados que obteve.</p><p>� Certamente, eu sempre agi assim.</p><p>� Bem, em nome da� Scotland Yard, eu lhe agrade�o. Parece um caso simples do jeito que o senhor explicou, e quanto aos corpos, n�o deve haver dificuldade.</p><p>� Vou mostrar-lhes um pouco de evid�ncia sinistra � disse Holmes � e tenho certeza de que o pr�prio Amberley nunca observou isto. O senhor obter� resultados, inspetor, colocando-se sempre no lugar do outro sujeito, e pensando no que o senhor mesmo faria. Isto requer alguma imagina��o, mas compensa. Agora, vamos fazer de conta que os senhores estavam trancados neste pequeno quarto, n�o tinham nem dois minutos de vida, mas queriam ajustar contas com o dem�nio que provavelmente estava zombando de voc�s do outro lado da porta. O que voc�s fariam?</p><p>� Escrever�amos uma mensagem.</p><p>� Exatamente. Voc�s gostariam de contar aos outros como morreram. N�o adiantaria escrever em papel. Isto seria descoberto. Se voc�s escrevessem na parede, algu�m poderia dar com os olhos no que voc�s tivessem escrito. Agora, vejam aqui! Exatamente acima do rodap� est� rabiscado, com l�pis cor p�rpura indel�vel. �N�s fo...�. Isto � tudo.</p><p>� Como � que voc�s interpretariam isso?</p><p>� Bem, isto est� apenas 30 cent�metros acima do assoalho. O pobre-diabo estava no ch�o, morrendo, quando escreveu isto. Perdeu os sentidos antes de conseguir terminar.</p><p>� Ele estava escrevendo: �N�s fomos assassinados�.</p><p>� Foi assim que interpretei isto. Se voc�s encontrarem um l�pis indel�vel junto ao corpo...</p><p>� Procuraremos, esteja certo. Mas, e aqueles t�tulos da d�vida p�blica? Evidentemente n�o houve roubo nenhum.� Mas ele tinha esses t�tulos. N�s verificamos isso.</p><p>� Podem ter certeza de que ele os escondeu num lugar seguro. Quando a fuga da mulher j� tivesse entrado para a hist�ria, ele os descobriria de repente e divulgaria que o casal culpado se havia compadecido dele e enviado de volta o que roubara ou o que havia abandonado no caminho.</p><p>� O senhor parece ter enfrentado todas as dificuldades � disse o inspetor. � Naturalmente ele foi obrigado a recorrer a n�s, mas por que ele foi procur�-lo, n�o consigo entender.</p><p>� Pura pretens�o! � respondeu Holmes. � Ele se considerava t�o inteligente e estava t�o seguro de si que imaginava que ningu�m poderia peg�-lo. Ele podia dizer a cada vizinho: �Olhe as provid�ncias que eu tomei. Consultei n�o s� a pol�cia, mas at� Sherlock Holmes�.</p><p>O inspetor riu.</p><p>� Devemos perdo�-lo pelo �at�, sr. Holmes � ele disse �, � o trabalho mais bem feito de que consigo me lembrar.</p><p>Dois dias depois, meu amigo mostrou-me a publica��o quinzenal North Surrey Observer. Sob uma s�rie de t�tulos inflamados que come�avam com �O Horror do Haven� e terminavam com �Brilhante Investiga��o Policial�, havia uma coluna impressa que dava o primeiro relato completo do caso. O par�grafo final era t�pico do todo. Dizia o seguinte:</p><empty-line/><p>A not�vel perspic�cia com que o inspetor MacKinnon deduziu, pelo cheiro de tinta, que algum outro cheiro, o de g�s, por exemplo, podia ter sido dissimulado; a dedu��o ousada de que o quarto-forte podia ser tamb�m a c�mara da morte, e a subseq�ente investiga��o que levou � descoberta dos corpos num po�o abandonado, habilmente disfar�ado por um canil, ficar� na hist�ria do crime como um exemplo da intelig�ncia dos nossos detetives profissionais.</p><empty-line/><p>� Bem, bem, MacKinnon � um bom sujeito � disse Holmes com um sorriso tolerante. � Voc� pode inclu�-lo nos seus arquivos, Watson. Algum dia a verdadeira hist�ria ser� contada.</p><empty-line/></section><section><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>Biografia do Autor</strong></p><p><strong><image l:href="#10"/></strong></p><empty-line/><p><strong/></p><p>Arthur Conan Doyle, filho de aristocratas irlandeses arruinados, nasceu em 22 de maio de 1859, em Edimburgo, capital da Esc�cia. Filho de uma fam�lia cat�lica, iniciou seus estudos com os jesu�tas de Stonyhurt. Em outubro de 1876, ingressou na Universidade de Edimburgo a fim de formar-se em medicina. Foi l� que conheceu o dr. Joseph Bell, cirurgi�o do Hospital de Edimburgo e professor na universidade, cujos surpreendentes m�todos de dedu��o e an�lise serviram de grande inspira��o na futura cria��o de seu detetive. De maneira similar a Holmes, dr. Bell descrevia os sintomas de seus pacientes, at� mesmo contava-lhes detalhes de suas vidas, antes que eles pronunciassem uma palavra sequer.</p><p>Incentivado pelos conselhos de um amigo, que comentara como suas cartas eram expressivas, Conan Doyle percebeu que poderiam ganhar algum dinheiro fora do�campo da medicina. Foi ent�o que escreveu sua primeira hist�ria, �O mist�rio de Sassassa Valley�, publicada, anonimamente, no Chamber�s Journal, em 1879. O conto revela sua precoce id�ia da apari��o de uma �besta demon�aca�, tema que ele mais tarde explorou na mais famosa hist�ria de Sherlock Holmes, O c�o dos Baskervilles.</p><p>Foi nas horas de �cio em seu consult�rio m�dico que Doyle come�ou a esbo�ar o personagem. Inspirado em Gaboriau, no detetive Dupin � de Edgar Allan Poe � e logicamente em seu tutor Joseph Bell, Conan Doyle criou a primeira vers�o do que seria o detetive que conhecemos hoje � um tal Sherringford Holmes, posteriormente Sherlock Holmes.</p><p>Depois de muitas tentativas e frustra��es, Doyle conseguiu que sua primeira hist�ria estrelando o detetive e seu escudeiro Watson fosse publicada. Um estudo em vermelho apareceu na Beeton�s Christmas Annual, em 1887. A boa aceita��o do p�blico levou-o a escrever a segunda hist�ria de Holmes, O sinal dos quatro. O detetive come�ava a chamar a aten��o, atraindo aos poucos fi�is leitores.</p><p>Nos intervalos das hist�rias, Doyle dedicou-se ao que considerava �obras mais s�rias�, como os romances hist�ricos Micah Clarke (1889) e The White Company (1891). O primeiro, um grande sucesso. Doyle acabou abandonando a medicina para seguir definitivamente a carreira liter�ria.</p><p>As hist�rias de Sherlock Holmes tornavam-se mais e mais populares, obrigando o autor a continuar criando casos para seu detetive. E, quanto mais Holmes expunha suas habilidades para o p�blico estupefato, mais as outras obras de Doyle tornavam-se obscurecidas. Em 1891, escreveu � m�e: �Tenho pensado em matar Holmes... e livrar-me dele para sempre. Ele mant�m minha mente afastada de coisas melhores.�</p><p>Para sua grande surpresa, a morte de Sherlock Holmes, publicada em 1893 no caso �O problema final�, chocou milhares de pessoas. Assim, em meio a um turbilh�o de protestos e insultos, Doyle foi obrigado a ressuscitar o personagem no caso �A casa vazia�, em 1903. Era a prova de que a criatura tornara-se mais forte do que o criador. Sherlock Holmes tinha se tornado imortal.</p><p>Na s�rie de aventuras de Holmes, que iniciam o g�nero baseado na solu��o l�gico-psicol�gica de casos intrincados e misteriosos, a figura do brilhante detetive contrasta com a do s�brio cronista de suas aventuras, o dr. Watson. A grande popularidade alcan�ada levou as hist�rias de Sherlock Holmes para o cinema, com William Gilette no papel principal.</p><p>Tal foi a fama que Conan Doyle conseguiu com o fabuloso personagem, que muitas vezes a pol�cia inglesa o convidava para investigar crimes misteriosos. E ele, agindo segundo m�todos aplicados pelo fict�cio Sherlock Holmes, resolvia-os de maneira t�o brilhante e sagaz quanto seu pr�prio personagem.</p><p>Arthur Conan Doyle era homem de m�ltiplas facetas: m�dico, escritor, pugilista, corredor de autom�vel, jogador de cr�quete e de futebol, campe�o de bilhar, grande esquiador, inventor do salva-vidas, do capacete de a�o e do m�todo de tirar impress�es digitais com gipsita, al�m de ser detetive nas horas vagas.</p><p>O panfleto patri�tico The War in South Africa, escrito por Arthur Conan Doyle em 1902, proporcionou-lhe o t�tulo de sir.</p><p>Em 1912, introduziu ao mundo da literatura o c�lebre professor Challenger, de O mundo perdido, um conto sobre o renascimento da pr�-hist�ria num lugar remoto da Am�rica do Sul.</p><p>Durante os �ltimos anos de sua vida aficcionou-se com paix�o pelo espiritismo e por ci�ncias ocultas, que lhe serviram de inspira��o para as obras La Nueva Revelaci�n (1918), The Wandering of a Spiritualist (1921) e History of Spiritualisme (1926).</p><p>Para uma compreens�o mais clara da extraordin�ria personalidade de Conan Doyle, � preciso que se d� import�ncia a sua paix�o pelo m�todo de detec��o que o levou a preocupar-se com a vida tanto quanto com a morte. Ao interessar-se pela medicina (a oftalmologia, em particular) e posteriormente pelo mundo invis�vel e sua documenta��o, tentou eliminar todo o sup�rfluo de dentro de si, com a finalidade �nica de alcan�ar a ess�ncia, num ritmo de vida que hoje seria muito natural, mas que era considerado fren�tico pelas pessoas de sua �poca. Em todos os seus escritos, percebe-se o compromisso de refinar o m�todo adotado por ele para detectar, definir, determinar e solucionar o mist�rio da vida e da morte. Seu interesse sincero por todos os povos e todas as coisas o tornou um cientista cuja ci�ncia era a vida, e definiu seu exerc�cio como o conhecimento e a experi�ncia especiais capazes de transform�-la na magia da arte. Seu maior desejo era dividir seus dons com as pessoas, fossem quem fossem, ainda que isso lhe sa�sse caro.</p><p>Quando sir Arthur falava em �terror�, tinha uma explica��o muito pessoal. Ele acreditava que o c�rebro humano se compunha de camadas sucessivas capazes de serem investigadas, sob determinadas circunst�ncias, por aqueles que tivessem o poder de vislumbrar o invis�vel ou o sobrenatural. Para ele, o c�rebro era uma casa com muitos quartos, alguns cheios de luz, outros escuros. Sua nora, Nina C. D. Harwood, traduziu em palavras mais acess�veis suas id�ias sobre o terror: �A pessoa que n�o v� al�m do que lhe mostram os olhos � envolvida pelo olhar do sobrenatural, a quem nada escapa, e disso resulta a marca indel�vel do terror numa camada at� ent�o adormecida do seu c�rebro.�</p><p>Nenhuma curiosidade, nenhum detalhe da vida ou de seus legados, por mais diminuto que fosse, deixava de merecer a aten��o de Conan Doyle ou escapava de sua vis�o c�smica.</p><p>Debilitado por um ataque card�aco, sir Arthur Conan Doyle morreu em 7 de julho de 1930, em Cowborough, condado de Sussex.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><p><image l:href="#12"/></p><empty-line/><empty-line/></section></body><binary id="cover" 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