<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>Stieg</first-name><last-name>Larsson</last-name></author><book-title>Trilogia Millenium</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang></title-info><document-info><author><first-name>Stieg</first-name><last-name>Larsson</last-name></author><program-used>calibre 0.9.27, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>16.4.2013</date><id>763912ae-5de8-4675-823c-73b074704f7b</id><version>1.0</version></document-info></description><body><section><empty-line/><p><image l:href="#8"/></p><empty-line/><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong><emphasis>STIEG LARSSON</emphasis></strong></p><empty-line/><p><strong/></p><empty-line/><empty-line/><p><strong>OS HOMENS QUE N�O AMAVAM AS MULHERES</strong></p><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Tradu��o</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>Paulo Neves</emphasis></p><empty-line/><p><image l:href="#5"/></p><empty-line/><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p></section><section><p>Copyright � 2005 by Stieg Larsson</p><empty-line/><p><emphasis>T�tulo original sueco</emphasis></p><p>M�n som hatar kvinnor</p><empty-line/><p><emphasis>Traduzido da edi��o francesa</emphasis> (Les hommes qui n'aimaient pas les femmes)</p><empty-line/><p><emphasis>Capa</emphasis></p><p>Retina 78</p><empty-line/><p><emphasis>Prepara��o</emphasis></p><p>Maria Cec�lia Caropreso</p><empty-line/><p>Revis�o</p><p>Marise S. Leal</p><p>Carmen S. da Costa</p><empty-line/><p>Dados Internacionais de Cataloga��o na Publica��o (CIP)</p><p>(C�mara Brasileira do Livro, SP, Brasil)</p><empty-line/><p>Larsson, Stieg, 1954-2004</p><p>Os homens que n�o amavam as mulheres / Stieg Larsson ; tradu��o Paulo Neves, � S�o Paulo : Companhia das Letras, 2008. � (Millennium ; 1)</p><p>T�tulo original : Man som hatar kvinnor.</p><p>ISBN 978-85-359-1524-8</p><p>1. Fic��o policial e de mist�rio (Literatura sueca) 2. Romance sueco I. T�tulo. II. S�rie.</p><p>08-08796 CDD-839.737</p><empty-line/><p>�ndice para cat�logo sistem�tico:</p><p>1. Romances : Literatura sueca 839.737</p><empty-line/><p>[2009]</p><p>Todos os direitos desta edi��o reservados �</p><p>EDITORA SCHWARCZ LTDA.</p><p>Rua Bandeira Paulista 702 cj.</p><p>32 04532-002 � S�o Paulo � SP</p><p>Telefone (11) 3707-3500 Fax (11) 3707-3501</p><p>www.companhiadasletras.com.br</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>PR�LOGO � SEXTA-FEIRA 1�</strong><strong>DE NOVEMBRO</strong></p><empty-line/><p>Acontecia todos os anos, quase como um ritual. O homem que recebia a flor festejava naquele dia seus oitenta e dois anos. Ele abriu o envelope e retirou o papel de presente do embrulho. Depois pegou o telefone e digitou o n�mero de um ex-inspetor de pol�cia que desde sua aposentadoria instalara-se na Dalecarlia, perto do lago Siljan. Os dois homens n�o s� tinham a mesma idade mas haviam nascido no mesmo dia � o que, nessas circunst�ncias, parecia ir�nico. O inspetor sabia que receberia esse telefonema ap�s a passagem do carteiro por volta das onze da manh�, e tomava seu caf� enquanto aguardava. Nesse ano, o telefone tocou �s dez e meia. Ele atendeu e foi direto ao assunto.</p><p>� Ela chegou, suponho. E ent�o, qual � a flor deste ano?</p><p>� N�o fa�o a menor id�ia. Vou mandar identific�-la. Uma flor branca.</p><p>� Nenhuma carta, como sempre?</p><p>� N�o. Apenas a flor. A moldura � a mesma do ano passado. Uma dessas molduras baratas do tipo fa�a-voc�-mesmo.</p><p>� Selo do correio?</p><p>� Estocolmo.</p><p>� Escrita?</p><p>� Como sempre, mai�sculas de imprensa. Letras retas e bem tra�adas.</p><p>Haviam esgotado o assunto e ficaram em sil�ncio durante quase um minuto. O inspetor aposentado inclinou-se para tr�s na cadeira da cozinha e aspirou seu cachimbo. Sabia muito bem que n�o se esperava dele uma pergunta concisa ou um coment�rio perspicaz que lan�assem uma nova luz sobre o caso. Essa �poca acabara havia anos, e a conversa entre os dois homens idosos tinha o car�ter de um ritual em torno de um mist�rio que ningu�m mais no mundo, a n�o ser eles, estava disposto a resolver.</p><empty-line/><p>O nome latino da planta era <emphasis>Leptospermum rubinette (Myrtaceae).</emphasis> Uma planta de mato, relativamente comum, com folhas pequenas que lembram as da urze, e uma flor branca de dois cent�metros com cinco p�talas. Comprimento total: cerca de dez cent�metros.</p><p>Era encontrada no mato e nas regi�es montanhosas da Austr�lia, onde brotava sob a forma de grossos tufos de erva. L�, chamavam-na <emphasis>desert snow.</emphasis> Mais tarde, uma especialista do jardim bot�nico de Uppsala constataria se tratar de uma planta rara, muito pouco cultivada na Su�cia. Em seu relat�rio, a bot�nica escreveu que a planta era aparentada da murta de apartamento, seguidamente confundida com sua prima bem mais comum, a <emphasis>Leptospermum scoparium,</emphasis> abundante na Nova Zel�ndia. Segundo a especialista, a diferen�a consistia num n�mero restrito de microsc�picos pontos rosados na extremidade das p�talas, que davam � flor uma leve tonalidade r�sea.</p><p>De maneira geral, a <emphasis>rubinette</emphasis> era uma flor particularmente insignificante. N�o tinha valor comercial nem virtudes medicinais conhecidas, e n�o era alucin�gena. N�o comest�vel, inutiliz�vel como condimento e desprovida de propriedade colorante. Contudo, tinha certa import�ncia para os abor�genes da Austr�lia, que, por tradi��o, consideravam sagradas a regi�o e a flora ao redor de Ayers Rock. Assim, a �nica finalidade dessa flor parecia ser valorizar agradavelmente o entorno com sua beleza caprichosa.</p><p>Em seu relat�rio, a bot�nica de Uppsala constatava que, se na Austr�lia a <emphasis>desert snow</emphasis> era pouco difundida, na Escandin�via, ent�o, era rar�ssima. Ela pr�pria nunca vira nenhum exemplar, mas, por informa��es obtidas com alguns colegas, sabia de tentativas de introdu��o da planta num jardim em G�teborg, e n�o se exclu�a a possibilidade de que jardineiros amadores e fan�ticos da bot�nica a cultivassem em pequenas estufas pessoais. A principal dificuldade de sua aclimata��o na Su�cia era que ela exigia um clima suave e seco, e devia passar os seis meses do inverno protegida. Os solos calc�rios n�o lhe convinham e ela necessitava de uma irriga��o subterr�nea, diretamente absorvida pela raiz. Exigia conhecimento e habilidade no cultivo.</p><empty-line/><p>Em tese, o fato de essa planta ser rara na Su�cia devia facilitar o rastreamento da origem desse exemplar, mas, concretamente, era uma tarefa imposs�vel. N�o existiam nem registros a consultar nem licen�as a examinar. Ningu�m sabia quantos horticultores amadores podiam ter importado aleatoriamente uma planta t�o dif�cil � poucas pessoas ou at� mesmo centenas de apaixonados por flores podiam ter tido acesso �s sementes e �s plantas. Qualquer jardineiro poderia t�-las comprado de um colega sem nota fiscal, ou por correspond�ncia, ou de algum jardim bot�nico na Europa. Ela podia at� mesmo ter entrado na Su�cia com algu�m que estivesse retornando de uma viagem � Austr�lia. Ou seja, identificar esses cultivadores entre os milh�es de suecos propriet�rios de uma pequena estufa ou de um vaso de flores no peitoril da janela era uma tarefa destinada ao fracasso.</p><p>Ela n�o passava de mais um n�mero na s�rie de flores inexplic�veis que chegavam todos os anos, sempre num grande envelope acolchoado, no dia 1� de novembro. A esp�cie mudava de ano para ano, mas eram sempre flores lindas e em geral bastante raras. Como sempre, a flor estava prensada em um vidro, cuidadosamente fixada sobre papel de desenho e emoldurada no formato 29 por 16.</p><empty-line/><p>O mist�rio dessas flores nunca fora divulgado � imprensa e s� era conhecido por um c�rculo limitado. Tr�s d�cadas antes, a chegada anual da flor fora objeto de an�lises � do laborat�rio criminol�gico do Estado, de peritos em impress�es digitais e grafologistas, de criminologistas formados e de um certo n�mero de familiares e amigos do destinat�rio. Agora, os atores desse drama n�o eram mais que tr�s: o velho her�i aniversariante, o policial aposentado e, naturalmente, a pessoa desconhecida que enviava o presente. Como pelo menos os dois primeiros haviam atingido uma idade mais que respeit�vel, chegava o momento de se preparar para a inelut�vel diminui��o, em breve, desse c�rculo de iniciados.</p><p>O policial aposentado era um veterano fortalecido pela profiss�o. Nunca esquecera sua primeira ocorr�ncia: a deten��o de um b�bado � um mec�nico ferrovi�rio �, violento e disposto a colocar sua vida ou a de qualquer um em jogo. Ao longo de sua carreira, o policial pusera na pris�o gatunos, homens que batiam na mulher, vigaristas, ladr�es de carro e motoristas embriagados. Confrontara-se com assaltantes, ladr�es, traficantes, estupradores e um dinamitador com uma certa dose de problemas mentais. Participara de nove inqu�ritos sobre crimes e assassinatos. Em cinco deles, o pr�prio culpado, atormentado pelo remorso, chamara a pol�cia para confessar o assassinato da mulher, do irm�o ou de algum outro familiar. Tr�s casos haviam exigido investiga��es; dois tiveram seu desfecho depois de alguns dias e um, com o aux�lio da Pol�cia Federal, passados dois anos.</p><p>O nono inqu�rito n�o tinha bases policiais s�lidas, isto �, os investigadores sabiam quem era o assassino, mas as provas eram t�o insignificantes que o procurador decidiu deixar o caso em suspenso. Para grande preju�zo do inspetor, o caso acabou prescrevendo. No todo, por�m, ele deixara atr�s de si uma carreira impressionante e, claro, deveria se sentir satisfeito pelo trabalho realizado.</p><p>Mas ele n�o estava nada satisfeito.</p><p>Para o inspetor, o <emphasis>caso das flores secas</emphasis> era um espinho que continuava encravado � o inqu�rito frustrante, jamais resolvido, ao qual indiscutivelmente dedicara mais tempo.</p><p>A situa��o era duplamente absurda porque, ap�s milhares de horas de reflex�o, tanto em servi�o como em seu tempo livre, ele n�o estava sequer seguro de ter havido um crime.</p><p>Os dois homens sabiam que a pessoa que colara a flor seca utilizara luvas, por�m n�o havia impress�es nem na moldura nem no vidro. Sabiam que era imposs�vel descobrir o remetente. Sabiam que a moldura era vendida em lojas de fotografias ou em papelarias do mundo inteiro. Simplesmente n�o havia como seguir a menor pista. E o selo do correio sempre mudava; com mais frequ�ncia era de Estocolmo, mas tr�s vezes foi de Londres, duas de Paris, duas de Copenhague, uma de Madri, uma de Bonn e uma vez, a mais intrigante, de Pensacola, nos Estados Unidos. Enquanto todas as outras cidades eram capitais, Pensacola era um nome t�o desconhecido que o inspetor foi obrigado a procurar a cidade num atlas.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Depois de desligar o telefone, o homem que festejava seus oitenta e dois anos permaneceu im�vel por um longo momento, contemplando a bela mas insignificante flor cujo nome ainda n�o conhecia. Em seguida ergueu os olhos para a parede acima da escrivaninha. Havia ali quarenta e tr�s flores penduradas, prensadas sob o vidro e emolduradas, formando quatro fileiras de dez flores e uma fileira inacabada de quatro. Na fileira superior, faltava um quadro. O n�mero 9 estava vazio. A <emphasis>desert snow</emphasis> ia ser o n�mero 44.</p><p>Pela primeira vez, no entanto, ocorreu algo que quebrou a rotina de todos aqueles anos. De repente, de forma inesperada, ele come�ou a chorar. Ele mesmo se surpreendeu com essa s�bita efus�o sentimental depois de quase quarenta anos.</p><empty-line/><p><image l:href="#9"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>I.� INCITA��O � 20 DE DEZEMBRO A 3 DE JANEIRO</strong></p><empty-line/><p><emphasis>Na Su�cia, 18% das mulheres foram amea�adas por um homem pelo menos uma vez na vida.</emphasis></p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>1.� SEXTA-FEIRA 20 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>O processo estava definitivamente encerrado e tudo que podia ser dito fora dito. Ele n�o duvidara um s� instante que seria declarado culpado. A senten�a fora pronunciada �s dez da manh� desta sexta-feira e agora n�o restava sen�o ouvir a opini�o dos jornalistas que aguardavam no corredor do tribunal.</p><p>Mikael Blomkvist os viu pela fresta da porta e deteve-se alguns segundos. N�o tinha vontade de discutir o veredicto cuja c�pia acabava de obter, mas as perguntas eram inevit�veis e ele sabia � melhor que ningu�m � que elas deviam ser feitas e que era preciso respond�-las. <emphasis>Eis o que � ser um criminoso,</emphasis> pensou. <emphasis>Do outro lado do microfone.</emphasis> Endireitou-se, pouco � vontade, e tentou sorrir. Os rep�rteres o receberam e o cumprimentaram gentilmente, um pouco constrangidos.</p><p>� Vejamos... <emphasis>Aftonbladet, Expressen,</emphasis> TT, TV4 e... voc� de onde �?<emphasis>...</emphasis> Ah, sim, <emphasis>Dagens Industri.</emphasis> Parece que virei uma celebridade � constatou Mikael Blomkvist.</p><p>� Uma declara��o, por favor, Super-Blomkvist! � disparou o enviado de um dos jornais vespertinos.</p><p>Mikael Blomkvist, cujo nome completo era Carl Mikael Blomkvist, for�ou-se a n�o levantar os olhos para o c�u como fazia todas as vezes que ouvia esse apelido. Certa vez, vinte anos antes, quando tinha vinte e tr�s anos e iniciava-se na profiss�o de jornalista como substituto de f�rias de ver�o, Mikael Blomkvist descobrira por acaso uma gangue de assaltantes de bancos, autores de cinco a��es violentas muito noticiadas naqueles �ltimos dois anos. Tratava-se, com toda a certeza, do mesmo grupo; sua especialidade era chegar de carro em cidades pequenas e assaltar um ou dois bancos com precis�o militar. Usavam m�scaras de borracha dos personagens de Walt Disney e foram batizados � segundo uma l�gica policial n�o de todo absurda � de o Bando do Pato Donald. Os jornais, por�m, preferiram cham�-los de os Irm�os Metralha, apelido um pouco mais s�rio, j� que em duas ocasi�es haviam disparado, sem escr�pulos, tiros de advert�ncia, sem se importar com a seguran�a das pessoas, amea�ando transeuntes e curiosos.</p><p>O sexto ataque � m�o armada ocorreu num banco de �sterg�tland, em pleno ver�o. Um rep�rter da r�dio local achava-se no banco no momento do assalto e reagiu de acordo com as regras da profiss�o. Assim que os assaltantes deixaram o banco, ele correu at� uma cabine telef�nica e se comunicou com a r�dio para transmitir ao vivo a informa��o.</p><p>Mikael Blomkvist passava alguns dias com uma amiga na casa de campo dos pais dela, n�o muito distante de Katrineholm. Quando a pol�cia o interrogou, ele n�o soube dizer exatamente por que fizera a liga��o, mas no momento em que escutava as informa��es no r�dio lembrou-se de quatro sujeitos numa casa de veraneio a poucas centenas de metros dali. J� os vira dois dias antes, quando passeava com a amiga: os sujeitos jogavam <emphasis>badminton</emphasis> no jardim.</p><p>Ele vira apenas quatro jovens louros e atl�ticos, de bermuda e peito nu, visivelmente adeptos do <emphasis>body-building,</emphasis> mas algo nesses jogadores de <emphasis>badminton</emphasis> o fizera olhar uma segunda vez � talvez porque jogassem, sob um sol escaldante, com uma energia e uma viol�ncia espantosas. N�o parecia um jogo, e isso chamara a aten��o de Mikael.</p><p>N�o havia nenhum motivo racional para suspeitar que aqueles homens fossem os assaltantes do banco; no entanto, depois do <emphasis>flash</emphasis> na r�dio, Mikael Blomkvist saiu para dar uma volta e se posicionou numa colina com vista para a casa, de onde constatou que tudo ali parecia vazio at� o momento. Depois de uns quarenta minutos, ele viu o grupo chegar num Volvo e estacionar. Pareciam apressados, cada um carregava uma sacola, o que apenas podia significar que eles haviam sa�do para tomar banho em algum lugar. Mas um deles voltou ao carro e pegou um objeto, que se apressou a cobrir com o blus�o do abrigo. Mesmo de seu posto de observa��o relativamente afastado, Mikael viu que se tratava de um rifle AK4, do tipo dos que ele mesmo manipulara havia n�o muito tempo durante seu ano de servi�o militar. Foi o que o levou a chamar a pol�cia e a relatar suas observa��es. Come�aram ent�o tr�s dias de uma intensa vigil�ncia da casa, com Mikael na primeira fila, sustentado por copiosos honor�rios de <emphasis>freelance</emphasis> pagos por um dos jornais vespertinos. A pol�cia montou seu quartel-general num <emphasis>trailer</emphasis> estacionado no terreno da casa de campo onde Mikael passava f�rias.</p><p>O caso dos Irm�os Metralha deu a Mikael a incontest�vel condi��o de vedete, que ele tanto necessitava como jornalista iniciante. O reverso da celebridade foi que o outro jornal vespertino n�o p�de deixar de dar a manchete: "Super-Blomkvist resolve o mist�rio dos Metralha". O texto gozador, escrito por uma redatora n�o muito jovem, continha v�rias refer�ncias ao her�i dos romances juvenis de Astrid Lindgren. Para completar, o jornal ilustrava o artigo com uma foto n�o muito clara, em que Mikael, de boca aberta e dedo indicador erguido, parecia dar instru��es a um policial de uniforme. Na realidade, o que ele indicava nesse momento eram os sanit�rios no fundo do jardim.</p><empty-line/><p>A partir desse dia, para seu grande desespero, seus colegas jornalistas passaram a cham�-lo de Super-Blomkvist. Era um apelido pronunciado com um toque malicioso, nunca maldoso, mas tamb�m nunca verdadeiramente carinhoso. Ele n�o tinha nada contra a pobre Astrid Lindgren � adorava seus livros e as aventuras de seu jovem her�i detetive �, por�m detestava o apelido. Haviam sido necess�rios v�rios anos e m�ritos jornal�sticos bem mais consistentes para que o apelido come�asse a se diluir, e Mikael ainda hoje se contra�a toda vez que o chamavam de Super-Blomkvist.</p><p>Assim, armou um sorriso tranquilo e olhou o enviado do jornal vespertino bem nos olhos.</p><p>� Voc� s� precisa inventar alguma coisa. N�o � o que costuma fazer quando escreve?</p><p>O tom n�o era �spero. Todos se conheciam um pouco, e os cr�ticos mais ferrenhos de Mikael n�o tinham vindo. Ele j� havia trabalhado com um dos rapazes que estavam ali; quanto � mo�a da Tv4, por pouco n�o transara com ela numa festa anos antes.</p><p>� Eles n�o acreditaram em voc� � constatou o <emphasis>Dagens Industri,</emphasis> que parecia ter enviado um foca.</p><p>� Pode-se dizer que sim � reconheceu Mikael. Dificilmente poderia responder outra coisa.</p><p>� Como est� se sentindo?</p><p>Apesar da gravidade da situa��o, nem Mikael nem os jornalistas credenciados puderam deixar de esbo�ar um sorriso ao ouvir a pergunta. Mikael trocou um olhar com a mo�a da TV4. <emphasis>Como est� se sentindo?</emphasis> Pergunta que os jornalistas s�rios dizem ser a �nica que os rep�rteres esportivos sabem fazer ao Esportista Sem F�lego que cruzou a linha de chegada. Mas ele voltou a ficar s�rio.</p><p>� � evidente que s� posso lamentar que o tribunal n�o tenha chegado a outras conclus�es � respondeu um tanto formal.</p><p>� Tr�s meses de pris�o e cento e cinquenta mil coroas por perdas e danos. N�o � pouco � disse a mo�a da TV4.</p><p>� Sobreviverei.</p><p>� Voc� pretende se desculpar com Wennerstr�m, apertar-lhe a m�o?</p><p>� N�o, nem imagino uma coisa dessas. Minha opini�o sobre a moralidade do senhor Wennerstr�m nos neg�cios n�o mudou muito.</p><p>� Ent�o continua afirmando que ele � um escroque? � perguntou vivamente o <emphasis>Dagens Industri.</emphasis></p><p>Uma declara��o acompanhada de uma manchete potencialmente devastadora anunciava-se por tr�s da pergunta, e Mikael poderia ter pisado na casca de banana se o rep�rter n�o tivesse assinalado o perigo ao avan�ar o microfone com demasiada pressa. Ele refletiu sobre a resposta por alguns segundos.</p><p>O tribunal acabara de concluir que Mikael Blomkvist caluniara o financista Hans-Erik Wennerstr�m. Ele fora condenado por difama��o. O processo terminara e Mikael n�o pretendia recorrer. Mas o que aconteceria se, por imprud�ncia, reiterasse suas acusa��es ao sair da sala do tribunal? Decidiu que n�o tinha vontade de saber.</p><p>� Julguei ter tido boas raz�es para publicar as informa��es de que eu dispunha. A opini�o do tribunal foi outra e evidentemente sou obrigado a aceitar que o processo siga seu curso. Agora vamos discutir esse julgamento a fundo na reda��o da revista antes de decidir o que faremos. N�o posso dizer mais nada.</p><p>� Mas voc� est� esquecendo que n�s, como jornalistas, devemos ter como provar nossas afirma��es � disse a mo�a da TV4 com um tom de voz levemente c�ustico. Ponto dif�cil de contestar. Eles haviam sido amigos. Ela exibia um rosto neutro, mas Mikael teve a impress�o de vislumbrar uma sombra de decep��o em seus olhos.</p><p>Ainda durante alguns dolorosos minutos, Mikael Blomkvist respondeu �s perguntas. A que pairava no ar e que nenhum rep�rter decidia-se a fazer � talvez porque de t�o incompreens�vel se tornava inc�moda � era como Mikael pudera escrever um texto t�o sem subst�ncia. Os rep�rteres ali presentes, com exce��o do foca do <emphasis>Dagens Industri,</emphasis> eram todos veteranos, com grande experi�ncia profissional. Para eles, a resposta a essa pergunta achava-se al�m do limite do compreens�vel.</p><p>A mo�a da TV4 pediu que ele ficasse em frente � porta do Pal�cio de Justi�a e fez suas perguntas � parte, diante da c�mera. Ela foi mais am�vel do que ele merecia, e Mikael deu declara��es suficientes para satisfazer a todos os jornalistas. O caso renderia grandes manchetes � era inevit�vel �, mas ele se for�ou a p�r na cabe�a que n�o se tratava, de modo algum, do maior acontecimento do ano na m�dia. Quando os rep�rteres conseguiram o que queriam, foram embora para suas respectivas reda��es.</p><empty-line/><p>Tinha a inten��o de voltar a p� para casa, mas ventava muito naquele dia de dezembro e ele sentia frio. Ao sair sozinho do Pal�cio de Justi�a, viu William Borg descer de um carro no qual permanecera durante a entrevista. Seus olhares se cruzaram, William Borg exibia um grande sorriso.</p><p>� Valeu a pena vir at� aqui para v�-lo com esse documento na m�o. Mikael n�o respondeu. William Borg e Mikael Blomkvist se conheciam havia quinze anos. Durante algum tempo trabalharam juntos como jornalistas substitutos na se��o de economia de um di�rio matutino. Talvez pela falta de qu�mica entre os dois, esse per�odo estabelecera uma hostilidade permanente entre eles. Aos olhos de Mikael, Borg era um jornalista execr�vel, um sujeito fatigante e vingativo, de esp�rito curto, que aborrecia os que estavam a sua volta com gracejos imbecis e que insinuava desprezo pelos jornalistas mais velhos, portanto mais experientes. Borg parecia ter particular avers�o por jornalistas mulheres de uma certa idade. Eles discutiram uma primeira vez, depois outras, at� que suas diferen�as adquiriram um car�ter profundamente pessoal.</p><p>No decorrer dos anos, Mikael e Borg haviam se cruzado com regularidade, mas s� se indispuseram de fato no final dos anos 1990. Mikael escrevera um livro sobre jornalismo econ�mico e extra�ra mais de uma cita��o absurda dos artigos assinados por Borg. Segundo Mikael, Borg era um presun�oso que entendera de maneira errada a maior parte das informa��es e elevara �s nuvens empresas "pontocom" que n�o tardariam a sucumbir. Borg n�o gostou da cr�tica de Mikael e, quando se encontraram por acaso num bar em S�der, por pouco n�o chegaram �s vias de fato. Borg abandonara o jornalismo e agora trabalhava como rela��es-p�blicas, recebendo um sal�rio consideravelmente mais alto, numa empresa que, para completar, pertencia � esfera de interesses do industrial Hans-Erik Wennerstr�m.</p><p>Eles se encararam por um bom tempo antes de Mikael virar as costas e ir embora. Vir ao Pal�cio com a �nica finalidade de tirar um sarro era bem t�pico de Borg.</p><p>Mikael tinha come�ado a caminhar quando o 40 chegou e ele subiu no �nibus, antes de mais nada para sair dali. Desceu em Fridhemsplan e ficou indeciso no abrigo de �nibus, sempre segurando na m�o a c�pia de sua senten�a. Decidiu enfim ir a p� at� o caf� Anna, ao lado da garagem da delegacia.</p><p>Menos de um minuto depois de pedir um <emphasis>caff� latte</emphasis> e um sandu�che, o notici�rio do meio-dia come�ou pelo r�dio. O assunto foi o terceiro, depois de um atentado suicida em Jerusal�m e da not�cia de que o governo formara uma comiss�o de inqu�rito para investigar aparentes cart�is il�citos na constru��o civil.</p><empty-line/><p>O jornalista Mikael Blomkvist, da revista <emphasis>Millennium,</emphasis> foi condenado nesta sexta-feira a tr�s meses de pris�o por difama��o contra o industrial Hans-Erik Wennerstr�m. Num artigo sobre o suposto caso Minos, que h� alguns meses chocou a opini�o p�blica, Blomkvist acusava Wennerstr�m de ter desviado fundos sociais, destinados a investimentos industriais na Pol�nia, para o tr�fico de armas. Mikael Blomkvist tamb�m foi condenado a pagar cento e cinquenta mil coroas por perdas e danos. O advogado de Wennerstr�m, Bertil Camnermarker, disse que seu cliente estava satisfeito com a senten�a. "Trata-se de um caso de difama��o particularmente grave", declarou.</p><empty-line/><p>A senten�a ocupava vinte e seis p�ginas. Ela apresentava as raz�es pelas quais Mikael fora julgado culpado em quinze pontos, por difama��o agravada contra o financista Hans-Erik Wennerstr�m. Mikael constatou que cada uma das acusa��es que o condenavam custava dez mil coroas e seis dias de pris�o. Sem contar as custas do processo e suas pr�prias custas com advogado. Ele n�o tinha sequer a coragem de come�ar a refletir sobre o tamanho da conta, mas tamb�m dizia a si mesmo que podia ter sido pior; o tribunal o inocentara em sete itens.</p><p>A medida que lia o enunciado da senten�a, uma sensa��o de peso cada vez mais desagrad�vel ia se instalando em seu est�mago. Ficou surpreso com isso. Desde o in�cio do processo, sabia que s� um milagre o livraria da condena��o. N�o tinha a menor d�vida a respeito e acostumara-se com a id�ia. Permanecera com o esp�rito relativamente tranquilo durante os dois dias em que transcorrera o julgamento, e por onze dias esperou, sem sentir nada de especial, que o tribunal acabasse de refletir e formulasse o texto que ele segurava na m�o. Mas s� agora, encerrado o julgamento, � que o mal-estar se insinuara.</p><p>Mordeu um peda�o do sandu�che, mas o p�o pareceu inchar dentro de sua boca. Teve dificuldade de engolir e o cuspiu no prato.</p><p>Era a primeira vez que Mikael Blomkvist era condenado por um delito � a primeira vez que se via acusado de alguma coisa ou chamado a comparecer em ju�zo. Pensando bem, a senten�a era insignificante. Um delito peso-pena. Afinal, n�o se tratava de roubo � m�o armada, de assassinato ou estupro. Mas, do ponto de vista financeiro, a condena��o teria consequ�ncias. A <emphasis>Millennium</emphasis> n�o era nenhum carro-chefe do mundo da m�dia, nem dotada de recursos ilimitados � a revista atuava com uma estreita margem de lucro �, mas a condena��o tamb�m n�o era uma cat�strofe. O problema � que Mikael era ao mesmo tempo um dos acionistas da <emphasis>Millennium</emphasis> e, estupidamente, redator e editor respons�vel pela publica��o. Ele pretendia tirar do pr�prio bolso as cento e cinquenta mil coroas por perdas e danos, o que reduziria a zero sua poupan�a. A revista se encarregaria dos custos judiciais. Navegando com perspic�cia, dava para seguir em frente.</p><p>Ocorreu-lhe vender o apartamento, mas essa hip�tese ficou atravessada em sua garganta. No final dos felizes anos 1980, numa �poca em que tinha emprego fixo e um sal�rio relativamente alto, adquirira um im�vel. Visitou uma por��o de apartamentos e recusou todos, at� encontrar uma �gua-furtada de sessenta e cinco metros quadrados, bem no come�o da Bellmansgatan. O ex-propriet�rio havia come�ado a transform�-la em algo habit�vel, mas fora contratado por uma empresa de inform�tica no exterior e Mikael adquiriu seu projeto de reforma por um pre�o irris�rio.</p><p>Mikael n�o quis plantas desenhadas por arquitetos, preferiu ele mesmo terminar as obras, reservando dinheiro para a cozinha e o banheiro, e deixando o resto como estava. Em vez de substituir o piso e instalar divis�rias para criar dois ambientes, poliu o assoalho, passou cal nas grosseiras paredes originais e cobriu os defeitos mais graves com algumas aquarelas de Emanuel Bernstone. O resultado foi um <emphasis>loft</emphasis> arejado, com um quarto atr�s de uma estante de livros, um canto para refei��es e uma sala com uma pequena cozinha americana. O apartamento tinha duas janelas de mansarda e outra triangular com vista para os telhados, para as �guas do Riddarfjarden e para a cidade velha. Ele at� podia avistar uma ponta do Slussen e do pa�o municipal. Levando em conta os pre�os de mercado, agora ele n�o podia mais pagar um apartamento como aquele, por isso tinha muita vontade de conserv�-lo.</p><p>Mas o risco de perder o apartamento n�o era nada comparado � enorme bofetada profissional que sofrera, cujos danos levaria algum tempo para reparar, supondo que fossem repar�veis.</p><p>Era uma quest�o de confian�a. Num futuro pr�ximo, muitos redatores hesitariam em publicar artigos em sua revista. Ele ainda tinha amigos capazes de entender que fora v�tima do azar e das circunst�ncias, mas n�o poderia mais se dar ao luxo de cometer o menor erro.</p><p>O mais doloroso, por�m, era a humilha��o.</p><p>Tivera todos os trunfos na m�o, mas perdera para uma esp�cie de gangster vestido de Armani. Um especulador safado. Um <emphasis>yuppie</emphasis> defendido por um advogado do <emphasis>jet-set</emphasis> que passou o processo inteiro rindo.</p><p><emphasis>Como as coisas tinham dado t�o errado?</emphasis></p><empty-line/><p>O caso Wennestr�m, no entanto, come�ara de forma bastante promissora um ano e meio antes na cabine de um veleiro M�lar-30 amarelo, numa noite de S�o Jo�o. Tudo porque o acaso fizera um ex-colega seu jornalista, na �poca rela��es-p�blicas da prefeitura, alugar um Scampi, sem muito refletir, para impressionar a mais recente namorada, levando-a a um cruzeiro rom�ntico de alguns dias pelo arquip�lago de Estocolmo. A garota, que tinha vindo de Hallstahammar para estudar em Estocolmo, ap�s certa resist�ncia, concordou em ir, mas com a condi��o de que sua irm� e o namorado dela tamb�m fossem. O problema � que os tr�s nunca tinham estado num veleiro, e o rela��es-p�blicas era um marujo mais entusiasmado que experiente. Tr�s dias antes da partida, desesperado, ele chamou Mikael e o convenceu a ser o quinto tripulante, por ter mais experi�ncia que ele em navega��o.</p><p>A princ�pio reticente, Mikael acabou cedendo diante da oportunidade de ter pela frente alguns dias de descanso no arquip�lago e da anunciada perspectiva de boa comida e companhia agrad�vel. As promessas se revelaram falsas, e o cruzeiro acabou sendo uma cat�strofe que superou seus piores pesadelos. Eles haviam navegado, a menos de dez n�s, de Bulland� at� o estreito de Furusund � bonito, � verdade, mas pouco excitante �, o que n�o impediu que a namorada do rela��es-p�blicas enjoasse desde o in�cio. Sua irm� brigou com o namorado e ningu�m mostrava o menor interesse em aprender o m�nimo que fosse de navega��o. Logo ficou evidente que esperavam que Mikael fizesse o barco funcionar, enquanto eles se limitavam a dar conselhos bem-intencionados por�m totalmente in�teis. Ap�s a primeira noite ancorado numa enseada de �ngs�, ele estava decidido a descer em Furusund e pegar o primeiro �nibus de volta para casa. Somente as s�plicas desesperadas do rela��es-p�blicas o convenceram a permanecer a bordo.</p><p>Na manh� seguinte, por volta do meio-dia, cedo ainda para que encontrassem alguns lugares, eles atracaram ao cais dos visitantes em Arholma. Prepararam uma refei��o e tinham acabado de comer quando Mikael avistou um M-30 com casco de poli�ster entrando na enseada com apenas a vela mestra. O barco deu uma volta tranquila enquanto seu piloto procurava uma vaga no cais. Mikael deu uma olhada ao redor e constatou que o espa�o entre o seu Scampi e um iate a estibordo era provavelmente o �nico lugar dispon�vel, suficiente e na medida exata, para o estreito M-30. Foi at� a proa e agitou o bra�o; o piloto do M-30 ergueu a m�o em sinal de agradecimento e virou em dire��o ao cais. Um solit�rio que n�o usa o motor para atracar, observou Mikael. Ele ouviu o ru�do da corrente da �ncora e, segundos depois, a vela mestra foi arriada, enquanto o piloto saltava de um lado a outro para manter o leme em posi��o e, ao mesmo tempo, preparar a ancoragem na proa.</p><p>Mikael saltou para o cais e estendeu a m�o para oferecer ajuda. O rec�m-chegado corrigiu a rota uma �ltima vez e o barco veio com seu impulso colocar-se suavemente ao longo do Scampi. No momento em que o piloto lan�ou a amarra a Mikael, eles se reconheceram e sorriram, encantados.</p><p>� Ol�, Robban � disse Mikael. � Se utilizasse o motor, evitaria arranhar outros barcos no porto.</p><p>� Ol�, Micke. Eu disse a mim mesmo que conhecia esse cara. Sabe, eu teria usado o motor se tivesse conseguido faz�-lo funcionar. Essa droga pifou h� dois dias perto de R�d�ga.</p><p>Apertaram-se as m�os por cima da amurada.</p><p>Uma eternidade antes, no col�gio de Kungsholmen nos anos 1970, Mikael Blomkvist e Robert Lindberg haviam sido companheiros, e at� mesmo muito bons amigos. Como acontece com frequ�ncia entre velhos colegas de escola, a amizade acabou depois da conclus�o do secund�rio. Cada um seguiu seu caminho e eles se viram raras vezes nos vinte anos seguintes. O �ltimo encontro antes deste, inesperado, no cais de Arholma, ocorrera sete ou oito anos atr�s. Agora os dois se examinavam com curiosidade. Robert estava bronzeado, com cabelos emaranhados e uma barba de quinze dias.</p><p>De repente, Mikael recobrou o �nimo. Quando o rela��es-p�blicas e seu bando de imbecis partiram para dan�ar em volta do mastro de s�o Jo�o erguido diante do armaz�m, do outro lado da ilha, ele ficou na cabine do M-30 batendo papo com seu velho companheiro de col�gio, em volta do tradicional arenque regado a aquavita.</p><empty-line/><p>� noite, em dado momento, depois de muitos tragos e de terem desistido de lutar contra os tristemente famosos mosquitos de Arholma e irem se refugiar na cabine, a conversa se transformou numa alterca��o amistosa sobre a moralidade e a �tica no mundo dos neg�cios. Os dois tinham escolhido carreiras que, de um modo ou de outro, estavam focalizadas nas finan�as do pa�s. Robert Lindberg passara do col�gio aos estudos de com�rcio e depois ao mundo financeiro. Mikael Blomkvist cursara a faculdade de jornalismo e dedicara grande parte de sua vida a denunciar neg�cios duvidosos justamente do mundo financeiro. A conversa girava em torno da imoralidade de alguns p�ra-quedas dourados (as famosas indeniza��es milion�rias de demiss�o) surgidos ao longo dos anos 1990. Depois de ter valentemente defendido alguns dos mais espetaculares, Lindberg acabou admitindo, a contragosto, que no mundo das finan�as provavelmente havia alguns especuladores corruptos disfar�ados. Ele ficou s�rio de repente e olhou Mikael bem nos olhos.</p><p>� J� que voc� � jornalista investigativo e vasculha delitos econ�micos, por que n�o escreve alguma coisa sobre Hans-Erik Wennerstr�m?</p><p>� N�o sabia que havia algo a escrever sobre ele.</p><p>� Pelo amor de Deus, que esp�cie de bisbilhoteiro voc� �? Ent�o n�o conhece o programa CAI?</p><p>� Bem, era uma esp�cie de programa de apoio, nos anos 1990, para reabilitar a ind�stria dos ex-pa�ses do Leste Europeu. Foi extinto h� alguns anos. Nunca escrevi nada a respeito.</p><p>� Isso, CAI, Comit� de Apoio Industrial. O projeto tinha o aval do governo, e a tram�ia era gerenciada por representantes de uma dezena de grandes empresas suecas. O CAI obteve garantias do Estado para uma s�rie de projetos firmados em acordos com os governos da Pol�nia e dos pa�ses b�lticos. A confedera��o oper�ria participava, para garantir que o movimento oper�rio dos pa�ses do Leste Europeu se fortalecesse gra�as ao modelo sueco. Na teoria, o projeto significava um apoio baseado no princ�pio de ajuda ao desenvolvimento, e supostamente oferecia aos regimes do Leste Europeu uma possibilidade de sanear suas economias. Na pr�tica, equivalia a conceder subven��es do Estado para que empresas suecas estabelecessem parcerias com empresas do Leste Europeu. Lembra daquele ministro crist�o cretino? Era um defensor ardoroso do CAI. Falava-se de construir uma f�brica de papel na Crac�via, de restabelecer a ind�stria metal�rgica em Riga, de montar uma usina de cimento em Tallinn, e por a� afora. O dinheiro era distribu�do pelo conselho do CAI, exclusivamente formado por pesos pesados do mundo financeiro e industrial.</p><p>� Ou seja, dinheiro do contribuinte?</p><p>� Cerca de cinquenta por cento eram subven��es do Estado, o resto vinha dos bancos e da ind�stria. Mas n�o se pode realmente falar de uma atividade desinteressada. Os bancos e as empresas contavam com um lucro consistente, caso contr�rio n�o teriam por que se lan�ar no neg�cio.</p><p>� Qual era o montante desses fundos?</p><p>� Espere um minuto, escute. O CAI era constitu�do principalmente por empresas suecas s�lidas, desejosas de penetrar no mercado do Leste Europeu. Empresas de peso, como ABB, Skanska e outras do g�nero. Nada de capital especulativo, se entende o que quero dizer.</p><p>� Voc� est� dizendo que a Skanska n�o faz especula��o? Como explicar ent�o a demiss�o de seu diretor-executivo, depois que um de seus rapazes perdeu meio bilh�o especulando com t�tulos de curto prazo? E como n�o rir de seus neg�cios imobili�rios hist�ricos em Londres e Oslo?</p><p>� Sim, claro, h� cretinos em todas as empresas do mundo, mas voc� sabe o que estou querendo dizer. Trata-se de empresas que pelo menos produzem alguma coisa. A coluna vertebral da ind�stria sueca, como se diz.</p><p>� E Wennestr�m, onde ele entra no esquema?</p><p>� Wennerstr�m � o curinga da hist�ria. Ou seja, um cara surgido do nada, sem nenhum passado na ind�stria pesada e que, na realidade, nada tem a ver com esse meio. Mas ele acumulou uma fortuna colossal na Bolsa e investiu em empresas est�veis. Entrou, por assim dizer, pela porta de servi�o.</p><p>Mikael tornou a encher seu copo com a aquavita Reimersholms e inclinou-se para tr�s na cadeira, refletindo sobre o que sabia a respeito de Wennerstr�m. Era magro. Nascido na regi�o do Norrland, onde criou uma empresa de investimentos nos anos 1970, juntou algum dinheiro e se transferiu para Estocolmo, fazendo ali uma carreira fulgurante nos gloriosos anos 1980. Criou o Wennerstr�mgruppen, rebatizado de Wennerstr�m Group quando foram abertos os escrit�rios de Londres e Nova York, e quando nos jornais a empresa come�ou a ser mencionada no mesmo n�vel que a Beijer. Negociando com a��es, participa��es e opera��es r�pidas, passou a figurar na imprensa VIP como um dos novos bilion�rios suecos, propriet�rio de um <emphasis>loft</emphasis> em Strandw�gen, de uma suntuosa resid�ncia de ver�o em V�rmd� e de um iate de vinte e tr�s metros, comprado de uma ex-estrela do t�nis em decad�ncia. Um calculista esperto, certamente, mas os anos 1980 foram sobretudo a d�cada dos calculistas e dos especuladores imobili�rios, e Wennerstr�m n�o se destacou mais que os outros. Pelo contr�rio, permaneceu de certo modo � sombra dos figur�es. N�o tinha a l�bia de um Stenbeck nem se exibia na imprensa como Barnevik. Desprezando os bens imobili�rios, focalizou seu interesse em investimentos maci�os no ex-bloco do Leste Europeu. Quando, nos anos 1990, a bolha murchou e os empres�rios foram obrigados, um ap�s outro, a recolher seus p�ra-quedas dourados, as empresas de Wennerstr�m continuaram em �timo estado. Nenhuma sombra de esc�ndalo. A <emphasis>Swedish success story,</emphasis> foi assim que o <emphasis>Financial Times</emphasis> resumiu seu caso.</p><p>� Foi em 1992 que Wennerstr�m, de repente, recorreu ao CAI. Ele precisava de ajuda financeira. Apresentou um projeto que aparentemente atendia gente interessada na Pol�nia: tratava-se de estabelecer um setor de fabrica��o de embalagens para a ind�stria aliment�cia.</p><p>� Quer dizer, uma f�brica de latas de conserva?</p><p>� N�o exatamente, mas algo do tipo. N�o fa�o a menor id�ia das pessoas que ele conhecia no CAI, mas saiu de l� com sessenta milh�es de coroas no bolso, sem problema.</p><p>� A hist�ria come�a a me interessar. Deixe-me adivinhar: ningu�m mais voltou a ver a cor desse dinheiro.</p><p>� Errado � disse Robert Lindberg.</p><p>E sorriu como quem sabe das coisas, antes de beber as �ltimas gotas de sua aquavita.</p><p>� O que se passou depois foi o cl�ssico em mat�ria de balan�o financeiro. Wennerstr�m de fato montou uma f�brica de embalagens na Pol�nia, mais precisamente em Lodz. A empresa chamava-se Minos. O CAI recebeu alguns relat�rios entusiasmados em 1993. E ent�o, em 1994, a Minos faliu de repente.</p><empty-line/><p>Robert Lindberg bateu o copo vazio na mesa, com um golpe seco, para sublinhar a que ponto a empresa afundara.</p><p>� O problema do CAI � que n�o havia procedimentos bem definidos para avaliar os relat�rios sobre os projetos. Lembre-se do esp�rito da �poca. Todo mundo estava otimista com a queda do muro de Berlim. Iam introduzir a democracia, a amea�a de uma guerra nuclear n�o existia mais e os bolchevistas se tornavam verdadeiros capitalistas da noite para o dia. O governo queria ancorar a democracia no Leste Europeu. Todos os capitalistas desejavam contribuir para a constru��o da nova Europa.</p><p>� Eu nunca soube de capitalistas propensos � caridade.</p><p>� Acredite, era o sonho tropical de todo capitalista. Agora a R�ssia e os pa�ses do Leste Europeu s�o os maiores mercados depois da China. Os industriais n�o hesitavam em ajudar o governo, sobretudo quando as empresas s� precisavam contribuir com uma parte �nfima dos gastos. Somando tudo, o CAI abocanhou mais de trinta bilh�es de coroas do contribuinte. O dinheiro voltaria sob a forma de ganhos futuros. No papel, o CAI era uma iniciativa governamental, mas a influ�ncia da ind�stria era t�o grande que, na pr�tica, o conselho do CAI desfrutava de uma completa liberdade de a��o.</p><p>� Entendo. Mas h� material para um artigo tamb�m sobre esse ponto?</p><p>� Calma. Quando os projetos come�aram, n�o havia problema de financiamento. A Su�cia ainda n�o conhecia o choque das taxas de juros. O governo estava feliz de poder pedir, atrav�s do CAI, uma contribui��o sueca importante em favor da democracia do Leste Europeu.</p><p>� Era um governo de direita.</p><p>� N�o misture pol�tica com isso. Trata-se de dinheiro, e pouco importa saber se s�o os socialistas ou os moderados que indicam os ministros. Ent�o, com os cofres cheios, surgiram os problemas de c�mbio, e em seguida aqueles novos democratas imbecis � lembra-se da Nova Democracia? � come�aram a se lamentar, achando que faltava transpar�ncia �s atividades do CAI. Um deles confundiu o CAI com a Swedish International Development Authority, imaginando um projeto de desenvolvimento para boas obras, como a ajuda � Tanz�nia. Na primavera de 1994, uma comiss�o foi encarregada de investigar o CAI. A essa altura, j� se faziam cr�ticas a v�rios projetos, mas um dos primeiros a ser investigados foi o da Minos.</p><p>� E Wennerstr�m n�o conseguiu justificar a utiliza��o dos fundos.</p><p>� Pelo contr�rio. Wennerstr�m apresentou um excelente relat�rio financeiro, mostrando que mais de cinquenta e quatro milh�es de coroas haviam sido investidas na Minos. Mas alegou que os problemas estruturais de um pa�s a reboque como a Pol�nia eram grandes demais para que uma f�brica de embalagens moderna pudesse dar certo, e ela acabou desbancada pela concorr�ncia de um projeto alem�o similar. Os alem�es estavam comprando tudo no bloco do Leste Europeu.</p><p>� Voc� disse que ele obteve sessenta milh�es de coroas.</p><p>� Isso mesmo. O dinheiro do CAI funcionava na forma de empr�stimos sem juros. A id�ia, evidentemente, era que as empresas reembolsassem uma parte depois de alguns anos. Mas a Minos faliu e o projeto fracassou. Wennerstr�m n�o podia ser responsabilizado. � aqui que entram as garantias do Estado: a d�vida de Wennerstr�m foi apagada. Ele simplesmente n�o precisou reembolsar o dinheiro perdido na fal�ncia da Minos e conseguiu demonstrar que perdera a mesma quantia do pr�prio bolso.</p><p>� Deixa eu ver se entendi bem toda essa hist�ria. Al�m de fornecer bilh�es do contribuinte, o governo oferecia diplomatas para abrir portas. A ind�stria recebia o dinheiro e o utilizava para investir em <emphasis>joint ventures</emphasis> que lhe permitiam, em seguida, acumular um lucro recorde. Em outras palavras, as negociatas de sempre. Alguns enchem os bolsos enquanto outros pagam a conta, e conhecemos bem os atores dessa pe�a.</p><p>� Meu Deus, como voc� � c�nico! Os empr�stimos deviam ser devolvidos ao Estado.</p><p>� Voc� disse que n�o corriam juros. Isso significa que os contribuintes n�o receberam nenhum dividendo pelo que pagaram. Wennerstr�m obteve sessenta milh�es e investiu cinquenta e quatro. O que fez com os outros seis milh�es?</p><p>� No momento em que ficou evidente que os projetos do CAI passariam a ser controlados, Wennerstr�m enviou um cheque de seis milh�es para reembolsar a diferen�a. Assim o caso estava resolvido do ponto de vista jur�dico.</p><empty-line/><p>Robert Lindberg calou-se e lan�ou um olhar inquieto a Mikael.</p><p>� Wennerstr�m certamente desviou um pouco de dinheiro do CAI, mas, comparado ao meio bilh�o que desapareceu da Skanska ou � hist�ria do p�ra-quedas dourado de um bilh�o do diretor da ABB � coisas que realmente revoltaram as pessoas �, n�o me parece um caso realmente digno de uma reportagem � constatou Mikael. � Os leitores, hoje, est�o fartos de textos sobre especuladores incompetentes da Bolsa, mesmo aqueles que operam com fundos p�blicos. H� algo mais na sua hist�ria?</p><p>� Ela est� apenas come�ando.</p><p>� Como voc� ficou sabendo desses neg�cios do Wennerstr�m na Pol�nia?</p><p>� Eu trabalhei no Banco do Com�rcio nos anos 1990. Adivinhe quem conduziu as investiga��es como representante do banco no CAI?</p><p>� Entendo. Continue.</p><p>� Bem... resumindo: o CAI recebeu uma explica��o de Wennerstr�m. Documentos foram redigidos. O dinheiro restante foi reembolsado. Esse retorno de seis milh�es foi esperto. Se algu�m chega na sua casa insistindo em te dar um saco de milho, voc� diz que aquele � um bom sujeito, n�o � mesmo?</p><p>� Vamos aos fatos.</p><p>� Mas, meu velho, o fato � exatamente esse. O CAI ficou satisfeito com o relat�rio do Wennerstr�m. O investimento fracassou, mas n�o havia nada a dizer sobre a maneira como fora conduzido. Examinamos faturas, transfer�ncias e um monte de papelada. Tudo estava minuciosamente justificado. Eu acreditei. Meu chefe acreditou. O CAI acreditou e o governo nada teve a acrescentar.</p><p>� E onde � que a coisa trope�a?</p><p>� A hist�ria entra agora na sua fase sens�vel � disse Lindberg com um tom de voz subitamente f�nebre. � Levando em conta que voc� � jornalista, o que vou dizer agora � <emphasis>off the record.</emphasis></p><p>� Espere a�. Voc� n�o pode come�ar a me contar falcatruas e depois me dizer que n�o posso divulg�-las.</p><p>� Claro que posso. Tudo que contei at� agora � de conhecimento p�blico. Voc� mesmo pode consultar o relat�rio, se quiser. Concordo que escreva sobre o resto da hist�ria � que ainda n�o contei �, mas quero ser tratado como fonte an�nima.</p><p>� Ah, melhor assim, porque, na terminologia habitual, <emphasis>off the record</emphasis> significa que obtive uma informa��o confidencial, mas que n�o tenho o direito de escrever sobre ela.</p><p>� Pouco importa a terminologia. Escreva o que quiser, contanto que eu seja sua fonte an�nima. Estamos de acordo?</p><p>� Claro � respondeu Mikael.</p><p>Considerando o que houve depois, sua resposta foi naturalmente um erro.</p><p>� Bem, esse caso Minos aconteceu h� dez anos, logo ap�s a queda do Muro e quando os bolcheviques come�aram a virar capitalistas frequent�veis. Eu era um dos que investigavam Wennerstr�m, e sempre tive uma puta impress�o de que toda a hist�ria estava mal contada.</p><p>� E por que n�o disse nada na �poca?</p><p>� Discuti com o meu chefe. A quest�o � que n�o havia nada de s�lido. Todos os pap�is estavam em ordem. Nada mais fiz que p�r minha assinatura no final do relat�rio. Mas em seguida, sempre que eu topava com o nome de Wennerstr�m na imprensa, Minos me vinha � lembran�a.</p><p>� E a�?</p><p>� Acontece que alguns anos mais tarde, em meados dos anos 1990, meu banco fez alguns neg�cios com Wennerstr�m. Na verdade, altos neg�cios. E a coisa n�o foi muito bem.</p><p>� Ele roubou voc�s?</p><p>� N�o, eu n�o diria isso. As duas partes lucraram. Tratava-se de... N�o sei bem como explicar. � que agora come�o a falar do homem que me contratou e isso n�o me agrada. Mas a impress�o que ficou � a impress�o geral e duradoura, como dizem � n�o foi nada positiva. Na m�dia, Wennerstr�m � apresentado como um consider�vel or�culo da economia. � disso que ele vive. � seu capital de confian�a.</p><p>� Entendo o que quer dizer.</p><p>� Eu tinha a impress�o de que o sujeito era simplesmente um blefe. Que n�o tinha nenhum dom especial para as finan�as. Ao contr�rio, achei-o de uma estupidez assombrosa em certas �reas, embora estivesse cercado de alguns jovens tubar�es de fato astutos como conselheiros. Eu o detestava cordialmente.</p><p>� Continue.</p><p>� H� cerca de um ano, fui � Pol�nia por outro motivo. Nossa delega��o jantou com alguns investidores de Lodz e na minha mesa estava o prefeito. Discutimos sobre o quanto era dif�cil repor a economia da Pol�nia nos trilhos et cetera, e mencionei o projeto Minos. O prefeito me pareceu totalmente perplexo por um momento � como se nunca tivesse ouvido falar de Minos �, depois lembrou que era um pequeno neg�cio de merda que dera em nada. Despachou o assunto com um sorrisinho, dizendo que � reproduzo exatamente suas palavras � se isso fosse tudo que os investidores suecos sabiam fazer, nosso pa�s entraria em fal�ncia rapidamente. Est� me acompanhando?</p><p>� Essa declara��o revela que o prefeito de Lodz � um homem sensato. Mas continue.</p><p>� Essa declara��o, como voc� diz, n�o parou de me azucrinar. No dia seguinte, eu tinha uma reuni�o de manh�, mas estava com a tarde livre. S� para remexer na merda, resolvi visitar, numa pequena aldeia perto de Lodz, a f�brica abandonada da Minos, situada dentro de uma granja com latrinas no p�tio. A grande f�brica Minos era um dep�sito arruinado prestes a desabar, um velho hangar com telhas onduladas, montado pelo Ex�rcito Vermelho nos anos 1950. Encontrei um guarda no local que falava algumas palavras em alem�o, e soube que um de seus primos trabalhara na f�brica. O primo morava quase ali ao lado e fomos at� a casa dele. O guarda serviu de int�rprete. Est� interessado em ouvir o que ele disse?</p><p>� � �bvio que sim.</p><p>� A Minos come�ou a funcionar n� outono de 1992. Ela tinha quinze empregados, quando muito, na maior parte mulheres velhas. O sal�rio equivalia a cento e cinquenta coroas por m�s. No come�o n�o havia m�quinas, os empregados se ocupavam fazendo a limpeza do local. No in�cio de outubro chegaram tr�s m�quinas de cartonagem compradas em Portugal. Estavam velhas, deterioradas e totalmente ultrapassadas. No ferro-velho, n�o valeriam mais que algumas notas de mil. Funcionavam, � verdade, mas pifavam a todo instante. Evidentemente n�o havia pe�as de reposi��o, de modo que a Minos sofria de eternas paradas de produ��o. Em geral era um empregado que consertava as m�quinas, como podia.</p><p>� Agora est� come�ando a parecer uma mat�ria de verdade � reconheceu Mikael. � O que a Minos fabricava realmente?</p><p>� Em 1992 e na primeira metade de 1993, as cl�ssicas embalagens de sab�o em p�, caixas de ovos e coisas do g�nero. Depois passaram a produzir sacos de papel. Mas sempre faltava mat�ria-prima e o volume de produ��o era m�nimo.</p><p>� Nada que correspondesse a um investimento gigantesco.</p><p>� Fiz as contas. O custo total do aluguel em dois anos equivale a quinze mil coroas. Os sal�rios podem ter chegado a cento e cinquenta mil no m�ximo � e estou sendo generoso. Compra de m�quinas e meios de transporte... uma caminhonete que entregava as caixas de ovos... vamos p�r uns duzentos e cinquenta mil. Mais taxas de autoriza��o, alguns custos de viagem � aparentemente, s� uma pessoa veio da Su�cia algumas vezes para visitar a aldeia. Digamos que todo o neg�cio custou menos de um milh�o. Num dia do ver�o de 1993, o contramestre foi at� a f�brica, anunciou que ela seria fechada e, algum tempo depois, um caminh�o h�ngaro recolheu e levou embora a maquinaria. <emphasis>Bye-bye,</emphasis> Minos.</p><empty-line/><p>Durante o processo, Mikael recordara v�rias vezes essa noite de S�o Jo�o.</p><p>De modo geral, a conversa transcorrera como uma discuss�o entre dois colegas, em tom de camaradagem, exatamente como nos tempos de col�gio. Adolescentes, eles haviam compartilhado os fardos que se carrega nessa idade. Adultos, eram na verdade estranhos um para o outro, seres totalmente diferentes. Durante a noitada, Mikael refletiu que n�o conseguia de fato se lembrar do que os havia aproximado no col�gio. Lembrava-se de Robert como um rapaz taciturno e reservado, t�mido ao extremo com as meninas. Adulto, ele era... bem, um talentoso alpinista do universo banc�rio. Para Mikael, n�o havia d�vida que seu colega tinha opini�es diametralmente opostas � sua pr�pria concep��o de mundo.</p><p>Mikael quase nunca bebia a ponto de se embriagar, mas esse encontro fortuito transformara um cruzeiro malsucedido numa noitada agrad�vel, em que o n�vel da garrafa de aquavita se aproximava aos poucos do fundo. Justamente porque a conversa teve esse tom ginasiano, de in�cio ele n�o levou a s�rio o relato de Robert sobre Wennerstr�m, mas no final seus instintos jornal�sticos despertaram. De repente, escutava atentamente a hist�ria de Robert, e as obje��es naturais apareceram.</p><p>� Espere um pouco � disse Mikael. � Wennerstr�m � uma estrela entre os investidores da Bolsa. Se n�o estou enganado, ele deve ser bilion�rio...</p><p>� O capital do Grupo Wennerstr�m � de cerca de duzentos bilh�es. Voc� deve estar querendo saber por que um bilion�rio roubaria as pessoas por uns magros cinquenta milh�es, quase um dinheiro de bolso.</p><p>� O que quero saber antes de mais nada � por que ele arriscaria tudo com uma fraude t�o evidente.</p><p>� N�o sei se se pode dizer que se trata de uma fraude evidente, j� que o conselho do CM, os representantes dos bancos, o governo e os auditores do Parlamento aceitaram as contas apresentadas por Wennerstr�m.</p><p>� Mesmo assim � uma soma rid�cula.</p><p>� Certo. Mas veja: o Grupo Wennerstr�m � uma empresa de investimentos que lida com qualquer coisa que possa dar lucro a curto prazo � im�veis, t�tulos, op��es, moedas... Wennerstr�m entrou em contato com o CAI em 1992, no momento em que o mercado estava a ponto de atingir o fundo. Lembra do outono de 1992?</p><p>� E acha que posso esquecer? Eu tinha feito empr�stimos a taxas vari�veis para comprar meu apartamento, quando os juros do Banco da Su�cia atingiram quinhentos por cento em outubro. Tive que arcar com juros de dezenove por cento durante um ano.</p><p>� N�o foi f�cil! � disse Robert sorrindo. � Tamb�m perdi um bocado naquele ano. E Hans-Erik Wennerstr�m � como todos os outros no mercado � enfrentava os mesmos problemas. A empresa tinha bilh�es aplicados em contratos de diferentes tipos, mas muito pouca liquidez. E a� fica imposs�vel conseguir facilmente novos empr�stimos. Numa situa��o dessas, em geral se vendem alguns im�veis para lamber as feridas � s� que em 1992 n�o havia ningu�m para comprar im�veis.</p><p>� <emphasis>Cash-flow problem.</emphasis></p><p>� Exatamente. E Wennerstr�m n�o era o �nico a enfrentar esse tipo de problema. Qualquer homem de neg�cios...</p><p>� N�o diga homem de neg�cios. Chame como quiser, mas qualific�-los de homens de neg�cios � ofender uma categoria profissional s�ria.</p><p>� ... qualquer investidor da Bolsa, ent�o, tinha <emphasis>cash-flow problems...</emphasis> Considere as coisas assim: Wennerstr�m obteve sessenta milh�es de coroas. Devolveu seis, e somente depois de tr�s anos. Os gastos com a Minos dificilmente ultrapassaram um milh�o. Mas os juros de sessenta milh�es durante tr�s anos representam uma boa quantia. Dependendo da maneira como foi investido, o dinheiro do CAI pode ter sido dobrado ou multiplicado por dez. E a� n�o estamos mais falando de bagatelas. A prop�sito, um brinde ao nosso encontro!</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>2.� SEXTA-FEIRA 20 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Dragan Armanskij tinha cinquenta e seis anos e nascera na Cro�cia. Seu pai era um judeu arm�nio da Bielo-R�ssia. A m�e, uma mu�ulmana b�snia de ascend�ncia grega. Como ela � que se encarregara de sua educa��o cultural, na idade adulta ele se viu inclu�do no grande grupo que a m�dia define como mu�ulmanos. Estranhamente, os servi�os de imigra��o o registraram como s�rvio. O passaporte estabelecia que ele era cidad�o sueco, e a foto mostrava um rosto quadrado com poderosas mand�bulas, um fundo de barba escuro e cabelos grisalhos nas t�mporas. Frequentemente chamavam-no de �rabe, embora n�o houvesse a menor gota de sangue �rabe em seu passado. Por outro lado, era um aut�ntico cruzamento do tipo que os aficionados por biologia racial descreveriam, sem a menor hesita��o, como mat�ria humana inferior.</p><p>Seu rosto lembrava vagamente o de um gangster de filme americano. Na realidade, ele n�o era um traficante de drogas nem um assassino mafioso; era um economista de talento que come�ara como assistente da Milton Security no in�cio dos anos 1970, e tr�s d�cadas mais tarde chefiava todas as opera��es como diretor-executivo.</p><p>O interesse por quest�es de seguran�a crescera aos poucos at� se transformar em fasc�nio. Era como um jogo de estrat�gia � identificar situa��es de amea�a, desenvolver contra-estrat�gias e sempre se antecipar aos espi�es industriais, aos vigaristas e aos fraudadores. Tudo come�ou quando descobriu a maneira como tinha se dado um engenhoso golpe contra um cliente, com o aux�lio de uma contabilidade sutilmente maquiada. Conseguiu apontar, num grupo de umas doze pessoas, quem estava por tr�s da manipula��o, e hoje, decorridos trinta anos, lembra-se de como ficou surpreso ao se dar conta de que o desvio s� ocorrera porque a empresa em quest�o omitira alguns pontos nos processos de seguran�a. Desde ent�o, passou de simples contador a respons�vel pelo desenvolvimento da empresa, e mais tarde a especialista em crimes financeiros. Cinco anos depois, j� fazia parte da dire��o e, passados dez anos, tornou-se � n�o sem alguma relut�ncia � diretor-executivo. Agora a relut�ncia havia muito se acalmara. Durante seus anos de chefia, tinha transformado a Milton Security numa das empresas de seguran�a mais competentes e mais consultadas da Su�cia.</p><p>A Milton Security contava com trezentos e oitenta funcion�rios trabalhando em tempo integral e com mais de trezentos <emphasis>freelancers,</emphasis> remunerados por tarefa. Uma pequena empresa, portanto, se comparada com a Falck ou com a Svensk Bevakningstj�nts, o Servi�o de Prote��o Sueco. Quando Armanskij entrou na empresa, ela ainda se chamava Companhia de Vigil�ncia Geral Johan Fredrik Milton e sua clientela era formada por centros comerciais que tinham necessidade de controladores e seguran�as musculosos. Sob sua dire��o, a empresa passou a se chamar Milton Security, nome mais prop�cio para um ambiente internacional, e investiu em tecnologia de ponta. Houve uma renova��o de pessoal; guardas-noturnos em fim de carreira, fetichistas do uniforme e estudantes apenas interessados em bicos foram substitu�dos por pessoas mais competentes. Armanskij contratou ex-policiais j� de uma certa idade como chefes de opera��es, cientistas pol�ticos especializados em terrorismo internacional, em prote��o pessoal e em espionagem industrial e, principalmente, t�cnicos em telecomunica��es e inform�tica. A empresa deixou Solna e a periferia para se instalar em pr�dios mais prestigiosos do Slussen, no centro de Estocolmo.</p><p>No come�o dos anos 1990, a Milton Security estava pronta para oferecer um novo tipo de sistema de seguran�a a um c�rculo exclusivo de clientes, sobretudo empresas de m�dio porte com volume de neg�cios extremamente elevado, e novos-ricos � astros do rock em evid�ncia, investidores da Bolsa e chefes de empresas "pontocom". Grande parte da atividade estava centrada na oferta de prote��o pessoal e solu��es de seguran�a para empresas suecas no exterior, sobretudo no Oriente M�dio. Essas atividades representavam atualmente cerca de setenta por cento do volume de neg�cios. Durante o reinado de Armanskij, o volume de neg�cios passou de quarenta milh�es de coroas para cerca de dois bilh�es. Vender seguran�a era um ramo extremamente lucrativo.</p><p>A atividade estava distribu�da em tr�s �reas principais: <emphasis>consultoria em seguran�a,</emphasis> que consistia na identifica��o de perigos poss�veis ou imaginados; <emphasis>medidas preventivas,</emphasis> que em geral consistiam na instala��o de c�meras de vigil�ncia custosas, alarmes contra roubo ou inc�ndio, sistemas eletr�nicos de bloqueio e equipamentos de inform�tica; e, por fim, <emphasis>a prote��o pessoal</emphasis> de indiv�duos ou empresas que se julgavam v�timas de amea�as, reais ou imagin�rias. Este �ltimo mercado mais que quadruplicara na �ltima d�cada, e nos �ltimos anos surgira um novo tipo de clientela: mulheres ricas querendo proteger-se de um ex-namorado ou marido, ou de molestadores desconhecidos que as teriam visto na televis�o e se teriam fixado em sua blusa colante ou no batom de seus l�bios. Al�m disso, a Milton Security trabalhava em parceria com empresas que gozavam da mesma boa reputa��o que ela em outros pa�ses europeus e nos Estados Unidos, encarregando-se da seguran�a de personalidades internacionais em visita � Su�cia, como uma c�lebre atriz americana em filmagem durante dois meses em Trollh�ttan, cujo agente achou que seu status exigia que ela estivesse acompanhada de seguran�as em seus rar�ssimos passeios em volta do hotel.</p><p>Uma quarta �rea, bem mais restrita, que ocupava apenas alguns funcion�rios de tempo em tempo, era constitu�da pelas chamadas IP, isto �, as investiga��es pessoais. Armanskij n�o era um adepto incondicional desse setor de atividade. Al�m de ser menos lucrativo, era um ramo delicado, que exigia do funcion�rio mais discernimento e habilidade do que conhecimento em t�cnica de telecomunica��es ou em instala��o discreta de aparelhos de vigil�ncia. As investiga��es pessoais eram aceit�veis quando se tratava de simples informa��es sobre a solv�ncia de algu�m, de verificar o curr�culo de um futuro colaborador ou a conduta de um empregado suspeito de deixar vazar informa��es sobre sua empresa ou de se entregar a uma atividade criminosa.</p><p>Nesses casos, as IP ca�am no �mbito operativo.</p><p>Mas a toda hora os clientes vinham lhe apresentar problemas de ordem pessoal que tendiam a trazer consequ�ncias indesejadas. <emphasis>Quero saber quem � o vagabundo com quem minha filha est� saindo... Acho que minha mulher est� me traindo... O rapaz � legal, mas est� se envolvendo com m�s companhias... Est�o me chantageando...</emphasis> Na maioria das vezes, Armanskij respondia com um n�o categ�rico. Se a filha era maior de idade, ela tinha o direito de sair com o vagabundo que quisesse, e na sua opini�o a infidelidade devia ser resolvida entre os c�njuges. Por tr�s de todas essas demandas, havia armadilhas dissimuladas que podiam potencialmente conduzir a esc�ndalos e causar problemas jur�dicos para a Milton Security, raz�o pela qual Dragan Armanskij exercia um controle rigoroso sobre essas miss�es, que, al�m do mais, s� geravam rendimentos modestos no volume total de neg�cios da empresa.</p><empty-line/><p>O assunto desta manh�, por azar, era justamente uma investiga��o pessoal, e Dragan Armanskij arrumou o vinco da cal�a antes de se inclinar para tr�s na sua confort�vel poltrona do escrit�rio. Com ceticismo, contemplou Lisbeth Salander, sua colaboradora trinta e dois anos mais jovem, e pela mil�sima vez constatou que ningu�m parecia mais mal instalada que ela numa prestigiosa empresa de seguran�a. Seu ceticismo era ao mesmo tempo refletido e irracional. Aos olhos de Armanskij, Lisbeth Salander era indiscutivelmente a <emphasis>researcher</emphasis> mais competente que ele encontrara em todos os seus anos naquele ramo. Durante os quatro anos em que trabalhava para ele, Lisbeth Salander n�o havia falhado em uma �nica miss�o nem produzido um s� relat�rio med�ocre.</p><p>Ao contr�rio, o que ela realizava podia ser classificado como fora de s�rie. Armanskij estava convencido de que Lisbeth Salander possu�a um dom �nico. Qualquer um era capaz de obter informa��es banc�rias ou efetuar um controle fiscal, mas Salander tinha imagina��o e trazia sempre algo mais do que era esperado. Ele realmente nunca entendeu como ela conseguia; �s vezes sua capacidade de obter informa��es parecia magia pura. Familiarizada ao extremo com os arquivos administrativos, ela sabia desencavar as informa��es mais obscuras. Tinha sobretudo a capacidade de se infiltrar na pele da pessoa investigada. Se houvesse merda a revelar, atingia o alvo como um m�ssil programado.</p><p>Sem d�vida, ela possu�a o dom.</p><p>Seus relat�rios podiam se revelar uma verdadeira cat�strofe para a pessoa detectada por seu radar. Armanskij nunca se esqueceu de uma miss�o que uma vez lhe dera, uma investiga��o de rotina sobre um pesquisador da ind�stria farmac�utica que estava prestes a se associar a uma empresa. O trabalho, que devia durar uma semana, prolongava-se. Depois de quatro semanas de sil�ncio e de v�rias chamadas que ela ignorou, Salander apareceu com um relat�rio especificando que o objeto da pesquisa era a pedofilia. Duas vezes, pelo menos, o sujeito recorrera a uma prostituta de treze anos em Tallinn, e havia ind�cios de que estava interessado na filha menor de idade da companheira com quem vivia.</p><p>Salander tinha qualidades que em alguns momentos levavam Armanskij � beira do desespero. Quando descobriu que o homem era ped�filo, ela n�o telefonou para avisar Armanskij, n�o correu at� seu escrit�rio para terem uma conversa. Ao contr�rio: sem indicar por uma palavra sequer que o relat�rio continha informa��es explosivas de propor��es quase nucleares, colocou-o certa noite sobre a mesa, no momento em que Armanskij se preparava para deixar o escrit�rio e voltar para casa. Ele levou consigo o relat�rio e s� o abriu mais tarde, no momento em que, finalmente descontra�do, dividia uma garrafa de vinho com a mulher diante da tev�, na sua casa de campo em Liding�.</p><p>Como sempre, o relat�rio era de uma min�cia quase cient�fica, com notas de rodap�, cita��es e indica��es exatas das fontes. As primeiras p�ginas reconstitu�am o passado do objeto, sua forma��o, carreira e situa��o econ�mica. Somente na p�gina 24, num par�grafo intermedi�rio, � que Salander soltava a bomba das escapadas a Tallinn, no mesmo tom objetivo utilizado para dizer que ele morava numa casa de campo em Sollentuna e que dirigia um Volvo azul-marinho. Para sustentar suas afirma��es, ela remetia a um anexo volumoso, com fotografias da menor de idade em companhia do objeto. A foto fora tirada no corredor de um hotel em Tallinn e a m�o dele estava debaixo da blusa da menina. Al�m disso, Lisbeth Salander conseguira, n�o se sabe como, encontrar a menina e convenc�-la a prestar um depoimento detalhado, gravado em fita cassete.</p><p>O relat�rio desencadeou exatamente o caos que Armanskij queria evitar. Para come�ar, ele foi obrigado a tomar dois comprimidos que o m�dico receitara para sua �lcera de est�mago. Depois, convocou o pesquisador farmac�utico para uma conversa sinistra e breve. Para terminar � e apesar dos veementes desmentidos deste �, viu-se obrigado a transmitir imediatamente as informa��es � pol�cia. O que significava que a Milton Security corria o risco de se envolver num processo de acusa��es e contra-acusa��es. Se o dossi� n�o fosse aceito ou se o homem fosse absolvido, a empresa podia ser processada por difama��o. Desastre total!</p><empty-line/><p>No entanto, n�o era a surpreendente falta de emo��o em Lisbeth Salander que mais o perturbava. A �poca exigia investimento na imagem, e a imagem da Milton era a de uma estabilidade conservadora. E Lisbeth Salander correspondia t�o pouco a essa imagem quanto uma escavadeira num sal�o n�utico.</p><p>Armanskij teve dificuldade de se habituar ao fato de seu melhor c�o de ca�a ser uma jovem p�lida, de uma magreza anor�xica, com cabelos quase raspados e <emphasis>piercings</emphasis> no nariz e nas sobrancelhas. Tinha a tatuagem de uma vespa no pesco�o e uma faixa tatuada ao redor do b�ceps do bra�o esquerdo. Nas poucas vezes em que Lisbeth usara uma regata, Armanskji constatara que ela tamb�m tinha uma tatuagem maior na omoplata, representando um drag�o. Originalmente ruiva, tingira os cabelos de preto. Parecia estar sempre chegando de uma semana de farra na companhia de uma banda de <emphasis>heavy-metal.</emphasis></p><p>Ela n�o sofria de dist�rbios alimentares � Armanskij estava convencido disso. Ao contr�rio, parecia consumir qualquer tipo de comida. Simplesmente nascera magra, com uma ossatura fina que indicava um aspecto fr�gil e delicado de menina, com m�os pequenas, tornozelos estreitos e seios que mal despontavam sob as roupas. Tinha vinte e quatro anos, mas parecia ter catorze.</p><p>A boca era larga, o nariz pequeno e as ma��s do rosto altas, o que lhe dava um vago ar oriental. Tinha movimentos r�pidos e aracn�deos, e quando trabalhava no computador seus dedos voavam excitados sobre as teclas. O corpo n�o se prestava a uma carreira de modelo, mas, com uma maquiagem adequada, um primeiro plano de seu rosto n�o faria m� figura num cartaz publicit�rio. Embora �s vezes passasse nos l�bios um repugnante batom preto, e apesar das tatuagens e dos <emphasis>piercings,</emphasis> ela era... digamos... atraente. De um modo totalmente incompreens�vel.</p><p>O fato de Lisbeth Salander trabalhar para Dragan Armanskij era, em si, assombroso. Ela n�o era o tipo de mulher com quem ele cruzava habitualmente, muito menos a quem pensaria oferecer trabalho.</p><p>Ele lhe oferecera um emprego no escrit�rio depois que Holger Palmgren, um advogado semi-aposentado que cuidava dos assuntos pessoais do velho J. F. Milton, os informara que Lisbeth Salander era uma <emphasis>mo�a perspicaz, apesar do seu comportamento um pouco perturbado.</emphasis> Palmgren pedira que Armanskij desse uma oportunidade � menina, o que ele prometera, a contragosto. Palmgren era desses homens que um n�o s� faz redobrar esfor�os, de modo que o mais simples era dizer sim imediatamente. Armanskij sabia que Palmgren se encarregava de crian�as problem�ticas e de outras insignific�ncias sociais do g�nero, mas que possu�a, apesar de tudo, um bom julgamento.</p><p>Ele se arrependeu no instante em que viu Lisbeth Salander.</p><p>Ela n�o s� parecia perturbada � aos olhos dele, ela era o pr�prio sin�nimo da perturba��o � como tamb�m abandonara a escola e n�o tinha nenhum tipo de estudo superior.</p><p>Nos primeiros meses, ela trabalhou em tempo integral, ou melhor, quase em tempo integral; s� de vez em quando aparecia no trabalho. Preparava o caf�, cuidava da correspond�ncia e tirava fotoc�pias. O problema � que n�o dava a m�nima para os hor�rios normais do escrit�rio ou os m�todos de trabalho.</p><p>Em compensa��o, tinha uma grande capacidade de irritar os funcion�rios. Era chamada de <emphasis>a mo�a de dois neur�nios,</emphasis> um para respirar, o outro para se manter de p�. Nunca falava de si mesma. Os colegas que tentavam iniciar uma conversa raramente obtinham uma resposta e logo desistiam. As tentativas de brincar com ela nunca davam certo � ou porque contemplava o gracejador com grandes olhos inexpressivos, ou porque reagia com uma irrita��o manifesta.</p><p>Logo ganhou a reputa��o de irasc�vel, de mudar drasticamente de humor se enfiasse na cabe�a que algu�m estava zombando dela, comportamento bastante comum num ambiente de trabalho. Sua atitude n�o encorajava confid�ncias nem amizade, e ela rapidamente se tornou um fen�meno ocasional que vagava como um gato perdido pelos corredores da Milton. Consideravam-na totalmente irrecuper�vel.</p><p>Depois de um m�s de confus�es ininterruptas, Armanskij chamou-a � sua sala com a inten��o de despedi-la. Ela ouviu passivamente a enumera��o de seus erros, sem obje��es e sem sequer levantar a sobrancelha. Ele terminou por dizer que ela n�o tinha a <emphasis>atitude correta,</emphasis> e estava a ponto de lhe sugerir outro emprego, no qual soubessem <emphasis>tirar proveito da sua compet�ncia,</emphasis> quando foi interrompido no meio de uma frase. Pela primeira vez, ela n�o falou apenas com palavras esparsas.</p><p>� Olha, se � um criado que o senhor quer, procure algu�m na ag�ncia de empregos tempor�rios. Quanto a mim, posso descobrir qualquer coisa sobre qualquer pessoa, e se quer me usar apenas para separar a correspond�ncia, ent�o o senhor � um idiota.</p><p>Armanskij ainda lembrava o quanto ficou mudo de c�lera e de surpresa, enquanto ela continuava, sem prestar aten��o nele.</p><p>� H� na sua empresa um sujeito que dedicou tr�s semanas a escrever um relat�rio completamente nulo sobre esse <emphasis>yuppie</emphasis> que est�o pensando em recrutar como presidente do conselho administrativo de uma "pontocom", o senhor sabe do que estou falando. Fotocopiei ontem � noite o relat�rio de merda dele e, se n�o estou enganada, � esse que est� a� na sua mesa.</p><p>Armanskij p�s os olhos no relat�rio e, o que n�o era de seu feitio, elevou o tom de voz.</p><p>� Voc� n�o est� autorizada a ler relat�rios confidenciais.</p><p>� Provavelmente n�o, mas as rotinas de seguran�a na sua empresa deixam um pouco a desejar. Segundo suas instru��es, ele mesmo deve tirar a fotoc�pia, mas ele me passou o relat�rio antes de sair para o almo�o. Ali�s, h� algumas semanas o relat�rio anterior que ele tinha feito ficou esquecido na cantina.</p><p>� Como assim, esquecido? � exclamou Armanskij, chocado.</p><p>� N�o se preocupe. Guardei-o no cofre dele.</p><p>� Ele te passou a combina��o do seu cofre pessoal? � perguntou Armanskij, sufocado.</p><p>� N�o exatamente. Mas anotou num papel que deixa sobre sua mesa de trabalho, com a senha do computador. Mas o ponto aonde quero chegar � que o relat�rio que ele fez, esse seu detetive particular de araque, n�o tem o menor valor. Ele n�o descobriu que o cara tem d�vidas monumentais, que cheira coca mais que um aspirador, e que sua companheira precisou se refugiar no SOS-Mulheres porque ele a espancou.</p><p>Depois, sil�ncio. Armanskij n�o disse nada durante alguns minutos, distra�do em folhear o relat�rio. Ele era apresentado com compet�ncia, escrito numa prosa compreens�vel e carregada de refer�ncias, fontes e declara��es de amigos e conhecidos do objeto. Por fim, levantou os olhos e pronunciou duas palavras:</p><p>� Prove isso.</p><p>� Quanto tempo me d�?</p><p>� Tr�s dias. Se n�o conseguir provar suas afirma��es at� sexta-feira ao meio-dia, est� despedida.</p><empty-line/><p>Tr�s dias depois, ela entregou um relat�rio com refer�ncias de fontes igualmente expl�citas, que transformavam o agrad�vel jovem <emphasis>yuppie</emphasis> numa pessoa n�o confi�vel. Armanskij leu o relat�rio v�rias vezes durante o fim de semana e passou parte da segunda-feira numa contraverifica��o pouco entusiasmada de algumas daquelas afirma��es. Antes mesmo de come�ar o controle, sabia que as informa��es se revelariam exatas.</p><p>Armanskij estava perplexo e irritado consigo mesmo por t�-la manifestamente julgado mal. Achou-a est�pida, talvez at� um pouco retardada. N�o esperava que uma menina que falhara nos estudos e que n�o tinha sequer notas no final do col�gio pudesse escrever um relat�rio n�o somente correto do ponto de vista lingu�stico mas que apresentava tamb�m observa��es e informa��es que o faziam se perguntar como ela as tinha obtido.</p><p>Ele sabia que ningu�m na Milton Security poderia conseguir um trecho do di�rio confidencial de um m�dico do SOS-Mulheres. Quando lhe perguntou como procedera, s� obteve uma resposta evasiva. Ela disse que n�o pretendia queimar suas fontes. Aos poucos, ficou claro para Armanskij que Lisbeth Salander tamb�m n�o tinha a inten��o de discutir seus m�todos de trabalho, nem com ele nem com qualquer pessoa. Isso o inquietou, mas n�o o bastante para resistir � tenta��o de p�-la � prova.</p><p>Refletiu sobre esse ponto durante alguns dias.</p><p>Lembrou-se das palavras de Holger Palmgren quando a enviou. <emphasis>Todo mundo deve ter sua chance.</emphasis> Pensou em sua pr�pria educa��o mu�ulmana, que lhe ensinara que o dever para com Deus era ajudar os exclu�dos. Embora ele n�o acreditasse em Deus e nunca tivesse posto os p�s numa mesquita desde a adolesc�ncia, tinha a impress�o de que Lisbeth Salander era algu�m que precisava de ajuda e de um apoio s�lido. Na verdade, ele n�o realizara muitas a��es desse g�nero em sua vida.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Em vez de despedi-la, convocou Lisbeth Salander para uma conversa particular, na qual tentou entender qual era realmente o problema daquela mo�a complicada. Sua convic��o de que ela sofria de um dist�rbio s�rio se refor�ou, mas ele descobriu que por tr�s de seu perfil problem�tico escondia-se uma pessoa inteligente. Achava-a fr�gil e complicada, mas tamb�m come�ava � n�o sem espanto � a gostar dela.</p><p>Nos meses seguintes, Armanskij p�s Lisbeth Salander debaixo de suas asas. Se fosse sincero consigo mesmo, diria que se encarregava dela como de um pequeno projeto social. Dava-lhe tarefas de pesquisa simples e procurava instru�-la sobre a melhor maneira de proceder. Ela escutava com paci�ncia, ia embora e realizava a miss�o totalmente � sua maneira. Ele pediu ao respons�vel pelos servi�os t�cnicos da Milton para dar-lhe um curso b�sico de inform�tica; Salander permaneceu sem protestar em sua cadeira durante toda uma tarde, antes que o respons�vel, um pouco deslumbrado, viesse relatar que ela parecia ter mais conhecimentos de inform�tica que a maioria dos funcion�rios da empresa.</p><p>Armanskij rapidamente percebeu que, apesar das conversas sobre plano de carreira, ofertas de desenvolvimento interno e outros meios de persuas�o, Lisbeth Salander n�o tinha a inten��o de se adaptar �s rotinas da Milton. Isso o colocou diante de um dilema complicado.</p><p>Ela continuava sendo um elemento de irrita��o para os colegas. Armanskij tinha consci�ncia de que n�o aceitaria tais hor�rios aleat�rios de outro colaborador, e que numa situa��o normal lhe teria dado um ultimato, exigindo uma mudan�a. Imaginava tamb�m que, se desse um ultimato a Lisbeth Salander ou amea�asse despedi-la, ela apenas encolheria os ombros. Portanto, teria ou que se separar dela, ou aceitar que ela n�o funcionava como as pessoas normais.</p><empty-line/><p>O maior problema para Armanskij, por�m, � que ele n�o conseguia definir seus sentimentos em rela��o � mo�a. Ela era como uma comich�o desconfort�vel, repulsiva e atraente ao mesmo tempo. N�o se tratava de atra��o sexual � pelo menos n�o de algum tipo que Armanskij quisesse reconhecer.</p><p>As mulheres que ele cobi�ava eram geralmente louras e opulentas, com l�bios carnudos que ati�avam sua imagina��o. Al�m do mais, estava casado havia vinte anos com uma finlandesa chamada Ritva, que, mesmo tendo passado dos cinquenta, ainda satisfazia essas exig�ncias. Ele nunca fora infiel � digamos que vivera s� alguns raros momentos que a mulher poderia interpretar mal se ficasse sabendo �, tinha um casamento feliz e duas filhas da idade de Salander. Seja como for, n�o se interessava por meninas sem peito que de longe podiam ser confundidas com rapazes magricelas. N�o era seu estilo.</p><p>N�o obstante, come�ou a pegar-se em flagrante delito tendo sonhos acordados com Lisbeth Salander, e admitiu que n�o era totalmente indiferente � presen�a dela. Mas a atra��o, dizia Armanskij a si mesmo, vinha do fato de Salander ser para ele uma criatura ex�tica. Ele poderia ter se enamorado tamb�m do quadro de uma ninfa grega. Salander representava uma vida irreal que o fascinava mas que ele n�o podia compartilhar � e que de todo modo ela o impedia de compartilhar.</p><p>Um dia, Armanskij estava no terra�o de um caf� na pra�a Stortorget, na cidade velha, quando Lisbeth Salander chegou e instalou-se numa mesa na outra ponta do terra�o. Estava acompanhada de tr�s mo�as e de um rapaz, todos vestidos de forma semelhante. Armanskij a observou com curiosidade. Parecia t�o reservada como no escrit�rio, mesmo assim sorriu quando uma das mo�as, de cabelo roxo, lhe contou alguma coisa.</p><p>Armanskij perguntou-se como Salander reagiria se ele chegasse ao escrit�rio com cabelos verdes, um jeans rasgado e um blus�o de couro com rebites e pingentes. Seria aceito como um dos seus? Talvez � ela parecia aceitar tudo ao redor com um ar de <emphasis>tanto faz, n�o estou nem a�</emphasis> �, mas o mais prov�vel � que zombasse dele.</p><p>Ela estava de costas e n�o olhou uma �nica vez para o lado dele, parecendo ignorar que ele estivesse ali. Mas Armanskij sentiu-se estranhamente perturbado pela presen�a dela quando, passado um momento, levantou-se para sair de mansinho e ela virou a cabe�a, o mirou bem nos olhos, como se soubesse o tempo todo que ele estava ali e o tivesse sob vigil�ncia. Seu olhar o atingiu t�o de repente que ele o sentiu como um ataque; fingiu n�o v�-la e deixou o terra�o com passos r�pidos. Ela n�o o chamou, mas o seguiu com os olhos, e esse olhar n�o cessou de arder em suas costas at� ele dobrar a esquina.</p><p>Ela raramente ria. Armanskij, no entanto, tinha a impress�o de haver notado um abrandamento nela. Seu humor era seco e eventualmente acompanhado de um leve sorriso ir�nico.</p><p>�s vezes, Armanskij sentia-se t�o provocado pela falta de resposta emocional de Lisbeth Salander que tinha vontade de sacudi-la e abrir uma passagem nessa carapa�a para conquistar sua amizade ou pelo menos seu respeito.</p><p>Numa �nica ocasi�o, quando fazia nove meses que ela trabalhava para ele, tentou discutir esses sentimentos com ela. Foi numa noite de dezembro, na festa de Natal da Milton Security, e dessa vez ele bebera bastante. Nada de inconveniente se passou � ele apenas tentou dizer que gostava muito dela. Sobretudo, quis explicar que tinha um instinto de prote��o por ela e que, se um dia ela precisasse de alguma coisa, podia procur�-lo com toda a confian�a. Tentou mesmo abra��-la � amigavelmente, � claro.</p><p>Ela se desvencilhou desse abra�o desajeitado e foi embora da festa. N�o apareceu mais no escrit�rio nem atendia o celular. Dragan Armanskij viveu sua aus�ncia como uma tortura � quase como uma puni��o pessoal. N�o tinha ningu�m com quem dividir seus sentimentos, e pela primeira vez compreendeu, com uma lucidez aterradora, o poder devastador que Lisbeth Salander tinha sobre ele.</p><empty-line/><p>Tr�s semanas depois, numa noite de janeiro, quando Armanskij fazia hora extra para verificar o balancete do ano, Salander voltou. Entrou na sala suavemente como um fantasma e de s�bito ele a percebeu junto � porta, observando-o dali da penumbra. N�o tinha a menor id�ia de quanto tempo fazia que ela estava ali.</p><p>� Quer caf�? � ela perguntou, estendendo-lhe um copinho da m�quina de caf� expresso da cantina.</p><p>Sem dizer uma palavra, ele pegou o copinho e sentiu ao mesmo tempo al�vio e temor quando ela fechou a porta com a ponta do p� e instalou-se na poltrona dos visitantes, olhando-o bem nos olhos. A seguir, fez a pergunta tabu de tal modo que ele nem p�de despach�-la com um gracejo nem contorn�-la.</p><p>� Dragan, voc� sente tes�o por mim?</p><p>Armanskij ficou como que paralisado, refletindo como um louco sobre que resposta dar. Seu primeiro impulso foi negar, com ar ofendido. Depois, viu o olhar dela e entendeu que, pela primeira vez, ela perguntava alguma coisa. Uma pergunta s�ria e, se ele tentasse se safar com um gracejo, ela tomaria aquilo como um insulto pessoal. Ela queria falar com ele, e ele se perguntou h� quanto tempo ela estava reunindo coragem para fazer essa pergunta. Depositando a caneta bem devagar sobre a mesa, ele se reclinou na poltrona e, por fim, conseguiu relaxar.</p><p>� O que a faz supor isso? � perguntou.</p><p>� A maneira como me olha e a maneira como n�o me olha. E �s vezes em que esteve a ponto de estender a m�o para me tocar e se conteve.</p><p>Ele sorriu de repente.</p><p>� Eu tinha a impress�o de que voc� morderia a minha m�o se eu tocasse um dedo em voc�.</p><p>Ela n�o sorriu. Esperava.</p><p>� Lisbeth, sou seu chefe e, mesmo que estivesse atra�do por voc�, nunca faria um gesto.</p><p>Ela continuava esperando.</p><p>� Entre n�s, sim, houve momentos em que me senti atra�do. N�o consigo explicar, mas aconteceu. Por uma raz�o que eu mesmo n�o entendo, gosto imensamente de voc�. Mas n�o � nada f�sico.</p><p>� Melhor assim. Porque nunca haver� nada entre n�s.</p><p>Armanskij soltou uma risada. Mesmo dando a informa��o mais negativa que um homem podia receber, Salander acabava de lhe falar, de certa maneira, com intimidade. Ele buscou as palavras apropriadas.</p><p>� Lisbeth, entendo que n�o esteja interessada em um velho com mais de cinquenta anos.</p><p>� N�o estou interessada num velho com mais de cinquenta anos <emphasis>que � meu chefe.</emphasis> � Ela ergueu a m�o. � Espere, deixe-me falar. �s vezes voc� � tacanho e insuport�vel com esse seu jeito de burocrata, mas o fato � que tamb�m � um homem atraente e... eu tamb�m posso me sentir... S� que voc� � meu chefe, eu conheci sua mulher, quero conservar esse emprego na firma, e a pior coisa que eu poderia fazer seria ter um caso com voc�.</p><p>Amanskij ficou em sil�ncio, ele mal ousava respirar.</p><p>� Estou perfeitamente consciente do que fez por mim, e n�o sou uma ingrata. Aprecio de verdade que tenha passado por cima dos preconceitos e tenha me dado uma chance aqui. Mas n�o o quero como amante e voc� n�o � meu pai.</p><p>Ela se calou. Depois de um momento, Armanskij suspirou, desamparado.</p><p>� O que quer de mim ent�o?</p><p>� Quero continuar trabalhando para voc�. Se acha isso conveniente. Ele assentiu com a cabe�a e em seguida respondeu com a maior franqueza poss�vel.</p><p>� Realmente, tenho muita vontade que trabalhe para mim. Mas tamb�m quero que sinta alguma forma de amizade e de confian�a por mim.</p><p>Ela concordou com a cabe�a.</p><p>� Voc� n�o � uma pessoa que incite � amizade � ele disparou de repente. Ela se contraiu um pouco, por�m ele prosseguiu, inexor�vel. � Entendi que n�o quer que se envolvam com a sua vida e tentarei n�o fazer isso. Mas tudo bem se continuo a gostar de voc�?</p><p>Salander refletiu por um bom tempo. Sua resposta, ent�o, foi se levantar, contornar a mesa e abra��-lo. Ele ficou paralisado. Somente quando ela o soltou, ele pegou sua m�o.</p><p>� Podemos ser amigos? � ele perguntou. Ela concordou com a cabe�a mais uma vez.</p><p>Foi a �nica ocasi�o em que ela lhe mostrara ternura e a �nica em que o tocara. Um momento de que Armanskij se lembrava sempre com emo��o.</p><p>Quatro anos haviam transcorrido agora, e ela quase nada revelara a Armanskij sobre sua vida pessoal ou sobre seu passado. Uma vez, ele direcionou a ela sua pr�pria compet�ncia na arte da investiga��o. Teve tamb�m uma longa conversa com Holger Palmgren � que n�o pareceu surpreso de ouvi-lo �, e o que acabou por saber em nada contribuiu para aumentar sua confian�a. Nunca discutiu esse assunto com ela, nunca fez a menor alus�o nem lhe deu a entender que vasculhara sua vida privada. Em vez disso, ocultou sua inquieta��o e refor�ou a vigil�ncia.</p><empty-line/><p>Antes que essa memor�vel noitada terminasse, Salander e Armanskij chegaram a um acordo. Ela passaria a trabalhar para ele como <emphasis>freelancer.</emphasis> Receberia um pequeno pagamento mensal fixo, quer realizasse ou n�o miss�es; os verdadeiros rendimentos viriam das faturas que apresentasse em cada miss�o. Trabalharia como bem entendesse; em contrapartida, ela se comprometeria a nunca fazer nada que prejudicasse ou criasse problemas para a Milton Security.</p><p>De acordo com Armanskji, era uma solu��o vantajosa para a empresa, para ele mesmo e para Salander. Ele restringiu o penoso servi�o das IP a um �nico funcion�rio fixo, um colaborador muito jovem que desempenhava corretamente as tarefas rotineiras e cuidava das informa��es sobre solv�ncia. Todas as miss�es complicadas e duvidosas, ele reservou a Salander e a outros <emphasis>freelancers</emphasis> que � se as coisas sa�ssem mal � eram seus pr�prios patr�es e pelos quais a Milton Security n�o precisava responder. Como ele lhe passava miss�es com frequ�ncia, ela obtinha rendimentos confort�veis. Rendimentos que at� poderiam ser bem mais elevados, por�m ela trabalhava somente quando tinha vontade, segundo o princ�pio de que, se Armanskij n�o gostasse, bastava dispens�-la.</p><p>Armanskij a aceitou tal como era, com a condi��o de que n�o devia se encontrar com os clientes. Quase nunca havia exce��es a essa regra, mas o caso que hoje se apresentava era, infelizmente, uma delas.</p><empty-line/><p>Naquele dia, Lisbeth Salander vestia uma camiseta preta com uma imagem do E. T. exibindo dentes ferozes e as palavras I <emphasis>am also an alien.</emphasis> Usava saia preta com a bainha desfeita, uma jaqueta curta de couro tamb�m preta e ralada, cinto com rebites, botas Doc. Martens e meias com listas transversais vermelhas e verdes, subindo at� os joelhos. A maquiagem indicava que talvez fosse dalt�nica. Ou seja, apresentava-se com o maior esmero.</p><p>Armanskij suspirou e dirigiu o olhar � terceira pessoa presente na sala � um visitante de aspecto antiquado e �culos com lentes espessas. O advogado Dirch Frode tinha sessenta e oito anos e insistira para se encontrar com o autor do relat�rio, a fim de lhe fazer algumas perguntas. Armanskij tentou evitar o encontro recorrendo a falsos expedientes, dizendo que Salander estava gripada, que estava viajando e �s voltas com outros trabalhos. Frode respondera despreocupadamente que n�o tinha pressa � o caso n�o era urgente e ele podia esperar mais alguns dias sem problema. Armanskij praguejou em voz baixa e n�o achou outra sa�da sen�o reuni-los. Agora Frode observava Lisbeth Salander com evidente fasc�nio. Salander respondeu com um olhar furioso, sua express�o indicando claramente que n�o nutria a menor simpatia por ele.</p><p>Armanskij suspirou mais uma vez e olhou para o dossi� que ela depositara em cima da mesa, com o t�tulo <emphasis>Carl Mikael Blomkvist.</emphasis> O nome era acompanhado de um n�mero de registro, meticulosamente escrito na capa. Ele pronunciou o nome em voz alta. Frode saiu de seu estado de enfeiti�amento e voltou os olhos para Armanskij.</p><p>� Bem, o que pode me dizer sobre Mikael Blomkvist? � perguntou.</p><p>� Esta � a senhorita Salander, que redigiu o relat�rio. � Armanskji hesitou um segundo e prosseguiu com um sorriso destinado a transmitir confian�a a Frode, mas que sobretudo pedia desculpas desamparadas. � N�o se surpreenda com a juventude dela. � sem d�vida nossa melhor investigadora.</p><p>� Estou certo disso � respondeu Frode com uma voz seca que indicava o contr�rio. � Conte-me o que ela descobriu.</p><p>Evidentemente o advogado n�o fazia a menor id�ia de que comportamento adotar com Lisbeth Salander e procurava pisar um terreno mais seguro dirigindo a pergunta a Armanskij, como se ela n�o estivesse na sala. Salander aproveitou a ocasi�o para fazer uma grande bola com seu chiclete. Antes que Armanskij tivesse tempo de responder, ela falou ao chefe como se Frode n�o existisse.</p><p>� Pode ver com o seu cliente se ele deseja a vers�o longa ou a resumida?</p><p>Na mesma hora Frode percebeu a gafe que cometera. Seguiu-se um breve e penoso sil�ncio, ent�o ele se virou para Lisbeth Salander e tentou corrigir o erro adotando um tom gentilmente paternal.</p><p>� Eu ficaria muito grato, senhorita, se pudesse me fazer um resumo do que descobriu.</p><p>Salander parecia uma fera cruel das savanas espreitando Dirch Frode para devor�-lo. Havia em seu olhar um �dio t�o intenso e inesperado que Frode sentiu um arrepio nas costas. Rapidamente o rosto dela suavizou-se. Frode se perguntou se o que vira naquele olhar fora imagina��o. Quando ela come�ou a falar, seu tom de voz era o de um funcion�rio de Estado.</p><p>� Antes de mais nada, permita-me dizer que essa miss�o n�o foi especialmente complicada, a n�o ser pelo fato de que a descri��o das tarefas a cumprir era bastante vaga. O senhor queria que bisbilhot�ssemos por toda parte para descobrir tudo a respeito dele, mas esqueceu de indicar se buscava algo em particular. Raz�o pela qual chegamos a uma esp�cie de amostra de sua vida. O relat�rio cont�m cento e noventa e tr�s p�ginas, mas cento e vinte s�o, na verdade, c�pias de artigos que ele escreveu ou recortes de imprensa nos quais aparece. Blomkvist � uma figura p�blica com poucos segredos e n�o tem muito a esconder.</p><p>� Mas ent�o ele tem segredos? � perguntou Frode.</p><p>� Todo mundo tem segredos � ela respondeu, imperturb�vel. � Trata-se apenas de descobrir quais.</p><p>� Sou todo ouvidos.</p><p>� Mikael Blomkvist nasceu em 18 de janeiro de 1960, portanto logo completar� quarenta e tr�s anos. Nasceu em Borl�nge, mas nunca morou l�. Seus pais, Kurt e Anita Blomkvist, tinham cerca de trinta e cinco anos quando ele nasceu; atualmente os dois s�o falecidos. O pai era instalador de m�quinas e devia se deslocar bastante; a m�e nunca foi sen�o dona de casa, pelo que entendi. A fam�lia mudou-se para Estocolmo quando Mikael come�ou a escola. Ele tem uma irm� tr�s anos mais nova, ela se chama Annika e � advogada. Tem tamb�m tios e primos... E esse caf�, vem ou n�o vem?</p><p>A �ltima frase era dirigida a Armanskij, que sem demora abriu a garrafa t�rmica que ele pedira para a reuni�o. Com um gesto, convidou Salander a continuar.</p><p>� Em 1966, portanto, a fam�lia se mudou para Estocolmo. Moravam em Lilla Essingen. Blomkvist cursou a escola prim�ria e secund�ria em Bromma, depois fez o colegial em Kungsholmen. Suas notas de final de curso foram excelentes, encontrar� c�pias delas no dossi�. Quando estava no col�gio, fazia m�sica, tocava baixo num grupo de rock, os Bootstrap, que teve at� um compacto tocado no r�dio, no ver�o de 1979. Depois do col�gio, trabalhou como vigia no metr�, juntou dinheiro para viajar ao exterior. Esteve fora um ano, passeando principalmente pela �sia � �ndia, Tail�ndia e uma breve estadia na Austr�lia. Come�ou a estudar jornalismo em Estocolmo quando tinha vinte e um anos, mas interrompeu o curso ao cabo de um ano para prestar o servi�o militar no regimento de ca�adores, em Kiruna. Uma esp�cie de unidade de machos, da qual saiu com notas 10-9-9, o que � um bom resultado. Depois do servi�o militar, formou-se jornalista e come�ou a trabalhar. At� onde devo ir com os detalhes?</p><p>� Conte tudo que lhe pare�a essencial.</p><p>� Certo. Ele � sobretudo o tipo primeiro da classe. At� hoje tem sido um jornalista talentoso. Nos anos 1980, fez uma s�rie de servi�os tempor�rios, primeiro na imprensa do interior, depois em Estocolmo. A lista est� no dossi�.</p><p>Mas se tornou realmente conhecido com a hist�ria dos Irm�os Metralha � o bando de assaltantes que ele ajudou a prender.</p><p>� Super-Blomkvist.</p><p>� Ele detesta esse apelido, o que � compreens�vel. Eu deixaria algu�m de olho roxo se me chamassem de P�ppi Meialonga numa manchete de jornal.</p><p>Ela lan�ou um olhar sombrio para Armanskij, que engoliu em seco. Mais de uma vez, ele pensara em Lisbeth Salander justamente como P�ppi Meialonga, e felicitou-se por nunca haver soltado esse gracejo. Fez sinal para que ela prosseguisse, agitando o indicador no ar.</p><p>� Uma fonte diz que at� ent�o ele queria ser rep�rter criminal, chegou mesmo a fazer um trabalho tempor�rio nessa se��o num jornal vespertino, mas o que o tornou famoso foi sua atua��o como investigador pol�tico e econ�mico. Trabalhou principalmente como <emphasis>freelancer</emphasis> e teve um �nico emprego fixo num jornal vespertino, no final dos anos 1980. Pediu demiss�o em 1990, quando participou da cria��o da revista mensal <emphasis>Millennium.</emphasis> Ela come�ou como zebra, sem um editor de peso que a bancasse. A tiragem aumentou, hoje est� em torno de vinte e um mil exemplares. A reda��o est� instalada na G�tgatan, a poucas ruas daqui.</p><p>� Uma publica��o de esquerda.</p><p>� Tudo depende de como se define esquerda. A <emphasis>Millennium</emphasis> � tida como uma revista de cr�tica � sociedade, mas algo me diz que os anarquistas a v�em como uma publica��o pequeno-burguesa do mesmo fil�o da <emphasis>Arena</emphasis> ou da <emphasis>Ordfront,</emphasis> enquanto a Uni�o dos Estudantes Moderados provavelmente pensa que a reda��o � composta de bolchevistas. Nada indica que Blomkvist tenha exercido uma atividade pol�tica, mesmo durante a onda esquerdista do seu tempo de col�gio. Quando estava na faculdade de jornalismo, viveu com uma militante sindicalista que hoje ocupa uma cadeira no Parlamento pelo partido da esquerda. O r�tulo de esquerdista se deve sobretudo ao fato de ele ter se especializado, como jornalista econ�mico, em reportagens que revelaram a corrup��o e neg�cios suspeitos no mundo empresarial. Ele fez algumas descri��es devastadoras de empres�rios e pol�ticos, sem d�vida nenhuma bem merecidas, e est� na origem de um bom n�mero de demiss�es e processos jur�dicos. O mais conhecido � o caso Arboga, que resultou na demiss�o for�ada de um pol�tico conservador e na senten�a de um ano de pris�o dada a um ex-tesoureiro municipal, por desvio de verba. Denunciar delitos dificilmente pode ser considerado uma atitude de esquerda.</p><p>� Entendo o que quer dizer. E o que mais?</p><p>� Ele escreveu dois livros. Um sobre o caso Arboga e outro sobre jornalismo econ�mico, intitulado <emphasis>Os templ�rios</emphasis> e publicado h� tr�s anos. N�o li, mas, a julgar pelas cr�ticas, o livro � bastante controvertido e suscitou muitos debates na m�dia.</p><p>� E quanto a dinheiro?</p><p>� Ele n�o � rico, mas n�o tem do que se queixar. Suas declara��es de renda est�o anexadas ao dossi�. Tem pouco mais de duzentas e cinquenta mil coroas no banco, aplicadas num plano de aposentadoria e num fundo de poupan�a. Disp�e de cerca de cem mil coroas na conta corrente, que usa para as despesas normais, viagens et cetera. Possui um apartamento que comprou financiado e j� terminou de pagar. Sessenta e cinco metros quadrados na Bellmansgatan. N�o fez empr�stimos nem d�vidas.</p><p>Salander levantou um dedo.</p><p>� Ele possui ainda um outro bem: uma propriedade rural em Sandhamn. � uma cabana de vinte e cinco metros quadrados, que funciona como casa de f�rias, situada � beira-mar, na parte mais atraente da aldeia. Ao que parece foi comprada por um dos tios nos anos 1940, quando os simples mortais ainda podiam se oferecer esse tipo de coisa, e foi por causa da heran�a que a cabana passou a pertencer a Blomkvist. Ele e a irm� dividiram os bens, ela ficou com o apartamento dos pais em Lilla Essingen e Mikael Blomkvist com a cabana. N�o sei quanto ela vale hoje, com certeza alguns milh�es, mas ele n�o parece querer vend�-la e vai para l� com bastante frequ�ncia.</p><p>� Seus rendimentos?</p><p>� � co-propriet�rio da <emphasis>Millennium,</emphasis> mas retira apenas doze mil coroas de sal�rio mensal. Compensa com atividades de <emphasis>freelancer;</emphasis> no final, a soma � vari�vel. Atingiu um pico h� tr�s anos, quando recebeu muitas solicita��es da m�dia, o que lhe rendeu cerca de quatrocentas e cinquenta mil coroas no ano. No ano passado, seus honor�rios n�o foram al�m de cento e vinte mil.</p><p>� Ele vai ter que pagar cento e cinquenta mil por perdas e danos, mais as custas do advogado e coisas desse tipo � constatou Frode. � Pode-se dizer que a soma ser� elevada, sem esquecer que ele n�o ter� rendimentos enquanto estiver cumprindo a pena de pris�o.</p><p>� O que significa que sair� sem nada no bolso � observou Salander.</p><p>� Ele � honesto? � perguntou Dirch Frode.</p><p>� E o seu capital de confian�a, por assim dizer. Ele insiste em se apresentar como um s�lido guardi�o da moral no mundo das empresas, e seguidamente � convidado a ir � televis�o para comentar diversos casos.</p><p>� Certamente n�o restar� muita coisa desse capital ap�s o julgamento de hoje � disse Frode com ar pensativo.</p><p>� N�o estou muito por dentro do que se exige de um jornalista, mas depois dessa bofetada certamente vai demorar muito at� o Super-Blomkvist receber o Grande Pr�mio de Jornalismo. Ele se queimou magistralmente � constatou Salander com lucidez. � Mas se me permite uma reflex�o pessoal...</p><p>Armanskij abriu bem os olhos. Nos anos em que Lisbeth Salander vinha trabalhando para ele, nunca emitira a menor reflex�o pessoal numa investiga��o sobre um indiv�duo. Para ela, contavam apenas os fatos brutos, mas hoje abria uma exce��o.</p><p>� N�o competia � minha miss�o examinar o caso Wennerstr�m, mas acompanhei o processo e confesso que fiquei perplexa. Todo o caso parece muito mal contado, e � totalmente... totalmente improv�vel que Mikael Blomkvist publicasse algo a tal ponto sem fundamento.</p><p>Salander co�ou o queixo. Frode parecia aguardar com paci�ncia. Armanskij se perguntou se estava enganado ou se Salander n�o sabia realmente como prosseguir. A Salander que ele conhecia nunca se mostrava indecisa nem hesitante. Por fim ela se decidiu.</p><p>� Isto ficar� fora do relat�rio... realmente n�o mergulhei no caso Wennerstr�m, mas acho que o Super-Blomkvist... perd�o, Mikael Blomkvist, caiu numa armadilha. Acho que h� nessa hist�ria algo bem diferente daquilo que a senten�a indica.</p><p>Dessa vez, foi Dirch Frode que se ergueu de repente na poltrona. O advogado examinou Salander com aten��o e Armanskij notou que, pela primeira vez desde o in�cio da exposi��o, ele mostrava um interesse que ia al�m da simples polidez. De in�cio, Armanskij achou que o caso Wennerstr�m representava aparentemente algo bem preciso para Frode. Mas logo se corrigiu. <emphasis>Na verdade, o caso Wennerstr�m n�o interessa a Frode</emphasis> � <emphasis>foi somente quando Salander insinuou que Blomkvist se deixou pegar que Frode reagiu.</emphasis></p><p>� O que est� querendo dizer exatamente?</p><p>� Simples especula��o, mas estou convencida de que algu�m o enganou.</p><p>� E o que a faz supor isso?</p><p>� Tudo no passado de Blomkvist indica que ele � um jornalista muito prudente. Todas as revela��es pass�veis de controv�rsia que ele fez sempre foram muito bem documentadas. Assisti a uma sess�o do julgamento. Ele n�o forneceu argumentos contradit�rios; pareceu ter abandonado a luta, o que n�o combina com seu car�ter. A acreditar no tribunal, ele fabricou uma hist�ria sobre Wennerstr�m sem nenhuma prova e a publicou como se fosse um jornalista camicase, e esse n�o � de modo algum o estilo de Blomkvist.</p><p>� O que aconteceu, na sua opini�o?</p><p>� Posso apenas especular. Blomkvist acreditou na sua hist�ria, mas algo aconteceu no caminho e a informa��o se revelou falsa. Isso significa que a fonte era algu�m em quem ele confiava, ou ent�o que algu�m deliberadamente lhe passou informa��es erradas, o que me parece complicado e inveross�mil. A alternativa pode ser ele ter sido exposto a uma amea�a t�o grave que preferiu jogar a toalha e passar por um imbecil incompetente em vez de entrar na luta. Mas, como eu disse, s�o s� especula��es.</p><empty-line/><p>Salander se preparava para prosseguir seu relato, quando Dirch Frode a interrompeu com um gesto. Ficou um momento silencioso tamborilando com a ponta dos dedos no bra�o da cadeira, antes de se voltar novamente para ela com alguma hesita��o.</p><p>� Se quis�ssemos contrat�-la para desvendar o caso Wennerstr�m... quais seriam suas chances de descobrir alguma coisa?</p><p>� N�o sei dizer. Talvez n�o haja nada para descobrir.</p><p>� Mas aceitaria tentar? Ela encolheu os ombros.</p><p>� N�o cabe a mim decidir. Trabalho para Dragan Armanskij e � ele quem decide que tarefas deseja me atribuir. Depois, depende do tipo de informa��o que o senhor quer descobrir.</p><p>� Deixe-me p�r as coisas assim... Presumo que esta conversa seja confidencial, n�o? � Armanskij assentiu com a cabe�a. � Nada sei sobre esse caso, mas sei, de forma incontest�vel, que Wennerstr�m foi desonesto em outros contextos. Esse caso teve um impacto enorme na vida de Mikael Blomkvist e eu gostaria de saber se suas especula��es poderiam conduzir a algum lugar.</p><p>A conversa tomara um rumo inesperado e Armanskij imediatamente ficou alerta. O que Dirch Frode pedia era que a Milton Security aceitasse investigar um caso judici�rio j� julgado, no qual talvez tivesse ocorrido alguma forma de amea�a il�cita contra Mikael Blomkvist e no qual a Milton potencialmente se arriscava a entrar em colis�o com o ex�rcito de advogados de Wennerstr�m. Armanskij n�o estava nem um pouco tentado pela id�ia de lan�ar Lisbeth Salander em tal situa��o, como um m�ssil descontrolado.</p><p>N�o se tratava apenas de preocupa��o com a tarefa. Salander j� dissera claramente que n�o queria ver Armanskij desempenhando o papel de pai adotivo angustiado, e depois do acordo que fizeram ele evitava comportar-se como tal, mas interiormente nunca deixaria de se preocupar com ela. �s vezes, surpreendia-se comparando Salander com as pr�prias filhas. Considerava-se um bom pai que n�o interferia inutilmente na vida das filhas, mas sabia que jamais aceitaria que elas se comportassem ou vivessem como Lisbeth Salander.</p><p>No fundo do seu cora��o croata � ou b�snio, talvez, ou arm�nio �, ele nunca conseguira se libertar de uma convic��o de que a vida de Salander era uma corrida rumo ao desastre. A seus olhos, ela se oferecia como v�tima ideal para algu�m com m�s inten��es, e ele temia ser despertado uma manh� com a not�cia de que algu�m lhe fizera mal.</p><p>� O custo de uma investiga��o como essa pode ser muito alto � disse Armanskij com prud�ncia, para sondar a seriedade da proposta de Frode.</p><p>� Precisamos apenas fixar um teto � replicou Frode, perspicaz. � N�o estou pedindo o imposs�vel, mas � evidente que sua colaboradora, como voc� afirmou, � competente.</p><p>� Salander? � disse Armanskij, erguendo uma sobrancelha em dire��o a ela.</p><p>� N�o tenho nenhum outro trabalho em andamento.</p><p>� Certo. Mas eu gostaria que cheg�ssemos a um acordo sobre algumas formalidades. Vamos ouvir o resto do relat�rio.</p><p>� N�o h� muita coisa mais, exceto detalhes sobre a vida privada dele. Em 1986 casou-se com uma tal Monica Abrahamsson, e no mesmo ano tiveram uma filha chamada Pernilla, hoje com dezesseis anos. O casamento n�o durou muito, em 1991 eles se divorciaram. Abrahamsson voltou a se casar, mas parece que os dois continuam tendo boas rela��es. A filha mora com a m�e e n�o v� Blomkvist com muita frequ�ncia.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Frode pediu uma segunda x�cara de caf� e voltou-se outra vez para Salander.</p><p>� H� pouco voc� deu a entender que todo mundo tem segredos. Descobriu algum?</p><p>� Eu quis dizer que as pessoas t�m coisas que consideram privadas e que n�o costumam expor. Blomkvist parece apreciar o conv�vio com as mulheres. Teve v�rias hist�rias de amor e muitas liga��es ocasionais. Em suma, tem uma vida sexual intensa. No entanto, existe uma pessoa em sua vida j� h� muitos anos e o relacionamento deles � bastante incomum.</p><p>� Em que sentido?</p><p>� Ele tem um relacionamento sexual com Erika Berger, diretora da <emphasis>Millennium;</emphasis> filha da alta sociedade, de m�e sueca e pai belga radicado na Su�cia. Berger e Blomkvist se conheceram na faculdade de jornalismo e desde ent�o t�m uma liga��o mais ou menos constante.</p><p>� N�o parece t�o incomum � observou Frode.</p><p>� Certamente n�o. Mas Erika Berger � casada com o artista pl�stico Lars Beckman, um sujeito ligeiramente famoso, que espalhou uma por��o de instala��es horrorosas em lugares p�blicos.</p><p>� Ou seja, ela � infiel.</p><p>� N�o. Beckman sabe do relacionamento deles. � um <emphasis>m�nage � trois,</emphasis> aparentemente aceito pelas partes. �s vezes ela dorme na casa de Blomkvist, �s vezes na casa do marido. N�o sei bem como a coisa funciona, mas sem d�vida foi o que fez acabar o casamento de Blomkvist e de Monica Abrahamsson.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>3.� SEXTA-FEIRA 20 DE DEZEMBRO � S�BADO 21 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Erika Berger levantou as sobrancelhas quando um Mikael Blomkvist visivelmente morto de frio chegou � reda��o j� no final da tarde. O escrit�rio da <emphasis>Millennium</emphasis> ficava na G�tgatan, na parte alta da rua, um andar acima da sede do Greenpeace. O aluguel, na verdade, era um pouco superior aos recursos da revista, mas Erika, Mikael e Christer julgavam que deviam conservar o local.</p><p>Ela olhou seu rel�gio: cinco e dez. J� havia algum tempo que escurecera em Estocolmo. Achando que ele voltaria mais cedo, ela o esperara para o almo�o.</p><p>� Desculpe o atraso � ele falou, antes que ela tivesse tempo de dizer alguma coisa. � Eu queria ficar sozinho, n�o estava com vontade de falar. Sa� andando por a� para pensar.</p><p>� Ouvi a senten�a pelo r�dio. Uma mo�a da TV4 telefonou, queria uma declara��o minha.</p><p>� E o que voc� disse?</p><p>� Mais ou menos o que j� t�nhamos decidido, que vamos estudar o veredicto detalhadamente antes de nos pronunciarmos. Ou seja, n�o disse nada. E a minha opini�o continua a mesma: acho que n�o � uma boa estrat�gia nos colocarmos numa posi��o de fraqueza e perdermos o apoio da m�dia. A tev� deve abordar o assunto hoje � noite.</p><p>Abatido, Blomkvist assentiu com a cabe�a.</p><p>� Como est� se sentindo?</p><p>Ele encolheu os ombros e deixou-se cair em sua poltrona preferida em frente � janela da sala de Erika. A pe�a era escassamente mobiliada: uma mesa de trabalho, uma estante funcional e m�veis de escrit�rio baratos. Foram comprados na Ikea, com exce��o de duas poltronas confort�veis e extravagantes, e de uma pequena mesa baixa � uma concess�o � minha educa��o, como ela costumava gracejar. Quando queria fazer uma pausa Erika geralmente se instalava numa das poltronas, com os p�s recolhidos. Mikael olhava pela janela. Embaixo, na penumbra, pedestres apressados galopavam pela G�tgatan. A histeria das compras de Natal chegava � reta final.</p><p>� Suponho que vai passar � disse ele. � Mas neste momento � como se eu acabasse de levar uma tremenda surra.</p><p>� Sim, � mais ou menos isso, e o mesmo vale para todos n�s. Janne Dahlman foi embora hoje de manh� para casa.</p><p>� Imagino que ele n�o tinha ilus�es quanto � senten�a.</p><p>� N�o � exatamente o homem mais otimista que eu j� conheci. Mikael assentiu com a cabe�a. Janne Dahlman era secret�rio de reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> havia nove meses. Entrou quando o caso Wennerstr�m estava come�ando e viu-se numa reda��o em crise. Mikael tentou lembrar a conversa que tiveram, ele e Erika, quando decidiram contrat�-lo. Era um jovem competente, sua passagem pela TT o familiarizara com as assessorias de imprensa, e trabalhara como tempor�rio em jornais vespertinos e na r�dio. Mas n�o era algu�m pronto para enfrentar tempestades. Durante o ano que terminava, Mikael se arrependeu v�rias vezes de ter contratado Dahlman, que tinha uma tend�ncia profundamente irritante de ver tudo sob os aspectos mais negativos.</p><p>� Teve not�cias do Christer? � perguntou Mikael sem desviar o olhar da rua.</p><p>Christer Malm, respons�vel pela ilustra��o e diagrama��o da <emphasis>Millennium,</emphasis> era co-propriet�rio da revista com Erika e Mikael, e no momento estava no exterior, viajando com o namorado.</p><p>� Ele telefonou, te mandou um abra�o.</p><p>� Ele vai ter de ficar no meu lugar como editor.</p><p>� Espere a�, Micke, voc� deveria saber que um editor respons�vel leva muitos socos no nariz, faz parte do jogo.</p><p>� Sim, eu sei. Mas acontece que eu � que redigi o texto que foi publicado na revista da qual eu sou o redator-chefe, ou, mais exatamente, o editor respons�vel. Isso muda tudo. Isso se chama erro de avalia��o.</p><p>Erika Berger sentiu que a ansiedade que o acompanhara o dia todo estava a ponto de explodir. Antes do julgamento, nas �ltimas semanas, Mikael Blomkvist estivera mal-humorado, mas ela n�o o sentira t�o tristonho e resignado como parecia estar agora, no momento da derrota. Ela contornou a mesa de trabalho, sentou-se de pernas abertas sobre os joelhos dele e passou os bra�os em volta de seu pesco�o.</p><p>� Mikael, escute. Sabemos bem como tudo aconteceu. Sou t�o respons�vel quanto voc�. Temos que enfrentar essa tempestade.</p><p>� N�o h� tempestade para enfrentar. Essa senten�a significa que levei um tiro na nuca, que estou morto do ponto de vista da m�dia. N�o posso continuar dirigindo a <emphasis>Millennium.</emphasis> A credibilidade da revista est� em jogo, � preciso reduzir os preju�zos. Voc� sabe t�o bem quanto eu.</p><p>� Se acha que pretendo deix�-lo assumir o erro sozinho, ent�o voc� nunca entendeu, nesses anos todos, como eu funciono.</p><p>� Sei exatamente como voc� funciona, Ricky. Voc� � de uma lealdade cega com seus colegas. Se pudesse se lan�ar contra os advogados de Wennerstr�m, faria isso at� tamb�m perder sua credibilidade. Precisamos ser mais inteligentes.</p><p>� E acha inteligente abandonar o navio como se eu tivesse te despedido?</p><p>� J� falamos sobre isso centenas de vezes. Se a <emphasis>Millennium</emphasis> deve sobreviver, cabe a voc� comandar. Christer � um cara �timo, um sujeito que entende de fotografia e diagrama��o, mas enfrentar bilion�rios n�o � o forte dele. � preciso que eu desapare�a da <emphasis>Millennium</emphasis> por algum tempo como publisher, jornalista e membro da equipe; voc� fica no meu lugar. Wennerstr�m sabe que eu sei o que ele faz, e estou convencido de que, enquanto eu estiver ligado � revista, far� o poss�vel para afund�-la. N�o podemos permitir isso.</p><p>� Mas por que ent�o n�o contar o que se passou? Ou vai ou racha!</p><p>� Porque n�o podemos provar nada e porque neste momento n�o tenho credibilidade nenhuma. Wennerstr�m ganhou esse <emphasis>round.</emphasis> Ponto final.</p><p>� Est� bem, eu despe�o voc�. E o que vai fazer em seguida?</p><p>� Preciso de um tempo, s� isso. Estou completamente esgotado, entrei de cabe�a na parede, como se diz. Vou cuidar de mim durante algum tempo. Depois veremos.</p><p>Erika estreitou Mikael com for�a nos bra�os e encostou a cabe�a no peito dele. Ficaram em sil�ncio por alguns minutos.</p><p>� Quer companhia esta noite? � ela perguntou. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Eu j� tinha avisado Lars que dormiria na sua casa hoje.</p><empty-line/><p>A �nica fonte de luz do quarto era a ilumina��o da rua que entrava pela janela. Erika adormecera pouco depois das duas da manh� e Mikael, ainda acordado, observava o perfil dela na penumbra. A colcha a cobria at� a cintura e ele observou os seios erguendo-se e abaixando-se num ritmo lento. Estava apaziguado e a bola de ang�stia no est�mago se dissolvera. Erika produzia esse efeito nele, sempre fora assim. E ele sabia que produzia exatamente o mesmo efeito nela.</p><p>Vinte anos, pensou. Fazia vinte anos que ele e Erika mantinham uma liga��o. E ele esperava que continuassem fazendo amor por mais vinte anos ainda. Pelo menos. Nunca haviam tentado a s�rio esconder essa rela��o, mesmo quando ela criou situa��es um pouco amb�guas com os outros. Ele sabia que as pessoas em volta falavam e faziam perguntas, �s quais tanto Erika quanto ele davam respostas evasivas, sem se preocupar com os coment�rios.</p><p>Conheceram-se numa festa na casa de amigos comuns. Ambos estavam no segundo ano da faculdade de jornalismo e cada um, na �poca, tinha um parceiro regular. De in�cio foi s� uma paquera divertida, se � que as lembran�as eram exatas. Depois, levaram mais longe o jogo de sedu��o m�tua e, antes de se separar, trocaram os n�meros de telefone. Os dois sabiam que iam se reencontrar na cama e, menos de uma semana depois, executaram esse plano sem que os respectivos parceiros soubessem.</p><p>Mikael tinha certeza de que n�o se tratava de amor � pelo menos n�o do amor tradicional, que acaba num domic�lio comum, em compromissos comuns, �rvore de Natal e crian�as. Algumas vezes, nos anos 1980, chegaram a pensar em alugar um apartamento juntos. Mikael teria gostado. Mas Erika sempre desistia no �ltimo instante, argumentando que n�o daria certo e que n�o deviam arriscar destruir sua rela��o se apaixonando um pelo outro.</p><p>Sabiam que a rela��o se baseava no sexo, e Mikael v�rias vezes se perguntou se era poss�vel sentir mais desejo por uma mulher do que o que sentia por Erika. A rela��o funcionava como uma verdadeira droga.</p><p>�s vezes viam-se com tanta frequ�ncia que tinham a impress�o de ser um casal; outras vezes transcorriam semanas, meses, entre cada encontro. Mas, como os alco�latras atra�dos pela prateleira de bebidas ap�s um per�odo de abstin�ncia, retornavam sempre um para o outro em busca de mais.</p><p>A coisa, evidentemente, n�o funcionava. Uma rela��o como essa s� podia ser uma fonte de dor. Erika e ele haviam deixado pelo caminho promessas n�o cumpridas e liga��es frustradas � o pr�prio casamento de Mikael acabou porque ele n�o conseguiu se manter afastado de Erika. Nunca mentiu � mulher sobre a exist�ncia desse caso, mas ela pensou que, com o casamento e o nascimento da filha, ele terminaria. Al�m do mais, praticamente na mesma �poca, Erika se casou com Lars Beckman. Mikael tamb�m pensou que o caso terminaria e, nos primeiros anos do casamento dela, ele e Erika s� se viram profissionalmente. A� veio a <emphasis>Millennium</emphasis> e, menos de uma semana depois, todas as resolu��es vieram abaixo quando, no final de um dia de trabalho, os dois fizeram amor selvagemente em cima da mesa de Erika. Seguiu-se um per�odo dif�cil, no qual Mikael queria viver com a fam�lia e ver a filha crescer, ao mesmo tempo que, contra a vontade, era atra�do para Erika como se n�o conseguisse mais comandar seus atos. O que, evidentemente, era s� uma quest�o de for�a de vontade, como Lisbeth Salander bem percebeu: foi essa perp�tua infidelidade que levou Monica a querer acabar com o casamento.</p><p>O estranho � que Lars Beckman parecia aceitar totalmente a liga��o deles. Erika sempre foi clara sobre sua rela��o com Mikael e imediatamente informou o marido quando os dois recome�aram. Talvez s� uma alma de artista pudesse suportar isso, um artista voltado � sua cria��o, ou talvez voltado somente a si mesmo, que n�o reagia quando sua mulher dormia na casa de outro homem ou at� mesmo interrompia as f�rias para passar uma semana com o amante na cabana em Sandhamn. Mikael n�o gostava muito de Lars e nunca entendeu por que Erika havia se ligado a ele. Mas apreciava que Lars aceitasse que ela pudesse amar dois homens ao mesmo tempo.</p><p>Ele suspeitava que Lars considerava que a liga��o da mulher trazia uma excita��o extra ao casamento. Mas nunca abordou esse assunto com Erika.</p><empty-line/><p>Mikael n�o conseguia dormir e por volta das quatro da manh� levantou-se. Instalou-se na cozinha e mais uma vez leu o veredicto do come�o ao fim.</p><p>A leitura do dossi� lhe permitia enxergar com mais clareza, e ele percebia o quanto o encontro em Arholma tinha a ver com o destino. Nunca conseguiu descobrir se Robert Lindberg revelara a fraude de Wennerstr�m apenas como uma boa hist�ria durante uma conversa entre dois tragos, ou se a inten��o fora de fato faz�-la vir a p�blico.</p><p>Espontaneamente, Mikael pendia a favor da primeira possibilidade, mas tamb�m era poss�vel imaginar que Robert, por raz�es altamente particulares ou profissionais, desejasse atingir Wennerstr�m e aproveitou a oportunidade de ter um jornalista disposto a escut�-lo numa cabine fechada. Robert talvez tivesse bebido um pouco, o que n�o o impediu de cravar os olhos em Mikael no instante decisivo da hist�ria, quando evocou as palavras m�gicas que o transformariam numa fonte an�nima. Com isso, Robert tinha a certeza de que Mikael podia divulgar o que quisesse, mas nunca se permitiria revelar o nome de seu informante.</p><p>No entanto Mikael estava certo de uma coisa: se o encontro em Arholma tinha sido organizado por um conspirador com o objetivo de atrair sua aten��o, a atua��o de Robert fora perfeita. S� que o encontro em Arholma acontecera por puro acaso.</p><p>Robert n�o tinha a menor id�ia da extens�o do desprezo de Mikael por gente como Hans-Erik Wennerstr�m. Depois de anos de observa��o, Mikael estava convencido de que n�o havia um �nico diretor de banco ou dono de empresa c�lebre que n�o fosse tamb�m um escroque.</p><p>Mikael nunca ouvira falar de Lisbeth Salander e ignorava completamente o relat�rio que ela fizera naquele dia, mas, se o tivesse lido, teria balan�ado a cabe�a em concord�ncia quando ela afirmou que a avers�o dele pelos tubar�es das finan�as n�o era um mero acesso de radicalismo de esquerda. Mikael n�o era um desinteressado de pol�tica, mas encarava os <emphasis>ismos</emphasis> pol�ticos com a maior desconfian�a. Na �nica elei��o em que votou � as legislativas de 1982 �, escolhera sem muita convic��o os socialdemocratas simplesmente porque para ele nada podia ser pior do que mais tr�s anos com um moderado como G�sta Bohman nas finan�as, um centrista como Thorbj�rn F�lldin e um liberal como Ola Ullsten no comando do governo. Assim, votou em Olof Palme sem grande entusiasmo, para depois deparar com o assassinato do primeiro-ministro, o esc�ndalo da venda de armas de Bofors em Om� e as intrigas s�rdidas de Ebbe Carlsson no inqu�rito sobre o assassinato de Olof Palme.</p><p>O desprezo de Mikael pelos jornalistas econ�micos se devia a algo t�o elementar, a seus olhos, como a moral. Para ele era uma equa��o simples. Um diretor de banco que perde algumas centenas de milh�es em especula��es tresloucadas n�o deveria permanecer no cargo. Um empres�rio que monta firmas fict�cias para seus neg�cios pessoais devia ser preso. Um propriet�rio de im�veis que obriga jovens a pagar, sem nota, o aluguel de um quarto com banheiro no quintal devia ser pendurado pelos p�s no pelourinho.</p><p>Mikael Blomkvist acreditava que a miss�o do jornalista econ�mico era investigar e desmascarar os tubar�es financeiros capazes de provocar crises de juros e de especular com o dinheiro do pequeno poupador. Acreditava que sua verdadeira miss�o jornal�stica era investigar os donos de empresa com o mesmo zelo implac�vel que os jornalistas pol�ticos vigiam o menor passo em falso de ministros e parlamentares. Jamais ocorreria a um jornalista pol�tico transformar em �cone um chefe de partido, e Mikael tinha dificuldade em entender por que tantos jornalistas econ�micos, dos mais importantes ve�culos do pa�s, estavam prontos a elevar med�ocres arrivistas � categoria de vedetes do <emphasis>showbiz.</emphasis></p><empty-line/><p>Essa atitude um tanto at�pica no jornalismo econ�mico o levou a ter, mais de uma vez, conflitos abertos com colegas, entre os quais William Borg, que virou seu inimigo ferrenho. Mikael erguera a cabe�a e criticara os colegas, acusando-os de n�o cumprir sua miss�o e de fazer o jogo dos arrivistas financeiros. O papel de cr�tico da sociedade certamente dera a Mikael algum status e o transformara no arroz-de-festa das c�meras de tev� � era sempre convidado a dar sua opini�o quando se sabia que algum empres�rio se safara de dificuldades com um p�ra-quedas no valor de alguns bilh�es �, por�m isso tamb�m lhe angariava um c�rculo fiel de inimigos jurados.</p><p>Mikael bem podia imaginar que algumas reda��es haviam estourado champanhe naquela noite.</p><p>Erika tinha a mesma postura que ele diante do papel do jornalista, e desde que se formaram os dois se divertiam juntos pensando numa publica��o com esse perfil.</p><p>Mikael n�o podia imaginar um chefe melhor do que Erika. Perfeita organizadora, ela transmitia calor e confian�a aos funcion�rios, mas ao mesmo tempo n�o temia o confronto e sabia se mostrar intrat�vel quando necess�rio. Sua sensibilidade se exacerbava sobretudo na hora de tomar decis�es sobre o conte�do da edi��o que estava sendo preparada. Ela e Mikael tinham muitas vezes opini�es contr�rias e os dois �s vezes discutiam abertamente, mas nutriam uma confian�a inabal�vel um pelo outro e formavam uma equipe imbat�vel. Ele fazia a coleta, ela encaixotava e vendia.</p><p>A <emphasis>Millennium</emphasis> era uma cria��o dos dois, mas nunca teria existido sem a capacidade de Erika de levantar um financiamento. Um filho de oper�rio e uma filha de burgu�s reunidos. Erika dispunha de uma boa heran�a. De in�cio, lan�ou m�o de seus recursos e convenceu o pai e amigos a investir quantias consider�veis no projeto.</p><p>Muitas vezes Mikael se perguntou por que Erika apostara na <emphasis>Millennium.</emphasis> � verdade que ela era acionista � majorit�ria � e diretora de sua pr�pria revista, o que lhe dava prest�gio e uma liberdade editorial que ela n�o teria em nenhum outro local de trabalho. Diferentemente de Mikael, ela se encaminhara para a tev� depois da faculdade de jornalismo. Tinha coragem, apresentava-se com compet�ncia diante da c�mera e sabia se afirmar entre os concorrentes. Possu�a, al�m disso, bons contatos no governo. Se tivesse continuado, certamente teria alcan�ado um cargo de dire��o na tev�, com um sal�rio muito alto. Mas preferiu abandonar tudo e apostar na <emphasis>Millennium,</emphasis> um projeto de alto risco iniciado em instala��es prec�rias no bairro de Midsom-markransen, mas que deu suficientemente certo para se transferir, poucos anos depois, para salas mais amplas e agrad�veis na G�tgatan, a dois passos do centro da cidade, no S�dermalm.</p><p>Erika tamb�m convencera Christer Malm a se associar � revista; celebridade do mundo gay, exibicionista nas horas vagas, aparecia de vez em quando nas colunas sociais em companhia do namorado. O interesse da m�dia voltou-se para ele quando passou a viver com Arnold Magnusson, conhecido por Arn, um ator de teatro que s� se revelou verdadeiramente ao desempenhar o pr�prio papel num <emphasis>reality show</emphasis> na tev�. A vida de Christer e Arn virou ent�o um folhetim na m�dia.</p><p>Aos trinta e seis anos, Christer Malm, fot�grafo profissional e <emphasis>designer</emphasis> muito requisitado, sabia dar � <emphasis>Millennium</emphasis> um padr�o gr�fico moderno e atraente. Seu escrit�rio ficava no mesmo andar que a reda��o da <emphasis>Millennium,</emphasis> e ele cuidava da diagrama��o em tempo parcial, uma semana por m�s.</p><p>Al�m desses tr�s, a <emphasis>Millennium</emphasis> contava com dois colaboradores fixos, tr�s em tempo parcial e um tempor�rio. Era o tipo de publica��o que estava sempre no vermelho, por�m muito prestigiosa e na qual os colaboradores adoravam trabalhar.</p><p>A <emphasis>Millennium</emphasis> n�o era um neg�cio lucrativo, mas havia conseguido equilibrar suas despesas, e tanto a tiragem quanto as receitas publicit�rias n�o cessavam de aumentar. At� o momento, a revista mantinha a imagem de um produto com estilo editorial franco e confi�vel.</p><p>Provavelmente agora as coisas iam mudar. Mikael lia o breve comunicado que ele e Erika haviam escrito algumas horas antes e que logo se transformou num despacho da ag�ncia de not�cias TT veiculado nas p�ginas da <emphasis>Aftonbladet,</emphasis> na internet.</p><p>CONDENADO NA JUSTI�A, MIKAEL BLOMKVIST ABANDONA A <emphasis>MILLENNIUM</emphasis></p><empty-line/><p>Estocolmo (TT). O jornalista Mikael Blomkvist deixa o cargo de editor respons�vel da revista mensal <emphasis>Millennium,</emphasis> anuncia Erika Berger, diretora e acionista majorit�ria.</p><p>Mikael Blomkvist deixa a <emphasis>Millennium</emphasis> por decis�o pr�pria. Esgotado ap�s o per�odo dram�tico que acaba de viver, ele precisa de um descanso, diz Erika, que assume o cargo de editora respons�vel da publica��o.</p><p>Mikael Blomkvist foi um dos criadores da <emphasis>Millennium</emphasis> em 1990. Segundo Erika Berger, o caso Wennerstr�m n�o dever� interferir no futuro da revista.</p><p>"A <emphasis>Millennium</emphasis> sair� normalmente no m�s que vem", ela acrescenta. "Mikael Blomkvist teve um papel fundamental no desenvolvimento da revista, mas agora vamos virar a p�gina. Considero o caso Wennerstr�m como uma sucess�o de circunst�ncias infelizes e lamento os dissabores causados a Hans-Erik Wennerstr�m."</p><p>N�o foi poss�vel encontrar Mikael Blomkvist para obter seu depoimento.</p><empty-line/><p>� Acho isso terr�vel � dissera Erika ap�s enviar por e-mail o comunicado de imprensa. � A maioria das pessoas vai concluir que voc� � um cretino incompetente e que eu n�o passo de uma puta que aproveita a ocasi�o para te acertar um tiro pelas costas.</p><p>� Considerando todos os outros boatos que circulam, pelo menos nossos amigos ter�o algo de novo com que se divertir � tentou gracejar Mikael. Mas Erika n�o achou gra�a.</p><p>� N�o tenho um plano B, mas acho que estamos cometendo um erro.</p><p>� � a �nica solu��o � replicou Mikael. � Se a revista quebrar a cara, todos os nossos esfor�os ter�o sido in�teis. Voc� sabe que a partir de agora vamos perder muitas receitas. Ali�s, qual foi a decis�o daquela empresa de inform�tica?</p><p>Ela suspirou.</p><p>� Hoje de manh� eles comunicaram que n�o v�o anunciar na edi��o de janeiro.</p><p>� E, n�o por acaso, Wennerstr�m det�m muitas cotas dessa empresa.</p><p>� Podemos cortejar outros anunciantes. Por mais que Wennerstr�m seja um figur�o das finan�as, ele n�o possui tudo neste mundo, e n�s tamb�m temos nossos contatos.</p><p>Mikael estreitou Erika no peito.</p><p>� Um dia vamos torpedear Hans-Erik Wennerstr�m a ponto de fazer tremer Wall Street. Mas n�o hoje. A <emphasis>Millennium</emphasis> deve sair do campo minado. N�o podemos nos arriscar a perder a confian�a que alguns depositam em n�s.</p><p>� Eu sei, eu sei, mas vou ser vista como a bruxa de plant�o e voc� ficar� numa pior se dermos a entender que houve um rompimento entre n�s.</p><p>� Eu, voc� e Ricky confiamos um no outro, temos uma chance. Precisamos tocar o barco, e chegou a hora de eu me retirar.</p><p>Ela reconheceu, a contragosto, que havia uma triste l�gica nessa conclus�o.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>4.� SEGUNDA-FEIRA 23 DE DEZEMBRO � QUINTA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Erika passou o fim de semana na casa de Mikael Blomkvist. Praticamente s� sa�ram da cama para ir ao banheiro e comer alguma coisa, mas nem por isso ficaram o tempo todo fazendo amor; passaram horas um junto do outro, discutindo o futuro e pesando consequ�ncias, possibilidades e probabilidades. Na segunda-feira de manh� � faltavam dois dias para o Natal �, Erika beijou Mikael, despediu-se com um "at� breve" e voltou para a casa do marido.</p><p>Mikael come�ou a segunda-feira lavando a lou�a e pondo um pouco de ordem no apartamento, depois foi caminhando at� a reda��o, para recolher seus pap�is no escrit�rio. N�o tinha a menor inten��o de romper com a revista, mas acabou convencendo Erika que durante algum tempo era importante separar Mikael Blomkvist da <emphasis>Millennium.</emphasis> A partir de agora, ele trabalharia no seu apartamento da Bellmansgatan.</p><p>Estava sozinho na reda��o, fechada por causa do Natal e com os funcion�rios de folga. Selecionava alguns pap�is e livros para p�r numa pasta quando o telefone tocou.</p><p>� Gostaria de falar com Mikael Blomkvist � disse uma voz desconhecida mas cheia de expectativa na outra ponta da linha.</p><p>� � ele.</p><p>� Sinto muito perturb�-lo na v�spera de Natal. Meu nome � Dirch Frode. � Instintivamente, Mikael anotou o nome e a hora. � Sou advogado e represento um cliente que gostaria muito de conversar com o senhor.</p><p>� Bem, diga a seu cliente que ele mesmo me telefone.</p><p>� O que quero dizer � que ele gostaria de encontr�-lo.</p><p>� Tudo bem, marque um encontro e mande-o vir at� o meu escrit�rio. Mas seja r�pido, pois estou esvaziando a mesa.</p><p>� Meu cliente gostaria muito que fosse encontr�-lo na casa dele. Ele mora em Hedestad, s�o apenas tr�s horas de trem.</p><p>Mikael parou de selecionar os pap�is. A imprensa tem a capacidade de atrair as pessoas mais malucas, detentoras das informa��es mais absurdas. Todas as reda��es do mundo recebem chamados de fan�ticos por �vnis, graf�logos, cientologistas, paran�icos e outros te�ricos da grande conspira��o.</p><p>Um dia, Mikael ouvia uma confer�ncia do escritor Karl Alvar Nilsson, organizada pela universidade popular na �poca do anivers�rio do assassinato de Olof Palme. A confer�ncia era absolutamente s�ria e na plat�ia se achavam Lennart Bodstr�m e outros velhos amigos de Palme. Mas muitas pessoas comuns tamb�m compareceram, entre elas uma mulher de uns quarenta anos, que se apoderou do microfone quando chegou o inevit�vel momento das perguntas. Com exce��o da voz baixa, como num cochicho, nada fazia prever uma sequ�ncia interessante, e ningu�m ficou especialmente surpreso quando a mulher come�ou sua interven��o anunciando: <emphasis>"Sei quem matou Olof Palme".</emphasis> Os que estavam � mesa responderam, com uma ponta de ironia, que, se ela possu�a aquela informa��o t�o decisiva, seria do maior interesse comunic�-la � comiss�o de inqu�rito. Ao que ela vivamente retrucou, num murm�rio quase inaud�vel: <emphasis>"N�o posso, � perigoso demais!".</emphasis></p><p>Mikael se perguntou se Dirch Frode tamb�m n�o seria um desses profetas ansiosos por revelar a exist�ncia de um hospital psiqui�trico secreto, onde a Pol�cia Federal se dedicava a experimentos de controle mental.</p><p>� N�o atendo em domic�lio � respondeu secamente.</p><p>� Nesse caso, espero convenc�-lo a abrir uma exce��o. Meu cliente tem mais de oitenta anos e vir a Estocolmo representa para ele uma viagem penosa. Se o senhor insiste, creio que poder�amos encontrar outra solu��o, mas, para ser bem franco, seria prefer�vel que tivesse a gentileza de...</p><p>� Quem � o seu cliente?</p><p>� Algu�m de quem o senhor nunca deve ter ouvido falar na sua profiss�o, imagino: Henrik Vanger.</p><p>Mikael fez um movimento para tr�s, surpreso. Henrik Vanger � claro que ouvira falar dele. Grande industrial e ex-diretor administrativo do grupo Vanger, um imp�rio cujos neg�cios eram serrarias, florestas, minas, f�bricas de a�o, empresas metal�rgicas e t�xteis, produ��o e exporta��o. Henrik Vanger fora um dos grandes de seu tempo, com a reputa��o de um honesto patriarca � antiga que n�o se curvava diante da tempestade. Fazia parte dos fundamentos da vida econ�mica sueca, bravo seguidor da velha escola, ao lado dos Matts Carlgren, de MoDo e de Hans Werthen, da antiga Electrolux. A coluna vertebral da ind�stria democr�tica sueca, por assim dizer.</p><p>O grupo Vanger, ainda hoje uma empresa familiar, fora sacudido nos �ltimos vinte e cinco anos por reestrutura��es, cat�strofes na Bolsa, crises de juros, concorr�ncia asi�tica, decl�nio das exporta��es e outros problemas que, somados, relegaram Vanger ao pelot�o da rabeira. A empresa agora era dirigida por Martin Vanger, cujo nome Mikael associava a um sujeito gordo de cabelos fofos que ele vira na televis�o, mas que na verdade n�o conhecia. Fazia bem uns vinte anos que Henrik Vanger estava fora de circuito e Mikael ignorava que ainda estivesse vivo.</p><p>� Por que Henrik Vanger quer me ver?</p><p>� Sinto muito. Sou o advogado de Vanger h� muitos anos, mas cabe a ele contar o que deseja. Por outro lado, posso adiantar que Henrik Vanger gostaria de discutir com o senhor um poss�vel trabalho.</p><p>� Um trabalho? N�o tenho nenhuma inten��o de passar a trabalhar para as empresas Vanger. Est�o precisando de um assessor de imprensa?</p><p>� N�o se trata em absoluto desse tipo de trabalho. N�o sei como me exprimir... tudo que posso dizer � que Henrik Vanger est� particularmente interessado em v�-lo e consult�-lo sobre um assunto particular.</p><p>� O senhor n�o poderia ser mais direto?</p><p>� Pe�o que me perdoe. Mas me diga: existe alguma possibilidade de o senhor fazer uma visita a Hedestad? Claro que reembolsaremos sua viagem e lhe daremos uma remunera��o razo�vel.</p><p>� Seu telefonema chega numa p�ssima hora. Estou bastante ocupado... e suponho que viu as not�cias sobre mim nesses �ltimos dias.</p><p>� O caso Wennerstr�m? � e Dirch Frode deixou escapar um risinho abafado na outra ponta da linha. � Sim, ele teve o m�rito de interessar bastante o p�blico. Mas, para dizer a verdade, foi justamente a publicidade em torno desse processo que atraiu a aten��o de Henrik Vanger para o senhor.</p><p>� E mesmo? E quando � que Henrik Vanger gostaria que eu fosse visit�-lo? � quis saber Mikael.</p><p>� O mais cedo poss�vel. Amanh� � noite � v�spera de Natal e suponho que o senhor n�o esteja livre. Mas que tal 26 de dezembro? Ou um dos dias seguintes?</p><p>� Ent�o � urgente mesmo. Sinto muito, mas se n�o me der uma pista aceit�vel da finalidade da visita...</p><p>� Eu lhe garanto que o convite � totalmente s�rio. Henrik Vanger gostaria de consult�-lo, ao senhor e n�o a uma outra pessoa. Gostaria de lhe propor um trabalho como <emphasis>freelancer,</emphasis> se isso lhe interessa. Quanto a mim, sou apenas um intermedi�rio. Cabe a ele explicar do que se trata.</p><p>� � um dos chamados mais estranhos que j� recebi. Vou pensar no assunto. Como posso contat�-lo?</p><empty-line/><p>Ap�s desligar o telefone, Mikael ficou contemplando a desordem em sua mesa. N�o conseguia entender por que Henrik Vanger desejava encontr�-lo. Uma viagem a Hedestad n�o lhe despertava nenhum entusiasmo, mas o advogado Frode conseguira despertar sua curiosidade.</p><p>Ligou o computador, conectou-se no www.google.com e digitou "empresas Vanger". Centenas de p�ginas estavam dispon�veis. Embora o grupo Vanger agora andasse a reboque, ele figurava praticamente todos os dias na m�dia. Salvou uma d�zia de artigos de an�lise do grupo e passou em seguida �s pesquisas sobre Dirch Frode, Henrik Vanger e Martin Vanger.</p><p>Martin Vanger aparecia com frequ�ncia, na qualidade de atual diretor do grupo. O advogado Dirch Frode estava aposentado, era membro da Associa��o de golfe de Hedestad e seu nome estava associado ao Rotary. Henrik Vanger s� era encontrado em textos ligados ao grupo Vanger, com uma �nica exce��o. Dois anos antes, o <emphasis>Hedestads-Kuriren,</emphasis> jornal local, celebrara o octog�simo anivers�rio do ex-magnata da ind�stria e o jornalista tra�ara um breve perfil dele. Mikael imprimiu alguns textos que pareciam conter informa��es s�lidas e constituiu assim um dossi� de umas cinquenta p�ginas. Depois terminou de arrumar sua mesa, encheu as pastas e foi para casa. N�o fazia a menor id�ia de quando iria voltar.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander passava a v�spera de Natal na casa de sa�de de Appelviken, em Upplands-V�sby. Trouxera de presente um frasco de �gua-de-toalete Dior e um bolo ingl�s comprado na Ahlens. Ela contemplava a mulher de quarenta e cinco anos que, com dedos in�beis, tentava desfazer o la�o do embrulho. Havia ternura nos olhos de Salander, embora sempre lhe causasse espanto que aquela mulher estranha diante dela <emphasis>pudesse</emphasis> ser sua m�e. Por mais que tentasse, n�o conseguia encontrar a menor semelhan�a f�sica ou de personalidade.</p><p>A m�e por fim abandonou seus esfor�os e olhou o embrulho com ar desamparado. Ela n�o estava num de seus bons dias. Lisbeth Salander empurrou a tesoura que estava bem � vista em cima da mesa e a m�e se iluminou como se despertasse de repente.</p><p>� Voc� deve me achar uma est�pida.</p><p>� N�o, mam�e. Voc� n�o � est�pida. A vida � que � injusta.</p><p>� Tem visto sua irm�?</p><p>� Falei com ela h� pouco tempo.</p><p>� Ela nunca vem me ver.</p><p>� Eu sei, mam�e. Ela tamb�m n�o vem me ver.</p><p>� Voc� trabalha?</p><p>� Sim, mam�e. Estou me virando bem.</p><p>� Est� morando onde? Eu nem sei onde voc� mora.</p><p>� Moro no nosso antigo apartamento da Lundagatan. Estou ali h� muitos anos. Paguei as contas atrasadas.</p><p>� Quem sabe no ver�o vou visitar voc�.</p><p>� Claro. No ver�o.</p><p>A m�e acabou abrindo a embalagem e aspirou o perfume, deliciada.</p><p>� Obrigada, Camilla � disse.</p><p>� Lisbeth. Sou a Lisbeth. Camilla � a minha irm�.</p><p>A m�e pareceu incomodada. Lisbeth Salander prop�s que elas fossem at� a sala de tev�.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Os programas Disney de Natal eram retransmitidos a toda hora na televis�o quando Mikael Blomkvist passou para ver sua filha Pernilla na casa da ex-mulher Monica e do novo marido dela, em Sollentuna. Trazia presentes para Pernilla; ap�s discutir o assunto com Monica, eles concordaram em dar � filha um iPod, um MP3-player bastante caro e n�o maior que uma caixa de f�sforos, capaz de abrigar toda a sua volumosa cole��o de discos.</p><p>Pai e filha passaram uma hora juntos no quarto dela, no andar de cima. Mikael e a m�e de Pernilla se divorciaram quando ela tinha somente cinco anos, e dois anos depois ela ganhara um novo pai. Mikael n�o havia de modo algum evitado o contato; Pernilla ia visit�-lo algumas vezes por m�s e todo ano, durante as f�rias, passava temporadas de uma semana na cabana de Sandhamn. Monica nunca tentou impedir que os dois se encontrassem, e Pernilla nada tinha contra rever o pai � ao contr�rio, os dias que eles passavam juntos costumavam ser bons momentos. Ainda assim, Mikael deixou a filha decidir em que medida desejava v�-lo, sobretudo depois que Monica voltou a se casar. Houve alguns anos, no in�cio da adolesc�ncia, em que o contato praticamente cessou e Pernilla s� havia pedido para voltar a v�-lo com mais frequ�ncia nos �ltimos dois anos.</p><p>A filha acompanhara o processo convicta de que Mikael afirmava a verdade: ele era inocente mas n�o podia provar.</p><p>Ela falou de um eventual namorado no col�gio e o surpreendeu ao revelar que se tornara membro de uma Igreja local e que se considerava uma devota. Mikael se absteve de qualquer coment�rio.</p><p>Foi convidado para jantar, mas recusou a oferta; j� combinara com a irm� passar a v�spera de Natal com ela e a fam�lia no sub�rbio <emphasis>yuppie</emphasis> de St�ket.</p><p>De manh�, tamb�m fora convidado a passar o Natal com Erika e o marido em Saltsj�baden. Recusou o convite com polidez, certo de que havia sem d�vida um limite na boa vontade de Lars para com os dramas triangulares, e ele n�o tinha vontade nenhuma de descobrir at� onde ia esse limite. De acordo com Erika, a proposta partira do pr�prio marido, e ela criticou sua timidez em participar dos jogos de um trio. Mikael rira � Erika sabia que ele era um heterossexual inflex�vel e que o convite n�o era a s�rio �, mas a decis�o de n�o festejar o Natal na companhia do marido da amante era irrevog�vel.</p><p>Em vez disso, ele foi bater � porta da irm� Annika Blomkvist, agora Annika Giannini. O marido de origem italiana, os dois filhos e v�rios outros membros da fam�lia do marido cortavam naquele momento o peru de Natal. Annika cursara direito sem a menor vontade, depois trabalhara alguns anos como estagi�ria no tribunal e como substituta de promotor, antes de abrir seu pr�prio escrit�rio de advocacia, associada a alguns amigos e numa sala com vista para o bairro de Kungsholmen. Especializou-se em direito de fam�lia e, sem que Mikael percebesse, sua irm� mais nova come�ou a aparecer nas p�ginas das revistas e em debates da televis�o como feminista c�lebre e advogada dos direitos da mulher. Defendia com frequ�ncia mulheres amea�adas ou importunadas por ex-maridos ou ex-namorados.</p><p>Quando Mikael a ajudava a preparar o caf�, ela p�s a m�o em seu bra�o e lhe perguntou como ele estava.</p><p>� Nunca me senti t�o por baixo, se quer saber.</p><p>� Da pr�xima vez arranje um advogado de verdade � disse ela.</p><p>� Acho que nesse caso nem o melhor advogado do mundo mudaria a situa��o.</p><p>� O que realmente aconteceu?</p><p>� Depois eu conto, maninha.</p><p>Ela o abra�ou com ternura e deu-lhe um beijo na bochecha antes de voltarem para junto dos outros com o bolo e o caf�.</p><p>Por volta das sete da noite, Mikael se desculpou e pediu licen�a para utilizar o telefone na cozinha. Chamou Dirch Frode e ouviu sua voz na outra ponta da linha, com uma algazarra de vozes ao fundo.</p><p>� Feliz Natal! � saudou Frode. � Ent�o, decidiu?</p><p>� N�o tenho nada de especial para fazer e o senhor conseguiu despertar minha curiosidade. Irei no dia 26, se lhe conv�m.</p><p>� Perfeito. N�o sabe o quanto sua decis�o me alegra. Desculpe-me, mas estou cercado de filhos e netos e mal consigo ouvir o que diz. Posso ligar amanh� para marcar uma hora?</p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist se arrependeu da decis�o antes mesmo que a noite terminasse, mas como agora lhe parecia muito complicado voltar atr�s, na manh� do dia 26 instalou-se num trem rumo ao Norte. Mikael tinha carteira de habilita��o, por�m nunca se dera o trabalho de comprar um carro.</p><p>Frode tinha raz�o, a viagem era curta. Ele passou por Uppsala, depois percorreu as pequenas cidades industriais espalhadas ao longo da costa. Hedestad era uma das menores, a pouco mais de uma hora ao norte de G�vle.</p><p>Durante a noite houvera fortes precipita��es de neve, mas o c�u limpara e o ar estava gelado quando ele desceu na esta��o. Mikael logo percebeu que suas roupas n�o estavam adequadas ao inverno rigoroso do Norrland. Dirch Frode o identificou imediatamente, o acolheu com simpatia na plataforma e o fez entrar depressa no interior aquecido de um Mercedes. Na cidade, o trabalho de desobstru��o da neve era intenso, e Frode manobrou com prud�ncia entre as grandes escavadeiras. A neve criava um contraste ex�tico com Estocolmo, teriam dito em outro pa�s, embora n�o houvesse mais de tr�s horas de dist�ncia at� a capital e seus enfeites de Natal na cidade velha. Mikael olhava furtivamente o advogado: um rosto anguloso, cabelos brancos bem curtos, �culos de lentes grossas sobre um nariz volumoso.</p><p>� � a primeira vez que vem a Hedestad? � perguntou Frode. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� � um velho burgo industrial. N�o muito grande, tem apenas oitenta mil habitantes. Mas as pessoas gostam daqui. Henrik mora em Hedeby, na parte antiga, a aldeia, como � chamada. Fica logo na entrada sul da cidade.</p><p>� O senhor tamb�m mora aqui? � perguntou Mikael.</p><p>� Atualmente, sim. Nasci em Skane, mas comecei a trabalhar para Vanger logo depois que me formei, em 1962. Especializei-me em direito comercial e, com o passar dos anos, Henrik e eu nos tornamos amigos. Hoje estou aposentado, mas Henrik continua sendo meu cliente, o �nico. Ele tamb�m est� aposentado e n�o precisa dos meus servi�os com muita frequ�ncia.</p><p>� A n�o ser para aliciar jornalistas de m� reputa��o.</p><p>� N�o se subestime. Voc� n�o � o �nico que perdeu uma parada contra Hans-Erik Wennerstr�m.</p><p>Mikael olhou Frode de soslaio, n�o sabendo muito bem como interpretar essa observa��o.</p><p>� Esse convite tem algo a ver com Wennerstr�m? � perguntou.</p><p>� N�o � respondeu Frode. � Henrik Vanger n�o faz parte exatamente do c�rculo de amigos de Wennerstr�m, e ele acompanhou o processo com grande interesse. � para um caso bem diferente que ele deseja v�-lo.</p><p>� Sobre o qual o senhor n�o quer me falar.</p><p>� Sobre o qual n�o me cabe falar. Ajeitamos as coisas de modo que possa passar a noite na casa de Henrik Vanger. Se n�o lhe conv�m, podemos fazer uma reserva no Grande Hotel da cidade.</p><p>� Bem, � poss�vel que eu volte a Estocolmo de trem esta noite.</p><p>Na entrada de Hedeby, a aldeia, a escavadeira de neve ainda n�o havia passado, e Frode fez o carro avan�ar por trilhas congeladas deixadas pelas rodas. Havia ali um pequeno n�cleo de velhas casas de madeira, no estilo das antigas aglomera��es mineiras ao longo do golfo de Botnia. Ao redor viam-se mans�es modernas maiores. A aldeia come�ava em terra firme e, cruzando uma ponte, prosseguia numa ilha de relevo acidentado � Hedeby�n. No lado do continente, uma igrejinha de pedra pintada de branco erguia-se junto � ponte e defronte cintilava um velho cartaz luminoso anunciando <emphasis>P�es e doces. Caf� Susanne.</emphasis> Depois de atravessar a ponte, Frode continuou por mais uma centena de metros at� entrar numa esplanada diante de uma casa de pedra. A casa era pequena demais para ser qualificada de solar, embora fosse maior que as outras constru��es, e tratava-se, evidentemente, dos dom�nios senhoriais.</p><p>� Eis a casa Vanger � disse Dirch Frode. � Antigamente havia muita anima��o, mas hoje apenas Henrik e uma governanta moram aqui. E n�o � por falta de quartos de h�spedes.</p><p>Desceram do carro. Frode apontou com o dedo para o norte.</p><p>� A tradi��o exige que quem dirige o grupo Vanger more aqui, mas Martin Vanger, o sobrinho-neto de Henrik, queria algo mais moderno e mandou construir uma mans�o na ponta do promont�rio.</p><p>Mikael olhou ao redor e se perguntou que loucura o fizera aceitar o convite do advogado Frode. Prometeu-se tentar a qualquer pre�o voltar a Estocolmo naquela mesma noite. Uma escada de pedra conduzia at� a entrada e, antes que tivessem tempo de chegar, a porta se abriu. Mikael reconheceu prontamente Henrik Vanger, cujas fotos vira na internet.</p><p>As fotos o mostravam mais jovem, mas ele parecia surpreendentemente vigoroso para os seus oitenta e dois anos; um corpo musculoso, rosto severo e de tra�os marcantes, grossos cabelos grisalhos penteados para tr�s, provando que seus genes n�o o destinavam � calv�cie. Vestia uma cal�a escura cuidadosamente passada, camisa branca e uma malha marrom um tanto gasta. Tinha um bigode estreito e usava �culos com arma��o de metal.</p><p>� Sou Henrik Vanger � ele se apresentou. � Obrigado por ter concordado em vir me ver.</p><p>� Bom dia. Admito que achei o convite surpreendente.</p><p>� Vamos entrar. Mandei preparar um quarto de h�spedes. Quer descansar um pouco? Passaremos � mesa mais tarde. Esta � Anna Nygren, que lhe prestar� os servi�os necess�rios.</p><p>Mikael cumprimentou com um breve aperto de m�o uma mulher de uns sessenta anos. Ela pegou seu sobretudo para pendur�-lo num cabide e prop�s que ele usasse pantufas para proteger os p�s das correntes de ar do ch�o.</p><p>Mikael agradeceu e voltou-se para Henrik Vanger:</p><p>� N�o estou certo se ficarei at� o almo�o. Depende um pouco do objetivo deste encontro.</p><p>Henrik Vanger trocou um olhar com Dirch Frode. Havia uma coniv�ncia entre os dois que Mikael n�o conseguiu entender bem.</p><p>� Bem, vou deix�-los agora � disse Frode. � Preciso voltar para casa e impor um pouco de disciplina antes que meus netos destruam tudo.</p><p>E, dirigindo-se a Mikael:</p><p>� Moro � direita, do outro lado da ponte. Daqui at� l� s�o cinco minutos a p�; passando a padaria, � a terceira casa do lado da praia. Se precisar de mim, telefone.</p><p>Mikael p�s a m�o no bolso e acionou um gravador. <emphasis>Virei paran�ico?,</emphasis> pensou. N�o tinha a menor id�ia do que Henrik Vanger queria, mas, depois do que acontecera com Hans-Erik Wennerstr�m, fazia quest�o de ter evid�ncias precisas de todas as coisas estranhas que se passassem a sua volta, e esse inesperado convite a Hedestad pertencia, definitivamente, a tal categoria.</p><p>O ex-industrial bateu no ombro de Dirch Frode para se despedir e fechou a porta de entrada, antes de se voltar para Mikael.</p><p>� Ent�o irei diretamente ao que interessa. N�o se trata de um jogo. Gostaria de falar com voc�, mas o assunto exige uma longa conversa. Pe�o-lhe que escute o que tenho a dizer e depois decida. O senhor � jornalista e eu gostaria de contrat�-lo para um trabalho. Anna serviu o caf� no meu escrit�rio, no andar de cima.</p><empty-line/><p>Henrik Vanger indicou o caminho e Mikael o acompanhou. Entraram num gabinete comprido, de cerca de quarenta metros quadrados, situado na extremidade da casa. Uma das paredes estava coberta por prateleiras de livros, dez metros de comprimento do ch�o ao teto, numa mistura curiosa de romances, biografias, livros de hist�ria, manuais de com�rcio e de pesca, folhas de of�cio encadernadas. Os livros estavam dispostos sem uma classifica��o aparente, mas pareciam ser consultados com regularidade, e Mikael concluiu que Henrik Vanger era um homem que lia. No lado oposto, havia uma mesa de carvalho escuro, posicionada de modo a deixar um espa�o livre entre a cadeira e a parede, e nela estava pendurada uma cole��o bastante consider�vel de flores emolduradas e meticulosamente alinhadas.</p><p>Pela janela ao fundo, Henrik Vanger podia contemplar a ponte e a igreja. Havia um sof�, poltronas e uma mesa baixa sobre a qual Anna dispusera x�caras, uma garrafa t�rmica e biscoitos caseiros.</p><p>Com um gesto, Henrik Vanger convidou Mikael a se sentar, gesto que Mikael fingiu n�o perceber, o que lhe permitiu observar um pouco mais o ambiente. Primeiro notou a biblioteca, depois a parede com os quadros. A mesa estava arrumada, com exce��o de alguns pap�is empilhados. Numa das pontas havia uma foto emoldurada de uma menina bonita e morena, de olhos inteligentes. <emphasis>Uma mocinha que vai causar estragos,</emphasis> pensou Mikael. Parecia uma foto de primeira comunh�o, descolorida, que dava a impress�o de estar ali havia muitos anos. Mikael percebeu, de repente, que Henrik Vanger o observava.</p><p>� Lembra-se dela, Mikael? � perguntou.</p><p>� Como assim? � Mikael levantou as sobrancelhas.</p><p>� Sim, voc� a conheceu. Ali�s, voc� j� esteve neste escrit�rio. Mikael olhou ao redor e negou com a cabe�a.</p><p>� N�o? Como poderia se lembrar? Conheci seu pai. Contratei Kurt Blomkvist em v�rias ocasi�es nos anos 1950 e 1960, para instalar m�quinas e cuidar da manuten��o. Era um homem talentoso. Tentei convenc�-lo a prosseguir os estudos e a ser engenheiro. E voc�... voc� esteve aqui no ver�o de 1963, quando renovamos o maquin�rio da f�brica de papel aqui em Hedestad. Como foi dif�cil achar um alojamento para sua fam�lia, solucionamos o problema instalando voc�s numa pequena casa de madeira do outro lado da estrada, que pode ser vista dessa janela.</p><p>Henrik Vanger se aproximou da mesa e pegou o retrato.</p><p>� Esta � Harriet Vanger, a neta do meu irm�o Richard. Ela brincou com voc� mais de uma vez naquele ver�o. Voc� ia completar, ou talvez j� tivesse, tr�s anos, n�o lembro bem. Na �poca ela tinha doze.</p><p>� Desculpe, mas n�o me lembro de nada do que o senhor diz, do que voc� diz, se me permite trat�-lo assim.</p><p>� Naturalmente. Posso entender que n�o se lembre, mas eu me lembro muito bem de voc� correndo por todos os lados, com Harriet nos seus calcanhares. Eu ouvia voc� chorar quando trope�ava em alguma coisa. Lembro que dei um brinquedo de presente para voc�, um trator de metal amarelo, que eu mesmo tive quando era garoto, e que voc� recebeu com um entusiasmo incr�vel. Acho que foi por causa da cor.</p><p>Mikael sentiu um arrepio gelado. De fato, ele se lembrava do trator amarelo. Quando cresceu, o trator continuou enfeitando uma prateleira do seu quarto.</p><p>� Lembra? Lembra desse brinquedo?</p><p>� Lembro. E talvez voc� fique feliz de saber que esse trator ainda existe, no Museu do Brinquedo em Estocolmo. H� uns dez anos, fiz a doa��o quando eles procuravam brinquedos antigos.</p><p>� � mesmo? � Henrik Vanger riu, encantado. � Deixe-me mostrar... O velho foi buscar um �lbum de fotografias numa das prateleiras baixas da estante. Mikael notou que ele tinha dificuldade de se inclinar e que foi obrigado a se apoiar na prateleira para se reerguer. Henrik Vanger fez sinal para que Mikael se sentasse no sof� enquanto ele mesmo folheava o �lbum. Ele parecia saber o que procurava e, quando encontrou, depositou o �lbum sobre a mesa baixa. Mostrou uma foto de amador, em preto-e-branco, na base da qual se percebia a sombra do fot�grafo. No primeiro plano, um garotinho louro olhava para a objetiva com ar perturbado e um pouco inquieto.</p><p>� � voc� naquele ver�o. Seus pais aparecem ao fundo, nas cadeiras de jardim. Harriet est� um pouco encoberta pela sua m�e, e o rapaz � esquerda de seu pai � o irm�o de Harriet, Martin Vanger, que atualmente dirige o grupo.</p><p>Mikael n�o teve nenhuma dificuldade em reconhecer seus pais. A m�e, visivelmente gr�vida � a irm� de Mikael estava a caminho. Contemplou a foto, n�o sabendo bem o que pensar, enquanto Henrik Vanger servia o caf� e lhe oferecia o prato com biscoitos.</p><p>� Sei que seu pai morreu. E sua m�e, ainda est� viva?</p><p>� N�o � disse Mikael. � Morreu h� tr�s anos.</p><p>� Era uma mulher agrad�vel. Lembro muito bem dela.</p><p>� Mas estou certo de que n�o me chamou aqui para falar dos meus pais e dos bons velhos tempos.</p><p>� Tem raz�o. H� v�rios dias venho preparando o que vou lhe dizer, mas agora que voc� finalmente est� diante de mim n�o sei por onde come�ar. Bem, voc� sabe que houve um tempo em que tive uma grande influ�ncia sobre a ind�stria sueca e o mercado de trabalho. Hoje sou um velho que n�o deveria tardar a morrer, e a morte � talvez um ponto de partida bastante conveniente para esta conversa.</p><p>Mikael tomou um gole de caf�. Um aut�ntico caf� fervido e amargo do Norrland, pensou, perguntando-se aonde aquilo tudo ia levar.</p><p>� Sofro de lombalgia, n�o consigo mais fazer grandes caminhadas. Um dia voc� tamb�m ver� que a for�a acaba nos faltando, mas n�o sou hipocondr�aco nem senil. Tampouco obcecado pela morte, por�m estou na idade em que devo aceitar que meu tempo est� chegando ao fim. H� um momento em que se tem vontade de fazer um balan�o e resolver o que ficou inacabado. Entende o que quero dizer?</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. Henrik Vanger falava com voz clara e firme, e Mikael j� conclu�ra que o velho n�o era nem senil nem irracional.</p><p>� O que me intriga � a raz�o pela qual estou aqui � ele repetiu.</p><p>� Pedi que viesse porque gostaria que me ajudasse nesse balan�o de que falei. Tenho algumas quest�es que precisam ser resolvidas.</p><p>� E por que eu? Quero dizer... por que imagina que posso ajud�-lo?</p><p>� � que no momento em que eu estava pensando em chamar algu�m, seu nome come�ou a aparecer no caso Wennerstr�m. Eu sabia quem voc� era. E tamb�m porque subiu nos meus joelhos quando era um garotinho.</p><p>Ele agitou a m�o como para apagar suas palavras.</p><p>� N�o me entenda mal. N�o espero que me ajude por raz�es sentimentais. Quis apenas explicar por que tive o impulso de procur�-lo.</p><p>Mikael sorriu afavelmente.</p><p>� Bem, n�o tenho a menor lembran�a desses joelhos. Mas como soube quem eu era? Afinal, isso aconteceu no come�o dos anos 1960.</p><p>� Desculpe, n�o me expliquei bem. Voc� foi para Estocolmo quando seu pai assumiu o cargo de chefe de se��o na Zarinder. Era uma das muitas empresas do grupo Vanger e fui eu que lhe arranjei esse emprego. Ele n�o tinha diploma, mas eu sabia o quanto valia. Encontrei seu pai v�rias vezes quando tinha assuntos a tratar na Zarinder. Talvez n�o f�ssemos amigos �ntimos, mas sempre fic�vamos um bom tempo conversando. A �ltima vez que o vi foi um ano antes de sua morte, e ele me disse que voc� havia entrado na faculdade de jornalismo. Estava muito orgulhoso. Depois voc� ficou famoso no pa�s com aquela hist�ria da gangue � Super-Blomkvist e tudo aquilo. Acompanhei sua carreira e li muitos artigos que escreveu ao longo dos anos. Leio a <emphasis>Millennium</emphasis> com bastante frequ�ncia.</p><p>� Certo, entendo. Mas o que quer exatamente que eu fa�a?</p><empty-line/><p>Henrik Vanger examinou suas m�os por um breve instante e tomou um gole de caf�, como se precisasse de uma pequena pausa antes de entrar no assunto.</p><p>� Mikael, antes de chegar aos detalhes, eu gostaria que fiz�ssemos um acordo. Que voc� fizesse duas coisas por mim. Uma � um pretexto e a outra � o meu verdadeiro pedido.</p><p>� Que esp�cie de acordo?</p><p>� Vou contar uma hist�ria em duas partes. Uma parte fala da fam�lia Vanger: � o pretexto. E uma hist�ria longa e sombria, mas tentarei me ater � estrita verdade. A outra parte da hist�ria envolve o meu verdadeiro pedido. Acho que em alguns momentos interpretar� meu relato como... loucura. O que desejo � que escute minha hist�ria at� o fim � meu pedido e minha oferta � antes de tomar a decis�o de aceitar ou n�o o trabalho.</p><p>Mikael suspirou. Evidentemente, Henrik Vanger n�o pretendia expor seu pedido de maneira breve e concisa, para que ele pudesse embarcar no trem da tarde. Mikael tinha certeza de que, se chamasse Dirch Frode e lhe pedisse para lev�-lo � esta��o, o motor do carro se recusaria a pegar por causa do frio.</p><p>O velho devia ter dedicado muito tempo pensando num meio de amarr�-lo. Mikael sentia como encena��o tudo o que se passara desde que entrou naquela casa; a come�ar pela surpresa de ficar sabendo que j� estivera com Henrik Vanger quando crian�a, depois a foto de seus pais no �lbum e a �nfase no fato de seu pai e Henrik Vanger terem sido amigos; depois, ainda, quando o velho o lisonjeou ao contar ter acompanhado sua carreira � dist�ncia ao longo dos anos... No todo certamente havia um fundo de verdade, mas se tratava tamb�m de psicologia das mais elementares. Em outras palavras: Henrik Vanger era um bom manipulador, habituado havia anos a lidar com pessoas inflex�veis atr�s das portas fechadas das salas de negocia��o. N�o por acaso ele se tornara um dos mais eminentes magnatas da ind�stria sueca.</p><p>Mikael concluiu que Henrik Vanger queria que ele fizesse algo que, com certeza, n�o tinha a menor vontade de fazer. Restava descobrir do que se tratava e em seguida dizer n�o. Quem sabe, a tempo ainda de pegar o trem da tarde.</p><p>� Sinto muito, senhor Vanger, sem acordo � respondeu Mikael, olhando seu rel�gio. � Estou aqui h� vinte minutos e lhe dou mais trinta para me contar o que deseja. Depois pego um t�xi e volto para casa.</p><p>Por um instante, Henrik Vanger abandonou seu papel de patriarca benevolente e Mikael entreviu o dono de empresas amea�ador, do tempo de seus amplos poderes, que acabava de sofrer um rev�s ou que era obrigado a se haver com um funcion�rio recalcitrante. Sua boca contraiu-se rapidamente num sorriso severo.</p><p>� Entendo.</p><p>� � simples. N�o h� necessidade de tantos rodeios. Diga o que quer que eu fa�a e sem d�vida vou poder julgar se quero ou n�o fazer.</p><p>� Voc� quer dizer que, se eu n�o conseguir convenc�-lo em trinta minutos, tampouco conseguirei em trinta dias?</p><p>� � mais ou menos isso.</p><p>� Mas a verdade � que meu relato � longo e complicado.</p><p>� Abrevie e simplifique. � o que fazemos no jornalismo. Vinte e nove minutos.</p><p>Henrik Vanger ergueu uma das m�os.</p><p>� Est� bem, entendi. Mas tamb�m n�o exagere, por favor. O fato � que preciso de algu�m dotado de esp�rito cr�tico que saiba fazer pesquisas, e que seja igualmente �ntegro. Acho que voc� � tudo isso, e n�o o estou adulando. Um bom jornalista deve possuir minimamente essas qualidades, e li seu livro <emphasis>Os templ�rios</emphasis> com grande interesse. Sou bastante honesto quando digo que escolhi voc� porque conheci seu pai e porque sei quem voc� �. Se entendi bem, voc� foi licenciado da <emphasis>Millennium</emphasis> depois do caso Wennerstr�m � ou decidiu afastar-se por conta pr�pria. Isso significa que por ora n�o tem emprego, e n�o � preciso ser muito inteligente para entender que provavelmente seu dinheiro est� curto.</p><p>� O que lhe permite tirar proveito da minha situa��o, n�o � o que est� querendo dizer?</p><p>� Talvez. Mas n�o pretendo mentir nem inventar falsos pretextos, Mikael. Estou muito velho para esse tipo de coisa. Se n�o gosta do que eu disse, basta cair fora. E ent�o terei que procurar outra pessoa que aceite trabalhar para mim.</p><p>� Est� bem, em que consiste esse trabalho que quer me oferecer?</p><p>� O que voc� sabe sobre a fam�lia Vanger? Mikael afastou as m�os.</p><p>� Mais ou menos o que tive tempo de ler na internet depois do telefonema de Frode na segunda-feira. O grupo Vanger chegou a ser, na sua �poca, um dos grupos industriais mais importantes da Su�cia, hoje a empresa est� consideravelmente enfraquecida, Martin Vanger � o diretor-executivo. Bem, sei mais duas ou tr�s coisas al�m disso, mas aonde est� querendo chegar?</p><p>� Martin... � um bom sujeito, mas no fundo s� gosta de navegar com vento fraco. Deixa muito a desejar como diretor-executivo de um grupo em crise. Ele quer modernizar e especializar, o que � razo�vel, por�m tem dificuldade de transmitir suas id�ias e mais ainda de financi�-las. H� vinte e cinco anos, o grupo Vanger era um concorrente s�rio do imp�rio Wallenberg. T�nhamos cerca de quarenta mil funcion�rios na Su�cia. Produz�amos emprego e rendimentos ao pa�s inteiro. Hoje a maior parte desses empregos deslocou-se para a Cor�ia ou para o Brasil. Atualmente, temos pouco mais de dez mil funcion�rios e dentro de um ano ou dois � se Martin n�o conseguir decolar � cairemos para cinco mil funcion�rios, essencialmente em pequenas manufaturas. Ou seja, o grupo Vanger est� a ponto de ser relegado a lixo da hist�ria.</p><p>Mikael concordou, balan�ando a cabe�a. O que Henrik Vanger contava era aproximadamente o que ele conclu�ra ap�s a pesquisa em seu computador.</p><p>� O grupo Vanger continua sendo uma das raras empresas familiares do pa�s, com uns trinta membros da fam�lia como acionistas mais ou menos minorit�rios. Isso foi sempre a for�a do grupo, mas tamb�m nossa maior fraqueza.</p><p>Henrik Vanger fez uma pausa ret�rica e ent�o passou a falar com mais intensidade na voz.</p><p>� Mikael, fa�a perguntas depois, mas quero que acredite na minha palavra quando digo que detesto a maioria dos membros da minha fam�lia. Ela � principalmente formada por trapaceiros, aproveitadores, fanfarr�es e incapazes. Dirigi o grupo durante trinta e cinco anos, praticamente sempre envolvido em lutas implac�veis com os demais membros da fam�lia. Eles � que eram os meus piores inimigos, n�o os concorrentes. Fez uma pausa.</p><p>� Eu disse que desejo contrat�-lo para que fa�a duas coisas. Gostaria que escrevesse uma cr�nica ou uma biografia da fam�lia Vanger. Para simplificar, digamos a minha biografia. O resultado n�o ser� um texto a ser lido numa igreja, mas uma hist�ria de �dio, disputas familiares e cobi�a imensur�veis. Porei � sua disposi��o todos os meus di�rios �ntimos e meus arquivos. Ter� livre acesso aos meus pensamentos mais secretos e poder� publicar exatamente toda a merda que encontrar, sem restri��o. Acho que essa hist�ria far� de Shakespeare um mero divertidor do grande p�blico.</p><p>� E qual a finalidade disso?</p><p>� Por que quero publicar uma hist�ria de esc�ndalos sobre a fam�lia Vanger? Ou qual � minha motiva��o para pedir que escreva essa hist�ria?</p><p>� As duas coisas.</p><p>� Sinceramente, pouco me importa saber se o livro ser� publicado ou n�o. Mas acho que essa hist�ria merece ser escrita, nem que seja num �nico exemplar, que voc� depositar� na Biblioteca Real. Quero minha hist�ria acess�vel � posteridade quando eu estiver morto. Minha motiva��o � a mais simples que se pode imaginar � vingan�a.</p><p>� E de quem voc� quer se vingar?</p><p>� Voc� n�o � obrigado a acreditar em mim, mas tentei ser um homem honesto, mesmo sendo um capitalista e um dirigente industrial. Tenho orgulho de que meu nome esteja associado a um homem que cumpriu sua palavra e suas promessas. Nunca me envolvi em jogos pol�ticos. Nunca tive problemas para negociar com os sindicatos. E mesmo um socialdemocrata inveterado como Tage Erlander me respeitava. A meu ver, tratava-se de uma quest�o de �tica; eu era respons�vel pelo ganha-p�o de milhares de pessoas e cuidava dos meus empregados. � curioso, Martin tem a mesma atitude, embora seja um tipo de homem bem diferente. Ele tamb�m tentou agir de maneira correta. Talvez nem sempre tenhamos sido bem-sucedidos, mas de modo geral me envergonho de poucas coisas. Infelizmente, Martin e eu somos exce��es em nossa fam�lia � prosseguiu Henrik Vanger. � H� muitas raz�es que explicam por que o grupo Vanger est� hoje � beira da bancarrota, mas uma das mais importantes � a avidez de curto prazo de muitos membros da fam�lia. Se aceitar esse trabalho, explicarei direitinho como eles levaram o grupo a afundar.</p><p>Mikael refletiu por um instante.</p><p>� O.k. Mas tamb�m n�o vou mentir. Escrever um livro como esse exigir� meses de trabalho. N�o tenho vontade nem for�a para isso.</p><p>� Acho que posso convenc�-lo.</p><p>� Duvido. Mas voc� disse que h� duas coisas que deseja que eu fa�a. Acabou de me dar o pretexto. Qual � o objetivo real?</p><empty-line/><p>Henrik Vanger levantou-se, mais uma vez com dificuldade, e foi buscar na mesa a fotografia de Harriet Vanger. Colocou-a na frente de Mikael.</p><p>� Se desejo que escreva uma biografia da fam�lia Vanger, � porque quero que trace um panorama das pessoas com olhos de jornalista. � tamb�m um pretexto para esquadrinhar a hist�ria da fam�lia. O que desejo realmente � que me resolva um mist�rio. Esse � o seu trabalho.</p><p>� Um mist�rio?</p><p>� Harriet, como eu disse, era a neta do meu irm�o Richard, filha do filho dele. �ramos cinco irm�os. Richard o mais velho, nascido em 1907, e eu o mais novo, nascido em 1920. N�o entendo como Deus p�de produzir um grupo de irm�os que...</p><p>Durante alguns segundos, Henrik Vanger perdeu o fio da meada e pareceu mergulhar nos pr�prios pensamentos. Depois virou-se para Mikael com uma nova resolu��o na voz.</p><p>� Deixe-me falar um pouco do meu irm�o Richard Vanger. � tamb�m uma amostra da cr�nica que quero que escreva.</p><p>Serviu-se de caf� e ofereceu a Mikael uma segunda x�cara.</p><p>� Em 1924, com dezessete anos, Richard era um nacionalista fan�tico. Antisemita not�rio, aderiu � Liga nacional-socialista sueca pela liberdade, um dos primeiros grupos nazistas suecos. � fascinante como os nazistas sempre conseguem colocar a palavra "liberdade" em sua propaganda, n�o � mesmo?</p><p>Henrik Vanger pegou outro �lbum de fotografias e o folheou at� encontrar a p�gina buscada.</p><p>� Aqui est� Richard na companhia de Birger Furugard, um veterin�rio que rapidamente passou a liderar o chamado Movimento de Furugard, principal grupo nazista dos anos 1930. Mas Richard n�o permaneceu nele. Um ano mais tarde, aderiu � SFKO, organiza��o de luta fascista sueca. Ali conheceu Per Engdahl e outros indiv�duos que ao longo dos anos haveriam de ser a vergonha da na��o.</p><p>Virou uma p�gina do �lbum. Richard Vanger de uniforme.</p><p>� Em 1927, ele se juntou ao Ex�rcito, contra a vontade do nosso pai, e durante os anos 1930 aderiu � maior parte dos grupos nazistas do pa�s. Voc� poder� encontrar seu nome na lista de membros at� mesmo do menor grupo de conspira��o. Em 1933 foi fundado o Movimento de Lindholm, isto �, o Partido Oper�rio Nacional-socialista. Voc� est� um pouco familiarizado com a hist�ria do nazismo sueco?</p><p>� N�o sou historiador, mas li alguns livros.</p><p>� Bem, a Segunda Guerra come�ou em 1939 e a Guerra de Inverno da Finl�ndia em 1940. Muitos ativistas do Movimento de Lindholm se engajaram como volunt�rios a favor da Finl�ndia. Richard estava entre eles; era capit�o do Ex�rcito sueco. Foi morto em 1940, pouco antes do acordo de paz com a Uni�o sovi�tica. O movimento nazista o transformou num m�rtir e seu nome foi dado a um grupo de luta. Ainda hoje, alguns fan�ticos se re�nem num cemit�rio de Estocolmo no dia do anivers�rio da morte de Richard Vanger para homenage�-lo.</p><p>� Entendo.</p><p>� Em 1926, quando tinha dezenove anos, ele frequentava uma certa Margareta, filha de um professor de Falun. Viam-se em contextos pol�ticos e tiveram uma liga��o da qual nasceu um filho, Gottfried, em 1927. Richard se casou com Margareta quando seu filho nasceu. Durante a primeira metade dos anos 1930, meu irm�o instalou a mulher e o filho aqui em Hedestad, enquanto eu servia no regimento de G�vle. Ele ocupava quase todo o seu tempo com viagens de propaganda pr�-nazismo. Em 1936, teve um s�rio atrito com meu pai. O resultado � que meu pai retirou toda a ajuda financeira a Richard, que a seguir foi obrigado a se manter sozinho. Ele se mudou para Estocolmo com a fam�lia, onde viveram em relativa pobreza.</p><p>� Ele n�o tinha seu pr�prio dinheiro?</p><p>� A parte que lhe cabia no grupo estava bloqueada. N�o podia ser vendida fora da fam�lia. � preciso tamb�m dizer que Richard, em casa, era um tirano brutal. Batia na mulher e maltratava o filho. Gottfried era uma crian�a submissa e humilhada. Tinha treze anos quando Richard morreu na guerra; acho que foi o dia mais feliz da vida de Gottfried. Meu pai se compadeceu da vi�va e do neto e os chamou de volta a Hedestad, alojando-os num apartamento e cuidando para que Margareta tivesse uma exist�ncia decente. Se Richard representava o lado sombrio e fan�tico da fam�lia, Gottfried representava seu lado pregui�oso. Quando completou dezoito anos, eu me encarreguei dele, afinal, era filho do meu falecido irm�o, ainda que a diferen�a de idade entre n�s n�o fosse grande. Eu era apenas sete anos mais velho que meu sobrinho, mas j� estava na dire��o do grupo e era evidente que assumiria o comando depois do meu pai, enquanto Gottfried era praticamente considerado um intruso na fam�lia.</p><p>Henrik Vanger refletiu por um momento.</p><p>� Meu pai n�o sabia muito bem como se comportar com o neto e fui eu que insisti para que cuid�ssemos dele. Arranjei-lhe trabalho no grupo, isso depois da guerra. Sem d�vida ele tentou desempenhar honestamente suas tarefas, mas tinha dificuldade em se concentrar. Era um cabe�a-tonta, charmoso e festeiro, sempre �s voltas com mulheres, e havia �pocas em que bebia muito. Eu n�o sabia definir meus sentimentos por ele... n�o era um incapaz, mas estava longe de ser confi�vel, e muitas vezes me decepcionou profundamente. Com os anos tornou-se alco�latra e, em 1965, morreu afogado num acidente. Aconteceu aqui, na outra extremidade da ilha, onde constru�ra uma cabana para a qual se retirava seguidamente a fim de beber.</p><p>� Ent�o ele � o pai de Harriet e de Martin? � perguntou Mikael, apontando para o retrato sobre a mesa baixa. A contragosto, foi obrigado a reconhecer que o relato do velho o interessava.</p><p>� Exatamente. No fim dos anos 1940, Gottfried conheceu uma mulher chamada Isabella Koenig, uma jovem alem� que havia chegado � Su�cia depois da guerra. Isabella era uma mulher linda, t�o linda como Greta Garbo ou Ingrid Bergman. Sem d�vida Harriet herdou genes mais de Isabella que de Gottfried. Como voc� pode ver na foto, ela j� era muito bonita com apenas catorze anos.</p><p>Imitando Henrik Vanger, Mikael contemplou a foto.</p><p>� Mas deixe-me prosseguir. Isabella nasceu em 1928 e ainda est� viva. Tinha onze anos quando estourou a guerra, e voc� bem pode imaginar o que era ser adolescente em Berlim com a avia��o aliada despejando bombas sobre a cidade. Imagino que, quando desembarcou na Su�cia, ela teve a impress�o de estar chegando ao para�so. Infelizmente, tinha muitos v�cios em comum com Gottfried: era esbanjadora e vivia o tempo todo em festas; ela e Gottfried mais pareciam companheiros de bebida que marido e mulher. Viajava sem parar, na Su�cia e no exterior, e de maneira geral n�o tinha o menor senso de responsabilidade. O que evidentemente afetou os filhos. Martin nasceu em 1948 e Harriet em 1950. A inf�ncia deles foi ca�tica, com uma m�e que a toda hora os abandonava e um pai que afundava no alcoolismo. Em 1958 resolvi intervir. Gottfried e Isabella moravam em Hedestad e forcei-os a se mudar para c�. Eu estava come�ando a ficar cansado daquilo e decidi romper aquele c�rculo infernal. Martin e Harriet viviam ao deus-dar�. Henrik Vanger olhou seu rel�gio.</p><p>� Meus trinta minutos se esgotaram, mas estou chegando ao final da hist�ria. Concede-me alguns minutos mais?</p><p>Mikael balan�ou a cabe�a e falou:</p><p>� Continue.</p><p>� Vou ser breve ent�o. Eu n�o tinha filhos, um contraste consider�vel com os outros irm�os e membros da fam�lia, que pareciam obcecados pela necessidade est�pida de perpetuar a linhagem. Gottfried e Isabella vieram morar aqui, mas o casamento come�ou a se desfazer. Depois de um ano, Gottfried se instalou em sua cabana, onde passava longos per�odos sozinho, s� retornando � casa de Isabella quando estava muito frio. Acabei me encarregando de Martin e de Harriet. Em mais de um aspecto eles passaram a ser os filhos que nunca tive. Martin era... Para dizer a verdade, houve um momento em sua juventude em que temi que seguisse as pegadas do pai. Era indolente, introvertido e hipocondr�aco, mas tamb�m podia ser charmoso e entusiasta. Passou por alguns anos dif�ceis na adolesc�ncia, mas se endireitou ao come�ar a universidade. Ele... bem, apesar de tudo ele � o diretor-executivo do que resta do grupo Vanger, o que deve ser encarado como um saldo razo�vel.</p><p>� E Harriet? � perguntou Mikael.</p><p>� Harriet tornou-se a menina dos meus olhos. Tentei dar a ela seguran�a e, a partir da�, confian�a em si mesma. N�s dois nos entend�amos muito bem. Considerava-a como filha e ela passou a ser mais pr�xima de mim que dos pr�prios pais. Entenda, Harriet era uma menina muito especial. Introvertida como o irm�o, na adolesc�ncia teve uma atra��o rom�ntica pela religi�o, o que a distinguia de todos os outros membros da fam�lia. Mas tamb�m tinha talentos evidentes e uma intelig�ncia rara. Um grande senso moral e uma grande honestidade. Quando estava com catorze, quinze anos, eu tinha a certeza de que ela, mais do que o irm�o e todos os primos e sobrinhos ao meu redor, seria um dia chamada para dirigir o grupo Vanger ou, pelo menos, para desempenhar algum papel central nele.</p><p>� E o que aconteceu?</p><p>� Chegamos agora � verdadeira raz�o pela qual eu gostaria de contrat�-lo. Quero que descubra quem, na fam�lia, assassinou Harriet Vanger e h� quase quarenta anos vem tentando me fazer mergulhar na loucura.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>5.� QUINTA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Pela primeira vez desde que Henrik Vanger iniciara seu mon�logo, o velho conseguiu surpreender Mikael, que pediu mesmo que ele repetisse, para estar certo de ter ouvido bem. Nenhuma das informa��es que colhera na internet sugeria que um assassinato tivesse ocorrido na fam�lia Vanger.</p><p>� Foi em 22 de setembro de 1966. Harriet tinha dezesseis anos e acabava de se classificar em primeiro lugar no col�gio. Era um s�bado e foi o pior dia da minha vida. Reconstitu� o desenrolar dos acontecimentos tantas vezes que penso ser capaz de descrever minuto a minuto o que se passou naquele dia, exceto o mais importante.</p><p>Fez um gesto com a m�o, como se varresse o ar.</p><p>� Grande parte da fam�lia estava reunida aqui nesta casa. Era um daqueles terr�veis jantares anuais de fam�lia, quando s�cios do grupo Vanger se reuniam para discutir neg�cios. Meu av� criara essa tradi��o na sua �poca, e o resultado, na maioria das vezes, eram reuni�es mais ou menos detest�veis. A tradi��o chegou ao fim nos anos 1980, quando Martin decidiu, pura e simplesmente, que todas as discuss�es relativas � empresa ocorreriam nas reuni�es e nas assembl�ias regulares. Foi a melhor decis�o que tomou na vida. Faz vinte anos que a fam�lia n�o se re�ne para esse tipo de encontro.</p><p>� Voc� disse que Harriet foi assassinada...</p><p>� Espere. Deixe-me contar o que aconteceu. Era um s�bado, portanto. Era tamb�m a Festa das Crian�as, com um desfile organizado pelo clube de atletismo de Hedestad. Harriet foi � cidade, durante o dia, para assistir ao desfile com alguns colegas do col�gio. Voltou um pouco depois das duas da tarde; o jantar estava previsto para as cinco e ela era esperada, como todos os outros jovens da fam�lia.</p><p>Henrik Vanger levantou-se e foi at� a janela. Fez um sinal para que Mikael o acompanhasse e apontou com um dedo:</p><p>� As duas e quinze, alguns minutos depois de Harriet ter chegado em casa, um acidente terr�vel aconteceu ali na ponte. Um certo Gustav Aronsson, irm�o de um propriet�rio rural de �stergarden, uma fazenda aqui da ilha, entrou de carro na ponte e colidiu de frente com um caminh�o-tanque que se dirigia � ilha para fornecer �leo dom�stico. Nunca se chegou a estabelecer realmente como o acidente ocorreu, pois h� boa visibilidade nos dois sentidos, mas ambos vinham muito depressa, e o que podia ter sido um acidente menor se transformou em uma cat�strofe. O motorista do caminh�o tentou evitar a colis�o girando instintivamente o volante. O caminh�o-tanque bateu na grade lateral e virou, ficando atravessado na ponte com a traseira em grande parte para fora da beirada... Uma barra de metal furou o tanque, e �leo inflam�vel come�ou a vazar. Enquanto isso, Gustav Aronsson, prensado no carro e sofrendo terrivelmente, berrava sem parar. O motorista do caminh�o-tanque tamb�m se feriu, mas conseguiu sair da cabine.</p><p>O velho fez uma pausa e voltou a se sentar.</p><p>� Na verdade, o acidente n�o teve rela��o alguma com Harriet. Mas, de certo modo, desempenhou seu papel. Pois foi um caos completo quando as pessoas correram para ajudar. Havia amea�a de inc�ndio, e o alerta foi dado. A pol�cia, uma ambul�ncia, as primeiras pessoas aproximando-se depressa para socorrer, os bombeiros, jornalistas e curiosos acorreram na maior desordem ao local. Evidentemente, todos se amontoavam do lado do continente, enquanto na ilha faz�amos o poss�vel para tirar Aronsson dos destro�os, o que acabou sendo uma tarefa terrivelmente dif�cil. Ele estava prensado e seriamente ferido. Tentamos retir�-lo das ferragens com a for�a das m�os, mas n�o adiantou. Era preciso usar uma serra. O problema � que n�o pod�amos fazer nada que produzisse fagulhas, est�vamos no meio de um mar de �leo ao lado de um caminh�o-tanque virado. Se ele explodisse, seria o nosso fim. Demorou algum tempo at� chegarem refor�os do continente; o caminh�o atravessado obstru�a a ponte, e passar por cima do tanque era o mesmo que escalar uma bomba.</p><p>Mikael teve a impress�o de que o velho fazia um relato minuciosamente ensaiado e calculado com a inten��o de captar seu interesse. E foi obrigado a admitir que Henrik Vanger era um excelente contador de hist�rias. Sabia <emphasis>cativar o ouvinte. No entanto, ele continuava</emphasis> sem ter a menor id�ia de que rumo a hist�ria tomaria.</p><p>� O importante nesse acidente � que a ponte permaneceu fechada durante as vinte e quatro horas seguintes. S� no fim da tarde de domingo � que conseguiram bombear o �leo que restava no tanque, remover o caminh�o e reabrir a ponte para circula��o. Durante essas vinte e quatro horas, a ilha esteve separada do mundo. O �nico meio de se chegar ao continente era atrav�s de uma canoa dos bombeiros, mobilizada para transportar as pessoas do porto de recreio na ilha at� o velho porto atr�s da igreja. Durante v�rias horas, o barco s� foi utilizado pelos socorristas. S� bem tarde no s�bado, � noite, � que come�aram a transportar os moradores. Entende o que isso significa?</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Suponho que alguma coisa aconteceu a Harriet na ilha e que o n�mero de suspeitos se limita �s pessoas que estavam aqui. Uma esp�cie de vers�o insular do mist�rio do quarto fechado?</p><p>Henrik Vanger deu um sorriso ir�nico.</p><p>� Mikael, voc� n�o sabe o quanto tem raz�o. Eu tamb�m li Dorothy Sayers. Eis os fatos comprovados: Harriet chegou aqui por volta das duas e dez. Se contarmos tamb�m as crian�as e os casais n�o casados, ao todo haviam chegado cerca de quarenta pessoas durante o dia. Contando empregados e moradores fixos, havia sessenta e quatro pessoas aqui ou nos arredores da casa. Alguns, os que pretendiam passar a noite, ocupavam-se em se instalar nas casas vizinhas ou nos quartos de h�spedes. Harriet havia morado antes numa casa do outro lado da estrada, mas, como j� contei, nem seu pai Gottfried nem sua m�e Isabella eram muito est�veis, e percebi o quanto Harriet andava atormentada. N�o conseguia se concentrar nos estudos e, em 1964, quando completou catorze anos, fiz que viesse se instalar aqui em casa. Isabella certamente achou c�modo poder desembara�ar-se dos cuidados que a filha representava. Harriet tinha um quarto no andar de cima, e passamos dois anos juntos. Assim, foi para c� que ela veio naquele dia. Sabemos que trocou algumas palavras com Harald Vanger no p�tio, ele � um dos meus irm�os. Depois, subiu a escada e veio at� aqui, a este c�modo, me dar um al�. Disse que queria me contar alguma coisa. Outros membros da fam�lia estavam comigo nesse momento e n�o tive tempo para escut�-la. Mas ela parecia t�o preocupada que prometi ir ao seu quarto sem demora. Ela concordou com a cabe�a e saiu por aquela porta. Foi a �ltima vez que a vi. Um minuto mais tarde, houve o choque na ponte e o caos que se seguiu alterou todos os outros planos do dia.</p><p>� Como ela morreu?</p><p>� Espere. A coisa � mais complicada e devo contar a hist�ria em ordem cronol�gica. Quando ocorreu a colis�o, as pessoas deixaram tudo o que estavam fazendo e se precipitaram ao local do acidente. Eu era... digamos que assumi a dire��o das opera��es, n�o pensei em outra coisa nas horas seguintes. Sabemos que Harriet tamb�m foi at� a ponte depois da colis�o, v�rias pessoas a viram, mas o risco de explos�o me fez ordenar que todos que n�o estavam ajudando a retirar Aronsson dos destro�os se afastassem. �ramos somente cinco pessoas no local do acidente: eu e meu irm�o Harald; Magnus Nilsson, esp�cie de empregado faz-tudo em minha casa; um oper�rio da serraria chamado Sixten Nordlander, que morava numa cabana junto ao porto de recreio; e um jovem chamado Jerker Aronsson. Este tinha dezesseis anos e eu devia t�-lo mandado embora, mas era o sobrinho do Aronsson prensado dentro do carro e chegara de bicicleta um minuto ou dois ap�s o acidente; ele estava indo para a cidade. Por volta das vinte para as tr�s, Harriet estava na cozinha, aqui em casa. Bebeu um copo de leite e trocou algumas palavras com Astrid, a cozinheira. Juntas, elas ficaram olhando pela janela o que se passava na ponte. As cinco para as tr�s, Harriet atravessou o p�tio. Foi vista, entre outros, pela m�e, Isabella, mas elas n�o se falaram. Um minuto depois, ela cruzou com Otto Falk, o pastor de Hedeby. Nessa �poca, o presbit�rio ficava onde hoje Martin Vanger tem a sua casa, do lado de c� da ponte. O pastor, resfriado, fazia uma sesta quando a colis�o ocorreu; n�o vira o acidente, acabavam de inform�-lo e ele se dirigia apressado � ponte. Harriet o deteve no caminho, queria falar com ele, mas o pastor a interrompeu com um gesto de m�o e prosseguiu em seu caminho. Otto Falk � a �ltima pessoa que a viu viva.</p><p>� Como ela morreu? � repetiu Mikael.</p><p>� N�o sei � respondeu Henrik Vanger com um olhar atormentado. � S� conseguimos retirar Aronsson do carro por volta das cinco da tarde (ali�s, mesmo gravemente ferido, ele sobreviveu) e as seis a amea�a de inc�ndio j� n�o existia. A ilha continuava isolada, mas as coisas come�avam a se acalmar. S� nos demos conta da aus�ncia de Harriet no momento em que nos sentamos � mesa para um jantar tardio, �s oito da noite. Enviei uma de suas primas para cham�-la no quarto, mas ela voltou dizendo que n�o a encontrara. Isso n�o me deixou muito inquieto; achei que ela resolvera dar uma volta ou que n�o fora informada de que o jantar estava servido. E durante a noite estive ocupado com diversas disputas familiares. S� na manh� seguinte, porque Isabella a procurava, � que percebemos que ningu�m sabia onde ela estava e que ningu�m a vira desde a v�spera.</p><p>Ele abriu amplamente os bra�os.</p><p>� Desde esse dia, Harriet Vanger continua desaparecida, sem que haja o menor sinal dela.</p><p>� Desaparecida? � ecoou Mikael.</p><p>� Em todos esses anos n�o conseguimos descobrir nada, nem um fragmento microsc�pico dela.</p><p>� Mas, se ela desapareceu, ent�o n�o se pode afirmar que tenha sido assassinada.</p><p>� Entendo sua alega��o. Meus pensamentos seguiram o mesmo caminho. Quando algu�m desaparece sem deixar sinal, quatro coisas podem ter acontecido. A pessoa resolveu desaparecer por livre e espont�nea vontade e est� escondida. Pode ter sofrido um acidente fatal. Pode ter se suicidado. E, por fim, pode ter sido v�tima de um crime. Pesei todas as possibilidades.</p><p>� E por que acha que algu�m a matou?</p><p>� Porque � a �nica conclus�o plaus�vel. Henrik Vanger levantou um dedo e continuou:</p><p>� No in�cio achei que ela tivesse fugido. Mas os dias se passaram e todos n�s percebemos que n�o era esse o caso. Quero dizer: uma jovem de dezesseis anos que vivia num ambiente relativamente protegido, mesmo sendo esperta, como poderia se virar, se esconder e permanecer escondida sem ser descoberta? Onde conseguiria dinheiro? E, mesmo se arranjasse trabalho em algum lugar, precisaria de um documento de identidade e de um endere�o.</p><p>Levantou dois dedos.</p><p>� Meu segundo racioc�nio, evidentemente, � que ela tenha sofrido um acidente. Fa�a-me um favor, abra a gaveta de cima da escrivaninha. Vai encontrar um mapa ali.</p><p>Mikael fez o que ele pedia, depois abriu o mapa sobre a mesa baixa. Hedeby�n, a ilha, era uma massa de terra irregular de cerca de tr�s quil�metros de comprimento e um e meio em sua parte mais larga. Um bom trecho da ilha era constitu�do de floresta. As moradias se concentravam ao redor da ponte e do porto de recreio; na outra extremidade da ilha havia uma fazenda, �stergarden, de onde o infeliz Aronsson iniciara seu trajeto de carro.</p><p>� Lembre que ela n�o deixou a ilha � sublinhou Henrik Vanger. � Aqui em Hedeby�n pode-se morrer num acidente como em qualquer lugar do mundo. A pessoa pode ser atingida por um raio, embora naquele dia n�o tivesse desabado nenhuma tempestade. Pode ser pisoteada por um cavalo, cair num po�o ou numa furna. Certamente h� in�meras maneiras de se sofrer um acidente aqui. Refleti sobre tudo isso.</p><p>Ele ergueu um terceiro dedo.</p><p>� Resta um problema, e equivale tamb�m � terceira possibilidade: que, contra todas as expectativas, ela tenha se suicidado. Mas ent�o o corpo teria sido encontrado em alguma parte desta �rea t�o limitada.</p><p>Henrik Vanger espalmou a m�o no meio do mapa.</p><p><image l:href="#10"/></p><p>� Nos dias seguintes ao desaparecimento, organizamos uma batida, primeiro num sentido, depois no outro. Os homens vasculharam o menor fosso, a menor por��o de mato, tudo que se assemelhasse a uma furna ou a um monte de terra. Examinamos cada constru��o, cada chamin�, cada po�o, cada granja, cada celeiro.</p><p>O velho moveu a cabe�a e olhou para fora. Come�ava a escurecer. Sua voz ficou mais baixa e mais intimista.</p><p>� No outono continuei procurando-a, depois que as buscas tinham se encerrado e todos j� haviam desistido. Quando eu n�o estava ocupado com meu trabalho, percorria a ilha em todas as dire��es. O inverno chegou sem que tiv�ssemos encontrado o menor sinal dela. Na primavera eu prossegui, mesmo sabendo que meus esfor�os eram irracionais. O ver�o chegou, contratei tr�s peritos em floresta, que reiniciaram as buscas com c�es. Eles rastrearam sistematicamente cada metro quadrado da ilha. Eu come�ava a considerar que algu�m podia ter feito mal a ela. Assim, eles buscavam uma esp�cie de cova onde a tivessem enterrado. Procuraram por tr�s meses. N�o encontramos o menor sinal de Harriet. � como se ela tivesse evaporado.</p><p>� H� outras possibilidades � lembrou Mikael.</p><p>� Diga.</p><p>� Ela pode ter se afogado, acidental ou voluntariamente. Estamos numa ilha e a �gua pode ocultar muitas coisas.</p><p>� E verdade. Mas n�o � muito prov�vel. Veja: se Harriet sofreu um acidente e se afogou, isso logicamente deve ter acontecido muito perto do povoado. Lembre que a confus�o na ponte era o maior drama que Hedeby�n vivia desde muitas d�cadas, e seria estranho uma jovem de dezesseis anos escolher bem esse momento para ir passear do outro lado da ilha. Mais importante ainda � prosseguiu � � que n�o h� muitas correntes por aqui, e nessa �poca do ano os ventos costumam soprar do norte e do nordeste. Qualquer coisa que ca�sse na �gua teria sido lan�ada � praia do lado da terra firme, onde h� constru��es praticamente ao longo de toda a costa. Claro que pensamos nisso e investigamos todos os locais onde ela poderia ter ca�do na �gua. Tamb�m contratei jovens de um clube de mergulho de Hedestad. Passaram o ver�o esquadrinhando o fundo do canal e das praias pr�ximas... Nenhum sinal. Estou convencido de que ela n�o est� no mar, sen�o a ter�amos encontrado.</p><p>� E se ela sofreu um acidente em outra parte? A ponte estava fechada, � verdade, mas a dist�ncia entre a ilha e o continente n�o � grande. Ela pode ter atravessado a nado ou de barco.</p><p>� Era final de setembro, a �gua estava muito fria. Se Harriet decidisse tomar banho no meio da confus�o geral, teria sido vista e chamaria a aten��o. Havia gente na ponte e, do lado da terra firme, duzentas ou trezentas pessoas observavam a cena.</p><p>� E um barco?</p><p>� Naquele dia havia exatamente treze barcos em Hedeby�n. A maioria j� havia deixado o mar. No porto de recreio, apenas dois estavam na �gua. Havia sete barcos, cinco dos quais j� trazidos para a praia. Abaixo do presbit�rio, havia um bote recolhido em terra e um na �gua. Todos esses barcos foram verificados e se achavam exatamente em seus respectivos lugares. Se ela tivesse feito a travessia a remo, teria sido obrigada a deixar a embarca��o do outro lado.</p><p>Henrik Vanger levantou um quarto dedo.</p><p>� S� resta uma possibilidade veross�mil, a de que Harriet desapareceu contra a sua vontade. Algu�m lhe fez mal e deu sumi�o no corpo.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander passou a manh� de Natal lendo o controvertido livro de Mikael Blomkvist sobre jornalismo econ�mico. O livro tinha duzentas e dez p�ginas e chamava-se <emphasis>Os templ�rios,</emphasis> com o subt�tulo <emphasis>O jornalismo econ�mico em quest�o.</emphasis> A capa, de <emphasis>design</emphasis> muito moderno, assinada por Christer Malm, representava a Bolsa de Estocolmo. Christer trabalhara no Photoshop e o observador levava algum tempo para perceber que o pr�dio flutuava livremente no ar. N�o havia fundo. Dif�cil imaginar uma capa mais expl�cita e eficaz para dar o tom do que viria a seguir.</p><p>Salander constatou que Blomkvist tinha um estilo excelente. O livro era escrito de maneira direta e envolvente, e mesmo pessoas que n�o conheciam os meandros do jornalismo econ�mico podiam ler e tirar proveito. O tom era mordaz e sarc�stico, mas sobretudo convincente.</p><p>O primeiro cap�tulo era uma esp�cie de declara��o de guerra em que Blomkvist falava sem papas na l�ngua. Os analistas econ�micos suecos haviam se tornado, nos �ltimos anos, um grupo de lacaios incompetentes, que se julgavam importantes e n�o possu�am o menor pensamento cr�tico. Mikael chegava a essa conclus�o depois de mostrar que os jornalistas econ�micos se contentavam o tempo todo, e sem a menor obje��o, em reproduzir as afirma��es transmitidas por dirigentes de empresas e especuladores da Bolsa � mesmo quando essas afirma��es eram claramente falaciosas e err�neas. Esses jornalistas, portanto, ou eram ing�nuos e cr�dulos que deviam ser demitidos de seus cargos, ou, pior, gente que tra�a deliberadamente sua miss�o jornal�stica por n�o proceder a exames cr�ticos e por n�o fornecer ao p�blico uma informa��o correta. Blomkvist escrevia que muitas vezes se envergonhava de ser qualificado como jornalista econ�mico, pois se arriscava a ser confundido com pessoas que ele n�o considerava nem mesmo jornalistas.</p><p>Blomkvist comparava as contribui��es dos analistas econ�micos com o trabalho dos jornalistas especializados em assuntos criminais ou dos correspondentes no exterior. Tra�ava um panorama dos protestos que se levantariam se um jornalista jur�dico de um grande jornal passasse a publicar, sem o menor senso cr�tico, afirma��es do promotor, dando-as automaticamente como ver�dicas, por exemplo, no processo de um assassinato, sem buscar as informa��es da defesa e sem entrevistar a fam�lia da v�tima, para formar uma id�ia do que seria plaus�vel ou n�o. Dizia que as mesmas regras deviam se aplicar aos jornalistas econ�micos.</p><p>O restante do livro trazia uma s�rie de provas que refor�avam o discurso da introdu��o. Um longo cap�tulo examinava declara��es sobre uma empresa "pontocom" em seis importantes jornais, bem como nas revistas <emphasis>Finanstidningen, Dagens Industri</emphasis> e no programa de tev� <emphasis>A-ekonomi.</emphasis> Primeiro ele reproduzia essas cita��es e depois acrescentava o que os rep�rteres tinham dito e escrito, antes de comparar com a situa��o real. Descrevendo o desenvolvimento da empresa, v�rias vezes ele mencionava perguntas simples que um <emphasis>jornalista s�rio</emphasis> teria feito, mas que o grupo de especialistas da economia n�o fizera, numa clara omiss�o.</p><p>Outro cap�tulo abordava a privatiza��o da Telia � era a parte mais c�mica e ir�nica do livro, na qual articulistas econ�micos declaradamente citados eram reduzidos a p�, entre os quais um certo William Borg, contra quem Mikael parecia sentir uma particular hostilidade. Outro cap�tulo, mais no final do livro, comparava o n�vel de compet�ncia entre jornalistas econ�micos suecos e estrangeiros. Blomkvist descrevia a maneira como <emphasis>jornalistas s�rios</emphasis> do <emphasis>Financial Times, The Economist</emphasis> e de alguns peri�dicos econ�micos alem�es haviam noticiado os mesmos assuntos em seus pa�ses. A compara��o n�o era muito favor�vel aos jornalistas suecos. O �ltimo cap�tulo esbo�ava uma proposta para corrigir essa lament�vel situa��o. A conclus�o do livro remetia de volta � introdu��o:</p><empty-line/><p>Se um rep�rter, no Parlamento, realizasse sua tarefa do mesmo modo, sustentando sem a menor cr�tica cada mo��o proposta, ainda que totalmente insensata, ou se um jornalista pol�tico carecesse de uma forma semelhante de julgamento, esse jornalista seria despedido ou pelo menos transferido a um servi�o no qual ele ou ela n�o pudesse causar preju�zos. No jornalismo econ�mico, por�m, n�o � a miss�o jornal�stica natural que prevalece, ou seja, oferecer aos leitores an�lises cr�ticas e um relato objetivo dos resultados. N�o, aqui se celebra o vigarista mais bem-sucedido. E � assim que o futuro da Su�cia est� sendo moldado, minando-se a �ltima confian�a ainda depositada nos jornalistas como categoria profissional.</p><empty-line/><p>N�o havia rodeios. O tom era �spero e Salander n�o teve dificuldade em entender o debate enfurecido que se seguiu tanto no <emphasis>Journalisten,</emphasis> o �rg�o da categoria, em alguns jornais de economia como tamb�m nos artigos de fundo das revistas especializadas. Mesmo que apenas um n�mero pequeno de jornalistas econ�micos tivesse sido mencionado no livro, Lisbeth Salander supunha que a corpora��o era bastante pequena para que todos soubessem exatamente quem era visado quando se citavam as diferentes publica��es. Blomkvist arranjara s�rios inimigos, o que se refletia tamb�m nas dezenas de coment�rios que se alegravam de maneira maldosa com a senten�a do caso Wennerstr�m.</p><p>Ela fechou o livro e observou a fotografia do autor na quarta capa. Mikael Blomkvist aparecia numa foto pequena. Uma mecha castanho-clara pendia displicentemente sobre a testa, como se uma rajada de vento tivesse passado bem na hora em que o fot�grafo acionou o bot�o da m�quina, ou como se (o que era mais prov�vel) o ilustrador Christer Malm tivesse feito algum retoque. Ele olhava para a objetiva com um sorriso ir�nico e um olhar que certamente pretendia ser charmoso e travesso. <emphasis>Um cara bastante atraente. Tirado de circula��o por tr�s meses de pris�o.</emphasis></p><p>� Muito bem, Super-Blomkvist � disse ela em voz alta. � Voc� s� quis se divertir um pouco, n�o foi?</p><empty-line/><p>* * *</p><p>Por volta do meio-dia, Lisbeth Salander ligou seu notebook e abriu o programa Eudora para passar um e-mail. Digitou uma �nica e eloquente linha:</p><empty-line/><p>[Vc tem tempo?]</p><empty-line/><p>Assinou Wasp e enviou a mensagem para Praga_xyz_666@hotmail.com. Por precau��o, passou pelo programa de encripta��o PGP.</p><p>Depois vestiu um jeans preto, botas de inverno, malha de gola alta, jaqueta escura, luvas, um gorro e um cachecol da mesma cor amarelo-p�lido. Tirou os an�is das sobrancelhas e do nariz, passou nos l�bios um batom cor-de-rosa e examinou-se no espelho do banheiro. Estava parecida com qualquer pessoa que fosse passear num domingo e achou que sua indument�ria era uma camuflagem de combate adequada para uma incurs�o �s linhas inimigas. Tomou o metr� de Zinkensdamm na �stermalmstorg e depois foi a p� para a Strandv�gen. Caminhou pelo canteiro central enquanto ia lendo o n�mero dos pr�dios. Um pouco antes de chegar � ponte de Djurgarden, deteve-se e contemplou a porta que procurava. Atravessou a rua e esperou a alguns metros da entrada.</p><p>Observou que a maioria das pessoas que havia sa�do para passear nesse dia frio de Natal andava no meio da rua; somente uns poucos utilizavam a cal�ada diante dos pr�dios.</p><p>Foi preciso esperar cerca de meia hora at� que uma mulher j� de uma certa idade se aproximasse, com uma bengala, vindo da Djurgarden. A mulher parou e lan�ou um olhar desconfiado a Salander, que sorriu amavelmente e cumprimentou-a com um breve movimento de cabe�a. A senhora com a bengala devolveu o cumprimento e pareceu tentar se lembrar de onde conhecia a jovem. Salander deu-lhe as costas e se afastou da porta com alguns passos, como se estivesse andando para l� e para c� � espera de algu�m. Quando se virou de novo, a senhora j� estava diante da porta, digitando o c�digo de acesso com muita aplica��o. Salander n�o teve dificuldade em v�-la digitar 1260.</p><p>Esperou mais cinco minutos antes de se aproximar da porta. Quando acionou o c�digo, a fechadura emitiu um estalo. Ela abriu a porta e olhou para dentro. No <emphasis>hall</emphasis> havia uma c�mera de seguran�a, ela deu uma espiada e depois a ignorou; o modelo, vendido pela Milton Security, s� era ativado em caso de arrombamento. No fundo, � esquerda, passando um elevador antigo, havia outra porta com um c�digo de seguran�a; ela testou 1260 e constatou que a combina��o da porta de entrada era a mesma da porta de acesso ao subsolo e ao dep�sito de lixo. <emphasis>Que neglig�ncia!</emphasis> Levou exatamente tr�s minutos para examinar o subsolo, onde localizou uma lavanderia destrancada e um local de triagem do lixo. Depois utilizou um conjunto de chaves falsas que havia pegado "emprestadas" do serralheiro da Milton para abrir uma porta trancada que dava para o que parecia ser a sala de reuni�es do condom�nio. Bem ao fundo havia um local para jogos e passatempos. Por fim encontrou o que procurava � o quadro de luz do pr�dio. Examinou os rel�gios, os fus�veis e as jun��es, tirou do bolso uma m�quina fotogr�fica digital, uma Canon do tamanho de um ma�o de cigarros. Tirou tr�s fotos do que a interessava.</p><p>Ao sair, passou os olhos pela lista de nomes junto ao elevador e leu o do �ltimo andar: <emphasis>Wennerstr�m.</emphasis></p><p>Depois deixou o pr�dio e andou com passos r�pidos at� o Museu Nacional. Entrou na cafeteria para se aquecer e tomar um caf�. Meia hora depois, retornou ao S�der e subiu ao seu apartamento.</p><p>Ela recebera uma resposta de Praga_xyz_666@hotmail.com. Descriptografou-a em PGP, e a resposta lac�nica formava simplesmente o n�mero 20.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>6.� QUINTA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>O prazo de trinta minutos fixado por Mikael Blomkvist fora amplamente ultrapassado. Eram quatro e meia e n�o havia mais como cogitar o trem da tarde. Mas Mikael ainda podia pegar o trem das nove e meia da noite. De p� diante da janela, ele massageou a nuca enquanto contemplava a fachada iluminada da igreja do outro lado da ponte. Henrik Vanger mostrara-lhe um �lbum de recortes com artigos sobre o acontecimento publicados tanto nos jornais da regi�o quanto na imprensa nacional. O interesse da m�dia fora relativamente grande durante algum tempo � a filha de uma c�lebre fam�lia industrial desaparecida sem deixar vest�gios era uma not�cia e tanto. Mas, como o corpo n�o foi encontrado e as investiga��es n�o avan�aram, o interesse foi diminuindo. Embora o caso Harriet Vanger envolvesse uma ilustre fam�lia industrial, passados mais de trinta e seis anos era uma hist�ria esquecida. A teoria preponderante nos artigos do final dos anos 1960 era de que ela se afogara e fora arrastada ao largo � uma trag�dia que podia atingir qualquer fam�lia.</p><p>Curiosamente, Mikael ficara fascinado com o relato do velho, mas, quando Henrik Vanger pediu uma pausa para ir ao banheiro, Mikael voltou a ficar c�tico. No entanto o velho ainda n�o conclu�ra a hist�ria e Mikael prometera escut�-lo at� o fim.</p><p>� E o que aconteceu a ela, na sua opini�o? � perguntou Mikael quando Henrik voltou.</p><p>� Normalmente, cerca de vinte e cinco pessoas tinham domic�lio permanente aqui, mas por causa da reuni�o familiar havia umas sessenta pessoas na ilha naquele dia. Dessas, entre vinte e vinte e cinco podem ser exclu�das. Creio que um desses que restam, muito provavelmente algu�m da fam�lia, matou Harriet e escondeu o corpo.</p><p>� � preciso levar em conta algumas coisas.</p><p>� Diga.</p><p>� Bem, uma, evidentemente, � que mesmo que algu�m tivesse escondido o corpo, ele teria sido descoberto se as buscas foram mesmo t�o minuciosas como voc� disse.</p><p>� Para falar a verdade, as buscas foram ainda mais amplas do que descrevi. S� quando comecei a pensar que Harriet podia ter sido v�tima de um assassinato foi que me dei conta de que o corpo podia ter desaparecido de outras formas. N�o posso provar que o que digo � verdade, mas estamos dentro dos limites do poss�vel.</p><p>� Certo, continue.</p><p>� Harriet desapareceu por volta das tr�s da tarde. As cinco para as tr�s, o pastor Otto Falk a viu, quando se dirigia apressado ao local do acidente. Mais ou menos no mesmo instante, um fot�grafo do jornal local passou a tirar um grande n�mero de fotos de todo o drama. N�s, isto �, a pol�cia, examinamos essas fotos e constatamos que Harriet n�o aparecia em nenhuma delas; em compensa��o, todas as outras pessoas que moravam na ilha podiam ser vistas em pelo menos uma fotografia, com exce��o das crian�as muito pequenas.</p><p>Henrik Vanger foi buscar outro �lbum, que colocou sobre a mesa diante de Mikael.</p><p>� S�o as fotos daquele dia. A primeira foi tirada em Hedestad, durante o desfile das crian�as. Pelo mesmo fot�grafo. Foi tirada � uma e quinze e nela Harriet aparece.</p><p>A foto fora tirada do primeiro andar de uma casa e via-se uma rua por onde passava o desfile � caminh�es com palha�os e meninas com maio de banho. Espectadores amontoavam-se na cal�ada. Henrik Vanger mostrou uma pessoa na multid�o.</p><p>� Aqui est� Harriet. Mais ou menos duas horas antes do desaparecimento, ela est� na cidade com algumas colegas da escola. � sua �ltima foto. Mas h� outra interessante.</p><p>Henrik folheou algumas p�ginas. O restante do �lbum continha pouco mais de cento e oitenta fotos � seis rolos � da cat�strofe na ponte. Depois de ouvido o relato, era quase desconfort�vel ver tudo ali de repente, sob a forma de fotografias em preto-e-branco. O fot�grafo que imortalizara o caos do acidente era um bom profissional. Um grande n�mero de imagens focalizava as atividades em torno do caminh�o-tanque tombado. Mikael n�o teve dificuldade de identificar um Henrik Vanger de quarenta e seis anos gesticulando, manchado de �leo.</p><p>� Este � o meu irm�o Harald. � Henrik indicou um homem em mangas de camisa meio inclinado para a frente e que apontava com o dedo alguma coisa nos destro�os onde Aronsson estava esmagado. � Meu irm�o Harald � um homem desagrad�vel, mas creio que se pode risc�-lo da lista de suspeitos. Com exce��o de um breve momento, quando foi obrigado a correr at� a casa para trocar de sapato, esteve o tempo todo na ponte.</p><p>As fotos se sucederam. Primeiro plano do caminh�o-tanque. Plano geral dos espectadores � beira d'agua. Detalhe do carro destro�ado de Aronsson. Panor�micas. Fotos indiscretas com teleobjetiva.</p><p>� Esta foto � muito interessante � disse Henrik Vanger. � Pelo que calculamos, foi tirada entre 15h40 e 15h45, portanto quarenta e cinco minutos depois que Harriet foi vista pelo pastor Falk. Se observar nossa casa, a janela do meio, no primeiro andar, � a do quarto de Harriet. Aqui ela aparece aberta.</p><p>� Ent�o algu�m estava no quarto de Harriet nesse momento.</p><p>� Perguntei isso a todos; ningu�m admitiu ter aberto a janela.</p><p>� O que significa que foi Harriet mesmo que a abriu, e portanto estava viva naquele momento, ou que algu�m mentiu. Mas por que um assassino entraria no quarto dela para abrir a janela? E por que algu�m mentiria?</p><p>Henrik Vanger balan�ou a cabe�a. Ele n�o tinha a resposta.</p><p>� Harriet desapareceu por volta das tr�s, ou um pouco depois. Essas fotos d�o uma id�ia do lugar onde as pessoas estavam naquela hora. Por isso posso riscar algumas da lista de suspeitos. Pela mesma raz�o, posso dizer que outras que n�o aparecem nas fotos na hora em quest�o devem ser acrescentadas � lista de suspeitos.</p><p>� Voc� n�o respondeu � minha pergunta: como acha que o corpo desapareceu? Sei que j� tem uma resposta: algum passe de m�gica.</p><p>� H� v�rias maneiras bastante realistas de se fazer isso. Por volta das tr�s, o assassino age. Ele ou ela provavelmente n�o utilizou uma arma, sen�o ter�amos encontrado sinais de sangue. Suponho que Harriet foi estrangulada e que a coisa aconteceu aqui: atr�s do muro do p�tio, um lugar que o fot�grafo n�o p�de ver e que forma um �ngulo oposto em rela��o � casa. H� um atalho dissimulado para quem vem do presbit�rio a p� para a casa, �ltimo lugar onde ela foi vista. Hoje existe uma pequena planta��o e um gramado nesse lugar, mas nos anos 1960 era um terreno coberto de saibro e usado como estacionamento de carros. Tudo o que o assassino precisava fazer era abrir o porta-malas e p�r Harriet ali. Quando come�amos as buscas no dia seguinte, ningu�m imaginava que um crime tivesse sido cometido; nos concentramos nas praias, nas constru��es e na parte arborizada mais pr�xima do povoado.</p><p>� Ent�o ningu�m examinou os porta-malas.</p><p>� E, na noite seguinte, o assassino estava livre para pegar seu carro, atravessar a ponte e esconder o corpo em outro lugar.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Nas barbas de todos os que participavam das buscas. Se foi o que aconteceu, trata-se de um canalha com muito sangue-frio.</p><p>Henrik Vanger deixou escapar um riso amargo.</p><p>� Voc� acaba de dar uma descri��o perfeita de um grande n�mero de membros da fam�lia Vanger.</p><empty-line/><p>Eles continuaram a discuss�o durante o jantar, �s seis. Anna serviu lebre assada com batatas e gel�ia de groselha. Henrik Vanger abriu uma garrafa de vinho tinto seco. Mikael ainda tinha tempo de pegar o �ltimo trem. Sua inten��o era encerrar a conversa.</p><p>� Reconhe�o que me contou uma hist�ria fascinante. Mas n�o consigo realmente entender por que me contou.</p><p>� Eu j� disse. Quero descobrir quem foi o canalha que matou minha jovem sobrinha. � para isso que quero contrat�-lo.</p><p>� Mas por que agora? Henrik Vanger dep�s os talheres.</p><p>� Mikael, vai fazer trinta e sete anos que eu me consumo refletindo sobre o que aconteceu com Harriet. Com os anos, passei a usar cada vez mais meu tempo livre para procur�-la.</p><p>Calou-se, retirou os �culos e contemplou uma mancha invis�vel no copo. Depois levantou os olhos e disse a Mikael:</p><p>� Para ser bem honesto, o desaparecimento de Harriet foi o que me levou a abandonar progressivamente a dire��o do grupo. Perdi toda a motiva��o. Sabia que havia um assassino na minha fam�lia, e as especula��es e a busca da verdade se tornaram um peso para o meu trabalho. O pior � que o fardo n�o aliviou com o tempo; ao contr�rio. Por volta de 1970, houve um per�odo em que quis, sobretudo, ser deixado em paz. Nessa �poca Martin entrou para o conselho administrativo e foi se encarregando aos poucos do meu trabalho. Em 1976 aposentei-me e Martin se tornou o diretor-executivo. Continuei participando do conselho administrativo, mas n�o fiz grande coisa depois dos meus cinquenta anos. Nos �ltimos trinta e sete anos, n�o houve um dia em que eu n�o tivesse levantado hip�teses sobre o desaparecimento de Harriet. Voc� deve achar que isso beira a obsess�o. Em todo caso, � o que pensam a maioria dos membros da nossa fam�lia. E eles provavelmente t�m raz�o.</p><p>� O que aconteceu foi terr�vel.</p><p>� Mais do que isso. Destruiu minha vida. E fui tomando cada vez mais consci�ncia disso � medida que o tempo passava. Voc�... voc� acha que se conhece bem?</p><p>� Acho que sim.</p><p>� Eu tamb�m. N�o consigo esquecer o que aconteceu. Mas minhas motiva��es mudaram com os anos. No come�o era mais um sofrimento profundo, uma afli��o. Queria encontr�-la para pelo menos poder enterr�-la. Tratava-se de reabilitar Harriet.</p><p>� O que mudou ent�o?</p><p>� Hoje se trata mais de descobrir o canalha que a matou. Mas o estranho � que quanto mais envelhe�o, mais isso se transformou numa esp�cie de hobby para mim.</p><p>� Hobby?</p><p>� Sim, a palavra cai bem. Depois que a investiga��o da pol�cia n�o deu em nada, continuei por conta pr�pria. Tentei proceder de maneira sistem�tica e cient�fica. Coletei todas as informa��es que consegui encontrar: as fotos que voc� viu, o inqu�rito policial, anotei tudo o que as pessoas me disseram ter feito naquele dia. Ou seja, dediquei quase metade da minha vida a coletar informa��es relativas a um �nico dia.</p><p>� Voc� tem consci�ncia de que o pr�prio assassino, trinta e seis anos depois, j� pode estar morto e enterrado?</p><p>� N�o acredito nisso.</p><p>Mikael ergueu as sobrancelhas diante dessa declara��o categ�rica.</p><p>� Vamos terminar a refei��o e depois voltaremos ao meu escrit�rio. Resta um detalhe para eu completar minha hist�ria. E � o mais desconcertante.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander estacionou o Corolla autom�tico junto � esta��o ferrovi�ria de Sundbyberg. Ela havia pegado emprestado o Toyota da frota de ve�culos da Milton Security. N�o pedira exatamente permiss�o, mas Armanskij tampouco nunca a proibira, de forma expl�cita, de utilizar os ve�culos da Milton. Cedo ou tarde, ela pensou, vou precisar de um carro. Possu�a apenas uma moto, uma Kawasaki 125 de segunda m�o, que usava no ver�o. Durante o inverno, a moto ficava na garagem.</p><p>Caminhou at� a H�gklintav�gen e tocou o interfone pontualmente �s seis da tarde. A porta abriu depois de alguns segundos, ela subiu a escada at� o primeiro andar e bateu na porta onde se lia o nome banal Svensson. N�o fazia a menor id�ia de quem era Svensson, nem mesmo se essa pessoa havia morado no apartamento.</p><p>� Oi, Praga � ela saudou.</p><p>� Wasp. Voc� s� aparece quando precisa de alguma coisa.</p><p>O homem, que tinha tr�s anos mais que Lisbeth Salander, media um metro e oitenta e nove e pesava cento e cinquenta e dois quilos. Ela, que media um metro e cinquenta e quatro e pesava quarenta e dois quilos, sempre se sentia uma an� ao lado de Praga. Como de costume, o apartamento estava na penumbra, s� se entrevia a frouxa claridade de uma �nica l�mpada acesa no quarto que ele usava como escrit�rio. Cheirava a mofo.</p><p>� � porque voc� nunca toma banho e fede como um macaco que te chamam de Praga? Se um dia voc� resolver sair � rua, eu te digo onde comprar sab�o.</p><p>Ele esbo�ou um sorriso, mas n�o disse nada e fez a ela um sinal para acompanh�-lo at� a cozinha. Instalou-se � mesa sem acender a luz. A �nica claridade vinha de um poste de ilumina��o p�blica diante da janela.</p><p>� Tamb�m n�o sou muito chegada a limpeza dom�stica, mas quando caixas de leite vazias come�am a atrair moscas, eu junto tudo e jogo fora.</p><p>� Recebo uma pens�o por invalidez � ele disse. � Sou socialmente incompetente.</p><p>� E por isso que o Estado te deu uma moradia e rapidamente te esqueceu. Voc� n�o tem medo que os vizinhos se queixem e chamem a inspe��o sanit�ria? Desse jeito vai acabar num asilo de loucos.</p><p>� Tem alguma coisa para mim?</p><p>Lisbeth Salander abriu o z�per da jaqueta e tirou cinco mil coroas.</p><p>� � tudo o que posso dar. Estou sacando dos meus fundos pessoais e n�o posso inclu�-lo como dependente.</p><p>� O que voc� quer?</p><p>� O cabo de que me falou dois meses atr�s. Conseguiu faz�-lo? Ele sorriu e p�s um objeto sobre a mesa diante dela.</p><p>� Me explica como funciona.</p><p>Durante uma hora, ela escutou com aten��o. Depois testou o cabo. Praga podia ser socialmente incapaz, mas sem d�vida nenhuma era um g�nio.</p><empty-line/><p>De volta a seu escrit�rio, Henrik Vanger esperou ter novamente a aten��o de Mikael. Este consultou seu rel�gio.</p><p>� Voc� comentou sobre um detalhe desconcertante. Henrik concordou com a cabe�a.</p><p>� Nasci num 1� de novembro. Quando Harriet tinha oito anos, ela me deu um quadro de presente de anivers�rio. Uma flor prensada sob um vidro dentro de uma moldura simples.</p><p>Henrik deu a volta ao redor da mesa e mostrou a primeira flor. Camp�nula. Emoldurada sem muita habilidade.</p><p>� Foi o primeiro quadro, que recebi em 1958. Ele mostrou o quadro seguinte.</p><p>� 1959, ran�nculo. 1960, margarida. Passou a ser uma tradi��o. Ela preparava o quadro durante o ver�o e o guardava para o meu anivers�rio. Sempre os pendurei aqui, nessa parede. Em 1966 ela desapareceu e a tradi��o foi interrompida.</p><p>Henrik Vanger calou-se e mostrou uma lacuna no alinhamento dos quadros. Mikael sentiu os cabelos se eri�arem na nuca. A parede inteira estava coberta de flores prensadas.</p><p>� Em 1967, um ano ap�s o desaparecimento dela, recebi esta flor no meu anivers�rio. Uma violeta.</p><p>� Recebeu como? � perguntou Mikael em voz baixa.</p><p>� Num pequeno embrulho de presente dentro de um envelope enviado pelo correio. Postado em Estocolmo. Sem remetente. Nenhuma mensagem.</p><p>� Quer dizer que... � Mikael fez um gesto largo com a m�o.</p><p>� Exatamente. No meu anivers�rio, todo maldito ano! Entende o que sinto? � dirigido contra mim, como se o assassino quisesse me torturar. Mortifiquei-me com especula��es, dizendo a mim mesmo que Harriet foi eliminada por algu�m que talvez quisesse me atingir, a mim. Todos sabiam que Harriet e eu t�nhamos uma rela��o especial e que eu a considerava como filha.</p><p>� O que quer que eu fa�a? � perguntou Mikael, com a voz de repente mais dura.</p><empty-line/><p>Depois de deixar o Corolla na garagem do subsolo da Milton Security, Lisbeth Salander aproveitou para subir ao escrit�rio com a inten��o de ir ao banheiro. Usou o cart�o com senha no elevador e foi direto para o segundo andar, sem passar pela entrada principal no primeiro, onde trabalhavam os que estavam de guarda. Ao sair do banheiro, pegou um caf� na m�quina de <emphasis>espressos</emphasis> que Dragan Armanskij por fim resolvera adquirir, ao entender que Lisbeth jamais prepararia bem um caf�. Em seguida foi at� sua sala e estendeu a jaqueta de couro no encosto de uma cadeira.</p><p>Seu lugar de trabalho era um cub�culo de dois metros por tr�s, atr�s de uma divis�ria de vidro. Havia uma mesa com um computador Dell bastante antigo, uma cadeira girat�ria, um cesto de lixo, um telefone e uma estante com uma por��o de listas telef�nicas e tr�s blocos de notas n�o usados. As duas gavetas da mesa continham algumas canetas esferogr�ficas usadas, clipes de papel e um bloco. No parapeito da janela, um vaso com uma planta murcha de folhas castanhas e secas. Lisbeth Salander examinou a planta com ar pensativo, como se a visse pela primeira vez. Um momento depois, jogou-a decididamente no cesto de lixo.</p><p>Ela quase nunca tinha o que fazer em seu escrit�rio e passava por ali n�o mais que umas seis vezes por ano, principalmente quando sentia necessidade de ficar a s�s e de trabalhar num relat�rio antes de entreg�-lo. Dragan Armanskij insistira que ela tivesse seu pr�prio espa�o, acreditando que assim ela se sentiria parte da empresa, mesmo trabalhando como freelancer. Mas Lisbeth suspeitava que Armanskij queria mesmo era ficar de olho nela e acompanhar seus passos. De in�cio fora instalada em outro ponto do corredor, numa sala maior que deveria dividir com um colega, mas, como nunca estava presente, Armanskij acabou por lhe destinar esse cub�culo, que n�o servia a ningu�m.</p><p>Lisbeth Salander pegou o cabo que trouxera do apartamento de Praga. Depositou o objeto � sua frente, na mesa, e o contemplou, refletindo e mordendo o l�bio inferior.</p><p>Passava das onze da noite, ela estava sozinha no andar. Sentiu-se de repente muito cansada.</p><p>Alguns minutos depois, levantou-se e foi at� o fim do corredor, onde testou a porta da sala de Dragan Armanskij. Trancada. Olhou ao redor. A probabilidade de algu�m surgir no corredor � meia-noite daquele 26 de dezembro era quase zero. Abriu a porta com uma c�pia do cart�o com a senha principal da empresa, pirateado alguns anos antes.</p><p>O escrit�rio de Armanskij era amplo, com escrivaninha, cadeiras para visitantes e uma pequena mesa de reuni�o de oito lugares num canto. Limpeza impec�vel. Fazia tempo que n�o revistava as coisas dele, mas j� que estava ali... Passou uma hora no escrit�rio e coletou os �ltimos dados do dossi� de um prov�vel espi�o industrial, folheou um outro de colegas est�pidos destacados para uma empresa onde agiam ladr�es bem organizados, e tomou conhecimento das medidas secretas adotadas para proteger uma cliente que temia que o filho fosse sequestrado pelo pr�prio pai.</p><p>Ao terminar, recolocou todos os pap�is exatamente no mesmo lugar, trancou a porta do escrit�rio de Armanskij e voltou a p� para sua casa na Lundagatan. Estava satisfeita com sua jornada.</p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist balan�ou de novo a cabe�a. Sentado atr�s de sua escrivaninha, Henrik Vanger contemplava Mikael com olhos calmos, como se j� estivesse preparado para todas as suas obje��es.</p><p>� N�o sei se algum dia descobriremos a verdade, mas n�o quero descer ao t�mulo sem fazer ao menos uma �ltima tentativa � disse o velho. � Gostaria de contrat�-lo para que percorresse uma �ltima vez todo o material reunido nessa investiga��o.</p><p>� Isso � totalmente insano � constatou Mikael.</p><p>� Por que insano?</p><p>� Ouvi com aten��o, Henrik, entendo seu pesar, mas vou ser franco. O que voc� me pede � uma perda de tempo e de dinheiro. Pede que eu solucione, como por magia, um mist�rio que a pol�cia e investigadores experientes, dispondo de recursos bem mais completos, n�o encontraram em todos esses anos. Pede que eu solucione um crime quase quarenta anos depois de ele ter sido cometido. Como eu conseguiria?</p><p>� Ainda n�o falamos de seus honor�rios � replicou Henrik Vanger.</p><p>� N�o vale � pena.</p><p>� Se recusar, n�o poderei for��-lo. Mas escute o que ofere�o. Dirch Frode j� redigiu um contrato. Podemos discutir detalhes, por�m o contrato � simples e a �nica coisa que falta � sua assinatura.</p><p>� Henrik, isso n�o vai servir para nada. N�o posso resolver o enigma do desaparecimento de Harriet.</p><p>� O contrato n�o estipula isso. Tudo o que pe�o � que fa�a o melhor poss�vel. Se fracassar, ser� a vontade de Deus ou, se n�o cr� em Deus, do destino.</p><p>Mikael suspirou. Come�ava a se sentir cada vez menos � vontade e queria p�r um ponto final na sua visita a Hedeby, mas mesmo assim cedeu.</p><p>� V� l�, diga.</p><p>� Quero que durante um ano more e trabalhe aqui em Hedeby. Quero que percorra toda a investiga��o sobre o desaparecimento de Harriet, documento ap�s documento. Quero que examine tudo com olhos novos, totalmente novos. Quero que questione todas as antigas conclus�es, como deve fazer um jornalista investigative Quero que examine o que eu mesmo, a pol�cia e outros investigadores podem ter deixado escapar.</p><p>� Est� pedindo que eu abandone a minha vida e a minha carreira para me dedicar durante um ano a uma coisa que ser� uma completa perda de tempo?</p><p>Henrik Vanger sorriu.</p><p>� No que se refere � carreira, admita que por ora ela est� bastante atravancada.</p><p>Mikael n�o soube o que responder.</p><p>� Quero comprar um ano da sua vida, oferecer-lhe um trabalho. O sal�rio � superior a qualquer outra oferta que voc� jamais receber�. Pagarei duzentas mil coroas por m�s, ou seja, dois milh�es e quatrocentas mil coroas, se aceitar e permanecer por um ano.</p><p>Mikael emudeceu de espanto.</p><p>� N�o tenho ilus�o. Sei que a probabilidade de �xito � m�nima, mas se, contra todas as expectativas, voc� resolver o enigma, ofere�o um b�nus � emolumentos dobrados, isto �, quatro milh�es e oitocentas mil coroas. Sejamos generosos: cinco milh�es para arredondar.</p><p>Henrik Vanger cedeu o corpo para tr�s e inclinou de lado a cabe�a.</p><p>� Posso depositar o dinheiro na conta banc�ria de sua escolha, em qualquer lugar do mundo. Voc� tamb�m pode receber o dinheiro em papel-moeda, numa valise, cabendo-lhe decidir se quer ou n�o declarar a soma ao fisco.</p><p>� N�o �... correto � gaguejou Mikael.</p><p>� E por qu�? � perguntou Henrik calmamente. � Tenho mais de oitenta anos e continuo dono da minha cabe�a. Tenho uma imensa fortuna pessoal e disponho dela como quiser. N�o tenho filhos e n�o sinto a menor vontade de dar dinheiro a parentes que odeio. Meu testamento estipula que a maior parte do meu dinheiro ir� para o World Wildlife Fund. Algumas poucas pessoas que me s�o pr�ximas v�o receber quantias merecidas � entre elas Anna, do andar de baixo.</p><p>Mikael Blomkvist balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>� Tente me entender. Estou velho e em breve morrerei. S� desejo uma coisa no mundo: uma resposta � quest�o que me atormenta h� quase quatro d�cadas. N�o acredito que acharei a resposta, mas possuo meios suficientes para fazer uma �ltima tentativa. Diga-me o que h� de extravagante em utilizar parte da minha fortuna para essa finalidade. � uma d�vida para com Harriet. E tamb�m para comigo.</p><p>� Vai gastar v�rios milh�es de coroas para nada. Tudo o que preciso fazer � assinar o contrato e ficar numa boa durante um ano.</p><p>� Voc� n�o far� isso. Ao contr�rio, trabalhar� mais duro do que jamais trabalhou em toda a sua vida.</p><p>� Como pode ter certeza?</p><p>� Porque posso lhe oferecer algo que deseja mais do que qualquer outra coisa no mundo e que dinheiro nenhum conseguir� comprar.</p><p>� O qu�?</p><p>Os olhos de Henrik Vanger se estreitaram.</p><p>� Posso lhe entregar Hans-Erik Wennerstr�m. Posso provar que ele � um vigarista. Come�ou sua carreira na minha empresa h� trinta e cinco anos e posso lhe oferecer a cabe�a dele numa bandeja. Resolva esse mist�rio e poder� transformar a sua derrota no tribunal na reportagem do ano.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>7.� SEXTA-FEIRA 3 DE JANEIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Erika estava de costas para Mikael. De p� em frente � janela da casa dele, ela olhava a cidade velha. Eram nove da manh� do dia 3 de janeiro. Toda a neve desaparecera com a chuva que ca�ra durante as festas de fim de ano.</p><p>� Sempre gostei da vista da sua casa � ela disse. � S� um apartamento como este poderia me fazer abandonar Saltsj�baden.</p><p>� Voc� tem as chaves. Nada contra voc� deixar seu condom�nio classe A para vir morar aqui � disse Mikael. Ele fechou a mala e colocou-a na entrada. Erika voltou-se e olhou para ele com ar incr�dulo.</p><p>� Isso n�o faz sentido! � disse. � Estamos na pior das crises e voc� enche duas malas e vai embora para se instalar num fim de mundo.</p><p>� Em Hedestad. A algumas horas de trem. E n�o estou indo para sempre.</p><p>� Poderia ser tamb�m Ulan Bator! N�o entende que dar� a impress�o de estar fugindo com o rabo entre as pernas?</p><p>� � exatamente o que estou fazendo. Sem esquecer que este ano tamb�m terei de cumprir uma pena de pris�o.</p><p>Christer Malm estava sentado no sof� de Mikael. Sentia-se pouco � vontade. Desde o come�o da <emphasis>Millennium,</emphasis> era a primeira vez que via Mikael e Erika divergindo tanto. Ao longo dos anos, os dois haviam se tornado insepar�veis.</p><p>Se eventualmente entravam em furiosas discuss�es, elas sempre se referiam a quest�es cujo ponto litigioso se dissolvia antes de ca�rem nos bra�os um do outro e sa�rem para fazer um lanche. Ou irem para a cama. O �ltimo outono n�o fora f�cil, e agora era como se um abismo tivesse se aberto. Christer Malm se perguntou se assistia ao come�o do fim da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� N�o tenho escolha � disse Mikael. � N�s n�o temos escolha. Atravessou a sala e foi sentar-se junto � mesa da cozinha. Erika balan�ou a cabe�a e sentou-se diante dele.</p><p>� E voc�, Christer, o que pensa disso? � ela perguntou.</p><p>Christer Malm afastou as m�os. Ele esperava a pergunta, temendo o momento em que seria obrigado a tomar posi��o. Era o terceiro s�cio, mas os tr�s sabiam que a <emphasis>Millennium</emphasis> era Mikael e Erika. S� lhe pediam conselho quando estavam realmente em desacordo.</p><p>� Com toda a franqueza � respondeu Christer �, voc�s dois sabem que o que eu penso n�o tem a menor import�ncia.</p><p>Calou-se. Ele adorava criar imagens. Adorava trabalhar com formas gr�ficas. Nunca se considerara um artista, mas sabia que era um <emphasis>designer</emphasis> de primeira. Em compensa��o, era uma nulidade quando se tratava de intrigas e decis�es pol�ticas.</p><p>Erika e Mikael se olharam. Ela, com uma c�lera fria. Ele, refletindo.</p><p>N�o estou assistindo a uma discuss�o, pensou Christer, mas a um div�rcio. Foi Mikael que rompeu o sil�ncio.</p><p>� Bem, deixem-me expor os argumentos mais uma vez. � Ele fitou Erika. � Ir embora n�o significa que estou abandonando a <emphasis>Millennium.</emphasis> Trabalhamos duro demais para eu agora querer abandon�-la.</p><p>� Mas n�o estar� na reda��o, eu e Christer � que carregaremos o fardo. N�o entende que est� se auto-exilando?</p><p>� Esse � o outro aspecto. Preciso dar um tempo, Erika. Estou fora de combate. Completamente estressado. F�rias remuneradas em Hedestad talvez seja exatamente o que eu preciso.</p><p>� Toda essa hist�ria � muito estranha, Mikael. � como se voc� resolvesse ir trabalhar num circo.</p><p>� Eu sei. Mas me dar�o dois milh�es e quatrocentos mil para ficar com a bunda numa cadeira por um ano, e n�o estarei inativo. Esse � o terceiro aspecto. O primeiro <emphasis>round</emphasis> contra Wennerstr�m terminou e ele ganhou. O segundo j� est� em andamento: ele tentar� afundar definitivamente a <emphasis>Millennium,</emphasis> pois sabe que, enquanto a revista existir, h� pessoas na reda��o que sabem o que ele est� fazendo.</p><p>� Sei muito bem disso. � o que venho constatando h� seis meses nas receitas publicit�rias, todo fim de m�s.</p><p>� Exatamente. Por isso mesmo � que eu preciso me afastar da reda��o. Eu represento uma amea�a para ele. Ele fica paran�ico comigo. Enquanto eu permanecer, ele prosseguir� na sua campanha. N�s agora temos que nos preparar para o terceiro <emphasis>round.</emphasis> Se quisermos ter uma chance m�nima contra Wennerstr�m, precisamos dar marcha a r� e elaborar uma nova estrat�gia. Precisamos descobrir alguma coisa em que possamos bater firme. Ser� o meu trabalho durante este ano.</p><p>� Eu entendo tudo isso � replicou Erika. � Mas por que simplesmente voc� n�o tira f�rias? V� viajar, pegar sol numa praia durante um m�s, fazer uma pesquisa sobre a vida amorosa das espanholas. Relaxe, passe um tempo em Sandhamn olhando para o mar.</p><p>� E quando eu voltar nada ter� mudado. Wennerstr�m vai esmagar a <emphasis>Millennium.</emphasis> Voc� sabe. A �nica coisa capaz de det�-lo � descobrirmos algo sobre ele que possa derrub�-lo.</p><p>� E acha que descobrir� isso em Hedestad?</p><p>� Verifiquei recortes de imprensa. Wennerstr�m trabalhou para o grupo Vanger de 1969 a 1972. Fazia parte do estado-maior, respons�vel pelos investimentos estrat�gicos. Saiu muito de repente. N�o se pode excluir a possibilidade de que Henrik Vanger saiba de fato alguma coisa sobre ele.</p><p>� Mas se Wennerstr�m cometeu um delito h� trinta anos, dificilmente isso poder� ser provado hoje.</p><p>� Henrik Vanger prometeu contar tudo o que sabe. Ele � obcecado pela sobrinha desaparecida. Eu diria que nada mais no mundo lhe interessa e, se isso significa queimar Wennerstr�m, acho que h� muita chance de que o fa�a. Em todo caso, n�o podemos nos dar ao luxo de deixar escapar essa chance. Ele � o primeiro a se dizer disposto a revelar toda a merda sobre Wennerstr�m.</p><p>� Mesmo que voc� volte com provas de que Wennerstr�m estrangulou a menina, n�o poder�amos utiliz�-las. N�o depois de tanto tempo. Ele nos massacraria no tribunal.</p><p>� Eu tamb�m pensei nisso, mas sinto muito: ele cursava a escola superior de com�rcio quando ela desapareceu e n�o tinha nenhuma liga��o com o grupo Vanger. � Mikael fez uma pausa. � Erika, n�o vou deixar a <emphasis>Millennium,</emphasis> mas � importante que as pessoas tenham essa impress�o. Voc� e Christer devem continuar levando adiante a revista. Se puderem... se tiverem a possibilidade de propor um acordo de paz com Wennerstr�m, proponham. N�o v�o poder fazer isso se eu estiver na reda��o.</p><p>� Tudo bem, a situa��o est� ruim, mas acho que voc� est� indo atr�s de nada em Hedestad.</p><p>� Tem uma id�ia melhor para me propor? Erika encolheu os ombros.</p><p>� Dever�amos buscar informantes. Retomar a investiga��o desde o in�cio. Sem cometer erros desta vez.</p><p>� Esque�a, Ricky, o assunto est� morto.</p><p>Erika deixou a cabe�a pender sobre as m�os em cima da mesa, num gesto de abandono. Quando voltou a falar, no in�cio teve dificuldade de olhar para Mikael.</p><p>� Estou muito irritada com voc�. N�o por ter escrito o que escreveu, eu me envolvi no caso tanto quanto voc�. E n�o por abandonar seu cargo de editor, essa � uma decis�o prudente na atual situa��o. N�o me importo que pensem que houve um conflito ou uma luta de poder entre n�s. Entendo a l�gica de fazer Wennerstr�m supor que eu sou apenas uma figura inofensiva e que a amea�a � voc�.</p><p>Fez uma pausa e olhou diretamente nos olhos dele, com os dentes cerrados.</p><p>� Mas acho que est� enganado. Wennerstr�m n�o morder� a isca. Continuar� tentando afundar a <emphasis>Millennium.</emphasis> A �nica diferen�a � que a partir de agora terei de enfrent�-lo sozinha, e voc� sabe o quanto � necess�rio aqui na reda��o. Est� certo, tamb�m quero levar adiante a guerra contra Wennerstr�m, mas me incomoda voc� abandonar o navio desse jeito, nos deixando no meio da tempestade.</p><p>Mikael estendeu a m�o e acariciou-lhe os cabelos.</p><p>� Voc� n�o est� sozinha. Pode contar com Christer e com o resto da reda��o.</p><p>� N�o com Janne Dahlman. Ali�s, por falar nele, acho que foi um erro contrat�-lo. � competente, mas faz mais mal do que bem. N�o confio nele.</p><p>Passou o outono inteiro com aquele sorriso falso nos l�bios. N�o sei se apenas est� esperando uma chance para pegar o seu lugar ou se simplesmente h� uma incompatibilidade de humor entre ele e o resto da reda��o.</p><p>� Acho que voc� tem raz�o � disse Mikael.</p><p>� E o que devo fazer? Demiti-lo?</p><p>� Erika, voc� � a diretora e a principal acionista da <emphasis>Millennium.</emphasis> Se acha que deve demiti-lo, demita-o.</p><p>� Nunca demitimos ningu�m, Micke. E agora voc� tamb�m joga para cima de mim essa decis�o. N�o vejo mais gra�a em sair de manh� para ir trabalhar.</p><p>Nesse instante Christer Malm decidiu se levantar.</p><p>� Se quer pegar mesmo o trem, Mikael, precisamos ir. � Erika esbo�ou um protesto, mas ele a interrompeu com um gesto de m�o. � Espere, Erika, voc� me perguntou o que eu pensava. Acho que � uma situa��o fodida. Mas se o que Mikael diz � verdade, ou seja, que n�o h� outra sa�da, deixe que ele v�, nem que seja s� por ele mesmo. Devemos isso a ele.</p><p>Tanto Mikael quanto Erika olharam Christer surpresos, enquanto este lan�ava um olhar aborrecido a Mikael.</p><p>� Voc�s dois sabem que a <emphasis>Millennium �</emphasis> voc�s. Sou s�cio, voc�s sempre foram legais comigo, adoro a revista e tudo o mais, mas poderiam me substituir por qualquer outro <emphasis>designer</emphasis> sem o menor problema. Voc�s me perguntaram o que eu penso e vou dizer. No que se refere a Janne Dahlman, sou da mesma opini�o. Se est� querendo demiti-lo, Erika, posso fazer isso no seu lugar. Precisamos apenas de um motivo razo�vel.</p><p>Fez uma pausa antes de continuar.</p><p>� Concordo com voc�, de fato pega mal Mikael desaparecer justamente agora. Mas acho que n�o temos muita escolha. � Olhou para Mikael. � Vou com voc� at� a esta��o. Erika e eu seguraremos as pontas at� a sua volta.</p><p>Mikael balan�ou devagar a cabe�a.</p><p>� Meu medo � que Mikael n�o volte � disse Erika em voz baixa.</p><empty-line/><p>Dragan Armanskij despertou Lisbeth Salander ao cham�-la ao telefone � uma e meia da tarde.</p><p>� O que �? � ela perguntou, meio dormindo. Sua boca estava com gosto de alcatr�o.</p><p>� A hist�ria de Mikael Blomkvist. Acabo de falar com o nosso cliente, o senhor Frode.</p><p>� E a�?</p><p>� Ele telefonou para dizer que podemos abandonar a investiga��o sobre Wennerstr�m.</p><p>� Abandonar? Mas eu j� comecei a trabalhar no caso.</p><p>� Entendo, mas Frode n�o est� mais interessado.</p><p>� Assim, sem mais?</p><p>� Ele � quem decide. Se n�o quer continuar, paci�ncia.</p><p>� Hav�amos acertado uma remunera��o.</p><p>� Voc� trabalhou quanto tempo? Lisbeth Salander refletiu.</p><p>� Um pouco mais que tr�s dias completos.</p><p>� Acertamos um teto de quarenta mil coroas. Vou fazer uma fatura de dez mil; voc� ficar� com a metade, o que � razo�vel para tr�s dias desperdi�ados. � o pre�o que ele ter� de pagar por ter iniciado o caso.</p><p>� E o que fa�o com o material que encontrei?</p><p>� � alguma coisa importante? Ela refletiu um pouco.</p><p>� N�o.</p><p>� Frode n�o pediu um relat�rio. Guarde o material em algum lugar, caso ele volte. Ou ent�o jogue fora. Tenho um outro trabalho para voc� na semana que vem.</p><p>Lisbeth Salander permaneceu um momento com o telefone na m�o depois que Armanskij desligou. Foi at� seu canto de trabalho na sala de estar e olhou as anota��es que espetara na parede e o monte de pap�is amontoados na escrivaninha. Sua coleta consistia principalmente de recortes da imprensa e textos copiados da internet. Pegou os pap�is e os enfiou numa gaveta da escrivaninha.</p><p>Franziu as sobrancelhas. O estranho comportamento de Mikael Blomkvist na sala do tribunal lhe parecera um desafio interessante e Lisbeth Salander n�o gostava de interromper o que havia come�ado. Todo mundo tem segredos. Trata-se apenas de descobrir quais s�o.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>II.� AN�LISE DAS CONSEQU�NCIAS � 3 DE JANEIRO A 17 DE MAR�O</strong></p><empty-line/><p><emphasis>Na</emphasis><emphasis>Su�cia,</emphasis> 46% <emphasis>das mulheres sofreram viol�ncia de um homem.</emphasis></p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>8.</emphasis></strong><strong><emphasis/></strong><strong><emphasis>SEXTA-FEIRA 3 DE JANEIRO � DOMINGO 5 DE JANEIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Quando Mikael Blomkvist desceu do trem em Hedestad pela segunda vez, o c�u estava azul-pastel e o ar gelado. Um term�metro na fachada da esta��o indicava dezoito graus negativos. Mais uma vez ele usava sapatos pouco adaptados ao frio. Ao contr�rio da visita anterior, o am�vel advogado Frode n�o viera esper�-lo com um carro aquecido. Mikael apenas dissera o dia em que chegaria, sem especificar o hor�rio do trem. Sup�s que haveria um �nibus para a aldeia, mas n�o teve vontade de carregar duas malas pesadas e uma sacola atr�s de um ponto de �nibus. Dirigiu-se a um ponto de t�xi do outro lado da esplanada em frente � esta��o.</p><p>Entre o Natal e o Ano-novo, as precipita��es de neve haviam sido violentas e as montanhas acumuladas ao longo do caminho provavam que o servi�o de desobstru��o da prefeitura de Hedestad trabalhara sem parar. O motorista de t�xi, que a placa de identifica��o no p�ra-brisa dizia chamar-se Hussein, concordou com a cabe�a quando Mikael perguntou se o tempo causara muitos problemas. Com o mais puro sotaque do Norrland, contou que fora a pior tempestade de neve havia d�cadas e que se arrependia de n�o ter tirado f�rias de inverno para passar o Natal na Gr�cia.</p><p>Mikael indicou o caminho ao taxista at� o p�tio amplo em frente � casa de Henrik Vanger e, depois de subir com as malas at� a entrada, olhou o carro desaparecendo em dire��o a Hedestad. Sentiu-se de repente muito s� e indeciso. Erika talvez tivesse raz�o em dizer que todo esse projeto era insensato. Ouviu a porta se abrir �s suas costas e se virou. Henrik Vanger estava ali, vestindo um espesso casaco de couro, cal�ando botas forradas e tendo na cabe�a um bon� com orelheiras. Mikael vestia apenas jeans e uma jaqueta leve de couro.</p><p>� J� que vai morar aqui, primeiro precisa aprender a se vestir nesta �poca do ano. � Apertaram-se as m�os. � Tem certeza de que n�o quer ficar na casa principal? N�o? Ent�o vamos acomod�-lo em sua nova moradia.</p><p>Uma das exig�ncias nas negocia��es com Henrik Vanger e Dirch Frode fora que Mikael pudesse morar num lugar onde ficasse independente e pudesse ir e vir � vontade. Henrik guiou Mikael em dire��o � ponte e abriu o port�o de um p�tio recentemente desobstru�do diante de uma pequena casa de madeira. N�o estava trancada, e o velho abriu a porta. Entraram num pequeno vest�bulo, onde Mikael depositou as malas com um suspiro de al�vio.</p><p>� Aqui est� o que chamamos a casa dos convidados, onde hospedamos as pessoas que ficam por algum tempo. Foi aqui que voc� e seus pais se instalaram em 1963. � uma das constru��es mais antigas do povoado, embora modernizada. Cuidei para que Gunnar Nilsson, o meu faz-tudo, pusesse o aquecimento para funcionar esta manh�.</p><p>A casa consistia em uma grande cozinha e dois pequenos quartos, ao todo uns cinquenta metros quadrados. A cozinha ocupava a metade da �rea; moderna, tinha fog�o el�trico, uma pequena geladeira, um balc�o com pia, e junto � parede que dava para o vest�bulo havia tamb�m um velho aquecedor de metal fundido, no qual j� ardia um bom fogo.</p><p>� S� precisar� usar esse aquecedor se fizer muito frio. H� um ba� com lenha no vest�bulo e um pequeno dep�sito nos fundos da casa. Estava desativado desde o �ltimo outono e voltamos a acend�-lo esta manh� para aquecer as paredes. Mas os aquecedores el�tricos dever�o ser suficientes durante o dia. Evite apenas p�r roupas em cima deles, para n�o provocar um inc�ndio.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a e olhou ao redor. Havia janelas em tr�s lados; da mesa da cozinha avistava-se a ponte a uns trinta metros. Al�m da mesa, a cozinha era equipada com dois arm�rios, cadeiras, um antigo banco de madeira e uma prateleira com jornais. No alto da pilha, um n�mero de Se, datado de 1967. Num canto pr�ximo � mesa, um aparador podia servir de escrivaninha.</p><p>A porta de entrada da cozinha ficava pr�xima ao aquecedor a lenha. Do outro lado, duas portas estreitas conduziam a dois pequenos c�modos. O da esquerda, mais pr�ximo da parede externa, estava mobiliado com uma mesa de trabalho, uma cadeira e uma estante ao longo da parede. O outro c�modo, entre o vest�bulo e o escrit�rio, era um quarto relativamente pequeno, com uma cama de casal bastante estreita, um criado-mudo e um arm�rio. Nas paredes havia alguns quadros com cenas da natureza. Os m�veis e os pap�is de parede da casa estavam velhos e descoloridos, mas tudo cheirava a limpeza. O soalho fora cuidadosamente encerado. O quarto tinha outra porta, que levava diretamente ao vest�bulo, onde um velho cub�culo fora transformado em banheiro com ducha.</p><p>� A �gua pode vir a ser um problema � disse Henrik. � Verificamos que est� funcionando bem hoje de manh�, mas como a tubula��o � muito superficial, se o frio persistir, pode congelar. H� um balde no vest�bulo. Se for necess�rio, v� buscar �gua na minha casa.</p><p>� Vou precisar de um telefone � disse Mikael.</p><p>� J� fiz o pedido. Vir�o instalar depois de amanh�. E ent�o, o que acha? Se mudar de opini�o, pode se transferir para a casa principal quando quiser.</p><p>� Tudo vai correr bem � respondeu Mikael, longe de estar convencido de que a situa��o na qual se metera era razo�vel.</p><p>� �timo. Ainda temos uma hora antes que escure�a. Podemos dar uma volta para voc� conhecer o povoado. Sugiro que use botas e meias grossas de l�, que poder� encontrar no arm�rio do vest�bulo.</p><p>Mikael aquiesceu, mas decidiu que no dia seguinte percorreria as lojas para comprar ceroulas e cal�ados pr�prios para o inverno.</p><empty-line/><p>O velho come�ou o passeio explicando que o vizinho de Mikael do outro lado da estrada era Gunnar Nilsson, o empregado que Henrik insistia em chamar de seu faz-tudo. Mas Mikael logo entendeu que ele cuidava da manuten��o das constru��es da ilha e tamb�m de v�rias resid�ncias em Hedestad.</p><p>� O pai dele, Magnus Nilsson, trabalhou do mesmo modo em minha casa nos anos 1960, e foi um dos que prestaram ajuda no dia do acidente na ponte. Magnus ainda est� vivo, mas se aposentou e mora em Hedestad. Gunnar vive nessa casa com a mulher, chamada Helen. Os filhos partiram para viver sua vida.</p><p>Henrik Vanger fez uma pausa e refletiu um momento antes de prosseguir.</p><p>� Mikael, a explica��o oficial para sua presen�a aqui � que voc� vai me ajudar a escrever a minha biografia. Isso permitir� que voc� investigue em todos os cantos e fa�a perguntas �s pessoas. Mas a verdadeira miss�o � um assunto restrito a voc�, a mim e a Dirch Frode. Somos os �nicos que a conhecem.</p><p>� Entendo. E repito o que j� disse: � uma perda de tempo. N�o vou poder resolver o enigma.</p><p>� Pe�o apenas que tente. Devemos, no entanto, prestar aten��o ao que dizemos quando houver pessoas por perto.</p><p>� Tudo bem.</p><p>� Gunnar tem cinquenta e seis anos agora, portanto tinha dezenove quando Harriet desapareceu. H� uma quest�o para a qual nunca obtive resposta: Harriet e Gunnar eram bons amigos e creio que houve uma esp�cie de flerte adolescente entre os dois. Em todo caso, ele estava bastante interessado nela. No dia do desaparecimento, Gunnar estava em Hedestad, � um dos que ficaram presos em terra por causa do acidente na ponte. Considerando-se a rela��o dos dois, evidentemente ele foi investigado com cuidado. A pol�cia verificou seu �libi e ele � s�lido. Passou o dia com colegas e s� voltou para c� no come�o da noite.</p><p>� Imagino que voc� tenha uma lista completa de quem estava na ilha e de quem fez o que durante o dia.</p><p>� Isso mesmo. Continuamos?</p><p>Detiveram-se na subida, no cruzamento dos caminhos diante da casa Vanger, e Henrik indicou o porto de recreio.</p><p>� Toda a ilha de Hedeby pertence � fam�lia Vanger, ou, para ser mais preciso, a mim. A n�o ser pela fazenda de �stergarden e algumas casas particulares aqui no povoado. As pequenas cabanas ali embaixo, onde antigamente ficava o porto de pesca, s�o propriedades privadas, mas funcionam como casas de veraneio e, de modo geral, permanecem desabitadas no inverno. A �nica exce��o � a cabana bem ali na ponta. Est� vendo a fuma�a da chamin�?</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a. J� estava gelado at� os ossos.</p><p>� Aquele barraco miser�vel est� cheio de frestas, mas serve de habita��o o ano todo. Quem mora ali � Eugen Norman. Tem sessenta e sete anos, � uma esp�cie de artista, pintor. Acho as pinturas dele um tanto kitsch, mas ele � bastante conhecido por suas paisagens. � um pouco o tipo exc�ntrico da aldeia.</p><p>Henrik guiou os passos de Mikael ao longo do caminho em dire��o ao promont�rio, apontando cada uma das casas pelas quais passavam. O povoado tinha seis casas do lado oeste da estrada e quatro do lado do Leste Europeu. A primeira, muito pr�xima da casa dos convidados onde Mikael se instalara e defronte � casa Vanger, pertencia a Harald, irm�o de Henrik. Era um sobrado retangular, de pedra, aparentemente abandonado. As cortinas nas janelas estavam corridas e meio metro de neve se acumulava no caminho que subia at� a casa. Examinando mais de perto, por�m, marcas de passos revelavam que algu�m pisara a neve entre a estrada e a porta.</p><p>� Harald � um misantropo. Nunca nos entendemos bem, eu e ele. Com exce��o dos conflitos relacionados �s empresas � ele � acionista �, mal nos falamos nos �ltimos sessenta anos. � mais velho que eu, tem noventa e dois anos e � o �nico dos meus cinco irm�os ainda vivo. Contarei os detalhes mais tarde, mas ele estudou medicina e trabalhou principalmente em Uppsala. Voltou a morar em Hedeby�n ao completar setenta anos.</p><p>� Entendi que n�o gosta dele. No entanto s�o vizinhos.</p><p>� Acho-o detest�vel e teria preferido que continuasse em Uppsala, mas a casa lhe pertence. Estou falando como um verdadeiro cr�pula, n�o?</p><p>� Fala apenas como algu�m que n�o gosta do seu irm�o.</p><p>� Passei os primeiros vinte e cinco, trinta anos da minha vida desculpando pessoas como Harald apenas porque �ramos da mesma fam�lia. Depois descobri que o parentesco n�o � uma garantia de amor e que eu tinha muito poucas raz�es para defender Harald.</p><p>A casa seguinte pertencia a Isabella, a m�e de Harriet Vanger.</p><p>� Ela completar� setenta e cinco este ano, continua sendo uma mulher vistosa e elegante. � a �nica no povoado que fala com Harald e o visita de vez em quando, mas eles n�o t�m muita coisa em comum.</p><p>� Como eram as rela��es entre ela e Harriet?</p><p>� Boa pergunta. As mulheres tamb�m devem entrar no c�rculo de suspeitos. Eu disse a voc� que muitas vezes ela n�o dava a menor aten��o aos filhos. N�o sei muito bem, acho que ela at� gostaria mas era incapaz de assumir responsabilidades. Harriet e ela n�o tinham intimidade, por�m n�o eram inimigas. Isabella pode se mostrar um pouco insens�vel, �s vezes tamb�m � um pouco individualista. Voc� vai entender o que estou querendo dizer quando a vir.</p><p>A vizinha de Isabella era Cecilia Vanger, filha de Harald Vanger.</p><p>� Enquanto esteve casada, ela morou em Hedestad, mas h� pouco mais de vinte anos separou-se do marido. A casa me pertence e propus a ela que viesse morar aqui. Cecilia � professora e � o oposto do pai em muitos aspectos. Posso acrescentar que ela e o pai se falam apenas o necess�rio.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>� Qual a idade dela?</p><p>� Nasceu em 1946. Tinha ent�o vinte anos quando Harriet desapareceu. E era uma das pessoas que estavam na ilha naquele dia.</p><p>Refletiu por um momento.</p><p>� Cecilia pode parecer meio cabe�a-tonta, mas na realidade � bastante esperta. N�o a subestime. Se algu�m vier a descobrir o que voc� est� realmente fazendo aqui, ser� ela. Eu diria que � um dos membros da fam�lia que mais aprecio.</p><p>� Isso significa que n�o suspeita dela?</p><p>� N�o chegaria a tanto. Gostaria que considerasse o caso sem a menor restri��o, independentemente do que eu penso ou acredito.</p><p>A casa ao lado da de Cecilia pertencia a Henrik Vanger, mas estava alugada a um casal de idade que trabalhara na dire��o do grupo Vanger. Como vieram morar na ilha nos anos 1980, nada tinham a ver, portanto, com o desaparecimento de Harriet. A casa seguinte era propriedade de Birger Vanger, o irm�o de Cecilia. Estava vazia havia anos, desde que Birger se instalara numa mans�o moderna em Hedestad.</p><p>Em sua maior parte, as constru��es ao longo da estrada eram s�lidas casas de pedra que datavam do come�o do s�culo anterior. A �ltima, por�m, era de outro tipo, uma casa de arquitetura moderna, de tijolos brancos, portas e janelas escuras. Sua localiza��o era excelente. Mikael calculava que a vista do primeiro andar devia ser magn�fica: o mar no Leste Europeu e Hedestad ao norte.</p><p>� � aqui que mora Martin Vanger, o irm�o de Harriet e atual diretor-executivo do grupo Vanger. Antigamente era aqui que o presbit�rio estava situado, mas foi parcialmente destru�do por um inc�ndio nos anos 1970 e Martin resolveu construir essa casa quando assumiu o comando.</p><p>Bem ao fundo, do lado do Leste Europeu da estrada, morava Gerda Vanger, vi�va de Greger, um outro irm�o de Henrik, e seu filho Alexander Vanger.</p><p>� Gerda � inv�lida, sofre de reumatismo. Alexander tem uma pequena participa��o no grupo Vanger, mas possui tamb�m alguns neg�cios pr�prios, restaurantes, por exemplo. Costuma passar v�rios meses do ano em Barbada, nas Antilhas, onde investiu dinheiro no turismo.</p><p>Entre a casa de Gerda e a de Henrik havia duas casas pequenas, vazias, utilizadas para hospedar membros da fam�lia em visita. Do outro lado da casa de Henrik, havia outra, alugada para um ex-empregado do grupo, agora aposentado, e sua mulher. Mas o casal passava o inverno na Espanha, e a casa estava desabitada.</p><p>Voltaram ao cruzamento dos caminhos e o passeio terminou. Come�ava a escurecer. Mikael tomou a iniciativa.</p><p>� Henrik, s� posso voltar a dizer que nos lan�amos numa aventura que n�o dar� resultado, mas farei aquilo para o qual fui contratado. Escreverei sua biografia e, conforme me pediu, lerei o material sobre Harriet Vanger com o m�ximo de aten��o e cuidado. Quero simplesmente que entenda que n�o sou detetive particular, portanto n�o deposite em mim esperan�as sem fundamento.</p><p>� N�o espero nada. Como eu disse, quero apenas que seja feita uma �ltima tentativa para descobrir a verdade.</p><p>� Ent�o, perfeito.</p><p>� Deito-me cedo � explicou Henrik. � Poder� me encontrar depois do caf�-da-manh� e ao longo do dia. Vou preparar um local de trabalho aqui para voc�, do qual poder� dispor � vontade.</p><p>� N�o, obrigado. J� tenho um lugar de trabalho na casa dos convidados e � l� que tenho a inten��o de trabalhar.</p><p>� Como quiser.</p><p>� Quando eu precisar de informa��es, conversaremos no seu escrit�rio, mas n�o vou come�ar com perguntas j� esta noite.</p><p>� Entendo. � O velho deixava transparecer uma timidez enganadora.</p><p>� Vou precisar de algumas semanas para ler todos os dossi�s. Trabalharemos em duas frentes: nos veremos algumas horas por dia, quando farei perguntas para coletar material para a biografia. Quando eu tiver perguntas sobre Harriet, virei discuti-las com voc�.</p><p>� Parece razo�vel.</p><p>� Trabalharei com bastante liberdade, sem hor�rios fixos.</p><p>� Organize-se como quiser.</p><p>� Voc� n�o deve ter esquecido que, dentro de alguns meses, vou precisar cumprir uma pena de pris�o. N�o sei ainda quando ser�, mas n�o vou recorrer. O que significa que acontecer� durante este ano.</p><p>Henrik Vanger franziu o cenho.</p><p>� Isso � ruim. Teremos que achar uma solu��o quando chegar o momento. Poderia pedir um <emphasis>sursis.</emphasis></p><p>� Se tudo correr bem e eu j� tiver elementos suficientes sobre a fam�lia, poderei trabalhar na pris�o. Mas vamos esquecer isso por enquanto. Outra coisa: continuo sendo s�cio da <emphasis>Millennium,</emphasis> que neste momento � uma revista em crise. Se acontecer algo que exija minha presen�a em Estocolmo, serei obrigado a deixar o que estou fazendo aqui para ir at� l�.</p><p>� N�o o contratei como escravo. Quero que trabalhe de forma racional e leve adiante a tarefa que lhe passei, mas � evidente que deve se organizar como bem entender, trabalhar de acordo com seus pr�prios m�todos. Se precisar licenciar-se, fa�a-o, mas se eu notar que est� negligenciando o trabalho, considerarei como um rompimento de contrato.</p><p>Mikael concordou com a cabe�a. Henrik Vanger olhava em dire��o � ponte. O homem era magro e Mikael de repente teve a impress�o de que ele parecia um espantalho.</p><p>� No que se refere � <emphasis>Millennium,</emphasis> dever�amos ter uma conversa sobre a crise, para ver se posso ser �til de alguma forma.</p><p>� O melhor meio de ser �til � entregar-me a cabe�a de Wennerstr�m logo.</p><p>� Ah, n�o, essa n�o � a minha inten��o. � O velho lan�ou um olhar severo a Mikael. � A �nica raz�o pela qual aceitou minha proposta � que prometi desmascarar Wennerstr�m. Se eu entreg�-lo agora, poderia ficar tentado a abandonar o trabalho. Ter� essa informa��o dentro de um ano.</p><p>� Henrik, perdoe-me falar assim cruamente, mas nada me garante que voc� estar� vivo daqui a um ano.</p><p>� Entendo. Vou falar com Dirch Frode e veremos como arranjar isso. Mas, no que se refere � <emphasis>Millennium,</emphasis> talvez eu possa intervir de outro modo. Pelo que entendi, o problema � que os anunciantes est�o saindo.</p><p>Mikael assentiu lentamente com a cabe�a antes de responder:</p><p>� Os anunciantes s�o o problema mais imediato, por�m a crise � mais profunda. E uma quest�o de confian�a. Pouco importa o n�mero de anunciantes que temos se as pessoas n�o quiserem mais comprar a revista.</p><p>� Sim, entendo. Mas continuo sendo membro do conselho administrativo de um grupo importante, mesmo como membro passivo. Tamb�m temos necessidade de divulgar nossas informa��es em algum lugar. Discutiremos isso mais tarde. Quer comer alguma coisa...?</p><p>� N�o. Vou me instalar na casa, fazer algumas compras e me familiarizar com o lugar. Amanh� irei a Hedestad comprar roupas de inverno.</p><p>� Boa id�ia.</p><p>� Gostaria que transferisse os arquivos relativos a Harriet para minha casa.</p><p>� Eles devem ser manipulados...</p><p>� ... com o maior cuidado, imagino eu.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael retornou � casa dos convidados batendo os dentes. Um term�metro diante da janela indicava quinze graus negativos, e ele n�o lembrava de alguma vez ter sentido tanto frio como ap�s esse passeio de apenas meia hora.</p><p>Ele dedicou a hora seguinte a se instalar na que haveria de ser a sua moradia naquele ano. Tirou as roupas da mala e as colocou no arm�rio do quarto. Artigos de toalete, no m�vel do banheiro. A segunda bagagem era uma volumosa mala com rodinhas; dela tirou livros, CDs, um MP3, blocos de anota��es, um gravador Sanyo, uma m�quina fotogr�fica digital Minolta e v�rios outros objetos que julgara indispens�veis para um ex�lio de um ano.</p><p>Distribuiu os livros e os CDs na estante da saleta de trabalho, ao lado de dois arquivos contendo documentos relativos � sua investiga��o sobre Hans-Erik Wennerstr�m. O material n�o tinha valor, mas Mikael n�o conseguia se desembara�ar dele. Como se os dois arquivos devessem se transformar, de uma maneira ou de outra, em elementos determinantes na continua��o de sua carreira.</p><p>Abriu por fim a bolsa e tirou de l� o notebook, que p�s sobre a mesa de trabalho. Depois deteve-se e olhou ao redor, com uma express�o est�pida no rosto. Da vantagem da vida no campo! Acabava de perceber que n�o havia tomada para o cabo. N�o havia sequer uma entrada de telefone para ligar um velho modem.</p><p>Mikael voltou � cozinha e, usando seu celular, ligou para a companhia telef�nica Telia. Depois de insistir um pouco, conseguiu convencer algu�m a localizar o pedido que Henrik Vanger fizera para a casa dos convidados. Perguntou se a linha tinha capacidade para ADSL e responderam-lhe que era poss�vel atrav�s de um ponto retransmissor em Hedeby, mas que levaria alguns dias.</p><empty-line/><p>Eram pouco mais de quatro da tarde quando Mikael terminou a arruma��o. P�s as meias grossas de l�, as botas e vestiu um pul�ver suplementar. Quando ia sair, deteve-se diante da porta: n�o lhe haviam dado as chaves da casa, e seu instinto de habitante de Estocolmo revoltava-se contra a id�ia de deixar a porta de entrada aberta. Voltou � cozinha e vasculhou as gavetas. Acabou por encontrar a chave pendurada num prego no guarda-comida.</p><p>O term�metro descera a menos dezessete. Mikael atravessou a ponte com passos r�pidos e subiu a encosta diante da igreja. O supermercado Konsum ficava a apenas trezentos metros. Encheu duas sacolas de papel com produtos b�sicos, que transportou para casa. Antes de cruzar a ponte uma segunda vez, passou pelo Caf� Susanne. Perguntou a uma mulher de cinquenta anos, atr�s do balc�o, se ela era a Susanne do letreiro e apresentou-se dizendo que provavelmente viria com regularidade durante algum tempo. Era o �nico fregu�s e Susanne ofereceu-lhe caf� para acompanhar o sandu�che que ele pediu. Mikael comprou tamb�m p�o e croissants. Pegou o <emphasis>Hedestads-Kuriren</emphasis> do mostru�rio de jornais e instalou-se numa mesa, de onde avistava a ponte e a igreja, cuja fachada estava iluminada e parecia, na obscuridade, um cart�o de Natal. Quatro ou cinco minutos foram suficientes para ler o jornal. A �nica informa��o interessante era um artigo curto que dizia que um representante da comunidade, Birger Vanger (liberal), queria investir no IT TechCent � um centro de desenvolvimento tecnol�gico em Hedestad. Ficou ali por meia hora, at� que o caf� fechasse, �s seis.</p><empty-line/><p>�s sete e meia, Mikael ligou para Erika, mas s� obteve como resposta uma voz dizendo que o telefone procurado n�o estava dispon�vel. Sentou-se no banco da cozinha e tentou ler um romance, que, pelo que dizia a quarta capa, era a estr�ia sensacional de uma adolescente feminista. O romance narrava as tentativas da autora de p�r ordem em sua vida sexual durante uma viagem a Paris, e Mikael se perguntou se o chamariam de feminista se ele pr�prio escrevesse um romance com um vocabul�rio de colegial sobre sua vida sexual. Provavelmente n�o. Uma das raz�es que levaram Mikael a comprar o livro era que o editor descrevia a estreante como "uma nova Carina Rydberg". Logo constatou que n�o era nada disso, nem no estilo nem no conte�do. Fechou o livro e come�ou a ler uma novela sobre Hopalong Cassidy numa <emphasis>Rekordmagasinet</emphasis> dos anos 1950.</p><p>Cada meia hora era pontuada por um breve toque do sino da igreja. Havia luz nas janelas da casa de Gunnar Nilsson, o faz-tudo do outro lado da estrada, mas Mikael n�o distinguia ningu�m no interior. A casa de Harald Vanger estava mergulhada na escurid�o. Por volta das nove da noite, um carro atravessou a ponte e desapareceu em dire��o ao promont�rio. Cerca de meia-noite, a ilumina��o da fachada da igreja se apagou. Aparentemente, resumiam-se a isso as distra��es que Hedeby oferecia numa noite de sexta-feira naquele come�o de janeiro. O sil�ncio era impressionante.</p><p>Tentou falar com Erika mais uma vez, e ouviu uma voz pedindo que deixasse uma mensagem. Fez isso, depois apagou a luz e foi se deitar. Seu �ltimo pensamento antes de dormir foi que corria o s�rio risco de enlouquecer com o isolamento em Hedeby.</p><empty-line/><p>Despertar num sil�ncio total foi completamente inusitado para ele. Mikael passou do sono profundo a um estado de vig�lia absoluta numa fra��o de segundos e em seguida permaneceu tranquilo, escutando. O frio reinava no c�modo. Virou a cabe�a e olhou o rel�gio que pusera num banquinho ao lado da cama: 7h08. Nunca acordava cedo e precisava de duas chamadas do despertador para levantar. Mas ali, despertado sem alarme, sentia-se repousado.</p><p>Esquentou �gua para o caf� antes de tomar um banho, onde foi subitamente invadido pela sensa��o prazerosa da autocontempla��o. Super-Blomkvist, o explorador das causas perdidas.</p><p>Ao mais leve toque, o misturador passava de uma �gua escaldante para uma �gua gelada. N�o havia jornal para ler no caf�-da-manh�. A manteiga congelara e n�o havia fatiador de queijo na gaveta dos talheres. L� fora, ainda estava tudo escuro. O term�metro indicava vinte e um graus negativos. Era um s�bado.</p><empty-line/><p>O ponto de �nibus na aldeia Hedeby ficava diante do supermercado Konsum, e Mikael iniciou seu ex�lio indo �s compras. Em Hedestad, desceu em frente � esta��o e foi at� o centro da cidade para comprar cal�ados de inverno, duas ceroulas, algumas camisas de flanela, uma jaqueta espessa, gorro de l� e luvas forradas. Na Teknikbutiken, encontrou um pequeno aparelho de televis�o com antena telesc�pica. O vendedor garantiu que na aldeia ele conseguiria captar pelo menos a rede nacional, e Mikael o fez prometer um reembolso caso n�o fosse verdade.</p><p>Inscreveu-se na biblioteca e emprestou dois romances policiais de Elizabeth George. Numa papelaria, adquiriu canetas e blocos de notas. Comprou tamb�m uma mochila para carregar suas novas aquisi��es.</p><p>Para terminar, comprou um ma�o de cigarros. Parara de fumar dez anos antes, mas tinha reca�das epis�dicas e estava sentindo uma necessidade s�bita de nicotina. P�s o ma�o no bolso da jaqueta sem abri-lo. A �ltima visita foi a uma �tica, onde procurou um produto de limpeza e encomendou novas lentes de contato.</p><p>Aproximadamente �s duas da tarde, j� de volta � ilha, estava retirando as etiquetas das roupas, quando ouviu a porta de entrada ser aberta. Uma mulher loura de uns cinquenta anos bateu na porta da cozinha ao entrar. Trazia um p�o-de-l� num prato.</p><p>� Bom dia, venho desejar as boas-vindas. Meu nome � Helen Nilsson, moro do outro lado da estrada. Somos vizinhos agora.</p><p>Mikael apertou-lhe a m�o e se apresentou.</p><p>� Sim, j� vi voc� na tev�. � agrad�vel ver luz acesa � noite na casa dos convidados.</p><p>Mikael preparou caf� � ela primeiro o recusou, mas acabou sentando-se � mesa da cozinha. Olhou pela janela.</p><p>� A� vem vindo Henrik com meu marido. Est�o trazendo caixas para o senhor, acredito.</p><p>Henrik Vanger e Gunnar Nilsson detiveram-se diante da casa com um carrinho de m�o e Mikael saiu depressa para cumprimentar os dois homens e ajudar a carregar quatro pesadas caixas. Depuseram-nas no ch�o, ao lado do aquecedor a lenha. Mikael serviu mais x�caras de caf� e cortou em fatias o p�o-de-l� de Helen.</p><p>Gunnar e Helen Nilsson eram pessoas simp�ticas. N�o pareciam muito curiosos de saber por que Mikael se achava em Hedestad � trabalhar para Henrik Vanger parecia-lhes uma explica��o suficiente. Mikael constatou que os Nilsson e Henrik Vanger tratavam-se de maneira muito natural, sem distin��o entre patr�o e empregados. Falavam da aldeia e de quem constru�ra a casa onde Mikael habitava. O casal corrigia Vanger quando sua mem�ria falhava; este, por sua vez, contou com humor a vez em que Gunnar Nilsson, ao voltar para casa tarde da noite, avistou o retardado mental da aldeia tentando entrar pela janela da casa dos convidados, e ent�o perguntou ao pobre-coitado por que n�o entrava pela porta, que n�o estava trancada. Gunnar Nilsson observou com ceticismo o pequeno aparelho de televis�o e convidou Mikael a ir � casa deles � noite, quando quisesse ver algum programa. Tinham uma parab�lica.</p><p>Henrik Vanger ficou mais um momento depois que os Nilsson foram embora. O velho explicou que preferia deixar o pr�prio Mikael fazer uma sele��o dos arquivos e que viria v�-lo se surgisse um problema. Mikael agradeceu, certo de que seria melhor assim.</p><p>Quando voltou a ficar a s�s, Mikael levou as caixas para a saleta de trabalho e come�ou a examinar seu conte�do.</p><empty-line/><p>As investiga��es pessoais de Henrik Vanger sobre o desaparecimento de sua jovem sobrinha haviam sido feitas ao longo de trinta e seis anos. Mikael tinha dificuldade de determinar se o interesse devia-se a uma obsess�o doentia ou se, com o passar do tempo, transformara-se num jogo intelectual. O certo � que o velho patriarca pusera m�os � obra com a aplica��o de um arque�logo amador. As pastas, enfileiradas, chegavam a quase sete metros.</p><p>Vinte e seis arquivos compunham a base do inqu�rito policial sobre o desaparecimento de Harriet. Era dif�cil para Mikael imaginar que um desaparecimento "normal" produzisse um resultado t�o volumoso. Henrik Vanger provavelmente exercera bastante influ�ncia para que a pol�cia de Hedestad seguisse todas as pistas, tanto as plaus�veis como as inconceb�veis.</p><p>Al�m do inqu�rito policial, havias pastas com recortes de imprensa, �lbuns de fotografias, mapas, suvenires, artigos de jornais sobre Hedestad e as empresas Vanger, o di�rio �ntimo de Harriet Vanger (relativamente pequeno), livros de escola, atestados de sa�de et cetera. Havia tamb�m uns quinze volumes encadernados, formato of�cio, de cem p�ginas cada um, que poderiam ser definidos como o di�rio de bordo pessoal das investiga��es de Henrik Vanger. Nesses pap�is o patriarca anotara, com letra cuidadosa, suas pr�prias reflex�es, suas id�ias, suas pistas que n�o levaram a nada e suas observa��es. Mikael folheou-os ao acaso. O texto era bem redigido e ele teve a impress�o de que esses volumes eram c�pias passadas a limpo de cadernos mais antigos. Para terminar, havia uns dez arquivos com material sobre diferentes membros da fam�lia Vanger; as p�ginas estavam datilografadas e haviam sido claramente redigidas por um longo per�odo.</p><p>Henrik Vanger conduzira a investiga��o contra a pr�pria fam�lia.</p><p>Por volta das sete da noite, Mikael ouviu um miado alto e abriu a porta da entrada. Um gato ruivo, diante dele, entrou correndo em busca de calor.</p><p>� Eu te entendo � disse Mikael.</p><p>O gato ficou algum tempo farejando tudo pela casa. Mikael despejou um pouco de leite numa travessa que o convidado n�o tardou a lamber. Depois o gato saltou para cima do banco e se enrolou, quieto, decidido a n�o sair dali.</p><empty-line/><p>Passava das dez da noite quando Mikael conseguiu ter uma id�ia clara do material e dispor tudo nas prateleiras numa ordem compreens�vel. Foi at� a cozinha, esquentou �gua para o caf� e preparou dois sandu�ches. Ofereceu um pouco de presunto e pat� de f�gado ao gato. N�o comera de forma adequada durante o dia, mas sentia-se estranhamente pouco preocupado com a alimenta��o. Depois de comer, tirou o ma�o de cigarros do bolso da jaqueta e o abriu.</p><p>Ouviu as mensagens do celular. Erika n�o chamara e ele tentou localiz�-la. Novamente obteve como resposta apenas a secret�ria eletr�nica.</p><p>Uma das primeiras provid�ncias de Mikael em sua investiga��o particular foi escanear o mapa de Hedeby�n. Colocou o nome dos moradores em cada casa, enquanto ainda os tinha na mem�ria ap�s a visita guiada por Henrik. Logo percebeu que o cl� Vanger oferecia uma galeria de personagens t�o vasta que ele precisaria de tempo para se familiarizar com cada um.</p><empty-line/><p>Um pouco antes da meia-noite, agasalhou-se, p�s os cal�ados novos e saiu para um passeio do outro lado da ponte. Tomou a estrada que costeava o canal abaixo da igreja. O gelo cobria o canal e o velho porto, mas ao longe podia-se ver uma faixa mais escura de �gua livre. A ilumina��o da fachada da igreja se apagou nesse meio-tempo e ele ficou cercado pela escurid�o. O frio era intenso e o c�u estrelado.</p><p>De repente, Mikael sentiu-se muito deprimido. N�o conseguia entender como pudera se deixar convencer a aceitar aquele trabalho insensato. Erika tinha raz�o, era perda de tempo. Ele deveria estar em Estocolmo agora � na cama com Erika, por exemplo �, preparando a ofensiva contra Hans-Erik Wennerstr�m. Mas mesmo isso n�o o animava e ele n�o fazia a menor id�ia de como iniciar uma estrat�gia de ataque.</p><p>Se n�o fosse t�o tarde, teria procurado Henrik Vanger para romper o contrato e voltar para casa. Do alto da colina da igreja, podia constatar que a casa Vanger j� estava em sil�ncio e com as luzes apagadas. Da igreja, via todas as moradias da ilha. A casa de Harald tamb�m estava �s escuras, mas havia luz na de Cecilia e na mans�o de Martin na ponta do promont�rio, e tamb�m uma l�mpada acesa na casa alugada. Pr�ximo ao porto de recreio, via-se luz na casa de Eugen Norman, o pintor que morava no barraco com frestas, cuja chamin� expelia fagulhas. Tamb�m o andar superior do Caf� Susanne estava iluminado e Mikael se perguntou se ela morava ali e, nesse caso, se vivia sozinha.</p><empty-line/><p>Mikael dormiu at� tarde no domingo e despertou, assustado, com um alarido irreal dominando toda a casa. Precisou de um segundo para se localizar e entender que eram os sinos chamando para a missa, e que portanto deviam ser quase onze horas. Ficou mais um pouco na cama, sem vontade de nada. Quando ouviu um miado exigente diante da porta, levantou-se e deixou o gato sair.</p><p>Perto do meio-dia, tomou um banho e fez o desjejum. Entrou decididamente na saleta de trabalho e pegou o primeiro arquivo do inqu�rito policial. Depois hesitou. Da janela lateral da casa, avistou o letreiro do Caf� Susanne, p�s o arquivo na bolsa e vestiu a jaqueta. Ao chegar ao caf�, viu que estava abarrotado de fregueses e ent�o teve a resposta a uma pergunta que lhe martelava a cabe�a: como um caf� pode sobreviver num buraco como a aldeia de Hedeby? Susanne contava com os fi�is que iam � igreja e com as refei��es ligeiras ap�s os enterros e outras cerim�nias.</p><p>Optou por uma caminhada. Como o Konsum fechava aos domingos, andou mais umas centenas de metros pela estrada de Hedestad, onde comprou jornais na loja de conveni�ncias de um posto de gasolina. Dedicou uma hora andando a p� pela aldeia e se familiarizando com os arredores em terra firme. A �rea mais pr�xima da igreja e diante do Konsum constitu�a o n�cleo, com edifica��es antigas, sobrados de pedra que Mikael julgou constru�dos nos anos 1910 ou 1920, alinhados para formar uma pequena rua. No come�o da via de acesso a Hedestad, erguiam-se pequenos pr�dios de apartamento para fam�lias com filhos e, mais adiante, junto � margem e do lado sul do supermercado, algumas mans�es. A aldeia Hedeby era sem d�vida onde moravam as pessoas abastadas de Hedestad.</p><p>Quando voltou a se aproximar da ponte, o Caf� Susanne j� n�o estava t�o cheio, mas a propriet�ria ainda limpava as mesas.</p><p>� Rush de domingo? � ele comentou ao entrar.</p><p>Ela concordou com a cabe�a e ajeitou uma mecha de cabelos atr�s da orelha.</p><p>� Bom dia, senhor Mikael.</p><p>� Lembra o meu nome?</p><p>� Dif�cil n�o lembrar � ela respondeu. � Eu o vi na tev�, no julgamento antes do Natal.</p><p>Mikael sentiu-se constrangido.</p><p>� Eles precisam ocupar os notici�rios com alguma coisa � murmurou, apressando-se em dire��o � mesa de canto, de onde podia avistar a ponte. Quando seu olhar cruzou com o de Susanne, ela sorria.</p><empty-line/><p>�s tr�s da tarde, Susanne avisou que o caf� ia fechar. Ap�s a aflu�ncia de clientes depois da missa, raros fregueses apareceram. Mikael lera pouco mais de um quinto do primeiro arquivo do inqu�rito policial sobre o desaparecimento de Harriet. Tornou a fech�-lo, p�s o bloco de anota��es na bolsa e atravessou a ponte com passos r�pidos, de volta para casa.</p><p>O gato esperava junto � porta e Mikael olhou ao redor perguntando-se a quem pertencia aquele gato. Mesmo assim deixou que ele entrasse, afinal era alguma companhia.</p><p>Tentou outra vez o celular de Erika, mas de novo caiu na secret�ria eletr�nica. Ela estava certamente furiosa com ele. Poderia ter ligado direto para a reda��o ou para a casa dela, mas, teimoso como era, decidiu n�o fazer isso. J� deixara mensagens suficientes. Preparou um caf�, conduziu o gato ao banco da cozinha e abriu o arquivo em cima da mesa.</p><p>Lia devagar, concentrando-se para n�o deixar escapar detalhes. Quando voltou a fechar o arquivo, tarde da noite, enchera v�rias p�ginas do seu bloco com pontos de refer�ncia e perguntas cuja resposta esperava encontrar nos arquivos seguintes. Tudo estava organizado em ordem cronol�gica; n�o sabia ao certo se Henrik Vanger classificara assim ou se era esse o sistema da pol�cia nos anos 1960.</p><p>A primeira folha era a fotoc�pia de um formul�rio de declara��o, preenchido � m�o, do comissariado central da pol�cia de Hedestad. O agente que atendera o chamado assinara Ap Ryttinger, o que Mikael interpretou como "agente de plant�o". Henrik Vanger fora designado como declarante, seu endere�o e n�mero de telefone estavam anotados. O relat�rio trazia a data: domingo, 23 de setembro de 1966, 11h 14. O texto era breve e seco:</p><empty-line/><p><emphasis>Chamado de Hrk Vanger inf. que sua sobrinha</emphasis> (?) <emphasis>Harriet Ulrika Vanger, nascida em 15 jan. 1950 (16 anos), desapareceu do seu domic�lio na ilha Hedeby desde s�bado � tarde. O declarante demonstra grande inquieta��o.</emphasis></p><empty-line/><p>�s 11h20, uma nota estabelecia que P-014 (policial? patrulha? piloto de uma lancha?) fora despachado ao local.</p><p>�s 1 lh35, outro texto, mais dif�cil de interpretar que o de Ryttinger, acrescentava que <emphasis>Magnusson inf. ponte Hedeby ilha cont. fechada. Transp. por barco.</emphasis> Na margem, a assinatura era ileg�vel.</p><p>�s 12hl4, Ryttinger novamente: <emphasis>Chamada tel. Magnusson em H-by inf. que Harriet Vanger, 16 anos, est� ausente desde come�o tarde de s�bado. Fam. demonstra grande inquieta��o. Aparentemente n�o dormiu em sua cama. N�o p�de deixar ilha por causa acidente na ponte. Nenhum dos membros da fam�lia sabe onde HV se encontra.</emphasis></p><p>�s 12h l9: G. M. <emphasis>informado do caso por tel.</emphasis></p><p>A �ltima informa��o fora anotada �s 13h42: G. M. <emphasis>chegou a H-by; encarrega-se do caso.</emphasis></p><empty-line/><p>A folha seguinte revelava que as misteriosas iniciais G. M. referiam-se a Gustav Morell, um inspetor de pol�cia que chegara de barco � ilha Hedeby, assumira o comando das opera��es e fizera uma declara��o formal sobre o desaparecimento de Harriet Vanger. Ao contr�rio das notas preliminares com suas abrevia��es, os relat�rios de Morell estavam escritos � m�quina e numa prosa leg�vel. Nas p�ginas seguintes, ele relatava as medidas que haviam sido tomadas com uma objetividade e uma riqueza de detalhes que surpreenderam Mikael.</p><p>Morell fora sistem�tico. Primeiro interrogara Henrik Vanger em companhia de Isabella Vanger, a m�e de Harriet. A seguir falara sucessivamente com Ulrika Vanger, Harald Vanger, Greger Vanger, com o irm�o de Harriet, Martin Vanger, e Anita Vanger. Mikael concluiu que essas pessoas haviam sido interrogadas segundo uma esp�cie de escala de import�ncia decrescente.</p><p>Ulrika Vanger era a m�e de Henrik e parecia ter um estatuto semelhante ao de uma rainha-m�e. Ulrika morava na casa Vanger e n�o tinha nenhuma informa��o para dar. Fora deitar-se cedo na v�spera e fazia dias n�o via Harriet. Na verdade, ela s� insistira em falar com o inspetor Morell para expressar sua opini�o de que a pol�cia devia agir imediatamente.</p><p>Harald Vanger era o irm�o de Henrik e o n�mero dois na lista dos membros influentes da fam�lia. Ele explicava que tinha visto Harriet muito rapidamente quando ela voltou do desfile em Hedestad, mas que n�o a vira desde que o acidente ocorrera na ponte e n�o sabia onde ela se encontrava no momento.</p><p>Greger Vanger, irm�o de Henrik e Harald, declarava que vira a jovem desaparecida quando ela tinha ido ao escrit�rio de Henrik pedir para conversar com o tio-av� ap�s sua ida a Hedestad, na manh� de s�bado. Greger acrescentava que n�o dirigira a ela sen�o um bom-dia. N�o sabia onde ela podia estar, mas achava que decerto fora � casa de alguma colega sem avisar ningu�m e que seguramente n�o tardaria a voltar. N�o soube responder � pergunta de como, ent�o, ela teria deixado a ilha.</p><p>Martin Vanger fora interrogado �s pressas. Aluno do �ltimo ano num col�gio de Uppsala, morava nessa cidade na casa de Harald Vanger. Como n�o houve lugar para ele no carro de Harald, viera de trem a Hedeby. Chegou t�o tarde que ficou preso do outro lado da ponte e s� p�de chegar � ilha tarde da noite, de barco. Fora interrogado na esperan�a de que a irm� pudesse ter se aberto com ele e talvez confessado a inten��o de fugir. A pergunta fora recebida com protestos da m�e de Harriet, mas o inspetor Morell julgou naquele instante que uma fuga representava antes uma esperan�a. Martin, por�m, n�o falava com a irm� desde as �ltimas f�rias e n�o tinha nenhuma informa��o importante a dar.</p><p>Anita Vanger, a filha de Harald, era apresentada, de maneira err�nea, como "prima" de Harriet� na realidade, Harriet era filha do primo de Anita. Estava no primeiro ano da faculdade em Estocolmo e passara o ver�o em Hedeby. Tinha quase a mesma idade que Harriet e as duas eram muito amigas. Ela declarava que chegara � ilha com o pai no s�bado, que se alegrara em poder rever Harriet, mas que n�o tivera tempo para isso. Anita dizia-se inquieta porque n�o era pr�prio de Harriet desaparecer sem dizer nada � fam�lia. Nisso concordava tanto com Henrik quanto com Isabella Vanger.</p><p>Enquanto interrogava os membros da fam�lia, o inspetor Morell ordenara aos agentes de pol�cia Magnusson e Bergman � a patrulha 014! � que organizassem uma primeira busca antes do anoitecer. A ponte continuava fechada, era dif�cil trazer refor�os do continente; o primeiro grupo de busca foi formado por cerca de trinta pessoas dispon�veis, homens e mulheres de idades variadas. At� o final da tarde foram examinadas as cabanas desabitadas no porto de recreio, as praias do promont�rio e as margens do canal, a parte arborizada perto do povoado e tamb�m o monte Sul, acima do porto de recreio, isso depois de algu�m sugerir que Harriet talvez tivesse subido l� para obter uma boa vis�o geral do acidente na ponte. Patrulhas foram igualmente enviadas a �stergarden e ao chal� de Gottfried do outro lado da ilha, para onde Harriet ia de vez em quando.</p><p>No entanto as buscas n�o deram em nada e foram interrompidas com a noite j� avan�ada, por volta das dez horas. Na madrugada, a temperatura ca�ra a zero grau.</p><p>Durante a tarde, o inspetor Morell instalara seu QG numa sala que Henrik Vanger pusera � sua disposi��o no andar t�rreo da casa Vanger. Ele tomou uma s�rie de provid�ncias.</p><p>Acompanhado de Isabella Vanger, inspecionou o quarto de Harriet para tentar descobrir se faltava alguma coisa, roupas, uma sacola ou algo semelhante que pudesse indicar que Harriet fugira, Isabella, pouco prestativa, n�o parecia ter a menor id�ia do guarda-roupa da filha. <emphasis>Ela geralmente veste jeans, mas s�o todos parecidos.</emphasis> A bolsa de Harriet foi encontrada em cima da escrivaninha. Continha sua carteira de identidade, um porta-moedas com nove coroas e cinquenta centavos, um pente, um espelhinho e um len�o. Ap�s a inspe��o, o quarto de Harriet foi lacrado.</p><p>Morell interrogou outras pessoas, tanto membros da fam�lia quanto empregados. Todos os interrogat�rios foram minuciosamente registrados.</p><p>Como os participantes da primeira batida iam voltando aos poucos e sem informa��es proveitosas, o inspetor decidiu realizar buscas mais sistem�ticas. No come�o da noite, refor�os foram chamados; Morell entrou em contato, entre outros, com o presidente do clube de orienta��o de Hedestad, pedindo-lhe que convocasse seus membros para uma batida. Por volta da meia-noite, responderam-lhe que cinquenta e tr�s atletas ativos, sobretudo da categoria j�nior, estariam na casa Vanger �s sete da manh� do dia seguinte. A contribui��o de Henrik Vanger fora convocar, pura e simplesmente, toda a equipe da manh� da f�brica de papel Vanger local, cinquenta homens, al�m de providenciar bebida e comida para todo esse pessoal.</p><p>Mikael Blomkvist n�o teve nenhuma dificuldade em imaginar as cenas que devem ter se passado na casa Vanger durante aqueles dias repletos de acontecimentos. Estava claro que o acidente na ponte contribu�ra para a confus�o das primeiras horas, seja complicando a possibilidade de obter refor�os eficazes, seja porque todos achavam que dois acontecimentos t�o dram�ticos ocorridos no mesmo lugar e na mesma hora tinham necessariamente uma liga��o. Depois que retiraram o caminh�o-tanque da ponte, contra todas as probabilidades, o inspetor Morell fora certificar-se pessoalmente de que Harriet n�o se achava sob os destro�os. Foi a �nica a��o irracional que Mikael identificou nos procedimentos do inspetor, pois a jovem desaparecida fora comprovadamente vista na ilha depois de ocorrido o desastre. No entanto, sem que pudesse explicar a si mesmo por qu�, o respons�vel pelas investiga��es n�o conseguia tirar da cabe�a a id�ia de que um dos acontecimentos havia, de algum modo, provocado o outro.</p><empty-line/><p>As primeiras vinte e quatro horas viram minguar as esperan�as de um desfecho r�pido e feliz do caso, substitu�das gradualmente por duas especula��es. Apesar das dificuldades evidentes de poder abandonar a ilha sem ser vista, Morell n�o queria excluir a possibilidade de Harriet ter fugido. Decidiu ampliar as buscas e ordenou que os policiais da patrulha em Hedestad ficassem de olhos abertos. Tamb�m passou a um colega da divis�o criminal a tarefa de interrogar motoristas de �nibus e o pessoal da ferrovia, para o caso de algu�m a ter visto.</p><p>Quanto mais respostas negativas chegavam, mais parecia prov�vel que Harriet fora v�tima de um acidente. Essa hip�tese passou a dominar a organiza��o das buscas nos dias seguintes.</p><p>Dois dias depois do desaparecimento, uma grande batida foi realizada, e, de acordo com a avalia��o de Mikael Blomkvist, com a maior compet�ncia. Policiais e bombeiros com experi�ncia em casos semelhantes comandaram as buscas. Embora houvesse algumas �reas de dif�cil acesso, a superf�cie era limitada e a ilha inteira foi submetida a uma opera��o pente-fino. Um barco da pol�cia e dois de recreio, volunt�rios, sondaram da melhor maneira poss�vel as �guas ao redor da ilha.</p><p>No dia seguinte, as buscas foram retomadas com uma equipe reduzida. Dessa vez, patrulhas foram enviadas a uma segunda batida nos pontos de acesso mais dif�cil, bem como numa �rea chamada "A Fortifica��o" � um conjunto de bunkers abandonados que a defesa costeira havia montado durante a Segunda Guerra. Assim foram examinados nesse dia todos os pequenos redutos, po�os, grutas, dep�sitos e por�es do povoado.</p><p>Podia-se ler uma certa frustra��o numa nota de servi�o que anunciava a interrup��o das buscas no terceiro dia ap�s o desaparecimento. Naturalmente Gustav Morell ainda n�o tinha consci�ncia disto, mas naquele instante, na realidade, ele havia atingido o ponto culminante de suas buscas, o qual jamais ultrapassaria. Mergulhado na maior perplexidade, n�o sabia como recomendar a pr�xima etapa l�gica ou um local onde as buscas devessem recome�ar. Harriet Vanger aparentemente sumira no ar, e o calv�rio de Henrik Vanger, que haveria de prosseguir por quarenta anos, estava apenas come�ando.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>9.</emphasis></strong><strong><emphasis/></strong><strong><emphasis>SEGUNDA-FEIRA 6 DE JANEIRO � QUARTA-FEIRA 8 DE JANEIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael continuou lendo at� o amanhecer e levantou-se tarde no Dia de Reis. Um Volvo azul-marinho, �ltimo tipo, estava estacionado diante da casa de Henrik Vanger. No momento em que Mikael punha a m�o na ma�aneta da porta, ela se abriu e um homem de uns cinquenta anos saiu. Por pouco n�o colidiram. O homem parecia apressado.</p><p>� Sim, posso ajud�-lo?</p><p>� Vim ver Henrik Vanger � respondeu Mikael.</p><p>O olhar do homem se abrandou. Ele sorriu e estendeu a m�o.</p><p>� Voc� deve ser Mikael Blomkvist, o homem que vai ajudar Henrik a fazer a cr�nica da fam�lia, n�o?</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a e apertou-lhe a m�o. Aparentemente, Henrik j� come�ara a espalhar a hist�ria que, para todos os efeitos, explicaria a presen�a de Mikael em Hedestad. O homem tinha excesso de peso � resultado dos muitos anos de estresse em escrit�rios e salas de reuni�o �, mas Mikael notou imediatamente em seu rosto tra�os que lembravam Harriet Vanger.</p><p>� Sou Martin Vanger � ele confirmou. � Bem-vindo a Hedestad.</p><p>� Obrigado.</p><p>� Vi voc� na televis�o n�o faz muito tempo.</p><p>� Tenho a impress�o de que o mundo todo me viu na televis�o.</p><p>� Wennerstr�m n�o �... muito popular nesta casa.</p><p>� Foi o que Henrik me disse. Estou esperando o desenrolar da hist�ria.</p><p>� Ele me contou outro dia que o havia contratado. � Martin Vanger deu uma risada. � Disse-me que foi provavelmente por causa de Wennerstr�m que voc� aceitou este trabalho.</p><p>Mikael hesitou um segundo antes de se decidir a falar com franqueza.</p><p>� Admito que � uma das raz�es. Mas, para ser franco, estava precisando me afastar de Estocolmo, e Hedestad apareceu na hora certa, acho. N�o posso fazer de conta que o processo n�o existiu. Terei que cumprir uma pena de pris�o.</p><p>Martin Vanger assentiu com a cabe�a e voltou a ficar s�rio.</p><p>� Voc� tem a possibilidade de recorrer?</p><p>� No meu caso n�o adiantaria nada. Martin consultou seu rel�gio.</p><p>� Preciso estar em Estocolmo hoje � noite. Estou com pressa, voltarei dentro de alguns dias. V� jantar l� em casa qualquer dia. Tenho muita vontade de ouvir o que realmente se passou nesse processo.</p><p>Apertaram-se de novo as m�os antes de Martin descer e abrir a porta do Volvo. Ele se virou e disse a Mikael:</p><p>� Henrik est� no andar de cima. V� at� l�.</p><empty-line/><p>Henrik Vanger estava sentado no sof� de seu escrit�rio com o <emphasis>Hedestads-Kuriren,</emphasis> o <emphasis>Dagens Industri,</emphasis> o <emphasis>Svenska Dagbladet</emphasis> e os dois jornais vespertinos sobre a mesa diante dele.</p><p>� Encontrei Martin na entrada.</p><p>� Est� partindo em socorro do imp�rio � respondeu Henrik, brandindo a garrafa t�rmica. � Caf�?</p><p>� Sim, aceito � respondeu Mikael. Sentou-se, perguntando-se por que Henrik Vanger parecia divertir-se tanto.</p><p>� Est�o falando de voc� no jornal.</p><p>Henrik Vanger empurrou um dos jornais da noite, aberto na manchete "Curto-circuito jornal�stico". O artigo era escrito por um ex-cronista do <emphasis>Finansmagasinet Monopol,</emphasis> o perfeito ins�pido de terno e gravata, especialista na arte de denegrir todos os que se engajavam em alguma causa ou que ousavam levantar a cabe�a. Feministas, anti-racistas e militantes do meio ambiente podiam contar com suas farpas, sem que ele pr�prio emitisse nenhuma opini�o pass�vel de controv�rsia. Mas agora, aparentemente, convertera-se em cr�tico; semanas ap�s o julgamento do caso Wennerstr�m, passou a focalizar suas energias contra Mikael Blomkvist, que descrevia com todas as letras como um verdadeiro idiota. Erika Berger era pintada como um vaso decorativo da m�dia, perfeitamente incompetente:</p><empty-line/><p>Corre o rumor de que a <emphasis>Millennium</emphasis> est� sucumbindo, embora sua diretora seja uma feminista de minissaia e desfile seu mau humor na tev�. Por v�rios anos a revista sobreviveu da imagem que a reda��o conseguiu vender � a de jovens rep�rteres �vidos por investiga��es que desmascaram os vigaristas do mundo dos neg�cios. O truque comercial talvez funcione com jovens anarquistas desejosos de ouvir essa mensagem, mas n�o funciona no tribunal. E o Super-Blomkvist acaba de comprovar isso.</p><empty-line/><p>Mikael verificou no celular se havia alguma chamada de Erika. N�o havia nenhuma. Henrik Vanger esperava, silencioso. Mikael percebeu de repente que o velho pretendia que ele interrompesse o sil�ncio.</p><p>� Ele � um cretino � disse Mikael.</p><p>Henrik riu, mas acrescentou um coment�rio desprovido de qualquer sentimentalismo:</p><p>� � poss�vel. Mas n�o foi ele que foi condenado pela Justi�a.</p><p>� � verdade. E tamb�m nunca ser�. N�o � o tipo que gosta de investigar, pega sempre o trem em marcha e joga a �ltima pedra nos termos mais degradantes poss�veis.</p><p>� Cansei de encontrar gente assim na minha vida. Um bom conselho, se � que quer aceitar um conselho meu: ignore-o quando ele estiver provocando, nunca esque�a nada e d�-lhe o troco quando puder. Mas n�o agora que ele ataca em posi��o de for�a.</p><p>Mikael o interrogou com o olhar.</p><p>� Tive numerosos inimigos ao longo dos anos e aprendi uma coisa: n�o aceitar o combate quando � certo que se vai perder. Em compensa��o, jamais d� folga a quem o demoliu. Seja paciente e responda quando estiver em posi��o de for�a, mesmo que n�o haja mais necessidade de responder.</p><p>� Obrigado por essa aula de filosofia. Mas agora gostaria que me falasse da sua fam�lia. � Mikael colocou um gravador na mesa entre os dois e acionou a tecla.</p><p>� O que deseja saber?</p><p>� Li o primeiro arquivo, sobre o desaparecimento de Harriet e as buscas dos primeiros dias. Mas h� tantos Vanger que n�o consigo distinguir um do outro.</p><empty-line/><p>Im�vel no <emphasis>hall</emphasis> do elevador vazio, Lisbeth Salander permaneceu durante cerca de dez minutos com o olhar fixo na placa de metal amarelo que anunciava Dr. N. E. Bjurman, advogado, antes de tocar a campainha. A fechadura da porta emitiu um pequeno estalo.</p><p>Era ter�a-feira. Era o segundo encontro e ela tinha maus pressentimentos.</p><p>N�o que tivesse medo do dr. Bjurman � Lisbeth Salander raramente tinha medo das pessoas ou das coisas. Mas sentia um profundo mal-estar diante desse novo tutor. O predecessor de Bjurman, o dr. Holger Palmgren, tinha uma �ndole bem diferente; correto, cort�s e am�vel. Sua rela��o com ele terminara brutalmente tr�s meses antes, Palmgren sofrera um derrame cerebral. E Nils Erik Bjurman o sucedera segundo uma l�gica administrativa que ela n�o entendia.</p><p>Durante os doze anos em que Lisbeth Salander foi objeto de cuidados sociais e psiqui�tricos, dois deles passados numa cl�nica pedi�trica, em nenhum momento ela respondeu � nem uma vez sequer � � simples pergunta "Como voc� est� se sentindo hoje?".</p><p>Lisbeth Salander tinha treze anos quando o tribunal de primeira inst�ncia, cumprindo a lei de prote��o a menores, decidiu que ela deveria ser internada na cl�nica de psiquiatria infantil Sankt Stefan, em Uppsala. A decis�o se baseava principalmente num parecer segundo o qual ela apresentava dist�rbios psiqui�tricos e era considerada potencialmente perigosa para seus colegas de classe e eventualmente para si mesma.</p><p>Essa suposi��o se apoiava mais em julgamentos emp�ricos do que numa an�lise cuidadosa. Cada tentativa de m�dicos e professores para iniciar uma conversa sobre seus sentimentos, seus pensamentos ou seu estado de sa�de sempre esbarrara, para grande frustra��o deles, num sil�ncio compacto, obtuso e num olhar obstinadamente dirigido ao ch�o, ao teto e �s paredes. Ela cruzava os bra�os de modo sistem�tico e se recusava a participar de testes psicol�gicos. Sua total resist�ncia a todas as tentativas de medi-la, pes�-la, cartograf�-la, analis�-la e educ�-la se aplicava tamb�m aos trabalhos escolares � as autoridades podiam lev�-la a uma sala de aula e acorrent�-la � carteira, mas n�o podiam impedi-la de tapar os ouvidos e de se recusar a pegar uma caneta na hora dos testes. Ela deixou a escola sem um boletim de avalia��o.</p><p>O simples estabelecimento de um diagn�stico sobre seus problemas mentais revelou-se, portanto, algo complicado. Lisbeth Salander era tudo, menos uma pessoa manej�vel.</p><p>Tinha treze anos quando foi tomada tamb�m a decis�o de atribuir-lhe um administrador <emphasis>ad hoc</emphasis> para zelar por seus interesses e bens at� a maioridade. O administrador designado, o advogado Holger Palmgren, apesar de um come�o relativamente dif�cil, foi bem-sucedido onde psiquiatras e m�dicos fracassaram. Aos poucos, ganhou n�o apenas uma certa confian�a mas tamb�m uma pequena afei��o dessa menina complicada.</p><p>Quando completou quinze anos, os m�dicos puseram-se mais ou menos de acordo sobre ela n�o ser violenta e perigosa e n�o constituir um perigo para si mesma. Como sua fam�lia fora declarada incompetente, e n�o havendo mais ningu�m que pudesse se responsabilizar por seu bem-estar, decidiu-se que Lisbeth Salander poderia deixar a cl�nica de Uppsala e retornar � sociedade por interm�dio de uma fam�lia substituta.</p><p>A opera��o n�o foi simples. Ela fugiu da casa da primeira fam�lia substituta j� na segunda semana. As fam�lias n�mero 2 e n�mero 3 tamb�m foram descartadas rapidamente. Palmgren teve ent�o uma conversa s�ria com ela e explicou que, se prosseguisse naquele caminho, fatalmente acabaria voltando a uma institui��o. A falsa amea�a fez que ela aceitasse a fam�lia n�mero 4 � um casal idoso que morava em Midsommarkransen.</p><empty-line/><p>Isso n�o quis dizer que ela se transformou em uma mo�a bem-comportada. Com dezessete anos, Lisbeth Salander foi detida pela pol�cia quatro vezes, duas delas num estado de embriaguez t�o avan�ado que precisou ser levada ao hospital, e uma vez sob o efeito de drogas. Numa dessas ocasi�es, encontraram-na completamente b�bada e com as roupas em desordem no banco traseiro de um carro estacionado na S�der M�larstrand. Estava acompanhada de um homem tamb�m embriagado e consideravelmente mais velho que ela.</p><p>A �ltima interven��o ocorrera tr�s semanas antes de ela completar dezoito anos, quando desferiu um pontap� na cabe�a de um passageiro na esta��o de metr� de Gamla Stan. Estava perfeitamente s�bria. O incidente lhe valeu um indiciamento por insulto e agress�o. Salander justificou o gesto dizendo que o homem a bolinara e, como sua apar�ncia era de algu�m de doze e n�o de dezoito anos, ela achou que o bolinador tinha tend�ncias ped�filas. Na medida, � claro, em que conseguiu explicar alguma coisa. Contudo, suas declara��es foram sustentadas por testemunhas e o promotor arquivou o caso.</p><p>Mesmo assim, com base em informa��es sobre seu passado, o tribunal ordenou um exame psiqui�trico. Fiel a seus h�bitos, ela se recusou a responder �s perguntas e a participar dos exames, e os m�dicos consultados pela dire��o de Sa�de e Assist�ncia Social acabaram dando um parecer sobre "suas observa��es da paciente". O que exatamente se podia observar no caso de uma jovem sempre calada, sentada de bra�os cruzados e com express�o amuada, era um tanto vago. Ficou estabelecido apenas que ela sofria de problemas ps�quicos que requeriam tratamento. O relat�rio m�dico-legal preconizava um acompanhamento numa institui��o psiqui�trica. Paralelamente, um subdiretor da comiss�o de assist�ncia social redigiu um relat�rio no qual constavam as conclus�es da per�cia psiqui�trica.</p><p>Referindo-se ao quadro de Lisbeth Salander, o relat�rio mencionava <emphasis>um grande risco de abuso de �lcool ou de drogas e falta de instinto de preserva��o.</emphasis> Seu caso era descrito em termos categ�ricos: <emphasis>introvertida, socialmente limitada, aus�ncia de empatia, egoc�ntrica, comportamento psicopata e anti-social, dificuldades de colabora��o e de aprendizado.</emphasis> Quem lesse o dossi� podia facilmente concluir que ela tinha um grave retardo. Outro fato tamb�m a prejudicava: a equipe de interven��o dos servi�os sociais a observara diversas vezes na companhia de diferentes homens nos arredores da rua Mariatorget. Certa vez, fora tamb�m interpelada no parque Tantolunden, de novo acompanhada de um homem consideravelmente mais velho. Supunha-se que, de uma forma ou de outra, Lisbeth Salander praticava, ou corria o risco de come�ar a praticar, a prostitui��o.</p><p>No dia em que o tribunal de primeira inst�ncia � a jurisdi��o � qual cabia determinar seu futuro � se reuniu para tomar uma decis�o sobre o caso, a sa�da parecia tra�ada de antem�o. Sendo manifestamente uma jovem com problemas, era pouco prov�vel que os magistrados seguissem outro caminho que n�o as recomenda��es dadas pelo inqu�rito social e pelo inqu�rito de psiquiatria legal.</p><p>Na manh� do dia em que deveria comparecer ao tribunal, foram buscar Lisbeth Salander na cl�nica psiqui�trica onde ela estava internada desde o incidente na esta��o de Gamla Stan. Ela se sentia como um boi no matadouro, sem a menor esperan�a de sobreviv�ncia. A primeira pessoa que avistou na sala de audi�ncia foi Holger Palmgren, e ela demorou um momento at� entender que ele n�o estava ali na qualidade de administrador, mas como seu advogado e conselheiro jur�dico. Descobriu ent�o um novo aspecto desse homem.</p><p>Para sua grande surpresa, Palmgren estava a seu lado no canto do ringue e argumentou vigorosamente contra a proposta de interna��o. Ela n�o deixou transparecer surpresa nem sequer erguendo uma sobrancelha, mas escutou intensamente cada palavra pronunciada por ele. Palmgren mostrou-se brilhante durante as duas horas em que interrogou o dr. Jesper H. L�derman, o m�dico que assinara a recomenda��o de encerrar Salander numa institui��o. Tudo o que o relat�rio dizia foi discutido e o m�dico chamado a explicar o fundamento cient�fico de cada afirma��o. Aos poucos ficou evidente, visto que a paciente se recusara a se submeter aos testes, que as conclus�es m�dicas se baseavam apenas em suposi��es e n�o numa certeza.</p><p>No final das delibera��es do tribunal, Palmgren deu a entender que, muito provavelmente, uma interna��o coercitiva n�o apenas se opunha �s decis�es do Parlamento sobre quest�es desse g�nero mas tamb�m podia se tornar um cavalo de batalha para os pol�ticos e a m�dia. Portanto, era do interesse de todos encontrar uma alternativa conveniente. Tal linguagem n�o era habitual nas delibera��es desse tipo de caso, e os membros do tribunal manifestaram certa inquieta��o.</p><p>A solu��o foi, de fato, um acordo pol�tico. O tribunal de primeira inst�ncia estabeleceu que Lisbeth Salander sofria de doen�a mental, mas que sua loucura n�o requeria necessariamente interna��o. Em troca, levou-se em conta a recomenda��o, feita pelo diretor da assist�ncia social, de uma tutela. Ao que o presidente do tribunal se virou com um sorriso venenoso em dire��o a Holger Palmgren, que at� ent�o fora o administrador <emphasis>ad hoc</emphasis> de Salander, perguntando-lhe se aceitava assumir esse papel. O presidente esperava evidentemente que o advogado recuasse e tentasse tirar o corpo fora, mas Palmgren declarou, ao contr�rio, que se encarregaria com prazer da tarefa de tutoriar a srta. Salander � com uma condi��o.</p><p>"Isso pressup�e, evidentemente, que a senhorita Salander tenha confian�a em mim e me aceite como tutor."</p><p>E virou-se para ela. Lisbeth Salander estava um pouco perplexa ap�s as trocas de r�plicas disparadas acima de sua cabe�a ao longo de toda a jornada. At� ent�o, nunca ningu�m pedira sua opini�o. Ela olhou demoradamente para Holger Palmgren e ent�o assentiu com a cabe�a uma vez.</p><empty-line/><p>Palmgren era uma mistura estranha de jurista e trabalhador social da velha escola. No in�cio da carreira, fora membro da comiss�o de assist�ncia social e dedicara quase toda a vida a lidar com crian�as dif�ceis. Um respeito constrangido, que beirava a amizade, se estabeleceu entre o advogado e sua protegida incomparavelmente mais dif�cil.</p><p>A rela��o dos dois durou onze anos, desde os treze anos de Lisbeth at� o final do ano anterior, quando ela fora � casa de Palmgren algumas semanas antes do Natal, j� que ele n�o comparecera a um de seus encontros marcados. Como ele n�o abriu a porta, embora se ouvissem ru�dos no apartamento, ela entrou por fora, escalando um tubo de escoamento pluvial at� a sacada do quarto andar. Encontrou-o estendido no vest�bulo, consciente mas incapaz de falar e de se mover ap�s um derrame cerebral. Ela chamou a ambul�ncia e o acompanhou ao hospital com uma sensa��o crescente de p�nico no est�mago. Durante tr�s dias e tr�s noites, ela praticamente n�o deixou o corredor da UTI. Como um c�o de guarda fiel, vigiava cada passo dos m�dicos e enfermeiras que entravam e sa�am. Andava pelo corredor de um lado para o outro e cravava os olhos em cada m�dico que se aproximava dela. Finalmente, um m�dico, cujo nome ela nunca soube, a introduziu numa sala e lhe explicou a gravidade da situa��o. O estado de Holger Palmgren era cr�tico ap�s uma grave hemorragia cerebral. Provavelmente n�o recuperaria a consci�ncia. Tinha apenas sessenta e quatro anos. Ela n�o chorou nem demonstrou o menor sentimento. Levantou-se, deixou o hospital e nunca mais retornou.</p><p>Cinco semanas depois, a comiss�o de tutelas convocou Lisbeth Salander para um primeiro encontro com o novo tutor. Seu primeiro impulso foi ignorar a convoca��o, mas Holger Palmgren inculcara cuidadosamente em sua consci�ncia que todo ato acarreta consequ�ncias. Nesse est�gio, ela aprendera a analisar as consequ�ncias antes de agir e, refletindo melhor, concluiu que a sa�da mais indolor para aquele dilema era satisfazer a comiss�o de tutelas, comportando-se como se a opini�o deles realmente importasse.</p><p>Assim, em dezembro apresentou-se docilmente � uma curta pausa na investiga��o sobre Mikael Blomkvist � no escrit�rio de Bjurman na rua Sankt Eriksplan, onde uma mulher de idade, representante da comiss�o, entregara o volumoso dossi� ao advogado. A senhora perguntou-lhe gentilmente como estava e pareceu satisfeita com o sil�ncio obstinado que obteve como resposta. Ao cabo de meia hora, deixou Salander aos cuidados de Bjurman.</p><p>Lisbeth Salander detestou o advogado cinco segundos depois de apertar-lhe a m�o.</p><p>Examinou-o furtivamente enquanto ele lia o dossi�. Pouco mais de cinquenta anos. Corpo atl�tico, de quem joga t�nis �s ter�as e sextas-feiras. Louro. Cabelos finos. Covinha no queixo. Lo��o de barba Boss. Terno azul. Gravata vermelha com alfinete dourado e bot�es no punho da camisa com as iniciais N. E. B. �culos com arma��o met�lica. Olhos cinzentos. A julgar pelas revistas em cima de uma mesa baixa, interessava-se por ca�a e tiro.</p><p>Durante os dez anos em que se encontrara regularmente com Palmgren, ele lhe oferecia caf� e conversava com ela. Mesmo suas piores fugas das fam�lias substitutas ou suas aus�ncias sistem�ticas da escola n�o conseguiram desestabiliz�-lo. A �nica vez que Palmgren ficou realmente furioso foi quando a indiciaram por insulto e agress�o ao sujeito nojento que a tinha bolinado no metr�. Percebe o que fez? Voc� atacou um ser humano, Lisbeth. Parecia um velho professor e ela pacientemente ignorou cada palavra da descompostura.</p><p>Bjurman n�o estava disposto a conversar. Logo de in�cio constatou que havia incompatibilidade entre os deveres de Holger Palmgren previstos pelo regulamento da tutela e o fato de ele aparentemente ter deixado que a pr�pria Lisbeth Salander administrasse seu apartamento e seu or�amento. Fez uma esp�cie de interrogat�rio. Quanto voc� ganha? Quero uma c�pia da sua contabilidade. Quem s�o seus amigos? Paga o aluguel em dia? Costuma beber? Palmgren estava de acordo com esses an�is que tem no rosto? � cuidadosa em mat�ria de higiene?</p><p>V� se foder!</p><p>Palmgren tornara-se seu administrador <emphasis>ad hoc</emphasis> pouco depois que todo o Mal aconteceu. Ele insistira em v�-la pelo menos uma vez por m�s em encontros fixos, e �s vezes com mais frequ�ncia. Desde que ela retornara � Lundagatan, eles eram praticamente vizinhos. Palmgren morava na Hornsgatan, perto da casa dela, e quase sempre se cruzavam e iam tomar um caf� no Giffy ou em outra parte do bairro. Palmgren nunca fora importuno, mas �s vezes passava para v�-la com um presentinho de anivers�rio, por exemplo. Ela tinha o convite permanente para visit�-lo a qualquer momento, privil�gio que raramente usou, mas nos �ltimos anos passara as v�speras de Natal na casa dele depois de visitar a m�e. Comiam peru de Natal e jogavam xadrez. Esse jogo de modo nenhum a interessava, mas, depois que aprendeu as regras, n�o perdeu uma s� partida. Palmgren era vi�vo e Lisbeth Salander encarava como um dever seu ter piedade dele e de sua solid�o nesses dias de festa.</p><p>Achava que lhe devia isso, e ela sempre pagava suas d�vidas.</p><p>Palmgren � que sublocara o apartamento da m�e na Lundagatan at� que Lisbeth tivesse necessidade de lugar pr�prio para morar. O apartamento de quarenta e nove metros quadrados estava decr�pito e sujo, mas ainda assim era um teto.</p><p>Agora Palmgren se fora, e outro la�o com a sociedade normal acabava de ser desfeito. Nils Bjurman era outro tipo de gente. Ela n�o imaginava passar uma v�spera de Natal na casa dele. A primeira medida que ele tomou foi estabelecer novas regras sobre o acesso � conta banc�ria na qual era depositado seu sal�rio. Palmgren fechara gentilmente os olhos para o regime das tutelas e deixara que ela mesma administrasse seu or�amento. Lisbeth pagava as contas e podia utilizar sua poupan�a quando bem entendesse.</p><p>Tendo se preparado para o encontro com Bjurman na semana anterior ao Natal, ela tentou explicar a ele que seu predecessor confiara nela e que ela nunca o decepcionara. Palmgren deixara-a conduzir o barco sem se intrometer em sua vida particular.</p><p>� Esse � justamente um dos problemas � respondeu Bjurman, tamborilando sobre a pasta do dossi�.</p><p>Depois fez um longo discurso a respeito das regras e dos decretos administrativos referentes �s tutelas, antes de inform�-la que uma nova ordem entraria em vigor.</p><p>� Ele deixou que voc� agisse � vontade, n�o foi? Eu me pergunto como conseguiu n�o bater com o martelo nos dedos.</p><p><emphasis>Porque fazia quarenta anos que o velho cuidava de adolescentes com problemas, seu imbecil!</emphasis></p><p>� N�o sou mais uma crian�a � disse Lisbeth Salander, como se isso bastasse como explica��o.</p><p>� N�o, n�o � mais uma crian�a. Mas fui designado para ser seu tutor e, como tal, sou jur�dica e economicamente respons�vel por voc�.</p><p>A primeira medida de Bjurman foi abrir uma nova conta banc�ria em nome dele, que ela devia indicar � contabilidade da Milton e que seria utilizada da� em diante. Salander se deu conta de que os dias felizes tinham acabado: agora Bjurman pagaria suas contas e ela teria uma quantia fixa para os gastos mensais e lhe forneceria os recibos das despesas. Ele decidiu que ela receberia mil e quatrocentas coroas por semana � "para alimenta��o, roupas, cinema e coisas do g�nero".</p><p>Conforme escolhesse trabalhar muito ou pouco, Lisbeth Salander podia ganhar at� cento e sessenta mil coroas por ano. Podia facilmente dobrar essa quantia se trabalhasse em tempo integral e aceitasse todas as miss�es que Dragan Armanskij viesse a propor. Por outro lado, tinha poucas contas a pagar e n�o gastava muito. O apartamento custava-lhe duas mil coroas por m�s e, apesar de seus rendimentos modestos, tinha noventa mil coroas na conta de poupan�a. Poupan�a da qual n�o ia mais poder dispor livremente.</p><p>� Eu sou o respons�vel pelo seu dinheiro � ele explicou. � Voc� deve reservar um dinheiro para o futuro. Mas n�o se preocupe, eu me encarregarei disso.</p><p><emphasis>Eu mesma me encarrego disso h� dez anos, seu babaca!</emphasis></p><p>� Est� se saindo suficientemente bem de um ponto de vista social para n�o precisar ser internada, mas a sociedade � respons�vel por voc�.</p><p>Ele a interrogou em detalhe sobre suas tarefas na Milton Security. Instintivamente, ela mentiu sobre seu trabalho. A resposta que forneceu era uma descri��o do que havia feito nas primeiras semanas de trabalho. Assim, Bjurman teve a impress�o de que ela apenas fazia o caf� e selecionava a correspond�ncia � atividades de uma pessoa de pouca intelig�ncia � e pareceu satisfeito com as respostas.</p><p>Ela n�o sabia por que mentira, mas estava convencida de que agira bem.</p><p>Mesmo que o advogado Bjurman figurasse numa lista de esp�cies de insetos amea�adas de extin��o, n�o teria hesitado em esmag�-lo com o calcanhar.</p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist passou cinco horas na companhia de Henrik Vanger e dedicou uma parte da noite e a ter�a-feira toda para organizar suas notas e montar o quebra-cabe�a geneal�gico dos Vanger. A hist�ria familiar que resultava das conversas com Henrik era uma vers�o muito diferente da que era dada no retrato oficial da fam�lia. Mikael sabia perfeitamente que todas as fam�lias t�m esqueletos no arm�rio. A fam�lia Vanger tinha um cemit�rio inteiro.</p><p>Mikael precisou lembrar-se v�rias vezes de que seu trabalho real n�o era escrever uma biografia da fam�lia Vanger, mas desvendar o que acontecera com Harriet Vanger. Aceitara a miss�o convencido de que, na realidade, desperdi�aria um ano com a bunda numa cadeira e de que os esfor�os que faria por Henrik Vanger n�o levariam a nada. Ao cabo de um ano, receberia um sal�rio extravagante � o contrato redigido por Dirch Frode fora assinado. Mas o verdadeiro sal�rio, ele esperava, seria a informa��o sobre Hans-Erik Wennerstr�m, que Henrik afirmava possuir.</p><p>Depois da conversa com Henrik Vanger, ele come�ou a dizer a si mesmo que podia n�o ser um ano perdido. Um livro sobre a fam�lia Vanger tinha l� seu valor � era simplesmente um assunto interessante.</p><p>N�o lhe passava pela mente, nem por um �nico segundo, que pudesse descobrir o assassino de Harriet Vanger � se � que ela fora mesmo assassinada; podia ter sido v�tima de um acidente absurdo ou desaparecido de outra maneira. Mikael concordava com Henrik sobre a quase improbabilidade de uma jovem de dezesseis anos desaparecer por vontade pr�pria e conseguir permanecer oculta a todos os sistemas de vigil�ncia oficiais durante trinta e seis anos. Em contrapartida, Mikael n�o exclu�a a possibilidade de Harriet Vanger ter fugido, para Estocolmo talvez, e de alguma coisa ter acontecido no caminho � drogas, prostitui��o, uma agress�o ou simplesmente um acidente.</p><p>Por seu lado, Henrik estava convencido de que Harriet fora assassinada e de que um membro da fam�lia era o respons�vel � talvez em colabora��o com outro. A for�a do seu racioc�nio se baseava no fato de Harriet ter desaparecido durante as horas dram�ticas de isolamento da ilha, quando todos os olhos estavam voltados para o acidente.</p><p>Erika teve raz�o em dizer a Mikael que seu trabalho era mais do que insensato se o objetivo era resolver o mist�rio de um crime, mas ele come�ava a entender que o destino de Harriet Vanger tivera um papel central na fam�lia, principalmente para Henrik Vanger. Justificadas ou n�o, as acusa��es de Henrik contra seus familiares eram de grande import�ncia para a hist�ria dessa fam�lia. Ele os acusava abertamente havia mais de trinta anos e essa suspeita marcara as reuni�es familiares e criara oposi��es inflamadas que contribu�ram para desestabilizar o grupo. Examinar o desaparecimento de Harriet, portanto, seria um cap�tulo � parte e at� mesmo um fio condutor da hist�ria da fam�lia � e as fontes eram abundantes. Um ponto de partida l�gico seria estabelecer uma galeria de personagens � sem se importar se Harriet Vanger era sua principal miss�o ou se ele se contentaria em escrever uma cr�nica familiar. Foi esse o tema da conversa com Henrik naquele dia.</p><p>A fam�lia Vanger era constitu�da de uma centena de pessoas, contando os filhos de primos de primeiro e segundo grau de todos os ramos. A fam�lia era t�o numerosa que Mikael foi obrigado a criar um banco de dados no notebook. Utilizou o programa NotePad (www.ibrium.se), um desses produtos completos que dois rapazes do KTH [Real Instituto de Tecnologia], de Estocolmo, haviam criado e disponibilizado na internet em troca de quase nada. Programas como esse, t�o indispens�veis a um jornalista investigativo, eram raros, pensou Mikael. Cada membro da fam�lia ganhou sua pr�pria ficha.</p><p>A �rvore geneal�gica podia ser reconstitu�da com seguran�a at� o come�o do s�culo XVI, �poca em que o nome era Vangeersad. Segundo Henrik Vanger, o nome talvez se originasse do holand�s Van Geerstad; nesse caso, a �rvore geneal�gica retrocedia ainda mais no tempo, at� o s�culo XII.</p><p>Numa �poca mais recente, a fam�lia se estabelecera no norte da Fran�a e chegara � Su�cia com Jean-Baptiste Bernadotte no come�o do s�culo XIX. Alexander Vangeersad n�o conheceu pessoalmente o rei, mas destacou-se como chefe militar e, em 1818, recebeu as terras de Hedeby em agradecimento por seus longos e fi�is servi�os. Alexander Vangeersad obteve assim uma fortuna pessoal que utilizou para adquirir �reas florestais bastante extensas no Norrland. Seu filho Adrian nasceu na Fran�a, mas, a pedido do pai, veio morar no canto perdido de Hedeby, longe dos sal�es parisienses, para administrar a propriedade. Explorando as terras e as florestas com novos m�todos importados da Europa, fundou a f�brica de papel em torno da qual Hedestad se desenvolveu.</p><p>O neto de Alexander chamava-se Henrik e reduziu o nome para Vanger. Montou uma rede comercial com a R�ssia e criou uma pequena frota de escunas mercantis que assegurava a liga��o com os pa�ses b�lticos, a Alemanha e a Inglaterra das metalurgias, em meados do s�culo XIX. Henrik Vanger, o antigo, diversificou a empresa familiar e iniciou uma modesta explora��o de minas e as primeiras ind�strias metal�rgicas do Norrland. Deixou dois filhos, Birger e Gottfried, que deram in�cio �s atividades financeiras da fam�lia Vanger.</p><p>� Voc� conhece alguma coisa sobre as antigas leis da heran�a? � perguntara Henrik Vanger.</p><p>� N�o � exatamente a minha �rea de compet�ncia.</p><p>� Entendo. � algo que tamb�m me deixa perplexo. De acordo com a tradi��o familiar, Birger e Gottfried eram como c�o e gato, concorrentes legend�rios em luta por poder e influ�ncia. Essa disputa tornou-se uma amea�a � sobreviv�ncia da empresa e o pai deles decidiu, pouco antes de morrer, criar um sistema em que cada membro da fam�lia teria uma parte na heran�a da empresa. Isso provavelmente partiu de um bom sentimento, mas provocou uma situa��o insustent�vel. Em vez de atrair pessoas competentes e poss�veis parceiros do exterior, deparamo-nos com uma dire��o composta de membros da fam�lia, cada qual com um ou dois por cento de direito de voto.</p><p>� A regra se aplica ainda hoje?</p><p>� Totalmente. Se um membro da fam�lia quiser vender sua parte, ter� que ser para algu�m da fam�lia. A assembl�ia geral re�ne hoje uns cinquenta membros da fam�lia. Martin possui pouco mais de dez por cento das a��es. Eu tenho cinco por cento, pois as vendi, entre outros, a Martin. Meu irm�o Harald tem sete por cento, mas a maioria dos que comparecem �s assembl�ias tem apenas um ou um e meio por cento.</p><p>� N�o acredito. Parece coisa da Idade M�dia.</p><p>� � completamente absurdo. Significa que, se Martin quiser hoje adotar determinada pol�tica, ele � obrigado a fazer um lobby em grande escala para conseguir o apoio de pelo menos vinte e cinco por cento dos co-propriet�rios. � uma mix�rdia de alian�as, divis�es e intrigas.</p><p>Henrik Vanger prosseguiu.</p><p>� Gottfried Vanger morreu sem filhos em 1901. Perd�o: na verdade era pai de quatro filhas, mas naquela �poca as mulheres n�o contavam. Possu�am cotas, por�m eram os homens da fam�lia que recebiam os juros. Foi s� com a introdu��o do direito de voto, no s�culo XX, que as mulheres passaram a assistir �s assembl�ias gerais.</p><p>� Muito liberais, pelo que vejo.</p><p>� N�o zombe. Eram tempos diferentes. Seja como for, o irm�o de Gottfried, Birger, tinha tr�s filhos homens: Johan, Fredrik e Gideon Vanger, todos nascidos no final do s�culo XIX. Podemos eliminar Gideon: ele vendeu sua parte e emigrou para a Am�rica, onde seguimos tendo um ramo. Mas Johan e Fredrik fizeram da empresa o grupo Vanger moderno.</p><p>Enquanto narrava, Henrik Vanger pegou um �lbum com fotos desses personagens. As fotos do come�o do s�culo passado mostravam dois homens de queixos vigorosos e cabelos lisos de brilhantina olhando para a c�mera sem a menor sombra de um sorriso. Depois prosseguiu:</p><p>� Johan Vanger era o g�nio da fam�lia. Estudou engenharia e desenvolveu a ind�stria mec�nica com v�rias novas inven��es que patenteou. O a�o e o ferro passaram a ser a base do grupo, mas a sociedade estendeu seus neg�cios a outras �reas, como a t�xtil. Johan Vanger morreu em 1956 e deixou tr�s filhas, Sofia, M�rit e Ingrid, que foram as primeiras mulheres a ter acesso autom�tico � assembl�ia geral do grupo. O outro irm�o, Fredrik Vanger, era meu pai. Ele foi o homem de neg�cios, o capit�o de ind�stria que transformou as inven��es de Johan em rendimentos. Meu pai s� morreu em 1964. Participou ativamente da dire��o at� sua morte, ainda que, j� nos anos 1950, tivesse me passado a dire��o do dia-a-dia da empresa. Johan Vanger, ao contr�rio da gera��o precedente, teve apenas filhas. � Henrik Vanger mostrou fotos de mulheres com seios generosos, usando sombrinhas e chap�us de abas largas. � E Fredrik, meu pai, teve apenas filhos homens. �ramos cinco irm�os. Richard, Harald, Greger, Gustav e eu.</p><empty-line/><p>Para tentar situar-se entre todos os membros da fam�lia, Mikael desenhou uma �rvore geneal�gica em algumas folhas tamanho of�cio coladas pelas pontas. Assinalou com um marca-texto o nome dos membros presentes na ilha de Hedeby durante a reuni�o de fam�lia em 1966 e que, portanto, ao menos teoricamente, poderiam ter alguma liga��o com o desaparecimento de Harriet.</p><p>Mikael deixou de lado as crian�as com menos de doze anos � partia do princ�pio de que, qualquer que tenha sido a sorte de Harriet Vanger, ele devia se limitar ao que era plaus�vel. Sem colocar-se muitas quest�es, omitiu tamb�m Henrik Vanger � se o patriarca estivesse implicado no desaparecimento da neta do irm�o, seus procedimentos nos �ltimos trinta e seis anos eram um caso psicopatol�gico. A m�e de Henrik Vanger, que em 1966 tinha a vener�vel idade de oitenta e um anos, podia razoavelmente ser riscada tamb�m. Os vinte e dois membros restantes da fam�lia, segundo Henrik, deviam entrar no grupo dos "suspeitos". Sete j� haviam morrido e alguns atingiam idades respeit�veis.</p><p>Contudo, Mikael n�o estava disposto a aceitar sem exame a convic��o de Henrik de que um membro da fam�lia era o respons�vel pelo desaparecimento de Harriet. A lista de suspeitos deviam ser acrescentadas outras pessoas.</p><p>Dirch Frode come�ara a trabalhar como advogado de Henrik na primavera de 1962. E, quando Harriet desapareceu, o faz-tudo da �poca, Gunnar Nilsson � n�o importa se com um �libi ou n�o �, tinha dezenove anos e, assim como seu pai, Magnus Nilsson, estava na ilha de Hedeby, do mesmo modo que o artista pintor Eugen Norman e o pastor Otto Falk. E esse Falk, era casado? O fazendeiro de �stergarden, Martin Aronsson, assim como seu filho Jerker Aronsson, se encontravam na ilha e foram pr�ximos de Harriet Vanger ao longo de toda a sua inf�ncia. Quais eram as rela��es deles? Martin Aronsson era casado? Havia outras pessoas na fazenda?</p><p>Quando Mikael escreveu todos os nomes, o grupo chegou a umas quarenta pessoas. Com um gesto de frustra��o, jogou longe o marca-texto. J� eram tr�s e meia da manh� e o term�metro indicava vinte e um graus negativos. A onda de frio parecia querer se instalar. Seu desejo era estar na cama, em sua cama na Bellmansgatan.</p><p>Mikael Blomkvist despertou �s nove da manh� da quarta-feira, quando o t�cnico da Telia bateu � sua porta para instalar a linha telef�nica e o modem ADSL. �s onze j� podia se conectar e n�o se sentia mais em total desvantagem profissional. O telefone, por�m, permanecia mudo. Fazia uma semana que Erika n�o respondia a seus chamados. Devia estar realmente zangada. Ele tamb�m come�ava a se sentir um pouco teimoso e recusava-se a cham�-la na reda��o; ao ligar para ela do celular, ela podia ver que era ele e decidir se queria atender ou n�o. Portanto, ela n�o queria.</p><empty-line/><p>FREDRIK VANGER</p><p>(1886-1964)</p><p>esp. <strong>Ulrika</strong> (1885-1969)</p><p>JOHAN VANGER</p><p>(1884-1956)</p><p>esp. Gerda (1888-1960)</p><empty-line/><p>Richard (1907-1940)</p><p>esp. Margareta (1906-1959)</p><empty-line/><p>Gottfried</p><p>(1927-1965)</p><p>esp. <strong>Isabella</strong> (1928-)</p><empty-line/><p>Martin (1948-)</p><p><emphasis>Harriet</emphasis> (1950-)</p><empty-line/><p><strong>Sofia</strong> (1909-1977)</p><p>esp. <strong>�ke Sj�gren</strong> (1906-1967)</p><empty-line/><p><strong>Magnus Sj�gren</strong></p><p>(1929-1994)</p><p><strong>Sara Sj�gren (1931-)</strong></p><p>Erik Sj�gren (1951-)</p><p><strong>H�kan Sjogren</strong> (1955-)</p><empty-line/><p><strong>Harald</strong> (1911-)</p><p>esp. <strong>Ingrid</strong></p><p>(1925-1992)</p><p><strong>Birger</strong> (1939-)</p><p><strong>Cecilia</strong> (1946-)</p><p><strong>Anita (1</strong>948-)</p><empty-line/><p><strong>M�rit</strong> (1911-1988)</p><p>esp. <strong>Algot Giinther</strong></p><p>(1904-1987)</p><p>Ossian Gunther (1930-)</p><p>esp. <strong>Agnes</strong> (1933-)</p><p><strong>Jakob Gunther</strong> (1952-)</p><empty-line/><p><strong>Greger</strong> (1912-1974)</p><p>esp. <strong>Gerda</strong>(1922-)</p><empty-line/><p><strong>Ingrid</strong> (1916-1990)</p><p>esp. <strong>Harry Karlman</strong></p><p>(1912-1984)</p><empty-line/><p>Alexander (1946-)</p><p><strong>Gunnar Karlman</strong> (1942-)</p><p><strong>Maria Karlman</strong> (1944-)</p><empty-line/><p>Gustav (1918-1955)</p><p>solteiro, sem filhos</p><empty-line/><p>Henrik(1920-)</p><p>esp. Edith (1921-1958)</p><p>sem filhos</p><empty-line/><p>Seja como for, ele abriu sua caixa de mensagens e passou os olhos pelos trezentos e cinquenta e-mails que lhe haviam sido enviados na �ltima semana. Conservou uma d�zia deles, o resto eram spams ou mailings dos quais era assinante. O primeiro e-mail que abriu era de demokrat88@yahoo.com e dizia: "Espero que nesse buraco te fa�am chupar muitos paus, seu comunista sujo". Mikael arquivou o e-mail numa pasta intitulada Cr�tica Inteligente.</p><p>Escreveu uma breve mensagem a erika.berger@millenium.se.</p><empty-line/><p>�[Oi, Ricky. Suponho que est� com muita raiva de mim, pois n�o atende os meus chamados. Quero apenas te dizer que agora estou na internet e podemos conversar por e-mail, se voc� quiser me perdoar. Fora isso, Hedeby � um lugarzinho r�stico que vale uma visita. M.]</p><empty-line/><p>Na hora do almo�o, p�s o notebook na bolsa e foi at� o Caf� Susanne, onde se acomodou na habitual mesa de canto. Quando Susanne lhe serviu um caf� com sandu�che, ela lan�ou um olhar de curiosidade ao computador e perguntou no que ele estava trabalhando. Mikael utilizou pela primeira vez seu pretexto e explicou que Henrik Vanger o contratara para escrever uma biografia. Trocaram algumas palavras polidas. Susanne convidou Mikael a procur�-la quando estivesse preparado para as verdadeiras revela��es.</p><p>� Atendo os Vanger h� trinta e cinco anos e conhe�o a maior parte dos mexericos da fam�lia � ela falou, antes de voltar � cozinha com um passo meio gingado.</p><empty-line/><p>O quadro que Mikael desenhou indicava que a fam�lia Vanger n�o cessava de produzir novos rebentos. Somando os filhos, netos e bisnetos � que ele nem se deu o trabalho de mencionar �, os irm�os Fredrik e Johan Vanger tinham cerca de cinquenta descendentes. Mikael constatou tamb�m que havia na fam�lia uma tend�ncia � longevidade. Fredrik Vanger morrera com setenta e oito anos, seu irm�o Johan com setenta e dois. Ulrika Vanger falecera com oitenta e quatro. Dos dois irm�os ainda vivos, Harald tinha noventa e dois anos e Henrik Vanger oitenta e dois.</p><p>A �nica exce��o fora Gustav, o irm�o de Henrik, morto de uma doen�a pulmonar aos trinta e sete anos. Henrik explicou que Gustav sempre tivera a sa�de fr�gil e seguira seu pr�prio caminho, um pouco � margem do resto da fam�lia. N�o se casou nem teve filhos.</p><p>Quanto aos demais, os que morreram jovens n�o sucumbiram a doen�as, mas por outros motivos. Richard Vanger foi morto como volunt�rio durante a guerra de Inverno da Finl�ndia, com trinta e quatro anos. Gottfried Vanger, o pai de Harriet, havia se afogado um ano antes do desaparecimento da filha. E a pr�pria Harriet tinha ent�o somente dezesseis anos. Mikael notou a estranha coincid�ncia nesse ramo da fam�lia em que av�, pai e filha foram v�timas de acidentes. De Richard restava apenas Martin Vanger, que aos cinquenta e cinco anos continuava solteiro e sem filhos. Henrik Vanger informou, por�m, que Martin tinha uma companheira, uma mulher que morava em Hedestad.</p><p>Martin tinha dezoito anos quando a irm� desapareceu. Fazia parte dos raros parentes pr�ximos que, com toda a certeza, n�o podiam ter liga��o alguma com o desaparecimento. Naquele outono, ele morava em Uppsala, onde conclu�a o colegial. Devia participar da reuni�o de fam�lia, mas s� chegou no fim da tarde e ficou retido do outro lado da ponte durante a hora cr�tica em que a irm� evaporou.</p><p>Mikael notou duas outras particularidades na �rvore geneal�gica. A primeira � que os casamentos pareciam ser vital�cios; nenhum membro da fam�lia Vanger se divorciara nem voltara a se casar, mesmo quando o parceiro havia morrido jovem. Perguntou-se qual a frequ�ncia disso em termos estat�sticos. Cecilia Vanger estava separada do marido havia v�rios anos, mas, se Mikael tinha entendido bem, ainda eram casados.</p><p>A outra particularidade � que a fam�lia parecia geograficamente dividida entre "homens" e "mulheres". Os descendentes de Henrik Vanger, aos quais Henrik pertencia, tradicionalmente haviam desempenhado papel de destaque na empresa e morado principalmente em Hedestad ou arredores. Os membros do ramo Johan Vanger � apenas mulheres na primeira gera��o � espalharam-se por outros cantos do pa�s; moravam em Estocolmo, Malm� e G�teborg ou no exterior, e s� vinham a Hedestad para as f�rias de ver�o e as reuni�es importantes do grupo. A �nica exce��o era Ingrid Vanger, cujo filho Gunnar Karlman morava em Hedestad. Era o redator-chefe do jornal local, o <emphasis>Hedestads-Kuriren.</emphasis></p><p>Na conclus�o de seu inqu�rito pessoal, Henrik observava que o "motivo por tr�s do assassinato de Harriet" devia ser buscado, talvez, na estrutura da empresa e no fato de ele ter assinalado muito cedo as qualidades excepcionais de Harriet. A inten��o talvez fosse prejudicar o pr�prio Henrik, ou ent�o Harriet descobrira uma esp�cie de informa��o delicada relativa ao grupo e se convertera numa amea�a para algu�m. Tudo isso n�o passava de especula��o, mas, partindo dessa hip�tese, ele identificou um c�rculo de treze pessoas que apresentava como "particularmente interessantes".</p><p>A conversa da v�spera com Henrik Vanger tamb�m esclarecera Mikael sobre outro ponto. Desde a primeira conversa, o velho falara da fam�lia em termos t�o desdenhosos e degradantes que chegava a ser estranho. Mikael se perguntara se as suspeitas do patriarca sobre a fam�lia, quanto ao desaparecimento de Harriet, haviam afetado seu ju�zo, mas agora come�ava a entender que a avalia��o de Henrik era, na verdade, de uma clarivid�ncia estupenda.</p><p>A imagem que come�ava a se esbo�ar revelava uma fam�lia bem-sucedida social e economicamente, mas claramente cheia de disfun��es no cotidiano.</p><empty-line/><p>O pai de Henrik Vanger, homem frio e insens�vel, trouxera os filhos ao mundo e depois delegara � esposa o cuidado com sua educa��o e seu bem-estar. Eles raramente viam o pai antes de completarem dezesseis anos, exceto nas festas de fam�lia �s quais deviam comparecer e ficar invis�veis. Henrik Vanger n�o se lembrava do pai manifestando, de alguma maneira, algum tipo de amor; ao contr�rio, v�rias vezes Henrik fora chamado de incompetente e recebera cr�ticas arrasadoras. Castigos corporais eram raros por serem desnecess�rios. S� veio a ganhar o respeito do pai mais tarde, quando passou a trabalhar para o grupo Vanger.</p><p>O irm�o mais velho, Richard, se revoltara. Ap�s uma disputa cujo motivo nunca foi discutido em fam�lia, Richard partiu para Uppsala com a inten��o de l� estudar. Foi quando iniciou sua carreira nazista, j� mencionada por Henrik a Mikael, e que mais tarde o levaria �s trincheiras da guerra de Inverno da Finl�ndia.</p><p>O que o velho ainda n�o havia contado � que dois outros irm�os tomaram caminhos id�nticos.</p><p>Harald Vanger e seu irm�o Greger seguiram os passos do irm�o mais velho em Uppsala, em 1930. Harald e Greger eram muito pr�ximos, mas Henrik Vanger n�o sabia dizer se conviveram muito com Richard. O certo � que os irm�os aderiram ao movimento fascista de Per Engdahl, a Nova Su�cia. Harald Vanger manteve-se leal a Per Engdahl ao longo dos anos, primeiro na Uni�o Nacional da Su�cia, depois na Oposi��o sueca e, por fim, no Movimento neo-sueco, desde sua funda��o, no final da guerra. Continuou como membro at� a morte de Per Engdahl nos anos 1990 e em alguns per�odos foi um dos mais importantes financiadores do fascismo sueco remanescente.</p><p>Harald Vanger formou-se m�dico em Uppsala e em seguida envolveu-se com grupos entusiastas por higiene e biologia racial. Em certa �poca, trabalhou no instituto sueco de biologia das ra�as e, como m�dico, foi um agente de primeira ordem na campanha de esteriliza��o dos elementos indesej�veis da popula��o.</p><empty-line/><p>Declara��o de Henrik Vanger, cassete 2, 02950:</p><p><emphasis>Harald foi mais longe ainda. Em 1937, foi co-autor</emphasis> � <emphasis>sob pseud�nimo, gra�as a Deus!</emphasis> � <emphasis>de um livro intitulado</emphasis> A Nova Europa dos povos. <emphasis>Fiquei sabendo disso s� nos anos 1970. Tenho uma c�pia que voc� pode ler. E provavelmente um dos livros mais ign�beis j� publicados na Su�cia. Harald n�o argumenta apenas a favor da esteriliza��o, mas tamb�m da eutan�sia</emphasis> � <emphasis>uma ajuda ativa para morrer direcionada �s pessoas que perturbavam seu gosto est�tico e n�o se adaptavam � sua imagem do sueco perfeito. Ou seja, um arrazoado a favor do massacre, redigido numa prosa acad�mica impec�vel e contendo todos os argumentos m�dicos necess�rios. Livremo-nos dos retardados. N�o deixemos a popula��o dos lap�es aumentar; eles possuem genes mong�is. Os doentes mentais aceitar�o a morte como uma liberta��o, n�o � mesmo? Mulheres de maus costumes, vagabundos, ciganos e judeus</emphasis> � <emphasis>pode-se ter uma id�ia do quadro. Nos fantasmas do meu irm�o, Auschwitz podia ser aqui mesmo, na Dalecarlia.</emphasis></p><empty-line/><p>Depois da guerra, Greger Vanger se tornou professor e mais tarde diretor do col�gio de Hedestad. Henrik achava que ele havia abandonado o nazismo ap�s a guerra e se tornado apol�tico. Morreu em 1974, e s� quando Henrik examinou seus pap�is � que ficou sabendo, pelas cartas conservadas, que nos anos 1950 seu irm�o aderira ao Partido N�rdico Nacional, o NRP, uma seita sem import�ncia pol�tica mas totalmente desmiolada, da qual foi membro at� falecer.</p><p>Declara��o de Henrik Vanger, cassete 2, 04167: <emphasis>"Tr�s dos meus irm�os eram, portanto, politicamente dementes. At� onde iria a doen�a deles em outras circunst�ncias?"'.</emphasis></p><p>O �nico irm�o benquisto, em certa medida, por Henrik Vanger, era Gustav, de sa�de fr�gil e v�tima de uma doen�a pulmonar em 1955. Gustav n�o se interessava por pol�tica e era visto sobretudo como um esp�rito art�stico distante do mundo, sem o menor interesse pelos neg�cios nem por uma atividade no grupo Vanger. Mikael perguntou a Henrik:</p><p>� Restam apenas voc� e Harald hoje. Por que ele voltou a morar em Hedeby?</p><p>� Ele voltou em 1979, pouco antes de seus setenta anos. A casa lhe pertence.</p><p>� Deve ser estranho viver t�o perto de um irm�o odiado. Henrik Vanger olhou Mikael, surpreso.</p><p>� Voc� me entendeu mal. N�o odeio meu irm�o. Na verdade, tenho pena dele; � um perfeito imbecil. E ele quem me odeia.</p><p>� Ele odeia voc�?</p><p>� Muito. Acho que foi por isso que voltou a viver aqui. Para poder passar seus �ltimos anos me odiando de perto.</p><p>� Por que ele te odeia?</p><p>� Porque me casei.</p><p>� Acho que ter� que me explicar isso.</p><empty-line/><p>Henrik Vanger perdera o contato com os irm�os mais velhos bastante cedo. Era o �nico dos cinco que revelava talento para os neg�cios � a �ltima esperan�a do pai. N�o se interessava por pol�tica e evitou Uppsala, tendo preferido estudar economia em Estocolmo. Desde os dezoito anos, passou todas as suas f�rias estagiando num dos muitos escrit�rios do grupo Vanger ou colaborando nos conselhos de administra��o. Ficou conhecendo todos os labirintos da sociedade familiar.</p><p>Em 10 de junho de 1941 � no auge da Segunda Guerra �, Henrik foi enviado � Alemanha para uma visita de seis semanas aos escrit�rios comerciais do grupo Vanger em Hamburgo. Tinha vinte e um anos, e o representante alem�o das empresas Vanger, um veterano idoso chamado Herman Lobach, serviu-lhe de protetor e mentor.</p><p>� N�o vou fatig�-lo com todos os detalhes, mas naquele momento Hitler e Stalin ainda eram bons amigos e n�o havia at� ent�o combates no fronte oriental. Todos achavam Hitler invenc�vel. Havia um sentimento de... otimismo e desespero, acho que s�o as palavras adequadas. Mais de meio s�culo depois, continua sendo dif�cil encontrar palavras apropriadas. N�o me entenda mal: nunca fui nazista e Hitler me parecia um personagem rid�culo de opereta. Mas era dif�cil n�o se contaminar pela f� no futuro que reinava entre as pessoas comuns de Hamburgo. A guerra se aproximava lentamente e v�rios bombardeios ocorreram em minha temporada na cidade; apesar disso, todos pareciam pensar que era um momento de irrita��o passageiro: a paz logo chegaria e Hitler ia instaurar sua Neuropa, a nova Europa. As pessoas queriam acreditar que Hitler era Deus: � o que a propaganda dava a entender. Henrik Vanger abriu um de seus numerosos �lbuns fotogr�ficos.</p><p>� Este � Hermann Lobach. Ele desapareceu em 1944, provavelmente morto e sepultado durante um bombardeio. Nunca soubemos que destino ele teve. Na minha temporada em Hamburgo, fiquei muito amigo dele. Eu tinha um quarto na sua suntuosa resid�ncia, num bairro onde s� moravam fam�lias ricas. N�s nos v�amos diariamente. Era t�o pouco nazista quanto eu, mas filiara-se ao partido por comodidade. A carteira de membro abria portas e facilitava suas chances de neg�cio em favor do grupo Vanger, e neg�cios era exatamente o que faz�amos. Constru�amos vag�es para trens, e ainda hoje me pergunto se esses vag�es partiam com destino � Pol�nia. Vend�amos tecidos para os uniformes e tubos cat�dicos para aparelhos de r�dio, mas oficialmente n�o faz�amos id�ia de para que servia a mercadoria. E Hermann Lobach sabia como agir para obter um bom contrato, tinha uma boa l�bia e era jovial. Um perfeito nazista. Aos poucos, entendi que era tamb�m um homem que tentava desesperadamente esconder um segredo. Na noite de 22 de junho de 1941, Hermann Lobach bateu na porta do meu quarto e me acordou. Meu quarto ficava ao lado do quarto de sua mulher e com um sinal ele me pediu que eu n�o fizesse barulho, me vestisse e o acompanhasse. Descemos ao t�rreo e nos instalamos numa pequena sala de fumar. Lobach certamente estivera acordado a noite toda. Ligou o r�dio e compreendi que algo dram�tico acontecera. Tivera in�cio a opera��o "Barbarossa", a Alemanha atacara a Uni�o Sovi�tica no fim de semana em que o ver�o se iniciava.</p><p>Henrik Vanger fez um gesto resignado com a m�o.</p><p>� Hermann Lobach pegou dois copos e despejou uma dose generosa de aquavita em cada um. Pareceu-me meio embriagado. Quando lhe perguntei quais poderiam ser as consequ�ncias, respondeu-me com lucidez que aquilo significava o fim para a Alemanha e para o nazismo. S� acreditei em parte � Hitler parecia invenc�vel �, mas Lobach brindou comigo a derrota da Alemanha. Em seguida p�s-se a falar de assuntos pr�ticos.</p><p>Mikael balan�ou a cabe�a para indicar que acompanhava a hist�ria.</p><p>� Em primeiro lugar, ele descartou a possibilidade de entrar em contato com meu pai para pedir instru��es e por conta pr�pria decidiu interromper minha temporada na Alemanha, mandando-me de volta para casa o mais cedo poss�vel. Em segundo lugar, queria que eu lhe prestasse um servi�o.</p><p>Henrik mostrou um retrato amarelecido e com os cantos rasgados, em tamanho tr�s por quatro, de uma mulher morena.</p><p>� Herman Lobach era casado havia quarenta anos, mas em 1919 conhecera uma mulher que tinha a metade da sua idade, uma pobre e modesta costureira, de uma beleza avassaladora. Apaixonou-se por ela. Cortejou-a e, como tantos outros homens ricos, tinha os meios de instal�-la num apartamento a pouca dist�ncia de seu escrit�rio. Ela passou a ser sua amante. Em 1921, deu � luz uma menina, que foi chamada Edith.</p><p>� Um homem rico j� de alguma idade, uma mulher pobre e uma filha desse amor: isso n�o deveria causar um grande esc�ndalo, mesmo nos anos 1940 � comentou Mikael.</p><p>� � verdade. Se n�o houvesse um problema. A mulher era judia e Lobach, portanto, pai de uma menina judia em plena Alemanha nazista. Concretamente, ele era um <emphasis>traidor de sua ra�a.</emphasis></p><p>� Ah! isso muda tudo. O que aconteceu?</p><p>� A m�e de Edith foi detida em 1939. Desapareceu e pode-se imaginar o que lhe aconteceu. Todos sabiam que tinha uma filha que ainda n�o fora inscrita nas listas de transporte, e essa mo�a judia era procurada pela unidade da Gestapo encarregada de capturar judeus fugitivos. No ver�o de 1941, na mesma semana em que cheguei a Hamburgo, fez-se a liga��o entre a m�e de Edith e Hermann Lobach, e convocaram-no para um interrogat�rio. Ele admitiu a liga��o e a paternidade, mas declarou que n�o fazia a menor id�ia do lugar onde se encontrava a filha e que havia dez anos n�o tinha contato com ela.</p><p>� E onde ela estava?</p><p>� Eu a via diariamente na casa de Lobach. Uma mo�a de vinte anos, meiga e calma, que fazia a limpeza do meu quarto e ajudava a servir o jantar. Em 1937, as persegui��es aos judeus j� duravam v�rios anos e a m�e de Edith suplicou a Hermann que a ajudasse. E ele ajudou � amava a filha ileg�tima tanto quanto seus filhos leg�timos. Escondeu-a no lugar mais improv�vel � diante do nariz de todo mundo. Providenciou-lhe falsos documentos e a contratou como empregada.</p><p>� A mulher dele sabia quem ela era?</p><p>� N�o, n�o fazia a menor id�ia.</p><p>� E depois, o que houve?</p><p>� A coisa funcionou durante quatro anos, mas Lobach sentia que o cerco se estreitava. Em breve a Gestapo viria bater � sua porta. Foi tudo o que me contou naquela noite, poucas semanas antes de eu voltar � Su�cia. Depois, mandou chamar a filha e fomos apresentados. Era muito t�mida e n�o ousou sequer me olhar nos olhos. Lobach me suplicou que salvasse a vida dela.</p><p>� Como?</p><p>� Ele arranjara tudo. Segundo seus planos, eu devia ficar por mais tr�s semanas e em seguida tomar o trem noturno para Copenhague, depois o <emphasis>ferryboat</emphasis> para atravessar o estreito de Oresund � uma viagem sem muita import�ncia, mesmo em tempo de guerra. No entanto, dois dias depois da nossa conversa, um cargueiro de propriedade do grupo Vanger devia deixar Hamburgo com destino � Su�cia. Lobach resolveu enviar-me com o cargueiro, para que eu deixasse a Alemanha sem demora. Qualquer altera��o dos projetos de viagem devia ser aprovada pelos servi�os de seguran�a; problemas burocr�ticos, mas n�o insuper�veis. Lobach insistiu para que eu fosse naquele navio.</p><p>� Com Edith, suponho.</p><p>� Edith embarcou ilegalmente, escondida numa das trezentas caixas contendo pe�as para m�quinas. Minha tarefa era proteg�-la se fosse descoberta antes de deixarmos as �guas territoriais da Alemanha, e impedir o capit�o de fazer uma besteira. N�o havendo problemas, eu devia esperar at� estarmos a uma boa dist�ncia da Alemanha e ent�o deix�-la sair.</p><p>� E a�?</p><p>� Parecia simples, mas a viagem foi um pesadelo. O capit�o chamava-se Oskar Granath e n�o estava nem um pouco encantado com a responsabilidade de conduzir o herdeiro do seu patr�o. Deixamos Hamburgo �s nove horas de uma noite de ver�o. Est�vamos saindo do porto quando as sirenes de alerta antia�reo puseram-se a uivar. Um raide ingl�s: o pior que vivi, e o porto era evidentemente um alvo estrat�gico. N�o exagero ao dizer que por pouco n�o me mijei quando as bombas come�aram a explodir muito perto. Mas, de um modo ou de outro, conseguimos sair e, ap�s uma pane de motor e uma noite horr�vel de tempestade nas �guas recheadas de minas, chegamos � Su�cia, em Karlskrona, no dia seguinte � tarde. Agora voc� vai me perguntar o que aconteceu com a mo�a.</p><p>� Acho que j� sei.</p><p>� Meu pai ficou furioso, claro. Coloquei muita coisa em risco com meu ato insensato. E a mo�a podia ser extraditada a qualquer momento � lembre que est�vamos em 1941. Mas nesse meio-tempo tamb�m me apaixonei por ela, como Lobach se apaixonara pela m�e dela. Pedi-a em casamento e dei um ultimato a meu pai: ou aceitava o casamento, ou que procurasse outra jovem esperan�a para a empresa da fam�lia. Ele cedeu.</p><p>� Mas ela morreu?</p><p>� Sim, morreu muito jovem. Em 1958. Vivemos juntos pouco mais de dezesseis anos. Ela tinha um problema card�aco, de nascen�a. E eu me revelei est�ril � nunca tivemos filhos. � por isso que meu irm�o me odeia.</p><p>� Porque se casou com ela.</p><p>� Porque me casei � s�o os termos dele � com uma prostituta suja judia. No entender dele, eu tra� a ra�a, o povo, a moral e tudo o que ele defendia.</p><p>� Mas ele � completamente louco.</p><p>� Eu s�o saberia dizer melhor.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>10.� QUINTA-FEIRA 9 DE JANEIRO</emphasis></strong><strong><emphasis>�</emphasis></strong><strong><emphasis>SEXTA-FEIRA 31 DE JANEIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>A julgar pelo <emphasis>Hedestads-Kuriren,</emphasis> o primeiro m�s de Mikael no ex�lio foi o mais frio j� registrado na mem�ria ou, pelo menos (segundo Henrik Vanger), desde o inverno da guerra em 1942. Mikael estava inclinado a acreditar nessa informa��o. Ap�s uma semana em Hedeby, aprendera tudo a respeito de ceroulas, meias de l� e camisetas forradas.</p><p>Viveu alguns dias e noites terr�veis em meados de janeiro, quando a temperatura baixou a inconceb�veis trinta e sete graus negativos. Nunca enfrentara nada semelhante, mesmo no ano que passou em Kiruna durante o servi�o militar. Uma manh�, a tubula��o da �gua congelou. Gunnar Nilsson arranjou-lhe dois grandes baldes de pl�stico para que pudesse cozinhar e se lavar, mas o frio era paralisante. Ros�ceas de gelo formaram-se nas vidra�as da janela, do lado interno, e, por mais que alimentasse o aquecedor a lenha, sentia-se continuamente gelado. Todos os dias passava longos minutos rachando lenha no dep�sito dos fundos da casa.</p><p>Em alguns momentos, tinha vontade de chorar e pensava em tomar um t�xi at� a cidade e embarcar no primeiro trem com destino ao Sul. Em vez disso, enfiava mais um pul�ver e se enrolava num cobertor, sentado � mesa da cozinha com seu caf� e os velhos relat�rios da pol�cia.</p><p>Depois a tend�ncia se inverteu e a temperatura subiu para agrad�veis dez graus negativos.</p><empty-line/><p>Mikael come�ou a conhecer as pessoas em Hedeby. Martin Vanger cumpriu sua promessa e lhe ofereceu um jantar que ele mesmo preparou � assado de carne de alce regado a vinho tinto italiano. O chefe da empresa n�o era casado, por�m convivia com uma certa Eva Hassel, que os acompanhava. Eva era uma mulher calorosa e divertida, que Mikael achou muito atraente. Era dentista e morava em Hedestad, mas passava os fins de semana na casa de Martin. Mikael ficou sabendo que fazia muitos anos que eles se conheciam, mas come�aram a conviver somente na idade madura e julgaram n�o haver necessidade de casamento.</p><p>� A verdade � que ela � a minha dentista � disse Martin Vanger.</p><p>� E misturar-me a essa fam�lia de malucos n�o � bem o que eu quero � disse Eva, batendo afetuosamente com os dedos no joelho de Martin.</p><p>Desenhada por um arquiteto, a mans�o de Martin Vanger era o sonho de todo celibat�rio, com m�veis pretos, brancos e de metal cromado. Pe�as dispendiosas e com um <emphasis>design</emphasis> que teria fascinado Christer Malm, o ilustrador da <emphasis>Millennium.</emphasis> A cozinha tinha equipamentos de um cozinheiro profissional. Na sala de estar havia uma aparelhagem de som estereof�nico com, entre outras preciosidades, uma excelente cole��o de jazz em vinil, de Tommy Dorsey a John Coltrane. Martin tinha dinheiro e seu lar era suntuoso e funcional, embora um pouco impessoal. Mikael notou que os quadros nas paredes eram simples reprodu��es e p�steres encontrados em grandes lojas, como a Ikea � bonitos mas sem nada de especial. As estantes, pelo menos na parte da casa que Mikael viu, estavam cuidadosamente ocupadas pela <emphasis>Enciclop�dia Nacional</emphasis> e por alguns livros desses que as pessoas oferecem como presente de Natal na falta de id�ia melhor. Em suma, Mikael conseguiu perceber apenas duas paix�es na vida de Martin Vanger: a m�sica e a culin�ria. A primeira se manifestava em cerca de tr�s mil �lbuns de trinta e tr�s rota��es. A segunda podia-se ver na carne opulenta de Martin Vanger.</p><p>Como pessoa, Martin era uma estranha mistura de estupidez, causticidade e amabilidade. N�o era preciso ser um grande analista para concluir que o chefe da empresa era um homem com problemas. Enquanto escutavam <emphasis>Night in Tunisia,</emphasis> a conversa se voltou para o grupo Vanger, e Martin n�o tentou esconder que lutava pela sobreviv�ncia do grupo. A escolha desse assunto deixou Mikael perplexo; Martin n�o ignorava que tinha por convidado um jornalista econ�mico que ele conhecia muito pouco, no entanto discutia os problemas internos da empresa com tanta franqueza que havia nisso alguma imprud�ncia. Ele parecia considerar Mikael como algu�m da fam�lia, j� que trabalhava para Henrik, e, a exemplo do ex-diretor-executivo, achava que a fam�lia s� podia culpar a si mesma pela situa��o na qual a empresa se encontrava. Contudo, n�o compartilhava a amargura e o desprezo intransigente do velho em rela��o � fam�lia, parecendo antes achar gra�a da loucura incur�vel dela. Eva Hassel assentiu com a cabe�a, mas n�o fez coment�rios. Certamente j� haviam conversado sobre essa quest�o.</p><p>Martin Vanger sabia, portanto, que Mikael fora contratado para escrever uma cr�nica familiar e perguntou como estava indo o trabalho. Mikael respondeu, sorrindo, que tinha dificuldade de lembrar os nomes dos membros da fam�lia, depois perguntou a Martin se podia voltar para entrevist�-lo em outra ocasi�o. Em v�rios momentos tentou dirigir a conversa para a obsess�o do velho pelo desaparecimento de Harriet Vanger. Supunha que Henrik devia ter aborrecido o irm�o de Harriet mais de uma vez com suas teorias. Martin certamente sabia que, se a incumb�ncia de Mikael era escrever uma cr�nica familiar, ele n�o podia ignorar o fato de que um membro da fam�lia desaparecera sem deixar vest�gios. No entanto, Martin n�o mostrou a menor inten��o de entrar no assunto e Mikael decidiu esperar. Oportunamente, teriam raz�es para conversar sobre Harriet.</p><p>Depois de v�rias rodadas de vodca, encerraram a noitada por volta das duas da manh�. Mikael estava um tanto b�bado e titubeou no percurso de trezentos metros de volta para casa. De maneira geral, fora uma noite agrad�vel.</p><empty-line/><p>Uma tarde, na segunda semana de Mikael em Hedeby, bateram � porta de sua casa. Mikael deixou de lado o arquivo do inqu�rito policial que acabara de abrir � o sexto � e fechou a porta da saleta de trabalho atr�s de si, antes de ir abrir a porta da frente para uma mulher loura de uns cinquenta anos, vestida como para o P�lo Norte.</p><p>� Bom dia. Vim conhec�-lo. Sou Cecilia Vanger.</p><p>Apertaram-se as m�os e Mikael foi pegar x�caras para o caf�. Cecilia Vanger, filha do nazista Harald Vanger, parecia uma mulher aberta e encantadora sob muitos aspectos. Mikael lembrou que Henrik falara dela com estima e mencionara que raramente via o pai, embora morasse quase ao lado da casa dele. Conversaram por alguns momentos antes que ela mencionasse o motivo da visita.</p><p>� Fiquei sabendo que vai escrever um livro sobre a fam�lia. N�o acho que seja uma id�ia que me agrada � disse. � Quis saber que tipo de pessoa � o senhor.</p><p>� Bem, Henrik Vanger me contratou. E um assunto dele, por assim dizer.</p><p>� E o bom Henrik n�o � l� muito objetivo quando se trata de dar seu ponto de vista sobre a fam�lia.</p><p>Mikael examinou seus olhos, n�o sabendo muito bem aonde ela queria chegar.</p><p>� Op�e-se a que escrevam um livro sobre sua fam�lia?</p><p>� Eu n�o disse isso. E certamente minha opini�o n�o tem a menor import�ncia. Mas acho que j� deve ter percebido que nem sempre foi muito f�cil ser uma Vanger.</p><p>Mikael n�o tinha nenhuma id�ia do que Henrik dissera e em que medida Cecilia conhecia seu trabalho. Afastou as m�os num gesto de escusa:</p><p>� Fui procurado por Henrik para escrever uma cr�nica familiar. Henrik tem opini�es acirradas sobre v�rios membros da fam�lia, mas pretendo me ater aos fatos comprovados.</p><p>Cecilia Vanger sorriu, por�m de forma pouco calorosa.</p><p>� O que eu gostaria de saber � se devo escolher o ex�lio e emigrar quando o livro sair.</p><p>� Creio que n�o � respondeu Mikael. � As pessoas s�o capazes de ver a diferen�a entre uma pessoa e outra.</p><p>� Como meu pai, por exemplo.</p><p>� Seu pai, o nazista? � perguntou Mikael. Cecilia Vanger levantou os olhos para o c�u.</p><p>� Meu pai � louco. S� o vejo uma ou duas vezes por ano, embora nossas casas sejam vizinhas.</p><p>� Por que n�o quer v�-lo?</p><p>� Antes de me fazer um monte de perguntas, diga: tem a inten��o de citar o que estou dizendo? Ou podemos ter apenas uma conversa normal sem que eu precise ter medo de ser apresentada como uma imbecil?</p><p>Mikael hesitou um segundo, n�o muito seguro de que esclarecimento devia dar.</p><p>� Meu trabalho � escrever um livro que come�a quando Alexander Vangeersad desembarca com Bernadotte e vem at� os dias de hoje. Ele acompanhar� o imp�rio industrial dos Vanger ao longo de muitas d�cadas, mas evidentemente tamb�m falar� da raz�o pela qual o imp�rio est� desmoronando e das diverg�ncias que existem no seio da fam�lia. Nesse tipo de relato, � imposs�vel evitar que a lama venha � tona. O que n�o significa que farei um retrato abomin�vel da senhora nem que tra�arei uma imagem infame da fam�lia. Estive com Martin Vanger, por exemplo. Achei-o um homem simp�tico e pretendo descrev�-lo como tal.</p><p>Cecilia Vanger n�o respondeu.</p><p>� Tudo que sei a seu respeito � que � professora...</p><p>� Pior que isso; sou diretora de col�gio em Hedestad.</p><p>� Desculpe. Sei que Henrik a quer muito bem, que � casada mas est� separada... e � mais ou menos tudo. Claro que poder� falar comigo sem medo de ser citada ou lan�ada ao esc�ndalo. Contudo, com certeza a procurarei algum dia para pedir que me conte sobre determinado acontecimento, porque necessito da sua vers�o. Mas direi claramente quando fizer uma pergunta desse g�nero.</p><p>� Ent�o posso lhe falar... <emphasis>off the record,</emphasis> como dizem.</p><p>� Com certeza.</p><p>� E isto � <emphasis>off the record?</emphasis></p><p>� A senhora � apenas uma vizinha que veio me dar bom-dia e tomar uma x�cara de caf�, nada mais.</p><p>� Perfeito. Ser� que posso lhe perguntar uma coisa?</p><p>� Fique � vontade.</p><p>� At� que ponto esse livro falar� sobre Harriet Vanger?</p><p>Mikael mordeu o l�bio inferior e hesitou. Tentou permanecer tranquilo.</p><p>� Para ser sincero, n�o sei. � verdade que haver� talvez um cap�tulo... afinal foi um acontecimento dram�tico, n�o se pode negar, e que influenciou pelo menos Henrik Vanger.</p><p>� Mas n�o est� aqui para investigar o desaparecimento dela?</p><p>� O que a faz pensar assim?</p><p>� Bem, o fato de Gunnar Nilsson ter trazido para c� quatro caixas volumosas. Suponho que seja o conjunto das pesquisas pessoais de Henrik ao longo dos anos. Quando dei uma espiada no antigo quarto de Harriet onde Henrik costuma guardar sua cole��o, ela n�o estava mais l�.</p><p>Cecilia n�o era boba.</p><p>� Preferiria que discutisse isso com Henrik e n�o comigo � respondeu Mikael. � De todo modo, � claro que Henrik me falou bastante sobre o desaparecimento da menina, e acho interessante ler os documentos a respeito.</p><p>Cecilia mais uma vez esbo�ou um sorriso triste.</p><p>� �s vezes me pergunto quem � o mais louco, se meu pai ou meu tio. Cansei de ouvi-lo falar milhares de vezes sobre o desaparecimento de Harriet.</p><p>� O que acha que aconteceu com ela?</p><p>� Essa pergunta faz parte da entrevista?</p><p>� N�o � disse Mikael, rindo. � Apenas curiosidade.</p><p>� O que eu gostaria de saber � se o senhor tamb�m � maluco. Se aderiu ao racioc�nio de Henrik ou se est� instigando Henrik.</p><p>� Est� querendo dizer que Henrik � maluco?</p><p>� N�o me entenda mal. Henrik � um dos homens mais calorosos e gentis que conhe�o. Gosto imensamente dele. Mas, quando se trata desse assunto, ele � obsessivo.</p><p>� Uma obsess�o, c� para n�s, que parece ter fundamento. Harriet realmente desapareceu.</p><p>� � que estou simplesmente farta de toda essa hist�ria. Ela envenenou nossas vidas durante tantos anos e n�o acaba nunca.</p><p>Levantou-se de repente e vestiu seu casaco de pele.</p><p>� Preciso ir. O senhor me pareceu simp�tico. Foi o que Martin tamb�m disse, mas o julgamento dele nem sempre � o melhor. Passe para tomar um caf� quando quiser. � noite estou quase sempre em casa.</p><p>� Obrigado � disse Mikael. Quando ela se encaminhava para a porta de entrada, ele falou �s suas costas: � N�o respondeu � minha pergunta, que, afinal, n�o era uma pergunta de entrevista.</p><p>Ela se deteve diante da porta e respondeu sem olhar para ele:</p><p>� N�o fa�o a menor id�ia do que aconteceu a Harriet. Mas acho que foi um acidente com uma explica��o t�o simples e banal que vamos ficar surpresos quando um dia soubermos a resposta.</p><p>Virou-se e sorriu para ele � pela primeira vez com calor. Depois acenou com a m�o e partiu. Mikael permaneceu im�vel � mesa, pensativo. Cecilia Vanger era uma das pessoas relacionadas na lista de membros da fam�lia presentes � ilha quando Harriet Vanger desapareceu.</p><empty-line/><p>Se conhecer Cecilia Vanger foi relativamente agrad�vel, o mesmo n�o aconteceu com Isabella Vanger. Com setenta e cinco anos, a m�e de Harriet Vanger era uma mulher muito elegante, uma esp�cie de Lauren Bacall idosa. Magra, vestindo um casaco de astrac� preto e um gorro que combinava com ele, apoiava-se numa bengala preta quando Mikael topou com ela, uma manh�, ao dirigir-se ao Caf� Susanne. Ele pensou num vampiro come�ando a envelhecer, de uma beleza impressionante mas venenosa como uma serpente. Isabella parecia estar voltando para casa ap�s uma caminhada; ela o chamou quando se cruzaram.</p><p>� Voc� a�, mo�o! Venha c�.</p><p>Dif�cil equivocar-se quanto ao tom de comando. Mikael olhou ao redor e concluiu que ele � que estava sendo chamado. Aproximou-se.</p><p>� Sou Isabella Vanger � anunciou a mulher.</p><p>� Bom dia, meu nome � Mikael Blomkvist. � E estendeu uma m�o que ela ignorou soberbamente.</p><p>� Voc� � o sujeito que est� remexendo na hist�ria da nossa fam�lia?</p><p>� Digamos que sou o sujeito que Henrik Vanger procurou para ajud�-lo a fazer o hist�rico da fam�lia Vanger.</p><p>� N�o � um assunto que lhe compete.</p><p>� Qual � o problema? O fato de Henrik ter me procurado ou de eu ter aceitado? No primeiro caso, acho que isso diz respeito a Henrik; no segundo, o problema � meu.</p><p>� Sabe muito bem o que estou querendo dizer. N�o gosto de gente vasculhando a minha vida.</p><p>� N�o vou vasculhar a sua vida. Al�m do mais, deve discutir isso com Henrik.</p><p>Isabella Vanger ergueu subitamente a bengala e bateu no peito de Mikael com o cast�o. Um golpe sem viol�ncia, mas a surpresa o fez recuar um passo.</p><p>� Mantenha-se a uma boa dist�ncia de mim.</p><p>Isabella Vanger girou os calcanhares e prosseguiu em dire��o � sua casa. Mikael continuou pregado no lugar, com o rosto im�vel como se tivesse acabado de conhecer um personagem de quadrinhos em carne e osso. Mikael moveu os olhos e avistou Henrik Vanger na janela de seu escrit�rio. Tinha uma x�cara de caf� na m�o, que levantou com ironia. Mikael afastou as m�os num gesto de impot�ncia, balan�ou a cabe�a e retomou o caminho em dire��o ao Caf� Susanne.</p><empty-line/><p>A �nica viagem que Mikael fizera durante o primeiro m�s foi uma excurs�o de um dia �s margens do lago Siljan. Tomou emprestado o Mercedes de Dirch Frode e rodou numa paisagem nevada para passar uma tarde em companhia do inspetor Gustav Morell. Mikael tentara fazer uma id�ia de Morell baseando-se na impress�o que emanava do inqu�rito policial; encontrou um velho encurvado que se movia devagar e falava ainda mais devagar. Mikael rabiscara num bloco umas dez perguntas que lhe ocorrera fazer depois da leitura do inqu�rito. Morell forneceu uma resposta did�tica a cada pergunta. No final, Mikael deixou o bloco de lado e explicou ao inspetor aposentado que aquelas perguntas tinham sido apenas um pretexto para visit�-lo. O que ele queria realmente era conversar e poder lhe fazer a �nica pergunta fundamental: havia algo no inqu�rito que ele n�o pusera no papel, alguma reflex�o ou intui��o que pudesse lhe transmitir?</p><p>Como Morell, do mesmo modo que Henrik Vanger, havia passado trinta e seis anos refletindo sobre o mist�rio do desaparecimento de Harriet, Mikael esperava encontrar certa retic�ncia ao novato que vinha se embrenhar no matagal onde ele se perdera. Mas Morell n�o mostrou a menor sombra de hostilidade. Encheu cuidadosamente o cachimbo e riscou um f�sforo antes de responder.</p><p>� Sim, � claro que tenho minhas teorias. Mas s�o t�o vagas e fugazes que n�o consigo formul�-las muito bem.</p><p>� O que aconteceu a Harriet, na sua opini�o?</p><p>� Creio que foi assassinada. Nesse ponto, concordo com Henrik. � a �nica explica��o plaus�vel. Mas nunca entendemos o motivo. Acho que foi morta por alguma raz�o precisa. N�o foi obra de um louco nem de um estuprador, ou coisa que o valha. Se conhec�ssemos o motivo, saber�amos quem a matou.</p><p>Morell refletiu um instante.</p><p>� O assassinato p�de ser cometido de improviso. Quero dizer com isso que algu�m aproveitou a ocasi�o quando uma possibilidade surgiu na confus�o ocasionada pelo acidente. O assassino escondeu o corpo e o transportou mais tarde, enquanto todos sa�am para procur�-la.</p><p>� Nesse caso, falamos de algu�m que agiu com sangue-frio.</p><p>� H� um detalhe. Harriet foi ao gabinete de Henrik pedir para falar com ele. Isso me parece um comportamento estranho. Ela sabia que ele estava �s voltas com os membros da fam�lia que n�o paravam de chegar. Acho que Harriet significava uma amea�a para algu�m, acho que ela quis contar alguma coisa a Henrik e o assassino percebeu que ela ia... digamos, denunci�-lo.</p><p>� Henrik estava ocupado com alguns membros da fam�lia...</p><p>� Havia quatro pessoas no c�modo, al�m de Henrik. Seu irm�o Greger, o filho de uma prima chamado Magnus Sj�gren e os dois filhos de Harald Vanger, Birger e Cecilia. Mas isso n�o significa nada de especial. Vamos supor que Harriet descobriu que algu�m estava desviando dinheiro da empresa. Apenas uma hip�tese. Ela pode ter guardado essa informa��o por meses, ou mesmo t�-la discutido v�rias vezes com a pessoa em quest�o. Pode ter tentado chantage�-la ou ter se compadecido dela, sem saber se deveria denunci�-la. Pode ter tomado uma decis�o repentina, informou o assassino disso, e ele, assustado, a eliminou.</p><p>� O senhor disse "assassino"?</p><p>� Do ponto de vista estat�stico, os assassinos s�o em geral homens. Mas n�o se pode negar que a fam�lia Vanger tem algumas mulheres que s�o verdadeiras v�boras.</p><p>� Conheci Isabella.</p><p>� � uma delas. Mas h� outras. Cecilia Vanger pode se mostrar bastante inflex�vel. Conheceu Sara Sj�gren? � Mikael fez que n�o com a cabe�a. � � a filha de Sofia Vanger, uma das primas de Henrik. Uma mulher realmente desagrad�vel e sem escr�pulos, eu lhe garanto. Mas ela morava em Malm� e, at� onde consegui descobrir, n�o tinha raz�o para eliminar Harriet.</p><p>� Humm.</p><p>� O �nico problema � que, por mais que tenhamos virado e revirado essa hist�ria, jamais entendemos o motivo. Esse � o ponto. Quando descobrirmos o motivo, saberemos o que houve e quem foi o respons�vel.</p><p>� O senhor trabalhou a fundo nesse caso. H� alguma pista que n�o tenha seguido?</p><p>Gustav Morell deu uma risadinha.</p><p>� Ah, n�o, Mikael. Dediquei um tempo danado a esse caso e n�o h� o menor detalhe que eu n�o tenha rastreado t�o longe quanto poss�vel. Mesmo depois que fui promovido e que deixei Hedestad.</p><p>� Deixou?</p><p>� Sim, n�o sou origin�rio de Hedestad. Fui destacado para l� entre 1963 e 1968. Depois fui nomeado delegado e trabalhei o restante da minha carreira na pol�cia de G�vle. Mas mesmo em G�vle continuei trabalhando no desaparecimento de Harriet.</p><p>� Henrik Vanger n�o largou do seu p�, imagino.</p><p>� Sim, � claro, mas n�o foi por isso. O enigma Harriet me fascina at� hoje. Quero dizer... entenda, todo tira tem seu pr�prio mist�rio n�o resolvido. Lembro que quando eu estava em Hedestad meus colegas mais velhos falavam do caso Rebecka na hora do caf�. Havia um policial chamado Torstensson, ele j� morreu h� muitos anos, que voltava a esse caso ano ap�s ano. Durante seu tempo livre e nas f�rias. Quando as coisas estavam calmas com os delinquentes locais, ele pegava os arquivos e punha-se a refletir.</p><p>� Tamb�m se tratava de uma jovem desaparecida?</p><p>O comiss�rio Morell pareceu surpreso por um segundo. Depois sorriu quando percebeu que Mikael buscava uma esp�cie de liga��o.</p><p>� N�o, n�o o mencionei por esse motivo. Falo da alma de um policial. O caso Rebecka data de bem antes do nascimento de Harriet Vanger e est� prescrito h� muito tempo. Nos anos 1940, uma mulher de Hedestad foi atacada, violentada e assassinada. Isso n�o � nada raro. Durante sua carreira, todo policial tem que elucidar esse tipo de acontecimento pelo menos uma vez. O que quero dizer � que h� casos que se incrustam, se enfiam debaixo da pele dos investigadores. Essa mo�a foi morta de uma forma particularmente brutal. O assassino atou-lhe as m�os e os p�s e afundou sua cabe�a nas brasas de uma lareira. N�o sei quanto tempo a pobre mo�a levou para morrer, nem que dores foi obrigada a suportar.</p><p>� Que horror!</p><p>� Exatamente. Um horror total. O pobre Torstensson foi o primeiro investigador a chegar quando a descobriram, e o crime nunca foi elucidado, mesmo com o refor�o de peritos de Estocolmo. Ele nunca conseguiu abandonar o caso.</p><p>� Entendo.</p><p>� O meu caso Rebecka � Harriet. N�o sabemos como ela morreu. Tecnicamente, n�o podemos sequer provar que houve um crime. Mas jamais consegui abandon�-lo.</p><p>Ele refletiu por um momento.</p><p>� O of�cio de investigador criminal talvez seja o mais solit�rio do mundo. Os amigos da v�tima ficam revoltados e desesperados, mas cedo ou tarde, ao cabo de algumas semanas ou meses, a vida volta ao normal. Para os familiares pr�ximos, leva mais tempo, por�m eles tamb�m acabam superando o desgosto e o desespero. A vida continua. Mas os crimes n�o resolvidos permanecem nos corroendo por dentro. No final das contas, uma �nica pessoa permanece pensando na v�tima e tentando lhe fazer justi�a: o tira encarregado do inqu�rito.</p><empty-line/><p>Tr�s outras pessoas da fam�lia Vanger viviam na ilha. Alexander Vanger, nascido em 1946 e filho de Greger, morava numa casa de madeira reformada, constru�da no come�o do s�culo XX. Henrik informou a Mikael que Alexander encontrava-se atualmente nas Antilhas, onde se dedicava a suas atividades favoritas � velejar e viver � toa. Henrik demoliu o sobrinho com tamanho vigor que Mikael concluiu que Alexander Vanger era um de seus principais suspeitos. Alexander tinha vinte anos quando Harriet Vanger desapareceu e era um dos que estavam no local.</p><p>Com Alexander morava sua m�e Gerda, de oitenta anos e vi�va de Greger Vanger. Mikael nunca a via; tinha a sa�de fr�gil e permanecia a maior parte do tempo na cama.</p><p>A terceira pessoa era, evidentemente, Harald Vanger. Durante o primeiro m�s, Mikael n�o conseguiu avistar sequer a sombra do velho biologista das ra�as. A casa de Harald, o vizinho mais pr�ximo de Mikael, tinha um aspecto l�gubre com suas janelas cobertas por espessas cortinas. V�rias vezes Mikael teve a impress�o de ver um leve movimento dessas cortinas, e uma noite, j� bem tarde, quando se preparava para deitar-se, viu luz no quarto do andar de cima. A cortina estava semi-aberta. Durante mais de vinte minutos, ficou ali fascinado, na escurid�o da cozinha, observando a luz, antes de desistir e ir para a cama tiritando de frio. De manh�, a cortina estava novamente fechada.</p><p>Harald Vanger parecia um esp�rito invis�vel mas eternamente presente, marcando a vida do povoado com sua aus�ncia. Na imagina��o de Mikael, Harald adquiria cada vez mais a forma de um Gollum mal�volo que espionava os arredores atr�s das cortinas e se entregava a atividades misteriosas em seu covil hermeticamente fechado.</p><p>Uma vez por dia, Harald recebia a visita de uma empregada dom�stica, uma mulher de idade que vinha do outro lado da ponte e chafurdava, com cestos carregados de alimentos, na neve amontoada at� a porta, j� que ele se recusava a desobstruir a entrada. Gunnar Nilsson, o faz-tudo, balan�ou a cabe�a quando Mikael o questionou. Explicou que se propusera limpar a neve, mas que Harald n�o queria ningu�m pondo o p� no seu terreno. Uma �nica vez, no primeiro inverno depois que Harald retornou � ilha, Gunnar Nilsson dirigiu-se automaticamente com o trator � casa de Harald para desobstruir a neve da entrada, como fazia diante de todas as casas. A iniciativa lhe valeu ver Harald Vanger sair de casa, vociferando, gesticulando, exigindo que ele fosse embora.</p><p>Por outro lado, Nilsson lamentava n�o poder limpar o p�tio de Mikael, pois o trator n�o passava naquela entrada estreita. Ali era preciso uma p� de neve e trabalho bra�al.</p><empty-line/><p>Em meados de janeiro, Mikael Blomkvist encarregou seu advogado de tentar saber quando ele deveria cumprir os tr�s meses de pris�o. Queria se livrar da pena o mais r�pido poss�vel. Ir para a pris�o revelou-se mais f�cil do que imaginava. Ap�s uma semana de lengalenga, ficou decidido que Mikael se apresentaria no dia 17 de mar�o � pris�o de Rullaker, perto de �stersund, penitenci�ria em regime aberto para condena��es leves. O advogado de Mikael informou tamb�m que a pena provavelmente seria reduzida.</p><p>� �timo � disse Mikael sem grande entusiasmo.</p><p>Estava sentado � mesa da cozinha acariciando o gato de p�los ruivos, que se habituara a surgir a intervalos regulares para passar a noite na casa dele. Helen Nilsson, do outro lado da estrada, disse-lhe que o gato se chamava Tjorven, que n�o pertencia a ningu�m em particular, mas fazia a ronda de casa em casa.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael se reunia com Henrik Vanger quase todas as tardes. �s vezes para uma breve conversa, �s vezes para discutir durante horas o desaparecimento de Harriet e diferentes detalhes da investiga��o particular de Henrik.</p><p>Quase sempre Mikael formulava uma teoria que Henrik se aplicava em torpedear. Mikael tentava manter distanciamento de sua miss�o, mas em alguns momentos se sentia terrivelmente fascinado pelo mist�rio do desaparecimento de Harriet.</p><p>Mikael prometera a Erika montar tamb�m uma estrat�gia que lhes permitisse retomar a luta contra Hans-Erik Wennerstr�m, mas, depois de um m�s em Hedestad, n�o havia sequer aberto as pastas sobre o caso que o levara ao tribunal. Ao contr�rio � recha�ava inteiramente o problema. Toda vez que come�ava a refletir sobre Wennerstr�m e sua pr�pria situa��o, ca�a num des�nimo profundo. Nos momentos de lucidez, perguntava-se se n�o estaria ficando maluco como o velho Vanger. Sua carreira profissional desabara como um castelo de cartas e sua rea��o fora refugiar-se num vilarejo do campo para expulsar seus fantasmas. Sem contar a falta que sentia de Erika.</p><p>Henrik Vanger observava seu colega de investiga��o com uma discreta inquietude. Notava que Mikael nem sempre exibia um equil�brio perfeito. Em fins de janeiro, o velho tomou uma decis�o que surpreendeu a si pr�prio. Pegou o telefone e ligou para Estocolmo. A conversa durou vinte minutos e girou principalmente em torno de Mikael Blomkvist.</p><empty-line/><p>Foi necess�rio cerca de um m�s para que a c�lera de Erika se abrandasse. �s nove e meia de uma das �ltimas noites de janeiro, ela telefonou.</p><p>� Ent�o est� mesmo disposto a continuar a�? � perguntou de supet�o. O telefonema pegou Mikael t�o de surpresa que de pronto n�o soube o que responder. Depois sorriu e estreitou o cobertor junto ao corpo.</p><p>� Oi, Ricky. Voc� tamb�m devia vir aqui experimentar.</p><p>� Por qu�? H� algum atrativo particular em morar nesse fim de mundo?</p><p>� Acabo de escovar os dentes com �gua gelada. Isso faz minhas obtura��es berrarem.</p><p>� A culpa � toda sua. Mas confesso que aqui em Estocolmo tamb�m est� fazendo um frio danado.</p><p>� Me conte as novidades.</p><p>� Perdemos dois ter�os dos nossos anunciantes fixos. Ningu�m tem vontade de dizer claramente, mas...</p><p>� Eu sei. Guarde o nome de todos que pularam fora. Um dia faremos uma boa reportagem sobre eles.</p><p>� Micke... fiz uns c�lculos e, se n�o conseguirmos novos anunciantes, afundaremos no outono. Simples assim.</p><p>� O vento vai mudar.</p><p>Ela deu uma risada cansada do outro lado da linha.</p><p>� Voc� n�o pode dizer uma coisa como essa e se contentar em ficar a� nesse inferno lap�o.</p><p>� N�o exagere, a aldeia lap�nia mais pr�xima fica a mais de quinhentos quil�metros daqui.</p><p>Erika calou-se um momento e depois prosseguiu:</p><p>� Eu sei. Homem que � homem executa seu trabalho, patati, patat�, conhe�o bem essa hist�ria. N�o estou pedindo que se justifique. Me desculpe por ter sido grossa e por n�o ter respondido aos seus telefonemas. Ser� que podemos recome�ar? Seria muita ousadia minha eu ir visit�-lo?</p><p>� Quando voc� quiser.</p><p>� Devo levar um fuzil para enfrentar os lobos?</p><p>� De jeito nenhum. Contrataremos alguns lap�es com tren�s puxados por c�es. Quando voc� vem?</p><p>� Sexta-feira � tarde. Est� bem?</p><p>De um momento para o outro, a vida pareceu infinitamente mais alegre para Mikael.</p><empty-line/><p>Com exce��o do estreito caminho desobstru�do at� a porta, o terreno estava coberto por cerca de um metro de neve. Mikael olhou demoradamente a p�, pensando no que precisaria fazer, depois foi perguntar aos Nilsson se Erika podia estacionar o BMW na casa deles durante a perman�ncia dela ali. N�o havia problema. A garagem era ampla e eles at� ofereceram um aquecedor de bloco para o motor.</p><p>Erika fez o trajeto � tarde e chegou por volta das seis. Os dois se olharam com certa reserva por alguns segundos e depois se estreitaram um nos bra�os do outro durante um tempo bem mais longo.</p><p>A n�o ser pela igreja iluminada, n�o havia muito o que ver na obscuridade do anoitecer. O supermercado Konsum e o Caf� Susanne j� estavam fechando as portas. Eles se apressaram a entrar em casa. Enquanto Mikael preparava o jantar, Erika bisbilhotava todos os cantos, lan�ando coment�rios sobre os <emphasis>Rekordmagasinet</emphasis> dos anos 1950 e folheando os arquivos na saleta de trabalho. Jantaram costeletas de carneiro com batatas � <emphasis>la creme</emphasis> � muitas calorias � e beberam vinho tinto. Mikael tentou retomar o assunto, mas Erika n�o estava disposta a conversar sobre a <emphasis>Millennium.</emphasis> Em vez disso, falaram durante duas horas de si mesmos e das atividades de Mikael. Depois foram verificar se a cama era bastante larga para dois.</p><empty-line/><p>O terceiro encontro com o advogado Nils Bjurman fora cancelado, transferido e finalmente marcado para as cinco da tarde da mesma sexta-feira. Nas reuni�es anteriores, Lisbeth Salander fora recebida por uma cinquentona perfumada de alm�scar que funcionava como secret�ria. Desta vez, ela n�o estava presente e o advogado Bjurman exalava um leve cheiro de �lcool. Ele fez sinal para Salander se sentar numa poltrona e ficou folheando distraidamente pap�is at� parecer de repente se dar conta da presen�a dela.</p><p>Seguiu-se um novo interrogat�rio. Ele indagou Lisbeth acerca de sua vida sexual, que ela considerava definitivamente um assunto privado, sem ter a menor inten��o de discuti-lo com quem quer que fosse.</p><p>Depois do encontro, viu que havia conduzido mal a conversa. Silenciosa de in�cio, evitara responder �s perguntas dele, que interpretara aquilo como timidez, defici�ncia mental ou uma tentativa de dissimula��o, enquanto a pressionava para obter respostas. Percebendo que ele n�o desistiria, dera respostas sum�rias ou an�dinas, do tipo que supunha combinar com seu perfil psicol�gico. Mencionou Magnus � descrito como um programador nerd da sua idade que se comportava como um gentleman com ela, que a levava ao cinema e �s vezes para a cama. Magnus era pura fic��o e foi tomando forma � medida que ela falava, mas Bjurman aproveitou o pretexto para tra�ar um mapa detalhado da vida sexual dela na hora seguinte. Com que frequ�ncia voc� faz amor? De tempo em tempo. Quem toma a iniciativa, voc� ou ele? Eu. Voc�s usam preservativos? Claro � ela ouvira falar do HIV. Qual � a sua posi��o preferida? Geralmente de costas. Gosta de fazer sexo oral? Ei, espera a�... J� praticou sexo anal?</p><p>� N�o, n�o acho nem um pouco divertido me foderem por tr�s, mas isso n�o � da sua conta, de modo nenhum!</p><p>Era a segunda vez que se irritava com Bjurman. Consciente de que ele poderia interpretar seu olhar de modo equivocado, ela o fixou no teto para tentar controlar a raiva. Quando voltou a olh�-lo, ele estava rindo do outro lado da mesa. Lisbeth Salander entendeu de repente que sua vida tomaria um rumo dram�tico. Deixou o advogado Bjurman com um sentimento de nojo. N�o estava preparada para isso. Jamais ocorreria a Palmgren fazer esse tipo de pergunta; ao contr�rio, ele estava sempre disposto a escut�-la, oferecimento que ela raramente aproveitou.</p><p>Bjurman era um <emphasis>problema s�rio</emphasis> em vias de se tornar um problema <emphasis>muito s�rio.</emphasis></p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>11.� S�BADO 1� DE FEVEREIRO �TER�A-FEIRA 18 DE FEVEREIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Aproveitando as breves horas de luz do s�bado, Mikael e Erika fizeram um passeio que os levou das cabanas do porto � fazenda �stergarden. Embora estivesse na ilha havia um m�s, Mikael ainda n�o visitara seu interior; o frio e v�rias tempestades de neve o dissuadiram de tais exerc�cios. Mas o s�bado estava ensolarado e agrad�vel, como se Erika tivesse trazido um come�o de primavera ao horizonte. A temperatura era de cinco graus negativos. �s margens da estrada, elevava-se um metro de neve arrastada pelos tratores. Assim que deixaram a regi�o das cabanas, entraram num bosque de pinheiros denso e Mikael ficou surpreso ao constatar que o monte Sul, que dominava o porto de recreio, era bem mais alto e inacess�vel do que diria quem o visse do povoado. Por um momento perguntou-se quantas vezes Harriet Vanger fora brincar ali quando crian�a, depois n�o pensou mais nisso. Alguns quil�metros adiante, o bosque terminava de modo brusco diante do cercado da fazenda de �stergarden. Viram uma casa branca de madeira e um imponente celeiro vermelho. Decidiram n�o ir at� a fazenda e voltaram pelo mesmo caminho.</p><p>Passavam em frente ao acesso da casa Vanger, quando Henrik bateu palmas na janela do andar de cima e, com gestos, os convidou a subir. Mikael e Erika se olharam.</p><p>� Quer conhecer um industrial legend�rio? � perguntou Mikael.</p><p>� Ele morde?</p><p>� N�o aos s�bados.</p><p>Henrik Vanger os recebeu � porta de seu escrit�rio com um aperto de m�o.</p><p>� Acho que sei quem voc� �, deve ser a senhorita Berger � disse. � Mikael n�o comentou que viria a Hedeby.</p><empty-line/><p>Uma das maiores qualidades de Erika era sua capacidade de criar v�nculos de amizade com as mais diversas pessoas. Mikael j� a vira despejar seu charme sobre garotinhos de cinco anos que, dez minutos depois, n�o queriam mais saber da m�e. Velhos com mais de oitenta anos n�o pareciam ser exce��o. Suas covinhas sorridentes eram s� o aperitivo. Passados dois minutos, Erika e Henrik Vanger ignoravam totalmente Mikael e conversavam como se fossem velhos amigos de inf�ncia � digamos, da inf�ncia de Erika, considerando a diferen�a de idade deles.</p><p>Sem nenhum constrangimento, Erika come�ou censurando Henrik por ter atra�do seu melhor redator para aquele buraco. O velho replicou que, segundo entendera ao ler os diversos comunicados de imprensa, ela j� o havia dispensado e, se n�o o tivesse feito, seria um �timo momento para aliviar a reda��o. Fingindo-se de interessada, Erika examinou Mikael com olhar cr�tico. De todo modo, uma pausa no campo seria proveitosa ao jovem Blomkvist, acrescentou Henrik Vanger. Erika estava inteiramente de acordo.</p><p>Durante cinco minutos, eles fizeram piada sobre os reveses de Mikael. Afundado na poltrona, calado, fingindo-se ofendido, ele fez cara feia quando Erika lan�ou alguns coment�rios equ�vocos que podiam eventualmente se aplicar aos seus defeitos como jornalista, mas tamb�m ao seu desempenho sexual. Com a cabe�a para tr�s, Henrik gargalhava muito.</p><p>Mikael ficou estupefato; eram apenas chacotas amistosas, mas nunca tinha visto Henrik t�o descontra�do e � vontade. Ocorreu-lhe ent�o que um Henrik Vanger cinquenta anos mais jovem � digamos, com trinta anos � devia ter sido um homem sedutor e atraente. N�o voltara a se casar. Certamente tivera mulheres pelo caminho, mas continuara solteiro por quase meio s�culo.</p><p>Mikael tomou um gole de caf� e voltou a prestar aten��o na conversa, que de repente tinha ficado s�ria e tratava da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Mikael deu a entender que voc�s est�o com problemas na revista. Erika voltou-se para Mikael.</p><p>� N�o, ele n�o falou de assuntos internos, mas seria preciso ser surdo e cego para n�o perceber que tanto a revista de voc�s como as empresas Vanger est�o em dificuldades.</p><p>� Acredito que podemos dar um jeito na situa��o � respondeu Erika com prud�ncia.</p><p>� Duvido � replicou Henrik.</p><p>� �? Por qu�?</p><p>� Vejamos: quantos funcion�rios voc�s t�m, seis? Uma tiragem de vinte e um mil exemplares com circula��o mensal, custos de impress�o e de distribui��o, aluguel... Precisam de algo em torno de dez milh�es, digamos. Metade dessa quantia � assegurada pelos anunciantes.</p><p>� E...?</p><p>� Hans-Erik Wennerstr�m � um safado, vingativo, mesquinho que n�o vai esquecer de voc�s t�o cedo. Quantos anunciantes voc�s perderam nos �ltimos meses?</p><p>Erika aguardou o que viria a seguir, observando Henrik Vanger. Mikael surpreendeu-se de respira��o contida. Quando ele e o velho falavam da <emphasis>Millennium,</emphasis> era apenas para fazer coment�rios insignificantes ou para falar do quanto a situa��o da revista podia depender da capacidade de Mikael fazer um bom trabalho em Hedestad. Mikael e Erika eram co-fundadores e co-propriet�rios da <emphasis>Millennium,</emphasis> mas era evidente que naquele momento Vanger dirigia-se exclusivamente a Erika, de patr�o para patr�o. Uma conversa que seguia um c�digo que Mikael n�o conseguia entender nem interpretar e que talvez se devesse ao fato de, no fundo, ele ser apenas um filho de oper�rio pobre do Norrland e ela uma filha da aristocracia, dotada de uma bela �rvore geneal�gica internacional.</p><p>� Posso tomar mais um caf�? � perguntou Erika. Henrik a serviu imediatamente.</p><p>� Bem, vamos admitir que o senhor seja perspicaz. A �gua est� come�ando a subir nos por�es da <emphasis>Millennium.</emphasis> Mas estamos sobrevivendo.</p><p>� Por quanto tempo?</p><p>� Temos seis meses pela frente para dar meia-volta. Oito, nove meses no m�ximo. Mas n�o temos liquidez suficiente para nos manter � tona por mais tempo que isso.</p><p>O rosto do velho estava insond�vel quando olhou pela janela. A igreja continuava em seu lugar.</p><p>� Sabem que j� fui propriet�rio de um jornal?</p><p>Mikael e Erika balan�aram negativamente a cabe�a ao mesmo tempo. Henrik deu uma risada.</p><p>� Possu�amos seis jornais do Norrland. Foi nos anos 1950 e 1960. Id�ia do meu pai; ele achava que podia haver vantagens pol�ticas em participar da m�dia. Ainda somos propriet�rios do <emphasis>Hedestads-Kuriren,</emphasis> Birger Vanger � presidente do conselho administrativo do jornal. � o filho de Harald � acrescentou, dirigindo-se a Mikael.</p><p>� Ele tamb�m � vereador � observou Mikael.</p><p>� Martin tamb�m faz parte do conselho. Procura manter Birger sob controle.</p><p>� Por que n�o participa mais dos jornais? � perguntou Mikael.</p><p>� Reestrutura��o nos anos 1960. A atividade jornal�stica era mais um hobby do que um interesse. Quando precisamos reduzir o or�amento, foi um dos primeiros bens que pusemos � venda nos anos 1970. Mas sei o que significa estar � frente de um peri�dico... Posso fazer uma pergunta pessoal?</p><p>A pergunta era dirigida a Erika, que levantou uma sobrancelha e com um gesto convidou Vanger a prosseguir.</p><p>� N�o perguntei a Mikael sobre isso e, se n�o quiserem responder, n�o se sintam obrigados. Gostaria de saber por que se meteram nesse loda�al. Havia ou n�o uma hist�ria?</p><p>Mikael e Erika trocaram olhares. Desta vez, Mikael � que parecia ter um ar insond�vel. Erika hesitou um segundo antes de falar.</p><p>� T�nhamos uma hist�ria. Mas na verdade est�vamos abordando outra. Henrik Vanger balan�ou a cabe�a, como se entendesse perfeitamente.</p><p>Mas o pr�prio Mikael n�o entendia.</p><p>� N�o quero falar sobre isso � interveio Mikael. � Fiz minhas investiga��es e escrevi o texto. Tinha todas as fontes necess�rias. E a� a coisa desandou.</p><p>� Mas tinha uma fonte para tudo o que escreveu?</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. A voz de Henrik tornou-se incisiva de repente.</p><p>� N�o vou fingir que entendo como conseguiu meter o p� em cima dessa mina. N�o conhe�o nenhuma hist�ria similar, exceto talvez o caso Lundhall no <emphasis>Expressen,</emphasis> nos anos 1960, se � que j� ouviram falar dele, pois s�o muito jovens. Seu informante tamb�m era um perfeito mit�mano? � Ele balan�ou a cabe�a e voltou-se para Erika, baixando a voz. � J� fui editor de peri�dicos e posso voltar a ser. O que acha de ter mais um s�cio?</p><p>A pergunta foi como um rel�mpago num c�u azul, mas Erika n�o pareceu nem um pouco surpresa.</p><p>� O que est� querendo dizer?</p><p>Henrik Vanger evitou a pergunta fazendo outra.</p><p>� Quanto tempo ficar� em Hedestad?</p><p>� At� amanh�.</p><p>� O que � que voc� acha � voc� e Mikael, claro � de fazer um velho feliz e vir jantar comigo esta noite? �s sete?</p><p>� Por mim tudo bem. Viremos com prazer. Mas o senhor se esquivou da pergunta que eu fiz. Por que deseja se associar � <emphasis>Millennium?</emphasis></p><p>� N�o me esquivei da pergunta. Achei que poder�amos falar sobre isso no jantar. Preciso discutir com meu advogado, Dirch Frode, antes de propor algo mais concreto. Mas, para resumir, digamos que tenho dinheiro para investir. Se a revista sobreviver e come�ar a ser rent�vel, terei lucro. Caso contr�rio... bem, j� sofri perdas bem maiores que essa na vida.</p><p>Mikael ia abrir a boca quando Erika p�s a m�o em seu joelho.</p><p>� Mikael e eu sempre lutamos para ser inteiramente independentes.</p><p>� Bobagem. Ningu�m � inteiramente independente. Mas n�o estou querendo me apossar da revista e n�o estou interessado no conte�do. Aquele cretino do Stenbeck encheu os bolsos publicando <emphasis>Moderna Tider;</emphasis> por que n�o posso ajudar a <emphasis>Millennium,</emphasis> que, al�m do mais, � uma boa revista?</p><p>� H� alguma rela��o com Wennerstr�m? � perguntou Mikael subitamente. Henrik Vanger sorriu.</p><p>� Mikael, tenho mais de oitenta anos. H� coisas que lamento n�o ter feito e pessoas que lamento n�o ter importunado um pouco mais. Mas, voltando ao assunto � e virou-se novamente para Erika �, esse investimento inclui pelo menos uma condi��o.</p><p>� Qual? � disse Erika.</p><p>� Mikael deve reassumir seu posto de editor respons�vel.</p><p>� N�o � disse Mikael de pronto.</p><p>� Sim � disse Henrik Vanger num tom igualmente firme. � Wennerstr�m ter� um ataque se divulgarmos um comunicado � imprensa anunciando que as empresas Vanger ap�iam a <emphasis>Millennium</emphasis> e que, ao mesmo tempo, voc� reassume como editor respons�vel. Ser� o sinal mais claro que podemos enviar. Todo mundo vai entender que n�o se trata de tomada de poder e que a pol�tica editorial permanecer� a mesma. E isso dar� aos anunciantes que pensam em se retirar uma raz�o para refletir um pouco mais. Wennerstr�m n�o � todo-poderoso. Ele tamb�m tem inimigos, e algumas empresas v�o achar que � o momento de buscar espa�o na revista.</p><empty-line/><p>� Afinal, que hist�ria maluca � essa? � disparou Mikael no momento em que Erika fechou a porta de entrada.</p><p>� � o que chamam de sondagem preliminar tendo em vista um acordo comercial � ela respondeu. � Voc� n�o me contou que Henrik era t�o irresist�vel.</p><p>Mikael plantou-se bem na frente dela.</p><p>� Ricky, voc� j� sabia exatamente qual seria o tema dessa conversa.</p><p>� Acalme-se, meu bem! S�o apenas tr�s da tarde e quero que se ocupem muito bem de mim antes do jantar.</p><p>Mikael Blomkvist fervia de c�lera. Mas ele nunca conseguiu ficar furioso com Erika por muito tempo.</p><empty-line/><p>Erika usava um vestido preto, um casaquinho e escarpins, que, por precau��o, pusera na sacola de viagem. Insistiu para que Mikael vestisse palet� e gravata. Ao chegarem na hora marcada � casa de Henrik Vanger, viram que Dirch Frode e Martin Vanger tamb�m tinham sido convidados, ambos de terno e gravata, enquanto Henrik vestia gravata-borboleta e uma malha de l� marrom.</p><p>� A vantagem de ter mais de oitenta anos � que ningu�m ousa criticar a sua maneira de vestir � ele observou.</p><p>Erika mostrou excelente humor durante todo o jantar.</p><p>A discuss�o s� come�ou de fato quando passaram a uma sala com lareira e o conhaque foi servido em todos os copos. Falaram durante cerca de duas horas, at� o rascunho de um acordo ser esbo�ado.</p><p>Dirch Frode criaria uma sociedade em nome de Henrik Vanger, cujo conselho administrativo seria formado por ele mesmo, Frode e Martin Vanger. Durante quatro anos, a sociedade investiria uma soma de dinheiro que cobriria a diferen�a entre as receitas e as despesas da <emphasis>Millennium.</emphasis> O dinheiro viria dos recursos pessoais de Henrik Vanger. Em contrapartida, ele teria uma posi��o determinante no conselho administrativo da revista. O acordo seria v�lido por quatro anos, mas poderia ser rescindido pela <emphasis>Millennium</emphasis> depois de dois. Tal rescis�o, por�m, custaria caro, pois a parte de Henrik s� poderia ser resgatada adquirindo-se a totalidade da soma investida.</p><p>Em caso da morte s�bita de Henrik Vanger, Martin Vanger o substituiria no conselho administrativo durante o per�odo de vig�ncia do contrato. Martin decidiria, chegado o momento, se estenderia ou n�o o acordo al�m desse prazo. Martin parecia tentado pela possibilidade de dar o troco a Hans-Erik Wennerstr�m, e Mikael se perguntou em que realmente consistia a disputa entre eles.</p><p>Estabelecido o acordo preliminar, Martin encheu novamente os copos com conhaque. Henrik aproveitou para se inclinar em dire��o a Mikael e explicar em voz baixa que o acordo n�o afetava de maneira nenhuma o contrato entre os dois.</p><p>Tamb�m ficou decidido que para que essa reorganiza��o tivesse o m�ximo de repercuss�o na imprensa ela seria anunciada em meados de mar�o, no mesmo dia em que Mikael Blomkvist fosse para a pris�o. Associar um acontecimento necessariamente negativo com uma reestrutura��o era t�o estranho do ponto de vista da comunica��o, que s� poderia confundir os detratores de Mikael e dar o m�ximo de audi�ncia � chegada de Henrik Vanger � <emphasis>Millennium.</emphasis> O sinal seria claramente percebido deste modo: retirava-se a bandeira amarela da peste que pairava sobre a reda��o e a revista tinha protetores que n�o estavam dispostos a ceder. Por mais que as empresas Vanger estivessem em crise, elas continuavam sendo um grupo industrial de peso e capaz de ter atua��o p�blica se necess�rio.</p><p>Toda a conversa foi uma discuss�o entre Erika, de um lado, e Henrik e Martin, de outro. Ningu�m pediu a opini�o de Mikael.</p><p>Mais tarde, � noite, Mikael estava apoiado sobre o peito de Erika e a fitava com olhos inquiridores.</p><p>� H� quanto tempo voc� e Henrik vinham discutindo esse acordo? � perguntou.</p><p>� H� cerca de uma semana � ela respondeu sorrindo.</p><p>� Christer est� sabendo?</p><p>� Claro.</p><p>� Por que n�o me disse nada?</p><p>� E por que eu deveria dizer? Voc� foi demitido, abandonou a reda��o e veio se instalar neste fim de mundo.</p><p>Mikael refletiu um momento sobre o que ela tinha dito.</p><p>� Est� querendo me dizer que mere�o ser tratado como um cretino?</p><p>� Isso mesmo � ela disse, marcando as palavras.</p><p>� Voc� ficou mesmo muito zangada comigo?</p><p>� Mikael, eu nunca me senti t�o furiosa, abandonada e tra�da como no momento em que voc� deixou a reda��o. Nunca tive tanta raiva de voc�. � E o pegou firmemente pelos cabelos e o empurrou mais para baixo na cama.</p><empty-line/><p>Quando Erika deixou a aldeia no domingo, Mikael estava t�o zangado com Henrik Vanger que n�o queria correr o risco de topar com ele ou com outro membro do cl�. Partiu ent�o para Hedestad e passou a tarde dando voltas pela cidade, foi � biblioteca, tomou caf� numa confeitaria... A noite foi ao cinema assistir a <emphasis>O senhor dos an�is,</emphasis> que ainda n�o tinha visto, embora o filme j� estivesse h� um ano em cartaz. Disse a si mesmo que os orcos, diferentemente dos humanos, eram criaturas simples, nada complicadas.</p><p>Encerrou a noitada no McDonald's de Hedestad e voltou � ilha � meia-noite, no �ltimo �nibus. Preparou caf� e instalou-se � mesa da cozinha para examinar um arquivo. Ficou lendo at� as quatro da manh�.</p><empty-line/><p>Alguns pontos de interroga��o no inqu�rito sobre Harriet Vanger revelavam-se cada vez mais estranhos � medida que Mikael avan�ava na leitura da documenta��o. N�o se tratava de nenhuma descoberta revolucion�ria que acabara de fazer, mas de problemas que haviam mantido o inspetor Gustav Morell ocupado por longos per�odos, sobretudo em seu tempo livre.</p><p>No �ltimo ano de sua vida, Harriet Vanger havia sofrido uma transforma��o. Mudan�a explic�vel, em certa medida, pela metamorfose que todos os jovens passam na adolesc�ncia. Harriet come�ava, certamente, a se tornar adulta, mas v�rias pessoas, tanto colegas de classe quanto professores e membros da fam�lia, afirmaram que ela se tornara mais fechada e reservada.</p><p>A menina que dois anos antes era uma adolescente perfeitamente normal e brincalhona parecia ter se distanciado de seu meio. Na escola, continuou a estar com os amigos, mas de um modo definido como "impessoal" por uma das colegas. Um termo bastante incomum para que Morell o registrasse e fizesse outras perguntas. A explica��o que lhe deram � que Harriet deixara de falar de si mesma, de comentar as �ltimas fofocas ou de fazer confid�ncias.</p><p>Na juventude, Harriet Vanger fora crist� como a maioria das crian�as � culto aos domingos, ora��es � noite etc. No �ltimo ano, pareceu ter virado crente. Lia a B�blia e ia regularmente � igreja. No entanto n�o se confiou ao pastor Otto Falk, amigo da fam�lia Vanger, e na primavera passou a frequentar uma congrega��o de pentecostais de Hedestad. Sua liga��o com a Igreja pentecostal n�o durou muito. Dois meses depois, deixou a congrega��o e passou a ler livros sobre catolicismo.</p><p>Exalta��o religiosa da adolesc�ncia? Talvez, mas ningu�m na fam�lia Vanger havia sido crente, e era dif�cil saber que impulsos guiaram seus pensamentos. Uma explica��o do interesse por Deus podia ser, evidentemente, a morte do pai, afogado num acidente um ano antes. Em todo caso, Gustav Morell concluiu que algo ocorrera na vida de Harriet que a oprimira e a influenciara, mas ele n�o sabia determinar o qu�. Assim como Henrik Vanger, Morell dedicou muito tempo a conversar com as amigas de Harriet, na esperan�a de encontrar algu�m a quem ela pudesse ter feito confid�ncias.</p><p>Havia muita expectativa a respeito de Anita Vanger, a filha de Harald Vanger que passou o ver�o de 1966 na ilha, que se dizia amiga �ntima de Harriet e era dois anos mais velha que ela. Mas tampouco Anita tinha alguma informa��o pessoal a dar. As duas se viram durante o ver�o, tomaram banho juntas, passearam, falaram de filmes, grupos de rock e livros. Harriet v�rias vezes acompanhou Anita em suas aulas de habilita��o de motorista. Um dia, se embriagaram levemente com uma garrafa de vinho surrupiada da adega. Tamb�m passaram v�rias semanas sozinhas na pequena casa de Gottfried na extremidade da ilha, uma cabana r�stica constru�da pelo pai de Harriet no come�o dos anos 1950.</p><p>As quest�es sobre os pensamentos �ntimos e os sentimentos de Harriet permaneciam sem resposta. Mikael notou, por�m, uma discord�ncia nas opini�es sobre ela: aqueles que achavam seu car�ter fechado eram em grande parte colegas de classe e, em certa medida, membros da fam�lia, mas Anita Vanger n�o a achara de modo algum retra�da. Ele anotou esse ponto para discuti-lo eventualmente com Henrik Vanger.</p><empty-line/><p>Um problema mais concreto, que levara Morell a se fazer muitas perguntas, era uma p�gina misteriosa da agenda finamente encadernada de Harriet Vanger, um presente de Natal recebido um ano antes de seu desaparecimento. A primeira metade da agenda continha anota��es di�rias com hor�rios de encontros, datas de provas no col�gio, deveres de casa e coisas do g�nero. Havia espa�o para anota��es pessoais, mas s� muito esporadicamente Harriet escrevia um di�rio �ntimo. Come�ou em janeiro com muita ambi��o, com observa��es sobre pessoas encontradas durante as f�rias de Natal e alguns coment�rios sobre os filmes que tinha visto. Depois, n�o escreveu mais nada de pessoal at� o fim do ano escolar, quando parece � � assim que se pode interpretar as anota��es � ter se interessado de longe por um rapaz cujo nome n�o revelou.</p><p>O verdadeiro mist�rio, por�m, estava na lista de endere�os e telefones. Minuciosamente caligrafados em ordem alfab�tica, apareciam os nomes de alguns de seus familiares, colegas de classe, professores, membros da Igreja pentecostal e outras pessoas de seu meio facilmente identific�veis. Na �ltima p�gina da lista, depois de um espa�o em branco e fora de ordem alfab�tica, havia cinco nomes associados a n�meros telef�nicos. Tr�s nomes de mulheres e duas iniciais.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Os n�meros de cinco algarismos que come�avam por 32 correspondiam a telefones de Hedestad nos anos 1960. A exce��o iniciada por 30 era de Norrbyn, perto de Hedestad. O �nico problema, depois que o inspetor Morell contatou sistematicamente todo o c�rculo de conhecidos de Harriet, era que ningu�m tinha a menor id�ia de a quem pertenciam esses n�meros de telefone.</p><p>O primeiro, "Magda", parecia promissor. Levou a uma loja de retr�s na rua do Parque, n�mero 12. O telefone estava em nome de uma Margot Lundmark, cuja m�e chamava-se Magda e que de vez em quando trabalhava na loja. No entanto Magda tinha sessenta e nove anos e n�o fazia id�ia de quem era Harriet Vanger. Nada indicava tamb�m que Harriet tivesse ido l� fazer compras. A costura n�o fazia parte de suas atividades.</p><p>O segundo n�mero, "Sara", levou a uma fam�lia com filhos pequenos, os Toresson, que moravam em V�ststan, do outro lado da ferrovia. A fam�lia era formada por Anders, Monica e seus filhos Jonas e Peter, que na �poca ainda n�o tinham idade de ir � escola. N�o havia nenhuma Sara na fam�lia e eles tampouco sabiam quem era Harriet Vanger, a n�o ser pelo que tinham lido nos jornais sobre seu desaparecimento. A �nica liga��o muito vaga entre Harriet e a fam�lia Toresson era que Anders, pedreiro, trabalhara durante algumas semanas, um ano antes, na reforma do telhado da escola em que Harriet cursava o �ltimo ano do colegial. Teoricamente, portanto, havia uma possibilidade de que tivessem se encontrado, ainda que isso fosse bastante improv�vel.</p><p>Os tr�s outros n�meros telef�nicos conduziam a becos sem sa�da id�nticos. O n�mero 32027 pertencera de fato a uma Sosemaroe Larsson, mas ela falecera havia muitos anos.</p><p>Durante o inverno de 1966-1967, o inspetor Morell dedicou grande parte de suas investiga��es a tentar explicar por que Harriet anotara esses nomes e n�meros.</p><p>Uma primeira suposi��o era que os n�meros telef�nicos seguiam uma esp�cie de c�digo pessoal � e Morell se esfor�ou para raciocinar como uma adolescente. Como a s�rie iniciada por 32 se aplicava claramente a Hedestad, ele tentou inverter os outros tr�s algarismos. Mas nem tentando 32601, nem 32160, conseguiu chegar a alguma Magda. Obstinado em resolver o mist�rio dos n�meros, descobriu que, se modificasse bastante os algarismos, cedo ou tarde acabaria encontrando alguma liga��o com Harriet. Por exemplo, se somasse 1 a cada um dos tr�s �ltimos algarismos de 32016, obteria o n�mero 32127, que era o do escrit�rio do advogado Frode em Hedestad. O problema era que tal liga��o n�o significava absolutamente nada. Al�m do mais, ele nunca descobriu um c�digo que pudesse explicar os cinco n�meros ao mesmo tempo.</p><p>Morell ampliou seu racioc�nio. Ser� que os algarismos podiam significar outra coisa? Os n�meros das placas dos ve�culos nos anos 1960 tinham uma letra associada a uma regi�o, e cinco algarismos � novo impasse.</p><p>Depois o inspetor abandonou os algarismos para se concentrar nos nomes. Chegou a fazer uma lista de todas as pessoas de Hedestad chamadas Mari, Magda e Sara e outras com nomes iniciados pelas letras RL e RJ. Obteve um repert�rio de trezentas e sete pessoas. Entre elas, vinte e nove tinham alguma conex�o com Harriet; por exemplo, um colega de classe do col�gio chamava-se Roland Jacobsson, RJ. Mas eles n�o eram particularmente pr�ximos e haviam deixado de ter contato desde que Harriet fora para o colegial. Al�m disso, n�o existia nenhuma liga��o com o n�mero de telefone.</p><p>O mist�rio da agenda telef�nica continuou sem solu��o.</p><empty-line/><p>O quarto encontro com o dr. Bjurman n�o fora marcado com anteced�ncia. Ela � que foi obrigada a entrar em contato com ele.</p><p>Na segunda semana de fevereiro, o computador port�til de Lisbeth Salander sofreu um acidente t�o est�pido que ela esteve a ponto de assassinar o planeta Terra inteiro. Ao chegar de bicicleta para uma reuni�o na Milton Security, estacionou atr�s de um pilar e p�s a mochila no ch�o para pegar o cadeado. Um Saab vermelho-escuro escolheu bem esse momento para dar marcha a r�. Ela estava virada de costas e ouviu o estalo. O motorista n�o se deu conta de nada e tranquilamente subiu a rampa para desaparecer pela sa�da da garagem.</p><p>A mochila continha seu iBook Apple 600, branco, com um disco r�gido de 25 gigas e mem�ria RAM de 420 megas, fabricado em janeiro de 2002 e com tela de 14 polegadas. Quando o adquiriu, era o que havia de melhor na Apple. Os computadores de Lisbeth Salander dispunham das configura��es mais recentes e �s vezes bastante caras � seu equipamento de inform�tica era o �nico item extravagante de suas despesas.</p><p>Ela abriu a mochila e constatou que a tampa do computador estava quebrada. Tentou faz�-lo funcionar, mas ele n�o emitiu sequer um �ltimo suspiro. Levou os restos � MacJesus Shop de Timmy, na Br�nnkyrkagatan, na esperan�a de que pelo menos uma parte do disco r�gido pudesse ser recuperada. Ap�s um breve exame do aparelho, Timmy balan�ou a cabe�a.</p><p>� Sinto muito, n�o h� o que fazer � anunciou. � Pode encomendar o enterro.</p><p>A perda do computador era um golpe moral, mas n�o uma cat�strofe. Lisbeth Salander se entendera perfeitamente bem com ele ao longo de um ano de conviv�ncia. Fizera c�pias de todos os documentos e ainda possu�a um velho computador de mesa Mac G3 e outro Toshiba port�til que poderia usar. Mas ela precisava de uma m�quina r�pida e moderna.</p><p>Optou, como era de se esperar, pela melhor escolha poss�vel: o novo Apple Powerbook G4 de 1 Ghz, com tampa de alum�nio e dotado de um processador PowerPC 7451, AltiVec Velocity Engine, mem�ria RAM de 960 megas e disco r�gido de 60 gigas. Tinha Bluetooth e um gravador de CD e DVD integrado.</p><p>Mais que isso, era o primeiro notebook do mundo com tela de 17 polegadas, uma placa Nvidia e resolu��o de 1440 por 900 pixels que deixavam embasbacados adeptos dos PC e faziam esquecer tudo o que havia de novo no mercado.</p><p>Era o Rolls-Royce dos computadores port�teis, mas o que mais agu�ou a vontade de Lisbeth Salander de possu�-lo foi um teclado esperto provido de retro-ilumina��o, que permitia enxergar as letras das teclas mesmo na escurid�o total. Simples, n�o? Por que ningu�m pensara nisso antes?</p><p>Foi um caso de amor � primeira vista.</p><p>Custava trinta e oito mil coroas, mais as taxas.</p><p>A� havia um problema s�rio.</p><p>Mesmo assim fez a encomenda na MacJesus, onde sempre comprava seus equipamentos de inform�tica e que lhe concedia um desconto razo�vel. Alguns dias depois, Lisbeth Salander fez as contas. O seguro do computador acidentado cobriria boa parte da compra, mas, considerando a franquia e o pre�o elevado da nova aquisi��o, faltava-lhe ainda um pouco mais de dezoito mil coroas. Em casa, ela guardava dez mil coroas num pote de caf� para ter sempre dinheiro l�quido � m�o, mas isso n�o cobria toda a soma. Mesmo amaldi�oando-o, decidiu telefonar para o dr. Bjurman e explicar que precisava de dinheiro para uma despesa imprevista. Bjurman respondeu que n�o tinha tempo de receb�-la naquele dia. Salander explicou que ele n�o demoraria mais de vinte segundos para passar um cheque de dez mil coroas. Ele retrucou que n�o podia fazer um cheque com t�o poucos elementos, mas depois acabou cedendo e, ap�s um instante de reflex�o, marcou um encontro com ela ap�s o expediente, �s sete e meia.</p><empty-line/><p>Mikael admitia n�o ter compet�ncia para avaliar um inqu�rito criminal, mas ainda assim concluiu que o inspetor Morell fora excepcionalmente consciencioso e movera c�us e terras muito al�m do que seu trabalho exigia. Deixando de lado o inqu�rito policial, Mikael via Morell retornar �s anota��es de Henrik; uma amizade desenvolvera-se entre os dois e Mikael se perguntou se Morell se tornara t�o obsessivo quanto o empres�rio. Mas concluiu que nada de importante escapara a Morell. A solu��o do mist�rio Harriet Vanger n�o podia estar num inqu�rito policial praticamente perfeito. Todas as quest�es imagin�veis haviam sido levantadas e todos os ind�cios verificados, mesmo os mais absurdos.</p><p>Ele ainda n�o lera todo o inqu�rito, mas, quanto mais avan�ava, mais os ind�cios e as pistas exploradas se tornavam obscuros. N�o esperava descobrir algo que seu predecessor n�o tivesse percebido, e n�o via sob que novo �ngulo atacar o problema. Uma conclus�o se impunha aos poucos: o �nico caminho poss�vel era tentar descobrir as motiva��es psicol�gicas das pessoas implicadas.</p><p>O ponto de interroga��o mais evidente dizia respeito � pr�pria Harriet. Quem era ela afinal?</p><p>Da janela de sua casa, Mikael viu acender-se, por volta das cinco da tarde, a luz no andar de cima da casa de Cecilia Vanger. Bateu � sua porta �s sete e meia, no momento em que o notici�rio come�ava na tev�. Ela vestia um penhoar quando abriu a porta, e tinha os cabelos molhados sob uma toalha amarela. Assim que a viu, Mikael desculpou-se por incomod�-la e j� se preparava para partir quando ela o convidou a entrar na cozinha. Ligou a cafeteira el�trica e desapareceu no alto da escada durante alguns minutos, para depois descer vestindo um jeans e uma camisa de flanela xadrez.</p><p>� Eu j� estava come�ando a achar que voc� n�o teria coragem de vir. Podemos nos tratar por voc�?</p><p>� Claro. Sim, eu deveria ter telefonado antes, mas, quando passei e vi a luz acesa, me deu uma vontade repentina.</p><p>� E eu tenho visto que a luz fica acesa a noite toda na sua casa. E que geralmente voc� sai para passear depois da meia-noite. Voc� � uma ave noturna?</p><p>Mikael encolheu os ombros.</p><p>� Foi o ritmo que adotei aqui. � Seus olhos dirigiram-se a alguns livros escolares empilhados na beira da mesa. � Continua dando aulas, senhora diretora?</p><p>� N�o, como diretora n�o tenho mais tempo. Mas j� dei aulas de hist�ria, religi�o e de educa��o c�vica. E s� me restam uns poucos anos.</p><p>� Poucos? Ela sorriu.</p><p>� Estou com cinquenta e seis. Em breve me aposento.</p><p>� Sinceramente, eu lhe dava uns quarenta.</p><p>� Bondade sua. E voc�, que idade tem?</p><p>� Um pouco mais de quarenta � sorriu Mikael.</p><p>� E ainda ontem voc� tinha apenas vinte. Como passa depressa... a vida, eu quero dizer.</p><p>Cecilia Vanger serviu o caf� e perguntou se Mikael estava com fome. Ele respondeu que j� tinha comido; o que era verdade, a n�o ser por um detalhe: ele andava se alimentando de sandu�ches em vez de preparar refei��es de verdade. Mas n�o estava com fome.</p><p>� Ent�o, o que o traz aqui? Chegou a hora de me fazer as famosas perguntas?</p><p>� Para falar a verdade... n�o vim fazer perguntas. Acho que estava simplesmente com vontade de v�-la.</p><p>Cecilia Vanger sorriu, surpresa.</p><p>� Voc� foi condenado � pris�o, trocou Estocolmo por Hedeby, anda mergulhado nos arquivos favoritos de Henrik, n�o dorme � noite, faz longas caminhadas noturnas debaixo de um frio de rachar... esqueci alguma coisa?</p><p>� Minha vida � um trem fora dos trilhos. � Mikael retribuiu o sorriso.</p><p>� Quem � a mulher que veio v�-lo no fim de semana?</p><p>� Erika... a dona da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Sua namorada?</p><p>� N�o exatamente. Ela � casada. Sou mais um amigo e um amante ocasional.</p><p>Cecilia Vanger deu uma gargalhada.</p><p>� O que � t�o engra�ado?</p><p>� O modo como voc� disse isso. Amante ocasional. Adorei a express�o. Mikael riu. Essa Cecilia Vanger decididamente lhe agradava.</p><p>� Gostaria muito de ter um amante ocasional � ela disse.</p><p>Descal�ou as pantufas e p�s o p� sobre o joelho de Mikael. Maquinalmente ele pegou o p� dela e acariciou sua pele. Hesitou um segundo � sentiu que navegava em �guas inesperadas e incertas. Mas com o polegar come�ou a massagear com suavidade a planta do p� de Cecilia Vanger.</p><p>� Tamb�m sou casada � disse ela.</p><p>� Eu sei. Ningu�m se divorcia no cl� Vanger.</p><p>� N�o vejo meu marido h� quase vinte anos.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� N�o te interessa. N�o fa�o amor h�... humm... digamos, h� uns tr�s anos.</p><p>� Voc� me surpreende.</p><p>� Por qu�? � uma quest�o de oferta e procura. N�o estou nem um pouco interessada em ter um namorado, um marido leg�timo ou um companheiro. Sinto-me bem comigo mesma. Com quem eu faria amor? Com um dos professores da escola? Duvido. Com um aluno? Seria um assunto delicioso para as fofocas da cidade. Todos vigiam de perto os Vanger. E aqui em Hedeby�n moram apenas membros da fam�lia ou pessoas j� casadas.</p><p>Ela se inclinou para a frente e enla�ou os bra�os no pesco�o dele.</p><p>� Estou chocando voc�?</p><p>� N�o. Mas n�o sei se � uma boa id�ia. Trabalho para o seu tio.</p><p>� E eu seria certamente a �ltima pessoa a contar para ele. Mas � bem prov�vel que Henrik n�o tivesse nada contra.</p><p>Ela sentou de pernas abertas sobre os joelhos de Mikael e o beijou na boca. Os cabelos ainda estavam �midos e cheiravam a xampu. Ele demorou um pouco para abrir os bot�es da camisa de flanela, descobrindo-lhe os ombros. Ela n�o se dera o trabalho de p�r suti�. Quando ele tocou seus seios, ela estreitou o corpo contra o dele.</p><empty-line/><p>O advogado Bjurman contornou a mesa e mostrou-lhe o extrato da conta, cujo saldo ela conhecia at� o �ltimo centavo, mas do qual n�o podia mais dispor livremente. Ele se mantinha de p� �s suas costas. S�bito, come�ou a acariciar a nuca de Lisbeth, deslizando a m�o sobre o ombro esquerdo e o seio dela. P�s a outra m�o sobre o seio direito e a deixou ali. Como ela n�o protestou, ele apertou o seio. Lisbeth Salander n�o se mexia. Sentiu o h�lito dele em sua nuca e olhou para o cortador de papel em cima da mesa; poderia facilmente atingi-lo com a m�o livre.</p><p>Mas n�o fez nada. Uma coisa que Holger Palmgren lhe ensinara ao longo dos anos era que atos impulsivos traziam problemas, e problemas podiam trazer consequ�ncias desagrad�veis. Ela nunca fazia nada sem antes pesar as consequ�ncias.</p><p>Esse primeiro abuso sexual � em termos jur�dicos podia ser qualificado como abuso sexual e de poder sobre uma pessoa dependente, e teoricamente podia significar at� dois anos de pris�o para Bjurman � durou apenas alguns segundos. O suficiente, por�m, para transpor, sem volta, uma fronteira. Lisbeth Salander entendeu isso como a demonstra��o de for�a de uma tropa inimiga � um modo de deixar claro que, para al�m da rela��o jur�dica cuidadosamente estabelecida, ela estava � merc� da boa vontade dele, e desarmada. Quando seus olhos se cruzaram alguns segundos depois, a boca de Bjurman estava entreaberta e ela viu desejo em seu rosto. O rosto de Salander n�o tra�a o menor sentimento.</p><p>Bjurman contornou novamente a mesa e sentou-se em sua confort�vel cadeira de couro.</p><p>� N�o posso te passar cheques assim, sem mais � disse abruptamente. � Por que voc� precisa de um computador t�o caro? H� equipamentos bem mais baratos nos quais voc� pode instalar seus jogos.</p><p>� Quero dispor do meu dinheiro como antes. Bjurman lan�ou-lhe um olhar cheio de piedade.</p><p>� Veremos isso mais tarde. Primeiro voc� precisa aprender a ser soci�vel e a se entender com as pessoas.</p><p>O sorriso do dr. Bjurman certamente teria se contra�do um pouco se ele pudesse ler os pensamentos de Lisbeth por tr�s de seus olhos inexpressivos.</p><p>� Acho que podemos ser bons amigos � disse Bjurman. � Precisamos confiar um no outro.</p><p>Como ela n�o respondeu, ele foi mais expl�cito.</p><p>� Voc� agora � uma mulher adulta, Lisbeth.</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Venha c� � disse ele, estendendo-lhe uma m�o.</p><p>Lisbeth Salander p�s novamente os olhos no cortador de papel por alguns segundos antes de se levantar e ir at� l�. Consequ�ncias. Ele pegou a m�o dela e a p�s em seu p�bis. Ela sentiu o membro atrav�s da cal�a de gabardine escura.</p><p>� Se for gentil comigo, serei gentil com voc� � ele disse.</p><p>Ela estava r�gida como um tronco quando ele p�s a outra m�o atr�s de sua nuca e for�ou-a a ajoelhar-se, o rosto diante do p�bis.</p><p>� J� fez esse tipo de coisa, n�o fez? � ele perguntou, abrindo a braguilha. Ela percebeu que ele se lavara com �gua e sabonete.</p><p>Lisbeth Salander virou o rosto para o lado e tentou se levantar, mas ele a reteve com firmeza. Na for�a pura, n�o podia medir-se com ele; pesava quarenta e dois quilos contra os noventa e cinco dele. Ele pegou a cabe�a de Lisbeth com as m�os e virou-lhe o rosto para v�-la bem nos olhos.</p><p>� Se voc� for gentil comigo, serei gentil com voc� � repetiu. � Se me criar problemas, posso faz�-la ficar internada com os loucos o resto da sua vida. Gostaria disso?</p><p>Ela n�o respondeu.</p><p>� Gostaria disso? � ele repetiu.</p><p>Ela balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>Bjurman esperou at� que ela abaixasse o olhar, submissa, ele pensou. Depois a puxou para junto de si. Lisbeth Salander descerrou os l�bios e p�s o membro na boca. Em momento nenhum ele deixou de segur�-la pela nuca e de pression�-la violentamente. Ela se sentiu como que amorda�ada ao longo dos dez minutos em que ele se agitou at� finalmente ejacular; ele a segurara com tanta for�a que ela mal p�de respirar.</p><p>Bjurman deixou-a usar um pequeno banheiro anexo ao gabinete. O corpo inteiro de Lisbeth Salander tremia quando ela lavou o rosto e tentou limpar as manchas do pul�ver. Usou o dentifr�cio dele para tirar o gosto da boca. Ao voltar ao gabinete, encontrou-o instalado � mesa, folheando pap�is, como se nada tivesse acontecido.</p><p>� Sente-se, Lisbeth � ele disse, sem olhar para ela. Ela sentou-se. Finalmente ele olhou para ela e sorriu.</p><p>� Voc� agora � adulta, n�o �, Lisbeth?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ent�o deve ser capaz de jogar jogos de adultos � ele disse, como se falasse com uma crian�a.</p><p>Lisbeth n�o respondeu. Uma pequena ruga se formou na testa de Bjurman.</p><p>� Acho que n�o seria uma boa id�ia falar dos nossos jogos a outra pessoa. Pense bem: quem acreditaria em voc�? H� pap�is que comprovam sua irresponsabilidade. � Como ela n�o respondeu, ele prosseguiu: � Seria a sua palavra contra a minha. Qual delas voc� acha que pesaria mais?</p><p>Ele suspirou diante da obstina��o dela em n�o responder. De repente ficou irritado de v�-la sentada ali, muda, com os olhos fixos nele. Mas controlou-se.</p><p>� Seremos bons amigos, voc� e eu. Foi muito sensata em vir me procurar. Conte sempre comigo.</p><p>� Preciso de dez mil coroas para o meu computador � ela falou de repente, em voz baixa, como se retomasse a conversa iniciada antes da interrup��o.</p><p>O dr. Bjurman ergueu as sobrancelhas. Que puta mais dura de roer! � totalmente retardada. Estendeu-lhe o cheque que havia preparado enquanto ela estava no banheiro. � mais que uma puta; ela se paga com o pr�prio dinheiro! Dirigiu-lhe um sorriso superior. Lisbeth Salander pegou o cheque e foi embora.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>12.� QUARTA-FEIRA 19 DE FEVEREIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Se Lisbeth Salander fosse uma cidad� comum, ela provavelmente iria � pol�cia denunciar o estupro no instante em que deixava o escrit�rio do dr. Bjurman. Os hematomas na nuca e no pesco�o, bem como as manchas de esperma com o DNA de Bjurman em seu corpo e em suas roupas, teriam sido provas materiais pesadas. Mesmo que o advogado se esquivasse, alegando que <emphasis>ela concordou</emphasis> ou <emphasis>foi ela que me seduziu,</emphasis> ou <emphasis>foi ela que quis a fela��o</emphasis> e outras afirma��es para as quais os estupradores apelam sistematicamente, ainda assim ele seria culpado de tantas infra��es do c�digo de tutelas, que lhe teriam retirado de imediato o controle que exercia sobre ela. Uma den�ncia teria provavelmente permitido a Lisbeth Salander conseguir um verdadeiro advogado, bem informado a respeito dos abusos de poder sobre as mulheres, o que por sua vez poderia levar a uma discuss�o do problema central � sua condi��o de tutelada.</p><p>Desde 1989, a no��o de maior de idade incapaz deixou de existir.</p><p>H� dois n�veis de assist�ncia � a curadoria e a tutela.</p><p>Um curador interv�m para ajudar, com benevol�ncia, pessoas que por diversas raz�es t�m dificuldade de lidar com suas atividades cotidianas, pagar contas ou cuidar da sa�de. O curador designado em geral � um parente ou amigo pr�ximo. Se a pessoa n�o tem ningu�m na vida, as autoridades sociais se encarregam de encontrar algu�m que cumpra essa fun��o. A curadoria � uma forma moderada de tutela em que a pessoa interessada conserva o controle de seus recursos e em que as decis�es s�o tomadas em comum.</p><p>A tutela � uma forma de controle bem mais estrita. A pessoa � impedida de dispor livremente de seu dinheiro e de tomar decis�es em diferentes �reas. A formula��o exata declara que o tutor <emphasis>administra os bens e efetua todos os atos c�vicos ou jur�dicos</emphasis> da pessoa em quest�o. Na Su�cia, cerca de quatro mil pessoas se encontram nessa situa��o. As causas mais frequentes que levam algu�m a ser posto sob tutela s�o uma doen�a ps�quica manifesta ou uma doen�a ps�quica ligada a forte depend�ncia de �lcool ou drogas. Os dementes senis constituem uma parcela menor. N�o deixa de ser surpreendente que haja, entre as pessoas colocadas sob tutela, muitas relativamente jovens, com menos de trinta e cinco anos. Uma delas era Lisbeth Salander.</p><p>Privar uma pessoa do controle de sua vida, ou seja, de sua conta banc�ria, � uma das medidas mais degradantes a que pode recorrer uma democracia, ainda mais quando se trata de um jovem. E degradante, mesmo que a inten��o seja considerada boa e socialmente justific�vel. As quest�es de tutela, portanto, s�o um problema pol�tico que pode se revelar bastante delicado, cercadas de disposi��es rigorosas e controladas por uma comiss�o de tutelas. Esta depende do conselho geral, submetido por sua vez ao procurador geral.</p><p>Via de regra, a comiss�o de tutelas trabalha em condi��es dif�ceis. Levando em conta as quest�es delicadas de que se ocupa essa administra��o, � surpreendente que t�o poucas reclama��es ou esc�ndalos tenham sido divulgados nos meios de comunica��o.</p><p>De vez em quando se toma conhecimento de uma a��o na Justi�a contra um curador ou um tutor que desviou dinheiro ou que vendeu indevidamente o apartamento do cliente para embolsar o dinheiro. Mas s�o casos relativamente raros, e isso por duas poss�veis raz�es: ou porque a administra��o cumpre muito bem suas tarefas, ou porque as pessoas em quest�o n�o t�m a possibilidade de prestar queixa e de se fazerem ouvir de modo convincente por jornalistas e autoridades.</p><p>A comiss�o de tutelas � obrigada a avaliar, todos os anos, se h� alguma raz�o para solicitar a suspens�o de uma tutela. Como Lisbeth Salander persistia em sua recusa obstinada de submeter-se a exames psiqui�tricos � n�o dirigia sequer um polido bom-dia aos m�dicos �, a administra��o nunca encontrou raz�es para modificar sua decis�o. Mantido o <emphasis>statu quo,</emphasis> sua tutela era renovada anualmente.</p><p>O texto da lei estipula, por�m, que a determina��o de uma tutela <emphasis>deve se adaptara cada caso.</emphasis> Quando Holger Palmgren era o respons�vel, ele interpretou isso � sua maneira e deixou a Lisbeth Salander a responsabilidade de administrar seu dinheiro e sua vida. Ele cumpria meticulosamente as exig�ncias da administra��o e fazia um relat�rio mensal e uma revis�o anual. Fora isso, tratava Lisbeth Salander como qualquer jovem normal e n�o se imiscu�a em suas escolhas de vida ou amizades. Achava que n�o cabia nem a ele nem � sociedade decidir se aquela jovem queria ter um <emphasis>piercing</emphasis> no nariz e uma tatuagem no pesco�o. Essa atitude um tanto permissiva em rela��o � decis�o do tribunal de inst�ncia era uma das raz�es pelas quais Lisbeth e ele se entendiam t�o bem.</p><p>Enquanto Holger Palmgren foi seu tutor, Lisbeth Salander n�o se preocupou muito com seu estatuto jur�dico. Mas o dr. Nils Bjurman interpretava a lei de tutela de modo radicalmente diferente.</p><empty-line/><p>Seja como for, Lisbeth Salander n�o pertencia � categoria das pessoas normais. Tinha um conhecimento rudimentar em direito � �rea na qual nunca se interessou em se aprofundar � e sua confian�a no servi�o de manuten��o da ordem quase n�o existia. Para ela, a pol�cia era um poder inimigo relativamente imperfeito, cujas interven��es concretas ao longo dos anos haviam sido det�-la ou humilh�-la. A �ltima vez que havia se defrontado com a pol�cia fora numa tarde de maio do ano anterior. Caminhava pela G�tgatan para ir � Milton Security, quando de repente viu-se cara a cara com um policial munido de capacete com viseira, que, sem a menor provoca��o da parte dela, aplicou-lhe um golpe de cassetete no ombro. Seu instinto de defesa a levou imediatamente � ofensiva com a garrafa de Coca-Cola que trazia na m�o. Por sorte, antes que ela tivesse tempo de reagir, o policial j� virara as costas e partia para reprimir outras pessoas. Mais tarde, ficou sabendo que naquele dia a associa��o A Rua Nos Pertence organizara uma manifesta��o no bairro.</p><p>A id�ia de ir ao QG dos capacetes-com-viseira ou de denunciar Nils Bjurman por abuso sexual n�o lhe passava pela cabe�a. Ali�s, denunciar o qu�? Bjurman tocara-lhe os seios. Qualquer policial a examinaria com os olhos para constatar que, com seus peitinhos de menina, aquilo parecia improv�vel e, mesmo que houvesse acontecido, ela devia mais era se orgulhar de <emphasis>algu�m</emphasis> t�-la tocado. Quanto � hist�ria de chupar � era a palavra dela contra a de Bjurman e, geralmente, a palavra dos outros contava mais que a dela. A <emphasis>pol�cia n�o era uma boa alternativa.</emphasis></p><p>Depois de deixar o escrit�rio de Bjurman, foi para casa, tomou um banho, devorou dois sandu�ches de queijo com picles, e ent�o instalou-se para refletir no sof� da sala com seu tecido pu�do e embolotado.</p><p>Qualquer indiv�duo normal talvez tivesse considerado sua falta de rea��o como um elemento de acusa��o � uma prova de que, de certo modo, Lisbeth era t�o anormal que mesmo um estupro n�o conseguia provocar nela uma resposta emocional satisfat�ria.</p><p>Seu c�rculo de amizades era bastante restrito e tamb�m n�o abrangia jovens de classe m�dia protegidos por seus condom�nios fechados do sub�rbio. Desde a maioridade, Lisbeth Salander n�o conhecia uma �nica garota que, pelo menos uma vez, n�o tivesse sido for�ada a realizar algum tipo de ato sexual. Eram abusos cometidos quase sempre por namorados mais velhos que, usando de alguma persuas�o, davam um jeito de conseguir o que queriam. Pelo que ela sabia, tais incidentes resultavam �s vezes em crises de choro e de raiva, mas jamais numa queixa levada � delegacia.</p><p>No mundo de Lisbeth Salander, era esse o estado natural das coisas. Enquanto mulher, ela era uma presa autorizada, sobretudo a partir do momento em que vestia uma jaqueta de couro preto e gasto, tinha <emphasis>piercings</emphasis> nas sobrancelhas, tatuagens e um status social nulo.</p><p>N�o havia por que derramar l�grimas por isso.</p><p>Por outro lado, estava fora de quest�o que o dr. Bjurman pudesse obrig�-la a chupar seu pau <emphasis>impunemente.</emphasis> Lisbeth Salander nunca esquecia uma afronta e estava disposta a tudo, menos a perdoar.</p><p>Mas seu estatuto jur�dico trazia um problema. Desde suas lembran�as mais remotas, fora considerada uma menina obstinada e de uma viol�ncia injustific�vel. As primeiras anota��es a seu respeito haviam sido feitas pela enfermeira da escola prim�ria. Fora mandada para casa por ter batido num colega de classe e por t�-lo empurrado com tanta for�a contra um cabide que ele se machucou. Ela ainda se lembrava com irrita��o da v�tima, um menino gordo chamado David Gustavsson que n�o parava de provoc�-la e de atirar-lhe coisas na cabe�a, e que com o passar do tempo tornou-se um perfeito algoz, embora na �poca ela n�o conhecesse a palavra. De volta � escola, David prometeu vingar-se em tom amea�ador e ela o derrubou com um soco bem dirigido e refor�ado por uma bola de golfe no punho, o que resultou em mais sangue derramado e em um novo registro de mau comportamento.</p><p>As regras da vida em comum na escola sempre a deixaram perplexa. Ela se ocupava de seus afazeres e n�o se intrometia na vida dos outros. Mas havia sempre algu�m disposto a jamais deix�-la em paz.</p><p>No ensino prim�rio, foi mandada v�rias vezes para casa em virtude de violentas disputas com colegas. Os garotos de sua classe, bem mais fortes que ela, logo descobriram que podia ser desagrad�vel implicar com aquela menina franzina � ao contr�rio das outras meninas, ela nunca batia em retirada e n�o hesitava um segundo em usar os punhos ou instrumentos diversos para se defender. Sua atitude significava que ela preferia ser maltratada at� a morte a aceitar qualquer abuso.</p><p>Al�m disso, vingava-se.</p><p>No gin�sio, Lisbeth Salander desentendeu-se com um rapaz bem mais alto e mais forte que ela. Do ponto de vista puramente f�sico, ela n�o representava um grande obst�culo para ele. V�rias vezes o rapaz divertiu-se em faz�-la cair, para depois esbofete�-la quando ela tentava reagir. Mas, apesar dessa superioridade, a idiota insistia em reagir e, depois de algum tempo, mesmo os outros alunos come�aram a achar que a coisa estava indo longe demais. Ela era t�o visivelmente indefesa que dava pena. O rapaz acabou por acertar-lhe um soco magistral que cortou seu l�bio e a fez ver estrelas. Ficou ca�da no p�tio do gin�sio. Passou dois dias em casa. Na manh� do terceiro dia, esperou seu algoz com um taco de beisebol e o desferiu contra sua orelha. Isso lhe valeu uma convoca��o do diretor, que decidiu apresentar queixa contra ela por agress�o f�sica, o que resultou num inqu�rito social.</p><p>Seus colegas de classe diziam que ela era maluca e a tratavam como tal. Ela tamb�m despertava pouca simpatia entre os professores, que em alguns momentos achavam-na insuport�vel. Nunca fora especialmente loquaz e era considerada a aluna que nunca levantava a m�o e que em geral n�o respondia quando o professor lhe fazia uma pergunta. Ningu�m sabia se era porque ela n�o conhecia a resposta ou se a raz�o era outra, mas suas notas refletiam uma situa��o de fato. Com certeza ela tinha problemas, por�m, curiosamente, ningu�m quis se encarregar dessa menina dif�cil, embora seu caso fosse discutido v�rias vezes entre os professores. Assim, mesmo eles a deixavam de lado, enclausurada num sil�ncio intrat�vel.</p><p>Certo dia, um substituto que n�o conhecia seu comportamento peculiar a intimou a responder a uma quest�o de matem�tica; ela teve uma crise hist�rica e atacou o professor com socos e pontap�s. Ao terminar o gin�sio, foi cursar o colegial em outra escola sem ter um �nico colega a quem dizer adeus. Uma menina de comportamento desviante que ningu�m amava.</p><p>Depois, quando estava no auge da adolesc�ncia, aconteceu-lhe todo o Mal no qual n�o queria pensar, a �ltima crise que veio completar o quadro e que fez com que reabrissem os arquivos do gin�sio. Desde ent�o foi considerada, do ponto de vista jur�dico... enfim, maluca. <emphasis>Uma doente mental.</emphasis> Lisbeth Salander nunca teve necessidade de documentos para saber que era diferente. No entanto, ningu�m a aborreceu enquanto seu tutor foi Holger Palmgren, um homem que ela podia conduzir � vontade, se necess�rio.</p><p>Com a chegada de Bjurman, a tutela corria o risco de virar um peso dram�tico em sua vida. N�o importa para quem se voltasse, haveria armadilhas potenciais em seu caminho, e o que aconteceria se perdesse o combate? Seria levada a uma institui��o? Encerrada num asilo de loucos? <emphasis>Bela alternativa!</emphasis></p><empty-line/><p>Mais tarde na noite, quando Cecilia Vanger e Mikael se aquietaram, pernas entrela�adas, Cecilia repousando a cabe�a no peito de Mikael, ela levantou os olhos para ele.</p><p>� Obrigada. Fazia muito tempo. Voc� n�o � ruim de cama.</p><p>Mikael sorriu. Esse tipo de elogio sempre lhe causava uma satisfa��o pueril.</p><p>� Foi bom � disse Mikael. � Inesperado, mas gostoso.</p><p>� Gostaria que se repetisse � disse Cecilia. � Se isso lhe agrada.</p><p>Mikael olhou para ela.</p><p>� Est� dizendo que gostaria de ter um amante?</p><p>� Um amante ocasional, como voc� disse. Mas quero que v� dormir em sua casa. N�o quero acordar de manh� com voc� aqui, antes de eu poder recompor meus m�sculos e meu rosto. E tamb�m n�o seria bom voc� sair espalhando pelo povoado o que fazemos juntos.</p><p>� Acha que eu faria isso? � disse Mikael.</p><p>� Sobretudo n�o quero que Isabella saiba. � uma mulher muito maldosa.</p><p>� E sua vizinha mais pr�xima... eu sei, j� nos encontramos.</p><p>� Ainda bem que da casa dela n�o se v� minha porta de entrada. Seja discreto, Mikael, por favor.</p><p>� Serei.</p><p>� Obrigada. Voc� bebe?</p><p>� �s vezes.</p><p>� Estou com vontade de beber um gim-t�nica. Que tal?</p><p>� �timo.</p><p>Ela se envolveu no len�ol e desceu a escada. Mikael aproveitou para ir ao banheiro e lavar o rosto. Nu, ele observava os livros na estante quando ela voltou com uma garrafa de �gua gelada e dois gins-t�nicas com lim�o. Fizeram um brinde.</p><p>� Por que veio � minha casa? � ela perguntou.</p><p>� Por nada de especial. Simplesmente eu...</p><p>� Estava na sua casa lendo o inqu�rito de Henrik e depois vem me ver. N�o � preciso ser muito inteligente para perceber o que o atormenta.</p><p>� Voc� leu o inqu�rito?</p><p>� Em parte. Passei toda a minha vida adulta �s voltas com esse inqu�rito. N�o se pode conviver com Henrik sem ser contaminado pelo mist�rio Harriet.</p><p>� A verdade � que � um problema fascinante. Quero dizer, � a vers�o insular do mist�rio do quarto fechado. E nada no inqu�rito me parece seguir a l�gica normal. Todas as quest�es continuam sem resposta, todos os ind�cios levam a um beco sem sa�da.</p><p>� Humm, essas coisas tornam as pessoas obsessivas.</p><p>� Voc� estava na ilha naquele dia.</p><p>� Sim. Estava aqui e presenciei os acontecimentos. Na �poca eu estudava em Estocolmo. Preferia ter ficado em casa naquele fim de semana.</p><p>� Como era Harriet de fato? As pessoas parecem t�-la interpretado de tantas maneiras diferentes.</p><p>� � <emphasis>off the record</emphasis> ou...?</p><p>� <emphasis>Off the record.</emphasis></p><p>� N�o fa�o a menor id�ia do que se passava na cabe�a de Harriet. Suponho que voc� queira falar do �ltimo ano. Num dia era uma crente, no dia seguinte maquiava-se como uma puta e ia � escola com a blusa mais colante que encontrava. N�o � preciso ser psic�logo para perceber que estava profundamente infeliz. Mas eu n�o vivia aqui, como eu disse; apenas ouvia as hist�rias.</p><p>� O que desencadeou esses problemas?</p><p>� Gottfried e Isabella, sem d�vida. Que desgra�a de casamento! Levianos e sempre dispostos a brigar. N�o fisicamente. Gottfried n�o era do tipo que bate em mulher, e ele at� tinha medo de Isabella. No come�o dos anos 1960, instalou-se de modo mais ou menos definitivo em sua cabana na extremidade da ilha, onde Isabella nunca punha os p�s. De tempos em tempos surgia aqui na aldeia parecendo um mendigo. Depois voltava ao normal e vestia-se com cuidado, tentando retomar seu trabalho.</p><p>� N�o havia ningu�m disposto a ajudar Harriet?</p><p>� Henrik, claro. Ela acabou vindo morar na casa dele. Mas n�o esque�a que ele andava ocupado em desempenhar seu papel de grande industrial. Geralmente estava viajando a neg�cios para algum lugar e n�o tinha muito tempo de se dedicar a Harriet e a Martin. N�o acompanhei bem essa hist�ria, pois morei primeiro em Uppsala e depois em Estocolmo � e tamb�m n�o tive uma juventude muito f�cil com Harald como pai, posso lhe assegurar. Mas aos poucos entendi que o problema vinha do fato de Harriet nunca se abrir com ningu�m. Ao contr�rio, ela procurava manter as apar�ncias e fingir que eles eram uma fam�lia feliz.</p><p>� Nega��o sistem�tica.</p><p>� Exatamente. Mas ela mudou depois que o pai se afogou. N�o podia mais fingir que estava tudo bem. At� ent�o ela fora... n�o sei como dizer, superdotada e precoce, mas de modo geral uma adolescente bem comum. No �ltimo ano, continuou sendo de uma intelig�ncia brilhante, tirava as melhores notas do col�gio, mas era como se n�o tivesse uma verdadeira personalidade.</p><p>� Como seu pai se afogou?</p><p>� Gottfried? Da maneira mais banal poss�vel. Caiu de um barco que estava pr�ximo da sua cabana. A braguilha estava aberta e verificou-se uma taxa de �lcool extremamente alta no sangue, d� pra imaginar o que aconteceu. Martin foi quem o encontrou.</p><p>� Eu n�o sabia.</p><p>� � engra�ado. Martin evoluiu, tornou-se uma pessoa saud�vel. Se me perguntassem isto trinta e cinco anos atr�s, eu teria dito que, de todos na fam�lia, ele � que precisava de um psic�logo.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Harriet n�o era a �nica a sofrer com a situa��o. Durante anos Martin foi t�o taciturno e fechado que podia ter sido apelidado de urso. As duas crian�as viviam momentos penosos. Mas n�o era muito diferente com todos n�s. Eu tinha problemas com meu pai, voc� deve ter percebido que ele � louco de dar n�. Minha irm� Anita tinha os mesmos problemas, assim como Alexander, meu primo. Era duro ser jovem na fam�lia Vanger.</p><p>� O que aconteceu com sua irm�?</p><p>� Anita mora em Londres. Foi para l� nos anos 1970, a fim de trabalhar numa ag�ncia de viagens sueca, e l� ficou. Viveu com um sujeito que ela nunca quis apresentar � fam�lia e de quem depois se separou. Hoje � chefe de escala na British Airways. Nos damos bem, eu e ela, mas temos muito pouco contato, nos vemos mais ou menos de dois em dois anos. Ela nunca vem a Hedestad.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Nosso pai � louco. Basta como explica��o?</p><p>� Mas voc� ficou aqui.</p><p>� Eu e Birger, meu irm�o.</p><p>� O pol�tico.</p><p>� Est� tirando um sarro? Birger � mais velho que Anita e eu. Nunca nos entendemos muito bem. Ele se considera um pol�tico muito importante com um futuro no Parlamento e talvez um cargo de ministro, se os conservadores ganharem. Na realidade, � um vereador med�ocre num povoado perdido, o que deveria representar ao mesmo tempo o auge e o fim de sua carreira.</p><p>� Uma coisa que me fascina na fam�lia Vanger � o �dio rec�proco de todos os lados.</p><p>� N�o � bem assim. Gosto muito de Martin e de Henrik. E sempre me dei bem com minha irm�, mesmo nos vendo pouco. Detesto Isabella, n�o tenho muita simpatia por Alexander. E n�o falo com meu pai. Eu diria que � mais ou menos meio a meio na fam�lia. Mas sei o que voc� quer dizer. Entenda assim: quando se � da fam�lia Vanger, aprende-se muito cedo a falar �s claras. Costumamos dizer o que pensamos.</p><p>� Sim, percebi que voc� foi muito franca. � Mikael estendeu a m�o e tocou os seios dela. � Bastaram quinze minutos na sua casa para voc� pular em cima de mim.</p><p>� Para ser bem franca, j� na primeira vez que o vi eu me perguntei como voc� seria na cama. E me pareceu muito normal eu querer fazer o teste.</p><p>Pela primeira vez na vida, Lisbeth Salander sentiu uma necessidade premente de pedir um conselho. No entanto havia um problema: para se aconselhar com algu�m, ela seria obrigada a confiar na pessoa, o que significava ser obrigada a se entregar e a contar seus segredos. Com quem poderia falar? N�o era muito boa em se relacionar com as pessoas.</p><p>Quando passou mentalmente em revista seu caderninho de endere�os, Lisbeth Salander contou n�o mais que dez pessoas que, de um modo ou de outro, pertenciam a seu c�rculo de conhecidos. Uma estimativa generosa, ela mesma admitiu.</p><p>Podia falar com Praga, um ponto mais ou menos fixo em sua exist�ncia. Mas n�o se tratava de um amigo, e ele seria o �ltimo a poder ajud�-la a resolver seus problemas. N�o era uma boa solu��o.</p><p>Na verdade, a vida sexual de Lisbeth Salander n�o era t�o modesta como dera a entender ao dr. Bjurman. E, na maioria das vezes, seus relacionamentos se desenrolaram de acordo com suas condi��es e por iniciativa sua. Desde os quinze anos, teve uns cinquenta parceiros, ou seja, algo como cinco por ano, o que era normal para uma mulher solteira da idade dela que considerava o sexo como um passatempo.</p><p>Mas ela conheceu a maioria desses parceiros ocasionais num per�odo de dois anos, na �poca tumultuosa do fim da adolesc�ncia. Lisbeth Salander viu-se ent�o numa encruzilhada, sem controle real sobre sua vida, e seu futuro poderia ter se transformado numa nova s�rie de ocorr�ncias relacionadas com drogas, �lcool e interna��o em diferentes institui��es. Depois dos vinte anos e de seu in�cio na Milton Security, ela se acalmara consideravelmente e julgava estar no comando de sua vida.</p><p>N�o se sentia mais obrigada a retribuir favores a quem lhe tivesse pago tr�s cervejas num bar, nem a menor obriga��o de acompanhar um b�bado, cujo nome mal lembrava, at� a casa dele. No �ltimo ano, teve um �nico parceiro regular, o que dificilmente se podia qualificar de atitude desavergonhada, como insinuavam os documentos m�dicos do final de sua adolesc�ncia.</p><p>Fora isso, para ela o sexo estava ligado ao fato de pertencer a um grupo de garotas do qual na realidade n�o fazia parte, mas que a aceitara por ser amiga de Cilla Nor�n. Ela conhecera Cilia no final da adolesc�ncia, quando, a pedido insistente de Holger Palmgren, tentou obter o certificado de conclus�o do segundo grau em um curso supletivo. Cilla tinha cabelos vermelhos com mechas escuras, vestia cal�a de couro preto, tinha um piercing no nariz e um cinto com rebites, como Lisbeth. Elas se olharam com desconfian�a na primeira aula.</p><p>Por uma raz�o que Lisbeth n�o conseguia entender, come�aram a se ver. Lisbeth n�o era das que logo faziam amizade, sobretudo naquela �poca, mas Cilla ignorou seu sil�ncio e a levou a um bar. Por interm�dio dela, Lisbeth tornou-se membro das Evil Fingers, originalmente um grupo da periferia composto de quatro adolescentes de Enskede que gostavam de <emphasis>hard rock</emphasis> e que, dez anos depois, formavam um grupo consider�vel de amigas que se reuniam no Moulin, ter�as-feiras � noite, para falar mal dos rapazes, conversar sobre feminismo, ci�ncias ocultas, m�sica e pol�tica, e beber quantidades enormes de cerveja. Elas, de fato, faziam jus ao nome.</p><p>Salander gravitava na periferia desse grupo e raramente dava sua contribui��o �s discuss�es, mas era aceita do jeito que era, podia ir e vir � vontade e ficar a noite toda com um copo de chope na m�o sem dizer nada. Tamb�m era convidada para os anivers�rios de uma ou outra, Natal e festas do g�nero, embora quase nunca comparecesse.</p><p>Durante os cinco anos em que frequentou as Evil Fingers, as meninas sofreram transforma��es. As cores dos cabelos foram voltando ao normal e as roupas agora provinham mais das lojas H&amp;M que dos brech�s do Ex�rcito da Salva��o. Todas ou estudavam ou trabalhavam, e uma deu � luz um menino. Lisbeth tinha a impress�o de ser a �nica que n�o mudara em nada, o que talvez significasse que patinava no mesmo lugar.</p><p>Mas elas se divertiam sempre que se encontravam. Se havia um lugar ao qual sentia uma esp�cie de pertencimento, era na companhia das Evil Fingers e, por extens�o, na companhia dos rapazes que constitu�am o c�rculo de amigos do grupo.</p><p>As Evil Fingers a escutariam e se mobilizariam a seu favor. Mas elas ignoravam que Lisbeth Salander estava submetida a uma decis�o da Justi�a que a declarava juridicamente irrespons�vel. N�o queria que elas tamb�m passassem a olh�-la torto. <emphasis>N�o era uma boa alternativa.</emphasis></p><p>Quanto ao resto, nem um �nico colega de classe de antigamente figurava no seu caderninho de endere�os. Ela n�o dispunha de nenhuma rede de apoio ou de contatos pol�ticos. Haveria algu�m a quem pudesse contar seus problemas com Nils Bjurman?</p><p>Sim, talvez houvesse algu�m. Ela refletiu demoradamente sobre a id�ia de se abrir com Dragan Armanskij, de procur�-lo para expor sua situa��o. Ele dissera que se ela precisasse de qualquer tipo de ajuda n�o devia hesitar em procur�-lo. Ela estava convencida de sua sinceridade.</p><p>Armanskij tamb�m a tocara uma vez, mas fora um gesto gentil, sem m�s inten��es, n�o tivera nada de demonstra��o de for�a. No entanto ela relutava em lhe pedir ajuda. Ele era seu chefe, e isso a tornaria devedora. Lisbeth Salander sorriu ao pensar em como seria sua vida se tivesse Armanskij como tutor em vez de Bjurman. A id�ia n�o era desagrad�vel, mas Armanskij certamente levaria t�o a s�rio a miss�o que a sufocaria com sua solicitude. <emphasis>Era... humm... uma alternativa poss�vel.</emphasis></p><p>Embora estivesse perfeitamente a par do papel do SOS-Mulheres, nunca lhe passou pela cabe�a utilizar esse recurso. Para ela, esses centros de apoio destinavam-se �s <emphasis>v�timas</emphasis> e ela nunca tinha se considerada como tal. Portanto, a �nica boa alternativa que lhe restava era agir como sempre agira � resolver ela mesma seus problemas. <emphasis>Essa, sim, era a boa solu��o.</emphasis></p><p>E uma solu��o que nada de bom prometia ao dr. Nils Bjurman.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>13.� QUINTA-FEIRA 20 DE FEVEREIRO �SEXTA-FEIRA 7 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Na �ltima semana de fevereiro, Lisbeth Salander confiou a si mesma uma miss�o, que tinha o dr. Nils Bjurman, nascido em 1950, como objeto principal. Trabalhou cerca de dezesseis horas por dia e fez uma investiga��o mais minuciosa do que nunca. Utilizou todos os arquivos e todos os documentos oficiais que conseguiu encontrar. Vasculhou as rela��es familiares e pessoais, verificou as contas e reconstituiu em detalhe a carreira e os trabalhos realizados pelo advogado.</p><p>O resultado foi desanimador.</p><p>Ele era jurista, membro da Ordem dos Advogados e autor de uma tese verborr�gica e especialmente tediosa sobre direito comercial. Sua reputa��o era impec�vel. O dr. Bjurman nunca recebera uma cr�tica. Uma �nica vez foi chamado � Ordem dos Advogados � teria intermediado neg�cios imobili�rios escusos dez anos antes �, mas comprovou sua inoc�ncia e o caso foi arquivado. Suas contas estavam em ordem; Bjurman era rico, dispunha de pelo menos dez milh�es de coroas. Pagava mais impostos que o necess�rio, era membro do Greenpeace e da Anistia Internacional, e fazia doa��es regulares � Funda��o para o Cora��o e os Pulm�es. Seu nome raramente aparecia na m�dia, mas v�rias vezes assinou peti��es a favor de prisioneiros pol�ticos do Terceiro Mundo. Morava num apartamento de cinco quartos da Upplandsgatan, perto da Odenplan, e era secret�rio do conselho de cond�minos de seu pr�dio. Divorciado, sem filhos.</p><p>Lisbeth Salander dirigiu o foco para sua ex-mulher, chamada Elena. Nascera na Pol�nia, mas sempre vivera na Su�cia. Trabalhava num centro de reeduca��o e voltara a se casar, aparentemente um casamento melhor, com um colega de Bjurman. Nada a investigar desse lado. O casamento durara catorze anos e o div�rcio fora amig�vel.</p><p>Bjurman se ocupava regularmente do controle de jovens com problemas na Justi�a. Fora curador de quatro menores de idade antes de ser nomeado tutor de Lisbeth Salander. Cada uma dessas miss�es terminou por simples decis�o do tribunal no dia em que alcan�aram a maioridade. Um desses clientes ainda tinha Bjurman como advogado, mas tamb�m a� n�o parecia haver nada de importante a descobrir. Se Bjurman montara um sistema para tirar proveito de seus protegidos, pelo menos nada aparecia na superf�cie, e, por mais que Lisbeth pesquisasse em profundidade, tamb�m nada encontrou de errado. Os quatro tinham vidas regulares com um namorado ou namorada, emprego, casa e um monte de cart�es de cr�dito.</p><p>Ela entrou em contato com os quatro, apresentando-se como secret�ria de assuntos sociais encarregada de pesquisar jovens que no passado estiveram sob regime de curadoria, para saber como estava a vida deles comparada � de outros jovens. <emphasis>Sim, com certeza, � uma pesquisa completamente sigilosa.</emphasis> Montou um question�rio com dez itens. V�rias das perguntas eram formuladas de modo a incitar os interlocutores a dar sua opini�o sobre o funcionamento da curadoria � se tivessem algo a dizer sobre Bjurman, isso certamente teria transparecido em pelo menos um dos entrevistados. Mas ningu�m tinha nada de negativo a declarar.</p><p>Terminada a pesquisa, Salander enfiou toda a documenta��o num saco de papel de supermercado e o p�s, com um monte de jornais velhos, na entrada de seu pr�dio. O dr. Bjurman era, aparentemente, irreproch�vel. Nada havia em seu passado que Lisbeth pudesse usar como alavanca. No entanto, e ela tinha motivos para pensar isto, o cara n�o passava de um canalha est�pido e nojento. Ainda assim, n�o encontrava nada que pudesse utilizar como prova.</p><p>Chegou o momento de considerar outras possibilidades. Depois de passar em revista todas as an�lises, restava uma solu��o relativamente tentadora � ao menos muito realista. O mais simples seria Bjurman desaparecer de vez da sua vida. Um infarto fulminante. Fim dos problemas. A quest�o � que mesmo sujeitos viciosos de cinquenta e cinco anos n�o estavam t�o vulner�veis a um infarto.</p><p>Mas se podia dar um jeito nisso.</p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist conduzia seu relacionamento com Cecilia Vanger na maior discri��o. Ela estabelecera tr�s condi��es: n�o queria que ningu�m soubesse que eles se encontravam. Queria que ele fosse � casa dela somente quando o chamasse pelo telefone e quando ela estivesse de bom humor. E queria que ele fosse embora antes da meia-noite.</p><p>A atitude de Cecilia deixava Mikael perplexo. Quando a via casualmente no Caf� Susanne, ela se mostrava am�vel, por�m fria e distante. Mas, quando se encontravam em seu quarto, ela ardia de paix�o.</p><p>Mikael n�o tinha nenhum motivo especial para revolver a vida particular dela, mas fora contratado para investigar a de toda a fam�lia Vanger. Sentia-se dividido e ao mesmo tempo curioso. Um dia, perguntou a Henrik Vanger com quem ela se casara e o que acontecera. Fez a pergunta quando eles falavam do passado de Alexander, de Birger e de todos os outros membros da fam�lia presentes na ilha no dia em que Harriet desapareceu.</p><p>� Cecilia? Pelo que sei, ela n�o se relacionava com Harriet.</p><p>� Fale-me do passado dela.</p><p>� Veio morar aqui depois de seus estudos e come�ou a trabalhar como professora. Conheceu um certo Jerry Karlsson, que infelizmente trabalhava no grupo Vanger. Casaram-se. Pensei que fosse um casamento feliz � ao menos no come�o. Mas depois de alguns anos percebi que as coisas n�o andavam bem. Ele batia nela. A hist�ria de sempre: ele batia, mas ela concedia-lhe circunst�ncias atenuantes. At� que um dia ele bateu demais. Ela ficou gravemente ferida e precisou ser hospitalizada. Falei com ela e ofereci-lhe ajuda. Ela veio morar na ilha e desde ent�o se recusa a ver o marido. Encarreguei-me de despedi-lo.</p><p>� Mas eles continuam casados.</p><p>� S� no papel. N�o sei por que ela n�o pediu o div�rcio. Como n�o quis se casar de novo, nunca houve problema.</p><p>� Esse Jerry Karlsson tinha alguma rela��o...</p><p>� ... com Harriet? N�o, ele n�o morava em Hedestad em 1966 e ainda n�o havia entrado para o grupo.</p><p>� Certo.</p><p>� Mikael, eu gosto de Cecilia. Ela pode ser complicada, mas � uma das raras pessoas boas da minha fam�lia.</p><empty-line/><p>T�o sistem�tica como um perfeito burocrata, Lisbeth Salander dedicou uma semana planejando a morte do dr. Nils Bjurman. Considerou � e rejeitou � diferentes m�todos, at� dispor de um n�mero de roteiros realistas entre os quais escolher. <emphasis>N�o agir impulsivamente.</emphasis> Seu primeiro pensamento foi tentar forjar um acidente, mas, refletindo bem, logo concluiu que pouco importava que falassem de homic�dio.</p><p>Apenas uma condi��o era necess�ria. Bjurman devia morrer sem que jamais a associassem com o crime. Suspeitava que cedo ou tarde, quando os tiras examinassem as atividades de Bjurman, seu nome apareceria num inqu�rito policial. Mas ela era somente um gr�o de areia numa gal�xia de clientes atuais e antigos, encontrara-se com ele raras vezes e, a menos que Bjurman tivesse anotado na agenda que a for�ara a chupar seu pinto � o que era bastante improv�vel �, n�o tinha raz�o para assassin�-lo. N�o haveria a menor prova de que a morte dele tinha alguma rela��o com seus clientes; poderiam pensar em ex-namoradas, parentes, conhecidos e um monte de outras pessoas. Poderiam mesmo classificar o caso como <emphasis>viol�ncia casual,</emphasis> quando assassino e v�tima n�o se conhecem.</p><p>Mas digamos que o nome dela aparecesse. E a�? Ela seria apenas uma pobre menina sob tutela, amparada por documentos que provavam que era uma retardada mental. O ideal, portanto, � que a morte de Bjurman se desse num esquema bastante sofisticado, para que n�o fosse plaus�vel pensar que uma retardada mental pudesse ser a autora do crime.</p><p>De sa�da rejeitou a solu��o arma de fogo. N�o teria muitos problemas de ordem pr�tica para obter uma, mas os tiras sabem como descobrir a origem das balas.</p><p>Considerou uma arma branca; embora uma faca pudesse ser comprada em qualquer bazar, rejeitou tamb�m essa solu��o. Mesmo que agisse com presteza e lhe cravasse a faca nas costas, nada garantia que ele fosse morrer em seguida e sem ru�do, nem mesmo que morreria. Pior: poderia haver luta, o que chamaria a aten��o, e suas roupas manchadas de sangue poderiam incrimin�-la.</p><p>Considerou tamb�m uma bomba, coisa, por�m, ainda mais complicada. Preparar uma bomba n�o seria problema � a internet est� cheia de manuais que ensinam a fabricar os objetos mais mort�feros. Dif�cil seria achar um jeito de explodir o canalha sem atingir tamb�m um inocente. Sem contar, mais uma vez, que nada garantiria a elimina��o do canalha.</p><p>O telefone tocou.</p><p>� Oi, Lisbeth, � Dragan. Tenho um trabalhinho para voc�.</p><p>� Estou sem tempo.</p><p>� � importante.</p><p>� Estou ocupada. E desligou.</p><p>Por fim, decidiu-se por uma solu��o inesperada � o veneno. A escolha a surpreendeu, mas, pensando bem, era perfeita.</p><p>Lisbeth Salander dedicou alguns dias e noites a pesquisar na internet um veneno adequado. A escolha era ampla. Primeiro aparecia o veneno mais mortal conhecido pela ci�ncia, considerando todas as categorias � o �cido cian�drico, tamb�m chamado de �cido pr�ssico.</p><p>O �cido cian�drico era utilizado na ind�stria qu�mica, entre outras, como componente de algumas tintas. Alguns miligramas bastariam para liquidar algu�m; um litro despejado no reservat�rio de �gua de uma cidade de porte m�dio poderia destru�-la completamente.</p><p>Por raz�es evidentes, tal subst�ncia mortal sofria um controle rigoroso. Mas se um fan�tico com projetos de assassinato pol�tico n�o podia entrar na farm�cia mais pr�xima e pedir dez mililitros de �cido cian�drico, era poss�vel fabric�-lo em quantidades quase ilimitadas numa cozinha qualquer. Um modesto equipamento de laborat�rio, dispon�vel num jogo infantil como O <emphasis>pequeno qu�mico,</emphasis> custa duzentas coroas e n�o requer mais que alguns ingredientes, que podem ser extra�dos de produtos dom�sticos comuns. A receita estava dispon�vel na internet.</p><p>Havia tamb�m a nicotina. De um �nico ma�o de cigarros, Lisbeth poderia extrair miligramas suficientes da subst�ncia para preparar um xarope n�o muito viscoso. Melhor ainda, embora um pouco mais dif�cil de fabricar: o sulfato de nicotina, que tinha a vantagem de ser absorvido pela pele; bastaria p�r luvas de borracha, encher uma pistola d'agua e dispar�-la no rosto do dr. Bjurman. Em vinte segundos ele perderia a consci�ncia e em alguns minutos estaria morto.</p><p>At� ent�o Lisbeth Salander n�o imaginava que tantos produtos dom�sticos perfeitamente comuns, encontrados em drogarias, pudessem se transformar em armas mortais. Examinando a fundo o assunto durante alguns dias, convenceu-se de que n�o haveria obst�culos t�cnicos para acertar as contas com seu tutor.</p><p>S� havia dois problemas: a morte de Bjurman n�o lhe devolveria o controle de sua vida e n�o havia garantia de que o sucessor de Bjurman n�o fosse dez vezes pior. <emphasis>An�lise das consequ�ncias.</emphasis></p><p>O que ela precisava era descobrir um meio de controlar seu tutor e desse modo controlar sua pr�pria situa��o. Estendida no velho sof� da sala, passou a noite reconsiderando mentalmente as possibilidades. Por volta das dez, havia eliminado os projetos de assassinato por envenenamento e elaborado um plano B.</p><p>O plano n�o era atraente e compreendia deixar Bjurman atac�-la mais uma vez. Mas, se chegasse at� o fim, ganharia a parada.</p><p>Pelo menos � o que acreditava.</p><empty-line/><p>Nos �ltimos dias de fevereiro, a temporada de Mikael em Hedeby j� adquirira uma rotina. Levantava-se �s nove todos os dias, tomava o caf�-da-manh� e trabalhava at� meio-dia, lendo e reunindo novos dados. Depois dava uma caminhada de uma hora, qualquer que fosse o tempo. A tarde retomava o trabalho, em casa ou no Caf� Susanne, aprofundando o que lera de manh� ou escrevendo passagens do que haveria de ser a biografia de Henrik. Estabeleceu seu tempo livre entre tr�s e seis da tarde, para fazer compras, lavar a roupa, ir a Hedestad e cuidar de outros assuntos. Por volta das sete da noite, passava na casa de Henrik e lhe expunha os pontos de interroga��o que haviam surgido durante a jornada. �s dez j� estava em casa e lia at� uma ou duas da manh�. Examinava sistematicamente os documentos fornecidos por Henrik.</p><p>Descobriu com surpresa que o trabalho de reda��o da biografia de Henrik avan�ava rapidamente. J� dispunha, num primeiro jato, de cerca de cento e vinte p�ginas da cr�nica familiar � o vasto per�odo desde o desembarque de Jean-Baptiste Bernadotte na Su�cia at� por volta dos anos 1920. A partir da� precisaria avan�ar mais lentamente e come�ar a pesar suas palavras.</p><p>Na biblioteca de Hedestad, conseguiu livros que tratavam do nazismo nessa �poca, entre outros a tese de doutorado de Helene L��w A <emphasis>su�stica e o feixe dos Wasa.</emphasis> Rascunhou mais quarenta p�ginas sobre Henrik e seus irm�os, tendo Henrik como personagem principal. Tinha uma lista extensa de pesquisas a fazer sobre as empresas do come�o do s�culo, sua estrutura e seu funcionamento, e descobriu que a fam�lia Vanger esteve intimamente envolvida com o imp�rio de Ivar Kreuger � mais uma hist�ria paralela para investigar. Calculou que ao todo faltava escrever umas trezentas p�ginas. Planejara apresentar um primeiro esbo�o a Henrik no come�o de setembro e previa utilizar o outono para dar acabamento ao texto.</p><p>Em contrapartida, Mikael n�o avan�ou um mil�metro na investiga��o sobre Harriet. Por mais que lesse e refletisse sobre detalhes dos numerosos documentos, n�o encontrou um s� que fizesse as coisas andarem.</p><p>Num s�bado � noite, no fim de fevereiro, teve uma longa conversa com Henrik, na qual prestou contas de seus inexistentes progressos. Pacientemente, o velho o escutou enumerar todos os becos sem sa�da que visitara.</p><p>� Ou seja, Henrik, n�o encontrei nada no inqu�rito que j� n�o tenha sido explorado a fundo.</p><p>� Entendo o que quer dizer. Tamb�m refleti sobre isso at� ficar doente. E ao mesmo tempo tenho certeza de que deixamos escapar alguma coisa. N�o existe crime perfeito.</p><p>� Mas nem somos capazes de afirmar que houve realmente um crime. Henrik Vanger suspirou e fez um gesto vago com a m�o.</p><p>� Continue � disse. � V� at� o fim.</p><p>� N�o vai adiantar nada.</p><p>� Talvez. Mas n�o desista. Mikael suspirou.</p><p>� Os n�meros de telefone � acabou dizendo.</p><p>� Sim.</p><p>� Eles significam necessariamente alguma coisa.</p><p>� Sim.</p><p>� Foram anotados com alguma inten��o.</p><p>� Sim.</p><p>� Mas n�o sabemos interpret�-los.</p><p>� N�o.</p><p>� Ou os interpretamos mal.</p><p>� Exatamente.</p><p>� N�o s�o n�meros de telefone. Querem dizer alguma outra coisa.</p><p>� Talvez.</p><p>Mikael suspirou novamente e voltou para casa a fim de continuar a ler.</p><empty-line/><p>O dr. Nils Bjurman deu um suspiro de al�vio quando Lisbeth Salander lhe telefonou para explicar que precisava de mais dinheiro. Ela n�o comparecera ao �ltimo encontro marcado alegando que precisava trabalhar, e uma pequena inquieta��o come�ara a perturb�-lo. Estaria lidando com uma crian�a-problema intrat�vel? Ao cancelar o encontro marcado, ela ficara impedida de receber a mesada e cedo ou tarde seria obrigada a entrar em contato. Ele se preocupava tamb�m com a possibilidade de ela ter aberto a boca para algu�m.</p><p>Seu breve telefonema para dizer que precisava de dinheiro confirmou de maneira satisfat�ria que a situa��o estava sob controle. Mas essa menina precisava ser domada � concluiu Nils Bjurman. Ia ter que aprender quem � que decidia, somente ent�o poderia haver uma rela��o mais construtiva. Foi o que o levou a indicar, desta vez, que se vissem em sua casa, perto da Odenplan, e n�o no escrit�rio. Ao ouvir essa exig�ncia, Lisbeth Salander ficou um bom momento calada na outra ponta da linha � <emphasis>essa tonta tem dificuldade de entender</emphasis> � antes de aceitar.</p><p>O plano de Lisbeth era se encontrar com ele no escrit�rio, como da outra vez. Agora seria obrigada a v�-lo em territ�rio desconhecido. O encontro foi marcado para sexta-feira � noite. Ele lhe passou a senha de entrada e �s oito e meia ela tocou a campainha, meia hora depois do combinado. Foi o tempo que ela precisou para, na obscuridade do <emphasis>hall</emphasis> do edif�cio, revisar uma �ltima vez seu plano, considerar alternativas, blindar-se e reunir a coragem necess�ria.</p><empty-line/><p>Por volta das oito da noite, Mikael desligou o computador e agasalhou-se para sair. Deixou a luz acesa na saleta de trabalho. O c�u estava estrelado e a temperatura em torno de zero grau. Subiu a encosta com passos ligeiros, passou em frente � casa de Henrik Vanger, na estrada em dire��o a �stergarden. Logo depois da casa de Henrik, pegou uma bifurca��o � esquerda e seguiu por um caminho que costeava a praia. As b�ias luminosas piscavam na �gua e as luzes de Hedestad cintilavam na noite. Era bonito. Ele tinha necessidade de ar fresco, mas queria sobretudo evitar os olhos inquisidores de Isabella Vanger. Junto � casa de Martin Vanger, voltou para a estrada e chegou � casa de Cecilia pouco depois das oito e meia. Logo subiram para o quarto dela.</p><p>Viam-se uma ou duas vezes por semana. Cecilia tornara-se n�o apenas sua amante naquele fim de mundo mas tamb�m a pessoa com quem come�ava a se abrir. Discutia muito mais sobre Harriet Vanger com ela do que com Henrik.</p><empty-line/><p>O plano come�ou a fracassar quase imediatamente.</p><p>O dr. Nils Bjurman vestia um robe ao abrir a porta do apartamento. Ficara nervoso com o atraso dela e fez-lhe um sinal para que entrasse. Ela vestia jeans preto, uma camiseta preta e sua indefect�vel jaqueta de couro. Botas pretas, uma pequena mochila nas costas, com al�as a tiracolo sobre o peito.</p><p>� N�o sabe ler as horas? � perguntou Bjurman, irritado.</p><p>Salander n�o disse nada. Olhou ao redor. O apartamento era o que havia imaginado depois de examinar a planta nos arquivos municipais. Os m�veis eram de madeira clara.</p><p>� Entre � disse Bjurman num tom mais am�vel. P�s o bra�o sobre os ombros dela e a guiou atrav�s de um pequeno vest�bulo. <emphasis>N�o vale a pena perder tempo com conversa.</emphasis> Abriu a porta de um quarto. N�o havia nenhuma d�vida sobre os favores que esperava de Lisbeth Salander.</p><p>Ela deu uma r�pida olhada na pe�a. Quarto de solteiro. Cama de casal com uma cabeceira alta de a�o inox. Uma c�moda tamb�m fazia �s vezes de mesa-de-cabeceira. Luzes indiretas. Um espelho ao longo da parede. Uma poltrona de vime e uma mesa baixa no canto, junto � porta. Ele pegou sua m�o e a conduziu at� a cama.</p><p>� Conte-me por que precisa de dinheiro desta vez. Mais equipamentos para o computador?</p><p>� Para comprar comida � ela respondeu.</p><p>� Claro. Eu sou mesmo um est�pido. Mas voc� faltou ao nosso �ltimo encontro. � P�s a m�o sob o queixo dela e ergueu-lhe o rosto para que seus olhos se encontrassem. � Como vai? Ela encolheu os ombros.</p><p>� Refletiu sobre o que falei outro dia?</p><p>� O qu�?</p><p>� Lisbeth, n�o se fa�a de mais boba ainda. Quero que voc� e eu sejamos bons amigos e que nos ajudemos.</p><p>Ela n�o respondeu. O dr. Bjurman resistiu ao impulso de dar-lhe uma bofetada para despert�-la.</p><p>� Gostou da brincadeira de gente adulta que fizemos da outra vez?</p><p>� N�o.</p><p>Ele ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Lisbeth, n�o seja idiota.</p><p>� Preciso de dinheiro para comprar comida.</p><p>� � exatamente do que falamos na �ltima vez. Basta ser gentil comigo que serei gentil com voc�. Mas se insistir em me contrariar... � Apertou-lhe com mais for�a o queixo e ela se soltou.</p><p>� Quero meu dinheiro. O que est� querendo que eu fa�a?</p><p>� Sabe muito bem o que eu quero. � Pegou-a pelo ombro e jogou-a sobre a cama.</p><p>� Espere � disse r�pido Lisbeth.</p><p>Dirigiu a ele um olhar resignado, depois balan�ou secamente a cabe�a. Tirou a jaqueta de couro e olhou ao redor. Jogou a jaqueta em cima da poltrona de vime, p�s a mochila em cima da mesinha e deu alguns passos hesitantes em dire��o � cama. Ent�o se deteve, tomada de uma apreens�o s�bita. Bjurman se aproximou.</p><p>� Espere � disse ela outra vez, como se tentasse faz�-lo ser razo�vel. � N�o quero ser obrigada a te chupar toda vez que preciso de dinheiro.</p><p>O rosto de Bjurman mudou de express�o. De repente, esbofeteou-a com a palma da m�o. Salander arregalou os olhos, mas, antes que tivesse tempo de reagir, ele a pegou pelo ombro e a p�s de bru�os na cama. Ela ficou sem a��o diante dessa viol�ncia repentina. Como tentasse se virar, ele a comprimiu contra a cama e sentou-se sobre ela com os joelhos abertos.</p><p>Assim como da outra vez, ela foi uma presa f�cil para ele do ponto de vista puramente f�sico. Sua �nica possibilidade de resistir seria enfiar-lhe as unhas nos olhos ou usar uma arma. Mas o plano que previra fracassara. <emphasis>Merda,</emphasis> pensou Lisbeth Salander quando ele lhe arrancou a camiseta. Com uma lucidez aterradora, se deu conta de como havia sido ing�nua.</p><p>Ouviu-o abrir uma gaveta da c�moda ao lado da cama, depois um ru�do de metal. De in�cio n�o entendeu o que estava acontecendo, at� ver a argola fechar-se em volta de seu punho. Ele ergueu o bra�o dela, passou as algemas em volta de um dos pilares da cabeceira da cama e prendeu sua outra m�o. Num abrir e fechar de olhos, arrancou-lhe as botas e o jeans. Por fim retirou-lhe a calcinha, que brandiu no ar.</p><p>� Vai aprender a confiar em mim, Lisbeth � disse. � Vou ensinar a voc� as regras desse jogo de adultos. Se n�o cooperar comigo, ser� punida. Se for gentil, seremos amigos.</p><p>E sentou-se novamente de joelhos abertos em cima dela.</p><p>� Ent�o n�o gosta de sexo anal... � falou.</p><p>Lisbeth Salander abriu a boca para gritar. Ele a pegou pelos cabelos e enfiou-lhe a calcinha na boca. Ela sentiu que ele punha alguma coisa em volta de seus tornozelos, que abria suas pernas e as atava de modo a deix�-la totalmente vulner�vel. Ela o ouvia andar pelo c�modo, mas n�o podia v�-lo. Os minutos passaram. Ela mal conseguia respirar. Por fim sentiu uma dor horr�vel quando ele brutalmente lhe enfiou alguma coisa no �nus.</p><empty-line/><p>A regra de Cecilia Vanger era que Mikael n�o devia ficar para dormir. Pouco depois das duas da manh�, ele tornou a se vestir, enquanto ela permanecia nua na cama sorrindo-lhe carinhosamente.</p><p>� Voc� me agrada, Mikael. Gosto da sua companhia.</p><p>� Voc� tamb�m me agrada.</p><p>Ela o puxou de volta para a cama e tirou-lhe a camisa que ele acabara de vestir. Mikael ficou mais uma hora.</p><p>Quando por fim Mikael passou diante da casa de Harald Vanger, teve a n�tida impress�o de ver a cortina se mexer no andar de cima. Mas estava muito escuro para ter absoluta certeza.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander s� conseguiu voltar a vestir suas roupas �s quatro da manh� do s�bado. Pegou a jaqueta de couro, a mochila e dirigiu-se, manquejando, at� o vest�bulo, onde ele a esperava depois de j� ter tomado um banho e se vestido com cuidado. Ele entregou-lhe um cheque de duas mil e quinhentas coroas.</p><p>� Eu levo voc� para casa � ele falou, abrindo a porta.</p><p>Ela saiu do apartamento e se virou para ele. Seu corpo parecia alquebrado, o rosto estava inchado com olhos avermelhados de l�grimas, e ele quase fez um movimento de recuo ao cruzar seu olhar. Nunca na vida havia se deparado com um �dio t�o seco e inflamado. Lisbeth Salander tinha realmente o aspecto da doente mental que sua ficha indicava.</p><p>� N�o � ela disse em voz t�o baixa que ele mal conseguiu distinguir as palavras. � Posso voltar para casa sozinha.</p><p>Ele p�s a m�o em seu ombro.</p><p>� Tem certeza?</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a. A m�o em seu ombro a apertou com mais for�a.</p><p>� Lembre-se do nosso acordo. Volte no s�bado que vem. Ela balan�ou de novo a cabe�a, submissa. Ele a soltou.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>14.</emphasis></strong><strong><emphasis/></strong><strong><emphasis>S�BADO 8 DE MAR�O � SEGUNDA-FEIRA 17 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander passou a semana na cama com dores no abdome, hemorragias no �nus e outras feridas, menos vis�veis, que levariam mais tempo para curar. O que ela vivera ultrapassara de longe o primeiro abuso no escrit�rio; n�o se tratava mais de um ato de coer��o e de humilha��o, mas de uma brutalidade sistem�tica.</p><p>Percebia tarde demais que havia subestimado Bjurman, e muito.</p><p>Tomara-o como um homem de poder que gostava de dominar, e n�o como um s�dico total. Ele a mantivera algemada a noite toda. V�rias vezes ela pensou que fosse ser morta, e houve um momento em que ele pressionou o travesseiro sobre seu rosto at� ela quase desmaiar.</p><p>N�o chorou.</p><p>Afora as l�grimas causadas pelas dores f�sicas, n�o derramou uma l�grima sequer. Ap�s deixar o apartamento de Bjurman, claudicou at� o ponto de t�xi da Odenplan, voltou para casa e subiu com dificuldade a escada at� chegar a seu apartamento. Tomou um banho e lavou o sangue dos genitais. Depois bebeu meio litro de �gua, ingeriu dois son�feros e desabou na cama com o cobertor puxado at� a cabe�a.</p><p>Despertou por volta do meio-dia de domingo com a cabe�a dolorida e vazia, com dores nos m�sculos e no baixo-ventre. Levantou-se, bebeu dois copos de leite e comeu uma ma��. Tomou mais dois son�feros e voltou a se deitar.</p><p>S� teve for�as para sair da cama na ter�a-feira. Foi comprar uma pizza Billy Pan, aqueceu-a no microondas e encheu uma garrafa t�rmica com caf�. Depois passou a noite lendo na internet artigos e teses sobre a psicopatologia do sadismo.</p><p>O que mais chamou sua aten��o foi um artigo publicado por um grupo de mulheres americanas. A autora afirmava que o s�dico escolhia suas <emphasis>liga��es</emphasis> com uma precis�o quase intuitiva: sua melhor v�tima era a que se prestava voluntariamente a todos os seus desejos por acreditar que n�o tinha outra escolha. O s�dico escolhia indiv�duos que dependiam de outra pessoa, e tinha uma capacidade inquietante de identificar as presas que lhe convinham.</p><p>O dr. Bjurman a escolhera como v�tima.</p><p>Isso a fez refletir.</p><p>Isso tamb�m indicava que id�ia as pessoas faziam dela.</p><empty-line/><p>Na sexta-feira, uma semana ap�s o segundo estupro, Lisbeth Salander saiu de casa para ir a um tatuador em Hornstull. Havia telefonado para marcar hora e ele n�o tinha outros clientes na loja. Ele a saudou com um movimento de cabe�a quando a reconheceu.</p><p>Ela escolheu uma pequena tatuagem, simples, na forma de uma estreita faixa, e pediu que ele a pusesse no tornozelo. Mostrou o lugar.</p><p>� A pele � muito fina. Vai doer um bocado � disse o tatuador.</p><p>� N�o faz mal � Lisbeth respondeu, levantando a cal�a e apresentando a perna.</p><p>� Est� certo, uma faixa. Voc� j� tem muitas tatuagens. Tem certeza de que quer mais uma?</p><p>� � um lembrete � ela disse.</p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist deixou o Caf� Susanne na hora em que ele ia fechar, �s duas da tarde do s�bado. Estivera passando a limpo suas anota��es no notebook, e foi at� o Komsun comprar comida e cigarros antes de voltar para casa. Havia descoberto a especialidade local: a <emphasis>p�lsa</emphasis> cozida com batatas e beterrabas vermelhas � um prato que jamais apreciara, mas que por uma estranha raz�o combinava perfeitamente bem com uma pequena casa no campo.</p><p>Por volta das sete, p�s-se a refletir enquanto olhava pela janela da cozinha. Cecilia Vanger n�o havia telefonado. Ele a vira brevemente no caf�, no come�o da tarde, quando ela fora comprar p�o, por�m estava mergulhada em seus pr�prios pensamentos. Tudo indicava que n�o ia telefonar naquele s�bado � noite. Olhou para o pequeno aparelho de tev� que quase nunca ligava, mas preferiu instalar-se no banco da cozinha e abrir um romance policial de Sue Grafton.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander retornou ao apartamento de Bjurman na Odenplan na hora combinada, s�bado � noite. Ele a fez entrar com um sorriso polido e acolhedor.</p><p>� E hoje, como vai, minha cara Lisbeth? Ela n�o respondeu.</p><p>� Acho que exagerei um pouco na �ltima vez � ele disse. � Voc� me pareceu meio nocauteada.</p><p>Ela apenas sorriu com o canto dos l�bios e ele sentiu uma s�bita inquieta��o. <emphasis>Essa menina � maluca. N�o posso me esquecer disso.</emphasis> E perguntou-se se ela poderia se adaptar.</p><p>� Vamos para o quarto? � perguntou Lisbeth Salander.</p><p><emphasis>Por outro lado, parece que ela s� sabe pedir isso...</emphasis> P�s-lhe o bra�o sobre o ombro como fizera no encontro anterior, para lev�-la at� o quarto. <emphasis>Hoje vou mais devagar com ela. Para criar confian�a.</emphasis> Ele j� havia deixado as algemas em cima da c�moda. Foi s� quando se aproximaram da cama que o dr. Bjurman percebeu que alguma coisa n�o ia bem.</p><p>Era ela que o conduzia � cama, n�o o contr�rio. Ele se deteve e, com perplexidade, viu-a tirar algo do bolso que a princ�pio acreditou ser um telefone celular. Depois viu os olhos dela.</p><p>� Diga boa-noite � ela disse.</p><p>P�s o bast�o el�trico debaixo da axila esquerda dele e disparou setenta mil volts. Quando as pernas dele come�aram a ceder, ela aproximou seu ombro e mobilizou todas as for�as para faz�-lo cair sobre a cama.</p><empty-line/><p>Cecilia Vanger sentia-se ligeiramente b�bada. Decidira n�o telefonar para Mikael Blomkvist. A liga��o deles adquirira a apar�ncia de uma rid�cula farsa de alcova que obrigava Mikael a rodeios e desvios para poder encontr�-la sem ser notado. Ela se comportava como uma adolescente apaixonada incapaz de controlar seu desejo. Sua conduta nas �ltimas semanas fora absurda.</p><p>O problema � que comecei a gostar muito dele, pensou. Vou sofrer com isso. E passou um bom tempo desejando que Mikael Blomkvist nunca tivesse vindo a Hedeby.</p><p>Ela havia aberto uma garrafa de vinho e bebido dois copos sozinha. Ligou a tev� para ver o notici�rio e tentar entender o que acontecia no mundo, mas imediatamente se cansou dos coment�rios racionais que explicavam por que o presidente Bush devia esmagar o Iraque com bombas. Instalou-se ent�o no sof� da sala com o livro de Gellert Tama sobre o louco que matara onze pessoas em Estocolmo por motivos racistas. S� conseguiu ler algumas p�ginas antes de ser obrigada a p�r o livro de lado. O assunto a fez pensar imediatamente em seu pai, em quais seriam os fantasmas dele.</p><p>A �ltima vez em que tinham se visto fora em 1984, quando o acompanhou, com Birger, numa ca�a � lebre ao norte de Hedestad, para que Birger testasse um novo c�o de ca�a � um hamilton st�vare adquirido recentemente. Harald Vanger tinha setenta e tr�s anos e ela fizera o poss�vel para aceitar sua loucura, essa loucura que transformara sua inf�ncia num pesadelo e afetara toda a sua vida adulta.</p><p>Cecilia nunca fora t�o fr�gil como naquela �poca. Seu casamento se desfizera tr�s meses antes. Mulher que apanha do marido � express�o banal. Para ela, isso significava maus-tratos leves por�m cont�nuos. Amea�as, bofetadas, empurr�es, ser derrubada no ch�o da cozinha. As explos�es do marido eram sempre inexplic�veis, mas os golpes nunca eram fortes o suficiente para feri-la a s�rio. Ele evitava bater nela com o punho, e ela se acostumou.</p><p>At� o dia em que Cecilia revidou e ele se descontrolou. No final, enlouquecido, ele a atacara com golpes de tesoura nas costas.</p><p>Arrependido e em p�nico, conduziu-a ao hospital, onde inventou a hist�ria delirante de um acidente, que a equipe de emerg�ncia logo decifrou � medida que ele ia pronunciando as palavras. Ela sentiu-se envergonhada. Deram-lhe doze pontos de sutura e ficou dois dias no hospital. Ent�o Henrik Vanger foi busc�-la e levou-a para a casa dele. Nunca mais falou com o marido.</p><p>Naquele dia ensolarado, tr�s meses depois do fim do casamento, Harald Vanger estava bem-humorado, quase am�vel. Mas de uma hora para a outra, em pleno bosque, passou a insultar grosseiramente a filha, fazendo coment�rios vulgares sobre sua vida e seus h�bitos sexuais, terminando por dizer que era natural que uma puta como ela n�o soubesse conservar um homem.</p><p>O irm�o nem sequer reparou que as palavras do pai a atingiam como uma chicotada. Birger Vanger limitou-se a rir e a passar o bra�o em volta de seus ombros, tentando desanuviar a situa��o a seu modo, com um coment�rio do g�nero <emphasis>Sabemos bem como s�o as mulheres.</emphasis> Deu uma piscadela para Cecilia e aconselhou Harald Vanger a ficar atento a uma pequena eleva��o do terreno.</p><p>Houve um segundo, um instante g�lido, em que Cecilia olhou para o pai e o irm�o com a consci�ncia s�bita de que trazia na m�o uma espingarda de ca�a carregada. Fechou os olhos. Se n�o tivesse feito isso, teria levantado a arma e disparado os dois cartuchos. Sua vontade era matar o pai e o irm�o. Mas abaixou a espingarda, girou os calcanhares e voltou ao lugar onde haviam estacionado o carro. Deixou-os ali e voltou sozinha para casa. Desse dia em diante, passou a falar com o pai s� em rar�ssimas ocasi�es, quando obrigada pelas circunst�ncias. Negara-lhe acesso � sua casa e nunca ia v�-lo na casa dele.</p><p><emphasis>Voc� arruinou a minha vida,</emphasis> pensou Cecilia Vanger. <emphasis>Arruinou a minha vida desde a inf�ncia.</emphasis></p><p>�s oito e meia da noite, Cecilia Vanger pegou o telefone e pediu que Mikael Blomkvist fosse v�-la.</p><empty-line/><p>O dr. Nils Bjurman sofria um mart�rio. Seus m�sculos n�o respondiam, o corpo parecia paralisado. N�o tinha certeza de haver perdido a consci�ncia, mas estava desorientado e sem a menor lembran�a do que havia acontecido. Quando recuperou lentamente o controle do corpo, viu que estava nu, deitado de costas na cama, com os punhos atados por algemas e as pernas dolorosamente afastadas. Tinha queimaduras no local onde os eletrodos haviam tocado seu corpo.</p><p>Lisbeth Salander trouxera a poltrona de vime para perto da cama e, com as botas em cima do colch�o, esperava pacientemente, fumando um cigarro. Quando Bjurman tentou falar, ele percebeu que sua boca estava coberta por uma fita adesiva larga. Virou a cabe�a. Ela havia aberto e esvaziado uma das gavetas da c�moda.</p><p>� Descobri seus brinquedinhos � disse Salander.</p><p>Brandiu um chicote e remexeu na cole��o de objetos er�ticos, morda�as e m�scaras de borracha espalhadas no ch�o.</p><p>� Para que serve este treco? � E mostrou um enorme <emphasis>p�nis anal.</emphasis> � N�o, n�o tente falar, n�o estou entendendo o que voc� diz. Foi o que utilizou em mim na semana passada? Basta balan�ar a cabe�a. � Ela se inclinou para ele, divertindo-se antecipadamente com a resposta.</p><p>Nils Bjurman sentiu um s�bito calafrio de terror no peito e se descontrolou. For�ou as algemas. <emphasis>Ela assumiu</emphasis> o <emphasis>controle. Imposs�vel.</emphasis> Estava impossibilitado de fazer o que quer que fosse quando Salander se inclinou e p�s o tamp�o anal entre suas n�degas.</p><p>� N�o � assim que um s�dico faz? � ela perguntou. � Gosta de enfiar coisas nas pessoas, n�o � verdade? � Fitou-o. O rosto dele era uma m�scara inexpressiva. � Sem lubrificante, n�o � mesmo?</p><p>Bjurman urrou atrav�s da fita adesiva quando Lisbeth Salander afastou brutalmente suas n�degas e enfiou o tamp�o no lugar previsto.</p><p>� Pare de berrar � disse Lisbeth Salander imitando a voz dele. � Se n�o se comportar, serei obrigada a te punir.</p><p>Levantou-se e contornou a cama. Ele a acompanhou com o olhar... <emphasis>Merda, o que � isso?</emphasis> Lisbeth Salander havia trazido a tev� de tela grande da sala para o quarto. O aparelho de DVD estava no ch�o. Ela olhou para ele, sempre segurando o chicote na m�o.</p><p>� Est� prestando bastante aten��o? � perguntou. � N�o tente falar, basta balan�ar a cabe�a. � Entende o que estou dizendo?</p><p>Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� Certo. � Ela se inclinou para pegar sua mochila. � Reconhece isto? � Ele aquiesceu com a cabe�a. � � a mochila que eu trazia quando vim te ver na semana passada. Peguei emprestada da Milton Security. � Ela abriu um z�per na parte inferior. � Aqui tem uma c�mera digital. Voc� costuma assistir de vez em quando <emphasis>Insider</emphasis> na Tv3? Os rep�rteres sacanas utilizam uma mochila como esta para filmar cenas com uma c�mera oculta.</p><p>Tornou a fechar a mochila.</p><p>� Deve estar se perguntando onde fica a objetiva. O detalhe est� todo a�. Grande angular com fibra �tica. A lente parece um bot�o e est� disfar�ada na fivela da al�a. Voc� deve estar lembrado que eu pus a mochila bem aqui, em cima desta mesa, antes que voc� come�asse a me tocar. Tomei o cuidado de verificar se a objetiva estava dirigida para a cama.</p><p>Ela mostrou um DVD e a seguir o introduziu no aparelho. Depois virou a poltrona e se instalou de modo a poder ver a tela da tev�. Acendeu mais um cigarro e acionou o controle remoto. O advogado Bjurman viu-se abrindo a porta a Lisbeth Salander. <emphasis>N�o sabe ler as horas?,</emphasis> ele perguntava, irritado.</p><p>Ela passou o DVD inteiro. O filme tinha noventa minutos de dura��o e terminou no meio de uma cena em que o dr. Bjurman, nu e encostado � cabeceira da cama, bebia um copo de vinho enquanto contemplava Lisbeth Salander estendida com as m�os atadas nas costas.</p><p>Ela desligou a tev� e continuou sentada na poltrona sem dizer nada por uns dez minutos e sem olhar para ele. Bjurman nem ousava se mexer. Ela se levantou, foi at� o banheiro, depois voltou e sentou-se de novo na poltrona: Sua voz era como lixa.</p><p>� Cometi um erro na semana passada � disse. �Achei que mais uma vez seria obrigada a te chupar, o que � absolutamente nojento, mas n�o ultrapassa demais minhas capacidades. Achei que fosse obter, de modo muito tranquilo, provas inquestion�veis, evidentes, de como voc� � um canalha perverso e imundo. Eu o subestimei. N�o percebi o quanto voc� � um sujeito podre e doente. Vou ser bem clara � ela continuou. � Esse filme mostra voc� estuprando uma jovem de vinte e quatro anos, retardada mental, da qual voc� � o tutor respons�vel. Com certeza voc� nem imagina o quanto posso ser retardada mental quando � necess�rio. Qualquer um que vir esse DVD vai entender que voc� n�o s� � um lixo mas tamb�m um s�dico louco furioso. Um filme bem instrutivo, n�o acha? Eu diria que voc�, e n�o eu, � que seria internado. Concorda comigo?</p><p>Esperou. Ele n�o reagiu, mas ela viu que ele tremia. Pegou o chicote e desferiu um golpe seco nos �rg�os sexuais dele.</p><p>� Concorda comigo? � repetiu com voz mais forte. Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� �timo. Assim estamos nos entendendo.</p><p>Ela puxou a poltrona e sentou-se de modo a poder olh�-lo bem nos olhos.</p><p>� Bem, o que voc� e eu poder�amos fazer para remediar essa situa��o? � Ele n�o podia responder. � N�o tem algumas id�ias? � Como ele n�o reagisse, ela esticou a m�o, pegou seus test�culos e puxou at� o rosto de Bjurman se contorcer de dor. � Tem ou n�o tem algumas boas id�ias? � repetiu.</p><p>Ele balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>� Melhor assim. Porque, se por acaso vier a ter alguma id�ia no futuro, eu ficarei muito zangada com voc�.</p><p>Jogou o corpo para tr�s e acendeu outro cigarro.</p><p>� Ent�o eu vou te contar, <emphasis>eu,</emphasis> o que vai acontecer. Na semana que vem, assim que voc� conseguir expulsar esse brinquedinho de borracha do seu cu, voc� vai dar instru��es ao meu banco de que somente eu � <emphasis>e mais ningu�m</emphasis></p><p>� ter� acesso � minha conta daqui pra frente. Entende o que estou dizendo?</p><p>O advogado Bjurman concordou com a cabe�a.</p><p>� Perfeito. Voc� n�o entrar� mais em contato comigo. No futuro s� nos veremos se eu tiver vontade. Que fique bem claro que voc� est� proibido de me visitar.</p><p>Ele concordou com a cabe�a v�rias vezes e deu um suspiro. <emphasis>Ela n�o tem a inten��o de me matar.</emphasis></p><p><emphasis>�</emphasis> Se tentar entrar em contato comigo, c�pias desse DVD v�o chegar a todas as reda��es dos jornais de Estocolmo. Est� entendendo?</p><p>Ele assentiu com a cabe�a v�rias vezes. <emphasis>Preciso p�r as m�os nesse filme.</emphasis></p><p>� Uma vez por ano, enviar� o relat�rio sobre o meu estado � comiss�o de tutelas. Escrever� que levo uma exist�ncia perfeitamente normal, que tenho um trabalho fixo, que ajo de maneira conveniente e que voc� n�o v� nada de anormal no meu comportamento. Certo?</p><p>Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Todo m�s voc� escrever� um relat�rio fict�cio sobre os nossos encontros. Contar� em detalhe o quanto sou confi�vel e o quanto estou progredindo. Enviar� uma c�pia para mim, certo?</p><p>Ele balan�ou de novo a cabe�a. De passagem, Lisbeth Salander notou gotas de suor surgindo em sua testa.</p><p>� Dentro de um ano ou dois, iniciar� conversa��es com o juiz para obter a revoga��o da minha tutela, usando para isso os relat�rios fict�cios dos nossos encontros mensais. Encontrar� um psic�logo que prestar� juramento de que sou absolutamente normal. Voc� se esfor�ar� nesse sentido. Far� exatamente tudo que estiver ao seu alcance para que eu seja declarada emancipada.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� E sabe por que far� o melhor poss�vel? Porque tem uma raz�o fodida para voc� agir assim. Se n�o fizer o melhor poss�vel, mostro esse filminho pra todo mundo.</p><p>Ele escutava cada s�laba pronunciada por Lisbeth Salander. Um brilho s�bito de �dio passou por seus olhos. Disse a si mesmo que ela cometia um erro em deix�-lo viver. <emphasis>Vai pagar caro, sua puta suja. Cedo ou tarde, vou te esmagar.</emphasis> Mas continuou balan�ando a cabe�a com entusiasmo a cada pergunta.</p><p>� O mesmo vale se tentar entrar em contato comigo. � E passou a m�o pelo pesco�o num gesto de degola. � Adeus, belo apartamento; adeus, trabalho; adeus, seus milh�es em contas do exterior.</p><p>Os olhos de Bjurman se arregalaram ao ouvi-la mencionar o dinheiro. <emphasis>Merda, como ela sabe disso?...</emphasis></p><p>Ela sorriu, deu uma tragada no cigarro, depois o jogou no carpete e o esmagou com o calcanhar.</p><p>� Voc� me dar� c�pias das suas chaves daqui e do escrit�rio. Bjurman franziu as sobrancelhas. Ela se inclinou com um sorriso hip�crita.</p><p>� Daqui em diante eu controlarei a sua vida. Quando menos esperar, talvez quando estiver dormindo, vou entrar de repente aqui no seu quarto com isto nas m�os. � Mostrou o bast�o el�trico. � Vou vigiar voc�. � Se alguma vez eu te encontrar com uma mulher � e pouco importa que ela esteja aqui de livre e espont�nea vontade ou n�o �, se alguma vez eu te encontrar com uma mulher, qualquer que seja...</p><p>E Lisbeth passou novamente os dedos pelo pesco�o.</p><p>� Se eu morrer... se eu sofrer um acidente, for atropelada, seja l� o que for... c�pias desse filme ser�o enviadas aos jornais. Junto com uma hist�ria detalhada onde eu conto como � ter voc� como tutor. Outra coisa. � E ela se inclinou para a frente, para que seu rosto ficasse a poucos cent�metros do dele. � Se me tocar outra vez, eu te mato. Pode ter certeza.</p><p>O dr. Bjurman acreditou nessas palavras. N�o havia lugar para blefe nos olhos dela.</p><p>� Lembre-se de que eu sou maluca.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>Ent�o ela o fitou com um olhar circunspecto.</p><p>� N�o acho que vamos ser bons amigos, eu e voc� � disse Lisbeth Salander com voz grave. � Voc� deve estar todo alegre de eu ser suficientemente idiota para te deixar viver. Embora seja meu prisioneiro, acha que est� no controle porque imagina que a �nica coisa que eu posso fazer, se n�o te matar, � te soltar. Ent�o tem a esperan�a de recuperar em breve seu poder sobre mim, n�o � mesmo?</p><p>Ele balan�ou negativamente a cabe�a, tomado de s�bito por um mau pressentimento.</p><p>� Vou te presentear com uma coisa para voc� se lembrar sempre do nosso acordo.</p><p>Sorriu com o canto dos l�bios, subiu em cima da cama e se ajoelhou entre as pernas dele. O advogado Bjurman n�o entendeu o que ela quis dizer, mas ficou aterrorizado.</p><p>Depois viu a agulha na m�o dela.</p><p>Moveu violentamente a cabe�a e tentou se virar, mas ela apoiou o joelho sobre seu escroto como advert�ncia.</p><p>� N�o se mexa. � a primeira vez que utilizo esses instrumentos.</p><p>Ela trabalhou concentradamente durante duas horas. Quando terminou, ele n�o emitia mais som algum. Parecia estar num estado pr�ximo ao da apatia.</p><p>Ela desceu da cama, abaixou a cabe�a e examinou sua obra com olhar cr�tico. Seus talentos art�sticos eram limitados. As letras, irregulares, lembravam um desenho impressionista. Ela utilizara o vermelho e o azul para tatuar a mensagem, escrita com letras mai�sculas e em cinco linhas que cobriam todo o ventre dele, desde os mamilos at� o p�bis: SOU UM PORCO S�DICO, UM CANALHA ESTUPRADOR.</p><p>Recolheu as agulhas e guardou as bisnagas de cor na mochila. Depois foi lavar as m�os no banheiro. Sentia-se consideravelmente melhor ao voltar para o quarto.</p><p>� Boa noite � disse.</p><p>Antes de partir, abriu uma das algemas e p�s a chave sobre o ventre de Bjurman. Ao sair, levou o DVD e o molho de chaves de Bjurman.</p><empty-line/><p>Foi no momento em que compartilhavam um cigarro, pouco depois da meia-noite, que Mikael contou que eles n�o iam poder se ver durante algum tempo. Cecilia virou-se para ele espantada.</p><p>� O que est� querendo dizer? � perguntou.</p><p>Ele pareceu envergonhado.</p><p>� Segunda-feira que vem vou cumprir minha pena de tr�s meses na pris�o. Mais explica��es eram desnecess�rias. Cecilia permaneceu um longo tempo silenciosa. Estava prestes a chorar.</p><empty-line/><p>Dragan Armanskij j� tinha perdido as esperan�as, quando Lisbeth Salander o procurou na segunda-feira � tarde. N�o a via desde que a investiga��o do caso Wennerstr�m fora cancelada no come�o de janeiro, e toda vez que tentou cham�-la, ou ela n�o respondera ou telefonara de volta dizendo que estava ocupada.</p><p>� Tem algum trabalho para mim? � ela perguntou sem perder tempo com sauda��es in�teis.</p><p>� Ol�! Quem bom te ver. Achei que estava morta ou algo do g�nero.</p><p>� Eu tinha umas duas ou tr�s coisinhas para resolver.</p><p>� Voc� sempre tem umas coisinhas para resolver.</p><p>� Era urgente. Mas estou de volta. Tem algum trabalho para mim?</p><p>Armanskij negou com a cabe�a.</p><p>� Sinto muito. No momento, n�o.</p><p>Lisbeth Salander o contemplou com um olhar tranquilo. Depois de alguns segundos, ele continuou.</p><p>� Lisbeth, voc� sabe que eu a quero bem e que sempre que posso lhe ofere�o trabalho. Mas voc� desapareceu por dois meses, quando eu estava com um monte de solicita��es de trabalho. � simples, n�o se pode contar com voc�. Fui obrigado a recorrer a outras pessoas para cobrir a sua aus�ncia, e no momento n�o tenho nada.</p><p>� Aumente o volume.</p><p>� Qu�?</p><p>� Do r�dio.</p><empty-line/><p><emphasis>�... a revista</emphasis> Millenium<emphasis>. O an�ncio de que o veterano da ind�stria Henrik Vanger tornou-se co-propriet�rio da</emphasis> Millenium <emphasis>e de que far� parte do conselho administrativo da revista chega no mesmo dia em que o ex-editor respons�vel da publica��o, Mikael Blomkvist, come�a a cumprir tr�s meses de pris�o por difama��o contra o financista Hans-Erik Wennerstr�m. Erika Berger, diretora da</emphasis> Millenium<emphasis>, explicou na coletiva de imprensa que M�kael Blomkvist reassumir� o cargo de editor-chefe assim que deixar a pris�o.</emphasis></p><empty-line/><p>� Qual �? � disse Lisbeth Salander em voz t�o baixa que Armanskij nem ouviu, apenas notou os l�bios dela se mexendo. Ela se levantou de repente e foi saindo.</p><p>� Espere. Aonde voc� vai?</p><p>� Para a minha casa. Tenho duas ou tr�s coisas para verificar. Me chame quando tiver alguma coisa para mim.</p><empty-line/><p>A not�cia de que a <emphasis>Millennium</emphasis> recebera o refor�o de Henrik Vanger era um acontecimento bem mais importante do que Lisbeth Salander imaginara. <emphasis>A Aftonbladet</emphasis> j� havia publicado na internet um longo comunicado da ag�ncia de not�cias TT, fazendo um balan�o da carreira de Henrik Vanger e constatando que era a primeira vez em mais de vinte anos que o velho magnata da ind�stria aparecia em p�blico. O an�ncio de que investia seu capital na <emphasis>Millennium</emphasis> era t�o inimagin�vel quanto ver de repente os velhos conservadores Peter Wallenberg ou Erik Penser virarem a casaca para se associar � ETC ou para patrocinar a revista <emphasis>Ordfront.</emphasis></p><p>O acontecimento era t�o incomum que a edi��o das sete e meia de <emphasis>Rapport,</emphasis> na tev�, transformou-o num dos principais assuntos, dedicando-lhe tr�s minutos. Erika Berger era entrevistada por jornalistas na reda��o da <emphasis>Millennium.</emphasis> De uma hora para outra, o caso Wennerstr�m voltava �s manchetes.</p><p>� No ano passado cometemos um erro grave, que resultou na condena��o da revista por difama��o. Evidentemente � uma coisa que lamentamos... e temos a inten��o de retomar esse caso num momento prop�cio.</p><p>� O que voc� quer dizer com retomar o caso? � perguntou um rep�rter.</p><p>� Quero dizer que vamos contar a nossa vers�o dos fatos, o que n�o fizemos at� agora.</p><p>� Mas poderiam ter feito durante o processo.</p><p>� Preferimos n�o fazer. Mas � claro que vamos manter nossa linha editorial cr�tica.</p><p>� Significa que continuam sustentando a vers�o pela qual foram condenados?</p><p>� N�o tenho coment�rios a fazer sobre isso.</p><p>� A senhora demitiu Mikael Blomkvist ap�s o julgamento.</p><p>� Est� completamente enganado. Leia o nosso comunicado de imprensa. Ele precisava de uma pausa e de um descanso merecido. Ainda este ano reassumir� a publica��o.</p><p>A c�mera fez uma panor�mica da reda��o, enquanto o rep�rter enumerava alguns dados sobre a agitada hist�ria da <emphasis>Millennium,</emphasis> revista conhecida por sua independ�ncia e por suas cr�ticas contundentes. Mikael Blomkvist n�o p�de ser ouvido. Acabava de ser preso no centro de deten��o de Rullaker, situado � beira de um pequeno lago, em plena floresta, a uma dezena de quil�metros de �stersund, no J�mtland.</p><p>Lisbeth Salander viu Dirch Frode aparecer de repente, pela fresta de uma porta da reda��o, ao fundo da imagem televisionada. Ela franziu o cenho e mordeu pensativamente o l�bio inferior.</p><empty-line/><p>A segunda-feira fora pobre em acontecimentos e Henrik Vanger p�de dispor de quatro minutos no notici�rio das nove. Foi entrevistado num est�dio da tev� local em Hedestad. O rep�rter come�ou observando que, <emphasis>ap�s duas d�cadas de sil�ncio, o m�tico industrial Henrik Vanger voltou �s luzes da ribalta.</emphasis> Na introdu��o, a reportagem apresentava um pouco da vida de Henrik Vanger mostrando imagens antigas de tev�, em preto-e-branco, nas quais ele era visto na companhia do primeiro-ministro Tage Erlander inaugurando f�bricas nos anos 1960. A seguir a c�mera mostrou um sof� no est�dio de grava��o, onde Henrik Vanger aparecia tranquilamente instalado, de pernas cruzadas. Vestia camisa amarela, uma gravata verde fina e casaco esporte marrom. N�o escapava a ningu�m que estava descarnado e envelhecido, mas se expressava com uma voz sonora e firme. E com franqueza. O rep�rter come�ou perguntando o que o levara a se associar � <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� <emphasis>A Millennium</emphasis> � uma boa publica��o que venho acompanhando com interesse h� v�rios anos. Hoje ela est� sofrendo alguns ataques. Tem inimigos poderosos que organizam um boicote de anunciantes com o objetivo de torpede�-la.</p><p>O rep�rter, com certeza, n�o estava preparado para uma resposta como essa, mas percebeu de imediato que a hist�ria, j� bastante interessante em si mesma, ganhava dimens�es inesperadas.</p><p>� O que h� por tr�s desse boicote?</p><p>� E uma das coisas que a <emphasis>Millennium</emphasis> vai verificar minuciosamente. Mas aproveito para declarar que a revista n�o pretende se deixar afundar ao primeiro tiro.</p><p>� E por essa raz�o que entrou como s�cio?</p><p>� A liberdade de express�o sofreria um duro golpe se interesses particulares tivessem o poder de reduzir ao sil�ncio vozes que os incomodam na m�dia.</p><p>Henrik Vanger agia como se tivesse passado a vida toda defendendo radicalmente a liberdade de express�o. Mikael Blomkvist come�ou a rir de repente na sala de televis�o do centro de deten��o de Rullaker, que ele inaugurava naquela noite. Seus colegas de pris�o lan�aram-lhe olhares inquietos.</p><p>Mais tarde, deitado em sua cela que lembrava um quarto de motel, com uma pequena mesa, uma cadeira e uma prateleira fixa � parede, ele foi obrigado a admitir que Henrik e Erika estavam certos sobre a maneira de lan�ar essa informa��o no mercado. Sem ter falado com ningu�m, ele sabia que alguma coisa havia mudado na atitude com rela��o � <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>A apari��o de Henrik Vanger era nada mais nada menos que uma declara��o de guerra a Hans-Erik Wennerstr�m. A mensagem, muito clara � daqui em diante voc� n�o vai mais lutar contra uma revista com seis funcion�rios e um or�amento anual equivalente a um jantar de neg�cios do grupo Wennerstr�m. Vai enfrentar tamb�m as empresas Vanger, que certamente s�o apenas a sombra de sua grandeza de outrora, mas que ainda assim representam um desafio bem mais �rduo. Agora Wennerstr�m podia escolher: ou se retirava do conflito ou encarava a tarefa de reduzir tamb�m a migalhas as empresas Vanger.</p><p>Henrik Vanger acabava de anunciar na tev� que estava disposto a lutar. Talvez n�o tivesse nenhuma chance contra Wennerstr�m, mas a guerra ia custar caro.</p><p>Erika escolhera cuidadosamente as palavras. Na verdade n�o dissera grande coisa, mas sua afirma��o de que a revista ainda n�o "apresentara sua vers�o dos fatos" fazia supor que havia uma vers�o a dar. Embora Mikael tivesse sido julgado e no momento estivesse preso, ela n�o se constrangera em dizer � sem dizer � que na realidade ele era inocente e que existia uma outra verdade.</p><p>Mesmo sem usar a palavra "inoc�ncia", tornou a inoc�ncia dele ainda mais tang�vel. O an�ncio de que ele reassumiria o cargo de respons�vel pela publica��o sublinhava que a <emphasis>Millennium</emphasis> n�o tinha do que se censurar. Aos olhos do grande p�blico, a verdade n�o era um problema � todo mundo adora a teoria do compl� e, entre um homem de neg�cios cheio de ases na manga e uma bonita diretora de revista, n�o era dif�cil adivinhar para que lado tenderiam as simpatias. A m�dia decerto n�o endossaria facilmente a hist�ria, mas Erika desarmara alguns cr�ticos que agora n�o ousariam levantar a cabe�a.</p><p>Nenhum dos acontecimentos do dia alterou fundamentalmente a situa��o, mas eles conseguiram ganhar tempo e modificar um pouco o equil�brio de for�as. Mikael imaginou que Wennerstr�m passara uma noite desagrad�vel. Wennerstr�m n�o tinha como saber em que medida � em que pequen�ssima medida � eles sabiam de alguma coisa, e, antes de mover seu pr�ximo pe�o, seria obrigado a descobrir o que eles sabiam de fato.</p><empty-line/><p>Com express�o s�ria, Erika desligou a tev� e o videocassete depois de assistir primeiro a suas pr�prias declara��es e depois � grava��o da entrevista de Henrik Vanger. Olhou o rel�gio, quinze para as tr�s da manh�, e conteve o impulso de ligar para Mikael. Ele estava preso e era pouco prov�vel que estivesse com seu celular na cela. Ela chegara t�o tarde em casa, em Saltsj�baden, que seu marido j� estava dormindo. Levantou e se serviu de uma dose de u�sque Aberlour � ingeria �lcool s� uma ou duas vezes por ano �, sentou-se diante da janela e contemplou o mar e o farol na entrada do estreito de Skurusund.</p><p>Mikael e ela haviam trocado palavras �speras quando se viram sozinhos depois do acordo que ela fizera com Henrik Vanger. Ao longo dos anos, eles discutiram muitas vezes sobre a orienta��o a dar a um texto, o visual da revista, a avalia��o da credibilidade das fontes e v�rias outras coisas relacionadas � produ��o de um peri�dico. Mas a discuss�o na casa dos convidados de Henrik fora sobre princ�pios, e ela sabia estar pisando num terreno incerto.</p><p>� N�o sei o que vou fazer agora � dissera Mikael. � Henrik Vanger me contratou para escrever sua biografia. At� agora fui livre para me levantar e ir embora no momento em que ele tentasse me for�ar a escrever algo que n�o fosse a verdade ou procurasse me convencer a orientar a hist�ria para um lado ou outro. Agora ele � um dos propriet�rios da nossa revista, e mais: o �nico com recursos financeiros para salv�-la. Com isso me vejo de repente servindo a dois senhores, numa posi��o que a comiss�o de �tica profissional n�o apreciaria nada.</p><p>� Tem uma id�ia melhor a propor? � perguntou Erika. � Se tem, o momento de dizer � agora, antes de seguirmos adiante e assinarmos o acordo.</p><p>� Ricky, Vanger est� nos usando numa esp�cie de vendeta particular contra Hans-Erik Wennerstr�m.</p><p>� E da�? Tamb�m n�o estamos numa vendeta particular contra Wennerstr�m?</p><p>Mikael evitou olhar para ela e acendeu um cigarro com um gesto irritado. A discuss�o prosseguiu por um bom tempo, at� Erika entrar no quarto de Mikael, despir-se e se deitar na cama. Ela fingiu que dormia quando, duas horas depois, Mikael foi se encolher ao lado dela.</p><p>Naquela noite, um rep�rter do <emphasis>Dagens Nyheter</emphasis> lhe fizera a mesma pergunta:</p><p>� At� que ponto, agora, a <emphasis>Millennium</emphasis> poder� manter sua credibilidade e afirmar sua independ�ncia?</p><p>� Como assim?</p><p>O rep�rter ergueu as sobrancelhas. Ele achou sua pergunta suficientemente clara, mas ainda assim explicou-a.</p><p>� A miss�o da <emphasis>Millennium</emphasis> �, entre outras coisas, avaliar se as empresas est�o se conduzindo bem. Como � que a revista vai poder, agora, garantir que est� mesmo de olho na boa conduta das empresas Vanger?</p><p>Erika o encarou com ar estupefato, como se a pergunta fosse totalmente inesperada.</p><p>� Voc� est� insinuando que a credibilidade da <emphasis>Millennium</emphasis> pode diminuir porque um empres�rio conhecido e de recursos entrou em cena?</p><p>� Sim, me parece bastante evidente que voc�s perder�o a credibilidade como observadores das empresas Vanger.</p><p>� E essa regra se aplica somente � <emphasis>Millennium?</emphasis></p><p>� Desculpe, n�o entendi.</p><p>� O que eu quero dizer � que voc� trabalha para um jornal que est� totalmente nas m�os dos grandes interesses econ�micos. Por acaso isso significa que nenhum dos jornais pertencentes ao grupo Bonniers � digno de cr�dito? A <emphasis>Aftonbladet</emphasis> pertence a uma grande empresa norueguesa que, por sua vez, tem grande influ�ncia na �rea da inform�tica e da comunica��o. Por acaso isso significa que as an�lises da ind�stria eletr�nica feitas pela <emphasis>Aftonbladet</emphasis> n�o t�m credibilidade? O <emphasis>Metro</emphasis> pertence ao grupo Stenbeck. Est� querendo dizer que nenhum jornal sueco sustentado por grandes interesses econ�micos � digno de cr�dito?</p><p>� N�o, claro que n�o.</p><p>� Nesse caso, por que est� insinuando que a <emphasis>Millennium</emphasis> perderia credibilidade por contarmos tamb�m com o apoio de financistas?</p><p>O rep�rter desculpou-se.</p><p>� Est� bem, retiro a pergunta.</p><p>� N�o, n�o retire. Quero que voc� reproduza exatamente o que acabo de dizer. E pode acrescentar que, se o <emphasis>Dagens Nyheter</emphasis> decidir se concentrar mais particularmente nas empresas Vanger, n�s tamb�m vamos nos concentrar um pouco mais no grupo Bonniers.</p><p>Apesar de tudo, havia, de fato, um dilema �tico.</p><p>Mikael trabalhava para Henrik Vanger, que, por sua vez, se achava numa posi��o em que podia, numa canetada, afundar a <emphasis>Millennium.</emphasis> O que aconteceria se Mikael e Henrik Vanger se indispusessem por qualquer raz�o?</p><p>E mais: que pre�o ela fixava para sua pr�pria credibilidade e em que momento passaria de diretora independente a diretora corrupta? Ela n�o gostava nem das perguntas nem das respostas.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander desconectou-se da internet e fechou seu Powerbook. Estava sem trabalho e com fome. A primeira coisa n�o a perturbava diretamente desde que retomara o controle de sua conta banc�ria e que o dr. Bjurman adquirira o car�ter de um vago estorvo do passado. A fome ela remediou indo at� a cozinha e ligando a cafeteira. Preparou tr�s grossos sandu�ches com queijo, atum e ovo cozido, sua primeira refei��o depois de muitas horas. Devorou os sandu�ches noturnos encolhida no sof� da sala e ao mesmo tempo concentrada na informa��o que acabava de obter.</p><p>Dirch Frode, de Hedestad, a contratara para investigar Mikael Blomkvist, condenado � pris�o por difamar o financista Hans-Erik Wennerstr�m. Poucos meses depois, Henrik Vanger, tamb�m de Hedestad, entra no conselho administrativo da <emphasis>Millennium</emphasis> e afirma haver uma conspira��o destinada a afundar a revista. Tudo isso no mesmo dia em que Mikael Blomkvist come�a a cumprir sua pena. O mais fascinante: um pequeno artigo publicado dois anos antes � "Com as duas m�os vazias" � sobre Hans-Erik Wennerstr�m, que ela descobriu na edi��o <emphasis>on-line</emphasis> do <emphasis>Finansmagasinet Monopol.</emphasis> O artigo dizia que ele come�ara sua ascens�o no mundo das finan�as justamente nas empresas Vanger, no final dos anos 1960.</p><p>N�o era preciso ser nenhum g�nio para concluir que os acontecimentos estavam de alguma forma interligados. Havia um segredo no neg�cio, e Lisbeth Salander adorava desvendar segredos. Ainda mais quando n�o tinha outra coisa para fazer.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>III.� FUS�ES � 16 DE MAIO A 14 DE JULHO</strong></p><empty-line/><p><emphasis>Na Su�cia, 13% das mulheres foram v�timas de viol�ncias sexuais cometidas fora de uma rela��o sexual.</emphasis></p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>15.� SEXTA-FEIRA 16 DE MAIO � S�BADO 31 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist deixou o centro de deten��o de Rullaker na sexta-feira 16 de maio, dois meses depois de ter sido preso. No mesmo dia em que se apresentou na pris�o, ele havia entrado, sem muitas expectativas, com um pedido de redu��o da pena. Nunca soube dos segredos administrativos de sua liberta��o, mas imaginou um relat�rio mencionando que ele n�o utilizara as licen�as de fim de semana e que o centro de deten��o abrigava quarenta e duas pessoas, quando o n�mero m�ximo de vagas era trinta e um. O fato � que o diretor da pris�o � um ex-exilado polon�s de quarenta anos chamado Peter Sarowski com quem Mikael se entendeu muito bem � assinou uma recomenda��o de redu��o da pena.</p><p>O per�odo passado em Rullaker foi calmo e agrad�vel. O estabelecimento, como dizia o pr�prio Sarowski, era uma pris�o para vadios e motoristas embriagados, e n�o para criminosos de verdade. As rotinas di�rias lembravam o funcionamento de um albergue da juventude. Os quarenta e um companheiros de Mikael, metade dos quais imigrantes da segunda gera��o, viam-no como uma esp�cie de ave ex�tica � e com toda a raz�o. Ele era o �nico prisioneiro de quem falavam na tev�, o que lhe conferiu alguma import�ncia, embora nenhum deles o considerasse um criminoso de peso.</p><p>Tampouco a dire��o do estabelecimento. Desde o primeiro dia, Mikael foi chamado para algumas conversas; propuseram-lhe diferentes atividades, cursos de treinamento ou possibilidades de outros estudos, bem como uma orienta��o profissional. Mikael respondeu que n�o precisava de inser��o social, que conclu�ra os estudos havia muitos anos e que j� tinha um emprego. Em contrapartida, pediu autoriza��o para conservar seu notebook na cela, a fim de continuar trabalhando no livro que estava sendo pago para escrever. O pedido foi aceito imediatamente e Sarowski ofereceu-lhe at� mesmo um arm�rio com cadeado para que ele pudesse deixar o computador na cela sem o risco de roubo ou vandalismos. Mas era m�nimo o risco de um dos detentos querer se divertir com esse tipo de coisa � ao contr�rio, eles estendiam uma m�o protetora sobre Mikael.</p><p>Foi o que lhe permitiu passar dois meses relativamente agrad�veis, trabalhando cerca de seis horas por dia na cr�nica da fam�lia Vanger, com interrup��es para algumas horas de trabalho ou de recrea��o. Mikael e dois colegas, um proveniente de Sk�vde e o outro com ra�zes no Chile, tinham como tarefa limpar diariamente o gin�sio do centro de deten��o. Recrea��o significava ver tev�, jogar cartas ou fazer muscula��o. Mikael descobriu que n�o se sa�a t�o mal no p�quer, mas todos os dias costumava perder algumas moedas de cinquenta centavos. O regulamento autorizava o jogo desde que a bolada n�o ultrapassasse cinco coroas.</p><p>O an�ncio de sua liberta��o foi comunicado na v�spera; Sarowski o convocou � sua sala para um brinde com aquavita. � noite, Mikael juntou suas roupas e seus cadernos.</p><empty-line/><p>Uma vez libertado, Mikael foi diretamente para sua casa em Hedeby. Ao cruzar a ponte, ouviu um miado e andou os �ltimos metros acompanhado pelo gato ruivo, que lhe dava boas-vindas esfregando-se em suas pernas.</p><p>� Certo, entre � disse. � Mas n�o tive tempo de comprar leite.</p><p>Desfez a mala. Tinha a impress�o de estar voltando de f�rias e se deu conta de que a companhia de Sarowski e dos outros detentos lhe fazia falta. Podia parecer estranho, mas a temporada em Rullaker fora agrad�vel. E a liberta��o ocorrera de forma t�o inesperada que n�o havia avisado ningu�m.</p><p>Eram pouco mais de seis da tarde. Correu at� o supermercado para comprar produtos b�sicos, antes que fechasse. Na volta, ligou para Erika no celular, mas s� ouviu a voz da secret�ria eletr�nica informando que no momento ela n�o estava dispon�vel. Deixou um recado propondo que se falassem no dia seguinte.</p><p>Depois foi visitar Henrik Vanger. O pr�prio Henrik abriu a porta e ficou estupefato ao v�-lo.</p><p>� Voc� fugiu? � exclamou o velho.</p><p>� Liberdade antecipada, coisa absolutamente legal.</p><p>� Ah, mas que surpresa boa!</p><p>� Para mim tamb�m. Fiquei sabendo ontem.</p><p>Olharam-se durante alguns segundos. Ent�o o velho surpreendeu Mikael enla�ando-o e estreitando-o com for�a nos bra�os.</p><p>� Eu estava me preparando para jantar. N�o quer me fazer companhia?</p><p>Anna serviu omelete com toicinho e salada verde. Ficaram na sala de jantar por cerca de duas horas. Mikael contou at� onde chegara na cr�nica familiar e indicou os pontos onde havia lacunas e falta de informa��o. N�o falaram de Harriet Vanger, mas estenderam-se demoradamente sobre a <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p><emphasis>�</emphasis> Fizemos tr�s reuni�es do conselho administrativo. A senhorita Berger e seu s�cio Christer Malm tiveram a delicadeza de realizar duas reuni�es aqui, e Dirch representou-me numa reuni�o em Estocolmo. � muito cansativo para mim deslocar-me para t�o longe, confesso que gostaria de ter alguns anos a menos. Mas tentarei ir at� l� no pr�ximo ver�o.</p><p>� Eles podem fazer as reuni�es aqui sem problema � disse Mikael. � E o que est� achando de ser s�cio da revista?</p><p>Henrik Vanger fingiu um sorriso.</p><p>� � uma das coisas mais divertidas que me aconteceram em muitos anos, voc� sabe. Examinei as finan�as e a coisa n�o est� t�o mal. N�o precisarei investir tanto dinheiro quanto eu pensava. A lacuna entre receitas e despesas est� diminuindo.</p><p>� Falei com Erika por telefone na semana passada. Pelo que entendi, a publicidade voltou a crescer.</p><p>Henrik concordou com a cabe�a.</p><p>� A tend�ncia est� se invertendo, mas levar� algum tempo. No in�cio, foram empresas do grupo Vanger que compraram p�ginas. Mas dois ex-clientes, uma operadora de telefonia e uma ag�ncia de viagens, j� est�o de volta. � Ele deu um sorriso largo. � Tamb�m fizemos uma campanha mais personalizada junto aos velhos inimigos de Wennerstr�m. E a lista � comprida, acredite.</p><p>� Tem not�cias de Wennerstr�m?</p><p>� N�o, n�o exatamente. Mas espalhamos a informa��o de que Wennerstr�m est� organizando um boicote contra a <emphasis>Millennium.</emphasis> E as pessoas est�o come�ando a ach�-lo mesquinho. Parece que um jornalista do <emphasis>Dagens Nyheter</emphasis> tocou nessa quest�o e levou uma descompostura.</p><p>� Voc� se diverte com isso.</p><p>� N�o � a palavra exata. � o que eu deveria ter feito v�rios anos atr�s.</p><p>� Mas o que h� entre voc� e Wennerstr�m?</p><p>� N�o se apresse. Saber� isso no fim do ano.</p><empty-line/><p>O ar transmitia uma agrad�vel sensa��o de primavera. Quando Mikael deixou Henrik por volta das nove, j� era noite. Hesitou um instante, depois foi bater � porta de Cecilia Vanger.</p><p>N�o tinha certeza de que a encontraria. Cecilia arregalou os olhos e imediatamente pareceu incomodada, mas o convidou a entrar no vest�bulo. Ambos estavam embara�ados. Ela tamb�m perguntou se ele fugira e ele explicou o que houve.</p><p>� Queria s� lhe dar um al�. Estou atrapalhando?</p><p>Cecilia evitou o olhar dele. Mikael logo percebeu que ela n�o estava particularmente feliz em v�-lo.</p><p>� N�o... n�o, entre. Quer um caf�?</p><p>� Seria �timo.</p><p>Acompanhou-a at� a cozinha. Ela virou-lhe as costas enquanto punha �gua na cafeteira. Mikael aproximou-se e p�s a m�o em seu ombro. Ela ficou dura.</p><p>� Cecilia, eu diria que voc� n�o est� com nenhuma vontade de me oferecer um caf�.</p><p>� Eu te esperava daqui a um m�s � disse ela. � Voc� me pegou desprevenida.</p><p>Ele a sentia pouco � vontade. Girou o corpo dela para olh�-la nos olhos. Ficaram calados por um breve instante. Ela continuava recusando-se a olhar para ele.</p><p>� Cecilia, esque�a o caf�. O que est� havendo? Ela balan�ou a cabe�a e respirou fundo.</p><p>� Mikael, quero que v� embora. N�o pergunte nada. Simplesmente v� embora.</p><empty-line/><p>Mikael voltou para casa, mas ficou indeciso diante da cerca do jardim. Em vez de entrar, foi at� a beira da �gua ao lado da ponte e sentou-se numa pedra. Acendeu um cigarro, perguntando-se o que podia ter modificado t�o radicalmente a atitude de Cecilia Vanger com rela��o a ele.</p><p>Nesse momento, ouviu o ru�do de um motor e avistou um barco grande, branco, entrando no canal sob a ponte. Quando o barco passou � sua frente, Mikael viu que quem o manobrava era Martin Vanger, com o olhar atento para evitar eventuais baixios. Tratava-se de um iate de cruzeiro de doze metros � um mastodonte impressionante. Mikael levantou-se e seguiu o caminho que costeava a praia. Viu ent�o que muitos barcos j� haviam sido postos na �gua, amarrados em diferentes poitas, tanto barcos a motor quanto veleiros, especialmente v�rios Pettersson e um IF que se p�s a oscilar ap�s a passagem do iate. Havia tamb�m barcos maiores e mais caros, entre os quais um Hallberg-Rassy. A boa esta��o estava de volta e Mikael p�de fazer uma id�ia dos recursos financeiros dos aficionados n�uticos de Hedeby � Martin Vanger possu�a indiscutivelmente o barco maior e mais caro do lugar.</p><p>Deteve-se abaixo da casa de Cecilia e espiou as janelas iluminadas no andar de cima. Depois voltou para fazer um caf� em casa. Examinou sua saleta de trabalho enquanto esperava o caf� ficar pronto.</p><p>Antes de se apresentar na pris�o, devolvera a maior parte dos arquivos de Henrik Vanger sobre Harriet. Julgou prudente n�o deixar toda a documenta��o numa casa desocupada durante um per�odo t�o longo. Agora as prateleiras pareciam vazias. Tudo o que lhe restava do inqu�rito eram cinco cadernos de anota��es de Henrik que ele levara para Rullaker e que neste momento j� conhecia de cor. E, como constatou naquele momento, um �lbum de fotografias que esquecera na prateleira de cima.</p><p>Pegou o �lbum e voltou para a cozinha. Serviu-se de caf�, sentou e come�ou a folhe�-lo.</p><p>Eram fotos tiradas no dia do desaparecimento de Harriet. A primeira era a �ltima foto de Harriet, no desfile da Festa das Crian�as em Hedestad. Seguiam-se cento e oitenta fotos, muito n�tidas, do acidente do caminh�o-tanque na ponte. Foto por foto, ele j� examinara o �lbum com lupa, v�rias vezes. Agora o folheava distraidamente; sabia que n�o encontraria nada que representasse um avan�o. De repente sentiu-se farto do enigma Harriet Vanger e fechou o �lbum com um golpe seco.</p><p>Irritado, aproximou-se da janela da cozinha e olhou a escurid�o l� fora.</p><p>Depois tornou a olhar para o �lbum de fotos. N�o conseguiu explicar a sensa��o, mas um pensamento fugaz de repente se apresentou, como se reagisse a algo que acabara de ver. Como se um ser invis�vel lhe soprasse suavemente no ouvido, e os cabelos em sua nuca se eri�aram de leve.</p><p>Sentou-se de novo e tornou a abrir o �lbum. Percorreu, uma por uma, todas as fotos da ponte. Contemplou um Henrik Vanger mais jovem manchado de �leo e um jovem Harald Vanger, esse homem que ele ainda n�o vira. A amurada destru�da da ponte, as constru��es, as janelas e os ve�culos que se viam nas imagens. N�o teve nenhuma dificuldade em identificar Cecilia Vanger, com vinte anos, no meio dos espectadores. Usava um vestido claro e um casaco escuro, e aparecia em cerca de vinte fotos.</p><p>Sentiu uma brusca excita��o. Ao longo dos anos, Mikael aprendera a confiar em seus instintos. Ele reagira a alguma coisa no �lbum, mas n�o conseguia saber exatamente a qu�.</p><empty-line/><p>Por volta das onze da noite, continuava sentado na mesa da cozinha examinando as fotos, quando ouviu a porta da frente ser aberta.</p><p>� Posso entrar? � perguntou Cecilia Vanger.</p><p>Sem esperar a resposta, sentou-se diante dele do outro lado da mesa. Mikael teve um estranho sentimento de <emphasis>d�j�-vu.</emphasis> Ela usava um vestido claro, apertado na cintura, e um casaco cinza-azulado, roupas quase id�nticas �s que trazia nas fotos de 1966.</p><p>� O problema � voc� � ela disse. Mikael levantou as sobrancelhas.</p><p>� Sinto muito, mas me pegou de surpresa esta noite quando bateu na minha porta. Agora estou t�o agitada que n�o consigo dormir.</p><p>� Por que agitada?</p><p>� Voc� n�o percebe?</p><p>Ele fez que n�o com a cabe�a.</p><p>� Se eu disser, promete que n�o vai rir de mim?</p><p>� Prometo.</p><p>� Quando eu o seduzi no inverno, n�o refleti, apenas cedi aos meus impulsos. Queria me divertir, nada mais. Na primeira noite eu estava bastante b�bada e n�o tinha a menor inten��o de iniciar algo duradouro com voc�. Depois virou outra coisa. Quero que saiba que as semanas em que foi meu amante ocasional foram as mais agrad�veis de toda a minha vida.</p><p>� Eu tamb�m achei muito bom.</p><p>� Mikael, eu menti para voc� e para mim o tempo todo. Nunca fui especialmente atirada em mat�ria de sexo. Se tive cinco ou seis parceiros em toda a minha vida, foi muito. A primeira vez, eu tinha vinte e um anos. Depois veio meu marido, que conheci quando tinha vinte e cinco e que se revelou um canalha. A seguir, mais tr�s homens que conheci com alguns anos de intervalo. Mas voc�... voc� fez brotar n�o sei o que em mim. Nunca me canso. Certamente porque com voc� n�o h� a menor exig�ncia.</p><p>� Cecilia, voc� n�o � obrigada...</p><p>� Psiu... n�o me interrompa. Sen�o nunca vou conseguir dizer o que tenho a dizer.</p><p>Mikael ficou em sil�ncio.</p><p>� No dia em que voc� partiu para a pris�o, me senti terrivelmente infeliz. De repente voc� n�o estava mais aqui, como se nunca tivesse existido. N�o havia mais luz na casa dos convidados. E a minha cama ficou fria e vazia. De uma hora para a outra voltei a ser uma velha de cinquenta e seis anos.</p><p>Calou-se um instante e olhou Mikael bem nos olhos.</p><p>� Apaixonei-me por voc� neste inverno. Sem querer, apenas aconteceu. E ent�o me dei conta de que voc� estava aqui apenas temporariamente e que um dia iria partir de vez, enquanto eu iria continuar aqui o resto da vida. Isso me fez tanto mal, me doeu tanto, que decidi n�o deixar voc� entrar quando voltasse da pris�o.</p><p>� Sinto muito.</p><p>� N�o � culpa sua.</p><p>Ficaram calados durante um momento.</p><p>� Quando voc� foi embora hoje � noite, eu chorei. Queria uma chance de voltar � vida. Ent�o pensei numa coisa.</p><p>� No qu�?</p><p>� Que eu seria totalmente doida se deixasse de te ver s� porque um dia voc� vai embora. Mikael, ser� que podemos recome�ar? Ser� que voc� pode esquecer o que se passou h� pouco?</p><p>� Est� esquecido � disse Mikael. � E obrigado por ter me contado. Ela continuou a olhar a mesa.</p><p>� Se voc� me quiser, estou com muita vontade.</p><p>Ergueu os olhos e encontrou os dele. Depois levantou-se e dirigiu-se at� o quarto. Deixou cair o casaco no ch�o e foi retirando o vestido pela cabe�a enquanto andava.</p><empty-line/><p>Mikael e Cecilia foram despertados ao mesmo tempo pelo ru�do da porta da frente se abrindo e pelos passos de algu�m na cozinha. Ouviram o baque surdo de uma sacola jogada no ch�o ao lado do aquecedor. Ent�o Erika apareceu � porta do quarto com um sorriso que logo se transformou em susto.</p><p>� � meu Deus! � Ela deu um passo para tr�s.</p><p>� Oi, Erika � disse Mikael.</p><p>� Oi. Desculpe. Pe�o mil desculpas por ter entrado desse jeito. Eu deveria ter batido antes.</p><p>� Dever�amos ter trancado a porta. Erika, esta � Cecilia Vanger. Cecilia, Erika Berger: a diretora da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Bom dia � disse Cecilia.</p><p>� Bom dia � disse Erika.</p><p>Ela parecia n�o saber se devia se aproximar para apertar educadamente a m�o de Cecilia ou se devia apenas ir embora.</p><p>� Bem, eu... posso sair e dar uma volta...</p><p>� E que tal se antes preparasse um caf�? � Mikael olhou o despertador em cima da mesa-de-cabeceira. Passava do meio-dia.</p><p>Erika fez que sim com a cabe�a e voltou a fechar a porta do quarto. Mikael e Cecilia se olharam. Cecilia estava embara�ada. Haviam feito amor e conversado at� as quatro da manh�. Depois Cecilia disse que passaria a noite ali e que da� em diante n�o daria a m�nima de mostrar a todo mundo que trepava com Mikael. Ela dormira de costas para o ventre dele, o bra�o de Mikael envolvendo-lhe o peito.</p><p>� N�o se preocupe, est� tudo bem � disse Mikael. � Erika � casada e n�o � minha namorada. Nos vemos de vez em quando, e ela n�o se importa de saber que voc� e eu temos um caso. E provavelmente est� se sentindo bastante envergonhada neste momento.</p><p>Na cozinha, Erika preparou um desjejum com caf�, suco de frutas, gel�ia de laranja, queijo e p�o grelhado. O cheiro era bom. Cecilia dirigiu-se a ela e estendeu-lhe a m�o.</p><p>� Foi muito r�pido h� pouco. Bom dia.</p><p>� Cecilia, desculpe ter chegado assim, como um elefante � disse Erika realmente chateada.</p><p>� Deixe pra l�, esque�a. Vamos ao caf�.</p><p>� Sabe � disse Mikael, estreitando Erika nos bra�os antes de sentar-se. � Como voc� veio para c�?</p><p>� Vim de carro esta manh�, o que voc� acha? Li sua mensagem �s duas da madrugada e tentei ligar.</p><p>� Desliguei o celular � disse Mikael, dirigindo um sorriso a Cecilia Vanger.</p><empty-line/><p>Depois do caf�, Erika pediu licen�a e deixou Mikael e Cecilia a s�s, alegando que precisava ir cumprimentar Henrik Vanger. Enquanto Cecilia limpava a mesa, Mikael se aproximou dela por tr�s e a abra�ou.</p><p>� E agora, o que vai acontecer? � perguntou Cecilia.</p><p>� Nada. Tudo continua do mesmo jeito. Erika � minha melhor amiga. Temos uma liga��o espor�dica que j� dura vinte anos e que espero dure ainda mais vinte. Mas nunca formamos um casal e nunca nos impedimos de ter aventuras pessoais.</p><p>� � o que existe entre n�s? Uma aventura?</p><p>� N�o sei o que existe entre n�s, mas parece que estamos bem um com o outro.</p><p>� Onde ela dormir� esta noite?</p><p>� Arranjar�o um quarto em algum lugar. Um quarto de h�spedes na casa de Henrik. Ela n�o vai dormir na minha cama.</p><p>Cecilia refletiu um instante.</p><p>� N�o sei se vou saber lidar com isso. Voc� e ela talvez funcionem bem assim, mas eu n�o sei... eu nunca... � Ela balan�ou a cabe�a. � Vou para casa agora. Preciso refletir um pouco.</p><p>� Cecilia, voc� me fez perguntas a esse respeito e eu falei da minha rela��o com Erika. A exist�ncia dela n�o pode ser uma surpresa para voc�.</p><p>� � verdade. Mas enquanto ela estava a uma dist�ncia confort�vel, l� em Estocolmo, eu podia ignor�-la.</p><p>Cecilia vestiu o casaco.</p><p>� A situa��o � c�mica. � Ela sorriu. � Venha jantar esta noite. Com Erika. Acho que vou gostar muito dela.</p><empty-line/><p>Erika j� havia resolvido a quest�o da hospedagem. Nas vezes em que visitara Henrik Vanger, dormira num dos quartos de h�spedes, e pediu muito singelamente se podia utiliz�-lo de novo. Henrik mal conteve o entusiasmo e assegurou que ela era bem-vinda sempre que quisesse vir.</p><p>Ap�s essas formalidades, Mikael e Erika atravessaram a ponte e se instalaram no terra�o do Caf� Susanne antes da hora de fechamento.</p><p>� Estou superchateada � disse Erika. � Venho aqui para comemorar sua liberdade e o encontro na cama com a mulher fatal da aldeia.</p><p>� Desculpe.</p><p>� H� quanto tempo voc� e a senhorita Tetuda... � Erika fez um movimento com o indicador.</p><p>� Mais ou menos desde que Henrik se associou a n�s.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Como assim ah, �?</p><p>� Simples curiosidade.</p><p>� Cecilia � uma mulher querida. Gosto dela.</p><p>� N�o estou criticando. Estou apenas chateada. Uma guloseima ao alcance da m�o e sou obrigada a fazer regime. E a pris�o, como foi?</p><p>� Tipo f�rias de estudo. E a revista, como vai?</p><p>� Melhor. Ainda estamos ziguezagueando no vermelho, mas pela primeira vez em um ano o volume de an�ncios aumentou. Continuamos bem abaixo do que t�nhamos antes, mas j� estamos nos recuperando. Gra�as a Henrik. E o mais estranho � que as assinaturas tamb�m aumentaram.</p><p>� E normal, sempre h� uma oscila��o.</p><p>� De algumas centenas a mais ou a menos. Mas tivemos tr�s mil assinantes a mais nos �ltimos meses. O aumento se mant�m constante com duzentos e cinquenta novos assinantes por semana. Primeiro achei que fosse coincid�ncia, mas novos assinantes continuam afluindo. � o maior aumento de tiragem j� obtido por uma revista mensal. Representa mais que as receitas dos anunciantes. Ao mesmo tempo, nossos antigos anunciantes parecem em geral dispostos a renovar.</p><p>� Como se explica isso? � perguntou Mikael, confuso.</p><p>� N�o sei. Nem n�s estamos entendendo. N�o fizemos campanha publicit�ria. Christer passou uma semana verificando sistematicamente o perfil desses novos assinantes. Em primeiro lugar, s�o novos mesmo. Em segundo, setenta por cento s�o mulheres. Em geral, os assinantes s�o setenta por cento de homens. Em terceiro, pode-se caracterizar esse tipo de assinante como um assalariado m�dio dos sub�rbios com um trabalho qualificado: professores, pequenos executivos, funcion�rios p�blicos.</p><p>� A revolta da classe m�dia contra o capitalismo?</p><p>� N�o sei. Mas se a tend�ncia prosseguir vamos assistir a uma enorme mudan�a na nossa lista de assinantes. A reda��o se reuniu h� duas semanas e decidimos ir incluindo aos poucos novos temas na revista; quero mais artigos sobre o mundo do trabalho, relacionado a sindicatos como o dos funcion�rios p�blicos, por exemplo, e tamb�m mais reportagens investigativas, sobre feminismo e outros assuntos do momento.</p><p>� Mas cuidado para n�o mudar demais � disse Mikael. � Se temos novos assinantes, � provavelmente porque gostam do que j� existe na revista.</p><empty-line/><p>Cecilia Vanger tamb�m convidara Henrik Vanger para o jantar, talvez para diminuir o risco de assuntos mais melindrosos. Preparou um assado de carne de veado e serviu vinho tinto para acompanhar. Erika e Henrik monopolizaram grande parte da conversa comentando a recupera��o da <emphasis>Millennium</emphasis> e os novos assinantes; depois, aos poucos, passou-se a se falar de outras coisas. De repente Erika se voltou para Mikael e perguntou como ia seu trabalho.</p><p>� Em aproximadamente um m�s, espero terminar um primeiro rascunho completo da cr�nica familiar, que Henrik j� vai poder ler.</p><p>� Uma cr�nica no esp�rito da fam�lia Adams � disse Cecilia sorrindo.</p><p>� Ela inclui alguns aspectos hist�ricos � admitiu Mikael. Cecilia lan�ou um olhar de soslaio para Henrik Vanger.</p><p>� Mikael, na verdade Henrik n�o est� nem um pouco interessado nessa cr�nica familiar. Ele quer � que voc� resolva o enigma do desaparecimento de Harriet.</p><p>Mikael n�o disse nada. Desde que come�ara a se relacionar com Cecilia, falara mais ou menos abertamente com ela acerca de Harriet. Cecilia j� entendera que era esse o verdadeiro trabalho dele, embora Mikael nunca tivesse admitido. Por outro lado, ele nunca dissera a Henrik que discutia isso com Cecilia. As grossas sobrancelhas de Henrik se contra�ram ligeiramente. Erika se calou.</p><p>� Querido tio � disse Cecilia a Henrik �, eu n�o sou idiota. N�o sei exatamente que tipo de acordo voc� e Mikael fizeram, mas a temporada dele aqui em Hedeby tem a ver com Harriet, n�o tem?</p><p>Henrik assentiu com a cabe�a e olhou para Mikael.</p><p>� Bem que eu lhe disse que ela era esperta. � Depois virou-se para Erika. � Suponho que Mikael j� lhe explicou o que ele faz aqui em Hedeby.</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� E suponho que deve achar essa tarefa insensata. N�o, n�o � obrigada a responder. � realmente uma tarefa absurda e insensata. Mas tenho necessidade de saber.</p><p>� N�o tenho opini�o a respeito � disse Erika, diplom�tica.</p><p>� � �bvio que tem. � Henrik voltou-se para Mikael. � Em breve metade do ano ter� passado. Conte. Descobriu algo que ainda n�o averiguamos?</p><p>Mikael evitou o olhar de Henrik. Pensou imediatamente na sensa��o estranha que tivera na noite anterior, ao folhear o �lbum de fotografias. A sensa��o n�o o abandonara durante o dia, por�m ele n�o tivera tempo de abrir novamente o �lbum. N�o sabia se estava imaginando coisas, mas sabia que havia uma id�ia no caminho. Estivera a ponto de pensar em algo de decisivo. Por fim levantou os olhos para Henrik e balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o descobri a menor pista.</p><p>O velho o examinou com express�o atenta. Absteve-se de comentar a resposta de Mikael e por fim balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o sei o que voc�s, jovens, pensam disto, mas para mim chegou a hora de me retirar. Obrigado pelo jantar, Cecilia. Boa noite, Erika. Passe para me ver antes de ir embora amanh�.</p><empty-line/><p>Depois que Henrik fechou a porta da frente, o sil�ncio se instalou. Foi Cecilia que o rompeu.</p><p>� Mikael, o que isso quer dizer afinal?</p><p>� Quer dizer que Henrik Vanger � t�o sens�vel �s rea��es das pessoas como um sism�grafo. Ontem � noite, quando voc� foi � minha casa, eu estava olhando o �lbum de fotos.</p><p>� E?</p><p>� Eu vi alguma coisa. N�o sei o qu�, e n�o consigo p�r o dedo em cima. Alguma coisa que se tornou quase um pensamento, s� que me escapou.</p><p>� Mas voc� estava pensando em qu�?</p><p>� N�o sei. Logo depois voc� chegou e eu... humm... passei a ter coisas mais interessantes na cabe�a.</p><p>Cecilia corou. Evitou os olhos de Erika e foi at� a cozinha a pretexto de fazer um caf�.</p><empty-line/><p>Era um dia quente e ensolarado de maio. A vegeta��o estava brotando e Mikael surpreendeu-se a assobiar <emphasis>Blossom time is coming.</emphasis></p><p>Erika passou a noite no quarto de h�spedes de Henrik. Depois do jantar, Mikael perguntara a Cecilia se queria companhia. Ela respondeu que devia preparar a reuni�o dos conselhos de classe, que estava cansada e preferia ir dormir. Na segunda-feira de manh� bem cedo, Erika depositou um beijo no rosto de Mikael e partiu.</p><p>Quando Mikael foi para a pris�o, em meados de mar�o, a neve ainda cobria a paisagem. Agora as videiras j� exibiam folhas e a relva em volta da casa verdejava, abundante. Pela primeira vez, ele tinha a oportunidade de passear pela ilha. Por volta das oito, passou na casa de Henrik para pedir uma garrafa t�rmica a Anna. Conversou um pouco com Henrik e pediu-lhe emprestado um mapa da ilha. Queria ver de perto a cabana de Gottfried, mencionada de maneira indireta no inqu�rito policial, pois Harriet estivera ali v�rias vezes. Henrik explicou que a cabana pertencia a Martin Vanger, mas estava desocupada havia v�rios anos. De vez em quando um parente de passagem a ocupava.</p><p>Mikael encontrou Martin Vanger a tempo, antes de ele ir para Hedestad trabalhar, e perguntou se podia emprestar a chave da cabana. Martin olhou para ele com um sorriso brincalh�o.</p><p>� Suponho que a cr�nica familiar chegou agora ao cap�tulo sobre Harriet.</p><p>� Eu s� queria dar uma olhada...</p><p>Martin Vanger foi buscar a chave e voltou em seguida.</p><p>� Posso ir ent�o? Sem problemas?</p><p>� Por mim, pode at� se instalar l�, se quiser. A n�o ser pelo fato de ficar no outro extremo da ilha, � um lugar bem melhor que a casa onde voc� est� hospedado.</p><p>Mikael preparou caf� e sandu�ches. Encheu uma garrafa com �gua e p�s as provis�es numa mochila que jogou sobre o ombro. Seguiu um caminho estreito e em parte invadido pelo mato, ao longo da ba�a na costa norte da ilha. A cabana de Gottfried ficava num promont�rio a cerca de dois quil�metros do povoado, e ele fez o trajeto em meia hora, sem pressa.</p><p>Martin Vanger tinha raz�o. Ao sair de uma curva do caminho, Mikael viu abrir-se um lugar verdejante em frente ao mar, com uma ampla vista de Hedestad que abarcava a embocadura do rio, a marina � esquerda e o porto comercial � direita.</p><p>Achou surpreendente que ningu�m tivesse se apossado da cabana de Gottfried. Era uma constru��o r�stica de toras de madeira horizontais, coberta de telhas, com os caixilhos das janelas pintados de verde e uma pequena varanda na entrada. A manuten��o da casa e do jardim mostrava sinais de abandono; a pintura das portas e das janelas estava descascando, e o que devia ter sido uma relva transformara-se em arbustos de um metro de altura. Seria necess�rio um dia de trabalho com foice e cortador de grama para p�r tudo em ordem.</p><p>Mikael destrancou a porta, entrou e abriu as janelas. Parecia o interior de um celeiro de uns trinta e cinco metros quadrados. Era uma �nica e grande pe�a, forrada de lambris, com amplas janelas que davam para o mar de um lado e de outro para a porta da frente. No fundo da pe�a, uma escada conduzia a um quarto-mezanino que ocupava metade da superf�cie da casa. Debaixo da escada havia um pequeno nicho com um fog�o a g�s, um balc�o e um lavabo. A mob�lia era simples; � esquerda da entrada, um banco fixado � parede, uma escrivaninha em mau estado e uma ampla estante de madeira. Mais adiante, do mesmo lado, um arm�rio de tr�s portas. A direita da entrada, uma mesa redonda com cinco cadeiras de madeira e, no centro, uma lareira.</p><p>V�rias lamparinas indicavam que a eletricidade n�o chegara at� ali. No parapeito de uma janela descansava um velho transistor Grundig com a antena quebrada. Mikael acionou o bot�o <emphasis>on,</emphasis> mas as pilhas estavam gastas.</p><p>Subiu a escada estreita e deu uma espiada no mezanino: uma cama de casal, um colch�o sem colcha, uma mesa-de-cabeceira e uma c�moda.</p><empty-line/><p>Mikael ficou um momento vasculhando a casa. A c�moda estava vazia, com exce��o de algumas toalhas de rosto e roupas de cama cheirando a mofo. No arm�rio havia algumas roupas de trabalho, um avental, um par de botas de borracha, um t�nis gasto e uma pequena lamparina a querosene. Nas gavetas da escrivaninha encontrou papel, l�pis, um bloco de desenho n�o usado, um baralho e alguns marcadores de p�gina. O arm�rio da cozinha continha lou�as, x�caras de caf�, copos, velas e pacotes esquecidos de sal, saquinhos de ch� e coisas do g�nero. Numa gaveta da mesa havia talheres.</p><p>Os �nicos vest�gios de car�ter intelectual estavam na prateleira acima da escrivaninha. Mikael subiu numa cadeira para ver melhor. Na prateleira de baixo havia n�meros antigos de <emphasis>Se, Rekordmagasinet, Tidsf�rdriv</emphasis> e <emphasis>Lektyr,</emphasis> do final dos anos 1950 e in�cio dos 1960; <emphasis>Bildjoumalen</emphasis> de 1965 e 1966, <emphasis>Mitt Livs Novell</emphasis> e algumas revistas em quadrinhos: <emphasis>91:an, Fantomen</emphasis> e <emphasis>Romans.</emphasis> Mikael abriu um n�mero da <emphasis>Lektyr</emphasis> de 1964 e constatou que a <emphasis>pin-up</emphasis> tinha um aspecto relativamente inocente.</p><p>Uns cinquenta livros tamb�m, a metade deles romances policiais em formato de bolso da s�rie Manhattan de Wahlstr�m; alguns Mickey Spillane com t�tulos evocadores como <emphasis>O beijo da morte,</emphasis> nas capas cl�ssicas de Bertil Hegland. Encontrou ainda seis <emphasis>Kitty,</emphasis> alguns <emphasis>Clube dos cinco</emphasis> de Enid Blyton e um volume dos <emphasis>Detetives g�meos</emphasis> de Sivar Ahlrud � O <emphasis>mist�rio no metr�.</emphasis> Mikael sorriu com nostalgia. Tr�s livros de Astrid Lindgren: <emphasis>N�s, os filhos de Bullerbyn, Super Blomkvist e Rasmus</emphasis> e <emphasis>P�ppi Meialonga.</emphasis> Na prateleira de cima havia um r�dio de ondas curtas, dois livros de astronomia, um sobre aves, um intitulado O <emphasis>imp�rio do mal,</emphasis> que falava da Uni�o Sovi�tica, um sobre a guerra de inverno na Finl�ndia, o <emphasis>Catecismo</emphasis> de Lutero, o livro de hinos da Igreja sueca e uma B�blia.</p><p>Mikael abriu a B�blia e leu no interior da capa: <emphasis>Harriet Vanger, 12/5/1963.</emphasis> A B�blia da crisma de Harriet. Consternado, devolveu o livro � estante.</p><empty-line/><p>Logo atr�s da casa havia um pequeno dep�sito que abrigava lenha e ferramentas, uma foice, um ancinho, um martelo, uma caixa contendo pregos, uma plaina, uma serra e outras ferramentas. O sanit�rio estava situado a uns vinte metros para o Leste Europeu, no bosque. Mikael olhou um pouco por ali e depois voltou para a casa. Puxou uma cadeira, sentou-se na varanda e abriu a garrafa t�rmica para tomar caf�. Acendeu um cigarro e contemplou a ba�a de Hedestad atrav�s da cortina do matagal.</p><p>A cabana de Gottfried era bem mais modesta do que ele imaginara. Era esse ent�o o lugar onde o pai de Harriet e de Martin se recolhera quando o casamento com Isabella come�ou a desmoronar no final dos anos 1950. Onde tinha ido viver e onde se embriagava. E mais abaixo junto ao pont�o onde havia se afogado com uma taxa elevada de �lcool no sangue. A vida na cabana certamente era agrad�vel no ver�o, mas, quando a temperatura se aproximava do zero, devia ser bastante fria e penosa. De acordo com Henrik, Gottfried continuou a trabalhar no grupo Vanger � com interrup��es nos per�odos de auge da bebedeira � at� 1964. O fato de morar nessa cabana de forma mais ou menos permanente e n�o obstante apresentar-se ao trabalho barbeado e de terno e gravata indicava, apesar de tudo, certa disciplina pessoal.</p><p>Mas tamb�m era um lugar aonde Harriet ia com frequ�ncia, tanto assim que foi um dos primeiros onde a procuraram. Henrik contou que no �ltimo ano ela tinha ido v�rias vezes � cabana, nos fins de semana ou nas f�rias. No �ltimo ver�o, havia morado ali durante tr�s meses, embora fosse ao povoado todos os dias. Fora ali tamb�m que sua amiga Anita Vanger, irm� de Cecilia, lhe fizera companhia por seis semanas.</p><p>O que ela fazia na solid�o? As revistas e os livros de literatura juvenil falavam por si mesmos. O bloco de desenho talvez tenha lhe pertencido. Mas havia tamb�m a B�blia.</p><p>Queria ficar perto do pai afogado e passar ali um per�odo de luto? Era s� essa a explica��o? Ou o isolamento tinha a ver com suas d�vidas religiosas? A cabana era monacal; ela vivia ali como num convento?</p><empty-line/><p>* * *</p><p>Mikael seguiu pela praia na dire��o sudeste, mas o terreno, barrado por muitas ravinas e jun�peros, era quase impratic�vel. Retornou e andou um pouco em dire��o a Hedeby. De acordo com o mapa, devia haver uma picada atrav�s do bosque que levava � chamada Fortifica��o, e ele levou uns vinte minutos para achar o acesso, invadido pela vegeta��o. A Fortifica��o eram restos da defesa costeira que datavam da Segunda Guerra: bunkers de concreto com trincheiras distribu�das em volta de uma constru��o de comando. Tudo coberto de mato.</p><p>Mikael continuou no caminho at� chegar a um dep�sito de barcos numa clareira junto ao mar. Ao lado do dep�sito encontrou restos de um veleiro. Retornou � Fortifica��o e seguiu at� ir dar num cercado � eram as terras da fazenda de �stergarden.</p><p>Continuou no caminho que serpenteava atrav�s do bosque, em alguns pontos paralelo ao campo pertencente � fazenda. O caminho era de dif�cil acesso e ele foi obrigado a contornar alguns loda�ais. Por fim chegou a um p�ntano junto a um celeiro. Aparentemente o caminho terminava ali, mas ele estava a apenas cem metros da estrada de �stergarden.</p><p>Do outro lado da estrada, se elevava o monte Sul. Mikael escalou uma encosta �ngreme e precisou do apoio das m�os nos �ltimos metros. O monte Sul terminava numa fal�sia quase vertical sobre o mar. Mikael retornou a Hedeby seguindo pela crista, de onde avistou as cabanas, o velho porto dos pescadores, a igreja e a pequena casa em que estava hospedado. Sentou-se numa pedra e serviu-se de um �ltimo resto de caf� morno.</p><p>N�o tinha a menor id�ia do que fazia em Hedeby, mas a vista lhe agradava.</p><empty-line/><p>Cecilia Vanger mantinha dist�ncia e Mikael n�o quis parecer insistente. Mas depois de uma semana resolveu ir visit�-la. Ela o recebeu e foi preparar um caf�.</p><p>� Deve estar me achando uma idiota, uma professora respeit�vel de cinquenta e seis anos se comportando como uma adolescente.</p><p>� Cecilia, voc� � uma mulher adulta e tem o direito de agir como quiser.</p><p>� Eu sei. Por isso decidi n�o te ver mais. N�o consigo administrar...</p><p>� Voc� n�o me deve nenhuma explica��o. Espero que continuemos bons amigos.</p><p>� � o que desejo tamb�m. Mas um caso com voc� � muito complicado para mim. Relacionamentos amorosos nunca foram o meu forte. Acho que preciso ficar s� por algum tempo.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>16.� DOMINGO 1� DE JUNHO � TER�A-FEIRA 10 DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Ap�s seis meses de especula��es infrut�feras, uma brecha se abriu no caso Harriet Vanger quando Mikael, em apenas alguns dias da primeira semana de junho, descobriu tr�s novas pe�as do quebra-cabe�a. Duas completamente sozinho, a terceira com um pouco de ajuda.</p><p>Depois da visita de Erika, ele reabrira o �lbum de fotografias e por v�rias horas examinara as fotos uma ap�s outra, tentando entender o que o fizera reagir. Depois deixou tudo de lado e voltou a trabalhar na cr�nica familiar.</p><p>Num dos primeiros dias de junho, Mikael foi a Hedestad. Estava pensando em outra coisa, quando o �nibus entrou na rua da Esta��o, e foi ent�o que subitamente se deu conta do que havia germinado em seu c�rebro. A luz o atingiu como um rel�mpago num c�u sem nuvens. Ficou t�o abalado que continuou at� o terminal da esta��o ferrovi�ria e voltou imediatamente a Hedeby para verificar se suas lembran�as eram exatas.</p><p>Tratava-se da primeira foto do �lbum. A �ltima de Harriet, tirada na rua da Esta��o em Hedestad naquele dia funesto, quando ela assistia ao desfile da Festa das Crian�as.</p><p>A foto destoava no �lbum. Estava ali porque fora tirada no mesmo dia, mas era a �nica entre as outras cento e oitenta que n�o mostrava o acidente na ponte. Sempre que Mikael e (supunha ele) todos os outros olhavam o �lbum, eram as pessoas e os detalhes das fotos da ponte que lhes chamavam a aten��o. Nada havia de dram�tico na fotografia de uma multid�o assistindo ao desfile da Festa das Crian�as em Hedestad, v�rias horas antes dos acontecimentos decisivos.</p><p>Henrik Vanger devia ter olhado para aquela foto milhares de vezes, constatando com pesar que nunca mais tornaria a ver Harriet. Provavelmente se irritou por a foto ter sido tirada de t�o longe e de Harriet Vanger s� aparecer como uma figura qualquer na multid�o.</p><p>Mas n�o foi isso que tinha feito Mikael reagir.</p><p>A foto fora tirada do outro lado da rua, provavelmente de uma janela do primeiro andar. A grande-angular captava a frente de um dos caminh�es do desfile. Sobre a carroceria, vestidas com maios de banho cintilantes e pantalonas ex�ticas, mulheres lan�avam bombons aos espectadores. Algumas pareciam dan�ar. Diante do caminh�o saltitavam tr�s palha�os.</p><p>Harriet estava na cal�ada, na primeira fila de espectadores. A seu lado, tr�s colegas de classe e, ao redor, pelo menos uns cem outros habitantes de Hedestad.</p><p>Foi isso que o subconsciente de Mikael registrara e que de repente veio � tona quando o �nibus passou exatamente no local onde a foto fora tirada.</p><p>Os espectadores se comportavam como costumam se comportar. Os olhos dos espectadores sempre seguem a bolinha numa partida de t�nis ou o disco de borracha no h�quei sobre gelo. Os que estavam mais � esquerda olhavam os palha�os bem � frente deles. Os mais pr�ximos do caminh�o dirigiam o olhar para a carroceria com as mo�as escassamente vestidas. Seus rostos estavam sorridentes. Crian�as apontavam com o dedo. Alguns riam. Todos pareciam felizes.</p><p>Todos exceto uma pessoa.</p><p>Harriet Vanger olhava para o lado. Suas tr�s colegas e as pessoas ao redor olhavam os palha�os. O rosto de Harriet estava voltado uns trinta ou trinta e cinco graus para a direita. Seu olhar parecia fixo em alguma coisa do outro lado da rua, mas que n�o aparecia no canto inferior � esquerda da foto.</p><p>Mikael pegou a lupa e tentou distinguir os detalhes. A foto fora tirada de muito longe para que ele tivesse absoluta certeza, mas, ao contr�rio de todos os outros, o rosto de Harriet n�o exprimia nenhuma alegria. A boca era um tra�o estreito. Olhos muito abertos. M�os repousadas frouxamente ao longo do corpo.</p><p>Ela parecia estar com medo. Com medo ou com raiva.</p><empty-line/><p>Mikael tirou a foto do �lbum, enfiou-a numa folha de pl�stico e pegou o �nibus com destino a Hedestad. Desceu na rua da Esta��o e colocou-se no local onde a foto provavelmente fora tirada. Era numa das pontas do que constitu�a o centro da cidade. Tratava-se de um sobrado de madeira que agora abrigava uma videolocadora e uma loja de moda masculina, Sundstr�m, existente desde 1932, conforme informava uma placa acima da porta de entrada. Ele entrou e logo percebeu que a loja ocupava os dois andares; uma escada em caracol conduzia � parte de cima.</p><p>No alto, duas janelas davam para a rua. Foi ali que o fot�grafo se instalara.</p><p>� Posso ajud�-lo? � perguntou um vendedor de certa idade, quando Mikael tirou do bolso o pl�stico com a fotografia. Havia pouca gente na loja.</p><p>� Bem, na verdade eu gostaria apenas de verificar de onde esta fotografia foi tirada. Posso abrir um instante a janela?</p><p>Deram-lhe permiss�o e ele estendeu a foto � sua frente. Podia ver o local exato onde Harriet Vanger estivera. Uma das duas casas de madeira que se viam atr�s dela desaparecera, substitu�da por uma de tijolos. A outra casa, que sobreviveu, abrigava uma papelaria em 1966; atualmente havia ali uma loja de produtos diet�ticos e um sol�rio. Mikael fechou a janela, agradeceu e desculpou-se pelo inc�modo.</p><p>Embaixo, na rua, foi se colocar no lugar onde Harriet estivera. N�o teve dificuldade em se orientar entre a janela do primeiro andar da loja e a porta do sol�rio. Virou a cabe�a e reconstituiu a linha de mira de Harriet. Pelo que Mikael p�de avaliar, ela dirigira o olhar a um canto da casa que abrigava a loja de moda masculina. Era um canto de casa inteiramente comum, de onde sa�a uma rua lateral. <emphasis>O</emphasis><emphasis>que Harriet teria visto l�?</emphasis></p><empty-line/><p>Mikael guardou a fotografia na mochila e foi a p� at� a entrada da esta��o, onde sentou-se num terra�o e pediu um <emphasis>caff� latte.</emphasis> Sentia-se subitamente agitado.</p><p>Nos romances policiais ingleses, isso se chamava uma <emphasis>new evidence, o</emphasis> que era bem mais que um "novo dado". Ele acabava de ver algo novo, que ningu�m mais observara numa investiga��o que se arrastava havia trinta e sete anos.</p><p>O �nico problema � que ele n�o sabia muito bem qual o valor dessa nova descoberta, nem mesmo se havia algum. No entanto ela lhe parecia importante.</p><p>O dia de setembro em que Harriet desapareceu fora dram�tico de diversas maneiras. Era um dia de festa em Hedestad com milhares de pessoas nas ruas, tanto jovens como velhos. E havia a reuni�o familiar anual na ilha. S� esses dois acontecimentos j� quebravam a rotina do lugar. E o acidente na ponte, como a cereja no bolo, veio lan�ar sua sombra sobre o resto.</p><p>O inspetor Morell, Henrik Vanger e todos os que refletiram sobre o desaparecimento de Harriet haviam se concentrado nos acontecimentos da ilha. O pr�prio Morell escrevera que n�o conseguia afastar a suspeita de que havia uma liga��o entre o acidente e o desaparecimento de Harriet. De repente Mikael se convenceu de que isso era inteiramente falso.</p><p>A cadeia de incidentes n�o come�ara na ilha, mas na cidade de Hedestad, v�rias horas antes naquele dia. Harriet Vanger tinha visto alguma coisa ou algu�m que lhe causara medo e que a fizera voltar para casa e procurar de imediato Henrik Vanger, que infelizmente n�o teve tempo de lhe dar aten��o. Depois aconteceu o acidente na ponte. Em seguida o assassino agiu.</p><empty-line/><p>Mikael fez uma pausa. Era a primeira vez que formulava conscientemente a suposi��o de que Harriet havia sido morta. Hesitou, mas logo percebeu que concordava com a convic��o de Henrik Vanger. Harriet fora morta e agora ele buscava um assassino.</p><p>Retornou ao inqu�rito policial. Nos milhares de p�ginas, s� uma parte m�nima falava das horas em Hedestad. Harriet estava com tr�s colegas de classe, e todas foram interrogadas. Elas se encontraram na entrada da esta��o ferrovi�ria �s nove da manh�. Uma das meninas precisava comprar um jeans e as outras a acompanharam. Tomaram um caf� no restaurante das lojas EPA e depois foram at� a feira na pra�a de esportes, onde passearam entre as bancas e os pequenos lagos com patos, e onde tamb�m cruzaram com outros colegas de escola. Ao meio-dia, dirigiram-se ao centro da cidade para ver o desfile da Festa das Crian�as. Um pouco antes das duas, Harriet anunciou repentinamente que precisava voltar para casa. Elas se separaram num ponto de �nibus perto da rua da Esta��o.</p><p>Nenhuma das colegas observou algo fora do comum. Uma delas, Inger Stenberg, afirmou que Harriet se tornara "impessoal", ao descrever sua mudan�a no �ltimo ano. Disse que naquele dia Harriet estava taciturna como de costume e que apenas acompanhava as outras.</p><p>O inspetor Morell entrevistou todos os que tinham visto Harriet naquele dia, mesmo os que apenas a cumprimentaram na feira ou na rua. Sua foto foi publicada nos jornais da regi�o quando a deram por desaparecida. V�rios habitantes de Hedestad entraram em contato com a pol�cia para dizer que julgavam t�-la visto durante o dia, mas ningu�m observou nada de incomum.</p><empty-line/><p>Mikael passou a noite refletindo sobre como continuar investigando a pista que acabava de formular. Na manh� seguinte, foi se encontrar com Henrik Vanger no momento em que ele tomava o caf�-da-manh�.</p><p>� Voc� me disse que a fam�lia Vanger sempre teve participa��es no <emphasis>Hedestads-Kuriren.</emphasis></p><p><emphasis>�</emphasis> Isso mesmo.</p><p>� Preciso consultar os arquivos fotogr�ficos do jornal. De 1966. Henrik Vanger pousou o copo de leite e enxugou o l�bio superior.</p><p>� Mikael, o que voc� descobriu? Ele olhou o velho bem nos olhos.</p><p>� Nada de concreto. Mas acho que podemos ter cometido um erro de interpreta��o no que se refere ao desenrolar dos acontecimentos.</p><p>Mostrou a foto e relatou suas conclus�es; Henrik n�o disse nada por um longo tempo.</p><p>� Se tenho mesmo raz�o, devemos nos concentrar no que se passou em Hedestad naquele dia, n�o apenas no que se passou na ilha � disse Mikael. � N�o sei o que foi feito delas depois de tantos anos, mas muitas fotografias das festividades certamente nem foram publicadas. S�o essas fotos que quero ver.</p><p>Henrik Vanger utilizou o telefone de parede na cozinha. Chamou Martin Vanger, explicou o que procurava e perguntou quem era hoje o respons�vel pelo arquivo fotogr�fico do <emphasis>Kuriren.</emphasis> Dez minutos mais tarde, a pessoa foi localizada e a autoriza��o obtida.</p><empty-line/><p>A respons�vel pelo arquivo fotogr�fico do <emphasis>Hedestads-Kuriren</emphasis> chamava-se Madeleine Blomberg, mais conhecida por Maja, e tinha sessenta anos. Era a primeira mulher nessa fun��o que Mikael encontrava em sua carreira, numa profiss�o em que ainda se julgava a fotografia como um dom�nio art�stico reservado aos homens.</p><p>Era um s�bado e a reda��o estava vazia, mas Maja Blomberg morava a apenas cinco minutos a p� dali e recebeu Mikael na porta do jornal. Ela havia trabalhado no <emphasis>Hedestads-Kuriren</emphasis> a maior parte de sua vida. Come�ou como revisora em 1964, a seguir trabalhou na prepara��o das fotos e passou muitos anos no laborat�rio, sendo enviada tamb�m para algumas coberturas fotogr�ficas quando os efetivos faltavam. Acabou sendo promovida a editora e, dez anos antes, quando o ex-respons�vel pelo setor de fotografia se aposentou, ela assumiu a chefia do departamento. Mas isso n�o significava que dirigisse um vasto imp�rio. O departamento de fotografia fora integrado ao de publicidade dez anos antes e contava com apenas seis pessoas, todas encarregadas do mesmo trabalho por turno.</p><p>Mikael perguntou como os arquivos estavam organizados.</p><p>� Na verdade, o arquivo est� uma grande bagun�a. Depois dos computadores e das fotos digitais, passamos a arquivar tudo em CDs. Um dos nossos estagi�rios escaneou as fotos antigas importantes, mas isso s� representa um ou dois por cento das fotos catalogadas. As mais antigas est�o organizadas em arquivos de negativos, por data. Est�o ou aqui na reda��o, ou no dep�sito.</p><p>� O que me interessa s�o as fotos tiradas no desfile da Festa das Crian�as de 1966, mas tamb�m, de modo geral, fotos tiradas naquela semana.</p><p>Maja Blomberg perscrutou Mikael com o olhar.</p><p>� N�o � a semana em que Harriet Vanger desapareceu?</p><p>� A senhora conhece a hist�ria?</p><p>� Imposs�vel ter trabalhado a vida inteira no <emphasis>Hedestads-Kuriren</emphasis> e n�o conhec�-la, e quando Martin Vanger me chamou hoje de manh�, no meu dia de folga, tirei minhas pr�prias conclus�es. Revisei artigos que falavam do caso nos anos 1960. Por que est� investigando? Haveria novas revela��es?</p><p>Maja Blomberg tamb�m parecia ter faro. Mikael balan�ou a cabe�a com um breve sorriso e lan�ou seu pretexto.</p><p>� N�o, e duvido muito que algum dia tenhamos a resposta para o que aconteceu com ela. Pe�o que n�o espalhe, mas estou escrevendo a biografia de Henrik Vanger. O desaparecimento de Harriet � um assunto � parte, mas tamb�m um cap�tulo que n�o se pode ignorar. Procuro fotos que possam ilustrar aquele dia, de Harriet e de suas colegas.</p><p>Maja Blomberg pareceu c�tica, por�m como a explica��o era plaus�vel ela n�o tinha por que duvidar do que ele dizia.</p><p>O fot�grafo de um jornal utiliza em m�dia entre dois e dez filmes por dia. Em �pocas de grandes acontecimentos, esse n�mero pode facilmente dobrar. Cada filme cont�m trinta e seis negativos, portanto n�o � incomum um jornal acumular mais de trezentas fotos todos os dias, das quais poucas s�o publicadas. Uma reda��o bem organizada divide os filmes em seis e p�e cada tira dessas em seis envelopes numa p�gina. Com isso, um filme equivale a mais ou menos uma p�gina num arquivo de negativos. Um arquivo cont�m pouco mais de cento e dez filmes. Em um ano, acumulam-se entre vinte e trinta arquivos. Ao longo dos anos, isso acaba se transformando numa quantidade espantosa de arquivos, geralmente sem o menor valor comercial, atulhando as prateleiras da reda��o. No entanto, todos os fot�grafos e editores de fotografia est�o convencidos de que as imagens representam um <emphasis>documento hist�rico de valor inestim�vel</emphasis> e n�o jogam nada fora.</p><p>Fundado em 1922, o <emphasis>Hedestads-Kuriren</emphasis> dispunha de uma editoria de fotografia desde 1937. O dep�sito do <emphasis>Kuriren</emphasis> abrigava mais de mil e duzentos arquivos de fotos, classificados por data. As imagens de setembro de 1966 representavam quatro arquivos de encaderna��o barata.</p><p>� Como eu fa�o? � perguntou Mikael. � Vou precisar de um negatosc�pio e tamb�m copiar as fotos que me interessarem.</p><p>� N�o temos mais laborat�rio. Escaneamos tudo. Sabe usar um esc�ner de negativos?</p><p>� Sim, j� fiz fotos, eu mesmo tenho um Agfa em casa. Trabalho com o Photoshop.</p><p>� Ent�o est� t�o bem equipado como n�s.</p><p>Maja Blomberg levou Mikael para dar uma volta r�pida pela reda��o, indicou-lhe um lugar diante de um negatosc�pio e ligou um computador e um esc�ner. Mostrou-lhe tamb�m onde preparar caf� na copa. Arrumou tudo para que Mikael pudesse trabalhar sozinho e livremente, mas ele devia chamar Maja Blomberg quando fosse embora da reda��o, para que ela viesse trancar tudo e ligar o alarme. Ela o deixou com um jovial "Divirta-se".</p><empty-line/><p>Mikael precisou de v�rias horas para percorrer os arquivos. Dois fot�grafos trabalhavam no <emphasis>Hedestads-Kuriren</emphasis> naquela �poca. O que trabalhou no dia em quest�o foi Kurt Nylund, que Mikael j� conhecia. Na �poca, Nylund tinha vinte anos. Mais tarde foi morar em Estocolmo e tornou-se um fot�grafo profissional reconhecido, atuando como <emphasis>freelancer</emphasis> mas tamb�m com a Pressens Bild, em Marieberg. Seus caminhos se cruzaram v�rias vezes nos anos 1990, quando a <emphasis>Millennium</emphasis> comprou fotos da Pressens Bild. Mikael tinha a lembran�a de um homem magro de cabelos finos. Kurt Nylund utilizara um filme pouco sens�vel usado por muitos rep�rteres-fotogr�ficos.</p><p>Mikael tirou dos envelopes as fotos do jovem Nylund e as p�s no negatosc�pio, examinando uma por uma com a lupa. Mas ler negativos � uma arte que requer algum h�bito, coisa que Mikael n�o tinha. Para saber se as fotos continham alguma informa��o valiosa, ele percebeu que seria obrigado a escanear cada imagem para observ�-la depois no computador. Isso levaria horas. Decidiu ent�o fazer um levantamento dos negativos que poderiam interess�-lo.</p><p>Come�ou selecionando as fotografias do acidente com o caminh�o-tanque. Mikael constatou que o arquivo de cento e oitenta fotos de Henrik Vanger n�o estava completo; a pessoa que copiara a cole��o � talvez o pr�prio Nylund � eliminara cerca de trinta fotos, ou porque estavam desfocadas, ou porque sua qualidade era med�ocre para publica��o.</p><p>Mikael deixou o computador do <emphasis>Hedestads-Kurirem</emphasis> e ligou o esc�ner em seu pr�prio notebook. Passou duas horas escaneando o restante das fotos.</p><p>Uma delas chamou de imediato sua aten��o. Num certo momento entre 15hl0 e 15hl5, exatamente nos minutos em que Harriet desapareceu, algu�m abrira a janela do quarto dela; Henrik Vanger tentara em v�o descobrir quem foi. De repente, Mikael tinha na tela uma foto que devia ter sido tirada no momento em que a janela estava aberta. Era poss�vel ver uma silhueta e um rosto, mas imprecisos, desfocados. Concluiu que a an�lise dessa foto poderia esperar at� que ele escaneasse o resto.</p><p>Nas horas seguintes, Mikael examinou as fotos da Festa das Crian�as. Kurt Nylund usou seis filmes, isto �, tirou mais de duzentas fotos. Era uma s�rie descont�nua de crian�as com bal�es, adultos, vendedores de cachorro-quente, o desfile propriamente dito, um artista local sobre um estrado e uma distribui��o de pr�mios.</p><p>Mikael decidiu, por fim, escanear o conjunto de fotos. Ao cabo de seis horas, tinha um dossi� com noventa fotografias. Ele seria obrigado a voltar ao <emphasis>Hedestads-Kuriren.</emphasis></p><p>�s nove da noite, ligou para Maja Blomberg, agradeceu e voltou para sua casa na ilha.</p><p>Ele regressou �s nove da manh� do domingo. Tamb�m n�o havia ningu�m quando Maja Blomberg o fez entrar. Mikael n�o se dera conta de que era feriado de Pentecostes e que o jornal s� sairia na ter�a-feira. P�de utilizar a mesma mesa de trabalho da v�spera e passou o dia escaneando. Por volta das seis, ainda restavam quarenta fotos da Festa das Crian�as. Mikael examinou os negativos e concluiu que os belos primeiros planos com crian�as ou as fotos de artistas em cena n�o tinham o menor interesse para ele. O que lhe interessava era a anima��o das ruas e da multid�o.</p><empty-line/><p>Mikael passou toda a segunda-feira de Pentecostes examinando o novo material fotogr�fico. Fez duas descobertas. A primeira o encheu de consterna��o. A segunda fez seu cora��o bater mais r�pido.</p><p>A primeira descoberta era sobre o rosto na janela do quarto de Harriet Vanger. A foto estava desfocada por causa da movimenta��o e por isso fora eliminada da cole��o. O fot�grafo se posicionara diante da igreja e visara a ponte. As casas se achavam no plano de fundo. Mikael enquadrou a imagem de modo a recortar apenas a janela em quest�o, e a seguir fez diversas tentativas, ajustando o contraste e aumentando a precis�o, at� obter o que julgou ser a melhor qualidade poss�vel.</p><p>O resultado foi uma imagem granulada de tons cinza, que mostrava uma janela retangular, uma cortina, a ponta de um bra�o e um rosto difuso em forma de meia-lua um pouco recuado no c�modo.</p><p>Constatou que o rosto n�o pertencia a Harriet Vanger, que tinha cabelos pretos, mas a uma pessoa com cabelos bem mais claros.</p><p>Constatou ainda que se podia distinguir partes mais escuras onde ficavam os olhos, o nariz e a boca, mas que era imposs�vel obter tra�os n�tidos do rosto. Estava convencido, por�m, de que via uma mulher; a parte mais clara ao lado do rosto continuava at� os ombros e indicava uma cabeleira feminina. Constatou que a pessoa usava roupas claras.</p><p>Fez uma estimativa da altura dela tomando por base a janela; uma mulher de cerca de um metro e setenta.</p><p>Ao fazer desfilar outras fotos do acidente da ponte, constatou que uma pessoa correspondia exatamente aos sinais que distinguia � Cecilia Vanger, aos vinte anos.</p><empty-line/><p>Kurt Nylund tirara ao todo dezoito fotos postado � janela do primeiro andar da Sundstr�m, Moda Masculina. Harriet Vanger aparecia em dezessete. Harriet e suas colegas haviam chegado � rua da Esta��o no mesmo instante em que Kurt Nylund come�ara a fotografar. Mikael calculou que as fotos deviam ter sido tiradas num lapso de tempo de cinco minutos. Na primeira, Harriet e suas colegas estavam descendo a rua e entraram no campo da imagem. Nas fotos de 2 a 7 estavam im�veis, observando o desfile. Depois se deslocaram cerca de seis metros adiante na rua. Na �ltima foto, talvez tirada um pouco mais tarde, o grupo inteiro havia desaparecido.</p><p>Mikael reuniu uma s�rie de imagens na qual enquadrou Harriet da cintura para cima, tentando obter o melhor contraste. Colocou as fotos numa nova pasta, abriu o programa Graphic Converter e executou a fun��o Diaporama. O efeito foi um filme mudo e entrecortado em que cada imagem aparecia durante dois segundos.</p><p>Harriet chega, foto de perfil. Harriet se det�m e olha a cal�ada. Harriet vira o rosto para a rua. Harriet abre a boca para dizer alguma coisa � sua colega. Harriet ri. Harriet toca a orelha da colega com a m�o esquerda. Harriet sorri. Harriet parece de repente surpresa, o rosto num �ngulo de aproximadamente vinte graus � esquerda da objetiva. Harriet arregala os olhos e p�ra de sorrir. A boca de Harriet se transforma num tra�o estreito. Harriet fixa o olhar em alguma coisa. Em seu rosto se pode ler... o qu�? Afli��o, choque, raiva? Harriet baixa os olhos. Harriet n�o est� mais l�.</p><p>Mikael repassou a sequ�ncia v�rias vezes.</p><p>Ela confirmava nitidamente a hip�tese que ele formulara. Alguma coisa ocorreu na rua da Esta��o em Hedestad. A l�gica era evidente.</p><p><emphasis>Ela v� alguma coisa</emphasis> � <emphasis>algu�m</emphasis> � <emphasis>do outro lado da rua. Est� chocada. Mais tarde vai procurar Henrik Vanger para uma conversa particular que nunca aconteceu. Depois desaparece sem deixar vest�gios.</emphasis></p><p>Alguma coisa ocorreu naquele dia. Mas as fotos n�o explicavam o qu�.</p><empty-line/><p>�s duas da manh� de ter�a-feira, Mikael fez caf� e preparou sandu�ches que comeu sentado no banco da cozinha. Estava ao mesmo tempo desanimado e excitado. Contra todas as expectativas, ele havia descoberto novos ind�cios. O problema era que, se eles jogavam uma nova luz sobre os acontecimentos, n�o o faziam avan�ar um mil�metro na solu��o do enigma.</p><p>Refletiu muito sobre o papel que Cecilia Vanger desempenhara no drama. Henrik Vanger descrevera em detalhe as atividades de todos os protagonistas naquele dia e Cecilia n�o fora exce��o. Em 1966 ela morava em Uppsala, mas chegou a Hedeby dois dias antes daquele s�bado funesto. Estava hospedada num quarto de h�spedes da casa de Isabella Vanger. Declarou ter visto Harriet de manh�, mas n�o chegou a falar com ela. No s�bado foi a Hedestad fazer compras. N�o viu Harriet e regressou � ilha por volta da uma da tarde, no momento em que Kurt Nylund tirava a s�rie de fotos na rua da Esta��o. Trocou de roupa e �s duas come�ou a ajudar a preparar a mesa para o almo�o.</p><p>Como �libi, era fraco. As horas eram aproximadas, sobretudo no que dizia respeito a seu retorno � ilha, mas Henrik Vanger nunca duvidou um segundo de que ela pudesse ter mentido. Cecilia era uma das pessoas da fam�lia que Henrik queria bem. Al�m disso, fora amante de Mikael. Ele tinha dificuldade de ser objetivo e n�o podia de modo algum imagin�-la no papel de uma assassina.</p><p>E eis que agora uma foto na janela vinha insinuar que ela mentira ao dizer que n�o havia entrado no quarto de Harriet. Os pensamentos se engalfinhavam na cabe�a de Mikael.</p><p><emphasis>Se ela mentiu sobre isso, que outras mentiras teria contado?</emphasis></p><p>Mikael fez um balan�o do que sabia sobre Cecilia. Via-a como uma pessoa apesar de tudo reservada, aparentemente marcada pelo passado, e o resultado � que vivia sozinha, carente de vida sexual e com dificuldade de se aproximar das pessoas. Guardava dist�ncia dos outros e, quando por um momento se deixou levar e se lan�ou sobre um homem, escolheu Mikael, um estranho de passagem. Cecilia disse que estava rompendo a rela��o deles por n�o suportar a id�ia de que ele ia desaparecer de sua vida de uma hora para a outra. Mas foi exatamente pela mesma raz�o, talvez, que ousou dar um passo e iniciar um caso com ele. Como se tratava de um caso passageiro, ela n�o precisava temer uma transforma��o radical de sua vida. Mikael suspirou e deixou essas especula��es psicol�gicas de lado.</p><empty-line/><p>Ele fez a segunda descoberta nessa mesma noite. A chave do enigma � ele estava convencido � era o que Harriet tinha visto na rua da Esta��o em Hedestad. Mikael nunca saberia o que era, a n�o ser que inventasse uma m�quina do tempo e se colocasse atr�s de Harriet para olhar por cima de seu ombro.</p><p>No momento mesmo em que esse pensamento lhe aflorou ao esp�rito, ele bateu na testa com a palma da m�o e precipitou-se ao notebook. Clicou para fazer surgir a s�rie de imagens n�o recortadas da rua da Esta��o e... <emphasis>ali estava!</emphasis></p><p>Atr�s de Harriet Vanger, cerca de um metro � direita dela, havia um jovem casal, ele de su�ter listado e ela com uma blusa clara. Ela segurava uma m�quina fotogr�fica na m�o. Mikael ampliou a foto e teve a impress�o de ver uma Kodak Instamatic com flash embutido � um aparelho barato para pessoas que n�o entendem de fotografia.</p><p>A mulher mantinha o aparelho na altura do queixo. Depois o levantava e fotografava os palha�os, no momento em que o rosto de Harriet mudava de express�o.</p><p>Mikael comparou a posi��o da m�quina com a dire��o do olhar de Harriet. A mulher havia fotografado quase exatamente o que Harriet Vanger estivera olhando.</p><p>De repente, Mikael tomou consci�ncia de que seu cora��o batia com for�a. Jogou o corpo para tr�s e tirou o ma�o de cigarros do bolso da camisa. <emphasis>Algu�m havia tirado uma foto.</emphasis> Mas como identificar essa mulher? Como obter sua foto? Teria o filme sido aproveitado e, nesse caso, a foto existiria em algum lugar?</p><p>Mikael abriu a pasta com as fotos que Kurt Nylund havia tirado da multid�o. Passou a hora seguinte ampliando cada fotografia e examinando-a cent�metro quadrado por cent�metro quadrado. Reencontrou o casal exatamente na �ltima. Kurt Nylund havia fotografado outro palha�o, com bal�es na m�o, posando diante da objetiva com um eternizado sorriso nos l�bios. A foto fora tirada no estacionamento junto � pra�a de esportes onde se realizava a festa. Deve ter sido depois das duas da tarde � a seguir Nylund fora avisado do acidente com o caminh�o-tanque e interrompera a cobertura da Festa das Crian�as.</p><p>A mulher estava quase inteiramente oculta, mas via-se com clareza o perfil do homem de su�ter listado. Ele tinha chaves na m�o e se inclinava para abrir a porta de um carro. A imagem mostrava o palha�o em primeiro plano e a foto estava ligeiramente desfocada. N�o se via toda a placa, mas ela come�ava por AC3 alguma coisa.</p><p>As placas dos ve�culos nos anos 1960 come�avam com a letra das regi�es, e Mikael aprendera, quando crian�a, a identificar a proveni�ncia dos carros. AC designava o V�sterbotten.</p><p>Depois Mikael identificou outra coisa. No vidro traseiro havia um adesivo. Deu um <emphasis>zoom,</emphasis> por�m o texto desapareceu numa mancha. Real�ou o adesivo e levou algum tempo trabalhando no contraste e na nitidez. N�o conseguia ler o texto, mas se baseou nas formas imprecisas para determinar a que letras podiam corresponder. Muitas se assemelhavam. Um O podia ser tomado por um D, um B por um E ou v�rias outras letras. Trabalhando com papel e l�pis, e ap�s eliminar algumas letras, deparou com um texto incompreens�vel.</p><p><image l:href="#3"/></p><p>Fixou a imagem at� seus olhos doerem. E ent�o o texto apareceu: MARCENARIA DE NORSJ�, seguido de sinais menores e imposs�veis de ler, mas que formavam, provavelmente, um n�mero telef�nico.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>17.� QUARTA-FEIRA 11 DE JUNHO � S�BADO 14 DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Quanto � terceira pe�a do quebra-cabe�a, Mikael recebeu uma ajuda inesperada.</p><p>Depois de trabalhar nas fotos a noite toda, dormiu pesadamente at� o meio-dia. Acordou com uma dor de cabe�a difusa, tomou um banho e foi at� o Caf� Susanne fazer seu desjejum. N�o conseguia juntar as id�ias. Deveria ir ver Henrik Vanger e relatar suas descobertas. Em vez disso, foi bater � porta de Cecilia. Queria lhe perguntar o que fora fazer no quarto de Harriet e por que mentira, dizendo que n�o havia ido l�. Ningu�m atendeu.</p><p>Ele estava deixando o local quando ouviu uma voz.</p><p>� A sua puta n�o est� em casa.</p><p>O Gollum acabava de sair da caverna. Era alto, quase dois metros de altura, mas t�o curvado pela idade que os olhos ficavam na altura dos de Mikael. A pele estava manchada de sardas escuras. Vestia um pijama e um robe marrom e se apoiava numa bengala. Parecia a vers�o hollywoodiana do velho rabugento.</p><p>� Que foi que o senhor disse?</p><p>� Eu disse que a sua puta n�o est� em casa.</p><p>Mikael se aproximou at� quase tocar o nariz de Harald Vanger.</p><p>� E de sua pr�pria filha que est� falando, seu velho indecente.</p><p>� N�o sou eu que venho vagar aqui � noite � respondeu Harald Vanger com um sorriso desdentado. Seu h�lito fedia. Mikael desviou-se dele e prosseguiu seu caminho sem se virar. Foi at� a casa de Henrik Vanger e o encontrou em seu escrit�rio.</p><p>� Acabo de encontrar seu irm�o � disse Mikael �, e ele mal p�de conter sua rabugice.</p><p>� Harald? Ora vejam, ent�o ele ousou uma sa�da! Isso acontece uma ou duas vezes por ano.</p><p>� Eu batia � porta de Cecilia quando ele apareceu. Ele falou, abre aspas: A sua puta n�o est� em casa. Fecha aspas.</p><p>� � bem coisa do Harald � disse Henrik Vanger calmamente.</p><p>� Ele chama de puta a pr�pria filha!</p><p>� H� anos age assim. Por isso n�o se falam mais.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Cecilia perdeu a virgindade quando tinha vinte e um anos. Aconteceu aqui em Hedestad, uma hist�ria de amor que ela teve durante o ver�o, um ano ap�s o desaparecimento de Harriet.</p><p>� E a�?</p><p>� O homem que ela amava chamava-se Peter Samuelsson, trabalhava no grupo Vanger como assistente financeiro. Um rapaz inteligente. Hoje trabalha para a ABB. Eu me orgulharia de t�-lo como genro se ela fosse minha filha. Mas ele tinha um defeito.</p><p>� Acho que posso adivinhar qual �.</p><p>� Harald mediu-lhe o cr�nio, ou verificou sua �rvore geneal�gica, ou qualquer coisa que o valha, e descobriu que tinha antepassados judeus.</p><p>� Santo Deus!</p><p>� Desde ent�o passou a cham�-la de puta.</p><p>� Ele sabia que Cecilia e eu...</p><p>� Todo o povoado sabe, imagino, talvez com exce��o de Isabella, porque nenhuma pessoa razo�vel iria lhe contar qualquer coisa e por sorte ela tem o h�bito de ir dormir �s dez da noite. Harald provavelmente acompanhou o menor dos seus passos.</p><p>Mikael sentou-se. Sentia-se meio est�pido.</p><p>� Quer dizer ent�o que todo mundo est� sabendo...</p><p>� Evidentemente.</p><p>� E voc� n�o tem nada contra?</p><p>� Querido Mikael, isso realmente n�o me diz respeito.</p><p>� Onde est� ela, Cecilia?</p><p>� O ano escolar terminou. No s�bado passado ela viajou a Londres para visitar a irm� e depois vai partir de f�rias para... humm... a Fl�rida, acho. Voltar� daqui a um m�s.</p><p>Mikael se sentiu ainda mais est�pido.</p><p>� Resolvemos, digamos assim, suspender a nossa rela��o.</p><p>� Entendo, mas tamb�m n�o � da minha conta. Como vai o trabalho?</p><p>Mikael serviu-se de caf� da garrafa t�rmica de Henrik. Olhou para o velho.</p><p>� Descobri uma novidade e vou precisar que algu�m me empreste um carro.</p><empty-line/><p>Mikael passou longo tempo expondo suas conclus�es. Tirou o notebook da mochila e apresentou a s�rie de fotos que mostravam a rea��o de Harriet na rua da Esta��o. Mostrou tamb�m como descobrira os fot�grafos amadores e seu carro com o adesivo da Marcenaria de Norsj�. Quando terminou sua exposi��o, Henrik pediu para rever a sequ�ncia de fotos. Mikael tornou a passar.</p><p>Quando Henrik levantou os olhos da tela do computador, seu rosto estava p�lido. Mikael sentiu um medo s�bito e p�s a m�o no ombro dele. Henrik fez-lhe um sinal para tranquiliz�-lo e permaneceu silencioso por um momento.</p><p>� Voc� fez o que eu achava imposs�vel! Descobriu algo totalmente novo. O que vai fazer agora?</p><p>� Preciso encontrar essa foto, se � que ainda existe.</p><p>Mikael nada disse sobre o rosto na janela e a suspeita contra Cecilia. O que provavelmente indicava que estava longe de ser um detetive particular objetivo.</p><empty-line/><p>Quando Mikael saiu, Harald Vanger havia desaparecido, certamente de volta � sua caverna. Ao fazer a curva, viu algu�m de costas junto � entrada de sua casa, lendo um jornal. Por um segundo, imaginou que fosse Cecilia Vanger, mas logo viu que n�o. Ao se aproximar, reconheceu imediatamente a pr�pria filha.</p><p>� Oi, papai � disse Pernilla Abrahamsson. Mikael estreitou a filha nos bra�os.</p><p>� Mas de onde voc� est� vindo?!</p><p>� De casa, � claro. Vou a Skelleftea. Vim passar uma noite aqui.</p><p>� E como me descobriu?</p><p>� Mam�e sabia e perguntei ali no caf� onde voc� morava. Indicaram-me esta casa. Est� contente de me ver?</p><p>� Claro que sim. Entre. Devia ter me avisado, eu teria comprado alguma coisa gostosa para comer.</p><p>� Pensei em te avisar, mas depois resolvi fazer uma surpresa para comemorar a sua sa�da da pris�o, e voc� tamb�m nunca me telefonou.</p><p>� Desculpe.</p><p>� Tudo bem. Mam�e diz que voc� est� sempre mergulhado nos seus pensamentos.</p><p>� � isso que ela fala de mim?</p><p>� Mais ou menos. Mas n�o faz mal. Mesmo assim eu te amo.</p><p>� Eu tamb�m, mas quero que voc� saiba...</p><p>� Eu sei. Acho que sou bastante madura para a minha idade.</p><empty-line/><p>Mikael preparou ch� e serviu alguns petiscos. De repente percebeu que o que a filha dissera era verdade. Ela n�o era mais uma menina, tinha quase dezessete anos e em breve seria uma mulher adulta. Ele precisava aprender a n�o trat�-la mais como uma crian�a.</p><p>� E ent�o, como foi?</p><p>� O qu�?</p><p>� A pris�o.</p><p>� Acredita se eu disser que foi como umas f�rias remuneradas para apenas pensar e escrever?</p><p>� Acredito. Acho que n�o h� muita diferen�a entre uma pris�o e um convento, e as pessoas sempre entram no convento para evoluir.</p><p>� Bem, � uma maneira de ver as coisas. Espero que n�o venha a ter problemas porque seu pai esteve na pris�o.</p><p>� De modo nenhum. Estou orgulhosa e n�o perco uma ocasi�o para sublinhar que voc� foi preso por suas convic��es.</p><p>� Minhas convic��es?</p><p>� Vi Erika Berger na tev�.</p><p>Mikael empalideceu. Ele n�o pensara na filha quando Erika montou a estrat�gia, e ela o julgava totalmente inocente.</p><p>� Pernilla, eu n�o sou inocente. Lamento n�o poder falar do que se passou, mas n�o fui injustamente condenado. O tribunal emitiu a senten�a baseado no que ficou sabendo durante o processo.</p><p>� Mas voc� n�o contou sua vers�o.</p><p>� N�o, porque n�o posso prov�-la. Cometi uma gafe monumental e por isso fui obrigado a ir para a pris�o.</p><p>� Certo. Mas responda � minha pergunta: Wennerstr�m � ou n�o � um cr�pula?</p><p>� � um dos cr�pulas mais sinistros que j� conheci.</p><p>� Est� vendo? Isso basta. Trouxe um presente para voc�.</p><p>Tirou um pacote da sacola. Mikael abriu e encontrou um CD com as melhores m�sicas do Eurythmics. Ela sabia que era uma de suas bandas favoritas. Ele transferiu imediatamente o CD para o notebook e escutaram juntos "Sweet dreams".</p><p>� O que vai fazer em Skelleftea? � perguntou Mikael.</p><p>� � uma reuni�o de estudos b�blicos com uma congrega��o chamada Luz da Vida � respondeu Pernilla, como se fosse a coisa mais natural do mundo.</p><p>Mikael sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.</p><p>Percebeu o quanto sua filha e Harriet se assemelhavam. Pernilla tinha dezesseis anos, assim como Harriet quando desapareceu. Ambas tinham um pai ausente. Ambas sentiram uma atra��o religiosa por seitas menores; Harriet na comunidade local dos pentecostais e Pernilla na sucursal de algo t�o bizarro como essa Luz da Vida.</p><p>Mikael n�o sabia muito bem como lidar com o interesse novo da filha pela religi�o. Tinha medo de interferir no seu direito de decidir por si mesma o caminho que queria seguir na vida. Por outro lado, Luz da Vida era exatamente o tipo de congrega��o sobre a qual ele e Erika n�o hesitariam em fazer uma reportagem de den�ncia na <emphasis>Millennium.</emphasis> Decidiu debater a quest�o com a m�e de Pernilla na primeira oportunidade.</p><empty-line/><p>* * *</p><p>Pernilla dormiu na cama de Mikael e ele passou a noite no banco da cozinha. Despertou com torcicolo e com os m�sculos doloridos. Como Pernilla tinha pressa de prosseguir sua viagem, Mikael preparou logo o caf�-da-manh� e a acompanhou at� a esta��o. Restavam-lhes alguns momentos antes de o trem partir. Compraram caf� numa lanchonete e instalaram-se num banco na extremidade da plataforma, conversando sobre v�rios assuntos. Pouco antes da chegada do trem, Pernilla falou:</p><p>� Acho que voc� n�o est� gostando muito de eu ir a Skelleftea. Mikael n�o soube o que responder. Ela continuou:</p><p>� N�o se preocupe. Mas voc� n�o � crente, �?</p><p>� N�o. Pelo menos n�o um bom crente.</p><p>� N�o acredita em Deus?</p><p>� N�o, n�o acredito. Mas respeito a sua cren�a. Todo mundo precisa acreditar em alguma coisa.</p><p>Quando o trem chegou � esta��o, eles se abra�aram demoradamente. No momento em que subia a bordo, Pernilla se voltou.</p><p>� Papai, n�o estou querendo fazer proselitismo. Voc� � livre para acreditar no que bem quiser que eu vou sempre te amar. Mas acho que deveria perseverar nos seus estudos b�blicos.</p><p>� Como assim?</p><p>� Vi as cita��es na parede do seu quarto � ela disse. � Por que voc� foi procurar passagens t�o sinistras? Um beijo. Tchau.</p><p>Ela acenou com a m�o e entrou no trem. Perplexo, Mikael ficou na plataforma vendo o trem sumir em dire��o ao norte. O �ltimo vag�o j� desaparecia na curva quando finalmente o significado do coment�rio dela lhe aflorou � consci�ncia, junto com uma sensa��o gelada no peito.</p><empty-line/><p>Mikael se precipitou para fora da esta��o e consultou as horas. S� haveria �nibus para Hedeby dali a quarenta minutos. Seus nervos n�o suportariam a espera. Correu at� o ponto de t�xi do outro lado da esplanada da esta��o e encontrou Hussein com seu sotaque carregado.</p><p>Dez minutos depois, Mikael pagava a corrida e entrava em sua saleta de trabalho. O peda�o de papel estava preso com durex acima da escrivaninha.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>Olhou ao redor. Depois lembrou onde poderia encontrar uma B�blia. Pegou o peda�o de papel, encontrou as chaves que deixara dentro de uma tigela na beirada da janela e correu at� a cabana de Gottfried. Suas m�os estavam quase tremendo quando pegou a B�blia de Harriet na prateleira.</p><p>N�o eram n�meros telef�nicos que Harriet havia anotado. Os algarismos indicavam cap�tulos e vers�culos do <emphasis>Lev�tico,</emphasis> o terceiro livro do Pentateuco. Os castigos.</p><empty-line/><p>(Magda), <emphasis>Lev�tico,</emphasis> cap�tulo XX, vers�culo 16:</p><p><emphasis>"Se uma mulher se aproximar de um animal para se prostituir com ele, ser� morta juntamente com o animal. Ser�o mortos e levar�o a sua iniquidade."</emphasis></p><p>(Sara), <emphasis>Lev�tico,</emphasis> cap�tulo XXI, vers�culo 9:</p><p><emphasis>"Se a filha de um sacerdote se desonrar pela prostitui��o, ela desonra o pai; ser�</emphasis></p><p><emphasis>queimada no fogo."</emphasis></p><empty-line/><p>(Rj), <emphasis>Lev�tico,</emphasis> cap�tulo I, vers�culo 12:</p><p>"A <emphasis>seguir a v�tima ser� cortada em peda�os, com a cabe�a e a gordura, que o sacerdote dispor� sobre a lenha colocada sobre o fogo do altar."</emphasis></p><empty-line/><p>(RL), <emphasis>Lev�tico,</emphasis> cap�tulo XX, vers�culo 27:</p><p><emphasis>"Qualquer homem ou mulher que evocar os esp�ritos ou fizer adivinha��es ser�</emphasis></p><p><emphasis>morto. Ser�o apedrejados e levar�o a sua culpa."</emphasis></p><empty-line/><p>�(Mari), <emphasis>Lev�tico,</emphasis> cap�tulo XX, vers�culo 18:</p><p><emphasis>"Se um homem dormir com uma mulher durante o tempo de sua menstrua��o e vir a sua nudez, descobrindo o seu fluxo e descobrindo-o ela mesma, ser�o ambos cortados do meio de seu povo."</emphasis></p><empty-line/><p>Mikael saiu e sentou-se no patamar em frente � casa. Sem d�vida, era a isso que Harriet se referia quando anotou os algarismos na sua agenda de telefones. Cada cita��o estava cuidadosamente sublinhada na B�blia de Harriet. Ele acendeu um cigarro e ficou escutando o canto dos p�ssaros.</p><p>Havia entendido os n�meros, mas n�o os nomes: Magda, Sara, Mari, RJ e RL.</p><p>De repente, um abismo se abriu quando o c�rebro de Mikael deu um salto intuitivo. Lembrou-se do sacrif�cio pelo fogo em Hedestad de que lhe falara o inspetor Gustav Morell: o caso Rebecka nos anos 1940, a jovem violentada e assassinada. Para mat�-la, haviam posto sua cabe�a sobre carv�es ardentes. "A <emphasis>seguir a v�tima ser� cortada em peda�os, com a cabe�a e a gordura, que o sacerdote dispor� sobre a lenha colocada sobre o fogo do altar."</emphasis> Rebecka. RJ. Qual era o sobrenome dela?</p><p><emphasis>Santo Deus! Com que hist�ria de gente maluca Harriet havia se metido?</emphasis></p><empty-line/><p>Henrik Vanger adoecera e fora se deitar � tarde, explicaram a Mikael quando ele bateu � sua porta. Mesmo assim Anna o fez entrar e ele viu o velho durante alguns minutos.</p><p>� Um resfriado de ver�o � explicou Henrik, fungando. � O que o traz aqui?</p><p>� Uma pergunta.</p><p>� Diga.</p><p>� Ouviu falar de um assassinato cometido aqui em Hedestad nos anos 1940? Uma mo�a chamada Rebecka, que foi morta por terem posto sua cabe�a numa lareira?</p><p>� Rebecka Jacobsson � disse Henrik sem hesitar um segundo. � Jamais vou esquecer esse nome, mas fazia anos que eu n�o ouvia ningu�m mencion�-lo.</p><p>� Lembra como foi o assassinato?</p><p>� E como! Rebecka Jacobsson tinha vinte e tr�s ou vinte e quatro anos quando foi morta. Isso deve ter acontecido... acho que foi em 1949. Houve um grande inqu�rito, no qual tive uma pequena participa��o.</p><p>� Voc�? � exclamou Mikael, surpreso.</p><p>� Sim. Rebecka Jacobsson trabalhava num dos escrit�rios do grupo Vanger. Uma mo�a bastante conhecida, e muito bonita. Mas por que essas perguntas sobre ela de repente?</p><p>Mikael n�o sabia bem o que dizer. Levantou-se e se aproximou da janela.</p><p>� N�o sei exatamente, Henrik, talvez eu tenha descoberto alguma coisa, mas primeiro preciso refletir um pouco.</p><p>� Est� querendo me dizer que existe uma liga��o entre Harriet e Rebecka? Transcorreram... mais de dezessete anos entre os dois acontecimentos.</p><p>� D�-me mais algum tempo para refletir. Voltarei amanh�, se voc� estiver melhor.</p><empty-line/><p>Mikael n�o encontrou Henrik Vanger no dia seguinte. Um pouco antes da uma da manh�, ainda estava sentado � mesa da cozinha lendo a B�blia de Harriet, quando ouviu o ru�do de um carro atravessando a ponte em alta velocidade. Olhou pela janela e viu a luz girat�ria azul de uma ambul�ncia.</p><p>Tomado de um mau pressentimento, Mikael precipitou-se atr�s da ambul�ncia. Ela estacionara em frente � casa de Henrik. Havia luz no andar de baixo e Mikael logo percebeu que algo acontecera. Subiu depressa a escada da frente e deu de cara com Anna Nygren, muito perturbada no vest�bulo.</p><p>� O cora��o � ela disse. � Ele me chamou h� pouco e se queixou de dor no peito. Depois desmaiou.</p><p>Mikael estreitou nos bra�os a leal governanta e ali permaneceu at� que os enfermeiros descessem com um Henrik Vanger inconsciente numa padiola. Martin Vanger, visivelmente aflito, logo chegou. J� havia se deitado quando Anna o avisou; estava com os p�s nus metidos num par de pantufas e com a braguilha aberta. Saudou Mikael brevemente e se voltou para Anna.</p><p>� Eu vou com ele para o hospital. Chame Birger e tente entrar em contato com Cecilia em Londres. E avise Dirch Frode.</p><p>� Posso ir at� a casa de Frode � prop�s Mikael. � Anna fez um sinal de agradecimento com a cabe�a.</p><p>Bater � porta de algu�m depois da meia-noite em geral significa m�s not�cias, pensou Mikael ao p�r o dedo na campainha de Dirch Frode. Esperou v�rios minutos at� que ele viesse abrir a porta, ainda sonolento.</p><p>� Tenho m�s not�cias. Acabam de levar Henrik Vanger para o hospital. Parece que foi um infarto. Martin me pediu que eu viesse at� aqui avis�-lo.</p><p>� Meu Deus � disse Frode. Consultou o rel�gio. � Hoje � sexta-feira 13 � acrescentou, com uma l�gica incompreens�vel e um ar de perplexidade.</p><p>Mikael voltou para casa �s duas e meia da manh�. Hesitou um instante, mas depois resolveu n�o telefonar para Erika naquele momento. S� por volta das dez da manh�, depois de falar brevemente com Dirch Frode pelo celular e de ficar sabendo que Henrik Vanger continuava vivo, � que chamou Erika para informar que o novo s�cio da <emphasis>Millennium</emphasis> fora hospitalizado, v�tima de um infarto. Como era de se esperar, seu an�ncio foi recebido com tristeza e inquieta��o.</p><empty-line/><p>Mais tarde, Dirch Frode passou na casa de Mikael levando not�cias detalhadas sobre o estado de sa�de de Henrik.</p><p>� Ele est� vivo, mas nada bem. Teve um infarto s�rio, agravado por uma esp�cie de infec��o.</p><p>� Chegou a v�-lo?</p><p>� N�o. Est� na UTI. Martin e Birger est�o com ele.</p><p>� Qual � o progn�stico?</p><p>Dirch Frode balan�ou a m�o de um lado para o outro.</p><p>� Ele sobreviveu ao infarto, e isso � sempre um bom sinal. Seu estado geral de sa�de � excelente, mas � um homem idoso. S� nos resta esperar.</p><p>Calaram-se, refletindo por um momento. Mikael serviu caf�. Dirch Frode parecia desanimado.</p><p>� Preciso lhe fazer algumas perguntas sobre como v�o ficar as coisas � disse Mikael.</p><p>Frode olhou para ele.</p><p>� Nada vai mudar no que diz respeito ao seu emprego. As condi��es est�o definidas num contrato v�lido at� o fim do ano, esteja Henrik Vanger vivo ou n�o. N�o se preocupe.</p><p>� N�o me refiro a isso. Gostaria de saber a quem devo entregar meus relat�rios na aus�ncia dele.</p><p>Dirch Frode suspirou.</p><p>� Mikael, voc� sabe t�o bem quanto eu que toda essa hist�ria de Harriet Vanger � um passatempo para Henrik.</p><p>� N�o estou t�o certo disso.</p><p>� O que est� querendo dizer?</p><p>� Descobri novos ind�cios � respondeu Mikael. � Ontem falei um pouco sobre isso com Henrik. Receio at� que possa ter contribu�do para provocar seu infarto.</p><p>Dirch Frode lan�ou um olhar estranho para Mikael.</p><p>� Voc� est� brincando.</p><p>Mikael balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>� Dirch, nos �ltimos dias desenterrei mais material sobre o desaparecimento de Harriet do que fez o inqu�rito oficial em trinta e cinco anos. Meu problema agora � que n�o definimos a quem entrego meu relat�rio na aus�ncia de Henrik.</p><p>� Pode entreg�-lo a mim.</p><p>� Certo. Preciso prosseguir nesse caminho. Voc� disp�e de algum tempo? Mikael relatou suas novas descobertas t�o didaticamente quanto poss�vel.</p><p>Mostrou a sequ�ncia de fotos da rua da Esta��o e exp�s sua teoria. A seguir explicou como sua pr�pria filha o levara a elucidar o mist�rio da agenda telef�nica de Harriet. Para terminar, mencionou o brutal assassinato de Rebecka Jacobsson ocorrido em 1949.</p><p>A �nica informa��o que omitiu foi sobre o rosto de Cecilia Vanger na janela de Harriet. Queria primeiro falar com ela, antes de deix�-la numa posi��o em que pudessem suspeitar dela.</p><p>Rugas grossas de preocupa��o apareceram na testa de Dirch Frode.</p><p>� Est� querendo me dizer que o assassinato de Rebecka tem algo a ver com o desaparecimento de Harriet?</p><p>� N�o sei. Parece improv�vel, mas ao mesmo tempo h� o fato de Harriet ter anotado as iniciais RJ na sua agenda com a remiss�o � lei b�blica sobre os holocaustos ritualistas. Rebecka Jacobsson foi queimada viva. A liga��o com a fam�lia Vanger � evidente: ela trabalhava para o grupo Vanger.</p><p>� E como explica tudo isso?</p><p>� Ainda n�o sei. Mas quero seguir em frente e vou consider�-lo o representante de Henrik. Tomar� as decis�es no lugar dele.</p><p>� Talvez dev�ssemos informar a pol�cia.</p><p>� N�o. De qualquer forma, n�o sem a autoriza��o de Henrik. O assassinato de Rebecka est� prescrito h� muito tempo e o caso foi arquivado. Eles n�o v�o reabrir o inqu�rito de um crime cometido h� cinquenta e quatro anos.</p><p>� Entendo. E o que pretende fazer ent�o? Mikael levantou-se e deu a volta ao redor da mesa.</p><p>� Primeiro gostaria de seguir a pista da foto. Se conseguirmos ver o que Harriet viu, acho que teremos a� uma chave. Em segundo lugar, preciso de um carro para ir a Norsj� e ver at� onde essa pista me leva. E, em terceiro, gostaria de pesquisar essas cita��es b�blicas. Fizemos a liga��o entre uma delas e um assassinato particularmente terr�vel. Restam outras quatro. Para conseguir isso... vou precisar de ajuda.</p><p>� Que esp�cie de ajuda?</p><p>� Preciso de um assistente de pesquisa que saiba vasculhar arquivos antigos de imprensa e encontre Magda, Sara e os outros nomes. Se eu n�o estiver enganado, Rebecka n�o foi a �nica v�tima.</p><p>� Est� querendo que mais algu�m participe desse segredo...</p><p>� De repente estamos com uma quantidade enorme de pesquisas para serem feitas. Se eu fosse o tira respons�vel por alguma investiga��o, poderia poupar tempo e recursos e destacar muita gente para essas pesquisas. Preciso de um profissional que entenda de arquivos e que ao mesmo tempo seja de confian�a.</p><p>� Entendo... Na verdade, conhe�o uma pessoa realmente competente. Foi ela quem fez a investiga��o sobre voc� � disse Frode, antes de se dar conta do que tinha dito.</p><empty-line/><p>� Fez o qu�? � perguntou Mikael com voz imperiosa.</p><p>Dirch Frode percebeu tarde demais que falara mais do que devia. Estou ficando velho, pensou.</p><p>� Pensei em voz alta. N�o � nada � tentou dizer.</p><p>� Mandou fazer uma investiga��o sobre mim?</p><p>� Nada de dram�tico, Mikael. Como quer�amos contrat�-lo, fomos verificar que tipo de homem voc� �.</p><p>� Ent�o � por isso que Henrik Vanger sempre parece saber exatamente qual � a minha situa��o. E essa investiga��o? Foi muito aprofundada?</p><p>� Sim, bastante aprofundada.</p><p>� Levantou os problemas da <emphasis>Millennium?</emphasis> Dirch Frode encolheu os ombros.</p><p>� Era necess�rio.</p><p>Mikael acendeu um cigarro. O quinto do dia. Percebeu que aquilo estava virando um h�bito.</p><p>� Houve um relat�rio por escrito?</p><p>� Mikael, n�o d� tanta import�ncia a isso.</p><p>� Quero ler esse relat�rio � disse.</p><p>� Veja, Mikael, n�o h� nada de extraordin�rio. Apenas quisemos saber um pouco mais sobre voc� antes de contrat�-lo.</p><p>� Quero ler esse relat�rio � repetiu Mikael.</p><p>� Somente Henrik pode dar a permiss�o.</p><p>� Ah �? Ent�o vou dizer de outro modo: quero esse relat�rio nas minhas m�os dentro de uma hora. Do contr�rio, pe�o demiss�o imediatamente e pego o trem da noite para Estocolmo. Onde est� o relat�rio?</p><p>Dirch Frode e Mikael Blomkvist mediram-se com os olhos por alguns segundos. Frode ent�o suspirou e baixou os olhos.</p><p>� Na minha casa, na minha mesa.</p><empty-line/><p>O caso Harriet, sem d�vida, era a hist�ria mais bizarra com a qual Mikael Blomkvist j� se envolvera. De modo geral, o �ltimo ano, desde a publica��o da hist�ria de Hans-Erik Wennerstr�m, n�o fora sen�o uma longa s�rie de montanhas-russas � com grandes quedas livres. E aparentemente n�o havia terminado.</p><p>Dirch Frode ainda tentou ganhar tempo e Mikael s� p�s as m�os no relat�rio de Lisbeth Salander �s seis da tarde. Um pouco mais de oitenta p�ginas de an�lise e cem p�ginas de c�pias de artigos, diplomas e outros detalhes marcantes da vida de Mikael.</p><p>Foi uma experi�ncia estranha ver-se descrito no que podia ser considerado uma combina��o de biografia com relat�rio de servi�o secreto. Mikael ficou pasmo de ver como o relat�rio era detalhado. Lisbeth Salander apresentava detalhes que ele acreditava enterrados para sempre no h�mus da hist�ria. Revelava uma liga��o de sua juventude com uma sindicalista brilhante, atualmente dedicada em tempo integral � pol�tica. <emphasis>Quem contou a ela essa hist�ria?</emphasis> Mencionava seu grupo de rock Bootstrap, do qual certamente ningu�m mais devia se lembrar. Examinava com detalhes suas finan�as. <emphasis>Mas que diabos! Como ela conseguiu?</emphasis></p><p>Como jornalista, Mikael passara anos buscando informa��es com diferentes pessoas e por isso era capaz de avaliar profissionalmente a qualidade desse trabalho. Lisbeth Salander era, sem a menor d�vida, um �s da pesquisa. Ele mesmo n�o se achava capaz de produzir um relat�rio como aquele, sobre uma pessoa totalmente desconhecida.</p><p>Mikael concluiu que n�o houve raz�o para que ele e Erika tivessem mantido uma dist�ncia polida na frente de Henrik Vanger; ele conhecia muito bem a rela��o dos dois e o tri�ngulo que formavam com Lars Beckman. Lisbeth Salander tamb�m avaliara com espantosa exatid�o a situa��o da <emphasis>Millennium;</emphasis> Henrik Vanger sabia o quanto as coisas iam mal quando entrou em contato com Erika e se ofereceu como s�cio. <emphasis>Qual era exatamente o jogo dele?</emphasis></p><p>O caso Wennerstr�m era abordado apenas superficialmente, mas Lisbeth Salander com certeza assistira a algumas audi�ncias no tribunal. Ela tamb�m comentava a estranha recusa de Mikael em se pronunciar durante o processo. <emphasis>Uma garota esperta, seja ela quem for.</emphasis></p><p>Um segundo depois, Mikael ficou estarrecido, sem acreditar no que lia. Lisbeth Salander escrevera um breve texto sobre como vira a sequ�ncia de acontecimentos depois do processo. Reproduzia quase literalmente o comunicado de imprensa que ele e Erika enviaram quando ele deixou o cargo de editor respons�vel da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p><emphasis>Lisbeth Salander teria usado o rascunho original dele?</emphasis> Ele olhou outra vez a primeira p�gina do relat�rio. A data era anterior ao comunicado � imprensa, tr�s dias antes de Mikael Blomkvist receber sua senten�a. <emphasis>Imposs�vel.</emphasis></p><p>At� ent�o o comunicado s� existia num �nico lugar do mundo: no computador de Mikael. Em seu notebook pessoal, n�o no computador que ele usava na reda��o. O texto nunca fora impresso. A pr�pria Erika Berger n�o tinha uma c�pia dele, embora os dois tivessem discutido em linhas gerais o assunto.</p><p>Mikael Blomkvist pousou lentamente o relat�rio que Lisbeth Salander fizera sobre ele. Decidiu n�o fumar mais um cigarro. Em vez disso, p�s um blus�o e saiu na noite clara, uma semana antes do solst�cio de ver�o. Seguiu pela praia ao longo do canal, passou em frente da casa de Cecilia Vanger, depois diante do luxuoso iate ancorado defronte � casa de Martin Vanger. Caminhava devagar e refletia. Por fim, sentou-se numa pedra e olhou as luzes das balizas piscando na ba�a de Hedestad. S� havia uma conclus�o poss�vel.</p><p><emphasis>Voc� entrou no meu computador, senhorita Salander,</emphasis> disse a si mesmo em voz alta. <emphasis>Voc� � uma hacker fodida!</emphasis></p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>18.� QUARTA-FEIRA 18 DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander emergiu sobressaltada de um sono sem sonhos. Sentia uma ligeira n�usea. N�o precisou virar a cabe�a para saber que Mimmi j� fora trabalhar, mas o cheiro dela permanecia no ar confinado do quarto. Havia bebido cerveja demais na reuni�o de ter�a � noite no Moulin com as Evil Fingers. Pouco antes de o bar fechar, Mimmi aparecera e a acompanhara at� sua casa e at� sua cama.</p><p>Ao contr�rio de Mimmi, Lisbeth Salander nunca se considerou uma aut�ntica l�sbica. Nunca se preocupou em saber se era h�tero, homo ou talvez bissexual. De modo geral, dava pouca import�ncia a r�tulos e achava que n�o competia a ningu�m saber com quem ela passava a noite. Se fosse absolutamente necess�rio escolher, sua prefer�ncia sexual seria os rapazes � pelo menos eles lideravam as estat�sticas. O �nico problema era encontrar um que n�o fosse um debil�ide e fosse bom de cama, e Mimmi representava uma boa solu��o-tamp�o, capaz de mant�-la acesa. Ela a conhecera um ano antes numa barraca de cerveja da festa do Orgulho Gay, e fora a �nica pessoa que Lisbeth tinha apresentado �s Evil Fingers. A rela��o se manteve com altos e baixos ao longo do ano, mas ainda n�o ia al�m de um passatempo para ambas. Mimmi era um corpo gostoso junto ao qual Lisbeth podia se aquecer, e tamb�m um ser humano em cuja companhia era bom acordar de manh� e fazer o desjejum.</p><p>O rel�gio na mesa-de-cabeceira indicava nove e meia e ela se perguntava o que a fizera acordar, quando a campainha da porta tocou de novo. At�nita, sentou-se na cama. <emphasis>Ningu�m</emphasis> jamais tocava a sua campainha �quela hora da manh�. Ali�s, quase ningu�m tocava a sua campainha. Ainda sonolenta, enrolou-se no len�ol e foi cambaleando at� o vest�bulo para abrir a porta. Viu-se cara a cara com Mikael Blomkvist, sentiu o p�nico invadir seu corpo e sem querer deu um passo para tr�s.</p><p>� Bom dia, senhorita Salander � ele saudou cordialmente. � Vejo que a noite foi movimentada. Posso entrar?</p><p>Sem esperar ser convidado, ele passou pela porta e a fechou atr�s de si. Contemplou com curiosidade as roupas espalhadas no ch�o do vest�bulo, as pilhas de jornais, e lan�ou um olhar pela porta do quarto, enquanto o mundo de Lisbeth Salander parecia oscilar � <emphasis>quem, o qu�, como?</emphasis> Mikael Blomkvist divertia-se com o olhar espantado dela.</p><p>� Como achei que voc� ainda n�o havia tomado o caf�-da-manh�, trouxe uns sandu�ches. Um de rosbife, um de peru com mostarda de Dijon e um vegetariano com abacate. N�o sei qual voc� prefere. O de rosbife? � Ele desapareceu na cozinha e logo encontrou a cafeteira el�trica. � Onde guarda o caf�? � perguntou. Salander permaneceu como que paralisada no vest�bulo at� ouvir a torneira ser aberta. Deu tr�s passos r�pidos.</p><p>� Pare! � Percebeu que dera um grito e baixou o tom. � N�o pode ir entrando assim na casa das pessoas, porra! Aqui n�o � a sua casa. N�s nem nos conhecemos.</p><p>Mikael Blomkvist parou de p�r �gua na cafeteira e virou a cabe�a na dire��o dela. Respondeu com uma voz grave.</p><p>� Negativo! Voc� me conhece melhor que a maioria das pessoas. N�o � mesmo?</p><p>E virou-se para continuar enchendo a cafeteira com �gua. Depois come�ou a abrir as portas do arm�rio da cozinha.</p><p>� Ali�s, eu sei como voc� faz. Conhe�o os seus segredos.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander fechou os olhos e quis que o ch�o se abrisse sob seus p�s. Sentia-se num estado de paralisia mental. Estava com a boca seca. A situa��o era irreal e seu c�rebro recusava-se a funcionar. Nunca antes havia estado face a face com um de seus objetos de investiga��o. <emphasis>Ele sabe onde eu moro!</emphasis> Ele estava em sua cozinha. Imposs�vel! Isso n�o podia estar acontecendo. <emphasis>Ele sabe quem eu sou!</emphasis></p><p>De repente ela se deu conta de que o len�ol escorregara e o apertou ainda mais em volta do corpo. Ele disse alguma coisa que ela no come�o n�o entendeu.</p><p>� Eu e voc� precisamos conversar � ele repetiu. � Mas tenho a impress�o de que primeiro voc� precisa tomar um banho.</p><p>Ela tentou se expressar de modo coerente.</p><p>� Olha aqui, se veio criar problema, n�o � comigo que deve falar. Fiz um trabalho. V� discutir com o meu chefe.</p><p>Ele se plantou diante dela e levantou as m�os, com as palmas � vista. <emphasis>N�o estou armado.</emphasis> Um sinal de paz universal.</p><p>� J� falei com Dragan Armanskij. Ali�s, ele pediu para voc� ligar, mas voc� n�o respondeu � chamada dele no celular ontem � noite.</p><p>Ele se aproximou. Ela n�o se sentiu amea�ada, mas recuou alguns cent�metros quando ele ro�ou em seu bra�o e indicou a porta do banheiro. N�o gostava de que a tocassem sem autoriza��o, mesmo com inten��o amistosa.</p><p>� N�o vim criar problema � disse ele com uma voz calma. � Mas preciso muito falar com voc�. Assim que tiver despertado, � claro. O caf� estar� pronto quando estiver vestida. Vamos, v� tomar seu banho.</p><p>Ela obedeceu passivamente. <emphasis>Lisbeth Salander nunca � passiva,</emphasis> pensou.</p><empty-line/><p>No banheiro, ela se apoiou contra a porta e tentou juntar os pensamentos. Estava mais abalada do que achava que devia ficar. Depois, lentamente tomou consci�ncia de que sua bexiga estava a ponto de explodir e de que um banho n�o era apenas um bom conselho mas uma necessidade ap�s a noite agitada. Quanto terminou, entrou no quarto, vestiu uma calcinha, um jeans e uma camiseta com a inscri��o <emphasis>Armageddon was yesterday</emphasis> � <emphasis>today we have a serious problem.</emphasis></p><p>Ap�s um segundo de reflex�o, pegou a jaqueta de couro que deixara sobre uma cadeira. Tirou do bolso o bast�o el�trico, verificou se estava carregado e o colocou no bolso de tr�s do jeans. Um cheiro de caf� se espalhou pelo apartamento. Ela respirou fundo e voltou para a cozinha.</p><p>� Nunca limpa a casa? � perguntou Mikael em tom brincalh�o.</p><p>Ele havia posto toda a lou�a suja na pia, esvaziado os cinzeiros, jogado fora as caixas de leite vazias, limpado a mesa atulhada de jornais de cinco semanas, distribu�do nela as x�caras e � viu que n�o tinha sido brincadeira � os sandu�ches prontos. Pareciam apetitosos e Lisbeth realmente tinha fome depois da noite com Mimmi. <emphasis>Est� bem, veremos aonde tudo isso vai levar.</emphasis> Ela se instalou diante dele, com um p� atr�s.</p><p>� N�o respondeu � minha pergunta. Rosbife, peru ou vegetariano?</p><p>� Rosbife.</p><p>� Fico ent�o com o de peru.</p><p>Comeram em sil�ncio, observando-se mutuamente. Quando ela terminou o sandu�che, devorou tamb�m a metade do vegetariano. Encontrou um ma�o de cigarros amarrotado na beirada da janela e tirou um de l�.</p><p>Ele rompeu o sil�ncio.</p><p>� Talvez eu n�o seja t�o bom como voc� em investiga��es pessoais, mas noto que n�o � nem vegetariana nem � como pensava Dirch Frode � anor�xica. Vou incluir esses dados no meu relat�rio a seu respeito.</p><p>Salander o encarou, mas ao ver sua express�o percebeu que ele estava brincando com ela. Parecia divertir-se tanto que ela n�o p�de deixar de retribuir com um sorriso de esguelha. A situa��o era absurda. Ela afastou o prato. Os olhos desse cara eram amistosos. Concluiu, por fim, que n�o era um mau sujeito. A investiga��o que ela fizera tamb�m n�o dava a entender que fosse um cafajeste pronto para espancar suas companheiras, ou coisa do g�nero. Lembrou que ela � que sabia tudo a respeito dele � n�o o contr�rio. <emphasis>Conhecimento � poder.</emphasis></p><p>Do que est� rindo? � ela perguntou.</p><p>� Desculpe. � que n�o imaginei que fosse ser assim. N�o tinha a inten��o de assust�-la, mas foi o que aconteceu. Precisava ter visto a sua cara quando abriu a porta. Impag�vel. N�o resisti � tenta��o de brincar um pouco com voc�.</p><p>Sil�ncio. Para a sua grande surpresa, Lisbeth Salander achou aceit�vel, de repente, a companhia daquele intruso � ou pelo menos n�o desagrad�vel.</p><p>� Considere que me vinguei por voc� ter vasculhado a minha vida � disse ele num tom alegre. � Est� com medo de mim?</p><p>� N�o � respondeu Salander.</p><p>� Melhor. N�o estou aqui para lhe fazer mal nem para criar problemas.</p><p>� Se tentar me tocar, eu lhe farei muito mal. S�rio.</p><p>Mikael a observou. Ela media pouco mais de um metro e meio e parecia n�o ter como se defender se ele fosse um malfeitor que tivesse entrado em seu apartamento. Mas os olhos dela eram inexpressivos e calmos.</p><p>� N�o ser� necess�rio � ele disse por fim. � Minhas inten��es s�o boas. Preciso falar com voc�. Se quiser que eu v� embora, � s� dizer. � Refletiu um segundo. � E curioso, tenho a impress�o de... n�o, nada � ele se interrompeu.</p><p>� Diga.</p><p>� N�o sei se o que vou dizer faz sentido, mas h� quatro dias eu nem sabia da sua exist�ncia. Depois li a avalia��o que voc� fez de mim � remexeu dentro da bolsa e encontrou o relat�rio �, o que n�o foi exatamente uma leitura divertida.</p><p>Calou-se e olhou um momento pela janela.</p><p>� Ser� que posso filar um cigarro seu? � Ela empurrou o ma�o na dire��o dele.</p><p>� Voc� disse agora h� pouco que n�o nos conhec�amos e eu respondi que n�o era verdade. � Ele mostrou o relat�rio. � Ainda n�o alcancei voc�, fiz apenas algumas checagens de rotina para saber seu endere�o, data de nascimento, estado civil et cetera. Mas voc� sabe muito a meu respeito. Boa parte s�o coisas pessoais que s� meus amigos �ntimos conhecem. E agora eu estou aqui na sua cozinha, comendo sandu�ches com voc�. Faz meia hora que nos conhecemos e tenho a sensa��o de que nos conhecemos h� anos. Entende o que quero dizer?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>� Voc� tem olhos lindos � ele disse.</p><p>� Voc� tem olhos gentis � ela respondeu.</p><p>Ele n�o conseguiu definir se era uma ironia.</p><p>Sil�ncio.</p><p>� O que est� fazendo aqui? � ela perguntou.</p><p>Super-Blomkvist � o apelido lhe ocorreu e ela conteve o impulso de diz�-lo em voz alta � assumiu de repente um ar s�rio. Ela captou cansa�o em seu olhar. A seguran�a que demonstrara ao entrar no apartamento dela havia desaparecido e ela concluiu que as brincadeiras tinham acabado ou pelo menos estavam suspensas. Pela primeira vez, sentiu que ele a examinava com intensidade e reflex�o. N�o conseguiu imaginar o que se passava na cabe�a dele, mas sentiu imediatamente que a visita adquiria um tom mais s�rio.</p><p>Lisbeth Salander tinha consci�ncia de que sua calma era apenas aparente. Ela n�o controlava de fato seus nervos. A visita inesperada de Blomkvist mexera com ela de um modo que nunca sentira antes em seu trabalho. Ganhava a vida espionando as pessoas. Na realidade, nunca classificara o que fazia para Dragan Armanskij como um <emphasis>trabalho de verdade,</emphasis> e sim como um passatempo complexo, quase um <emphasis>hobby.</emphasis></p><p>Fazia tempo que chegara � conclus�o de que na verdade gostava de fu�ar a vida dos outros e revelar segredos que as pessoas tentavam esconder. Agia assim � de uma forma ou de outra � desde que se conhecia como gente. E era o que continuava fazendo n�o s� quando Armanskij lhe passava miss�es, mas �s vezes apenas por prazer. Aquilo lhe dava uma esp�cie de satisfa��o � exatamente como num videogame complicado, com a diferen�a de que se tratava de pessoas reais. E eis que de repente seu <emphasis>hobby</emphasis> estava instalado na sua cozinha oferecendo-lhe sandu�ches. Uma situa��o absurda.</p><p>� Tenho um problema fascinante � disse Mikael. � Me diga uma coisa: quando voc� fez suas investiga��es sobre mim para Dirch Frode, sabia qual era a finalidade delas?</p><p>� N�o.</p><p>� O objetivo era obter informa��es a meu respeito porque Frode � ou, melhor, o seu cliente � queria me contratar para um trabalho <emphasis>freelance.</emphasis></p><p>� <emphasis>Entendo.</emphasis></p><p>Ele dirigiu-lhe um breve sorriso.</p><p>� Algum dia eu e voc� teremos uma conversa sobre os aspectos �ticos de bisbilhotar a vida dos outros. Mas por enquanto preciso resolver um problema... O trabalho que me passaram, e que por uma raz�o incompreens�vel aceitei, � sem d�vida a miss�o mais estranha que j� tive. Ser� que posso confiar em voc�, Lisbeth?</p><p>� Como assim?</p><p>� Dragan Armanskij disse que voc� � uma pessoa totalmente confi�vel. Mesmo assim eu pergunto: se eu te contar alguns segredos, voc� promete que n�o os divulgar�, n�o importa a quem for?</p><p>� Espere um pouco. Ent�o voc� falou com Dragan; foi ele que te mandou aqui?</p><p>Vou <emphasis>acabar com a ra�a daquele arm�nio cretino.</emphasis></p><p>� N�o exatamente. Voc� n�o � a �nica pessoa que sabe levantar um endere�o. Na verdade fiz isso sozinho. Pesquisei nos registros do cart�rio. H� tr�s pessoas chamadas Lisbeth Salander, e as outras duas estavam fora de cogita��o. Mas ontem entrei em contato com Armanskij e tivemos uma longa conversa. No come�o, ele tamb�m pensou que eu quisesse vir aqui criar problemas por voc� ter se intrometido na minha vida, mas depois acabou entendendo que o meu objetivo � bastante leg�timo.</p><p>� O que voc� quer dizer?</p><p>� Bem, um cliente de Dirch Frode me contratou para um trabalho e cheguei a um ponto em que preciso da ajuda de um investigador qualificado, e com urg�ncia. Frode me falou de voc� e da sua compet�ncia. Ele bateu com a l�ngua nos dentes e acabei sabendo que voc� tinha feito uma investiga��o a meu respeito. Ontem falei com Armanskij e expliquei o que queria. Ele autorizou e tentou falar com voc� por telefone, mas voc� n�o respondeu. E assim... aqui estou eu. Pode ligar para Armanskij e confirmar tudo, se quiser.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander precisou de alguns minutos para localizar seu celular debaixo das roupas que Mimmi a ajudara a tirar na noite anterior. Mikael Blomkvist contemplou sua busca ca�tica com interesse, enquanto andava pelo apartamento. Todos os m�veis, sem exce��o, pareciam ter sido pegos na rua. Numa pequena mesa de trabalho destacava-se uma imponente instala��o de inform�tica. Havia um aparelho de CD numa prateleira, mas a cole��o de discos era pequena e formada por bandas das quais Mikael jamais ouvira falar, com artistas na capa que pareciam vampiros sa�dos dos confins do espa�o. M�sica, de fato, n�o era o forte de Lisbeth.</p><p>Salander constatou que Armanskij a chamara pelo menos sete vezes durante a noite e duas de manh�. Ela digitou o n�mero dele enquanto Mikael se encostava no batente da porta para escutar a conversa.</p><p>� Sou eu... Desculpe, desliguei o celular... Sei que ele quer me contratar... N�o, est� aqui em casa... � Ela levantou a voz. � Dragan, estou com a boca seca e com dor de cabe�a, por favor, fale logo; voc� autorizou ou n�o?... Obrigada.</p><p>Lisbeth Salander espiou Mikael Blomkvist pelo v�o da porta. Ele olhava seus CDs e tirava livros das prateleiras; viu-o pegar um frasco de rem�dio marrom, sem etiqueta, e examin�-lo contra a luz com curiosidade. Quando se preparava para abrir a tampa, ela estendeu a m�o e tomou-lhe o frasco; depois foi para a cozinha, sentou-se, massageou as t�mporas e esperou que Mikael voltasse a se sentar.</p><p>� As regras s�o simples � ela disse. � Nada do que conversar comigo ou com Dragan chegar� a algu�m de fora. Vamos assinar um contrato no qual a Milton Security se compromete a manter sigilo. Quero saber em que consiste o trabalho antes de decidir se vou querer ou n�o trabalhar para voc�. Isso significa que manterei sigilo sobre o que me contar, quer aceite ou n�o o trabalho, contanto que n�o se trate de uma atividade criminosa s�ria. Nesse caso, farei um relat�rio a Dragan, que, por sua vez, avisar� a pol�cia.</p><p>� Certo. � Ele hesitou. � Armanskij talvez n�o saiba exatamente por que quero contrat�-la...</p><p>� Ele disse que voc� precisa de ajuda para uma pesquisa hist�rica.</p><p>� Sim, isso mesmo. Mas o que eu quero que voc� fa�a � me ajudar a descobrir um assassino.</p><empty-line/><p>Mikael levou mais de uma hora contando todos os detalhes confusos do caso Harriet Vanger. N�o omitiu nenhum. Tinha a autoriza��o de Frode para contrat�-la e, para tanto, via-se na obriga��o de conquistar sua inteira confian�a.</p><p>Falou tamb�m do seu relacionamento com Cecilia Vanger e de como descobrira seu rosto na janela de Harriet. Deu a Lisbeth o m�ximo de informa��es poss�veis sobre a personalidade dela. Come�ava a admitir que Cecilia figurava entre os principais suspeitos. Mas estava longe de entender como Cecilia podia estar ligada a um assassino em atividade, numa �poca em que ela ainda era jovem.</p><p>Depois, entregou a Lisbeth Salander uma c�pia da lista da agenda telef�nica de Harriet.</p><p><image l:href="#2"/></p><p>� O que quer que eu fa�a?</p><p>� Identifiquei RJ, Rebecka Jacobsson, e fiz a conex�o entre ela e uma cita��o da B�blia que fala dos sacrif�cios por imola��o. Ela foi morta de um modo semelhante ao que est� descrito na cita��o � sua cabe�a foi posta sobre brasas. Se eu n�o estiver enganado, encontraremos outras quatro v�timas � Magda, Sara, Mari e RL.</p><p>� Acredita que foram mortas?</p><p>� Por um assassino que agia nos anos 1950, talvez 60. E que, de uma maneira ou de outra, est� ligado a Harriet Vanger. Examinei n�meros antigos do <emphasis>Hedestads-Kuriren.</emphasis> O assassinato de Rebecka � o �nico crime monstruoso que, pelo que descobri, tem a ver com Hedestad. Quero que continue pesquisando em toda a Su�cia.</p><p>Lisbeth Salander permaneceu mergulhada em pensamentos e num sil�ncio inexpressivo t�o longo que Mikael come�ou a se impacientar. Perguntava-se se havia escolhido a pessoa certa quando ela por fim ergueu os olhos.</p><p>� Est� certo, aceito o trabalho. Mas primeiro assine o contrato com Armanskij.</p><empty-line/><p>Dragan Armanskij imprimiu o contrato que Mikael Blomkvist ia levar a Hedestad para que Dirch Frode o assinasse. Ao voltar � saleta de trabalho de Lisbeth Salander, viu, atrav�s da divis�ria envidra�ada, que ela e Mikael Blomkvist estavam inclinados sobre o Powerbook dela. Mikael pousava a m�o em seu ombro � <emphasis>ele a tocava</emphasis> � e lhe indicava alguma coisa. Armanskij esperou algum tempo.</p><p>Mikael disse algo que pareceu surpreender Salander e ela riu ruidosamente.</p><p>Armanskij nunca a ouvira rir, embora tivesse tentado ganhar sua confian�a naqueles anos todos. Mikael Blomkvist a conhecia havia poucas horas e ela j� ria na companhia dele.</p><p>De repente detestou Mikael Blomkvist com uma intensidade que o surpreendeu. Pigarreou ao cruzar a porta e depositou sobre a mesa o envelope de pl�stico com o contrato.</p><empty-line/><p>Mikael teve tempo para fazer uma r�pida visita � reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> � tarde. Era a primeira vez que entrava l� desde que fora limpar sua mesa antes do Natal, e de repente lhe pareceu estranho subir aquelas escadas t�o familiares. O c�digo de acesso n�o tinha sido alterado; entrou pela porta da reda��o sem ser notado e ficou um instante comprazendo-se em olhar tudo por ali.</p><p>A sede da <emphasis>Millennium</emphasis> tinha a forma de um L. A entrada propriamente dita era um grande <emphasis>hall</emphasis> que ocupava uma ampla �rea inutilizada. Havia ali um canap� e poltronas para os visitantes. Atr�s do canap� abria-se uma copa com quitinete, sanit�rios e dois cub�culos onde eram guardados os arquivos. Havia tamb�m uma mesa para o estagi�rio. A direita da entrada, uma divis�ria envidra�ada dava para o est�dio de Christer Malm, cuja empresa, com entrada separada no corredor do edif�cio, ocupava uma �rea de oitenta metros quadrados. A esquerda ficava a reda��o, cerca de cento e cinquenta metros quadrados com vista para a rua G�tgatan.</p><p>Erika concebera o projeto e instalara divis�rias envidra�adas para criar tr�s ambientes individuais e uma ampla sala comum para os outros tr�s colaboradores. Ficara com a maior, no fundo da reda��o, e Mikael fora colocado na outra ponta. Era a �nica sala que se podia ver da entrada. Ele notou que ningu�m havia se instalado ali.</p><p>A terceira pe�a, um pouco afastada, era ocupada por Sonny Magnusson, de sessenta anos, o eficiente vendedor de publicidade da <emphasis>Millennium</emphasis> j� h� alguns anos. Erika descobriu Sonny quando ele se viu desempregado ap�s a reestrutura��o da empresa onde trabalhou a maior parte de sua vida. Sonny estava ent�o na idade em que n�o era f�cil conseguir emprego. Erika o escolheu de prop�sito; ofereceu-lhe um pequeno sal�rio fixo e uma porcentagem sobre as receitas publicit�rias. Sonny aceitou e os dois ficaram satisfeitos. Mas no �ltimo ano, por melhor vendedor que fosse, as receitas tinham desabado. Os rendimentos de Sonny diminu�ram demais; contudo, em vez de tentar outra coisa, ele apertou o cinto e permaneceu fiel a seu cargo. <emphasis>Diferentemente de mim, que sou a causa dessa degringolada toda,</emphasis> pensou Mikael.</p><p>Ele reuniu coragem e entrou por fim na reda��o, quase vazia naquela hora. Viu Erika em sua sala, com um telefone colado � orelha. Somente dois colaboradores estavam na reda��o. Monika Nilsson, de trinta e sete anos, experiente rep�rter geral, especializada em vigil�ncia pol�tica e provavelmente a pessoa mais entendida em cinismo que Mikael j� conhecera. Trabalhava na <emphasis>Millennium</emphasis> havia nove anos e divertia-se imensamente. Henry Cortez tinha vinte e quatro anos e era o mais jovem colaborador da reda��o; dois anos antes, assim que se formou no instituto de jornalistas JMK, procurou Erika e disse que queria trabalhar na <emphasis>Millennium</emphasis> e em nenhum outro lugar. Erika n�o tinha dinheiro para contrat�-lo, mas prop�s-lhe um est�gio, ofereceu-lhe uma sala num canto e depois o absorveu como <emphasis>freelancer</emphasis> fixo.</p><p>Os dois gritaram de contentamento ao ver Mikael, que foi recebido com beijos e tapas nas costas. Logo lhe perguntaram se estava voltando ao trabalho, mas se decepcionaram quando ele explicou que lhe restavam mais seis meses no Norrland, e que apenas estava passando para dar um al� e falar com Erika.</p><p>Erika tamb�m ficou contente em v�-lo, serviu caf� e fechou a porta de sua sala. Come�ou pedindo not�cias de Henrik Vanger. Mikael n�o sabia muito mais do que Dirch Frode relatara; o estado dele era grave, mas o velho continuava vivo.</p><p>� O que voc� est� fazendo na cidade?</p><p>Mikael sentiu-se subitamente embara�ado. Passara na reda��o sem pensar muito, a Milton Security ficava a poucos passos dali. Pareceu-lhe dif�cil explicar a Erika que tinha acabado de contratar a consultora particular em seguran�a que invadira seu computador. Limitou-se a encolher os ombros e dizer que fora obrigado a vir a Estocolmo por causa de alguns assuntos ligados a Vanger e que j� estava voltando para o norte. Perguntou como iam as coisas na reda��o.</p><p>� Junto com as boas not�cias do volume de publicidade e do n�mero de assinantes que n�o param de crescer, h� uma nuvem escura se formando no horizonte.</p><p>� Quem?</p><p>� Janne Dahlman. Fui obrigada a ficar de olho nele logo depois que soltamos a not�cia da entrada de Henrik Vanger na sociedade. N�o sei se � apenas a natureza dele ou se tem a ver com alguma coisa mais profunda. Ele est� fazendo uma esp�cie de jogo.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� N�o confio mais nele. Depois que assinamos o acordo com Henrik Vanger, Christer e eu ficamos pensando se inform�vamos imediatamente toda a reda��o de que n�o corr�amos mais o risco de fechar no outono ou se...</p><p>� Ou se informavam apenas alguns colaboradores.</p><p>� Exatamente. Talvez eu seja paran�ica, mas n�o queria que Dahlman espalhasse a hist�ria. Ent�o decidimos avisar toda a reda��o s� no dia em que o acordo se tornasse p�blico. Portanto, guardamos segredo por um m�s.</p><p>� E?</p><p>� Bem, eram as primeiras boas not�cias que a reda��o recebia depois de um ano. Todos festejaram, com exce��o de Dahlman. Claro, n�o somos a maior reda��o do mundo, mas tr�s pessoas se alegraram, o estagi�rio tamb�m, e uma se zangou por n�o termos passado a informa��o mais cedo.</p><p>� Ele teve um pouco de raz�o...</p><p>� Eu sei. Mas o fato � que continuou falando disso o tempo todo e despejando mau humor pela reda��o. Depois de duas semanas, chamei-o � minha sala e expliquei que, se eu n�o havia informado a reda��o, � porque n�o tinha confian�a nele e n�o estava certa de que ele guardaria segredo.</p><p>� Como ele reagiu?</p><p>� Ficou muito magoado, claro, e furioso. N�o recuei e dei a ele um ultimato: ou fazia um esfor�o para melhorar ou come�asse a procurar outro emprego.</p><p>� E ele?</p><p>� Resolveu se esfor�ar. Mas permanece distante e h� muita tens�o entre ele e o resto da equipe. Christer n�o o suporta mais e demonstra isso claramente.</p><p>� E o que suspeita que Dahlman esteja fazendo? Erika suspirou.</p><p>� N�o sei. N�s o contratamos h� um ano, quando j� est�vamos em campanha contra Wennerstr�m. N�o posso provar absolutamente nada, mas pressinto que ele n�o trabalha para n�s.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Confie nos seus instintos.</p><p>� Talvez n�o passe de um pobre-coitado cheio de mau humor por n�o estar no seu lugar.</p><p>� � poss�vel. Mas concordo com voc� que cometemos um erro de avalia��o ao contrat�-lo.</p><p>Vinte minutos depois, Mikael pegava as vias expressas do Slussen rumo ao norte, no carro que emprestara da mulher de Dirch Frode, um Volvo de dez anos que ela nunca utilizava e que Mikael agora podia usar quando quisesse.</p><empty-line/><p>Os detalhes eram m�nimos e sutis, e Mikael poderia nem t�-los percebido se n�o estivesse atento. Uma pilha de pap�is um pouco mais inclinada do que antes. Um arquivo um pouco fora de lugar na prateleira. A gaveta da escrivaninha inteiramente fechada � Mikael lembrava-se muito bem de t�-la deixado um pouco entreaberta na v�spera, quando foi para Estocolmo.</p><p>Ficou im�vel por um momento, em d�vida. Depois, uma certeza se imp�s: algu�m entrara na casa.</p><p>Foi at� o patamar de entrada e olhou ao redor. Ele trancara a porta, mas como se tratava de uma fechadura velha e bastante comum provavelmente podia ser aberta com uma chave de fenda, e n�o havia como saber se existiam c�pias daquela chave. Voltou a entrar na casa e passou em revista, sistematicamente, a saleta de trabalho para verificar se algo desaparecera. Depois de algum tempo, concluiu que tudo parecia ainda estar ali.</p><p>Mas o fato � que algu�m havia entrado, se instalado em sua saleta de trabalho e folheado seus pap�is e arquivos. Ele levara o computador consigo, portanto a pessoa n�o tivera acesso a ele. Duas quest�es se apresentavam. Quem? E ser� que o visitante misterioso tinha podido concluir alguma coisa do que vira ali?</p><p>Os arquivos eram uma parte dos que ele trouxera de volta da casa de Henrik Vanger ap�s sair da pris�o. N�o havia nenhum material novo. Os cadernos de anota��es eram indecifr�veis para um n�o-iniciado. Mas ser� que a pessoa que vasculhara sua mesa era uma n�o-iniciada?</p><p>O mais preocupante era o pequeno envelope de pl�stico em cima da mesa, onde ele pusera a lista de n�meros da agenda telef�nica de Harriet e uma c�pia das cita��es b�blicas �s quais eles se referiam. A pessoa que vasculhara a saleta agora sabia que ele havia decifrado o c�digo da B�blia.</p><empty-line/><p><emphasis>Quem?</emphasis></p><p>Henrik Vanger estava no hospital. Ele n�o suspeitava de Anna, a governanta. Dirch Frode? Mas Mikael j� havia lhe contado todos os detalhes... Cecilia Vanger adiara a viagem � Fl�rida e voltara de Londres com a irm�. Ele a vira na noite anterior, atravessando a ponte de carro. Martin Vanger? Harald Vanger? Birger Vanger regressara para participar de uma reuni�o de fam�lia, � qual Mikael n�o fora convidado, no dia seguinte ao infarto de Henrik. Alexander Vanger? Isabella Vanger? Ela era tudo menos simp�tica.</p><p>Com quem Frode havia falado? Deixara escapar alguma coisa? Quantos, dos mais pr�ximos, haviam percebido que Mikael descobrira algo novo nas investiga��es?</p><p>Passava de oito da noite. Ele telefonou para um serralheiro em Hedestad e pediu uma nova fechadura. O serralheiro explicou que s� poderia ir na manh� seguinte. Mikael prometeu pagar o dobro se ele fosse imediatamente, e ele concordou em passar �s dez e meia para instalar uma nova fechadura na casa.</p><empty-line/><p>Enquanto esperava o serralheiro, Mikael foi at� a casa de Dirch Frode, por volta das oito e meia. A mulher de Frode apontou para o jardim atr�s da casa e lhe prop�s uma cerveja gelada, que Mikael aceitou com prazer. Ele pediu a Frode not�cias de Henrik.</p><p>� Foi operado. Tem arteriosclerose nas coron�rias. O m�dico disse que seu estado continua cr�tico, mas que ainda h� esperan�as.</p><p>Ficaram um instante em sil�ncio, bebendo cerveja.</p><p>� Suponho que n�o conseguiu falar com ele.</p><p>� N�o, n�o est� em condi��es de falar. E como foi l� em Estocolmo?</p><p>� Lisbeth Salander aceitou. Eu trouxe o contrato de Dragan Armanskij. Precisa assin�-lo e envi�-lo de volta.</p><p>Dirch Frode leu o documento.</p><p>� Ela n�o cobra barato � constatou.</p><p>� Henrik pode pagar.</p><p>Frode foi buscar uma caneta e assinou.</p><p>� Ainda posso assinar este contrato por Henrik enquanto ele estiver vivo. Pode deix�-lo na caixa de correspond�ncia do Konsum quando voltar para casa?</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>A meia-noite, Mikael j� estava na cama, por�m n�o conseguia dormir. At� ent�o, sua temporada na ilha de Hedeby limitara-se a desencavar extravag�ncias hist�ricas. Mas quem sabe o passado n�o estivesse mais pr�ximo do presente do que ele imaginava, se algu�m suficientemente interessado no que ele fazia foi capaz de se introduzir na sua saleta de trabalho?</p><p>De repente lhe ocorreu que outras pessoas fora da ilha tamb�m podiam estar interessadas nas atividades dele. A s�bita entrada de Henrik Vanger no conselho administrativo da <emphasis>Millennium</emphasis> n�o devia ter passado despercebida a Hans-Erik Wennerstr�m. Ou esse tipo de pensamento indicava que ele estava ficando paran�ico?</p><p>Mikael levantou-se, postou-se completamente nu diante da janela da cozinha e olhou pensativo para a igreja do outro lado da ponte. Acendeu um cigarro.</p><p>N�o conseguia entender Lisbeth Salander. Ela tinha um comportamento estranho, fazia longas pausas no meio da conversa. Seu apartamento era um caos, com montanhas de jornais no vest�bulo e uma cozinha que n�o passava por uma limpeza havia bem um ano. Roupas espalhadas pelo ch�o, com certeza ele a tinha encontrado depois de uma noite de farra. No pesco�o havia vest�gios de chupadas, reveladoras de grande atividade noturna. Tinha v�rias tatuagens pelo corpo, <emphasis>piercings</emphasis> no rosto e provavelmente tamb�m em lugares que ele n�o vira. Ou seja, uma criatura especial.</p><p>Por outro lado, Armanskij garantira que ela era indiscutivelmente a melhor investigadora de sua empresa, e a investiga��o que fizera sobre ele indicava com certeza que ela ia fundo nas coisas. <emphasis>Uma garota estranha.</emphasis></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander estava diante do seu Powerbook refletindo sobre como reagira a Mikael Blomkvist. Em toda a sua vida adulta, jamais deixara entrar em sua casa algu�m que n�o tivesse sido expressamente convidado, e podia-se contar tais pessoas nos dedos de uma m�o. Sem a menor cerim�nia, Mikael se intrometera em sua vida e ela n�o reagira sen�o com uns protestos frouxos.</p><p>E n�o foi tudo � ele havia mexido com ela, zombado dela.</p><p>De h�bito, esse tipo de comportamento a teria levado a mentalmente engatilhar uma arma. No entanto, n�o sentiu a menor amea�a, nenhuma hostilidade vinda de Mikael Blomkvist. Ele tinha todos os motivos para estar zangado � e at� mesmo para process�-la depois de ter descoberto que ela invadira seu computador. Mas n�o, levou isso tamb�m na brincadeira.</p><p>Foi a parte mais delicada da conversa que tiveram. Como se Mikael propositalmente n�o quisesse tocar no assunto. Por fim, ela mesma n�o conseguiu evitar.</p><p>� Voc� disse que sabe o que eu fiz.</p><p>� Voc� invadiu o meu computador, � uma <emphasis>hacker.</emphasis></p><p>� Como sabe disso? � Lisbeth tinha a certeza de que n�o havia deixado vest�gios e de que n�o seria descoberta, a menos que algu�m muito experiente em seguran�a estivesse escaneando o disco r�gido no momento em que ela o invadiu.</p><p>� Voc� cometeu um erro. � Ele explicou que ela reproduzira um texto que s� existia no computador dele e em nenhum outro lugar.</p><p>Lisbeth Salander ficou em sil�ncio por um bom tempo. Por fim, fixou nele uns olhos inexpressivos.</p><p>� Como conseguiu? � ele perguntou.</p><p>� Segredo. O que pretende fazer? Mikael encolheu os ombros.</p><p>� O que eu posso fazer? No m�ximo, deveria levar um papo com voc� sobre �tica e moral, e sobre os perigos de bisbilhotar a vida alheia.</p><p>� Que � exatamente o que voc� faz como jornalista. Ele concordou com a cabe�a.</p><p>� Sem d�vida. � justamente por isso que n�s, jornalistas, temos um comit� de �tica nos vigiando nas quest�es morais. Quando escrevo um texto sobre um corrupto do mundo financeiro, deixo de lado, por exemplo, sua vida sexual. N�o escrevo que uma estelionat�ria � l�sbica ou que sonha trepar com seu cachorro, ou coisas do g�nero, ainda que seja verdade. Mesmo os corruptos t�m direito a uma vida privada, e � muito f�cil prejudicar algu�m atacando sua maneira de viver. Entende o que quero dizer?</p><p>� Sim.</p><p>� Portanto, voc� atentou contra a minha integridade. Henrik Vanger n�o precisava saber com quem eu fa�o amor. � problema meu.</p><p>Um sorriso acanhado despontou nos l�bios de Lisbeth Salander.</p><p>� Acha ent�o que eu n�o devia ter falado disso?</p><p>� No que me diz respeito, n�o faz muito diferen�a. Metade da cidade sabe da minha liga��o com Erika. Estou falando � do princ�pio.</p><p>� Talvez voc� ache divertido saber que eu tamb�m tenho princ�pios que correspondem ao do seu comit� de �tica. � o que chamo de Princ�pio Salander. Na minha opini�o, um corrupto sempre ser� um corrupto e, se posso prejudic�-lo desencavando sujeiras a seu respeito, ele tem o que merece. N�o fa�o sen�o dar-lhe o troco.</p><p>� Certo � disse Mikael Blomkvist sorrindo. � Meu racioc�nio n�o � inteiramente diferente do seu, mas...</p><p>� A verdade � que ao fazer uma investiga��o levo em conta tamb�m o que a pessoa me inspira. N�o fico neutra. Se julgo que se trata de uma pessoa boa, posso ser discreta no meu relat�rio.</p><p>� � mesmo?</p><p>� No seu caso, fui discreta. Poderia ter escrito um livro sobre a sua vida sexual. Poderia ter contado a Frode que Erika Berger tem um passado no clube Xtreme e que flertava com o BDSM nos anos 1980, o que inevitavelmente teria criado algumas associa��es de id�ias sobre a vida sexual de voc�s.</p><p>Mikael Blomkvist encarou o olhar de Lisbeth Salander. Depois de um momento, olhou pela janela e deu uma gargalhada.</p><p>� Realmente nada te escapa. Por que n�o p�s isso no relat�rio?</p><p>� Voc� e Erika Berger s�o adultos e parecem gostar muito um do outro. O que fazem na cama n�o interessa a ningu�m, e tudo que eu conseguiria, ao falar dela, seria s� prejudicar voc� ou oferecer material de chantagem a algu�m. Sei l�, n�o conhe�o Dirch Frode, e esse material poderia chegar �s m�os de Wennerstr�m.</p><p>� E voc� n�o quer fornecer material a Wennerstr�m?</p><p>� Se eu precisasse escolher entre voc� e ele, escolheria o seu lado do ringue.</p><p>� Eu e Erika temos um... nosso relacionamento �...</p><p>� Estou pouco me lixando para o relacionamento de voc�s. Mas n�o respondeu � minha pergunta: o que pretende fazer agora que sabe que eu invadi o seu computador?</p><p>A pausa de Mikael foi quase t�o longa quanto a dela.</p><p>� Lisbeth, eu n�o vim aqui para aborrec�-la, n�o vou denunciar voc�.</p><p>Estou aqui para pedir sua ajuda numa investiga��o. Responda sim ou n�o. Se disser n�o, vou embora, procuro outra pessoa e n�o ter� mais not�cias de mim. � Ele refletiu um segundo e depois sorriu. � Com a condi��o de eu n�o pegar voc� de novo no meu computador, � claro. Ela o olhou com uma express�o vazia.</p></section><section><p><strong><emphasis>19.� QUINTA-FEIRA 19 DE JUNHO � DOMINGO 29 DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael passou dois dias estudando seus documentos, enquanto aguardava not�cias sobre se Henrik Vanger sobreviveria ou n�o. Permanecia em contato com Dirch Frode. Na quinta-feira � noite, Frode foi v�-lo na casa dos convidados para anunciar que a crise parecia superada por enquanto.</p><p>� Ele est� fraco, mas consegui falar um pouco com ele hoje. Quer te ver o mais breve poss�vel.</p><p>A uma da tarde do s�bado, dia do solst�cio de ver�o, Mikael foi ao hospital de Hedestad e dirigiu-se ao setor onde Henrik Vanger estava internado. Deparou com Birger Vanger, muito irritado, que lhe barrou o caminho dizendo, com muita autoridade, que Henrik n�o estava em condi��es de receber visitas. Sem perder a calma, Mikael contemplou o conselheiro municipal.</p><p>� E estranho. Henrik Vanger me mandou um recado muito claro de que desejava me ver hoje.</p><p>� Voc� n�o � da fam�lia e n�o tem nada o que fazer aqui.</p><p>� � verdade, n�o fa�o parte da fam�lia. Mas vim atender um pedido expresso de Henrik, e s� recebo ordens dele.</p><p>A troca de palavras poderia ter virado uma disputa violenta se Dirch Frode n�o tivesse sa�do do quarto de Henrik justamente naquele momento.</p><p>� Ah, a� est� voc�. Henrik acabou de perguntar onde voc� estava. Frode manteve a porta aberta e Mikael entrou no quarto, passando por</p><p>Birger Vanger.</p><p>Henrik parecia ter envelhecido dez anos em uma semana. Suas p�lpebras permaneciam semicerradas, um tubo de oxig�nio entrava pelo nariz e seus cabelos estavam mais emaranhados do que nunca. Uma enfermeira deteve Mikael, pondo a m�o em seu bra�o.</p><p>� S� dois minutos. E evite emo��es. � Mikael assentiu com a cabe�a e sentou-se numa cadeira de modo a poder ver o rosto de Henrik. Ficou surpreso por sentir-se t�o enternecido e estendeu a m�o para apertar suavemente a do velho, muito frouxa. Henrik Vanger falou com voz fraca, entrecortada.</p><p>� Novidades?</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Farei um relat�rio assim que voc� melhorar. Ainda n�o resolvi o mist�rio, mas descobri novos elementos e estou seguindo algumas pistas. Dentro de uma semana ou duas, poderei dizer se isso nos leva a algum lugar.</p><p>Henrik tentou balan�ar a cabe�a. Foi com um bater de p�lpebras que indicou haver entendido.</p><p>� Vou me ausentar por alguns dias.</p><p>As sobrancelhas de Henrik se contra�ram.</p><p>� N�o, n�o estou abandonando o navio. Vou fazer uma investiga��o. Combinei com Dirch Frode de passar meus relat�rios a ele. Est� de acordo?</p><p>� Dirch �... meu mandat�rio... em todos os assuntos. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Mikael... se por acaso... eu vier a... quero que termine... o trabalho assim mesmo.</p><p>� Prometo que vou terminar.</p><p>� Dirch tem todas as... procura��es.</p><p>� Henrik, quero que se restabele�a logo. Eu ficaria muito chateado com voc� se desaparecesse agora que avancei tanto em meu trabalho.</p><p>� Dois minutos � disse a enfermeira.</p><p>� Preciso ir. Da pr�xima vez que eu vier, espero ter uma longa conversa com voc�.</p><p>Birger Vanger esperava Mikael quando ele saiu no corredor e o deteve pondo uma m�o em seu ombro.</p><p>� N�o quero que perturbe Henrik outra vez. Ele est� gravemente doente e n�o deve ser incomodado, seja qual for o motivo.</p><p>� Entendo sua preocupa��o. N�o vou mais perturb�-lo.</p><p>� Todos sabem que Henrik o contratou para investigar seu pequeno <emphasis>hobby...</emphasis> Harriet. Dirch Frode me contou que Henrik ficou muito perturbado depois de uma conversa que voc�s tiveram pouco antes do infarto. Disse que voc� mesmo achou que ela pode ter deflagrado a crise.</p><p>� N�o penso mais assim. Henrik Vanger tem uma arteriosclerose nas coron�rias. Poderia ter sofrido um infarto ao ir ao banheiro. Tenho certeza de que voc� tamb�m sabe muito bem disso.</p><p>� Quero ter o direito de fiscalizar todas essas bobagens. � na minha fam�lia que voc� est� se metendo.</p><p>� Bem, como eu disse... trabalho para Henrik, n�o para a sua fam�lia.</p><p>Birger Vanger n�o estava aparentemente habituado a que algu�m o contrariasse. Por um breve instante, encarou Mikael com um olhar destinado a lhe inspirar respeito, mas que lhe dava sobretudo o aspecto de um alce presun�oso. Depois, girou os calcanhares e entrou no quarto de Henrik.</p><p>Mikael conteve o riso. N�o era muito conveniente rir no corredor t�o perto do leito onde Henrik se achava enfermo, que tamb�m poderia vir a ser seu leito de morte. Mas Mikael se lembrou de repente de uma estrofe de um abeced�rio rimado de Lennart Hyland, divulgado no r�dio nos anos 1960, e que por uma raz�o incompreens�vel ele memorizara quando estava sendo alfabetizado: Era a letra A: o <emphasis>Alce soberbo e solit�rio insiste/ em olhar o bosque arruinado e triste.</emphasis></p><empty-line/><p>Na entrada do hospital, Mikael topou com Cecilia Vanger. Havia ligado para o celular dela dezena de vezes desde que ela retornara de suas f�rias interrompidas, mas n�o obtivera resposta. Ela tamb�m n�o estava em sua casa na ilha quando ele passou por l� e bateu na porta.</p><p>� Oi, Cecilia � ele disse. � Lamento o que aconteceu com Henrik. Ela agradeceu com um gesto de cabe�a. Mikael tentou captar seus sentimentos, mas n�o percebeu nem calor nem frieza.</p><p>� Precisamos conversar.</p><p>� Sinto muito ter te exclu�do daquela forma. Entendo que esteja furioso, mas estou passando por um momento dif�cil.</p><p>Mikael franziu o cenho at� entender o que ela queria dizer. P�s a m�o no bra�o de Cecilia e sorriu.</p><p>� Espere, n�o � isso, Cecilia. N�o estou nem um pouco furioso com voc�. Queria muito continuar seu amigo, mas se n�o tem vontade de me ver... se for essa a sua decis�o, eu respeitarei.</p><p>� Os relacionamentos nunca foram o meu forte � ela disse.</p><p>� Nem o meu. Vamos tomar um caf�?</p><p>Ele fez um sinal com a cabe�a em dire��o � cafeteria do hospital. Cecilia hesitou.</p><p>� N�o, hoje n�o. Gostaria de ver Henrik agora.</p><p>� Tudo bem, mas mesmo assim preciso falar com voc�. Sobre trabalho.</p><p>� O que est� querendo dizer? � Ela se p�s em guarda.</p><p>� Lembra-se quando nos vimos pela primeira vez, quando voc� veio me ver em janeiro? Eu disse que tudo o que fal�ssemos seria <emphasis>off the record</emphasis> e que quando eu tivesse perguntas de verdade para lhe fazer, eu avisaria. � sobre Harriet.</p><p>O rosto de Cecilia inflamou-se num furor s�bito.</p><p>� Seu filho-da-puta!</p><p>� Cecilia, descobri coisas sobre as quais preciso falar com voc�. Ela deu um passo para tr�s.</p><p>� Voc� n�o entende que essa maldita investiga��o dessa maldita Harriet � s� uma maneira de Henrik se ocupar? N�o entende que ele talvez esteja morrendo l� em cima e que a �ltima coisa que ele precisa agora � ser perturbado e que lhe d�em falsas esperan�as?...</p><p>Ela se calou.</p><p>� Talvez seja um <emphasis>hobby</emphasis> para Henrik, mas o fato � que descobri novos elementos que n�o tinham sido descobertos em trinta e cinco anos. H� quest�es nessa investiga��o que ficaram sem resposta, e estou trabalhando de acordo com as instru��es de Henrik.</p><p>� Se Henrik morrer, esta droga de investiga��o vai acabar em seguida e voc� ser� o primeiro a cair fora � disse Cecilia, afastando-se e cruzando a porta.</p><empty-line/><p>* * *</p><p>Tudo estava fechado, Hedestad praticamente deserta. A popula��o parecia ter ido ao campo para as festividades de S�o Jo�o. Mikael encontrou por fim o terra�o do Grande Hotel e ali pediu um caf� e um sandu�che enquanto lia os jornais da tarde. Nada de importante acontecera no mundo.</p><p>Deixou os jornais e refletiu sobre Cecilia Vanger. N�o havia contado nem a Henrik nem a Dirch Frode que suspeitava que ela tinha aberto a janela do quarto de Harriet. N�o queria transform�-la em suspeita e a �ltima coisa que desejava era prejudic�-la. Mas cedo ou tarde seria preciso tocar nessa quest�o.</p><p>Permaneceu no terra�o por uma hora at� decidir deixar de lado aquele problema e dedicar o Dia de S�o Jo�o a outra coisa que n�o � fam�lia Vanger. Seu celular permanecia silencioso. Erika viajara no fim de semana e se divertia em algum lugar com o marido, e ele n�o tinha com quem falar.</p><p>Regressou � ilha por volta das quatro da tarde e tomou outra decis�o � parar de fumar. Ele se exercitava com regularidade desde a �poca do servi�o militar, gin�stica e <emphasis>jogging</emphasis> ao longo da S�der M�larstrand, mas parara completamente quando os problemas com Hans-Erik Wennerstr�m come�aram. Em Rullaker tentou desenferrujar o corpo, sobretudo como terapia, mas desde que deixara a pris�o n�o fizera muitos progressos. Era hora de recome�ar. Com determina��o, vestiu um abrigo e se p�s a correr em marcha lenta pelo caminho que conduzia � cabana de Gottfried, pegou a trilha para a Fortifica��o e empregou um ritmo mais forte fora da pista. N�o praticava corrida de percurso desde o servi�o militar, mas sempre preferira correr no bosque do que nas pistas de treinamento. Passou pela fazenda de �stergarden para voltar ao povoado. Sentia-se exausto quando completou, bufando, os �ltimos metros at� a casa dos convidados.</p><p>�s seis da tarde tomou um banho. Adepto, mesmo contra a vontade, do tradicional jantar de S�o Jo�o, p�s algumas batatas para cozinhar, preparou o arenque marinado com cebolinha e ovos duros e instalou-se numa mesa fr�gil, fora de casa, no lado que dava para a ponte. Serviu-se de aquavita e brindou sozinho. Depois abriu um romance policial intitulado O <emphasis>canto das sereias,</emphasis> de Vai McDermid.</p><empty-line/><p>Por volta das sete da noite, Dirch Frode passou para v�-lo e instalou-se pesadamente numa cadeira do jardim diante dele. Mikael ofereceu-lhe uma dose de aquavita.</p><p>� Voc� causou muitos ressentimentos hoje � disse Frode.</p><p>� Eu percebi.</p><p>� Birger Vanger � um fanfarr�o.</p><p>� Eu sei.</p><p>� Mas Cecilia Vanger n�o �, e est� furiosa com voc�. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ela me falou que voc� precisa parar de remexer nos assuntos da fam�lia.</p><p>� Entendo. E o que voc� respondeu?</p><p>Dirch Frode olhou seu copo de aquavita e o esvaziou num trago.</p><p>� Respondi que Henrik deu instru��es muito claras sobre o que deseja que voc� fa�a. Enquanto ele n�o modificar essas instru��es, voc� segue o contrato que fizemos. Espero que fa�a o poss�vel para cumprir sua parte no contrato.</p><p>Mikael concordou com a cabe�a. Olhou o c�u, onde nuvens de chuva se acumulavam.</p><p>� H� uma tempestade no ar � disse Frode. � Se os ventos come�arem a soprar muito fortes, estarei aqui para ajud�-lo.</p><p>� Obrigado.</p><p>Ficaram um instante em sil�ncio.</p><p>� Pode me servir mais um trago? � pediu Frode.</p><empty-line/><p>Alguns minutos depois de Dirch Frode ter voltado para casa, Martin Vanger estacionou o carro em frente � casa dos convidados. Desceu e foi cumprimentar Mikael, que lhe desejou boa Festa de S�o Jo�o e lhe ofereceu uma bebida.</p><p>� N�o, obrigado. Vim � ilha s� para trocar de roupa. Vou voltar agora � cidade para passar a noite com Eva.</p><p>Mikael esperou.</p><p>� Falei com Cecilia. Ela est� um pouco perturbada, � muito apegada a Henrik. Espero que a perdoe se ela disse coisas... desagrad�veis.</p><p>� Gosto muito de Cecilia � respondeu Mikael.</p><p>� Eu sei. Mas ela tem l� seus humores. Saiba apenas que Cecilia � totalmente contra voc� remexer no passado.</p><p>Mikael suspirou. Todo mundo em Hedestad parecia saber por que Henrik o contratara.</p><p>� E voc�?</p><p>Martin afastou as m�os num gesto de perplexidade.</p><p>� H� d�cadas Henrik est� obcecado com essa hist�ria da Harriet. N�o sei o que dizer... Harriet era minha irm�, mas de certo modo j� est� distante de mim. Dirch Frode me disse que voc� tem um contrato que somente Henrik pode romper. Considerando seu atual estado de sa�de, creio que isso cause mais mal do que bem.</p><p>� E voc�, quer que eu continue?</p><p>� Descobriu alguma coisa?</p><p>� Desculpe, Martin, mas eu quebraria o contrato se lhe contasse alguma coisa sem a autoriza��o de Henrik.</p><p>� Entendo. � Ele sorriu de repente. � Henrik gosta muito de conspira��es, tem um monte de teorias a respeito, mas eu n�o gostaria que voc� lhe desse falsas esperan�as.</p><p>� Fique tranquilo. A �nica coisa que apresento a ele s�o fatos que posso comprovar atrav�s de documentos.</p><p>� Bem... Ali�s, por falar nisso, precisamos pensar tamb�m no outro contrato. Como Henrik est� doente e impossibilitado de cumprir suas obriga��es no conselho administrativo da <emphasis>Millennium,</emphasis> me ofere�o para ficar no seu lugar.</p><p>Mikael esperou.</p><p>� Precisamos convocar uma reuni�o para avaliar a situa��o.</p><p>� � uma boa id�ia, mas, pelo que entendi, a pr�xima reuni�o j� foi marcada para agosto.</p><p>� Sim, mas talvez possamos antecip�-la. Mikael sorriu polidamente.</p><p>� Sem d�vida. Mas est� falando com a pessoa errada. Por enquanto n�o fa�o parte do conselho administrativo da <emphasis>Millennium.</emphasis> Deixei a revista em dezembro e nada posso dizer sobre as decis�es tomadas pelo conselho. Sugiro que converse com Erika Berger sobre isso.</p><p>Martin Vanger n�o esperava essa resposta. Refletiu um momento antes de se levantar.</p><p>� Tem raz�o, claro. Vou telefonar para ela. � Deu um tapinha no ombro de Mikael para se despedir e foi se encaminhando para o carro.</p><p>Mikael olhou para ele pensativamente. Nada de preciso fora dito, mas pairava no ar uma clara amea�a. Martin Vanger havia colocado a <emphasis>Millennium</emphasis> na balan�a. Um instante depois, Mikael serviu-se de uma nova dose de aquavita e voltou � sua leitura de Vai McDermid.</p><p>Por volta das nove da noite, o gato ruivo chegou e se esfregou em suas pernas. Ele o acariciou atr�s das orelhas.</p><p>� � isso a�, meu velho. Vamos nos aborrecer juntos na noite de S�o Jo�o � disse.</p><p>Quando ca�ram as primeiras gotas de chuva, entrou para se deitar. O gato preferiu ficar l� fora.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander passou o Dia de S�o Jo�o fazendo uma boa revis�o na sua Kawasaki. Uma moto de 125 cilindradas n�o era a m�quina ideal, mas ela sabia conduzi-la e a reformara, pe�a por pe�a, inclusive ajustando-a para poder correr um pouco acima da velocidade autorizada.</p><p>� tarde, p�s o capacete e a jaqueta de couro e foi at� a casa de sa�de de �ppelviken, onde passou algumas horas com sua m�e no jardim. Saiu de l� com uma ponta de preocupa��o e com maus pressentimentos. A m�e parecia mais ausente do que nunca. Durante as tr�s horas em que ficaram juntas, s� trocaram umas poucas palavras, e sua m�e nem parecia saber com quem falava.</p><empty-line/><p>Mikael passou dias tentando identificar o carro com placa AC. Embora tenha ficado um pouco perdido no in�cio, acabou encontrando um mec�nico aposentado em Hedestad que identificou o ve�culo como um Ford Anglia, modelo aparentemente comum, do qual, por�m, Mikael nunca tinha ouvido falar. Depois entrou em contato com um funcion�rio do Departamento de Tr�nsito, para ver se era poss�vel conseguir uma rela��o de todos os Ford Anglia de 1966 com placa iniciada por AC3 alguma coisa. Estava tentando seguir outras pistas, quando veio a resposta de que um exame de registros at� era poss�vel, s� que demoraria algum tempo por ser algo muito diferente do que se podia considerar como informa��o de interesse p�blico.</p><p>V�rios dias depois do fim de semana de S�o Jo�o, Mikael sentou-se ao volante do Volvo emprestado e pegou a rodovia E4 rumo ao norte. Dirigia sem pressa, como sempre. Pouco antes da ponte de H�rn�sand, parou para tomar um caf� na confeitaria de Vesterlund.</p><p>A parada seguinte foi Umea, onde pediu o prato do dia num hotel. Comprou um mapa rodovi�rio e prosseguiu at� Skelleftea, entrando depois � esquerda em dire��o a Norsj�. Chegou por volta das seis da tarde e hospedou-se no hotel Norsj�.</p><p>Come�ou suas pesquisas logo cedo na manh� seguinte. N�o existia nenhuma Marcenaria de Norsj� no anu�rio da cidade. A recepcionista desse pequeno hotel nos confins do norte, uma jovem de uns vinte anos, nunca ouvira falar dessa marcenaria.</p><p>� Quem poderia me informar?</p><p>Por um instante ela pareceu um pouco confusa, mas em seguida disse que ia telefonar para o pai. Dois minutos depois, voltou e explicou que a Marcenaria de Norsj� fechara no come�o dos anos 1980. Se Mikael quisesse conversar com algu�m que sabia um pouco mais sobre a empresa, devia procurar um tal de Hartman que trabalhara ali como contramestre e agora morava no bairro dos Girass�is.</p><empty-line/><p>Norsj� era um vilarejo nascido ao longo de uma rua que, muito apropriadamente, fora batizada de Rua Principal; os estabelecimentos comerciais atravessavam a localidade de ponta a ponta, enquanto as moradias ficavam nas ruas transversais. Na entrada do vilarejo havia uma pequena zona industrial e estrebarias; na sa�da, a oeste, erguia-se uma bela igreja de madeira. Mikael notou que a aldeia abrigava tamb�m uma congrega��o de mission�rios e uma de pentecostais. Um cartaz fixado num painel do ponto de �nibus falava de um Museu da Ca�a e de um Museu do Esqui. Outro anunciava que Veronika cantaria na Festa de S�o Jo�o. Ele percorreu o vilarejo de ponta a ponta, a p�, em pouco mais de vinte minutos.</p><p>O bairro dos Girass�is era um condom�nio residencial situado a uns cinco minutos do hotel. Hartman n�o estava em casa. Eram nove e meia da manh� e ele sup�s que o homem estivesse trabalhando ou sa�ra para fazer compras.</p><p>A etapa seguinte foi o armaz�m da Rua Principal. Quem mora em Norsj� deve passar, uma hora ou outra, no armaz�m, pensou Mikael. Havia dois vendedores; Mikael escolheu o mais velho, de uns cinquenta anos.</p><p>� Bom dia, estou procurando um casal que deve ter morado aqui em Norsj� nos anos 1960. O homem parece que trabalhava na marcenaria. N�o sei como se chamavam, mas tenho aqui duas fotos deles, de 1966.</p><p>O vendedor olhou demoradamente as fotos, mas disse que n�o conhecia nem o homem nem a mulher.</p><p>Na hora do almo�o, Mikael pediu um cachorro-quente no quiosque ao lado do ponto de �nibus. Depois das lojas, passou pela prefeitura, pela biblioteca, pela farm�cia. N�o havia ningu�m na delegacia e ele come�ou a conversar ao acaso com pessoas mais velhas. Por volta das duas da tarde, abordou duas mulheres mais jovens que, mesmo n�o reconhecendo o casal da foto, lhe deram uma boa id�ia.</p><p>� Se a foto foi tirada em 1966, essas pessoas devem ter hoje uns sessenta anos. Por que n�o vai at� a Casa da Terceira Idade em Solbacka?</p><p>Mikael foi at� l� e apresentou-se a uma mulher de uns trinta anos, explicando o que queria. Ela o olhou desconfiada, mas acabou cedendo. Acompanhou Mikael � sala de conviv�ncia, onde ele passou meia hora mostrando as fotos a um grande n�mero de pensionistas de setenta anos ou mais. Apesar da amabilidade deles, ningu�m identificou as pessoas fotografadas em Hedestad em 1966.</p><p>Por volta das cinco, retornou ao bairro dos Girass�is e dessa vez encontrou Hartman em casa. Ele e a mulher, ambos aposentados, haviam passado o dia fora. Fizeram-no entrar na cozinha, onde a mulher imediatamente foi preparar um caf� enquanto Mikael explicava o que procurava. Como nas outras tentativas do dia, n�o teve sorte. Hartman co�ou a cabe�a, acendeu o cachimbo e depois de um momento admitiu que n�o reconhecia as pessoas da foto. Marido e mulher falavam num dialeto local que Mikael �s vezes tinha dificuldade em compreender. A mulher certamente quis dizer "cabelos encaracolados" quando comentou que a mo�a da foto tinha <emphasis>"kn�velh�ra".</emphasis></p><p>� Mas o senhor n�o se enganou, � um adesivo da marcenaria � disse o marido. � Soube reconhec�-lo muito bem. O problema � que distribu�amos esses adesivos a torto e a direito. Aos motoristas, aos clientes que compravam ou forneciam madeira, aos t�cnicos das m�quinas e a muitas outras pessoas.</p><p>� Ent�o vai ser mais dif�cil encontr�-los do que eu imaginava.</p><p>� Por que precisa encontr�-los?</p><p>Mikael havia decidido dizer a verdade se as pessoas perguntassem. Qualquer hist�ria que ele tentasse inventar sobre o casal da foto soaria de todo modo inveross�mil e s� criaria confus�o.</p><p>� � uma longa hist�ria. Estou investigando um crime ocorrido em He-destad em 1966, e acho que h� uma possibilidade, embora pequena, de que as pessoas dessa foto tenham visto o que aconteceu. Elas n�o s�o suspeitas de absolutamente nada e acredito que talvez nem saibam que possuem informa��es que poderiam solucionar esse crime.</p><p>� Um crime? Que tipo de crime?</p><p>� Sinto muito, mas n�o posso dizer mais nada. Sei que deve parecer misterioso algu�m vir aqui procurar essas pessoas quarenta anos depois, mas o crime nunca foi solucionado e s� h� pouco tempo alguns novos elementos vieram � tona.</p><p>� Entendo. Sim, de fato � uma pesquisa estranha essa que est� fazendo.</p><p>� Quantas pessoas trabalhavam na marcenaria?</p><p>� A equipe completa tinha quarenta pessoas. Trabalhei ali desde os dezessete anos, em meados dos anos 1950, at� a empresa fechar as portas. Depois virei motorista de caminh�o.</p><p>Hartman refletiu por um momento.</p><p>� Posso garantir que o rapaz da foto nunca trabalhou na marcenaria. A menos que fosse um motorista, mas acho que mesmo assim eu o teria reconhecido. Quem sabe n�o era pai desse mo�o da foto ou algu�m da fam�lia que trabalhava na f�brica? Talvez o carro n�o fosse dele.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� E verdade, as possibilidades s�o muitas. O senhor sabe de algu�m com quem eu possa falar?</p><p>� Sim � disse Hartman, levantando o indicador. � Passe aqui amanh� de manh�, e daremos uma volta para conversar com os velhos.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander estava diante de um problema metodol�gico. Ela era uma especialista na arte de obter informa��es sobre qualquer pessoa, mas sempre dispunha, como ponto de partida, do nome e do n�mero de identidade de um indiv�duo ainda vivo. Se a pessoa figurasse num banco de dados, o que inevitavelmente acontecia com todo mundo, poderia ser localizada bem r�pido em sua teia de aranha. Se possu�sse um computador conectado � internet, e-mail e at� mesmo um site, o que era o caso de quase todos que se encaixavam em seu tipo de pesquisa, ela podia penetrar em seus segredos mais �ntimos.</p><p>O trabalho que aceitara fazer para Mikael Blomkvist era completamente diferente. Desta vez a tarefa consistia em identificar quatro n�meros pessoais a partir de dados extremamente vagos. Al�m disso, essas pessoas tinham vivido v�rias dezenas de anos atr�s, o que talvez eliminasse a possibilidade de constarem num banco de dados.</p><p>A tese de Mikael, baseada no caso Rebecka Jacobsson, era que essas pessoas haviam sido assassinadas. Portanto, deveriam estar em inqu�ritos policiais n�o resolvidos. Ela n�o dispunha de nenhuma pista sobre a data e o lugar onde esses crimes teriam sido cometidos, exceto que ocorreram, sem d�vida, antes de 1966. Do ponto de vista da pesquisa, uma situa��o inteiramente nova.</p><p><emphasis>Bem, o que � que eu fa�o ent�o?</emphasis></p><p>Ligou o computador e entrou no Google com as palavras-chave Magda + crime. Era a forma de pesquisa mais simples que podia fazer. Para sua grande surpresa, uma porta abriu-se imediatamente em suas investiga��es. A primeira ocorr�ncia era a programa��o da TV-V�rmland em Karlstad, que indicava um epis�dio da s�rie <emphasis>Crimes no V�rmland</emphasis> levada ao ar em 1999. Depois, ela encontrou um breve artigo no <emphasis>V�rmlands Folkblad.</emphasis></p><empty-line/><p>Um novo epis�dio da s�rie <emphasis>Crimes no V�rmland</emphasis> focaliza o caso Magda Lovisa Sj�berg, de Ranmotr�sk, um crime misterioso e abomin�vel que mobilizou a pol�cia de Karlstad dezenas de anos atr�s. Em abril de 1960, a propriet�ria rural Lovisa Sj�berg, de quarenta e seis anos, foi encontrada no est�bulo de seu s�tio, assassinada de maneira brutal. O rep�rter Claes Gunnars reconstitui seus �ltimos momentos e a busca infrut�fera do criminoso. Esse crime provocou muita como��o na �poca e in�meras teorias sobre o culpado. No programa, um parente mais jovem, suspeito do crime, conta o quanto sua vida foi destru�da por essa acusa��o. 20 horas.</p><empty-line/><p>Lisbeth encontrou informa��es mais consistentes no artigo "O caso Lovisa abalou toda uma regi�o", publicado na revista <emphasis>V�rmlandskultur,</emphasis> cujo texto aparecia na net reproduzido na �ntegra. Num tom persuasivo e envolvente, contava como o marido de Lovisa, o lenhador Holger Sj�berg, encontrara a mulher morta ao voltar do trabalho, �s cinco da tarde. Ela fora violentada, apunhalada e por fim morta com um forcado. O crime ocorrera no est�bulo da fam�lia, mas o que causara mais como��o � que o assassino, depois de cometer o crime, a pusera de joelhos numa baia de cavalo.</p><p>Mais tarde, descobriu-se que um dos animais do s�tio, uma vaca, recebera uma facada no pesco�o.</p><p>De in�cio suspeitaram do marido, mas ele apresentou um �libi s�lido. Estava com os colegas de trabalho desde as seis da manh� numa �rea de corte a quarenta quil�metros do s�tio. Lovisa Sj�berg ainda estava viva �s dez da manh�, quando uma vizinha passou para v�-la. Ningu�m viu nem ouviu nada; o s�tio mais pr�ximo ficava a cerca de quatrocentos metros.</p><p>Depois de abandonar o marido como principal suspeito, o inqu�rito policial voltou-se para um sobrinho da mulher assassinada, um jovem de vinte e tr�s anos. Ele j� tivera v�rios problemas com a Justi�a, estava seriamente endividado e quase sempre pedia dinheiro emprestado � tia. Seu �libi era bem mais fr�gil. Ele foi detido para investiga��es e depois solto por falta de provas. Mesmo assim, muitos habitantes da aldeia o consideravam o mais prov�vel culpado.</p><p>A pol�cia tamb�m seguiu outras pistas. Grande parte das investiga��es girou em torno de um misterioso caixeiro-viajante visto na regi�o; circulava ainda um boato sobre um grupo de supostos ciganos que teriam praticado uma s�rie de roubos. Nada se falava, por�m, sobre a raz�o que os teria levado a cometer um assassinato brutal de car�ter sexual, sem que nada tivesse sido roubado.</p><p>Por um momento, o interesse se voltou para um vizinho da aldeia, um homem solteiro que na juventude fora suspeito de um crime homossexual � isso numa �poca em que a homossexualidade ainda era crime � e que, segundo v�rias declara��es, tinha a reputa��o de ser "estranho". Mas tampouco ficou esclarecido por que um eventual homossexual cometeria um crime sexual contra uma mulher. Nenhuma dessas ou outras pistas jamais levou a uma deten��o ou condena��o.</p><p>Lisbeth Salander achou que a liga��o com a lista da agenda telef�nica de Harriet era evidente. A cita��o do <emphasis>Lev�tico</emphasis> XX, 16 dizia: <emphasis>"Se uma mulher se aproximar de um animal para se prostituir com ele, ser� morta juntamente com o</emphasis><emphasis>animal. Ser�o mortos e levar�o a sua iniquidade."</emphasis> Imposs�vel atribuir ao acaso o assassinato de uma camponesa de prenome Magda, propriet�ria de um est�bulo, e seu corpo ter sido colocado numa baia de cavalo.</p><p>Mas por que Harriet Vanger anotara o prenome Magda, e n�o Lovisa, como a v�tima era mais conhecida? Se o nome completo dela n�o estivesse na programa��o de tev�, Lisbeth nada teria percebido.</p><p>E permanecia, claro, a quest�o fundamental: havia uma liga��o entre o assassinato de Rebecka em 1949, o de Magda Lovisa em 1960 e o desaparecimento de Harriet Vanger em 1966? Em caso afirmativo, como Harriet Vanger soube disso?</p><empty-line/><p>No s�bado, Hartman acompanhou Mikael em um passeio sem muitas expectativas at� Norsj�. De manh�, visitaram cinco ex-funcion�rios da marcenaria que moravam suficientemente perto um do outro para que pudessem ir a p�. Tr�s moravam no centro e dois em S�rbyn, na periferia do vilarejo. Todos ofereceram caf�. Todos examinaram as fotos e sacudiram negativamente a cabe�a.</p><p>Ap�s um almo�o trivial na casa dos Hartman, sa�ram de carro para mais uma volta. Foram a quatro aldeias nos arredores de Norsj� onde moravam outros ex-funcion�rios da marcenaria. A cada parada, Hartman era calorosamente recebido, mas ningu�m foi capaz de ajud�-los. Mikael come�ava a se desesperar e a achar que a viagem a Norsj� n�o serviria para nada.</p><p>Por volta das quatro da tarde, Hartman estacionou o carro em frente a uma casa pintada de vermelho, t�pica do V�sterbotten, em Norsj�vallen, ao norte de Norsj�, e apresentou Mikael a Henning Forsman, marceneiro aposentado.</p><p>� Sim, � o filho de Assar Br�nnlund � disse Henning Forsman assim que Mikael mostrou a fotografia.</p><p><emphasis>Bingo!</emphasis></p><p>� E onde posso encontr�-lo?</p><p>� Esse rapaz? Bem, vai ter que cavar. Chamava-se Gunnar, morreu numa explos�o em meados dos anos 1970.</p><p><emphasis>Droga!</emphasis></p><p><emphasis>�</emphasis> Mas a mulher dele ainda est� viva. � essa da foto. Chama-se Mildred e mora em Bjursele.</p><p>� Bjursele?</p><p>� Fica a uns dez quil�metros logo que se pega a estrada de Bastutr�sk. Mora numa casinha vermelha � direita, na entrada na aldeia. A terceira casa. Conhe�o bem a fam�lia.</p><empty-line/><p>"Bom dia, meu nome � Lisbeth Salander. Estou fazendo uma tese de criminologia sobre a viol�ncia contra as mulheres no s�culo XX e gostaria de saber se � poss�vel passar no distrito policial de Landskrona para examinar documentos sobre um caso de 1957. Trata-se do assassinato de uma mulher de quarenta e cinco anos chamada Rakel Lunde. Por acaso sabe onde esses documentos podem estar hoje?"</p><empty-line/><p>Bjursele parecia uma publicidade viva da vida rural do V�sterbotten. A aldeia era composta de umas vinte casas, relativamente pr�ximas, que formavam um semic�rculo na extremidade de um lago. No meio da aldeia havia um cruzamento com uma placa indicando Hemmingen, 11 km, e outra apontando para Bastutr�sk, 17 km. Ao lado do cruzamento, uma pequena ponte cruzava um riacho que Mikael sup�s ser o <emphasis>sele</emphasis> de Bjursele. Nessa �poca, em pleno ver�o, era t�o bonito como um cart�o-postal.</p><p>Mikael estacionou no p�tio de um supermercado Konsum definitivamente fechado, do outro lado da estrada, a pouca dist�ncia da terceira casa � direita. Quando bateu � porta, ningu�m atendeu.</p><p>Andou durante uma hora pela estrada de Hemmingen. Passou num lugar onde o riacho se transformava numa torrente impetuosa, viu dois gatos e uma cabra antes de retornar, mas nenhum ser humano. A porta de Mildred Brannlund continuava fechada.</p><p>Num poste junto � ponte, um pequeno cartaz convidava para assistir ao BTCC, o <emphasis>Bjursele Tukting Car Championship 2002.</emphasis> Mikael olhou pensativamente para o cartaz. <emphasis>Tukt a car</emphasis> parecia ser uma distra��o de inverno que consistia em conduzir um ve�culo sobre o lago gelado at� arrebent�-lo.</p><p><emphasis>Esperou at� as dez da noite antes de desistir e retornar a Norsj�, onde jantou tarde e recolheu-se para terminar de ler o policial de Vai McDermid.</emphasis></p><p>Um final abomin�vel.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>�s dez da noite, Lisbeth Salander acrescentou outro nome � lista de Harriet Vanger. Fez isso com muita hesita��o, depois de refletir por horas.</p><p>Ela descobrira um atalho. Regularmente eram publicados artigos sobre crimes n�o solucionados, e no suplemento de um jornal vespertino topou com um artigo de 1999 intitulado "Matadores de mulheres continuam em liberdade". O artigo era conciso, mas trazia os nomes e as fotos de v�rias v�timas que fizeram correr muita tinta. O caso Solveig em Norrt�lje, o assassinato de Anita em Norrk�ping, o de Margareta em Helsingborg e uma s�rie de outros mist�rios.</p><p>Os casos mais antigos datavam dos anos 1960 e nenhum dos crimes figurava na lista que Mikael passara a Lisbeth. No entanto, um deles chamou sua aten��o.</p><p>Em junho de 1962, uma prostituta de trinta e dois anos, Lea Persson, de G�teborg, foi a Uddevalla para visitar sua m�e e seu filho de nove anos de quem a m�e tinha a guarda. Alguns dias depois, Lea abra�ou a m�e, despediu-se e partiu para pegar o trem de volta a G�teborg. Foi encontrada dois dias depois atr�s de um cont�iner abandonado num terreno baldio industrial. Fora violentada e seu corpo sofrera sev�cias particularmente brutais.</p><p>O assassinato de Lea foi objeto de v�rias mat�rias folhetinescas na imprensa, mas o culpado jamais foi identificado. O nome Lea n�o estava na lista de Harriet Vanger e nenhuma das cita��es b�blicas correspondia a esse crime.</p><p>Contudo, um detalhe muito bizarro levantou as antenas de Lisbeth Salander. A cerca de dez metros do local onde o corpo de Lea foi encontrado, descobriram um vaso de flores com um pombo dentro. Algu�m pusera um cord�o em volta do pesco�o do pombo e o puxara pelo buraco no fundo do vaso. Depois, o vaso foi colocado sobre um pequeno fogo entre dois tijolos. Nada provava que essa crueldade com o animal tivesse rela��o com o assassinato de Lea; talvez apenas crian�as se divertindo dessa maneira ign�bil. Na imprensa, por�m, o caso ficou conhecido como "O crime do pombo".</p><p>Lisbeth Salander n�o lia a B�blia � nem mesmo possu�a uma �, mas no fim da tarde foi at� a igreja de H�galid e, depois de insistir um pouco, emprestaram-lhe uma B�blia. Ela se instalou num banco no adro da igreja e leu o <emphasis>Lev�tico.</emphasis> Ao chegar ao cap�tulo XII, vers�culo 8, levantou as sobrancelhas. O cap�tulo XII falava da purifica��o da mulher que deu � luz:</p><empty-line/><p><emphasis>"Se as suas posses n�o lhe permitirem trazer um cordeiro, ela tomar� duas rolas ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para o sacrif�cio pelo pecado. O sacerdote far� por ela a expia��o e ela ser� purificada."</emphasis></p><empty-line/><p>Lea poderia perfeitamente ter figurado na lista de Harriet Vanger como Lea 31208.</p><p>De repente Lisbeth Salander percebeu que as investiga��es que fizera at� ent�o n�o possu�am, nem de longe, as dimens�es de sua atual miss�o.</p><p>Mildred Br�nnlund, que voltara a se casar e agora tinha o nome Berggren, atendeu Mikael Blomkvist quando ele bateu � sua porta �s dez horas da manh� do domingo. Com quarenta anos a mais, a mulher parecia ter engordado tamb�m uns quarenta quilos. Mas Mikael a reconheceu de imediato.</p><p>� Bom dia, meu nome � Mikael Blomkvist. � Mildred Berggren, imagino.</p><p>� Sim, sou eu.</p><p>� Desculpe incomod�-la, mas h� algum tempo venho tentando encontr�-la por causa de um assunto bastante dif�cil de explicar. � Mikael sorriu. � Ser� que posso entrar e tomar um pouquinho do seu tempo?</p><p>Como o marido de Mildred e seu filho de trinta e cinco anos estavam em casa, sem muita hesita��o ela convidou Mikael a entrar e a se sentar na cozinha. Mikael bebera mais caf� do que nunca nos �ltimos dias, mas sabia que uma recusa, no Norrrland, seria uma descortesia. Quando as x�caras foram postas na mesa, Mildred sentou-se e perguntou, muito curiosa, o que podia fazer por ele. Como Mikael n�o compreendia bem seu dialeto de Norsj�, ela passou a falar no sueco de Estocolmo.</p><p>Mikael respirou fundo.</p><p>� E uma longa e estranha hist�ria. Em setembro de 1966, a senhora estava em Hedestad com seu marido, na �poca Gunnar Br�nnlund.</p><p>Ela parecia estupefata. Ele esperou at� que ela assentisse com a cabe�a e depois colocou na mesa a foto tirada na rua da Esta��o.</p><p>� E ent�o tiraram essa foto. Lembra-se da ocasi�o?</p><p>� Santo Deus � disse Mildred Berggren. � Faz uma eternidade. O segundo marido e o filho olharam a foto por cima de seu ombro.</p><p>� Era uma viagem de n�pcias. Fomos a Estocolmo e a Sigtuna de carro, est�vamos voltando e simplesmente paramos em qualquer lugar. O senhor disse Hedestad?</p><p>� Sim, Hedestad. Essa foto foi tirada por volta da uma da tarde. J� h� algum tempo venho tentando identificar a senhora. N�o foi nada f�cil.</p><p>� Descobriu uma velha foto minha e me encontrou. Nem consigo imaginar como fez isso.</p><p>Mikael mostrou-lhe a foto do estacionamento.</p><p>� Foi gra�as a esta outra foto, tirada um pouco mais tarde no mesmo dia, que pude seguir sua pista. � Mikael explicou como, atrav�s da Marcenaria de Norsj�, encontrara Hartman, que, por sua vez, o levou a Henning Forsman em Norj�svallen.</p><p>� Suponho que tenha uma boa raz�o para estar fazendo essa estranha pesquisa.</p><p>� De fato. A jovem na foto diante da senhora chamava-se Harriet. Ela desapareceu nesse dia e muitos acham que foi morta. Por favor, deixe que eu lhe mostre.</p><p>Mikael pegou seu notebook e, enquanto o computador iniciava, foi explicando todo o contexto da hist�ria. Depois passou a sequ�ncia que mostrava a mudan�a de express�o do rosto de Harriet.</p><p>� Foi ao examinar essas fotos antigas que eu a vi. A senhora est� bem atr�s de Harriet, tem na m�o uma m�quina fotogr�fica e parece estar fotografando justamente o que ela est� vendo e que provocou essa rea��o nela. Sei que � uma aposta insensata. Mas a raz�o que me levou a procur�-la � que talvez a senhora ainda conserve as fotos desse dia.</p><p>Mikael esperava que Mildred Berggren abanasse as m�os dizendo que n�o sabia o que fora feito das fotos, que as jogara fora ou que o filme nunca fora revelado. Em vez disso, ela fitou Mikael com seus olhos azul-claros e anunciou, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que ainda guardava todas as fotos de suas viagens.</p><p>Foi at� outro c�modo e voltou depois de um minuto ou dois com uma caixa contendo �lbuns onde havia um grande n�mero de fotos. N�o demorou muito para encontrar as da viagem a Hedestad. Ela tirara tr�s fotos na cidade. Uma estava desfocada e mostrava a rua principal. Na outra estava seu ex-marido. Na terceira, viam-se os palha�os no desfile.</p><p>Mikael se aproximou, muito excitado. Viu uma pessoa do outro lado da rua. A foto n�o lhe dizia absolutamente nada.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>20.� TER�A-FEIRA 1�</emphasis></strong><strong><emphasis>DE JULHO � QUARTA-FEIRA 2 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>A primeira coisa que Mikael fez de manh� assim que chegou a Hedestad foi procurar Dirch Frode para ter not�cias de Henrik Vanger. O estado de sa�de do velho havia melhorado consideravelmente durante a semana. Ainda estava fraco e fr�gil, mas j� podia se sentar na cama. Seu estado n�o era mais considerado cr�tico.</p><p>� Gra�as a Deus! � disse Mikael. � Descobri que gosto muito dele.</p><p>� Eu sei. Henrik tamb�m gosta de voc� � respondeu Frode balan�ando a cabe�a. � E a viagem ao Grande Norte, como foi?</p><p>� Bem-sucedida e insatisfat�ria. Mais tarde eu conto. Agora tenho uma pergunta a lhe fazer.</p><p>� Diga.</p><p>� O que acontecer� � <emphasis>Millennium</emphasis> se Henrik falecer?</p><p>� Nada de especial. Martin assumir� o lugar dele no conselho administrativo.</p><p>� H� um risco, mesmo hipot�tico, de que Martin crie problemas para a <emphasis>Millennium</emphasis> se eu n�o parar de investigar o desaparecimento de Harriet Vanger?</p><p>Dirch Frode lan�ou um olhar inquiridor a Mikael.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� Para dizer a verdade, nada. � Mikael relatou a conversa que teve com Martin na noite de S�o Jo�o. � Quando voltei de Norsj�, Erika me telefonou para dizer que Martin entrou em contato com ela e lhe pediu que insistisse comigo que eles est�o precisando de mim na reda��o.</p><p>� Entendo. Suponho que Cecilia foi importun�-lo. Mas n�o acredito que Martin faria barganhas. Ele � muito honesto para isso. E lembre-se que eu tamb�m participo do conselho administrativo da pequena sociedade paralela que criamos no momento que entramos na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Mas, caso a situa��o se complique, qual seria a posi��o dele?</p><p>� Contratos s�o feitos para ser respeitados. Trabalho para Henrik. Ele e eu somos amigos h� quarenta e cinco anos e atuamos mais ou menos da mesma forma nesse tipo de contexto. Se Henrik morrer, serei eu, e n�o Martin, o sucessor dele na sociedade paralela. O contrato estipula claramente que nos comprometemos a gerar recursos para a <emphasis>Millennium</emphasis> durante quatro anos. Se Martin quiser criar obst�culos � o que n�o acredito �, poder�, teoricamente, barrar a entrada de alguns novos anunciantes.</p><p>� O que � a base da exist�ncia da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Sim, mas considere as coisas deste modo: entregar-se a tais baixezas toma tempo. Martin est� lutando por sua pr�pria sobreviv�ncia industrial e trabalha catorze horas por dia. N�o tem tempo de se dedicar a outras coisas.</p><p>Mikael ficou em sil�ncio, pensativo.</p><p>� Se me permite uma pergunta: sei que isto n�o me diz respeito, mas qual � a situa��o geral do grupo?</p><p>Dirch Frode assumiu um ar mais grave.</p><p>� Estamos com problemas.</p><p>� Certo, mesmo um simples jornalista econ�mico como eu percebeu isso. Mas at� que ponto s�o problemas s�rios?</p><p>� Promete que fica entre n�s?</p><p>� Com certeza.</p><p>� Nas �ltimas semanas perdemos dois grandes pedidos na ind�stria eletr�nica e estamos sendo ejetados do mercado russo. Em setembro, seremos obrigados a demitir mil e seiscentos funcion�rios em �rebro e em Trollh�ttan. Uma triste recompensa para pessoas que trabalham h� tantos anos no grupo. Sempre que fechamos uma f�brica, a confian�a no grupo fica abalada.</p><p>� Martin est� sob press�o?</p><p>� � um boi de carga pisando em ovos.</p><empty-line/><p>Mikael voltou para casa e ligou para Erika. Ela n�o estava na reda��o e ele discutiu o assunto com Christer Malm.</p><p>� E o seguinte: Erika me telefonou ontem quando voltei de Norsj�. Martin Vanger conversou com ela e a estimulou, por assim dizer, a propor que eu voltasse a trabalhar na reda��o.</p><p>� � o que eu tamb�m acho � disse Christer.</p><p>� Entendo. Mas o fato � que tenho um contrato com Henrik Vanger que n�o posso romper e Martin age a pedido de uma pessoa que deseja que eu pare de investigar e desapare�a da aldeia. A proposta dele, portanto, n�o passa de uma tentativa de me afastar daqui.</p><p>� Entendo.</p><p>� Diga a Erika que s� voltarei para Estocolmo quando eu tiver terminado tudo, n�o antes.</p><p>� Est� bem, transmitirei seu recado. Mas voc� � completamente louco.</p><p>� Christer, est� acontecendo algo aqui, e eu n�o tenho a menor inten��o de recuar.</p><p>Christer deu um forte suspiro.</p><empty-line/><p>Mikael foi procurar Martin Vanger. Eva Hassel abriu a porta e o saudou amigavelmente.</p><p>� Bom dia. Martin est�?</p><p>Em resposta � pergunta, Martin apareceu com sua pasta de executivo na m�o. Beijou o rosto de Eva e cumprimentou Mikael.</p><p>� Estou indo para o escrit�rio. Quer falar comigo?</p><p>� Posso esperar, se est� com pressa.</p><p>� Vamos, fale.</p><p>� N�o tenho a inten��o de voltar para a reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> antes de terminar o trabalho que Henrik me confiou. Aviso desde j�, para que n�o conte comigo no conselho administrativo antes do fim do ano.</p><p>Martin Vanger balan�ou-se nos calcanhares para a frente e para tr�s.</p><p>� Entendo. Acha que estou querendo me livrar de voc�. � Fez uma pausa. � Mikael, falaremos disso mais tarde. N�o tenho realmente tempo para me dedicar a uma atividade no conselho administrativo da revista e preferia n�o ter aceitado a proposta de Henrik. Mas, acredite, farei o melhor que puder para que a <emphasis>Millennium</emphasis> sobreviva.</p><p>� Nunca duvidei disso � respondeu Mikael polidamente.</p><p>� Faremos uma reuni�o na semana que vem para avaliar toda a situa��o financeira e depois eu lhe darei uma opini�o a esse respeito. Mas acredito sinceramente que a <emphasis>Millennium</emphasis> n�o pode se dar ao luxo de ter um de seus principais representantes ocioso aqui em Hedeby�n. Gosto da revista e estou certo de que poderemos recuper�-la, mas voc� � indispens�vel para esse trabalho. Quanto a mim, vejo-me pressionado por um conflito de interesses: seguir a vontade de Henrik ou cumprir meu trabalho no conselho administrativo da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><empty-line/><p>Mikael vestiu uma roupa esportiva e saiu para praticar <emphasis>jogging</emphasis> at� a Fortifica��o. Depois passou pela cabana de Gottfried antes de voltar, num ritmo mais lento, beirando a praia. Dirch Frode estava sentado � mesa do jardim. Ele esperou pacientemente que Mikael esvaziasse uma garrafa de �gua e enxugasse o rosto.</p><p>� Tem certeza de que � bom para a sa�de com esse calor?</p><p>� Ora, vamos! � respondeu Mikael.</p><p>� Eu me enganei. N�o � Cecilia quem est� importunando Martin. � Isabella que est� mobilizando todo o cl� Vanger para arrancar as suas penas e, se poss�vel, assar voc� na panela. Ela � apoiada por Birger.</p><p>� Isabella?</p><p>� � uma mulher maldosa e mesquinha que, de modo geral, n�o gosta de ningu�m. Neste momento, o �dio dela se dirige a voc� em particular. Espalhou boatos de que voc� � um vigarista que convenceu Henrik a contrat�-lo e que o excitou a ponto de causar-lhe um infarto.</p><p>� E algu�m acreditou nisso?</p><p>� H� sempre gente pronta a acreditar nas m�s-l�nguas.</p><p>� Estou tentando descobrir o que aconteceu com a filha dela e ela me odeia. Se fosse a minha filha, acho que eu reagiria de outro modo.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Por volta das duas da tarde, o celular de Mikael tocou.</p><p>� Bom dia, meu nome � Cony Torsson, trabalho no <emphasis>Hedestads-Kuriren.</emphasis> Teria um tempinho para responder a algumas perguntas? Obtivemos informa��es confidenciais de que est� morando aqui na aldeia.</p><p>� Nesse caso as informa��es demoraram um pouco a chegar. Estou morando aqui desde 1� de janeiro.</p><p>� Eu n�o sabia. E o que faz em Hedeby?</p><p>� Estou escrevendo. E tendo uma esp�cie de ano sab�tico.</p><p>� Est� escrevendo sobre o qu�?</p><p>� Saber� quando for publicado.</p><p>� Voc� acaba de sair da pris�o...</p><p>� E...?</p><p>� Qual � a sua opini�o sobre jornalistas que falsificam dados?</p><p>� Jornalistas que falsificam dados s�o imbecis.</p><p>� Est� querendo dizer que � um imbecil?</p><p>� Por que eu diria isso? Nunca falsifiquei dados.</p><p>� Mas foi condenado por difama��o.</p><p>� E...?</p><p>O rep�rter Conny Torsson hesitou tanto tempo que Mikael foi obrigado a explicar.</p><p>� Fui condenado por difama��o, n�o por ter falsificado dados.</p><p>� Mas publicou esses dados.</p><p>� Se telefonou para falar da minha condena��o, n�o tenho nenhum coment�rio a fazer.</p><p>� Gostaria de entrevist�-lo.</p><p>� Sinto muito, nada tenho a dizer sobre esse assunto.</p><p>� Ent�o n�o quer conversar sobre o processo?</p><p>� Isso mesmo � respondeu Mikael, pondo fim � conversa. Ele refletiu um bom tempo antes de voltar ao computador.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander seguiu as instru��es que lhe deram e cruzou a ponte na sua Kawasaki. Parou diante da primeira casa � esquerda. Era um lugar distante, mas estaria disposta a ir ao P�lo Norte se estivesse sendo paga para isso. Al�m do mais, fora bom correr a toda a velocidade pela rodovia E4. Estacionou a moto e desatou a correia que prendia sua sacola de viagem.</p><p>Mikael Blomkvist abriu a porta e acenou com a m�o. Saiu e inspecionou a moto com um assombro sincero.</p><p>� Uau! Voc� veio de moto!</p><p>Lisbeth Salander n�o disse nada, mas observou-o atentamente tocar o volante e experimentar o acelerador. Ela n�o gostava que mexessem nas suas coisas, mas viu o sorriso dele, um sorriso de garoto, e considerou aquilo como uma circunst�ncia atenuante. Em geral, as pessoas interessadas por motocicletas sentiam desprezo pela sua moto de baixa cilindrada.</p><p>� Quando eu tinha dezenove anos, tive uma moto � disse Mikael virando-se para ela. � Obrigado por ter vindo. Entre. Vou mostrar a casa.</p><p>Mikael pedira emprestada uma cama de armar a Nilsson, do outro lado da estrada, e a instalara na saleta de trabalho. Desconfiada, Lisbeth Salander deu uma volta pela casa, mas relaxou ap�s constatar que n�o havia nenhuma armadilha. Mikael indicou o banheiro.</p><p>� N�o quer tomar um banho e se refrescar?</p><p>� Preciso me trocar. N�o pretendo ficar com este macac�o de couro.</p><p>� V�, enquanto isso eu vou fazendo o jantar.</p><p>Mikael preparou costeletas de cordeiro ao molho de vinho tinto e p�s a mesa fora, enquanto Lisbeth tomava um banho e trocava de roupa. Saiu de p�s descal�os, vestindo uma regata preta e uma saia jeans curta. O cheiro da comida era bom e ela devorou duas por��es. Mikael observou discretamente sua tatuagem nas costas.</p><empty-line/><p>Cinco mais tr�s � disse Lisbeth Salander. � Cinco casos da lista da sua Harriet e mais tr�s que, na minha opini�o, tamb�m deveriam figurar.</p><p>� Me conte tudo.</p><p>� Faz apenas onze dias que trabalho nisso e n�o tive tempo de ver todos os inqu�ritos policiais. Alguns foram transferidos para os arquivos nacionais, outros ainda est�o no distrito respons�vel pelo caso. Em um dia visitei tr�s distritos diferentes, n�o deu tempo de fazer mais. Mas os cinco est�o identificados.</p><p>Lisbeth Salander p�s uma pilha impressionante de pap�is sobre a mesa, mais de quinhentas folhas de papel of�cio. Rapidamente distribuiu o material em diferentes partes.</p><p>� Vamos ver por ordem cronol�gica. � Ela entregou uma lista a Mikael.</p><empty-line/><p>1949 � Rebecka Jacobsson, Hedestad (30112)</p><p>1954 � Mari Holmberg, Kalmar (32018)</p><p>1957 � Rakel Lunde, Landskrona (32027)</p><p>1960 � (Magda) Lovisa Sj�berg, Karlstad (32016)</p><p>1960 � Liv Gustavsson, Estocolmo (32016)</p><p>1962 � Lea Persson, Uddevalla (31208)</p><p>1964 � Sara Witt, Ronneby (32109)</p><p>1966 � Lena Andersson, Uppsala (30112)</p><empty-line/><p>� O primeiro caso dessa s�rie parece ser Rebecka Jacobsson, 1949, do qual voc� j� conhece os detalhes. O caso seguinte que encontrei � Mari Holmberg, uma prostituta de trinta e dois anos de Kalmar, morta em sua casa em outubro de 1954. N�o se sabe exatamente quando ela foi assassinada, pois s� foi encontrada algum tempo depois, provavelmente nove ou dez dias.</p><p>� E como voc� fez a liga��o entre ela e a lista de Harriet?</p><p>� Ela tinha as m�os e os p�s amarrados e o corpo coberto de ferimentos terr�veis, mas a causa da morte foi asfixia. O assassino enfiou um guardanapo na garganta dela.</p><p>Mikael ficou em sil�ncio antes de abrir a B�blia no local indicado, cap�tulo XX do <emphasis>Lev�tico,</emphasis> vers�culo 18.</p><p><emphasis>"Se um homem dormir com uma mulher durante o tempo de sua menstrua��o e vir a sua nudez, descobrindo o seu fluxo e descobrindo-o ela mesma, ser�o ambos cortados do meio de seu povo."</emphasis></p><p>Lisbeth concordou com a cabe�a.</p><p>� Harriet Vanger fez a mesma liga��o. Bem, vamos ao pr�ximo.</p><p>� Maio de 1957, Rakel Lunde, quarenta e cinco anos. Era dona de casa e considerada uma esp�cie de exc�ntrica da regi�o. Via a sorte das pessoas consultando as cartas, lendo a m�o e coisas do g�nero. Rakel morava numa casa bem isolada na periferia de Landskrona, onde foi morta ao amanhecer. Encontraram-na nua e amarrada a um varal de roupa no p�tio, com a boca tapada por uma fita adesiva. Causa da morte: foi agredida com uma pedra pesada v�rias vezes. Apresentava v�rias contus�es e fraturas.</p><p>� Que horror, Lisbeth! Tudo isso � monstruoso.</p><p>� E � s� o come�o. As iniciais RL coincidem � achou a cita��o?</p><p>� � evidente. <emphasis>"Qualquer homem ou mulher que evocar os esp�ritos ou fizer adivinha��es, ser� morto. Ser�o apedrejados e levar�o a sua culpa."</emphasis></p><p>� A seguir vem Lovisa Sj�berg em Ranmo, perto de Karlstad. � a que Harriet se refere como Magda. Seu nome completo era Magda Lovisa, mas todos a chamavam de Lovisa.</p><p>Mikael escutou com aten��o Lisbeth relatar os detalhes bizarros do assassinato de Karlstad. Quando ela acendeu um cigarro, ele a interrogou com o olhar, mostrando o ma�o. Ela o empurrou para ele.</p><p>� Ent�o o assassino tamb�m atacou o animal?</p><p>� A B�blia diz que, se uma mulher se acasala com um animal, os dois ser�o mortos.</p><p>� Mas � pouco prov�vel que essa mulher tenha se acasalado com uma vaca!</p><p>� A cita��o pode ser interpretada em sentido amplo. Basta que ela tenha entrado em contato com um animal, o que uma propriet�ria rural certamente precisa fazer todos os dias.</p><p>� Certo. Continue.</p><p>� O pr�ximo caso da lista de Harriet � Sara. Identifiquei-a como Sara Witt, trinta e sete anos, residente em Ronneby. Foi morta em janeiro de 1964. Encontraram-na amarrada � cama. Sofreu graves sev�cias sexuais, mas a causa da morte foi asfixia. Morreu estrangulada. O assassino tamb�m provocou um inc�ndio criminoso. A inten��o era que a casa toda queimasse, s� que uma parte do fogo s� extinguiu sozinha e outra parte foi controlada pelos bombeiros.</p><p>� E a liga��o?</p><p>� Escute mais um pouco. Sara Witt era filha de pastor e mulher de pastor. O marido estava fora justamente naquele fim de semana.</p><p>� <emphasis>"Se a filha de um sacerdote se desonrar pela prostitui��o, ela desonra o pai; ser� queimada no fogo."</emphasis> De fato, confere com a lista. Voc� disse que descobriu outros casos.</p><p>� Descobri outras tr�s mulheres mortas em circunst�ncias t�o estranhas que poderiam ter figurado na lista de Harriet. O primeiro caso � o de uma jovem chamada Liv Gustavsson. Ela tinha vinte e dois anos e morava em Farsta.</p><p>Era apaixonada por equita��o; participava de competi��es e era muito bem-dotada. Tinha tamb�m uma pequena <emphasis>pet shop</emphasis> com a irm�.</p><p>� E?</p><p>� Foi encontrada na loja, onde ficara sozinha at� mais tarde fazendo a contabilidade. Deve ter deixado o assassino entrar voluntariamente. Foi estuprada e estrangulada.</p><p>� Isso n�o parece ter muito a ver com a lista de Harriet.</p><p>� N�o, se n�o fosse por uma coisa. O assassino encerrou seu trabalho enfiando um periquito na vagina dela e soltando todos os animais que havia na loja. Gatos, tartarugas, <emphasis>hamsters,</emphasis> coelhos, aves. At� os peixes do aqu�rio. Imagine o espet�culo terr�vel que a irm� presenciou na manh� seguinte.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ela foi morta em agosto de 1960, quatro meses depois do assassinato de Magda Lovisa em Karlstad. Nos dois casos, trata-se de mulheres cuja profiss�o as punham em contato com animais, e em ambos houve sacrif�cio de animais. A vaca em Karlstad sobreviveu, � verdade, mas imagino que seja bem dif�cil matar uma vaca com uma simples facada. Matar um periquito � mais f�cil. Sem contar que h� um outro sacrif�cio de animal na lista.</p><p>� Qual?</p><p>� Lisbeth contou do estranho "Crime do pombo" de Lea Persson em Uddevalla. Mikael ficou refletindo tanto tempo em sil�ncio que Lisbeth se impacientou.</p><p>� Certo, concordo com a sua teoria � ele acabou por dizer. � H� mais um caso.</p><p>� Um dos que descobri. N�o sei quantos outros me escaparam.</p><p>� Me conte.</p><p>� Fevereiro de 1966, em Uppsala. A v�tima, a mais jovem de todas, foi uma colegial de dezessete anos chamada Lena Andersson. Desapareceu ap�s uma festa da sua turma e foi encontrada tr�s dias depois numa vala da plan�cie de Uppsala, bastante longe da cidade. Foi morta em outro lugar e levada para l�.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Esse assassinato deu o que falar, mas as circunst�ncias exatas sobre a morte nunca foram divulgadas. A mo�a foi torturada de maneira atroz. Li o relat�rio do legista. Foi torturada com fogo; as m�os e os seios estavam gravemente queimados e o corpo apresentava queimaduras em diversos pontos. Foram encontradas manchas de estearina, sugerindo que uma vela deve ter sido utilizada, mas as m�os estavam t�o carbonizadas que certamente foram postas num fogo mais intenso. Para terminar, o assassino serrou a cabe�a e a deixou ao lado do corpo. Mikael empalideceu.</p><p>� Meu Deus! � disse.</p><p>� N�o encontrei nenhuma cita��o b�blica que encaixe, mas h� v�rias passagens que falam de imola��o e de sacrif�cio pelo pecado, e em alguns trechos se preconiza que o animal de sacrif�cio, geralmente um touro, seja decepado de modo que <emphasis>a cabe�a se separe da gordura.</emphasis> A utiliza��o do fogo lembra tamb�m o primeiro assassinato, o de Rebecka aqui em Hedestad.</p><empty-line/><p>Quando os mosquitos come�aram sua dan�a noturna, Mikael e Lisbeth deixaram a mesa de jardim e se instalaram na cozinha para continuar a conversa.</p><p>� O fato de voc� n�o ter encontrado uma cita��o b�blica exata n�o quer dizer grande coisa. N�o se trata de cita��es, mas de uma par�dia grotesca do que diz a B�blia; s�o mais associa��es com vers�culos esparsos.</p><p>� Eu sei. Um exemplo dessa falta de l�gica � a cita��o de que os dois devem ser exterminados se um homem faz amor com uma mulher menstruada. Se interpretarmos literalmente, o assassino deveria ter se suicidado.</p><p>� E tudo isso nos leva a qu�? � perguntou Mikael.</p><p>� Ou a sua Harriet tinha o estranho <emphasis>hobby</emphasis> de colecionar cita��es b�blicas para associ�-las a v�timas de crimes dos quais ouviu falar, ou ela sabia da exist�ncia de uma liga��o entre os crimes.</p><p>� Entre 1949 e 1966, talvez antes e depois tamb�m, teria existido um louco furioso e s�dico que andou com uma B�blia debaixo do bra�o matando mulheres durante dezessete anos sem que ningu�m tivesse feito uma liga��o entre os crimes. Parece inacredit�vel.</p><p>Lisbeth Salander afastou a cadeira e foi buscar caf� no fog�o. Acendeu um cigarro e soprou a fuma�a ao redor. Mikael praguejou por dentro e lhe pediu mais um cigarro.</p><p>� N�o, n�o � nada inacredit�vel. Primeiro � disse ela erguendo o polegar �, h� dezenas e dezenas de assassinatos de mulheres n�o solucionados na Su�cia do s�culo XX. Certa vez ouvi Persson, o professor de criminologia, dizer na tev� que os assassinos seriais s�o muito raros na Su�cia, embora alguns jamais tenham sido identificados.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. Ela levantou um segundo dedo.</p><p>� Esses crimes foram cometidos num per�odo muito longo e em diferentes regi�es do pa�s. Dois ocorreram sucessivamente em 1960, mas em circunst�ncias relativamente diferentes � uma camponesa em Karlstad e uma mo�a de vinte e dois anos apaixonada por equita��o em Estocolmo.</p><p>Tr�s dedos.</p><p>� N�o h� um esquema claro, marcante. Os crimes foram cometidos de formas diferentes e n�o h� uma verdadeira assinatura, apesar de alguns elementos retornarem toda vez. Animais. Fogo. Viol�ncias sexuais graves. E, como voc� disse, uma par�dia de conhecimentos b�blicos. Mas, pelo que se sabe, nenhum dos investigadores da pol�cia usou a B�blia para interpretar os crimes.</p><p>Mikael concordou com a cabe�a e a examinou discretamente. Com seu corpo fr�gil, sua regata preta, as tatuagens e os piercings no rosto, Lisbeth Salander era de fato uma figura estranha na casa dos convidados em Hedeby. Quando ele tentara ser soci�vel durante o jantar, ela permaneceu taciturna e mal respondeu. Mas trabalhando era uma profissional dos p�s � cabe�a. Seu apartamento em Estocolmo parecia uma ru�na ap�s um bombardeio, por�m Mikael foi obrigado a reconhecer que Lisbeth Salander tinha a cabe�a muito bem organizada. <emphasis>Que estranho!</emphasis></p><p>� � dif�cil ver a rela��o entre uma prostituta de Uddevalla assassinada atr�s de um container num terreno baldio industrial e a mulher do pastor de Ronneby estrangulada e v�tima de um inc�ndio criminoso. A menos que encontremos a chave que Harriet nos deixou, � claro.</p><p>� O que nos leva � pr�xima quest�o � disse Lisbeth.</p><p>� Como Harriet foi se envolver com toda essa merda? Ela, uma menina de dezesseis anos que vivia num meio bastante protegido.</p><p>� S� h� uma resposta � disse ela. Mikael assentiu com a cabe�a outra vez.</p><p>� Existe, necessariamente, uma liga��o com a fam�lia Vanger.</p><p>Por volta das onze da noite, eles haviam repassado a s�rie de crimes e discutido rela��es e detalhes curiosos, a ponto de os pensamentos girarem sem parar na cabe�a de Mikael. Ele esfregou os olhos, se espregui�ou e perguntou se Lisbeth n�o tinha vontade de dar uma caminhada. Ela pareceu achar esse tipo de exerc�cio uma perda de tempo, mas, depois de refletir um instante, concordou. Mikael sugeriu que ela vestisse uma cal�a comprida por causa dos mosquitos.</p><p>Deram uma volta pelo porto de recreio, passaram junto � ponte e seguiram em dire��o ao promont�rio onde Martin Vanger morava. Mikael apontou as casas e contou quem eram seus moradores. Teve dificuldade de falar sobre Cecilia Vanger quando mostrou sua casa. Lisbeth olhou para ele discretamente.</p><p>Passaram em frente ao luxuoso iate de Martin Vanger e chegaram ao promont�rio, onde se sentaram numa pedra e dividiram um cigarro.</p><p>� H� um outro tipo de liga��o entre as v�timas � disse Mikael de repente. � Talvez j� tenha lhe ocorrido isso.</p><p>� O qu�?</p><p>� Os prenomes.</p><p>Lisbeth Salander refletiu por um instante e depois balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>� Todas t�m prenomes b�blicos.</p><p>� N�o, n�o � verdade � respondeu Lisbeth vivamente. � N�o h� nem Liv nem Lena na B�blia.</p><p>� Pois eu digo que sim � replicou Mikael. � Liv significa "viver", que � o sentido b�blico do prenome Eva. E, pense um pouco, Lisbeth: Lena � uma redu��o de qu�?</p><p>Lisbeth Salander contraiu os olhos com for�a, irritada consigo mesma. Mikael raciocinara mais r�pido que ela, e ela n�o gostava disso.</p><p>� De Magdalena, assim como Magda. Ou seja, Madalena � ela disse.</p><p>� A pecadora, a primeira mulher, a Virgem Maria... eis todas elas reunidas. � uma hist�ria bem maluca, capaz de fundir a cabe�a de qualquer psic�logo. Mas, na verdade, ainda estou pensando em outra coisa sobre os prenomes.</p><p>Lisbeth aguardou pacientemente.</p><p>� S�o tamb�m prenomes femininos judaicos tradicionais. A fam�lia Vanger teve um bom contingente de doidos anti-semitas, nazistas e te�ricos da conspira��o. Harald Vanger, no topo da lista, tem mais de noventa anos e estava no auge de sua forma nos anos 1960. A �nica vez em que o encontrei, disse com desprezo que sua filha era uma puta. Ele claramente tem problemas com as mulheres.</p><empty-line/><p>De volta � casa, eles prepararam sandu�ches e esquentaram o caf�. Mikael lan�ou um olhar �s quinhentas p�ginas que a investigadora favorita de Dragan Armanskij havia produzido.</p><p>� Fez um trabalho de pesquisa fant�stico num tempo recorde. Obrigado. E obrigado tamb�m pela gentileza de vir at� aqui me trazer o relat�rio.</p><p>� E o que faremos agora? � perguntou Lisbeth.</p><p>� Falarei com Dirch Frode amanh� de manh� para que paguem voc�.</p><p>� N�o foi isso que eu quis dizer. Mikael olhou para ela.</p><p>� Bem... o trabalho de pesquisa para o qual eu a contratei terminou � ele disse com prud�ncia.</p><p>� Ainda n�o acabei de resolver essa hist�ria.</p><p>Mikael inclinou-se para tr�s no banco da cozinha e sondou os olhos dela. N�o conseguiu detectar absolutamente nada. Durante seis meses havia trabalhado sozinho no desaparecimento de Harriet e de repente outra pessoa � uma investigadora habilidosa � captava todas as implica��es do caso. Ele tomou uma s�bita decis�o.</p><p>� Entendo. Essa hist�ria tamb�m est� mexendo com os meus nervos. Falarei com Dirch Frode amanh�. Contrataremos voc� por mais uma semana ou duas como... humm... assistente de pesquisa. N�o sei se ele est� disposto a pagar o mesmo que paga a Armanskij, mas daremos um jeito de conseguir uma remunera��o satisfat�ria.</p><p>Lisbeth agradeceu com um breve sorriso. Ela n�o tinha a menor vontade de ficar inativa e teria aceitado de bom grado o trabalho de gra�a.</p><p>� Vou dormir � ela anunciou. E, sem dizer mais nada, foi para o quarto e fechou a porta.</p><p>Dez minutos depois, abriu a porta e p�s a cabe�a para fora.</p><p>� Acho que voc� est� enganado. Ele n�o � um assassino serial, um doente que leu a B�blia demais. � simplesmente um canalha ordin�rio que odeia as mulheres.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>21.� QUINTA-FEIRA 3 DE JULHO � QUINTA-FEIRA 10 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander acordou antes de Mikael, �s seis da manh�. P�s a �gua do caf� para esquentar e tomou um banho. Quando Mikael acordou por volta das sete e meia, encontrou-a lendo seu resumo do caso Harriet Vanger no notebook. Foi at� a cozinha, com uma toalha de banho em volta da cintura, e esfregou os olhos para espantar o sono.</p><p>� O caf� est� pronto � disse Lisbeth. Mikael olhou por cima do ombro dela.</p><p>� Esse documento estava protegido por uma senha de acesso � disse. Ela virou a cabe�a e olhou para ele.</p><p>� Em trinta segundos pode-se baixar um programa na internet que abre as senhas do Word � ela disse.</p><p>� N�s dois precisamos ter uma conversinha sobre o que lhe pertence e o que me pertence � disse Mikael, e foi tomar seu banho.</p><p>Quando voltou, Lisbeth j� havia fechado e recolocado o computador de Mikael na saleta de trabalho, e trabalhava no seu pr�prio Powerbook. Ele podia jurar que ela j� havia transferido todo o conte�do do seu computador para o dela.</p><p>Lisbeth Salander era uma <emphasis>junkie</emphasis> da inform�tica com uma concep��o muito liberal a respeito de moral e �tica.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael tinha acabado de se sentar � mesa para tomar o caf�-da-manh�, quando bateram � porta. Ao abrir, deu com um Martin Vanger t�o crispado que, por um instante, acreditou que ele vinha anunciar a morte de Henrik.</p><p>� N�o, o estado de Henrik continua o mesmo. Venho por outro motivo. Ser� que posso entrar um momento?</p><p>Mikael o fez entrar e o apresentou � sua "colaboradora" Lisbeth Salander. Ela o cumprimentou com um breve aceno de cabe�a antes de voltar ao computador. Martin Vanger respondeu com uma sauda��o autom�tica, mas dava a impress�o de estar t�o distra�do que nem pareceu not�-la. Mikael serviu-lhe uma x�cara de caf� e o convidou a se sentar.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� Voc� � assinante do <emphasis>Hedestads-Kuriren?</emphasis></p><p>� N�o. Leio o jornal de vez em quando no Caf� Susanne.</p><p>� Ent�o n�o leu a edi��o de hoje?</p><p>� Pelo jeito, acho que eu deveria ter lido.</p><p>Martin Vanger p�s o <emphasis>Hedestads-Kuriren</emphasis> em cima da mesa, na frente de Mikael. Havia duas colunas dedicadas a ele na primeira p�gina, com uma continua��o na p�gina 4. Ele leu a manchete.</p><empty-line/><p>JORNALISTA CONDENADO POR DIFAMA��O SE ESCONDE ENTRE N�S</p><empty-line/><p>O texto era ilustrado por uma foto de Mikael saindo de casa, tirada da igreja, do outro lado da ponte, com teleobjetiva.</p><p>O rep�rter Conny Torsson tra�ava um perfil grosseiro e devastador de Mikael. O artigo recapitulava o caso Wennerstr�m, sublinhava que Mikael deixara a <emphasis>Millennium</emphasis> com o rabo entre as pernas e que acabava de amargar uma pena de pris�o. O texto terminava informando, segundo a f�rmula-padr�o, que Mikael se recusara a conceder uma entrevista ao <emphasis>Hedestads-Kuriren.</emphasis> A id�ia da mat�ria era fazer o habitante de Hedestad acreditar que um vagabundo da capital, um indiv�duo perigoso, se encontrava nas imedia��es. Nenhuma das afirma��es era abertamente caluniosa, mas todas procuravam jogar uma luz suspeita sobre Mikael; a foto e o texto adotavam a linha "descri��o de terroristas pol�ticos". <emphasis>A Millennium</emphasis> era apresentada como uma "revista de agitadores" pouco digna de cr�dito, e o livro de Mikael sobre jornalismo econ�mico como um amontoado de afirma��es destinadas a denegrir jornalistas respeitados.</p><p>� Mikael... n�o tenho palavras para dizer o que senti quando li esse artigo. � ign�bil.</p><p>� � cobra mandada � respondeu Mikael calmamente. Ele perscrutou Martin Vanger com o olhar.</p><p>� Espero que n�o pense que eu tenho algo a ver com isso. Mal consegui engolir meu caf� hoje de manh�, ao ler o jornal.</p><p>� Quem teria sido?</p><p>� Dei alguns telefonemas agora h� pouco. Conny Torsson est� cobrindo f�rias de ver�o. Mas ele fez esse trabalho a pedido de Birger.</p><p>� N�o sabia que Birger tinha influ�ncia na reda��o. Pensei que fosse apenas conselheiro municipal e pol�tico.</p><p>� Formalmente n�o tem influ�ncia alguma. Mas o redator-chefe do <emphasis>Kuriren</emphasis> � Gunnar Karlman, filho de Ingrid Vanger, do ramo Johan Vanger. Birger e Gunnar s�o amigos �ntimos h� muitos anos.</p><p>� Entendo.</p><p>� Torsson ser� despedido imediatamente.</p><p>� Que idade ele tem?</p><p>� N�o sei. Para dizer a verdade, nunca o vi.</p><p>� N�o o demita. Quando ele me telefonou, parecia bastante jovem e um rep�rter pouco experiente.</p><p>� Mas isso n�o pode ficar assim.</p><p>� Se quer saber minha opini�o, acho um pouco absurdo o redator-chefe de um jornal que pertence � fam�lia Vanger atacar outro peri�dico que tem Henrik Vanger como s�cio e de cujo conselho administrativo voc� participa. O redator-chefe Karlman est� atacando Henrik e voc�.</p><p>Martin Vanger pesou as palavras de Mikael e assentiu lentamente com a cabe�a.</p><p>� Entendo o que quer dizer. Eu deveria apurar melhor as responsabilidades. Karlman tem participa��es no grupo e sempre tentou me atacar pelas costas, mas isso est� me parecendo mais uma vingan�a do Birger por voc� ter batido boca com ele no corredor do hospital. Para ele, voc� � uma pedra no sapato.</p><p>� Sim, e � por isso que acho Torsson o mais inocente de todos. � muito raro um jovem jornalista substituto dizer n�o quando o redator-chefe lhe ordena que escreva desse ou daquele modo.</p><p>� Posso exigir que lhe apresentem desculpas p�blicas nas p�ginas de amanh�.</p><p>� N�o fa�a isso. O �nico resultado seria uma luta intermin�vel, o que s� pioraria a situa��o.</p><p>� Est� querendo me dizer que n�o devo fazer nada?</p><p>� Sim, ser� melhor. Karlman inventar� hist�rias, e voc� corre o risco de ser classificado como um propriet�rio com vontade de influenciar de maneira il�cita a opini�o do p�blico.</p><p>� Desculpe, Mikael, mas n�o concordo com voc�. Tamb�m tenho o direito de emitir minha opini�o. Acho esse artigo imundo e tenho a inten��o de deixar bem claro o que penso. Afinal, sou o suplente de Henrik na dire��o da <emphasis>Millennium</emphasis> e n�o posso me calar diante dessas insinua��es.</p><p>� Tudo bem.</p><p>� Vou exigir direito de resposta. E, se eu fizer Karlman parecer um idiota, a culpa � dele.</p><p>� Certo, aja de acordo com as suas convic��es.</p><p>� Para mim tamb�m � importante que voc� saiba que eu nada tive a ver com esse ataque infame.</p><p>� Acredito em voc� � disse Mikael.</p><p>� Al�m do mais, n�o vou discutir o assunto agora, mas isso remete � nossa conversa de antes. E importante que voc� volte � reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> para que possamos montar uma frente unida. Enquanto estiver ausente, os boatos v�o continuar. Acredito na <emphasis>Millennium</emphasis> e estou convencido de que podemos vencer essa batalha juntos.</p><p>� Entendo seu ponto de vista, mas agora � a minha vez de discordar. N�o posso romper meu contrato com Henrik e na verdade tamb�m n�o desejo romp�-lo. Gosto dele, voc� sabe. E essa hist�ria da Harriet...</p><p>� Sim?</p><p>�� Sei que � uma hist�ria penosa para voc� e sei que Henrik est� obcecado h� anos por ela.</p><p>� C� entre n�s, gosto de Henrik e ele � o meu mentor, mas, no que diz respeito a Harriet, essa obsess�o virou uma ocupa��o de aposentado.</p><p>� Quando comecei esse trabalho, achei que seria uma perda de tempo. Mas o fato � que, contra todas as expectativas, encontramos novidades. Acho que estamos perto de uma descoberta e que talvez seja poss�vel explicar o que aconteceu.</p><p>� N�o quer me dizer o que foi que descobriu?</p><p>� De acordo com o contrato, n�o posso falar disso com ningu�m sem o consentimento de Henrik.</p><p>Martin Vanger p�s a m�o no queixo. Mikael viu d�vida nos olhos dele, mas por fim Martin se decidiu.</p><p>� Certo, nesse caso o melhor a fazer � resolver primeiro o mist�rio de Harriet. Darei todo o apoio que puder para que voc� termine o trabalho de forma satisfat�ria, o mais r�pido poss�vel, e em seguida retorne � <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Que bom. N�o tenho vontade de ser obrigado a lutar contra voc� tamb�m.</p><p>� N�o ser� necess�rio. Tem meu inteiro apoio. Pode me procurar quando quiser, se tiver problemas. Pressionarei Birger para que n�o crie mais obst�culos. E tentarei acalmar Cecilia.</p><p>� Obrigado. Preciso fazer umas perguntas a ela, mas h� um m�s vem evitando minhas tentativas de conversa.</p><p>Martin Vanger sorriu.</p><p>� Talvez tenha outras coisas a acertar com ela. Mas n�o � da minha conta.</p><p>Despediram-se com um aperto de m�o.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander havia escutado em sil�ncio a conversa entre Mikael e Martin Vanger. Assim que o industrial foi embora, ela pegou o <emphasis>Hedestads-Kuriren</emphasis> e leu o artigo. A seguir, largou o jornal sem fazer nenhum coment�rio.</p><p>Mikael n�o disse nada. Ele refletia. Gunnar Karlman nascera em 1942, portanto tinha vinte e quatro anos em 1966. Tamb�m era uma das pessoas presentes na ilha quando Harriet desapareceu.</p><empty-line/><p>Depois do caf�-da-manh�, Mikael incumbiu sua colaboradora de ler o inqu�rito policial. Fez uma triagem do material e lhe passou os arquivos que enfocavam o desaparecimento de Harriet. Passou-lhe tamb�m todas as fotos do acidente na ponte, bem como a longa s�ntese que escreveu com base nas investiga��es particulares de Henrik.</p><p>Depois Mikael foi � casa de Dirch Frode e o convenceu a redigir um contrato determinando a contrata��o de Lisbeth como colaboradora por um m�s.</p><p>Ao voltar � casa dos convidados, encontrou Lisbeth no jardim, mergulhada no inqu�rito policial. Mikael entrou para esquentar o caf� e a espiou pela janela da cozinha. Ela parecia percorrer o inqu�rito superficialmente, n�o dedicando mais que dez ou quinze segundos a cada p�gina. Folheava o documento de maneira autom�tica. Mikael achou estranha essa neglig�ncia, ainda mais considerando a aplica��o com que realizara sua pr�pria investiga��o. Levou duas x�caras de caf� ao jardim e juntou-se a ela.</p><p>� O que voc� escreveu sobre o desaparecimento de Harriet foi escrito antes de perceber que estamos atr�s de um assassino serial.</p><p>� Exato. Anotei o que me pareceu importante, perguntas que gostaria de fazer a Henrik Vanger et cetera. Como voc� deve ter percebido, est� bem mal estruturado. Na verdade, at� agora andei tateando no escuro, e ao mesmo tempo tentando escrever uma hist�ria, um cap�tulo da biografia de Henrik Vanger.</p><p>� E agora?</p><p>� No come�o, todas as investiga��es estavam centradas em Hedeby�n. Agora estou convencido de que a hist�ria come�ou mais cedo no mesmo dia, n�o na ilha, mas em Hedestad. Isso muda a perspectiva.</p><p>Lisbeth assentiu com a cabe�a e refletiu por um momento.</p><p>� � fant�stico o que descobriu com as fotos � ela disse.</p><p>Mikael levantou as sobrancelhas. Lisbeth Salander n�o parecia ser do tipo pr�digo em elogios e Mikael sentiu-se estranhamente lisonjeado. Mas, do ponto de vista jornal�stico, tratava-se mesmo de uma proeza bastante in-comum.</p><p>� Preciso de mais alguns detalhes. Conte o que descobriu sobre a fotografia que foi buscar em Norsj�.</p><p>� Est� me dizendo que <emphasis>n�o</emphasis> viu essa foto no meu computador?</p><p>� N�o tive tempo. Preferi me concentrar nos resumos, nas conclus�es que tirou.</p><p>Mikael suspirou, abriu seu notebook e depois a pasta de fotos.</p><p>� A viagem a Norsj� foi ao mesmo tempo um avan�o e uma decep��o total. Encontrei a foto, mas ela n�o revela grande coisa. A tal Mildred Berggren conservou todas as suas fotos de viagem num �lbum, e ali colou com cuidado toda a cole��o. A foto que eu procurava estava l�, tirada com um filme colorido barato. Depois de trinta e sete anos, a c�pia est� bastante apagada e amarelada, mas Mildred tamb�m conservou os negativos numa caixa de sapatos. Ela me emprestou os de Hedestad e eu os escaneei. Aqui est� o que Harriet viu.</p><p>Ele clicou num arquivo chamado harriet/bd-19.eps.</p><p>Lisbeth entendeu a decep��o dele. Era uma foto em plano geral, bastante mal enquadrada, mostrando os palha�os no desfile da Festa das Crian�as. Ao fundo via-se o canto da loja Sundstr�m. Umas dez pessoas apareciam na cal�ada em frente � loja.</p><p>Mikael apontou com o dedo.</p><p>� Acho que foi este o sujeito que ela viu. Primeiro, porque tentei calcular o que ela via baseando-me no rosto dela e na dire��o para a qual ele estava voltado; fiz um desenho exato do local. Depois, porque ele � a �nica pessoa que parece olhar diretamente para a m�quina fotogr�fica, ou seja, para Harriet.</p><p>Lisbeth viu uma figura imprecisa um pouco recuada atr�s dos espectadores, na rua transversal. Vestia uma jaqueta escura com um tom diferente nos ombros, vermelho, e uma cal�a escura, provavelmente um jeans. Mikael ampliou a imagem para que a figura ocupasse toda a tela a partir da cintura. A imagem ficou ainda mais imprecisa.</p><p>� � um homem. Mede cerca de um metro e oitenta, corpul�ncia normal. Cabelos castanho-claros, n�o muito curtos, sem barba. Mas � imposs�vel distinguir as fei��es ou mesmo calcular a idade. Pode ser tanto um adolescente quanto um quinquagen�rio.</p><p>� Podemos retocar a foto...</p><p>� J� retoquei. Inclusive enviei uma c�pia a Christer Malm da <emphasis>Millennium,</emphasis> que � um craque em tratamento de imagens. � Mikael clicou em outra foto. � O que vemos aqui � o que se pode obter de melhor. O problema � que a m�quina fotogr�fica � muito ruim e a dist�ncia muito grande.</p><p>� Mostrou essa foto a algu�m? As pessoas podem reconhecer a atitude...</p><p>� Mostrei a Dirch Frode. Ele n�o tem a menor id�ia de quem possa ser.</p><p>� Dirch Frode n�o � o cara mais esperto de Hedestad.</p><p>� Mas � para ele e para Henrik que eu trabalho. Quero mostrar a foto a Henrik antes de faz�-la circular.</p><p>� Talvez seja apenas um simples espectador.</p><p>� � poss�vel. Mas nesse caso ele soube provocar uma rea��o bem estranha em Harriet.</p><empty-line/><p>Na semana seguinte, Mikael e Lisbeth trabalharam no caso Harriet praticamente o tempo todo. Lisbeth continuou lendo o inqu�rito e fez uma s�rie de perguntas �s quais Mikael tentou responder. S� podia haver uma verdade e as respostas pouco claras, os dados equ�vocos os levavam a aprofundar a discuss�o. Passaram um dia inteiro verificando os hor�rios das pessoas durante o acidente na ponte.</p><p>Lisbeth Salander deixava Mikael cada vez mais perplexo. Embora percorresse superficialmente os textos do inqu�rito, ela parecia deter-se nos detalhes mais obscuros e incompat�veis.</p><p>Eles faziam uma pausa � tarde, quando o calor os impedia de continuar no jardim. V�rias vezes foram tomar banho no canal ou beber alguma coisa no Caf� Susanne. Susanne passou a olhar Mikael com uma frieza ostensiva. Ele se deu conta de que Lisbeth parecia mais jovem do que era e estava hospedada em sua casa, o que aos olhos de Susanne o transformava num velho safado que gosta de menininhas. Era desagrad�vel.</p><p>Mikael continuava praticando <emphasis>jogging</emphasis> todos os fins de tarde. Lisbeth n�o fazia nenhum coment�rio sobre esses exerc�cios quando ele voltava ofegante para casa. Correr n�o era bem a id�ia que ela fazia de um lazer de ver�o.</p><p>� Passei dos quarenta � disse Mikael. � Sou obrigado a fazer exerc�cio para n�o engordar.</p><p>� Ah!</p><p>� N�o pratica nenhuma atividade f�sica?</p><p>� Um pouco de boxe de vez em quando.</p><p>� Boxe?</p><p>� Sim, sabe, com luvas.</p><p>Mikael foi tomar banho e tentou imaginar Lisbeth num ringue. Ela talvez estivesse zombando dele. Uma pergunta se impunha.</p><p>� Voc� boxeia em que categoria de peso?</p><p>� Em nenhuma. Sirvo de <emphasis>sparring</emphasis> para uns rapazes de um clube de boxe de S�der.</p><p>Por que ser� que eu n�o me surpreendo?, pensou Mikael. Mas ele constatou que, de qualquer modo, ela acabava de contar alguma coisa sobre si. Ele continuava sem nenhuma informa��o sobre ela; por que come�ara a trabalhar para Armanskij, qual era a sua forma��o ou o que faziam seus pais. Assim que Mikael tentava conversar sobre a vida privada dela, Lisbeth se fechava como uma ostra e respondia por monoss�labos ou o ignorava totalmente.</p><empty-line/><p>Uma tarde, Lisbeth Salander depositou na mesa um arquivo e olhou para Mikael com uma ruga entre as sobrancelhas.</p><p>� O que sabe sobre Otto Falk? O pastor.</p><p>� Muito pouco. Encontrei o pastor atual, uma mulher, algumas vezes na igreja no come�o do ano. Ela disse que Falk ainda est� vivo, mas numa casa de sa�de em Hedestad. Alzheimer.</p><p>� De onde ele �?</p><p>� Daqui, de Hedestad. Estudou em Uppsala e aos trinta anos retornou.</p><p>� Ele n�o era casado. E Harriet o via.</p><p>� Por que est� perguntando isso?</p><p>� Apenas notei que o tira, esse Morell, foi bastante indulgente com ele nos interrogat�rios.</p><p>� Nos anos 1960, os pastores ainda gozavam de um outro status social. Era natural que ele quisesse morar aqui na ilha, mais perto do poder, digamos assim.</p><p>� Fico me perguntando se os policiais realmente revistaram o presbit�rio. As fotos mostram que era uma grande constru��o de madeira; l� devia haver muitos lugares onde esconder um corpo por algum tempo.</p><p>� � verdade. Mas nada indica que ele tenha tido alguma liga��o com assassinatos em s�rie ou com o desaparecimento de Harriet.</p><p>� Voc� se engana � disse Lisbeth com um sorriso no canto dos l�bios. � Em primeiro lugar, ele era um pastor, e os pastores, mais do que ningu�m, possuem uma rela��o especial com a B�blia. Em segundo, foi o �ltimo a ter visto Harriet e falado com ela.</p><p>� Mas ele foi correndo ao local do acidente e permaneceu ali v�rias horas. � visto em muitas fotos, sobretudo durante o lapso de tempo em que Harriet deve ter desaparecido.</p><p>� Pfff, posso desmontar esse �libi num instante! Mas eu estava pensando em outra coisa. Estamos diante de um matador de mulheres s�dico.</p><p>� E?</p><p>� Eu fui... eu tive um tempo livre na primavera passada e pesquisei coisas sobre s�dicos num contexto bem diferente. Um dos documentos que li era um manual do FBI americano que afirmava que um n�mero impressionante de assassinos seriais capturados v�m de lares problem�ticos e na inf�ncia se comprazem em torturar animais. Al�m disso, muitos <emphasis>serial killers</emphasis> americanos foram presos por inc�ndios criminosos.</p><p>� Sacrif�cio de animais e sacrif�cio pelo fogo, � isso que est� querendo dizer?</p><p>� Sim. Os animais torturados e o fogo constam em v�rios casos registrados por Harriet. Mas eu pensava mais no presbit�rio, que foi incendiado no final dos anos 1970.</p><p>Mikael refletiu por um momento.</p><p>� � muito vago � disse por fim. Lisbeth balan�ou a cabe�a.</p><p>� Concordo. Mas vale a pena anotar. N�o encontrei nada no inqu�rito sobre a causa do inc�ndio e gostaria muito de saber se houve outros inc�ndios misteriosos nos anos 1960. Seria interessante tamb�m descobrirmos sobre se houve casos de crueldade com animais ou amputa��es de animais nessa �poca, na regi�o.</p><empty-line/><p>Quando Lisbeth foi se deitar na s�tima noite em Hedeby, ela estava um pouco irritada com Mikael Blomkvist. Durante uma semana, estivera praticamente todos os minutos do dia com ele, quando em geral sete minutos na companhia de qualquer pessoa bastavam para faz�-la ter dor de cabe�a.</p><p>Fazia tempo ela constatara que as rela��es sociais n�o eram o seu forte e se preparara para uma vida solit�ria. Sentia-se perfeitamente satisfeita quando as pessoas a deixavam em paz. Mas as pessoas n�o eram muito perspicazes e compreensivas, o que sempre a obrigava a prevenir-se contra autoridades sociais, autoridades de prote��o da inf�ncia e da comiss�o de tutelas, contra o fisco, contra a pol�cia, curadores, psic�logos, psiquiatras, professores e seguran�as que nunca queriam deix�-la entrar nas boates, embora j� tivesse vinte e cinco anos (com exce��o dos seguran�as da Moulin, que a conheciam). Havia todo um ex�rcito de gente que parecia n�o ter mais o que fazer a n�o ser tentar comandar a sua vida e, se poss�vel, mudar o modo como ela escolhera viver.</p><p>Aprendera muito cedo que n�o adiantava nada chorar. Tamb�m aprendera que, sempre que tentou alertar algu�m para alguma coisa de sua vida, a situa��o s� piorava. Portanto, ela mesma � que devia resolver seus problemas com os m�todos que julgasse necess�rios. Atitude que o dr. Nils Bjurman pagou caro para descobrir.</p><p>Mikael Blomkvist tinha a mesma tend�ncia irritante de todos os outros de fu�ar sua vida privada e de fazer perguntas que ela n�o queria responder. S� que ele n�o reagia como a maioria dos homens que ela conheceu.</p><p>Quando ela ignorava as perguntas, ele se contentava em encolher os ombros, desistia do assunto e a deixava tranquila. <emphasis>Surpreendente.</emphasis></p><p>A prioridade de Lisbeth, quando conseguiu se apoderar do notebook dele em seu primeiro dia na casa, era evidentemente transferir todos os dados para o seu pr�prio computador. Desse modo, seria menos ruim se ele a despedisse; ela continuaria tendo acesso ao material.</p><p>Mas em seguida ela o provocou de prop�sito, lendo ostensivamente os documentos do notebook dele. Esperava que ele fosse ficar furioso. No entanto ele pareceu resignado, resmungou alguma coisa levemente sarc�stica e foi tomar um banho, s� voltando a abordar o assunto mais tarde. <emphasis>Cara estranho.</emphasis> Ela quase concluiu que ele confiava nela.</p><p>Mas o fato de ele estar a par de seus talentos como <emphasis>hacker</emphasis> era grave. Lisbeth Salander sabia muito bem que o termo jur�dico aplicado ao tipo de pirataria que ela praticava, profissionalmente e por conta pr�pria, era intrus�o inform�tica ilegal, que lhe podia valer at� dois anos de pris�o. Era um ponto sens�vel: ela n�o queria ser presa porque uma pena de pris�o significaria que muito provavelmente lhe confiscariam o computador, �nica ocupa��o na qual se distinguia. Nunca pensou em contar a Dragan Armanskij ou a quem quer que fosse como obtinha as informa��es que eles compravam.</p><p>Com exce��o de Praga e de algumas poucas pessoas conectadas que, como ela, se dedicavam profissionalmente � pirataria � e quase todas s� a conheciam pelo codinome Wasp, ningu�m sabia quem ela era nem onde morava �, somente Super-Blomkvist descobrira seu segredo. E a tinha desmascarado porque ela cometeu um erro que mesmo iniciantes com poucos anos no ramo n�o cometem, o que provava que seu c�rebro andava falhando e que merecia ser castigada. Mas ele n�o ficou furioso nem amea�ou process�-la; em vez disso a contratou.</p><p>Assim, ela estava ligeiramente irritada com ele.</p><p>Um pouco antes de ela se retirar para o quarto, tinham acabado de comer um sandu�che quando ele perguntou, de repente, se ela era uma boa <emphasis>hacker.</emphasis> E ela respondera com naturalidade:</p><p>� Sou provavelmente a melhor da Su�cia. H� talvez uns dois ou tr�s do meu n�vel.</p><p>N�o hesitou nem um pouco sobre a veracidade de sua resposta. Numa certa �poca, Praga fora melhor que ela, mas fazia muito tempo que o superara.</p><p>No entanto Lisbeth espantou-se consigo mesma por pronunciar essas palavras. Nunca fizera isso. Nem tinha um interlocutor para esse tipo de conversa, e de repente saboreou o fato de ele parecer impressionado com seus conhecimentos. Mas ele estragou tudo ao levantar a quest�o problem�tica: como ela aprendera a pirataria.</p><p>Ela n�o sabia o que responder. Eu <emphasis>sempre soube.</emphasis> Preferiu ir se deitar sem dizer boa-noite.</p><p>Para irrit�-la ainda mais, Mikael n�o pareceu reagir quando ela virou as costas. De sua cama, ela o escutou mexer-se na cozinha, limpar a mesa e lavar a lou�a. Ele sempre ficava de p� mais tempo que ela, mas agora estava claramente indo se deitar. Ela o ouviu no banheiro, o ouviu entrar no quarto e fechar a porta.. Um momento depois, ouviu o rangido da cama quando ele se deitou, a cinquenta cent�metros dela, do outro lado da parede.</p><p>Durante a semana que passou na casa dele, ele n�o tentou abord�-la sexualmente. Trabalhou com ela, pediu sua opini�o, criticou-a quando raciocinava errado e apreciou suas obje��es quando ela o corrigia. Tratou-a, nem mais nem menos, como um ser humano.</p><p>De repente, ela percebeu que gostava da companhia de Mikael Blomkvist e que at� mesmo confiava nele. Nunca confiara em ningu�m, com exce��o de Holger Palmgren. Mas por raz�es bem diferentes. Palmgren fora uma boa alma previs�vel.</p><p>Levantou-se, foi at� a janela e ficou olhando, nervosa, a escurid�o l� fora. O que mais a paralisava era mostrar-se nua diante de algu�m pela primeira vez. Estava convencida de que seu corpo raqu�tico era repulsivo. Os seios, pat�ticos. N�o tinha quadris que merecessem esse nome. A seus pr�prios olhos, n�o tinha grande coisa a oferecer. No entanto, era uma mulher perfeitamente normal, com os mesmos desejos e puls�es sexuais que as outras. Refletiu durante cerca de vinte minutos antes de se decidir.</p><empty-line/><p>Mikael estava deitado e lia um romance de Sara Paretsky quando ouviu a ma�aneta da porta girar e viu Lisbeth Salander aparecer. Estava envolvida num len�ol e se mantinha no v�o da porta sem dizer nada, como se refletisse.</p><p>� Algum problema? � perguntou Mikael. Ela fez que n�o com a cabe�a.</p><p>� O que voc� quer?</p><p>Ela se aproximou dele, pegou seu livro e o p�s na mesa-de-cabeceira. Depois se curvou para a frente e o beijou na boca. As inten��es dela n�o podiam ser mais claras. Sentou-se na cama e ficou olhando-o de um jeito perscrutador. P�s uma m�o sobre o len�ol acima do ventre dele. Como ele n�o protestasse, ela se inclinou e mordiscou um de seus mamilos.</p><p>Mikael Blomkvist estava totalmente perplexo, mas n�o indiferente. Depois de alguns segundos, pegou-a pelos ombros e afastou-a um pouco para poder ver seu rosto.</p><p>� Lisbeth... n�o sei se � uma boa id�ia. Devemos trabalhar juntos.</p><p>� Quero fazer sexo com voc�. E n�o vejo problema algum em trabalharmos juntos; ao contr�rio, terei um problema s�rio se me mandar embora.</p><p>� Mas nem nos conhecemos direito.</p><p>Ela riu, um riso abrupto que mais parecia uma tosse.</p><p>� Quando fiz minha investiga��o sobre voc�, percebi que nunca teve esse tipo de problema. Ao contr�rio, voc� � daqueles que t�m dificuldade de ficar longe das mulheres. Que est� havendo? N�o pare�o bastante <emphasis>sexy?</emphasis></p><p>Mikael balan�ou a cabe�a e tentou encontrar algo inteligente para dizer. Como ele n�o respondeu, ela afastou o len�ol e sentou-se de pernas abertas sobre ele.</p><p>� N�o tenho preservativos � disse Mikael.</p><p>� N�o faz mal.</p><p>Quando Mikael despertou, Lisbeth j� estava de p�. Ouviu-a mexendo nas lou�as da cozinha. Eram quase sete da manh�. Ele dormira apenas duas horas e continuou de olhos fechados.</p><p>N�o conseguia entender Lisbeth Salander. Em nenhum momento ela havia insinuado, nem mesmo atrav�s de um olhar, que estivesse interessada nele.</p><p>� Bom dia � disse Lisbeth � porta. Ela sorria. Um pouco, � verdade.</p><p>� Oi � disse Mikael.</p><p>� N�o temos mais leite. Vou at� o supermercado. Eles abrem �s sete. E afastou-se t�o depressa que Mikael nem teve tempo de responder. Ele a ouviu cal�ar-se, pegar a mochila, o capacete da moto e sair pela porta da frente. Ele fechou os olhos. Depois ouviu a porta ser aberta de novo e em alguns segundos ela reapareceu. Desta vez n�o sorria mais.</p><p>� Venha, voc� precisa ver uma coisa � disse com uma voz estranha. Mikael saltou imediatamente da cama e enfiou a cal�a. Durante a noite algu�m viera lhe trazer um presente indesejado. No terra�o da entrada, jazia o cad�ver semicarbonizado de um gato esquartejado. As patas e a cabe�a haviam sido cortadas, o ventre aberto e as entranhas removidas; os restos do gato estavam ao lado do cad�ver, que parecia ter sido posto no fogo. A cabe�a estava intacta e fora colocada em cima do assento da moto de Lisbeth. Mikael reconheceu a pelagem ruiva.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>22.� QUINTA-FEIRA 10 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Eles tomaram o caf�-da-manh� no jardim, em sil�ncio e sem leite no caf�. Lisbeth havia apanhado uma pequena Canon digital e fotografado a cena macabra antes de Mikael trazer um saco de lixo para levar tudo. Ele p�s o gato no porta-malas do carro que lhe emprestaram, mas n�o tinha muita certeza do que fazer com o cad�ver. O l�gico seria apresentar queixa por crueldade contra os animais, talvez tamb�m por amea�as, mas n�o sabia muito bem como explicar o porqu� da amea�a.</p><p>Por volta das oito e meia, Isabella Vanger passou a p� e dirigiu-se � ponte. N�o os viu ou fingiu n�o v�-los.</p><p>� Como est� se sentindo? � perguntou finalmente Mikael a Lisbeth.</p><p>� Bem. � Ela olhou para ele, surpresa. <emphasis>Entendi. Ele gostaria que eu estivesse nervosa.</emphasis> � Quando encontrar o canalha que torturou um pobre gato inocente s� para nos deixar uma advert�ncia, vou acert�-lo com um taco de beisebol.</p><p>� Acha que � uma advert�ncia?</p><p>� Tem explica��o melhor? Claro que significa alguma coisa. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Seja o que for, a verdade � que acabamos inquietando muito algu�m, a ponto de deixar essa pessoa doente. Mas h� um outro problema � disse ele.</p><p>� Eu sei. E um sacrif�cio de animal semelhante aos de 1954 e 1960. E parece imposs�vel que um matador em atividade h� cinquenta anos continue por a�, deixando animais torturados na sua porta.</p><p>� Os �nicos que podem figurar na lista, nesse caso, s�o Harald Vanger e Isabella Vanger. Existem alguns parentes mais velhos do ramo Johan Vanger, mas nenhum mora na regi�o.</p><p>Mikael suspirou antes de prosseguir.</p><p>� Isabella � uma mulher est�pida que certamente n�o hesitaria em matar um gato, mas duvido que passasse o tempo matando mulheres em s�rie nos anos 1950. Harald Vanger... n�o sei, parece t�o decr�pito que mal consegue andar e � dif�cil acreditar que saia sorrateiramente � noite para achar um gato e fazer isso.</p><p>� A n�o ser que sejam duas pessoas, uma velha e uma jovem.</p><p>Mikael ouviu um carro passar, ergueu os olhos e viu Cecilia Vanger desaparecer no final da ponte. <emphasis>Harald e Cecilia,</emphasis> pensou. Mas havia um grande ponto de interroga��o: pai e filha n�o se viam e raramente se falavam. Apesar de Martin Vanger ter prometido falar com ela, Cecilia continuava sem responder aos telefonemas de Mikael.</p><p>� Com certeza � algu�m que sabe que estamos investigando e que fizemos progressos � disse Lisbeth, levantando-se e entrando na casa.</p><p>Ao voltar, ela vestia sua roupa de motoqueira.</p><p>� Vou a Estocolmo. Volto � noite.</p><p>� O que voc� vai fazer?</p><p>� Umas pesquisas. Se um cara � bastante louco para matar um gato desse jeito, ele, ou ela, pode nos atacar da pr�xima vez. Ou p�r fogo no barraco enquanto dormimos. Quero que v� a Hedestad comprar dois extintores e dois detectores de inc�ndio hoje. Um dos extintores deve ser com halon.</p><p>Sem dizer mais nada, p�s o capacete, acionou a moto e desapareceu pela ponte.</p><empty-line/><p>Mikael jogou o cad�ver no coletor de lixo do posto de gasolina, antes de ir a Hedestad comprar os extintores e os detectores de inc�ndio. P�s as compras no porta-malas do carro e foi para o hospital. Havia telefonado para Dirch Frode e marcado um encontro com ele na cafeteria. Contou o que havia acontecido de manh�. Dirch Frode empalideceu.</p><p>� Mikael, nunca pensei que essa hist�ria pudesse se tornar perigosa.</p><p>� Por que n�o? Afinal, o objetivo � desmascarar um assassino.</p><p>� Mas quem poderia... � pura loucura. Se n�o est�o em seguran�a, voc� e a senhorita Salander, devemos parar tudo. Posso falar com Henrik.</p><p>� N�o, de jeito nenhum. N�o vamos provocar outro infarto nele.</p><p>� Ele pergunta o tempo todo o que voc� est� fazendo.</p><p>� Diga a ele que continuo desembara�ando os fios.</p><p>� O que vai fazer agora?</p><p>� Tenho algumas perguntas. O primeiro incidente ocorreu pouco depois do infarto de Henrik, quando eu estava em Estocolmo. Algu�m vasculhou minha saleta de trabalho. Foi logo depois de eu decifrar o c�digo da B�blia e descobrir as fotos da rua da Esta��o. Falei disso com voc� e com o Henrik. Martin estava sabendo, pois foi ele que me facilitou o acesso ao <emphasis>Hedestads-Ruriren.</emphasis> Quem mais estava a par?</p><p>� Bem, n�o sei exatamente para quem Martin falou. Mas Birger e Cecilia tamb�m sabiam. Conversaram entre si sobre a sua ca�ada �s fotos. At� Alexander est� sabendo. E Gunnar e Helen Nilsson tamb�m. Vieram visitar Henrik e ouviram a conversa. E Anita Vanger.</p><p>� Anita? A de Londres?</p><p>� A irm� de Cecilia. Ela veio de avi�o com Cecilia quando Henrik teve o infarto, mas ficou no hotel; que eu saiba, n�o p�s os p�s na ilha. Assim como Cecilia, ela n�o quer se encontrar com o pai. Mas voltou h� uma semana, quando Henrik saiu da UTI.</p><p>� Onde Cecilia est� morando? Eu a vi esta manh� atravessando a ponte, mas sua casa continua fechada.</p><p>� Suspeita dela?</p><p>� N�o, s� quero saber onde est� morando.</p><p>� Na casa do irm�o, Birger. Da casa dele pode-se ir a p� ao hospital.</p><p>� Sabe onde ela est� agora?</p><p>� N�o. Em todo caso, com Henrik n�o est�.</p><p>� Obrigado � disse Mikael e levantou-se.</p><empty-line/><p>A fam�lia Vanger gravitava em torno do hospital de Hedestad. No sagu�o de entrada, Birger Vanger dirigia-se aos elevadores. Mikael n�o quis cruzar com ele e esperou que desaparecesse antes de passar pelo sagu�o. Mas deu de cara com Martin Vanger na entrada, quase no mesmo lugar onde encontrara Cecilia Vanger na visita anterior. Eles trocaram um aperto de m�o.</p><p>� Foi ver Henrik?</p><p>� N�o, s� passei aqui para falar com Dirch Frode rapidamente.</p><p>Martin tinha olheiras e parecia fatigado. Mikael notou que ele envelhecera consideravelmente desde que se conheceram, havia seis meses. A luta para salvar o imp�rio Vanger e a s�bita doen�a de Henrik lhe pesavam.</p><p>� E como v�o as coisas com voc�? � perguntou Martin.</p><p>Mikael anunciou que n�o tinha a inten��o de interromper sua temporada para voltar a Estocolmo.</p><p>� Bem, obrigado. A cada dia est�o ficando mais interessantes. Quando Henrik melhorar, espero poder satisfazer a curiosidade dele.</p><empty-line/><p>Birger Vanger morava num conjunto de casas geminadas, de tijolos brancos, a apenas cinco minutos de caminhada do hospital. Ningu�m atendeu quando Mikael bateu � porta. Tentou o celular de Cecilia, mas n�o obteve resposta. Ficou um momento no carro tamborilando os dedos sobre o volante. Birger Vanger era uma p�gina em branco na cole��o. Nascido em 1939, tinha apenas dez anos quando Rebecka Jacobsson foi morta. Mas tinha vinte e sete quando Harriet desapareceu.</p><p>Segundo Henrik Vanger, Birger e Harriet pouco se viram. Birger cresceu com sua fam�lia, em Uppsala, e veio para Hedestad a fim de trabalhar no grupo, mas alguns anos depois se afastou para entrar na pol�tica. Estava em Uppsala quando Lena Andersson foi assassinada.</p><p>Mikael n�o conseguia deslindar a hist�ria, mas o incidente com o gato lan�ara um sentimento de amea�a iminente e sugeria que o tempo come�ava a correr r�pido.</p><p>O ex-pastor de Hedeby Otto Falk tinha trinta e seis anos quando Harriet desapareceu. Estava com setenta e dois agora, era mais jovem que Henrik Vanger, por�m se achava numa condi��o intelectual bem inferior. Mikael o encontrou na casa de sa�de A Andorinha, um pr�dio amarelo situado numa eleva��o �s margens do Hede, no outro extremo da cidade. Mikael apresentou-se na recep��o e pediu para falar com o pastor Falk. Disse saber que o pastor sofria de Alzheimer e pediu informa��es sobre seu n�vel de comunica��o. Uma atendente respondeu-lhe que o pastor recebera o diagn�stico tr�s anos antes e que a evolu��o da doen�a fora r�pida. Falk podia comunicar-se, mas tinha uma p�ssima mem�ria imediata, n�o reconhecia alguns membros da fam�lia e estava entrando numa completa aliena��o. Mikael tamb�m foi prevenido contra crises de ang�stia que o velho tinha quando lhe faziam perguntas �s quais n�o conseguia responder.</p><p>O velho pastor estava sentado num banco de jardim com tr�s outros pacientes e um enfermeiro. Mikael passou uma hora tentando falar com ele.</p><p>O pastor Falk disse que se lembrava muito bem de Harriet Vanger. Seu rosto iluminou-se e ele a descreveu como uma menina encantadora. Mikael logo percebeu, por�m, que o pastor esquecera que ela estava desaparecida havia quase trinta e sete anos; falava dela como se tivesse acabado de v�-la e pediu que Mikael lhe mandasse um abra�o e a encorajasse a vir visit�-lo. Mikael prometeu fazer isso.</p><p>Quando Mikael comentou o que tinha acontecido no dia em que Harriet desapareceu, o pastor se mostrou perplexo. Era evidente que n�o se lembrava do acidente na ponte. No entanto, no final da conversa, mencionou algo que fez levantar as orelhas de Mikael.</p><p>Mikael havia conduzido a conversa para o interesse de Harriet pela religi�o, e o pastor de repente ficou pensativo. Como se uma nuvem tivesse passado sobre seu rosto. P�s-se a balan�ar para a frente e para tr�s por um momento, depois olhou fixamente Mikael e perguntou quem ele era. Mikael apresentou-se de novo e o velho refletiu mais um instante. Por fim, balan�ou a cabe�a e pareceu irritado.</p><p>� Ela ainda est� procurando. Precisa estar atenta e voc� deve preveni-la.</p><p>� Devo preveni-la do qu�?</p><p>O pastor ficou subitamente agitado. Balan�ou a cabe�a, franzindo as sobrancelhas.</p><p>� Ela deve ler <emphasis>sola scriptura</emphasis> e compreender <emphasis>sufficientia scripturae.</emphasis> S� assim poder� manter uma <emphasis>sola fide.</emphasis> Jos� os exclui formalmente. Eles nunca foram inclu�dos no c�none.</p><p>Mikael n�o compreendeu nada, mas registrou. A seguir, o pastor Falk inclinou-se para ele e cochichou em tom confidencial:</p><p>� Acho que ela � cat�lica. Est� apaixonada por magia e ainda n�o encontrou seu Deus. E preciso gui�-la.</p><p>A palavra "cat�lica" parecia ter uma conota��o negativa para o pastor Falk.</p><p>� Eu achava que ela estava interessada no pentecostalismo.</p><p>� N�o, n�o, no pentecostalismo n�o. Ela busca a verdade proibida. N�o � uma boa crist�.</p><p>Nesse ponto, o pastor pareceu esquecer tanto Mikael quanto a conversa e voltou-se para falar com um dos outros pacientes.</p><empty-line/><p>Mikael voltou � ilha pouco depois das duas da tarde. Foi bater � porta de Cecilia Vanger, mas sem sucesso. Tentou o celular, n�o obteve resposta.</p><p>Instalou um detector de inc�ndio na cozinha e outro no vest�bulo. Colocou um dos extintores junto ao aquecedor, ao lado da porta do quarto, e o outro junto � porta do banheiro. Preparou ent�o uma refei��o leve, sandu�ches e caf�, e sentou-se no jardim para passar ao notebook o registro de sua conversa com o pastor Falk. Refletiu por um longo momento, depois ergueu os olhos na dire��o da igreja.</p><p>O novo presbit�rio de Hedeby era uma casa moderna, sem nada de especial, a algumas centenas de metros da igreja. Mikael bateu � porta do pastor Margareta Strandh por volta das quatro e explicou que vinha fazer uma consulta sobre uma quest�o teol�gica. Margareta era uma mulher da idade de Mikael, de cabelos castanhos, e vestia jeans e camisa de flanela. Estava descal�a e tinha as unhas dos p�s pintadas de vermelho. Ele j� a encontrara algumas vezes no Caf� Susanne e lhe falara do pastor Falk. Mikael foi gentilmente recebido e convidado a se sentar no jardim da casa dela, bem como a trat�-la sem cerim�nia.</p><p>Mikael contou que conversara com Otto Falk e repetiu as respostas dele, acrescentando que n�o entendera seu significado. Margareta Strandh escutou e pediu que Mikael repetisse palavra por palavra o que Falk dissera. Ela refletiu por um instante.</p><p>� Comecei a trabalhar aqui em Hedeby h� apenas tr�s anos e nunca vi o pastor Falk. Ele j� havia se aposentado v�rios anos antes, mas soube que era bastante tradicionalista. O que ele disse significa mais ou menos que devemos nos ater unicamente aos escritos � <emphasis>sola scriptura</emphasis> � e que eles s�o <emphasis>sufficientia scripturae.</emphasis> Para os crentes tradicionalistas, essa �ltima express�o significa o reconhecimento da Sagrada Escritura como �nica fonte de autoridade. <emphasis>Sola fide</emphasis> significa "a �nica f�", ou "a f� pura".</p><p>� Entendo.</p><p>� Tudo isso pertence, por assim dizer, aos dogmas fundadores. � a base da Igreja e nada tem de extraordin�rio. Ele disse simplesmente: <emphasis>Leia a B�blia</emphasis> � <emphasis>ela oferece o conhecimento suficiente e garante a f� pura.</emphasis></p><p>Mikael sentiu-se um pouco desconfort�vel.</p><p>� Mas permita que eu lhe pergunte: em que contexto ocorreu essa conversa?</p><p>� Fiz perguntas sobre algu�m que ele conheceu h� muito tempo e sobre quem estou escrevendo.</p><p>� Algu�m numa busca religiosa?</p><p>� Algo do g�nero.</p><p>� Certo. Acho que percebo a rela��o. O pastor Falk disse duas outras coisas � que <emphasis>Jos� os exclui formalmente</emphasis> e que <emphasis>eles nunca foram inclu�dos no c�none.</emphasis> Ser� que voc� n�o entendeu mal e ele disse Josefo em vez de Jos�? Na verdade, � o mesmo nome.</p><p>� � poss�vel � disse Mikael. � Gravei a conversa, se quiser escutar.</p><p>� N�o, acho que n�o � necess�rio. As duas frases estabelecem de maneira clara o que ele quis dizer. Josefo era um historiador judeu e a frase <emphasis>eles nunca foram inclu�dos no c�none</emphasis> provavelmente indica que nunca fizeram parte do c�none hebraico.</p><p>� E o que isso quer dizer?</p><p>Ela riu.</p><p>� O pastor Falk afirmou que essa pessoa tinha uma atra��o por fontes esot�ricas, mais precisamente pelos ap�crifos. A palavra <emphasis>apokryphos</emphasis> significa "oculto", e os ap�crifos s�o livros ocultos que alguns contestam fortemente e que outros consideram como parte do Antigo Testamento. S�o os livros de Tobias, Judite, Ester, Baruc, Sirac, os Macabeus e mais outros dois ou tr�s.</p><p>� Desculpe a minha ignor�ncia. J� ouvi falar dos ap�crifos, mas nunca os li. O que eles t�m de especial?</p><p>� Na verdade, nada de especial, a n�o ser que foram escritos um pouco mais tarde que o restante do Antigo Testamento. Por isso os ap�crifos foram riscados da B�blia hebraica. N�o que os doutores da lei desconfiassem de seu conte�do, mas simplesmente porque foram escritos depois da �poca em que a obra da revela��o de Deus estava terminada. Em contrapartida, os ap�crifos figuram na velha tradu��o grega da B�blia. Portanto, n�o s�o controvertidos na Igreja cat�lica.</p><p>� Entendo.</p><p>� Contudo, s�o particularmente controvertidos na Igreja protestante. Na �poca da Reforma, os te�logos buscavam se aproximar ao m�ximo da velha B�blia hebraica. Martinho Lutero retirou os ap�crifos da B�blia da Reforma, e mais tarde Calvino afirmou que os ap�crifos n�o deviam em hip�tese alguma servir de base para as confiss�es de f�, por conterem afirma��es que contradiziam a <emphasis>claritas Scripturae</emphasis> � a clareza das Escrituras.</p><p>� Ou seja, livros censurados.</p><p>� Exatamente. Os ap�crifos afirmam, por exemplo, que se pode praticar a magia, que a mentira � autorizada em alguns casos e outras coisas semelhantes, que evidentemente indignam os exegetas dogm�ticos das Escrituras.</p><p>� E n�o � nada imposs�vel, se algu�m sente uma atra��o pela religi�o, que os ap�crifos apare�am na sua lista de leitura, para a grande irrita��o de homens como o pastor Falk.</p><p>� Isso mesmo. � quase inevit�vel o confronto com os ap�crifos se nos interessamos pela B�blia ou pelo catolicismo, e � muito prov�vel que algu�m interessado pelo esoterismo, de maneira geral, os leia.</p><p>� Por acaso teria um exemplar dos ap�crifos? Ela riu mais uma vez. Um riso aberto, amistoso.</p><p>� Claro. Os ap�crifos foram editados pela comiss�o b�blica nos anos 1980 por ocasi�o de um estudo nacional.</p><empty-line/><p>Dragan Armanskij perguntou-se o que poderia estar havendo quando Lisbeth Salander pediu uma conversa particular. Ele fechou a porta e fez sinal para ela se sentar na poltrona dos visitantes. Ela contou que o trabalho para Mikael Blomkvist estava terminado � Dirch Frode pagaria antes do fim do m�s �, mas que decidira prosseguir a investiga��o. Mikael lhe oferecera um sal�rio mensal consideravelmente inferior.</p><p>� Em suma, � uma quest�o pessoal � disse Lisbeth Salander. � At� agora nunca aceitei trabalho a n�o ser de voc�, segundo nosso acordo. O que quero saber � o que ser� da nossa rela��o se eu come�ar a pegar trabalhos por conta pr�pria.</p><p>Dragan Armanskij afastou as m�os.</p><p>� Voc� � seu patr�o, pode pegar os trabalhos que quiser e cobrar como quiser. Fico contente de que tenha fontes pr�prias de dinheiro. Mas seria desleal atrair para voc� clientes que conheceu por nosso interm�dio.</p><p>� N�o tenho essa inten��o. Fiz o trabalho conforme o contrato que estabelecemos com Blomkvist. Esse trabalho est� terminado. Agora <emphasis>eu</emphasis> � que quero continuar no caso. Faria at� mesmo de gra�a.</p><p>� Nunca fa�a nada de gra�a.</p><p>� Entenda, estou querendo dizer que quero saber aonde vai dar essa hist�ria. Convenci Mikael Blomkvist a pedir a Dirch Frode um contrato suplementar como assistente de pesquisa.</p><p>Ela estendeu o contrato a Armanskij, que o percorreu com os olhos.</p><p>� Esse sal�rio equivale quase a trabalhar por nada. Lisbeth, voc� tem talento. Sabe que pode ganhar bem mais trabalhando comigo, se aceitasse um regime de tempo integral.</p><p>� N�o quero trabalhar em tempo integral. Mas continuarei fiel a voc�, Dragan. Voc� tem sido correto comigo desde que comecei aqui. Quero saber se para voc� est� bem esse tipo de contrato, porque n�o quero que haja problemas entre n�s.</p><p>� Entendo. � Ele refletiu um instante. � Para mim est� certo. Obrigado por me procurar. Se outras situa��es como essa surgirem no futuro, pe�o que me avise, para n�o haver mal-entendidos.</p><p>Lisbeth Salander ficou em sil�ncio por um minuto ou dois, calculando se havia algo a acrescentar. Fixou os olhos em Armanskij sem dizer nada. Depois balan�ou a cabe�a, levantou-se e saiu, como de h�bito sem se despedir. Uma vez obtida a resposta que esperava, o interesse por Armanskij tinha evaporado. Ele sorriu com serenidade. O fato de ela ter vindo se aconselhar com ele significava um avan�o em seu processo de socializa��o.</p><p>Abriu uma pasta com um relat�rio sobre a seguran�a de um museu onde estava prevista uma exposi��o de impressionistas franceses. Depois deixou a pasta de lado e olhou para a porta por onde Salander acabara de sair. Lembrou-se do dia em que a vira rindo na companhia de Mikael Blomkvist e perguntou-se se ela estava ficando adulta ou se era Blomkvist que a atra�a. Mas sentiu tamb�m uma inquieta��o. Ele nunca conseguira se livrar da sensa��o de que Lisbeth Salander era uma v�tima perfeita. E eis que agora ela seguia a pista de um assassino furioso numa aldeia perdida.</p><empty-line/><p>Retornando em dire��o ao norte, Lisbeth sentiu vontade de passar na casa de sa�de de �ppelviken para ver sua m�e. Exceto pela visita no Dia de S�o Jo�o, ela n�o via a m�e desde o Natal e culpava-se por visit�-la t�o pouco. Essa nova visita, apenas algumas semanas depois, era incomum.</p><p>A m�e estava na sala de conviv�ncia. Lisbeth ficou pouco mais de uma hora e a levou para passear no laguinho dos patos, no jardim em frente � institui��o. A m�e continuava confundindo-a com a irm�. Como de h�bito, n�o estava inteiramente presente, embora a visita parecesse agit�-la.</p><p>Quando Lisbeth despediu-se, a m�e n�o quis soltar sua m�o. Lisbeth prometeu voltar em breve, mas a m�e a olhou com inquieta��o e um ar muito infeliz.</p><p>Como se estivesse pressentindo uma cat�strofe iminente.</p><empty-line/><p>Mikael passou duas horas no jardim dos fundos da casa, folheando os ap�crifos, sem chegar a outra conclus�o sen�o a de que estava perdendo tempo.</p><p>Mas de repente lhe ocorreu uma pergunta: Harriet teria sido mesmo t�o crente como parecia? Seu interesse pelos estudos b�blicos se revelou no �ltimo ano antes de seu desaparecimento. Ela fizera a liga��o entre um certo n�mero de cita��es b�blicas e uma s�rie de assassinatos, a seguir lera com aplica��o n�o somente a B�blia mas os ap�crifos, e se interessara pelo catolicismo.</p><p>Teria iniciado a mesma investiga��o a que Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander se dedicavam trinta e sete anos mais tarde? Teria sido a busca de um assassino que estimulara seu interesse, e n�o a religiosidade? O pastor Falk, em todo caso, dera a entender que ela parecia algu�m em busca, e n�o uma boa crist�.</p><p>Suas reflex�es foram interrompidas por um chamado de Erika no celular.</p><p>� Queria apenas te dizer que eu e Lars vamos tirar f�rias na semana que vem. Estarei fora por um m�s.</p><p>� Aonde voc�s v�o?</p><p>� Nova York. Lars tem uma exposi��o e depois vamos ao Caribe. Um amigo nos emprestou uma casa em Ant�gua, onde ficaremos duas semanas.</p><p>� Maravilha! Divirtam-se. E d� lembran�as ao Lars.</p><p>� N�o tiro f�rias de verdade h� tr�s anos. A pr�xima edi��o est� pronta e o n�mero seguinte j� est� quase terminado. Gostaria que voc� supervisionasse, mas Christer prometeu se encarregar disso.</p><p>� Ele pode me chamar, se precisar de ajuda. E como ficou o caso de Janne Dahlman?</p><p>Ela hesitou um instante.</p><p>� Ele sai de f�rias na semana que vem. Pus Henry como secret�rio de reda��o tempor�rio. Ele e Christer v�o conduzir o barco.</p><p>� Certo.</p><p>� N�o confio em Dahlman, mas ele est� se esfor�ando. Estarei de volta no dia 7 de agosto.</p><empty-line/><p>Eram cerca de sete da noite, e Mikael havia tentado falar com Cecilia Vanger cinco vezes. Deixara um bilhete na casa dela pedindo que entrasse em contato com ele, mas n�o obtivera resposta.</p><p>Fechou decididamente os ap�crifos, vestiu uma roupa esportiva e trancou a porta antes de sair para o seu <emphasis>jogging</emphasis> de todos os dias.</p><p>Seguiu pelo caminho estreito ao longo da praia, depois tomou a dire��o do bosque. Atravessou o mais depressa que p�de uma zona de matagal e �rvores desenraizadas at� chegar exausto � Fortifica��o, com a pulsa��o bastante acelerada. Deteve-se num ponto da trincheira, ao sol, e fez alongamentos por alguns minutos.</p><p>De repente, ouviu uma forte detona��o, ao mesmo tempo que uma bala atingia a parede de concreto a alguns cent�metros de sua cabe�a. Depois sentiu uma dor na raiz dos cabelos, onde os estilha�os abriram uma ferida profunda.</p><p>Mikael ficou petrificado durante o que lhe pareceu uma eternidade, incapaz de entender o que havia acontecido. Em seguida jogou-se no ch�o na trincheira, machucando o ombro ao aterrissar. O segundo tiro ocorreu no instante em que mergulhava. A bala cravou-se na parede de concreto, bem no lugar onde ele havia estado.</p><p>Mikael levantou a cabe�a e olhou em volta. Estava mais ou menos na metade da Fortifica��o. � direita e � esquerda, passagens estreitas, com profundidade de um metro e cobertas de vegeta��o, conduziam a abrigos de tiro espalhados numa linha de duzentos e cinquenta metros de comprimento. P�s-se a correr, curvado, na dire��o sul do labirinto.</p><p>Ent�o, ouviu ressoar dentro dele a voz inimit�vel do capit�o Adolfsson no dia de um exerc�cio de inverno na escola de infantaria em Kiruna. <emphasis>Puta que pariu, Blomkvist, baixe a cabe�a se n�o quiser ter o rabo arrancado por uma bala!</emphasis> Vinte anos depois, se lembrava dos ensinamentos do capit�o Adolfsson.</p><p>Cerca de sessenta metros adiante, parou, sem f�lego e com o cora��o palpitando. N�o ouvia outros ru�dos a n�o ser o da pr�pria respira��o. O <emphasis>olho humano percebe os movimentos mais rapidamente que as formas e as silhuetas. N�o fique afoito quando se desloca!</emphasis> Mikael levantou os olhos alguns cent�metros acima da borda do abrigo. O sol estava bem � sua frente e o impedia de distinguir os detalhes, mas ele n�o percebeu nenhum movimento.</p><p>Baixou a cabe�a e prosseguiu at� o �ltimo abrigo. <emphasis>Pouco importa se o inimigo tem armas muito boas. Enquanto n�o puder te ver, ele n�o pode te tocar. Proteja-se, proteja-se! N�o se exponha!</emphasis></p><p>Mikael achava-se agora a uns trezentos metros das terras da fazenda de �stergarden. Quarenta metros � frente, estendia-se um espesso matagal de arbustos. Mas, para alcan�ar esse matagal partindo da trincheira, ele seria obrigado a descer uma encosta onde estaria totalmente exposto. Era a �nica sa�da. �s suas costas havia o mar.</p><p>Mikael agachou-se e raciocinou. De repente teve consci�ncia da dor nas t�mporas; percebeu que sangrava abundantemente, sua camiseta estava molhada de sangue. Fragmentos da bala ou estilha�os da parede haviam aberto uma ferida profunda na raiz dos cabelos. As <emphasis>feridas do couro cabeludo sempre sangram muito e por muito tempo,</emphasis> pensou, antes de se concentrar novamente na situa��o. Um �nico tiro poderia ter sido um disparo acidental. Dois tiros significavam que algu�m tentara mat�-lo. N�o sabia se o atirador ainda estava nas proximidades, com o rifle recarregado esperando que ele se mostrasse.</p><p>Tentou se acalmar e pensar de forma racional. Suas op��es eram esperar ou abandonar o local de uma maneira ou de outra. Se o atirador ainda estivesse � espreita, a segunda possibilidade n�o convinha de modo algum. Mas, se ficasse ali esperando, o atirador poderia tranquilamente subir at� a Fortifica��o, encontr�-lo e mat�-lo � queima-roupa.</p><p><emphasis>Ele (ou ela?) n�o pode saber se fui para a direita ou para a esquerda.</emphasis> Um rifle, talvez para a ca�a de alce. Provavelmente com mira telesc�pica. Isso significava que o atirador tinha um campo de vis�o limitado se observasse Mikael atrav�s da lente.</p><p><emphasis>Se estiver encurralado, tome a iniciativa.</emphasis> � melhor do que esperar. Ele espreitou o momento favor�vel e escutou os ru�dos por dois minutos; ent�o ergueu-se sobre a borda da trincheira e correu encosta abaixo o mais r�pido que p�de.</p><p>Ouviu um terceiro disparo, mas bem atr�s de suas costas, quando estava na metade do caminho para o matagal. Um instante depois, lan�ou-se de barriga na cortina de arbustos e rolou num mar de urtigas. Imediatamente voltou a ficar de p� e, ainda curvado, come�ou a se afastar do atirador. Cinquenta metros adiante, parou e escutou. Ouviu um galho estalar em alguma parte entre ele e a Fortifica��o. Suavemente, estendeu-se de novo no ch�o.</p><p><emphasis>Sobre os cotovelos, cambada! N�o de quatro patas!</emphasis> Era uma das express�es favoritas do capit�o Adolfsson. Mikael percorreu os cento e cinquenta metros seguintes rastejando na vegeta��o do matagal. Avan�ou sem fazer ru�do, muito atento aos galhos. Em dois momentos, ouviu estalos no matagal. O primeiro parecia vir de perto, talvez uns vinte metros � direita de onde estava. Ficou totalmente im�vel, como que petrificado. Ao cabo de um momento, ergueu devagar a cabe�a e espiou; n�o viu ningu�m. Continuou im�vel por muito tempo, com os nervos alertas, pronto para fugir ou mesmo lan�ar um contra-ataque se o <emphasis>inimigo</emphasis> viesse em sua dire��o. O estalo que ouviu a seguir vinha de mais longe. Depois nada, sil�ncio.</p><p><emphasis>Ele sabe que estou aqui. Mas ter� se instalado em algum lugar � espera de que eu comece a me mexer ou ter� ido embora?</emphasis></p><p>Mikael continuou avan�ando no matagal at� chegar ao cercado do pasto de �stergarden.</p><p>Come�ava outro momento cr�tico. Um caminho costeava o cercado no lado de fora. Ele ficou de bru�os no ch�o, � espreita. Viu as constru��es � sua frente, a cerca de quatrocentos metros, num terreno com ligeiro declive; � direita, viu umas dez vacas pastando. <emphasis>Como se explica que ningu�m tenha ouvido os disparos e tenha vindo ver o que aconteceu? Ver�o. N�o deve haver ningu�m na fazenda neste momento.</emphasis></p><p>Nem pensar em se aventurar pelo pasto � estaria totalmente exposto �, e o caminho ao longo do cercado era o lugar onde ele mesmo teria se posicionado para ter o campo livre para atirar. Retrocedeu discretamente pelo matagal e prosseguiu at� chegar a um bosque de pinheiros.</p><empty-line/><p>Mikael contornou as terras de �stergarden e dirigiu-se ao monte Sul para regressar. Ao passar pela fazenda, constatou que o carro n�o estava l�. Deteve-se no alto do monte Sul e contemplou Hedeby. As pequenas cabanas do antigo porto dos pescadores estavam ocupadas por veranistas; algumas mulheres de maio conversavam num pont�o. Ele sentiu o cheiro de carne assada num braseiro. Crian�as brincavam na �gua em volta dos pont�es.</p><p>Mikael consultou o rel�gio. Pouco mais de oito da noite. Os tiros haviam sido disparados cinquenta minutos atr�s. Gunnar Nilsson regava o jardim, de cal��o e nu da cintura para cima. <emphasis>H� quanto tempo voc� est� a�?</emphasis> A casa de Henrik Vanger estava desabitada, com exce��o da governanta Anna Nygren. A de Harald Vanger parecia deserta como sempre. Viu Isabella Vanger sentada no jardim dos fundos de sua casa. Falava com algu�m. Mikael demorou um pouco para perceber que era Gerda Vanger, nascida em 1922 e de sa�de fr�gil, que morava com o filho Alexander numa das casas atr�s da de Henrik. Nunca a encontrara, mas algumas vezes a vira em seu terreno. A casa de Cecilia Vanger parecia vazia, por�m de repente Mikael viu uma luz se acender na cozinha. <emphasis>Ela est� em casa. Ser� que o atirador poderia ser uma mulher?</emphasis> N�o duvidava que Cecilia Vanger soubesse manejar um rifle. Mais adiante viu o carro de Martin Vanger na esplanada diante de sua casa. E <emphasis>voc�, h� quanto tempo est� em casa?</emphasis></p><p>Ou teria sido alguma outra pessoa, em quem ele ainda nem sequer pensara? Frode? Alexander? Possibilidades demais.</p><p>Desceu o monte Sul, seguiu o caminho at� o povoado e foi diretamente para casa, sem encontrar ningu�m. A primeira coisa que viu foi a porta da casa entreaberta. Contraiu-se instintivamente. Depois sentiu cheiro de caf� e viu Lisbeth Salander pela janela da cozinha.</p><empty-line/><p>* * *</p><p>Lisbeth ouviu Mikael no vest�bulo e virou-se para ele. Ficou paralisada. O rosto de Mikael tinha um aspecto assustador, com sangue por toda parte come�ando a coagular. O lado esquerdo da camiseta estava molhado de sangue.</p><p>� Foi s� um ferimento no couro cabeludo; est� sangrando muito, mas n�o � grave � disse Mikael antes que ela tivesse tempo de abrir a boca.</p><p>Ela se virou e foi buscar o estojo de primeiros socorros no guarda-lou�as, um estojo que continha apenas dois rolos de algod�o, gaze e uma caixinha de curativos adesivos. Ele tirou as roupas, deixou-as espalhadas no ch�o e foi se olhar no espelho do banheiro.</p><p>O ferimento na t�mpora tinha uns tr�s cent�metros de comprimento e era t�o profundo que Mikael p�de ver um bom peda�o de carne. Continuava sangrando e provavelmente precisaria de alguns pontos, mas um simples curativo resolveria, ele pensou. Umedeceu a toalha e enxugou o rosto.</p><p>Apoiou a toalha sobre a t�mpora e entrou no chuveiro para uma ducha, fechando os olhos. Deu ent�o um murro t�o forte na parede que seus dedos doeram. <emphasis>Filho-da-puta!</emphasis>, pensou. <emphasis>Vou pegar voc�!</emphasis></p><p>Quando Lisbeth tocou seu bra�o, ele sentiu um sobressalto, como se tivesse recebido uma descarga. Olhou-a com tanta raiva nos olhos que, sem querer, ela deu um passo para tr�s. Lisbeth entregou-lhe um sabonete e voltou para a cozinha sem dizer uma palavra.</p><empty-line/><p>Mikael p�s tr�s curativos adesivos ao sair do chuveiro. Entrou no quarto, vestiu uma cal�a e uma camiseta limpas, pegou uma pasta com as fotos que copiara na impressora. A raiva o fazia quase tremer.</p><p>� Fique aqui! � ordenou, �spero, a Lisbeth Salander.</p><p>Foi at� a casa de Cecilia Vanger e calcou a m�o na campainha. Depois de um minuto e meio ela atendeu.</p><p>� N�o quero falar com voc� � ela disse. Depois, viu o rosto dele e o sangue que j� come�ava a vazar dos curativos. � O que aconteceu?</p><p>� Deixe-me entrar. Precisamos conversar. Ela hesitou.</p><p>� N�o temos nada a nos dizer.</p><p>� Agora temos, sim, coisas a nos dizer e podemos discuti-las aqui na porta ou na cozinha.</p><p>A voz de Mikael deixava transparecer sua raiva contida e Cecilia Vanger deu um passo para o lado, deixando-o entrar. Ele foi se sentar � mesa da cozinha.</p><p>� O que aconteceu? � ela perguntou novamente.</p><p>� Voc� diz que as minhas investiga��es sobre o desaparecimento de Harriet s�o um passatempo terap�utico para Henrik. � poss�vel, mas uma hora atr�s algu�m tentou acertar um tiro na minha cabe�a e, na noite passada, algu�m p�s um gato cortado em peda�os na entrada de casa.</p><p>Cecilia Vanger abriu a boca, mas Mikael a interrompeu.</p><p>� Cecilia, pouco me importa quais s�o as suas id�ias fixas e o que a preocupa, ou por que agora voc� me odeia. N�o vou mais me aproximar de voc�, n�o precisa ter medo que eu a importune ou a persiga. Neste momento, eu gostaria de nunca ter ouvido falar de voc� nem da fam�lia Vanger. Mas quero que responda �s minhas perguntas. Quanto mais depressa responder, mais depressa se livrar� de mim.</p><p>� O que quer saber?</p><p>� Primeiro: onde voc� estava uma hora atr�s? O rosto de Cecilia turvou-se.</p><p>� Eu estava em Hedestad. Voltei faz meia hora.</p><p>� H� testemunhas que comprovem isso?</p><p>� Sei l�. N�o preciso me justificar para voc�.</p><p>� Segundo: por que abriu a janela do quarto de Harriet Vanger no dia em que ela desapareceu?</p><p>� O que voc� disse?</p><p>� Voc� ouviu minha pergunta. Durante todos esses anos, Henrik tentou descobrir quem abriu a janela do quarto de Harriet exatamente nos minutos cr�ticos do seu desaparecimento. Todo mundo negou ter feito isso. Algu�m est� mentindo.</p><p>� E o que o faz pensar que fui eu?</p><p>� Esta foto � disse Mikael, jogando a fotografia em cima da mesa. Cecilia Vanger aproximou-se para olhar a foto. Mikael teve a impress�o de ver surpresa e medo. Ela levantou os olhos para ele. Mikael sentiu um pequeno filete de sangue escorrer pelo rosto e pingar na camiseta.</p><p>� Havia umas sessenta pessoas na ilha naquele dia � ele disse. � Vinte e oito eram mulheres. Cinco ou seis tinham cabelos louros e um pouco compridos. S� uma usava um vestido claro.</p><p>Ela olhou intensamente a foto.</p><p>� E acha que sou eu nesta foto?</p><p>� Se n�o �, eu gostaria muito de saber quem voc� acha que �. Ningu�m sabe da exist�ncia dessa foto at� agora. H� v�rias semanas a tenho comigo, mas n�o mostrei a Henrik nem a qualquer outra pessoa, porque tinha um medo terr�vel de transformar voc� em suspeita ou de prejudic�-la. Mas preciso de uma resposta.</p><p>� Ter� a sua resposta. � Ela pegou a foto e a estendeu a ele. � Nesse dia n�o fui ao quarto de Harriet. N�o sou eu nessa foto. N�o tenho absolutamente nada a ver com o desaparecimento dela.</p><p>Dirigiu-se � porta de entrada.</p><p>� Essa � a minha resposta. Agora quero que v� embora. E acho que deveria mostrar esse ferimento a um m�dico.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander o levou ao hospital de Hedestad. Mikael levou dois pontos, puseram-lhe um grande curativo sobre a ferida e deram-lhe uma pomada de cortisona para os arranh�es de urtiga no pesco�o e nas m�os.</p><p>Ao deixar o hospital, Mikael refletiu demoradamente se n�o deveria avisar a pol�cia. Mas logo imaginou as manchetes: "Jornalista condenado por difama��o � alvo de atirador misterioso". Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>� Vamos para casa � disse a Lisbeth.</p><p>Ao regressarem � ilha j� estava escuro, o que convinha bem a Lisbeth Salander. Ela p�s uma sacola em cima da mesa da cozinha.</p><p>� Peguei emprestado um equipamento da Milton Security e chegou a hora de utiliz�-lo. Prepare um caf� enquanto isso.</p><p>Ela espalhou quatro detectores de movimento ao redor da casa e explicou que, se algu�m se aproximasse a menos de seis, sete metros, um sinal de r�dio dispararia o bipe que havia instalado no quarto de Mikael. Na mesma hora, duas c�meras de v�deo ultra-sens�veis colocadas nas �rvores, na frente e atr�s da casa, come�ariam a enviar sinais a um laptop dentro do arm�rio do vest�bulo. Ela dissimulou as c�meras com um tecido escuro, deixando apenas as objetivas descobertas.</p><p>Colocou uma terceira c�mera numa gaiola de passarinho em cima da porta. Para introduzir o cabo ali, fez um buraco na parede. A objetiva estava apontada para a estrada e para o caminho do port�o at� a porta de entrada. A c�mera tirava uma foto de baixa resolu��o por segundo, armazenada no disco r�gido de um segundo laptop no arm�rio.</p><p>Em seguida, instalou um capacho com captores de press�o no vest�bulo. Se algu�m burlasse os detectores de movimento e entrasse na casa, um alarme de cento e quinze decib�is dispararia. Lisbeth mostrou como fazer para desativar os detectores com a chave de um pequeno cofre colocado no arm�rio. Ela tamb�m emprestara um bin�culo de vis�o noturna, que deixou na mesa da saleta de trabalho.</p><p>� Voc� parece ter pensado em tudo � disse Mikael, servindo-lhe uma x�cara de caf�.</p><p>� Outra coisa, nada mais de <emphasis>jogging</emphasis> at� que a gente tenha resolvido tudo isso.</p><p>� Pode crer que perdi todo o interesse pelo treinamento.</p><p>� N�o estou brincando. Esse caso come�ou como um enigma hist�rico, mas hoje de manh� havia um gato morto na entrada e no fim da tarde algu�m tentou estourar os seus miolos. N�s cutucamos algu�m do esconderijo.</p><p>Eles fizeram uma refei��o fora de hora, com carne fria e salada de batatas. Mikael estava muito cansado e com uma dor de cabe�a terr�vel. N�o conseguia falar mais nada e foi se deitar.</p><p>Lisbeth Salander permaneceu ali de p� e depois continuou lendo o inqu�rito at� as duas da manh�. A miss�o em Hedeby havia se transformado em algo amea�ador e complicado ao mesmo tempo.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>23.� SEXTA-FEIRA 11 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael despertou �s seis da manh� com o sol batendo direto no rosto porque a cortina n�o fora bem fechada. A cabe�a estava vagamente dolorida e ele sentiu uma dor aguda ao tocar o curativo. Lisbeth Salander dormia de bru�os, com um bra�o em cima dele. Ele olhou o drag�o que se estendia em suas costas, do ombro direito �s n�degas.</p><p>Contou as tatuagens. Al�m do drag�o nas costas e de uma vespa no pesco�o, havia uma tira em volta do tornozelo, outra em volta do b�ceps esquerdo, um macaco chin�s no quadril e uma rosa na panturrilha. Afora o drag�o, todas as tatuagens eram pequenas e discretas.</p><p>Mikael saiu lentamente da cama e puxou a cortina. Foi ao banheiro e voltou para a cama sem fazer ru�do, para n�o despertar Lisbeth.</p><p>Algumas horas depois, tomavam o caf�-da-manh� no jardim. Lisbeth olhou para Mikael.</p><p>� Temos um mist�rio para resolver. Como faremos?</p><p>� Vamos fazer um balan�o das informa��es que j� temos e tentar descobrir outras.</p><p>� Uma das informa��es � que algu�m da vizinhan�a est� tentando te acertar.</p><p>� A quest�o � saber <emphasis>por qu�.</emphasis> � porque estamos prestes a resolver o mist�rio de Harriet ou porque descobrimos um assassino serial at� ent�o desconhecido?</p><p>� Deve haver uma liga��o. Mikael concordou com a cabe�a.</p><p>� Se Harriet descobriu um assassino serial, era, necessariamente, algu�m do seu meio. Se examinarmos a galeria dos personagens dos anos 1960, havia pelo menos duas d�zias de candidatos poss�veis. Hoje n�o resta praticamente ningu�m, com exce��o de Harald Vanger, e n�o d� para acreditar que ele, com quase noventa e cinco anos, anda pelos bosques com um rifle. N�o teria for�a sequer para levantar uma espingarda de ca�a. Hoje todos s�o ou muito velhos para ser perigosos, ou muito jovens para terem agido nos anos 1950. O que nos leva de volta ao ponto de partida.</p><p>� A menos que dois colaborem um com o outro. Um velho e um jovem.</p><p>� Harald e Cecilia. N�o creio. Acho que ela disse a verdade quando afirmou que n�o estava na janela.</p><p>� Quem seria ent�o?</p><p>Abriram o notebook de Mikael e passaram a hora seguinte examinando com aten��o todas as pessoas que apareciam nas fotos do acidente.</p><p>� Imagino que a aldeia inteira veio ver o acidente. Era setembro. A maioria est� de casaco ou pul�ver. S� uma pessoa tem cabelos louros compridos e vestido claro.</p><p>� Cecilia Vanger aparece em muitas fotos. D� a impress�o de estar o tempo todo em movimento, entre as casas e as pessoas que observam o acidente. Aqui ela est� falando com Isabella. Aqui est� com o pastor Falk. Aqui com Greger, o irm�o de Henrik.</p><p>� Espere! � interrompeu Mikael. � O que � isso na m�o dele, Greger?</p><p>� Uma coisa quadrada. Parece uma caixinha.</p><p>� � uma Hasselblad! Ele tamb�m estava com uma m�quina fotogr�fica.</p><p>Repassaram as fotos mais uma vez. Greger era visto em v�rias, mas em geral encoberto. Numa das fotos, via-se claramente que ele tinha uma caixa quadrada na m�o.</p><p>� Acho que voc� est� certo. � uma m�quina fotogr�fica.</p><p>� O que significa que podemos nos lan�ar a uma outra ca�a �s fotos.</p><p>� Vamos deixar isso pra l� por enquanto � disse Lisbeth Salander. � Posso levantar uma hip�tese?</p><p>� Diga.</p><p>� O que acha disto: algu�m da jovem gera��o descobre que algu�m da velha gera��o era um assassino serial, mas n�o quer que ningu�m saiba. A honra da fam�lia, et cetera e tal. Isso significaria que existem duas pessoas envolvidas na hist�ria, mas que n�o agem juntas. O assassino pode estar morto h� muito tempo, enquanto o nosso perseguidor quer simplesmente que a gente abandone o caso e saia daqui.</p><p>� Tamb�m pensei nisso � disse Mikael. � Mas, nesse caso, por que p�r um gato esquartejado na nossa porta? � uma refer�ncia direta aos assassinatos. � Mikael tocou a B�blia de Harriet. � Mais uma par�dia das leis sobre os sacrif�cios por imola��o.</p><p>Lisbeth Salander inclinou-se para tr�s e olhou a igreja enquanto citava a B�blia com ar pensativo. Parecia falar sozinha.</p><p>� <emphasis>"Depois imolar� o novilho diante do Senhor, e os sacerdotes, filhos de Aar�o, oferecer�o o sangue e o derramar�o ao redor sobre o altar que est� � entrada da Tenda da Reuni�o. Depois esfolar� a v�tima e a cortar� em peda�os."</emphasis></p><p>Ela se calou e de repente percebeu que Mikael a olhava com o rosto tenso. Ele abriu a B�blia no in�cio do <emphasis>Lev�tico.</emphasis></p><p>� Conhece o vers�culo 12 tamb�m? Lisbeth permaneceu calada.</p><p>� A seguir... � come�ou Mikael, balan�ando a cabe�a para estimul�-la a continuar.</p><p>� "A <emphasis>seguir a v�tima ser� cortada em peda�os, com a cabe�a e a gordura, que o sacerdote dispor� sobre a lenha colocada no fogo do altar."</emphasis> A voz dela estava gelada.</p><p>� E o seguinte?</p><p>Ela se levantou de repente.</p><p>� Lisbeth, voc� tem mem�ria fotogr�fica! � exclamou Mikael, estupefato. � � por isso que l� as p�ginas do inqu�rito em segundos.</p><p>A rea��o dela foi quase explosiva. Fulminou Mikael com tanta raiva no olhar que ele ficou perplexo. Depois, os olhos de Lisbeth se encheram de desespero; virou-se e saiu correndo em dire��o ao port�o do jardim.</p><p>� Lisbeth! � chamou Mikael, completamente at�nito.</p><p>Ela desapareceu na estrada.</p><empty-line/><p><strong><emphasis>* * *</emphasis></strong></p><p>Mikael levou o computador para dentro de casa, ativou o alarme e trancou a porta antes de sair atr�s de Lisbeth. Encontrou-a vinte minutos depois sentada num pont�o do porto de recreio molhando os p�s na �gua e fumando um cigarro. Lisbeth o ouviu chegar e ele percebeu os ombros dela se enrijecerem um pouco. Deteve-se a dois metros de onde ela estava.</p><p>� N�o sei o que fiz de mal, mas n�o tive a inten��o de deix�-la nesse estado.</p><p>Ela n�o respondeu.</p><p>Ele se aproximou, sentou-se ao lado dela e p�s docemente a m�o sobre o seu ombro.</p><p>� Por favor, Lisbeth, fale comigo. Ela virou a cabe�a e olhou para ele.</p><p>� N�o h� nada a dizer. Sou um monstro, s� isso.</p><p>� Eu ficaria feliz se tivesse a metade da sua mem�ria. Ela jogou o toco de cigarro na �gua.</p><p>Mikael permaneceu um bom tempo em sil�ncio. <emphasis>Que devo dizer? Voc� � uma menina perfeitamente normal. E qual � o problema se for um pouco diferente? Por que essa auto-imagem te perturba?</emphasis></p><p>� Percebi que voc� � diferente das outras mulheres desde o primeiro instante em que eu te vi � ele falou. � E vou dizer uma coisa: fazia muito tempo que eu n�o gostava naturalmente de algu�m assim desde o primeiro instante.</p><p>Crian�as sa�ram de uma cabana em frente ao porto e se atiraram na �gua. Eugen Norman, o artista pintor com quem Mikael ainda n�o trocara uma s� palavra, estava sentado numa cadeira diante de sua casa, fumando um cachimbo e observando Mikael e Lisbeth.</p><p>� Tenho vontade de ser seu amigo, se me quiser como amigo � disse Mikael. � Mas cabe a voc� decidir. Vou para casa preparar um caf�. Volte quando tiver vontade.</p><p>Levantou-se e a deixou tranquila. Estava na metade do caminho, na subida, quando ouviu os passos dela �s suas costas. Voltaram juntos em sil�ncio.</p><p>Ela se deteve no momento em que chegavam em frente � casa.</p><p>� Eu estava pensando... dissemos que tudo � uma par�dia da B�blia. Certo. Ele cortou em peda�os um gato, mas imagino que n�o era f�cil achar um novilho. De todo modo, est� seguindo o enredo b�sico. Eu me pergunto...</p><p>Ela levantou os olhos para a igreja.</p><p>� <emphasis>"...os sacerdotes oferecer�o o sangue e o derramar�o ao redor sobre o altar que est� � entrada da Tenda da Reuni�o..."</emphasis></p><p>Atravessaram a ponte e subiram em dire��o � igreja, olhando ao redor. Mikael verificou a porta da igreja: trancada. Continuaram andando mais um pouco, olhando ao acaso os t�mulos do cemit�rio, at� chegar � capela situada � beira d'agua. Mikael arregalou os olhos. N�o era uma capela, era um jazigo. Acima da porta podia-se ler gravado na pedra o nome Vanger, seguido de uma frase em latim que ele n�o soube decifrar.</p><p>� <emphasis>"Para repousar at� o fim dos tempos"</emphasis> � disse Lisbeth. Mikael olhou-a admirado. Ela encolheu os ombros.</p><p>� J� li essa frase em algum lugar � disse.</p><p>Mikael deu uma risada. Ela ficou r�gida e a princ�pio pareceu furiosa, mas logo relaxou ao perceber que ele n�o tinha zombado dela. A situa��o � que era c�mica.</p><p>Mikael verificou a porta. Trancada. Ele refletiu um instante e disse a Lisbeth para sentar-se ali e esperar. Foi bater � porta de Henrik, e Anna Nygren veio abrir. Explicou que queria conhecer a capela mortu�ria da fam�lia Vanger e perguntou onde Henrik guardava a chave. Anna pareceu hesitar, mas cedeu quando Mikael lembrou a ela que trabalhava diretamente para Henrik. Ela foi buscar a chave no gabinete.</p><p>No momento em que Mikael e Lisbeth abriram a porta, viram que estavam certos. O fedor de cad�ver queimado e de restos carbonizados pairava, pesado, no ar. Mas o torturador do gato n�o acendera o fogo. Num canto havia um ma�arico semelhante ao usado pelos esquiadores para derreter a cera dos esquis. Lisbeth pegou a m�quina digital do bolso da saia jeans e tirou algumas fotos. Pegou tamb�m o ma�arico.</p><p>� Pode ser uma prova. Talvez tenha deixado impress�es digitais � ela disse.</p><p>� Claro, podemos pedir a todos os membros da fam�lia Vanger que nos forne�am suas impress�es digitais � ironizou Mikael. � Gostaria de v�-la tentando obter as de Isabella.</p><p>� Existem meios � retrucou Lisbeth.</p><p>No ch�o havia sangue em abund�ncia e uma tesoura de latoeiro que eles deduziram ter servido para cortar a cabe�a do gato.</p><p>Mikael olhou ao redor. Um t�mulo principal, mais elevado, era certamente o de Alexander Vangeersad; outros quatro, no ch�o, abrigavam os ancestrais da fam�lia. Depois deles, a fam�lia Vanger optara, aparentemente, pela crema��o. Uns trinta pequenos nichos de parede traziam nomes de membros do cl�. Mikael seguiu a hist�ria familiar na ordem cronol�gica e perguntou-se onde estariam enterrados os membros que n�o tinham lugar na capela � os que talvez n�o fossem considerados suficientemente importantes.</p><p>� Agora temos certeza � disse Mikael, quando atravessaram de volta a ponte. � Estamos atr�s de um louco furioso.</p><p>� Explique.</p><p>Mikael parou no meio da ponte e se apoiou na amurada.</p><p>� Se fosse um doido comum que quisesse nos amedrontar, teria matado o gato na sua garagem ou no bosque. Mas ele foi � capela da fam�lia. H� algo de compulsivo nisso. Imagine o risco que correu. � ver�o e as pessoas andam por a� at� tarde. O caminho do cemit�rio � um atalho muito usado pelos habitantes de Hedeby. Mesmo que o sujeito tenha fechado a porta, n�o � f�cil calar um gato e evitar o cheiro de queimado.</p><p>� Quem?</p><p>� N�o consigo imaginar Cecilia indo l� � noite com um ma�arico. Lisbeth encolheu os ombros.</p><p>� N�o confio em nenhum desses doidos, nem mesmo em Frode e no seu amigo Henrik. Toda essa gente � capaz de enrolar voc�. Que vamos fazer agora?</p><p>Houve um momento de sil�ncio. Mikael disse ent�o:</p><p>� Consegui descobrir muitos segredos a seu respeito. Quantas pessoas sabem que voc� � uma <emphasis>hacker?</emphasis></p><p>� Ningu�m.</p><p>� Exceto eu, quer dizer.</p><p>� Aonde voc� quer chegar?</p><p>� Quero saber se est� comigo. Se confia em mim.</p><p>Ela o olhou por um bom tempo. Acabou encolhendo novamente os ombros.</p><p>� N�o sei o que responder.</p><p>� Confia em mim? � insistiu Mikael.</p><p>� At� agora, sim � ela respondeu.</p><p>� Bem. Vamos fazer um pequeno passeio at� a casa de Dirch Frode.</p><empty-line/><p>Sorrindo educadamente, a mulher do advogado Frode, que n�o conhecia Lisbeth Salander, arregalou os olhos quando a viu. Indicou-lhes o jardim nos fundos da casa. O rosto de Frode iluminou-se ao ver Lisbeth. Ele se levantou e a saudou com cortesia.</p><p>� Estou feliz de v�-la � disse. � Estava me sentindo culpado de n�o ter expressado suficientemente minha gratid�o pelo trabalho extraordin�rio que fez para n�s. Tanto no �ltimo inverno quanto agora.</p><p>Lisbeth o encarou desconfiada.</p><p>� Fui paga para isso � disse.</p><p>� N�o foi isso que eu quis dizer. Julguei-a mal quando a vi pela primeira vez. Gostaria de me desculpar.</p><p>Mikael ficou surpreso. Dirch Frode era capaz de pedir desculpas a uma jovem de vinte e cinco anos coberta de <emphasis>piercings</emphasis> e tatuagens, por algo de que nem precisava se desculpar. O advogado subiu alguns pontos na estima de Mikael. Lisbeth Salander olhava para a frente e o ignorava.</p><p>Frode voltou-se para Mikael.</p><p>� O que aconteceu na sua testa?</p><p>Sentaram-se. Mikael resumiu os acontecimentos dos �ltimos dias. Quando contou que algu�m havia disparado tr�s tiros contra ele, Frode ergueu-se bruscamente. Sua indigna��o parecia incontest�vel.</p><p>� Mas isso � uma loucura! � Fez uma pausa e olhou fixamente para Mikael. � Sinto muito, mas temos que parar. N�o posso colocar a vida de voc�s em perigo. Preciso falar com Henrik e anular o contrato.</p><p>� Sente-se � disse Mikael.</p><p>� Voc� n�o entende...</p><p>� O que eu entendo � que Lisbeth e eu chegamos t�o perto do alvo que quem est� por tr�s de tudo isso entrou em p�nico e come�ou a agir de maneira irracional. Lisbeth e eu gostar�amos de lhe fazer algumas perguntas. Em primeiro lugar: quantas chaves existem da capela funer�ria da fam�lia Vanger e quem possui uma?</p><p>Frode refletiu um instante.</p><p>� Na verdade, n�o sei. Eu diria que v�rios membros da fam�lia t�m acesso � capela. Sei que Henrik possui uma chave e que Isabella vai at� l� �s vezes, mas desconhe�o se ela tem sua pr�pria chave ou se usa a de Henrik.</p><p>� Certo. Voc� continua fazendo parte do conselho administrativo do grupo Vanger. Existem arquivos da empresa? Uma biblioteca ou algo semelhante, onde haja recortes de imprensa e informa��es sobre o grupo de ano em ano?</p><p>� Sim. Na sede da empresa em Hedestad.</p><p>� Precisamos ter acesso a tudo isso. H� tamb�m velhos boletins do grupo diretivo, esse tipo de material?</p><p>� Mais uma vez sou obrigado a responder que n�o sei. H� trinta anos n�o ponho os p�s no departamento de arquivos. Mas eu o porei em contato com Bodil Lindgren. Ela � a respons�vel pelo arquivamento de todos os documentos do grupo.</p><p>� Pode telefonar para ela e conseguir que Lisbeth comece a percorrer os arquivos j� a partir de hoje � tarde? Ela quer ler todos os velhos recortes de imprensa sobre o grupo Vanger. Eu disse todos, e caber� a ela julgar o que pode ter interesse.</p><p>� N�o h� problema. Algo mais?</p><p>� Sim. Greger Vanger estava com uma Hasselblad na m�o no dia do acidente da ponte. Isso significa que tamb�m pode ter tirado fotos. Onde elas foram guardadas depois da morte dele?</p><p>� O mais prov�vel � que estejam com a vi�va.</p><p>� Ser� que voc� poderia...</p><p>� Vou telefonar para Alexander e perguntar.</p><p>� E voc� quer que eu procure o qu�? � perguntou Lisbeth quando eles deixaram Frode e atravessaram a ponte para voltar � ilha.</p><p>� Recortes de imprensa e publica��es do tipo boletim do grupo empresarial. Quero que leia tudo que se relacione com as datas em que os assassinatos foram cometidos nos anos 1950 e 1960. Anote tudo o que lhe parecer um pouco estranho. Acho melhor voc� se encarregar dessa pesquisa. Pelo que percebi, sua mem�ria � melhor do que a minha.</p><p>Ela desferiu-lhe um soco muito profissional nas costelas. Cinco minutos depois, sua Kawasaki atravessava a ponte.</p><empty-line/><p>Mikael apertou a m�o de Alexander Vanger. Ele estivera viajando na maior parte do tempo da estadia de Mikael em Hedeby, que s� o avistara rapidamente. <emphasis>Ele tinha vinte anos quando Harriet desapareceu.</emphasis></p><p>� Dirch Frode disse que voc� queria ver umas fotografias antigas.</p><p>� Seu pai possu�a uma Hasselblad.</p><p>� Exato. Ela ainda existe, mas ningu�m a usa mais.</p><p>� Voc� deve estar sabendo que estou pesquisando o que aconteceu a Harriet, a pedido de Henrik.</p><p>� Foi o que entendi. H� muita gente que n�o est� gostando disso.</p><p>� � bem poss�vel. Evidentemente, n�o � obrigado a me mostrar nada.</p><p>� Ora, n�o h� problema! O que deseja ver?</p><p>� Fotos que seu pai possa ter tirado no dia do desaparecimento de Harriet.</p><p>Subiram at� o s�t�o. Alexander precisou de alguns minutos para localizar uma caixa com um monte de fotografias soltas e misturadas.</p><p>� Pode levar a caixa � disse. � Se existir alguma das que procura, deve estar a� dentro.</p><empty-line/><p>Mikael passou uma hora selecionando as fotos da caixa que Alexander lhe entregara. Para ilustrar a cr�nica familiar, a caixa continha algumas verdadeiras preciosidades, entre as quais um grande n�mero de fotografias de Greger Vanger na companhia do grande l�der nazista sueco dos anos 1940, Sven Olof Lindholm. Mikael as separou.</p><p>Encontrou v�rios envelopes com fotos que o pr�prio Greger certamente tirara e que mostravam diferentes pessoas e reuni�es de fam�lia, bem como fotos t�picas de f�rias, pesca em torrentes nas montanhas e uma viagem � It�lia com a fam�lia. Entre outros lugares, haviam visitado a torre de Pisa.</p><p>Acabou encontrando quatro fotografias do acidente do caminh�o-tanque. Embora a m�quina fosse de excelente qualidade, Greger era um p�ssimo fot�grafo. As fotos mostravam ou apenas o caminh�o, ou pessoas de costas. Somente numa delas via-se Cecilia Vanger de perfil.</p><p>Mikael escaneou as fotos, mesmo sabendo que nada de novo ofereciam. P�s tudo de volta na caixa e comeu um sandu�che enquanto refletia. Por volta das tr�s da tarde, foi ver Anna Nygren.</p><p>� Eu gostaria de saber se Henrik tem outros �lbuns de fotografias al�m dos que fazem parte das investiga��es dele sobre Harriet.</p><p>� Sim, Henrik sempre gostou de fotografia, desde jovem, que eu saiba. H� muitos �lbuns no escrit�rio dele.</p><p>� Eu poderia v�-los?</p><p>Anna Nygren hesitou. Uma coisa era dar a chave da capela funer�ria � l� quem reinava era Deus �, outra permitir que Mikael entrasse no gabinete de Henrik Vanger � o dom�nio de Deus n�o chegava at� l�. Mikael sugeriu que Anna telefonasse a Dirch Frode, se tinha d�vidas. Por fim, a contragosto, ela deixou Mikael entrar. Um metro da prateleira de baixo, junto ao ch�o, continha unicamente pastas com fotografias. Mikael sentou-se na mesa de Henrik e abriu o primeiro �lbum.</p><p>Henrik Vanger guardava todo tipo de fotografia de fam�lia. Muitas datavam de seus antepassados. As mais antigas remontavam aos anos 1870 e mostravam homens austeros e mulheres r�gidas. Havia fotos dos pais de Henrik e de outros membros da fam�lia. Numa, o pai de Henrik festejava o Dia de S�o Jo�o com amigos em Sandhamn, em 1906. Uma outra de Sandhamn mostrava Fredrik Vanger e sua mulher Ulrika na companhia do pintor Anders Zorn e do escritor Albert Engstr�m, em volta de uma mesa. Viu um Henrik Vanger adolescente, de terno, numa bicicleta. Viu o capit�o Oskar Granath que, no auge da guerra, transportara com seguran�a Henrik e sua bem-amada Edith Lobach a Karlskrona.</p><p>Anna subiu para servir-lhe uma x�cara de ch�. Ele agradeceu. Chegou aos tempos modernos e passou rapidamente por algumas fotos que mostravam Henrik na flor da idade, inaugurando f�bricas ou apertando a m�o de Tage Erlander. Uma foto do in�cio dos anos 1960 mostrava Henrik e o grande industrial e financista Marcus Wallenberg. Os dois capitalistas olhavam-se com ar carrancudo; visivelmente n�o havia uma rela��o cordial entre eles.</p><p>Seguiu folheando um pouco mais e deteve-se numa p�gina que Henrik rotulara de <emphasis>Conselho de fam�lia 1966,</emphasis> escrito a l�pis. Duas fotos coloridas mostravam homens discutindo e fumando charuto. Mikael reconheceu Henrik, Harald, Greger e os genros de Johan Vanger. Duas fotos do jantar, em que cerca de quarenta homens e mulheres estavam � mesa e olhavam para a m�quina fotogr�fica. Mikael se deu conta de que essas fotos tinham sido tiradas ap�s o drama na ponte, mas antes que soubessem do desaparecimento de Harriet. Examinou as fisionomias. Era desse jantar que ela deveria ter participado. Um daqueles homens j� sabia que ela desaparecera? As fotos, claro, n�o forneciam nenhuma resposta.</p><p>De repente, Mikael viu algo que o fez engasgar-se com o ch�. Tossiu e endireitou-se na cadeira.</p><p>Sentada num canto da mesa com um vestido claro, Cecilia Vanger sorria para a c�mera. Ao lado dela estava sentada outra mulher loura de cabelos compridos e com um vestido claro id�ntico. Eram t�o parecidas que poderiam passar por g�meas. E ent�o a pe�a do quebra-cabe�a se encaixou. N�o era Cecilia Vanger na janela de Harriet � era sua irm� Anita, dois anos mais jovem e que hoje morava em Londres.</p><p>O que foi mesmo que Lisbeth dissera? <emphasis>Cecilia Vanger aparece em muitas fotos. D� a impress�o de estar o tempo todo andando entre as pessoas.</emphasis> N�o. Eram duas mulheres diferentes e o acaso quis que nunca aparecessem juntas na mesma foto. Nas fotos em preto-e-branco tiradas de longe, pareciam id�nticas. Henrik provavelmente sempre distinguiu as irm�s, mas para Mikael e Lisbeth elas eram t�o semelhantes que pensaram numa �nica pessoa. E ningu�m lhes apontou o erro, pois nunca ocorreu a eles perguntar nada.</p><p>Mikael virou as p�ginas e sentiu os cabelos se arrepiarem na nuca. Como se uma corrente de ar gelado tivesse entrado no escrit�rio.</p><p>Eram fotografias tiradas no dia seguinte, quando as buscas de Harriet come�aram. Um jovem inspetor de pol�cia, Gustav Morell, dava instru��es a um grupo com dois policiais uniformizados e uns dez homens de botas, reunidos para a batida. Henrik Vanger vestia uma capa de chuva que descia at� os joelhos e um chap�u ingl�s de aba longa.</p><p>Bem � esquerda havia um jovem um pouco gordo, de cabelos louros n�o muito curtos. Vestia uma jaqueta escura com um tom vermelho nos ombros. A foto estava bem n�tida. Mikael reconheceu-o imediatamente � e a jaqueta �, mas, para ter certeza, pegou a foto e desceu para perguntar a Anna Nygren se ela sabia quem era.</p><p>� Sim, claro, � Martin. Devia ter uns dezoito anos nessa foto.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander percorreu, por ordem cronol�gica, as diversas not�cias divulgadas na imprensa sobre o grupo Vanger, ano ap�s ano. Come�ou em 1949 e foi avan�ando metodicamente. O problema era a imensid�o de arquivos de recortes. O grupo era mencionado na imprensa quase todos os dias durante esse per�odo � na imprensa nacional e sobretudo na local. Havia an�lises econ�micas, coment�rios dos sindicatos, not�cias de negocia��es e amea�as de greve, inaugura��es e fechamentos de f�bricas, balan�os anuais, mudan�as de diretoria, lan�amentos de novos produtos no mercado... uma quantidade enorme de informa��es. <emphasis>Clique. Clique. Clique.</emphasis> Seu c�rebro trabalhava a pleno vapor quando focalizava e absorvia a informa��o de um recorte antigo.</p><p>Esfalfava-se havia j� uma hora, quando teve uma id�ia. Dirigiu-se � respons�vel pelos arquivos, Bodil Lindgren, e perguntou se havia um quadro das implanta��es das f�bricas das empresas Vanger nos anos 1950 e 1960.</p><p>Bodil Lindgren olhou Lisbeth Salander com uma desconfian�a e uma frieza evidentes. N�o apreciava de modo algum que uma pessoa estranha tivesse sido autorizada a introduzir-se nos arquivos sagrados do grupo para examinar o que bem entendesse � ainda mais uma mo�a com aquela apar�ncia de uma anarquista de quinze anos de idade, completamente doida. Mas Dirch Frode lhe dera instru��es bem claras. Lisbeth Salander podia examinar o que quisesse. E era urgente. Bodil Lindgren foi buscar os balan�os anuais do per�odo solicitado por Lisbeth; cada balan�o trazia um mapa com os tent�culos do grupo por toda a Su�cia.</p><p>Lisbeth olhou o mapa e observou que o grupo tinha in�meras f�bricas, escrit�rios e pontos de venda. Constatou que em cada localidade onde um assassinato fora cometido havia igualmente um ponto vermelho, ou v�rios, indicando a presen�a do grupo Vanger.</p><p>Encontrou a primeira liga��o em 1957. Rakel Lunde, em Landskrona, fora encontrada morta um dia depois de a sociedade V. &amp; C. Constru��es arrebatar uma grande encomenda de v�rios milh�es de coroas para a constru��o de um novo centro comercial na regi�o. V. &amp; C. significava Vanger &amp; Carlen Constru��es e fazia parte do grupo Vanger. O jornal local havia entrevistado Gottfried Vanger, que fora assinar o contrato.</p><p>Lisbeth lembrou-se de uma coisa que lera no inqu�rito policial nos arquivos do condado de Landskrona. Rakel Lunde, cartomante nas horas vagas, era faxineira. Havia trabalhado na V. <emphasis>&amp;</emphasis> C. Constru��es.</p><empty-line/><p>�s sete da noite, Mikael chamou Lisbeth umas dez vezes e constatou que seu celular estava desligado. Ela n�o queria ser interrompida enquanto vasculhava os arquivos.</p><p>Ele andava de um lado para o outro na casa. Havia retornado �s anota��es de Henrik sobre o que Martin Vanger fazia na �poca do desaparecimento de Harriet.</p><p>Martin Vanger cursava o �ltimo ano do colegial em Uppsala, em 1966. <emphasis>Uppsala. Lena Andersson, colegial de dezessete anos. A cabe�a separada da gordura.</emphasis></p><p>Henrik mencionara a certa altura � mas Mikael precisou consultar suas anota��es para encontrar a passagem � que Martin fora um rapaz fechado. As pessoas preocupavam-se com ele. Quando o pai morreu afogado, sua m�e, Isabella, decidiu envi�-lo a Uppsala � uma mudan�a de ambiente, e ele foi acolhido por Harald Vanger. <emphasis>Harald e Martin?</emphasis> N�o combinava.</p><p>N�o havia lugar no carro para Martin Vanger ir � reuni�o de fam�lia em Hedestad. Ele perdeu o trem e s� chegou � tarde; foi um dos que estavam retidos no outro lado da ponte na hora do acidente. S� conseguiu chegar � ilha por volta das seis, de barco. Foi recebido, entre outros, pelo pr�prio Henrik Vanger. Por causa disso, Henrik colocou-o bem embaixo na lista dos que podiam ter alguma rela��o com o desaparecimento de Harriet.</p><p>Martin Vanger afirmou n�o ter encontrado Harriet naquele dia. Ele mentia. Chegou a Hedestad mais cedo e foi visto pela irm� na rua da Esta��o. Mikael podia refutar sua mentira com fotos que haviam ficado enterradas durante quase quarenta anos.</p><p>Harriet Vanger viu o irm�o e isso a chocou. Ela voltou � ilha e tentou falar com Henrik Vanger, por�m desapareceu antes que a conversa ocorresse. O <emphasis>que pretendia contar? Uppsala? Mas Lena Andersson, Uppsala, n�o estava na sua lista. Voc� n�o estava sabendo.</emphasis></p><p>A hist�ria ainda n�o fazia sentido para Mikael. Harriet desapareceu por volta das tr�s da tarde. Havia provas de que Martin estava do outro lado da ponte nessa hora. Ele � visto em fotografias tiradas do p�tio da igreja. Era imposs�vel que pudesse ter feito mal a Harriet na ilha. Faltava ainda uma pe�a do quebra-cabe�a. <emphasis>Um c�mplice ent�o? Anita Vanger?</emphasis></p><empty-line/><p>Os arquivos permitiram a Lisbeth constatar que a posi��o de Gottfried Vanger no grupo havia mudado ao longo dos anos. Ele nascera em 1927. Aos vinte anos, conheceu Isabella e logo a engravidou. Martin Vanger nasceu em 1948 e os dois jovens n�o tiveram outra sa�da sen�o casar.</p><p>Gottfried tinha vinte e dois anos quando Henrik o introduziu no escrit�rio central do grupo. Era muito talentoso e come�avam a consider�-lo um futuro l�der. Aos vinte e cinco anos, assegurou um lugar na dire��o, como diretor adjunto da �rea de desenvolvimento de empresas. Uma estrela em ascens�o.</p><p>Em determinado momento, em meados dos anos 1950, sua carreira se interrompeu. <emphasis>Passou a beber. O casamento com Isabella se deteriorava. Os filhos, Martin e Harriet, padeciam com isso. Henrik deu um basta.</emphasis> A carreira de Gottfried atingira seu ponto culminante. Em 1956, outro cargo de diretor adjunto de desenvolvimento foi criado. Dois diretores adjuntos � um que trabalhava e outro que bebia e permanecia ausente por longos per�odos.</p><p>Mas Gottfried continuava sendo um Vanger, al�m disso charmoso e bem-falante. De 1957 em diante, sua miss�o parecia ter sido percorrer o pa�s para inaugurar f�bricas, resolver conflitos locais e mostrar a todos que a dire��o do grupo levava a s�rio os problemas e se preocupava. <emphasis>Enviamos um de nossos filhos para escutar as queixas de voc�s.</emphasis></p><p>Ela descobriu a segunda liga��o por volta das seis e meia da tarde. Gottfried havia participado de negocia��es em Karlstad, onde o grupo Vanger adquirira uma empresa de madeiras para constru��o. No dia seguinte, a propriet�ria rural Magda Lovisa Sj�berg foi encontrada assassinada.</p><p>A terceira liga��o foi descoberta quinze minutos depois. Uddevalla, 1962. No mesmo dia em que Lea Persson desapareceu, o jornal local entrevistava Gottfried acerca de uma poss�vel extens�o do porto.</p><p>Tr�s horas depois, Lisbeth Salander constatava que Gottfried Vanger, pelo menos em cinco dos oito crimes, estivera nas localidades nos dias que antecediam ou sucediam ao acontecimento. N�o obteve nenhuma informa��o sobre os assassinatos de 1949 e 1954. Examinou uma foto dele num recorte de imprensa. Um homem magro de cabelos castanhos; lembrava um pouco Clark Gable em ...E o <emphasis>vento levou.</emphasis></p><p>Em 1949, Gottfried tinha vinte e dois anos. O primeiro crime ocorreu em terreno conhecido, Hedestad. Rebecka Jacobsson, empregada de escrit�rio do grupo Vanger. Onde se encontraram? O que teria prometido a ela?</p><p>Quando Bodil Lindgren quis fechar o local e voltar para casa �s sete, Lisbeth lhe respondeu secamente que n�o havia terminado. Que fosse embora e deixasse uma chave; ela fecharia tudo ao sair. A respons�vel pelos arquivos ficou t�o irritada com o fato de uma mo�a se achar no direito de lhe dar ordens, que telefonou a Dirch Frode para pedir instru��es. Frode decidiu prontamente que Lisbeth podia ficar a noite toda, se julgasse necess�rio. A srta. Lindgren poderia fazer a gentileza de avisar o guarda do escrit�rio para que a acompanhasse no momento em que ela quisesse sair?</p><p>Lisbeth Salander mordeu o l�bio inferior. O problema, evidentemente, era que Gottfried se afogara numa noite de bebedeira em 1965, enquanto o �ltimo crime ocorrera em Uppsala em fevereiro de 1966. Teria cometido um engano ao incluir a colegial de dezessete anos, Lena Andersson, na lista? <emphasis>N�o. A assinatura n�o era exatamente a mesma, por�m a par�dia b�blica era id�ntica. Havia com certeza uma liga��o.</emphasis></p><empty-line/><p>Nove da noite, anoitecia. O ar estava mais fresco e uma chuva mi�da come�ou a cair. Mikael estava sentado na cozinha, tamborilando na mesa com os dedos, quando o Volvo de Martin Vanger atravessou a ponte e desapareceu em dire��o ao promont�rio. De certo modo, as coisas estavam caminhando r�pido.</p><p>Mikael n�o sabia como agir. Todo o seu corpo ardia de vontade de fazer perguntas � de confrontar. Uma atitude certamente pouco razo�vel, se suspeitava que Martin Vanger era um louco que assassinara a irm� e uma jovem em Uppsala, al�m de haver tentado matar o pr�prio Mikael. Mas Martin Vanger funcionava tamb�m como um �m�. E ele n�o sabia que Mikael sabia. Mikael podia perfeitamente passar na casa dele com um pretexto... digamos, devolver a chave da cabana de Gottfried? Mikael trancou a porta e dirigiu-se ao promont�rio.</p><p>A casa de Harald Vanger estava, como de h�bito, mergulhada na mais completa escurid�o. Tamb�m n�o havia luzes na casa de Henrik, com exce��o de um quarto que dava para o p�tio. Anna fora deitar-se. A casa de Isabella, �s escuras. Cecilia n�o estava em casa. Havia luzes no primeiro andar da casa de Alexander Vanger, mas elas estavam apagadas nas duas casas habitadas por pessoas que n�o pertenciam � fam�lia Vanger. Ele n�o avistou ningu�m.</p><p>Hesitante, deteve-se diante da casa de Martin Vanger, pegou o celular e digitou o n�mero de Lisbeth Salander. Continuava n�o atendendo. Desligou o celular para evitar que tocasse.</p><p>Luzes estavam acesas no andar de baixo. Mikael atravessou a relva e parou a alguns metros da janela da cozinha, por�m n�o viu nenhum movimento. Contornou a casa detendo-se diante de cada janela, mas n�o via Martin Vanger. Contudo, percebeu que a porta lateral da garagem estava entreaberta. <emphasis>N�o v� fazer uma besteira agora.</emphasis> Mas n�o resistiu � tenta��o de dar uma espiada r�pida.</p><p>A primeira coisa que viu, numa bancada de marceneiro, foi uma caixa aberta com muni��o para rifle de ca�a. A seguir, viu dois gal�es de gasolina no ch�o, embaixo da bancada. Est� <emphasis>preparando outra visita noturna, Martin?</emphasis></p><p>� Entre, Mikael. Vi voc� na estrada.</p><p>O cora��o de Mikael parou. Ele virou lentamente a cabe�a e viu Martin Vanger na penumbra de uma porta que levava ao interior da casa.</p><p>� N�o conseguiu se conter, precisava vir at� aqui, n�o � mesmo? A voz era calma, quase amistosa.</p><p>� Oi, Martin � respondeu Mikael.</p><p>� Entre � repetiu Martin. � Por aqui.</p><p>Deu um passo para o lado e estendeu a m�o esquerda num gesto convidativo. Levantou a m�o direita e Mikael viu um reflexo de metal fosco.</p><p>� Para a sua informa��o, � uma Glock. N�o fa�a besteira. A essa dist�ncia eu n�o costumo errar o alvo.</p><p>Mikael se aproximou devagar. Quando estava bem perto de Martin Vanger, parou e o olhou nos olhos.</p><p>� Eu precisava vir. Tenho uma por��o de perguntas a lhe fazer.</p><p>� Entendo. Pela porta, venha.</p><p>Mikael entrou lentamente na casa. A passagem conduzia ao vest�bulo e depois � cozinha, mas antes de chegar l� Martin o deteve pondo de leve a m�o em seu ombro.</p><p>� N�o, na cozinha n�o. Entre � direita. Abra a porta ao lado.</p><p>O por�o. Mikael havia descido metade da escada quando Martin girou um interruptor e as luzes se acenderam. A direita ficava a caldeira. A sua frente, sentiu o cheiro da lavanderia. Martin Vanger o conduziu � esquerda, a um pequeno quarto com velhos m�veis e pastas. Bem ao fundo havia outra porta. Uma porta blindada de a�o com uma fechadura de seguran�a.</p><p>� Tome � disse Martin, jogando um molho de chaves para Mikael. � Abra.</p><p>Mikael abriu a porta.</p><p>� H� um interruptor � esquerda. Mikael acabava de abrir a porta do inferno.</p><empty-line/><p>Por volta das nove da noite, Lisbeth foi buscar um caf� e um sandu�che numa m�quina autom�tica que havia no corredor dos arquivos. Continuou a folhear velhos documentos, tentando encontrar algum sinal de Gottfried Vanger em Kalmar, em 1954. N�o encontrou nada.</p><p>Pensou em ligar para Mikael, mas antes de ir embora decidiu dar uma olhada tamb�m nos boletins de diretoria; ent�o seria o suficiente para essa noite.</p><empty-line/><p>A pe�a media cerca de cinco metros por dez. Mikael calculou que, geograficamente, ela ficava no lado norte da casa.</p><p>Martin Vanger montara com capricho sua c�mara de tortura particular. A esquerda, correntes, argolas de metal no teto e no ch�o, uma mesa com correias de couro onde podia amarrar suas v�timas. Havia tamb�m um equipamento de v�deo. E um est�dio de grava��o. No fundo da pe�a via-se uma jaula de a�o onde seus h�spedes podiam ficar aprisionados por longos per�odos. A direita da porta, uma cama e um aparelho de tev�. Numa prateleira, Mikael viu uma grande quantidade de videocassetes.</p><p>Assim que entraram, Martin Vanger apontou a pistola para Mikael e ordenou que se deitasse de bru�os no ch�o. Mikael se recusou.</p><p>� Como quiser � disse Martin. � Nesse caso, vou dar um tiro no seu joelho.</p><p>Apontou a arma. Mikael capitulou, n�o tinha escolha.</p><p>Ele havia esperado que Martin se descuidasse por um d�cimo de segundo � sabia que numa luta corporal o venceria. Houvera uma pequena oportunidade no corredor, no momento em que Martin p�s a m�o em seu ombro, mas ele hesitou. Depois Martin n�o voltou a se aproximar. Sem r�tula, ele n�o teria a menor chance. Assim, estendeu-se no ch�o.</p><p>Martin aproximou-se por tr�s e mandou Mikael p�r as m�os nas costas. Imobilizou-as com algemas. Come�ou ent�o a lhe dar pontap�s na virilha e a lhe desferir socos violentos.</p><p>O que se passou a seguir foi como um pesadelo. Martin Vanger oscilava entre a racionalidade e a loucura. Em alguns momentos parecia calmo. No instante seguinte, come�ava a andar de um lado para o outro do por�o como uma fera enjaulada, voltando a chutar Mikael. Tudo que ele conseguiu fazer foi tentar proteger a cabe�a e receber os golpes em outras partes do corpo, que, depois de alguns minutos, apresentavam diversos ferimentos.</p><p>Durante a primeira meia hora, Martin n�o disse uma s� palavra e permaneceu insens�vel a tudo o que Mikael dissesse. Depois pareceu se acalmar. Foi buscar uma corrente, passou-a em volta do pesco�o de Mikael, fixou-a a uma argola no ch�o e depois fechou com um cadeado. Deixou Mikael sozinho por quinze minutos. Ao retornar, trazia uma garrafa pl�stica com �gua. Sentou-se numa cadeira e contemplou Mikael enquanto bebia.</p><p>� Posso beber um pouco de �gua? � perguntou Mikael.</p><p>Martin Vanger inclinou-se e p�s a garrafa na boca de Mikael. Ele bebeu sofregamente.</p><p>� Obrigado.</p><p>� Sempre bem-educado, Super-Blomkvist.</p><p>� Por que todos esses chutes? � perguntou Mikael.</p><p>� Porque me deixou muito zangado e merece ser punido. Por que simplesmente n�o voltou para a sua casa? Precisavam de voc� na <emphasis>Millennium.</emphasis> Falo s�rio, poder�amos ter feito dela uma grande revista. Poder�amos ter trabalhado juntos por muitos anos.</p><p>Mikael fez uma careta e procurou acomodar o corpo numa posi��o confort�vel. Estava sem defesa. S� lhe restava a voz.</p><p>� Imagino que esteja querendo dizer que a ocasi�o j� passou � disse Mikael.</p><p>Martin Vanger riu.</p><p>� Sinto muito, Mikael. Sim, voc� entendeu bem: voc� n�o vai sair vivo daqui.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Mas como fizeram para me desmascarar, voc� e aquela m�mia anor�xica que se envolveu na hist�ria?</p><p>� Voc� mentiu sobre o que fez no dia em que Harriet desapareceu. Posso provar que estava em Hedestad no desfile da Festa das Crian�as. Foi fotografado olhando para Harriet.</p><p>� Por isso voc� foi a Norsj�?</p><p>� Sim, para buscar essa foto. Foi tirada por um casal que estava por acaso em Hedestad. Apenas de passagem.</p><p>Martin Vanger balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o, voc� est� tentando me enganar � disse.</p><p>Mikael refletia intensamente no que poderia dizer para impedir, ou ao menos retardar, sua morte.</p><p>� Onde est� essa foto agora?</p><p>� O negativo? No meu cofre no Handelsbank, aqui em Hedestad... N�o sabia que tenho um cofre no banco? � Ele mentia com desenvoltura. � As c�pias est�o em v�rios lugares: no meu computador e no de Lisbeth, no servidor de imagens da <emphasis>Millennium</emphasis> e no da Milton Security, onde Lisbeth trabalha.</p><p>Martin Vanger calou-se por um momento, tentando descobrir se Mikael blefava ou n�o.</p><p>� O que ela sabe, a m�mia Salander?</p><p>Mikael hesitou. Por enquanto, Lisbeth era sua �nica esperan�a de salva��o. O que ela faria ao voltar para casa e descobrir que ele n�o estava? Ele deixara a foto de Martin vestido com sua jaqueta na mesa da cozinha. Ela faria a liga��o? Dispararia o alarme? <emphasis>Ela n�o � do tipo que chama a pol�cia.</emphasis> O pesadelo seria se ela fosse � casa de Martin e batesse � porta para tentar saber onde Mikael estava.</p><p>� Responda � disse Martin com uma voz gelada.</p><p>� Acho que Lisbeth sabe o mesmo que eu, talvez at� mais. Eu diria que ela sabe mais que eu, � muito esperta. Foi ela quem fez a liga��o com Lena Andersson.</p><p>� Lena Andersson? � Martin Vanger pareceu perplexo.</p><p>� A adolescente que voc� torturou at� a morte em Uppsala, em fevereiro de 1966. N�o me diga que se esqueceu dela.</p><p>Pela primeira vez o olhar de Martin Vanger deixou transparecer o quanto ele estava perturbado. Ele n�o imaginava que algu�m pudesse fazer essa liga��o � Lena Andersson n�o constava na agenda telef�nica de Harriet.</p><p>� Martin � disse Mikael com a voz mais calma poss�vel. � Acabou, Martin. Voc� pode me matar, mas acabou. Muita gente est� sabendo, e desta vez voc� ser� pego.</p><p>Martin Vanger ergueu-se rapidamente e come�ou a andar de um lado para o outro. De repente desferiu um murro na parede.</p><p><emphasis>Preciso me lembrar de que ele � irracional. O gato. Poderia ter trucidado o gato aqui, mas o levou � capela da fam�lia. Ele n�o age de maneira racional.</emphasis></p><p>Martin Vanger deteve-se.</p><p>� Acho que voc� est� mentindo. S� voc� e Salander est�o sabendo. N�o falaram para mais ningu�m. Sen�o a pol�cia j� teria aparecido. Um bom inc�ndio na casa dos convidados e as provas v�o virar fuma�a.</p><p>� E se voc� estiver enganado? Ele sorriu.</p><p>� Se eu estiver enganado, ent�o de fato acabou. Mas n�o acredito nisso. Aposto que voc� est� blefando. Que outra escolha me resta? � Ele refletiu. � � essa putinha anor�xica que est� me atrapalhando. Preciso encontr�-la.</p><p>� Ela foi para Estocolmo ao meio-dia. Martin Vanger deu uma risada.</p><p>� � mesmo? Ent�o por que passou a tarde nos arquivos do grupo Vanger?</p><p>O cora��o de Mikael saltou no peito. <emphasis>Ele sabia. Sabia desde o in�cio.</emphasis></p><p>� � verdade. Ela primeiro ia passar nos arquivos e depois seguir para Estocolmo � respondeu Mikael o mais calmamente que p�de. � Eu n�o sabia que ia ficar tanto tempo l�.</p><p>� Cale-se. A respons�vel pelos arquivos me contou que Dirch Frode a autorizou a deixar Salander ficar l� at� tarde, se ela quisesse. Isso significa que ela voltar� a qualquer momento esta noite. O guarda me avisar� assim que ela deixar o escrit�rio.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>IV.�</strong><strong><emphasis>TAKEOVER</emphasis></strong><strong>HOSTIL � 11 DE JULHO A 30 DE DEZEMBRO</strong></p><empty-line/><p><emphasis>Na Su�cia, 92% das mulheres que sofreram viol�ncias sexuais ap�s uma agress�o n�o apresentaram queixa a pol�cia.</emphasis></p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>24.� SEXTA-FEIRA 11 DE JULHO � S�BADO 12 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Martin Vanger se abaixou para vasculhar os bolsos de Mikael e pegou as chaves.</p><p>� Esperteza sua trocar a fechadura. Vou me encarregar da sua namorada quando ela voltar.</p><p>Mikael n�o respondeu. Lembrou-se que Martin Vanger era um negociador com experi�ncia em muitas batalhas industriais. Sabia quando estavam blefando com ele.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Por que o qu�?</p><p>� Por que tudo isto? � Mikael tentou indicar a pe�a com um gesto de cabe�a.</p><p>Martin Vanger se abaixou, p�s a m�o sob o queixo de Mikael e ergueu-lhe a cabe�a para que seus olhares se cruzassem.</p><p>� Porque � muito f�cil � disse. � Mulheres desaparecem o tempo todo. Elas n�o fazem falta a ningu�m. Imigrantes, prostitutas russas. Milhares de pessoas passam pela Su�cia todos os anos.</p><p>Soltou a cabe�a de Mikael e levantou-se, quase orgulhoso de poder esclarecer seu visitante.</p><p>As palavras de Martin atingiram Mikael como uma bofetada. <emphasis>Meu Deus, ent�o n�o se trata de um enigma hist�rico. Martin Vanger mata mulheres at� hoje. E eu, como um idiota, me lancei em...</emphasis></p><p>� N�o tenho nenhuma convidada no momento. Mas talvez voc� ache divertido saber que no inverno passado e na primavera, enquanto voc� e Henrik quebravam a cabe�a com suas hist�rias, eu tinha uma mulher aqui. Chamava-se Irina e era da Bielo-R�ssia. No dia em que voc� veio jantar comigo, ela estava presa aqui na jaula. Foi uma noitada agrad�vel, n�o foi?</p><p>Martin Vanger sentou em cima da mesa e deixou pender as pernas. Mikael fechou os olhos. Sentiu regurgita��es �cidas na garganta e engoliu v�rias vezes.</p><p>� O que faz com os corpos?</p><p>� Meu barco est� amarrado no pont�o logo abaixo. Levo-as para longe, ao largo. Ao contr�rio do meu pai, n�o deixo vest�gios. Mas ele tamb�m era esperto. Suas v�timas se espalhavam por toda a Su�cia.</p><p>As pe�as do quebra-cabe�a come�avam a se juntar na mente de Mikael. <emphasis>Gottfried Vanger. De</emphasis> 1949 <emphasis>a</emphasis> 1965<emphasis>. Martin Vanger a partir de</emphasis> 1966<emphasis>, em Uppsala.</emphasis></p><p>� Voc� admirava seu pai.</p><p>� Foi ele quem me ensinou. Fui iniciado aos catorze anos.</p><p>� Uddevalla. Lea Persson.</p><p>� Isso mesmo, eu estava l�. Fui apenas um espectador, mas estava l�.</p><p>� Em 1964, Sara Witt, em Ronneby.</p><p>� Eu tinha dezesseis anos. Foi a primeira vez que tive uma mulher para mim. Gottfried me ensinou. Fui eu que a estrangulei.</p><p><emphasis>Ele se orgulha! Meu Deus, que fam�lia de psicopatas!</emphasis></p><p>� N�o percebe que � patol�gico?</p><p>Martin Vanger encolheu ligeiramente os ombros.</p><p>� Voc� n�o entende que sensa��o divina � ter o controle absoluto sobre a vida e a morte de algu�m.</p><p>� O prazer de torturar e matar mulheres...</p><p>O industrial refletiu um instante, com o olhar fixo num ponto vazio da parede atr�s de Mikael. Depois exibiu seu sorriso charmoso.</p><p>� N�o � bem assim. Se eu fosse fazer uma an�lise racional do meu estado, eu diria que sou um estuprador serial, n�o um assassino serial. Na verdade, sou um sequestrador serial. Matar � apenas o desfecho natural, porque devo ocultar o crime, entende?</p><p>Mikael n�o soube o que responder e limitou-se a assentir com a cabe�a.</p><p>� Evidentemente meus atos n�o s�o aceit�veis pela sociedade, mas meu crime � em primeiro lugar um crime contra as conven��es sociais. A morte s� acontece no final da temporada de minhas h�spedes aqui, quando estou cansado. � sempre fascinante ver a decep��o delas.</p><p>� Decep��o? � perguntou Mikael, estupefato.</p><p>� Exatamente. <emphasis>Decep��o.</emphasis> Elas imaginam que, porque me satisfazem, v�o sobreviver. Come�am a confiar em mim e a criar uma camaradagem, e at� o final esperam que essa camaradagem signifique algo. A decep��o vem quando descobrem, de repente, que foram enganadas.</p><p>Martin deu a volta em torno da mesa e se apoiou na jaula de a�o.</p><p>� Voc�, com suas conven��es pequeno-burguesas, nunca vai entender, mas � planejar o sequestro que produz a excita��o. N�o se deve agir impulsivamente; sequestradores desse tipo sempre se d�o mal. � uma verdadeira ci�ncia, com muitos detalhes a se levar em conta. Devo identificar uma presa e catalogar toda a sua vida. Quem � ela? De onde vem? Onde peg�-la? Como fazer para estar a s�s com ela sem que meu nome apare�a num futuro inqu�rito policial?</p><p><emphasis>Chega,</emphasis> pensou Mikael. Martin Vanger falava de sequestros e assassinatos num tom quase acad�mico, um pouco como se tivesse expondo sua opini�o contr�ria numa quest�o de teologia esot�rica.</p><p>� Ser� que isso realmente te interessa, Mikael?</p><p>E inclinou-se para a frente acariciando o rosto de Mikael. O contato da m�o era suave, quase terno.</p><p>� Tenho certeza de que voc� compreende que esse caso s� pode terminar de uma maneira. Se importa que eu fume?</p><p>Mikael disse n�o com a cabe�a.</p><p>� Pode me dar um cigarro tamb�m? � perguntou Mikael.</p><p>Martin Vanger atendeu o pedido. Acendeu dois cigarros e p�s um deles entre os l�bios de Mikael, deixando-o dar uma longa tragada.</p><p>� Obrigado � disse Mikael automaticamente. Martin Vanger riu de novo.</p><p>� Veja s�, voc� j� come�ou a se adaptar ao princ�pio da submiss�o.</p><p>Tenho a sua vida em minhas m�os, Mikael. Sabe que posso mat�-lo de um momento para o outro. Suplicou que eu melhorasse sua qualidade de vida e fez isso utilizando a raz�o e as boas maneiras. Foi recompensado.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. Seu cora��o batia desordenadamente, era quase insuport�vel.</p><empty-line/><p>�s onze e quinze da noite, Lisbeth Salander bebeu um gole de �gua da sua garrafa enquanto virava as p�ginas. De repente viu algo que a fez arregalar os olhos, mas, ao contr�rio do que acontecera com Mikael naquele mesmo dia, n�o engasgou quando estabeleceu a rela��o.</p><p><emphasis>Clique!</emphasis></p><p>Durante duas horas ela percorrera boletins administrativos das v�rias empresas do grupo Vanger. A publica��o principal intitulava-se <emphasis>Informa��es do grupo Vanger</emphasis> e trazia o logotipo do grupo � uma bandeira sueca flutuando ao vento e cuja ponta formava uma flecha. A revista fora claramente concebida pelo departamento de comunica��o do grupo como ve�culo de propaganda destinado a garantir que os funcion�rios se sentissem membros de uma grande fam�lia.</p><p>Nas f�rias de inverno de fevereiro de 1967, Henrik Vanger, num gesto magn�nimo, convidara cinquenta funcion�rios da sede para passar uma semana na esta��o de esqui de H�rjedalen com suas fam�lias. Motivo do convite: o grupo obtivera resultados recordes no ano precedente e ele queria agradecer os esfor�os de todos. O departamento de comunica��o, tamb�m presente, fazia uma reportagem fotogr�fica do evento.</p><p>Havia muitas fotos das pistas de esqui com legendas divertidas. Algumas foram tiradas no bar, onde se viam homens risonhos, com o rosto marcado pelo frio, erguendo canecas de cerveja. Duas fotos de uma pequena cerim�nia matinal em que Henrik Vanger premiava, como "A Funcion�ria de Escrit�rio do Ano", uma secret�ria chamada Ulla-Britt Mogren, de quarenta e um anos. Ela recebia um pr�mio de quinhentas coroas e uma saladeira de vidro.</p><p>A entrega do pr�mio fora no terra�o do hotel, aparentemente pouco antes de as pessoas se lan�arem de novo nas pistas de esqui. Havia umas vinte pessoas na foto. A direita, logo atr�s de Henrik Vanger, achava-se um homem de cabelos compridos louros. Vestia uma jaqueta escura com um tom diferente nos ombros. Embora a foto fosse em preto-e-branco, Lisbeth Salander teve a certeza e podia apostar que era vermelho.</p><p>A legenda dizia: <emphasis>Bem � direita, Martin Vanger, 19 anos, estudante de Uppsala. J� � considerado algu�m com um futuro muito promissor na dire��o do grupo.</emphasis></p><p>� Agora te peguei, safado � disse Lisbeth Salander em voz baixa.</p><p>Ela apagou a luz da sala e deixou os boletins administrativos espalhados em cima da mesa � <emphasis>aquela cretina da Bodil Lindgren que d� um jeito nisto amanh�!</emphasis></p><p>Foi para o estacionamento por uma porta lateral. Enquanto se encaminhava para a sua moto, lembrou que havia prometido avisar o guarda quando sa�sse. Parou e olhou para o estacionamento. O guarda estava do outro lado do pr�dio. Isso significava que ela seria obrigada a retornar e dar toda a volta. <emphasis>Foda-se!</emphasis></p><p>Ao chegar � moto, pegou o celular e chamou o n�mero de Mikael. Uma voz anunciou que o aparelho n�o estava dispon�vel. Mas ela descobriu que Mikael havia tentado cham�-la treze vezes entre as tr�s e meia da tarde e �s nove da noite. Nas �ltimas duas horas ele n�o fizera chamadas.</p><p>Lisbeth digitou o n�mero do telefone fixo da casa dos convidados, mas ningu�m atendeu. Franziu o cenho, p�s a mochila com o computador nas costas, o capacete, e ligou a moto. Levou dez minutos para ir do escrit�rio Vanger, na zona industrial de Hedestad, at� a ilha. Havia luz na cozinha, por�m a casa estava vazia.</p><p>Lisbeth Salander saiu para dar uma espiada no lado externo da casa. Seu primeiro pensamento foi que Mikael fora � casa de Dirch Frode, mas da ponte constatou que as luzes da casa de Frode, na outra margem, estavam apagadas. Olhou seu rel�gio: onze e quarenta.</p><p>Voltou para casa, abriu o arm�rio e examinou os laptops que armazenavam as imagens das c�meras de seguran�a. N�o precisou mais de um momento para estabelecer a sequ�ncia dos acontecimentos.</p><p>�s 15h32, Mikael chegou em casa.</p><p>�s 16h03, saiu para beber um caf� no jardim. Levava consigo uma pasta, que examinava. Deu tr�s breves telefonemas durante a hora em que esteve no jardim. Pelo hor�rio, as tr�s chamadas correspondiam, aproximadamente, �s que ela n�o atendera.</p><p>�s 17h21, Mikael saiu. Voltou um pouco menos de quinze minutos depois.</p><p>�s 18h20, foi at� o port�o e olhou para o lado da ponte.</p><p>�s 21h03, saiu outra vez. N�o voltou mais.</p><p>Lisbeth passou rapidamente as imagens do segundo computador, que mostravam o port�o e a estrada. Ela podia ver as idas e vindas de outras pessoas durante o dia.</p><p>�s 19h12, Gunnar Nilsson chegou em sua casa.</p><p>�s 19h42, algu�m no Saab da fazenda de �stergarden partiu em dire��o a Hedestad.</p><p>�s 20h02, o carro estava de volta � uma ida at� a loja de conveni�ncias do posto de gasolina?</p><p>A seguir, nada mais at� as nove em ponto, quando o carro de Martin Vanger passou. Tr�s minutos depois, Mikael saiu de casa.</p><p>Cerca de uma hora depois, �s 21h50, Martin Vanger apareceu de repente no campo da objetiva. Ficou diante do port�o por um minuto, contemplando a casa e olhando pela janela da cozinha. Depois dirigiu-se � porta da frente, tentando abri-la com uma chave. Deve ter percebido que a fechadura fora trocada e ficou im�vel por um instante, antes de se virar e ir embora.</p><p>Lisbeth Salander sentiu, de repente, um frio na barriga.</p><empty-line/><p>Mikael fora deixado novamente sozinho por longo tempo. Estava estendido, im�vel, em sua posi��o desconfort�vel, com as m�os algemadas �s costas e o pesco�o preso � argola no ch�o por uma corrente fina. Moveu as algemas, mesmo sabendo que n�o conseguiria abri-las. Estavam t�o apertadas que ele perdera a sensibilidade nas m�os.</p><p>N�o tinha nenhuma chance. Fechou os olhos.</p><p>N�o soube dizer quanto tempo transcorreu at� ouvir de novo os passos de Martin Vanger. O empres�rio surgiu em seu campo de vis�o. Tinha um ar preocupado.</p><p>� Desconfort�vel? � ele perguntou.</p><p>� Sim � respondeu Mikael.</p><p>� � o �nico culpado por isso. Deveria ter voltado para Estocolmo.</p><p>� Por que voc� gosta de matar, Martin?</p><p>� � uma escolha que eu fiz. Poderia ficar aqui discutindo com voc� a noite toda sobre os aspectos morais e o sentido racional dos meus atos, e isso n�o alteraria em nada os fatos. Tente ver as coisas desse modo: o ser humano � um inv�lucro de pele que acondiciona c�lulas, sangue e componentes qu�micos. Algumas pessoas, raras, conservam-se nos livros de hist�ria. A grande maioria sucumbe e desaparece sem deixar sinal.</p><p>� Voc� mata mulheres.</p><p>� N�s, que matamos por prazer, pois n�o sou o �nico a me dedicar a esse passatempo, levamos uma vida de intensidade m�xima.</p><p>� Mas por que Harriet, sua pr�pria irm�?</p><p>O rosto de Martin alterou-se de repente. Num salto, aproximou-se de Mikael e o pegou pelos cabelos.</p><p>� O que aconteceu a ela?</p><p>� Que est� querendo dizer? � arquejou Mikael.</p><p>Tentou virar a cabe�a para diminuir a dor no couro cabeludo. A corrente logo se esticou em volta de seu pesco�o.</p><p>� Voc� e Salander. O que voc�s descobriram?</p><p>� Solte-me, n�o consigo falar.</p><p>Martin Vanger soltou os cabelos de Mikael e sentou-se diante dele com as pernas cruzadas. Ent�o pegou uma faca e p�s a ponta dela na pele bem debaixo do olho de Mikael, que fez um esfor�o para olhar Martin.</p><p>� O que aconteceu a ela, seu filho-da-puta?</p><p>� N�o entendo. Achei que voc� a tivesse matado.</p><p>Martin Vanger fixou Mikael por um longo momento, depois relaxou. Levantou-se e p�s-se a caminhar pelo por�o enquanto refletia. Ent�o jogou a faca no ch�o, riu e voltou-se para Mikael.</p><p>� Harriet, Harriet, sempre essa maldita Harriet. Tentamos... convenc�-la. Gottfried tentou ensin�-la. Achamos que era uma das nossas e que aceitaria seu dever, mas ela n�o passava de uma... <emphasis>putinha</emphasis> ordin�ria. Achei que a tinha sob controle, mas ela estava planejando avisar Henrik e percebi que n�o podia confiar nela. Cedo ou tarde ela falaria de mim.</p><p>� E ent�o a matou.</p><p>� Eu <emphasis>quis</emphasis> mat�-la. Tinha a <emphasis>inten��o</emphasis> de fazer isso, mas cheguei tarde demais. N�o consegui vir para a ilha.</p><p>O c�rebro de Mikael tentava assimilar a informa��o, mas era como se uma janela se abrisse e anunciasse: <emphasis>mem�ria insuficiente.</emphasis> Martin Vanger n�o sabia o que acontecera � irm�!</p><p>De repente, Martin tirou o celular do casaco, examinou a tela e o colocou sobre a cadeira ao lado da pistola.</p><p>� Chegou a hora de liquidar esse assunto. Preciso de um tempo para me encarregar tamb�m da sua companheira anor�xica ainda esta noite.</p><p>Abriu um arm�rio, tirou uma correia de couro e passou-a com um n� corredi�o em volta do pesco�o de Mikael, desatando a corrente que o prendia ao ch�o. Fez Mikael levantar-se e o empurrou contra a parede. Passou a correia por uma argola acima da cabe�a de Mikael e a esticou, obrigando-o a ficar na ponta dos p�s.</p><p>� Est� muito apertado? N�o consegue respirar? � Afrouxou um cent�metro ou dois e prendeu a ponta da correia mais abaixo na parede. � N�o quero que morra asfixiado daqui a pouco.</p><p>O la�o apertava o pesco�o de Mikael com tanta for�a que ele n�o conseguia falar. Martin Vanger o observou atentamente.</p><p>Com um gesto brusco, desatou o cinto da cal�a de Mikael e a abaixou juntamente com a cueca. Mikael perdeu o equil�brio e pendeu por um segundo no n� corredi�o, antes que os dedos do p� voltassem a tocar o ch�o. Martin Vanger foi buscar uma tesoura num m�vel. Cortou a camiseta de Mikael e jogou os retalhos no ch�o. Depois postou-se a alguma dist�ncia e contemplou sua v�tima.</p><p>� Nunca tive um homem aqui � disse Martin com uma voz grave. � Nunca toquei outro homem... a n�o ser meu pai. Era meu dever.</p><p>As t�mporas de Mikael latejavam. Ele n�o podia apoiar o peso do corpo nos p�s sem se estrangular. Tentou achar um ponto onde se segurar na parede de concreto �s suas costas, mas n�o encontrou nada.</p><p>� Chegou a hora � disse Martin Vanger.</p><p>P�s a m�o sobre a correia e a pressionou. Mikael sentiu o la�o apertar ainda mais seu pesco�o.</p><p>� Sempre quis saber qual � o gosto de um homem.</p><p>Pressionou ainda mais a correia, inclinou-se para a frente e beijou Mikael na boca, bem no momento em que uma voz cortante soou no por�o.</p><p>� Seu canalha... Voc� deveria saber que s� eu tenho o direito de fazer isso.</p><p>Mikael ouviu a voz de Lisbeth atrav�s de uma neblina vermelha. Conseguiu focalizar os olhos e a viu de p� � porta. Ela fitava Martin Vanger com um olhar inexpressivo.</p><p>� N�o... corra! � grasnou Mikael.</p><p>Ele n�o viu a express�o de Martin Vanger, mas sentiu fisicamente o choque que percorreu o corpo dele quando se virou. Por um segundo, Martin ficou im�vel, depois estendeu a m�o para alcan�ar a pistola que deixara em cima da cadeira.</p><p>Num rel�mpago, Lisbeth deu tr�s passadas e ergueu um taco de golfe que trazia escondido. O taco descreveu um amplo c�rculo no ar e atingiu Martin na clav�cula. O golpe foi fort�ssimo, Mikael ouviu quebrar-se alguma coisa. Martin Vanger urrou.</p><p>� Gosta de dor? � perguntou Lisbeth Salander.</p><p>Sua voz era �spera como uma lixa. Enquanto vivesse, Mikael jamais esqueceria o rosto dela no momento do ataque. Lisbeth mostrou os dentes como uma fera. Os olhos eram negros e brilhantes. Movia-se com a rapidez de uma aranha e parecia inteiramente concentrada em sua presa quando desferiu um novo golpe em Martin Vanger, nas costelas.</p><p>Ele trope�ou na cadeira e estatelou-se no ch�o. A pistola caiu diante de Lisbeth, que, com o p�, atirou-a para longe.</p><p>Ela o golpeou ent�o uma terceira vez, no momento em que Martin tentava se levantar. Um estalo indicou que o atingira no quadril. Martin emitiu um som terr�vel. O quarto golpe se abateu sobre suas costas.</p><p>� Lis... errth... � arquejou Mikael.</p><p>Ele estava perdendo a consci�ncia, e a dor nas t�mporas era quase insuport�vel.</p><p>Lisbeth virou-se para ele e viu seu rosto vermelho, cor de tomate, os olhos esbugalhados de pavor e a l�ngua come�ando a sair pela boca.</p><p>Lan�ou um olhar r�pido em volta e viu a faca no ch�o. Olhou brevemente para Martin Vanger, que havia se ajoelhado e tentava escapar, com um bra�o pendendo frouxamente. Ele n�o seria um problema muito s�rio nos pr�ximos segundos. Soltou o taco e pegou a faca. Embora tivesse a ponta afiada, ela estava quase sem fio. Lisbeth ficou na ponta dos p�s e tentou febrilmente cortar a correia. Demorou alguns segundos at� Mikael conseguir se apoiar no ch�o. Mas o n� corredi�o continuava prendendo seu pesco�o.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Lisbeth Salander voltou a olhar para Martin Vanger. Ele conseguira ficar de p�, por�m estava curvado sobre si mesmo. Ela o ignorou e tentou enfiar os dedos entre a correia e o pesco�o de Mikael. No in�cio n�o ousou utilizar a faca, mas por fim decidiu introduzir a ponta dela ali, esfolando a pele ao tentar desfazer o n�. Este acabou cedendo e Mikael, num estertor, aspirou um pouco de ar.</p><p>Por um breve instante, Mikael teve a maravilhosa sensa��o de uni�o entre corpo e esp�rito. Sua vis�o voltou a ficar perfeita, ele conseguia enxergar o menor gr�o de poeira no c�modo. Era como se cada respira��o, cada ro�ar de roupa sa�ssem de alto-falantes direto para seus ouvidos; ele tamb�m sentia o cheiro da transpira��o de Lisbeth e do couro de sua jaqueta. Depois, como um raio luminoso, o sangue afluiu novamente � cabe�a e seu rosto recuperou a cor normal.</p><p>Lisbeth Salander virou a cabe�a no momento em que Martin fugia pela porta. Ergueu-se num salto e pegou a pistola no ch�o, verificando se estava carregada. Destravou-a. Mikael notou que ela parecia familiarizada com as armas. Olhando em volta, os olhos dela se detiveram por meio segundo nas chaves das algemas em cima da mesa.</p><p>� Eu cuido dele � disse enquanto corria em dire��o � porta. No caminho apanhou as chaves e as fez deslizar pelo ch�o, at� onde Mikael estava.</p><p>Ele tentou lhe pedir que esperasse, mas s� conseguiu emitir um som rouco quando ela j� havia desaparecido pela porta.</p><empty-line/><p>Lisbeth n�o esquecera que Martin Vanger possu�a um rifle em algum lugar. Segurando a pistola engatilhada, ela se deteve ao chegar � passagem entre a garagem e a cozinha. Ficou prestando aten��o, mas nenhum ru�do revelou onde se achava a sua presa. Instintivamente dirigiu-se � cozinha. Quando j� estava quase l�, ouviu um carro dar a partida.</p><p>Deu meia-volta e correu para o p�tio, onde viu as luzes traseiras de um carro passando diante da casa de Henrik Vanger em dire��o � ponte. Correu o mais r�pido que p�de at� a casa dos convidados, p�s a pistola no bolso da jaqueta e n�o perdeu tempo com o capacete quando ligou a moto. Alguns segundos depois, atravessava a ponte.</p><p>Ele estava talvez uns noventa segundos � sua frente quando ela chegou ao viaduto de acesso � rodovia E4. N�o o viu. Freou e desligou o motor para escutar.</p><p>O c�u estava carregado de nuvens. No horizonte despontava um come�o de aurora. Ent�o avistou os far�is do carro de Martin Vanger na E4, na dire��o sul. Lisbeth acionou a moto e passou sob o viaduto. Estava a oitenta quil�metros por hora quando saiu da curva de acesso e entrou na pista, sem tr�fego naquele momento. Acelerou tudo. Depois de uma curva, num longo declive da estrada, atingiu cento e setenta quil�metros por hora, o m�ximo que sua m�quina de baixa cilindrada podia alcan�ar. Dois minutos depois, avistou o carro de Martin Vanger a cerca de quatrocentos metros.</p><p><emphasis>An�lise dos par�metros. Que devo fazer agora?</emphasis></p><p>Reduziu para cento e vinte quil�metros por hora, mantendo a mesma velocidade que a dele. Em algumas curvas perdeu-o de vista por alguns segundos. Depois pegaram um longo trecho reto. Ela estava a uns duzentos metros atr�s de Martin Vanger.</p><p>Certamente ele viu o farol da moto, pois acelerou a marcha. Ela voltou a exigir o m�ximo da moto, mas nas curvas perdia terreno.</p><p>De longe ela viu os far�is de um caminh�o. Martin Vanger tamb�m viu. Inesperadamente, ele acelerou ainda mais e passou para a pista da esquerda cento e cinquenta metros antes do choque. Lisbeth viu o caminh�o frear e dar repetidos sinais de farol, mas a colis�o foi inevit�vel. O carro de Martin Vanger chocou-se contra o caminh�o com um estrondo terr�vel.</p><p>Lisbeth freou instintivamente ao ver o caminh�o virar na pista. Na velocidade em que estava, levou dois segundos para chegar ao local do acidente e por pouco n�o foi atingida pela traseira do caminh�o. Quando passou, viu com o canto do olho labaredas surgindo na parte dianteira.</p><p>Continuou por mais uns cento e cinquenta metros antes de parar e se virar. Viu o motorista do caminh�o saltar da cabine. Ent�o seguiu at� Akerby, dois quil�metros ao sul, onde entrou � esquerda para pegar a estrada velha rumo ao norte, paralela � E4. Passou pelo local do acidente e viu que dois carros haviam parado. O de Martin estava totalmente esmagado debaixo do caminh�o, envolto em labaredas enormes. Um homem tentava apagar o fogo com um pequeno extintor.</p><p>Ela acelerou e logo estava de volta a Hedeby. Cruzou a ponte, estacionou em frente � casa dos convidados e retornou a p� para a casa de Martin Vanger.</p><empty-line/><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael continuava tentando se livrar das algemas. Suas m�os estavam t�o dormentes que ele n�o conseguia pegar a chave. Lisbeth abriu as algemas e o manteve apertado contra o peito at� o sangue voltar a circular por suas m�os.</p><p>� E Martin? � perguntou Mikael com uma voz rouca.</p><p>� Morto. Chocou-se de frente, a cento e cinquenta por hora, contra um caminh�o a poucos quil�metros daqui, na E4.</p><p>Mikael fitou-a espantado. N�o fazia muito tempo que ela havia sa�do.</p><p>� Precisamos... chamar a pol�cia � arquejou Mikael antes de ser tomado por um violento acesso de tosse.</p><p>� Para qu�? � perguntou Lisbeth Salander.</p><empty-line/><p>Mikael n�o conseguia se levantar. Permaneceu sentado no ch�o ainda por dez minutos, nu e encostado � parede. Massageou-se no pesco�o e ergueu a garrafa de �gua com dedos insens�veis. Lisbeth esperou pacientemente ele se recuperar. Aproveitou para refletir.</p><p>� Vista-se.</p><p>Ela utilizou a camiseta cortada de Mikael para limpar as impress�es digitais nas algemas, na faca e no taco de golfe. Pegou a garrafa de �gua.</p><p>� O que est� fazendo?</p><p>� Vista-se. Est� amanhecendo. Vamos, depressa.</p><p>Mikael ergueu-se sobre as pernas cambaleantes e conseguiu vestir a cueca e a cal�a. Enfiou os p�s nos t�nis. Lisbeth p�s as meias dele no bolso da jaqueta e perguntou:</p><p>� Tocou em alguma coisa aqui no por�o?</p><p>Mikael olhou ao redor, tentando se lembrar. Por fim, disse que n�o havia tocado em nada a n�o ser na porta e nas chaves. Lisbeth encontrou as chaves no casaco que Martin Vanger deixara no encosto da cadeira. Limpou meticulosamente a ma�aneta da porta e o interruptor, depois apagou a luz. Conduziu Mikael at� o alto da escada e pediu-lhe que esperasse na passagem, enquanto ela recolocava o taco de golfe no lugar. Ao voltar, trazia uma camiseta escura que pertencera a Martin Vanger.</p><p>� Vista. N�o quero que algu�m te veja passeando sem camisa de madrugada.</p><p>Mikael percebeu que estava em estado de choque. Lisbeth assumira o comando e ele obedecia a suas ordens sem discutir. Deixaram a casa de Martin Vanger. Enquanto caminhavam, ela o amparava com seu corpo. Quando cruzaram a porta de Mikael, ela voltou-se para ele e disse:</p><p>� Se algu�m nos viu e perguntar o que est�vamos fazendo l� fora esta noite, diga que fomos dar um passeio at� o promont�rio e depois transamos por l�.</p><p>� Lisbeth, n�o posso...</p><p>� Agora v� tomar um banho!</p><p>Ajudou-o a tirar as roupas e apontou-lhe o banheiro. Depois foi preparar um caf� e meia d�zia de torradas com queijo, pat� de f�gado e pepino em conserva. Estava sentada � mesa da cozinha, mergulhada numa intensa reflex�o, quando Mikael retornou, mancando. Ela examinou os ferimentos e as escoria��es vis�veis em seu corpo. A correia deixara uma mancha vermelha-escura em volta da garganta e a faca produzira um corte no lado esquerdo do pesco�o.</p><p>� Venha � ela disse. � Deite-se na cama.</p><p>Foi buscar curativos e cobriu a ferida com uma compressa. Depois serviu-lhe caf� e estendeu-lhe uma torrada.</p><p>� N�o estou com fome � disse Mikael.</p><p>� Coma! � ordenou Lisbeth Salander, enquanto ela mesma dava uma grande bocada na torrada de queijo.</p><p>Mikael fechou os olhos por alguns segundos. Depois sentou-se e mordeu a torrada. Sua garganta do�a tanto que mal conseguia engolir.</p><p>� Deixe o caf� esfriar um pouco. Deite-se de bru�os.</p><p>Ela ficou cinco minutos massageando-lhe as costas com uma pomada. Depois virou-o de frente para ela e administrou o mesmo tratamento na parte frontal do corpo.</p><p>� Vai ficar com alguns s�rios hematomas durante um bom tempo.</p><p>� Lisbeth, precisamos chamar a pol�cia.</p><p>� N�o � ela disse, e com tal determina��o na voz que Mikael arregalou os olhos. � Se voc� chamar a pol�cia, eu vou embora. N�o quero nada com eles. Martin Vanger est� morto. Morreu num acidente de carro. H� testemunhas. Deixe a pol�cia ou quem quer que seja descobrir aquela maldita c�mara de tortura. Voc� e eu n�o sabemos de nada, assim como os outros habitantes do povoado.</p><p>� Por qu�?</p><p>Ela ignorou a pergunta e continuou a massagear-lhe as coxas doloridas.</p><p>� Lisbeth, mas � simplesmente imposs�vel...</p><p>� Se voc� continuar me aborrecendo, eu te levo de volta � masmorra de Martin e te acorrento de novo.</p><p>Nem havia terminado a frase quando Mikael adormeceu, t�o subitamente como se tivesse desmaiado.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>25.� S�BADO 12 DE JULHO �</emphasis></strong><strong><emphasis>SEGUNDA-FEIRA 14 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael despertou sobressaltado �s cinco da manh� e levou desesperadamente as m�os ao pesco�o para tirar a correia. Lisbeth foi v�-lo, segurou-lhe as m�os e o acalmou. Ele abriu os olhos e a fitou com um vago olhar. N�o sabia que voc� jogava golfe � murmurou, voltando a fechar os olhos.</p><p>Ela permaneceu ao lado dele por alguns minutos, ate ter certeza de que ele adormecera de novo. Enquanto Mikael estivera dormindo, ela havia retornado ao por�o de Martin Vanger para inspecionar o local do crime. Al�m dos instrumentos de tortura, havia encontrado uma cole��o enorme de revistas de pornografia violenta e uma s�rie de fotos polar�ide coladas em �lbuns.</p><p>N�o havia um di�rio �ntimo. No entanto ela achou duas pastas com fotos tr�s por quatro e anota��es sobre mulheres escritas � m�o. Trouxe consigo essas pastas num cesto de n�ilon, junto com o laptop de Martin Vanger, que havia encontrado numa mesinha, no andar de cima. Depois que Mikael voltou a dormir, Lisbeth continuou a explorar o computador e as pastas de Martin. Eram mais de seis da manh� quando desligou o computador. Acendeu um cigarro e mordeu pensativamente o l�bio inferior.</p><p>Ela e Mikael haviam se lan�ado � ca�a do que julgavam ser um assassino serial do passado, mas depararam com uma hist�ria bem diferente. Ela mal conseguia imaginar os horrores que haviam acontecido no por�o de Martin Vanger, em meio �quele lugar id�lico e bem-apresentado.</p><p>Ela tentava entender.</p><p>Martin Vanger havia matado mulheres desde os anos 1960, nos �ltimos quinze anos ao ritmo de uma ou duas v�timas por ano. A matan�a fora t�o discreta e bem organizada que ningu�m sequer percebera que havia um assassino serial em atividade. Como era poss�vel?</p><p>As pastas sugeriam parte da resposta.</p><p>Suas v�timas eram mulheres an�nimas, geralmente rec�m-imigradas, que n�o tinham amigos nem contatos sociais na Su�cia. Havia tamb�m prostitutas e mulheres socialmente marginalizadas, com abuso de drogas, �lcool e outros problemas existenciais.</p><p>Em seus estudos sobre a psicologia do sadismo sexual, Lisbeth Salander aprendera que esse tipo de assassino gostava de colecionar objetos das v�timas. Eles serviam de suvenires utilizados para recriar em parte o gozo sentido. Martin Vanger desenvolvera essa tend�ncia redigindo uma compila��o necrol�gica. Catalogara minuciosamente suas v�timas, com anota��es que comentavam e descreviam seus sofrimentos, juntando a seus crimes filmes de v�deo e fotografias.</p><p>A viol�ncia e o assassinato eram o objetivo final, mas Lisbeth concluiu que, na realidade, a ca�a era o que interessava a Martin Vanger. Em seu laptop ele criara um banco de dados com o registro de centenas de mulheres. Havia empregadas do grupo Vanger, dos restaurantes onde ele fazia suas refei��es, recepcionistas dos hot�is onde se hospedava, funcion�rias da previd�ncia social, secret�rias de homens de neg�cios com quem se relacionava e uma s�rie de outras mulheres. Era como se Martin Vanger registrasse e catalogasse praticamente todas as mulheres que encontrava.</p><p>S� uma parte �nfima delas havia sido assassinada, mas todas eram v�timas potenciais que ele anotava e examinava. Esse cat�logo tinha o car�ter de uma distra��o passional, � qual ele devia dedicar muitas horas.</p><p><emphasis>Ela � casada ou solteira? Tem filhos e uma fam�lia? Onde trabalha? Onde</emphasis><emphasis>mora? Que carro dirige? Experi�ncia profissional? Cor dos cabelos? Cor da pe</emphasis><emphasis>le? Corpul�ncia?</emphasis></p><p>Lisbeth percebeu que a coleta de dados pessoais das poss�veis v�timas devia ocupar uma parte importante das fantasias sexuais de Martin Vanger. Ele era primeiro um ca�ador, depois um matador.</p><p>Quando Lisbeth terminou de ler, encontrou um pequeno envelope numa das pastas. Dentro dele havia duas fotos polar�ide com as pontas amassadas e amarelecidas. Na primeira via-se unia jovem morena sentada a uma meia. Vestia uma cal�a escura e estava com o torso nu, deixando ver pequenos seios. Ela desviava o rosto da objetiva e fazia men��o de levantar um bra�o para se proteger, como se o fot�grafo a tivesse surpreendido com a m�quina. Na segunda foto, ela tamb�m estava com o torso nu, mas deitada de bru�os numa cama com uma colcha azul. O rosto tamb�m fugia da objetiva.</p><p>Lisbeth p�s o envelope com as fotos no bolso da jaqueta. Ent�o introduziu as pastas no aquecedor a lenha, riscou um f�sforo, deixou que se consumissem e retirou as cinzas. Chovia forte quando ela saiu de casa para jogar, discretamente, o laptop de Martin Vanger nas �guas sob a ponte.</p><p>Quando Dirch Frode abriu com um golpe seco a porta da frente, Lisbeth fumava um cigarro diante de seu caf� � mesa da cozinha. O rosto de Krode estava cor de cinza e ele parecia algu�m que fora despertado brutalmente.</p><p>� Onde est� Mikael? � perguntou.</p><p>� Dormindo.</p><p>Dirch Frode desabou numa cadeira. Lisbeth encheu uma x�cara de caf� e a empurrou na dire��o dele.</p><p>� Martin... Acabo de saber que Martin se matou quando dirigia seu carro esta noite.</p><p>� Que triste � disse Lisbeth antes de beber um gole de caf�.</p><p>Dirch Frode ergueu os olhos. Primeiro olhou-a perplexo. Depois seus olhos se arregalaram.</p><p>� Como...?</p><p>� Houve um acidente. Um acidente est�pido.</p><p>� Voc� sabe o que aconteceu?</p><p>� Ele se atirou na frente de um caminh�o. Suicidou-se. A press�o, o estresse e um imp�rio financeiro em decl�nio, tudo isso deve ter sido demais para ele. Em todo caso, acho que � o que dir�o as manchetes.</p><p>Dirch Frode parecia a ponto de um ataque de f�ria. Levantou-se vivamente e foi abrir a porta do quarto.</p><p>� Deixe-o dormir � disse Lisbeth com voz firme.</p><p>Frode olhou o corpo adormecido. Viu hematomas e ferimentos no torso de Mikael, a marca vermelha deixada pela correia no pesco�o. Lisbeth tocou o bra�o dele e voltou a fechar a porta. Frode recuou e sentou-se devagar, prostrado, no banco.</p><p>Lisbeth Salander contou rapidamente o que se passara durante a noite. Fez uma descri��o detalhada da c�mara de horrores de Martin Vanger e explicou que encontrara Mikael suspenso por um n� corredi�o e o diretor administrativo do grupo Vauger de p� na frente dele. Contou o que descobrira no dia anterior nos arquivos do grupo e de que maneira fizera a liga��o entre o pai de Martin e pelo menos sete assassinatos de mulheres.</p><p>Dirch Frode n�o a interrompeu uma �nica vez. Quando ela terminou de falar, permaneceu mudo por um longo tempo antes de suspirar profundamente e de balan�ar lentamente a cabe�a.</p><p>� O que vamos fazer?</p><p>� N�o � problema meu � disse Lisbeth num tom inexpressivo.</p><p>� Mas...</p><p>� Quer que eu te diga? Nunca pus os p�s em Hedestad.</p><p>� N�o estou entendendo.</p><p>� Em hip�tese alguma quero aparecer num relat�rio policial. Eu n�o existo nessa hist�ria. Se meu nome for mencionado e relacionado ao que aconteceu, negarei ter vindo aqui e n�o responderei a pergunta nenhuma.</p><p>Dirch Frode tentava entend�-la.</p><p>� N�o entendo.</p><p>� N�o precisa entender.</p><p>� Que vou fazer ent�o?</p><p>� Voc� � que decide, contanto que n�o nos envolva nisso, nem a mim nem a Mikael.</p><p>Dirch Frode estava l�vido.</p><p>� � s� considerar as coisas assim: tudo o que voc� sabe � que Martin morreu num acidente na estrada. Desconhece completamente que ele tamb�m era um assassino psicopata e nunca ouviu falar daquele por�o.</p><p>Ela p�s a chave diante dele, em cima da mesa.</p><p>� Voc� ainda tem tempo antes que algu�m v� examinar o por�o de Martin e descubra aquele c�modo. Certamente n�o vai acontecer agora.</p><p>� N�s temos que chamar a pol�cia.</p><p>� N�s, n�o. Chame a pol�cia se quiser. A decis�o � sua.</p><p>� N�o podemos abafar esse caso.</p><p>� N�o estou propondo que o abafe, apenas que n�o envolva a Mikael e a mim. Quando tiver visto o por�o, vai tirar suas pr�prias conclus�es e decidir com quem quer falar.</p><p>� Se o que voc� diz � verdade, isso significa que Martin sequestrou e matou mulheres... portanto h� fam�lias desesperadas que n�o sabem onde est�o suas filhas. N�o podemos simplesmente...</p><p>� � verdade. Mas h� um problema: os corpos desapareceram. Talvez voc� encontre passaportes ou carteiras de identidade numa gaveta. Algumas v�timas poder�o ser identificadas pelos v�deos. Mas voc� n�o � obrigado a tomar nua decis�o hoje. Reflita um pouco mais.</p><p>Dirch Frode parecia em p�nico.</p><p>� Meu Deus! Isso vai ser o tiro de miseric�rdia do grupo. Quantas pessoas v�o ficar desempregadas se for revelado que Martin...</p><p>Frode balan�ava-se para a frente e para tr�s, pressionado por um dilema moral.</p><p>� Esse � um dos aspectos. Se Isabella Vanger assumir o cargo de Martin, n�o seria bom que ela fosse a primeira a saber do passatempo do filho.</p><p>� Preciso ir ver...</p><p>� Na minha opini�o, voc� deveria se manter longe daquele por�o hoje � disse Lisbeth com autoridade.</p><p>� H� muitas provid�ncias a tomar. Voc� precisa avisar Henrik, precisa convocar a diretoria para uma reuni�o extraordin�ria e fazer o que fariam se o diretor administrativo tivesse falecido em circunst�ncias normais.</p><p>Dirch Frode ponderou sobre as palavras dela. Seu cora��o deixou-se levar. Ele, o velho advogado que resolvia problemas e de quem se esperava um plano pronto diante de qualquer obst�culo, sentia-se totalmente paralisado. De repente se deu conta de que estava aceitando orienta��es de uma jovem. De um modo ou de outro, ela assumira o comando da situa��o e tra�ava as linhas de a��o que ele n�o conseguia formular.</p><p>� E Harriet...?</p><p>� Mikael e eu ainda n�o terminamos. Mas pode dizer a Henrik Vanger que acho que vamos resolver isso tamb�m.</p><p>O desaparecimento inesperado de Martin Vanger era o destaque do notici�rio das nove da manh�, quando Mikael despertou. Nada foi mencionado sobre os acontecimentos da noite, a n�o ser que o industrial deixara a pista da direita de forma inexplic�vel, em alta velocidade.</p><p>Ele estava sozinho no carro. A emissora de r�dio local demorava-se mais sobre as inquieta��es quanto ao futuro do grupo Vanger e quanto �s consequ�ncias financeiras que essa morte traria ao grupo.</p><p>Ao meio-dia, um despacho da TT, redigido �s pressas, anunciava na tev� "Uma regi�o em estado de choque" e resumia as repercuss�es imediatas para o grupo Vanger. N�o escapava a ningu�m que, s� em Hedestad, tr�s mil vinte e quatro mil habitantes eram empregados do grupo Vanger ou dependiam indiretamente da sa�de financeira do grupo. O atual diretor morrera e o ex-diretor era um velho tentando se recuperar de um infarto recente. Faltava um herdeiro natural. Tudo isso num per�odo considerado como o mais cr�tico da hist�ria da empresa.</p><p>Mikael Blomkvist tinha a possibilidade de ir � delegacia de pol�cia para explicar o que acontecera durante a noite, mas Lisbeth Salander j� havia tra�ado o caminho. Uma vez que ele n�o chamara a pol�cia imediatamente, tornava-se cada vez mais dif�cil fazer isso a cada hora que passava. Durante a manh�, ele ficou afundado no banco da cozinha, num sil�ncio mal-humorado, enquanto contemplava a chuva e as grossas nuvens que cobriam o c�u. Por volta das dez, desabou uma nova tempestade, mas ao meio-dia a chuva parou e o vento acalmou um pouco. Ele saiu, enxugou as cadeiras do jardim e sentou-se com uma x�cara de caf�. Teve o cuidado de levantar a gola da camisa.</p><p>Como era de se esperar, a morte de Martin estendeu uma sombra sobre o cotidiano do povoado. Carros come�aram a estacionar diante da casa de Isabella Vanger, indicando que o cl� se reunia. Pessoas apresentavam suas condol�ncias. Lisbeth contemplava o desfile com indiferen�a. Mikael permanecia mudo.</p><p>� Como est� se sentindo? � ela perguntou enfim.</p><p>Mikael refletiu um momento antes de responder.</p><p>� Acho que ainda estou em estado de choque � disse. � Fiquei totalmente indefeso por v�rias horas. Achei que ia morrer. A ang�stia de morrer me revolvia as tripas e eu me sentia totalmente impotente.</p><p>Estendeu a m�o e a pousou sobre o joelho de Lisbeth.</p><p>� Obrigado � disse. � Se voc� n�o tivesse chegado, ele teria me matado.</p><p>Lisbeth retribuiu com um sorriso enviesado. Mikael prosseguiu:</p><p>� S� que... eu n�o consigo entender como p�de ser t�o louca de enfrent�-lo sozinha. Eu estava ali, no ch�o, rezando para que voc� visse a foto, fizesse a liga��o e chamasse a pol�cia.</p><p>� Se eu esperasse a pol�cia chegar, voc� n�o teria sobrevivido. Eu n�o</p><empty-line/><p>podia deixar aquele canalha te trucidar.</p><p>� Por que voc� n�o quer ver a pol�cia?</p><p>� N�o falo com as autoridades.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� Problema meu. Mas, no que diz respeito a voc�, n�o acho que seria muito interessante para a sua carreira te apresentarem como o jornalista violentado por Martin Vanger, o conhecido assassino serial. Se j� n�o gosta do Super-Blomkvist, imagine os novos apelidos que viriam.</p><p>Mikael olhou-a intensamente, depois abandonou o assunto.</p><p>� Temos um problema � disse Lisbeth.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a, sabia a que ela estava se referindo.</p><p>� O que aconteceu a Harriet?</p><p>Lisbeth p�s as duas fotos polar�ide em cima da mesa diante dele. Explicou onde as encontrara. Mikael examinou as fotos com aten��o antes de levantar os olhos.</p><p>� Pode ser ela � disse por fim. � N�o posso jurar, mas a corpul�ncia e os cabelos lembram todas as fotos que vi dela.</p><p>Mikael e Lisbeth ficaram no jardim por uma hora, encaixando as pe�as do quebra-cabe�a. Descobriram que ambos, cada um de seu lado, haviam identificado Martin Vanger como o elo perdido.</p><empty-line/><p>Lisbeth n�o chegara a ver a foto que Mikael havia deixado em cima da mesa da cozinha. Na noite anterior, depois de examinar as imagens das c�meras de seguran�a, ela conclu�ra que Mikael fizera algo est�pido e fora at� a casa de Martin pelo caminho que margeava a �gua. Observou todas as janelas e n�o viu ningu�m. Muito discretamente, verificou todas as portas e janelas do t�rreo e ent�o foi escalando a parede at� alcan�ar uma sacada aberta no andar de cima. Levou tempo, e ela agiu com a maior prud�ncia, examinando c�modo por c�modo da casa. Por fim, descobriu a escada que levava ao por�o. Martin fora negligente: deixara entreaberta a porta de sua c�mara de torturas e ela logo entendeu tudo.</p><p>� Voc� ficou escutando por algum tempo o que ele dizia?</p><p>� N�o muito. Cheguei quando ele estava te interrogando sobre o que havia acontecido a Harriet, pouco antes de te suspender como um porco. Me afastei s� por um minuto e subi para buscar uma arma. Encontrei o taco golfe num arm�rio.</p><p>� Martin Vanger n�o tinha a menor ideia do que aconteceu a Harriet.</p><p>� E voc� acredita?</p><p>� Sim � disse Mikael sem hesitar. � Martin estava mais enlouquecido do que uma doninha furiosa... n�o sei de onde me veio essa imagem... mas ele admitiu todos os crimes que cometeu. Falava � vontade. Tive at� a impress�o de que queria me impressionar. Mas, no que se refere a Harriet, estava t�o desesperadamente em busca da verdade quanto Henrik Vanger.</p><p>� E ent�o... isso nos leva aonde?</p><p>� Sabemos que Gottfried estava por tr�s da primeira s�rie de assassinatos, entre 1949 e 1965.</p><p>� Certo. E que ele iniciou Martin.</p><p>� Estamos falando de uma fam�lia com problemas � disse Mikael. � Na verdade, Martin n�o tinha chance nenhuma.</p><p>Lisbeth Salander lan�ou um olhar estranho a Mikael.</p><p>� O que Martin me contou, embora aos peda�os, � que o pai come�ou a inici�-lo na �poca da puberdade. Ele assistiu ao assassinato de Lea em Uddevalla, em 1962. Na �poca tinha catorze anos. Assistiu ao assassinato de Sara, em 1964. Dessa vez participou ativamente. Tinha dezesseis anos.</p><p>� E?</p><p>� Ele me disse que n�o era homossexual e que nunca havia tocado um homem, exceto o pai. Isso me faz pensar... bem, a �nica conclus�o que se pode tirar � que o pai o violentava. Os abusos sexuais devem ter prosseguido por muito tempo. Ele foi iniciado, por assim dizer, pelo pai.</p><p>� Voc� est� dizendo bobagem � falou Lisbeth Salander.</p><p>Sua voz de repente ficou dura como pedra. Mikael olhou para ela surpreso. Havia algo de inflex�vel no olhar dela, sem a menor compaix�o.</p><p>� Martin poderia resistir como qualquer outra pessoa. Ele fez sua escolha. Matava e violentava porque gostava disso.</p><p>� Concordo. Mas Martin era um menino maltratado, influenciado pelo pai, assim como Gottfried foi maltratado pelo seu pai nazista.</p><p>� Ah, sei, voc� parte do princ�pio de que Martin n�o tinha vontade pr�pria e que as pessoas se tornam aquilo para o qual foram educadas.</p><p>Mikael sorriu prudentemente.</p><p>� E um ponto sens�vel para voc�?</p><p>Os olhos de Lisbeth flamejaram numa s�bita c�lera contida. Mikael prosseguiu r�pido.</p><p>� N�o estou afirmando que as pessoas s�o influenciadas apenas pela educa��o que recebem, mas acho que ela desempenha um papel importante. O pai de Gottfried o espancou, e seriamente, por anos e anos. Isso deixa marcas.</p><p>� Voc� est� dizendo bobagem � repetiu Lisbeth. � Gottfried n�o foi o �nico coitado no mundo a ter sido surrado. O que tamb�m n�o lhe dava carta branca para assassinar mulheres. Foi uma escolha que ele mesmo fez. E isso tamb�m vale para Martin.</p><p>Mikael ergueu uma m�o.</p><p>� N�o vamos discutir.</p><p>� N�o estou discutindo. Simplesmente acho pat�tico que sempre concedam circunst�ncias atenuantes aos canalhas.</p><p>� Concordo. Eles t�m mesmo uma responsabilidade pessoal. Passaremos isso a limpo depois. O fato � que Gottfried morreu quando Martin tinha dezessete anos e ele ficou sem ningu�m para gui�-lo. Tentou prosseguir nas pegadas do pai. Fevereiro de 1966, Uppsala.</p><p>Mikael inclinou-se para pegar um dos cigarros de Lisbeth.</p><p>� N�o vou nem come�ar a especular sobre que puls�es Gottfried estava tentando satisfazer, nem de que maneira interpretava seus atos. Ele se apoiou numa algaravia b�blica que um psiquiatra, talvez, pudesse esclarecer que fala de castigos e de purifica��o num sentido ou noutro. N�o importa. Ele era um assassino serial.</p><p>Refletiu um segundo antes de continuar.</p><p>� Gottfried queria matar mulheres e revestia os crimes numa esp�cie de racioc�nio pseudo-religioso. Mas Martin nem sequer fingia ter uma desculpa. Era organizado e matava de maneira sistem�tica. Al�m disso, tinha dinheiro para se dedicar a seu <emphasis>hobby.</emphasis> E era mais astuto que o pai. Toda vez que Gottfried deixava para tr�s um cad�ver, isso significava um inqu�rito policial e o risco de algu�m chegar at� ele, ou pelo menos de fazer a liga��o entre os diferentes assassinatos.</p><p>� Martin Vanger mandou construir sua casa nos anos 1970 � disse Lisbeth pensativamente.</p><p>� Acho que Henrik disse 1978. Ele provavelmente encomendou um por�o de seguran�a para arquivos importantes ou algo do g�nero. Obteve uma pe�a � prova de som, sem janelas e com uma porta blindada.</p><p>� Usou esse lugar por vinte e cinco anos.</p><p>Calaram-se por alguns momentos e Mikael pensou que atrocidades n�o teriam se passado naquela id�lica ilha de Hedeby durante um quarto de s�culo. Lisbeth n�o precisou imaginar; tinha visto a cole��o de v�deos. Ela percebeu que Mikael tocava involuntariamente o pr�prio pesco�o.</p><p>� Gottfried odiava as mulheres e ensinou o filho a tamb�m odiar as mulheres, enquanto o violentava. Mas havia algo mais... acho que Gottfried imaginava que os filhos deviam compartilhar sua vis�o pervertida do mundo, para dizer o m�nimo. Quando perguntei a Martin sobre Harriet, sua pr�pria irm�, ele disse: <emphasis>Tentamos convenc�-la. Mas ela n�o passava de uma putinha or</emphasis><emphasis>din�ria. Estava planejando avisar Henrik.</emphasis></p><p>Lisbeth assentiu com a cabe�a.</p><p>� Eu ouvi. Foi mais ou menos nesse momento que eu cheguei ao por�o. Isso significa que agora conhecemos o motivo da misteriosa conversa que ela queria ter com Henrik.</p><p>Mikael franziu a testa.</p><p>� N�o exatamente. Pense na cronologia dos fatos. N�o sabemos quando Gottfried violentou o filho pela primeira vez, mas ele levou Martin a Uddevalla para matar Lea Persson em 1962. Gottfried afogou-se em 1965. Antes disso, ele e Martin haviam tentado <emphasis>convencer</emphasis> Harriet. O que se pode deduzir da�?</p><p>� Que Gottfried n�o violentou apenas Martin. Ele atacou tamb�m Harriet.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Gottfried era o professor, Martin o aluno. E Harriet era o joguete dos dois, digamos assim.</p><p>� Gottfried ensinou Martin a ter intimidades com a irm�. � Lisbeth mostrou as fotos polar�ide. � � dif�cil determinar a atitude dela por essas duas fotos, pois s� vemos seu rosto tentando se esconder da objetiva.</p><p>� Digamos que tudo come�ou quando ela tinha catorze anos, em 1964. Ela se defendeu � <emphasis>n�o conseguia aceitar</emphasis> �, segundo Martin. Era isso que ela amea�ava contar. Martin certamente n�o tinha grande experi�ncia na �poca, ele consultava o pai, mas Gottfried e ele firmaram uma esp�cie de pacto atrav�s do qual tentavam iniciar Harriet.</p><p>Lisbeth assentiu com a cabe�a.</p><p>� Voc� escreveu, nas suas anota��es, que Henrik Vanger insistiu para que Harriet fosse morar na casa dele no inverno de 1964.</p><p>� Henrik percebeu que algo n�o ia bem naquela fam�lia. Para ele, a causa eram discuss�es e desaven�as entre Gottfried e Isabella, por isso acolheu Harriet em sua casa para que ela pudesse ficar tranquila e se dedicar aos estudos.</p><p>� Um contratempo para Gottfried e Martin. Eles n�o podiam mais dispor dela facilmente, nem controlar sua vida. Mas de tempo em tempo... Onde aconteciam esses abusos?</p><p>� Provavelmente na cabana de Gottfried. Tenho quase certeza que as fotos foram tiradas l�. Vai ser f�cil verificar. A casa tem uma localiza��o perfeita, � isolada e longe do povoado. At� que um dia Gottfried bebeu demais e acabou se afogando como um imbecil.</p><p>Lisbeth balan�ou pensativamente a cabe�a.</p><p>� O pai de Harriet tinha ou tentava ter rela��es sexuais com ela, mas aposto que n�o a iniciou nos assassinatos.</p><p>Mikael entendeu que esse era um ponto a ser esclarecido. Harriet anotara os nomes das v�timas de Gottfried e os associara a cita��es b�blicas, mas seu interesse pela B�blia s� havia se manifestado no �ltimo ano, quando Gottfried j� havia morrido. Refletiu um momento, tentando encontrar uma explica��o l�gica.</p><p>� E ent�o, um dia, Harriet descobre que Gottfried n�o � apenas um pai incestuoso como tamb�m um assassino serial furioso � disse.</p><p>� N�o sabemos quando ela descobriu os assassinatos. Talvez um pouco antes de Gottfried se afogar, talvez depois, se ele tinha um di�rio ou se guardou recortes de jornal sobre os assassinatos. Alguma coisa a colocou na pista.</p><p>� Mas n�o era isso que ela amea�ava contar a Henrik � insistiu Mikael.</p><p>� Era sobre Martin � disse Lisbeth. � O pai havia morrido, mas Martin continuava a assedi�-la.</p><p>� Exatamente � disse Mikael balan�ando a cabe�a.</p><p>� Mas ela levou um ano para se decidir.</p><p>� O que voc� faria se descobrisse que seu pai � um assassino serial que estupra o seu irm�o?</p><p>� Eu massacraria um lixo desses � disse Lisbeth com uma voz t�o fria que Mikael percebeu que ela n�o estava brincando. De repente se lembrou do rosto de Lisbeth quando ela saltou sobre Martin Vanger. Esbo�ou um sorriso n�o muito alegre.</p><p>� Certo. Mas Harriet n�o � voc�. Gottfried morreu em 1965, antes que ela tivesse tempo de fazer o que quer que fosse. Faz sentido. Com a morte de Gottfried, Isabella enviou Martin a Uppsala. Ele talvez voltasse para casa no Natal e nas f�rias, mas no ano seguinte n�o encontrou muito Harriet. Ela p�de se distanciar um pouco dele.</p><p>� E passou a estudar a B�blia.</p><p>� E, pelo que sabemos hoje, n�o necessariamente por raz�es religiosas. Talvez quisesse apenas tentar entender o que o pai fizera. Ela ficou remoen-do isso at� a Festa das Crian�as em 1966. E a�, de repente, v� o irm�o surgir na rua da Esta��o e se d� conta de que a coisa vai recome�ar. N�o sabemos se eles se falaram e se ele disse algo a ela. Seja como for, Harriet voltou depressa para casa querendo falar com urg�ncia com Henrik.</p><p>� E em seguida desapareceu.</p><empty-line/><p>Reconstitu�da assim a sequ�ncia dos acontecimentos, a solu��o do quebra-cabe�a parecia pr�xima. Mikael e Lisbeth fizeram as malas. Antes de partir, Mikael ligou para Dirch Frode e explicou que Lisbeth e ele precisavam deixar Hedeby por algum tempo, mas que fazia quest�o de se despedir de Henrik Vanger antes de ir embora.</p><p>Mikael quis saber o que Frode contara a Henrik. Pela voz, o advogado parecia t�o estressado que Mikael se preocupou com ele. Frode demorou um momento para dizer que somente contara que Martin havia morrido num acidente de carro.</p><p>Quando estacionou na frente do hospital, Mikael ouviu novas trovoadas num c�u carregado de nuvens que anunciavam chuva. Apressou o passo no estacionamento ao sentir as primeiras gotas.</p><p>Henrik Vanger estava sentado em frente � janela do quarto, vestindo um robe. A doen�a certamente o marcara, mas ele readquiria alguma cor nas faces e parecia <emphasis>a</emphasis> caminho da recupera��o. Apertaram-se as m�os. Mikael pediu que a enfermeira particular os deixasse a s�s por alguns minutos.</p><p>� Voc� n�o veio me ver � disse Henrik Vanger.</p><p>� N�o pude. Sua fam�lia n�o quer me ver aqui no hospital, mas hoje est�o todos com Isabella.</p><p>� Pobre Martin � disse Henrik.</p><p>� Henrik, voc� me pediu para descobrir a verdade sobre o que aconteceu a Harriet. Esperava que a verdade n�o doesse?</p><p>O velho olhou para ele. Depois abriu bem os olhos.</p><p>� Martin?</p><p>� Ele faz parte da hist�ria. Henrik fechou os olhos.</p><p>� Agora preciso lhe fazer uma pergunta.</p><p>� Qual?</p><p>� Voc� ainda quer saber o que aconteceu? Mesmo que doa e mesmo que a verdade seja pior do que voc� sempre imaginou?</p><p>Henrik Vanger olhou Mikael demoradamente. Depois balan�ou a cabe�a.</p><p>� Quero saber. � o objetivo do seu trabalho.</p><p>� Certo. Acho que sei o que aconteceu a Harriet. Mas ainda falta uma �ltima pe�a do quebra-cabe�a.</p><p>� Me conte tudo.</p><p>� N�o, hoje n�o. Agora quero que continue repousando. O m�dico disse que o alerta j� deixou de soar e que logo voc� estar� curado.</p><p>� N�o me trate como uma crian�a.</p><p>� Ainda n�o terminei minha investiga��o. S� tenho suposi��es por enquanto, mas vou tentar achar essa �ltima pe�a do quebra-cabe�a. Da pr�xima vez contarei a hist�ria toda. Pode demorar um pouco, mas quero que saiba que eu voltarei e que voc� saber� a verdade.</p><empty-line/><p>Lisbeth cobriu a moto com uma lona, deixou-a do lado da casa oposto ao sol e instalou-se com Mikael no carro emprestado. A chuva aumentou e, ao sul de G�vle, enfrentaram um aguaceiro t�o forte que Mikael mal via a estrada � frente. Por cautela, resolveu parar num posto de gasolina. Tomaram um caf� enquanto esperavam a chuva acalmar e s� chegaram a Estocolmo por volta das sete da noite. Mikael deu a Lisbeth o c�digo do seu pr�dio e a deixou numa esta��o de metr�. O apartamento pareceu-lhe estranho quando entrou.</p><p>Passou o aspirador e um pano de p�, enquanto Lisbeth ia ver Praga em Sundbyberg. Ela chegou � casa de Mikael cerca de meia-noite e passou dez minutos examinando cada detalhe do apartamento. Depois ficou um longo tempo diante da janela, olhando a vista do Slussen.</p><p>Arm�rios e estantes comprados na Ikea serviam de divis�ria entre a sala e o quarto do <emphasis>loft.</emphasis> Eles se despiram e dormiram algumas horas.</p><empty-line/><p>Quando no dia seguinte aterrissaram em Gatwick por volta do meio-dia, foram recebidos pela chuva. Mikael havia reservado um quarto no hotel James perto do Hyde Park, um excelente hotel comparado �s espeluncas de Bayswater onde sempre se hospedava em suas visitas a Londres. As despesas corriam por conta de Dirch Frode.</p><p>�s cinco da tarde, um homem de uns trinta anos encontrou-se com eles no bar do hotel. Era quase calvo, tinha uma barba loura, vestia um <emphasis>casaco</emphasis> muito largo, jeans e <emphasis>dockside.</emphasis></p><p>� Wasp? � ele perguntou.</p><p>� Trinity? � ela rebateu. Cumprimentaram-se com um aceno de cabe�a. Ele n�o perguntou o nome de Mikael.</p><p>O parceiro de Trinity foi apresentado como Bob the Dog. Ele esperava numa velha kombi estacionada na esquina. Entraram pela porta lateral e sentaram-se em bancos dobr�veis. Enquanto Bob ziguezagueava pelo tr�nsito londrino, Wasp e Trinity conversavam.</p><p>� Praga me disse que se trata de um <emphasis>crash-bang job.</emphasis></p><p>� Escuta telef�nica e controle de e-mails num computador. Pode ser coisa r�pida ou levar alguns dias, depende da press�o dele. � Lisbeth apontou para Mikael com o polegar. � Voc�s conseguem?</p><p>� Os cachorros t�m pulgas? � respondeu Trinity.</p><empty-line/><p>Anita Vanger morava numa das pequenas casas alinhadas em fila e de aspecto asseado do sub�rbio de St. Albans, ao norte de Londres, um trajeto de pouco mais de uma hora de carro. Da kombi, viram-na chegar e abrir a porta �s sete da noite. Esperaram uni pouco para que ela tomasse banho, comesse alguma coisa e se instalasse na frente da tev�, antes de Mikael tocar a campainha.</p><p>Uma c�pia quase id�ntica de Cec�lia Vanger abriu a porta, o rosto formando um cort�s ponto de interroga��o.</p><p><emphasis>�</emphasis> Boa noite, Anita. Meu nome � Mikael Blomkvist. Henrik Vanger pediu-me que viesse v�-la. Suponho que soube de Martin.</p><p>O rosto dela passou da surpresa � vigil�ncia. Assim que ouviu o nome Mikael Blomkvist, ela soube exatamente quem ele era. Estava em contato com Cec�lia Vanger, que talvez tivesse manifestado uma certa irrita��o com Mikael. Mas mencionar Henrik Vanger a obrigou a abrir a porta. Convidou Mikael a se instalar na sala. Ele olhou ao redor. A decora��o da casa, embora bastante discreta, indicava uma pessoa com dinheiro e unia vida profissional. Observou uma litografia assinada por Auders Zorn acima de uma lareira transformada em aquecedor a g�s.</p><p>� Desculpe eu ter vindo sem avisar, eu estava em Londres c tentei telefonar durante o dia.</p><p>� Entendo. Do que se trata? � A voz estava na defensiva.</p><p>� Est� pretendendo ir ao funeral?</p><p>� N�o. Martin e eu n�o �ramos muito pr�ximos e n�o posso me afastar do trabalho.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. Anita Vanger fizera o poss�vel para se manter distante de Hedestad durante trinta anos. Desde que o pai voltara � ilha de Hedeby, ela praticamente n�o pusera mais os p�s l�.</p><p>� Quero saber o que aconteceu a Harriet Vanger. A hora da verdade chegou.</p><p>� Harriet? O que est� querendo dizer?</p><p>Mikael fez um trejeito, dando a entender que n�o estava disposto a se deixar enganar.</p><p>� Voc� era a amiga mais pr�xima de Harriet na fam�lia e foi a pessoa que ela procurou para contar sua terr�vel hist�ria.</p><p>� Voc� est� completamente doido � disse Anita Vanger.</p><p>� Talvez voc� esteja certa � disse Mikael com a voz tranquila. � Anita, voc� esteve no quarto de Harriet naquele dia. Tenho fotos provando isso. Daqui a alguns dias farei um relat�rio a Henrik e depois ele assumir� o meu lugar. Por que n�o me conta o que aconteceu?</p><p>Anita Vanger levantou-se.</p><p>� Saia imediatamente da minha casa.</p><p>Mikael levantou-se.</p><p>� Tudo bem, mas cedo ou tarde ser� obrigada a me contar.</p><p>� N�o tenho nada a lhe dizer.</p><p>� Martin est� morto � disse Mikael com firmeza. �� Voc� nunca gostou dele. Acredito que veio morar em Londres n�o apenas para ficar longe de seu pai mas tamb�m para n�o ser obrigada a encontrar Martin. Isso significa que voc� tamb�m estava sabendo, e a �nica que pode ter lhe contado Harriet. A quest�o � saber o que voc� fez depois de ficar sabendo.</p><p>Anita Vanger bateu a porta na cara de Mikael.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander dirigiu um sorriso de satisfa��o a Mikael enquanto retirava o microfone que ele trazia sob a camisa.</p><p>� Ela deu um telefonema trinta segundos depois de ter batido a porta na sua cara � disse Lisbeth.</p><p>� A indica��o do pa�s � Austr�lia � acrescentou Trinity, repondo o aparelho de escuta em cima da mesinha dentro da kombi. Preciso verificar qual � o c�digo da �rea.</p><p>Digitou alguma coisa no teclado de seu laptop.</p><p>� Aqui est�, ela chamou este n�mero: � um telefone numa localidade chamada Tennant Creek, ao norte de Alice Springs, no Territ�rio do Norte. Quer escutar a conversa?</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Que horas s�o na Austr�lia agora?</p><p>� Mais ou menos cinco da manh�. � Trinity acionou a grava��o digital e um alto-falante. Mikael contou oito chamadas antes de uma voz atender. Conversavam em ingl�s.</p><p>� Oi, sou eu.</p><p>� Humm, est� certo que eu sou madrugador, mas...</p><p>� Eu quis te ligar ontem... Martin morreu. Matou-se num acidente de carro anteontem.</p><p>Sil�ncio. Depois, algo semelhante a uma ligeira tosse, mas que podia ser interpretado como "melhor assim".</p><p>� S� h� um problema. Um jornalista detest�vel que Henrik contratou acabou de sair aqui de casa. Fez perguntas sobre o que aconteceu em 1966. Ele sabe de alguma coisa.</p><p>Sil�ncio outra vez. Depois, uma voz de comando.</p><p>� Anita, desligue agora. Devemos evitar qualquer contato por algum tempo.</p><p>� Mas...</p><p>� Escreva cartas. Mantenha-me informado do que se passa. � E a conversa foi interrompida.</p><p>� Cara esperto! � disse Lisbeth Salander com admira��o na voz. Voltaram ao hotel um pouco antes das onze. A recep��o encarregou-se de reservar lugares no primeiro voo dispon�vel para a Austr�lia. Em quinze minutos, conseguiram lugar num avi�o que sairia �s 19h05 no dia seguinte, com destino a Canberra, Nova Gales do Sul.</p><p>Resolvidos todos os detalhes, deitaram-se na cama, exaustos.</p><empty-line/><p>Era a primeira visita de Lisbeth Salander a Londres e eles sa�ram para passear de manh�, da Tottenham Court Road ao Soho. Pararam para beber um <emphasis>caffe latte</emphasis> na Old Compton Street. Por volta das tr�s, voltaram ao hotel para pegar as malas. Enquanto Mikael fechava a conta, Lisbeth viu que havia uma mensagem de texto urgente no seu celular.</p><p>� Dragan Armanskij precisa falar com voc�.</p><p>Ela usou um telefone da recep��o para falar com seu chefe. Mikael estava a seu lado e de repente viu Lisbeth virar-se para ele com o rosto paralisado.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� Minha m�e morreu. Preciso voltar.</p><p>Lisbeth parecia t�o desesperada que Mikael abra�ou-a. Ela o afastou. Beberam um caf� no bar. Quando Mikael disse que mudaria as reservas para a Austr�lia e a acompanharia a Estocolmo, ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o � disse secamente. � N�o podemos abandonar o trabalho agora. Voc� ir� sozinho � Austr�lia.</p><p>Separaram-se em frente ao hotel e cada um tomou o seu �nibus, com destino a aeroportos diferentes.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>26.� TER�A-FEIRA 15 DE JULHO � QUINTA-FEIRA 17 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael pegou um voo dom�stico de Canberra a Alice Springs, �nica possibilidade de que dispunha no meio da tarde. Depois, p�de escolher entre um voo particular e um carro alugado. Escolheu o carro para enfrentar os quatrocentos quil�metros restantes.</p><p>Um desconhecido com o nome b�blico de Joshua, e que fazia parte da rede web internacional de <emphasis>Praga,</emphasis> ou talvez de Trinity, deixara um envelope destinado a Mikael na recep��o do aeroporto de Canberra.</p><p>O n�mero de telefone para o qual Anita ligara era de uma fazenda, Cochran Farm. Uma breve nota acompanhava a informa��o: cria��o de ovelhas.</p><p>Um artigo extra�do na internet fornecia detalhes sobre a cria��o de ovelhas na Austr�lia.</p><empty-line/><p>O pa�s tem 18 milh�es de habitantes, entre os quais 53 mil criadores de ovelhas cuidando de cerca de 120 milh�es de animais. Somente a exporta��o de l� rende mais de 3,5 bilh�es de d�lares por ano, sem contar a exporta��o de 700 milh�es de toneladas de carne de ovelha e mais as peles para a ind�stria do vestu�rio. A produ��o de carne e de l� � um dos setores econ�micos mais importantes do pa�s.</p><p>A Cochran Farm, fundada em 1891 por um certo Jeremy Cochran, era a quinta maior empresa agropecu�ria da Austr�lia, com cerca de sessenta mil <emphasis>merino sheep,</emphasis> cuja l� era considerada de excelente qualidade. Al�m de ovelhas, a fazenda criava tamb�m vacas, porcos e galinhas.</p><p>Mikael constatou que a Cochran Farm era uma empresa com um volume anual de neg�cios impressionante, que exportava para os Estados Unidos, China, Jap�o e Europa, entre outros.</p><p>As biografias eram ainda mais interessantes.</p><p>Em 1972, a Cochran Farm passou das m�os de Raymond Cochran para seu herdeiro Spencer Cochran, formado em Oxford, na Inglaterra. Spencer falecera em 1994 e desde ent�o a fazenda era dirigida por sua vi�va. Ela aparecia numa foto de baixa resolu��o extra�da do site da Cochran Farm, que mostrava uma mulher loura de cabelos curtos. Parte de seu rosto estava virado um cordeiro, que ela acariciava. Segundo Joshua, Spencer e ela haviam se casado na It�lia em 1971.</p><p>Ela se chamava Anita Cochran.</p><empty-line/><p>Mikael passou a noite num lugarejo perdido e des�rtico com um nome que exalava esperan�a: Wannado. Num bar de esquina, comeu carne de carneiro assada e bebeu tr�s <emphasis>pints,</emphasis> na companhia de alguns tipos locais que o chamavam de <emphasis>mate, e</emphasis> que falavam com um sotaque engra�ado. Ele tinha a impress�o de estar em plena filmagem de <emphasis>Crocodilo Dundee.</emphasis></p><p>Na noite anterior, antes de ir dormir, ele havia telefonado para Erika em Nova York.</p><p>� Desculpe, Ricky, mas andei t�o ocupado que nem tive tempo de ligar.</p><p>� Mas o que est� havendo em Hedestad, criatura?! � ela explodiu. � Christer me telefonou para dizer que Martin morreu num acidente de carro.</p><p>� E uma longa hist�ria.</p><p>� E por que voc� n�o atende o telefone? Estou chamando sem parar h� dois dias.</p><p>� Aqui n�o pega.</p><p>� Aqui onde?</p><p>� Neste momento, a uns duzentos quil�metros ao norte de Alice Springs. Na Austr�lia, portanto.</p><empty-line/><p>Mikael quase nunca conseguia surpreender Erika, mas desta vez ela emudeceu por uns dez segundos.</p><p>� E o que voc� est� fazendo na Austr�lia, ainda que mal pergunte?</p><p>� Estou terminando o trabalho. Voltarei � Su�cia daqui a alguns dias. Liguei apenas para contar que a miss�o para Henrik Vanger est� quase no fim.</p><p>� Quer dizer que descobriu o que aconteceu a Harriet?</p><p>� Acho que sim.</p><empty-line/><p>Ele chegou � Cochran Farm no dia seguinte, ao meio-dia, e ficou sabendo que Anita Cochran se encontrava num distrito de produ��o, numa localidade chamada Makawaka, cento e vinte quil�metros a oeste.</p><p>Eram quatro da tarde quando Mikael encontrou o lugar, ap�s percorrer um grande n�mero de estradas vicinais. Parou diante de uma cerca onde um grupo de pe�es estava reunido em volta do capo de um jipe, comendo alguma coisa. Mikael desceu, apresentou-se e disse que procurava Anita Cochran. Os rapazes olharam para um homem musculoso, de uns trinta anos, que parecia ser quem tomava as decis�es. Tinha o torso nu e bronzeado, exceto nas partes normalmente cobertas pela camiseta. Usava um chap�u de caub�i.</p><p>� <emphasis>Well, mate,</emphasis> a patroa est� uns dez quil�metros para l� � disse, apontando com o dedo.</p><p>Ele olhou para o carro de Mikael com ceticismo e acrescentou que n�o era uma boa ideia prosseguir na estrada com aquele brinquedinho japon�s. Mas disse que de todo modo ele precisava ir at� l� e que podia levar Mikael no jipe, �nico ve�culo adaptado ao tipo de terreno que os esperava. Mikael agradeceu e teve o cuidado de pegar a sacola com seu notebook.</p><empty-line/><p>O homem disse que se chamava Jeff e contou que era o <emphasis>studs manager al the station.</emphasis> Mikael perguntou o que aquilo significava. Jeff olhou-o curioso, percebendo que Mikael n�o devia ser do pa�s. Explicou que <emphasis>studs manager</emphasis> equivalia a um gerente de banco, s� que lidava com ovelhas, e que <emphasis>station</emphasis> era a palavra australiana para "rancho".</p><p>Continuaram conversando enquanto Jeff manobrava o jipe com tranquilidade a vinte quil�metros por hora, num declive impressionante at� o fundo de um desfiladeiro. Mikael agradeceu sua boa estrela por n�o ter tentado prosseguir no carro alugado. Ficou sabendo que na base do desfiladeiro havia pastagens para cerca de setecentas ovelhas.</p><p>� Se entendi bem, Cochran Farm � uma grande empresa agropecu�ria.</p><p>� Uma das maiores da Austr�lia � respondeu Jeff com algum orgulho na voz. � Temos cerca de nove mil ovelhas aqui no distrito de Makawaka, mas possu�mos tamb�m <emphasis>stations</emphasis> na Nova Gales do Sul e na Austr�lia Ocidental. Ao todo, s�o mais de sessenta e tr�s mil ovelhas.</p><p>Sa�ram do desfiladeiro para um terreno ondulado mais suave. De repente Mikael ouviu tiros. Viu ovelhas mortas, grandes braseiros e uns dez pe�es, todos com espingardas na m�o. Pareciam ocupar-se do abate de animais.</p><p>Involuntariamente, Mikael fez a associa��o com os cordeiros do sacrif�cio b�blico.</p><p>Ent�o viu uma mulher vestindo jeans e camisa xadrez branca e vermelha, de cabelos louros curtos. Jeff estacionou a poucos metros dela.</p><p>� <emphasis>Hi</emphasis><emphasis>boss. We got a tourist</emphasis> � disse.</p><p>Mikael desceu do jipe e olhou para ela, que o encarou com olhos interrogativos.</p><p>� Bom dia, Harriet. Faz um bom tempo que n�o nos vemos � disse Mikael em sueco.</p><p>Nenhum dos homens que trabalhavam para Anita Cochran entendeu que ele disse, mas eles viram a rea��o dela. Anita Cochran deu um passo para tr�s, amedrontada. Os empregados tiveram o reflexo instant�neo de proteger a patroa. Viram-na empalidecer, calaram-se e se aproximaram, prontos para se interpor entre ela e aquele estranho que claramente a perturbava. A amabilidade de Jeff havia desaparecido por completo quando ele deu um passo na dire��o de Mikael.</p><p>Mikael deu-se conta de que estava num lugar inacess�vel do outro lado do planeta, cercado por um bando de criadores de ovelhas encharcados de suor com espingardas na m�o. Uma palavra de Anita Cochran, e eles o encheriam de chumbo.</p><p>Mas o instante havia passado. Harriet Vanger ergueu a m�o num gesto de apaziguamento e seus homens recuaram. Ela se aproximou de Mikael e o olhou nos olhos. Estava molhada de suor e com o rosto sujo. Mikael notou ra�zes mais escuras sob os cabelos louros. Tinha o rosto mais envelhecido e macilento, mas se tornara exatamente a bela mulher que sua fotografia de crisma havia pressagiado.</p><p>� N�s j� nos encontramos? � perguntou Harriet Vanger.</p><p>� Sim. Meu nome � Mikael Blomkvist. Voc� foi minha bab� num ver�o, quando eu tinha tr�s anos. Voc� tinha doze ou treze na �poca.</p><p>Alguns segundos se passaram e ent�o o olhar dela se iluminou e Mikael percebeu que ela se lembrava dele. Parecia estupefata.</p><p>� O que voc� quer?</p><p>� Harriet, n�o sou seu inimigo, n�o estou aqui para lhe fazer mal. Mas precisamos conversar.</p><p>Ela se virou para Jeff e pediu-lhe que a substitu�sse, depois fez um sinal para que Mikael a acompanhasse. Andaram uns duzentos metros at� um grupo de barracas de lona branca num pequeno bosque. Ela indicou uma cadeira dobr�vel em frente a uma mesa pouco firme, despejou �gua numa bacia, lavou o rosto, enxugou-se e entrou na barraca para trocar de camisa. Pegou duas cervejas numa caixa de isopor com gelo e sentou-se diante de Mikael.</p><p>� Pronto. Agora fale, estou escutando.</p><p>� Por que est�o matando as ovelhas?</p><p>� H� uma epidemia. Provavelmente a maioria dessas ovelhas est� saud�vel, mas n�o podemos correr o risco de a epidemia se alastrar. Seremos obrigados a abater mais de seiscentas ovelhas esta semana. Por isso n�o estou de muito bom humor.</p><p>Mikael aquiesceu com a cabe�a.</p><p>� Seu irm�o se matou dirigindo um carro dias atr�s.</p><p>� Eu soube.</p><p>� Atrav�s de Anita, que telefonou para voc�.</p><p>Ela o fitou por um bom tempo. Depois assentiu com a cabe�a. Percebeu que era in�til negar as evid�ncias.</p><p>� Como me encontrou?</p><p>� Grampeamos o telefone de Anita. � Mikael tamb�m achou que n�o havia raz�o para mentir. � Estive com seu irm�o um pouco antes de ele morrer.</p><p>Harriet Vanger franziu o cenho e o interrogou com o olhar. Ent�o ele retirou o len�o rid�culo que havia posto no pesco�o, baixou a gola da camisa e mostrou a marca do n� corredi�o. Uma cicatriz de um vermelho-vivo que provavelmente ficaria como lembran�a de Martin Vanger.</p><p>� Seu irm�o suspendeu-me num n� corredi�o e s� fui salvo porque minha companheira chegou para dar a maior surra que aquele canalha j� levou na vida.</p><p>Alguma coisa se acendeu nos olhos de Harriet.</p><p>� Acho melhor voc� me contar essa hist�ria desde o in�cio.</p><empty-line/><p>Mikael levou mais de uma hora para contar tudo. Come�ou se apresentando e resumindo suas desventuras profissionais. Depois contou como Henrik Vanger o incumbira daquela miss�o e por que tinha sido conveniente para ele instalar-se em Hedeby. Falou do inqu�rito policial que n�o dera em nada e de como Henrik fizera sua investiga��o pessoal durante todos aqueles anos, convencido de que algu�m da fam�lia havia matado Harriet. Ligou o computador e explicou como descobriu as fotos da rua da Esta��o e como ele e Lisbeth come�aram a buscar um assassino serial que eles acabaram brindo que eram dois.</p><p>Enquanto ele falava, come�ou a anoitecer. Os homens se preparavam para passar a noite ali, acendendo fogueiras e pondo marmitas para aquecer. Mikael observou que Jeff permanecia perto de sua chefe e que continuava a olh�-lo com desconfian�a. O cozinheiro serviu Harriet e Mikael. Abriram outra cerveja. Quando Mikael terminou seu relato, Harriet ficou em sil�ncio por um momento.</p><p>� Meu Deus � disse ela.</p><p>� Voc� n�o anotou na agenda o assassinato de Uppsala.</p><p>� Nem mesmo investiguei. Estava aliviada por meu pai ter morrido e a viol�ncia acabar. Nunca me passou pela cabe�a que Martin... � Ela se calou. � Estou contente que tenha morrido.</p><p>� Eu te entendo.</p><p>� Voc� s� n�o me explicou como voc�s conclu�ram que eu estava viva.</p><p>� Depois que descobrimos o que se passou, n�o foi muito dif�cil deduzir o resto. Para poder desaparecer, voc� precisou de ajuda. Anita Vanger era sua confidente e voc�s haviam passado alguns dias do ver�o na cabana de Gottfried. Se fosse contar a algu�m, seria para ela, e ela acabava de receber sua habilita��o de motorista.</p><p>Harriet Vanger olhou para ele com uma express�o indefinida.</p><p>� Agora que voc� sabe que eu estou viva, o que vai <emphasis>fazer?</emphasis></p><p>� Vou contar a Henrik. Ele merece saber.</p><p>� E depois? Voc� � um jornalista.</p><p>� Harriet, n�o tenho nenhuma inten��o de entreg�-la � m�dia. Cometi tantas faltas profissionais nessa triste hist�ria que a Associa��o dos Jornalistas provavelmente me expulsaria se ficasse sabendo. � Ele tentou fazer gra�a. � Uma falta a mais ou a menos n�o faz diferen�a, e n�o quero prejudicar minha ex-bab�.</p><p>Ela n�o pareceu achar gra�a.</p><p>� Quantas pessoas sabem a verdade?</p><p>� De que voc� est� viva? Neste momento, apenas eu, voc�, Anita e a minha parceira Lisbeth. Dirch Frode conhece uns dois ter�os da hist�ria, mas continua achando que voc� morreu em 1966.</p><p>Harriet Vanger parecia refletir sobre alguma coisa. Olhou ao longe, na obscuridade do campo. Mikael teve de novo a sensa��o de estar exposto a uma situa��o desagrad�vel e lembrou que Harriet tinha uma espingarda apoiada contra a lona da barraca, ao alcance da m�o. Mas procurou afastar esses pensamentos. Mudou de assunto.</p><p>� Como voc� virou criadora de ovelhas na Austr�lia? Deduzi que Anita Vanger ajudou-a a abandonar a ilha, provavelmente no porta-malas do carro dela, quando a ponte foi reaberta um dia depois do acidente.</p><p>� Na verdade, apenas fiquei deitada no banco de tr�s do carro com um cobertor por cima de mim. Eu disse a Anita que precisava fugir. Voc� deduziu bem. Entreguei-me a ela, ela me ajudou e foi uma amiga leal durante todos esses anos.</p><p>� Como veio parar aqui na Austr�lia?</p><p>� Primeiro, antes de deixar a Su�cia, morei por algumas semanas no quarto de estudante de Anita em Estocolmo. Anita tinha um dinheiro dela, que generosamente me emprestou. Tamb�m me deu seu passaporte. �ramos parecidas, e tudo que precisei fazer foi mudar a cor do cabelo para ficar loura. Morei num convento na It�lia por quatro anos. N�o como freira; existem conventos onde � poss�vel alugar celas a um pre�o baixo, s� para ficar ali em paz, meditando. Depois conheci Spencer Cochran por acaso. Era alguns anos mais velho que eu, conclu�ra seus estudos na Inglaterra e passeava pela Europa. Me apaixonei e ele tamb�m. Foi isso que aconteceu. <emphasis>Anita</emphasis> Vanger casou-se com ele em 1971. Nunca me arrependi, era um homem maravilhoso. Mas ele morreu h� oito anos e de repente me tornei propriet�ria da empresa.</p><p>� E o passaporte? Algu�m poderia notar que havia duas Anita Vanger.</p><p>� N�o. Por que notariam? Uma sueca chamada Anita Vanger casou-se com Spencer Cochran. O fato de morar em Londres ou na Austr�lia n�o tem import�ncia nenhuma. Em Londres, ela � a mulher separada de Spencer Cochran. Na Austr�lia, � sua esposa. Os cart�rios de Canberra e Londres n�o se comunicam. Al�m disso, obtive um passaporte australiano com o nome Cochran. E um arranjo que funciona perfeitamente bem. O plano s� n�o daria certo se Anita quisesse se casar. Meu casamento precisou ser registrado num cart�rio sueco.</p><p>� E ela n�o se casou.</p><p>� Disse que nunca encontrou ningu�m, mas sei que se absteve por minha causa. Foi uma verdadeira amiga.</p><p>� O que ela fazia no seu quarto?</p><p>� Eu n�o estava raciocinando muito bem naquele dia. Tinha medo de Martin. Enquanto ele esteve em Uppsala, deixei o problema de lado, mas quando o vi na rua em Hedestad percebi que nunca mais estaria segura. Hesitei entre contar a Henrik e fugir. Henrik n�o p�de falar comigo, ent�o sa� andando � toa pelo povoado. Claro que o acidente na ponte fez todo mundo esquecer tudo mais, � natural. Mas n�o foi esse o meu caso. Eu tinha meu pr�prios problemas e mal tomei consci�ncia do acidente. Tudo parecia irreal. Ent�o encontrei Anita, que estava hospedada num anexo da casa de Gerda e Alexander. Por fim tomei uma decis�o e pedi que ela me ajudasse. Fiquei no quarto dela e n�o ousei mais sair dali. Mas havia uma coisa que eu precisava levar comigo: um di�rio �ntimo onde eu tinha anotado tudo o que aconteceu. Tamb�m precisava de roupas. Anita foi buscar.</p><p>� E suponho que ela n�o resistiu � tenta��o de abrir a janela para dar uma olhada no acidente. � Mikael refletiu um momento. � O que eu n�o entendo � por que voc� n�o foi ver Henrik, como era a sua inten��o.</p><p>� O que voc� acha?</p><p>� N�o sei, n�o entendo. Estou certo de que Henrik a teria ajudado. Martin n�o tinha como prejudic�-la imediatamente, e Henrik n�o a trairia. Teria conduzido o caso com discri��o, encaminhando-o para uma esp�cie de terapia ou tratamento.</p><p>� Voc� n�o entendeu o que se passou.</p><p>At� ent�o, Mikael mencionara apenas o abuso sexual que Martin sofrera de Gottfried, sem mencionar o caso de Harriet.</p><p>� Gottfried abusou de Martin � disse Mikael discretamente. � Imagino que tenha abusado tamb�m de voc�.</p><empty-line/><p>Harriet Vanger n�o mexeu um s� m�sculo. Depois respirou profundamente e escondeu o rosto nas m�os. Em menos de tr�s segundos, Jeff apareceu ao lado dela, perguntando se tudo estava <emphasis>all right.</emphasis> Harriet Vanger olhou para ele e dirigiu-lhe um breve sorriso. Ent�o surpreendeu Mikael ao se levantar e abra�ar seu <emphasis>studs manager,</emphasis> dando-lhe um beijo no rosto. Virou-se para Mikael, com o bra�o no ombro de Jeff.</p><p>� Jeff, este � Mikael, um velho... amigo de muito, muito tempo atr�s. Ele est� me trazendo problemas e m�s not�cias, mas nunca devemos matar o mensageiro. Mikael, este � Jeff Cochran, meu filho mais velho. Tenho tamb�m outro filho e uma filha.</p><p>Mikael balan�ou a cabe�a. Jeff tinha uns trinta anos. Harriet Vanger deve ter engravidado logo ap�s o casamento com Spencer Cochran. Ele se levantou, estendeu a m�o para Jeff e disse que sentia muito perturbar a m�e dele, mas que infelizmente era necess�rio. Harriet trocou algumas palavras com Jeff e o mandou embora. Tornou a sentar-se com Mikael e pareceu tomar uma decis�o.</p><p>� Chega de mentira. Acho que agora acabou. De certo modo, eu estava esperando por esse dia desde 1966. Durante muitos anos, minha ang�stia era que algu�m se dirigisse a mim pelo meu verdadeiro nome. E n�o me importa mais que voc� saiba. Meu crime est� prescrito. E estou pouco ligando para o que as pessoas v�o pensar.</p><p>� Que crime? � perguntou Mikael.</p><p>Ela o fitou bem nos olhos, mas ele ainda n�o sabia do que ela estava falando.</p><p>� Eu tinha dezesseis anos. Estava com medo, envergonhada, desesperada. E sozinha. Somente Anita e Martin sabiam a verdade. Contei a Anita sobre os abusos sexuais, mas n�o consegui contar que meu pai tamb�m era um psicopata assassino de mulheres. Anita nunca soube. Em troca, confessei-lhe o crime que eu mesma havia cometido e que era suficientemente horr�vel para que afinal n�o ousasse cont�-lo a Henrik. Pedi perd�o a Deus e me escondi num convento por v�rios anos.</p><p>� Harriet, seu pai era um estuprador e um assassino. Voc� n�o � culpada de nada.</p><p>� Eu sei. Meu pai abusou de mim durante um ano. Fiz de tudo para evitar que ele... mas ele era meu pai e eu n�o podia me recusar a fazer alguma coisa com ele sem lhe dar uma explica��o. Ent�o menti e aceitei participar da com�dia, como se aquilo fosse natural, cuidando sempre para que houvesse outras pessoas quando eu me encontrava com ele. Minha m�e sabia o que ele fazia, mas n�o se importava.</p><p>� Isabella sabia? � exclamou Mikael, consternado.</p><p>A voz de Harriet Vanger ficou mais dura.</p><p>� Claro que sim. Nada se passava em nossa fam�lia sem que Isabella soubesse. Mas ela nunca dava aten��o �s coisas desagrad�veis ou que pudessem depreci�-la. Meu pai podia me estuprar na sala diante de seus olhos sem que ela visse. Era incapaz de reconhecer que algo n�o ia bem na minha vida ou na dela.</p><p>� Cheguei a conhec�-la. � uma v�bora.</p><p>� E o que foi a vida inteira. Muitas vezes refleti sobre o relacionamento entre meu pai e ela. Conclu� que depois do meu nascimento eles raramente, ou nunca mais, tiveram rela��es sexuais. Meu pai tinha mulheres, mas estranhamente temia Isabella. Estava afastado dela sem poder se divorciar.</p><p>� Ningu�m se divorcia na fam�lia Vanger.</p><p>Ela riu pela primeira vez.</p><p>� � verdade. O fato � que eu n�o tive coragem de contar. O mundo inteiro ficaria sabendo. Meus colegas de escola, todos na fam�lia...</p><p>Mikael p�s a m�o sobre a de Harriet.</p><p>� Harriet, estou arrasado.</p><p>� Eu tinha catorze anos quando ele me violentou pela primeira vez. Levava-me regularmente � cabana. V�rias vezes Martin tamb�m estava l�. For�ava n�s dois a fazer coisas com ele. Segurava-me nos bra�os para que Martin... se satisfizesse em cima de mim. E assim, depois da morte do meu pai, Martin estava pronto para assumir o papel dele. Queria que eu fosse sua amante e achava natural que eu me submetesse. E nesse momento n�o tive mais escolha, fui obrigada a fazer o que Martin queria. Havia me livrado de um carrasco para cair nas garras de outro, e tudo o que podia fazer era procurar nunca ficar a s�s com ele.</p><p>� Henrik teria...</p><p>� Voc� ainda n�o entendeu � ela disse, elevando a voz.</p><p>Mikael viu os homens na tenda ao lado virarem-se para eles. Ela baixou de novo a voz e inclinou-se para ele.</p><p>� Est� com todas as cartas agora. Tire voc� mesmo as conclus�es. Levantou-se e foi buscar mais duas cervejas. Quando voltou, Mikael disse uma �nica palavra.</p><p>� Gottfried?</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� No dia 7 de agosto de 1965, meu pai me obrigou a acompanh�-lo at� a cabana. Henrik estava viajando. Meu pai havia bebido e tentou me for�ar. Mas n�o conseguiu gozar e come�ou a delirar. Ele era sempre... grosseiro e violento comigo quando est�vamos a s�s, mas dessa vez ultrapassou os limites. Urinou em cima de mim. A seguir contou-me o que gostaria de fazer comigo. Um pouco antes havia falado das mulheres que matara. Vangloriava-se. Citava a B�blia. Aquilo durou horas. N�o entendi a metade do que ele dizia, mas percebi que ele estava completamente maluco.</p><p>Ela tomou um gole de cerveja.</p><p>� A certa altura, por volta de meia-noite, ele teve uma crise. Parecia um louco furioso. Est�vamos no mezanino. Ele p�s uma camiseta em volta do meu pesco�o e apertou com toda a for�a. Vi tudo preto. N�o duvido um segundo que ele realmente tentou me matar e, pela primeira vez naquela noite, conseguiu me estuprar.</p><p>Harriet Vanger p�s uns olhos suplicantes em Mikael.</p><p>� Mas estava t�o b�bado que consegui me livrar, n�o sei como. Saltei do mezanino at� a pe�a de baixo e sa� correndo, em p�nico. Estava nua e corri sem refletir, at� chegar ao pont�o. Ele chegou cambaleando atr�s de mim.</p><p>De repente, Mikael desejou que ela parasse de contar.</p><p>� Eu era suficientemente forte para derrubar um b�bado na �gua. Utilizei um remo para mante-lo debaixo da �gua at� que parasse de se mexer. Bastaram alguns segundos.</p><p>O sil�ncio foi ensurdecedor quando ela fez uma pausa.</p><p>� E, assim que levantei os olhos, Martin estava ali. Parecia aterrorizado e, ao mesmo tempo, divertia-se. N�o sei desde quando nos espionava em frente � casa. E assim eu fiquei entregue � sua vontade. Ele se aproximou de mim e me pegou pelos cabelos, me levou de volta para a cabana e me jogou na cama de Gottfried. Me amarrou e me violentou, enquanto nosso pai ainda flutuava na �gua junto ao pont�o. N�o pude sequer me defender.</p><p>Mikael fechou os olhos. Sentiu vergonha e desejou ter deixado Harriet Vanger em paz. Mas a voz dela adquirira uma nova for�a.</p><p>� Desse dia em diante ca� sob seu poder. Fazia o que ele me dizia, estava como que paralisada. Se escapei da loucura, foi porque Isabella decidiu que Martin precisava mudar de ares ap�s o desaparecimento tr�gico do pai e o enviou a Uppsala. Evidentemente, era porque ela sabia o que ele fazia comigo; era sua maneira de resolver o problema. Voc� pode imaginar a decep��o de Martin.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� No ano seguinte, ele s� voltou nas f�rias de Natal, e consegui ficar distante. Acompanhei Henrik numa viagem a Copenhague entre o Natal e o Ano-novo. E, quando chegaram as f�rias de ver�o, Anita estava l�. Abri-me com ela e ela permaneceu o tempo todo comigo, o que o impediu de se aproximar de mim.</p><p>� E ent�o voc� o viu na rua da Esta��o.</p><p>� Sim, fiquei sabendo que n�o viria � reuni�o de fam�lia e que permaneceria em Uppsala. Mas parece ter mudado de ideia e ent�o eu o vi ali, do outro lado da rua, olhando fixamente para mim. Sorrindo para mim. Como um pesadelo. Eu assassinara meu pai e me dei conta de que nunca me libertaria do meu irm�o. At� ent�o, s� havia pensado em me matar, mas finalmente preferi fugir.</p><p>Ela olhou para Mikael com um olhar aliviado.</p><p>� Como � bom contar a verdade... Agora voc� sabe de tudo. Como pretende utilizar o que sabe?</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>27.� S�BADO 26 DE JULHO � SEGUNDA-FEIRA 28 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael se encontrou com Lisbeth Salander na frente do seu pr�dio na Lundagatan �s dez da manh� e a levou ao cremat�rio do cemit�rio norte. Fez-lhe companhia durante a cerim�nia. Por um bom tempo, Lisbeth e Mikael foram as �nicas pessoas presentes al�m do pastor, mas, quando o ritual funer�rio come�ou, Dragan Armanskij apareceu. Dirigiu um breve aceno de cabe�a a Mikael, colocou-se atr�s de Lisbeth e p�s suavemente a m�o em seu ombro. Ela inclinou a cabe�a sem olhar para ele, como se soubesse quem havia chegado �s suas costas. Mas logo o ignorou, assim como ignorava Mikael.</p><p>Lisbeth n�o havia contado nada sobre a m�e, mas o pastor aparentemente falara com algu�m da casa de sa�de onde ela falecera, e Mikael entendeu que a causa da morte fora uma hemorragia cerebral. Lisbeth n�o disse uma s� palavra durante a cerim�nia. O pastor perdeu o fio da meada por duas vezes quando se dirigiu diretamente a Lisbeth, que o olhava bem nos olhos sem responder. Ao terminar, ela virou as costas e foi embora sem agradecer nem se despedir. Mikael e Dragan respiraram fundo e se olharam de soslaio. Eles ignoravam totalmente o que se passava na cabe�a dela.</p><p>� Ela n�o est� nada bem � disse Dragan.</p><p>� Acho que eu a entendo � respondeu Mikael. � Foi bom o senhor ter vindo.</p><p>� N�o estou t�o certo disso. Armanskij fixou o olhar em Mikael.</p><p>� Voc�s v�o voltar para o Norte? Cuide dela.</p><p>Mikael prometeu. Eles se separaram em frente � porta da igreja. Lisbeth j� esperava no carro.</p><p>Ela precisava retornar a Hedestad para buscar a moto e o equipamento que pegara emprestado da Milton Security. S� rompeu o sil�ncio depois que passaram de Uppsala, para perguntar como tinha sido a viagem � Austr�lia. Mikael desembarcara no aeroporto de Arlanda na noite anterior e s� dormira algumas horas. Enquanto conduzia o carro, ele contou a hist�ria de Harriet Vanger. Lisbeth Salander ficou em sil�ncio por meia hora, e s� depois abriu a boca.</p><p>� Cretina � disse.</p><p>� De quem voc� est� falando?</p><p>� Da Harriet Cretina Vanger. Se ela tivesse feito alguma coisa em 1966. Martin Vanger n�o teria continuado a matar e a estuprar durante trinta e sete anos.</p><p>� Harriet sabia dos assassinatos do pai, mas n�o que Martin participara deles. Ela fugiu de um irm�o que a violentava e que amea�ava contar que ela afogara o pai, se n�o obedecesse a suas ordens.</p><p>� Conversa mole.</p><empty-line/><p>O resto da viagem a Hedestad transcorreu em sil�ncio. Lisbeth estava com um humor particularmente sombrio. Mikael estava atrasado para o encontro que havia marcado e pediu que ela descesse no cruzamento antes da ponte, perguntando-lhe se estaria ainda ali quando ele voltasse.</p><p>� Pretende passar a noite aqui? � ela perguntou.</p><p>� Acho que sim.</p><p>� Quer que eu esteja aqui quando voc� voltar?</p><p>Ele desceu do carro, deu a volta e se aproximou para abra��-la. Lisbeth o recha�ou quase com viol�ncia. Mikael recuou,</p><p>� Lisbeth, voc� � minha amiga. Ela o olhou sem express�o.</p><p>� Quer que eu fique s� para que voc� possa trepar com algu�m esta noite?</p><p>Mikael olhou demoradamente para ela. Depois virou-se, entrou no carro e ligou o motor. Baixou o vidro. A hostilidade de Lisbeth era palp�vel.</p><p>� Quero ser seu amigo � disse. � Se est� imaginando outra coisa, n�o vale nem a pena estar aqui quando eu voltar.</p><p>Henrik Vanger estava sentado numa poltrona quando Dirch Frode convidou Mikael a entrar em seu quarto no hospital. Ele logo perguntou como Henrik estava.</p><p>� Eles est�o pretendendo me deixar ir ao enterro de Martin amanh�.</p><p>� Que parte da hist�ria Dirch contou a voc�? Henrik Vanger baixou o olhar.</p><p>� O que Martin e Gottfried fizeram. Pelo que entendi, a coisa foi mais longe do que eu imaginei nos meus piores pesadelos.</p><p>� Eu sei o que aconteceu a Harriet.</p><p>� Conte-me como ela morreu.</p><p>� Harriet n�o morreu. Est� viva. Se estiver de acordo, ela gostaria muito de rev�-lo.</p><p>Num mesmo movimento, Henrik Vanger e Dirch Frode olharam Mikael como se o mundo tivesse acabado de virar de pernas para o ar.</p><p>� Levei algum tempo at� convenc�-la a vir comigo, mas ela concordou. Est� bem e neste momento se encontra em Hedestad. Chegou hoje de manh� e poder� estar aqui dentro de uma hora. Se voc� quiser v�-la, � claro.</p><p>Mais uma vez, Mikael precisou contar a hist�ria do come�o ao fim. Henrik Vanger escutou com tanta concentra��o, como se escutasse um Serm�o da Montanha moderno. Em algumas raras ocasi�es, fez uma pergunta ou pediu que Mikael repetisse. Dirch Frode n�o abriu a boca.</p><p>Terminado o relato, o velho permaneceu quieto. Embora os m�dicos tivessem garantido que Henrik tinha se restabelecido do infarto, Mikael temia o instante da revela��o de toda a hist�ria � temia que o velho n�o aguentasse. Mas Henrik n�o demonstrou nenhum sinal de emo��o. Apenas sua voz parecia um pouco pastosa quando quebrou o sil�ncio.</p><p>� Pobre Harriet. Se tivesse vindo falar comigo... Mikael olhou a hora. Eram cinco para as quatro.</p><p>� Quer v�-la? Ela tem medo que voc� a rejeite, agora que sabe o que ela fez.</p><p>� E as flores?</p><p>� Perguntei isso a ela no avi�o. S� havia uma pessoa que ela amava na fam�lia: voc�. Evidentemente, era ela quem enviava as flores. Disse que esperava faz�-lo entender que ela estava viva, e bem, sem ser obrigada a se revelar. Mas, como sua �nica fonte de informa��o era Anita, que nunca vinha a Hedestad e que foi morar no exterior depois de terminar seus estudos, Harriet sabia muito pouco do que se passava aqui. Nunca soube o quanto voc� sofria nem que se acreditava perseguido pelo assassino dela.</p><p>� Imagino que Anita era quem postava as flores.</p><p>� Ela trabalhava para uma companhia a�rea e as enviava de onde se encontrava.</p><p>� E como voc� descobriu que era Anita que a ajudava?</p><p>� Pela fotografia na qual ela aparece na janela do quarto de Harriet.</p><p>� Mas ela podia estar envolvida... poderia ser a assassina. Como deduziu que Harriet estava viva?</p><p>Mikael olhou demoradamente para Henrik Vanger. Depois sorriu pela primeira vez desde que voltara a Hedestad,</p><p>� Anita estava envolvida no desaparecimento de Harriet, mas n�o poderia t�-la matado.</p><p>� Como teve a certeza disso?</p><p>� Porque isto n�o � um romance policial e de mist�rio. Se Anita tivesse matado Harriet, voc� j� teria encontrado o corpo h� muito tempo. Portanto, o mais l�gico � que ela tivesse ajudado Harriet a fugir e a se manter distante. Quer v�-la?</p><p>� Mas � claro que quero ver Harriet.</p><p>Mikael foi buscar Harriet, que o aguardava em frente aos elevadores do sagu�o de entrada. No primeiro momento n�o a reconheceu; depois que eles haviam se separado no aeroporto, na v�spera, ela refizera a cor escura original de seus cabelos. Vestia cal�a preta, camisa branca e um casaco cinza elegante. Estava magn�fica e Mikael inclinou-se para lhe dar um beijo de encorajamento no rosto,</p><p>Henrik levantou-se da poltrona quando Mikael abriu a porta para deixar Harriet Vanger passar. Ela respirou fundo.</p><p>� Bom dia, Henrik.</p><p>O velho a examinou dos p�s � cabe�a. Depois Harriet avan�ou <emphasis>e o</emphasis> beijou no rosto. Mikael fez um sinal com o queixo para Dirch Frode, fechou a porta e deixou os dois a s�s.</p><p>Lisbeth Salander n�o estava mais em casa quando Mikael voltou � ilha. O equipamento de v�deo e a moto haviam desaparecido, assim como a sacola com as roupas e os produtos de toalete dela no banheiro.</p><p>Ele percorreu os c�modos. A casa de repente lhe pareceu sinistra, estranha, irreal. Olhou as pilhas de pap�is na saleta de trabalho, que ele devia distribuir em pastas e entregar a Henrik Vanger, mas n�o teve �nimo de come�ar a arruma��o. Foi at� o Konsum para comprar p�o, leite, queijo e alguma coisa para beliscar � noite. Ao voltar, preparou um caf�, instalou-se no jardim e leu os jornais da tarde com a cabe�a vazia, sem pensar em nada.</p><p>Por volta das cinco e meia da tarde, um t�xi passou pela ponte e voltou tr�s minutos depois. Mikael avistou Isabella Vanger no banco traseiro.</p><p>Por volta das sete, estava cochilando na cadeira do jardim quando Dirch Frode chegou e o despertou.</p><p>� Como foi o encontro de Henrik e Harriet? � perguntou Mikael.</p><p>� Essa triste hist�ria tem tamb�m seu lado divertido � respondeu Frode com um sorriso contido. � Isabella irrompeu de repente no quarto de Henrik. Ela ficou sabendo que voc� havia voltado e estava uma fera. Berrou que era preciso acabar com essas imbecilidades sobre Harriet e que voc� era um investigador de merda que causara a morte do filho dela.</p><p>� De certa forma ela tem raz�o.</p><p>� Ordenou que Henrik demitisse voc�, obrigasse voc� a sumir daqui e que parasse de procurar fantasmas.</p><p>� Uau!</p><p>� Ela nem sequer olhou para a mulher que estava com Henrik. Certamente a tomou como uma funcion�ria do hospital. N�o esquecerei jamais o instante em que Harriet se levantou, olhou para Isabella e disse: <emphasis>Bom dia, mam�e.</emphasis></p><p>� E o que aconteceu?</p><p>� Foi preciso chamar o m�dico para reanimar Isabella. Agora ela est� negando que se trata mesmo de Harriet; voc� � acusado de ter trazido uma impostora.</p><p>Dirch Frode estava indo anunciar a Cec�lia e a Alexander que Harriet ressuscitara dos mortos. Ele seguiu seu caminho e deixou Mikael a s�s.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander parou para p�r gasolina num posto um pouco antes de Uppsala. Estivera dirigindo com os dentes cerrados e o olhar fixo � frente. Pagou r�pido, deu a partida na moto e avan�ou at� a sa�da, onde se deteve mais uma vez, indecisa.</p><p>Ainda se sentia mal. Estava furiosa quando deixou Hedeby, mas a raiva lentamente se dissolvera ao longo do trajeto. N�o sabia muito bem por que estava t�o <emphasis>zangada</emphasis> com Mikael Blomkvist, nem mesmo se era com ele que estava <emphasis>zangada.</emphasis></p><p>S� tinha na cabe�a Martin Vanger, aquela maldita Harriet Vanger e aquele maldito Dirch Frode, toda aquela maldita fam�lia Vanger bem instalada em Hedestad, que reinava em seu pequeno imp�rio fazendo intrigas uns contra os outros. Eles haviam precisado da ajuda dela. Normalmente n�o a teriam sequer cumprimentado, muito menos lhe confiado segredos.</p><p><emphasis>Fam�lia de merda!</emphasis></p><p>Inspirou profundamente e pensou na m�e enterrada naquela manh�. Aquilo, sim, n�o tinha solu��o. A morte da m�e significava que a ferida jamais seria curada, pois Lisbeth jamais teria resposta �s perguntas que gostaria de ter feito a ela.</p><p>Pensou em Dragan Armanskij atr�s dela durante o enterro. Deveria ter dito alguma coisa a ele. Pelo menos ter enviado um sinal de que sabia que ele estava ali. Mas a� ele teria usado aquilo como pretexto para querer organizar a vida dela. Se lhe desse a pontinha do dedo, ele iria pegar o bra�o inteiro. Ele nunca entenderia.</p><p>Pensou no dr. Nils Canalha Bjurman, seu tutor, que, ao menos por enquanto, estava neutralizado e fazendo o que ela mandava.</p><p>Sentiu um �dio implac�vel e cerrou os dentes.</p><p>Pensou em Mikael Blomkvist e perguntou-se qual seria a rea��o dele se soubesse que ela estava sob tutela e que toda a sua vida n�o passava de um maldito ninho de ratos.</p><p>Percebeu que n�o queria mal a ele. Mikael fora simplesmente a pessoa de quem ela dispunha para descarregar sua raiva, sobretudo quando sentia vontade de matar algu�m. N�o adiantava nada culp�-lo.</p><p>Sentia-se estranhamente amb�gua em rela��o a ele.</p><p>Ele metia o nariz em toda parte, fu�ava a vida privada dela e... Mas ela tamb�m tinha gostado de trabalhar com ele. E essa era uma sensa��o estranha � trabalhar <emphasis>com</emphasis> algu�m! N�o tinha esse h�bito, mas fora algo surpreendentemente sem dor. Ele n�o ficava martelando nos ouvidos dela, n�o ficava tentando lhe dizer como deveria viver sua vida.</p><p>E fora ela que o seduzira, n�o o contr�rio.</p><p>Sem contar que havia sido bom.</p><p>Ent�o por que essa vontade de chut�-lo?</p><p>Suspirou e contemplou com olhos infelizes um caminh�o enorme que passava pela rodovia E4.</p><p>Mikael ainda estava no jardim por volta das oito da noite quando ouviu o barulho da moto e viu Lisbeth Salander passar pela ponte. Ela estacionou e tirou o capacete. Aproximou-se da mesa do jardim e examinou a cafeteira, que estava fria e <emphasis>vazia.</emphasis> Mikael olhou para ela surpreso. Ela pegou a cafeteira e entrou na casa. Quando voltou, havia tirado o macac�o de couro e posto um jeans e uma camiseta com a inscri��o <emphasis>I can be a regular bitch. Just try me.</emphasis></p><p>� Achei que j� estivesse em Estocolmo � disse Mikael.</p><p>� Dei meia-volta em Uppsala.</p><p>� Um passeio longo.</p><p>� Estou com a bunda dolorida.</p><p>� Por que deu meia-volta?</p><p>Ela n�o respondeu. Mikael n�o insistiu e esperou que ela falasse enquanto tomavam o caf�. Passados dez minutos, ela rompeu o sil�ncio.</p><p>� Gosto da sua companhia � ela reconheceu a contragosto. Eram palavras que nunca havia pronunciado.</p><p>� Foi... interessante trabalhar com voc� nesse caso.</p><p>� Tamb�m gostei de trabalhar com voc� � disse Mikael.</p><p>� Humm.</p><p>� Nunca trabalhei com um pesquisador t�o competente. Certo, sei que voc� � uma <emphasis>hacker</emphasis> terr�vel e conhece c�rculos suspeitos com os quais, depois de um simples telefonema, pode montar urna escuta telef�nica em Londres em vinte e quatro horas, mas de fato voc� obt�m resultados.</p><p>Ela o olhou pela primeira vez desde que se sentara ali. Ele conhecia muitos dos seus segredos. Como era poss�vel?</p><p>� E simples. Conhe�o computadores. Nunca tive problema para ler um texto <emphasis>e</emphasis> entender exatamente o que est� escrito l�.</p><p>� E a sua mem�ria fotogr�fica � ele disse tranquilamente.</p><p>� Acho que sim. N�o sei bem como a coisa funciona. N�o � s� com computadores e redes telef�nicas, mas tamb�m com o motor da minha moto, aparelhos de tev�, aspiradores de p�, processos qu�micos e f�rmulas astrof�sicas. Admito, sou meio maluca, uma verdadeira <emphasis>freak.</emphasis></p><p>Mikael franziu as sobrancelhas. N�o disse nada por um bom tempo.</p><p><emphasis>A s�ndrome de Asperger,</emphasis> pensou. <emphasis>Ou algo parecido. Um talento para ver esquemas e entender racioc�nios abstra�as onde os outros n�o v�em sen�o a mais completa desordem.</emphasis></p><p>Lisbeth olhou fixamente a mesa.</p><p>� A maioria das pessoas pagaria caro para ter esse dom.</p><p>� N�o quero falar sobre isso.</p><p>� Tudo bem, deixa pra l�. Por que voc� voltou?</p><p>� N�o sei. Talvez tenha sido um erro. Ele a perscrutou com o olhar.</p><p>� Lisbeth, pode me dar uma defini��o da palavra "amizade"?</p><p>� Gostar muito de algu�m.</p><p>� Sim, mas o que faz gostar muito de algu�m? Ela encolheu os ombros.</p><p>� Minha defini��o da amizade se baseia em duas coisas � ele disse. � O respeito e a confian�a. Esses dois fatores precisam necessariamente estai presentes. E deve ser rec�proco. Pode-se ter respeito por algu�m, mas se n�o houver confian�a, a amizade vira p�.</p><p>Ela continuou calada.</p><p>� Tudo bem voc� n�o querer falar de si mesma comigo; s� que, mais cedo ou mais tarde, vai precisar decidir se tem confian�a em mim ou n�o. Quero que sejamos amigos, mas n�o posso ser seu amigo sozinho.</p><p>� Gosto de trepar com voc�.</p><p>� O sexo n�o tem nada a ver com a amizade. Claro que amigos podem fazer amor, mas ou�a, Lisbeth: se eu tiver que escolher entre sexo e amizade com voc�, sei muito bem o que escolherei.</p><p>� N�o entendo. Quer fazer amor comigo ou n�o?</p><p>Mikael mordeu o l�bio. Por fim, suspirou.</p><p>� N�o � bom que pessoas que trabalham juntas fa�am amor juntas � ele murmurou. � Acaba dando problemas.</p><p>� Posso estar enganada, mas me parece que voc� e Erika trepam assim que surge uma chance. E al�m disso ela � casada.</p><p>Mikael ficou um momento em sil�ncio.</p><p>� Eu e Erika... temos uma hist�ria que come�ou muito antes de trabalharmos juntos. O fato de ela ser casada n�o lhe diz respeito.</p><p>� Est� vendo? Agora � voc� que n�o quer falar dos seus assuntos. A amizade n�o era uma quest�o de confian�a?...</p><p>� Sim, mas o que eu quero dizer � que n�o falo de uma amiga nas costas dela. Seria trair sua confian�a. Tamb�m n�o falaria de voc� com Erika nas suas costas.</p><p>Lisbeth Salander pensou sobre o que ele disse. A conversa havia ficado complicada e ela n�o gostava de conversas complicadas.</p><p>� Gosto de trepar com voc� � repetiu.</p><p>� E eu tamb�m... mas j� tenho idade para ser seu pai.</p><p>� N�o dou a m�nima para a sua idade.</p><p>� Voc� n�o pode ignorar nossa diferen�a de idade. Ela n�o � um bom ponto de partida para uma rela��o duradoura.</p><p>� Quem falou de algo duradouro? � disse Lisbeth. � Acabamos de resolver um caso em que homens com uma sexualidade pervertida de merda desempenharam um papel e tanto. Se dependesse de mim, homens como esses seriam exterminados, todos.</p><p>� Bem, pelo menos voc� n�o faz concess�es.</p><p>� N�o � disse ela, com seu sorriso enviesado que n�o era bem um sorriso. � Mas voc� n�o � como eles.</p><p>Levantou-se.</p><p>� Vou tomar um banho e depois pretendo me deitar nua na sua cama. Se voc� se sente muito velho, pode ir dormir na cama de armar.</p><p>Mikael olhou para ela. Quaisquer que fossem os problemas de Lisbeth Salander, a timidez n�o era um deles. Ele sempre sa�a perdendo nas discuss�es que tinha com ela. Foi lavar as x�caras de caf� e depois entrou no quarto.</p><empty-line/><p>Levantaram-se por volta das dez, tomaram banho juntos e se instalaram no jardim para o caf�-da-manh�. Aproximadamente �s onze horas, Dirch Frode telefonou e disse que o enterro seria �s duas. Perguntou se tinham a inten��o de ir.</p><p>� Acho que n�o � disse Mikael.</p><p>Frode perguntou se poderia passar por volta das seis da tarde para terem uma conversa. Mikael disse que n�o havia problema.</p><p>Passou algumas horas guardando os pap�is nas pastas e depois levando-as ao escrit�rio de Henrik. Por fim, restaram s� seus pr�prios cadernos de anota��es e as duas pastas sobre o caso Hans-Erik Wennerstr�m, que havia seis meses ele n�o abria. Suspirou e colocou-as na mala.</p><p>Dirch Frode se atrasou e s� chegou �s oito da noite. Ainda vestia a roupa de enterro e parecia muito preocupado quando se sentou no banco da cozinha. Aceitou com prazer a x�cara de caf� que Lisbeth lhe serviu. Ela se sentou na outra mesa e concentrou-se em seu computador, enquanto Mikael perguntava como a ressurrei��o de Harriet repercutira na fam�lia.</p><p>� Pode-se dizer que eclipsou a morte de Martin. Mas a m�dia tamb�m ficou sabendo do caso dela.</p><p>� E como voc�s est�o explicando a situa��o?</p><p>� Harriet conversou com um jornalista do <emphasis>Kuriren.</emphasis> Sua vers�o c que fugiu de casa porque n�o se entendia com a fam�lia, mas que, afinal, acabou se dando bem, pois hoje dirige uma empresa com um volume de neg�cios t�o grande quanto o do grupo Vanger.</p><p>Mikael assobiou.</p><p>� Percebi que ovelhas australianas davam dinheiro, mas n�o sabia que chegava a tanto.</p><p>� A cria��o de ovelhas vai muito bem, mas n�o � a �nica fonte de renda. As empresas Cochran possuem tamb�m minas, refinam opalas, atuam no setor de transporte, de eletr�nica e se dedicam a uma s�rie de outras coisas.</p><p>� N�o diga! E como foi a sequ�ncia dos acontecimentos?</p><p>� Para dizer a verdade, n�o sei. Pessoas foram chegando no transcorrer do dia e a fam�lia est� reunida pela primeira vez depois de muitos anos. V�m tanto do lado de Fredrik Vanger quanto do de Johann Vanger, e h� muitos da nova gera��o, os que t�m entre vinte e trinta anos. Deve haver uns quarenta Vanger em Hedestad agora � noite; uma metade est� no hospital com Henrik, esgotando-o, e a outra metade no Grande Hotel, conversando com Harriet.</p><p>� Harriet � a grande sensa��o. Quantas pessoas est�o sabendo da verdade sobre Martin?</p><p>� Por enquanto, somente eu, Henrik e Harriet. Tivemos uma longa conversa a s�s. Essa hist�ria de Martin e de... suas pervers�es � a nossa principal preocupa��o hoje. A morte de Martin gerou uma crise enorme no grupo.</p><p>� Entendo.</p><p>� N�o h� um sucessor natural, mas Harriet vai ficar em Hedestad durante algum tempo. Entre outras coisas, precisamos ver quem possui o qu�, como as heran�as ser�o divididas, coisas do g�nero. Harriet tem direito a uma parte da heran�a, que teria sido bem maior se ela tivesse ficado aqui o tempo todo. E uma situa��o complicada.</p><p>Mikael riu. Dirch Frode permaneceu s�rio.</p><p>� Isabella passou mal no enterro. Foi hospitalizada. Harriet se recusa a v�-la.</p><p>� Entendo.</p><p>� Por outro lado, Anita vai chegar de Londres. Convocamos um conselho de fam�lia para a pr�xima semana. Ser� a primeira vez em vinte e cinco anos que ela participa.</p><p>� Quem ser� o novo diretor-executivo?</p><p>� Birger luta pelo cargo, mas est� fora de quest�o. O que vai acontecer � que Henrik reassumir� como diretor tempor�rio at� que algu�m de fora seja contratado, ou ent�o algu�m da fam�lia...</p><p>N�o terminou a frase. Mikael levantou as sobrancelhas.</p><p>� Harriet? N�o est� falando s�rio.</p><p>� Por que n�o? E uma mulher de neg�cios muito competente e respeitada.</p><p>� Ela tem uma empresa para dirigir na Austr�lia.</p><p>� Sim, mas seu filho Jeff Cochran dirige o neg�cio na aus�ncia dela.</p><p>� Ele � <emphasis>studs manager</emphasis> numa cria��o de ovelhas. Se entendi direito, cuida para que as ovelhas se reproduzam bem.</p><p>� Tamb�m diplomou-se em economia pela Oxford e em direito em Melbourne.</p><p>Mikael pensou no homem musculoso e sem camisa que o conduzira pelo despenhadeiro e tentou imagin�-lo de terno e gravata. Por que n�o?</p><p>� Isso n�o se resolver� de uma hora para a outra � disse Frode. � Mas ela seria uma diretora-executiva perfeita. Com um apoio apropriado, poderia orientar o grupo para uma nova dire��o.</p><p>� Ela n�o tem experi�ncia...</p><p>� E verdade. Claro que Harriet n�o pode surgir do nada depois de d�cadas e come�ar a dirigir tudo em detalhe. Mas o grupo Vanger � internacional e poder�amos trazer para c� um executivo americano que n�o fala uma palavra de sueco... para tocar o <emphasis>business,</emphasis> como dizem.</p><p>� Cedo ou tarde voc�s v�o ter que enfrentar o problema do por�o de Martin.</p><p>� Eu sei. Mas n�o podemos revelar nada sem arruinar Harriet... Alegro-me de n�o ser eu a ter que tomar uma decis�o sobre isso.</p><p>� Que merda, Dirch! Voc�s n�o podem silenciar sobre Martin ter sido um assassino serial.</p><p>Dirch Frode contorceu-se em sil�ncio. Mikael sentiu de repente um gosto ruim na boca.</p><p>� Mikael, encontro-me numa... situa��o muito desconfort�vel.</p><p>� Fale.</p><p>� Tenho um recado de Henrik. � muito simples. Ele agradece a voc� pelo seu trabalho e diz que considera o contrato encerrado. Isso significa que o est� liberando de outras obriga��es e que voc� n�o est� mais obrigado a viver e a trabalhar aqui em Hedestad et cetera. Ou seja, pode partir imediatamente para Estocolmo e dedicar-se a seus compromissos.</p><p>� Ele quer que eu desapare�a de cena?</p><p>� De modo nenhum. Quer que mais tarde venha visit�-lo para conversarem sobre o assunto. Disse que espera poder manter sem restri��es seus compromissos na dire��o da <emphasis>Millennium.</emphasis> Mas...</p><p>Dirch Frode pareceu ainda mais constrangido.</p><p>� Mas n�o quer mais que eu escreva uma cr�nica sobre a fam�lia Vanger, n�o �?</p><p>Frode assentiu com a cabe�a. Pegou um caderno, abriu-o e entregou a Mikael.</p><p>� Ele escreveu esta carta para voc�.</p><empty-line/><p><emphasis>Prezado Mikael!</emphasis></p><p>Tenho o maior respeito pela sua integridade e n�o vou ofend�-lo tentando ditar o que deve escrever. Pode escrever e publicar exatamente o que quiser, n�o tenho a inten��o de exercer a menor press�o sobre voc�.</p><p>Nosso contrato permanece em vigor, se quiser reivindic�-lo. Tem elementos suficientes para terminar a cr�nica sobre a fam�lia Vanger. Mikael, nunca implorei nada a ningu�m em toda a minha vida. Sempre achei que um homem deve seguir sua moral e sua convic��o. Mas desta vez n�o tenho escolha.</p><p>Peco-lhe, tanto como amigo quanto como co-propriet�rio da <emphasis>Millennium,</emphasis> que n�o revele a verdade sobre Gottfried e Martin. Sei que n�o � correto, mas n�o vejo nenhuma sa�da nessa escurid�o. Devo escolher entre dois males, e s� h� perdedores.</p><p>Peco-lhe que n�o escreva nada que prejudique Harriet. Voc� viveu isso na pele, sabe o que significa ser objeto de uma campanha da imprensa. A campanha dirigida contra voc� foi de propor��es relativamente modestas, mas imagine o que ser� de Harriet se a verdade for conhecida. Ela viveu um calv�rio durante quarenta anos e n�o precisa sofrer ainda mais pelos atos que o irm�o e o pai dela cometeram. Ent�o eu lhe pe�o que reflita nas consequ�ncias que essa hist�ria poder� ter para milhares de funcion�rios do grupo. Isso destruiria Harriet e nos aniquilaria.</p><empty-line/><p><emphasis>H</emphasis><emphasis>e</emphasis><emphasis>nrik</emphasis></p><empty-line/><p>� Henrik disse tamb�m que, se voc� quiser exigir uma indeniza��o pelas perdas ocasionadas pela n�o-publica��o da hist�ria, ele est� totalmente aberto a discutir isso. Pode propor as condi��es financeiras que quiser.</p><p>� Henrik Vanger est� tentando me comprar. Diga-lhe que eu teria preferido que ele nunca tivesse me feito essa oferta.</p><p>� Essa situa��o � t�o penosa para Henrik quanto para voc�. Ele gosta imensamente de voc� e o considera um amigo.</p><p>� Henrik Vanger � um sujeito esperto � disse Mikael, voltando a se irritar. � Ele quer abafar a hist�ria. Joga com os meus sentimentos e sabe que eu tamb�m gosto dele. O que ele est� dizendo � que na pr�tica eu tenho as m�os livres para publicar o que quiser, mas, se eu fizer isso, ele ser� obrigado a rever sua postura com rela��o � <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Tudo mudou depois que Harriet reapareceu.</p><p>� E agora Henrik quer saber qual � o meu pre�o. N�o vou entregar Harriet �s feras, mas <emphasis>algu�m</emphasis> precisa falar sobre as mulheres que Martin levou para o por�o. Dirch, n�o sabemos quantas mulheres ele massacrou. Quem vai falar em nome delas?</p><p>Lisbeth Salander levantou de repente os olhos do computador. Sua voz tinha uma do�ura desagrad�vel quando ela se virou para Dirch Frode.</p><p>� No grupo de voc�s n�o h� ningu�m com a inten��o de comprar a <emphasis>mim</emphasis> tamb�m?</p><p>Frode olhou-a surpreso. Mais uma vez, ele havia ignorado a exist�ncia dela.</p><p>� Se Martin Vanger estivesse vivo neste instante, eu o entregaria �s feras � ela prosseguiu. � Seja qual fosse o arranjo de voc�s com Mikael, eu iria contar tudo sobre ele ao jornal mais pr�ximo. E, se pudesse, o arrastaria � sua pr�pria sala de tortura, o prenderia naquela mesa e lhe enfiaria agulhas nos colh�es. Mas ele est� morto.</p><p>Ela se virou para Mikael antes de continuar.</p><p>� O arranjo podre deles me conv�m. Nada do que fizermos poder� reparar o mal que Martin Vanger causou a suas v�timas. Mas por outro lado surgiu uma situa��o interessante. Voc� est� numa posi��o em que pode continuar prejudicando mulheres inocentes, especialmente essa Harriet que voc� defendeu t�o calorosamente quando volt�vamos de carro para c�. Minha quest�o � a seguinte: o que � pior? Que Martin Vanger a tenha violentado na cabana ou que voc� fa�a isso em papel impresso? Voc� est� diante de um belo dilema. O comit� de �tica da Associa��o dos Jornalistas talvez possa te dar uma ideia de que caminho seguir.</p><p>Ela fez uma pausa. Mikael n�o conseguiu mais sustentar o olhar de Lisbeth Salander. Baixou os olhos para a mesa.</p><p>� S� que eu n�o sou jornalista � disse ela por fim.</p><p>� O que est� querendo? � perguntou Dirch Frode soltando um suspiro</p><p>� Martin filmou suas v�timas. Quero que tentem identificar o maior n�mero poss�vel dessas mulheres e d�em �s fam�lias delas uma compensa��o apropriada. E depois quero que o grupo Vanger fa�a uma doa��o anual e permanente de dois milh�es de coroas ao SOS-Mulheres V�timas de Maus-tratos. Por um minuto, Dirch Frode meditou no pre�o a pagar. Depois assentiu com a cabe�a.</p><p>� Pode viver com isso, Mikael? � perguntou Lisbeth.</p><p>Mikael sentiu-se subitamente desesperado. Passara toda a sua vida profissional denunciando o que outros tentavam esconder, e sua moral o proibia de participar da oculta��o dos crimes terr�veis cometidos no por�o de Martin Vanger. O objetivo de seu trabalho era justamente denunciar o que ele sabia. N�o hesitava em criticar colegas que n�o contassem a verdade. No entanto, ali estava ele discutindo o abafamento do caso mais macabro de que jamais ouvira falar.</p><p>Permaneceu calado por um bom tempo. Depois tamb�m assentiu com a cabe�a.</p><p>� Melhor assim. � Dirch Frode virou-se para Mikael. � E quanto � oferta de Henrik de uma compensa��o financeira...</p><p>� Enfie naquele lugar � disse Mikael. � E agora quero que v� embora, Dirch. Entendo sua posi��o, mas neste momento estou t�o furioso com voc�, com Henrik e com Harriet que, se ficar, vamos deixar de ser amigos.</p><p>Dirch Frode permaneceu sentado � mesa sem fazer men��o de se levantar.</p><p>� Ainda n�o posso ir � disse. � N�o terminei. Tenho outro recado que voc� tamb�m n�o vai gostar. Henrik insistiu para que eu o transmitisse esta noite. Amanh� voc� pode ir ao hospital esfol�-lo, se quiser.</p><p>Mikael levantou devagar a cabe�a e olhou Dirch bem nos olhos.</p><p>� E provavelmente a coisa mais dif�cil que j� precisei fazer na vida � disse Frode. � Mas acho que agora apenas uma sinceridade total e todas as cartas na mesa podem salvar a situa��o.</p><p>� Diga logo.</p><p>� Quando Henrik o convenceu a aceitar esse trabalho no Natal passado, nem ele nem eu pensamos que iria dar em alguma coisa. Foi exatamente o que ele disse: queria fazer uma �ltima tentativa. Ele examinou minuciosamente a sua situa��o, baseando-se muito no relat�rio feito pela senhorita Salander. Contou com seu isolamento, prop�s uma boa remunera��o e utilizou uma boa isca.</p><p>� Wennerstr�m � disse Mikael. Frode assentiu com a cabe�a.</p><p>� Voc�s blefaram?</p><p>� N�o.</p><p>Lisbeth Salander levantou uma sobrancelha, interessada.</p><p>� Henrik vai cumprir todas as suas promessas � continuou Frode. �Dar� uma entrevista e lan�ar� publicamente um ataque frontal contra Wennerstr�m. Voc� ter� todos os detalhes mais tarde, mas em linhas gerais o fato � o seguinte: quando Wennerstr�m esteve ligado ao departamento financeiro do grupo Vanger, ele utilizou v�rios milh�es de coroas para especular com moedas estrangeiras. Isso bem antes desse tipo de especula��o se generalizar. Agiu por conta pr�pria, sem pedir a autoriza��o da dire��o. Os neg�cios n�o iam bem e ele se viu de uma hora para a outra com um d�ficit de sete milh�es de coroas, que tentou cobrir, de um lado, mexendo na contabilidade e, de outro, especulando ainda mais. Foi desmascarado e despedido.</p><p>� Ele obteve ganhos pessoais nessas opera��es?</p><p>� Sim, desviou cerca de meio milh�o de coroas, e o mais c�mico dessa hist�ria, se � que se pode dizer assim, � que essa quantia serviu para fundar o grupo Wennerstr�m. Temos provas de tudo. Voc� pode utilizar essa informa��o � vontade e Henrik sustentar� publicamente suas afirma��es. Mas...</p><p>� Mas essa informa��o n�o tem o menor valor! � disse Mikael, batendo com a m�o na mesa.</p><p>Dirch Frode assentiu com a cabe�a.</p><p>� Aconteceu h� trinta anos e � um cap�tulo encerrado � disse Mikael.</p><p>� Mas voc� ter� a confirma��o de que Wennerstr�m � um escroque.</p><p>� Wennerstr�m se aborrecer� que isso venha a p�blico, por�m n�o ser� atingido mais que por uma bolinha de papel soprada num canudo. Dar� de ombros e divulgar� um comunicado de imprensa dizendo que Henrik Vanger � um velho ultrapassado que implica com ele sem motivo, depois afirmar� que na verdade agiu por ordem de Henrik. Mesmo que n�o possa provar sua inoc�ncia, saber� espalhar fuma�a suficiente para que a hist�ria logo perca o interesse.</p><p>Dirch Frode tinha um aspecto sinceramente pesaroso.</p><p>� Voc�s me enganaram � disse Mikael por fim.</p><p>� Mikael... n�o era nossa inten��o.</p><p>� A culpa � minha. Eu buscava ind�cios de falsidade e deveria ter entendido que esse era um deles. � Deu uma risada brusca, um riso seco. � Henrik � um velho tubar�o. Tinha um produto para vender e me disse o que eu precisava ouvir.</p><p>Mikael levantou-se e foi at� a bancada da cozinha. Virou-se para Frode e resumiu seus sentimentos em duas palavras.</p><p>� V� embora.</p><p>� Mikael... lamento que...</p><p>� Caia fora, Dirch!</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander n�o sabia se devia se aproximar de Mikael ou deix�-lo em paz. Ele resolveu o problema para ela ao pegar de repente a jaqueta, sem dizer nada, e bater a porta atr�s de si.</p><p>Durante mais de uma hora, ela andou de um lado para o outro na cozinha. Sentia-se t�o inquieta que limpou a mesa e lavou a lou�a � tarefa que normalmente deixava para Mikael. V�rias vezes foi at� a janela espiar. Por fim, resolveu p�r sua jaqueta de couro e ir procur�-lo.</p><p>Primeiro foi at� o porto de recreio, onde havia luzes ainda nas janelas, mas n�o viu sinal de Mikael. Seguiu o caminho da praia, onde eles faziam seus passeios noturnos. A casa de Martin Vanger estava �s escuras e j� se notava que n�o era mais habitada. Foi at� a pedra do promont�rio, onde Mikael e ela costumavam se sentar, depois retornou para casa. Ele ainda n�o tinha voltado.</p><p>Lisbeth foi procurar do lado da igreja. Nenhum sinal de Mikael tamb�m. Ela hesitou um momento, perguntando-se o que devia fazer. Resolveu pegar a moto, p�s uma lanterna no estojo debaixo do assento e partiu pelo caminho da praia outra vez. Demorou um pouco at� pegar o atalho invadido em parte pela vegeta��o e mais algum tempo at� encontrar a trilha que conduzia � cabana de Gottfried. Avistou-a de repente na escurid�o, atr�s de algumas �rvores, quando estava quase chegando. N�o viu Mikael na varanda e a porta estava trancada.</p><p>J� ia voltar ao povoado, quando se deteve ao avistar a silhueta de Mikael no escuro, no pont�o onde Harriet afogara o pai. Deu um suspiro de al�vio.</p><p>Mikael percebeu que ela se aproximava pelo barulho das t�buas e se virou. Ela sentou ao lado dele sem dizer nada. Por fim ele rompeu o sil�ncio.</p><p>� Desculpe. Eu precisava ficar um pouco sozinho.</p><p>� Eu entendo.</p><p>Ela acendeu dois cigarros e estendeu um a ele. Mikael olhou para ela. Lisbeth Salander era a pessoa mais anti-social que ele conhecera; recusava-se a falar de coisas pessoais e nunca aceitara a menor demonstra��o de simpatia dele. Tinha salvado sua vida e agora sa�a no meio da noite para procur�-lo pela ilha. Ele p�s um bra�o em torno dela.</p><p>� Agora sei o quanto valho. Abandonamos todas aquelas mulheres � disse. � Eles v�o abafar a hist�ria. Tudo que h� no por�o de Martin vai desaparecer.</p><p>Lisbeth n�o respondeu.</p><p>� Erika tinha raz�o � ele continuou. � Teria sido melhor se eu tivesse ido � Espanha dormir com as espanholas por um m�s, depois voltar a me encarregar de Wennerstr�m. Foram meses jogados fora.</p><p>� Se voc� tivesse ido � Espanha, Martin Vanger continuaria agindo no seu por�o.</p><p>Sil�ncio. Eles ficaram ali juntos por bastante tempo at� que Mikael se levantou e prop�s que voltassem.</p><p>Mikael adormeceu antes de Lisbeth. Ela ficou acordada escutando a respira��o dele. Esperou um momento, depois foi � cozinha fazer caf�. Sentou-se no banco, no escuro, e fumou v�rios cigarros enquanto refletia intensamente. Para ela, era evidente que Vanger e Frode iam enganar Mikael. Essa gente era assim por natureza. Mas o problema era de Mikael, e n�o dela. Ou era?</p><p>Acabou tomando uma decis�o. Esmagou o cigarro, foi para junto de Mikael, acendeu a l�mpada de cabeceira e sacudiu-o at� que despertasse. Eram duas e meia da manh�.</p><p>� Que foi?</p><p>� Tenho uma pergunta pra te fazer. Sente-se. Mikael sentou-se, ainda sonolento.</p><p>� Quando voc� foi condenado por difama��o, por que n�o se defendeu? Mikael sacudiu a cabe�a e olhou para ela. Depois olhou para o despertador.</p><p>� � uma longa hist�ria, Lisbeth.</p><p>� Conte. N�o tenho pressa.</p><p>Ele permaneceu um bom tempo em sil�ncio, refletindo sobre o que deveria dizer. Por fim decidiu contar a verdade.</p><p>� Eu n�o tinha como me defender. O conte�do do artigo estava errado.</p><p>� Quando pirateei seu computador e os e-mails que voc� trocou com Erika Berger, havia muitas refer�ncias ao caso Wennerstr�m, mas sempre para discutir detalhes pr�ticos do processo e nunca o que realmente aconteceu. O que foi que n�o deu certo?</p><p>� Lisbeth, n�o posso revelar a verdadeira hist�ria. Ca� numa armadilha. Erika e eu estamos totalmente de acordo que seria ainda mais prejudicial � nossa credibilidade se tent�ssemos contar o que de fato se passou.</p><p>� Ent�o me diga, Super-Blomkvist. Ontem � tarde voc� me passou um serm�o sobre amizade, confian�a e n�o sei mais o qu�. Acha que estou pretendendo divulgar a sua hist�ria pela internet?</p><p>Mikael protestou uma ou duas vezes. Lembrou a Lisbeth que era madrugada e que n�o tinha �nimo para pensar no assunto. Ela permaneceu obstinadamente sentada at� ele ceder. Mikael foi lavar o rosto e esquentar o caf�. Ent�o voltou para a cama e contou como, dois anos antes, seu ex-colega de classe Robert Lindberg havia despertado sua curiosidade na cabine de um veleiro atracado na marina de Arholma.</p><p>� Quer dizer que seu colega mentiu?</p><p>� N�o, de modo nenhum. Ele contou exatamente o que sabia e verifiquei cada palavra do que ele disse em documentos existentes no Comit� de Apoio Industrial. Cheguei a ir � Pol�nia fotografar o hangar onde a empresa Minos tinha sido instalada. E entrevistei v�rias pessoas que haviam sido contratadas. Todas disseram exatamente a mesma coisa.</p><p>� N�o entendo.</p><p>Mikael suspirou. Demorou um pouco para prosseguir.</p><p>� Eu tinha uma �tima hist�ria. Ainda faltava colocar Wennerstr�m na parede, mas a hist�ria era consistente e, se eu tivesse publicado na hora, teria desestabilizado o cara. Ele talvez n�o fosse condenado por fraude, o caso j� tinha o aval dos auditores, mas pelo menos eu teria abalado sua reputa��o.</p><p>� E o que impediu isso?</p><p>� Nesse meio-tempo algu�m percebeu a jogada e Wennerstr�m ficou sabendo da investiga��o. E um monte de coisas estranhas come�aram a acontecer. Primeiro recebi amea�as. Telefonemas an�nimos feitos de cabines p�blicas imposs�veis de localizar. Erika tamb�m recebeu amea�as. Os absurdos de sempre: pare de investigar sen�o vamos te pegar, coisas desse tipo. Ela evidentemente ficou irritada.</p><p>Ele pegou um dos cigarros de Lisbeth.</p><p>� Depois aconteceu algo muito desagrad�vel. Uma noite, ao sair da re-da��o bem tarde, fui atacado por dois sujeitos que me deram uma surra. Eu estava completamente desprevenido, eles me espancaram pra valer e desmaiei. N�o consegui identific�-los, mas um deles me pareceu ser um motoqueiro.</p><p>� E?</p><p>� Bem, todas essas manifesta��es de simpatia acabaram deixando Erika mais furiosa e eu mais obstinado. Refor�amos a seguran�a da <emphasis>Millennium. O</emphasis> problema � que eram ataques desproporcionais em rela��o ao conte�do da nossa hist�ria. N�o entend�amos por que tudo aquilo estava acontecendo.</p><p>� Mas a hist�ria que voc� publicou era muito diferente.</p><p>� Exato. De repente descobrimos uma brecha. Fizemos contato com uma fonte, um Garganta Profunda do c�rculo de Wennerstr�m. O sujeito estava borrado de medo e s� nos encontr�vamos com ele em quartos de hot�is an�nimos. Contou que o dinheiro do caso Minos fora utilizado para comprar armas destinadas � guerra na Jugosl�via. Wennerstr�m tinha feito neg�cios com o grupo de direita croata Ustacha. E mais: o cara nos deu c�pias de documentos que confirmavam suas den�ncias.</p><p>� E voc�s acreditaram?</p><p>� Ele foi habilidoso. Tamb�m nos passou informa��es suficientes para nos levar a uma outra fonte que podia confirmar a hist�ria. Tivemos inclusive uma foto que mostrava um dos mais pr�ximos colaboradores de Wennerstr�m apertando a m�o do comprador, diante de caixas com a etiqueta "Explosivos". Tudo parecia ver�dico, e publicamos.</p><p>� Era uma isca.</p><p>� Uma isca do come�o ao fim � confirmou Mikael. � Os documentos haviam sido habilmente falsificados. E o advogado de Wennerstr�m provou que a foto do subalterno de Wennerstr�m e do chefe da Ustacha era uma montagem de duas fotos diferentes feita no Photoshop.</p><empty-line/><p>� Fascinante � disse Lisbeth Salander, assentindo com a cabe�a pensativamente. Tudo estava muito claro para ela.</p><p>� N�o � mesmo? Depois foi f�cil ver como hav�amos sido manipulados. Nossa hist�ria original teria prejudicado Wennerstr�m, no entanto ela se perdeu numa falsifica��o e caiu numa armadilha. Publicamos uma hist�ria que permitiu a Wennerstr�m desmantel�-la ponto por ponto e provar sua inoc�ncia. <emphasis>Foi</emphasis> um golpe de mestre.</p><p>� E voc�s n�o podiam voltar atr�s e contar a verdade. N�o tinham nenhuma prova de que Wennerstr�m fizera a falsifica��o.</p><p>� Pior que isso. Se tent�ssemos contar a verdade e comet�ssemos a imbecilidade de acusar Wennerstr�m de estar por tr�s de tudo, ningu�m acreditaria em n�s. Interpretariam isso apenas como uma tentativa desesperada de culpar um grande empres�rio inocente. Ser�amos vistos como uns obcecados por compl� e doidos completos.</p><p>� Entendo.</p><p>� Wennerstr�m estava duplamente protegido. Se o truque fosse revelado, ele poderia dizer que um de seus inimigos quisera arrast�-lo para <emphasis>a</emphasis> lama. E n�s da <emphasis>Millennium</emphasis> perder�amos mais uma vez a credibilidade, pois ter�amos engolido informa��es que depois se revelaram falsas.</p><p>� Ent�o voc� escolheu n�o se defender e encarar uma pena de pris�o.</p><p>� Mereci a pena � disse Mikael com voz amarga. � Fui culpado por difama��o. � isso, agora voc� j� sabe. Posso dormir?</p><empty-line/><p>Mikael apagou a luz e fechou os olhos. Lisbeth estendeu-se ao lado dele. N�o disse nada por um momento.</p><p>� Wennerstr�m � um g�ngster.</p><p>� Eu sei.</p><p>� N�o, eu quis dizer que eu <emphasis>sei</emphasis> que ele � um g�ngster. Ele negocia com tudo, desde a m�fia russa at� o cartel de Medell�n na Col�mbia.</p><p>� O que est� querendo dizer?</p><p>� Quando entreguei meu relat�rio a Frode, ele me incumbiu de uma miss�o suplementar. Pediu que eu tentasse descobrir o que realmente havia acontecido no processo. Eu estava envolvida nisso quando Armanskij me chamou para cancelar o trabalho.</p><p>� Suponho que n�o precisavam mais da investiga��o depois que voc� aceitou a proposta de Henrik Vanger. N�o havia mais interesse.</p><p>� Sim, e da�?</p><p>� Bem, n�o gosto de deixar as coisas pela metade. Tive algumas semanas... digamos, livres na primavera, num per�odo em que Armanskij n�o tinha trabalho para mim. Ent�o, para me distrair, comecei a escavar o caso Wennerstr�m.</p><p>Mikael empertigou-se, acendeu a l�mpada e olhou para Lisbeth. Os olhares dos dois se cruzaram. Ela parecia realmente algu�m que tinha feito algo errado.</p><p>� Descobriu alguma coisa?</p><p>� Tenho todo o disco r�gido dele no meu computador. Se te interessa, posso fornecer quantas provas voc� quiser de que ele � um verdadeiro g�ngster.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>28.� TER�A-FEIRA 29 DE JULHO � SEXTA-FEIRA 24 DE OUTUBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Fazia tr�s dias que Mikael Blomkvist estava debru�ado sobre as c�pias dos fich�rios de Lisbeth Salander � pastas repletas de documentos. O problema � que as evid�ncias seguiam em todas as dire��es. Uma negocia��o com t�tulos em Londres, outra com moedas estrangeiras em Paris atrav�s de um agente. Uma empresa-fantasma em Gibraltar. O saldo de uma conta no Chase Manhattan Bank, em Nova York, de repente multiplicado por dois.</p><p>E tamb�m v�rios pontos de interroga��o: uma empresa comercial com duzentas mil coroas numa conta sem movimenta��o aberta cinco anos antes em Santiago do Chile � uma entre trinta outras semelhantes em doze pa�ses diferentes � e sem a menor indica��o da atividade principal. Empresas em estado latente? A <emphasis>espera de qu�?</emphasis> Biombos para ocultar outras atividades? O computador n�o fornecia respostas para o que Wennerstr�m guardava na cabe�a, e que certamente era muito evidente para que precisasse estar num documento eletr�nico.</p><p>Salander tinha se convencido de que jamais encontrariam resposta para a maior parte dessas quest�es. Eles podiam ver a mensagem, mas n�o podiam interpretar seu sentido sem o c�digo. O imp�rio Wennerstr�m era como uma cebola cujas peles podiam ser retiradas uma a uma; um conjunto de empresas propriet�rias umas das outras. Companhias, contas, fundos, valores. Eles constatavam que ningu�m, nem mesmo Wennerstr�m, conseguiria ter uma vis�o global. O imp�rio Wennerstr�m era dotado de vida pr�pria.</p><p>Havia uma estrutura, ou pelo menos um esbo�o de estrutura. Um labirinto de empresas interdependentes. O imp�rio Wennerstr�m podia ser avaliado, de acordo com a pessoa que fizesse o c�lculo e de acordo com a maneira de calcular, entre 100 bilh�es e 400 bilh�es de coroas. Mas, no caso de empresas propriet�rias umas das outras, que valor t�m, afinal, essas empresas?</p><p>Quando Lisbeth lan�ou a pergunta, Mikael olhou-a com um ar atormentado.</p><p>� Tudo isso � esot�rico � respondeu ele antes de passar ao exame das contas banc�rias.</p><empty-line/><p>Eles deixaram a ilha de Hedeby �s pressas, de manh�, depois que Lisbeth Salander soltou a bomba que agora absorvia Mikael o tempo todo. Foram direto para a casa de Lisbeth e passaram dois dias e duas noites diante do computador dela, enquanto Mikael era conduzido ao universo de Wennerstr�m. Ele tinha muitas perguntas a fazer. Uma delas por pura curiosidade.</p><p>� Lisbeth, como voc� pode pilotar o computador dele?</p><p>� E uma pequena inven��o fabricada pelo meu colega Praga. Wennerstr�m trabalha num laptop IBM, tanto em casa como no escrit�rio. Isso quer dizer que toda a informa��o fica guardada num �nico disco r�gido. O cabo de banda larga est� na casa dele. Praga inventou uma esp�cie de tubo que se conecta ao cabo propriamente dito e que venho testando para ele; tudo o que Wennerstr�m v� � registrado por esse tubo, que envia a informa��o a um servidor em algum lugar.</p><p>� Ele n�o tem um <emphasis>firewall?</emphasis></p><p>� Sim, tem, mas a ideia � que o pr�prio tubo funcione tamb�m como uma esp�cie de <emphasis>firewall.</emphasis> Demora um pouco para piratear desse modo. Digamos que Wennerstr�m receba um e-mail; ele chega primeiro ao tubo de Praga e podemos l�-lo antes mesmo que seja captado pelo <emphasis>firewall</emphasis> de Wennerstr�m. Mas o engenhoso � que a mensagem � reescrita e injetamos alguns <emphasis>bytes</emphasis> de um c�digo-fonte. A opera��o repete-se toda vez que ele faz um <emphasis>download</emphasis> em seu computador. A coisa funciona ainda melhor com imagens. Ele navega muito na internet. Sempre que baixa uma foto porn� ou abre um novo site, acrescentamos alguns sinais desse c�digo-fonte. Depois de um certo tempo, algumas horas ou dias, conforme o uso que ele fizer do computador, Wennerstr�m ter� baixado um programa inteiro de cerca de tr�s megabytes, em que os <emphasis>bits</emphasis> foram se somando uns aos outros.</p><p>� E?</p><p>� Depois que os �ltimos <emphasis>bits</emphasis> foram instalados, o programa se integra ao navegador da internet do laptop. Ele pensa que o computador travou e � obrigado a reiniciar. Ao fazer isso, est� carregando um novo programa. Wennerstr�m usa o Microsoft Explorer. Na pr�xima vez que abrir o Explorer, na verdade abrir� um programa diferente, invis�vel no seu computador e semelhante ao Explorer. Funciona como o Explorer, mas faz tamb�m um monte de outras coisas. Esse programa come�a a escanear o computador e envia <emphasis>bits</emphasis> de informa��o sempre que Wennerstr�m clica no mouse ao navegar. Depois de um tempo, e dependendo do per�odo que ele passa navegando, acumulamos um espelho completo do conte�do do disco r�gido dele num outro servidor. E ent�o que o TH interv�m.</p><p>� TH?</p><p>� � como Praga chamou: <emphasis>Takeover hostil.</emphasis></p><p>� Ah!</p><p>� O engenhoso � o que vem a seguir. Quando a estrutura est� pronta, Wennerstr�m tem dois discos r�gidos completos, um em sua pr�pria m�quina e outro no nosso servidor. Na verdade, quando ele inicia o computador, est� iniciando o computador-espelho. N�o trabalha mais no pr�prio computador, e sim no nosso servidor. Seu computador vai rodar um pouco mais lento, mas nem se percebe. E, quando estou conectada ao servidor, posso acompanhar o computador dele em tempo real. Toda vez que Wennerstr�m digita uma tecla, aparece no meu monitor.</p><p>� Vejo que o seu colega tamb�m � um <emphasis>hacker.</emphasis></p><p>� Foi ele que montou a escuta telef�nica em Londres. Socialmente falando, � um incompetente, mas na internet � legend�rio.</p><p>� Certo � disse Mikael com um sorriso resignado. � Pergunta n�mero dois: por que n�o me falou de Wennerstr�m antes?</p><p>� Voc� nunca me pediu.</p><p>� E se eu nunca tivesse pedido � digamos que n�o tiv�ssemos nos conhecido � ent�o voc� teria se calado sobre as atividades il�citas de Wennerstr�m, enquanto a <emphasis>Millennium ca�a</emphasis> em desgra�a?</p><p>� Ningu�m nunca me pediu para denunciar Wennerstr�m � respondeu Lisbeth com uma voz sentenciosa.</p><p>� Mas e se pedissem?</p><p>� Ora, j� contei a voc�! � ela retrucou na defensiva. Mikael deixou o assunto de lado.</p><p>Mikael estava totalmente absorvido pelo que descobria no computador de Wennerstr�m. Lisbeth gravara o conte�do do disco r�gido de Wennerstr�m</p><p>� cerca de cinco gigabytes � nuns dez CDs, e tinha mais ou menos a impress�o de ter se mudado para a casa de Mikael. Esperava pacientemente e respondia �s perguntas que ele n�o parava de fazer.</p><p>� N�o entendo como ele pode ser t�o imbecil a ponto de guardar todas as informa��es dos seus neg�cios suspeitos num disco r�gido � disse Mikael.</p><p>� Se ca�sse nas m�os da pol�cia...</p><p>� As pessoas n�o s�o racionais. Eu diria que ele nem imagina que a pol�cia possa querer confiscar seu computador.</p><p>� Acima de qualquer suspeita. Concordo que ele � um sujeito arrogante, mas deve estar bem cercado de consultores em seguran�a que lhe dizem como lidar com seu computador. Vi arquivos de 1993.</p><p>� O computador � bastante recente. Foi fabricado h� um ano, mas Wennerstr�m parece ter transferido toda a sua velha correspond�ncia e coisas do g�nero para o disco r�gido, em vez de salvar em CDs. Mas ele se previne com programas de encripta��o.</p><p>� Precau��o totalmente in�til, j� que voc� est� dentro do computador dele e l� as senhas toda vez que ele digita.</p><p>Fazia quatro dias que eles tinham voltado a Estocolmo, quando Christer Malm ligou para o celular de Mikael e o despertou �s tr�s da manh�.</p><p>� Henry Cortez foi a uma festa com uma namorada esta noite.</p><p>� Ah, sim? � respondeu Mikael, ainda tonto de sono.</p><p>� Antes de voltarem para casa, passaram no bar da Esta��o central.</p><p>� N�o � o melhor lugar para namorar.</p><p>� Escuta esta: Janne Dahlman est� de f�rias e Henry o viu numa mesa junto com um homem.</p><p>� E?</p><p>� Henry reconheceu imediatamente o tal homem. Krister S�der.</p><p>� O nome me diz alguma coisa, mas...</p><p>� Trabalha no <emphasis>Finansmagasinet Monopol,</emphasis> que pertence ao grupo Wennerstr�m � prosseguiu Malm.</p><p>Mikael ergueu-se na cama.</p><p>� Est� me ouvindo?</p><p>� Sim, estou. Pode n�o significar nada. S�der � jornalista, talvez seja um velho colega de Dahlman.</p><p>� Talvez eu esteja sendo meio paran�ico, mas h� tr�s meses a <emphasis>Millennium</emphasis> comprou a reportagem de um <emphasis>freelancer.</emphasis> Uma semana antes de n�s a publicarmos, S�der publicou uma not�cia quase id�ntica. Era o mesmo assunto sobre um fabricante de celulares. Ele ocultava a informa��o de que utilizavam um componente defeituoso que pode causar curtos-circuitos.</p><p>� Entendo. Mas essas coisas acontecem. Comentou isso com Erika?</p><p>� N�o, ela est� viajando, s� volta a semana que vem.</p><p>� N�o faz mal. Volto a te ligar � disse Mikael e desligou o celular.</p><p>� Problemas? � perguntou Lisbeth Salander.</p><p>� A <emphasis>Millennium</emphasis> � disse Mikael. � Preciso dar uma sa�da. Quer vir comigo?</p><empty-line/><p>A reda��o estava deserta �s quatro da manh�. Lisbeth precisou de tr�s minutos para descobrir o c�digo de acesso do computador de Janne Dahlman e mais dois para transferir seu conte�do para o notebook de Mikael.</p><p>A maior parte dos e-mails, por�m, achava-se no laptop pessoal de Dahlman, ao qual n�o tinham acesso. Mas no computador dele na <emphasis>Millennium</emphasis> Lisbeth encontrou um endere�o hotmail de Dahlman, e ela levou seis minutos para entrar na conta dele e transferir toda a sua correspond�ncia do ano anterior. Cinco minutos depois, Mikael tinha provas de que Janne Dahlman deixara vazar informa��es sobre a situa��o da <emphasis>Millennium</emphasis> e de que informara o redator do <emphasis>Finansmagasinet Monopol</emphasis> sobre as reportagens que Erika programava publicar nos pr�ximos n�meros. A espionagem prosseguira pelo menos at� o outono anterior.</p><p>Eles desligaram os computadores e voltaram ao apartamento de Mikael para dormir mais algumas horas. Ele chamou Christer Malm por volta das dez da manh�.</p><p>� Tenho provas de que Dahlman trabalha para Wennerstr�m.</p><p>� Eu tinha certeza disso. Certo, vou despedir esse canalha ainda hoje.</p><p>� N�o fa�a isso. N�o fa�a absolutamente nada. � Nada?</p><p>� Christer, confie em mim. At� quando Dahlman estar� de f�rias?</p><p>� Ele volta na segunda-feira de manh�.</p><p>� H� quantas pessoas na reda��o hoje?</p><p>� Mais ou menos a metade.</p><p>� Ser� que pode anunciar uma reuni�o para as duas da tarde? N�o diga qual o assunto. Estarei a�.</p><p>Seis pessoas estavam sentadas em volta da mesa de reuni�o diante de Mikael. Christer Malm tinha um ar cansado. Henry Cortez exibia aquela felicidade que s� os jovens apaixonados de vinte e quatro anos conseguem sentir. Monika Nilsson parecia ansiosa, � espera de revela��es bomb�sticas; Christer Malm n�o dissera uma palavra sobre o tema da reuni�o, mas ela j� trabalhava na reda��o havia bastante tempo para entender que algo incomum estava sendo tramado, e n�o saber de nada a deixava aborrecida. A �nica que exibia um comportamento normal era Ingela Oskarsson, funcion�ria de tempo parcial encarregada da administra��o, das assinaturas e de outras tarefas que lhe ocupavam dois dias da sua semana, embora ela n�o parecesse muito folgada desde que se tornara m�e dois anos antes. A outra funcion�ria de tempo parcial era a jornalista <emphasis>freelancer</emphasis> Lotta Karim, com um contrato semelhante ao de Henry Cortez e que acabava de voltar de f�rias. Christer tamb�m conseguira trazer para a reuni�o Sonny Magnusson, embora ele ainda estivesse de f�rias.</p><p>Mikael come�ou cumprimentando a todos e desculpando-se por ter estado fora durante o ano.</p><p>� Nem Christer nem eu tivemos tempo de informar Erika sobre o que nos preocupa hoje, mas posso garantir que nesse assunto falo tamb�m em nome dela. Hoje vamos decidir o futuro da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>Fez uma pausa e deixou as palavras produzirem efeito. Ningu�m fez perguntas.</p><p>� Este ano foi pesado. Estou surpreso de que nenhum de voc�s tenha ido procurar emprego em outro lugar. S� posso concluir que voc�s s�o ou completamente loucos ou excepcionalmente leais e que gostam de trabalhar na revista. Por isso vou botar as cartas na mesa e pedir uma �ltima contribui��o.</p><p>� Ultima contribui��o? � espantou-se Monika Nilsson. � � como se voc� tivesse a inten��o de fechar a <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Isso mesmo � respondeu Mikael. � Quando voltar das f�rias, Erika convocar� n�s todos para uma triste reuni�o, na qual anunciar� que a <emphasis>Millennium</emphasis> vai deixar de circular no Natal e que todos ser�o dispensados.</p><p>Desta vez, uma certa inquieta��o se espalhou no ar. Mesmo Christer Malm acreditou, por um segundo, que Mikael falava s�rio, antes de notar seu sorriso satisfeito.</p><p>� Durante este outono, voc�s v�o desempenhar um duplo papel. Devo dizer que o nosso caro secret�rio de reda��o, Janne Dahlman, andou passando informa��es nossas para Hans-Erik Wennerstr�m. O que significa que o inimigo est� sempre muito bem informado do que se passa aqui, e isso explica muitos dos reveses que sofremos neste ano. Sobretudo voc�, Sonny, pois alguns anunciantes que pareciam firmes se retiraram subitamente.</p><p>� Dahlman, aquele merda! N�o me surpreende � disse Monika Nilsson.</p><p>Janne Dahlman nunca fora muito popular na reda��o e a revela��o n�o chegou a chocar ningu�m. Mikael interrompeu os murm�rios.</p><p>� S� estou contando isso porque tenho inteira confian�a em voc�s. Trabalhamos juntos h� v�rios anos e sei que voc�s t�m a cabe�a no lugar, por isso sei tamb�m que aceitar�o participar desse jogo, n�o importa o que acontecer neste outono. E fundamental que Wennerstr�m seja levado a acreditar que a <emphasis>Millennium</emphasis> est� afundando. E o trabalho de voc�s ser� faz�-lo acreditar nisso.</p><p>� Qual � a nossa verdadeira situa��o? � perguntou Henry Cortez.</p><p>� Resumindo: foi um per�odo dif�cil para todos e ainda n�o estamos livres das dificuldades. Tudo levava a crer que a <emphasis>Millennium</emphasis> ia acabar. Mas garanto que isso n�o vai acontecer. A <emphasis>Millennium</emphasis> hoje est� mais forte do que h� um ano. Depois desta reuni�o, vou desaparecer novamente por dois meses. L� pelo fim de outubro estarei de volta. Ent�o cortaremos as asas de Hans-Erik Wennerstr�m.</p><p>� De que maneira? � quis saber Cortez.</p><p>� Sinto muito, mas n�o posso revelar detalhes. Vou escrever uma nova hist�ria sobre Wennerstr�m, s� que desta vez faremos tudo direitinho. Ent�o come�aremos a preparar a festa de Natal da revista. Espero ter como prato principal do card�pio Wennerstr�m assado e diversos cr�ticos como sobremesa.</p><p>A descontra��o logo tomou conta do ambiente. Mikael se perguntou como estaria se sentindo se estivesse ali, sentado, escutando a si mesmo naquela mesa de reuni�o. C�tico? Provavelmente. Mas parecia que ele contava com um capital de confian�a entre os colaboradores da <emphasis>Millennium.</emphasis> Levantou a m�o outra vez.</p><p>� Para que isso aconte�a, � importante que Wennerstr�m acredite que a <emphasis>Millennium</emphasis> est� afundando. N�o quero que ele monte uma campanha defensiva ou que elimine provas no �ltimo minuto. Por isso vamos tra�ar um roteiro para os pr�ximos meses. Em primeiro lugar, � fundamental que nada do que discutimos aqui hoje seja registrado por escrito em e-mails ou comunicado a algu�m fora desta sala. N�o sabemos at� que ponto Dahlman tem acesso aos nossos computadores, e descobri que � bastante f�cil ler os e-mails particulares dos colaboradores. Portanto, faremos tudo verbalmente. Se nas pr�ximas semanas quiserem discutir alguma coisa, falem com Christer na casa dele. Com extrema discri��o.</p><p>Mikael escreveu numa lousa: <emphasis>nenhuma mensagem eletr�nica.</emphasis></p><p>� Em segundo lugar, voc�s far�o fofocas. Quero que comecem a me denegrir toda vez que Janne Dahlman estiver por perto. N�o exagerem. Apenas d�em vaz�o ao ego naturalmente avacalhador de voc�s. Christer, gostaria que voc� e Erika tivessem uma discuss�o s�ria. Usem a imagina��o e guardem mist�rio sobre as raz�es, mas d�em a impress�o de que a revista est� rachando e que todos est�o se indispondo uns contra os outros.</p><p>Ele escreveu <emphasis>Avacalhem</emphasis> na lousa.</p><p>� Em terceiro lugar: quando Erika voltar, voc�, Christer, a informar� sobre a trama. Caber� a ela, em seguida, fazer Janne Dahlman acreditar que nosso acordo com o grupo Vanger, que nos mant�m � tona no momento, afundou porque Henrik Vanger est� gravemente doente e porque Martin Vanger morreu num acidente de carro.</p><p>Escreveu a palavra <emphasis>Desinforma��o.</emphasis></p><p>� Ent�o isso significa que o acordo � s�lido? � perguntou Monika Nilsson.</p><p>� Pode acreditar em mim � disse Mikael s�rio. � O grupo Vanger est� empenhado em que a <emphasis>Millennium</emphasis> sobreviva. Daqui a algumas semanas, digamos, no final de agosto, Erika convocar� uma reuni�o para avisar das dispensas. E importante que todos entendam que � uma isca e que o �nico a desaparecer daqui ser� Janne Dahlman. Mas voc�s precisam continuar fingindo. Comecem a dizer que est�o procurando emprego e falem da refer�ncia ruim que a <emphasis>Millennium</emphasis> representa no curr�culo.</p><p>� E voc� acha que essa com�dia vai salvar a <emphasis>Millennium?</emphasis> � perguntou Sonny Magnusson.</p><p>� Tenho certeza que sim. Sonny, quero que fa�a um relat�rio mensal fict�cio mostrando que a tend�ncia dos anunciantes se inverteu nos �ltimos meses e que o n�mero de assinantes caiu outra vez.</p><p>� Vai ser divertido � disse Monika. � Isso vai ficar s� dentro da reda��o ou deixaremos vazar para outras m�dias?</p><p>� S� dentro da reda��o. Se a hist�ria vazar, saberemos quem � o respons�vel. Se daqui a alguns meses algu�m nos pedir explica��es, poderemos simplesmente dizer: N�o, meu velho, voc� ouviu boatos sem fundamento; de modo nenhum, nunca se falou em fechar a <emphasis>Millennium.</emphasis> O melhor que pode acontecer � Dahlman ventilar a informa��o para outras m�dias. Ent�o, ele � que passar� por imbecil. Se puderem soprar a Dahlman uma hist�ria plaus�vel mas completamente idiota, t�m carta branca.</p><p>Passaram duas horas montando um roteiro e distribuindo o papel de cada um.</p><p>Depois da reuni�o, Mikael foi tomar um caf� com Christer Malm no Java, no centro da cidade.</p><p>� Christer, � muito importante que v� esperar Erika no aeroporto, para coloc�-la a par da situa��o. Ter� que convenc�-la a jogar o jogo. Se eu bem a conhe�o, ela vai querer se confrontar com Dahlman imediatamente, mas isso n�o pode acontecer. N�o quero que Wennerstr�m suspeite de alguma coisa e d� sumi�o nas provas.</p><p>� Certo.</p><p>� E diga a Erika que se mantenha longe do correio eletr�nico at� ter instalado o encriptador PGP e ter aprendido a utiliz�-lo. E prov�vel que, atrav�s de Dahlman, Wennerstr�m esteja lendo todos os nossos e-mails internos. Quero que usem o PGP, voc� e todo mundo na reda��o. Como se fosse a coisa mais natural. Darei o nome de um t�cnico de inform�tica, voc� vai cham�-lo e ele vir� dar uma olhada na rede interna e nos computadores da reda��o. Deixe-o instalar o programa como se fosse um servi�o normal.</p><p>� Farei o melhor poss�vel. Mas diga, Mikael, o que voc� est� tramando exatamente?</p><p>� Vou acabar com a carreira de Wennerstr�m.</p><p>� De que maneira?</p><p>� Sinto muito, por enquanto � segredo. S� posso dizer que tenho informa��es sobre ele que far�o nossa den�ncia anterior parecer uma coisa �-toa.</p><p>Christer Malm pareceu incomodado.</p><p>� Sempre confiei em voc�, Mikael. Voc� n�o confia em mim? Mikael riu.</p><p>� Claro que confio. Mas neste momento estou envolvido numa atividade criminosa muito s�ria, que pode me valer uns dois anos de pris�o. � que os procedimentos da minha pesquisa s�o, por assim dizer, um pouco duvidosos... Utilizo m�todos t�o il�citos quanto os de Wennerstr�m. N�o quero que nem voc� nem Erika nem ningu�m da <emphasis>Millennium</emphasis> se envolva nisso.</p><p>� Voc� tem o dom de me deixar preocupado.</p><p>� Fique tranquilo. E pode dizer a Erika que essa hist�ria vai repercutir. Muito.</p><p>� Erika vai querer saber o que voc� est� tramando... Mikael refletiu um segundo, depois sorriu.</p><p>� Diga a ela que, na �ltima primavera, ela deixou muito claro para mim, quando assinou o contrato com Henrik Vanger � minha revelia, que eu n�o passava de um reles e mortal <emphasis>freelancer,</emphasis> sem lugar no conselho administrativo da revista e sem nenhuma influ�ncia na linha seguida pela <emphasis>Millennium.</emphasis> Isso tamb�m significa que n�o sou obrigado a inform�-la de nada. Mas prometo que, se ela se comportar direitinho, vai ser a primeira a saber da hist�ria.</p><p>Christer deu uma risada.</p><p>� Ela vai ficar furiosa � comentou, divertido.</p><empty-line/><p><strong>*� *� *</strong></p><p>Mikael sabia muito bem que n�o dissera a verdade a Christer Malm: ele estava evitando Erika propositalmente. O normal teria sido avis�-la de imediato das informa��es de que dispunha. Mas Mikael n�o queria falar com ela. Chegou a digitar seu n�mero uma dezena de vezes no celular. Sempre desistia.</p><p>Sabia qual era o problema: n�o podia olh�-la nos olhos.</p><p>Ter concordado em abafar o caso de Hedestad era jornalisticamente imperdo�vel. Ele n�o sabia como explicar isso sem mentir, e se havia uma coisa que nunca queria fazer era mentir para Erika Berger.</p><p>Al�m do mais, n�o tinha coragem de enfrentar esse problema e ao mesmo tempo atacar Wennerstr�m. Assim adiou o confronto, desligou o celular e poupou-se de falar com ela. Sabia que era um descanso de curta dura��o.</p><p>Logo depois da reuni�o da reda��o, Mikael foi se instalar em sua cabana em Sandhamn, onde n�o punha os p�s havia mais de um ano. Na bagagem, levou duas caixas de folhas impressas e os CDs que Lisbeth lhe dera. Fez provis�es, trancou-se ali, abriu o notebook e p�s-se a escrever. Todos os dias sa�a para passear e aproveitava para comprar jornais e mantimentos. Ainda havia muitos veleiros no porto, e v�rios daqueles jovens que tinham pedido emprestado o barco do papai estavam, como sempre, enchendo a cara no Bar do Mergulhador. Alheio a tudo a sua volta, Mikael passava os dias na frente do computador, desde o momento em que abria os olhos at� cair de cansa�o � noite.</p><p>Mensagem eletr�nica encriptada da diretora de publica��o erika.berger@millennium.se ao editor licenciado mikael.blomkvist@millennium.se:</p><p>[Mikael. Preciso saber o que est� acontecendo � entenda, voltei de f�rias e ca� em pleno caos. Primeiro fico sabendo o que Janne Dahlman andou fazendo, depois o jogo duplo que voc� bolou. Martin Vanger est� morto. Harriet Vanger est� viva. O que est� havendo em Hedeby? Onde voc� est�? Temos uma hist�ria para publicar? Por que n�o atende o celular? E.</p><p>P. S. Entendi a sua alfinetada que Christer divertiu-se muito em me transmitir. Voc� me paga. Est� zangado comigo de verdade?]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Oi, Ricky. N�o, fique tranquila, n�o estou zangado. Perdoe-me por n�o ter tido tempo de esclarecer as coisas para voc�, � que nos �ltimos meses minha vida virou uma montanha-russa. Contarei tudo quando nos virmos, mas n�o por e-mail. Agora estou em Sandhamn. H� uma hist�ria para ser publicada, mas n�o se trata de Harriet Vanger. Vou ficar aqui enfurnado por algum tempo. At� terminar, confie em mim. Bjs. M.]</p><empty-line/><p><strong>De erika.berger@millennium.se</strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@ millennium.se:</strong></p><p>[Sandhamn? Vou a� te ver assim que eu puder.]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@ millennium.se:</strong></p><p>[N�o venha j�. Espere algumas semanas, pelo menos at� eu ter um texto consistente. Al�m disso, estou esperando uma visita.]</p><empty-line/><p><strong>De erika.berger@millennium.se</strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Certo, n�o vou impor a minha presen�a, claro. Mas tenho o direito de saber o que est� acontecendo. Henrik Vanger tornou-se membro do conselho, mas ele n�o responde quando chamo. Se o acordo com Vanger deu em nada, voc� precisa me dizer. N�o sei o que fazer. Preciso saber se a revista vai continuar ou n�o. Ricky.</p><p>P. S. Como ela se chama?]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Primeiro: fique tranquila, Henrik n�o vai sair. Mas ele teve um infarto s�rio e s� tem trabalhado poucas horas por dia, e suponho que o impacto causado pela morte de Martin e a ressurrei��o de Harriet absorveu todas as suas for�as.</p><p>Segundo: a <emphasis>Millennium</emphasis> vai continuar. Estou trabalhando na reportagem mais importante da nossa vida e, quando a publicarmos, liquidaremos Wennerstr�m de uma vez por todas.</p><p>Terceiro: minha vida est� de pernas para o ar neste momento, mas entre mim, voc� e a <emphasis>Millennium</emphasis> nada mudou. Confie em mim. Bjs. Mikael.</p><p>P. S. Te apresentarei a ela assim que der. Voc� vai se surpreender.]</p><empty-line/><p>Quando Lisbeth Salander chegou a Sandhamn, foi recebida por um Mikael de olheiras e com uma barba de alguns dias. Ele a abra�ou rapidamente e pediu que preparasse um caf� enquanto terminava uma passagem do texto.</p><p>Lisbeth deu uma olhada na cabana e percebeu quase imediatamente que se sentia bem ali. O chalezinho ficava junto a um pont�o, com o mar a dois metros da porta. Media apenas seis metros por cinco, mas a constru��o tinha altura suficiente para um mezanino, ao qual se chegava por uma escada em caracol. Lisbeth podia ficar de p� ali, por�m Mikael era obrigado a baixar um pouco a cabe�a. Ela inspecionou a cama e constatou que era suficientemente larga para os dois.</p><p>A cabana tinha uma janela ampla que dava para o mar, bem ao lado da porta de entrada. A mesa da cozinha tamb�m servia como mesa de trabalho para Mikael. Na parede ao lado dela, havia uma pequena prateleira com um aparelho de CD e alguns discos de Elvis Presley e de <emphasis>hard rock,</emphasis> dois g�neros que ela n�o teria posto no topo da sua lista.</p><p>Num canto havia um aquecedor a lenha. O resto da mob�lia resumia-se a um grande arm�rio embutido, para guardar roupas, len��is e toalhas, e uma bancada de cozinha que prosseguia, separada por uma cortina, at� uma pia e um chuveiro. Acima da bancada abria-se uma pequena janela. Sob a escada em caracol, Mikael montara um banheiro com vaso sanit�rio. Toda a cabana lembrava a cabine de um barco, com arranjos e compartimentos engenhosos.</p><p>Na sua investiga��o particular sobre Mikael Blomkvist, ela dissera que ele mesmo havia reformado a cabana e cuidado da decora��o � dedu��o baseada no e-mail que um amigo de Mikael, impressionado com sua habilidade, lhe enviara ap�s uma visita a Sandhamn. Tudo era limpo, modesto e simples, quase espartano. Ela entendeu por que gostava tanto daquela cabana.</p><p>Depois de duas horas, ela conseguiu distrair a aten��o de Mikael do trabalho. Ele deixou o computador com ar frustrado, barbeou-se c levou-a para conhecer Sandhamn. O tempo estava chuvoso e ventava, e eles logo foram para o albergue. Mikael contou o que havia escrito, e Lisbeth lhe entregou um CD com informa��es atualizadas do PC de Wennerstr�m.</p><p>Depois voltaram para a cabana, e no mezanino ela conseguiu despi-lo e distra�-lo ainda mais. Lisbeth despertou tarde da noite sozinha na cama e, ao dar uma espiada para baixo, o viu debru�ado sobre o teclado. Ficou um bom tempo com a cabe�a apoiada na m�o, olhando-o. Ele parecia feliz e ela, por sua vez, sentiu-se estranhamente satisfeita com a vida.</p><p>Lisbeth s� ficou cinco dias. Depois voltou a Estocolmo, atendendo a um chamado de Dragan Armanskij ao telefone, que, desesperado, a convocava para um novo trabalho. Dedicou a esse trabalho onze dias, fez seu relat�rio e regressou a Sandhamn. A pilha de folhas impressas ao lado do notebook de Mikael crescera.</p><p>Desta vez ficou quatro semanas. Eles acabaram criando uma esp�cie de rotina. Levantavam-se �s oito e tomavam o caf�-da-manh� juntos por uma hora. A seguir, Mikael trabalhava intensamente at� depois do meio-dia quando, ent�o, sa�am para passear e conversar. Lisbeth passava a maior parte do dia na cama lendo livros ou navegando na internet pelo modem ADSL de Mikael. Evitava perturb�-lo durante o dia. Jantavam bem tarde e somente ent�o Lisbeth tomava a iniciativa e o for�ava a subir at� o mezanino, onde queria todo tipo de aten��o dele.</p><p>Lisbeth tinha a impress�o de viver as primeiras f�rias de sua vida.</p><p>Mensagem eletr�nica encriptada de erika.berger@millennium.se a mikael.blomkvist@millennium.se:</p><p>[Oi, Mikael. E oficial agora, Janne Dahlinan pediu demiss�o e come�a a trabalhar no <emphasis>Finansmagasinet Monopol</emphasis> dentro de tr�s semanas. Segui suas instru��es, n�o disse nada e todos est�o representando a farsa. E.</p><p>P. S. De qualquer maneira, todos est�o se divertindo um bocado. Outro dia, Henry e Lotta trocaram inj�rias a ponto de quase se agredir. Levaram a brincadeira t�o longe com Dahlman que me espanta ele n�o ter sacado que era um blefe.]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Deseje-lhe boa sorte e deixe-o ir embora. Mas guarde a prataria num arm�rio fechado a chave. Bjs. M.]</p><empty-line/><p><strong>De erika.berger@millennium.se</strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Estou sem secret�rio de reda��o a duas semanas de sair o pr�ximo n�mero e meu rep�rter investigativo est� recolhido em Sandhamn e se recusa a falar comigo. Micke, ponho-me de joelhos. Ser� que pode nos ajudar? Erika.]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Aguente mais algumas semanas, e a� chegaremos a um porto tranquilo. E comece a preparar o n�mero de dezembro, que ser� diferente de tudo o que j� publicamos. Meu texto ocupar� cerca de quarenta p�ginas da revista. M.]</p><empty-line/><p><strong>De erika.berger@millennium.se</strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Quarenta p�ginas!!! Voc� ficou louco?]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Ser� uma edi��o tem�tica. Preciso de mais tr�s semanas. Ser� que voc� pode: (1) criar uma estrutura editorial em nome da <emphasis>Millennium,</emphasis> (2) conseguir um n�mero ISBN, (3) pedir a Clirister a cria��o de um belo logotipo para nossa nova editora e (4) encontrar uma boa gr�fica que possa lan�ar um livro de bolso r�pido e barato? Ali�s, precisaremos de dinheiro para os custos de impress�o do nosso primeiro livro. Bjs. Mikael.]</p><empty-line/><p><strong>De erika.berger@millennium.se</strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@ millennium.se:</strong></p><p>[Edi��o tem�tica. Editora. Custos de impress�o. As suas ordens, meu comandante. Que mais quer que eu ta�a? Dan�ar nua na Slussplan? E.</p><p>P. S. Suponho que saiba o que est� fazendo. Mas o que eu fa�o com Dahl-man?]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[N�o fa�a nada com Dahlman. Deixe-o ir embora. O <emphasis>Monopol</emphasis> n�o sobreviver� por muito tempo. Arranje substitutos para esse n�mero. E contrate uni novo secret�rio de reda��o, pelo amor de Deus! M.</p><p>P. S. Gostaria muito de te ver dan�ar nua na Slussplan,]</p><empty-line/><p><strong>De erika.berger@millennium.se</strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Para o <emphasis>strip-tease</emphasis> em p�blico, n�o conte comigo. Mas sempre fizemos as contrata��es juntos. Ricky.]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Sempre estivemos de acordo sobre a pessoa a contratar. E continuaremos de acordo, seja quem for que voc� contrate. Vamos encurralar Wennerstr�m. A hist�ria toda � essa. Mas deixe-me termin�-la em paz. M.)</p><empty-line/><p>No come�o de outubro, Lisbeth Salander leu um pequeno artigo que encontrou no <emphasis>site</emphasis> do <emphasis>Hedestads-Kuriren,</emphasis> e informou Mikael. Isabella Vanger havia falecido ap�s uma breve doen�a. Sua morte era lamentada pela filha, Harriet Vanger, que recentemente voltara da Austr�lia.</p><empty-line/><p>Mensagem eletr�nica encriptada de erika.berger@millennium.se a mikael.blomkvist@millennium.se.</p><empty-line/><p>[Oi, Mikael.</p><p>Harriet Vanger passou hoje na reda��o para me ver. Telefonou cinco minutos antes de chegar e me pegou totalmente desprevenida. Uma bela mulher, muito elegante e de olhar frio.</p><p>Veio anunciar que participaria do conselho administrativo no lugar de Martin Vanger, que estava substituindo Henrik. Mostrou-se cort�s, am�vel, e me garantiu que o grupo Vanger n�o tem nenhuma inten��o de abandonar nosso acordo; ao contr�rio, a fam�lia apoia os compromissos de Henrik com a revista. Pediu para ver a reda��o e quis saber como estavam as coisas.</p><p>Eu disse a verdade. Que tenho a impress�o de estar andando sobre areia movedi�a, que voc� me proibiu de ir a Sandhamn e que eu n�o sei sobre o que voc� est� escrevendo, a n�o ser que espera encurralar Wennerstr�m. (Acho que eu podia dizer isso. Afinal, ela faz parte do conselho.) Ela levantou uma sobrancelha, sorriu e perguntou se eu tinha d�vidas sobre o seu �xito. Como responder a essa pergunta? Eu disse que estaria bem mais calma se soubesse o que voc� est� tramando. E que evidentemente confio em voc�, mas que voc� me deixa louca!</p><p>Perguntei se ela sabia o que voc� est� escrevendo. Ela respondeu que n�o, mas acrescentou que o achava muito perspicaz, com uma maneira de refletir inovadora (palavras dela).</p><p>Eu tamb�m disse ter conclu�do que algo de dram�tico havia acontecido em Hedestad no passado, e que estava muito curiosa para saber mais. Ela respondeu que eu e voc� parec�amos ter uma rela��o especial e que voc� me contaria tudo assim que tivesse tempo. Depois me perguntou se podia confiar em mim. O que eu podia dizer? Ela faz parte do conselho da <emphasis>Millennium</emphasis> e voc� n�o me deu nenhuma informa��o para que eu pudesse estabelecer uma conduta nesse caso.</p><p>Ent�o ela disse uma coisa estranha: me pediu que eu n�o julgasse nem a ela nem a voc� com demasiada severidade. Que tinha uma d�vida de gratid�o com voc� e que gostaria muito de que ela e eu f�ssemos amigas. E prometeu me contar a hist�ria oportunamente, se voc� n�o contasse. Acho que gosto muito dela, mas n�o sei muito bom se posso confiar. Erika.</p><p>P. S. Sinto sua falta. Tenho a impress�o de que aconteceu algo terr�vel em Hedestad. Christer disse que voc� est� com uma marca estranha � de estrangulamento? � no pesco�o.]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Oi, Ricky. A hist�ria de Harriet � t�o triste, t�o lament�vel, que voc� nem vai acreditar. Seria melhor que ela mesma te contasse. De minha parte, coloquei-a um pouco de lado na minha cabe�a.</p><p>Mas pode confiar em Harriet Vanger, eu garanto. Ela <emphasis>�</emphasis> sincera quando diz ter uma d�vida de gratid�o comigo, e pode crer que ela nunca far� nada que possa prejudicar a <emphasis>Millennium</emphasis><strong><emphasis>.</emphasis></strong> Se gosta dela, seja sua amiga; se n�o gosta, deixe pra l�. Mas ela merece respeito. <emphasis>�</emphasis> uma mulher que passou por duras provas e sinto uma grande simpatia por ela. M.]</p><empty-line/><p>No dia seguinte, Mikael recebeu mais um e-mail.</p><empty-line/><p><strong>De harriet.vanger@vangerindustries.com</strong></p><p><strong>a mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Oi, Mikael. H� semanas venho tentando encontrar uma horinha para te dar not�cias, mas o tempo passa r�pido. Voc� saiu t�o depressa de Hedeby que nem pude me despedir.</p><p>Desde que voltei � Su�cia, estou soterrada por uma quantidade de impress�es e por muito trabalho. As empresas Vanger est�o um caos s�, e trabalhei duro com Henrik para p�r ordem nos neg�cios. Ontem visitei a <emphasis>Millennium;</emphasis> daqui em diante representarei Henrik no conselho. Ele me descreveu em detalhe a situa��o da revista e a sua.</p><p>Espero que aceite me ver desembarcar assim. Se n�o me quer no conselho (ou a algu�m mais da fam�lia), vou entender, mas garanto que farei tudo para servir a <emphasis>Millennium.</emphasis> Tenho uma enorme d�vida com voc� e asseguro que minhas inten��es ser�o sempre as melhores. Conheci sua amiga Erika Berger. N�o sei muito bem qual foi a opini�o dela a meu respeito e fiquei surpresa de que n�o tenha contado a ela o que aconteceu.</p><p>Quero muito ser sua amiga. Se est� disposto, � claro, a frequentar os membros da fam�lia Vanger. Um abra�o. Harriet.</p><p>P. S. Erika deu a entender que voc� pretende atacar novamente Wennerstr�m. Dirch Frode me contou como Henrik te levou na conversa. Que posso dizer? Apenas que sinto muito. Se houver algo que eu possa fazer, diga-me.]</p><empty-line/><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A harriet.vanger@vangerindustries.com</strong></p><p>[Oi, Harriet. Desapareci de repente de Hedeby e neste momento estou trabalhando no que deveria ter feito este ano. Voc� ser� informada antes de o texto ir para a impress�o, mas acho que posso adiantar que os problemas deste �ltimo ano logo v�o terminar.</p><p>Espero que voc� e Erika se tornem amigas e evidentemente n�o h� problema nenhum de voc� "desembarcar" no conselho da <emphasis>Millennium.</emphasis> Vou contar o que aconteceu a Erika. S� que neste momento n�o tenho disposi��o nem tempo, ainda gostaria de manter uma certa dist�ncia.</p><p>Continuamos em contato. Um abra�o. Mikael.]</p><empty-line/><p>Lisbeth n�o mostrava muito interesse pelo que Mikael estava escrevendo. Ela levantou a cabe�a do seu livro. Mikael acabara de dizer algo que ela n�o ouvira. Pediu que ele repetisse.</p><p>� Desculpe. Estava pensando em voz alta. Eu dizia que � o c�mulo.</p><p>� O que � o c�mulo?</p><p>� Wennerstr�m teve um caso com uma servente de vinte e dois anos que ele engravidou. N�o leu a correspond�ncia dele com o advogado?</p><p>� Querido Mikael, existem dez anos de correspond�ncias, e-mails, contratos, relat�rios de viagens e n�o sei mais o que no disco r�gido. O seu Wennerstr�m n�o me fascina a ponto de eu querer guardar na cabe�a seis gigas de bobagens. Li uma parte �nfima, apenas para satisfazer a minha curiosidade, e foi o suficiente para entender que esse cara � um g�ngster.</p><p>� Concordo. Mas escute isso: ele a engravidou em 1997. Quando ela exigiu uma compensa��o, os advogados de Wennerstr�m despacharam algu�m para convenc�-la a abortar. Suponho que a inten��o era oferecer-lhe dinheiro, mas ela n�o aceitou. Ent�o a persuas�o tomou outro caminho: um capanga qualquer manteve a cabe�a dela mergulhada numa banheira at� que aceitasse deixar Wennerstr�m em paz. E esse advogado idiota do Wennerstr�m escreveu isso num e-mail! Encriptado, � verdade, mas mesmo assim... O n�vel de intelig�ncia dessa gente � muito baixo.</p><p>� O que aconteceu com a mo�a?</p><p>� Abortou. Wennerstr�m ficou satisfeito.</p><p>Lisbeth Salander n�o disse nada durante dez minutos. Seus olhos ficaram de repente sombrios.</p><p>� Mais um homem que odiava as mulheres � murmurou enfim. Mikael n�o a ouviu.</p><p>Ela pegou os CDs e passou os dias seguintes vasculhando o correio eletr�nico de Wennerstr�m, assim como outros documentos. Enquanto Mikael continuava seu trabalho, Lisbeth estava no mezanino com seu Powerbook sobre os joelhos, refletindo sobre o estranho imp�rio Wennerstr�m.</p><p>Ocorrera-lhe um pensamento curioso, do qual agora n�o conseguia mais se afastar. Antes de mais nada, perguntou-se por que n�o havia tido essa ideia antes.</p><empty-line/><p>Num dia de fins de outubro, Mikael imprimiu a �ltima p�gina e desligou o computador por volta das onze da manh�. Sem uma palavra, subiu at� o mezanino e entregou a Lisbeth uma pilha de pap�is. Depois foi dormir. Ela o despertou no final da tarde e passou-lhe suas observa��es.</p><p>Pouco depois das duas da manh�, Mikael fez uma �ltima corre��o no texto.</p><p>No dia seguinte, fechou as janelas da cabana e trancou a porta. As f�rias de Lisbeth haviam terminado. Voltaram juntos para Estocolmo.</p><empty-line/><p>Antes de chegar a Estocolmo, Mikael precisava conversar com Lisbeth sobre uma quest�o delicada. Entrou no assunto quando tomavam caf� na balsa de Vaxholm.</p><p>� A quest�o � o que devo contar a Erika. Ela vai se recusar a publicar isto se eu n�o explicar como obtive as informa��es.</p><p>Erika Berger! A amante de Mikael h� muitos anos e sua chefe. Lisbeth nunca a vira e n�o tinha muita certeza se queria v�-la. Erika Berger era um ligeiro aborrecimento em sua vida.</p><p>� O que ela sabe de mim?</p><p>� Nada. � Ele suspirou. � Venho evitando Erika desde o ver�o. N�o consegui contar a ela o que houve em Hedestad porque estou muito envergonhado. Ela est� frustrada com a pouca informa��o que lhe dei. Sabe, evidentemente, que me recolhi em Sandhamn para escrever esse texto, mas n�o faz ideia do seu conte�do.</p><p>� Humm.</p><p>� Daqui a algumas horas ela estar� com o texto nas m�os e vai me encher de perguntas. A quest�o �: o que devo dizer a ela?</p><p>� O que voc� tem vontade de dizer?</p><p>� A verdade.</p><p>Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas de Lisbeth.</p><p>� Escute, Lisbeth: eu e Erika discutimos o tempo todo, isso j� � um h�bito nosso. Mas temos uma confian�a ilimitada um no outro. Ela � absolutamente confi�vel. Voc� � uma fonte. Ela preferiria morrer a tra�-la.</p><p>� E a quem mais voc� vai precisar contar?</p><p>� A ningu�m mais. N�s dois levaremos isso para o t�mulo. Se voc� se opuser, n�o revelarei o segredo a ela. Contudo, n�o tenho a inten��o de mentir para Erika e de inventar uma fonte.</p><p>Lisbeth refletiu at� a balsa atracar ao p� do Grande Hotel. <emphasis>An�lise das consequ�ncias.</emphasis> Com relut�ncia, ela acabou permitindo que Mikael a apresentasse a Erika. Ele ligou o celular e chamou.</p><empty-line/><p>Erika recebeu o telefonema de Mikael em meio a um almo�o profissional com Malu Eriksson, que ela pretendia contratar como secret�ria de reda��o. Malu tinha vinte e nove anos e havia trabalhado como substituta durante cinco anos. Nunca teve emprego fixo e come�ava a perder as esperan�as de encontrar um. Nenhum an�ncio havia sido feito para o cargo; Erika entrou em contato com Malu atrav�s de um velho colega jornalista. Chamou-a no mesmo dia em que Malu terminava uma substitui��o, para saber se lhe interessava um bico na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� � apenas por tr�s meses � disse Erika. � Mas, se der certo, posso vir a contrat�-la.</p><p>� Ouvi boatos de que a <emphasis>Millennium</emphasis> em breve vai fechar.</p><p>� N�o acredite em boatos.</p><p>� Esse Dahlman que devo substituir... � Malu hesitou. � Ele vai para um dos jornais de Hans-Erik Wennerstr�m...</p><p>Erika assentiu com a cabe�a.</p><p>� N�o � segredo para ningu�m nesse meio que estamos em lit�gio com Wennerstr�m. Ele n�o gosta de pessoas que trabalham na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Isso significa que, se eu aceitar o cargo, tamb�m vou ser inclu�da nessa categoria.</p><p>� � muito prov�vel que sim.</p><p>� Mas Dahlman conseguiu trabalho no <emphasis>Finansmagasinet...</emphasis></p><p>� Pode-se dizer que � a retribui��o de Wennerstr�m pelos servi�os prestados por Dahlman. Ainda est� interessada?</p><p>Malu refletiu um instante e depois assentiu com a cabe�a.</p><p>� Quer que eu comece quando?</p><p>Foi nesse momento que Mikael Blomkvist chamou, interrompendo a entrevista de contrata��o.</p><empty-line/><p>Erika utilizou as pr�prias chaves para abrir a porta do apartamento de Mikael. Era a primeira vez, desde a breve apari��o dele no final de junho, que ela o encontrava. Entrou na sala e viu uma jovem de uma magreza anor�xica sentada no sof�, vestindo uma jaqueta de couro gasto e com os p�s apoiados na mesinha de centro. A princ�pio, deu uns quinze anos � mo�a, at� ver seus olhos. Contemplava essa apari��o quando Mikael chegou trazendo caf� e biscoitos.</p><p>Mikael e Erika se examinaram.</p><p>� Desculpe meu comportamento estranho � disse Mikael.</p><p>Erika inclinou <emphasis>a</emphasis> cabe�a para o lado. Alguma coisa havia mudado em Mikael. Parecia mais sofrido, mais magro. Seus olhos estavam envergonhados, e por um breve segundo ele evitou o olhar dela. Erika olhou para o pesco�o, onde se via uma mancha amarelada, p�lida mas muito distinta.</p><p>� Andei evitando voc�. � uma longa hist�ria e n�o estou muito orgulhoso do meu papel nela. Mas falaremos disso mais tarde... Agora, gostaria de apresent�-la a essa jovem. Erika, essa � Lisbeth Salander. Lisbeth, Erika Berger � a diretora de publica��o da <emphasis>Millennium</emphasis> e minha melhor amiga.</p><p>Lisbeth observou as roupas elegantes e a apar�ncia segura de Erika, e em menos de dez segundos concluiu que ela n�o seria sua melhor amiga.</p><empty-line/><p>A reuni�o durou cinco horas. Erika telefonou duas vezes para desmarcar outras reuni�es. Dedicou uma hora � leitura de algumas partes do texto que Mikael lhe p�s nas m�os. Tinha mil perguntas a fazer, mas percebeu que levaria semanas antes de obter uma resposta. O importante era o texto, que ela acabou colocando a seu lado. Se uma parte m�nima daquelas afirma��es fosse correta, eles estavam diante de uma situa��o totalmente nova.</p><p>Erika olhou para Mikael. Nunca duvidara da honestidade dele, mas bastou um segundo para sentir uma vertigem e se perguntar se o caso Wennerstr�m n�o teria afetado a mente dele � se n�o o fizera imaginar coisas. No mesmo instante, Mikael lhe mostrou duas caixas cheias de dados impressos. Erika empalideceu. Naturalmente quis saber como havia obtido aquele material.</p><p>Foi preciso um bom tempo para convenc�-la de que a estranha jovem, que ainda n�o pronunciara uma s� palavra, tinha acesso irrestrito ao computador de Hans-Erik Wennerstr�m. E n�o s� isso: tamb�m havia pirateado v�rios dos computadores de seus advogados e colaboradores pr�ximos.</p><p>A rea��o natural de Erika foi dizer que eles n�o podiam utilizar esse material, pois fora obtido por meios il�citos.</p><p>Mas isso n�o era um empecilho. Mikael lembrou-a de que eles n�o eram obrigados a declarar como haviam obtido as informa��es. Podiam muito bem contar com uma fonte que tivera acesso ao computador de Wennerstr�m e copiara seu disco r�gido em alguns CDs.</p><p>Erika logo se deu conta da arma que tinha nas m�os. Sentia-se exausta e gostaria de fazer algumas perguntas, mas n�o sabia por onde come�ar. Por fim, deixou-se cair no sof� e balan�ou a cabe�a.</p><p>� Mikael, o que aconteceu em Hedestad?</p><p>Lisbeth Salander levantou vivamente a cabe�a. Mikael ficou em sil�ncio por um longo tempo. Respondeu fazendo outra pergunta.</p><p>� Como est� se entendendo com Harriet Vanger?</p><p>� Bem, eu acho. Estive com ela duas vezes. Christer e eu fomos a Hedestad na semana passada para uma reuni�o do conselho administrativo. Exageramos um pouco no vinho, ficamos bem embriagados.</p><p>� E como foi a reuni�o?</p><p>� Harriet cumpre suas promessas.</p><p>� Ricky, sei que voc� est� frustrada de ver que estou me esquivando e inventando pretextos para n�o falar. Nunca tivemos segredos um para o outro e, de repente, tenho seis meses da minha vida que... n�o consigo te contar.</p><p>Erika olhou Mikael bem nos olhos. Conhecia-o de cor, mas o que viu em seus olhos era algo completamente novo. Ele parecia suplicar, implorar que ela n�o perguntasse. Ela abriu a boca e olhou para ele totalmente desamparada. Lisbeth observava essa conversa muda com um olhar neutro. N�o se intrometeu.</p><p>� Foi t�o catastr�fico assim?</p><p>� Pior. Tenho medo dessa conversa. Prometo te contar, mas passei v�rios meses reprimindo meus sentimentos e deixando meu interesse se voltar todo para Wennerstr�m... Ainda n�o estou inteiramente preparado. Preferiria que Harriet tivesse te contado.</p><p>� O que s�o essas marcas no pesco�o?</p><p>� Lisbeth salvou a minha vida. Se n�o fosse ela, eu estaria morto agora. Erika arregalou os olhos. Ela olhou a mo�a da jaqueta de couro.</p><p>� E agora voc� precisa fazer um acordo com ela. Ela � a nossa fonte. Erika ficou im�vel durante um bom tempo, refletindo. Ent�o fez uma coisa que desconcertou Mikael e chocou Lisbeth, e que surpreendeu a ela pr�pria tamb�m. O tempo todo em que estivera junto � mesa da sala de Mikael, ela sentira o olhar de Lisbeth Salander. Uma mo�a taciturna com vibra��es hostis.</p><p>Erika levantou-se, contornou a mesa e tomou Lisbeth nos bra�os. Lisbeth defendeu-se como uma minhoca sendo enfiada num anzol.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>29.� S�BADO 1�</emphasis></strong><strong><emphasis>DE NOVEMBRO</emphasis></strong><strong>�</strong><strong><emphasis>TER�A-FEIRA 25 DE NOVEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander navegava no ciberimp�rio de Hans-Erik Wennerstr�m, Estava grudada � tela do computador havia mais de onze horas. A ideia vaga que se materializara num canto inexplorado de seu c�rebro, na �ltima semana em Sandhamn, transformara-se numa atividade obsessiva. Durante quatro semanas, isolou-se em seu apartamento e ignorou todos os chamados de Dragan Armanskij. Passou de doze a quinze horas por dia na frente do monitor e, no resto do tempo em que estava acordada, pensava no mesmo problema.</p><p>Ao longo do m�s, teve contatos espor�dicos com Mikael Blomkvist; ele estava t�o obcecado e ocupado quanto ela com seu trabalho na reda��o da <emphasis>Millennium.</emphasis> Duas ou tr�s vezes por semana conversavam por telefone e ela o mantinha continuamente informado sobre a correspond�ncia de Wennerstr�m e de seus outros neg�cios.</p><p>Pela cent�sima vez, repassou cada detalhe. N�o temia ter esquecido alguma coisa, mas n�o estava certa de haver entendido o que reunia todas aquelas conex�es complexas.</p><p>O imp�rio Wennerstr�m, t�o badalado na m�dia, era um organismo vivo, informe, pulsante, que n�o parava de mudar de apar�ncia. Consistia em t�tulos, a��es, parcerias, juros de empr�stimos, juros de receita, hipotecas, contas, transfer�ncias e uma s�rie de outras opera��es. Uma parte imensa dos ativos estava aplicada em empresas-fantasmas imbricadas umas nas outras.</p><p>As an�lises mais entusiasmadas dos economistas calculavam o valor do grupo Wennerstr�m em mais de novecentos bilh�es de coroas. Era um blefe, ou pelo menos um n�mero muito exagerado. Mas Wennerstr�m certamente n�o tinha do que se queixar. Lisbeth Salander calculou os verdadeiros recursos em noventa ou mesmo cem bilh�es de coroas, o que tamb�m n�o era pouco. Um exame s�rio do grupo exigiria anos. Ao todo, Salander identificou cerca de tr�s mil contas e ativos banc�rios diferentes no mundo inteiro. Wennestr�m dedicava-se � fraude em t�o grande escala que n�o se tratava mais de crime, e sim de neg�cios.</p><p>Em alguma parte desse organismo Wennerstr�miano, havia tamb�m subst�ncia. Tr�s fundos apareciam continuamente na hierarquia. Os ativos suecos eram inatac�veis e aut�nticos e estavam dispon�veis para o exame <emphasis>de</emphasis> todos, com balan�os e auditorias. A atividade americana era s�lida, e um banco em Nova York servia de base para a movimenta��o de todo o dinheiro. Mas o interessante da hist�ria eram as empresas-fantasmas em cantos do mundo como Gibraltar, Chipre e Macau. Wennerstr�m era como um bazar onde se praticava o tr�fico de armas, a lavagem de dinheiro de empresas suspeitas na Col�mbia e de neg�cios muito pouco ortodoxos na R�ssia.</p><p>Uma conta an�nima nas ilhas Caim�s tinha uma particularidade: era controlada pessoalmente por Wennerstr�m e n�o estava conectada �s demais empresas. Algumas fra��es de mil�simo de cada neg�cio feito por Wennerstr�m pingava o tempo todo na conta das ilhas Caim�s atrav�s das empresas-fantasmas.</p><p>Salander trabalhava como que hipnotizada. Contas � <emphasis>clique</emphasis> � e-mails � <emphasis>clique</emphasis> � balan�os � <emphasis>clique.</emphasis> Anotou as �ltimas transfer�ncias. Acompanhou a trajet�ria de uma pequena transa��o do Jap�o a Cingapura, depois para as ilhas Caim�s atrav�s de Luxemburgo. Percebeu seu funcionamento. Ela era como uma parte dos impulsos do ciberespa�o. Min�sculas mudan�as. O �ltimo e-mail, uma breve mensagem que tratava de uma quest�o acess�ria, fora enviado �s dez da noite. O programa de encripta��o PGP era uma piada para ela, que parasitava o computador. Leu claramente a mensagem:</p><p>[Berger parou de correr atr�s de an�ncios. Ela desistiu ou tem outra coisa no bolso? O informante na reda��o confirmou que eles est�o em queda livre, mas parece que contrataram algu�m. Informe-se sobre o que est� havendo. Blomkvist passou as �ltimas semanas escrevendo como um louco em Sandhamn, mas ningu�m sabe o qu�. Ele apareceu na reda��o h� poucos dias. Pode me conseguir as provas do pr�ximo n�mero? HEW.]</p><empty-line/><p>Nada de dram�tico. Ele que fique matutando. � <emphasis>Voc� j� t� fodido, meu caro!</emphasis></p><p>�s cinco e meia ela se desconectou, desligou o computador e procurou outro ma�o de cigarros. Havia bebido cinco Cocas durante a noite, foi pegar uma sexta e instalou-se no sof�. Vestia s� calcinha e camiseta de camuflagem desbotada da Soldier of Fortune Magazine, com os dizeres: <emphasis>Kill them all and let God sort them out.</emphasis> Come�ou a sentir frio e pegou uma manta para se cobrir.</p><p>Sentia-se meio chapada, como se tivesse ingerido algum entorpecente. Fixou o olhar numa l�mpada diante da janela e ficou sem se mexer enquanto seu c�rebro trabalhava sob press�o. Mam�e � <emphasis>clique</emphasis> � irm�zinha � <emphasis>clique</emphasis> � Mimmi � <emphasis>clique</emphasis> � Holger Palmgren. Evil Fingers. E Armanskij. O trabalho. Harriet Vanger. <emphasis>Clique.</emphasis> Martin Vanger. <emphasis>Clique.</emphasis> O taco de golfe. <emphasis>Clique.</emphasis> Dr. Nils Bjurman. <emphasis>Clique.</emphasis> Um monte de detalhes que ela n�o conseguia esquecer nem se tentasse.</p><p>Perguntou-se se Bjurman ainda estaria se despindo diante de uma mulher e, nesse caso, como estaria explicando a tatuagem na barriga. E como faria para n�o tirar a roupa da pr�xima vez que fosse ao m�dico.</p><p>E depois Mikael Blomkvist. <emphasis>Clique.</emphasis></p><p>Ela o considerava um homem bom, em alguns momentos com um complexo de primeiro aluno da classe um pouco exagerado. E, infelizmente, de uma ingenuidade insuport�vel em algumas quest�es morais elementares. Ele tinha uma natureza indulgente e pronta a perdoar, que buscava explica��es e desculpas psicol�gicas para as atitudes dos outros e que jamais entenderia que as feras deste mundo s� conhecem uma linguagem. Ela sentia quase um desconfort�vel instinto de prote��o quando pensava nele.</p><p>N�o se lembrou em que momento adormeceu, mas despertou �s nove da manh� seguinte com torcicolo, a cabe�a apoiada de mau jeito na parede atr�s do sof�. Foi cambaleando para o quarto e voltou a dormir.</p><empty-line/><p><strong>*� *� *</strong></p><p>Sem d�vida nenhuma, era a reportagem da vida deles. Pela primeira vez em um ano e meio, Erika estava feliz como s� pode estar um propriet�rio de ve�culo que tem um furo sensacional no forno. Ela revisava uma �ltima vez o texto com Mikael, quando Lisbeth Salander o chamou no celular.</p><p>� Esqueci de te dizer que Wennerstr�m est� come�ando a se preocupar com o que voc� andou escrevendo nesse tempo e pediu as provas do pr�ximo n�mero.</p><p>� Como � que voc� soube... Ah, esque�a! Tem ideia do que ele pretende fazer?</p><p>� N�o. Apenas uma suposi��o l�gica. Mikael refletiu alguns instantes.</p><p>� A gr�fica! � exclamou. Erika levantou as sobrancelhas.</p><p>� Se o pessoal da reda��o ficou mesmo de boca fechada, n�o h� muitas outras possibilidades. A menos que um dos capangas dele fa�a uma visita noturna � reda��o.</p><p>Mikael virou-se para Erika.</p><p>� Arranje outra gr�fica para a pr�xima edi��o. Agora. E ligue para Dragan Armanskij: quero vigias noturnos para a semana que vem.</p><p>Ligou de volta para Lisbeth.</p><p>� Obrigado, Sally.</p><p>� Isso vale quanto?</p><p>� O que quer dizer?</p><p>� A informa��o, quanto vale?</p><p>� Quanto quer?</p><p>� Gostaria que discut�ssemos isso tomando um caf�. Agora.</p><empty-line/><p>Encontraram-se no Bar-Caf� na Hornsgatan. Salander tinha um ar t�o s�rio que Mikael, ao sentar-se no banquinho ao lado dela, sentiu uma certa inquieta��o. Como sempre, ela foi direto ao ponto.</p><p>� Preciso de um dinheiro emprestado.</p><p>Mikael exibiu um de seus sorrisos mais retardados e puxou a carteira.</p><p>� Claro. Quanto quer?</p><p>� Cento e vinte mil coroas.</p><p>� Uau! � Rep�s a carteira no bolso. � N�o tenho tanto assim comigo.</p><p>� N�o estou brincando. Preciso de um empr�stimo de cento e vinte mil coroas por... digamos, seis semanas. Surgiu uma oportunidade de investimento, mas n�o tenho a quem recorrer. Voc� tem uma conta com cento e quarenta mil coroas no momento. Devolverei o dinheiro.</p><p>Mikael n�o comentou nada sobre Lisbeth ter quebrado o sigilo banc�rio de sua conta e descoberto quanto dinheiro ele tinha. Ele acessava o banco pela internet e a resposta era evidente.</p><p>� N�o precisa me pedir dinheiro emprestado � ele respondeu. � Ainda n�o discutimos a sua parte, mas ela � bem maior do que esse empr�stimo que est� querendo.</p><p>� Que parte?</p><p>� Sally, tenho honor�rios insanos para receber de Henrik Vanger e vamos acertar isso no final do ano. Sem voc� eu estaria morto e a <emphasis>Millennium</emphasis> teria afundado. Pretendo dividir meu pagamento com voc�. Meio a meio.</p><p>Lisbeth Salander o examinou com o olhar. Havia uma ruga em sua testa. Mikael j� estava se habituando com essas pausas silenciosas. Por fim ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o quero o seu dinheiro.</p><p>� Mas...</p><p>� N�o quero uma �nica coroa. � Ela sorriu de esguelha, de repente. � A menos que elas venham sob a forma de um presente de anivers�rio.</p><p>� Agora � que me dei conta que n�o sei quando � o seu anivers�rio.</p><p>� O jornalista � voc�. Descubra.</p><p>� Sinceramente, Sally, estou falando s�rio quando digo que quero dividir o dinheiro com voc�.</p><p>� Eu tamb�m estou falando s�rio. N�o quero o seu dinheiro. Quero as cento e vinte mil coroas emprestadas, e preciso delas para amanh�.</p><p>Mikael Blomkvist calou-se. <emphasis>Ela nem quer saber qual � o valor da sua parte.</emphasis></p><p>� Sally, irei hoje ao banco com voc� e emprestarei o que voc� me pede. Mas no fim do ano teremos uma outra conversa sobre a sua parte. � Ele levantou a m�o. � Por falar nisso, quando � o seu anivers�rio?</p><p>� Trinta de abril � ela respondeu. � N�o � perfeito? Sempre saio com uma vassoura entre as pernas para festejar com as feiticeiras a noite de santa Walpurgis.</p><empty-line/><p>Ela aterrissou em Zurique �s sete e meia da noite e tomou um t�xi at� o hotel Matterhorn. Havia feito uma reserva sob o nome de Irene Nesser e apresentou um passaporte noruegu�s com esse nome. Irene Nesser tinha cabelos louros um pouco compridos. Ela comprara a peruca em Estocolmo e utilizara dez mil coroas do empr�stimo de Mikael Blomkvist para adquirir dois passaportes atrav�s de seus contatos obscuros com a rede internacional de Praga.</p><p>Subiu para o seu quarto, trancou a porta e se despiu. Estendeu-se na cama e ficou olhando para o teto do quarto, cuja di�ria era de mil e seiscentas coroas. Sentiu-se vazia. J� havia gasto a metade da quantia que Mikael emprestara e, embora tivesse juntado o que tinha em sua pr�pria poupan�a, seu or�amento era estreito. Parou de pensar e adormeceu imediatamente.</p><p>Despertou pouco depois das cinco da manh�. Primeiro tomou um banho e depois passou um bom tempo camuflando a tatuagem do pesco�o com uma espessa camada de base e p�. O segundo item da lista era uma hora marcada num sal�o de beleza, no sagu�o de um hotel consideravelmente bem mais caro, �s seis e meia. Comprou mais uma peruca loura, com franja reta, depois foi � manicure para aplicar falsas unhas vermelhas sobre suas unhas ro�das, falsos c�lios, mais p�, <emphasis>blush,</emphasis> batom e outros embelezamentos. Custo: um pouco mais de oito mil coroas.</p><p>Pagou com um cart�o de cr�dito de Ver�nica Sholes e apresentou como identidade um passaporte ingl�s com esse nome.</p><p>A parada seguinte foi na <emphasis>Camille's House of Fashion</emphasis>, cento e cinquenta metros adiante. Uma hora depois, saiu vestida com botas pretas, saia cor de areia combinando com a blusa, casaco curto e boina. Apenas pe�as caras, de grife. Teve o cuidado de deixar que a vendedora escolhesse as roupas. Comprou ainda uma luxuosa maleta de couro e uma bolsa de m�o Samsonite. Para completar, brincos discretos e uma corrente de ouro ao redor do pesco�o. O cart�o de cr�dito acusou um d�bito de quarenta e quatro mil coroas.</p><p>Pela primeira vez na vida, Lisbeth Salander tinha tamb�m um busto que, quando se olhou no espelho da porta, a fez perder a respira��o. Os seios eram t�o falsos como a identidade de Ver�nica Sholes. Eram de borracha e tinham sido comprados numa loja de Copenhague frequentada por travestis.</p><p>Lisbeth Salander estava pronta para o combate.</p><p>Pouco depois das nove, ela caminhou duas quadras at� o respeit�vel hotel Zimmertal, onde reservara um quarto em nome de Ver�nica Sholes. Deu o equivalente a cem coroas de gorjeta a um rapaz que carregou a maleta que acabara de comprar e onde estava sua sacola de viagem. A su�te era pequena e a di�ria era de apenas vinte e duas mil coroas. Ela fizera a reserva para uma noite. Quando ficou sozinha, olhou ao redor. A janela oferecia uma vista espl�ndida para o lago de Zurique, o que n�o a interessou nem um pouco. Passou os cinco minutos seguintes examinando-se, de olhos arregalados, num espelho. Via uma pessoa totalmente diferente. Ver�nica Sholes, de peitos generosos e cabelos com franja reta, tinha mais maquiagem no rosto que a que Lisbeth usaria em um m�s. Ela parecia... diferente.</p><p>�s nove e meia, desceu ao bar do hotel para tomar o caf�-da-manh�, que consistiu em duas x�caras de caf� e um <emphasis>bagel</emphasis> com gel�ia. Custo: duzentas e dez coroas. <emphasis>Mas n�o s�o mesmo doidas as pessoas que pagam isso?</emphasis></p><empty-line/><p>Pouco antes das dez da manh�, Ver�nica Sholes pousou sua x�cara de caf� na mesa, pegou seu telefone celular e digitou um n�mero que a conectava ao Hava�. Depois de tr�s chamadas, ouviu um sinal que confirmava a conex�o via modem. Ver�nica Sholes respondeu digitando um c�digo de seis algarismos no celular e enviou uma mensagem de texto com a instru��o para que fosse aberto um programa que Lisbeth Salander havia preparado exatamente para essa finalidade.</p><p>Em Honolulu, o programa foi acionado num site an�nimo de um servidor formalmente situado na universidade. O programa era simples. Sua �nica fun��o consistia em enviar instru��es que abriam outro programa em outro servidor, no caso um site comercial muito conhecido que oferecia servi�os pela internet na Holanda. Esse programa, por sua vez, tinha como tarefa procurar o disco r�gido espelhado de Hans-Erik Wennerstr�m e assumir o comando do programa que gerenciava o conte�do de mais de tr�s mil contas banc�rias no mundo inteiro.</p><p>Somente uma apresentava algum interesse. Lisbeth Salander observara que Wennerstr�m verificava essa conta duas ou tr�s vezes por semana. Se ele fosse buscar justamente esse arquivo em seu computador, tudo pareceria normal. O programa assinalava pequenas mudan�as esperadas, calculadas segundo a evolu��o da conta nos �ltimos seis meses. Se Wennerstr�m entrasse na conta nas pr�ximas quarenta e oito horas e emitisse ordens de pagamento ou de transfer�ncia, o programa registraria obedientemente esses pedidos. Mas na verdade a mudan�a ocorreria apenas no disco r�gido espelhado na Holanda.</p><p>Ver�nica Sholes desligou seu celular no momento em que ouviu quatro breves sinais confirmando que o programa fora acionado.</p><empty-line/><p>Ela deixou o Zimmertal e foi at� o Bank Hauser General, em frente ao hotel, onde havia marcado um encontro com um certo Herr Wagner, diretor, �s dez da manh�. Chegou tr�s minutos antes e utilizou esse tempo de espera para ficar bem em frente � c�mera de seguran�a, que a fotografou quando ela se dirigiu �s salas de consultas privadas.</p><p>�Estou precisando de ajuda para algumas transa��es � disse Ver�nica Sholes num impec�vel ingl�s de Oxford. Quando abriu sua pasta de documentos, deixou cair sem querer uma caneta com o logotipo do hotel Zimmerhil, que indicava que ela estava hospedada l�. O diretor Wagner gentilmente pegou a caneta e lhe devolveu. Ela lan�ou-lhe um sorriso malicioso e anotou o n�mero da conta num bloco colocado � sua frente na mesa.</p><p>O diretor Wagner a examinou rapidamente e a classificou como a filha mimada de algum rica�o.</p><p>� S�o algumas contas no Banco de Kroenenfeld nas ilhas Caim�s. Transfer�ncia autom�tica mediante c�digos de compensa��o banc�ria.</p><p>� <emphasis>Fr�ulein</emphasis> Sholes, imagino que a senhorita tenha todos os c�digos de compensa��o...</p><p>� <emphasis>Aber nat�rlich</emphasis> � ela respondeu, com um sotaque t�o pronunciado que ficou evidente seu conhecimento m�nimo do alem�o.</p><p>Ela come�ou a recitar s�ries de n�meros de dezesseis algarismos sem recorrer ao papel uma �nica vez. O diretor Wagner viu que a manh� ia ser trabalhosa, mas por quatro por cento sobre as transfer�ncias estava disposto a atrasar o almo�o.</p><p>Levou mais tempo do que ela previa. E somente depois do meio-dia, um pouco atrasada em seus hor�rios, � que Ver�nica Sholes deixou o Bank Hauser General para retornar ao hotel Zimmertal. Exibiu-se na recep��o antes de subir ao quarto e tirar as roupas que acabara de comprar. Conservou os seios de borracha, mas substituiu a peruca pela de cabelos louros mais compridos de Irene Nesser. Vestiu roupas mais familiares: botas de salto alto, cal�a preta, uma blusa e uma elegante jaqueta de couro comprada na Malungsboden, em Estocolmo. Examinou-se no espelho. Sua apar�ncia continuava bem-cuidada, mas sem sinais da herdeira rica. Antes de deixar o quarto, Irene Nesser contou algumas deb�ntures, que acomodou numa pequena pasta.</p><p>� uma e cinco da tarde, com alguns minutos de atraso, entrou no Bank Dorffmann, situado a cerca de setenta metros do Bank Hauser General. Irene Nesser marcara um encontro com um certo Herr Hasselmann, diretor. Desculpou-se pelo atraso num alem�o perfeito com sotaque noruegu�s.</p><p>� N�o h� problema, <emphasis>Fr�ulein</emphasis> � disse o diretor Hasselmann. � Em que posso ajud�-la?</p><p>� Gostaria de abrir uma conta. Tenho algumas deb�ntures que desejo resgatar.</p><p>Irene Nesser p�s a pasta em cima da mesa.</p><p>O diretor Hasselmann percorreu o conte�do, primeiro bem depressa, depois mais e mais devagar. Levantou uma sobrancelha e sorriu educadamente.</p><p>Ela abriu cinco contas que podia movimentar pela internet e cujo titular era uma empresa-fantasma particularmente an�nima em Gibraltar, que um intermedi�rio local abrira para ela mediante cinquenta mil coroas emprestadas de Mikael Blomkvist. Ela converteu cinquenta deb�ntures em dinheiro, que foi depositado nas contas. Cada deb�nture tinha o valor de um milh�o de coroas.</p><empty-line/><p>Seus neg�cios no Bank Dorffmann demoraram muito tempo e ela se atrasou ainda mais no seu cronograma. N�o teria tempo para concluir as demais opera��es antes do fechamento dos bancos no dia. Irene Nesser voltou ent�o ao hotel Matterhorn, onde passou uma hora exibindo-se e marcando presen�a. Mas estava com dor de cabe�a e em seguida se retirou. Comprou analg�sicos na recep��o, pediu para ser acordada �s oito da manh� seguinte e voltou ao quarto.</p><empty-line/><p>Eram quase cinco da tarde e todos os bancos da Europa j� estavam fechados. No continente americano, por�m, os bancos acabavam de abrir. Ela p�s seu Powerbook para funcionar e conectou-se � internet pelo celular. Passou uma hora esvaziando as contas rec�m-abertas no Bank Dorffmann.</p><p>O dinheiro foi dividido em partes e utilizado para pagar faturas de um grande n�mero de empresas-fantasmas no mundo inteiro. Quando terminou, o dinheiro fora curiosamente transferido de novo para o Bank of Kroenenfeld nas ilhas Caim�s, mas desta vez numa conta diferente daquela de onde sa�ra mais cedo naquele mesmo dia.</p><p>Irene Nesser considerou que essa primeira etapa estava segura e que era quase imposs�vel de ser rastreada. Fez uma �nica retirada dessa conta; um pouco mais de um milh�o de coroas foi transferido para uma conta vinculada a um cart�o de cr�dito que ela utilizava. O titular da conta era uma sociedade an�nima com o nome Wasp Enterprises, registrada em Gibraltar.</p><empty-line/><p>Alguns minutos depois, uma loura de franja deixou o Mattherhorn por uma porta lateral do bar do hotel. Ver�nica Sholes foi ao hotel Zimmertal, cumprimentou o recepcionista com um educado gesto de cabe�a, pegou o elevador e subiu at� seu quarto.</p><p>Dedicou-se ent�o a vestir o uniforme de combate de Ver�nica Sholes, refazendo a maquiagem e pondo uma camada suplementar de base sobre a tatuagem, antes de descer ao restaurante do hotel para comer um delicioso peixe. Pediu uma garrafa de vinho do Porto do qual nunca ouvira falar mas que custava mil e duzentas coroas, bebeu apenas um copo e deixou negligentemente o resto, antes de dirigir-se ao bar do hotel. Distribuiu quinhentas coroas de gorjeta, o que lhe valeu a aten��o dos atendentes.</p><p>Passou tr�s horas flertando com um jovem italiano b�bado, com um nome aristocr�tico que ela nem se deu o trabalho de guardar. Dividiram duas garrafas de champanhe, das quais ela consumiu apenas um copo.</p><p>Por volta das onze da noite, o sedutor de bigodes inclinou-se e apalpou seus seios sem o menor constrangimento. Satisfeita, ela afastou sua m�o. Ele parecia n�o ter notado que apalpara seios de borracha. Em v�rios momentos, comportaram-se de maneira bastante indiscreta para causar uma certa indigna��o nos outros h�spedes. Pouco antes da meia-noite, notando que o seguran�a come�ava a ficar de olho neles, Ver�nica Sholes ajudou seu amigo italiano a subir ao quarto dele.</p><p>Enquanto ele estava no banheiro, serviu-lhe um �ltimo copo de vinho tinto. Abriu um saquinho de papel e adicionou ao vinho uni comprimido de son�fero triturado. Ele bebeu e, um minuto depois, jazia de bru�os sobre a cama. Ela desatou-lhe o n� da gravata, tirou seus sapatos, lavou os copos no banheiro e os enxugou. Ent�o deixou o quarto.</p><empty-line/><p>No dia seguinte, Ver�nica Sholes tomou o caf�-da-manh� em seu quarto �s seis, deixou uma gorjeta generosa, pagou a conta e foi embora do Zirnmertal quando n�o eram ainda sete horas. Antes de deixar o quarto, passou cinco minutos apagando as impress�es digitais em ma�anetas de porta, arm�rios, pia do banheiro, aparelho de telefone e em outros objetos que havia tocado.</p><p>Irene Nesser fechou sua conta no hotel Matterhorn por volta das oito e meia, pouco depois de acordar. Tomou uni t�xi e deixou suas malas num guarda-volumes da esta��o ferrovi�ria. Passou as horas seguintes indo a nove bancos, nos quais depositou partes das deb�ntures das ilhas Caim�s. �s tr�s da tarde, havia convertido cerca de dez por cento das debentures em dinheiro, depositado em cerca de trinta contas. Guardou o restante dos t�tulos num cofre banc�rio.</p><p>Irene Nesser teria de voltar a Zurique, mas n�o havia pressa.</p><empty-line/><p>�s quatro e meia, Irene Nesser tomou um t�xi at� o aeroporto. Foi ao banheiro e com uma tesoura destruiu o passaporte e o cart�o de cr�dito de Ver�nica Sholes, fazendo-os sumir com a descarga de �gua na privada. Jogou a tesoura num cesto de lixo. Depois do 11 de setembro de 2001, n�o era aconselh�vel chamar a aten��o com objetos pontiagudos na bagagem de m�o.</p><p>Irene Nesser embarcou no voo CD 890 da Lufthansa para Oslo, depois pegou um �nibus at� a esta��o ferrovi�ria central da cidade, onde foi ao banheiro fazer uma triagem de suas roupas. P�s todos os pertences da personagem Ver�nica Sholes � a peruca e as roupas de grife � em tr�s sacos pl�sticos, que jogou em diferentes lixeiras da esta��o. Deixou a bolsa Samsonite, vazia, num compartimento aberto do guarda-volumes. A corrente de ouro e os brincos eram objetos de <emphasis>designer</emphasis> cuja pista poderia ser seguida; ela os fez sumir numa boca de lobo.</p><p>Ap�s um momento de uma angustiada hesita��o, Irene Nesser decidiu conservar os seios falsos de borracha.</p><p>Dispondo de pouco tempo, fez um lanche r�pido, um hamb�rguer no McDonald's, enquanto transferia o conte�do da luxuosa maleta de couro para sua sacola de viagem. Ao sair, deixou a maleta vazia em cima da mesa. Comprou um copo de <emphasis>caff� latte</emphasis> num quiosque e correu para pegar o trem noturno com destino a Estocolmo bem no momento em que anunciavam a partida. Havia reservado uma cabine no vag�o-leito.</p><p>S� depois que trancou a porta da cabine � que sentiu sua adrenalina baixar a um n�vel normal pela primeira vez em dois dias. Abriu a janela e, desrespeitando a proibi��o de fumar, acendeu um cigarro para acompanhar o caf� enquanto o trem se afastava de Oslo.</p><p>Repassou mentalmente sua <emphasis>cheklist,</emphasis> para ter certeza de que n�o esquecera nenhum detalhe. Um momento depois, franziu o cenho e tateou os bolsos da jaqueta. Tirou de l� a caneta do hotel Zimmertal, avaliou-a pensativamente por um minuto ou dois e em seguida jogou-a pela janela.</p><p>Quinze minutos depois, esticou-se no leito e dormiu quase instantaneamente.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>EP�LOGO: ACERTO DE CONTAS � QUINTA-FEIRA 27 DE NOVEMBRO A TER�A-FEIRA 30 DE DEZEMBRO</strong></p><empty-line/><p>A edi��o tem�tica da <emphasis>Millennium</emphasis> sobre Hans-Erik Wennerstr�m tinha quarenta e seis p�ginas e caiu como uma bomba na �ltima semana de novembro. A mat�ria principal era assinada por Mikael Blomkvist e Erika Berger. Nas primeiras horas, a imprensa n�o soube muito bem como lidar com esse furo; um texto do mesmo g�nero, publicado um ano antes, condenara Mikael Blomkvist a uma pena de pris�o por difama��o e ocasionara seu aparente afastamento da revista <emphasis>Millennium.</emphasis> Sua credibilidade, portanto, era bastante fr�gil. E eis que o mesmo jornalista voltava na mesma revista com uma hist�ria carregada de acusa��es bem mais pesadas que o texto pelo qual fora condenado. O conte�do parecia �s vezes t�o absurdo que alguns suspeitaram da sa�de mental dos autores. Assim, a imprensa sueca permaneceu desconfiada e na expectativa.</p><p>Mas, no come�o da noite, o programa <emphasis>Ela,</emphasis> da TV4, mostrou seus trunfos, resumindo em onze minutos os pontos fortes das acusa��es de Blomkvist. Erika Berger almo�ara com a apresentadora do programa dias antes e lhe apresentara as provas com exclusividade.</p><p>O furo dado pela TV4 eclipsou as tev�s p�blicas, que s� mencionaram as informa��es nos notici�rios das nove da noite. A TT emitiu um primeiro comunicado, prudentemente intitulado: "Jornalista condenado acusa financista de crimes graves". O texto retomava o essencial da reportagem da TV4, mas o fato de a TT abordar o assunto desencadeou uma atividade febril nas reda��es do jornal matutino conservador e de uma d�zia de outros grandes di�rios da prov�ncia, que decidiram modificar �s pressas sua primeira p�gina antes que as rotativas come�assem a rodar. At� ent�o os jornais haviam mais ou menos decidido ignorar as acusa��es da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>O jornal matutino liberal comentou o furo da <emphasis>Millennium</emphasis> num editorial escrito pelo pr�prio redator-chefe na mesma tarde. Esse redator compareceu depois a um jantar no momento em que iam ao ar as informa��es da TV4 e ignorou os insistentes apelos de seu secret�rio de reda��o � para quem "podia haver alguma coisa" nas afirma��es de Blomkvist � com uma frase que ficaria famosa: "Bobagem, nossos rep�rteres de economia j� teriam descoberto isso h� muito tempo". Resultado: seu jornal foi a �nica voz na m�dia do pa�s a negar totalmente as afirma��es da <emphasis>Millennium.</emphasis> O editorial continha express�es como <emphasis>persegui��o pessoal, imprensa marrom, atitude</emphasis> criminosa, e reclamava <emphasis>medidas contra os que lan�am afirma��es contr�rias � lei e atacam cidad�os honestos.</emphasis> Mas foi a �nica contribui��o desse redator-chefe ao debate que come�aria a seguir.</p><p>Ningu�m arredou p� da reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> � noite. Estava previsto que apenas Erika Berger e Maln Eriksson, a nova secret�ria de reda��o, ficariam para atender eventuais chamados. Mas �s nove da noite todos os colaboradores ainda estavam por ali, al�m de quatro ex-associados e meia d�zia de <emphasis>freelancers</emphasis> fi�is. Por volta da meia-noite, Christer Malm abriu uma garrafa de champanhe, depois que um velho amigo de um jornal vespertino lhe passou uma primeira c�pia de um dossi� de dezesseis p�ginas dedicado ao caso Wennerstr�m sob o t�tulo "A m�fia das finan�as". Quando os jornais vespertinos sa�ram no dia seguinte, uma investiga��o sem precedente havia come�ado na m�dia.</p><p>A secret�ria de reda��o Malu Eriksson concluiu que ia se divertir muito na <emphasis>M�llennium.</emphasis></p><empty-line/><p>Nos dias seguintes, a Bolsa da Su�cia tremeu quando o departamento de pol�cia especializado em crimes financeiros come�ou a se envolver no caso, com procuradores sendo chamados para participar do inqu�rito, e uma lufada de p�nico desencadeou uma onda de vendas. Dois dias ap�s a den�ncia, o caso Wennerstr�m transformou-se em assunto governamental, obrigando o ministro da Ind�stria a se pronunciar.</p><p>A investiga��o n�o significou que a m�dia engoliu as den�ncias da <emphasis>Millennium</emphasis> sem questionamento � eram revela��es s�rias demais para isso. Mas, diferentemente do primeiro caso Wennerstr�m, desta vez a <emphasis>Millennium</emphasis> respaldou seu dossi� com provas muito consistentes: o correio eletr�nico pessoal de Wennerstr�m e c�pias do conte�do de seu computador, com movimentos de fundos secretos nas ilhas Caim�s e em vinte e tantos outros pa�ses, acordos sigilosos e outros disparates que um criminoso mais prudente jamais teria deixado no disco r�gido de seu computador. Ficou rapidamente estabelecido que, se as afirma��es da <emphasis>Millennium</emphasis> fossem levadas � Corte Suprema � e todos concordavam que cedo ou tarde o caso acabaria chegando l� �, seria sem d�vida nenhuma a maior bomba a explodir no mundo sueco das finan�as desde o colapso financeiro de Kreuger em 1932. Em compara��o com o caso Wennerstr�m, as negociatas do Banco Gota e <emphasis>a</emphasis> fraude de Trustor pareciam amenas. Tratava-se agora de um crime de dimens�es t�o amplas que ningu�m ousava sequer especular sobre o n�mero de infra��es � lei que ele implicava.</p><p>Pela primeira vez no jornalismo econ�mico sueco foram usadas express�es tais como <emphasis>criminalidade sistem�tica, m�fia e reinado de g�ngsteres.</emphasis> Wennerstr�m e seu c�rculo de jovens corretores, associados e advogados em traje Armani foram comparados a um bando qualquer de assaltantes de banco ou traficantes de droga.</p><empty-line/><p>Durante os primeiros dias da investiga��o na m�dia, Mikael Blomkvist permaneceu invis�vel. N�o respondia a e-mails nem atendia telefone. Todas as declara��es foram dadas por Erika Berger, que ronronava como um gato ao ser entrevistada por representantes das principais m�dias do pa�s, por jornais de prov�ncias importantes e, aos poucos, tamb�m pela imprensa internacional. Sempre que lhe perguntavam como a <emphasis>Millennium</emphasis> tivera acesso �quela documenta��o interna altamente privada, ela respondia com um sorriso misterioso que se transformava depressa em cortina de fuma�a: "N�o podemos, evidentemente, revelar nossas fontes".</p><p>Quando lhe perguntavam por que a den�ncia do ano anterior contra Wennerstr�m fora um fiasco, ela se mostrava ainda mais enigm�tica. N�o mentia, mas tamb�m n�o dizia toda a verdade. <emphasis>Off the record,</emphasis> quando n�o tinha um microfone sob o nariz, deixava escapar algumas frases impenetr�veis que, quando ligadas entre si, incitavam a conclus�es apressadas. Assim, surgiu um boato que logo adquiriu propor��es legend�rias, segundo o qual Mikael Blomkvist n�o se defendera no processo e deixara-se voluntariamente condenar a uma pena de pris�o para proteger a sua fonte. Ele foi comparado a modelos da m�dia americana que preferem a pris�o a ter que revelar uma fonte, e descreveram-no como um her�i em termos t�o lisonjeiros que ele se aborreceu. Mas n�o era momento de desmentir mal-entendidos.</p><p>Todos concordavam sobre uma coisa: a pessoa que passara as informa��es era certamente algu�m do c�rculo mais �ntimo de confian�a de Wennerstr�m. Assim teve in�cio um debate paralelo intermin�vel para saber quem seria o "Garganta Profunda". Colaboradores descontentes, advogados, e mesmo a filha viciada em coca�na de Wennerstr�m e outros membros de sua fam�lia foram apontados como poss�veis informantes. Nem Mikael Blomkvist nem Erika Berger disseram nada. Nunca comentavam o assunto.</p><p>Erika exibiu um grande sorriso de satisfa��o e soube que eles haviam ganhado quando um dos jornais vespertinos, no terceiro dia da investiga��o, deu a manchete "A revanche da <emphasis>Millennium".</emphasis> O texto apresentava uma imagem muito positiva da revista e de seus colaboradores e era ilustrado com uma foto em que Erika aparecia muito bem. Ela era chamada de a rainha do jornalismo investigativo. Isso significava pontos na hierarquia das personalidades colun�veis e j� se cogitava no Grande Pr�mio de Jornalismo.</p><empty-line/><p>Cinco dias depois de a <emphasis>Millennium</emphasis> ter disparado a primeira salva de canh�o, o livro de Mikael Blomkvist, O <emphasis>banqueiro da m�fia,</emphasis> chegou �s livrarias. O livro, escrito durante os dias febris em Sandhamn nos meses de setembro e outubro, fora impresso a toque de caixa e no maior sigilo pela Hallvigs Reklam em Morgongava, uma gr�fica de folhetos: publicit�rios. Era o primeiro livro lan�ado por uma nova editora que trazia o logotipo Millennium. A dedicat�ria era misteriosa: A <emphasis>Sally, que me apresentou aos benef�cios do golfe.</emphasis></p><p>Tratava-se de um calhama�o de seiscentas e quinze p�ginas em formato de bolso. A pequena tiragem de dois mil exemplares antevia um lan�amento a fundo perdido, mas a primeira edi��o esgotou-se em poucos dias e Erika rapidamente providenciou uma reimpress�o de mais dois mil exemplares.</p><p>Os cr�ticos constataram que desta vez Mikael Blomkvist n�o havia economizado muni��o no que se referia � divulga��o de suas fontes, e nisso tinham toda a raz�o. Dois ter�os do livro eram dedicados a anexos, com c�pias diretas da documenta��o proveniente do computador de Wennerstr�m. Juntamente com a publica��o do livro, a <emphasis>Millennium</emphasis> disponibilizou em seu site trechos dessas p�ginas sob forma de dados que podiam ser baixados no formato PDF. Qualquer um que se interessasse podia ter acesso a esses dados.</p><p>A estranha aus�ncia de Mikael Blomkvist fazia parte da estrat�gia de m�dia que Erika e ele haviam montado. Todos os jornais do pa�s o procuravam. Para o lan�amento do livro, por�m, Mikael concedeu uma entrevista exclusiva ao programa <emphasis>Ela</emphasis> da TV4, que mais uma vez saiu na frente das tev�s p�blicas. N�o se tratava, por�m, de uma conversa entre amigos, e as perguntas foram tudo menos obsequiosas.</p><p>Ao assistir ao v�deo da entrevista, Mikael ficou particularmente satisfeito com seu desempenho numa troca de r�plicas. A entrevista fora realizada ao vivo no momento em que a Bolsa de Estocolmo estava em queda livre e jovens arrivistas do mundo financeiro amea�avam se jogar pela janela. Perguntaram-lhe sobre a responsabilidade da <emphasis>Millennium</emphasis> no naufr�gio da economia sueca que ocorria naquele momento.</p><p>� Afirmar que a economia da Su�cia est� naufragando � um contra-senso � respondeu Mikael sem pestanejar.</p><p>A entrevistadora da TV4 mostrou-se perplexa. A resposta n�o seguia o esquema previsto e ela foi obrigada a improvisar. A pergunta seguinte foi exata-mente a que Mikael esperava: "Estamos passando pelo maior desastre individual da hist�ria da Bolsa sueca e o senhor afirma que � um contra-senso?".</p><p>� Veja, n�o podemos misturar estas duas coisas: a economia sueca e o mercado da Bolsa sueca. A economia sueca � a soma de todas as mercadorias e de todos os servi�os produzidos neste pa�s diariamente. S�o os telefones da Ericsson, os ve�culos da Volvo, os frangos da Scan e os transportes mar�timos de Kiruna a Sk�vde. Essa � a economia sueca, e hoje ela continua t�o forte ou t�o fraca quanto uma semana atr�s.</p><p>Fez uma pausa ret�rica e bebeu um gole de �gua.</p><p>� A Bolsa � algo bem diferente. Nela n�o h� economia, nenhuma produ��o de mercadorias ou de servi�os. H� somente fantasias nas quais, de uma hora para outra, decide-se que essa ou aquela empresa vale alguns bilh�es a mais ou a menos. Isso n�o tem nada a ver com a realidade nem com a economia sueca.</p><p>� Quer dizer ent�o que n�o tem a menor import�ncia que a Bolsa esteja cm plena queda livre?</p><p>� Isso mesmo, n�o tem a menor import�ncia � respondeu Mikael com uma voz t�o cansada e resignada que ele parecia uma esp�cie de or�culo. Sua frase seguinte seria citada mais de uma vez ao longo do ano. Ele prosseguiu: � Significa apenas que os grandes especuladores est�o transferindo suas aplica��es financeiras em empresas suecas para empresas alem�s. Se comportam como as hienas das finan�as que um rep�rter um pouco mais corajoso deveria saber identificar e levar ao pelourinho como traidores da p�tria. S�o eles que, de forma sistem�tica e deliberada, minam a economia sueca para satisfazer os interesses de seus clientes.</p><p>Em seguida, a entrevistadora da TV4 cometeu o erro de fazer exatamente a pergunta que Mikael desejava ouvir.</p><p>� Ent�o est� querendo dizer que a m�dia n�o tem nenhuma responsabilidade?</p><p>� Ao contr�rio, a m�dia tem uma enorme responsabilidade. Durante pelo menos vinte anos, um grande n�mero de jornalistas econ�micos se omitiu de examinar o caso Hans-Erik Wennerstr�m. Em vez disso, esses jornalistas ajudaram a construir o prest�gio dele atrav�s de retratos id�latras e delirantes. Se tivessem trabalhado corretamente durante todos esses anos, n�o estar�amos nessa situa��o hoje.</p><empty-line/><p>Sua apari��o significou uma mudan�a de atitude. Erika foi percebendo que somente no instante em que Mikael defendia calmamente suas acusa��es na televis�o � que a imprensa sueca ia entendendo, embora a <emphasis>Millennium</emphasis> figurasse nas manchetes havia uma semana, que a hist�ria era consistente e que as alega��es da revista eram de fato reais. A atitude dele determinou o rumo da hist�ria.</p><p>Depois dessa entrevista, o caso Wennerstr�m passou imperceptivelmente da �rea de economia para a da reportagem policial. Houve tamb�m uma mudan�a na maneira de pensar da imprensa. Antes, os rep�rteres policiais raramente, ou nunca, escreviam sobre crimes econ�micos, exceto para falar da m�fia russa ou dos contrabandistas de cigarros iugoslavos. N�o se esperava que rep�rteres policiais investigassem as opera��es escusas da Bolsa. Um jornal vespertino chegou a levar ao p� da letra o que Mikael havia dito e abriu duas p�ginas duplas com fotos de um dos corretores mais importantes de ag�ncias financeiras adquirindo t�tulos alem�es. A manchete do jornal: "Eles est�o vendendo o pa�s". Os corretores foram convidados a comentar as acusa��es. Todos se recusaram. Mas o volume de transa��es diminuiu consideravelmente nesse dia e alguns corretores desejosos de parecer progressistas come�aram a remar contra a corrente. Mikael Blomkvist divertia-se a valer.</p><p>A press�o foi t�o forte que homens s�rios de terno escuro assumiram um ar grave e pecaram contra a regra n�mero um do c�rculo mais fechado das finan�as suecas � pronunciaram-se sobre um colega. De repente, dirigentes aposentados da Volvo, industriais e diretores de banco apareceram na tev� respondendo �s perguntas e tentando diminuir os preju�zos. Todos admitiam a gravidade da situa��o e queriam se distanciar o mais r�pido poss�vel do grupo Wennerstr�m, desembara�ando-se de suas a��es. Wennerstr�m (eles constataram quase por unanimidade) n�o era um verdadeiro industrial e nunca fora inteiramente aceito no "clube". Algu�m lembrou que, no fundo, era apenas um filho de oper�rio do Norrland que talvez tivesse se deixado levar pelo sucesso. Outro descreveu suas a��es como <emphasis>uma trag�dia pessoal.</emphasis> N�o faltou quem dissesse que sempre duvidara de Wennerstr�m � era muito arrogante e mal-educado.</p><p>Nas semanas seguintes, � medida que os documentos que a <emphasis>Millennium</emphasis> apresentara eram examinados com lupa e o quebra-cabe�a remontado, foi estabelecida a liga��o entre o imp�rio wernnerstr�miano de empresas obscuras e a m�fia internacional, que englobava tudo, desde o tr�fico de armas e a lavagem de dinheiro vindo do tr�fico sul-americano de drogas at� a prostitui��o em Nova York e at� mesmo, indiretamente, o com�rcio sexual de crian�as no M�xico. Uma empresa de Wennerstr�m sediada em Chipre suscitou uma indigna��o colossal quando se divulgou que ela havia tentado comprar ur�nio enriquecido no mercado negro da Ucr�nia. Por toda parte, uma ou outra das in�meras empresas-fantasmas de Wennerstr�m parecia surgir num contexto nebuloso.</p><empty-line/><p>Erika Berger constatou que o livro sobre Wennerstr�m era o que Mikael j� havia escrito de melhor. O estilo era desigual e a pr�pria linguagem era pobre em alguns momentos � ele n�o tivera tempo de cuidar da forma �, mas Mikael dava o troco e o livro inteiro era movido por uma raiva que seria for�osamente percebida por qualquer leitor.</p><empty-line/><p>Por acaso, Mikael Blomkvist topou com seu antagonista, o ex-rep�rter de economia William Borg, � porta do Moulin, onde Mikael, Erika Berger e Christer Malm foram festejar com seus colaboradores o Dia de Santa Luzia, numa noitada generosamente regada a bebidas, patrocinada pela revista. Borg estava acompanhado de uma garota completamente b�bada, da idade de Lisbeth Salander.</p><p>Mikael deteve-se e o encarou. Borg sempre lhe despertara seus piores impulsos e ele foi obrigado a se controlar para n�o dizer ou fazer algo inconveniente. Os dois mediram-se com o olhar sem dizer uma palavra.</p><p>A avers�o de Mikael por Borg era vis�vel. Erika interrompeu esse comportamento de machos tomando Mikael pelo bra�o e conduzindo-o para dentro do bar.</p><p>Mikael decidiu que, numa pr�xima ocasi�o, pediria que Lisbeth Salander fixasse uma de suas investiga��es pessoais sobre Borg. Apenas formalidade.</p><empty-line/><p>Durante toda a tempestade na m�dia, o personagem principal do drama, o financista Hans-Erik Wennerstr�m, permaneceu praticamente invis�vel. No dia cm que a reportagem da <emphasis>Millennium</emphasis> saiu, o magnata das finan�as comentou o texto numa entrevista coletiva de imprensa j� marcada para tratar de outro assunto. Wennerstr�m declarou que as acusa��es n�o tinham fundamento e que a documenta��o apresentada era falsa. Lembrou que o mesmo rep�rter fora condenado por difama��o um ano antes.</p><p>Depois disso, somente os advogados de Wennerstr�m responderam �s perguntas da imprensa. Dois dias ap�s o lan�amento do livro de Mikael Blomkvist, rumores insistentes indicavam que Wennerstr�m havia deixado a Su�cia. Os jornais vespertinos usaram a palavra "fuga" nas manchetes. Quando, durante a segunda semana, a pol�cia de crimes financeiros tentou entrar em contato com Wennerstr�m, constatou-se que ele n�o se encontrava mais no pa�s. Em meados de dezembro, a pol�cia confirmou que Wennerstr�m estava sendo procurado e, na v�spera do Dia de S�o Silvestre, um comunicado de busca formal foi expedido para as pol�cias internacionais. Nesse mesmo dia, um dos conselheiros pr�ximos de Wennerstr�m foi detido quando tentava pegar um avi�o para Londres.</p><p>V�rias semanas depois, um turista sueco disse ter visto Hans-Erik Wennerstr�m entrando num carro em Bridgetown, capital de Barbada, nas Pequenas Antilhas. Para provar o que dizia, o turista enviou uma foto tirada a grande dist�ncia que mostrava um homem de �culos escuros vestindo uma camisa branca desabotoada e cal�a clara. O homem n�o podia ser identificado com certeza, mas os jornais vespertinos enviaram rep�rteres que tentaram, sem �xito, seguir a pista de Wennerstr�m nas ilhas antilhanas. Foi o come�o de uma persegui��o fotogr�fica do bilion�rio em fuga.</p><p>Seis meses mais tarde, a ca�ada foi interrompida. Hans-Erik Wennerstr�m foi encontrado morto num apartamento em Marbella, na Espanha, onde residia sob o nome de Victor Fleming. Fora morto com tr�s tiros na nuca disparados � queima-roupa. A pol�cia espanhola seguiu a hip�tese de que ele fora v�tima de um assaltante.</p><empty-line/><p>A morte de Wennerstr�m n�o foi surpresa para Lisbeth Salander. Ela tinha boas raz�es para suspeitar que sua morte estava relacionada ao fato de ele n�o ter mais acesso ao dinheiro de um certo banco nas ilhas Caim�s, que teria necessitado para pagar algumas d�vidas na Col�mbia.</p><p>Se algu�m tivesse se dado o trabalho de pedir a ajuda de Lisbeth Salander para localizar Wennerstr�m, ela teria podido dizer exatamente onde ele estava quase todos os dias. Ela acompanhara pela internet sua fuga desesperada por cerca de dez pa�ses e observara seu p�nico crescente atrav�s do correio eletr�nico, quando ele conectava seu computador em algum lugar. Mas nem Mikael Blomkvist teria acreditado que o ex-bilion�rio em fuga fosse t�o cretino a ponto de levar consigo o mesmo computador que fora t�o cuidadosamente invadido.</p><p>Depois de seis meses, Lisbeth cansou-se de seguir Wennerstr�m. A pergunta que ela devia responder agora era at� onde ia seu envolvimento.</p><empty-line/><p>Wennerstr�m era certamente um vigarista de primeira categoria, mas n�o era seu inimigo pessoal; ela n�o tinha interesse em interferir na vida dele. Poderia avisar Mikael Blomkvist, mas ele se contentaria em publicar uma boa hist�ria. Poderia avisar a pol�cia, mas a probabilidade de Wennerstr�m ser avisado a tempo e desaparecer era muito grande. Al�m disso, por princ�pio ela n�o falava com a pol�cia.</p><p>Mas havia outras contas a acertar. Ela pensava na servente de vinte e dois anos cuja cabe�a fora mantida mergulhada na banheira.</p><p>Quatro dias antes de encontrarem o corpo de Wennerstr�m, ela tomou uma decis�o. De seu celular, ligou para um advogado em Miami, na Fl�rida, que parecia ser uma das pessoas que Wennerstr�m mais tentava evitar. Falou com uma secret�ria e pediu que lhe transmitisse uma mensagem sibilina. Um nome, Wennerstr�m, e um endere�o em Marbella. Nada mais.</p><p>Quando a tev� anunciou a morte de Wennerstr�m, ela abandonou a reportagem pela metade. Foi preparar um caf� e um sandu�che de pat� de f�gado com pepinos em conserva.</p><empty-line/><p>Erika Berger e Christer Malm ocupavam-se dos costumeiros preparativos para o Natal. Sentado na cadeira de Erika, Mikael olhava os dois enquanto bebia um vinho quente. Todos os colaboradores c muitos dos <emphasis>freelancers</emphasis> regulares receberam de presente de fim de ano uma sacola de couro com o logotipo da <emphasis>Mlllennium.</emphasis> Depois de prepararem os pacotes, eles se lan�aram ao trabalho de escrever e selar mais de duzentos cart�es de Natal destinados � imprensa, fot�grafos e colegas.</p><p>Mikael tentou resistir � tenta��o, mas n�o conseguiu. Pegou um �ltimo cart�o de Natal e escreveu: <emphasis>Feliz Natal e Feliz Ano</emphasis> Novo. <emphasis>Obrigado por sua inestim�vel contribui��o no longo deste ano.</emphasis></p><p>Assinou e endere�ou o cart�o a Janne Dahlman, aos cuidados da reda��o do <emphasis>Finansmagasinet Monopol.</emphasis></p><p>Quando Mikael voltou para casa � noite, encontrou um aviso do correio na caixa de correspond�ncia. Foi buscar a encomenda na manh� seguinte e a abriu assim que chegou � reda��o. O pacote continha um repelente contra mosquito e meia garrafa de Reimersholm Aquavita. Um bilhete dizia: <emphasis>Se n�o tiver programa melhor, estarei ancorado em Arholma no pr�ximo solst�cio de ver�o.</emphasis> Estava assinado por seu ex-colega de classe Robert Lindberg.</p><empty-line/><p>Tradicionalmente, a reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> parava de trabalhar antes do Natal e durante as festas de fim de ano. Desta vez as coisas n�o puderam ser assim; a pequena reda��o estava sendo muito solicitada, e jornalistas do mundo inteiro continuavam a procur�-la diariamente. Dois dias antes do Natal, Mikael Blomkvist leu quase por acaso um artigo no <emphasis>Financial Times</emphasis> que resumia a situa��o atual da comiss�o banc�ria c financeira internacional, constitu�da �s pressas para investigar o imp�rio Wennerstr�m. O artigo dizia que a comiss�o trabalhava com a hip�tese de que Wennerstr�m recebera no �ltimo momento uma advert�ncia de que seria desmascarado.</p><p>De fato, suas contas no Bank of Kroenenfeld nas ilhas Caim�s, com duzentos e sessenta milh�es de d�lares, haviam sido esvaziadas na v�spera da den�ncia publicada pela <emphasis>Millemium.</emphasis></p><p>Esse dinheiro encontrava-se em contas que somente Wennerstr�m podia movimentar. Ele nem tinha necessidade de ir ao banco; bastava apresentar uma s�rie de c�digos de compensa��o para que o dinheiro fosse transferido a qualquer banco de qualquer lugar do mundo. O dinheiro fora transferido para a Su��a, onde uma colaboradora convertera a soma em obriga��es nominativas an�nimas. Todos os c�digos de compensa��o estavam em ordem.</p><p>A Europol expedira um comunicado de busca internacional da mulher desconhecida que utilizara um passaporte ingl�s roubado em nome de Ver�nica Sholes e que teria se hospedado num dos hot�is mais caros de Zurique. Uma foto relativamente n�tida, tirada por uma c�mera de seguran�a, mostrava uma mulher de baixa estatura com cabelos de franja reta, uma boca grande, seios generosos, roupas de grife e j�ias de ouro.</p><p>Mikael Blomkvist examinou a foto, primeiro com uma r�pida olhada, depois com express�o cada vez mais c�tica. Passados alguns segundos, pegou uma lupa na gaveta de sua mesa e tentou distinguir detalhes do rasto na foto do jornal.</p><p>Por fim, largou o jornal e ficou de boca aberta por alguns minutos, at� soltar unia gargalhada t�o hist�rica que Christer Malm levantou a cabe�a e perguntou o que estava acontecendo. Mikael conseguiu apenas agitar a m�o como resposta.</p><empty-line/><p><strong>*� *� *</strong></p><p>Na manh� da v�spera de Natal, Mikael foi a Arsta se encontrar com a ex-mulher e a filha Pernilla para a troca de presentes. Pernilla recebeu o computador que estava no topo da sua lista e que Mikael e Monika haviam comprado juntos. Mikael ganhou uma gravata de Monika e, da filha, um romance policial de Ake Edwardson. Diferentemente do Natal anterior, todos estavam excitados com a aten��o que a <emphasis>Millennium</emphasis> despertava na imprensa.</p><p>Almo�aram juntos. Mikael olhava Pernilla com o rabo do olho. N�o via a filha desde que ela passara por Hedestad. Deu-se conta de que n�o havia conversado com Monika sobre a atra��o de Pernilla por aquela seita tradicionalista em Skelleftea. Tampouco podia contar que foram os conhecimentos b�blicos dela que o puseram finalmente na pista certa sobre o desaparecimento de Harriet Vanger. N�o havia falado com a filha desde ent�o e sentia uma ponta de remorso.</p><p>Ele n�o era um bom pai.</p><p>Depois do almo�o, despediu-se da filha com um beijo e foi se encontrar com Lisbeth Salander no Slussen, para irem juntos a Sandhamn. Pouco haviam se visto desde que a <emphasis>Millennium</emphasis> soltara a bomba. Chegaram l� tarde da noite e ficaram at� depois do Natal.</p><empty-line/><p>Como sempre, Mikael era uma companhia divertida, mas Lisbeth Salander teve a desagrad�vel sensa��o de que ele a olhou de um modo particularmente estranho quando ela devolveu, com um cheque de cento e vinte mil coroas, o dinheiro que ele lhe emprestara. Mikael se absteve, por�m, de qualquer coment�rio.</p><p>Fizeram um passeio at� Trovill (o que Lisbeth considerou uma perda de tempo) e na volta compartilharam a ceia de Natal no albergue. Depois recolheram-se � cabana de Mikael, acenderam o aquecedor a lenha, puseram um disco de Elvis e se entregaram a brincadeiras sexuais tranquilas. De tempo em tempo, quando Lisbeth voltava � tona, ela tentava compreender o que estava sentindo.</p><p>Ela n�o tinha nenhum problema com Mikael como amante. Eles se divertiam na cama, era um entendimento f�sico muito espont�neo. E ele nunca tentava se impor.</p><p>O problema � que ela n�o entendia o que sentia por ele. Desde a puberdade, nunca baixara a guarda desse modo, deixando outra pessoa se aproximar tanto. Mikael Blomkvist tinha uma capacidade impressionante de transpor seus mecanismos de defesa e de lev�-la, mais de uma vez, a falar de assuntos e sentimentos pessoais. Mesmo tendo o bom senso de ignorar a maior parte das perguntas dele, ela falava de si mesma como n�o podia imaginar que o faria com algu�m, nem se amea�ada de morte. Isso a inquietava e a fazia se sentir nua e entregue � vontade dele.</p><p>Ao mesmo tempo � quando o olhava adormecido e escutava os seus roncos �, sentia que nunca confiara t�o incondicionalmente em algu�m. Sabia com uma certeza absoluta que Mikael Blomkvist jamais se aproveitaria do que sabia dela para feri-la. N�o fazia parte da natureza dele.</p><p>A �nica coisa de que n�o falavam era da rela��o deles. Lisbeth n�o ousava falar e Mikael nunca tocava no assunto.</p><p>Na manh� seguinte � noite de Natal, tudo lhe pareceu de uma clareza assustadora. Ignorava como isso havia acontecido e tampouco n�o sabia o que iria fazer. Estava apaixonada pela primeira vez na vida.</p><p>Pouco importava que ele tivesse quase o dobro da sua idade. Nem que ele fosse, no momento, uma das pessoas mais badaladas da Su�cia, que tinha inclusive sido capa da <emphasis>Newsweek</emphasis> � tudo n�o passava de blablabl�. Mikael Blomkvist, por�m, n�o era nem uma fantasia er�tica nem um sonho acordado. Aquilo teria um fim e n�o poderia dar certo. Que necessidade ele tinha dela? A rigor, ela era apenas um passatempo enquanto ele aguardava a chegada de algu�m cuja vida n�o fosse um maldito ninho de ratos.</p><p>De repente ela percebeu que o amor era o instante em que o cora��o fica a ponto de explodir.</p><p>Quando Mikael acordou, quase no final da manh�, ela j� havia preparado o caf� e posto a mesa para o desjejum. Ele a acompanhou � mesa e logo percebeu que alguma coisa mudara na atitude dela � ela estava um pouco mais reservada. Quando ele perguntou o que havia, ela o olhou com uma express�o indefinida, como quem n�o est� entendendo.</p><empty-line/><p>Depois do Natal, Mikael Blomkvist tomou o trem para Hedestad. Estava bem agasalhado e com verdadeiros cal�ados de inverno quando Dirch Frode foi busc�-lo na esta��o e o felicitou em voz baixa por seu sucesso jornal�stico. Desde agosto n�o vinha a Hedestad e fazia quase uni ano que aparecera ali pela primeira vez. Os dois trocaram um aperto de m�o, trataram-se cortesmente, mas havia entre eles muitas coisas n�o ditas, e Mikael sentia-se pouco � vontade.</p><p>Tudo fora preparado e a transa��o na casa de Dirch Frode durou apenas alguns minutos. Frode prop�s que o dinheiro fosse depositado numa conta no exterior, mas Mikael quis que o pagamento fosse feito como honor�rios comuns.</p><p>� N�o disponho de meios para receber o pagamento de outra forma � respondeu, seco, quando Frode insistiu.</p><p>N�o era uma visita de natureza meramente econ�mica. Mikael tinha deixado roupas, livros e alguns objetos pessoais na casa dos convidados, quando ele e Lisbeth sa�ram �s pressas de Hedeby.</p><p>Henrik Vanger continuava fr�gil desde o infarto, mas deixara o hospital de Hedestad e estava de volta � sua casa. Era constantemente acompanhado por uma enfermeira particular que o proibia de fazer longas caminhadas, subir escadas c discutir qualquer coisa que pudesse lhe causar fortes emo��es. Bem naqueles dias ele pegara um resfriado e tinha ordens de n�o sair da cama.</p><p>� Al�m de tudo, ela custa caro � queixou-se Henrik Vanger. Mikael Blomkvist n�o ficou especialmente comovido; achou que o velho tinha condi��es de pagar, considerando o n�mero de coroas que sonegara na vida. Henrik Vanger olhou para ele, contrariado, mas logo come�ou a rir.</p><p>� Dane-se! Voc� valeu todo esse dinheiro. Eu sabia.</p><p>� Para falar a verdade, n�o achei que pudesse resolver o mist�rio.</p><p>� N�o pretendo te agradecer � disse Henrik.</p><p>� E eu nem esperava por isso � respondeu Mikael.</p><p>� Voc� foi regiamente pago.</p><p>� N�o me queixo.</p><p>� Fez um trabalho para mim e o sal�rio deveria bastar como agradecimento.</p><p>� Vim apenas para dizer que considero o trabalho encerrado. Henrik Vanger fez um trejeito de fingida contrariedade.</p><p>� Voc� ainda n�o terminou o trabalho � disse.</p><p>� Eu sei.</p><p>� N�o escreveu a cr�nica da fam�lia Vanger, como est� no nosso acordo.</p><p>� Eu sei. E n�o vou escrever.</p><p>Refletiram em sil�ncio sobre essa quebra de contrato. Depois Mikael continuou:</p><p>� N�o posso escrever essa hist�ria. N�o posso falar da fam�lia Vanger e deixar deliberadamente de lado os acontecimentos essenciais das �ltimas d�cadas: Harriet, seu pai, seu irm�o e os assassinatos. Como poderia escrever um cap�tulo sobre o empres�rio Martin Vanger e fazer de conta que n�o sei o que havia no por�o da casa dele? E tampouco posso escrever a hist�ria sem destruir mais uma vez a vida de Harriet.</p><p>� Entendo seu dilema e agrade�o a escolha que fez.</p><p>� Portanto vou jogar essa hist�ria no lixo. Henrik Vanger assentiu com a cabe�a.</p><p>� Parab�ns � disse Mikael. �Voc� conseguiu me corromper. Vou destruir todas as minhas anota��es e os registros das nossas conversas.</p><p>� N�o acho que tenha sido corrompido � disse Henrik.</p><p>� E como estou me sentindo. E acho que � isso mesmo.</p><p>� Precisou escolher entre seu trabalho como jornalista e seu trabalho como ser humano. Eu n�o teria conseguido comprar seu sil�ncio. Tenho certeza de que teria escolhido seu papel de jornalista e nos exposto � degrada��o p�blica, se Harriet estivesse de algum modo implicada no caso ou se voc� me considerasse uma pessoa baixa.</p><p>Mikael n�o disse nada. Henrik olhava para ele.</p><p>� Informamos Cec�lia de tudo. Em breve Dirch Frode e eu n�o estaremos mais aqui e Harriet vai precisar do apoio de alguns membros da fam�lia. Cec�lia passar� a participar de forma ativa do conselho administrativo. Ela e Harriet � que dirigir�o o grupo no futuro.</p><p>� Como ela reagiu quando soube?</p><p>� Ficou chocada, evidentemente. Viajou ao exterior por algumas semanas. Achei que n�o fosse voltar.</p><p>� Mas voltou.</p><p>� Martin era um dos raros membros da fam�lia com quem Cec�lia sempre havia se dado bem. Foi duro para ela saber a verdade a respeito dele. Cec�lia agora tamb�m sabe o que voc� fez por nossa fam�lia.</p><p>Mikael encolheu os ombros.</p><p>� Obrigado, Mikael � disse Henrik Vanger.</p><p>Mikael encolheu novamente os ombros e depois falou:</p><p>� De qualquer forma, eu n�o conseguiria escrever essa hist�ria. A fam�lia Vanger me d� n�useas.</p><p>Refletiram um pouco, antes de Mikael mudar de assunto.</p><p>� Qual a sensa��o de voltar a ser diretor-executivo depois de vinte e cinco anos?</p><p>� E tempor�rio, mas... eu gostaria de ser mais jovem. Agora s� trabalho tr�s horas por dia. Todas as reuni�es se realizam aqui neste c�modo e Dirch Frode reassumiu seu lugar como meu homem de confian�a, caso haja algum problema.</p><p>� Os jovens executivos devem estar tremendo. Demorei para entender que Dirch Frode n�o era apenas um fiel conselheiro econ�mico, mas algu�m que resolve problemas para voc�.</p><p>� Exatamente. Mas todas as decis�es s�o tomadas com Harriet, � ela quem fica no escrit�rio.</p><p>� Como ela est�? � perguntou Mikael.</p><p>� Herdou as partes do irm�o e da m�e. Juntos controlamos mais de trinta e tr�s por cento do grupo.</p><p>� � o suficiente?</p><p>� N�o sei. Birger est� resistindo e tentando faz�-la trope�ar. Alexander descobriu que tem uma possibilidade de ser importante c aliou-se a Birger. Meu irm�o Harald tem um c�ncer e n�o vai viver muito. E ele que ocupa o segundo lugar com sete por cento das a��es, que passar�o aos filhos. Mas Cec�lia e Anita v�o se aliar com Harriet.</p><p>� Ent�o controlar�o mais de quarenta por cento.</p><p>� Nunca houve uma tal alian�a de votos na fam�lia. E h� muitos pequenos acionistas, com um ou dois por cento, que votar�o conosco. Harriet dever� me suceder como diretora em fevereiro.</p><p>� Fia n�o fitar� feliz.</p><p>� N�o, mas � necess�rio. Precisamos de novos parceiros c de sangue novo. Temos tamb�m a possibilidade de trabalhar com o grupo dela na Austr�lia. Os meios existem.</p><p>� Onde est� Harriet agora?</p><p>� Voc� n�o teve sorte. Ela est� em Londres. Mas tem muita vontade de ver voc�.</p><p>� Eu a verei na reuni�o do conselho da <emphasis>Millennium</emphasis> em janeiro, se ela o substituir.</p><p>� Certo.</p><p>� Diga-lhe que nunca falarei com ningu�m sobre o que aconteceu em 1966, exceto com Erika Berger.</p><p>� Sei disso, e Harriet tamb�m sabe. Voc� � um homem honesto, Mikael.</p><p>� Mas diga-lhe tamb�m que tudo o que fizer a partir de agora pode aparecer nas p�ginas da revista se ela n�o tomar cuidado. O grupo Vanger n�o estar� livre de observa��o.</p><p>� Eu a prevenirei.</p><p>Mikael deixou Henrik Vanger quando ele come�ou a pegar no sono. P�s seus pertences em duas malas. Fechou a porta da casa dos convidados pela �ltima vez, hesitou um instante, depois foi bater na porta de Cec�lia Vanger. Ela n�o estava. Ele pegou sua agenda de bolso, arrancou uma p�gina e rabiscou algumas palavras. <emphasis>Perdoe-me. Desejo-lhe uma vida feliz.</emphasis> Deixou a folhinha de papel com seu cart�o de visita na caixa de correspond�ncia. A casa de Martin Vanger estava vazia. Havia uma lumin�ria de Natal acesa na janela da cozinha.</p><p>Ele voltou a Estocolmo no trem da noite.</p><empty-line/><p>Entre o Natal e o Ano-novo, Lisbeth Salander desconectou-se do mundo. N�o atendeu o telefone e n�o ligou o computador. Passou dois dias lavando suas roupas e arrumando o apartamento. Embalagens de pizza e jornais velhos de um ano foram empacotados e jogados fora. Ao todo, utilizou nessa triagem seis sacos pretos de pl�stico, grandes, e uns vinte sacos de papel com jornais. Parecia ter decidido come�ar vida nova. Pretendia comprar um apartamento � quando encontrasse um que lhe conviesse �, mas at� l� seu apartamento atual estaria t�o reluzente como ela n�o se lembrava de ter visto.</p><p>Depois, ficou como que paralisada, refletindo. Nunca sentira uma vontade como aquela. Queria que Mikael Blomkvist tocasse a campainha e... o qu�? Que a erguesse nos bra�os? Que a levasse apaixonadamente at� o quarto e arrancasse suas roupas? N�o, na verdade desejava apenas a companhia dele. Queria ouvi-lo dizer que gostava dela como ela era. Que ela era uma pessoa especial no mundo e na vida dele. Queria que lhe fizesse um gesto de amor, n�o apenas de amizade e camaradagem. Estou <emphasis>ficando doida,</emphasis> pensou.</p><empty-line/><p>Ela duvidava de si mesma. Mikael Blomkvist vivia num mundo habitado por pessoas com profiss�es respeit�veis, que tinham vidas organizadas e talentos de gente adulta. Os amigos de Mikael faziam coisas, apareciam na tev� e produziam grandes manchetes. <emphasis>Para que eu serviria?</emphasis> O maior terror de Lisbeth Salander, t�o grande e negro que assumia propor��es f�bicas, era que as pessoas rissem de seus sentimentos. E de repente teve a impress�o de que todo o seu amor-pr�prio, t�o laboriosamente constru�do, desmoronava.</p><p>Ent�o decidiu-se. Levou v�rias horas mobilizando a coragem necess�ria, mas sentia-se na obriga��o de v�-lo e de dizer a ele o que sentia.</p><p>Todo o resto era insuport�vel.</p><p>Ela precisava de um pretexto para ir � casa dele. N�o lhe dera uni presente de Natal, mas sabia o que comprar. Tinha visto num antiqu�rio uma s�rie de cartazes publicit�rios de metal dos anos 1950, com figuras em relevo. Um dos cartazes mostrava Elvis Presley apoiando a guitarra no quadril e os dizeres: <emphasis>Heartbreak Hotel,</emphasis> Hotel do Cora��o Partido. Ela n�o tinha o menor jeito para a decora��o, mas sabia que o cartaz caberia perfeitamente na cabana de Sandhamn. Custava setecentas e oitenta coroas e, por princ�pio, regateou o pre�o c baixou para setecentas. Fizeram-lhe um pacote, ela o p�s debaixo do bra�o e foi a p� para o apartamento de Mikael na Bellmansgatan.</p><p>Quando passava pela Hornsgatan, olhou para o Bar-Caf� e viu Mikael saindo dali acompanhado de Erika Berger. Ele disse alguma coisa, Erika riu, passou o bra�o pela cintura dele e beijou seu rosto. Eles desapareceram pela Brannkyrkagatan em dire��o � Bellmansgatan. A linguagem corporal dos dois n�o dava margem a falsas interpreta��es � era �bvio o que eles tinham em mente.</p><p>A dor foi t�o instant�nea e insuport�vel que Lisbeth se deteve imediatamente, incapaz de se mexer. Uma parte dela quis correr para alcan��-los. Ela queria usar a borda afiada do cartaz de metal para cortar a cabe�a de Erika Berger. N�o fez nada, enquanto os pensamentos se agitavam em sua cabe�a. <emphasis>An�lise das consequ�ncias.</emphasis> Acabou se acalmando.</p><p><emphasis>Salander, que rid�cula, que idiota voc� �!,</emphasis> disse a si mesma em voz alta.</p><p>Virou as costas e tomou o caminho de volta ao seu reluzente apartamento. Passava pelo hotel Zinkensdamm quando come�ou a nevar. Jogou o Elvis num coletor de lixo.</p><empty-line/><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong><emphasis>STIEG LARSSON</emphasis></strong></p><empty-line/><p><strong/></p><empty-line/><empty-line/><p><strong>A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO</strong></p><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Tradu��o</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>Doroth�e de Bruchard</emphasis></p><empty-line/><p><image l:href="#5"/></p><empty-line/><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p></section><section><empty-line/><p>5� reimpress�o</p><p>Copyright � 2006 by Stieg Larsson</p><p>Grafia atualizada segundo o Acordo Ortogr�fico da L�ngua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.</p><p>T�tulo original</p><p>Flickan som lekte med elden</p><p>Traduzido da edi��o francesa (La filie qui r�vait d�un bidon d�essence et d�une allumette)</p><p>Capa Retina_78</p><p>Prepara��o</p><p>Maria Cec�lia Caropreso</p><p>Revis�o Marise Leal Carmen S. da Costa</p><empty-line/><p>Dados Internacionais de Cataloga��o na Publica��o (CIP) (C�mara Brasileira do Livro, SP, Brasil)</p><p>Larsson, Stieg, 1954-2004</p><p>A menina que brincava com fogo / Stieg Larsson; tradu��o Doroth�e de Bruchard. � S�o Paulo : Companhia das Letras, 2009. � (Millennium; 2)</p><p>T�tulo original : Flickan som lekte med elden, ISBN 978-85-359-1422-1</p><p>1. Fic��o policiai e de mist�rio (Literatura sueca) 2. Romance sueco II. Titulo.</p><p>09-01234 CDD-839.737</p><p>�ndice para cat�logo sistem�tico:</p><p>1. Romance : Literatura sueca�� 839.737</p><empty-line/><p>[2009]</p><p>Todos os direitos desta edi��o reservados � EDITORA SCHWARCZ LTDA.</p><p>Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 04532-002 - S�o Paulo - SP</p><p>Telefone: (11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501</p><p>www.companhiadasletras.com.br</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>PR�LOGO</strong></p><empty-line/><p>Estava amarrada numa cama estreita de estrutura de a�o. Correias de couro a prendiam e um arreio tolhia sua caixa tor�cica. Estava deitada de costas. Tinha as m�os atadas com tiras de couro de um lado e outro da cama.</p><p>J� havia muito abandonara qualquer tentativa de se soltar. Estava acordada, mas mantinha os olhos fechados. Quando os abria, achava-se no escuro, e a �nica fonte de claridade vis�vel era um fino clar�o acima da porta. Tinha um gosto ruim na boca e sentia uma necessidade imperiosa de escovar os dentes.</p><p>Parte de sua consci�ncia espreitava o barulho de passos avisando que <emphasis>ele</emphasis> estava vindo. Sabia que j� anoitecera, mas n�o tinha a menor id�ia de que horas eram, s� sentia que estava ficando muito tarde para uma de suas visitas. Sentiu uma s�bita vibra��o na cama e abriu os olhos. Parecia que algum tipo de m�quina come�ara a funcionar em algum lugar do pr�dio. Segundos depois, j� n�o saberia dizer se estava imaginando ou se o barulho era real.</p><p>Assinalou mentalmente mais um dia.</p><p>Era o seu quadrag�simo terceiro dia de cativeiro.</p><p>Sentiu coceira no nariz e virou a cabe�a para esfreg�-lo no travesseiro. Estava suando. O ar da sala era quente e abafado. Vestia uma camisola simples de tecido liso, embolada debaixo de seu corpo. Deslocando o quadril o pouco que dava, conseguiu segurar o tecido entre o indicador e o dedo m�dio e puxar a camisola para o lado, cent�metro por cent�metro. Tentou com a outra m�o. Mas a camisola continuava formando pregas sob suas costas. O colch�o era cheio de calombos e desconfort�vel. O absoluto isolamento a que estava submetida aumentava tremendamente as m�nimas sensa��es, que numa situa��o normal ela teria ignorado. O arreio, embora apertado, estava folgado o suficiente para que ela pudesse mudar de posi��o e se deitar de lado, mas ent�o era obrigada a ficar com uma m�o nas costas, e o bra�o logo entorpecia.</p><p>Se havia um sentimento dominando sua mente, era talvez o da raiva acumulada.</p><p>Por outro lado, era torturada por seus pr�prios pensamentos, que, apesar de todas as suas tentativas em contr�rio, transformavam-se em desagrad�veis fantasias sobre o que iria acontecer com ela. Detestava aquele estado de vulnerabilidade for�ada. Por mais que tentasse se concentrar em algum tema que a ajudasse a passar o tempo e abstrair aquela situa��o, a ang�stia escorria assim mesmo e pairava em volta dela feito uma nuvem t�xica, amea�ando penetrar seus poros e envenenar sua exist�ncia. Descobrira que o melhor jeito de manter a ang�stia afastada era fantasiar sobre uma coisa mais forte que seus pensamentos.</p><p>Quando fechava os olhos, mentalizava o cheiro de gasolina. <emphasis>Ele estava sentado num carro com o vidro lateral abaixado. Ela corria para o carro, jogava a gasolina pelo vidro aberto e riscava um f�sforo. Era quest�o de um segundo. As chamas surgiam instantaneamente. Ele se contorcia de dor e ela ouvia seus gritos de terror e afli��o. Podia sentir o cheiro de carne queimada e aquele, mais c�ustico, do pl�stico e do revestimento do banco se carbonizando.</emphasis></p><p>Devia ter ca�do no sono, pois n�o o escutou chegar, mas despertou completamente quando a porta se abriu. A claridade da abertura a cegou. Ent�o ele veio mesmo.</p><p>Era alto. N�o sabia qual era a sua idade, mas era adulto. Tinha um cabelo ruivo e volumoso e usava �culos de arma��o preta e um cavanhaque ralo. Cheirava a lo��o p�s-barba.</p><p>Detestava o seu cheiro.</p><p>Ele ficou em sil�ncio ao p� da cama e contemplou-a demoradamente. Detestava o seu sil�ncio.</p><p>Seu rosto n�o recebia a claridade e ela s� o percebia como uma silhueta na contraluz. De repente, ele falou. Sua voz era grave e clara e ele acentuava cada palavra com afeta��o.</p><p>Detestava a sua voz.</p><p>Ele disse que queria lhe dar os parab�ns, j� que era o dia do seu anivers�rio. A voz n�o era nem desagrad�vel nem ir�nica. Era neutra. Ela percebeu que ele sorria.</p><p>Ela o detestava.</p><p>Ele se aproximou e contornou a cama at� ficar junto de sua cabe�a, p�s as costas da m�o �mida em sua testa e deslizou os dedos pela raiz dos cabelos, num gesto que decerto pretendia ser amig�vel. Era o seu presente de anivers�rio.</p><p>Ela detestava que ele a tocasse.</p><p>Estava falando com ela. Ela viu sua boca se mexer mas n�o deixou entrar o som da voz dele. N�o queria ouvir. N�o queria responder. Ouviu quando ele ergueu a voz. Uma ponta de irrita��o, causada por sua recusa em responder, se introduzira nas palavras. Ele falava em confian�a m�tua. Ao fim de v�rios minutos, calou-se. Ela ignorou seu olhar. Ent�o ele deu de ombros, contornou a cama pela cabeceira e ajustou as correias de couro. Apertou o arreio e inclinou-se sobre ela.</p><p>Ela se virou de repente para o lado esquerdo, afastando-se dele o quanto p�de e tanto quanto as correias permitiam. Dobrou uma perna e desfechou-lhe um violento pontap�. Mirou no pomo-de-ad�o e atingiu-o com a ponta do ded�o em algum lugar debaixo do queixo, mas ele esperava por isso e se esquivou. O golpe foi bem leve, apenas percept�vel. Ela fez uma nova tentativa, s� que ele j� estava fora de alcance.</p><p>Ela deixou cair as pernas sobre a cama.</p><p>O len�ol tinha escorregado e se amontoara no ch�o. Ela sentiu que a camisola subira bem acima dos quadris. N�o gostava disso. N�o podia cobrir sua nudez.</p><p>Ele ficou um bom tempo parado sem dizer nada. Depois, contornou a cama e colocou a tira dos p�s. Ela tentou encolher as pernas, mas ele agarrou seu tornozelo e com a outra m�o empurrou com for�a o joelho, prendendo seu p� com a correia de couro. Foi para o outro lado da cama e amarrou o outro p�.</p><p>Ela agora estava totalmente � sua merc�.</p><p>Ele juntou o len�ol e a cobriu. Contemplou-a em sil�ncio por uns dois minutos. No escuro, ela podia sentir sua excita��o, embora ele a dissimulasse ou, pelo menos, tentasse. Sabia que ele estava tendo uma ere��o. Sabia que ele queria estender a m�o e toc�-la.</p><p>Depois ele deu meia-volta, saiu e fechou a porta atr�s de si. Ela escutou quando ele deu a volta na chave, gesto um tanto exagerado j� que ela n�o tinha a menor possibilidade de se soltar da cama.</p><p>Permaneceu im�vel v�rios minutos e olhou para o fino raio de luz acima da porta. Ent�o se mexeu e tentou sentir se as correias estavam mesmo apertadas. Podia erguer um pouco os joelhos, mas o arreio se esticou em seguida. Relaxou. Permaneceu deitada, completamente im�vel, olhos fixos no nada.</p><p>Ela esperava.</p><p><emphasis>Sonhava com um gal�o de gasolina e um f�sforo. Ela o via, encharcado de gasolina. Podia sentir fisicamente a caixa de f�sforos na sua m�o. Chacoalhava a caixa de f�sforos, que fazia um barulhinho. Ela a abria e escolhia um f�sforo. Ouvia-o dizer alguma coisa, mas tapava os ouvidos e n�o escutava as palavras. Via a express�o no rosto dele enquanto riscava o f�sforo. Escutava o ro�ar do enxofre no riscador. Parecia um trov�o demorado. Via a ponta do f�sforo se inflamar.</emphasis></p><p>Esbo�ou um sorriso totalmente desprovido de alegria e se endureceu. Aquela era a noite de seus treze anos.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>I � EQUA��ES IRREGULARES 16 A 20 DE DEZEMBRO</strong></p><empty-line/><p><emphasis>A equa��o recebe um nome segundo a pot�ncia das inc�gnitas (valor do expoente). Se esta for um, a equa��o ser� de primeiro grau; se a pot�ncia for dois, a equa��o ser� de segundo grau etc. As equa��es de grau superior ao primeiro atribuem diferentes valores �s inc�gnitas. Esses valores s�o chamados de ra�zes.</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>Equa��o de primeiro grau (equa��o linear): 3x-9 = 0(raiz: x = 3)</emphasis></p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>1 - QUINTA-FEIRA 16 DE DEZEMBRO - SEXTA-FEIRA 17 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander puxou os �culos escuros sobre o nariz e olhou por baixo da aba do chap�u. Viu a mulher do quarto 32 vindo da entrada lateral do hotel e dirigir-se a uma das espregui�adeiras de listras brancas e verdes � beira da piscina. Seu olhar estava firmemente voltado para o ch�o � sua frente e seu semblante, compenetrado. Dava a impress�o de estar com as pernas meio bambas.</p><p>Salander, at� ent�o, s� a tinha visto de longe. Dava-lhe uns trinta e cinco anos, mas sua apar�ncia neutra e indefinida situava-a num ponto qualquer na faixa dos vinte e cinco aos cinquenta. Tinha cabelos castanhos semilongos, rosto oval e um corpo maduro que poderia ter sa�do diretamente das p�ginas de roupa �ntima de um cat�logo de vendas por correspond�ncia. A mulher usava sandalinhas, biqu�ni preto e �culos escuros de tartaruga com lentes roxas. Era americana e falava com sotaque do Sul. Seu chap�u de sol era amarelo e ela o deixou cair ao lado da espregui�adeira antes de fazer um sinal ao gar�om do bar de Ella Carmichael.</p><p>Lisbeth Salander p�s o livro no colo, pegou seu copo e bebericou um gole de caf� antes de se inclinar para apanhar o ma�o de cigarros. Sem virar a cabe�a, deslocou o olhar para o horizonte. Do seu lugar na �rea da piscina, avistava uma nesga do mar do Caribe em meio a um conjunto de palmeiras e rododendros em frente ao muro do hotel. Um veleiro singrava ao largo rumo ao norte, na dire��o de Santa-Luzia ou Dominica. Mais adiante, distinguia o vulto de um cargueiro cinzento a caminho das Guianas ou de algum pa�s vizinho. Uma brisa ligeira lutava contra o calor da tarde, mas ela sentiu uma gota de suor escorrer devagar para a sobrancelha. Lisbeth Salander n�o era do tipo que gostava de se deixar fritar ao sol. Na medida do poss�vel, passava o dia todo na sombra, de modo que se colocara decididamente sob a prote��o do toldo. No entanto, estava bronzeada como uma avel�, pelo menos nas partes do corpo que expunha. Usava um short c�qui e uma regata preta.</p><p>Escutava os sons estranhos dos <emphasis>steel drums</emphasis> difundidos pelos alto-falantes do bar. Embora a m�sica n�o fosse especialmente a sua praia - era incapaz de distinguir Nick Cave de uma orquestra de baile popular -, os <emphasis>steel drums</emphasis> a fascinavam. Achava incr�vel que algu�m conseguisse afinar um barril de petr�leo, e mais incr�vel ainda que o barril produzisse sons control�veis que n�o se pareciam com nenhum outro som e que, para ela, tinham diretamente a ver com magia.</p><p>S�bito, sentiu-se irritada e desviou o olhar para a mulher, a quem acabavam de entregar um copo com um drinque alaranjado.</p><p>Lisbeth Salander n�o queria nada com aquela morena. Mas simplesmente n�o conseguia entender por que a mulher continuava ali. Por quatro noites, desde a chegada do casal, Lisbeth Salander escutara vindo do quarto vizinho, uma voz masculina vigorosa e violenta usando o registro da intimida��o. Escutara choros, sussurros duros e, em v�rias oportunidades, sons de bofetadas. O homem que estava na origem dos tabefes - Lisbeth supunha que era o marido - tinha cerca de quarenta anos. Cabelos castanhos lisos repartidos no meio, um penteado meio careta, e parecia estar na Ilha de Granada por motivos profissionais. Lisbeth Salander n�o fazia id�ia de qual poderia ser a profiss�o do fulano, mas toda manh� ele aparecia bem vestido, de gravata e palet�, para tomar um caf� no bar do hotel, e depois pegar seu porta-documentos e ir at� o t�xi que o esperava.</p><p>Em geral, voltava ao hotel no final da tarde, tomava banho e ficava com mulher � beira da piscina. Jantavam juntos, e qualquer observador podia perceber a harmonia cheia de intimidade e amor que emanava deles. A mulher talvez tomasse um ou dois copos al�m do que deveria, mas sua embriaguez n�o era aflitiva nem espalhafatosa.</p><p>As brigas no quarto vizinho come�avam ritualmente entre dez e onze da noite, mais ou menos a hora em que Lisbeth ia para a cama com um livro sobre mist�rios matem�ticos. Nunca eram maus-tratos s�rios. At� onde Lisbeth conseguia perceber, tratava-se de uma discuss�o azeda e exaustiva, com o homem n�o tolerando nenhum protesto, embora provocasse a mulher, incitando-a �s recrimina��es. Na noite anterior, Lisbeth fora para a sacada e escutara a discuss�o. Durante mais de uma hora, o homem ficara andando de um lado para o outro do quarto, reconhecendo que era um traste que n�o a merecia. Diversas vezes, como que em plena crise emocional de inferioridade, dissera que ela devia ach�-lo um hip�crita. Todas �s vezes ela respondera que n�o pensava isso e procurava acalm�-lo. Ele foi ficando mais e mais exaltado, chegando a ponto de sacudi-la. Por fim, ela disse o que ele esperava... <emphasis>sim, voc� � um hip�crita.</emphasis> E ele imediatamente usou aquela confiss�o for�ada como pretexto para atac�-la, atacar seu comportamento e seu car�ter. Chamou-a de puta, palavra que arrepiou Lisbeth Salander. Ela pr�pria n�o teria hesitado em partir para a desforra se lhe dirigissem uma acusa��o daquelas. Mas n�o era esse o caso e, concretamente, o problema n�o era seu. Assim, era dif�cil para ela decidir se deveria ou n�o intervir de alguma maneira.</p><p>Perplexa, Lisbeth escutara o homem repetir suas acusa��es e, de repente, mandar ver as bofetadas. Acabava de decidir ir at� o corredor e abrir a porta do 32 com um superpontap�, quando o sil�ncio voltou a se instalar no quarto.</p><p>Observando a mulher perto da piscina, notou um leve hematoma no ombro e um arranh�o no quadril, mas nenhum ferimento �bvio.</p><p>Nove meses antes, tinha lido um artigo numa <emphasis>Popular Science</emphasis> esquecida por um passageiro no aeroporto Leonardo da Vinci, em Roma, e no mesmo instante tomara-se de um fasc�nio absoluto por astronomia esf�rica, um assunto absolutamente espinhoso. Num impulso, fora at� a livraria universit�ria de Roma e comprara algumas das teses mais importantes sobre a mat�ria. Para entender astronomia esf�rica, por�m, tinha sido obrigada a mergulhar nos mist�rios relativamente complicados da matem�tica. Nos �ltimos meses, dera a volta ao mundo e visitara regularmente livrarias especializadas � procura de outros livros sobre o tema.</p><p>De modo geral, os livros tinham ficado enfiados nas malas, e seus estudos haviam sido pouco sistem�ticos e um tanto hesitantes, at� que passou por acaso na livraria universit�ria de Miami e saiu de l� com <emphasis>Dimens�ons in Mathematics</emphasis> do Dr. L. C. Parnault (Harvard University, 1999). Encontrara o livro poucas horas antes de iniciar um p�riplo pelas Antilhas.</p><p>Estivera em Guadalupe (dois dias num fim de mundo inacredit�vel); Dominica (simp�tica e descontra�da; cinco dias); Barbados (uma noite num hotel americano onde sentiu que sua presen�a era particularmente indesejada); e Santa-Luzia (nove dias). Poderia ter cogitado ficar algum tempo em Santa-Luzia, n�o fosse ter se indisposto com um jovem delinquente nativo de mente obtusa que insistia em se apossar do bar do seu hotel de segunda categoria. Certa noite, ela pusera fim �s hostilidades esmagando-lhe um tijolo na cabe�a, pagara a conta e tomara uma balsa com destino a S�o Jorge, capital de Granada. At� o momento de embarcar, nunca tinha ouvido falar naquele pa�s.</p><p>Desembarcara em Granada debaixo de uma chuva tropical por volta das dez horas de uma manh� de novembro. A leitura do <emphasis>Caribbean Traveller</emphasis> lhe informara que Granada era conhecida como <emphasis>Spice Island,</emphasis> a ilha das especiarias, e era um dos maiores produtores mundiais de noz-moscada. A capital se chamava S�o Jorge. A ilha contava cento e vinte mil habitantes, mas cerca de outros duzentos mil granadinos estavam expatriados nos Estados Unidos, Canad� e Inglaterra, o que dava uma boa id�ia do mercado de trabalho na ilha. A paisagem era montanhosa, em volta de um vulc�o extinto, a Lagoa Grande.</p><p>Granada, historicamente falando, era uma das in�meras e insignificantes antigas col�nias brit�nicas, onde o capit�o Barba Negra talvez tivesse, ou n�o, desembarcado e enterrado um tesouro. Esta imagem tinha o m�rito de ati�ar as fantasias. Em 1795, Granada atraiu a aten��o pol�tica depois que um exescravo alforriado chamado Julian Fedon, inspirando-se na Revolu��o Francesa, fomentou uma revolta, obrigando a Coroa a enviar tropas para fazer picadinho, enforcar, encher de bala e mutilar um grande n�mero de rebeldes. O problema do regime colonial era que uma boa quantidade de brancos pobres tinha aderido � revolta de Fedon sem a menor considera��o pelas hierarquias ou fronteiras raciais. A revolta foi esmagada, mas Fedon nunca foi capturado; refugiado no maci�o do Lago Grande tornou-se uma lenda local ao estilo Robin Hood.</p><p>Cerca de dois s�culos depois, em 1979, o advogado Maurice Bishop deu in�cio a outra revolu��o inspirada, segundo o guia, na <emphasis>communist dictatorship in Cuba and Nicar�gua,</emphasis> mas da qual Lisbeth Salander tivera rapidamente uma vis�o bem diferente depois de conversar com Philip Campbell, professor, bibliotec�rio e pregador batista, em cuja <emphasis>guesthouse</emphasis> se hospedara em seus primeiros dias na ilha. A hist�ria podia ser resumida assim: Bishop foi um l�der extremamente popular que derrubara um ditador maluco, e ainda por cima fan�tico por �vnis, que dilapidava parte do magro or�amento do Estado perseguindo discos voadores. Bishop defendia uma democracia econ�mica e introduziu no pa�s as primeiras leis sobre igualdade dos sexos, antes de ser assassinado em 1983 por uma horda de stalinistas desmiolados, que desde ent�o permaneciam encarcerados na ilha.</p><p>Depois do assassinato, inclu�do no massacre de cerca de cento e vinte pessoas, entre as quais o ministro das Rela��es Exteriores, o ministro da Condi��o Feminina e importantes l�deres sindicais, os Estados Unidos intervieram, desembarcando na ilha a fim de restabelecer a democracia. Conseq��ncia direta para Granada: o desemprego passou de seis para quase cinquenta por cento e o tr�fico de coca�na voltou a constituir a maior fonte de renda em todas as categorias. Philip Cambell assentira com a cabe�a ao ler a descri��o do guia de Lisbeth e dera-lhe bons conselhos sobre as pessoas e os bairros que ela deveria evitar depois do anoitecer.</p><p>Com Lisbeth Salander, bons conselhos eram relativamente in�teis. Em compensa��o, ela escapara do perigo de conhecer a criminalidade de Granada ao se apaixonar pela praia de Angra Grande, logo ao sul de S�o Jorge, praia de uns dez quil�metros de extens�o de areia, pouqu�ssimo frequentada e onde podia, se lhe desse vontade, passear durante horas sem ser obrigada a conversar ou encontrar com ningu�m. Hospedara-se no Keys, um dos raros hot�is americanos de Angra Grande, e l� ficara por sete semanas sem fazer muito mais que passear na praia e comer <emphasis>chinups,</emphasis> fruta nativa cujo gosto lhe lembrava o da groselha e com a qual se entusiasmara totalmente.</p><p>Era baixa esta��o e apenas um ter�o do hotel estava ocupado. O problema � que tanto a tranq�ilidade de Lisbeth como suas veleidades de estudos matem�ticos foram bruscamente perturbadas pelo barulho das discuss�es no quarto ao lado.</p><p>Mikael Blomkvist pressionou o indicador na campainha do apartamento de Lisbeth Salander na Lundagatan. N�o esperava que ela atendesse, mas criara o h�bito de passa por ali uma ou duas vezes por m�s, s� para dar uma conferida. Espiando pela abertura da porta destinada � correspond�ncia, viu a pilha de prospectos acumulados. Passava das dez da noite e, com a pouca luminosidade, era dif�cil avaliar se a pilha aumentara desde a �ltima vez.</p><p>Por um momento, permaneceu indeciso no v�o da escada, at� que, frustrado, deu meia-volta e deixou o pr�dio. Voltou para o seu apartamento na Bellmansgatan caminhando sem pressa. Ao chegar em casa, ligou a cafeteira e abriu os jornais da tarde, enquanto assistia � edi��o noturna de <emphasis>Rapport</emphasis> com olhar distra�do. Estava deprimido e se perguntava aonde andaria Lisbeth Salander. Sentia uma vaga preocupa��o, mas n�o tinha nenhum motivo para achar que ela estava morta ou em maus len��is. No entanto, perguntou-se pela mil�sima vez o que teria acontecido.</p><p>No ano anterior, convidara Lisbeth Salander para passar os feriados de Natal em sua cabana de Sandhamn. Tinham dado longos passeios juntos, conversando com calma sobre a repercuss�o dos acontecimentos dram�ticos em que ambos haviam se envolvido recentemente, numa �poca em que Mikael vivia o que considerava uma crise existencial. Condenado por difama��o passara alguns meses preso, sua carreira de jornalista atolara na lama e, com o rabo entre as pernas, abandonara seu cargo de editor respons�vel da revista <emphasis>Millennium.</emphasis> Em poucos meses, por�m, tudo mudara. Convidado a escrever a biografia do industrial Henrik Vanger, o que ele vivenciou como uma terapia escandalosamente bem remunerada deixou de lado sua depress�o para se lan�ar � ca�a desenfreada de um assassino em s�rie ardiloso e muito bem escondido.</p><p>O acaso pusera Lisbeth Salander em seu caminho. Mikael tocou distraidamente, debaixo da orelha esquerda, na cicatriz deixada pelo n� corredi�o. Lisbeth n�o salvara apenas sua carreira - simplesmente salvara-lhe a vida.</p><p>Em mais de uma oportunidade ela o surpreendera com seus talentos extraordin�rios - mem�ria fotogr�fica e fabulosos conhecimentos em computa��o. Mikael Blomkvist considerava-se relativamente competente no assunto, mas Lisbeth Salander manejava computadores como se tivesse feito uma alian�a com o diabo. Aos poucos, ele fora compreendendo que ela era uma <emphasis>hacker</emphasis> de padr�o internacional e que, dentro do clube exclusivo que se dedicava, no mundo inteiro, a uma atividade ilegal em computa��o de alt�ssimo n�vel, ela era uma lenda, mesmo que an�nima e s� conhecida pelo codinome Wasp.</p><p>A capacidade de Lisbeth para passear pelos computadores alheios � que fornecera a Mikael o material necess�rio para transformar seu fracasso jornal�stico no caso Wennerstr�m - um furo que, um ano depois, ainda era fonte de investiga��es policiais sobre crimes financeiros e levava Mikael regularmente aos sof�s dos est�dios de televis�o.</p><p>Um ano antes, ele vivera esse furo com uma satisfa��o colossal - enquanto vingan�a e brilhante reabilita��o ap�s sua estada na sarjeta do jornalismo. A satisfa��o, por�m, o abandonara rapidamente. Passadas algumas semanas, j� estava saturado de responder �s mesmas e eternas perguntas dos jornalistas e dos tiras da divis�o financeira. <emphasis>Sinto muito, mas n�o posso revelar minhas fontes.</emphasis> E no dia em que um jornalista do <emphasis>Azerbahdzian Times</emphasis> se dera ao trabalho de ir at� Estocolmo para fazer apenas as mesmas perguntas idiotas, ele se cansara. Reduzira as entrevistas ao m�nimo necess�rio, e nos �ltimos meses s� se dispunha a aceit�-las quando quem ligava era a Mo�a da <strong>TV</strong>4, e isso depois que a investiga��o j� estava em outra fase bem espec�fica.</p><p>A colabora��o de Mikael com a Mo�a da <strong>TV</strong>4 tinha, al�m disso, outra dimens�o. Ela fora a primeira jornalista a dar import�ncia � revela��o e, sem sua ajuda j� na primeira noite em que a <emphasis>Millennium</emphasis> soltara o furo, nada garante que a hist�ria tivesse tido aquele impacto. S� mais tarde Mikael ficou sabendo que ela tivera de brigar com unhas e dentes para convencer sua reda��o a deix�-la contar a hist�ria. Ningu�m estava disposto a dar espa�o �quele tratante da <emphasis>Millennium</emphasis> e at� o momento de ela entrar ao vivo ningu�m podia garantir que a bateria de advogados da reda��o a deixaria falar. V�rios de seus colegas mais velhos tinham baixado o polegar, alertando que se ela estivesse enganada sua carreira estaria enterrada. A Mo�a aguentara firme e acabara desencadeando a hist�ria do ano.</p><p>Na primeira semana, ela naturalmente continuou acompanhando o caso - j� que era, a bem dizer, a �nica rep�rter que tinha se aprofundado no assunto - mas, �s v�speras do Natal, Mikael se deu conta de que todos os coment�rios e novos pontos de vista tinham sido transferidos para seus colegas homens. Por volta do ano-novo, Mikael descobriu por vias indiretas que haviam simplesmente afastado a mo�a sob o argumento de que o maior acontecimento midi�tico do ano tinha de ser tratado por jornalistas de economia s�rios, e n�o por uma menina origin�ria da Ilha de Gotland, ou sabe-se l� de onde. Isso irritou Mikael, e quando, mais tarde, a TV4 lhe pediu uma declara��o, ele retrucou de cara que s� falaria com a Mo�a, o que resultou em alguns dias de sil�ncio carrancudo antes de os sujeitos capitularem e ela reassumir seu lugar.</p><p>O interesse decrescente de Mikael pelo caso Wennerstr�m coincidia tamb�m com o desaparecimento de Lisbeth Salander. Ele continuava sem entender o que havia acontecido.</p><p>Haviam se despedido um dia depois do Natal, e nos dias seguintes n�o tinham se visto. Na v�spera do r�veillon, Mikael ligou para ela bem tarde da noite. Ela n�o atendera. No dia do r�veillon, passara duas vezes na casa dela e tocara a campainha. Na primeira, viu luz no apartamento, mas ela n�o abrira a porta. Na segunda, estava tudo escuro. No dia do ano-novo, tentara ligar mais uma vez, por�m a �nica resposta que obteve foi a mensagem gravada dizendo que o n�mero estava indispon�vel no momento.</p><p>Nos dias que se seguiram, encontrou-a duas vezes. Preocupado, ainda sem conseguir falar com Lisbeth, foi at� seu apartamento no in�cio de janeiro e sentou-se num degrau da escada em frente � porta. Tinha levado um livro e esperou persistentemente por quatro horas at� ela chegar, pouco antes das onze da noite. Carregava uma caixa de papel�o e parou de repente quando o avistou.</p><p>�Oi, Lisbeth - disse ele, fechando o livro.</p><p>Lisbeth contemplou-o sem a menor express�o no olhar, sem calor nem amizade. Depois passou por ele e enfiou a chave na fechadura.</p><p>�Me oferece um caf�? -perguntou Mikael. Ela virou-se para ele e falou em voz baixa.</p><p>�V� embora. N�o quero mais te ver.</p><p>Ent�o fechou a porta na cara de um perplexo Mikael Blomkvist, que ficou escutando ela girar a chave na fechadura.</p><p>Tr�s dias depois, encontrou-a uma segunda vez. Ele pegara o metr� de Slussen na Centralen, e quando o trem parou na Gamla Stan, ao olhar pela janela, avistou-a na plataforma, a menos de dois metros de dist�ncia. Avistou-a no exato momento em que as portas se fechavam. Por cinco segundos, ela olhou bem dentro de seus olhos, mas como se ele fosse transparente, antes de dar meia-volta e se afastar de seu campo de vis�o enquanto o trem se punha em marcha.</p><p>A mensagem era clara. Lisbeth Salander n�o queria nada com Mikael Blomkvist. Riscara-o de sua vida com a mesma efici�ncia com que apagava um arquivo do seu computador, sem explica��o ou negocia��o. Mudara o n�mero do celular e n�o respondia aos e-mails.</p><p>Mikael suspirou, desligou a tev�, aproximou-se da janela e contemplou o pr�dio da prefeitura.</p><p>Perguntou-se se n�o estaria errado, insistindo em passar assim regularmente em frente ao apartamento de Lisbeth. At� ent�o, a atitude de Mikael, se uma mulher sinalizasse de forma t�o clara que n�o queria mais ouvir falar nele, era ir embora. Para ele, n�o respeitar uma mensagem dessas equivalia a n�o respeitar a mulher em quest�o.</p><p>Na �poca do caso, tinham estado juntos na cama. Acontecera por iniciativa de Lisbeth, e a rela��o havia durado seis meses. Se era decis�o dela terminar aquela hist�ria do mesmo modo surpreendente como come�ara, a Mikael s� restava aceitar. Cabia a ela romper. Mikael n�o via dificuldades no papel de ex-namorado - se era assim que ele agora tinha de se considerar -, mas estava perplexo com a forma como Lisbeth Salander o deixara.</p><p>O �nico problema � que Mikael gostava imensamente de Lisbeth Salander. N�o estava nem um pouco apaixonado por ela - combinavam t�o pouco quanto duas pessoas podem combinar -, mas gostava dela e sentia mesmo falta daquela mulherzinha danada de complicada. Imaginara que a amizade deles fosse rec�proca. Em suma, sentia-se um idiota.</p><p>Depois de passar um longo tempo diante da janela, sua decis�o estava tomada.</p><p>Se Lisbeth Salander o detestava a ponto de n�o conseguir sequer cumpriment�-lo quando se encontravam no metr�, a amizade entre eles provavelmente acabara e o dano era irrevers�vel. A partir de agora, n�o passaria mais pelo seu apartamento nem faria o menor gesto para retomar o contato com ela.</p><p>Lisbeth Salander consultou seu rel�gio e constatou que, mesmo ficando comportadamente � sombra, estava encharcada de suor. Eram dez e meia. Memorizou uma f�rmula matem�tica de tr�s linhas e fechou o Dimens�ons in Mathematics, depois pegou a chave do quarto e seu ma�o de cigarros em cima da mesa.</p><p>Seu quarto era no primeiro andar, o �ltimo andar do hotel. Tirou a roupa e entrou no chuveiro.</p><p>Um lagarto verde de uns vinte cent�metros a espreitava da parede, logo abaixo do teto. Lisbeth, por sua vez, olhou-o de soslaio, mas n�o fez nenhum gesto para expuls�-lo. Conclu�ra que o lagarto era h�spede ali havia muito mais tempo que ela e provavelmente ainda seria muito tempo depois de ela ter ido embora de Granada. Havia lagartos por toda a ilha, eles se esgueiravam no quarto pelas persianas das janelas abertas, por baixo da porta ou pela ventila��o do banheiro. Gostava da companhia deles, de modo geral n�o a perturbavam e pareciam mais inteligentes que certos humanos que ela conhecia. A �gua estava fria, mas n�o gelada, e ela ficou debaixo do chuveiro uns cinco minutos para se refrescar.</p><p>Ao voltar para o quarto, deteve-se nua diante do espelho do arm�rio e examinou seu corpo, maravilhada. Ainda pesava quarenta e dois quilos e media quase um metro e cinquenta. N�o havia muito que fazer. Tinha membros finos como os de uma boneca, m�os pequenas e quadris acanhados.</p><p>Mas tinha seios.</p><p>A vida inteira ela fora ridiculamente reta, como se ainda n�o tivesse entrado na puberdade. Seus mamilos eram pequenos, mas muito normais. O problema � que estavam situados sobre o que poderia ser descrito, quando muito, como esbo�os de sali�ncia. Tinham um aspecto absolutamente rid�culo e ela sempre achara desagrad�vel se mostrar nua.</p><p>E ent�o, de repente, l� estava ela com seios. N�o se tratava de mel�es (o que ela n�o desejava, e teria ficado ainda mais rid�culo no seu corpo mi�do), mas de dois seios redondos e firmes do tamanho de, pelo menos, uma tangerina. A mudan�a acontecera gradualmente e as propor��es eram plaus�veis. Uma diferen�a radical, tanto para o seu aspecto f�sico como para o seu bem-estar pessoal.</p><p>Lisbeth passara cinco semanas numa cl�nica pr�xima a G�nova, na It�lia, para fazer os implantes que constitu�am a base dos seus seios novinhos. Escolhera a cl�nica e os m�dicos de melhor reputa��o na Europa, que normalmente praticavam interven��es por raz�es cl�nicas mais do que est�ticas. Sua m�dica, uma mulher de fibra encantadora chamada Alessandra Perrini, conclu�ra que seus seios eram subdesenvolvidos e que havia justificativas m�dicas para aceit�-la como paciente.</p><p>A cirurgia n�o tinha sido indolor, mas os seios pareciam naturais, ao olhar e ao toque. Os mamilos estavam t�o sens�veis como antes da interven��o, e as cicatrizes, quase invis�veis. Em momento algum se arrependera de sua decis�o. Estava satisfeita. Seis meses depois, ainda n�o conseguia passar nua na frente de um espelho sem se sobressaltar e come�ar a apalpar os seios. Sentia-os como um aporte � sua qualidade de vida.</p><p>Aproveitando sua estada na cl�nica de G�nova, mandara remover uma de suas nove tatuagens - um marimbondo de dois cent�metros no lado direito do pesco�o. Gostava de suas tatuagens, principalmente do enorme drag�o que se estendia da esc�pula at� a n�dega, mas ainda assim decidira livrar-se do marimbondo, ponderando que uma marca t�o vis�vel e ostensiva a tornava f�cil de identificar e lembrar. Lisbeth Salander n�o queria ser nem identificada nem lembrada. A tatuagem fora removida a laser e, quando passava o dedo indicador pelo pesco�o, podia sentir uma leve cicatriz. Uma inspe��o mais aprofundada mostraria que sua pele bronzeada era um tantinho mais clara no local da tatuagem, mas uma olhada r�pida nada revelava. Ao todo, sua estada em G�nova lhe custara o equivalente a cento e noventa mil coroas. Era algo que ela podia se permitir.</p><p>Parou de sonhar na frente do espelho e vestiu uma calcinha e um suti�. Dois dias depois de deixar a cl�nica de G�nova entrara, pela primeira vez nos seus vinte e cinco anos de vida, numa loja de lingerie e comprara o objeto de que at� ent�o nunca tinha precisado. De l� para c�, completara vinte e seis anos e ainda usava aquela pe�a com certa fascina��o.</p><p>Enfiou um jeans e uma camiseta preta com os dizeres <emphasis>Consider this a fair warning.</emphasis> Pegou as sand�lias e o chap�u de palha e pendurou uma sacola de n�ilon preto no ombro.</p><p>Ao dirigir-se para a sa�da, notou um pequeno grupo de clientes discutindo na recep��o. Diminuiu o passo e apurou o ouvido.</p><p><emphasis>�Just how dangerous is she?</emphasis> - gritou uma mulher negra com sotaque <emphasis>british.</emphasis></p><p>Lisbeth a reconheceu fazia parte de um grupo de veranistas que tinham chegado de Londres dez dias antes.</p><p>Freddie McBain, o recepcionista grisalho que invariavelmente brindava Lisbeth Salander com um sorriso simp�tico, parecia chateado. Explicou que todos os clientes do hotel receberiam instru��es e que n�o havia motivo para se preocupar se todo mundo seguisse essas instru��es � risca. Sua resposta foi recebida com uma torrente de perguntas.</p><p>Lisbeth Salander franziu o cenho e foi ter com Ella Carmichael atr�s do balc�o do bar.</p><p>�O que est� acontecendo? - perguntou, indicando o ajuntamento na recep��o.</p><p>�Mathilda est� amea�ando nos fazer uma visita.</p><p>�Mathilda?</p><p>�Mathilda � um ciclone que se formou h� quinze dias ao largo da costa brasileira e hoje de manh� passou reto por Paramaribo. � a capital do Suriname. N�o se sabe muito bem que dire��o ele vai tomar - provavelmente mais ao norte, rumo aos Estados Unidos. Mas se continuar seguindo a costa no sentido oeste vai topar com Trinidad e Granada no caminho. Ou seja, � poss�vel que a gente pegue vento.</p><p>�Pensei que a temporada dos ciclones tivesse acabado.</p><p>�E tinha. Em geral, os alertas de ciclone nos chegam em setembro e outubro. Mas o clima anda t�o desregulado com essas hist�rias de efeito estufa que n�o d� para prever mais nada.</p><p>�Entendi. E o Mathilda est� previsto para quando?</p><p>�Para logo.</p><p>�E eu devo estar preparada para qu�?</p><p>�Lisbeth, com ciclone n�o se brinca. Tivemos um ciclone nos anos 1970 que causou estragos imensos aqui em Granada. Eu tinha onze anos e morava numa aldeia, l� em cima, para os lados da Lagoa Grande, na estrada de Grenville. Nunca vou esquecer aquela noite.</p><p>�Ah�.</p><p>�Mas n�o se preocupe. Fique perto do hotel no s�bado. Prepare uma sacola com o que lhe parece indispens�vel - estou pensando no computador em que vejo voc� brincando - e esteja pronta para lev�-la se vier o aviso de ir para um abrigo. S� isso.</p><p>�Est� bem, n�o vou esquecer.</p><p>�Quer tomar alguma coisa?</p><p>�N�o, obrigada.</p><p>Lisbeth Salander saiu sem se despedir. Ella Carmichael sorriu resignada. Levara algumas semanas para se acostumar com os modos daquela mo�a estranha e acabara entendendo que Lisbeth Salander n�o era arrogante - era simplesmente de outro planeta. Mas pagava o que consumia sem reclamar, mantinha-se mais ou menos s�bria, cuidava da pr�pria vida e nunca causava nenhum problema.</p><p>Os transportes coletivos de Granada constitu�am-se basicamente de micro-�nibus com uma decora��o extravagante que circulavam sem preocupa��o com hor�rio ou outras formalidades. Ainda assim, asseguravam trajetos regulares durante o dia. Em compensa��o, depois que anoitecia era praticamente imposs�vel se deslocar quando n�o se dispunha de um carro.</p><p>Lisbeth Salander n�o esperou mais que um minuto na estrada para S�o Jorge at� um �nibus parar. O motorista era rastaf�ri e as caixas de som tocavam �No Woman, no Cry� a todo volume. Ela tapou os ouvidos, pagou o seu d�lar e se meteu no �nibus entre uma senhora robusta de cabelos grisalhos e dois meninos de uniforme escolar.</p><p>S�o Jorge situava-se numa ba�a em forma de U que constitu�a <emphasis>the Carenage.</emphasis> Ao redor do porto erguiam-se colinas escarpadas com edif�cios, antigas constru��es coloniais e uma fortaleza, o Forte Rupert, na ponta do promont�rio � beira de uma fal�sia.</p><p>S�o Jorge era uma cidade extremamente compacta e densa, com ruas estreitas e in�meras vielas. As casas iam subindo pelas colinas e quase n�o existiam superf�cies planas, com exce��o de um campo de cr�quete que tamb�m fazia �s vezes de hip�dromo, na orla norte da cidade.</p><p>Ela desceu do �nibus no meio do porto e foi a p� at� a MacIntyre�s Electronics, no alto de uma pequena ladeira de matar. Quase todos os produtos vendidos em Granada eram importados dos Estados Unidos ou da Inglaterra e, consequentemente, custavam duas vezes mais que em qualquer outro lugar, mas em compensa��o a loja dispunha de ar-condicionado.</p><p>Chegara, finalmente, a bateria que ela tinha encomendado para o seu Apple PowerBook G4 titanium com tela de dezessete polegadas. Ela comprara em Miami um computador de m�o Palm, f�cil de carregar na sacola, com o qual podia consultar seu correio eletr�nico; ele a dispensava de andar com o Powerbook, mas era um substituto med�ocre para a tela de dezessete polegadas. A bateria original estava come�ando a enfraquecer e s� aguentava meia hora, o que era realmente um saco quando ela queria ficar � beira da piscina, e tamb�m considerando-se que o fornecimento de energia de Granada deixava um pouco a desejar. Nas semanas em que estivera ali, faltara luz duas vezes e por um per�odo bastante longo. Pagou com um cart�o de cr�dito da Wasp Enterprises, p�s a bateria na sacola e tornou a sair ao sol do meio-dia.</p><p>Passou no Barclays Bank e sacou trezentos d�lares, depois foi ao mercado comprar cenouras, seis mangas e um litro e meio de �gua mineral. A sacola come�ou a pesar e, quando voltou ao porto, estava com fome e sede. De in�cio, pensou no Nutmeg, mas o restaurante parecia ter sofrido uma invas�o. Seguiu at� o Turtleback, mais tranquilo, na extremidade do porto, acomodou-se na esplanada e pediu um prato de lula com batatas <emphasis>saut�es</emphasis> e uma garrafa de Carib, a cerveja local. Pegou um exemplar abandonado do <emphasis>Grenadian Voice</emphasis> e percorreu-o por uns dois minutos. O �nico artigo mais interessante exagerava a poss�vel passagem do Mathilda. O texto era ilustrado com a foto de uma casa destru�da, recorda��o dos preju�zos causados pelo �ltimo grande ciclone que devastara o pa�s.</p><p>Dobrou o jornal, tomou um gole de Carib no gargalo, recostou-se na cadeira e viu o homem do quarto 32 vindo do bar em dire��o � esplanada. Trazia a pasta de couro marrom numa m�o e um copo grande de Coca-Cola na outra. Seus olhos passaram por ela sem reconhec�-la, e ele foi sentar-se na extremidade oposta do terra�o, de onde ficou contemplando a �gua em frente ao restaurante.</p><p>Lisbeth Salander ergueu uma sobrancelha e p�s-se a examinar o homem, que ela via de perfil. Ele parecia totalmente alheio, e permaneceu im�vel durante sete minutos. Ent�o de repente ergueu o copo e tomou tr�s goles grandes. Descansou o copo sobre a mesa e voltou a contemplar a �gua. Instantes depois, Lisbeth abriu a sacola e pegou o <emphasis>Dimensions in Mathemathics.</emphasis></p><p>Ela sempre tinha adorado quebra-cabe�as e enigmas. Aos nove anos, ganhara um cubo m�gico da m�e. O objeto desafiara seu senso de l�gica por quarenta minutos, at� ela entender seu funcionamento. Depois disso, n�o fora dif�cil solucion�-lo. Nunca tinha errado uma resposta nos testes de intelig�ncia dos jornais; por exemplo, cinco figuras com formas esquisitas, faltando assinalar que forma teria a sexta figura. Para ela a resposta era sempre �bvia.</p><p>Na escola prim�ria, aprendera a somar e subtrair. Multiplica��o, divis�o e geometria eram um prolongamento natural. Sabia somar de cabe�a a conta de um restaurante, preencher uma fatura e calcular a trajet�ria de um obus de artilharia lan�ado de um determinado �ngulo a uma determinada velocidade. Eram coisas �bvias. Antes de ler o artigo na <emphasis>Popular Science,</emphasis> nunca fora fascinada por matem�tica, nem sequer considerava a tabuada de multiplica��o como matem�tica. Era algo que ela havia decorado certa tarde na escola, e n�o conseguia entender por que o professor ficava reprisando aquilo o ano inteiro.</p><p>De repente, percebera a l�gica implac�vel que necessariamente existia por tr�s dos racioc�nios e f�rmulas apresentadas, o que a conduzira �s prateleiras de matem�tica das livrarias. Mas quando abriu o <emphasis>Dimensions in Mathematics,</emphasis> um mundo totalmente novo descortinou-se diante dela. A matem�tica, na verdade, era um quebra-cabe�a l�gico com varia��es ao infinito - enigmas poss�veis de solucionar. O interessante n�o era resolver contas. Cinco vezes cinco sempre dava vinte e cinco. O interessante era tentar compreender a composi��o das regras que possibilitavam resolver qualquer problema matem�tico.</p><p><emphasis>Dimensions in Mathematics</emphasis> n�o era estritamente um manual de matem�tica, e sim a vers�o de bolso de um tijol�o de mil e duzentas p�ginas sobre a hist�ria da matem�tica desde a Antiguidade grega at� as tentativas contempor�neas de dominar a astronomia esf�rica. Era considerado uma b�blia, compar�vel ao que um dia representara, e ainda representava para os matem�ticos s�rios, o <emphasis>Aritm�tica</emphasis> de Diofante. A primeira vez que abrira o <emphasis>Dimensions fora</emphasis> na esplanada do hotel da praia de Angra Grande, e se vira de repente num mundo encantado dos n�meros, num livro escrito por um autor que n�o s� era um bom pedagogo como sabia surpreender o leitor com anedotas e problemas desconcertantes. Conseguira acompanhar a evolu��o da matem�tica de Arquimedes at� os contempor�neos Jet Propulsion Laboratories da Calif�rnia. Compreendia seus m�todos para solucionar os problemas.</p><p>Vivenciara o encontro com o teorema de Pit�goras (x2 + y2 - z2), formulado cerca de quinhentos anos a. C, como uma esp�cie de revela��o. De repente, compreendera o significado do que havia decorado na escola, numa das raras aulas a que havia assistido. <emphasis>Num tri�ngulo ret�ngulo, o quadrado da hipotenusa � igual � soma dos quadrados dos lados do �ngulo reto.</emphasis> Estava fascinada pela descoberta de Euclides por volta de 300 a. C, enunciando que <emphasis>um n�mero perfeito � sempre m�ltiplo de dois n�meros, sendo um deles uma pot�ncia de 2 e o outro o mesmo n�mero na pot�ncia seguinte de 2 menos 1.</emphasis> Era um aperfei�oamento do teorema de Pit�goras e ela compreendia a infinidade de combina��es poss�veis.</p><p>6 = 21 x (22- 1) 28 = 22 x (23- 1) 496 = 24 x (25 - 1) 8.128 = 26 x (27 - 1)</p><p>Ela podia continuar indefinidamente sem achar um s� n�mero que atentasse contra a regra. Havia nisso uma l�gica que agradava ao senso de absoluto de Lisbeth Salander. Rapidamente, e com um prazer manifesto, ela assimilara Arquimedes, Newton, Martin Gardner e mais uma d�zia de matem�ticos cl�ssicos.</p><p>Ent�o chegara ao cap�tulo de Pierre de Fermat, cujo enigma matem�tico, o teorema de Fermat, a desconcertara por sete semanas. Um prazo at� razo�vel, considerando-se que Fermat levara alguns matem�ticos � loucura por quase quatro s�culos, at� que um ingl�s chamado Andrew Wiles conseguisse, e isso apenas em 1993, resolver o quebra-cabe�a.</p><p>O teorema de Fermat era um postulado de uma simplicidade enganosa.</p><p>Pierre de Fermat nasceu em 1601 em Beaumont-de-Lomagne no sudoeste da Fran�a. Por ironia da hist�ria, ele n�o era sequer matem�tico, e sim um magistrado que se dedicava � matem�tica como uma esp�cie de exc�ntrico passatempo. Ainda assim, era considerado um dos mais talentosos matem�ticos autodidatas de todos os tempos. Tal como Lisbeth Salander, gostava de resolver quebra-cabe�as e enigmas. O que parecia diverti-lo mais que tudo era debochar de outros matem�ticos elaborando problemas sem se dar ao trabalho de oferecer a solu��o. O fil�sofo Ren� Descartes qualificou Fermat com uma s�rie de ep�tetos degradantes, ao passo que seu colega ingl�s John Wallis o chamava de �esse maldito franc�s�.</p><p>Nos anos 1630, foi publicada uma tradu��o francesa do <emphasis>Aritm�tica</emphasis> de Diofante, que reunia todas as teorias formuladas por Pit�goras, Euclides e outros matem�ticos da Antiguidade. Foi trabalhando no teorema de Pit�goras que Fermat, num <emphasis>insight</emphasis> genial, prop�s seu problema imortal. Formulou uma variante do teorema de Pit�goras. Em vez de (x2 + y2 = z2), Fermat transformou o quadrado em cubo (x3 + y3 = z3).</p><p>O problema era que a nova equa��o n�o parecia ter solu��o com n�meros inteiros. Assim, mediante uma pequena modifica��o te�rica, Fermat tinha transformado uma f�rmula que propunha um n�mero infinito de solu��es perfeitas num impasse sem solu��o nenhuma. Seu teorema era exatamente isto - Fermat afirmava que em lugar nenhum do universo infinito dos n�meros existia um n�mero inteiro em que o cubo pudesse se expressar como sendo a soma de dois cubos, e que essa era a regra para todos os n�meros com pot�ncia superior a 2, ou seja, justamente, o teorema de Pit�goras.</p><p>Os demais matem�ticos logo concordaram. Recorrendo ao m�todo da tentativa e erro, constataram que n�o encontravam nenhum n�mero que refutasse a afirma��o de Fermat. O �nico problema era que, mesmo que ficassem fazendo c�lculos at� o final dos tempos, n�o conseguiriam verificar todos os n�meros existentes, de modo que os matem�ticos n�o podiam afirmar que o pr�ximo n�mero n�o iria invalidar o teorema de Fermat. Em matem�tica, com efeito, as afirma��es precisam ser matematicamente demonstr�veis e se expressar por uma f�rmula gen�rica e cientificamente correta. O matem�tico deve ser capaz de subir numa tribuna e pronunciar as palavras �� assim porque...�.</p><p>Fermat, como era de seu feitio, zombou dos colegas. Nas margens do seu exemplar de <emphasis>Aritm�tica,</emphasis> o g�nio rabiscou algumas hip�teses, concluindo com as seguintes linhas: <emphasis>Cuius rei demonstrationem mirabilem sane detexihanc marginis exiquitas non caperet.</emphasis> Ou seja: <emphasis>Descobri uma demonstra��o maravilhosa. N�o cabe na estreiteza desta margem.</emphasis></p><p>Se sua <emphasis>inten��o</emphasis> era enlouquecer seus colegas, conseguiu. Desde 1637, praticamente todos os matem�ticos que se respeitam dedicaram tempo, e �s vezes muito tempo, tentando demonstrar a conjectura de Fermat. Gera��es de pensadores quebraram a cara at� que em 1993 Andrew Wiles realizasse a demonstra��o que todos <emphasis>esperavam</emphasis>. Fazia vinte e cinco anos que ele vinha refletindo sobre o enigma, e nos �ltimos dez, quase que em tempo integral. Lisbeth Salander estava absolutamente perplexa.</p><p>Na <emphasis>verdade</emphasis>, a resposta n�o a interessava nem um pouco. A busca da solu��o � que a mantinha em suspense. Quando lhe propunham um enigma, ela o resolvia. Levava um tempo elucidando os mist�rios matem�ticos at� compreender o princ�pio dos racioc�nios, mas sempre chegava � solu��o certa antes de conferir a resposta.</p><p>Assim � que, depois de ler o teorema de Fermat, pegara um papel e se pusera a rabiscar uns n�meros. Com certa surpresa, n�o conseguira decifrar o enigma.</p><p>Proibindo a si mesma de olhar a resposta, pulou o trecho que oferecia a solu��o de Andrew Wiles. Ao inv�s, terminou a leitura de <emphasis>Dimensions</emphasis> e constatou que nenhum dos demais problemas formulados no livro oferecia alguma dificuldade especial. Depois disso, dia ap�s dia, debru�ou-se sobre o enigma de Fermat com uma irrita��o crescente, perguntando-se que �demonstra��o maravilhosa� Fermat teria encontrado. Atolava o tempo todo em novos impasses.</p><p>Ergueu os olhos quando, de s�bito, o homem do quarto 32 se levantou e dirigiu-se para a sa�da. Consultou o rel�gio e reparou que o homem ficara sentado sem se mexer por duas horas e dez minutos. Franziu o cenho e, pensativa, ficou olhando enquanto ele se afastava.</p><p>Ella Carmichael p�s o copo sobre o balc�o diante de Lisbeth Salander, concluindo que os drinques cor-de-rosa com sombrinhas rid�culas definitivamente n�o eram a praia daquela garota. Lisbeth Salander sempre pedia a mesma coisa - uma cuba-libre. Certa noite, Salander exagerara um pouco na cerveja e Ella precisou pedir a um funcion�rio que a levasse para o quarto. Afora esta �nica vez, seu consumo normal se resumia a <emphasis>caff� latte,</emphasis> algumas cubas-libres e a Carib local. Como de costume, ela se sentou sozinha na ponta direita do bar e abriu um livro cheio de estranhas f�rmulas matem�ticas, o que, na opini�o de Ella Carmichael, era uma curiosa escolha liter�ria para uma mo�a solteira da idade dela.</p><p>Constatou tamb�m que Lisbeth Salander n�o parecia nem um pouco interessada em paquerar. Os poucos caras que tinham feito uma tentativa foram gentil, mas firmemente repelidos, um deles sofrendo algumas perdas e danos. O tal Chris MacAllen que Lisbeth mandara �s favas com aspereza era, diga-se, um vagabundo da regi�o que merecia se dar mal. Ella Carmichael n�o ficara muito surpresa ao v�-lo trope�ar inexplicavelmente e cair na piscina depois de ter tentado cantar Lisbeth Salander a noite inteira. Em favor de MacAllen, era preciso dizer que ele n�o era rancoroso. Voltara na noite seguinte, s�brio, e oferecera a Salander uma cerveja que ela aceitara depois de uma breve hesita��o. Desde ent�o, cumprimentavam-se educadamente quando se cruzavam no bar.</p><p>�Est� tudo bem? - perguntou Ella.</p><p>Lisbeth Salander assentiu com a cabe�a e pegou o copo.</p><p>�Novidades sobre o Mathilda? - ela perguntou.</p><p>�Continua vindo em nossa dire��o. Pode ser que a gente tenha um fim de semana movimentado.</p><p>�Quando vamos saber?</p><p>�Na verdade, s� depois que ele passar. Pode vir direto sobre Granada e resolver bifurcar para o norte na �ltima hora. Os ciclones s�o assim, v�o e v�m. No mais das vezes, passam ao largo - felizmente, sen�o n�o haveria mais ilha. Mas n�o se preocupe.</p><p>�N�o estou preocupada.</p><p>S�bito, ouviram uma risada meio for�ada e voltaram-se para a mulher do quarto 32, aparentemente encantada com alguma coisa que o marido lhe contava.</p><p>�Quem �?</p><p>�O doutor Forbes? S�o uns americanos de Austin, no Texas.</p><p>Ella Carmichael pronunciou a palavra �americanos� com evidente desgosto.</p><p>�Eu sei que eles s�o americanos. O que est�o fazendo aqui? Ele � m�dico?</p><p>�N�o, n�o esse tipo de doutor. Est� aqui por causa da Funda��o Santa Maria.</p><p>�O que � isso?</p><p>�Eles financiam os estudos de crian�as superdotadas. Um homem bacana, esse doutor. Est� em negocia��es com o Minist�rio da Educa��o para a constru��o de um novo col�gio em S�o Jorge.</p><p>�Um homem bacana, mas que bate na mulher - disse Lisbeth Salander.</p><p>Ella Carmichael n�o respondeu e lan�ou um olhar atento a Lisbeth. Depois meneou a cabe�a e foi at� o outro lado do bar servir umas Carib a alguns clientes locais.</p><p>Lisbeth ficou cerca de dez minutos no bar, o nariz enfiado no <emphasis>Dimensions.</emphasis> Antes mesmo de chegar � adolesc�ncia, compreendera que era dotada de mem�ria fotogr�fica e era consequentemente, diferente de seus colegas de sala. Nunca revelara essa singularidade a ningu�m - a n�o ser a Mikael Blomkvist, num momento de fraqueza. J� sabia de cor o texto do <emphasis>Dimensions</emphasis> e continuava levando o livro a toda parte principalmente porque constitu�a um v�nculo visual com Fermat, como se o livro tivesse virado um talism�.</p><p>Mas naquela noite n�o conseguia focar os pensamentos nem em Fermat nem em seu teorema. Vinha-lhe o tempo todo � cabe�a a imagem do Dr. Forbes im�vel, o olhar fixo num ponto da ba�a de Carenage.</p><p>N�o sabia explicar por que aquilo a incomodava tanto.</p><p>Por fim, fechou o livro, subiu at� seu quarto e ligou o Powerbook. Nem pensar em navegar na internet. O hotel n�o dispunha de ADSL, mas Lisbeth tinha um modem interno que podia ser ligado ao celular, o que lhe permitia mandar e receber e-mails. Redigiu uma mensagem breve endere�ada a praga_xyz_666@hotmail.com:</p><p>[Sem ADSL. Preciso informa��es sobre um tal dr. Forbes da Funda��o Santa Maria, e a mulher dele, domiciliados em Austin, Texas. 500 d�lares a quem fizer a <emphasis>research</emphasis> pra mim. Wasp.]</p><p>Anexou sua chave PGP oficial, criptografou o e-mail com a chave PGP de Praga e clicou em Enviar. Ent�o viu as horas e constatou que passava um pouco das sete e meia.</p><p>Desligou o computador, trancou a porta do quarto a chave, percorreu quatrocentos metros at� a praia, atravessou a estrada de S�o Jorge e foi bater na porta do galp�o atr�s do Coconut. George Bland tinha dezesseis anos, estudava em S�o Jorge. Queria ser m�dico ou advogado, ou quem sabe astronauta, e era mais ou menos t�o magrela quanto Lisbeth Salander e n�o muito mais alto que ela.</p><p>Lisbeth conhecera George Bland na praia, na sua primeira semana em Granada e um dia depois de chegar a Angra Grande. Dera um longo passeio na praia e estava sentada � sombra de umas palmeiras, olhando as crian�as que jogavam futebol � beira d��gua. Abrira o <emphasis>Dimensions</emphasis> e estava mergulhada na leitura, quando ele viera sentar-se poucos metros � sua frente, aparentemente sem reparar em sua presen�a. Ela o observou em sil�ncio. Um jovem negro de sand�lias, cal�a preta e camisa branca.</p><p>Como ela, estava com um livro aberto, mergulhado na leitura. Como ela, estudava um livro de matem�tica - <emphasis>Basics 4.</emphasis> Aparentemente concentrado no assunto, come�ou a rabiscar as p�ginas de um caderno. S� ao cabo de cinco minutos, quando ela deu uma tossidinha, ele reparou na sua presen�a e sobressaltou-se, assustado. Desculpou-se por estar incomodando e estava para ir embora quando ela perguntou se ele achava matem�tica dif�cil.</p><p>Algebra. Em poucos segundos, ela sublinhou um erro fundamental no c�lculo dele. Meia hora depois, eles tinham terminado a tarefa. Uma hora depois, tinham percorrido o cap�tulo seguinte e ela lhe explicara com muita pedagogia as artimanhas das opera��es. Ele a contemplara com venera��o. Duas horas depois, ele contara que sua m�e morava no Canad�, em Toronto, que seu pai morava em Grenville, do outro lado da ilha, e que ele pr�prio vivia num galp�o atr�s do Coconut, mais adiante na praia. Era o ca�ula da fam�lia, com tr�s irm�s mais velhas.</p><p>Lisbeth Salander achou a companhia dele surpreendentemente relaxante. A situa��o era inusitada. Ela raras vezes, para n�o dizer nunca, entabulava conversa com outras pessoas para um simples bate-papo. N�o se tratava de timidez. Para ela, as conversas tinham uma fun��o pr�tica: onde � que eu posso encontrar uma farm�cia ou quanto custa o quarto? A fun��o de uma conversa tamb�m tinha a ver com trabalho. Quando trabalhava para Dragan Armanskij como investigadora na Milton Security, n�o tivera o menor problema em manter conversas delirantes a fim de obter informa��es.</p><p>Em contrapartida, detestava conversas pessoais que sempre desandavam numa averigua��o em regra do que ela julgava pertencer ao �mbito do privado.</p><p>�<emphasis>Que idade voc� tem?</emphasis></p><p><emphasis>�Adivinha.</emphasis></p><p><emphasis>�Voc� acha a Britney Spears legal?</emphasis></p><p><emphasis/><emphasis>�Quem � essa?</emphasis></p><p><emphasis>�Voc� gosta dos desenhos de Carl Larsson?</emphasis></p><p><emphasis>�Nunca parei para pensar no assunto</emphasis></p><p><emphasis>�Voc� � l�sbica?</emphasis></p><p><emphasis>�V� se catar!</emphasis></p><p>George Bland era desajeitado e ao mesmo tempo seguro de si, e como era tamb�m educado tentou manter uma conversa inteligente sem entrar em competi��o com ela nem investigar sua vida privada. Como ela, parecia sozinho. Dava a impress�o de simplesmente aceitar o fato de uma deusa da matem�tica ter surgido na praia de Angra Grande, e parecia satisfeito que ela se dignasse a fazer-lhe companhia. Depois de muitas horas na praia, quando o sol se aproximava do horizonte, levantaram-se para ir embora. Ele a acompanhou at� o hotel, e no caminho mostrou o barraco que lhe fazia �s vezes de quarto de estudante, perguntando se podia lhe oferecer um ch�. Ela aceitou o que pareceu surpreend�-lo.</p><p>Sua habita��o era das mais simples: um galp�o com uma mesa em mau estado, dois caixotes, uma cama e um guarda-roupa. A ilumina��o consistia numa pequena lumin�ria de mesa ligada a um fio puxado do Coconut. O fog�o era um fogareiro de camping. Ele ofereceu arroz com legumes, que serviu em pratos pl�sticos de camping. Tamb�m a convidou a fumar uma subst�ncia ilegal da regi�o, e ela aceitou.</p><p>N�o era nada dif�cil para Lisbeth perceber que sua presen�a o perturbava e que ele n�o sabia como se comportar. Num impulso, decidiu deixar que ele a seduzisse, o que se revelou um processo penoso e complicado. Ele captara os sinais, mas n�o tinha a mais vaga id�ia de que atitude devia tomar. Ficou enrolando, com uma frustra��o evidente, at� que ela perdeu a paci�ncia, derrubou-o na cama com determina��o e tirou a regata.</p><p>Era a primeira vez que ela se mostrava nua para algu�m desde a cirurgia. Quando sa�ra da cl�nica com seus seios novos, a sensa��o tinha a ver com p�nico, e precisara de algum tempo at� perceber que ningu�m estava olhando para ela. A Lisbeth Salander que normalmente n�o estava nem a� para o que os outros pensavam a seu respeito parecia um tanto acanhada naquele dia.</p><p>Consciente de que cedo ou tarde teria de dar aquele passo, acolhera George Bland como uma estreia perfeita, mesmo sendo ele de uma timidez alarmante. Depois de conseguir tirar seu suti� (n�o sem uma certa dose de incentivo), apagara a l�mpada junto da cama antes de tirar a roupa. Lisbeth tornou a acend�-la. Observara atentamente as suas rea��es enquanto ele a tocava sem jeito. S� muito depois conseguiu relaxar e constatar que ele considerava seus seios absolutamente naturais. Embora ele talvez n�o tivesse visto muitos seios de mulher.</p><p>Ela n�o tivera nenhuma inten��o de encontrar um amante adolescente em Granada. Acontecera num impulso e, quando ela o deixou, tarde da noite, n�o cogitava rev�-lo. Mas j� no dia seguinte cruzou novamente com ele na praia e se deu conta de que aquele jovem novi�o era uma companhia agrad�vel. Nessas sete semanas que passara em Granada, George Bland se tornara se n�o um elemento est�vel, pelo menos um elemento da sua exist�ncia. Constatou que, quando passeavam juntos, deviam parecer dois adolescentes. <emphasis>Sweet sixteen.</emphasis></p><p>Ele provavelmente devia achar que a vida se tornara mais interessante. Tinha encontrado uma mulher que lhe dava aulas de matem�tica e erotismo. Ele abriu a porta e dirigiu-lhe um sorriso maravilhado. �Quer companhia? - ela perguntou.</p><p>Lisbeth Salander deixou um George Bland bobo de satisfa��o pouco depois das duas da manh�. Ela pr�pria experimentava uma sensa��o de calor no corpo e preferiu seguir pela praia, em vez de pela estrada, para voltar ao Keys Hotel. Caminhava sozinha no escuro, sabendo muito bem que George Bland a seguia uns cem metros mais atr�s.</p><p>Ele sempre fazia isso. Ela nunca ficara para dormir na casa dele. George protestava com veem�ncia � mera id�ia de uma mulher andar sozinha � noite para voltar ao hotel. Ele insistia que seu dever era acompanh�-la at� l�. Principalmente porque, muitas vezes, j� era tarde da noite. Lisbeth Salander escutava com aten��o seus argumentos antes de interromper a conversa com um simples n�o. <emphasis>Vou aonde eu quiser e quando eu quiser.</emphasis> End of discussion. E <emphasis>n�o, n�o quero ser escoltada.</emphasis> Na primeira vez que percebeu que ele a seguia, ficou tremendamente irritada, at� compreender que aquilo fazia parte do car�ter de George Bland. Agora at� via um certo charme nesse instinto protetor e fingia ignorar sua presen�a logo atr�s dela, sabendo que ele s� voltaria para casa depois de v�-la entrar no hotel.</p><p>Perguntava-se o que ele faria se ela fosse atacada de repente.</p><p>Quanto a ela, pretendia usar o martelo que comprara no departamento de ferragens da MacIntyre e que carregava no bolso externo da sacola. Segundo Lisbeth Salander, eram poucas as situa��es de perigo que um bom e velho martelo n�o pudesse resolver.</p><p>Apesar de uma lua crescente muito brilhante, o c�u resplandecia de estrelas. Ela ergueu os olhos e reconheceu R�gulus, da constela��o de Le�o. Estava quase chegando ao hotel quando estacou de s�bito. Acabava de avistar um vulto na praia, � beira d��gua, pertinho do hotel. Era a primeira vez que via algu�m na praia depois do anoitecer. Uns cem metros os separavam, mas Lisbeth reconheceu facilmente o indiv�duo.</p><p>Era o distinto Dr. Forbes, do quarto 32.</p><p>Recuou rapidamente alguns passos e se escondeu entre algumas �rvores. Quando se virou para conferir, percebeu que George Bland tamb�m se escondera. O homem � beira d��gua andava para l� e para c� devagarinho. Fumava um cigarro. Detinha-se regularmente e se inclinava � frente como que examinando a areia. Aquela pantomima prosseguiu durante uns vinte minutos, quando de repente ele deu meia-volta, retornou � porta do hotel que dava para a praia, e entrou.</p><p>Lisbeth esperou um minuto, cenho franzido, antes de ir at� o local onde o homem do quarto 32 estivera. Devagar, descreveu um semic�rculo e observou o solo. S� o que viu foi areia, alguns pedregulhos e conchas. Ao fim de dois minutos, interrompeu sua inspe��o, perplexa, e subiu em dire��o ao hotel.</p><p>Saiu para a sacada de seu quarto, debru�ou-se na balaustrada e observou a sacada dos vizinhos. Tudo calmo e tranq�ilo. Aparentemente, a briga daquela noite j� terminara. Instantes depois foi buscar sua sacola, pegou papel e enrolou um baseado com a provis�o que George Bland lhe fornecera. Sentou-se numa cadeira da sacada e contemplou a �gua escura do mar do Caribe, fumando e refletindo.</p><p>E de repente teve a impress�o de abrigar dentro de si um sistema de alerta cujas luzes vermelhas estavam piscando.</p></section><section><p><strong><emphasis>���������2 - SEXTA-FEIRA 17 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><p>Nils Erik Bjurman, advogado, cinquenta e cinco anos, largou a x�cara e caf� e contemplou a multid�o que passava em frente ao caf� Hedon, na Pra�a de Stureplan. Seus olhos acompanhavam o fluxo dos transeuntes sem observar ningu�m em particular.</p><p>Estava pensando em Lisbeth Salander. Pensava frequentemente em Lisbeth Salander.</p><p>Pensar nela punha seu sangue em ebuli��o.</p><p>Ele a odiava com a intensidade m�xima do seu registro emocional. Lisbeth Salander o aniquilara. Ele jamais esqueceria aquele momento. Ela assumira as r�deas e o humilhara. Ela o maltratara de tal forma que subsistiam em seu corpo marcas indel�veis. Mais especificamente, elas ocupavam vinte cent�metros quadrados de sua barriga at� logo acima dos �rg�os sexuais. Ela o amarrara em sua pr�pria cama, o torturara e tatuara uma mensagem sobre cujo sentido ningu�m poderia ter nenhuma d�vida e que seria muito dif�cil de apagar:</p><p><strong>SOU</strong><strong>UM</strong><strong>PORCO</strong><strong>S�DICO</strong><strong>,</strong><strong>UM</strong><strong>CANALHA</strong><strong>ESTUPRADOR</strong></p><empty-line/><p>Que o conte�do da mensagem fosse absolutamente ver�dico, n�o contava. O �dio de Bjurman n�o era racional.</p><p>Lisbeth Salander fora declarada juridicamente irrespons�vel pelo tribunal de primeira inst�ncia de Estocolmo. Bjurman fora designado seu tutor, o que a deixava em situa��o de total depend�ncia em rela��o a ele. Desde a primeira vez que encontrara Lisbeth Salander, come�ara a tecer fantasias com ela. N�o sabia explicar o porqu�, mas ela lhe suscitava esse tipo de comportamento. Ele se aproveitara de sua posi��o para violent�-la.</p><p>Do ponto de vista puramente intelectual, o Dr. Nils Bjurman sabia que o ato que cometera n�o era socialmente aceit�vel nem permitido. Sabia que agira mal. Sabia tamb�m que, em termos jur�dicos, seus atos eram indefens�veis e pass�veis de v�rios anos de pris�o.</p><p>Do ponto de vista emocional, todo aquele saber intelectual n�o tinha muito peso. S� servia para reconhecer a gravidade dos seus atos e aceitar que n�o havia justificativa para eles. A partir do momento em que conhecera Lisbeth Salander dois anos antes, num m�s de dezembro, soubera que ela era o seu joguete. As leis, as regras, a moral e a responsabilidade n�o vinham absolutamente ao caso.</p><p>Aquela mo�a era esquisita - adulta, mas com uma apar�ncia tal que podia ser confundida com uma menor. Ele detinha o controle da vida dela - podia dispor de Lisbeth Salander. Era perfeito.</p><p>Ela fora declarada maior de idade incapaz e sua biografia, sob a forma de registros m�dicos, a transformava numa criatura sem credibilidade, caso lhe ocorresse � id�ia de protestar. Tamb�m n�o se tratava do estupro de uma menina inocente - seu dossi� indicava que ela tivera uma por��o de experi�ncias sexuais e podia inclusive ser considerada como uma pessoa de h�bitos dissolutos. O relat�rio de um assistente social revelava que aos dezessete anos Lisbeth provavelmente oferecia servi�os sexuais mediante pagamento. O que originara esse relat�rio fora a notifica��o de uma patrulha policial que avistara um not�rio depravado na companhia de uma mo�a num banco do parque de Tantolunden. A viatura parou e os policiais interpelaram o casal; a mo�a se negou a responder �s perguntas e o sujeito estava b�bado demais para dar uma explica��o coerente sobre o que eles estavam aprontando.</p><p>Para o Dr. Bjurman, a conclus�o se impunha: Lisbeth era uma puta de baixa categoria. Estava em seu poder. N�o havia o menor risco. Mesmo que ela protestasse junto � Comiss�o de Tutelas, ele poderia se apoiar em sua pr�pria credibilidade e m�ritos para descart�-la enquanto mentirosa descarada.</p><p>Ela era o brinquedinho ideal - adulta, depravada, socialmente incompetente e entregue ao seu bel-prazer.</p><p>Era a primeira vez que ele se aproveitava de um cliente. Antes disso, nunca cogitara tirar vantagem de algu�m com quem mantivesse rela��es profissionais. Para dar vaz�o a suas exig�ncias peculiares em mat�ria de jogos sexuais, sempre recorrera a prostitutas. Era discreto e prudente e nunca economizara no pre�o; o �nico problema � que as prostitutas n�o o satisfaziam. Elas representavam, faziam de conta. Ele remunerava uma mulher que gemia, gritava e encenava um papel, mas aquilo era t�o falso quanto uma imita��o desastrosa do quadro de um mestre.</p><p>Ele tentara dominar sua mulher na �poca em que era casado, e acabara igualmente insatisfeito. Ela consentia, mas tamb�m nesse caso tudo n�o passava de encena��o.</p><p>Lisbeth Salander era a pessoa ideal. Estava indefesa. N�o tinha fam�lia nem amigos. Era a leg�tima v�tima, totalmente vulner�vel. A ocasi�o faz o ladr�o.</p><p>E <emphasis>ent�o, de repente, ela o aniquilara.</emphasis></p><p>Ela revidara com uma for�a e uma resolu��o de que ele jamais teria suspeitado. Ela o humilhara. Ela o torturara. Ela praticamente o destru�ra.</p><p>Durante os quase dois anos que haviam se passado, a vida de Nils Bjurman sofrera uma mudan�a radical. Nos primeiros tempos ap�s a visita de Lisbeth Salander a seu apartamento naquela noite, ele ficara paralisado - incapaz de pensar ou agir. Trancara-se em casa, sem atender ao telefone e sem disposi��o para manter contato com seus clientes habituais. Depois de duas semanas, pedira uma licen�a m�dica. Sua secret�ria cuidava da correspond�ncia no escrit�rio, desmarcava os compromissos e procurava responder �s perguntas dos clientes irritados.</p><p>Todos os dias era obrigado a contemplar seu corpo no espelho da porta do banheiro. Por fim, havia tirado o espelho.</p><p>S� voltara ao escrit�rio no in�cio do ver�o. Selecionara alguns poucos clientes, encaminhando a maioria para colegas seus. S� ficou com as empresas para as quais fazia correspond�ncias jur�dicas, mas com as quais n�o precisava se envolver. A �nica cliente ativa que lhe restava era Lisbeth Salander - todo m�s ele preparava um balan�o financeiro e um relat�rio para a Comiss�o de Tutelas. Fazia exatamente o que ela mandara - os relat�rios eram pura inven��o e determinavam que de modo algum ela precisava de um tutor.</p><p>Cada relat�rio vinha dolorosamente lembr�-lo da exist�ncia de Lisbeth Salander, mas ele n�o tinha escolha.</p><p>Bjurman passara o ver�o e o outono numa rumina��o que o impedia totalmente de agir. Em dezembro, enfim recomposto, comprou uma passagem de avi�o para a Fran�a. Marcara uma consulta numa cl�nica perto de Marselha que descobrira pela internet e foi consultar um cirurgi�o sobre a possibilidade de retirar a tatuagem.</p><p>O m�dico, estupefato, examinou sua barriga mutilada. Por fim, prop�s um tratamento. O m�todo mais simples seriam sess�es de laser, mas a tatuagem era t�o extensa e a agulha fora t�o profundamente plantada que o �nico m�todo realista talvez fosse uma s�rie de transplantes de pele. Era caro e levaria tempo.</p><p>Nesses dois anos, ele s� se encontrara uma vez com Lisbeth Salander.</p><p>Na noite em que o havia atacado e se apossara das r�deas de sua vida, ela se apropriara igualmente de uma c�pia das chaves do seu escrit�rio e do apartamento. Dissera que pretendia vigi�-lo e visit�-lo quando ele menos esperasse. Dez meses depois, ele j� quase come�ava a acreditar que n�o passara de uma amea�a � toa, mas n�o se atreveu a trocar as fechaduras. A amea�a fora expl�cita - se ela o pegasse com alguma mulher na cama, tornaria p�blica a grava��o de noventa minutos que o mostrava violentando-a da maneira mais brutal. Ent�o, certa noite de meados de janeiro do ano anterior, ele acordara de repente �s tr�s da manh�. N�o sabia o que o tinha feito acordar, acendeu a l�mpada de cabeceira e por pouco n�o urrou de terror quando a viu ali parada ao p� da cama. Era como um fantasma materializado em seu quarto. Seu rosto estava p�lido e inexpressivo. Na m�o, segurava aquele maldito cacetete el�trico. Ela o contemplou em sil�ncio por v�rios minutos.</p><p>�Bom dia, doutor Bjurman - acabou dizendo. �Lamento t�-lo acordado desta vez.</p><p><emphasis>Meu Deus, isso significa que ent�o ela j� veio outras vezes?</emphasis> E <emphasis>eu estava dormindo.</emphasis></p><p>Ele n�o conseguia definir se ela estava blefando ou n�o. Nils Bjurman limpou a garganta e abriu a boca. Ela o interrompeu com um gesto.</p><p>�Eu te acordei por um �nico motivo. Vou viajar em breve, e por um bom tempo. Voc� vai continuar redigindo os relat�rios mensais, contando como estou indo bem, s� que em vez de postar uma c�pia para o meu endere�o, vai mandar para um endere�o do hotmail.</p><p>Ela tirou do bolso um papel dobrado ao meio e o deixou em cima da cama.</p><p>�Se a Comiss�o de Tutelas quiser entrar em contato comigo, ou se qualquer outra coisa exigir a minha presen�a escreva um e-mail para este endere�o. Entendeu?</p><p>Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>�Entendi...</p><p>�Cala a boca. N�o quero ouvir a sua voz.</p><p>Ele cerrou os dentes. Nunca se atrevera a entrar em contato com ela, j� que ela o tinha expressamente proibido. Caso a contatasse, ela mandaria o v�deo �s autoridades. Em vez disso, ficara meses cogitando no que lhe diria quando ela fizesse contato. Compreendera que n�o tinha argumento para justificar o que tinha feito. S� lhe restava apelar para a generosidade dela. Se ao menos Lisbeth lhe desse a oportunidade de falar, ele poderia convenc�-la de que agira em estado de desatino passageiro - que se arrependia e queria se redimir. Concordaria em rastejar na poeira para amans�-la e desativar a amea�a que ela representava.</p><p>�Preciso falar com voc� - ele ensaiou, com uma voz pat�tica. �Queria pedir que me perdoasse...</p><p>Ela recebeu seu surpreendente pedido com olhos inquiridores. Por fim, inclinou-se sobre a travessa inferior da cama e desfechou-lhe um olhar cruel.</p><p>�Escute aqui, seu gordo nojento: voc� � um lixo. Nunca vou te perdoar. Mas se voc� se comportar direitinho, vou te deixar em paz no dia em que revogarem a minha tutela.</p><p>Ela esperou at� ele abaixar os olhos. <emphasis>Ela est� me obrigando a rastejar.</emphasis></p><p>�O que eu disse um ano atr�s continua em vigor. Se voc� bobear, eu divulgo o v�deo. Se entrar em contato comigo de um jeito diferente do que eu determinei, eu divulgo o v�deo. Se eu por acaso morrer num acidente, o v�deo ser� divulgado. Se voc� encostar em mim de novo, eu te mato.</p><p>Ele acreditou. N�o havia espa�o para d�vidas nem negocia��es.</p><p>�Outra coisa. No dia em que eu te deixar ir embora, voc� faz o que quiser. Mas at� l�, n�o vai p�r os p�s nessa cl�nica de cirurgia est�tica em Marselha. Se voc� voltar l� e come�ar um tratamento, eu fa�o outra tatuagem em voc�. E desta vez na testa.</p><p><emphasis>Puta merda. Como � que ela soube de Marselha?</emphasis></p><p>No instante seguinte, ela tinha desaparecido. Ele ouviu um cliquezinho quando ela girou a chave na porta de entrada. Era realmente como se tivesse recebido a visita de um fantasma.</p><p>Desde ent�o, passara a odiar Lisbeth Salander com uma intensidade que flamejava em sua mente feito a�o em brasa e transformava a sua exist�ncia numa insana �nsia de acabar com ela. Fantasiava sobre a morte dela. Imaginava que a for�ava a rastejar para implorar o seu perd�o. Ele seria impiedoso. Sonhava em lhe p�r as m�os em volta do pesco�o e apertar at� ela sufocar. Queria arrancar-lhe os olhos das �rbitas e o cora��o da caixa tor�cica. Queria elimin�-la da superf�cie da terra.</p><p>Paradoxalmente, foi tamb�m nesse momento que ele sentiu que voltava a funcionar e recobrava um estranho equil�brio mental. Sabia que estava obcecado por Lisbeth Salander e focava na exist�ncia dela cada minuto que passava acordado. Mas descobriu que voltara a pensar de forma racional. Para conseguir acabar com ela, precisava reassumir as r�deas de sua mente. Sua vida voltou a ter um objetivo.</p><p>Naquele dia, parou de fantasiar sobre a morte dela e come�ou a planej�-la.</p><p>Mikael Blomkvist passou a menos de dois metros atr�s do Dr. Nils Bjurman quando, no caf� Hedon, ziguezagueou com dois copos quent�ssimos de <emphasis>caff� latte</emphasis> nas m�os at� chegar � mesa de Erika Berger, diretora da <emphasis>Millennium.</emphasis> Nem ele nem Erika nunca tinham ouvido falar no Dr. Nils Bjurman e n�o repararam nele.</p><p>Erika franziu o nariz e afastou um cinzeiro para dar espa�o aos copos.</p><p>Mikael pendurou o palet� no encosto da cadeira, puxou o cinzeiro para o seu lado da mesa e acendeu um cigarro. Erika detestava fuma�a de cigarro e olhou para ele com uma express�o desolada. Ele soprou a fuma�a para o lado, como que se desculpando.</p><p>�Achei que voc� tivesse parado.</p><p>�Reca�da tempor�ria.</p><p>�Vou parar de dormir com homens que cheiram a fuma�a - ela disse, com um sorriso ador�vel.</p><p>�No <emphasis>problem.</emphasis> Existe um monte de mulheres que n�o s�o t�o exigentes - disse Mikael, retribuindo o sorriso.</p><p>Erika Berger ergueu os olhos para o alto.</p><p>�Qual � o problema? Tenho que encontrar com o Charlie daqui a vinte minutos. Vamos ao teatro.</p><p>Charlie era Charlotta Rosenberg, a mais antiga amiga de inf�ncia de Erika.</p><p>�A nossa estagi�ria est� me provocando. � filha de uma amiga sua. Faz duas semanas que est� com a gente e vai ficar mais oito na reda��o. N�o demora, vou quebrar a cabe�a dela.</p><p>�E, percebi que ela te come com os olhos. Espero claro, que voc� se comporte como um <emphasis>gentleman.</emphasis></p><p>�Erika, essa garota tem dezessete anos, e a idade mental dela � de cerca de dez anos, de modo que estou sendo generoso.</p><p>�Ela s� est� impressionada por te conhecer. Um pouco de idolatria, na certa.</p><p>�Ontem � noite, �s dez e meia, ela <emphasis>tocou</emphasis> a campainha do meu pr�dio propondo que a gente dividisse uma garrafa.</p><p>�Uau! - fez Erika Berger.</p><p>�Uau para voc�! Ricky, essa fulana s� tem vento na cabe�a. Daria uma perfeita perua num <emphasis>sitcom</emphasis> da tev�. � um avi�o, belos peitos, bumbum bonitinho e <emphasis>tutti quant�.</emphasis> Se eu tivesse uns vinte anos menos, provavelmente n�o pensaria duas vezes para dar em cima dela. Mas, puxa, ela tem dezessete. E eu tenho quarenta e cinco.</p><p>�N�o precisa me lembrar disso. Temos a mesma idade - disse Erika Berger.</p><p>Mikael Blomkvist recostou-se na cadeira e derrubou a cinza do cigarro.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>�Mikael Blomkvist observara, evidentemente, que o caso Wennerstr�m lhe trouxera um curioso status de celebridade. Ao longo do ano, recebera convites para festas e eventos nos lugares mais improv�veis e de vagos conhecidos em cuja casa nunca tinha estado e com os quais nunca tivera o menor contato.</p><p>�� claro que quem o convidava desejava muito traz�-lo para o seu c�rculo; da� por que os beijinhos de boas-vindas de pessoas a quem ele quando muito havia apertado a m�o algum dia, mas que queriam parecer seus amigos �ntimos. N�o eram tanto colegas de imprensa - que ele j� conhecia e com quem mantinha um relacionamento bom ou ruim -, e sim as chamadas personalidades do mundo cultural, atores, polemistas mais ou menos conhecidos e semiestrelas. Dava prest�gio ter Mikael Blomkvist como convidado no lan�amento de um livro ou numa festa particular. Por isso a avalanche de convites e pedidos de participa��o neste ou naquele evento. Tinha se tornado uma esp�cie de h�bito para ele responder com um �Eu adoraria mas, lamento, j� tenho um compromisso�.</p><p>�Entre as desvantagens da condi��o de estrela, Mikael tamb�m descobrira, estavam os boatos que corriam � solta. Um conhecido seu ligara, muito preocupado com sua sa�de; a pergunta tinha origem no boato de que ele dera entrada numa cl�nica a fim de se submeter a um tratamento de desintoxica��o. Na verdade, o abuso de drogas de Mikael se resumia, desde a adolesc�ncia, a uns poucos baseados e ao fato de numa ocasi�o bem particular, quinze anos antes, ter experimentado coca�na com uma cantora holandesa de um grupo de rock. J� seu consumo de �lcool era bem mais acentuado, embora se limitasse a algumas bebedeiras isoladas e turbinadas durante um jantar ou uma festa. Nos bares, pouco consumia al�m de uma boa cerveja de marca, e tomava um simples chope de bom grado. Em casa, tinha algumas garrafas de vodca ou u�sque que ganhara de presente e as abria t�o raramente que chegava a ser c�mico.</p><p>N�o era segredo para ningu�m, tanto em seu c�rculo de amizades como fora dele, que Mikael era um solteiro com in�meros relacionamentos e hist�rias de amor ocasionais, embora isso desse margem a outros boatos. Seu conhecido caso com Erika Berger fora objeto de incont�veis especula��es ao longo dos anos. Ultimamente, �s fofocas vinham se somando afirma��es de que ele passava de uma cama para outra, flertava sem discernimento e aproveitava sua notoriedade para trepar com a inteira clientela feminina dos bares de Estocolmo. Um jornalista que ele mal conhecia chegara a lhe perguntar certa vez se ele j� tinha consultado um profissional a respeito de sua compuls�o por sexo, isso porque um famoso ator americano acabava de se internar com esse problema. Mikael respondera que n�o era um ator americano famoso e n�o sentia nenhuma necessidade de ajuda nessa �rea.</p><p>� certo que Mikael tivera in�meros relacionamentos epis�dicos e at� se embrenhara em v�rios casos ao mesmo tempo. Ele hesitava sobre que explica��o dar a isso. Sabia que fisicamente n�o era de se jogar fora, mas nunca se achara superatraente. Em compensa��o, acabara percebendo que tinha, aparentemente, algo que interessava �s mulheres. Erika Berger lhe explicara que ele transmitia ao mesmo tempo firmeza e seguran�a, e que tinha o dom de fazer as mulheres se sentirem, com ele, descontra�das e livres de obriga��es. Ir para a cama com Mikael n�o era nem amea�ador, nem desgastante, nem complicado - era algo sem exig�ncias e eroticamente agrad�vel. Portanto, segundo Mikael, era como deveria ser.</p><p>Ao contr�rio do que a maioria de seus amigos imaginava Mikael nunca fora um galinha. Na melhor das hip�teses, sinalizava que estava ali, dispon�vel, mas sempre deixava a iniciativa para a mulher. A rela��o sexual surgia como decorr�ncia natural do relacionamento. As mulheres com as quais ele dormia raramente eram an�nimas de uma noite s� - e, quando fora assim, a experi�ncia se revelara um tanto insatisfat�ria. Os melhores relacionamentos de Mikael eram com pessoas que ele aprendera a conhecer em um ou outro contexto, e das quais gostava. N�o por acaso, portanto, iniciara um caso com Erika Berger vinte anos atr�s - eram amigos atra�dos um pelo outro.</p><p>Sua recente celebridade, contudo, aumentara o interesse das mulheres de um jeito que ele achava estranho e incompreens�vel. O que mais o surpreendia � que mulheres bem mais jovens dessem impulsivamente em cima dele nas situa��es mais inesperadas.</p><p>O fasc�nio de Mikael, por�m, voltava-se para um tipo de mulher muito diferente das menores de idade exaltadas, apesar de suas superminissaias e de seus corpos bem-proporcionados. Quando mais jovem, suas parceiras muitas vezes eram mais velhas que ele, e uma ou outra tinham at� sido muito mais velhas e experientes. Com a idade, ampliara seu espectro, mas sua liga��o com Lisbeth Salander, um ano antes - ela tinha ent�o vinte e cinco anos -, certamente representava um decl�nio bastante claro da m�dia de idade de suas parceiras habituais.</p><p>Esse era o motivo daquele encontro precipitado com Erika.</p><p>Para fazer um favor a uma amiga de Erika, a <emphasis>Millennium</emphasis> contratara uma estagi�ria de uma escola t�cnica de comunica��o. Isso em si n�o tinha nada de extraordin�rio; todo ano eles contratavam v�rios estagi�rios. A mo�a em quest�o tinha dezessete anos. Mikael se mostrara educado com ela e rapidamente constatara que seu interesse por jornalismo era um tanto vago, a n�o ser pelo fato de que ela queria �aparecer na tev� e, Mikael achava, poderia usar o prest�gio de ter estagiado na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>Mikael logo percebeu que ela n�o perdia uma oportunidade de se debru�ar em sua dire��o para valorizar os seios. Fingia n�o notar suas abordagens ostensivas, o que s� a fez redobrar os esfor�os. Estava ficando dif�cil.</p><p>Erika Berger caiu na gargalhada.</p><p>�N�o me diga, voc� v�tima de ass�dio sexual no trabalho...</p><p>�Est� mesmo dif�cil, Ricky. N�o quero magoar nem constranger a menina. Mas ela � quase t�o sutil como uma �gua no cio. Fico pensando como vai ser a pr�xima investida.</p><p>�Mikael, ela tem s� dezessete anos, est� saturada de horm�nios e provavelmente voc� a impressiona para valer. Est� apaixonada por voc�, s� que � jovem demais e n�o sabe como se expressar.</p><p>�Desculpe, mas voc� est� enganada. Ela sabe muito bem como se expressar. H� algo perverso no jeito como ela age, e ela est� ficando nervosa porque eu n�o mordo a isca. Al�m disso, n�o fa�o a menor id�ia do que ela deve estar contando para as amigas. Eu passaria muito bem sem mais uma onda de boatos me transformando num velho libidinoso no cio � ca�a de carne fresca.</p><p>�Tudo bem, entendo o seu problema. Com que ent�o ela foi tocar no seu interfone ontem � noite.</p><p>�Com uma garrafa de vinho. Disse que estava saindo da festa de um �xar� ali do bairro e tentou me explicar que, por �um acaso supermaneiro�, estava passando perto da minha casa.</p><p>�O que voc� respondeu?</p><p>�N�o deixei ela entrar. Menti que n�o era um bom momento, que eu estava com visita, uma mulher.</p><p>�E como ela reagiu?</p><p>�Ficou tiririca, mas foi embora.</p><p>�O que voc� quer que eu fa�a?</p><p>�D� um jeito de me livrar dela. Segunda-feira pretendo ter uma conversa com ela olho no olho. Ou ela para com essa palha�ada, ou mando ela embora da reda��o.</p><p>�Erika Berger refletiu.</p><p>�N�o - disse. - N�o diga nada. Vou falar com ela.</p><p>�N�o tenho escolha.</p><p>�Ela est� querendo um amigo, n�o um amante.</p><p>�N�o sei o que ela est� querendo, mas...</p><p>�Mikael. J� estive no lugar dela. Estou dizendo que vou falar com ela.</p><p>Como todos que tinham assistido tev� ou lido jornal naquele ano, Nils Bjurman tinha ouvido falar em Mikael Blomkvist. Ainda assim, n�o o reconheceu e mesmo que reconhecesse n�o teria tido qualquer rea��o. Ignorava totalmente que existia um v�nculo entre a reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> e Lisbeth Salander.</p><p>E mesmo que soubesse desse v�nculo, nada garante que teria reagido - estava por demais imerso nos pr�prios pensamentos para reparar no mundo � sua volta.</p><p>Quando sua paralisia mental finalmente se atenuara, um ano antes, come�ou aos poucos a analisar sua situa��o pessoal, pondo-se a pensar numa maneira de aniquilar Lisbeth Salander.</p><p>O problema girava em torno de um �nico e exclusivo obst�culo. Lisbeth Salander dispunha do v�deo de noventa minutos que tinha gravado com uma c�mera oculta, no qual ele aparecia violentando-a. Ele assistira ao v�deo. O filme n�o deixava espa�o para uma interpreta��o favor�vel. Se a fita chegasse �s m�os de um procurador - ou, pior ainda, se chegasse �s m�os da m�dia - seria o fim da sua vida, da sua carreira e da sua liberdade. Conhecendo as penas cab�veis por viola��o agravada, abuso de pessoa em situa��o de depend�ncia, golpes e ferimentos e golpes e ferimentos agravados, calculou que se arriscava a pegar seis anos de pris�o. Um procurador zeloso at� poderia usar uma sequ�ncia do filme para alegar tentativa de assassinato.</p><p>Ele quase a sufocara durante o estupro ao comprimir um travesseiro sobre seu rosto. Lamentava n�o ter ido at� o fim - livrar-se do corpo lhe teria trazido menos problemas do que t�-la deixado viver.</p><p><emphasis>Eles n�o entenderiam que ela estava jogando o tempo todo. Ela o tinha provocado, tinha jogado com seus ador�veis olhos infantis e o seduzira com o corpo que poderia ser o de uma menina de doze anos. Ela se deixara estuprar. Era culpa dela. Eles jamais entenderiam que ela, na verdade, produzira uma representa��o teatral. Ela tinha planejado...</emphasis></p><p>Qualquer que fosse a atitude que tomasse a condi��o <emphasis>sine qua non</emphasis> era obter pessoalmente aquele v�deo e se assegurar de que n�o existiam c�pias. <emphasis>A� � que est� o xis do problema.</emphasis></p><p>Muito provavelmente, uma sacana como Lisbeth Salander tivera tempo de criar muitos inimigos no decorrer dos anos. O Dr. Bjurman, por�m, possu�a uma clara vantagem. Diferentemente de todos aqueles que, por um motivo ou outro, ela j� havia tirado do s�rio, ele tinha acesso ilimitado a todas as suas fichas m�dicas, investiga��es sociais e avalia��es psiqui�tricas. Era uma das raras pessoas na Su�cia que conhecia seus segredos mais �ntimos.</p><p>O dossi� que a Comiss�o de Tutelas tinha lhe repassado quando ele aceitara a miss�o de ser seu tutor era sucinto e breve - pouco mais de quinze p�ginas forneciam uma vis�o principalmente de sua vida adulta, um resumo do diagn�stico fornecido pelos especialistas psiqui�tricos juramentados, a decis�o de coloca��o sob tutela do tribunal de inst�ncias e a an�lise de sua situa��o financeira no ano anterior.</p><p>Ele tinha lido e relido o dossi�. Depois, come�ou a reunir sistematicamente informa��es sobre o passado de Lisbeth Salander.</p><p>Como advogado, estava perfeitamente a par dos procedimentos necess�rios para colher informa��es nos registros oficiais das autoridades. Na qualidade de tutor de Lisbeth Salander era-lhe permitido penetrar no sigilo que cercava seus dossi�s. Era um dos poucos que podiam obter qualquer documento a seu respeito.</p><p>No entanto, precisara de meses para reconstituir sua vida, detalhe por detalhe, desde as primeiras notas na escola prim�ria at� as investiga��es policiais e os autos do tribunal de inst�ncias. Entrara pessoalmente em contato com o Dr. Jesper H. L�derman e discutira a situa��o com ele. L�derman era o psiquiatra que recomendara sua interna��o quando ela completara dezoito anos. Foram todos muito prestativos. Uma mulher da Comiss�o Social chegara a cumpriment�-lo por seu zelo em tentar compreender todos os aspectos da vida de Lisbeth Salander.</p><p>A verdadeira mina de informa��es foi o achado de dois cadernos numa caixa que estava mofando com um funcion�rio da Comiss�o de Tutelas. As anota��es tinham sido redigidas pelo antecessor de Bjurman, o Dr. Holger Palmgren, que aparentemente conhecera Lisbeth Salander melhor que ningu�m. Palmgren conscienciosamente fornecera � comiss�o um breve relat�rio anual, mas Bjurman supunha que Lisbeth ignorasse o fato de Palmgren ter registrado com tantos detalhes cada um de seus encontros e suas pr�prias reflex�es sob a forma de um di�rio. Tratava-se evidentemente de um material particular de trabalho, mas quando Palmgren sofrera um derrame dois anos antes, os cadernos tinham ido parar na Comiss�o de Tutelas, onde ningu�m se dera ao trabalho de abri-los e l�-los.</p><p>Eram os originais. N�o existiam c�pias.</p><p>Perfeito.</p><p>Palmgren apresentava uma vis�o de Lisbeth Salander bem diferente da que se deduzia das investiga��es do Servi�o Social. Bjurman acompanhara o dif�cil percurso da adolescente ind�cil que se tornou uma jovem adulta empregada na Milton Security - um trabalho obtido gra�as aos contatos de Palmgren. Cada vez mais surpreso, Bjurman se dera conta de que Lisbeth n�o era de forma alguma a subalterna encarregada da copiadora e da cafeteira - pelo contr�rio, tinha um trabalho qualificado, que consistia em investigar pessoas para o diretor da Milton, Dragan Armanskij. Ficava claro que Armanskij e Palmgren se conheciam e de vez em quando trocavam informa��es sobre sua protegida.</p><p>Nils Bjurman gravou o nome de Dragan Armanskij. Entre todos que figuravam na vida de Lisbeth Salander, s� duas pessoas vinham a ser seus amigos e pareciam consider�-la uma protegida. Palmgren sa�ra de cena. Armanskij era o �nico que ainda poderia constituir uma amea�a em potencial. Bjurman poderia t�-lo contatado e pedido informa��es sobre Salander na qualidade de um tutor que se preocupava com ela, mas resolveu manter dist�ncia de Armanskij e evitar a todo custo encontr�-lo.</p><p>Assim, os cadernos tinham-lhe oferecido um bocado de explica��es. Bjurman de repente compreendera como Lisbeth Salander conseguira saber tanto a seu respeito. Continuava sem entender como ela tivera conhecimento da visita extremamente discreta que ele fizera � cl�nica francesa de cirurgia est�tica, mas grande parte do mist�rio que a cercava se dissipara. Era a sua <emphasis>profiss�o</emphasis> vasculhar a vida privada das pessoas. Imediatamente passou a ficar mais atento a seus pr�prios movimentos. J� que Lisbeth Salander tinha acesso a seu apartamento, melhor n�o guardar ali documentos que diziam respeito a ela. Juntou toda a documenta��o numa caixa e a levou para a sua casa de campo em Stallarholmen, onde passava cada vez mais tempo remoendo sozinho no seu canto.</p><p>Quanto mais descobria a respeito de Lisbeth Salander, mais convencido ficava de que a garota era uma doente mental. Estremecia ao lembrar que ela o algemara � sua pr�pria cama. Vira-se inteiramente entregue ao seu capricho, e crescia dentro de Bjurman a convic��o de que ela cumpriria sem hesitar a amea�a de mat�-lo, caso ele a provocasse.</p><p>Ela carecia de limites sociais. <emphasis>Era uma psicopata doent�a, uma maluca perigosa. Uma granada sem pino. Uma puta.</emphasis></p><p>O di�rio de Holger Palmgren tamb�m o pusera na pista da �ltima chave. Em v�rias ocasi�es, Palmgren fazia anota��es um bocado pessoais sobre conversas que tivera com Lisbeth Salander. <emphasis>Completamente gag�, pobre imbecil.</emphasis> Duas vezes, ele mencionava a express�o �quando Todo o Mal aconteceu�. Palmgren manifestamente transcrevia a express�o usada por Lisbeth Salander, mas n�o havia pistas do que ela poderia significar.</p><p>Bjurman anotou perplexo, as palavras �Todo o Mal� e tentou interpret�-las. Os anos passados nas fam�lias adotivas? Algum tipo de abuso? Acabaria encontrando uma explica��o na vasta documenta��o de que j� dispunha.</p><p>Abriu o relat�rio do exame de psiquiatria legal de Lisbeth Salander, realizado quando ela completou dezoito anos, e o leu atentamente pela quinta ou sexta vez. E ent�o percebeu que havia uma lacuna no que ele conhecia sobre Lisbeth Salander.</p><p>Ele dispunha de extratos de arquivos da escola, um certificado que atestava que a m�e de Lisbeth Salander era incapaz de tomar conta dela, relat�rios de diversas fam�lias de ado��o ao longo de sua adolesc�ncia e o exame psiqui�trico feito aos dezoito anos.</p><p>Alguma coisa desencadeara a loucura por volta de seus doze anos.</p><p>Tamb�m havia falhas em sua biografia.</p><p>At�nito, descobriu que, para come�ar, Lisbeth Salander tinha uma irm� g�mea sobre a qual n�o havia a menor refer�ncia nos documentos de que dispunha. Meu Deus s�o duas<emphasis>!</emphasis> Mas n�o encontrou nenhuma men��o sobre o que fora feito da irm�.</p><p>O pai era desconhecido, e faltava igualmente o motivo pelo qual sua m�e n�o podia mais tomar conta dela. At� ent�o, Bjurman imaginara que ela havia ficado doente e que isso desencadeara todo o processo de interna��es de Lisbeth nos centros psiqui�tricos. Agora estava convencido de que algo ocorrera com Lisbeth Salander quando ela tinha entre doze e treze anos. <emphasis>Todo o Mal.</emphasis> Uma esp�cie de trauma. Mas n�o havia nada espec�fico.</p><p>No exame de psiquiatria legal, acabara encontrando uma men��o a um anexo que faltava, remetendo a uma investiga��o policial datada de 12/3/1991. O n�mero de refer�ncia estava anotado � m�o na margem da c�pia encontrada no dep�sito de Assuntos Sociais. Quando tentou solicit�-la para consulta, deparou com uma pedra no meio do caminho. A investiga��o era considerada segredo de Estado. Ele poderia formular um pedido junto ao governo.</p><p>Nils Bjurman estava perplexo. Que um relat�rio policial referente a uma menina de doze anos fosse secreto n�o tinha, em si, nada de mais - era normal, por raz�es de integridade. Mas ele era o tutor de Lisbeth Salander e tinha o direito de pedir qualquer documento em que constasse o nome dela. N�o conseguia entender por que uma investiga��o era considerada t�o secreta a ponto de ele ser obrigado a solicitar autoriza��o do governo para ter acesso a ela.</p><p>Fez o pedido na mesma hora. Esperou dois meses at� obter uma resposta. Para sua imensa surpresa, o pedido fora rejeitado. N�o conseguia entender o que haveria de t�o dram�tico numa investiga��o policial antiga de quase quinze anos referente a uma menina de doze anos, dram�tico a ponto de a investiga��o ser classificada objeto de seguran�a nacional, como se se tratasse da chave dos arquivos secretos do governo.</p><p>Retomou o di�rio de Holger Palmgren e releu linha por linha, tentando entender o que queria dizer �Todo o Mal�. Mas o texto n�o fornecia nenhuma pista. O que quer que fosse era obviamente um assunto que havia sido discutido apenas entre Holger Palmgren e Lisbeth Salander, sem nunca ter sido colocado preto no branco. As anota��es sobre Todo o Mal apareciam no final do extenso di�rio. Palmgren simplesmente talvez n�o tivesse tido tempo de passar a limpo suas anota��es antes de sofrer o derrame cerebral.</p><p>Com isso, os pensamentos do Dr. Bjurman desandaram para outras dire��es. Holger Palmgren tinha sido o administrador <emphasis>ad hoc</emphasis> de Lisbeth Salander desde seus treze anos e seu tutor a partir dos dezoito. Ou seja, Holger Palmgren estivera presente pouco depois que Todo o Mal acontecera e quando Salander fora internada na psiquiatria infantil. Tudo levava a crer, portanto, que Palmgren sabia o que se passara.</p><p>Bjurman voltou aos arquivos da Comiss�o de Tutelas. Desta vez n�o pediu para ver os documentos referentes � Lisbeth Salander, e sim o descritivo da miss�o de Palmgren, tal como determinado pela Comiss�o dos Assuntos Sociais. Obteve documentos � primeira vista um tanto frustrantes. Duas p�ginas de informa��es breves. A m�e de Lisbeth Salander n�o tinha mais condi��es de tomar conta das filhas. Devido a circunst�ncias particulares, as meninas deviam ser separadas. Camilla Salander foi encaminhada a uma fam�lia adotiva pelo Servi�o Social. Lisbeth Salander foi encaminhada � cl�nica de psiquiatria infantil de Sankt Stefan. N�o foi sugerida outra alternativa.</p><p>Por qu�? Havia apenas uma frase enigm�tica. Com base nos acontecimentos de 12/3/1991, a Comiss�o de Assuntos Sociais decidiu... Em seguida, outra refer�ncia ao n�mero do dossi� da misteriosa investiga��o policial mantida sob sigilo. Mas desta vez havia mais um detalhe - o nome do policial que conduzira a investiga��o.</p><p>O Dr. Nils Bjurman leu o nome com espanto. Era um nome que ele conhecia bem. Bem at� demais.</p><p>Isso alterava radicalmente a situa��o.</p><p>Precisou de mais dois meses para, por outro vi�s, ter a investiga��o em m�os � uma investiga��o policial de quarenta e sete p�ginas numa pasta A4, assim como atualiza��es em forma de notas somando pouco mais de sessenta p�ginas, acrescentadas ao longo de seis anos.</p><p>De in�cio ele n�o entendeu o contexto.</p><p>Depois achou as fotos tiradas pelo m�dico-legista e conferiu o nome mais uma vez.</p><p><emphasis>Meu Deus... n�o � poss�vel!</emphasis></p><p>Ent�o entendeu por que o caso havia sido arquivado como segredo de Estado. O Dr. Nils Bjurman acabava de tirar a sorte grande. Bjurman n�o estava sozinho.</p><p>Ele tinha um aliado. O aliado mais improv�vel que poderia imaginar. Devagar, come�ou a arquitetar um plano.</p><p><emphasis>Foi</emphasis> arrancado de suas reflex�es pela sombra que se abateu sobre sua mesa no caf� Hedon. Ergueu os olhos e viu um homem loiro, um gigante, pensaria mais tarde. Por um d�cimo de segundo, Nils Erik Bjurman recuou, ent�o se recomp�s e ergueu uma sobrancelha inquisitiva.</p><p>O homem que olhava para ele media mais de dois metros e tinha uma complei��o s�lida. Excepcionalmente s�lida, ali�s. Um <emphasis>bodybuilder,</emphasis> sem d�vida nenhuma. Bjurman n�o detectou o menor vest�gio de gordura ou flacidez muscular. A impress�o geral era de uma for�a assustadora.</p><p>O homem era loiro, cabelos cortados rente nas t�mporas, com uma franja curta sobre a testa. O rosto era oval, estranhamente efeminado, quase infantil. Usava uma jaqueta curta de couro preto, camisa azul, gravata preta e cal�a preta. O que o Dr. Bjurman notou em seguida foram as m�os. O homem era incontestavelmente grande, mas suas m�os eram enormes.</p><p>�Doutor Bjurman?</p><p>O homem falava com um sotaque estrangeiro carregado, mas a voz era t�o estranhamente fina que Bjurman por pouco n�o esbo�ou um sorriso. Meneou a cabe�a.</p><p>�A gente recebeu a sua carta.</p><p>�A gente quem? Era para eu me encontrar com...</p><p>O homem de m�os enormes ignorou a pergunta, interrompeu Bjurman e sentou-se � sua frente.</p><p>�Est� se encontrando comigo. Diga o que quer de n�s.</p><p>O Dr. Nils Erik Bjurman teve um segundo de hesita��o. Detestava a id�ia de se abrir com um estrangeiro. Mas era preciso. Lembrou-se de que n�o era o �nico que odiava Lisbeth Salander. Precisava encontrar aliados. Em <emphasis>voz</emphasis> baixa, come�ou a explicar o que queria.</p></section><section><p><strong><emphasis>3 - SEXTA-FEIRA 17 DE DEZEMBRO - S�BADO 18 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander acordou �s sete da manh�, tomou um banho e desceu para falar com Freddy McBain na recep��o. Perguntou se havia um <emphasis>beach buggy</emphasis> dispon�vel para alugar por um dia. Dez minutos depois, j� tinha pago a cau��o, ajustado o banco e o retrovisor, verificado a igni��o e conferido o combust�vel. Passou no bar para pedir um <emphasis>caff� latte</emphasis> e um sandu�che de queijo para o caf� da manh�, e uma garrafa de �gua mineral para levar. Durante o caf� da manh�, rabiscou uns n�meros no guardanapo e refletiu sobre o (x3 + y3 = z3) de Pierre de Fermat.</p><p>Pouco depois das oito, o Dr. Forbes desceu at� o bar. Estava bem barbeado e vestia um terno escuro, camisa branca e gravata azul. Pediu ovos, torradas, suco de laranja e caf� preto. �s oito e meia, levantou-se e foi para o t�xi que o aguardava.</p><p>Lisbeth o seguiu a uma dist�ncia razo�vel. Forbes desceu do t�xi no Seascape, bem no in�cio do Carenage, e ficou passeando � beira d��gua. Ela o ultrapassou, estacionou na metade do cal�ad�o do porto e esperou pacientemente que ele passasse por ela antes de segui-lo a p�.</p><p>A uma da tarde, Lisbeth Salander estava encharcada de suor e com os p�s em frangalhos. Caminhara quatro horas a fio, subindo e descendo as ruas de S�o Jorge. O ritmo tinha sido tranq�ilo, mas sem pausas, e as in�meras subidas come�avam a p�r seus m�sculos � prova. A energia do homem a deixava pasma. Tomou os �ltimos goles da �gua mineral e estava come�ando a cogitar abandonar o caso quando ele subitamente se encaminhou para o Turtleback. Ela esperou dez minutos antes de tamb�m entrar no restaurante e ir sentar-se na esplanada. Ocuparam os mesmos lugares do dia anterior e, como no dia anterior, ele tomou uma Coca-Cola contemplando as �guas do porto.</p><p>Forbes era uma das rar�ssimas pessoas em Granada que usavam terno e gravata. Ela se espantava de ver como o calor parecia deix�-lo indiferente.</p><p>�s tr�s horas, ele interrompeu o fio dos pensamentos de Lisbeth ao pagar a conta de repente e sair do restaurante. Andou pelo Carenage e fez sinal a um micro-�nibus que ia para Angra Grande. Lisbeth estacionou em frente ao Keys Hotel cinco minutos antes de o �nibus chegar e ele descer. Foi at� o quarto, preparou um banho e mergulhou na banheira. Estava com dor nos p�s. Sua testa exibia vincos fundos.</p><p>Os exerc�cios daquele dia tinham sido reveladores. O Dr. Forbes sa�a todas as manh�s do hotel, bem barbeado e vestido com rigor, munido de sua pasta. Passava o dia sem fazer absolutamente nada que n�o fosse matar o tempo. O que quer que estivesse fazendo em Granada, o certo � que n�o estava se dedicando ao projeto de constru��o de uma nova escola, mas, por alguma raz�o, queria dar a entender que estava na ilha a neg�cios. <emphasis>Por que a encena��o?</emphasis></p><p>A �nica pessoa de quem ele at� poderia ter raz�es para esconder uma coisa desse g�nero era sua mulher, e nesse caso precisava faz�-la acreditar que estava tremendamente ocupado durante o dia. Mas por qu�? Os neg�cios tinham desandado e ele era orgulhoso demais para admiti-lo? Sua visita a Granada tinha um objetivo bem diverso? Estaria esperando algu�m ou alguma coisa?</p><p>Ao olhar seu correio eletr�nico, Lisbeth Salander encontrou quatro mensagens. A primeira era de Praga, que respondera uma hora depois de receber o e-mail de Lisbeth. A mensagem estava criptografada e continha uma pergunta lac�nica: �Voc� ainda est� viva?�. Nunca fora o estilo de Praga escrever e-mails longos, carregados de emo��o. Ali�s, tamb�m n�o era o estilo de Lisbeth.</p><p>Os dois e-mails seguintes tinham sido enviados por volta das duas horas. Um deles continha informa��es criptografadas mandadas por Praga, dizendo que um conhecido da rede, que assinava Bilbo e morava justamente no Texas, respondera ao seu pedido. Praga informava o endere�o de Bilbo e sua chave <strong>PGP</strong>. Minutos depois, o tal Bilbo lhe enviara um e-mail, de um endere�o hotmail. A mensagem era breve e avisava que Bilbo acreditava estar em condi��es de fornecer informa��es sobre o Dr. Forbes dentro de vinte e quatro horas.</p><p>O quarto e-mail, tamb�m assinado Bilbo, fora enviado no final da tarde. Continha o n�mero criptografado de uma conta banc�ria e um endere�o ftp. Lisbeth digitou o endere�o e deparou com um arquivo ZIP de 390 kb, que ela baixou para o seu computador. O dossi� continha quatro fotos em baixa resolu��o e cinco documentos Word.</p><p>As quatro fotos estavam em formato jpg. Duas eram retratos do Dr. Forbes, outra tinha sido tirada na estreia de uma pe�a de teatro e mostrava Forbes na companhia da mulher. A quarta foto mostrava Forbes no p�lpito de uma igreja.</p><p>O primeiro documento tinha onze p�ginas de texto � era o relat�rio de Bilbo. O segundo, oitenta e quatro p�ginas de textos baixados da internet. Os dois documentos seguintes eram c�pias escaneadas de recortes do jornal local <emphasis>Austin-American Statesman,</emphasis> e o �ltimo documento um panorama da congrega��o do Dr. Forbes, a Presbyterian Church of Austin South.</p><p>Tirando o fato de que sabia o Lev�tico de cor � no ano anterior, fora levada a se interessar por castigos b�blicos � os conhecimentos de Lisbeth Salander em hist�ria das religi�es eram modestos. Tinha uma vaga no��o da diferen�a entre as religi�es judia, presbiteriana e cat�lica, e sabia que a igreja judia se chamava sinagoga. Por um breve instante, receou ter de assimilar detalhes teol�gicos, depois refletiu que n�o estava nem a� para o tipo de congrega��o a que Forbes pertencia.</p><p>O Dr. Richard Forbes, tamb�m conhecido como reverendo Richard Forbes segundo o recorte anexado tinha quarenta e dois anos. A tela de apresenta��o do site da Church of Austin South informava que a Igreja tinha sete funcion�rios, com o reverendo Duncan Clegg encabe�ando a lista, o que dava a entender que era ele a figura teol�gica emblem�tica. Uma foto mostrava um homem robusto, com abundantes cabelos grisalhos e uma barba grisalha bem-cuidada.</p><p>Richard Forbes aparecia em terceiro lugar, como respons�vel pelas quest�es de educa��o. Associada a seu nome, estava a Holy Water Foundation, entre par�nteses.</p><p>Lisbeth leu a introdu��o da mensagem da Igreja.</p><p>Atrav�s da ora��o e das a��es de gra�a, queremos servir o povo de Austin South oferecendo-lhe a estabilidade, a teologia e a ideologia repleta de esperan�a defendida pela Igreja Presbiteriana da Am�rica. Enquanto servos de Cristo, oferecemos ref�gio �s pessoas desesperadas e uma promessa de reden��o atrav�s da ora��o e da b�n��o batista. Alegremo-nos no amor de Deus. Nosso dever � derrubar os muros existentes entre os homens e afastar as barreiras que prejudicam a compreens�o da mensagem do amor de Deus.</p><p>Logo abaixo, vinha o n�mero da conta-corrente da Igreja e a exorta��o a uma demonstra��o concreta de amor a Deus.</p><p>A biografia fornecida por Bilbo era breve e perfeita. Lisbeth descobriu que Richard Forbes nascera em Cedar�s Bluff, em Nevada. Tinha sido agricultor, homem de neg�cios, guarda de escola, correspondente local de um jornal do Novo M�xico e empres�rio de um grupo de rock crist�o antes de aderir � Church of Austin South aos trinta e um anos de idade. Era formado em contabilidade e tamb�m estudara arqueologia. Bilbo n�o encontrara, no entanto, nenhum diploma de doutor.</p><p>Na congrega��o, Forbes conhecera Geraldine Knight, �nica filha do fazendeiro William F. Knight, tamb�m ele membro fundador de Austin South. Richard e Geraldine se casaram em 1997, ap�s o que a carreira de Richard Forbes decolara no seio da congrega��o. Ele se tornara chefe da Funda��o Santa Maria, cuja miss�o era �investir o dinheiro de Deus em projetos educacionais para os necessitados�.</p><p>Forbes tinha sido preso em duas ocasi�es. Aos vinte e cinco anos, em 1987, fora acusado de les�es corporais graves por ocasi�o de um acidente de carro. Foi absolvido no processo. At� onde Lisbeth p�de avaliar pela leitura dos recortes, ele era de fato inocente. Em 1995, fora acusado de desvio de dinheiro pelo grupo de rock do qual era empres�rio. Tamb�m dessa vez foi absolvido.</p><p>Em Austin, tornou-se uma figura conhecida, membro da Comiss�o de Educa��o do munic�pio. Era filiado ao Partido Democrata, participava assiduamente das festas beneficentes e angariava fundos para financiar a educa��o de crian�as pobres. A Church of Austin South concentrava boa parte de suas atividades em fam�lias hispanoparlantes.</p><p>Em 2001, Forbes fora acusado de irregularidades nas contas da Funda��o Santa Maria. O artigo de um jornal insinuava que ele aplicara em fundos de investimento uma quantia mais alta do que estipulava o estatuto. As acusa��es foram refutadas pela congrega��o, e o pastor Clegg apoiou firmemente Forbes na pol�mica que se seguiu. N�o houve nenhuma a��o na Justi�a, e uma investiga��o na contabilidade nada revelou.</p><p>Lisbeth dedicou um interesse reflexivo ao relat�rio sobre as contas pessoais de Forbes. Ele desfrutava de uma renda anual de sessenta mil d�lares, o que era considerado um sal�rio pertinente, mas n�o possu�a bens pessoais. Quem respondia pela estabilidade econ�mica da fam�lia era Geraldine Forbes. Em 2002 falecera seu pai, o fazendeiro William Knight. A filha era a �nica herdeira de uma fortuna de mais de quarenta milh�es de d�lares. O casal n�o tinha filhos.</p><p>Richard Forbes dependia, portanto, da boa vontade da esposa. Lisbeth franziu o cenho. N�o era a situa��o ideal para bater na mulher.</p><p>Lisbeth se conectou e mandou uma lac�nica mensagem criptografada a Bilbo, agradecendo o relat�rio. Tamb�m transferiu quinhentos d�lares para a conta corrente que ele indicara.</p><p>Foi at� a sacada e debru�ou-se na balaustrada. O sol estava se pondo. S�bito, notou que um vento crescente sacudia as folhas das palmeiras junto ao muro que dava para a praia. Granada estava no limiar da rota do Mathilda. Lisbeth seguiu o conselho de Ella Carmichael e enfiou na sacola de n�ilon o computador, <emphasis>Dimensions in Mathemathics,</emphasis> alguns objetos pessoais e uma muda de roupa, deixando-a depois em cima da cama. Em seguida, desceu para o bar e pediu um prato de peixe e uma garrafa de Carib.</p><p>O �nico fato digno de interesse que observou foi Forbes, no balc�o do bar, inquirindo avidamente Ella Carmichael sobre as tribula��es do Mathilda. N�o parecia preocupado. Tinha mudado de roupa, usava sapatos esportivos, camisa polo clara e bermuda, uma corrente com crucifixo no pesco�o, e estava superatraente.</p><p>Lisbeth Salander sentia-se exausta depois de ter passado o dia inteiro andando a esmo por toda S�o Jorge. Fez um r�pido passeio depois do jantar, mas o vento soprava com for�a e a temperatura baixara sensivelmente. Resolveu ir para o quarto e se deitou �s nove da noite. Escutou o barulho do vento rente � janela. Tinha pensado em ler um pouco, mas pegou no sono quase em seguida.</p><p>Acordou sobressaltada com uma enorme barulheira. Olhou o rel�gio: 23hl5. Fez um esfor�o para sair da cama, abriu a porta da sacada e, sem querer, deu um passo atr�s, surpreendida pelas rajadas de vento que se atiravam em cima dela. Apoiou-se no v�o da porta, deu um passo cauteloso pela sacada e olhou ao redor.</p><p>L�mpadas suspensas em volta da piscina, balan�adas pelo vento, criavam no p�tio um impressionante jogo de sombras. Avistou v�rios clientes do hotel enfileirados diante da abertura praticada no muro, olhando para a praia. Outros mantinham-se pr�ximos do bar. Ao norte, avistavam-se as luzes de S�o Jorge. O c�u estava encoberto, mas n�o chovia. Por causa da escurid�o, n�o conseguia enxergar o mar, embora o som das ondas estivesse muito mais forte que de costume. N�o fazia frio, mas, pela primeira vez desde que chegara �s Antilhas Menores, Lisbeth estremeceu de repente.</p><p>Estava ali parada quando algu�m bateu com insist�ncia � porta. Ela se enrolou num len�ol e foi abrir. Freddy McBain parecia preocupado.</p><p>�Desculpe incomodar, mas a tempestade parece estar chegando.</p><p>�Mathilda.</p><p>�Mathilda - confirmou McBain. �Passou l� pelos lados de Tobago no final da tarde e est�o falando em preju�zos consider�veis.</p><p>Lisbeth visualizou o mapa das Antilhas, Trinidad-Tobago situava-se a cerca de duzentos quil�metros a sudoeste de Granada. Fez uns c�lculos de cabe�a: um ciclone tropical podia sem problema nenhum se estender por um raio de cem quil�metros e seu olho podia se deslocar a uma velocidade de trinta a quarenta quil�metros por hora. O que queria dizer que Mathilda podia estar, naquele exato momento, prestes a bater �s portas de Granada. Tudo dependia da dire��o que ele iria tomar.</p><p>�N�o h� perigo iminente - continuou McBain. �Mas n�o vamos correr nenhum risco. Queria que voc� pusesse seus objetos de valor numa sacola e fosse at� a recep��o. O hotel est� oferecendo caf� e sandu�ches.</p><p>Lisbeth seguiu seu conselho. Passou a cabe�a debaixo da torneira para acordar direito, enfiou uma cal�a jeans, sapatos e uma camisa de flanela e jogou a sacola no ombro. Antes de sair do quarto, abriu a porta do banheiro e acendeu a luz. Nenhum lagarto verde � vista, ele j� tinha se enfiado em algum buraco por a�. <emphasis>Nada bobo, o bichinho.</emphasis></p><p>No bar, dirigiu-se tranq�ilamente para o seu lugar habitual e observou Ella Carmichael mandando os funcion�rios encherem as garrafas t�rmicas com bebidas quentes. Um instante depois veio ter com Lisbeth.</p><p>�Ol�. Voc� parece que acabou de acordar.</p><p>�Eu estava dormindo. O que vai acontecer agora?</p><p>�Vamos esperar. A tempestade est� ao largo e recebemos de Trinidad um alerta de ciclone. Se piorar e se o Mathilda vier na nossa dire��o, vamos para o por�o. Voc� podia dar uma m�ozinha para a gente?</p><p>�O que quer que eu fa�a?</p><p>�Temos na recep��o sessenta cobertores que precisam ser levados para o por�o. E mais um monte de coisas para p�r ao abrigo.</p><p>Lisbeth passou a hora seguinte ajudando a carregar cobertores para o por�o e a juntar vasos, mesas, espregui�adeiras e outros objetos que estavam em volta da piscina. Satisfeita, Ella a dispensou agradecendo, ent�o Lisbeth dirigiu-se at� a abertura do muro que dava para a praia e andou uns passos no escuro. O mar rugia perigosamente e rajadas de vento a a�oitaram com tamanha for�a que ela foi obrigada a se inclinar para conseguir ficar em p�. As palmeiras batiam a cad�ncia ao longo do muro.</p><p>Voltou ao bar, pediu um <emphasis>caff� latte</emphasis> e sentou-se ao balc�o. Era cerca de meia-noite. Um evidente clima de preocupa��o reinava entre h�spedes e funcion�rios. Nas mesas, as conversas seguiam em voz baixa entre pessoas que espiavam regularmente o c�u. Ao todo, havia no Keys Hotel trinta e dois clientes e uma equipe de uns dez funcion�rios. De repente, Lisbeth notou Geraldine Forbes sentada a uma mesa bem ao fundo, para o lado da recep��o. Seu semblante estava tenso e ela tinha um drinque na m�o. Seu marido n�o estava por perto.</p><p>Lisbeth estava tomando seu caf� e come�ava a refletir sobre o teorema de Fermat quando Freddy McBain saiu do escrit�rio e parou no meio do hall de entrada.</p><p>�Aten��o, por favor. Acabo de receber a confirma��o de que uma forte tempestade do tipo furac�o atingiu a Pequena Martinica. Vou ent�o pedir a todos que des�am at� o por�o.</p><p>Freddy McBain cortou qualquer tentativa de questionamento e conversa e conduziu os h�spedes para a escada de acesso ao por�o, atr�s da recep��o. A Pequena Martinica era uma ilhota do arquip�lago das Granadinas, situada a poucas milhas n�uticas da ilha principal. Lisbeth olhou discretamente para Ella Carmichael e esticou o ouvido quando ela se aproximou de Freddy McBain.</p><p>�Est� ficando ruim a esse ponto? - perguntou Ella.</p><p>�N�o sei. O telefone parou de funcionar - respondeu McBain em voz baixa.</p><p>Lisbeth desceu para o por�o e colocou sua sacola em cima de um cobertor a um canto. Refletiu alguns instantes e ent�o subiu de volta, na contracorrente, at� a recep��o. Deteve Ella Carmichael e perguntou se podia ajudar em alguma coisa. Ella meneou a cabe�a com ar compenetrado.</p><p>�Vamos ver o que acontece. Essa Mathilda � uma sacana.</p><p>Lisbeth reparou num grupo de cinco adultos e uma d�zia de crian�as se engolfando na porta de entrada. Freddy McBain os acolheu e os encaminhou para a escada do por�o.</p><p>Uma preocupa��o repentina tomou conta de Lisbeth.</p><p>�Imagino que a esta hora todo mundo esteja se escondendo no por�o - ela disse em voz baixa.</p><p>Ella Carmichael olhou para a fam�lia em frente � escada.</p><p>�Infelizmente, o nosso � um dos raros por�es de Angra Grande. Na certa, outras pessoas vir�o procurar abrigo aqui.</p><p>Lisbeth olhou atentamente para Ella.</p><p>�E os outros, fazem o qu�?</p><p>�Os que n�o t�m por�o? � Ela riu com um riso amargo. - Se escondem dentro de casa ou se protegem do jeito que der. Entregam nas m�os de Deus.</p><p>Lisbeth deu meia-volta, atravessou correndo o hall de entrada e saiu pela porta.</p><p><emphasis>George Bland.</emphasis></p><p>Ouviu o chamado de Ella, mas n�o parou para explicar.</p><p><emphasis>Ele mora numa casinha furreca que vai desabar na primeira rajada.</emphasis></p><p>Assim que p�s os p�s na estrada para S�o Jorge, o vento a apanhou e ela perdeu o equil�brio. Apressou o passo com determina��o. O vento vinha em sentido contr�rio e rajadas fort�ssimas a faziam cambalear. Precisou de quase dez minutos para percorrer os quatrocentos metros que a separavam da casa de George Bland. N�o avistou vivalma em todo o trajeto.</p><p>A chuva surgiu de repente do nada, feito uma ducha glacial lan�ada por uma mangueira, no exato momento em que Lisbeth bifurcava em dire��o ao galp�o de George Bland e avistava a luz do lampi�o por uma fresta entre as t�buas. Num instante, ficou encharcada at� os ossos e a visibilidade se reduziu a poucos metros. Tamborilou na porta. George Bland abriu e arregalou os olhos.</p><p>�O que est� fazendo aqui? - ele berrou, para encobrir o vento.</p><p>�Vem. Voc� tem que vir para o hotel. L� tem um por�o.</p><p>George Bland parecia surpreso. S�bito, o vento bateu a porta e ele levou v�rios segundos at� conseguir abri-la. Lisbeth agarrou-o pela camiseta e o puxou para fora. Enxugou a �gua que lhe escorria pelo rosto, pegou na m�o dele e se p�s a correr. Ele a seguiu.</p><p>Optaram pelo caminho da praia, cem metros mais curto que a estrada, que fazia uma curva pelo interior. Na metade do trajeto, Lisbeth percebeu que fora provavelmente um erro. Na praia, n�o tinham nenhuma prote��o. O vento e a chuva ca�am sobre eles com tanta for�a que foram obrigados a parar. Areia e galhos de �rvores voavam pelo ar. O barulho era de apavorar. Depois do que lhe pareceu ser uma eternidade, Lisbeth finalmente avistou o muro do hotel se materializando e apressou o passo. No instante em que se achavam em frente � porta, promessa de seguran�a, ela deu uma olhada por cirna do ombro na dire��o da praia. Estacou de s�bito.</p><p>Em meio a uma rajada, avistou dois vultos claros a uns cinquenta metros dali, na praia. George Bland puxou-a pelo bra�o para que ela atravessasse o port�o. Ela recha�ou sua m�o e se encostou no muro, tentando enxergar melhor. Por um momento, perdeu os vultos de vista atrav�s da chuva, at� que um rel�mpago iluminou o c�u.</p><p>Ela j� sabia que se tratava de Richard e Geraldine Forbes. Eles estavam mais ou menos no lugar em que ela observara as idas e vindas de Richard Forbes na noite anterior.</p><p>Quando o raio seguinte explodiu, viu que Richard Forbes parecia estar puxando a mulher e que ela resistia.</p><p>De repente, as pe�as do quebra-cabe�a se encaixaram. A depend�ncia econ�mica. As acusa��es de irregularidades financeiras em Austin. A err�ncia inquieta dele e sua im�vel matuta��o no Turtleback.</p><p>Ele pretende assassin�-la. Quarenta milh�es est�o em jogo. O furac�o vai servir de camuflagem. � agora ou nunca.</p><p>Lisbeth Salander empurrou George Bland port�o adentro, olhou ao redor e viu a cadeira bamba do guarda-noturno, que, com a tempestade, tinham esquecido de guardar. Pegou a cadeira, quebrou-a com toda a for�a de encontro ao muro e armou-se de um de seus p�s. At�nito, George Bland ficou gritando �s suas costas enquanto ela disparava em dire��o � praia.</p><p>Cada rajada por pouco n�o a derrubava, mas ela cerrou os dentes e avan�ou, passo a passo. Estava quase chegando � altura do casal quando um raio iluminou a praia. Viu Geraldine Forbes de joelhos na beira d��gua e Richard Forbes inclinado sobre ela, o bra�o erguido para bater nela. Ele empunhava alguma coisa parecida com um cano de metal. Viu o seu bra�o descrever um arco na dire��o da cabe�a da mulher, que parou de se mexer.</p><p>Richard Forbes n�o viu Lisbeth Salander.</p><p>S� sentiu uma dor fulgurante quando ela bateu com o p� da cadeira em sua nuca. Ele caiu de bru�os.</p><p>Lisbeth Salander se inclinou e agarrou Geraldine Forbes. Enquanto a chuva as a�oitava, virou o corpo. Suas m�os ficaram cobertas de sangue. Geraldine Forbes estava com um ferimento grande na cabe�a. Pesava toneladas e Lisbeth lan�ou um olhar desesperado em volta, perguntando-se como conseguiria carregar o corpo at� o muro do hotel. No segundo seguinte, George Bland se materializou a seu lado. Gritou alguma coisa que Lisbeth n�o chegou a ouvir por causa da tempestade.</p><p>Lisbeth olhou de relance para Richard Forbes. Estava de costas para ela, mas se reerguendo, de quatro. Ela agarrou o bra�o esquerdo de Geraldine Forbes, passou-o em volta de seu pesco�o e fez sinal para que George Bland pegasse o outro bra�o. Come�aram, com dificuldade, a arrastar o corpo pela praia.</p><p>A meio-caminho do muro do hotel, Lisbeth se sentiu absolutamente extenuada, como se todas as suas for�as a estivessem abandonando. Seu cora��o deu um salto mortal dentro do peito quando sentiu de repente uma m�o agarrando seu ombro. Soltou a cintura de Geraldine Forbes, virou-se e deu um pontap� com o p� direito na virilha de Richard Forbes. Ele cambaleou e caiu de joelhos. Ela tomou impulso e desfechou-lhe um pontap� no meio da cara. Lisbeth deparou com o olhar apavorado de George Bland. Deu-lhe meio segundo de aten��o antes de tornar a agarrar Geraldine Forbes e recome�ar a carreg�-la.</p><p>Segundos depois, virou-se novamente. Avistou Richard Forbes a uns dez metros atr�s deles. Ele tinha se levantado e cambaleava feito um b�bado em meio �s rajadas.</p><p>Mais um rel�mpago riscou o c�u e Lisbeth Salander arregalou os olhos. Pela primeira vez, sentiu um pavor paralisante.</p><p>Atr�s de Richard Forbes, a uns cem metros dentro d��gua, enxergou o dedo de Deus.</p><p>Uma imagem instant�nea, congelada � luz do rel�mpago, uma coluna negra como tinta que se al�ava e sumia no espa�o onde os olhos n�o alcan�avam.</p><p><emphasis>Mathilda.</emphasis></p><p><emphasis>N�o � poss�vel.</emphasis></p><p><emphasis>Um furac�o - sim.</emphasis></p><p><emphasis>Um tornado - imposs�vel.</emphasis></p><p><emphasis>Granada n�o est� situada numa zona de tornados.</emphasis></p><p><emphasis>Uma megatempestade maluca numa zona em que supostamente n�o se formam tornados.</emphasis></p><p><emphasis>Tornados n�o se formam no mar.</emphasis></p><p><emphasis>Ei tem um erro cient�fico a�!</emphasis></p><p><emphasis>Coisa de louco, essa hist�ria.</emphasis></p><p><emphasis>E essa coisa vai me</emphasis> arrastar <emphasis>para a porra desse c�u de merda.</emphasis> George Bland tamb�m tinha visto o tornado. De repente, os dois gritaram ao mesmo tempo para andarem depressa, sem escutar o que o outro dizia.</p><p>Ainda tinham vinte metros a percorrer at� o muro. Dez. Lisbeth trope�ou e caiu de joelhos. Cinco. Chegada ao port�o, Lisbeth olhou por cima do ombro. Teve um breve vislumbre de Richard Forbes sendo tragado pelas �guas como por uma m�o invis�vel. Ent�o ele sumiu, e com a ajuda de George Bland ela arrastou seu fardo pela abertura do muro. Atravessaram o p�tio cambaleando e, em meio � f�ria da tempestade, Lisbeth escutou o barulho de vidra�as se quebrando e um lamento dissonante de chapa met�lica dobrando-se em algum lugar. Surgida n�o se sabe de onde, uma t�bua passou voando rente ao nariz de Lisbeth. No instante seguinte, ela sentiu uma dor quando alguma coisa bateu em suas costas. A press�o do vento diminuiu quando eles conseguiram chegar ao hall de entrada.</p><p>Lisbeth deteve George Bland e o agarrou pela gola. Puxou-lhe a cabe�a para pertinho de sua boca e gritou-lhe no ouvido:</p><p>�A gente encontrou ela na praia. N�o vimos o marido. Entendeu? Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>Arrastaram Geraldine Forbes escada abaixo e Lisbeth deu um pontap� na porta do por�o. Freddy McBain veio abrir e os fitou, boquiaberto. Ent�o segurou Geraldine Forbes e os deixou entrar, batendo a porta em seguida.</p><p>Em um segundo, o barulho do ciclone baixou de uma quantidade insuport�vel de decib�is para um crepitar, com um trovejar em pano de fundo. Lisbeth inspirou profundamente.</p><p>Ella Carmichael serviu caf� quente num copinho e lhe ofereceu. Lisbeth Salander estava t�o exausta que mal teve for�as para estender o bra�o. Estava sentada no ch�o, passivamente recostada na parede. Algu�m cobrira Lisbeth e George com cobertores. Encharcada at� os ossos, tinha um ferimento abaixo do joelho que sangrava abundantemente. Em sua cal�a jeans havia um rasgo de dez cent�metros cuja causa ela n�o recordava. Sem a menor emo��o, observou Freddy McBain e alguns h�spedes cuidarem de Geraldine Forbes e colocarem uma bandagem em sua cabe�a. Pescou umas palavras soltas aqui e ali e entendeu que havia um m�dico no grupo. Notou que o por�o estava lotado e que pessoas de fora tinham se juntado aos h�spedes no abrigo. Por fim, Freddy McBain veio ter com Lisbeth e se agachou. �Ela est� viva.</p><p>Lisbeth n�o respondeu.</p><p>O que aconteceu?</p><p>A gente a encontrou na praia, perto do muro.</p><p>Faltavam tr�s pessoas quando contei os clientes aqui no por�o. Voc� e o casal Forbes. Ella me disse que voc� saiu feito louca na hora que a tempestade come�ou.</p><p>Fui buscar o meu amigo George. �Lisbeth indicou seu companheiro com um gesto de cabe�a. �Ele mora mais adiante na estrada, num barraco que a esta hora certamente n�o est� mais de p�.</p><p>Foi um gesto idiota, e sem d�vida muito corajoso - disse Freddy McBain, olhando para George Bland. �Voc�s viram o marido dela, Richard Forbes?</p><p>�N�o - respondeu Lisbeth com um olhar inexpressivo. George Bland olhou para Lisbeth e meneou a cabe�a. Ella Carmichael fitou Lisbeth Salander com um olhar severo. Lisbeth retribuiu, sem a menor express�o nos olhos.</p><p>Geraldine Forbes voltou a si por volta das tr�s da manh�. Lisbeth Salander dormia, a cabe�a apoiada no ombro de George Bland.</p><p>Milagrosamente, Granada sobreviveu �quela noite. Quando amanheceu, a tempestade amainara e fora substitu�da pela pior chuva que Lisbeth j� tinha visto. Freddy McBain convidou os h�spedes a subir para o hotel.</p><p>O Keys teria de realizar enormes reparos. A devasta��o do hotel, como em toda a costa, era consider�vel. O bar externo de Ella Carmichael, sob um toldo em frente � piscina, desaparecera por completo, e uma varanda estava inteiramente destru�da. Venezianas haviam sido arrancadas em toda a fachada, e uma parte saliente do telhado se dobrara ao meio. A recep��o era um verdadeiro caos de materiais diversos. Mas, no conjunto, o hotel continuava no lugar.</p><p>Cambaleando, Lisbeth conduziu, vacilando, George Bland para o seu quarto. Pendurou provisoriamente um cobertor em frente ao v�o da janela vazia, para impedir que a chuva entrasse. George Bland cruzou o olhar com o dela.</p><p>�A gente vai ter menos coisa para explicar se dissermos que n�o vimos o marido - disse Lisbeth, antes de ele ter tempo de fazer perguntas.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a. Ela tirou a roupa, deixou-a amontoada no ch�o e bateu na beira da cama a seu lado. Mais uma vez ele assentiu com a cabe�a, despiu-se e se deitou junto dela. Ca�ram quase imediatamente no sono.</p><p>Despertou por volta do meio-dia, com o sol brilhando por uns rasgos entre as nuvens. Cada m�sculo de seu corpo do�a e seu joelho estava t�o inchado que ela mal conseguia dobrar a perna. Saiu devagarinho da cama e entrou no chuveiro, dirigindo um cumprimento de cabe�a ao lagarto verde que estava de volta � parede, debaixo do teto. Enfiou um short e uma regata e saiu do quarto mancando, sem acordar George Bland.</p><p>Ella Carmichael ainda estava atarefada. Parecia cansada, mas j� pusera o bar em funcionamento no hall de entrada. Manquejando, Lisbeth foi sentar-se a uma mesa perto do balc�o, pediu caf� e um sandu�che. Olhou pelas janelas desfeitas da entrada e viu um carro de pol�cia estacionado. Acabavam de lhe entregar o caf� quando Freddy McBain saiu de sua sala, atr�s do balc�o da recep��o, seguido por um sujeito de uniforme. McBain avistou-a e disse alguma coisa ao policial antes de ir at� a mesa de Lisbeth.</p><p>�Esse � o agente Fergusson. Ele quer lhe fazer umas perguntas. Lisbeth concordou educadamente com a cabe�a. O agente Fergusson parecia cansado. Pegou um bloco e uma caneta e anotou o nome de Lisbeth.</p><p>�Miss Salander, eu soube que a senhorita, junto com um amigo, encontrou a senhora Richard Forbes durante a tempestade desta noite.</p><p>Lisbeth assentiu com a cabe�a.</p><p>�Onde encontrou a senhora Forbes?</p><p>�Na praia, perto do port�o - respondeu Lisbeth. �A gente praticamente trope�ou nela.</p><p>Fergusson tomou nota.</p><p>Ela disse alguma coisa? Lisbeth negou com a cabe�a.</p><p>Ela estava desmaiada?</p><p>Lisbeth meneou a cabe�a com ar entendido.</p><p>Ela estava com um ferimento feio na cabe�a. Lisbeth meneou mais uma vez a cabe�a.</p><p>Sabe o que causou esse ferimento?</p><p>Lisbeth balan�ou a cabe�a. Fergusson parecia meio irritado com a falta de respostas.</p><p>�Havia um monte de destro�os voando pra tudo quanto era lado disse ela, cooperativa. �Por pouco n�o levei uma t�bua na cabe�a. Fergusson meneou a cabe�a, s�rio.</p><p>�A senhorita machucou a perna?</p><p>Fergusson apontou para o curativo de Lisbeth. Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>O que houve?</p><p>N�o sei. S� vi o ferimento quando cheguei ao por�o.</p><p>A senhorita estava com um rapaz. Lisbeth meneou a cabe�a.</p><p>Qual o nome dele?</p><p>George Bland.</p><p>Onde ele mora?</p><p>�No galp�o atr�s do Coconut, na estrada que vai para o aeroporto. Quer dizer, se � que ainda existe galp�o.</p><p>Lisbeth se absteve de mencionar que, no momento, George Bland dormia em sua cama no andar de cima.</p><p>�A senhorita viu o marido dela, o Richard Forbes? Lisbeth balan�ou a cabe�a. O agente Fergusson aparentemente n�o tinha mais nada a perguntar e fechou seu bloco de anota��es.</p><p>Obrigado, senhorita Salander. Tenho que ir registrar o �bito.</p><p>Ela morreu?</p><p>�A senhora Forbes? N�o, est� no hospital de S�o Jorge. Ela sem d�vida deve agradecer � senhorita e ao seu amigo por estar viva. Mas o marido morreu. Foi encontrado no estacionamento do aeroporto duas horas atr�s.</p><p>Mais de seiscentos metros ao sul!</p><p>Estava bem machucado - explicou Fergusson.</p><p>Coitado - disse Lisbeth Salander, sem dar mostras de estar muito chocada.</p><p>Depois que McBain e Fergusson foram embora, Ella Carmichael apareceu e sentou-se � mesa de Lisbeth. Trazia dois copinhos de rum. Lisbeth interrogou-a com os olhos.</p><p>�Depois de uma noite dessas, a gente precisa de um revigorante. A rodada � por minha conta. Tamb�m estou pagando o seu caf� da manh�.</p><p>As duas mulheres se olharam. Ent�o, ergueram os copos e brindaram.</p><p>Mathilda ainda seria por muito tempo objeto de estudos cient�ficos e nos institutos meteorol�gicos das Antilhas e dos Estados Unidos. Tornados da envergadura do Mathilda eram quase desconhecidos na regi�o. Era at� mesmo considerado imposs�vel que se formassem no mar. Por fim, os especialistas chegaram a um consenso e declararam que uma configura��o articularmente estranha de frentes meteorol�gicas havia criado um pseudotornado - de fato, n�o se tratava de um leg�timo tornado, s� parecia ser um. Alguns opositores aventaram teorias envolvendo o efeito estufa e um desequil�brio ecol�gico.</p><p>Lisbeth Salander n�o prestou aten��o � discuss�o te�rica. Ela sabia o que tinha visto e resolveu tentar evitar para todo o sempre ficar no caminho de alguma irm� de Mathilda.</p><p>V�rias pessoas tinham sa�do feridas naquela noite. Por milagre, s� havia uma morte a lamentar.</p><p>Ningu�m conseguia entender o que levara Richard Forbes a sair em meio ao furac�o, a n�o ser, eventualmente, a imprud�ncia que sempre parecia estar associada aos turistas americanos. Geraldine Forbes n�o tinha nenhuma explica��o a oferecer. Estava com um grave traumatismo craniano e s� guardava imagens fragmentadas do que acontecera naquela noite. Em compensa��o, estava inconsol�vel por se encontrar vi�va.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>II � DA R�SSIA COM AMOR 10 DE JANEIRO A 23 DE MAR�O</strong></p><empty-line/><p><emphasis>Uma equa��o cont�m em geral uma ou v�rias inc�gnitas, muitas vezes designadas por x, y, z etc. Diz-se que os valores dessas inc�gnitas, que garantem a igualdade efetiva dos dois membros da equa��o, satisfazem a equa��o ou constituem sua solu��o.</emphasis></p><p><emphasis>�����������������������������������������Exemplo: 3x</emphasis> + <emphasis>4</emphasis> = <emphasis>6x - 2 (x = 2)</emphasis></p></section><section><p><strong/></p></section><section><p><strong><emphasis>4 - SEGUNDA-FEIRA 10 DE JANEIRO � TER�A-FEIRA 11 DE JANEIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander aterrissou no aeroporto de Estocolmo �s seis e meia da manh�. Viajara vinte e seis horas, nove das quais passadas no aeroporto Grantly Adams de Barbados, onde a British Airways negara-se a autorizar a decolagem do avi�o sem antes neutralizar uma amea�a terrorista e isolar um passageiro de apar�ncia �rabe suspeita, a fim de interrog�-lo. Em Londres, perdera a conex�o do �ltimo voo para a Su�cia e tivera de esperar durante horas at� que encontrassem um lugar para ela no primeiro voo da manh�.</p><p>Lisbeth se sentia um saco de bananas esquecido ao sol uma tarde inteira. S� levava uma bagagem de m�o, com seu Powerbook, o Dimensions e algumas roupas bem compactadas. Passou pela porta verde da alf�ndega sem que lhe perguntassem nada. No ponto de �nibus, foi recebida pela lama da neve e uma temperatura pr�xima de zero.</p><p>Hesitou um instante. A vida inteira, por causa de suas evidentes limita��es materiais, sempre optara pela alternativa mais barata, e ainda era dif�cil para ela se habituar � id�ia de que dispunha de perto de tr�s bilh�es de coroas que roubara astuciosamente, utilizando a internet e um bom velho golpe � antiga. Um minuto foi suficiente para ela deixar para l� a regra geral e acenar Para um t�xi. Deu seu endere�o na Lundagatan e adormeceu quase imediatamente no banco traseiro.</p><p>Quando o t�xi parou na Lundagatan e o motorista a acordou, percebeu que tinha dado o endere�o errado. Corrigiu-se e pediu que ele fosse at� a G�tgatsbacken. Pagou em d�lares americanos, deixando uma generosa gorjeta, e soltou um palavr�o ao pisar numa po�a d��gua na sarjeta. Vestia cal�a jeans, camiseta e uma jaqueta leve. Nos p�s, usava sand�lias e meias finas. Foi, vacilante, at� o supermercado da esquina, onde comprou xampu, pasta de dentes, sabonete, coalhada, queijo, ovos, p�o, p�ezinhos de canela congelados, caf�, ch� em saquinhos, pepinos em conserva, ma��s, um pacote gigante de Billys Pan Pizza e um ma�o de Marlboro light. Pagou com cart�o Visa.</p><p>Ao voltar para a rua, ficou em d�vida quanto ao caminho a seguir. Podia escolher a Svartensgatan, onde j� estava, ou a H�kensgatan, mais para baixo na dire��o de Slussen. A desvantagem da H�kensgatan � que teria de passar bem em frente � reda��o da Millennium, onde sempre corria o risco de cruzar com Mikael Blomkvist. Acabou decidindo que n�o ia ficar dando voltas s� para evitar Mikael. Tomou, portanto, a dire��o de Slussen, embora na verdade se tratasse de um pequeno desvio, e virou � direita pela H�kensgatan at� a pra�a de Mosebacke. Passou pela est�tua das Irm�s na frente do S�dra Teatern e chegou � Fiskaregatan pela escadaria. L�, parou e contemplou pensativamente um edif�cio. N�o conseguia sentir que era de fato �a sua casa�.</p><p>Olhou ao redor. Em todos os sentidos do termo, tratava-se de um recanto isolado em pleno S�dermalm. Nenhuma grande art�ria de tr�fego, o que lhe convinha muito bem. Dali tamb�m se identificava rapidamente quem quer que passasse pelas redondezas. Talvez fosse um lugar de passeio apreciado no ver�o, mas no inverno s� passava gente com algum motivo para estar naquele bairro. N�o havia absolutamente ningu�m � vista � principalmente ningu�m que ela conhecesse e que, por conseguinte tamb�m poderia reconhec�-la. Teve de colocar o saco do supermercado na lama da neve para pegar a chave. Foi de elevador at� o �ltimo andar e abriu a porta em que estava escrito o nome V. Kulla.</p><p>Uma das primeiras medidas que havia tomado no ano anterior, quando de uma hora para a outra se vira de posse de uma quantia confort�vel, tornando-se assim economicamente independente pelo resto da vida (ou, pelo menos, pelo tempo que imaginava poder viver com quase tr�s bilh�es de coroas), fora sair para procurar outro apartamento. As transa��es imobili�rias eram para ela uma experi�ncia nova. Nunca na vida tinha investido dinheiro em algo mais importante que objetos utilit�rios que podia pagar em dinheiro ou mediante um cr�dito razo�vel. Os dois maiores d�bitos da sua contabilidade tinham sido o equipamento de inform�tica e sua Kawasaki de baixa cilindrada, adquirida por sete mil coroas, uma oportunidade inesperada. Comprara pe�as avulsas por mais ou menos a mesma quantia e passara ela pr�pria v�rios meses desmontando e ajeitando a moto. Teria preferido um carro, mas hesitara em comprar um sem saber como iria financi�-lo.</p><p>J� um apartamento, ela percebeu, era um neg�cio de dimens�es bem diferentes. Come�ara lendo an�ncios de apartamentos � venda na edi��o <emphasis>on-line</emphasis> do <emphasis>Dagens Nyheter.</emphasis> Uma leg�tima ci�ncia � parte, como ela n�o demorou a se dar conta.</p><p>Apto <emphasis>qto sl + s. jant. boa local. prox. esta��o. P:</emphasis> 2,7 <emphasis>U. Condom. 5510/m�s.</emphasis></p><p><emphasis>Apto 2 dorm, vista p/ parque, H�galid.</emphasis> 2,9 <emphasis>U</emphasis></p><p><emphasis>Apto qto sl, 47m2, banh. reform, encanam, novo 1998. Gotlandsgatan. 1,8 V. Condom: 2200.</emphasis></p><p>Ela co�ara a cabe�a e tentara ligar para alguns an�ncios ao acaso, mas n�o sabia o que deveria perguntar e logo se sentiu t�o rid�cula que interrompeu o exerc�cio. Depois, no primeiro domingo de janeiro, se aventurara a visitar alguns apartamentos � venda. Um deles situava-se no Vindragarv�gen sobre o Reimersholme, e o outro na Heleneborgsgatan, perto de Horntull. O de Reimersholme era um tr�s dormit�rios claro e espa�oso com vista para L�ngholmen e Essingen. Teve a impress�o de que poderia se sentir bem ali. O apartamento da Heleneborgsgatan era um reduto s�rdido com vista para o pr�dio da frente.</p><p>O problema � que ela n�o sabia como queria morar, que cara deveria ter a sua casa e o que ela deveria exigir do seu domic�lio enquanto moradora. Nunca imaginara que poderia ter mais do que os quarenta e nove metros quadrados da Lundagatan, onde passara a inf�ncia e cujo usufruto lhe cabia desde a maioridade gra�as a seu tutor Holger Palmgren. Ent�o se acomodara no sof� embolotado da sua sala-escrit�rio integrada para refletir.</p><p>O apartamento da Lundagatan ficava no fundo de um p�tio interno, era ex�guo e pouco confort�vel. Da janela do quarto avistava a parede cega do pr�dio vizinho. A janela da cozinha dava para os fundos do edif�cio principal e para uma entrada de por�o. Da sala, avistava-se um poste de ilumina��o e uns galhos de b�tula.</p><p>A primeira exig�ncia era que seu novo apartamento tivesse uma vista bonita.</p><p>Ela gostava de sacadas e sempre invejara seus vizinhos mais favorecidos dos andares superiores do pr�dio, que passavam os dias quentes de ver�o na sacada, � sombra de um toldo e com uma cerveja fresca. A segunda exig�ncia era que sua nova moradia tivesse uma sacada.</p><p>Como deveria ser esse apartamento? Pensou no apartamento de Mikael Blomkvist � um �nico c�modo de sessenta e cinco metros quadrados num <emphasis>loft</emphasis> da Bellmansgatan com vista para a prefeitura e Slussen. Sentira-se bem na casa dele. Queria um apartamento agrad�vel, f�cil de mobiliar e de manter. Esse foi o terceiro ponto da sua lista de exig�ncias.</p><p>Fazia anos que vivia apertada. Na sua cozinha de dez metros quadrados, mal dava para acomodar uma mesinha e duas cadeiras. A sala tinha vinte metros quadrados, o quarto doze. Sua quarta exig�ncia era que a nova moradia fosse espa�osa e provida de v�rios arm�rios. Queria uma verdadeira sala de trabalho e um quarto grande onde pudesse se esparramar.</p><p>Seu atual banheiro era um reduto sem janela, com lajotas de cimento cinza no piso, uma banheira de assento antiga com um revestimento de pl�stico que continuava encardido mesmo depois de esfregado horas a fio. Ela agora queria cer�mica e uma banheira grande. Queria ter sua pr�pria lavadora de roupas no apartamento e n�o ter mais que usar a m�quina comunit�ria dos inquilinos num por�o �mido. Queria seu banheiro com um cheiro bom, e poder arej�-lo.</p><p>Ent�o entrou na internet para procurar imobili�rias. No dia seguinte, levantou cedo e foi at� a Nobel, que tinha fama de ser a melhor imobili�ria de Estocolmo. Vestia sua cal�a jeans preta surrada, botinas e uma jaqueta de couro preta. Foi at� o balc�o e olhou distraidamente para uma mulher loira de uns trinta anos que estava ocupada atualizando o site da imobili�ria e carregando fotos de apartamentos. Por fim, um homem rechonchudo de uns quarenta anos, cabelos ruivos e finos, veio atend�-la. Lisbeth perguntou que apartamentos eles tinham para oferecer, e por alguns instantes ele olhou para ela estupefato, antes de adotar um tom paternal e zombeteiro.</p><p>�Ent�o senhorita, seus pais sabem que est� pretendendo abandonar o ninho?</p><p>Lisbeth Salander o fitou em sil�ncio com seus olhos imensos at� que a risadinha dele cessasse.</p><p>�Preciso de um apartamento - ela especificou.</p><p>Ele deu uma tossidinha e olhou de relance para a colega.</p><p>�Entendo. E o que a senhorita tem em mente?</p><p>�Quero um apartamento no S�der. Tem que ter uma sacada e vista para a �gua, pelo menos tr�s dormit�rios, e um banheiro com janela e espa�o para uma m�quina de lavar roupa. E precisaria ter um lugar com chave para eu guardar a minha moto.</p><p>A mulher ao computador interrompeu seu trabalho e virou-se para encarar Lisbeth, curiosa.</p><p>�Moto? - perguntou o homem de cabelos finos. Calmamente, Lisbeth assentiu com a cabe�a.</p><p>�Posso perguntar... h�, qual o seu nome?</p><p>Lisbeth Salander se apresentou. Fez por sua vez a mesma pergunta e o homem se apresentou como Joakim Persson.</p><p>�Bem, quer dizer... <emphasis>um apartamento aqui em</emphasis> Estocolmo custa relativamente caro...</p><p>Lisbeth olhou para ele em paciente sil�ncio. Perguntou que apartamentos ele tinha para oferecer e disse que n�o se preocupava muito com o pre�o.</p><p>�A senhorita trabalha em que ramo?</p><p>Lisbeth refletiu por um instante. Formalmente, ela era sua pr�pria chefe. Na pr�tica, s� trabalhara para Dragan Armanskij na Milton Security, mas isso fora de maneira irregular durante o ano anterior, e nos �ltimos tr�s meses n�o assumira nenhuma miss�o.</p><p>�No momento, n�o estou fazendo nada em especial - respondeu com franqueza.</p><p>�Entendo... estudante, imagino.</p><p>�N�o, n�o sou estudante.</p><p>Joakim Persson viera at� o lado de c� do balc�o e, delicadamente, pusera um bra�o em volta dos ombros de Lisbeth. Deu uma risadinha enquanto a conduzia com gentileza at� a porta.</p><p>�Pois �, senhorita, ser� muito bem-vinda daqui a alguns anos, mas ter� que trazer um pouco mais do que o dinheiro do seu cofrinho. Aqui a sua mesada n�o chega a ser suficiente, sabe. - Deu-lhe um belisc�o paternal na bochecha. - Mas n�o hesite em nos procurar, vamos tentar achar algo simp�tico para a senhorita.</p><p>Lisbeth Salander ficou plantada na cal�ada em frente � imobili�ria Nobel durante uns bons minutos. Perguntava-se o que Joakim Persson iria achar se ela jogasse um coquetel Molotov na vitrine. Ent�o, voltou para casa e ligou o Powerbook.</p><p>Levou dez minutos para piratear a rede interna da Nobel gra�as aos c�digos de acesso que ela observara distraidamente quando a mulher de tr�s do balc�o se conectara para baixar as fotos. Levou mais tr�s minutos para perceber que o computador da mulher era tamb�m o servidor da empresa - <emphasis>ser� poss�vel ser t�o burro? --</emphasis> e outros tr�s para ter acesso aos catorze computadores que compunham a rede. Em pouco mais de duas horas, esmiu�ou a contabilidade de Joakim Persson e constatou que ele sonegara ao fisco perto de setecentos e cinquenta mil coroas nos �ltimos dois anos.</p><p>Baixou todos os arquivos indispens�veis e os reuniu num pacote coerente, que enviou por e-mail para o Tesouro P�blico usando o endere�o an�nimo de um fornecedor de acesso americano. Feito isso, expulsou Joakim Persson do pensamento.</p><p>Dedicou o restante do dia a percorrer as ofertas de apartamentos interessantes da Imobili�ria Nobel. O im�vel mais caro era um pequeno castelo pr�ximo a Mariefred, onde ela n�o tinha a menor vontade de se instalar. S� para perturbar, escolheu o segundo im�vel mais caro entre as ofertas da Nobel, um apartamento grandioso na Fiskaregatan, perto de Mosebacke Torg.</p><p>Passou um bom tempo examinando as fotos e estudando o mapa da cidade. Por fim, concluiu que o apartamento da Fiskaregatan preenchia perfeitamente todas as exig�ncias de sua lista. O antigo propriet�rio era um diretor da ABB que sa�ra de cena depois de conceder a si mesmo um sensacional e criticad�ssimo pacote de demiss�o de um bilh�o de coroas.</p><p>� noite, pegou o telefone e ligou para Jeremy MacMillan, um dos s�cios do escrit�rio de advocacia MacMillan &amp; Marks em Gibraltar. J� tivera assuntos a tratar com MacMillan. Fora ele quem, mediante uma generosa remunera��o, criara para ela um certo n�mero de empresas de fachada. Essas empresas eram titulares das contas banc�rias que geriam a fortuna que ela surrupiara do financista Hans-Erik Wennerstr�m no ano anterior.</p><p>Tornou a solicitar os servi�os de MacMillan. Desta vez, pediu que ele atuasse em nome de sua empresa Wasp Enterprises e entabulasse negocia��es com a Imobili�ria Nobel no intuito de adquirir o gracioso apartamento da Fiskaregatan, pr�ximo a Mosebacke Torg. A transa��o durou quatro dias, e a fatura final representava uma quantia que a fez erguer uma sobrancelha. Mais cinco por cento de comiss�o para MacMillan. Antes do final da semana, ela j� tinha feito a mudan�a de duas caixas de roupas, roupa de cama, um colch�o e alguns poucos utens�lios de cozinha. Ent�o habitara � ou pelo menos dormira num colch�o � o apartamento por tr�s semanas, durante as quais tratara de procurar cl�nicas de cirurgia est�tica, resolver algumas pend�ncias administrativas (entre elas, uma conversa noturna com um certo Dr. Nils Bjurman) e pagar antecipadamente algumas despesas fixas, condom�nio, energia el�trica etc.</p><p>Depois disso, comprara a passagem para ir at� a cl�nica na It�lia. Quando, uma vez efetuada a cirurgia, tivera alta da cl�nica, hospedara-se num hotel em Roma a fim de pensar sobre o que iria fazer. Deveria voltar � Su�cia e come�ar a organizar sua vida, mas, por diversos motivos, s� de pensar em Estocolmo lhe dava n�useas.</p><p>N�o tinha uma profiss�o de fato. A impress�o � de que n�o havia futuro para ela na Milton Security. N�o por culpa de Dragan Armanskij. Ele gostaria que ela integrasse o quadro de funcion�rios fixos e se tornasse um elemento importante dentro da empresa, mas, aos vinte e cinco anos, ela ainda n�o possu�a nenhuma forma��o. N�o queria chegar aos cinquenta anos para descobrir que ainda passava a vida investigando delinquentes do mundo empresarial. Aquilo era um passatempo divertido, n�o a voca��o de uma vida.</p><p>Um dos motivos de sua resist�ncia a voltar para Estocolmo atendia pelo nome de Mikael Blomkvist. Em Estocolmo, ela corria seriamente o risco de topar com aquele Maldito Super-Blomkvist, o que no momento era uma das �ltimas coisas que ela queria. Ele a machucara. Tinha a honestidade de reconhecer que ele n�o tivera essa inten��o. S� podia culpar a si mesma por ter se apaixonado por ele. A mera palavra �apaixonado� era uma contradi��o, tratando-se dessa Maldita Babaca da Lisbeth Salander, um metro e cinquenta e uma apar�ncia f�sica que necessariamente suscitava coment�rios, sem esquecer uma bagagem social que a transformava em atra��o onde quer que aparecesse.</p><p>Mikael Blomkvist era um not�rio mulherengo. Ela representava, quando muito, uma divers�o agrad�vel aceita com compaix�o num momento em que ele tinha precisado dela e n�o achara nada melhor, mas ele passaria rapidamente para outra cama com uma companhia muito mais interessante. Ela n�o tinha a menor chance nessa �rea e amaldi�oava a si mesma por ter baixado a guarda e deixado ele se aproximar. Como pudera imaginar algo diferente?</p><p>Quando se refizera, cortara qualquer contato com ele. Tinha sido doloroso, mas conseguira se blindar. A �ltima vez que o vira, fora na esta��o de metr� Gamla Stan - ela estava na plataforma e ele, num trem em dire��o ao centro. Ficara olhando para ele durante um minuto e ent�o resolvera que n�o nutria nem um �timo de sentimento por ele, pois isso significaria sangrar at� morrer. <emphasis>V� se danar!</emphasis> Ele a avistara no exato momento em que as portas se fechavam e fixara os olhos nela antes que ela desse meia-volta e fosse embora enquanto o metr� se punha em movimento.</p><p>Ela n�o entendia por que ele teimava em querer manter contato com ela, em mandar e-mails, como se ela fosse para ele um maldito projeto social. Enfurecia-se ao constatar que ele aparentemente n�o se dava conta de que a cada e-mail que mandava, e que ela apagava sem ler, era como se seu cora��o se despeda�asse.</p><p>N�o, Estocolmo n�o a atra�a nem um pouco. Tirando o dono da Milton Security, alguns antigos parceiros de cama e as meninas do ex-grupo de rock Evil Fingers, com quem mantinha uma amizade superficial e tomava uma cerveja no Moulin uma vez por m�s, n�o conhecia praticamente ningu�m na sua cidade natal.</p><p>A �nica pessoa por quem nutria um respeito desconfort�vel era Dragan Armanskij. Achava dif�cil definir seu sentimento por ele. Sempre se sentira vagamente confusa por experimentar essa atra��o um tanto inc�moda. Se ele n�o fosse casado, se fosse um pouco mais mo�o e um pouco menos conservador no seu modo de encarar a vida, ela poderia ter cogitado chegar mais perto para ver.</p><p>Por fim, pegara a agenda e a abrira na parte do atlas. Nunca tinha ido para a Austr�lia nem para a �frica. Tinha visto as pir�mides e Angkor Vat em fotos, mas nunca ao vivo. Nunca andara no <emphasis>Star Ferry</emphasis> entre Kowloon e Victoria em Hong Kong, nunca praticara mergulho nas Antilhas, nunca fora a uma praia da Tail�ndia. Com exce��o de algumas viagens r�pidas de trabalho para os pa�ses b�lticos e pa�ses n�rdicos e, evidentemente, Zurique e Londres, nunca na vida tinha sa�do da Su�cia. Na verdade, raras vezes sa�ra de Estocolmo.</p><p>N�o tivera condi��es para isso.</p><p>No hotel de Roma, ficou na janela contemplando a via Garibaldi. Roma era uma cidade que lembrava um monte de ru�nas. Ela ent�o se decidiu, vestiu a jaqueta e foi at� a recep��o perguntar se havia uma ag�ncia de viagens ali perto. Na ag�ncia, comprou uma passagem de ida para Tel-Aviv e, nos dias seguintes, passeou pela antiga Jerusal�m, contemplando a mesquita Al-Aqsa e o Muro das Lamenta��es. Desconfiada, observou em cada esquina os soldados armados at� os dentes, em seguida voou para Bangcoc e prosseguiu assim at� o final do ano.</p><p>S� lhe restava uma coisa importante a fazer. Foi at� Gibraltar, para ver quem era o homem a quem confiara a gest�o de seu dinheiro e conferir se ele estava fazendo o seu trabalho direito.</p><p>Girar a chave do apartamento que agora lhe pertencia foi uma sensa��o esquisita.</p><p>Largou a sacola de compras e a bolsa de viagem no hall de entrada e teclou rapidamente o c�digo de quatro algarismos que desligava o alarme eletr�nico. Tirou a roupa molhada e deixou-a cair no ch�o. Completamente nua, deu uma voltinha na cozinha, ligou a geladeira e guardou as compras antes de ir para o banheiro. Passou os dez minutos seguintes debaixo do chuveiro. Comeu uma ma�� em fatias e uma Billys Pan Pizza, que aqueceu no micro-ondas. Abriu uma das caixas da mudan�a e achou um travesseiro, len��is e um cobertor com um cheiro suspeito, depois de ter passado um ano encaixotado. Arrumou a cama num colch�o, no ch�o do quarto cont�guo � cozinha.</p><p>Levou dez segundos para pegar no sono depois que p�s a cabe�a no travesseiro, dormiu quase doze horas seguidas e acordou pouco antes da meia-noite. Levantou-se, fez caf� e se enrolou num cobertor. P�s o travesseiro diante de uma janela e se instalou com um cigarro para ficar olhando o parque de Djurg�rden e a ba�a de Saltsj�n. As luzes a fascinavam. No escuro, refletiu sobre sua vida.</p><p>No dia seguinte, Lisbeth Salander teve uma agenda cheia. Fechou a porta de seu apartamento �s sete horas. Antes de descer, abriu uma janela de ventila��o na escada e pendurou uma c�pia da chave com um fino fio de cobre que amarrou atr�s da calha. Escaldada por experi�ncias anteriores aprendera como era �til sempre ter � m�o uma c�pia da chave.</p><p>Fazia um frio de rachar. Ela vestia uma velha cal�a jeans gasta com um rasgo debaixo do bolso de tr�s, que deixava ver sua calcinha azul. Enfiara uma camiseta e uma blusa de gola alta cuja costura estava soltando no pesco�o. Tirara da caixa sua velha jaqueta de couro surrado, com rebites nos ombros. Concluiu que teria sido melhor deix�-la num costureiro para ele arrumar o forro rasgado e quase inexistente dos bolsos. Estava com meias grossas e sapatos fortes. No geral, sentia calor.</p><p>Pegou a Sankt Paulsgatan para ir at� o bairro de Zinkensdamm e ao seu antigo endere�o na Lundagatan. Primeiro, conferiu se a sua Kawasaki ainda estava em seu lugar no por�o. Para abrir a porta do antigo apartamento, precisou empurrar uma pilha imensa de folhetos publicit�rios.</p><p>Antes de sair da Su�cia, um ano antes, hesitara sobre o que fazer com aquele apartamento, e a solu��o mais simples fora o sistema de d�bito autom�tico para pagar todas as despesas fixas. Ainda restavam alguns m�veis, juntados a muito custo em diversos caminh�es de lixo seco, canecos rachados, dois computadores velhos e uma consider�vel papelada. Mas nada de valor.</p><p>Pegou na cozinha um saco de lixo preto e levou cinco minutos separando a correspond�ncia da publicidade. A maior parte da pilha foi direto para o lixo. Tinha recebido cartas pessoais do g�nero extrato banc�rio, declara��o de rendimentos da Milton Security para o Imposto de Renda ou publicidade disfar�ada. Uma vantagem da tutela � que ela nunca precisara tratar da papelada dos impostos - que brilhava pela aus�ncia. Afora isso, durante aquele ano inteiro s� recebera tr�s cartas em seu nome.</p><p>A primeira era de uma advogada Greta Molander, que tinha sido a administradora <emphasis>ad hoc</emphasis> legal de sua m�e. A carta comunicava sucintamente que o invent�rio de sua m�e estava conclu�do e que Lisbeth Salander e sua irm� Camilla Salander eram herdeiras de 9312 coroas cada uma. Essa quantia fora depositada na conta da Srta. Salander. Ela poderia, por gentileza, confirmar o recebimento? Lisbeth guardou a carta no bolso interno da jaqueta.</p><p>A segunda carta era da Sra. Mikaelsson, diretora da casa de sa�de de Appelviken, gentilmente comunicando que ainda estava l� uma caixa com os pertences de sua m�e � ela poderia ter a delicadeza de entrar em contato com Appelviken para dar instru��es a respeito? A diretora conclu�a informando que se n�o tivessem not�cias de Lisbeth ou de sua irm� (cujo endere�o desconheciam) antes do final do ano, jogariam fora os pertences. Verificou o cabe�alho da carta, datada do m�s de junho, e pegou o celular. Precisou esperar at� que lhe passassem a pessoa certa, e ent�o descobriu que a caixa ainda n�o havia sido jogada fora. Desculpou-se por n�o ter dado not�cias mais cedo e prometeu aparecer no dia seguinte para apanhar as coisas.</p><p>A terceira carta pessoal era de Mikael Blomkvist. Ela pensou um pouco, mas concluiu que ler a carta ainda seria muito do�do e jogou-a no lixo.</p><p>Acomodou numa caixa alguns objetos e quinquilharias que queria guardar e pegou um t�xi para a Fiskaregatan. Subiu rapidamente ao apartamento para se maquiar, p�r �culos, uma peruca loira semilonga, e enfiar na bolsa um passaporte noruegu�s em nome de Irene Nesser. Olhou-se no espelho e constatou que, embora Irene Nesser fosse um pouco parecida com Lisbeth Salander, tratava-se de uma mulher muito diferente.</p><p>Depois de almo�ar rapidamente uma baguete com queijo brie e um <emphasis>caff� latte</emphasis> no �den da G�tgatan, foi at� a autolocadora de Ringv�gen, onde Irene Nesser alugou uma Nissan Micra. Ent�o dirigiu-se � Ikea de Kungens Kurva, onde passou tr�s horas percorrendo toda a loja e anotando as refer�ncias de que precisava. Tomou decis�es bastante r�pidas.</p><p>Comprou dois estofados cor de areia, cinco poltronas de estrutura flex�vel, um par de gueridons de b�tula envernizados, uma mesa de centro e algumas mesinhas de apoio. Pediu dois arm�rios modulados, duas estantes para livros, um <emphasis>rack</emphasis> para a televis�o e uma estante com portas. Completou com um arm�rio de tr�s portas acoplado a um m�dulo de canto e duas c�modas combinando.</p><p>Ficou um bom tempo escolhendo uma cama, para a qual levou tamb�m colch�o e acess�rios. Por precau��o, comprou, al�m disso, uma cama para o quarto de h�spedes. N�o esperava de fato ter visitas algum dia, mas j� que tinha um quarto de h�spedes n�o custava mobili�-lo.</p><p>O banheiro do apartamento novo j� vinha inteiramente equipado com arm�rios e uma lavadora de segunda m�o. Contentou-se em comprar um cesto de roupa barato.</p><p>Em compensa��o, faltavam-lhe m�veis de cozinha. Depois de hesitar um pouco, escolheu uma mesa de carvalho maci�o com tampo de vidro temperado e quatro cadeiras de cores vivas.</p><p>Tamb�m precisava de m�veis para a sua sala de trabalho e ficou boquiaberta ao ver algumas �esta��es de trabalho� com arranjos engenhosos para a CPU e o teclado. Por�m, balan�ou a cabe�a e pediu uma escrivaninha absolutamente comum de aglomerado, revestida com laminado de faia, curvo e com �ngulos arredondados, e um arm�rio do mesmo modelo. Demorou-se escolhendo a cadeira - na qual provavelmente iria passar longas horas - e optou por uma das poltronas girat�rias mais caras.</p><p>Para terminar, deu uma volta e comprou um estoque consider�vel de len��is, fronhas, toalhas, edredons, cobertores, um kit de instala��o que inclu�a talheres de todo tipo, lou�a e panelas, t�buas de corte, e acrescentou tr�s tapetes grandes, v�rias lumin�rias de trabalho e uma boa quantidade de material de escrit�rio sob a forma de arquivos, cesto de papel, caixas organizadoras, entre outros.</p><p>Terminada a volta na loja, passou no caixa com sua lista. Pagou com o cart�o da Wasp Enterprises e mostrou o passaporte de Irene Nesser para comprovar sua identidade. Tamb�m pagou adiantado a entrega e a montagem. O total chegava a pouco mais de noventa mil coroas.</p><p>Retornou ao S�der por volta das dezessete horas e ainda teve tempo de dar um pulo r�pido na Axelssons Radio-Televis�o, onde comprou um televisor de dezoito polegadas e um radiocassete. Entrou numa loja da Hornsgatan pouco antes do fechamento e comprou um aspirador. Na Mariahallen, adquiriu um escov�o, sab�o, um balde, sab�o em p�, escova de dente e um pacote grande de papel higi�nico.</p><p>Saiu exausta de sua louca jornada de compras. Colocou as �ltimas aquisi��es na Nissan Micra alugada, foi at� a Hornsgatan e desabou no primeiro andar do caf� Java. Pegou um jornal da tarde na mesa ao lado e descobriu que o partido socialdemocrata continuava com maioria no governo e que nada de capital import�ncia parecia ter acontecido no pa�s durante sua aus�ncia.</p><p>Voltou ao apartamento �s oito da noite. Aproveitou que estava escuro, descarregou o carro e levou tudo para o apartamento de V. Kulla. Deixou as compras jogadas no hall de entrada e passou meia hora procurando um lugar numa rua lateral para estacionar o carro alugado. Ao retornar, preparou um banho e ficou uma hora naquele spa em que pelo menos tr�s pessoas poderiam entrar sem se espremer. Por um momento, pensou em Mikael Blomkvist. At� ver a carta, pela manh�, havia meses que n�o pensava nele. Perguntou-se se ele estaria em casa e se Erika Berger estaria lhe fazendo companhia.</p><p>Depois de algum tempo, respirou profundamente, inclinou a cabe�a e mergulhou o rosto na �gua. Colocou as m�os nos seios, beliscou os mamilos com for�a e prendeu a respira��o por v�rios minutos, at� que seus pulm�es come�assem a doer terrivelmente.</p><p>Erika Berger, diretora da <emphasis>Millennium,</emphasis> olhou ostensivamente para o rel�gio quando Mikael Blomkvist chegou quase quinze minutos atrasado � sacrossanta reuni�o de planejamento de toda segunda ter�a-feira do m�s, onde se definiam as linhas gerais da programa��o editorial e se tomavam as decis�es de longo prazo.</p><p>Mikael desculpou-se pelo atraso e resmungou uma explica��o que ningu�m ouviu, ou que pelo menos ningu�m registrou. Al�m de Erika, estavam presentes � reuni�o a assistente de reda��o Malu Eriksson, o s�cio e diretor de arte Christer Malm, a jornalista Monika Nilsson e os <emphasis>freelancers</emphasis> Lottie Karim e Henry Cortez, que trabalhavam na revista em tempo parcial. Todos tinham a obriga��o de participar da reuni�o de ter�a-feira, cujo item principal da pauta era o planejamento da edi��o seguinte. Mikael Blomkvist reparou imediatamente na aus�ncia da jovem estagi�ria sedutora e na presen�a de um rosto desconhecido, embora fosse raro algu�m de fora ser autorizado a participar das reuni�es de planejamento da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�Quero apresentar a voc�s o Dag Svensson - disse Erika Berger. -Vamos comprar um texto dele.</p><p>Mikael Blomkvist meneou a cabe�a e apertou-lhe a m�o. Loiro de olhos azuis, Dag Svensson tinha cabelos bem curtos e uma barba de tr�s dias. Estava em torno dos trinta anos e exalava for�a e sa�de.</p><p>�Como todo ano, vamos lan�ar um ou dois n�meros tem�ticos - prosseguiu Erika. �Eu queria este assunto para o n�mero de maio. A gr�fica j� est� reservada para 27 de abril. Isso nos d� tr�s meses para produzir os textos.</p><p>�E qual � o tema? - perguntou Mikael.</p><p>Dag Svensson veio me ver, semana passada, com o esbo�o de um assunto. Pedi a ele que viesse � reuni�o. Ele vai poder explicar melhor que eu - disse Erika, voltando-se para Dag.</p><p>�Tr�fico de mulheres - disse Dag Svensson. �Ou seja, explora��o sexual de mulheres. No caso, s�o principalmente mulheres origin�rias dos pa�ses b�lticos e do Leste europeu. Na verdade, estou escrevendo um livro sobre o assunto, por isso entrei em contato com a Erika - j� que voc�s tamb�m t�m uma editora.</p><p>Todo mundo pareceu achar gra�a. At� agora, a Millennium Editora s� tinha publicado um livro, que vinha a ser o tijol�o de Mikael Blomkvist sobre o imp�rio financeiro do bilion�rio Wennerstr�m, lan�ado um ano antes. O livro estava na sexta edi��o na Su�cia, fora publicado em noruegu�s, alem�o e ingl�s e estava sendo traduzido para o franc�s. Aquele sucesso comercial lhes parecia um tanto incompreens�vel, considerando-se que a hist�ria j� estava para l� de conhecida e tinha sido contada em in�meros jornais.</p><p>�A nossa produ��o de livros n�o � das mais consistentes - disse Mikael, cauteloso.</p><p>Dag Svensson esbo�ou um sorriso.</p><p>�Isso eu j� entendi. Ainda assim, voc�s s�o uma editora.</p><p>�Existem outras maiores - observou Mikael.</p><p>�Sem d�vida - disse Erika Berger. �Mas faz um ano que estamos discutindo se partimos de fato para a edi��o de livros. Levantamos o assunto em duas reuni�es do conselho administrativo, e todos se mostraram muito receptivos. A id�ia � uma pol�tica editorial limitada a tr�s, quatro livros por ano, que seriam apenas, grosso modo, reportagens sobre diferentes temas. Ou seja, t�picos produtos jornal�sticos. O livro de Dag se inscreve perfeitamente dentro dessa �ptica.</p><p>�Tr�fico de mulheres - disse Mikael Blomkvist. - Fale mais a respeito.</p><p>�Estou h� quatro anos trabalhando no assunto. De certa forma, fui levado a ele pela minha companheira. Ela se chama Mia Bergman, � criminologista e a pesquisa dela se encaixa nesta �rea. Ela trabalhou no Conselho de Preven��o Criminal e pesquisou a legisla��o relacionada ao com�rcio sexual.</p><p>�Conhe�o a Mia Bergman - interveio Malu Eriksson. �Fiz uma entrevista com ela, dois anos atr�s, quando ela publicou um relat�rio comparativo sobre o tratamento dado a homens e mulheres num tribunal.</p><p>Dag Svensson meneou a cabe�a e sorriu.</p><p>�� verdade, esse relat�rio foi muito comentado - disse. �Ela vem pesquisando sobre o tr�fico de seres humanos de uns cinco, seis anos para c�. Foi assim que a gente se conheceu. Eu estava investigando o com�rcio do sexo via internet e me aconselharam a conversar com ela. Resumindo, come�amos a trabalhar juntos, eu corno jornalista e ela como pesquisadora, no meio da hist�ria viramos um casal e j� faz um ano que moramos juntos. Ela est� fazendo doutorado, vai defender a tese na primavera. O tema � o tr�fico de mulheres.</p><p>�Quer dizer que ela escreve a tese e voc�...?</p><p>�Eu escrevo a vers�o grande p�blico da tese, acrescentando meu trabalho pessoal. E tamb�m uma vers�o resumida em forma de artigo, que foi o que passei para a Erika.</p><p>�Certo, voc�s formam uma equipe. E qual � a hist�ria?</p><p>�Grosso modo... temos um governo que aprovou uma lei rigoros�ssima para o com�rcio sexual, temos uma pol�cia para cuidar da aplica��o dessa lei e tribunais para julgar criminosos sexuais - qualificamos os clientes como criminosos sexuais, j� que virou crime pagar por servi�os sexuais -, temos uma m�dia que escreve textos moralizantes e indignados sobre o assunto, e tutti quanti. Mas, paralelamente, a Su�cia � um dos maiores consumidores per capita de prostitutas origin�rias da R�ssia e dos pa�ses b�lticos.</p><p>�E voc� tem como provar?</p><p>�N�o � nenhum segredo. O assunto, inclusive, est� longe de ser novidade. Agora, a novidade � que n�s interrogamos uma d�zia de Lilya 4-ever. S�o, na maioria, garotas entre quinze e vinte anos, estagnadas na mis�ria social dos pa�ses do Leste europeu, trazidas para c� com promessas variadas de emprego e que no fim das contas caem nas garras de uma m�fia do sexo absolutamente inescrupulosa. Algumas experi�ncias dessas garotas fazem do <emphasis>Lilya 4-ever</emphasis> um entretenimento familiar. E n�o digo isso desmerecendo o filme de Moodysson, que � excelente. O que eu quero dizer � que essas garotas viveram coisas que simplesmente n�o d� para descrever num filme.</p><p>�Certo.</p><p>�Este, por assim dizer, � o cerne da tese da Mia. Mas n�o do meu livro. Um sil�ncio instalou-se em volta da mesa.</p><p>�Enquanto Mia entrevistava as garotas, eu, por minha vez, estabeleci uma cartografia dos fornecedores e da clientela.</p><p>Mikael nunca estivera com Dag Svensson antes, mas de repente sentiu que ele era exatamente o tipo de jornalista que ele apreciava, desses que sabiam se ater ao essencial. Para Mikael, a regra de ouro do jornalismo era que sempre h� um respons�vel. O malvado.</p><p>�E voc� descobriu fatos interessantes?</p><p>�Sim, tenho condi��es de provar que um funcion�rio do Minist�rio da Justi�a, que trabalhou na elabora��o da lei do com�rcio sexual, explorou no m�nimo duas garotas que chegaram aqui atrav�s da m�fia do sexo. Uma delas tinha quinze anos.</p><p>�Uau!</p><p>�Estou nessa hist�ria h� tr�s anos. O livro apresenta estudos com exemplos de clientes sexuais. Tenho pelo menos tr�s tiras, sendo que um deles trabalha na S�po e outro na Pol�cia de Costumes. Tenho cinco advogados, um procurador e um juiz. Peguei tamb�m tr�s jornalistas, sendo que um deles escreveu v�rios textos sobre com�rcio sexual. Na vida privada, ele se entrega a del�rios de estupro com uma prostituta adolescente de Tallinn... e nesse caso n�o se trata exatamente de prefer�ncias sexuais partilhadas. Pretendo divulgar os nomes. A minha documenta��o � superconsistente.</p><p>Mikael Blomkvist deu um assobio. Ent�o, parou de sorrir.</p><p>�Como voltei a ser o editor respons�vel pela publica��o, fa�o quest�o de examinar esses documentos com lente de aumento - disse. �A �ltima� vez que descuidei na confer�ncia das minhas fontes, acabei pegando tr�s meses de cadeia.</p><p>�Se voc�s aceitarem publicar minha hist�ria ponho � disposi��o os documentos que quiser. Mas s� vendo o assunto para a <emphasis>Millennium</emphasis> com uma condi��o.</p><p>�Dag quer que a gente tamb�m publique o livro - disse Erika erger.</p><p>�De fato, quero que o livro seja publicado. Quero que ele caia feito uma bomba, e no momento a Millennium � a revista com maior credibilidade e mais impertinente da cidade. Dificilmente outra editora ousaria publicar um livro como esse.</p><p>�Ou seja, sem livro n�o h� artigo - resumiu Mikael.</p><p>�Por mim, acho que faz sentido - disse Malu Eriksson.</p><p>�Artigo e livro s�o duas coisas diferentes. No caso do artigo na revista, Mikael � o respons�vel pela publica��o. No que diz respeito ao livro, o autor � que � respons�vel.</p><p>�Eu sei - disse Dag Svensson. �Isso n�o me preocupa. No exato momento da publica��o do livro, Mia vai denunciar todos os caras que eu cito.</p><p>�Vai ser um au� - disse Henry Cortez.</p><p>�Isso � s� metade da hist�ria - disse Dag Svensson. �Tamb�m investiguei as redes que ganham dinheiro com esse com�rcio. Porque se trata realmente de crime organizado.</p><p>�E quem voc� descobriu?</p><p>�A� � que a coisa fica especialmente tr�gica. A m�fia do sexo n�o passa de um bando s�rdido de p�s-rapados. N�o sei bem o que eu esperava quando comecei a pesquisa, mas de algum modo fomos levados a pensar - ou pelo menos eu fui levado a pensar - que essa �m�fia� era um bando de gente chique da elite social, que circula em carros de luxo. Imagino que alguns filmes americanos que abordam o tema contribu�ram para eu formar essa imagem. O seu trabalho sobre o Wennerstr�m - Dag lan�ou um olhar para Mikael - mostrou que esse pode ser o caso. Mas o Wennerstr�m era uma das exce��es. Eu me deparei foi com um amontoado de cretinos s�dicos e brutais que mal sabem ler e escrever, e s�o uns perfeitos idiotas no que se refere a organiza��o e estrat�gia. Esses caras trabalham em associa��o com grupos de motoqueiros e outros c�rculos um pouco mais estruturados, mas, no geral, o com�rcio sexual � tocado por um bando de gente burra.</p><p>�Isso transparece claramente no seu artigo - disse Erika Berger. �N�s temos leis, um corpo policial e uma justi�a financiados por milh�es de coroas sa�dos do bolso do contribuinte, que supostamente deveriam cuidar dessa delinqu�ncia lucrativa, e n�o conseguem prender um bando de idiotas.</p><p>�O inteiro com�rcio sexual n�o passa de uma grande viola��o dos direitos humanos, e as garotas envolvidas est�o num n�vel t�o baixo da escala social que juridicamente n�o apresentam o menor interesse. Elas n�o votam. Tirando o vocabul�rio necess�rio para fechar um neg�cio, elas mal falam sueco. Dos crimes ligados ao com�rcio sexual, 99,9% nunca foram registrados na pol�cia e muito menos chegam aos tribunais. � provavelmente o maior iceberg na paisagem da criminalidade sueca. Imaginem se os assaltos a m�o armada fossem tratados com o mesmo descaso, e s� uma �nfima parte fosse denunciada. Minha conclus�o � que essa atividade n�o continuaria nem mais um dia sequer n�o fosse o fato de que a Justi�a simplesmente <emphasis>n�o</emphasis> quer p�r um fim a ela. Os abusos sexuais contra adolescentes de Tallinn e Riga simplesmente n�o s�o uma quest�o priorit�ria. Uma puta � uma puta. Faz parte do sistema.</p><p>��... triste realidade - disse Monika Nilsson.</p><p>�Ent�o, o que voc�s acham? - perguntou Erika Berger.</p><p>�A id�ia me atrai - disse Mikael Blomkvist. �Vamos nos arriscar, mas esse era o objetivo quando lan�amos a <emphasis>Millennium</emphasis> anos atr�s.</p><p>�� por isso que eu ainda trabalho aqui. O gerente � capaz de dar um salto mortal de vez em quando - disse Monika Nilsson.</p><p>Todo mundo riu, menos Mikael.</p><p>��, o Mikael foi o �nico bobo o suficiente para aceitar ser o respons�vel pela publica��o - disse Erika Berger. �Vamos pegar esse assunto para maio. Com o livro saindo na esteira.</p><p>�O livro est� pronto? - perguntou Mikael.</p><p>�N�o. Estou com a sinopse toda, mas ainda falta redigir metade. Se voc�s concordarem em publicar e me derem um adiantamento, posso trabalhar nele em tempo integral. A pesquisa est� praticamente conclu�da. S� falta completar alguns anexos, na verdade confirma��es daquilo que eu j� sei - e ainda tenho que me encontrar com os clientes que vou denunciar.</p><p>�Vamos fazer o que fizemos com o livro do Wennerstr�m. Nunca entendi por que os editores costumam exigir dezoito meses para produzir um livro de umas poucas centenas de p�ginas. Precisamos de uma semana para a diagrama��o - Christer Malm assentiu com a cabe�a - e duas para a impress�o. Fazemos as revis�es em mar�o e abril e um resumo de quinze p�ginas, que v�o ser as �ltimas. Precisamos do manuscrito fechado em 15 de abril, para dar tempo de checar todas as fontes.</p><p>�Como funciona o contrato e essas coisas todas? Erika Berger franziu o cenho:</p><p>�Nunca redigi um contrato de edi��o, vou ter que ver isso com o nosso advogado. Mas proponho empregar voc� por quatro meses, de fevereiro a maio, at� voc� terminar o projeto. E saiba que nossos sal�rios n�o s�o mirabolantes.</p><p>�Para mim est� bem. Preciso de um sal�rio-base para poder me concentrar no livro em tempo integral.</p><p>�Fora isso, em regra, meio a meio sobre as vendas do livro, uma vez deduzidas as despesas. O que voc� acha?</p><p>�Parece perfeito - disse Dag Svensson.</p><p>�Divis�o de tarefas - disse Erika Berger. �Malu, quero voc� de assistente editorial deste n�mero tem�tico. Vai ser a sua tarefa a partir do m�s que vem; voc� vai trabalhar com Dag Svensson na reda��o do manuscrito. Lottie, isso quer dizer que voc� vai assumir temporariamente a assist�ncia de reda��o, de mar�o a maio. Vai passar a trabalhar em per�odo integral, e Malu ou Mikael v�o lhe dar uma m�o dependendo da disponibilidade deles.</p><p>Malu Eriksson assentiu com a cabe�a.</p><p>�Mikael, fa�o quest�o que voc� seja o editor desse livro. - Erika olhou para Dag Svensson. �Mikael n�o gosta de admitir, mas ele escreve muito bem e, al�m disso, tem experi�ncia em pesquisa. Ele vai p�r cada palavra do seu livro num microsc�pio. Para mim, � uma honra voc� querer publicar esse livro com a gente, mas saiba que na <emphasis>Millennium</emphasis> temos problemas bem espec�ficos. Temos alguns desafetos que adorariam nos ver enfiar os p�s pelas m�os. Quando a gente se atreve a publicar alguma coisa, ela tem que estar cem por cento irretoc�vel. N�o podemos nos permitir nada menos que isso.</p><p>�Nem eu gostaria que fosse diferente.</p><p>��timo. Mas voc� vai aguentar uma pessoa em cima de voc�, enchendo voc� de cr�ticas a primavera inteira?</p><p>Dag Svensson riu e olhou para Mikael.</p><p>�Vai, pode come�ar.</p><p>Mikael meneou a cabe�a. Erika prosseguiu:</p><p>�Se vamos fazer um n�mero tem�tico, precisamos de mais artigos. Mikael, quero que voc� escreva algo sobre as finan�as do com�rcio sexual. Quanto ele consome anualmente? Quem acumula os lucros e onde vai parar o dinheiro? Temos como provar que parte dele se encontra nos cofres do Estado? Monika, quero que voc� trabalhe no abuso sexual em geral. Contate o SOS-Mulheres, pesquisadores, m�dicos e autoridades. Monika e Mikael, portanto, mais o Dag, assinam os textos principais. Henry, quero uma entrevista com a companheira do Dag, Mia Bergman. Dag, logicamente, n�o pode fazer isso. Um perfil: quem � ela, os temas que ela pesquisa e quais s�o suas conclus�es. Tamb�m gostaria que voc� se detivesse em alguns casos esmiu�ados em investiga��es policiais. Christer: fotos. N�o sei como vamos poder ilustrar isso. Pense no assunto.</p><p>�Pois esse tema � dos mais f�ceis de ilustrar. Tem muita for�a. N�o tem problema.</p><p>�Se me permitem acrescentar uma coisa - disse Dag Svensson. �Alguns tiras fazem realmente um bom trabalho. Talvez valesse a pena entrevistar um deles.</p><p>�Voc� tem nomes? - perguntou Henry Cortez.</p><p>�Tenho at� os telefones - respondeu Dag Svensson.</p><p>�Perfeito - disse Erika Berger. �O tema do n�mero de maio ser�, portanto, o com�rcio sexual. Com ele, teria que ficar claro que o tr�fico de mulheres � um leg�timo atentado aos direitos humanos e que os criminosos que o organizam t�m de ser presos e tratados como qualquer criminoso de guerra ou de esquadr�o da morte. Bem, crian�as, ao trabalho!</p></section><section><p><strong><emphasis>5 - QUARTA-FEIRA 12 DE JANEIRO � SEXTA-FEIRA - 14 DE JANEIRO</emphasis></strong></p><p>�ppelviken lhe passou a impress�o de um lugar estranho e desconhecido quando Lisbeth, pela primeira vez em um ano e meio, dirigiu-se para os pr�dios ao volante da sua Nissan Micra alugada. Desde seus quinze anos, algumas vezes por ano, visitava regularmente a m�e, que fora acolhida nesta casa de sa�de depois que Todo o Mal acontecera.</p><p>Chamava-se Agneta Sofia Salander. Seus catorze �ltimos anos tinham sido marcados por uma seq��ncia reiterada de pequenos derrames cerebrais, rupturas de vasos sang��neos finos como fios de cabelo, que a impediram de cuidar de si mesma e de realizar as tarefas cotidianas. Em certos momentos, estivera incapaz de se comunicar, tivera dificuldade em reconhecer Lisbeth e formular seus pensamentos em palavras.</p><p>Lisbeth Salander n�o gostava muito de pensar na m�e. Tais pensamentos a conduziam invariavelmente a um sentimento de vulnerabilidade e noite escura. Sua atitude neste assunto era de uma profunda ambival�ncia. Por um lado, tentara realmente estabelecer contato com a m�e. Na adolesc�ncia, fantasiara uma poss�vel recupera��o da m�e e um tipo de relacionamento que elas poderiam ter. Intelectualmente, sabia que esse jamais seria o caso.</p><p>De baixa estatura, sua m�e tinha sido magra, mas n�o ao estilo anor�xico de Lisbeth, longe disso. Pelo contr�rio, sempre fora uma mulher bonita, bem-proporcionada. Como a irm� de Lisbeth. <emphasis>Camilla.</emphasis></p><p>Lisbeth evitava pensar na irm�.</p><p>Considerava a diferen�a entre ela e a irm� uma brincadeira do destino. Eram g�meas, nascidas com vinte minutos de intervalo. Lisbeth era a primeira. Camilla era bonita.</p><p>Eram t�o diferentes que parecia improv�vel terem se formado no mesmo �tero, e mais estranho ainda serem geneticamente consideradas g�meas univitelinas, que deveriam ser id�nticas. N�o fosse um defeito no c�digo gen�tico de Lisbeth Salander, ela teria sido t�o bonita como a irm�.</p><p>E provavelmente t�o debiloide quanto.</p><p>Desde a mais tenra idade, Camilla fora extrovertida, popular e coberta de �xito na escola. Lisbeth fora calada e fechada, raramente respondia �s perguntas dos professores, obtendo, desse modo, m�dias bastante baixas. Desde a escola prim�ria, Camilla se distanciara de tal modo da irm� que elas at� iam para a escola por caminhos diferentes. Os professores e demais alunos notavam que as duas meninas nunca se falavam nem sentavam uma ao lado da outra. A partir do gin�sio, n�o ficaram na mesma classe. Com doze anos, e depois que Todo o Mal aconteceu, haviam crescido cada qual na sua fam�lia adotiva. N�o se viam desde que fizeram dezessete anos, e naquele dia o encontro terminara com um olho roxo para Lisbeth e um l�bio partido para Camilla. Lisbeth n�o sabia por onde Camilla andava e tamb�m n�o tinha procurado saber.</p><p>N�o existia amor entre as irm�s Salander.</p><p>Aos olhos de Lisbeth, Camilla era hip�crita, depravada e manipuladora. No entanto, fora em Lisbeth que a decis�o do tribunal reca�ra, determinando que ela n�o tinha ju�zo perfeito.</p><p>Deixou o carro no estacionamento para visitantes, abotoou a jaqueta surrada e, debaixo de chuva, subiu para a entrada principal. Parou diante de um banco do jardim e olhou ao redor. Fora ali, naquele banco, que vira sua m�e pela �ltima vez, um ano e meio antes. Passara sem avisar na casa de sa�de de Appelviken, quando estava ajudando o Super-Blomkvist a pegar um assassino em s�rie, louco sem d�vida, mas perfeitamente articulado. Sua m�e estava agitada, n�o a reconheceu, e mesmo assim n�o queria deix�-la ir embora. Tinha segurado sua m�o e pousado na filha um olhar perplexo. Lisbeth estava com pressa. Soltara a m�o, dera um abra�o na m�e e correra at� a moto para ir embora.</p><p>A diretora de �ppelviken, Agnes Mikaelsson, pareceu contente em ver Lisbeth. Cumprimentou-a com simpatia e a acompanhou ao lugar onde estava guardada a caixa. Lisbeth ergueu-a. Pesava poucos quilos e n�o tinha muito a exibir como patrim�nio de uma vida.</p><p>�Eu n�o sabia o que fazer com as coisas da sua m�e - disse a Sra. Mikaelsson. �Mas tinha o sentimento de que voc� ia aparecer um dia.</p><p>�Eu estava viajando - disse Lisbeth.</p><p>Agradeceu-lhe por ter guardado a caixa, carregou-a at� o carro e foi embora de �ppelviken pela �ltima vez.</p><p>Lisbeth voltou � Fiskaregatan pouco depois do meio-dia e levou a caixa de sua m�e at� o apartamento marcado V. Kulla. Guardou-a sem abrir no arm�rio da entrada e tornou a sair.</p><p>Ao abrir a porta do pr�dio, viu um carro de pol�cia passando com a velocidade de uma lesma. Lisbeth deteve-se e observou atentamente a autoridade diante de seu pr�dio. Como os tiras n�o parecessem querer partir para o ataque, ela os deixou passar.</p><p>A tarde, foi � H &amp; M e � Dressman renovar seu guarda-roupa. Adquiriu um leg�timo enxoval de roupas b�sicas sob a forma de cal�as, jeans, camisetas e meias. As caras roupas de marca n�o a interessavam, mas mesmo assim sentiu certo prazer em poder comprar meia d�zia de jeans de uma vez sem ser obrigada a contar moedinhas.</p><p>Comprou um bom par de sapatos de inverno na Skoman e dois pares mais leves, para interiores. Depois cedeu ao impulso de levar tamb�m uma botina preta de salto alto, que a deixava alguns cent�metros mais alta. Al�m disso, achou um casaco quente de inverno, de camur�a marrom e gola de pele.</p><p>Sua aquisi��o mais extravagante foi na Twilfit, onde comprou uma verdadeira cole��o de calcinhas e suti�s. Eram, de novo, artigos b�sicos, mas, depois de meia hora de uma constrangida hesita��o, levou tamb�m um conjunto que ela considerava �sexy�, ou at� �safado�, e que antes nunca teria pensado em comprar. � noite, quando experimentou o conjunto, sentiu-se de um rid�culo sem tamanho. O que ela via no espelho era uma garota de corpo magro e tatuado, paramentada com uma fantasia grotesca. Livrou-se dos penduricalhos e jogou tudo no lixo.</p><p>Mia Bergman, futura doutora em criminologia, partiu a <emphasis>cheesecake</emphasis> e decorou-a com sorvete de framboesa. Serviu primeiro Erika Berger e Mikael Blomkvist, e em seguida Dag Svensson e ela pr�pria. Malu Eriksson se negara categoricamente a comer sobremesa e se contentou com um caf� preto servido numa x�cara de porcelana florida tremendamente retr�.</p><p>�Esta lou�a era da minha av� - disse Mia, ao ver que Malu examinava a x�cara.</p><p>�A Mia morre de medo que quebrem uma dessas x�caras - disse Dag Svensson. �S� usamos com convidados especiais.</p><p>Mia Bergman sorriu.</p><p>�Eu me criei, por v�rios anos, na casa da minha av� e essas x�caras s�o praticamente tudo que me restou dela.</p><p>�S�o mesmo encantadoras - disse Malu. �Eu, de lou�a, s� tenho da cem por cento Ikea.</p><p>Mikael, que n�o estava nem um pouco interessado em x�caras de caf� floridas, lan�ou um olhar desconfiado para o prato de <emphasis>cheesecake.</emphasis> Considerou inclusive a hip�tese de afrouxar o cinto. Erika estava pensando o mesmo.</p><p>�Ai, ai, ai, eu n�o deveria ter aceitado a sobremesa - disse, olhando de relance para Malu como que se desculpando, antes de pegar a colher com uma m�o firme.</p><p>O jantar era supostamente uma reuni�ozinha de trabalho para, por um lado, selar sua colabora��o e, por outro, continuar discutindo a edi��o do n�mero tem�tico da <emphasis>Millennium.</emphasis> Dag Svensson propusera que se encontrassem em sua casa para comerem alguma coisa, e Mia Bergman aproveitara a oportunidade para servir o melhor frango agridoce que Mikael j� tinha comido. A refei��o foi regada com duas garrafas de vinho espanhol encorpado, e Dag aproveitou a sobremesa para perguntar se algu�m aceitava uma ta�a de Tullamore Dew. Erika foi a �nica a cometer a besteira de dizer n�o, e Dag pegou as ta�as.</p><p>Dag Svensson e Mia Bergman moravam num quarto-e-sala em Enskede.</p><p>J� namoravam havia alguns anos, e um ano antes tinham resolvido se mudar para aquele apartamento.</p><p>Haviam se encontrado por volta das seis e, duas horas e meia depois, terminada a sobremesa, nenhuma palavra ainda fora dita sobre o verdadeiro objetivo do jantar. Em compensa��o, Mikael descobrira que gostava de Dag Svensson e Mia Bergman, e que apreciava a companhia deles.</p><p>Foi Erika quem por fim encaminhou a conversa para o assunto que supostamente deveriam discutir. Mia Bergman foi buscar uma c�pia de sua tese e a colocou em cima da mesa diante de Erika. O t�tulo era, no m�nimo, ir�nico - �Da R�ssia com amor�, alus�o evidente ao cl�ssico 007 de Ian Fleming. O subt�tulo j� era bem menos ir�nico: <emphasis>Tr�fico de mulheres, crime organizado e medidas tomadas pelas autoridades.</emphasis></p><p>�Que fique bem clara a diferen�a entre a minha tese e o livro do Dag � disse ela. � O livro � a vers�o de um agitador, focada nos benefici�rios do tr�fico de mulheres. J� a minha tese � composta de estat�sticas, pesquisa de campo, textos da lei e uma an�lise do comportamento da sociedade e dos tribunais com rela��o �s v�timas.</p><p>�Ou seja, as garotas.</p><p>�Sim, e garotas jovens, em geral entre quinze e vinte anos, da classe oper�ria, com baixo n�vel de educa��o. Muitas vezes s�o meninas vindas de um meio familiar conturbado, que muitas vezes j� foram v�timas de uma ou outra forma de abuso na inf�ncia - se vieram para a Su�cia � porque, obviamente, algu�m contou a elas um monte de lorotas.</p><p>�Os mercadores do sexo.</p><p>�Um aspecto que a minha tese p�e bem em perspectiva � a diferen�a entre homens e mulheres. � raro um pesquisador ter condi��es de estabelecer t�o claramente os pap�is entre os sexos. Garotas: as boazinhas; homens: os malvados. Com exce��o de algumas poucas mulheres que se beneficiam do com�rcio do sexo, n�o existe nenhuma outra forma de criminalidade em que os pap�is masculino e feminino sejam condi��o indispens�vel para o crime. Tamb�m n�o existe outra forma de criminalidade com t�o ampla aceita��o na sociedade e t�o pouco empenho para acabar com ela.</p><p>�Se eu entendi bem, a Su�cia, apesar de tudo, disp�e de uma legisla��o bastante rigorosa contra o tr�fico de mulheres e o com�rcio do sexo - disse Erika.</p><p>�N�o me fa�a rir. Centenas de meninas, n�o existem estat�sticas precisas, s�o trazidas todo ano para a Su�cia para servirem de puta, o que concretamente significa entregar o corpo a estupros sistem�ticos. Desde que entrou em vigor, a lei do tr�fico de mulheres s� foi aplicada umas poucas vezes pela Justi�a. A primeira vez foi em abril de 2003, no caso daquela velha cafetina maluca que mudou de sexo. E que, evidentemente, foi inocentada.</p><p>�Espere, eu achei que ela tivesse sido condenada.</p><p>�Sim, como dona de bordel. Mas se livrou da acusa��o de tr�fico de mulheres. Ocorre que as meninas, as v�timas, que tamb�m eram as testemunhas de acusa��o, voltaram para os pa�ses b�lticos. As autoridades tentaram traz�-las para o processo, a Interpol chegou a ir busc�-las. Mas elas tinham sumido sem deixar rastro nos seus pa�ses de origem e n�o foram encontradas depois de meses de buscas.</p><p>�Bem. E o que aconteceu com elas?</p><p>�Nada. O programa <emphasis>Insider,</emphasis> da tev�, retomou a investiga��o e enviou uma equipe at� Tallinn. Os rep�rteres levaram uma tarde, mais ou menos, para achar duas dessas meninas, que estavam morando com os pais. A terceira tinha ido morar na It�lia.</p><p>�Ou seja, a pol�cia de Tallinn n�o se mostrou muito eficiente.</p><p>�Depois disso, conseguimos obter algumas condena��es, mas em geral para indiv�duos interpelados por outros crimes, ou que tinham sido de uma estupidez t�o espantosa que n�o havia como n�o prend�-los. Essa lei � uma cortina de fuma�a. N�o � aplicada.</p><p>�Percebo.</p><p>�O problema � que, atualmente, os crimes s�o estupro agravado, n�o raro acompanhado de golpes e ferimentos, tamb�m agravados, e amea�as de morte, em alguns casos acrescidas de sequestro - acrescentou Dag Svensson. �Essa � a sina di�ria de muitas dessas meninas, que s�o maquiadas, vestidas com minissaias e trancadas numa casa de sub�rbio. Elas n�o t�m op��o. Ou bem aceitam transar com um cara nojento, ou bem se arriscam a serem maltratadas e torturadas pelo cafet�o. N�o t�m como fugir; n�o falam a l�ngua, n�o conhecem as leis nem a regulamenta��o e n�o sabem a quem recorrer. N�o t�m como voltar para seu pa�s. Uma das primeiras medidas � confiscar o passaporte delas, e no caso da cafetina as meninas estavam sequestradas dentro de um apartamento.</p><p>�� muito parecido com escravid�o. Essas meninas ganham alguma coisa?</p><p>�Ganham, sim - respondeu Mia Bergman. �Para p�r panos quentes, d�o a elas uma parte do bolo. Elas trabalham, em m�dia, uns dois ou tr�s meses antes de poderem voltar para casa. Em geral, levam uma bela quantia: vinte, at� trinta mil coroas, o que em moeda russa representa uma pequena fortuna. Infelizmente, tamb�m voltam com graves problemas de �lcool ou drogas, e um n�vel de consumo que faz com que torrem rapidamente o dinheiro. Conclus�o, o sistema � autossuficiente; depois de algum tempo elas retornam, por assim dizer, de livre e espont�nea vontade, para o seu carrasco.</p><p>�Qual o faturamento anual dessa atividade? - perguntou Mikael. Mia Bergman virou-se para Dag Svensson e pensou um instante antes de responder.</p><p>�� muito dif�cil dar uma resposta precisa para esta pergunta. J� fizemos todo tipo de c�lculo, mas muitos dos nossos n�meros acabam n�o passando de estimativa.</p><p>�E grosso modo?</p><p>�Bem, sabemos, por exemplo, que a cafetina, essa que foi condenada por proxenetismo e inocentada do tr�fico de mulheres, mandou trazer, em cerca de dois anos, trinta e cinco mulheres do Leste. Ficavam aqui por per�odos que variavam de algumas semanas a alguns meses. No processo, se ficou sabendo que naqueles dois anos elas engordaram o caixa em pouco mais de dois milh�es de coroas. Calculei que uma garota rende quase sessenta mil coroas por m�s, das quais umas quinze mil s�o deduzidas para despesas diversas: deslocamentos, roupas, moradia etc. N�o � uma vida luxuosa, e muitas vezes elas s�o obrigadas a dividir um apartamento fornecido pelos traficantes. Das quarenta e cinco mil coroas restantes, o bando ret�m entre vinte e trinta mil. 0 chefe embolsa a metade, digamos quinze mil, e reparte a outra metade entre seus funcion�rios: motorista, capangas e outros. Sobram de dez a doze mil coroas para a garota.</p><p>�Por m�s...</p><p>�Digamos que um bando tenha duas ou tr�s garotas na labuta. Isso quer dizer que elas rendem mais de duzentas mil coroas por m�s. Cada bando � constitu�do por duas ou tr�s pessoas que vivem disso. � mais ou menos assim que funciona a economia do estupro.</p><p>�E isso envolve quantas pessoas... calculando por cima?</p><p>�Considere que sempre h� cerca de cem garotas em atividade, que de um modo ou de outro s�o v�timas do tr�fico de mulheres. Isso significa que o faturamento total na Su�cia gira, todo m�s, em torno de seis milh�es de coroas, o que <emphasis>d�</emphasis> mais ou menos cerca de setenta milh�es de coroas por ano. E s� estamos falando nas garotas que s�o v�timas do tr�fico de mulheres.</p><p>�� mixaria, ao que parece.</p><p>�De fato, mixaria. S� que, para juntar essas modestas quantias, cem meninas precisam ser estupradas. Fico louca com isso.</p><p>�Voc� n�o parece ser uma pesquisadora objetiva. Mas se s�o necess�rios tr�s caras para uma menina, quer dizer que entre quinhentos e seiscentos homens enchem os bolsos dessa maneira.</p><p>�Menos, provavelmente. Eu diria pouco mais de trezentos.</p><p>�N�o parece um problema insuper�vel - disse Erika.</p><p>�N�s votamos leis e nos indignamos na m�dia, mas quase ningu�m j� conversou com uma prostituta da ex-Uni�o Sovi�tica nem ningu�m tem a m�nima id�ia do que seja a vida dela.</p><p>�Como � que a coisa funciona? Quero dizer, na pr�tica. Deve ser meio dif�cil trazer de Tallinn uma menina de dezesseis anos sem ningu�m perceber. O que acontece quando elas chegam? - perguntou Mikael.</p><p>�Quando comecei a pesquisar o assunto, achava que fosse uma atividade muito bem organizada, gerida por uma esp�cie de m�fia profissional que fazia as meninas atravessarem a fronteira com alguma eleg�ncia.</p><p>�N�o � o caso? - perguntou Malu Eriksson.</p><p>�O tr�fico at� que � organizado, mas fiquei, se � que posso falar assim, profundamente decepcionada ao descobrir que, na verdade, s�o v�rios bandos, pequenos e meio desorganizados. Esque�am os ternos vistosos e o carro esporte - o bando m�dio tem dois ou tr�s membros, a metade � de russos ou b�lticos, a outra metade de suecos. Quanto ao chefe, imaginem um sujeito de uns quarenta anos, camiseta regata, entornando uma cerveja e co�ando a barriga, socialmente retardado em alguns aspectos e tendo tido problemas a vida inteira.</p><p>�Mas que rom�ntico.</p><p>�A imagem que ele tem das mulheres data da idade da pedra. � conhecido por sua viol�ncia, volta e meia fica b�bado e arrebenta a cara de quem quer que se atreva a protestar. No bando, cada um tem seu lugar na hierarquia e os colaboradores geralmente t�m medo dele.</p><p>Os m�veis da Ikea foram entregues tr�s dias depois, por volta das nove e meia da manh�. Dois grandalh�es apertaram a m�o da loira Irene Nesser, que falava com um divertido sotaque noruegu�s. Depois, fizeram o transporte num elevador subdimensionado e trataram de montar mesas, arm�rios e camas. Os homens eram de uma efici�ncia assustadora e pareciam saber de cor o manual de instala��o. Irene foi at� a feira de S�der comprar comida grega para viagem e os convidou para almo�ar.</p><p>Os homens da Ikea terminaram �s cinco da tarde, juntaram todas as caixas e levaram tudo embora. Depois que eles sa�ram, Lisbeth Salander tirou a peruca e ficou andando pelo apartamento se perguntando se ia se sentir bem na nova casa. A mesa da cozinha parecia elegante demais para seu estilo. No c�modo cont�guo, que dava tanto para o hall de entrada como para a cozinha, ela instalara a sua sala de estar, com sof�s modernos e um conjunto de poltronas em volta de uma mesinha em frente � janela. Estava satisfeita com seu quarto, e sentou-se de mansinho no colch�o para testar o quanto era confort�vel.</p><p>Deu uma olhada na sala de trabalho com vista para as �guas do Saltsj�n. <emphasis>Aprovado, funciona. Vou poder trabalhar aqui.</emphasis></p><p>N�o sabia exatamente no que ia trabalhar e, quanto ao resto, sentia-se hesitante e cr�tica ao olhar para os m�veis.</p><p><emphasis>Bem, vamos ver no que vai dar.</emphasis></p><p>Lisbeth passou o resto da tarde abrindo pacotes e organizando suas coisas. Arrumou a cama e guardou toalhas, len��is e fronhas no arm�rio. Abriu as sacolas com as roupas novas e pendurou no guarda-roupa. Apesar do volume das compras, s� preencheu uma �nfima parte do espa�o. Instalou as lumin�rias e guardou panelas, lou�a e talheres nos arm�rios da cozinha.</p><p>Olhou perplexa para as paredes vazias e se deu conta de que deveria ter comprado p�steres, quadros, coisas do g�nero. Pessoas normais tinham isso nas paredes e ela deveria ter tamb�m. Uma planta tamb�m n�o cairia mal.</p><p>Em seguida, abriu as caixas que trouxera da Lundagatan e separou livros, jornais, recortes e a documenta��o acumulada em suas pesquisas, que ela na certa deveria jogar fora. Despachou generosamente camisetas velhas e meias furadas. De repente, deparou com um p�nis artificial ainda na embalagem. Deu um sorriso de esguelha. Tinha sido um dos presentes de anivers�rio birutas de Mimmi, dois anos antes, e ela se esquecera totalmente de sua exist�ncia, nunca o tinha sequer experimentado. Decidiu corrigir isso e colocou o p�nis, erguido em sua base, sobre a c�moda perto da cama.</p><p>Ent�o tornou a ficar s�ria. <emphasis>Mimmi.</emphasis> Sentia uma pontinha de remorso. Tinha sa�do meio regularmente com Mimmi durante um ano e depois a abandonara por Mikael Blomkvist sem nenhuma explica��o. Nem sequer se despedira ou comunicara sua inten��o de deixar a Su�cia. Nem sequer avisara sobre a viagem ou trocara qualquer palavra com Dragan Armanskij ou as meninas do Evil Fingers, que deviam achar que ela tinha morrido. A n�o ser que tivessem se esquecido dela - Lisbeth nunca fora uma figura central no grupo. Era como se tivesse dado as costas a todo mundo. De repente se lembrou que tamb�m n�o se despedira de George Bland em Granada e se perguntou se ele continuava esperando por ela na praia. Refletiu sobre o que Mikael Blomkvist lhe dissera a respeito da amizade. <emphasis>Eu n�o cuido dos meus amigos.</emphasis> Perguntou-se se Mimmi ainda existia, ali, na cidade, em algum lugar, e se deveria lhe dar not�cias.</p><p>Ficou at� tarde da noite organizando documentos em sua sala de trabalho, instalando o computador e navegando na internet. Conferiu seus investimentos e constatou que estava mais rica do que um ano atr�s.</p><p>Fez um controle de rotina no computador do Dr. Nils Erik Bjurman, mas n�o achou nada interessante nos e-mails e concluiu que ele estava se precavendo. N�o encontrou nenhum sinal de que tivesse tido contato com a cl�nica de Marselha. Bjurman at� dava a impress�o de ter reduzido suas atividades pessoais e profissionais, e passar a vida vegetando. Raramente usava o correio eletr�nico e, quando navegava na rede, era mais para visitar sites pornogr�ficos.</p><p>Ela s� se desconectou l� pelas duas da manh�. Foi para o quarto, despiu-se e jogou a roupa numa cadeira. Depois foi ao banheiro. O canto perto da porta tinha espelhos em �ngulo do piso ao teto. Ficou um bom tempo se olhando. Examinou atentamente o rosto anguloso e enviesado, os seios novos e a enorme tatuagem nas costas. Era bonita, um longo drag�o serpenteante, vermelho, verde e preto, que come�ava no ombro e cuja cauda fina se estendia por toda a n�dega direita, indo terminar na coxa. No ano em que estivera viajando, deixara crescer o cabelo at� os ombros, mas na �ltima semana em Granada pegara de repente a tesoura e o cortara bem curto. Ainda estava com pontas desfiadas para todos os lados.</p><p>S�bito, sentiu que uma mudan�a fundamental tinha ocorrido, ou estava para ocorrer, em sua vida. Talvez fosse esse o perigo de a gente de repente dispor de bilh�es e n�o ser mais obrigada a pensar em cada centavo. Talvez fosse tamb�m o mundo adulto come�ando a contamin�-la. Talvez fosse o fato de perceber que a morte de sua m�e pusera um ponto final em sua inf�ncia.</p><p>Durante as viagens do ano anterior, tinha se desfeito de muitos de seus <emphasis>piercings.</emphasis> Na cl�nica de G�nova, uma argola no mamilo fora abolida por raz�es puramente m�dicas, relacionadas � cirurgia. Em seguida, tirara a argola do l�bio inferior e, em Granada, a argola sutilmente situada entre as coxas, que a machucava, e ela nem sabia mais direito por que tinha posto um <emphasis>piercing</emphasis> naquele lugar.</p><p>De repente, abriu a boca e desatarraxou o pino que atravessava sua l�ngua e que ela j� usava havia sete anos. Deixou-o numa tigela, na prateleira ao lado da pia. Sua boca parecia vazia. Com exce��o de algumas argolas na orelha, s� lhe restavam dois <emphasis>piercings,</emphasis> uma argola na sobrancelha esquerda e uma joia no umbigo.</p><p>Quando, mais tarde, enfiou-se debaixo do edredom novinho, descobriu que a cama que tinha comprado era gigantesca e que s� ocupava uma m�nima parte dela. Tinha a impress�o de estar deitada na beira de um campo de futebol. Enrolou o corpo no edredom e ficou um bom tempo refletindo.</p></section><section><p><strong><emphasis>6 - DOMINGO 23 DE JANEIRO � S�BADO 29 DE JANEIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander pegou o elevador do estacionamento no subsolo at� o quarto andar, o �ltimo dos tr�s andares do edif�cio comercial de Slussen ocupado pela Milton Security. A c�pia de uma chave mestra que ela tivera o cuidado de conseguir anos atr�s ainda funcionava. Consultou maquinalmente o rel�gio de pulso ao sair no corredor mergulhado no escuro. Tr�s horas e dez minutos da madrugada de domingo. O guarda-noturno estava no centro de vigil�ncia do segundo andar e ela sabia que muito provavelmente estaria sozinha no quarto andar.</p><p>Como sempre, ficou pasma ao verificar que uma empresa especializada em seguran�a deixava brechas t�o �bvias no seu pr�prio sistema.</p><p>Poucas coisas haviam mudado no corredor do quarto andar naquele ano. Foi primeiro at� sua pr�pria sala, um cub�culo atr�s de uma divis�ria de vidro no corredor, onde Dragan Armanskij a instalara. A porta n�o estava trancada. Uma mesa, uma cadeira de escrit�rio, um cesto de papel e uma estante vazia, o velho PC Toshiba de 1997 com um disco r�gido mixuruca; Lisbeth n�o levou nem trinta segundos para constatar que naquele seu ano de aus�ncia absolutamente nada tinha mudado em �sua� sala, afora algu�m ter deixado uma caixa com uma papelada antiga no ch�o, bem do lado da porta.</p><p>Nada indicava que Dargan tivesse posto outra pessoa ali. Viu nisso um bom sinal, embora sabendo que n�o significava nada. Os quatro metros quadrados daquela salinha n�o podiam mesmo ser de grande utilidade.</p><p>Lisbeth fechou a porta e andou silenciosamente por todo o corredor conferindo se algum not�vago n�o estaria trabalhando em algum canto. Estava sozinha. Parou em frente � m�quina de caf� e pegou um copinho de <emphasis>capuccino</emphasis> antes de seguir at� a sala de Dragan Armanskij e abrir a porta com sua chave pirateada.</p><p>A sala de Armanskij estava, como sempre, irritantemente arrumada. Deu uma volta, e uma olhada na estante antes de se sentar � mesa e ligar o computador.</p><p>Tirou um CD do bolso interno do casaco de camur�a novinho e o inseriu no leitor para abrir um programa chamado Asphyxia 1.3, que ela mesma criara e cuja �nica fun��o era atualizar a Internet Explorer no disco r�gido de Armanskij. O processo durou cerca de cinco minutos.</p><p>Feito isso, tirou o CD do leitor e reiniciou o computador com a nova vers�o do Internet Explorer. O programa parecia ser a antiga vers�o e se comportou de modo exatamente igual, s� estava um �timo mais pesado e um microssegundo mais lento. Todas as configura��es eram id�nticas ao original, inclusive a data de instala��o. Do novo arquivo, nem vest�gio.</p><p>Entrou no endere�o de um servidor FTP na Holanda e obteve um menu. Clicou no �cone <emphasis>copy,</emphasis> digitou <emphasis>Armanskij/MiltSec</emphasis> e clicou em Entrar. O computador imediatamente come�ou a copiar o disco r�gido de Dragan Armanskij no servidor holand�s. Um rel�gio avisou que o processo levaria trinta e quatro minutos.</p><p>Durante a transfer�ncia, pegou a c�pia da chave da mesa de Armanskij, que ele guardava num vaso decorativo sobre a estante. Passou a meia hora seguinte atualizando-se nos dossi�s da gaveta superior direita, onde Armanskij costumava guardar os casos em andamento e urgentes. Quando o computador avisou que a transfer�ncia estava conclu�da, recolocou os dossi�s exatamente na ordem em que os tinha encontrado.</p><p>Em seguida desligou o computador, apagou a lumin�ria de mesa e pegou o copinho de <emphasis>capuccino</emphasis> vazio. Eram 4h12 quando entrou no elevador. Saiu da Milton Security do mesmo jeito que tinha entrado.</p><p>Voltou a p� para a Fiskaregatan, sentou-se diante de seu Powerbook, conectou-se ao servidor holand�s e abriu uma c�pia do Asphyxia 1.3. Uma vez aberto o programa, apareceu uma janela com uma sele��o de discos r�gidos. Havia cerca de quarenta op��es, e ela rolou a barra do menu. Passou pelo disco r�gido de <emphasis>NilsEBjurman,</emphasis> que ela abria mais ou menos a cada dois meses. Parou um instante em <emphasis>MikBlom/laptop</emphasis> e <emphasis>MikBlom/office.</emphasis> N�o clicava nesses �cones havia mais de um ano e cogitou vagamente mand�-los para a lixeira. Por princ�pio, por�m, resolveu mant�-los - j� que um dia ela havia clonado esses computadores, seria bobagem apagar a informa��o para, quem sabe, um dia ter de refazer todo o processo. Isso tamb�m valia para um �cone intitulado <emphasis>Wennerstr�m,</emphasis> que n�o abria havia muito tempo. O dono tinha morrido. O �cone <emphasis>Armansk�j/MiltSec</emphasis> era o �ltimo a ter sido criado e se achava bem no final da lista.</p><p>Ela poderia ter clonado o disco r�gido dele antes, mas nunca se dera ao trabalho porque, trabalhando na Milton Security, tinha todas as condi��es de p�r a m�o em informa��es que Armanskij queria ocultar das pessoas que o cercavam. A invas�o de seu computador n�o tinha nenhuma m� inten��o. Ela s� queria saber no que a empresa vinha trabalhando e qual era sua situa��o geral. Clicou e abriu-se instantaneamente uma nova pasta intitulada <strong>[ARMANSKIJDD</strong>]. Confirmou que conseguia abrir o disco r�gido e constatou que todos os arquivos estavam no lugar.</p><p>Ficou no computador, lendo os relat�rios, balan�os financeiros e e-mails de Armanskij, at� as sete da manh�. Por fim, balan�ou a cabe�a, preocupada, e desligou o computador. Foi ao banheiro escovar os dentes e depois seguiu para o quarto, onde se despiu, deixando a roupa amontoada no ch�o. Deitou-se e dormiu at� meio-dia e meia.</p><p>Na �ltima sexta-feira de janeiro, teve lugar a assembl�ia geral anual da <emphasis>Millennium.</emphasis> Participavam o contador da empresa, um auditor fiscal, os quatro s�cios - Erika Berger (detentora de trinta por cento das a��es), Mikael Blomkvist (vinte por cento), Christer Malm (vinte por cento) e Harriet Vanger (trinta por cento). Fora igualmente convocada para a reuni�o a assistente de reda��o Malu Eriksson, representante dos funcion�rios na qualidade de presidente da unidade sindical da revista, composta por ela pr�pria, Lottie Karim, Henry Cortez, Monika Nilsson e Sonny Magnusson, respons�vel pela publicidade. Era a primeira vez que Malu participava de uma assembl�ia geral da diretoria da empresa.</p><p>A reuni�o teve in�cio �s quatro da tarde em ponto e terminou pouco mais de uma hora depois. Grande parte dela foi dedicada ao balan�o financeiro e ao detalhamento do saldo. A assembl�ia p�de constatar facilmente que a <emphasis>Millennium</emphasis> estava com uma base financeira est�vel se comparada ao per�odo de crise que atingira a empresa dois anos antes. O saldo apresentava um excedente de 2,1 milh�es de coroas, dos quais um milh�o provinha das vendas do livro de Mikael Blomkvist sobre o caso Wennerstr�m.</p><p>Por sugest�o de Erika Berger, ficou decidido que um milh�o seria aplicado visando estancar futuras crises, duzentas e cinquenta mil coroas seriam investidas numa reforma da �rea de reda��o, na compra de novos computadores e outros equipamentos t�cnicos, e trezentas mil seriam aproveitadas para um aumento geral dos sal�rios e a proposta de per�odo integral a Henry Cortez. Para o restante, a proposta era repassar cinquenta mil coroas a cada s�cio e um b�nus salarial de cem mil coroas a ser equanimemente dividido entre os quatro colaboradores fixos, quer trabalhassem meio per�odo, quer per�odo integral. O respons�vel pela publicidade, Sonny Magnusson, n�o receberia b�nus, j� que por contrato lhe cabia uma percentagem sobre os an�ncios que conseguia, o que �s vezes o tornava o assalariado mais bem pago de todos. A proposta foi aceita por unanimidade.</p><p>Uma proposta de Mikael Blomkvist suscitou um breve debate sobre a possibilidade de reduzir o or�amento para <emphasis>freelancers</emphasis> e investir futuramente em mais um funcion�rio de meio per�odo. Mikael pensava em Dag Svensson, que assim poderia usar a <emphasis>Millennium</emphasis> como base de uma atividade <emphasis>freelancer</emphasis> e, quem sabe mais tarde, passar para per�odo integral. A proposta contou com a oposi��o de Erika Berger, que achava que seria dif�cil a revista n�o recorrer a frilas. Erika teve o apoio de Harriet Vanger, enquanto Christer Malm se absteve. Ficou ent�o decidido n�o se mexer no or�amento dos frilas. Todos, por�m, tinham muita vontade de trabalhar com Dag Svensson pelo menos em per�odo parcial.</p><p>Depois de uma r�pida discuss�o sobre o futuro direcionamento e os projetos em andamento, Erika Berger foi reeleita presidente do conselho administrativo para o exerc�cio seguinte. Com isso, a assembl�ia foi encerrada. Malu Eriksson n�o pronunciara uma s� palavra durante esse seu primeiro conselho administrativo; um breve c�lculo de cabe�a lhe permitira constatar que os funcion�rios iriam receber um b�nus de vinte e cinco mil coroas, ou seja, mais de um m�s de sal�rio. N�o viu nenhum motivo para protestar contra essa decis�o.</p><p>Terminada a assembl�ia geral, Erika Berger convocou os s�cios para uma reuni�o extraordin�ria. Erika, Mikael, Christer e Harriet permaneceram na sala, enquanto os demais se retiraram. Assim que fecharam a porta, Erika come�ou a reuni�o.</p><p>�Temos um �nico item em pauta. Harriet, segundo o acordo firmado com Henrik Vanger, sua participa��o seria por um per�odo de dois anos. Chegamos ao fim do contrato. Portanto precisamos saber o que vai ser da sua participa��o - ou, mais precisamente, a de Henrik.</p><p>Harriet meneou a cabe�a.</p><p>�Todo mundo aqui sabe que a participa��o de Henrik resultou de um impulso diante de uma situa��o bem espec�fica - disse ela. �Essa situa��o n�o existe mais. Gostaria de saber a opini�o de voc�s a respeito.</p><p>Christer Malm se mexeu na cadeira. Era o �nico na sala que n�o sabia exatamente que situa��o espec�fica era aquela. Sabia que Mikael e Erika lhe escondiam uma hist�ria, mas Erika explicara que se tratava de um assunto altamente pessoal, que dizia respeito a Mikael e sobre o qual ele n�o queria falar de jeito nenhum. Christer n�o era bobo e entendeu que o sil�ncio de Mikael estava ligado aos acontecimentos de Hedestad e a Harriet Vanger. Enendia tamb�m que n�o precisava saber mais que isso para tomar uma decis�o de princ�pios, e respeitava Mikael o suficiente para n�o criar caso por isso.</p><p>�Conversamos, os tr�s, sobre a quest�o e chegamos a um consenso - disse Erika. Fez uma pausa e fitou Harriet dentro dos olhos. �Antes de expor nosso ponto de vista, gostar�amos de saber qual a sua posi��o.</p><p>O olhar de Harriet Vanger passou de Erika para Mikael, depois para Christer. Seus olhos se demoraram em Mikael, mas n�o conseguiu ler nada no rosto deles.</p><p>�Se quiserem comprar a minha parte de volta, isso lhes custaria tr�s milh�es de coroas mais os juros, quantia que a fam�lia Vanger investiu na <emphasis>Millennium.</emphasis> Voc�s t�m condi��es de pagar? - perguntou Harriet suavemente.</p><p>�Sim, temos condi��es - disse Mikael com um sorriso.</p><p>�Henrik Vanger pagara cinco milh�es de coroas pelo trabalho que Mikael realizara para ele. Detalhe ir�nico: um dos objetivos da miss�o tinha sido encontrar Harriet Vanger.</p><p>�Nesse caso, a decis�o est� na m�o de voc�s - disse Harriet. �O contrato determina que a partir de hoje voc�s podem abrir m�o da participa��o dos Vanger. De minha parte, nunca teria formulado um contrato t�o vago como este do Henrik.</p><p>�Poder�amos comprar a sua parte se f�ssemos obrigados a isso - disse Erika. �A quest�o, portanto, � saber o que voc� pretende. Voc� dirige um grupo empresarial, dois grupos, para ser mais precisa. O nosso or�amento anual equivale ao que voc�s negociam no intervalo do cafezinho. Que interesse voc� poderia ter em desperdi�ar seu tempo em algo t�o modesto como a <emphasis>Millennium?</emphasis> Reunimos o conselho administrativo a cada tr�s meses, e desde que substituiu o Henrik voc� tem conscienciosamente se dado ao trabalho de estar presente a todas as reuni�es.</p><p>Harriet Vanger encarou a presidente do conselho administrativo com um olhar doce. Guardou sil�ncio por um longo momento. Ent�o disse, voltando-se para Mikael:</p><p>�Desde o dia em que nasci sempre fui propriet�ria de uma coisa ou de outra. E passo os meus dias dirigindo um grupo onde h� mais intrigas que num romance popular. Quando comecei a participar deste conselho, era para cumprir um dever ao qual n�o podia me furtar. Mas vou dizer uma coisa: nesse �ltimo ano e meio, descobri que este � o conselho administrativo do qual eu mais gosto de participar.</p><p>Mikael meneou a cabe�a com ar compenetrado. Harriet olhou para Christer.</p><p>�Estar na <emphasis>Millennium</emphasis> � como brincar de conselho administrativo. Os problemas aqui s�o m�nimos, compreens�veis e vis�veis. A empresa tem, evidentemente, a obriga��o de gerar lucro e ganhar dinheiro, � uma condi��o <emphasis>sine qua non.</emphasis> Mas o objetivo da atividade se situa num outro n�vel: voc�s querem fazer as coisas avan�ar.</p><p>Tomou um gole de �gua e fitou Erika.</p><p>�O que isso significa exatamente ainda � um pouco vago para mim. Voc�s n�o s�o um partido pol�tico, n�o s�o uma organiza��o sindical. N�o t�m contas a prestar a ningu�m a n�o ser voc�s mesmos. Mas apontam para falhas na sociedade e n�o hesitam em perturbar as personalidades que n�o lhes agradam. Voc�s, muitas vezes, querem mudar as coisas. Mesmo que finjam ser uns c�nicos e uns niilistas, � a moral de voc�s, e mais nada, que aponta o rumo da revista, e tive a oportunidade de constatar que a moral de voc�s � muito especial. N�o sei que nome dar a isso, mas a <emphasis>Millennium</emphasis> tem alma E o �nico conselho administrativo de que me orgulho de participar.</p><p>Calou-se e ficou em sil�ncio por tanto tempo que Erika, de repente, come�ou a rir.</p><p>�Isso � muito bacana. Mas voc� ainda n�o respondeu � pergunta.</p><p>�Eu me sinto bem na companhia de voc�s, me faz um bem incr�vel participar disto aqui. � a coisa mais maluca e esquisita que j� vivenciei. Se quiserem que eu fique, para mim ser� um prazer.</p><p>�Bem - disse Christer. �N�s discutimos todos os aspectos e estamos todos de acordo. Vamos romper o contrato hoje e comprar sua parte de volta.</p><p>Os olhos de Harriet se arregalaram ligeiramente.</p><p>�Voc�s querem se livrar de mim?</p><p>�Quando assinamos o contrato, est�vamos com o pesco�o na forca, s� esperando que puxassem a corda. N�o t�nhamos escolha. Desde ent�o, ficamos s� esperando o dia de poder comprar de volta a parte de Henrik Vanger.</p><p>Erika abriu uma pasta e p�s sobre a mesa uns documentos que ela empurrou na dire��o de Harriet Vanger com um cheque no valor exato indicado por Harriet. Esta percorreu o contrato com os olhos. Sem uma palavra, pegou uma caneta e assinou.</p><p>�Pronto - disse Erika. �Simples como o qu�. Eu queria agradecer ao Henrik Vanger por esse tempo que passamos juntos e sua contribui��o para a <emphasis>Millennium.</emphasis> Obrigada, desde j�, por transmitir isso a ele.</p><p>�Vou transmitir - respondeu Harriet Vanger em tom neutro.</p><p>Ela n�o demonstrava o que sentia, mas estava ao mesmo tempo magoada e profundamente decepcionada por eles a terem deixado dizer que gostaria de permanecer no conselho para em seguida a expulsarem com tamanha leviandade. <emphasis>Parecia t�o desnecess�rio, n�o dava para entender.</emphasis></p><p>�Por outro lado, gostaria de chamar sua aten��o para um outro contrato, bem diferente - disse Erika Berger.</p><p>Pegou outro ma�o de pap�is e o empurrou sobre a mesa.</p><p>�Quer�amos saber se voc� gostaria de se tornar pessoalmente s�cia da <emphasis>Millennium.</emphasis> O custo � exatamente a quantia que voc� acaba de receber. A diferen�a � que este contrato n�o estipula prazo nem tem cl�usulas de exclus�o. Voc� entraria na empresa como s�cia efetiva, com responsabilidades e deveres iguais aos nossos.</p><p>Harriet ergueu as sobrancelhas.</p><p>�Por que proceder assim?</p><p>�Porque cedo ou tarde ter�amos que passar por isso - disse Christer Malm. �Poder�amos ir renovando o outro contrato ano ap�s ano, de uma assembl�ia para outra, ou at� a gente brigar para valer no conselho e expulsar voc�. Era imprescind�vel uma revis�o.</p><p>Harriet se apoiou num cotovelo e perscrutou-o com o olhar. Seus olhos passaram em seguida para Mikael e Erika.</p><p>�Acontece que assinamos o contrato com o Henrik por pura necessidade econ�mica - disse Erika. �J� este novo contrato n�s estamos propondo porque � nosso desejo. E, contrariamente ao que estipulava o anterior, n�o vai ser muito f�cil tirar voc� no futuro.</p><p>�Isso faz uma diferen�a enorme para a gente - disse Mikael em voz baixa.</p><p>Essa foi sua �nica contribui��o na discuss�o.</p><p>�A gente simplesmente acha que voc� traz para a <emphasis>Millennium</emphasis> algo mais do que as garantias econ�micas ligadas ao nome Vanger - disse Erika Berger. �Voc� � uma pessoa sensata e ponderada e encontra solu��es construtivas. At� agora esteve retra�da, como um observador de passagem. Mas voc� traz a esta diretoria uma estabilidade e uma firmeza que nunca tivemos antes. Voc� entende de neg�cios. Voc� um dia me perguntou se podia confiar em mim, e eu me fazia mais ou menos a mesma pergunta a seu respeito. Hoje n�s duas sabemos onde estamos pisando. Gosto muit�ssimo de voc� - todos n�s gostamos. N�o queremos voc� aqui por uma obriga��o formulada e registrada em papel num momento de desespero. Queremos voc� como nossa parceira e s�cia efetiva.</p><p>Harriet pegou o contrato e o leu escrupulosamente linha por linha durante cinco minutos. Por fim, levantou a cabe�a.</p><p>�E voc�s tr�s concordam com isso? - perguntou.</p><p>Os tr�s aquiesceram. Harriet pegou a caneta e assinou. Empurrou o cheque para o outro lado da mesa. Mikael rasgou-o.</p><p>Os s�cios da <emphasis>Millennium</emphasis> jantaram no Samirs Gryta em Tavastgatan. Um bom vinho e cuscuz de cordeiro constitu�ram o menu de uma reuni�o tranquila para festejar a nova sociedade. A conversa estava descontra�da e Harriet, visivelmente mexida. Pairava no ar um leve toque de primeiro encontro, quando as duas partes sabem que algo vai acontecer, mas ainda n�o sabem exatamente o qu�.</p><p>�s sete e meia da noite, Harriet Vanger deixou o restaurante, dizendo que precisava ir para o hotel dormir. Erika Berger tinha que ir para casa ao encontro do marido e acompanhou Harriet por um trecho do caminho. Despediram-se em Slussen. Mikael e Christer ainda se demoraram um pouco, at� que chegou a vez de Christer se levantar e ir para casa.</p><p>Harriet Vanger pegou um t�xi para o hotel Sheraton e subiu at� seu quarto no sexto andar. Despiu-se, tomou banho, enxugou-se e enfiou o roup�o oferecido pelo hotel. Depois se sentou diante da janela para apreciar a vista sobre Riddarholmen. Abriu um ma�o de Dunhill e acendeu um cigarro. Fumando tr�s ou quatro cigarros por dia, ela se via praticamente como uma n�o-fumante, o que lhe permitia desfrutar umas tragadas travessas sem se sentir culpada.</p><p>�s nove, bateram � sua porta. Ela abriu e deixou Mikael Blomkvist entrar.</p><p>�Safado - disse ela.</p><p>Mikael sorriu e deu-lhe um beijo.</p><p>�Por um segundo, achei mesmo que voc�s estivessem me dispensando.</p><p>�A gente nunca teria te dispensado dessa maneira. Entendeu por que quer�amos refazer o contrato?</p><p>�Sim. Parece bastante honesto.</p><p>Mikael abriu o roup�o, p�s uma m�o em seu seio e apertou suavemente.</p><p>�Safado - ela repetiu.</p><p>Da rua, ela avistara a janela iluminada, e agora ouvia m�sica l� dentro. Lisbeth Salander parou em frente � porta onde estava escrito Wu. Deduziu que Miriam Wu ainda morava em sua quitinete na Tomtebogatan, pr�ximo � Pra�a Sankt Eriksplan. Era noite de sexta-feira e Lisbeth, de certa forma, torcia para que Mimmi tivesse sa�do para alguma balada e que o apartamento estivesse escuro e silencioso. Restava saber se Mimmi ainda a queria e se estaria sozinha e dispon�vel. Tocou a campainha.</p><p>Mimmi abriu a porta e ergueu as sobrancelhas, surpresa. Ent�o se encostou no batente da porta, m�o no quadril.</p><p>�Salander! Pensei que voc� tivesse morrido ou qualquer coisa assim.</p><p>�Qualquer coisa assim - disse Lisbeth.</p><p>�O que voc� quer?</p><p>�Existem muitas respostas para essa pergunta.</p><p>Miriam Wu deixou os olhos vagarem pela escada antes de tornar a pous�-los em Lisbeth.</p><p>�Fale uma delas, s� para eu ver.</p><p>�Bem, conferir se voc� ainda est� solteira e se gostaria de companhia hoje � noite.</p><p>Mimmi ficou boquiaberta alguns segundos, antes de repentinamente cair na gargalhada.</p><p>�S� conhe�o uma pessoa capaz de aparecer na minha casa depois de um ano e meio de sil�ncio para me perguntar se estou a fim de trepar.</p><p>�Quer que eu v� embora?</p><p>Mimmi parou de rir. Permaneceu calada por alguns segundos.</p><p>�Lisbeth... meu Deus, voc� est� falando s�rio! Lisbeth aguardou.</p><p>Por fim, Mimmi suspirou e abriu toda a porta.</p><p>�Entre. Posso pelo menos te oferecer um caf�.</p><p>Lisbeth a seguiu e sentou num dos dois banquinhos que Mimmi tinha posto de um lado e outro de uma mesa de jantar, na entrada, bem atr�s da porta. O apartamento de vinte e quatro metros quadrados compunha-se de uma sala ex�gua e de uma entrada onde mal e mal dava para colocar alguns m�veis. A cozinha encontrara um lugar num cantinho da entrada, onde Mimmi instalara �gua corrente puxando um cano do banheiro.</p><p>Enquanto Mimmi preparava o caf�, Lisbeth a olhou disfar�adamente. Miram Wu era filha de uma chinesa de Hong Kong e um sueco de Boden. Usava o sobrenome da m�e. Lisbeth sabia que os pais dela continuavam casados e moravam em Paris. Mimmi estava matriculada no curso de sociologia da Universidade de Estocolmo. Tinha uma irm� mais velha que estudava antropologia nos Estados Unidos. Os genes de sua m�e se manifestavam sob a forma de cabelos negros lisos, que ela usava bem curtos, e vagas fei��es asi�ticas. Do pai herdara olhos azuis que lhe davam um aspecto singular. A boca era larga, e ela tinha covinhas que n�o vinham nem da m�e nem do pai.</p><p>Tinha trinta e um anos. Gostava de ostentar roupas de vinil e frequentar boates que apresentavam shows, dos quais ela pr�pria �s vezes participava. Lisbeth n�o punha os p�s numa boate desde os dezesseis anos.</p><p>Al�m de fazer sociologia, Mimmi trabalhava um dia por semana como vendedora na Domino Fashion, numa rua transversa da Sveav�gen. A clientela da Domino tinha uma necessidade vital de roupas provocativas, do tipo uniforme de enfermeira de l�tex ou conjunto de bruxa em couro preto, e a loja respondia pelo design e fabrica��o dessas pe�as. Mimmi era copropriet�ria da butique com umas amigas, o que representava alguns milhares de coroas por m�s para refor�ar o cr�dito estudantil. Lisbeth Salander descobrira Mimmi alguns anos antes, quando ela se apresentava num show durante a Gay Pride; mais tarde naquela noite cruzara com ela numa barraca de cerveja. Mimmi usava um vestido esquisito de pl�stico verde-lim�o, que mais mostrava do que escondia. Lisbeth teve dificuldade em encontrar alguma nuan�a er�tica naquela vestimenta, mas estava b�bada o bastante para, de repente, sentir vontade de dar em cima de uma mulher fantasiada de lim�o. Para a imensa surpresa de Lisbeth, o lim�o concedera-lhe um olhar e a beijara sem nenhum constrangimento, dizendo: <emphasis>Quero voc�!</emphasis> Tinham ido para a casa de Lisbeth e feito amor a noite inteira.</p><p>Eu sou assim � disse Lisbeth. � Ca� fora para me afastar de tudo e de todos. Deveria ter me despedido de voc�.</p><p>Pensei que tinha acontecido alguma coisa com voc�. Mas � verdade que a gente n�o vinha tendo muito contato nos �ltimos meses antes de voc� sumir.</p><p>Eu estava superocupada.</p><p>Voc� � mesmo uma garota misteriosa. Nunca fala de voc�, n�o sei onde voc� trabalha, e eu n�o sabia para quem ligar quando parou de atender o celular.</p><p>�No momento estou sem nenhum trabalho espec�fico e, d� licen�a, voc� era exatamente igual a mim. Queria trepar comigo, mas n�o estava particularmente interessada em mim, e prefere viver sozinha. N�o � verdade? Mimmi olhou para Lisbeth.</p><p>�� verdade - disse por fim.</p><p>�E comigo era igual. Eu queria trepar, mas n�o queria ser um casal com voc�. Eu nunca prometi nada.</p><p>�Voc� mudou - disse Mimmi.</p><p>�Nem tanto.</p><p>�Parece mais velha. Mais madura. Est� vestida diferente. E recheou o suti� com alguma coisa.</p><p>Lisbeth se remexeu na cadeira, mas n�o respondeu. Mimmi acabava de tocar no ponto sens�vel, e ela n�o conseguia definir como ia explicar o assunto para as pessoas que a conheciam. Mimmi a tinha visto nua e necessariamente iria notar uma mudan�a. Por fim, baixou os olhos e murmurou:</p><p>�Eu mandei colocar uns seios.</p><p>�O que voc� est� dizendo?</p><p>Lisbeth ergueu os olhos e falou mais alto, sem perceber o tom desafiador que estava adotando.</p><p>�Estive numa cl�nica, na It�lia, para fazer uns implantes. Foi por isso que eu sumi. Depois, eu simplesmente continuei viajando. Agora estou de volta.</p><p>�Est� brincando?</p><p>Lisbeth fitou Mimmi com um olhar inexpressivo.</p><p>�Ah, que boba que eu sou. Voc� nunca brinca <emphasis>mademoiselle Spock.</emphasis></p><p>�Eu sou assim e n�o pretendo me desculpar. Estou sendo honesta com voc�. Se quiser que eu v� embora, � s� dizer. Quer que eu v� embora?</p><p>�Espera a�, voc� realmente fez implante de seios?</p><p>Lisbeth meneou a cabe�a. Mimmi Wu caiu na gargalhada. Lisbeth murchou.</p><p>�Seja como for, voc� nem pense em ir embora sem eu ver. Por favor, minha linda. <emphasis>Please.</emphasis></p><p>�Mimmi, eu sou assim. Voc� tamb�m. Voc� d� em cima de tudo o que em seios, e at� de algu�m como eu, que n�o tinha seio nenhum. Por isso � que eu gostava tanto de trepar com voc�. Voc� n�o botava o nariz nas minhas hist�rias e se eu estivesse ocupada procurava outra. E voc� n�o d� a m�nima para o que as pessoas acham de voc�.</p><p>Mimmi meneou a cabe�a. Entendera que era l�sbica j� na �poca do col�gio e, depois de alguns tateios dif�ceis, fora finalmente iniciada nos mist�rios do erotismo aos dezessete anos, quando, por acaso, acompanhara uma amiga a uma festa organizada pela Associa��o pela Igualdade Sexual de G�teborg. A partir dali, nunca sequer cogitara viver de outra maneira. Uma �nica vez, estava ent�o com vinte e tr�s anos, tentara fazer amor com um homem. Cumprira o ato e fizera tudo aquilo que se esperava dela. N�o sentira prazer algum. Em compensa��o, as mulheres, de todo tipo e formato, despertavam nela um desejo infinito. Ela pertencia tamb�m � minoria dentro da minoria das que n�o experimentavam nem casamento, nem fidelidade, nem noites aconchegantes em casa.</p><p>�Voltei para a Su�cia faz umas poucas semanas. S� queria saber se preciso sair ca�ando por a� ou se voc� ainda est� topando.</p><p>Mimmi se levantou e se acercou de Lisbeth. Inclinou-se e beijou-a suavemente na boca.</p><p>Eu pretendia trabalhar hoje � noite. Abriu o primeiro bot�o da camisa de Lisbeth.</p><p>�Puxa vida...</p><p>Beijou-a de novo e abriu outro bot�o.</p><p>�Eu tenho que ver isso. Mais um beijo.</p><p>�Que bom que voc� voltou.</p><p>Harriet Vanger adormeceu por volta das duas da manh�, enquanto Mikael Blomkvist ficou acordado escutando sua respira��o. Acabou se levantando e roubando um cigarro na bolsa dela. Sentou-se, nu, numa cadeira ao lado da cama e ficou olhando para ela.</p><p>Mikael n�o planejara tornar-se amante ocasional de Harriet. Pelo contr�rio, depois do per�odo passado em Hedestad, sua vontade era manter dist�ncia da fam�lia Vanger. Reencontrara-se com Harriet na primavera, nas reuni�es do conselho administrativo, e mantivera uma dist�ncia polida; cada um conhecia os segredinhos do outro e os guardava para si, mas, a n�o ser pelas obriga��es de Harriet na diretoria da <emphasis>Millennium,</emphasis> nada mais os ligava em termos de trabalho.</p><p>No ano anterior, depois de meses sem aparecer em sua cabana de Sandham, Mikael passara um tempo l� no feriado de Pentecostes, s� para ficar em paz, sentar em frente ao mar e ler um romance policial. Na sexta-feira � tarde, poucas horas depois de sua chegada, quando foi a p� at� o quiosque para comprar cigarros, topou inopinadamente com Harriet Vanger. Ela sentira vontade de se afastar de Hedestad e fizera uma reserva de fim de semana no hotel de Sandham, lugar que n�o via desde a inf�ncia. Tinha dezesseis anos quando fugira da Su�cia, e cinquenta e tr�s quando voltara depois que Mikael encontrara sua pista.</p><p>A surpresa de se encontrarem assim por acaso tinha sido m�tua. Depois de algumas frases banais, ela se calou, constrangida. Mikael conhecia a hist�ria dela. E ela sabia que ele cedera em seus princ�pios para encobrir os terr�veis segredos da fam�lia Vanger. Entre outras coisas, para poup�-la.</p><p>Mikael a convidara para conhecer sua cabana. Tinham ficado um bom tempo no pont�o, batendo papo. Era a primeira vez que conversavam seriamente depois que ela voltara para a Su�cia. Mikael tinha que fazer a pergunta.</p><p>�O que voc�s fizeram com tudo aquilo que estava no por�o de Martin Vanger?</p><p>�Voc� quer mesmo saber? Ele meneou a cabe�a.</p><p>�Eu mesma fiz a faxina. Queimei tudo o que era poss�vel queimar. Mandei derrubar a casa. N�o teria conseguido morar l�, nem vender ou deixar outra pessoa morar ali. Para mim, ela estava totalmente associada ao mal. Pretendo mandar construir outra casa, menor, naquele terreno.</p><p>�E ningu�m reclamou quando voc� mandou derrubar? Afinal, era uma magn�fica mans�o moderna.</p><p>Ela sorriu.</p><p>�Dirch Frode espalhou o boato de que havia tamanho problema de umidade na casa que ficaria mais caro mandar consertar.</p><p>Dirch Frode era o advogado e faz-tudo da fam�lia Vanger.</p><p>�Como vai o Frode?</p><p>�Est� para fazer setenta anos. Eu o mantenho ocupado.</p><p>Jantaram juntos e Mikael de repente se deu conta de que Harriet estava lhe contando os detalhes mais �ntimos e pessoais de sua vida. Ele a interrompeu e perguntou por qu�. Ela refletiu um instante e respondeu que talvez ele fosse a �nica pessoa no mundo de quem n�o tinha motivo para esconder o que quer que fosse. Al�m do qu�, achava dif�cil guardar segredos de um menino do qual fora <emphasis>baby-sitter</emphasis> quarenta anos antes.</p><p>Ela experimentara o sexo com tr�s homens em sua vida. Primeiro seu pai, depois seu irm�o. Matara o pai e fugira para longe do irm�o. De um jeito ou de outro, sobrevivera, encontrara um homem e constru�ra uma vida nova.</p><p>�Ele era carinhoso e muito amoroso. A gente n�o... quero dizer, a gente n�o tinha uma vida �ntima exuberante, mas ele era honesto e me dava seguran�a. Fui feliz com ele. Vivemos juntos vinte anos, at� ele ficar doente.</p><p>�Por que nunca se casou de novo? Ela deu de ombros.</p><p>�Eu era m�e de dois filhos na Austr�lia, e propriet�ria de uma grande empresa agr�cola. Imagino que eu nunca tive de fato disponibilidade para escapar em fins de semana rom�nticos. Sexo nunca me fez falta.</p><p>Ficaram um momento calados.</p><p>�Est� tarde. Preciso voltar para o hotel. Mikael concordou com a cabe�a.</p><p>�Voc� est� a fim de me seduzir?</p><p>�Sim - ele respondeu.</p><p>Mikael se levantou, pegou-a pela m�o, eles entraram na cabana e subiram at� o mezanino. Ela o deteve.</p><p>�N�o sei bem como me comportar - disse. �N�o � todo dia que fa�o essas coisas.</p><p>Passaram o fim de semana juntos e, desde ent�o, viam-se uma noite a cada tr�s meses, quando se reunia o conselho administrativo da <emphasis>Millennium.</emphasis> N�o era uma rela��o muito pr�tica nem duradoura. Harriet Vanger trabalhava vinte e quatro horas por dia e viajava a maior parte do tempo. Ela passava um m�s na Su�cia e outro na Austr�lia. Contudo, come�ara a apreciar aqueles encontros irregulares e espor�dicos com Mikael.</p><p>Duas horas depois, Mimmi preparava o caf� enquanto Lisbeth permanecia deitada, nua e suada, em cima da colcha. Fumou um cigarro, contemplando as costas de Mimmi pela porta entreaberta. Invejava o corpo dela, com seus m�sculos impressionantes. Mimmi se exercitava tr�s noites por semana, uma delas treinando luta tailandesa ou alguma coisa parecida com carat�, que deixara seu corpo naquele insolente condicionamento f�sico.</p><p>Ela era simplesmente gostosa. N�o era bonita como uma modelo, mas era atraente. Mimmi adorava provocar e excitar. Quando se fazia de louca numa festa, vestida com seus trajes singulares, conseguia fascinar qualquer pessoa. Podia seduzir quem quisesse. Lisbeth n�o entendia por que Mimmi se interessava por uma bobinha anor�xica como ela.</p><p>Mas ficava contente que fosse assim. Trepar com Mimmi era t�o libertador que Lisbeth se soltava, gozava, dava e tomava.</p><p>Mimmi voltou com duas canecas e as colocou sobre um banquinho. Subiu na cama e se inclinou para beijar um dos seios de Lisbeth.</p><p>�Bem, d�o para o gasto - disse.</p><p>Lisbeth n�o falou nada. Olhou para os seios de Mimmi, diante de seus olhos. Mimmi tamb�m tinha seios um tanto pequenos, mas pareciam totalmente naturais no corpo dela.</p><p>�Sinceramente, Lisbeth, voc� est� mais do que atraente.</p><p>�N�o brinque comigo. Os seios n�o mudam nada, mas pelo menos agora eu tenho seios.</p><p>�Voc� tem uma fixa��o com corpo.</p><p>�Logo quem falando, voc� se exercita feito uma maluca.</p><p>�Eu me exercito feito uma maluca porque gosto de me exercitar. � que nem tomar uma dose, quase t�o forte como sexo. Voc� devia experimentar.</p><p>�Eu fa�o boxe - disse ela.</p><p>�Sei. Voc� s� ia de dois em dois meses, e isso porque sentia um prazer maligno em encher de porrada aqueles babacas que ficavam se pavoneando. Isso n�o � treinar para se sentir bem.</p><p>Lisbeth deu de ombros. Mimmi se escarranchou em cima dela.</p><p>�Lisbeth, voc� � t�o egoc�ntrica e fixada no pr�prio corpo que at� me irrita. Tente entender: se eu gostava de ter voc� na minha cama, n�o era pelo seu f�sico, mas pelo seu comportamento. Para mim, voc� � tremendamente sexy. E voc� sabe como � que eu funciono.</p><p>�Voc� tamb�m. Por isso estou voltando para voc�.</p><p>�Ent�o n�o � amor? - perguntou Mimmi com uma voz fingidamente magoada.</p><p>Lisbeth balan�ou a cabe�a.</p><p>�Voc� est� com algu�m?</p><p>Mimmi hesitou um instante antes de menear a cabe�a.</p><p>�Pode ser. De certa forma. Pode-se dizer que sim. � meio complicado.</p><p>�N�o estou te perguntando mais nada.</p><p>�Eu sei. Eu � que quero falar. Digamos que estou com uma mulher que trabalha na faculdade, um pouco mais velha que eu. Est� casada h� vinte anos e a gente, de certa forma, se encontra escondido do marido dela. Sabe como �, casar�o no sub�rbio, essa coisa toda. Uma sapata enrustida.</p><p>Lisbeth assentiu com a cabe�a.</p><p>�O marido dela viaja um bocado, de modo que a gente se encontra de tempos em tempos. J� dura desde o outono e est� meio que come�ando a cair na rotina. Mas ela � realmente bonita. Fora isso, continuo me encontrando com o pessoal de sempre, claro.</p><p>�A minha pergunta, na verdade, era: posso voltar aqui para te ver? Mimmi fez que sim com a cabe�a.</p><p>�Sim, quero muito que voc� me d� not�cias.</p><p>�Mesmo que eu suma de novo por seis meses?</p><p>�Mantenha contato. Fa�o quest�o de saber se voc� ainda est� viva. E, acredite se quiser, lembro do dia do seu anivers�rio.</p><p>�Sem cobran�as? Mimmi suspirou e sorriu.</p><p>�Sabe, voc� � uma mulher com quem eu poderia viver. Voc� ia me deixar na minha quando me d� vontade de ficar na minha.</p><p>Lisbeth n�o disse nada.</p><p>�Al�m do qu�, na verdade, voc� n�o � l�sbica. N�o de fato. Bissexual, talvez. Acho que, acima de tudo, voc� � dif�cil de definir sexualmente. Ou seja: voc� gosta de sexo, n�o importa com quem seja. Tenho a impress�o de que voc�, antes de mais nada, � um fator de caos permanente.</p><p>�Eu n�o sei o que eu sou � disse Lisbeth. � Mas voltei para Estocolmo e n�o sou muito boa em relacionamentos. Resumindo, n�o conhe�o absolutamente ningu�m aqui. Voc� � a primeira pessoa com quem eu estou falando desde que cheguei.</p><p>Mimmi encarou-a com um jeito s�rio.</p><p>Voc� est� mesmo querendo conhecer pessoas? Voc�, a mulher mais an�nima e inacess�vel que eu conhe�o? Ficaram um momento caladas.</p><p>Mas esses seios novos est�o realmente �timos.</p><p>P�s um dedo sob um mamilo e puxou a pele.</p><p>� Ficam muito bem em voc�. N�o s�o nem muito grandes nem muito pequenos.</p><p>Lisbeth suspirou de al�vio ao ver que as cr�ticas iam pelo caminho certo.</p><p>� E, quando a gente toca, parecem de verdade.</p><p>Ela apertou com tanta for�a que Lisbeth abriu a boca, sem f�lego. Elas se olharam. Ent�o Mimmi se inclinou e a beijou gulosamente. Lisbeth apertou Mimmi junto a si. O caf� esfriou antes que elas o tomassem.</p></section><section><p><strong><emphasis>��������7 - S�BADO 29 DE JANEIRO � DOMINGO 13 DE FEVEREIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>O gigante loiro entrou na aldeia de Svavelsj�, entre J�rna e Vagnharad, por volta das onze da manh� de s�bado. O lugarejo compunha-se de umas quinze casas. Parou o carro na �ltima constru��o, cerca de cento e cinquenta metros fora da aldeia. Era um antigo pr�dio industrial desbotado onde antes funcionara uma gr�fica, mas que, de acordo com uma placa, hoje sediava o Moto Clube de Svavelsj�. Embora o tr�fego fosse inexistente, ele olhou em volta com aten��o antes de abrir a porta. O ar estava frio. Vestiu luvas de couro marrom e tirou uma sacola esportiva do porta-malas.</p><p>N�o que receasse ser notado. A velha gr�fica estava localizada de tal modo que era quase imposs�vel estacionar um carro sem ser visto. Se os tiras quisessem vigiar a constru��o, teriam de equipar seus homens com roupa de camuflagem e posicion�-los numa vala do outro lado do pasto, munidos de telesc�pios. Seriam rapidamente avistados pelas pessoas da aldeia, que comentariam e, como tr�s daquelas casas pertenciam a membros do Moto Clube, em pouco tempo a not�cia chegaria ao diretor do clube.</p><p>Em compensa��o, n�o queria entrar na casa. Os tiras j� tinham feito duas ou tr�s blitze na sede do clube, e v� saber se n�o tinham instalado um discreto sistema de escuta. Isso fazia que as conversas l� dentro se limitassem a carro, mulher e cerveja, ou at� a projetos econ�micos, e raramente girassem em torno de segredos de import�ncia capital.</p><p>O gigante loiro esperou pacientemente, portanto, que Carl-Magnus Lundin sa�sse para o p�tio. Magge Lundin, trinta e seis anos, era o presidente do clube. A princ�pio de constitui��o magra, tinha adquirido tantos quilos em alguns anos que ostentava a barriga caracter�stica dos bebedores de cerveja. Seu cabelo loiro era preso num rabo de cavalo e ele usava botinas, cal�a jeans preta e um casaco grosso de inverno. O sujeito tinha cinco condena��es no curr�culo. Duas por pequenas infra��es ligadas a droga, uma por recepta��o agravada e uma por roubo de carro e dirigir embriagado. A quinta condena��o, mais s�ria, valera-lhe um ano de pris�o por golpes e ferimentos agravados, um ato desnecess�rio e inteiramente gratuito cometido v�rios anos antes, quando, sob efeito do �lcool, detonara um bar em Estocolmo.</p><p>Apertaram-se as m�os. Magge Lundin fez um sinal com a cabe�a e eles puseram-se a andar devagar ao longo da cerca do p�tio.</p><p>�Fazia meses que a gente n�o se via - disse Magge. O gigante loiro assentiu com a cabe�a.</p><p>�Estamos num golpe. Mais de tr�s quilos de metanfetamina, 3060 gramas para ser mais preciso.</p><p>�Igual � outra vez?</p><p>�Meio a meio.</p><p>Magge Lundin tirou um ma�o de cigarros do bolso interno do casaco. Meneou a cabe�a. Gostava de fazer neg�cios com o gigante loiro. A metanfetamina era revendida nas ruas entre cento e sessenta e duzentas e trinta coroas por grama, conforme a oferta do momento. Aqueles 3060 gramas representavam mais de seiscentas mil coroas. Concretamente, o MC Svavelsj� distribuiria os tr�s quilos em por��es de cerca de duzentos e cinquenta gramas para revendedores fixos. Naquele elo da corrente, o pre�o era apenas cento e vinte ou cento e trinta coroas por grama, o que evidentemente reduzia o lucro te�rico.</p><p>Era um bom neg�cio para o <strong>MC</strong> Svavelsj�. Diferentemente dos outros fornecedores, o gigante loiro nunca insistia para ser pago adiantado e nem impunha seus pre�os. Entregava a mercadoria e exigia cinquenta por cento dos lucros, um quinh�o perfeitamente razo�vel. As duas partes sabiam, grosso modo, o quanto ganhariam com um quilo de metanfetamina; o valor exato dependeria da efici�ncia de Magge Lundin na hora da venda. Previa-se uma diferen�a de algumas c�dulas de mil para mais ou para menos, mas, uma vez terminado o neg�cio, o gigante loiro voltaria para embolsar uma quantia de cerca de cento e noventa mil coroas e o mesmo tanto ficaria no caixa do MC Svavelsj�.</p><p>Fazia muitos anos que o neg�cio entre eles funcionava nesse sistema. Magge Lundin sabia que o gigante loiro poderia duplicar seus ganhos tratando pessoalmente da distribui��o. Sabia tamb�m por que o gigante loiro aceitava um lucro menor: permanecia na moita, enquanto o <strong>MC</strong> Svavelsj� assumia todos os riscos. E, � diferen�a de todos os outros fornecedores que Lundin conhecia, a rela��o se baseava nos princ�pios comerciais do cr�dito e da boa vontade. Nunca se elevava o tom de voz, nunca havia complica��es ou amea�as.</p><p>Uma vez, inclusive, num fornecimento de armas que tinha dado errado, o gigante loiro tivera de engolir um preju�zo de quase cem mil coroas. Magge Lundin n�o conhecia ningu�m no ramo capaz de absorver um preju�zo desses com uma calma t�o estoica. Ele pr�prio estava apavorado de ter de se encontrar com ele para contar o que tinha acontecido. Explicara em detalhes por que o neg�cio tinha gorado, e por que um tira do Centro de Preven��o Criminal dera uma batida na casa de um dos membros da Fraternidade Ariana no V�rmland. O gigante, por�m, nem sequer levantou a sobrancelha. At� se mostrou simp�tico. Essas coisas aconteciam. Magge Lundin n�o tivera o lucro esperado e cinquenta por cento de nada era igual a zero. Assunto encerrado.</p><p>Magge Lundin n�o era desprovido de intelig�ncia. Compreendia que um lucro menor, mas com relativamente pouco risco, era simplesmente uma boa id�ia comercial.</p><p>Nunca cogitara enrolar o gigante loiro. N�o teria sido <emphasis>fair-play.</emphasis> O gigante loiro e seus s�cios aceitavam um lucro pequeno desde que as contas fossem honestas. Se ele tentasse enrolar o gigante, o cara viria ter com ele de qualquer jeito, e Magge Lundin tinha todos os motivos para achar que nessa ele perderia a vida. De modo que nem pensar em discutir.</p><p>�Quando voc� pode entregar?</p><p>O gigante loiro largou a sacola esportiva no ch�o.</p><p>�Est� entregue.</p><p>Magge Lundin n�o se deu ao trabalho de abrir a sacola e conferir o conte�do. Contentou-se em estender a m�o para demonstrar que eles tinham um acordo e que cabia a ele cumprir sua parte.</p><p>�Tem outra coisa - disse o gigante loiro.</p><p>�O qu�?</p><p>�A gente queria te contratar para um servi�o especial.</p><p>�Pode falar.</p><p>O gigante loiro pegou um envelope do bolso interno da jaqueta. Magge Lundin o abriu e tirou uma foto de identidade e um papel contendo dados pessoais. Ergueu as sobrancelhas num ponto de interroga��o.</p><p>�Ela se chama Lisbeth Salander, mora na Lundagatan, no S�dermalm, em Estocolmo.</p><p>�Est� anotado.</p><p>�Ela deve estar no exterior no momento, mas vai acabar aparecendo uma hora dessas.</p><p>�A gente vai estar l�.</p><p>�O meu patr�o queria ter uma conversinha particular com ela sem ser incomodado. Ela precisa ser entregue viva. Por exemplo, naquele hangar perto de Yngern. Tem que providenciar algu�m para fazer uma faxina depois da conversa. Ela deve sumir sem deixar rastro.</p><p>�D� para fazer. Como a gente vai saber que ela chegou?</p><p>�Eu aviso quando for a hora.</p><p>�Quanto?</p><p>�Dez milh�es no total. N�o � um servi�o complicado. Voc� vai at� Estocolmo, pega a mo�a e me entrega.</p><p>Apertaram-se as m�os mais uma vez.</p><p>Na sua segunda visita � Lundagatan, Lisbeth se sentou no sof� para refletir. Precisava tomar algumas decis�es estrat�gicas, e uma delas era resolver se ficava ou n�o com aquele apartamento.</p><p>Acendeu um cigarro, soprou a fuma�a para o teto e jogou a cinza numa latinha vazia de Coca.</p><p>N�o havia nenhum motivo para ela gostar do apartamento, para o qual se mudara com a m�e e a irm� quando tinha quatro anos. A m�e ocupava a sala, ao passo que ela e Camilla dividiam o quartinho. Com doze anos, quando Todo o Mal acontecera, ela primeiro tinha sido internada numa cl�nica pedi�trica e depois, aos quinze anos, passara por diferentes fam�lias adotivas. Seu administrador <emphasis>ad hoc</emphasis> legal, Holger Palmgren, sublocara o apartamento e dera um jeito para que ela o recuperasse quando atingiu a maioridade e precisou de um lugar para morar.</p><p>Nunca fora para ela um apartamento da felicidade, mas representara um ponto de refer�ncia durante a maior parte de sua exist�ncia. Embora n�o precisasse dele, a id�ia de abandon�-lo e que estranhos viessem andar em seu piso a revoltava.</p><p>O problema log�stico era que toda a sua correspond�ncia oficial � at� onde ela recebia correspond�ncia � chegava na Lundagatan. Abandonar o apartamento a obrigaria a adotar um novo endere�o. Lisbeth Salander n�o tinha muita vontade de ser uma pessoa concretamente presente em arquivos de todos os tipos. Mentalmente, funcionava no �mbito da paran�ia e ela n�o tinha motivo nenhum para confiar nas autoridades nem, ali�s, em quem quer que fosse.</p><p>Pela janela, viu o muro do p�tio dos fundos que contemplara a sua vida inteira. S�bito, sentiu-se aliviada por ter decidido sair do apartamento. Nunca se sentira � vontade ou em seguran�a dentro dele. S�bria ou b�bada de cair, cada vez que virava a esquina e se aproximava do port�o do pr�dio dava uma boa olhada nos arredores, nos carros estacionados, nos pedestres. Tinha todos os motivos para achar que em algum lugar havia pessoas querendo lhe fazer mal, e muito provavelmente essas pessoas passariam ao ataque quando ela estivesse entrando ou saindo de casa.</p><p>Nunca houvera, no entanto, nenhuma agress�o nem acontecera absolutamente nada. Mas nem por isso ela relaxava a vigil�ncia. O endere�o da Lundagatan estava em todos os arquivos oficiais, e em todos aqueles anos ela nunca tivera como incrementar sua seguran�a sen�o ficando permanentemente alerta. N�o queria, de jeito nenhum, que algu�m soubesse do seu novo endere�o na Fiskaregatan. Seu instinto lhe dizia para se manter t�o an�nima quanto poss�vel.</p><p>Isso, por�m, n�o resolvia a quest�o do que ela deveria fazer com o apartamento. Ficou mais algum tempo quebrando a cabe�a, depois pegou o celular e ligou para Mimmi.</p><p>�Oi, sou eu.</p><p>�Oi, Lisbeth. Desta vez est� dando not�cias depois de uma semana?</p><p>�Estou na Lundagatan.</p><p>�Sei.</p><p>�Fiquei pensando se voc� se interessaria em ficar com o meu apartamento.</p><p>�Como assim, ficar com o seu apartamento?</p><p>�Voc� mora numa caixa de sapatos.</p><p>�Mas me sinto bem aqui. Voc� pretende se mudar?</p><p>�Eu j� me mudei. O apartamento est� vazio. Mimmi hesitou do outro lado da linha.</p><p>�E est� me perguntando se quero ficar com ele? Ora, Lisbeth, n�o tenho condi��es para isso.</p><p>�Ele est� quitado. S�o 1480 coroas de condom�nio por m�s, o que deve ser menos do que voc� paga pela sua caixa de sapatos. E j� est� pago por um ano.</p><p>�Mas voc� pretende vender. Quero dizer, ele deve valer muito mais que um milh�o.</p><p>�Um e meio, segundo os an�ncios das imobili�rias.</p><p>�Eu n�o tenho condi��es.</p><p>�E eu n�o tenho inten��o de vender. Voc� pode se mudar ainda hoje, pode morar aqui o tempo que quiser e n�o vai ter condom�nio para pagar durante um ano. N�o tenho o direito de sublocar, mas posso mencionar no contrato que voc� � minha companheira, assim voc� evita problemas com o condom�nio.</p><p>�Espera a�, Lisbeth, voc� est� me pedindo em casamento! � riu Mimmi.</p><p>O rosto de Lisbeth ficou de uma seriedade papal.</p><p>�O apartamento n�o me serve para nada e n�o tenho a inten��o de vender.</p><p>�Quer dizer que eu posso morar a� de gra�a... N�o � goza��o?</p><p>�N�o.</p><p>�Por quanto tempo?</p><p>�Pelo tempo que voc� quiser. Te interessa?</p><p>�Mas claro. N�o � todo dia que me oferecem um apartamento de gra�a no S�der, e morar num bairro chique � tentador.</p><p>�S� tem uma coisa.</p><p>�Eu sabia.</p><p>�Voc� pode morar aqui o tempo que quiser, mas este vai continuar sendo o meu endere�o, e a minha correspond�ncia vai vir para c�. S� o que eu te pe�o � para pegar a correspond�ncia e me avisar se tiver algo que interesse.</p><p>�Lisbeth, voc� � a mulher mais maluca que eu conhe�o. O que voc� est� aprontando? Onde vai morar?</p><p>�A gente fala nisso outra hora � disse Lisbeth, evasiva.</p><p>Combinaram de se encontrar mais no final da tarde para que Mimmi conhecesse o apartamento. Com as coisas assim acertadas, Lisbeth se sentiu bem melhor. Consultou o rel�gio e concluiu que ainda tinha muito tempo antes de Mimmi chegar. Levantou-se e foi a p� at� o Handelsbanken, na Hornsgatan, onde pegou uma senha e esperou pacientemente at� um caixa ficar livre.</p><p>Mostrou sua carteira de identidade e explicou que tinha ficado algum tempo fora do pa�s e queria consultar o extrato de sua poupan�a. Seu capital oficialmente declarado era de 82670 coroas. A conta tinha ficado parada por mais de um ano, a n�o ser por um dep�sito de 9312 coroas feito no outono. A heran�a de sua m�e.</p><p>Lisbeth Salander sacou a quantia correspondente � heran�a. Refletiu um momento. Queria usar esse dinheiro em alguma coisa que teria agradado � sua m�e. Alguma coisa especial. Foi at� a ag�ncia de correios da Rosenlundsgatan e, sem que ela pr�pria entendesse o porqu� desta escolha, fez uma doa��o an�nima na conta do SOS-Mulheres.</p><p>Eram oito da noite de sexta-feira, quando Erika desligou o computador e se espregui�ou. Tinha passado nove horas fazendo a �ltima revis�o da edi��o de mar�o da <emphasis>Millennium</emphasis> e, como Malu Eriksson estava trabalhando em tempo integral no n�mero tem�tico de Dag Svensson, ela mesma tivera de fazer boa parte da reda��o. Henry Cortez e Lottie Karim at� tinham lhe dado uma m�o, mas eles tinham mais experi�ncia como correspondente e rep�rter do <strong>QUE</strong><strong>EM</strong> escrever.</p><p>De modo que Erika Berger se sentia cansada, e com o traseiro dolorido, mas no conjunto estava satisfeita com o seu dia e com a vida em geral. As finan�as da revista andavam est�veis, as curvas dos gr�ficos estavam na dire��o certa, os textos chegavam antes do prazo-limite ou, pelo menos, sem muito atraso, os funcion�rios estavam satisfeitos e, passado um ano, continuavam estimulados pela inje��o de adrenalina que o caso Wennerstr�m representara.</p><p>Passou uns momentos tentando massagear a nuca, pensou que uma chuveirada lhe faria muito bem e cogitou utilizar o banheirinho que ficava atr�s da copa. Mas sentiu pregui�a e contentou-se em descansar os p�s sobre a mesa, constatando que ia fazer quarenta e cinco anos dali a tr�s meses e que o tal futuro de que todo mundo falava estava come�ando a fazer cada vez mais parte do passado. O contorno dos seus olhos e boca j� apresentava uma fina rede de pequenas rugas, mas ela sabia que ainda era bonita, e sua rotina inclu�a duas sess�es infernais de academia por semana. Reconhecia que andava tendo mais dificuldade para subir no topo do mastro, quando fazia cruzeiros com o marido. Era sempre ela que subia quando necess�rio - Lars, seu marido, sofria de vertigem.</p><p>Tamb�m ponderou que seus primeiros quarenta e cinco anos de vida, apesar de alguns altos e baixos, no geral haviam sido felizes. Ela tinha dinheiro, status social, uma casa sensacional e um trabalho que adorava. Tinha um marido carinhoso que a amava e pelo qual ainda era, depois de quinze anos de casados, loucamente apaixonada. E, al�m disso, um amante agrad�vel e aparentemente incans�vel que sem d�vida n�o satisfazia sua alma, mas seu corpo, nos momentos de necessidade urgente.</p><p>Sorriu, de repente, ao pensar em Mikael Blomkvist. Perguntou-se quando ele iria criar coragem para lhe confessar que tinha um caso com Harriet Vanger. Nem Mikael nem Harriet haviam sequer mencionado seu relacionamento, mas Erika n�o tinha nascido ontem. Por causa de um s�bito palpite durante a reuni�o de agosto do conselho administrativo, e de uma troca de olhares entre Mikael e Harriet, ela percebera que havia alguma coisa entre os dois. Esperta, tentara ligar mais � noite para o celular de um e de outro e n�o se surpreendeu ao ver que estavam desligados. Claro que isso em si n�o constitu�a uma prova decisiva, mas nas reuni�es seguintes observou que Mikael tamb�m nunca era encontrado � noite. Foi at� engra�ado ver com que rapidez Harriet deixara o restaurante depois da assembl�ia geral, pretextando cansa�o e necessidade de dormir. Erika n�o sentia ci�mes nem vontade de levar a investiga��o adiante, mas pretendia mexer com os dois a respeito.</p><p>Nem pensava em se meter nas hist�rias de Mikael com as mulheres � que eram muitas e complicadas; s� esperava que a rela��o dele com Harriet n�o resultasse em problemas na diretoria. Mas n�o chegava a se preocupar; Mikael n�o s� era mestre em deixar suas amizades femininas bobas de satisfa��o como sabia terminar um caso sem criar nenhum drama. Sempre se tornava um bom amigo de suas ex-amantes e muito raramente se vira em dificuldades.</p><p>Quanto a Erika, adorava ser amiga e confidente de Mikael. Em certos aspectos, ele era absolutamente tapado e em outros, t�o perspicaz que parecia um or�culo. Mikael nunca compreendera o amor que ela nutria pelo marido. Achava dif�cil aguentar Lars Beckman e nunca entendera por que Erika o considerava um ser fascinante, ardoroso, excitante e generoso, e, principalmente, desprovido dos tantos defeitos que ela detestava em muitos homens. Lars era o homem com quem ela queria envelhecer. Queria ter tido filhos com ele, mas isso se revelara imposs�vel e agora j� era tarde demais. Em sua escolha por um parceiro de vida, por�m, n�o podia imaginar alternativa melhor e mais est�vel - um homem em quem podia confiar totalmente e estava sempre presente quando precisava dele.</p><p>Mikael era diferente. Era um homem com tra�os de car�ter t�o cambiantes que, a seu ver, �s vezes parecia dotado de m�ltiplas personalidades. No lado profissional, era teimoso e quase doentiamente focado no trabalho. Apossava-se de uma hist�ria e ia avan�ando obstinadamente por ela at� o ponto, pr�ximo � perfei��o, em que todos os fios se desatavam. Nos seus melhores momentos, era simplesmente brilhante e quando acontecia de ele ser ruim, ainda assim era muito acima da m�dia. Parecia possuir um talento quase intuitivo para p�r o dedo em hist�rias que tinham dente-de-coelho e deixar para l� as que nunca passariam de bagatelas sem interesse. Nunca, em momento algum, Erika Berger se arrependera de ter se associado a Mikael.</p><p>Tamb�m nunca se arrependera de ter se tornado sua amante.</p><p>O �nico que entendia a paix�o sexual de Erika Berger por Mikael Blomkvist era seu marido, e entendia porque ela tinha coragem de conversar sobre suas necessidades com ele. N�o se tratava de infidelidade, mas de um desejo. Dormir com Mikael mergulhava-a em del�cias que nenhum outro homem, inclusive Lars, sabia lhe dar.</p><p>O sexo era importante para Erika Berger. Ela perdera a virgindade aos catorze anos e passara boa parte de sua adolesc�ncia frustrada buscando a satisfa��o. Adolescente, experimentara de tudo: flertes avan�ados com colegas de escola, rela��o complicada com um professor bem mais velho, sexo por telefone e sexo com um neur�tico. Provara de tudo o que lhe interessava no campo do erotismo. Se ensaiara em pr�ticas sadomasoquistas, fora membro do clube Xtreme, que organizava festas pouco recomend�veis. Em v�rias oportunidades, experimentara o sexo com outras mulheres e conclu�ra, decepcionada, que n�o era a praia dela e que as mulheres eram incapazes de excit�-la como um homem. Ou dois homens. Experimentara o sexo com dois homens - Lars e um conhecido galerista. Percebera que seu marido tinha uma tend�ncia bissexual muito acentuada, e que ela pr�pria ficava quase paralisada de gozo ao sentir dois homens acariciando-a e satisfazendo-a, assim como sentia um t�rbido prazer ao ver seu marido ser acariciado por outro homem. Lars e ela tinham repetido essa pr�tica com parceiros regulares e a apreciaram.</p><p>Assim, n�o � que sua vida sexual com Lars fosse tediosa ou insatisfat�ria. � que simplesmente Mikael Blomkvist lhe oferecia uma experi�ncia muito diversa.</p><p>Ele tinha talento. Era simplesmente um Amante Danado de Bom.</p><p>T�o bom que ela tinha a impress�o de ter alcan�ado o equil�brio perfeito com Lars como marido e Mikael como amante substituto segundo as necessidades. N�o podia passar sem nenhum dos dois e n�o tinha a menor inten��o de optar por um deles.</p><p>O que mais a atra�a na rela��o com Mikael � que ele n�o tinha a menor propens�o para control�-la. N�o era nem um pouco ciumento, e se ela pr�pria tivera v�rias crises de ci�mes no in�cio do seu relacionamento, vinte anos atr�s, descobrira que, no caso dele, n�o tinha por que ter ci�mes. Sua rela��o era baseada na amizade, e ele era de uma lealdade sem limites na amizade. Sua rela��o podia sobreviver aos piores golpes.</p><p>Erika Berger tinha consci�ncia de pertencer a um c�rculo de pessoas cujo estilo de vida n�o seria aprovado pela Associa��o das Donas de Casa Crist�s da Su�cia Profunda. O que para ela n�o era nenhum problema. Desde jovem resolvera que o que ela fazia na cama e o seu jeito de viver a vida s� diziam respeito a si mesma. Mas ficava irritada de ver tantos amigos seus comentarem sua rela��o com Mikael Blomkvist, e sempre pelas costas.</p><p>Mikael era homem. Podia ir de uma cama a outra sem que ningu�m sequer piscasse. Ela era mulher, e o fato de ter um amante, um s�, e isso com a aprova��o do marido - e ainda por cima ser fiel a esse amante h� vinte anos -, suscitava conversas no m�nimo interessantes nos jantares da cidade. As <emphasis>pessoas realmente n�o t�m mais o que fazer!</emphasis> Refletiu um instante, ent�o pegou o telefone e ligou para o marido.</p><p>�Sou eu. Querido, o que voc� est� fazendo?</p><p>�Estou escrevendo.</p><p>Lars Beckman n�o era apenas artista pl�stico; era sobretudo especialista em hist�ria da arte e autor de v�rios livros sobre o assunto. Participava regularmente de debates p�blicos, e grandes empresas de arquitetura o consultavam com freq��ncia. Nos �ltimos seis meses, vinha trabalhando na import�ncia da decora��o art�stica dos edif�cios e a quest�o do bem-estar que as pessoas sentiam em certos pr�dios e em outros n�o. O livro assumira ares de panfleto sobre funcionalidade e, na opini�o de Erika, iria sacudir o debate est�tico.</p><p>�Tudo bem com voc�?</p><p>�Tudo. Tudo tranq�ilo. E com voc�?</p><p>�Acabo de fechar o �ltimo n�mero. Ele vai para a gr�fica na quinta-feira.</p><p>�Parab�ns.</p><p>�Estou absolutamente exausta.</p><p>�Tenho a impress�o que voc� est� tramando alguma coisa.</p><p>�Voc� planejou alguma coisa para hoje � noite? Ficaria muito chateado se eu n�o dormisse em casa hoje?</p><p>�Diga ao Blomkvist que ele est� brincando com fogo � disse Lars.</p><p>�Acho que ele n�o liga.</p><p>�Certo. Diga a ele que voc� � uma bruxa insaci�vel e que ele vai envelhecer antes do tempo.</p><p>�Ele j� sabe.</p><p>�Nesse caso, s� me resta o suic�dio. Vou ficar escrevendo at� cair de sono. Divirta-se.</p><p>Trocaram beijos ao telefone e ent�o Erika ligou para Mikael. Ele estava na casa de Dag Svensson e Mia Bergman, em Enskede, acabavam de acertar alguns detalhes meio confusos do livro de Dag. Ela perguntou se ele tinha algum compromisso � noite ou se aceitaria fazer massagem numas costas doloridas.</p><p>�Voc� tem a chave - disse Mikael. �Sinta-se em casa.</p><p>�� o que eu pretendo fazer - ela respondeu. �Nos vemos em uma hora.</p><p>Levou dez minutos para ir a p� at� a Bellmansgatan. Despiu-se, tomou um banho, preparou um <emphasis>espresso,</emphasis> enfiou-se na cama de Mikael e esperou nua e impaciente.</p><p>Ocorreu-lhe que a satisfa��o ideal para ela provavelmente seria um <emphasis>m�nage � trois</emphasis> com seu marido e Mikael Blomkvist, o que, com uma probabilidade pr�xima dos cem por cento, jamais aconteceria. Mikael era t�o h�tero que, s� para provoc�-lo, ela o acusava de ser homof�bico. Ele nunca sequer experimentara com homens. Suspiro. Era apenas a prova de que n�o se pode ter tudo neste mundo.</p><p>Irritado, o gigante loiro franziu o cenho enquanto, ao volante do carro, avan�ava a quinze quil�metros por hora numa pista florestal t�o malcuidada que por um breve instante chegou a pensar que de algum modo tinha entendido errado as indica��es que lhe deram. Come�ava a anoitecer quando a estrada se fez mais larga e a casa, enfim, apareceu. Estacionou, desligou o motor e olhou em volta. A casa estava a uns bons cinquenta metros.</p><p>Ficava pr�xima de Stallarholmen, n�o muito longe de Mariefred. Era uma casinha bem simples dos anos 1950, constru�da em plena mata. Em meio �s �rvores, avistava uma faixa clara de gelo sobre o lago M�laren.</p><p>Tinha a maior dificuldade em entender como algu�m podia gostar de passar seu tempo livre num mato isolado daqueles. Desceu do carro, fechou a porta e imediatamente se sentiu pouco � vontade. A mata lhe parecia imensa e amea�adora. Sentia-se observado. Come�ou a andar em dire��o ao p�tio, ent�o escutou um s�bito farfalhar que o fez estacar.</p><p>Olhou fixamente para a mata. Estava tudo quieto e calmo no crep�sculo. Permaneceu uns dois minutos parado, os sentidos alertas, at� avistar com o rabo dos olhos um vulto se mexendo de mansinho entre as �rvores. Quando focou o olhar, o vulto ficou absolutamente im�vel, a uns trinta metros mato adentro, e o encarou.</p><p>O gigante loiro teve uma vaga sensa��o de p�nico. Procurou distinguir mais detalhes. Viu um rosto sombrio e anguloso. A criatura parecia um an�o de cerca de um metro de altura, e usava roupas de camuflagem que lembravam uma fantasia feita de musgo e ramos de pinheiro. <emphasis>Um gnomo da floresta? Um duende? Ser� que eram perigosos?</emphasis></p><p>Por um instante, o gigante loiro prendeu a respira��o. Sentiu os cabelos se eri�arem na cabe�a.</p><p>Ent�o piscou vigorosamente os olhos e balan�ou a cabe�a. Quando tornou a olhar, a criatura tinha se deslocado uns dez metros para a direita. <emphasis>N�o havia nada.</emphasis> Ele sabia que estava tendo uma alucina��o. Mesmo assim, enxergava com nitidez a criatura no meio das �rvores. E, de repente, a criatura se mexeu, aproximando-se. Parecia avan�ar depressa e descrever um semic�rculo irregular para se p�r em posi��o de ataque.</p><p>O gigante loiro se recomp�s e tratou de alcan�ar a casa. Bateu � porta meio forte demais, de um jeito meio ansioso demais. Assim que escutou movimentos humanos l� dentro, o p�nico o abandonou. Deu uma olhada por cima do ombro. N�o <emphasis>havia nada.</emphasis></p><p>S� relaxou, por�m, quando a porta se abriu. O Dr. Nils E. Bjurman o cumprimentou educadamente e o convidou a entrar.</p><p>Miriam Wu estava sem f�lego quando voltou da lixeira, para onde descera o �ltimo saco de lixo das coisas deixadas por Lisbeth Salander. O apartamento estava assepsiado e cheirava a sab�o, tinta e caf� quente. Este �ltimo era obra de Lisbeth. Sentada num banquinho, ela contemplava, pensativa, o apartamento vazio em que as cortinas, os tapetes, os cupons de desconto grudados na geladeira e sua tradicional bagun�a no hall de entrada tinham desaparecido milagrosamente. Estava surpresa de ver o quanto o apartamento agora parecia grande.</p><p>Miriam Wu e Lisbeth Salander n�o tinham o mesmo gosto, quer se tratasse de roupas, mob�lia ou est�mulo intelectual. Mais especificamente: Miriam Wu tinha prefer�ncias e opini�es precisas quanto a decora��o, os m�veis que queria e as roupas que tinham estilo. Lisbeth Salander, segundo Mimmi, n�o tinha gosto nenhum.</p><p>Depois de ela inspecionar o apartamento da Lundagatan com um olhar especulativo, ambas conversaram e Mimmi concluiu que teria de tirar mais ou menos tudo o que havia ali. Principalmente o sof� amarronzado pu�do da sala. Lisbeth queria ficar com alguma coisa? <emphasis>N�o.</emphasis> Mimmi passara ent�o alguns dias, e algumas horas toda noite durante quinze dias, jogando fora os velhos m�veis resgatados nos caminh�es de lixo seco, limpando os arm�rios, areando, esfregando a banheira e pintando a cozinha, a sala, o quarto e o hall de entrada, passando sinteco no assoalho da sala.</p><p>Lisbeth era absolutamente refrat�ria a esse tipo de exerc�cio, mas aparecera para dar uma olhada e descobrira, fascinada, a obra de Mimmi. O apartamento estava vazio, com exce��o de uma pequena mesa de cozinha de madeira maci�a que Mimmi pretendia lixar e envernizar, dois s�lidos banquinhos de que Lisbeth se apossara quando um morador do pr�dio fizera uma limpa no s�t�o e uma estante robusta na sala, na qual Mimmi achava que podia dar um jeito.</p><p>�Estou me mudando no fim de semana. Tem certeza de que n�o vai se arrepender?</p><p>�Eu n�o preciso deste apartamento.</p><p>�Mas � um ap� irado. Quero dizer, existem outros maiores e melhores, mas n�o aqui no S�der, e o condom�nio � baix�ssimo. Lisbeth, voc� est� abrindo m�o de uma fortuna n�o vendendo isto aqui.</p><p>�Tenho o suficiente para me virar.</p><p>Mimmi se calou, sem saber direito como interpretar os coment�rios lac�nicos de Lisbeth.</p><p>�Onde voc� vai morar? Lisbeth n�o respondeu.</p><p>�Posso ir te visitar?</p><p>�Por enquanto n�o.</p><p>Lisbeth abriu a bolsa e pegou uns documentos que entregou a Mimmi.</p><p>�J� cuidei do contrato com o condom�nio. Como eu te falei, n�o posso sublocar. O mais simples, portanto, � eu declarar que voc� mora comigo e que estou te vendendo metade do apartamento. O pre�o de venda � uma coroa. Voc� tem que assinar o contrato.</p><p>Mimmi pegou a caneta e p�s sua assinatura e data de nascimento no documento.</p><p>�� s� isso?</p><p>�S� isso.</p><p>�Lisbeth, eu n�o questionei o seu bom senso, mas voc� se d� conta de que est� me dando metade deste apartamento de presente? Nada contra, mas n�o queria que voc� de repente se arrependesse e isso gerasse um problema entre n�s.</p><p>�N�o vai haver problema nenhum. Eu quero que voc� more aqui. Para mim est� bem.</p><p>�Mas assim, sem nada em troca? Voc� est� louca.</p><p>�Voc� vai cuidar da minha correspond�ncia. � a �nica condi��o.</p><p>�Vai me custar quatro segundos por semana. Voc� pretende aparecer de vez em quando para fazer amor?</p><p>Lisbeth fitou Mimmi. N�o falou nada por alguns instantes.</p><p>�Mimmi, tenho muita vontade de fazer amor com voc�, mas isso n�o faz parte do contrato. Voc� pode recusar quando quiser.</p><p>Mimmi suspirou.</p><p>�E eu que estava justamente come�ando a gostar da id�ia de ser uma mulher te�da e mante�da. Sabe, com uma patroa que me paga um apartamento e d� as caras de vez em quando para uma transa. Lisbeth, saiba que eu te acho completamente biruta.</p><p>Lisbeth n�o respondeu. Ent�o Mimmi se levantou, decidida, foi at� a sala e apagou a l�mpada que pendia do teto.</p><p>�Vem c�. Lisbeth a seguiu.</p><p>�Eu nunca fiz amor no ch�o de um apartamento rec�m-pintado e sem nenhum m�vel dentro. Mas um dia assisti a um filme com o Marlon Brando, ele estava com uma garota, era em Paris.</p><p>Lisbeth baixou os olhos para o ch�o.</p><p>�Estou a fim de me divertir. E voc�?</p><p>�Estou quase o tempo todo a fim.</p><p>�Hoje estou a fim de brincar de dominadora. Sou eu quem decide. Tire a roupa.</p><p>A fisionomia de Lisbeth se iluminou de repente num sorriso de esguelha se despiu. Levou dez segundos.</p><p>�Deite no ch�o. De bru�os.</p><p>Lisbeth obedeceu. O assoalho estava frio e ela logo ficou toda arrepiada.</p><p>Mimmi pegou a camiseta de Lisbeth, com os dizeres <emphasis>You have the right to remain� silent,</emphasis> para lhe amarrar as m�os nas costas.</p><p>Lisbeth lembrou de repente que o canalha do Dr. Nils Bjurman a tinha amarrado do mesmo jeito dois anos antes.</p><p>Mas as semelhan�as acabavam a�.</p><p>Com Mimmi, Lisbeth s� experimentava uma espera abarrotada de desejo. Submeteu-se com docilidade quando Mimmi rolou-a de costas e abriu suas pernas. Na penumbra, observou enquanto Mimmi se despia por sua vez, ficou fascinada com a curva dos seios dela. Ent�o Mimmi tapou-lhe os olhos com a camiseta que acabava de tirar. Lisbeth escutou as roupas farfalhando enquanto Mimmi acabava de se despir. Segundos depois, sentiu a l�ngua de Mimmi em sua barriga, logo acima do umbigo, e seus dedos entre suas coxas. Ficou subitamente mais excitada do que havia muito tempo n�o ficava. Cerrou os olhos por tr�s da venda e deixou que Mimmi ditasse o ritmo.</p></section><section><p><strong><emphasis>8 - SEGUNDA-FEIRA 14 DE FEVEREIRO � S�BADO 19 DE FEVEREIRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Dragan Armanskij ergueu os olhos ao ouvir a batidinha dada na porta com a ponta de um sapato e avistou Lisbeth Salander. Ela vinha equilibrando dois copinhos trazidos da m�quina de <emphasis>capucc�no.</emphasis> Devagar, ele largou a caneta e empurrou o relat�rio para o lado.</p><p>�Oi - disse ela.</p><p>�Oi - respondeu Armanskij.</p><p>�Visita de amiga - disse ela. �Posso entrar? Dragan Armanskij fechou os olhos por um segundo. Depois apontou a poltrona dos visitantes. Deu uma olhada no rel�gio. Seis e meia da tarde. Lisbeth Salander lhe ofereceu um dos copinhos e se sentou. Permaneceram algum tempo se observando.</p><p>�Mais de um ano - disse Dragan. Lisbeth assentiu com a cabe�a.</p><p>�Est� chateado?</p><p>�Deveria estar?</p><p>�Eu n�o me despedi. Dragan fez um muxoxo. Era um al�vio constatar que pelo menos Lisbeth n�o estava morta. Sentiu tamb�m uma violenta irrita��o, e cansa�o.</p><p>�N�o sei o que dizer. Voc� n�o tem nenhuma obriga��o de me prestar contas das suas idas e vindas. O que voc� quer?</p><p>Sua voz soava mais fria do que ele gostaria.</p><p>�N�o sei exatamente. Acho que s� passei mesmo para dar um oi.</p><p>�Est� precisando de trabalho? N�o tenho mais inten��o de contar com voc�.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>�Est� trabalhando em outro lugar?</p><p>Ela balan�ou novamente a cabe�a. Parecia estar procurando as palavras. Dragan esperou.</p><p>�Eu estive viajando - ela disse por fim. �Faz pouco tempo que voltei � Su�cia.</p><p>Armanskij meneou a cabe�a, pensativo, e examinou-a. Percebeu de repente que Lisbeth Salander tinha mudado. Havia uma esp�cie de nova... maturidade na escolha das roupas e no comportamento. E tamb�m tinha posto um enchimento no suti�.</p><p>�Voc� est� mudada. Por onde andou?</p><p>�Por a�... - ela respondeu, evasiva, mas se endireitou ao ver o olhar irritado dele. �Estive na It�lia, a� segui pelo Oriente M�dio e depois Hong-Kong, via Bangcoc. Fiquei um pouco na Austr�lia e na Nova Zel�ndia e dei um pulo nas ilhas do Pac�fico. Passei um m�s no Taiti. Depois atravessei os Estados Unidos e, nos �ltimos meses, fiquei nas Antilhas.</p><p>Ele meneou a cabe�a.</p><p>�N�o sei por que eu n�o me despedi.</p><p>�Porque, para dizer as coisas como elas s�o, voc� n�o liga a m�nima para os outros - disse Dragan Armanskij com um tom objetivo.</p><p>Lisbeth Salander mordeu os l�bios. Ficou um momento pensativo. O que ele estava dizendo talvez fosse verdade, mas mesmo assim sentia que a acusa��o era injusta.</p><p>�Em geral, os outros � que n�o ligam a m�nima para mim.</p><p>�Que nada - respondeu Armanskij. �Voc� tem um problema de atitude e trata feito lixo quem realmente tenta ser seu amigo. � simples assim.</p><p>Sil�ncio.</p><p>�Quer que eu v� embora?</p><p>�Fa�a como quiser. � o que voc� sempre fez. Mas se for embora agora n�o quero te ver nunca mais.</p><p>S�bito, Lisbeth Salander teve medo. Sentiu que aquele homem, que ela respeitava, estava rejeitando-a. N�o sabia o que dizer.</p><p>�Faz dois anos que Holmer Palmgren teve o derrame. Voc� n�o foi visit�-lo nem uma vez - prosseguiu Armanskij, inexor�vel.</p><p>Lisbeth fitou Armanskij com olhos repentinamente chocados.</p><p>�Palmgren est� vivo?</p><p>�Quer dizer que voc� nem sabe se ele est� vivo ou morto?</p><p>�Os m�dicos disseram que ele...</p><p>�Os m�dicos disseram muita coisa sobre ele - interrompeu Armanskij. �Ele estava muito mal e n�o podia se comunicar. Neste �ltimo ano, o estado dele melhorou bastante. Est� com dificuldade para falar, gagueja, e a gente tem que prestar muita aten��o para entender o que ele diz. Precisa de ajuda para muita coisa, mas pode ir ao banheiro sozinho. As pessoas que se importam com ele v�o visit�-lo.</p><p>Lisbeth ficou calada. Fora ela quem achara Palmgren sem sentidos em seu apartamento, quando ele tivera o ataque dois anos atr�s. Chamara a ambul�ncia, e os m�dicos tinham balan�ado a cabe�a dizendo que o progn�stico n�o era nada animador. Na primeira semana, ela acampara no hospital at� um deles lhe dizer que Palmgren estava em coma e havia pouqu�ssimos sinais indicando que ele haveria de acordar um dia. Naquele momento, deixara de se preocupar e o riscara de sua vida. Levantara-se e deixara o hospital sem olhar para tr�s. E ao que parece, sem conferir os fatos.</p><p>Franziu o cenho. A partir de ent�o o Dr. Nils Bjurman come�ara a perturbar sua vida, e o canalha tinha monopolizado boa parte de sua aten��o. Mas ningu�m, nem mesmo Armanskij, lhe dissera que Palmgren ainda vivia, e muito menos que talvez estivesse se recuperando. Quanto a ela, nunca sequer aventara essa possibilidade.</p><p>De repente sentiu os olhos se encherem de l�grimas. Nunca tinha se achado t�o desprez�vel, pequena e ego�sta. E nunca tinha levado uma bronca num tom t�o duro e contido. Abaixou a cabe�a.</p><p>Permaneceram calados por alguns instantes. Foi Armanskij quem quebrou o sil�ncio.</p><p>�Como voc� est�?</p><p>Lisbeth deu de ombros.</p><p>�Est� vivendo do qu�? Est� trabalhando?</p><p>�N�o, n�o estou trabalhando e n�o sei em que tipo de coisa quero trabalhar. Mas tenho dinheiro suficiente para me virar.</p><p>Armanskij perscrutou-a com seu olhar penetrante.</p><p>�S� passei para dar um oi... n�o estou procurando trabalho. N�o sei... ainda assim, eu talvez gostasse de fazer um servi�o para voc�, se uma hora voc� precisar de mim, mas teria de ser algo interessante.</p><p>�Imagino que voc� n�o queira me contar o que aconteceu em Hedestad no ano passado?</p><p>Lisbeth n�o disse nada.</p><p>�Aconteceu alguma coisa. O Martin Vanger morreu num acidente de carro depois que voc� esteve aqui pedindo equipamento de vigil�ncia emprestado porque voc�s tinham sofrido amea�as. E a irm� dele ressuscitou dos mortos. Que foi um furo, isso foi.</p><p>�Eu prometi n�o falar sobre isso. Armanskij assentiu com a cabe�a.</p><p>�E imagino que voc� tamb�m n�o possa falar sobre o seu papel no caso Wennerstr�m?</p><p>�Eu ajudei o Super-Blomkvist nas pesquisas. - A voz dela esfriou de repente. �S� isso. N�o quero ser envolvida.</p><p>�Mikael Blomkvist procurou por voc� feito louco. Liga pelo menos uma vez por m�s para saber se tive not�cias suas. Ele tamb�m est� apreensivo.</p><p>Lisbeth ficou calada, mas Armanskij notou que sua boca se transformara num tra�o r�gido.</p><p>�N�o sei o que pensar sobre esse homem - prosseguiu Armanskij. �Mas, como eu, ele se preocupa seriamente com voc�. Encontrei com ele no outono. Ele tamb�m n�o queria falar sobre Hedestad.</p><p>Lisbeth Salander n�o queria falar sobre Mikael Blomkvist.</p><p>�S� passei para dar um oi e comunicar que estou de volta � cidade. N�o sei se vou ficar. Aqui est� o n�mero do meu celular e o meu novo endere�o de e-mail, se precisar falar comigo.</p><p>Ela estendeu um papel para Armanskij e se levantou. Ele o pegou. Ela j� tinha alcan�ado a porta quando ele a chamou.</p><p>�Espere um pouco. O que voc� vai fazer?</p><p>�Vou visitar Holger Palmgren. - Muito bem. Mas eu quis dizer... que trabalho?</p><p>Ela olhou para ele com um olhar pensativo.</p><p>�N�o sei.</p><p>�Mas voc� precisa ganhar a vida.</p><p>�J� disse que tenho o suficiente para me virar. Armanskij se recostou na poltrona e refletiu. Tratando-se de Lisbeth Salander, ele nunca sabia direito como interpretar suas palavras.</p><p>�Fiquei t�o furioso depois que voc� sumiu que praticamente decidi nunca mais contar com voc�... �Ele fez uma careta. �Voc� n�o � confi�vel. Mas � uma fu�adora excepcional. Tenho um trabalho que talvez lhe interesse.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a. Mas voltou para a mesa dele.</p><p>�Eu n�o quero seu trabalho. Quero dizer, n�o estou precisando de dinheiro. Falando s�rio. Sou financeiramente independente.</p><p>Dragan Armanskij franziu o cenho num gesto de d�vida. Por fim, meneou a cabe�a.</p><p>�Certo, voc� � financeiramente independente, seja l� o que isso signifique. Acredito na sua palavra. Mas se precisar de trabalho...</p><p>�Dragan, voc� � a segunda pessoa que eu procurei desde que voltei. N�o preciso do seu dinheiro. Agora, durante anos voc� foi uma das raras pessoas que eu respeitei.</p><p>�Est� bem. Mas todo mundo precisa ganhar a vida.</p><p>�Sinto muito, mas n�o estou mais interessada em fazer investiga��es para voc�. S� me chame se estiver com um problema de verdade.</p><p>�Que tipo de problema?</p><p>�Um problema do tipo que voc� n�o consegue resolver. Se empacar, se ficar sem saber o que fazer e a situa��o for desesperadora. Para eu trabalhar para voc�, teria de me oferecer uma coisa que me interesse. Quem sabe na linha da interven��o.</p><p>�Interven��o? Voc�? Que desaparece sem deixar rastro quando bem entende?</p><p>�Pare com isso. Eu nunca furei depois de aceitar um trabalho. Dragan Armanskij fitou-a, desamparado. A no��o de unidade de interven��o era um jarg�o deles que significava trabalho de campo. Ia desde prote��o cerrada por um guarda-costas at� miss�es de vigil�ncia particular em exposi��es de arte. Sua equipe de interven��o constitu�a-se de veteranos robustos e s�lidos, n�o raro com um passado na pol�cia. Al�m disso, noventa por cento eram homens. Lisbeth Salander era o extremo oposto de todos os crit�rios que ele estabelecera para o pessoal das unidades de interven��o da Milton Security.</p><p>�Bem... - disse ele, hesitante.</p><p>�N�o precisa ficar quebrando a cabe�a. S� aceito trabalhos que me interessem, quer dizer que as chances de eu recusar s�o altas. Avise-me se estiver com um problema realmente dif�cil. Eu sou boa em enigmas.</p><p>Girou os calcanhares e saiu pela porta. Dragan Armanskij balan�ou a cabe�a. <emphasis>Ela � doida mesmo. Doida de atar.</emphasis></p><p>No instante seguinte, Lisbeth Salander estava de novo � sua porta.</p><p>�A prop�sito... Dois dos seus homens ficaram um m�s protegendo aquela atriz, a Christine Ruterford, do louco que escreve cartas de amea�a an�nimas para ela. Pelos detalhes que o remetente sabe da vida dela, voc�s est�o achando que � coisa de uma pessoa pr�xima.</p><p>Dragan Armanskij fitou Lisbeth Salander. Uma corrente el�trica percorreu seu corpo. <emphasis>L� vem ela de novo.</emphasis> E falando de um assunto que ela n�o tinha mesmo como conhecer. <emphasis>Ela n�o pode estar sabendo.</emphasis></p><p>����...?</p><p>�Esque�a. � uma farsa. Ela e o namorado � que escrevem as cartas para chamar a aten��o. Ela vai receber mais uma carta daqui uns dias e eles v�o deixar vazar para a imprensa na semana que vem. Tem grandes chances de ela acusar a Milton por esse vazamento. Voc� deveria risc�-la da sua lista de clientes.</p><p>Antes que Dragan Armanskij tivesse tempo de formular uma pergunta, ela j� havia sumido. Ele fitou a porta vazia. Ela n�o tinha como saber do caso Ruterford. Obviamente, tinha um informante dentro da Milton. Mas ele pr�prio, o chefe do grupo de interven��o e as poucas pessoas que estavam investigando as amea�as... eram todos profissionais seguros e confi�veis. Armanskij co�ou o queixo. Ou ent�o, por um incr�vel acaso, ela talvez conhecesse Christine Ruterford ou algum amigo dela, ou...</p><p>Ele olhou para a sua mesa de trabalho. O dossi� do caso Ruterford estava trancado a chave na gaveta. A mesa era ligada ao alarme. Mordeu os l�bios, pensativo, verificou novamente as horas e concluiu que Harry Fransson, o chefe do setor t�cnico, j� tinha ido embora. Abriu o programa de correio eletr�nico e mandou uma mensagem para Fransson, pedindo que ele instalasse em sua sala uma c�mera de vigil�ncia oculta no dia seguinte.</p><empty-line/><p>Lisbeth voltou direto para casa, na Fiskaregatan. Apressou o passo, com um s�bito sentimento de urg�ncia.</p><p>Ligou para o hospital de S�der e, depois de algum tempo insistindo em diferentes setores, conseguiu localizar Holger Palmgren. Ele estava h� catorze meses no centro de reabilita��o de Ersta. Vieram-lhe � mente imagens da casa de sa�de onde sua m�e estivera internada, n�o devia ser muito diferente. Quando ligou, disseram que ele estava dormindo, mas que ela poderia ir visit�-lo no dia seguinte.</p><p>� noite, Lisbeth ficou andando para l� e para c� no apartamento. Sentia-se incomodada. Finalmente, foi se deitar cedo e adormeceu quase imediatamente. Acordou �s sete horas, tomou uma ducha e foi tomar o caf� da manh� no 7-Eleven. Por volta das oito, foi � locadora de Ringvagen. Eu <emphasis>preciso ter um carro.</emphasis> Alugou o mesmo Nissan Micra no qual tinha ido buscar as coisas de sua m�e.</p><p>Sentiu um s�bito nervosismo ao estacionar no centro de Ersta, mas criou coragem, entrou na recep��o e pediu para visitar Holger Palmgren.</p><p>A recepcionista, Margit, de acordo com o crach�, consultou uns documentos e explicou que ele estava na sess�o de fisioterapia e s� voltaria depois das onze. Lisbeth poderia aguardar na sala de espera ou ent�o voltar mais tarde. Lisbeth retornou ao estacionamento, sentou-se no carro e fumou tr�s cigarros enquanto esperava. �s onze horas, voltou � recep��o. Indicaram-lhe o refeit�rio, � direita no corredor e depois � esquerda.</p><p>Parou na porta e procurou Holger Palmgren com os olhos no refeit�rio semivazio. Seu rosto estava voltado em sua dire��o, mas toda a sua aten��o se concentrava num prato. Ele segurava o garfo com m�o desajeitada e fazia um esfor�o enorme para levar os alimentos � boca. Fracassava em m�dia uma a cada tr�s vezes, derrubando o conte�do do garfo.</p><p>Estava sombrio e prostrado, e aparentava ter cem anos. O rosto parecia estranhamente r�gido. Estava numa cadeira de rodas. S� ent�o Lisbeth Salander aceitou o fato de que ele estava vivo e que Armanskij n�o havia mentido.</p><empty-line/><p>Holger Palmgren blasfemou intimamente quando, pela terceira vez, tentou juntar com o garfo uma por��o de macarr�o gratinado. Aceitava o fato de n�o poder andar e n�o poder realizar uma s�rie de gestos. Mas odiava n�o conseguir comer direito e babar que nem beb�.</p><p>Racionalmente, sabia o que precisava fazer. Inclinar o garfo na dire��o certa, empurrar, erguer e lev�-lo � boca. Mas havia um problema de coordena��o. A m�o parecia ter vida pr�pria. Quando ele dava a ordem de levantar, a m�o empurrava lentamente para o lado. Quando levava o garfo � boca, a m�o mudava de dire��o na �ltima hora e escapava para a bochecha ou o queixo.</p><p>Mas ele sabia que a fisioterapia estava dando resultados. Apenas seis meses antes, sua m�o tremia de tal maneira que ele n�o conseguia levar uma garfada � boca sozinho. Atualmente, as refei��es ainda transcorriam devagar, sem d�vida, mas ele j� conseguia se alimentar sozinho. N�o tinha a inten��o de desistir enquanto n�o recuperasse o controle de todos os seus membros.</p><p>Estava baixando o garfo para juntar mais uma garfada, quando uma m�o adiantou-se por tr�s, pegando o garfo com delicadeza. Reconheceu imediatamente a m�o fina de boneca, virou-se e deu com os olhos de Lisbeth Salander a menos de dez cent�metros de seu rosto. Seu olhar era de expectativa. Ela parecia angustiada.</p><p>Palmgren permaneceu im�vel alguns instantes, fitando o rosto dela. Seu cora��o de repente p�s-se a bater de um jeito incr�vel. Ent�o ele abriu a boca e aceitou o alimento.</p><p>Ela o alimentou, garfada por garfada. Em geral, Palmgren detestava ser assistido nas refei��es, por�m compreendeu a necessidade de Lisbeth Salander. N�o se tratava dele, um fardo impotente. Ela o alimentava numa esp�cie de gesto de humildade - atitude afetuosa extremamente rara nela. Preparava as garfadas no tamanho certo e esperava que ele acabasse de mastigar. Quando ele apontou o copo com o canudo, ela o estendeu calmamente para que ele bebesse.</p><p>N�o trocaram uma palavra durante toda a refei��o. Quando ele engoliu a �ltima garfada, ela largou o garfo e o interrogou com os olhos. Ele fez que n�o com a cabe�a. <emphasis>N�o, obrigado, n�o quero mais.</emphasis></p><p>Holger Palmgren se recostou na cadeira de rodas e respirou profundamente. Lisbeth pegou o guardanapo e limpou-lhe a boca. De repente ele se sentiu como o padrinho da m�fia de um filme americano a quem um <emphasis>capo di tutti capi</emphasis> manifestasse seu respeito. Imaginou-a depositando um beijo em sua m�o, e essa imagem esquisita o fez sorrir.</p><p>�Voc� acha que � poss�vel conseguir um caf�? - ela perguntou. Ele gaguejou. Seus l�bios e l�ngua n�o queriam articular corretamente os sons. Sua boca estava r�gida.</p><p>�Crinho dsrvs ncan. <emphasis>Carrinho de servi�o ali no canto.</emphasis></p><p>�Voc� quer? Com leite e sem a��car como antes?</p><p>Ele fez que sim com a cabe�a. Ela retirou a bandeja e voltou um minuto depois com duas x�caras de caf�. Ele reparou que ela estava tomando caf� preto, o que era inusitado. Sorriu ao ver que ela guardara o canudo do copo de leite para a x�cara de caf�. N�o falaram nada. Holger Palmgren tinha mil coisas para dizer, mas de repente era incapaz de articular uma s�laba que fosse. Em compensa��o, os olhos dos dois se cruzaram v�rias vezes. Lisbeth Salander parecia estar se sentindo tremendamente culpada. Por fim, ela quebrou o sil�ncio.</p><p>�Eu pensei que voc� tivesse morrido - disse. � uro, eu n�o sabia que voc� estava vivo. Se eu soubesse, jamais teria... eu teria vindo te visitar h� muito tempo.</p><p>Ele meneou a cabe�a.</p><p>�Me perdoe.</p><p>Ele meneou a cabe�a novamente. Sorriu. Um sorriso enviesado, uma curvatura de l�bios.</p><p>�Voc� estava em coma e os m�dicos diziam que ia morrer. Achavam que ia morrer dali a vinte e quatro horas, e eu simplesmente fui embora. Ser� que um dia voc� vai conseguir me perdoar?</p><p>Ele ergueu a m�o e colocou-a sobre a m�ozinha de Lisbeth. Segurou-a com firmeza, apertou-a e enfim respirou.</p><p>�Ctim smidu. <emphasis>Voc� tinha sumido.</emphasis></p><p>�Voc� conversou com o Dragan Armanskij. Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>�Eu viajei. Fui obrigada a ir embora. N�o me despedi de ningu�m e me fui, simplesmente. Voc� ficou preocupado comigo?</p><p>Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>�Voc� nunca vai ter que se preocupar comigo.</p><p>�Nca mprocpei. Cesempr sdabe. Mas Armsji tva procpad. <emphasis>Eu nunca me preocupei. Voc� sempre se d� bem. Mas o Armanskij estava preocupado.</emphasis></p><p>Ela sorriu pela primeira vez e Holger Palmgren relaxou. Era o seu sorriso de esguelha de sempre. Ele a examinou, comparou a lembran�a que tinha dela com a mo�a que via � sua frente. Ela havia mudado. Estava bem-arrumada, limpa e cuidada. N�o estava mais com a argola no l�bio e... hmm... a tatuagem do marimbondo no pesco�o tamb�m sumira. Ela estava com um jeito adulto. S�bito, ele riu pela primeira vez em muitas semanas. Parecia um acesso de tosse.</p><p>O sorriso de Lisbeth ficou ainda mais obl�quo e ent�o ela sentiu um calor lhe invadir o cora��o, um calor que havia muito n�o sentia.</p><p>�Ceci deube. <emphasis>Voc� se deu bem.</emphasis> Apontou para as roupas dela. Ela assentiu.</p><p>�Estou me dando muito bem.</p><p>�Cm� unov ttor? <emphasis>Como � o novo tutor?</emphasis></p><p>Holger Palmgren viu o rosto de Lisbeth se alterar e ensombrecer. A boca se contraiu um pouco. Ela olhou para ele com olhos c�ndidos.</p><p>�E legal... estou com ele na palma da m�o.</p><p>As sobrancelhas de Palmgren se contra�ram em um ponto de interroga��o. Lisbeth olhou em redor, a sala de jantar, e mudou de assunto.</p><p>�Faz quanto tempo que voc� est� aqui?</p><p>Palmgren n�o tinha nascido ontem. Sofrera um derrame e estava com dificuldade para falar e coordenar os movimentos, mas sua capacidade de compreens�o estava intacta e seu radar captou de imediato a mudan�a no tom de voz de Lisbeth Salander. Nos anos em que convivera com ela, aprendera que ela nunca mentia diretamente, mas que tampouco era inteiramente sincera. Seu jeito de mentir consistia em desviar a aten��o. Era �bvio que o novo tutor n�o constava na sua lista de pessoas preferidas. O que n�o surpreendia Holger Palmgren nem um pouco.</p><p>S�bito, sentiu-se triste. Diversas vezes tivera a inten��o de entrar em contato com seu colega Nils Bjurman para perguntar como ia Lisbeth Salander, e se abstivera outras tantas vezes. E por que n�o questionara a coloca��o de Lisbeth sob tutela, quando ainda tinha energia para faz�-lo? Sabia por que - muito egoisticamente, queria manter-se em contato com ela. Gostava daquela pivete danada de complicada como se fosse a filha que ele n�o teve, e queria um motivo para manter esse contato. E agora tamb�m era muito dif�cil, e pesado demais para um fardo como ele, numa casa de sa�de, come�ar a investigar a situa��o, no estado em que se achava, sem sequer conseguir abrir sozinho o z�per da cal�a quando ia ao banheiro. Tinha a impress�o de que, na verdade, ele � que tra�ra Lisbeth Salander. <emphasis>Mas ela ainda sobrevive... � a pessoa mais competente que j� conheci.</emphasis></p><p>�O trbn.</p><p>�N�o entendi.</p><p>�O tribnal.</p><p>�O tribunal? O que voc� quer dizer?</p><p>�Temq nul su cl... colc colcas...</p><p>O rosto de Holger Palmgren ficou vermelho e se contorceu, porque ele n�o conseguia articular as palavras. Lisbeth p�s a m�o em seu bra�o e apertou-o suavemente.</p><p>�Holger... N�o se preocupe comigo. Tenho planos de cuidar em breve da minha coloca��o sob tutela. N�o � mais tarefa sua se preocupar com isso... mas � poss�vel que eu precise dos seus conselhos no momento oportuno. Est� bem assim? Voc� pode ser meu advogado se eu precisar de voc�?</p><p>Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>�Mto vlho. - Ele bateu na mesa com as articula��es da m�o. � Vlho... bbo.</p><p>�Sim, voc� vai ser um velho bobo babaca se adotar essa atitude. Preciso de um advogado. E � voc� que eu quero. Voc� pode n�o conseguir fazer um arrazoado no tribunal, mas vai poder me aconselhar quando preciso. Combinado?</p><p>Ele balan�ou a cabe�a mais uma vez. E depois, assentiu.</p><p>�Ta tra?</p><p>�N�o entendi.</p><p>�Ta trab nqu�? N�o Rmskich. Est� <emphasis>trabalhando no qu�? N�o � com o Armanskij.</emphasis></p><p>Lisbeth hesitou um instante, enquanto pensava na melhor maneira de explicar a situa��o. Estava ficando complicado.</p><p>�Holger, n�o estou mais trabalhando para o Armanskij. N�o preciso mais trabalhar para ele para ganhar o meu p�o. Tenho dinheiro e estou bem.</p><p>As sobrancelhas de Palmgren se contra�ram outra vez.</p><p>�Pretendo vir te visitar regularmente a partir de agora. Vou te contar... mas vamos com calma. Agora, neste momento, tem outra coisa que estou com vontade de fazer.</p><p>Ela se inclinou, puxou uma sacola para cima da mesa e l� de dentro tirou um tabuleiro de xadrez.</p><p>�Faz dois anos que n�o tenho a oportunidade de ganhar de voc�.</p><p>Ele se resignou. Ela estava tramando alguma coisa suspeita que n�o queria contar. Tinha certeza de que ela seria reticente, mas tamb�m confiava nela o suficiente para saber que o que quer que Lisbeth fizesse, embora pudesse ser juridicamente duvidoso, n�o seria um crime contr�rio �s Leis de Deus. Pois, � diferen�a da maioria das pessoas, Holger Palmgren tinha certeza de que Lisbeth Salander era uma pessoa autenticamente moral. O problema era que a moral dela nem sempre correspondia ao que preconizava a lei.</p><p>Ela disp�s o tabuleiro � sua frente e ele percebeu, com um choque, que era o seu pr�prio tabuleiro. <emphasis>Ela provavelmente o roubara no seu apartamento depois do derrame. Como recorda��o?</emphasis> Ela lhe passou as brancas. S�bito, sentiu-se feliz como um garoto.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander permaneceu duas horas com Holger Palmgren. J� o derrotara tr�s vezes quando uma enfermeira veio interromper a batalha dos dois em torno do tabuleiro, explicando que estava na hora da sess�o de fisioterapia da tarde. Lisbeth juntou as pe�as e dobrou o tabuleiro.</p><p>�A senhora poderia me dizer no que consiste essa fisioterapia? - perguntou � enfermeira.</p><p>�Exerc�cios musculares e de coordena��o. E estamos fazendo progressos, n�o estamos?</p><p>A pergunta era endere�ada a Holger Palmgren. Ele meneou a cabe�a.</p><p>�O senhor j� consegue andar v�rios metros. No ver�o, vai poder passear sozinho no parque. � a sua filha?</p><p>Os olhos de Lisbeth e Holger se cruzaram.</p><p>�Fi dtiva. <emphasis>Filha adotiva.</emphasis></p><p>�Que bacana voc� ter vindo. <emphasis>Tradu��o: caraca, por onde voc� andou esses meses todos?</emphasis></p><p>Lisbeth ignorou a cr�tica subentendida. Inclinou-se e beijou-o no rosto.</p><p>�Venho te ver na sexta-feira.</p><p>Holger Palmgren se levantou da cadeira de rodas com esfor�o. Ela foi com ele at� o elevador, e ali se separaram. Assim que as portas do elevador se fecharam, ela correu para a recep��o e pediu para falar com o respons�vel. Indicaram-lhe um certo Dr. A. Sivarnandan, que ela encontrou numa sala mais adiante no corredor. Apresentou-se e explicou que era a filha adotiva de Holger Palmgren.</p><p>�Eu queria saber como ele est� e o que vai acontecer com ele.</p><p>O Dr. Sivarnandan abriu a pasta de Holger Palmgren e leu as primeiras p�ginas. Tinha a pele marcada pela var�ola e um bigode fino que irritava Lisbeth. Acabou levantando os olhos. Surpreendentemente, falava com sotaque finland�s. Lembrava, sem tirar nem p�r, uma personagem do Moomin.*</p><p>�N�o tenho aqui nenhum registro de que o sr. Palmgren tenha uma filha, ou filha adotiva. Na verdade, seu parente mais pr�ximo parece ser um primo de oitenta e seis anos residente no J�mtland.</p><p>�Ele cuidou de mim desde os meus treze anos at� ter o derrame. Nessa �poca eu tinha vinte e quatro.</p><p>Ela procurou no bolso interno do casaco e jogou uma caneta na mesa, diante do Dr. A. Sivarnandan.</p><p>�Meu nome � Lisbeth Salander. Anote na pasta dele. Sou sua parente mais pr�xima neste mundo.</p><p>�Pode ser - respondeu A. Sivarnandan, inabal�vel. �Mas se voc� � a parente mais pr�xima, vamos reconhecer que demorou para dar not�cias. At� onde eu sei, s� uma pessoa, que nem � da fam�lia, vem visit�-lo de vez em quando. � a pessoa que deve ser avisada caso o estado dele se agrave ou ele venha a falecer.</p><p>�Dragan Armanskij, sem d�vida.</p><p>O Dr. A. Sivarnandan ergueu as sobrancelhas e meneou pensativamente a cabe�a.</p><p>�O nome � esse. Ent�o voc� o conhece.</p><p>�Pode ligar para ele e verificar quem eu sou.</p><p>�N�o vai ser necess�rio. Acredito em voc�. Me contaram que voc� ficou duas horas jogando xadrez com o sr. Palmgren. Mas, seja como for, n�o posso falar com voc� sobre o estado de sa�de dele sem que ele consinta.</p><p>�Ele nunca que vai consentir, teimoso como �, essa mula velha. Ele cismou que n�o tem que me passar os sofrimentos dele e que ainda � respons�vel por mim, n�o o contr�rio. Vou lhe explicar... por dois anos, pensei que Palmgren estivesse morto. S� ontem soube que estava vivo. Se eu tivesse sabido que... � dif�cil explicar, mas quero saber qual � o progn�stico e se ele vai se recuperar.</p><p>O Dr. Sivarnandan pegou a caneta e anotou minuciosamente o nome de Lisbeth Salander na pasta de Holger Palmgren. Pediu o n�mero de sua identidade e do telefone.</p><p>�Est� bem, agora voc� � oficialmente a filha adotiva dele. Talvez n�o seja l� muito conforme as regras, mas afinal voc� � a primeira pessoa que vem visit�-lo desde o Natal, quando o Sr. Armanskij esteve aqui... Voc� o viu h� pouco e p�de constatar que ele tem problemas de coordena��o e dificuldade para falar. Ele teve um derrame cerebral.</p><p>�Eu sei. Fui eu que o encontrei e chamei a ambul�ncia.</p><p>�Ah... Pois saiba que ele passou tr�s meses na UTI. Ficou em coma por um longo per�odo. No mais das vezes, os pacientes n�o costumam sobreviver, mas acontece. Ao que parece, n�o era a hora dele. Primeiro foi transferido para um servi�o de geriatria para doentes cr�nicos totalmente incapazes de cuidar de si mesmos. Contra todas as expectativas, apresentou sinais de melhora e ent�o o transferimos para a fisioterapia, nove meses atr�s.</p><p>�E o progn�stico?</p><p>O Dr. A. Sivarnandan afastou as m�os num gesto de impot�ncia.</p><p>�Para isso eu teria que ter uma bola de cristal melhor do que a minha. Para ser sincero, n�o fa�o a menor id�ia. Ele pode ter outro derrame esta noite e estar morto amanh� de manh�. Como pode ter uma vida relativamente normal por mais vinte anos. N�o sei. Digamos que Deus � quem decide.</p><p>�E se ele viver mais vinte anos?</p><p>�A fisioterapia tem sido �rdua para ele, e s� nos �ltimos meses � que pudemos notar uma sens�vel melhora. H� seis meses, ele ainda n�o conseguia comer sozinho. H� um m�s, praticamente n�o conseguia se levantar da cadeira, inclusive porque seus m�sculos se atrofiaram pelo tanto que ele permaneceu de cama. Hoje ele pelo menos consegue andar dist�ncias curtas.</p><p>�Ele vai ficar melhor?</p><p>�Vai. Bem melhor, at�. Foi dif�cil transpor o primeiro degrau, mas agora observamos progressos a cada dia que passa. Ele perdeu quase dois anos de vida. Daqui alguns meses, no ver�o, espero v�-lo passeando sozinho ali no parque.</p><p>�E a fala?</p><p>�O problema � que o centro da palavra foi atingido, junto com a motricidade. Ele permaneceu muito tempo em estado vegetativo. Depois, foi estimulado a readquirir o controle de seu corpo e a reaprender a falar. Tem dificuldade em se lembrar do termo que precisa usar, vai ter que se reapropriar das palavras. Mas tamb�m n�o � como ensinar uma crian�a a falar - ele compreende o sentido da palavra, s� n�o consegue express�-la. D� a ele mais uns meses e vai ver que a fala vai melhorar muito se comparada com hoje. A mesma coisa quanto � orienta��o. Nove meses atr�s, era dif�cil para ele perceber a diferen�a entre direita e esquerda, e subir ou descer de elevador.</p><p>Lisbeth meneou a cabe�a, pensativa. Refletiu alguns minutos e de repente se deu conta de que gostava do Dr. A. Sivarnandan, com sua cara de �ndio e sotaque finland�s.</p><p>�O que significa o A.? - perguntou bruscamente. Ele lan�ou-lhe um olhar divertido.</p><p>�Anders.</p><p>�Anders?</p><p>�Eu nasci no Sri Lanka, mas fui adotado em �bo quando tinha poucos meses.</p><p>�Muito bem. Anders me diga no que posso ajudar o Holger.</p><p>�Visite-o. Ofere�a-lhe um est�mulo intelectual.</p><p>�Posso vir todos os dias.</p><p>�N�o quero voc� aqui todos os dias. Se ele gosta de voc�, prefiro que ele se anime com a expectativa das visitas, e que elas n�o o aborre�am.</p><p>�Ser� que algum tipo de tratamento especializado poderia aumentar as chances dele? Eu pago o que for preciso.</p><p>Ele sorriu de repente para Lisbeth Salander, e ent�o, tamb�m de repente, voltou a ficar s�rio.</p><p>�Receio que o tratamento especializado sejamos n�s mesmos. Claro que eu gostaria de dispor de mais recursos e que parassem de cortar a nossa verba, mas posso garantir que ele tem sido tratado com muita compet�ncia.</p><p>�E se n�o houvesse essa preocupa��o com o corte de verbas? O que poderiam lhe oferecer?</p><p>�Se eu dispusesse dos recursos necess�rios... bem, o ideal para pacientes como Holger Palmgren seria, evidentemente, um terapeuta ocupacional particular em tempo integral. Mas faz muito tempo que n�o dispomos de verbas para esse fim na Su�cia.</p><p>�Contrate um.</p><p>�Como?</p><p>�Contrate um terapeuta ocupacional para Holger Palmgren. O melhor. E fa�a isso amanh�. Providencie para que ele tenha o necess�rio em termos de equipamento t�cnico, essas coisas todas. Vou fazer que o dinheiro para o sal�rio dele e o equipamento necess�rio seja depositado antes do final da semana.</p><p>�Isso � alguma brincadeira?</p><p>Lisbeth fitou o Dr. Anders Sivarnandan com seus grandes olhos inexpressivos, destitu�dos de qualquer tra�o de humor.</p><p>Mia Bergman freou e parou o Fiat rente � cal�ada em frente � esta��o de metr� Gamla Stan, no seu caminho de volta para casa. Dag Svensson abriu a porta e sentou-se no banco do passageiro. Inclinou-se e deu-lhe um beijo enquanto ela movimentava o carro de volta para o fluxo de autom�veis, pondo-se atr�s de um �nibus.</p><p>�Oi - disse ela, sem tirar os olhos do tr�nsito. - Voc� estava com uma cara s�ria quando eu cheguei. Aconteceu alguma coisa?</p><p>Dag Svensson suspirou e p�s o cinto de seguran�a.</p><p>�N�o, nada s�rio. Estou penando um pouco com o texto.</p><p>�Ou seja?...</p><p>�S� falta um m�s para o <emphasis>deadline.</emphasis> Fiz nove das vinte e duas confronta��es previstas. Estou tendo problemas com o Bj�rck, da S�po. O babaca est� de licen�a m�dica e n�o atende o telefone em casa.</p><p>�Ser� que ele n�o est� no hospital?</p><p>�N�o sei. Voc� por acaso j� tentou conseguir uma informa��o na S�po? Eles nem sequer confirmam se o cara trabalha para eles.</p><p>�Voc� n�o tentou os pais dele?</p><p>�Mortos, os dois. Ele n�o � casado. Tem um irm�o que mora na Espanha. O fato � que n�o sei o que fazer para encontrar o Bj�rck.</p><p>Mia Bergman deu uma olhada de esguelha para o companheiro, enquanto pilotava o carro pelo cruzamento da Slussen em dire��o ao t�nel de Nyn�shamnsleden.</p><p>�Na pior das hip�teses, a gente tira a parte sobre o Bj�rck. O Blomkvist faz quest�o que todos os caras que vamos citar tenham a oportunidade de serem ouvidos antes de serem denunciados.</p><p>�Seria uma pena deixar de lado um representante da pol�cia secreta frequentador das putas. O que voc� vai fazer?</p><p>�Procurar por ele, e encontrar, claro. E voc�, como andam as coisas?</p><p>�Mais calma que eu, s� morrendo. Ele fez c�cegas nas costelas dela.</p><p>�N�o est� nervosa?</p><p>�Nem um pouco. Daqui a um m�s vou defender minha tese e virar doutora, e me sinto absolutamente serena.</p><p>�Voc� domina bem o assunto. Ent�o, por que se preocupar?</p><p>�D� uma olhada no banco de tr�s.</p><p>Dag Svensson se virou e viu uma sacola. Enfiou a m�o l� dentro e...</p><p>�Mia... est� pronta! - ele exclamou. E agitou no ar uma tese impressa.</p><p><emphasis>Da R�ssia com amor Tr�fico de mulheres, crime organizado e medidas adotadas pelas autoridades por Mia Bergman</emphasis></p><p>�Pensei que s� fosse ficar pronta na semana que vem. Caramba... chegando em casa, temos que abrir uma garrafa de vinho. Parab�ns, doutora.</p><p>Ele se inclinou e lhe deu outro beijo no rosto.</p><p>�Calma l�... S� vou ser doutora daqui a tr�s semanas. E segure as suas m�os quando estou dirigindo.</p><p>Dag Svensson riu. E tornou a ficar s�rio.</p><p>�A prop�sito, s� para dar uma de desmancha-prazeres... voc� entrevitou uma mo�a chamada Irina P., um ano atr�s.</p><p>�Irina P, vinte e dois anos, de S�o Petersburgo. Veio � Su�cia pela primeira vez em 1999, depois disso foi e voltou mais algumas vezes. Por qu�?</p><p>�Estive hoje com o Gulbrandsen. O policial que conduziu a invesiga��o sobre o bordel de S�dert�lje. Voc� leu, semana passada, que eles acharam uma garota boiando no canal de S�dert�lje. Deu manchete nos jornais da tarde.</p><p>�Sei.</p><p>�Era a Irina P.</p><p>�Que horror!</p><p>Passaram em frente ao Skanstull em sil�ncio.</p><p>�Ela aparece na minha tese - disse afinal Mia Bergman. �Sob o pseud�nimo de Tamara.</p><p>Dag Svensson abriu �Da R�ssia com amor� na parte das entrevistas e folheou at� chegar em Tamara. Leu concentradamente enquanto Mia passava por Gullmarsplan e Globen.</p><p>�Quem a trouxe para c� foi algu�m que voc� chama de Anton.</p><p>�N�o quis usar os nomes verdadeiros. Avisaram-me que posso ser criticada por isso na defesa, mas n�o quero divulgar o nome das garotas. Elas correriam o risco de ser espancadas at� a morte. Portanto, tamb�m n�o posso divulgar o nome dos canalhas: eles iam descobrir rapidinho que garotas eu entrevistei. Por isso s� ponho pseud�nimos e pessoas an�nimas em todos os meus estudos de caso, sem detalhes particulares.</p><p>�Quem � Anton?</p><p>�Ele provavelmente se chama Zala. Nunca consegui identific�-lo, mas acho que � polon�s ou iugoslavo, e que na verdade seu nome � outro. Falei com Irina P. quatro ou cinco vezes, e foi s� no quarto encontro que ela me deu o nome dele. Ela estava botando a vida em ordem e pretendia parar com tudo, mas tinha um medo tremendo dele.</p><p>�Hmmm... - fez Dag Svensson.</p><p>�Hmmm o qu�?</p><p>�Estou pensando... Topei com o nome de Zala uma semana, ou duas atr�s.</p><p>�Onde?</p><p>�Fiz uma confronta��o com o Sandstr�m. Voc� sabe o escroto do cliente jornalista. Droga. Esse cara � um verdadeiro calhorda.</p><p>�Como assim?</p><p>�Na verdade, ele n�o � jornalista. Ele cria folhetos publicit�rios para empresas. Mas tem umas fantasias realmente doentias ligadas a estupro, que ele p�e em pr�tica com essa garota...</p><p>�Eu sei. Fui eu que a entrevistei.</p><p>�Bem, mas voc� sabe que foi ele que coordenou a produ��o de um <emphasis>folder</emphasis> sobre doen�as sexualmente transmiss�veis para o Instituto de Sa�de P�blica?</p><p>�Eu n�o sabia.</p><p>�Encurralei o cara na semana passada. Um verdadeiro lixo. Claro, ele desabou quando peguei toda a documenta��o e perguntei por que ele usa putas menores de idade dos pa�ses do Leste europeu para praticar suas fantasias. Ele acabou me dando uma esp�cie de explica��o.</p><p>�Ah, �?</p><p>�No passado, Sandstr�m se viu numa situa��o em que n�o era apenas cliente da m�fia do sexo, mas tamb�m lacaio. Ele me deu os nomes que conhecia e mencionou o nome de Zala. N�o falou nada em especial sobre ele, mas n�o � um nome muito comum.</p><p>Mia Bergman olhou-o de relance e franziu o cenho.</p><p>�Voc� n�o sabe quem ele �? - perguntou Dag.</p><p>�N�o. N�o consegui identificar. Continua sendo s� um nome que surge de vez em quando. As mulheres parecem morrer de medo dele e ningu�m falou nada.</p><p>�Hmm - fez Dag Svensson.</p></section><section><p><strong><emphasis>9 - DOMINGO 6 DE MAR�O � SEXTA-FEIRA 11 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>O Dr. A. Sivarnandan diminuiu o passo ao avistar Holger Palmgren e Lisbeth Salander pelo corredor envidra�ado da sala de jantar. Estavam debru�ados sobre um tabuleiro de xadrez. Ela parecia ter criado o h�bito de visit�-lo uma vez por semana, geralmente aos domingos. Chegava sempre por volta das tr�s da tarde e ficava algumas horas jogando xadrez com ele. Ia embora l� pelas oito horas, quando ele tinha de ir se deitar. Observara que ela o tratava sem o menor sinal de desrespeito, e como se ele n�o estivesse doente - pelo contr�rio, pareciam brigar carinhosamente e ela aceitava naturalmente ser servida, deixando que ele fosse buscar o caf�.</p><p>O Dr. A. Sivarnandan franziu o cenho. N�o conseguia definir essa mo�a estranha que se considerava filha adotiva de Holger Palmgren. Sua apar�ncia era absolutamente singular e ela dava a impress�o de espreitar todos � sua vollta com a maior desconfian�a. Brincar com ela era algo imposs�vel. Tamb�m parecia quase imposs�vel manter uma conversa normal com ela. Certa vez, tinha lhe perguntado qual era sua profiss�o e ela respondera de forma muito evasiva.</p><p>��Dias depois da primeira visita, voltara com um calhama�o de documentos anunciando a cria��o de uma funda��o que tinha por objetivo patrocinar a casa de sa�de em seu trabalho de restabelecimento de Holger Palmgren. O presidente da funda��o era um advogado domiciliado em Gibraltar. O escrit�rio constitu�a-se de duas pessoas - outro advogado residente em Gibraltar e um auditor fiscal chamado Hugo Svensson, de Estocolmo. A funda��o destinara dois milh�es e meio de coroas, das quais o Dr. A. Sivarnandan podia dispor como bem lhe aprouvesse, sendo que o objetivo expresso era que a verba fosse empregada para oferecer a Holger Palmgren todos os cuidados imagin�veis. Para poder utilizar esses fundos, Sivarnandan precisava endere�ar um pedido ao auditor, que em seguida efetuava os dep�sitos.</p><p>Era um arranjo simplesmente inusitado, para n�o dizer �nico.</p><p>Sivarnandan refletira durante alguns dias sobre a possibilidade de esse arranjo conter algum aspecto contr�rio � �tica. N�o encontrou nada reprov�vel e resolveu, ent�o, contratar Johanna Karolina Oskarsson, de trinta e nove anos, como assistente e terapeuta ocupacional particular de Holger Palmgren. Ela era fisioterapeuta formada, com especializa��o em psicologia e uma grande experi�ncia em tratamentos de reabilita��o. Oficialmente, era empregada da funda��o e, para imensa surpresa de Sivarnandan, a primeira mensalidade foi paga adiantada, logo ap�s a assinatura do contrato. At� ent�o ele se perguntara vagamente se n�o se tratava de algum tipo de brincadeira idiota.</p><p>E os resultados n�o tardaram a aparecer. No decorrer do �ltimo m�s, a coordena��o e o estado geral de Holger Palmgren tinham apresentado uma melhora consider�vel, como atestavam os testes semanais. Sivarnandan se perguntou at� onde deveria atribu�-los � terapia ocupacional ou �s visitas de Lisbeth Salander. Saltava aos olhos que, como um garoto � espera de Papai Noel, Holger Palmgren se esfor�ava ao m�ximo e ficava feliz com a expectativa das visitas. E dava a impress�o de que era um prazer para ele ser regularmente derrotado no xadrez.</p><p>O Dr. Sivarnandan lhes tinha feito companhia durante uma partida. Partida engra�ada. Holger Palmgren estava com as brancas, fizera uma abertura siciliana conforme as regras. Refletira demoradamente antes de cada jogada. Fossem quais fossem suas limita��es f�sicas decorrentes do derrame, sua acuidade intelectual funcionava � perfei��o.</p><p>Lisbeth Salander estava mergulhada num livro sobre o estranh�ssimo tema da calibragem de freq��ncia dos radiotelesc�pios em estado de microgravidade. Pusera uma almofada sobre a cadeira para alcan�ar uma altura aceit�vel � mesa. Quando Palmgren mexeu seu pe�o, ela ergueu os olhos e movimentou uma pe�a, aparentemente sem nem refletir, e em seguida retomou a leitura. Palmgren capitulara na vig�sima s�tima jogada. Salander erguera outra vez a cabe�a e contemplara o tabuleiro por alguns segundos, testa franzida.</p><p>�N�o - disse ela. �Voc� tem chance de fazer um pate. Palmgren suspirou e examinou o tabuleiro durante cinco minutos. Por fim, fitou Lisbeth Salander nos olhos.</p><p>�Me mostre.</p><p>Ela girou o tabuleiro e assumiu o jogo de Palmgren. Conseguiu o pate na trig�sima nona jogada.</p><p>�Caramba - disse Sivarnandan.</p><p>�Ela � a-a-ssi-sim. Nunca jogue com ela a dinheiro - disse Palmgren. Ele ainda gaguejava um pouco.</p><p>Sivarnandan jogava xadrez desde menino e, adolescente, participara do campeonato de Abo, ficando em segundo lugar. Considerava-se um amador competente. Percebeu que Lisbeth Salander era uma jogadora tem�vel. Aparentemente, nunca jogara por um clube e, quando ele mencionou que aquela partida parecia ser uma variante de uma cl�ssica partida de Lasker, ela mostrou-se perplexa. Parecia nunca ter ouvido falar em Emmanuel Lasker. Ele morria de vontade de perguntar se o talento dela era inato e, se fosse, se tinha outros talentos que poderiam interessar a um psic�logo.</p><p>Mas n�o perguntou nada. S� constatou que Holger Palmgren parecia se sentir melhor do que nunca desde a chegada de Lisbeth Salander a Ersta.</p><p>0 Dr. Nils Bjurman chegou em casa tarde da noite. Passara quatro semanas seguidas na casa de campo perto de Stallarholmen. Estava abatido. Tirando o fato de que o gigante loiro trouxera o recado de que a proposta dele os interessava � o que lhe custaria cem mil coroas �, n�o acontecera nada que mudasse fundamentalmente sua m�sera situa��o.</p><p>Um monte de correspond�ncia se acumulara atr�s da porta do hall de entrada. Juntou os envelopes e deixou-os na mesa da cozinha. Sentia um imenso vazio e desenvolvera um acentuado desinteresse por tudo que se referia ao trabalho e ao mundo exterior. S� mais tarde da noite seu olhar recaiu sobre a pilha de correspond�ncia e ele a folheou meio distra�do.</p><p>Um dos envelopes trazia o logotipo do Handelsbanken. Abriu-o e quase teve um choque ao descobrir que era a c�pia de um extrato de d�bito de 9312 coroas efetuado na conta de Lisbeth Salander.</p><p><emphasis>Ela estava de volta.</emphasis></p><p>Foi at� o escrit�rio e p�s o documento sobre a escrivaninha. Contemplou-o com um olhar cheio de �dio por mais de um minuto, enquanto se recuperava do susto. Precisava achar o n�mero do telefone. Ent�o, pegou o aparelho e discou o n�mero de um celular an�nimo, de cart�o. Visualizou o gigante loiro com o ligeiro sotaque.</p><p>�Sim?</p><p>�Aqui � o Nils Bjurman.</p><p>�O que voc� quer?</p><p>�Ela voltou para a Su�cia.</p><p>Um breve sil�ncio se fez do outro lado da linha.</p><p>�Certo. N�o ligue mais para este n�mero.</p><p>�Mas...</p><p>�Em breve voc� vai receber instru��es.</p><p>Para sua grande irrita��o, a liga��o foi cortada. Bjurman blasfemou consigo mesmo. Foi at� o bar e se serviu de uns dez centilitros de <emphasis>bourbon.</emphasis> Esvaziou o copo em duas talagadas. <emphasis>Preciso reduzir o �lcool,</emphasis> pensou. Em seguida, serviu-se de mais um fundo de copo e o levou consigo para o escrit�rio, onde mais uma vez contemplou o extrato do Handelsbanken.</p><p>Miriam Wu massageava as costas e a nuca de Lisbeth Salander. Fazia uns bons vinte minutos que ela amassava aplicadamente uma Lisbeth que, em suma, contentava-se em soltar um ou outro suspiro de satisfa��o. Ser massageada por Mimmi era incrivelmente bom e Lisbeth se sentia como um gatinho que s� deseja uma coisa: dormir e agitar as patinhas.</p><p>Conteve um suspiro de decep��o quando Mimmi lhe deu uns tapinhas no bumbum, informando que j� estava bem assim. Ficou um instante sem se mexer, na v� esperan�a de que a amiga continuasse, mas quando ouviu Mimmi pegar uma ta�a de vinho, virou-se de costas.</p><p>�Obrigada - disse.</p><p>�Desconfio que voc� passa o dia parada na frente do computador. Por isso � que est� com dor nas costas.</p><p>�Eu distendi um m�sculo, s� isso.</p><p>As duas estavam nuas na cama de Mimmi, no apartamento da Lundagatan. Algumas ta�as de vinho as tinham deixado meio altas. Lisbeth franziu o cenho. Desde que retomara o contato com Miriam Wu, parecia que nunca se fartava. Adquirira o p�ssimo h�bito de ligar para Mimmi o tempo todo - para ser sincera, com muito mais freq��ncia do que exigiria um mero e saud�vel desejo. Olhou para Mimmi e repetiu a si mesma que de modo algum podia se apegar novamente a uma pessoa. No fim da hist�ria, s� sobrariam machucados.</p><p>S�bito, Miriam Wu inclinou-se para tr�s, sobre a borda da cama, e abriu a gaveta do criado-mudo. Pegou um pacotinho achatado embrulhado num papel de presente florido e preso com uma fita dourada, e o jogou no colo de Lisbeth.</p><p>�O que � isso?</p><p>�Seu presente de anivers�rio.</p><p>�Falta mais de um m�s para o meu anivers�rio.</p><p>�Do anivers�rio do ano passado. N�o consegui te achar na �poca. Encontrei o pacote quando fiz a mudan�a.</p><p>Lisbeth ficou um instante calada.</p><p>�Abro?</p><p>�Claro, se quiser.</p><p>Ela largou o copo, chacoalhou o pacote e abriu devagarinho. Era uma linda cigarreira de metal preto e azul, ornada com s�mbolos chineses.</p><p>�Voc� devia parar de fumar - disse Miriam Wu. �Mas se tiver mesmo que continuar, pelo menos guarde os cigarros numa embalagem com alguma est�tica.</p><p>�Obrigada - disse Lisbeth. �Voc� � a �nica pessoa que me d� presentes de anivers�rio. Voc� sabe o que significam esses s�mbolos?</p><p>�Como vou saber? N�o sei chin�s. � s� uma coisinha que eu achei num mercado das pulgas.</p><p>�� uma cigarreira muito bonita.</p><p>� Uma bobagem. Mas achei que voc� ia gostar. Sabe que n�o temos mais nada para beber?... Vamos sair para tomar uma cerveja em algum lugar?</p><p>�Quer dizer que a gente tem que levantar e se vestir?</p><p>�Acho que sim. De que serve morar num bairro como o S�der se a gente n�o vai num bar de vez em quando?</p><p>Lisbeth suspirou.</p><p>�Vamos -.disse Miriam Wu, brincando com a bijuteria no umbigo de Lisbeth. �Voc� est� fixada em sexo. Mas a gente pode voltar para c� depois.</p><p>Lisbeth suspirou de novo, p�s um p� no ch�o e se esticou para pegar a calcinha.</p><p>Dag Svensson estava instalado a uma mesa que tinham lhe cedido a um canto da reda��o da <emphasis>Millennium,</emphasis> quando se surpreendeu com o ru�do da fechadura da porta de entrada. Olhou para o rel�gio e percebeu que j� eram nove da noite. Mikael Blomkvist ficou t�o surpreso quanto ele ao topar com uma pessoa na reda��o.</p><p>�Ent�o, fazendo hora extra? Ol�, Micke. Eu, trabalhando no livro, nem vi o tempo passar. O que o traz aqui?</p><p>�S� passei para pegar um livro que eu esqueci. Est� tudo certo?</p><p>�Est�, bem, n�o... Faz tr�s semanas que estou tentando achar uma pista desse canalha do Bj�rck, da S�po. At� parece que ele foi raptado por algum servi�o de informa��es estrangeiro. Nem sinal dele.</p><p>Dag relatou seus reveses. Mikael pegou uma cadeira, sentou-se e refletiu alguns instantes.</p><p>�Voc� tentou o truque do sorteio premiado?</p><p>�Como?</p><p>�Crie um logotipo grandiloquente, escreva uma carta comunicando que ele ganhou um celular com GPS ou coisa do g�nero. Imprima direitinho na sua impressora e mande para o endere�o dele - no caso, a caixa postal. A manha � falar que ele j� ganhou o celular. Ele s� precisa dizer onde quer ir peg�-lo. E como ele tem direito ao b�nus, � uma das vinte pessoas que ainda podem ganhar cem mil coroas. Tudo que ele precisa fazer � participar de uma pesquisa sobre diversos produtos. A pesquisa seria realizada em uma hora, por um pesquisador profissional. Depois... bem, voc� entendeu.</p><p>Dag Svensson olhou para Mikael, boquiaberto.</p><p>�Est� falando s�rio?</p><p>�Por que n�o? Voc� j� tentou de tudo, e at� um figur�o da S�po deveria ser capaz de entender que a chance de ganhar cem mil coroas � bem aceit�vel, se ele j� � um dos vinte selecionados.</p><p>Dag Svensson, de repente, deu por si chorando de rir.</p><p>�Voc� � completamente doido. Isso � legal?</p><p>�Acho dif�cil achar que seria ilegal dar um celular de presente.</p><p>�Puta merda! Voc� � mesmo incr�vel.</p><p>Dag Svensson ainda ficou rindo mais algum tempo. Mikael hesitou. Na verdade, estava indo para casa e n�o tinha o h�bito de frequentar bares, mas gostava da companhia de Dag Svensson.</p><p>�O que voc� acha de a gente tomar uma cerveja? - perguntou. Dag Svensson consultou o rel�gio.</p><p>�Acho tentador - disse. �Por que n�o? Mas tem que ser rapidinho. Vou dar uma ligada para a Mia. Ela saiu com umas amigas, ficou de me pegar na volta.</p><p>Foram at� o Moulin, principalmente por ser mais pr�tico, era pertinho. Dag Svensson volta e meia ca�a na risada enquanto compunha de cabe�a a carta que ia escrever para Bj�rck. Mikael olhou de esguelha, c�tico, para aquele seu colaborador t�o f�cil de divertir. Um casal estava saindo na hora em que chegaram, e ficaram com a mesa deles, bem perto da porta. Cada um pediu um chope, aproximaram-se um do outro e se puseram a conversar sobre o tema que, no momento, monopolizava a vida profissional de Dag Svensson.</p><p>Mikael Blomkvist n�o viu Lisbeth Salander no bar com Miriam Wu. Lisbeth deu um passo atr�s de modo a deixar Mimmi entre ela e Mikael. Com o semblante neutro, observou-o por cima do ombro de Mimmi.</p><p>Era a primeira vez que ela sa�a desde que voltara � Su�cia, e � claro que tinha que topar logo com ele. Maldito Super-Blomkvist.</p><p>Era a primeira vez que o via em mais de um ano.</p><p>�O que houve? - perguntou Mimmi.</p><p>�Nada - disse Lisbeth Salander.</p><p>Continuaram a conversar. Ou melhor, Mimmi continuou contando a hist�ria de uma garota que ela havia conhecido durante uma viagem a Londres alguns anos antes. Tinha a ver com uma galeria de arte e uma situa��o que ia ficando cada vez mais c�mica � medida que Mimmi tentava dar em cima dela. Lisbeth meneava a cabe�a de vez em quando e, como sempre, perdeu o ponto alto da hist�ria.</p><p>Constatou que Mikael Blomkvist n�o tinha mudado muito. Estava tremendamente bonito; descontra�do e de bem consigo, mas ainda assim com um ar s�rio. Escutava o que seu companheiro de mesa dizia e meneava regularmente a cabe�a. A conversa n�o parecia estar muito divertida.</p><p>Lisbeth transferiu o olhar para o amigo de Mikael. Um rapaz loiro de cabelos muito curtos, alguns anos mais jovem que Mikael, que falava com ar compenetrado e parecia estar explicando alguma coisa. Ela nunca vira o cara antes e n�o fazia a m�nima id�ia de quem ele era.</p><p>S�bito, um grupo de pessoas acercou-se da mesa de Mikael para cumpriment�-lo. Uma das mulheres lhe deu um tapinha amig�vel no rosto e disse algo que fez todo mundo rir. Mikael pareceu constrangido, mas riu com os outros. Era claramente tratado como celebridade desde seu sucesso no caso Wennerstr�m.</p><p>Lisbeth Salander franziu o cenho.</p><p>�Voc� n�o est� me escutando - disse Mimmi.</p><p>�Estou sim.</p><p>�Voc� n�o � de nada como companheira de bar. Desisto. Quer ir embora e transar?</p><p>�Daqui a pouco - disse Lisbeth.</p><p>Chegou mais perto de Mimmi, p�s uma m�o em seu quadril e deslizou discretamente o indicador debaixo da blusa dela para acariciar sua barriga. Mimmi baixou os olhos para ela.</p><p>�Estou a fim de te dar um beijo na boca.</p><p>�N�o fa�a isso.</p><p>�Est� com medo que as pessoas pensem que voc� � l�sbica?</p><p>�Neste exato momento eu n�o quero chamar a aten��o.</p><p>�Ent�o vamos embora. Estou a fim de me divertir.</p><p>�Agora n�o. Espera um pouquinho.</p><p>N�o precisaram esperar muito. Vinte minutos depois que eles chegaram, o homem que estava com Mikael recebeu uma liga��o no celular. Esvaziaram seus copos de chope e se levantaram ao mesmo tempo.</p><p>�Ei, olhe aquele cara - disse Mimmi. �� o Mikael Blomkvist. Ficou famoso que nem estrela de rock depois do caso Wennerstr�m.</p><p>�Ah, �? - fez Lisbeth.</p><p>�Voc� perdeu essa. Foi mais ou menos na �poca em que voc� se mandou para o exterior.</p><p>�Eu ouvi falar.</p><p>Lisbeth esperou mais cinco minutos antes de encarar Mimmi.</p><p>�Voc� estava a fim de me beijar na boca. Mimmi olhou para ela, surpresa.</p><p>�Era para implicar com voc�.</p><p>Lisbeth se ergueu na ponta dos p�s, puxou o rosto de Mimmi para perto do seu e tascou-lhe um beijo de dois minutos. As pessoas bateram palmas.</p><p>�Voc� � completamente biruta - disse Mimmi.</p><p>Lisbeth Salander s� voltou para casa por volta das sete da manh�. Puxou a camiseta para cheirar as axilas, pensou em tomar um banho, mas deixou para l�. Largou a roupa amontoada no ch�o e se deitou. Dormiu at� as quatro da tarde, levantou-se e foi tomar caf� da manh� no Mercado do S�der.</p><p>Pensava em Mikael Blomkvist e em sua pr�pria rea��o ao se defrontar com ele. Sua presen�a a incomodara demais, mas constatou tamb�m que j� n�o do�a v�-lo. Ele tinha virado um pontinho no horizonte, uma ligeira perturba��o em sua exist�ncia.</p><p>Havia perturba��es muito piores na vida.</p><p>Lamentou de repente n�o ter tido coragem de ir cumpriment�-lo. Ou, no outro extremo, de espanc�-lo.</p><p>Ela hesitava entre as duas possibilidades, e de repente ficou muito curiosa para saber no que ele estava trabalhando. A tarde, fez algumas compras, voltou para casa l� pelas sete horas, ligou o Powerbook e iniciou o programa Asphyxia 1.3. O �cone MikB<emphasis>lom/laptop</emphasis> ainda constava no servidor holand�s.</p><p>Clicou duas vezes e abriu uma c�pia do disco r�gido de Mikael Blomkvist Era sua primeira visita ao computador dele desde que deixara a Su�cia havia mais de um ano. Notou, satisfeita, que ele ainda n�o atualizara a �ltima vers�o do MacOS, o que teria significado a elimina��o do Asphyxia e o fim da clonagem. Pensou tamb�m que teria de reescrever o software para evitar que uma atualiza��o o destru�sse.</p><p>O volume do disco r�gido aumentara 6,9 gb desde sua �ltima visita. Boa parte desse aumento consistia em arquivos PDF e c�pias Quark de todos os n�meros da <emphasis>Millennium.</emphasis> Os documentos Quark n�o ocupavam tanto espa�o, � diferen�a dos arquivos de imagens, mesmo as comprimidas. Desde que voltara a ser o editor respons�vel pela publica��o, ele aparentemente arquivara uma c�pia de cada n�mero da revista.</p><p>Ela organizou o disco r�gido por data, com os documentos mais antigos em cima, e observou que nos �ltimos meses Mikael se ocupara principalmente de uma pasta intitulada [DAG <strong>SVENSSON</strong>], que era manifestamente o projeto de um livro. Depois abriu os e-mails de Mikael e passou em revista sua lista de contatos.</p><p>A certa altura, franziu o cenho. Dia 26 de janeiro, Mikael recebera um e-mail da Maldita Harriet Vanger. Abriu o e-mail e leu umas poucas linhas sobre uma assembl�ia geral da <emphasis>Millennium</emphasis> que aconteceria em breve, que terminavam com a informa��o de que Harriet tinha reservado o mesmo quarto de hotel que da outra vez.</p><p>Lisbeth levou um breve instante para digerir a informa��o. Depois deu de ombros e baixou os e-mails de Mikael Blomkvist, o manuscrito de Dag Svensson intitulado Os <emphasis>sanguessugas,</emphasis> com o subt�tulo Os <emphasis>benefici�rios da ind�stria da prostitui��o.</emphasis> Achou tamb�m a c�pia de uma tese intitulada �Da R�ssia com amor�, escrita por uma tal de Mia Bergman.</p><p>Ela se desconectou e foi at� a cozinha ligar a cafeteira. Depois se acomodou no sof� novo da sala com seu PowerBook. Abriu a cigarreira que Mimmi lhe dera, acendeu um Marlboro light e dedicou-se � leitura.</p><p>Por volta das nove da noite, concluiu a leitura da tese de Mia Bergman. Mordeu pensativa, o l�bio inferior.</p><p>�s dez e meia, terminou o livro de Dag Svensson. E percebeu que a <emphasis>Millennium</emphasis> n�o demoraria para voltar �s manchetes.</p><p>�s onze e meia, quando estava acabando a leitura dos e-mails de Mikael Blomkvist, ergueu-se de repente, arregalando os olhos. Sentiu um arrepio percorrer suas costas.</p><p>Tratava-se de um e-mail de Dag Svensson para Mikael Blomkvist.</p><p>Svensson dizia que andava se fazendo algumas perguntas sobre um g�ngster do Leste europeu, um tal de Zala, que poderia, eventualmente, virar, sozinho, um cap�tulo do livro - mas constatava que n�o lhe restava muito tempo at� a data de entrega do manuscrito. Mikael n�o respondera a esse e-mail.</p><p><emphasis>Zala.</emphasis></p><p>Lisbeth Salander permaneceu im�vel, refletindo, at� que interveio o protetor de tela.</p><p>Dag Svensson largou seu bloco de anota��es e co�ou a cabe�a. Contemplou, pensativo, a �nica palavra escrita bem no alto da p�gina aberta. Quatro letras.</p><p>Zala.</p><p>Desconcertado, passou uns tr�s minutos rabiscando uma s�rie de c�rculos labir�nticos em volta do nome. Ent�o levantou-se e foi pegar uma x�cara de caf� na copa. Olhou o rel�gio e pensou que deveria ir para casa dormir, mas descobrira que gostava de ficar trabalhando at� tarde na reda��o da <emphasis>Millennium,</emphasis> quando o local estava calmo e tranq�ilo. O prazo-limite para a entrega dos originais se aproximava inexoravelmente. Ele dominava bem o tema, mas, pela primeira vez desde que entrara no projeto, sentia uma vaga d�vida. Perguntava-se se poderia estar deixando passar um detalhe essencial.</p><p>Zala.</p><p>At� ent�o, estivera impaciente para terminar o manuscrito e ver o livro publicado. Agora, gostaria de poder dispor de mais tempo.</p><p>Pensou no relat�rio da aut�psia que o inspetor Gulbrandsen tinha lhe dado para ler. Irina P. fora encontrada no canal de S�dert�lje, v�tima de extrema viol�ncia, provavelmente por meio de uma ferramenta pesada. Seu rosto e a caixa tor�cica apresentavam marcas fortes de contus�o. A <emphasis>causa mortis</emphasis> tinha sido a nuca quebrada, mas pelo menos dois outros ferimentos foram considerados fatais. Ela estava com seis costelas quebradas e o pulm�o esquerdo perfurado. O ba�o estava estra�alhado devido �s pavorosas pancadas que levara. A origem dos ferimentos era dif�cil de determinar. A aut�psia aventara a hip�tese de um malho de madeira enrolado num pano. Ningu�m conseguia explicar por que um assassino teria forrado a arma com tecido, mas os ferimentos n�o apontavam para nada que fosse caracter�stico dos instrumentos corriqueiros.</p><p>O crime ainda n�o fora desvendado, e Gulbrandsen observara que as chances de se encontrar um culpado eram extremamente escassas.</p><p>O nome de Zala tinha surgido em quatro oportunidades no material que Mia Bergman acumulara nos �ltimos anos, mas sempre de maneira perif�rica, fugidio como um fantasma. Ningu�m sabia quem ele era ou mesmo se existia de fato. Algumas meninas referiam-se a ele como as crian�as costumam falar no Bicho-Pap�o ou em algum monstro impreciso - uma amea�a n�o identificada que constitu�a um perigo para os desobedientes. Ele passara uma semana tentando obter mais informa��es sobre Zala, tinha questionado policiais, jornalistas e as diversas fontes relacionadas ao com�rcio sexual que ele havia reunido.</p><p>Mais uma vez fizera contato com o jornalista Per-�ke Sandstr�m, que ele pretendia denunciar sem pruridos em seu livro. A esta altura, Sandstr�m tinha come�ado a perceber que a situa��o era s�ria. Suplicara a Dag Svensson que tivesse piedade dele. Oferecera-lhe dinheiro. Como Dag Svensson pretendia mesmo denunci�-lo, valera-se, sem pudor nenhum, de sua posi��o de for�a para arrancar o m�ximo de Sandstr�m.</p><p>O resultado foi frustrante. Sandstr�m era um canalha corrompido que fizera o jogo da m�fia do sexo. Nunca tinha estado com Zala, mas falara com ele por telefone e sabia que ele existia. Talvez. N�o, n�o tinha o telefone dele. N�o, n�o podia revelar quem fizera o contato. <emphasis>Piedade, eu lhe imploro.</emphasis></p><p>De repente, Dag Svensson compreendeu que Per-�ke Sandstr�m estava com medo. Um medo maior que a amea�a de ser denunciado. Ele temia por sua vida. <emphasis>Por qu�?</emphasis></p><p><strong><emphasis>10. SEGUNDA-FEIRA 14 DE MAR�O � DOMINGO 20 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Usar o transporte coletivo para ir at� o centro de reabilita��o de Ersta representava uma enorme perda de tempo e era quase t�o complicado quanto alugar um carro toda vez que visitava Holger Palmgren. Em meados de mar�o, Lisbeth Salander resolveu comprar um carro e come�ou a procurar um estacionamento. O que se revelou mais problem�tico do que a compra do carro.</p><p>Ela dispunha de uma vaga na garagem do subsolo de seu pr�dio da Fiskaregatan, mas n�o tinha a menor inten��o de us�-la. O carro ficaria associado ao propriet�rio e Lisbeth n�o queria que houvesse nenhuma liga��o entre ela e o pr�dio. Em compensa��o, muitos anos antes, ela se candidatara a uma vaga na garagem de seu antigo apartamento na Lundagatan, para o caso de um dia vir a comprar um carro. Ligou para saber como estava a espera e descobriu que ela j� era a primeira da lista. Melhor ainda: no pr�ximo m�s haveria uma vaga livre. Uma sorte e tanto. Ligou para Mimmi e pediu que ela corresse para assinar os pap�is. No dia seguinte, saiu em busca de um carro; leou exatamente quatro horas e vinte minutos para encontrar um.</p><p>Tinha dinheiro suficiente para comprar um Rolls-Royce ou uma Ferrari cor de tangerina, mas n�o fazia quest�o de um autom�vel vistoso que chamasse a aten��o das pessoas. Esteve em dois revendedores de carros usados em Nacka e escolheu um velho Honda cor de vinho com c�mbio autom�tico. Durante uma hora, para imenso desespero do vendedor, examinou a fundo o motor. Regateou por uma quest�o de princ�pio, conseguiu baixar o pre�o em algumas notas de mil, e ent�o pagou em dinheiro.</p><p>Depois foi dirigindo o Honda at� a Lundagatan e subiu ao apartamento de Mimmi para deixar uma c�pia das chaves. Mimmi poderia usar o carro, claro, desde que avisasse antes. Como a vaga da garagem s� estaria dispon�vel no come�o do m�s, enquanto isso deixaram o carro estacionado na rua.</p><p>Mimmi estava de sa�da para um encontro seguido de cinema, atividade t�o excitante para Lisbeth quanto um debate or�ament�rio no Parlamento. Al�m do que, ia sair com uma amiga da qual Lisbeth nunca tinha ouvido falar. Como Mimmi estava exageradamente maquiada, vestia uma roupa <emphasis>trash</emphasis> e ostentava uma esp�cie de coleira de cachorro no pesco�o, Lisbeth imaginou que se tratava de uma de suas namoradas e, embora Mimmi a convidasse para ir junto, ela recusou. N�o tinha a menor vontade de se envolver num drama triangular com uma das amigas de Mimmi, de pernas longas, provavelmente supersexy e que a faria sentir-se uma idiota. Foram juntas at� o metr� H�torget, e ali se separaram.</p><p>Lisbeth fez a p� o trajeto at� a OnOff de Sveav�gen e entrou na loja dois minutos antes de ela fechar. Comprou um cartucho para a sua impressora a laser e pediu que o retirassem da embalagem para poder lev�-lo na mochila.</p><p>Ao sair da loja, estava com um vaziozinho no est�mago. Foi at� o Stureplan, onde entrou, por puro acaso, no Caf� Hedon, um lugar descolado onde nunca tinha estado. Reconheceu imediatamente o doutor Nils Erik Bjurman, quase de costas, e recuou para perto da porta. Colocou-se pr�xima ao janel�o que dava para a cal�ada e esticou o pesco�o a fim de observar seu tutor, protegida por um balc�o.</p><p>A vis�o de Bjurman n�o despertou nenhuma emo��o especial em Lisbeth Salander. N�o sentiu raiva, �dio ou medo. No que lhe dizia respeito, o mundo seria, sem d�vida alguma, um lugar melhor sem aquele cara, mas ele estava vivo porque ela resolvera que ele lhe seria mais �til assim. Voltou o olhar para o homem sentado em frente a ele e sobressaltou-se quando o homem se levantou de repente.</p><p><emphasis>Clique.</emphasis></p><p>O homem era particularmente alto, dois metros de altura pelo menos, e muito bem-apessoado. Excepcionalmente bem-apessoado, ali�s. Tinha um rosto delicado, cabelos loiros rente �s t�mporas e uma franja curta. A impress�o geral, por�m, era de uma forte virilidade.</p><p>Lisbeth viu o gigante loiro inclinar-se e sussurrar algo para Bjurman, que meneou a cabe�a. Apertaram-se as m�os e Lisbeth reparou que Bjurman retirava rapidamente a sua.</p><p><emphasis>Ora, ora, quem � voc�? E o que est� fazendo a� com o Bjurman?</emphasis></p><p>Lisbeth Salander desceu depressa alguns metros rua abaixo e se postou � entrada de uma tabacaria. Estava observando as manchetes dos jornais quando o loiro saiu do Hedon e pegou � esquerda sem olhar para os lados. Passou a menos de trinta cent�metros das costas de Lisbeth. Ela lhe deu uma vantagem de quinze metros e come�ou a segui-lo.</p><p>O passeio a p� n�o se estendeu. O gigante loiro entrou em seguida no metr� da Birger Jarlsgatan e comprou um bilhete na m�quina. Esperou na plataforma da dire��o sul - que de todo modo era a dire��o de Lisbeth- e entrou no metr� para Norsborg. Desceu em Slussen e tomou a dire��o de Farsta, mas logo desceu em Skanstull e foi caminhando at� o Caf� Blomberg, na G�tgatan.</p><p>Lisbeth ficou do lado de fora. Observou, pensativa, o homem com quem o gigante loiro foi se sentar. <emphasis>Clique.</emphasis> Lisbeth lhe atribuiu o perfil <emphasis>m�s not�cias.</emphasis> Um sujeito gordo, com um rosto magro e uma barriga de bebedor de cerveja. Tinha cabelos loiros presos num rabo de cavalo e um bigode loiro. Vestia jeans preto, uma jaqueta jeans e usava botinas de salto. No dorso da m�o direita, tinha uma tatuagem cujo desenho Lisbeth n�o conseguia distinguir �quela dist�ncia. Usava uma corrente de ouro no pulso e fumava Lucky Strike, a julgar pelo ma�o em cima da mesa. Lisbeth reparou no seu olhar errante, que ela associava a pessoas que se dopam. Reparou tamb�m que ele usava um colete por baixo da jaqueta jeans. Fez imediatamente a associa��o com motoqueiros.</p><p>O gigante loiro n�o fez nenhum pedido. Parecia falar em voz baixa. Explicava alguma coisa. O homem da jaqueta jeans meneava regularmente a cabe�a, mas parecia n�o contribuir para o di�logo. <emphasis>Droga, por que n�o estou com meu microfone ultrassens�vel?</emphasis></p><p>Passados cinco minutos, o gigante loiro se levantou e deixou o Caf� Blomberg. Lisbeth afastou-se depressa, mas ele nem sequer olhou em sua dire��o. Andou uns quarenta metros e subiu a escadaria da Allhelgonagatan, onde entrou num Volvo branco. Deu a partida e entrou devagarinho na rua. Lisbeth estava t�o perto que teve tempo de anotar o n�mero da placa antes de ele dobrar a esquina e sumir.</p><p>Lisbeth ficou alguns segundos pensativa, olhando para o lugar onde o Volvo estivera estacionado. Ent�o voltou correndo ao Caf� Blomberg. Ausentara-se menos de tr�s minutos, mas a mesa j� estava vazia. Deu meia-volta, verificou a cal�ada nas duas dire��es, e n�o viu o homem de rabo de cavalo e jaqueta jeans. Ent�o olhou do outro lado da rua e o avistou empurrando a porta do McDonald�s.</p><p>Foi obrigada a entrar para poder v�-lo outra vez. Estava sentado no fundo, na companhia de outro homem que usava roupas semelhantes �s dele e claramente conotativas. Este usava o colete por cima da jaqueta jeans. Lisbeth leu os dizeres MOTO-CLUB SVAVELSJ�. Com uma roda de moto estilizada que lembrava a cruz celta enfeitada com um machado.</p><p>Lisbeth saiu para a rua e ficou um momento indecisa antes de pegar a dire��o norte e voltar para casa. Caminhava com a sensa��o de que todo o seu sistema de alarme tinha disparado.</p><p>Lisbeth parou no 7-Eleven da G�tgatan para fazer as compras da semana: um pacote grande de pizzas congeladas, tr�s peixes gratinados, tr�s tortas de bacon, um quilo de ma��s, dois p�es, um peda�o grande de queijo, leite, caf�, um pacote de Marlboro light e os jornais da tarde. Pegou a Svartensgatan para subir na dire��o da Fiskaregatan e olhou atentamente em volta antes de digitar o c�digo do pr�dio. P�s uma das tortas de bacon no micro-ondas e tomou leite direto da caixa. Ligou a cafeteira el�trica e em seguida se instalou na frente do computador. Clicou em Asphyxia 1.3, entrou no servidor holand�s e depois na reprodu��o do disco r�gido do Dr. Bjurman. Passou o conte�do do computador dele a pente fino.</p><p>N�o encontrou absolutamente nada digno de interesse. Bjurman parecia usar muito pouco o correio eletr�nico e ela s� achou uma d�zia de e-mails breves e pessoais trocados com amigos. Nada na correspond�ncia dele tinha alguma rela��o com Lisbeth Salander.</p><p>Achou um arquivo novo com fotos de pornografia expl�cita que mostravam que ele ainda se interessava por mulheres submetidas a situa��es s�dicas. Seu olhar se endureceu um pouco, mas aquilo n�o constitu�a uma transgress�o � regra que o proibia de frequentar mulheres.</p><p>Copiou o arquivo que continha os documentos relativos � miss�o de Bjurman como tutor da denominada Lisbeth Salander e leu com aten��o os relat�rios mensais. Todos correspondiam escrupulosamente �s c�pias que ela ordenara que ele enviasse por e-mail para um de seus in�meros endere�os no hotmail.</p><p>Estava tudo absolutamente normal.</p><p>Com exce��o, talvez, de uma pequena variante... Quando conferiu a listagem, constatou que ele em geral criava os documentos bem no in�cio do m�s, dedicava uma m�dia de quatro horas para redigir cada relat�rio e o enviava pontualmente � Comiss�o de Tutelas todo dia 20 do m�s. Estavam em meados de mar�o e ele ainda n�o cuidara do relat�rio mensal. <emphasis>Neglig�ncia? Atraso? Ocupado com outras coisas? Tramando algo suspeito?</emphasis> Uma ruga vincou a testa de Lisbeth Salander.</p><p>Desligou o computador, sentou-se no recanto da janela e abriu a cigarreira que Mimmi lhe dera. Acendeu um cigarro e fitou a escurid�o l� fora. Dava-se conta de que descuidara sua vigil�ncia sobre Bjurman. Esse <emphasis>canalha � mais trai�oeiro que uma hiena.</emphasis></p><p>Foi sendo tomada por uma profunda inquieta��o. <emphasis>Primeiro o Maldito Super-Blomkvist, depois Zala e agora o Maldito Canalha do Nils Bjurman na companhia de um macho inflado de anabolizantes e em contato com uma gangue de motoqueiros.</emphasis> Em poucos dias, tinham aparecido v�rias pedrinhas na exist�ncia organizada que Lisbeth Salander estava tentando construir.</p><p>�s duas e meia daquela madrugada, Lisbeth Salander abriu a porta do pr�dio em que o Dr. Nils Bjurman morava. Parou na frente do apartamento, levantou bem devagarinho a portinhola da correspond�ncia e introduziu o microfone extremamente sens�vel que tinha adquirido na Counterspy Shop de Mayfair, em Londres. Nunca tinha ouvido falar em Ebbe Carlsson, mas naquela mesma loja ele comprara o famoso material de escuta que, no final dos anos 1980, obrigara o ministro da Justi�a sueco a se demitir bruscamente. Colocou as escutas no lugar e ajustou o volume.</p><p>Escutou o zumbido surdo de um refrigerador e os sonoros tiquetaques de pelo menos dois rel�gios, um deles um rel�gio de parede na sala, � esquerda da porta de entrada. Ajustou o volume e escutou, prendendo a respira��o. Ouviu todo tipo de estalidos e ru�dos no pr�dio, mas nenhum som de atividade humana. Levou um minuto para identificar os fracos ru�dos de uma respira��o pesada e regular.</p><p>Nils Bjurman estava dormindo.</p><p>Tirou o microfone e o enfiou no bolso interno da jaqueta de couro. Vestia uma cal�a jeans escura e t�nis. Sem fazer barulho, introduziu a chave na fechadura e entreabriu a porta. Antes de abri-la totalmente, tirou do bolso um cacetete el�trico. N�o trouxera nenhuma outra arma. N�o julgava precisar de mais que isso para dominar Bjurman.</p><p>Entrou no hall, fechou a porta e deslizou p� ante p� pelo corredor at� o quarto dele. Estacou ao perceber a luz de uma l�mpada, mas �quela altura j� conseguia escutar os roncos sem a ajuda do microfone. Deslizou at� o quarto. Na beira da janela havia uma luz acesa. O <emphasis>que h� com voc�, Bjurman? Est� com medo de dormir no escuro?</emphasis></p><p>Aproximou-se da cama e o contemplou por v�rios minutos. Estava envelhecido e parecia desmazelado. Um cheiro dentro do quarto indicava que vinha negligenciando a higiene.</p><p>N�o sentiu a menor compaix�o. Por um segundo, o clar�o de um �dio implac�vel brilhou em seus olhos em geral t�o inexpressivos. Reparou num copo no criado-mudo e se inclinou para cheir�-lo. �lcool.</p><p>Por fim, saiu do quarto. Deu uma voltinha na cozinha, n�o encontrou nada de especial, continuou pela sala e se deteve � porta do escrit�rio. Tirou do bolso uma d�zia de pedacinhos de torrada e os jogou no escuro pelo ch�o. Se algu�m se esgueirasse pela sala, o ru�do a alertaria.</p><p>Instalou-se � escrivaninha do Dr. Nils Bjurman e deixou o cacetete el�trico ao alcance da m�o. P�s-se a vasculhar metodicamente as gavetas. Examinou os extratos banc�rios das contas pessoais de Bjurman e deu uma olhada nas diversas opera��es efetuadas. Notou que ele estava ficando desorganizado e mais espor�dico nas atualiza��es, mas n�o encontrou nada digno de interesse.</p><p>A �ltima gaveta da escrivaninha estava fechada a chave. Lisbeth Salander franziu o cenho. Quando o visitara um ano atr�s, todas as gavetas estavam abertas. Seu olhar se turvou quando tentou imaginar o conte�do da gaveta. Na �poca, havia nela uma c�mera fotogr�fica, uma teleobjetiva, um pequeno dictafone Olympus, um �lbum de fotos encadernado em couro e uma caixinha com colares, j�ias e uma alian�a de ouro com a inscri��o <emphasis>Tilda e Jacob Bjurman - 23 de abril de 1951.</emphasis> Lisbeth sabia que eram os nomes dos pais dele e que os dois j� eram falecidos. Imaginou que ele guardava a alian�a como recorda��o. Em suma, objetos que tinham algum valor afetivo. <emphasis>Certo, ele tranca a chave o que considera precioso.</emphasis></p><p>Come�ou a examinar a prateleira com porta de correr que ficava atr�s da escrivaninha e tirou duas pastas relativas � sua miss�o como tutor. Passou quinze minutos lendo minuciosamente todos os documentos, folha por folha. Os relat�rios eram impec�veis e davam a entender que Lisbeth Salander era uma jovem boazinha e cuidadosa. Quatro meses antes, apresentara um relat�rio declarando que a seu ver ela parecia t�o racional e competente que seria certamente o caso, quando da avalia��o do ano seguinte, de se abrir uma discuss�o sobre a pertin�ncia de se manter a tutela. Estava elegantemente formulado e constitu�a a primeira pedra para a anula��o de sua coloca��o sob tutela.</p><p>A pasta continha igualmente anota��es manuscritas mostrando que Bjurman fora procurado por uma certa Ulrika von Liebenstaahl, da Comiss�o de Tutelas, para uma conversa sobre a situa��o de Lisbeth. Estavam sublinhadas as palavras �necessidade de uma avalia��o psiqui�trica�.</p><p>Lisbeth fez um muxoxo, guardou as pastas no lugar e olhou em volta. � primeira vista, n�o havia do que reclamar. Bjurman parecia estar se comportando escrupulosamente segundo suas instru��es. Mordeu os l�bios. Mesmo assim, tinha a impress�o de que alguma coisa estava errada.</p><p>Levantou-se, e j� ia apagar a luz quando se deteve. Tornou a pegar as pastas e examinou-as outra vez. Estupefata.</p><p>Elas deveriam conter muito mais que aquilo. Um ano antes, havia um resumo da Comiss�o de Tutelas cobrindo sua vida desde a inf�ncia. Esse relat�rio n�o estava mais l�. Por <emphasis>que Bjurman tiraria documentos de uma pasta?</emphasis> Franziu o cenho. N�o conseguia pensar em nenhum motivo v�lido. A menos que ele guardasse outras informa��es em outro lugar. Deu uma olhada na prateleira de portas de correr e ent�o baixou os olhos para a �ltima gaveta da escrivaninha.</p><p>N�o tinha trazido chave mestra e voltou p� ante p� ao quarto de Bjurman. Pescou seu molho de chaves no palet� pendurado no cabide. Na gaveta estavam os mesmos objetos de um ano atr�s. Mas � cole��o se somara uma caixa rasa com a foto de um Colt 45 Magnum na tampa.</p><p>Seu olhar se turvou mais uma vez ao repassar mentalmente a pesquisa que fizera sobre Bjurman dois anos antes. Ele praticava tiro num clube. Tinha porte de armas para um Colt 45 Magnum.</p><p>A contragosto, concluiu que ele estava certo em manter a gaveta trancada a chave.</p><p>Aquele estado de coisas n�o lhe agradava, mas no momento n�o via nenhum motivo para acordar Bjurman e quebrar a cara dele.</p><p>Mia Bergman acordou �s seis e meia. Ouviu baixinho, o notici�rio da tev� na sala e sentiu cheiro de caf�. Tamb�m ouviu o som do teclado do iBook de Dag Svensson. Sorriu.</p><p>Nunca tinha visto seu companheiro t�o envolvido numa tarefa. A <emphasis>Millennium</emphasis> era um trabalho legal. Dag ainda era um pouco convencido, mas o contato com Blomkvist, Berger e os demais estava sendo ben�fico para ele. Era cada vez mais frequente ele voltar para casa abatido depois de Blomkvist lhe apontar algumas falhas e desmontar algum racioc�nio seu. Depois disso, trabalhava duas vezes mais.</p><p>P�s a m�o sobre o ventre e se perguntou se aquele seria o momento certo de perturbar a concentra��o dele. Sua menstrua��o estava tr�s semanas atrasada. N�o tinha certeza, mas um teste de gravidez da farm�cia acabaria com a d�vida.</p><p>Perguntava-se se era mesmo um bom momento.</p><p>Ia fazer trinta anos. Dali a um m�s, defenderia sua tese. Doutora Bergman! Sorriu novamente e resolveu n�o dizer nada a Dag antes de ter certeza, ou quem sabe at� ele terminar o livro e ela pr�pria festejar sua tese.</p><p>Ficou mais dez minutos na cama antes de se levantar e ir at� a sala, enrolada num len�ol. Ele ergueu os olhos.</p><p>�Sabe que n�o s�o nem sete horas? - perguntou ela.</p><p>�� o Blomkvist esmiu�ando detalhes de novo - ele respondeu.</p><p>�Ele foi malvado com voc�? Isso n�o � ruim para voc�. Voc� gosta dele, n�o �?</p><p>Dag Svensson se recostou no sof� e seus olhares se encontraram. Passados alguns instantes, ele assentiu com a cabe�a.</p><p>�A <emphasis>Millennium �</emphasis> um bom lugar para se trabalhar. Conversei com o Mikael no Moulin, outra noite, antes de voc� me pegar. Ele perguntou quais eram os meus planos depois que eu terminar este projeto.</p><p>�A-h�... E o que voc� respondeu?</p><p>�Que eu n�o sabia. Faz tantos anos que estou ralando como frila. Queria um tro�o mais est�vel.</p><p>�A <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>�Micke sondou o terreno, perguntou se meio per�odo me interessava. Um contrato igual ao do Henry Cortez e da Lottie Karim. Eu teria uma sala e a <emphasis>Millennium</emphasis> me pagaria um sal�rio-base, e o resto ficaria por minha conta.</p><p>�Voc� acha bom?</p><p>�Se eles me fizerem uma proposta concreta, sim.</p><p>�Certo, mas ainda n�o s�o nem sete horas e hoje � s�bado.</p><p>�Tss. Eu s� queria mexer em mais uma coisinha aqui num cap�tulo.</p><p>�E eu acho que voc� devia era voltar para a cama e mexer em outra coisinha l�.</p><p>Ela lhe lan�ou um bonito sorriso e abriu um lado do len�ol. Ele colocou o computador em espera.</p><p>Lisbeth Salander passou a maior parte dos dias e noites seguintes na frente do Powerbook, pesquisando em diferentes dire��es; houve momentos em que j� nem sabia exatamente o que procurava.</p><p>Parte do levantamento de dados era simples. Com base em arquivos da imprensa, reconstituiu o hist�rico do <strong>MC</strong> Svavelsj�. O clube aparecia pela primeira vez nas notas dos jornais em 1991, com o nome T�lje Hog Riders, quando a pol�cia fizera uma blitz em sua sede, na �poca uma escola abandonada nas proximidades de S�dert�lje. Vizinhos preocupados tinham avisado a pol�cia sobre tiros ouvidos na antiga escola; os tiras chegaram em peso, interrompendo uma festa copiosamente regada a cerveja e que havia descambado para um concurso de tiro com um rifle <strong>AK</strong>4, que se descobriu ter sido roubado do antigo 20a regimento de infantaria de V�sterbotten no in�cio dos anos 1980.</p><p>De acordo com o quadro tra�ado por um jornal vespertino, o <strong>MC</strong> Svavelsj� contava com seis ou sete membros e uma d�zia de <emphasis>hangarounds.</emphasis> Todos os membros efetivos haviam sido uma ou mais vezes condenados pela justi�a por crimes relativamente pequenos mas que n�o exclu�am a viol�ncia. Dois sujeitos do clube se destacavam. O chefe do MC Svavelsj� era um tal Carl-Magnus, o �Magge� Lundin, de quem o site do <emphasis>Aftonbladet</emphasis> tra�ava o perfil depois de a pol�cia ter feito outra blitz na sede do clube em 2001. Lundin fora condenado cinco vezes entre o final dos anos 1980 e in�cio dos anos 1990. Tr�s condena��es por roubo, recepta��o e infra��es ligadas � droga. Uma delas decorria de um registro criminal mais s�rio, com golpes e ferimentos agravados que lhe valeram dezoito meses de xadrez. Lundin foi solto em 1995 e promovido, pouco depois, a �presidente� dos T�lje Hog Riders, rebatizados de <strong>MC</strong> Svavelsj�.</p><p>O n�mero dois do clube, de acordo com a pol�cia, era um tal de Benny Nieminen, de trinta e sete anos, com nada menos que vinte e tr�s condena��es registradas na ficha policial. Dando in�cio � sua carreira com dezesseis anos de idade, fora submetido a um controle judici�rio e medidas educativas. Durante os dez anos seguintes, Benny Nieminen fora condenado cinco vezes por roubo, uma vez por roubo agravado, duas por amea�a, duas por infra��es relacionadas com drogas, chantagem, viol�ncia contra um funcion�rio p�blico, duas vezes por porte ilegal de armas e uma por porte ilegal de arma agravado, dire��o em estado de embriaguez e nada menos que seis casos de golpes e ferimentos. Segundo um crit�rio incompreens�vel para Lisbeth Salander, tinha sido condenado, al�m do controle judici�rio, a multas e a per�odos de um ou dois meses de pris�o, at� ser condenado em 1989 a dez meses de deten��o por golpes e ferimentos agravados e roubo seguido de viol�ncia. Libertado meses depois, ficara quieto at� outubro de 1990, quando seu envolvimento numa briga de bar em S�dert�lje, seguida de assassinato, resultara numa pena de seis anos de pris�o. Nieminen tornara a sair em 1995 e, desde ent�o, era o amigo mais chegado de Magge Lundin.</p><p>Em 1996, foi preso por cumplicidade no assalto a m�o armada de um carro-forte. N�o participara diretamente do assalto, mas fornecera as armas necess�rias a tr�s jovens. Foi sua segunda derrocada. Condenado a quatro anos de pris�o, foi solto em 1999. Depois disso, Nieminen conseguira o milagre de n�o ser pego por outros crimes. Segundo um artigo publicado num jornal em 2001, que n�o citava seu nome, mas fornecia um hist�rico t�o detalhado que n�o era dif�cil perceber de quem se tratava, Nieminen era suspeito de cumplicidade em pelo menos um assassinato, quando um membro do clube tinha sido morto.</p><p>Lisbeth baixou umas fotos de Nieminen e Lundin. Nieminen tinha um rosto bonito, cabelos castanhos crespos e olhos agressivos. Magge Lundin tinha cara de d�bil mental. Identificou facilmente Lundin como o homem que se encontrara com o gigante loiro no Caf� Blomberg, e Nieminen como o homem que o esperava no McDonald�s.</p><p>Uma invas�o no Registro de Minas permitiu que encontrasse a pista do propriet�rio do Volvo branco usado pelo gigante loiro. Tratava-se de uma autolocadora, a Auto-Expert, de Eskilstuna. Discou o n�mero, e do outro lado da linha atendeu um tal de Refik Alba.</p><p>�Al�, bom dia, meu nome � Gunilla Hansson. Meu cachorro foi atropelado ontem por um carro que n�o parou. O canalha fugiu, mas o n�mero da placa mostra que o carro foi alugado a�. Era um Volvo branco.</p><p>Ela deu o n�mero.</p><p>�Sinto muito.</p><p>�Exijo mais que isso. Quero o nome desse escroto para mandar para ele um pedido de indeniza��o.</p><p>�A senhora deu parte � pol�cia?</p><p>�N�o, prefiro resolver essa hist�ria amigavelmente.</p><p>�Sinto muito, mas n�o posso fornecer o nome dos nossos clientes se n�o houver um boletim de ocorr�ncia.</p><p>A voz de Lisbeth Salander murchou. Perguntou se era mesmo uma boa pol�tica da empresa obrig�-la a denunciar seus clientes em vez de tentar um acordo amig�vel. Refik Alba lamentou mais uma vez e disse que infelizmente n�o podia fazer nada. Ela ainda argumentou por mais alguns minutos, mas n�o conseguiu obter o nome do gigante loiro.</p><p>O nome de Zala tamb�m parecia conduzir a um beco sem sa�da. Com dois intervalos para comer uma pizza acompanhada de uma garrafa grande de Coca, Lisbeth Salander passou a maior parte das vinte e quatro horas seguintes na frente do computador.</p><p>Encontrou centenas de Zalas - desde atletas italianos de alto n�vel at� um compositor argentino -, mas n�o o que estava procurando.</p><p>Tentou Zalachenko, e n�o encontrou nada que prestasse.</p><p>Frustrada, finalmente cambaleou at� o quarto e dormiu doze horas seguidas. Acordou �s onze da manh�, ligou a cafeteira e preparou um banho de hidromassagem com �leo espumante. Levou o caf� e fatias de p�o para o banheiro e tomou o caf� da manh� refestelada na banheira, sonhando cora a presen�a de Mimmi a seu lado. Mas isso era imposs�vel. Ainda nem tinha lhe contado onde morava.</p><p>Por volta do meio-dia, saiu da �gua, se secou e enfiou um roup�o. Tornou a ligar o computador.</p><p>Obteve melhores resultados com os nomes de Dag Svensson e Mia Bergman. Conseguiu rapidamente ter uma id�ia das atividades dos dois nos �ltimos anos. Baixou algumas c�pias de artigos de Dag e achou uma foto dele a guisa de assinatura. Sem grande surpresa, constatou que era o homem que vira em companhia de Mikael Blomkvist no Moulin dias antes. Agora o nome tinha um rosto, e vice-versa.</p><p>Achou v�rios textos sobre, ou de, Mia Bergman. Anos antes destacara-se com um relat�rio sobre as diferentes maneiras como homens e mulheres eram tratados pela Justi�a. O relat�rio tinha sido citado em editoriais e artigos de opini�o nas revistas de v�rias organiza��es feministas; a pr�pria Mia Bergman contribu�ra para o debate com diversos artigos. Lisbeth Salander leu com bastante aten��o. Algumas feministas julgavam suas conclus�es importantes, ao passo que outras criticavam Mia Bergman e a acusavam de �espalhar ilus�es burguesas�, mas nem por isso esclarecendo que ilus�es burguesas seriam essas.</p><p>Por volta das duas da tarde, entrou no Asphyxia 1.3, mas em vez de <emphasis>MikBlom/laptop</emphasis> escolheu <emphasis>MikBlom/office</emphasis>, o computador de Mikael Blomkvist na reda��o da <emphasis>Millennium.</emphasis> Sabia, por experi�ncia pr�pria, que o computador da sala de Mikael n�o continha praticamente nada. Embora o utilizasse vez ou outra para navegar na internet, ele trabalhava quase o tempo todo no seu iBook. Em compensa��o, Mikael tinha o direito de controlar toda a reda��o da <emphasis>Millennium.</emphasis> Ela encontrou rapidamente a informa��o necess�ria com o c�digo de acesso � rede interna da revista.</p><p>Para entrar nos demais computadores da <emphasis>Millennium,</emphasis> o espelhamento do disco r�gido no servidor holand�s n�o bastava; o original do <emphasis>MikBlom/office</emphasis> tinha de estar ligado e conectado � rede interna. Ela estava com sorte, Mikael Blomkvist parecia estar na revista e seu computador estava ligado. Esperou dez minutos e n�o percebeu nenhum sinal de atividade. Interpretou isso como um ind�cio de que Mikael tinha ligado o computador ao chegar ao escrit�rio, talvez o tivesse usado para navegar na internet e o deixara ligado enquanto cuidava de outras coisas ou trabalhava em seu computador port�til.</p><p>Precisava ir com calma. Durante uma hora, Lisbeth Salander pirateou os computadores um por um e carregou e-mails de Erika Berger, Christer Malm e uma tal de Malu Eriksson, que ela n�o conhecia. Por fim, achou o computador de Dag Svensson, segundo a informa��o do sistema um velho Macintosh PowerPC com disco r�gido de 750 MB<strong>,</strong><strong>OU</strong> seja, uma m�quina antiga que provavelmente s� era usada por usu�rios ocasionais para tratamento de texto. Estava ligado, o que significava que Dag Svensson se encontrava na reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> naquele momento. Ela carregou seu correio eletr�nico e percorreu seu disco r�gido. Encontrou um arquivo intitulado, simplesmente, [<strong>ZALA].</strong></p><p>O gigante loiro estava insatisfeito e incomodado. Acabava de obter duzentas e tr�s mil coroas em dinheiro, o que era mais do que ele esperava pelos tr�s quilos de metanfetamina entregues a Magge Lundin no final de janeiro. Era igualmente um lucro razo�vel para umas poucas horas de trabalho efetivo - pegar a anfetamina com o intermedi�rio, guard�-la por algum tempo, entreg�-la a Magge Lundin e ent�o embolsar cinquenta por cento do lucro. O MC Svavelsj� parecia n�o ter nenhuma dificuldade em levantar mensalmente uma quantia daquelas, e o bando de Magge Lundin era apenas um entre tr�s operadores similares - os outros dois operavam nas �reas de G�teborg e Malm�. Juntos, os tr�s bandos chegavam a render mais de meio milh�o de coroas de lucro l�quido por m�s.</p><p>No entanto, sentia-se t�o incomodado que parou no acostamento e desligou o motor. N�o dormia havia quase trinta horas e se sentia entorpecido Abriu a porta para esticar as pernas e urinou na beira da estrada. Fazia frio e o c�u estava limpo. Estava em frente a um campo, nas proximidades de J�rna.</p><p>O conflito era antes de natureza ideol�gica. A oferta de metanfetamina a menos de quatrocentos quil�metros de Estocolmo era ilimitada. A demanda no mercado sueco, indiscut�vel. O resto n�o passava de log�stica � como transportar o produto de um ponto A at� um ponto B ou, mais precisamente, de um por�o de Tallinn para o porto franco de Estocolmo?</p><p>Esse problema log�stico se apresentava o tempo todo - como garantir um transporte regular da Est�nia para a Su�cia? Era o ponto crucial e o elo realmente fr�gil da cadeia, j� que, depois de muitos anos de esfor�o, ainda estavam no n�vel da improvisa��o constante e das solu��es tempor�rias.</p><p>O problema era que, nos �ltimos tempos, a engrenagem andava emperrando demais. Ele se orgulhava de seu talento para a organiza��o. Em apenas poucos anos, criara uma engrenagem bem azeitada de contatos, mantidos com doses bem calculadas de cenoura e chicote. Ele � que tinha administrado o aspecto pr�tico, identificado os parceiros, negociado acordos e cuidado para que a entrega chegasse ao lugar certo.</p><p>A cenoura era o est�mulo oferecido a intermedi�rios como Magge Lundin � um bom lucro praticamente sem riscos. O sistema era impec�vel. Magge Lundin nunca precisara levantar um s� dedo para que lhe entregassem os produtos - nada de viagens complicadas nem negocia��es obrigat�rias com todo tipo de gente, desde tiras da Brigada de Entorpecentes at� a m�fia russa, que poderia muito bem lhe passar a perna. Lundin sabia que o gigante loiro entregava e depois embolsava seus cinquenta por cento.</p><p>O chicote era necess�rio, j� que cada vez mais vinha entrando areia na engrenagem. Um traficantezinho de bairro bom de faro acabara sabendo demais e por pouco n�o comprometera o <strong>MC</strong> Svavelsj�. O loiro fora obrigado a intervir e punir.</p><p>O gigante loiro era bom em puni��es.</p><p>Suspirou.</p><p>Sentia que a atividade estava se ampliando demais. Estava simplesmente diversificada <emphasis>demais.</emphasis></p><p>Acendeu um cigarro e esticou as pernas na beira da estrada.</p><p>A metanfetamina era uma excelente fonte de renda, discreta e f�cil de lidar � lucro amplo com risco m�nimo. O neg�cio de armas se justificava at� certo ponto, quando servi�os embutidos pouco pertinentes podiam ser identificados e evitados. Considerando-se os riscos, o fato � que n�o era economicamente defens�vel fornecer dois rev�lveres por umas m�seras notas de mil a uns pivetes muito doidos que sonhavam assaltar o quiosque da esquina.</p><p>Alguns casos de espionagem industrial ou contrabando de componentes eletr�nicos para pa�ses do Leste at� se justificavam, embora o mercado tivesse encolhido dramaticamente nos �ltimos anos.</p><p>Em compensa��o, as putas dos pa�ses b�lticos eram indefens�veis do ponto de vista econ�mico. As putas s� davam dinheiro para o gasto e representavam, antes de mais nada, uma complica��o capaz de a qualquer momento suscitar mat�rias hip�critas na m�dia e debates naquele estranho Parlamento sueco, chamado Riksdag, onde as regras do jogo, na opini�o do gigante loiro, eram no m�nimo pouco claras. A vantagem das putas � que elas n�o representavam praticamente nenhum risco jur�dico. Todo mundo gosta de puta - o procurador, o juiz, os tiras e um parlamentar aqui e ali. Ningu�m ia ficar cavoucando para p�r um fim a essa atividade.</p><p>E uma puta morta n�o causava necessariamente complica��es. Se a pol�cia conseguisse prender um suspeito �bvio em poucas horas, e se o suspeito ainda estivesse com sangue na roupa, ele evidentemente era condenado a alguns anos de pris�o ou internado em algum obscuro estabelecimento psiqui�trico. Mas se nenhum suspeito fosse encontrado em quarenta e oito horas, o loiro sabia por experi�ncia que a pol�cia n�o demorava a ir cuidar de coisas mais importantes.</p><p>De qualquer modo, o gigante loiro n�o gostava do com�rcio de putas. N�o gostava das putas, com seus rostos exageradamente maquiados e suas risadas estridentes de alco�latras. N�o eram puras. Eram capital humano, do tipo que d� tanta despesa quanto lucro. E tratando-se de capital humano, sempre havia o risco de uma das putas ter um surto e achar que podia pedir demiss�o ou come�ar a fazer den�ncias para tiras, jornalistas e outros bisbilhoteiros. Ent�o ele era obrigado a intervir e punir. E se as revela��es fossem suficientemente precisas, a rede de procuradores e tiras era obrigada a agir - para n�o haver gritaria no maldito Parlamento. O com�rcio de putas s� dava confus�o.</p><p>Os irm�os Atho e Harry Ranta eram um exemplo t�pico de confus�o - dois parasitas in�teis que sabiam muito mais do que deveriam sobre a atividade. Por ele, teria amarrado uma corrente no pesco�o deles e afundado os dois no porto. Em vez disso, acompanhara esses senhores � balsa para Tallinn e pacientemente esperou que embarcassem. As f�rias for�adas se deviam a um maldito jornalista que come�ara a fu�ar nas hist�rias deles, e a sa�da tinha sido eles permanecerem invis�veis at� que o alerta passasse.</p><p>Suspirou mais uma vez.</p><p>O gigante loiro n�o gostava, principalmente, de servi�os paralelos do tipo Lisbeth Salander. No que lhe dizia respeito, ela n�o oferecia o menor interesse. N�o representava nenhum lucro.</p><p>Ele n�o gostava do Dr. Nils Bjurman e n�o conseguia entender por que tinham resolvido acatar o seu pedido. Mas agora a bola j� estava rolando. Ordens tinham sido dadas e a miss�o, terceirizada com o <strong>MC</strong> Svavelsj�.</p><p>O fato era que a atual conjuntura n�o lhe agradava. Estava com um mau pressentimento.</p><p>Ao jogar fora o cigarro no barranco, seus olhos passaram pelo campo mergulhado na escurid�o. De repente, captou um movimento com o canto do olho. Imobilizou-se, apurou o olhar. N�o havia luz alguma al�m de uma t�nue lua crescente, mas ainda assim conseguia distinguir o contorno de uma figura sombria rastejando em sua dire��o a uns trinta metros da estrada. A criatura avan�ava lentamente, fazendo pequenas pausas.</p><p>O gigante sentiu de repente um suor frio na testa.</p><p>Detestava a criatura do campo.</p><p>Ficou mais de um minuto praticamente paralisado, olhos grudados no avan�o lento, mas constante, do vulto. Quando este chegou t�o perto que ele conseguiu distinguir seus olhos cintilando no escuro, deu meia-volta e correu para o carro. Abriu a porta com um gesto seco e procurou nervosamente pela chave. Sentiu o p�nico crescer at� que por fim conseguiu dar a partida e ligar os far�is. A criatura tinha alcan�ado a estrada e o gigante loiro p�de enfim enxerg�-la em detalhe � luz dos far�is. Parecia uma enorme raia-manta se arrastando pelo ch�o. Tinha um ferr�o igual ao do escorpi�o.</p><p>Uma coisa era certa. N�o era uma criatura deste mundo. N�o estava descrita em nenhum livro de fauna conhecido. Era um monstro sa�do diretamente do inferno.</p><p>Engatou a primeira marcha e arrancou, cantando os pneus. Quando o carro passou pela criatura, viu que ela tentou um ataque, sem conseguir atingi-lo. Ele s� parou de tremer muitos quil�metros depois.</p><p>Lisbeth Salander passou a noite lendo o resultado das investiga��es de Dag Svensson e da <emphasis>Millennium</emphasis> sobre o tr�fico de mulheres. Aos poucos, foi obtendo um quadro bastante completo, ainda que baseado em fragmentos enigm�ticos extra�dos do correio eletr�nico a que ela recorria para montar o seu quebra-cabe�a.</p><p>Erika Berger mandava uma pergunta a Mikael Blomkvist sobre o andamento das confronta��es; ele sucintamente respondia que estavam tendo dificuldades para achar o homem da Tcheka. Ela deduziu que um dos indiv�duos a serem desmascarados na reportagem trabalhava na S�po. Malu Eriksson anexava para Dag Svensson o resumo de uma pesquisa, com c�pia para Mikael Blomkvist e Erika Berger. Svensson e o Super-Blomkvist respondiam com coment�rios e sugest�es de aprofundamentos. Mikael e Dag trocavam e-mails v�rias vezes ao dia. Dag Svensson relatava uma confronta��o que tivera com um tal de Per-�ke Sandstr�m, jornalista.</p><p>Vendo os e-mails de Dag Svensson, p�de tamb�m constatar que ele se comunicava com um certo Gulbrandsen por um endere�o Yahoo. Levou algum tempo at� entender que Gulbrandsen devia ser um tira e que a comunica��o entre eles se dava de forma confidencial atrav�s de um endere�o neutro, e n�o pelo endere�o de Gulbrandsen na pol�cia. O sujeito era, portanto, uma fonte.</p><p>A pasta [ZALA] era de uma exiguidade frustrante, continha apenas tr�s documentos Word. O maior, de 128 Kb, tinha o nome [Irina P.] e continha fragmentos da vida de uma prostituta. Pelo relat�rio de aut�psia fornecido por Dag Svensson, Lisbeth compreendeu que a garota estava morta.</p><p>At� onde Lisbeth conseguia entender, Irina P. tinha sofrido viol�ncias t�o intensas que tr�s de seus ferimentos foram mortais.</p><p>Lisbeth reconheceu no texto uma cita��o, palavra por palavra, da tese de Mia Bergman. Na tese, tratava-se de uma mulher chamada Tamara. Lisbeth deduziu que Irina P. e Tamara eram a mesma pessoa, e leu atentamente o trecho da entrevista com ela na tese.</p><p>O segundo documento, [Sandstr�m], era muito mais sucinto. Continha o mesmo resumo enviado por Dag Svensson num e-mail ao Super-Blomkvist demonstrando que um jornalista chamado Per-�ke Sandstr�m era um dos clientes sexuais que explorara uma menina de um pa�s b�ltico, mas tamb�m tinha sido o homem da m�fia do sexo e fora pago em drogas ou em sexo. Lisbeth ficou fascinada ao ver que em paralelo � sua produ��o de jornais empresariais, Sandstr�m tamb�m tinha escrito diversos artigos num jornal di�rio condenando com indigna��o o com�rcio do sexo. Revelava entre outras coisas que um empres�rio sueco, cujo nome omitia, andara frequentando um bordel em Tallinn.</p><p>O nome de Zala n�o aparecia nem em [Sandstr�m] nem em [Irina P.], mas Lisbeth imaginou que se os dois arquivos estavam guardados numa pasta intitulada [ZALA] havia necessariamente uma rela��o. O terceiro e �ltimo documento da pasta [ZALA] tamb�m se chamava [ZALA]. Era sucinto, redigido em forma de lista.</p><p>De acordo com Dag Svensson, o nome Zala aparecera nove vezes, vinculado a entorpecentes, armas ou prostitui��o, desde meados dos anos 1990. Ningu�m parecia saber quem era Zala, mas diferentes fontes o mencionavam como iugoslavo, polon�s e, eventualmente, tcheco. Todas as informa��es eram de segunda m�o; nenhuma das pessoas com quem Dag Svensson conversara parecia ter alguma vez se encontrado com Zala.</p><p>Dag Svensson conversara extensamente sobre Zala com a <emphasis>fonte</emphasis> G. (Gulbrandsen?) e aventava a teoria de que Zala poderia ser o respons�vel pelo assassinato de Irina P. Se, por um lado, n�o se mencionava a opini�o da <emphasis>fonte</emphasis> G. sobre tal teoria, Lisbeth descobriu que, por outro, um ano antes Zala fora tema de discuss�o numa reuni�o do �grupo especial de investiga��o sobre o crime organizado�. O nome aparecera tantas vezes que a pol�cia come�ou a fazer perguntas e tentou formar uma opini�o sobre a realidade da exist�ncia de Zala.</p><p>Segundo o que Dag Svensson conseguira descobrir, o nome Zala surgira pela primeira vez por ocasi�o do assalto de um carro-forte em Orkelljunga, em 1996. Os assaltantes puseram as m�os em mais de tr�s milh�es e trezentas mil coroas, mas pisaram tanto na bola que em vinte e quatro horas a pol�cia identificou e prendeu a quadrilha. No dia seguinte mais uma pessoa foi presa: o criminoso profissional Benny Nieminen, membro do <strong>MC</strong> Svavelsj�, suspeito de ter fornecido as armas utilizadas no assalto, o que lhe valeu sua segunda condena��o de peso, com quatro anos de xadrez.</p><p>Uma semana depois do assalto ao carro-forte de 1996, mais tr�s pessoas foram detidas como c�mplices. A quadrilha compunha-se, portanto, de oito pessoas, das quais sete se negaram categoricamente a falar. A oitava, um garoto de apenas dezenove anos, Birger Nordman, n�o aguentou e entregou tudo nos interrogat�rios. O processo foi uma vit�ria f�cil para o procurador, o que poderia explicar (sugeria a fonte policial de Dag Svensson) por que, dois anos mais tarde, depois de desfrutar de uma autoriza��o para sair e se divertir, Birger Nordman foi achado enterrado num areai de V�rmland.</p><p>De acordo com a <emphasis>fonte G., a</emphasis> pol�cia suspeitava que Benny Nieminen era o homem-chave por tr�s da gangue. Suspeitava tamb�m que Nordman havia sido morto por ordem de Benny Nieminen, mas nada confirmava essas suposi��es. Nieminen era considerado extremamente perigoso e desprovido de escr�pulos. Na cadeia, estabelecera-se um v�nculo entre Nieminen e a Fraternidade Ariana, uma organiza��o nazista dentro das pris�es, ligada por sua vez � Fraternidade Wolfpack e a outras, tanto gangues criminosas no universo dos motoqueiros como diversas organiza��es nazistas idiotas e violentas no estilo Movimento de Resist�ncia Sueca etc.</p><p>O interesse de Lisbeth Salander, por�m, era por algo bem distinto. Durante os interrogat�rios, o assaltante Birger Nordman confessara que as armas usadas no assalto provinham de Nieminen, que por sua vez as obtivera de um iugoslavo que Nordman n�o conhecia, denominado �Sala�.</p><p>Dag Svensson conclu�a que se tratava de um sujeito muito discreto no mundo do crime. Como o nome Zala n�o correspondia a ningu�m no registro civil, Dag imaginava se tratar de um apelido, mas tamb�m podia ser um delinquente especialmente precavido agindo sob nome falso.</p><p>O �ltimo ponto da lista consistia num breve relat�rio das informa��es sobre Zala fornecidas por Sandstr�m, o jornalista cliente. Era muito pouco. Segundo Dag Svensson, Sandstr�m certa vez falara ao telefone com uma pessoa com esse nome. As anota��es n�o mencionavam o conte�do da conversa.</p><p>Por volta das quatro da manh�, ela desligou o Powerbook, sentou-se no recanto da janela e contemplou a ba�a de Saltsj�n. Permaneceu umas duas horas im�vel, fumando pensativamente um cigarro atr�s do outro. Ia ser obrigada a tomar algumas decis�es estrat�gicas e precisava fazer uma an�lise das conseq��ncias.</p><p>Come�ava a pensar que era chegada a hora de encontrar Zala e, de uma vez por todas, p�r fim aos probleminhas entre eles.</p><p>No s�bado � noite da semana anterior � P�scoa, Mikael Blomkvist foi visitar uma antiga namorada na Slipgatan, perto de Hornstull. Fato rar�ssimo, tinha aceitado seu convite para uma festa. Ela hoje estava casada e nem um pouco interessada num relacionamento mais profundo com Mikael, mas trabalhava na imprensa e eles trocavam um al� quando se cruzavam. Ela acabava de publicar um livro gestado por pelo menos dez anos, que abordava o curioso tema de como era vista a mulher no mundo da m�dia. Como contara um pouco com a colabora��o de Mikael, convidara-o para a festa.</p><p>A participa��o de Mikael limitara-se � pesquisa de uma quest�o bem simples. Ele pegara os planos de igualdade entre os sexos que a ag�ncia de not�cias TT, <emphasis>Dagens Nyheter, Rapport</emphasis> e alguns outros ve�culos afirmavam respeitar, e ent�o assinalara quem era homem e quem era mulher na dire��o dessas empresas nos cargos superiores a assistente de reda��o. O resultado foi lament�vel. Presidente: homem. Presidente do conselho administrativo: homem. Redator-chefe: homem. Respons�vel do dom�nio estrangeiro: homem. Diretor de reda��o: homem... e assim por diante, at� que aparecesse a primeira mulher, geralmente uma exce��o do tipo Christina Jutterstr�m ou Amelia Adamo.</p><p>A festa daquela noite era particular e os convidados, principalmente pessoas que de um modo ou de outro tinham trazido alguma contribui��o ao livro.</p><p>A reuni�o estava muito festiva, a comida, boa, e a conversa, descontra��da. Mikael pretendia ir embora cedo, mas a maioria dos convidados eram velhos conhecidos que raramente se encontravam. Sem contar que, s� para variar, ningu�m insistiu em falar no caso Wennerstr�m. A anima��o foi se estendendo e s� l� pelas duas da manh� de domingo � que o grosso do pessoal come�ou a ir embora. Desceram juntos at� a L�ngholmsgatan, onde se separaram.</p><p>Mikael viu o �nibus noturno passando antes de ele conseguir chegar ao ponto, mas a noite estava agrad�vel e ele resolveu voltar a p� em vez de esperar pelo �nibus seguinte. Seguiu pela H�galidsgatan at� a igreja e dobrou na Lundagatan, o que imediatamente lhe despertou antigas recorda��es.</p><p>Desde dezembro Mikael vinha mantendo sua promessa de parar de passar pela Lundagatan na esperan�a de topar com Lisbeth Salander. Nesta noite, parou na cal�ada defronte ao pr�dio dela. Sentiu vontade de atravessar a rua e tocar a campainha dela, mas ponderou que era muito improv�vel ela estar de volta e com vontade de falar com ele.</p><p>Por fim, deu de ombros e prosseguiu sua caminhada na dire��o de Zinkensdamm. Tinha percorrido uns cinquenta metros quando escutou um barulho. Virou a cabe�a e seu cora��o disparou. Dificilmente algu�m se confundiria ao ver aquele corpo raqu�tico. Lisbeth Salander acabava de sair do pr�dio e ia se afastando. Ela parou diante de um carro estacionado.</p><p>Mikael estava abrindo a boca para cham�-la quando de repente as palavras travaram em sua garganta: avistou um vulto surgindo de um dos carros estacionados rente � cal�ada. Era um homem, indo na dire��o de Lisbeth Salander. Mikael teve a impress�o de que ele era alto e tinha uma barriga proeminente. O cabelo estava preso num rabo de cavalo.</p><p>Lisbeth Salander escutou um barulho e percebeu um movimento com o rabo dos olhos no momento em que ia introduzir a chave na fechadura do Honda cor de vinho. Ele chegou meio de lado, por tr�s, e ela se virou um segundo antes que ele a atingisse. Identificou-o imediatamente: Carl-Magnus, vulgo �Magge� Lundin, trinta e seis anos, do MC Svavelsj�, que dias antes estivera com o gigante loiro no Caf� Blomberg.</p><p>Notou os cento e vinte quilos de Magge Lundin e suas m�s inten��es. Usou as chaves do carro como um soco-ingl�s e n�o hesitou um microssegundo sequer antes de retalhar-lhe profundamente o rosto, da base do nariz at� a orelha, com uma rapidez reptil�nea. O punho de Lundin deu um soco no ar, e ent�o Lisbeth Salander pareceu sumir dentro da terra.</p><p>Mikael Blomkvist viu quando Lisbeth Salander atacou seu agressor. Um d�cimo de segundo depois, ela jogou-se no ch�o e rolou entre as rodas do</p><p>Quase instantaneamente, Lisbeth se p�s de p� do outro lado do carro pronta para a luta ou para a fuga. Cruzou o olhar com o inimigo por sobre o cap� e no ato optou pela segunda possibilidade. Do rosto do homem escorria sangue. Antes de ele sequer ter tempo de v�-la direito, ela j� corria pela Lundagatan em dire��o � igreja de H�galid.</p><p>Mikael ficou petrificado e boquiaberto vendo o agressor acelerar de repente e se lan�ar rua afora ao encal�o de Lisbeth Salander. Parecia um tanque de assalto perseguindo um brinquedinho.</p><p>Lisbeth galgou, de quatro em quatro, os degraus da escadaria da Lundagatan. Ao chegar l� em cima, deu uma olhada por sobre o ombro e viu seu perseguidor colocando o p� no primeiro degrau. <emphasis>Puta merda, esse cara corre r�pido!</emphasis> Quase trope�ou, mas no �ltimo instante avistou as placas de sinaliza��o e os montes de areia de uma obra da prefeitura.</p><p>Magge Lundin j� estava quase chegando ao topo da escadaria quando Lisbeth Salander voltou a entrar em seu campo de vis�o. Teve tempo de perceber que ela estava atirando alguma coisa, mas n�o de reagir antes que o paralelep�pedo atingisse sua t�mpora. N�o foi um golpe preciso, mas a pedra era pesada e abriu um segundo corte em seu rosto. Sentiu que perdia o equil�brio e que o mundo oscilava quando caiu de costas na escadaria. Conseguiu interromper a queda segurando-se no corrim�o, mas perdera v�rios segundos.</p><p>A paralisia de Mikael cessou quando o homem desapareceu perto da escadaria. Berrou para que ele parasse imediatamente.</p><p>Lisbeth j� tinha atravessado metade do p�tio quando ouviu a voz de Mikael Blomkvist. <emphasis>Que merda � esta?</emphasis> Mudou de dire��o e olhou sobre a grade de seguran�a do terra�o. Tr�s metros abaixo, viu Mikael Blomkvist na rua, um pouco mais adiante. Hesitou um d�cimo de segundo antes de voltar a correr.</p><p>Enquanto sa�a correndo em dire��o � escadaria, Mikael viu um Dodge Van arrancando em frente ao pr�dio de Lisbeth Salander, bem ao lado do carro que ela tinha tentado abrir. O ve�culo passou por Mikael na dire��o de</p><p>Zinkensdamm, e ele chegou a vislumbrar um rosto. A placa estava ileg�vel sob a luz fraca da ilumina��o p�blica.</p><p>Indeciso, Mikael ficou olhando para a caminhonete enquanto corria ao encal�o do perseguidor de Lisbeth. Alcan�ou-o no alto da escadaria. O homem tinha parado de costas para Mikael, estava im�vel, olhando ao redor.</p><p>Quando Mikael estava quase alcan�ando-o, ele se virou e desfechou-lhe um violento tapa no rosto. Mikael foi pego totalmente de surpresa. Despencou de cabe�a por todos os degraus.</p><p>Lisbeth ouviu o grito abafado de Mikael e quase parou. O <emphasis>que est� acontecendo, porra?</emphasis> Ent�o olhou por cima do ombro e viu Magge Lundin, uns quarenta metros atr�s dela, dando um pique na sua dire��o. <emphasis>Ele � mais r�pido. Vai me alcan�ar.</emphasis></p><p>N�o teve d�vida, virou � esquerda e subiu a toda uns poucos degraus at� o terra�o entre os pr�dios. Desembocou num p�tio onde n�o havia o menor lugar para se esconder e percorreu a dist�ncia at� a esquina seguinte num tempo que teria arrancado um bocado de medalhas de Caroline Kl�ft nos jogos ol�mpicos. Virou � direita, percebeu que estava entrando num beco sem sa�da e deu uma guinada de cento e oitenta graus. Nenhum esconderijo � vista, e no exato momento em que chegava ao �ngulo do pr�dio seguinte avistou Magge Lundin no alto da escada que dava para o p�tio. Continuou fora do seu campo de vis�o por mais alguns metros e mergulhou atr�s de um p� de rododendro, num canteiro rente ao pr�dio.</p><p>Escutou, sem v�-lo, os passos pesados de Magge Lundin. Permaneceu totalmente im�vel atr�s do arbusto, espremida contra a parede do pr�dio.</p><p>Lundin passou em frente ao esconderijo e parou a menos de cinco metros. Demorou-se uns dez segundos e ent�o continuou correndo pelo p�tio. Um minuto depois, estava de volta. Deteve-se no mesmo lugar. Desta feita, ficou parado por uns trinta segundos. Lisbeth contraiu os m�sculos, pronta para fugir imediatamente caso fosse descoberta. Ent�o ele recome�ou a andar. Passou a menos de dois metros de onde ela estava. Ela escutou seus passos se afastarem do p�tio.</p><p>A nuca e o maxilar de Mikael do�am quando ele a muito custo conseguiu ficar de p�. Sentia gosto de sangue no l�bio rebentado. Experimentou dar alguns passos, e trope�ou.</p><p>Tornou a subir a escadaria e olhou em volta. Viu as costas do agressor a cem metros, l� embaixo na rua. O homem do rabo de cavalo parou para espiar entre os pr�dios, em seguida recome�ou a correr. Segundos depois, sumiu no fim da rua. Mikael foi at� o parapeito e procurou-o com os olhos. O homem estava atravessando a Lundagatan e entrando no Dodge Van que j� estava arrancando em frente ao pr�dio de Lisbeth. Logo depois o carro sumiu na esquina, para os lados de Zinkensdamm.</p><p>Mikael subiu devagar a Lundagatan � procura de Lisbeth Salander. N�o a viu em lugar nenhum. Ali�s, n�o viu uma alma sequer e ficou espantado de constatar como uma rua de Estocolmo podia estar t�o vazia �s tr�s da manh� de um domingo de mar�o. Instantes depois, voltou para a frente do pr�dio de Lisbeth, mais abaixo na Lundagatan. Ao passar pelo local onde ocorrera a agress�o, pisou em alguma coisa e descobriu que era o chaveiro de Lisbeth. Quando se abaixou para apanh�-lo, viu a bolsa dela debaixo do carro.</p><p>Mikael ficou um bom tempo esperando, em d�vida sobre que atitude tomar. Por fim, foi testar as chaves na porta do pr�dio. N�o eram as chaves certas.</p><p>Lisbeth Salander ficou escondida por quinze minutos atr�s do arbusto, s� se mexendo para olhar o rel�gio. Pouco depois das tr�s, escutou uma porta se abrindo e fechando, e passos se dirigindo ao biciclet�rio do p�tio.</p><p>Quando o ru�do cessou, ela se ajoelhou devagar e apontou a cabe�a para fora do arbusto. Examinou os m�nimos recantos do p�tio, mas n�o viu Magge Lundin em parte alguma. Voltou para a rua com passos leves, o tempo todo prestes a dar meia-volta e fugir. Parou no alto da escadaria, perscrutou a parte baixa da Lundagatan e, s�bito, avistou Mikael Blomkvist em frente ao seu pr�dio. Estava com a sua bolsa na m�o.</p><p>Ela permaneceu absolutamente im�vel, escondida por um poste de luz, quando o olhar de Mikael Blomkvist percorreu o parapeito do n�vel superior. Ele n�o a viu.</p><p>Mikael Blomkvist ficou na frente do seu pr�dio por quase meia hora. Ela o observou pacientemente sem se mexer, at� que ele resolveu ir embora, na dire��o de� Zinkensdamm. Depois que ele sumiu, ela ainda esperou algum tempo antes de come�ar a refletir sobre os acontecimentos. Era dif�cil entender como ele tinha entrado em cena daquele jeito, surgindo do nada. Quanto � agress�o em si, n�o dava margem a muita interpreta��o. <emphasis>O canalha do Carl-Magnus Lundin.</emphasis> Magge Lundin havia estado com o gigante loiro que ela avistara em companhia do Dr. Nils Bjurman.</p><p><emphasis>O maldito canalha do Nils Bjurman.</emphasis></p><p><emphasis>Esse escroto nojento pagou um maldito macho de merda para acabar comigo. E olhe que eu expliquei direitinho para ele que consequ�ncia isso poderia ter.</emphasis></p><empty-line/><p>S�bito, Lisbeth Salander come�ou a ferver por dentro. Estava t�o furiosa que chegou a sentir um gosto de sangue na boca. Desta vez, seria obrigada a puni-lo.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>III � EQUA��ES IMPOSS�VEIS 23 DE MAR�O A 2 DE ABRIL</strong></p><empty-line/><p>As <emphasis>equa��es absurdas, para as quais nenhuma solu��o � adequada, s�o qualificadas de imposs�veis.</emphasis></p><p><emphasis>(a + b)(a -b) = a</emphasis>2 <emphasis>- b</emphasis>2 <emphasis>+ 1</emphasis></p><empty-line/></section><section><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>11 - QUARTA-FEIRA 23 DE MAR�O � QUINTA - FEIRA 24 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist pousou a ponta da caneta vermelha na margem do manuscrito de Dag Svensson e escreveu um ponto de exclama��o seguido de �nrp�. O que significava que ele queria uma nota de rodap� referindo a fonte do que estava sendo afirmado.</p><p>Era quarta-feira, v�spera da Quinta-feira Santa, e a <emphasis>Millennium</emphasis> fizera mais ou menos feriado a semana toda. Monika Nilsson estava no exterior. Lottie Karim tinha ido para as montanhas com o marido. Henry Cortez viera atender o PABX por algumas horas, mas Mikael o tinha liberado, pois n�o havia ningu�m telefonando e, de todo modo, ele pr�prio ia ficar na reda��o. Com um sorriso pasmo, Henry se escafedeu para ir se encontrar com a namorada da vez.</p><p>Dag Svensson n�o tinha aparecido. Mikael estava sozinho, revisando seu manuscrito. Tinha acabado por definir que o livro teria duzentas e noventa p�ginas divididas em doze cap�tulos. Dag Svensson entregara a vers�o final de nove cap�tulos, Mikael Blomkvist esmiu�ara cada palavra e devolvera o texto para que ele esclarecesse ou reformulasse alguns pontos de acordo com suas indica��es.</p><p>Mikael, no entanto, considerava Dag Svensson um �timo escritor, e sua contribui��o se limitava a algumas observa��es marginais. Tinha dificuldade inclusive, em achar onde aplicar seu rigor. No decorrer das semanas em que o calhama�o do manuscrito fora se avultando sobre a mesa de Mikael, s� tinham discordado num trecho de mais ou menos uma p�gina, que Mikael queria eliminar e Dag defendera com diversos argumentos. Mikael vencera Mas eram ninharias.</p><p>Em suma, o livro que a <emphasis>Millennium</emphasis> tinha no prelo era s�lido e Mikael estava convencido de que ia dar no que falar. Dag Svensson era t�o impiedoso em sua den�ncia dos clientes sexuais, e amarrava t�o bem a hist�ria, que ningu�m mais poderia ignorar as defici�ncias do sistema. A reda��o era perfeita e os dados apresentados por Dag Svensson seguiam um m�todo tradicional, sem d�vida, por�m mais que eficaz.</p><p>Nesses �ltimos meses, Mikael descobrira tr�s coisas acerca de Dag. Era um jornalista meticuloso que amarrava cuidadosamente todos os fios. N�o empregava a ret�rica que costuma carregar tantas reportagens sobre a sociedade, deixando-as incompreens�veis. O livro era mais que uma reportagem; era uma declara��o de guerra. Mikael sorriu tranq�ilo. Dag Svensson era quase quinze anos mais mo�o que ele, mas Mikael reconhecia facilmente sua pr�pria paix�o quando, um dia, sa�ra em cruzada contra os jornalistas econ�micos med�ocres e escrevera um livro escandaloso que algumas reda��es ainda n�o tinham lhe perdoado.</p><p>O problema era que o livro de Dag Svensson tinha que aguentar firme at� o fim. Um jornalista que aceita um desafio deste porte precisa estar cem por cento seguro do terreno em que est� pisando, sen�o mais vale desistir de publicar. Dag Svensson estava noventa e oito por cento seguro. Ainda faltava esmiu�ar alguns pontos fracos e afirma��es que, no entender de Mikael, ele n�o documentara a contento.</p><p>Por volta das cinco e meia, abriu a gaveta da mesa e pegou um cigarro. Erika Berger decretara proibi��o absoluta de se fumar nas salas, mas ele estava sozinho e ningu�m iria aparecer durante o feriad�o. Trabalhou por mais quarenta e cinco minutos antes de juntar as folhas e deixar o cap�tulo na mesa de Erika para ela ler. Dag Svensson se comprometera a enviar por e-mail a vers�o final dos tr�s cap�tulos restantes na manh� seguinte, o que daria a Mikael a possibilidade de rel�-los no feriado. Estava marcada uma reuni�o para a ter�a-feira depois da P�scoa, na qual Dag, Erika, Mikael e Malu iriam dar sinal verde para a vers�o final do livro, e tamb�m para os artigos da Millennium.</p><p>S� faltava a diagrama��o, que cabia a Christer Malm, e depois mandar para a gr�fica. Mikael nem sequer fizera uma licita��o - resolvera confiar mais uma vez na Hallvigs Reklam de Morgong�va, que imprimira o livro sobre o caso Wennerstr�m e oferecia um pre�o e um servi�o incompar�veis no mercado.</p><p>Mikael olhou as horas e presenteou-se com mais um cigarro clandestino. Sentou-se � janela e contemplou a G�tgatan l� embaixo. Com a ponta da l�ngua, tocou de leve no corte na parte interna do l�bio. Estava cicatrizando. Pela mil�sima vez, perguntou-se o que realmente tinha se passado na frente do pr�dio de Lisbeth Salander na Lundagatan.</p><p>Suas �nicas certezas eram que Lisbeth Salander estava obviamente viva e de volta � cidade.</p><p>Durante a semana, tentara entrar em contato com ela todos os dias. Tinha mandado e-mails para o endere�o que ela usava mais de um ano antes, sem obter resposta. Passara diariamente pela Lundagatan. Estava come�ando a perder as esperan�as.</p><p>A placa de identifica��o tinha mudado para Salander-Wu. Havia duzentos e trinta Wu no registro civil, dos quais pouco mais de cento e quarenta habitavam a �rea de Estocolmo. Mas nenhum residia na Lundagatan. Mikael p�o tinha a menor id�ia de quem poderia estar morando com Lisbeth, se ela estava com um namorado ou sublocando o apartamento. Ningu�m tinha atendido quando ele tocara a campainha.</p><p>Por fim, resolvera escrever uma boa e velha carta � moda antiga.</p><p><emphasis>Ol� Sally,</emphasis></p><p><emphasis>N�o sei o que aconteceu um ano atr�s, mas a esta altura at� o pateta que eu sou j� entendeu que voc� cortou qualquer rela��o comigo. � um direito e um privil�gio seu escolher com quem voc� quer conviver e n�o tenho inten��o de insistir. Constato simplesmente que ainda a considero minha amiga, sinto falta da sua companhia e seria um prazer tomar um caf� com voc�, se a id�ia lhe atrai.</emphasis></p><p><emphasis>N�o sei no que voc� anda metida, mas a briga na Lundagatan me preocupa. Se precisar de ajuda, pode me ligar a qualquer hora. Como sabe, tenho uma d�vida imensa com voc�.</emphasis></p><p><emphasis>Al�m disso, estou com a sua bolsa. Se quiser peg�-la, basta dar um sinal de vida. Se n�o quiser se encontrar comigo, � s� deixar um endere�o para onde eu possa mand�-la. Voc� j� demonstrou claramente que n�o quer nenhum contato comigo, portanto n�o vou tentar te ver.</emphasis></p><p><emphasis>MIKAEL</emphasis></p><p>� claro que n�o obtivera resposta.</p><p>Ao voltar para casa naquela manh�, depois da agress�o na Lundagatan, ele abrira a bolsa de Lisbeth e enfileirara o conte�do sobre a mesa da cozinha. Havia uma carteira com um cart�o de conta dos Correios, cerca de seiscentas coroas suecas e duzentos d�lares americanos, assim como um cart�o mensal de transportes coletivos em Estocolmo. Um ma�o de Marlboro light aberto, tr�s isqueiros descart�veis, uma caixa de pastilhas para a garganta, um pacote de len�os de papel, uma escova, uma pasta de dentes e tr�s tamp�es num bolso � parte, um pacote intacto de preservativos cuja etiqueta revelava que haviam sido comprados no Gatwick Airport de Londres, um caderninho capa dura formato A5, cinco canetas esferogr�ficas, uma bomba lacrimog�nea, um estojinho com batom e maquiagem, um r�dio FM com fones de ouvido, mas sem pilhas e o <emphasis>Aftonbladet</emphasis> da v�spera.</p><p>O objeto mais fascinante da bolsa era um martelo facilmente acess�vel num bolso externo. O ataque, por�m, fora t�o brutal que Lisbeth n�o tivera tempo de pegar nem o martelo nem a bomba lacrimog�nea. Aparentemente, usara as chaves como soco-ingl�s � ainda apresentavam vest�gios de sangue e pele.</p><p>O chaveiro continha seis chaves. Tr�s eram chaves t�picas de apartamento - uma da porta da rua, uma comum da porta do apartamento e uma para a fechadura de seguran�a. Nenhuma delas, por�m, abria a porta da Lundagatan.</p><p>Mikael tinha aberto e folheado p�gina por p�gina do caderninho. Reconheceu a letra mi�da e caprichada de Lisbeth e logo constatou rapidamente que n�o se tratava exatamente do di�rio �ntimo e secreto de uma mo�a. Cerca de tr�s quartos estavam cobertos do que pareciam ser rabiscos matem�ticos. No alto da primeira p�gina estava uma equa��o que ele reconhecia mesmo n�o sendo a matem�tica nem um pouco a sua praia.</p><p>(x3 + y3 = z3)</p><p>Mikael Blomkvist nunca tivera dificuldade com n�meros. Passara no vestibular com as melhores notas em matem�tica, o que n�o queria dizer que tivesse jeito para a coisa, e sim que simplesmente soubera aproveitar o ensino do col�gio. As p�ginas do caderninho de Lisbeth Salander continham uma rabiscalhada que ele n�o entendia e n�o tinha a menor inten��o de tentar entender. Uma equa��o se estendia por duas p�ginas inteiras e acabava com rasuras e altera��es. Era dif�cil para ele definir se eram f�rmulas matem�ticas s�rias com solu��es acertadas, mas, conhecendo os talentos de Lisbeth Salander, imaginou que os c�lculos deviam estar corretos e conter algum significado herm�tico.</p><p>Ficou um bom tempo folheando o caderninho. As equa��es eram mais ou menos t�o compreens�veis para ele como se tivesse nas m�os um caderno de signos chineses. Mas entendeu o que ela estava tentando fazer, x3 + y3 = z3. Ficara fascinada pelo enigma de Fermat, um cl�ssico de que ele tinha ouvido falar. Suspirou profundamente.</p><p>A �ltima folha do caderninho trazia uma anota��o sucinta e misteriosa que n�o tinha absolutamente nada a ver com matem�tica mas mesmo assim lembrava algum tipo de f�rmula.</p><p>(Loiro + Magge) = NEB</p><p>Estava sublinhada e enquadrada, e n�o explicava estritamente nada. Bem embaixo da p�gina estava o n�mero de telefone de uma autolocadora, a Auto-Expert de Eskilstuna.</p><p>Mikael n�o procurou interpretar essas anota��es. Concluiu que eram rabiscos que ela fizera enquanto refletia sobre alguma coisa.</p><p>Por fim, apagou o cigarro, vestiu o casaco, ligou o alarme da reda��o e foi caminhando at� o terminal de Slussen, onde pegou o �nibus para L�nnersta, o bairro <emphasis>yupp�e</emphasis> da moda. Tinha sido convidado para jantar com sua irm� Annika Blomkvist, cujo sobrenome de casada era Giannini, para festejar seus quarenta e dois anos.</p><p>Erika Berger come�ou o feriad�o de P�scoa com uma corrida, tr�s quil�metros de preocupa��es e raiva que terminaram no pont�o da balsa em</p><p>Saltsj�baden. Ela relaxara sua freq��ncia � academia nos �ltimos meses e se sentia enrijecida e fora de forma. Voltou para casa caminhando normalmente. Seu marido estava dando uma palestra numa exposi��o do Museu de Arte Moderna e n�o voltaria antes das oito. Erika planejava abrir uma boa garrafa de vinho, ligar a sauna e seduzir seu marido. Isso a distrairia do problema que vinha remoendo.</p><p>Quatro dias antes, tinha sido convidada para almo�ar pelo diretor de um dos grupos de m�dia mais importantes da Su�cia. Entre duas garfadas de salada e com muita seriedade na voz, ele lhe comunicara a inten��o de contrat�-la como redatora-chefe do <emphasis>Svenska Morgon-Posten,</emphasis> o maior jornal di�rio do grupo, o Grande Drag�o como era chamado no meio jornal�stico. A <emphasis>diretoria considerou v�rios nomes e todos n�s pensamos que voc� seria um trunfo sensacional para o jornal. Queremos voc�.</emphasis> A proposta de trabalho vinha acompanhada de um sal�rio que fazia soar como brincadeira o que ela ganhava na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>A oferta ca�ra feito um raio e a deixara estupefata. <emphasis>Por que justo eu?</emphasis></p><p>De in�cio, ele fora vago, mas acabara confessando que ela era famosa, respeitada e considerada por todos uma executiva competente. Era impressionante o modo como arrancara a <emphasis>Millennium</emphasis> do lama�al em que a revista atolara dois anos antes. Em seguida, confessou que o Grande Drag�o precisava de sangue novo. O jornal tinha um ar antiquado, que vinha reduzindo constantemente o n�mero de assinantes da nova gera��o. Erika era conhecida por ser uma jornalista ousada. Era atraente. Colocar uma mulher, feminista ainda por cima, � frente da institui��o mais conservadora da Su�cia dos Machos era um desafio, era ousado. Estavam todos de acordo. Quase todos, digamos. Quem de fato contava estava de acordo.</p><p>�Mas eu n�o partilho a vis�o pol�tica de base do jornal.</p><p>�N�o faz mal. Voc� tamb�m n�o chega a ser uma advers�ria declarada. Voc� seria a chefe - n�o um supervisor pol�tico - e, quanto � quest�o editorial, d�-se um jeito.</p><p>Ele n�o disse, mas era tamb�m uma quest�o de classe social. Erika tinha um passado adequado, e vinha do meio social adequado.</p><p>Ela respondeu que estava inclinada a considerar a proposta, mas n�o podia responder de imediato. Primeiro precisava refletir, e eles combinaram que ela lhe comunicaria sua decis�o nos pr�ximos dias. O diretor explicou que se o motivo de sua hesita��o era o sal�rio, era prov�vel que ela pudesse negociar aqueles valores para cima. Talvez lhe propusessem, al�m disso, um pacote de demiss�o particularmente atrativo. <emphasis>Est� na hora de voc� come�ar a pensar na aposentadoria, colega.</emphasis></p><p>Ela estava chegando aos quarenta e cinco anos. No in�cio, comera o p�o que o diabo amassou. Conseguira criar a <emphasis>Millennium</emphasis> e se tornara diretora da publica��o por seus pr�prios m�ritos. Aproximava-se inexoravelmente a hora em que seria obrigada a pegar o telefone para dizer sim ou n�o, e ela n�o sabia o que responder. Durante a semana, tivera v�rias vezes a inten��o de conversar com Mikael a respeito, o que acabara n�o acontecendo. Sabia que, pelo contr�rio, tinha lhe ocultado a hist�ria, o que a deixava com uma pontinha de sentimento de culpa.</p><p>As desvantagens eram �bvias. Um sim significaria romper sua parceria com Mikael. Ele jamais iria com ela para o Grande Drag�o, mesmo que ela lhe fizesse uma proposta com cobertura de chocolate. Ele n�o precisava do dinheiro e estava muito-bem-obrigado, cuidando de seus pr�prios textos no seu pr�prio ritmo.</p><p>Ela se sentia bem no seu papel de chefe da <emphasis>Millennium.</emphasis> Ele lhe propiciara, no meio jornal�stico, uma posi��o que ela julgava quase imerecida. N�o era ela quem produzia as informa��es. N�o era a sua praia - n�o achava que tinha um especial talento para a escrita. Em contrapartida, era uma boa jornalista de r�dio e televis�o e, principalmente, uma diretora brilhante. Gostava do trabalho de improvisa��o que seu papel de diretora da <emphasis>Millennium</emphasis> lhe impunha.</p><p>Mas Erika Berger sentia-se tentada. Nem tanto pelo sal�rio como pelo fato de que aquele emprego a transformaria definitivamente numa das personagens mais influentes do mundo da m�dia. <emphasis>N�o vai haver uma segunda oferta,</emphasis> dissera o diretor.</p><p>Quando passou em frente ao hotel de Saltsj�baden percebeu, para seu grande desespero, que n�o conseguiria dizer n�o. E tremia s� de pensar em� comunicar a not�cia a Mikael Blomkvist.</p><p>Como sempre, o jantar com a fam�lia Giannini transcorreu numa doce atmosfera de caos. Annika tinha dois filhos - Monica, de treze anos, e Jennie, de dez. Seu marido, Enrico Giannini, que dirigia na Escandin�via urna empresa de biotecnologia internacional, tinha a guarda de Antonio, dezesseis anos, filho de um primeiro casamento. Os demais convidados eram Antonia, m�e de Enrico; Pietro, irm�o de Enrico; sua mulher, Eva-Lotta; e seus dois filhos, Peter e Nicola. E ainda a irm� de Enrico, Marcella, que morava no mesmo bairro com seus quatro filhos. Tamb�m fora convidada tia Angelina, considerada pela fam�lia extremamente esquisita ou, em todo caso, extremamente exc�ntrica, que vinha acompanhada de seu novo namorado.</p><p>O fator caos estava, portanto, relativamente elevado em volta da mesa de jantar de generosas dimens�es. A conversa ou, �s vezes, v�rias conversas simult�neas, transcorria numa mescla dissonante de sueco e italiano, e a situa��o de Mikael n�o ficava melhor com Angelina perguntando a noite inteira por que ele ainda estava solteiro e sugerindo candidatas adequadas entre suas amigas. Mikael acabou declarando que at� se casaria de bom grado n�o fosse a sua amante infelizmente j� ser casada. Com isso, calou a boca de Angelina por algum tempo.</p><p>�s sete e meia, o celular de Mikael tocou. Ele pensou que o tivesse desligado e por pouco n�o perdeu a chamada tentando tir�-lo �s pressas do bolso interno do casaco, que algu�m pusera no cabide para chap�us no hall de entrada. Era Dag Svensson.</p><p>�Estou atrapalhando?</p><p>�N�o muito. Estou jantando na casa da minha irm�, com um forte contingente da fam�lia do marido dela. O que foi?</p><p>�Duas coisas. Estou tentando falar com o Christer Malm, mas ele n�o atende o telefone.</p><p>�Ele e o namorado iam ao teatro hoje � noite.</p><p>�Droga. Combinei de me encontrar com ele na reda��o amanh� de manh� e levar as fotos e ilustra��es que queremos p�r no livro. Christer ficou de dar uma olhada durante o feriado. Mas a Mia acaba de decretar que quer ir para Dal�carlie na P�scoa, visitar os pais e mostrar a tese para eles. De modo que estamos viajando amanh� de manh�.</p><p>�Certo.</p><p>�N�o posso mandar por e-mail, � um material impresso. Eu poderia mandar algu�m levar para voc� hoje � noite?</p><p>�Bem, sim... mas, olha s�, estou no L�nnersta. Vou ficar mais um tempo por aqui e depois vou para casa. N�o vai ser uma volta muito grande assar por Enskede. Posso pegar as fotos na sua casa. Tudo bem se eu chegar por volta das onze?</p><p>Para Dag Svensson estava �timo.</p><p>�Outra coisa... e acho que voc� n�o vai gostar.</p><p>�Fale.</p><p>�Estou com um problema no texto.</p><p>� Sei.</p><p>�Topei aqui com uma coisa que eu queria conferir antes de o livro ir para a gr�fica.</p><p>�O que �?</p><p>�Zala, com Z.</p><p>�Zala, o que � isso?</p><p>�Zala � um g�ngster, provavelmente de algum pa�s do Leste, Pol�nia quem sabe. Eu te falei nele num e-mail, uma ou duas semanas atr�s.</p><p>�Desculpe, eu tinha esquecido.</p><p>�Ele est� sempre aparecendo aqui e ali nas minhas hist�rias. As pessoas parecem ter medo, ningu�m quer falar nele.</p><p>�Ah, �?</p><p>�Faz alguns dias, topei com o nome dele de novo. Acho que ele est� na Su�cia e que deveria fazer parte da lista dos clientes sexuais do cap�tulo sete.</p><p>�Dag, voc� n�o vai alterar tudo faltando tr�s semanas para o livro ser impresso.</p><p>�Eu sei. Mas ele � uma esp�cie de curinga que reaparece constantemente no jogo. Conversei com um tira que tamb�m tinha ouvido falar em Zala e... acho que vale a pena dedicar uns dias da semana que vem para verificar isso.</p><p>�Por qu�? Voc� j� est� com <emphasis>escrotos</emphasis> suficientes nesse texto.</p><p>�Esse me parece ser um escroto bem especial. Ningu�m sabe de fato quem ele �. Tem um passarinho me contando que pode ser interessante fu�ar mais um pouco.</p><p>�Nunca se deve subestimar os passarinhos - disse Mikael. �Mas sinceramente... n�o d� para adiar o <emphasis>deadline</emphasis> a esta altura do campeonato. A ata est� reservada na gr�fica e o livro tem que sair junto com a <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�Eu sei - respondeu Dag Svensson com um tom de voz abatido.</p><p>Mia Bergman acabava de fazer caf� e colocado na garrafa t�rmica quando tocaram a campainha. Eram quase nove da noite. Dag Svensson estava mais perto da porta e, achando que era Mikael Blomkvist chegando mais cedo que o previsto, abriu imprudentemente a porta sem olhar pelo olho m�gico. Em vez de Mikael, viu-se diante de uma mo�a que lhe era uma total estranha, uma mo�a miudinha que parecia uma boneca e que ele confundiu com uma adolescente.</p><p>�Eu queria falar com Dag Svensson e Mia Bergman - disse a mo�a.</p><p>�Eu sou Dag Svensson.</p><p>�Queria falar com o senhor.</p><p>Dag consultou o rel�gio maquinalmente. Mia Bergman apareceu no hall de entrada e mostrou um rosto curioso atr�s de seu companheiro.</p><p>�Acho que est� meio tarde para uma visita - disse Dag. A mo�a olhou para ele, calada e cheia de paci�ncia.</p><p>�Qual seria o assunto? - ele perguntou.</p><p>�Queria falar sobre o livro que voc� pretende publicar na <emphasis>Millennium.</emphasis> Dag e Mia trocaram um olhar.</p><p>�E voc�, quem �?</p><p>�O assunto me interessa. Posso entrar ou vamos ficar de papo aqui na porta?</p><p>Dag Svensson hesitou um momento. A mo�a era sem d�vida uma total desconhecida e o hor�rio da visita n�o era dos mais habituais, mas parecia suficientemente inofensiva para que ele abrisse a porta toda. Conduziu-a at� a mesa de jantar da sala.</p><p>�Aceita um caf�? - perguntou Mia. Dag olhou irritado para a companheira.</p><p>�Quem sabe voc� responde a minha pergunta: quem � voc�?</p><p>�Aceito, obrigada. Quero dizer, o caf�. Meu nome � Lisbeth Salander. Mia deu de ombros e abriu a garrafa t�rmica. J� tinha trazido as x�caras prevendo a visita de Mikael Blomkvist.</p><p>�E o que a leva a crer que pretendo publicar um livro pela <emphasis>Millen</emphasis>nium? - perguntou Dag Svensson.</p><p>S�bito, foi tomado por uma forte desconfian�a, mas a mo�a o ignorou e, em vez disso, encarou Mia Bergman. Fez uma careta que podia ser interpretada como um sorriso de esguelha.</p><p>� uma tese interessante - disse ela. Mia Bergman ficou estupefata.</p><p>�O que voc� sabe sobre a minha tese?</p><p>�Topei com uma c�pia dela -respondeu a mo�a, misteriosa. A irrita��o de Dag Svensson duplicou.</p><p>�Agora, acho que est� na hora de voc� me dizer o que quer - falou com voz rude.</p><p>O olhar da mo�a cruzou com o seu. Ele observou, de repente, que sua pupila era t�o escura que, na luz, seus olhos pareciam carv�o. Compreendeu que se enganara quanto � sua idade - ela era mais velha do que ele julgara de in�cio.</p><p>�Quero saber por que voc� anda fazendo perguntas sobre Zala, Alexander Zala, por toda parte - disse Lisbeth Salander. �E antes de mais nada, quero saber exatamente o que voc� sabe sobre ele.</p><p><emphasis>Alexander Zala</emphasis> - pensou Dag Svensson, subitamente chocado. �Nunca tinha escutado o primeiro nome antes.</p><p>Dag Svensson examinou a mo�a � sua frente. Ela ergueu a x�cara e tomou um gole de caf� sem desviar o olhar do dele. Seus olhos eram desprovidos de calor. De repente ele se sentiu vagamente incomodado.</p><p>Ao contr�rio de Mikael e outros adultos do grupo, e embora fosse o seu anivers�rio, Annika Giannini tomara apenas uma cerveja. Abstivera-se de beber vinho ou <emphasis>aquavit*</emphasis> no jantar. De modo que, por volta das dez e meia, estava absolutamente s�bria e, como em determinadas circunst�ncias considerava seu irm�o mais velho um perfeito imbecil que precisava de cuidados, ofereceu-se generosamente para lev�-lo em casa de carro, via Enskede. De qualquer modo, j� tinha planejado lev�-lo at� o ponto de �nibus de V�rmd�v�gen, e esticar at� o centro n�o tomaria muito mais tempo.</p><p>�Por que n�o compra um carro? - queixou-se assim mesmo, enquanto Mikael punha o cinto de seguran�a.</p><p>�Porque, ao contr�rio de voc�, moro suficientemente perto do meu trabalho para ir a p�, e s� preciso de carro mais ou menos uma vez por ano.</p><p>Al�m do mais, eu n�o poderia dirigir, j� que o seu marido me fez tomar n�o sei quantos copos de aquavit.</p><p>�Ele est� virando sueco. Dez anos atr�s, teria te empurrado alguma bebida italiana.</p><p>Aproveitaram o trajeto de carro para ter uma conversa de irm�os. Tirando uma tia muito resistente do lado paterno, duas tias um pouco menos resistentes do materno e alguns primos-irm�os ou primos distantes, Mikael e Annika eram os �nicos remanescentes da fam�lia. Seus tr�s anos de diferen�a de idade os mantiveram um pouco afastados na adolesc�ncia, mas, uma vez adultos, se redescobriram at� melhor.</p><p>Annika se formara em direito e Mikael a considerava a mais brilhante dos dois. Fizera o curso de vento em popa, passara alguns anos trabalhando num tribunal rural e depois como assistente de um dos mais famosos advogados suecos, at� que pediu demiss�o e abriu seu pr�prio escrit�rio. Annika se especializara em direito de fam�lia, o que aos poucos se transformara num projeto igualit�rio. Engajara-se como advogada de mulheres maltratadas, escrevera um livro sobre o assunto e se tornara um nome respeitado entre as feministas. Para completar, alinhara-se politicamente com os socialdemocratas, o que dava a Mikael motivo para ca�oar dela e cham�-la de oportunista. Mikael, por seu lado, desde muito jovem decidira que n�o poderia aderir a nenhum partido pol�tico se quisesse manter sua credibilidade como jornalista. At� evitava votar e, nas vezes em que o fizera, sempre se negara a revelar em quem, inclusive para Erika Berger.</p><p>�Como � que voc� est�? - perguntou Annika enquanto eles passavam pela ponte de Skurubron.</p><p>�Estou bem.</p><p>�Ent�o qual � o problema?</p><p>�Problema?</p><p>�Eu te conhe�o, Micke. Voc� passou todo o jantar com aquele seu ar pensativo.</p><p>Mikael ficou um instante calado.</p><p>�� uma hist�ria complicada. Estou com dois problemas. Um tem a ver com uma garota que eu conheci h� uns dois anos e que me ajudou no caso Wennerstr�m. A� ela sumiu da minha vida sem uma palavra de explica��o. N�o tive nenhuma not�cia dela por mais de um ano, at� a semana passada.</p><p>Mikael contou a agress�o na Lundagatan.</p><p>�Voc� deu queixa? - Annika logo perguntou.</p><p>�N�o.</p><p>�Por que n�o?</p><p>�Essa garota � muito ciosa da sua vida pessoal. Ela � que foi agredida. Cabe a ela dar queixa.</p><p>Mikael desconfiava que essa n�o devia ser a prioridade de Lisbeth Salander.</p><p>�Teimoso - disse Annika dando um tapinha no rosto de Mikael. �Sempre querendo cuidar de tudo. E o segundo problema?</p><p>�Estamos para publicar na <emphasis>Millennium</emphasis> uma mat�ria que vai fazer barulho. Passei a noite me perguntando se eu n�o deveria te consultar. Quero dizer, como advogada.</p><p>Annika olhou, surpresa, para o irm�o.</p><p>�Me consultar! - exclamou. �Essa � nova.</p><p>�A mat�ria em quest�o tem a ver com tr�fico de mulheres e viol�ncia contra a mulher. Voc� trabalha com viol�ncia contra a mulher e � advogada. Eu sei que voc� n�o lida com liberdade de imprensa, mas gostaria muito que lesse o texto que vamos publicar. S�o artigos para a revista e tamb�m um livro, � um bocado de coisa para ler.</p><p>Annika n�o disse nada enquanto virava na altura da zona industrial de Hammarby e passava pela eclusa de Sickla. Pegou umas ruazinhas estreitas, paralelas � Nyn�sv�gen, at� subir a Enskedev�gen.</p><p>�Sabe, Mikael, eu s� fiquei realmente chateada com voc� uma vez na vida.</p><p>�Ah, �? - fez Mikael, surpreso.</p><p>�Quando voc� foi condenado no caso Wennerstr�m e pegou aqueles tr�s meses de pris�o por difama��o. Quase explodi de raiva com voc�.</p><p>�Por qu�? Eu me enganei, s� isso.</p><p>�Voc� j� se enganou um monte de vezes na vida. Mas daquela vez precisava de um bom advogado e o �nico que voc� n�o procurou fui eu. Em vez disso, deixou que te arrastassem na lama, tanto na m�dia como no julgamento. Voc� nem sequer se defendeu. Aquilo me deixou louca.</p><p>�Era uma situa��o especial. Voc� n�o podia fazer nada.</p><p>�N�o, mas isso eu s� entendi um ano depois, quando a <emphasis>Millennium</emphasis> voltou � cena e voc�s reduziram o Wennerstr�m � condi��o de pano de ch�o. At� a�, fiquei muito decepcionada com voc�.</p><p>�Voc� n�o podia ter feito nada para ganhar o processo.</p><p>�Tem uma coisa que voc� n�o sacou, mano. Tamb�m sei que era um caso perdido. Eu li o veredicto. Mas o que me deixou louca � voc� n�o ter me pedido ajuda. Tipo: Oi, mana, estou precisando de um advogado. Por isso � que voc� n�o me viu no tribunal.</p><p>Mikael refletiu.</p><p>�Sinto muito. �, eu deveria ter feito isso.</p><p>�� claro que deveria.</p><p>�Eu estava exausto naquele ano. N�o conseguia falar com ningu�m. Eu s� queria morrer.</p><p>�N�o foi bem isso que voc� fez.</p><p>�Me desculpe.</p><p>Annika Giannini sorriu de repente.</p><p>�Sensacional. Um pedido de desculpas dois anos depois. Tudo bem. Vou ler seu texto. � urgente?</p><p>��. Vai ser impresso em breve. Ali voc� dobra � esquerda.</p><p>Annika Giannini estacionou do lado oposto do pr�dio da Bj�rneborgsv�gen, onde Dag Svensson e Mia Bergman moravam.</p><p>�� s� um minuto - disse Mikael.</p><p>Atravessou a rua a passos r�pidos e digitou o c�digo da porta.</p><p>Assim que entrou, percebeu que alguma coisa n�o estava bem. Escutou vozes agitadas ecoando na escada e subiu a p� os tr�s andares at� o apartamento de Dag Svensson e Mia Bergman. S� quando chegou ao patamar � que entendeu que a agita��o vinha do apartamento deles. Cinco vizinhos discutiam no corredor. A porta de Dag e Mia estava entreaberta.</p><p>�O que foi? - perguntou Mikael, mais por curiosidade que por preocupa��o.</p><p>As vozes se calaram. Cinco pares de olhos se voltaram para ele. Tr�s mulheres e dois homens, todos com idade de aposentados. Uma das mulheres estava de camisola.</p><p>�Pareciam tiros. �O homem que lhe respondeu tinha uns setenta anos e estava de roup�o marrom.</p><p>�Tiros? - repetiu Mikael com uma express�o est�pida.</p><p>�Agora h� pouco. Deram um tiro neste apartamento faz um minuto. A porta estava aberta.</p><p>Mikael se adiantou e tocou na campainha enquanto entrava no apartamento.</p><p>�Dag? Mia? - chamou. N�o obteve resposta.</p><p>De repente, sentiu um frio percorrer-lhe a nuca. Notou um cheiro de enxofre. Ent�o se aproximou da porta da sala. A primeira coisa que viu, <emphasis>meu-Deusporramerda foi</emphasis> Dag Svensson de bru�os numa enorme po�a de sangue de um metro de largura, em frente � mesa onde ele e Erika haviam jantado meses antes.</p><p>Mikael correu para Dag enquanto pegava o celular e discava o 112 do SOS-Brigada. Atenderam imediatamente.</p><p>�Meu nome � Mikael Blomkvist. Preciso de uma ambul�ncia e da pol�cia.</p><p>Deu o endere�o.</p><p>�O que houve?</p><p>�Um homem. Parece ter levado um tiro na cabe�a, est� desacordado. Mikael se inclinou e procurou o pulso carot�deo. Ent�o viu a imensa cratera na parte posterior da cabe�a de Dag e se deu conta de que estava pisando no que devia ser a maior parte do c�rebro de Dag Svensson. Lentamente, tirou a m�o.</p><p>Nenhuma ambul�ncia no mundo poderia salvar Dag Svensson.</p><p>De repente, e sem nenhuma coer�ncia racional, reparou nos estilha�os de uma das x�caras de caf� que Mia Bergman tinha herdado da av� e que eram t�o importantes para ela. Levantou-se rapidamente e olhou em volta.</p><p>�Mia! - gritou.</p><p>0 vizinho de roup�o marrom o seguira at� o hall de entrada. Mikael se virou na porta da sala e ergueu a m�o.</p><p>�Fique onde est�! - berrou. �Volte para o corredor.</p><p>O vizinho de in�cio pareceu que ia protestar, mas depois obedeceu.</p><p>Mikael quedou-se im�vel alguns segundos. Ent�o, contornou a po�a de sangue, passou devagarinho na frente de Dag Svensson e seguiu em dire��o ao quarto.</p><p>Mia Bergman estava deitada de costas no ch�o, ao p� da cama.</p><p><emphasis>N�on�on�oaMiatamb�mputaquepariu.</emphasis> Tinham lhe atirado no rosto. A bala entrara pelo maxilar inferior debaixo da orelha esquerda. O orif�cio de sa�da, na t�mpora, tinha o tamanho de uma laranja, e sua �rbita direita estava aberta e vazia. A hemorragia era ainda maior que a de seu companheiro, se � que isso era poss�vel. O impacto da bala fora t�o violento que a parede � cabeceira da cama, a v�rios metros de Mia, estava respingada.</p><p>Mikael percebeu que estava apertando o celular com a m�o crispada, ainda conectado ao 112, e que estivera retendo a respira��o. Inspirou profundamente e ergueu o celular.</p><p>�Precisamos da pol�cia. Duas pessoas. Acho que est�o mortas. Venham logo.</p><p>Escutou uma voz respondendo alguma coisa, mas n�o estava em condi��es de entender as palavras. Teve a s�bita impress�o de que sua audi��o n�o funcionava mais. Estava tudo quieto � sua volta. N�o escutou o som da pr�pria voz quando tentou dizer alguma coisa. Abaixou o celular e saiu do apartamento andando de costas. Ao chegar � escada, percebeu que seu corpo inteiro tremia e seu cora��o batia de um jeito anormal. Sem dizer palavra, abriu caminho em meio ao petrificado grupo de vizinhos e sentou-se num degrau. Ouvia, de longe, os vizinhos fazendo perguntas. O <emphasis>que houve? Eles est�o feridos? Aconteceu alguma coisa?</emphasis> O som das vozes parecia vir de dentro de um t�nel.</p><p>Mikael estava como que paralisado. Percebeu que estava em estado de choque. Deixou a cabe�a cair entre os joelhos. Ent�o come�ou a pensar. <emphasis>Caramba - eles foram assassinados. Acabam de atirar neles. O assassino ainda pode estar l� dentro... n�o, eu teria visto. O apartamento s� tem cinquenta e cinco metros quadrados.</emphasis> N�o conseguia parar de tremer. Dag ca�ra de bru�os e Mikael n�o vira seu rosto, mas a vis�o do rosto dilacerado de Mia estava incrustada em sua retina.</p><p>De repente, sua audi��o voltou como se algu�m tivesse girado o bot�o do volume. Levantou de um salto e olhou para o vizinho de roup�o marrom.</p><p>�O senhor - disse ele. �Fique aqui e n�o deixe ningu�m entrar no apartamento. A pol�cia e a ambul�ncia j� est�o a caminho. Vou esperar l� embaixo e abrir a porta para eles.</p><p>Mikael desceu os degraus de quatro em quatro. No t�rreo, olhou para a escada do por�o e estacou. Deu um passo em dire��o ao por�o. No meio da escada, havia um rev�lver, para quem quisesse ver. Mikael notou que parecia um Colt 45 Magnum - a arma que matara Olof Palme.*</p><p>Conteve o impulso de pegar a arma e deixou-a onde estava. Subiu at� o hall de entrada, bloqueou a porta na posi��o aberta e saiu para o ar livre. Quando ouviu uma buzinada breve, lembrou que a irm� o esperava no carro. Atravessou a rua.</p><p>Annika Giannini abriu a boca para ca�oar da eterna lerdeza dele. Ent�o viu a express�o em seu rosto.</p><p>�Voc� viu algu�m passar por aqui enquanto esperava? - perguntou Mikael.</p><p>Sua voz parecia rouca e pouco natural.</p><p>�N�o. Quem? O que houve?</p><p>Mikael ficou calado alguns segundos, enquanto verificava os arredores. A rua estava calma e tranq�ila. Procurou no bolso e achou um ma�o velho amassado no qual ainda havia um cigarro esquecido. Estava acendendo-o quando ouviu ao longe o som das sirenes se aproximando. Olhou o rel�gio. Onze e dezessete.</p><p>�Annika, esta vai ser uma noite longa - ele disse sem olhar para ela, quando o carro da pol�cia entrou na rua.</p><p>Os primeiros a chegarem ao local foram os policiais Magnusson e Ohlsson. Estavam voltando da Nyn�sv�gen, onde tinham ido atender a um chamado que se revelara uma brincadeira de mau gosto. Vinham seguidos por um ve�culo de interven��o que trazia o delegado Oswald M�rtensson, encarregado das interven��es externas, que estava em Skanstull quando recebeu o chamado da central de opera��es. Chegaram praticamente ao mesmo tem po, vindo de dire��es opostas, e viram no meio da rua um homem de jeans e casaco escuro erguendo a m�o. Enquanto isso, uma mulher desceu de um carro estacionado a poucos metros do homem.</p><p>Os tr�s policiais esperaram alguns segundos. A central do SOS-Brigada tinha relatado que duas pessoas haviam sido mortas por tiros, e aquele homem segurava um objeto escuro na m�o esquerda. Levaram alguns segundos para entender que se tratava de um celular. Desceram dos carros ao mesmo tempo, ajustaram o cintur�o e foram ver os dois indiv�duos mais de perto. M�rtensson assumiu imediatamente o comando.</p><p>�Foi o senhor quem notificou os tiros?</p><p>O homem assentiu com a cabe�a. Parecia seriamente abalado. Fumava um cigarro e sua m�o tremia quando o levava � boca.</p><p>�Seu nome?</p><p>�Mikael Blomkvist. Duas pessoas foram mortas a tiros h� poucos minutos nesse pr�dio. Chamam-se Dag Svensson e Mia Bergman. No terceiro andar. Alguns vizinhos est�o no corredor.</p><p>�Meu Deus - disse a mulher.</p><p>�Quem � a senhora? - perguntou M�rtensson.</p><p>�Meu nome � Annika Giannini.</p><p>�Mora aqui?</p><p>�N�o - respondeu Mikael Blomkvist. �Eu vim falar com o casal que foi morto. Ela � minha irm� e me trouxe aqui depois de um jantar.</p><p>�O senhor afirma que duas pessoas foram mortas a tiros. Viu o que aconteceu?</p><p>�N�o. Encontrei os dois assim.</p><p>�Vamos l� dar uma olhada - disse M�rtensson.</p><p>�Espere - disse Mikael. �Os vizinhos disseram que os tiros ocorreram pouco antes de eu chegar. Dei o alerta imediatamente. De l� para c�. n�o passaram nem cinco minutos. Isso significa que o assassino ainda est� bem perto daqui.</p><p>�Mas o senhor n�o tem uma descri��o dele?</p><p>�N�o vimos ningu�m. Mas � poss�vel que os vizinhos tenham visto alguma coisa.</p><p>M�rtensson fez um sinal para Magnusson, que pegou o r�dio e come�ou a mandar, em voz baixa, um relat�rio para a central. Virou-se para Mikael.</p><p>�Me mostre onde � - disse.</p><p>Quando entraram no hall do pr�dio, Mikael parou e apontou em sil�ncio para a escada do por�o. M�rtensson se inclinou e olhou para a arma. Desceu at� o final da escada e tentou abrir a porta do por�o. Estava trancada.</p><p>�Ohlsson, fique aqui e abra o olho - disse M�rtensson.</p><p>Na frente do apartamento de Mia e Dag, o grupo se reduzira. Dois vizinhos tinham voltado para casa, mas o homem do roup�o marrom continuava a postos. Pareceu aliviado ao ver os uniformes.</p><p>�N�o deixei ningu�m entrar - disse.</p><p>�Muito bem - responderam ao mesmo tempo Mikael e M�rtensson.</p><p>�Parece que h� rastros de sangue na escada - disse o agente Magnusson.</p><p>Todos olharam para as pegadas. Mikael olhou para os seus mocassins italianos.</p><p>�As marcas devem ser minhas - disse Mikael. �Eu entrei no apartamento. Tem muito sangue l� dentro.</p><p>M�rtensson lan�ou um olhar inquisitivo para Mikael. Usou uma caneta para empurrar a porta do apartamento e constatou que havia mais marcas de sangue no hall.</p><p>�A direita. Dag Svensson est� na sala e Mia no quarto. M�rtensson procedeu a uma r�pida inspe��o do apartamento e voltou segundos depois. Solicitou pelo r�dio o refor�o da pol�cia criminal. Nisso, chegaram os param�dicos. M�rtensson os deteve enquanto conclu�a a chamada.</p><p>�Duas pessoas. At� onde posso avaliar, j� n�o precisam de socorro. Um de voc�s poderia dar uma olhada, tentando n�o mexer na cena do crime?</p><p>N�o foi preciso muito tempo para ficar claro que os param�dicos eram desnecess�rios. O m�dico de plant�o que os acompanhava determinou que n�o havia necessidade de transportar os corpos ao hospital para tentar reanim�-los. N�o havia o que fazer. Mikael foi tomado de repente por fortes n�useas e virou-se para M�rtensson.</p><p>�Vou sair. Estou precisando de ar.</p><p>�Infelizmente n�o posso deix�-lo ir embora.</p><p>�N�o se preocupe - disse Mikael. �Vou s� me sentar no degrau na frente da porta.</p><p>�Me mostre sua identidade.</p><p>Mikael pegou a carteira e a entregou nas m�os de M�rtensson. Ent�o deu meia-volta sem dizer uma palavra, desceu e foi se sentar no degrau na frente do pr�dio, onde Annika continuava esperando com o agente Ohlsson Ela sentou-se ao lado dele.</p><p>�Micke, o que aconteceu? - perguntou.</p><p>�Duas pessoas de quem eu gostava muito foram assassinadas. Dag Svensson e Mia Bergman. Era o manuscrito dele que eu queria que voc� lesse.</p><p>Annika Giannini percebeu que n�o era hora de bombardear Mikael com perguntas. Em vez disso, p�s o bra�o em volta dele e o manteve apertado contra si, enquanto chegavam mais carros da pol�cia. Do outro lado da rua come�ava a se juntar um punhado de not�vagos curiosos. Mikael fitou-os em sil�ncio, enquanto os policiais isolavam a �rea. Tinha in�cio uma investiga��o policial.</p><p>Eram pouco mais de tr�s horas quando Mikael e Annika puderam finalmente deixar a sede da Criminal. Tinham passado uma hora em Enskede, na frente do pr�dio, dentro do carro de Annika, esperando que um procurador de plant�o chegasse para dar in�cio ao inqu�rito preliminar. Depois - j� que Mikael era amigo das v�timas e j� que tinha encontrado os corpos e dado o alerta - pediram-lhes que fossem at� a delegacia central de Kungsholmen para, segundo disseram, ajudar na investiga��o.</p><p>Esperaram um bom tempo antes de serem ouvidos por uma inspetora, Anita Nyberg. Era loira e parecia uma adolescente.</p><p>Estou ficando velho, pensou Mikael.</p><p>Por volta das duas e meia, j� havia tomado tanto caf� requentado que estava totalmente desembriagado e definitivamente nauseado. Fora obrigado a interromper o interrogat�rio para ir ao banheiro p�r as tripas para fora. Tinha o tempo todo na retina a vis�o do rosto estra�alhado de Mia Bergman. Tomou v�rios copinhos de �gua e lavou o rosto com cuidado antes de voltar para o interrogat�rio. Tentou juntar as id�ias e responder t�o detalhadamente quanto poss�vel �s perguntas de Anita Nyberg.</p><p><emphasis>Dag Svensson e Mia Bergman tinham inimigos?</emphasis></p><p>N�o que eu saiba.</p><p><emphasis>Tinham recebido amea�as?</emphasis></p><p>N�o que eu saiba.</p><p><emphasis>Como era o relacionamento deles?</emphasis></p><p>Pareciam apaixonados. O Dag me disse um dia que iam tentar ter um filho depois que a Mia terminasse o doutorado. <emphasis>Eles usavam drogas?</emphasis></p><p>N�o fa�o id�ia. Acho que n�o, e se usavam, devia ser s� um baseado por divers�o, em ocasi�es especiais.</p><p><emphasis>Como se explica o senhor ir � casa deles assim t�o tarde?</emphasis></p><p>Mikael explicou o contexto.</p><p><emphasis>N�o � inusitado ir visit�-los assim t�o tarde?</emphasis></p><p>Sim. Sem d�vida. Essa foi a primeira vez.</p><p>Como <emphasis>os conheceu?</emphasis></p><p>Pelo trabalho. Mikael deu explica��es que n�o acabavam mais.</p><p>E as perguntas n�o paravam, procurando definir os estranhos hor�rios.</p><p>Os tiros tinham sido ouvidos em todo o pr�dio. Foram disparados a menos de cinco segundos de intervalo. O homem de setenta anos de roup�o marrom era o vizinho mais pr�ximo, e comandante da defesa costeira aposentado. Ao segundo tiro, levantara do sof� onde estava assistindo tev� e sa��ra imediatamente no corredor. Considerando-se que tinha um problema no quadril e dificuldades para se levantar, ele pr�prio calculava que devia ter levado uns trinta segundos para abrir a porta do apartamento. Nem ele nem nenhum vizinho tinham visto o culpado.</p><p>Segundo as estimativas dos vizinhos, Mikael chegara � porta do apartamento menos de dois minutos depois dos disparos.</p><p>Considerando-se que ele e Annika tinham tido uma vis�o da rua inteira por quase trinta segundos enquanto Annika rodava at� o pr�dio, estacionava e trocava umas palavras com Mikael antes de ele atravessar a rua e subir a escada, havia uma lacuna de tempo calculada em cerca de trinta a quarenta segundos. Durante esse intervalo, o autor do duplo assassinato tinha tido tempo de sair do apartamento, descer a escada, jogar a arma no t�rreo, sair do pr�dio e desaparecer antes que Annika estacionasse o carro. Tudo isso sem ser visto por ningu�m.</p><p>Conclu�ram que Mikael e Annika deviam ter se desencontrado do assassino por alguns segundos.</p><p>Durante um vertiginoso instante, Mikael percebeu que a inspetora Anita Nyberg brincava com a id�ia de que ele poderia ser o culpado, que simplesmente descera at� o andar de baixo e fingira estar chegando ao local depois que os vizinhos acorreram. Mas Mikael tinha um �libi na pessoa da sua irm�, e uma explica��o plaus�vel de como havia passado seu tempo. Seus passos, inclusive a conversa telef�nica com Dag Svensson, podiam ser confirmados por muitos membros da fam�lia Giannini.</p><p>Annika acabou protestando. Mikael oferecera toda a colabora��o poss��vel e imagin�vel. Estava visivelmente cansado e n�o se sentia bem. Era hora de deix�-lo ir para casa. Lembrou que era a advogada de seu irm�o e que ele tinha certos direitos estabelecidos por Deus ou, pelo menos, pelo Parlamento.</p><p>Uma vez l� fora, ficaram os dois um bom tempo em sil�ncio diante do carro de Annika.</p><p>�V� para casa dormir - disse ela. Mikael balan�ou a cabe�a.</p><p>�N�o, preciso ir at� a casa da Erika - disse ele. �Ela tamb�m conhecia os dois. N�o posso simplesmente contar por telefone e n�o quero que ela fique sabendo pelo r�dio quando acordar.</p><p>Annika Giannini hesitou um instante, mas reconheceu que o irm�o estava certo.</p><p>�Para Saltsj�baden, ent�o - disse ela.</p><p>�Voc� ainda se sente em condi��es de me levar?</p><p>�E para que serve uma irm� menor?</p><p>�Se voc� me deixar no centro de Nacka, eu pego um t�xi ou um �nibus.</p><p>�Est� brincando. Entre, eu levo voc�.</p></section><section><p><strong><emphasis>12 - QUINTA-FEIRA SANTA 24 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Annika Giannini tamb�m estava visivelmente cansada, e Mikael conseguiu convenc�-la a desistir do longo desvio de quase uma hora pelo promont�rio de L�nnersta e deix�-lo no centro de Nacka. Deu-lhe um beijo no rosto, agradeceu sua ajuda naquela noite e esperou ela dar a volta no carro e desaparecer pela rua antes de chamar um t�xi.</p><p>Fazia mais de dois anos que Mikael Blomkvist n�o vinha a Saltsj�baden. Antes disso, s� em raras oportunidades tinha visitado Erika e o marido. Sinal de imaturidade, sem d�vida, pensava ele.</p><p>Mikael ignorava totalmente a maneira como o casal Erika e Lars funcionava. Conhecia Erika desde o in�cio dos anos 1980 e pretendia manter a rela��o com ela at� ficar velho demais para sair de uma cadeira de rodas. Essa rela��o s� fora interrompida durante um curto per�odo no final dos anos 1980, depois que os dois se casaram. A interrup��o durara mais de um ano, at� ambos se tornarem infi�is.</p><p>Pelo lado de Mikael, a situa��o acabara em div�rcio. Pelo de Erika, Lars Beckman concluiu que uma paix�o assim era provavelmente um presente da natureza. Imaginar que as conven��es ou a moral social poderiam manter aqueles dois longe da cama um do outro era pura ilus�o. Ele tamb�m explicou que n�o queria se arriscar a perder Erika como Mikael tinha perdido a mulher.</p><p>Quando Erika confessou sua infidelidade, Lars Beckman fora bater � porta de Mikael Blomkvist. Mikael estivera aguardando e temendo essa visita - sentia-se um lixo. Mas Lars Beckman n�o quebrara a sua cara, e sim lhe propusera uma turn� pelos bares. Tr�s <emphasis>pubs</emphasis> do S�dermalm depois, suficientemente b�bados para terem uma conversa s�ria, tinham se explicado, sentados num banco p�blico do Mariatorget ao raiar do dia.</p><p>Mikael mal acreditou quando Lars Beckman lhe explicou, de sa�da, que se ele tentasse sabotar seu casamento com Erika Berger ele voltaria s�brio e armado de uma clava, mas que se a quest�o era apenas desejo da carne e incapacidade da alma para a modera��o e a conten��o, para ele estava tudo bem.</p><p>Mikael e Erika tinham, portanto, mantido seu relacionamento com a aprova��o de Lars Beckman e sem tentar lhe esconder o que quer que fosse. At� onde Mikael sabia, o casamento de Lars e Erika continuava feliz. Contentava-se em saber que Lars aceitava o relacionamento deles sem protestar, a ponto de Erika s� precisar pegar o telefone, ligar para ele e comunicar que pretendia passar a noite com Mikael quando lhe dava vontade, o que era regularmente o caso.</p><p>Lars Beckman nunca expressara a m�nima cr�tica em rela��o a Mikael. Pelo contr�rio, parecia achar que a rela��o de Erica com Mikael tinha um lado bom e que seu pr�prio amor por Erika se fortalecia pelo fato de ele nunca ter como certa a presen�a da mulher.</p><p>Em contrapartida, Mikael nunca se sentira � vontade na companhia de Lars, duro lembrete de que at� os relacionamentos mais livres tinham um pre�o. De modo que s� aparecera no Saltsj�baden em raras ocasi�es, quando Erika dava alguma festa grande em que a aus�ncia de Mikael soaria como provoca��o.</p><p>Ele parou em frente � casa deles, de duzentos e cinquenta metros quadrados. Apesar da sua repulsa em trazer not�cias t�o ruins, apertou resolutamente o dedo na campainha e o manteve ali por quase quarenta segundos, at� que escutou passos. Lars Beckman veio abrir, uma toalha de banho amarrada na cintura e o rosto dormido cheio de uma raiva que se transformou em perplexidade mal desperta quando deu com o amante da mulher na soleira da porta.</p><p>�Oi, Lars - disse Mikael.</p><p>�Oi, Blomkvist. Que horas s�o?</p><p>Lars Beckman era loiro e magro. Tinha uma quantidade enorme de pelos no peito e nenhum cabelo na cabe�a. Tinha uma barba de uma semana e uma enorme cicatriz acima da sobrancelha direita, recorda��o de um acidente de veleiro que por pouco n�o acabara mal, muitos anos antes.</p><p>�Um pouco mais de cinco horas - disse Mikael. �Voc� poderia acordar a Erika? Preciso falar com ela.</p><p>Lars Beckman imaginou que, se Mikael Blomkvist vencera sua resist�ncia a vir a Saltsj�baden e encontrar com ele, algo fora do comum estava acontecendo. Al�m disso, Mikael parecia muito necessitado de um drinque, ou pelo menos de uma cama para recuperar o sono atrasado. Portanto abriu a porta e o fez entrar.</p><p>�O que aconteceu? - perguntou.</p><p>Antes que Mikael tivesse tempo de responder, Erika Berger desceu a escada, atando o cinto de um roup�o atoalhado branco. Estacou a meio caminho quando viu Mikael no hall de entrada.</p><p>�Mikael! O que aconteceu?</p><p>�Dag Svensson e Mia Bergman - disse Mikael.</p><p>Sua fisionomia revelou imediatamente que not�cia ele vinha trazer.</p><p>�N�o!</p><p>Ela tapou a boca com a m�o.</p><p>�Estou vindo da delegacia. Dag e Mia foram assassinados esta noite.</p><p>�Assassinados?! - exclamaram Erika e Lars a uma s� voz. Erika lan�ou um olhar c�tico para Mikael.</p><p>�Voc� quer dizer assassinados mesmo? Mikael meneou a cabe�a pesadamente.</p><p>�Algu�m entrou no apartamento de Enskede e deu um tiro na cabe�a deles. Fui eu que encontrei os dois.</p><p>Erika sentou-se num degrau da escada.</p><p>�Eu n�o queria que voc� ficasse sabendo pelo notici�rio da manh� - disse Mikael.</p><p>Faltava um minuto para as sete, na manh� daquela quinta-feira, quando Mikael e Erika chegaram � reda��o da <emphasis>Millennium.</emphasis> Erika ligara para Christer Malm a fim de acord�-lo, assim como para a assistente de reda��o Malu Eriksson, comunicando que Dag e Mia haviam sido mortos naquela noite. Ambos moravam perto, j� tinham chegado na reda��o e ligado a cafeteira el�trica na copa.</p><p>�Mas afinal que hist�ria � essa? - perguntou Christer Malm. Malu Eriksson agitou a m�o para que se calassem e aumentou o volume do notici�rio das sete.</p><p>Duas pessoas, um homem e uma mulher, foram mortos a tiros tarde da noite de ontem num apartamento em Enskede. A pol�cia confirma tratar-se de um duplo assassinato. Nenhuma das v�timas era conhecida da pol�cia. Ignora-se totalmente o motivo. Nossa rep�rter Hanna Olofsson est� no local.</p><p>Pouco antes da meia-noite, a pol�cia foi alertada sobre disparos ocorridos num pr�dio da Bj�rneborgsvagen, aqui em Enskede. De acordo com um vizinho, houve v�rios tiros no apartamento. N�o foi dado nenhum tipo de explica��o e at� agora ningu�m foi preso. A pol�cia interditou o apartamento e o exame t�cnico est� em andamento.</p><p>�Bem conciso - disse Malu, baixando o volume.</p><p>E ent�o desatou em prantos. Erika p�s um bra�o em volta dos seus ombros.</p><p>�Puta merda, que horror! - disse Christer Malm, dirigindo-se a ningu�m em particular.</p><p>�Sentem-se - disse Erika Berger com voz firme. �Mikael... Mikael contou uma vez mais o que acontecera durante a noite. Com voz monoc�rdia e na prosa neutra de jornalista, descreveu a descoberta dos corpos de Dag e Mia.</p><p>�Puta merda, que horror - repetiu Christer Malm. �Isso � uma loucura.</p><p>Malu se deixou novamente dominar por seus sentimentos. Recome�ou a chorar sem procurar esconder as l�grimas.</p><p>�Desculpem - disse ela.</p><p>�Sabe, eu tamb�m estou com vontade de chorar - disse Christer. Mikael se perguntou por que n�o conseguia chorar. Sentia apenas um imenso vazio, mais ou menos como se estivesse anestesiado.</p><p>�Por enquanto n�o sabemos muito - disse Erika Berger. �Precisamos discutir duas coisas. Primeiro, estamos para imprimir o trabalho do Dag Svensson daqui a tr�s semanas. Seguimos com isso? Podemos publicar? Primeira quest�o. Sobre a segunda, Mikael e eu j� come�amos a conversar no caminho para c�.</p><p>�N�o sabemos o porqu� desses assassinatos - disse Mikael. - Pode ser alguma coisa na vida particular do Dag e da Mia ou obra de um demente. Mas n�o podemos excluir que talvez tenha alguma rela��o com o trabalho deles.</p><p>Fez-se um sil�ncio em volta da mesa. Por fim, Mikael clareou a garganta.</p><p>�Estamos, portanto, prestes a publicar um assunto superindigesto, revelando o nome de pessoas que fazem quest�o de n�o serem ligadas a essa hist�ria. Dag come�ou a entrevist�-las duas semanas atr�s. A minha id�ia � que uma dessas...</p><p>�Espere - disse Malu Eriksson. �Estamos denunciando tr�s tiras, sendo que um deles trabalha na S�po e outro na Pol�cia de Costumes, v�rios advogados, um procurador e um juiz, e alguns jornalistas nojentos conhecidos. Voc� est� querendo dizer que um deles teria cometido um duplo assassinato para impedir a publica��o do livro?</p><p>�Sim, n�o, n�o sei - disse Mikael, pensativo. �Eles t�m um bocado a perder, mas num primeiro impulso eu diria n�o ser muito esperto da parte deles achar que podem abafar uma hist�ria como essa matando um jornalista. Mas a gente tamb�m est� denunciando um bom n�mero de cafet�es e, mesmo usando nomes fict�cios, n�o � muito dif�cil perceber quem s�o eles. Alguns j� foram condenados por viol�ncia.</p><p>�Certo - disse Christer. �Mas voc� descreveu esses assassinatos como verdadeiras execu��es. Se entendi bem o que o Dag Svensson tentava mostrar em seu livro � que se trata de um pessoal que n�o prima pela intelig�ncia. Seriam capazes de cometer um duplo assassinato e se safarem?</p><p>�Tem que ser inteligente para usar um berrante? - perguntou Malu.</p><p>�Estamos especulando sobre algo que n�o sabemos - interrompeu Erika Berger. �Mas temos que nos colocar essa pergunta. Se os artigos do Dag - ou, por outra, a tese da Mia - foram o motivo desses assassinatos, precisamos refor�ar a seguran�a aqui da reda��o.</p><p>�E h� uma terceira quest�o - disse Malu. �Ser� que temos de informar esses nomes � pol�cia? O que voc� contou para eles esta noite?</p><p>�Respondi a todas as perguntas que me fizeram. Contei sobre o trabalho do Dag, mas n�o me pediram detalhes e eu n�o citei nenhum nome.</p><p>��, sem d�vida, o que a gente deveria fazer - disse Erika Berger.</p><p>�N�o � t�o simples - respondeu Mikael. �A rigor, podemos fornecer uma lista de nomes, mas o que a gente vai fazer se a pol�cia perguntar como chegamos a eles? N�o temos o direito de revelar fontes que desejam permanecer an�nimas. Isso envolve v�rias garotas com as quais a Mia conversou.</p><p>�Que confus�o!- disse Erika. �Voltamos � primeira pergunta - publicamos ou n�o publicamos?</p><p>Mikael levantou a m�o.</p><p>�Esperem. Podemos at� votar, mas acontece que eu sou o editor respons�vel pela publica��o e pela primeira vez na vida estou pretendendo tomar uma decis�o sozinho. A resposta � n�o. N�o podemos publicar esse n�mero. � absolutamente imposs�vel se ater ao que estava planejado.</p><p>Um sil�ncio caiu em volta da mesa. Ele prosseguiu:</p><p>�Ou, para ser mais exato, tenho muita vontade de publicar, mas na certa, vamos ter que alterar um bocado de coisas. O Dag e a Mia � que respondiam pela maior parte da documenta��o, e o tema se baseava no fato de que Mia pretendia dar queixa contra as pessoas que ir�amos citar. Ela era a especialista na mat�ria. E n�s?</p><p>A porta de entrada bateu e Henry Cortez apareceu � porta da sala.</p><p>�S�o o Dag e a Mia? - ele perguntou, ofegante. Todos menearam a cabe�a.</p><p>�Puta merda. � uma loucura total!</p><p>�Como voc� ficou sabendo? - perguntou Mikael.</p><p>�Sa� ontem � noite com a minha namorada, e a gente estava voltando para casa quando escutou no r�dio do t�xi. Os tiras queriam saber se algum motorista tinha pego um cliente naquela regi�o. Reconheci o endere�o. Eu tinha que vir.</p><p>Henry Cortez parecia t�o abalado que Erika se levantou e o abra�ou antes de mand�-lo sentar-se. Ela retomou a palavra.</p><p>�Acho que o Dag teria gostado que a gente publicasse a hist�ria dele.</p><p>�E eu acho que a gente deve publicar. O livro, sem nem pensar duas vezes. Mas na atual situa��o, vamos ter que adiar a publica��o.</p><p>�E o que a gente vai fazer? - perguntou Malu. �N�o � s� um artigo que vai ter que ser alterado; � um n�mero tem�tico, vamos precisar refazer toda a revista.</p><p>Erika ficou um instante em sil�ncio. Ent�o sorriu. Seu primeiro sorriso exausto do dia.</p><p>�Voc� estava contando com uns dias feriados na P�scoa, Malu? - ela perguntou. �Pode esquecer. Vamos fazer o seguinte... Voc�, Malu, eu e o Christer vamos pensar num n�mero totalmente novo, sem Dag Svensson. Quem sabe conseguimos pegar alguns textos que estavam previstos para o n�mero de junho. Mikael... Quantos cap�tulos prontos do livro do Dag Svensson voc� tem em m�os?</p><p>�Estou com a vers�o final de nove cap�tulos, de um total de doze. Estou com a pen�ltima vers�o dos cap�tulos dez e onze. Dag estava para me mandar por e-mail as vers�es finais, vou ver na minha caixa postal, mas s� tenho fragmentos do cap�tulo doze, que � o �ltimo. � onde ele ia fazer uma s�ntese e apresentar suas conclus�es.</p><p>�Mas voc� e o Dag tinham discutido todos os cap�tulos.</p><p>�Eu sei o que ele pretendia escrever, se � o que voc� quer dizer.</p><p>�Bem, voc� vai cuidar dos textos - do livro e do artigo. Quero saber o quanto falta e se temos como reconstituir o que Dag n�o teve tempo de entregar. Ser� que voc� consegue me dar uma estimativa ainda hoje?</p><p>Mikael meneou a cabe�a.</p><p>�Tamb�m quero que voc� pense sobre o que a gente vai dizer � pol�cia. Defina o que � inofensivo e a partir de que ponto come�amos a ferir a prote��o das fontes. Ningu�m aqui da revista est� autorizado a falar enquanto voc� n�o der o seu aval.</p><p>�Acho que est� bem assim - disse Mikael.</p><p>�Voc� acredita mesmo que o trabalho do Dag pode ter motivado o assassinato dos dois?</p><p>�Ou a tese da Mia... n�o sei. Mas n�o d� para descartar essa possibilidade.</p><p>Erika Berger refletiu um instante.</p><p>�N�o, n�o d� para descartar. Voc� assume as r�deas.</p><p>�Que r�deas?</p><p>�Da investiga��o.</p><p>�Que investiga��o?</p><p>�A nossa, a nossa investiga��o, porra! - De repente, Erika Berger ergueu a voz. �O Dag Svensson era jornalista e trabalhava para a <emphasis>Millennium.</emphasis> Se ele foi morto por causa do trabalho, quero saber. Vamos tentar descobrir o que aconteceu. Voc� se encarrega disso. Para come�ar, revise todo o material que Dag Svensson nos passou e procure ver se o motivo do crime pode estar ali.</p><p>Virou-se para Malu Eriksson.</p><p>�Malu, se voc� me ajudar a esbo�ar um n�mero novo a partir de hoje, Christer e eu faremos o grosso do trabalho. Mas voc� trabalhou bastante com o Dag Svensson e nos demais textos do n�mero monogr�fico. Quero que acompanhe o andamento da investiga��o policial com o Mikael.</p><p>Malu Eriksson meneou a cabe�a.</p><p>�Henry... voc� poderia trabalhar hoje?</p><p>�� claro.</p><p>�Para come�ar, ligue para os outros colaboradores da <emphasis>Millennium</emphasis> e d� a not�cia a eles. Depois ligue para a pol�cia para tentar descobrir em que p� est�o as coisas. Tente descobrir se est� prevista uma coletiva de imprensa. A gente tem que se manter a par dos acontecimentos.</p><p>�Certo. Primeiro vou ligar para o nosso pessoal, depois dou um pulo at� em casa para tomar um banho e comer alguma coisa. Volto em quarenta e cinco minutos, a menos que de l� eu v� direto para a delegacia de Kungsholmen.</p><p>�Ficamos em contato durante o dia. Fez-se um breve sil�ncio em volta da mesa.</p><p>�Bem� disse Mikael por fim. �Terminamos?</p><p>�Acho que sim - disse Erika. �Voc� est� com pressa?</p><p>�Estou. Preciso dar um telefonema.</p><empty-line/><p>Harriet Vanger estava tomando um caf� da manh� composto de caf� e torradas com queijo e geleia de laranja na varanda envidra�ada da casa de Henrik Vanger, em Hedeby, quando seu celular tocou. Ela atendeu sem olhar para a tela.</p><p>�Bom dia, Harriet - disse Mikael Blomkvist.</p><p>�Ora essa. Achei que voc� era dessas pessoas que nunca se levantam antes das oito.</p><p>Exato, desde que eu tenha ido dormir. O que n�o � o caso hoje. Aconteceu alguma coisa? Voc� n�o viu o notici�rio? Mikael fez um breve resumo dos acontecimentos daquela noite. Que horror - disse Harriet Vanger. �Como � que voc� est�? Obrigado por perguntar. J� estive melhor. Mas estou te ligando porque afinal voc� integra o conselho administrativo da <emphasis>Millennium</emphasis> e � justo que voc� seja informada do que est� acontecendo. Aposto que logo algum jornalista vai descobrir que fui eu que encontrei os corpos, o que vai gerar especula��es, e quando souberem que o Dag vinha trabalhando para a gente numa revela��o de peso, v�o chover perguntas.</p><p>�Voc� quer dizer que eu preciso estar preparada. O que eu estou autorizada a falar?</p><p>�A verdade. Voc� foi informada do que aconteceu. Esses assassinatos brutais te deixaram chocada, claro, mas como voc� n�o est� por dentro do trabalho da reda��o n�o pode comentar sobre essas especula��es. Cabe � pol�cia solucionar o crime, n�o � <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�Obrigada por me avisar. Posso ajudar em alguma coisa?</p><p>�Por enquanto n�o. Qualquer coisa eu te digo.</p><p>�Est� bem, Mikael... me mantenha informada, por favor.</p></section><section><p><strong><emphasis>13 - QUINTA-FEIRA SANTA 24 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>�s sete horas da Quinta-feira Santa, a responsabilidade formal pelo inqu�rito preliminar sobre o duplo assassinato de Enskede fora parar na mesa do procurador Richard Ekstr�m. O procurador de plant�o da noite, um jurista relativamente jovem e inexperiente, entendera que os assassinatos de Enskede extrapolavam, e muito, o padr�o. Telefonara para acordar o procurador-adjunto do departamento, que por sua vez acordou o adjunto do secret�rio de seguran�a do departamento. Em comum acordo decidiram passar o caso para um procurador zeloso e experiente. A escolha recaiu sobre Richard Ekstr�m, de quarenta e dois anos.</p><p>Ekstr�m era um homem magro e atl�tico de um metro e sessenta e sete, tinha cabelos loiros e finos e usava cavanhaque. Estava sempre impecavelmente vestido e, devido � sua baixa estatura, andava com sapatos de salto compensado. Iniciara a carreira de jurista como adjunto do procura dor de Uppsala, onde fora recrutado como investigador pelo Minist�rio Justi�a para adaptar a lei sueca � Uni�o Europ�ia. Sa�ra-se t�o bem que fora nomeado chefe de se��o. Sobressa�ra-se num inqu�rito sobre as disfun��es da seguran�a judici�ria, quando clamara antes por mais efici�ncia do que pelo aumento de recursos exigido por algumas autoridades. Depois de quatro anos no Minist�rio da Justi�a, passara para o Minist�rio P�blico de Estocolmo, onde cuidara de v�rios casos ligados a assaltos sensacionais ou a crimes de sangue.</p><p>No interior da administra��o, era considerado um socialdemocrata, mas na verdade Ekstr�m era absolutamente alheio a pol�tica partid�ria. Come�ava a despertar certo interesse na m�dia, e nos corredores do poder era um homem que seus superiores observavam de perto. Era definitivamente um candidato potencial para altos cargos e dispunha de uma ampla rede de contatos tanto no meio pol�tico como policial. Entre os policiais, as opini�es sobre os talentos de Ekstr�m eram divididas. Seus relat�rios ao Minist�rio de Justi�a n�o apoiavam em nada os grupos que, dentro da pol�cia, defendiam que a melhor maneira de garantir a seguran�a judici�ria era recrutar um n�mero maior de policiais. Por outro lado, Ekstr�m se sobressa�a por sua absoluta firmeza quando conduzia um caso ao tribunal.</p><p>Informado pela Criminal sobre os acontecimentos da noite em Enskede, Ekstr�m logo concluiu que aquele era um caso que sem d�vida alguma mexeria fortemente com a m�dia. N�o se tratava de assassinatos comuns. As v�timas eram uma pesquisadora em criminologia prestes a defender sua tese e um jornalista - palavra que ele detestava ou adorava, conforme a situa��o.</p><p>Pouco depois das sete horas, Ekstr�m teve uma r�pida conversa telef��nica com o chefe da Criminal regional. �s sete e quinze, pegou o telefone e acordou o inspetor Jan Bublanski, apelidado de Bubolha pelos colegas. Bublanski estava tirando uns dias de folga na Semana Santa para compensar as in�meras horas extras que acumulara ao longo do ano, mas pediram que interrompesse seu feriado e se apresentasse imediatamente na superintend�ncia da pol�cia para dirigir as investiga��es no inqu�rito dos assassinatos de Enskede.</p><p>Bublanski tinha cinquenta e dois anos e trabalhara mais da metade da vida como policial, desde os vinte e tr�s anos. Passara seis anos numa viatura fazendo patrulhas, fora nomeado para a repress�o do tr�fico de armas e roubos antes de fazer alguns cursos de forma��o permanente e integrar a se��o de crimes violentos na Criminal regional. Nos �ltimos dez anos, participara precisamente de trinta e tr�s investiga��es de assassinato ou homic�dio. Das dezessete que comandara, catorze foram elucidadas e duas consideradas elucidadas do ponto de vista policial, o que significava que a pol�cia sabia quem era o culpado, mas n�o tinha provas suficientes para lev�-lo � Justi�a. Bublanski e seus colaboradores haviam fracassado em um �nico caso, seis anos antes. O caso de um alco�latra, encrenqueiro not�rio, apunhalado na sua resid�ncia, em Bergshamra. O local do crime era um pesadelo de impress�es digitais e vest�gios de DNA de dezenas de indiv�duos que, ao longo dos anos, tinham bebido ou brigado naquele apartamento. Bublanski e seus colegas estavam convencidos de que o assassino pertencia ao c�rculo de amigos suspeitos do homem, todos alco�latras e toxic�manos, mas, apesar de um intenso trabalho de investiga��o, o assassino continuava escarnecendo a pol�cia. 0 caso, na verdade, estava arquivado.</p><p>Ao todo, Bublanski somava uma boa percentagem de �xito e era visto entre os colegas como particularmente qualificado.</p><p>Os colegas, por�m, consideravam-no um tipo original, em boa parte porque era judeu e usava um quip� em algumas festas da superintend�ncia da pol�cia. Isso um dia suscitara o coment�rio de um superintendente, atualmente aposentado, de que era inadequado usar um quip� na superintend�ncia, assim como n�o aceitaria que um policial andasse por a� de turbante. No entanto, nunca chegou a existir uma verdadeira discuss�o sobre o assunto. Um jornalista que havia interceptado o coment�rio come�ou a fazer perguntas, o que levou o superintendente depressa a se retirar para a sua sala.</p><p>Bublanski pertencia � comunidade do S�der, e pedia refei��es vegetarianas caso n�o houvesse comida <emphasis>kasher.</emphasis> Mas n�o era ortodoxo a ponto de n�o trabalhar no dia do sab�. Desde o primeiro instante, Bublanski percebeu que o duplo assassinato de Enskede n�o seria uma investiga��o rotineira. Richard Ekstr�m tivera uma conversa particular com ele assim que cruzara a porta, pouco depois das oito horas.</p><p>�Parece ser uma hist�ria pesada - disse Ekstr�m, cumprimentando-o. �O casal assassinado era um jornalista e uma criminologista. E n�o � s� isso. Foi tamb�m um jornalista quem os encontrou.</p><p>Bublanski meneou a cabe�a. Era praticamente uma garantia de que o caso seria acompanhado de perto e esmiu�ado pela m�dia.</p><p>�E, para completar, o jornalista que encontrou o casal � Mikael Blomkvist, da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�Uau! - exclamou Bublanski.</p><p>�Conhecido por todo aquele barulho em torno do caso Wennerstr�m.</p><p>�J� se tem alguma id�ia de qual foi o motivo?</p><p>�At� o momento, nenhuma. As v�timas n�o s�o conhecidas nos nossos servi�os. Tudo indica que era um casal tranq�ilo. A mulher estava para defender a tese em breve. Resumindo: prioridade m�xima para esse caso.</p><p>Bublanski meneou a cabe�a. Para ele, qualquer homic�dio sempre tinha prioridade absoluta.</p><p>�Vamos destacar uma equipe para o caso. Voc� vai ter que trabalhar depressa e eu vou cuidar para que disponha de todos os recursos. O Hans Faste e o Curt Bolinder v�o te auxiliar. Tamb�m vamos chamar o Jerker Holmberg. Ele est� trabalhando no assassinato de Rinkeby, mas parece que o culpado fugiu para o exterior. O Holmberg � um investigador sem igual nas cenas dos crimes. Se for preciso, voc� tamb�m pode apelar para os investigadores da Criminal Nacional.</p><p>�Eu queria a Sonja Modig.</p><p>�Ela n�o � meio jovem?</p><p>Bublanski ergueu uma sobrancelha e encarou Ekstr�m, surpreso.</p><p>�Tem trinta e nove anos, ou seja, s� alguns anos menos que voc�, e al�m disso � espert�ssima.</p><p>�Est� bem, escolha quem quiser para a sua equipe, mas seja r�pido. A dire��o j� se manifestou.</p><p>Isso Bublanski considerou um exagero descarado. �quela hora da manh�, a dire��o nem sequer tinha tido tempo de sair da mesa do caf� da manh�.</p><p>A investiga��o policial come�ou de fato com uma reuni�o, pouco antes das nove horas, em que o inspetor Bublanski reuniu sua tropa numa sala da Criminal regional. Bublanski contemplou a equipe. N�o estava inteiramente satisfeito com sua composi��o.</p><p>Das pessoas presentes, Sonja Modig era em quem ele mais confiava. Ela estava na pol�cia havia doze anos, dos quais quatro na Brigada de Crimes Violentos, onde participara de v�rias investiga��es dirigidas por Bublanski. Era minuciosa e met�dica, mas Bublanski percebera rapidamente que tamb�m possu�a a qualidade que ele considerava mais preciosa nas investiga��es dif�ceis: imagina��o e capacidade de fazer associa��es. Em pelo menos dois casos complexos, Sonja Modig estabelecera liga��es estranhas e um pouco for�adas que os demais haviam deixado passar e que trouxeram novas possibilidades � investiga��o. Al�m disso, Sonja Modig possu�a um humor espirituoso que Bublanski apreciava.</p><p>Bublanski tamb�m estava satisfeito em ter Jerker Holmberg na equipe. Com cinquenta e cinco anos, Holmberg era origin�rio de Angermanland. Era um homem direto e tedioso, totalmente desprovido dessa imagina��o que tornava Sonja Modig t�o preciosa. Em compensa��o, talvez fosse, na opini�o de Bublanski, o melhor investigador de cenas do crime de toda a pol�cia sueca. Haviam trabalhado juntos em v�rias investiga��es ao longo dos anos, e Bublanski estava convicto de que se havia alguma coisa para ser encontrada no local do crime, Holmberg a encontraria. Sua primeira tarefa, portanto, seria assumir o comando das opera��es no apartamento de Enskede.</p><p>Bublanski conhecia muito pouco seu colega Curt Bolinder. Era um homem forte e taciturno, de cabelo loiro t�o curto que de longe parecia totalmente calvo. Bolinder tinha trinta e oito anos e acabava de chegar � Brigada depois de passar v�rios anos na pol�cia de Huddinge investigando gangues criminosas. Tinha fama de ter pavio curto e pulso de ferro, o que era um eufemismo para dizer que ele talvez empregasse com sua clientela m�todos n�o totalmente conformes ao regulamento. Dez anos antes, Curt Bolinder fora indiciado por golpes e ferimentos, mas a investiga��o o inocentara inteiramente.</p><p>A reputa��o de Curt Bolinder se baseava em outro incidente. Em outubro de 1999 ele estivera em Alby, juntamente com um colega, para prender um delinquente da regi�o para interrogat�rio. O sujeito j� era conhecido da pol�cia. Fazia v�rios anos que vinha espalhando o terror entre os vizinhos de seu pr�dio, e seu comportamento amea�ador resultara em algumas queixas contra ele. Gra�as a uma informa��o recebida pela pol�cia, ele agora era suspeito de ter assaltado uma loja em Norsborg. A interven��o, relativamente simples, desandou por completo quando o sujeito puxou uma faca em vez de acompanhar docilmente os policiais. O colega ficara com v�rios ferimentos nas m�os ao tentar enfrent�-lo, e com o polegar esquerdo decepado, antes que o malfeitor voltasse a aten��o para Curt Bolinder, que pela primeira vez em sua carreira foi obrigado a usar sua arma de servi�o. Deu tr�s tiros. O primeiro foi um aviso. O segundo, disparado com o objetivo de atingir o malfeitor, errara o alvo, o que era um feito, considerando-se que a dist�ncia n�o chegava a tr�s metros. O terceiro tiro, em compensa��o, atingiu o sujeito rompendo sua aorta, e em poucos minutos o homem sucumbira a uma hemorragia interna. A investiga��o que se seguiu eximiu Curt Bolinder de qualquer responsabilidade, mas o fato deu ensejo a uma pol�mica na m�dia que focalizava o monop�lio estatal da viol�ncia e na qual Curt Bolinder foi citado no mesmo n�vel que os dois policiais espancadores do caso Osmo Vallo.</p><p>De in�cio Bublanski se mostrara reticente em rela��o a Curt Bolinder, mas passados seis meses ainda n�o descobrira o que quer que fosse que merecesse sua cr�tica direta ou sua ira. Pelo contr�rio, Bublanski aos poucos passara a nutrir certo respeito por sua compet�ncia taciturna.</p><p>O �ltimo membro da equipe de Bublanski era Hans Faste, quarenta e sete anos e veterano da Brigada de Crimes Violentos havia quinze anos. Faste era o motivo direto da insatisfa��o de Bublanski com a composi��o da equipe. Faste tinha um lado positivo e outro negativo. O positivo era sua grande experi�ncia e o fato de estar acostumado a investiga��es complexas. O negativo, segundo Bublanski, era ele ser egoc�ntrico, adepto de um humor meio pesado capaz de aborrecer qualquer pessoa normal, em particular o pr�prio Bublanski. O car�ter e as atitudes de Faste simplesmente n�o lhe agradavam. Ainda assim, quando bem controlado, era um investigador competente. Al�m disso, tornara-se uma esp�cie de mentor para Curt Bolinder, que n�o parecia se incomodar com seu lado reclam�o. N�o raro trabalhavam em dupla nas investiga��es.</p><p>Tamb�m tinham sido convidados para a reuni�o a inspetora Anita Nyberg, da Criminal de plant�o, para relatar o interrogat�rio de Mikael Blomkvist que ela conduzira na noite anterior, e o delegado Oswald M�rtensson, para informar sobre todos os acontecimentos, desde que tinham recebido o chamado. Estavam ambos esgotados e queriam ir para casa dormir o quanto antes, mas Anita Nyberg j� obtivera fotos do local do crime e as fez circular pela equipe.</p><p>Meia hora depois, j� tinham uma id�ia do desenrolar dos fatos. Bublanski resumiu a situa��o:</p><p>�Ainda no aguardo da an�lise t�cnica do local, que est� em andamento, os fatos parecem ser os seguintes... uma pessoa desconhecida, que n�o foi vista por nenhum vizinho ou testemunha, entrou num apartamento em Enskede e matou o casal Svensson e Bergman.</p><p>�Ainda n�o sabemos se a arma encontrada � a arma do crime, mas j� foi para o laborat�rio - disse Anita Nyberg. �Prioridade absoluta. Encontramos tamb�m, na parede, relativamente intacto, um fragmento da bala que atingiu Dag Svensson. Em compensa��o, a bala que matou Mia Bergman est� t�o espeda�ada que duvido que d� para aproveitar alguma coisa.</p><p>�Obrigado por esse pouco. Um Colt Magnum, um maldito rev�lver de caub�i que devia ser totalmente proibido. J� temos o n�mero de s�rie?</p><p>�Ainda n�o - disse Oswald M�rtensson. �Mandei a arma e o fragmento da bala direto para o laborat�rio por um portador especial. Achei melhor eles olharem em vez de eu come�ar a mexer na arma.</p><p>�Est� certo. Ainda n�o tive tempo de ir ao local, mas voc�s dois estiveram l�. Quais s�o suas conclus�es?</p><p>Anita Nyberg e Oswald M�rtensson trocaram um olhar. Nyberg deixou que seu colega mais velho respondesse.</p><p>�Em primeiro lugar, achamos que o assassino estava sozinho. Trata-se de uma verdadeira execu��o, n�o de um assassinato comum. A sensa��o � de que algu�m tinha um motivo muito forte para matar Svensson e Bergman, e agiu com muita calma.</p><p>�E o que te faz pensar assim? - inquiriu Hans Faste.</p><p>�O apartamento estava limpo e em ordem. N�o foi um assalto, n�o houve luta corporal ou coisa assim. Foram disparadas duas balas, e as duas atingiram o alvo bem na cabe�a, com muita precis�o. Logo, estamos lidando com algu�m que sabe manejar uma arma.</p><p>�Certo.</p><p>�Se a gente der uma olhada aqui no desenho... fizemos uma simula��o no local em que o homem, Dag Svensson, foi morto, de muito perto... podemos dizer que foi � queima-roupa. H� queimaduras muito claras em volta do ferimento penetrante. Eu diria que ele foi morto primeiro. Foi projetado contra a mesa de jantar. O assassino provavelmente estava na porta do hall ou na entrada da sala.</p><p>�Certo.</p><p>�De acordo com as testemunhas, os tiros se sucederam em alguns segundos. Mia Bergman foi morta de longe. Estava provavelmente na porta do quarto e tentou se desviar. A bala atingiu sua orelha esquerda e saiu logo acima do olho direito. A viol�ncia do impacto a impeliu para dentro do quarto onde foi encontrada. Ela caiu na beirada da cama e escorregou para o ch�o.</p><p><image l:href="#6"/></p><p>�Um atirador acostumado a manejar armas - confirmou Faste.</p><p>�� mais que isso. N�o h� nenhuma pegada indicando que o assassino tenha entrado no quarto para verificar quem ele acabava de matar. Ele sabia que a tinha atingido, virou as costas e saiu do apartamento. Foram dois tiros, dois mortos, e em seguida ele foi embora.</p><p>�Sim?</p><p>�Sem querer me adiantar � an�lise t�cnica, desconfio que o assassino usou muni��o de ca�a. A morte deve ter sido instant�nea. As duas v�timas apresentam ferimentos pavorosos.</p><p>Houve um breve sil�ncio em volta da mesa. Nenhum dos presentes precisava ser lembrado de que existem dois tipos de muni��o - balas duras inteiramente cobertas de metal, que atravessam o corpo de lado a lado causando um estrago relativamente modesto, e muni��es flex�veis que se dilatam dentro do corpo e causam um estrago enorme. H� uma imensa diferen�a entre o estrago que uma bala de nove mil�metros de di�metro pode causar e o de uma bala que se expande at� dois ou tr�s cent�metros. Este tipo � chamado �muni��o de ca�a�, ou �bala expansiva�, e seu objetivo � causar uma hemorragia abundante, o que � visto como uma caridade na ca�a ao alce, quando se trata de abater o animal o mais r�pido poss�vel sem que ele sofra. Por outro lado, as conven��es internacionais pro�bem o uso de muni��o de ca�a nas guerras, j� que o infeliz atingido por uma bala expansiva quase sempre morre, pouco importando em que lugar do corpo se d� o impacto.</p><p>A pol�cia sueca, por�m, em sua grande sabedoria, introduzira as muni��es de ca�a em seu arsenal dois anos antes. O motivo n�o era muito claro, mas o certo � que se, por exemplo, Hannes Westberg, o famoso manifestante atingido no ventre durante os tumultos de G�teborg em 2001, tivesse sido atingido por uma bala de ca�a, n�o teria sobrevivido.</p><p>�O objetivo, portanto, era matar - disse Curt Bolinder. Referia-se a Enskede, mas ao mesmo tempo expressava sua opini�o no debate silencioso que ocorria em volta da mesa.</p><p>Anita Nyberg e Oswald M�rtensson assentiram com a cabe�a.</p><p>�Depois, temos esse <emphasis>timing</emphasis> incr�vel - disse Bublanski.</p><p>�Exato. Imediatamente depois dos tiros, o assassino saiu do apartamento, desceu a escada, jogou a arma fora e sumiu noite adentro. Pouco depois, provavelmente em quest�o de segundos, Blomkvist e a irm� chegaram de carro.</p><p>�Hmm - fez Bublanski.</p><p>�Resta a possibilidade de o assassino ter sa�do pelo por�o. H� uma porta de servi�o que ele pode ter usado para chegar ao p�tio e alcan�ar uma rua paralela, atravessando o gramado. Isso se ele tivesse a chave do por�o.</p><p>�Existe alguma indica��o de que ele tenha sa�do por l�?</p><p>�N�o.</p><p>�N�o temos nenhuma pista - disse Sonja Modig. �Mas por que ele jogou a arma fora? Se a tivesse levado - ou simplesmente jogado fora do pr�dio -, ter�amos demorado para achar.</p><p>Todo mundo deu de ombros. Ningu�m sabia responder �quela pergunta.</p><p>�O que pensar sobre Blomkvist? - perguntou Hans Faste.</p><p>�Ele estava manifestamente em estado de choque - disse M�rtensson. �Mas agiu de forma correta e coerente, deixou uma impress�o positiva. A irm� dele confirmou o telefonema e o trajeto de carro. N�o creio que <strong>ELE</strong> esteja envolvido no caso.</p><p>�� um jornalista conhecido - disse Sonja Modig.</p><p>�Isso vai fazer o maior barulho na imprensa - confirmou Bublanski. - Mais um motivo para solucionar o caso o mais depressa poss�vel. Bem... Jerker, voc�, � claro, se encarrega do local do crime e dos vizinhos. Faste, voc� e o Curt ficam com as v�timas. Quem eram, profiss�o, c�rculo de amizades, quem teria motivo para mat�-las? Sonja, n�s dois vamos trabalhar nos depoimentos da noite passada. Depois voc� vai reconstituir a agenda de Dag Svensson e Mia Bergman nas vinte e quatro horas que antecederam o assassinato. Vamos tentar nos reunir de novo l� pelas duas e meia.</p><p>Quando se p�s ao trabalho, Mikael Blomkvist primeiro se instalou na sala que estivera � disposi��o de Dag Svensson durante a primavera. De in�cio permaneceu um bom tempo parado, como se estivesse sem coragem de empreender a tarefa. Ent�o ligou o computador.</p><p>Dag Svensson tinha seu pr�prio laptop e fizera boa parte do trabalho em casa, mas nos �ltimos tempos tamb�m ficara dois dias por semana na reda��o, ou at� mais. Na <emphasis>Millennium,</emphasis> usara um antigo PowerMac G3 instalado na sala dos colaboradores. Mikael ligou a m�quina e deparou com a miscel�nea de coisas em que Dag Svensson estivera trabalhando. Ele usara o G3, sobretudo para pesquisas na internet, mas tamb�m havia ali v�rios arquivos que ele copiara do laptop. Por outro lado, mantinha um backup completo em dois discos ZIP que ele guardava numa gaveta fechada a chave. Todos os dias fazia uma c�pia do material novo ou das atualiza��es. N�o tinha aparecido na reda��o por v�rios dias, e a �ltima c�pia de seguran�a datava do domingo � noite. Faltavam tr�s dias.</p><p>Mikael fez uma c�pia do disco ZIP e trancou-a no arm�rio de sua pr�pria sala. A seguir, passou quarenta e cinco minutos percorrendo o conte�do do disco original, que continha cerca de trinta pastas e in�meras subpastas. O conjunto representava quatro anos de pesquisa acumulada para o projeto de Dag Svensson sobre o tr�fico de mulheres. Leu o nome dos arquivos e procurou o que poderia conter algum material <emphasis>top secret -</emphasis> ou seja, o nome das fontes protegidas de Dag Svensson. Reparou que Dag Svensson era escrupuloso com suas fontes.-.estava tudo reunido numa pasta denominada [<strong>FONTES/SIGILO</strong>]. A pasta continha cento e trinta e quatro arquivos de variados tamanhos - a maioria pouco volumosos. Mikael selecionou e apagou todos os arquivos. N�o os enviou para a lixeira, e sim para um �cone do programa Burn, que apagava em modo seguro.</p><p>Em seguida verificou os e-mails de Dag Svensson. Dag ganhara um endere�o tempor�rio no <emphasis>Millennium</emphasis> que ele usava tanto na reda��o como em seu computador pessoal. Tinha uma senha particular, o que n�o constitu�a um problema, j� que Mikael era o administrador da conta e tinha acesso ao servidor da caixa de mensagens. Baixou uma c�pia da correspond�ncia de Dag Svensson e gravou-a num CD.</p><p>Por fim, debru�ou-se sobre a imensa papelada que inclu�a obras de refer�ncia, notas, recortes de jornal, julgamentos e correspond�ncia que Dag Svensson fora acumulando no caminho. Para n�o deixar margem ao acaso, ligou a fotocopiadora e fez uma c�pia de tudo que parecia ter alguma import�ncia. O processo envolvia um bom milhar de p�ginas e lhe custou tr�s horas.</p><p>Selecionou todo o material que, de uma forma ou de outra, poderia estar relacionado com uma fonte sigilosa. O resultado foi um pacotinho de mais de quarenta p�ginas A4, principalmente na forma de notas oriundas de dois blocos A4 que Dag Svensson mantivera guardados a chave em sua mesa. Mikael p�s esse pacote num envelope e o levou para a sua pr�pria sala. Depois recolocou a sala de Dag Svensson em ordem.</p><p>S� ent�o conseguiu relaxar, e desceu at� o 7-Eleven para tomar um caf� e comer um peda�o de pizza. Imaginava, erroneamente, que a pol�cia logo iria aparecer para examinar o conte�do da sala de Dag Svensson.</p><p>Bublanski foi brindado com um impulso inesperado nas investiga��es pouco depois das dez horas, quando o Dr. Lennart Granlund, do Laborat�rio Criminal�stico de Estado, em Link�ping, telefonou.</p><p>�� sobre o duplo assassinato de Enskede. -J�?</p><p>�Recebemos a arma hoje cedo e ainda n�o terminei totalmente a an�lise, mas tenho uma informa��o que imagino deva interess�-lo.</p><p>�Que bom. Me conte tudo o que descobriu - pediu Bublanski, contendo a impaci�ncia.</p><p>�A arma � um Colt 45 Magnum, fabricado nos Estados Unidos em 1981.</p><p>�A-h�!</p><p>�Encontramos impress�es digitais e, talvez, vest�gios de DNA, mas a an�lise vai levar algum tempo. Tamb�m examinamos os proj�teis que mataram o casal. Como era de se prever, as balas s�o mesmo dessa arma. Costuma ser assim, quando uma arma � encontrada na escada do local do crime. As balas est�o superfragmentadas, mas conseguimos um pedacinho para poder comparar. Trata-se muito provavelmente da arma do crime.</p><p>�Uma arma ilegal, imagino. Voc� tem um n�mero de s�rie?</p><p>�A arma � absolutamente legal. Pertence a um advogado, o doutor Nils Bjurman, e foi comprada em 1983. Ele � membro do clube de tiro da pol�cia. H� um endere�o em nome dele na Upplandsgatan, perto da Odenplan.</p><p>�Caramba!</p><p>�Encontramos v�rias digitais na arma. De pelo menos duas pessoas.</p><p>�A-h�...</p><p>�� de se supor que um dos grupos de digitais seja de Bjurman, a n�o ser que a arma tenha sido roubada ou vendida, mas n�o h� nenhuma indica��o de que isso tenha acontecido.</p><p>�Ah�... Em outras palavras, temos um ind�cio, como se diz nos filmes.</p><p>�Temos, nos nossos arquivos, uma ocorr�ncia relacionada com a segunda pessoa. Digital do polegar e do indicador, m�o direita.</p><p>�Quem �?</p><p>�Uma mulher nascida em 30 de abril de 1978. Foi detida por golpes e ferimentos no metr� da Gamla Stan em 1995. As digitais foram tiradas nessa ocasi�o.</p><p>�E ela tem nome?</p><p>�Sim. Lisbeth Salander.</p><p>Bublanski, vulgo Bubolha, ergueu as sobrancelhas e anotou o nome e a data de nascimento num bloco que havia em sua mesa.</p><p>Ao voltar para a reda��o depois do seu almo�o tardio, Mikael Blomkvist foi direto trancar-se em sua sala, sinalizando assim que n�o queria ser incomodado. Ainda n�o tinha tido tempo de conferir todas as informa��es secund�rias nos e-mails e anota��es de Dag Svensson. No momento, precisava reavaliar o livro e os artigos com um novo olhar, considerando que seu autor estava morto e j� n�o poderia responder �s perguntas espinhosas.</p><p>Precisava tomar uma decis�o sobre a publica��o do livro, assim como descobrir se alguma coisa no meio do material poderia constituir o motivo do assassinato. Ligou o computador e se p�s ao trabalho.</p><p>Jan Bublanski ligou para o respons�vel pelo inqu�rito preliminar, Richard Ekstr�m, para comunicar-lhe as novidades do laborat�rio. Decidiram que Bublanski e sua colega Sonja Modig entrariam em contato com o dr. Bjurman para uma conversa - que poderia se transformar em interrogat�rio ou, inclusive, em indiciamento, se fosse o caso -, ao passo que seus colegas Hans Faste e Curt Bolinder deveriam se concentrar em Lisbeth Salander, pedindo-lhe que explicasse como suas impress�es digitais tinham ido parar na arma do crime.</p><p>Localizar o Dr. Bjurman de in�cio n�o apresentou nenhum problema maior. Seu endere�o constava no cadastro de contribuintes, no registro de armas e no registro de documentos de carros, al�m de figurar oficialmente na lista telef�nica. Bublanski e Modig foram at� Odenplan e conseguiram entrar no pr�dio da Upplandsgatan na hora em que um rapaz sa�a.</p><p>Depois as coisas se complicaram. Quando tocaram a campainha, ningu�m atendeu. Foram at� o escrit�rio de Bjurman, em Sankt Eriksplan, e repetiram a manobra, com o mesmo resultado frustrante.</p><p>�Ele talvez esteja no tribunal - sugeriu a inspetora Sonja Modig.</p><p>�Talvez tenha fugido para o Brasil depois de cometer um duplo homic�dio - disse Bublanski.</p><p>Sonja Modig meneou a cabe�a, enquanto olhava de esguelha para o colega. Sentia-se bem na companhia dele. De bom grado o aceitaria como amante se n�o fosse m�e de dois filhos e se, tal como Bublanski, n�o fosse casada e feliz no casamento. Olhando para as placas de lat�o das demais portas do andar, observou que havia um Norman, dentista, uma empresa de nome N-Consulting e um Rune H�kansson, advogado.</p><p>Bateram � porta de H�kansson.</p><p>�Bom dia, meu nome � Modig e esse � o inspetor Bublanski. Somos da pol�cia e estou tentando entrar em contato com seu colega e vizinho doutor Bjurman. Por acaso saberia onde podemos encontr�-lo? H�kansson balan�ou a cabe�a.</p><p>�Eu o tenho visto pouco nesses �ltimos tempos. Ele esteve muito doente h� dois anos e praticamente interrompeu toda a sua atividade. A placa continua na porta, mas ele aparece aqui muito pouco, eu diria que a cada dois meses.</p><p>�Muito doente?</p><p>�N�o sei bem. Era uma pessoa muito ativa, e de repente adoeceu. C�ncer, sei l�. N�o o conhe�o muito.</p><p>�O senhor acha, ou sabe que ele teve c�ncer? - perguntou Sonja Modig.</p><p>�Bem... n�o sei. Ele tinha uma secret�ria, Britt Karlsson, ou Nilsson, uma coisa assim. Uma mulher j� de certa idade. Foi demitida, e foi ela quem me contou que ele tinha ficado doente, mas eu n�o sei exatamente o que era. Foi na primavera de 2003. S� voltei a v�-lo no final do ano, e ele tinha envelhecido uns dez anos, estava magro, o cabelo tinha ficado grisalho... ent�o eu pensei em c�ncer. Por qu�? Ele fez alguma coisa?</p><p>�N�o que a gente saiba - respondeu Bublanski. �Mas queremos falar com ele sobre um caso urgente.</p><p>Voltaram ao apartamento da Upplandsgatan e tocaram mais uma vez a campainha de Bjurman. Nenhuma resposta. Por fim, Bublanski pegou o celular e discou o n�mero do celular de Bjurman. A resposta foi: o <emphasis>n�mero chamado n�o est� dispon�vel no momento. Por favor, tente mais tarde.</emphasis></p><p>Tentou o telefone fixo do apartamento. Do corredor, escutaram vagamente o toque do outro lado da porta, at� que uma secret�ria eletr�nica atendeu pedindo que fosse deixado um recado. Entreolharam-se e deram de ombros. Era uma da tarde.</p><p>�Um caf�?</p><p>�Melhor, um hamb�rguer.</p><p>Foram at� o Burger King da Odenplan. Sonja Modig comeu um Whopper e Bublanski pediu um hamb�rguer vegetariano antes de voltarem para a superintend�ncia.</p><p>O procurador Ekstr�m convocou uma reuni�o em sua sala para as duas da tarde. Bublanski e Modig sentaram-se lado a lado na mesa de reuni�o, perto da janela. Curt Bolinder chegou dois minutos depois e sentou-se na frente deles. Jerker Holmberg entrou carregando uma bandeja cheia de copinhos de papel�o com caf�. Tinha dado um pulo em Enskede e pretendia voltar para l� mais tarde, depois que os t�cnicos conclu�ssem seu trabalho.</p><p>�Onde est� o Faste? - perguntou Ekstr�m.</p><p>�Na Comiss�o de Assuntos Sociais. Ligou h� cinco minutos para dizer que ia se atrasar um pouco - respondeu Curt Bolinder.</p><p>�Certo. Vamos come�ar sem ele. O que � que n�s temos? - come�ou Ekstr�m sem fazer cerim�nia.</p><p>Apontou primeiro para Bublanski.</p><p>�Tentamos encontrar o doutor Nils Bjurman. Ele n�o estava nem em casa nem no escrit�rio. Segundo um conhecido dele, ficou doente h� dois anos e praticamente abandonou suas atividades.</p><p>Sonda Modig prosseguiu.</p><p>�Bjurman tem cinquenta e seis anos e nenhuma ficha criminal. Atua principalmente como advogado de empresas. N�o tive tempo de examinar o passado dele.</p><p>�Mas ele � mesmo o dono da arma usada em Enskede?</p><p>�Isso � certo. Tem porte de armas e � membro do clube de tiro da pol�cia - disse Bublanski, meneando a cabe�a. �Falei com o Gunnarsson, do departamento de armas; � o presidente do clube e conhece muito bem o nosso homem. Bjurman se tornou membro em 1978 e atuou como tesoureiro de 1984 a 1992. Gunnarsson descreve Bjurman como excelente atirador, calmo, ponderado e muito direto.</p><p>�Interessado em armas?</p><p>�Segundo o Gunnarsson, Bjurman estava mais interessado na vida social do que no tiro propriamente dito. Gostava das competi��es, mas nunca passou a imagem de um fan�tico por armas. Em 1983, participou do campeonato sueco e ficou em d�cimo terceiro lugar. Nos dez �ltimos anos, sua presen�a no tiro diminuiu, s� tem aparecido nas assembl�ias e coisas assim.</p><p>�Ele tem outras armas?</p><p>�Desde que se tornou membro do clube de tiro, obteve licen�a de porte para quatro armas de punho. Al�m do Colt, tinha uma Beretta, uma Smith &amp; Wesson e uma pistola de competi��o da marca Rapid. Essas tr�s foram vendidas h� dez anos por interm�dio do clube, e as licen�as foram transferidas para outros membros. Nada irregular.</p><p>�N�s s� n�o sabemos onde ele se encontra atualmente.</p><p>�� verdade. Mas s� estamos procurando desde as dez da manh�. Talvez tenha ido passear em Djurg�rden, ou esteja hospitalizado, ou seja l� o que for.</p><p>Nisso, chegou Hans Faste. Parecia sem f�lego.</p><p>�Desculpem o atraso. Tenho novidades, passo agora para voc�s? Ekstr�m fez um gesto convidando-o a falar.</p><p>�Lisbeth Salander � um nome realmente interessante. Passei o dia na Assuntos Sociais e na Comiss�o de Tutelas.</p><p>Tirou a jaqueta de couro e colocou-a no encosto da cadeira antes de se sentar e abrir um bloco de anota��es.</p><p>�Comiss�o de Tutelas? - perguntou Ekstr�m com o cenho franzido.</p><p>�� uma fulana superperturbada - disse Hans Faste. �Foi declarada incapaz e colocada sob tutela. E adivinhem quem � o tutor? �Fez uma pausa orat�ria. �O doutor Nils Bjurman, propriet�rio da arma usada em Enskede.</p><p>Todos franziram o cenho.</p><p>Hans Faste levou quinze minutos repassando as informa��es que reunira sobre Lisbeth Salander.</p><p>� Resumindo � disse Ekstr�m, quando Faste concluiu �, temos na arma do crime as impress�es digitais de uma mulher que passou a adolesc�ncia entrando e saindo do hospital psiqui�trico, que se sup�e que ganhe a vida se prostituindo, declarada incapaz pelo tribunal e com tend�ncia manifesta � viol�ncia. Como � que ela anda � solta pelas ruas?</p><p>�Ela apresentou tend�ncias � viol�ncia desde a pr�-escola - disse Faste. �Parece uma leg�tima psicopata.</p><p>�Mas ainda n�o temos nada que a vincule ao casal de Enskede. �Ekstr�m tamborilou com a ponta dos dedos na mesa. �Bem, quem sabe esse duplo homic�dio afinal n�o seja t�o dif�cil de solucionar? Temos o endere�o dessa Salander?</p><p>�Oficialmente, ela mora na Lundagatan, em S�dermalm. O fisco informa que em alguns per�odos trabalhou como assalariada na Milton Security, uma empresa de seguran�a.</p><p>�E que tipo de trabalho ela fazia?</p><p>�N�o sei. Mas era um sal�rio anual bastante modesto, por alguns anos. Faxineira, ou algo assim.</p><p>�Hmm - fez Ekstr�m. �Logo saberemos. Mas, por enquanto, me parece urgente encontrar esta Salander.</p><p>�Concordo - disse Bublanski. - Mais tarde a gente cuida dos detalhes. Com que, ent�o, temos um suspeito. Faste, voc� e o Curt corram para a Lundagatan e tentem pegar a Salander. Sejam prudentes - n�o se sabe se ela tem outra arma nem at� que ponto vai a loucura dela.</p><p>�Combinado.</p><p>�Bubolha - interrompeu Ekstr�m. �O chefe da Milton Security se chama Dragan Armanskij. Eu o conheci h� alguns anos durante uma investiga��o. Pode confiar nele. V� at� l� e converse com ele sobre a Salander. Deve dar tempo de voc� alcan��-lo antes de ele sair do escrit�rio.</p><p>Bublanski parecia irritado, em parte porque Ekstr�m tinha usado o seu apelido e tamb�m porque tinha formulado sua proposta como se fosse uma ordem. Seco, meneou a cabe�a e voltou o olhar para Sonja Modig.</p><p>�Modig, continue procurando o doutor Bjurman. Pergunte nos apartamentos vizinhos. Acho que tamb�m � urgente encontr�-lo.</p><p>�Est� bem.</p><p>�Temos que encontrar a liga��o entre Salander e o casal de Enskede. E ter�amos que conseguir situar Salander em Enskede na hora do crime. Jerker, pegue umas fotos dela para mostrar aos vizinhos. Opera��o porta a porta no final da tarde. Leve uns policiais uniformizados com voc�.</p><p>Bublanski fez uma pausa e co�ou a nuca.</p><p>�Caramba, com alguma sorte a gente resolve essa confus�o ainda hoje. E eu que achei que ia ser um caso arrastado.</p><p>�Outra coisa - disse Ekstr�m. �A m�dia est� nos pressionando. Prometi uma coletiva �s quinze horas. Posso cuidar disso, se algu�m da assessoria de imprensa me ajudar. Imagino que alguns jornalistas liguem direto para voc�s. Salander e Bjurman ficam em sigilo at� segunda ordem.</p><p>Todos menearam a cabe�a.</p><p>Dragan Armanskij planejara deixar o escrit�rio mais cedo que de costume. Era Quinta-feira Santa, e ele e a mulher planejavam passar o feriad�o da P�scoa na casa de campo em Blid�. Acabava de fechar sua pasta de documentos e vestir o casaco quando a recep��o ligou, avisando que um certo inspetor Jan Bublanski desejava v�-lo. Armanskij n�o conhecia Bublanski, mas o fato de haver um policial procurando por ele bastou para ele soltar um suspiro e recolocar o casaco no cabide. N�o estava com a menor vontade de atender o visitante, por�m a Milton Security n�o podia se dar ao luxo de esnobar a pol�cia. Foi receber Bublanski no elevador.</p><p>�Obrigado por me ceder um pouco do seu tempo - disse Bublanski � guisa de cumprimento. �Meu chefe, o procurador Richard Ekstr�m, mandou lembran�as.</p><p>Apertaram-se as m�os.</p><p>�Ekstr�m. Sim, de fato, estivemos em contato uma ou duas vezes. J� faz alguns anos. Aceita um,.caf�?</p><p>Armanskij parou na frente da m�quina antes de abrir a porta de sua sala e convidar Bublanski a sentar-se na confort�vel poltrona dos visitantes, perto da janela.</p><p>�Armanskij... � um nome russo? - perguntou Bublanski, curioso. �O meu nome tamb�m �, com <emphasis>ski.</emphasis></p><p><emphasis>�A</emphasis> minha fam�lia � de origem arm�nia. E a sua?</p><p>�Polonesa.</p><p>�No que posso ajud�-lo?</p><p>Bublanski pegou um bloco de anota��es e abriu-o.</p><p>�Estou investigando o duplo homic�dio de Enskede. Imagino que j� tenha visto o notici�rio de hoje.</p><p>Armanskij aquiesceu com um gesto de cabe�a.</p><p>�O Ekstr�m me disse que o senhor � discreto.</p><p>�Na minha posi��o, n�o vale a pena brigar com a pol�cia. Sei ficar de boca fechada, se � o que quer saber.</p><p>�Muito bem. Nesse momento, estamos procurando uma pessoa que trabalhou para o senhor. O nome dela � Lisbeth Salander. O senhor a conhece?</p><p>Armanskij sentiu de repente uma bola de cimento se formando em sua barriga. Permaneceu impass�vel.</p><p>�Por que est�o procurando a senhorita Salander?</p><p>�Digamos que temos motivos para consider�-la interessante para a investiga��o.</p><p>A bola de cimento na barriga de Armanskij se dilatou. A dor era quase f�sica. Desde a primeira vez em que vira Lisbeth Salander, tivera um forte pressentimento de que a vida daquela mo�a se encaminhava para uma cat�strofe. Mas sempre a vira como v�tima, n�o como culpada. Seu rosto continuava impass�vel.</p><p>�Voc�s suspeitam que Lisbeth Salander tenha cometido o duplo assassinato de Enskede, � isso? Estou entendendo direito?</p><p>Bublanski hesitou por um instante antes de concordar com a cabe�a.</p><p>�O que pode me dizer sobre Salander?</p><p>�O que quer saber?</p><p>�Para come�ar... onde ela pode ser encontrada?</p><p>�Ela mora na Lundagatan. Preciso verificar o endere�o exato. Tenho o n�mero do celular dela.</p><p>�O endere�o n�s j� temos. O n�mero do celular nos interessa. Armanskij procurou o n�mero no caderno de endere�os. Leu em voz alta enquanto Bublanski anotava.</p><p>�Ela trabalhava para o senhor.</p><p>�Como <emphasis>freelancer.</emphasis> De vez em quando passava um ou outro servi�o para ela. Isso de 1998 at� mais ou menos um ano e meio atr�s.</p><p>�Que tipo de servi�o?</p><p>�Pesquisa.</p><p>Bublanski ergueu os olhos do bloco de anota��es com um ar espantado.</p><p>�Pesquisa? - repetiu.</p><p>�Investiga��es sobre pessoas, para ser mais preciso.</p><p>�Um momento... estamos falando da mesma mo�a? - perguntou Bublanski. �A Lisbeth Salander que estamos procurando nem concluiu o segundo grau e foi declarada incapaz.</p><p>�N�o se diz mais �declarada incapaz� - observou Armanskij suavemente.</p><p>�N�o me interessa como se diz. De acordo com os dados de arquivo, a mo�a que estamos procurando parece ser tremendamente perturbada e ter predisposi��o � viol�ncia. Al�m disso, h� um relat�rio da Comiss�o de Assuntos Sociais dando a entender que ela se prostitu�a no final dos anos 1990. Nada no dossi� dela indica que pudesse ter um trabalho qualificado.</p><p>�Os dossi�s s�o uma coisa. Os seres humanos s�o outra.</p><p>�Quer dizer que ela � qualificada para fazer investiga��es sobre pessoas para a Milton Security?</p><p>�N�o s� isso. � incontestavelmente a melhor investigadora que eu conhe�o.</p><p>Devagar, Bublanski colocou a caneta de lado e franziu a testa.</p><p>�O senhor parece que... a respeita bastante.</p><p>Armanskij olhou para as pr�prias m�os. A pergunta o punha diante de uma encruzilhada. Ele sempre soubera que mais cedo ou mais tarde Lisbeth Salander se veria em maus len��is. Ele tinha a maior dificuldade em entender o que poderia t�-la envolvido no duplo assassinato de Enskede - quer como culpada, quer como c�mplice -, mas era obrigado a admitir que pouco sabia da vida pessoal dela. No <emphasis>que � que ela foi se meter?</emphasis> Armanskij lembrou de sua s�bita visita � empresa, quando misteriosamente afirmara que tinha dinheiro suficiente para se virar e n�o estava precisando de trabalho.</p><p>O mais prudente, o mais sensato naquele momento, era permanecer distante de tudo que dizia respeito � Lisbeth Salander, tanto do ponto de vista pessoal como, e principalmente, da Milton Security. Armanskij ponderou que Lisbeth Salander era sem d�vida a criatura mais sozinha que ele conhecia.</p><p>�Respeito � compet�ncia dela. E isso voc�s n�o v�o encontrar nem no hist�rico escolar e nem nos arquivos.</p><p>�Ent�o conhece o passado dela?</p><p>�Sei que ela foi posta sob tutela e que teve uma inf�ncia dif�cil, sim.</p><p>�Mesmo assim o senhor a contratou.</p><p>�Foi justamente por isso que eu a contratei.</p><p>�Explique melhor.</p><p>�O antigo tutor dela, Holger Palmgren, era o advogado do velho J. F. Milton. Come�ou a tomar conta dela na adolesc�ncia e me convenceu a lhe dar um trabalho. De in�cio, pedi para ela separar a correspond�ncia, fazer fotoc�pias, esse tipo de coisa. Depois me dei conta de que ela tinha talentos inesperados. E o tal relat�rio do Servi�o Social dizendo que ela de vez em quando se prostitu�a, pode esquecer. Isso � besteira. Lisbeth Salander teve uma inf�ncia lament�vel e era, sem sombra de d�vida, meio selvagem, o que n�o � nenhum crime. Acho que prostitui��o seria a �ltima coisa que ela faria.</p><p>�O novo tutor dela se chama Nils Bjurman.</p><p>�N�o o conhe�o. Palmgren teve um derrame h� dois anos. Pouco depois, Lisbeth Salander reduziu os servi�os que me prestava. O �ltimo foi em outubro, h� um ano e meio.</p><p>�Por que deixou de recorrer a ela?</p><p>�N�o foi escolha minha. Ela � que cortou o contato e sumiu, foi para o exterior sem nenhuma palavra de explica��o.</p><p>�Sumiu no exterior?</p><p>�Ficou fora mais de um ano.</p><p>�N�o est� batendo. O doutor Bjurman enviou relat�rios mensais sobre ela no ano passado todo. Temos as c�pias na delegacia central.</p><p>Armanskij deu de ombros, sorrindo de leve.</p><p>�Quando a viu pela �ltima vez?</p><p>�Faz mais ou menos dois meses, no in�cio de fevereiro. Ela apareceu do nada, para uma visita de cortesia. Fazia mais de ano que eu n�o tinha not�cias dela. Passou o ano todo fora, percorrendo a �sia e as Antilhas.</p><p>�Me desculpe, mas estou meio perplexo. Eu vim para c� com a impress�o de que Lisbeth Salander era uma garota com problemas psiqui�tricos, que n�o tinha nem terminado a escola e estava sob tutela. Agora o senhor vem me dizer que a contratou como investigadora altamente qualificada, que ela trabalha como <emphasis>freelancer</emphasis> e ganha o suficiente para tirar um ano sab�tico e dar a volta ao mundo, isso sem que o tutor dela d� o alerta. Alguma coisa n�o est� batendo.</p><p>�Muitas coisas n�o batem quando se trata de Lisbeth Salander.</p><p>�Posso lhe perguntar... o que acha dela? Armanskij refletiu um instante.</p><p>�Acho que � a pessoa mais inflex�vel que eu j� conheci, chega a ser irritante - ele acabou dizendo.</p><p>�Inflex�vel?</p><p>�Ela n�o faz nada que n�o sinta vontade de fazer. N�o d� a m�nima para o que os outros pensam a seu respeito. � de uma compet�ncia extraordin�ria. E � completamente diferente das outras pessoas.</p><p>�Louca?</p><p>�Qual � a sua defini��o dessa palavra?</p><p>�Ela seria capaz de matar duas pessoas a sangue-frio? Armanskij permaneceu um bom tempo calado.</p><p>�Lamento - disse por fim. �N�o posso responder a essa pergunta. Sou um c�nico. Acho que todo mundo tem em si a capacidade de matar algu�m. Por desespero, �dio, ou pelo menos para se defender.</p><p>�Isso significa que n�o exclui a possibilidade.</p><p>�Lisbeth Salander n�o faz nada sem motivo. Se ela matou algu�m, � porque achou que tinha um bom motivo para isso. Queria perguntar uma coisa... Em que se baseia a sua suspeita de que ela estaria envolvida nos assassinatos de Enskede?</p><p>Bublanski hesitou um pouco. Seu olhar cruzou com o de Armanskij.</p><p>�Que fique s� entre n�s.</p><p>�Com toda a certeza.</p><p>�A arma do crime pertence ao tutor dela. E tem as digitais dela. Armanskij cerrou os dentes. Era uma circunst�ncia agravante.</p><p>�Eu s� ouvi falar desse assassinato pelo r�dio. Qual foi o motivo? Drogas?</p><p>�Ela tem alguma liga��o com o mundo das drogas?</p><p>�N�o que eu saiba. Mas, como eu disse, a inf�ncia dela foi bem complicada, e aconteceu de uma vez ela ser presa na rua por embriaguez. Suponho que o dossi� dela diga que a droga fazia parte do quadro.</p><p>�O problema � que n�o temos a menor id�ia do motivo desses assassinatos. Era um casal exemplar. Ela, criminologista, prestes a defender uma tese de doutorado. Ele, um jornalista. Dag Svensson e Mia Bergman. Isso lhe diz alguma coisa?</p><p>Armanskij balan�ou a cabe�a.</p><p>�Estamos tentando entender a liga��o entre eles e a Lisbeth Salander.</p><p>�Nunca ouvi falar neles. Bublanski se levantou.</p><p>�Obrigado por ter me cedido seu tempo. A conversa foi fascinante. N�o sei se estou saindo daqui mais bem informado do que cheguei, mas espero que isto fique entre n�s.</p><p>�Sem nenhum problema.</p><p>�E espero poder voltar aqui, se necess�rio. E, claro, se a Lisbeth Salander aparecer...</p><p>- Claro... - respondeu Dragan Armanskij. Apertaram-se as m�os. Quando Bublanski chegou � porta, deteve-se e virou-se mais uma vez para Armanskij.</p><p>�O senhor por acaso sabe com quem ela anda? Algum amigo, conhecido...</p><p>Armanskij balan�ou a cabe�a.</p><p>�N�o conhe�o nada, por assim dizer, da vida pessoal dela. Uma das poucas pessoas que contam para ela � o Holger Palmgren. Ela certamente procurou entrar em contato com ele. Ele est� internado num centro de reabilita��o em Ersta.</p><p>�Ela nunca recebeu nenhuma visita quando trabalhava aqui?</p><p>�N�o. Ela trabalhava em casa, s� aparecia para me entregar os relat�rios. Inclusive, era muito raro ela encontrar com um cliente. A n�o ser talvez...</p><p>Uma id�ia repentina passou pela mente de Armanskij.</p><p>�O qu�?</p><p>�Bem, existe outra pessoa que ela talvez tenha procurado. Um jornalista com quem ela conviveu bastante dois anos atr�s e que ficou o tempo todo me pedindo not�cias quando ela esteve fora.</p><p>�Um jornalista?</p><p>�O nome dele � Mikael Blomkvist. Lembra do caso Wennerstr�m? Bublanski soltou lentamente a ma�aneta da porta e se voltou para Dragan Armanskij.</p><p>�Foi o Mikael Blomkvist que encontrou os corpos em Enskede. O senhor acaba de estabelecer uma liga��o entre Salander e as v�timas.</p><p>Armanskij sentiu o peso da bola de cimento em sua barriga.</p></section><section><p><strong><emphasis>14 - QUINTA-FEIRA SANTA 24 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Sonja Modig tentou ligar tr�s vezes para o Dr. Nils Bjurman num intervalo de meia hora. Foi atendida todas �s vezes pela grava��o da secret�ria eletr�nica.</p><p>Por volta das tr�s e meia, pegou o carro, foi at� a Upplandsgatan e tocou a campainha. O resultado foi t�o frustrante quanto j� fora mais cedo. Passou vinte minutos fazendo um porta a porta no pr�dio, em busca de algum vizinho que soubesse onde Bjurman estava.</p><p>Em onze dos dezenove apartamentos em que tocou ningu�m atendeu. Consultou o rel�gio. Aquela n�o era, evidentemente, uma boa hora para fazer um porta a porta. E era bem prov�vel que n�o fosse melhor durante o feriad�o da P�scoa. Nos oito apartamentos onde havia algu�m em casa, as Pessoas foram muito prestativas. Cinco sabiam quem era Bjurman � aquele senhor polido e bem-educado do terceiro andar. Ningu�m sabia onde ele estava. Acabou descobrindo que Bjurman parecia ter rela��es pessoais com uns dos vizinhos, um empres�rio chamado Sj�man. Mas ningu�m atendeu quando ela bateu � porta com a identifica��o Sj�man.</p><p>Frustrada, Sonja Modig pegou o telefone e resolveu deixar um recado secret�ria eletr�nica de Bjurman. Apresentou-se, deixou o n�mero de seu celular e pediu que Bjurman entrasse em contato com ela imediatamente.</p><p>Voltou para a porta do apartamento de Bjurman, pegou seu bloco de anota��es e escreveu um bilhete, pedindo que ele lhe ligasse. Juntou seu cart�o de visitas e jogou o bilhete pela portinhola da correspond�ncia. Quando ia soltando a portinhola, ouviu o telefone tocar dentro do apartamento. Inclinou-se e escutou atentamente. Depois de quatro toques, a secret�ria atendeu, mas ela n�o conseguiu escutar o recado.</p><p>Soltou a portinhola da correspond�ncia e fitou a porta. N�o soube explicar o impulso que a levou a estender a m�o para a ma�aneta, mas, para sua imensa surpresa, a porta n�o estava trancada. Abriu-a e deu uma espiada no hall de entrada.</p><p>�Tem algu�m a�? - ela chamou baixinho, e apurou o ouvido. N�o escutou nenhum barulho.</p><p>Deu um passo para dentro do hall e deteve-se, hesitante. O que ela acabava de fazer ao atravessar a porta poderia certamente ser considerado como invas�o de domic�lio. Ela n�o tinha ordem judicial para fazer uma busca, nem direito de entrar no apartamento do Dr. Bjurman, mesmo que a porta estivesse aberta. Deu uma espiada � esquerda e vislumbrou boa parte da sala. Acabava de resolver sair do apartamento quando seu olhar topou com uma c�moda no hall. Viu a caixa de um rev�lver Colt.</p><p>S�bito, Sonja Modig sentiu um forte mal-estar. Abriu a jaqueta e puxou a arma, coisa que praticamente nunca fizera.</p><p>Puxou a trava de seguran�a e manteve o cano apontado para o ch�o enquanto avan�ava para dar uma olhada na sala. N�o notou nada de especial, mas seu mal-estar continuava aumentando. Recuou e olhou na cozinha. Vazia. Entrou num pequeno corredor e abriu a porta do quarto.</p><p>O Dr. Nils Bjurman estava atravessado na cama. Seus joelhos encostavam no ch�o. Parecia estar ajoelhado para sua ora��o da noite. Estava nu.</p><p>Ela o via de perfil. De onde estava Sonja Modig j� podia perceber que ele n�o estava vivo. Metade de sua testa tinha sido arrancada por um tiro na nuca.</p><p>Sonja Modig saiu do apartamento andando de costas, e ainda segurava sua arma quando, no corredor, pegou o celular e ligou para o inspetor Bublanski. N�o conseguiu falar com ele. Ent�o ligou para o procurador Ekstr�m. Anotou a hora: 16h 18.</p><p>Hans Faste contemplou a porta do pr�dio da Lundagatan onde Lisbeth Salander era oficialmente domiciliada e, portanto, supostamente morava. Olhou de esguelha para Curt Bolinder e depois para o rel�gio: 16hl0.</p><p>Depois de obterem o c�digo de acesso com o s�ndico, entraram e ficaram escutando em frente � porta identificada como Salander-Wu. N�o ouviram nenhum ru�do no apartamento e ningu�m atendeu quando tocaram. Voltaram para o carro e se posicionaram de modo a vigiar o port�o.</p><p>Telefonando do carro, descobriram que a pessoa recentemente inclu�da no contrato habitacional do apartamento era uma certa Miriam Wu, nascida em 1974, antes domiciliada em Sankt Eriksplan, Estocolmo.</p><p>Estavam com uma foto de identidade de Lisbeth Salander afixada acima do r�dio. Faste, sem cerim�nia, declarou que ela n�o tinha uma cara boa.</p><p>�Caramba, as putas est�o cada vez mais feias. Tem que estar mesmo a perigo para pegar uma dessas.</p><p>Curt Bolinder n�o respondeu.</p><p>�s 16h20, Bublanski ligou avisando que estava saindo do escrit�rio de Armanskij e ia at� a <emphasis>Millennium.</emphasis> Pediu que Faste e Bolinder o esperassem na Lundagatan. Precisavam levar Lisbeth Salander para interrogat�rio, mas o procurador ainda n�o a considerava vinculada aos assassinatos de Enskede.</p><p>�Pois � - disse Faste. �Mais um procurador querendo primeiro uma confiss�o para indiciar algu�m.</p><p>Curt Bolinder n�o disse nada. Distraidamente, ficaram observando as pessoas que passavam nas redondezas.</p><p>�s 16h40, o procurador Ekstr�m ligou para o celular de Hans Faste.</p><p>�Aconteceram coisas. Encontramos o doutor Bjurman assassinado com um tiro em seu apartamento. Est� morto h� pelo menos vinte e quatro horas.</p><p>Hans Faste se endireitou no assento.</p><p>�Entendido. E o que a gente faz?</p><p>�Emiti um alerta de busca para Lisbeth Salander. Ela � suspeita de ter cometido tr�s assassinatos. Estou emitindo um alerta de busca nacional. Precisamos apanh�-la. Deve ser considerada perigosa e pode estar armada.</p><p>�Entendido.</p><p>�Estou mandando uma brigada para a Lundagatan. S�o eles que v�o entrar para neutralizar o apartamento.</p><p>�Entendido.</p><p>�Voc�s t�m not�cias do Bublanski?</p><p>�Ele est� na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�E aparentemente desligou o celular. Tentem entrar em contato com ele e passar as informa��es.</p><p>Faster e Bolinder trocaram um olhar.</p><p>�A quest�o � saber o que a gente faz se ela aparecer - disse Curt Bolinder.</p><p>�Se estiver sozinha e tudo parecer tranq�ilo, a gente prende. Se ela tiver tempo de entrar no apartamento, a brigada � que vai intervir. Essa fulana � completamente doida e pelo jeito virou uma assassina. Pode ter outras armas em casa.</p><p>Mikael Blomkvist estava exausto quando largou o manuscrito em cima da mesa de Erika Berger e se sentou pesadamente diante dela na poltrona dos visitantes, ao lado da janela que dava para a G�tgatan. Passara � tarde tentan-do definir o encaminhamento do livro inacabado de Dag Svensson.</p><p>Era uma quest�o delicada. Fazia pouqu�ssimas horas que Dag estava morto e seu empregador j� pensava numa maneira de administrar seu material jornal�stico. Mikael tinha consci�ncia do aspecto c�nico e insens�vel que outros poderiam ver naquela situa��o. Ele pr�prio n�o enxergava as coisas assim. Tinha a impress�o de estar em estado de microgravidade. Uma s�ndrome bem conhecida de todo jornalista investigativo nos momentos de crise.</p><p>Enquanto alguns afundam na tristeza, o jornalista investigativo cresce em compet�ncia. Apesar da bordoada recebida por todos na reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> na quinta-feira de manh�, o profissionalismo falou mais alto e foi canalizado para um trabalho intenso.</p><p>Para Mikael, isso era uma evid�ncia. Dag era da mesma t�mpera e teria reagido da mesma forma se estivesse no lugar dele. Teria se perguntado o que poderia fazer por Mikael. Dag deixara os originais de um livro explosivo. Trabalhara v�rios anos coletando dados e selecionando fatos, uma tarefa na qual investira a alma e que n�o teve oportunidade de levar a cabo.</p><p>E, al�m do mais, ele trabalhava na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>O assassinato de Dag Svensson e Mia Bergman n�o significava um trauma nacional como o de Olof Palme, por exemplo, e n�o haveria luto oficial. Para os funcion�rios da <emphasis>Millennium,</emphasis> por�m, talvez fosse um choque maior - afetava-os diretamente. E Dag Svensson possu�a uma ampla rede de contatos no meio jornal�stico, que iriam exigir uma resposta a suas indaga��es.</p><p>Cabia agora a Mikael e Erika concluir o trabalho de Dag para o livro, e tamb�m responder �s perguntas quem e por qu�.</p><p>�Posso reconstituir o texto - disse Mikael. �Malu e eu vamos ter que retomar o livro linha por linha e acrescentar elementos da nossa pesquisa para conseguir responder �s perguntas. De forma geral, basta seguir o fio das anota��es de Dag, s� fica o problema dos cap�tulos quatro e cinco, que acima de tudo se baseiam nas entrevistas da Mia, e a� n�s simplesmente desconhecemos as fontes. Mas, a n�o ser por umas poucas exce��es, acho que podemos usar as refer�ncias da tese dela como fonte prim�ria.</p><p>�Falta o �ltimo cap�tulo.</p><p>�� verdade. Mas tenho o rascunho do Dag, e falamos tantas vezes sobre isso que sei perfeitamente o que ele tinha a inten��o de dizer. Sugiro que a gente o coloque num p�s-escrito, onde eu tamb�m poderia comentar o racioc�nio dele.</p><p>�Est� bem. Mas vou querer ver antes de dar o meu aval. A gente n�o pode sair falando como se fosse ele.</p><p>�N�o se preocupe. Meu cap�tulo vai ser uma reflex�o pessoal, assinada por mim. Vai ficar bem claro que sou eu que est� escrevendo e n�o ele. Vou contar por que ele come�ou a trabalhar nesse livro e que tipo de homem ele era. E vou concluir recapitulando o que ele me disse em mais de dez conversas que tivemos nos �ltimos meses. Tamb�m posso citar v�rios trechos do rascunho dele. Pode resultar em algo bem respeit�vel.</p><p>�Droga... estou com uma vontade incr�vel de publicar esse livro - disse Erika.</p><p>Mikael meneou a cabe�a. Entendia perfeitamente o que ela queria dizer. Tamb�m ele estava impaciente.</p><p>�Voc� tem alguma novidade? - ele perguntou.</p><p>Erika Berger depositou os �culos de leitura sobre a mesa e balan�ou a cabe�a. Levantou-se e serviu duas x�caras de caf� da garrafa t�rmica, depois se instalou na frente de Mikael.</p><p>�O Christer e eu temos um rascunho para o pr�ximo n�mero. Vamos pegar dois artigos que iam para o n�mero seguinte, e pedimos contribui��es para os frilas. S� vai ficar um n�mero meio misturado, sem um tema de fato.</p><p>Permaneceram um momento calados.</p><p>�Voc� viu o notici�rio? - perguntou Erika. Mikael balan�ou a cabe�a.</p><p>�N�o. J� sei o que eles v�o dizer.</p><p>�O assassinato ocupa a maior parte do notici�rio. Fora isso, s� falam numa tomada de posi��o dos liberais.</p><p>�O que significa que n�o est� acontecendo absolutamente mais nada no pa�s.</p><p>�A pol�cia ainda n�o divulgou o nome de Dag e Mia. Eles s�o descritos como um casal �exemplar�. Ainda n�o disseram que foi voc� que os encontrou.</p><p>�Aposto como os tiras v�o fazer de tudo para esconder essa informa��o. Isso, pelo menos, joga a nosso favor.</p><p>�Por que a pol�cia ia querer ocultar isso?</p><p>�Porque a pol�cia, por princ�pio, n�o gosta do estardalha�o que a m�dia faz. Eu tenho algum valor como objeto de informa��o, portanto os tiras acham muito bom que ningu�m saiba que fui eu que encontrei os dois. Imagino que a coisa v� acabar vazando hoje � noite ou amanh�.</p><p>�T�o jovem e j� t�o c�nico.</p><p>�N�o estamos mais t�o jovens, Ricky querida. Pensei nisso quando aquela policial me interrogou na noite passada. Ela parecia ter idade de ainda estar na escola.</p><p>Erika deu uma risadinha. Ela conseguira dormir algumas horas na noite anterior, mas tamb�m come�ava a sentir cansa�o. Em breve, iria surpreender todo mundo apresentando-se como redatora-chefe de um dos maiores jornais do pa�s. N�o - <emphasis>n�o � um bom momento para anunciar a novidade ao Mikael.</emphasis></p><p>�O Henry Cortez me ligou agora h� pouco. Um tal de Ekstr�m, que est� � frente do inqu�rito preliminar, deu uma esp�cie de coletiva de imprensa l� pelas tr�s da tarde - disse ela.</p><p>�Richard Ekstr�m?</p><p>�Sim. Voc� conhece?</p><p>�Uma figura pol�tica. Barulho garantido na m�dia. As v�timas n�o eram dois feirantes imigrados. Vai haver o maior estardalha�o em torno dessa hist�ria.</p><p>�Em todo caso, ele afirma que a pol�cia est� seguindo algumas pistas e tem esperan�a de que ir� resolver o caso rapidamente. Em suma: n�o disse nada. Em compensa��o, a sala da coletiva estava lotada de jornalistas.</p><p>Mikael deu de ombros. Esfregou os olhos.</p><p>�N�o consigo me livrar da vis�o do corpo da Mia. J� pensou? Eu acabava de conhecer os dois.</p><p>Erika meneou tristemente a cabe�a.</p><p>�S� nos resta esperar. Deve ser um louco varrido...</p><p>�N�o sei. Fiquei pensando nisso o dia todo.</p><p>�O que voc� quer dizer?</p><p>�A Mia foi atingida de lado. Vi que a bala entrou de um lado do pesco�o e saiu pela testa. O Dag foi morto de frente, com um tiro na testa, e a bala saiu por tr�s da cabe�a. At� onde pude ver, s� houve dois disparos. N�o d� a impress�o de ser coisa de um demente.</p><p>Erika contemplou o colega, pensativa.</p><p>�O que voc� est� tentando me dizer?</p><p>�Se n�o � coisa de um demente, � que deve haver um motivo. E quanto mais eu penso nisso, mais tenho a impress�o que este manuscrito � a porra do motivo.</p><p>Mikael apontou para o calhama�o de pap�is em cima da mesa de Erika. Erika acompanhou seu olhar. Ent�o seus olhares se cruzaram.</p><p>�N�o h� necessariamente uma rela��o com o livro em si. Eles talvez tenham fu�ado demais e conseguido... n�o sei. Algu�m se sentiu amea�ado.</p><p>�E contratou um matador. Micke, essas coisas acontecem nos filmes americanos. Esse livro � sobre clientes sexuais. Envolve principalmente tiras, pol�ticos, jornalistas... Quer dizer que um deles � que teria matado o Dag e a Mia?</p><p>�N�o sei, Ricky. Mas est�vamos a tr�s semanas de publicar a bomba mais explosiva que j� se publicou na Su�cia sobre tr�fico de mulheres.</p><p>Nisso, Malu Eriksson apontou a cabe�a no v�o da porta e anunciou que um tal inspetor Jan Bublanski desejava falar com Mikael Blomkvist.</p><p>Bublanski apertou a m�o de Erika Berger e Mikael Blomkvist e sentou-se na terceira poltrona perto da janela. Observou Mikael Blomkvist e viu um homem com olhos fundos e o rosto coberto por uma barba de dois dias.</p><p>�Alguma novidade? - perguntou Mikael Blomkvist.</p><p>�Talvez. Quer dizer que foi o senhor quem descobriu o casal em Enskede ontem � noite e alertou a pol�cia.</p><p>Mikael meneou a cabe�a, cansado.</p><p>�Eu sei que j� contou tudo � brigada de plant�o, mas gostaria que me esclarecesse alguns detalhes.</p><p>�O que quer saber?</p><p>�Por que o senhor foi � casa de Svensson e Bergman t�o tarde da noite?</p><p>�Isso n�o � um detalhe, � uma novela inteira � disse Mikael com um sorriso cansado. �Eu estava jantando na casa da minha irm�, ela mora no gueto dos novos-ricos, em St�ket. O Dag Svensson me ligou no celular dizendo que n�o ia ter tempo de ir at� a reda��o na Quinta-feira Santa, hoje, portanto, como hav�amos combinado de manh�. Ele precisava deixar umas fotos para o Christer Malm. Explicou que ele - a Mia tinham resolvido passar a P�scoa com os pais dela e queriam viajar bem cedo. Perguntou se poderia deixar as fotos na minha casa antes de viajar. Falei que como eu estava mesmo ali perto, podia fazer um desvio e pegar as fotos quando sa�sse da casa da minha irm�.</p><p>�Quer dizer ent�o que o senhor foi at� Enskede para pegar umas fotos.</p><p>Mikael assentiu.</p><p>�Voc�s conseguem imaginar algum motivo para matarem Svensson e Bergman?</p><p>Mikael e Erika trocaram um olhar discreto. Ambos permaneceram em sil�ncio.</p><p>�Sim, estou escutando... - disse Bublanski.</p><p>�� claro que n�s conversamos sobre o assunto hoje, mas n�o concordamos totalmente. Ou melhor: concordamos, s� que n�o estamos muito seguros. N�o d� para falar bobagem.</p><p>�Fale assim mesmo.</p><p>Mikael explicou o conte�do do livro de Dag Svensson e uma eventual rela��o com os assassinatos que Erika e ele tinham imaginado. Bublanski ficou alguns instantes calado, digerindo a informa��o.</p><p>�Se eu entendi bem, Dag Svensson estava prestes a denunciar alguns policiais.</p><p>Ele n�o estava gostando nada do rumo da conversa e j� podia imaginar uma �pista policial� circulando algum tempo na m�dia, enfeitada com todo tipo de del�rio sobre um vasto compl�.</p><p>�N�o - respondeu Mikael. �O Dag Svensson estava prestes a denunciar criminosos, sendo que entre eles, por acaso, h� alguns policiais. Tamb�m h� gente da minha profiss�o, ou seja, jornalistas.</p><p>�E voc�s est�o pretendendo tornar p�blica essa informa��o? Mikael virou-se vagamente para Erika.</p><p>�N�o - disse Erika Berger. �Passamos o dia cancelando o trabalho do pr�ximo n�mero, que j� estava em andamento. Muito provavelmente, vamos publicar o livro de Dag Svensson, mas s� quando soubermos o que aconteceu, e nas atuais circunst�ncias o livro precisa ser retrabalhado. N�o temos a menor inten��o de sabotar a investiga��o da pol�cia sobre o assassinato de dois amigos nossos, se � isso que o preocupa.</p><p>�Vou precisar dar uma olhada na sala de Dag Svensson, e, como se trata da reda��o de uma revista, um mandato de busca poderia mexer com algumas suscetibilidades.</p><p>�Vai encontrar todo o material no laptop do Dag - disse Erika.</p><p>��timo - disse Bublanski.</p><p>�Revistei a sala do Dag Svensson - disse Mikael. �Peguei algumas anota��es que identificam fontes que desejam permanecer an�nimas. O resto est� � sua disposi��o, e j� deixei um cartaz pedindo para que n�o mexam em nada e nem mudem nada de lugar. Mas tem tamb�m o conte�do do livro de Dag Svensson, que est� sob sigilo at� ser publicado. N�o queremos que o manuscrito v� parar nas m�os da pol�cia, principalmente porque estamos prestes a denunciar policiais.</p><p><emphasis>Droga, pensou</emphasis> Bublanski. <emphasis>Por que n�o mandei algu�m aqui j� de manh� cedo?</emphasis> Ent�o deixou o assunto de lado.</p><p>- Bem. H� uma pessoa que gostar�amos de ouvir sobre esses assassinatos. Tenho motivos para acreditar que o senhor a conhece. Gostaria que me dissesse tudo o que sabe sobre uma mulher chamada Lisbeth Salander.</p><p>Pelo espa�o de um segundo, Mikael Blomkvist ficou parecendo um ponto de interroga��o vivo. Bublanski observou Erika Berger lan�ar um olhar penetrante para Mikael.</p><p>�N�o estou entendendo.</p><p>�O senhor conhece a Lisbeth Salander.</p><p>�Sim, conhe�o a Lisbeth Salander.</p><p>�Conhece como?</p><p>�Por que est� me perguntando isso? Bublanski fez um gesto irritado com a m�o.</p><p>�Acabei de dizer, queremos ouvi-la sobre os assassinatos. Como � que o senhor a conhece?</p><p>�Mas... isso n�o faz sentido. A Lisbeth Salander n�o tem a menor liga��o com o Dag Svensson ou a Mia Bergman.</p><p>�Esse ponto vai ser examinado com todo o cuidado - respondeu Bublanski pacientemente. �Mas a pergunta permanece. Como conheceu Lisbeth Salander?</p><p>Mikael passou a m�o nas faces �speras e esfregou os olhos, enquanto os pensamentos davam voltas em sua cabe�a. Por fim, sustentou o olhar de Bublanski.</p><p>�Contratei a Lisbeth Salander para fazer uma pesquisa para mim num outro caso, dois anos atr�s.</p><p>�Do que se tratava?</p><p>�Lamento, mas a� entramos em quest�es relativas � constitui��o e � prote��o de fontes, esse tipo de coisa. Vai ter que acreditar na minha palavra: n�o tinha absolutamente nada a ver com Dag Svensson e Mia Bergman. Era um outro caso, que hoje j� est� encerrado.</p><p>Bublanski avaliou as palavras de Mikael. N�o gostava quando algu�m afirmava que existem segredos que n�o podem ser revelados, mesmo no contexto de uma investiga��o de homic�dio, mas optou por deixar para l� por enquanto.</p><p>�Qual foi a �ltima vez que viu Lisbeth Salander? Mikael refletiu antes de responder.</p><p>�A situa��o � a seguinte: no outono de dois anos atr�s, convivi com Lisbeth Salander. Nosso relacionamento se encerrou na �poca do Natal. Depois disso, ela saiu da cidade. Fiquei mais de um ano sem v�-la, at� uma semana atr�s.</p><p>Erika Berger ergueu uma sobrancelha. Bublanski sup�s que aquilo fosse novidade para ela.</p><p>�Fale sobre esse encontro.</p><p>Mikael inspirou fundo e ent�o descreveu sucintamente o incidente em frente ao pr�dio de Lisbeth Salander, na Lundagatan. Bublanski escutou, cada vez mais surpreso, tentando definir se Blomkvist estaria inventando aquilo tudo ou dizendo a verdade.</p><p>�Quer dizer ent�o que n�o falou com ela?</p><p>�N�o, ela sumiu entre os pr�dios no alto da Lundagatan. Esperei um bom tempo, mas ela n�o voltou. Escrevi uma carta pedindo para ela me dar not�cias.</p><p>�E n�o sabe de nenhuma liga��o entre ela e o casal de Enskede?</p><p>�Nenhuma.</p><p>�Bem... pode me descrever essa pessoa que o senhor diz que a agrediu?</p><p>�Eu n�o estou apenas dizendo. Ela foi atacada, se defendeu e fugiu. Eu estava a uns cinquenta metros. Era bem de noite e estava escuro.</p><p>�O senhor tinha bebido?</p><p>�Eu estava meio alto, sem d�vida, mas n�o b�bado de cair. Ele era loiro, tinha um rabo de cavalo. Usava uma jaqueta curta escura. Tinha uma barriga imensa. Quando cheguei ao alto da escadaria da Lundagatan, s� o vi de costas, e ele se virou para me bater. Tive a impress�o de que era um rosto magro, com olhos claros muito juntos.</p><p>�Por que n�o me contou isso antes? - perguntou Erika Berger. Mikael Blomkvist deu de ombros.</p><p>�Teve o final de semana, e voc� foi para G�teborg participar daquele maldito debate na tev�. Na segunda, voc� n�o estava, e na ter�a, a gente mal se cruzou. A hist�ria foi se diluindo.</p><p>�Mas considerando-se o que houve em Enskede... por que n�o contou esse incidente para a pol�cia? - perguntou Bublanski.</p><p>�E por que contaria? Sendo assim, eu tamb�m podia contar que um m�s atr�s peguei no ato um batedor de carteiras tentando me roubar no metr�. N�o h� nenhuma rela��o significativa entre a Lundagatan e o que aconteceu em Enskede.</p><p>�Mas o senhor n�o comunicou a agress�o � pol�cia?</p><p>�N�o - Mikael hesitou. �A Lisbeth Salander � uma pessoa que gosta do anonimato. Pensei em prestar queixa, mas depois achei que cabia a ela fazer isso. Eu queria, pelo menos, falar com ela antes.</p><p>�E o senhor n�o fez isso?</p><p>�N�o falo com Lisbeth Salander desde o Natal do ano passado.</p><p>�Por que a... rela��o de voc�s, se � que a palavra � essa, acabou?</p><p>O olhar de Mikael se ensombreceu. Ele pensou na resposta antes de falar.</p><p>�N�o sei. Ela cortou contato comigo da noite para o dia.</p><p>�Aconteceu alguma coisa?</p><p>�Se est� pensando em alguma briga ou esse tipo de coisa, n�o. Est�vamos em muito bons termos. Um dia depois do Natal, ela parou de atender ao telefone. Depois, sumiu da minha vida.</p><p>Bublanski refletiu sobre a explica��o de Mikael. Parecia sincera e era confirmada por Dragan Armanskij, cuja descri��o do sumi�o de Lisbeth Salander da Milton Security era mais ou menos parecida. Aparentemente, acontecera alguma coisa com Lisbeth Salander no inverno do ano anterior. Virou-se para Erika Berger.</p><p>�Tamb�m conhece a Lisbeth Salander?</p><p>�S� nos vimos uma vez. O senhor poderia me explicar por que est� fazendo todas essas perguntas sobre a Lisbeth Salander, relacionadas ao crime de Enskede? - perguntou Erika Berger.</p><p>Bublanski balan�ou a cabe�a.</p><p>�Existe uma liga��o entre ela e o local do crime. � s� o que posso dizer. Em compensa��o, posso dizer que quanto mais ou�o falar em Lisbeth Salander, mais perplexo eu fico. Como � que ela era, como pessoa?</p><p>�Sob que ponto de vista? - perguntou Mikael.</p><p>�Como o senhor a descreveria?</p><p>Mikael permaneceu um bom tempo em sil�ncio.</p><p>�� uma pessoa muito sozinha e diferente. Socialmente fechada. N�o gostava de falar de si mesma. Ao mesmo tempo, � dotada de uma vontade muito forte. E tem um grande senso moral.</p><p>�Moral?</p><p>�Sim. Uma moral muito pr�pria. Ningu�m consegue obrig�-la a nada que n�o seja da vontade dela. No mundo da Lisbeth, as coisas ou s�o �boas� ou s�o �ruins�, por assim dizer.</p><p>Bublanski pensou que Mikael Blomkvist, mais uma vez, a descrevia do mesmo modo que Dragan Armanskij. Dois homens que a conheciam a avaliavam da mesma maneira.</p><p>�Conhece Dragan Armanskij? - perguntou Bublanski.</p><p>�Nos vimos duas ou tr�s vezes. Tomei uma cerveja com ele no ano passado, na �poca em que eu tentava descobrir o que era feito da Lisbeth.</p><p>�O senhor disse que ela era uma investigadora competente - repetiu Bublanski.</p><p>�A melhor que eu j� conheci - repetiu Mikael.</p><p>Bublanski tamborilou com os dedos durante uns segundos, enquanto contemplava pela janela a multid�o que andava pela G�tgatan. Sentia-se estranhamente dividido. O dossi� da psiquiatria legal que Hans Faste obtivera na Comiss�o de Tutelas afirmava que Lisbeth Salander era uma pessoa marcada por transtornos ps�quicos profundos, inclinada � viol�ncia e praticamente retardada. As respostas fornecidas tanto por Armanskij como por Blomkvist contrariavam com veem�ncia a imagem que a avalia��o psiqui�trica firmara ao longo de anos de observa��o. Ambos a descreviam como uma pessoa diferente, mas ambos tinham tamb�m uma pontinha de admira��o na voz.</p><p>Blomkvist tamb�m dizia que tinha convivido com ela por algum tempo o que indicava algum tipo de rela��o sexual. Bublanski se perguntava que regras eram levadas em conta quando se declarava uma pessoa incapaz. Blomkvist poderia ter cometido alguma forma de abuso sexual ao explorar uma pessoa em situa��o de depend�ncia?</p><p>�E como o senhor encarava a defici�ncia de socializa��o dela? - perguntou.</p><p>�Defici�ncia? - perguntou Mikael.</p><p>�A coloca��o sob tutela e seus problemas ps�quicos.</p><p>�Coloca��o sob tutela? - exclamou Mikael.</p><p>O olhar de Bublanski passou de Mikael Blomkvist para Erika Berger. <emphasis>Eles n�o sabem. Eles realmente n�o sabem.</emphasis> S�bito, Bublanski ficou muito irritado com Armanskij, Blomkvist e, sobretudo, com Erika Berger e suas roupas chiques e seu escrit�rio elegante com vista para a G�tgatan. <emphasis>Essa a� � das que imp�em suas opini�es aos outros.</emphasis> Direcionou, por�m, sua irrita��o a Mikael.</p><p>�N�o consigo entender qual o problema com o senhor e com Armanskij - disse.</p><p>�Como?</p><p>�A Lisbeth Salander andou entrando e saindo do HP desde a adolesc�ncia - Bublanski disse afinal. - Um exame de psiquiatria legal e um julgamento proferido pelo tribunal de inst�ncias determinaram que ela n�o tem condi��es de gerir a pr�pria vida. Foi declarada incapaz. Ela tem uma comprovada tend�ncia � viol�ncia e manteve rela��es conflituadas com as autoridades a vida inteira. E agora � altamente suspeita de... cumplicidade num duplo homic�dio. Mas tanto o senhor como Armanskij falam nela como se fosse uma esp�cie de princesa.</p><p>Mikael Blomkvist quedou-se absolutamente im�vel e fitou Bublanski.</p><p>�Permitam que eu coloque as coisas assim - prosseguiu Bublanski. �Est�vamos procurando um elo entre Lisbeth Salander e o casal de Enskede. E o que se descobriu � que esse elo � o senhor, que encontrou os corpos. Gostaria de comentar esse fato?</p><p>Mikael se recostou na cadeira. Fechou os olhos e tentou recapitular a situa��o. Lisbeth Salander era suspeita de ter assassinado Dag e Mia. N�o <emphasis>pode ser. � absurdo.</emphasis> Ela seria capaz de matar? De repente, Mikael se lembrou do rosto dela, dois anos antes, quando se jogara sobre Martin Vanger com um taco de golfe. <emphasis>Ela o teria matado sem pensar duas vezes. N�o matou porque teve de parar para salvar a minha vida.</emphasis> Tocou maquinalmente o pesco�o, no lugar onde o n� corredi�o de Martin Vanger o apertara. Agora, Dag e Mia... <emphasis>n�o faz sentido.</emphasis></p><p>Ele tinha consci�ncia de que Bublanski o observava atentamente. Tal como Dragan Armanskij, ele tinha uma escolha a fazer. Se Lisbeth Salander era suspeita de assassinato, mais cedo ou mais tarde ele seria obrigado a decidir de que lado do ringue queria ficar. <emphasis>Culpada ou inocente?</emphasis></p><p>Antes que tivesse tempo de responder, o telefone da mesa de Erika tocou. Ela atendeu e passou o aparelho para Bublanski.</p><p>�Um tal de Hans Faste quer falar com o senhor.</p><p>Bublanski pegou o telefone e escutou com aten��o. Mikael e Erika viram sua fisionomia se alterar.</p><p>�V�o entrar quando? Sil�ncio.</p><p>�Qual � mesmo o endere�o?... Lundagatan... entendido, n�o � muito longe, estou indo.</p><p>Bublanski se levantou de repente.</p><p>�Me desculpem, preciso interromper nossa conversa. Acabam de achar o atual tutor de Lisbeth Salander morto com um tiro, e a partir de agora ela est� sendo procurada e acusada, � revelia, de tr�s assassinatos.</p><p>Erika Berger ficou boquiaberta. Mikael Blomkvist parecia ter sido atingido por um raio.</p><p>Entrar no apartamento da Lundagatan foi um procedimento relativamente simples do ponto de vista t�tico. Hans Faste e Curt Bolinder se encostaram no cap� do carro e ficaram esperando os homens do grupo de interven��o, pesadamente armados, ocuparem a escadaria e entrarem no p�tio.</p><p>Passados dez minutos, o comando constatara o que Faste e Bolinder j� sabiam. Ningu�m atendia quando batiam na porta.</p><p>Hans Faste olhou para a rua que, para irrita��o dos passageiros do �nibus 66, estava bloqueada entre a Zinkensdamm e a igreja de H�galid. Um �nibus se achava preso na subida da �rea interditada e n�o podia mais avan�ar nem recuar. Por fim, Faste se aproximou e ordenou a um policial uniformizado que se afastasse e deixasse o �nibus seguir. Da passarela sobre a Lundagatan, uma por��o de curiosos contemplava a cena ca�tica.</p><p>�Deve haver um jeito mais simples - disse Faste.</p><p>�Mais simples que o qu�? - perguntou Bolinder.</p><p>�Mais simples que chamar um comando toda vez que se vai prender um delinquente nos dias de hoje.</p><p>Curt Bolinder se absteve de fazer um coment�rio.</p><p>�Afinal, trata-se de uma mina de um metro e cinquenta que deve pesar uns quarenta quilos - disse Faste.</p><p>Ficara decidido que n�o seria preciso arrombar a porta. Bublanski chegou enquanto eles esperavam que um chaveiro furasse a fechadura e se afastasse para deixar entrar a tropa no apartamento. Levaram cerca de oito segundos para inspecionar os quarenta e nove metros quadrados e concluir que Lisbeth Salander n�o estava escondida debaixo da cama, nem no banheiro, nem dentro de um arm�rio. Em seguida, fizeram sinal para que Bublanski entrasse.</p><p>Os tr�s policiais examinaram com olhar curioso o apartamento impecavelmente limpo e arrumado com muito bom gosto. Os m�veis eram simples. As cadeiras da cozinha tinham sido pintadas em diferentes tons pastel. Nas paredes havia fotos art�sticas em preto e branco, emolduradas. Num v�o do hall de entrada, uma prateleira com um CD-player e uma vasta cole��o de discos. Bublanski observou que a sele��o era ampla, indo do <emphasis>hard rock</emphasis> � �pera. Parecia tudo muito <emphasis>in.</emphasis> Est�tico. De muito bom gosto.</p><p>Curt Bolinder examinou a cozinha e n�o achou nada de especial. Folheou uma pilha de jornais e verificou a bancada, os arm�rios e o congelador.</p><p>Faste abriu os arm�rios e as gavetas da c�moda do quarto. Deu um assobio ao descobrir umas algemas e um bocado de brinquedos sexuais. Num arm�rio, encontrou uma cole��o de roupas de l�tex que deixaria sua m�e encabulada, mesmo que ela desse s� uma r�pida olhada naquilo.</p><p>�Essas duas parece que n�o se entediam! - disse ele, brandindo um vestido de vinil que, de acordo com a etiqueta, era uma cria��o da Domino Fashion. �Sabe l� o que � isto.</p><p>Bublanski notou, sobre o m�vel do hall, uma pequena pilha de cartas ainda fechadas e endere�adas a Lisbeth Salander. Deu uma olhada e constatou que se tratava de faturas e extratos banc�rios, al�m de uma carta pessoal. Era de Mikael Blomkvist. Quer dizer que, at� a�, a hist�ria de Blomkvist estava batendo. Em seguida, abaixou-se para juntar a correspond�ncia no ch�o, atr�s da porta, pisoteada pela tropa de interven��o. Estavam ali a revista <emphasis>Thai Pro Boxing,</emphasis> o jornal gratuito <emphasis>S�dermalmsnytt</emphasis> e tr�s envelopes. Todos endere�ados a Miriam Wu.</p><p>Bublanski foi tomado por uma suspeita desagrad�vel. Entrou no banheiro e abriu o arm�rio acima da pia. Encontrou uma caixa de analg�sicos e meio frasco de Citadon. O Citadon s� era vendido com receita m�dica. A etiqueta do frasco mencionava Miriam Wu. Havia uma �nica escova de dente� no arm�rio.</p><p>�Faste, por que est� escrito Salander-Wu na porta? - perguntou. �N�o fa�o id�ia � respondeu Faste. �Est� bem, vou perguntar de outro jeito: por que tem correspond�ncia para uma tal de Miriam Wu no hall e um frasco de Citadon para Miriam Wu no arm�rio do banheiro? Por que s� h� uma escova de dente? E por que... se, de acordo com as informa��es, Lisbeth Salander tem mesmo o tamanho de uma menina... por que esta cal�a de couro que voc� tem na m�o parece servir numa pessoa que mede no m�nimo um metro e setenta e cinco?</p><p>Houve um sil�ncio constrangido no apartamento. Foi quebrado por Curt Bolinder.</p><p>�Merda! - disse ele simplesmente.</p></section><section><p><strong><emphasis>15 - QUINTA-FEIRA 24 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Christer Malm se sentia cansado e deprimido quando finalmente voltou para casa depois daquele dia de trabalho imprevisto. Da cozinha vinha o aroma de um prato ex�tico, e ele foi dar um beijo no namorado.</p><p>�Como voc� est�? - perguntou Arnold Magnusson.</p><p>�Como um saco de merda - disse Christer.</p><p>�Falaram no assunto o dia inteiro no notici�rio. Ainda n�o deram nenhum nome. Mas � uma hist�ria horrorosa.</p><p>�� bem isso, uma hist�ria horrorosa. O Dag trabalhava para n�s. Era um amigo, eu gostava muito dele. Eu n�o conheci a companheira dele, a Mia, mas o Micke conheceu, e a Erika tamb�m.</p><p>Christer olhou para a cozinha. Eles acabavam de comprar aquele apartamento no Allhelgonatan e fazia s� tr�s meses que tinham se mudado. De repente, o apartamento se transformara num mundo completamente estranho.</p><p>O telefone tocou. Christer e Arnold se olharam e decidiram ignorar. Em seguida, a secret�ria eletr�nica foi acionada e eles ouviram uma familiar.</p><p>�Christer. Voc� est� a�? Atende.</p><p>Erika Berger estava ligando para avisar que a pol�cia suspeitava que a antiga investigadora de Mikael Blomkvist era a autora do assassinato de Dag e Mia.</p><p>Christer recebeu a not�cia com uma sensa��o de irrealidade.</p><p>Henry Cortez perdera a invas�o da Lundagatan pelo simples motivo de que estivera o tempo todo em frente ao centro de comunica��o da pol�cia e, concretamente, ainda estava l�, esperando por not�cias. Nada de novo surgira desde a breve coletiva de imprensa no in�cio da tarde. Ele estava cansado, com fome e nervoso por ser regularmente recha�ado pelas pessoas que tentava contatar. S� por volta das seis horas, depois de terminada a blitz no apartamento de Lisbeth Salander, � que ele conseguiu interceptar um coment�rio de que a pol�cia tinha um suspeito. O mais irritante � que essa informa��o vinha de um colega da imprensa vespertina mais enturmado com a sua reda��o. Pouco depois, Henry finalmente conseguiu o n�mero do celular pessoal do procurador Richard Ekstr�m. Apresentou-se e fez as perguntas apropriadas: quem, como e por qu�.</p><p>�De que ve�culo o senhor disse que era? - perguntou Richard Ekstr�m.</p><p>�Da revista <emphasis>Millennium.</emphasis> Eu conhecia uma das v�timas. De acordo com uma fonte, a pol�cia est� procurando por uma pessoa espec�fica. O que est� acontecendo?</p><p>�N�o posso adiantar nada por enquanto.</p><p>�Quando o senhor vai poder me dizer alguma coisa?</p><p>�Talvez haja outra coletiva de imprensa mais tarde.</p><p>O procurador Richard Ekstr�m parecia evasivo. Henry Cortez mexeu na argola de ouro que usava na orelha.</p><p>�As coletivas de imprensa s�o mais dirigidas aos jornalistas de informa��o geral, que repassam o fato para divulga��o imediata. Eu trabalho para uma revista mensal e temos um interesse bem pessoal em saber o que anda acontecendo.</p><p>�N�o posso ajud�-lo. Vai ter que esperar como todo mundo.</p><p>�De acordo com as minhas fontes, est�o procurando por uma mulher. De quem se trata?</p><p>�N�o posso dizer nada.</p><p>�O senhor desmente que estejam procurando uma mulher?</p><p>�N�o, j� disse: n�o posso dizer nada...</p><p>O inspetor Jerker Holmberg estava parado na porta do quarto contemplando, pensativo, a enorme po�a de sangue no lugar onde Mia Bergman tinha sido encontrada. Virando a cabe�a, sem mudar de lugar, avistava uma po�a semelhante ali onde estivera Dag Svensson. Pensava na grande quantidade de sangue. Havia muito mais sangue que em outros ferimentos a bala que ele j� tinha visto, o que indicava que tinham usado uma muni��o capaz de causar um estrago terr�vel, o que, por sua vez, confirmava a hip�tese do delegado M�rtensson de que o assassino usara muni��o de ca�a. O sangue coagulado se tornara uma mancha preta e cor de ferrugem que cobria t�o extensamente o piso que os param�dicos e t�cnicos tinham sido obrigados a pisar nela, deixando assim marcas em todo o apartamento. Holmberg cobrira seus t�nis com sacos de pl�stico azul.</p><p>Para ele, a verdadeira investiga��o do crime come�ava agora. Os corpos das duas v�timas tinham sido removidos. Jerker Holmberg estava sozinho no local depois da sa�da dos dois t�cnicos. Eles tinham fotografado as v�timas, medido os respingos de sangue nas paredes e discutido sobre as �reas respingadas e a velocidade dos pingos. Holmberg conhecia aquele tipo de especula��o, mas s� mostrara um interesse distra�do pelos exames t�cnicos. O trabalho dos t�cnicos iria resultar num relat�rio volumoso que revelaria detalhadamente onde o assassino se posicionara em rela��o �s v�timas e a que dist�ncia e em que ordem os tiros tinham sido disparados, e quais impress�es digitais poderiam ter alguma import�ncia. Para Jerker Holmberg, por�m, isso n�o apresentava o menor interesse. Os exames t�cnicos n�o forneceriam uma s� palavra sobre a identidade do assassino nem sobre o motivo que ele ou ela - j� que o principal suspeito era uma mulher - tivera para cometer aqueles crimes. Eram essas perguntas que cabia a ele elucidar.</p><p>Jerker Holmberg come�ou pelo quarto. Colocou uma pasta surrada numa cadeira e pegou um ditafone, uma c�mera digital e um bloco de anota��es.</p><p>Primeiro, abriu as gavetas de uma c�moda que ficava atr�s da porta. As duas gavetas superiores continham roupa de baixo, pul�veres e um porta-joias que obviamente tinham pertencido a Mia Bergman. Disp�s os objetos sobre a cama e examinou o porta-joias em detalhes, concluindo que n�o continha nada de grande valor. Na gaveta de baixo achou dois �lbuns de fotos e duas pastas com contas dom�sticas. Ligou o ditafone.</p><p><emphasis>�Relat�rio de apreens�o na Bj�rneborgsv�gen, n�mero 8b. Dormit�rio, gaveta inferior da c�moda. Dois �lbuns de fotografias encadernados, formato A4. Uma pasta preta intitulada �Dom�stico� e uma pasta azul intitulada �Certid�es de Propriedades�, com documentos referentes ao financiamento e � amortiza��o de um apartamento. Uma caixa com cartas, postais e objetos pessoais.�</emphasis></p><p>Levou os objetos at� o hall e os enfiou numa sacola de viagem. Prosseguiu nas gavetas dos criados-mudos de um lado e outro da cama de casal, por�m n�o encontrou nada de interessante. Abriu os arm�rios e separou as roupas, tateou todos os bolsos e xeretou os sapatos em busca de algum objeto esquecido ou escondido, depois voltou a aten��o para as prateleiras superiores. Abriu caixas grandes e pequenas. Encontrou aqui e ali pap�is e objetos que, por diferentes motivos, incluiu no relat�rio de apreens�o.</p><p>A um canto do quarto, tinham conseguido encaixar uma escrivaninha. Era um min�sculo espa�o de trabalho, com um computador Compaq e um monitor antigo. Embaixo da escrivaninha havia um m�vel com rodinhas e, ao lado, uma prateleira baixa. Sabendo que naquele espa�o de trabalho � que ele provavelmente daria com os achados mais importantes - na medida em que houvesse achados - ele o deixou para o fim. Voltou, portanto, � sala e prosseguiu o exame do local do crime. Abriu a cristaleira e conferiu minuciosamente cada pote, cada caixa e cada prateleira. Depois seu olhar convergiu para a estante grande de livros que formava um �ngulo com a parede externa e a parede do banheiro. Pegou uma cadeira e primeiro verificou se havia algo escondido no topo do m�vel. Depois inspecionou as prateleiras, uma por uma, tirando os livros, para se certificar de que n�o tinha nada escondido atr�s deles, e folheando-os rapidamente. Uma boa meia hora depois, guardou o �ltimo volume na estante. Na mesa de jantar achava-se agora uma pequena pilha de livros que, por um motivo ou outro, chamaram sua aten��o. Ligou o ditafone e falou.</p><p><emphasis>�Da estante de livros da sala. Um livro de Mikael Blomkvist,</emphasis> O banqueiro da m�fia. <emphasis>Um livro em alem�o intitulado</emphasis> Der Staat und die Autonomen, <emphasis>um livro sueco intitulado</emphasis> Terrorismo revolucion�rio, <emphasis>al�m de um livro ingl�s,</emphasis> Islamic Jihad.�</p><p>Pegou automaticamente o livro de Mikael Blomkvist, uma vez que o autor fora mencionado na investiga��o preliminar. Os outros tr�s pareciam mais obscuros. Jerker Holmberg ignorava se os assassinatos tinham alguma conota��o pol�tica - n�o dispunha de nenhum elemento que indicasse que Dag Svensson e Mia Bergman eram politicamente engajados. Os livros podiam expressar um simples interesse geral pela pol�tica, ou mesmo estar ali por serem necess�rios para algum trabalho jornal�stico. Em compensa��o, ponderou que se havia dois cad�veres num apartamento que continha livros sobre terrorismo pol�tico, fazia todo o sentido registrar o fato. Os livros foram, portanto, colocados na sacola de objetos apreendidos.</p><p>Depois, passou alguns minutos examinando as gavetas de uma pequena c�moda antiga e bastante danificada. Sobre ela havia um CD-player, e as gavetas continham uma vasta cole��o de discos. Jerker Holmberg gastou trinta minutos abrindo todas as caixinhas de CD para conferir se o disco correspondia � capa. Achou uma d�zia de capas n�o impressas, ou seja, CDs gravados em casa ou pirateados; colocou cada um deles no aparelho de CD e concluiu que n�o continham nada al�m de m�sica. Deteve-se um bom tempo diante do <emphasis>rack</emphasis> abarrotado de videocassetes, junto � porta do quarto. Testou v�rios deles e observou que havia de tudo, desde filmes de a��o copiados at� uma miscel�nea de programas de variedades e reportagens, Os <emphasis>fatos falam, Insider</emphasis> e <emphasis>Contra-investiga��o.</emphasis> Mencionou trinta e seis cassetes no relat�rio de apreens�o. Ent�o foi at� a cozinha, abriu uma garrafa t�rmica de caf� e fez uma breve pausa antes de prosseguir.</p><p>Na prateleira de um arm�rio da cozinha, ele pegou certa quantidade de frascos e caixinhas, que obviamente constitu�am a reserva de medicamentos da casa. Colocados num saco pl�stico, foram todos fazer companhia aos demais objetos apreendidos. Ele tirou os alimentos do arm�rio e do refrigerador, e abriu cada pote, cada pacote de caf� e cada garrafa j� em uso. Num vaso de flores no peitoril da janela, encontrou 1220 coroas e uns recibos de caixa. Imaginou que fosse uma esp�cie de fundo para as compras do dia a dia. N�o achou nada de fundamental import�ncia. No banheiro, n�o fez nenhuma apreens�o. Em compensa��o, o cesto de roupa suja estava transbordando e ele verificou todas as roupas. Do arm�rio do hall de entrada, tirou casacos e jaquetas e examinou os bolsos.</p><p>Encontrou a carteira de Dag Svensson no bolso interno de uma jaqueta, e a incluiu no relat�rio de apreens�o. Havia um cart�o de s�cio de um clube esportivo, um cart�o de cr�dito do Handelsbanken e quase quatrocentas coroas em dinheiro. Achou a bolsa de Mia Bergman e revistou por alguns minutos seu conte�do. Ela tamb�m tinha um cart�o do mesmo clube esportivo, um cart�o banc�rio, um cart�o das lojas Konsum e outro de um clube chamado Horisont, cujo logotipo era um globo terrestre. Havia, al�m disso, pouco mais de duas mil e quinhentas coroas em dinheiro, o que era uma quantia relativamente importante, mas n�o absurda, considerando-se que os dois planejavam passar o fim de semana prolongado fora de casa. O fato de o dinheiro estar na carteira diminu�a, al�m disso, a probabilidade de ter sido um assassinato por roubo.</p><p><emphasis>�Da bolsa de Mia Bergman na prateleira do hall. Uma agenda de bolso do tipo ProPlan, um caderno de endere�os e um bloco de anota��es encadernado.�</emphasis></p><p>Holmberg fez outra pausa para um caf� e ponderou que, por enquanto, fato bastante raro, n�o encontrara nada de doloroso ou de foro �ntimo e privado no apartamento do casal Svensson-Bergman. Nenhum acess�rio sexual escondido, nenhuma roupa �ntima loucamente sexy nem gavetas com filmes porn�s. N�o encontrara um esconderijo de ervas nem sinal de nenhuma atividade criminosa. Tudo indicava que se tratava de um casal comum de sub�rbio, a rigor (do ponto de vista policial) um pouco mais sem gra�a que o normal.</p><p>Para encerrar, voltou ao quarto e se instalou em frente � mesa de trabalho. Abriu a gaveta de cima. Passou a hora seguinte separando pap�is. N�o demorou para perceber que a escrivaninha e a prateleira continham uma quantidade consider�vel de documentos e livros de refer�ncia para a tese de doutorado de Mia Bergman, �Da R�ssia com amor�. A documenta��o estava cuidadosamente classificada, como numa boa investiga��o policial, e ele ficou algum tempo concentrado em certas passagens do texto. <emphasis>Essa Mia Bergman teria sido perfeita na brigada,</emphasis> constatou. Parte da prateleira estava meio vazia e continha, aparentemente, documentos que pertenciam a Dag Svensson. Eram sobretudo recortes de jornal de artigos seus e de temas do seu interesse.</p><p>Ficou algum tempo conferindo o computador. Continha quase 5 GB de dados, pastas, cartas, artigos e arquivos em PDF baixados da internet. Ou seja, ele n�o teria como ler aquilo tudo at� a noite. Acrescentou o computador e alguns CDs ao material apreendido, assim como um leitor com cerca de trinta disquetes ZIP.</p><p>Depois mergulhou por um breve instante numa reflex�o um tanto desorientada. At� onde conseguia avaliar, o computador continha o material de Mia Bergman. Dag Svensson era jornalista e deveria ter um computador como principal ferramenta de trabalho, mas naquela m�quina n�o havia sequer e-mails em seu nome. Portanto o computador de Dag Svensson devia estar em algum outro lugar. Jerker Holmberg se levantou e, refletindo, deu uma volta pelo apartamento. No hall de entrada havia uma mochila preta com o compartimento para computador vazio, mas que continha alguns blocos de anota��o de Dag Svensson. N�o achou nenhum laptop em lugar nenhum do apartamento. Pegou as chaves e desceu at� o p�tio para examinar o carro de Mia Bergman e o por�o. Tamb�m n�o encontrou nenhum laptop por l�.</p><p><emphasis>O que havia de estranho com aquele cachorro, meu caro Watson, � que ele n�o latia.</emphasis></p><p>No relat�rio de apreens�o, registrou que, no momento, parecia estar faltando um computador.</p><p>Bublanski e Faste se encontraram com o procurador Ekstr�m na sala dele por volta das seis e meia da tarde, assim que voltaram da Lundagatan. Por telefone, Curt Bolinder fora enviado � Universidade de Estocolmo para interrogar o orientador de Mia Bergman. Jerker Holmberg ainda estava em Enskede e Sonja Modig ficara incumbida de examinar o local do crime em Odenplan. Pouco mais de dez horas haviam transcorrido desde que Bublanski fora designado chefe das investiga��es, e sete horas desde o in�cio da ca�ada a Lisbeth Salander. Bublanski resumiu o que acontecera na Lundagatan.</p><p>�E quem � Miriam Wu? - perguntou Ekstr�m.</p><p>�Ainda n�o sabemos grande coisa sobre ela. N�o tem ficha na pol�cia. O Hans Faste vai se encarregar de procur�-la a partir de amanh�.</p><p>�Quer dizer que a Salander n�o est� na Lundagatan?</p><p>�Nada indica que ela more l�. Para come�ar, as roupas que est�o no arm�rio n�o s�o do tamanho dela.</p><p>�E que roupas, precisava ver! - disse Hans Faste.</p><p>�O que t�m as roupas? - perguntou Ekstr�m.</p><p>�N�o s�o bem do tipo que se d� de presente no Dia das M�es.</p><p>�Nesse momento, n�o sabemos nada sobre Miriam Wu - disse Bublanski.</p><p>�Caramba, o que mais a gente precisa? O arm�rio dela est� cheio de uniformes de puta.</p><p>�Uniformes de puta? - espantou-se Ekstr�m.</p><p>�Quer dizer, couro, vinil, cinta-liga e mais umas tralhas fetichistas e brinquedos sexuais numa gaveta. E n�o parece coisa barata.</p><p>�Voc� est� querendo dizer que Miriam Wu � uma prostituta?</p><p>�Neste momento, n�o sabemos nada sobre Miriam Wu - repetiu Bublanski, para ser mais claro.</p><p>�A investiga��o feita pelo Servi�o Social alguns anos atr�s dava a entender que Lisbeth Salander tinha um p� nesse universo - disse Ekstr�m.</p><p>�O Servi�o Social costuma saber do que est� falando - observou Faste.</p><p>�O relat�rio do Servi�o Social n�o se baseia em nenhuma interpela��o ou investiga��o - disse Bublanski. �A Salander foi pega no Parque de Tantolunden, quando tinha dezessete anos, na companhia de um homem muito mais velho. No mesmo ano, foi detida por embriaguez. Tamb�m na companhia de um homem de muito mais idade.</p><p>�Voc� quer dizer que n�o devemos tirar conclus�es precipitadas - disse Ekstr�m. �Certo. Mas chama a aten��o o tema da tese de Mia Bergman: tr�fico de mulheres e prostitui��o. Existe, portanto, uma possibilidade de ela ter tido contato com a Salander e com essa Miriam Wu por causa do trabalho, que as tenha provocado de alguma maneira e que isso tenha servido de motivo para o crime.</p><p>�A Bergman talvez tenha entrado em contato com o tutor e desencadeado uma esp�cie de avalanche - sugeriu Faste.</p><p>�Pode ser - disse Bublanski. �Mas cabe � investiga��o esclarecer esse ponto. O que importa no momento � encontrar Lisbeth Salander. Ela aparentemente n�o mora nesse endere�o da Lundagatan. O que significa que tamb�m temos que encontrar Miriam Wu e perguntar como ela foi parar nesse apartamento e qual a rela��o dela com a Salander.</p><p>�E como a gente faz para encontrar a Salander?</p><p>�Ela est� l� fora, em algum lugar. O problema � que o �nico endere�o que ela teve a vida inteira � esse da Lundagatan. N�o comunicou nenhuma mudan�a.</p><p>�N�o esque�a que ela tamb�m esteve internada no Sankt Stefan e entregue a diversas fam�lias adotivas.</p><p>�N�o esque�o. - Bublanski conferiu sua papelada. �Quando ela tinha quinze anos, foi adotada por tr�s fam�lias diferentes. N�o deu muito certo. Desde um pouco antes de completar dezesseis anos at� os dezoito anos, morou com um casal de H�gersten, Fredrik e Monika Gullberg. Curt Bolinder vai v�-los hoje � noite, depois de falar com o orientador da Mia Bergman na universidade.</p><p>�E sobre a coletiva de imprensa, o que a gente faz? �Faste quis saber.</p><p>�s sete da noite, o clima na sala de Erika Berger estava pesado. Mikael Blomkvist permanecera calado e praticamente im�vel desde que o inspetor Bublanski fora embora. Malu Eriksson tinha ido de bicicleta at� a Lundagatan para cobrir a interven��o da for�a policial. Voltou para contar que aparentemente ningu�m tinha sido preso e que o tr�nsito na rua j� estava liberado. Henry Cortez ligara para comunicar que a pol�cia estava procurando uma mulher cujo nome ainda n�o fora divulgado. Erika o informou sobre a identidade da mulher.</p><p>Erika e Malu conversaram sobre a conduta que deveriam adotar, mas n�o chegaram a nada sensato. A situa��o se complicava pelo fato de Mikael e Erika conhecerem o papel de Lisbeth Salander no caso Wennerstr�m - na qualidade de uma <emphasis>hacker</emphasis> de primeira categoria, ela tinha sido a fonte secreta de Mikael. Malu Eriksson desconhecia esse fato e nunca ouvira falar em Lisbeth Salander antes disso. Da� os misteriosos sil�ncios em meio � conversa.</p><p>�Vou para casa - disse Mikael Blomkvist, levantando-se de repente. �Estou t�o cansado que n�o consigo mais pensar. Preciso dormir.</p><p>Olhou para Malu.</p><p>�Temos bastante pano para manga. Amanh� � Sexta-feira Santa e pretendo aproveitar para dormir e separar uns documentos. Malu, voc� poderia trabalhar no fim de semana?</p><p>�Eu tenho escolha?</p><p>�N�o. Come�amos no s�bado ao meio-dia. Voc� n�o iria l� para casa em vez de ficar aqui na reda��o?</p><p>�Combinado.</p><p>�Quero reformular as diretrizes que definimos hoje de manh�. J� n�o se trata apenas de descobrir se as revela��es do Dag e da Mia tiveram alguma rela��o com o crime. Agora se trata de descobrir quem matou o Dag e a Mia.</p><p>Malu se perguntou como eles poderiam fazer isso, mas n�o disse nada. Mikael acenou despedindo-se de Malu e Erika e saiu sem mais nenhum coment�rio.</p><p>�s sete e quinze, Bublanski, o respons�vel pela investiga��o, acompanhou a contragosto o chefe do inqu�rito preliminar Ekstr�m at� o estrado do centro de comunica��o da pol�cia. A coletiva de imprensa fora marcada para as dezenove horas, e eles estavam quinze minutos atrasados. Ao contr�rio de Ekstr�m, Bublanski n�o tinha o menor interesse em ficar sob as luzes da ribalta diante de uma d�zia de c�meras de televis�o. Ser a estrela desse tipo de situa��o deixava-o, acima de tudo, em p�nico - nunca iria se acostumar a se ver na tev� e nunca sentiria prazer nisso.</p><p>Ekstr�m, em contrapartida, estava como um peixe dentro d��gua. Ajustou os �culos, exibindo uma fisionomia s�ria e adequada. Deixou que os fot�grafos disparassem seus flashes por alguns instantes antes de erguer as m�os e pedir sil�ncio na sala. Falou como se estivesse lendo um discurso pronto.</p><p>�Permitam-me desejar boas-vindas a todos nesta coletiva de imprensa um tanto apressada, sobre os assassinatos ocorridos ontem � noite em Enskede. Temos novas informa��es que gostar�amos de lhes comunicar. Meu nome � Richard Ekstr�m, sou procurador, e esse � o inspetor Jan Bublanski, da brigada criminal regional, que est� � frente das investiga��es. Vou ler um comunicado e em seguida os senhores podem fazer perguntas.</p><p>Ekstr�m calou-se e contemplou aquela tropa do corpo jornal�stico que se mobilizara em apenas meia hora. Os assassinatos de Enskede eram um assunto sensacional, em vias de crescer ainda mais. Constatou, satisfeito, que <emphasis>Aktuellt, Rapport</emphasis> e a TV4 estavam presentes, e reconheceu rep�rteres da ag�ncia TT e de v�rios jornais matutinos e vespertinos. Havia, al�m disso, um grande n�mero de rep�rteres que ele n�o conhecia. Ao todo, vinte e cinco jornalistas, pelo menos, estavam reunidos na sala.</p><p>�Como sabem, duas pessoas foram brutalmente assassinadas em Enskede ontem, pouco antes da meia-noite. Ao ser examinado o local do crime, foi encontrada uma arma, um Colt 45 Magnum. O Laborat�rio Criminal�stico do Estado confirmou hoje que se trata da arma do crime. Sabemos quem � o propriet�rio da arma e procuramos por ele durante o dia de hoje.</p><p>Ekstr�m fez uma pausa orat�ria.</p><p>�Hoje, por volta das dezessete horas, o propriet�rio da arma foi encontrado morto em sua casa, pr�xima de Odenplan. Foi atingido por um tiro e provavelmente j� estava morto na hora do duplo homic�dio de Enskede. A pol�cia �Ekstr�m virou a m�o na dire��o de Bublanski - tem fortes motivos para acreditar que se trata de um mesmo e �nico culpado, indiv�duo este que, portanto, est� sendo procurado por tr�s assassinatos.</p><p>Fez-se um burburinho entre os jornalistas quando muitos deles come�aram a sussurrar ao mesmo tempo em seus celulares. Ekstr�m elevou um pouco a voz.</p><p>�Voc�s t�m algum suspeito? - gritou um rep�rter de r�dio.</p><p>�Agrade�o se n�o me interromperem, j� estou terminando. A situa��o, neste momento, � de que uma pessoa foi identificada e que a pol�cia gostaria de interrog�-la sobre os tr�s assassinatos.</p><p>�De quem se trata?</p><p>�De uma mulher. A pol�cia est� procurando uma mulher de vinte e seis anos que tem uma liga��o com o propriet�rio da arma e que, sabemos, esteve no local do crime em Enskede.</p><p>Bublanski franziu o cenho e assumiu um ar severo. Estavam justamente abordando o item da pauta em que ele e Ekstr�m tinham discordado, ou seja, se o comando das investiga��es iria revelar o nome da pessoa fortemente suspeita de haver cometido os tr�s assassinatos. Bublanski achava melhor adiar. J� Ekstr�m acreditava que n�o podiam mais esperar.</p><p>Os argumentos de Ekstr�m eram irrefut�veis. A pol�cia procurava uma mulher conhecida, psiquicamente perturbada e com suspeitas bem fundamentadas de haver cometido tr�s assassinatos. Durante o dia, j� fora lan�ado um alerta em n�vel regional, e depois um nacional. Ekstr�m afirmava que Lisbeth Salander tinha de ser considerada perigosa, e portanto era do interesse geral que fosse detida o quanto antes.</p><p>Os argumentos de Bublanski eram mais vagos. Na sua opini�o, seria mais sensato o comando das investiga��es aguardar o resultado do exame t�cnico no apartamento do Dr. Bjurman antes de aderir de forma t�o un�voca a uma s� hip�tese.</p><p>Ao que Ekstr�m replicara que, de acordo com todos os elementos dispon�veis, Lisbeth Salander era uma mulher psiquicamente perturbada com propens�o � viol�ncia e que alguma coisa havia desencadeado um surto homicida. Nada podia garantir que os atos de viol�ncia iriam cessar.</p><p>�O que vamos fazer se, nas pr�ximas vinte e quatro horas, ela entrar em outro apartamento e assassinar mais algu�m? �Ekstr�m disparou.</p><p>Bublanski n�o tivera argumento para retrucar e Ekstr�m lembrara que n�o faltavam precedentes. Quando o triplo assassino Juha Valjakkala, de Amsele, tinha sido ca�ado em todo o pa�s, a pol�cia divulgara um alerta de busca com seu nome e sua foto justamente por ser considerado uma amea�a p�blica. Como o mesmo argumento podia ser aplicado ao caso de Lisbeth Salander, Ekstr�m decidiu que o nome dela deveria ser divulgado.</p><p>Ekstr�m levantou a m�o para interromper a barulheira dos rep�rteres. A revela��o de que uma mulher estava sendo procurada por triplo assassinato ia suscitar manchetes enormes. Fez um sinal indicando que Bublanski ia falar. Bublanski pigarreou duas vezes, ajeitou os �culos e olhou fixamente para o papel contendo as informa��es sobre as quais tinham concordado.</p><p>�A pol�cia est� procurando uma mulher de vinte e seis anos chamada Lisbeth Salander. Uma foto dela ser� distribu�da. No momento, n�o sabemos onde ela se encontra, mas supomos que ainda esteja em Estocolmo. A pol�cia pede a ajuda da popula��o para encontrar essa mulher o quanto antes. Lisbeth Salander tem um metro e cinquenta de altura e uma constitui��o franzina.</p><p>Inspirou profunda e nervosamente. Ele transpirava e sentiu suas axilas molhadas.</p><p>�Lisbeth Salander recebeu tratamento numa cl�nica psiqui�trica e considera-se que ela possa representar um perigo a si mesma e aos outros. Gostar�amos de destacar que no momento n�o temos como afirmar categoricamente que � ela a assassina, mas as circunst�ncias nos levam a querer interrog�-la o quanto antes sobre os assassinatos de Enskede e Odenplan.</p><p>�Que enrola��o! - gritou o rep�rter de um jornal vespertino. �Ou ela � suspeita ou n�o �.</p><p>Bublanski lan�ou um olhar desamparado ao procurador Ekstr�m.</p><p>�A pol�cia est� realizando amplas investiga��es, e � claro que trabalhamos com v�rios cen�rios. Mas, no momento, as suspeitas recaem sobre essa mulher e, para a pol�cia, � urgente que ela seja presa. As suspeitas com rela��o a ela se baseiam em provas t�cnicas encontradas nos locais dos crimes.</p><p>�Que tipo de provas?</p><p>A pergunta irrompeu instantaneamente da plat�ia.</p><p>�No momento, n�o podemos divulgar as provas t�cnicas.</p><p>V�rios jornalistas falavam ao mesmo tempo. Ekstr�m ergueu a m�o, depois indicou um rep�rter do <emphasis>Dagens Eko</emphasis> que ele conhecia e considerava uma pessoa equilibrada.</p><p>�O inspetor Bublanski disse que ela recebeu tratamento psiqui�trico. Por que motivo?</p><p>�Essa mulher teve uma... inf�ncia dif�cil e um bocado de problemas ao longo dos anos. Est� sob tutela e o propriet�rio da arma era seu tutor.</p><p>�Quem � ele?</p><p>�Trata-se de uma pessoa que foi morta em seu apartamento, perto de Odenplan. N�o queremos revelar seu nome em considera��o � fam�lia, que ainda n�o foi informada.</p><p>�Qual seria o motivo dos assassinatos? Bublanski pegou o microfone.</p><p>�No momento, n�o queremos abordar essa quest�o.</p><p>�Ela j� tem ficha na pol�cia?</p><p>�Sim.</p><p>Ent�o veio a pergunta de um rep�rter com voz densa e peculiar, que se fazia ouvir acima das demais.</p><p>�Ela deve ser considerada perigosa?</p><p>Ekstr�m hesitou um instante. Ent�o meneou a cabe�a.</p><p>�O que sabemos sobre o passado dela leva a crer que, em situa��es em que se sente acuada, ela pode recorrer � viol�ncia. Se estamos divulgando esse alerta de busca � porque queremos entrar em contato com ela rapidamente.</p><p>Bublanski mordeu os l�bios.</p></section><section><p><strong>* * *</strong></p><p>�s nove da noite, a inspetora Sonja Modig ainda se encontrava no apartamento do Dr. Bjurman. J� tinha ligado para casa a fim de explicar a situa��o ao marido. Depois de onze anos casados, ele acabara aceitando o fato de que o trabalho da mulher nunca seguiria uma rotina das nove �s cinco. Ela estava � mesa de Bjurman, no escrit�rio, examinando documentos que achara nas gavetas, quando bateram � porta. Viu Bublanski equilibrando-se com dois copos de caf� e um saco de papel azul da confeitaria da esquina. Com um gesto cansado, fez sinal para que ele entrasse.</p><p>�No que � que eu posso encostar? - perguntou Bublanski automaticamente.</p><p>�Os t�cnicos j� terminaram aqui. Ainda est�o trabalhando no quarto e na cozinha. O corpo ainda est� a�.</p><p>Bublanski puxou uma cadeira e sentou-se em frente � sua colega. Modig abriu o pacote e pegou um p�ozinho com canela.</p><p>�Obrigada. Eu estava louca por um caf�. Saborearam o lanche em sil�ncio.</p><p>�Se eu entendi bem, n�o deu muito certo na Lundagatan - disse Modig, engolindo o �ltimo bocado de p�o e lambendo os dedos.</p><p>�N�o havia ningu�m l�. At� tinha correspond�ncia para a Salander, ainda fechada, mas quem mora l� � uma tal de Miriam Wu. Ainda n�o foi encontrada.</p><p>�Quem � ela?</p><p>�N�o sei direito. O Faste est� pesquisando o passado dela. Foi inclu�da no contrato habitacional h� pouco mais de um m�s, mas a impress�o que d� � que no apartamento s� mora uma pessoa. Acho que a Salander se mudou sem comunicar o novo endere�o.</p><p>�Ela pode ter planejado tudo isso.</p><p>�O qu�? Um triplo assassinato? - Bublanski balan�ou a cabe�a com ar resignado. �Isto est� virando um verdadeiro caos. O Ekstr�m insistiu em dar uma coletiva de imprensa e agora vamos ficar um temp�o com a m�dia no nosso p�. A coisa promete. Achou alguma coisa?</p><p>�Tirando Bjurman no quarto... Achamos uma embalagem de Magnum vazia... Foi para as Impress�es Digitais. O Bjurman tem um arquivo com as c�pias dos relat�rios mensais sobre Salander que ele mandava para a Comiss�o de Tutelas. A julgar por esses relat�rios, Salander � um anjo.</p><p>�Ele tamb�m? N�o! - exclamou Bublanski.</p><p>�Ele tamb�m o qu�?</p><p>�Mais um admirador da Lisbeth Salander.</p><p>Bublanski resumiu o que ele descobrira com Dragan Armanskij e Mikael Blomkvist. Sonja Modig escutou sem interromper. Quando ele se calou, ela passou os dedos no cabelo e esfregou os olhos.</p><p>�Tudo isto est� parecendo uma loucura - disse.</p><p>Bublanski meneou a cabe�a, pensativo, e contraiu o l�bio inferior. Sonja Modig olhou de lado para ele e conteve um sorriso. Seu rosto de fei��es grosseiras parecia quase brutal. Mas, quando estava incomodado ou incerto, assumia um jeito quase emburrado. Nessas horas ela achava que o apelido Bubolha lhe ca�a bem. Ela nunca o chamara assim e n�o sabia de onde o apelido surgira. Mas ca�a-lhe como uma luva.</p><p>�Muito bem - disse ela. �At� que ponto temos certeza?</p><p>�O procurador parece ter certeza. Agora � noite foi emitido um alerta de busca nacional a Lisbeth Salander - disse Bublanski. �Ela esteve todo o ano passado no exterior e � poss�vel que tente sair do pa�s.</p><p>�At� que ponto temos certeza? - ela repetiu. Ele deu de ombros.</p><p>�J� prendemos pessoas com bases muito mais fr�geis que essas - respondeu.</p><p>�Temos as impress�es digitais na arma do crime de Enskede. Temos o tutor morto tamb�m. Sem querer p�r a carro�a na frente dos bois, aposto como foi usada a mesma arma. Amanh� vamos saber. Os t�cnicos acharam um fragmento de bala relativamente em bom estado no colch�o.</p><p>�Certo.</p><p>�H� uns cartuchos do rev�lver aqui na gaveta de baixo da escrivaninha. Bala com n�cleo de chumbo e ponta de carboneto de tungst�nio.</p><p>�Certo.</p><p>�Temos v�rios documentos declarando que a Salander � louca. Bjurman era o tutor dela, � o propriet�rio da arma.</p><p>�Mmm... - fez Bubolha, emburrado.</p><p>Temos um elo entre a Salander e o casal de Enskede na pessoa de Mikael Blomkvist.</p><p>�Mmm... - ele repetiu.</p><p>�Voc� parece em d�vida.</p><p>�N�o consigo formar uma imagem de Lisbeth Salander. Os arquivos dizem uma coisa, e tanto Armanskij como Blomkvist dizem outra. De acordo com os documentos, ela � uma psicopata praticamente retardada. E de acordo com o que dizem os dois, � uma investigadora sem igual. H� uma dist�ncia enorme entre as duas vers�es. N�o temos motivo no que diz respeito a Bjurman, nem a menor confirma��o de que ela conhecia o casal de Enskede.</p><p>�E uma doida psic�tica precisa de motivo?</p><p>�N�o fui at� o quarto. Como est� a coisa?</p><p>�Achei o Bjurman de bru�os sobre a cama, de joelhos no ch�o. Como se estivesse rezando antes de dormir. Est� nu. Com uma bala na cabe�a.</p><p>�Uma bala s�? Como em Enskede.</p><p>�At� onde pude ver, s� havia uma bala. Tudo indica que Salander, se foi mesmo ela que fez isso, o obrigou a se ajoelhar na frente da cama antes de atirar. A bala entrou atr�s da cabe�a e saiu pelo lado da testa.</p><p>�Bala na nuca. Estilo execu��o.</p><p>�Exatamente.</p><p>�Eu estava pensando... algu�m deve ter escutado o tiro.</p><p>�O quarto d� para o p�tio dos fundos e os vizinhos de cima e de baixo viajaram no feriad�o da P�scoa. A janela estava fechada. Al�m disso, ela usou um travesseiro para abafar o som.</p><p>�Muito esperto.</p><p>Nisso, Gunnar Samuelsson, do departamento t�cnico-legal, apontou a cabe�a pela abertura da porta.</p><p>�Oi, Bubolha - ele exclamou, e voltou-se para a colega. �Modig, a gente virou o corpo para tirar ele do lugar. Voc� tem que vir dar uma olhada numa coisa.</p><p>Foram com ele at� o quarto. O corpo de Nils Bjurman tinha sido deitado numa maca, de costas, primeira etapa do trajeto para o instituto m�dico-legal. Ningu�m podia questionar a <emphasis>causa mortis.</emphasis> A testa exibia um ferimento enorme, de uns dez cent�metros de largura, com um bom peda�o do osso frontal pendurado num farrapo de pele. Os respingos na cama e na parede falavam por si s�.</p><p>Bublanski fez um muxoxo.</p><p>�No que a gente tem que dar uma olhada? - perguntou Modig. Gunnar Samuelsson ergueu o len�ol, descobrindo o baixo-ventre de Bjurman. Bublanski p�s os �culos antes de se inclinar, como Modig, para ler o texto tatuado na barriga de Bjurman. As letras eram grosseiras e irregulares - o texto n�o era, evidentemente, obra de um tatuador profissional. Mas a mensagem aparecia com toda a clareza: <strong>SOU</strong><strong>UM</strong><strong>PORCO</strong><strong>S�DICO</strong><strong>,</strong><strong>UM</strong><strong>CANALHA</strong><strong>ESTUPRADOR</strong><strong>.</strong></p><p>Modig e Bublanski olharam um para o outro, estupefatos.</p><p>�Ser� que estamos olhando para um princ�pio de motivo? �Modig disse afinal.</p><p>A caminho de casa, Mikael Blomkvist comprou quatrocentos gramas de macarr�o pr�-cozido no 7-Eleven e colocou o pacote para esquentar no micro-ondas enquanto se despia para um banho de tr�s minutos. Pegou um garfo e comeu em p�, direto da embalagem. Estava com fome, mas sem apetite, s� queria engolir a comida o mais r�pido poss�vel. Feito isso, abriu uma Vestfyn e tomou a cerveja no gargalo.</p><p>Sem acender nenhuma luz, foi at� a janela que dava para a cidade velha e permaneceu um bom tempo ali parado, tentando n�o pensar.</p><p>Exatamente vinte e quatro horas atr�s, ele ainda estava jantando na casa da irm� quando Dag Svensson ligara para seu celular. Dag e Mia ainda estavam vivos.</p><p>Fazia trinta e seis horas que ele n�o dormia e j� ia longe o tempo em que podia varar uma noite impunemente. Tamb�m sabia que n�o ia conseguir dormir sem pensar no que tinha visto. As imagens de Enskede estavam gravadas para sempre em sua retina.</p><p>Por fim, desligou o celular e se enfiou debaixo do edredom. As onze da noite, ainda n�o estava dormindo. Levantou e p�s a cafeteira para funcionar. Ligou o CD-player e escutou Debbie Harry cantar �Maria�. Enrolou-se num cobertor e sentou no sof� da sala para tomar o caf� e pensar em Lisbeth Salander.</p><p><emphasis>O que ele de fato sabia a seu respeito? Praticamente nada.</emphasis></p><p>Sabia que ela tinha mem�ria fotogr�fica e que era uma <emphasis>hacker</emphasis> diab�lica.</p><p>Sabia que era uma mulher singular e fechada, que n�o falava de si mesma e n�o tinha a menor confian�a nas autoridades.</p><p>Sabia que ela podia ser de uma viol�ncia brutal. Motivo pelo qual ele pr�prio ainda estava vivo.</p><p>Mas ignorava totalmente que ela estivesse sob tutela e que passara parte da adolesc�ncia num hospital psiqui�trico. Ele precisava escolher um lado.</p><p>Em algum momento depois da meia-noite, resolveu que simplesmente n�o estava a fim de acreditar nas conclus�es da pol�cia, que acusava Lisbeth de ter matado Dag e Mia. Devia-lhe pelo menos uma chance de se explicar antes de conden�-la.</p><p>N�o percebeu que estava pegando no sono, e acordou no sof� �s quatro e meia da manh�. Foi titubeando at� a cama e tornou a dormir.</p></section><section><p><strong><emphasis>16 - SEXTA-FEIRA SANTA 25 DE MAR�O � S�BADO DE ALELUIA 26 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Malu Eriksson recostou-se no sof� de Mikael Blomkvist. Sem pensar, p�s os p�s em cima da mesinha de centro - como teria feito em sua casa - e imediatamente os recolocou no ch�o. Mikael Blomkvist sorriu com gentileza.</p><p>�N�o tem problema - disse. �Relaxe, sinta-se em casa.</p><p>Ela retribuiu o sorriso e tornou a p�r os p�s em cima da mesa.</p><p>Na sexta-feira, Mikael trouxera para casa todas as c�pias da papelada de Dag Svensson da reda��o da <emphasis>Millennium.</emphasis> Tinha separado o material no ch�o da sala. No s�bado, ele e Malu tinham passado oito horas revendo e-mails, anota��es, rabiscos no bloco de notas e, principalmente, os textos do futuro livro.</p><p>De manh�, Mikael recebera a visita de sua irm�, Annika Giannini. Ela trazia os jornais da tarde com manchetes belicosas e a foto da carteira de identidade de Lisbeth Salander estampada em tamanho grande na primeira p�gina. Um dos jornais atinha-se aos fatos:</p><p><strong>PROCURADA</strong><strong>POR</strong><strong>TRIPLO</strong><strong>ASSASSINATO</strong></p><p>O outro incrementara a manchete:</p><p><strong>POL�CIA</strong><strong>PROCURA</strong><strong>PSICOPATA</strong><strong>ASSASSINA</strong><strong>EM</strong><strong>S�RIE</strong></p><p>Conversaram por uma hora, quando Mikael contou sua rela��o com Lisbeth Salander e por que ele tinha d�vidas sobre ela ser culpada. Por fim, perguntou � irm� se ela poderia considerar a hip�tese de vir a representar Lisbeth Salander caso ela fosse presa.</p><p>�J� representei mulheres em casos de estupro e maus-tratos, mas n�o sou uma advogada criminal.</p><p>�Voc� � a advogada mais esperta que eu conhe�o e Lisbeth vai precisar de algu�m confi�vel. Acho que ela vai te aceitar.</p><p>Annika Giannini pensou um pouco antes de dizer, com alguma hesita��o, que conversaria com Lisbeth Salander se fosse o caso.</p><p>A uma da tarde do s�bado, a inspetora Sonja Modig ligou, perguntando se podia passar na casa de Mikael em seguida para pegar a bolsa de Lisbeth Salander. Aparentemente, a pol�cia tinha encontrado, e lido, a carta que ele enviara para a Lundagatan.</p><p>Modig chegou vinte minutos depois e Mikael a convidou para sentar-se com Malu Eriksson � mesa da sala de jantar. Foi buscar a bolsa de Lisbeth, que ele havia deixado numa prateleira ao lado do micro-ondas. Hesitou um instante, ent�o abriu a bolsa e tirou o martelo e a bomba de g�s lacrimog�neo. <emphasis>Subtra��o de provas materiais.</emphasis> A bomba lacrimog�nea era considerada uma arma ilegal e resultaria em condena��o. O martelo inevitavelmente suscitaria algumas associa��es com a natureza violenta de Lisbeth. Ela n�o precisava disso, julgou Mikael.</p><p>Ofereceu caf� a Sonja Modig.</p><p>�Posso fazer umas perguntas? - indagou a inspetora.</p><p>�Pois n�o.</p><p>�Na sua carta a Lisbeth Salander, que encontramos no apartamento dela da Lundagatan, o senhor diz que tem uma d�vida para com ela. A que se refere?</p><p>�Lisbeth me prestou um imenso favor.</p><p>�Do que se trata?</p><p>�De um favor de car�ter puramente pessoal do qual n�o tenho inten��o de falar.</p><p>Sonja Modig fitou-o atentamente.</p><p>�Trata-se de uma investiga��o de assassinato, sabe?</p><p>�E eu espero que voc�s prendam o quanto antes o canalha que matou o Dag e a Mia.</p><p>�N�o acredita que a Salander seja culpada?</p><p>�N�o.</p><p>�Nesse caso, quem, na sua opini�o, teria assassinado seus amigos?</p><p>�N�o sei. Mas o Dag Svensson estava prestes a denunciar v�rios homens que tinham muito a perder. Um deles pode ser o culpado.</p><p>�E por que um desses homens teria matado o Nils Bjurman?</p><p>� N�o fa�o id�ia. Ainda.</p><p>Seu olhar tinha a estabilidade da certeza. Sonja Modig sorriu de repente. Sabia que ele era conhecido como Super-Blomkvist. Estava entendendo por qu�.</p><p>�Mas o senhor pretende descobrir?</p><p>�Se poss�vel. Pode dizer isso para o Bublanski.</p><p>�N�o vou deixar de dizer. E se a Lisbeth Salander der not�cias, espero que nos informe.</p><p>�N�o acho que ela v� me dar algum sinal de vida e assumir que � culpada dos assassinatos, mas se ela entrar em contato vou fazer de tudo para convenc�-la a se entregar � pol�cia. Se isso acontecer, tamb�m vou fazer de tudo para ajud�-la. Ela vai precisar de um amigo.</p><p>�E se ela disser que � inocente?</p><p>�Ent�o espero que ela tenha condi��es de esclarecer o que aconteceu.</p><p>�Senhor Blomkvist, c� entre n�s e sem muito alarde. Espero que entenda que a Lisbeth Salander precisa ser detida, e tamb�m espero que n�o cometa nenhuma besteira caso ela d� not�cias. Se estiver enganado e ela for culpada, pode ser extremamente perigoso n�o levar a situa��o a s�rio.</p><p>Mikael meneou a cabe�a.</p><p>�Espero que n�o tenhamos que coloc�-lo sob vigil�ncia. O senhor sabe que � contra a lei ajudar uma pessoa procurada. O senhor pode ser condenado por proteger um criminoso.</p><p>�E eu espero que voc�s dediquem alguns minutos para pensar em outros poss�veis culpados.</p><p>�Vamos fazer isso. Outra pergunta. Tem id�ia de que tipo de computador Dag Svensson usava para trabalhar?</p><p>�Ele tinha um Mac de segunda m�o, um iBook 500 branco, com tela de catorze polegadas. Igual ao meu, mas com uma tela maior.</p><p>Mikael mostrou seu equipamento, que tronava sobre a mesa de jantar.</p><p>�Sabe onde ele guardava esse computador?</p><p>�O Dag em geral o carregava numa mochila preta. Imagino que ainda esteja na casa dele.</p><p>�N�o est�. Poderia estar no local onde ele trabalhava?</p><p>�N�o. Eu olhei na sala de Dag, e ele n�o est� l�. Ficaram um instante em sil�ncio.</p><p>�Devo concluir ent�o que o computador do Dag Svensson sumiu? �Mikael perguntou por fim.</p><p>Mikael e Malu tinham identificado um n�mero consider�vel de pessoas que teoricamente poderiam ter algum motivo para matar Dag Svensson. Cada nome foi anotado em folhas grandes de rascunho, que Mikael afixou nas paredes da sala. A lista constitu�a-se exclusivamente de homens, clientes sexuais ou cafet�es que constavam no livro. �s oito da noite, dispunham de uma lista com trinta e sete nomes. Destes, vinte e nove podiam ser identificados e apenas oito apareciam sob pseud�nimo na apresenta��o de Dag Svensson. Vinte dos homens identificados eram clientes que em diferentes ocasi�es tinham usado uma ou outra garota.</p><p>Conversaram tamb�m sobre o aspecto puramente pr�tico da publica��o do livro de Dag Svensson. O problema era que grande parte das afirma��es se baseava em informa��es que Dag ou Mia detinham pessoalmente e que s� eles poderiam escrever, cabendo a um autor menos inteirado no assunto a obriga��o de conferir ou de aprofund�-lo.</p><p>Constataram que cerca de oitenta por cento do atual manuscrito poderia ser publicado sem maiores dificuldades, mas uma boa pesquisa seria necess�ria para que a <emphasis>Millennium</emphasis> se atrevesse a publicar os outros vinte por cento. Se Dag Svensson estivesse vivo, publicariam sem nenhuma hesita��o - Dag e Mia teriam sabido lidar com a situa��o e rejeitar eventuais obje��es ou cr�ticas.</p><p>Mikael olhou pela janela. Anoitecera e estava chovendo. Perguntou a Malu se ela queria mais caf�. Ela recusou.</p><p>�Tudo bem - disse Malu. �Os originais est�o sob controle. Mas ainda n�o achamos um m�nimo vest�gio sequer do assassino do Dag e da Mia.</p><p>�Pode ser um desses nomes na parede - disse Mikael.</p><p>�Tamb�m pode ser algu�m que n�o tenha nada a ver com o livro. Ou pode ser essa sua amiga.</p><p>�A Lisbeth - disse Mikael.</p><p>Malu lan�ou-lhe um olhar de esguelha. Fazia um ano e meio que ela trabalhava na <emphasis>Millennium,</emphasis> na qual entrara em pleno caos do caso Wennerstr�m. Depois de anos trabalhando como substituta e em projetos tempor�rios, aquele era seu primeiro emprego fixo. Estava adorando. Trabalhar na <emphasis>Millennium</emphasis> eq�ivalia a um importante status social. Ela tinha boas rela��es com Erika Berger e com o resto do pessoal, por�m sempre se sentira vagamente desconfort�vel na companhia de Mikael Blomkvist. N�o havia um motivo real para isso, mas de todos os profissionais Mikael era o que ela achava mais fechado e inacess�vel.</p><p>No decorrer daquele ano, ele muitas vezes havia chegado tarde � reda��o, ficando depois sozinho em sua salinha ou na sala de Erika Berger. Andava distra�do e, nos primeiros meses, Malu tivera a impress�o de que ele frequentava mais os est�dios de tev� do que a reda��o. Estava constantemente viajando, ou ocupado em outro lugar. Sua companhia era tudo, menos camarada e, a julgar pelos coment�rios que ouvira de outros funcion�rios, Mikael tinha mudado. Tornara-se mais quieto e inacess�vel.</p><p>�Se a minha tarefa � descobrir por que o Dag e a Mia foram mortos, ent�o preciso saber mais sobre a Salander. N�o sei por onde come�ar, se n�o...</p><p>Deixou a frase em suspenso. Mikael olhou para ela com o rabo dos olhos. Por fim, sentou-se na poltrona que formava um �ngulo reto com o sof� onde Malu estava e p�s os p�s ao lado dos dela.</p><p>�Voc� gosta de trabalhar na <emphasis>Millennium? -</emphasis> perguntou inopinadamente. �Quero dizer, faz um ano e meio que voc� est� com a gente, mas no ano passado corri tanto de l� para c� que nunca deu tempo de a gente se conhecer de fato.</p><p>�� maravilhoso trabalhar na <emphasis>Millennium -</emphasis> disse Malu. �Voc�s est�o satisfeitos comigo?</p><p>Mikael sorriu.</p><p>�Erika e eu comentamos mais de uma vez que nunca tivemos uma assistente de reda��o t�o competente. Achamos voc� uma verdadeira p�rola. E me perdoe n�o ter dito isso antes.</p><p>Malu sorriu satisfeita. Os elogios do grande Mikael Blomkvist eram mais do que bem-vindos.</p><p>�Mas n�o foi bem isso que eu perguntei - isse ela.</p><p>�Voc� est� curiosa sobre a liga��o entre a Lisbeth e a <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�Voc� e a Erika s�o muito econ�micos nas informa��es.</p><p>Mikael meneou a cabe�a e cruzou o olhar com o dela. Erika, assim como ele, tinha total confian�a em Malu Eriksson, mas existiam coisas que ele n�o podia conversar com ela.</p><p>�Concordo com voc� - disse ele. �Se a gente vai remexer no assassinato do Dag e da Mia, voc� precisa de mais informa��es. Sou uma fonte de primeira m�o e, tamb�m, o v�nculo entre ela e o Dag e a Mia. Vamos l�, pode perguntar que eu respondo na medida do poss�vel. Se eu n�o puder responder, te digo.</p><p>�Por que todos esses segredinhos? Quem � Lisbeth Salander e qual a rela��o dela com a Millennium?.</p><p>�Vou te explicar. H� dois anos contratei Lisbeth Salander como investigadora para um trabalho extremamente complicado. E a� � que est� o problema. N�o posso te contar que tipo de servi�o a Lisbeth fez para mim. Erika sabe do que se trata e est� presa ao sigilo profissional.</p><p>�H� dois anos... foi antes de voc� encerrar o caso Wennerstr�m. Devo concluir que as investiga��es dela tiveram a ver com aquele contexto?</p><p>�N�o, n�o deve concluir nada. N�o� vou dizer nem sim nem n�o, n�o vou confirmar nada nem negar nada. O que posso dizer � que contratei a Lisbeth para um caso bem diferente e que ela fez um trabalho sensacional.</p><p>�Certo. Na �poca voc� morava em Hedestad e vivia como um ermit�o, se entendi direito. E Hedestad n�o foi um ponto esquecido no mapa da m�dia daquele ver�o. Com a Harriet Vanger ressuscitando dos mortos e tudo mais. Acho bastante curioso a Millennium n�o ter escrito uma palavra sequer sobre a ressurrei��o da Harriet.</p><p>�Portanto... nem sim nem n�o. Imagine o que quiser, s� que a probabilidade de acertar � praticamente nula. - Ele sorriu. �Se a gente n�o falou sobre a Harriet � porque ela faz parte do conselho administrativo. Deixamos que os outros jornais tratassem dela. E quanto � Lisbeth... acredite, Malu, quando digo que o que ela fez por mim n�o tem a menor liga��o plaus�vel com o que aconteceu em Enskede. Simplesmente n�o tem nada a ver.</p><p>�Est� certo.</p><p>�Aceite um conselho. N�o tente adivinhar. N�o tire nenhuma conclus�o. Contente-se em saber que ela trabalhou para mim e que eu n�o posso dizer do que se trata. Mas me deixe acrescentar que ela fez mais uma coisa por mim. L� pelas tantas da hist�ria, ela salvou a minha vida. No sentido literal da express�o. Tenho uma imensa d�vida de gratid�o para com ela.</p><p>Malu pareceu chocada. Nunca tinha ouvido falar sobre isso na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�Ent�o isso significa que voc� a conhece relativamente bem, se entendi direito.</p><p>�T�o bem quanto algu�m pode conhecer Lisbeth Salander. Ela � provavelmente a criatura mais fechada que eu j� vi.</p><p>De repente, Mikael se levantou e contemplou a escurid�o l� fora.</p><p>�N�o sei se voc� tamb�m quer, mas vou preparar uma vodca com lim�o para mim - ele disse por fim.</p><p>Malu sorriu.</p><p>�Aceito. � melhor que mais um caf�.</p><p>Dragan Armanskij passou o feriad�o da P�scoa em sua casa de campo em Blid� pensando em Lisbeth Salander. Seus filhos eram adultos e tinham optado por n�o passar a P�scoa com os pais. Para Ritva, sua mulher h� vinte e cinco anos, n�o era um problema notar que em determinados momentos ele estava a anos-luz dali. Ele mergulhava numa rumina��o silenciosa e s� respondia de modo incoerente quando ela falava com ele. Todas as manh�s, pegava o carro e ia comprar os jornais na mercearia da aldeia. Acomodava-se diante da janela da varanda e lia os artigos sobre a ca�a a Lisbeth Salander.</p><p>Dragan Armanskij estava decepcionado consigo mesmo. De um lado, por ter se enganado t�o radicalmente sobre Lisbeth Salander. H� muitos anos sabia que ela tinha problemas ps�quicos. A id�ia de que ela pudesse passar subitamente para a viol�ncia e ferir quem a amea�asse n�o lhe era estranha. Que ela tivesse agredido seu tutor - sem d�vida ela o encarava como algu�m que se intrometia em seus assuntos e atos pessoais - era compreens�vel em certo n�vel racional. Ela considerava qualquer tentativa de controlar sua vida como provoca��o e, talvez, como ataques hostis.</p><p>Em compensa��o, n�o conseguia entender o que a fizera ir at� Enskede e atirar em duas pessoas que, segundo todas as fontes dispon�veis, eram perfeitas desconhecidas para ela.</p><p>Dragan Armanskij esperava que a qualquer momento se estabelecesse uma liga��o entre Salander e o casal de Enskede - que descobrissem que um deles tivera alguma coisa com ela ou que tinham feito algo que a deixara furiosa. Nenhuma liga��o do g�nero aparecia nos jornais, que n�o faziam mais que especular sobre uma Lisbeth doente mental que devia ter tido algum tipo de surto.</p><p>Ligou duas vezes para o inspetor Bublanski para saber novidades sobre os rumos da investiga��o, mas ele tampouco conseguia estabelecer qualquer v�nculo entre Salander e Enskede que n�o fosse Mikael Blomkvist. Nesse ponto, por�m, a investiga��o empacava. Mikael Blomkvist conhecia tanto Salander como o casal de Enskede, mas n�o havia nenhuma prova de que ela, Salander, conhecia ou at� j� ouvira falar em Dag Svensson e Mia Bergman. Por conseguinte, a investiga��o tinha dificuldade em definir o andamento dos fatos. Se n�o fosse pela arma do crime com suas impress�es digitais e pelo v�nculo indiscut�vel com sua primeira v�tima, o Dr. Bjurman, a pol�cia estaria tateando no escuro.</p><p>Depois de ir ao banheiro, Malu Eriksson tornou a sentar-se no sof�.</p><p>�Resumindo - disse ela. �A nossa miss�o consiste em definir se a Lisbeth Salander matou o Dag e a Mia como afirma a pol�cia. Mas n�o fa�o a m�nima id�ia de por onde come�ar.</p><p>�Encare isso como uma explora��o. A gente n�o vai fazer uma investiga��o policial. Em compensa��o, vamos nos basear na investiga��o que a pol�cia est� fazendo e tentar descobrir o que eles sabem. Como em qualquer trabalho investigativo, com a diferen�a de que n�o vamos necessariamente publicar o que a gente descobrir.</p><p>�Mas, se a Salander for culpada, tem que haver um elo entre ela, Dag e Mia. E esse elo � voc�.</p><p>�No caso, eu n�o sou elo nenhum. Faz mais de um ano que eu n�o vejo a Lisbeth. Nem sei como ela soube da exist�ncia deles.</p><p>Mikael calou-se de repente. Ningu�m mais sabia, s� ele, que Lisbeth Salander era uma <emphasis>hacker</emphasis> de gabarito internacional. Lembrou de repente que no seu iBook havia a correspond�ncia com Dag Svensson, diferentes vers�es do livro de Dag, al�m de uma c�pia digital da tese de Mia Bergman. N�o sabia se Lisbeth Salander estava ou n�o entrando em seu computador, mas era uma forma de ela ter descoberto que ele conhecia Dag Svensson.</p><p>O �nico problema � que Mikael n�o conseguia imaginar o menor motivo para que Lisbeth tivesse ido at� Enskede matar Dag e Mia. Pelo contr�rio - eles estavam trabalhando numa reportagem que falava da viol�ncia contra a mulher, tema que Lisbeth teria incentivado com veem�ncia. A menos que ele estivesse enganado sobre ela.</p><p>�Parece que voc� acabou de se lembrar de alguma coisa - disse Malu.</p><p>Mikael n�o tencionava dizer o que quer que fosse sobre os talentos de Lisbeth no campo da inform�tica.</p><p>�N�o, s� estou cansado, com a cabe�a confusa - respondeu.</p><p>�Agora, ocorre que ela n�o � suspeita apenas do assassinato do Dag e da Mia, mas tamb�m do seu tutor, e a� a liga��o fica vis�vel. O que voc� sabe sobre ele?</p><p>�Nadica de nada. Nunca ouvi falar nesse doutor Bjurman. Ali�s eu nem sabia que ela tinha um tutor.</p><p>�Mas a probabilidade de outra pessoa ter matado os tr�s � �nfima. Quero dizer, mesmo que algu�m tenha matado o Dag e a Mia por causa da mat�ria deles, n�o havia nenhum motivo para esse algu�m matar o tutor de Lisbeth Salander.</p><p>�Eu sei, e j� matutei sobre isso at� enjoar. Mas consigo imaginar pelo menos um cen�rio em que uma pessoa de fora poderia matar tanto o Dag e a Mia como o tutor de Lisbeth.</p><p>�Qual?</p><p>�Bem, digamos que o Dag e a Mia foram mortos porque estavam investigando o com�rcio do sexo, e que a Lisbeth estivesse indiretamente envolvida de alguma maneira. Se o Bjurman era o tutor de Lisbeth, existe a possibilidade de ela ter simplesmente se aberto com ele e ele ter virado uma testemunha. Ou ent�o ele soube de alguma coisa que fez com que tamb�m fosse morto.</p><p>Malu refletiu alguns instantes.</p><p>�Entendo o que voc� quer dizer - ela falou hesitante. �Mas voc� n�o tem nenhuma prova dessa teoria.</p><p>�N�o. Nenhuma.</p><p>�O que voc� acha? Ela � ou n�o culpada? Mikael demorou para responder.</p><p>�Vou colocar as coisas assim: se ela � capaz de matar? A resposta � sim. Lisbeth Salander tem uma natureza violenta. Eu a vi em a��o quando...</p><p>�Quando salvou sua vida? Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>�N�o posso contar em que contexto. Mas um homem pretendia me matar e estava prestes a conseguir. Ela interveio e o machucou seriamente com um taco de golfe.</p><p>�E voc� n�o contou nada disso para a pol�cia.</p><p>�Absolutamente nada. Fica s� entre n�s dois.</p><p>�Certo.</p><p>Ele olhou para ela com um ar tremendamente s�rio.</p><p>�Malu, eu preciso confiar em voc� nesta situa��o.</p><p>�N�o vou falar nada do que n�s dois conversamos para ningu�m. Nem para o Anton. Voc� n�o � s� o meu chefe; eu gosto de voc� e n�o quero te prejudicar.</p><p>Mikael meneou a cabe�a.</p><p>�Desculpe - disse ele.</p><p>�Pare de ficar o tempo todo se desculpando. Ele riu e depois voltou a ficar s�rio.</p><p>�Estou convencido de que, se necess�rio, ela o teria matado para me defender.</p><p>�Certo.</p><p>�Mas o fato � que tamb�m a vejo como uma pessoa muito racional.</p><p>Singular, isso sim, mas absolutamente racional de acordo com seus pr�prios princ�pios. Ela agiu com viol�ncia porque era preciso e n�o porque estava a fim. Ela teria que ter uma raz�o para matar, ser amea�ada e provocada ao extremo.</p><p>Ele refletiu mais um pouco. Malu o observava pacientemente.</p><p>�N�o posso falar sobre o tutor. N�o sei nada a respeito dele. Mas para mim � imposs�vel imaginar Lisbeth matando o Dag e a Mia. N�o acredito nisso.</p><p>Ficaram mais algum tempo em sil�ncio. Malu deu uma olhada no rel�gio e percebeu que eram nove e meia.</p><p>�J� � tarde. Vou para casa - disse ela. Mikael meneou a cabe�a.</p><p>�Passamos o dia inteiro nisso. Amanh� a gente continua botando os neur�nios para funcionar. N�o, deixe a lou�a para l�... eu cuido disso.</p><p>Na noite de s�bado para o domingo de P�scoa, Armanskij estava com ins�nia, escutando a respira��o barulhenta de Ritva. Ele tampouco conseguia esclarecer aquela trag�dia. Por fim, se levantou, enfiou as pantufas, vestiu um roup�o e foi at� a sala. O ar estava frio e ele p�s mais lenha na salamandra, abriu uma cerveja e sentou-se para contemplar a noite por sobre o canal de Furusund.</p><p>O <emphasis>que � que eu sei?</emphasis></p><p>Dragan Armanskij podia confirmar sem muito problema que Lisbeth Salander era doida e imprevis�vel. Quanto a isso n�o havia a menor d�vida.</p><p>Ele sabia que alguma coisa tinha acontecido no inverno de 2003, quando ela de repente deixara de trabalhar para ele e sumira no exterior, naquele ano sab�tico. Estava convencido de que Mikael Blomkvist estava de algum modo envolvido nesse sumi�o repentino. Mas Mikael tampouco sabia o que tinha acontecido, nem por que ela sumira de repente.</p><p>Ela tinha voltado e lhe fizera uma visita. Afirmara ser �financeiramente independente�, o que Armanskij havia interpretado como um modo de dizer que ela tinha dinheiro suficiente para se virar por algum tempo.</p><p>Ela visitara Holger Palmgren durante toda a primavera. N�o entrara em contato com Mikael Blomkvist.</p><p>De repente, matara tr�s pessoas, sendo que duas, aparentemente, eram perfeitas desconhecidas para ela. <emphasis>N�o bate. N�o faz sentido.</emphasis></p><p>Armanskij bebeu direto no gargalo e acendeu uma cigarrilha. Tamb�m se sentia culpado, o que contribu�a para o mal-estar que vinha arrastando durante todo o feriado.</p><p>Quando Bublanski fora v�-lo, n�o hesitara em fornecer todas as informa��es que pudessem ajudar na captura de Lisbeth Salander. Parecia-lhe incontest�vel que ela precisava ser detida - quanto antes melhor. Mas sentia-se culpado por ter uma opini�o t�o ruim sobre Lisbeth a ponto de ter aceitado, sem questionar, o fato de ela estar sendo acusada. Armanskij era realista. Se a pol�cia afirmava que uma pessoa era suspeita de assassinato, havia grandes chances de que ela fosse mesmo. Logo, Lisbeth Salander era culpada.</p><p>Mas a pol�cia n�o levava em conta o fato de que Lisbeth Salander talvez julgasse ter um motivo para agir como agira - circunst�ncias atenuantes ou, pelo menos, uma explica��o plaus�vel para sua f�ria. A tarefa da pol�cia era prend�-la e provar que ela tinha disparado aqueles tiros, e n�o vasculhar seus neur�nios e explicar o porqu� daquilo. Eles se contentavam em descobrir uma motiva��o mais ou menos plaus�vel para os atos dela, mas tamb�m estavam prontos, caso n�o achassem explica��o, para afirmar que se tratara do gesto de uma demente. <emphasis>Lisbeth Salander constitui uma doente mental assassina ideal.</emphasis> Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>Dragan Armanskij n�o gostava dessa explica��o.</p><p>Lisbeth Salander nunca fazia nada contra a sua vontade e sem pesar as conseq��ncias.</p><p><emphasis>Especial, sim. Louca, n�o.</emphasis></p><p>Portanto, havia uma explica��o, mesmo que obscura e inacess�vel para algu�m de fora.</p><p>Por volta das duas da manh� ele tomou uma decis�o.</p></section><section><p><strong><emphasis>17 - DOMINGO DE P�SCOA 27 DE MAR�O � TER�A-FEIRA 29 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Dragan Armanskij se levantou cedo no domingo, depois de uma noite de rumina��es agitadas. Desceu de mansinho, sem acordar a mulher, preparou caf� e umas fatias de p�o. Depois abriu o laptop e se p�s a escrever.</p><p>Usou o mesmo formul�rio de relat�rio que a Milton Security utilizava na investiga��o de pessoas. Preencheu o relat�rio com todos os dados que conseguia juntar sobre a personalidade de Lisbeth Salander.</p><p>Por volta das nove, Ritva desceu para tomar caf�. Perguntou o que ele estava fazendo. Ele respondeu de forma evasiva enquanto seguia escrevendo com obstina��o. Ela conhecia suficientemente o marido para saber que ele estaria inacess�vel pelo resto do dia.</p><p>Mikael se enganara, sem d�vida porque era P�scoa e a delegacia estava relativamente vazia. Precisou esperar at� domingo de manh� para que a m�dia descobrisse que ele � quem tinha encontrado os corpos de Dag e Mia. O primeiro a ligar, quando Mikael ainda estava deitado, foi um rep�rter <emphasis>Aftonbladet,</emphasis> um velho conhecido seu.</p><p>� Oi, Blomkvist. Aqui � o Nicklasson.</p><p>�Oi, Nicklasson - disse Mikael.</p><p>�Foi voc� que encontrou o casal de Enskede? Mikael confirmou.</p><p>� Tenho um informante que diz que eles estavam trabalhando para a <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�O seu informante est� meio certo e meio errado. O Dag Svensson estava trabalhando como <emphasis>freelancer</emphasis> numa reportagem para a <emphasis>Millennium.</emphasis> Mia Bergman, n�o.</p><p>�Caramba. Que puta furo.</p><p>��, imagino que sim - disse Mikael, cansado.</p><p>�Por que voc�s n�o fizeram um comunicado?</p><p>�O Dag Svensson era um amigo e um colega. Achamos mais correto deixar a fam�lia saber do acontecido antes de publicar qualquer coisa a respeito.</p><p>Mikael sabia que n�o seria citado nesse ponto.</p><p>�Certo. No que o Dag Svensson estava trabalhando?</p><p>�Num tema para a <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�Sobre o qu�?</p><p>�Que informa��o exclusiva o <emphasis>Aftonbladet</emphasis> pretende publicar amanh�?</p><p>�Quer dizer que � uma informa��o exclusiva?</p><p>�N�o enche Nicklasson.</p><p>�Ah, Bloomy, seja bonzinho, vai. Voc� acha que os assassinatos t�m alguma coisa a ver com a mat�ria em que o Dag Svensson estava trabalhando?</p><p>�Se voc� me chamar de Bloomy outra vez, eu desligo e fico o resto do ano sem falar com voc�.</p><p>�Desculpe. Voc� acha que o Dag Svensson foi morto por causa do trabalho de investiga��o jornal�stica?</p><p>�N�o fa�o a menor id�ia do motivo por que o Dag Svensson foi morto.</p><p>�O trabalho dele tinha alguma coisa a ver com a Lisbeth Salander?</p><p>�N�o, nada a ver.</p><p>�Voc� sabe se o Dag conhecia a maluca da Salander?</p><p>�N�o.</p><p>�O Dag j� escreveu um bocado de textos sobre a cibercriminalidade. Era nesse tipo de assunto que ele estava trabalhando para a <emphasis>Millennium?</emphasis></p><p><emphasis>�Puxa, cara, voc� n�o desgruda -</emphasis> pensou Mikael, j� a ponto de mandar Nicklasson ir catar coquinho, mas ent�o conteve-se bruscamente e se endireitou na cama. Duas id�ias paralelas lhe ocorreram de repente. Nicklasson disse mais alguma coisa.</p><p>�Nicklasson, espere um minuto. Fique na linha. Eu j� volto. Mikael se levantou e p�s a m�o no aparelho. S�bito, achava-se num outro planeta.</p><p>Desde os assassinatos, Mikael vinha se torturando pensando num jeito de contatar Lisbeth Salander. Era grande a probabilidade de ela ler suas declara��es, onde quer que estivesse. Se ele negasse que a conhecia, ela poderia interpretar isso como abandono da parte dele, ou que ele a tivesse entregado para a m�dia. Se a defendesse, os outros interpretariam que Mikael sabia mais do que dizia sobre os assassinatos. Se ele se pronunciasse de forma adequada, poderia fazer que Lisbeth tivesse a id�ia de procur�-lo. Era uma oportunidade boa demais para deixar escapar. Ele precisava dizer alguma coisa. <emphasis>Mas o qu�?</emphasis></p><p>�Desculpe Nicklasson. Voltei. O que voc� estava dizendo?</p><p>�Eu perguntei se o Dag Svensson n�o estava escrevendo sobre cibercriminalidade.</p><p>�Se quiser uma declara��o minha, eu dou.</p><p>�Sinal verde.</p><p>�Voc� vai ter que me citar fielmente.</p><p>�De que outro jeito eu poderia te citar?</p><p>�Prefiro n�o responder a essa pergunta.</p><p>�O que voc� quer me dizer?</p><p>�Te mando um e-mail dentro de quinze minutos.</p><p>�O qu�?</p><p>�D� uma olhada nos seus e-mails daqui a quinze minutos - disse Mikael, e desligou.</p><p>Mikael sentou-se � escrivaninha e ligou o iBook e o Word. Depois se concentrou dois minutos antes de come�ar a escrever.</p><p>Erika Berger, diretora da <emphasis>Millennium,</emphasis> est� profundamente tocada pelo assassinato do jornalista <emphasis>freelancer</emphasis> Dag Svensson, que era tamb�m seu colaborador. Espera que esses crimes sejam rapidamente elucidados.</p><p>Mikael Blomkvist, jornalista respons�vel pela Millennium, foi quem encontrou seu colega e a namorada, assassinados na noite de Quinta-feira Santa.</p><p>�Dag Svensson era um jornalista fora de s�rie e um ser humano de quem eu gostava muito. Ele tinha v�rias id�ias para reportagens. Estava, entre outras coisas, trabalhando numa grande mat�ria sobre a ciberpirataria�, confidenciou Mikael ao Aftonbladet.</p><p>Nem Mikael Blomkvist nem Erika Berger querem arriscar nenhum tipo de especula��o sobre o culpado dos crimes ou sobre seus poss�veis motivos.]</p><p>Em seguida, Mikael pegou o telefone e ligou para Erika Berger.</p><p>�Oi, Ricky, voc� acaba de ser entrevistada pelo <emphasis>Aftonbladet.</emphasis></p><p>�Ah, �?</p><p>Ele leu rapidamente o texto que havia escrito.</p><p>�Por que isso? - perguntou Erika.</p><p>�Porque � a verdade. O Dag trabalhou uns dez anos como frila, e uma das �reas de atua��o dele era justamente seguran�a em computa��o. Conversei v�rias vezes com ele sobre o assunto e at� t�nhamos pensado na possibilidade de retomar um texto dele depois da mat�ria sobre o tr�fico de mulheres.</p><p>Ele esperou uns segundos antes de prosseguir.</p><p>�Voc� conhece mais algu�m que se interesse por essas quest�es ligadas � ciberpirataria? - perguntou.</p><p>Erika Berger ficou um instante calada. Ent�o entendeu o que Mikael estava tentando fazer.</p><p>�Muito esperto Mikael. Realmente esperto. Est� bem, v� em frente. Nicklasson ligou um minuto depois de receber o e-mail de Mikael.</p><p>�Essa declara��o n�o vale um tost�o furado.</p><p>�Mas � s� isso, e � mais do que qualquer outro jornal vai conseguir. Ou voc� publica tudo, ou ent�o n�o publica nada.</p><p>T�o logo enviou as declara��es para Nicklasson, Mikael sentou-se novamente � sua mesa. Pensou um pouco e ent�o come�ou a digitar no teclado.</p><p>[Cara Lisbeth,</p><p>Escrevo esta carta sabendo que mais cedo ou mais tarde voc� vai l�-la no meu disco r�gido. Lembro de como voc� invadiu o disco de Wennerstr�m h� dois anos e imagino que tamb�m tenha aproveitado a oportunidade para clonar o meu. A esta altura, j� entendi que voc� n�o quer nada comigo. Ainda n�o sei por que voc� rompeu nossa rela��o daquele jeito, mas n�o tenho a inten��o de te perguntar e voc� n�o precisa me explicar.</p><p>Infelizmente, voc� querendo ou n�o, os acontecimentos dos dois �ltimos dias tornaram a nos aproximar. A pol�cia afirma que voc� matou a sangue-frio duas pessoas de quem eu gostava muit�ssimo. N�o tenho como questionar a brutalidade desses assassinatos - fui eu quem encontrou o Dag e a Mia poucos minutos depois que atiraram neles. O problema � que n�o acho que tenha sido voc�. Em todo caso, espero que n�o. Se, como a pol�cia afirma voc� for uma assassina psicopata, isso quer dizer que me enganei redondamente a seu respeito, ou ent�o que voc� mudou incrivelmente no �ltimo ano. E se n�o for voc� a assassina, isso significa que a pol�cia est� ca�ando o suspeito errado.</p><p>Neste ponto, eu deveria te aconselhar a desistir e se entregar para a pol�cia. Desconfio, por�m, que estaria falando com as paredes. O fato � que a sua situa��o � insustent�vel e, mais cedo ou mais tarde, voc� ser� detida. E quando for detida vai precisar de um amigo. Se n�o quiser contar comigo, eu tenho uma irm�. o nome dela � Annika Giannini, ela � advogada. Falei com ela e ela est� disposta a te representar se voc� entrar em contato com ela. Pode confiar totalmente nela.</p><p>Na <emphasis>Millennium,</emphasis> come�amos nossa pr�pria investiga��o sobre os assassinatos do Dag e da Mia. No momento, estou montando uma lista das pessoas que teriam bons motivos para calar Dag Svensson. N�o sei se estou na pista certa, mas vou passar em revista, uma por uma, as pessoas dessa lista.</p><p>O problema � que n�o vejo onde o Dr. Nils Bjurman entra nessa hist�ria. Ele n�o consta no material do Dag, e n�o encontro nenhum elo entre ele, o Dag e a Mia.</p><p>Ajude-me, <emphasis>please.</emphasis> Qual � esse elo? Mikael.</p><p>P. S. Voc� deveria tirar outra foto para a sua carteira de identidade. Essa n�o lhe faz justi�a.]</p><p>Ele pensou mais um pouco e ent�o deu ao documento o nome [Para Sally]. Depois, criou uma pasta [<strong>LISBETH SALANDER</strong>] e colocou bem � vista na �rea de trabalho do seu iBook.</p><p>Na ter�a-feira de manh�, Dragan Armanskij convocou tr�s pessoas para uma reuni�o em torno da mesa redonda da sua sala da Milton Security.</p><p>Johan Fr�klund, de sessenta e dois anos, ex-inspetor de pol�cia em Solna, era o chefe da unidade de interven��o da Milton. Fr�klund respondia pelo planejamento e an�lises. Armanskij o recrutara no funcionalismo do Estado dez anos antes e, com o passar do tempo, passou a consider�-lo um dos mais competentes funcion�rios da empresa.</p><p>Armanskij tamb�m chamou Steve Bohman, de quarenta e oito anos, e Niklas Eriksson, de vinte e nove. Bohman, tal como Fr�klund, era um ex-policial. Formado na brigada de interven��o de Norrmalm nos anos 1980, chegara � brigada criminal, onde conduzira d�zias de investiga��es pesadas. Bohamn fora um dos protagonistas da investiga��o sobre o Homem do Laser no in�cio dos anos 1990 e, em 1997, depois de alguma persuas�o e a proposta de um sal�rio consideravelmente maior, passara para a Milton.</p><p>Niklas Eriksson n�o possu�a uma ficha desse n�vel. Estudara na escola de pol�cia, mas na �ltima hora, um pouco antes de prestar o exame, descobriu que sofria de uma insufici�ncia card�aca cong�nita que n�o s� exigia uma interven��o cir�rgica de peso como significava que sua futura carreira como policial estava indo para o brejo.</p><p>Fr�klund - antigo colega do pai de Eriksson - sugeriu que Armanskij lhe desse uma chance. Como estivesse abrindo uma vaga na unidade de interven��o, Armanskij aceitou contrat�-lo. Nunca se arrependeu. Eriksson estava na Milton havia cinco anos. Ele n�o tinha a mesma familiaridade com o terreno que a maioria dos funcion�rios, em compensa��o, destacava-se pela perspic�cia de seus recursos intelectuais.</p><p>�Bom dia a todos, sentem-se e para come�ar leiam isto aqui - disse Armanskij.</p><p>Distribuiu tr�s pastas que continham umas cinquenta c�pias de recortes de jornal relatando a ca�ada a Lisbeth Salander, al�m de um resumo de tr�s p�ginas sobre seu passado. Armanskij passara a segunda-feira depois da P�scoa redigindo o documento. Eriksson foi o primeiro a terminar a leitura e largar a pasta. Armanskij esperou que Bohman e Fr�klund tamb�m terminassem.</p><p>�Imagino que nenhum de voc�s deixou de ver as manchetes dos tabloides durante o feriado - disse Dragan Armanskij.</p><p>�Lisbeth Salander - disse Fr�klund com voz neutra. Steve Bohman balan�ou a cabe�a.</p><p>Niklas Eriksson olhou para o nada com uma express�o impenetr�vel, esbo�ando um sorriso triste.</p><p>Dragan Armanskij encarou o trio com um olhar perscrutador.</p><p>�Uma de nossas funcion�rias - disse ele. �Voc�s chegaram a conhec�-la nos anos em que ela esteve conosco?</p><p>�Tentei brincar com ela uma vez - disse Niklas Eriksson com ar constrangido. �N�o deu muito certo. Pensei que ela fosse me decapitar. Era uma desmancha-prazeres, acho que nunca troquei mais de umas dez frases com ela.</p><p>�Ela era um tanto especial - disse Fr�klund. Bohman deu de ombros.</p><p>�Era completamente doida, uma verdadeira peste para se conviver. Eu sabia que ela era maluca, mas n�o perturbada a esse ponto.</p><p>�Ela era uma figura estranha nesta empresa - refor�ou Fr�klund. �Eu nunca fui pr�ximo dela, n�o d� para dizer que a gente alguma vez teve um contato caloroso.</p><p>Dragan Armanskij assentiu com a cabe�a.</p><p>�Ela seguia seus pr�prios caminhos - disse. �N�o era uma pessoa f�cil de lidar. Mas eu a contratei porque era a melhor investigadora que j� conheci. Sempre chegava a resultados fora do comum.</p><p>�Est� a� uma coisa que eu nunca entendi - disse Fr�klund. �Nunca saquei como ela podia ser t�o incrivelmente competente e ao mesmo tempo t�o antissocial.</p><p>Os tr�s concordaram com a cabe�a. - � evidente que a explica��o est� no estado ps�quico dela - disse Armanskij, mostrando uma das pastas. �Ela foi declarada incapaz.</p><p>�Eu n�o sabia disso � disse Eriksson. � Quer dizer, ela n�o andava com um cartaz nas costas anunciando que estava sob tutela. E voc� nunca comentou nada.</p><p>�N�o - reconheceu Armanskij. �Nunca comentei nada porque achava que ela n�o precisava ser ainda mais estigmatizada do que j� era. Acho que todo mundo merece uma chance.</p><p>�D� para ver, pelo resultado dessa experi�ncia em Enskede - disse Bohman.</p><p>�Quem sabe.</p><p>Armanskij hesitou um instante. N�o queria revelar sua fraqueza por Lisbeth Salander aos tr�s profissionais que o contemplavam, olhos repletos de expectativa. O tom deles fora bastante neutro durante a conversa, mas Armanskij tamb�m sabia que Lisbeth Salander era abertamente detestada pelos tr�s, bem como por todos os funcion�rios da Milton Security. Ele n�o podia se mostrar fr�gil ou desconcertado. Era fundamental, portanto, apresentar a situa��o de modo a criar uma certa dose de entusiasmo e profissionalismo.</p><p>�Pela primeir�ssima vez, decidi usar parte dos recursos da Milton para cuidarmos de um caso estritamente interno - disse. �N�o podemos chegar a quantias astron�micas, mas pretendo afastar voc�s dois, Bohman e Eriksson, do trabalho do dia a dia. A miss�o de voc�s ser�, para usar uma express�o curinga, �estabelecer a verdade� sobre Lisbeth Salander.</p><p>Bohman e Eriksson dirigiram um olhar c�tico para Armanskij.</p><p>�Quero que voc�, Fr�klund, assuma as r�deas da investiga��o. Quero saber o que aconteceu e o que levou Lisbeth Salander a matar seu tutor e o casal de Enskede. Deve, necessariamente, haver uma explica��o plaus�vel.</p><p>�Desculpe, mas isso est� parecendo uma verdadeira investiga��o policial - objetou Fr�klund.</p><p>�Sem d�vida - Armanskij retrucou imediatamente. �Mas temos certa vantagem em rela��o � pol�cia. Conhecemos Lisbeth Salander e temos uma id�ia de como ela funciona.</p><p>�Hmm - disse Bohman com um tom c�tico. �N�o acredito que algu�m nesta empresa conhe�a a Salander ou tenha a mais vaga id�ia do que se passa na cabe�a dela.</p><p>�N�o faz mal - respondeu Armanskij. �Ela trabalhava para a Milton Security. Considero nossa responsabilidade estabelecer a verdade.</p><p>�A Salander n�o trabalha com a gente desde... quanto tempo faz? Quase dois anos - disse Fr�klund. �N�o acho que a gente seja t�o respons�vel assim pelo que ela faz. E n�o acho que a pol�cia ia gostar que a gente se metesse na investiga��o deles.</p><p>�Pelo contr�rio - disse Armanskij.</p><p>Ele estava jogando seu trunfo e tinha que jogar com habilidade.</p><p>�Como assim? - perguntou Bohman.</p><p>�Ontem eu tive uma longa conversa com o chefe do inqu�rito preliminar, o procurador Ekstr�m, e com o inspetor que est� conduzindo a investiga��o, Bublanski. O Ekstr�m est� sendo pressionado. N�o se trata de um acerto de contas qualquer entre g�ngsteres, e sim de um acontecimento com imenso potencial midi�tico - foram executados um advogado, uma criminologista e um jornalista. Expliquei a eles que, considerando-se que a principal suspeita � uma ex-funcion�ria da Milton Security, t�nhamos decidido iniciar uma investiga��o pr�pria sobre o caso.</p><p>Armanskij fez uma pausa antes de prosseguir.</p><p>�O Ekstr�m e eu concordamos que o importante no momento � que a Lisbeth Salander seja detida o quanto antes, para n�o ter tempo de fazer mais estragos, a si mesma ou aos outros - disse. �J� que, como pessoa, a conhecemos mais que a pol�cia, podemos contribuir. O Ekstr�m e eu decidimos ent�o que voc�s dois - apontou para Bohman e Eriksson - v�o se mudar para a delegacia central e se juntar � equipe de Bublanski.</p><p>Os tr�s lan�aram a Armanskij um olhar perplexo.</p><p>�Desculpe uma pergunta idiota... mas n�s somos civis - disse Bohman. �A pol�cia vai nos abrir as portas de uma investiga��o de assassinato como esta, sem mais nem menos?</p><p>�Voc�s v�o trabalhar sob o comando do Bublanski, mas tamb�m v�o me manter informado. V�o ter livre acesso � investiga��o. Todo o material que n�s j� temos e o que voc�s descobrirem ser� passado ao Bublanski. Para a pol�cia, isso significa que a equipe do Bublanski simplesmente vai ganhar um refor�o extra. E nenhum de voc�s foi civil a vida inteira. Fr�klund e Bohman, voc�s trabalharam muitos anos como policiais antes de vir para c�, e voc�, Eriksson, cursou a escola da pol�cia.</p><p>�Mas isso � contra os princ�pios...</p><p>�De jeito nenhum. A pol�cia recorre frequentemente a consultores civis em diversas investiga��es. Podem ser psic�logos nas investiga��es sobre crimes sexuais ou int�rpretes nas investiga��es que envolvam estrangeiros. Voc�s v�o simplesmente intervir enquanto consultores civis que t�m algum conhecimento a mais do principal suspeito.</p><p>Fr�klund meneou a cabe�a devagar.</p><p>�Certo. A Milton se junta � investiga��o da pol�cia e procura contribuir para a pris�o da Salander. Mais alguma coisa?</p><p>�Uma s�: a miss�o de voc�s, no que diz respeito � Milton, � estabelecer a verdade. Mais nada. Quanto a mim, quero saber se a Salander matou mesmo essas tr�s pessoas, e nesse caso por qu�.</p><p>�Ent�o ainda existe alguma d�vida quanto � culpa dela? - perguntou Eriksson.</p><p>�Os ind�cios de que a pol�cia disp�e s�o muito comprometedores para ela. Mas quero saber se existe outra dimens�o para essa hist�ria, se existe um c�mplice que desconhecemos e que talvez tenha empunhado a arma do crime, ou se h� circunst�ncias que ignoramos.</p><p>�Acho dif�cil encontrar circunst�ncias atenuantes para um triplo assassinato - disse Fr�klund. �Ter�amos que partir do princ�pio de que existe uma chance de ela ser inocente. E eu n�o acredito nisso.</p><p>�Nem eu - reconheceu Armanskij. �Mas a miss�o de voc�s ser� colaborar com a pol�cia de todas as formas poss�veis e contribuir para a sua r�pida deten��o.</p><p>�E de quanto vai ser a nossa verba? - perguntou Fr�klund.</p><p>�O normal. Quero que me mantenham informados dos custos, e se chegarem a quantias fara�nicas a gente desiste. Mas considerem que v�o trabalhar em tempo integral nessa hist�ria por pelo menos uma semana a partir de agora.</p><p>Mais uma vez, hesitou um instante.</p><p>�Sou eu quem conhece melhor a Lisbeth Salander. Isso significa que voc�s devem me ver como um dos protagonistas dessa hist�ria e que eu devo estar entre as pessoas que voc�s v�o interrogar - disse ele, por fim.</p><p>Sonja Modig atravessou o corredor com passos r�pidos e conseguiu chegar � sala de interrogat�rio quando as �ltimas cadeiras acabavam de ser movidas. Sentou-se ao lado de Bublanski, que convocara toda a equipe de investiga��o, inclusive o chefe do inqu�rito preliminar. Hans Faste lan�ou a Sonja um olhar irritado por causa do atraso e ent�o se concentrou na introdu��o: cabia a ele iniciar a reuni�o.</p><p>Ele continuara pesquisando os in�meros conflitos entre a burocracia do Servi�o Social e Lisbeth Salander, a suposta �pista psicopata� como ele a chamava, e inegavelmente tivera tempo de reunir um farto material. Hans Faste clareou a garganta.</p><p>�Apresento-lhes o doutor Peter Teleborian, m�dico-chefe da cl�nica psiqui�trica do Hospital Sankt Stefan, em Uppsala. Ele teve a gentileza de vir at� Estocolmo para deixar � nossa disposi��o tudo o que sabe sobre a Lisbeth Salander.</p><p>Sonja Modig voltou o olhar para Peter Teleborian. Era um homem baixo, de cabelo castanho crespo, �culos com arma��o met�lica e um cavanhaque mi�do. Vestia-se com descontra��o, palet� bege de veludo cotel�, jeans e camisa listrada aberta no colarinho. Tinha fei��es acentuadas, com um qu� de garoto. Sonja j� vira Peter Teleborian diversas vezes, mas nunca tinha falado com ele. Ele dera algumas aulas sobre transtornos ps�quicos quando ela estava no �ltimo ano da escola de pol�cia e, em outra ocasi�o, num est�gio de forma��o continuada, havia falado sobre psicopatas e comportamentos psicopatas entre os jovens. Ela tamb�m assistira ao processo de um estuprador em s�rie em que ele fora chamado a testemunhar como especialista. Por ter se manifestado durante v�rios anos nos debates p�blicos, era um dos psiquiatras mais conhecidos do pa�s. Destacara-se por sua cr�tica severa aos cortes brutais no or�amento dos tratamentos psiqui�tricos, que resultaram no fechamento de hospitais psiqui�tricos e no abandono puro e simples de pessoas v�timas de evidente indig�ncia ps�quica, condenando-as a um destino de pessoas sem-teto e transformando-as em casos sociais. Ap�s o assassinato de Anna Lindh, ministra das Rela��es Exteriores, Teleborian integrara a Comiss�o Parlamentar de Inqu�rito sobre a decad�ncia dos servi�os psiqui�tricos.</p><p>Peter Teleborian cumprimentou os presentes com um movimento de cabe�a e se serviu de �gua mineral num copo pl�stico.</p><p>�Vamos ver se posso ser �til - ele come�ou cauteloso. �Detesto ver meus progn�sticos se cumprindo nesse tipo de contexto.</p><p>�Progn�sticos? - perguntou Bublanski.</p><p>�Sim. Pode-se falar em ironia. Na noite dos assassinatos de Enskede, participei de um painel na televis�o em que se falou da bomba-rel�gio que est� ativada em mais ou menos toda a nossa sociedade. � assustador. Eu de certo n�o estava pensando em Lisbeth Salander naquele momento, mas citei uma s�rie de exemplos - an�nimos, claro - de pacientes que francamente deveriam estar em institui��es de tratamento em vez de andando livres pelas ruas. Eu diria que, s� neste ano, a pol�cia ter� de solucionar pelo menos meia d�zia de homic�dios ou assassinatos cujo culpado pertence a esse grupo de pacientes, de n�mero bastante limitado.</p><p>�E o senhor quer dizer que a Lisbeth Salander faz parte desses loucos de atar? - perguntou Hans Faste.</p><p>�A express�o �loucos de atar� n�o � muito pertinente. Mas ela faz parte, sim, dessa clientela abandonada pela sociedade. �, sem d�vida, um desses indiv�duos dilacerados que eu n�o teria deixado � solta por a�, se tivessem pedido a minha opini�o.</p><p>�O senhor quer dizer que ela deveria ter sido internada antes que cometesse um crime? - perguntou Sonja Modig. �N�o seria muito coerente com os princ�pios de uma sociedade de direito.</p><p>Hans Faste franziu o cenho e lan�ou-lhe um olhar irritado. Sonia Modig se perguntou por que Faste parecia estar sempre mostrando as garras para ela.</p><p>�Voc� est� coberta de raz�o - respondeu Teleborian, vindo assim, indiretamente, em seu socorro. �N�o � coerente com a sociedade de direito, pelo menos n�o na sua forma atual. Mas existe um equil�brio a manter entre o respeito pelo indiv�duo e o respeito pelas v�timas potenciais que um ser humano mentalmente perturbado pode deixar pelo caminho. Nenhum paciente � igual ao outro, e eles precisam ser tratados caso a caso. � evidente que nos servi�os de tratamento psiqui�trico tamb�m cometemos erros e damos alta a pessoas que n�o deveriam estar em liberdade.</p><p>�Talvez n�o seja preciso nos aprofundarmos em pol�tica social no caso que nos interessa - disse Bublanski diplomaticamente.</p><p>�Tem raz�o - concordou Teleborian. �Trata-se aqui de um caso espec�fico. Mas permitam-me apenas dizer que � importante entender que Lisbeth Salander � uma pessoa doente que necessita de cuidados, como qualquer paciente que sofre de dor de dente ou de insufici�ncia card�aca precisa de cuidados. Ela pode se curar, e poderia estar curada hoje se tivesse recebido a ajuda adequada quando ainda era receptiva ao tratamento.</p><p>�O senhor, ent�o, era o m�dico dela - disse Hans Faste.</p><p>�Sou uma das diversas pessoas que lidaram com Lisbeth Salander. Ela foi minha paciente no in�cio da adolesc�ncia, e fui um dos m�dicos que a avaliaram antes da decis�o de coloc�-la sob tutela quando ela atingiu a maioridade.</p><p>�Fale-nos sobre ela - pediu Bublanski. �O que poderia t�-la levado a Enskede para matar duas pessoas desconhecidas, e o que poderia t�-la levado a matar seu tutor?</p><p>Peter Teleborian caiu na gargalhada.</p><p>� N�o, isso eu n�o tenho como dizer. N�o acompanho a evolu��o dela h� v�rios anos, e n�o sei em que grau de psicose ela se encontra. Agora, o que posso adiantar � que duvido muito que ela n�o conhecesse o casal de Enskede.</p><p>�O que o faz pensar assim? - perguntou Hans Faste.</p><p>�Uma das fragilidades no tratamento da Lisbeth Salander � que nunca houve um diagn�stico completo sobre ela. Isso porque ela n�o foi receptiva ao tratamento. Sempre se negou a responder �s perguntas ou participar de qualquer forma de tratamento terap�utico.</p><p>�De modo que o senhor n�o tem certeza se ela � mesmo doente? - perguntou Sonja Modig. �Quero dizer, j� que n�o existe um diagn�stico.</p><p>�Veja o seguinte - disse Peter Teleborian. �Eu recebi a Lisbeth Salander quando ela estava para fazer treze anos. Era psic�tica, tinha problemas f�bicos e sofria de uma evidente mania de persegui��o. Foi minha paciente por dois anos, depois de ser compulsoriamente internada no Sankt Stefan. O motivo desse internamento compuls�rio � que, ao longo de toda a inf�ncia, ela havia demonstrado um comportamento particularmente violento com colegas de escola, professores e pessoas conhecidas. V�rios incidentes foram comunicados ao diretor, ela atingiu e feriu pessoas. Mas a viol�ncia sempre foi dirigida a pessoas com quem ela convivia, ou seja, algu�m que tinha dito ou feito alguma coisa que ela considerava uma ofensa. N�o h� nenhum caso em que ela tenha atacado um perfeito desconhecido. Por isso, acredito que existe uma liga��o entre ela e o casal de Enskede.</p><p>�Com exce��o do ataque no metr� quando ela tinha dezessete anos - disse Hans Faste.</p><p>�Nesse caso, temos que considerar que ela � que foi comprovadamente agredida e n�o fez mais que se defender - disse Teleborian. �A pessoa em quest�o era um conhecido criminoso sexual. Esse � tamb�m um bom exemplo da maneira como ela age. Ela poderia ter se afastado ou procurado prote��o junto aos outros passageiros. Mas optou por golpear e ferir gravemente. Quando se sente amea�ada, ela chega �s vias de fato.</p><p>�Mas ent�o, qual � a doen�a dela? - perguntou Bublanski.</p><p>�Como acabei de dizer, n�o dispomos de fato de um diagn�stico. Eu diria que ela sofre de esquizofrenia e est� sempre se equilibrando nas fronteiras da psicose. Carece de empatia e, por v�rios motivos, pode ser qualificada como uma sociopata. Confesso que me surpreende ela ter se sa�do t�o bem depois da maioridade. Quer dizer que, mesmo sob tutela, ela se movimentou oito anos pela sociedade sem cometer nenhum ato que resultasse numa queixa ou deten��o. Mas o progn�stico...</p><p>�O progn�stico?</p><p>�Nesse tempo todo, ela n�o recebeu tratamento. Eu seria capaz de apostar que a doen�a dela, que talvez pud�ssemos ter amainado ou tratado h� dez anos, agora j� faz parte da sua personalidade. Meu progn�stico � que, uma vez detida, ela n�o ser� condenada � pris�o. Ter� de ser internada numa institui��o.</p><p>�Ent�o como se explica que o tribunal de inst�ncias decidiu conceder a ela um visto para a vida em sociedade? - resmungou Hans Faste.</p><p>�Isso na certa deve ser entendido como a conjun��o de alguns fatores: um advogado bom de l�bia, somado a restri��es or�ament�rias e � eterna liberaliza��o. Em todo caso, foi uma decis�o � qual eu me opus quando o servi�o de medicina legal me consultou. Mas eu n�o tinha poder de decis�o.</p><p>�Mas esse progn�stico de que o senhor fala se baseia necessariamente em suposi��es - sugeriu Sonja Modig. �Quero dizer, na verdade o senhor n�o sabe nada do que aconteceu com ela desde que ela atingiu a maioridade.</p><p>�� mais que uma suposi��o. � a minha experi�ncia.</p><p>�Ela pode representar um perigo para si mesma? - perguntou Sonja Modig.</p><p>�Voc� quer dizer: se ela poderia cometer suic�dio? N�o, duvido muito. Ela � uma psicopata egoman�aca. O que conta � ela mesma. Todas as outras pessoas � sua volta n�o t�m a menor import�ncia.</p><p>�O senhor disse que a rea��o dela pode se traduzir em chegar �s vias de fato - disse Hans Faste. �Ou seja, ela pode ser vista como uma pessoa perigosa.</p><p>Peter Teleborian o contemplou demoradamente. Ent�o, inclinou a cabe�a e co�ou a testa antes de responder.</p><p>�Voc�s n�o imaginam como � dif�cil afirmar com exatid�o corno uma pessoa vai reagir. Eu n�o gostaria que Lisbeth Salander fosse ferida quando voc�s a prenderem... mas digamos que, tratando-se dela, eu tomaria cuidado para que a deten��o se desse com a m�xima cautela. Se ela estiver armada, h� um grande risco de ela usar a arma.</p></section><section><p><strong><emphasis>18 - TER�A-FEIRA 29 DE MAR�O � QUARTA-FEIRA 30 DE MAR�O</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Tr�s investiga��es paralelas sobre os assassinatos de Enskede estavam, portanto, em andamento. A primeira era a do inspetor Bublanski, que tinha a vantagem de representar a autoridade do Estado. Tudo indicava que a solu��o estava bem ao alcance da m�o; tinham uma suspeita e uma arma do crime associada a essa suspeita. Tinham uma liga��o incontest�vel com a primeira v�tima e uma poss�vel liga��o, atrav�s de Mikael Blomkvist, com as duas outras v�timas. Para Bublanski, praticamente s� faltava encontrar Lisbeth Salander e enfi�-la numa cela da casa de deten��o de Kronoberg.</p><p>A investiga��o de Dragan Armanskij estava formalmente subordinada � investiga��o oficial da pol�cia, mas Armanskij tamb�m tinha uma agenda pr�pria. Sua inten��o era, de certa forma, cuidar dos interesses de Lisbeth Salander - descobrir a verdade e, de prefer�ncia, uma verdade com circunst�ncias atenuantes.</p><p>A investiga��o mais inc�moda era a da <emphasis>Millennium. A</emphasis> revista careciatotalmente dos recursos de que dispunham tanto a pol�cia como a empresa de Armanskij. Ao contr�rio da pol�cia, Mikael Blomkvist n�o estava particularmente interessado em descobrir um motivo plaus�vel que pudesse ter levado Lisbeth Salander a Enskede para matar seus dois amigos. Em dado momento, durante os feriados da P�scoa, ele conclu�ra que simplesmente n�o acreditava naquela hist�ria. Se Lisbeth Salander estava envolvida de alguma maneira nos assassinatos, era necessariamente por motivos bem diversos dos que a investiga��o oficial dava a entender. Outra pessoa tinha segurado a arma, ou ent�o alguma coisa escapara do controle de Lisbeth Salander.</p><p>Niklas Eriksson permaneceu calado no trajeto de t�xi entre Slussen e a delegacia central de Kungsholmen. Estava deslumbrado por se ver afinal, e sem aviso pr�vio, em meio a uma leg�tima investiga��o policial. Olhou de lado para Steve Bohman, que relia mais uma vez o resumo de Armanskij. Ent�o sorriu de repente consigo mesmo.</p><p>Aquela miss�o lhe oferecia uma chance totalmente inesperada de viver uma ambi��o que nem Armanskij nem Steve Bohman conheciam ou sequer adivinhavam. Achava-se, de repente, em condi��es de apanhar Lisbeth Salander. Esperava poder contribuir para sua deten��o. Esperava que ela fosse condenada � pris�o perp�tua.</p><p>Todo mundo sabia que Lisbeth Salander n�o era muito popular na Milton Security. A maioria dos colaboradores que tinham lidado com ela a consideravam uma chave de cadeia. Mas nem Bohman nem Armanskij desconfiavam at� que ponto Niklas Eriksson odiava Lisbeth Salander.</p><p>A vida havia sido injusta com Niklas Eriksson. Ele era um sujeito bonito. Um homem na flor da idade. Al�m disso, era inteligente. Ainda assim, estava exclu�da para sempre qualquer possibilidade de ele vir a ser o que sempre sonhara, ou seja, um policial. Seu problema era um sopro no cora��o, causado por uma les�o microsc�pica de uma v�lvula. Ele fora operado e o defeito, corrigido, mas, pelo fato de ter tido um problema card�aco, fora definitivamente desclassificado e julgado um ser humano de categoria inferior.</p><p>Quando lhe propuseram trabalhar na Milton Security, ele aceitou. Mas foi sem o menor entusiasmo. Considerava a Milton uma lixeira de indiv�duos in�teis - tiras aposentados e que j� n�o estavam � altura. E ele era um desses rejeitados, sem ser respons�vel por isso.</p><p>Quando come�ou a trabalhar na Milton, uma de suas primeiras miss�es foi auxiliar a unidade de interven��o. Ele tinha que fazer uma an�lise de seguran�a para a prote��o pessoal de uma cantora mundialmente famosa, e j� n�o t�o jovem, que vinha sofrendo amea�as de um admirador demasiado afoito, que al�m disso era um paciente psiqui�trico foragido. A cantora morava sozinha numa mans�o em S�dert�rn, onde a Milton havia instalado um sistema de vigil�ncia e um alarme, e deixado um guarda-costas de plant�o. Certa noite, j� bem tarde, o admirador afoito tentou entrar arrombando a casa. O guarda-costas neutralizou rapidamente o sujeito, que foi depois condenado por amea�as e arrombamento, e despachado de volta para o asilo.</p><p>Por duas semanas, Niklas Eriksson fora v�rias vezes � mans�o de S�dert�rn, acompanhando outros funcion�rios da Milton. Achava que a cantora madurona tinha um ar altivo de megera esnobe, e olhara espantada para ele quando ele bancou o sedutor. Ela deveria era se dar por feliz de um admirador ainda se lembrar dela.</p><p>Desprezava a maneira como o pessoal da Milton lambia as botas daquela mulher. Mas, evidentemente, n�o expressara sua opini�o.</p><p>Certa tarde, pouco antes da pris�o do admirador, a cantora e mais dois funcion�rios da Milton achavam-se � beira de uma pequena piscina nos fundos da casa, enquanto ele pr�prio estava l� dentro tirando fotos das portas e janelas que precisariam eventualmente ser refor�adas. Andara de um c�modo a outro at� chegar ao quarto da mulher, e de repente n�o resistira � tenta��o de abrir uma c�moda. Encontrara uma d�zia de �lbuns fotogr�ficos datando da sua �poca de gl�ria, nos anos 1970 e 1980, quando ela e sua orquestra faziam turn�s pelo mundo inteiro. Encontrara tamb�m uma caixa com fotos muito pessoais da cantora. Fotos relativamente inocentes, mas que, com alguma imagina��o, poderiam ser vistas como �ensaios er�ticos�. <emphasis>Meu Deus, que mocreia!</emphasis> Ele roubara cinco das fotos mais ousadas, aparentemente tiradas por algum amante e decerto guardadas como recorda��o.</p><p>Fizera c�pias e em seguida repusera os originais no lugar. Depois, esperou cinco meses antes de vend�-las a um tabloide ingl�s. Tinham-lhe pagado nove mil libras. As fotos deram o que falar.</p><p>Ele at� hoje n�o sabia como Lisbeth Salander tinha feito. Pouco depois de as fotos serem publicadas, ela o procurou. Sabia que era ele quem vendera as fotos. Amea�ou denunci�-lo a Dragan Armanskij se voltasse a fazer coisas daquele tipo. Ela o teria denunciado se pudesse se fundamentar em documentos - o que aparentemente ela n�o estava em condi��es de fazer. Mas, a partir daquele dia, sentiu que ela o vigiava. Assim que ele se virava, deparava com seus olhinhos su�nos.</p><p>Ele se sentira acuado e frustrado. O �nico revide poss�vel tinha sido minar a credibilidade dela alimentando fofocas a seu respeito na sala dos funcion�rios, mas sem muito �xito. N�o ousava chamar muita aten��o, pois sabia, como todos na empresa, que por algum motivo incompreens�vel ela era protegida pelo pr�prio Armanskij. Eriksson se perguntava que esp�cie de poder ela tinha sobre o presidente da Milton, ou se era o caso de pensar que o velho safado a comia escondido. Embora ningu�m na Milton gostasse muito de Lisbeth Salander, os funcion�rios respeitavam Armanskij e aceitavam a presen�a daquela garota estranha. Niklas Eriksson experimentara um al�vio enorme com sua progressiva sa�da de cena e o cessar de suas atividades na Milton.</p><p>Uma oportunidade de lhe dar o troco acabava de surgir. Finalmente, sem risco algum. Ela poderia acus�-lo do que quisesse - ningu�m iria acreditar. Nem Armanskij daria cr�dito a uma assassina psicopata.</p><p>O inspetor Bublanski viu Hans Faste sair do elevador na companhia de Bohman e Eriksson, da Milton Security. Faste tinha ido buscar os novos colaboradores na entrada de seguran�a. Bublanski n�o se entusiasmava muito com a id�ia de abrir os arquivos de uma investiga��o por homic�dio para pessoas de fora, mas era decis�o de seus superiores e... afinal, Bohman era um policial de verdade, j� com bons quil�metros rodados. E Eriksson, egresso da escola de pol�cia, n�o podia ser um total imbecil. Bublanski indicou a sala de reuni�es.</p><p>A ca�ada a Lisbeth Salander estava em seu sexto dia e era hora de fazer um balan�o. O procurador Ekstr�m n�o participava da reuni�o. Estavam presentes os inspetores Sonja Modig, Hans Faste, Curt Bolinder e Jerker Holmberg, refor�ados por quatro colegas da unidade de investiga��o da Criminal Nacional. Bublanski come�ou apresentando os novos colaboradores da Milton Security e perguntou se um deles gostaria de dizer algumas palavras. Bohman clareou a garganta.</p><p>� J� faz algum tempo que deixei esta casa, mas alguns de voc�s me conhecem e sabem que fui um dos seus durante muitos anos, antes de passar para o setor privado. O motivo da nossa presen�a aqui � que a Salander trabalhou v�rios anos para n�s e, de certa forma, nos sentimos um pouco respons�veis. Nossa miss�o � colaborar no que for poss�vel para a r�pida pris�o de Salander. Podemos fornecer algumas informa��es pessoais sobre ela. Portanto, n�o estamos aqui para atrapalhar a investiga��o nem para aprontar com voc�s por baixo do pano.</p><p>�Que tipo de colega ela era? - perguntou Faste.</p><p>�N�o exatamente uma pessoa que dava vontade de abra�ar� respondeu Niklas Eriksson.</p><p>Ele se calou quando Bublanski levantou a m�o.</p><p>�Teremos oportunidade de abordar mais detalhes durante a reuni�o. Mas vamos analisar as coisas dentro de uma certa ordem, para obtermos uma vis�o coerente da situa��o. Terminada a reuni�o, voc�s dois v�o se encontrar com o procurador Ekstr�m para assinar um juramento de segredo profissional. Agora, vamos come�ar com Sonja.</p><p>�� frustrante. Apenas fizemos progresso poucas horas depois do assassinato, quando identificamos Salander. Localizamos seu domic�lio, ou o que pensamos ser seu domic�lio. Depois, nem uma m�nima pista sequer. Recebemos umas trinta liga��es de pessoas que a teriam visto, mas at� agora todas se revelaram falsas. Ela parece ter evaporado.</p><p>�O que � meio incompreens�vel - disse Curt Bolinder. �Ela tem uma apar�ncia f�sica bem caracter�stica, usa tatuagens, n�o deveria ser dif�cil encontr�-la.</p><p>�A pol�cia de Uppsala fez uma blitz ontem, dessas com fanfarra e banda de m�sica, baseada numa informa��o dessas. Tudo isso para p�r as m�os num garoto de catorze anos parecido com a Salander, que levou um susto daqueles. Os pais n�o ficaram l� muito contentes, posso garantir.</p><p>�Imagino que n�o ajude estarmos buscando uma pessoa que aparenta ter catorze anos. Ela pode sumir no meio de turmas de jovens.</p><p>�Mas com a publicidade que a m�dia vem fazendo em torno dela, algu�m teria que ter visto alguma coisa - objetou Bolinder. �Ela vai passar no <emphasis>Procura-se</emphasis> desta semana, vamos ver se d� em alguma coisa.</p><p>�Custo a acreditar, quando penso que ela foi manchete de todos os jornais suecos - disse Hans Faste.</p><p>�Isso significa que a gente talvez tenha que mudar o racioc�nio - disse Bublanski. �Ela pode ter conseguido fugir para o exterior, mas � mais prov�vel que esteja escondida em algum lugar, esperando.</p><p>Bohman levantou a m�o. Bublanski lhe fez um sinal com a cabe�a.</p><p>�A imagem que temos dela n�o indica que ela seja autodestrutiva. � uma fina estrategista e planeja suas a��es como um jogador de xadrez. N�o faz nada sem analisar as conseq��ncias. Esta �, pelo menos, a opini�o de Dragan Armanskij.</p><p>�� tamb�m a opini�o do ex-psiquiatra dela. Mas vamos deixar de lado, por enquanto, a personalidade dela - disse Bublanski. �Mais cedo ou mais tarde ela vai ter que fazer algum movimento. Jerker, quais s�o os recursos financeiros dela?</p><p>�Esta voc�s v�o adorar - disse Jerker Holmberg. �H� muitos anos ela tem uma conta no Handelsbanken. Esse � o dinheiro que ela declara. Ou melhor, que o doutor Bjurman declarava. H� um ano, essa conta acusava um saldo de cem mil coroas. No outono de 2003, ela sacou toda essa quantia.</p><p>�Ela precisou de dinheiro l�quido no outono de 2003. Segundo Armanskij, foi quando ela parou de trabalhar na Milton Security - disse Bohman.</p><p>�Pode ser. A conta ficou zerada por duas semanas. Depois, a mesma quantia voltou a ser depositada.</p><p>�Ela pode ter achado que ia precisar do dinheiro para alguma coisa, acabou n�o usando e p�s o dinheiro de volta no banco.</p><p>�Faz sentido. Em dezembro de 2003, ela usou essa conta para pagar algumas faturas, inclusive �s taxas de condom�nio do ano seguinte. O saldo ficou em setenta mil coroas. Depois disso, nenhuma movimenta��o durante um ano, com exce��o de um dep�sito de nove mil coroas e alguma coisa. Verifiquei, era a heran�a da m�e dela.</p><p>�Certo.</p><p>�Em mar�o deste ano, ela sacou o dinheiro da heran�a, a quantia exata era de 9312 coroas. Foi � �nica vez que ela mexeu nessa conta.</p><p>�Mas ent�o do que � que ela vive caramba?</p><p>�Escutem esta. Em janeiro deste ano, ela abriu outra conta. Desta vez no SEB<strong>.</strong> Depositou dois milh�es de coroas.</p><p>�O qu�?</p><p>�De onde saiu esse dinheiro? - perguntou Modig.</p><p>�Foi transferido para a conta dela a partir de um banco das ilhas anglo-normandas.</p><p>O sil�ncio tomou conta da sala de reuni�es.</p><p>�N�o estou entendendo - disse Sonja Modig por fim.</p><p>�Quer dizer que esse dinheiro ela n�o declarou? - perguntou Bublanski.</p><p>��, mas tecnicamente ela n�o precisa declarar antes do pr�ximo ano. Observe que essa quantia n�o consta no relat�rio mensal de Bjurman sobre a situa��o financeira de Salander.</p><p>�Voc� quer dizer que ou ele n�o estava a par, ou eles estavam tramando alguma coisa juntos. Jerker, em que p� estamos no aspecto t�cnico?</p><p>�Ontem � noite fiz um balan�o com o chefe do inqu�rito preliminar. 0 que sabemos � o seguinte. Primeiro: temos condi��es de estabelecer a liga��o entre Salander e os dois locais dos crimes. Achamos suas impress�es digitais na arma do crime e nos estilha�os de uma x�cara de caf� quebrada em Enskede. Estamos aguardando a resposta sobre as amostras de DNA que colhemos... mas n�o h� quase nenhuma d�vida de que ela esteve no apartamento.</p><p>�Certo.</p><p>�Segundo: temos suas impress�es digitais na embalagem da arma encontrada no apartamento do doutor Bjurman.</p><p>�Certo.</p><p>�Terceiro: temos, finalmente, uma testemunha que a viu no local do crime em Enskede. O balconista de uma tabacaria se manifestou dizendo que Lisbeth Salander comprou um pacote de Marlboro light na sua loja na noite do crime.</p><p>�E levou todo esse tempo para resolver falar.</p><p>�Ele viajou no feriad�o, como todo mundo. O fato � que a tabacaria fica na esquina, aqui - Jerker Holmberg mostrou um mapa -, a uns cento e noventa metros do local do crime. Ela entrou um pouco antes de a loja fechar, �s vinte e duas horas. Ele nos deu uma descri��o perfeita.</p><p>�A tatuagem no pesco�o? - perguntou Curt Bolinder.</p><p>�Ele foi meio vago sobre isso. Acha que se lembra de uma tatuagem. Mas notou com seguran�a que ela tinha um <emphasis>piercing</emphasis> na sobrancelha.</p><p>�E o que mais?</p><p>�N�o h� muito mais que isso como prova puramente t�cnica. Mas � o suficiente.</p><p>�Faste, e o apartamento da Lundagatan?</p><p>�Achamos as digitais dela, mas n�o acredito que ela more l�. Viramos o apartamento de ponta-cabe�a e tudo parece pertencer a Miriam Wu. Ela s� foi inclu�da no contrato em fevereiro deste ano.</p><p>�O que se sabe sobre ela?</p><p>�Nenhuma condena��o. L�sbica assumida. Participa �s vezes de shows e coisas assim, na Gay Pride. Ela faz de conta que estuda sociologia e � copropriet�ria de uma butique porn� na Tegn�rgatan. A Domino Fashion.</p><p>�Butique porn�? - perguntou Sonja Modig, erguendo as sobrancelhas.</p><p>Uma vez, para agradar o marido, ela havia comprado uma lingerie sexy na Domino Fashion. Coisa que n�o tinha a menor inten��o de revelar aos homens daquela mesa.</p><p>��, eles vendem algemas e roupa de puta, coisas assim. Se estiver procurando um chicote...</p><p>�N�o � uma butique porn�, � uma butique de moda para pessoas que gostam de lingerie refinada - ela disse.</p><p>�D� na mesma.</p><p>�Prossiga - disse Bublanski, irritado. �N�o temos nenhuma pista da Miriam Wu.</p><p>�Nenhuma.</p><p>�Ela pode ter viajado no feriado - sugeriu Sonja Modig.</p><p>�Ou ent�o a Salander acabou com ela tamb�m - sugeriu Faste. �Ela talvez queira varrer do mapa todos os seus conhecidos.</p><p>�Com que ent�o, a Miriam Wu � l�sbica. Devemos concluir que a Salander e ela est�o juntas?</p><p>�Acho que podemos tranq�ilamente concluir que existe uma rela��o sexual - disse Curt Bolinder. �Me baseio em v�rias coisas. Primeiro, achamos as digitais da Lisbeth Salander em torno da cama do apartamento. Tamb�m achamos digitais nas algemas, que obviamente foram usadas como brinquedo sexual.</p><p>�Ent�o ela decerto vai apreciar as algemas que estou reservando para ela - disse Hans Faste.</p><p>Sonja Modig suspirou profundamente.</p><p>�Prossiga - disse Bublanski.</p><p>�Segundo: temos a informa��o de que a Miriam Wu flertou pesado no Moulin com uma garota cuja descri��o corresponde � de Salander. Foi h� uns quinze dias. O informante diz que conhece a Salander, que j� cruzou com ela no Moulin, embora este ano ela n�o tenha sido vista por l�, j� que estava no exterior. N�o tive tempo de verificar com os funcion�rios. Vou ver isso hoje � tarde.</p><p>�O dossi� dela no Servi�o Social n�o menciona que ela � l�sbica. Na adolesc�ncia, ela volta e meia fugia das fam�lias adotivas para dar em cima dos homens nos bares. Foi pega v�rias vezes na companhia de homens mais velhos.</p><p>�Ela al�m de tudo rodava a bolsinha! - disse Hans Faste.</p><p>�O que se sabe sobre os amigos dela? Curt?</p><p>�Praticamente nada. Ela n�o foi interpelada desde os dezoito anos. Conhece o Dragan Armanskij e o Mikael Blomkvist, isso a gente sabe. E tamb�m a Miriam Wu, claro. A mesma fonte que me falou sobre ela e a Wu no Moulin disse que antigamente ela andava com um grupo de meninas. O grupo atendia pelo nome de Evil Fingers.</p><p>�Evil Fingers? O que � isso? - Bublanski quis saber.</p><p>�Parece um tro�o de ocultismo. Elas costumavam se encontrar para farrear.</p><p>�N�o me diga que a Salander tamb�m � uma maldita satanista - disse Bublanski. �A m�dia vai adorar.</p><p>�Um grupo de l�sbicas satanistas - sugeriu Faste generosamente.</p><p>�Hans, voc� tem uma vis�o medieval das mulheres - disse Sonja Modig. �At� eu j� ouvi falar nas Evil Fingers.</p><p>�Ah, �? - disse Bublanski, surpreso.</p><p>�Era um grupo feminino de rock do final dos anos 1990. N�o eram superestrelas, mas teve uma �poca em que foram relativamente famosas.</p><p>�Ou seja, l�sbicas sat�nicas tocando <emphasis>hard rock �</emphasis> disse Hans Faste.</p><p>�Est� bem, chega - disse Bublanski. �Hans, voc� e o Curt se informem sobre as integrantes do Evil Fingers e falem com elas. A Salander tinha outros amigos?</p><p>�N�o muitos al�m do seu ex-tutor, Holger Palmgren. Mas ele est� passando por um tratamento prolongado depois que teve um derrame, parece que � bem grave. N�o, n�o posso dizer que descobri um c�rculo de amizades. Ali�s, tamb�m n�o descobrimos onde a Salander mora, nem um caderno de endere�os, mas n�o parece que ela tenha muitos amigos pr�ximos.</p><p>�Mesmo assim, ningu�m pode andar por a� feito um fantasma, sem deixar vest�gios. O que pensar de Mikael Blomkvist?</p><p>�A gente n�o o seguiu propriamente, mas ficamos dando sinal de vida durante o fim de semana - disse Faste. �Para o caso de a Salander se manifestar. Ele foi para casa depois do trabalho e parece n�o ter sa�do do apartamento durante o feriado.</p><p>�Acho dif�cil Mikael Blomkvist estar envolvido no assassinato - disse Sonja Modig. �A vers�o dele faz sentido e ele nos forneceu um cronograma detalhado de seus passos na noite do crime.</p><p>�Mas ele conhece a Salander. � o elo entre ela e o casal de Enskede. E h� tamb�m o depoimento dele sobre os dois homens que agrediram a Salander uma semana antes dos assassinatos. O que pensar disso?</p><p>�Com exce��o do Blomkvist, n�o h� nenhuma outra testemunha dessa agress�o... ou dessa suposta agress�o - disse Faste.</p><p>�Voc� acha que o Blomkvist est� inventando ou mentindo?</p><p>�Talvez, para desviar a aten��o da Salander.</p><p>�Nada disso faz realmente sentido. Foi o Blomkvist que aventou a teoria de que o casal de Enskede foi morto por causa do livro que o Dag Svensson estava escrevendo.</p><p>�Isso � balela - disse Faste. �Foi a Salander. Por que algu�m iria assassinar o tutor dela para calar o Dag Svensson? E quem... um cara da pol�cia?</p><p>�Se o Blomkvist publicar essa teoria vamos ficar numa pior, com pistas policiais para todo lado � disse Curt Bolinder.</p><p>Todos menearam a cabe�a.</p><p>�Certo - disse Sonja Modig. �Ela matou o Bjurman por qu�?</p><p>�E o que significa aquela tatuagem? - perguntou Bublanski, mostrando a foto da barriga de Bjurman.</p><p><strong>SOU</strong><strong>UM</strong><strong>PORCO</strong><strong>S�DICO</strong><strong>,</strong><strong>UM</strong><strong>CANALHA</strong><strong>ESTUPRADOR</strong><strong>.</strong> Um breve sil�ncio caiu sobre o grupo.</p><p>�O que dizem os m�dicos? - quis saber Bohman.</p><p>� A tatuagem data de tr�s anos. Eles podem ver isso pela pele, conforme a profundidade do sangramento - disse Sonja Modig.</p><p>�Podemos pressupor que o Bjurman n�o mandou fazer a tatuagem por livre e espont�nea vontade.</p><p>�Verdade que existem tarados por toda parte, mas imagino que essa n�o seja uma tatuagem corriqueira, mesmo entre os fan�ticos.</p><p>Sonja Modig balan�ou o indicador.</p><p>�O m�dico legista diz que, tecnicamente falando, � uma p�ssima tatuagem, o que eu mesma tamb�m constatei. Conclus�o: foi feita por um amador. A agulha n�o foi aplicada sempre com a mesma profundidade, e � uma tatuagem imensa numa parte muito sens�vel do corpo. Deve ter sido um procedimento extremamente doloroso, que pode quase ser colocado no mesmo n�vel de golpes e ferimentos agravados.</p><p>�A n�o ser pelo fato de o Bjurman nunca ter dado queixa - disse Faste.</p><p>�Eu tamb�m n�o daria queixa se me tatuassem um <emphasis>slogan</emphasis> desses na barriga � observou Curt Bolinder.</p><p>�Tenho outra coisa aqui - disse Sonja Modig - que talvez possa refor�ar a mensagem da tatuagem. � sobre o Bjurman ser um porco s�dico.</p><p>Ela abriu uma pasta com fotos impressas e as fez circular.</p><p>�S� imprimi uma pequena amostra. Mas est� a� o que encontrei num arquivo do disco r�gido do Bjurman. S�o fotos baixadas da internet. O computador dele cont�m mais de duas mil fotos desse tipo.</p><p>Faste deu um assobio e mostrou a foto de uma mulher amarrada numa posi��o brutal e desconfort�vel.</p><p>�Talvez seja algo para a Domino Fashion ou as Evil Fingers - disse ele.</p><p>Bublanski fez um gesto irritado com a m�o para que Faste calasse a boca.</p><p>�Como devemos interpretar isso? - perguntou Bohman.</p><p>�A tatuagem tem, digamos... dois anos - disse Bublanski. �Foi mais ou menos na �poca em que Bjurman ficou doente. Nem o m�dico legista nem o arquivo m�dico dele registram qualquer doen�a grave al�m da hipertens�o. Logo, podemos imaginar que exista uma rela��o.</p><p>�A Salander se mudou no decorrer desse mesmo ano - disse Bohman. �Parou, de repente, de trabalhar para a Milton e se mandou para o exterior.</p><p>�Todos concordam que pode haver alguma rela��o a� tamb�m? Se a mensagem da tatuagem estiver certa, o Bjurman teria estuprado algu�m. Salander era, sem d�vida, indicada para isso. Nesse caso, seria um bom motivo para um assassinato.</p><p>�Mas tamb�m poderia haver outras interpreta��es - disse Hans Faste. �Imagino muito bem um cen�rio em que a Salander e a china oferecem uma esp�cie de servi�o de acompanhamento ligeiramente sadomas�. Sendo o Bjurman um desses birutas que gozam quando chicoteados por menininhas. Ele pode ter desenvolvido uma esp�cie de rela��o de depend�ncia com a Salander e as coisas azedaram.</p><p>�Mas isso n�o explica por que ela teria ido at� Enskede.</p><p>�Se o Dag Svensson e a Mia Bergman estavam prestes a denunciar o com�rcio do sexo, eles podem ter topado com a Salander e a Wu. A� pode ter surgido um motivo para a Salander matar os dois.</p><p>�O que nos deixa com mais especula��es ainda - disse Sonja Modig. A reuni�o se estendeu por mais uma hora, e tamb�m foi debatido o sumi�o do computador de Dag Svensson. Quando pararam para almo�ar, sentiam-se todos frustrados. A investiga��o estava com mais pontos de interroga��o do que nunca.</p><p>Erika Berger telefonou para Magnus Borgsj�, da dire��o do <emphasis>Svenska Morgon-Posten,</emphasis> assim que chegou � reda��o na ter�a-feira de manh�.</p><p>�Estou interessada - disse ela.</p><p>�Eu tinha certeza.</p><p>�Eu pretendia te comunicar a minha decis�o logo depois do feriado da P�scoa, mas, como voc� pode imaginar a reda��o aqui est� um verdadeiro caos.</p><p>�O assassinato de Dag Svensson. Meus sinceros p�sames. � uma hist�ria feia essa.</p><p>�Ent�o voc� entende que n�o � uma boa hora para eu anunciar que vou abandonar o barco.</p><p>Ele ficou um instante em sil�ncio.</p><p>�Estamos com um problema - disse Borgsj�.</p><p>�Qual?</p><p>�Quando conversamos a primeira vez, eu disse que o cargo teria de ser preenchido no dia 1� de agosto. Mas ocorre que H�kan Morander, o redator-chefe que voc� dever� substituir, n�o est� nada bem de sa�de. Est� com problemas card�acos e precisa reduzir as atividades. Ele conversou com o m�dico h� alguns dias e acabo de saber que ele vai deixar o cargo em 1- de julho. Pensei que ele ficaria at� o outono e que voc� poderia ir tomando p� da situa��o junto com ele, em agosto e setembro. Mas na atual situa��o temos uma crise. Erika precisamos de voc� aqui a partir de 1- de maio; 15 de maio no mais tardar.</p><p>�Meu Deus. Isso � daqui a umas poucas semanas.</p><p>�Voc� continua interessada?</p><p>�Sim... mas significa que s� tenho um m�s para organizar as coisas na Millennium.</p><p>�Eu sei, Erika, sinto muito. Mas sou obrigado a pression�-la. Agora, um m�s deveria ser mais que suficiente para voc� encerrar suas pend�ncias numa revista que tem meia d�zia de funcion�rios.</p><p>�Mas isso significa eu largar tudo bem no meio do caos.</p><p>�Voc� vai largar de qualquer jeito. S� estamos antecipando em algumas semanas.</p><p>�Quero colocar umas condi��es.</p><p>�Estou escutando.</p><p>�Vou continuar no conselho administrativo da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�N�o � muito pertinente. Est� certo que a <emphasis>Millennium</emphasis> � uma revista mensal, e muit�ssimo menor, mas do ponto de vista t�cnico somos concorrentes.</p><p>�N�o importa. Eu ficaria totalmente alheia �s atividades da reda��o da <emphasis>Millennium,</emphasis> mas n�o tenho a menor inten��o de vender minha parte. De modo que permane�o no C. A.</p><p>�Est� certo, a gente d� um jeito.</p><p>Marcaram um encontro com a dire��o da empresa na primeira semana de abril a fim de discutirem alguns detalhes e redigir o contrato.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael Blomkvist teve uma sensa��o de <emphasis>d�j� vu</emphasis> ao examinar a lista de suspeitos que tinha elaborado com Malu no fim de semana. Nela constavam trinta e sete nomes que Dag Svensson maltratava sem d� nem piedade em seu livro. Entre eles, vinte e um eram de clientes que ele tinha conseguido identificar.</p><p>Mikael se lembrou de repente da sua ca�ada a um assassino em Hedestad, dois anos antes, cuja galeria de suspeitos, no in�cio, somava quase cinquenta pessoas. Ele fora obrigado a se deter em especula��es sobre a eventual culpabilidade de cada uma.</p><p>Por volta das dez horas de ter�a-feira, fez um sinal pedindo a Malu Eriksson que viesse at� sua sala. Fechou a porta e convidou-a a se sentar.</p><p>Permaneceram em sil�ncio enquanto tomavam um cafezinho. Por fim, ele lhe passou a lista dos trinta e sete nomes levantados no fim de semana.</p><p>�O que a gente faz?</p><p>�Para come�ar, vamos mostrar essa lista para a Erika daqui a uns dez minutos. Depois, vamos tentar analisar nome por nome. Pode ser que algu�m da lista tenha rela��o com os assassinatos.</p><p>�E como a gente faz para analisar?</p><p>�Eu vou me concentrar nos vinte e um clientes sexuais nominalmente citados no livro. Eles t�m mais a perder do que os outros. Vou retomar onde o Dag parou e visitar um por um.</p><p>�Certo.</p><p>�Tenho duas tarefas para voc�. Primeiro, temos aqui sete nomes sem identifica��o, dois clientes e cinco aproveitadores. A sua tarefa, nos pr�ximos dias, vai ser tentar identific�-los. Alguns nomes est�o na tese da Mia; talvez haja refer�ncias que possam nos ajudar a descobrir os verdadeiros nomes deles.</p><p>�Est� bem.</p><p>�Segundo, sabemos muito pouco sobre o Nils Bjurman, o tutor da Lisbeth. Os jornais publicaram um curr�culo sum�rio, mas imagino que metade esteja errada.</p><p>�Ent�o vou dar uma fu�ada no passado dele.</p><p>�Exatamente. Veja o que consegue encontrar.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Harriet Vanger ligou para Mikael Blomkvist por volta das cinco da tarde.</p><p>�Voc� pode falar?</p><p>�Um pouquinho.</p><p>�Essa mo�a que eles est�o procurando... foi ela que ajudou a me achar, n�o foi?</p><p>Harriet Vanger e Lisbeth Salander nunca tinham se encontrado.</p><p>�Foi - respondeu Mikael. �Me desculpe, n�o tive tempo de te ligar para te manter informada. Mas foi ela, sim, de fato.</p><p>�O que isso significa?</p><p>�No que lhe diz respeito... nada, espero.</p><p>�Mas ela sabe tudo sobre mim e sobre o que aconteceu dois anos atr�s.</p><p>�Sim, ela sabe tudo o que aconteceu. Harriet ficou calada do outro lado da linha.</p><p>�Harriet... n�o acredito que ela seja culpada. Sou obrigado a pensar que ela � inocente. Eu confio na Lisbeth Salander.</p><p>�Se acreditarmos no que dizem os jornais...</p><p>�N�o d� para acreditar no que dizem os jornais. � simplista demais. Ela deu a palavra dela que n�o ia trair voc�. Acho que vai cumpri-la pelo resto da vida. Pelo que percebi, ela tem princ�pios.</p><p>�E se ela n�o cumprir?</p><p>�N�o sei, Harriet. Vou fazer de tudo para descobrir o que realmente aconteceu.</p><p>�Est� bem.</p><p>�N�o se preocupe.</p><p>�N�o estou preocupada. S� quero estar preparada para o pior. Como voc� est�, Mikael?</p><p>�N�o muito bem. Estamos em p� de guerra com esses assassinatos. Harriet Vanger calou-se um instante.</p><p>�... Nesse momento, estou aqui em Estocolmo. Pego o avi�o para a Austr�lia amanh� e vou ficar um m�s fora.</p><p>�Ah, �?</p><p>�Estou hospedada no mesmo hotel.</p><p>�N�o sei bem o que dizer. Estou me sentindo um caco. Tenho que trabalhar esta noite e n�o vou ser uma companhia muito agrad�vel.</p><p>�Voc� n�o precisa ser uma companhia agrad�vel. Venha s� relaxar um pouco.</p><p>Mikael voltou para casa por volta da uma da manh�. Estava cansado e chegou a pensar em deixar tudo para l� e ir dormir, mas mesmo assim ligou o iBook e checou a caixa postal. N�o havia nada de interessante.</p><p>Abriu a pasta [LISBETH SALANDER] e encontrou um arquivo recente. Intitulava-se [Para MikBlom] e estava bem junto do documento intitulado [Para Sally].</p><p>Foi quase um choque deparar de repente com aquele arquivo em seu computador. <emphasis>Ela est� aqui. Lisbeth Salander entrou no meu computador.</emphasis> Tal<emphasis>vez ainda esteja a�.</emphasis> Clicou duas vezes.</p><p>N�o saberia dizer o que esperava. Uma carta. Uma resposta. Protestos de inoc�ncia. Uma explica��o. A resposta de Lisbeth Salander a Mikael Blomkvist era frustrante, de t�o breve. A mensagem consistia numa �nica palavra. Quatro letras.</p><p>[Zala.]</p><p>Mikael fitou aquele nome.</p><p>Dag Svensson tinha falado em Zala ao telefone, duas horas antes de ser morto.</p><p>O <emphasis>que ela est� tentando dizer? Ser� que Zala � o elo entre o Bjurman, o Dag e a Mia? Como? Por qu�? Quem � ele? E como � que a Lisbeth sabe? De que modo est� envolvida nisso?</emphasis></p><p>Abriu as propriedades do arquivo e viu que o texto tinha sido criado havia menos de quinze minutos. Ent�o abriu um sorriso. O arquivo mostrava <emphasis>Mikael Blomkvist</emphasis> como autor. Ela criara o arquivo no pr�prio computador dele, e com o seu programa. Era melhor que um e-mail, n�o deixava pistas nem um IP que pudesse ser rastreado, embora Mikael tivesse quase certeza de que Lisbeth Salander jamais poderia ser rastreada pela rede. E isso simplesmente provava que ela tinha operado um <emphasis>hostile takeover</emphasis> - era assim que ela chamava - do seu computador.</p><p>Aproximou-se da janela e olhou para o pr�dio da prefeitura. N�o conseguia se livrar da sensa��o de estar sendo observado por Lisbeth naquele momento, era quase como se ela estivesse ali na sala contemplando-o atrav�s da tela do iBook. Concretamente, ela podia estar em qualquer lugar do mundo, mas ele suspeitava que ela estava muito mais perto. Em algum lugar no centro de Estocolmo. Num raio de um quil�metro de onde ele se achava.</p><p>Refletiu alguns instantes, em seguida sentou-se e criou um novo arquivo Word que intitulou [Sally-2] e salvou-o na �rea de trabalho. Escreveu uma mensagem veemente.</p><p>[Lisbeth,</p><p>Que diacho de menina complicada voc� est� me saindo... Quem � esse Zala? Ele � que � o elo? Voc� sabe quem matou Dag &amp; Mia? Se sabe, me diga, para a gente conseguir desfazer este n� e ir para casa dormir. Mikael.]</p><p>Ela estava dentro do iBook de Mikael Blomkvist. A resposta chegou menos de um minuto depois. Um novo arquivo se materializou na sua �rea de trabalho, desta vez intitulado [Super-Blomkvist].</p><p>[O jornalista � voc�. Trate de descobrir.]</p><p>As sobrancelhas de Mikael se contra�ram. Ela estava de goza��o com ele, e ainda usando aquele apelido que, ela sabia muito bem, ele detestava. E n�o fornecia um ind�cio sequer. Ele digitou o arquivo [Sally-3] e o salvou na �rea de trabalho.</p><p>[Lisbeth,</p><p>Um jornalista descobre as coisas perguntando �s pessoas que sabem. E eu te pergunto: voc� sabe por que o Dag e a Mia foram mortos e quem os matou? Se souber, me diga. D�-me uma pista para que eu possa avan�ar. Mikael.]</p><p>Foi desanimando enquanto esperava, horas a fio, por uma resposta. Eram mais de quatro da manh� quando desistiu e foi se deitar.</p></section><section><p><strong><emphasis>19 - QUARTA-FEIRA 30 DE MAR�O � SEXTA-FEIRA 1�</emphasis></strong><strong><emphasis>DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Na quarta-feira, n�o aconteceu nada de particularmente interessante. Mikael gastou o dia passando um pente-fino no material de Dag Svensson para achar todas as refer�ncias ao nome de Zala. Como fizera Lisbeth Salander, procurou a pasta [ZALA] no computador de Dag Svensson e leu os tr�s arquivos, [Irene P.], [Sandstr�m] e [Zala], e, assim como Lisbeth, percebeu que Dag Svensson tivera uma fonte na pol�cia que atendia pelo nome de Gulbrandsen. Conseguiu localiz�-lo na Criminal de S�dert�lje, mas quando ligou disseram que Gulbrandsen estava viajando a trabalho e s� voltaria na segunda-feira.</p><p>Observou que Dag Svensson dedicara muito tempo a Irene P. Leu o relat�rio da aut�psia e descobriu que a mulher fora morta lentamente, de maneira brutal. O assassinato ocorrera no final de fevereiro. A pol�cia n�o tinha nenhuma pista do assassino, mas partia do princ�pio de que, sendo Irene uma prostituta, o assassino devia ser um de seus clientes.</p><p>Mikael se perguntou por que Dag Svensson teria guardado o arquivo sobre Irene P. na pasta [ZALA]. Isso indicava uma liga��o entre Zala e Irene P., mas o texto n�o fazia nenhuma refer�ncia a isso. Ou seja, Dag Svensson estabelecera a liga��o s� na sua cabe�a.</p><p>O arquivo [Zala] era t�o sucinto que lembrava anota��es de trabalho provis�rias. Mikael concluiu que Zala (supondo que ele de fato existisse) aparecia como uma esp�cie de fantasma no mundo do crime. Aquilo n�o parecia ser muito realista e o texto n�o remetia a nenhuma fonte.</p><p>Fechou o arquivo e co�ou a cabe�a. Desvendar o assassinato de Dag e Mia era uma tarefa muito mais complicada do que ele tinha imaginado. E, sem querer, sentia-se o tempo todo com uma d�vida. O problema � que, na verdade, ele n�o dispunha de nenhum ind�cio apontando claramente que Lisbeth n�o tinha liga��o com os assassinatos. Ele apenas se fundamentava no absurdo que era ela ter ido at� Enskede para matar dois amigos dele.</p><p>Sabia que recursos financeiros n�o lhe faltavam; ela usara seus talentos como hacker para surrupiar uma quantia fabulosa de v�rios bilh�es de coroas. Nem Lisbeth sabia que ele sabia. Exceto ele ter sido obrigado (com a autoriza��o de Lisbeth) a contar dos seus talentos em computa��o para Erika Berger, jamais revelara os segredos dela para ningu�m.</p><p>Negava-se a acreditar que Lisbeth Salander fosse culpada dos assassinatos. Tinha para com ela uma d�vida que jamais poderia pagar. Ela n�o s� lhe salvara a vida quando Martin Vanger estava prestes a mat�-lo, como tamb�m salvara sua carreira e, provavelmente, a revista Millennium, ao entregar a cabe�a daquele financista corrupto que era o Wennerstr�m.</p><p>Essas s�o coisas que vinculam. Sentia uma imensa lealdade em rela��o a Lisbeth Salander. Fosse ela culpada ou n�o, pretendia fazer de tudo para ajud�-la quando, mais cedo ou mais tarde, ela fosse detida.</p><p>Mas tinha de admitir que n�o sabia coisa alguma a seu respeito. Os v�rios laudos psiqui�tricos, o fato de ela ter sido internada numa das institui��es mais respeitadas do pa�s, sendo inclusive declarada incapaz, indicavam claramente que a cabe�a dela n�o funcionava muito bem. A m�dia dera muito espa�o ao m�dico-chefe Peter Teleborian, da cl�nica psiqui�trica Sankt Stefan, em Uppsala. Por discri��o, ele n�o se pronunciara especificamente sobre Lisbeth Salander, no entanto n�o perdera a oportunidade de bater na sua tecla da decad�ncia do tratamento dos doentes mentais. Teleborian era uma autoridade respeitada n�o s� na Su�cia como no mundo inteiro, enquanto eminente especialista em doen�as ps�quicas. Tinha sido muito convincente e conseguira expressar sua simpatia pelas v�timas e por suas fam�lias, e ao mesmo tempo dar a entender que se preocupava imensamente com o bem-estar de Lisbeth.</p><p>Mikael se perguntou se deveria entrar em contato com Peter Teleborian para convenc�-lo a colaborar de alguma maneira. Mas conteve-se. Ponderou que Peter Teleborian teria muito tempo para ajudar Lisbeth Salander depois que ela fosse detida.</p><p>Por fim, foi at� a copa pegar um caf� na caneca com o logotipo do Partido Moderado, e entrou na sala de Erika Berger.</p><p>�Estou com uma lista imensa de clientes sexuais e cafet�es para entrevistar - disse.</p><p>Ela meneou a cabe�a com ar preocupado.</p><p>�Vou levar uma semana, talvez duas, para dar conta da lista toda. Eles est�o espalhados entre Str�ngn�s e Norrk�ping, n�o muito distantes de Estocolmo. Vou precisar de um carro.</p><p>Ela abriu a bolsa e pegou as chaves da sua BMW.</p><p>Posso?</p><p>Claro que sim. Eu posso vir trabalhar tanto de carro como de trem. Qualquer coisa, eu pego o carro do Lars.</p><p>�Obrigado.</p><p>�S� tem uma condi��o.</p><p>�Ah, �?</p><p>�Alguns desses caras s�o verdadeiros trogloditas. Se voc� est� saindo numa cruzada contra os cafet�es para desvendar o assassinato do Dag e da Mia, quero que leve sempre isto no bolso.</p><p>E colocou uma bomba de g�s lacrimog�neo sobre a mesa.</p><p>�Onde voc� arranjou isso?</p><p>�Comprei nos Estados Unidos no ano passado. J� pensou uma mulher sozinha na rua, � noite, sem arma?</p><p>�E voc� imagina o bafaf� que vai dar se eu usar isso a� e me prenderem por porte ilegal de arma?</p><p>�Melhor do que ter de escrever o seu necrol�gio. Mikael... n�o sei se deu para perceber, mas �s vezes me preocupo muito com voc�.</p><p>�Ah, �?</p><p>�Voc� assume riscos e � t�o metido que n�o consegue recuar depois que come�ou uma besteira.</p><p>Ele sorriu e deixou a bomba na mesa de Erika.</p><p>�Obrigado por sua preocupa��o. Mas n�o vou precisar.</p><p>�Micke, eu insisto.</p><p>�Pode insistir. Mas j� estou preparado.</p><p>Enfiou a m�o no bolso do palet� e tirou o cartucho de g�s lacrimog�neo que tinha achado na bolsa de Lisbeth Salander e trazia consigo desde ent�o. Erika suspirou.</p><p>Bublanski bateu � porta da sala de Sonja Modig e sentou-se na cadeira dos visitantes em frente � sua mesa.</p><p>�O computador do Dag Svensson - disse ele.</p><p>�Tamb�m pensei nisso - ela respondeu. �Fui eu que fiz a reconstitui��o das �ltimas vinte e quatro horas de Svensson e Bergman. Ainda h� umas lacunas, mas o Dag Svensson n�o esteve na reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> naquele dia. Em compensa��o, andou pela cidade e, por volta das quatro da tarde, encontrou um antigo colega de escola. Um encontro casual num caf� da Drottninggatan. Esse colega afirma que Dag Svensson estava realmente com um laptop na mochila. Ele viu, e os dois inclusive falaram sobre o assunto.</p><p>�E por volta das onze da noite, depois que ele foi morto, o computador n�o estava na casa dele.</p><p>�Isso mesmo.</p><p>�Que conclus�o a gente pode tirar?</p><p>�Ele pode ter ido a algum outro lugar e, por um motivo qualquer, ter deixado ou esquecido o computador l�.</p><p>�Faz sentido?</p><p>�N�o muito. Mas ele pode ter deixado para uma revis�o ou no conserto. E tem tamb�m a possibilidade de ele trabalhar em outro lugar que a gente n�o conhece. Ele j� havia alugado uma vez uma sala numa ag�ncia de frilas em Sankt Eriksplan, por exemplo.</p><p>�Sei.</p><p>�E � claro que tamb�m existe a possibilidade de o assassino ter levado o computador.</p><p>�Segundo Armanskij, a Lisbeth Salander � perita em computa��o.</p><p>�� - Sonja Modig assentiu com a cabe�a.</p><p>�Hmm. A teoria do Blomkvist � que Dag Svensson e Mia Bergman foram assassinados por causa da pesquisa que o Svensson estava fazendo. E que devia estar no computador.</p><p>�Estamos com v�rios trens de atraso. Tr�s v�timas, s�o tantas pistas para retra�ar que nos cria um problema de tempo, mas o fato � que ainda n�o efetuamos uma busca em regra no local de trabalho do Dag Svensson na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>�Falei com a Erika Berger agora de manh�. Diz ela que est�o surpresos de ainda n�o termos ido l� dar uma olhada nas coisas dele. Ficamos muito concentrados na Lisbeth Salander, para prend�-la o quanto antes, e a verdade � que sabemos muito pouco sobre o motivo. Voc� poderia...</p><p>�Marquei com a Berger uma visita para amanh�.</p><p>�Obrigado.</p><p>Na quinta-feira, Mikael estava conversando com Malu Eriksson em sua sala quando ouviu o telefone da reda��o tocar. Avistou Henry Cortez pela fresta da porta e n�o prestou mais aten��o. Ent�o, no fundo de seu c�rebro, registrou que era o telefone da sala de Dag Svensson que estava tocando. Interrompeu-se em meio a uma frase e levantou-se de um salto.</p><p>�Pare, n�o toque nesse aparelho! - gritou.</p><p>Henry Cortez acabava de p�r a m�o no telefone. Mikael entrou correndo na sala. Como <emphasis>� que era mesmo a droga do nome que ele...</emphasis></p><p>��ndigo Marketing, bom dia, quem fala � o Mikael. No que posso ajud�-lo?</p><p>�H�... bom dia, meu nome � Gunnar Bj�rck. Recebi uma carta dizendo que ganhei um celular.</p><p>�Meus parab�ns - disse Mikael Blomkvist. �Trata-se de um Sony Ericsson, o �ltimo modelo.</p><p>�E � de gra�a?</p><p>�Inteiramente de gra�a. A �nica coisa � que, para receber seu pr�mio, o senhor precisa responder a uma pesquisa. Trabalhamos com an�lise de mercado e an�lises aprofundadas para diversas empresas. O senhor teria de gastar uma horinha respondendo a algumas perguntas. E, se aceitar, passa para a segunda etapa concorrendo a cem mil coroas.</p><p>�Entendi. E � poss�vel fazer isso por telefone?</p><p>�N�o, sinto muito. Parte da pesquisa inclui a identifica��o de diversos logotipos de empresas que precisamos lhe mostrar. Tamb�m iremos lhe perguntar que tipo de imagem publicit�ria lhe parece a mais atraente, mostrando-lhe v�rias alternativas. Um dos nossos colaboradores ir� visit�-lo.</p><p>�Ah, sim... E por que eu fui escolhido?</p><p>�Realizamos esse tipo de pesquisa duas ou tr�s vezes por ano. Neste estudo de agora, estamos dando �nfase a homens da sua idade com boa situa��o profissional. Depois, a escolha foi feita ao acaso, pelos registros de identidade.</p><p>Por fim, Gunnar Bj�rck aceitou receber a visita de um colaborador da �ndigo Marketing. Informou que estava em licen�a m�dica, em repouso numa casa de campo em Sm�dalar�. Explicou como ir at� l�. Marcaram o encontro para sexta-feira de manh�.</p><p><strong>�YES</strong>! - exclamou Mikael depois de desligar.</p><p>Deu um soco no ar. Malu Eriksson e Henry Cortez trocaram um olhar perplexo.</p><p>Paolo Roberto aterrissou em Arlanda �s onze e meia da quinta-feira. Dormira a maior parte do voo procedente de Nova York e, pela primeira vez, n�o sentia os efeitos do fuso hor�rio.</p><p>Tinha passado um m�s nos Estados Unidos debatendo sobre boxe, assistindo a lutas amistosas e buscando id�ias para uma produ��o que ele pretendia vender � Strix Television. Constatou nost�lgico, que sua carreira agora estava definitivamente encerrada, em parte por causa de uma suave press�o da fam�lia, em parte porque estava passando da idade. N�o havia muito mais que ele pudesse fazer a n�o ser tentar manter a forma, o que ele fazia por meio de intensas sess�es de treinamento pelo menos uma vez por semana. Ainda era um nome importante no mundo do boxe e imaginou que de um jeito ou de outro continuaria trabalhando com esse esporte o resto da vida.</p><p>Apanhou sua mala na esteira. Foi detido para revista ao passar pela alf�ndega. Mas um dos agentes sabia das coisas e o reconheceu.</p><p>�Ol�, Paolo. Imagino que s� tenha luva de boxe na sua mala.</p><p>Paolo Roberto garantiu que n�o levava nenhum objeto contrabandeado e deixaram-no entrar no pa�s.</p><p>Estava deixando o hall de desembarque e pegando a rampa em dire��o ao �nibus para Arlanda quando estacou de repente, ao deparar com o rosto de Lisbeth Salander nas manchetes dos jornais vespertinos. De in�cio n�o entendeu o que estava vendo. Perguntou-se se, afinal, n�o estava sentindo o efeito do fuso hor�rio. Ent�o voltou a ler a manchete.</p><p><strong>CA�ADA</strong><strong>A</strong><strong>LISBETH</strong><strong>SALANDER</strong></p><p>Seu olhar passou para a segunda manchete.</p><p><strong>EXCLUSIVO</strong><strong>!</strong><strong>PSICOPATA</strong><strong>PROCURADA</strong><strong>POR</strong><strong>TRIPLO</strong><strong>ASSASSINATO</strong></p><p>Indeciso, entrou na revistaria e comprou os jornais vespertinos, tamb�m os matutinos, e dirigiu-se a uma lanchonete. Leu com uma sensa��o de irrealidade.</p><p>Ao chegar a seu apartamento da Bellmansgatan por volta das onze da noite, na quinta-feira, Mikael Blomkvist estava cansado e deprimido. Planejava ir dormir cedo e tentar recuperar um pouco do sono atrasado, mas n�o resistiu � tenta��o de se conectar a internet e dar uma olhada na sua caixa postal.</p><p>N�o recebera nada de muito interessante, mas por desencargo de consci�ncia abriu a pasta [<strong>LISBETH</strong><strong>SALANDER</strong>]. Seu cora��o disparou quando encontrou um arquivo novo, intitulado [<strong>MB2</strong>]. Clicou duas vezes.</p><p>[O procurador E. est� despejando informa��es na m�dia. Pergunte a ele por que n�o repassou o antigo relat�rio policial.]</p><p>Mikael contemplou estupefato, a misteriosa mensagem. O que ela queria dizer com isso? Que antigo relat�rio policial? N�o entendia o que ela estava sugerindo. Que menina danada de complicada! Por que ela sempre tinha que redigir as mensagens em forma de charada? Um instante depois, ele criou um novo documento, que chamou de [Cr�ptica].</p><p>[Ol�, Sally. Estou supercansado, n�o parei quieto desde os assassinatos. Estou sem �nimo para brincar de adivinha. Pode ser que voc� n�o esteja nem a�, ou que n�o leve a situa��o a s�rio, mas eu quero saber quem matou os meus amigos. M]</p><p>Esperou em frente � tela. A resposta [Cr�ptica 2] chegou no minuto seguinte.</p><p>[O que voc� faria no meu lugar?] Ele respondeu com [Cr�ptica 3].</p><p>[Lisbeth, se voc� pirou de vez, s� o Peter Teleborian, na certa, pode te ajudar. Mas n�o acredito que voc� tenha matado o Dag e a Mia. Espero n�o estar enganado.</p><p>O Dag e a Mia pretendiam denunciar o com�rcio do sexo. Minha hip�tese � que isso de alguma forma motivou os crimes. Mas n�o tenho nada para fundamentar essa hip�tese.</p><p>N�o sei o que deu errado entre n�s, mas um dia conversamos sobre amizade. Eu te disse que a amizade se baseia em duas coisas - respeito e confian�a. Mesmo que voc� n�o goste de mim, pode confiar em mim totalmente. Nunca revelei seus segredos. Nem mesmo o que aconteceu com os bilh�es de Wennerstr�m. Confie em mim. N�o sou seu inimigo. M.]</p><p>A resposta demorou tanto que Mikael j� tinha perdido a esperan�a. Mas uns cinquenta minutos depois apareceu, de repente, o [Cr�ptica 4].</p><p>[Vou pensar no assunto.]</p><p>Mikael enfim respirou aliviado. Vislumbrou, de s�bito, um pequeno clar�o de esperan�a. A resposta significava exatamente isso. Ela ia pensar no assunto. Era a primeira vez, desde que sumira repentinamente da sua vida, que ela aceitava se comunicar com ele. Ela estar disposta a pensar no assunto significava que ia pesar os pr�s e os contras antes de falar com ele. Ele escreveu [Cr�ptica 5].</p><p>[Est� bem, eu espero. Mas n�o demore demais.]</p><p>O inspetor Hans Faste atendeu a liga��o no celular quando rodava pela L�ngholmsgatan em dire��o � ponte de V�sterbron para ir trabalhar na sexta-feira de manh�. A pol�cia n�o tinha verba suficiente para vigiar ininterruptamente o apartamento da Lundagatan. Tinham combinado com um vizinho de porta, um policial aposentado, que ficasse de olho no apartamento.</p><p>�A china acabou de chegar - disse o vizinho.</p><p>Hans Faste n�o poderia estar num lugar mais prop�cio. Fez um retorno proibido diante do ponto de �nibus da Heleneborgsgatan, em frente � ponte, e dirigiu-se para a Lundagatan via H�galidsgatan. Estacionou menos de dois minutos depois do telefonema, atravessou a rua a passo acelerado e entrou no pr�dio pela entrada dos carros.</p><p>Miriam Wu ainda estava em frente � porta do apartamento, olhando para a fechadura arrombada e as fitas adesivas, quando ouviu passos na escada. Virou-se e viu um homem forte, de porte atl�tico e olhar intenso se aproximar. Sentiu-o como algu�m hostil, largou a mala no ch�o e preparou-se para uma demonstra��o de boxe tailand�s, se necess�rio.</p><p>�Miriam Wu? - ele perguntou.</p><p>Para sua imensa surpresa, o homem apresentou uma ins�gnia policial.</p><p>�Sim - respondeu Mimmi. �Do que se trata?</p><p>�Onde voc� esteve na semana passada?</p><p>�Viajando. O que aconteceu? Fui assaltada? Faste olhou para ela.</p><p>�Vou ter de lhe pedir que me acompanhe at� Kungsholmen - disse, pondo uma m�o no ombro de Miriam Wu.</p><p>Bublanski e Modig viram uma Miriam Wu razoavelmente irritada sendo escoltada por Faste at� a sala de interrogat�rio.</p><p>�Sente-se. Sou o inspetor criminal Jan Bublanski e essa � minha colega Sonja Modig. Lamento termos sido obrigados a traz�-la aqui desta maneira, mas temos umas perguntas para lhe fazer.</p><p>�Ah, �? Por qu�? O seu colega ali n�o � de falar muito. Mimmi apontou o polegar na dire��o de Faste.</p><p>�Faz mais de uma semana que estamos procurando voc�. Pode me dizer por onde andava?</p><p>�Sim, claro. Mas n�o estou com vontade e, at� onde eu sei, isso n�o lhe diz respeito.</p><p>Bublanski ergueu uma sobrancelha.</p><p>�Chego em casa, dou com a porta arrombada e lacrada pela pol�cia, e a� um macho entupido de anabolizantes me arrasta at� aqui. N�o tenho direito a alguma explica��o?</p><p>�Voc� n�o gosta de machos? - perguntou Hans Faste.</p><p>Miriam Wu olhou para ele chocada. Bublanski e Modig o fitaram com olhos severos.</p><p>�Devo deduzir que voc� n�o leu os jornais na semana passada? Estava fora do pa�s?</p><p>Abalada, Miriam Wu come�ava a se sentir insegura.</p><p>�N�o, n�o li os jornais. Passei quinze dias em Paris, visitando meus pais. Acabo de chegar da esta��o.</p><p>�Veio de trem?</p><p>�N�o gosto de avi�o.</p><p>�E n�o leu as manchetes dos jornais?</p><p>�Acabo de descer do trem noturno, fui para casa de metr�.</p><p>O inspetor Bubolha refletiu. Nem todos os jornais da manh� davam Lisbeth Salander nas manchetes. Levantou-se, saiu da sala e voltou um minuto depois com a edi��o de P�scoa do <emphasis>Aftonbladet,</emphasis> cuja primeira p�gina estava tomada pela foto de Lisbeth Salander.</p><p>Miriam Wu por pouco n�o desmaiou.</p><p>Mikael Blomkvist seguiu as instru��es fornecidas por Gunnar Bj�rck, sessenta e dois anos, para chegar � casa de campo de Sm�dalar�. Estacionou o carro e constatou que a �casinha� era uma casa moderna e muito confort�vel, da qual se avistava um peda�o da angra de Jungfrufj�rden. Subiu uma trilha de cascalhos e tocou a campainha. Gunnar Bj�rck era exatamente igual � sua foto da identidade que Dag Svensson tinha conseguido.</p><p>�Bom dia - disse Mikael.</p><p>�Bom dia, foi f�cil de achar?</p><p>�Foi, sim.</p><p>�Entre. Vamos ficar na cozinha.</p><p>�Parece �timo.</p><p>Gunnar Bj�rck parecia estar bem de sa�de, mas mancava ligeiramente.</p><p>�Estou de licen�a m�dica - disse ele.</p><p>�Nada grave, espero - disse Mikael.</p><p>�Estou aguardando uma cirurgia de h�rnia de disco. Aceita um caf�?</p><p>�N�o, obrigado - disse Mikael.</p><p>Sentou-se � mesa, abriu a sacola e tirou de dentro uma pasta. Bj�rck sentou-se � sua frente.</p><p>�Tenho a impress�o de que j� o conhe�o. J� nos vimos em algum lugar?</p><p>�N�o - disse Mikael.</p><p>�Seu rosto me parece realmente familiar.</p><p>�Talvez tenha me visto no jornal.</p><p>�Como � mesmo o seu nome?</p><p>�Mikael Blomkvist. Sou jornalista, trabalho na revista <emphasis>Millennium.</emphasis> Gunnar Bj�rck pareceu intrigado. Ent�o as pe�as do quebra-cabe�a se encaixaram. <emphasis>Super-Blomkvist. O caso Wennerstr�m.</emphasis> Mas ainda n�o entendia as implica��es.</p><p><emphasis>�Millennium.</emphasis> N�o sabia que voc�s faziam pesquisa de mercado.</p><p>�S� excepcionalmente. Eu queria que o senhor desse uma olhada nessas tr�s fotos e me dissesse que modelo prefere.</p><p>Mikael espalhou sobre a mesa as fotos de tr�s mulheres. Uma das fotos tinha sido baixada de um site porn� da internet e impressa na impressora. As outras duas eram amplia��es de fotos coloridas de carteira de identidade.</p><p>Gunnar Bj�rck ficou l�vido.</p><p>�N�o estou entendendo.</p><p>�N�o? Esta � Lidia Komarova, dezesseis anos, de Minsk, na Bielo-R�ssia. Ao lado dela, Myang So Chin, tamb�m conhecida como Jo-Jo, da Tail�ndia. Vinte e cinco anos. Por fim, Yelena Barasowa, dezenove anos, de Tallinn. Voc� comprou servi�os sexuais dessas tr�s mulheres e eu gostaria de saber de qual gostou mais. Pode considerar como uma pesquisa de mercado.</p><p>Bublanski encarou Miriam Wu com um olhar c�tico e ela devolveu-lhe o olhar.</p><p>�Resumindo, voc� afirma que conhece Lisbeth Salander h� pouco mais de tr�s anos. Sem nenhuma contrapartida, ela a incluiu no contrato do apartamento agora na primavera, e foi morar em outro lugar. Voc�s se encontram na cama uma vez ou outra, quando ela d� sinal de vida, mas voc� n�o sabe onde ela mora nem no que ela trabalha ou como ganha a vida. E quer que eu acredite nisso?</p><p>�Estou me lixando se acredita ou n�o. N�o cometi nenhum crime, e minha op��o de vida e parceiros sexuais n�o lhe dizem respeito, nem a mais ningu�m.</p><p>Bublanski suspirou. Tinha recebido a not�cia do aparecimento de Miriam Wu com uma sensa��o de liberta��o. <emphasis>Enfim, uma abertura.</emphasis> As respostas que ela lhe oferecia, por�m, eram tudo menos esclarecedoras. Para dizer a verdade, eram at� mesmo estranhas. O problema � que ele acreditava nela. Miriam Wu respondia com precis�o e sem hesitar. Sabia dizer com precis�o em que lugares e em que ocasi�es tinha encontrado com Lisbeth Salander, e descreveu com tantos detalhes as circunst�ncias que a fizeram se mudar para a Lundagatan que tanto Bublanski como Modig conclu�ram que uma hist�ria t�o esquisita s� podia ser ver�dica.</p><p>Hans Faste assistira ao interrogat�rio de Miriam Wu com uma crescente sensa��o de irrita��o, mas conseguira manter a boca fechada. Achava que Bublanski estava sendo mole demais com a china. Aquela cachorra arrogante ficava aumentando as explica��es para evitar responder � �nica pergunta que interessava, ou seja, onde, porra, a puta safada da Lisbeth Salander estava escondida.</p><p>Mas Miriam Wu n�o sabia onde Lisbeth Salander estava. N�o tinha a menor id�ia de qual era o trabalho de Lisbeth Salander. Nunca ouvira falar na Milton Security. Nunca ouvira falar em Dag Svensson ou em Mia Bergman, e tampouco sabia responder a uma �nica pergunta interessante. Ignorava totalmente que Salander estava sob tutela, que havia sido internada na adolesc�ncia e que tinha laudos psiqui�tricos eloquentes no curr�culo.</p><p>Em compensa��o, confirmou que ela e Lisbeth tinham estado no Moulin, que haviam se beijado, voltado em seguida para a Lundagatan, e se despedido na manh� seguinte. Poucos dias depois, Miriam Wu pegara o trem para Paris e deixara de ver todas as manchetes dos jornais suecos. A n�o ser por uma r�pida apari��o de Lisbeth para deixar as chaves do carro, n�o a via desde a noite no Moulin.</p><p>�Chaves do carro? - perguntou Bublanski. � Salander n�o tem carro.</p><p>Miram Wu explicou que ela tinha comprado um Honda cor de vinho que estava estacionado na frente do pr�dio. Bublanski se levantou e olhou para Sonja Modig.</p><p>�Voc� pode continuar o interrogat�rio? - perguntou, saindo da sala. Precisava encontrar Jerker Holmberg e pedir um exame t�cnico no Honda cor de vinho. Precisava, antes de mais nada, ficar sozinho para pensar.</p><p>Na sua cozinha com uma bela vista para o mar, Gunnar Bj�rck, em licen�a m�dica, chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros na S�po, tinha adquirido a cor de um fantasma. Mikael o contemplava com olhos neutros e pacientes. Agora estava convencido de que Bj�rck nada tinha a ver com os assassinatos de Enskede. Dag Svensson n�o tinha tido tempo de se encontrar com ele, Bj�rck ignorava totalmente que em breve seu nome e sua foto estariam numa reportagem que revelaria muita coisa sobre os clientes do com�rcio do sexo.</p><p>A contribui��o de Bj�rck limitava-se a um �nico detalhe interessante. Ele era amigo pessoal do dr. Nils Bjurman. Tinham se conhecido no clube de tiro da pol�cia, do qual Bj�rck era membro ativo h� vinte e seis anos. Em certa �poca, inclusive, participara da diretoria do conselho administrativo junto com Bjurman. N�o era uma amizade profunda, mas haviam sa�do duas ou tr�s vezes para jantar.</p><p>N�o, fazia v�rios meses que n�o via Bjurman. At� onde era capaz de lembrar, a �ltima vez remontava ao ver�o anterior, quando tinham tomado uma cerveja na esplanada de um caf�. Lamentava que Bjurman tivesse sido morto por aquela psicopata, mas n�o pretendia ir ao enterro.</p><p>Mikael achou curiosa essa coincid�ncia, mas acabou deixando para l�. Bjurman devia ter conhecido centenas de pessoas na sua vida profissional e associativa. N�o era improv�vel nem estatisticamente estranho ele conhecer uma pessoa que constava nos registros de Dag Svensson. Mikael descobrira que ele pr�prio conhecia um jornalista que tamb�m constava.</p><p>Precisava acabar com aquilo. Bj�rck j� tinha passado por todas as etapas de praxe. Primeiro a nega��o, depois - quando Mikael mostrara parte da documenta��o - raiva, amea�as, tentativa de suborno e, por fim, s�plicas. Mikael ignorara pacientemente todos as investidas.</p><p>�Percebe que vai destruir a minha vida se publicar isso? � disse Bj�rck afinal.</p><p>�Percebo - respondeu Mikael.</p><p>�Mas vai publicar assim mesmo.</p><p>�Sem pensar duas vezes.</p><p>�Por qu�? Podia ter um pouco de compaix�o. Estou doente.</p><p>�Interessante voc� evocar a compaix�o como argumento.</p><p>�O que custa ter um pouco de humanidade?</p><p>�Tamb�m acho, meu chapa. Voc� est� a� se lamentando porque estou destruindo a sua vida, mas n�o hesitou em destruir a vida de muitas garotas, e transgredindo a lei. Temos provas no caso de tr�s meninas. Sabe l� quantas outras passaram pelas suas m�os. Onde estava a sua caridade humana nessa hora?</p><p>Ele se levantou, juntou os documentos e guardou-os na bolsa do computador.</p><p>�Sei onde � a sa�da.</p><p>Encaminhou-se para a porta, ent�o deteve-se e virou-se novamente para Bj�rck.</p><p>�A prop�sito, voc� por acaso j� ouviu falar num indiv�duo chamado Zala? � perguntou.</p><p>Bj�rck olhou fixamente para ele. Ainda estava t�o abalado que mal ouviu as palavras de Mikael. O nome Zala pouco lhe importava. Ent�o, seus olhos se arregalaram. <emphasis>Zala!</emphasis></p><p><emphasis>N�o � poss�vel.</emphasis></p><p><emphasis>Bjurman!</emphasis></p><p><emphasis>Ser� mesmo poss�vel?</emphasis></p><p>Mikael percebeu a altera��o e se reaproximou da mesa da cozinha.</p><p>�Por que est� me falando em Zala? - perguntou Bj�rck. Ele parecia ter tomado um choque.</p><p>�Porque esse cara me interessa - disse Mikael.</p><p>Um sil�ncio denso tomou conta da cozinha. Mikael podia ver, literalmente, as engrenagens girando na cabe�a de Bj�rck. Por fim, Bj�rck pegou um ma�o de cigarros no peitoril da janela. Era o primeiro cigarro que ele acendia desde a chegada de Mikael.</p><p>�Se eu sei alguma coisa sobre Zala... quanto vale isso para voc�? - perguntou, de repente mais seguro.</p><p>�Depende do que voc� sabe.</p><p>Bj�rck refletiu. Os pensamentos se atropelavam em sua cabe�a. <emphasis>Como � que o Blomkv�st pode saber sobre o Zalachenko?</emphasis></p><p>�Fazia muito tempo que eu n�o escutava esse nome - disse Bj�rck por fim.</p><p>�Ent�o voc� sabe quem ele � - disse Mikael.</p><p>�Eu n�o disse isso. O que est� procurando? Mikael hesitou um instante.</p><p>�� um dos nomes da minha lista de pessoas que estavam na mira de Dag Svensson.</p><p>�Quanto vale?</p><p>�Quanto vale o qu�?</p><p>�Se eu te levar at� o Zala... voc� consideraria esquecer de mim nessa reportagem?</p><p>Mikael sentou-se devagar. Depois de Hedestad, ele tinha decidido nunca mais negociar uma mat�ria jornal�stica. N�o pretendia negociar com Bj�rck e, o que quer que acontecesse, iria denunci�-lo. Por outro lado, Mikael sabia que era suficientemente desprovido de escr�pulos para fazer jogo duplo e fazer um acordo com Bj�rck. N�o sentia nenhuma dor na consci�ncia. Bj�rck era um canalha. Se ele sabia o nome de um poss�vel assassino, sua obriga��o era intervir - e n�o usar a informa��o para negociar em proveito pr�prio. Mikael n�o tinha o menor problema em deixar Bj�rck na esperan�a de que se safaria numa troca de informa��es sobre um outro canalha. P�s a m�o no bolso do palet� e ligou o ditafone que havia desligado ao se levantar da mesa.</p><p>�Pode falar - disse.</p><p>Sonja Modig estava furiosa com Hans Faste, mas nada em seu semblante revelava o que pensava dele. O interrogat�rio de Miriam Wu, depois que Bublanski deixara a sala, estava sendo tudo menos rigoroso, e Faste ignorava solenemente todos os seus olhares enfurecidos.</p><p>Modig tamb�m estava surpresa. Nunca gostara de Hans Faste e do seu lado mach�o, mas considerava-o um policial competente. Hoje, n�o se via nada dessa compet�ncia. Era �bvio que Faste se sentia provocado por uma mulher bonita, inteligente e assumidamente l�sbica. Tamb�m era �bvio que Miriam Wu percebia a irrita��o de Faste e a alimentava sem d� nem piedade.</p><p>�Quer dizer que voc� achou o p�nis artificial na minha c�moda? Que tipo de fantasia ele te despertou? - perguntou Miriam Wu com um sorrisinho de curiosidade.</p><p>Faste quase explodiu.</p><p>�Cala a boca e responde minha pergunta - disse.</p><p>�Voc� perguntou se eu uso esse p�nis para trepar com a Lisbeth Salander. E eu respondo que n�o lhe interessa.</p><p>Sonja Modig levantou a m�o.</p><p>�Pausa no interrogat�rio de Miriam Wu para um r�pido intervalo �s llhl2.</p><p>Modig desligou o gravador.</p><p>�Miriam, fique aqui, por favor, quero trocar uma palavrinha com voc�.</p><p>Miriam Wu sorriu com ar inocente quando Faste lhe desfechou um olhar furibundo e seguiu Modig at� o corredor. Modig se virou e p�s o nariz a dois cent�metros do nariz de Faste.</p><p>�Bublanski me pediu para continuar o interrogat�rio. A sua contribui��o � zero.</p><p>�Qual �? Essa vadia � pior que uma enguia.</p><p>�Essa met�fora � algum tipo de simbologia freudiana?</p><p>�O qu�?</p><p>- Nada. V� procurar o Curt Bolinder e lance um desafio bem macho para ele, ou ent�o v� gastar energia no estande de tiro, ou seja, l� o que for. Mas fique longe desse interrogat�rio.</p><p>�Modig, por que voc� est� desse jeito?</p><p>�Voc� est� sabotando o meu interrogat�rio.</p><p>�Ela te deixa t�o excitada que voc� quer interrog�-la a s�s?</p><p>A m�o de Sonja Modig foi t�o r�pida que ela n�o teve tempo de se conter. Tascou uma bofetada em Hans Faste. No mesmo instante, arrependeu-se do gesto, mas j� era tarde. Olhou de relance para os dois lados do corredor e constatou que, felizmente, n�o havia testemunhas.</p><p>Hans Faste de in�cio pareceu surpreso. Depois deu uma risadinha de esc�rnio, jogou a jaqueta no ombro e saiu. Sonja Modig ia cham�-lo para se desculpar, mas resolveu ficar quieta. Esperou um minuto at� se acalmar, e ent�o foi pegar dois caf�s na m�quina e voltou para junto de Miriam Wu.</p><p>N�o disseram nada durante algum tempo. Por fim, Modig encarou Miriam Wu.</p><p>�Me desculpe. Este provavelmente � um dos piores interrogat�rios da hist�ria desta delegacia.</p><p>�Esse cara deve ser uma simpatia de colega. Se eu entendi bem, ele � um h�tero divorciado que fica contando piada de bicha perto da m�quina de caf�.</p><p>�Ele �... uma esp�cie de rel�quia de algum lugar. � s� o que posso dizer.</p><p>�E n�o � o seu caso?</p><p>�Digamos que n�o sou homof�bica.</p><p>�Certo.</p><p>�Miriam, eu... faz dez dias que estamos todos esgotados, vinte e quatro horas por dia. Estamos cansados e tensos. Estamos tentando solucionar um duplo assassinato assustador em Enskede e um assassinato igualmente assustador num apartamento de Odenplan. A sua amiga est� ligada aos dois locais do crime. Temos provas t�cnicas disso, e ela est� sendo procurada em todo o territ�rio nacional. Voc� precisa entender que queremos encontr�-la a qualquer custo antes que ela fa�a mal a algu�m ou a si mesma.</p><p>�Eu conhe�o a Lisbeth Salander... N�o consigo acreditar que ela tenha matado algu�m.</p><p>�Voc� n�o consegue ou n�o quer acreditar? Miriam, a gente n�o lan�a um alerta de busca nacional sem bons motivos para isso. Mas posso te dizer que o meu chefe, o inspetor Bublanski, tamb�m n�o est� totalmente convencido da culpa dela. Estamos cogitando a possibilidade de ela ter um c�mplice ou de ter sido envolvida nisso tudo de outra maneira. Mesmo assim precisamos encontr�-la. Voc� acha que ela � inocente, Miriam, mas o que vai acontecer se estiver enganada? Voc� mesma diz que n�o sabe quase nada sobre a Lisbeth Salander.</p><p>�N�o sei no que acreditar.</p><p>�Ent�o ajude a gente a descobrir a verdade.</p><p>�Eu estou sendo acusada de alguma coisa?</p><p>�N�o.</p><p>�Ent�o posso sair daqui quando eu quiser?</p><p>�Teoricamente, sim.</p><p>�E sem ser teoricamente?</p><p>�Para n�s, voc� vai ficar sendo um ponto de interroga��o. Miriam Wu refletiu sobre essas palavras.</p><p>�Est� bem. V� l�, fa�a as perguntas. Se elas me incomodarem, n�o vou responder.</p><p>Sonja Modig tornou a ligar o gravador.</p></section><section><p><strong><emphasis>20 - SEXTA-FEIRA 1� DE ABRIL � DOMINGO 3 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Miriam Wu ficou uma hora com Sonja Modig. J� no final do interrogat�rio, Bublanski retornou � sala e sentou-se, escutando calado. Miriam Wu o cumprimentou educadamente, mas continuou a falar com Sonja.</p><p>Por fim, Modig olhou para Bublanski e perguntou se ele tinha alguma pergunta a acrescentar. Bublanski balan�ou a cabe�a.</p><p>�Ent�o declaro encerrado o interrogat�rio de Miriam Wu. S�o 13h09. Desligou o gravador.</p><p>�Ouvi dizer que houve um problema com o inspetor Faste - disse Bublanski.</p><p>�Ele estava meio desconcentrado - explicou Sonja Modig com voz neutra.</p><p>�Ele � um idiota - disse Miriam Wu.</p><p>�O inspetor Faste tem muitos m�ritos, mas n�o �, sem d�vida, o mais indicado para interrogar uma mo�a - disse Bublanski, olhando nos olhos de Miriam Wu. �� �bvio que eu n�o deveria ter deixado isso para ele. Pe�o que me desculpe.</p><p>Miriam Wu pareceu surpresa.</p><p>�Desculpas aceitas. Eu tamb�m fui meio dif�cil no come�o.</p><p>Bublanski fez um gesto descartando suas palavras. Olhou para ela.</p><p>�Posso agora fazer umas perguntas fora do protocolo? Sem o gravador. �Mas � claro.</p><p>�Quanto mais escuto falar na Lisbeth Salander, mais perplexo fico. A imagem que me passam as pessoas que a conhecem � incompat�vel com a imagem transmitida pelos pap�is e documentos m�dico-legais do Servi�o Social.</p><p>�Ah, �?</p><p>�Seria bacana se voc� conseguisse responder de forma objetiva, sem rodeios.</p><p>�Vamos l�.</p><p>�O laudo psiqui�trico feito quando Lisbeth Salander completou dezoito anos d� a entender que ela � mentalmente retardada e deficiente.</p><p>�Bobagem. A Lisbeth deve ser mais inteligente que n�s dois juntos.</p><p>�Ela n�o terminou a escola, n�o h� nenhum boletim que mostre que ela sabe ler e escrever.</p><p>�A Lisbeth Salander l� e escreve muito melhor que eu. Ela �s vezes se distrai rabiscando umas f�rmulas matem�ticas. �lgebra pura. Complicado demais para mim.</p><p>�Matem�tica?</p><p>�� uma esp�cie de <emphasis>hobby</emphasis> dela. Bublanski e Modig ficaram quietos.</p><p><emphasis>�Hobby? -</emphasis> perguntou Bublanski depois de alguns instantes.</p><p>�Acho que s�o equa��es. Nem sei o que significam aqueles s�mbolos. Bublanski suspirou.</p><p>�O Servi�o Social fez um relat�rio depois que ela foi detida no parque de Tantolunden na companhia de um homem de idade, quando ela tinha dezessete anos. Ficou subentendido que ela se prostitu�a.</p><p>�Lisbeth, puta? Que baboseira. N�o sei nada sobre o trabalho dela, mas n�o me surpreende nem um pouco ela ter trabalhado na Milton Security.</p><p>�Como � que ela ganha a vida?</p><p>�N�o sei.</p><p>�Ela � l�sbica?</p><p>�N�o. A Lisbeth transa comigo, mas isso n�o quer dizer que seja homossexual. Acho que ela nem est� segura da sua orienta��o sexual. Eu diria que ela � bissexual.</p><p>�Voc�s usam algemas e esse tipo de coisa... Lisbeth Salander tem alguma propens�o ao sadismo, ou como � que voc� a descreveria?</p><p>�Acho que voc� entendeu tudo errado. A gente �s vezes usa as algemas como encena��o, n�o tem nada a ver com sadismo, viol�ncia ou abuso. � um jogo.</p><p>�J� aconteceu de ela ficar violenta com voc�?</p><p>�N�o. Eu � que tendo a ser a dominadora nos nossos jogos. Miriam exibiu seu sorriso inocente.</p><p>A reuni�o da tarde, �s quinze horas, se encerrou com o primeiro desentendimento s�rio daquela investiga��o. Bublanski resumiu a situa��o e em seguida explicou que sentia necessidade de ampliar as pesquisas.</p><p>�Desde o primeiro dia, concentramos toda a nossa energia em encontrar Lisbeth Salander. Ela � altamente suspeita - e com bases objetivas -, mas a imagem que fazemos dela se choca com resist�ncias por parte de todos que convivem com ela hoje em dia. Nem o Armanskij nem o Blomkvist, e agora nem Miriam Wu, v�em nela uma assassina psicopata. Por isso, eu gostaria que a gente ampliasse um pouco a maneira de ver as coisas e come�asse a pensar em outros culpados em potencial, ou na possibilidade de Salander ter um c�mplice, ou de ela simplesmente ter estado presente quando foram disparados os tiros.</p><p>A coloca��o de Bublanski desencadeou uma discuss�o acirrada, na qual ele se deparou com a firme oposi��o de Hans Faste e Steve Bohman, da Milton Security. Ambos defendiam que a explica��o mais simples costuma ser a melhor e que considerar um segundo culpado eq�ivalia a aderir francamente � tese do grande compl�.</p><p>�A Salander at� podia n�o estar sozinha na hora dos tiros, mas n�o temos nenhum vest�gio de um c�mplice.</p><p>�Pronto, agora s� falta voltar para a pista policial do Blomkvist! - disse Hans Faste duramente.</p><p>Sonja Modig foi a �nica que apoiou Bublanski no debate. Curt Bolinder e Jerker Holmberg limitaram-se a fazer coment�rios vagos. Niklas Eriksson, da Milton Security, n�o disse uma palavra durante toda a discuss�o. Finalmente, o procurador Ekstr�m levantou a m�o.</p><p>�Bublanski, imagino que voc� tamb�m n�o pretende riscar a Salander da investiga��o.</p><p>�N�o, � evidente que n�o. Temos as impress�es digitais dela. Mas at� agora procuramos exaustivamente um motivo e n�o achamos. Eu queria que a gente raciocinasse sobre outras eventuais pistas. Ser� que mais pessoas poderiam estar envolvidas? Ser� que existe afinal alguma rela��o com o livro sobre com�rcio sexual que o Dag Svensson estava escrevendo? O Blomkvist tem raz�o quando diz que muitas pessoas mencionadas no livro teriam motivos para matar.</p><p>�E o que voc� est� pensando em fazer? - perguntou Ekstr�m.</p><p>�Queria que dois de voc�s se dedicassem a descobrir assassinos alternativos. Sonja... e voc�, Niklas, trabalhem juntos nisso.</p><p>�Eu? - perguntou Niklas Eriksson, surpreso.</p><p>Bublanski o escolhera por ser o mais jovem e, talvez, o mais capaz de um racioc�nio n�o ortodoxo.</p><p>�Voc� vai trabalhar com a Modig. Revejam tudo o que a gente j� sabe e tentem descobrir o que deixamos passar. Faste, voc�, o Curt Bolinder e o Bohman, continuem procurando a Salander. � a prioridade absoluta.</p><p>�O que eu devo fazer? - perguntou Jerker Holmberg.</p><p>�Voc� vai se focar no doutor Bjurman. Examine o apartamento dele mais uma vez. Veja se n�o deixamos escapar alguma coisa. Perguntas?</p><p>Ningu�m tinha nenhuma pergunta.</p><p>�Muito bem. Vamos ser discretos sobre o aparecimento da Miriam Wu. Ela pode ter mais coisa para nos contar e n�o quero que a m�dia se jogue em cima dela.</p><p>O procurador Ekstr�m aprovou o plano de Bublanski.</p><p>�Bem - disse Niklas Eriksson, fitando Sonja Modig. �Voc� � que � da pol�cia, ent�o voc� � que decide o que vamos fazer.</p><p>Estavam no corredor em frente � sala de reuni�es.</p><p>�Acho que vamos come�ar conversando mais uma vez com o Mikael Blomkvist - disse ela. �Mas antes tenho que dar uma palavrinha com o Bublanski. Como hoje � sexta � tarde, e eu n�o trabalho s�bado e domingo, vamos come�ar s� na segunda-feira. Aproveite o fim de semana para refletir sobre o que j� temos.</p><p>Deram-se at�-logo. Sonja Modig entrou na sala de Bublanski no momento em que ele se despedia do procurador Ekstr�m.</p><p>�Voc� teria um minuto?</p><p>�Sente-se.</p><p>�Faste me deixou t�o furiosa que me descontrolei.</p><p>�Ele me disse que voc� o agrediu. Acho que sei o que aconteceu. Foi por isso que entrei na sala para apresentar minhas desculpas a Miriam.</p><p>�Ele disse que eu queria ficar a s�s com a Miriam porque ela me excitava.</p><p>�Prefiro que a gente n�o entre em detalhes. Mas isso preenche todos os quesitos de ass�dio sexual. Acho. Voc� quer dar queixa?</p><p>�Enfiei a m�o na cara dele. � suficiente.</p><p>�Est� certo. Se entendi bem, ele te fez perder a paci�ncia.</p><p>�Exatamente.</p><p>�O Hans Faste tem um problema com mulheres de personalidade forte.</p><p>��, eu percebi.</p><p>�Voc� � uma mulher de personalidade forte e uma excelente policial.</p><p>�Obrigada.</p><p>�Eu agradeceria se voc� parasse de espancar o pessoal da equipe.</p><p>�Isso n�o vai se repetir. N�o tive tempo para examinar a sala do Dag Svensson na <emphasis>Millennium</emphasis> hoje.</p><p>�A gente j� estava mesmo atrasado nessa parte. V� para casa e aproveite o fim de semana. Na segunda-feira voc� recome�a com energia renovada.</p><p>Niklas Eriksson parou na esta��o central para tomar um caf� no bar do George. Sentia-se estranhamente desmoralizado. Estivera a semana inteira esperando que Lisbeth Salander fosse detida a qualquer momento. Caso ela opusesse resist�ncia � pris�o, com alguma sorte um policial compassivo poderia inclusive ench�-la de balas.</p><p>E ele gostava dessa fantasia.</p><p>O problema � que Salander continuava � solta. Como se n�o bastasse, Bublanski agora ainda come�ava a especular sobre culpados alternativos. A situa��o n�o estava avan�ando na dire��o certa.</p><p>Ele j� achava insuport�vel estar subordinado a Steve Bohman - era o sujeito mais chato e mais destitu�do de imagina��o que havia na Milton -, e n�o � que agora, ainda por cima, via-se subordinado a Sonja Modig?</p><p>Era ela quem mais questionava a pista Salander e, provavelmente, quem azia Bublanski hesitar. Ele se perguntou se esse cara que chamavam de Bubolha n�o teria um caso com aquela cretina. N�o seria surpresa. Ela faz o que quer com ele. De todos os tiras envolvidos na investiga��o, Faste era o �nico que tinha peito de falar o que pensava.</p><p>Niklas Eriksson refletiu.</p><p>De manh�, ele e Bohman tinham tido uma r�pida conversa com Armanskij e Fr�klund, na Milton. Uma semana de investiga��o n�o trouxera nenhum resultado e Armanskij estava frustrado por ningu�m ter achado uma explica��o para os assassinatos. Fr�klund insinuara que a Milton Security precisava se questionar sobre a utilidade da miss�o - Bohman e Eriksson teriam mais a fazer do que ficar oferecendo colabora��o gratuita �s for�as da ordem.</p><p>Armanskij refletira um momento e ent�o decidira que Bohman e Eriksson prosseguiriam por mais uma semana. Se n�o houvesse resultado, interromperiam o projeto.</p><p>Em outras palavras, Niklas Eriksson tinha um prazo de uma semana antes que a porta da investiga��o se fechasse. Estava em d�vida sobre seus pr�ximos passos.</p><p>Instantes depois pegou o celular e ligou para Tony Scala, um jornalista <emphasis>freelancer</emphasis> que escrevia bobagens numa revista masculina e com quem Niklas Eriksson j� cruzara v�rias vezes. Trocados os cumprimentos, declarou que tinha informa��es sobre os assassinatos de Enskede. Explicou de que maneira se vira de repente no meio da investiga��o policial mais espinhosa dos �ltimos anos. Como previsto, Scala mordeu a isca, j� que isso podia significar uns frilas para um jornal mais importante. Marcaram encontro para dali uma hora no caf� Aveny, na Kungsgatan.</p><p>O tra�o mais marcante de Tony Scala � que ele era gordo. Muito gordo.</p><p>�Se voc� quer que eu lhe repasse informa��es, tenho duas condi��es.</p><p>�Pode falar!</p><p>�Primeiro a Milton Security n�o pode ser mencionada no texto. O nosso papel � de meros consultores, e se a Milton for mencionada algu�m poderia desconfiar que estou na origem do vazamento.</p><p>�Mas n�o deixa de ser um furo a Salander ter trabalhado na Milton.</p><p>�S� faxina e coisas do g�nero - interrompeu Eriksson. �N�o tem nada de furo.</p><p>�Certo.</p><p>�Segundo, voc� vai ter que redigir a mat�ria de modo que pare�a que uma mulher � que est� por tr�s do vazamento.</p><p>�Por qu�?</p><p>�Para desviar as suspeitas de mim.</p><p>�Est� bem. O que voc� pode me contar?</p><p>�A amiguinha l�sbica da Salander acaba de aparecer.</p><p>�Uau! A tal que estava no contrato do apartamento da Lundagatan e andava sumida?</p><p>�A Miriam Wu. Isso vale alguma coisa?</p><p>�Se vale. Onde ela estava?</p><p>�No exterior. Garante que n�o tinha nem ouvido falar dos assassinatos.</p><p>�Ela � suspeita de alguma coisa?</p><p>�Por enquanto n�o. Foi interrogada hoje, deixaram ela ir embora h� tr�s horas.</p><p>�Ah�. Voc� acredita na hist�ria dela?</p><p>�Acho que � uma tremenda de uma enrolona. Ela sabe de alguma coisa.</p><p>�Estou anotando.</p><p>�Mas d� uma verificada no passado dela. Afinal, � uma mulher que pratica sexo sadomas� com a Salander.</p><p>�E voc� sabe disso, �?</p><p>�Ela confessou no interrogat�rio. Encontraram algemas, roupas de couro, chicotes e essa coisa toda durante as buscas.</p><p>Os chicotes j� eram um pouco de exagero. Bem, era pura mentira, mas a safada da china na certa j� tinha brincado com chicote tamb�m.</p><p>�Est� brincando? - disse Tony Scala.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Paolo Roberto foi um dos �ltimos visitantes a sair da biblioteca na hora de ela fechar. Passara a tarde lendo exaustivamente tudo que se escrevera sobre a ca�ada a Lisbeth Salander.</p><p>Ao sair na Sveav�gen, sentiu-se desanimado e inquieto. E faminto. Entrou num McDonald�s, pediu um hamb�rguer e sentou-se a um canto.</p><p><emphasis>Lisbeth Salander tripla assassina.</emphasis> N�o conseguia acreditar. Aquela menininha fr�gil e completamente doida. A quest�o era se ele deveria cuidar disso. E, nesse caso, fazendo o qu�?</p><p>Miriam Wu pegou um t�xi para voltar � Lundagatan e entrou no seu apartamento recentemente renovado para contemplar o desastre. Os arm�rios, caixas e gavetas da c�moda tinham sido esvaziados, e seu conte�do, separado. Havia p� de impress�es digitais por todo o apartamento. Seus brinquedos sexuais particularmente �ntimos estavam jogados numa pilha em cima da cama. At� onde conseguia avaliar, n�o faltava nada.</p><p>Sua primeira provid�ncia foi ligar para o SOS-chaveiro de S�dermalm para mandar instalar uma fechadura nova. O chaveiro chegaria em menos de uma hora.</p><p>Ligou a cafeteira e sentou-se no meio do desastre balan�ando a cabe�a. <emphasis>Lisbeth, Lisbeth, no que � que voc� foi se meter?</emphasis></p><p>Pegou o celular e tentou ligar para o n�mero de Lisbeth mas deparou com a mensagem de que o n�mero estava indispon�vel. Ficou um bom tempo sentada � mesa da cozinha tentando organizar os pensamentos. A Lisbeth Salander que ela conhecia n�o era uma assassina mentalmente desequilibrada, contudo Miriam n�o a conhecia muito bem. Lisbeth era t�rrida na cama, sem d�vida, mas tamb�m sabia se mostrar fria feito um peixe quando seu humor se alterava.</p><p>Ponderou que n�o decidiria no que acreditar antes de ver Lisbeth e ouvir uma explica��o. Sentiu-se, de s�bito, a ponto de come�ar a chorar e atirou-se, compulsiva, na faxina.</p><p>�s sete da noite, estava com uma fechadura nova e o apartamento j� tinha readquirido seu aspecto habitual. Tomou um banho e acabava de se sentar na cozinha, vestindo um robe oriental de seda preta e dourada, quando tocaram a campainha. Foi abrir a porta e se viu diante de um homem excepcionalmente gordo, um tanto desalinhado e de barba malfeita.</p><p>�Ol�, Miriam, eu sou Tony Scala, jornalista. Voc� poderia me responder umas perguntas?</p><p>Ele vinha acompanhado de um fot�grafo, que lhe desfechou um <emphasis>flash</emphasis> em pleno rosto.</p><p>Miriam Wu chegou a pensar num <emphasis>dropkick</emphasis> e um cotovelo no nariz, mas teve presen�a de esp�rito para perceber que s� dariam fotos ainda mais saborosas.</p><p>�Voc� viajou com a Lisbeth Salander? Sabe onde ela est�? Miriam Wu bateu a porta e trancou-a com a fechadura nova. Tony Scala ergueu a portinhola da correspond�ncia e falou pela fresta.</p><p>�Miriam, mais cedo ou mais tarde voc� vai ter que falar com a imprensa. Eu posso te ajudar.</p><p>Ela cerrou o punho e bateu com for�a na portinhola. Tony Scala soltou um grito de dor. Ent�o ela correu para o quarto e se deitou na cama, fechando os olhos. <emphasis>Lisbeth, quando eu puser as m�os em voc�, eu te estrangulo.</emphasis></p><p>Depois da visita a Sm�dalar�, Mikael Blomkvist tinha passado a tarde na casa de outro cliente que Dag Svensson pretendia denunciar. Com isso, percorrera seis dos trinta e sete nomes no final da semana. O �ltimo citado era um juiz aposentado que morava em Tumba e que, em v�rias ocasi�es, atuara em casos de prostitui��o. O canalha do juiz, e isso por um lado era reconfortante, n�o tinha negado os fatos, nem amea�ado, nem pedido compaix�o. Pelo contr�rio, reconhecera sem rodeios que sim, claro, tinha comido as putas do Leste europeu. N�o, n�o se arrependia. A prostitui��o era uma profiss�o honrada, e ele achava que tinha prestado um favor �s garotas ao ser cliente delas.</p><p>Mikael estava passando por Liljeholmen quando Malu Eriksson ligou, por volta das dez da noite.</p><p>�Oi - disse Malu. �Voc� viu a edi��o <emphasis>on-line</emphasis> daquele tabloide sensacionalista?</p><p>�N�o, o que foi?</p><p>�A amiga da Lisbeth Salander acaba de voltar.</p><p>�O qu�? Quem?</p><p>�Miriam Wu, a l�sbica que mora no apartamento da Lundagatan. Wu, pensou Mikael. <emphasis>Salander-Wu afixado na porta.</emphasis></p><p>�Obrigado. Estou indo para l�.</p><p>Miriam Wu acabara desligando o telefone fixo e o celular. �s sete e meia, a not�cia havia sido publicada nos sites de um dos jornais matutinos. Pouco depois, o <emphasis>Aftonblatet</emphasis> tinha ligado e, tr�s minutos mais tarde, foi a vez do <emphasis>Expressen</emphasis> lhe pedir uma declara��o. Na tev�, A<emphasis>ktuellt</emphasis> deu a not�cia sem citar o nome de Miriam, mas �s nove nada menos que dezesseis rep�rteres de diferentes m�dias j� tinham tentado entrevist�-la.</p><p>Em duas ocasi�es, tinham tocado a campainha. Miriam Wu n�o abriu a porta e apagou as luzes do apartamento. Estava com ganas de quebrar o nariz do pr�ximo jornalista que viesse perturb�-la. Por fim, ligou o celular e telefonou para uma amiga que morava em Hornstull, um trajeto que ela podia fazer a p�, e pediu para dormir na casa dela.</p><p>Transp�s a porta do pr�dio que dava na Lundagatan menos de cinco minutos antes de Mikael Blomkvist estacionar e tocar, em v�o, a campainha de seu apartamento.</p><p>Bublanski ligou para Sonja Modig pouco depois das dez horas do s�bado. Ela dormira at� as nove e depois brincara um pouco com as crian�as antes que o marido as levasse � loja do bairro para fazer as compras semanais de balas e chocolates.</p><p>�J� leu os jornais de hoje?</p><p>�N�o. Faz s� uma hora que acordei e fiquei cuidando das crian�as. Aconteceu alguma coisa?</p><p>�Algu�m da equipe est� deixando vazar informa��es para a imprensa.</p><p>�A gente j� sabia disso. H� alguns dias algu�m entregou o relat�rio m�dico-legal de Salander.</p><p>�Foi o procurador Ekstr�m.</p><p>�Ah, �?</p><p>�Sim. Claro. Mesmo que ele jamais admita. Ele est� tentando aumentar o interesse no caso, porque lhe conv�m. Mas desta vez � diferente. Um jornalista chamado Tony Scala falou com um policial que lhe passou uma s�rie de informa��es sobre a Miriam Wu. Entre outras coisas, detalhes do que foi dito no interrogat�rio de ontem. Coisas que a gente tinha decidido n�o divulgar. Com essa, o Ekstr�m ficou furibundo.</p><p>�Que droga.</p><p>�O jornalista n�o cita nomes. A fonte � descrita como algu�m que ocupa �uma posi��o central na investiga��o�.</p><p>�Puta merda - disse Sonja Modig.</p><p>�A certa altura da mat�ria, entende-se que se trata de uma mulher. Sonja Modig ficou em sil�ncio uns vinte segundos, tempo para assimilar a informa��o. Ela era a �nica mulher da equipe.</p><p>�Bublanski... eu n�o disse uma palavra sequer para jornalista nenhum. N�o conversei sobre essa investiga��o com ningu�m fora aqui do corredor. Nem com o meu marido.</p><p>�Acredito em voc�. Em nenhum momento achei que voc� fosse a respons�vel pelo vazamento. Mas, infelizmente, � o que o procurador Ekstr�m est� achando. E o Hans Faste, que � quem ficou de plant�o neste fim de semana, est�, � claro, aproveitando para aumentar a hist�ria com suas insinua��es.</p><p>Sonja Modig sentiu-se, de repente, completamente arrebentada.</p><p>�E agora, o que vai acontecer?</p><p>�O Ekstr�m vai exigir que voc� seja afastada da investiga��o enquanto analisam a acusa��o.</p><p>�Isso � loucura. Como � que eu vou provar...</p><p>�Voc� n�o vai ter que provar nada. O investigador � que vai ter que provar.</p><p>�Eu sei, mas... que droga. Essa investiga��o vai levar quanto tempo?</p><p>�Ela j� aconteceu.</p><p>�O qu�?</p><p>�Eu lhe fiz uma pergunta. Voc� respondeu que n�o deixou vazar nenhuma informa��o. Isso significa que a investiga��o est� conclu�da e que s� preciso escrever meu relat�rio. Nos vemos segunda, �s nove, na sala do Ekstr�m para avaliar isso tudo.</p><p>�Obrigada, Bublanski.</p><p>�De nada.</p><p>�S� tem um problema.</p><p>�Eu sei.</p><p>�Se n�o fui eu, outro membro da equipe deixou vazar a informa��o.</p><p>�Quem voc� sugere?</p><p>�Num primeiro impulso, fico tentada a achar que � o Faste... mas sem acreditar de fato.</p><p>�Concordo com voc�. Mas ele tamb�m sabe ser um completo idiota, e ontem estava simplesmente irado.</p><p>Bublanski gostava de caminhar, dependendo de como estava o tempo e do tempo de que dispunha. Era um dos poucos exerc�cios f�sicos que ele se concedia. Morava na Katarina Bangata, em S�dermalm, n�o muito longe da reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> nem da Milton Security, onde Lisbeth Salander trabalhara, e n�o muito longe tamb�m da Lundagatan, onde ela tinha morado. Al�m disso, podia ir a p� � sinagoga da Sankt Paulsgatan. Na tarde de s�bado, saiu para caminhar e passou por todos esses lugares.</p><p>No in�cio do passeio, sua mulher, Agnes, o acompanhou. Estavam casados havia vinte e tr�s anos e ele tinha sido fiel sem o m�nimo desvio durante todos aqueles anos.</p><p>Fizeram uma parada na sinagoga e conversaram com o rabino. Bublanski era judeu polon�s, ao passo que a fam�lia de Agnes - amplamente dizimada em Auschwitz - era origin�ria da Hungria.</p><p>Depois disso, se separaram - Agnes tinha umas compras para fazer e seu marido preferia continuar o passeio. Precisava ficar sozinho e caminhar para refletir sobre aquela dif�cil investiga��o. Reavaliou as medidas que havia tomado desde que ela fora parar na sua mesa na manh� da Quinta-feira Santa, ou seja, fazia nove dias, e n�o percebeu grandes falhas.</p><p>A n�o ser pelo erro de n�o ter imediatamente mandado algu�m at� a reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> para revistar a sala de Dag Svensson. Quando afinal resolvera faz�-lo - ele pr�prio efetuara a verifica��o -, Mikael Blomkvist j� tinha feito a faxina e tirado sabe Deus o qu�.</p><p>Outro erro foi a investiga��o ter passado ao largo do carro que Lisbeth Salander havia comprado. Jerker Holmberg, no entanto, relatara que o carro n�o continha nada de interessante. Tirando esse carro esquecido, por�m, a investiga��o estava t�o correta como seria de se esperar.</p><p>Parou em frente a um quiosque de jornais na Zinkensdamm e contemplou pensativo, uma manchete. A foto de Lisbeth Salander estava reduzida ao tamanho de uma vinheta, pequena mas reconhec�vel, no canto superior, e a �nfase estava nas not�cias mais frescas.</p><p><strong>A</strong><strong>POL�CIA</strong><strong>INVESTIGA</strong><strong>UMA</strong><strong>TURMA</strong><strong>DE</strong><strong>L�SBICAS</strong><strong>SAT�NICAS</strong></p><p>Comprou o jornal e o folheou at� a p�gina em que se via a foto de cinco garotas no final da adolesc�ncia, vestidas de preto, jaquetas de couro com ilhoses, jeans rasgados e camisetas supercolantes. Uma das meninas brandia uma bandeira com um pentagrama e outra fazia um gesto com o indicador e o dedo m�nimo. Leu a legenda. <emphasis>Lisbeth Salander frequentava um grupo de</emphasis> death metal <emphasis>que tocava em pequenos clubes. Em 1996, o grupo homenageava a Church of Satan e seu grande sucesso era uma m�sica intitulada �Etiquette of Evil�.</emphasis></p><p>O nome das Evil Fingers n�o era citado e os rostos estavam desfocados. No entanto, quem conhecesse os membros do grupo de rock n�o teria dificuldade em reconhecer as meninas.</p><p>As duas p�ginas seguintes se concentravam em Miriam Wu e vinham ilustradas com a fotografia de um show no Berns do qual ela participara. Na foto, Miriam estava com os seios � mostra e usando uma boina de oficial russo. A foto tinha sido tirada de baixo para cima. Como o das meninas do Evil Fingers, seu rosto estava desfocado. Era citada como �a mulher de trinta e um anos�.</p><p>A amiga de Salander, autora de textos sobre l�sbicas e sadomasoquismo, � conhecida nos bares descolados de Estocolmo. N�o procurou esconder que flertava com mulheres e gostava de dominar sua parceira.</p><p>O rep�rter tinha inclusive achado uma tal de Sara, que, segundo ele, tinha sido paquerada pela amiga de Salander. O namorado de Sara tinha ficado �perturbado� pela tentativa. A mat�ria esclarecia que o grupo era uma variante feminista suspeita e elitista da periferia do movimento gay e que se expressava, entre outras coisas, num <emphasis>�bondage workshop�</emphasis> durante a Gay Pride. De resto, o texto fundamentava-se em cita��es de um artigo de Miriam Wu de seis anos antes que poderia eventualmente ser qualificado de provocador, publicado num fanzine feminista e desencavado por um rep�rter. Bublanski percorreu o texto e em seguida jogou o tabloide numa lixeira.</p><p>Refletiu algum tempo sobre Hans Faste e Sonja Modig. Dois investigadores competentes. Faste, por�m, era um problema. Mexia com os nervos das pessoas. Bublanski percebeu que precisaria ter uma conversa com Faste, mas achava dif�cil acreditar que o vazamento de informa��es viera dele.</p><p>Ao erguer os olhos, percebeu que estava na Lundagatan, em frente ao pr�dio de Lisbeth Salander. Um ato irrefletido, por�m revelador. Aquela mulher o deixava perplexo.</p><p>Subiu os degraus da passarela que conduzia ao alto da Lundagatan e ficou um bom tempo apoiado na balaustrada, pensando na hist�ria de Mikael Blomkvist sobre Lisbeth ter sido agredida. Era uma hist�ria que tamb�m n�o levava a coisa alguma. Ningu�m tinha dado queixa, n�o havia nenhum nome nem uma descri��o consistente. Blomkvist afirmava que n�o conseguira ver o n�mero da placa do furg�o que deixara o local.</p><p>Isso se a hist�ria tivesse realmente acontecido.</p><p>Ou seja, mais um impasse.</p><p>Bublanski contemplou o Honda cor de vinho que tinha ficado esse tempo todo estacionado na rua. De repente, viu Mikael Blomkvist caminhando em dire��o � porta do pr�dio.</p><p>Miriam Wu acordou tarde, toda enrolada nos len��is, e quase entrou em p�nico ao sentar-se na cama e se ver num quarto desconhecido.</p><p>Ela aproveitara o ass�dio da m�dia como desculpa para ligar para uma amiga e pedir abrigo. Mas tamb�m tinha fugido, ela sentia isso muito bem, porque de repente teve medo que Lisbeth Salander fosse bater � sua porta.</p><p>O interrogat�rio da pol�cia e as mat�rias nos jornais a tinham abalado mais do que ela teria imaginado. � claro que ela tomara a decis�o de n�o julgar Lisbeth antes que esta pudesse explicar o que tinha acontecido, mas ainda assim come�ava a acreditar que ela era culpada.</p><p>Deu uma olhada em Viktoria Viktorsson, trinta e sete anos, apelido Dobrev�, que era cem por cento l�sbica. Estava deitada de bru�os e resmungava dormindo. Miriam Wu se esgueirou at� o banheiro e tomou um banho. Em seguida foi comprar p�o. S� que no caixa da loja pr�xima ao caf� Cinnamon, na Verkstadsgatan, seu olhar bateu nas manchetes dos jornais. Voltou correndo para se refugiar no apartamento de Dobrev�.</p><p>Mikael Blomkvist passou pelo Honda cor de vinho e parou diante do pr�dio de Lisbeth Salander, digitou o c�digo e entrou. Ficou dois minutos l� dentro e depois saiu. Ningu�m em casa? Blomkvist olhou para os dois lados da rua, aparentemente indeciso. Bublanski o observava, pensativo.</p><p>O que o preocupava era que, caso Blomkvist tivesse mentido sobre a agress�o na Lundagatan, era de se pensar que estava fazendo um jogo que, na pior das hip�teses, poderia significar que ele, de algum modo, era c�mplice dos assassinatos. Mas caso tivesse falado a verdade - e n�o havia nenhum motivo para duvidar de sua palavra - significava que havia uma equa��o oculta naquela trag�dia. O que significava que havia outros protagonistas al�m dos que estavam vis�veis, e que o assassinato poderia se revelar algo muito mais complicado do que o simples gesto de uma garota mentalmente desequilibrada em surto de loucura.</p><p>Quando Blomkvist come�ou a andar em dire��o a Zinkensdamm, Bublanski o chamou. Ele parou, avistou o policial e foi ao seu encontro. Apertaram-se as m�os embaixo da escada.</p><p>�Ol�, Blomkvist. Procurando a Lisbeth Salander?</p><p>�N�o. Estou procurando a Miriam Wu.</p><p>�Ela n�o est�. A imprensa foi informada, n�o sei por quem, que ela reapareceu.</p><p>�O que ela tinha para contar?</p><p>Bublanski fitou atentamente Mikael Blomkvist. O Super-Blomkvist.</p><p>�Vamos caminhar um pouco? - prop�s Bublanski. �Preciso de um caf�.</p><p>Passaram em frente � igreja de H�galid em sil�ncio. Bublanski o levou ao caf� Lillasyster, na ponte de Liljeholmen, e pediu um <emphasis>espresso</emphasis> duplo com uma colher de leite frio, ao passo que Mikael pediu um <emphasis>caff� latte.</emphasis> Sentaram-se na �rea de fumantes.</p><p>-�Fazia tempo que eu n�o pegava um caso t�o frustrante - disse Bublanski. �Posso conversar com voc� sem acabar lendo metade do que vou dizer no <emphasis>Expressen</emphasis> de amanh� de manh�?</p><p>�Eu n�o trabalho para o <emphasis>Expressen.</emphasis></p><p>�Voc� sabe o que eu quero dizer.</p><p>�Bublanski, n�o acredito que a Lisbeth seja culpada.</p><p>�E est� investigando por conta pr�pria? � por isso que chamam voc� de Super-Blomkvist?</p><p>Mikael sorriu.</p><p>�E me parece que chamam voc� de inspetor Bubolha. Bublanski deu um sorriso amarelo.</p><p>�Por que n�o acredita que a Salander seja culpada?</p><p>�N�o sei nada sobre esse tutor, mas ela simplesmente n�o tinha motivo para matar o Dag e a Mia. Principalmente a Mia. A Lisbeth detesta homens que odeiam mulheres, e a Mia estava justamente acuando uma grande quantidade de clientes sexuais. O que a Mia estava fazendo tinha tudo a ver com os interesses da Lisbeth. A Lisbeth tem �tica.</p><p>�Eu n�o consegui formar uma opini�o sobre ela. Um caso psiqui�trico pesado ou uma investigadora competente?</p><p>�A Lisbeth � diferente. � tremendamente antissocial, mas n�o h� nada de errado com a cabe�a dela. Pelo contr�rio. Eu diria que ela � muito mais inteligente que n�s dois juntos.</p><p>Bublanski suspirou. Mikael Blomkvist estava falando igual � Miriam Wu.</p><p>�Seja como for, ela tem que ser detida. N�o posso entrar em detalhes, mas temos provas t�cnicas de que ela estava no local do crime, e ela est� diretamente ligada � arma do crime.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>�Imagino que isso signifique que voc�s encontraram as digitais dela. Mas n�o significa que ela atirou.</p><p>Bublanski balan�ou a cabe�a.</p><p>�O Dragan Armanskij tamb�m tem suas d�vidas. � cauteloso demais para dizer isso claramente, mas ele tamb�m est� tentando provar a inoc�ncia dela.</p><p>�E voc�? O que acha?</p><p>�Eu sou tira. Prendo as pessoas e as interrogo. No momento, a situa��o da Lisbeth Salander me parece bastante complicada. Assassinos j� foram condenados com provas muito mais fr�geis.</p><p>�Voc� n�o respondeu � minha pergunta.</p><p>�N�o sei. Se ela for inocente... quem, na sua opini�o, teria interesse em matar tanto o tutor como os seus amigos?</p><p>Mikael pegou um ma�o de cigarros e o estendeu a Bublanski, que balan�ou a cabe�a. N�o queria mentir para a pol�cia e supunha que deveria mencionar suas reflex�es sobre o homem chamado Zala. Tamb�m deveria falar sobre o delegado Gunnar Bj�rck, da S�po.</p><p>Mas Bublanski e seus colegas tamb�m tinham acesso ao material de Dag Svensson contendo o arquivo [<strong>ZALA</strong>]. S� precisavam l�-lo. Em vez disso, avan�avam feito um tanque de guerra, revelando toda a intimidade de Lisbeth Salander para a m�dia.</p><p>Ele tinha uma id�ia, mas n�o sabia no que ia dar. N�o queria mencionar Bj�rck antes de ter certeza. <emphasis>Zalachenko.</emphasis> Era esse o elo, tanto com Bjurman como com Dag e Mia. O �nico problema era que Bj�rck n�o tinha falado nada.</p><p>�Deixe eu fu�ar mais um pouco, e a� te apresento uma teoria alternativa.</p><p>�Que n�o seja uma pista que aponte para a pol�cia. Mikael sorriu.</p><p>�N�o. Ainda n�o. O que a Miriam Wu disse?</p><p>�Mais ou menos o mesmo que voc�. Elas tinham um caso. Ele espreitou a rea��o de Mikael.</p><p>�Isso n�o me diz respeito - disse Mikael.</p><p>�A Miriam Wu e a Salander se frequentaram durante tr�s anos. A Miriam n�o sabe nada do passado de Salander nem sabe onde ela trabalha. Dif�cil de engolir. Mas acho que ela falou a verdade.</p><p>�A Lisbeth � extremamente fechada - disse Mikael. Ficaram um instante em sil�ncio.</p><p>�Voc� tem o telefone da Miriam Wu?</p><p>�Tenho.</p><p>�Pode me passar?</p><p>�N�o.</p><p>�Por qu�?</p><p>�Mikael, trata-se de uma investiga��o policial. N�o precisamos de investigadores particulares com teorias bizarras.</p><p>�Ainda n�o tenho nenhuma teoria. Mas acredito que a solu��o do enigma est� no material do Dag Svensson.</p><p>�Voc� provavelmente n�o vai ter dificuldade em obter o telefone da Miriam Wu se se esfor�ar um pouco.</p><p>�Provavelmente. Mas � mais simples perguntar a quem j� sabe. Bublanski suspirou. Mikael sentiu-se, de s�bito, profundamente irritado com ele.</p><p>�Ser� que os policiais s�o mais inteligentes que as pessoas comuns que voc� chama de investigadores particulares? - perguntou.</p><p>�N�o, acho que n�o. Mas a pol�cia tem uma forma��o, e sua miss�o � investigar os crimes.</p><p>�As pessoas comuns tamb�m t�m uma forma��o - disse Mikael, devagar. �E pode acontecer de um investigador particular ser muito mais competente que um policial para investigar um crime.</p><p>�Isso � voc� quem diz.</p><p>�Estou convencido disso. Veja o caso de Joy Rahman. Os policiais ficaram cinco anos sentados de olhos fechados, enquanto Rahman, que era inocente, estava preso pelo assassinato de uma idosa. Ainda estaria preso se uma professora n�o tivesse passado anos fazendo uma investiga��o s�ria. E ela fez isso sem todos os recursos de que voc� disp�e. N�o s� provou que ele era inocente como tamb�m apontou um indiv�duo que, ao que tudo levava a crer, era o verdadeiro assassino.</p><p>�O caso Rahman acabou virando uma quest�o de prest�gio. O procurador se negava a escutar os fatos.</p><p>Mikael Blomkvist contemplou demoradamente Bublanski.</p><p>�Bublanski... Vou te dizer uma coisa. Neste exato momento, o caso Salander tamb�m j� virou uma quest�o de prest�gio. Eu afirmo que ela n�o matou o Dag e a Mia. E vou provar. Vou descobrir um assassino alternativo e quando isso acontecer, vou escrever uma mat�ria que voc� e seus colegas v�o achar superdo�da de ler.</p><p>A caminho de casa, Bublanski sentiu necessidade de debater o assunto com Deus, mas, em vez de ir � sinagoga, foi � igreja cat�lica da Folkungagatan. Escolheu um banco l� no fundo e ficou ali sentado tranq�ilo por mais de uma hora. Como judeu, teoricamente n�o tinha nada a fazer numa igreja, mas era um lugar sereno onde ele volta e meia aparecia quando precisava organizar os pensamentos. Achava que a igreja era um lugar como outro qualquer para refletir, e tinha certeza que Deus n�o se incomodava. Al�m disso, nesse aspecto havia uma grande diferen�a entre o catolicismo e o juda�smo. Ele ia � sinagoga para buscar a companhia de outras pessoas. Os cat�licos iam � igreja porque queriam ficar em paz com Deus. A igreja convidava ao sil�ncio e exigia que os visitantes fossem deixados em paz.</p><p>Ele pensou sobre Lisbeth Salander e Miriam Wu. E pensou sobre o que Erika Berger e Mikael Blomkvist estariam ocultando. Estava convencido de que eles sabiam alguma coisa sobre Salander que n�o tinham contado. Perguntou-se que tipo de �pesquisa� Lisbeth Salander fizera para Mikael Blomkvist. Em dado momento, ponderou que Salander havia trabalhado com Blomkvist pouco antes de ele trazer o caso Wennerstr�m � luz, mas acabou eliminando essa possibilidade. Lisbeth Salander n�o tinha simplesmente nenhuma liga��o com aquele tipo de drama e parecia fora de cogita��o que tivesse contribu�do de algum modo. Por maior que sua compet�ncia fosse investigar pessoas.</p><p>Bublanski estava preocupado.</p><p>N�o gostava daquela certeza absoluta que Mikael Blomkvist tinha da inoc�ncia de Salander. Que ele pr�prio, como policial, tivesse alguma d�vida, era uma coisa - duvidar era a sua fun��o. Coisa bem diferente era Mikael Blomkvist lan�ar um desafio como investigador particular.</p><p>N�o gostava de investigadores particulares. Em geral eles vinham com teorias conspirat�rias, excelentes para alimentar manchetes de jornais, mas que, no mais das vezes, acabavam redundando num trabalho extra e totalmente in�til para os policiais.</p><p>Esta investiga��o por assassinato j� se tornara a mais maluca que ele j� tinha realizado. Sentia que, de algum modo, estava perdendo as estribeiras. Uma investiga��o de assassinato deve seguir uma linha de conclus�es l�gicas.</p><p>Quando um jovem de dezessete anos � encontrado apunhalado na Mariatorget, h� que identificar as turmas de <emphasis>skinheads</emphasis> ou as gangues de adolescentes que estavam nos arredores da pra�a e da S�dra Station uma hora antes. Existem amigos, conhecidos, testemunhas e, rapidamente, suspeitos.</p><p>Quando um homem de quarenta e dois anos � apagado com tr�s tiros de pistola num bar de Sk�rholmen e descobre-se que ele era um faz-tudo da m�fia iugoslava, h� que tentar descobrir qual dos jovens novatos est� tentando assumir o controle do contrabando de cigarros.</p><p>Quando uma mulher de vinte e seis anos, de um ambiente respeit�vel e de vida pacata, � encontrada estrangulada em seu apartamento, h� que tentar descobrir quem era o seu namorado ou a �ltima pessoa com quem ela conversou no caf� na noite da v�spera.</p><p>Bublanski chefiara tantas investiga��es desse tipo que poderia realiz�-las at� dormindo.</p><p>A investiga��o atual at� havia come�ado muito bem. Tinham achado um principal suspeito j� nas primeiras horas. Lisbeth Salander era perfeita para o papel - um caso psiqui�trico comprovado com incontrol�veis surtos de viol�ncia a vida inteira. Concretamente, s� faltava peg�-la, obter uma confiss�o ou, dependendo das circunst�ncias, mand�-la para uma sala acolchoada. Mas ent�o tudo desandara.</p><p>Salander n�o morava em seu endere�o. Tinha amigos como Dragan Armanskij e Mikael Blomkvist. Mantinha uma rela��o com uma l�sbica declarada adepta do sexo com algemas e que desencadeava o entusiasmo da m�dia numa situa��o j� suficientemente inflamada. Tinha dois milh�es e meio de coroas na sua conta banc�ria e nenhum emprego conhecido. E agora Blomkvist ainda vinha com teorias sobre tr�fico de mulheres e outras conspira��es - e ele, na condi��o de jornalista famoso, tinha realmente condi��es de criar um caos completo na investiga��o por meio de um �nico artigo bem colocado.</p><p>E, sobretudo, a principal suspeita revelava-se imposs�vel de achar, embora fosse uma tampinha, com um aspecto f�sico peculiar e tatuagens no corpo inteiro. Os assassinatos j� completavam duas semanas e eles ainda n�o tinham a menor sombra de uma pista de onde ela poderia estar.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Gunnar Bj�rck, em licen�a m�dica por causa de uma h�rnia de disco, chefe-adjunto da S�po, passara vinte e quatro miser�veis horas depois que Mikael Blomkvist atravessara sua porta. Uma dor surda e permanente instalara-se em suas costas. Ficara andando pela casa que tinham lhe emprestado, incapaz de relaxar ou de tomar qualquer iniciativa. Tentava raciocinar, mas as pe�as do quebra-cabe�a teimavam em n�o se encaixar.</p><p>Ele n�o conseguia entender os meandros daquela hist�ria.</p><p>Quando tivera not�cia do assassinato de Nils Bjurman, no dia seguinte � descoberta do corpo do advogado, tinha ficado at�nito. Mas n�o ficara surpreso quando Lisbeth Salander fora apontada, quase de imediato, como a principal suspeita e come�aram a ca��-la. Escutou com aten��o cada palavra do que foi dito na tev� e saiu para comprar todos os jornais que conseguisse encontrar, lendo conscienciosamente cada palavra das diversas reportagens.</p><p>N�o duvidava nem por um instante que Lisbeth Salander fosse uma desequilibrada mental capaz de matar. N�o tinha nenhum motivo para questionar sua culpabilidade ou as conclus�es do inqu�rito policial; pelo contr�rio, tudo o que sabia sobre Lisbeth Salander sugeria que ela era uma psicopata. Ele quase tinha dado um telefonema a fim de colaborar na investiga��o com conselhos apropriados, ou pelo menos para verificar se estava sendo conduzida de forma correta, mas depois conclu�ra que o caso n�o lhe dizia mais respeito. J� n�o era da sua al�ada, e havia gente competente para administr�-lo. Sem falar que um telefonema seu poderia despertar a indesej�vel aten��o que ele justamente queria evitar. Resolvera relaxar e seguir acompanhando as not�cias de modo mais distante.</p><p>A visita de Mikael Blomkvist viera transtornar por completo a sua tranq�ilidade. Jamais lhe passara pela cabe�a que a orgia assassina de Salander pudesse envolv�-lo pessoalmente - que uma das v�timas fosse um cretino de um jornalista prestes a denunciar a Su�cia inteira.</p><p>E muito menos imaginara que o nome de Zala poderia ressurgir como uma granada sem pino no meio da hist�ria, e menos ainda que Mikael Blomkvist conhecia esse nome. Era t�o incr�vel que ultrapassava qualquer tentativa de entendimento.</p><p>No dia seguinte � visita de Mikael, pegara o telefone e ligara para o seu ex-chefe, setenta e oito anos e residente em Laholm. Precisava dar um jeito de tentar entender a hist�ria sem dar a perceber que estava ligando por motivos outros que n�o mera curiosidade e preocupa��o profissional. A conversa foi relativamente breve.</p><p>�� o Bj�rck. Imagino que voc� tenha lido os jornais.</p><p>�De fato. Ela voltou.</p><p>�E n�o mudou muito.</p><p>�Isso j� n�o nos diz respeito.</p><p>�Ent�o voc� n�o acha que...</p><p>�N�o, n�o acho. Isso tudo est� morto e enterrado. Ningu�m vai fazer a rela��o.</p><p>�Mas � que se trata de Bjurman, e n�o de um qualquer. Imagino que ele n�o se tornou tutor dela por acaso.</p><p>Houve um sil�ncio do outro lado da linha.</p><p>�N�o, n�o foi por acaso. H� tr�s anos, parecia uma boa id�ia. Quem poderia prever o que est� acontecendo?</p><p>�O que o Bjurman sabia?</p><p>O chefe, de repente, deu uma risadinha.</p><p>�Voc� sabe como ele era. N�o era exatamente um ator nato.</p><p>�Quero dizer... ele sabia da liga��o? Existe alguma coisa nos documentos dele que poderia levar a...</p><p>�N�o, claro que n�o. Entendo o que voc� quer saber, mas n�o precisa se preocupar. Salander sempre foi um fator incontrol�vel nessa hist�ria. Demos um jeito de o Bjurman conseguir esse cargo, mas foi s� porque nos convinha ter um tutor no qual a gente pudesse ficar de olho. Era melhor que um sujeito desconhecido. Se ela tivesse come�ado a falar, ele teria procurado a gente. Agora est� tudo acabando da melhor maneira poss�vel.</p><p>�Como assim?</p><p>�Ora, quando tudo isso terminar, a Salander vai ficar no hospital psiqui�trico um bocado de tempo.</p><p>�Vamos supor que sim.</p><p>�Logo, n�o h� com que se preocupar. Voc� pode ficar tranq�ilo a� na sua licen�a m�dica.</p><p>Mas isso era justamente o que Gunnar Bj�rck n�o conseguia fazer. Por culpa de Mikael Blomkvist. Sentou-se � mesa da cozinha e ficou contemplando a angra de Jungfrufj�rden enquanto tentava fazer um balan�o da sua situa��o. Estava amea�ado pelos dois lados.</p><p>Mikael Blomkvist ia denunci�-lo como cliente de prostitui��o. Havia o perigo iminente de ele terminar sua carreira de policial preso por infringir a lei do com�rcio sexual.</p><p>Por�m ainda mais grave era Mikael Blomkvist estar atr�s de Zalachenko. De algum modo, Zalachenko estava envolvido na hist�ria. O que, de novo, levava diretamente a Bj�rck.</p><p>O seu ex-chefe parecia convencido de que n�o havia nada de comprometedor nos documentos deixados por Bjurman. Estava enganado. Havia o relat�rio de 1991. E ele, Gunnar Bj�rck, � que entregara o relat�rio a Bjurman.</p><p>Tentou visualizar sua conversa com Bjurman mais de nove meses atr�s. Tinham se encontrado na cidade velha. Bjurman ligara para ele uma tarde, no trabalho, e o convidara para tomarem uma cerveja. Tinham conversado sobre tiro com pistola e uma por��o de outras coisas, mas Bjurman o tinha contatado por um motivo espec�fico. Precisava de um favor. Fizera algumas perguntas sobre Zalachenko...</p><p>Bj�rck se levantou e se aproximou da janela da cozinha. Naquele dia, tinha bebido um pouco al�m da conta. Bastante at�. O que Bjurman tinha lhe pedido?</p><p>�A <emphasis>prop�sito... estou com um caso em que um velho conhecido resolveu reaparecer...</emphasis></p><p><emphasis>�Ah, �? Quem?</emphasis></p><p><emphasis>�Alexander Zalachenko. Lembra dele?</emphasis></p><p><emphasis>�Se lembro. N�o � uma pessoa que se esque�a facilmente.</emphasis></p><p><emphasis>�O que foi feito dele?</emphasis></p><p>Teoricamente, aquilo n�o dizia respeito a Bjurman. Seria at� o caso de ficar de olho nele s� por estar perguntando... n�o fosse o fato de ele ser o tutor de Lisbeth Salander. Ele disse que precisava do relat�rio antigo. <emphasis>E eu dei a ele.</emphasis></p><p>Cometera um erro monumental. Partira do pressuposto de que Bjurman j� estava por dentro - o contr�rio teria sido simplesmente impens�vel. E Bjurman colocara as coisas como uma simples tentativa de pegar um atalho em meio � lentid�o da burocracia, em que tudo trazia o selo <emphasis>top secret</emphasis> e poderia levar meses. Principalmente num caso envolvendo Zalachenko.</p><p><emphasis>Eu dei a ele o relat�rio, ainda com o selo</emphasis> top secret <emphasis>Bjurman, por�m, tinha um motivo justo e compreens�vel, e n�o era homem de vacilar. Um idiota, sem d�vida, mas que sempre soubera ficar de bico calado. Que problema poderia haver... depois de tantos anos?</emphasis></p><p>Bjurman o tinha enrolado. Dera a entender que se tratava de formalidades burocr�ticas. Quanto mais pensava no assunto, mais convencido ficava de que Bjurman escolhera as palavras com perfeita precis�o e extrema prud�ncia.</p><p>O que ele estava buscando? E por que Salander o tinha matado?</p><p>Mikael Blomkvist foi mais quatro vezes at� a Lundagatan naquele s�bado, na esperan�a de topar com Miriam Wu, mas esta brilhava pela aus�ncia.</p><p>Passou boa parte do dia no Caf� da Hornsgatan com seu iBook, e releu a correspond�ncia eletr�nica de Dag Svensson endere�ada � <emphasis>Millennium. se,</emphasis> assim como o conte�do da pasta [<strong>ZALA</strong>]. Nas �ltimas semanas antes do assassinato, Dag Svensson fora dedicando cada vez mais tempo a pesquisas sobre Zala.</p><p>Mikael teria adorado poder ligar para Dag Svensson e perguntar por que o arquivo [Irina P.] estava dentro da pasta dedicada a Zala. A �nica conclus�o plaus�vel a que ele conseguia chegar era que Dag suspeitava que Zala fosse o assassino de Irina.</p><p>Por volta das cinco da tarde, Bublanski ligara de repente para lhe dar o telefone de Miriam Wu. Mikael n�o entendeu o que poderia ter levado o policial a mudar de id�ia, mas assim que teve o n�mero em m�os come�ou a ligar mais ou menos de meia em meia hora. Somente por volta das onze da noite, quando ligou o celular, � que ela atendeu. A conversa foi r�pida.</p><p>�Boa noite, Miriam. Meu nome � Mikael Blomkvist.</p><p>�E quem � voc�, que j� vem de novo me encher o saco?</p><p>�Sou jornalista, trabalho para uma revista chamada <emphasis>Millennium.</emphasis> Miriam Wu expressou seus sentimentos com muita veem�ncia.</p><p>�Ah, sei. O Blomkvist, aquele. Pois v� se danar, jornalistazinho do inferno!</p><p>E cortou a liga��o antes que Mikael tivesse chance de pronunciar uma s� palavra para explicar o que queria. Amaldi�oou intimamente Tony Scala e tentou ligar de novo. Ela n�o atendeu. Em desespero de causa, mandou uma mensagem de texto para o celular dela.</p><p>Por <emphasis>favor. � importante.</emphasis></p><p>Ela n�o respondeu.</p><p>No s�bado � noite bem tarde, j� quase no domingo, Mikael desligou o computador, despiu-se e foi para a cama. Sentia-se frustrado. Teria gostado que Erika Berger estivesse com ele.</p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>IV � TERMINATOR MODE 24 DE MAR�O A 8 DE ABRIL</strong></p><empty-line/><p>A <emphasis>raiz de uma equa��o � um algarismo que, substituindo a inc�gnita, faz da equa��o uma identidade. Diz-se que a raiz satisfaz a equa��o.</emphasis></p><p><emphasis>Para solucionar uma equa��o, deve-se determinar todas as suas ra�zes. Quando uma equa��o � satisfeita por todos os valores imagin�veis das inc�gnitas, fala-se em identidade.</emphasis></p><p><emphasis>(a + b)</emphasis>2 <emphasis>= a</emphasis>2 <emphasis>+ 2ab + b</emphasis>2</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>21 - QUINTA-FEIRA SANTA 24 DE MAR�O � SEGUNDA-FEIRA 4 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander passou sua primeira semana como foragida longe de qualquer acontecimento dram�tico. Ficou tranq�ilamente em seu apartamento da Fiskaregatan, em Mosebacke. Tinha desligado o celular e retirado o cart�o <strong>SIM</strong>. N�o pretendia mais usar aquele telefone. Acompanhava com os olhos cada vez mais arregalados as manchetes dos jornais on-line e os telejornais.</p><p>Descobriu, muito irritada, a foto de sua carteira de identidade divulgada na internet e logo transformada em �cone dos temas do momento na tev�. Naquela foto ela estava com cara de louca.</p><p>Depois de anos de esfor�o para chegar ao anonimato, transformara-se na pessoa mais conhecida e p�blica do pa�s. Com surpresa, percebeu que a busca, em escala nacional, de uma garota de baixa estatura suspeita de triplo assassinato era um dos fatos mais sensacionais do ano, mais ou menos da mesma dimens�o dos abusos sexuais e financeiros e do crime perpetrado Pelo guru da seita de Knutby. Acompanhou os coment�rios e as explica��es da m�dia, sobrancelhas pensativamente erguidas, fascinada de ver que autos lacrados como confidenciais, relativos �s suas dificuldades mentais, pareciam acess�veis a todos em todas as reda��es. Um t�tulo despertou velhas recorda��es enterradas.</p><p><strong>INTERPELADA</strong><strong>POR</strong><strong>ATOS</strong><strong>VIOLENTOS</strong><strong>EM</strong><strong>GAMLA</strong><strong>STAN</strong></p><p>Um rep�rter da �rea jur�dica da ag�ncia TT passara � frente dos concorrentes ao p�r as m�os numa c�pia da investiga��o m�dico-legal realizada depois que Lisbeth fora detida por enfiar o p� na cara de um passageiro na esta��o de metr� de Gamla Stan.</p><p>Lisbeth lembrava-se perfeitamente daquele incidente no metr�. Ela estava voltando para a casa da sua fam�lia adotiva tempor�ria, em H�gersten. Na esta��o R�dmansgatan, um homem que ela nunca vira mais gordo, e que parecia absolutamente s�brio, subira no trem e pusera-se imediatamente a espreit�-la. Mais tarde viria a descobrir que ele se chamava Karl Evert Blomgren, tinha cinquenta e dois anos e era um antigo jogador de bandy domiciliado em G�vle. Quando o vag�o ficou meio vazio, sentou-se ao lado dela e come�ou a assedi�-la. Pusera a m�o em seu joelho e tentara iniciar um papo do tipo: �Eu te dou duzentos paus se voc� for at� a minha casa�. Como ela o ignorasse e n�o respondesse, ele foi ficando mais insistente e a chamara de vadia. O fato de ela n�o retrucar e mudar de lugar na Centralen n�o o desanimou.</p><p>O metr� estava chegando a Gamla Stan quando ele a abra�ou por tr�s e enfiou as m�os debaixo de sua blusa, cochichando em seu ouvido que ela era uma puta. Lisbeth Salander n�o gostava de ser chamada de puta por perfeitos desconhecidos dentro do metr�. Respondeu com uma cotovelada no olho, ent�o se segurou com firmeza numa barra de ferro e lhe enfiou o salto na base do nariz. O cara sangrou com abund�ncia.</p><p>Ela tivera oportunidade de escapar quando o trem parou na esta��o, mas como estava vestida como uma <emphasis>punk</emphasis> e com o cabelo pintado de azul, um amante da ordem se jogou em cima dela e a manteve no ch�o at� a chegada da pol�cia.</p><p>Ela amaldi�oou seu sexo e sua baixa estatura. Se fosse um cara, ningu�m teria ousado se jogar em cima dela.</p><p>Nunca procurou explicar por que dera um chute na cara de Karl Evert Blomgren. Julgava in�til tentar explicar o que quer que fosse a uma autoridade de uniforme. Por princ�pio, negava-se inclusive a responder �s perguntas dos psic�logos quando eles resolviam avaliar seu estado mental. Felizmente, outros passageiros tinham acompanhado os fatos, entre eles uma mulher insuport�vel de H�rn�sand, que se revelou ser uma deputada centrista. A mulher ofereceu imediatamente seu testemunho, dizendo que Blomgren assediara Salander antes de ela atacar. Mais tarde, descobriu-se que Blomgren j� tinha duas condena��es por atentado ao pudor, e o procurador resolveu encerrar o processo. Mas nem por isso se interrompeu a investiga��o social, e pouco depois o tribunal de primeira inst�ncia declarou Lisbeth Salander incapaz. Com isso, ficara primeiro sob a tutela de Holger Palmgren e depois de Nils Bjurman.</p><p>E agora todos esses detalhes �ntimos e protegidos por sigilo profissional estavam expostos na internet para quem quisesse ver. Sua ficha vinha acrescida de descri��es fabulosas de todos os conflitos que ela tivera com as pessoas desde a escola prim�ria, e de sua interna��o numa cl�nica de psiquiatria infantil no in�cio da adolesc�ncia.</p><p>O diagn�stico que a m�dia apresentava sobre Lisbeth Salander variava segundo as edi��es e os jornais. Ela era descrita ora como psic�tica, ora como esquizofr�nica com s�rias tend�ncias � mania de persegui��o. Todos os jornais a descreviam como retardada mental - ela n�o conseguira assimilar o conte�do escolar e sa�ra do col�gio sem um boletim de avalia��o. Os leitores s� podiam concluir que ela era desequilibrada e inclinada � viol�ncia.</p><p>Quando a m�dia descobriu que Lisbeth Salander era amiga da l�sbica Miriam Wu, um linchamento em regra se desencadeou em diversos jornais. Miriam Wu se apresentara no show de Benita Costa por ocasi�o da Gay Pride, um show provocante em que Mimmi fora fotografada com os seios � mostra, cal�as de couro com suspens�rios e botas de verniz com salto agulha. Al�m disso, escrevera artigos numa revista gay frequentemente citada na m�dia e algumas vezes fora entrevistada por causa de sua participa��o em diferentes shows. A combina��o l�sbica/assassina em s�rie/sexo sadomas� era aparentemente imbat�vel para aumentar as tiragens.</p><p>V�rios jornais aventaram a possibilidade de que a tese de Mia Bergman, que versava sobre o com�rcio do sexo, pudesse ter motivado Lisbeth Salander a cometer os crimes, j� que, de acordo com o Servi�o Social, ela era uma prostituta.</p><p>No final da semana, a m�dia descobriu que Salander tamb�m tinha v�nculos com um grupo de garotas que flertavam com o satanismo. O grupo chamava-se Evil Fingers, o que incitou um jornalista cultural, homem de certa idade, a escrever um longo texto sobre a instabilidade da juventude e o perigo, oculto em toda parte, que ia desde a cultura <emphasis>skinhead</emphasis> at� o hip-hop.</p><p>A essa altura, o p�blico estava saturado de informa��es sobre Lisbeth Salander. Somadas as informa��es dos diferentes ve�culos, a pol�cia procurava uma l�sbica psic�tica, membro de um grupo sat�nico que pregava o sexo sadomasoquista e odiava a sociedade em geral e os homens em particular. Considerando-se que Salander estivera fora do pa�s um ano antes, n�o estavam exclu�dos contatos internacionais.</p><p>Uma �nica vez Lisbeth Salander reagiu com uma esp�cie de emo��o ao que era veiculado com alarde pela m�dia. Uma manchete chamou sua aten��o.</p><p><strong>�</strong><strong>A</strong><strong>GENTE</strong><strong>TINHA</strong><strong>MEDO</strong><strong>DELA</strong><strong>�</strong></p><p><emphasis>Ela amea�ava nos matar, dizem professores e colegas.</emphasis></p><p>Quem falava assim era uma antiga professora, uma certa Birgitta Mi��s, que atualmente trabalhava com pinturas em seda. Ela contava que Lisbeth Salander amea�ara seus colegas de sala de aula e que at� os professores tinham medo dela.</p><p>Lisbeth, de fato, havia cruzado com Mi��s. E o encontro entre elas n�o fora dos melhores.</p><p>Ela mordeu o l�bio inferior e lembrou que tinha onze anos na �poca. Lembrava-se de Mi��s como de uma p�ssima professora substituta de matem�tica, que teimara em lhe fazer uma pergunta � qual ela j� havia respondido de forma correta, s� que erradamente segundo o manual. Na verdade, o manual estava errado, o que, na opini�o de Lisbeth, devia estar evidente para todo mundo. Mas Mi��s teimara mais e mais, e Lisbeth fora ficando cada vez menos disposta a discutir o assunto. Por fim, permaneceu im�vel, a boca formando um tra�o fino com o l�bio inferior puxado para a frente at� que Mi��s, totalmente frustrada, a pegou pelo ombro e a sacudiu para chamar sua aten��o. Lisbeth reagira jogando o livro na cara de Mi��s, o que resultou em alguma confus�o. Ela cuspia e dava pontap�s enquanto seus colegas tentavam cont�-la.</p><p>A mat�ria ocupava um bom espa�o num jornal vespertino e tamb�m dava lugar a alguns depoimentos, colocados como legenda num boxe que trazia um de seus ex-colegas de sala fotografado em frente � sua escola na �poca. O menino chamava-se David Gustavsson e atualmente se declarava assistente financeiro. Afirmava que os alunos tinham medo de Lisbeth Salander porque um dia �ela proferiu amea�as de morte�. Lisbeth lembrava-se de David Gustavsson como um de seus maiores atormentadores na escola, um brutamonte dotado de QI m�nimo que raramente perdia uma oportunidade de distribuir ofensas e cotovelado pelos corredores. Certa vez, ele a agredira atr�s do gin�sio no intervalo do almo�o e, como sempre, ela se defendera. Fisicamente, n�o tinha a menor chance, mas preferia morrer a capitular. O incidente escapou do controle e uma quantidade enorme de alunos se juntou em volta deles para assistir David Gustavsson bater sem parar em Lisbeth Salander. At� certo ponto, tinham achado gra�a, mas a boba n�o cuidava de seu pr�prio interesse; limitou-se a ficar no ch�o sem sequer come�ar a chorar ou a implorar piedade.</p><p>Momentos depois, os pr�prios alunos j� n�o suportavam aquela cena. David era t�o superior e Lisbeth t�o indefesa, que David come�ou a contabilizar pontos negativos. Ele tinha come�ado uma coisa que j� n�o sabia como encerrar. Por fim, tascou dois belos socos em Lisbeth, um dos quais lhe partiu o l�bio e o outro cortou-lhe o f�lego. Os demais alunos a abandonaram num estado lament�vel atr�s do gin�sio e, rindo, contornaram o pr�dio e ali desapareceram.</p><p>Lisbeth Salander fora para casa tratar dos ferimentos. Dois dias depois, voltou com um taco de beisebol. No meio do p�tio, desfechou uma tacada na cabe�a de David, em cima da orelha. Quando ele foi ao ch�o, totalmente chocado, ela apertou-lhe o taco na garganta, inclinou-se sobre ele e sussurrou que se um dia ele encostasse nela outra vez ela o mataria. Nisso, os adultos perceberam que estava acontecendo alguma coisa, levaram David para a enfermaria, ao passo que Lisbeth teve de se apresentar ao diretor para receber seu veredicto: castigo, notifica��o no seu hist�rico e uma investiga��o social.</p><p>Nos �ltimos quinze anos, Lisbeth nunca mais pensara em Mi��s ou em Gustavsson. Anotou mentalmente que assim que tivesse um tempinho precisava verificar qual era a ocupa��o atual dos dois.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Tudo o que se escrevia sobre Lisbeth Salander a transformava numa celebridade nacional. Seu passado era examinado e esquadrinhado, publicado nos m�nimos detalhes, desde as crises da escola prim�ria at� a interna��o na cl�nica de psiquiatria infantil de Sankt Stefan, perto de Uppsala, onde ficara por mais de dois anos.</p><p>Atentou o ouvido quando o m�dico-chefe Peter Teleborian foi entrevistado na tev�. Estava oito anos mais velho desde a �ltima vez em que Lisbeth o vira, na �poca das delibera��es no tribunal de inst�ncias que a declarara incapaz. Tinha vincos acentuados na testa e co�ou o cavanhaquezinho ao virar-se para o rep�rter e explicar, muito preocupado, que estava preso ao sigilo profissional e n�o podia, portanto, falar especificamente sobre uma paciente. S� o que ele podia dizer � que Lisbeth Salander era um caso bastante complexo que exigia tratamento especializado e que o tribunal decidira, contra a sua recomenda��o, coloc�-la sob tutela e inseri-la na sociedade em vez de oferecer-lhe o tratamento de que ela precisava numa institui��o. Foi escandaloso, afirmou Teleborian. Lamentou que tr�s pessoas tivessem morrido em virtude daquele erro de avalia��o e aproveitou para denunciar de passagem os cortes no or�amento da psiquiatria que o governo aprovara � for�a nas �ltimas d�cadas.</p><p>Lisbeth observou que nenhum jornal revelava que a forma de tratamento mais comum, no servi�o fechado de psiquiatria infantil coordenado pelo Dr. Teleborian, era colocar �os pacientes agitados e dif�ceis� numa sala qualificada como �destitu�da de est�mulos�. A mob�lia da sala era constitu�da apenas de uma cama com correias. A justificativa cient�fica era que crian�as agitadas n�o deviam receber �est�mulos� pass�veis de desencadear alguma crise.</p><p>Mais velha, descobrira que existia outro termo para isso. <emphasis>Priva��o sensorial.</emphasis> Expor prisioneiros a uma priva��o sensorial era considerado desumano pela conven��o de Genebra. Era um elemento recorrente das experi�ncias de lavagem cerebral realizadas periodicamente por diferentes ditaduras. Existiam documentos demonstrando que os prisioneiros pol�ticos que confessaram toda sorte de crimes fantasiosos nos processos de Moscou dos anos 1930 haviam recebido esse tipo de tratamento.</p><p>Quando viu o rosto de Peter Teleborian na tev�, o cora��o de Lisbeth virou um cubo de gelo. Perguntou-se se ele ainda usava a mesma lo��o p�s-barba nojenta. Ele fora o respons�vel pelo que se definira como terapia. Ela nunca entendera o que esperavam dela, a n�o ser que de algum modo ela estava recebendo um tratamento e que se tornaria consciente de seus atos. Lisbeth compreendera rapidamente que uma �paciente agitada e dif�cil� eq�ivalia a uma paciente que questionava o racioc�nio e o saber de Teleborian.</p><p>Na mesma �poca, Lisbeth Salander descobriu que o m�todo terap�utico mais difundido para o combate da doen�a mental no s�culo XVI ainda era aplicado no Sankt Stefan no limiar do s�culo XXI.</p><p>Passara mais ou menos metade do seu per�odo no Sankt Stefan deitada na cama da sala �destitu�da de est�mulos�. Ao que parecia, tinha sido uma esp�cie de recorde.</p><p>Teleborian nunca a tocara sexualmente. Nunca a tocara sen�o em contextos absolutamente inocentes. S� uma vez pusera a m�o em seu ombro para repreend�-la quando ela se encontrava amarrada no isolamento.</p><p>Ela se perguntou se as marcas de seus dentes ainda estariam vis�veis na falange do dedo m�nimo de Teleborian.</p><p>A situa��o assumira ares de um duelo no qual Teleborian detinha todas as cartas. A estrat�gia de Lisbeth fora entrincheirar-se e desconhecer totalmente sua presen�a na sala.</p><p>Tinha doze anos quando duas policiais femininas a levaram para Sankt Stefan. Fora poucas semanas depois que Todo o Mal acontecera. Lembrava-se de tudo nos m�nimos detalhes. Primeiro, pensara que as coisas iam se acertar de um jeito ou de outro. Tentara explicar sua vers�o aos policiais, aos assistentes sociais, aos funcion�rios do hospital, enfermeiras, m�dicos, psic�logos, e at� a um pastor que queria que ela rezasse com ele. Quando ia sentada na traseira da viatura policial e passaram pelo Wenner-Gren Center a caminho de Uppsala, ainda n�o sabia para onde a levavam. Ningu�m tinha lhe informado. Foi ent�o que come�ou a desconfiar que nada ia se ajeitar.</p><p>Tinha tentado explicar a Peter Teleborian.</p><p>O resultado de tanto esfor�o foi que na noite de seus treze anos ela se achava amarrada em cima de uma cama.</p><p>Peter Teleborian era sem d�vida o s�dico mais nojento e mais abjeto que Lisbeth Salander tinha conhecido na vida. A seu ver, ele superava Bjurman em v�rios aspectos. Bjurman era um perverso brutal que ela conseguira controlar. J� Peter Teleborian se protegia atr�s de uma cortina de documentos, avalia��es, m�ritos universit�rios e jarg�es psiqui�tricos. Absolutamente nenhum de seus atos jamais podia ser denunciado e contestado.</p><p>O <emphasis>Estado o incumbira da miss�o de amarrar menininhas desobedientes com correias.</emphasis></p><p>E toda vez que Lisbeth Salander era amarrada de costas e ele apertava o arreio e cruzava o olhar com o seu, ela podia ver sua excita��o. Ela sabia. Ele sabia que ela sabia. A mensagem tinha sido dada.</p><p>Na noite de seus treze anos, ela resolveu nunca mais trocar uma palavra sequer com Peter Teleborian nem com nenhum outro psiquiatra ou m�dico da cabe�a. Era o presente que ela se dava de anivers�rio. E mantivera a promessa. Sabia que isso frustrara Peter Teleborian, e decerto contribu�ra mais que qualquer outra coisa para que noite ap�s noite ela fosse amarrada com o arreio. Ela estava disposta a pagar o pre�o.</p><p>Aprendeu tudo sobre autocontrole. N�o tinha mais crises e n�o jogava mais objetos � sua volta nos dias em que a tiravam do isolamento.</p><p>Mas n�o falava com os m�dicos.</p><p>Em compensa��o, falava educadamente e sem restri��es com as enfermeiras, funcion�rios da cantina e faxineiras. Isso n�o passou despercebido. Uma enfermeira simp�tica chamada Carolina, a quem Lisbeth se afei�oara at� certo ponto, perguntou-lhe um dia por que ela agia daquele modo.</p><p>Por <emphasis>que voc� n�o fala com os m�dicos?</emphasis></p><p><emphasis>Porque eles n�o escutam o que eu digo.</emphasis></p><p>Essa resposta n�o era nada impulsiva. Era sua maneira de se comunicar com os m�dicos apesar dos pesares. Sabia perfeitamente que todo coment�rio seu era registrado em seu dossi�, e assim ela atestava que seu sil�ncio era fruto de uma decis�o racional.</p><p>No �ltimo ano em Sankt Stefan, Lisbeth fora deixada com cada vez menos freq��ncia na cela de isolamento. E quando isso acontecia era sempre porque de algum modo ela havia irritado Peter Teleborian, o que ela sempre conseguia fazer assim que ele punha os olhos nela. Ele tentava constantemente romper o sil�ncio obstinado de Lisbeth e for�ada a reconhecer a exist�ncia dele.</p><p>Um dia, Teleborin resolveu lhe administrar um tipo de tranq�ilizante que a deixava com dificuldade para respirar e para pensar, o que, por sua vez, lhe causava ang�stia. Ela ent�o se negara a tomar o rem�dio, donde a decis�o de obrig�-la a engolir os comprimidos � for�a tr�s vezes ao dia.</p><p>Sua resist�ncia fora t�o violenta que os funcion�rios tiveram de segurada, abrir sua boca e for��-la a engolir. Na primeira vez, Lisbeth enfiou imediatamente os dedos na garganta e vomitou o almo�o na enfermeira mais pr�xima. 0 resultado foi que passaram a amarr�-la para que tomasse os comprimidos. A resposta de Lisbeth foi aprender a vomitar sem precisar enfiar os dedos na garganta. A viol�ncia de sua recusa e o trabalho extra que isso implicava para os funcion�rios resultaram na interrup��o do experimento.</p><p>Ela acabava de completar quinze anos quando a trouxeram de volta a Estocolmo, para uma fam�lia adotiva. A mudan�a a pegou de surpresa. Nessa �poca, Peter Teleborian ainda n�o era o m�dico-chefe de Sankt Stefan e Lisbeth Salander estava convencida de que esse era o �nico motivo de sua s�bita liberta��o. Se Teleborian pudesse decidir sozinho, ela ainda estaria amarrada na cama do isolamento.</p><p>E eis que agora ela tornava a v�-lo na tev�. Perguntou-se se ele ainda esperava t�-la de novo como paciente, ou se ela agora j� estava muito velha para satisfazer os seus fantasmas. Sua contesta��o � decis�o do tribunal de n�o intern�-la mostrou-se eficaz e despertou a indigna��o tamb�m da rep�rter que o entrevistava, que aparentemente n�o tinha a menor id�ia do que deveria estar lhe perguntando. Ningu�m podia se permitir contradizer Peter Teleborian. O m�dico-chefe anterior de Sankt Stefan j� havia morrido. O juiz do tribunal de inst�ncias que presidira o caso Salander, e que agora deveria, em parte, assumir o papel do malvado da trag�dia, estava aposentado. Negava-se a prestar declara��es � imprensa.</p><p>Lisbeth descobriu um dos textos mais desnorteantes no site de um jornal local do centro da Su�cia. Leu-o tr�s vezes antes de desligar o computador e acender um cigarro. Sentou-se na almofada do v�o da janela e contemplou a ilumina��o p�blica noturna com um sentimento de resigna��o.</p><p><strong>�</strong><strong>ELA</strong><strong>�</strong><strong>BISSEXUAL</strong><strong>�,</strong><strong>DIZ</strong><strong>UMA</strong><strong>AMIGA</strong><strong>DE</strong><strong>INF�NCIA</strong></p><p>A mulher de vinte e seis anos que est� sendo procurada por tr�s assassinatos � descrita como uma pessoa solit�ria e fechada, com grandes dificuldades de adapta��o escolar. Apesar das v�rias tentativas no sentido de socializ�-la, sempre se manteve � margem.</p><p>�Ela manifestamente tinha algum problema grande de identidade sexual, recorda Johanna, uma de suas raras amigas na escola. Desde cedo ficou muito claro que ela era diferente e bissexual. Estamos preocupados com ela.�</p><p>O texto continuava descrevendo alguns epis�dios de que Johanna se recordava. Lisbeth franziu o cenho. N�o se lembrava daqueles epis�dios nem de que tinha tido uma amiga pr�xima chamada Johanna. Ali�s, n�o conseguia se lembrar de ter tido alguma vez algu�m que se pudesse qualificar de amigo pr�ximo e tivesse tentado integr�-la � sociedade nos tempos de escola.</p><p>O texto era vago em rela��o � �poca em que os epis�dios teriam ocorrido, mas, concretamente, ela sa�ra da escola aos doze anos. Isso significava que sua preocupada colega de inf�ncia teria descoberto a bissexualidade de Lisbeth no primeiro ano do gin�sio!</p><p>Em meio ao <emphasis>tsunami</emphasis> enlouquecido de textos delirantes durante a semana, a entrevista de Johanna foi a que mais a atingiu. Tinha obviamente sido forjada. Ou o rep�rter topara com uma completa mit�mana, ou ele pr�prio inventara tudo aquilo. Memorizou o nome dele e o acrescentou � lista de objetos futuros de pesquisa.</p><p>Nem mesmo as reportagens mais compassivas, temperadas com uma pontinha de cr�tica ao sistema, que exibiam manchetes como �Uma falha da sociedade� ou �Ela nunca recebeu a ajuda de que precisava�, conseguiam minorar seu papel de inimigo p�blico n�mero um - uma assassina que, num acesso de loucura, executara tr�s respeit�veis cidad�os.</p><p>Lisbeth leu as interpreta��es de sua vida com certo fasc�nio e observou uma evidente lacuna naquilo que o p�blico estava conhecendo. Apesar do acesso aparentemente ilimitado aos detalhes mais �ntimos de sua vida lacrados com o selo confidencial, a m�dia passara totalmente ao largo de Todo o Mal, que ocorrera pouco antes de seus treze anos. O que sabiam de sua vida ia da pr�-escola at� por volta dos onze anos e, depois, a partir dos quinze anos, quando tivera alta da cl�nica de psiquiatria infantil e fora encaminhada para uma fam�lia adotiva.</p><p>Aparentemente, algu�m da investiga��o policial estava fornecendo informa��es � m�dia mas, por raz�es que Lisbeth Salander ignorava, resolvera omitir Todo o Mal. Isso a intrigava. Se a pol�cia fazia tanta quest�o de enfatizar sua tend�ncia � viol�ncia extrema, essa investiga��o constituiria a acusa��o mais pesada de seu dossi�, sendo muito mais s�ria que todas as bobagens do recreio da escola. Estava na origem de sua transfer�ncia para Uppsala e da interna��o no Sankt Stefan.</p><p>No domingo de P�scoa, Lisbeth come�ou a ter um panorama razo�vel da investiga��o policial. As informa��es da imprensa lhe proporcionaram uma boa vis�o dos participantes. Notou que o procurador Ekstr�m coordenava o inqu�rito preliminar e era, em geral, quem se pronunciava nas coletivas de imprensa. A investiga��o de campo estava sendo chefiada pelo inspetor criminal Jan Bublanski, homem dotado de ligeiro excesso de peso, que usava um palet� mal cortado e assistia Ekstr�m em algumas coletivas.</p><p>Dias depois, identificou Sonja Modig, a �nica mulher da equipe, que descobrira o corpo de Bjurman. Anotou o nome de Hans Faste e de Curt Bolinder, mas deixou passar o de Jerker Holmberg, que n�o aparecia em nenhuma reportagem. Criou uma pasta no computador para cada um deles e come�ou a aliment�-las com dados.</p><p>As informa��es sobre o andamento da investiga��o policial encontravam-se, evidentemente, nos computadores dos investigadores, cuja base de dados achava-se armazenada no servidor da delegacia. Lisbeth Salander sabia que era extremamente dif�cil piratear a rede interna da pol�cia, mas n�o imposs�vel. J� fizera isso uma vez.</p><p>Por ocasi�o de um trabalho para Dragan Armanskij, quatro anos antes, ela mapeara a estrutura da rede da pol�cia e avaliara as possibilidades de entrar no registro das fichas criminais para efetuar suas pr�prias pesquisas. Lamentavelmente, fracassara em suas tentativas de invas�o ilegal - os <emphasis>firewall</emphasis> da pol�cia eram demasiado sofisticados, e minados por todo tipo de armadilhas capazes de dar o alerta.</p><p>A rede interna da pol�cia era estruturada conforme as regras da arte, com cabos pr�prios, separados de qualquer cabeamento externo e de internet. Ou seja, para fazer uma pesquisa atrav�s dela, Lisbeth precisaria de um tira autorizado a usar a rede ou, segunda possibilidade, que a rede interna da pol�cia pensasse que ela era uma pessoa autorizada. Nesse aspecto, os especialistas em seguran�a da pol�cia felizmente haviam deixado aberta uma imensa porta dos fundos. In�meras delegacias do pa�s estavam conectadas � rede central, sendo que muitas n�o passavam de pequenas unidades locais que fechavam � noite e n�o contavam com alarme ou vigil�ncia. A delegacia pr�xima a L�ngvik, nos arredores de V�ster�s, era uma delas. Ocupava cento e trinta metros quadrados no mesmo pr�dio da biblioteca municipal e da Previd�ncia Social e, durante o dia, o plant�o era feito por tr�s policiais.</p><p>Na �poca, Lisbeth Salander n�o conseguira entrar na rede para a investiga��o que estava realizando, mas pensou que valia a pena dedicar algum tempo e energia procurando um acesso, visando investiga��es futuras. Examinara as possibilidades que se ofereciam e ent�o entrara com um pedido de emprego tempor�rio de ver�o como faxineira na biblioteca de L�ngvik. Paralelamente ao manejo de baldes e esfreg�es, gastou cerca de dez minutos nas depend�ncias do Urbanismo Municipal para obter as plantas detalhadas do local. Pegara as chaves do pr�dio, mas n�o das depend�ncias da pol�cia. Em compensa��o, descobrira que podia, sem muita dificuldade, penetrar no local por uma janela de banheiro do primeiro andar, que ficava entreaberta � noite no ver�o, por causa do calor. A delegacia era vigiada apenas por um guarda da Securitas que passava por ali duas ou tr�s vezes por noite. Rid�culo.</p><p>Demorou uns cinco minutos para descobrir o login e a senha, escondidos no risque-rabisque do oficial de pol�cia local, e levou cerca de uma noite fazendo experimentos a fim de entender a estrutura da rede e identificar que tipo de acesso essa pessoa dispunha e que tipo de acesso era proibido �quela equipe. De quebra, obteve tamb�m os login e as senhas de mais dois policiais. Um deles era Maria Ottosson, de trinta e dois anos. Em seu computador. Lisbeth descobriu que ela solicitara, e obtivera um cargo de investigadora na brigada de fraudes da pol�cia de Estocolmo. Lisbeth tirou a sorte grande com Ottosson: a inocente Maria deixara seu computador port�til, um Dell, numa gaveta destrancada! Maria Ottosson era, portanto, uma policial que usava seu computador pessoal no trabalho. Sublime! Lisbeth iniciou o computador e inseriu seu <strong>CD</strong> com o programa Asphyxia 1.0, a primeir�ssima vers�o do seu programa de espionagem. Instalou-o em dois lugares: como parte ativa e integrada do Microsoft Explorer e como backup do caderno de endere�os de Maria Ottosson. Lisbeth imaginou que se Ottosson comprasse um computador novo, iria transferir seu caderno de endere�os, e tamb�m era grande a possibilidade de transferi-lo para seu computador de trabalho na brigada de fraudes de Estocolmo, quando assumisse seu cargo dali a algumas semanas.</p><p>Tamb�m instalou programas nos computadores fixos dos policiais, o que lhe permitiria buscar informa��es externas. Apropriando-se simplesmente das identidades deles, poderia pesquisar no registro dos arquivos judici�rios. Em compensa��o, tinha de avan�ar p� ante p� para que as invas�es n�o fossem notadas. O departamento de seguran�a da pol�cia, por exemplo, acionava um alarme autom�tico caso um policial local se conectasse fora do servi�o, e se o fato se repetisse, ou se o n�mero de buscas aumentasse consideravelmente. E caso ela colhesse dados sobre investiga��es em que a pol�cia local n�o tinha nenhum envolvimento plaus�vel, o alarme disparava igualmente.</p><p>Ao longo do ano seguinte, ela tinha trabalhado com seu colega <emphasis>hacker</emphasis> Praga para assumir o controle da rede da pol�cia. A tarefa apresentara dificuldades t�o insuper�veis que eles acabaram abandonando o projeto. Durante a tentativa, por�m, tinham armazenado perto de cem identidades de policiais existentes, que podiam tomar emprestadas se necess�rio.</p><p>Praga vencera uma etapa importante ao conseguir piratear o computador pessoal do chefe do departamento de seguran�a de inform�tica da pol�cia. 0 sujeito era um consultor em economia sem grandes conhecimentos de inform�tica, mas dispunha de uma profus�o de informa��es em seu laptop. Embora n�o pudessem piratear toda a rede da pol�cia, Lisbeth e Praga estavam pelo menos em condi��es de infest�-la com v�rus malignos de diversos tipos - o que n�o tinham o menor interesse em fazer. Eram <emphasis>hackers,</emphasis> e n�o sabotadores. Queriam ter acesso �s redes, e n�o destru�-las.</p><p>Lisbeth Salander conferiu sua lista e constatou que nenhuma das pessoas de quem roubara a identidade trabalhava na investiga��o do triplo assassinato - seria pedir demais. Em compensa��o, podia, sem grandes dificuldades, entrar e ler os detalhes do alerta de busca nacional, inclusive atualiza��es a seu respeito. Descobriu que havia sido vista e ca�ada em Uppsala, Norrk�ping, G�teborg, Malm�, H�ssleholm e Kalmar, entre outros, e que fora divulgada uma atualiza��o sigilosa com o <emphasis>morphing,</emphasis> dando uma id�ia melhor de sua apar�ncia f�sica.</p><p>Uma das raras vantagens de Lisbeth, considerando-se a aten��o que a m�dia vinha lhe dedicando, era que dispunham de pouqu�ssimas fotos suas. Com exce��o da foto do pasS�porte e da carteira de habilita��o, de quatro anos atr�s, e de uma foto dos arquivos da pol�cia de quando tinha dezoito anos (totalmente irreconhec�vel), s� havia umas poucas fotografias esparsas colhidas em �lbuns antigos ou tiradas por um professor durante uma excurs�o � reserva natural de Nacka, quando ela tinha doze anos. As fotos da excurs�o mostravam uma figura desfocada, sentada sozinha longe dos demais.</p><p>Na foto do passaporte ela aparecia com olhos fixos e arregalados, a boca como um tra�o m�nimo e a cabe�a levemente inclinada, o que confirmava a id�ia de uma assassina antissocial retardada, mensagem que a m�dia reproduzia at� dizer chega. A �nica coisa positiva naquela foto � que estava t�o irreconhec�vel que poucas pessoas a identificariam na vida real.</p><p>Acompanhou com interesse os perfis que haviam sido tra�ados das tr�s v�timas. Na ter�a-feira, a m�dia come�ou a patinar e, na falta de novas revela��es sensacionais na busca a Lisbeth Salander, o interesse voltou a se centrar nas v�timas. Dag Svensson, Mia Bergman e Nils Bjurman eram descritos num longo artigo de fundo de um jornal vespertino. O que ressa�a � que tr�s cidad�os honrados haviam sido abatidos por motivos incompreens�veis.</p><p>Nils Bjurman aparecia como um advogado respeitado e socialmente engajado, membro do Greenpeace e ostentando �um aut�ntico compromisso com os jovens�. Uma coluna foi ocupada por um amigo pr�ximo e colega de Bjurman, Rune H�kansson, que tinha um escrit�rio no mesmo pr�dio que ele. H�kansson confirmou a imagem de Bjurman como um homem afeito � defesa dos direitos das pessoas simples. Um funcion�rio da Comiss�o de Tutelas mencionava �seu aut�ntico engajamento com sua protegida Lisbeth Salander�.</p><p>Lisbeth Salander esbo�ou seu primeiro sorriso enviesado do dia.</p><p>Era grande o interesse em torno de Mia Bergman, a v�tima feminina da trag�dia. Era descrita como uma mulher jovem e bonita, dotada de rara intelig�ncia, com um curr�culo j� impressionante, e diante da qual se abria uma brilhante carreira. Amigos chocados, colegas de curso e seu orientador eram citados. A pergunta que se repetia era �por qu�?�. Fotos mostravam buqu�s de flores e velas acesas em frente a seu pr�dio em Enskede.</p><p>Em compara��o, era pouco o espa�o dedicado a Dag Svensson. Ele era descrito como um rep�rter perspicaz e corajoso, mas sua companheira roubava a cena.</p><p>Lisbeth observou ligeiramente surpresa, que foi preciso esperar at� o domingo de P�scoa para algu�m descobrir que Dag Svensson vinha trabalhando numa grande reportagem para a revista <emphasis>Millennium.</emphasis> Sua surpresa aumentou ao perceber que n�o se mencionava a natureza exata desse trabalho.</p><p>N�o chegou a ler as declara��es de Mikael Blomkvist na edi��o <emphasis>on-line do Aftonbladet.</emphasis> S� na ter�a-feira, quando foram reproduzidas num telejornal, foi que se deu conta de que Blomkvist repassara informa��es totalmente erradas. Segundo Mikael, Dag Svensson tinha sido contratado para escrever uma reportagem sobre �seguran�a e invas�o ilegal em computa��o�.</p><p>Lisbeth franziu o cenho. Sabia que a afirma��o era falsa e se perguntou qual era o jogo da <emphasis>Millennium.</emphasis> Ent�o compreendeu a mensagem e esbo�ou seu segundo sorriso enviesado do dia. Conectou-se ao servidor holand�s e clicou duas vezes no �cone <emphasis>Mik-Blom/laptop.</emphasis> Deparou com a pasta [<strong>LISBETH SALANDER</strong>] e com o arquivo [Para Sally] bem � vista na �rea de trabalho. Clicou duas vezes e leu.</p><p>Ent�o, ficou um longo tempo parada diante da carta de Mikael. Dentro dela, enfrentavam-se sentimentos contradit�rios. At� o momento, tivera a Su�cia inteira contra si, o que, por sua simplicidade, era uma equa��o relativamente clara e compreens�vel. Agora, via-se de repente com um aliado, ou pelo menos um aliado potencial que afirmava acreditar em sua inoc�ncia. E � claro que tinha de ser justamente o �nico homem da Su�cia que ela n�o queria ver de jeito nenhum. Suspirou. Mikael Blomkvist era, como sempre, uma alma danada de boa repleta de ingenuidade. Lisbeth Salander n�o era inocente desde os dez anos de idade.</p><p><emphasis>Inocentes n�o existem. Em compensa��o, existem diferentes n�veis de responsabilidade.</emphasis></p><p>Nils Bjurman morrera porque escolhera n�o jogar de acordo com as regras que ela havia decretado. Tivera todas as chances e, no entanto tinha contratado um maldito macho anabolizado para lhe fazer mal. Ela n�o tinha culpa.</p><p>Mas n�o dava para subestimar a entrada em cena do Super-Blomkvist. Ele poderia ser �til.</p><p>Ele era bom em adivinha��es e dono de uma teimosia incompar�vel. Ela descobrira isso em Hedestad. Quando encasquetava com alguma coisa, aguentava firme, mesmo levando um tombo. Quanta ingenuidade! S� que ele tinha liberdade de movimentos, enquanto ela era obrigada a permanecer invis�vel. Poderia us�-lo at� que pudesse deixar o pa�s tranq�ilamente. E imaginava que muito em breve seria obrigada a faz�-lo.</p><p>Infelizmente, Mikael Blomkvist era ingovern�vel. Ele pr�prio tinha de querer. E precisava de um pretexto moral para agir.</p><p>Em outras palavras, era bastante previs�vel. Refletiu alguns instantes e ent�o criou um novo arquivo, que chamou [Para MikBlom], e escreveu uma �nica palavra.</p><p>[Zala.]</p><p>J� lhe daria no que pensar.</p><p>Ela ainda estava matutando quando percebeu que Mikael Blomkvist acabava de ligar o computador. A resposta veio pouco depois de ele ler a resposta dela.</p><p>[Lisbeth,</p><p>Que diacho de menina complicada voc� est� me saindo... Quem � esse Zala? Ele � que � o elo? Voc� sabe quem matou Dag &amp; Mia? Se sabe, me diga, para a gente conseguir desfazer este n� e ir para casa dormir. Mikael]</p><p>O.k. Hora de fisg�-lo.</p><p>Criou mais um documento e o intitulou [Super-Blomkvist]. Sabia que isso iria irrit�-lo. E escreveu uma mensagem breve.</p><p>[O jornalista � voc�. Trate de descobrir.]</p><p>Como previsto, ele respondeu no ato pedindo-lhe para ser mais conciliadora, e mais expl�cita. Ela sorriu e fechou o disco r�gido de Mikael.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>J� que havia chegado a esse ponto em suas invas�es, resolveu continuar e abriu o disco r�gido de Dragan Armanskij. Leu pensativa o relat�rio que ele fizera sobre ela na segunda-feira ap�s a P�scoa. O destinat�rio do relat�rio - pra mencionado, mas ela refletiu que a �nica possibilidade era Armanskij estar colaborando com os tiras para prend�-la.</p><p>Passou algum tempo percorrendo a correspond�ncia eletr�nica de Armanskij, sem encontrar, por�m, nada de interessante. Estava prestes a sair do disco r�gido quando deparou com o e-mail endere�ado ao respons�vel t�cnico da Milton Security. Armanskij solicitava a instala��o de uma c�mera de vigil�ncia oculta em sua sala.</p><p><emphasis>Epa! Epa!</emphasis></p><p>Conferiu a data e percebeu que o e-mail tinha sido enviado apenas uma hora depois de sua visita de cortesia no final de janeiro.</p><p>Isso significava que ela precisaria reajustar certos processos do sistema autom�tico de vigil�ncia antes de empreender novas visitas � sala de Armanskij.</p></section><section><p><strong><emphasis>22 - TER�A-FEIRA 29 DE MAR�O � DOMINGO 3 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Na manh� de ter�a-feira, Lisbeth Salander entrou nos arquivos da Cri minai Nacional e efetuou uma busca sobre Alexander Zalachenko. Ele n�o constava na lista, o que n�o era grande surpresa, j� que, at� onde ela sabia, nunca fora condenado na Su�cia e sequer constava nos registros civis.</p><p>Para entrar nos arquivos, assumira a identidade do delegado Douglas Ski�ld, de cinquenta e cinco anos, do distrito policial de Malm�. Sobressaltou-se quando seu computador emitiu um barulhinho e um �cone do menu come�ou a piscar, alertando que algu�m procurava por ela no chat do ICQ-</p><p>Teve um momento de hesita��o. Seu primeiro impulso foi desconectar-se. Ent�o raciocinou. Ski�ld n�o tinha ICQ no seu computador. Poucas pessoas de mais idade tinham esse programa, que antes de mais nada era um software usado por jovens e usu�rios experientes afeitos aos <emphasis>chat.</emphasis></p><p>Isso queria dizer que algu�m estava tentando entrar em contato com ela. E nesse caso as possibilidades n�o eram muitas. Abriu o ICQ e escreveu:</p><p>[O que foi, Praga?]</p><p>[Ol�, Wasp. Dif�cil te achar. Voc� nunca l� seus e-mails?] [Como voc� conseguiu?]</p><p>[Ski�ld. Tamb�m tenho essa lista. Imaginei que voc� fosse usar uma das identidades com direito a acesso m�ximo.] [O que voc� quer?]</p><p>[Quem � esse Zalachenko que voc� est� procurando?] <strong>[NTI.]</strong></p><p>[?]</p><p>[N�o Te Interessa.]</p><p>[O que est� acontecendo?]</p><p>[Praga, v� se...]</p><p>[Eu achava que eu tinha uma defici�ncia de socializa��o, como voc� sempre diz. Mas, se eu for acreditar na imprensa, perto de voc� eu sou absolutamente normal.]</p><p>[??]</p><p>[Uma banana para voc� tamb�m. Est� precisando de ajuda?]</p><p>Lisbeth hesitou um segundo. Primeiro Blomkvist, agora Praga. Aquilo n�o tinha fim, era uma multid�o acorrendo em seu aux�lio! O problema, com Praga, � que ele era um solit�rio de cento e sessenta quilos que s� se comunicava com o mundo pela internet, fazendo Lisbeth Salander parecer um milagre de compet�ncia social. Como ela n�o respondia, Praga teclou mais uma linha.</p><p>[Voc� ainda est� a�? Precisa de ajuda para sair do pa�s?] [N�o.]</p><p>[Por que voc� apagou os caras?] [V� se...]</p><p>[Voc� pretende apagar mais gente? E nesse caso tenho que me preocupar? Acho que sou o �nico capaz de te rastrear.]</p><p>[V� cuidar da sua vida, assim n�o vai precisar se preocupar.]</p><p>[N�o estou preocupado. Me contate pelo hotmail se precisar de alguma coisa. Arma? PasS�porte novo?]</p><p>[Voc� � um sociopata.]</p><p>[Comparado com voc�?]</p><p>Lisbeth saiu do ICQ e se sentou no sof� para pensar. Passados dez minutos, voltou para o computador e mandou uma mensagem para o endere�o hotmail de Praga.</p><p>[O procurador Rickard Ekstr�m, que est� conduzindo o inqu�rito preliminar, reside em T�by. � casado, dois filhos, e tem cabo em casa. Eu preciso ter acesso ao laptop e/ou computador pessoal de mesa dele. Preciso l�-lo em tempo real. Hostile takeover com espelhamento do disco r�gido.]</p><p>Sabia que Praga raramente sa�a de seu apartamento em Sundbyberg e esperava que ele pudesse contar com algum adolescente espinhento para fazer o trabalho de campo. N�o assinou o e-mail, seria sup�rfluo. Quinze minutos depois, ele a chamou pelo ICQ<strong>.</strong></p><p>(Quanto voc� est� pagando?]</p><p>[10000 na sua conta + despesas e 5000 para o seu colaborador.] [Volto a entrar em contato.]</p><p>Na quinta-feira de manh�, recebeu um e-mail de Praga. Continha apenas um endere�o ftp. Lisbeth ficou pasma. N�o esperava um resultado antes de duas semanas, no m�nimo. Montar um <emphasis>hostile takeover,</emphasis> mesmo com os programas geniais de Praga e seus softwares sob medida, era um procedimento laborioso que implicava pequenos fragmentos de informa��o serem injetados num computador, kilobyte por kilobyte, at� que se criasse um programa simples. O tempo necess�rio dependia da freq��ncia com que o computador era utilizado. Depois, ainda eram precisos alguns dias para transferir toda a informa��o para um disco r�gido espelhado. Fazer tudo isso em quarenta e oito horas n�o apenas era incr�vel como teoricamente imposs�vel. Lisbeth ficou impressionada. Chamou-o pelo <strong>ICQ.</strong></p><p>[Como voc� conseguiu?]</p><p>[S�o quatro pessoas com PC na casa. Nem te conto sobre a falta de firewall Seguran�a zero. Foi s� entrar no cabo e carregar. Deu seis mil coroas de despesas. N�o � demais para voc�?]</p><p>[T� beleza. Mais um b�nus pela rapidez.]</p><p>Hesitou um instante, ent�o transferiu trinta mil coroas para a conta de Praga via internet. N�o queria brind�-lo com quantias exageradas. Depois, instalou-se confortavelmente e abriu o laptop do chefe do inqu�rito preliminar, o procurador Ekstr�m.</p><p>Uma hora depois, j� tinha lido todos os relat�rios que o inspetor Jan Bublanski lhe enviara. Lisbeth ponderou que, de acordo com o regulamento, relat�rios desse tipo n�o deveriam sair da delegacia, e que Ekstr�m estava simplesmente passando por cima do regulamento ao levar trabalho para casa por meio de uma conex�o de internet particular e sem <emphasis>firewall.</emphasis></p><p>Isso s� vinha provar mais uma vez que nenhum sistema de seguran�a � melhor que o mais idiota dos colaboradores. Gra�as ao computador de Ekstr�m, encontrou v�rios elementos indispens�veis de informa��o.</p><p>Primeiro, descobriu que Dragan Armanskij destacara dois colaboradores para juntar-se gratuitamente ao grupo de investiga��o de Bublanski, o que na pr�tica significava que a Milton Security estava patrocinando a busca dos tiras para apanh�-la. A tarefa deles era contribuir de todas as formas poss�veis para a captura de Lisbeth Salander. <emphasis>Muito obrigada, Armanskij. N�o vou me esquecer disso.</emphasis> Ficou preocupada ao descobrir quem eram os colaboradores. Embora achasse Bohman meio r�gido, ele sempre tivera um comportamento correto com ela. Niklas Eriksson era um torpe miser�vel que se aproveitara de sua posi��o na Milton Security para extorquir uma cliente da empresa.</p><p>A �tica de Lisbeth Salander era seletiva. N�o era avessa � id�ia de extorquir clientes da empresa, desde que isso fosse merecido, mas jamais faria isso depois de aceitar um servi�o que exigisse sigilo profissional.</p><p>Em seguida, Lisbeth descobriu que o an�nimo que vinha repassando informa��es para a m�dia era o pr�prio chefe do inqu�rito preliminar. Isso aparecia na correspond�ncia eletr�nica de Ekstr�m, quando ele respondia �s perguntas referentes � investiga��o m�dico-legal de Lisbeth e � liga��o entre ela e Miriam Wu.</p><p>O terceiro elemento de informa��o fundamental era que a equipe de Bublanski n�o tinha a menor pista sobre onde deveria procurar Lisbeth Salander. Leu com o maior interesse um relat�rio que enumerava as medidas tomadas e os endere�os colocados sob vigil�ncia espor�dica. A lista era sucinta.</p><p>Lundagatan, evidentemente, mas tamb�m o endere�o de Mikael Blomkvist, o antigo endere�o de Miriam Wu, perto de Sankt Eriksplan, e o Moulin, onde tinha sido vista. <emphasis>Droga, o que foi que me deu naquele dia para me expor daquele jeito com a Mimmi? S� uma retardada completa mesmo!</emphasis></p><p>Na sexta-feira, os investigadores de Ekstr�m tamb�m tinham achado a pista das Evil Fingers. Imaginou que, em conseq��ncia disso, mais endere�os passariam a ser vigiados. Franziu o cenho. Com isso, as meninas do Evils iam sumir do seu c�rculo de conhecidos, mesmo que n�o tivesse tido nenhum contato com elas desde sua volta � Su�cia.</p><p>Quanto mais pensava no assunto, mais perplexa ficava. O procurador Ekstr�m estava deixando vazar na m�dia todo tipo de nojeira a seu respeito. N�o era dif�cil entender o objetivo de Ekstr�m; a publicidade lhe era favor�vel e ele preparava o terreno para o dia em que fosse indici�-la.</p><p>Mas por que n�o havia divulgado o relat�rio policial de 1991? Estava ali a raz�o de seu internamento no Sankt Stefan. Por que ele estava ocultando aquele caso?</p><p>Entrou no computador de Ekstr�m e passou uma hora verificando os arquivos. Quando terminou, acendeu um cigarro. N�o tinha encontrado uma �nica refer�ncia ao que acontecera em 1991. Isso levava a uma estranha conclus�o. Ele n�o sabia do relat�rio.</p><p>Ficou em d�vida sobre o rumo a tomar. Ent�o deu uma olhada no Powerbook. Ali estava um belo desafio para o <emphasis>maldito Super-Blomkvist.</emphasis> Reiniciou o computador, entrou no disco r�gido de Blomkvist e criou o documento [MB2].</p><p>[O procurador E. est� despejando informa��es na m�dia. Pergunte a ele por que ele n�o repassou o antigo relat�rio policial.]</p><p>Deveria ser suficiente para lhe dar um impulso. Esperou pacientemente umas duas horas at� que Mikael se conectasse. Ele primeiro conferiu os e-mails e demorou quinze minutos para ver seu documento, depois outros cinco para responder pelo arquivo [Cr�ptica]. N�o tinha mordido a isca. Em vez disso, repetia que queria saber quem tinha matado os amigos dele.</p><p>Aquele era um argumento ao alcance de Lisbeth. Ela amansou um pouco e respondeu com [Cr�ptica 2],</p><p>[O que voc� faria no meu lugar?]</p><p>Essa era, na verdade, uma pergunta pessoal. Ele respondeu com [Cr�ptica 3]. Ela ficou abalada.</p><p>[Lisbeth, se voc� pirou de vez, s� o Peter Teleborian, na certa, pode te ajudar. Mas n�o acredito que voc� tenha matado o Dag e a Mia. Espero n�o estar enganado.</p><p>O Dag e a Mia pretendiam denunciar o com�rcio do sexo. Minha hip�tese � que isso de alguma forma motivou os crimes. Mas n�o tenho nada para fundamentar essa hip�tese.</p><p>N�o sei o que deu errado entre n�s, mas houve um momento em que conversamos sobre amizade. Eu te disse que a amizade se baseia em duas coisas - respeito e confian�a. Mesmo que voc� n�o goste de mim, pode confiar em mim totalmente. Nunca revelei seus segredos. Nem mesmo o que aconteceu com os bilh�es de Wennerstr�m. Confie em mim. N�o sou seu inimigo. M.]</p><p>Mikael se referir a Peter Teleborian de in�cio deixou-a furiosa. Ent�o entendeu que ele n�o estava querendo aborrec�-la. Desconhecia por completo quem era Peter Teleborian, era prov�vel que s� o tivesse visto na tev�, onde ele aparecia como um especialista respons�vel e mundialmente respeitado em psiquiatria infantil.</p><p>Mas o que de fato a abalou foi a men��o aos bilh�es de Wennerstr�m. N�o conseguia entender como ele descobrira. Estava convencida de que n�o cometera nenhuma falha e que ningu�m no mundo sabia o que ela tinha feito.</p><p>Releu v�rias vezes a carta.</p><p>A refer�ncia � amizade lhe causou mal-estar. N�o sabia o que responder. Por fim, criou o [Cr�ptica 4],</p><p>[Vou pensar no assunto.]</p><p>Desconectou-se e acomodou-se no v�o em frente � janela.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Foi s� por volta das onze da noite de sexta-feira, nove dias depois dos assassinatos, que Lisbeth Salander saiu do seu apartamento em Mosebacke. Seu estoque de Billys Pan Pizza e de outras provis�es, assim como o derradeiro farelo de p�o e queijo, esgotara-se havia v�rios dias. Nos tr�s �ltimos, alimentara-se com um pacote de flocos de aveia comprado por impulso num dia em que tinha jurado se alimentar melhor. Descobrira que dez centilitros de flocos de aveia, mais umas uvas passas e vinte centilitros de �gua, deixados sessenta segundos no microondas, transformavam-se num mingau comest�vel.</p><p>A falta de comida n�o era o �nico motivo de sua sa�da. Precisava ver uma pessoa. Infelizmente, n�o podia faz�-lo trancada num apartamento na Pra�a de Mosebacke Torg. Abriu o arm�rio, pegou a peruca loira e muniu-se do passaporte noruegu�s com o nome de Irene Nesser.</p><p>Irene Nesser existia de fato. Tinha alguma semelhan�a com Lisbeth Salander e perdera o pasS�porte havia cerca de tr�s anos. Fora parar nas m�os de Lisbeth gra�as a Praga, e nos �ltimos dezoito meses ela usara a identidade de Irene Nesser ao sabor da necessidade.</p><p>Lisbeth tirou a argola que usava na sobrancelha e se maquiou diante do espelho do banheiro. Enfiou uma cal�a jeans escura e um pul�ver marrom com sobrecostura amarela, simples, mas quente, e botinas de salto. Tinha numa caixa um pequeno estoque de cartuchos de g�s lacrimog�neo, e pegou um. Tamb�m pegou um cacetete el�trico que havia um ano n�o pegava e carregou-o. Colocou uma muda de roupa numa sacola de n�ilon. Tarde da noite, ent�o, deixou o apartamento. Primeiro, foi at� o McDonald�s da Hornsgatan. Escolheu esse porque ali, diferentemente do de Slussen ou da Medborgarplatsen, havia menos perigo de cruzar com um de seus ex-colegas da Milton Security. Comeu um Big Mac regado com uma Coca m�xi.</p><p>Quando terminou, pegou o �nibus <emphasis>n�</emphasis> 4 em V�sterbron e foi at� Sankt Eriksplan. Andou at� Odenplan e chegou ao endere�o do falecido Dr. Bjurman, na Upplanksgatan, pouco depois da meia-noite. N�o esperava que o apartamento estivesse sendo vigiado, mas reparou que havia luz numa janela vizinha, no mesmo andar, e foi dar uma volta para os lados de Vanadisplan. Quando voltou, uma hora depois, o apartamento vizinho estava escuro.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Com passos leves como pluma e sem acender a luz, subiu a escada at� o apartamento de Bjurman. Com um estilete, cortou com capricho a fita adesiva que a pol�cia grudara na porta. Penetrou no apartamento sem fazer nenhum ru�do.</p><p>Acendeu a luz do hall que, sabia n�o se via da rua, e ent�o ligou uma lanterna pequena e foi direto para o quarto. As persianas estavam baixadas. Deixou o feixe de luz percorrer a cama ainda respingada de sangue. Passou-lhe pela cabe�a que ela pr�pria quase morrera naquela cama, ent�o sentiu-se profundamente satisfeita por Bjurman ter enfim sumido de sua vida.</p><p>O objetivo de sua visita ao local do crime era achar uma resposta a duas perguntas. Em primeiro lugar, n�o entendia qual a rela��o entre Bjurman e Zala. Estava convencida de que existia necessariamente uma rela��o, mas n�o conseguira identific�-la examinando o conte�do do computador de Bjurman.</p><p>Em segundo lugar, uma d�vida vinha preocupando-a. Em sua visita noturna de algumas semanas atr�s, notara que Bjurman havia tirado da pasta �Lisbeth Salander� um documento a seu respeito. As p�ginas que faltavam eram parte da descri��o da tarefa que lhe fora atribu�da pela Comiss�o de Tutela, na qual o estado ps�quico de Lisbeth Salander era resumido de modo bastante sucinto. Bjurman n�o precisava daquilo e era bem poss�vel que simplesmente tivesse dado uma limpa na pasta e jogado as p�ginas fora. Ia contra essa hip�tese o fato de que advogados nunca jogam fora documentos relativos a um caso em andamento. Podiam at� ser documentos sup�rfluos, mas livrar-se deles n�o tinha muita l�gica. No entanto, n�o estavam na pasta e ela tampouco os vira em outro lugar no escrit�rio.</p><p>Descobriu que a pol�cia tinha levado as pastas referentes � sua humilde pessoa, al�m de outros documentos. Ficou duas horas passando um pente-fino pelo apartamento para se certificar de que a pol�cia n�o tinha deixado escapar alguma coisa, e foi com uma ligeira frustra��o que constatou que n�o fora esse o caso.</p><p>Na cozinha, achou uma lata com todo tipo de chave. Ali estavam as chaves do carro e outras duas numa argola, sendo uma a chave de um pr�dio e a outra a de um cadeado. Foi silenciosamente at� o s�t�o, onde tateou todos os cadeados at� achar o box de Bjurman. Ele guardara ali alguns m�veis velhos, um arm�rio com roupas n�o usadas, esquis, uma bateria de carro, caixas com livros e outras velharias. N�o achou nada de interessante, desceu a escada e usou a chave do pr�dio para abrir a garagem. Deparou com a Mercedes dele e dedicou-lhe um tempinho at� perceber que n�o continha nada de �til.</p><p>N�o foi ao escrit�rio. Estivera l� poucas semanas antes, quando fizera sua visita noturna ao apartamento, e sabia que fazia dois anos ele n�o usava o escrit�rio. Tudo que havia l� era poeira.</p><p>Retornou ao apartamento e sentou-se no sof� para pensar. Minutos depois, levantou-se, voltou � cozinha e pegou a lata das chaves. Examinou uma por uma. Havia chaves especiais de seguran�a e uma chave r�stica, estilo antigo, enferrujada. Franziu o cenho. Ent�o ergueu os olhos para uma prateleira acima da bancada, onde Bjurman pusera uns vinte pacotes de sementes. Pegou-os e constatou que se tratava de sementes para uma horta de ervas arom�ticas.</p><p><emphasis>Ele tem uma casa de campo! Ou ent�o uma horta em algum lugar, com uma cabana. Est� a� o que eu deixei passar.</emphasis></p><p>Levou alguns minutos para achar, na contabilidade de Bjurman, um recibo de seis anos antes relativo ao pagamento da fatura de uma empresa que efetuara obras de aterramento em seu terreno, e mais um minuto para encontrar recibos do seguro de uma constru��o perto de Stallarholmen, para os lados de Mariefred.</p><p>�s cinco da manh�, parou no 7-Eleven que ficava aberto vinte e quatro horas, no alto da Hantverkaregatan, perto da Fridhemsplan. Comprou uma quantidade expressiva de Billys Pan Pizza, leite, p�o, queijo e outros produtos de primeira necessidade. Tamb�m comprou um jornal matutino cuja manchete deixou-a fascinada.</p><p><strong>A</strong><strong>MULHER</strong><strong>PROCURADA</strong><strong>TER�</strong><strong>DEIXADO</strong><strong>O</strong><strong>PA�S</strong><strong>?</strong></p><p>Por raz�es que Lisbeth ignorava, o jornal optara por n�o citar seu nome. Referia-se a ela como �a mulher de vinte e seis anos�. O texto informava que segundo uma fonte da pol�cia ela talvez tivesse deixado o pa�s e poderia estar em Berlim. N�o explicava por que ela teria fugido para Berlim, mas, segundo a tal fonte, sua presen�a tinha sido assinalada num clube �anarco-feminista de Kreuzberg. O clube era descrito como um antro de jovens fan�ticas por mais ou menos qualquer coisa, desde terrorismo pol�tico at� antiglobaliza��o e satanismo.</p><p>Pegou o �nibus da manh� para voltar a S�dermalm, desceu na Rosenlundsgatan e seguiu a p� at� seu apartamento. Desceu o lixo e p�s as pilhas de jornais acumulados em dois <emphasis>sacos</emphasis> pl�sticos que guardou no arm�rio do hall. Lavou roupa, primeiro as roupas �ntimas e as camisetas, depois os jeans. Encheu e ligou a m�quina de lavar lou�a e, por fim, passou aspirador e um pano �mido no ch�o.</p><p>Eram nove da noite e ela estava encharcada de suor. Encheu a banheira com uma generosa por��o de espuma para banho. Entrou na �gua, fechou os olhos e ficou matutando. Quando acordou, era meia-noite e a �gua estava gelada. Saiu do banho irritada e se enxugou antes de ir se deitar. Adormeceu quase instantaneamente.</p><p>No domingo de manh�, Lisbeth Salander ficou subitamente furiosa quando ligou o PowerBook e leu a montoeira de bobagens que haviam escrito sobre Miriam Wu. Sentiu-se arrasada e cheia de culpa. N�o tinha imaginado que iriam atacar Mimmi a este ponto. E o �nico crime de Mimmi era ser... hmm.. sua namorada? Amiga? Amante?</p><p>N�o sabia bem que palavra usar para definir sua rela��o com Mimmi, mas imaginava que qualquer que fosse a forma que tivesse assumido, agora estava terminada. Lisbeth teria de riscar o nome de Mimmi da sua lista, j� n�o muito longa, de conhecidos. Depois de tudo o que aqueles retardados tinham escrito, duvidava que Mimmi ainda quisesse ter contato com aquela louca psic�tica da Lisbeth Salander.</p><p>Era mesmo de dar raiva.</p><p>Memorizou o nome de Tony Scala, o jornalista que iniciara a persegui��o. E resolveu tamb�m descobrir quem era o cronista particularmente desagrad�vel de um jornal vespertino cujo artigo, com pretens�es ao humor, recorria a todo instante � express�o �l�sbica sadomas��.</p><p>A lista das pessoas de que Lisbeth tencionava cuidar estava come�ando a ficar comprida.</p><p>Mas primeiro precisava encontrar Zala.</p><p>E n�o sabia muito bem o que iria acontecer quando o encontrasse.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael foi acordado pelo telefone �s sete e meia da manh� do domingo Ainda sonolento, estendeu a m�o e atendeu.</p><p>�Bom dia - disse Erika Berger.</p><p>�Mmmm - respondeu Mikael.</p><p>�Voc� est� sozinho?</p><p>�Infelizmente, sim.</p><p>�Ent�o sugiro que tome uma ducha e prepare um caf�. Vai receber uma visita daqui a uns quinze minutos.</p><p>�� mesmo?</p><p>�Paolo Roberto.</p><p>�O boxeador? O rei do ringue?</p><p>�Em pessoa. Ele me ligou, a gente conversou uma meia hora.</p><p>�Por qu�?</p><p>�Por que ele me ligou? Bem, a gente se conhece o suficiente para se dar oi quando se cruza por a�. Nos conhecemos quando fiz uma longa entrevista com ele no lan�amento de <emphasis>Stockholmsnatt,</emphasis> sabe, o filme do Hildebrand sobre a vida de Paolo e a viol�ncia das gangues juvenis. Temos nos cruzado regularmente nesses anos.</p><p>�Eu n�o sabia. Mas o que eu queria saber �: por que ele est� vindo aqui?</p><p>�Porque... N�o, acho melhor ele mesmo explicar.</p><p>Mikael mal tinha sa�do do chuveiro e enfiado a cal�a quando Paolo Roberto tocou a campainha. Foi atender e pediu ao boxeador que sentasse � mesa da sala de jantar enquanto ele procurava uma camisa e preparava dois <emphasis>espressos</emphasis> duplos, que ele serviu com uma colher de leite. Paolo olhou para o caf�, impressionado.</p><p>�Voc� queria falar comigo?</p><p>�Foi a Erika Berger que aconselhou.</p><p>�O.k., pode falar, estou escutando.</p><p>�Eu conhe�o a Lisbeth Salander. Mikael ergueu as sobrancelhas.</p><p>�Ah, �?</p><p>�Fiquei meio surpreso quando a Erika Berger me disse que voc� tamb�m a conhecia.</p><p>�Acho melhor voc� come�ar do come�o.</p><p>�Est� bem. Vou explicar. Cheguei anteontem, depois de passar um m�s em Nova York, e dei com a cara da Lisbeth estampada na primeira p�gina de todas essas porras de jornais. Est�o escrevendo um monte de merda sobre ela. Parece que n�o tem um �nico maldito tabloide falando bem dela.</p><p>�Voc� j� conseguiu colocar um porra, um merda, um maldito na sua fala.</p><p>Paolo caiu na gargalhada.</p><p>�Desculpe. � que estou furioso. Na verdade, liguei para a Erika porque precisava conversar, e n�o sabia direito com quem. Como o jornalista morto em Enskede trabalhava para a <emphasis>Millennium</emphasis> e eu conhecia a Erika Berger, liguei para ela.</p><p>�Certo.</p><p>�Quer dizer, mesmo que a Salander tenha ficado louca e feito tudo o que a pol�cia diz que ela fez, mesmo assim tem que jogar limpo com ela. Estamos numa sociedade de direito e ningu�m pode ser condenado sem ser ouvido.</p><p>�� exatamente essa a minha opini�o - disse Mikael.</p><p>�Foi o que a Erika me explicou. Quando liguei, achei que voc�s todos da <emphasis>Millennium</emphasis> estavam querendo a cabe�a dela, j� que o Dag Svensson trabalhava l�. Mas a Erika me disse que voc� acha que ela � inocente.</p><p>�Eu conhe�o a Lisbeth Salander. Acho dif�cil imagin�-la como essa assassina ensandecida.</p><p>Paolo riu mais uma vez.</p><p>�A menina � birutinha... mas � do bem. Gosto dela.</p><p>�De onde voc� a conhece?</p><p>�Fa�o boxe com a Salander desde que ela tem dezessete anos.</p><p>Mikael Blomkvist fechou os olhos uns dez segundos antes de tornar a fitar Paolo Roberto. Lisbeth Salander sempre haveria de surpreend�-lo.</p><p>�Mas eu sou mesmo um babaca! Lisbeth Salander lutando boxe com Paolo Roberto... E, claro, voc�s est�o na mesma categoria de peso!</p><p>�Estou falando s�rio.</p><p>�Est� bem, acredito. Um dia ela me contou que fazia um pouco de <emphasis>sparring</emphasis> com uns caras num clube de boxe.</p><p>�Espere, vou explicar. H� dez anos, a A. S. de Zinken me convidou para ser treinador suplente dos juniores interessados em boxe. Eu era um boxeador conhecido e eles achavam que eu poderia atrair um p�blico, ent�o eu ia l� � tarde ser o <emphasis>sparring</emphasis> dos caras.</p><p>�Ah, sim.</p><p>�O fato � que fiquei nessa todo o ver�o e parte do outono. Eles tinham lan�ado uma campanha, com cartaz e tudo, e esperavam atrair os jovens para o boxe. E atra�ram um bocado de caras na faixa dos quinze, dezesseis, at� vinte anos. Muitos imigrantes. O boxe era uma boa alternativa para n�o ficar de bobeira na rua aprontando besteira. Sei do que estou falando.</p><p>�Entendi.</p><p>�Ent�o, um belo dia, no meio do ver�o, eis que surge do nada aquela magricela. Sabe como ela �. Chegou ali e me disse que queria aprender a lutar boxe.</p><p>�Posso imaginar a cena.</p><p>�Tinha ali uma meia d�zia de caras, todos mais ou menos pesando o dobro que ela, muito maiores, e eles ca�ram na gargalhada. Eu fui um dos que acharam gra�a. Quero dizer, nada s�rio, mas a gente curtiu um pouco com a cara dela. A gente tamb�m tem uma turma feminina, e eu falei um tro�o idiota, tipo a gente s� deixa as gatinhas lutarem boxe �s quintas-feiras, algo assim.</p><p>�Imagino que ela n�o achou a menor gra�a.</p><p><emphasis>�Niet.</emphasis> Ela n�o riu. Olhou furiosa para mim. Depois vestiu um par de luvas que algu�m tinha deixado numa cadeira. N�o estavam amarradas nem nada, e eram muito grandes para ela. E a gente riu mais ainda. Est� entendendo?</p><p>�Essa hist�ria est� prometendo. Paolo deu mais uma risada.</p><p>�Como eu era o dirigente, fui l� e fiz de conta que dava uns <emphasis>jabs.</emphasis></p><p>�Ai, ai, ai.</p><p>�Mais ou menos. De repente, ela me tascou um puta de um direto no meio da cara.</p><p>Ele riu de novo.</p><p>�Imagina s� a cena, eu, ali de palha�ada com ela, n�o estava preparado para aquilo. Ela ainda teve tempo de me dar mais dois ou tr�s antes de eu conseguir me esquivar. Ou seja, ela era for�a zero nos m�sculos, e eu tinha a impress�o de estar apanhando com uma pluma. Mas quando comecei a defender os golpes, ela mudou de t�tica. Boxeava instintivamente e me atingiu mais umas vezes. Ent�o comecei a me defender de verdade, e descobri que ela era mais r�pida que a porra de um r�ptil. Se fosse mais alta e mais forte, at� teria tido luta, se � que voc� me entende.</p><p>�Entendo, sim.</p><p>�Ent�o ela mudou mais uma vez de t�tica e me tascou um puta <emphasis>swing</emphasis> na virilha. Esse eu senti.</p><p>Mikael meneou a cabe�a.</p><p>�Com essa, mandei ver um <emphasis>jab</emphasis> e atingi o rosto dela. Quer dizer, n�o foi com muita for�a nem nada, s� um pof. A� ela me deu um pontap� no joelho. Quer dizer, n�o foi pouca coisa. Eu era tr�s vezes mais alto e mais pesado que ela, ela n�o tinha nenhuma chance, mas continuou me espancando como se a vida dela dependesse daquilo.</p><p>�Voc� tinha zombado dela.</p><p>�Depois eu entendi. E fiquei com vergonha. Quer dizer... a gente tinha colocado cartazes para tentar atrair os jovens para o clube, e quando ela vem e pede, muito s�ria, para aprender boxe, topa com um bando de idiotas rindo da cara dela. Eu tamb�m teria tido um treco se me tratassem daquele jeito.</p><p>Mikael meneou a cabe�a.</p><p>�A hist�ria durou um bom tempo. Por fim, eu a agarrei, pus ela no ch�o e fiquei segurando at� ela parar de se mexer. Pode n�o acreditar, mas ela estava com l�grimas nos olhos e me encarou com tanta raiva que... voc� sabe.</p><p>�A� voc� come�ou a lutar boxe com ela.</p><p>�Quando ela se acalmou, eu soltei ela e perguntei se era s�rio, se ela queria mesmo aprender a lutar. Ele me jogou as luvas na cara e foi em dire��o � sa�da. Ent�o fui atr�s e n�o deixei ela passar. Pedi desculpas e disse que se ela estava falando s�rio, eu ensinava para ela e, nesse caso, era s� ela aparecer no dia seguinte �s cinco da tarde.</p><p>Calou-se e seus olhos se perderam ao longe.</p><p>�Na tarde seguinte, era o hor�rio das meninas e ela apareceu. Coloquei ela no ringue com uma menina chamada Jennie Karlsson, que tinha dezoito anos e lutava boxe havia um ano. O problema � que n�o t�nhamos ningu�m com mais de doze anos na categoria de peso da Lisbeth. Instru� a Jennie para simular os golpes e ir devagar com a Salander, pois ela era claramente uma novata.</p><p>�E como foi?</p><p>�Sinceramente... em dez segundos, a Jennie estava com um l�bio partido. O tempo de um <emphasis>round.</emphasis> A Salander conseguiu alinhar os golpes e esquivar tudo o que a Jennie tentava. Quer dizer, estamos falando de uma garota que nunca tinha posto os p�s num ringue antes disso. No segundo <emphasis>round,</emphasis> Jennie estava t�o furiosa que bateu de verdade, e n�o conseguiu acertar uma. Fiquei bobo. Nunca tinha visto um boxeador de verdade se movimentar t�o r�pido. Se eu tivesse metade da habilidade da Salander, j� ficaria feliz.</p><p>Mikael meneou a cabe�a.</p><p>�S� que, claro, o problema da Salander � que os golpes dela n�o valiam nada. Comecei a trein�-la. Ela ficou na turma das garotas algumas semanas e perdeu v�rias lutas porque, mais cedo ou mais tarde, a advers�ria conseguia se alinhar e a� a gente era obrigado a parar a luta, tipo mandar ela para o vesti�rio porque ela ficava brava e come�ava a dar pontap�, morder e dar soco para todo lado.</p><p>�Isso � a cara da Lisbeth.</p><p>�Ela nunca desistia. No fim, ela tinha enfurecido tantas meninas que o treinador mandou ela embora.</p><p>�Ih...</p><p>�Sim, era simplesmente imposs�vel lutar com ela. Ela s� conhecia uma posi��o, que a gente chamava de <emphasis>terminator mode,</emphasis> que consistia em tascar golpes de direita no advers�rio, fosse um aquecimento ou um treino amistoso. E as meninas volta e meia iam para casa com hematomas porque elas tinham levado sapatadas da Lisbeth. Foi ent�o que eu tive uma id�ia. Eu estava com um problema com um cara chamado Samir. Ele tinha dezessete anos, origin�rio da S�ria. Era um bom boxeador de estrutura s�lida e tinha <emphasis>punch...</emphasis> mas n�o sabia se movimentar. Ficava parado o tempo todo.</p><p>�Sei.</p><p>�A� eu pedi para a Salander aparecer no clube uma tarde em que eu ia treinar o Samir. Ela se trocou e eu a mandei para o ringue com ele, de capacete, protetor bucal e tudo mais. No in�cio, Samir recusou o <emphasis>sparring</emphasis> com ela porque era uma �chata de uma menina�, aquele discurso machista todo. Ent�o eu falei bem alto para todo mundo ouvir, que aquilo n�o era um <emphasis>sparring,</emphasis> e apostei quinhentos paus que ela ia acabar com ele. Para a Salander, eu disse que ela n�o estava ali para treinar e que o Samir ia nocautear ela de verdade. Ela me olhou com aquele jeito c�tico dela, voc� sabe. O Samir ainda estava discutindo quando o gongo soou. Ela partiu para cima dele como se a vida dela estivesse em jogo, e tascou-lhe um no meio da cara e ele caiu de bunda. Nessa �poca, eu j� tinha treinado com ela o ver�o todo e ela j� estava come�ando a p�r um pouco mais de m�sculo e peso nos golpes.</p><p>�Imagino que o Samir deve ter adorado.</p><p>�Nem me diga, falaram nessa hist�ria durante meses. O Samir simplesmente tomou uma surra. Ela ganhou nos pontos. Se tivesse mais for�a f�sica, teria machucado o cara. Depois de um tempo, o Samir estava t�o frustrado que passou a bater com toda a for�a. Fiquei com medo que ele acabasse com ela, a gente ia ter que chamar uma ambul�ncia. Ela ficou com hematomas tentando se proteger com os ombros uma ou outra vez, e ele conseguiu jogar ela nas cordas porque ela n�o aguentava o peso dos golpes. Mas ele estava a dez mil l�guas de atingir ela para valer.</p><p>�Caramba. Eu queria ter visto isso.</p><p>�A partir desse dia, os caras do clube come�aram a respeitar a Salander. Principalmente o Samir. E eu acabei colocando ela como <emphasis>sparring-partner</emphasis> dos caras bem maiores e mais pesados. Ela era a minha arma secreta, e foram uns supertreinos aqueles. A gente preparava sess�es em que a Lisbeth tinha por objetivo atingir cinco partes diferentes do corpo... o queixo, a testa, a barriga, e assim por diante. E os caras que ela enfrentava tinham que se defender e proteger aquelas partes. No fim, virou uma gl�ria ter lutado com a Lisbeth Salander. Era um pouco como lutar contra um vesp�o. Ali�s, o apelido dela era vespa, e ela se tornou uma esp�cie de mascote do clube. Acho que ela gostava, porque um dia apareceu com uma vespa tatuada no pesco�o.</p><p>Mikael sorriu. Lembrava-se perfeitamente da vespa. Estava at� inclu�da na descri��o dos avisos de busca.</p><p>�Quanto tempo durou isso?</p><p>� Uma noite por semana por quase tr�s anos. Eu assumi em tempo integral s� no ver�o, depois ficou mais espor�dico. O treino da Salander ficou com o Putte Karlsson, o treinador j�nior. Depois ela come�ou a trabalhar e j� n�o tinha como ir t�o seguido, mas at� o ano passado ela ainda aparecia por l� uma vez por m�s. Estive com ela umas quatro, cinco vezes no ano para fazer aula. Muito legal, s� para treinar, e garanto que a gente suava para valer Ela quase n�o falava com ningu�m. Quando estava sem parceiro, era capaz de ficar duas horas batendo no saco de areia como se fosse um inimigo mortal.</p></section><section><p><strong><emphasis>23 - DOMINGO 3 DE ABRIL � SEGUNDA-FEIRA 4 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael preparou mais dois <emphasis>espressos.</emphasis> Desculpou-se ao acender um cigarro. Paolo Roberto deu de ombros. Mikael fitou-o pensativo.</p><p>Paolo Roberto tinha fama de ser um garganta que falava tudo que lhe vinha � cabe�a. Mikael logo percebeu que tamb�m era garganta no trato pessoal, mas que era um homem inteligente e, no fundo, humilde. Lembrou que Paolo Roberto apostara numa carreira pol�tica como candidato ao Parlamento pelos socialdemocratas. Aparecia cada vez mais como um homem com alguma coisa na cabe�a. Mikael flagrou-se gostando da figura.</p><p>�Por que voc� est� me trazendo essa hist�ria?</p><p>�A Salander est� na maior encrenca. N�o sei o que d� para fazer, s� acho que ela precisa de um amigo.</p><p>Mikael meneou a cabe�a.</p><p>�O que te fez pensar que ela � inocente? - perguntou Paolo Roberto. �� dif�cil de explicar. A Lisbeth � uma pessoa superintransigente, mas simplesmente n�o acredito nessa hist�ria de ela ter matado o Dag e a Mia. Principalmente a Mia. Por um lado, ela n�o tinha motivo nenhum... �Nenhum que a gente saiba.</p><p>�Certo, a Lisbeth n�o teria escr�pulo em recorrer � viol�ncia com algu�m que merecesse. Mas n�o sei. Desafiei o Bublanski, o tira que est� conduzindo a investiga��o. Acho que existe um motivo por tr�s do assassinato do Dag e da Mia. E acho que esse motivo est� na reportagem em que o Dag vinha trabalhando.</p><p>�Se voc� estiver certo, a Salander n�o s� precisa de um amigo para segurar a m�o dela quando for presa; precisa de ajuda da artilharia pesada.</p><p>�Concordo.</p><p>Um brilho perigoso cintilou nos olhos de Paolo Roberto.</p><p>�Se ela for inocente, ter� sido v�tima de um dos piores esc�ndalos judici�rios da hist�ria. Foi apontada como assassina pela m�dia e pela pol�cia, e toda essa porcariada que escreveram...</p><p>�Tamb�m concordo.</p><p>�Ent�o, o que a gente pode fazer? Ser� que posso ser �til de alguma forma?</p><p>Mikael refletiu.</p><p>�A melhor ajuda que podemos oferecer, claro, � apresentar outro culpado. Estou trabalhando nisso. Al�m do mais, para ajud�-la temos que pegada de qualquer jeito, antes que um tira acabe com ela. A Lisbeth n�o � bem do tipo que vai se entregar de boa vontade.</p><p>Paolo meneou a cabe�a.</p><p>�E como a gente faz para encontr�-la?</p><p>�N�o sei. Mas tem uma coisa que voc� poderia fazer. Uma coisa pr�tica, se voc� tiver tempo e vontade.</p><p>�A minha mulher n�o est�, vou estar solteiro na semana que vem. Com tempo e disposi��o.</p><p>�Certo, eu estava pensando no fato de voc� ser boxeador...</p><p>�Sim?</p><p>�A Lisbeth tem uma amiga, a Miriam Wu, os jornais falaram sobre ela.</p><p>�Apresentada como uma sapat�o sadomas�... �, os jornais falaram nela.</p><p>�Tenho o celular dela e tentei entrar em contato. Mas ela desliga assim que v� que quem est� falando � um jornalista.</p><p>�D� para entender.</p><p>�N�o estou com tempo para ir atr�s da Miriam Wu. Mas li em algum lugar que ela pratica boxe tailand�s. Fiquei pensando que se um boxeador conhecido ligar...</p><p>�Entendi. E voc� espera que ela possa nos levar at� a Salander.</p><p>�Quando a pol�cia a interrogou, ela disse que ignorava totalmente o paradeiro da Lisbeth. Mas vale a pena tentar.</p><p>�Me d� o n�mero. Acho ela para voc�.</p><p>Mikael passou o celular e o endere�o na Lundagatan.</p><p>Gunnar Bj�rck tinha passado o fim de semana analisando a situa��o. Seu futuro estava por um fio t�nue e ele precisava jogar suas escassas cartas com sutileza.</p><p>Mikael Blomkvist era um canalha de primeira. A quest�o era saber se dava para convenc�-lo a calar... o fato de ele ter recorrido aos servi�os daquelas piranhas. O que ele fizera era pass�vel de processo e n�o tinha d�vida de que, caso fosse divulgado, ele seria despedido. Os jornais fariam picadinho dele. Um agente da S�po abusa de prostitutas adolescentes... se pelo menos aquelas malditas n�o fossem t�o jovens.</p><p>Mas ficar sem fazer nada eq�ivalia a selar sua sorte. Tivera o bom senso de n�o falar nada para Mikael Blomkvist. Decifrara a fisionomia de Blomkvist e registrara sua rea��o. Blomkvist estava preocupado. Queria informa��es. Mas teria de pagar. O pre�o era o seu sil�ncio. Era a �nica sa�da.</p><p>Zala alterava a equa��o de toda a investiga��o.</p><p>Dag Svensson tinha andado atr�s de Zala.</p><p>Bjurman tinha procurado Zala.</p><p>E o delegado Gunnar Bj�rck era o �nico, a saber, que existia um elo entre Zala e Bjurman, o que significava que Zala era um elo entre Enskede e Odenplan.</p><p>Isso colocava outro problema dram�tico para o futuro bem-estar de Gunnar Bj�rck. Ele � quem passara a Bjurman a informa��o sobre Zalachenko - na maior amizade, esquecendo que essa informa��o ainda era mantida em segredo. Parecia pouco, mas isso na verdade o tornava culpado de um delito.</p><p>Al�m disso, desde a visita de Mikael Blomkvist, na sexta-feira, tornara-se culpado de outro delito. Ele era tira e, se detinha uma informa��o relacionada com uma investiga��o por homic�dio, era seu dever alertar imediatamente a pol�cia. S� que, se passasse a informa��o para Bublanski ou o procurador Ekstr�m, estaria automaticamente denunciando a si mesmo. Tudo viria a p�blico. Nem tanto as putas, mas todo o caso Zalachenko.</p><p>No s�bado, fizera uma breve apari��o no seu trabalho, na S�po de Kungsholmen. Pegara os antigos dossi�s sobre Zalachenko e relera todos. Ele pr�prio redigira os relat�rios, mas isso j� fazia v�rios anos. Os mais antigos datavam de quase trinta anos. E o �ltimo documento, de dez anos.</p><p><emphasis>Zalachenko.</emphasis></p><p>Deslizando feito uma cobra nojenta. <emphasis>Zala.</emphasis></p><p>O pr�prio Gunnar Bj�rck inscrevera o apelido na investiga��o, s� n�o conseguia lembrar se alguma vez o utilizara.</p><p>Mas a liga��o era clara como �gua de rocha. Com Enskede. Com Bjurman. E com Salander.</p><p>Gunnar Bj�rck refletiu. Ainda n�o entendia como todas as pe�as do quebra-cabe�a se encaixavam, mas julgava saber por que Lisbeth Salander tinha ido at� Enskede. Tamb�m podia facilmente imaginar Lisbeth Salander matando Dag Svensson e Mia Bergman num ataque de raiva, se eles tivessem se negado a cooperar ou se a tivessem provocado. Ela tinha um motivo que s� Gunnar Bj�rck, e talvez mais duas ou tr�s pessoas em todo o pa�s, era capaz de entender.</p><p><emphasis>� uma doente mental completa. Espero, pelo amor de Deus, que um tira acabe com ela quando for presa. Ela sabe. E, se ela falar, pode revelar a hist�ria toda.</emphasis></p><p>Mas, por mais que Gunnar Bj�rck raciocinasse para l� e para c�, permanecia o fato de que Mikael Blomkvist era sua �nica sa�da - o que, em sua atual situa��o, era a �nica quest�o digna de interesse. Seu desespero n�o parava de crescer. Precisava fazer que Mikael Blomkvist o tratasse como uma esp�cie de fonte sigilosa e convenc�-lo a guardar sil�ncio sobre seus... pecadilhos com as malditas putas. <emphasis>Quem dera a Salander acertasse as contas com o Blomkvist.</emphasis></p><p>Contemplou o n�mero de telefone de Zalachenko e pesou os pr�s e os contras de ligar para ele. N�o conseguia se decidir.</p><p>Mikael transformara numa virtude o fato de reavaliar constantemente suas pesquisas. Depois que Paolo Roberto saiu, dedicou uma hora a isso. Tornara-se quase um di�rio �ntimo, em que ele dava livre curso aos pensamentos enquanto registrava em detalhe todas as conversas, encontros e buscas que fazia. Criptografava diariamente o documento com o PGP e mandava c�pias por e-mail a Erika Berger e Malu Eriksson, para manter suas colaboradoras a par de tudo.</p><p>Dag Svensson se concentrara em Zala nas �ltimas semanas que precederam sua morte. O nome surgira na �ltima conversa que tivera ao telefone com Mikael, apenas duas horas antes de ser assassinado. Gunnar Bj�rck afirmava ter informa��es sobre Zala.</p><p>Mikael passou quinze minutos resumindo tudo o que descobrira sobre Bj�rck, o que em suma era pouco.</p><p>Bj�rck tinha sessenta e dois anos, era solteiro e nascera em Falun. Trabalhava na pol�cia desde os vinte e um anos. Come�ara como policial, depois fizera o curso de direito e assumira um cargo de agente secreto com apenas vinte e seis ou vinte e sete anos. Isso fora em 1969 ou 70, no final do mandato de Per-Gunnar Vinge na chefia da S�po.</p><p>Vinge fora demitido por afirmar, em conversa com o presidente da C�mara de Vereadores de Norrbotten, Ragnar Lassinanti, que Olof Palme era espi�o dos russos. Depois vieram o caso IB, o Holm�r, o Carteiro, e ent�o o assassinato de Palme e os esc�ndalos que se sucederam. Mikael desconhecia totalmente o papel de Gunnar Bj�rck nos dramas internos da pol�cia secreta nos �ltimos trinta anos.</p><p>A carreira de Bj�rck, entre 1970 e 1985, era em suma uma folha em branco, o que n�o era de surpreender tratando-se da S�po, j� que tudo que se referia � sua atividade trazia o lacre do sigilo. Bj�rck tanto podia ter sido nomeado apontador de l�pis como agente secreto na China. Esta �ltima hip�tese, por�m, era bastante improv�vel.</p><p>Em outubro de 1985, Bj�rck fora para Washington, onde trabalhara dois anos na embaixada sueca. Em 1988, reassumira seu cargo na S�po em Estocolmo. No ano de 1996, tornou-se uma figura oficial, sendo nomeado chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros. Mikael n�o dispunha de muitos dados sobre a exata natureza de suas atribui��es. Depois de 1996, Bj�rck aparecera diversas vezes na m�dia pronunciando-se sobre a expuls�o de algum �rabe suspeito. Em 1998, estivera na berlinda quando v�rios diplomatas iraquianos foram expulsos do pa�s.</p><p><emphasis>Qual a rela��o disso tudo com a Lisbeth Salander e os assassinatos do Dag e da Mia? Nenhuma, provavelmente.</emphasis></p><p><emphasis>Mas</emphasis> Gunnar Bj�rck sabe de alguma coisa sobre Zala.</p><p>O que significa que necessariamente existe uma rela��o.</p><p>Erika Berger n�o tinha contado a ningu�m, nem a seu marido, de quem normalmente n�o escondia nada, que ia se transferir para o <emphasis>Svenska Morgon-Posten.</emphasis> S� lhe restava cerca de um m�s na <emphasis>Millennium,</emphasis> depois disso iria trabalhar para o Grande Drag�o. Estava angustiada. Sabia que os dias iriam voar com uma rapidez alucinada e que, de repente, seria o �ltimo dia.</p><p>Sentia-se tamb�m tremendamente preocupada com Mikael. Lera seu �ltimo e-mail com uma sensa��o de impot�ncia. Reconhecia os sinais. Era a mesma obstina��o que o fizera fincar p� em Hedestad dois anos antes, e a mesma obsess�o com que atacara Wennerstr�m. Desde a �ltima quinta-feira, nada mais existia para ele a n�o ser descobrir quem matara Dag e Mia e, de alguma maneira, conseguir inocentar Lisbeth Salander.</p><p>Embora aquela ambi��o contasse com toda a sua simpatia - Dag e Mia tamb�m eram amigos de Erika -, havia um lado em Mikael que lhe causava mal-estar. Ele desenvolvia uma certa falta de escr�pulos quando sentia cheiro de sangue.</p><p>Assim que ele ligara na v�spera, dizendo que tinha lan�ado um desafio a Bublanski e come�ado a medir for�as com ele no mais puro estilo caub�i, ela compreendera que a ca�ada a Lisbeth Salander iria consumi-lo nos pr�ximos tempos. Sabia, por experi�ncia pr�pria, que ele ficaria insuport�vel enquanto n�o solucionasse o problema. Ia oscilar entre o egocentrismo e a depress�o. E, em algum ponto da equa��o, tamb�m assumiria riscos totalmente irrefletidos.</p><p>E Lisbeth Salander? Erika cruzara com ela uma �nica vez, e o pouco que sabia sobre aquela garota estranha n�o bastava para que conseguisse partilhar da convic��o de Mikael quanto � sua inoc�ncia. E se Bublanski estivesse certo? E se ela fosse culpada? E se Mikael conseguisse encontr�-la e deparasse com uma doente mental de arma na m�o?</p><p>A liga��o de Paolo Roberto pela manh� n�o contribu�ra para deixada mais calma. Era evidentemente muito bom Mikael n�o ser, afinal, o �nico a acreditar em Lisbeth Salander, mas Paolo Roberto tamb�m era do tipo fanfarr�o.</p><p>Al�m disso, ela ainda precisava achar um sucessor para assumir o leme da <emphasis>Millennium.</emphasis> Agora era urgente. Pensou em ligar para Christer Malm e conversar sobre o assunto com ele, mas percebeu que n�o podia inform�-lo e continuar ocultando a not�cia de Mikael.</p><p>Mikael era um rep�rter brilhante, mas seria um desastre como diretor. Nesse aspecto, ela e Christer tinham muito mais em comum, s� n�o era certo que Christer topasse. Malu era muito jovem e indecisa. Monica Nilsson, egoc�ntrica demais. Henry Cortez era um bom rep�rter, mas jovem demais e inexperiente. Lottie Karim, sens�vel demais. E Erika n�o estava segura de que Christer e Mikael aceitariam contratar algu�m de fora.</p><p>Estava no maior aperto.</p><p>N�o queria encerrar dessa maneira seus anos de <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>No domingo � noite, Lisbeth Salander tornou a abrir o Asphyxia 1.3 e entrou no disco r�gido espelhado de <emphasis>[MikBlom/laptop].</emphasis> Viu que ele n�o estava conectado � internet, ent�o passou algum tempo lendo tudo o que fora acrescentado nos dois �ltimos dias.</p><p>Leu o di�rio de investiga��o de Mikael e se perguntou vagamente se era por causa dela que ele escrevia com tantos detalhes e, nesse caso, o que aquilo significava. Ele sabia, evidentemente, que ela entrava em seu computador, e a conclus�o �bvia era que Mikael queria que ela lesse o que ele escrevia. A quest�o era descobrir o que ele n�o escrevia. Sabendo que Lisbeth navegava em seu computador, ele podia manipular o fluxo de informa��es. Ela observou, de passagem, que ele manifestamente n�o conseguira muito mais do que desafiar Bublanski a um duelo sobre sua eventual inoc�ncia. Aquilo a irritou. Mikael, em geral, n�o era homem de basear suas conclus�es em sentimentos, e sim em fatos. A <emphasis>ingenuidade desse cara � alucinante!</emphasis></p><p>Mas ele tinha dado aten��o a Zala. <emphasis>Bem pensado, Super-Blomkvist.</emphasis> Perguntou-se se ele teria se interessado por Zala caso ela n�o tivesse lhe mandado o nome.</p><p>Em seguida, notou com ligeira surpresa que Paolo Roberto aparecia de repente nos documentos. Boa not�cia. Abriu um sorriso. Gostava daquela garganta. Era machista at� o �ltimo fio de cabelo. Quando se enfrentavam no ringue, n�o hesitava em dar porrada. Desde que ela deixasse, claro.</p><p>S�bito, pulou da cadeira ao ler o �ltimo e-mail de Mikael Blomkvist para Erika Berger.</p><p><emphasis>Gunnar Bj�rck, da S�po, det�m informa��es sobre Zala.</emphasis></p><p><emphasis>Gunnar Bj�rck conhecia o Bjurman.</emphasis></p><p>O olhar de Lisbeth se turvou ao tra�ar mentalmente um tri�ngulo. Zala. Bjurman. Bj�rck. <emphasis>Damned, n�o � que faz sentido!</emphasis> Ela nunca tinha considerado o problema por esse �ngulo. Mikael Blomkvist talvez n�o fosse t�o bobo assim, afinal. S� que ele, obviamente, n�o entendia o contexto. Nem ela entendia, embora estivesse mais por dentro do que tinha acontecido. Pensou um pouco sobre Bjurman e se deu conta de que o fato de ele ter conhecido Bj�rck o transformava numa pe�a um pouco mais importante do que ela imaginara.</p><p>Concluiu que provavelmente seria obrigada a fazer uma visita a Sm�dalar�.</p><p>Em seguida, entrou no disco r�gido de Mikael e criou um novo arquivo dentro da pasta [<strong>LISBETH SALANDER</strong>]. Chamou-o de [Canto do ringue]. Ele o veria na pr�xima vez que abrisse o iBook.</p><p>1. Fique longe de Teleborian. Esse cara � um sanguessuga.</p><p>2.Miriam Wu n�o tem absolutamente nada a ver com essa hist�ria.</p><p>3. Voc� est� certo em se concentrar em Zala. Ele � a chave. Mas n�o vai encontr�-lo em nenhum registro.</p><p>4. Existe um elo entre Bjurman e Zala. N�o sei qual �, mas estou trabalhando nisso. Bj�rck?</p><p>5. Importante. Existe um relat�rio de pol�cia constrangedor a meu respeito, datado de fevereiro de 1991. N�o sei o n�mero do cadastro e n�o estou encontrando em lugar nenhum. Por que Ekstr�m n�o o divulgou para a imprensa? Resposta: n�o est� no PC dele. Conclus�o: ele desconhece sua exist�ncia. Como � poss�vel?]</p><p>Pensou um pouco e acrescentou mais um par�grafo.</p><p>[P. S. Mikael, eu n�o sou inocente. Mas n�o matei o Dag e a Mia nem tenho nada a ver com o assassinato deles. Estive com eles na noite da matan�a, mas fui embora antes de eles serem mortos. Obrigada por acreditar em mim. Diga ao Paolo que ele tem um esquerdo de mulherzinha.]</p><p>Pensou mais um pouco e percebeu que era realmente doloroso demais n�o saber, para uma viciada em informa��es do seu calibre. Acrescentou mais uma linha.</p><p>[P. S. 2. Como � que voc� sabe sobre o Wennerstr�m?]</p><p>Mikael Blomkvist viu o arquivo de Lisbeth tr�s horas depois. Leu a mensagem, linha por linha, cinco vezes ou mais. Pela primeira vez, ela afirmava claramente alguma coisa. Dizia que n�o tinha matado Dag e Mia. Ele acreditou e sentiu um al�vio imenso. Finalmente ela estava falando com ele, ainda que, como sempre, de forma misteriosa.</p><p>Reparou tamb�m que ela negava apenas o assassinato de Dag e Mia, sem mencionar Bjurman. Mikael preferiu achar que era porque ele s� falara em Dag e Mia no seu e-mail. Depois de refletir um pouco, criou o [Canto do ringue 2].</p><p>[Ol�, Sally,</p><p>Obrigado por finalmente dizer que � inocente. Acreditei em voc�, mas tamb�m fui influenciado por toda a tempestade da m�dia e cheguei a sentir alguma d�vida. Me fez bem ouvir isso diretamente do seu teclado.</p><p>Ent�o s� nos resta encontrar o verdadeiro assassino. � algo que n�s dois j� fizemos. Avan�ar�amos mais depressa se voc� n�o fosse t�o misteriosa. Imagino que esteja lendo o meu di�rio de investiga��o. Ent�o sabe mais ou menos o que ando fazendo e como tenho raciocinado. Acho que o Bj�rck sabe de alguma coisa e vou conversar de novo com ele um dia desses.</p><p>Estou na pista errada ao me focar nos clientes sexuais?</p><p>Essa hist�ria de relat�rio policial me intriga. Vou instruir a Malu, minha colaboradora, para que o encontre. Na �poca, voc� tinha doze ou treze anos, � isso? Do que se trata?</p><p>Registrei seu conselho quanto ao Teleborian. M.</p><p>P.S. Voc� deixou passar um tro�o no golpe do Wennerstr�m. Eu j� sabia o que voc� tinha feito quando estivemos em Sandhamm no Natal, mas n�o perguntei nada porque voc� n�o tocou no assunto. E n�o pretendo dizer qual foi o seu erro, a menos que voc� me convide para um caf�.]</p><p>A resposta chegou tr�s horas depois.</p><p>[Esque�a os clientes. O que interessa � o Zala. E um gigante loiro. Mas o relat�rio da pol�cia � interessante porque parece que algu�m est� querendo escond�-lo. N�o pode ser por acaso.]</p><p>O procurador Ekstr�m estava aborrecido quando juntou a equipe de Bublanski para uma reuni�o na segunda-feira de manh�. Mais de uma semana perseguindo um suspeito identificado e com uma apar�ncia f�sica bastante singular n�o dera nenhum resultado.</p><p>O humor de Ekstr�m n�o melhorou quando Curt Bolinder, que estivera de plant�o no fim de semana, relatou os �ltimos acontecimentos.</p><p>�Intrus�o? - exclamou Ekstr�m, sem disfar�ar sua surpresa.</p><p>�O vizinho me ligou no domingo � noite quando percebeu que o lacre na porta de Bjurman tinha sido rompido. Fui at� l� verificar.</p><p>�E no que deu sua verifica��o?</p><p>�Os lacres foram cortados em tr�s lugares. Provavelmente com gilete ou estilete. Um bom trabalho. Mal dava para notar.</p><p>�Assalto? Existem bandidos especializados em defuntos...</p><p>�N�o foi assalto. Examinei o apartamento. Estavam l� todos os objetos de valor corriqueiros, videocassete e coisas assim. Em compensa��o, a chave do carro de Bjurman estava em cima da mesa da cozinha.</p><p>�A chave do carro? - disse Ekstr�m.</p><p>�O Jerker Holmberg esteve no apartamento na quarta passada para dar uma revisada, vai que a gente tivesse deixado escapar alguma coisa. Entre outras coisas, conferiu o carro. Ele jura que n�o tinha nenhuma chave de carro na mesa da cozinha quando saiu do apartamento, e que ele rep�s o lacre.</p><p>�Ele pode ter esquecido de guardar a chave. Todo mundo pode se enganar.</p><p>�O Holmberg n�o usou aquela chave. Ele usou uma c�pia do chaveiro do Bjurman que estava com a gente.</p><p>Bublanski passou a m�o no queixo.</p><p>�Ou seja, n�o foi um assalto no sentido usual?</p><p>�Intrus�o. Algu�m entrou no apartamento do Bjurman para bisbilhotar. E s� pode ter sido entre a quarta-feira e o domingo � noite, quando o vizinho notou que os lacres estavam rompidos.</p><p>�Em outras palavras, algu�m foi procurar alguma coisa... Jerker?</p><p>�N�o havia nada l� que a gente j� n�o tivesse apanhado.</p><p>�Pelo menos que a gente saiba. O motivo dos assassinatos ainda n�o est� muito claro. Partimos da hip�tese de que a Salander � uma psicopata, mas at� os psicopatas precisam de um motivo.</p><p>�O que voc� sugere?</p><p>�N�o sei. Que algu�m dedique um tempo passando o apartamento do Bjurman a pente-fino. Precisamos responder a duas perguntas. Primeira: quem? Segunda: por qu�? O que deixamos passar?</p><p>Fez-se sil�ncio por alguns instantes.</p><p>�Jerker...</p><p>Jerker Holmberg deu um suspiro resignado.</p><p>�Est� bem. Vou voltar l� no Bjurman passar um pente-fino no apartamento.</p><p>Eram onze horas de segunda-feira quando Lisbeth Salander acordou. Ficou meia hora pregui�ando na cama antes de se levantar, ligar a cafeteira e tomar um banho. Feito isso, preparou dois sandu�ches e sentou-se diante do Powerbook para se atualizar sobre o que se passava no computador do procurador Ekstr�m e ler as edi��es <emphasis>on-line</emphasis> de v�rios jornais. Observou que o interesse pelos assassinatos de Enskede diminu�a. Ent�o abriu a pasta de investiga��o de Dag Svensson e leu atentamente suas anota��es sobre o confronto com o jornalista Per-�ke Sandstr�m, o cliente que fazia o jogo da m�fia do sexo e sabia de alguma coisa sobre Zala. Ao terminar a leitura, serviu-se de mais um caf� e sentou-se no canto da janela para refletir.</p><p>Por volta das quatro da tarde, encerrou suas reflex�es.</p><p>Precisava de dinheiro. Dispunha de tr�s cart�es de cr�dito. Um em nome de Lisbeth Salander, e logo, inutiliz�vel na pr�tica. O segundo em nome de Irene Nesser, mas Lisbeth evitava usado pois teria de apresentar o pasS�porte de Irene Nesser como documento de identidade, o que implicava algum risco. O terceiro estava em nome da Wasp Enterprises, referente a uma conta que continha mais de dez milh�es de coroas e que podia ser movimentada via internet. Qualquer pessoa poderia usar o cart�o, desde que mostrasse, evidentemente, um documento de identidade.</p><p>Foi at� a cozinha, abriu uma lata de biscoitos e tirou de dentro um ma�o de c�dulas. Restavam-lhe novecentas e cinquenta coroas, o que era pouco. Felizmente, tamb�m tinha mil e oitocentos d�lares americanos que estavam ali desde que voltara para a Su�cia e que ela podia trocar anonimamente em qualquer ag�ncia de c�mbio. Assim j� ficava melhor.</p><p>Enfiou a peruca de Irene Nesser, vestiu-se com cuidado e p�s uma muda de roupa e um estojo de maquiagem numa mochila. Ent�o empreendeu sua segunda expedi��o para fora de casa. Foi at� a Folkungagatan a p�, depois � Erstagatan, onde entrou na Watski pouco antes de a loja fechar. Comprou fita isolante, uma c�brea de duas roldanas e oito metros de um cord�o de algod�o forte.</p><p>Pegou o 66 para voltar. Na Medborgarplatsen, viu uma mulher esperando o �nibus. De in�cio n�o a reconheceu, mas um alarme disparou no fundo de seu c�rebro, olhou de novo e viu que era Asa Flemstr�m, que cuidava dos sal�rios na Contabilidade da Milton Security. Estava com um penteado novo, mais na moda. Lisbeth desceu discretamente do �nibus enquanto Flemstr�m subia. Olhou ao redor com todo o cuidado, � espreita de um rosto que lhe parecesse familiar. Lisbeth passou em frente ao pr�dio da Bofill e chegou � S�dra Station, onde pegou o trem do sub�rbio na dire��o norte.</p><p>A inspetora Sonja Modig apertou a m�o de Erika Berger, que imediatamente lhe ofereceu um caf�. Ao ir peg�-lo na cozinha, Erika sorriu ao ver as canecas desparelhadas, todas com logotipos de diferentes partidos pol�ticos, sindicatos e empresas.</p><p>�D�o essas canecas para a gente nas reuni�es eleitorais ou depois de alguma entrevista - explicou Erika Berger, estendendo-lhe uma com o logo dos jovens liberais.</p><p>Sonja Modig passou tr�s horas sentada � mesa de Dag Svensson, auxiliada em sua tarefa pela assistente de reda��o Malu Eriksson, em parte para entender do que tratava o livro e o artigo de Dag Svensson, em parte para navegar pelo seu material de pesquisa. Sonja Modig ficou pasma ao descobrir a extens�o dessa pesquisa. O sumi�o do laptop de Dag Svensson representara um s�rio inconveniente para a investiga��o da pol�cia, que, com isso, pensou que n�o fosse ter acesso a seu trabalho. Mas na realidade fora feito, regularmente, um backup da maioria dos dados na reda��o da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>Mikael Blomkvist n�o estava, mas Erika Berger forneceu a Sonja Modig uma lista dos elementos que ele tirara da sala de Dag Svensson - principalmente anota��es referentes � identidade das fontes. Modig acabou ligando para Bublanski para explicar a situa��o. Ficou decidido que todo o material da sala de Dag Svensson, inclusive o computador da <emphasis>Millennium,</emphasis> seria apreendido por raz�es t�cnicas de investiga��o. O chefe do inqu�rito preliminar voltaria l� para negociar caso se justificasse exigir tamb�m os elementos retidos por Mikael. Sonja Modig ent�o preencheu um protocolo de apreens�o e pediu ajuda a Henry Cortez para levar tudo at� o carro.</p><p>Na segunda-feira � noite, Mikael sentiu-se profundamente frustrado. Desde a semana anterior, passara em revista dez dos nomes que Dag Svensson tivera a inten��o de revelar. A cada vez, vira-se diante de homens preocupados, indignados e chocados. Constatou que a renda anual m�dia desses sujeitos era de cerca de quatrocentas mil coroas. Era um amontoado pat�tico de homens assustados.</p><p>Em nenhum momento, por�m, teve a impress�o de que os sujeitos lhe escondiam alguma coisa em rela��o aos assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman. Pelo contr�rio; muitos achavam que sua situa��o iria ficar catastr�fica quando a m�dia come�asse a denunciar nomes, os deles, associados aos homic�dios.</p><p>Mikael abriu seu iBook para ver se havia uma nova mensagem de Lisbeth. N�o havia. Em compensa��o, na mensagem anterior ela avisara que os clientes sexuais n�o tinham nenhum interesse para o caso e que ele estava gastando tempo � toa. Amaldi�oou-a com termos que Erika Berger teria qualificado de sexistas, al�m de inovadores. Estava com fome, mas n�o tinha a menor vontade de cozinhar. Sem falar que, tirando o leite do mercadinho da esquina, n�o tinha comprado nada para comer nos �ltimos quinze dias. Enfiou o casaco e desceu at� a taberna grega da Hornsgatan, onde pediu cordeiro grelhado.</p><p>Lisbeth Salander tinha verificado a escada e ao anoitecer dera duas voltas discretas em torno dos pr�dios vizinhos. Eram edificiozinhos baixos onde, ela desconfiava, todos os ru�dos deviam vazar com facilidade, o que n�o lhe facilitava as coisas. O jornalista Per-Ake Sandstr�m morava num apartamento de canto no segundo andar, ou seja, no �ltimo. A escada continuava at� uma porta de s�t�o. Deveria servir.</p><p>O �nico problema � que todas as janelas do apartamento estavam escuras, sinal de que o propriet�rio n�o se encontrava em casa.</p><p>Achou uma pizzaria algumas quadras adiante, pediu uma Hawaii, sentou-se a um canto e leu os jornais vespertinos. Pouco antes das nove horas, comprou um <emphasis>caff� latte</emphasis> numa revistaria e voltou para o pequeno edif�cio. As luzes do apartamento continuavam apagadas. Foi at� a escada e sentou-se no patamar do s�t�o, de onde avistava a porta do apartamento de Per-Ake Sandstr�m, meio andar abaixo. Tomou o caf� enquanto esperava pacientemente.</p><p>Foi no est�dio de grava��o Recent Trash Records, num setor industrial de Alvsj�, que o inspetor Hans Faste enfim conseguiu encontrar Cilla Nor�n, vinte e oito anos, l�der do grupo satanista Evil Fingers. O choque cultural foi compar�vel ao do primeiro encontro entre portugueses e �ndios caraibanos.</p><p>Depois de v�rias tentativas infrut�feras junto aos parentes de Cilla Nor�n, Faste afinal conseguira, com a irm�, uma pista levando �quele est�dio onde Cilla seria �assistente� de produ��o de um <strong>CD</strong> do grupo Cold Wax de Borl�nge. Faste, que nunca tinha ouvido falar nesse grupo, reparou que era aparentemente constitu�do por uns caras na faixa dos vinte anos. J� no corredor de acesso ao est�dio, foi acolhido por um <emphasis>tsunami</emphasis> sonoro que lhe tirou o f�lego. Observou o Cold Wax atrav�s de um vidro e esperou que se abrisse uma brecha na cortina sonora.</p><p>Cilla Nor�n tinha cabelos negros compridos, com mechas vermelhas e verdes, e usava maquiagem preta. Era um pouco rechonchuda e vestia um pul�ver curto que deixava � mostra sua barriga com um <emphasis>piercing</emphasis> no umbigo. Usava um cinto com tachas nos quadris e tinha toda a apar�ncia de uma personagem de filme de terror.</p><p>Faste mostrou sua identifica��o policial e pediu para ter uma conversa com ela. Ela estava mascando chiclete e olhava para ele com ceticismo. Por fim, indicou uma porta e o conduziu pelo que parecia ser uma esp�cie de cozinha com mesa e cadeiras, onde ele por pouco n�o se estatelou ao trope�ar num saco de lixo largado bem atr�s da porta. Nor�n encheu uma garrafa pl�stica com �gua e bebeu quase a metade, depois sentou-se � mesa e acendeu um cigarro. Fitou Hans Faste com seus olhos azul-celeste. Ele n�o sabia por onde come�ar.</p><p>�O que � a Recent Trash Records? Ela parecia mortalmente entediada.</p><p>�� um selo que produz novos grupos de jovens.</p><p>�Qual � a sua fun��o?</p><p>�T�cnica de som. Faste olhou para ela.</p><p>�Voc� tem forma��o para isso?</p><p>�N�o. Aprendi na pr�tica.</p><p>�D� para viver disso?</p><p>�A resposta � mesmo importante?</p><p>�Eu s� queria saber. Imagino que voc� tenha lido as mat�rias sobre Lisbeth Salander nesses �ltimos tempos.</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>�Disseram que voc� a conhece. � verdade?</p><p>�Pode ser.</p><p>�Sim ou n�o?</p><p>�Depende do que quer saber.</p><p>�Quero encontrar uma destrambelhada suspeita de tr�s assassinatos. Quero informa��es sobre Lisbeth Salander.</p><p>�N�o tenho not�cias da Lisbeth desde o ano passado.</p><p>�Quando esteve com ela pela �ltima vez?</p><p>�No outono, h� dois anos. No Moulin. Ela ia l� de vez em quando, depois n�o soubemos mais dela.</p><p>�Voc� tentou entrar em contato com ela?</p><p>�Liguei algumas vezes para o celular. O n�mero n�o existe mais.</p><p>�E voc� sabe onde eu poderia encontrada?</p><p>�N�o.</p><p>�O que � o Evil Fingers?</p><p>Cilla Nor�n mostrou uma express�o divertida.</p><p>�O senhor n�o l� os jornais?</p><p>�Por qu�?</p><p>�Todos eles escreveram que somos um grupo satanista.</p><p>�Isso � verdade?</p><p>�Eu tenho cara de satanista?</p><p>�N�o sei que cara tem uma satanista.</p><p>�Escute, n�o sei quem est� mais biruta, se a pol�cia ou os jornais.</p><p>�Escute aqui, senhorita, essa � uma pergunta s�ria.</p><p>�Se a gente � satanista?</p><p>�Responda �s minhas perguntas, em vez de ficar enrolando.</p><p>�E qual � a sua pergunta?</p><p>Hans Faste fechou os olhos por um segundo e pensou na visita profissional que fizera, na Gr�cia, durante suas f�rias alguns anos antes. Na Gr�cia, apesar de todos os problemas, a pol�cia tinha uma enorme vantagem em rela��o � pol�cia sueca. L�, se Cilla Nor�n adotasse a mesma atitude, ele a teria algemado e nocauteado com o cassetete. Olhou para ela.</p><p>�A Lisbeth Salander fazia parte do Evil Fingers?</p><p>�Acho que n�o.</p><p>�O que quer dizer?</p><p>�A Lisbeth talvez seja a pessoa mais herm�tica em rela��o a m�sica que eu j� conheci.</p><p>�Herm�tica em rela��o a m�sica?</p><p>�Ela sabe distinguir um trompete de uma bateria, mas seu talento musical acaba mais ou menos por a�.</p><p>�Eu quis dizer: ela pertencia ao grupo Evil Fingers?</p><p>�Acabo de responder � pergunta. O que o senhor acha que era o Evil Fingers?</p><p>�Me conte.</p><p>�Est� conduzindo uma investiga��o policial lendo as mat�rias de uns jornais idiotas.</p><p>�Responda � pergunta.</p><p>�Evil Fingers era um grupo de rock. A gente era um grupo de garotas que, em meados dos anos 1990, gostava de hard rock e tocava para se divertir. Para ficarmos conhecidas, a gente chamava a aten��o com pentagramas e um pouco de <emphasis>sympathy for the Devil.</emphasis> Depois, paramos de tocar e eu sou a �nica que continuou trabalhando com m�sica.</p><p>�E a Lisbeth Salander n�o fazia parte do grupo?</p><p>�� o que acabo de dizer.</p><p>�Por que as nossas fontes afirmam que a Salander fazia parte do grupo?</p><p>�Porque as suas fontes s�o quase t�o idiotas quanto os jornais.</p><p>�Explique-se.</p><p>�N�s �ramos cinco meninas, e continuamos nos encontrando de vez em quando. Antes, a gente se encontrava no Moulin uma vez por semana. Agora, � mais ou menos uma vez por m�s. A gente mant�m contato.</p><p>�E o que voc�s fazem quando se encontram?</p><p>�O que � que as pessoas fazem no Moulin? Hans Faste suspirou.</p><p>�Quer dizer que voc�s se encontram para beber.</p><p>� A gente toma uma cervejinha. Fala besteira. E o senhor, faz o que quando encontra com os amigos?</p><p>�E a Lisbeth Salander entra onde nesta hist�ria?</p><p>�Eu conheci Lisbeth na komvux quando eu tinha dezoito anos. Ela ia at� o Moulin de vez em quando se juntar ao grupo e tomar uma cerveja com a gente.</p><p>�O Evil Fingers n�o poderia ser visto como uma organiza��o? Cilla Nor�n o encarou como se ele viesse de outro planeta.</p><p>�Voc�s s�o l�sbicas?</p><p>�Quer levar um tabefe?</p><p>�Responda � pergunta.</p><p>�O que a gente � ou deixa de ser n�o lhe diz respeito.</p><p>�Calminha. Voc� n�o vai conseguir me tirar do s�rio.</p><p>�Al�... al�?... A pol�cia diz que Lisbeth Salander assassinou tr�s pessoas e a� vem me fazer perguntas sobre as minhas prefer�ncias sexuais. Ah, v� se catar.</p><p>�Epa... eu posso te p�r no xadrez.</p><p>�Com que motivo? Ali�s, esqueci de mencionar que estou no terceiro ano de direito e que o meu pai � o Ulf Nor�n, do escrit�rio Nor�n &amp; Knape. A gente se v� no tribunal?</p><p>�Pensei que voc� trabalhasse com m�sica.</p><p>�Fa�o isso porque � legal. Ou voc� acha que eu conseguiria viver disso?</p><p>�N�o fa�o id�ia do que voc� vive.</p><p>�N�o � de nenhuma atividade satanista e l�sbica, se � isso que est� pensando. Se essa � a premissa da pol�cia para procurar a Lisbeth Salander, entendo que voc�s n�o consigam prend�-la.</p><p>�Voc� sabe onde ela est�?</p><p>Cilla Nor�n come�ou a balan�ar o corpo, erguendo as m�os � sua frente.</p><p>�Eu sinto que ela est� muito perto... espere, vou me conectar por telepatia.</p><p>�Pare com essa bobagem.</p><p>�Eu j� disse que n�o sei dela h� quase dois anos. N�o fa�o id�ia de onde ela est�. Mais alguma coisa?</p><p>Sonja Modig ligou o computador de Dag Svensson e passou o final da tarde inventariando o conte�do do disco r�gido e dos ZIP. Ficou at� as dez e meia da noite lendo o livro de Dag Svensson.</p><p>Ela se deu conta de duas coisas. Primeiro, descobriu que Dag Svensson era um escritor brilhante, cuja prosa era de uma objetividade fascinante quando descrevia os mecanismos do com�rcio do sexo. Gostaria que ele tivesse dado uma palestra na escola de pol�cia - seus conhecimentos seriam uma bem-vinda complementa��o ao curso. Hans Faste, por exemplo, era um que poderia se beneficiar dos conhecimentos de Svensson.</p><p>Em segundo lugar, ela compreendeu, de repente, o ponto de vista de Mikael Blomkvist, que achava que a investiga��o de Dag poderia constituir um motivo para os assassinatos. A den�ncia dos clientes sexuais que Dag Svensson planejava fazer n�o iria prejudicar s� um punhado de pessoas. Era uma den�ncia brutal. Algumas figuras mais conhecidas, que j� haviam sido condenadas em processos contra a moral e os bons costumes, ou que tinham participado de debates p�blicos sobre o tema, seriam totalmente aniquiladas. Mikael Blomkvist estava certo. O livro era um motivo para matar.</p><p>O �nico problema era que, mesmo que um cliente perigando ser denunciado tivesse resolvido matar Dag Svensson, n�o havia nenhum elo com o Dr. Nils Bjurman. Ele nem sequer constava no material de Dag Svensson, o que n�o s� limitava consideravelmente o peso dos argumentos de Blomkvist como refor�ava a imagem de Lisbeth Salander como �nica suspeita poss�vel.</p><p>Embora o motivo fosse pouco claro no tocante aos assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman, Lisbeth Salander estava associada ao local e � arma do crime. Ind�cios t�cnicos t�o evidentes dificilmente poderiam ser mal interpretados. Indicavam que Salander era mesmo a pessoa que disparara os tiros mortais no apartamento de Enskede.</p><p>A arma significava, al�m disso, um elo direto com o assassinato do Dr. Bjurman. E, no caso de Bjurman, existia incontestavelmente um v�nculo pessoal e um motivo poss�vel - a julgar pela decora��o art�stica na barriga dele, podia se tratar de algum tipo de abuso sexual ou, em todo caso, de uma rela��o sadomasoquista entre eles. Era dif�cil imaginar que Bjurman tivesse permitido se deixar tatuar daquela forma estranha, o que levaria a supor que ele experimentava uma esp�cie de gozo na humilha��o, ou ent�o que Salander - se era mesmo ela quem tinha feito a tatuagem - o reduzira a uma condi��o de impot�ncia. Modig n�o tinha vontade de especular sobre como ela teria feito aquilo.</p><p>E Peter Teleborian confirmara que a viol�ncia de Lisbeth Salander se dirigia a pessoas que, por motivos variados, ela considerava amea�adoras ou que a teriam ofendido.</p><p>Sonja Modig refletiu um instante sobre o que Teleborian dissera sobre Lisbeth Salander. Ele parecera autenticamente preocupado em proteger sua ex-paciente e n�o queria que ela fosse machucada. Ao mesmo tempo, a investiga��o se fundamentava mais que nada na an�lise que ele apresentara - de uma desequilibrada social no limite da psicose.</p><p>Mas a teoria de Mikael Blomkvist era subjetivamente atraente.</p><p>Ela mordeu de leve o l�bio inferior enquanto tentava visualizar outro cen�rio que n�o o de Lisbeth Salander como assassina solit�ria. Por fim, pegou uma caneta e escreveu hesitante, uma linha no bloco de anota��es � sua frente.</p><p><emphasis>Dois motivos totalmente distintos? Dois assassinos? Uma �nica arma do crime?</emphasis></p><p>Uma id�ia fugaz que ela n�o conseguia formular ficava passando por sua cabe�a, uma pergunta que ela pretendia levantar na pr�xima reuni�o matinal de Bublanski. N�o conseguia de fato explicar por que se sentia de repente t�o pouco � vontade com a id�ia de Lisbeth Salander no papel de �nica assassina.</p><p>Em seguida, decidiu que j� tinha trabalhado o bastante, desligou resolutamente o computador e trancou os <strong>ZIP</strong> na gaveta da escrivaninha. Enfiou a jaqueta, apagou a luz e estava fechando a porta � chave quando ouviu um ru�do no corredor, mais adiante. Franziu o cenho. Julgava estar sozinha �quela hora no escrit�rio, e foi caminhando pelo corredor at� chegar em frente � sala de Hans Faste. A porta estava entreaberta e ela o escutou falando ao telefone.</p><p>�Sem d�vida alguma, isso liga uma coisa � outra - escutou-o dizer. Ficou indecisa um instante, antes de inspirar fundo e bater na moldura da porta. Hans Faste ergueu dois olhos surpresos ao v�-la. Ela o cumprimentou levantando dois dedos no ar.</p><p>�Modig ainda est� na casa - disse Faste ao telefone. Escutou e meneou a cabe�a, sem tirar os olhos de Sonja Modig. �O.k. Eu falo para ela.</p><p>E desligou.</p><p>�Era o Bubolha - explicou. �O que voc� queria?</p><p>�O que � que liga uma coisa � outra? - ela inquiriu. Ele perscrutou-a.</p><p>�Anda ouvindo atr�s da porta, �?</p><p>�N�o, mas a porta estava aberta e voc� falou isso bem na hora em que eu ia bater.</p><p>Faste deu de ombros.</p><p>�Eu liguei para o Bubolha para dizer que o laborat�rio enfim forneceu algo aproveit�vel.</p><p>�Ah, �?</p><p>�O Dag Svensson tinha um celular com cart�o Comviq. Finalmente conseguiram uma lista das chamadas. Foi confirmada a liga��o dele para o Mikael Blomkvist �s 20h 12. Blomkvist ainda estava na casa da irm� a essa hora.</p><p>�Muito bem. Mas n�o acho que o Blomkvist tenha qualquer rela��o com esses assassinatos.</p><p>�Nem eu. Mas Dag Svensson fez outra liga��o naquela noite. �s 2lh34. A conversa durou tr�s minutos.</p><p>�E?</p><p>�Foi uma liga��o para o telefone fixo do Dr. Nils Bjurman. Em outras palavras, existe um elo entre os dois assassinatos.</p><p>Sonja Modig deixou-se cair lentamente na cadeira de visitantes de Hans Faste.</p><p>�Por favor. Sente-se. Ela ignorou a alfinetada.</p><p>�Certo. O que diz o cronograma? Pouco depois das oito da noite, Dag Svensson liga para Mikael Blomkvist e marca um encontro para mais tarde naquela noite. �s nove e meia, Svensson liga para Bjurman. Pouco antes das dez da noite, Salander compra cigarro na tabacaria de Enskede, que estava quase fechando. Pouco depois das onze, Mikael Blomkvist e a irm� chegam a Enskede e, as onze e onze, ele liga para o SOS - Brigada.</p><p>�Isso mesmo, Miss Marple.</p><p>�Mas n�o est� batendo de jeito nenhum. Segundo o legista, Bjurman foi morto entre dez e onze da noite. Nessa hora, Salander j� estava em Enskede. A gente sempre achou que primeiro ela tinha matado o Bjurman c depois o casal de Enskede.</p><p>�Isso n�o quer dizer nada. Eu falei com o legista. S� descobrimos o Bjurman na noite seguinte, quase vinte e quatro horas depois. O m�dico diz que a hora da morte pode variar em pelo menos uma hora.</p><p>�Mas o Bjurman tem que ser a primeira v�tima, j� que encontramos a arma dele em Enskede. Isso quer dizer que ela matou o Bjurman em algum momento ap�s as 21h34, hora em que Svensson ligou para o Bjurman, e foi imediatamente para Enskede comprar cigarro na tabacaria. Dava tempo para ir de Odenplan at� Enskede?</p><p>�Dava. Ela n�o pegou o transporte coletivo como a gente achava de in�cio. Ela tinha um carro. Eu e o Steve Bohman fizemos o trajeto para conferir, e deu tempo de sobra.</p><p>�Mas ela ainda esperou meia hora antes de matar Dag Svensson e Mia Bergman. O que ela fez nesse meio-tempo?</p><p>�Tomou um caf� com eles. As digitais dela est�o na x�cara.</p><p>Ele lan�ou-lhe um olhar triunfante. Sonja Modig suspirou. Ficou em sil�ncio alguns minutos.</p><p>�Hans, para voc� este caso � um lance de prest�gio. Voc� �s vezes sabe ser um cretino e tira as pessoas do s�rio, mas acontece que vim bater � sua porta para pedir desculpas pela bofetada. Foi injustificada.</p><p>Ele a fitou demoradamente.</p><p>�Modig, voc� at� pode achar que eu sou um cretino. Mas eu acho que voc� n�o � muito profissional e n�o tinha nada que estar na pol�cia. Pelo menos n�o neste n�vel.</p><p>Sonja Modig considerou diferentes respostas, mas acabou dando de ombros e se levantando.</p><p>�Certo. Assim fica claro como a gente se coloca um em rela��o ao outro - disse ela.</p><p>�Assim fica claro. E, pode crer, voc� n�o fica muito tempo por aqui. Sonja Modig fechou a porta atr�s de si com mais for�a do que pretendia.</p><p><emphasis>N�o deixe esse escroto te tirar do s�rio.</emphasis> Desceu at� a garagem para pegar o carro. Hans Faste sorria, satisfeito, do outro lado da porta.</p><p>Mikael Blomkvist acabava de chegar quando seu celular tocou.</p><p>�Oi. � a Malu. Voc� pode falar?</p><p>�Mas � claro.</p><p>�Ontem teve uma coisa que me chamou a aten��o.</p><p>�Sei.</p><p>�Estava lendo os recortes sobre a ca�ada � Salander que est�o l� na reda��o, e achei aquela mat�ria grande sobre o passado dela nos hospitais psiqui�tricos.</p><p>�Sei.</p><p>�Eu at� posso estar procurando pelo em ovo, mas fico pensando no porqu� de uma lacuna t�o grande na biografia dela.</p><p>�Lacuna?</p><p>��. Existe uma profus�o de detalhes sobre todas as hist�rias em que ela se envolveu na escola. Com os professores e os outros alunos, voc� sabe.</p><p>�Estou lembrado. Havia uma professora dizendo que tinha medo da Lisbeth no in�cio do gin�sio.</p><p>�A Birgitta Mi��s.</p><p>�Isso mesmo.</p><p>�Bem. E tamb�m h� um bocado de detalhes sobre a Lisbeth na psiquiatria infantil. E um monte de outros detalhes sobre ela nas fam�lias adotivas em que ficou durante a adolesc�ncia, aquela agress�o na Gamla Stan e tudo mais.</p><p>�Sei. Aonde voc� quer chegar?</p><p>�Ela foi internada na psiquiatria pouco antes de fazer treze anos.</p><p>�Sei.</p><p>�Mas n�o h� uma s� palavra explicando por que ela foi internada. Mikael ficou calado.</p><p>�Voc� quer dizer...</p><p>�Quero dizer que se uma menina de doze anos � internada na psiquiatria, � porque alguma coisa provocou isso. E no caso da Lisbeth deve ter sido uma coisa imensa, quer dizer, uma puta de uma crise, e isso deveria constar na biografia dela. S� que n�o h� nenhuma explica��o.</p><p>Mikael franziu o cenho.</p><p>�Malu, eu sei de fonte segura que existe um relat�rio policial sobre a Lisbeth, datado de fevereiro de 1991, quando ela tinha doze anos. N�o est� no cadastro. Eu ia mesmo te pedir para tentar encontrar esse relat�rio.</p><p>�Se existe um relat�rio, ele necessariamente tem que estar registrado no cadastro. Sen�o, � ilegal. Voc� verificou mesmo?</p><p>�N�o, mas a minha fonte diz que o relat�rio n�o consta no cadastro. Por um momento, Malu n�o disse nada.</p><p>�E essa sua fonte � boa?</p><p>�Muito boa.</p><p>Malu ficou mais um tempo em sil�ncio. Ela e Mikael chegaram juntos � mesma conclus�o.</p><p>�A S�po - disse Malu.</p><p>�Bj�rck - disse Mikael.</p></section><section><p><strong><emphasis>24 - TER�A-FEIRA 5 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Per-Ake Sandstr�m, jornalista <emphasis>freelancer,</emphasis> quarenta e sete anos, voltou para casa, em Solna, pouco depois da meia-noite. Estava um pouco alto e sentia uma bola de p�nico se formando em sua barriga. Per-Ake Sandstr�m estava pura e simplesmente com medo.</p><p>Ia fazer quinze dias que Dag Svensson tinha sido assassinado em Enskede. Sandstr�m assistira, estupefato, ao notici�rio na tev� no dia seguinte. Experimentara uma onda de al�vio e esperan�a - Svensson estava morto e, com ele, talvez tamb�m o livro sobre tr�fico de mulheres com que pretendia denunci�-lo como delinquente sexual. <emphasis>Droga, uma maldita puta al�m da</emphasis> con<emphasis>ta e l� estava ele encrencado at� o pesco�o.</emphasis></p><p>Ele odiava Dag Svensson. Tinha suplicado, rastejado diante daquele escroto.</p><p>Um dia depois dos assassinatos, ficara euf�rico demais para conseguir pensar com lucidez. S� no dia seguinte come�ou a raciocinar. Se o Dag Svensson estava trabalhando num livro em que ele ia ser citado como estuprador com tend�ncias ped�filas, ent�o n�o era improv�vel que a pol�cia come�asse a bisbilhotar seus pequenos deslizes. Caramba... ele podia se tornar suspeito dos assassinatos.</p><p>O p�nico diminu�ra um pouco quando o rosto de Lisbeth Salander aparecera em todos os jornais do pa�s. <emphasis>Quem ser� essa Lisbeth Salander?</emphasis> Nunca tinha ouvido falar. Mas os tiras manifestamente a consideravam suspeita e, de acordo com o procurador, os assassinatos estavam prestes a ser solucionados. O interesse por ele talvez n�o chegasse a se materializar. Mas ele sabia, por experi�ncia pr�pria, que os jornalistas sempre guardam seus documentos e anota��es. <emphasis>Millennium. Uma revista de merda com uma reputa��o totalmente superestimada. Era igual �s outras. Bisbilhotavam, vituperavam e atingiam os outros.</emphasis></p><p>Ignorava em que p� estava o andamento do livro. N�o sabia o que � que eles sabiam. N�o tinha para quem perguntar. A sensa��o era a de estar dentro de um vazio.</p><p>No decorrer da semana, seu comportamento oscilara entre o p�nico e a embriaguez. Os tiras n�o tinham vindo procur�-lo. Quem sabe - se desse uma sorte incr�vel - conseguisse se sair dessa. Se n�o desse sorte, sua vida estava acabada.</p><p>Enfiou a chave na fechadura e girou-a. No instante em que abriu a porta, escutou um ru�do atr�s de si e sentiu uma dor paralisante na parte inferior das costas.</p><p>Gunnar Bj�rck ainda n�o tivera tempo de ir dormir, quando o telefone tocou. Estava sentado de roup�o e pijama na escurid�o da cozinha, remoendo seu dilema. No decorrer da sua longu�ssima carreira, nunca estivera nem perto de uma situa��o t�o inextric�vel.</p><p>De in�cio, pensou em n�o atender o telefone. Olhou para o rel�gio e viu que era mais de meia-noite. Mas o telefone continuou tocando e, depois do d�cimo toque, ele n�o resistiu. Podia ser importante.</p><p>�Aqui � o Mikael Blomkvist - ele ouviu dizer do outro lado da linha. Que <emphasis>droga.</emphasis></p><p>�J� passa da meia-noite. Eu estava dormindo.</p><p>�Sinto muito. Mas achei que voc� ia se interessar pelo que eu tenho para falar.</p><p>�O que � que voc� quer?</p><p>�Amanh�, �s dez horas, vou dar uma coletiva de imprensa sobre os assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman.</p><p>Gunnar Bj�rck engoliu em seco.</p><p>�Pretendo relatar detalhes do livro sobre com�rcio sexual que o Dag Svensson estava terminando de escrever. O �nico cliente que eu vou citar � voc�.</p><p>�Voc� prometeu me dar um tempo... Ouviu o p�nico na pr�pria voz e parou.</p><p>�J� se passaram v�rios dias. Voc� prometeu me ligar depois do feriado da P�scoa. Amanh� � ter�a-feira. Ou voc� fala, ou minha coletiva fica mesmo para amanh�.</p><p>�Se voc� der essa coletiva, nunca vai saber nada sobre Zala.</p><p>�Pode ser. Mas a� n�o vai ser mais problema meu. Voc� vai ter que falar com os investigadores oficiais. E com a imprensa do pa�s inteiro, claro.</p><p>N�o havia nenhum espa�o para negocia��o.</p><p>Aceitou se encontrar com Mikael Blomkvist, e conseguiu adiar o encontro para a quarta-feira. Uma pequena tr�gua. Mas ele estava pronto. Ia apostar todas as fichas, ou vai ou racha.</p><p>Sandstr�m n�o saberia dizer quanto tempo ficou desacordado, mas quando voltou a si estava deitado no ch�o da sala. Seu corpo inteiro do�a e ele n�o conseguia se mexer. Levou algum tempo para perceber que suas m�os estavam presas �s costas com o que parecia ser uma fita adesiva e seus p�s, amarrados. Havia um peda�o de fita colado em sua boca. As luzes da sala estavam acesas e as persianas, baixadas. Era incapaz de entender o que tinha acontecido.</p><p>Percebeu sons que pareciam vir de seu escrit�rio. Ficou im�vel e escutou, ouviu uma gaveta se abrindo e fechando. <emphasis>Um assalto?</emphasis> Escutou um barulho de papel, algu�m vasculhava suas gavetas.</p><p>Uma eternidade depois, escutou passos atr�s de si. Tentou virar a cabe�a, mas n�o enxergou ningu�m. Fez um esfor�o para se manter calmo.</p><p>De repente, algu�m passou um cord�o de algod�o forte por cima de sua cabe�a. Um n� corredi�o apertou seu pesco�o. O p�nico por pouco n�o o fez soltar o esf�ncter. Ergueu os olhos e viu a corda correr at� uma roldana pendurada no gancho onde normalmente ficava o lustre da sala. Ent�o seu inimigo entrou no seu campo de vis�o. A primeira coisa que viu foi um par de botinas pretas.</p><p>N�o sabia exatamente o que esperava, mas o choque n�o poderia ter sido maior quando ergueu o olhar. De in�cio, n�o reconheceu a psicopata demente cuja foto vinha enfeitando todos os quiosques desde o feriado da P�scoa. Tinha cabelos pretos curtos e n�o se parecia com a foto dos jornais. Estava inteiramente vestida de preto - jeans, jaqueta curta de algod�o aberta, camiseta e luvas pretas.</p><p>Mas o que mais o assustou foi seu rosto. Ela estava maquiada. Usava batom preto, delineador e uma sombra verde-escura vulgar e ostensiva. O restante do rosto estava todo branco. Atravessando o rosto na diagonal, do lado esquerdo da testa ao lado direito do queixo, passando pelo nariz, havia um largo risco vermelho.</p><p>Era uma m�scara grotesca. Ela parecia completamente louca.</p><p>O c�rebro de Sandstr�m resistiu. Estava mergulhado em plena irrealidade.</p><p>Lisbeth Salander pegou o cord�o e puxou. Ele sentiu a corda afundar no pesco�o e, por alguns segundos, n�o conseguiu respirar. Ent�o lutou para retomar apoio nos p�s. Com a roldana, ela n�o precisava fazer nenhum esfor�o para obrig�-lo a ficar ereto. Quando ele ficou bem aprumado sobre os p�s, ela parou de i��-lo e enrolou a corda em volta do cano do aquecedor, travando-a com um n�.</p><p>Ent�o deixou-o ali e sumiu de seu campo de vis�o. Ficou ausente por mais de quinze minutos. Quando voltou, puxou uma cadeira e sentou-se bem � sua frente. Ele procurou n�o olhar para aquele rosto maquiado de forma grotesca, mas n�o conseguiu resistir. Ela p�s uma pistola em cima da mesa. A <emphasis>dele. Ela a achara na caixa de sapatos do guarda-roupa.</emphasis> Uma Colt 1911 Government. Uma pequena arma ilegal que ele tinha desde muitos anos, comprada por impulso de um amigo que a estava vendendo, e que nunca usara, nem para testes. Diante de seus olhos, ela puxou o carregador e colocou uma bala. Per-�ke Sandstr�m por pouco n�o desmaiou. Obrigou-se a cruzar o olhar com o dela.</p><p>�Nunca vou entender por que os homens sempre t�m necessidade de guardar lembrancinhas das suas pervers�es - disse ela.</p><p>Tinha uma voz suave, mas glacial. Falava com uma voz baixa, mas clara. Ergueu uma foto que ela tinha imprimido do disco r�gido dele.</p><p>�Imagino que se trate da estoniana Ines Hammuj�rvi, dezessete anos, origin�ria da aldeia de Riepalu, perto de Narva. Foi divertido com ela?</p><p>Uma pergunta ret�rica. Per-Ake Sandstr�m n�o podia responder. Sua boca continuava selada com a fita adesiva e seu c�rebro, incapaz de formular uma resposta. A foto mostrava... <emphasis>caramba, para que fui guardar essas fotos?</emphasis></p><p>�Voc� sabe quem eu sou? Fa�a um sinal com a cabe�a. Per-Ake Sandstr�m meneou a cabe�a.</p><p>�Voc� � um porco s�dico, um canalha estuprador. Ele n�o se moveu.</p><p>�Fa�a um sinal com a cabe�a.</p><p>Ele meneou a cabe�a. S�bito, seus olhos se encheram de l�grimas.</p><p>�Vamos estabelecer as regras - disse Lisbeth Salander. �Na minha opini�o, voc� deveria ser executado imediatamente. Voc� sair vivo ou n�o daqui esta noite, para mim d� no mesmo. Entendeu?</p><p>Ele meneou a cabe�a.</p><p>�A esta altura, voc� necessariamente j� sabe que eu sou louca e adoro matar gente. Sobretudo homens.</p><p>Ela apontou para os jornais vespertinos dos �ltimos dias, que ele tinha guardado numa pilha em cima da mesa.</p><p>�Vou tirar a fita adesiva da sua boca. Se voc� gritar ou erguer a voz, zapeio voc� com isso aqui.</p><p>Brandiu um cassetete el�trico.</p><p>� Esta coisa feia manda ver setenta e cinco mil volts. E depois, mais ou menos uns sessenta mil, se eu j� usei uma vez e n�o recarreguei. Entendido?</p><p>Ele pareceu hesitar.</p><p>�Isso significa que os seus m�sculos param de funcionar. Foi o que voc� sentiu ali na porta, quando entrou.</p><p>Ela sorriu.</p><p>�Isso significa que as suas pernas n�o v�o mais te aguentar e voc� vai enforcar a si pr�prio. E depois de acabar com voc�, eu vou me levantar e sair do apartamento, � simples.</p><p>Ele meneou a cabe�a. <emphasis>Oh, meu Deus, ela � louca, uma leg�tima assassina.</emphasis> De repente, � sua revelia, l�grimas come�aram a escorrer incontrolavelmente pelas suas faces. Ele fungou.</p><p>Ela se levantou e arrancou a fita adesiva. Seu rosto grotesco ficou a apenas poucos cent�metros do seu.</p><p>�Fique quieto - disse ela. �Nem uma palavra. Se falar sem ser convidado, acabo com voc�.</p><p>Ela esperou at� ele parar de fungar e olhar para ela.</p><p>�Voc� s� tem uma chance de sair vivo daqui esta noite - disse ela. �Uma chance, n�o duas. Vou fazer uma s�rie de perguntas. Se voc� responder, te deixo viver. Se me entendeu, fa�a que sim com a cabe�a.</p><p>Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>�Se voc� se negar a responder a uma pergunta, eu te aniquilo. Entendeu?</p><p>Ele meneou a cabe�a.</p><p>�Se mentir ou responder com evasivas, eu te aniquilo. Ele meneou a cabe�a.</p><p>�N�o vou negociar com voc�. N�o vou te dar uma segunda chance. Ou voc� responde imediatamente �s minhas perguntas, ou morre. Se eu ficar satisfeita com as suas respostas, voc� sai vivo daqui. � simples assim.</p><p>Ele meneou a cabe�a. Acreditava nela. N�o tinha escolha.</p><p>�Por favor - disse. �Eu n�o quero morrer... Ela o fitou com gravidade.</p><p>�Voc� decide se vai viver ou morrer. Mas acaba de transgredir a primeira regra, que �: voc� n�o tem o direito de falar sem a minha autoriza��o.</p><p>Ele apertou os l�bios. <emphasis>Caramba, ela � completamente doente.</emphasis></p><p>Mikael Blomkvist se sentia a tal ponto frustrado e febril que j� n�o sabia o que fazer. Por fim, vestiu o casaco e um cachecol, andou ao acaso at� S�dra Station, passou em frente do pr�dio da Bofill, e acabou na reda��o da <emphasis>Millennium,</emphasis> na G�tgatan. Estava tudo apagado e calmo. N�o acendeu nenhuma luz, mas ligou a cafeteira, quedou-se em frente � janela olhando para a rua l� embaixo enquanto esperava a �gua escorrer pelo filtro. Tentava colocar ordem nas suas id�ias. At� onde ele percebia, a investiga��o sobre os assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman era um mosaico quebrado, e alguns peda�os eram discern�veis ao passo que outros faltavam totalmente.</p><p>Em algum ponto desse mosaico, havia um desenho. Dava para adivinh�-lo, mas n�o para ver. Faltavam peda�os demais.</p><p>Foi assaltado pela d�vida. <emphasis>Ela n�o � uma louca assassina,</emphasis> pensou, como um tipo de lembrete. Ela escrevera que n�o havia matado Dag e Mia. E ele acreditava. Mas mesmo assim, de algum modo incompreens�vel, ela estava intimamente ligada ao enigma dos assassinatos.</p><p>P�s-se lentamente a revisar a teoria que vinha defendendo desde o dia em que entrara no apartamento de Enskede. Para ele era �bvio que a reportagem de Dag Svensson sobre tr�fico de mulheres era o �nico motivo plaus�vel para os assassinatos de Dag e Mia. Agora, tardiamente, come�ava a aceitar a afirma��o de Bublanski de que isso n�o explicava o assassinato de Bjurman.</p><p>Salander tinha escrito para ele deixar os clientes sexuais para l� e se concentrar em Zala. Como? O que ela queria dizer? Mulherzinha complicada. Por que n�o podia dizer as coisas de forma compreens�vel?</p><p>Mikael voltou � copa e se serviu de caf� numa caneca com o logotipo da Esquerda Jovem. Sentou-se no sof�, no meio da reda��o, p�s os p�s na mesa de centro e acendeu um cigarro clandestino.</p><p>Bj�rck estava na lista dos clientes sexuais. Bjurman era ligado a Salander. N�o podia ser por acaso que tanto Bjurman como Bj�rck tinham trabalhado na S�po. E que um relat�rio policial sobre Salander tinha sumido.</p><p><emphasis>Poderia haver mais de um motivo?</emphasis></p><p>Ficou um momento parado e deteve-se nessa id�ia. Inverteu a perspectiva.</p><p><emphasis>Ser� que Lisbeth Salander poderia ser o motivo?</emphasis></p><p>Mikael reteve aquela id�ia que ele n�o conseguia formular em palavras. Havia ali uma coisa inexplorada, mas ele n�o conseguia explicar a si mesmo por que Lisbeth Salander poderia ser o motivo dos assassinatos. Teve a sensa��o fugaz de uma revela��o a ponto de brotar.</p><p>Ent�o percebeu que estava cansado demais, jogou o caf� na pia e foi para casa dormir. No escuro de seu quarto, retomou o fio da id�ia e ficou acordado por mais duas horas, tentando entender o que ele queria dizer.</p><p>Lisbeth Salander acendeu um cigarro e se acomodou confortavelmente na cadeira � sua frente. Cruzou as pernas, a direita sobre a esquerda, e encarou-o. Per-�ke Sandstr�m nunca tinha visto um olhar t�o intenso. Quando ela voltou a falar, sua voz continuava baixa.</p><p>�Voc� visitou Ines Hammuj�rvi pela primeira vez, no apartamento dela em Norsborg, em janeiro de 2003. Ela acabava de completar dezesseis anos. Por que foi at� l�?</p><p>Per-Ake Sandstr�m n�o sabia o que responder. Nem sabia explicar como aquilo tudo come�ara e por que ele... Ela ergueu o cacetete el�trico.</p><p>�Eu... eu n�o sei. Eu queria a Ines. Ela era t�o linda.</p><p>�Linda?</p><p>��. Ela era linda.</p><p>�E voc� achou que isso te dava o direito de amarrar e comer a mulher.</p><p>�Ela concordou. Juro. Ela concordou.</p><p>�Voc� pagou?</p><p>Per-Ake Sandstr�m mordeu a l�ngua.</p><p>�N�o.</p><p>�Por que n�o? Ela era uma puta. Em geral, as putas s�o pagas.</p><p>�Ela era um... era um presente.</p><p>�Um presente? - repetiu Lisbeth Salander. Sua voz assumiu de repente um tom perigoso.</p><p>�Ela foi oferecida em troca de um favor que eu tinha feito para uma pessoa.</p><p>�Per-Ake... - disse Lisbeth Salander num tom suave. �Voc� n�o est� tentando evitar a minha pergunta?</p><p>�Eu juro. Vou responder tudo o que voc� quiser. N�o vou mentir.</p><p>�Muito bem. Que favor e para quem?</p><p>�Eu trouxe esteroides anabolizantes para a Su�cia. Eu tinha ido � Est�nia fazer umas reportagens, estava com uns amigos, e trouxe os comprimidos no carro. Viajei com um homem chamado Harry Ranta. Mas ele n�o estava no meu carro.</p><p>�Como � que voc� conheceu esse Harry Ranta?</p><p>�Conhe�o o Harry h� anos. Desde os anos 1980. Era um amigo, s� isso. A gente sa�a para tomar uns tragos juntos.</p><p>�E foi o Harry Ranta que te ofereceu a Ines Hammuj�rvi de... presente?</p><p>�Sim... n�o, desculpe, isso foi depois, aqui em Estocolmo. Foi o irm�o dele, Atho Ranta.</p><p>�Quer dizer que o Atho Ranta veio bater na sua porta perguntando se voc� estava a fim de ir a Norsborg comer a Ines?</p><p>�N�o... eu estava numa... tinha uma festa em... droga, n�o lembro onde era...</p><p>De repente, p�s-se a tremer de forma incontrol�vel, sentiu que os joelhos come�avam a ceder e teve que se enrijecer para conseguir ficar de p�.</p><p>�Responda tranq�ilamente sem entrar em p�nico - disse Lisbeth Salander. �N�o vou te enforcar s� porque voc� precisa de um tempo para concatenar as id�ias. Mas se eu perceber que voc� est� escorregando, a�... pof!</p><p>Ela al�ou as sobrancelhas e adotou um ar angelical. At� onde era poss�vel vislumbrar um anjo por tr�s daquela m�scara grotesca.</p><p>Per-Ake Sandstr�m meneou a cabe�a. Engoliu em seco. Estava com sede, sua boca estava super-ressecada e sentia a corda apertando o seu pesco�o.</p><p>�A�... n�o interessa o lugar onde voc� estava enchendo a cara. Como foi que Atho Ranta te ofereceu a Ines?</p><p>�A gente estava falando de... a gente... eu disse que queria... De repente, come�ou a chorar descontroladamente.</p><p>�Voc� disse para ele que queria uma daquelas putas. Ele meneou a cabe�a.</p><p>�Eu estava b�bado. Ele disse que ela precisava... precisava...</p><p>�Precisava do qu�?</p><p>�Atho disse que ela precisava de um corretivo. Ela estava criando problemas. N�o fazia o que ele queria.</p><p>�E o que ele queria que ela fizesse?</p><p>�Que ela trabalhasse na rua para ele. Ele me prop�s... Eu estava b�bado e n�o sabia o que estava fazendo. Eu n�o queria... Desculpe.</p><p>Ele fungou.</p><p>�N�o � para mim que voc� tem que pedir desculpa. Ent�o voc� se ofereceu para ajudar o Atho a dar um corretivo na Ines e voc�s foram at� a casa dela.</p><p>�N�o foi bem assim.</p><p>�Ent�o conta como foi. Por que voc� foi com o Atho at� a casa da Ines?</p><p>Ela brincou com o cacetete el�trico equilibrado em seus joelhos. Ele se p�s a tremer.</p><p>�Eu fui na casa da Ines porque eu a queria. Ela estava l� e estava � venda. Ines morava na casa de uma amiga do Harry Rant. N�o lembro o nome dela. Atho amarrou a Ines na cama e eu... eu fiz amor com ela. O Atho ficou olhando.</p><p>�N�o... Voc� n�o fez amor com ela. Voc� estuprou. Ele n�o respondeu.</p><p>�N�o foi?</p><p>Ele meneou a cabe�a.</p><p>�O que disse a Ines?</p><p>�N�o disse nada.</p><p>�Ela protestou?</p><p>Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>�Quer dizer que ela achou legal ser amarrada e comida por um gordo nojento de cinquenta anos.</p><p>�Ela estava b�bada. N�o estava nem a�. Lisbeth Salander deu um suspiro resignado.</p><p>�Certo. E depois disso voc� continuou visitando a Ines.</p><p>�Ela era t�o... ela me queria.</p><p>�Conta outra!</p><p>Ele lan�ou um olhar desesperado para Lisbeth Salander. Ent�o meneou a cabe�a.</p><p>�Eu... eu estuprava. Harry e Atho tinham me dado autoriza��o. Eles queriam que ela... que ela fosse domada.</p><p>�Voc� pagou para eles? Ele meneou a cabe�a.</p><p>�Quanto?</p><p>�Era um pre�o de amigo. Eu tinha ajudado no contrabando.</p><p>�Quanto?</p><p>�No total, algumas notas de mil.</p><p>�Numa das fotos, a Ines est� aqui no seu apartamento.</p><p>�Harry mandou ela vir. Ele fungou de novo.</p><p>�Ou seja, por umas c�dulas de mil, voc� ganhou uma mulher com quem podia fazer o que bem entendesse. Quantas vezes voc� a estuprou?</p><p>�N�o sei... algumas vezes.</p><p>�Certo. Quem � o chefe desse bando?</p><p>�Eles v�o me matar se eu disser.</p><p>�E eu com isso? Neste momento, eu sou um problema bem maior para voc� do que os irm�os Ranta.</p><p>Ela levantou o cacetete el�trico.</p><p>�Atho � o chefe. � o mais velho. Harry � o homem do terreno.</p><p>�Quem mais faz parte do bando?</p><p>�S� conhe�o o Harry e o Atho. A garota do Atho tamb�m participa. E um cara que eles chamam de... n�o lembro. Olle alguma coisa. � sueco. N�o sei quem �. � viciado e presta alguns favores.</p><p>�A garota do Atho?</p><p>�Silvia. � uma puta.</p><p>Lisbeth ficou um instante em sil�ncio, refletindo. Ent�o ergueu os olhos.</p><p>�Quem � Zala?</p><p>Per-Ake Sandstr�m empalideceu visivelmente. A <emphasis>mesma pergunta t�o repisada por Dag Svensson.</emphasis> Ele ficou tanto tempo sem dizer nada que notou que a louca estava come�ando a se irritar.</p><p>�Eu n�o sei - disse. �N�o sei quem ele �. Lisbeth Salander se aborreceu.</p><p>�At� aqui voc� se comportou direitinho. N�o desperdice a sua chance - disse ela.</p><p>�Juro por tudo que � mais sagrado. N�o sei quem ele �. Esse jornalista que voc� matou...</p><p>Calou-se, percebendo de s�bito que talvez n�o fosse uma boa id�ia evocar a orgia assassina dela em Enskede.</p><p>�Sim?</p><p>�Ele me perguntou a mesma coisa. Eu n�o sei. Se soubesse, diria. Juro. � uma pessoa que o Atho conhece.</p><p>�Voc� j� falou com ele?</p><p>�Um minuto s�, por telefone. Falei com um cara que dizia se chamar Zala. Ou melhor, ele falou comigo.</p><p>�A troco do qu�?</p><p>Per-Ake Sandstr�m pestanejou. Gotas de suor rolaram dos seus olhos e ele sentiu ranho escorrendo pelo queixo.</p><p>�Eu... eles queriam que eu fizesse mais um favorzinho para eles.</p><p>�Essa sua hist�ria est� come�ando a se enredar - alertou Lisbeth Salander.</p><p>�Eles queriam que eu fizesse outra viagem at� Tallinn para trazer um carro pronto. Anfetaminas. Eu n�o quis.</p><p>�N�o quis por qu�?</p><p>�Era demais. Eles eram verdadeiros g�ngsteres. Eu queria me afastar. Eu tinha o meu trabalho.</p><p>�Voc� quer dizer que era apenas um g�ngster ocasional.</p><p>�N�o sou assim, de verdade - disse ele, miser�vel.</p><p>�Ah, �?</p><p>Sua voz vinha carregada de tanto desprezo que Per-Ake Sandstr�m fechou os olhos.</p><p>�Continue. Como � que o Zala veio parar nessa hist�ria?</p><p>�Um leg�timo pesadelo.</p><p>Ele se calou e, s�bito, suas l�grimas voltaram a rolar. Mordeu o l�bio com tanta for�a que se cortou e come�ou a sangrar.</p><p>�Est� se enredando - disse Lisbeth Salander, em voz clara.</p><p>�O Atho insistiu comigo v�rias vezes. O Harry me avisou, disse que o Atho estava come�ando a ficar bravo e n�o sabia o que poderia acontecer. Por fim, topei me encontrar com o Atho. Foi em agosto do ano passado. Fui com o Harry at� Norsborg...</p><p>Sua boca se mexia, mas as palavras se extinguiram. Os olhos de Lisbeth Salander viraram duas fendas. Ele recobrou a voz.</p><p>�O Atho estava enlouquecido. Ele � muito brutal. Voc� n�o faz id�ia da brutalidade dele. Disse que era tarde demais para eu cair fora e que se eu n�o fizesse o que ele estava mandando, n�o ia sair vivo. Queria me dar uma demonstra��o.</p><p>�Sim?</p><p>�Me obrigaram a ir com eles. Fomos na dire��o de S�dert�lje. Atho me mandou usar um capuz. Um saco que ele me amarrou na cabe�a, tapando os meus olhos. Eu estava morto de medo.</p><p>�Com que ent�o voc� viajou com um saco na cabe�a. E o que aconteceu depois?</p><p>�O carro parou. N�o sei onde.</p><p>�Em que lugar eles te puseram o saco?</p><p>�Pouco antes de S�dert�lje.</p><p>�E depois, quanto tempo levaram para chegar?</p><p>Talvez... talvez pouco mais de meia hora. Eles me tiraram do carro. Era uma esp�cie de armaz�m.</p><p>�Continue.</p><p>�Harry e Atho me fizeram entrar. Havia luz l� dentro. A primeira coisa que eu vi foi um pobre coitado no piso de cimento. Estava amarrado. Tinha sido tremendamente espancado.</p><p>�Quem era?</p><p>�O nome dele era Kenneth Gustafsson. Mas isso eu s� soube depois. Eles n�o pronunciaram o nome dele.</p><p>�O que aconteceu?</p><p>�Tinha um homem l�. O homem mais alto que eu j� vi. Era imenso. Puro m�sculo.</p><p>�Me descreva esse cara.</p><p>�Loiro. Parecia mesmo o diabo em pessoa.</p><p>�O nome dele?</p><p>�Ele n�o disse.</p><p>�Certo. Um gigante loiro. Quem mais estava l�?</p><p>�Um outro homem. Loiro tamb�m. Com um rabo de cavalo. <emphasis>Magge Lundin.</emphasis></p><p>�E quem mais?</p><p>�S� eu, o Harry e o Atho.</p><p>�Continue.</p><p>�O loiro... quer dizer, o gigante, me passou uma cadeira. N�o disse uma palavra. O Atho era quem falava. Disse que o cara que estava no ch�o era um dedo-duro. Ele queria que eu visse o que acontecia com quem criava caso.</p><p>Per-�ke Sandstr�m chorava sem se conter.</p><p>�Est� se enredando de novo - disse Lisbeth Salander.</p><p>�O loiro levantou o cara do ch�o e o colocou numa cadeira na minha frente. A gente estava a um metro um do outro. Eu podia olhar dentro dos olhos dele. O gigante ficou atr�s dele e p�s as m�os em volta do pesco�o do cara. E ele... ele...</p><p>�Estrangulou o cara - interrompeu Lisbeth, para ajud�-lo.</p><p>�Sim... n�o... ele apertou at� matar. Acho que quebrou a nuca dele com as m�os. Escutei a nuca se quebrar e ele morreu ali, na minha frente.</p><p>Per-Ake Sandstr�m oscilava preso na corda. Suas l�grimas corriam a c�ntaros. Ele nunca tinha contado isso a ningu�m. Lisbeth lhe concedeu um minuto para se refazer.</p><p>�E depois?</p><p>�O outro homem, o do rabo de cavalo, ligou uma serra el�trica e cortou a cabe�a e as m�os dele. Quando acabou, o gigante chegou perto de mim. P�s as m�os em volta do meu pesco�o. Tentei me soltar. Usei toda a minha for�a, e ele n�o se mexeu um mil�metro sequer. Mas n�o me estrangulou... s� ficou com as m�os ali um bocado de tempo. Enquanto isso, o Atho pegou o celular e ligou para algu�m. Falava em russo. Depois disse que o Zala queria falar comigo e segurou o telefone no meu ouvido.</p><p>�E o que disse o Zala?</p><p>�S� disse que fazia quest�o que eu fizesse o favor que o Atho tinha pedido. Perguntou se eu ainda estava querendo cair fora. Prometi ir at� Tallinn buscar o carro com as anfetaminas. Eu n�o tinha escolha.</p><p>Lisbeth ficou um bom tempo em sil�ncio. Pensativa, contemplava o jornalista que fungava, pendurado na corda; parecia estar refletindo sobre alguma coisa.</p><p>�Me descreva a voz dele.</p><p>�A voz... n�o sei. Parecia bem normal.</p><p>�Voz baixa, clara?</p><p>�Baixa. Comum. �spera.</p><p>�Voc�s falaram em que l�ngua?</p><p>�Sueco.</p><p>�Algum sotaque?</p><p>�Sim... um pouco, talvez. Mas ele falava bem o sueco. Atho e ele falavam em russo.</p><p>�Voc� entende russo?</p><p>�Um pouco. N�o tudo. S� um pouco.</p><p>�O que o Atho falou para ele?</p><p>�S� disse que a demonstra��o tinha acabado. Mais nada.</p><p>�Voc� contou isso tudo para algu�m?</p><p>�N�o.</p><p>�Para o Dag Svensson?</p><p>�N�o... n�o.</p><p>�O Dag Svensson esteve aqui. Sandstr�m fez que sim com a cabe�a.</p><p>�N�o ouvi.</p><p>�Sim.</p><p>�Por qu�?</p><p>�Ele sabia que eu tinha... as putas.</p><p>�O que ele perguntou?</p><p>�Ele queria saber...</p><p>�Sim?</p><p>�Zala. Perguntou sobre Zala. Foi na segunda visita.</p><p>�Segunda visita?</p><p>�Ele j� tinha me contatado duas semanas antes de morrer. Foi a primeira vez que veio aqui. Depois ele voltou, dois dias antes que voc�... que ele...</p><p>�Antes que eu atirasse nele?</p><p>�Isso.</p><p>�E ent�o ele fez perguntas sobre o Zala?</p><p>�Sim.</p><p>�E o que voc� falou?</p><p>�Nada. Eu n�o podia falar nada. Admiti que tinha falado com ele por telefone. S� isso. N�o falei nada sobre o monstro loiro nem sobre o que eles fizeram com o Gustafsson.</p><p>�Certo. O que o Dag Svensson te perguntou exatamente?</p><p>�Eu... ele queria saber do Zala. S� isso.</p><p>�E voc� n�o falou nada?</p><p>�Nada de interessante. Na verdade, eu n�o sei de nada.</p><p>Lisbeth Salander ficou um instante em sil�ncio. <emphasis>Ele estava evitando dizer alguma coisa.</emphasis> Mordeu, pensativa, o l�bio inferior. Sim, claro.</p><p>�Para quem voc� contou sobre as visitas do Dag Svensson? Sandstr�m empalideceu.</p><p>Lisbeth sacudiu o cacetete el�trico.</p><p>�Liguei para o Harry Ranta.</p><p>�Quando?</p><p>Ele engoliu em seco.</p><p>�Na noite em que o Dag Svensson veio aqui pela primeira vez.</p><p>Ela continuou o interrogat�rio por mais meia hora, mas logo percebeu que ele s� tinha repeti��es e mais alguns detalhes soltos a oferecer. Por fim, levantou-se e p�s a m�o na corda.</p><p>�Voc� deve ser o canalha mais miser�vel que eu j� conheci - disse Lisbeth Salander. �O que voc� fez com a Ines merece pena de morte. Mas prometi que voc� ia viver se respondesse �s minhas perguntas. Sempre cumpro as minhas promessas.</p><p>Ela se inclinou e desfez o n�. Per-�ke Sandstr�m desabou lamentavelmente no ch�o. Seu al�vio chegava a ser euf�rico. Do assoalho, viu que ela punha um banco em cima da mesinha, subia em cima e desprendia a roldana. Juntou a corda e colocou-a numa mochila. Desapareceu no banheiro, onde ficou uns dez minutos. Ele ouviu a �gua correndo. Quando voltou, estava sem maquiagem.</p><p>Seu rosto parecia nu e desencardido.</p><p>�Voc� mesmo pode se soltar. Largou uma faca de cozinha no ch�o.</p><p>Ele escutou ela fazer uns ru�dos no hall durante v�rios minutos. Parecia estar trocando de roupa. Depois, ouviu a porta se abrir e se fechar. S� meia hora depois conseguiu cortar a fita adesiva. Ao sentar-se no sof� da sala, descobriu que ela tinha levado o seu Colt 1911 Government.</p><p>Lisbeth Salander s� chegou em casa �s cinco da manh�. Tirou a peruca de Irene Nesser e foi imediatamente se deitar, sem ligar o computador para ver se Mikael Blomkvist solucionara o enigma do relat�rio policial desaparecido.</p><p>Acordou �s nove horas e passou a ter�a-feira coletando dados sobre os irm�os Atho e Harry Ranta.</p><p>Atho Ranta possu�a uma ficha criminal lament�vel. Cidad�o finland�s, mas origin�rio de uma fam�lia estoniana, chegara � Su�cia em 1971. Entre 1972 e 1978, trabalhara como marceneiro na constru��o civil. Despedido depois de ser flagrado roubando numa obra, foi condenado a sete meses de pris�o. De 1980 a 1982, trabalhou para uma empresa bem menor. Foi despedido depois de chegar v�rias vezes b�bado ao trabalho. No restante dos anos 1980, ganhara a vida como seguran�a de cabar�, t�cnico numa empresa de manuten��o de caldeiras, lavador de pratos e vigia numa escola. Fora mandado embora de todos esses empregos depois de aparecer razoavelmente b�bado ou se envolver em todo tipo de briga. Seu trabalho de vigia se encerrou poucos meses depois de ser contratado, quando uma professora registrou queixa contra ele por ass�dio sexual e comportamento amea�ador.</p><p>Em 1987, foi condenado a pagar uma multa e a tr�s meses de pris�o por roubo de carro, condu��o em estado de embriaguez e recepta��o. No ano seguinte, foi multado por porte ilegal de armas. Em 1990, condenado por um delito contra a moral e os bons costumes, de natureza n�o especificada no registro criminal. Em 1991, processado por amea�as, mas absolvido. No mesmo ano, condenado a multa e a uma pena de pris�o condicional por contrabando de �lcool. Em 1992, pegou tr�s meses por golpes e ferimentos numa amiga, e amea�as � irm� desta �ltima. Ent�o se manteve na linha at� 1997, quando foi condenado por recepta��o e golpes e ferimentos agravados. Dessa feita, pegou dez meses de pris�o.</p><p>Seu irm�o ca�ula, Harry, viera encontr�-lo na Su�cia em 1982, para trabalhar nos anos 1980 como controlador de estoque. Sua ficha criminal mostrava que fora condenado em tr�s ocasi�es. Em 1990, por fraude em seguros; em 1992, a dois anos por golpes e ferimentos agravados, recepta��o, roubo, roubo agravado e estupro. Expulso para a Finl�ndia, voltou � Su�cia em 1996, quando foi novamente condenado a dez meses de pris�o por golpes e ferimentos agravados e estupro. Recorreu, e a corte de apela��o seguiu a linha de defesa de Harry Ranta, absolvendo-o da acusa��o de estupro. Em contrapartida, a condena��o por golpes e ferimentos foi mantida e ele cumpriu seis meses. Em 2000, Harry Ranta foi mais uma vez acusado por amea�as e estupro; a queixosa, por�m, voltou atr�s e o caso foi arquivado.</p><p>Ela obteve os endere�os mais recentes dos dois: Atho Ranta morava em Norsborg e Harry em Alby.</p><p>Paolo Roberto sentiu-se frustrado quando, pela cinquent�sima vez, digitou o n�mero de Miriam Wu e deu caixa postal. Tinha ido ao endere�o da Lundagatan v�rias vezes por dia desde que aceitara a miss�o de se encontrar com ela. A porta do apartamento permanecia fechada.</p><p>Deu uma olhada no rel�gio. Oito e pouco da noite de ter�a-feira. Em algum momento ela teria que voltar para casa. Ele entendia o desejo de Miriam Wu de se manter afastada, mas a imprensa j� tinha se acalmado um pouco. Ele ponderou que, em vez de ficar indo e vindo, poderia se instalar em frente ao pr�dio dela para o caso de ela aparecer, mesmo que s� para pegar uma muda de roupa ou sabe Deus o qu�. Encheu uma garrafa com caf� e preparou uns sandu�ches. Antes de sair de casa, fez o sinal da cruz diante de um crucifixo.</p><p>Estacionou a uns trinta metros da porta do pr�dio da Lundagatan e recuou o banco para dar mais espa�o para as pernas. Ligou o r�dio num volume baixo e grudou no painel uma foto de Miriam Wu recortada de um jornal vespertino. Achava aquela garota um avi�o. Contemplou pacientemente os raros transeuntes. Miriam Wu nunca estava entre eles.</p><p>A cada dez minutos, tentava ligar. Desistiu por volta das nove horas, quando seu celular o alertou de que a bateria estava para acabar.</p><p>Per-Ake Sandstr�m passou a ter�a-feira num estado pr�ximo da apatia. Tinha dormido no sof� da sala, incapaz de ir at� a cama e incapaz de conter os s�bitos acessos de choro que o acometiam regularmente. Na ter�a de manh�, fora at� o Monop�lio dos Espirituosos, no centro de Solna, para comprar um quarto de litro de <emphasis>aquavit,</emphasis> depois voltara para o seu sof� e bebera mais ou menos metade do conte�do.</p><p>S� � noite come�ou a ter consci�ncia do seu estado e se p�s a pensar no que poderia fazer. Queria nunca ter ouvido falar nos irm�os Atho e Harry Ranta e nas suas putas. N�o conseguia entender como tinha sido t�o idiota e se deixado levar para aquele apartamento de Norsborg, onde Atho havia amarrado, de pernas abertas, Ines Hammuj�rvi, de dezesseis anos e altamente drogada, desafiando-o depois a ver quem tinha a ere��o maior. Tinham se alternado, e ele ganhou o concurso executando, durante a noitada, quantidade de performances sexuais de diversos tipos.</p><p>Em dado momento, Ines Hammuj�rvi voltara a si e come�ara a reclamar. Ent�o Atho ficara meia hora batendo nela e fazendo-a beber, e quando ela se acalmara, Atho convidara Per-Ake a prosseguir seus exerc�cios.</p><p><emphasis>Maldita puta.</emphasis></p><p>Como ele tinha sido idiota.</p><p>N�o podia contar com nenhuma compaix�o por parte da Millennium. Eles viviam desse tipo de esc�ndalo.</p><p>Ele morria de medo daquela louca da Salander. Para n�o falar no monstro loiro. Ele n�o podia se dirigir � pol�cia.</p><p>N�o podia se virar sozinho. Seria ilus�o achar que os problemas iam sumir por si s�s.</p><p>S� restava uma t�nue alternativa para obter um pouquinho de simpatia e, quem sabe, algum tipo de solu��o. Percebeu que era uma t�bua de salva��o bem fr�gil.</p><p>Mas era sua �nica possibilidade.</p><p>� tarde, se armou de coragem e discou o n�mero do celular de Harry Ranta. Ningu�m atendeu. Continuou tentando ligar para Harry Ranta at� as dez da noite, e ent�o desistiu. Depois de pensar algum tempo (e se fortalecer com a <emphasis>aquavit</emphasis> que ainda restava), ligou para Atho Ranta. Silvia, a companheira de Atho, atendeu. Foi informado de que os irm�os Ranta estavam de f�rias em Tallinn. N�o, Silvia n�o sabia como entrar em contato com eles. N�o, n�o tinha id�ia de quando eles voltavam - estavam na Est�nia por tempo indeterminado.</p><p>Silvia parecia satisfeita.</p><p>Per-Ake Sandstr�m deixou-se cair no sof�. N�o saberia dizer se estava abatido ou aliviado por Atho n�o estar em casa e, assim, n�o precisar se explicar. Mas a mensagem era clara. Por diversos motivos, os irm�os Ranta tinham baixado a bola e estavam dando um tempo em Tallinn. O que n�o contribuiu para acalmar Per-Ake Sandstr�m.</p></section><section><p><strong><emphasis>25 - TER�A-FEIRA 5 DE ABRIL � QUARTA-FEIRA 6 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Paolo Roberto n�o pegara no sono, mas estava t�o imerso em seus pensamentos que levou alguns segundos para avistar a mulher que vinha chegando a p� da dire��o da igreja de H�galid por volta das onze horas. Avistou-a pelo retrovisor. De in�cio, ela n�o chamou sua aten��o, mas quando passou sob um poste de ilumina��o a cerca de setenta metros atr�s dele, Paolo virou rapidamente a cabe�a e de imediato reconheceu Miriam Wu.</p><p>Endireitou-se no banco. Seu primeiro impulso foi descer do carro. Ent�o percebeu que poderia assust�-la e que o melhor seria esperar ela chegar na frente do pr�dio.</p><p>No exato momento em que essa id�ia lhe ocorreu, viu uma caminhonete escura arrancar mais adiante na rua e frear ao lado de Miriam Wu. Estupefato, Paolo Roberto viu um homem - um brutamontes loiro incrivelmente alto - descer pela porta de correr lateral e agarrar Miriam Wu. Ela foi pega totalmente de surpresa. Tentou se soltar recuando para tr�s, mas o gigante loiro segurava seu bra�o com for�a.</p><p>Paolo ficou boquiaberto ao ver a perna direita de Miriam Wu se erguer e descrever uma curva r�pida. <emphasis>� mesmo, ela pratica kick-boxing.</emphasis> Ela desfechou Pontap� na cabe�a do gigante loiro. O golpe pareceu deix�-lo indiferente. Em compensa��o, levantou a m�o e deu uma bofetada em Miriam Wu. Mesmo de longe, Paolo escutou o som da pancada. Miriam Wu caiu, como atingida por um raio. O gigante loiro se inclinou, pegou-a apenas com uma m�o e jogou-a dentro da caminhonete. S� ent�o Paolo Roberto fechou a boca e caiu em si. Saltou do carro e correu para a caminhonete.</p><p>Logo percebeu a vacuidade do seu gesto. O ve�culo em que Miriam Wu fora jogada feito um saco de batatas arrancou silenciosamente, fez um retorno e afastou-se rua afora antes mesmo que Paolo Roberto ganhasse velocidade. O carro sumiu na dire��o da igreja de H�galid. Paolo correu de volta para o seu carro e se atirou ao volante. Arrancou a toda, tamb�m fez o retorno e seguiu na dire��o da igreja. A caminhonete tinha desaparecido quando ele chegou ao cruzamento. Freou e olhou para o lado da H�galidsgatan, ent�o optou por dobrar � esquerda em dire��o � Hornsgatan.</p><p>Chegando � altura da Hornsgatan, o sinal estava vermelho, mas n�o havia tr�nsito e ele avan�ou um pouco para poder dar uma olhada. Os �nicos far�is traseiros que conseguiu enxergar estavam entrando � esquerda rumo � ponte de Liljeholmen, perto da L�ngholmsgatan. N�o conseguiu ver se era mesmo a caminhonete, mas como era o �nico carro � vista Paolo p�s o p� na t�bua. Foi detido por um sinal fechado na L�ngholmsgatan e obrigado a deixar passar os carros que vinham de Kungsholmen, enquanto os segundos voavam. Quando o cruzamento ficou vazio, pisou fundo no acelerador e atravessou o sinal fechado, rezando para que nenhum carro de pol�cia estivesse por ali para det�-lo justo agora.</p><p>Ultrapassou, e muito, a velocidade permitida na ponte de Liljeholmen e acelerou ainda mais depois que passou a ponte. N�o fazia id�ia de onde poderia estar a caminhonete que avistara e n�o sabia se ela tinha virado na dire��o de Gr�ndal ou de Arsta. Resolveu arriscar mais uma vez e pisou fundo no pedal. Estava a mais de cento e cinquenta quil�metros por hora e passou em disparada pelos motoristas cumpridores da lei, refletindo que mais de um deles devia estar anotando sua placa.</p><p>� altura de Bred�ng, tornou a avistar a caminhonete. Reduziu a dist�ncia entre eles a uns cinquenta metros, para poder conferir se era mesmo o ve�culo certo. Diminuiu a velocidade para noventa quil�metros por hora e se manteve a cerca de duzentos metros da caminhonete. S� ent�o voltou a respirar.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Miriam Wu sentiu sangue escorrendo pelo pesco�o quando caiu dentro da caminhonete. Seu nariz sangrava. A pancada cortara seu l�bio inferior e possivelmente lhe quebrara o nariz. O ataque a pegara totalmente de surpresa e toda a sua resist�ncia fora descartada em menos de um segundo. Sentiu o carro arrancando antes mesmo que seu agressor tivesse tempo de fechar a porta. Por um momento, o gigante loiro perdeu o equil�brio enquanto o carro dava meia-volta.</p><p>Miriam Wu se virou e firmou o quadril no piso. Quando o gigante loiro se virou para ela, desfechou-lhe um pontap�. Atingiu-o na t�mpora. Viu uma marca no lugar onde o salto bateu. O normal seria ele se machucar.</p><p>Ele olhou para ela, chocado. Ent�o sorriu.</p><p><emphasis>Meu Deus, que diabo de Terminator ser� esse?</emphasis></p><p>Ela deu outro pontap�, mas ele agarrou-lhe a perna e torceu seu p� com tanta brutalidade que ela urrou de dor e foi obrigada a virar de bru�os.</p><p>Ent�o ele se inclinou sobre ela e esbofeteou-a com a palma da m�o. Miriam Wu ficou atordoada, como que atingida por uma ma�a. Ele se escanchou nas suas costas. Ela tentou empurr�-lo, mas era t�o pesado que n�o conseguiu demov�-lo um mil�metro sequer. Ele dobrou-lhe brutalmente os bra�os �s costas e prendeu-os com algemas. Ela estava indefesa. De repente, Miriam Wu se sentiu paralisada de medo.</p><p>Mikael Blomkvist passou pelo Globe quando voltava de Tyresj�. Estivera toda a tarde e noitinha visitando tr�s sujeitos da lista de clientes sexuais. N�o dera em absolutamente nada. Topara com indiv�duos apavorados, j� abalados por Dag Svensson e prontos para ver seu mundo ruir. Tinham suplicado, implorado. Mikael riscara todos de sua lista pessoal de assassinos potenciais.</p><p>Ao passar pela ponte de Skanstull pegou o celular e ligou para Erika Berger. Ela n�o atendeu. Tentou Malu Eriksson. Tamb�m n�o atendeu. Droga. Era tarde. Queria conversar com algu�m.</p><p>Perguntou-se se Paolo Roberto tinha descoberto alguma coisa sobre Miriam Wu e discou o n�mero dele. Ouviu tocar cinco vezes antes que Paolo atendesse.</p><p>- Paolo.</p><p>�Oi. � o Blomkvist. S� queria saber como v�o as coisas...</p><p>�Blomkvist, estou... <emphasis>ssscrrp ssscrrp</emphasis> num carro com a Miriam.</p><p>�N�o estou escutando.</p><p><emphasis>�Srcp, scrrrraaaap, scrrraaaap.</emphasis></p><p>�A sua voz est� sumindo. N�o estou escutando. E ent�o a liga��o caiu.</p><p>Paolo Roberto soltou um palavr�o. A bateria do celular acabava de apagar na sua m�o, quando passava por Fittja. Apertou no ON e conseguiu reanimar o aparelho. Discou o n�mero do SOS-Brigada, mas assim que atenderam o celular tornou a desligar.</p><p>Droga.</p><p>Ele tinha um carregador que funcionava no isqueiro do carro, s� que estava em casa, em cima do m�vel do hall. Jogou o celular no banco do passageiro e se concentrou nos far�is traseiros da caminhonete, que ele queria manter na mira. Dirigia uma BMW com tanque cheio e n�o havia a m�nima possibilidade de a maldita caminhonete se distanciar. Mas n�o queria ser notado e deixou o espa�o entre eles crescer v�rias centenas de metros.</p><p><emphasis>Um mastodonte movido a anabolizantes nocauteia uma garota na minha frente. Ainda pego esse canalha para trocar umas palavrinhas com ele.</emphasis></p><p>Se Erika Berger estivesse ali o teria chamado de caub�i mach�o. Paolo Roberto chamava isso de ficar bravo.</p><p>Mikael Blomkvist passou pela Lundagatan e viu que o apartamento de Miriam Wu estava �s escuras. Tentou ligar para Paolo Roberto mais uma vez, s� para ser informado que o n�mero estava indispon�vel. Resmungou um palavr�o e voltou para casa para preparar caf� e sandu�ches.</p><p>O trajeto durou mais tempo do que Paolo Roberto imaginara. Passaram por S�dert�lje, depois pegaram a E20 em dire��o a Str�ngn�s. Um pouco depois de Nykvarn, a caminhonete entrou � esquerda por estradas secund�rias no interior de S�rmland.</p><p>Com isso, aumentava o risco de ele chamar aten��o e ser flagrado. Paolo Roberto tirou o p� do acelerador e abriu mais dist�ncia entre ele e a caminhonete.</p><p>Paolo n�o era muito bom em geografia, mas at� onde podia perceber, passaram a oeste do lago Yngern. Perdeu a caminhonete de vista e acelerou. Chegou a uma linha reta e freou.</p><p>A caminhonete tinha sumido. Estradinha n�o era o que faltava naquele lugar. Ele tinha perdido os canalhas.</p><p>Miriam Wu estava com a nuca e o rosto doendo, mas tinha dominado o p�nico e a ang�stia de se ver assim indefesa. Ele tinha parado de bater nela. Ela se sentara, recostada no banco do motorista. Suas m�os estavam algemadas nas costas e havia uma fita adesiva larga tampando sua boca. Tinha uma narina cheia de sangue e sentia dificuldade em respirar.</p><p>Fitou o gigante loiro. Desde que a tinha amorda�ado, ele n�o dissera uma palavra sequer e a ignorara solenemente. Ela olhou a marca no lugar onde lhe dera o pontap� que em princ�pio deveria ter causado algum estrago. Ele parecia nem ter notado. Isso n�o era normal.</p><p>Ele era alto e tremendamente forte. Seus m�sculos mostravam que ele passava horas por semana numa academia. Mas n�o era para bombar. Os m�sculos pareciam naturais. As m�os lembravam enormes frigideiras. Ela entendeu por que tinha tido a impress�o de levar uma bordoada quando ele a esbofeteara.</p><p>A caminhonete avan�ava aos solavancos numa estrada em m�s condi��es.</p><p>N�o fazia a menor id�ia de onde se encontrava, s� achava que tinham rodado pela E4 na dire��o sul por um bom tempo at� enveredar por estradas menores.</p><p>Sabia que mesmo que estivesse com as m�os soltas n�o teria nenhuma chance contra o gigante loiro. Sentia-se totalmente impotente.</p><p>Malu Eriksson ligou para Mikael pouco depois das onze da noite, quando ele acabava de chegar e ligar a cafeteira. Estava preparando um sandu�che na cozinha.</p><p>�Desculpe eu ligar t�o tarde. Faz horas que estou tentando, voc� n�o atendia.</p><p>�� que eu desliguei o celular enquanto conversava com os clientes sexuais.</p><p>�Achei uma coisa que pode ser interessante.</p><p>�Estou escutando.</p><p>�O Bjurman. Voc� pediu para eu vasculhar o passado dele.</p><p>�Sim.</p><p>�Ele nasceu em 1950 e come�ou o curso de direito em 1970. Formou-se em 1976 e come�ou a trabalhar no escrit�rio Klang &amp; Reine em 1978, antes de abrir seu pr�prio escrit�rio em 1989.</p><p>�Sei.</p><p>�Nesse meio-tempo, entre outras coisas, ele trabalhou um breve per�odo como estagi�rio no tribunal de inst�ncias, s� umas poucas semanas em 1976. Logo depois do exame, em 1976, trabalhou dois anos, at� 1978, como jurista na dire��o geral da Pol�cia Nacional.</p><p>�Sei.</p><p>�Verifiquei as fun��es dele. N�o foi f�cil achar. Mas ele instru�a casos jur�dicos na S�po. Trabalhava na Brigada dos Estrangeiros.</p><p>�Puta merda, repita isso!</p><p>�Em outras palavras, ele deve ter trabalhado l� na mesma �poca que este Bj�rck de Sm�dalar�.</p><p>�Que filho-da-m�e! Bj�rck. Ele n�o me contou que tinha trabalhado com o Bjurman.</p><p>A caminhonete tinha que estar nas redondezas. Paolo Roberto havia ficado t�o para tr�s que em alguns momentos perdera o carro de vista, mas toda vez voltara a localiz�-lo, por alguns segundos, at� perd�-lo de novo. Fez o retorno pelo acostamento e voltou na dire��o norte. Dirigia devagar, atento �s bifurca��es.</p><p>A apenas cento e cinquenta metros, avistou de s�bito um cone de luz brilhando numa brecha em meio � mata. Divisou uma estradinha florestal do outro lado do caminho e virou naquela dire��o. Percorreu uns dez metros e estacionou. N�o se deu ao trabalho de trancar o carro, voltou correndo para a estrada principal e pulou o barranco. Lamentou n�o ter trazido uma lanterna enquanto ziguezagueava entre arbustos e mudas de �rvores.</p><p>A mata formava uma tira estreita rente � estrada e de repente ele se viu num p�tio de cascalhos. Avistou algumas constru��es sombrias e baixas e j� ia se aproximando devagar, quando a ilumina��o sobre o port�o de carregamento se acendeu.</p><p>Paolo se agachou e n�o se mexeu mais. Um segundo depois, uma luz foi acesa dentro de uma das constru��es. O armaz�m media uns trinta metros de comprimento e ostentava uma estreita fileira de janelas no alto da fachada. O p�tio estava cheio de cont�ineres e, � direita, estava estacionado um caminh�o amarelo. Ao lado do caminh�o, avistou um Volvo branco. � luz da ilumina��o externa, percebeu de repente a caminhonete, estacionada apenas vinte e cinco metros adiante.</p><p>Uma porta de passagem abriu-se dentro do port�o de carregamento bem � sua frente. Um homem loiro de barriga grande saiu do armaz�m e acendeu um cigarro. Quando ele virou a cabe�a, Paolo avistou um rabo de cavalo � luz da abertura.</p><p>Paolo n�o mexeu um dedo, joelho apoiado no ch�o. Estava totalmente vis�vel, a menos de vinte metros do homem, mas o clar�o do isqueiro prejudicara sua vis�o noturna. Ent�o, Paolo, e tamb�m o homem, aparentemente, escutou um grito abafado na caminhonete. Quando o rabo de cavalo avan�ou em dire��o ao ve�culo, Paolo, devagar, deitou-se de bru�os.</p><p>Ouviu a porta de correr da caminhonete se abrindo e viu o gigante loiro descer, depois inclinar-se para dentro do ve�culo e tirar de l� Miriam Wu. Pegou-a debaixo do bra�o e carregou-a sem dificuldade, apesar das tentativas dela de se soltar. Os dois homens trocaram algumas palavras, mas Paolo n�o conseguiu ouvir o que diziam. Ent�o o homem do rabo de cavalo abriu a porta do motorista e subiu. Arrancou e atravessou o p�tio, fazendo uma curva apertada. O feixe dos far�is passou a poucos metros de Paolo. A caminhonete desapareceu num caminho de acesso e Paolo escutou o barulho do motor se distanciando.</p><p>Com Miriam Wu debaixo do bra�o, o gigante loiro entrou no armaz�m pela porta de passagem. Em seguida, Paolo viu sua silhueta passando por tr�s das vidra�as. Teve a impress�o que ele se dirigia a uma �rea mais afastada da constru��o.</p><p>Levantou-se, todos os sentidos alertas. Sua roupa estava �mida. Sentia-se ao mesmo tempo aliviado e preocupado. Aliviado por ter� conseguido achar a caminhonete e estar com Miriam Wu ao alcance da m�o, mas tamb�m cheio de respeito pelo preocupante gigante loiro que a tratava como se ela n�o passasse de uma sacola de compras da Konsum. Paolo reparava principalmente em sua enorme estatura e na impress�o de for�a imensa que ele transmitia.</p><p>O mais l�gico teria sido ir embora e chamar a pol�cia. Mas seu celular estava mudo e ele tinha apenas uma vaga id�ia de onde se encontrava; n�o estava certo se conseguiria indicar o caminho para chegar at� ali. Tamb�m n�o fazia a menor id�ia do que estava acontecendo l� dentro com Miriam Wu.</p><p>Devagar, deu um semic�rculo em volta da constru��o e constatou que aparentemente s� havia uma entrada. Dois minutos depois, estava de volta, ciente de que precisava tomar uma decis�o. Paolo j� tinha entendido que o gigante loiro n�o era um mocinho nessa hist�ria. O sujeito tinha nocauteado Miriam Wu. Paolo n�o estava realmente com medo - tinha muita confian�a em si pr�prio e sabia que podia se mostrar eficiente caso fosse preciso chegar �s vias de fato. A quest�o era se o homem l� dentro estava armado, e se havia mais de um. Hesitou. N�o devia haver mais ningu�m.</p><p>O port�o de carregamento, amplo o suficiente para dar passagem ao caminh�o amarelo estacionado l� fora, tinha uma porta de entrada comum, embutida. Aproximou-se dessa porta, pegou na ma�aneta e abriu. Viu-se num grande armaz�m iluminado por umas poucas l�mpadas, cheio de tralhas, caixas rasgadas e material desarrumado.</p><p>Miriam Wu sentia as l�grimas lhe escorrerem no rosto. N�o chorava tanto de dor, e sim de medo. Durante o trajeto, o gigante a ignorara totalmente. Quando a caminhonete parou, ele tinha arrancado a fita adesiva. Erguera-a e carregara-a sem nenhum esfor�o, e a jogara no piso de cimento sem dar ouvidos as suas s�plicas e protestos. Quando olhava para ela, era com um olhar gelado.</p><p>Miriam Wu compreendeu, de repente, que iria morrer naquele armaz�m.</p><p>Ele lhe deu as costas, se aproximou de uma mesa, abriu uma garrafa de �gua mineral e bebeu largos goles. N�o prendera as suas pernas, e Miriam Wu come�ou a se levantar.</p><p>Ele voltou-se para ela e sorriu. Estava mais perto da porta que ela. N�o havia a menor chance de passar na frente dele. Resignada, quedou-se ajoelhada e se enfureceu consigo mesma. <emphasis>Voc� vai ver se eu me rendo sem lutar.</emphasis> Ficou de p� e cerrou os dentes. <emphasis>Vamos l�, seu Terminator idiota!</emphasis></p><p>M�os algemadas atr�s das costas sentiu-se desajeitada e sem equil�brio, mas, quando ele se aproximou, ela come�ou a girar e procurar uma brecha. Desfechou-lhe um pontap� nas costelas, deu uma viravolta e desfechou outro na virilha. Atingiu-o no quadril, recuou um metro e trocou de perna para o golpe seguinte. Com as m�os nas costas, n�o tinha equil�brio suficiente para atingir o rosto, mas tascou-lhe um pontap� vigoroso no peito.</p><p>Ele estendeu uma m�o, agarrou-lhe o ombro e a virou como se ela fosse uma folha de papel. Deu-lhe um soco s�, n�o particularmente forte, na lombar. Miriam Wu urrou enlouquecida quando uma dor paralisante lhe transpassou o diafragma. Caiu de joelhos. Ele ainda lhe deu uma bofetada e ela desmoronou no ch�o. Ele levantou o p� e desferiu-lhe um pontap� no flanco. Ela ficou sem f�lego e ouviu umas costelas se quebrando.</p><p>Paolo Roberto n�o viu aquela surra, mas de repente ouviu Miriam Wu urrar de dor, um grito forte e estridente, logo interrompido. Voltou a cabe�a na dire��o do som e cerrou os dentes. Havia outra sala, atr�s de uma parede divis�ria. Atravessou o local sem fazer ru�do e deu uma olhada cautelosa pela porta entreaberta no instante em que o gigante loiro empurrava Miriam Wu de costas. Ele sumiu alguns segundos de seu campo de vis�o e voltou de repente com uma serra el�trica que depositou no ch�o diante dela. Paolo Roberto franziu o cenho.</p><p>�Quero uma resposta para uma pergunta simples.</p><p>Sua voz era estranhamente aguda, parecia quase a voz de um menino. Paolo notou um sotaque estrangeiro.</p><p>�Onde est� Lisbeth Salander?</p><p>�Eu n�o sei - murmurou Miriam Wu.</p><p>�Essa n�o � a resposta correta. Vou lhe dar uma segunda chance antes de ligar este neg�cio.</p><p>Ele se agachou e deu uns tapinhas na serra el�trica.</p><p>�Onde Lisbeth Salander est� se escondendo? Miriam Wu balan�ou a cabe�a.</p><p>Paolo hesitou. Mas quando o gigante loiro estendeu a m�o para pegar a serra el�trica, deu tr�s passadas decididas sala adentro e enfiou-lhe um gancho de direita na lombar.</p><p>Paolo Roberto n�o se tornara um boxeador mundialmente famoso dando mostras de delicadeza no ringue. Tinha no curr�culo trinta e tr�s lutas profissionais, das quais vencera vinte e oito. Quando batia em algu�m, esperava uma rea��o. Rea��o essa que seria, por exemplo, o algu�m em quest�o cair de joelhos e sentir dor em algum lugar. Desta vez, por�m, teve a sensa��o de ter acertado uma parede de cimento. Nunca vivera nada parecido naqueles anos todos de ringue. Olhou estupefato, para o colosso � sua frente.</p><p>O gigante loiro se virou e encarou Paolo Roberto com igual estupefa��o.</p><p>�O que voc� acha de enfrentar algu�m da sua categoria? - perguntou Paolo Roberto.</p><p>Bateu uma s�rie de direita-esquerda-direita na dire��o do diafragma, botando for�a. Leg�timas bordoadas. E, de novo, teve a impress�o de estar batendo numa parede. O �nico efeito foi o gigante loiro recuar meio passo, mais surpreso do que abalado pela for�a dos golpes. E, s�bito, sua fisionomia se iluminou num sorriso.</p><p>�Voc� � o Paolo Roberto! - disse.</p><p>Paolo estacou, pasmo. Acabava de enfiar quatro golpes que, de acordo com as regras, teriam jogado o gigante loiro no ch�o, e ele pr�prio deveria estar voltando para o seu lado do ringue enquanto o juiz abria a contagem. Nenhum dos golpes parecia ter surtido o menor efeito.</p><p><emphasis>Caramba. Isso n�o � normal.</emphasis></p><p>Depois viu, quase em c�mera lenta, o gancho de direita do loirinho cortar o ar. O cara era lento e seu golpe, previs�vel. Paolo esquivou-se e aparou parcialmente com o ombro esquerdo. Teve a sensa��o de ter sido atingido por um cano de ferro.</p><p>Paolo Roberto recuou dois passos, cheio de um renovado respeito por seu advers�rio.</p><p><emphasis>Algo est� errado. Ningu�m bate desse jeito, porra.</emphasis></p><p>Aparou maquinalmente um gancho de esquerda com o antebra�o e sentiu de chofre uma dor fulgurante. N�o teve tempo de aparar o gancho de direita que surgiu do nada e veio parar em sua testa.</p><p>Feito b�bado, Paolo recuou cambaleando at� a porta. Estatelou-se ruidosamente contra uma pilha de bancos de madeira e balan�ou a cabe�a. Sentiu imediatamente o sangue escorrendo, abundante, no seu rosto. <emphasis>Arrancou-me o superc�lio. V�o ter que me costurar. De novo!</emphasis></p><p>No instante seguinte, o gigante entrou em seu campo de vis�o e Paolo jogou-se instintivamente para o lado. Esquivou por um fio mais uma bordoada do punho imenso. Recuou r�pido tr�s, quatro passos e conseguiu levantar os bra�os em posi��o de defesa. Paolo Roberto estava abalado.</p><p>O gigante loiro fitou-o com olhos curiosos, quase divertidos. Ent�o adotou a mesma posi��o de defesa de Paolo Roberto. � <emphasis>um boxeador.</emphasis> Come�aram lentamente a se cercar.</p><p>Os cento e oitenta segundos que se seguiram foram � luta mais esquisita que Paolo Roberto j� tinha enfrentado. N�o havia cordas nem luvas. Auxiliares e juiz, inexistentes. Nenhum gongo interrompendo a luta e mandando cada combatente para o seu canto do ringue fazer uma pausa de alguns segundos, com �gua, sais de amon�aco e uma toalha para limpar o sangue dos olhos.</p><p>Paolo Roberto entendeu de repente que lutava por sua vida. Todo o treino, todos aqueles anos batendo em sacos de areia, todo o <emphasis>sparring</emphasis> e toda a sua experi�ncia de todas as lutas se concentraram na energia que ele produziu rapidamente enquanto sentia a adrenalina circular como nunca.</p><p>J� n�o punha surdina em seus golpes. Ele e o advers�rio se enfrentavam numa luta em que Paolo investia toda a sua for�a e todos os seus m�sculos. Esquerda, direita, esquerda, esquerda de novo e um <emphasis>jab</emphasis> de direita no rosto, se abaixar para o gancho de esquerda, um passo atr�s, ataque de direita. Cada golpe desferido por Paolo Roberto atingia o advers�rio.</p><p>Estava enfrentando a luta mais importante de sua vida. Brigava tanto com o c�rebro como com os punhos. Conseguia se abaixar e evitar cada golpe que o gigante desfechava.</p><p>Aplicou-lhe um pur�ssimo gancho de direita no maxilar, que deveria ter derrubado o advers�rio no ch�o. Teve a sensa��o de rebentar os ossos da m�o. Olhou para as suas juntas e viu que estavam cobertas de sangue. Observou vermelh�es e hematomas no rosto do gigante loiro. O advers�rio de Paolo dava a impress�o de nem perceber os golpes.</p><p>Paolo recuou e fez uma pausa enquanto avaliava o advers�rio. <emphasis>Ele n�o � boxeador. Movimenta-se como um boxeador, mas est� a dez mil milhas de saber lutar boxe. Est� fazendo de conta. N�o sabe aparar. Ele telegrafa seus golpes. E � incrivelmente lento.</emphasis></p><p>No instante seguinte, o gigante enfiou um gancho de esquerda na caixa tor�cica de Paolo. Foi seu segundo lance s�rio. Paolo sentiu a dor atravessando seu corpo quando as costelas estalaram. Tentou recuar e trope�ou na tralha espalhada no ch�o e caiu de costas. No espa�o de um segundo, viu o gigante se erguer � sua frente, mas teve tempo de rolar para o lado e em seguida se p�r de p�, meio atordoado.</p><p>Recuou e tentou concentrar for�as.</p><p>O gigante vinha mais uma vez para cima dele, mas Paolo j� estava na defensiva. Esquivou, esquivou de novo e recuou. Sentia dor toda vez que aparava um golpe com o ombro.</p><p>Ent�o chegou o momento que todo boxeador j� experimentou, assustado, uma vez ou outra. Uma sensa��o que pode surgir bem no meio da luta. A sensa��o de n�o estar dando conta. A certeza. <emphasis>Droga estou perdendo.</emphasis></p><p>� o momento decisivo de quase todas as lutas de boxe.</p><p>O momento em que, s�bito, falta for�a e a adrenalina circula t�o depressa que vira uma carga paralisante, e uma capitula��o resignada aparece no ringue, qual fantasma. � o momento que distingue o amador do profissional, o vencedor do perdedor. Poucos boxeadores, ao enfrentarem esse abismo, encontram for�a suficiente para reverter � luta e transformar em vit�ria uma derrota garantida.</p><p>Paolo Roberto foi tomado por essa certeza. Experimentou-a como um s�bito fr�mito na cabe�a que o atordoou totalmente, e viveu aquele instante como se observasse a cena de fora, como se olhasse para o gigante loiro atrav�s da lente de uma c�mera fotogr�fica. Naquele momento, era ganhar ou morrer.</p><p>Paolo Roberto recuou, descrevendo um amplo semic�rculo para concentrar for�as e ganhar tempo. O gigante seguiu-o. met�dica mas lentamente, como se soubesse que o fim j� estava dado e quisesse estender o <emphasis>round. Ele est� boxeando, s� que n�o sabe boxear. Ele sabe quem eu sou. Quer acabar comigo. A for�a dele � quase inconceb�vel e ele parece totalmente insens�vel aos golpes.</emphasis></p><p>Os pensamentos giravam num turbilh�o pela cabe�a de Paolo enquanto ele tentava avaliar a situa��o e decidir o que fazer.</p><p>S�bito, reviveu a noite de Mariehamn, dois anos antes. Sua carreira profissional se encerrara de maneira brutal no seu encontro com o argentino Sebasti�n Luj�n. Experimentara o primeiro K. O. de sua vida e ficara desacordado durante quinze minutos.</p><p>Tinha repensado in�meras vezes no que havia dado errado. Ele estava em excelente forma. Estava concentrado. Sebasti�n Luj�n n�o era melhor que ele. Mas o argentino conseguira desfechar um golpe perfeitamente puro, e de repente o <emphasis>round</emphasis> se transformara em naufr�gio.</p><p>Mais tarde, no v�deo, vira a si mesmo titubeando indefeso. O <emphasis>knock-out</emphasis> acontecera vinte e tr�s segundos depois.</p><p>Sebasti�n Luj�n n�o era melhor que ele, nem mais bem treinado. A margem era t�o t�nue que o resultado da luta poderia perfeitamente ter sido o inverso.</p><p>A �nica diferen�a que ele via, a posteriori, � que Sebasti�n Luj�n havia sido mais guloso. Quando Paolo subiu ao ringue em Mariehamn, queria vencer, mas n�o estava com vontade de boxear. J� n�o era, para ele, uma quest�o de vida ou morte. Uma derrota n�o seria nenhuma trag�dia.</p><p>Um ano e meio depois, continuava boxeando. N�o era mais profissional e s� aceitava lutas amistosas como <emphasis>sparring.</emphasis> Mas ele ainda treinava. N�o ganhara peso nem exibia pneuzinhos na cintura. N�o era, evidentemente, um instrumento t�o afinado como �s v�speras de uma luta por um t�tulo, com o corpo exercitado meses a fio, mas era <emphasis>Paolo Roberto</emphasis> e tinha, sim, muito brio. E, � diferen�a daquela de Mariehamn, esta luta no armaz�m ao sul de Nykvarn era literalmente de vida ou morte.</p><p>Paolo Roberto se decidiu de repente. Estacou e deixou o gigante loiro chegar bem perto. Fintou com o esquerdo e investiu tudo o que tinha num gancho de direita. Jogou todas as suas for�as e explodiu num golpe que atingiu boca e nariz. Seu ataque foi totalmente inesperado, depois de ter batido em retirada por tanto tempo. Enfim, ouviu alguma coisa cedendo. Completou com esquerdo-direito-esquerdo e desferiu os tr�s golpes em pleno rosto.</p><p>O gigante loiro lutava em c�mera lenta e ripostou com o direito. Telegrafou o golpe com muita anteced�ncia, Paolo percebeu e se abaixou diante do punho imenso. Viu quando ele passou o peso para o outro lado e notou que o gigante pretendia continuar com o esquerdo. Em vez de aparar, Paolo se inclinou para tr�s e deixou o gancho de esquerda passar na frente de seu nariz. Respondeu com um golpe poderoso no lado do corpo, logo abaixo das costelas. Quando o gigante se esquivou para aparar o ataque, mais uma vez surgiu o gancho de esquerda de Paolo, abatendo-se em seu nariz.</p><p>Ent�o sentiu que tudo o que fazia estava certo e que detinha o absoluto controle do combate. O inimigo, por fim, recuava. Sangrava pelo nariz. N�o sorria mais.</p><p>Ent�o o gigante loiro deu um pontap�.</p><p>O p� veio e pegou Paolo Roberto totalmente de surpresa. Por for�a do h�bito, Paolo entrara em ritmo normal de boxe e n�o esperava o pontap�. Foi como uma martelada na lateral da coxa, logo acima do joelho, e uma dor fulgurante perpassou sua perna. <emphasis>N�o.</emphasis> Deu um passo atr�s quando a perna direita cedeu e trope�ou mais uma vez nos tro�os espalhados pelo ch�o.</p><p>O gigante olhou para ele. Por um breve segundo, seus olhos se encontraram. A mensagem era clara. A <emphasis>luta terminara.</emphasis></p><p>Ent�o os olhos do gigante se arregalaram quando Miriam Wu lhe desfechou um pontap� por tr�s, no meio das pernas.</p><p>Cada m�sculo do corpo de Miriam Wu do�a, mas de algum modo ela tinha conseguido passar as m�os algemadas por baixo das n�degas, ficando assim com as m�os na frente do corpo. No seu estado, foi uma fa�anha de acrobacia e tanto.</p><p>Sentia dor nas costelas, na nuca, nas costas, na lombar, e s� a muito custo pusera-se de p�. Por fim, cambaleou em dire��o � porta e, estupefata, viu Paolo Roberto - <emphasis>de onde saiu esse a�? -</emphasis> atingir o gigante com seu gancho de direita, depois a seq��ncia de golpes no rosto antes de ser ceifado pelo pontap�.</p><p>Miriam Wu percebeu que n�o estava minimamente interessada em saber como e por que Paolo Roberto tinha aparecido ali. Ele era do time dos mocinhos. Pela primeira vez na vida, experimentou o desejo assassino de machucar algu�m. Deu alguns passos r�pidos e mobilizou suas �ltimas migalhas de energia e os m�sculos que ainda estavam intactos. Avan�ou para o gigante pelas costas e enfiou-lhe um pontap� entre as pernas. N�o era, decerto, o boxe tailand�s segundo as regras da arte, mas o pontap� surtiu efeito.</p><p>Miriam Wu meneou a cabe�a consigo mesma, com ar entendido. Os caras at� podiam ser do tamanho de uma casa e feitos de granito, mas suas bolas ficavam sempre no mesmo lugar. E seu pontap� tinha sido t�o puro que deveria ser registrado no <emphasis>Livro Guinness dos recordes.</emphasis></p><p>Pela primeira vez o gigante loiro pareceu abalado. Soltou um gemido, levou a m�o aos genitais e caiu de joelhos.</p><p>Miriam ficou um ou dois segundos indecisa, at� se dar conta de que tinha que prosseguir e tentar acabar com aquilo. Optou por um pontap� na cara, mas ele conseguiu erguer um bra�o. Normalmente, seria imposs�vel ele se recuperar t�o depressa. E era como chutar o tronco de uma �rvore. Ele agarrou bruscamente o seu p�, derrubou-a e come�ou a pux�-la para si. Ela viu o punho dele se levantar, contorceu-se desesperadamente e deu um golpe com sua perna livre. Atingiu-o na orelha no exato instante em que o soco se abatia em sua t�mpora. Miriam Wu teve a sensa��o de ter dado de cabe�a numa parede. Viu estrelas e tudo ficou preto diante de seus olhos.</p><p>O gigante loiro come�ou a se levantar.</p><p>Foi ent�o que Paolo Roberto acertou a cabe�a dele com a t�bua na qual trope�ara. O gigante loiro caiu duro, batendo no ch�o com estardalha�o.</p><p>Paolo Roberto contemplou o armaz�m com uma sensa��o de irrealidade. O gigante loiro se contorcia no ch�o. Miriam Wu estava com os olhos vidrados e parecia totalmente nocauteada. Os esfor�os conjuntos dos dois lhes concediam uma tr�gua moment�nea.</p><p>Paolo Roberto tinha dificuldade em se apoiar na perna machucada, desconfiava que um m�sculo cedera logo acima do joelho. Manquejou at� Miriam Wu e colocou-a de p�. Ela come�ou a se mexer, mas o olhar que lhe dirigiu estava muito incerto. Sem uma palavra, ele puxou-a sobre o ombro e, mancando, se encaminhou para a porta. A dor no joelho direito era tanta que ele vez ou outra pulava numa perna s�.</p><p>Foi uma liberta��o ver-se l� fora, no ar escuro e frio. Mas nem pensar em parar. Atravessou o p�tio de cascalho e penetrou na mata, refazendo o caminho por onde viera. Assim que chegou no meio das �rvores, trope�ou na raiz de um pinheiro ca�do e desabou. Miriam Wu gemeu e ele ouviu a porta do armaz�m se abrindo ruidosamente.</p><p>O gigante loiro apareceu, silhueta monumental no ret�ngulo iluminado da abertura da porta. Paolo p�s uma m�o sobre a boca de Miriam Wu. Inclinou-se e sussurrou em seu ouvido que ficasse em absoluto sil�ncio.</p><p>Ent�o tateou o ch�o em volta da raiz e achou uma pedra, maior que seu punho fechado. Fez o sinal da cruz. Pela primeira vez em sua vida pecadora, Paolo Roberto estava preparado para matar um ser humano. Machucado e maltratado como estava, n�o aguentaria mais um <emphasis>round.</emphasis> Mas ningu�m, nem aquele monstro loiro que era uma aberra��o da natureza, podia lutar com a cabe�a quebrada. Ele apertou a pedra na m�o e sentiu que ela tinha forma oval e uma borda afiada.</p><p>O gigante loiro foi at� a esquina da constru��o e, dali, deu uma volta ampla pelo p�tio. Parou a menos de dez metros de Paolo, que prendia a respira��o. O gigante escutou, espreitou - mas n�o podia saber para que lado eles tinham se esvanecido noite adentro. Depois de espiar alguns minutos, pareceu entender a inutilidade do seu gesto. Entrou na constru��o a passos r�pidos, ausentando-se um ou dois minutos. Apagou a luz, saiu com uma sacola e dirigiu-se para o Volvo branco. Arrancou a toda e disparou pelo caminho de acesso. Paolo ficou escutando em sil�ncio, at� o ru�do do motor sumir ao longe. Baixou o olhar e viu os olhos de Miriam cintilando no escuro.</p><p>�Ol�, Miriam - disse. �Meu nome � Paolo Roberto, e voc� n�o precisa ter medo de mim.</p><p>�Eu sei.</p><p>A voz dela estava fraca. Esgotado, ele se recostou na imensa raiz e sentiu refluir, no seu corpo, o n�vel da adrenalina.</p><p>�N�o sei como vou fazer para chegar l� - disse Paolo -, mas estou com um carro estacionado do outro lado da estrada. A uns cento e cinquenta metros daqui.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>O gigante loiro freou e entrou numa �rea de parada na estrada a leste de Nykvan. Estava chacoalhado, abalado, e sentia uma coisa estranha na cabe�a.</p><p>Era a primeira vez na vida que apanhava numa briga. E o homem que lhe passara o corretivo era Paolo Roberto... o famoso boxeador. Parecia um sonho absurdo, do tipo que ele �s vezes tinha em noites agitadas. N�o conseguia entender de onde Paolo Roberto surgira. Ele simplesmente aparecera do nada no armaz�m.</p><p>Uma coisa totalmente insana.</p><p>Ele n�o sentira os golpes de Paolo Roberto. Isso n�o o surpreendia. Mas sentira o pontap� entre as pernas. E o tremendo golpe na cabe�a quase o nocauteara. Com os dedos, apalpou a nuca e encontrou um galo enorme. Apertou, e n�o sentiu nenhuma dor. Mesmo assim, sua cabe�a rodava. Surpreso, ao tatear com a l�ngua notou que perdera um dente da arcada superior. Sua boca estava com gosto de sangue. Segurou o nariz com o polegar e o indicador, e movimentou-o devagar. Ouviu um estalo na cabe�a e constatou que o nariz estava quebrado.</p><p>Agira corretamente ao pegar a sacola e sair do armaz�m antes que a pol�cia chegasse. Mas cometera um erro colossal. Tinha visto no Discovery Channel que os investigadores eram capazes de achar grande quantidade de provas m�dico-legais no local de um crime. Sangue. Cabelos, DNA<strong>.</strong></p><p>N�o estava com a menor vontade de voltar para o armaz�m, mas n�o tinha escolha. Precisava fazer uma faxina. Deu meia-volta e saiu em sentido contr�rio. Pouco antes de chegar a Nykvarn, cruzou com um carro sem nem prestar aten��o nele.</p><p>O trajeto de volta a Estocolmo foi um pesadelo. Paolo Roberto estava com sangue nos olhos e tinha apanhado tanto que seu corpo lhe fazia sofrer um mart�rio. Ia dirigindo de qualquer jeito e percebeu que ziguezagueava de um lado para o outro da estrada. Enxugou os olhos com uma m�o e apalpou o nariz devagarinho. Estava doendo muito mesmo, e ele s� conseguia respirar pela boca. Espreitava constantemente um Volvo branco, e teve a impress�o de ter cruzado com um perto de Nykvarn.</p><p>Ao chegar � E20, ficou mais f�cil dirigir. Pensou em parar em S�dert�lje, mas n�o tinha id�ia de onde poderia ir. Deu uma olhada em Miriam Wu, ainda algemada e arriada, sem cinto de seguran�a, no banco traseiro. Tivera que carreg�-la at� o carro, e ela tinha desmaiado assim que foi puxada para dentro. N�o sabia se estava desacordada por causa dos ferimentos ou se tinha simplesmente se desconectado de pura exaust�o. Hesitou. Por fim, pegou a E4 em dire��o a Estocolmo.</p><p>Mikael Blomkvist estava dormindo havia apenas uma hora quando o telefone come�ou a tocar. Olhou o rel�gio, viu que eram pouco mais de quatro da manh� e se esticou para atender, ainda sonolento. Era Erika Berger. De in�cio, n�o entendeu o que ela dizia.</p><p>�Onde � que est� o Paolo Roberto?</p><p>�No hospital de S�der, com a Miriam Wu. Ele tentou te ligar, mas voc� n�o atendeu o celular e ele n�o tem o n�mero do seu telefone fixo.</p><p>�Desliguei o celular. O que ele est� fazendo no hospital? A voz de Erika Berger estava paciente, mas firme.</p><p>�Mikael. Pegue um t�xi e v� correndo at� l� ver o que foi. Ele estava completamente confuso quando me ligou, falou numa serra el�trica, numa casa no meio do mato e num monstro que n�o sabia lutar boxe.</p><p>Mikael pestanejou, sem entender. Ent�o balan�ou a cabe�a e estendeu o bra�o para pegar a cal�a.</p><p>Paolo Roberto parecia p�ssimo, deitado de cuecas numa maca. Fazia mais de uma hora que Mikael esperava para v�-lo. O nariz estava tapado por um curativo. O olho esquerdo estava todo inchado e a sobrancelha ostentava um esparadrapo cir�rgico no lugar em que levara cinco pontos de sutura. Tinha uma bandagem em volta das costelas e ferimentos e arranh�es no corpo inteiro. O joelho esquerdo estava envolto numa atadura bem apertada.</p><p>Mikael Blomkvist lhe ofereceu caf� num copinho de papel�o da m�quina do corredor, e examinou seu rosto com jeito cr�tico.</p><p>�Voc� est� parecendo um carro depois de uma batida - disse. �Me conte o que aconteceu.</p><p>Paolo Roberto balan�ou a cabe�a e seu olhar cruzou com o de Mikael.</p><p>�Puta de um monstro - ele disse.</p><p>�O que aconteceu?</p><p>Paolo Roberto balan�ou mais uma vez a cabe�a e olhou para os pr�prios punhos. As juntas estavam t�o machucadas que ele mal conseguia segurar o copinho. Tinham lhe aplicado curativos. A mulher dele apreciava o boxe com restri��es e ia ficar furiosa.</p><p>�Eu sou um boxeador - disse. �Quero dizer, quando eu estava na ativa, n�o tinha medo de entrar num ringue contra quem quer que fosse. Levei boas bordoadas, sei dar e receber. Quando ataco algu�m, � para o cara cair e sentir dor.</p><p>�E n�o foi isso que aconteceu.</p><p>Paolo Roberto balan�ou a cabe�a pela terceira vez. Contou calmamente, em detalhes, os acontecimentos daquela noite.</p><p>�Eu acertei o cara umas trinta vezes, pelo menos. Catorze, quinze vezes na cabe�a. Atingi o maxilar quatro vezes. No come�o, me contive; n�o queria matar, s� me defender. No fim, dei absolutamente tudo de mim. Um golpe meu teria que ter quebrado o maxilar dele. E o puta do monstro s� se sacudiu um pouco e continuou batendo. Porra de merda, aquilo n�o era um ser humano normal.</p><p>�Como � que ele �?</p><p>�Tem a estrutura de um rob� antitanque. N�o estou exagerando. Mede mais de dois metros e deve pesar uns cento e trinta, cento e quarenta quilos. N�o estou brincando quando eu digo que ele � puro m�sculo e tem uma ossatura de cimento armado. Um puta gigante loiro que simplesmente n�o sente dor.</p><p>�Voc� nunca o tinha visto antes?</p><p>�Nunca. N�o � um boxeador. Mas, estranhamente, ainda assim � um boxeador.</p><p>�O que voc� quer dizer?</p><p>Paolo Roberto refletiu um instante.</p><p>�Ele ignora tudo de boxe. Eu podia fintar e obrigar ele a abrir a guarda, e ele n�o tinha a menor id�ia de como se movimentar para evitar os golpes. N�o dava uma dentro. Mas, ao mesmo tempo, tentava se movimentar igual a um boxeador. Levantava o bra�o do jeito certo e ficava o tempo todo em posi��o de partida, feito um boxeador de verdade. Parecia que j� tinha treinado boxe, s� que sem escutar nada do que os treinadores falavam.</p><p>�Certo.</p><p>�O que salvou a minha vida, e a vida da garota, � que ele se movimentava superdevagar. Mandava uns <emphasis>swings</emphasis> de amador, avisando com meses de anteced�ncia, de modo que eu conseguia esquivar ou aparar. Levei dois murros: um na cara, e voc� pode ver o resultado, e outro no corpo, que me quebrou uma costela. Mas foram dois quase-golpes. Se ele tivesse se posicionado direitinho, teria me arrancado a cabe�a.</p><p>Paolo Roberto come�ou a rir de repente. Um riso estrondoso.</p><p>�O que foi?</p><p>�Eu venci. Esse louco varrido tentou me matar, e eu venci. Consegui derrub�-lo. Mas tive que usar a merda de uma t�bua para dar o que ele merecia.</p><p>Tornou a ficar s�rio.</p><p>�Se a Miriam Wu n�o tivesse chutado as bolas dele na hora certa, vai saber como isso teria acabado.</p><p>�Paolo, estou muito, muito feliz por voc� ter vencido esta luta. A Miriam Wu vai dizer a mesma coisa quando acordar. Voc� tem alguma informa��o sobre o estado dela?</p><p>�Est� mais ou menos do mesmo jeito que eu. Concuss�o cerebral, v�rias costelas partidas, nariz quebrado e um estrago nos rins.</p><p>Mikael se inclinou e p�s a m�o no joelho de Paolo Roberto.</p><p>�Se algum dia voc� precisar de um favor... - disse Mikael. Paolo Roberto meneou a cabe�a e sorriu suavemente.</p><p>�Blomkvist, se voc� precisar de mais um favor...</p><p>�Sim.</p><p>�...chame o Sebasti�n Luj�n.</p></section><section><p><strong><emphasis>26 - QUARTA-FEIRA 6 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>O inspetor criminal Jan Bublanski estava de p�ssimo humor quando se encontrou com Sonja Modig no estacionamento do hospital de S�der, pouco antes das sete da manh�. Tinha sido acordado pelo telefonema de Mikael Blomkvist. Depois de alguns instantes, compreendera que algo dram�tico tinha acontecido durante a noite e, por sua vez, tinha ligado e acordado Modig. Encontraram Mikael no hall e foram juntos at� o quarto de Paolo Roberto.</p><p>Bublanski estava custando a assimilar todos os detalhes, mas acabou por entender que Miriam Wu tinha sido raptada e Paolo Roberto tinha dado uma surra no raptor. Isto posto, ao olhar mais de perto para o ex-boxeador profissional, n�o ficava claro quem tinha dado uma surra em quem. No que dizia respeito a Bublanski, os acontecimentos da noite tinham al�ado a investiga��o sobre Lisbeth Salander a um novo patamar de complica��o. Nada, na porra daquele caso, parecia normal.</p><p>Sonja Modig fez a primeira pergunta pertinente, querendo saber como Paolo Roberto tinha entrado na trama.</p><p>�Eu sou amigo de Lisbeth Salander. Bublanski e Modig trocaram um olhar c�tico.</p><p>�E o senhor a conhece de onde?</p><p>�Salander era minha <emphasis>sparring-partner</emphasis> nos treinos.</p><p>Bublanski fixou os olhos num ponto da parede atr�s de Paolo Roberto. Sonja Modig caiu numa risada repentina e inconveniente. Ou seja, nada nesse caso parecia normal, simples e descomplicado. Mesmo assim, tinham aos poucos tomado nota de todos os fatos.</p><p>�Agora eu gostaria de fazer umas observa��es - disse Mikael Blomkvist,</p><p>seco.</p><p>Todos olharam para ele.</p><p>�Primeiro. A descri��o do homem ao volante da caminhonete corresponde � descri��o que eu fiz da pessoa que agrediu Lisbeth Salander, exatamente no mesmo local, na Lundagatan. Um cara alto e loiro, com rabo de cavalo e um barrig�o. Certo?</p><p>Bublanski meneou a cabe�a.</p><p>�Segundo. O objetivo desse rapto era obrigar Miriam Wu a revelar o esconderijo de Lisbeth Salander. Logo, os dois bonit�es loiros est�o atr�s da Salander desde pelo menos uma semana antes dos assassinatos. Entendido?</p><p>Modig fez que sim com a cabe�a.</p><p>�Terceiro. Se existem outros personagens nesta hist�ria, Lisbeth Salander n�o � mais a �demente solit�ria� que quiseram pintar.</p><p>Nem Bublanski nem Modig retrucaram.</p><p>�Vai ficar dif�cil argumentar que o cara de rabo de cavalo � membro de um grupo de l�sbicas sat�nicas.</p><p>Modig esbo�ou um sorriso.</p><p>�E quarto, para concluir. Acho que esta hist�ria tem alguma coisa a ver com um sujeito chamado Zala. O Dag Svensson estava se concentrando nele nas duas �ltimas semanas. Todas as informa��es est�o no computador dele. O Dag Svensson associava o tal Zala ao assassinato, em S�dert�lje, de uma prostituta chamada Irina Petrova. A aut�psia revelou que ela sofreu viol�ncias graves. T�o graves que pelo menos tr�s ferimentos foram mortais. 0 relat�rio da aut�psia � vago no que toca ao instrumento utilizado para mat�-la, mas os ferimentos s�o surpreendentemente parecidos com a viol�ncia sofrida pela Miriam Wu e o Paolo. O instrumento, no caso, poderia ser as m�os de um gigante loiro.</p><p>�E o Bjurman? - perguntou Bublanski. �At� aceito que algu�m pudesse ter um motivo para silenciar o Dag Svensson. Mas quem poderia ter um motivo para eliminar o tutor de Lisbeth Salander?</p><p>�N�o sei. As pe�as do quebra-cabe�a n�o est�o todas no lugar, mas em algum ponto existe um elo entre o Bjurman e o Zala. � a �nica explica��o plaus�vel. O que voc�s acham de come�ar a desenvolver outro racioc�nio? Se a Lisbeth Salander n�o for culpada, isso significa que outra pessoa cometeu os assassinatos. Acho que esses crimes t�m alguma coisa a ver com o com�rcio do sexo. E a Salander preferiria morrer a se envolver numa coisa desse tipo. Eu j� disse, ela � de uma moralidade inabal�vel.</p><p>�Neste caso, qual seria o papel dela?</p><p>�N�o sei. Testemunha? Advers�ria? Ela talvez tenha aparecido em Enskede para avisar o Dag e a Mia que a vida deles corria perigo. N�o esque�am que ela � uma investigadora excepcional.</p><p>Bublanski p�s a engrenagem para funcionar. Ligou para a pol�cia de S�dert�lje e passou o itiner�rio fornecido por Paolo Roberto, pedindo que achassem um armaz�m desativado a sudeste do lago Yngern. Depois, ligou para o inspetor Jerker Holmberg - que morava em Flemingsberg e era quem estava mais pr�ximo, portanto, de S�dert�lje - pedindo que fosse, mais depressa que um raio, se encontrar com a pol�cia de S�dert�lje para assisti-los no exame do local.</p><p>Jerker Holmberg ligou uma hora mais tarde. Acabava de chegar ao local. A pol�cia de S�dert�lje localizara sem dificuldades o armaz�m. Ele acabava de se incendiar totalmente, com mais dois galp�es existentes no mesmo terreno, e os bombeiros estavam apagando o que sobrara do fogo. N�o havia d�vida de que fora um inc�ndio criminoso - dois gal�es de gasolina tinham sido encontrados nos escombros.</p><p>Bublanski sentiu uma frustra��o muito pr�xima da f�ria.</p><p>Que baderna era aquela? Quem era esse gigante loiro? Quem era de fato Lisbeth Salander? E por que era t�o imposs�vel encontr�-la?</p><p>A situa��o n�o ficou nada melhor quando o procurador Richard Ekstr�m veio participar da reuni�o das nove horas. Bublanski fez um relat�rio dos tr�gicos acontecimentos daquela noite. Sugeriu que se dessem outras prioridades � investiga��o, j� que alguns fatos misteriosos tinham vindo complicar o roteiro que servia de base aos trabalhos.</p><p>O relato de Paolo Roberto s� veio refor�ar a hist�ria da agress�o de Lisbeth Salander na Lundagatan. Com isso, perdia for�a a hip�tese de que os assassinatos eram um ato de loucura cometido por uma mulher sozinha e doente mental. Isso n�o significava que Lisbeth Salander estivesse livre das suspeitas que pesavam sobre ela - para tanto, precisavam primeiro encontrar uma explica��o plaus�vel para as suas digitais na arma do crime -, mas significava que a investiga��o agora tinha de se concentrar seriamente na possibilidade de um outro culpado. Nesse caso, s� existia uma hip�tese por enquanto: a teoria de Mikael Blomkvist segundo a qual os homic�dios tinham rela��o com as iminentes revela��es de Dag Svensson sobre o com�rcio sexual. Bublanski apresentou tr�s pontos fundamentais.</p><p>A tarefa mais importante no momento consistia em identificar o homem alto e loiro e seu c�mplice de rabo de cavalo, que tinham raptado e torturado Miriam Wu. O homem alto e loiro tinha um aspecto f�sico t�o peculiar que n�o deveria ser dif�cil encontr�-lo.</p><p>Curt Bolinder observou, com pertin�ncia, que Lisbeth Salander tamb�m tinha um aspecto f�sico peculiar e que depois de tr�s semanas de buscas a pol�cia ainda ignorava totalmente seu paradeiro.</p><p>A segunda tarefa implicava em a dire��o das investiga��es ter de destacar um grupo para se concentrar ativamente na suposta lista de clientes sexuais existente no computador de Dag Svensson. Havia nisso um problema log�stico. Sem d�vida, o grupo de investiga��o estava de posse do computador da <emphasis>Millennium</emphasis> utilizado por Dag Svensson, e dos backups em discos ZIP do <emphasis>lap-top</emphasis> desaparecido, mas eles continham pesquisas acumuladas em v�rios anos, eram literalmente milhares de p�ginas que eles levariam um tempo enorme para catalogar e entender. O grupo precisava de um refor�o, e Bublanski imediatamente designou Sonja Modig para dirigir as opera��es.</p><p>A terceira tarefa consistia em focalizar uma pessoa desconhecida chamada Zala. Para tanto, a equipe pediria ajuda ao grupo especial de investiga��o sobre o crime organizado, que avisara j� ter topado com esse nome em v�rias oportunidades. A tarefa foi confiada a Hans Faste.</p><p>Por fim, Curt Bolinder coordenaria o prosseguimento das buscas a Lisbeth Salander.</p><p>O relat�rio de Bublanski durou apenas seis minutos, mas desencadeou uma discuss�o de uma hora. Hans Faste estava irredut�vel em sua resist�ncia a Bublanski, e n�o procurou disfar�ar. Isso muito surpreendeu Bublanski, que decerto nunca gostara de Faste mas sempre o tivera como um policia] competente.</p><p>Hans Faste julgava que a investiga��o devia se concentrar em Lisbeth Salander, pouco importando todas aquelas informa��es secund�rias. Segundo ele, o conjunto de ind�cios contra Salander era t�o claro que no momento seria um absurdo se meter a buscar culpados alternativos.</p><p>�Quero dizer, isso tudo � puro blablabl�. Temos um caso psiqui�trico que s� veio se confirmando ano ap�s ano. Voc� acha realmente que todos os relat�rios do hospital psiqui�trico e do m�dico legista s�o pura brincadeira? Ela est� ligada ao local do crime. Temos provas de que roda bolsinha e tem uma quantia alta de dinheiro n�o declarado na conta banc�ria.</p><p>�Estou ciente disso.</p><p>�Ela participa de uma esp�cie de culto l�sbico do sexo. E ponho a m�o no fogo como essa outra sapat�o, a Cilla Nor�n, sabe mais do que est� dizendo.</p><p>Bublanski elevou a voz.</p><p>�Faste. Pare com isso. Voc� est� completamente obcecado pela perspectiva gay. N�o est� sendo profissional.</p><p>Lamentou imediatamente ter se pronunciado diante do grupo em vez de conversar a s�s com Faste. O procurador Ekstr�m interrompeu a discuss�o. Parecia indeciso sobre o rumo a ser tomado. Por fim, declarou que a linha de Bublanski era v�lida; passar por cima dele eq�ivaleria a afast�-lo do comando da investiga��o.</p><p>�Vamos fazer o que o Bublanski decidiu.</p><p>Bublanski deu uma olhada para Steve Bohman e Niklas Eriksson, da Milton Security.</p><p>�Pelo que entendi, voc�s s� est�o dispon�veis por mais tr�s dias, temos que aproveitar. Bohman, voc� vai ajudar o Curt Bolinder na busca de Lisbeth Salander. Eriksson, voc� continua com a Modig.</p><p>Ekstr�m refletiu um instante e levantou a m�o quando todo mundo estava prestes a sair.</p><p>�Outra coisa. Essa hist�ria do Paolo Roberto fica entre n�s. A m�dia vai ficar hist�rica se entrar outra celebridade na investiga��o. Portanto, nenhuma palavra sobre isso fora desta sala.</p><p>Sonja Modig foi ter com Bublanski logo depois da reuni�o.</p><p>�Perdi a paci�ncia com o Faste. N�o foi muito profissional da minha parte - disse Bublanski.</p><p>�Eu sei como � - ela sorriu. �Comecei a trabalhar no computador do Svensson na segunda-feira.</p><p>�Eu sei. Em que p� est�o as coisas?</p><p>�H� l� uma d�zia de vers�es do manuscrito dele, uma quantidade enorme de documentos de pesquisa, e est� dif�cil decidir o que � importante e o que n�o tem nenhum interesse. Vou precisar de dias e dias s� para abrir e percorrer todos os arquivos.</p><p>�Niklas Eriksson?</p><p>Sonja Modig hesitou. Ent�o se virou e fechou a porta da sala de Bublanski.</p><p>�N�o quero jogar o cara na lama, mas francamente ele n�o tem sido muito �til.</p><p>Bublanski franziu o cenho.</p><p>�Diga l�.</p><p>�N�o sei. Ele n�o � um policial de verdade, como o Bohman j� foi. Fala um monte de bobagem, demonstra mais ou menos a mesma postura que o Hans Faste em rela��o a Miriam Wu, e a miss�o n�o parece ter grande interesse para ele. N�o consigo perceber o que �, mas est� na cara que ele tem algum problema com a Lisbeth Salander.</p><p>�Ou seja?</p><p>�Tenho a sensa��o de que algo podre est� fermentando em algum lugar.</p><p>Bublanski meneou a cabe�a devagar.</p><p>�Sinto muito. O Bohman � legal, mas, para ser sincero, n�o gosto de ter pessoas de fora na investiga��o.</p><p>Sonja Modig meneou a cabe�a.</p><p>�Ent�o, o que a gente faz?</p><p>�Voc� vai ter que aguentar at� o final da semana. O Armanskij j� disse que eles v�o parar se n�o houver nenhum resultado. V� l�, comece a pesquisar e conforme-se em fazer tudo sozinha.</p><p>Sonja Modig interrompeu sua pesquisa quarenta e cinco minutos depois de come�ar, quando foi afastada da investiga��o. Foi repentinamente convocada � sala do procurador Ekstr�m, onde Bublanski j� se encontrava. Os dois homens estavam vermelhos. O jornalista <emphasis>freelancer</emphasis> Tony Scala acabava de publicar o furo de que Paolo Roberto tinha livrado a sapatona sadomas� Miriam Wu de um sequestrador. O texto continha v�rios detalhes que nenhuma pessoa alheia � investiga��o poderia conhecer. Insinuava que a pol�cia considerava a possibilidade de indiciar Roberto por golpes e ferimentos agravados.</p><p>Ekstr�m j� havia recebido v�rios telefonemas de jornalistas pedindo esclarecimentos sobre o papel do boxeador. Estava a ponto de surtar quando acusou Sonja Modig de ser a respons�vel pelo vazamento. Modig recha�ou prontamente a acusa��o, mas foi in�til. Ekstr�m fazia quest�o de afast�-la da investiga��o. Bublanski estava furioso. Sem nenhuma hesita��o, tomou o partido de Modig.</p><p>�A Sonja est� dizendo que n�o foi ela que deixou vazar. Para mim � o suficiente. � loucura afastar uma investigadora experiente, que j� est� perfeitamente por dentro do caso.</p><p>Ekstr�m retrucou com escancarada desconfian�a em rela��o � Sonja Modig. Por fim, sentou-se � sua mesa e fechou-se num mutismo irredut�vel. N�o houve como faz�-lo mudar de id�ia.</p><p>�Modig, n�o posso provar que voc� � a respons�vel pelos vazamentos, mas n�o tenho a menor confian�a em voc� nesta investiga��o. A partir deste momento considere-se afastada. Tire uns dias de folga at� o final da semana. Na segunda-feira, vai ser encaminhada para outra miss�o.</p><p>Modig n�o tinha escolha. Meneou a cabe�a e dirigiu-se para a porta. Bublanski a deteve.</p><p>�Sonja. Quero afirmar alto e bom som: n�o acredito um segundo sequer nesta acusa��o, e voc� tem toda a minha confian�a. Mas n�o sou eu quem decide. Passe na minha sala antes de ir para casa.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a. Ekstr�m parecia furioso. A fisionomia de Bublanski adquirira uma colora��o preocupante.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Sonja Modig voltou para sua sala, onde ela e Niklas Eriksson estavam trabalhando no computador de Dag Svensson. Sentia-se furiosa e prestes a cair no choro. Eriksson olhou-a dissimuladamente, notou que algo n�o estava bem, mas n�o disse nada e ela o ignorou. Sentou-se � sua mesa e ficou olhando para a frente. Um sil�ncio pesado tomou conta da sala.</p><p>Por fim, Eriksson se desculpou e disse que precisava ir ao banheiro. Perguntou se queria que ele lhe trouxesse um caf�. Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>Depois que ele saiu, ela se levantou, vestiu a jaqueta, pegou a bolsa e foi at� a sala de Bublanski. Ele lhe indicou a cadeira dos visitantes.</p><p>�Sonja, eu n�o vou largar essa hist�ria de m�o, a menos que o Ekstr�m me afaste da investiga��o tamb�m. N�o aceito o que est� acontecendo e pretendo ir at� o fim. Por enquanto voc� fica, por ordem minha. Entendeu?</p><p>Ela meneou a cabe�a.</p><p>�N�o vai ficar o resto da semana em casa como o Ekstr�m mandou. Eu lhe ordeno que v� � reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> e converse mais uma vez com o Mikael Blomkvist. Depois, pe�a simplesmente para ele guiar voc� pelo disco r�gido do Dag Svensson. Eles t�m uma c�pia l� na <emphasis>Millennium.</emphasis> A gente vai ganhar muito tempo se tiver algu�m que j� conhe�a o material e possa eliminar os dados desimportantes.</p><p>Sonja Modig respirava um pouco melhor.</p><p>�Eu n�o falei nada para o Niklas Eriksson.</p><p>�Eu cuido disso. Ele vai ficar com o Curt Bolinder. Voc� viu o Hans Faste, por acaso?</p><p>�N�o. Ele saiu de manh�, logo depois da reuni�o. Bublanski suspirou.</p><p>Mikael Blomkvist deixara o hospital de S�der por volta das oito horas e voltara para casa. Percebeu que nem de longe preenchera sua cota de sono e era absolutamente necess�rio que estivesse em boa forma para a entrevista daquela tarde com Gunnar Bj�rck em Sm�dalaro. Despiu-se e p�s o despertador para tocar �s dez e meia, o que lhe deu duas horas de um sono bem merecido. Ao acordar, tomou um banho, fez a barba e vestiu uma camisa limpa antes de sair. Acabava de passar pela pra�a de Gullmarsplan, quando Sonja Modig ligou para o seu celular. Mikael respondeu que tinha um compromisso e n�o podia v�-la de jeito nenhum. Ela explicou o que queria e ele a encaminhou para Erika Berger.</p><p>Sonja Modig foi at� a reda��o da <emphasis>Millennium.</emphasis> Observou Erika Berger e concluiu que gostava daquela mulher assertiva e segura de si, com suas covinhas e sua franja loira curta. Erika lembrava um pouco uma Laura Palmer com mais idade. Perguntou-se, saindo um pouco do assunto, se Berger tamb�m era l�sbica, j� que, segundo Hans Faste, todas as mulheres desta investiga��o pareciam ter esta orienta��o sexual, depois lembrou de ter lido em algum lugar que ela era casada com o artista Lars Beckman. Erika escutou seu pedido de ajuda para percorrer o conte�do do disco r�gido de Dag Svensson. Pareceu incomodada.</p><p>�S� tem um problema - disse Erika Berger.</p><p>�Diga - disse Sonja Modig.</p><p>�N�o que a gente n�o queira que os assassinatos sejam esclarecidos, ou n�o queira colaborar com a pol�cia. Ali�s, voc�s j� est�o com todo o material do computador do Dag Svensson. O problema � um dilema �tico. M�dia com pol�cia n�o d� um bom casamento.</p><p>�Acredite. Pude entender isso muito bem hoje de manh� - Sonja Modig sorriu.</p><p>�Como assim?</p><p>�Nada. Foi s� uma observa��o.</p><p>�Certo. Para manter sua credibilidade, a imprensa deve observar uma dist�ncia bem clara em rela��o �s autoridades. Os jornalistas que andam pelas delegacias colaborando nas investiga��es policiais acabam virando lacaios da pol�cia.</p><p>�J� cruzei com alguns tipos assim - disse Modig. �Se entendi bem, a rec�proca tamb�m � verdadeira. Policiais que viram lacaios de alguns jornais.</p><p>Erika Berger riu.</p><p>�� verdade. Infelizmente, devo informar que aqui na <emphasis>Millennium</emphasis> a gente simplesmente n�o tem recursos para praticar este tipo de jornalismo interesseiro. N�o estamos falando de um interrogat�rio dos colaboradores da <emphasis>Millennium -</emphasis> a gente acataria sem discutir - e sim de um pedido formal para que a <emphasis>Millennium</emphasis> colabore ativamente na investiga��o colocando � disposi��o seu material jornal�stico. Sonja Modig meneou a cabe�a.</p><p>�Existem dois aspectos. Primeiro, trata-se do assassinato de um colaborador desta revista. Por esse prisma, � evidente que vamos fornecer toda a ajuda que voc�s pedirem. Mas o outro aspecto � que existem coisas que n�o podemos entregar � pol�cia. Falo das nossas fontes.</p><p>�Eu sei ser flex�vel. Posso me comprometer a proteger as fontes de voc�s. Ali�s, elas n�o me interessam.</p><p>�N�o se trata das suas boas inten��es e nem da confian�a que temos em voc�. Trata-se do fato de que nunca se revela uma fonte, qualquer que seja a circunst�ncia.</p><p>�Certo.</p><p>�E tamb�m existe o fato de que, aqui na <emphasis>Millennium,</emphasis> estamos fazendo nossa pr�pria investiga��o sobre os assassinatos, o que deve ser encarado como um trabalho jornal�stico. Estou pronta a fornecer informa��es � pol�cia quando tivermos algo para publicar. Mas n�o antes.</p><p>Erika Berger franziu a testa e refletiu. Por fim, meneou a cabe�a, pensativa, e prosseguiu.</p><p>�Mas eu tamb�m tenho que conseguir me olhar no espelho. Vamos fazer assim... Voc� vai trabalhar com a nossa colaboradora Malu Eriksson. Ela conhece muito bem o material e tem a compet�ncia necess�ria para definir os limites. Ela fica encarregada de guiar voc� pelo livro do Dag Svensson, do qual voc� j� tem uma c�pia. O objetivo ser� estabelecer um invent�rio compreens�vel das pessoas que podemos considerar suspeitos em potencial.</p><p>Irene Nesser desconhecia o drama que se desenrolara naquela noite quando pegou o trem de sub�rbio de S�dra Station para S�dert�lje. Vestia uma jaqueta de couro semilonga, cal�as escuras e um pul�ver vermelho bem-cuidado. Usava �culos, erguidos sobre a cabe�a.</p><p>Em S�dert�lje, achou o �nibus para Str�ngn�s e comprou uma passagem para Stallarholmen. Desceu ao sul de Stallarholmen pouco depois das onze da manh�. Estava num ponto de �nibus e dali n�o avistava nenhuma habita��o. Visualizou mentalmente o mapa. O lago M�laren ficava poucos quil�metros a nordeste, e pelo campo se espalhavam v�rias casas de veraneio, mas tamb�m algumas habitadas o ano inteiro. A propriedade do Dr. Nils Bjurman situava-se numa zona de casas de veraneio, a cerca de tr�s quil�metros do ponto do �nibus. Tomou um gole de �gua da garrafa pl�stica e se p�s a caminho. Chegou quarenta e cinco minutos depois.</p><p>Primeiro deu uma volta pelo lugar, s� para ter uma id�ia da vizinhan�a. � direita, a casa mais pr�xima ficava a mais de cento e cinquenta metros. N�o havia ningu�m. � esquerda, estendia-se um fosso comprido. Passou mais duas casas antes de chegar a uma aldeiazinha de veraneio, onde o �nico sinal de presen�a humana era uma janela aberta e o som de um r�dio. Mas isso era a trezentos metros da casa de Bjurman. Poderia trabalhar com relativa tranq�ilidade.</p><p>Tinha trazido as chaves encontradas no apartamento de Bjurman e n�o teve dificuldade para entrar. Sua primeira provid�ncia foi abrir uma veneziana nos fundos, o que lhe oferecia uma sa�da de emerg�ncia em caso de problema pela frente. O problema que ela imaginava era algum tira de repente ter a id�ia de visitar a casa.</p><p>A casa de Bjurman era uma constru��o antiga e pequena que comportava uma sala, um quarto e uma cozinha integrada com �gua corrente. A toalete ficava nos fundos do jardim. Lisbeth passou vinte minutos vasculhando arm�rios, roupeiros e c�modas. N�o achou nenhum peda�o de papel relacionado com Lisbeth Salander ou Zala.</p><p>Por fim, saiu para o jardim e examinou a toalete e um dep�sito de lenha. N�o havia nada interessante e nenhum documento. Tinha feito aquela viagem por nada.</p><p>Sentou-se nos degraus da entrada, tomou �gua e comeu uma ma��.</p><p>Quando passou pelo hall para fechar a veneziana, seu olhar topou com uma escada de alum�nio. Voltou para a sala e examinou o teto de lambri. O al�ap�o do s�t�o, entre duas vigas, era praticamente invis�vel. Foi buscar a escada, abriu o al�ap�o e deparou de imediato com cinco arquivos A4.</p><p>O gigante loiro estava aborrecido. As coisas tinham dado errado e ocorrera uma sucess�o de cat�strofes.</p><p>Sandstr�m tinha entrado em contato com os irm�os Ranta. Apavorado, contara que Dag Svensson estava preparando uma reportagem revelando as hist�rias de puta dele e denunciando os irm�os Ranta. At� a�, o problema n�o era t�o grande. A imprensa denunciar Sandstr�m n�o afetava o gigante loiro, e os irm�os Ranta poderiam ficar na moita por uns tempos. Eles ent�o cruzaram o Mar B�ltico a bordo do <emphasis>Baltic Star</emphasis> para tirar umas f�rias. Havia pouca chance de essas bobagens acabarem no tribunal, mas, se acontecesse o pior, eles saberiam se virar. Estava estipulado no contrato.</p><p>Em compensa��o, Lisbeth Salander tinha conseguido escapar de Magge Lundin. N�o dava para entender, j� que a Salander era do tamanho de uma boneca se comparada a Lundin, e a miss�o dele se limitava a enfi�-la num carro e lev�-la at� o armaz�m ao sul de Nykvarn.</p><p>Depois, Sandstr�m recebera outra visita, e desta vez Dag Svensson estava na pista de Zala. Isso mudava completamente a situa��o. Entre o p�nico de Bjurman e a bisbilhotice de Dag Svensson, criara-se uma situa��o potencialmente perigosa.</p><p>Um amador � um g�ngster que n�o est� preparado para assumir as conseq��ncias. Bjurman era um completo amador. O gigante loiro desaconselhara Zala a ter qualquer tipo de neg�cio com Bjurman. Mas, para Zala, o nome de Lisbeth Salander era irresist�vel. Ele odiava Salander. Era algo absolutamente irracional. Agira por impulso.</p><p>Tinha sido puro acaso o gigante loiro estar na casa de Bjurman na noite em que Dag Svensson ligou. O mesmo jornalista escroto que j� tinha criado problema com Sandstr�m e os irm�os Ranta. O gigante tinha ido at� l� para acalmar o advogado, ou amea��-lo se necess�rio, por causa do rapto falhado de Lisbeth Salander, e o telefonema de Svensson deixara Bjurman num p�nico tremendo. Ele se mostrara tapado e irredut�vel. E de repente quis cair fora.</p><p>Para completar, Bjurman foi buscar aquele rev�lver de caub�i dele para amea��-lo. O gigante loiro encarou Bjurman, pasmo, e arrancou-lhe a arma. Estava de luvas e n�o corria o risco de deixar impress�es digitais. Na verdade, n�o tivera escolha, uma vez que Bjurman come�ara a amarelar.</p><p>Bjurman sabia da exist�ncia de Zala. E nesse sentido representava um fardo. O gigante loiro n�o saberia explicar por que tinha obrigado Bjurman a tirar a roupa, a n�o ser pelo fato de querer deixar bem claro o quanto o detestava. Quase fraquejou ao ver a tatuagem em sua barriga:</p><p><strong>SOU</strong><strong>UM</strong><strong>PORCO</strong><strong>S�DICO</strong><strong>,</strong><strong>UM</strong><strong>CANALHA</strong><strong>ESTUPRADOR</strong><strong>.</strong></p><p>Por um breve instante, quase sentiu pena de Bjurman. Era um idiota completo. Mas o gigante loiro atuava num ramo em que n�o podia permitir que tais sentimentos secund�rios viessem perturbar as atividades pr�ticas. Levara-o, portanto, at� o quarto, obrigara-o a se ajoelhar e ent�o usara um travesseiro como silenciador.</p><p>Ficara cinco minutos vasculhando o apartamento de Bjurman, vendo se havia algo que pudesse ser um elo com Zala. A �nica coisa que encontrou foi o n�mero de seu pr�prio celular. Por precau��o, pegara o celular de Bjurman.</p><p>Dag Svensson era o problema seguinte. Quando encontrassem Bjurman morto, Dag Svensson obviamente iria ligar para a pol�cia. Poderia contar que Bjurman fora assassinado poucos minutos depois de eles terem falado ao telefone a respeito de Zala. N�o era preciso muita imagina��o para ver que aquilo transformaria Zala em objeto de amplas especula��es.</p><p>O gigante loiro se considerava um cara esperto, mas tinha um respeito enorme pelo tem�vel talento estrat�gico de Zala.</p><p>Eles trabalhavam em colabora��o havia quase doze anos. Tinha sido uma d�cada frut�fera, e o gigante loiro via Zala com respeito, quase como um mentor. Podia ficar horas escutando Zala discorrer sobre a natureza humana e suas fraquezas, e como tirar vantagem delas.</p><p>De repente, por�m, os neg�cios tinham dado para balan�ar. As coisas estavam come�ando a sair errado.</p><p>Fora direto da casa de Bjurman para Enskede e estacionara o Volvo branco duas quadras adiante. Por sorte, a porta do hall n�o estava bem fechada. Subira e tocara a campainha da porta identificada como Svensson-Bergman.</p><p>N�o tivera tempo de vasculhar o apartamento nem de pegar documentos. Dera dois tiros - havia tamb�m uma mulher no apartamento. Depois, pegou o computador de Dag Svensson na mesa da sala, deu meia-volta, desceu a escada, foi at� o carro e saiu de Enskede. Seu �nico furo tinha sido deixar cair o rev�lver na escada enquanto tentava pegar a chave do carro ao mesmo tempo que equilibrava o computador, tudo para ganhar tempo. Detivera-se por um d�cimo de segundo, mas o rev�lver tinha rolado pela escada do por�o e ele achou que ia demorar muito se tentasse recuper�-lo. Sabia muito bem que as pessoas se lembravam dele depois de v�-lo uma vez, e o mais importante era sumir dali antes que algu�m o visse.</p><p>O rev�lver perdido lhe valera uma reprimenda de Zala. Mas ambos tiveram a maior surpresa da vida quando a pol�cia se lan�ou atr�s de Lisbeth Salander. A arma transformara-se assim num feliz e inacredit�vel acaso.</p><p>Infelizmente, ela criava tamb�m mais um problema. Salander era o �nico elo fr�gil que restava. Conhecia Bjurman e conhecia Zala. Sabia somar dois mais dois. Zala e ele concordaram quando discutiram o assunto. Precisavam encontrar Salander e enterr�-la em algum lugar. Seria perfeito se nunca a encontrassem. A investiga��o dos assassinatos iria aos poucos para os arquivos e se cobriria de poeira.</p><p>Tinham apostado que Miriam Wu os levaria at� Salander. E, de repente, tudo dera errado de novo. <emphasis>Paolo Roberto.</emphasis> Entre tanta gente. Surgido do nada. E, segundo a imprensa, era igualmente amigo de Lisbeth Salander.</p><p>O gigante loiro estava at�nito.</p><p>Depois de Nykvarn, havia buscado ref�gio na casa de Magge Lundin em Svavelsj�, a apenas poucas centenas de metros do quartel-general do MC Svavelsj�. N�o era o esconderijo ideal, mas ele n�o tinha muita alternativa e precisava a todo custo de um lugar para se entocar at� que sumissem os hematomas do seu rosto e que ele pudesse deixar discretamente a regi�o de Estocolmo. Mexeu no nariz quebrado e apalpou o galo na nuca. J� n�o estava t�o inchado.</p><p>Ele fizera bem em voltar l� e atear fogo naquela droga toda. Era sempre bom fazer uma faxina ao sair.</p><p>De repente, ficou paralisado.</p><p><emphasis>Bjurman. Ele se encontrara com Bjurman uma vez, muito rapidamente, na casa de campo dele, perto de Stallarholmen, no in�cio de fevereiro, quando Zala concordara em se encarregar da Salander. Bjurman possu�a um arquivo, que ele tinha folheado, com documentos sobre Salander. Droga, como � que ele tinha deixado passar isso? O arquivo poderia levar at� Zala.</emphasis></p><p>Ele desceu at� a cozinha e explicou a Magge Lundin por que este devia ir com a maior urg�ncia at� Stallarholmen e acender mais um braseiro.</p><p>O inspetor criminal Bublanski dedicou seu intervalo de almo�o tentando colocar ordem naquela investiga��o que, ele sentia, estava saindo dos trilhos. Passou um bom tempo com Curt Bolinder e Steve Bohman, coordenando a ca�ada a Lisbeth Salander. Tinham chegado novas pistas de G�teborg e Norrk�ping, entre outros. G�teborg foi rapidamente eliminada, mas a pista de Norrk�ping tinha um ligeiro potencial. Passaram a informa��o para os colegas de l� e destacaram uma vigil�ncia discreta num endere�o em que fora assinalada a presen�a de uma garota que lembrava Lisbeth Salander.</p><p>Tentou ter uma conversa diplom�tica com Hans Faste, mas este n�o estava na casa e n�o atendia o celular. Depois da reuni�o tumultuada daquela manh�, Faste tinha sumido, espumando de raiva.</p><p>Ent�o Bublanski se confrontou com o chefe das investiga��es preliminares, Richard Ekstr�m, para tentar resolver o problema Sonja Modig. Gastou um bom tempo expondo as raz�es objetivas que o levavam a achar uma insensatez afast�-la da investiga��o. Ekstr�m negou-se a ouvir e Bublanski resolveu deixar passar o fim de semana antes voltar a tocar naquele assunto idiota. A rela��o entre o chefe das investiga��es e o chefe do inqu�rito preliminar estava ficando insustent�vel.</p><p>Pouco depois das tr�s, ele passou no corredor e viu Niklas Eriksson saindo da sala de Sonja Modig, onde ele ainda estava revisando o conte�do do disco r�gido de Dag Svensson. O que, na opini�o de Bublanski, tinha se tornado absurdo j� que Eriksson n�o contava mais com um leg�timo funcion�rio da pol�cia para auxili�-lo na pesquisa. Resolveu juntar Niklas Eriksson e Curt Bolinder pelo resto da semana.</p><p>Mas, antes que eles tivessem tempo de trocar uma palavra, Eriksson desapareceu no banheiro no fim do corredor. Bublanski co�ou a orelha e se aproximou da sala de Sonja Modig para aguardar a volta de Eriksson. Em p� diante da porta aberta, contemplou a cadeira vazia de Sonja.</p><p>Ent�o seu olhar bateu no celular de Niklas Eriksson, largado na prateleira atr�s da mesa de trabalho.</p><p>Bublanski hesitou um segundo e deu uma olhada em dire��o � porta do banheiro, ainda fechada. Depois, cedendo a um impulso, entrou na sala, pegou o celular, voltou a passos r�pidos para sua pr�pria sala e fechou a porta atr�s de si. Percorreu a lista de chamadas feitas.</p><p>�s 9h57, cinco minutos antes de acabar a tumultuada reuni�o daquela manh�, Niklas Eriksson ligara para um n�mero com prefixo 070. Bublanski pegou o telefone fixo de sua mesa e discou o n�mero. O jornalista Tony Scala atendeu.</p><p>Ele desligou e ficou olhando o celular de Eriksson. Depois, se levantou fei��es alteradas pela raiva. Tinha dado dois passos em dire��o � porta quando o telefone de sua mesa tocou. Voltou e rugiu o seu nome no aparelho.</p><p>�� o Jerker. Continuo aqui no armaz�m de Nykvarn.</p><p>�Ah, �?</p><p>�O inc�ndio acabou. J� faz duas horas que estamos examinando o local. A pol�cia de S�dert�lje mandou trazerem um cachorro para farejar a �rea, para o caso de haver algu�m entre os escombros.</p><p>�E?</p><p>�N�o havia ningu�m. Mas fizeram um intervalo para o cachorro descansar um pouco o focinho. Diz o adestrador que � necess�rio, porque no local de um inc�ndio os cheiros s�o realmente muito fortes.</p><p>�V� logo ao que interessa.</p><p>�Ele foi dar uma volta e soltou o cachorro um pouco mais adiante. 0 bicho se manifestou uns setenta e cinco metros atr�s do armaz�m, j� no meio do mato. Cavaram. Faz dez minutos, acharam uma perna humana, com p� e sapato. Tudo indica que � um sapato de homem. Os peda�os n�o estavam enterrados muito fundo.</p><p>�Droga! Jerker, voc� tem que...</p><p>�J� assumi o comando das opera��es no local da descoberta e interrompi a escava��o. Quero um m�dico legista e t�cnicos de verdade antes de continuar.</p><p>�Excelente trabalho, Jerker.</p><p>�N�o � s� isso. H� uns cinco minutos, o cachorro voltou a se manifestar, a uns cem metros do primeiro ponto.</p><p>Lisbeth Salander tinha feito caf� no fog�o de Bjurman, comido outra ma�� e passado duas horas lendo, p�gina por p�gina, a investiga��o que Bjurman fizera sobre ela. Estava impressionada. Ele pusera um bocado de energia na tarefa e sistematizara as informa��es como se se tratasse de um apaixonante passatempo. Encontrara informa��es a seu respeito de cuja exist�ncia ela pr�pria ignorava.</p><p>Leu o di�rio de Holger Palmgren com sentimentos contradit�rios. Eram dois blocos de anota��es encadernados. Ele come�ara a redigir aquelas notas quando ela tinha quinze anos e acabava de fugir de sua segunda fam�lia adotiva, um casal idoso de Sigtuna, cujo marido era soci�logo e a mulher, escritora de livros infantis. Lisbeth tinha ficado doze dias com eles, sentira que eles estavam extremamente orgulhosos por cumprirem uma obra social ao se compadecerem dela, e esperavam que ela expressasse uma profunda gratid�o. Lisbeth n�o aguentou quando sua m�e adotiva absolutamente tempor�ria se autoelogiara para uma vizinha, destacando a import�ncia de tomar conta de jovens com problemas manifestos. <emphasis>N�o sou uma porcaria de um projeto social,</emphasis> ela queria gritar toda vez que sua m�e adotiva a exibia aos amigos. Passados doze dias, roubara cem coroas do cofrinho do casal e pegara o �nibus para Upplands-V�sby, e em seguida o trem de sub�rbio para Estocolmo. A pol�cia a encontrara seis semanas depois, refugiada na casa de um vov� de sessenta e sete anos em Haninge.</p><p>Ele tinha sido correto. Oferecera-lhe teto e comida. Ela n�o precisou fazer muita coisa em troca. Ele queria olhar para ela pelada. Jamais encostava em Lisbeth. Ela sabia que o velho era considerado um ped�filo, mas nunca sentira nenhuma amea�a da parte dele. Via-o como uma criatura fechada e socialmente deficiente. Posteriormente, chegava at� a sentir um estranho sentimento de parentesco quando pensava nele. Os dois viviam completamente � margem.</p><p>Um vizinho acabara reconhecendo-a e alertara a pol�cia. Uma assistente social fizera esfor�os imensos para convenc�-la a dar queixa por abuso sexual. Ela se negara obstinadamente a admitir que acontecera alguma coisa impr�pria, e de todo modo tinha quinze anos e j� era sexualmente maior de idade. <emphasis>V�o se catar!</emphasis> Em seguida, Holger Palmgren interviera e a tirara de l�. Palmgren come�ara a escrever um di�rio sobre ela, no que parecia uma tentativa frustrada de lidar com suas pr�prias d�vidas. As primeiras frases tinham sido registradas em dezembro de 1993.</p><p>L. parece, definitivamente, ser a menina mais dif�cil que j� conheci. A quest�o � saber se estou agindo certo ao me opor a uma nova interna��o no Sankt Stefan. Ela j� deu cabo de duas fam�lias adotivas em tr�s meses e corre um risco evidente de sofrer conseq��ncias por suas fugas. Tenho que decidir se desisto, ou n�o, desta miss�o e se pe�o que ela seja encaminhada a especialistas. N�o sei o que seria bom ou mau. Hoje tive uma conversa s�ria com ela.</p><p>Lisbeth recordava cada palavra daquela conversa s�ria. Era v�spera de Natal. Holger Palmgren a levara para sua casa e lhe oferecera o quarto de h�spedes. Preparara um espaguete � bolonhesa para o jantar, depois a convidara a se sentar no sof� da sala, sentando-se ele pr�prio numa cadeira diante dela. Ela se perguntara vagamente se Palmgren tamb�m ia querer v�-la pelada. Em vez disso, ele falara com ela como se ela fosse adulta.</p><p>Foi um mon�logo de duas horas. Ela mal respondeu a suas perguntas. Ele explicou as coisas da vida real, ou seja, que ela agora podia optar entre ser novamente internada em Sankt Stefan ou ir morar com uma fam�lia adotiva. Prometeu que tentaria achar uma fam�lia adequada para ela e exigiu que ela aceitasse a escolha dele. Tinha resolvido convid�-la a passar o Natal com ele para lhe dar tempo de pensar em seu futuro. A escolha era toda dela, mas no dia seguinte ao Natal, o mais tardar, ele esperava uma resposta e uma promessa. Ela teria de prometer que, caso tivesse algum problema, recorreria a ele em vez de fugir. Depois disso mandou-a para a cama e sentou-se para escrever as primeiras linhas do seu di�rio sobre Lisbeth Salander.</p><p>A amea�a - a op��o de ser mandada de volta para o Sankt Stefan depois do Natal - lhe causava mais medo do que Holger Palmgren seria capaz de imaginar. Ela passou um Natal infeliz, espreitando, desconfiada, os m�nimos gestos de Palmgren. No dia seguinte, ele ainda n�o tinha tentado bulir com ela, nem dera sinal de querer espi�-la disfar�adamente. Pelo contr�rio, ficara furioso quando ela o provocara, indo nua do quarto de h�spedes at� o banheiro. Ele tinha fechado a porta do banheiro com for�a, num gesto seco. Por fim, ela lhe fizera as promessas que ele exigia. E cumprira com sua palavra. Mais ou menos...</p><p>No di�rio, Palmgren comentava metodicamente cada um de seus encontros. Ora em tr�s linhas, ora com p�ginas inteiras de reflex�es. Alguns trechos deixaram-na estupefata. Palmgren era mais perspicaz do que ela suspeitara e, vez ou outra, acrescentava pequenos coment�rios sobre situa��es em que ela tentara engan�-lo e que ele notara perfeitamente.</p><p>Em seguida, abriu o relat�rio policial de 1991.</p><p>De repente, as pe�as do quebra-cabe�a se encaixaram. Teve a sensa��o de que o ch�o come�ava a balan�ar.</p><p>Leu o relat�rio m�dico-legal escrito por um tal de dr. Jesper H. L�derman, no qual um certo dr. Peter Teleborian era uma das principais refer�ncias.</p><p>L�derman tinha sido o trunfo do procurador quando este tentara mandada internar por ocasi�o da sua maioridade.</p><p>Ent�o achou um envelope contendo uma correspond�ncia entre Peter Teleborian e Gunnar Bj�rck. As cartas datavam de 1991, pouco depois que Todo o Mal acontecera.</p><p>Nada nas cartas era dito de modo expl�cito, mas de repente um al�ap�o se abriu sob os p�s de Lisbeth Salander. Levou alguns minutos para entender todas as implica��es. Gunnar Bj�rck referia-se a uma prov�vel conversa particular. A carta era formulada de maneira impec�vel, mas nas entrelinhas Bj�rck dizia que seria bom para todo mundo se Lisbeth Salander passasse o resto da vida trancada num asilo de loucos.</p><p>� importante que a menina tome um recuo em rela��o � situa��o atual. Eu n�o saberia avaliar seu estado ps�quico nem os cuidados de que ela necessita, mas quanto mais ela puder ser mantida numa institui��o, menores ser�o os riscos de que ela involuntariamente crie problemas no caso que nos preocupa.</p><p>O <emphasis>caso que nos preocupa.</emphasis></p><p>Lisbeth Salander avaliou a express�o por um instante.</p><p>Peter Teleborian fora o respons�vel por seu tratamento em Sankt Stefan. N�o tinha sido por acaso. S� pelo tom da correspond�ncia, ela j� podia concluir que essas cartas nunca haviam sido escritas para se tornar p�blicas.</p><p>Peter Teleborian conhecia Gunnar Bj�rck.</p><p>Lisbeth Salander mordeu o l�bio inferior enquanto refletia. Nunca havia investigado Teleborian, mas ele iniciara sua carreira no Instituto M�dico-Legal, e a pr�pria S�po vez ou outra precisava consultar m�dicos legistas ou psiquiatras em diferentes investiga��es. Compreendeu, de s�bito, que se come�asse a fu�ar, encontraria algum elo. Em algum momento, no in�cio da carreira de Teleborian, seu caminho se cruzara com o de Bj�rck. Quando Bj�rck precisara de algu�m para enterrar Lisbeth Salander, dirigira-se a Teleborian.</p><p>Era assim que as coisas tinham acontecido. O que at� ent�o parecera puro acaso assumia de repente outra dimens�o.</p><p>Permaneceu um bom tempo parada, fitando um ponto � frente. N�o existem inocentes. S� existem diferentes graus de responsabilidade. E havia algu�m respons�vel por Lisbeth Salander. Ela, sem d�vida nenhuma, precisava dar uma chegada a Sm�dalar�. Imaginou que ningu�m no irrepreens�vel sistema judici�rio do Estado estaria disposto a discutir o assunto com ela e que, portanto, na falta de op��o melhor, uma conversa com Gunnar Bj�rck j� serviria.</p><p>A perspectiva desse encontro j� a deixava satisfeita.</p><p>N�o precisava levar todos os arquivos. Uma vez lidos, ficavam indelevelmente gravados em sua mem�ria. Pegou os dois di�rios de Holger Palmgren, o relat�rio policial de Bj�rck de 1991, a investiga��o m�dico-legal de 1996 que servira de base para declar�-la incapaz, assim como a correspond�ncia entre Peter Teleborian e Gunnar Bj�rck. Sua mochila ficou abarrotada.</p><p>Fechou a porta e ainda n�o tinha dado a volta na chave quando escutou o barulho de uma moto. Olhou em volta. Era tarde demais para tentar se esconder, e sabia que n�o tinha a menor chance de escapar daqueles dois motoqueiros em suas Harley Davidson. Na defensiva, desceu os degraus em frente � casa e cruzou com eles no meio do p�tio.</p><p>Possesso, Bublanski saiu no corredor e verificou que Eriksson ainda n�o retornara � sala de Sonja Modig. O banheiro, no entanto, estava vazio. Seguiu pelo corredor e o avistou de repente, com um copinho de pl�stico na m�o, na sala de Curt Bolinder e Steve Bohman.</p><p>Sem ser visto, Bublanski deu meia-volta e subiu ao andar de cima, at� a sala do procurador Ekstr�m. Foi entrando sem bater e interrompeu Ekstr�m em plena conversa telef�nica.</p><p>�Venha c� - disse ele.</p><p>�O qu�? - fez Ekstr�m.</p><p>�Desligue e venha comigo.</p><p>A express�o de Bublanski era tal que Ekstr�m obedeceu. A esta altura, era f�cil entender por que os colegas o tinham apelidado de Bubolha. Seu rosto assumira o aspecto de uma enorme bolha de chiclete cor-de-rosa. Desceram e foram juntar-se ao cordial intervalo do caf� na sala de Curt Bolinder.</p><p>Bublanski foi direto para cima de Eriksson, agarrou-o com pulso firme pelos cabelos e virou-o para Ekstr�m.</p><p>�Ai! O que � isso? Voc� t� maluco?</p><p>�Bublanski! - exclamou Ekstr�m, apavorado.</p><p>Ekstr�m parecia alarmado. Curt Bolinder e Steve Bohman estavam boquiabertos.</p><p>�Isto aqui � seu? - perguntou Bublanski, brandindo o celular.</p><p>�Me solte!</p><p><strong>�</strong><strong>ESTE</strong><strong>CELULAR</strong><strong>�</strong><strong>SEU</strong><strong>?</strong></p><p>��, sim, porra. Me solte!</p><p>�� claro que n�o. Voc� est� preso.</p><p>�O qu�?</p><p>�Voc� est� preso por viola��o de sigilo e obstru��o de investiga��o policial. A menos que tenha uma explica��o plaus�vel para o telefonema dado �s 9h57 da manh� de hoje para um jornalista chamado Tony Scala, logo depois da nossa reuni�o e pouco antes de o Scala divulgar as informa��es que t�nhamos decidido manter confidenciais. A liga��o consta na lista de chamadas do seu celular.</p><p>Magge Lundin mal conseguiu acreditar nos pr�prios olhos quando viu Lisbeth Salander no p�tio em frente � casa de campo de Bjurman. Ele tinha consultado o mapa rodovi�rio e o gigante loiro lhe fornecera uma descri��o precisa do trajeto. Assim que recebeu ordem de ir at� Stallarholmen e provocar um inc�ndio, foi at� a sede do clube, na gr�fica abandonada na periferia de Svavelsj�, chamar Benny Nieminen para ir com ele. Estava quente, um tempo perfeito para pegar as motos pela primeira vez depois do inverno. Vestiram os macac�es de couro e fizeram o trajeto de Svavelsj� a Stallarholmen a uma velocidade tranq�ila.</p><p>E eis que Lisbeth Salander estava ali esperando por eles. Podia at� estar usando uma peruca loira, ele a reconhecia assim mesmo. A altura, o jeito, s� podia ser ela.</p><p>Era um leg�timo b�nus, e ia deixar o gigante loiro estupefato. Avan�aram, cada um de um lado, e detiveram-se a dois metros de Lisbeth.</p><p>Uma vez desligados os motores, o sil�ncio na mata era absoluto. De in�cio, Lundin n�o sabia bem o que dizer, mas acabou recuperando a fala.</p><p>�Ora, ora. Faz um tempinho que estamos te procurando, Lisbeth Salander.</p><p>Sorriu de repente. Lisbeth Salander contemplava Lundin com olhos inexpressivos. Notou que ele ainda tinha no maxilar uma marca vermelha, rec�m-cicatrizada, no lugar onde ela o arranhara com o molho de chaves. Ergueu o olhar e fitou o cimo das �rvores atr�s dele. Ent�o baixou-o novamente. Seus olhos estavam de um preto inquietante.</p><p>�Tive uma semana de merda e estou com um humor execr�vel. E sabe o que � pior? A cada passo que eu dou, deparo com um monte de merda com um barrig�o, atravancando o meu caminho e se achando grande coisa. Agora eu estou me mandando. Sai da frente.</p><p>Magge Lundin abriu a boca. Primeiro, achou que tinha ouvido mal. Depois, sem querer, come�ou a rir. A situa��o era hil�ria. Uma magricela que ele at� poderia enfiar no bolso dando uma de esperta diante de dois homens adultos, que usavam jaquetas com o logotipo do <strong>MC</strong> Svavelsj�, ou seja: Malvados dos mais perigosos que em breve seriam membros efetivos dos Hell�s Angels. Eles podiam fazer picadinho dela e guardar numa lata de biscoito. E ela ali se exibindo, que idiota!</p><p>Mas mesmo que a garota fosse totalmente doida - o que parecia ser o caso, de acordo com os jornais e com o que ele estava vendo com seus pr�prios olhos, ali, diante da casa -, as jaquetas deveriam lhe impor algum respeito. O que aparentemente n�o era o caso. Era uma hist�ria de rolar de rir, mas inadmiss�vel. Ele se virou para Benny Nieminen.</p><p>�Ai, ai, n�o seria nada mau essa sapat�o dar uma provada num pinto - disse ele, baixando a escora e descendo da Harley.</p><p>Deu dois passos lentos na dire��o de Lisbeth Salander e baixou os olhos para ela. Lisbeth n�o se moveu um mil�metro sequer. Magge Lundin balan�ou a cabe�a e soltou um suspiro sinistro. Ent�o desfechou uma bofetada com aquela for�a consider�vel que Mikael Blomkvist experimentara no incidente da Lundagatan.</p><p>Bateu no ar. No instante em que a m�o ia tocar em seu rosto, Lisbeth deu um passo atr�s e parou, fora de alcance.</p><p>Apoiado na dire��o da Harley, Benny Nieminen contemplava o amigo com um sorriso nos l�bios. Lundin ficou rubro e deu rapidamente dois passos na dire��o de Lisbeth. Ela recuou de novo. Lundin acelerou.</p><p>Lisbeth Salander estacou de repente e esvaziou metade do conte�do da bomba lacrimog�nea direto na cara dele. Seus olhos come�aram a queimar como fogo. Lisbeth Salander lhe enfiou, com toda a for�a, a ponta da bota no meio das pernas, transformando-a em energia cin�tica com uma press�o de cerca de cento e vinte newtons por cent�metro quadrado. Sem f�lego, Magge Lundin caiu de joelhos, ficando assim a uma altura mais confort�vel para Lisbeth Salabeth. Ela pegou um impulso e lhe tascou um pontap� no meio da cara, como quem cobra um escanteio. Um estalo desagrad�vel fez-se ouvir antes de Magge Lundin desabar, sem um ru�do, feito um saco de batatas.</p><p>Benny Nieminen precisou de v�rios segundos para entender que algo imposs�vel acabava de ocorrer diante de seus olhos. Primeiro pensou em baixar a escora de sua Harley, n�o a encontrou com o p�, precisou olhar. Depois, pensou em pegar a pistola que estava no bolso interno da jaqueta. Estava prestes a baixar o z�per, quando percebeu um movimento com o canto dos olhos.</p><p>Ergueu o olhar e deu com Lisbeth vindo para cima dele feito bala de canh�o. Ela pulou de p�s juntos e o atingiu em cheio no quadril, o que n�o bastava para machuc�-lo, mas bastou para derrub�-lo, com a moto junto. Por um triz ele evitou que a perna ficasse presa sob a moto e deu uns passos tr�pegos para tr�s antes de recuperar o equil�brio. Quando tornou a situ�-la em seu campo de vis�o, viu o bra�o dela se mover e uma pedra do tamanho de um punho voar pelos ares. Abaixou-se instintivamente. A pedra passou a poucos cent�metros de sua cabe�a.</p><p>Conseguiu afinal pegar a pistola e tentou soltar a trava de seguran�a, mas quando ergueu os olhos pela terceira vez Lisbeth Salander estava diante dele. Viu �dio em seu olhar e, at�nito, pela primeira vez sentiu medo de verdade.</p><p>� Boa noite � disse Lisbeth Salander.</p><p>Ela enfiou-lhe o cacetete el�trico na parte inferior do ventre e descarregou setenta e cinco mil volts, mantendo os eletrodos em contato com o corpo dele por pelo menos vinte segundos. Benny Nieminen se transformou num vegetal sem vontade pr�pria.</p><p>Lisbeth escutou um ru�do atr�s de si, virou-se e contemplou Magge Lundin. A muito custo, ele conseguira ficar de joelhos e estava prestes a se levantar. Ela o fitou. Cego, ele tateava com os bra�os na n�voa ardente do g�s lacrimog�neo.</p><p>�Eu vou te matar! - ele berrou de repente.</p><p>Ainda resmungou qualquer coisa incompreens�vel, tateando �s cegas na tentativa de achar Lisbeth Salander. Ela inclinou a cabe�a e o contemplou pensativa. Ele berrou mais uma vez.</p><p>�Sua puta!</p><p>Lisbeth Salander se abaixou, juntou a pistola de Benny Nieminen e constatou que se tratava de uma Wanad P-83 polonesa.</p><p>Abriu o carregador e conferiu se estava com a muni��o adequada, Makarov nove mil�metros. Ent�o puxou a corredi�a e enfiou uma bala no cano. Passou por cima de Benny Nieminen, aproximou-se de Magge Lundin, mirou segurando a arma com as duas m�os e disparou-lhe uma bala no p�. Ele berrou com o impacto e tornou a cair.</p><p>Ela o contemplou e pensou se valeria a pena perguntar quem era o gigante loiro que ela vira com ele no Caf� Blomberg e que, de acordo com o jornalista Per-Ake Sandstr�m, assassinara uma pessoa num armaz�m, junto com Magge Lundin. Humm. Ela talvez devesse ter perguntado antes de atirar.</p><p>Magge Lundin n�o parecia em condi��es de manter uma conversa clara, e, al�m disso, existia a possibilidade de algu�m ter ouvido o disparo. Era melhor sair dali imediatamente. Poderia encontrar Magge Lundin mais tarde e interrog�-lo de um jeito mais tranq�ilo. Tornou a acionar a trava de seguran�a, enfiou a arma no bolso e pegou sua mochila.</p><p>J� havia percorrido uns dez metros de estrada quando parou e se virou. Voltou lentamente para a casa de Nils Bjurman e examinou a moto de Magge Lundin. Harley Davidson - pensou. �<emphasis>Cool.</emphasis></p></section><section><p><strong><emphasis>27 - QUARTA-FEIRA 6 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Estava um dia espl�ndido de primavera quando Mikael, no carro de Erika Berger, tomou a estrada de Nyn�s em dire��o ao sul. J� se podia vislumbrar certa tend�ncia para o verde nos campos negros e o ar estava repleto de um calor real. Um tempo perfeito para esquecer todos os problemas e tirar alguns dias de descanso na cabana de Sandhamm.</p><p>Ele tinha marcado com Gunnar Bj�rck por volta da uma da tarde, mas como estava adiantado parou em Dalar� para tomar um caf� e ler os jornais. N�o havia se preparado para o encontro. Bj�rck tinha algo para revelar e Mikael estava firmemente determinado a n�o sair de Sm�dalar� sem descobrir algumas coisas sobre Zala. Coisas que poderiam ajud�-lo a avan�ar.</p><p>Bj�rck recebeu-o no p�tio. Parecia mais desafiador e seguro de si do que dois dias antes. O <emphasis>que voc� est� aprontando, meu chapa?</emphasis> Mikael evitou apertar sua m�o.</p><p>�Posso te fornecer informa��es sobre Zala - disse Gunnar Bj�rck. �Mas tenho umas condi��es.</p><p>�Estou ouvindo.</p><p>�Meu nome n�o pode ser mencionado na reportagem da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>Bj�rck pareceu surpreso. Blomkvist aceitara facilmente e sem discutir o ponto para o qual previra uma discuss�o mais demorada. Era o seu �nico trunfo. Informa��es sobre os assassinatos em troca de anonimato. E Blomkvist aceitava suprimir, sem dificuldades, o que deveria constituir uma manchete.</p><p>�Estou falando s�rio - disse Bj�rck, desconfiado. �Quero isso por escrito, preto no branco.</p><p>�Posso colocar preto no branco, se voc� faz quest�o, mas um documento desses n�o vale um tost�o furado. Voc� infringiu a lei e sabe disso. Na verdade, a minha obriga��o seria denunci�-lo � pol�cia. Voc� sabe de coisas que eu quero obter e est� usando isso para comprar o meu sil�ncio. Eu j� tinha pensado nessa possibilidade, e aceito. Estou facilitando as coisas para o seu lado, comprometendo-me a n�o citar o seu nome na <emphasis>Millennium.</emphasis> Ou voc� confia em mim, ou n�o confia.</p><p>Bj�rck refletiu.</p><p>�E eu tamb�m tenho uma condi��o - prosseguiu Mikael. �O pre�o do meu sil�ncio � voc� me contar tudo o que sabe. Se eu descobrir que est� me escondendo alguma coisa, nosso acordo fica anulado. A� eu ponho voc� em todas as manchetes do pa�s, como fiz com o Wennerstr�m.</p><p>Bj�rck estremeceu ao se lembrar disso.</p><p>�Est� bem - disse. �N�o tenho escolha. Voc� me garante que o meu nome n�o vai ser citado na <emphasis>Millennium</emphasis> e eu digo quem � Zala. E para isso exijo ser protegido enquanto fonte.</p><p>Ele estendeu a m�o. Mikael apertou-a. Acabava de prometer que iria dissimular uma infra��o � lei, o que em si n�o o perturbava. S� estava prometendo que ele pr�prio e a <emphasis>Millennium</emphasis> n�o escreveriam nada sobre Bj�rck. Dag Svensson j� escrevera em seu livro toda a hist�ria de Bj�rck. E o livro de Dag Svensson seria publicado. Mikael estava firmemente decidido a se empenhar para que fosse.</p><p>O alerta foi lan�ado ao posto de pol�cia de Str�ngn�s �s 15h 18. O chamado chegou direto no PABX do posto, sem passar pela central de socorro. O propriet�rio de uma casa de campo a leste de Stallarholmen, um certo �berg, relatava que tinha ouvido um tiro e fora conferir no local. Encontrara dois homens gravemente feridos. Um deles talvez nem t�o ferido, mas sentindo muita dor. E, a prop�sito, a casa era de Nils Bjurman. Quer dizer, o Dr. Nils Bjurman assassinado de que os jornais tanto haviam falado.</p><p>A pol�cia de Str�ngn�s tivera uma manh� cheia devido a um amplo controle rodovi�rio no territ�rio da comuna, j� previsto de longa data. � tarde, a vigil�ncia do tr�fego fora interrompida quando uma mulher de cinquenta e sete anos fora morta por seu companheiro na resid�ncia do casal, em Finninge. Quase ao mesmo tempo, irrompera um inc�ndio num pr�dio de Storg�rdet, com uma v�tima, e, como a cereja do bolo, dois carros tinham colidido de frente na altura de Vargholmen, estrada de Enk�ping. Os alertas se sucederam num intervalo de poucos minutos e, com isso, boa parte do efetivo policial de Str�ngn�s estava indispon�vel.</p><p>Mas o oficial de plant�o no posto, uma mulher, tinha acompanhado os acontecimentos em Nykvarn de manh� e percebeu que havia ali alguma rela��o com aquela Lisbeth Salander procurada por toda parte. Estando Nils Bjurman ligado � mesma investiga��o, ela tirou suas conclus�es. E tomou tr�s provid�ncias. Despachou para Stallarholmen, com urg�ncia, o �nico ve��culo de interven��o dispon�vel em Str�ngn�s naquele dia cheio. Ligou para seus colegas de S�dert�lje e pediu ajuda. A pol�cia de S�dert�lje n�o estava menos assoberbada, j� que grande parte de seus recursos concentrava-se nas escava��es em torno de um armaz�m incendiado ao sul de Nykvarn, mas um poss�vel elo entre Nykvarn e Stallarholmen fez que o oficial de plant�o em S�dert�lje imediatamente despachasse dois carros para Stallarholmen, como refor�o ao ve�culo de interven��o de Str�ngn�s. Por fim, a policial de plant�o no posto de Str�ngn�s pegou o telefone e chamou o inspetor Jan Bublanski, em Estocolmo. Conseguiu contat�-lo no celular.</p><p>Bublanski estava na Milton Security, numa dif�cil discuss�o com o diretor Dragan Armanskij e seus dois colaboradores, Fr�klund e Bohman. O colaborador Niklas Eriksson brilhava pela aus�ncia.</p><p>A rea��o de Bublanski foi ordenar que Curt Bolinder fosse com urg�ncia at� a casa de campo de Bjurman. E que levasse Hans Faste junto, caso conseguisse encontr�-lo. Depois de pensar um pouco, Bublanski ligou tamb�m para Jerker Holmberg, que ainda estava ao sul de Nykvarn, e tinha, portanto, uma dist�ncia menor a percorrer. Holmberg tinha novas informa��es.</p><p>�Estava para te ligar. Acabam de identificar o corpo da escava��o.</p><p>�N�o � poss�vel. N�o t�o cedo.</p><p>�Tudo fica mais f�cil quando os presuntos fazem a gentileza de ficar com a carteira no bolso, e uma identidade plastificada.</p><p>�Certo. Quem �?</p><p>�� um conhecido nosso. Kenneth Gustafsson, de quarenta e quatro anos, domiciliado em Eskilstuna. Seu apelido era Vagabundo. Isso te lembra alguma coisa?</p><p>�Claro. Evidente. Quer dizer ent�o que o Vagabundo estava enterrado em Nykvarn. N�o lidei diretamente com esse malandro, mas parece que ele operou um bocado nos anos 1990. Pertencia � fauna dos traficantes, dos pequenos ladr�es e viciados.</p><p>�Ele mesmo. Pelo menos � a identidade dele que est� dentro da carteira. Os legistas v�o tratar da identifica��o definitiva. V�o passar trabalho para juntar os peda�os. O cara est� todo em pe�as avulsas, cinco ou seis partes pelo menos.</p><p>�Humm. Paolo Roberto contou que o loirinho com quem ele lutou tinha amea�ado a Miriam Wu com uma serra el�trica.</p><p>�O recorte pode mesmo ter sido feito com serra el�trica. N�o olhei de perto. Acabam de come�ar as escava��es em outros pontos. Est�o montando a barraca.</p><p>�Muito bem. Jerker, eu sei que voc� teve um dia cheio, mas daria para voc� passar por aqui no final da tarde?</p><p>�Est� certo. Mas primeiro vou dar um pulo em Stallarholmen. Bublanski desligou e esfregou os olhos.</p><p>O destacamento de Str�ngn�s chegou � casa de campo de Bjurman �s 15h44. No caminho de acesso, literalmente colidiram com um homem que tentava deixar o local numa Harley Davidson inst�vel, que foi se cravar na dianteira do cambur�o. N�o foi um choque muito violento. Os policiais desembarcaram e reconheceram Benny Nieminen, de trinta e sete anos, assassino conhecido do meio policial nos anos 1990. Nieminen n�o parecia muito em forma, e puseram-lhe as algemas. Ao fech�-las em seus pulsos, os policiais descobriram, com alguma surpresa, que sua jaqueta de couro estava rasgada nas costas. Bem no meio, faltava um quadrado de cerca de vinte cent�metros por vinte, o que causava uma impress�o bastante curiosa. Benny Nieminen n�o quis comentar o fato.</p><p>Em seguida, percorreram os cerca de duzentos metros at� a casa. L�, encontraram um ex-estivador chamado Oberg colocando uma bandagem de apoio no p� de um tal de Carl-Magnus Lundin, de trinta e seis anos e chefe do nem t�o desconhecido grupo de delinquentes do <strong>MC</strong> Svavelsj�.</p><p>O comandante do ve�culo de interven��o era o inspetor Nils-Henrik Johansson. Ele desceu, ajeitou o cintur�o e contemplou a triste figura estendida no ch�o. Proferiu a cl�ssica fala policial.</p><p>�O que est� acontecendo aqui?</p><p>O estivador aposentado interrompeu seus cuidados ao p� de Magge Lundin e dirigiu um r�pido olhar para Johansson.</p><p>�Fui eu que liguei.</p><p>�O senhor falou em tiros.</p><p>�Falei que ouvi um tiro, vim ver e topei com esses caras. Este aqui levou uma bala no p� e uma bela de uma surra. Acho que precisa de uma ambul�ncia.</p><p>Oberg dirigiu o olhar para o cambur�o.</p><p>�Ah, voc�s pegaram o outro canalha. Estava fora do ar quando cheguei, mas n�o parecia ferido. Depois de um tempo, ele se recuperou e n�o quis ficar.</p><p>Jerker Holmberg chegou com os policiais de S�dert�lje quando a ambul�ncia estava deixando o local. O destacamento de Str�ngn�s lhe fez um breve resumo do que tinha observado. Nem Lundin nem Nieminen quiseram explicar o motivo de sua presen�a no local. Lundin, ali�s, n�o estava em condi��es de falar.</p><p>�Ou seja, dois motoqueiros de macac�o de couro, uma Harley Davidson, um ferimento a bala e nenhuma arma. Entendi tudo direito? - perguntou Holmberg.</p><p>O comandante Johansson assentiu com a cabe�a. Holmberg refletiu um instante.</p><p>�� de se supor que eles n�o vieram os dois numa moto.</p><p>�Acho que ser um mero passageiro � visto como pouco viril, no meio deles - disse Johansson.</p><p>�Nesse caso, est� faltando uma moto. Tamb�m est� faltando a arma, o que nos leva a concluir que um terceiro bandido j� se mandou.</p><p>�Parece plaus�vel.</p><p>�O que nos deixa com um problema l�gico. Se os dois cavalheiros de Svavelsj� chegaram cada um numa moto, falta tamb�m o ve�culo utilizado pelo terceiro elemento. Ele n�o pode ter sa�do com seu pr�prio ve�culo e mais a moto. E � meio longe vir a p� da estrada de Str�ngn�s para c�.</p><p>�A menos que o terceiro elemento morasse na casa.</p><p>�Humm - fez Jerker Holmberg. �Essa casa pertencia ao falecido doutor Bjurman, que definitivamente n�o mora mais a�.</p><p>�Tamb�m pode ter havido um quarto elemento, que teria ido embora de carro.</p><p>�Mas ent�o por que n�o foram embora juntos? Tenho a impress�o de que esta hist�ria n�o se limita ao roubo de uma Harley Davidson, embora elas sejam muito cobi�adas.</p><p>Refletiu um instante, ent�o pediu que o destacamento mandasse dois agentes procurar um ve�culo abandonado em alguma trilha florestal das redondezas, e tamb�m bater � porta das casas pr�ximas para perguntar se algu�m tinha visto algo fora do comum.</p><p>�Nesta �poca do ano n�o mora muita gente por aqui - disse o comandante do destacamento, prometendo, por�m, fazer o poss�vel.</p><p>Depois, Holmberg abriu a porta da casa, que n�o fora trancada. Deparou imediatamente com os arquivos deixados na mesa da cozinha, contendo a investiga��o de Bjurman sobre Lisbeth Salander. Sentou-se e se p�s a folhe�-los, estupefato.</p><p>Jerker Holmberg estava com sorte. Apenas trinta minutos depois de come�ar a opera��o porta a porta entre as poucas casas habitadas, toparam com Anna Viktoria Hansson, de setenta e dois anos, que passara aquele dia de primavera limpando um jardim na bifurca��o da aldeia de veraneio. Sim, ela tinha vista boa. Sim, vira uma garota baixinha de jaqueta escura passando por ali a p�, por volta do meio-dia. Mais ou menos umas tr�s da tarde, dois homens passaram de moto, fazendo uma barulheira daquelas. E pouco depois a garota tinha passado de volta, numa das motos. E depois chegaram os carros da pol�cia.</p><p>Enquanto Jerker Holmberg recebia esse relat�rio, Curt Bolinder chegou � casa de campo.</p><p>�Como � essa hist�ria? - ele perguntou. Jerker Holmberg fitou o colega com ar deprimido.</p><p>�N�o sei bem de que jeito te explicar isso tudo - respondeu Holmberg.</p><p>�Jerker, voc� est� querendo que eu engula que a Lisbeth Salander apareceu na casa do Bjurman e, sozinha, deu no dirigente do <strong>MC</strong> Svavelsj� a maior surra da vida dele? - perguntou Bublanski, no telefone.</p><p>Sua voz parecia exasperada.</p><p>�Ora, pois se ela foi treinada pelo Paolo Roberto...</p><p>�Cale a boca, Jerker.</p><p>�Estou s� repassando os fatos. Magnus Lundin ferido com uma bala no p�. Periga ficar manco o resto da vida. A bala saiu pelo lado do calcanhar.</p><p>�Pelo menos ela n�o atirou na cabe�a.</p><p>�N�o deve ter sido necess�rio. Se entendi direito o pessoal da brigada, Lundin est� com ferimentos graves no rosto, o maxilar estourado e dois dentes quebrados. Os param�dicos temiam uma concuss�o cerebral. Al�m do ferimento no p�, est� com muita dor no baixo-ventre.</p><p>�Como vai o Nieminen?</p><p>�Parece ter sa�do ileso. Mas, segundo o velho que nos chamou, quando ele chegou l� o Nieminen estava estatelado no ch�o, sem sentidos. N�o conseguia falar nada, mas se recobrou depois de algum tempo e estava tentando deixar o local quando a pol�cia de Str�ngn�s apareceu.</p><p>Pela primeira vez em muito tempo, Bublanski ficou totalmente mudo.</p><p>�Um detalhe misterioso... - disse Jerker Holmberg.</p><p>�O que foi agora?</p><p>�N�o sei como descrever isso. A jaqueta de couro do Nieminen... �, ele chegou l� de moto.</p><p>�Sim?</p><p>�Est� em mau estado.</p><p>�Como assim, em mau estado?</p><p>�Falta um peda�o. Algu�m recortou um quadrado de mais ou menos vinte cent�metros nas costas. Bem no lugar onde fica o logotipo do <strong>MC</strong> Svavelsj�.</p><p>Bublanski ergueu as sobrancelhas.</p><p>�Por que a Lisbeth Salander iria recortar um peda�o da jaqueta? Como trof�u?</p><p>�N�o fa�o a menor id�ia. Mas pensei numa coisa - disse Jerker Holmberg.</p><p>�O qu�?</p><p>�O Magnus Lundin tem uma barriga enorme, � loiro e usa rabo de cavalo. Um dos caras que raptaram a amiga de Salander, a Miriam Wu, era loiro, tinha rabo de cavalo e uma barriga de bebedor de cerveja.</p><p>Fazia anos que Lisbeth Salander n�o sentia aquela sensa��o vertiginosa, desde quando experimentara uma queda livre no parque de divers�es de Gr�na Lund. Tinha dado tr�s voltas e poderia ter dado mais tr�s se n�o estivesse sem dinheiro.</p><p>Constatou tamb�m que uma coisa era pilotar uma Kawasaki 125, que na verdade n�o passava de uma bicicleta motorizada melhorada, e outra, bem diferente, era controlar uma Harley Davidson de 1450 cilindradas. Os primeiros trezentos metros na pista florestal de Bjurman, de manuten��o prec�ria, valeram todas as montanhas-russas do mundo. Sentiu-se um aut�ntico girosc�pio. Por pouco n�o se espatifou na floresta umas duas vezes, mas conseguiu retomar a tempo o controle da m�quina. Tinha a impress�o de estar cavalgando um alce assustado.</p><p>Al�m disso, o capacete teimava em escorregar o tempo todo sobre seus olhos, embora o tivesse forrado com um peda�o de couro recortado na jaqueta grossa de Benny Nieminen.</p><p>Temendo n�o conseguir lidar com o peso da moto, achou melhor n�o parar. Era baixinha demais para poder apoiar um p� no ch�o e tinha medo que a Harley ca�sse. Nesse caso, jamais teria for�as suficientes para ergu�-la.</p><p>Ficou mais f�cil quando entrou na pista mais larga que levava � aldeia de veraneio. Minutos depois, quando pegou a estrada de Str�ngn�s, atreveu-se a soltar uma m�o do guid�o para ajeitar o capacete. Ent�o acelerou com tudo. Fez o trajeto at� S�dert�lje em tempo recorde, com um sorriso maravilhado grudado no rosto o tempo inteiro. Pouco antes de S�dert�lje, cruzou com dois carros com as luzes girat�rias acesas, sirenes a toda.</p><p>O mais sensato, evidentemente, teria sido abandonar a Harley em S�dert�lje e deixar que Irene Nesser pegasse o trem de sub�rbio para Estocolmo, mas Lisbeth Salander n�o soube resistir � tenta��o. Tomou cuidado para n�o ultrapassar o limite de velocidade, enfim, n�o muito, mas continuava com a impress�o de estar em queda livre. S� quando chegou � altura de �lvsj� � que ela pegou o acesso para o parque de Exposi��es de Estocolmo, onde estacionou sem derrubar o monstrengo. Com dor na alma, abandonou a moto, junto com o capacete e o peda�o de couro da jaqueta de Benny Nieminen, e foi a p� para a esta��o. Sentia frio. Desceu na esta��o seguinte, voltou a p� para casa e foi depressa se esticar na banheira.</p><p>�O nome dele � Alexander Zalachenko - disse Gunnar Bj�rck. �Mas ele n�o existe de fato. N�o vai encontr�-lo no registro civil.</p><p><emphasis>Zala. Alexander Zalachenko. Enfim um nome.</emphasis></p><p>�Quem � ele, e como posso encontr�-lo?</p><p>�N�o � uma pessoa que a gente tem vontade de encontrar.</p><p>�Acredite, tenho muita, muita vontade de me encontrar com ele.</p><p>�O que eu vou te passar agora s�o informa��es consideradas segredo de Estado. Se souberem que fui eu que contei, fico sujeito a uma condena��o pesada. � um dos maiores segredos da Defesa Nacional sueca. Voc� vai entender por que � t�o importante que eu seja protegido como fonte.</p><p>�Eu j� fiz isso, n�o fiz?</p><p>�Voc� tem idade para lembrar da guerra fria. Mikael meneou a cabe�a. <emphasis>Vamos, fale logo!</emphasis></p><p>�Alexander Zalachenko nasceu em 1940 em Estalingrado, na Ucr�nia, que na �poca pertencia � Uni�o Sovi�tica. Ele tinha um ano de idade quando foi lan�ada a Opera��o Barbarossa, com a ofensiva alem� no fronte do Leste. Os pais de Zalachenko morreram ambos na guerra. Pelo menos, � o que Zalachenko acredita. Nem ele sabe o que aconteceu durante a guerra. Suas primeiras lembran�as s�o de um orfanato uraliano.</p><p>Mikael meneou a cabe�a para mostrar que estava acompanhando.</p><p>�O orfanato ficava numa cidade de guarni��o e era mantido pelo Ex�rcito Vermelho. Pode-se dizer que Zalachenko teve uma forma��o militar bastante precoce. Isso foi durante os piores anos do stalinismo. Depois da queda da Uni�o Sovi�tica, foram encontradas pilhas de documentos comprovando a realiza��o de diversos experimentos no sentido de criar um esquadr�o de soldados de elite especialmente treinados e recrutados entre os �rf�os a cargo do Estado. Zalachenko era um deles.</p><p>Mikael meneou outra vez a cabe�a.</p><p>�Resumindo. Com cinco anos de idade, ele foi colocado num col�gio militar. L�, perceberam que ele era muito inteligente. Quando fez quinze anos, em 1955, foi transferido para uma escola militar em Novossibirsk, onde, com outros dois mil alunos, passou por um treinamento equivalente ao das <emphasis>spetsnaz,</emphasis> as unidades de elite russas.</p><p>�Certo. Um soldadinho valoroso.</p><p>�Em 1958, j� com dezoito anos, foi mandado para Minsk a fim de receber a forma��o especial do GRO<strong>.</strong> Sabe o que era o GRO<strong>?</strong></p><p>�Acho que sim.</p><p>�Literalmente, significa <emphasis>Glavnoe razvedivatelnoe oupravlenie,</emphasis> o servi�o de informa��es e a��o militar diretamente subordinado ao mais alto comando militar do Ex�rcito. N�o confundir o <strong>GRO</strong> com a KGB<strong>,</strong> que era a pol�cia secreta civil.</p><p>�Eu sei.</p><p>�Nos filmes de James Bond, os grandes espi�es que atuam no estrangeiro s�o, em geral, caras da KGB. Na verdade, a KGB era antes de mais nada um servi�o de seguran�a interno do regime que geria campos de prisioneiros na Sib�ria e eliminava os opositores do regime com uma bala na nuca nos por�es da Lubianka. Quem respondia pela espionagem e pelas opera��es al�m das fronteiras era em geral o pessoal do GRO<strong>.</strong></p><p>�Isso est� ficando com cara de aula de hist�ria. Continue.</p><p>�Aos vinte anos, Alexander Zalachenko obteve sua primeira nomea��o no estrangeiro. Foi mandado para Cuba. Era uma fase de treinamento, ele na �poca s� tinha a patente correspondente ao alferes. Mas permaneceu l� dois anos, e viveu a crise cubana e a invas�o da Ba�a dos Porcos.</p><p>�Certo.</p><p>�Em 1963, voltou para Minsk a fim de prosseguir sua forma��o. Ent�o foi nomeado, primeiro na Bulg�ria, depois na Hungria. Em 1965, foi promovido a tenente e obteve seu primeiro posto na Europa Ocidental, em Roma, onde serviu durante um ano. Foi sua primeira miss�o <emphasis>under cover.</emphasis> Era, portanto, um civil com um passaporte falso e sem nenhum contato com a embaixada.</p><p>Mikael meneou a cabe�a. Sem querer, estava come�ando a ficar fascinado.</p><p>�Em 1967, foi transferido para Londres. L�, organizou a execu��o de um desertor da KGB. Nos dez anos seguintes, tornou-se um dos melhores agentes do GRO. Pertencia � leg�tima elite dos soldados pol�ticos dedicados. Tinha sido adestrado desde menino. Fala fluentemente pelo menos seis l�nguas. J� se fez passar por jornalista, fot�grafo, designer, marinheiro... o que voc� puder imaginar. Era especialista na arte da sobreviv�ncia, especialista em camuflagem e manobras diversionistas. Tinha seus pr�prios agentes e organizava ou efetuava suas pr�prias opera��es. Muitas eram miss�es de elimina��o, das quais boa parte se deram no Terceiro Mundo, mas ele lidou igualmente com chantagem, amea�as ou qualquer tipo de a��o que seus superiores queriam que ele efetuasse. Em 1969, passou a capit�o, em 1972 a comandante e, em 1975, foi promovido a tenente-coronel.</p><p>�Como ele veio parar na Su�cia?</p><p>�Estou chegando l�. Com o passar dos anos, foi se envolvendo com corrup��o e juntou, aqui e ali, um pequeno p�-de-meia. Bebia demais e se metia em muitas hist�rias com mulheres. Seus superiores estavam a par, mas ele ainda era um dos favoritos e fizeram vista grossa enquanto tudo n�o passou de coisas sem import�ncia. Em 1976, foi enviado numa miss�o na Espanha. N�o vou entrar em detalhes, mas ele tomou um porre e fez um belo de um estrago. A miss�o fracassou e, de repente, ele caiu em desgra�a e recebeu ordem de voltar para a R�ssia. Optou por ignorar essa ordem e acabou numa situa��o ainda pior. O GRO ordenou a um adido militar da embaixada em Madri que entrasse em contato com ele e lhe desse uns conselhos. Alguma coisa simplesmente desandou na conversa e Zalachenko matou o homem da embaixada. Com isso, j� n�o tinha escolha. N�o podia voltar atr�s e resolveu saltar �s pressas do trem em movimento.</p><p>�Entendo.</p><p>�Desertou na Espanha, forjando uma pista que parecia levar a Portugal e, eventualmente, a um acidente de barco. Tamb�m plantou uma pista sugerindo que fugira para os Estados Unidos. Na verdade, optou por se refugiar no pa�s mais improv�vel da Europa. Veio para a Su�cia, entrou em contato com a S�po e pediu asilo pol�tico. O que, na verdade, foi muito bem pensado, j� que a probabilidade de um esquadr�o da morte da KGB ou do GRO ir procurar por ele aqui era praticamente nula.</p><p>Gunnar Bj�rck calou-se.</p><p>�E ent�o?</p><p>�O que faz um governo quando um dos maiores espi�es da Uni�o Sovi�tica de repente resolve jogar tudo para o alto e pedir asilo pol�tico na Su�cia? Foi bem na �poca em que est�vamos com um governo de direita, e, ali�s, esse foi um dos primeiros casos que tratamos com o novo primeiro-ministro, pol�ticos, medrosos como s�o, tentaram, � claro, se livrar dele o mais r�pido poss�vel, mas tamb�m n�o podiam mand�-lo de volta para a Uni�o Sovi�tica. Teria sido um esc�ndalo colossal. Em vez disso, tentaram mand�-lo para s Estados Unidos ou Inglaterra, mas o Zalachenko recusou. N�o gostava os Estados Unidos e, segundo ele, a Inglaterra era um pa�s em que a Uni�o Sovi�tica mantinha agentes de informa��o de primeir�ssimo n�vel. Ele n�o queria ir para Israel porque n�o gostava de judeus. Portanto, resolveu que iria se estabelecer na Su�cia mesmo.</p><p>Aquilo tudo parecia t�o inveross�mil que Mikael se perguntou vagamente se Gunnar Bj�rck n�o estaria enrolando.</p><p>�E ele acabou ficando na Su�cia?</p><p>�Exatamente.</p><p>�E isso tudo nunca veio a p�blico?</p><p>�Foi, por muitos anos, um dos segredos militares mais bem guardados a Su�cia. Ocorre que Zalachenko era muito �til para n�s. Durante certo per�odo, no final dos anos 1970 e in�cio dos 1980, ele foi a joia da coroa dos desertores, mesmo se comparado ao que acontecia al�m das fronteiras sueis. Nunca o chefe de opera��es de um dos comandos de elite do GRO tinha desertado.</p><p>�Isso quer dizer que ele tinha informa��es para nos vender?</p><p>�Exato. Ele manejava bem seus trunfos e destilava informa��es quando era mais favor�vel para ele. Informa��es suficientes para que pud�ssemos identificar um agente no quartel-general da OTAN em Bruxelas; um agente ilegal em Roma; o contato de uma rede de espi�es em Berlim; o nome dos assassinos profissionais que ele contratara em Ankara ou Atenas. Ele n�o sabia muito sobre a Su�cia, mas detinha informa��es sobre opera��es no exterior que pod�amos igualmente repassar em troca de outras coisas. Ele era a nossa mina de ouro.</p><p>�Em outras palavras, voc�s passaram a colaborar com ele.</p><p>�Conseguimos uma nova identidade para ele, s� tivemos que oferecer um passaporte e algum dinheiro, depois ele se virou sozinho. Ele tinha sido treinado exatamente para isso.</p><p>Mikael calou-se alguns instantes a fim de digerir essas informa��es. Ent�o ergueu os olhos para Bj�rck.</p><p>�Voc� mentiu na �ltima vez em que estive aqui.</p><p>�Como assim?</p><p>�Voc� disse que tinha conhecido Bjurman no clube de tiro da pol�cia nos anos 1980. Na verdade, voc�s se conheceram bem antes.</p><p>Gunnar Bj�rck meneou a cabe�a, pensativo.</p><p>�Foi uma rea��o autom�tica. Isso tudo � confidencial e n�o havia motivo para eu contar como conheci o Bjurman. Foi s� quando voc� perguntou sobre o Zala que eu fiz a rela��o.</p><p>�Conte como foi.</p><p>�Eu tinha trinta e tr�s anos e trabalhava na S�po havia tr�s. Bjurman tinha vinte e seis e acabava de se formar. Conseguiu um emprego na instru��o de alguns casos jur�dicos da S�po. Na verdade, era mais um est�gio. O Bjurman era de Karlskrona, o pai dele trabalhava no servi�o de informa��o militar.</p><p>�E a�?</p><p>�Nem eu nem o Bjurman, diga-se, est�vamos capacitados para lidar com um homem como o Zalachenko, mas ele nos contatou no dia das elei��es, em 1976. A delegacia estava praticamente deserta - tinham todos sa�do no feriado, ou estavam em servi�o de vigil�ncia e coisas do g�nero. E foi exatamente quando o Zalachenko escolheu entrar na delegacia de Norrmalm para declarar que estava pedindo asilo pol�tico e queria falar com algu�m da S�po. S�po citou nenhum nome. Eu estava de plant�o, achei que se tratava de um refugiado comum, ent�o chamei o Bjurman para instruir o caso comigo. Foi l�, na delegacia de Norrmalm, que conhecemos o Zalachenko. Bj�rck esfregou os olhos.</p><p>�Ele ficou ali sentado, contando calmamente e de forma bem neutra como se chamava, quem era e no que trabalhava. Bjurman tomava nota. Passado algum tempo me dei conta de quem estava ali na minha frente e ca� das nuvens. Ent�o interrompi a entrevista e, mais que depressa, levei o Zalachenko e o Bjurman para longe da pol�cia oficial. N�o sabia o que fazer, ent�o reservei um quarto no Hotel Continental e o acomodei l�. Deixei o Bjurman de <emphasis>baby-sitter</emphasis> e desci at� a recep��o para telefonar para o meu chefe.</p><p>S�bito, ele caiu na gargalhada.</p><p>�Lembrei v�rias vezes dessa nossa atitude, de leg�timos amadores. Mas enfim, foi assim que aconteceu.</p><p>�Quem era o seu chefe?</p><p>�N�o interessa. N�o pretendo citar mais ningu�m.</p><p>Mikael deu de ombros e deixou passar esse detalhe sem discutir.</p><p>�Tanto eu como o meu chefe entendemos que t�nhamos de agir no maior sigilo e envolver o menor n�mero poss�vel de pessoas no caso. O Bjurman n�o tinha nada a ver com a hist�ria � que estava muito al�m do n�vel dele - mas, uma vez que j� estava a par, era melhor mant�-lo do que envolver mais uma pessoa. E imagino que o mesmo racioc�nio se aplicava a um j�nior como eu. Ao todo, sete pessoas ligadas � S�po sabiam da exist�ncia de Zalachenko.</p><p>�E hoje, quantas pessoas sabem dessa hist�ria?</p><p>�De 1976 at� o in�cio dos anos 1990... umas vinte pessoas no total, do governo, do Estado-maior e da S�po.</p><p>�E depois do in�cio dos anos 1990? Bj�rck deu de ombros.</p><p>�Assim que a Uni�o Sovi�tica se esfacelou, ele deixou de ter qualquer interesse para n�s.</p><p>- Mas o que aconteceu com Zalachenko depois que ele se instalou na Su�cia?</p><p>Bj�rck permaneceu tanto tempo calado que Mikael come�ou a se remexer na cadeira.</p><p>�Para ser bem sincero... O Zalachenko se transformou numa estrela e todos os envolvidos no caso constru�mos nossa carreira em cima disso. Entenda, tamb�m era um trabalho em tempo integral. Fui nomeado mentor de Zalachenko na Su�cia, e nos dez primeiros anos a gente deve ter se encontrado, se n�o diariamente, pelo menos v�rias vezes por semana. Foram os anos mais cruciais, quando ele estava cheio de informa��es novas. Mas tamb�m tinha a ver com ficar de olho nele.</p><p>�Como assim?</p><p>�O Zalachenko era uma v�bora. Podia ser incrivelmente encantador como incrivelmente paran�ico, doido. Passava por per�odos de bebedeira, e se tornava violento. Em mais de uma oportunidade, tive de intervir � noite para ajeitar as confus�es em que ele se metia.</p><p>�Por exemplo...?</p><p>�Por exemplo, ele ia a um restaurante, brigava com algu�m e quebrava a cara dos dois seguran�as que tentavam acalm�-lo. Era um homem meio baixinho e magro, mas tivera uma �tima forma��o no corpo a corpo e algumas vezes, infelizmente, exibia toda a sua compet�ncia. Aconteceu inclusive de eu ter de busc�-lo na delegacia.</p><p>�Estou achando esse cara meio pirado. Afinal, estava se arriscando a chamar a aten��o. N�o me parece muito profissional.</p><p>�Mas ele era assim. N�o tinha cometido nenhum crime na Su�cia e nunca era interrogado ou detido por motivo nenhum. N�s lhe fornecemos um pasS�porte sueco, uma carteira de identidade e um nome sueco. E a S�po pagava para ele um apartamento num sub�rbio de Estocolmo. Ele tamb�m recebia da S�po um sal�rio para ficar permanentemente � nossa disposi��o. Mas n�o pod�amos proibir que ele frequentasse restaurantes ou tivesse seus rolos com as mulheres. S� nos restava fazer a faxina depois que ele passava. Essa foi minha miss�o at� 1985, quando fui transferido e meu sucessor assumiu o bast�o como guia de Zalachenko.</p><p>�E qual era o papel do Bjurman nisso tudo?</p><p>�Para ser sincero, Bjurman era um peso. N�o era especialmente brilhante, e era o homem errado no lugar errado. Fora envolvido no caso Zalachenko por mero acaso. Ele s� participou bem no in�cio, e em raras ocasi�es, quando precis�vamos lidar com algumas formalidades jur�dicas. O meu chefe resolveu o problema com o Bjurman.</p><p>�Como?</p><p>�Da maneira mais simples. O Bjurman conseguiu um emprego fora da pol�cia, num escrit�rio de advocacia que era, por assim dizer, pr�ximo...</p><p>�Klang &amp; Reine.</p><p>Gunnar Bj�rck lan�ou a Mikael um olhar cortante. Ent�o meneou a cabe�a.</p><p>�Intelectualmente falando o Bjurman n�o era aquilo tudo, mas se saiu bem. Ao longo dos anos, sempre efetuou algumas miss�es, pequenas investiga��es, coisas assim, para a S�po. De modo que ele tamb�m, de certa forma, construiu sua carreira em torno do Zalachenko.</p><p>�E onde est� o Zala atualmente? Bj�rck hesitou um instante.</p><p>�N�o sei. Depois de 1985 meu contato com ele foi se espa�ando, e faz quase doze anos que n�o o vejo. A �ltima coisa que eu soube � que ele saiu da Su�cia em 1992.</p><p>�Mas, manifestamente, est� de volta. O nome dele surgiu num contexto envolvendo armas, drogas e tr�fico de mulheres.</p><p>�N�o que eu devesse ficar surpreso� suspirou Bj�rck. - Mas nada prova que seja o mesmo Zala, pode ser algum outro.</p><p>�A probabilidade de aparecerem dois Zala nessa hist�ria deve ser microsc�pica. Qual era o nome sueco dele?</p><p>Bj�rck encarou Mikael.</p><p>�Isso eu n�o pretendo revelar.</p><p>�Voc� prometeu n�o criar caso.</p><p>�Voc� queria saber quem era o Zala. Eu contei. Mas n�o pretendo lhe entregar a �ltima pe�a do quebra-cabe�a sem ter certeza de que voc� vai cumprir sua parte no trato.</p><p>�O Zala provavelmente cometeu tr�s assassinatos e a pol�cia est� perseguindo uma inocente. Voc� est� muito enganado se acha que eu vou largar do seu p� antes de saber o nome do Zala.</p><p>�Como voc� sabe que a Lisbeth Salander n�o � a assassina?</p><p>�Eu sei.</p><p>Gunnar Bj�rck sorriu para Mikael. Sentiu-se, de repente, muito mais seguro.</p><p>�Eu acho que o assassino � o Zala - disse Mikael.</p><p>�Errado. O Zala n�o matou ningu�m.</p><p>�Como voc� sabe?</p><p>�Porque o Zala tem atualmente sessenta e cinco anos e est� bastante debilitado. Teve um p� amputado e caminha com dificuldade. Ele n�o foi at� Odenplan ou Enskede para atirar em ningu�m. Se fosse cometer um assassinato, teria primeiro que chamar uma ambul�ncia.</p><p>Malu Eriksson sorriu educadamente para Sonja Modig.</p><p>�Isso voc� tem que perguntar ao Mikael.</p><p>�Est� bem.</p><p>�N�o posso conversar sobre a investiga��o dele com voc�.</p><p>�Mas se o tal Zala � um poss�vel culpado...</p><p>�� com o Mikael que voc� deve falar sobre isso - repetiu Malu. �Posso te ajudar a pegar as informa��es do trabalho do Dag Svensson, mas n�o da nossa pr�pria investiga��o.</p><p>Sonja Modig suspirou.</p><p>�Eu entendo o princ�pio. O que voc� pode me dizer sobre as pessoas desta lista?</p><p>�S� o que o Dag Svensson escreveu nada sobre as fontes. Mas acho que posso revelar que o Mikael entrou em contato com uma d�zia dessas pessoas e as eliminou da lista. Talvez isso ajude.</p><p>Sonja Modig meneou a cabe�a, hesitante. <emphasis>N�o, n�o ajuda. A pol�cia vai ter que procurar cada um deles e realizar um interrogat�rio formal. Um juiz. Tr�s advogados. V�rios pol�ticos e jornalistas... e alguns colegas. Vai ser uma festa.</emphasis> Sonja Modig ponderou que a pol�cia deveria ter cuidado daquela lista j� no dia seguinte aos assassinatos.</p><p>Seu olhar bateu num nome da lista. Gunnar Bj�rck.</p><p>�Esse nome est� sem endere�o.</p><p>��.</p><p>�Por qu�?</p><p>�Ele trabalha na S�po, o endere�o dele � sigiloso. Mas no momento est� de licen�a m�dica. O Dag Svensson n�o conseguiu encontr�-lo.</p><p>�E voc�s, conseguiram? � perguntou Sonja Modig, sorrindo.</p><p>�Pergunte ao Mikael.</p><p>Sonja Modig fitou a parede acima da mesa de Dag Svensson. Refletiu.</p><p>�Eu posso lhe fazer uma pergunta pessoal?</p><p>�Pois n�o.</p><p>�Aqui na <emphasis>Millennium,</emphasis> quem voc�s acham que � o assassino dos seus amigos e do doutor Bjurman?</p><p>Malu Eriksson n�o disse nada. Gostaria que Mikael Blomkvist estivesse ali para lidar com aquelas perguntas. Era desagrad�vel ser inquirida daquele jeito, mesmo sendo absolutamente inocente. Mais desagrad�vel ainda era n�o poder explicar em que p� estavam as conclus�es da <emphasis>Millennium.</emphasis> Nisso, escutou a voz de Erika Berger atr�s de si.</p><p>�Partimos do princ�pio de que os assassinatos visavam impedir a divulga��o de uma das den�ncias em que o Dag Svensson vinha trabalhando. Mas n�o sabemos quem atirou. O Mikael est� se concentrando num desconhecido chamado Zala.</p><p>Sonja Modig se virou e olhou para a diretora da <emphasis>Millennium.</emphasis> Erika Berger ofereceu uma caneca de caf� para Malu e outra para Sonja. Uma ostentava o logotipo do sindicato dos funcion�rios e a outra, dos democrata-crist�os. Erika Berger sorriu educadamente. Em seguida, voltou para sua sala.</p><p>Retornou tr�s minutos depois.</p><p>�Modig. O seu chefe acaba de telefonar. Seu celular est� desligado. E para voc� ligar para ele.</p><p>O incidente na casa de campo de Bjurman desencadeou a tarde toda, uma atividade febril. Foi lan�ado um alerta nacional com a informa��o de que Lisbeth Salander enfim dera sinal de vida. O alerta informava que ela provavelmente estava se locomovendo numa Harley Davidson pertencente a Magge Lundin. Esclarecia que Salander estava armada e tinha atirado numa pessoa em frente a uma casa de campo perto de Stallarholmen.</p><p>A pol�cia colocou barreiras nos acessos a Str�ngn�s e Mariefred, e em todos os acessos a S�dert�lje. Os trens de sub�rbio entre S�dert�lje e Estocolmo foram revistados � noite durante v�rias horas. Por�m, nenhuma mo�a baixinha, com ou sem Harley Davidson, foi encontrada.</p><p>S� por volta das dezenove horas � que um carro de pol�cia encontrou uma Harley abandonada, estacionada em frente ao Parque de Exposi��es de Estocolmo em �lvsj�, o que transferiu as investiga��es de S�dert�lje para Estocolmo. De �lvsj� tamb�m chegou a not�cia de que um peda�o de jaqueta de couro com o logotipo do mc Svavelsj� havia sido encontrado. O achado levou o inspetor Bublanski a empurrar os �culos para a testa e contemplar, aborrecido, a escurid�o l� fora, em Kungsholmen.</p><p>Aquele dia se transformara numa total escurid�o. O sequestro da amiga de Salander, a interven��o de Paolo Roberto, mais um inc�ndio criminoso e delinquentes enterrados nas matas de S�dert�lje. E, para encerrar, um caos incompreens�vel em Stallarholmen.</p><p>Bublanski foi at� a sala grande de trabalho e examinou um mapa de Estocolmo e redondezas. Seu olhar passou de Stallarholmen para Nykvarn, depois para Svavelsj�, detendo-se em �lvsj�, as quatro localidades que, por motivos totalmente distintos, tinham entrado na hist�ria. Ent�o p�s o olhar em Enskede e suspirou. Tinha a desagrad�vel sensa��o de que a pol�cia estava quil�metros atr�s do desenrolar dos fatos. N�o conseguia entender nada. Quaisquer que fossem os bastidores dos assassinatos de Enskede eram muito mais complexos do que eles tinham pensado inicialmente.</p><p>Mikael Blomkvist nada sabia dos acontecimentos dram�ticos de Stallarholmen. Deixou Sm�dalar� por volta das tr�s da tarde. Parou num posto de gasolina para tomar um caf�, enquanto tentava resumir a situa��o.</p><p>Mikael estava bastante frustrado. Bj�rck lhe fornecera muitos detalhes que o deixaram estupefato, mas tamb�m se negara categoricamente a lhe entregar a �ltima pe�a do quebra-cabe�a, relativa � identidade sueca de Zalachenko. Mikael se sentia enganado. A hist�ria terminava de repente e Bj�rck recusava-se a revelar seu final.</p><p>�N�s temos um trato - insistiu Mikael.</p><p>�E eu cumpri a minha parte. Contei quem � o Zalachenko. Se quiser mais informa��es, vamos ter de redefinir o trato. Preciso de garantias de que meu nome ser� deixado de fora e de que n�o vai haver nenhum desdobramento.</p><p>�Mas como eu posso lhe dar essas garantias? N�o sou o dono da investiga��o policial, e mais cedo ou mais tarde eles v�o chegar at� voc�.</p><p>� O que me preocupa n�o � a investiga��o policial. O que eu quero s�o garantias de que voc� nunca vai me denunciar por causa das putas.</p><p>Mikael notou que Bj�rck parecia mais preocupado em ocultar sua liga��o com o com�rcio do sexo do que por ter passado informa��es tidas como segredo de Estado. Isso revelava um bocado sobre sua personalidade.</p><p>�J� prometi n�o escrever uma s� palavra sobre voc� e essa hist�ria.</p><p>�Mas agora quero garantias de que nunca vai citar meu nome em rela��o com o Zalachenko.</p><p>Mikael n�o tinha a menor inten��o de oferecer esse tipo de garantia. Ele at� podia dar a Bj�rck o tratamento de uma fonte an�nima na trama de fundo, mas n�o tinha como garantir anonimato absoluto. Por fim, ambos haviam concordado em refletir um ou dois dias e ent�o retomar a conversa.</p><p>Mikael tomava o seu caf� no posto de gasolina quando sentiu que havia alguma coisa bem ali, ao alcance de sua m�o. T�o pr�ximo que era quase um vulto, sem que ele conseguisse, por�m, focalizar a imagem. Ent�o ocorreu-lhe que talvez outra pessoa pudesse lan�ar alguma luz sobre aquela hist�ria. Mikael estava nas proximidades do Centro de Reeduca��o de Ersta. Consultou o rel�gio, levantou-se rapidamente e foi fazer uma visita a Holger Palmgren.</p><p>Gunnar Bj�rck estava preocupado. O encontro com Mikael Blomkvist deixara-o completamente esgotado. Suas costas do�am como nunca. Tomou tr�s analg�sicos e se deitou no sof� da sala. Os pensamentos rodopiavam em sua cabe�a. Depois de uma hora, levantou-se, p�s �gua para ferver e pegou uns saquinhos de ch�. Sentou-se � mesa da cozinha e ficou matutando.</p><p>Ser� que podia confiar em Blomkvist? Ele jogara todos os seus trunfos e agora dependia da boa vontade do infeliz daquele jornalista. Mas ele preservara a informa��o mais importante. A identidade de Zala e seu verdadeiro papel nos acontecimentos. Uma carta decisiva que ele guardava na manga.</p><p>Como � que ele tinha se metido naquela encrenca? N�o era nenhum criminoso. S� tinha pago por algumas putas. Era solteiro. Aquela fedelha desgra�ada de dezesseis anos nem sequer tinha fingido que gostava dele. Olhara para ele cheia de nojo.</p><p>Cretina. Se ao menos ela n�o fosse t�o jovem. Se tivesse mais de vinte e um anos, ele n�o estaria naquela confus�o. A m�dia ia acabar com ele se descobrisse a hist�ria. Blomkvist tamb�m o detestava. Nem tentava disfar�ar. <emphasis>Zalachenko.</emphasis></p><p>Um cafet�o. Que ironia. Ele tinha comido umas putas do Zalachenko. Mas Zalachenko era esperto o bastante para ficar na moita. O <emphasis>Bjurman e a Salander. E o Blomkvist.</emphasis> Uma sa�da.</p><p>Depois de refletir durante uma hora, foi at� seu escrit�rio e pegou o peda�o de papel com o n�mero de telefone que ele anotara quando de uma visita ao seu local de trabalho no in�cio da semana. N�o era s� isso que ele omitira a Mikael Blomkvist. Sabia exatamente onde se encontrava Zalachenko, mas fazia doze anos que n�o falava com ele. E n�o tinha a menor vontade de voltar a falar.</p><p>Mas Zalachenko era uma raposa esperta. Compreenderia o problema. Saberia sumir da face da terra. Ir se aposentar no exterior. Desastre mesmo seria ele ser preso. Ent�o tudo era capaz de desabar.</p><p>Hesitou um bocado antes de pegar o telefone e discar o n�mero.</p><p>�Ol�. � o Sven Jansson - disse.</p><p>Um pseud�nimo que ele n�o usava havia muito tempo. Zalachenko se lembrava muito bem dele.</p></section><section><p><strong><emphasis>28 - QUARTA-FEIRA 6 DE ABRIL � QUINTA-FEIRA 7 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Bublanski se encontrou com Sonja Modig para tomarem um caf� com um sandu�che no Wayne�s da Vasagatan l� pelas oito da noite. Ela nunca tinha visto seu chefe t�o abatido. Ele a inteirou de tudo que acontecera naquele dia. Ela permaneceu muito tempo calada. Por fim, estendeu a m�o e colocou-a no pulso de Bublanski. Era a primeira vez que ela o tocava e n�o havia outra inten��o em seu gesto que n�o a amizade. Ele sorriu, triste, e da mesma forma amistosa deu uns tapinhas na m�o dela.</p><p>�Talvez seja hora de eu me aposentar - disse ele. Ela sorriu com indulg�ncia.</p><p>�Essa investiga��o est� indo para o brejo - ele prosseguiu. �Ali�s, j� foi. Contei ao Ekstr�m tudo o que aconteceu hoje e a �nica instru��o que ele me deu foi �Fa�a o melhor poss�vel�. Ele parece incapaz de qualquer tipo de a��o.</p><p>�N�o quero falar mal dos meus superiores, mas no que me diz respeito o Ekstr�m pode ir plantar coquinho.</p><p>Bublanski assentiu com a cabe�a.</p><p>�Voc� est� oficialmente de volta � investiga��o. Imagino que ele n�o v� lhe pedir desculpas.</p><p>Ela deu de ombros.</p><p>�Neste momento, tenho a impress�o de que a investiga��o se limita a mim e a voc� � disse Bublanski. - O Faste saiu �s pressas hoje de manh�, louco de raiva, e deixou o celular desligado o dia inteiro. Se ele n�o aparecer at� amanh�, vou ser obrigado a emitir um alerta de busca.</p><p>�Por mim, o Faste pode ficar de fora. O que vai acontecer com o Niklas Eriksson?</p><p>�Nada. Eu queria que ele fosse indiciado, mas o Ekstr�m n�o se atreveu. Mandamos o cara embora e fui ter uma conversinha com o Dragan Armanskij. Encerramos a colabora��o da Milton, o que significa, infelizmente, que tamb�m perdemos o Steve Bohman. Pena. � um policial competente.</p><p>�E o Armanskij, como reagiu?</p><p>�Ficou arrasado. O interessante � que...</p><p>�� que...?</p><p>�O Armanskij me contou que a Lisbeth Salander nunca gostou do Eriksson. Lembrou que h� alguns anos ela o aconselhou a despedir o cara. Disse que ele era um canalha, mas n�o quis explicar por qu�. O Armanskij, obviamente, n�o seguiu o conselho dela.</p><p>�Humm.</p><p>�O Curt ainda est� em S�dert�lje. Est�o para efetuar uma busca na casa do Carl-Magnus Lundin. O Jerker est� desenterrando o ex-presidi�rio Kenneth Gustafsson, vulgo Vagabundo, para os lados de Nykvarn. E pouco antes de eu chegar aqui ligou para dizer que tamb�m tem um corpo no segundo t�mulo. Pela roupa, � uma mulher. Parece que j� faz um tempinho que est� ali.</p><p>�Um cemit�rio dentro da mata. Jan, tenho a impress�o que essa hist�ria � muito mais monstruosa do que a gente pensava. A Salander n�o est� sendo acusada dos assassinatos de Nykvarn, est�?</p><p>Bublanski sorriu, pela primeira vez em muitas horas.</p><p>�N�o. Dessa ela vai se livrar. Mesmo assim, est� armada e atirou no Lundin.</p><p>�Chama a aten��o ela ter atirado no p� e n�o na cabe�a. No caso do Magge Lundin, talvez n�o fa�a muita diferen�a, mas a gente sempre achou que o assassino de Enskede era um excelente atirador.</p><p>- Sonja... Isso tudo � um completo absurdo. O Magge Lundin e o Benny Nieminen s�o dois grandalh�es violentos com uma ficha criminal quilom�trica. Lundin ganhou um pouco de peso, � verdade, e n�o est� no melhor de sua forma, mas � perigoso. E o Nieminen � um patife brutal que costuma assustar at� os fort�es. N�o consigo acreditar que uma magrelinha como a Salander tenha conseguido quebrar a cara deles desse jeito. O Lundin est� seriamente ferido.</p><p>�Humm.</p><p>�N�o estou dizendo que ele n�o merece. Mas n�o entendo como ela conseguiu fazer isso.</p><p>�A gente pergunta quando ela for pega. Mas existe um consenso de que ela � violenta.</p><p>�Seja como for, n�o consigo sequer imaginar o que aconteceu por l�. Estamos falando de dois sujeitos que o Curt Bolinder teria pensado duas vezes em enfrentar sozinho. E o Curt Bolinder n�o � particularmente um sujeito doce.</p><p>�A quest�o � saber se ela tinha algum motivo para atacar o Lundin e o Nieminen.</p><p>�Uma mo�a sozinha com dois psicopatas, dois cretinos puros-sangues, numa casa de campo deserta. At� posso imaginar os motivos - disse Bublanski.</p><p>�Ser� que ela teve a ajuda de algu�m? Ser� que havia mais gente no local?</p><p>�Nada no exame t�cnico indica isso. A Salander entrou na casa. Havia uma x�cara de caf� em cima da mesa. E, al�m disso, temos Anna Viktoria Hansson, que, do alto dos seus setenta e dois anos, d� uma de zeladora e repara em todo mundo que transita por ali. Ela jura que s� passaram a Salander e os dois caras de Svavelsj�.</p><p>�Como � que ela entrou na casa?</p><p>�Com uma chave. Acho que ela pegou no apartamento do Bjurman. Lembre...</p><p>�...dos lacres rompidos. �. Essa mocinha n�o para.</p><p>Sonja Modig tamborilou os dedos na mesa por alguns segundos, depois foi por outra dire��o.</p><p>�Deu para confirmar que o Lundin participou do sequestro da Miriam Wu?</p><p>Bublanski assentiu com a cabe�a.</p><p>�Pedimos para o Paolo Roberto dar uma olhada nas fotos de uns cinquenta motoqueiros. Ele identificou o Lundin imediatamente, sem pensar duas vezes. Diz que � o mesmo homem que ele viu no armaz�m de Nykvarn.</p><p>�E o Mikael Blomkvist?</p><p>�N�o consegui falar com ele. Ele n�o atende o celular.</p><p>�Bem. Mas o Lundin bate com a descri��o do agressor da Lundagatan. Podemos ent�o definir que o mc Svavelsj� vem perseguindo a Salander j� h� algum tempo. Por qu�?</p><p>Bublanski afastou os bra�os.</p><p>�Ser� que a Salander estava na casa de campo de Bjurman esse tempo todo em que vem sendo procurada? - quis saber Sonja Modig.</p><p>�Tamb�m pensei nessa hip�tese. Mas o Jerker acha que n�o. A casa n�o parecia ter sido ocupada recentemente, e temos essa testemunha afirmando que ela s� apareceu na aldeia hoje.</p><p>�Por que ela foi at� l�? Custo a acreditar que tivesse um encontro marcado com o Lundin.</p><p>�Tem raz�o, � pouco prov�vel. Ela deve ter ido l� buscar alguma coisa. E s� encontraram uns arquivos que parecem ser uma investiga��o particular do Bjurman sobre a Lisbeth Salander. Uma pilha de documentos do Servi�o Social e da Comiss�o de Tutelas referentes a Salander, e tamb�m antigas anota��es sobre a escolaridade dela. Mas faltam alguns arquivos. Eles est�o numerados. Temos o 1, o 4 e o 5.</p><p>�Faltam o 2 e o 3.</p><p>�E talvez outros depois do 5.</p><p>�O que leva a uma pergunta: por que a Salander iria procurar informa��es sobre si mesma?</p><p>�Vejo dois motivos. Ou est� querendo esconder algo que ela sabe que Bjurman registrou a seu respeito, ou est� tentando descobrir alguma coisa. Mas fica tamb�m outra pergunta.</p><p>�Ah, �?</p><p>�Por que o Bjurman fez uma pesquisa t�o ampla sobre ela e depois escondeu tudo na casa de campo? Aparentemente, a Salander descobriu os arquivos no s�t�o. Ele era o tutor dela, tinha por miss�o cuidar de suas finan�as e coisas do tipo. Mas os arquivos d�o a impress�o de que ele estava era obcecado pela vida dela a ponto de querer esmiu�ar tudo.</p><p>�O Bjurman est� cada vez mais parecendo uma figurinha meio suspeita. Pensei nisso hoje enquanto analisava a lista dos clientes sexuais na <emphasis>Millennium.</emphasis> Estava quase esperando topar com o nome dele.</p><p>�Bem pensado. Afinal, existe aquela cole��o de sexo expl�cito no computador dele. Merece aten��o. Descobriu alguma coisa?</p><p>�N�o sei bem. O Mikael Blomkvist est� se encontrando com todos os caras da lista, mas essa mo�a da <emphasis>Millennium,</emphasis> a Malu Eriksson, diz que ele n�o descobriu nada de interessante. Jan... preciso te dizer uma coisa.</p><p>�O qu�?</p><p>�N�o acho que foi a Salander que fez tudo isso. Quero dizer, Enskede e Odenplan. No in�cio, eu estava convencida da culpa dela, como todo mundo, mas n�o acredito mais nisso. E n�o sei nem explicar por qu�.</p><p>Bublanski meneou a cabe�a. E percebeu que concordava com Sonja Modig.</p><p>O gigante loiro andava para l� e para c� na casa de Magge Lundin em Svavelsj�, preocupado. Parou em frente � janela da cozinha e espiou a estrada. �quela hora, eles j� deviam ter voltado. Sentiu a preocupa��o corroer-lhe as tripas. Tinha acontecido alguma coisa.</p><p>Al�m disso, n�o gostava de ficar sozinho na casa de Magge Lundin. N�o conhecia a casa. Havia um s�t�o do lado do quarto dele, no piso superior, e a casa estalava o tempo todo de forma desagrad�vel. Tentou se livrar daquele mal-estar. O gigante loiro sabia que era bobagem, mas nunca tinha gostado de ficar sozinho. N�o sentia nenhum medo dos seres humanos de carne e osso, mas achava que casas de campo vazias tinham algo tremendamente inquietante. Os v�rios ru�dos ati�avam sua imagina��o. N�o conseguia se livrar da sensa��o de que algo obscuro e maligno o observava pela fresta de uma porta. �s vezes tinha at� a impress�o de ouvir uma respira��o.</p><p>Quando era mais jovem, ca�oavam dele por causa de seu medo do escuro. Ou melhor, tinham ca�oado at� ele dar uma surra nos colegas e, eventualmente, em pessoas mais velhas que sentiam prazer nesse tipo de divers�o. Ele era bom de surra.</p><p>Mas era um problema. Ele tinha horror a escuro e solid�o. Odiava os seres que povoavam o escuro e a solid�o. Queria que Lundin voltasse j�. A presen�a de Lundin restabeleceria o equil�brio, mesmo que eles n�o conversassem, mesmo que n�o estivessem no mesmo c�modo. Ele escutaria ru�dos de verdade, movimentos, e saberia que havia seres humanos por perto.</p><p>Tentou se livrar do mal-estar escutando uns discos. N�o se aguentando no lugar, procurou alguma coisa para ler nas prateleiras de Lundin. Infelizmente, a veia intelectual de Lundin deixava muito a desejar e ele teve de se contentar com uma cole��o de revistas antigas sobre motos, revistas masculinas e romances policiais maltratados do tipo que nunca o fascinara. Passou algum tempo limpando e azeitando a arma de fogo que guardava na sacola, o que o acalmou por uns momentos.</p><p>Por fim, incapaz de continuar na casa, saiu para dar uma voltinha no p�tio e tomar ar. Manteve-se longe da vista dos vizinhos, mas parou de modo a enxergar janelas iluminadas onde havia gente. Ficando totalmente im�vel, podia ouvir uma m�sica ao longe.</p><p>Quando quis entrar de novo na casa de Lundin, seu mal-estar tornou-se aterrador e ele ficou um temp�o nos degraus da frente, cora��o disparado, at� conseguir fazer um esfor�o e abrir resolutamente a porta.</p><p>As sete horas, desceu at� a sala e ligou a tev� para assistir ao notici�rio da <strong>TV</strong>4. At�nito, escutou as manchetes e, depois, a descri��o dos incidentes na casa de campo de Stallarholmen. Era o tema central do notici�rio.</p><p>Galgou os degraus da escada de quatro em quatro at� o quarto de h�spedes, e enfiou suas coisas numa sacola. Dois minutos depois, saiu pela porta e arrancou com o Volvo branco num estardalha�o.</p><p>Saiu bem a tempo. A um quil�metro apenas de Svavelsj�, cruzou com dois carros de pol�cia, luzes girat�rias azuis ligadas, entrando na aldeia.</p><p>Depois de muito esfor�o, Mikael Blomkvist conseguiu se encontrar com Holger Palmgren por volta das dezoito horas de quarta-feira. Muito esfor�o porque precisou convencer os funcion�rios a que o deixassem entrar. Insistiu com tamanha energia que uma enfermeira ligou para um tal de Dr. A. Sivarnandan, que aparentemente morava bem perto da casa de sa�de. Sivarnandan chegou depois de quinze minutos e assumiu o problema do jornalista persistente. De in�cio, foi categ�rico. Nas duas �ltimas semanas, v�rios jornalistas tinham conseguido localizar Holger Palmgren e apelado para m�todos quase desesperados a fim de obter alguma declara��o. Holger Palmgren, por sua vez, teimara em recha�ar todas essas visitas, e os funcion�rios tinham recebido ordem de n�o deixar entrar ningu�m.</p><p>Sivarnandan tamb�m tinha acompanhado o caso com imensa preocupa��o. Estava apavorado com as manchetes sobre Lisbeth Salander na m�dia e observou que seu paciente mergulhara numa profunda depress�o que, na sua interpreta��o, era fruto da incapacidade em que Palmgren se via de fazer alguma coisa. Interrompera a reabilita��o e passava os dias lendo os jornais e acompanhando a ca�ada a Lisbeth Salander pela tev�. O resto do tempo ficava matutando no quarto.</p><p>Mikael, teimoso, fincou p� diante da sala do Dr. Sivarnandan, explicando que n�o tinha a menor inten��o de expor Holger Palmgren a qualquer situa��o desagrad�vel e que n�o estava ali para obter uma declara��o. Explicou que era amigo de Lisbeth Salander, que tinha d�vidas sobre a culpa dela e estava desesperadamente em busca de informa��es que pudessem lan�ar uma luz sobre alguns detalhes do seu passado.</p><p>O Dr. Sivarnandan n�o se deixava seduzir assim t�o facilmente. Mikael precisou se sentar e explicar com calma seu papel naquele drama. Sivarnandan s� cedeu ao fim de meia hora de discuss�o. Pediu que Mikael esperasse enquanto ele subia at� o quarto de Holger Palmgren para perguntar se este aceitava receb�-lo.</p><p>Sivarnandan voltou ap�s dez minutos.</p><p>�Ele concordou em receb�-lo. Se n�o for com a sua cara, vai mand�-lo embora. Voc� n�o est� autorizado a entrevist�-lo nem a comentar esta visita na imprensa.</p><p>�Eu lhe garanto que n�o vou escrever uma linha sequer a respeito.</p><p>Holger Palmgren tinha um quarto pequeno com uma cama, uma c��moda, uma mesa e algumas cadeiras. Estava um espantalho, magro, de cabelos brancos, com evidentes problemas de desequil�brio, mas ainda assim se levantou quando Mikael entrou. N�o estendeu a m�o, por�m apontou para uma das cadeiras ao lado da mesa. Mikael sentou-se. Sivarnandan permaneceu no quarto. De in�cio, Mikael custou a entender as palavras balbuciadas por Holger Palmgren.</p><p>�Quem � o senhor, para se apresentar como amigo de Lisbeth Salander, e o que quer?</p><p>Mikael inclinou-se para tr�s. Refletiu por um instante.</p><p>�Holger, o senhor n�o � obrigado a falar comigo. Mas pe�o que escute o que eu tenho a dizer antes de decidir se me p�e daqui para fora.</p><p>Palmgren assentiu rapidamente com a cabe�a e se arrastou at� a cadeira em frente � de Mikael.</p><p>�Conheci Lisbeth Salander h� mais ou menos dois anos. Contratei-a para fazer uma pesquisa para mim sobre um assunto que prefiro n�o abordar ou lembrar. Ela esteve comigo num lugar onde eu estava morando temporariamente e trabalhamos juntos por v�rias semanas.</p><p>Ele se perguntou at� onde deveriam ir suas explica��es a Palmgren. Resolveu se manter o mais pr�ximo poss�vel da verdade.</p><p>�No meio do caminho, aconteceram duas coisas. Uma delas � que a Lisbeth salvou a minha vida. A outra � que estivemos muito pr�ximos durante um per�odo. Aprendi a conhec�-la e gostava imensamente dela.</p><p>Sem entrar em detalhes, Mikael falou sobre sua rela��o com Lisbeth e do fim repentino dessa rela��o depois das festas de Natal do ano anterior, quando Lisbeth viajara para fora do pa�s.</p><p>Em seguida falou sobre seu trabalho na <emphasis>Millennium</emphasis> e os assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman, e explicou como se via de repente envolvido na busca de um assassino.</p><p>�Entendo que o senhor andou sendo importunado por jornalistas recentemente e que os jornais publicaram bobagem que n�o acaba mais. S� o que posso fazer � lhe garantir que n�o estou aqui para obter material para um en�simo artigo. Sou provavelmente uma das rar�ssimas pessoas neste pa�s que, neste momento, sem hesitar e sem segundas inten��es, est�o do lado de Lisbeth Salander. Acho que ela � inocente. Acho que um homem chamado Zalachenko est� por tr�s desses assassinatos.</p><p>Mikael fez uma pausa. Alguma coisa faiscara nos olhos de Palmgren quando ele pronunciou o nome de Zalachenko.</p><p>�Se quiser contribuir com qualquer coisa que esclare�a o passado dela, este � o momento. Se n�o quiser ajud�-la, vou estar desperdi�ando o meu tempo e sabendo, tamb�m, qual a sua posi��o.</p><p>Holger Palmgren n�o dissera sequer uma palavra durante o discurso de Mikael. No �ltimo coment�rio, houve outro brilho em seus olhos. Mas ele falou de um modo mais pausado e articulado que conseguiu.</p><p>�E o senhor quer mesmo ajud�-la. Mikael fez que sim com a cabe�a. Holger Palmgren se inclinou para a frente.</p><p>�Descreva-me o sof� da sala dela. Mikael retribuiu o sorriso.</p><p>�Quando estive l�, havia um tro�o velho absolutamente imundo que s� poderia interessar um antiqu�rio. In�cio dos anos 1950, eu diria. Tinha umas almofadas de tecido marrom com uma estampa amarela. O tecido estava rasgado em v�rios pontos e o enchimento saindo para fora.</p><p>Holger Palmgren caiu na gargalhada. Mais parecia estar limpando a garganta. Olhou para o Dr. Sivarnandan.</p><p>�Ele pelo menos esteve no apartamento dela. Diga-me, doutor, posso pedir caf� para o meu convidado?</p><p>�Mas � claro.</p><p>Sivarnandan se levantou e saiu do quarto. Deteve-se na porta e, com a cabe�a, acenou para Mikael.</p><p>�Alexander Zalachenko - disse Holger Palmgren, assim que a porta fechou.</p><p>Mikael arregalou os olhos.</p><p>�Conhece esse nome?</p><p>Holger Palmgren meneou a cabe�a.</p><p>�A Lisbeth me disse o nome dele. Acho que � importante eu contar hist�ria para algu�m... caso me d� na telha morrer de repente, o que n�o improv�vel.</p><p>�A Lisbeth? Como ela sabia da exist�ncia dele?</p><p>�Ele � o pai da Lisbeth Salander.</p><p>Num primeiro momento, Mikael custou a entender o que Holger Palmmer dizia. Aos poucos, as palavras abriram caminho dentro dele.</p><p>�O que est� dizendo?</p><p>�O Zalachenko chegou aqui nos anos 1970. Era uma esp�cie de refugiado pol�tico - nunca entendi muito bem essa hist�ria e Lisbeth sempre foi muito muquirana em mat�ria de informa��o. Esse era um assunto no qual ela n�o queria tocar de jeito nenhum.</p><p>A <emphasis>certid�o de nascimento. Pai desconhecido.</emphasis></p><p>�O Zalachenko � o pai da Lisbeth - Mikael repetiu.</p><p>�Nesses anos todos desde que a conhe�o, ela s� contou o que tinha acontecido uma �nica vez. Foi mais ou menos um m�s antes de eu sofrer o derrame. O que eu entendi foi o seguinte: o Zalachenko chegou em meados dos anos 1970. Conheceu a m�e da Lisbeth em 1977, eles se tornaram um casal e o resultado foram duas crian�as.</p><p>�Duas?</p><p>�A Lisbeth e sua irm�, Camilla. Elas s�o g�meas.</p><p>�Meu Deus - quer dizer que tem outra igual a ela!</p><p>�Elas s�o muito diferentes. Mas essa � outra hist�ria. A m�e da Lisbeth se chamava Agneta Sofia Sj�lander. Tinha dezessete anos quando conheceu Alexander Zalachenko. N�o sei de detalhes, mas pelo que entendi, ela era uma mo�a um tanto imatura e foi uma presa f�cil para um homem mais velho e experiente. Ficou impressionada com ele e, como � prov�vel, se apaixonou perdidamente.</p><p>�Entendo.</p><p>�O Zalachenko se mostrou tudo, menos simp�tico. Era muito mais velho que ela. Imagino que estivesse procurando uma mulher f�cil, mais nada.</p><p>�O senhor deve ter raz�o.</p><p>�Ela decerto fantasiava um futuro seguro ao lado dele, s� que ele n�o tinha a menor inten��o de se casar. Ali�s, eles nunca se casaram, mas em 1979 ela mudou o sobrenome de Sj�lander para Salander. Deve ter sido o jeito que ela encontrou de mostrar que estavam juntos.</p><p>�Como assim?</p><p>�Zala. <emphasis>Salander.</emphasis></p><p>�Caramba! � exclamou Mikael.</p><p>�Comecei a me debru�ar sobre o assunto bem na �poca em que fiquei doente. O que aconteceu depois � que o Zalachenko se revelou um psicopata de primeira. Bebia e espancava Agneta. Pelo que pude entender, essa viol�ncia se estendeu por toda a inf�ncia das meninas. Lisbeth se lembra que o Zalachenko aparecia regularmente. �s vezes se ausentava por longos per�odos e, de repente, estava de novo na Lundagatan. E toda vez era a mesma coisa. Ele vinha pelo sexo e para beber, e a hist�ria sempre acabava com Agneta Salander sofrendo diferentes maus-tratos. Lisbeth me contou detalhes que d�o a entender que n�o eram apenas maus-tratos f�sicos. Ele vinha armado, amea�ador, parecia muito um s�dico que curte o terror psicol�gico. Pelo que eu soube, s� foi piorando com os anos. A m�e de Lisbeth passou grande parte da d�cada de 1980 aterrorizada.</p><p>�Ele tamb�m batia nas filhas?</p><p>�N�o. Aparentemente, n�o tinha o menor interesse pelas filhas. Mal as cumprimentava. A m�e em geral as mandava para o quarto quando o Zalachenko chegava, e elas n�o podiam sair sem permiss�o. Uma ou outra vez pode ter acontecido de ele dar um tapa em Lisbeth ou na irm�, mas era mais porque elas estavam atrapalhando ou no meio do caminho. A viol�ncia era toda dirigida � m�e.</p><p>�Puta merda. Coitada da Lisbeth. Holger Palmgren assentiu com a cabe�a.</p><p>�A Lisbeth me contou isso cerca de um m�s antes de eu sofrer o derrame. Era a primeira vez que ela falava abertamente sobre o que havia acontecido. Eu tinha acabado de decidir que daria um basta �quela bobagem de tutela. A Lisbeth � t�o inteligente como qualquer um de n�s, e eu estava me preparando para rediscutir o caso dela no tribunal de inst�ncias. A� sofri o derrame... e quando acordei, estava aqui.</p><p>Fez um gesto largo com o bra�o. Uma enfermeira bateu � porta e entrou com o caf�. Palmgren se manteve calado at� ela sair do quarto.</p><p>�H� coisas que n�o entendo nessa hist�ria. Agneta Salander foi obrigada a ir para o hospital uma d�zia de vezes. Li o dossi� dela. Era manifestamente v�tima de maus-tratos severos e o Servi�o Social teria de ter intervindo. Mas nada aconteceu. A Lisbeth e a Camilla eram encaminhadas para eles quando a m�e estava hospitalizada, mas assim que ela tinha alta voltava para casa para esperar pelo pr�ximo <emphasis>round. A</emphasis> �nica explica��o que me ocorre � que a rede de prote��o social inteira falhou em sua miss�o e que a Agneta tinha medo demais para fazer qualquer coisa al�m de esperar pelo seu torturador. Ent�o, alguma coisa aconteceu. A Lisbeth chama isso de Todo o Mal.</p><p>�E o que vem a ser isso?</p><p>�Fazia v�rios meses que Zalachenko n�o aparecia. Lisbeth acabava de completar doze anos. Estava come�ando a acreditar que ele tinha sumido de vez. O que, evidentemente, n�o era o caso. Um dia ele voltou. Primeiro, Agneta fechou Lisbeth e a irm� no quarto. Em seguida, teve rela��es com o Zalachenko. E depois ele come�ou a espanc�-la. Sentia prazer em tortur�-la. S� que dessa vez n�o eram duas criancinhas que estavam fechadas no quarto... As meninas tiveram outra rea��o. Camilla tinha verdadeiro p�nico de que algu�m descobrisse o que acontecia em casa. Reprimia tudo e fazia de conta que n�o via que a m�e era maltratada. Quando os golpes cessavam, Camilla costumava ir fazer um carinho no pai como se estivesse tudo muito bem.</p><p>�Era o jeito dela de se proteger.</p><p>��. Mas a Lisbeth era de outro calibre. Dessa vez, ela interrompeu a sess�o de viol�ncia. Foi at� a cozinha, pegou uma faca e enfiou-a no ombro de Zalachenko. Ela o apunhalou cinco vezes, at� que ele conseguiu tomar a faca e lhe dar um soco. Os cortes n�o foram fundos, mas ele come�ou a sangrar feito um porco, e deu no p�.</p><p>�Isso � bem a cara da Lisbeth. Palmgren riu.</p><p>��. � melhor n�o deixar Lisbeth Salander nervosa. A atitude dela com as pessoas � sua volta �: se algu�m a amea�a com um rev�lver, ela consegue um rev�lver maior. � o que me assusta tanto neste caso agora.</p><p>�Todo o Mal foi isso?</p><p>�N�o. Agora v�o acontecer duas coisas. Mas eu n�o consigo entender. O Zalachenko saiu suficientemente ferido para precisar ir at� o hospital. Deveria ter havido uma investiga��o policial.</p><p>�Mas?</p><p>�Mas at� onde sei n�o houve absolutamente nada. Lisbeth afirma que um homem foi falar com Agneta. N�o sabe o que eles disseram nem quem ele era. Depois disso, a m�e disse a Lisbeth que o Zalachenko tinha perdoado tudo.</p><p>�Perdoado?</p><p>�Foram as palavras dela. De repente, Mikael entendeu.</p><p><emphasis>Bj�rck. Ou um dos colegas de Bj�rck. Era preciso fazer a limpeza atr�s do Zalachenko. Que canalha!</emphasis> Ele fechou os olhos.</p><p>�O que foi? - perguntou Palmgren.</p><p>�Acho que sei o que aconteceu. E desta vez algu�m vai pagar por isso. Mas continue.</p><p>�O Zalachenko ficou meses sem aparecer. Lisbeth esperava por ele e se preparava. Matava aula o tempo todo para vigiar a m�e. Morria de medo que Zalachenko a machucasse. Tinha doze anos e se sentia respons�vel por aquela m�e que n�o ousava procurar a pol�cia e n�o conseguia romper com Zalachenko, ou que talvez n�o percebesse a gravidade da situa��o. Mas, justamente no dia em que o Zalachenko voltou, a Lisbeth estava na escola. Chegou em casa quando ele estava saindo do apartamento. Ele. n�o disse nada. Apenas riu. A Lisbeth entrou e deparou com a m�e desacordada no ch�o da cozinha.</p><p>�E o Zalachenko n�o encostou na Lisbeth?</p><p>�N�o. Ela o alcan�ou quando ele j� estava entrando no carro. Ele baixou o vidro, provavelmente para lhe dizer alguma coisa. A Lisbeth tinha se preparado. Jogou dentro do carro uma caixa de leite que ela tinha enchido de gasolina. E ent�o riscou um f�sforo.</p><p>�Meu Deus!</p><p>�Duas vezes ela tentou matar o pai. Desta vez, houve conseq��ncias. Um homem ardendo feito uma tocha dentro de um carro na Lundagatan n�o podia passar despercebido.</p><p>�Seja como for, ele sobreviveu.</p><p>�O Zalachenko ficou muito mal, com queimaduras graves. Teve que amputar um p�. Ficou com o rosto seriamente queimado, e com queimaduras no corpo inteiro. E Lisbeth acabou na psiquiatria infantil do Sankt Stefan.</p><p>Embora j� soubesse de cor cada palavra, Lisbeth Salander releu atentamente os documentos a seu respeito que tinha encontrado na casa de campo de Bjurman. Depois acomodou-se no recanto da janela e abriu a cigarreira que Miriam Wu lhe dera de presente. Acendeu um cigarro e contemplou Djurg�rden. Descobrira detalhes sobre sua vida que n�o conhecia.</p><p>Tantas pe�as do quebra-cabe�a estavam se encaixando que ela chegou a ficar gelada. O que a interessava antes de mais nada era o relat�rio policial redigido por Gunnar Bj�rck em fevereiro de 1991. N�o poderia afirmar quem era Bj�rck entre todos os adultos que haviam falado com ela, mas julgava saber quem ele era. Apresentara-se com outro nome. Sven Jansson. Lembrava-se de cada nuan�a de seu rosto, de cada palavra dita e de cada gesto dele nas tr�s ocasi�es em que se encontraram.</p><p>Tinha sido um caos completo.</p><p>Dentro do carro, Zalachenko ardia feito uma tocha. Tinha conseguido abrir a porta e rolar para a cal�ada, mas sua perna ficara presa no cinto de seguran�a em meio ao fogo. Algumas pessoas acorreram e abafaram as chamas. Os bombeiros chegaram para apagar o inc�ndio do carro. Veio a ambul�ncia, e ela tentou convencer os param�dicos a deixar Zalachenko para l� e ir cuidar de sua m�e. Eles a recha�aram. Veio a pol�cia e algumas testemunhas apontaram para ela. Ela tentou explicar o que havia acontecido, mas teve a impress�o de que ningu�m a escutava, e de repente se viu no banco traseiro de um carro da pol�cia, e tinham se passado minutos, minutos e mais minutos que quase viraram uma hora, antes que a pol�cia finalmente entrasse no apartamento e encontrasse sua m�e.</p><p>Agneta Sofia Salander estava desacordada. Tinha les�es cerebrais. O primeiro de uma longa s�rie de derrames fora desencadeado pelas pancadas. Ela nunca viria a se recuperar.</p><p>Lisbeth compreendeu de repente por que ningu�m lera o relat�rio policial, por que Holger Palmgren n�o conseguira lhe p�r as m�os e por que hoje o procurador Richard Ekstr�m, que comandava a ca�ada contra ela, n�o tinha acesso a ele. O relat�rio n�o fora redigido pela pol�cia comum. Fora escrito por um idiota da S�po. Havia nele carimbos indicando que a investiga��o era considerada confidencial com base na lei de seguran�a nacional.</p><p>Alexander Zalachenko tinha trabalhado para a S�po.</p><p>N�o se tratava de uma investiga��o. Tratava-se do abafamento de um caso. Zalachenko era mais importante que Agneta Salander. N�o podia ser identificado ou denunciado. Zalachenko n�o existia.</p><p><emphasis>Zalachenko n�o era o problema - o problema era Lisbeth Salander, a garota maluca que amea�ava detonar um dos maiores segredos da na��o.</emphasis></p><p>Um segredo de que ela n�o tinha nenhum conhecimento. P�s-se a raciocinar. Zalachenko conhecera sua m�e quase em seguida quando chegara � Su�cia. Tinha se apresentado com seu verdadeiro nome. Ainda n�o ganhara um nome de fachada nem a identidade sueca. O que explicava Lisbeth n�o ter encontrado seu nome em nenhum registro oficial naqueles anos todos. Ela sabia o seu nome verdadeiro. Mas o Estado sueco lhe dera um novo nome.</p><p>Ela captou a id�ia geral. Se Zalachenko fosse indiciado por golpes e ferimentos agravados, o advogado de Agneta Salander ia come�ar a sondar o passado dele. <emphasis>Onde � que o senhor trabalha, senhor Zalachenko? Qual o seu verdadeiro nome?</emphasis></p><p>Se Lisbeth Salander ficasse no Servi�o Social, algu�m talvez come�asse a fu�ar. O que tamb�m aconteceria se o atentado com coquetel Molotov fosse minuciosamente investigado, embora ela fosse jovem demais para ser indiciada. Imaginou as manchetes dos jornais. O relat�rio precisava, portanto, ser redigido por uma pessoa de confian�a. E, depois, arquivado como <emphasis>top secret</emphasis> e muito bem enterrado, para que ningu�m pudesse encontr�-lo. E Lisbeth Salander tamb�m tinha de ser t�o bem enterrada que ningu�m pudesse ach�-la.</p><p><emphasis>Gunnar Bj�rck.</emphasis></p><p><emphasis>Sankt Stefan.</emphasis></p><p><emphasis>Peter Teleborian.</emphasis></p><p>A explica��o a deixou fora de si.</p><p><emphasis>Prezado Estado... Vou ter uma conversinha com voc� caso um dia eu descubra com quem devo falar.</emphasis></p><p>Perguntou-se rapidamente o que o ministro de Assuntos Sociais iria achar se um coquetel Molotov atravessasse as portas do seu minist�rio. Na falta de respons�veis, por�m, Peter Teleborian era um bom substituto. Anotou mentalmente que teria que cuidar muito bem do caso dele assim que resolvesse todo o resto.</p><p>Mas ela ainda n�o entendia todos os meandros. Zalachenko reaparecera de repente depois de todos esses anos. Corria o risco de ser denunciado por Dag Svensson. <emphasis>Dois tiros. Dag Svensson e Mia Bergman.</emphasis> Uma arma que tinha as impress�es digitais dela...</p><p>Zalachenko, ou quem ele enviara para executar a senten�a, evidentemente n�o podia saber que ela achara o rev�lver na gaveta de Bjurman e o manipulara. Isso tinha sido puro acaso, mas para ela estava claro desde o come�o que devia haver um v�nculo entre Bjurman e Zala.</p><p>Mesmo assim, algo n�o estava colando naquela hist�ria. Ficou refletindo e experimentando, uma por uma, as pe�as do quebra-cabe�a.</p><p>S� existia uma resposta plaus�vel.</p><p>Bjurman.</p><p>Bjurman tinha feito uma investiga��o sobre ela. Estabelecera o elo entre ela e Zalachenko. E voltara-se para Zalachenko.</p><p>Ela tinha um filme que mostrava Bjurman violentando-a. Era a sua espada na nuca de Bjurman. Bjurman devia ter imaginado que Zalachenko poderia obrigar Lisbeth a revelar onde estava o filme.</p><p>Afastou-se da janela e foi pegar o CD na gaveta da escrivaninha, no qual escrevera �Bjurman� com a caneta-marcador. N�o tinha sequer guardado o CD numa capinha. N�o o tinha assistido desde que o mostrara em pr�-estreia h� Bjurman dois anos antes. Segurou-o um instante, e em seguida guardou-o de volta na gaveta.</p><p>Bjurman fora um idiota. Se tivesse cuidado da vida dele, ela o teria deixado em paz desde que conseguisse reverter sua tutela. J� o Zalachenko nunca o teria deixado em paz. Bjurman se tornaria para todo sempre o c�ozinho de estima��o de Zalachenko. O que n�o deixava de ser um merecido castigo.</p><p>A rede de Zalachenko. Tent�culos que se estendiam at� o mc Svavelsj�.</p><p>O <emphasis>gigante loiro.</emphasis></p><p>Ele era a chave.</p><p>Precisava encontr�-lo e obrig�-lo a revelar onde Zalachenko se escondia.</p><p>Acendeu mais um cigarro e contemplou o castelo de Skeppsholmen. Deslocou o olhar para as montanhas-russas do parque de divers�es de Gr�na Lund. S�bito, falou consigo mesma em voz alta. Imitou uma voz que tinha ouvido um dia num filme da tev�.</p><p><emphasis>Daaaaddyyyyy, I am coming to get yoooou.</emphasis></p><p>Se algu�m escutasse, diria que ela era louca de atar. �s sete e meia da noite, ligou a tev� para ver as �ltimas not�cias da ca�a a Lisbeth Salander. Teve o maior choque de sua vida.</p><p>Bublanski conseguiu localizar Hans Faste no celular pouco antes das vinte horas. N�o foram gentilezas que eles trocaram pela rede de telecomunica��es. Bublanski n�o perguntou a Faste onde ele tinha estado apenas comunicou-lhe friamente os acontecimentos do dia.</p><p>Faste estava abalado.</p><p>Cansara-se daquele circo que estava a delegacia e fizera uma coisa que nunca tinha feito antes em servi�o. Furioso, fora at� o centro da cidade. Desligara o celular e se sentara num <emphasis>pub</emphasis> da Esta��o Central, onde tomara duas cervejas, fervendo de raiva.</p><p>Depois, voltou para casa, tomou uma ducha e caiu no sono. Estava precisando dormir.</p><p>Acordou a tempo de assistir <emphasis>Rapport,</emphasis> e seus olhos quase saltaram das �rbitas quando viu o notici�rio. Um cemit�rio em Nykvarn. Lisbeth Salander tinha atirado no chefe do mc Svavelsj�. Ca�ada humana pelos sub�rbios da zona sul. O cerco estava se fechando.</p><p>Ligou o celular.</p><p>O diacho do Bublanski telefonou quase em seguida, informando que a partir daquele momento a investiga��o passava oficialmente a procurar outro culpado tamb�m. E mandou-o substituir Jerker Holmberg no exame do local do crime em Nykvarn. Bem agora que a investiga��o Salander chegava ao fim, Faste ia juntar guimba de cigarro no meio do mato. E a Salander ia ficar para os outros.</p><p>O que o MC Svavelsj� estava fazendo nessa hist�ria?</p><p>Afinal, talvez houvesse algum nexo no que aquela puta de uma l�sbica da Modig falava.</p><p>N�o, n�o era poss�vel.</p><p>Tinha que ser a Salander.</p><p>Queria ser ele a prend�-la. Tinha tanta vontade de prend�-la que apertou o celular at� quase machucar a m�o.</p><p>Holger Palmgren observou calmamente Mikael Blomkvist, que andava de l� para c� em frente � janela do pequeno quarto. Eram cerca de sete e meia da noite e fazia quase uma hora que eles estavam conversando sem interrup��o. Por fim, Palmgren bateu na mesa para chamar a aten��o de Mikael.</p><p>�Sente-se, ou vai gastar a sola dos sapatos - disse, passando a trat�-lo por �voc�.</p><p>Mikael se sentou.</p><p>�Quantos segredos - disse ele. �Eu n�o tinha percebido qual era o elo at� voc� me contar sobre o passado de Zalachenko. S� tinha visto as avalia��es do estado de Lisbeth declarando que ela era psicologicamente perturbada.</p><p>�Peter Teleborian.</p><p>�Ele s� pode ter um tipo de acordo com o Bj�rck. Deve ser alguma esp�cie de colabora��o.</p><p>Mikael meneou a cabe�a, pensativo. O que quer que acontecesse, Peter Teleborian seria objeto de uma investiga��o jornal�stica.</p><p>�Lisbeth pediu que eu ficasse longe dele. Disse que ele era do mal. Holger Palmgren fitou-o com aten��o.</p><p>�Quando ela disse isso?</p><p>Mikael ficou quieto. Ent�o sorriu e olhou para Palmgren.</p><p>�Mais segredos. Caramba. Eu me comuniquei com ela enquanto ela estava foragida. Pelo computador. Mensagens sucintas e herm�ticas da parte dela, mas o tempo todo me orientando na dire��o certa.</p><p>Holger Palmgren suspirou.</p><p>�E � claro que voc� n�o contou isso � pol�cia - disse ele.</p><p>�N�o. N�o exatamente.</p><p>�Oficialmente, voc� tamb�m n�o contou para mim. Mas ela entende bastante de inform�tica.</p><p><emphasis>Voc� nem imagina o quanto.</emphasis></p><p>�Confio muito na capacidade que ela tem de se virar. Ela at� pode viver modestamente, mas � uma batalhadora.</p><p><emphasis>Nem t�o modestamente. Ela roubou quase tr�s bilh�es de coroas. N�o vai morrer de fome. Tem um cofre cheio de moedas de ouro, igual � P�ppi Meialonga.</emphasis></p><p>�O que eu n�o entendo - disse Mikael - � por que voc� n�o tomou nenhuma atitude nesses anos todos.</p><p>Holger Palmgren deu outro suspiro. Sentia-se imensamente triste.</p><p>�Eu fracassei - disse. �Quando fui indicado como seu administrador <emphasis>ad hoc,</emphasis> ela era s� mais uma no meio de um batalh�o de jovens problem�ticos. Tive dezenas deles. Foi o Bengt Br�dhensj� quem me confiou essa miss�o, quando era chefe do Servi�o Social. A Lisbeth j� estava em Sankt Stefan na �poca e eu nem sequer estive com ela no primeiro ano. Falei umas vezes com o Teleborian e ele me explicou que ela era psic�tica e estava recebendo todos os cuidados poss�veis e imagin�veis. Naturalmente, acreditei. Mas falei tamb�m com o Jonas Beringer, que, na �poca, era chefe do setor. N�o creio que ele estivesse envolvido nessa hist�ria. Fez uma avalia��o a pedido meu, e concordamos em tentar reinseri-la na sociedade por meio de uma fam�lia adotiva. Ela estava com quinze anos.</p><p>�E a partir da� voc� a acompanhou por todos esses anos?</p><p>�N�o o suficiente. Briguei por ela depois do epis�dio do metr�. Eu j� a conhecia melhor e gostava muito dela. Ela tinha personalidade. Consegui evitar que fosse internada. O compromisso que conseguimos firmar com as autoridades foi que ela seria declarada incapaz e eu me tornaria seu tutor.</p><p>�Tamb�m n�o d� para supor que o Bj�rck tenha conseguido influenciar a decis�o do tribunal. Isso teria chamado a aten��o. Ele queria que ela fosse trancafiada e, para alcan�ar seus fins, tentou passar uma imagem bem negativa dela atrav�s das avalia��es psiqui�tricas, gra�as, entre outros, ao Teleborian, na esperan�a de que o tribunal tomasse a decis�o l�gica. Em vez disso, o tribunal adotou o seu ponto de vista.</p><p>�Eu nunca achei que ela devia ser colocada sob tutela. Mas, para ser sincero confesso que n�o me esforcei muito para tentar reverter essa decis�o. Eu deveria ter agido com mais vigor, e mais cedo. Mas eu gostava muito da Lisbeth e... ficava o tempo todo adiando. Estava com casos demais para cuidar. Depois, acabei caindo doente.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>�N�o acho que tenha motivos para se recriminar. Voc� � uma das poucas pessoas que a apoiaram nesses anos todos.</p><p>�O problema era que eu n�o sabia que tinha de intervir. A Lisbeth era minha cliente, mas nunca mencionou o Zalachenko. Depois que teve alta no Sankt Stefan, ela precisou de v�rios anos para demonstrar umas migalhas de confian�a em mim. S� depois do processo � que eu senti que, aos poucos, ela estava come�ando a se comunicar comigo para al�m das formalidades obrigat�rias.</p><p>�Como foi que ela passou a falar no Zalachenko?</p><p>�Imagino que, apesar de tudo, ela estava come�ando a confiar em mim. Al�m disso, eu j� tinha aventado v�rias vezes a possibilidade de mandar suspender a tutela. Ela pensou sobre o assunto por alguns meses. Depois, ligou um dia para marcar um encontro. Tinha terminado de pensar. E ent�o me contou toda a hist�ria do Zalachenko e a interpreta��o dela sobre o que tinha acontecido.</p><p>�Entendo.</p><p>�Ent�o talvez entenda que, para mim, esse era um prato e tanto para digerir. Foi quando comecei a remexer nessa hist�ria. E n�o consegui sequer achar o Zalachenko num registro civil sueco. Tinha horas em que era dif�cil saber se ela n�o estava inventando aquilo tudo.</p><p>�Quando voc� sofreu o derrame, o tutor passou a ser o Bjurman. Certamente n�o foi por acaso.</p><p>�N�o foi. N�o sei se algum dia vamos conseguir provar, mas tenho a impress�o de que se cavoucarmos bem fundo vamos achar... o sujeito, quem quer que seja ele, que ficou no lugar do Bj�rck cuidando da faxina do caso Zalachenko.</p><p>�N�o me parece nada dif�cil entender a recusa absoluta da Lisbeth em falar com psic�logos e autoridades - disse Mikael. �Toda vez que ela tentou, as coisas s� pioraram. Ela tentou explicar o que tinha acontecido para dezenas de adultos e ningu�m a escutou. Tentou, sozinha, salvar a vida da m�e e defend�-la de um psicopata. Acabou fazendo a �nica coisa que podia fazer. E em vez de ouvir um �voc� fez bem� e �voc� � uma boa menina�, foi trancafiada num asilo de doidos.</p><p>�N�o � assim t�o simples. Espero que voc� perceba que existe algo estranho com a Lisbeth - disse Palmgren com ar grave.</p><p>�O que voc� quer dizer?</p><p>�Voc� deve saber que ela teve um bocado de problemas na inf�ncia, dificuldades escolares e tudo mais.</p><p>�Os jornais repetiram isso � exaust�o. Eu com certeza tamb�m teria tido uma escolaridade dif�cil se tivesse tido a inf�ncia dela.</p><p>�Os problemas da Lisbeth v�o bem al�m daqueles do seu ambiente familiar. Li todas as avalia��es psiqui�tricas sobre ela e n�o h� um diagn�stico sequer. Mas acho que n�s dois concordamos que a Lisbeth Salander n�o � uma pessoa igual �s outras. Voc� j� jogou xadrez com ela?</p><p>�N�o.</p><p>�Ela tem mem�ria fotogr�fica.</p><p>�Isso eu sei. Deu para perceber na conviv�ncia com ela.</p><p>�Certo. Ela adora enigmas. Uma vez, quando veio me visitar no Natal, dei uns problemas de um teste de intelig�ncia da Mensa para ela resolver. Um teste desses que mostram cinco s�mbolos similares e a gente tem que definir qual � o sexto s�mbolo.</p><p>�Ah, sei.</p><p>�Eu mesmo tinha tentado fazer esse teste e acertei mais ou menos � metade. E fiquei duas noites quebrando a cabe�a. Ela deu uma olhada no papel e respondeu corretamente a todas as perguntas.</p><p>�Certo - disse Mikael. �A Lisbeth � uma menina muito especial.</p><p>�Ela tem muita dificuldade em se comunicar com os outros. Pensei numa modalidade da s�ndrome de Asperger, ou algo assim. Se voc� ler a descri��o cl�nica dos portadores da s�ndrome de Asperger, algumas coisas t�m tudo a ver com a Lisbeth, mas outras n�o.</p><p>Calou-se por alguns instantes.</p><p>�Ela n�o � nem um pouco perigosa para quem a deixa em paz e a trata com respeito.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>�Mas ela � violenta, sem d�vida - disse Palmgren em voz baixa. �Quando provocada ou amea�ada, pode revidar com extrema viol�ncia.</p><p>Mikael meneou a cabe�a mais uma vez.</p><p>�A quest�o � saber o que a gente faz agora - disse Holger Palmgren.</p><p>�A gente agora tem que achar o Zalachenko - respondeu Mikael. Nisso, o Dr. Sivarnandan bateu na porta.</p><p>�Espero n�o estar atrapalhando. Mas se est�o interessados na Lisbeth Salander, vale a pena ligar a tev� e assistir o <emphasis>Rapport.</emphasis></p></section><section><p><strong><emphasis>29 - QUARTA-FEIRA 6 DE ABRIL � QUINTA-FEIRA 7 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander tremia de raiva. De manh�, tinha tranq�ilamente ido at� a casa de campo de Bjurman. N�o ligava o computador desde a noite anterior e, durante o dia, estivera ocupada demais para ouvir o notici�rio. Estava preparada para a confus�o de Stallarholmen ocasionar umas manchetes, mas foi pega totalmente de surpresa pela tempestade que desabou sobre ela com as not�cias da tev�.</p><p>Miriam Wu estava no hospital de S�der, rebentada por um gigante loiro que a raptara em frente � sua casa na Lundagatan. Seu estado era considerado grave.</p><p>Paolo Roberto a salvara. Como ele tinha ido parar no armaz�m de Nykvarn era um mist�rio. Foi entrevistado ao sair do hospital, mas n�o quis fazer nenhuma declara��o. Pelo seu rosto, at� dava para supor que estava saindo de dez <emphasis>rounds</emphasis> disputados com as m�os atadas �s costas.</p><p>Tinham sido desenterrados no mato os despojos de duas pessoas, na mesma �rea para onde Miriam Wu havia sido levada. A pol�cia comunicava que no final do dia fora descoberto um terceiro ponto que seria escavado. Talvez ainda houvesse outros t�mulos no terreno.</p><p>Em seguida, a ca�ada a Lisbeth Salander.</p><p>O cerco se fechava em volta dela. Durante o dia, a pol�cia a localizara numa aldeia de veraneio nas proximidades de Stallarholmen. Estava armada e era perigosa. Tinha atirado num dos Hell�s Angel, talvez em dois. A agress�o se dera na casa de campo de Nils Bjurman. A pol�cia acreditava que ela conseguira furar o cerco e deixar a regi�o.</p><p>O chefe do inqu�rito preliminar, Richard Ekstr�m, deu uma coletiva de imprensa. Suas respostas foram evasivas. N�o, n�o podia dizer se Lisbeth Salander tinha alguma rela��o com os Hell�s Angels. N�o, n�o podia confirmar que Lisbeth Salander tinha sido vista no armaz�m de Nykvarn. N�o, nada indicava que se tratasse de um acerto de contas entre g�ngsteres. N�o, n�o estava definido que Lisbeth Salander era a �nica culpada dos assassinatos de Enskede - a pol�cia jamais afirmara que era ela a assassina - disse Ekstr�m. S� estavam � sua procura para ouvir o que ela tinha a dizer sobre o caso.</p><p>Lisbeth Salander franziu o cenho. Aparentemente, alguma coisa acontecera nos bastidores da investiga��o policial.</p><p>Ela correu para a internet e leu, para come�ar, as p�ginas dos jornais, e depois entrou sucessivamente no disco r�gido do procurador Ekstr�m, no de Dragan Armanskij e no de Mikael Blomkvist.</p><p>A caixa postal de Ekstr�m continha v�rias mensagens interessantes, notadamente um memorando enviado pelo inspetor Jan Bublanski �s 17h22. Era sucinto e bastante cr�tico quanto � maneira como Ekstr�m vinha conduzindo o inqu�rito preliminar. O e-mail terminava com o que decerto devia ser considerado um ultimato. Bublanski procedia por pontos. Exigia (a) que a inspetora Sonja Modig fosse imediatamente reintegrada � sua equipe, (b) que fosse alterada a orienta��o da investiga��o no sentido de obter culpados alternativos para os assassinatos de Enskede e (c) que se abrisse uma verdadeira investiga��o sobre o misterioso indiv�duo conhecido pelo nome de Zala.</p><p>[As acusa��es contra Lisbeth Salander baseiam-se num �nico e pesado ind�cio - suas impress�es digitais na arma do crime. Isso constitui de fato, como voc� sabe muito bem, uma prova de que ela manipulou a arma, mas n�o uma prova de que ela a usou, e muito menos de que a apontou para as v�timas.</p><p>Na atual situa��o, sabemos que outros atores est�o envolvidos nessa trag�dia, que a pol�cia de S�dertalje descobriu dois corpos enterrados e vai cavar um terceiro ponto. O tal dep�sito pertence a um primo de Carl-Magnus Lundin. A mim parece evidente que Lisbeth Salander, n�o obstante a sua viol�ncia e qualquer que seja o seu perfil psicol�gico, n�o tem nada a ver com isso tudo.]</p><p>Bublanski conclu�a declarando que, se suas exig�ncias n�o fossem atendidas, se sentiria obrigado a se retirar das investiga��es, o que n�o faria sem um certo alarde. Ekstr�m lhe respondera que fizesse o que achasse melhor.</p><p>No disco r�gido de Dragan Armanskij, Lisbeth achou outras informa��es, mas essas a deixaram um tanto perplexa. Uma breve troca de e-mails com o departamento cont�bil esclarecia que Niklas Eriksson estava deixando a empresa. Receberia o proporcional de f�rias e os tr�s meses de indeniza��o por demiss�o. Um e-mail endere�ado ao vigia determinava que, t�o logo entrasse no pr�dio, Eriksson fosse obrigatoriamente escoltado at� sua sala para pegar seus objetos pessoais, e em seguida conduzido para fora. Um e-mail para o setor t�cnico determinava que solicitassem a Eriksson sua chave mestra.</p><p>O mais interessante, por�m, era uma troca de e-mails entre Dragan Armanskij e Frank Alenius, o advogado da Milton Security. Dragan perguntava qual a melhor maneira de representar Lisbeth Salander, caso ela fosse presa. A princ�pio, Alenius respondia que n�o havia nenhum motivo para a Milton se comprometer na defesa de uma ex-funcion�ria acusada de assassinato - o fato de a empresa se envolver num caso desses podia passar uma imagem negativa. Armanskij retrucava, furioso, que a afirma��o de que Lisbeth Salander teria cometido assassinato ainda precisava ser provada e que a quest�o era apoiar uma ex-funcion�ria que ele, Dragan Armanskij, considerava inocente.</p><p>Lisbeth abriu o disco r�gido de Mikael Blomkvist e constatou que n�o havia nada escrito, ele nem sequer abrira o computador desde o dia anterior bem cedo. N�o havia nada de novo.</p><p>Steve Bohman depositou a pasta em cima da mesa de reuni�es, na sala de Dragan Armanskij. Sentou-se pesadamente. Fr�klund pegou a pasta, abriu-a e p�s-se a ler. Dragan Armanskij estava em frente � janela, contemplando a cidade velha.</p><p>�Acho que essas s�o as �ltimas informa��es que vou poder passar. Estou fora da investiga��o a partir de hoje - disse Bohman.</p><p>�N�o � culpa sua - disse Fr�klund.</p><p>�N�o, n�o � culpa sua -repetiu Armanskij, sentando-se.</p><p>Ele reunira, numa pilha sobre a mesa, todo o material fornecido por Bohman naquelas quase duas semanas.</p><p>�Voc� fez um bom trabalho, Steve. Falei com o Bublanski. Ele chegou a lamentar estar te perdendo, mas n�o teve escolha, por causa do Eriksson.</p><p>�Tudo bem. Eu me dei conta de que estou bem melhor aqui do que em Kungsholmen.</p><p>�Voc� pode nos dar um resumo da situa��o?</p><p>�Bem, se o objetivo era achar Lisbeth Salander, fracassamos lamentavelmente. Foi uma investiga��o ca�tica, com conflitos no n�vel da dire��o, e Bublanski talvez n�o tenha tido controle absoluto das averigua��es.</p><p>�Hans Faste...</p><p>�O Hans Faste � um canalha. Mas o problema n�o � s� o Faste e uma investiga��o ca�tica. O Bublanski fez quest�o de que todas as possibilidades fossem examinadas com o maior cuidado. O fato � que a Salander tem mesmo talento para apagar as pistas atr�s de si.</p><p>�Mas a sua tarefa n�o era s� pegar a Salander - interrompeu Armanskij.</p><p>�N�o, e ainda bem que n�o informaram o Niklas Eriksson da minha segunda tarefa quando come�amos. De fato, eu tamb�m assumi ser seu informante e espi�o, e cuidar para que a Salander n�o viesse a ser enforcada caso fosse inocente.</p><p>�E qual �, hoje, a sua opini�o?</p><p>�Quando a gente come�ou, eu tinha certeza de que ela era culpada. Hoje j� n�o sei mais. Surgiram tantas contradi��es...</p><p>�Sim?</p><p>�...que j� n�o a considero a principal suspeita. Estou mais inclinado a concordar com o Mikael Blomkvist.</p><p>�Isso significa que precisamos achar culpados alternativos. Vamos repassar toda a investiga��o desde o come�o - disse Armanskij, e serviu caf� para os participantes da reuni�o.</p><p>Lisbeth Salander vivia uma das piores noites de sua vida. Lembrou-se do momento em que jogara a bomba incendiaria pelo vidro do carro de Zalachenko. A partir daquele momento, seus pesadelos tinham cessado e ela experimentara uma verdadeira paz interior. Com o passar dos anos, outros problemas haviam surgido, mas eles sempre diziam respeito a ela mesma, e Lisbeth soubera administr�-los. Agora, por�m, tratava-se de Mimmi.</p><p>Mimmi estava no hospital de S�der com o corpo todo quebrado. Mimmi era inocente. N�o tinha nada a ver com essa hist�ria. Seu �nico crime era conhecer Lisbeth Salander.</p><p>Lisbeth se amaldi�oou. Era culpa sua. Deixou-se tomar pelo sentimento de culpa. Tinha mantido em segredo seu pr�prio endere�o e pensara cuidadosamente em se proteger de todas as maneiras poss�veis. E depois instalara Mimmi no endere�o que todo mundo conhecia. Como pudera ser inconsciente a esse ponto? Era como se ela pr�pria a tivesse mo�do de pancadas. Sentia-se t�o infeliz que seus olhos se encheram de l�grimas. <emphasis>Lisbeth Salander n�o chora nunca.</emphasis> Enxugou as l�grimas.</p><p>Por volta das dez e meia, estava t�o febril que n�o conseguia mais ficar no apartamento. Vestiu o casaco e se esgueirou noite adentro. Andou por ruas secund�rias at� chegar � Ringv�gen, onde ficou parada em frente ao acesso do hospital de S�der. Tinha vontade de ir at� o quarto de Mimmi, acord�-la e dizer que tudo ia acabar bem. Ent�o avistou a luz azul de uma viatura para os lados de Zinken e entrou numa rua transversal antes que a vissem.</p><p>Voltou para casa pouco depois da meia-noite. Estava com frio, despiu-se e foi para a cama. N�o conseguia dormir. � uma da manh�, levantou-se e, nua, atravessou o apartamento mergulhado no escuro. Entrou no quarto de h�spedes, no qual instalara uma cama e uma c�moda e onde nunca mais pusera os p�s. Sentou-se no ch�o, encostada na parede, e fitou a escurid�o. <emphasis>Lisbeth Salander com um quarto de h�spedes. Isso � uma piada?</emphasis> Ficou ali at� as duas horas, tremendo de frio. Ent�o se p�s a chorar. N�o se lembrava de j� ter chorado algum dia.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>�s duas e meia, Lisbeth Salander tinha tomado um banho e se vestido. Ligou a cafeteira, preparou uns sandu�ches e foi para o computador. Entrou no disco r�gido de Mikael Blomkvist. Estava intrigada por ele n�o ter atualizado seu di�rio da investiga��o, mas n�o tinha tido energia para pensar no assunto durante a noite.</p><p>O di�rio continuava sem abrir, e ela foi dar uma olhada na pasta [LISBETH SALANDER]. Descobriu em seguida um documento novo intitulado [LISBETH-IMPORTANTE]. Verificou as propriedades do documento. Tinha sido criado � 00h52. Clicou duas vezes e leu a mensagem.</p><p>[Lisbeth, entre imediatamente em contato comigo. Esta hist�ria � pior do que tudo que eu podia imaginar. Estou sabendo quem � Zalachenko e acho que sei o que aconteceu. Conversei com Holger Palmgren. Entendi qual o papel de Teleborian e por que era importante trancar voc� na psiquiatria infantil. Acho que sei quem matou o Dag e a Mia. Acho que sei por que, mas est�o me faltando umas pe�as essenciais deste quebra-cabe�a. N�o entendo qual o papel do Bjurman. <strong>ME</strong><strong>LIGUE</strong><strong>IMEDIATAMENTE</strong><strong>,</strong><strong>PODEMOS</strong><strong>SOLUCIONAR</strong><strong>ISSO</strong><strong>TUDO</strong><strong>.</strong> Mikael]</p><p>Lisbeth leu duas vezes o documento. O Super-Blomkvist tinha se esfor�ado. Primeiro da classe. <emphasis>Um danado de um primeiro da classe.</emphasis> Ele ainda acreditava que era poss�vel resolver o que quer que fosse.</p><p>Ele queria o bem. Queria ajudar.</p><p>N�o entendia que, o que quer que viesse a acontecer, para ela a vida estava acabada.</p><p>Sua vida tinha acabado antes de ela completar treze anos. N�o existia solu��o nenhuma.</p><p>Abriu um novo documento e tentou redigir uma resposta para Mikael Blomkvist, mas os pensamentos rodopiavam dentro de sua cabe�a... havia tantas coisas que ela queria dizer.</p><p>Lisbeth Salander estava apaixonada. Era de morrer de rir.</p><p>Ele jamais saberia. Ela jamais lhe daria o gostinho de achar gra�a no que ela sentia por ele.</p><p>Arrastou o documento para a lixeira e fitou a tela vazia. Mas ele tamb�m n�o merecia um sil�ncio completo de sua parte. Ele permanecera fiel no seu canto do ringue, feito um valente soldadinho. Ela criou um novo documento e escreveu uma linha s�.</p><p>[Obrigada por ter sido meu amigo.]</p><p>Antes de mais nada, ela tinha que tomar algumas decis�es log�sticas. Precisava de um meio de transporte. Usar o Honda cor de vinho estacionado na Lundagatan era tentador, mas estava descartado. Nada no laptop do procurador Ekstr�m indicava que algu�m da investiga��o descobrira que ela havia comprado um carro, na certa porque a compra era t�o recente que ela nem tivera tempo de mandar os pap�is de emplacamento e do seguro. Mas Mimmi talvez tivesse dado com a l�ngua nos dentes ao ser interrogada pelos tiras. Lisbeth n�o podia apostar no sil�ncio dela e sabia que a Lundagatan estava sob vigil�ncia.</p><p>A pol�cia sabia que ela tinha uma moto, e a moto era ainda mais complicada de pegar na Lundagatan. Al�m disso, depois de alguns dias de um calor quase estivai, estava previsto um tempo inst�vel com chuva, e ela n�o tinha muita vontade de sair de moto por estradas escorregadias.</p><p>Claro, ela poderia alugar um carro em nome de Irene Nesser, mas isso implicava algum risco. Sempre havia a possibilidade de algu�m reconhec�-la, e o nome de Irene Nesser ficar queimado. O que seria uma cat�strofe, j� que representava sua �nica possibilidade de deixar o pa�s.</p><p>Ent�o sua boca exibiu uma contra��o que pretendia ser um sorriso. Havia, evidentemente, outra possibilidade. Ligou o computador e entrou na rede da Milton Security, navegou at� a frota de ve�culos administrada por uma secret�ria na recep��o da empresa. A Milton Security dispunha de noventa e cinco ve�culos, a maioria carros de vigil�ncia com o logotipo da empresa. A maior parte ficava em diferentes estacionamentos da cidade. Mas tamb�m havia alguns carros � paisana que podiam ser utilizados, quando necess�rio, para deslocamentos de trabalho. Esses carros ficavam na garagem da sede da Milton, do lado Slussen. Praticamente na esquina da rua.</p><p>Verificou o arquivo dos funcion�rios e escolheu Marcus Hedin, que acabava de sair de f�rias por quinze dias. Deixara o n�mero de telefone de um hotel nas Ilhas Can�rias. Ela alterou o nome do hotel e inverteu os algarismos do telefone de contato. Depois, inseriu uma observa��o dizendo que a �ltima medida de Hedin antes de sair de f�rias fora levar um dos carros para o conserto, mencionando uma embreagem encrencada. Escolheu um Toyota Corolla autom�tico que ela j� tinha usado uma vez e alertou que o carro estaria de volta em uma semana.</p><p>Por fim, entrou no sistema e desprogramou as c�meras de vigil�ncia nos locais onde teria de passar. Entre quatro e meia e cinco horas, elas retransmitiriam o filme da meia hora anterior, s� que com o hor�rio atualizado.</p><p>Pouco antes das quatro, sua mochila estava pronta. Continha duas mudas de roupa, duas bombas lacrimog�neas e o cacetete el�trico carregado. Olhou as duas armas que tinha angariado. Deixou de lado a Colt 1991 Government de Sandstr�m e escolheu a P-83 Wanad polonesa de Benny Nieminen, com uma bala a menos no carregador. Era mais fina e se adaptava melhor � sua m�o. Enfiou-a no bolso da jaqueta.</p><p>Lisbeth desligou o Powerbook, mas deixou-o no mesmo lugar em cima da mesa. Tinha transferido o conte�do do disco r�gido para um backup criptografado na internet, apagando em seguida todo o disco r�gido com um programa criado por ela que tornava imposs�vel a reconstitui��o do conte�do. Achava que n�o ia precisar do PowerBook, que s� iria atrapalh�-la. Em vez disso, levou seu Palm Tungsten de bolso.</p><p>Olhou ao redor. Teve a sensa��o de que nunca mais voltaria ao apartamento da Fiskaregatan e se deu conta de que estava deixando atr�s de si segredos que talvez fosse melhor destruir. Ent�o consultou o rel�gio e viu que n�o lhe restava muito tempo. Deu uma �ltima olhada e apagou a luz do escrit�rio.</p><p>Foi a p� at� a Milton Security, entrou pela garagem e pegou o elevador para chegar aos escrit�rios. N�o cruzou com ningu�m nos corredores vazios e n�o foi dif�cil pegar a chave do carro no arm�rio da recep��o, que n�o estava trancado.</p><p>Trinta segundos depois, estava de volta � garagem, abrindo o Corolla com o controle remoto. Jogou a mochila no banco do passageiro e ajustou a posi��o do banco do motorista e do retrovisor. Usou sua antiga chave mestra para abrir a porta da garagem.</p><p>Um pouco antes das quatro e meia, deixou S�der M�larstrand pela ponte de V�sterbron. O dia come�ava a raiar.</p><p>Mikael Blomkvist acordou �s seis e meia. N�o tinha ligado o despertador e s� dormira tr�s horas. Levantou-se, ligou o iBook e abriu a pasta [<strong>LISBETH SALANDER</strong>]. Viu imediatamente a breve resposta dela.</p><p>[Obrigada por ter sido meu amigo.]</p><p>Mikael sentiu um arrepio percorrer-lhe as costas. N�o era a resposta que ele esperava. Mais parecia uma despedida. <emphasis>Lisbeth Salander sozinha contra o resto do mundo.</emphasis> Foi at� a cozinha ligar a cafeteira, depois ao banheiro. Vestiu um jeans enxovalhado e se deu conta de que n�o tinha tido tempo de lavar roupa nas �ltimas semanas - n�o lhe restava uma s� camisa limpa. Vestiu um moletom por baixo do palet� cinza.</p><p>Enquanto preparava sandu�ches na cozinha, vislumbrou de repente um reflexo met�lico na bancada, entre o microondas e a parede. Franziu o cenho e usou um garfo para puxar um molho de chaves.</p><p>As chaves de Lisbeth Salander, que ele encontrara depois da agress�o na Lundagatan e colocara em cima do micro-ondas, junto com a bolsa. Deviam ter ca�do. Com isso, tinha deixado de entreg�-las com a bolsa para Sonja Modig.</p><p>Fitou o molho de chaves. Tr�s chaves grandes e tr�s pequenas. As maiores correspondiam � entrada de um pr�dio e de um apartamento com duas fechaduras. O <emphasis>apartamento dela.</emphasis> N�o correspondiam �s fechaduras da Lundagatan. Droga, onde � que ela estava morando?</p><p>Olhou mais de perto as tr�s chaves menores. Uma delas devia ser da Kawasaki. A outra era uma t�pica chave de arm�rio ou roupeiro. Ergueu a terceira. Havia o n�mero 24914 gravado em cima. A informa��o o pegou de chofre.</p><p><emphasis>Uma caixa postal. Lisbeth Salander tem uma caixa postal.</emphasis></p><p>Passou em revista, na lista telef�nica, as ag�ncias de correio do bairro de S�dermalm. Ela tinha morado na Lundagatan. A ag�ncia de Ringen n�o ficava muito longe. Quem sabe a da Hornsgatan. Ou a da Roseralundsgatan.</p><p>Desligou a cafeteira, deixou o caf� da manh� para l�, pegou a BMW de Erika Berger e foi direto para a Rosenlundsgatan. A chave n�o entrou. Seguiu at� a ag�ncia de correio da Hornsgatan. A chave encaixou perfeitamente na caixa postal n�- 24914. Abriu-a e encontrou vinte e duas cartas, que ele enfiou no bolso externo da maleta do computador.</p><p>Continuou rodando pela Hornsgatan, estacionou em frente ao Cine do Bairro e foi tomar caf� da manh� no Copacabana. Enquanto esperava seu <emphasis>caff� latte,</emphasis> examinou as cartas uma a uma. Eram todas endere�adas � Wasp Enterprises. Nove cartas tinham sido postadas na Su��a, oito nas Ilhas Caim�s, uma nas Ilhas Anglo-Normandas e quatro em Gibraltar. Sem nenhum pudor, abriu os envelopes. Os vinte e um primeiros continham extratos banc�rios e diversos resumos e avisos de opera��es. Mikael Blomkvist constatou que Lisbeth Salander estava montada na grana.</p><p>A vig�sima segunda carta era mais volumosa. O endere�o estava escrito a m�o. O envelope trazia um logotipo impresso indicando o remetente, um endere�o na Buchanan House, Queensway Quay, em Gibraltar. O papel timbrado da carta mostrava que fora enviada por Jeremy S. MacMillan, <emphasis>Solicitor.</emphasis> A letra era caprichada.</p><p><emphasis>Jeremy</emphasis> S. <emphasis>MacMillan Solicitor</emphasis></p><p><emphasis>Dear Ms Salander,</emphasis></p><p><emphasis>This is to confirm that the final payment of your property has been concluded as of january 20. As agreed, I�m enclosing copies of all documentation but will keep the original set. I</emphasis><emphasis>trust this will be to your satisfaction.</emphasis></p><p><emphasis>Let me add that I hope everything is well with you, my dear. I very much enjoyed the surprise visit you made last summer and, must say, I found your presence refreshing. I�m looking forward to, if needed, be of additional service.</emphasis><emphasis>Yours faithfully</emphasis>,</p><p><emphasis>J. S. M.*</emphasis></p><p>A carta datava de 24 de janeiro. Lisbeth Salander, aparentemente, n�o verificava sua caixa postal com muita freq��ncia. Mikael deu uma olhada nos documentos anexos. Era o contrato de venda de um apartamento na Fiskaregatan, n�mero 9, em Mosebacke.</p><p>Em seguida, por pouco n�o engasgou com o caf�. O custo da aquisi��o era de vinte e cinco milh�es de coroas, pagas em duas presta��es com um ano de intervalo.</p><p>Lisbeth Salander viu um homem moreno e forte abrir a porta lateral da Auto-Expert em Eskilstuna. Tratava-se de uma garagem de estacionamento e oficina de reparos, mas tamb�m de uma autolocadora. Uma dessas empresas comuns que se v� em qualquer lugar. Faltavam dez para as sete e, de acordo com uma placa na porta principal, a loja s� abria �s sete e meia. Ela atravessou a rua, abriu a porta lateral e seguiu o homem dentro da loja. Ele a ouviu e se virou.</p><p>�Refik Alba? - ela perguntou.</p><p>�Sim. Quem � voc�? Ainda n�o est� aberto.</p><p>Ela ergueu a P-83 Wanad de Benny Nieminen e a apontou para o rosto dele, segurando a pistola com as duas m�os.</p><p>* Jeremy S. MacMillan Advogado.</p><p>Prezada Srta. Salander,</p><p>Escrevo-lhe para confirmar que a quita��o final da sua propriedade foi conclu�da em 20 de janeiro. Conforme combinado, envio em anexo c�pia de toda a documenta��o, os originais ficam conosco. Espero que fique satisfeita.</p><p>Permita-me acrescentar, minha cara, que desejo que esta a encontre bem. Apreciei muit�ssimo a visita surpresa que nos fez no �ltimo ver�o e, devo dizer, achei sua presen�a muito agrad�vel. Ser� um prazer, caso necess�rio, poder servi-la no futuro.</p><p>Atenciosamente, J. S. M.</p><p>�Estou sem �nimo para conversar, e com pressa. Quero ver o seu registro de carros alugados. Quero ver agora. Voc� tem dez segundos.</p><p>Refik Alba tinha quarenta e dois anos. Era curdo, nascido em Diyarbakir, e j� tivera sua cota de armas. Ficou paralisado. Ent�o compreendeu que se uma maluca entrava na sua sala segurando uma pistola, n�o havia muito que discutir.</p><p>�Est� no computador - disse ele.</p><p>�Ligue-o. Ele obedeceu.</p><p>�O que tem atr�s desta porta? - ela perguntou enquanto o computador era iniciado e a tela come�ava a brilhar.</p><p>�� s� um dep�sito.</p><p>�Abra a porta.</p><p>Ela avistou uns macac�es de trabalho.</p><p>�Est� bem. Entre tranq�ilamente a� dentro, assim n�o vou precisar te machucar.</p><p>Ele obedeceu sem protestar.</p><p>�Pegue o seu celular, ponha no ch�o e empurre para mim. Ele fez o que ela mandou.</p><p>�Muito bem. Agora feche a porta.</p><p>Era um PC antigo com Windows 95 e um disco r�gido de 280 <strong>MB</strong><strong>.</strong> Levou uma eternidade para abrir o documento do Excel com o arquivo das loca��es. Constatou que o Volvo branco conduzido pelo gigante loiro tinha sido alugado duas vezes. Em janeiro, por duas semanas, e depois a partir de <emphasis>1�</emphasis> de mar�o. Ainda n�o fora devolvido. Ele pagava toda semana por um aluguel de longa dura��o.</p><p>O nome dele era Ronald Niedermann.</p><p>Ela examinou as pastas da prateleira acima do computador. Na lombada de uma delas, estava caprichadamente escrito <strong>DOCUMENTOS</strong><strong>DE</strong><strong>IDENTIDADE</strong><strong>.</strong> Ela pegou a pasta e folheou at� chegar a Ronald Niedermann. Ao alugar o carro, em janeiro, ele apresentara o passaporte e Refik Alba apenas fizera uma fotoc�pia. Lisbeth reconheceu de imediato o gigante loiro. De acordo com o passaporte, ele era alem�o, tinha trinta e cinco anos e nascera em Hamburgo. O fato de Refik Alba ter feito uma c�pia do passaporte indicava que Ronald Niedermann era um cliente comum, e n�o um conhecido que s� tinha tomado o carro emprestado.</p><p>Bem embaixo, Refik Alba anotara um n�mero de celular e o endere�o de uma caixa postal em G�teborg.</p><p>Lisbeth guardou o arquivo no lugar e desligou o computador. Olhou ao redor e viu no ch�o uma cunha de borracha que servia para manter a porta da frente trancada na posi��o aberta. Pegou-a, aproximou-se do arm�rio e bateu na porta com o cano da pistola.</p><p>�Voc� a� dentro, est� me ouvindo?</p><p>�Sim.</p><p>�Sabe quem eu sou? Sil�ncio.</p><p>Ele deve ser cego se n�o me reconheceu.</p><p>�Est� certo. Voc� sabe quem eu sou. Est� com medo de mim?</p><p>�Estou.</p><p>�N�o precisa ter medo, seu Alba. N�o vou lhe fazer nenhum mal. Estou quase acabando. Desculpe o transtorno.</p><p>�H�... Est� bem.</p><p>�Voc� tem ar suficiente a� dentro para respirar?</p><p>�Sim... a prop�sito, o que est� procurando?</p><p>�Queria conferir se uma certa mulher alugou um carro aqui h� dois anos - ela mentiu. � N�o consegui achar o que eu estava procurando. Mas n�o � culpa sua. Vou embora daqui a uns minutinhos.</p><p>�Certo.</p><p>�Vou enfiar esse tro�o de borracha debaixo da porta para bloque�-la. A porta � fininha, voc� vai conseguir arrombar, s� que vai levar um tempo. N�o precisa chamar a pol�cia. N�o vai me ver nunca mais, pode abrir a loja hoje normalmente e fazer de conta que este incidente n�o aconteceu.</p><p>A probabilidade de ele n�o chamar a pol�cia era praticamente zero, mas n�o custava sugerir que ele pensasse em outra alternativa. Ela deixou a loja e voltou para o seu Toyota Corolla emprestado na esquina da rua, e ali rapidamente se transformou em Irene Nesser.</p><p>Estava irritada por n�o ter achado o verdadeiro endere�o do gigante loiro, de prefer�ncia na regi�o de Estocolmo, em vez de uma caixa postal do outro lado da Su�cia. Mas era a �nica pista que ela tinha. <emphasis>Bem, ent�o toca para G�teborg.</emphasis></p><p>Rodou at� o acesso para a E20 e em Arboga seguiu na dire��o oeste. Ligou o r�dio, mas acabava de perder o notici�rio e, caindo numa esta��o comercial, escutou algu�m cantar <emphasis>putting out fire with gasoline.</emphasis> N�o sabia que era David Bowie cantando e n�o conhecia aquela m�sica, mas entendeu que eram palavras prof�ticas.</p></section><section><p><strong><emphasis>30 - QUINTA-FEIRA 7 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael contemplou a porta do hall de entrada do n�mero 9 da Eiskaregatan, em Mosebacke. O endere�o era um dos mais exclusivos c discretos de Estocolmo. Ele enfiou a chave na fechadura e ela entrou perfeitamente. O painel na escada n�o foi de grande ajuda. Mikael ponderou que a maioria dos apartamentos daquele pr�dio devia abrigar sedes de empresas, com exce��o de alguns poucos moradores comuns. A aus�ncia do nome de Lisbeth Salander no painel n�o o surpreendia, mas era dif�cil imagin�-la escondendo-se ali.</p><p>Subiu as escadas, lendo as placas das portas andar por andar. Nenhum nome fazia sentido para ele. At� que no �ltimo andar leu V. <emphasis>Kulla</emphasis> na porta.</p><p>Mikael bateu com a m�o na testa. Villa Villerkulla, a casa de P�ppi Meia-longa! Sorriu de repente. Em que outro lugar o Super-Blomkvist poderia encontrar Lisbeth Salander? Mas refletiu que aquela escolha podia n�o ter a ver com ele pessoalmente.</p><p>Tocou a campainha e esperou um minuto. Ent�o pegou o molho de chaves e abriu a fechadura de seguran�a e a fechadura normal junto � ma�aneta.</p><p>Quando abriu a porta, o alarme come�ou a uivar.</p></section><section><p><strong>* * *</strong></p><p>O celular de Lisbeth Salander tocou quando ela estava na E20, � altura de Glanshammar, perto de Orebro. Ela freou imediatamente o carro e parou no acostamento de emerg�ncia. Apanhou o Palm no bolso e ligou-o ao celular.</p><p>H� quinze segundos, algu�m tinha aberto a porta de seu apartamento. O alarme n�o estava conectado a uma empresa de seguran�a. Servia para avis�-la diretamente sobre qualquer intrus�o ou tentativa de arrombamento. Passados trinta segundos, o alarme disparava e o intruso tinha a desagrad�vel surpresa de ser aspergido com o conte�do de uma lata de tinta instalada sobre o que parecia ser uma tomada de deriva��o atr�s da porta. Ela sorriu, excitada, e contou os segundos.</p><p>Mikael contemplou frustrado, o painel de alarme ao lado da porta. Francamente, n�o lhe passara pela cabe�a que o apartamento pudesse ter alarme. Viu um contador digital marcando os segundos. Na <emphasis>Millennium,</emphasis> o alarme disparava quando o c�digo de quatro algarismos n�o era digitado em trinta segundos; em seguida apareciam os grandalh�es de uma empresa de seguran�a.</p><p>Seu primeiro impulso foi fechar a porta e deixar rapidamente o local. Mas ficou como paralisado.</p><p><emphasis>Quatro algarismos. Digitar o c�digo certo ao acaso era totalmente imposs�vel.</emphasis> 25,24,23,22... <emphasis>Caraca, sua P�ppi Meia...</emphasis> 19, 18...<emphasis>Que c�digo voc� foi escolher?</emphasis> 15, 14, 13...Sentiu-se tomado pelo p�nico.10, 9, 8... Ent�o ergueu a m�o e digitou o �nico n�mero que lhe vinha � mente. 9277. Os algarismos correspondentes �s letras WASP nas teclas do celular.</p><p>Para grande surpresa de Mikael, a contagem regressiva parou seis segundos antes do fim. Ent�o a sirene piou uma �ltima vez, o contador voltou ao zero e uma luz verde se acendeu.</p><p>Lisbeth arregalou os olhos. Achou que n�o tinha enxergado direito e at� sacudiu o computador de m�o, num gesto que ela sabia ser totalmente irracional. A contagem regressiva tinha parado seis segundos antes de a bomba de tinta ser acionada. E um instante depois o contador voltou ao zero.</p><p><emphasis>Imposs�vel.</emphasis></p><p>Ningu�m conhecia aquele c�digo. E n�o havia nenhuma empresa de seguran�a conectada ao alarme, que pudesse desativ�-lo. <emphasis>Como?</emphasis></p><p>N�o conseguia entender. A pol�cia? N�o. Zala? Negativo.</p><p>Discou um n�mero no celular e esperou que a c�mera de seguran�a se conectasse e enviasse imagens de baixa resolu��o para o celular. A c�mera estava escondida dentro do que parecia ser um detector de fuma�a no teto, e captava uma imagem por segundo. Ela repassou toda a seq��ncia desde o come�o - o instante zero em que a porta tinha sido aberta e o alarme ativado. Ent�o um sorriso enviesado se abriu lentamente em seu rosto quando viu Mikael Blomkvist executando, por quase trinta segundos, uma pantomima nervosa, at� digitar o c�digo e em seguida se apoiar no v�o da porta como quem acaba de escapar de um ataque card�aco.</p><p><emphasis>Esse danado do Super-Blomkvist tinha achado!</emphasis></p><p>Ele estava com as chaves que ela tinha perdido na Lundagatan. Era esperto o bastante para lembrar que Wasp era o seu pseud�nimo na internet. E se ele tinha achado o apartamento, talvez tamb�m tivesse descoberto que era propriedade da Wasp Enterprises. Ent�o ela viu que ele se deslocava, nervoso, pelo hall e desaparecia rapidamente do campo da objetiva.</p><p><emphasis>Droga. Como � que eu posso ter sido t�o previs�vel? E por que deixei... agora todos os meus segredos est�o bem diante dos olhos futriqueiros do Super-Blomkvist.</emphasis></p><p>Depois de um breve instante de reflex�o, concluiu que aquilo n�o tinha mais import�ncia. Ela apagara o disco r�gido. Isso � que importava. Talvez at� fosse uma vantagem ter sido justamente Mikael Blomkvist a encontrar seu esconderijo. Ele j� sabia mais sobre seus segredos do que qualquer outro ser humano. O primeiro aluno da classe faria o que precisava ser feito. N�o ia entreg�-la, ela pensou. Engatou a primeira e continuou pensativa, seu trajeto para G�teborg.</p><p>Malu Eriksson topou com Paolo Roberto na escada da reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> quando chegou ao trabalho �s oito e meia da manh�. Reconheceu-o imediatamente, apresentou-se e o convidou a entrar na reda��o. Ele estava mancando para valer. Ela sentiu cheiro de caf� e concluiu que Erika Berger j� tinha chegado.</p><p>�Ol�, Berger. Obrigado por me receber assim de improviso - disse Paolo.</p><p>Impressionada, Erika examinou sua cole��o de hematomas e gaios no rosto antes de se inclinar e lhe dar um beijo no rosto.</p><p>�Voc� est� mesmo com uma cara p�ssima - disse ela.</p><p>�N�o � a primeira vez que eu quebro o nariz. O que voc� fez com o Blomkvist?</p><p>�Ele foi para algum lugar brincar de detetive. Como sempre, est� incomunic�vel. A n�o ser por um e-mail estranho que ele me mandou ontem � noite, estou sem not�cias dele desde ontem de manh�. Obrigada por ter... enfim, obrigada.</p><p>Ela apontou para o rosto dele. Paolo Roberto riu.</p><p>�Quer um caf�? Voc� disse que tinha uma coisa para me contar. Malu, voc� vem com a gente?</p><p>Sentaram-se nas confort�veis poltronas da sala de Erika.</p><p>�� o idiota do grandalh�o loiro com quem eu briguei. Eu disse ao Mikael que o boxe dele n�o vale nada. Mas o estranho � que ele ficava o tempo todo com os punhos na posi��o de defesa e se movia em c�rculos como se fosse um boxeador. Deu-me a impress�o de que ele j� tinha tido algum tipo de treinamento.</p><p>�O Mikael me disse isso ontem ao telefone - observou Malu.</p><p>�Eu n�o conseguia tirar essa imagem da cabe�a e, ontem � tarde, quando voltei para casa, sentei no computador e mandei uns e-mails para v�rios clubes de boxe da Europa. Contei o que tinha acontecido e passei uma descri��o detalhada do cara.</p><p>�Certo.</p><p>�Acho que funcionou.</p><p>P�s diante de Erika e Malu uma foto transmitida por fax. Parecia ter sido tirada durante um treino numa sala de boxe. Dois boxeadores escutavam as instru��es de um homem gordo, j� n�o t�o jovem, que usava um abrigo de moletom e um chap�u de couro de aba estreita. Em volta do ringue, havia umas seis pessoas escutando. Ao fundo, um homem alto, segurando uma caixa de papel�o. Lembrava um <emphasis>skinhead,</emphasis> com a cabe�a raspada. Algu�m circulara sua imagem com caneta.</p><p>�A foto � de dezessete anos atr�s. O cara ali no fundo se chama Ronald Niedermann. Tinha dezoito anos nesta foto, de modo que hoje deve estar beirando os trinta e cinco. Bate com o gigante que sequestrou a Miriam Wu. N�o posso afirmar que � ele com cem por cento de certeza. A foto � meio antiga e a qualidade est� bem ruim. Mas posso dizer que a semelhan�a � impressionante.</p><p>�De onde saiu essa foto?</p><p>�Recebi uma resposta do Dynamic, de Hamburgo. De um velho treinador chamado Hans M�nster.</p><p>�Sim?</p><p>�Ronald Niedermann lutou boxe durante um ano nesse clube, no fim da d�cada de 1980. Ou melhor, tentou lutar. Recebi o e-mail hoje de manh� e liguei para o M�nster antes de vir para c�. Resumindo o que diz o M�nster: Ronald Niedermann � natural de Hamburgo, andava com uma turma de <emphasis>skins</emphasis> nos anos 1980. Tinha um irm�o um pouco mais velho, um boxeador realmente talentoso, e foi atrav�s desse irm�o que ele entrou no clube. O Niedermann tinha uma for�a colossal e um f�sico �nico. Diz o M�nster que nunca, nem entre os melhores, tinha visto algu�m bater com tanta for�a. Um dia, mediram o golpe dele e, por assim dizer, ele rebentou o dinam�metro.</p><p>�Ao que parece, ele podia ter feito carreira no boxe - disse Erika. Paolo Roberto balan�ou a cabe�a.</p><p>�De acordo com o M�nster, era imposs�vel mant�-lo dentro de um ringue. Por v�rios motivos. Primeiro, ele n�o conseguia aprender a lutar boxe. Ficava parado no lugar, mandando ver <emphasis>swings</emphasis> de amador. Era incrivelmente desajeitado, o que bate com o cara de Nykvarn. Mas o pior � que ele n�o controlava a pr�pria for�a. De vez em quando, conseguia acertar um golpe que causava o maior estrago nos coitados dos <emphasis>sparring-partners.</emphasis> Resultado: narizes quebrados e maxilares detonados, ferimentos desnecess�rios o tempo todo. Eles simplesmente n�o podiam mant�-lo.</p><p>�Ele sabia lutar, sem saber - disse Malu.</p><p>�Isso mesmo. Mas o verdadeiro motivo de ele parar de lutar boxe foi um motivo m�dico.</p><p>�Como assim?</p><p>�O cara parecia praticamente invulner�vel. Podiam chover golpes em cima dele, ele s� se sacudia e continuava lutando. Descobriram que ele tinha uma doen�a extremamente rara, chamada analgesia cong�nita.</p><p>�O qu�? Repita...</p><p>�Analgesia cong�nita. Procurei na internet. � uma falha gen�tica que faz com que a transmiss�o no que eles chamam de fibras C n�o funcione como deveria. Resumindo, ele n�o sente dor.</p><p>�Nossa! Mas n�o � esse o sonho de todo boxeador?... Paolo Roberto balan�ou a cabe�a.</p><p>�Pelo contr�rio. � uma doen�a que p�e a vida da pessoa em risco. A maioria dos pacientes morre bastante jovem, l� pelos vinte, vinte e cinco anos. A dor � um sistema de alarme que avisa o c�rebro de que algo n�o vai bem. Se voc� p�e a m�o numa chapa incandescente, d�i e voc� tira a m�o rapidinho. Quem tem essa doen�a n�o se d� conta de nada at� sentir cheiro de carne queimada.</p><p>Malu e Erika trocaram um olhar.</p><p>�Voc� est� falando s�rio? - perguntou Erika.</p><p>�Seri�ssimo. O Ronald Niedermann n�o pode sentir nada, � como se ele estivesse sob poderosa anestesia local vinte e quatro horas por dia. Ele se safou porque tem sorte de ter outra particularidade gen�tica para compensar. � dono de uma constitui��o f�sica extraordin�ria, com uma ossatura extremamente forte, que o torna quase invulner�vel. A for�a natural dele �, a bem dizer, �nica. E ele tamb�m deve cicatrizar com facilidade.</p><p>�Estou come�ando a perceber como essa luta que voc� travou com ele deve ter sido interessante.</p><p>�Foi sim. Mas n�o gostaria de repetir a dose. A �nica coisa que causou um esbo�o de rea��o nele foi quando a Miriam Wu lhe enfiou um pontap� no saco. Ele caiu de joelhos por um segundo... deve haver algum tipo de motricidade ligado a esse tipo de golpe, j� que dor ele n�o deve ter sentido. E pode acreditar, eu, pessoalmente, morria se levasse um golpe desses.</p><p>�Mas ent�o como se explica voc� ter vencido a luta?</p><p>�As pessoas que t�m essa doen�a ficam feridas, claro, do mesm�ssimo jeito que as pessoas comuns. Tudo bem o Niedermann ter um esqueleto de a�o. Mas quando eu bati com a t�bua, ele desabou. Concuss�o cerebral, provavelmente.</p><p>Erika olhou para Malu.</p><p>�Vou ligar para o Mikael agora mesmo - disse Malu.</p><p>Mikael escutou o toque do celular, mas estava t�o abalado que s� respondeu no quinto sinal.</p><p>�� a Malu. O Paolo Roberto acha que identificou o gigante loiro.</p><p>��timo - disse Mikael distraidamente.</p><p>�Onde voc� est�?</p><p>�Dif�cil de explicar.</p><p>�Voc� est� esquisito.</p><p>�Desculpe. O que voc� estava dizendo? Malu resumiu a hist�ria de Paolo.</p><p>�Est� bem - disse Mikael. �Continuem vendo isso e descubra se ele est� fichado em algum lugar. Acho que � urgente. Me ligue no celular.</p><p>Para espanto de Malu, Mikael encerrou a conversa sem nem se despedir.</p><p>Naquele momento, Mikael estava diante de uma janela e admirava a vista magn�fica que se estendia da cidade velha at� bem longe sobre o Saltsj�n. Sentia-se entorpecido, quase chocado. Dera uma volta no apartamento de Lisbeth Salander. Havia uma cozinha � direita, no hall de entrada. Depois uma sala, um escrit�rio, um quarto e, por fim, um quartinho de h�spedes que parecia nunca ter sido usado. O colch�o continuava embalado no pl�stico e n�o tinha len��is. Todos os m�veis eram novos e impec�veis, vindos diretamente da Ikea.</p><p>O problema n�o era esse.</p><p>O que perturbava Mikael era Lisbeth Salander ter comprado um dos ex-apartamentos do bilion�rio Percy Barnevik, avaliado em vinte e cinco milh�es de coroas. Ele devia ter, tranq�ilamente, uns trezentos e cinquenta metros quadrados.</p><p>Mikael passou pelos corredores desertos e fantasmag�ricos e por pe�as imensas com parquete em marchetaria de diferentes madeiras e pap�is de parede decorados de Tricia Guild, do tipo que Erika Berger mencionava com um respeitoso deslumbramento. O apartamento se organizava em torno de uma sala magn�fica, com uma lareira que Lisbeth parecia n�o ter utilizado. Havia uma sacada imensa com uma vista fant�stica, lavanderia, sauna, sala de gin�stica, despensas e um banheiro com banheira <emphasis>king size.</emphasis> Havia at� uma adega de vinhos, vazia, a n�o ser por uma garrafa de porto Quinta do Noval - <emphasis>Nacional! -</emphasis> de 1976. Mikael custava a imaginar Lisbeth Salander com uma ta�a de vinho do porto na m�o. Um cart�o de visitas indicava que se tratava de um presente de boas-vindas da imobili�ria.</p><p>A cozinha era equipada com tudo que se podia imaginar, em torno de um cintilante fog�o franc�s a g�s, um Corradi Ch�teau 120 de que Mikael nunca tinha ouvido falar e no qual Lisbeth s� fervera �gua para o ch�.</p><p>Em compensa��o, sentiu enorme respeito pela m�quina de caf� expresso que tronava � parte, uma Jura Impressa modelo X7 com resfriador de leite incorporado. A m�quina tampouco parecia ter sido usada, j� devia estar no apartamento quando Lisbeth o comprara. Mikael sabia que uma Jura era a Rolls-Royce do mundo dos <emphasis>espressos -</emphasis> um aparelho profissional para uso dom�stico que custava em torno de setenta mil coroas. Ele pr�prio possu�a uma m�quina bem mais modesta, comprada na John Wall, que j� custava quase tr�s mil e quinhentas coroas - uma das raras extravag�ncias com que se permitira equipar sua cozinha.</p><p>Dentro da geladeira havia uma caixa aberta de leite, queijo, manteiga, pasta de peixe e um vidro de pepinos em conserva pela metade. No arm�rio, achou quatro frascos semiconsumidos de vitaminas, saquinhos de ch�, caf� para uma cafeteira absolutamente comum que estava na bancada, dois p�es e um pacote de torradas. Na mesa da cozinha, um cesto com ma��s. O congelador abrigava um gratinado de peixe e tr�s tortas de bacon. No lixo, sob a bancada, ao lado do fog�o de luxo, encontrou v�rias caixas vazias de Billys Pan Pizza.</p><p>Era tudo absolutamente fora de propor��o. Lisbeth tinha surrupiado alguns bilh�es e comprara um apartamento onde poderia hospedar a corte real inteirinha. Mas s� usava os quatro c�modos que havia mobiliado. Os outros dezoito estavam totalmente vazios.</p><p>Mikael encerrou sua turn� pelo escrit�rio. N�o havia, em todo o apartamento, uma �nica planta. Nenhum quadro nas paredes, nem mesmo p�steres. N�o havia tapetes ou guardanapos. Em lugar nenhum viu alguma saladeira decorativa, um casti�al ou um bibel� tipo suvenir que acrescentasse algum calor humano ao ambiente ou que ela pudesse ter guardado por raz�es sentimentais.</p><p>Mikael sentiu seu cora��o se apertar. Queria a todo custo encontrar Lisbeth Salander e abra��-la.</p><p>No m�nimo, ela iria mord�-lo, se ele tentasse. <emphasis>Canalha do Zalachenko!</emphasis></p><p>Depois se sentou � mesa de trabalho e abriu a pasta com o relat�rio de Bj�rck de 1991. N�o leu tudo, s� percorreu as p�ginas tentando resumir.</p><p>Abriu o Powerbook com tela de dezessete polegadas, disco r�gido de 200 <strong>GB</strong> e 1000 MB de mem�ria RAM. Vazio. Ela tinha feito uma limpeza. N�o era um bom press�gio.</p><p>Abriu as gavetas e deparou imediatamente com um Colt 1911 Government single action de nove mil�metros e um carregador cheio com sete cartuchos. Era o rev�lver que Lisbeth Salander pegara do jornalista Per-�ke Sandstr�m, mas isso Mikael ignorava. Ainda n�o tinha chegado na letra S da sua lista de clientes sexuais.</p><p>Depois, achou o <strong>CD</strong> marcado �Bjurman�.</p><p>Enfiou-o no iBook e, horrorizado, descobriu o conte�do do filme. Ficou parado, chocado ao ver Lisbeth Salander sendo maltratada, estuprada e quase assassinada. O filme fora obviamente rodado com uma c�mera oculta. N�o o assistiu inteiro, mas foi passando, de uma para outra, as seq��ncias que iam se superando num horror crescente.</p><p><emphasis>Bjurman.</emphasis></p><p>O tutor de Lisbeth Salander a tinha estuprado e ela possu�a um testemunho do fato nos m�nimos detalhes. Uma data digital revelava que o filme datava de dois anos. Antes de eles se conhecerem. V�rias pe�as do quebra-cabe�a se encaixaram no lugar.</p><p>Bj�rck e Bjurman com Zalachenko nos anos 1970.</p><p>Zalachenko e Lisbeth Salander e um coquetel Molotov artesanal numa caixa de leite no in�cio dos anos 1990.</p><p>Ent�o, Bjurman novamente, agora seu tutor depois de Holger Palmgren. O c�rculo se fechava. O sujeito tinha violentado a sua tutelada. Vira nela uma doente mental indefesa, mas Lisbeth Salander n�o era indefesa. Era a menina que aos doze anos comprara uma briga com um matador profissional aposentado do GRO e o transformara num inv�lido.</p><p>Lisbeth Salander era a mulher que odiava os homens que n�o gostavam de mulheres.</p><p>Recordou a �poca em que aprendera a conhec�-la, em Hedestad. Devia ter sido poucos meses depois do estupro. N�o lembrava de ela ter dito uma palavra sequer sugerindo o fato. No total, n�o revelara muita coisa sobre si mesma. Mikael n�o conseguia nem imaginar o que ela tinha feito com Bjurman - mas, estranhamente, n�o o tinha matado. Pois nesse caso Bjurman teria morrido dois anos mais cedo. Ela provavelmente tinha bolado um jeito de mant�-lo sob controle, com um objetivo que ele nem imaginava. Ent�o Mikael se deu conta de que estava com o instrumento de controle bem diante de si, sobre a mesa. O CD<strong>.</strong> Enquanto ela estivesse de posse do <strong>CD</strong><strong>,</strong> Bjurman seria seu escravo impotente. E Bjurman tinha se voltado para o homem que ele julgava ser um aliado. Zalachenko. O pior inimigo de Lisbeth. Seu pai.</p><p>Depois disso, um encadeamento de fatos. Bjurman assassinado, e tamb�m Dag e Mia.</p><p>Mas como...? O que poderia ter transformado Dag Svensson numa amea�a?</p><p>E, s�bito, Mikael compreendeu o que <emphasis>com toda a certeza</emphasis> tinha acontecido em Enskede.</p><p>Logo em seguida, Mikael viu o peda�o de papel, no ch�o, junto � janela. Lisbeth imprimira uma p�gina, amassara e jogara no ch�o. Desamassou o papel. Era uma edi��o <emphasis>on-line</emphasis> do <emphasis>Aftonbladet</emphasis> sobre o sequestro de Miriam Wu.</p><p>Mikael n�o sabia qual o papel de Miriam Wu naquele drama - se � que ela tinha algum papel -, mas ela fora uma das raras amigas de Lisbeth. Talvez a �nica. Lisbeth lhe dera seu antigo apartamento. E agora ela estava gravemente ferida no hospital. <emphasis>Niedermann e Zalachenko.</emphasis></p><p>Primeiro sua m�e. Depois Miriam Wu. Lisbeth devia estar louca de �dio. Aqueles caras tinham esticado a sua corda. E agora ela estava atr�s deles.</p><p>Por volta do meio-dia, Dragan Armanskij recebeu uma liga��o do centro de reeduca��o de Ersta. Vinha esperando um telefonema de Holger Palmgren fazia algum tempo, e at� evitara entrar em contato com ele. Temia ser obrigado a admitir que Lisbeth Salander era culpada. Agora pelo menos tinha a possibilidade de dizer que existiam d�vidas pertinentes quanto a essa culpa.</p><p>�Como andam as coisas? - perguntou Palmgren, pulando as palavras de cortesia.</p><p>�Que coisas? - disse Armanskij.</p><p>�Sua investiga��o sobre a Salander.</p><p>�E o que o leva a crer que estou fazendo uma investiga��o desse tipo?</p><p>�N�o desperdice o meu tempo. Armanskij suspirou.</p><p>�Tem raz�o - disse.</p><p>�Quero que venha me ver - disse Palmgren.</p><p>�Est� bem. Posso passar a� neste fim de semana.</p><p>�N�o serve. Quero que voc� venha hoje no final do dia. Temos muito que conversar.</p><p>Mikael tinha feito caf� e preparado sandu�ches na cozinha de Lisbeth. Uma parte dele esperava ouvir, de repente, o barulho das chaves dela na fechadura. Mas, claro, era uma esperan�a v�. O disco r�gido vazio do Power-Book mostrava que ela tinha sa�do da toca de vez. Descobrira seu endere�o tarde demais.</p><p>�s duas e meia, ainda estava sentado � mesa de trabalho de Lisbeth.</p><p>Tinha lido tr�s vezes o relat�rio do simulacro de investiga��o de Bj�rck, redigido em forma de memorando para um superior an�nimo. A recomenda��o era simples: que encontrassem um psiquiatra cooperativo que conseguisse internar Salander na psiquiatria infantil por alguns anos. De qualquer modo, a menina era mesmo perturbada, seu comportamento o indicava claramente.</p><p>Mikael pretendia debru�ar-se mais detidamente sobre Bj�rck e Teleborian num futuro pr�ximo. Essa id�ia o deixou satisfeito. Seu celular p�s-se a tocar e atrapalhou o rumo de seus pensamentos.</p><p>�Oi de novo. � a Malu. Tenho impress�o que achei alguma coisa.</p><p>�O qu�?</p><p>�N�o existe nenhum Ronald Niedermann no registro civil sueco. Ele n�o consta na lista telef�nica nem no cadastro de contribuintes, de placas de autom�veis, em lugar nenhum.</p><p>�Percebo.</p><p>�Mas escute esta. Em 1998, foi criada uma sociedade an�nima, para cujo nome foi feito um registro de marca. Chama-se KAB Import S. A. e o endere�o � uma caixa postal em G�teborg. A empresa atua em importa��o de material eletr�nico. O presidente se chama Karl Axel Bodin, ou seja, KAB<strong>,</strong> e nasceu em 1941.</p><p>�Isso n�o me diz absolutamente nada.</p><p>�Nem para mim. O restante da diretoria � composto de um auditor fiscal que atua em algumas dezenas de empresas, para as quais ele faz a contabilidade. Parece ser um desses contadores que trabalham para v�rias empresas pequenas ao mesmo tempo. Essa, por�m, permaneceu inativa praticamente desde o come�o.</p><p>�Percebo.</p><p>�O terceiro membro da diretoria � um tal de R. Niedermann. Consta uma data de nascimento, mas nenhum n�mero de identidade. O que significa que ele n�o tem registro na Su�cia. Nasceu em 18 de janeiro de 1970, e � citado como representante da empresa no mercado alem�o.</p><p>�Legal, Malu. Legal. Tem algum outro endere�o al�m da caixa postal?</p><p>�N�o, mas descobri o Karl Axel Bodin. Ele mora no Oeste da Su�cia e seu endere�o � a caixa postal n- 612 de Gosseberga. Eu verifiquei, parece ser uma fazenda perto de Nossebro, a nordeste de G�teborg.</p><p>�O que se sabe sobre ele?</p><p>�H� dois anos, ele declarou uma renda de duzentas e sessenta mil coroas. N�o tem ficha criminal, segundo aquele nosso amigo da pol�cia. Possui porte de armas para uma carabina de ca�a ao alce e uma espingarda de chumbo. Tem dois carros, um Ford e um Saab, ambos modelo antigo. Nada consta na Receita. � solteiro e se declara agricultor.</p><p>�Um an�nimo sem nenhum caso na Justi�a.</p><p>Mikael refletiu alguns segundos. Precisava fazer uma escolha.</p><p>�Outra coisa. O Dragan Armanskij, da Milton Security, ligou v�rias vezes para voc� durante o dia.</p><p>�Est� bem. Obrigado, Malu. Vou ligar para ele.</p><p>�Mikael... Est� tudo bem?</p><p>�N�o, n�o est� tudo bem. Te ligo depois.</p><p>Sabia que n�o estava se comportando como deveria. Como bom cidad�o, deveria pegar o telefone e ligar imediatamente para Bublanski. Se fizesse isso, por�m, seria obrigado a contar a verdade sobre Lisbeth Salander, ou ficaria numa situa��o enrolada entre meias-mentiras e partes omitidas. Mas o problema ainda n�o era esse.</p><p>Lisbeth Salander tinha ido atr�s de Niedermann e Zalachenko. Mikael n�o sabia onde ela estava, mas se Malu tinha conseguido achar a caixa postal <emphasis>n�</emphasis> 612 em Gosseberga, Lisbeth Salander tamb�m podia ter conseguido. Era grande, portanto, a possibilidade de ela estar a caminho de Gosseberga. Seria a pr�xima etapa natural.</p><p>Se Mikael ligasse para a pol�cia e revelasse onde Niedermann estava entocado, seria obrigado a contar que Lisbeth Salander estava provavelmente indo para l� naquele momento. Ela estava sendo procurada por tr�s assassinatos e uso de arma em Stallarholmen. Isso significava que a for�a de interven��o nacional, ou sabe Deus l� que comando do g�nero, seria despachada para prend�-la.</p><p>E era prov�vel que Lisbeth Salander resistisse violentamente. Mikael pegou um papel e uma caneta, e fez uma lista do que ele n�o podia ou n�o queria contar � pol�cia. Para come�ar, escreveu o <emphasis>endere�o.</emphasis></p><p>Lisbeth tivera o maior cuidado em constituir um endere�o secreto. Ah estavam sua vida e seus segredos. Ele n�o tinha a inten��o de tra�-la. Depois, escreveu <emphasis>Bjurman,</emphasis> seguido de um ponto de interroga��o.</p><p>De relance, olhou para o <strong>CD</strong> em cima da mesa � sua frente. Bjurman tinha estuprado Lisbeth. Por pouco n�o a matara, e se aproveitara vergonhosamente de sua condi��o de tutor. N�o havia a menor d�vida sobre isso. Ele tinha de ser denunciado como o canalha que era. S� que nesse ponto surgia um problema �tico. Lisbeth n�o prestara queixa contra ele. Ser� que iria querer ser jogada � m�dia atrav�s de uma investiga��o policial cujos detalhes mais �ntimos vazariam em poucas horas? Ela jamais o perdoaria. O <strong>CD</strong> constitu�a uma prova, e alguns trechos causariam um belo impacto nos tabloides.</p><p>Ponderou alguns instantes e concluiu que, afinal, cabia a Lisbeth decidir como queria agir. Mas, se ele tinha encontrado o apartamento, mais cedo ou mais tarde a pol�cia conseguiria fazer o mesmo. Guardou o <strong>CD</strong> num envelope e o enfiou em sua sacola.</p><p>Escreveu, em seguida, O <emphasis>relat�rio de Bj�rck.</emphasis> O relat�rio de 1991 era considerado segredo de Estado. Esclarecia tudo o que se passara. Citava o nome de Zalachenko, explicava o papel de Bj�rck e, com a lista dos clientes sexuais do computador de Dag Svensson, Bj�rck iria passar momentos dif�ceis com Bublanski. Gra�as � correspond�ncia, Peter Teleborian tamb�m se veria em maus len��is.</p><p>O arquivo iria direcionar a pol�cia para Gosseberga... mas pelo menos Mikael teria algumas horas de vantagem.</p><p>Por fim, abriu o Word e escreveu, item por item, todos os fatos importantes que havia descoberto nas �ltimas vinte e quatro horas gra�as �s conversas com Bj�rck e Palmgren e aos documentos encontrados na casa de Lisbeth. A tarefa tomou-lhe uma hora. Gravou o documento num <strong>CD</strong><strong>,</strong> junto com sua pr�pria investiga��o.</p><p>Perguntou-se se deveria dar not�cias a Dragan Armanskij, mas resolveu deixar para l�. J� tinha coisas demais para cuidar.</p><p>Mikael passou na reda��o da <emphasis>Millennium</emphasis> e se trancou na sala com Erika Berger.</p><p>�Ele se chama Zalachenko - disse Mikael sem nem cumpriment�-la. �� um antigo assassino sovi�tico do servi�o de informa��es. Desertou em 1976 e ganhou um visto de perman�ncia na Su�cia, al�m de um sal�rio pago pela S�po. Depois do fim da Uni�o Sovi�tica, virou g�ngster em tempo integral, como tantos outros, e opera com tr�fico de mulheres, armas e drogas. Erika Berger largou a caneta.</p><p>�Certo. Por que � que eu n�o estou surpresa de ver a KGB metida nessa hist�ria?</p><p>�N�o � a KGB. � o GRO<strong>. O</strong> servi�o de informa��es militares.</p><p>�Ent�o � coisa s�ria. Mikael meneou a cabe�a.</p><p>�Voc� est� dizendo que foi ele quem matou o Dag e a Mia?</p><p>- N�o pessoalmente. Mandou algu�m matar. Esse Ronald Niedermann que a Malu descobriu.</p><p>�Voc� tem como provar?</p><p>�Grosso modo. Ainda restam umas zonas obscuras. Mas o Bjurman foi morto porque pediu ajuda ao Zalachenko para cuidar da Lisbeth.</p><p>Mikael contou o que ele tinha visto no filme que Lisbeth guardava na gaveta da escrivaninha.</p><p>�Zalachenko � o pai dela. Bjurman trabalhou oficialmente para a S�po em meados dos anos 1970, foi um dos que acolheram Zalachenko quando ele abandonou o barco. Depois, tornou-se advogado e virador em tempo integral, e prestava servi�os para um grupo restrito dentro da S�po. Aparentemente, existe uma panelinha que se re�ne de vez em quando numa sauna para controlar o mundo e manter segredo sobre Zalachenko. Acho que o restante da S�po nunca ouviu falar nesse canalha. A Lisbeth amea�ava revelar o segredo. Conclus�o: foi internada num hospital psiqui�trico infantil.</p><p>�N�o pode ser.</p><p>�Pode - disse Mikael. �Tudo bem, � um caso bastante especial, Lisbeth n�o era muito f�cil de se lidar na �poca, como tamb�m n�o � hoje em dia... mas desde os doze anos ela representa uma amea�a para a seguran�a da na��o.</p><p>Ele fez um apanhado sucinto da hist�ria toda.</p><p>�� muita coisa para digerir - disse Erika. �E o Dag e a Mia...</p><p>�Foram mortos porque o Dag descobriu o elo entre o Bjurman e o Zalachenko.</p><p>�E o que vai acontecer agora? A gente n�o devia contar tudo isso � pol�cia?</p><p>�Algumas partes, sim, mas n�o tudo. Reuni toda a informa��o essencial neste <strong>CD</strong>, por seguran�a, nunca se sabe. A Lisbeth foi atr�s do Zalachenko. Vou tentar encontrada. Nada do que est� neste <strong>CD</strong> pode vazar.</p><p>�Mikael... eu n�o estou gostando nada disso. Agente n�o pode ocultar informa��es numa investiga��o de homic�dio.</p><p>�N�o vamos ocultar nada. Eu pretendo ligar para o Bublanski. Mas acho que a Lisbeth est� a caminho de Gosseberga. Ela est� sendo procurada por triplo assassinato e, se chamarmos a pol�cia, eles v�o enviar for�as de interven��o com armas de alto calibre, e a chance de ela resistir � enorme. A�, tudo pode acontecer.</p><p>Ele parou e sorriu, sem alegria.</p><p>�Temos que manter a pol�cia fora disso, para evitar as for�as de interven��o que podem acabar causando mortos e feridos. Tenho que p�r as m�os na Lisbeth antes disso.</p><p>Erika Berger estava c�tica.</p><p>�N�o pretendo revelar os segredos da Lisbeth. O Bublanski que descubra por si pr�prio. Quero que voc� fa�a um favor para mim. Nessa pasta, est� o relat�rio do Bj�rck de 1991 e uma correspond�ncia entre o Bj�rck e o Teleborian. Queria que voc� tirasse uma c�pia e mandasse, por portador, para o Bublanski ou a Modig. Quanto a mim, estou pegando o trem para G�teborg daqui a vinte minutos.</p><p>�Mikael...</p><p>�Eu sei. Mas pretendo estar do lado da Lisbeth durante a batalha. Erika Berger apertou os l�bios e n�o disse nada. Depois, meneou a cabe�a. Mikael foi em dire��o � porta.</p><p>�Tenha cuidado - disse Erika, mas ele j� tinha sa�do.</p><p>Ela achou que deveria ter ido com ele. Era a �nica coisa decente a ser feita. Mas ainda n�o tinha contado que ia pedir demiss�o da <emphasis>Millennium</emphasis> e que estava tudo acabado, o que quer que acontecesse. Pegou a pasta e foi tirar uma c�pia dos documentos.</p><p>A caixa postal ficava na ag�ncia de correios de um centro comercial. Lisbeth n�o conhecia G�teborg e n�o sabia muito bem onde estava, mas localizara a ag�ncia e sentara-se numa cafeteria de onde podia avistar a caixa postal por uma fresta estreita entre os <emphasis>banners</emphasis> publicit�rios dos Novos Correios Suecos pendurados por alguns fios.</p><p>Irene Nesser estava maquiada com mais discri��o do que Lisbeth Slander. Usava um colar rid�culo e lia <emphasis>Crime e castigo,</emphasis> encontrado num sebo algumas ruas mais ao norte. N�o tinha pressa e virava regularmente as p�ginas. Come�ara sua vigil�ncia l� pelo meio-dia e ignorava por completo a que horas a caixa costumava ser aberta, se todos os dias ou se a cada duas semanas, se j� tinha sido aberta naquele dia ou se algu�m ainda viria. Mas era sua �nica pista, e ela tomou v�rios <emphasis>caff� latte</emphasis> enquanto esperava.</p><p>Estava quase cochilando, de olhos bem abertos, quando viu de repente que estavam abrindo a caixa. Olhou a hora: 13h45. <emphasis>Uma baita de uma sorte.</emphasis></p><p>Lisbeth se levantou rapidamente, aproximou-se da vidra�a e viu do outro lado um homem de jaqueta de couro preta saindo do setor de caixas postais. Alcan�ou-o j� na rua. Era um rapaz magro de uns vinte anos. Virou a esquina e abriu a porta de um Renault estacionado ali. Lisbeth Salander memorizou o n�mero da placa e correu para o Corolla que ela tinha deixado na mesma rua, cem metros adiante. J� estava atr�s dele quando ele virou na Linnegatan. Seguiu-o at� a Avenyn e depois, quando ele subiu em dire��o a Nordstan.</p><p>Mikael Blomkvist mal teve tempo de pegar o X2000 das 17hl0. Comprou o bilhete dentro do trem com o cart�o de cr�dito, foi sentar-se no vag�o-restaurante vazio e pediu o jantar.</p><p>Uma ang�stia lancinante lhe retorcia as entranhas. Temia chegar tarde demais, mas alimentava a esperan�a de que Lisbeth Salander ligaria para ele, mesmo sabendo que n�o o faria.</p><p>Ela tinha tentado matar Zalachenko em 1991. E agora, anos depois, ele acabava de dar o troco.</p><p>Holger Palmgren fizera uma an�lise acertada de Lisbeth Salander. Ela adquirira uma s�lida experi�ncia pr�tica sobre o qu�o in�til era recorrer �s autoridades.</p><p>Mikael deu uma olhada na bolsa de seu computador. Pegara o Colt encontrado na gaveta de Lisbeth. N�o sabia ao certo por que tinha pegado a arma, mas seu instinto lhe disse para n�o deix�-la no apartamento. Admitia que n�o era um racioc�nio muito l�gico.</p><p>O trem passava pela ponte de �rsta quando ele pegou o celular e ligou para Bublanski.</p><p>�O que voc� quer? - perguntou Bublanski, irritado.</p><p>�Acabar - disse Mikael.</p><p>�Acabar o qu�?</p><p>�Com essa confus�o toda. Voc� quer saber quem matou o Dag, a Mia e o Bjurman?</p><p>�Se voc� tem alguma informa��o, eu gostaria de saber.</p><p>�O assassino se chama Ronald Niedermann. � o gigante loiro que lutou com o Paolo Roberto. � cidad�o alem�o, tem trinta e cinco anos e trabalha para um canalha chamado Alexander Zalachenko, tamb�m conhecido como Zala.</p><p>Bublanski ficou um tempo sem dizer nada. Depois suspirou ruidosamente. Mikael ouviu um ru�do de papel e o clique de uma esferogr�fica.</p><p>�Voc� tem certeza?</p><p>�Tenho.</p><p>�Muito bem. E onde est�o o Niedermann e esse tal Zalachenko?</p><p>�Ainda n�o sei. Mas assim que descobrir eu te falo. Daqui a pouco a Erika Berger vai mandar te entregar um relat�rio policial com data de 1991. Ela s� est� tirando uma c�pia. Ali voc� vai achar todo tipo de informa��o sobre o Zalachenko e a Lisbeth Salander.</p><p>�Como assim?</p><p>�O Zalachenko � o pai da Lisbeth. � um espi�o russo dissidente da guerra fria, um assassino.</p><p>�Um espi�o russo! - repetiu Bublanski com a voz cheia de d�vida.</p><p>�Foi coberto por uma turminha da S�po, que ocultou todos os crimes dele.</p><p>Mikael ouviu Bublanski pegando uma cadeira para se sentar.</p><p>�Acho melhor voc� passar por aqui e prestar um depoimento formal.</p><p>�Lamento, estou sem tempo.</p><p>�Como?</p><p>�N�o estou em Estocolmo. Mas assim que eu encontrar o Zalachenko te dou um toque.</p><p>�Blomkvist... Voc� n�o precisa provar nada. Eu tamb�m tenho d�vidas quanto � culpa da Salander.</p><p>�Posso te lembrar que sou um simples investigador particular que n�o entende nada do trabalho da pol�cia?</p><p>Sabia que estava sendo pueril, mas cortou a conversa sem mais formalidades. Em seguida, ligou para Annika Giannini.</p><p>�Oi, mana.</p><p>�Oi. Alguma novidade?</p><p>�D� para dizer que sim. Provavelmente vou precisar de um bom advogado amanh�.</p><p>Ela suspirou.</p><p>�O que voc� aprontou?</p><p>�Por enquanto, nada s�rio, mas pode ser que eu seja detido por obstru��o de investiga��o policial, ou algo assim. Mas n�o � por isso que estou ligando. Voc� n�o vai poder me representar.</p><p>�E por que n�o?</p><p>�Porque quero que voc� se encarregue da defesa da Lisbeth Salander, e voc� n�o pode defender os dois.</p><p>Mikael contou resumidamente do que se tratava. Annika Giannini permaneceu num sil�ncio f�nebre.</p><p>�E voc� tem documentos para se basear... - disse finalmente.</p><p>�Tenho.</p><p>�Vou ter que pensar. A Lisbeth precisa de um advogado criminal�stico...</p><p>�Voc� ser� perfeita.</p><p>�Mikael...</p><p>�Escuta mana, n�o � voc� que estava sentida porque eu n�o pedi ajuda quando precisei?</p><p>Finda a conversa, Mikael ficou um tempo refletindo. Ent�o pegou o telefone e ligou para Holger Palmgren. N�o tinha nenhum motivo especial para isso, mas achava que afinal o senhor idoso, l� no seu centro de reabilita��o, tinha de ser informado sobre as pistas que Mikael estava seguindo e sobre sua esperan�a de que o caso se encerrasse nas pr�ximas horas.</p><p>O problema, evidentemente, era que Lisbeth Salander tamb�m estava seguindo suas pistas.</p><p>Lisbeth Salander se abaixou para pegar uma ma�� na mochila, sem tirar os olhos da granja. Estava deitada na orla de um matinho, em cima do tapete do Corolla como prote��o. Tinha trocado de roupa e usava uma cal�a verde de algod�o pesado com bolsos nas pernas, um pul�ver grosso e uma jaqueta curta forrada e bem quente.</p><p>O lugarejo de Gosseberga situava-se a cerca de quatrocentos metros da estrada departamental e compunha-se de dois grupos de edif�cios. O principal estava a uns cento e vinte metros � sua frente. Era um sobrado de madeira comum, pintado de branco. Havia um galp�o e um est�bulo setenta metros adiante. O port�o do est�bulo emoldurava a frente de um carro branco. Ela podia apostar que era um Volvo, mas estava longe demais para ter certeza.</p><p>� direita, entre ela e a casa, um campo de pouco mais de duzentos metros se estendia at� um a�ude. A trilha de acesso cortava o campo ao meio e desaparecia numa �rea arborizada em dire��o � estrada.</p><p>Na entrada da propriedade havia outra constru��o, com todo o jeito de s�tio abandonado; as janelas estavam tapadas com tecidos claros. Ao norte dessa constru��o, uma �rea arborizada servia de cortina para o lado do vizinho mais pr�ximo, um grupo de casas a cerca de seiscentos metros dali. O s�tio � sua frente era, portanto, relativamente isolado.</p><p>Estava nas proximidades do lago Anten, numa paisagem de vales com campos cortados por pequenas aldeias e �reas de mata densa. O mapa rodovi�rio n�o dava nenhuma informa��o detalhada da regi�o, mas ela seguira o Renault preto de G�teborg pela E20, dobrando para oeste em Alings�s, na dire��o de Sollebrun. Mais ou menos quarenta e cinco minutos depois, o carro entrara de repente num caminho florestal, onde uma placa indicava Gosseberga. Ela estacionara atr�s de uma granja, num matinho a uns cem metros ao norte da bifurca��o e refizera o caminho a p�.</p><p>Nunca tinha ouvido falar em Gosseberga, mas, at� onde podia perceber, o nome se aplicava a casa e ao est�bulo diante dela. Passara na frente da caixa de correspond�ncia colocada na beira da estrada. A placa indicava 612 - K. A. Bodin. O nome n�o lhe dizia nada.</p><p>Descrevera um semic�rculo em volta da constru��o a fim de escolher com cuidado seu ponto de observa��o. Estava com o sol da tarde nas costas. Desde que chegara, por volta das tr�s e meia, praticamente s� uma coisa acontecera: as quatro, o motorista do Renault tinha sa�do da casa. Na soleira da porta, trocara algumas palavras com uma pessoa que ela n�o conseguiu ver. Depois, fora embora dirigindo o carro e n�o tinha voltado. No mais, nenhum movimento na granja. Esperou pacientemente e observou a constru��o com um pequeno bin�culo Minolta com grau oito de aumento.</p><p>Irritado, Mikael Blomkvist tamborilou com os dedos na mesa do vag�o-restaurante. O X2000 estava preso em Katrineholm. O trem j� estava parado havia quase uma hora em fun��o de um misterioso problema t�cnico que precisava ser solucionado - era o que diziam os alto-falantes. A companhia se desculpava pelo atraso.</p><p>Ele deu um suspiro frustrado e foi buscar mais um caf�. S� quinze minutos depois o trem partiu, com uma sacudidela. Olhou o rel�gio. Oito da noite.</p><p>Deveria ter ido de avi�o ou alugado um carro.</p><p>A sensa��o de que estava chegando tarde demais s� fez aumentar.</p><p>Por volta das seis horas, acenderam a luz no t�rreo e, pouco depois, uma l�mpada externa foi acesa acima dos degraus da porta. Lisbeth vislumbrou algumas sombras no que ela imaginou ser a cozinha, � direita da porta de entrada, mas n�o conseguiu distinguir nenhum rosto.</p><p>De repente, a porta se abriu e o gigante loiro chamado Ronald Niedermann saiu. Usava uma cal�a escura e uma blusa de gola alta colante que destacava seus m�sculos. Lisbeth meneou a cabe�a consigo mesma. Enfim uma confirma��o de que estava no lugar certo. Constatou mais uma vez que Niedermann era de fato corpulento. Mas era feito de carne e osso como qualquer ser humano, o que quer que Paolo Roberto e Miriam Wu tivessem passado com ele. Niedermann deu a volta na casa e sumiu alguns minutos na dire��o do carro no est�bulo. Voltou com uma sacola pequena na m�o e tornou a entrar na casa.</p><p>Minutos depois, saiu de novo, desta vez acompanhado de um homem de certa idade, baixo e magro, que mancava e se apoiava numa bengala. Estava escuro demais para que Lisbeth conseguisse distinguir as fei��es de seu rosto, mas sentiu um frio glacial na nuca.</p><p><emphasis>Daaaddyy, I am heeeeree...</emphasis></p><p>Observou Zalachenko e Niedermann caminharem pela trilha de acesso. Eles pararam um pouco no galp�o, onde Niedermann pegou algumas toras de lenha. Depois voltaram para a casa e fecharam a porta.</p><p>Lisbeth Salander permaneceu im�vel v�rios minutos depois que eles entraram. Ent�o baixou o bin�culo e recuou cerca de dez metros, at� ficar totalmente dissimulada pelas �rvores. Abriu a mochila, pegou uma garrafa t�rmica, serviu-se de caf� preto e p�s na boca um torr�o de a��car, que come�ou a chupar. Comeu um sandu�che de queijo embalado em pl�stico que havia comprado num posto de gasolina da estrada de G�teborg. E refletiu.</p><p>Terminado o lanche, tirou da mochila a P-83 Wanad de Benny Nieminen. Tirou o carregador e conferiu que n�o havia nada bloqueando o orif�cio ou o cano. Fez de conta que atirava. No carregador havia seis balas Makarov calibre nove mil�metros. Devia ser suficiente. Reposicionou o carregador e engatou uma bala. Acionou a trava de seguran�a e guardou a arma no bolso direito da jaqueta.</p><p>Lisbeth come�ou a ofensiva em dire��o � constru��o com um movimento circular atrav�s da mata. Tinha percorrido cerca de trezentos metros quando estacou de repente, no meio de uma passada.</p><p>Na margem de seu exemplar do <emphasis>Aritm�tica,</emphasis> Pierre de Fermat havia rabiscado: <emphasis>Descobri uma demonstra��o maravilhosa. N�o cabe na estreiteza desta margem.</emphasis></p><p>O quadrado tinha se transformado em cubo (x3 + y3 = z3), e os matem�ticos haviam passado s�culos tentando resolver o enigma de Fermat. Para enfim solucion�-lo, no final do s�culo xx, Andrew Wiles tinha batalhado dez anos, usando os programas mais avan�ados do mundo.</p><p>E, s�bito, ela entendeu. A resposta era de uma simplicidade absolutamente desarmante. Um jogo com algarismos se alinhando e de repente se encaixando no lugar, numa f�rmula simples que tinha de ser vista, antes de mais nada, como uma charada.</p><p>Fermat n�o dispunha de um computador, e a solu��o de Andrew Wiles fundamentava-se numa matem�tica que ainda n�o tinha sido inventada quando Fermat formulou seu teorema. Fermat n�o poderia ter produzido a prova que Andrew Wiles tinha apresentado. A solu��o de Fermat era, evidentemente, bem distinta.</p><p>Ela ficou t�o surpresa que precisou se sentar sobre um cepo. Ficou olhando fixamente � frente enquanto repassava a equa��o.</p><p><emphasis>Era isso que ele queria dizer. N�o � de surpreender que os matem�ticos tenham arrancado os cabelos.</emphasis></p><p>Ent�o ela caiu na gargalhada.</p><p><emphasis>Um fil�sofo teria tido mais chances de resolver o enigma.</emphasis> Gostaria de ter conhecido Fermat. Era um baita de um garganta.</p><p>Pouco depois, levantou-se e continuou sua ofensiva atrav�s da mata. Ao chegar mais perto, o est�bulo ergueu-se entre ela e a casa.</p></section><section><p><strong><emphasis>31 - QUINTA-FEIRA 7 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander entrou no est�bulo por uma porta de acesso a uma antiga fossa de purina. N�o havia animais na granja. Olhou ao redor e constatou que havia tr�s carros, mais nada - o Volvo branco da Auto-Expert, um velho Ford e um Saab um pouco mais novo. Mais ao fundo, havia um destorroador enferrujado e outras m�quinas da �poca em que a granja estava em atividade.</p><p>Demorou-se na penumbra do est�bulo, observando a casa. Anoitecera e a luz estava acesa em todos os c�modos do t�rreo. Ela n�o percebia nenhum movimento, mas tinha a impress�o de vislumbrar o tr�mulo clar�o de um televisor. Deu uma olhada no rel�gio. Sete e meia. A <emphasis>hora do</emphasis> Rapport <emphasis>na tev�.</emphasis></p><p>Intrigava-a Zalachenko ter optado por uma casa t�o isolada. N�o era do feitio do homem que ela conhecera tantos anos atr�s. N�o esperava encontr�-lo no campo, numa pequena granja pintada de branco e sim numa casa an�nima no sub�rbio ou em algum lugar de veraneio no exterior. Ele devia ter colecionado, ao longo da vida, mais inimigos que Lisbeth Salander. Achava perturbador o lugar ser aparentemente t�o pouco protegido. Mas ponderou que ele devia ter armas em casa.</p><p>Depois de uma longa hesita��o, esgueirou-se no crep�sculo para fora do est�bulo. Atravessou o p�tio com passos �geis e parou encostada na fachada da casa. Chegaram-lhe aos ouvidos fracas notas musicais. Sem um ru�do, contornou a casa e tentou espiar pelas janelas, mas elas ficavam muito no alto.</p><p>Lisbeth desgostava, instintivamente, daquela situa��o. Tinha vivido a primeira metade da sua exist�ncia com um terror constante daquele homem dentro de casa. A outra metade, depois de n�o ter conseguido mat�-lo, ficara esperando ele ressurgir em sua vida. Desta vez, n�o pretendia cometer nenhum erro. Por mais que Zalachenko fosse um velho aleijado, era tamb�m um assassino tarimbado que sobrevivera a mais de uma batalha.</p><p>E tamb�m tinha que levar em conta Ronald Niedermann.</p><p>Teria preferido surpreender Zalachenko l� fora, ao ar livre, em algum ponto do p�tio onde ele estaria vulner�vel. N�o sentia muita vontade de falar com ele, e gostaria de ter um fuzil com luneta. Mas n�o tinha, e o cara tendo dificuldades para andar, n�o havia por que ele sair. S� o vira naqueles minutos em que ele caminhara at� o galp�o de lenha, e n�o podia esperar que ele tivesse vontade de dar um passeio noturno. Ou seja, se quisesse aguardar uma melhor oportunidade, teria de se retirar e passar a noite na mata. N�o tinha saco de dormir e, mesmo o anoitecer estando ameno, a noite seria fria. Agora que finalmente o tinha ao alcance da m�o, n�o queria correr o risco de que tornasse a escapar. Pensou em Miriam Wu e em sua m�e.</p><p>Lisbeth mordeu o l�bio inferior. Teria que entrar na casa, o que era a pior alternativa. Poderia, evidentemente, bater na porta e descarregar parte da muni��o assim que algu�m abrisse, e depois entrar para pegar o outro patife. Mas desse modo o que estivesse l� dentro ficaria de sobreaviso, provavelmente armado. <emphasis>An�lise das conseq��ncias. Quais eram as outras possibilidades?</emphasis></p><p>S�bito, avistou o perfil de Niedermann passando por uma janela a apenas poucos metros dali. Ele olhava para dentro da sala por sobre o ombro, falando com algu�m.</p><p><emphasis>Est�o os dois na sala � esquerda da entrada.</emphasis></p><p>Lisbeth se decidiu. Pegou a pistola no bolso da jaqueta, soltou a trava de seguran�a e subiu, sem fazer barulho, os degraus da porta. Segurava a arma na m�o esquerda enquanto, bem devagarinho, girava a ma�aneta. A porta n�o estava trancada. Franziu o cenho e hesitou. Havia fechaduras duplas de seguran�a.</p><p>Zalachenko n�o deixaria a porta destrancada. Sentiu um arrepio na nuca.</p><p>Algo n�o estava batendo.</p><p>A entrada estava mergulhada no escuro. � direita, avistou uma escada para o andar de cima. Havia duas portas � sua frente e outra � esquerda. Podia ver a luz vindo por uma fresta acima da porta. Ficou im�vel e escutou. Ent�o ouviu uma voz e o ranger de uma cadeira na sala da esquerda.</p><p>Deu dois passos grandes, abriu a porta e apontou a arma para... <emphasis>a sala estava deserta.</emphasis></p><p>Ouviu um farfalhar de roupas atr�s de si e virou-se como um r�ptil. No momento em que tentava mirar, o punho imenso de Ronald Niedermann fechou-se qual anel de a�o em volta de seu pesco�o, enquanto o outro agarrou a m�o que segurava a arma. Ele pegou-a pela nuca e ergueu-a no ar como se fosse uma boneca.</p><p>Por um segundo, ela agitou as pernas no ar. Ent�o se virou e deu um pontap� em dire��o da entreperna de Niedermann. Errou o golpe e atingiu-o no quadril. Foi como chutar o tronco de uma �rvore. Come�ou a ver tudo preto quando ele apertou seu pesco�o; Lisbeth sentiu que soltava a arma.</p><p><emphasis>Droga.</emphasis></p><p>Ent�o Ronald Niedermann jogou-a dentro da sala. Ela caiu brutalmente em cima de um sof� e escorregou para o ch�o. Sentiu o sangue afluir de novo para a cabe�a e se p�s de p�, ainda atordoada. Viu um pesado cinzeiro triangular de vidro maci�o em cima de uma mesa, pegou-o e atirou-o ao se virar. Niedermann interceptou seu bra�o em pleno gesto. Ela enfiou a m�o livre no bolso esquerdo da cal�a, pegou o cacetete el�trico, virou-se e enfiou-o na entreperna de Niedermann.</p><p>Sentiu em si mesma a descarga el�trica descarregada no bra�o que Niedermann segurava. Esperava que ele desabasse de dor. Em vez disso, ele olhou para ela com uma express�o at�nita. Os olhos de Lisbeth Salander se arregalaram de espanto. Obviamente, o homem sentia algum inc�modo, mas no geral n�o sabia o que era dor. <emphasis>Esse cara n�o � normal.</emphasis></p><p>Niedermann se abaixou, pegou o cacetete e o examinou ainda at�nito. Ent�o deu-lhe uma bofetada com o dorso da m�o. Foi como uma bordoada.</p><p>Ela desabou no ch�o, diante do sof�. Ergueu os olhos e encontrou os olhos de Ronald Niedermann. Ele a encarou com curiosidade, como se perguntando qual seria seu pr�ximo movimento. Como um gato se preparando para brincar com sua presa.</p><p>Ent�o ela pressentiu um movimento pela fresta de uma porta, mais adiante. Voltou a cabe�a.</p><p>Ele caminhou devagar para dentro da luz.</p><p>Apoiava-se numa bengala inglesa e ela viu que uma de suas pernas terminava numa pr�tese.</p><p>A m�o esquerda era uma bola atrofiada � qual faltavam dois dedos.</p><p>Ela ergueu o olhar para o rosto dele. O lado esquerdo era um <emphasis>patchwork</emphasis> de cicatrizes deixadas pelas queimaduras. N�o restava quase nada da orelha e n�o havia sobrancelhas. Ele estava careca. Ela se lembrava dele como um homem viril e atl�tico, de cabelos pretos ondulados. N�o media mais que um metro e setenta e cinco e estava esquel�tico.</p><p>�Oi, papai - disse ela com voz inexpressiva.</p><p>Alexander Zalachenko olhou para a filha com a mesma falta de express�o no rosto.</p><p>Ronald Niedermann acendeu a luz do teto. Apalpou sua jaqueta para verificar se ela n�o tinha outra arma, ent�o p�s a trava de seguran�a na P-83 Wanad e tirou o carregador. Zalachenko se arrastou at� uma poltrona e brandiu um controle remoto.</p><p>O olhar de Lisbeth bateu na tela da tev� atr�s dele. Zalachenko clicou e ela viu surgir de repente uma imagem cintilante e esverdeada da �rea atr�s do est�bulo e um trecho da trilha de acesso. <emphasis>C�mera �tica com infravermelho. Eles viram quando ela se aproximou.</emphasis></p><p>�Eu estava come�ando a achar que voc� n�o ia ter coragem de aparecer - disse Zalachenko. - Estamos te observando desde as quatro da tarde. Voc� fez disparar quase todos os alarmes da granja.</p><p>�Detectores de movimento - disse Lisbeth.</p><p>�Dois na trilha de acesso e quatro no arvoredo do lado de l� do campo. Voc� estabeleceu seu posto de vigil�ncia bem no lugar onde instalamos o alarme. � dali que se tem a melhor vis�o da granja. Em geral, quem chega muito perto s�o os alces ou cabritos, e �s vezes pessoas juntando bagas. Mas � raro ver algu�m se aproximando de arma na m�o. Ele ficou um instante em sil�ncio.</p><p>�Voc� achava mesmo que Zalachenko ia ficar totalmente exposto numa casinha de campo?</p><p>Lisbeth massageou a nuca e fez men��o de se levantar.</p><p>�Fique no ch�o - disse Zalachenko com dureza.</p><p>Niedermann parou de mexer na pistola de Lisbeth e contemplou-a calmamente. Al�ou uma sobrancelha e sorriu para ela. Lisbeth lembrou do rosto massacrado de Paolo Roberto que tinha visto na tev� e concluiu que era uma boa hora para ficar no ch�o. Deu um suspiro e se recostou no sof�.</p><p>Zalachenko estendeu a m�o direita intacta. Niedermann pegou uma arma no bolso da cal�a, puxou a corredi�a e estendeu para ele. Lisbeth notou que era uma Sig Sauer, a arma-padr�o da pol�cia. Zalachenko fez um sinal com o queixo. Sem outra forma de comunica��o, Niedermann deu meia-volta e vestiu um casaco. Saiu da sala e Lisbeth ouviu a porta da rua se abrir e tornar a se fechar.</p><p>�S� para voc� n�o come�ar a pensar em bobagem. � menor tentativa de se levantar, eu te encho de chumbo.</p><p>Lisbeth relaxou. Dava tempo de ele atirar duas balas, ou at� tr�s, antes que ela o alcan�asse, e ele provavelmente usava uma muni��o que a mataria de hemorragia em poucos minutos.</p><p>�Que cara ruim essa sua - disse Zalachenko, indicando a argola que ela usava na sobrancelha. �Parece uma puta.</p><p>Lisbeth o encarou.</p><p>�Mas voc� tem os meus olhos - disse ele.</p><p>�Isso d�i? - ela perguntou, fazendo um gesto da cabe�a em dire��o � pr�tese.</p><p>Zalachenko fitou-a demoradamente.</p><p>�N�o. N�o mais. Lisbeth meneou a cabe�a.</p><p>�Seu sonho � me matar - ele disse.</p><p>Ela n�o respondeu. Ele caiu na gargalhada.</p><p>�Pensei em voc� nesses anos todos. Mais ou menos cada vez que me olho no espelho, eu penso em voc�.</p><p>�Voc� devia ter deixado a minha m�e em paz. Zalachenko riu.</p><p>�A sua m�e era uma puta.</p><p>Os olhos de Lisbeth ficaram negros como tinta.</p><p>�Ela n�o era uma puta. Era caixa num supermercado e tentava nos sustentar com seu sal�rio.</p><p>Zalachenko riu novamente.</p><p>�Guarde as suas fantasias sobre ela para voc�. Eu sei que ela era uma puta. E rapidinho ela deu um jeito de ficar gr�vida, e depois tentou me empurrar um casamento. At� parece que eu ia me casar com uma puta!</p><p>Lisbeth n�o disse nada. Fitava o cano da arma, na esperan�a de que ele relaxasse a concentra��o por um momento.</p><p>�Aquela bomba incendi�ria foi uma coisa muito esperta. Eu odiei voc�. Mas depois tudo isso deixou de ter import�ncia. Voc� n�o merecia que eu gastasse tanta energia. Se voc� n�o tivesse aparecido, eu nem teria feito nada.</p><p>�Mentira. O Bjurman te contratou para acabar comigo.</p><p>�N�o tinha nada a ver. Era um acordo comercial. Ele precisava de um filme que est� com voc� e eu dirijo um pequeno neg�cio.</p><p>�E voc� achou que eu ia te dar o filme.</p><p>�Sim, querida filha. Estou convencido de que voc� teria me dado esse filme. Voc� n�o imagina o quanto as pessoas ficam cooperativas quando o Ronald pede alguma coisa para elas. Principalmente quando ele liga uma serra el�trica e corta um p� delas fora. No meu caso, seria inclusive uma compensa��o adequada... um p� por um p�.</p><p>Lisbeth pensou em Miriam Wu nas m�os de Ronald Niedermann, no armaz�m de Nykvarn. Zalachenko interpretou mal sua express�o.</p><p>�N�o se preocupe. N�o pretendemos decepar voc�. Ele olhou para ela.</p><p>�O Bjurman realmente estuprou voc�? Ela n�o respondeu.</p><p>�Que puta mau gosto tinha esse cara. Li no jornal que voc� � meio que uma sapatona nojenta. N�o me surpreende. Entendo que nenhum homem queira saber de voc�.</p><p>Lisbeth continuou calada.</p><p>�Eu devia pedir para o Niedermann te dar um trato. Voc� parece que est� precisando.</p><p>Ele refletiu sobre o assunto.</p><p>�Mas o Niedermann n�o trepa com mulher. N�o, ele n�o � gay. Ele n�o trepa, s� isso.</p><p>�Ent�o voc� mesmo vai ter que me dar um trato - lan�ou Lisbeth, para provoc�-lo.</p><p><emphasis>Aproxime-se. Cometa um erro.</emphasis></p><p>�Ora, � claro que n�o. N�o sou perverso a esse ponto. Ficaram calados durante algum tempo.</p><p>�O que a gente est� esperando? - perguntou Lisbeth.</p><p>�O meu s�cio volta logo. Ele s� foi tirar o seu carro e tratar de um neg�cio. Onde est� a sua irm�?</p><p>Lisbeth deu de ombros.</p><p>�Responda.</p><p>�N�o fa�o id�ia e, para ser bem franca, estou pouco me lixando. Ele riu novamente.</p><p>�E o amor entre irm�s? Camilla sempre foi a que tinha alguma coisa na cabe�a, enquanto voc� s� servia para o lixo.</p><p>Lisbeth n�o respondeu.</p><p>�Mas admito que � realmente uma satisfa��o tornar a ver voc� assim de perto.</p><p>�Zalachenko - disse ela -, voc� est� me cansando � be�a. Foi o Niedermann quem matou o Bjurman?</p><p>�Mas � claro. Ronald Niedermann � um perfeito soldado. N�o s� obedece �s ordens como tamb�m toma iniciativas quando necess�rio.</p><p>�Onde voc� foi achar esse cara?</p><p>Zalachenko olhou para a filha com uma express�o estranha. Abriu a boca como para dizer alguma coisa, mas hesitou e se manteve calado. Deu uma olhada para a porta da rua e sorriu de repente.</p><p>�Quer dizer que voc� ainda n�o entendeu - disse. �E isso que, segundo dizia o Bjurman, voc� � uma investigadora especialmente talentosa.</p><p>Ent�o Zalachenko caiu na gargalhada.</p><p>�N�s come�amos a ter contato na Espanha, no in�cio dos anos 1990, quando eu ainda estava convalescendo daquela sua bombinha incendi�ria. Ele n�o � meu empregado... Temos uma parceria. Dirigimos um empreendimento pr�spero.</p><p>�Tr�fico de mulheres. Ele deu de ombros.</p><p>�D� para dizer que andamos diversificando e cobrimos v�rias �reas e servi�os. A id�ia � a nossa empresa ficar na moita, sem a gente aparecer. Quer dizer ent�o que voc� realmente n�o entendeu quem � o Ronald Niedermann?</p><p>Lisbeth n�o disse nada. N�o tinha a m�nima id�ia do que ele estava insinuando.</p><p>�O Ronald � seu irm�o - disse Zalachenko.</p><p>�N�o! - fez Lisbeth, sentindo-se sufocar.</p><p>Zalachenko riu de novo. Mas o cano da pistola continuava firmemente apontado para ela.</p><p>�Ou pelo menos seu meio-irm�o - esclareceu Zalachenko. �O fruto de uma divers�o, durante uma miss�o que eu efetuei na Alemanha em 1970.</p><p>�Voc� transformou seu filho num assassino.</p><p>�Que nada, eu s� o ajudei a realizar seu potencial. Ele era capaz de matar muito antes de eu me encarregar da educa��o dele. E, quando eu n�o estiver mais aqui, ele vai tocar com sucesso o neg�cio da fam�lia.</p><p>�Ele sabe que eu sou irm� dele?</p><p>�Claro. Mas se est� achando que vai poder apelar para os sentimentos fraternais dele, esque�a. A fam�lia dele sou eu. Voc� n�o passa de um vago zumbido no horizonte. Devo esclarecer que ele n�o � o seu �nico meio-irm�o. Voc� tem pelo menos mais quatro, e tr�s irm�s tamb�m, em diferentes pa�ses. Um desses seus irm�os � um abobado, mas um deles tem um certo potencial. Ele cuida da filial de Tallinn. Mas o Ronald � o �nico dos meus filhos que realmente faz justi�a aos genes dos Zalachenko.</p><p>�Pelo jeito n�o h� espa�o para as minhas irm�s nessa empresa familiar.</p><p>Zalachenko pareceu estupefato.</p><p>�Zalachenko... voc� n�o passa de um reles calhorda que n�o gosta de mulher. Por que voc�s mataram o Bjurman?</p><p>�O Bjurman era um idiota. Caiu das nuvens quando descobriu que voc� era minha filha. Ele era uma das rar�ssimas pessoas neste pa�s que conhecia o meu passado. Confesso que fiquei preocupado quando ele me procurou de repente, mas em seguida tudo se ajeitou da melhor maneira. Ele morreu e voc� � que foi acusada.</p><p>�Mas por que voc�s o mataram? - insistiu Lisbeth.</p><p>�N�o estava nos planos. Eu estava satisfeito com a id�ia de trabalhar com ele por mais alguns anos, e � sempre �til ter um discreto acesso � Sapo, mesmo que atrav�s de um idiota. Mas aquele jornalista de Enskede descobriu uma liga��o entre n�s dois e ligou para o Bjurman bem quando o Ronald estava na casa dele. O Bjurman entrou em p�nico e se descontrolou totalmente. O Ronald foi obrigado a tomar uma decis�o de �ltima hora. E fez exatamente o que tinha que ser feito.</p><p>O cora��o de Lisbeth caiu como uma pedra dentro do peito quando seu pai confirmou o que ela j� intu�ra. Dag Svensson tinha descoberto o elo. Ela havia conversado com Dag e Mia por mais de uma hora. Gostara imediatamente de Mia, ao passo que seus sentimentos por Dag Svensson eram mais misturados. Ele lhe lembrava demais Mikael Blomkvist � um insuport�vel salvador do mundo que achava que podia mudar as coisas publicando um livro. Mas ela acreditara em suas boas inten��es.</p><p>De modo geral, a visita a Dag e Mia tinha sido perda de tempo. Eles n�o podiam lev�-la at� Zalachenko. Dag Svensson topara com o nome e come�ara a escavar, mas n�o conseguira identific�-lo.</p><p>Em compensa��o, ela cometera um erro fatal durante a visita. Como sabia que existia um elo entre Bjurman e Zalachenko, tinha feito perguntas sobre Bjurman para tentar descobrir se Dag Svensson tinha topado com o nome dele. N�o fora o caso, mas ele tinha um bom faro. Focara imediatamente no tal de Bjurman e a enchera de perguntas.</p><p>Embora Lisbeth n�o revelasse grande coisa para Dag Svensson, ele percebeu que ela estava envolvida na trama. Percebeu tamb�m que ele pr�prio tinha informa��es que ela queria. Haviam combinado de tornar a se encontrar depois da P�scoa. Depois disso, Lisbeth Salander voltou para casa e foi dormir. Ao acordar de manh� e ver o notici�rio, ficou sabendo que duas pessoas haviam sido assassinadas num apartamento em Enskede.</p><p>Durante sua visita, oferecera a Dag Svensson uma �nica pista utiliz�vel. O nome de Nils Bjurman. Dag Svensson devia ter pego o telefone e ligado para Bjurman assim que ela saiu do apartamento.</p><p>O elo era ela. Se n�o tivesse ido visitar Dag Svensson, ele e Mia ainda estariam vivos.</p><p>Zalachenko riu.</p><p>�Voc� n�o avalia a nossa surpresa quando a pol�cia come�ou a te procurar pelos homic�dios.</p><p>Lisbeth mordeu o l�bio inferior. Zalachenko examinou-a.</p><p>�Como foi que voc� me achou? - ele perguntou. Ela deu de ombros.</p><p>�Lisbeth... o Ronald vai voltar daqui a pouco. Posso pedir para ele quebrar todos os ossos do seu corpo at� voc� responder. Poupe-nos esse trabalho.</p><p>�A caixa postal. Segui a pista do carro alugado de Niedermann e esperei que o carinha cheio de espinhas aparecesse para pegar a correspond�ncia.</p><p>�Uau, bom trabalho! Obrigado. Vou me lembrar disso.</p><p>Lisbeth refletiu um instante. A arma continuava apontada para a parte superior de seu corpo.</p><p>�E voc� acha mesmo que essa tempestade vai se acalmar? - perguntou Lisbeth. �Voc� cometeu muitos erros, a pol�cia vai acabar te identificando.</p><p>�Eu sei - respondeu seu pai. �O Bj�rck ligou ontem e contou que um jornalista da <emphasis>Millennium</emphasis> j� farejou a hist�ria e que agora � tudo uma quest�o de tempo. � poss�vel que a gente seja obrigado a cuidar do jornalista.</p><p>�Vai ser uma lista grande � disse Lisbeth. � Mikael Blomkvist, a chefe dele, Erika Berger, a assistente de reda��o e v�rios funcion�rios da <emphasis>Millennium.</emphasis> Sem falar no Dragan Armanskij e em dois ou tr�s empregados da Milton Security. E Bublanski, e v�rios outros tiras da investiga��o. Quantas pessoas voc� vai matar para abafar essa hist�ria? Eles v�o acabar te pegando.</p><p>Zalachenko riu mais uma vez.</p><p>�E da�? Eu n�o matei ningu�m e n�o existe nenhuma prova t�cnica contra mim. Eles que identifiquem quem bem entenderem. Acredite... eles podem vir revistar esta casa que n�o v�o achar um �nico gr�o de poeira me relacionando com alguma atividade criminosa. Foi a S�po que te jogou no hosp�cio, n�o eu, e eles decerto n�o v�o estar muito interessados em colocar todas as cartas na mesa.</p><p>�Niedermann - lembrou Lisbeth.</p><p>�Amanh� de manh�, o Ronald vai sair de f�rias no exterior por algum tempo, enquanto aguardamos o desenrolar dos fatos.</p><p>Zalachenko encarou Lisbeth com olhos triunfantes.</p><p>�Voc� continuar� sendo a principal suspeita dos assassinatos. De modo que o mais indicado � voc� desaparecer pura e simplesmente, sem alarde.</p><p>Quase uma hora se passou at� Ronald Niedermann voltar. Estava usando botas.</p><p>Lisbeth Salander deu uma olhada no homem que, segundo seu pai, era seu meio-irm�o. N�o conseguia detectar nenhuma semelhan�a. Pelo contr�rio, ele era-lhe diametralmente oposto. Em contrapartida, Lisbeth tinha a sensa��o muito clara de que algo estava errado com Ronald Niedermann. Sua estrutura, o rosto fl�cido e a voz que ainda n�o amadurecera de fato, tudo evocava algum tipo de falha gen�tica. Ele n�o sentira o cacetete el�trico, suas m�os eram enormes. Nada em Ronald Niedermann parecia complemente normal.</p><p><emphasis>Tudo indica que existe um monte de falhas gen�ticas na fam�lia Zalaenko -</emphasis> ela pensou com amargura.</p><p>�Est� pronto? - perguntou Zalachenko.</p><p>Niedermann meneou a cabe�a. Estendeu a m�o para pegar a sua Siguer de volta.</p><p>�Eu vou junto - disse Zalachenko. Niedermann hesitou.</p><p>�Vamos ter que caminhar um bocado.</p><p>�Eu vou junto. Pegue o meu casaco.</p><p>Niedermann deu de ombros e fez o que ele tinha mandado. Ent�o, come�ou a mexer na arma enquanto Zalachenko se vestia e sumia por um breve instante no c�modo ao lado. Lisbeth observou Niedermann, que parafusava <strong>O</strong> adaptador com silencioso de confec��o caseira.</p><p>�Vamos l� - disse Zalachenko, pr�ximo � porta.</p><p>Niedermann se inclinou e ergueu Lisbeth, pondo-a de p�. Ela cruzou o olhar com o dele.</p><p>�Eu vou matar voc� tamb�m - ela disse.</p><p>�Vamos admitir, voc� tem confian�a em si mesma - disse seu pai.</p><p>Niedermann sorriu com suavidade e a empurrou na dire��o da porta e, depois, pelo p�tio. Segurava-a pela nuca com m�o firme. Seus dedos davam tranq�ilamente a volta em seu pesco�o. Levou-a para a mata ao norte do est�bulo.</p><p>Avan�avam devagar e Niedermann parava de tempos em tempos para esperar por Zalachenko. Tinham se munido de lanternas potentes. Quando chegaram ao meio das �rvores, Niedermann soltou seu pesco�o. A um metro de dist�ncia, apontava a pistola para suas costas.</p><p>Seguiram por uma trilha impratic�vel por cerca de quatrocentos metros. Lisbeth trope�ou duas vezes e nas duas vezes foi recolocada de p�.</p><p>�Pegue � direita - disse Niedermann.</p><p>Uns dez metros depois chegaram a uma clareira. Lisbeth viu o buraco no ch�o. � luz da lanterna de Niedermann, notou uma p� cravada em uma eleva��o de terra. Ent�o entendeu o que Niedermann tinha ido fazer. Ele a empurrou para o buraco, ela trope�ou e caiu de quatro. Suas m�os afundaram profundamente na areia. Levantou a cabe�a e olhou para ele sem nenhuma express�o. Zalachenko vinha devagar e Niedermann o esperava calmamente. Em momento algum a pistola deixou de apontar para Lisbeth.</p><p>Zalachenko estava ofegante. Precisou de mais de um minuto at� conseguir falar.</p><p>�Eu deveria dizer alguma coisa, mas acho que n�o tenho nada para te falar - disse.</p><p>�Por mim, tudo bem - disse Lisbeth. �Tamb�m n�o tenho muito para falar.</p><p>Ela endere�ou-lhe um sorriso enviesado.</p><p>�Vamos acabar com isso - disse Zalachenko.</p><p>�Fico feliz de saber que a �ltima coisa que eu fiz foi te encurralar - disse Lisbeth. �A pol�cia vai bater na sua casa ainda esta noite.</p><p>�Balela. Eu sabia que voc� ia tentar alguma coisa desse tipo. Voc� veio i para me matar, s� isso. N�o falou para ningu�m.</p><p>O sorriso de Lisbeth cresceu. S�bito, exibiu uma express�o mal�vola.</p><p>�Deixa eu te mostrar uma coisa, paizinho.</p><p>Ela enfiou lentamente a m�o no bolso da perna esquerda e tirou um eto quadrado. Ronald Niedermann espreitava o menor de seus <emphasis>gestos.</emphasis></p><p>� Cada palavra que voc� pronunciou nesta �ltima hora foi divulgada internet.</p><p>Ela brandiu seu PDA Palm Tungsten T3.</p><p>Uma ruga rasgou a testa de Zalachenko no lugar onde deveriam estar as sombrancelhas.</p><p>�Me mostra isso a� - disse ele, estendendo a m�o ilesa. Lisbeth jogou-lhe o PDA. Ele o pegou no ar.</p><p>�Balela - disse Zalachenko. �� s� um Palm comum.</p><p>Quando Ronald Niedermann se inclinou para ver o PDA<strong>,</strong> Lisbeth Salander jogou-lhe um punhado de areia direto nos olhos. Ele ficou cego na hora, mas disparou maquinalmente a pistola provida de silencioso. Lisbeth j� tinha dado dois passos para o lado, e a bala atingiu o vazio. Ela apanhou a p� e bateu com a l�mina na m�o que segurava a arma. Atingiu com toda a for�a as juntas dos dedos e viu sua Sig Sauer fazer uma ampla curva no ar e ir cair no meio de uns arbustos. Viu jorrar sangue de um corte profundo na falange do indicador.</p><p><emphasis>Era para ele estar urrando de dor.</emphasis></p><p>Niedermann tateou o ar com a m�o ferida enquanto com a outra esfregava os olhos, desesperado. A �nica chance de Lisbeth vencer o combate era causar rapidamente estragos consider�veis; se houvesse um corpo a corpo, ela estaria perdida. Precisava de uma tr�gua de cinco segundos para sumir dentro da mata. Puxou a p� para tr�s e tornou a� balan�ada com toda a for�a. Tentou virar o cabo para atingido com o gume, mas estava mal posicionada. Foi o dorso da p� que bateu no rosto de Niedermann.</p><p>Ele resmungou quando seu nariz se quebrou pela segunda vez em poucos dias. Continuava cegado pela areia, mas fez um movimento largo com o bra�o direito e conseguiu empurrar Salander. Ela foi para tr�s e seu p� pisou numa raiz. Caiu por um segundo no ch�o, levantando-se logo de um salto. Niedermann estava fora do p�reo por enquanto. <emphasis>Eu vou conseguir.</emphasis></p><p>Deu dois passos em dire��o ao mato, quando, com o rabo do olho - <emphasis>clique -</emphasis>, viu Alexander Zalachenko levantar o bra�o.</p><p><emphasis>Esse velho cretino tamb�m est� com uma pistola.</emphasis></p><p><emphasis>A</emphasis> descoberta estalou feito uma chicotada em sua cabe�a.</p><p>Mudou de dire��o no exato momento em que ele atirou. A bala raspou seu quadril e a fez vacilar e perder o equil�brio.</p><p>Ela n�o sentiu dor.</p><p>A segunda bala atingiu-lhe as costas e parou junto a escapula esquerda. Uma dor aguda e paralisante atravessou seu corpo.</p><p>Caiu de joelhos. Durante alguns segundos, n�o foi capaz de se mexer. Tinha consci�ncia de que Zalachenko estava atr�s dela, a uns cinco, seis metros. Num derradeiro esfor�o, levantou-se e deu um passo titubeante em dire��o ao escudo protetor dos arbustos.</p><p>Zalachenko teve tempo de sobra para mirar.</p><p>A terceira bala atingiu-a cerca de dois cent�metros acima da orelha esquerda. Perfurou o osso da cabe�a, causando uma rede de fissuras irradiantes no cr�nio. A bala de chumbo penetrou em sua cabe�a, alojando-se na massa cinzenta, quatro cent�metros abaixo da crosta cerebral.</p><p>Para Lisbeth Salander, a descri��o m�dica da situa��o n�o passava de jarg�o cient�fico. Em termos pr�ticos, a bala resultou num traumatismo amplo e imediato. Sua �ltima percep��o foi a de um choque vermelho se transformando em luz branca.</p><p>Em seguida, escurid�o.</p><p><emphasis>Clique.</emphasis></p><p>Zalachenko tentou apertar mais uma vez o gatilho, mas suas m�os tremiam tanto que n�o conseguia mirar. <emphasis>Por pouco ela n�o se safa.</emphasis> Por fim, percebeu que ela j� estava morta e abaixou a arma, tremendo, enquanto a adrenalina aflu�a por todo o seu corpo. Olhou para a arma. Chegara a pensar em deixar a pistola em casa, mas acabara enfiando-a no bolso, como se precisasse de um mascote. <emphasis>Aquela garota era um monstro.</emphasis> Estavam ali dois homens adultos, sendo um deles Ronald Niedermann, e ainda por cima armado com uma Sig Sauer. <emphasis>E essa puta nojenta por pouco n�o se safa.</emphasis></p><p>Deu uma olhada no corpo da filha. � luz da lanterna, parecia uma boneca de pano ensanguentada. Acionou a trava de seguran�a e enfiou a pistola no bolso, depois acercou-se de Ronald Niedermann. Ele estava completamente desamparado, l�grimas nos olhos e sangue escorrendo da m�o e do nariz. O nariz ainda n�o tinha sarado desde a luta decisiva contra Paolo Roberto, e o dorso da p� fizera novamente estragos consider�veis.</p><p>�Acho que quebrei o nariz de novo - disse ele.</p><p>�Imbecil - disse Zalachenko. �Por pouco ela n�o se safa mais uma vez.</p><p>Niedermann continuou a esfregar os olhos. N�o sentia dor, mas as l�grimas escorriam e ele estava quase totalmente cego.</p><p>�Endireite-se, porra! - Zalachenko balan�ou a cabe�a com desprezo. �Puta merda, o que seria de voc� sem mim?</p><p>Niedermann piscou desesperadamente. Zalachenko manquejou at� o corpo da filha e agarrou sua jaqueta pelo alto das costas. Ergueu-a e puxou-a na dire��o do t�mulo, que n�o passava de um buraco no ch�o, pequeno demais para ela poder descansar deitada. Suspendeu o corpo de modo que os p�s ficassem acima do buraco, e ent�o deixou-a cair feito um saco de batatas. Lisbeth caiu em posi��o fetal, para a frente, com os joelhos dobrados sob o corpo.</p><p>�Tape isso a�, para a gente poder ir para casa - ordenou Zalachenko. Ronald Niedermann, ainda meio cego, precisou de algum tempo para p�r a terra no buraco. Jogou a sobra pelo terreno em volta com pazadas vigorosas.</p><p>Zalachenko fumou um cigarro enquanto contemplava o trabalho de Niedermann. Continuava tremendo, mas a adrenalina come�ava a refluir. Sentiu de repente um al�vio por ela ter sido eliminada. Ainda lembrava de seus olhos no instante em que jogara a bomba incendi�ria, tantos anos atr�s.</p><p>Eram nove da noite quando Zalachenko olhou ao redor e meneou a cabe�a. Conseguiram achar a Sig Sauer de Niedermann no meio dos arbustos. Ent�o, voltaram para casa. Zalanchenko se sentia extremamente satisfeito. Dedicou um tempo a cuidar da m�o de Niedermann. O golpe com a p� deixara um corte fundo, e ele precisou pegar linha e agulha para costur�-lo - uma coisa que aprendera a fazer na escola militar de Novossibirsk quando tinha quinze anos. Pelo menos n�o precisava de anestesia. Em compensa��o, a ferida podia ser s�ria a ponto de obrigar Niedermann a ir para o hospital. Fez um curativo com tala.</p><p>Quando terminou, abriu uma cerveja para si, enquanto Niedermann enxaguava os olhos no banheiro.</p></section><section><p><strong><emphasis>32 - QUINTA-FEIRA 7 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist chegou � esta��o central de G�teborg pouco depois das nove da noite. O X2000 recuperara parte do atraso, mas n�o totalmente. Mikael passara a �ltima hora da viagem ligando para autolocadoras. Primeiro tentou conseguir um carro em Alings�s, pensando em descer do trem ali, as isso revelou-se imposs�vel �quela hora da noite. Acabou desistindo e coseguindo um Volkswagen atrav�s de uma reserva de hotel em G�teborg. O carro estaria dispon�vel em J�rntorget. Deixou para l� o complexo transporte coletivo de G�teborg, com seu incompreens�vel sistema de bilhetes que s� um engenheiro espacial seria capaz de entender. Pegou um t�xi.</p><p>Quando finalmente pegou o carro, descobriu que n�o havia um mapa rodovi�rio no porta-luvas. Foi at� um posto de gasolina vinte e quatro horas e fez umas provis�es. Comprou, al�m do mapa, uma lanterna, uma garrafa de �gua mineral e um caf� para viagem que ele acomodou no painel, no espa�o previsto para essa finalidade. J� eram mais de dez e meia da noite quando passou por Partille, saindo de G�teborg em dire��o ao norte. Pegou a estrada para Alings�s.</p><p>�s nove e meia, uma raposa macho passou junto ao t�mulo de Lisbeth Salander. Parou e olhou em volta, preocupada. Sabia, por instinto, que havia algo enterrado ali, mas achou que a presa estava dif�cil demais de alcan�ar e que n�o valia a pena cavar. Podia encontrar presas mais f�ceis.</p><p>Muito perto dali, um animal noturno inconsciente do perigo fez um barulho e a raposa imediatamente ergueu as orelhas. Deu um passo cauteloso. Mas antes de prosseguir na ca�ada levantou a pata traseira e marcou seu territ�rio com uma mijada.</p><p>Bublanski n�o tinha por h�bito dar telefonemas de trabalho � noite, mas desta vez n�o resistiu. Tirou o fone do gancho e discou o n�mero de Sonja Modig.</p><p>�Desculpe eu te ligar t�o tarde. Est� acordada?</p><p>�N�o se preocupe.</p><p>�Terminei agora de ler o relat�rio de 1991.</p><p>�Eu tamb�m n�o conseguia parar de ler.</p><p>�Sonja... como voc� interpreta tudo que est� acontecendo?</p><p>�O Gunnar Bj�rck, um nome bem em evid�ncia na lista dos clientes sexuais, aparentemente mandou internar a Lisbeth Salander num hosp�cio depois que ela tentou proteger a si mesma e � m�e de um assassino de mente perturbada que trabalhava para a S�po. Para isso, o Bj�rck contou com a ajuda do Peter Teleborian, que fez uma avalia��o do estado ps�quico da Lisbeth Salander, avalia��o essa em que n�s, por nossa vez, baseamos boa parte do nosso julgamento.</p><p>�Isso muda completamente a imagem dela.</p><p>�E explica algumas coisas.</p><p>�Sonja, voc� pode vir me pegar amanh� �s oito?</p><p>�Claro.</p><p>�Vamos para Sm�dalar� ter uma conversinha com o Gunnar Bj�rck. Mandei tirar informa��es sobre ele. Est� de licen�a m�dica.</p><p>�Eu vou adorar.</p><p>�Acho que vamos precisar rever a nossa avalia��o da Lisbeth Salander.</p><p>Lars Beckman olhou de esguelha para a mulher. Erika Berger, em p� em frente � janela da sala, contemplava a ba�a. Estava com o celular na m�o e ele sabia que ela esperava uma liga��o de Mikael Blomkvist. Parecia t�o infeliz que ele se aproximou e p�s o bra�o em seus ombros.</p><p>�O Blomkvist j� � bem crescidinho - disse. �Mas se voc� est� t�o preocupada, deveria ligar para aquele tira.</p><p>�Eu deveria ter feito isso h� horas. Mas n�o � por isso que estou mal.</p><p>�� algo que eu deveria saber? - perguntou Lars. Ela meneou a cabe�a.</p><p>�Fala.</p><p>�Tem uma coisa que eu n�o te contei. Nem para o Mikael. Nem para ningu�m da reda��o.</p><p>�O qu�?</p><p>Ela se virou para o marido e contou que tinha aceitado o cargo de redatora-chefe do <emphasis>Svenska Morgon-Posten.</emphasis> Lars Beckman ergueu as sobrancelhas.</p><p>�N�o entendo por que n�o contou nada - disse ele. �� uma super-not�cia para voc�. Meus parab�ns.</p><p>�Acho que � porque eu simplesmente tenho a sensa��o de estar cometendo uma trai��o.</p><p>�O Mikael vai entender. Chega uma hora em que cada um tem que tra�ar seu pr�prio caminho. Essa hora chegou para voc�.</p><p>�Eu sei.</p><p>�Voc� est� mesmo decidida?</p><p>�Estou. J� resolvi. Mas ainda n�o tive coragem de contar a ningu�m. E tenho a sensa��o de estar abandonando o navio no meio do caos.</p><p>Ele estreitou a mulher nos bra�os.</p><p>Dragan Armanskij esfregou os olhos e fitou a escurid�o para al�m das janelas do centro de reabilita��o de Ersta.</p><p>�Seria melhor chamar o Bublanski - disse.</p><p>�N�o - disse Holger Palmgren. �Nem Bublanski, nem autoridade nenhuma nunca levantou um dedo para defender a Lisbeth. Agora deixe ela fazer o que tem que fazer.</p><p>Armanskij olhou para o antigo tutor de Lisbeth Salander. Continuava espantado com a evidente melhora do estado de sa�de de Palmgren desde sua �ltima visita, no Natal. Palmgren ainda gaguejava, mas estava com uma nova vitalidade no olhar. E tamb�m com uma raiva que ele nunca havia visto. Naquele entardecer, Palmgren tinha lhe contado a hist�ria que Mikael Blomkvist descobrira. Armanskij estava em choque.</p><p>�Ela vai tentar matar o pai.</p><p>�� poss�vel - disse Palmgren calmamente.</p><p>�Ou ent�o o Zalanchenko vai tentar mat�-la.</p><p>�Tamb�m � poss�vel.</p><p>�E a gente vai ficar aqui esperando?</p><p>�Dragan... voc� � um cara legal. Mas o que a Lisbeth Salander faz ou deixa de fazer, se ela vai morrer ou sobreviver, n�o � responsabilidade sua.</p><p>Palmgren fez um gesto amplo com o bra�o. Estava de repente com uma capacidade de coordena��o que h� muito n�o tinha. Parecia que o drama das �ltimas semanas tinha afiado seus sentidos deficientes.</p><p>�Nunca tive nenhuma simpatia por pessoas que assumem o lugar da lei. Por outro lado, nunca soube de ningu�m que tivesse t�o bons motivos para isso. Mesmo ao risco de parecer c�nico... o que vai acontecer esta noite h� de acontecer independentemente do que eu ou voc� achamos. Est� escrito nas estrelas desde o nascimento da Lisbeth. E s� o que nos resta fazer � decidir qual ser� a nossa atitude em rela��o a ela se ela voltar.</p><p>Armanskij soltou um suspiro infeliz e olhou furtivamente para o velho advogado.</p><p>�E se ela passar os pr�ximos dez anos na pris�o, ter� sido escolha dela. E eu vou continuar sendo seu amigo.</p><p>�Eu n�o sabia que voc� tinha essa vis�o t�o libert�ria do ser humano.</p><p>�Nem eu - disse Holger Palmgren.</p><p>Miriam Wu fitou o teto. Tinha deixado a lamparina acesa e o r�dio tocando m�sica num volume baixo. O programa da noite tocava �On a slow boat to China�. Ela acordara no hospital no dia anterior, depois de Paolo Roberto lev�-la at� l�. Tinha dormido e acordado agitada, depois dormira de novo, tudo sem muita l�gica. Os m�dicos diziam que ela estava com uma concuss�o cerebral. De qualquer forma, precisava de repouso. Estava tamb�m com o nariz quebrado, tr�s costelas partidas e ferimentos por todo o corpo. Sua sobrancelha esquerda estava t�o inchada que o olho n�o passava de uma fresta estreita. Sentia dor assim que tentava mudar de posi��o. Sentia dor quando tentava encher os pulm�es de ar. Sua nuca do�a, e tinham-lhe posto um colete ortop�dico, nunca se sabe. Os m�dicos garantiam que ela ficaria totalmente boa.</p><p>Quando acordara, no final da tarde, Paolo Roberto estava ali. Ele riu e perguntou como ela estava. Tinha curiosidade em saber se sua apar�ncia estava t�o ruim quanto a dele.</p><p>Ela fizera perguntas e ele tinha explicado tudo. Estranhamente, j� n�o parecia t�o improv�vel ele ser amigo da Lisbeth Salander. Era um garganta. A Lisbeth gostava dos gargantas e detestava os metidos cheios de si. A diferen�a era muito sutil, mas Paolo Roberto pertencia � primeira categoria.</p><p>Ela ouvira a explica��o sobre a repentina chegada dele, surgido do nada, ao armaz�m de Nykvarn. Ficou estupefata com a obstina��o de Paolo em seguir a caminhonete. E descobriu, apavorada, que a pol�cia estava desenterrando tr�s cad�veres no terreno em volta da constru��o.</p><p>�Obrigada - disse ela. �Voc� salvou a minha vida. Ele balan�ou a cabe�a e ficou um bom tempo calado.</p><p>�Tentei explicar para o Blomkvist. Ele n�o entendeu direito. Acho que voc� pode entender. Porque voc� tamb�m luta boxe.</p><p>Ela sabia o que ele queria dizer. Ningu�m que n�o tivesse estado no armaz�m de Nykvarn podia entender qual a sensa��o de lutar com um monstro insens�vel � dor. Sentira-se totalmente impotente.</p><p>Por fim, eles pararam de falar e ela ficara s� segurando a m�o enfaixada dele. N�o havia nada a dizer. Quando voltou a acordar, ele n�o estava mais l�. Gostaria que Lisbeth Salander desse not�cias.</p><p>Era ela que o Niedermann estava procurando.</p><p>Miriam Wu sentiu medo que ele a encontrasse.</p><p>Lisbeth Salander n�o conseguia respirar. Perdera a no��o do tempo, mas sabia que seu corpo tinha sido atingido por balas e percebia - mais por instinto que por dedu��o racional - que estava enterrada. Seu bra�o esquerdo estava imprest�vel. N�o conseguia mexer um m�sculo sequer sem que ondas de dor lhe varassem o ombro, e qualquer pensamento evolu�a numa esp�cie de estado nebuloso. <emphasis>Preciso de ar.</emphasis> A cabe�a estava a ponto de explodir com o pulsar de uma dor como ela nunca havia sentido.</p><p>A m�o direita tinha ido parar sob o seu rosto, e ela instintivamente come�ou a cavar a fim de tirar a terra da frente do nariz e da boca. Era uma terra arenosa e relativamente seca. Conseguiu abrir uma cavidade do tamanho de um punho diante do rosto.</p><p>N�o fazia id�ia de quanto tempo j� estava naquele t�mulo. Mas sabia que sua vida estava em perigo. Por fim, conseguiu formular um pensamento coeso.</p><p><emphasis>Ele me enterrou viva.</emphasis></p><p>Esta certeza a deixou em p�nico. N�o conseguia respirar. N�o conseguia se mexer. Uma tonelada de terra a mantinha prisioneira.</p><p>Tentou mexer uma perna, mas n�o conseguia estender os m�sculos. Ent�o, cometeu o erro de tentar se levantar. Empurrou a cabe�a para o alto e imediatamente a dor a transpassou pelas t�mporas feito uma descarga el�trica. <emphasis>N�o posso vomitar.</emphasis> Tornou a cair numa vaga inconsci�ncia.</p><p>Quando conseguiu pensar novamente, conferiu com cautela que partes do seu corpo ainda podiam ser usadas. O �nico membro que ela conseguia mexer uns poucos cent�metros era a m�o direita na frente do rosto. <emphasis>Preciso de ar.</emphasis> O ar estava acima dela, acima do t�mulo.</p><p>Lisbeth Salander come�ou a cavoucar. Pressionou o cotovelo e conseguiu criar um pequeno espa�o de manobra. Com o dorso da m�o, ampliou a cavidade na frente de seu rosto, afastando a terra. <emphasis>Eu tenho que cavar.</emphasis></p><p>Depois de algum tempo, percebeu que, em virtude de sua posi��o fetal, criara-se um espa�o vazio num ponto cego debaixo e entre suas coxas. Ali � que estava boa parte do ar usado que ainda a mantinha viva. P�s-se a torcer o t�rax desesperadamente e sentiu a terra afundando embaixo de si. A press�o sobre o peito cedeu um pouco. De repente conseguiu mexer o bra�o alguns cent�metros.</p><p>Minuto a minuto, trabalhou num estado pr�ximo da inconsci�ncia. Foi raspando a terra arenosa do rosto e enfiando-a no espa�o oco debaixo de si, punhado por punhado. Por fim, conseguiu soltar o bra�o o necess�rio para tirar a terra acima da cabe�a. Cent�metro por cent�metro, foi liberando a cabe�a. Sentiu algo duro e de repente se viu segurando na m�o uma pequena raiz ou peda�o de galho. Cavou para o alto. A terra ainda estava solta, n�o muito compacta.</p><p>Eram pouco mais de dez horas quando a raposa tornou a passar junto ao t�mulo de Lisbeth Salander, ao voltar para sua toca. Tinha comido uma ratazana e sentia-se satisfeita, quando, de s�bito, percebeu uma presen�a. Imobilizou-se e ergueu as orelhas. O focinho e o bigode estremeceram.</p><p>S�bito, os dedos de Lisbeth Salander emergiram da terra como algo n�o muito vivo surgindo das trevas. Se um espectador humano estivesse por ali, provavelmente teria tido a mesma rea��o da raposa. Pernas para que te quero.</p><p>Lisbeth sentiu o ar fresco se espalhar pelo bra�o. Voltava a respirar.</p><p>Precisou de mais meia hora para se libertar do t�mulo. N�o se lembrava muito bem do processo. Achava estranho n�o poder usar a m�o esquerda, mas raspou energicamente a terra e a areia com a direita.</p><p>Precisava de uma ferramenta para cavar. Depois de algum tempo, descobriu um jeito. Puxou o bra�o para dentro do buraco e conseguiu alcan�ar o bolso interno da jaqueta e pegar a cigarreira que Miriam Wu tinha lhe dado. Abriu-a e usou-a como vertedouro. Foi escoando a terra de gr�o em gr�o, jogando-a para fora com um gesto seco do punho. S�bito, conseguiu mexer o ombro direito e pression�-lo contra a camada de terra. Depois, raspou para tirar � areia e a terra e conseguiu erguer a cabe�a. Com isso, ficou com o bra�o direito e a cabe�a fora do t�mulo. Depois que conseguiu desprender parte do t�rax, foi poss�vel come�ar a se torcer e ir subindo cent�metro por cent�metro at� que de repente a terra soltasse suas pernas.</p><p>Afastou-se do t�mulo rastejando, olhos fechados, e s� parou quando seu ombro esbarrou num tronco de �rvore. Virou o corpo devagar para se recostar na �rvore e limpou a sujeira dos olhos com o dorso da m�o antes de abrir as p�lpebras. Era noite escura e o ar estava g�lido. Ela transpirava. Sentiu uma dor surda na cabe�a, no ombro esquerdo e no quadril, mas n�o gastou energia pensando no assunto. Permaneceu im�vel uns dez minutos, respirando. Ent�o se deu conta de que n�o podia ficar ali.</p><p>Foi uma luta conseguir ficar de p�, enquanto o mundo inteiro girava.</p><p>Sentiu-se imediatamente enjoada e se inclinou para a frente a fim de vomitar.</p><p>Ent�o, come�ou a andar, sem saber em que dire��o. Tinha dificuldades para mexer a perna esquerda, trope�ava o tempo todo, ca�a de joelhos. A cada vez, uma dor intensa lhe varava a cabe�a.</p><p>N�o sabia bem h� quanto tempo estava andando, quando repentinamente avistou uma luz com o canto do olho. Mudou de dire��o e continuou avan�ando aos trope��es. S� quando chegou ao galp�o ao lado do p�tio percebeu que tinha voltado direto para a casa de Zalachenko. Deteve-se, cambaleando como uma b�bada.</p><p><emphasis>C�lulas fotoel�tricas na trilha de acesso e no arvoredo. Ela tinha vindo pelo outro lado. Eles n�o teriam notado.</emphasis></p><p>Ficou perturbada. Compreendeu que n�o estava em condi��es de travar outra luta com Niedermann e Zalachenko. Contemplou a casa branca.</p><p><emphasis>Clique.</emphasis> Lenha. <emphasis>Clique.</emphasis> Fogo.</p><p>P�s-se a tecer fantasias com um gal�o de gasolina e um f�sforo.</p><p>Com muito custo, virou-se para o galp�o e cambaleou at� uma porta fechada com uma tranca. Conseguiu ergu�-la empurrando com o ombro direito. Ouviu o barulho quando a tranca caiu no ch�o esbarrando na porta. Deu um passo no escuro e olhou em volta.</p><p>Era um galp�o de lenha. Ali n�o havia gasolina.</p><p>Na mesa da cozinha, Alexander Zalachenko ergueu os olhos ao ouvir o som da tranca se chocando contra a porta do galp�o. Afastou a cortina e estreitou os olhos para a escurid�o l� fora. Levou alguns segundos at� seus olhos se habituarem. O vento estava mais forte. A meteorologia anunciara um fim de semana agitado. Ent�o, viu a porta do galp�o entreaberta.</p><p>Ele tinha ido, � tarde, buscar lenha com Niedermann. Uma caminhada in�til, cujo principal objetivo fora confirmar para Lisbeth Salander que ela tinha chegado ao endere�o certo, e assim atra�-la.</p><p>Niedermann teria se esquecido de recolocar a tranca? Como ele podia ser t�o negligente? Deu uma olhada para a porta da sala, onde Niedermann adormecera no sof�, mas pensou que podia deix�-lo dormir. Levantou-se da cadeira.</p><p>Para achar gasolina, Lisbeth seria obrigada a ir at� o est�bulo onde estavam guardados os carros. Apoiou-se num cepo e respirou pesadamente. Precisava descansar. Estava sentada havia um minuto apenas, quando escutou os passos arrastados da pr�tese de Zalachenko na frente do galp�o.</p><p>Por causa da escurid�o, Mikael errou de estrada em Mellby, ao norte de Sollebrunn. Em vez de virar na dire��o de Nossebro, continuou para o norte e s� se deu conta do erro ao chegar a Tr�k�rna. Parou e consultou o mapa rodovi�rio.</p><p>Soltou um palavr�o, deu meia-volta e retornou para o sul rumo a Nossebro.</p><p>Com a m�o direita, Lisbeth Salander apanhou um machado que estava em cima do cepo um segundo antes de Alexander Zalachenko entrar no galp�o. Como n�o tivesse for�as suficientes para ergu�-lo acima da cabe�a, segurou-o com uma m�o s� e tra�ou uma curva de baixo para cima, jogando o peso sobre o quadril intacto e fazendo um meio giro sobre si mesma.</p><p>Zalachenko estava pressionando o interruptor quando a l�mina o golpeou de vi�s do lado direito do rosto, quebrou-lhe o osso da face e penetrou alguns mil�metros em sua testa. N�o teve tempo de entender o que estava acontecendo, mas, no instante seguinte, seu c�rebro registrou a dor e ele se p�s a urrar feito um demente.</p><p>Ronald Niedermann acordou num sobressalto e se sentou atordoado. Ouviu um berro que, de in�cio, julgou n�o ser humano. Vinha l� de fora. Depois percebeu que quem berrava era Zalachenko. Levantou-se rapidamente.</p><p>Lisbeth Salander tomou impulso e jogou o machado mais uma vez, s� que seu corpo n�o obedeceu � ordem. Sua inten��o tinha sido erguer o machado e plant�-lo na cabe�a do seu pai, mas suas for�as haviam se esgotado e o golpe o atingiu bem mais embaixo, logo abaixo do joelho. O peso, por�m, fez a l�mina se cravar t�o fundo que o machado ficou preso e escapou de sua m�o quando Zalachenko caiu de cabe�a dentro do galp�o. Ele n�o parava de urrar.</p><p>Ela se inclinou para pegar o machado de volta. O ch�o come�ou a balan�ar quando a dor irradiou para sua cabe�a. Foi obrigada a se sentar. Estendeu a m�o e apalpou os bolsos de Zalachenko. Ele ainda estava com a pistola no bolso direito do casaco, e ela focou o olhar enquanto a terra balan�ava.</p><p>Uma Browning calibre 22.</p><p><emphasis>Um brinquedinho de escoteiro!</emphasis></p><p>Por isso ela ainda estava viva. Se tivesse sido atingida por uma bala da Sig Sauer de Niedermann, ou por uma muni��o mais grossa, estaria com um buraco enorme no c�rebro.</p><p>Nesse exato instante, ouviu os passos de Niedermann, que ainda sonolento surgiu de repente no v�o da porta. Ele estacou e contemplou a cena com olhos esbugalhados, repletos de incompreens�o. Zalachenko urrava feito louco. Seu rosto n�o passava de uma m�scara de sangue. Tinha um machado enfiado no joelho. Uma Lisbeth Salander ensanguentada e cheia de terra estava sentada no ch�o a seu lado. Parecia sa�da diretamente de um desses filmes de terror que Niedermann tanto assistia.</p><p>Ronald Niedermann, insens�vel � dor e com um f�sico de rob� antitanque, nunca tinha gostado do escuro. At� onde era capaz de lembrar, a escurid�o sempre fora para ele sin�nimo de amea�a.</p><p>Ele j� tinha visto, com os pr�prios olhos, umas criaturas no escuro, e um terror indescrit�vel o espreitava constantemente. E agora o horror acabava de se materializar.</p><p>A garota que estava sentada no ch�o estava morta. Sem sombra de d�vida. Ele pr�prio a tinha enterrado.</p><p>Por conseguinte, a criatura ali no ch�o n�o era uma garota, e sim uma alma do outro mundo que n�o poderia ser combatida com for�as humanas ou com uma arma.</p><p>A metamorfose de ser humano em morto-vivo j� havia come�ado. Sua pele se transformara numa carapa�a igual � dos lagartos. Seus dentes � mostra eram presas afiadas prestes a arrancar peda�os da carne de sua v�tima. Sua l�ngua de r�ptil apontou e lambeu o contorno da boca. Suas m�os cheias de sangue tinham garras que eram como l�minas de uns dez cent�metros de comprimento. Ele viu os olhos incandescentes cintilarem. Podia ouvida rosnar e a viu estender os m�sculos para saltar na sua garganta.</p><p><emphasis>Ele viu, s�bita, nitidamente, que ela tinha uma cauda, que se curvou e come�ou a a�oitar o piso para amea��-lo.</emphasis></p><p>Ent�o ela ergueu a pistola e atirou. A bala passou t�o perto da orelha de Niedermann que ele sentiu o calor de seu sopro. Viu sua boca lan�ando-lhe uma labareda.</p><p>Foi demais.</p><p>Ele parou de pensar.</p><p>Deu meia-volta e correu para salvar a vida. Ela ainda disparou mais um tiro, que passou longe dele, mas pareceu lhe dar asas. Ele transp�s uma cerca num salto de cabrito e foi engolido pela escurid�o do campo na dire��o da estrada. Corria levado por um terror irracional.</p><p>Lisbeth Salander observou at�nita, enquanto ele sumia de vista.</p><p>Arrastou-se at� a porta e espiou na escurid�o, mas n�o avistou Niedermann. Depois de algum tempo, Zalachenko parou de gritar, s� continuou gemendo, ainda em choque. Ela abriu a pistola, viu que s� sobrava uma bala e cogitou dispar�-la na cabe�a de Zalachenko. Ent�o se lembrou de que Niedermann ainda estava l� fora no escuro e que seria melhor guardar a �ltima bala. Caso ele atacasse, ela decerto precisaria de muito mais que uma calibre 22. Mas era melhor que nada.</p><p>Levantou-se com dificuldade, saiu do galp�o manquejando e bateu a porta. Precisou de cinco minutos para repor a tranca no lugar. Atravessou o p�tio com passos vacilantes, entrou na casa e achou o telefone sobre um balc�o da cozinha. Digitou o n�mero que n�o utilizava havia dois anos. Ele n�o estava em casa. Atendeu a secret�ria eletr�nica.</p><p><emphasis>Ol�. Voc� ligou para o Mikael Blomkvist. N�o posso atender no momento. Deixe seu nome e o n�mero de seu telefone que eu ligo de volta assim que puder.</emphasis></p><p>Biiip.</p><p>�Mig-g-kral - disse ela, e percebeu que sua voz estava um mingau. Engoliu em seco. �Mikael. � a Salander.</p><p>Ent�o n�o soube mais o que dizer. Desligou devagar.</p><p>A Sig Sauer de Niedermann estava desmontada para limpeza na mesa da cozinha � sua frente, ao lado da P-83 Wanad de Benny Nieminen. Ela largou a Browning de Zalachenko no ch�o, cambaleou at� a mesa, pegou a Wanad para conferir o carregador. Encontrou tamb�m seu PDA Palm e enfiou-o no bolso. Depois, foi vacilando at� a pia e encheu uma x�cara de caf� com �gua gelada. Tomou quatro x�caras. S�bito, ao levantar a cabe�a, deparou com seu pr�prio rosto num espelhinho na parede. Por pouco n�o apertou o gatilho, tal o susto que levou.</p><p>O que ela viu lembrava mais um bicho que um ser humano. Viu uma demente com o rosto torto e uma enorme boca aberta. Estava coberta de sujeira. O rosto e o pesco�o eram uma pasta ressecada de sangue e lama. Compreendeu ent�o o que Ronald Niedermann tinha visto no galp�o.</p><p>Chegou mais perto do espelho e se deu conta que sua perna esquerda vinha se arrastando atr�s dela. Estava com muita dor no quadril, onde fora atingida pela primeira bala de Zalachenko. A segunda bala a pegara no ombro e paralisara o bra�o esquerdo. Do�a.</p><p>Mas a dor de cabe�a � que a fazia cambalear, de t�o forte que era. Devagar, levantou a m�o direita e apalpou a parte de tr�s da cabe�a. Seus dedos depararam com a cratera que a bala abrira ao entrar.</p><p>Apalpou o buraco no cr�nio e percebeu de repente, apavorada, que tocava em seu pr�prio c�rebro, que seus ferimentos eram t�o graves que ela j� devia estar agonizando ou, quem sabe, morta. N�o entendia como ainda se mantinha em p�.</p><p>Um cansa�o paralisante bruscamente tomou conta dela. N�o sabia bem se estava a ponto de desmaiar ou de cair no sono, mas acercou-se do banco, deitou-se devagarinho e descansou o lado direito da cabe�a, que n�o estava ferido, numa almofada.</p><p>Precisava se deitar para recobrar as for�as, mas sabia que n�o podia se permitir pegar no sono com Niedermann l� fora. Mais cedo ou mais tarde ele ia voltar. Mais cedo ou mais tarde, Zalachenko conseguiria sair do galp�o de lenha e se arrastar at� a casa, mas ela n�o tinha mais for�as para ficar de p�. Estava com frio. Soltou a trava de seguran�a.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Ronald Niedermann estava parado, indeciso, na beira da estrada entre Sollebrunn e Nossebro. Ele estava sozinho. A noite, totalmente escura. Voltara a pensar de maneira racional e se envergonhava de ter fugido. N�o entendia como era poss�vel, mas chegara � conclus�o l�gica de que ela devia ter sobrevivido. <emphasis>De um jeito ou de outro, ela tinha conseguido cavar e sair do t�mulo.</emphasis></p><p>Zalachenko precisava dele. Tinha, portanto, que voltar para casa e torcer o pesco�o daquela Lisbeth Salander.</p><p>Ao mesmo tempo, Ronald Niedermann tinha a sensa��o de que estava tudo acabado. Essa sensa��o vinha j� de algum tempo. As coisas come�aram a dar errado, e continuaram dando errado, desde que Bjurman fizera contato com eles. Zalachenko se transformara totalmente ao ouvir o nome de Lisbeth Salander. Todas as regras da prud�ncia e da reserva que Zalachenko pregava havia tantos anos tinham deixado de vigorar.</p><p>Niedermann hesitou.</p><p>Zalachenko precisava de cuidados m�dicos. Se � que ela j� n�o o tinha matado. Isso suscitava algumas quest�es. Mordeu o l�bio inferior.</p><p>J� fazia muitos anos que era parceiro do pai. Anos repletos de sucesso. Ele economizara algum dinheiro e, al�m disso, sabia onde Zalachenko escondera sua fortuna. Possu�a recursos e as compet�ncias necess�rias para levar adiante sua atividade. O mais racional seria ir embora sem olhar para tr�s. Se alguma coisa Zalachenko conseguira lhe incutir, era exatamente isto: ter a capacidade de abandonar sem pruridos uma situa��o que se tornara incontrol�vel. Era a regra b�sica de sobreviv�ncia. <emphasis>N�o levante um dedo sequer por uma causa perdida.</emphasis></p><p>Ela n�o era sobrenatural. Mas era sin�nimo de m�s not�cias. Era sua meia-irm�.</p><p>Ele a subestimara.</p><p>Ronald Niedermann estava dividido entre duas vontades. Parte dele queria voltar l� e torcer o pesco�o dela. Outra parte queria continuar fugindo noite adentro.</p><p>Estava com o passaporte e a carteira no bolso de tr�s. N�o tinha vontade de voltar para a granja. N�o havia nada, l�, de que ele precisasse. A n�o ser um carro, quem sabe.</p><p>Ainda estava ali tergiversando quando, por tr�s de uma eleva��o, viu o clar�o dos far�is de um carro se aproximando. Virou a cabe�a. Ele talvez pudesse achar outro meio de transporte. S� precisava de um carro para ir at� G�teborg.</p><p>Pela primeira vez na vida - pelo menos desde que sa�ra da inf�ncia -, Lisbeth Salander sentia-se incapaz de tomar as r�deas da situa��o. Ao longo dos anos, ela se envolvera em brigas, fora v�tima de maus-tratos, objeto de uma interna��o compuls�ria decretada pelo Estado e de abusos praticados por pessoas f�sicas. Seu corpo e sua alma tinham recebido muito mais pancadas do que um ser humano deveria receber.</p><p>Toda vez, por�m, soubera se revoltar. Recusara-se a responder �s perguntas de Teleborian, e quando fora v�tima de viol�ncia f�sica soubera escapar e se recolher.</p><p>Podia viver com um nariz quebrado.</p><p>Mas n�o podia viver com um buraco no cr�nio.</p><p>Desta vez n�o ia dar para ela se arrastar at� a cama, puxar o cobertor sobre a cabe�a e dormir dois dias seguidos, para depois se levantar e voltar � rotina como se nada tivesse acontecido.</p><p>Estava t�o gravemente ferida que n�o poderia resolver a situa��o sozinha. Estava t�o cansada que seu corpo n�o obedecia a seus comandos.</p><p><emphasis>Preciso dormir um pouco -</emphasis> pensou. Mas teve a s�bita certeza de que, se relaxasse e fechasse os olhos, provavelmente nunca mais acordasse. Analisou essa conclus�o e, aos poucos, decidiu que tanto fazia. Pelo contr�rio. Essa id�ia at� a atra�a. <emphasis>Poder descansar. N�o precisar acordar.</emphasis></p><p>Seu �ltimo pensamento foi para Miriam Wu.</p><p><emphasis>Perdoa-me, Mimmi.</emphasis></p><p>Ainda segurava na m�o a pistola de Benny Nieminen, com a trava de seguran�a solta, quando cerrou os olhos.</p><p>Mikael Blomkvist avistou Ronald Niedermann de longe, � luz dos far�is, e o reconheceu de imediato. Era dif�cil ignorar um gigante loiro de mais de dois metros, com um f�sico de Terminator. Niedermann acenou com os bra�os. Mikael passou para a luz baixa e freou. Estendeu a m�o at� a bolsa do computador e tirou do bolso externo o Colt 1911 Government que encontrara na escrivaninha de Lisbeth Salander. Parou a uns bons cinco metros de Niedermann e antes de abrir a porta desligou o motor.</p><p>�Obrigado por parar - disse Niedermann, ofegante. Ele tinha corrido. �Meu carro engui�ou. O senhor poderia me levar at� a cidade?</p><p>A voz dele era estranhamente aguda.</p><p>�� claro que posso - disse Mikael Blomkvist. Apontou a arma para Niedermann. �Deite-se no ch�o.</p><p>As prova��es de Ronald Niedermann naquela noite pareciam n�o ter fim. Ele olhou para Mikael de um jeito c�tico.</p><p>Niedermann n�o tinha medo nenhum da pistola, nem do sujeito que a segurava. Em compensa��o, respeitava armas. Passara a vida inteira entre armas e viol�ncia. Partia do princ�pio de que se algu�m apontava um rev�lver para ele era porque a pessoa estava desesperada e disposta a us�-lo. Estreitou os olhos e tentou avaliar o homem atr�s da pistola, mas os far�is do carro o transformavam num vulto escuro. <emphasis>Um tira? N�o tinha cara. Os tiras costumam se identificar. Pelo menos � o que eles fazem nos filmes.</emphasis></p><p>Calculou suas chances. Sabia que, atirando-se feito um selvagem, conseguiria pegar a arma. Mas o homem parecia determinado e estava protegido pela porta do carro. Niedermann levaria uma bala, talvez duas. Se fosse r�pido, o homem talvez errasse o tiro, ou n�o atingisse nenhum �rg�o vital, mas mesmo que ele sobrevivesse �s balas iriam dificultar sua fuga, ou at� torn�-la imposs�vel. O mais certo era esperar uma oportunidade melhor.</p><p><strong>�</strong><strong>DEITE</strong><strong>-</strong><strong>SE</strong><strong>NO</strong><strong>CH�O</strong><strong>,</strong><strong>AGORA</strong>! � berrou Mikael.</p><p>Desviou o cano da arma alguns cent�metros e deu um tiro no ch�o, na beira da estrada.</p><p>�A pr�xima bala vai ser no seu joelho - disse Mikael com voz forte e autorit�ria.</p><p>Ronald Niedermann se ajoelhou, cegado pelos far�is.</p><p>�Quem � voc�? - perguntou.</p><p>Mikael enfiou a m�o na porta do carro e pegou a lanterna que tinha comprado no posto de gasolina. Iluminou o rosto de Niedermann.</p><p>�M�os nas costas - ordenou. �Afaste as pernas. Esperou que Niedermann, a contragosto, obedecesse.</p><p>�Eu sei quem voc� �. Se fizer alguma besteira, eu atiro sem hesitar. Vou mirar no pulm�o, debaixo da escapula. Voc� provavelmente consegue me pegar... mas vai custar caro.</p><p>Soltou a lanterna no ch�o, tirou o cinto, amarrou-o num la�o como tinha aprendido na infantaria ligeira durante o servi�o militar, vinte anos antes. Colocando-se entre as pernas do gigante loiro, prendeu o la�o em volta de seus bra�os, apertando acima dos cotovelos. O imenso Niedermann ficava, assim, praticamente indefeso.</p><p>E depois? Mikael olhou ao redor. Estavam absolutamente sozinhos na escurid�o da estrada. Paolo Roberto n�o tinha exagerado quando descrevera Niedermann. Era um colosso. A quest�o era saber por que um colosso daqueles surgia correndo na noite, como fugindo do diabo em pessoa.</p><p>�Estou procurando Lisbeth Salander. Imagino que voc� tenha encontrado com ela.</p><p>Niedermann n�o respondeu.</p><p>�Onde est� Lisbeth Salander? - perguntou Mikael. Niedermann endere�ou-lhe um olhar estranho. N�o compreendia nada do que estava acontecendo naquela noite esquisita, em que tudo parecia estar dando errado.</p><p>Mikael deu de ombros. Voltou para o carro, abriu o porta-malas e achou uma corda de reboque. N�o podia deixar Niedermann amarrado no meio da estrada, e olhou em volta. Trinta metros adiante, uma placa brilhava � luz dos far�is. Travessia de alces.</p><p>�Levante-se.</p><p>Encostou o cano da arma na nuca de Niedermann, fez com que ele andasse at� a placa e o for�ou a se sentar no acostamento, ordenando que se encostasse na placa. Niedermann hesitou.</p><p>�� muito simples - disse Mikael. �Voc� matou o Dag Svensson e a Mia Bergman. Eles eram meus amigos. N�o pretendo deixar voc� solto na estrada. Ou voc� fica amarrado aqui, ou eu disparo uma bala no seu joelho. Voc� escolhe.</p><p>Niedermann se sentou. Mikael passou-lhe a corda em volta do pesco�o e imobilizou a cabe�a. Depois, usou dezoito metros de corda para amarrar o t�rax do gigante no poste, at� a cintura. Reservou um peda�o da corda para prender tamb�m os bra�os no poste e arrematou com uns n�s de marinheiro bem firmes.</p><p>Quando terminou, Mikael ainda perguntou mais uma vez onde estava Lisbeth Salander. N�o obteve resposta, ent�o deu de ombros e abandonou Niedermann ali. S� quando chegou ao carro sentiu a adrenalina afluindo e teve consci�ncia do que acabava de fazer. A imagem de Mia Bergman cintilou diante de seus olhos.</p><p>Mikael acendeu um cigarro e bebeu �gua mineral direto da garrafa. Contemplou no escuro o vulto junto � placa do alce. Depois sentou-se ao volante, consultou o mapa rodovi�rio e concluiu que faltava um quil�metro para a bifurca��o que levava � granja de Karl Axel Bodin. Arrancou com o carro e passou na frente de Niedermann.</p><p>Foi dirigindo devagar e ultrapassou a bifurca��o com a placa de Gosseberga, indo estacionar ao lado de uma granja, numa trilha florestal uns cem metros mais ao norte. Pegou a pistola e acendeu a lanterna. Descobriu marcas frescas de pneus na lama e concluiu que outro carro estivera estacionado ali antes, mas n�o se deteve para pensar no assunto. Voltou a p� para a bifurca��o de Gosseberga e iluminou a caixa de correspond�ncia. 612 - K. A. Bodin. Foi seguindo pela trilha.</p><p>Era quase meia-noite quando avistou a luz da granja de Bodin. Parou e escutou. Permaneceu v�rios minutos im�vel, mas s� ouviu os ru�dos normais da noite. Em vez de pegar a trilha que levava diretamente � granja, foi ladeando o campo e se aproximou da constru��o pelo est�bulo. Parou no p�tio, a uns trinta metros da casa. Todos os seus sentidos estavam alertas. Niedermann ter corrido para a estrada indicava que alguma coisa tinha acontecido ali.</p><p>Mikael estava no meio do p�tio quando ouviu um ru�do. Virou-se e deixou-se cair de joelhos, arma em riste. Levou alguns segundos para localizar o som, que vinha de um galp�o. Parecia algu�m gemendo. Avan�ou rapidamente pela grama e parou em frente ao galp�o. Olhando por uma fresta, conseguiu ver que havia uma luz acesa l� dentro.</p><p>Ficou � escuta. Algu�m se mexia. Ergueu a tranca e abriu a porta, e foi recebido por um par de olhos apavorados em meio a um rosto ensanguentado. Viu o machado no ch�o.</p><p><emphasis>�CarambaMeuDeus</emphasis> - murmurou.</p><p>Ent�o viu a pr�tese.</p><p>Zalachenko.</p><p>Lisbeth Salander, definitivamente, tinha passado por ali. Dif�cil imaginar o que teria acontecido. Fechou a porta depressa e rep�s a tranca no lugar.</p><p>Com Zalachenko no galp�o de lenha e Niedermann amarrado na estrada de Sollebrunn, Mikael atravessou o p�tio a passos c�leres e dirigiu-se para a casa. A presen�a de uma terceira pessoa que ele n�o conhecesse e que pudesse representar um perigo n�o estava exclu�da, mas a casa parecia vazia, quase inabitada. Apontou a arma para o ch�o e, devagar, abriu a porta. Viu-se num hall de entrada escuro e percebeu um ret�ngulo de luz na cozinha. O �nico som que ouviu foi o tiquetaque de um rel�gio de parede. Ao transpor a porta da cozinha, avistou de imediato Lisbeth Salander deitada no banco.</p><p>Por um breve instante, ficou como petrificado, contemplando o corpo maltratado. Notou que ela segurava uma pistola na m�o, que pendia frouxamente. Aproximou-se devagarinho e caiu de joelhos. Lembrou de quando tinha encontrado Dag e Mia e, por um segundo, achou que ela estivesse morta. Ent�o percebeu um leve movimento na caixa tor�cica e escutou um fraco estertor.</p><p>Estendeu a m�o e, suavemente, come�ou a tirar a pistola. S�bito, a m�o em volta da coronha se endureceu. Ela abriu os olhos em duas frestas estreitas e fitou-o por longos minutos. Seu olhar estava inst�vel. Ent�o ouviu-a murmurar, com uma voz t�o baixa que custou a entender o que ela dizia.</p><p><emphasis>Maldito Super-Blomkvist.</emphasis></p><p>Ela fechou os olhos e soltou a pistola. Ele p�s a arma no ch�o, pegou o celular e discou o n�mero do SOS-Brigada.</p><empty-line/><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong><emphasis>STIEG LARSSON</emphasis></strong></p><empty-line/><p><strong/></p><empty-line/><empty-line/><p><strong>A RAINHA DO CASTELO DE AR</strong></p><empty-line/><empty-line/><p><emphasis>Tradu��o</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis>Doroth�e de Bruchard</emphasis></p><empty-line/><p><image l:href="#5"/></p><empty-line/><p><strong/></p><empty-line/><p><strong/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>I. ENCONTRO NUM CORREDOR� 8 A 12 DE ABRIL</strong></p><empty-line/><p>Calcula-se em seiscentos o n�mero de mulheres soldados que combateram na Guerra de Secess�o. Alistaram-se travestidas de homem. Hollywood deixou passar batido todo um aspecto da hist�ria cultural � ou ser� que esse aspecto incomoda muito do ponto de vista ideol�gico? Os livros de hist�ria sempre tiveram dificuldade em falar de mulheres que n�o respeitam os padr�es de g�nero, e em nenhuma �rea essa limita��o � t�o evidente como na guerra e no que se refere ao manejo de armas.</p><p>No entanto, da Antig�idade aos tempos modernos a hist�ria � f�rtil em relatos protagonizados por guerreiras � as amazonas. Os exemplos mais conhecidos constam nos livros de hist�ria em que essas mulheres t�m o estatuto de "rainhas", ou seja, de representantes da classe no poder. Com efeito, a sucess�o pol�tica regularmente coloca uma mulher no trono, por mais desagrad�vel que essa verdade soe. Sendo as guerras insens�veis ao g�nero e ocorrendo at� mesmo quando uma mulher dirige o pa�s, o resultado � que os livros de hist�ria s�o obrigados a registrar certo n�mero de rainhas guerreiras levadas, conseq�entemente, a se comportar como qualquer Churchill, St�lin ou Roosevelt. Sem�ramis de N�nive, fundadora do Imp�rio Ass�rio, e Boadiceia, que liderou uma das mais sangrentas revoltas contra os romanos, s�o dois exemplos. Esta �ltima, ali�s, tem uma est�tua � margem do T�misa, em frente ao Big Ben. N�o deixemos de cumpriment�-la caso estejamos passando por ali.</p><p>Em compensa��o, os livros de hist�ria s�o, em geral, bastante discretos sobre as guerreiras que atuaram como simples soldados, exercitando-se no manejo das armas, integrando os regimentos e participando das batalhas contra ex�rcitos inimigos em condi��es id�nticas �s dos homens. Essas mulheres, contudo, sempre existiram. Praticamente nenhuma guerra foi travada sem alguma participa��o feminina.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>1.� SEXTA-FEIRA 8 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Pouco antes da uma e meia da manh�, o Dr. Anders Jonasson foi acordado pela enfermeira Hanna Nicander.</p><p>� O que foi? � Perguntou, meio atordoado.</p><p>� Helic�ptero chegando. Dois pacientes. Um homem de idade e uma mulher jovem. Ela levou um tiro.</p><p>� Estou indo, estou indo � disse Anders Jonasson, cansado.</p><p>Ainda n�o se sentia muito desperto, embora na verdade nem tivesse chegado a dormir; s� dera um cochilo de meia hora. Estava de plant�o no pronto-socorro do Hospital Sahlgrenska, em G�teborg. O in�cio da noite tinha sido particularmente exaustivo. �s seis horas, quando o plant�o come�ara, o hospital havia recebido quatro v�timas de uma colis�o frontal nas proximidades de Lindome. Uma delas estava gravemente ferida e outra fora declarada morta pouco depois de chegar. Ele tamb�m tinha tratado da gar�onete de um restaurante da Avenyn cujas pernas tinham sido escaldadas na cozinha, e salvara a vida de um menino de quatro anos que dera entrada no hospital com parada respirat�ria depois de engolir a rodinha de um carrinho de brinquedo. Al�m disso, tivera tempo de remendar uma adolescente que ca�ra de bicicleta num buraco. A Secretaria de Obras P�blicas, muito esperta, escolhera a sa�da de uma ciclovia para abrir o buraco e, evidentemente, algu�m ainda tinha jogado as barreiras de prote��o dentro dele. A garota levara catorze pontos no rosto e ia precisar de dois dentes incisivos novos. Jonasson tamb�m costurara a ponta de um polegar que um entusiasmado marceneiro de fim de semana aplainara por inadvert�ncia.</p><p>Por volta das onze horas, o n�mero de pacientes da emerg�ncia diminu�ra. Ele tinha feito sua ronda e conferido o estado dos internados, e ent�o se recolhera a uma sala de descanso para tentar relaxar um pouco. Seu turno ia at� as seis da manh�. Ele raramente dormia quando estava de plant�o, mesmo que n�o houvesse novas entradas, mas justo nessa noite adormecera quase de imediato.</p><p>Hanna Nicander ofereceu-lhe uma caneca de ch�. Ainda n�o tinha maiores detalhes sobre os novos pacientes.</p><p>Anders Jonasson deu uma olhada pela janela e viu rel�mpagos enormes riscando o c�u acima do mar. Ia ser dif�cil para o helic�ptero. De repente, desabou uma chuva violenta. A tempestade se abateu sobre G�teborg.</p><p>Ele ainda estava diante da janela quando ouviu o barulho do motor e avistou o helic�ptero que, sacudido pelas rajadas, se aproximava da �rea de pouso. Prendeu a respira��o ao ver que o piloto parecia ter dificuldade para controlar a aproxima��o. Ent�o o aparelho sumiu de seu campo de vis�o e ele ouviu a turbina reduzindo a marcha. Tomou um gole e largou a caneca.</p><p>Anders Jonasson recebeu os param�dicos na entrada do pronto-socorro. Sua colega de plant�o, Katarina Holm, assumiu o primeiro paciente que chegava deitado numa ma�a, um homem de idade com um ferimento grande no rosto. Coube ao Dr. Jonasson cuidar da mulher que levara um tiro. Uma r�pida avalia��o mostrou que se tratava de uma adolescente, gravemente ferida e toda suja de terra e sangue. Ele ergueu o cobertor no qual os param�dicos a tinham envolvido e notou que algu�m fechara as les�es do quadril e do ombro com uma larga fita adesiva prateada, o que lhe pareceu uma iniciativa particularmente perspicaz. A fita adesiva bloqueava a entrada das bact�rias e a sa�da do sangue. Uma bala a atingira na parte externa do quadril e atravessara o tecido muscular de lado a lado. Ele ergueu o ombro dela e identificou, nas costas, o orif�cio de entrada da bala. N�o havia orif�cio de sa�da, o que significava que a bala estava cravada em algum ponto do ombro. S� restava esperar que n�o tivesse perfurado o pulm�o. Como ele n�o viu sangue na boca da jovem, concluiu que esse devia ser o caso.</p><p>� Radiografia � disse � enfermeira que o assistia. Bastava como instru��o.</p><p>Por fim, cortou o curativo que os param�dicos tinham usado na cabe�a da jovem. Estremeceu ao apalpar o orif�cio de entrada com a ponta dos dedos. Ela tinha sido alvejada na cabe�a. Ali tamb�m n�o havia orif�cio de sa�da.</p><p>Anders Jonasson deteve-se por um segundo e contemplou a jovem. De repente, sentiu-se invadido pelo pessimismo. Por v�rias vezes j� tinha comparado seu trabalho com o de um goleiro. Todos os dias chegavam a seu local de trabalho, pessoas nas mais diversas condi��es, e todas com uma �nica inten��o � conseguir ajuda. Entre elas, aquela senhora de setenta e quatro anos que tivera uma parada card�aca e desabara na galeria comercial de Nordstan, o menino de catorze anos com o pulm�o perfurado por uma chave de fenda e a menina de dezesseis que consumira ecstasy e dan�ara dezoito horas seguidas para ent�o desabar, com o rosto todo azul. Elas eram v�timas de acidentes de trabalho ou de maus-tratos. Eram crian�as pequenas atacadas por pitbulls na Pra�a Vasa e homens de m�os habilidosas cuja inten��o fora apenas cortar umas t�buas com uma serra tico-tico e que acabaram talhando o pulso at� o osso.</p><p>Anders Jonasson era o goleiro posicionado entre os pacientes e a ag�ncia funer�ria. Seu trabalho consistia em decidir quais eram as provid�ncias adequadas. Se tomasse a decis�o errada, o paciente morria ou, talvez, acordava com uma invalidez permanente. No mais das vezes, tomava a decis�o certa, e isso porque a maioria dos feridos tinha um problema espec�fico e compreens�vel. Uma facada no pulm�o ou uma les�o decorrente de um acidente de carro eram ferimentos intelig�veis e claros. A sobrevida do paciente dependia da natureza do ferimento e da habilidade de Jonasson.</p><p>Havia dois tipos de ferimento que Anders Jonasson detestava. De um lado, certas queimaduras, que na maioria dos casos, quaisquer que fossem os recursos utilizados, resultavam numa vida de sofrimentos. De outro, os ferimentos na cabe�a.</p><p>Aquela jovem diante dele poderia viver com uma bala no quadril e outra no ombro. Mas uma bala num ponto qualquer do c�rebro j� era um problema de outra dimens�o. De repente, percebeu que a enfermeira dizia alguma coisa.</p><p>� Como?</p><p>� � ela.</p><p>� Ela quem?</p><p>� Lisbeth Salander. A garota que vem sendo procurada h� v�rias semanas por triplo assassinato em Estocolmo.</p><p>Anders Jonasson fitou o rosto da paciente. Hanna estava certa. Era a foto daquela jovem que ele e quase todos os suecos estavam vendo estampada nas bancas de jornais desde a P�scoa. E ali estava a assassina, ferida, o que decerto acabava sendo uma forma impressionante de justi�a.</p><p>Mas isso n�o lhe dizia respeito. Seu trabalho era salvar a vida de sua paciente, fosse ela uma tr�plice assassina ou uma ganhadora do pr�mio Nobel. Ou ambas as coisas.</p><p>Em seguida, houve aquela confus�o controlada que caracteriza todo servi�o de emerg�ncia. A equipe que trabalhava com Jonasson era tarimbada e sabia o que fazer. As roupas que Lisbeth Salander ainda vestia foram recortadas. Uma enfermeira informou sua press�o arterial � dez por sete � enquanto ele punha o estetosc�pio no peito da paciente e escutava os batimentos card�acos, que pareciam relativamente regulares; a respira��o, nem tanto.</p><p>O Dr. Jonasson n�o hesitou, de sa�da, em classificar o estado de Lisbeth Salander como cr�tico. Os ferimentos do ombro e do quadril podiam esperar, aplicando-se compressas ou at� deixando ali os peda�os de fita adesiva, j� colocados por uma alma inspirada. O mais urgente era a cabe�a. Jonasson ordenou que a passassem pelo tom�grafo no qual o hospital investira dinheiro do contribuinte.</p><p>Anders Jonasson era um homem loiro de olhos azuis, origin�rio do norte da Su�cia, mais precisamente de Umea. Fazia vinte anos que trabalhava nos hospitais Sahlgrenska e Ostra, revezando-se nas fun��es de pesquisador, patologista e m�dico do pronto-socorro. Havia nele uma particularidade que perturbava seus colegas e deixava os funcion�rios orgulhosos de trabalhar com ele: por princ�pio nenhum paciente deveria morrer nos seus plant�es e, de algum modo milagroso, ele conseguira manter seu escore em zero. Alguns pacientes seus tinham falecido, � claro, mas durante cuidados posteriores ou por motivos n�o relacionados com a sua interven��o.</p><p>Algumas vezes Jonasson tamb�m tinha uma vis�o pouco ortodoxa da medicina. Segundo ele, os m�dicos tendiam a tirar conclus�es que depois eram incapazes de justificar, e por isso desistiam com muita facilidade, ou ent�o dedicavam tempo demais tentando definir exatamente o problema para s� ent�o prescrever o tratamento adequado. De fato, esse era o m�todo preconizado pelo manual, mas o detalhe � que o paciente corria o risco de morrer enquanto o corpo m�dico se perdia em pondera��es. Na pior das hip�teses, o m�dico conclu�a que o caso era desesperador e interrompia o tratamento.</p><p>Contudo, era a primeira vez que Anders Jonasson recebia um paciente com uma bala no cr�nio. Provavelmente um neurocirurgi�o seria indispens�vel. Essa n�o era sua especialidade, mas de repente lhe ocorreu que talvez estivesse com mais sorte do que merecia. Antes de lavar as m�os e vestir a roupa esterilizada, gritou para Hanna Nicander:</p><p>� Tem um professor americano, chamado Frank Ellis, que trabalha no Karolinska de Estocolmo, mas est� em G�teborg no momento. � um neurologista famoso e, al�m do mais, um bom amigo meu. Est� hospedado no Hotel Radisson, na Avenyn. Tente descobrir o telefone.</p><p>Enquanto Anders Jonasson esperava o resultado das tomografias, Hanna Nicander voltou com o n�mero do Hotel Radisson. Anders Jonasson deu uma olhada no rel�gio � 1h42 � e tirou o fone do gancho. O recepcionista da noite do Radisson mostrou-se bastante avesso � id�ia de transferir uma chamada �quela hora, e o m�dico precisou falar com bastante veem�ncia para explicar a gravidade da situa��o e ter a liga��o completada.</p><p>� Oi, Frank � disse Anders Jonasson quando ele finalmente atendeu. � � o Anders. Soube que voc� estava em G�teborg. Voc� n�o daria um pulo aqui no Sahlgrenska para me assistir numa cirurgia de c�rebro?</p><p>� Are you bullshitting me? � inquiriu uma voz c�tica do outro lado da linha. Embora morasse na Su�cia havia v�rios anos e falasse fluentemente sueco � com sotaque americano, claro �, ele preferia o ingl�s. Anders Jonasson falou em sueco e Ellis respondeu em ingl�s.</p><p>� Frank, lamento ter perdido sua confer�ncia, mas achei que voc� pudesse me dar umas aulas particulares. Estou aqui com uma mulher com uma bala na cabe�a. O orif�cio de entrada � bem acima da orelha esquerda. Eu n�o te ligaria se n�o precisasse de uma segunda opini�o. E n�o conhe�o ningu�m mais competente nesse tipo de assunto.</p><p>� N�o � brincadeira? � perguntou Frank Ellis.</p><p>� A mo�a tem uns vinte e cinco anos.</p><p>� E qual o aspecto do ferimento?</p><p>� Orif�cio de entrada, nenhum orif�cio de sa�da.</p><p>� Mas ela est� viva?</p><p>� Pulso fraco, por�m regular, respira��o nem t�o regular, press�o dez por sete. Ela tamb�m est� com uma bala no ombro e um ferimento de bala no quadril. Disso eu posso cuidar.</p><p>� Parece bem promissor � disse o professor Ellis.</p><p>� Promissor?</p><p>� Quando algu�m est� com uma bala na cabe�a e continua vivo, a situa��o deve ser considerada muito auspiciosa.</p><p>� Voc� poderia me assistir?</p><p>� Confesso que passei a noite na companhia de uns amigos. Fui dormir � uma da manh� e muito provavelmente estou com um n�vel impressionante de �lcool no sangue...</p><p>� Eu tomo as decis�es e fa�o a cirurgia. Mas preciso de algu�m que me acompanhe e me avise se eu estiver cometendo alguma aberra��o. E, verdade seja dita, mesmo um professor Ellis completamente b�bado sem d�vida tem mais condi��es que eu de avaliar danos cerebrais.</p><p>� Est� bem. Estou indo. Mas voc� me deve um favor.</p><p>� Tem um t�xi esperando voc� na frente do hotel.</p><p>O professor Frank Ellis ergueu os �culos sobre a testa e cocou a nuca. Concentrou o olhar na tela do monitor que mostrava todos os pontos e meandros do c�rebro de Lisbeth Salander. Ellis tinha cinq�enta e tr�s anos, cabelos negros com um fio branco aqui e ali, uma barba escura incipiente, e lembrava um ator secund�rio do seriado E. R. Seu corpo dava a entender que ele passava algumas horas por semana na academia.</p><p>Frank Ellis gostava de morar na Su�cia. Chegara ao pa�s como jovem pesquisador de um interc�mbio no final da d�cada de 1970 e ficara por dois anos. Retornara depois v�rias vezes, at� que lhe ofereceram um cargo de professor no Instituto Karolinska. Seu nome j� era respeitado no mundo inteiro. Anders Jonasson conhecia Frank Ellis havia catorze anos. Tinham se visto pela primeira vez durante um semin�rio em Estocolmo, quando descobriram um entusiasmo em comum pela pesca com isca artificial. Anders o convidara para pescar na Noruega. Mantiveram contato ao longo dos anos e participaram de muitas outras pescarias. Em compensa��o, nunca haviam trabalhado juntos.</p><p>� O c�rebro � um mist�rio � disse o professor Ellis. � Faz vinte anos que pesquiso sobre ele. At� mais.</p><p>� Eu sei. Desculpe ter te incomodado, mas...</p><p>� Deixa disso. � Frank Ellis fez um gesto com a m�o para que o amigo n�o dramatizasse. � Vai lhe custar uma garrafa de Cragganmore na pr�xima vez que a gente for pescar.</p><p>� Combinado. Voc� n�o cobra caro.</p><p>� Esse caso me lembra de um outro, alguns anos atr�s, quando eu trabalhava em Boston � e que descrevi no New England Journal of Medicine. Era uma garota da mesma idade da sua paciente. Estava indo para a universidade, quando atiraram nela com uma besta. A flecha entrou pela borda da sobrancelha esquerda, atravessou a cabe�a e saiu quase no meio da nuca.</p><p>� E ela sobreviveu? � perguntou Jonasson, pasmo.</p><p>� Quando ela chegou ao pronto-socorro foi aquela confus�o. Cortaram a flecha e passaram a cabe�a dela pelo tom�grafo. A flecha atravessava o c�rebro de lado a lado. Pela l�gica e pelo bom senso, ela deveria estar morta, ou pelo menos em coma, dada a extens�o do traumatismo.</p><p>� E em que condi��o ela estava?</p><p>� Ficou consciente o tempo todo. E n�o s�: � claro que estava apavorada, mas se manteve absolutamente coerente. Seu �nico problema era aquela flecha atravessada no c�rebro.</p><p>� O que voc� fez?</p><p>� Bem, peguei uma pin�a e extra� a flecha, depois fiz um curativo. Mais ou menos isso.</p><p>� E ela se safou?</p><p>� Ficou em estado cr�tico por um bom tempo, at� receber alta. Mas, para ser franco, poderia ter ido para casa no mesmo dia em que deu entrada no hospital. Nunca tinha visto um paciente com uma sa�de t�o boa.</p><p>Anders Jonasson se perguntou se o professor Ellis n�o estava zombando da cara dele.</p><p>� Por outro lado � Ellis prosseguiu �, alguns anos atr�s tive um paciente de quarenta e dois anos, em Estocolmo, que tinha batido a cabe�a na beirada de uma janela, uma pancadinha no c�rebro. Ele estava com n�useas e seu estado piorou t�o depressa que foi levado de ambul�ncia para o pronto-socorro. Estava desacordado quando o recebi. Apresentava um incha�o pequeno e uma hemorragia m�nima. Mas n�o voltou a acordar e morreu depois de nove dias de cuidados intensivos. At� hoje n�o sei do que ele morreu. No relat�rio da aut�psia, colocamos "hemorragia cerebral em raz�o de acidente", mas nenhum de n�s ficou satisfeito com essa conclus�o. A hemorragia era min�scula, situada num lugar onde n�o poderia causar dano nenhum. Mesmo assim, o f�gado, os rins, o cora��o e os pulm�es foram parando de funcionar, um depois do outro. Quanto mais velho fico, mais chego � conclus�o de que isso tudo parece uma loteria. Na minha opini�o, nunca vamos descobrir como, exatamente, o c�rebro funciona. O que voc� pretende fazer?</p><p>Ele tamborilou no monitor com uma caneta.</p><p>� Eu estava esperando que voc� me dissesse.</p><p>� Primeiro, me diga como voc� v� a situa��o.</p><p>� Bem, para come�ar, parece ser uma bala de calibre pequeno. Entrou pela t�mpora e se alojou uns quatro cent�metros dentro do c�rebro. Ainda est� junto ao ventr�culo lateral, e h� uma hemorragia.</p><p>� Provid�ncias necess�rias?</p><p>� Para usar a sua terminologia: pegar uma pin�a e extrair a bala por onde ela entrou.</p><p>� Excelente sugest�o. Mas meu conselho � que voc� use a pin�a mais fina que tiver.</p><p>� Simples assim?</p><p>� Num caso desses, o que mais se pode fazer? Podemos deixar a bala onde est�, e a garota talvez viva at� os cem anos, mas � s� uma aposta. Ela pode vir a sofrer de epilepsia, de enxaquecas terr�veis, todo tipo de complica��o. E n�o d� muita vontade de deixar para abrir a cabe�a dela s� daqui a um ano, quando o ferimento em si j� vai estar curado. A bala est� um pouco afastada das grandes veias. Meu conselho � extra�-la, mas...</p><p>� Mas o qu�?</p><p>� A bala n�o � o que mais me preocupa. Isso � o fascinante nos traumatismos cerebrais � se ela sobreviveu � entrada da bala no cr�nio, � sinal de que tamb�m vai sobreviver � sa�da. O maior problema se situa neste ponto. � Frank Ellis p�s o dedo na tela. � Em volta do orif�cio de entrada h� um monte de estilha�os de osso. Estou vendo pelo menos uma d�zia de fragmentos de uns poucos mil�metros de comprimento. Alguns se cravaram no tecido cerebral. � isso que pode mat�-la, se voc� n�o tomar cuidado.</p><p>� Essa parte do c�rebro � associada � fala e � aptid�o com n�meros. Ellis deu de ombros.</p><p>� Isso � besteira. N�o fa�o a menor id�ia de que fun��o tem essas c�lulas cinzentas. Quanto a voc�, tudo o que precisa fazer � dar o melhor de si. Voc� � quem vai operar. Vou estar logo atr�s de voc�. Posso vestir um jaleco? E onde � que eu lavo as m�os?</p><p>Mikael Blomkvist olhou para o rel�gio e constatou que eram tr�s e pouco da manh�. Estava com algemas nos pulsos. Fechou os olhos por um instante. Sentia-se extenuado, mas a adrenalina ajudava a ag�entar o tranco. Tornou a abrir os olhos e encarou agressivamente o delegado Thomas Paulsson, que retribuiu com um olhar constrangido. Estavam sentados ao redor de uma mesa de cozinha, numa granja de um lugarejo chamado Gosseberga, em algum lugar perto de Nossebro, do qual Mikael ouvira falar pela primeira vez n�o fazia nem doze horas.</p><p>A cat�strofe acabava de ser confirmada.</p><p>� Idiota � disse Mikael.</p><p>� Escute...</p><p>� Idiota � repetiu Mikael. � Puta merda, eu falei que ele era um perigo mortal ambulante. Avisei que precisava ser tratado como uma granada sem pino. Ele matou pelo menos tr�s pessoas, tem o f�sico de um tanque de guerra e mata com as pr�prias m�os. E o senhor manda dois guardinhas irem busc�-lo, como se ele fosse um b�bado de festa de aldeia.</p><empty-line/><p>Mikael voltou a fechar os olhos. Perguntou-se o que mais poderia dar errado naquela noite.</p><p>Tinha encontrado Lisbeth Salander pouco depois da meia-noite, gravemente ferida. Ligara para a pol�cia e conseguira convencer o sos-Brigada a mandar um helic�ptero a fim de transportar Lisbeth ao Hospital Sahlgrenska. Descrevera em detalhes os ferimentos dela e o buraco que a bala deixara em sua cabe�a, e recebera o apoio de uma pessoa inteligente e sensata, que havia se dado conta de que Lisbeth precisava de cuidados imediatos.</p><p>Ainda assim, o helic�ptero demorara meia hora para chegar. Mikael tinha tirado os dois carros do galp�o que fazia �s vezes de garagem e acendera os far�is para indicar uma zona de pouso, iluminando o pasto em frente � casa.</p><p>O piloto do helic�ptero e os dois param�dicos mostraram-se profissionais experientes. Um dos param�dicos efetuara os procedimentos de emerg�ncia em Lisbeth Salander, enquanto o outro cuidava de Karl Axel Bodin, cujo verdadeiro nome era Zalachenko, pai de Lisbeth Salander e seu pior inimigo. Ele havia tentado mat�-la, mas fracassara. Mikael encontrara o sujeito, gravemente ferido, num galp�o de lenha anexo �quela granja isolada, com o rosto dilacerado por uma machadada nada gentil e um ferimento na perna.</p><p>Enquanto esperava o helic�ptero, Mikael fizera todo o poss�vel por Lisbeth. Pegara um len�ol limpo num arm�rio, que retalhara e usara como uma bandagem improvisada. Observara que o sangue havia coagulado, formando um tamp�o no orif�cio de entrada da cabe�a, e n�o sabia se devia se atrever a aplicar um curativo. Por fim, tinha amarrado frouxamente o len�ol em volta da cabe�a, mais para evitar que o ferimento ficasse exposto a bact�rias e sujeira. Em compensa��o, detivera a hemorragia causada pelas balas no quadril e no ombro da maneira mais simples. Encontrara dentro de um arm�rio um rolo grande de fita adesiva prateada e com ela simplesmente colara os ferimentos. Tamb�m enxugara o rosto de Lisbeth com uma toalha �mida, fazendo o poss�vel para limpar a sujeira.</p><p>N�o fora at� o galp�o de lenha para cuidar de Zalachenko. No �ntimo, reconhecia que, para ser sincero, n�o estava nem a� para aquele homem.</p><p>Enquanto esperava o sos-Brigada, telefonara ainda para Erika Berger, a fim de lhe explicar a situa��o.</p><p>� Voc� est� ferido? � perguntou Erika.</p><p>� Eu estou bem � respondeu Mikael. � Lisbeth � que est� ferida.</p><empty-line/><p>� Pobre menina � disse Erika Berger. � Li o relat�rio do Bj�rck para a Sapo no final da tarde. Como voc� vai administrar tudo isso?</p><p>� Estou sem energia para pensar nisso agora � disse Mikael. Enquanto conversava com Erika, sentado no ch�o ao lado da banqueta, mantinha um olhar atento em Lisbeth. Tinha tirado os sapatos e a cal�a dela para fazer o curativo no quadril e, em dado momento, sua m�o encostou na roupa que jogara no ch�o, junto � banqueta. Sentiu um objeto num dos bolsos; era um Palm Tungsten T3.</p><p>Franziu a testa e contemplou, pensativo, o computador de m�o. Ao ouvir o barulho do helic�ptero, enfiou o Palm no bolso interno do seu casaco. Depois � enquanto ainda estava sozinho � inclinou-se e deu uma olhada em todos os bolsos de Lisbeth. Encontrou outro molho de chaves do apartamento de Mosebacke e um passaporte em nome de Irene Nesser. Sem perder tempo, guardou tudo no compartimento externo da mochila de seu computador.</p><p>Minutos depois de o helic�ptero da Brigada aterrissar, chegou a primeira viatura, trazendo Fredrik Torstensson e Gunnar Andersson, da pol�cia de Trollhattan. Eles vinham acompanhados do delegado respons�vel, Thomas Paulsson, que imediatamente assumiu o comando das opera��es. Mikael se apresentou e se p�s a explicar o que tinha acontecido. O delegado passou-lhe a impress�o de um sujeito obtuso e cheio de si. Assim que Paulsson chegou, as coisas come�aram a dar errado.</p><p>Paulsson obviamente n�o entendia nada do que Mikael estava explicando. Parecia estranhamente assustado, e a �nica informa��o que conseguiu captar foi que a jovem em estado deplor�vel, deitada no ch�o diante da banqueta da cozinha, era Lisbeth Salander, a tr�plice assassina procurada pela pol�cia, e que aquela era uma captura de peso. Em tr�s ocasi�es, Paulsson perguntou ao param�dico se a jovem estava em condi��es de ser presa de imediato. Por fim, o param�dico se levantou e berrou para Paulsson que se afastasse.</p><p>Depois disso, Paulsson concentrou sua aten��o em Alexander Zalachenko, bastante machucado no galp�o de lenha, e Mikael ouviu Paulsson anunciar pelo r�dio que Salander, de acordo com todas as evid�ncias, havia tentado matar mais uma pessoa.</p><empty-line/><p>A essa altura, Mikael estava t�o irritado com Paulsson, o qual obviamente n�o escutava uma palavra sequer do que ele tentava dizer, que ergueu a voz e o aconselhou a ligar imediatamente para o inspetor Jan Bublanski em Estocolmo. Pegou o celular e se ofereceu para discar o n�mero. Paulsson n�o estava interessado.</p><p>Ent�o Mikael cometeu dois erros.</p><p>Declarou taxativamente que o tr�plice assassino era, na verdade, um homem chamado Ronald Niedermann, que tinha o porte de um rob� antitanque, sofria de analgesia cong�nita e naquele momento estava amarrado num barranco da estrada de Nossebro. Mikael indicou onde Niedermann se encontrava e recomendou � pol�cia que mobilizasse um batalh�o de infantaria com armamento pesado para prend�-lo. Paulsson perguntou como Niedermann fora parar no barranco, e Mikael admitiu que ele pr�prio, sob a amea�a de uma arma, o deixara naquela situa��o.</p><p>� Amea�a com arma... � enfatizou o delegado Paulsson.</p><p>Naquele momento, Mikael deveria ter percebido que Paulsson era um cretino. Deveria ter pegado o celular e ligado ele mesmo para Jan Bublanski, pedindo-lhe que interviesse e dissipasse a n�voa em que Paulsson parecia mergulhado. Em vez disso, Mikael cometera seu segundo erro, tentando lhe entregar a arma que tinha no bolso � uma Colt 1911 Government que ele encontrara mais cedo, naquele dia, no apartamento de Lisbeth Salander em Estocolmo e usara para dominar Ronald Niedermann.</p><p>Gesto infeliz, que levara Paulsson a dar voz de pris�o a Mikael Blomkvist no ato, por porte ilegal de arma. Nisso, Paulsson ordenou que os agentes Torstensson e Andersson fossem at� o local indicado por Mikael, na estrada de Nossebro, para verificar se havia um m�nimo de veracidade na hist�ria daquele indiv�duo, que afirmava ter deixado l� um homem amarrado a uma placa de estrada sinalizadora de travessia de alces. Se fosse o caso, os policiais deveriam algemar a pessoa em quest�o e traz�-la at� a granja de Gosseberga.</p><p>Mikael protestara com veem�ncia, explicando que Ronald Niedermann n�o era um homem que se pudesse apenas prender com algemas, e sim um assassino perigoso. Como Paulsson optasse por ignorar os protestos de Mikael, o cansa�o levou a melhor. Mikael chamou Paulsson de babaca incompetente e berrou para Torstensson e Andersson que em hip�tese alguma soltassem Ronald Niedermann antes de pedirem refor�os.</p><p>O resultado de sua bronca foi que o algemaram e enfiaram no banco traseiro do carro do delegado Paulsson, de onde ele assistiu, furioso, � partida de Torstensson e Andersson no carro deles. A �nica luz naquela escurid�o completa era que Lisbeth Salander fora levada para o helic�ptero que j� desaparecia acima das �rvores em dire��o ao Sahlgrenska. Mikael sentiu-se absolutamente impotente e exclu�do do fluxo de informa��es. S� lhe restava esperar que Lisbeth fosse entregue em m�os competentes.</p><p>O Dr. Anders Jonasson efetuou duas incis�es profundas, at� o osso do cr�nio, e dobrou a pele em volta do orif�cio de entrada. Manteve a abertura com pin�as. Uma enfermeira inseriu um aspirador para tirar o sangue. Em seguida veio um momento desagrad�vel, quando o Dr. Jonasson usou uma furadeira para ampliar o buraco do osso. A manobra progredia com uma lentid�o desesperadora.</p><p>Depois de obter, afinal, um buraco suficientemente amplo para conseguir ter acesso ao c�rebro de Lisbeth Salander, introduziu uma sonda bem devagar, alargando em alguns mil�metros a abertura do ferimento. Em seguida, introduziu uma sonda mais fina e localizou a bala. Gra�as � radiografia do cr�nio, viu que a bala tinha desviado e se alojado a um �ngulo de quarenta e cinco graus em rela��o � les�o. Utilizou a sonda para tocar suavemente na borda da bala e, ap�s uma s�rie de tentativas frustradas, conseguiu ergu�-la o suficiente para recoloc�-la em seu lugar inicial.</p><p>Por fim, introduzindo uma pin�a comprida e muito fina, conseguiu apanhar a base da bala e a apertou com firmeza. Puxou a pin�a em sua dire��o. A bala veio junto sem praticamente nenhuma resist�ncia. Ele a segurou diante da luz por um segundo, constatou que parecia intacta e ent�o a jogou numa vasilha.</p><p>� Esponja � pediu, e foi imediatamente atendido.</p><p>Deu uma olhada no eletrocardiograma, o qual indicava que sua paciente ainda gozava de uma atividade card�aca regular.</p><p>� Pin�a.</p><p>Puxou para si a fort�ssima lente suspensa e focalizou a regi�o desnudada.</p><p>� Devagar � disse o professor Frank Ellis.</p><p>Nos quarenta e cinco minutos seguintes, Anders Jonasson extraiu nada menos que trinta e dois estilha�os de osso encravados em volta do orif�cio de entrada. O menor deles era invis�vel a olho nu.</p><p>Enquanto Mikael, frustrado, tentava puxar o celular do bolso interno do casaco � tarefa que se revelou imposs�vel com as m�os algemadas �, v�rias viaturas chegaram a Gosseberga trazendo policiais e t�cnicos. Informados pelo delegado Paulsson, receberam ordens de colher provas t�cnicas irrefut�veis no galp�o de lenha e proceder a um exame profundo da casa, na qual v�rias armas tinham sido apreendidas. Resignado, Mikael acompanhou os movimentos deles do seu ponto de observa��o, a traseira do carro de Paulsson.</p><p>J� se passara uma boa hora quando Paulsson pareceu se dar conta de que os agentes Torstensson e Andersson ainda n�o tinham voltado da miss�o de prender Ronald Niedermann. De s�bito, mostrou um ar preocupado e mandou trazer Mikael Blomkvist � cozinha, pedindo mais uma vez que ele descrevesse a estrada.</p><p>Mikael fechou os olhos.</p><p>Ainda estava na cozinha com Paulsson quando voltaram os refor�os enviados para socorrer os dois policiais. O policial Gunnar Andersson fora encontrado morto, com a nuca quebrada. Seu colega Fredrik Torstensson ainda estava vivo, mas gravemente ferido. Ambos haviam sido encontrados � beira da estrada, ao lado da placa sinalizadora de travessia de alces. Suas armas de servi�o e a viatura policial tinham sido levadas.</p><p>Se de in�cio o delegado Thomas Paulsson tivera de administrar uma situa��o relativamente clara, agora se deparava com o homic�dio de um policial e com um bandido em fuga.</p><p>� Idiota � repetiu Mikael Blomkvist.</p><p>� Ofender a pol�cia n�o vai adiantar nada.</p><p>� Nisso n�s concordamos. Mas ainda vou denunci�-lo por erro profissional, e a coisa vai feder. Antes de eu terminar, todas as manchetes do pa�s j� ter�o lhe apontado como o policial mais est�pido da Su�cia.</p><p>Aparentemente, a amea�a de ser exposto na m�dia era a �nica coisa capaz de impressionar Thomas Paulsson. Pareceu preocupado.</p><p>� O que voc� sugere?</p><p>� Exijo que voc� ligue para o inspetor Jan Bublanski em Estocolmo. Agora.</p><p>A inspetora Sonja Modig acordou sobressaltada com o toque de seu celular, que ela deixara carregando do outro lado do quarto. Deu uma olhada no despertador em cima do criado-mudo e constatou desesperada que passava um pouco das quatro da manh�. Olhou para o marido que continuava roncando tranq�ilamente. Ele continuaria dormindo mesmo que sofressem um ataque da artilharia. Ela cambaleou para fora da cama e achou o bot�o do celular para atender.</p><p>Jan Bublanski � ela pensou �, quem mais poderia ser?</p><p>� Desastre absoluto nos lados de Trollh�ttan � declarou seu chefe, sem outro tipo de cumprimento. � O X2000 para G�teborg sai �s 5hl0.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� O Blomkvist encontrou a Salander, o Niedermann e o Zalachenko. Est� detido por desacato � autoridade, resist�ncia e porte ilegal de arma. A Salander foi levada para o hospital Sahlgrenska com uma bala na cabe�a. O Zalachenko est� no Sahlgrenska com um machado na cara. O Niedermann est� � solta por a�. Matou um policial esta noite.</p><p>Sonja Modig piscou duas vezes e sentiu o cansa�o. Antes de mais nada, sua vontade era voltar para a cama e tirar um m�s de f�rias.</p><p>� X2000 �s 5h10. Est� certo. O que eu devo fazer?</p><p>� Voc� pega um t�xi at� a esta��o. O Jerker Holmberg vai com voc�. Voc�s v�o entrar em contato com um tal de Thomas Paulsson, delegado de Trollh�ttan, que, aparentemente, � o respons�vel pela confus�o desta noite e que, de acordo com o Blomkvist, � um, abre aspas, babaca de marca maior, fecha aspas.</p><p>� Voc� falou com o Blomkvist?</p><p>� Ele est� algemado. Consegui convencer o Paulsson a me deixar falar rapidamente com ele. Estou a caminho de Kungsholmen, e do centro das opera��es vou tentar descobrir o que est� acontecendo. Ficamos em contato pelo celular.</p><p>Sonja Modig conferiu mais uma vez a hora. Depois chamou um t�xi e tomou uma chuveirada de um minuto. Escovou os dentes, passou um pente no cabelo, vestiu uma cal�a preta, uma camiseta preta e uma jaqueta cinza. Guardou a arma de servi�o na sacola e escolheu um sobretudo tr�s-quartos de couro vermelho escuro. Ent�o sacudiu o marido, explicou aonde estava indo e pediu que ele tomasse conta das crian�as de manh�. Atravessou a porta do pr�dio no exato instante em que o t�xi estacionava junto ao meio-fio.</p><p>N�o precisou procurar seu colega Jerker Holmberg. Sabia que ele provavelmente estaria no vag�o-restaurante, e n�o se enganou. Ele j� havia comprado um sandu�che e um caf� para ela. Permaneceram calados por uns cinco minutos, tomando o caf� da manh�. Por fim, Holmberg empurrou sua x�cara.</p><p>� A gente talvez devesse mudar de profiss�o � disse ele.</p><p>�s quatro da manh�, o inspetor Marcus Ackerman, da Brigada Criminal de G�teborg, chegou finalmente a Gosseberga e assumiu a investiga��o do assoberbado Thomas Paulsson. Ackerman era um cinquent�o grisalho e rechonchudo. Uma de suas primeiras medidas foi livrar Mikael Blomkvist das algemas e lhe oferecer p�ezinhos e caf� de uma garrafa t�rmica. Acomodaram-se na sala para uma conversa em particular.</p><p>� Falei com o Bublanski, de Estocolmo � disse Ackerman. �A gente se conhece h� muitos anos. N�s dois lamentamos muito o comportamento do Paulsson.</p><p>� Ele conseguiu que um policial fosse morto esta noite � disse Mikael. Ackerman assentiu com a cabe�a.</p><p>� Eu conhecia pessoalmente o agente Gunnar Andersson. Ele serviu em G�teborg antes de se mudar para Trollh�ttan. Tinha uma menina de tr�s anos.</p><p>� Sinto muito. Eu tentei alertar...</p><p>� Eu sei. E falou alto demais para o gosto dele, por isso mandou algemado. Foi voc� quem pegou o Wennerstr�m. O Bublanski disse que voc� � um jornalista bastante metido e um investigador particular totalmente maluco, mas que decerto sabe do que est� falando. Poderia me fornecer um quadro compreens�vel?</p><p>� Estamos perto da solu��o dos assassinatos dos meus amigos Dag Svensson e Mia Bergman, cometidos em Enskede, e de uma pessoa que n�o era minha amiga... o advogado Nils Bjurman, tutor de Lisbeth Salander.</p><p>Ackerman fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Como voc� sabe, desde a P�scoa a pol�cia est� atr�s de Lisbeth Salander, por suspeita de triplo homic�dio. Antes de mais nada, voc� precisa aceitar que Lisbeth Salander n�o � culpada desses assassinatos. Se ela tem algum papel neste caso, � o de v�tima.</p><p>� N�o me envolvi no caso Salander, mas depois de tudo o que saiu na m�dia acho dif�cil engolir que ela � totalmente inocente.</p><p>� Mas essa � a verdade. Ela � inocente. Ponto-final. O verdadeiro assassino � Ronald Niedermann, esse que matou o seu colega Gunnar Andersson esta noite. Ele trabalha para Karl Axel Bodin.</p><p>� O tal Bodin que est� no Sahlgrenska com um machado na cara.</p><p>� De um ponto de vista puramente t�cnico, o machado n�o est� mais na cara dele. Suponho que foi a Lisbeth quem o agrediu. O verdadeiro nome dele � Alexander Zalachenko. Ele � pai da Lisbeth e ex-agente dos servi�os secretos militares russos. Ele desertou nos anos 1970 e depois disso trabalhou para a Sapo at� a queda da Uni�o Sovi�tica. De l� para c�, atua como g�ngster freelancer.</p><p>Ackerman contemplou, pensativo, o homem sentado � sua frente na banqueta. Mikael Blomkvist estava brilhando de suor e parecia enregelado e exausto. At� o momento, argumentara de modo racional e coerente, mas o delegado Thomas Paulsson � no qual Ackerman n�o confiava muito � o alertara sobre os del�rios de Blomkvist acerca de agentes russos e assassinos alem�es, coisas que n�o faziam parte da rotina da pol�cia sueca. Blomkvist parecia estar chegando ao ponto da hist�ria que Paulsson tinha preferido rejeitar. Mas um policial fora morto e outro fora gravemente ferido no acostamento da estrada de Nossebro, e Ackerman estava pronto para ouvir. N�o conseguiu disfar�ar, contudo, uma pitada de incredulidade na voz.</p><p>� Certo. Um agente russo.</p><p>Blomkvist exibiu um sorriso p�lido, consciente de que sua hist�ria parecia meio fantasiosa.</p><p>� Um ex-agente russo. Posso provar tudo o que estou afirmando.</p><p>� Continue.</p><p>� Nos anos 1970, Zalachenko estava no auge de sua carreira de espi�o. Abandonou o navio, e a Sapo lhe ofereceu asilo. At� onde entendi, n�o se trata de um caso �nico na esteira do desmantelamento da Uni�o Sovi�tica.</p><p>� Certo.</p><p>� N�o sei exatamente o que aconteceu aqui esta noite, mas ao que parece a Lisbeth veio atr�s do pai, que fazia quinze anos ela n�o via. Ele maltratava a tal ponto a m�e dela que a infeliz acabou morrendo. Ele tentou matar a Lisbeth e � ele, por interm�dio do Ronald Niedermann, quem est� por tr�s dos assassinatos do Dag Svensson e da Mia Bergman. Al�m disso, � o respons�vel pelo seq�estro da Miriam Wu, a amiga da Lisbeth � a famosa luta decisiva que o Paolo Roberto encarou em Nykvarn.</p><p>� Se Lisbeth Salander cravou um machado na cabe�a do pai, n�o d� para dizer que ela seja inocente.</p><p>� S� que a Lisbeth Salander est� com tr�s balas no corpo. Acho que podemos alegar certo grau de leg�tima defesa. Eu me pergunto...</p><p>� Sim?</p><p>� A Lisbeth estava t�o coberta de terra e lama que seu cabelo era uma crosta de argila endurecida. Estava com a roupa cheia de areia. Parecia ter sido enterrada. E o Niedermann tem, visivelmente, certa tend�ncia a enterrar as pessoas. A pol�cia de S�dert�lje descobriu dois t�mulos num armaz�m pr�ximo de Nykvarn, de propriedade do MC Svavelsj�.</p><p>� Tr�s t�mulos, na verdade. Descobriram mais um ontem, tarde da noite. Mas se eles atiraram em Lisbeth Salander e depois a enterraram, como se explica ela andando por a� de machado na m�o?</p><p>� J� disse, n�o sei o que aconteceu, mas a Lisbeth � uma garota de muitos recursos. Tentei convencer o Paulsson a mandar para c� uma patrulha de c�es...</p><p>� Eles est�o chegando.</p><p>� �timo.</p><p>� O Paulsson o prendeu por desacato � autoridade.</p><p>� Contesto isso. Eu o chamei de idiota, babaca incompetente e cretino. Na atual circunst�ncia, nenhum desses adjetivos � insultuoso a ele.</p><p>� Mas voc� tamb�m est� preso por porte ilegal de arma.</p><p>� Cometi o erro de querer entregar uma arma para ele. De resto, n�o tenho nada a declarar antes de falar com o meu advogado.</p><p>� Certo. Vamos deixar isso pra l� por enquanto. Temos coisas mais s�rias para tratar. O que voc� sabe sobre esse Niedermann?</p><p>� � um assassino. E h� algo errado com ele: mede mais de dois metros de altura e tem o f�sico de um tanque de guerra. Pergunte ao Paolo Roberto, que andou se enfrentando com ele. Ele sofre de analgesia cong�nita. � uma doen�a, as chamadas fibras C n�o funcionam, e ele � incapaz de sentir dor. � alem�o, nasceu em Hamburgo e foi skinhead quando jovem. � extremamente perigoso e est� solto por a�.</p><p>� Tem alguma id�ia de onde ele poderia se esconder?</p><p>� N�o. S� sei que eu tinha amarrado ele direitinho. S� faltava prend�-lo, quando esse cretino de Trollh�ttan assumiu as r�deas da situa��o.</p><p>Pouco antes das cinco da manh�, Anders Jonasson tirou suas luvas de l�tex sujas e jogou-as na lixeira. Uma enfermeira aplicou compressas no ferimento do quadril. A opera��o tinha durado tr�s horas. Ele olhou para a cabe�a raspada e maltratada de Lisbeth Salander, j� envolta nas bandagens.</p><p>Sentiu uma s�bita ternura, a mesma que costumava sentir pelos pacientes que operava. De acordo com os jornais, Lisbeth Salander era uma assassina em s�rie psicopata, mas � seus olhos ela lembrava, antes de mais nada, um passarinho machucado. Balan�ou a cabe�a e ent�o virou-se para Frank Ellis, que o fitou com um olhar divertido.</p><p>� Voc� � um cirurgi�o excelente � disse Ellis.</p><p>� Posso te convidar para um caf� da manh�?</p><p>� Aqui d� para pedir panqueca com gel�ia?</p><p>� D� para pedir filhos � disse Anders Jonasson. � Na minha casa. Vou avisar minha mulher e a gente pega um t�xi. � Ele parou e consultou o rel�gio. � Pensando bem, acho melhor n�o ligar.</p><p>A Dra. Annika Giannini, advogada, acordou sobressaltada. Virou a cabe�a para a direita e constatou que eram 5h58. Tinha uma primeira reuni�o com um cliente �s oito horas. Virou a cabe�a para a esquerda e contemplou o marido, Enrico Giannini, que dormia serenamente e, na melhor das hip�teses, acordaria por volta das oito. Determinada, piscou v�rias vezes, saiu da cama e foi ligar a cafeteira antes de ir para o chuveiro. Tomou banho sem pressa e vestiu em seguida uma cal�a preta, uma blusa de gola rol� branca e um blazer vermelho. Torrou duas fatias de p�o, juntou a elas gel�ia de laranja, queijo e uns peda�os de ma�� e levou seu caf� da manh� para a sala bem a tempo de pegar o notici�rio das seis e meia na tev�. Tomou um gole de caf� e estava abrindo a boca para morder uma torrada quando ouviu a manchete.</p><p>Um policial morto e outro gravemente ferido. Uma noite tr�gica, com a pris�o da assassina Lisbeth Salander.</p><p>De in�cio, custou a organizar as id�ias, pois sua primeira impress�o fora que Lisbeth Salander havia matado um policial. As informa��es eram esparsas, mas ela acabou entendendo que quem estava sendo procurado pelo assassinato do policial era um homem. Fora lan�ado um alerta nacional de busca para um homem de trinta e sete anos, de identidade ainda desconhecida. Lisbeth Salander, ao que parecia, estava gravemente ferida no Hospital Sahlgrenska de G�teborg.</p><p>Annika mudou de canal, mas n�o conseguiu descobrir mais nada. Pegou o celular e digitou o n�mero de seu irm�o, Mikael Blomkvist. Uma grava��o respondeu que o n�mero chamado estava indispon�vel. Sentiu uma pontada de medo. Mikael ligara na noite anterior, a caminho de G�teborg. Estava indo atr�s de Lisbeth Salander. E de um assassino chamado Ronald Niedermann.</p><p>Ao raiar do dia, um policial observador notou vest�gios de sangue no terreno atr�s do galp�o de lenha. Um c�o farejador seguiu o rastro at� um buraco aberto numa clareira, a cerca de quatrocentos metros a nordeste da granja de Gosseberga.</p><p>Mikael acompanhou o inspetor Ackerman. Examinaram o local, pensativos. N�o foi dif�cil descobrir uma quantidade grande de sangue dentro e ao redor do buraco.</p><p>Tamb�m acharam uma cigarreira amassada, que claramente tinha sido usada como p�. Ackerman guardou a cigarreira num saco pl�stico para evid�ncias e lhe p�s uma etiqueta. Juntou tamb�m amostras de torr�es da terra manchada de sangue. Um policial fardado chamou sua aten��o para uma guimba sem filtro da marca Pall Mall a poucos metros do buraco. A guimba tamb�m foi guardada num saco pl�stico etiquetado. Mikael lembrou de ter visto um ma�o de Pall Mall na bancada da cozinha de Zalachenko.</p><p>Ackerman deu uma olhada no c�u e avistou nuvens pesadas de chuva. A tempestade que castigara G�teborg durante a noite parecia estar passando pelo sul da regi�o de Nossebro e a chuva ia come�ar dali a pouco. Virou-se para um policial e pediu-lhe que achasse uma lona para cobrir o buraco.</p><p>� Acho que voc� tem raz�o �Ackerman disse afinal para Mikael. � O exame de sangue vai provavelmente dizer que Lisbeth Salander foi enterrada aqui, e aposto que v�o achar impress�es digitais na cigarreira. Ela foi baleada, enterrada, mas de alguma maneira sobreviveu, conseguiu sair do t�mulo e...</p><p>� ... e voltou at� a granja e jogou o machado na cara do Zalachenko � concluiu Mikael. � No quesito obstina��o, ela � nota dez.</p><p>� Mas como foi que ela se virou com o Niedermann?</p><p>Mikael deu de ombros. Nesse ponto, estava t�o perplexo quanto Ackerman.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>2.���� SEXTA-FEIRA - 8 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Sonja Modig e Jerker Holmberg chegaram � esta��o central de G�teborg pouco depois das oito da manh�. Bublanski tinha ligado e passado novas instru��es; era para deixarem Gosseberga para l� e pegarem um t�xi at� a chefatura de pol�cia, em Nya Ullevi, sede da pol�cia criminal de V�stra G�taland. Aguardaram quase uma hora at� o inspetor Ackerman chegar de Gosseberga, acompanhado de Mikael Blomkvist. Mikael cumprimentou Sonja Modig, que ele j� conhecia, e apertou a m�o de Jerker Holmberg. Em seguida, um colega de Ackerman juntou-se a eles trazendo um relat�rio atualizado da busca a Ronald Niedermann. O relat�rio era sucinto.</p><p>� Dispomos de um grupo de investiga��o dirigido pela Criminal. Foi lan�ado, claro, um aviso de busca em todo o pa�s. Encontraram a viatura da pol�cia em Alings�s, �s seis da manh�. Por enquanto, a pista acaba a�. Desconfiamos que ele trocou de carro, mas n�o foi registrada nenhuma queixa de roubo de carro.</p><p>� E a imprensa? � inquiriu Modig, com um olhar de desculpas para Mikael Blomkvist.</p><p>� Trata-se do assassinato de um policial, e a mobiliza��o � geral. Vai haver uma coletiva de imprensa �s dez horas.</p><p>� Algu�m por acaso sabe alguma coisa sobre o estado da Lisbeth Salander? � perguntou Mikael. Estranho, mas n�o sentia quase nenhum interesse por tudo o que dizia respeito � ca�ada a Niedermann.</p><p>� Ela foi operada durante a madrugada. Extra�ram uma bala da cabe�a dela. Ainda n�o acordou.</p><p>� Algum progn�stico?</p><p>� Pelo que entendi, n�o h� como saber antes de ela acordar. Mas o m�dico que fez a cirurgia diz que ela tem boas chances de sobreviver se n�o houver nenhuma complica��o.</p><p>� E o Zalachenko?</p><p>� Quem? � perguntou o colega de Ackerman, que ainda n�o estava inteirado de todos os meandros complicados da hist�ria.</p><p>� Karl Axel Bodin.</p><p>� Ah, sim, ele tamb�m foi operado de madrugada. Levou uma machadada feia no rosto e outra logo abaixo da patela. Est� em p�ssimo estado, mas os ferimentos n�o apresentam risco de morte.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Voc� parece cansado � disse Sonja Modig.</p><p>� Pode-se dizer que sim. Estou come�ando meu terceiro dia sem dormir praticamente nada.</p><p>� Ele dormiu no carro, voltando de Nossebro � disse Ackerman.</p><p>� Voc� teria condi��es de nos contar a hist�ria toda desde o in�cio? � perguntou Holmberg. � Parece que os investigadores particulares est�o dando de tr�s a zero na pol�cia.</p><p>Mikael tentou sorrir.</p><p>� Essa � uma fala que eu gostaria de ouvir da boca do Bublanski � disse.</p><p>Acomodaram-se na cafeteria da chefatura de pol�cia para tomar o caf� da manh�. Mikael passou cerca de meia hora explicando, tintim por tintim, de que modo reconstitu�ra a complexa hist�ria de Zalachenko. Quando concluiu, os policiais mantiveram um sil�ncio pensativo.</p><p>� Existem umas lacunas na sua hist�ria � disse Jerker Holmberg afinal.</p><p>� E bem poss�vel.</p><p>� Voc� n�o explicou como teve acesso ao relat�rio secreto da Sapo sobre o Zalachenko.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Eu o encontrei ontem na casa da Lisbeth Salander, depois que finalmente descobri o esconderijo dela. Quanto a ela, decerto achou o relat�rio na casa de campo do doutor Nils Bjurman.</p><p>� Quer dizer que voc� descobriu o esconderijo da Lisbeth Salander � disse Sonja Modig.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� E?</p><p>� Vou deixar para voc�s a tarefa de descobrir o endere�o por seus pr�prios meios. A Lisbeth fez um esfor�o enorme para conseguir aquele endere�o secreto, e agora n�o vou ser eu quem vai deixar vazar.</p><p>Modig e Holmberg ficaram meio acabrunhados.</p><p>� Mikael... trata-se de uma investiga��o de homic�dio � disse Sonja Modig.</p><p>� E voc�s ainda n�o sacaram que a Lisbeth Salander � inocente e que a pol�cia pisoteou a vida pessoal dela de um jeito que n�o d� para entender. De onde voc�s tiraram aquela hist�ria de l�sbicas sat�nicas? Tenho certeza de que a pr�pria Lisbeth, se quiser, vai contar para voc�s onde ela mora.</p><p>� Tem outra coisa que n�o consegui entender direito � insistiu Holmberg. � Onde � que o Bjurman entra nessa hist�ria? Voc� disse que foi ele quem desencadeou tudo isso quando contatou o Zalachenko e pediu que ele matasse a Salander..., mas por que ele faria uma coisa dessas?</p><p>Mikael teve um longo momento de hesita��o.</p><p>� Tenho a impress�o de que ele contratou o Zalachenko para se livrar da Lisbeth Salander. O objetivo era ela ir parar no armaz�m de Nykvarn.</p><p>� Ele era o seu tutor. Que motivo teria para se livrar dela?</p><p>� � complicado.</p><p>� Explique.</p><p>� Ele tinha um puta motivo. Foi uma coisa que ele fez, e a Lisbeth estava sabendo. Ela era uma amea�a para o futuro pessoal e financeiro dele.</p><p>� O que foi que ele fez?</p><p>� Acho melhor a pr�pria Lisbeth explicar essa parte. Seu olhar cruzou com o de Holmberg.</p><p>� Deixe eu adivinhar � disse Sonja Modig. � O Bjurman se comportou mal com a sua protegida.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Posso deduzir que ele a submeteu a algum tipo de viol�ncia sexual? Mikael deu de ombros e se absteve de qualquer coment�rio.</p><p>� Voc� est� sabendo da tatuagem na barriga do Bjurman?</p><p>� Tatuagem?</p><p>� Uma tatuagem feita por um amador, um texto que ocupa a barriga toda... Sou um porco s�dico, um canalha estuprador. A gente andou se perguntando sobre o significado disso tudo.</p><p>De repente, Mikael caiu na risada.</p><p>� O que foi?</p><p>� Fiquei pensando no que a Lisbeth teria feito para se vingar. Mas, j� disse, n�o quero discutir isso com voc�s, pelo mesmo motivo. Trata-se da vida pessoal dela. A Lisbeth � que foi objeto de um crime. Ela � que � a v�tima. Ela � quem deve decidir o que vai querer ou n�o contar para voc�s. Sinto muito.</p><p>Ele parecia estar quase se desculpando.</p><p>� O certo, em caso de estupro, � dar queixa � disse Sonja Modig.</p><p>� Concordo. Mas esse estupro aconteceu h� dois anos e a Lisbeth ainda n�o contou nada � pol�cia. O que prova que ela n�o pretende contar. Posso at� n�o concordar, mas ela � quem decide. Al�m disso...</p><p>� Sim?</p><p>� Ela n�o tem motivo algum para confiar na pol�cia. Da �ltima vez que tentou explicar a que ponto Zalachenko era um canalha, foi trancafiada num hospital psiqui�trico.</p><p>Richard Ekstr�m, o respons�vel pelo inqu�rito preliminar, estava um tanto ansioso naquela manh� de sexta-feira, quando, pouco antes das nove horas, convidou o chefe das investiga��es, Jan Bublanski, para se sentar � sua frente. Ekstr�m ajeitou os �culos e esfregou a barba bem cuidada. Para ele, aquela situa��o era ca�tica e amea�adora. Durante um m�s, ele fora o respons�vel pela investiga��o preliminar, o homem que ca�ava Lisbeth Salander. Ele a tinha descrito abertamente como uma psicopata, uma doente mental perigosa para a popula��o. Tinha deixado vazar informa��es que seriam vantajosas para ele num eventual processo. Tudo parecia �s mil maravilhas.</p><p>Na sua cabe�a, n�o havia d�vida de que Lisbeth Salander era de fato culpada do triplo homic�dio e que o processo resultaria numa vit�ria tranq�ila, uma mera encena��o de marketing com ele pr�prio no papel principal. E eis que tudo tinha desandado e l� estava ele �s voltas com um assassino bem diferente e um caos que parecia n�o ter fim. Droga de Salander.</p><p>� Estamos com uma aut�ntica baderna para resolver � disse ele. � O que voc� descobriu esta manh�?</p><p>� Emitimos um pedido nacional de busca para Ronald Niedermann, mas ele ainda est� foragido. Por enquanto, est� sendo procurado apenas pelo assassinato do policial Gunnar Andersson, mas imagino que a gente deva incluir os tr�s homic�dios aqui de Estocolmo. Talvez voc� devesse convocar uma coletiva de imprensa.</p><p>Bublanski s� estava sugerindo a coletiva para sacanear Ekstr�m, a quem detestava.</p><p>� Acho melhor esperar um pouco � respondeu Ekstr�m depressa. Bublanski fez um esfor�o para n�o sorrir.</p><p>� Os �ltimos acontecimentos dizem respeito principalmente � pol�cia de G�teborg � retomou Ekstr�m, para ser mais claro.</p><p>� �, mas estamos com a Sonja Modig e o Jerker Holmberg no local, em G�teborg, e iniciamos uma colabora��o...</p><p>� Vamos esperar mais informa��es antes de convocar uma coletiva � interrompeu Ekstr�m com voz autorit�ria. � O que eu queria saber � at� que ponto voc� tem certeza de que o Niedermann est� envolvido nos assassinatos aqui de Estocolmo.</p><p>� Como policial, estou convencido disso. Mas, de fato, n�o temos muitas provas. N�o existe testemunha dos assassinatos nem nenhuma prova t�cnica irrefut�vel. O Magge Lundin e o Benny Nieminen, do MC Svavelsj�, negam-se a prestar uma declara��o e afirmam que nunca ouviram falar do Niedermann. Em compensa��o, � certo que ele vai ser condenado pelo homic�dio do Gunnar Andersson.</p><p>� Est� bem � disse Ekstr�m. � O que nos interessa no momento � o assassinato do policial. Mas me conte... H� algo que indique que a Salander estaria, apesar de tudo, envolvida nos assassinatos? Daria para supor que ela e o Niedermann agiram juntos?</p><p>� Duvido. Eu � que n�o divulgaria uma teoria dessas.</p><p>� Mas ent�o qual � o papel dela nisso tudo?</p><p>� � uma hist�ria super complicada. Como o Mikael Blomkvist vem afirmando desde o come�o, � esse sujeito, o Zala... Alexander Zalachenko.</p><p>Ao ouvir o nome de Mikael Blomkvist, o procurador Ekstr�m estremeceu visivelmente.</p><p>� O Zala � um espi�o russo fora de atividade, obviamente desprovido de qualquer escr�pulo, que atuava na �poca da guerra fria � prosseguiu Bublanski. � Chegou aqui nos anos 1970, e � o pai de Lisbeth Salander. Foi apoiado por um grupo da Sapo, que o cobria quando ele infringia a lei. Um policial da Sapo tamb�m deu um jeito de a Lisbeth Salander ser internada, aos treze anos, numa cl�nica de psiquiatria infantil, quando ela amea�ou revelar a verdade sobre o Zalachenko.</p><p>� Admita que � meio dif�cil engolir tudo isso. N�o d� para tornar p�blica uma hist�ria dessas. Se entendi bem, tudo o que diz respeito ao Zalachenko � considerado segredo de Estado.</p><p>� Mas � a pura verdade. Tenho documentos que comprovam isso.</p><p>� Posso ver esses documentos?</p><p>Bublanski empurrou na dire��o dele o arquivo contendo o relat�rio policial datado de 1991. Ekstr�m, pensativo, contemplou o selo que classificava o documento como segredo de Estado, e o n�mero do arquivo, que ele de imediato identificou como proveniente da Sapo. Folheou rapidamente as cerca de cem p�ginas e leu algumas ao acaso. Por fim, largou o relat�rio.</p><p>� Temos que tentar acalmar as coisas para que a situa��o n�o escape das nossas m�os. Com que ent�o a Lisbeth Salander foi internada num hospital de loucos porque tentou matar o pai... o tal Zalachenko. E agora cravou um machado na cabe�a dele. N�o d� para n�o entender isso como uma tentativa de homic�dio. E ela tamb�m tem que ser acusada por ter atirado no Magge Lundin em Stallarholmen.</p><p>� Acuse quem voc� quiser, mas eu, no seu lugar, avan�aria pisando em ovos.</p><p>� Vai ser um esc�ndalo daqueles se essa hist�ria envolvendo a Sapo for divulgada.</p><p>Bublanski deu de ombros. Sua miss�o era elucidar crimes, e n�o administrar esc�ndalos.</p><p>� E esse canalha da Sapo, o Gunnar Bj�rck, o que se sabe sobre o papel dele nisso tudo?</p><p>� Ele � um dos protagonistas. Atualmente est� de licen�a m�dica por causa de uma h�rnia de disco e est� passando um tempo em Sm�dalar�.</p><p>� Certo... por enquanto n�o se fala na Sapo. Trata-se de um policial morto, s� isso. O nosso papel n�o � criar confus�o.</p><p>� Acho que vai ser dif�cil de abafar.</p><p>� Como assim?</p><p>� Mandei o Curt Bolinder deter o Bj�rck para um interrogat�rio. � Bublanski consultou o rel�gio. � � essa hora ele deve estar em plena a��o.</p><p>� O qu�?</p><p>� Na verdade, minha inten��o era eu mesmo ter o prazer de ir at� Sm�ladar�, mas n�o pude por causa do assassinato do policial.</p><p>� N�o emiti nenhuma autoriza��o para a pris�o de Bj�rck.</p><p>� Correto. Mas n�o se trata de pris�o. Mandei que o trouxessem para interrog�-lo.</p><p>� N�o estou gostando nada disso.</p><p>Bublanski se inclinou para a frente e assumiu um ar confidencial.</p><p>� Richard... a quest�o � a seguinte. A Lisbeth Salander foi v�tima de uma s�rie de abusos judici�rios, que tiveram in�cio quando ela n�o passava de uma crian�a. N�o preterido deixar que isso continue. Voc� pode escolher me afastar das investiga��es, mas nesse caso vou ser obrigado a escrever um relat�rio incisivo a respeito.</p><p>Richard Ekstr�m ficou com cara de quem chupou um lim�o.</p><p>Gunnar Bj�rck, em licen�a m�dica do seu cargo de chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros na Sapo, abriu a porta de sua casa de campo em Sm�ladar� e se viu frente a frente com um homem corpulento, de cabelos loiros e curtos e jaqueta de couro preta.</p><p>� Gostaria de falar com Gunnar Bj�rck.</p><p>� Sou eu.</p><p>� Curt Bolinder, de Assuntos Criminais. O homem mostrou sua identifica��o.</p><p>� Pois n�o?</p><p>� Vou pedir que me acompanhe at� a chefatura de pol�cia de Kungsholmen para auxiliar na investiga��o sobre Lisbeth Salander.</p><p>� H�... deve haver algum engano.</p><p>� N�o h� nenhum engano � disse Curt Bolinder.</p><p>� O senhor n�o est� entendendo. Eu tamb�m sou da pol�cia. Sugiro que verifique com seu chefe.</p><p>� � o meu chefe que quer falar com o senhor.</p><p>� Preciso dar um telefonema e...</p><p>� Vai poder telefonar de Kungsholmen.</p><p>De repente, Gunnar Bj�rck entregou os pontos. Droga de Mikael Blomkvist. Droga de Salander.</p><p>� Estou sendo detido? � perguntou.</p><p>� Por enquanto n�o. Mas acho que se pode dar um jeito, se o senhor acha indispens�vel.</p><p>� N�o... n�o, vou acompanh�-lo, claro. Fa�o quest�o de auxiliar meus colegas da pol�cia oficial.</p><p>� Melhor assim � disse Curt Bolinder, entrando na casa. Manteve um olhar atento em Gunnar Bj�rck enquanto ele ia pegar o casaco e desligar a cafeteira.</p><p>�s onze da manh�, Mikael Blomkvist soube que o seu carro alugado continuava estacionado atr�s de uma granja na entrada de Gosseberga, mas no estado de exaust�o em que se encontrava n�o tinha energia para ir busc�-lo, e muito menos para dirigir uns tantos quil�metros sem se transformar em vim perigo para o tr�nsito. Pediu conselho ao inspetor Marcus Ackerman, que generosamente prop�s que um t�cnico da Criminal de G�teborg fosse buscar o carro.</p><p>� Encare isso como uma compensa��o pela maneira como voc� foi tratado na noite passada.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a e pegou um t�xi para o City Hotel, na Lorensbergsgatan, perto da Avenyn. Pediu um quarto simples por uma di�ria de oitocentas coroas e subiu imediatamente. Despiu-se, sentou-se nu sobre a cama, tirou do bolso interno do casaco o Palm Tungsten T3 de Lisbeth Salander e avaliou seu peso com a m�o. Ainda estava surpreso de o computador de m�o n�o ter sido apreendido quando o delegado Thomas Paulsson o revistara, mas Paulsson partira do princ�pio de que aquele era o computador de Mikael, e ele n�o fora formalmente acusado de nada nem destitu�do de seus objetos pessoais. Refletiu um instante e ent�o colocou o Palm no compartimento da mochila de seu computador, onde j� estava guardado o DVD Bjurman, de Lisbeth, que Paulsson tamb�m deixara passar. Estava ciente de que, do ponto de vista legal, era uma reten��o de provas, mas aqueles eram objetos que Lisbeth aparentemente n�o ia querer que fossem parar em m�os erradas.</p><p>Pegou seu celular, observou que a bateria estava quase no fim e colocou-o para carregar. Telefonou para sua irm�, a Dra. Annika Giannini.</p><p>� Oi, mana.</p><p>� Voc� tem alguma coisa a ver com o assassinato do policial da noite passada? � ela foi logo perguntando.</p><p>Ele explicou rapidamente o que tinha acontecido.</p><p>� Certo. Quer dizer que a Salander est� na UTI.</p><p>� Isso. S� v�o saber da gravidade dos ferimentos depois que ela acordar, mas ela vai precisar de um advogado.</p><p>Annika Giannini ponderou alguns instantes.</p><p>� Voc� acha que ela vai me aceitar?</p><p>� � prov�vel que n�o aceite nenhum advogado. Pedir ajuda n�o � o estilo dela.</p><p>� Tudo indica que ela vai precisar de um advogado criminal. Preciso dar uma olhada nos documentos que voc� tem a�.</p><p>� Fale com a Erika Berger e pe�a uma c�pia para ela.</p><p>Assim que terminou de falar com a irm�, Mikael ligou para Erika Berger. Como ela n�o atendesse o celular, discou o n�mero da reda��o da Millennium. Henry Cortez atendeu.</p><p>� A Erika saiu � disse Henry.</p><p>Mikael deu um resumo da situa��o e pediu a Henry que repassasse a informa��o para a diretora da Millennium.</p><p>� Certo. E o que a gente faz? � perguntou Henry.</p><p>� Hoje, nada � disse Mikael. � Preciso dormir. Volto amanh� para Estocolmo, se n�o houver nenhum imprevisto. A Millennium vai dar sua vers�o do caso no pr�ximo n�mero, isto �, daqui a quase um m�s.</p><p>Desligou, enfiou-se na cama e em menos de trinta segundos estava dormindo.</p><empty-line/><p>A adjunta do chefe de pol�cia do Departamento, Monica Sp�ngberg, bateu com uma caneta na borda do seu copo de �gua mineral para pedir sil�ncio. Dez pessoas � tr�s mulheres e sete homens � estavam em volta da mesa de reuni�es de sua sala, na chefatura de pol�cia. Eram eles o diretor da Brigada Criminal, seu adjunto, tr�s inspetores criminais, entre eles Marcus Ackerman, e o assessor de comunica��o da pol�cia de G�teborg. Tamb�m tinham sido convocados para a reuni�o a respons�vel pelo inqu�rito preliminar, Agneta Jervas, do Minist�rio P�blico, e os inspetores criminais Sonja Modig e Jerker Holmberg, de Estocolmo. Estes �ltimos estavam presentes para demonstrar a boa vontade dos colegas de Estocolmo em colaborar e tamb�m, quem sabe, para mostrar como se conduz uma investiga��o de verdade.</p><p>Sp�ngberg, em geral a �nica mulher naquele ambiente masculino, n�o tinha fama de desperdi�ar tempo com formalidades nem amenidades. Explicou que o chefe de pol�cia do departamento estava em uma viagem de trabalho, uma confer�ncia da Europol em Madri, que interrompera a viagem ao ser avisado do assassinato de um policial, mas que s� deveria chegar tarde da noite. Depois, dirigindo-se diretamente ao diretor da Brigada Criminal, Arne Pehrzon, pediu-lhe um resumo da situa��o.</p><p>� H� pouco mais de dez horas nosso colega Gunnar Andersson foi morto na estrada de Nossebro. Sabemos o nome do assassino, Ronald Niedermann, mas n�o temos nenhuma foto do indiv�duo.</p><p>� Em Estocolmo temos uma foto dele de vinte anos atr�s. Foi o Paolo Roberto quem conseguiu, mas quase n�o d� para aproveitar � disse Jerker Holmberg.</p><p>� Certo. Encontraram a viatura roubada em Alings�s hoje cedo. Estava estacionada numa rua lateral, a cerca de trezentos metros da esta��o. N�o houve nesta manh� nenhuma queixa de carro roubado na �rea.</p><p>� E quanto �s investiga��es?</p><p>� Estamos verificando os trens que chegam a Estocolmo e Malm�. Emitimos um pedido nacional de busca e informamos a pol�cia norueguesa e a dinamarquesa. No momento estamos com cerca de trinta policiais trabalhando diretamente no caso e, � claro, com todos os agentes de olhos bem abertos.</p><p>� Nenhuma pista?</p><p>� Nada ainda. Mas n�o deve ser imposs�vel localizar um homem com o f�sico do Niedermann.</p><p>� Algu�m tem not�cias do Fredrik Torstensson? � perguntou um dos inspetores da Criminal.</p><p>� Est� no hospital de Sahlgrenska. Ficou bem machucado, mais ou menos como se tivesse sofrido um acidente de carro. � dif�cil acreditar que um ser humano possa ter causado tantas les�es apenas com as m�os. Al�m das fraturas e das costelas quebradas, ele est� com uma v�rtebra machucada e corre o risco de ficar parcialmente paralisado.</p><p>Todos refletiram sobre a situa��o do colega durante alguns segundos, at� que Sp�ngberg retomou a palavra. Voltou-se para Ackerman.</p><p>� O que de fato aconteceu em Gosseberga?</p><p>� Em Gosseberga? Aconteceu o Thomas Paulsson.</p><p>Um gemido un�nime foi ouvido por parte de v�rios participantes da reuni�o.</p><p>� Por que ningu�m aposenta esse cara? Ele � uma puta de uma cat�strofe ambulante.</p><p>� Conhe�o bem o Paulsson � disse Monica Sp�ngberg em tom �spero. � Mas ningu�m se queixou dele nesses... digamos, �ltimos dois anos.</p><p>� O prefeito de l� � uni velho conhecido do Paulsson e deve ter achado melhor mant�-lo por perto. A inten��o era boa, claro, n�o se trata de uma cr�tica. Mas, na noite passada, o Paulsson se comportou de um modo t�o estranho que v�rios colegas relataram o fato.</p><p>� O que ele fez?</p><p>Marcus Ackerman olhou de soslaio para Sonja Modig e Jerker Holmberg. Parecia sem gra�a de revelar as imperfei��es de sua organiza��o diante dos colegas de Estocolmo.</p><p>� O mais estranho, sem d�vida, foi ele destacar um agente do departamento t�cnico para fazer um invent�rio do galp�o de lenha onde o Zalachenko foi encontrado.</p><p>� Invent�rio do galp�o de lenha? � espantou-se Sp�ngberg.</p><p>� �... quer dizer... ele queria saber exatamente quantas toras de lenha tinha ali. Para fazer um relat�rio bem completo.</p><p>Fez-se um sil�ncio expressivo em volta da mesa de reuni�es, at� que Ackerman prosseguiu:</p><p>� Hoje de manh�, descobrimos que o Paulsson consome pelo menos dois psicotr�picos, o Xanor e o Efexor. Na verdade, era para ele estar de licen�a m�dica, mas escondeu seu estado dos colegas.</p><p>� Que estado? � perguntou Sp�ngberg, r�spida.</p><p>� E claro que n�o sei exatamente do que se trata � sigilo profissional dos m�dicos, sabe como � �, mas esses psicotr�picos que ele toma s�o um ansiol�tico fort�ssimo e um estimulante. Na noite passada, ele estava simplesmente dopado.</p><p>� Meu Deus � disse Sp�ngberg, enf�tica. Lembrava a tempestade que passara sobre G�teborg naquela manh�. � Quero o Paulsson aqui para uma conversa. Agora.</p><p>� Vai ser dif�cil. Ele desmoronou hoje de manh� e foi internado no hospital por estresse. Foi mesmo um azar para a gente ele estar de plant�o.</p><p>� Uma pergunta � disse o diretor da Brigada Criminal. � Quer dizer que na noite passada o Paulsson pediu o indiciamento de Mikael Blomkvist?</p><p>� Ele deixou um relat�rio em que registra desacato � autoridade, resist�ncia violenta a um funcion�rio e porte ilegal de arma.</p><p>� O Blomkvist admite alguma dessas coisas?</p><p>� Admite o desacato, mas afirma que foi em leg�tima defesa. Segundo ele, a resist�ncia consistiu numa tentativa verbal um pouco extremada de impedir que Torstensson e Andersson fossem prender o Niedermann sozinhos e sem refor�os.</p><p>� Alguma testemunha?</p><p>� S� os agentes Torstensson e Andersson. Permita-me dizer que n�o acredito em nada no relat�rio do Paulsson quando ele fala em resist�ncia violenta. Claramente se trata de uma forma de se proteger de eventuais queixas do Blomkvist.</p><p>� Mas ele, o Blomkvist, tinha conseguido dominar o Niedermann sozinho? � perguntou a procuradora Agneta Jervas.</p><p>� Ele o amea�ou com uma arma.</p><p>� Ent�o o Blomkvist tinha uma arma. Ou seja, o indiciamento de Blomkvist tem fundamento. Onde ele conseguiu a arma?</p><p>� O Blomkvist n�o quer falar sobre isso antes de consultar um advogado. Mas o Paulsson indiciou o Blomkvist quando ele tentava lhe entregar a arma.</p><p>� Posso fazer uma sugest�o informal? � perguntou cautelosamente Sonja Mondig.</p><p>Todos olharam para ela.</p><p>� Estive com o Mikael Blomkvist v�rias vezes durante a investiga��o, e acho que ele � um sujeito legal, apesar de ser jornalista. Suponho que a decis�o de indici�-lo ou n�o seja sua... � Ela fitou Agneta Jarvas, que assentiu a cabe�a. � Neste caso, essa hist�ria de desacato e resist�ncia � pura bobagem, e imagino que vai arquiv�-la imediatamente.</p><p>� E prov�vel. Mas porte ilegal de arma j� � coisa mais s�ria.</p><p>� Sugiro que espere um pouco antes de apertar o gatilho. O Blomkvist reconstituiu toda esta hist�ria, sozinho e est� muito � frente da pol�cia. Seria melhor mantermos boas rela��es com ele e cooperarmos. E mais vantajoso do que dar margem para ele detonar a pol�cia toda na m�dia.</p><p>Ela se calou. Passados alguns segundos, Marcus Ackerman pigarreou. Se Sonja Mondig podia empinar o nariz, ele n�o iria ficar para tr�s.</p><p>� Concordo. Tamb�m acho o Blomkvist um sujeito sensato. Apresentei nossas desculpas pelo modo como foi tratado na noite passada. Ele parece disposto a deixar por isso mesmo. Al�m do que, � um cara �ntegro. Descobriu o endere�o da Lisbeth Salander, mas se nega a nos fornecer. N�o tem medo de enfrentar uma discuss�o aberta com a pol�cia... e est� numa posi��o em que a voz dele vai ter tanto peso na m�dia quanto qualquer den�ncia do Paulsson.</p><p>� Mas e se ele se negar a dar informa��es sobre a Salander para a pol�cia?</p><p>� Diz ele que � s� a gente perguntar para a Lisbeth.</p><p>� Que tipo de arma era essa? � perguntou Jervas.</p><p>� Uma Colt 1991 Government. N�mero de s�rie desconhecido. Mandei para o laborat�rio, e ainda n�o sabemos se foi usada em algum contexto criminal na Su�cia. Se for o caso, vamos ter que reconsiderar.</p><p>Monica Sp�ngberg ergueu a caneta.</p><p>� Agneta, voc� decide se quer abrir um inqu�rito preliminar sobre o Blomkvist. Imagino que esteja esperando os resultados do Laborat�rio. Continuando... Esse sujeito, o Zalachenko... voc�s, de Estocolmo, o que podem nos dizer sobre ele?</p><p>� Acontece que at� ontem � tarde n�s tamb�m nunca t�nhamos ouvido falar nem em Zalachenko nem em Niedermann � respondeu Sonja Modig.</p><p>� Eu achava que em Estocolmo voc�s andavam atr�s de um grupo de l�sbicas sat�nicas � disse um dos policiais de G�teborg. Alguns homens esbo�aram um sorriso. Jerker Holmberg come�ou a examinar as pr�prias unhas. Sonja Modig que respondesse �quela pergunta.</p><p>� C� entre n�s, na Brigada a gente tamb�m tem um "Thomas Paulsson", e � a ele que a gente deve essa hist�ria de bando de l�sbicas sat�nicas.</p><p>E ent�o Sonja Modig e Jerker Holmberg passaram toda uma meia hora relatando suas investiga��es.</p><p>Quando conclu�ram, um longo sil�ncio se fez em volta da mesa.</p><p>�� Se essa informa��o sobre o Gunnar Bj�rck estiver certa, quem vai ficar com as orelhas ardendo � a Sapo � disse, por fim, o adjunto do diretor da Brigada Criminal.</p><p>Todos assentiram com a cabe�a. Agneta Jervas levantou a m�o.</p><p>� Se eu entendi bem, boa parte das suspeitas de voc�s est� fundada em suposi��es e presun��es. Como procuradora, fico um pouco preocupada com a falta de provas concretas.</p><p>� Temos consci�ncia disso � disse Jerker Holmberg. � Julgamos saber, de forma geral, o que aconteceu, mas ainda existem muitos pontos de interroga��o para resolver.</p><p>� Pelo que entendi, voc�s est�o cuidando das escava��es em Nykvarn, perto de S�dert�lje � disse Sp�ngberg. � Este caso envolve quantos homic�dios, afinal?</p><p>Jerker Holmberg pestanejou, cansado.</p><p>� Come�amos com tr�s assassinatos em Estocolmo � que s�o os assassinatos pelos quais a Lisbeth Salander estava sendo procurada, o do doutor Bjurman, o do jornalista Dag Svensson e o da doutoranda Mia Bergman. No armaz�m de Nykvarn, at� agora encontramos tr�s t�mulos. Em um deles foi identificado um receptador, bandido not�rio, cortado em peda�os. No outro, uma mulher n�o identificada. Ainda n�o tiveram tempo de abrir completamente o terceiro t�mulo. Parece mais antigo. Al�m disso, o Mikael Blomkvist descobriu uma liga��o com o assassinato de uma prostituta em S�dert�lje uns meses atr�s.</p><p>� Portanto, com o agente Gunnar Andersson, em Gosseberga, s�o pelo menos oito homic�dios... esse n�mero chega a causar arrepios. O tal Nieder-mann � suspeito de todos esses assassinatos? Isso significaria que se trata de um doido varrido, um assassino em s�rie.</p><empty-line/><p>Sonja Modig e Jerker Holmberg trocaram um olhar. Precisavam definir at� onde estavam preparados para avan�ar em suas declara��es. Por fim, Sonja Modig assumiu a palavra.</p><p>� Mesmo que nos faltem provas concretas, o meu chefe, o inspetor Bublanski, e eu mesma tendemos a acreditar em Mikael Blomkvist quando ele diz que os tr�s primeiros assassinatos s�o obra do Niedermann. Isso equivaleria � inoc�ncia da Salander. Quanto aos t�mulos de Nykvarn, o Niedermann est� ligado ao local pelo seq�estro da amiga da Salander, a Miriam Wu. Ela seria, evidentemente, a quarta v�tima da lista, e um t�mulo esperava por ela tamb�m. Mas o armaz�m em quest�o � propriedade do presidente do MC Svavelsj�, e vamos ter que esperar at� a identifica��o dos despojos para tirar conclus�es.</p><p>� E esse bandido que voc�s identificaram...</p><p>� Kenneth Gustafsson, quarenta e quatro anos, conhecido receptador e delinq�ente desde a adolesc�ncia. Assim, sem pensar muito, eu diria que se trata de um acerto de contas. O MC Svavelsj� est� ligado a v�rios tipos de criminalidade, inclusive distribui��o de metanfetaminas. Portanto, o local pode ser considerado um cemit�rio informal para pessoas que se indispunham com o MC Svavelsj�. Mas...</p><p>� Sim?</p><p>� A prostituta, essa foi morta em S�dert�lje... Seu nome era Irina Petrova e ela tinha vinte e dois anos.</p><p>� Certo.</p><p>� A aut�psia diz que ela foi v�tima de uma agress�o particularmente brutal. O mesmo tipo de ferimento que pode ser encontrado numa pessoa morta a golpes de taco de beisebol ou algum instrumento parecido. Os traumatismos foram dif�ceis de interpretar e o m�dico-legista n�o teve condi��es de afirmar qual foi, exatamente, o instrumento utilizado. O Blomkvist observou bem: os ferimentos de Irina Petrova poderiam perfeitamente ter sido causados por m�os...</p><p>� Niedermann?</p><p>� � uma suposi��o plaus�vel. Ainda faltam as provas.</p><p>� O que a gente faz agora? � perguntou Sp�ngberg.</p><p>� Tenho que ver com o Bublanski, mas pela l�gica o pr�ximo passo seria interrogar o Zalachenko. De nossa parte, estamos interessados no que ele tem a dizer sobre os homic�dios de Estocolmo, e voc�s querem pegar o Niedermann.</p><p>Um inspetor de G�teborg levantou o dedo.</p><p>� Tenho uma pergunta... o que encontraram na granja de Gosseberga?</p><p>� Pouca coisa. Quatro armas pequenas. Uma Sig Sauer desmontada, que estava sendo lubrificada, na mesa da cozinha. Uma Wanad P-83 polonesa no ch�o, do lado da banqueta. Uma Colt 1911 Government � essa � a pistola que o Blomkvist tentou entregar para o Paulsson. Por fim, uma Browning calibre 22, que no meio das outras mais parece um brinquedinho. A suspeita � que essa foi a arma usada contra a Salander, j� que ela continua viva mesmo depois de uma bala no c�rebro.</p><p>� E fora isso?</p><p>� Foi apreendida uma sacola contendo pouco mais de duzentas mil coroas. A sacola estava num quarto do andar de cima, ocupado pelo Niedermann.</p><p>� Como � que voc�s sabem que era o quarto dele?</p><p>� Bem, ele usa roupa GG. O Zalachenko, a rigor, usa M.</p><p>� Existe alguma coisa vinculando o Zalachenko a uma atividade criminosa? � perguntou Jerker Holmberg.</p><p>Ackerman balan�ou a cabe�a.</p><p>� Tudo depende de como vamos interpretar a apreens�o das armas. Mas fora as armas e o fato de o Zalachenko dispor de uma vigil�ncia eletr�nica bastante sofisticada para a sua resid�ncia, n�o encontramos nada que diferencie a granja de Gosseberga de qualquer outra casa no campo. Tem pouqu�ssimos m�veis.</p><p>Pouco antes do meio-dia, um policial fardado bateu � porta e entregou um papel para a adjunta do chefe de pol�cia, Monica Sp�ngberg. Ela levantou a m�o.</p><p>� Acabamos de receber um alerta sobre uma pessoa desaparecida em Alings�s. Uma assistente de odontologia de vinte e sete anos, Anita Kaspersson, saiu de sua casa �s sete e meia da manh�. Deixou o filho na creche e deveria ter chegado ao trabalho antes das oito. N�o chegou. Ela trabalha para um dentista cujo consult�rio fica a uns cem metros de onde foi encontrada a viatura roubada.</p><p>Ackerman e Sonja Modig consultaram simultaneamente o rel�gio.</p><p>� Quer dizer que ele tem quatro horas de vantagem. Qual � o carro dela?</p><p>� Um Renault velho azul-escuro. O n�mero da placa est� aqui.</p><p>� Emitam imediatamente um aviso de busca para o ve�culo. A essa altura, ele pode estar em qualquer lugar entre Oslo, Malm� e Estocolmo.</p><p>Trocaram mais algumas palavras e encerraram a reuni�o, depois de decidirem que Sonja Modig e Marcus Ackerman iriam, juntos, interrogar Zalachenko.</p><p>Henry Cortez franziu o cenho e seguiu Erika Berger com o olhar quando ela saiu de sua sala e foi para a copa. Ela voltou, segundos depois com uma caneca de caf�. Fechou a porta atr�s de si.</p><p>Henry Cortez n�o conseguia de fato atinar o que havia de errado. A Millennium era um local de trabalho pequeno, onde os funcion�rios acabavam ficando muito pr�ximos. Fazia quatro anos que ele trabalhava meio per�odo na revista e j� tinha vivenciado tempestades tremendas, principalmente na �poca em que Mikael Blomkvist cumprira tr�s meses de pris�o por difama��o e a revista por pouco n�o afundara. Ele tamb�m passara pelo assassinato do colaborador Dag Svensson e da companheira de Dag, Mia Bergman.</p><p>Durante todas aquelas tempestades, Erika Berger se mostrara uma fortaleza que nada, aparentemente, seria capaz de abalar. N�o o surpreendia que ela o tivesse chamado t�o cedo de manh�, e tamb�m Lottie Karim, pedindo que come�assem logo o trabalho. O caso Salander estava implodindo, e Mikael Blomkvist estava envolvido no assassinato de um policial em G�teborg. At� a�, tudo bem. Lottie Karim tinha ficado de plant�o na chefatura de pol�cia tentando obter alguma informa��o plaus�vel. Henry passara a manh� ao telefone procurando reconstituir os acontecimentos da noite anterior. O celular de Blomkvist n�o atendia, mas, atrav�s de v�rias outras fontes, Henry j� tinha um panorama bastante claro do que havia acontecido.</p><p>Em compensa��o, Erika Berger estivera com a cabe�a longe a manh� toda. Era raro ela fechar a porta de sua sala. Isso praticamente s� acontecia quando recebia alguma visita ou estava trabalhando de forma intensa em algum problema. Naquela manh�, n�o houvera nenhuma visita e ela n�o estava trabalhando. Henry tinha batido na porta da sala duas ou tr�s vezes para lhe passar informa��es e dera com ela na poltrona em frente � janela, imersa em pensamentos, fitando a multid�o l� embaixo na G�tgatan com um olhar ausente.</p><p>Algo n�o estava bem.</p><p>A campainha da porta interrompeu suas reflex�es. Ao abri-la, deparou com Annika Giannini. Henri Cortez j� cruzara com a irm� de Mikael Blomkvist v�rias vezes, mas n�o a conhecia muito bem.</p><p>� Bom dia, Annika � disse ele. � O Mikael hoje n�o est�.</p><p>� Eu sei. Eu vim falar com a Erika.</p><p>Em sua poltrona diante da janela, Erika Berger ergueu os olhos e se recomp�s rapidamente quando Henry introduziu Annika. As duas mulheres ficaram a s�s.</p><p>� Bom dia � disse Erika. � O Mikael hoje n�o est�. Annika sorriu. Mas j� tinha percebido o mal-estar.</p><p>� Sim, eu sei. Estou aqui por causa do relat�rio do Bj�rck para a Sapo. O Micke pediu que eu desse uma olhada nele, j� pensando na possibilidade de eu eventualmente vir a representar a Salander.</p><p>Erika assentiu com a cabe�a. Levantou-se e apanhou uma pasta em cima da mesa.</p><p>Annika pegou a pasta e hesitou um instante, prestes a sair. Ent�o mudou de id�ia e sentou-se diante de Erika.</p><p>� Bem, fora isso, qual � o problema?</p><p>� Estou saindo da Millennium. E ainda n�o consegui contar para o Mikael. Ele andou t�o envolvido neste caso da Salander que n�o achei o momento certo de tocar no assunto, e tamb�m n�o quero contar para os outros antes de contar para ele. Por isso � que estou me sentindo uma merda.</p><p>Annika Giannini mordeu o l�bio inferior.</p><p>� E ent�o, em vez disso, est� contando para mim. Qual � o seu projeto?</p><p>� Vou assumir a chefia de reda��o do Svenska Morgon-Posten.</p><p>� Puxa! Nesse caso, congratula��es s�o mais apropriadas do que choro e lamenta��es.</p><p>� S� que n�o era assim que eu tinha imaginado a minha sa�da da Millennium. No meio deste turbilh�o incr�vel. A coisa desabou como um raio em cima de mim, n�o tive como recusar. Quer dizer, � uma oportunidade �nica. Mas a proposta aconteceu um pouco antes de o Dag e a Mia serem assassinados, depois foi uma confus�o t�o grande aqui dentro que acabei n�o falando nada. Agora estou me sentindo tremendamente culpada, voc� n�o imagina o quanto.</p><p>� Imagino, sim. E voc� est� com medo de falar para o Micke.</p><p>� Eu n�o falei para ningu�m. Eu s� ia come�ar no SMP depois do ver�o, e achei que tinha bastante tempo para contar. Mas agora eles est�o querendo que eu assuma o quanto antes.</p><p>Calou-se e olhou para Annika. Estava a ponto de chorar.</p><p>� Concretamente, significa que esta � minha �ltima semana na Millennium. Semana que vem vou viajar e depois... Preciso de uma semana de f�rias para recarregar as baterias. Vou assumir no SMP em primeiro de maio.</p><p>� E como ia ser se voc� tivesse sido atropelada? Em menos de um minuto eles iam ficar sem redator-chefe.</p><p>Erika ergueu os olhos.</p><p>� S� que eu n�o fui atropelada. Ocultei conscientemente essa hist�ria semanas a fio.</p><p>� Entendo que seja uma situa��o dif�cil, mas tenho a impress�o que o Mikael, o Christer e os outros v�o saber enfrent�-la. Mesmo assim, acho que voc� deveria contar logo para eles.</p><p>� �, mas hoje o danado do seu irm�o est� em G�teborg. Est� dormindo e n�o atende o telefone.</p><p>� Eu sei. Pouca gente tem o talento do Mikael para n�o atender telefone. Por�m o assunto n�o � s� entre voc� e o Mikael. Eu sei que faz vinte anos que voc�s trabalham juntos, que j� andaram transando e tudo mais, mas voc� tem que pensar no Christer e no pessoal da reda��o.</p><p>� Mas o Mikael vai...</p><p>� O Mikael vai ter um treco. Claro. Mas se ele n�o puder aceitar que, depois de vinte anos, voc� sinta vontade de conduzir seu pr�prio barco, ent�o isso significa que ele n�o merece esse tempo todo que voc� gastou com ele.</p><p>Erika suspirou.</p><p>� Vamos l�, coragem. Pe�a que o Christer e os demais venham at� aqui. Agora.</p><p>Christer Malm permaneceu abalado por alguns segundos depois que Erika reuniu os colaboradores na salinha de reuni�es da Millennium. Ela ligara para o ramal de cada um deles bem no momento em que, por ser sexta-feira, ele se preparava para sair mais cedo. Ele trocou olhares com Henry Cortez e Lottie Karim, t�o surpresos quanto ele. Nem a assistente de reda��o, Malu Eriksson, parecia estar entendendo, tampouco a jornalista Monika Nilsson e o respons�vel pela publicidade, Sonny Magnusson. S� faltava Mikael Blomkvist, que estava em G�teborg.</p><p>Meu Deus. O Mikael n�o est� sabendo, pensou Christer Malm. Como ser� que ele vai reagir?</p><p>Ent�o ele percebeu que Erika Berger tinha terminado de falar e que um sil�ncio pesado tomava conta da sala. Balan�ou a cabe�a, levantou-se, deu um abra�o em Erika e tascou-lhe um beijo no rosto.</p><p>� Parab�ns, Ricky � disse ele. � Redatora-chefe do SMP. Uma bela ascens�o, para quem vem do nosso barquinho.</p><p>Henry Cortez acordou e deu in�cio a uma espont�nea salva de palmas. Erika ergueu as m�os.</p><p>� Alto l� � disse ela. � Hoje eu n�o estou merecendo nenhum aplauso.</p><p>Calou-se por um instante e observou seus colaboradores daquela pequena reda��o.</p><p>� Olha... estou super chateada com o rumo que as coisas foram tomando. Minha inten��o era contar para voc�s v�rias semanas atr�s, mas a coisa se perdeu no meio da cat�strofe que se seguiu aos assassinatos. O Mikael e a Malu trabalharam feito doidos e simplesmente n�o surgiu uma oportunidade. Por isso � que estamos nesta situa��o.</p><p>Com uma lucidez fant�stica, Malu Eriksson percebeu a que ponto a reda��o carecia de pessoal efetivo e a que ponto a sa�da de Erika iria deixar um vazio. Em qualquer circunst�ncia, e qualquer que fosse o caos da vez, ela sempre fora o rochedo em que Malu podia se segurar, sempre inabal�vel em meio � tempestade. Pois �... n�o era de admirar que o ilustre jornal matutino a tivesse contratado. Mas e agora? Como � que eles iam se virar? Erika sempre fora a pessoa-chave da Millennium.</p><p>� Temos algumas coisinhas para acertar. Entendo perfeitamente que a minha sa�da possa desnortear um pouco a reda��o. N�o era essa a minha inten��o, mas, enfim, aconteceu. Em primeiro lugar: n�o estou abandonando de vez a Millennium. Vou continuar sendo s�cia e participar das reuni�es do conselho administrativo. Por outro lado, � claro que n�o vou mais ter nenhuma influ�ncia no trabalho de reda��o; isso me causaria um conflito de interesses.</p><p>Christer Malm assentiu com a cabe�a, pensativo.</p><p>� Em segundo lugar: oficialmente, paro de trabalhar no dia 30 de abril. Mas, na verdade, hoje � o meu �ltimo dia. Como voc�s sabem, vou viajar na semana que vem, j� estava combinado havia tempo, e n�o faz sentido eu voltar ao comando s� para cumprir uns poucos dias de transi��o.</p><p>Calou-se por alguns instantes.</p><p>� O pr�ximo n�mero est� pronto no meu computador. S� falta acertar uns detalhezinhos. Vai ser meu �ltimo n�mero. Depois, algu�m vai ter que assumir o leme. No final da tarde vou limpar a minha mesa.</p><p>Houve um sil�ncio denso.</p><p>� O melhor seria o conselho administrativo decidir contratar um redator-chefe. Mas � um assunto que tamb�m deve ser discutido entre voc�s da reda��o.</p><p>� O Mikael � disse Christer Malm.</p><p>� N�o. O Mikael n�o. Ele seria, indiscutivelmente, o pior redator-chefe que voc�s poderiam escolher. Ele � perfeito como editor respons�vel e � sensacional para revisar e dar um jeito em textos problem�ticos que precisam ser publicados. Mas ele tamb�m trava o fluxo das coisas. Um redator-chefe deve ser algu�m que jogue na ofensiva. Al�m disso, o Mikael tem tend�ncia a mergulhar nas mat�rias dele e �s vezes fica ausente semanas a fio. Ele � �timo nos per�odos de tens�o, mas � um zero � esquerda no trabalho de rotina. Voc�s sabem disso.</p><p>Christer Malm assentiu com a cabe�a.</p><p>� Se a Millennium deu t�o certo at� agora, � porque voc� e o Mikael se completavam.</p><p>� N�o � s� isso. Lembrem de quando o Mikael ficou quase um ano enfurnado naquele povoado de Hedestad. A Millennium funcionou sem ele, e agora vai ter que funcionar sem mim.</p><p>� Certo. E qual � a sua id�ia?</p><p>� Eu escolheria voc� para redator-chefe, Christer...</p><p>� Nunca, jamais. � Christer Malm fez um gesto com as m�os, como querendo frear aquela id�ia.</p><p>� ... mas como eu j� sabia que voc� ia recusar, pensei numa outra solu��o. Malu. Voc� assume a partir de hoje como redatora-chefe tempor�ria.</p><p>� Eu?! � exclamou Malu.</p><p>� Isso mesmo, voc�. Voc� faz um supertrabalho como assistente de reda��o.</p><p>� Mas eu...</p><p>� Fa�a uma experi�ncia. Vou esvaziar a minha sala � tarde. Voc� pode se mudar para l� j� na segunda de manh�. A edi��o de maio est� praticamente pronta � uma tarefa a menos. Em junho, sai uma edi��o dupla e depois disso temos um m�s de f�rias. Se n�o der certo, a empresa vai ter que achar outra pessoa para agosto. Henry, voc� passa a trabalhar em tempo integral e substitui a Malu como assistente de reda��o. Mais tarde voc�s v�o ter que contratar mais um colaborador. Mas a decis�o � de voc�s e do conselho administrativo.</p><p>Ela se calou um instante e contemplou-os pensativamente.</p><p>� Mais uma coisa. Eu vou trabalhar numa outra publica��o. O SMP e a Millennium n�o s�o propriamente concorrentes, mas de qualquer modo significa que n�o quero saber mais do que j� sei sobre o conte�do do pr�ximo n�mero. A partir de agora, voc�s tratam desse assunto com a Malu.</p><p>� E o que a gente faz em rela��o ao caso Salander? � perguntou Henry Cortez.</p><p>� Voc� v� isso com o Mikael. Eu tenho informa��es sobre a Salander, mas vou p�r um lacre nessa hist�ria. N�o vou repassar para o SMP.</p><p>De repente, Erika sentiu um al�vio imenso.</p><p>� Bem, era isso � disse, encerrando a reuni�o. Ent�o se levantou e retornou � sua sala sem mais coment�rios.</p><p>A reda��o da Millennium permaneceu aturdida. Uma hora mais tarde, Malu Eriksson foi bater na porta da sala de Erika.</p><p>� Ol�.</p><p>� Sim? � disse Erika.</p><p>� O pessoal tem uma coisa para te dizer.</p><p>� O qu�?</p><p>� Voc� tem que ir at� l�.</p><p>Erika se levantou e acompanhou Malu. Na mesa, havia caf� e uma torta enorme.</p><p>� Pensei em dar um tempinho para a verdadeira festa de despedida � disse Christer Malm. � Por enquanto, vamos nos contentar com torta e caf�.</p><p>Pela primeira vez naquele dia, Erika Berger sorriu.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>3.� SEXTA-FEIRA 8 DE ABRIL � S�BADO 9 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Alexander Zalachenko estava acordado desde as oito da manh� quando Sonja Modig e Marcus Ackerman apareceram, por volta das sete da noite. Passara por uma cirurgia relativamente s�ria, envolvendo o ajuste e fixa��o do osso malar com parafusos de tit�nio. Tinha a cabe�a t�o enfaixada que apenas o olho esquerdo permanecia vis�vel. Um m�dico explicou-lhes que a machadada tinha quebrado o osso malar e machucado o frontal, rebentado boa parte da carne do lado direito do rosto e deslocado a �rbita ocular. Seus ferimentos eram extremamente dolorosos. Zalachenko estava tomando doses fortes de analg�sico, mas ainda assim se mantinha mais ou menos coerente e capaz de falar. A pol�cia, por�m, teria de ficar atenta para n�o cans�-lo.</p><p>� Boa noite, senhor Zalachenko � cumprimentou Sonja Modig. Ela se apresentou, e apresentou seu colega Ackerman.</p><p>� Meu nome � Karl Axel Bodin � disse Zalachenko com esfor�o, entre dentes cerrados. Sua voz estava calma.</p><p>� Sei muito bem quem � o senhor. Li o seu curr�culo na Sapo.</p><p>O que n�o era totalmente verdade, j� que a Sapo ainda n�o havia fornecido nenhum documento sobre Zalachenko.</p><p>� Isso foi h� muito tempo � disse Zalachenko. � Atualmente, eu sou Karl Axel Bodin.</p><p>� Como se sente? � prosseguiu Modig. � Est� em condi��es de conversar?</p><p>� Eu gostaria de dar queixa contra a minha filha. Ela tentou me matar.</p><p>� Estamos sabendo. Vai haver uma investiga��o sobre isso, no devido tempo � disse Ackerman. � No momento, temos assuntos mais urgentes para discutir.</p><p>� O que � mais urgente que uma tentativa de homic�dio?</p><p>� Quer�amos interrog�-lo a respeito de tr�s homic�dios em Estocolmo, no m�nimo tr�s homic�dios em Nykvarn, al�m de um seq�estro.</p><p>� Eu n�o sei de nada. Quem � que morreu?</p><p>� Senhor Bodin, temos bons motivos para acreditar que o seu s�cio, Ronald Niedermann, trinta e sete anos, � o culpado desses crimes � disse Ackerman. � Al�m disso, na noite passada, o Niedermann matou um policial de Trollh�ttan,</p><p>Sonja Modig ficou um tanto surpresa que Ackerman se rendesse � vontade de Zalachenko e o chamasse de Bodin. Zalachenko virou um pouco a cabe�a, de modo a enxergar Ackerman. Sua voz se suavizou.</p><p>� Eu... lamento. N�o sei das atividades do Niedermann. Quanto a mim, n�o matei nenhum policial. Em compensa��o, tentaram me matar na noite passada.</p><p>� O Ronald Niedermann est� sendo procurado. Tem uma id�ia de onde ele pode estar escondido?</p><p>� N�o sei que c�rculos ele freq�enta. Eu... � Zalachenko hesitou alguns segundos. Sua voz assumiu um tom confidencial. �Tenho que admitir... c� entre n�s... que o Niedermann chegou a me preocupar algumas vezes.</p><p>Ackerman inclinou-se um pouco na sua dire��o.</p><p>� Como assim?</p><p>� Descobri que ele podia ser violento. E, tenho medo dele.</p><p>� Quer dizer que o senhor se sentia amea�ado pelo Niedermann? � perguntou Ackerman.</p><p>� Exato. J� sou um homem de idade. N�o posso me defender.</p><p>� O senhor poderia nos explicar qual a sua rela��o com o Niedermann?</p><p>� Eu sou deficiente f�sico. � Zalachenko mostrou o p�. � Esta � a segunda vez que a minha filha tenta me matar. Anos atr�s, contratei o Niedermann como ajudante. Achei que ele poderia me proteger..., mas, na verdade, ele se apossou da minha vida. Ele faz o que quer e a minha opini�o n�o importa.</p><p>� E ele o ajuda no qu�? � interrompeu Sonja Modig. � A fazer o que o senhor n�o consegue fazer sozinho?</p><p>Zalachenko fitou demoradamente Sonja Modig com seu �nico olho vis�vel.</p><p>� Pelo que entendi, ela jogou uma bomba incendiaria dentro do seu carro h� mais de dez anos � disse Sonja Modig. � Poderia me explicar o que a levou a cometer esse ato?</p><p>� Melhor perguntar para a minha filha. Ela � uma doente mental. Sua voz estava mais uma vez hostil.</p><p>� Quer dizer que o senhor n�o v� nenhum motivo para Lisbeth Salander t�-lo atacado em 1991?</p><p>� Minha filha � uma doente mental. Existem documentos comprovando isso.</p><p>Sonja Modig inclinou a cabe�a. Observou que Zalachenko respondia de modo muito mais agressivo e negativo quando era ela quem fazia as perguntas. Percebeu que Ackerman tamb�m tinha notado. Certo... o bom tira, o mau tira. Sonja Modig levantou a voz.</p><p>� O senhor n�o acha que esse gesto dela podia estar relacionado com o fato de o senhor maltratar a m�e dela a ponto de ela ter ficado com les�es cerebrais irrevers�veis?</p><p>Zalachenko fitou calmamente Sonja Modig.</p><p>� Isso � besteira. A m�e dela era uma puta. Vai ver, algum cliente deu uma surra nela. Eu s� estava passando por ali.</p><p>Sonja Modig ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Quer dizer que o senhor � totalmente inocente?</p><p>� Mas � claro.</p><p>� Zalachenko... vamos ver se eu entendi direito. O senhor nega, ent�o, ter maltratado sua namorada daquela �poca, Agneta Sofia Salander, m�e de Lisbeth Salander, embora o assunto merecesse um extenso relat�rio secreto do seu mentor na Sapo, Gunnar Bj�rck.</p><p>� Eu nunca fui condenado pelo que quer que seja. N�o fui sequer indiciado. N�o tenho culpa dos del�rios de um palha�o da pol�cia secreta. Se tivessem suspeitado de mim, teriam no m�nimo me interrogado.</p><p>Sonja Modig estava at�nita. Zalachenko parecia sorrir por tr�s das ataduras.</p><p>� Portanto eu queria dar um depoimento sobre a minha filha. Ela tentou me matar.</p><p>Sonja Modig suspirou.</p><p>� Estou come�ando a entender por que a Lisbeth Salander achou necess�rio enfiar um machado na sua cara.</p><p>Ackerman pigarreou.</p><p>� Desculpe, senhor Bodin... A gente talvez pudesse voltar ao que o senhor sabe sobre as atividades do Ronald Niedermann.</p><p>Sonja Modig ligou para o inspetor Jan Bublanski do corredor do hospital, em frente ao quarto de Zalachenko.</p><p>� Nada � disse ela.</p><p>� Nada? � repetiu Bublanski.</p><p>� Ele registrou uma queixa contra a Lisbeth Salander, por golpes e ferimentos agravados e tentativa de assassinato. Declara que n�o tem nada a ver com os homic�dios de Estocolmo.</p><p>� E como � que ele explica a Lisbeth Salander ter sido enterrada no terreno dele em Gosseberga?</p><p>� Diz ele que estava resfriado e dormiu praticamente o dia inteiro. Que se algu�m atirou na Salander em Gosseberga, deve ter sido o Ronald Niedermann.</p><p>� Certo. O que � que n�s temos?</p><p>� Ela foi baleada por uma Browning calibre 22. Por isso ainda est� viva. Encontramos a arma. O Zalachenko admite que � dele.</p><p>� Ah�. Ent�o ele sabe que vamos descobrir as digitais dele na arma.</p><p>� Sabe. Mas ele diz que a �ltima vez que a viu ela estava guardada na gaveta da escrivaninha.</p><p>� Portanto, o maravilhoso Ronald Niedermann � quem deve ter apanhado a arma enquanto o Zalachenko dormia e atirado na Salander. Temos como provar o contr�rio?</p><p>Sonja Modig refletiu alguns segundos antes de responder.</p><p>� Ele deve conhecer a legisla��o sueca e os m�todos da pol�cia. N�o admite nadica de nada e tem o Niedermann como bode expiat�rio. N�o sei o que a gente vai poder provar. Pedi que o Ackerman mandasse a roupa dele para o laborat�rio, para descobrir se existem vest�gios de p�lvora, mas ele com toda a certeza vai alegar que andou treinando tiro justamente com essa arma dois dias antes.</p><p>Lisbeth Salander sentiu um cheiro de am�ndoas e etanol. Era como se estivesse com �lcool na boca. Tentou engolir, mas era como se a l�ngua estivesse entorpecida e paralisada. Tentou abrir os olhos, em v�o. Ouviu uma voz ao longe que parecia estar falando com ela, por�m n�o foi capaz de captar as palavras. De repente, a voz se tornou clara e precisa.</p><p>� Acho que ela est� acordando.</p><p>Sentiu algu�m tocando em sua testa e tentou afastar a m�o importuna. Nisso, uma dor fulgurante transpassou-lhe o ombro esquerdo. Ela relaxou.</p><p>� Est� me ouvindo? Cai fora.</p><p>� Consegue abrir os olhos? Quem � esse babaca me perturbando?</p><p>Por fim, abriu os olhos. De in�cio s� enxergava estranhos pontos luminosos, mas logo uma silhueta desenhou-se em seu campo de vis�o. Tentou focalizar o olhar, por�m a silhueta sumia o tempo todo. Sua impress�o era de estar com uma ressaca monumental e de que a cama n�o parava de jogar para tr�s.</p><p>� Grmlml � fez ela.</p><p>� O que voc� disse?</p><p>� Abaca � disse ela.</p><p>� Est� bem. D� para abrir os olhos mais uma vez?</p><p>Ela exibiu duas frestas estreitas. Avistou um rosto desconhecido e memorizou cada detalhe. Um homem loiro de olhos azuis intensos e um rosto anguloso e obl�quo, a poucas dezenas de cent�metros do seu.</p><p>� Ol�. Meu nome � Anders Jonasson. Eu sou m�dico. Voc� est� num hospital. Foi gravemente ferida e est� acordando depois de uma cirurgia. Voc� sabe como se chama?</p><p>� Pschalandr � disse Lisbeth Salander.</p><p>� Certo. Eu queria que voc� fizesse um favor para mim. Conte at� dez.</p><p>� Um, dois, quatro... n�o... tr�s, quatro, cinco, seis... E ent�o caiu no sono.</p><p>O Dr. Anders Jonasson, no entanto, estava satisfeito com a rea��o que observara. Ela dissera o pr�prio nome e tinha come�ado a contar. Isso mostrava que seu intelecto estava mais ou menos intacto e que seu estado ao acordar n�o fora o de um vegetal. Anotou a hora em que ela acordou, 21h06, pouco mais de dezesseis horas depois de ele terminar a cirurgia. Quanto a ele, dormira boa parte do dia e voltara ao Sahlgrenska l� pelas sete da noite. Na verdade, era seu dia de folga, mas estava com uma montanha de pap�is para p�r em dia.</p><p>E n�o tinha resistido a dar uma passada na UTI para ver a paciente em cujo c�rebro ele remexera de madrugada.</p><p>� Ela pode continuar dormindo, mas fiquem de olho no eletroencefalograma. Pode ocorrer algum edema ou hemorragia cerebral. Tive a impress�o de que ela estava com muita dor no ombro quando tentou mexer o bra�o. Se ela acordar, pode dar dois miligramas de morfina de hora em hora.</p><p>Sentiu-se estranhamente otimista enquanto sa�a pela entrada principal do Sahlgrenska.</p><p>Pouco antes das duas da manh�, Lisbeth Salander acordou de novo. Abriu os olhos lentamente e avistou um cone luminoso no teto. Passados v�rios minutos, virou a cabe�a e se deu conta de que estava com um colete ortop�dico. A cabe�a do�a e sentiu uma ferroada aguda no ombro quando tentou deslocar o peso do corpo. Fechou os olhos.</p><p>Hospital. Como � que eu vim parar aqui?</p><p>Sentia-se absolutamente esgotada.</p><p>De in�cio, sentiu dificuldade para focalizar os pensamentos. Ent�o, algumas lembran�as esparsas foram voltando aos poucos.</p><p>Por alguns segundos entrou em p�nico quando brotaram uns fragmentos de mem�ria � viu a si mesma cavando para sair de dentro de um t�mulo. Ent�o cerrou os dentes com for�a e se concentrou na respira��o.</p><p>Constatou que estava viva. N�o sabia se isso, na verdade, era uma boa ou uma m� not�cia.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander n�o se lembrava direito do que havia acontecido, mas tinha na cabe�a um mosaico desfocado de imagens do galp�o de lenha. Via a si mesma erguendo um machado e acertando no rosto de seu pai. Zalachenko. N�o sabia se ele estava vivo ou morto.</p><p>N�o conseguia se lembrar do que acontecera com Niedermann. Tinha a vaga impress�o de haver se espantado ao v�-lo dar no p� a toda velocidade e de n�o ter entendido por qu�.</p><p>De repente, se lembrou de ter visto o danado do Super-Blomkvist. Talvez fosse s� um sonho, mas se lembrava de uma cozinha � provavelmente a cozinha de Gosseberga � e tinha a impress�o de que ele viera em sua dire��o. Deve ter sido alucina��o.</p><p>Os acontecimentos de Gosseberga pareciam muito distantes ou ent�o n�o passavam de um sonho demente. Concentrou-se no atual momento.</p><p>Estava ferida. Isso ningu�m precisava lhe dizer. Ergueu a m�o direita e apalpou a cabe�a, inteiramente coberta de ataduras. Ent�o se lembrou. Niedermann. Zalachenko. O velho cretino tamb�m estava com uma pistola. Uma Browning calibre 22, que, se comparada com outras armas, era tida como relativamente inofensiva. S� por isso ela ainda estava viva.</p><p>Fui atingida na cabe�a. Eu at� consegui enfiar o dedo no orif�cio que a bala fez ao entrar e toquei no meu c�rebro.</p><p>Surpreendeu-se de ainda estar viva. Percebeu que se sentia estranhamente alheia, que na verdade para ela tanto fazia. Se a morte era aquele vazio escuro do qual acabava de emergir, ent�o a morte n�o era nada preocupante. Nunca iria perceber a diferen�a.</p><p>Com essa reflex�o esot�rica, fechou os olhos e voltou a adormecer.</p><p>Cochilara apenas uns minutos quando escutou um movimento e entreabriu as p�lpebras. Viu uma enfermeira vestida de branco debru�ando-se sobre ela. Fechou os olhos e fingiu que estava dormindo.</p><p>� Acho que voc� est� acordada � disse a enfermeira.</p><p>� Hmm � fez Lisbeth Salander.</p><p>� Ol�, meu nome � Marianne. Voc� entende o que eu falo? Lisbeth tentou assentir com a cabe�a, mas se deu conta de que sua nuca estava imobilizada pelo colete ortop�dico.</p><p>� N�o, n�o tente se mexer. N�o precisa ter medo. Voc� foi ferida e passou por uma cirurgia.</p><p>� Quero �gua.</p><p>Marianne lhe deu �gua para beber com um canudinho. Enquanto bebia, notou outra pessoa aparecendo � sua esquerda.</p><p>� Ol�, Lisbeth. Est� me ouvindo?</p><p>� Mmm � respondeu Lisbeth.</p><p>� Sou a doutora Helena Endrin. Voc� sabe onde est�?</p><p>� Hospital.</p><p>� Voc� est� no Hospital Sahlgrenska, em G�teborg. Acaba de ser operada e se encontra na UTI.</p><p>� Hum.</p><p>� N�o se assuste.</p><p>� Fui baleada na cabe�a.</p><p>A Dra. Endrin hesitou por um instante.</p><p>� Isso mesmo. Voc� se lembra do que aconteceu?</p><p>� O velho cretino estava com uma pistola.</p><p>� H�... sim, foi isso.</p><p>� Calibre 22.</p><p>� Ah, �? Eu n�o sabia.</p><p>� Estou muito machucada?</p><p>� O progn�stico � bom. Voc� esteve muito mal, mas achamos que tem boas chances de se recuperar completamente.</p><p>Lisbeth ponderou a informa��o. Ent�o fixou o olhar na Dra. Endrin. Notou que via tudo fora de foco.</p><p>� O que aconteceu com o Zalachenko?</p><p>� Quem?</p><p>� O velho cretino. Est� vivo?</p><p>� Voc� quer dizer Karl Axel Bodin.</p><p>� N�o. Quero dizer Alexander Zalachenko. E o verdadeiro nome dele.</p><p>� N�o estou sabendo. Mas o idoso que deu entrada junto com voc� est� em estado grave, por�m fora de perigo.</p><p>O cora��o de Lisbeth bateu com menos for�a. Ficou pensando nas palavras da m�dica.</p><p>� Onde ele est�?</p><p>� No quarto ao lado. Mas n�o se preocupe com ele agora. O que voc� precisa fazer � se concentrar na sua recupera��o.</p><p>Lisbeth fechou os olhos. Por um momento, perguntou-se se teria for�as para sair da cama, encontrar alguma coisa que pudesse servir de arma e acabar o que tinha come�ado. Ent�o afastou esses pensamentos. Mal conseguia manter os olhos abertos. Ou seja, havia fracassado em seu prop�sito de matar Zalachenko. Ele vai me escapar mais uma vez.</p><p>� Eu queria examin�-la um pouco. Depois voc� pode dormir de novo � disse a Dra. Endrin.</p><p>Mikael Blomkvist acordou de repente, sem saber por qu�. Levou alguns segundos para se dar conta de onde estava, ent�o se lembrou que tinha se hospedado num quarto do City Hotel. O quarto estava totalmente �s escuras. Ele acendeu a luz de cabeceira e olhou as horas. Duas e meia da manh�. Tinha dormido quinze horas direto.</p><p>Levantou-se e foi ao banheiro urinar. Depois, refletiu um momento. Sabia que n�o conseguiria dormir de novo e foi para o chuveiro. Em seguida, enfiou uma cal�a jeans e um moletom cor de vinho que precisava urgentemente passar por uma m�quina de lavar. Estava com uma fome de le�o e ligou para a recep��o perguntando se era poss�vel conseguir caf� e sandu�ches �quela hora. Era.</p><p>P�s os mocassins e o casaco, desceu at� a recep��o para comprar caf� e um sandu�che pronto, e voltou em seguida para o quarto. Enquanto comia o p�o com pat� de f�gado e salada, ligou o iBook e se conectou � rede. Abriu a edi��o on-line do Aftonbladet. Como era de se prever, a principal manchete falava da pris�o de Lisbeth Salander. Embora extremamente confusa, a mat�ria da primeira p�gina agora estava na dire��o certa. Ronald Niedermann, trinta e sete anos, era procurado pelo assassinato do policial, e a pol�cia tamb�m queria ouvi-lo sobre os homic�dios de Estocolmo. A pol�cia ainda n�o se pronunciara sobre o estado de Lisbeth Salander nem citava o nome Zalachenko. Este �ltimo era descrito como um propriet�rio rural de sessenta e seis anos, residente em Gosseberga; aparentemente, a m�dia ainda o tratava como uma poss�vel v�tima.</p><p>Quando, ao terminar a leitura, Mikael pegou seu celular, viu que tinha vinte mensagens. Tr�s pedindo que ele ligasse para Erika Berger. Duas eram de Annika Giannini. Catorze tinham sido deixadas por jornalistas de diversos ve�culos. Uma das mensagens de texto, bastante incisiva, era de Christer Malm: Seria bom voc� voltar no primeiro trem.</p><p>Mikael franziu o cenho. Vinda de Christer Malm, era uma mensagem estranha. Fora enviada �s sete da noite do dia anterior. Resistiu ao impulso de ligar e acordar algu�m �s tr�s da manh�. Em vez disso, verificou o hor�rio de trens na internet e viu que o primeiro para Estocolmo sa�a �s 5h20.</p><p>Abriu um novo arquivo Word. Ent�o acendeu um cigarro e ficou uns tr�s minutos parado, fitando a tela branca. Por fim, levantou os dedos e se p�s a escrever.</p><p>[Seu nome � Lisbeth Salander e a Su�cia aprendeu a conhec�-la atrav�s das entrevistas coletivas da pol�cia e das manchetes dos jornais vespertinos. Tem vinte e sete anos e um metro e cinq�enta de altura. Foi descrita como uma psicopata, uma assassina e uma l�sbica sat�nica. N�o houve limites para as elucubra��es tecidas �s suas custas. Neste n�mero, a Millennium relata a hist�ria de Lisbeth Salander, v�tima das maquina��es de funcion�rios do Estado com o intuito de acobertar um assassino patol�gico.]</p><p>Escreveu devagar e pouco corrigiu daquele primeiro jorro. Trabalhou concentrado por cinq�enta minutos e nesse espa�o de tempo preencheu duas p�ginas A4 basicamente dedicadas � recapitula��o da noite em que encontrara os corpos de Dag Svensson e Mia Bergman e � explica��o para o fato de a pol�cia ter apontado Lisbeth Salander como a poss�vel assassina. Citava as manchetes dos jornais vespertinos que evocaram l�sbicas sat�nicas e esperavam assassinatos tingidos de um saboroso sadomasoquismo.</p><p>Por fim, consultou o rel�gio e fechou rapidamente o iBook. Arrumou sua sacola e desceu at� a recep��o. Pagou com o cart�o de cr�dito e tomou um t�xi para a esta��o central de G�teborg.</p><p>Mikael Blomkvist dirigiu-se imediatamente ao vag�o-restaurante e pediu um caf� da manh�. Em seguida, tornou a ligar o iBook e releu o texto que tivera tempo de escrever naquelas primeiras horas do dia. Estava a tal ponto imerso na concep��o da hist�ria de Zalachenko que s� percebeu a presen�a da inspetora Sonja Modig quando ela pigarreou e perguntou se podia juntar-se a ele. Mikael ergueu os olhos e fechou o computador.</p><p>� Est� voltando para casa? � perguntou Modig. Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Voc� tamb�m, imagino. Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� O meu colega vai ficar mais um dia.</p><p>� Alguma not�cia sobre o estado da Lisbeth Salander? Eu s� fiz dormir desde que nos separamos.</p><p>� Ela s� acordou ontem � noite. Mas os m�dicos calculam que ela vai sair dessa e se recuperar. Teve uma sorte incr�vel.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. De repente se deu conta de que n�o tinha se preocupado com ela. Partira do princ�pio de que ela iria sobreviver. Qualquer outra hip�tese era inimagin�vel.</p><p>� Alguma novidade? � perguntou.</p><p>Sonja Modig hesitou enquanto olhava para ele. Perguntava-se at� que ponto podia confiar no jornalista, que na verdade sabia mais do que ela sobre aquela hist�ria. Por outro lado, ela � que se convidara para sentar � mesa dele, e uma centena de jornalistas decerto j� tinha entendido o que estava acontecendo na chefatura de pol�cia.</p><p>� Prefiro que n�o mencione o meu nome � disse ela.</p><p>� Perguntei por interesse puramente pessoal.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a e explicou que a pol�cia estava procurando Ronald Niedermann em todo o territ�rio nacional, mas principalmente na regi�o de Malm�.</p><p>� E o Zalachenko? Voc�s o interrogaram?</p><p>� Interrogamos.</p><p>� E?</p><p>� Isso eu n�o posso dizer.</p><p>� Deixa disso, Sonja. Eu vou descobrir tudo o que voc�s conversaram uma hora depois de chegar � reda��o em Estocolmo. E n�o vou escrever nenhuma palavra do que voc� me disser.</p><p>Ela hesitou um bocado antes de cruzar o olhar com o dele.</p><p>� Ele registrou uma queixa contra a Lisbeth Salander de que ela teria tentado mat�-lo. Ela talvez seja indiciada por golpes e ferimentos agravados mais tentativa de homic�dio.</p><p>� E ela, muito provavelmente, vai alegar leg�tima defesa.</p><p>� � o que eu espero � disse Sonja Modig. Mikael lan�ou-lhe um olhar brusco.</p><p>� Essa n�o � uma observa��o que se espere de um policial � ele disse, em tom neutro.</p><p>� O Bodin... o Zalachenko, ele � escorregadio e tem resposta para todas as perguntas. Estou absolutamente convencida de que tudo que voc� nos contou ontem, de modo geral, � verdade. Isso significa que a Salander foi v�tima de abusos judiciais seguidos desde os doze anos.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Essa � a hist�ria que eu vou publicar � disse.</p><p>� E que n�o vai ser bem recebida em alguns c�rculos. Ela hesitou mais um instante. Mikael esperou.</p><p>� Falei com o Bublanski h� meia hora. Ele n�o disse muito, mas o inqu�rito preliminar sobre a Salander em rela��o aos seus amigos parece ter sido abandonado. Eles agora est�o se concentrando no Niedermann.</p><p>� Isso quer dizer...</p><p>Ele deixou a pergunta suspensa entre eles. Sonja Modig deu de ombros.</p><p>� Quem vai ficar encarregado da investiga��o sobre a Salander?</p><p>� N�o sei. O pessoal de G�teborg provavelmente tenha prioridade no caso Gosseberga. Mas eu diria que � para algu�m de Estocolmo que vai ficar a tarefa de reunir todo o material para um indiciamento.</p><p>� Entendo. Voc� quer apostar como a investiga��o vai ser transferida para a Sapo?</p><p>Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>Pouco antes de chegar a Alings�s, Mikael inclinou-se para ela.</p><p>� Sonja... imagino que voc� esteja percebendo o que nos espera. Caso a hist�ria do Zalachenko se torne p�blica, vai ser um enorme esc�ndalo. Membros da Sapo armaram com um psiquiatra para internar a Salander num asilo de doidos. A �nica sa�da para eles � fincar p� na vers�o de que Lisbeth Salander � de fato uma doente mental e que a interna��o compuls�ria de 1991 se justificava.</p><p>Sonja Modig aquiesceu.</p><p>� Vou fazer de tudo para p�r areia num plano desse tipo. Quer dizer, a Lisbeth Salander � t�o equilibrada como eu ou voc�. Tudo bem, ela � esquisita, mas n�o se pode p�r em d�vida a capacidade intelectual dela.</p><p>Sonja Modig assentiu com a cabe�a. Mikael fez uma pausa, dando tempo para que suas palavras fossem assimiladas.</p><p>� Eu precisaria de algu�m de confian�a l� dentro � disse ele. Ela o encarou.</p><p>� N�o tenho compet�ncia para determinar se a Lisbeth Salander � psiquicamente perturbada � ela respondeu.</p><p>� N�o, mas tem compet�ncia para avaliar se ela est� sendo, ou n�o, v�tima de abuso judicial.</p><p>� O que voc� sugere?</p><p>� N�o vou pedir que voc� denuncie seus colegas, mas que me avise se perceber que est�o tramando para expor a Salander a mais um abuso judicial.</p><p>Sonja Modig permaneceu calada.</p><p>� N�o quero que voc� me revele nenhum detalhe t�cnico da investiga��o. Isso voc� � quem decide. Mas preciso saber em que p� est� a a��o judicial contra a Salander.</p><p>� Parece um �timo jeito de ser mandada embora.</p><p>� Voc� � uma fonte. N�o vou te citar nem te botar numa encrenca. Pegou um caderninho e anotou um endere�o de e-mail.</p><p>� Este � um endere�o an�nimo no hotmail. Voc� pode usar, caso queira me dizer alguma coisa. De prefer�ncia, n�o use seu endere�o habitual, o que todo mundo conhece. Crie um endere�o tempor�rio no hotmail.</p><p>Ela apanhou o peda�o de papel e o enfiou no bolso interno do casaco. N�o prometeu nada.</p><p>�s sete da manh� de s�bado, o inspetor Marcus Ackerman foi acordado pelo toque do telefone. Ouviu vozes na televis�o e sentiu cheiro de caf� na cozinha, onde sua mulher j� estava em atividade. Chegara � sua casa em M�lndal � uma da manh� e dormira cinco horas. Antes disso, atuara a todo vapor por exatamente vinte e duas horas. Estava longe, portanto, de ter preenchido sua cota de sono quando se esticou para atender o telefone.</p><p>� Oi, � o Lundqvist, do servi�o de investiga��es, plant�o noturno. Est� acordado?</p><p>� N�o � respondeu Ackerman. � Mal tive tempo de pegar no sono. O que foi?</p><p>� Novidades. Encontraram Anita Kaspersson.</p><p>� Onde?</p><p>� Perto de Seglora, ao sul de Bor�s. Ackerman visualizou o mapa mentalmente.</p><p>� Dire��o sul � disse. � Ele est� passando por estradas secund�rias. Deve ter pegado a nacional 180 via Bor�s, e depois virou para o sul. Malm� j� foi avisada?</p><p>� Sim, e tamb�m Helsingborg, Landskrona e Trelleborg. E Karlskrona. Estou pensando nas balsas do mar B�ltico.</p><p>Ackerman se levantou e esfregou a nuca.</p><p>� Ele est� com quase vinte e quatro horas de dianteira. De repente, at� j� deixou o pa�s. Como � que encontraram a Kaspersson?</p><p>� Ela bateu � porta de uma casa na entrada de Seglora.</p><p>� O qu�?</p><p>� Ela bateu...</p><p>� Eu escutei. Quer dizer que ela est� viva?</p><p>� Desculpe. Estou cansado e devo estar me expressando meio mal. Anita Kaspersson conseguiu chegar a Seglora �s 3hl0. Ela acordou e assustou uma fam�lia com crian�as pequenas ao bater na porta da casa. Estava descal�a, com uma hipotermia avan�ada e as m�os atadas nas costas. Nesse momento est� no hospital de Bor�s, e o marido j� est� l� com ela.</p><p>� Veja s�. Acho que ningu�m aqui acreditava que ela ainda estivesse viva.</p><p>� �s vezes acontece uma surpresa.</p><p>� E das boas, ainda por cima.</p><p>� Ent�o j� posso te dar as m�s not�cias. A adjunta do chefe de pol�cia, a senhora Sp�ngberg, est� aqui desde as cinco da manh�. Ela pediu que voc� acordasse imediatamente e fosse at� Bor�s pegar o depoimento da Kaspersson.</p><p>Como era s�bado de manh�, Mikael imaginou que a reda��o da Millennium estivesse deserta. Ligou para Christer Malm enquanto o X2000 atravessava a ponte de Arsta e perguntou o que havia por tr�s da sua mensagem de texto.</p><p>� Voc� j� tomou caf� da manh�? � perguntou Christer Malm.</p><p>� Tomei, no trem.</p><p>� Certo. Venha at� a minha casa, vou te oferecer algo mais consistente.</p><p>� O que est� havendo?</p><p>� Eu conto quando voc� chegar.</p><p>Mikael pegou o metr� at� a Medborgarplatsen, e de l� foi a p� at� a Allhelgonagatan. O companheiro de Christer, Arnold Magnusson, foi quem abriu a porta. Por mais que tentasse evitar, sempre que o via Mikael tinha a sensa��o de estar diante de uma publicidade. Arnold Magnusson passara pelo Teatro Dramaten e era um dos atores mais requisitados da Su�cia. Estar diante dele era sempre perturbador. Em geral, Mikael n�o se impressionava com celebridades, mas Arnold Magnusson tinha uma apar�ncia de fato singular e estava t�o associado a alguns pap�is do cinema e da tev�, principalmente o de Gunnar Frisk, delegado mal-humorado de uma s�rie de televis�o muito popular, que Mikael sempre esperava que ele se comportasse exatamente como Gunnar Frisk.</p><p>� Oi, Micke � disse Arnold.</p><p>� Oi � respondeu Mikael.</p><p>� Ele est� na cozinha � disse Arnold, dando-lhe passagem. Christer Malm serviu filhos quentes com gel�ia de amora amarela e caf�.</p><p>Mikael j� estava com �gua na boca antes mesmo de se sentar, por isso atacou o prato. Christer Malm quis saber o que tinha acontecido em Gosseberga, e Mikael recapitulou tudo com detalhes. Estava no terceiro filho quando perguntou o que estava rolando.</p><p>� Tivemos um probleminha na Millennium quando voc� estava em G�teborg � disse ele.</p><p>Mikael ergueu as sobrancelhas.</p><p>� O que foi?</p><p>� Nada s�rio. S� que a Erika Berger virou redatora-chefe do Svenska Moron-Posten. Ontem foi o �ltimo dia dela na Millennium.</p><p>Mikael ficou paralisado, com um filho na m�o a vinte cent�metros da boca. Levou v�rios segundos para assimilar o real significado da informa��o.</p><p>� Por que ela n�o disse nada antes? � perguntou, afinal.</p><p>� Porque ela queria primeiro falar com voc�, e voc� tem corrido de l� para c� h� v�rias semanas e ningu�m conseguia te contatar. Ela deve ter achado que voc� j� tinha problemas suficientes com essa hist�ria da Salander. E como queria que voc� fosse o primeiro � saber, tamb�m n�o contou nada pra gente, e os dias foram se passando... E isso. De repente, ela se viu com um puta sentimento de culpa e estava super deprimida. E a gente simplesmente nem percebeu.</p><p>Mikael fechou os olhos.</p><p>� Merda � disse ele.</p><p>� Eu sei. No fim, voc� foi o �ltimo da reda��o a ficar sabendo. Fiz quest�o de te contar para poder explicar como as coisas aconteceram e para voc� n�o pensar que agimos pelas suas costas.</p><p>� Nem me ocorreu uma coisa dessas. Mas puxa vida! E muito legal para ela ter conseguido esse emprego, isso se ela estiver mesmo a fim de trabalhar no SMP... E n�s? Como � que a gente vai descascar esse abacaxi na reda��o?</p><p>� A Malu foi nomeada redatora-chefe tempor�ria, e ela come�a na pr�xima edi��o.</p><p>� A Malu?</p><p>� Se voc� n�o quiser ser o redator-chefe...</p><p>� Nem pensar!</p><p>� Foi o que eu imaginei. Logo, a Malu assume o cargo.</p><p>� E quem vai ser o assistente de reda��o?</p><p>� O Henry Cortez. Faz quatro anos que ele trabalha conosco e j� n�o � exatamente um estagi�rio balbuciante.</p><p>Mikael avaliou todas as sugest�es.</p><p>� Posso dar uma opini�o? � perguntou.</p><p>� N�o � disse Christer Malm.</p><p>� Certo. Vai ser como voc�s decidiram. A Malu n�o � de se assustar, mas � meio insegura. O Henry atira a esmo em tudo que se movimenta um pouco al�m da conta. Vamos ter que ficar de olho neles.</p><p>� Isso.</p><p>Mikael se calou. Pensou no vazio que Erika iria deixar; ele n�o fazia id�ia de como seria a revista dali para a frente.</p><p>� Preciso ligar para a Erika e...</p><p>� N�o � uma boa id�ia.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Ela est� dormindo na reda��o. O melhor seria ir at� l� acord�-la.</p><p>Mikael encontrou Erika Berger na reda��o, profundamente adormecida no sof�-cama de sua sala. Tinha passado a noite tirando objetos pessoais das prateleiras e gavetas e separando os pap�is que queria levar. Enchera cinco caixas de mudan�a. Mikael ficou um bom tempo contemplando-a da porta antes de entrar e sentar-se na beira do sof� para acord�-la.</p><p>� Voc� pode me explicar por que, quando quer passar a noite trabalhando, n�o vai dormir na minha casa, que � aqui pertinho? � perguntou ele.</p><p>� Oi, Mikael � disse ela.</p><p>� O Christer j� me contou.</p><p>Ela come�ou a falar alguma coisa, mas ele se inclinou e deu-lhe um beijo no rosto.</p><p>� Voc� est� chateado?</p><p>� Super chateado � ele disse, seco.</p><p>� Sinto muito. Eu simplesmente n�o podia recusar essa proposta. Mas n�o me parece certo, tenho a sensa��o de estar deixando voc�s numa encrenca daquelas aqui na Millennium.</p><p>� N�o acho que eu seja a pessoa certa para criticar voc� por abandonar o navio. H� dois anos, fui embora e te deixei numa encrenca bem pior do que esta de agora.</p><p>� S�o situa��es muito diferentes. Voc� estava dando um tempo. J� eu estou me demitindo pra valer e n�o contei a voc�s. Sinto muito, de verdade.</p><p>Mikael ficou um instante em sil�ncio. Ent�o exibiu um sorriso p�lido.</p><p>� Quando chega a hora, � porque � a hora. Quando uma mulher recebe uma miss�o, ela tem que cumpri-la. �s suas ordens, meu coronel!</p><p>Erika sorriu. Era mais ou menos o que ela tinha dito a ele quando Mikael fora morar em Hedeby. Ele estendeu a m�o e despenteou-lhe carinhosamente o cabelo.</p><p>� Entendo que voc� n�o queira mais trabalhar nesta empresa de malucos, mas voc� querer virar chefe no jornal dos velhos babacas mais med�ocres da Su�cia, isso eu ainda vou levar um tempo para digerir.</p><p>� Tem um bocado de mulheres trabalhando l�.</p><p>� Que nada! D� uma olhada no editorial. Velharia, s� velharia. Voc� por acaso � masoquista? Vamos tomar um caf�?</p><p>Erika se sentou.</p><p>� Voc� precisa me contar o que aconteceu em G�teborg na outra noite.</p><p>� Estou escrevendo a mat�ria � disse Mikael. � E vai ser uma guerra depois que a gente publicar.</p><p>� A gente, n�o. Quando voc�s publicarem.</p><p>� Eu sei. Vamos publicar na mesma �poca do julgamento. Mas imagino que voc� n�o v� levar o assunto para o SMP. A verdade � que eu queria que voc� escrevesse alguma coisa sobre o caso Zalachenko antes de sair da Millennium.</p><p>� Micke, eu...</p><p>� O seu �ltimo editorial. Voc� pode escrever quando quiser. N�o deve ser publicado antes do julgamento, e s� Deus sabe quando isso vai ser.</p><p>� Talvez n�o seja uma boa id�ia. Sobre o que seria esse editorial?</p><p>� Sobre a moral � disse Mikael Blomkvist. � E sobre o fato de um dos nossos colaboradores ter sido assassinado porque o Estado n�o cumpriu seu papel h� quinze anos.�� �</p><p>Nem era preciso explicar mais nada. Erika Berger sabia muito bem que tipo de editorial ele queria. Refletiu r�pido. Afinal, ela estava no comando no dia em que Dag Svensson tinha sido assassinado. De repente, sentiu-se muito melhor.</p><p>� Est� bem � disse. � Meu �ltimo editorial.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>4.� S�BADO 9 DE ABRIL - DOMINGO 10 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>� uma da tarde de s�bado, a procuradora Martina Fransson, de S�dertalje, conclu�ra suas reflex�es. O cemit�rio natural na floresta de Nykvarn era uma encrenca bem feia e a �rea criminal j� somara uma quantidade incr�vel de horas extras desde a quarta-feira, quando Paolo Roberto travara sua luta de boxe contra Ronald Niedermann no armaz�m. Estavam diante do homic�dio de pelo menos tr�s pessoas, cujos corpos haviam sido enterrados no terreno, um seq�estro com uso de viol�ncia seguido de golpes e ferimentos agravados contra Miriam Wu, amiga de Lisbeth Salander, e por fim um inc�ndio criminoso. Tamb�m tinham que associar Nykvarn ao incidente de Stallarholmen, que n�o se situava no mesmo distrito policial, mas do qual Carl-Magnus Lundin, do MC Svavelsj�, era figura-chave. No momento, Lundin estava no hospital de S�dert�lje com um p� engessado e uma placa de metal no maxilar. De qualquer forma, todos esses crimes estavam sob a autoridade da pol�cia local, o que significava que Estocolmo � que daria a palavra final.</p><p>Na sexta-feira, haviam deliberado acerca da expedi��o das ordens de pris�o. Lundin estava ligado a Nykvarn, isso era certo. Com algum atraso, conseguiram estabelecer que o armaz�m era propriedade de uma certa Anneli Karlsson, de cinq�enta e dois anos, residente em Puerto Banus, na Espanha.</p><empty-line/><p>Era prima de Magge Lundin, n�o tinha ficha na pol�cia e, nesse contexto, parecia cumprir, sobretudo, o papel de testa de ferro.</p><p>Martina Fransson fechou a pasta do inqu�rito preliminar. A instru��o estava em seu est�gio inicial e ainda seria alimentada com v�rias centenas de p�ginas antes de resultar num processo. Mas Martina Fransson precisava desde j� tomar uma decis�o sobre alguns pontos. Olhou para seus colegas policiais.</p><p>� Temos material suficiente para abrir uma a��o judicial contra Lundin por cumplicidade no seq�estro de Miriam Wu. Paolo Roberto o identificou como o motorista do furg�o. Tamb�m vou det�-lo por prov�vel cumplicidade no inc�ndio criminoso. Sobre as acusa��es de cumplicidade no homic�dio das tr�s pessoas desenterradas no terreno, vamos esperar pelo menos at� todas serem identificadas.</p><p>Os policiais assentiram com a cabe�a. N�o esperavam outra coisa.</p><p>� E quanto ao Benny Nieminen, a gente faz o qu�?</p><p>Martina Fransson folheou os documentos sobre sua mesa at� encontrar o do Nieminen.</p><p>� Esse senhor tem um curr�culo impressionante. Roubo a m�o armada, posse ilegal de arma, agress�es de todo tipo, homic�dio e infra��es ligadas a drogas. E desse modo ele foi preso em Stallarholmen, junto com Lundin. Estou convencida de que ele est� envolvido nisso tudo � o contr�rio seria surpreendente. O problema � que n�o temos nada contra ele.</p><p>� Ele afirma que nunca esteve no armaz�m de Nykvarn, que s� estava dando uma volta de moto com o Lundin � disse o inspetor criminal de S�dert�lje encarregado de Stallarholmen. � Diz que desconhecia totalmente o que o Lundin ia fazer em Stallarholmen.</p><p>Martina Fransson se perguntou se n�o haveria um jeito de repassar o caso para o procurador Richard Ekstr�m, de Estocolmo.</p><p>� Nieminen se recusa a contar o que aconteceu, mas nega veementemente ser c�mplice de um crime � prosseguiu o inspetor criminal.</p><p>� �, daqui a pouco n�s vamos achar que ele e o Lundin � que s�o as v�timas de Stallarholmen � disse Martina Fransson tamborilando com os dedos, irritada. � Lisbeth Salander � acrescentou, deixando transparecer uma d�vida na voz. � Estamos falando de uma jovem que aparenta ter mal e mal passado da puberdade, mede um metro e cinq�enta e certamente n�o possui for�a f�sica para dominar Nieminen e Lundin.</p><p>� A menos que estivesse armada. Com uma pistola, ela pode compensar as desvantagens do f�sico de passarinho que tem.</p><p>� Mas isso n�o bate totalmente com a reconstitui��o.</p><p>� N�o. Ela usou g�s lacrimog�neo e deu uns pontap�s no meio das pernas e no rosto do Lundin com tamanha f�ria que rebentou um test�culo dele e quebrou seu maxilar. A bala no p� deve ter sido disparada depois. Mas custo a acreditar que ela � que estivesse armada.</p><p>� O laborat�rio identificou a arma que acertou o Lundin. Trata-se de uma Wanad P-83 polonesa, com muni��o Makarov. Foi encontrada em Gosseberga, pr�ximo a G�teborg, e traz as impress�es digitais da Salander. � bem poss�vel que ela tenha levado a pistola para Gosseberga.</p><p>� Sim. Mas o n�mero de s�rie mostra que ela foi roubada h� quatro anos durante o assalto ao dep�sito de armas de Orebro. O ladr�o acabou sendo preso, mas j� tinha se livrado das armas. Era um talento ali da regi�o, com problemas de drogas e que atuava em c�rculos pr�ximos ao MC Svavelsj�. Estou tendendo a achar que a pistola era do Lundin ou do Nieminen.</p><p>� Pode ser simplesmente que o Lundin estivesse com a pistola, a Salander tentou pegar a arma e ela disparou sozinha, atingindo o p� dele. Seja como for, n�o houve inten��o de matar, j� que ele continua vivo.</p><p>� Ou ent�o ela atirou no p� por puro sadismo. Sei l�! Mas como � que ela conseguiu dar conta do Nieminen? Ele n�o tem nenhum machucado aparente.</p><p>� Tem, sim, uma coisinha. Duas queimaduras pequenas no peito.</p><p>� E?</p><p>� Parece marca de cassetete el�trico.</p><p>� Quer dizer que a Salander estaria armada com um cassetete el�trico, g�s lacrimog�neo e uma pistola. Quanto pesa tudo isso? N�o, acho que foi o Lundin ou o Nieminen que trouxe a arma e ela conseguiu desarm�-los. S� vamos saber exatamente como o Lundin levou o tiro quando um dos protagonistas resolver falar.</p><p>� Certo.</p><p>� A situa��o � a seguinte: Lundin est� cumprindo pris�o tempor�ria pelas acusa��es que j� mencionei. Em compensa��o, n�o temos absolutamente nada contra o Nieminen. Vou ser obrigada a solt�-lo hoje � tarde.</p><p>Benny Nieminen estava com um humor detest�vel quando saiu da cela da carceragem da chefatura de pol�cia de Estocolmo. Estava tamb�m com sede, a ponto de parar imediatamente numa tabacaria para comprar uma Pepsi, que ele entornou num gole s�. Comprou tamb�m um ma�o de Lucky Strike e um pacote de rape. Pegou o celular, conferiu o estado da bateria e em seguida digitou o n�mero de Hans-Ake Waltari, trinta e tr�s anos e n�mero tr�s na hierarquia do MC Svavelsj�. Ouviu o telefone tocar quatro vezes antes de Waltari atender.</p><p>� Nieminen. Estou fora.</p><p>� Parab�ns.</p><p>� Onde voc� est�?</p><p>� Em Nyk�ping.</p><p>� Fazendo o que em Nyk�ping?</p><p>� Quando voc� e o Magge foram presos, a gente achou melhor se encolher um pouco at� ter uma id�ia melhor da situa��o.</p><p>� Agora voc� j� sabe qual �. Onde est� todo mundo?</p><p>Hans-Ake Waltari explicou onde estavam os outros cinco membros do MC Svavelsj�. A explica��o n�o bastou para acalmar ou contentar Benny Nieminen.</p><p>� E quem est� tocando o barco enquanto voc�s ficam escondidos que nem mulherzinha?</p><p>� N�o � justo. Voc� e o Magge somem para fazer um servi�o, a gente nem desconfia do que se trata, e de repente voc�s est�o envolvidos num tiroteio com essa piranha que est� com a pol�cia sueca toda atr�s dela, o Magge leva um tiro e voc� vai para o xadrez. E, para completar, os tiras est�o desenterrando uns presuntos no armaz�m de Nykvarn.</p><p>� Sim, e da�?</p><p>� Da� que a gente come�ou a se perguntar se voc� e o Magge n�o estavam escondendo alguma coisa.</p><p>� Escondendo o qu�? N�o � a gente que consegue os neg�cios para o grupo?</p><p>� Mas eu nunca ouvi dizer que o armaz�m tamb�m era um cemit�rio escondido no meio do mato. Quem s�o esses presuntos?</p><p>Benny Nieminen estava com uma resposta cortante na ponta da l�ngua, mas se conteve. Hans-Ake Waltari era um perfeito idiota, por�m a situa��o n�o era das mais prop�cias para come�ar uma briga. Tinham que agir depressa para consolidar as for�as. Depois de passar por cinco interrogat�rios em que negara absolutamente tudo, seria pouco esperto de sua parte sair clamando num celular, a duzentos metros da delegacia, que ele estava, afinal, por dentro do caso.</p><p>� Sei l� � disse. � N�o d� bola para esses presuntos. Mas o Magge est� encrencado. Vai ficar um bom tempo preso, e na aus�ncia dele quem manda sou eu.</p><p>� Tudo bem. E quais s�o os pr�ximos passos? � perguntou Waltari.</p><p>� Se voc�s todos est�o escondidos, quem est� vigiando o local?</p><p>� O Danny Karlsson ficou por l� para controlar as posi��es. A pol�cia fez uma blitz no dia que voc�s foram presos. N�o acharam nada.</p><p>� O Danny K.! � exclamou Nieminen. � Mas o Danny K. � um novatozinho de merda, um fedelho ranhento!</p><p>� Fica frio. Ele est� com o loirinho, sabe, o cara que voc� e o Magge �s vezes levam com voc�s.</p><p>Benny Nieminen gelou de repente. Deu uma r�pida olhada ao redor e se afastou alguns metros da porta da tabacaria.</p><p>� O que foi que voc� disse? � perguntou em voz baixa.</p><p>� Sabe aquele loiro idiota que voc� e o Magge encontram de vez em quando? Ele apareceu pedindo ajuda para achar um esconderijo.</p><p>� Puta que pariu, Waltari, ele est� sendo procurado no pa�s inteiro pelo assassinato de um tira.</p><p>� E... por isso ele precisava de um esconderijo. O que a gente podia fazer? E um brother seu e do Magge.</p><p>Benny Nieminen fechou os olhos por uns dez segundos. Ronald Niedermann tinha passado muitos servi�os e dado lucros enormes ao MC Svavelsj� por v�rios anos. Mas n�o era um amigo, de jeito nenhum. Era um canalha perigoso e um psicopata, e ainda por cima um psicopata procurado a ferro e fogo pela pol�cia. Benny Nieminen n�o confiaria um segundo sequer em Ronald Niedermann. O melhor seria que ele fosse encontrado com uma bala na cabe�a. No m�nimo, daria uma acalmada no �nimo dos tiras.</p><p>� E o que voc�s fizeram com ele?</p><p>� O Danny K. est� cuidando disso. Levou ele at� o Viktor.</p><p>Viktor G�ransson era o tesoureiro e contador do clube, morava para os lados de J�rna. G�ransson tinha um diploma profissionalizante em economia e come�ara a carreira como consultor financeiro de um iugoslavo que reinava em alguns cabar�s, at� o bando todo ser preso por sonega��o fiscal. Conheceu Magge Lundin na pris�o de Kumla, no in�cio dos anos 1990. Era o �nico do MC Svavelsj� que sempre andava de terno e gravata.</p><p>� Waltari, voc� pega o caixa e vem se encontrar comigo em S�dert�lje. Me procure em frente � esta��o ferrovi�ria do sub�rbio daqui a quarenta e cinco minutos.</p><p>� T� bom, t� bom. Por que tanta pressa?</p><p>� Porque eu tenho que assumir o controle da situa��o o quanto antes.</p><p>Hans-Ake Waltari observava disfar�adamente Benny Nieminen, que mantinha um sil�ncio emburrado enquanto rodavam para Svavelsj�. Ao contr�rio de Magge Lundin, Nieminen n�o era uma pessoa simp�tica. Era bonito e parecia doce, mas na verdade tinha pavio curto e sabia ser um bocado perigoso, principalmente depois de tomar umas e outras. No momento estava s�brio, mas Waltari estava um pouco preocupado com a id�ia de que Nieminen ia assumir o comando. Magge sempre soubera, de um jeito ou de outro, acalmar o jogo de Nieminen. Perguntava-se o que viria pela frente com Nieminen como presidente tempor�rio do clube.</p><p>Danny K. n�o se encontrava no local. Nieminen tentou ligar duas vezes para o celular dele, mas n�o obteve resposta.</p><p>Foram para a casa de Nieminen, a um bom quil�metro do clube. Tamb�m l� a pol�cia realizara uma busca, mas n�o achara nada que servisse para a investiga��o sobre Nykvam. Sem nada do que ser acusado, Nieminen estava livre.</p><p>Tomou um banho e trocou de roupa enquanto Waltari esperava pacientemente na cozinha. Depois, caminharam cento e cinq�enta metros pelo mato atr�s da casa de Nieminen e destaparam um ba� superficialmente enterrado ali que continha seis armas, incluindo um AK-5, uma boa quantidade de muni��o e dois quilos de explosivos. Era o estoquezinho particular de Nieminen. Duas armas do ba� eram Wanad P-83 polonesas. Pertenciam ao mesmo lote da pistola que Lisbeth Salander surrupiara de Nieminen em Stallarholmen.</p><p>Nieminen afastou Lisbeth Salander da mente. Aquele era um assunto delicado. Na cela da carceragem, em Estocolmo, repassara com freq��ncia a cena em que ele e Magge Lundin chegavam � casa de campo de Nils Bjurman e deparavam com Salander no p�tio.</p><p>A seq��ncia dos acontecimentos fora absolutamente inesperada. Ele e Magge Lundin tinham ido l� p�r fogo na casa por ordem daquele maldito gigante loiro. E toparam com a piranha da Lisbeth Salander � sozinha, um metro e meio e um palito de magra. Nieminen se perguntava quanto ela pesava. De repente, as coisas tinham desandado numa orgia de viol�ncia para a qual nenhum dos dois estava preparado.</p><p>De um ponto de vista meramente t�cnico, ele conseguia entender a seq��ncia. Salander tinha esvaziado um cartucho de g�s lacrimog�neo na cara de Magge Lundin. Magge deveria ter esperado por isso, mas n�o foi o caso. Ela ent�o lhe desfechara dois pontap�s, e para quebrar um maxilar n�o � preciso ter muita for�a muscular. Ela o pegara de surpresa. Dava para entender.</p><p>Mas a� ela atacara a ele, Benny Nieminen, o homem que os caras sarados pensavam duas vezes antes de provocar. Ela se movia com uma rapidez incr�vel. Ele tivera dificuldades para pegar a arma. Ela o esmagara com a humilhante facilidade de quem est� simplesmente enxotando um mosquito com a m�o. Tinha um cassetete el�trico. Tinha...</p><p>Quando acordou, n�o se lembrava de quase nada, Magge Lundin levara uma bala no p� e a pol�cia estava a caminho. Depois de alguma discuss�o entre a pol�cia de St�ngn�s e a de S�dert�lje, fora parar na cadeia de S�dert�lje. E a pilantra ainda havia roubado a Harley Davidson do Magge Lundin. Tinha recortado, na jaqueta dele, o logo do MC Svavelsj� � o mesmo s�mbolo que, nos botecos, fazia as pessoas se afastarem e conferia um prest�gio que o sueco comum n�o podia entender. Ela o humilhara.</p><p>De repente, Benny Nieminen come�ou a ferver por dentro. Permanecera calado durante os interrogat�rios. Jamais poderia contar o que tinha acontecido em Stallarholmen. At� ent�o, Lisbeth Salander n�o significava absolutamente nada para ele. Era s� um projetinho secund�rio de que Magge Lundin estava tratando � a pedido, mais uma vez, do maldito Niedermann.</p><empty-line/><p>Mas agora nutria por ela um �dio apaixonado que o surpreendia. Ele em geral era frio e l�cido, ao passo que agora s� pensava em ter, qualquer dia, a oportunidade de se vingar e apagar a vergonha. Mas primeiro precisava p�r ordem no caos em que a Salander e o Niedermann, juntos, tinham lan�ado o MC Svavelsj�.</p><p>Nieminen pegou duas pistolas polonesas que ainda estavam no ba�, carregou-as e entregou uma para Waltari.</p><p>� Voc� tem algum plano?</p><p>� Vamos ter uma conversinha com o tal Niedermann. Ele n�o � dos nossos e nunca foi preso. N�o sei como vai reagir se for pego, mas se ele abrir a boca pode acabar com a gente. �amos todos em cana rapidinho.</p><p>� Quer dizer que a gente vai...</p><p>Nieminen j� tinha decidido eliminar Niedermann, mas percebeu que n�o era hora de assustar Waltari.</p><p>� N�o sei. Vamos ver qual � a dele. Se ele tiver um plano e puder se mandar logo para fora do pa�s, a gente pode dar uma m�ozinha. Mas enquanto ele estiver correndo o risco de ser preso, vai representar uma amea�a para a gente.</p><p>O s�tio de Viktor G�ransson, pr�ximo de J�rna, estava �s escuras quando, ao entardecer, Nieminen e Waltari entraram no p�tio. Isso em si j� parecia um mau sinal. Ficaram esperando algum tempo no carro.</p><p>� Talvez eles tenham sa�do � sugeriu Waltari.</p><p>� Tudo a ver. Eles podem ter ido at� o boteco tomar um trago com o Niedermann � disse Nieminen, abrindo a porta do carro.</p><p>A porta da casa n�o estava trancada. Nieminen acendeu a luz. Passaram por todos os c�modos. Estava tudo limpo e arrumado, provavelmente gra�as � mulher com quem o G�ransson vivia.</p><p>Deram com G�ransson e sua companheira no por�o, jogados na lavanderia.</p><p>Nieminen se inclinou e observou os cad�veres. Estendeu o dedo e encostou na mulher, cujo nome n�o lembrava. Estava gelada e r�gida. Isso significava que podiam estar mortos havia umas vinte e quatro horas.</p><p>Nieminen n�o precisava do parecer de um m�dico-legista para saber como eles tinham morrido. O pesco�o da mulher havia se partido quando a cabe�a dela foi girada cento e oitenta graus. Vestia jeans e camiseta e n�o aparentava nenhum outro ferimento.</p><p>J� Viktor G�ransson estava apenas de cueca. Fora seriamente espancado e seu corpo estava coberto de ferimentos e hematomas. Os dois bra�os tinham sido quebrados e apontavam em v�rias dire��es, feito galhos tortos de pinheiro. Sofrer� maus-tratos prolongados que s� podiam ser qualificados como tortura. At� onde Nieminen podia avaliar, fora enfim morto com um forte golpe na garganta. A laringe estava afundada no pesco�o.</p><p>Benny Nieminen se levantou, subiu a escada do por�o e saiu da casa. Waltari foi atr�s dele. Nieminen atravessou o p�tio e seguiu at� a granja a cinq�enta metros dali. Soltou a tranca e abriu a porta.</p><p>Deparou com um Renault azul-escuro.</p><p>� Qual � o carro do G�ransson? � perguntou.</p><p>� Ele anda com um Saab.</p><p>Nieminen assentiu com a cabe�a. Tirou as chaves do bolso e abriu uma porta no fundo da granja. Uma olhada r�pida lhe informou que chegara tarde demais. Um arm�rio pesado onde se guardavam as armas estava aberto de par em par.</p><p>Nieminen fez uma careta.</p><p>� Pouco mais de oitocentas mil coroas � disse.</p><p>� O qu�?</p><p>� Pouco mais de oitocentas mil coroas � o que o MC Svavelsj� tinha neste arm�rio. A nossa grana.</p><p>Tr�s pessoas sabiam onde o MC Svavelsj� guardava o dinheiro a ser investido ou lavado. Viktor G�ransson, Magge Lundin e Benny Nieminen. Niedermann estava fugindo. Precisava de dinheiro vivo. Sabia que G�ransson era quem cuidava do financeiro.</p><p>Nieminen fechou a porta e saiu sem pressa da granja. Raciocinava febrilmente, tentando formar um panorama do desastre. Uma parte dos recursos do MC Svavelsj� estava investida em t�tulos a que ele poderia ter acesso e outra parte poderia ser reconstitu�da com o aux�lio de Magge Lundin. Mas uma boa parte dos investimentos s� estava registrada na cabe�a de G�ransson, a menos que ele tivesse passado instru��es claras para Magge Lundin. Nieminen duvidava muit�ssimo disso � Magge nunca fora um g�nio da economia. Por cima, Nieminen avaliou que com a morte de G�ransson o MC Svavelsj� podia ter perdido at� sessenta por cento de seu capital. Um golpe tremendo. Era sobretudo dinheiro vivo de que precisavam para as despesas di�rias.</p><p>� O que a gente faz agora? � perguntou Waltari.</p><p>� Agora a gente informa a pol�cia sobre o que aconteceu.</p><p>� Informar a pol�cia?</p><p>� Claro, porra. As minhas digitais est�o por toda a casa. S� quero que eles encontrem o G�ransson e a mulher o quanto antes e o legista possa determinar que eles foram mortos quando eu ainda estava detido.</p><p>� Entendo.</p><p>� Melhor assim. Descubra onde est� o Danny K. Quero falar com ele. Quer dizer, se ele ainda estiver vivo. Depois disso, vamos atr�s do Ronald Niedermann. A ordem, para os nossos contatos em todos os clubes da Escandin�via, � abrir o olho. Quero a cabe�a desse calhorda. Ele provavelmente est� usando o Saab do G�ransson. Descubra o n�mero da placa.</p><p>Quando Lisbeth Salander acordou, �s duas da tarde de s�bado, estava sendo examinada por um m�dico.</p><p>� Boa tarde � disse ele. � Meu nome � Sven Svantesson, sou m�dico. Est� sentindo alguma dor?</p><p>� Sim � disse Lisbeth Salander.</p><p>� Daqui a pouco vamos te dar um analg�sico. Mas primeiro eu queria olhar voc�.</p><p>Ele apertou e apalpou seu corpo machucado. Antes de ele terminar, Lisbeth j� estava claramente irritada, mas sentia-se exausta demais para come�ar sua temporada no Sahlgrenska com uma discuss�o, por isso optou por ficar quieta.</p><p>� Como � que eu estou? � perguntou.</p><p>� Acho que voc� vai ficar bem � disse o m�dico, que fez algumas anota��es antes de se levantar.</p><p>N�o era uma resposta das mais brilhantes.</p><p>Depois que ele saiu, apareceu uma enfermeira que ajudou Lisbeth com a comadre. Em seguida, ela p�de voltar a dormir.</p><empty-line/><p>Alexander Zalachenko, ali�s, Karl Axel Bodin, ingeria um almo�o constitu�do de alimentos l�quidos. Qualquer movimento, mesmo m�nimo, dos m�sculos faciais lhe causava dores fort�ssimas no maxilar e no osso malar, e mastigar n�o era sequer cogit�vel.</p><p>Por�m, mesmo a dor sendo tremenda, ele sabia administr�-la. Zalachenko estava acostumado com a dor. Nada se comparava �quela que experimentara semanas e meses a fio quinze anos antes, depois de arder feito uma tocha dentro do carro junto a uma cal�ada da Lundagatan. O tratamento n�o passara de uma intermin�vel maratona de dor.</p><p>Os m�dicos o julgavam fora de perigo, mas dada a gravidade de seus ferimentos e por causa de sua idade, permaneceria na uri por mais alguns dias.</p><p>Naquele s�bado, ele recebeu quatro visitas.</p><p>Por volta das dez da manh�, o inspetor Ackerman tornou a aparecer. Dessa vez, tinha deixado aquela babaquinha da Sonja Modig em casa e vinha acompanhado do inspetor Jerker Holmberg, claramente mais simp�tico. Fizeram mais ou menos as mesmas perguntas que tinham feito na noite anterior sobre Ronald Niedermann. Ele estava com a sua vers�o bem ensaiada e n�o cometeu nenhum erro. Quando come�aram a bombarde�-lo com perguntas sobre sua eventual participa��o no tr�fico de mulheres e em outras atividades criminosas, ele mais uma vez negou saber qualquer coisa sobre o assunto. Vivia da sua pens�o de invalidez e n�o sabia do que estavam falando. Jogou tudo nas costas de Ronald Niedermann e se ofereceu para colaborar no que fosse poss�vel para localizar o assassino do policial.</p><p>Infelizmente, na pr�tica ele n�o tinha muito como ajudar. Desconhecia os c�rculos que Niedermann freq�entava e n�o fazia id�ia de a quem ele poderia pedir ref�gio.</p><p>Por volta das onze horas, recebeu a breve visita de um representante do Minist�rio P�blico, que lhe comunicou formalmente que ele era suspeito de cumplicidade em golpes e ferimentos agravados, e mesmo tentativa de homic�dio, contra Lisbeth Salander. Zalachenko respondeu pacientemente, explicando que a v�tima era ele e que, na verdade, Lisbeth Salander � quem tentara mat�-lo. O sujeito do Minist�rio P�blico lhe ofereceu ajuda jur�dica na forma de um advogado de of�cio. Zalachenko disse que ia pensar.</p><empty-line/><p>Isso ele n�o tinha a menor inten��o de fazer. J� possu�a um advogado e sua primeira medida, naquela manh�, fora ligar para ele pedindo que viesse o quanto antes. De modo que Martin Thomasson foi seu terceiro visitante. Entrou, com um ar descontra�do, passou a m�o na cabeleira loira, ajeitou os �culos e apertou a m�o de seu cliente. Era um falso magro e um verdadeiro sedutor. E certo que pairava sobre ele a suspeita de ter pertencido � m�fia iugoslava, caso que ainda estava sendo investigado, mas tamb�m tinha a reputa��o de ganhar seus processos.</p><p>Um contato de neg�cios encaminhara Zalachenko para Thomasson cinco anos antes, quando precisara redistribuir um capital relacionado com uma pequena empresa de investimentos que ele possu�a no Liechtenstein. N�o eram quantias fabulosas, mas Thomasson atuara com m�os de mestre e Zalachenko deixara de pagar as taxas obrigat�rias. Depois disso, recorrera a ele em outras ocasi�es. Thomasson compreendia que o dinheiro provinha de uma atividade criminosa, o que n�o parecia perturb�-lo. Por fim, Zalachenko decidira fundir todas as suas atividades numa nova empresa, pertencente a ele pr�prio e a Niedermann. Tinha procurado Thomasson e o convidara a participar como terceiro s�cio oculto, encarregado de tudo que se relacionasse ao financeiro. Thomasson aceitara sem pensar duas vezes.</p><p>� E ent�o, senhor Bodin, isso tudo n�o est� me parecendo l� muito agrad�vel.</p><p>� Fui v�tima de golpes e ferimentos agravados e tentativa de assassinato � disse Zalachenko.</p><p>� E o que estou vendo. Uma tal Lisbeth Salander, se entendi direito. Zalachenko baixou a voz.</p><p>� O nosso parceiro Niedermann se meteu numa encrenca daquelas, como voc� deve ter percebido.</p><p>� Foi o que entendi.</p><p>� A pol�cia suspeita que eu esteja envolvido nessa hist�ria...</p><p>� O que obviamente n�o � o caso. Voc� � uma v�tima, e � importante plantar depressa essa id�ia nos meios de comunica��o. A senhorita Salander j� teve um bocado de publicidade negativa... Vou cuidar disso.</p><p>� Obrigado.</p><p>� Mas vou avisando que n�o sou advogado criminal. Voc� vai precisar de um especialista. Vou procurar algu�m em quem voc� possa confiar.</p><empty-line/><p>A quarta visita chegou �s onze da noite e conseguiu passar pela barragem das enfermeiras exibindo sua identidade e especificando que vinha por causa de um assunto urgente. Indicaram-lhe o quarto de Zalachenko. O paciente ainda n�o estava dormindo, achava-se em plena reflex�o.</p><p>� Meu nome � Jonas Sandberg � cumprimentou o visitante, estendendo uma m�o que Zalachenko optou por ignorar.</p><p>O homem tinha cerca de trinta e cinco anos. Tinha cabelo cor de areia e vestia um jeans descontra�do, camisa xadrez e jaqueta de couro. Zalachenko contemplou-o em sil�ncio por uns quinze segundos.</p><p>� Eu estava justamente me perguntando quando � que um de voc�s ia aparecer.</p><p>� Eu trabalho na Sapo � disse Jonas Sandberg, mostrando as credenciais.</p><p>� � claro que n�o � disse Zalachenko.</p><p>� Como?</p><p>� Voc� talvez seja funcion�rio da Sapo, mas n�o trabalha para eles. Jonas Sandberg ficou um momento calado, olhando ao redor. Pegou a cadeira destinada aos visitantes.</p><p>� Se eu vim assim t�o tarde, foi para n�o chamar aten��o. Andamos discutindo sobre uma maneira de ajud�-lo e precisamos combinar mais ou menos o que vai acontecer. Estou aqui simplesmente para escutar a sua vers�o e ver quais s�o as suas inten��es, para que a gente possa montar uma estrat�gia conjunta.</p><p>� E qual seria essa estrat�gia, a seu ver?</p><p>Jonas Sandberg contemplou pensativamente o homem deitado na cama. Por fim, afastou as m�os.</p><p>� Senhor Zalachenko... Receio que j� esteja em curso um processo envolvendo danos dif�ceis de avaliar. Discutimos a situa��o. O t�mulo encontrado em Gosseberga e os tr�s tiros que a Salander levou s�o fatos dif�ceis de minimizar. Mas nem tudo est� perdido. O conflito entre o senhor e sua filha pode explicar por que tem tanto medo dela e por que tomou medidas t�o dr�sticas. Receio, por�m, que isso signifique alguns meses de pris�o.</p><p>Zalachenko se sentiu alegre de repente e teria dado uma boa gargalhada se isso n�o fosse imposs�vel nas suas condi��es. O resultado foi apenas um leve tremor nos l�bios. Qualquer coisa, al�m disso, seria dolorida demais.</p><p>� Ent�o essa � nossa estrat�gia conjunta?</p><p>� Senhor Zalachenko. O senhor conhece o conceito de controle dos danos. � indispens�vel que encontremos uma via comum. Vamos fazer o poss�vel para ajud�-lo, fornecendo um advogado e a assist�ncia necess�ria, mas vamos precisar da sua colabora��o e de algumas garantias.</p><p>� Vou lhe dar uma garantia. Voc�s v�o dar um jeito de sumir com tudo isso. � Ele fez um gesto com a m�o. � O Niedermann vai servir de bode expiat�rio, e garanto que ele nunca ser� encontrado.</p><p>� Existem provas formais que...</p><p>�- Deixe as provas formais para l�. O importante � como a investiga��o vai ser conduzida e como os fatos v�o ser apresentados. A minha garantia � a seguinte... se voc�s n�o usarem sua varinha m�gica para dar um sumi�o em tudo isto, eu vou convocar a imprensa para uma entrevista coletiva. Eu conhe�o nomes, datas, fatos. N�o me diga que eu preciso lembrar voc� de quem eu sou...</p><p>� O senhor n�o est� entendendo...</p><p>� Estou entendendo muito bem. Voc� n�o passa de um boy. Transmita para o seu chefe o que acabei de dizer. Ele vai entender. Diga que eu tenho c�pias de... tudo. Vou detonar voc�s.</p><p>� Temos que tentar entrar num acordo.</p><p>� A conversa est� encerrada. E agora d� o fora. E fale para eles me mandarem um homem da pr�xima vez, um adulto com quem eu possa conversar.</p><p>Zalachenko virou a cabe�a de maneira a interromper o contato visual com o visitante. Jonas Sandberg contemplou-o um breve instante. Ent�o deu de ombros e se levantou. J� estava chegando � porta quando ouviu novamente a voz de Zalachenko.</p><p>� Outra coisa. Sandberg se virou.</p><p>� Salander.</p><p>� O que tem ela?</p><p>� Ela precisa sumir.</p><p>� O que o senhor quer dizer?</p><p>Por um momento, Sandberg pareceu t�o preocupado que Zalachenko foi obrigado a sorrir, apesar da dor que lhe transpassou o maxilar.</p><p>� Voc�s s�o todos uns bundas-moles e eu sei que t�m escr�pulos demais para mat�-la. Sei tamb�m que voc�s n�o t�m condi��es para isso. Quem iria cuidar disso... voc�? Mas ela precisa sumir. O testemunho dela tem que ser declarado inaceit�vel. Ela tem que voltar para uma institui��o e ali ficar o resto da vida.</p><p>Lisbeth Salander escutou os passos no corredor em frente a seu quarto. N�o conseguira distinguir o nome Jonas Sandberg, e era a primeira vez que escutava aqueles passos.</p><p>A porta de seu quarto tinha ficado aberta desde o final da tarde, j� que as enfermeiras vinham v�-la mais ou menos de dez em dez minutos. Tinha escutado o homem chegar e explicar a uma enfermeira, bem perto de sua porta, que precisava de qualquer forma ver o Sr. Karl Axel Bodin para tratar de um assunto urgente. Imaginou que ele estivesse apresentando suas credenciais, mas n�o foi dita nenhuma palavra que pudesse fornecer uma pista sobre seu nome ou a natureza dessas credenciais.</p><p>A enfermeira pediu que ele esperasse enquanto ia verificar se o Sr. Karl Axel Bodin estava acordado. Lisbeth Salander concluiu ent�o que as credenciais deviam ser bem convincentes.</p><p>Percebeu que a enfermeira seguiu no corredor pela esquerda e deu dezessete passos at� chegar a seu destino, e que o visitante percorreu a mesma dist�ncia com apenas catorze passos. O que dava uma m�dia de 15,5 passos. Ela calculou o comprimento dos passos em sessenta cent�metros, o que, multiplicado por 15,5, indicava que Zalachenko estava num quarto situado a novecentos e trinta cent�metros do lado esquerdo do corredor. Bem, digamos dez metros. Calculou que seu quarto tinha cerca de cinco metros de largura, o que queria dizer que Zalachenko se encontrava a duas portas dali.</p><p>De acordo com os n�meros verdes do rel�gio digital no criado-mundo, a visita durou exatos nove minutos.</p><p>Zalachenko permaneceu um bom tempo acordado depois que Jonas Sandberg o deixou. Imaginou que aquele n�o era seu verdadeiro nome, a experi�ncia lhe ensinara que os espi�es amadores suecos tinham fixa��o em nomes de fachada mesmo que n�o fossem absolutamente necess�rios. De todo modo, aquele Jonas (ou qualquer que fosse seu nome) era um primeiro sinal de que a Se��o estava ciente de sua situa��o. Com aquele estardalha�o da imprensa, seria dif�cil n�o estar. Mas sua visita tamb�m confirmava que sua situa��o inspirava cuidados. Como n�o poderia deixar de ser.</p><p>Ele pesou as vantagens e as desvantagens, alinhou possibilidades e rejeitou alternativas. J� tinha entendido e aceitado que as coisas haviam desandado pra valer. Num mundo ideal, �quela altura ele estaria em casa, em Gosseberga, Ronald Niedermann estaria a salvo no exterior e Lisbeth Salander enterrada a seis palmos debaixo da terra. Mesmo que, de um ponto de vista racional, compreendesse o que tinha acontecido, tinha a maior dificuldade em entender como ela conseguira sair de dentro da cova, voltar para a granja e destruir a exist�ncia dele com duas machadadas. Ela realmente dispunha de recursos incr�veis.</p><p>Em compensa��o, percebia muito bem o que acontecera com Ronald Niedermann e por que ele fugira para se salvar em vez de acabar de uma vez por todas com Salander. Sabia que Niedermann tinha algum problema na cabe�a, que ele tinha vis�es, que via fantasmas. Mais de uma vez tivera de intervir ao ver Niedermann se comportando de maneira irracional e se encolhendo de pavor.</p><p>Aquilo o preocupava. Considerando que Ronald Niedermann ainda n�o havia sido detido, Zalachenko tinha certeza de que ele funcionara normalmente nos dias seguintes � fuga de Gosseberga. Talvez tentasse ir at� Tallinn, onde obteria ajuda com algum contato do imp�rio criminoso de Zalachenko. Sua preocupa��o � que n�o dava para prever em que momento Niedermann ficaria paralisado. Se acontecesse durante a fuga, ele cometeria algum erro, e se cometesse algum erro acabaria sendo preso. E como n�o iria se entregar t�o f�cil, policiais iriam morrer, e muito provavelmente ele tamb�m.</p><p>Essa id�ia afligia Zalachenko. N�o queria que Niedermann morresse. Niedermann era seu filho. Por outro lado, por mais lament�vel que fosse, a verdade � que Niedermann n�o podia ser apanhado vivo. Niedermann nunca fora detido pela pol�cia e Zalachenko n�o conseguia imaginar qual seria sua rea��o num interrogat�rio. Desconfiava, infelizmente, que Niedermann n�o saberia ficar calado. Seria melhor, portanto, que fosse morto ao ser capturado. Zalachenko prantearia o filho, mas a outra alternativa seria pior. Significaria ele pr�prio passar o resto da vida na pris�o.</p><p>Entretanto, quarenta e oito horas j� haviam transcorrido desde a fuga de Niedermann e ele ainda n�o tinha sido pego. Era um bom sinal. Mostrava que Niedermann ainda estava em movimento, e um Niedermann em movimento era imbat�vel.</p><p>A longo prazo, esbo�ava-se outra preocupa��o. Ele se perguntava como Niedermann iria se virar sozinho, sem o pai a seu lado para conduzi-lo na vida. Tinha observado, naqueles anos todos, que quando deixava de dar instru��es ou soltava as r�deas para que Niedermann tomasse suas pr�prias iniciativas, este tendia a cair num estado de passividade e apatia.</p><p>Mais uma vez Zalachenko constatou como essas particularidades de seu filho representavam uma verdadeira calamidade. Ronald Niedermann era sem d�vida uma pessoa muito inteligente, dotada de qualidades f�sicas que o transformavam num homem tem�vel e temido. Al�m disso, era um executor excelente, que sabia manter o sangue-frio. Seu �nico problema era n�o ter instinto de lideran�a. Precisava sempre de algu�m que lhe dissesse o que devia ser feito.</p><p>Mas tudo isso estava, no momento, fora de seu controle. Ele, Zalachenko, � que era a quest�o. Sua situa��o era delicada, talvez mais delicada do que nunca.</p><p>A visita do Dr. Thomasson, mais cedo naquele dia, n�o lhe soara muito tranq�ilizadora. Thomasson era, e continuava sendo, um especialista em direito empresarial, e sua efici�ncia nessa �rea n�o lhe seria de grande ajuda no atual contexto.</p><p>Depois, houvera a visita de Jonas Sandberg. Sandberg representava uma t�bua de salva��o muito mais s�lida. Mas uma t�bua que tamb�m podia se revelar uma armadilha. Ele teria de jogar suas cartas com habilidade e retomar o controle da situa��o. O controle era fundamental.</p><p>E, afinal de contas, ele podia confiar em seus pr�prios recursos. Por enquanto, precisava de cuidados m�dicos. Mas dali a alguns dias, uma semana quem sabe, teria recobrado suas for�as. Se a situa��o chegasse a um extremo, s� poderia contar consigo mesmo. O que significava sumir, sumir nas barbas de todos aqueles policiais que o cercavam. Iria precisar de um esconderijo, de um passaporte e de dinheiro vivo. Thomasson podia conseguir tudo isso. Mas, primeiro, precisava se recuperar o suficiente para ter condi��es de fugir.</p><p>A uma hora da manh�, a enfermeira veio ver como ele estava. Fingiu que estava dormindo. Quando ela tornou a fechar a porta, endireitou-se com esfor�o na cama e jogou as pernas para fora. Ficou um bom tempo sentado sem se mexer, testando seu equil�brio. Ent�o, devagar, p�s o p� esquerdo no ch�o. Por sorte, o machado atingira a perna direita, que j� era defeituosa. Esticou o bra�o para apanhar a pr�tese, no arm�rio junto � cama, e prendeu-a no coto. Em seguida, levantou-se. Jogou o peso para a perna esquerda intacta e tentou apoiar a direita no ch�o. Uma dor fulgurante o transpassou.</p><p>Cerrou os dentes e deu um passo. Precisava de suas bengalas, mas tinha certeza de que o hospital n�o tardaria a lhe fornecer uma. Apoiou-se na parede e foi manquejando at� a porta. Levou v�rios minutos, sendo obrigado a parar depois de cada passo para dominar a dor.</p><p>Apoiou-se sobre a perna s�, abriu a porta bem de leve e verificou o corredor. N�o viu ningu�m, e p�s a cabe�a um pouquinho mais para fora. Escutou vozes abafadas � esquerda e virou a cabe�a. A sala de plant�o das enfermeiras da noite ficava a uns vinte metros dali, do outro lado do corredor.</p><p>Ele virou a cabe�a para a direita e avistou a sa�da, no fim do corredor.</p><p>Tinha se informado naquele dia sobre o estado de Lisbeth Salander. Era, apesar de tudo, pai dela. As enfermeiras tinham sido visivelmente instru�das a n�o falar sobre os pacientes. Uma delas s� dissera, em tom neutro, que seu estado era est�vel. Mas, como que por reflexo, lan�ara uma olhada r�pida para o lado esquerdo do corredor.</p><p>Em algum dos quartos entre o seu pr�prio e a sala das enfermeiras estava Lisbeth Salander.</p><p>Fechou a porta devagar, voltou manquejando para a cama e retirou a pr�tese. Estava encharcado de suor quando finalmente conseguiu se enfiar debaixo da coberta.</p><p>O inspetor Jerker Holmberg regressou a Estocolmo no domingo por volta do meio-dia. Estava cansado, com fome e sentia-se esgotado. Pegou o metr�, desceu na esta��o da prefeitura e seguiu a p� at� a chefatura de pol�cia na Bergsgatan, onde subiu at� a sala do inspetor Jan Bublanski. Sonja Modig e Curt Bolinder j� estavam l�. Bublanski os convocara para aquela reuni�o em pleno domingo porque sabia que o chefe do inqu�rito preliminar, Richard Ekstr�m, estava em um compromisso fora.</p><p>� Obrigado por terem vindo � disse Bublanski. � Acho que est� mais do que na hora de conversarmos calmamente entre n�s para tentarmos lan�ar uma luz nessa confus�o toda. Jerker, alguma novidade?</p><p>� Nada que eu j� n�o tenha lhe falado por telefone. O Zalachenko n�o est� cedendo um s� mil�metro. Ele se diz totalmente inocente e n�o pode nos ajudar em nada. Vejam s�...</p><p>� Sim?</p><p>� Sonja, voc� estava certa. � um dos indiv�duos mais sinistros que j� conheci. Parece meio idiota dizer isso. Sei que a gente n�o devia raciocinar desse jeito na pol�cia, mas ele tem uma coisa assustadora por baixo daquele verniz calculista.</p><p>� Certo � disse Bublanski, pigarreando. � O que a gente tem? Sonja? Ela exibiu um sorrisinho.</p><p>� Os investigadores particulares venceram este round. N�o encontro o Zalachenko em nenhum cadastro oficial, ao passo que um tal de Karl Axel Bodin nasceu em 1939 em Uddevalla. Os pais dele eram Marianne e Georg Bodin. Eles existiram, mas morreram num acidente em 1946. Karl Axel Bodin foi criado por um tio na Noruega. Portanto n�o temos nada sobre ele at� os anos 1970, quando voltou para a Su�cia. A vers�o de Mikael Blomkvist, segundo a qual ele seria um ex-agente russo do GRO, parece imposs�vel de checar, mas tendo a acreditar que ele est� certo.</p><p>� E isso implicaria o qu�?</p><p>� Obviamente, ele ganhou uma identidade falsa. E deve ter sido com o consentimento das autoridades.</p><p>� A Sapo, portanto?</p><p>� � o que o Blomkvist afirma. Mas n�o sei ao certo como foi. Sup�e--se que sua certid�o de nascimento e mais um monte de documentos foram falsificados e lan�ados nos cadastros suecos oficiais. N�o me atrevo a opinar sobre o aspecto legal dessa hist�ria. Provavelmente vai depender de quem tomou a decis�o. Mas s� seria legal se a decis�o tivesse sido quase em n�vel de primeiro escal�o.</p><empty-line/><p>Instalou-se um sil�ncio na sala de Bublanski, enquanto os quatro inspetores criminais refletiam sobre todas as implica��es daquilo.</p><p>� Humm � fez Curt Bolinder. � Isso poderia provocar nada menos que uma crise constitucional. Nos Estados Unidos, membros do governo podem ser convocados para um interrogat�rio diante de um tribunal comum. Na Su�cia, t�m que passar pela Comiss�o Constitucional.</p><p>� Agora, o que a gente pode fazer � perguntar para o chefe � disse Jerker Holmberg.</p><p>� Perguntar para o chefe? � estranhou Bublanski.</p><p>� Thorbj�m F�lldin. Era o primeiro-ministro na �poca.</p><p>� � isso a�. A gente aparece na casa dele, n�o se sabe onde, e pergunta ao ex-primeiro-ministro se ele falsificou documentos de identidade para um espi�o russo dissidente. N�o me parece uma boa id�ia.</p><p>� O F�lldin mora em As, na comuna de H�rn�sand. Eu nasci naqueles lados, a poucos quil�metros da casa dele. Meu pai � centrista e conhece o F�lldin muito bem. Cruzei com ele v�rias vezes quando crian�a, e quando adulto tamb�m. E um sujeito bem descontra�do.</p><p>Tr�s inspetores criminais lan�aram a Jerker Holmberg um olhar at�nito.</p><p>� Voc� conhece o. F�lldin � disse Bublanski, hesitante. Holmberg assentiu com a cabe�a. Bublanski fez um muxoxo.</p><p>� Realmente... � disse Holmberg. � Daria para resolver um monte de problemas se a gente conseguisse do ex-primeiro-ministro um relat�rio que ajudasse a nos situar nesta encrenca toda. Eu poderia ir at� l� conversar com ele. O pior que pode acontecer � ele n�o falar. Mas, se falar, talvez nos poupe um bocado de tempo.</p><p>Bublanski refletiu sobre a sugest�o. Ent�o balan�ou a cabe�a. Com o rabo dos olhos, viu tanto Sonja Modig como Curt Bolinder meneando a deles, pensativos.</p><p>� Holmberg... o que voc� sugere � legal, mas acho que vamos deixar para mais tarde. Vamos voltar ao caso. Sonja?</p><p>� Segundo o Blomkvist, o Zalachenko chegou aqui em 1976. At� onde eu sei, s� existe uma pessoa que pode ter passado essa informa��o para ele.</p><p>� Gunnar Bj�rck � disse Curt Bolinder.</p><p>� O que foi que o Bj�rck disse para a gente? � perguntou Jerker Holmberg.</p><p>� Nada de mais. Ele alegou sigilo profissional e disse que n�o pode comentar o assunto sem autoriza��o dos seus superiores.</p><p>� E quem s�o os superiores dele?</p><p>� Ele se recusa a dizer.</p><p>� O que vai acontecer com ele ent�o?</p><p>� Eu o indiciei por remunera��o de servi�os sexuais. Gra�as ao Dag Svensson, dispomos de uma excelente documenta��o. Isso tirou o Ekstr�m do s�rio, mas como eu tinha feito um relat�rio ele pode se complicar se abandonar a investiga��o � disse Curt Bolinder.</p><p>� Ah�. Infra��o � lei sobre remunera��o de servi�os sexuais. Isso d� o qu�, imagino que uma multa?</p><p>� Provavelmente. Mas com essa ele fica no nosso sistema e pode ser chamado outra vez para um interrogat�rio.</p><p>� Mas a� j� estamos invadindo a praia da Sapo. Isso pode causar turbul�ncias.</p><p>� O problema � que nada do que est� acontecendo hoje teria acontecido se a Sapo n�o estivesse envolvida, de um jeito ou de outro. E poss�vel que o Zalachenko seja de fato um espi�o russo que pendurou as chuteiras e pediu asilo pol�tico. Tamb�m � poss�vel que ele tenha trabalhado para a Sapo como agente, ou fonte, n�o sei bem como dizer, e que haja um bom motivo para terem fornecido a ele uma identidade falsa e o anonimato. Mas existem tr�s por�ns. Primeiro, a investiga��o realizada em 1991 que levou � interna��o da Lisbeth Salander � ilegal. Segundo, a atividade do Zalachenko a partir dessa data n�o tem absolutamente nada a ver com seguran�a nacional. O Zalachenko � um g�ngster muito do ordin�rio e provavelmente c�mplice de uma s�rie de homic�dios e outros crimes. Terceiro, n�o resta a menor d�vida de que atiraram na Lisbeth Salander e a enterraram nas terras do Zalachenko em Gosseberga.</p><p>� Falando nisso, eu gostaria muito de ler esse famoso relat�rio � disse Jerker Holmberg.</p><p>A express�o de Bublanski se turvou.</p><p>� O Ekstr�m p�s as m�os nele na sexta-feira. Quando pedi de volta, ele disse que ia fazer uma c�pia, mas nada. Em vez disso, me ligou dizendo que tinha falado com o Minist�rio P�blico e que havia um problema. Segundo o procurador-geral da na��o, como � um dossi� considerado segredo de seguran�a nacional, o relat�rio n�o pode circular ou ser copiado. O procurador exigiu que lhe fossem entregues todas as c�pias at� que o caso seja esclarecido. E, portanto, a Sonja foi obrigada a devolver a c�pia que ela tinha.</p><p>� Quer dizer que n�o temos mais esse relat�rio?</p><p>� N�o.</p><p>� Droga � disse Holmberg. � Isso n�o � um bom sinal.</p><p>� N�o � mesmo � disse Bublanski. � Mas significa, principalmente, que algu�m est� agindo contra n�s, e o que � pior: agindo r�pido e com efici�ncia. Foi essa investiga��o que tinha nos posto na pista certa.</p><p>� Ent�o vamos precisar descobrir quem est� agindo contra n�s � disse Holmberg.</p><p>� Outra coisa � disse Sonja Modig. � Tamb�m tem o Peter Teleborian. Ele colaborou com a nossa investiga��o apresentando um perfil da Lisbeth Salander.</p><p>� Exato � disse. Bublanski com uma voz ainda mais sombria. � E o que ele diz?</p><p>� Que estava muito preocupado com a seguran�a dela, que s� queria o bem dela. Mas depois desse bl�-bl�-bl�, acrescentou que ela era muito perigosa e capaz de resistir. E n�s baseamos boa parte do nosso racioc�nio no que ele falou.</p><p>� E ele tamb�m deixou o Hans Faste um tanto assustado � disse Holmberg. � Por sinal, algu�m tem not�cias dele?</p><p>� Est� de f�rias � respondeu Bublanski secamente. � A quest�o � o que a gente vai fazer agora.</p><p>Passaram as duas horas seguintes discutindo diferentes possibilidades. A �nica decis�o pr�tica que resultou disso foi que Sonja Modig retornaria a G�teborg no dia seguinte para ouvir Lisbeth Salander, ver se ela tinha algo a dizer. Quando finalmente encerraram a reuni�o, Sonja Modig e Curt Bolinder desceram juntos at� a garagem.</p><p>� Estava pensando numa coisa... � Curt Bolinder se interrompeu.</p><p>� Sim? � perguntou Sonja Modig.</p><p>� � que, quando a gente consultou o Teleborian, voc� foi a �nica da equipe que fez algumas perguntas e at� discordou dele.</p><p>� Foi.</p><p>� Foi... pois �. Boa intui��o � disse ele.</p><p>Curt Bolinder n�o tinha fama de jogar confete, e de fato era a primeira vez que ele dizia algo positivo ou estimulante para Sonja Modig. Ent�o saiu, deixando-a surpresa ao lado do carro...</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>5. DOMINGO 10 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist passara a noite de s�bado para domingo na cama com Erika Berger. N�o fizeram amor, ficaram apenas conversando. Grande parte da conversa girou em torno dos detalhes do caso Zalachenko. A confian�a entre eles era tal que Mikael n�o se importava nem um pouco com o fato de Erika ir trabalhar num jornal concorrente. E Erika n�o tinha nenhuma inten��o de roubar a mat�ria dele. Aquele furo era da Millennium, e ela s� sentia certa frustra��o por n�o participar daquele n�mero. Teria gostado de encerrar com ele seus anos na Millennium.</p><p>Conversaram tamb�m sobre o futuro e o que a nova situa��o iria acarretar. Erika estava decidida a manter suas a��es na Millennium e permanecer no conselho administrativo. Em compensa��o, ambos entendiam que ela obviamente n�o poderia estar � par do trabalho da reda��o.</p><p>� Me d� alguns anos no SMP e... quem sabe? Talvez eu ainda volte para a Millennium quando a minha aposentadoria estiver chegando.</p><p>E conversaram sobre sua pr�pria rela��o complicada. N�o tinham a menor vontade de modificar seus h�bitos, mas parecia claro que n�o iam poder se ver com a mesma freq��ncia. Ia ser como era nos anos 1980, antes de surgir a Millennium, quando ainda trabalhavam em lugares diferentes.</p><empty-line/><p>� A solu��o vai ser a gente marcar um ponto de encontro � concluiu Erika com um sorrisinho.</p><p>No domingo de manh�, despediram-se �s pressas antes de Erika voltar para junto do marido, Lars Beckman.</p><p>� N�o sei o que dizer � disse Erika. � Mas estou vendo todos os sinais de que voc� est� totalmente absorvido por uma mat�ria, e o resto fica em segundo plano. Sabia que voc� se comporta como um psicopata quando est� trabalhando?</p><p>Mikael sorriu e lhe deu um beijo.</p><p>Depois que Erika saiu, ele passou a manh� ligando para o Hospital Sahlgrenska para tentar obter alguma informa��o sobre o estado de Lisbeth Salander. Como todos se negavam a fornec�-la, acabou ligando para o inspetor Marcus Ackerman, que ficou com pena dele e contou que, considerando as circunst�ncias, o estado de Lisbeth era satisfat�rio e que os m�dicos estavam relativamente otimistas. Mikael perguntou se podia visit�-la. Ackerman respondeu que Lisbeth Salander estava detida por decis�o do procurador-geral da na��o e que n�o estava autorizada a receber visitas, mas que, por enquanto, a quest�o ainda era te�rica. Devido a seu estado, n�o pudera sequer ser interrogada. Mikael conseguiu que Ackerman prometesse avis�-lo caso o estado de Lisbeth piorasse.</p><p>Mikael verificou as chamadas recebidas em seu celular e encontrou quarenta e duas liga��es e mensagens de texto de v�rios jornalistas tentando contat�-lo com urg�ncia. A not�cia de que, al�m de estar intimamente envolvido nos acontecimentos, fora ele quem encontrara Lisbeth Salander e acionara o sos-Brigada vinha sendo objeto de intensas especula��es na m�dia nas �ltimas vinte e quatro horas.</p><p>Mikael apagou todas as mensagens dos jornalistas. Depois ligou para a sua irm�, Annika Giannini, e combinou almo�arem juntos naquele dia.</p><p>Em seguida ligou para Dragan Armanskij, presidente da empresa de seguran�a Milton Security. Conseguiu encontr�-lo, no celular, na sua resid�ncia em Liding�.</p><p>� Cara, voc� tem o dom de produzir belas manchetes � disse Armanskij secamente.</p><p>� Desculpe n�o ter ligado durante a semana. Recebi o recado de que voc� estava tentando falar comigo, mas n�o tive tempo...</p><p>� Fizemos nossa pr�pria investiga��o aqui na Milton. E o Holger Palmgren me disse que voc� tinha umas informa��es. Mas parece que voc� est� centenas de quil�metros � nossa frente.</p><p>Mikael hesitou um instante, n�o sabendo direito como colocar a situa��o.</p><p>� Posso confiar em voc�? � perguntou.</p><p>A pergunta pareceu surpreender Armanskij.</p><p>� Em que sentido?</p><p>� Voc� est� do lado da Salander, ou n�o? Posso ter certeza de que voc� quer o bem dela?</p><p>� Ela � minha amiga. Como voc� sabe, isso n�o significa, necessariamente, que sou amigo dela.</p><p>� Eu sei. Mas o que estou perguntando � se voc� est� disposto a ficar do lado dela no ringue e enfrentar os brutamontes que est�o contra ela. E essa luta vai ter muitos assaltos.</p><p>Armanskij refletiu.</p><p>� Eu estou do seu lado � disse ele.</p><p>� Posso te dar umas informa��es e discutir uns pontos com voc� sem medo de que isso vaze para a pol�cia ou para qualquer outra pessoa?</p><p>� S� est� fora de quest�o eu me envolver em alguma atividade criminosa � disse Armanskij.</p><p>� Minha pergunta n�o foi essa.</p><p>� Voc� pode confiar totalmente em mim desde que n�o me conte que est� envolvido em alguma atividade criminosa ou algo do g�nero.</p><p>� Para mim est� bem assim. Precisamos nos encontrar.</p><p>� Estou indo para a cidade hoje. Podemos jantar juntos.</p><p>� N�o, para mim n�o vai dar. Mas a gente podia se encontrar amanh� � noite. Precisamos conversar com calma, eu, voc� e talvez mais umas pessoas.</p><p>� Pode ser l� na Milton. �s seis da tarde est� bem?</p><p>� Perfeito. Outra coisa... daqui a duas horas vou encontrar minha irm�, Annika Giannini. Ela est� considerando a possibilidade de representar a Lisbeth, mas evidentemente n�o pode trabalhar de gra�a. Posso pagar parte dos honor�rios do meu bolso. A Milton Security poderia contribuir?</p><p>� A Lisbeth vai precisar de um advogado super competente. Com todo o respeito, n�o acho sua irm� a melhor escolha. J� conversei com o jurista respons�vel da Milton e ele vai procurar o advogado certo para isso. Pensei, por exemplo, em Peter Althin ou algu�m assim.</p><p>� Errado. A Lisbeth precisa de um advogado bem diferente. Voc� vai entender depois que a gente conversar. Mas voc� poderia injetar algum dinheiro na defesa dela, se necess�rio?</p><p>� Eu j� estava prevendo que a Milton contrataria um advogado para ela...</p><p>� Isso significa sim ou n�o? Eu sei o que aconteceu com a Lisbeth. Sei mais ou menos o que existe por tr�s disso tudo. Eu sei o porqu�. E tenho um plano de ataque.</p><p>Armanskij riu.</p><p>� Est� bem. Vou ouvir sua proposta. Se eu n�o gostar, caio fora.</p><p>� Voc� por acaso pensou na minha proposta de representar a Lisbeth Salander? � perguntou Mikael depois de dar um beijo na irm� e de o caf� e os sandu�ches terem sido servidos.</p><p>� Pensei. E me vejo obrigada a recusar. Voc� sabe que n�o atuo na �rea criminal. Mesmo que ela seja inocentada dos assassinatos pelos quais foi procurada, vai haver uma lista imensa de acusa��es. Ela vai precisar de algu�m de mais gabarito, com uma experi�ncia que eu n�o tenho.</p><p>� Est� enganada. Voc� � advogada e sua compet�ncia � mais que reconhecida nas quest�es dos direitos da mulher. Sei que � exatamente a advogada de que ela precisa.</p><p>� Mikael... acho que voc� n�o est� sacando muito bem o que isso significa. Trata-se de um caso criminal complexo, n�o de um simples caso de maus-tratos ou ass�dio sexual. Se eu aceitar defend�-la, a gente corre o risco de provocar uma cat�strofe.</p><p>Mikael sorriu.</p><p>� Acho que voc� n�o entendeu aonde eu quero chegar. Se a Lisbeth fosse ser julgada pelos assassinatos do Dag e da Mia, eu contrataria um advogado do estilo do Silbersky ou outro peso-pesado qualquer da criminal�stica.</p><p>Mas esse processo vai tratar de coisas muito diferentes. E voc� � a melhor advogada que posso imaginar para esse caso. Annika Giannini suspirou.</p><p>� Bem, ent�o seria melhor voc� me explicar.</p><p>Conversaram durante quase duas horas. Quando Mikael terminou, Annika Giannini estava convencida. Ent�o Mikael pegou o celular e ligou para Marcus Ackerman em G�teborg.</p><p>� Ol�. � o Blomkvist de novo.</p><p>� Ainda n�o tenho nenhuma not�cia da Salander � disse Ackerman, irritado.</p><p>� Bem, na atual situa��o not�cia nenhuma j� � uma boa not�cia. Em compensa��o, eu tenho uma novidade.</p><p>� Ah, �?</p><p>� E. Ela tem uma advogada, o nome dela � Annika Giannini. Est� aqui na minha frente, vou passar para ela.</p><p>Mikael passou o celular para a irm�.</p><p>� Bom dia. Aqui fala Annika Giannini, e me pediram que representasse a Lisbeth Salander. Portanto preciso entrar em contato com a minha cliente para que ela me aceite como defensora. E preciso do n�mero de telefone do procurador.</p><p>� Entendo � disse Ackerman. � Achei que j� tinha sido indicado um advogado para ela.</p><p>� H�, h�. E algu�m perguntou para a Lisbeth Salander o que ela acha? Ackerman hesitou.</p><p>� Na verdade, ainda n�o tivemos condi��es de nos comunicar com ela. Esperamos falar com ela amanh�, se seu estado permitir.</p><p>� Melhor assim. Ent�o, estou declarando aqui e agora que, a menos que a senhorita Salander seja contra, podem me considerar a advogada dela. N�o podem interrog�-la sem que eu esteja presente. S� podem ir falar com ela e perguntar se ela me aceita como advogada ou n�o. Entendido?</p><p>� Sim � disse Ackerman, soltando um suspiro. Ele n�o sabia direito como estava a situa��o em termos jur�dicos. Pensou um pouco e continuou: � Antes de mais nada, a gente queria perguntar para a Salander se ela tem id�ia de onde possa estar o Ronald Niedermann, o assassino do policial. Tudo bem se eu perguntar isso mesmo sem a sua presen�a?</p><p>Annika Giannini hesitou.</p><p>� Est� bem... Podem perguntar, se for para ajudar a pol�cia a localizar o Niedermann. Mas n�o mencionem nada relacionado com eventuais processos ou acusa��es contra ela. Estamos combinados?</p><p>� Acho que sim.</p><p>Marcus Ackerman deixou imediatamente a sua sala, subiu a escada e foi bater � porta de Agneta Jervas, que dirigia o inqu�rito preliminar. Relatou a conversa que acabava de ter com Annika Giannini.</p><p>� Eu n�o sabia que a Salander tinha um advogado.</p><p>� Nem eu. Mas a Giannini foi contratada pelo Mikael Blomkvist. N�o � certo que a Salander esteja sabendo.</p><p>� Mas a Giannini n�o trabalha na �rea criminal. Ela lida com direitos da mulher. Assisti a uma palestra dela uma vez, ela � muito competente, mas nem um pouco adequada para este caso.</p><p>� Isso quem tem que decidir � a Salander.</p><p>� Sendo assim, posso ter de contestar essa escolha diante do tribunal. � importante para a Salander contar com um defensor de fato, e n�o com uma estrela das primeiras p�ginas dos jornais. Humm. Al�m disso, a Salander � tida como uma maior incapacitada. N�o sei direito o que se aplica nesse caso.</p><p>� O que a gente faz?</p><p>Agneta Jervas refletiu um instante.</p><p>� Que confus�o! N�o sei bem, afinal de contas, quem vai cuidar desse caso. Talvez seja repassado para o Ekstr�m em Estocolmo. Mas ela precisa de um advogado. Est� bem... pergunte a ela se aceita a Giannini.</p><p>Quando chegou em casa, por volta das cinco da tarde, Mikael abriu o iBook e retomou o texto que tinha come�ado a redigir no hotel. Trabalhou sete horas seguidas, at� conseguir identificar os principais furos da hist�ria. Ainda tinha um bocado de pesquisa pela frente. Um dos aspectos que os documentos existentes n�o ajudavam a esclarecer era que elementos da Sapo, afora Gunnar Bj�rck, tinham se juntado para internar Lisbeth Salander no hosp�cio. Ele tampouco conseguia definir a natureza da rela��o entre Bj�rck e o psiquiatra Peter Teleborian.</p><p>Um pouco depois da meia-noite, desligou o computador e foi se deitar. Pela primeira vez em v�rias semanas, sentiu que poderia relaxar e dormir tranq�ilamente. J� tinha uma mat�ria. Por mais pontos de interroga��o que ainda existissem, j� contava com material suficiente para desencadear uma avalanche de manchetes.</p><p>Sentiu um desejo s�bito de ligar para Erika Berger e coloc�-la a par da situa��o. Ent�o lembrou que ela n�o trabalhava mais na Millennium. Com isso, dormir j� se tornou mais dif�cil.</p><p>Na esta��o central de Estocolmo, o homem de pasta marrom desceu devagar do trem das sete e meia da noite proveniente de G�teborg e permaneceu um momento parado na multid�o at� se situar. Iniciara sua viagem em Laholm, pouco depois das oito da noite, rumo a G�teborg, onde fizera uma parada para almo�ar com um velho conhecido antes de seguir para Estocolmo. Fazia dois anos que n�o vinha a Estocolmo, e na verdade n�o planejara voltar algum dia. Embora tivesse morado ali durante a maior parte da sua vida profissional, sempre se sentira um estranho no ninho na capital, sentimento que s� fora aumentando a cada visita feita desde que se aposentara.</p><p>Atravessou devagar o sagu�o central da esta��o, comprou os jornais vespertinos e duas bananas na banca de jornal, e contemplou pensativamente duas mu�ulmanas de len�o que passavam por ele a toda pressa. N�o tinha nada contra mulheres de len�o. Se as pessoas queriam se fantasiar, problema delas. Mas o incomodava elas fazerem quest�o de se fantasiar em plena Estocolmo.</p><p>Percorreu a p� os trezentos metros at� o Hotel Frey, ao lado do antigo Correio Central na Vasagatan. Sempre se hospedava ali em suas raras visitas a Estocolmo. Era um hotel central e limpo. E al�m do mais barato, o que era uma necessidade, pois ele pr�prio estava pagando a viagem. Reservara um quarto na v�spera e apresentou-se com o nome de Evert Gullberg.</p><p>Assim que chegou a seu quarto, foi ao banheiro. Estava numa idade em que precisava se aliviar o tempo todo. Fazia v�rios anos que n�o passava uma noite inteira sem acordar para urinar.</p><p>Depois tirou o chap�u, um chap�u de feltro ingl�s verde-escuro com abas finas, e desfez o n� da gravata. Media um metro e oitenta e quatro e pesava sessenta e oito quilos, sendo, portanto, de constitui��o magra, raqu�tica at�. Usava um palet� de pied-de-poule e uma cal�a cinza-escura. Abriu a pasta marrom e tirou duas camisas, uma gravata extra e a roupa �ntima, que guardou na c�moda. Depois pendurou o casaco e o palet� nos cabides do arm�rio atr�s da porta.</p><p>Era muito cedo para deitar-se. Era muito tarde para se animar a fazer um passeio noturno, que de qualquer modo ele n�o iria apreciar. Sentou-se na indefect�vel cadeira de hotel e olhou em volta. Ligou a tev�, mas baixou o volume para ficar livre de todo barulho. Pensou em ligar para a recep��o e pedir um caf�, por�m lembrou que j� era muito tarde. Em vez disso, abriu o minibar e serviu-se de uma garrafinha de Johnny Walker com algumas gotas de �gua. Abriu os jornais vespertinos e leu atentamente tudo o que se escrevera naquele dia sobre a ca�ada a Ronald Niedermann e o caso Lisbeth Salander. Depois de algum tempo, pegou um bloco encadernado em couro e fez algumas anota��es.</p><p>O ex-chefe de gabinete da Sapo, Evert Gullberg, tinha setenta e oito anos e estava oficialmente aposentado havia catorze. Acontece que velhos espi�es nunca morrem, apenas deslizam em meio �s sombras.</p><p>Pouco depois do fim da guerra, Gullberg tinha dezenove anos e queria seguir carreira na Marinha. Prestou o servi�o militar como aspirante a oficial da Marinha, sendo em seguida aceito para fazer a forma��o de oficial. Mas em vez de um posto tradicional, no mar, como esperava, foi designado para o servi�o de informa��es da Marinha. Podia entender a necessidade de se vigiarem as transmiss�es inimigas na esperan�a de descobrir o que se tramava do lado de l� do B�ltico, mas achava o trabalho tedioso e desinteressante. No entanto, na escola de int�rpretes do Ex�rcito teve oportunidade de aprender russo e polon�s. Seus conhecimentos ling��sticos foram um dos motivos que o levaram a ser recrutado em 1950 pela Pol�cia de Seguran�a. Era a �poca em que Georg Thulin, homem de uma honestidade inquestion�vel, dirigia a 3�. Brigada Policial do Estado. Quando assumiu o cargo, o or�amento global da pol�cia secreta somava dois milh�es e setecentas mil coroas e o efetivo era de exatamente noventa e seis pessoas.</p><p>Quando Evert Gullberg se aposentou oficialmente, o or�amento da Sapo ultrapassava os trezentos e cinq�enta milh�es de coroas e ele n�o saberia dizer ao certo quantos funcion�rios havia na Casa.</p><p>Gullberg tinha passado a vida no servi�o secreto nacional, ou pelo menos a servi�o do bom povo social-democrata. Uma ironia do destino, j� que em todas as elei��es ele optara fielmente pelos moderados, com exce��o de 1991, quando votara contra eles de forma consciente, por considerar Carl Bildt uma cat�strofe da real politik. Naquele ano, conformara-se em dar seu voto a Ingvar Carlsson. Aqueles anos do melhor governo que a Su�cia j� tivera, quatro anos sob a dire��o dos moderados, confirmaram igualmente todos os seus temores. O governo moderado constitu�ra-se na �poca do desmoronamento da Uni�o Sovi�tica, e, na sua opini�o, n�o havia regime mais mal preparado para enfrentar e tirar proveito das novas possibilidades pol�ticas na arte da espionagem que haviam surgido no Leste. O governo de Bildt, pelo contr�rio, evocara raz�es econ�micas para reduzir o escrit�rio sovi�tico e, no lugar, investir na B�snia e na S�rvia � como se a S�rvia pudesse algum dia se tornar uma amea�a para a Su�cia! O resultado fora a impossibilidade de plantar, em Moscou, informantes a longo prazo, e no dia em que o clima voltasse a ficar tenso � o que, na opini�o de Gullberg, era inevit�vel � surgiriam mais uma vez exig�ncias pol�ticas extravagantes em rela��o � Sapo e ao servi�o militar de informa��es, como se fosse poss�vel formar agentes num passe de m�gica.</p><p>Gullberg iniciara sua carreira no escrit�rio russo da 3�. Brigada da pol�cia do Estado e depois de dois anos numa reparti��o pudera dar seus primeiros e hesitantes passos no terreno como adido militar com patente de capit�o, na embaixada sueca em Moscou, entre 1952 e 1953. Curiosamente ele seguia os mesmos passos de outro espi�o famoso. Alguns anos antes, seu cargo havia sido ocupado por um oficial at� bem conhecido, o coronel Stig Wennerstr�m.</p><p>De volta � Su�cia, Gullberg trabalhara na contra-espionagem e, dez anos depois, era um dos agentes mais jovens da Sapo que, em 1963, na equipe dirigida pelo diretor de interven��es Otto Danielsson, prendera Wennerstr�m e o conduzira � pris�o perp�tua no pres�dio de L�ngholmen.</p><p>Quando a pol�cia secreta foi reestruturada sob o comando de Per Gunnar Vinge, em 1964, tornando-se um departamento de seguran�a da Dire��o Geral da Pol�cia Nacional � DGPN/Sapo, o n�mero de funcion�rios come�ou a aumentar. Nessa �poca, fazia catorze anos que Gullberg trabalhava na Sapo, onde se tornara um dos veteranos de confian�a.</p><p>Gullberg evitava usar o termo abreviado Sapo, preferindo dizer Pol�cia de Seguran�a. Com alguns colegas, ele falava Empresa ou Casa, ou simplesmente Departamento � mas nunca Sapo. Por um motivo simples. A miss�o mais importante da Casa fora, durantes anos, o controle de pessoas, ou seja, investigar e fichar cidad�os suecos suspeitos de ter opini�es comunistas e de trai��o � p�tria. Na Casa, as express�es "comunista" e "traidor da p�tria" eram usadas como sin�nimos. A palavra "Sapo", que acabou afinal sendo adotada por todos, fora inicialmente criada pelo Clart�, um jornal comunista traidor da p�tria, como um termo pejorativo para designar os ca�adores de comunistas da pol�cia. E Gullberg tinha muita dificuldade em entender por que seu antigo chefe, P. G. Vinge, escolhera Fui chefe da Sapo de 1962 a 1970 como t�tulo de suas mem�rias.</p><p>A reestrutura��o de 1964 viria a ser decisiva para a carreira futura de Gullberg.</p><p>A transforma��o da pol�cia secreta em DGPN/Sapo significou que esta se transformou no que as notas do Minist�rio da Justi�a qualificavam de organiza��o policial moderna. Isso implicava novos recrutamentos, seguidos de intermin�veis problemas de adapta��o, o que, numa organiza��o em expans�o, levou o Inimigo a ter possibilidades muit�ssimo mais f�ceis de infiltra��o de agentes no Departamento. O que, por sua vez, acarretou a necessidade de refor�ar o controle de seguran�a interna � a pol�cia secreta n�o podia mais ser um clube distinto constitu�do por antigos oficiais, onde todos se conheciam e o m�rito mais comum de um novo recruta era ter um pai oficial.</p><p>Em 1963, Gullberg fora transferido da contraespionagem para o controle de pessoas, fortalecido pelo desmascaramento de Stig Wennerstr�m. Por essa �poca � que foram assentadas as bases do cadastro de opini�es, que, no final dos anos 1960, reunia fichas de mais de trezentos mil cidad�os suecos com opini�es pol�ticas pouco convenientes. Mas o controle dos cidad�os suecos era uma coisa; aqui, tratava-se de descobrir um meio de exercer o controle de seguran�a no seio da pr�pria DGPN/Sapo.</p><p>Wennerstr�m desencadeara uma avalanche de complica��es para a pol�cia secreta do Estado. Se um coronel do Estado-Maior da Defesa havia conseguido trabalhar para os russos � sendo, ainda por cima, conselheiro do governo para assuntos relacionados a armas nucleares e pol�tica de seguran�a �, haveria como garantir que os russos n�o tinham tamb�m um agente infiltrado no seio da pol�cia secreta? A quem caberia assegurar que os diretores e outros respons�veis da Casa na verdade n�o trabalhavam para os russos? Em suma, quem deveria espionar os espi�es?</p><p>Em agosto de 1964, Gullberg foi convocado, certa tarde, para uma reuni�o com o diretor-adjunto da Sapo, o chefe de gabinete Hans Wilhelm Francke. Al�m dele, participavam da reuni�o mais duas pessoas da alta esfera da Casa, o secret�rio-geral e o respons�vel pelo or�amento. No final daquele dia, a vida de Gullberg tinha adquirido um novo sentido. Ele fora escolhido. Atribu�ram-lhe a responsabilidade de uma brigada recentemente criada com o nome provis�rio de Se��o Especial, cuja sigla era SE. A primeira provid�ncia de Gullberg foi renome�-la Se��o de An�lise. Funcionou durante alguns minutos, at� o respons�vel pelo or�amento observar que SA n�o era muito melhor que SE. O nome definitivo da organiza��o acabou sendo Se��o de An�lise Especial, SAE, chamada no dia a dia de Se��o, diferentemente de Departamento ou Casa, que se aplicavam ao conjunto da Sapo.</p><p>Essa se��o fora id�ia de Francke. Ele a denominava a �ltima linha de defesa � um grupo ultrassecreto que ocupava posi��es estrat�gicas dentro da Casa, embora fosse invis�vel, n�o aparecesse nos avisos internos nem nas previs�es or�ament�rias e n�o pudesse, desse modo, sofrer infiltra��es. Sua miss�o: cuidar da seguran�a da na��o. Francke tinha poder para tornar isso poss�vel. Precisava contar com o respons�vel pelo or�amento e com o secret�rio-geral para criar essa estrutura oculta, mas todos eles eram soldados da velha escola e amigos, ap�s dezenas de escaramu�as com o Inimigo.</p><p>No primeiro ano, a organiza��o era constitu�da apenas por Gullberg e tr�s colaboradores escolhidos a dedo. No�.dez anos seguintes, a Se��o foi crescendo at� contar com onze pessoas; duas eram secret�rios administrativos da velha escola e as outras, ca�adores de espi�es profissionais. Numa hierarquia simplificada ao m�ximo, Gullberg era o chefe e os demais, colaboradores que se reuniam quase diariamente com o chefe. A efici�ncia era mais valorizada que o prest�gio e a burocracia.</p><empty-line/><p>Formalmente, Gullberg era subordinado a uma extensa lista de pessoas na hierarquia abaixo do secret�rio-geral da Sapo, ao qual ele tinha de apresentar relat�rios mensais, mas na pr�tica ocupava uma posi��o �nica e detinha um poder extraordin�rio. Ele, e apenas ele, podia resolver investigar de perto as mais altas esferas da Sapo. Podia, se assim lhe aprouvesse, virar do avesso a vida do pr�prio Per Gunnar Vinge (o que ele de fato fez). Podia iniciar suas pr�prias investiga��es ou instalar escutas telef�nicas sem ser obrigado a dar explica��es ou recorrer �s altas inst�ncias. Seu modelo era o lend�rio espi�o americano James Jesus Angleton, que ocupava uma posi��o similar na CIA e a que ele, por sinal, conhecera pessoalmente.</p><p>Na pr�tica, a Se��o foi se tornando uma micro-organiza��o dentro do Departamento, acima e � margem do restante da Pol�cia de Seguran�a. Isso tamb�m trouxe conseq��ncias geogr�ficas. A Se��o contava com algumas salas em Kungsholmen, mas, por raz�es de seguran�a, foi inteiramente transferida para um apartamento particular de onze c�modos em Ostermalm. O apartamento foi discretamente transformado em salas fortes, que nunca ficavam sem tripula��o, j� que a fiel secret�ria, Eleanor Badenbrink, passou a habitar de modo permanente dois c�modos situados junto � porta de entrada. Badenbrink era um recurso inestim�vel em quem Gullberg tinha toda confian�a.</p><p>Ao montar essa unidade, Gullberg e seus colaboradores evitaram qualquer tipo de visibilidade � eram financiados por um "fundo especial", por�m n�o constavam em lugar nenhum da burocracia formal da Pol�cia de Seguran�a, ligada � dire��o-geral da Pol�cia Nacional ou ao Minist�rio da Justi�a. O pr�prio diretor da DGPN/Sapo desconhecia a exist�ncia desses homens, os mais secretos entre os secretos, que tinham por miss�o gerir os casos mais secretos entre os mais secretos.</p><p>Por volta dos quarenta anos, portanto, Gullberg estava numa posi��o de n�o ter de prestar contas a ningu�m e poder iniciar investiga��es sobre o que bem entendesse.</p><p>Desde o in�cio, compreendeu que a Se��o de An�lise Especial corria o risco de se tornar um grupo politicamente nevr�lgico. Sua miss�o era, no m�nimo, um bocado vaga, e as instru��es escritas, extremamente escassas. Em setembro de 1964, o primeiro-ministro Tage Erlander assinou uma diretriz estipulando a atribui��o de uma verba para a Se��o de An�lise Especial, cuja miss�o era gerir investiga��es particularmente espinhosas e importantes para a seguran�a da na��o. Foi um desses doze casos particularmente espinhosos que o diretor-adjunto da DGPN/Sapo, Hans Wilhelm Fracke, exp�s numa reuni�o. O caso foi de imediato considerado secreto e arquivado no cadastro especial e igualmente secreto da DGPN/Sapo.</p><p>A medida do primeiro-ministro, por�m, exigia que a Se��o fosse uma institui��o juridicamente reconhecida. Seu primeiro or�amento anual somava cinq�enta e duas mil coroas. Um or�amento min�sculo, o que o pr�prio Gullberg considerava um golpe de mestre. Dava a entender que a cria��o da Se��o n�o passava de um fato em meio a tantos outros.</p><p>Num sentido mais amplo, a diretriz assinada pelo primeiro-ministro significava que ele reconhecia a necessidade de haver um grupo encarregado do "controle interno dos funcion�rios". Alguns poderiam igualmente interpretar essa assinatura como um aval do primeiro-ministro para a cria��o de um grupo que poderia tamb�m se encarregar do controle de "pessoas especialmente espinhosas" fora da Sapo, por exemplo o pr�prio primeiro-ministro. Esta �ltima possibilidade � que criava dificuldades pol�ticas potencialmente graves.</p><p>Evert Gullberg constatou que seu copo de Johnny Walker estava vazio. N�o era particularmente afeito ao �lcool, mas tinha sido um longo dia, uma longa viagem, e ele julgava ter chegado a um ponto da vida em que pouco importava se ele tomasse um ou dois u�sques. N�o precisava hesitar em encher o copo se lhe desse vontade. Serviu-se uma garrafinha de Glenfiddich.</p><p>O caso mais delicado fora, evidentemente, o de Olof Palme.</p><p>Gullberg recordava nos m�nimos detalhes o dia das elei��es de 1976. Pela primeira vez na hist�ria moderna, a Su�cia tinha um governo de direita. Infelizmente, quem se tornou primeiro-ministro foi Thorbj�m F�lldin, e n�o Gosta Bohman, um homem da velha escola muit�ssimo mais adequado. Mas o importante � que Palme fora derrotado e Evert Gullberg podia respirar aliviado.</p><p>A pertin�ncia de Palme como primeiro-ministro fora objeto de mais de uma conversa nos corredores mais secretos da DGPN/S�po. Em 1969, Per Gunnar Vinge fora demitido depois de expressar sua opini�o, partilhada por v�rias pessoas do Departamento, de que Palme talvez fosse um agente de informa��es a servi�o da KGB russa. A convic��o de Vinge n�o suscitou controv�rsias no ambiente que reinava na Casa. Infelizmente, ele discutira o assunto de forma aberta com o governador Ragnar Lassinantti em uma visita � prov�ncia de Norrbotten. Lassinantti levantara duas vezes as sobrancelhas e depois informara o gabinete ministerial, o que resultou na convoca��o de Vinge para uma entrevista particular.</p><p>Para a imensa indigna��o de Evert Gullberg, a quest�o dos eventuais contatos russos de Palme nunca obteve confirma��o. Apesar das constantes tentativas no sentido de estabelecer a verdade e reunir provas definitivas � o rev�lver ainda fumegante �, a Se��o jamais encontrou a menor evid�ncia. Aos olhos de Gullberg, isso de modo algum demonstrava a inoc�ncia de Palme, e sim, pelo contr�rio, que ele talvez fosse um espi�o particularmente esperto e inteligente, pouco dado a repetir os erros cometidos por outros espi�es russos. Palme continuava zombando deles ano ap�s ano. Em 1982, o caso Palme voltara � tona quando ele se tomou primeiro-ministro. Depois, repercutiram os tiros de Sveav�gen, e a quest�o se tornou para sempre mera teoria.</p><p>O ano de 1976 fora problem�tico para a Se��o. Dentro da DGPN/Sapo � entre as raras pessoas que sabiam da exist�ncia da Se��o � come�aram a surgir algumas cr�ticas. Nos dez anos anteriores, um total de sessenta e cinco funcion�rios da Sapo tinham sido afastados da organiza��o em virtude de uma suposta falta de confiabilidade pol�tica. Na maioria dos casos, contudo, os documentos eram de tal natureza que nada podia ser provado e, conseq�entemente, alguns chefes dos altos escal�es come�aram a achar que os funcion�rios da Se��o eram uns paran�icos que enxergavam conspira��es em tudo.</p><p>Gullberg ainda fervia por dentro quando se lembrava de um dos casos enfrentados pela Se��o. Tratava-se de um homem recrutado pela DGPN/Sapo em 1968 e que Gullberg achava especialmente inadequado. Chamava-se Stig Bergling, um inspetor criminal e tenente do Ex�rcito sueco que mais tarde viria a se revelar coronel do GRO, o servi�o russo de informa��es militares. Em quatro oportunidades, durante os anos seguintes, Gullberg tentou fazer com que Bergling fosse demitido, mas todas as suas tentativas foram ignoradas. Os ventos s� mudaram em 1977, quando Bergling ficou sob suspeita mesmo fora da Se��o. Tarde demais. Bergling foi o maior esc�ndalo da hist�ria da Pol�cia de Seguran�a sueca.</p><empty-line/><p>A cr�tica em rela��o � Se��o crescera durante a primeira metade dos anos 1970 e, em meados da d�cada, Gullberg ouvira diversos coment�rios sobre uma redu��o de verbas e inclusive a insinua��o de que aquela atividade toda n�o tinha a menor utilidade.</p><p>De forma geral, a cr�tica significava que o futuro da Se��o estava comprometido. Naquele ano, a prioridade da DGPN/Sapo eram as amea�as terroristas, uma triste hist�ria do ponto de vista da espionagem que envolvia principalmente jovens perdidos que atuavam para elementos �rabes ou pr�--palestinos. A grande quest�o dentro da Sapo era se a atividade de controle das pessoas deveria receber verbas espec�ficas para investigar cidad�os estrangeiros residentes na Su�cia, ou se esse era um assunto exclusivo da Brigada dos Estrangeiros.</p><p>A partir dessa discuss�o burocr�tica um tanto obscura, surgira na Se��o a necessidade de poder contar com um colaborador de confian�a, encarregado de refor�ar o controle dos colaboradores na Brigada dos Estrangeiros � e, sim, de espion�-los.</p><p>A escolha recaiu sobre um jovem funcion�rio que trabalhava na DGPN/ Sapo desde 1970 e cujo passado e credibilidade pol�tica permitiam supor que ele poderia ter um lugar entre os colaboradores da Se��o. Na vida privada, era membro de uma organiza��o chamada Alian�a Democr�tica, mas que a m�dia social-democrata qualificava de extrema-direita. Na Se��o, isso n�o representava um defeito grave. Tr�s outros colaboradores eram membros dessa organiza��o, e a Se��o tinha muito a ver com sua cria��o, al�m de contribuir um pouco com ela financeiramente. Pelo vi�s da Alian�a Democr�tica � que o novo colaborador da Se��o fora notado e recrutado. Seu nome era Gunnar Bj�rck.</p><empty-line/><p>No dia das elei��es de 1976, quando Alexander Zalachenko se refugiara na Su�cia e entrara na delegacia de Norrmalm pedindo asilo pol�tico, para Evert Gullberg foi de fato uma sorte ele ter sido recebido justamente pelo jovem Gunnar Bj�rck � encarregado de instruir os processos na Brigada dos Estrangeiros, um agente j� envolvido com os segredos mais secretos.</p><p>Bj�rck tinha uma mente �gil. Percebeu de imediato a import�ncia de Zalachenko e interrompeu o interrogat�rio. Colocou o desertor num quarto do Hotel Continental. Em seguida, Gunnar Bj�rck chamou Evert Gullberg para dar o alerta, e n�o seu chefe formal na Brigada dos Estrangeiros. O telefonema chegou numa hora em que as zonas eleitorais j� estavam fechadas e todos os progn�sticos indicavam a derrota de Palme. Gullberg acabava de chegar em casa e assistia � cobertura das elei��es na tev�. Num primeiro momento, desconfiou da informa��o que aquele rapaz excitad�ssimo lhe transmitia. Mas pouco depois dirigiu-se ao Hotel Continental para assumir o caso Zalachenko.</p><p>Naquele dia, a vida de Evert Gullberg mudara radicalmente. A palavra "secreto" adquiriu um novo significado e um novo peso. Ele percebeu a necessidade de montar uma estrutura em volta do dissidente.</p><p>Optou de sa�da por incluir Gunnar Bj�rck no grupo Zalachenko. S�bia e justa decis�o, uma vez que Bj�rck j� sabia da exist�ncia do dissidente. Era melhor t�-lo no grupo do que permitir que ele representasse l� fora um risco para a seguran�a. Assim, Bj�rck foi transferido do seu cargo oficial na Brigada dos Estrangeiros para uma sala no apartamento de Ostermalm.</p><p>Na agita��o que se seguiu, Gullberg resolveu informar uma �nica pessoa dentro da DGPN/Sapo, o secret�rio-geral que j� tinha acesso �s atividades da Se��o. O secret�rio-geral segurou a informa��o durante v�rios dias e depois acabou explicando a Gullberg que quem estava mudando de lado era um peixe t�o grande que precisavam informar n�o s� o diretor da DGPN/Sapo como tamb�m o governo.</p><p>O diretor da DGPN/Sapo, que acabara de assumir o cargo, tinha na �poca conhecimento da exist�ncia da SAE, mas s� uma vaga id�ia de suas reais atividades. Fora colocado no cargo apenas para dar uma limpa ap�s o caso IB, e j� estava a caminho de um cargo importante na hierarquia policial. Durante algumas entrevistas confidenciais, o diretor da DGPN/Sapo descobrira que a Se��o era um grupo secreto criado pelo governo, que operava ao largo das reais atividades da Sapo e sobre o qual n�o se devia fazer nenhum tipo de pergunta. Como, na �poca, o diretor era um homem que tomava o maior cuidado em n�o fazer perguntas capazes de provocar respostas desagrad�veis, contentara-se em menear a cabe�a e aceitar que existia algo chamado SAE que nada tinha a ver com ele.</p><empty-line/><p>Gullberg n�o estava l� muito entusiasmado com a id�ia de ter de falar sobre Zalachenko com o diretor, mas curvou-se � realidade. Enfatizou a necessidade premente de segredo absoluto, no que foi apoiado por seu interlocutor, e decretou medidas segundo as quais nem o pr�prio diretor da DGPN/Sapo poderia discutir o assunto em sua sala sem adotar procedimentos especiais de seguran�a. Ficou decidido que Zalachenko seria administrado pela Se��o de An�lise Especial.</p><p>Estava fora de cogita��o informar o primeiro-ministro que deixava o cargo. Tendo em vista a agita��o em torno da mudan�a de governo, o novo primeiro-ministro estava ocupado demais com a nomea��o de seu minist�rio e negociando com os outros partidos de direita. S� um m�s depois da forma��o do novo governo � que o diretor da DGPN/Sapo, acompanhado de Gullberg, foi at� Rosenbad, na sede do governo, para informar F�lldin, o novo primeiro--ministro. Gullberg opusera-se at� o fim a que o governo fosse informado, mas o diretor da DGPN/Sapo insistira � era constitucionalmente indefens�vel n�o informar o primeiro-ministro. Durante a reuni�o, Gullberg usara toda a sua eloq��ncia para convencer o primeiro-ministro da import�ncia de n�o divulgar a exist�ncia de Zalachenko para al�m de sua sala � nem o ministro das Rela��es Exteriores, nem o ministro da Defesa, nem qualquer outro membro do governo poderia ficar sabendo.</p><p>Saber que um agente russo de peso buscara asilo pol�tico na Su�cia mexera com F�lldin. O primeiro-ministro come�ou a evocar seu dever constitucional de discutir o assunto com, pelo menos, os presidentes dos dois outros partidos do governo de coaliz�o. Gullberg estava preparado para essa rea��o e jogara sua cartada mais consistente. Explicara em voz baixa que, se isso acontecesse, ele se veria obrigado a apresentar de imediato sua demiss�o. A amea�a surtiu efeito, pois isso significaria o primeiro-ministro ter de arcar pessoalmente com as conseq��ncias caso o fato viesse � tona e os russos enviassem um comando assassino para eliminar Zalachenko. E se a pessoa que respondia pela seguran�a de Zalachenko se sentira for�ada a se demitir, uma revela��o desse porte seria uma cat�strofe tanto em termos pol�ticos como de repercuss�o na imprensa para o primeiro-ministro.</p><p>F�lldin, ainda novato e hesitante em seu papel de chefe do governo, capitulou. Deu seu aval para uma diretriz, imediatamente inscrita no registro secreto, estipulando que a Se��o responderia pela seguran�a e pelos interrogat�rios de Zalachenko, e que a informa��o sobre sua exist�ncia n�o deveria sair do gabinete do primeiro-ministro. Ao assinar essa diretriz, F�lldin demonstrava claramente que havia sido informado, mas tamb�m que n�o estava autorizado a falar sobre o assunto. Em suma, o que ele tinha a fazer era esquecer Zalachenko.</p><p>F�lldin, contudo, insistira para que outra pessoa de seu gabinete fosse informada, um secret�rio de Estado cuidadosamente escolhido que atuasse como contato nos assuntos relacionados com o dissidente. Gullberg concordou. N�o lhe seria dif�cil manipular um secret�rio de Estado.</p><p>O diretor da DGPN/Sapo estava satisfeito. O caso Zalachenko ficava, assim, coberto do ponto de vista constitucional, o que significava que ele tamb�m estava garantido. Gullberg tamb�m estava satisfeito. Conseguira criar uma quarentena que lhe permitia controlar o fluxo de informa��es. Ele era o �nico que controlava Zalachenko.</p><p>Voltando ao seu escrit�rio em Ostermalm, Gullberg sentou-se � sua mesa e estabeleceu uma lista manuscrita das pessoas que sabiam da exist�ncia de Zalachenko. Afora ele pr�prio, nela constavam Gunnar Bj�rck; Hans von Rottinger, chefe de opera��es da Se��o; Fredrik Clinton, diretor-adjunto; Eleanor Badenbrink, secret�ria da Se��o; e outros dois colaboradores encarregados de reunir e analisar o conte�do das informa��es que Zalachenko pudesse fornecer. Ao todo sete pessoas, que, nos anos seguintes, iriam constituir uma se��o � parte dentro da Se��o. Ele a batizou mentalmente de Grupo Interno.</p><p>Fora da Se��o, sabiam do segredo o diretor da DGPN/Sapo, o diretor--adjunto e o secret�rio-geral. Doze pessoas ao todo. Nunca antes um segredo daquela import�ncia fora conhecido por um c�rculo t�o exclusivo.</p><p>Mas Gullberg logo se preocupou. Mais uma pessoa sabia do segredo. Bj�rck viera acompanhado de um jurista, Nils Bjurman. Estava fora de quest�o transformar Bjurman em colaborador da Se��o. Al�m de Bjurman n�o ser um leg�timo policial da Sapo � n�o passava de um estagi�rio �, n�o tinha os conhecimentos e a compet�ncia necess�rios. Gullberg pesou diferentes possibilidades e ent�o optou por ir discretamente afastando Bjurman do caso. Amea�ou-o com pris�o perp�tua por alta trai��o caso deixasse escapar uma s�laba sequer a respeito de Zalachenko, corrompeu-o com promessas de miss�es futuras e com adula��es que aumentaram o sentimento de import�ncia de Bjurman. Cuidou para que obtivesse um cargo num renomado escrit�rio de advocacia, assim como um volume de encargos que o mantivesse ocupado. O �nico problema era Bjurman ser t�o med�ocre e n�o saber explorar suas aptid�es. Ao fim de dez anos, deixara o escrit�rio de advocacia e abrira seu pr�prio escrit�rio, com um funcion�rio, em Odenplan.</p><p>Ao longo dos anos, Gullberg manteve Bjurman sob uma discreta, mas constante vigil�ncia. S� relaxou nesses cuidados no final dos anos 1980, quando, com o desmoronamento da Uni�o Sovi�tica, Zalachenko deixou de ser um assunto priorit�rio.</p><p>Para a SAE, Zalachenko de in�cio representou a promessa de uma pista para o enigma Palme, um caso que estava constantemente entre as preocupa��es de Gullberg. De modo que Palme fora um dos primeiros temas ventilados por Gullberg durante o extenso interrogat�rio.</p><p>Essa expectativa, por�m, foi rapidamente pulverizada, j� que Zalachenko nunca atuara na Su�cia e n�o conhecia de fato o pa�s. Em compensa��o, tinha ouvido falar num tal de "Corredor Vermelho", um pol�tico do alto escal�o sueco, ou quem sabe escandinavo, que trabalhava para a KGB.</p><p>Gullberg montou uma lista de nomes que ele relacionava com Palme. Nela constavam Carl Lidbom, Pierre Schori, Sten Andersson, Marita Ulvskog e mais algumas pessoas. Ao longo de sua vida, Gullberg jamais deixou de voltar a essa lista, e jamais encontrou uma resposta.</p><p>Gullberg, de repente, estava brincando no p�tio dos meninos mais velhos. Passaram a cumpriment�-lo com respeito no exclusivo clube dos guerreiros, em que todos se conhecem e os contatos se d�o por interm�dio de amigos pessoais e de confian�a � e n�o pelos canais oficiais e interven��es burocr�ticas. Conheceu James Jesus Angleton e teve a oportunidade de tomar u�sque num discreto clube londrino com o chefe do MI-6. Tinha se tornado um dos mais velhos.</p><p>A desvantagem de seu of�cio � que nunca poderia revelar seus �xitos, nem mesmo em suas mem�rias p�stumas. E vivia sempre com o receio de que o Inimigo reparasse em suas viagens e o pusesse sob vigil�ncia � de que sem querer conduzisse os russos at� Zalachenko.</p><p>Sob esse ponto de vista, Zalachenko era seu pior inimigo.</p><p>No primeiro ano, Zalachenko vivera num apartamento neutro de propriedade da Se��o. Ele n�o constava em nenhum registro ou documento oficial, e o grupo Zalachenko acreditava ter muito tempo pela frente antes de ser obrigado a planejar seu futuro. S� na primavera de 1978 ele recebeu um passaporte com o nome de Karl Axel Bodin, junto com uma hist�ria minuciosamente montada � um verdadeiro passado falso pass�vel de ser conferido nos cadastros suecos.</p><p>Mas era tarde demais. Zalachenko j� tinha se metido com a desgra�ada daquela puta da Agneta Sofia Salander, nascida Sj�lander, e se apresentara com seu nome verdadeiro. Para Gullberg, faltava algum parafuso na cabe�a do seu protegido. Desconfiava que o dissidente russo queria ser desmascarado. Dava a impress�o de querer se mostrar � luz dos refletores. Se n�o, como se explicava ele �s vezes ser t�o obtuso?</p><p>Eram as putas, eram os per�odos de consumo exagerado de �lcool, eram as brigas e alterca��es com os seguran�as nos bares. Zalachenko foi detido tr�s vezes pela pol�cia sueca por embriaguez, e duas por confus�o em bares. E todas as vezes a Se��o tinha de intervir discretamente para tir�-lo da encrenca, dar sumi�o nos documentos e tratar de alterar os registros. Gullberg designou Gunnar Bj�rck para o papel de ama-seca. Seu trabalho consistia em servir de bab� para o dissidente quase vinte e quatro horas por dia. Meio complicado, mas tamb�m era dif�cil n�o agir daquele modo.</p><p>Tudo poderia ter sido tranq�ilo. No in�cio dos anos 1980, Zalachenko tinha se acalmado e come�ava a se adaptar. A n�o ser pelo fato de n�o querer largar aquela puta da Salander � e, para piorar, ele agora era pai de duas meninas, Camilla e Lisbeth Salander.</p><p>Lisbeth Salander.</p><p>Gullberg pronunciou o nome com uma sensa��o de mal-estar.</p><p>Quando as meninas tinham nove, dez anos, Gullberg j� sentia como que uma c�imbra no est�mago quando o assunto era Lisbeth Salander. N�o precisava ser psiquiatra para perceber que ela n�o era normal. Gunnar Bj�rck relatara que ela era rebelde, violenta e agressiva com Zalachenko, e ainda por cima parecia n�o ter nenhum medo dele. Falava muito pouco, mas expressava de mil maneiras seu desagrado com aquele estado de coisas. Ela era um problema em potencial, por�m nem em seus maiores del�rios da imagina��o</p><p>Gullberg conseguiria prever as propor��es monumentais que aquilo tudo iria assumir. O que ele mais temia era que a situa��o da fam�lia Salander provocasse uma investiga��o social que acabasse pondo Zalachenko em foco. Gullberg pedia-lhe constantemente que rompesse com a fam�lia e sumisse da vida delas. Zalachenko prometia, mas nunca cumpria a promessa. Ele tinha outras putas. Muitas putas. No entanto, ao fim de alguns meses, sempre voltava para junto de Agneta Sofia Salander.</p><p>O idiota do Zalachenko. Um espi�o que permitia que seu pinto conduzisse sua vida sentimental n�o podia, evidentemente, ser um bom espi�o. Era como se Zalachenko estivesse, ou julgasse estar, acima das regras. Se pelo menos ele pudesse trepar com a mulher sem espanc�-la sempre que a via, at� daria para ag�entar, mas o fato � que ele a maltratava sistematicamente. Parecia at� que se comportava assim para desafiar os vigilantes do grupo Zalachenko, que ele demolia a mulher s� para se divertir e atormentar o grupo.</p><p>Gullberg n�o tinha a menor d�vida de que Zalachenko era um escroto perverso, mas n�o tinha escolha. Os dissidentes do GRO realmente n�o nasciam em �rvores. Ele s� dispunha de um, o qual tinha consci�ncia da pr�pria import�ncia.</p><p>Gullberg suspirou. O grupo Zalachenko assumira a fun��o de comando de limpeza. N�o dava para negar. Zalachenko sabia que podia tomar suas liberdades que depois os homens ajeitariam gentilmente os problemas. E quando se tratava de Agneta Sofia Salander, ele aproveitava a situa��o para ultrapassar todos os limites.</p><p>Entretanto, sinais de alerta n�o tinham faltado. Lisbeth Salander acabava de completar doze anos quando apunhalara Zalachenko. Claro, foram ferimentos superficiais, mas mesmo assim exigiram uma passagem no Hospital Sankt G�ran e a necessidade, para o grupo Zalachenko, de realizar uma limpeza consider�vel. Naquela vez, Gullberg tivera uma Conversa Muito S�ria com Zalachenko. Explicou-lhe que ele n�o podia, em hip�tese alguma, retomar o contato com a fam�lia Salander, e Zalachenko prometeu. Cumpriu a promessa por mais de seis meses, at� que voltou a procurar Agneta Sofia Salander e lhe deu tamanha surra que ela acabou seus dias numa cl�nica. Mas o que Gullberg nunca teria imaginado � que Lisbeth Salander era uma psicopata �vida de sangue que sabia fabricar um coquetel Molotov. Aquele dia fora um caos absoluto. Seria de se esperar uma s�rie de investiga��es, e toda a opera��o Zalachenko � quem sabe at� toda a Se��o � estava por um t�nue fio. Se Lisbeth Salander falasse, Zalachenko poderia ser desmascarado. Se Zalachenko fosse desmascarado, n�o s� uma s�rie de opera��es em andamento na Europa nos �ltimos quinze anos corria o risco de naufragar, como a pr�pria Se��o arriscava-se a se tornar objeto de um inqu�rito oficial. O que precisava ser evitado a todo custo.</p><p>Gullberg estava preocupado. Um inqu�rito oficial faria o caso IB parecer uma inofensiva s�rie de televis�o. Se abrissem os arquivos da Se��o, descobririam um bom n�mero de situa��es n�o totalmente constitucionais, para n�o falar na vigil�ncia sobre Palme e sobre outros sociais-democratas conhecidos, que se estendera por muitos anos. Isso acarretaria investiga��es sobre Gullberg e v�rios outros funcion�rios da Se��o. Pior: jornalistas exaltados, sem pensar duas vezes, lan�ariam a teoria de que a Se��o estava por tr�s do assassinato de Palme, o que por sua vez conduziria a mais um labirinto de revela��es e acusa��es. O pior era que a dire��o da Sapo tinha mudado tanto que hoje nem seu chefe principal sabia da exist�ncia da Se��o. Todos os contatos com a DGPN/Sapo naquele ano iam parar na mesa do novo secret�rio-geral que, fazia j� dez anos, era membro da Se��o.</p><p>Os colaboradores do grupo Zalachenko viviam um clima de p�nico e afli��o. Foi Gunnar Bj�rck quem encontrou a solu��o na forma de um psiquiatra chamado Peter Teleborian.</p><p>Teleborian estivera ligado ao departamento de contra-espionagem da DGPN/Sapo em outro caso bem distinto, fazendo as vezes de consultor quando a contra-espionagem tivera de avaliar a personalidade de um espi�o industrial em potencial. Em certo ponto delicado da investiga��o, foi preciso determinar de que maneira o homem reagiria se exposto a uma situa��o de estresse. Teleborian era um jovem psiquiatra promissor que n�o empregava um jarg�o obscuro, oferecendo conselhos concretos e s�lidos. Tais conselhos tinham permitido que a Sapo evitasse um suic�dio, e o espi�o em quest�o fora convertido em agente duplo, fornecedor de desinforma��o � seus partid�rios.</p><p>Ap�s a agress�o de Salander contra Zalachenko, Bj�rck vinculara discretamente Teleborian � Se��o, como consultor. E naquele momento, mais do que nunca, estavam precisando dele.</p><p>A solu��o do problema fora bastante simples. Karl Axel Bodin podia desaparecer em algum momento durante seu processo de reeduca��o. Agneta Sofia Salander desapareceria em meio aos tratamentos de longo prazo, com les�es cerebrais irrevers�veis. Todas as investiga��es policiais ficaram concentradas na DGPN/Sapo e foram repassadas para a Se��o atrav�s do secret�rio-geral.</p><p>Peter Teleborian acabava de assumir o cargo de m�dico-chefe adjunto na cl�nica Sankt Stefan de psiquiatria infantil, em Uppsala. S� precisavam de uma per�cia m�dico-legal redigida em conjunto por Bj�rck e Teleborian, seguida de uma decis�o sum�ria e n�o muito contest�vel de um tribunal de inst�ncias. S� dependia da forma como a quest�o seria apresentada. A Constitui��o nada tinha a ver com isso. Afinal, tratava-se da seguran�a nacional. As pessoas iriam entender.</p><p>E Lisbeth Salander era claramente uma doente mental. Alguns anos internada numa institui��o psiqui�trica s� iriam lhe fazer bem. Gullberg meneara a cabe�a e dera seu aval para a opera��o.</p><p>Todas as pe�as do* quebra-cabe�a tinham se encaixado, numa �poca em que, de qualquer modo, o grupo Zalachenko estava para ser dissolvido. A Uni�o Sovi�tica deixara de existir e o per�odo de gl�ria de Zalachenko estava definitivamente relegado ao passado. Sua data de validade estava mais do que vencida.</p><p>O grupo conseguira para Zalachenko uma generosa indeniza��o, fornecida por um dos fundos da Sapo. Ofereceram-lhe os melhores tratamentos imagin�veis e, seis meses depois, com um suspiro de al�vio, acompanharam Karl Axel Bodin ao aeroporto de Arlanda, munido de um bilhete de ida para a Espanha. Explicaram-lhe que, a partir daquele momento, Zalachenko e a Se��o seguiriam caminhos diferentes. Aquele foi um dos �ltimos casos de Gullberg. Uma semana depois, aposentava-se em fun��o da idade e deixava o lugar a seu herdeiro Fredrik Clinton. Gullberg passou a atuar apenas como consultor e conselheiro em assuntos mais delicados. Permaneceu mais tr�s anos em Estocolmo, trabalhando quase diariamente na Se��o, mas as miss�es foram ficando cada vez mais escassas e ele pr�prio foi esmorecendo. Voltou para Laholm, sua cidade natal, e realizou alguns trabalhos � dist�ncia. Nos primeiros anos, ainda vinha regularmente a Estocolmo, mas mesmo essas viagens foram se tornando mais e mais epis�dicas.</p><p>Nunca mais tinha pensado em Zalachenko. At� o dia em que, ao acordar de manh�, deu com a filha de Zalachenko na primeira p�gina de todos os jornais como suspeita de um triplo homic�dio.</p><p>Gullberg acompanhou o notici�rio com uma sensa��o de confus�o. Percebia claramente que Bjurman n�o se tornara tutor de Salander por acaso, mas o ressurgimento do velho caso Zalachenko n�o se afigurava para ele como um perigo iminente. Salander era uma doente mental. Que ela tivesse planejado uma orgia assassina n�o chegava a surpreend�-lo. Em compensa��o, nunca lhe ocorrera que Zalachenko pudesse estar ligado ao caso at� ver, no notici�rio da manh�, o relato dos acontecimentos de Gosseberga. Foi quando come�ou a dar uns telefonemas e acabou comprando uma passagem de trem para Estocolmo.</p><p>A Se��o enfrentava sua pior crise desde que a organiza��o fora criada. Tudo amea�ava explodir.</p><p>Zalachenko arrastou-se at� o banheiro e urinou. Desde que o Hospital Sahlgrenska fornecera-lhe muletas, conseguia se locomover. Dedicara o domingo a breves sess�es de exerc�cios. Uma dor infernal ainda lhe varava o maxilar e ele s� ingeria alimentos l�quidos, mas j� conseguia se levantar e percorrer uns poucos metros.</p><p>Como j� usasse uma pr�tese fazia quase quinze anos e estava acostumado com bengalas, treinou locomover-se com as muletas sem fazer barulho, dando voltas dentro do quarto. A cada vez que seu p� encostava no ch�o, uma dor fulgurante lhe transpassava a perna.</p><p>Cerrou os dentes. Pensou em Lisbeth Salander que � se tinha entendido direito � achava-se num quarto pr�ximo, � esquerda, duas portas adiante.</p><p>Por volta das duas da manh�, dez minutos depois da �ltima visita da enfermeira da noite, estava tudo calmo e silencioso. Zalachenko levantou-se a muito custo e tateou em busca das muletas. Aproximou-se da porta, mas n�o escutou nada. Abriu a porta e foi para o corredor. Caminhou at� a sa�da no fundo do corredor, abriu a porta e deu uma espiada na escada. Havia elevadores. Voltou para o corredor. Ao passar em frente � porta de Lisbeth Salander, deteve-se e se apoiou uns trinta segundos nas muletas.</p><empty-line/><p>Naquela noite, as enfermeiras tinham fechado a porta. Lisbeth Salander abriu os olhos ao escutar um ligeiro som de atrito no corredor. N�o conseguia identificar esse som. Parecia algu�m arrastando devagarinho alguma coisa no ch�o. Por um momento, tudo ficou quieto e ela se perguntou se n�o seria uma alucina��o. Um minuto depois, tornou a ouvir o mesmo ru�do se afastando. Relaxou e deitou a cabe�a no travesseiro.</p><p>Pouco depois, apalpou a comadre e descobriu os bot�es que a mantinham fechada. Abriu-os e derrubou a comadre no ch�o. De repente, respirar ficou mais f�cil.</p><p>Gostaria de ter uma arma ao alcance da m�o ou for�a suficiente para se levantar e se livrar dele de uma vez por todas.</p><p>Por fim, apoiou-se nos cotovelos e se ergueu. Acendeu a luz lateral e observou o quarto � sua volta. N�o viu nada que pudesse servir de arma. Ent�o seu olhar se deteve na mesa das enfermeiras, a tr�s metros da cama. Constatou que algu�m deixara um l�pis sobre ela.</p><p>Esperou a visita da enfermeira, que naquela noite parecia vir ocorrendo a cada meia hora. Imaginou que verifica��es menos freq�entes significavam que os m�dicos viam uma melhora em seu estado, j� que antes vinham v�--la de quinze em quinze minutos, ou at� menos. Quanto a ela, n�o percebia nenhuma diferen�a.</p><p>Uma vez sozinha, juntou suas for�as e se sentou, balan�ando as pernas sobre a beirada da cama. Os eletrodos presos � seu corpo registravam seu pulso e sua respira��o, mas os fios seguiam todos na mesma dire��o do l�pis. Levantou-se bem devagar e titubeou de repente, totalmente sem equil�brio. Por um segundo, achou que ia desmaiar, mas apoiou-se na cama e focou o olhar na mesa em frente. Deu tr�s passos vacilantes, estendeu a m�o e apanhou o l�pis.</p><p>Recuou at� a cama. Estava completamente esgotada.</p><p>Depois de alguns instantes, achou for�as para puxar o cobertor sobre si. Ergueu o l�pis e verificou a ponta. Era um l�pis de madeira comum. Fora recentemente apontado, estava afiado feito uma agulha. Daria uma arma adequada para enfiar num rosto ou nos olhos.</p><p>Deixou o l�pis facilmente acess�vel junto ao quadril e voltou a dormir.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>6 - SEGUNDA-FEIRA - 11 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Na segunda-feira de manh�, Mikael Blomkvist se levantou pouco depois das nove e ligou para Malu Eriksson, que acabava de chegar � reda��o da Millennium.</p><p>� Bom dia, senhora redatora-chefe � disse ele.</p><p>� Ainda estou em estado de choque com a sa�da da Erika e por saber que voc�s me aceitaram como redatora-chefe.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Ela foi embora. A sala dela est� vazia.</p><p>� Ent�o parece ser uma boa id�ia voc� dedicar o dia para se instalar na sala.</p><p>� N�o sei o que fazer. N�o estou me sentindo muito � vontade.</p><p>� Pois n�o deveria. Todo mundo concorda que voc� � a melhor escolha na atual situa��o. E voc� pode pedir ajuda para o Christer ou para mim.</p><p>� Obrigada pela confian�a.</p><p>� Deixe disso � disse Mikael. � Continue trabalhando como sempre. Por um tempo, a gente vai lidar com os problemas � medida que eles aparecerem.</p><p>� Certo. O que voc� tem em mente?</p><p>Ele explicou que pretendia ficar o dia inteiro em casa escrevendo. Malu se deu conta, de repente, de que ele estava prestando conta, como � provavelmente � prestaria a Erika Berger, de seu trabalho. Ele esperava um coment�rio dela. Ou estaria enganada?</p><p>� Voc� tem alguma instru��o para me passar?</p><p>� Niet. Pelo contr�rio, se voc� tiver alguma, � s� me ligar. Estou por aqui. Eu continuo com as r�deas da encrenca Salander e decido tudo sobre o caso, mas no que se refere a tudo o mais na revista a bola est� com voc�. Tome as decis�es. Eu te dou uma for�a.</p><p>� E se eu tomar a decis�o errada?</p><p>� Se eu sentir ou perceber alguma coisa, te falo. Mas s� se for alguma coisa absurda. Em geral, n�o existem decis�es cem por cento boas nem cem por cento m�s. Voc� vai tomar as suas decis�es, que talvez n�o sejam as que a Erika tomaria. E se fosse eu a decidir, ter�amos uma terceira variante. Mas agora as suas � que v�o prevalecer.</p><p>� Entendido.</p><p>� Se voc� for uma boa chefe, vai debater as quest�es que surgirem com as outras pessoas. Primeiro com o Henry e o Christer, depois comigo e, por fim, discutimos os problemas realmente espinhosos nas reuni�es de reda��o.</p><p>� Vou fazer o melhor poss�vel.</p><p>� �timo.</p><p>Ele se sentou no sof� da sala com o iBook no colo e trabalhou sem nenhuma pausa a metade da segunda-feira. Quando terminou, dispunha de uma primeira vers�o bruta de dois textos de vinte e uma p�ginas no total. Essa parte da mat�ria se centrava no assassinato de seu colaborador Dag Svensson e da companheira dele, Mia Bergman � no que eles vinham trabalhando, por que tinham sido mortos e quem era o assassino. Calculava, por alto, que teria de produzir mais umas quarenta p�ginas para a edi��o tem�tica do pr�ximo ver�o. E precisava resolver de que modo poderia introduzir Lisbeth Salander no texto sem ferir a integridade dela. Sabia coisas a seu respeito que ela decerto gostaria de n�o ver divulgadas.</p><p>Naquela segunda-feira, Evert Gullberg tomou um caf� da manh� composto por uma �nica fatia de p�o e uma x�cara de caf� preto, na Cafeteria Frey.</p><empty-line/><p>Em seguida, pegou um t�xi que o levou at� a Artillerigatan, em �stermalm. �s 9hl5, tocou o interfone, apresentou-se e imediatamente lhe abriram a porta. Subiu at� o quinto andar, onde foi recebido por Birger Wadensj��, de cinq�enta e quatro anos. Era o novo diretor da Se��o.</p><p>Wadensj�� era um dos mais jovens recrutas da Se��o na �poca em que Gullberg se aposentara. N�o sabia bem o que pensar a respeito dele.</p><p>Gostaria que o en�rgico Fredrick Clinton ainda estivesse l�. Clinton sucedera Gullberg e fora diretor da Se��o at� 2002, quando um diabetes e problemas cardiovasculares de certa forma o obrigaram a se aposentar. Gullberg n�o conseguia identificar qual era realmente o perfil de Wadensj��.</p><p>� Ol�, Evert � disse Wadensj��, apertando a m�o de seu antigo chefe. � Obrigado por reservar um tempinho para nos fazer uma visita.</p><p>� Tempo � quase tudo o que me resta � disse Gullberg.</p><p>� Sabe como �. A gente n�o � muito bom em manter contato com nossos ex-fi�is servidores.</p><p>Evert Gullberg ignorou a observa��o. Entrou � esquerda em sua antiga sala, instalando-se a uma mesa redonda de reuni�es pr�xima � janela. Wadensj�� (Gullberg sup�s que fosse mesmo ele) pusera nas paredes reprodu��es de Chagall e Mondrian. No seu tempo, Gullberg tinha posto plantas de navios hist�ricos como o Kronan e o Wasa. Sempre sonhara com o mar e era, de origem, oficial da Marinha, embora s� tenha passado alguns poucos meses no mar durante o servi�o militar. Havia tamb�m computadores na sala. No mais, ela estava praticamente igual � que ele deixara ao se aposentar. Wadensj�� serviu um caf�.</p><p>� O pessoal n�o deve demorar � disse ele. � Pensei que a gente poderia conversar um pouco primeiro.</p><p>� Quantas pessoas da minha �poca ainda est�o na Se��o?</p><p>� Al�m de mim, s� o Otto Hallberg e o Georg Nystr�m. O Hallberg se aposenta este ano e o Nystr�m est� para fazer sessenta anos. Fora eles, praticamente s� temos gente nova. Voc� j� deve ter cruzado com alguns deles.</p><p>� Quantas pessoas trabalham na Se��o atualmente?</p><p>� Andamos reorganizando as coisas por aqui.</p><p>� Ah, �?</p><p>� No momento, estamos com sete pessoas em per�odo integral. Ou seja, houve uma redu��o. Al�m disso, a Se��o tem trinta e um colaboradores na DGPN/Sapo. A maioria nunca aparece, faz o trabalho de rotina, e os servi�os que eles realizam para n�s s�o mais um extra discreto.</p><p>� Trinta e um colaboradores.</p><p>� Mais sete. Acontece que foi voc� quem criou este sistema. N�s s� aperfei�oamos, e ainda hoje se fala em uma organiza��o interna e outra externa. Quando recrutamos uma pessoa, ela fica lotada aqui por um tempo para adquirir experi�ncia com a gente. O Hallberg � quem cuida do treinamento. O est�gio b�sico dura seis semanas. � realizado na Escola da Marinha. Depois o novato reassume seu posto efetivo na DGPN/Sapo, mas alocado aqui com a gente.</p><p>� Ah,�?</p><p>� O sistema � meio fant�stico. Os colaboradores, na sua maioria, ignoram tudo uns sobre os outros. E aqui na Se��o a gente funciona antes de mais nada como receptores de relat�rios. As regras s�o as mesmas da sua �poca. Para todos os efeitos, somos uma organiza��o banal.</p><p>� Unidade de interven��o?</p><p>Wadensj�� franziu o cenho. Nos tempos de Gullberg, a Se��o tivera uma pequena unidade de interven��o de quatro pessoas comandadas por Hans von Rottinger, um sujeito experiente.</p><p>�� Bem, n�o exatamente. O Rottinger morreu h� cinco anos. Temos aqui um jovem talentoso que faz algum trabalho de campo, mas em geral recorremos a algu�m da organiza��o externa quando � preciso. Sem contar que tecnicamente ficou mais complicado, por exemplo, montar uma escuta telef�nica ou entrar num apartamento. Hoje em dia existem alarmes e lixos desse tipo em todo lugar.</p><p>Gullberg concordou com a cabe�a.</p><p>� Or�amento? � perguntou.</p><p>� Contamos com pouco mais de onze milh�es por ano. Um ter�o vai para os sal�rios, um ter�o para a manuten��o e o outro ter�o para as atividades.</p><p>� Quer dizer que o or�amento foi reduzido?</p><p>� Um pouco. Mas temos menos pessoal, o que significa que a verba para as atividades aumentou.</p><p>� Entendi. Me fale um pouco sobre a nossa rela��o com a Sapo � disse Gullberg, sem se preocupar se podia ou n�o usar esse termo.</p><p>Wadensj�� balan�ou a cabe�a.</p><p>� O secret�rio-geral e o encarregado do or�amento s�o nossos. Formalmente, o secret�rio-geral � talvez o �nico que tem acesso �s nossas atividades. Como sempre, somos secretos a ponto de n�o existirmos. Mas, ha verdade, alguns chefes-adjuntos sabem da nossa exist�ncia. Fazem o poss�vel para nem ouvir falar na gente.</p><p>� Sei. Isso significa que caso haja algum problema a atual dire��o da Sapo vai ter uma surpresa desagrad�vel. E a dire��o da Defesa? E o governo?</p><p>� A dire��o da Defesa foi afastada j� faz uns dez anos. E os governos, voc� sabe, v�o e v�m.</p><p>� Quer dizer que, se o tempo fechar, estamos completamente sozinhos?</p><p>Wadensj�� assentiu com a cabe�a.</p><p>� E o inconveniente desse arranjo. Em compensa��o, h� vantagens �bvias. Mas as nossas tarefas tamb�m mudaram. A real politik na Europa j� n�o � a mesma desde a queda da Uni�o Sovi�tica. Nosso trabalho est� menos centrado na detec��o de agentes de informa��o. Agora tudo gira mais em torno do terrorismo e, principalmente, da adequa��o pol�tica de tal ou tal pessoa para os cargos nevr�lgicos.</p><p>� Tudo sempre girou em torno disso.</p><p>Bateram � porta. Gullberg viu um homem bem-apessoado de uns sessenta anos e outro mais jovem, de jeans e palet�.</p><p>� Ol�, pessoal. � E virando-se para Gullberg: � Esse � o Jonas Sandberg. Ele trabalha aqui h� quatro anos e participa da frente de interven��es. J� lhe falei sobre ele. E esse � o Georg Nystr�m, voc�s j� se conhecem.</p><p>� Ol�, Georg � disse Gullberg.</p><p>Apertaram-se as m�os. Gullberg ent�o se virou para Jonas Sandberg.</p><p>� E voc�, vem de onde? � perguntou, enquanto o examinava.</p><p>� Nesse momento, de G�teborg � brincou Sandberg. � Fui fazer uma visita.</p><p>� Zalachenko... � disse Gullberg.</p><p>Sandberg fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Senhores, queiram sentar-se � disse Wadensj��.</p><p>� Bj�rck? � disse Gullberg, e franziu o cenho quando Wadensj�� acendeu uma cigarrilha. Tinha tirado o palet� e estava recostado na poltrona diante da mesa de reuni�es. Wadensj�� lan�ou um olhar para Gullberg e se impressionou com a extrema magreza do velho.</p><p>� Ele foi acusado de infringir a lei de remunera��o de servi�os sexuais na sexta-feira passada � disse Georg Nystr�m. � A a��o judicial ainda n�o teve in�cio, mas ele a princ�pio confessou e voltou para casa com o rabo entre as pernas. Est� morando em Sm�dalar� durante sua licen�a m�dica. A m�dia ainda n�o divulgou nada.</p><p>� Houve um tempo em que Bj�rck era um dos melhores aqui na Se��o � disse Gullberg. � Tinha um papel-chave no caso Zalachenko. O que aconteceu depois que eu me aposentei?</p><p>� Ele deve ser um dos rar�ssimos colaboradores internos que deixaram a Se��o para voltar � atividade externa. Mas j� no seu tempo ele andava um bocado entre l� e c�.</p><p>� �, ele precisava de um descanso e queria ampliar seus horizontes. Na d�cada de 1980 ficou dois anos licenciado da Se��o, sem vencimentos, atuando como adido no servi�o de informa��es. Ele tinha trabalhado feito louco com o Zalachenko, praticamente vinte e quatro horas por dia desde 1976, e achei que ele estava precisando mesmo de um tempo. Ficou fora de 1985 a 1987 e depois voltou para c�.</p><p>� Pode-se dizer que ele deixou de trabalhar na Se��o em 1994, quando passou para a organiza��o externa. Em 1996, virou chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros e se viu num cargo dif�cil, de muito trabalho. E claro que manteve contato constante com a Se��o, e posso sem d�vida lhe dizer tamb�m que conversamos regularmente por telefone mais ou menos uma vez por m�s at� bem pouco tempo atr�s.</p><p>� E agora ele est� doente.</p><p>� Nada s�rio, mas muito doloroso. Est� com uma h�rnia de disco. Ela o incomodou v�rias vezes nos �ltimos tempos. H� dois anos tirou uma licen�a m�dica de quatro meses. E em agosto passado ficou mal de novo. Era para ele voltar ao trabalho em 1- de janeiro, mas a licen�a foi prorrogada e agora � mais uma quest�o de esperar a cirurgia.</p><p>� E ele passou a licen�a m�dica correndo atr�s das putas � disse Gullberg.</p><p>� Pois �, ele � solteiro e, se entendi direito, j� freq�enta as putas h� v�rios anos � disse Jonas Sandberg, que em quase meia hora n�o pronunciara uma palavra sequer. � Eu li o relat�rio do Dag Svensson.</p><p>� Ah�. Mas algu�m poderia me explicar o que realmente aconteceu?</p><p>� At� onde pudemos entender, deve ter sido o Bj�rck quem desencadeou esta confus�o toda. E a �nica explica��o para o relat�rio de 1991 ter ido parar nas m�os do doutor Bjurman.</p><p>� Que tamb�m vive correndo atr�s das putas? � perguntou Gullberg.</p><p>� N�o que a gente saiba. Pelo menos ele n�o aparece no material do Dag Svensson. Em compensa��o, era o tutor da Lisbeth Salander.</p><p>Wadensj�� suspirou.</p><p>� Tenho de admitir que a culpa � minha. Voc� e o Bj�rck pegaram a Lisbeth Salander em 1991, quando ela foi internada na psiquiatria. A gente achou que ela ia ficar l� por muito tempo, mas ela tinha um guardi�o legal, o advogado Holger Palmgren, que conseguiu tir�-la de l�. Ela foi encaminhada para uma fam�lia adotiva. Nessa �poca, voc� j� tinha se aposentado.</p><p>� E depois disso, o que aconteceu?</p><p>� Ela foi mantida sob vigil�ncia. Enquanto isso, a irm� dela, a Camilla Salander, foi encaminhada para outra fam�lia adotiva em Uppsala. Quando elas tinham dezessete anos, a Lisbeth Salander de repente come�ou a vasculhar seu passado. Procurava por Zalachenko e esquadrinhou todos os registros oficiais que conseguiu achar. De um modo ou de outro, n�o sabemos bem como, ela obteve a informa��o de que a irm� sabia onde estava o Zalachenko.</p><p>� E isso procede?</p><p>Wadensj�� deu de ombros.</p><p>� Na verdade, n�o fa�o id�ia. Fazia muitos anos que as g�meas n�o se viam, at� que a Lisbeth foi atr�s da Camilla tentando obrigar a irm� a dizer o que sabia. A hist�ria acabou numa discuss�o feia e numa briga daquelas entre as duas.</p><p>� Ah, �?</p><p>� A Lisbeth foi mantida sob estreita vigil�ncia durante meses. Tamb�m j� tinham avisado a Camilla Salander que a irm� era violenta e mentalmente perturbada. Foi ela quem nos contatou depois da visita repentina da Lisbeth, o que fez com que refor��ssemos a seguran�a.</p><p>� Quer dizer que a irm� � que era sua informante?</p><p>� A Camilla Salander tinha p�nico da irm�. De qualquer modo, a Lisbeth tamb�m chamou a aten��o por outras vias. Teve v�rias discuss�es com o pessoal das inst�ncias sociais e avaliamos que ela continuava sendo uma amea�a para o anonimato do Zalachenko. Depois disso houve o incidente no metr�.</p><p>� Ela atacou um ped�filo...</p><p>� Exato. Ela tendia claramente para a viol�ncia e era psicologicamente perturbada. Achamos que seria melhor para todos os interessados se ela sumisse de novo numa cl�nica, e aproveitamos a oportunidade. O Fredrik Clinton e o Rottinger � que intervieram. Apelaram mais uma vez para o Peter Teleborian e travaram, por tabela, um combate no Tribunal de Inst�ncias para que ela fosse internada novamente. Holger Palmgren representou Lisbeth Salander e, contrariando as expectativas, o Tribunal escolheu a alternativa dele � com a condi��o de que ela fosse posta sob tutela.</p><p>� Mas como � que o Bjurman acabou se envolvendo nessa hist�ria?</p><p>� O Palmgren teve um derrame cerebral no outono de 2002. Sempre somos informados quando a Salander aparece em algum banco de dados, e dei um jeito para que o Bjurman se tornasse seu novo tutor. Veja bem, ele n�o sabia que ela era filha do Zalachenko. A id�ia era simplesmente que, se ela come�asse a delirar a respeito do Zalachenko, ele reagisse e nos alertasse.</p><p>� O Bjurman era um idiota. Ele nunca deveria ter tido nada a ver com o Zalachenko, muito menos com a filha dele. � Gullberg encarou Wadensj��. � Foi um erro grave.</p><p>� Eu sei � disse Wadensj��. � Mas na �poca parecia a coisa certa. Eu nunca ia imaginar que...</p><p>� E agora, onde est� a irm�, a Camilla Salander?</p><p>� Ningu�m sabe. Quando ela completou dezenove anos, fez as malas e deixou a casa da fam�lia adotiva. Desde ent�o n�o tivemos mais not�cias dela. Desapareceu.</p><p>� Certo, continue.</p><p>� Tenho um informante entre os tiras oficiais, e ele falou com o procurador Richard Ekstr�m � disse Sandberg. � O inspetor Bublanski, que conduz as investiga��es, acha que o Bjurman estuprou a Salander.</p><p>Gullberg encarou Sandberg com genu�na surpresa. Depois cocou o queixo, pensativo.</p><p>� Estuprou? � disse.</p><p>� O Bjurman tinha uma tatuagem na barriga, que dizia: "Sou um porco s�dico, um canalha estuprador".</p><p>Sandberg p�s uma foto colorida da aut�psia em cima da mesa. Gullberg, com os olhos arregalados, examinou a barriga de Bjurman.</p><p>� E a filha do Zalachenko � quem teria feito isso?</p><p>� E dif�cil explicar a situa��o de outro jeito. Mas ela, aparentemente, n�o � inofensiva. Deu uma surra que quase matou os dois hooligans do MC Svavelsj�.</p><p>� A filha do Zalachenko � repetiu Gullberg. � Voltou-se para Wadensj��. � Sabe, eu acho que voc� deveria contrat�-la.</p><p>Wadensj�� pareceu t�o surpreso que Gullberg precisou explicar que era brincadeira.</p><p>� Certo. Vamos admitir, como hip�tese de trabalho, que o Bjurman estuprou a garota e ela se vingou. O que mais?</p><p>� O �nico capaz de dizer exatamente o que aconteceu seria, claro, o pr�prio Bjurman, o que agora � meio dif�cil, j� que ele est� morto. Por�m o fato � que no come�o ele n�o sabia que ela era filha do Zalachenko, isso n�o consta em nenhum registro oficial. Mas no meio do caminho, em algum momento, o Bjurman fez a rela��o.</p><p>� Puta merda, Wadensj��, s� que ela sabia perfeitamente quem era o pai dela e pode ter contado ao Bjurman em algum momento.</p><p>� Eu sei. N�s... eu n�o pensei direito nesta hist�ria.</p><p>� Isso � de uma incompet�ncia imperdo�vel � disse Gullberg.</p><p>� Eu sei. E j� me xinguei por isso d�zias de vezes. Mas o Bjurman era uma das raras pessoas que sabiam da exist�ncia do Zalachenko, e o meu racioc�nio foi que era melhor ser ele a descobrir que ela era filha do Zalachenko do que um tutor desconhecido. Na verdade, ela poderia ter contado para qualquer pessoa.</p><p>Gullberg beliscou a ponta da orelha.</p><p>� Bem... continue.</p><p>� N�o passa de uma hip�tese � disse Georg Nystr�m suavemente. � Mas estamos supondo que o Bjurman violentou a Salander e que ela se vingou com isso... � Ele apontou a tatuagem na fotografia da aut�psia.</p><p>� E bem filha do pai dela � disse Gullberg. Havia em sua voz uma pontinha de admira��o.</p><p>� O resultado foi que o Bjurman entrou em contato com o Zalachenko pedindo que ele desse um jeito na filha. O Zalachenko tem bons motivos para odiar a Lisbeth Salander, o senhor sabe disso tanto quanto eu. E o Zalachenko, por sua vez, terceirizou o caso para o MC Svavelsj� e para esse tal Niedermann que anda com ele.</p><p>� Mas como � que o Bjurman entrou em contato... � Gullberg calou--se. A resposta era �bvia.</p><p>� O Bj�rck � disse Wadensj��. � A �nica maneira de explicar como o Bjurman conseguiu achar o Zalachenko � o Bj�rck ter lhe passado a informa��o.</p><p>� Puta que pariu � disse Gullberg.</p><p>Lisbeth Salander sentia um mal-estar crescente, al�m de uma forte irrita��o. Pela manh�, duas enfermeiras tinham vindo arrumar sua cama. Toparam imediatamente com o l�pis.</p><p>� Olha s�! Como � que isso veio parar aqui? � disse uma das enfermeiras, enfiando o l�pis no bolso enquanto Lisbeth a fitava com um olhar assassino.</p><p>Lisbeth estava novamente desarmada e, al�m disso, t�o fraca que nem conseguiu protestar.</p><p>Sentira-se mal todo o fim de semana. Estava com uma enxaqueca insuport�vel e haviam lhe ministrado analg�sicos potentes. Sentia uma dor constante no ombro, que volta e meia se transformava numa facada quando ela se mexia descuidadamente ou deslocava o peso do corpo. Estava deitada de costas e usando a comadre. Ainda ficaria v�rios dias com ela, at� que o corte da cabe�a come�asse a cicatrizar. Domingo tinha tido febre, com um pico de 38,7 graus. A Dra. Helena Endrin concluiu que ela estava com alguma infec��o. Ou seja, sua sa�de n�o ia muito bem. Lisbeth n�o precisava de um term�metro para perceber isso.</p><p>Constatou que estava novamente entrevada num leito do Estado, embora dessa vez n�o houvesse correias para prend�-la no lugar. O que teria sido sup�rfluo. N�o tinha for�as nem para se erguer, muito menos para sair andando por a�.</p><p>L� pelo meio-dia da segunda-feira, o Dr. Anders Jonasson veio v�-la. Ele lhe parecia familiar.</p><p>� Ol�. Lembra de mim? Ela tentou balan�ar a cabe�a.</p><p>� Voc� estava meio atordoada, mas fui eu que te acordei depois da cirurgia. E fui eu que te operei. S� vim ver como voc� est� se sentindo e se est� tudo bem.</p><p>Lisbeth Salander arregalou os olhos. Parecia �bvio que n�o estava tudo bem.</p><p>� Ouvi dizer que voc� tirou a comadre na noite passada. Ela tentou dizer que sim com a cabe�a.</p><p>� Esse colete ortop�dico n�o est� a� s� de bobeira; � para voc� ficar com a cabe�a im�vel nessa etapa da sua recupera��o.</p><p>Ele contemplou a garota calada.</p><p>� Est� bem � disse afinal. � Eu s� dei uma passada para ver como voc� estava.</p><p>Ele j� estava na porta quando escutou a voz dela.</p><p>� Jonasson, n�o �?</p><p>Ele se virou e dirigiu-lhe um sorriso surpreso.</p><p>� � isso mesmo. Se voc� lembra do meu nome � porque deve estar num estado melhor do que eu imaginava.</p><p>� Foi voc� quem tirou a bala?</p><p>� Foi.</p><p>� Voc� pode me dizer como eu estou? Ningu�m ainda me deu uma resposta coerente.</p><p>Ele voltou para junto da cama e olhou-a nos olhos.</p><p>� Voc� teve sorte. Levou uma bala na cabe�a, mas aparentemente nenhuma zona vital foi afetada. Neste momento, o risco � voc� ter alguma hemorragia no c�rebro. Por isso a gente quer que voc� fique quietinha. Voc� est� com uma infec��o em alguma parte do corpo. Ao que tudo indica, � Por causa do ferimento no ombro. Talvez seja preciso operar mais uma vez se a gente n�o conseguir combater a infec��o com antibi�ticos. Voc� deve estar preparada para um per�odo dolorido durante o processo de recupera��o. Mas, pelo que estou vendo at� agora, minha expectativa � que voc� saia dessa totalmente curada.</p><p>� Eu posso ficar com alguma seq�ela no c�rebro? Ele hesitou antes de menear a cabe�a.</p><p>� Sim, esse risco existe. Mas tudo indica que voc� se saiu muito bem. H� tamb�m a possibilidade de se formarem cicatrizes no seu c�rebro que poderiam gerar algum problema, por exemplo, voc� desenvolver uma epilepsia ou algo do g�nero. Mas, com toda a franqueza, isso n�o passa de especula��o. Por enquanto, tudo parece perfeito. Voc� est� se recuperando. Se aparecerem alguns problemas no meio do caminho, a gente vai administrando. A resposta foi bastante clara?</p><p>Ela esbo�ou um movimento de cabe�a.</p><p>� Quanto tempo ainda vou ter que ficar assim?</p><p>� Quer dizer, no hospital? Vai levar algumas semanas at� a gente te deixar sair.</p><p>� N�o, quero saber quanto tempo at� eu conseguir me levantar, come�ar a andar e me mexer.</p><p>� N�o sei. Depende da cicatriza��o. Mas conte com pelo menos duas semanas, at� voc� poder come�ar algum tipo de fisioterapia.</p><p>Ela o contemplou, s�ria, durante um longo momento.</p><p>� Voc� n�o teria um cigarro? � ela perguntou.</p><p>Anders Jonasson soltou um riso espont�neo e balan�ou a cabe�a.</p><p>� Sinto muito. � proibido fumar aqui. Mas posso pedir uns adesivos ou chicletes de nicotina para voc�.</p><p>Ela refletiu um pouco antes de dizer que aceitava do jeito que podia. Depois encarou-o novamente.</p><p>� Como vai o velho babaca?</p><p>� Quem? Voc� quer dizer...</p><p>� O homem que deu entrada junto comigo.</p><p>� Imagino que ele n�o seja um amigo seu. Olha, ele at� que n�o est� mal. Vai sobreviver e at� j� andou, se levantando e caminhando de muletas. Em termos f�sicos, est� mais machucado que voc� e tem um ferimento extremamente doloroso no rosto. Pelo que entendi, voc� enfiou um machado na cara dele.</p><p>� Ele tentou me matar � disse Lisbeth em voz baixa.</p><p>- Isso n�o � legal. Agora eu preciso ir. Quer que eu volte outra hora para te ver?</p><p>Lisbeth Salander pensou um pouco. Ent�o esbo�ou um sim. Depois que ele fechou a porta atr�s de si, ela fitou pensativamente o teto. Zalachenko est� de muletas. Foi esse o barulho que escutei na noite passada.</p><p>Pediram a Jonas Sandberg, o mais jovem do grupo, que fosse buscar o almo�o. Ele voltou com sushis e cerveja, que foram servidos na mesa de reuni�es. Evert Gullberg foi invadido por um sentimento nost�lgico. Era exatamente assim que ele vivia antes, quando uma opera��o atingia um est�gio cr�tico e eles trabalhavam dia e noite.</p><p>A diferen�a, constatou, � que talvez naquela �poca n�o tivesse ocorrido a ningu�m essa esquisitice de pedir peixe cru para o almo�o. Ele teria preferido que Sandberg trouxesse alm�ndegas com pur� de batatas e mirtilos. Mas como n�o estava com fome p�de rejeitar os sushis sem muita afli��o. Comeu um peda�o de p�o e bebeu �gua mineral.</p><p>Continuaram a discutir enquanto comiam. Tinham chegado ao ponto em que precisavam fazer um balan�o da situa��o e resolver que medidas se faziam necess�rias. Havia decis�es a ser tomadas.</p><p>� N�o cheguei a conhecer o Zalachenko � disse Wadensj��. � Como � que ele era?</p><p>� Exatamente como � hoje, imagino � respondeu Gullberg. � Tem uma intelig�ncia not�vel e uma mem�ria quase fotogr�fica para detalhes. Mas, na minha opini�o, � um idiota de primeira. E meio maluco, me parece.</p><p>� Jonas, voc� esteve com ele ontem. Qual � a sua conclus�o? Jonas Sandberg soltou os talheres.</p><p>� Ele ainda est� no controle. J� falei no ultimato que ele deu. Ou damos sumi�o em tudo num passe de m�gica, ou ele revela a exist�ncia da Se��o.</p><p>� O que faz esse idiota achar que a gente pode dar sumi�o em algo que a m�dia j� repetiu milh�es de vezes? � perguntou Georg Nystr�m.</p><p>� N�o se trata do que a gente pode fazer ou deixar de fazer. Trata-se da necessidade que ele tem de nos controlar � disse Gullberg.</p><p>� E ent�o, qual a sua impress�o? Ele vai cumprir a amea�a? Vai falar Cotn a m�dia? � perguntou Wadensj��.</p><p>Gullberg respondeu devagar.</p><p>� E praticamente imposs�vel responder. Zalachenko n�o � do tipo que amea�a � toa e vai fazer o que for conveniente para ele. Nesse sentido, ele � previs�vel. Se for vantajoso para ele contatar a m�dia... se isso lhe garantir uma anistia ou uma redu��o de pena, ele faz. Ou se se sentir tra�do e quiser nos sacanear.</p><p>� Sejam quais forem as conseq��ncias?</p><p>� Especialmente por causa das conseq��ncias. Para ele o que importa � se mostrar mais forte que todos n�s juntos.</p><p>� Mas mesmo que o Zalachenko abra o bico, n�o � certeza que o levem a s�rio. Para conseguir provar alguma coisa, v�o precisar dos nossos arquivos. Ele n�o sabe da exist�ncia desse endere�o.</p><p>� Voc� est� disposto a arriscar? Vamos supor que o Zalachenko abra o bico. Quem mais vai fazer o mesmo em seguida? O que a gente faz se o Bj�rck confirmar a hist�ria dele? E o Clinton com a di�lise dele... o que vai acontecer se ele virar um crente amargurado e come�ar a detestar o mundo inteiro? E se ele resolver confessar? Acreditem, se algu�m come�ar a falar, vai ser o fim da Se��o.</p><p>� Ent�o... o que a gente faz?</p><p>Instalou-se um sil�ncio em volta da mesa. Foi Gullberg quem retomou o assunto.</p><p>� � um problema complexo. Primeiro, parece que concordamos sobre as conseq��ncias caso Zalachenko abra a boca. Toda a maldita Su�cia constitucional iria cair em cima da gente. Ser�amos aniquilados. Imagino que v�rios funcion�rios da Se��o acabariam presos.</p><p>� A atividade � juridicamente legal, n�o se esque�a de que a gente trabalha sob as ordens do governo.</p><p>� Deixe de besteira � disse Gullberg. � Voc� sabe t�o bem quanto eu que um documento redigido de forma nebulosa em meados dos anos 1960 n�o vale um tost�o furado hoje em dia. Aposto que nenhum de n�s tem vontade de saber o que aconteceria exatamente se o Zalachenko resolvesse falar � acrescentou.</p><p>Mais sil�ncio.</p><p>� Ent�o, nosso ponto de partida � necessariamente fazer com que o Zalachenko fique quieto � acabou dizendo Geog Nystr�m.</p><p>Gullberg assentiu com a cabe�a.</p><p>� E para faz�-lo ficar quieto temos que lhe oferecer algo substancial. O problema � que ele � imprevis�vel. Seria at� capaz de nos fritar por pura maldade. Precisamos pensar num jeito de manter o homem sob controle.</p><p>� E sobre essas exig�ncias dele? � perguntou Jonas Sandberg. � Que a gente d� um sumi�o na hist�ria toda e que a Salander volte para uma cl�nica psiqui�trica?</p><p>� Na Salander, a gente d� um jeito. O problema � o Zalachenko. Mas isso nos leva ao outro aspecto do problema � a redu��o de preju�zos. O relat�rio de Teleborian de 1991 vazou e potencialmente representa uma amea�a t�o s�ria quanto o pr�prio Zalachenko.</p><p>Georg Nystr�m deu uma tossidinha.</p><p>� Assim que percebemos que o relat�rio tinha vindo � tona e estava nas m�os da pol�cia, tomei algumas provid�ncias. Fui at� o jurista Forelius, na DGPN/S�po, e ele contatou o Minist�rio P�blico. O Minist�rio P�blico ordenou que o relat�rio fosse tirado da pol�cia; est� proibido de ser divulgado ou reproduzido.</p><p>� O que o Minist�rio P�blico sabia?</p><p>� Nada. O procurador-geral da na��o atendeu a um pedido oficial da DGPN/Sapo, o caso tem rela��o com um material arquivado como segredo de Estado e o procurador n�o tinha escolha. Ele n�o poderia ter feito outra coisa.</p><p>� Certo. Quem, na pol�cia, leu o relat�rio?</p><p>� Havia duas c�pias, e elas foram lidas pelo Bublanski, pela colega dele Sonja Modig e, por fim, pelo respons�vel pelo inqu�rito preliminar, Richard Ekstr�m. � de se supor que mais dois policiais, no m�nimo... � Nystr�m folheou suas anota��es � um tal de Curt Bolinder e um tal de Jerker Holmberg, sabiam do seu conte�do.</p><p>� Ou seja, quatro policiais e um procurador. O que sabemos sobre eles?</p><p>� O procurador Ekstr�m tem quarenta e dois anos. E visto como uma estrela em ascens�o. Foi investigador do Minist�rio da Justi�a e conduziu alguns casos que chamaram a aten��o. Meticuloso. �vido por publicidade. Carreirista.</p><p>� Social-democrata? � perguntou Gullberg.</p><p>� Provavelmente. Mas n�o militante.</p><p>� Bem, e o Bublanski � quem est� coordenando as investiga��es. Eu o vi numa coletiva de imprensa na tev�. N�o parecia muito � vontade diante das c�meras.</p><p>� Ele tem cinq�enta e dois anos e um curr�culo impressionante, mas tamb�m tem fama de ser resmung�o. � judeu e bastante ortodoxo.</p><p>� E a mulher... quem �?</p><p>� E a Sonja Modig. Casada, trinta e nove anos, m�e de dois filhos. Fez uma carreira bastante r�pida. Falei com o Peter Teleborian, que a descreve como algu�m emocional. Ela n�o parava de question�-lo.</p><p>� Certo.</p><p>� O Curt Bolinder � um osso duro de roer. Trinta e oito anos. Veio da Brigada Antigangue de S�derort e foi alvo de coment�rios, anos atr�s, quando atirou num delinq�ente. Foi totalmente inocentado no inqu�rito. Ali�s, foi ele que o Bublanski mandou para prender o Gunnar Bj�rck.</p><p>� Entendi. Guarde isso de ele ter matado um homem. Se for preciso lan�ar alguma suspeita na equipe de Bublanski, daria para focar os refletores num tira ruim. Imagino que ainda mantemos contatos interessantes na m�dia... E o outro sujeito?</p><p>� Jerker Holmberg. Cinq�enta e cinco anos. Origin�rio do Norrland e especialista na an�lise de cenas de crime. H� alguns anos lhe ofereceram um treinamento para ele se tornar delegado, mas ele recusou. Parece gostar do que faz.</p><p>� Algum desses dois tem atua��o pol�tica?</p><p>� N�o. O pai de Holmberg foi conselheiro municipal centrista nos anos 1970.</p><p>� Humm. Tem todo o jeito de ser uma equipe bacana. D� para imaginar que sejam bastante unidos. H� algum jeito de isol�-los?</p><p>� Existe um quinto policial no grupo � disse Nystr�m. � Hans Faste, de quarenta e sete anos. Pelo que entendi, h� uma rixa meio s�ria entre o Faste e o Bublanski. S�ria o suficiente para o Faste ter pedido uma licen�a m�dica.</p><p>� O que se sabe sobre ele?</p><p>� Senti v�rios tipos de rea��o quando fiz essa pergunta. Ele tem um extenso curr�culo, e nos relat�rios n�o consta de fato nenhuma cr�tica contra ele. � um profissional. Mas dif�cil de conviver. Aparentemente a desaven�a com o Bublanski tem a ver com a Lisbeth Salander.</p><p>� Como assim?</p><p>� O Faste teria ficado obcecado com aquela hist�ria sobre um grupo de l�sbicas sat�nicas que os jornais andaram alardeando. Ele n�o gosta nem um pouco da Salander e parece considerar a exist�ncia dela uma afronta pessoal. Provavelmente ele � quem est� por tr�s de metade dos boatos que andaram surgindo. Um ex-colega me confidenciou que ele tem dificuldades em colaborar com as mulheres em geral.</p><p>� Interessante � disse Gullberg. Ele refletiu um instante. � J� que os jornais mencionaram um grupo de l�sbicas, talvez valha a pena continuar fantasiando com esse assunto. Isso realmente n�o contribui para aumentar a credibilidade da Salander.</p><p>� Os policiais que leram o relat�rio do Bj�rck constituem, portanto, um problema. Ser� que a gente consegue isol�-los? � perguntou Sandberg.</p><p>Wadensj�� acendeu outra cigarrilha.</p><p>� Quem est� conduzindo o inqu�rito preliminar � o Ekstr�m...</p><p>� Mas � o Bublanski quem comanda o barco � disse Nystr�m.</p><p>� Sim, s� que ele n�o pode ir contra decis�es administrativas. � Wadensj�� ficou pensativo. Olhou para Gullberg. � Voc� tem mais experi�ncia que eu, mas essa hist�ria j� est� com tantos fios e ramifica��es... Minha impress�o � que seria bom afastar o Bublanski e a Modig da Salander.</p><p>� � isso, Wadensj�� � disse Gullberg. � E exatamente o que n�s vamos fazer. O Bublanski � o chefe da investiga��o do assassinato de Bjurman e do casal de Enskede. A Salander j� n�o � not�cia nesse contexto. O foco agora � esse alem�o, o Niedermann. Portanto o Bublanski e a sua equipe v�o se concentrar na ca�a ao Niedermann.</p><p>� Certo.</p><p>� O caso deles n�o � mais a Salander. Temos tamb�m a investiga��o sobre Nykvarn... trata-se de tr�s assassinatos antigos. Eles t�m a ver com o Niedermann. No momento, a investiga��o est� a cargo de S�dertalje, mas v�o junt�-la com a outra. Ou seja, o Bublanski vai ficar ocupado por um bom tempo. Quem sabe... ele talvez prenda o Niedermann.</p><p>� Humm.</p><p>� O tal Faste... haveria como fazer com que ele voltasse ao trabalho? Ele parece ser a pessoa ideal para investigar as suspeitas contra a Salander.</p><p>� Entendo aonde voc� quer chegar � disse Wadensj��. � A id�ia � levar o Ekstr�m a separar um caso do outro. Mas para isso ter�amos que controlar o Ekstr�m.</p><p>� Isso n�o dever� ser um grande problema � disse Gullberg. Ele olhou para Nystr�m, que concordou com a cabe�a.</p><p>� Posso cuidar do Ekstr�m � disse Nystr�m. � Algo me diz que ele preferiria nunca ter ouvido falar em Zalachenko. Ele devolveu o relat�rio do Bj�rck assim que a Sapo pediu, e j� afirmou que est� disposto a se submeter a tudo que diga respeito � seguran�a nacional.</p><p>� O que voc� pretende fazer? � perguntou Wadensj��, desconfiado.</p><p>� Me deixe pensar num plano � disse Nystr�m. � Imagino que vamos apenas, de maneira muito elegante, explicar-lhe o que se espera que ele fa�a se quiser evitar que sua carreira seja brutalmente interrompida.</p><p>� O terceiro ponto � o que representa o maior problema � disse Gullberg. � A pol�cia n�o descobriu o relat�rio do Bj�rck sozinha... foi um jornalista que repassou para eles. Todos voc�s j� entenderam que a m�dia �, evidentemente, um problema para n�s. Millenn�um.</p><p>Nystr�m abriu seu caderno de anota��es.</p><p>� Mikael Blomkv�st � disse.</p><p>Todos naquela mesa j� tinham ouvido falar no caso Wennerstr�m e conheciam o nome de Mikael Blomkvist.</p><p>�� Dag Svensson, o jornalista assassinado, era colaborador da Millenn�um. Estava trabalhando numa mat�ria ligada ao tr�fico de mulheres. Foi assim que ele chegou ao Zalachenko. E foi o Mikael Blomkvist quem encontrou o corpo. Al�m disso, ele conhece a Lisbeth Salander e nunca deixou de acreditar na inoc�ncia dela.</p><p>� Como � que ele conhece a filha do Zalachenko... � coincid�ncia demais, n�o pode ser um simples acaso.</p><p>� A gente n�o acha que seja por acaso � disse Wadensj��. � Achamos que a Salander, de alguma maneira, � o elo entre todos eles. N�o sabemos explicar direito como, mas � a �nica hip�tese plaus�vel.</p><p>Gullberg permanecia calado, desenhando c�rculos conc�ntricos no seu caderninho. Por fim, ergueu os olhos.</p><p>� Preciso pensar um pouco sobre isso. Vou dar uma caminhada. Nos encontramos aqui dentro de uma hora.</p><empty-line/><p>A escapadinha de Gullberg durou quase quatro horas, e n�o uma como ele dissera. Ele caminhou por apenas uns dez minutos, at� encontrar um caf� que oferecia um monte de variedades bizarras dessa bebida. Pediu uma x�cara de caf� preto comum e sentou-se a uma mesa num canto perto da entrada. Refletiu intensamente, tentando esclarecer os diferentes aspectos do problema. De tempo em tempo, registrava um breve lembrete numa agenda.</p><p>Depois de uma hora e meia, um plano come�ava a ganhar forma.</p><p>N�o era um bom plano, mas, depois de virar e revirar todas as possibilidades, percebeu que o problema exigia medidas dr�sticas.</p><p>Felizmente, havia recursos humanos dispon�veis. Era um plano vi�vel.</p><p>Levantou-se, procurou uma cabine telef�nica e ligou para Wadensj��.</p><p>� Vamos ter que adiar a reuni�o para mais tarde � disse. � Preciso fazer uma coisa. Podemos nos encontrar �s duas horas?</p><p>Em seguida, Gullberg desceu at� a Stureplan e fez sinal para um t�xi. Na verdade, sua parca aposentadoria de funcion�rio p�blico n�o lhe permitia aquele luxo, mas, por outro lado, chegara a uma idade em que n�o havia mais motivo para economizar nas extravag�ncias. Indicou ao taxista vim endere�o em Bromma.</p><p>Chegando l�, foi a p� at� um bairro mais ao sul e bateu � porta de uma casinha. Uma mulher de uns quarenta anos atendeu.</p><p>� Bom dia. Estou procurando Fredrick Clinton.</p><p>� � da parte de quem?</p><p>� Sou um antigo colega dele.</p><p>A mulher meneou a cabe�a e o fez entrar na sala, onde Fredrick Clinton, devagar, levantou-se do sof�. Tinha apenas sessenta e oito anos, mas parecia muito mais. O diabetes e alguns problemas coron�rios haviam deixado suas marcas.</p><p>� Gullberg? � exclamou Clinton, estupefato. Contemplaram-se por um longo momento. Ent�o os dois velhos espi�es se abra�aram.</p><p>� N�o imaginava que voltaria a ver voc� um dia � disse Clinton. � Suponho que aquilo ali � que tenha te tirado da toca.</p><p>Apontou para a capa de um jornal vespertino que ostentava uma foto de Ronald Niedermann e a manchete "Assassino de policial ca�ado na Dinamarca".</p><p>� Como � que voc� est�? � perguntou Gullberg.</p><p>� Doente � disse Clinton.</p><p>� Estou vendo.</p><p>� Se n�o me derem um rim novo, vou morrer em breve. E a probabilidade de ganhar um rim novo n�o � muito grande.</p><p>Gullberg assentiu com a cabe�a.</p><p>A mulher reapareceu na porta da sala e perguntou a Gullberg se ele aceitava tomar alguma coisa.</p><p>� Aceito um caf� � disse.</p><p>Depois que ela saiu, ele se virou para Clinton.</p><p>� Quem � essa mulher?</p><p>� E minha filha.</p><p>Gullberg assentiu com a cabe�a. Era fascinante que, apesar de tantos anos de intimidade dentro da Se��o, pouqu�ssimos colaboradores mantivessem contato fora do trabalho. Gullberg conhecia os m�nimos tra�os da personalidade de cada um, suas for�as e fraquezas, mas s� tinha uma vaga id�ia da vida familiar deles. Glinton talvez tivesse sido seu colaborador mais pr�ximo durante vinte anos. Ele sabia que Clinton fora casado e que tinha filhos. Mas n�o sabia o nome de sua filha, o nome de sua ex-mulher nem onde Clinton costumava passar f�rias. Era como se tudo fora da Se��o fosse sagrado e n�o devesse ser comentado.</p><p>� O que voc� quer? � perguntou Clinton.</p><p>� Posso lhe perguntar sua opini�o sobre o Wadensj��? Clinton balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o quero me envolver nessa hist�ria.</p><p>� Eu n�o estou pedindo isso. Voc� o conhece. Ele trabalhou dez anos com voc�.</p><p>Clinton tornou a balan�ar a cabe�a.</p><p>� Atualmente � ele quem dirige a Se��o. O que eu penso sobre ele n�o tem nenhuma import�ncia.</p><p>� Ele est� dando conta?</p><p>� Ele n�o � nada bobo.</p><p>� Mas...?</p><p>� � um analista. Genial para quebra-cabe�as. Tem instinto. � um administrador brilhante que deu uma equilibrada no or�amento de um jeito que ningu�m achava poss�vel.</p><p>Gullberg fez um gesto de assentimento com a cabe�a. O que importava era a qualidade que Clinton n�o estava mencionando.</p><p>� Voc� por acaso estaria disposto a voltar ao trabalho?</p><p>Clinton ergueu os olhos para Gullberg. Hesitou por um longo momento.</p><p>� Evert... a cada dois dias, eu passo nove horas no hospital fazendo di�lise. N�o posso subir nenhuma escada sem ficar praticamente sufocado. N�o tenho mais energia. Nenhuma energia.</p><p>� Preciso de voc�. Uma �ltima opera��o.</p><p>� N�o posso.</p><p>� Pode. E voc� vai poder fazer as suas nove horas de di�lise a cada dois dias. Vai andar de elevador em vez de subir escadas. Posso dar um jeito para te carregarem numa ma�a, se for o caso. Preciso do seu c�rebro.</p><p>Clinton suspirou.</p><p>� Fale � disse ele.</p><p>� No momento, estamos diante de uma situa��o extremamente espinhosa, que exige opera��es em campo. O Wadensj�� tem l� um jovem novato muito seguro de si, o Jonas Sandberg, que constitui sozinho o departamento de interven��o, e n�o creio que o Wadensj�� tenha aud�cia para fazer o que deve ser feito. Ele at� pode ser um puta especialista em fazer malabarismos com o or�amento, mas tem medo de tomar decis�es de interven��o e tem medo de envolver a Se��o no trabalho de campo, que no entanto � necess�rio.</p><p>Clinton fez que sim com a cabe�a. Exibiu um sorriso p�lido.</p><p>� Esta opera��o vai se dar em duas frentes distintas. A primeira se refere ao Zalachenko. Preciso fazer com que ele se torne razo�vel, e acho que sei como conseguir isso. A outra deve se realizar aqui em Estocolmo. O problema � que n�o tem ningu�m na Se��o para cuidar disso. Preciso de voc� para assumir o comando. Uma �ltima contribui��o. Tenho um plano. O jonas Sandberg e o Georg Nystr�m v�o fazer o servi�o de campo. E voc� vai dirigir a opera��o.</p><p>� Voc� n�o sabe o que est� me pedindo.</p><p>� Sei, sim... sei perfeitamente o que estou lhe pedindo. E voc� � quem decide se quer participar ou n�o. Mas se n�s, os veteranos, n�o nos mobilizarmos e cumprirmos com a nossa parte, a Se��o deixa de existir em poucas semanas.</p><p>Clinton dobrou o bra�o no encosto do sof� e descansou a cabe�a sobre a palma da m�o. Refletiu por uns dois minutos.</p><p>� Me conte qual � o seu plano � acabou dizendo.</p><p>Evert Gullberg e Fredrik Clinton conversaram por cerca de duas horas.</p><p>Wadensj�� arregalou os olhos quando Gullberg voltou �s 13h57, acompanhado de Fredrick Clinton. Clinton tinha o aspecto de um esqueleto. Parecia andar e respirar a muito custo, e vinha com uma m�o apoiada no ombro de Gullberg.</p><p>� O que significa...? � perguntou Wadensj��.</p><p>� Vamos prosseguir a reuni�o � disse Gullberg secamente. Voltaram a se sentar ao redor da mesa da sala de Wadensj��. Clinton deixou-se cair em sil�ncio na cadeira que lhe ofereceram.</p><p>� Todos aqui j� conhecem o Fredrick Clinton � disse Gullberg.</p><p>� Sim � disse Wadensj��. � A pergunta �: o que ele est� fazendo aqui?</p><p>� O Clinton resolveu voltar � ativa. Vai coordenar o setor de interven��es at� o final desta crise.</p><p>Gullberg ergueu a m�o, interrompendo o protesto de Wadensj�� antes que ele tivesse tempo at� mesmo de formul�-lo.</p><p>� O Clinton est� cansado. Vai precisar de assist�ncia. Precisa ir regularmente ao hospital para fazer di�lise. Wadensj��, voc� vai recrutar dois assistentes particulares para ajud�-lo em todas as tarefas pr�ticas. Mas que fique muito claro: no que se refere a esse caso, o Clinton � quem vai tomar todas as decis�es de interven��o.</p><p>Calou-se e esperou. Nenhum protesto se fez ouvir.</p><p>� Eu tenho um plano. Acho que com ele estaremos seguros, mas precisamos agir r�pido para n�o perdermos as oportunidades � disse ele. � Depois, tudo depende da atual determina��o de voc�s aqui na Se��o.</p><p>Wadensj�� percebeu um desafio nas palavras de Gullberg.</p><p>� Diga qual � o seu plano.</p><p>� Primeiro: j� passamos a pol�cia em revista. Vamos fazer exatamente o que a gente combinou: tentar isol�-los na investiga��o deles, levando-os para uma pista secund�ria na ca�a ao Niedermann. Essa vai ser a tarefa de Georg Nystr�m. O que quer que aconte�a, o Niedermann n�o tem a menor import�ncia. Vamos dar um jeito de o Faste ficar encarregado de investigar a Salander.</p><p>� N�o deve ser dif�cil � disse Nystr�m. � Basta eu ter uma conversinha discreta com o procurador Ekstr�m.</p><p>� E se ele torcer o nariz...</p><p>� N�o acredito nisso. Ele � um carreirista, sabe cuidar dos seus interesses. Mas posso apelar para um argumento qualquer, se necess�rio. Ele detestaria se envolver em algum esc�ndalo.</p><p>� Muito bem. O segundo ponto � a Millennium e o Mikael Blomkvist. Por isso o Clinton voltou � ativa. Esse ponto requer medidas fora do padr�o.</p><p>� Desconfio que n�o vou gostar nada disso � disse Wadensj��.</p><p>� � prov�vel, mas a Millennium n�o pode ser manipulada do mesmo jeito simples. Em compensa��o, a amea�a que eles representam se fundamenta numa �nica coisa, ou seja, no relat�rio policial de Bj�rck de 1991. Na atual situa��o, imagino que esse relat�rio se encontre em dois lugares, talvez tr�s. Quem o descobriu foi a Lisbeth Salander, mas de alguma maneira o Mikael Blomkvist tamb�m p�s as m�os nele. O que significa que havia algum tipo de contato entre o Blomkvist e a Salander enquanto ela estava foragida.</p><p>Clinton levantou um dedo e proferiu suas primeiras palavras desde que chegara.</p><p>� Isso tamb�m nos revela algo do car�ter do nosso advers�rio. O Blomkvist n�o tem medo de se arriscar. Lembrem do caso Wennerstr�m.</p><p>Gullberg meneou a cabe�a.</p><p>� O Blomkvist passou o relat�rio para a chefe dele, Erika Berger, que por sua vez o encaminhou ao Bublanski. Quer dizer, ela tamb�m leu. � de se supor que tenham feito uma c�pia de seguran�a. Eu arriscaria dizer que o Blomkvist est� com uma c�pia e que existe mais uma na reda��o.</p><p>� Parece plaus�vel � disse Wadensj��.</p><p>� A Millennium � uma revista mensal, o que significa que eles n�o v�o publicar nada de hoje para amanh�. Temos tempo. Mas precisamos p�r as m�os nesses dois exemplares do relat�rio. E para isso n�o podemos passar pelo procurador-geral da na��o.</p><p>� Entendo.</p><p>� Portanto vamos dar in�cio a uma fase de interven��o, entrando ilegalmente na casa do Blomkvist e na reda��o da Millennium. Voc� saberia organizar essa parte, Jonas?</p><p>Jonas Sandberg deu uma olhada de soslaio para Wadensj��.</p><p>�� Evert, voc� tem que entender... a gente n�o faz mais esse tipo de coisa � disse Wadensj��. � Os tempos mudaram, a gente agora lida com pirataria inform�tica e vigil�ncia eletr�nica, se � que voc� me entende. N�o temos mais recursos para manter um setor de interven��o.</p><p>Gullberg se debru�ou para a frente.</p><p>� Wadensj��. Ent�o cabe a voc� arranjar recursos para isso, e depressa. Pegue gente de fora. Alugue um bando de fort�es da m�fia iugoslava para dar uma surra no Blomkvist, se for o caso. Mas temos que pegar essas duas c�pias custe o que custar. Sem elas, eles ficam sem nenhum documento e jamais poder�o provar nada. Se voc� n�o for capaz de dar um jeito numa coisa assim, te deixo aqui chupando o dedo e esperando a Comiss�o Constitucional vir bater na porta.</p><p>Gullberg e Wadensj�� fitaram-se por um longo momento.</p><p>� Posso cuidar disso � disse Jonas Sandberg de repente. Gullberg lan�ou um olhar de esguelha para o jovem novato.</p><p>� Tem certeza de que sabe organizar esse tipo de a��o? Sandberg assentiu com a cabe�a.</p><p>� �timo. A partir de agora, seu chefe � o Clinton. � dele que voc� recebe as ordens.</p><p>Sandberg aquiesceu.</p><p>� Vai ser, em boa parte, uma quest�o de vigil�ncia. Esse setor de interven��o precisa ser refor�ado � disse Nystr�m. � Tenho alguns nomes para sugerir. Temos um cara na organiza��o externa, ele trabalha na seguran�a dos figur�es da Sapo, o nome dele � M�rtensson. N�o tem medo de nada e � um sujeito que promete. Faz tempo que eu venho pensando em transferi-lo aqui para a organiza��o interna. Chego a pensar que ele poderia ser meu sucessor.</p><p>� Parece muito bom � disse Gullberg. � A �ltima palavra vai ser do Clinton.</p><p>� Tem mais uma coisa � disse Georg Nystr�m. � Tenho a impress�o de que ainda existe outra c�pia.</p><p>� Onde?</p><p>� Eu soube hoje � tarde que a Lisbeth Salander est� com uma advogada. O nome dela � Annika Giannini. � irm� do Mikael Blomkvist.</p><p>Gullberg fez um gesto de concord�ncia com a cabe�a.</p><p>� Bem pensado. O Blomkvist deve ter dado uma c�pia para a irm�. Seria absurdo ele n�o dar. Ou seja, durante algum tempo vamos ter que vigiar os tr�s de perto: Berger, Blomkvist e Giannini.</p><p>� Acho que n�o precisamos nos preocupar com a Berger. A imprensa divulgou hoje que ela � a nova redatora-chefe do Svenska Morgon-Posten. N�o tem mais nada a ver com a Millennium.</p><p>� Certo. Mesmo assim vamos ficar de olho nela. Quanto � Millennium, temos que instalar um sistema de escuta, evidentemente, na casa deles e na reda��o. E um controle da correspond�ncia eletr�nica. Precisamos descobrir com quem eles se encontram e com quem conversam. E estamos muito, muito dispostos a acompanhar a edi��o das revela��es que eles t�m a fazer. Mas, antes de tudo, temos que pegar esse relat�rio. Ou seja, h� um bocado de trabalho pela frente.</p><p>Wadensj�� parecia hesitar.</p><p>� Evert, voc� est� nos pedindo para realizar uma opera��o de interven��o na reda��o de um jornal. Estamos nos aventurando num terreno muito perigoso.</p><p>� Voc� n�o tem escolha. Ou arrega�a as mangas, ou deixa a chefia para outra pessoa.</p><p>O desafio pairou como uma nuvem acima da mesa.</p><p>� Acho que consigo administrar a Millennium � disse, por fim, Jonas Sandberg. � Mas nada disso resolve o problema de fundo. O que fazer com o Zalachenko? Se ele abrir o bico, nossos esfor�os n�o ter�o servido de nada.</p><p>Gullberg balan�ou a cabe�a devagar.</p><p>� Eu sei. Essa vai ser a minha parte. Acho que tenho um argumento capaz de convencer o Zalachenko a calar a boca. Mas vai exigir um bocado de prepara��o. Vou para G�teborg ainda hoje � tarde.</p><p>Calou-se e percorreu o olhar pela sala. Ent�o cravou os olhos em Wadensj��.</p><p>� O Clinton toma as decis�es quanto � interven��o enquanto eu estiver fora � decretou.</p><p>Passados alguns instantes, Wadensj�� fez que sim com a cabe�a.</p><p>Foi preciso esperar at� a noite de segunda-feira para que a Dra. Helena Endrin, de comum acordo com seu colega Anders Jonasson, decidisse que o estado de Lisbeth Salander estava suficientemente est�vel para que ela pudesse receber visitas. Os primeiros visitantes foram os dois inspetores criminais, a quem foram concedidos quinze minutos para perguntas. Quando entraram em seu quarto e se sentaram, ela contemplou os policiais em sil�ncio.</p><p>� Bom dia. Sou o inspetor criminal Marcus Ackerman. Trabalho na Brigada Criminal aqui de G�teborg. Essa � a minha colega Sonja Modig, da pol�cia de Estocolmo.</p><p>Lisbeth Salander n�o deu bom-dia. Permaneceu totalmente impass�vel. Reconheceu Sonja Modig como uma das policiais da equipe de Bublanski. Ackerman dirigiu-lhe um sorriso aberto.</p><p>� Soube que n�o � do seu feitio falar de boa vontade com as autoridades. E, se me permite, voc� n�o precisa falar nada. Em compensa��o, eu agradeceria muito se nos ouvisse. Temos v�rios assuntos para tratar, e hoje n�o nos deram muito tempo. Haver� outras oportunidades.</p><p>Lisbeth Salander n�o disse nada.</p><p>� Ent�o, para come�ar, eu queria informar que o seu amigo Mikael Blomkvist nos avisou que uma advogada chamada Annika Giannini est� disposta a representar voc� e j� est� inteirada do caso. Diz ele que j� falou com voc� sobre ela. Preciso que voc� me confirme isso, e queria saber se voc� aceita que a doutora Giannini venha para G�teborg assisti-la.</p><p>Lisbeth Salander continuou calada.</p><p>Annika Giannini. A irm� de Mikael Blomkvist. Ele mencionara o nome dela num e-mail. Na verdade, n�o ocorrera a Lisbeth que ela iria precisar de um advogado.</p><p>� Desculpe, mas tenho de pedir que responda a essa pergunta. Basta dizer sim ou n�o. Se for sim, o procurador aqui de G�teborg entrar� em contato com a doutora Giannini. Se for n�o, um tribunal vai indicar um defensor p�blico. O que voc� prefere?</p><empty-line/><p>Lisbeth refletiu sobre a proposta. Ponderou que, realmente, precisava i um advogado, mas ter a irm� do Maldito Sacana do Super-Blomkvist para defend�-la era meio dif�cil de engolir. Ele ia adorar. Por outro lado, um defensor p�blico, desconhecido, n�o era melhor. Por fim, abriu a boca e grasnou uma s� palavra rouca.</p><p>� Giannini.</p><p>� �timo. Obrigado. E agora eu queria lhe fazer uma pergunta. Voc� n�o precisa dizer nada antes da chegada de sua advogada, mas at� onde posso ver n�o � uma pergunta que se refira diretamente a voc� nem ao seu bem--esrar. A pol�cia est� procurando um cidad�o alem�o chamado Ronald Niedermann, de trinta e sete anos, suspeito de ter assassinado um policial.</p><p>Lisbeth franziu o cenho. Isso, para ela, era novidade. Ignorava tudo o que se passara depois de ter enfiado o machado na cabe�a de Zalachenko.</p><p>� A gente aqui em G�teborg queria pegar esse Niedermann o quanto antes. A minha colega aqui, de Estocolmo, tamb�m queria ouvir voc� sobre os tr�s assassinatos dos quais voc� era suspeita inicialmente. Estamos pedindo a sua ajuda. Quer�amos saber se voc� tem alguma id�ia... se voc� pode nos dar alguma pista do paradeiro dele.</p><p>O olhar de Lisbeth passou, desconfiado, de Ackerman para Modig.</p><p>Eles n�o sabem que ele � meu irm�o.</p><p>Em seguida, perguntou-se se tinha vontade de ver Niedermann preso ou n�o. O que ela queria mesmo era lev�-lo em frente a um buraco cavado na terra de Gosseberga e enterr�-lo l� dentro. Finalmente, ela deu de ombros. O que n�o deveria ter feito, j� que uma dor lancinante transpassou, no ato, seu ombro esquerdo.</p><p>� Que dia � hoje? � ela perguntou.</p><p>� Segunda-feira. Ela refletiu.</p><p>� A primeira vez que escutei o nome de Ronald Niedermann foi na quinta-feira da semana passada. Segui a pista dele at� Gosseberga. N�o fa�o id�ia de onde ele se encontra nem de para onde poderia ter ido. Mas posso apostar que ele vai tentar, bem depressa, se colocar a salvo no exterior.</p><p>� Por que voc� acha que ele tentaria fugir do pa�s? Lisbeth refletiu.</p><p>-� Porque quando o Niedermann saiu para cavar um t�mulo para mim, o Zalachenko comentou comigo que este caso vinha recebendo muita publicidade e que j� estava tudo planejado para o Niedermann passar algum tempo no exterior.</p><p>Lisbeth Salander nunca trocara tantas palavras com um policial desde seus doze anos.</p><p>� Quer dizer que o Zalachenko... � seu pai.</p><p>Pelo menos isso eles conseguiram descobrir. Coisa do Maldito Super-Blomkvist, decerto.</p><p>� Preciso tamb�m informar que o seu pai registrou uma queixa contra voc� por tentativa de homic�dio. No momento, o dossi� est� com o procurador, que dever� se decidir a favor ou contra uma a��o judicial. De qualquer forma, j� est� claro que voc� ser� indiciada por golpes e ferimentos agravados. Voc� cravou um machado na cabe�a do Zalachenko.</p><p>Lisbeth n�o disse nada. Fez-se um longu�ssimo sil�ncio. Ent�o Sonja Modig se inclinou para a frente e falou baixinho.</p><p>� Eu s� queria lhe dizer que na pol�cia n�o estamos dando muito cr�dito � vers�o do Zalachenko. Chame a sua advogada para uma conversa aprofundada, e a gente, enquanto isso, vai aguardar um pouco.</p><p>Ackerman concordou com a cabe�a. Os policiais se levantaram.</p><p>� Obrigada por nos ajudar com o Niedermann.</p><p>Lisbeth espantou-se ao constatar que os policiais tinham sido muito corretos e quase gentis. Ficou um pouco surpresa com a fala de Sonja Modig. Ela deve ter segundas inten��es, pensou.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>7. SEGUNDA-FEIRA - 11 DE ABRIL � TER�A-FEIRA 12 DE ABRIL</emphasis></strong></p><empty-line/><p>�s 17h45 da segunda-feira, Mikael Blomkvist fechou o seu iBook e levantou do seu lugar, � mesa da cozinha do seu apartamento da Bellmansgatan. Vestiu um palet� e foi a p� at� a sede da Milton Security, perto de Slussen. Pegou o elevador para subir � recep��o, no segundo andar, e foi imediatamente introduzido numa sala de reuni�es.</p><p>� Ol�, Dragan � disse ele estendendo a m�o. � Obrigado por aceitar fazer esta reuni�o informal aqui.</p><p>Olhou em volta. Al�m de Dragan Armanskij e ele, estavam ali Annika Giannini, Holger Palmgren e Malou Eriksson. O ex-inspetor criminal Steve Bohman, da Milton, que desde o primeiro dia, por ordem de Armanskij, acompanhara a investiga��o sobre Salander, tamb�m estava presente.</p><p>Holger Palmgren estava saindo pela primeira vez depois de dois anos. Seu m�dico, o Dr. A. Sivarnandan, n�o ficara muito entusiasmado com a id�ia de deix�-lo sair do centro de reabilita��o de Ersta, mas Palmgren tinha insistido. Efetuara o trajeto num carro particular, acompanhado de sua enfermeira pessoal, Johanna Karolina Oskarsson, de trinta e nove anos, cujo sal�rio era pago por um fundo criado por um benfeitor misterioso e que tinha por objetivo oferecer a Palmgren o melhor tratamento poss�vel. Karolina Oskarsson aguardava numa �rea de descanso em frente � sala de reuni�es. Tinha trazido um livro. Mikael fechou a porta.</p><p>� Para quem n�o conhece: essa � a Malu Eriksson, a nova redatora-chefe da Millennium. Pedi-lhe que viesse � reuni�o porque o que vamos conversar aqui vai afetar o trabalho dela.</p><p>� Certo � disse Armanskij. � Est� todo mundo aqui. Estamos ouvindo.</p><p>Mikael se aproximou do quadro branco de Armanskij e pegou uma caneta. Seu olhar percorreu a sala.</p><p>� Acho que nunca vivi nada t�o delirante � disse. � Quando tudo isso acabar, vou fundar uma associa��o beneficente. Vou cham�-la de Os Cavaleiros da T�vola Biruta, e sua miss�o ser� organizar um jantar anual para falar mal da Lisbeth Salander. Voc�s todos ser�o membros.</p><p>Fez uma pausa.</p><p>� A realidade se parece com o seguinte � disse ele, tra�ando umas colunas no quadro de Armanskij. Falou durante uma boa meia hora. A discuss�o que se seguiu durou quase tr�s horas.</p><p>Uma vez formalmente encerrada a reuni�o, Evert Gullberg sentou-se frente a frente com Fredrick Clinton. Conversaram em voz baixa durante alguns minutos, at� que Gullberg se levantou. Os dois velhos irm�os de armas apertaram-se as m�os.</p><p>Gullberg voltou de t�xi para o Hotel Frey, juntou suas coisas, pagou a conta e pegou um trem que sa�a � tarde para G�teborg. Escolheu a primeira classe e ficou com um vag�o inteiro s� para ele. Depois que o trem passou a ponte de �rsta, ele pegou uma esferogr�fica e um bloco de papel de cartas. Refletiu alguns instantes e em seguida se p�s a escrever. Preencheu cerca de metade da p�gina, ent�o se deteve e destacou-a do bloco.</p><p>Documentos falsificados n�o eram sua especialidade, ele n�o se considerava um entendido no assunto, mas naquele caso sua tarefa estava sendo facilitada pelo fato de que as cartas que estava escrevendo levavam a sua assinatura. A dificuldade � que nenhuma palavra poderia ser verdadeira.</p><p>Ao passar por Nyk�ping, ainda se desfez de uma boa quantidade de rascunhos, mas j� come�ava a ter uma id�ia de como deveria formular as cartas.</p><empty-line/><p>Ao chegar a G�teborg, estava satisfeito com as doze cartas de que dispunha. Cuidou para que suas impress�es digitais ficassem n�tidas e claras no papel.</p><p>Na esta��o central de G�teborg, conseguiu achar uma copiadora e fez urnas fotoc�pias. Depois comprou selos e envelopes e jogou a correspond�ncia na caixa postal que seria esvaziada �s nove da noite.</p><p>Gullberg pegou um t�xi para ir ao City Hotel, na Lorensbergsgatan, onde Clinton lhe reservara um quarto. De modo que se hospedou no mesmo hotel em que Mikael Blomkvist pernoitara dias antes. Em seguida foi para o quarto e desabou sobre a cama. Estava extremamente cansado e se deu conta de que comera apenas duas fatias de p�o o dia inteiro. Continuava sem fome. Despiu-se, deitou-se e adormeceu quase em seguida.</p><p>Lisbeth Salander acordou sobressaltada ao escutar a porta se abrindo. Soube de imediato que n�o se tratava da enfermeira da noite. Abriu os olhos em duas fendas estreitas e avistou, � porta, a silhueta com muletas. Zalachenko n�o se movia e contemplava-a da fresta de luz do corredor que passava pela abertura da porta.</p><p>Sem se mover, ela virou os olhos para o rel�gio e viu que eram 3h10.</p><p>Desviou o olhar alguns mil�metros e avistou o copo d'�gua na beirada do criado-mudo. Mal podia alcan��-lo sem ter que movimentar o corpo.</p><p>Levaria uma fra��o de segundo para estender o bra�o e, num gesto decidido, quebr�-lo contra a beirada do criado-mudo. Levaria meio segundo para enfiar a borda cortante na garganta de Zalachenko se ele se debru�asse sobre ela. Avaliou outras possibilidades, mas percebeu que aquela era a �nica arma poss�vel.</p><p>Relaxou e esperou.</p><p>Zalachenko permaneceu uns dois minutos � porta, sem se mexer.</p><p>Depois, fechou-a devagar. Ela escutou o fraco arrastar das muletas enquanto ele se afastava tranq�ilamente do quarto.</p><p>Passados cinco minutos, ela se ergueu apoiando-se nos cotovelos, pegou o copo e tomou um gole grande. Balan�ou as pernas por cima da beira da cama e tirou os eletrodos dos bra�os e do peito. Levantou-se e ficou em p�, cambaleando. Levou um bom minuto para reassumir o controle do corpo.</p><empty-line/><p>Foi mancando at� a porta, apoiou-se na parede e recobrou o f�lego. Suava frio. Ent�o, teve um acesso de f�ria contida.</p><p>Fuck you, Zalachenko. Vamos acabar logo com isso!</p><p>Precisava de uma arma.</p><p>Nisso, ouviu passadas r�pidas no corredor.</p><p>Droga. Os eletrodos.</p><p>� Caramba, o que voc� est� fazendo a� em p�? � exclamou a enfermeira.</p><p>� Preciso... ir... ao banheiro � disse Lisbeth Salander, sem f�lego.</p><p>� Volte imediatamente para a cama.</p><p>Pegou na m�o de Lisbeth e a ajudou a voltar para a cama. Em seguida foi buscar uma comadre.</p><p>� Se voc� precisar ir ao banheiro, chame a gente. Este bot�o aqui serve para isso � explicou a enfermeira.</p><p>Lisbeth n�o disse nada. Concentrou-se para conseguir produzir umas poucas gotas.</p><p>Na ter�a-feira, Mikael Blomkvist acordou �s dez meia, tomou banho, ligou a cafeteira e em seguida se instalou diante do seu iBook. Depois da reuni�o na Milton Security na noite anterior, tinha vindo para casa e trabalhado at� as cinco da manh�. Sentia que, finalmente, sua mat�ria come�ava a tomar forma. A biografia de Zalachenko continuava cheia de buracos � ele s� dispunha, para se orientar, das informa��es que arrancara de Bj�rck e dos detalhes acrescentados por Holger Palmgren. A hist�ria de Lisbeth Salander estava praticamente conclu�da. Ele explicava com detalhes de que maneira ela se vira confrontada com um bando de frios combatentes da DGPN/Sapo e internada numa cl�nica de psiquiatria infantil para que n�o viesse � tona o segredo envolvendo Zalachenko.</p><p>Estava satisfeito com seu texto. Era uma mat�ria espetacular que iria estremecer as bancas de jornais e, al�m disso, criar problemas nas alt�ssimas esferas da burocracia do Estado.</p><p>Acendeu um cigarro enquanto refletia.</p><p>Restavam-lhe duas grandes lacunas para preencher. Uma era administr�vel. Precisava enfrentar Peter Teleborian, tarefa que ele encarava com prazer. Depois que acabasse com ele, o famoso psiquiatra infantil seria um dos homens mais odiados da Su�cia.</p><p>O outro problema era um tanto mais complicado.</p><p>A maquina��o contra Lisbeth Salander � ele apelidara esses conspira-dores de Clube Zalachenko � ocorrera dentro da Sapo. Ele conhecia um nome, Gunnar Bj�rck, mas Gunnar Bj�rck n�o podia, de modo algum, ser o �nico respons�vel. Havia necessariamente um grupo, uma esp�cie de equipe. Havia necessariamente chefes, respons�veis, e alguma verba. S� que ele n�o tinha a menor id�ia de como identificar essas pessoas. N�o sabia por onde come�ar. As informa��es que possu�a sobre a organiza��o da Sapo eram apenas rudimentares.</p><p>Na segunda-feira, come�ara sua pesquisa mandando Henry Cortez percorrer v�rios sebos de S�dermalm com a instru��o de comprar todos os livros que, de algum modo, mencionassem a Sapo. Cortez chegara � casa de Mikael Blomkvist por volta das quatro da tarde, levando seis livros. Mikael contemplou a pilha em cima da mesa.</p><p>Espionagem na Su�cia [Spionage y Sverige] (Tempus, 1988); Eu fui chefe da Sapo de 1962 a 1970 [S�pochef 1962-70]; Poderes secretos, de Jan Ottosson e Lars Magnusson [Hemliga makter: svensk hemlig militar under-r�ttelsetj�nst fr�n unionstiden till det kalla kriget] (Tiden, 1991); Luta pelo controle da Sapo, de Erik Magnusson (Corona, 1989) [Maktkamp om SAPO]; Miss�o, de Carl Lidbom (w&amp;w, 1990) [Ett Uppdrag], al�m do � um tanto surpreendente � An agent in place (Ballantine, 1966), sobre o caso Wen-nerstr�m. O caso dos anos 1960, portanto, e n�o o de Mikael Blomkvist, do in�cio do s�culo xxi.</p><p>Mikael passara boa parte da noite de ter�a-feira lendo, ou pelo menos folheando, os livros encontrados por Henry Cortez. Conclu�da a leitura, chegou a algumas conclus�es. Em primeiro lugar, a maioria dos livros j� escritos sobre a Sapo tinha aparentemente sido publicada no final dos anos 1980. Uma pesquisa na internet mostrou que n�o existia nenhuma literatura recente sobre o tema.</p><p>Em segundo lugar, tudo indicava que n�o existia um resumo compreens�vel das atividades da pol�cia secreta sueca ao longo dos anos. Isso se explicava pela quantidade de casos considerados segredo de seguran�a nacional, dificilmente abord�veis, portanto, mas tudo indicava n�o haver uma �nica institui��o, um �nico pesquisador ou �rg�o de imprensa disposto a lan�ar um olhar cr�tico sobre a Sapo.</p><p>Tamb�m chamou sua aten��o o fato de n�o existir, em nenhum dos livros reunidos por Henry Cortez, refer�ncia a outras obras. As notas de rodap� remetiam invariavelmente a artigos em jornais vespertinos ou a entrevistas pessoais feitas com algum aposentado da Sapo.</p><p>Poderes secretos era fascinante, mas tratava, sobretudo, da �poca anterior e contempor�nea � Segunda Guerra Mundial. Mikael via nas mem�rias de P. G. Vinge, antes de mais nada, um livro de propaganda escrito em defesa pr�pria por um diretor da Sapo duramente criticado e demitido do cargo. An agent in place continha, desde o primeiro cap�tulo, tantas esquisitices sobre a Su�cia que ele simplesmente jogou o livro no lixo. Os �nicos volumes com a clara inten��o de descrever o trabalho da Sapo eram Luta pelo controle da Sapo e Espionagem na Su�cia. Apresentavam datas, nomes e organogramas. Achou o livro de Erik Magnusson particularmente interessante. Embora n�o trouxesse resposta �s suas perguntas imediatas, oferecia um bom panorama do que tinham sido a Sapo e de suas atividades nas d�cadas passadas.</p><p>Sua maior surpresa, contudo, foi Miss�o, de Carl Lidbom, que descrevia os problemas enfrentados pelo antigo embaixador em Paris quando, por ordem do governo, investigou sobre a Sapo na esteira do assassinato de Palme e do caso Ebbe Carlsson. Mikael nunca tinha lido Carl Lidbom e se surpreendeu com sua linguagem ir�nica permeada de observa��es mordazes. Mas o livro de Carl Lidbom tamb�m n�o ajudou Mikael a encontrar resposta �s suas perguntas, embora ele come�asse a ter uma vaga id�ia da confus�o que tinha pela frente.</p><p>Depois de refletir por algum tempo, pegou o celular e ligou para Henry Cortez.</p><p>� Oi, Henry. Obrigado pelo trabalho de ontem.</p><p>� Humm. O que voc� quer?</p><p>� Tenho mais uns servicinhos para voc�.</p><p>� Micke, eu tenho trabalho a fazer. Eu agora sou assistente de reda��o.</p><p>� Um belo avan�o na carreira.</p><p>� Desembucha!</p><p>� Nesses anos todos, foram feitas algumas investiga��es p�blicas sobre a Sapo - Uma delas pelo Carl Lindbom. Deve haver um bocado de investiga��es desse tipo.</p><p>� Ah�.</p><p>� Me traga tudo o que tenha a ver com o Parlamento: or�amentos, inqu�ritos oficiais do Estado, discuss�es decorrentes de interpela��es da C�mara, esse tipo de coisa; E compre os anais da Sapo, at� o mais antigo que conseguir.</p><p>� �s suas ordens, capit�o.</p><p>� �timo. E... Henry...</p><p>� Sim?</p><p>� ... eu s� vou precisar disso amanh�.</p><p>Lisbeth Salander passou o dia pensando em Zalachenko. Sabia que ele estava dois quartos adiante do seu, que rondava pelos corredores � noite e viera at� o seu quarto �s 3hl0.</p><p>Ela o seguira at� Gosseberga com o prop�sito de mat�-lo. Fracassara, Zalachenko ainda estava vivo e se achava a menos de dez metros de dist�ncia. Ela estava encrencada. Era dif�cil definir at� que ponto, mas imaginava que teria de fugir e desaparecer discretamente no exterior se n�o quisesse se arriscar a ser trancafiada outra vez com os loucos, tendo Peter Teleborian como guardi�o.</p><p>O problema, claro, � que ela n�o tinha for�as sequer para se sentar na cama. Percebia alguns sinais de melhora. A dor de cabe�a persistia, mas vinha por ondas em vez de ser constante. A dor no ombro estava superficial, s� explodindo quando ela tentava se mexer.</p><p>Escutou passos no corredor e viu uma enfermeira abrir a porta e introduzir uma mulher de cal�as pretas, camisa branca e casaco escuro. Uma mulher bonita, magra, de cabelos castanhos bem curtos e que emanava uma calma autoconfian�a. Carregava uma pasta preta. Lisbeth imediatamente reconheceu os olhos de Mikael Blomkvist.</p><p>� Bom dia, Lisbeth. Meu nome � Annika Giannini � disse ela. � Posso entrar?</p><p>Lisbeth contemplou-a sem nenhuma express�o. De repente, n�o estava com a m�nima vontade de conhecer a irm� de Mikael Blomkvist e se arrependeu de ter aceitado a proposta de t�-la como advogada.</p><empty-line/><p>Annika Giannini entrou, fechou a porta atr�s de si e puxou uma cadeira. Ficou sentada em sil�ncio alguns instantes, observando sua cliente.</p><p>Lisbeth Salander n�o parecia nada bem. Sua cabe�a n�o passava de um pacote de bandagens. Enormes hematomas vermelhos circundavam seus olhos injetados de sangue.</p><p>� Antes de a gente come�ar a conversa, preciso saber se voc� realmente me quer como advogada. Em geral, eu s� atuo em casos civis, representando v�timas de estupro e maus-tratos. N�o sou advogada criminal. Em compensa��o, estou � par dos m�nimos detalhes do seu caso e com muita vontade de representar voc�, se concordar. Devo dizer tamb�m que o Mikael Blomkvist � meu irm�o � isso eu acho que voc� j� sabe � e que ele e o Dragan Armanskij est�o pagando meus honor�rios.</p><p>Ela esperou um instante, mas como n�o obteve nenhuma rea��o por parte de sua cliente, prosseguiu.</p><p>� Se me aceitar como advogada, vou trabalhar para voc�. Quero dizer, n�o estou trabalhando para o meu irm�o nem para o Armanskij. Al�m disso, para tudo que estiver relacionado com o direito penal, vou contar com o aux�lio do seu antigo tutor, Holger Palmgren. Est� a� um homem de fibra, que deixou seu leito no hospital para te ajudar.</p><p>� O Palmgren? � disse Lisbeth Salander.</p><p>� �.</p><p>� Voc� esteve com ele?</p><p>� Estive. Ele vai ser meu conselheiro.</p><p>� Como � que ele est�?</p><p>� Est� furioso, mas n�o me pareceu particularmente preocupado com voc�.</p><p>Lisbeth Salander esbo�ou um sorrisinho de esguelha. O primeiro desde que ela chegara ao Hospital Sahlgrenska.</p><p>� Como voc� est� se sentindo? � perguntou Annika Giannini.</p><p>� Um lixo � disse Lisbeth Salander.</p><p>� Ah�. Voc� quer que eu cuide da sua defesa? O Armanskij e o Mikael est�o pagando os meus honor�rios e...</p><p>� N�o.</p><p>� Como assim?</p><p>- Eu mesma vou pagar. N�o vou aceitar um ore do Armanskij ou do Suer-Blomkvist. Mas s� vou poder lhe pagar quando eu tiver acesso � internet.</p><p>� Entendo. Na hora certa a gente d� um jeito nisso e, seja como for, 0 Minist�rio P�blico � quem vai pagar a maior parte do meu sal�rio. Ent�o voc� aceita que eu fa�a a sua defesa?</p><p>Lisbeth Salander assentiu brevemente com a cabe�a.</p><p>� �timo. Para come�ar, vou lhe passar um recado do Mikael. Ele falou em c�digo, mas disse que voc� entenderia.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Ele mandou dizer que me contou quase tudo, tirando umas coisinhas. A primeira se refere aos seus talentos, que ele descobriu em Hedestad.</p><p>Mikael sabe que eu tenho mem�ria fotogr�fica... e que sou uma hacker. Ele guardou segredo.</p><p>� Certo.</p><p>� A segunda � sobre o DVD. N�o sei do que se trata, mas ele disse que voc� � quem deve decidir se quer falar sobre isso comigo ou n�o. Voc� entende o que isso quer dizer?</p><p>� Entendo.</p><p>� Bem...</p><p>Annika Giannini hesitou de repente.</p><p>� Estou meio irritada com o meu irm�o. Mesmo tendo me contratado, ele s� me conta o que conv�m a ele. Voc� tamb�m pretende me esconder alguma coisa?</p><p>Lisbeth refletiu.</p><p>� N�o sei.</p><p>� A gente vai ter que conversar bastante. Estou sem tempo agora, tenho um encontro com a procuradora Agneta Jervas daqui a quarenta e cinco minutos. Eu s� precisava confirmar que voc� me aceitava como advogada. Tamb�m preciso lhe passar uma instru��o...</p><p>� Ah, �?</p><p>� � o seguinte: se eu n�o estiver presente, voc� n�o deve dizer uma palavra sequer � pol�cia. Mesmo que eles a provoquem e a acusem de tudo que � coisa. Pode me prometer isso?</p><p>� N�o vai ser dif�cil � disse Lisbeth Salander.</p><p>Exausto pela tens�o da segunda-feira, Evert Gullberg acordou �s nove horas da ter�a, quase quatro horas depois de seu hor�rio habitual. Foi at� o banheiro, lavou-se e escovou os dentes. Contemplou demoradamente seu rosto no espelho antes de apagar a luz e ir se vestir. Escolheu a �nica camisa limpa que lhe sobrava na pasta e p�s uma gravata estampada marrom.</p><p>Desceu at� a sala de caf� da manh� do hotel, tomou uma x�cara de caf� preto e comeu uma fatia de p�o de forma torrada com queijo e um pouco de gel�ia de laranja. Bebeu um copo grande de �gua mineral.</p><p>Em seguida, foi at� o hall do hotel e ligou de uma cabine telef�nica para o celular de Fredrik Clinton.</p><p>� Sou eu. Como est� a situa��o?</p><p>� Bastante agitada.</p><p>� Fredrik, voc� vai conseguir dar conta disso tudo?</p><p>� Sim, como antigamente. S� � pena que o Hans von Rottinger n�o esteja vivo. Ele era melhor que eu para planejar as opera��es.</p><p>� Voc� e ele tinham o mesmo gabarito. Podiam ocupar o lugar um do outro a qualquer momento. Ali�s, voc�s fizeram isso mais de uma vez.</p><p>� Havia uma diferen�a pequena, m�nima, entre n�s. Ele sempre foi um tantinho melhor que eu.</p><p>� Em que p� voc�s est�o?</p><p>� O Sandberg � mais esperto do que parecia. Chamamos o M�rtensson como refor�o. � um garoto de recados, mas nos ser� �til. O Blomkvist j� est� sob escuta, celular e telefone fixo de casa. Hoje, durante o dia, vamos cuidar dos telefones da Giannini e da Millennium. Estamos estudando a planta dos escrit�rios e dos apartamentos. Vamos entrar assim que poss�vel.</p><p>� Primeiro voc� tem que localizar todas as c�pias...</p><p>� Isso j� foi feito. Tivemos uma sorte incr�vel. A Annika Giannini ligou para o Blomkvist agora �s dez da manh� para perguntar, justamente, quantas c�pias est�o circulando, e descobrimos, pela conversa, que o Mikael Blomkvist � quem est� com o �nico exemplar. A Berger fez uma c�pia do relat�rio, mas mandou para o Bublanski.</p><p>� �timo. N�o temos um segundo a perder.</p><p>- Eu sei. Mas precisamos pegar tudo de uma vez. Se n�o juntarmos todas as c�pias do relat�rio do Bj�rck ao mesmo tempo, n�o vamos conseguir.</p><p>� Eu sei.</p><p>� Complicou um pouco porque a Giannini foi at� G�teborg hoje de manh�. Despachei uma equipe de colaboradores externos atr�s dela. A essa hora eles est�o no avi�o.</p><p>� �timo.</p><p>Gullberg n�o lembrava de mais nada para dizer. Ficou um bom tempo calado.</p><p>� Obrigado, Fredrik � disse por fim.</p><p>� Eu � que agrade�o. Essa hist�ria � mais divertida do que ficar esperando por um rim que nunca chega.</p><p>Despediram-se. Gullberg pagou a conta do hotel e saiu. A sorte estava lan�ada. Agora era s� esperar que a coreografia desse certo.</p><p>Primeiro, foi a p� at� o Park Avenue Hotel e perguntou se poderia usar o fax. N�o queria fazer isso no mesmo hotel onde tinha se hospedado. Enviou as cartas que escrevera no trem no dia anterior. Em seguida, saiu na Avenyn e procurou um t�xi. Parou em frente a uma lixeira e rasgou as c�pias que fizera das cartas.</p><p>Annika Giannini conversou por quinze minutos com a procuradora Agneta Jervas. Queria saber que acusa��es, a procuradora pretendia fazer contra Lisbeth Salander, mas percebeu rapidamente que Jervas ainda n�o sabia bem o que ia acontecer.</p><p>� Por enquanto, vou me limitar a indici�-la por golpes e ferimentos agravados, acompanhados de tentativa de homic�dio. Refiro-me � machadada que Lisbeth Salander desfechou no pai. Suponho que a senhora v� alegar leg�tima defesa.</p><p>� Pode ser.</p><p>� Mas, para ser sincera, minha prioridade no momento � o Niedermann, o assassino do policial.</p><p>� Compreendo.</p><p>� Conversei com o procurador-geral da na��o. No momento, est�o tentando decidir se todas as acusa��es contra a sua cliente n�o deveriam ser centralizadas por um procurador de Estocolmo e vinculadas ao que aconteceu l�.</p><p>� Estou partindo do princ�pio de que o caso vai ser transferido para Estocolmo.</p><p>� �timo. Seja como for, preciso ter a oportunidade de ouvir a Lisbeth Salander. Quando pode ser?</p><p>� Tenho aqui uma declara��o do m�dico dela, o doutor Anders Jonasson. Ele diz que durante alguns dias Lisbeth Salander ainda n�o ter� condi��es de enfrentar um interrogat�rio. Al�m dos ferimentos no corpo, ela est� sob o efeito de sedativos fort�ssimos.</p><p>� Foi mais ou menos o que me disseram. Mas voc� h� de compreender que � frustrante para mim. Repito, minha prioridade no momento � o Ronald Niedermann. Sua cliente diz que n�o sabe onde ele est�.</p><p>� E � verdade. Ela n�o conhece o Niedermann. S� o que ela fez foi descobrir quem ele era e ir atr�s dele.</p><p>� Muito bem � disse Agneta Jervas.</p><p>Evert Gullberg segurava um buqu� de flores quando entrou no elevador do Hospital Sahlgrenska junto com uma mulher de cabelos curtos e casaco escuro. Segurou educadamente a porta e deixou que ela passasse � sua frente para se dirigir � recep��o.</p><p>� Meu nome � Annika Giannini. Sou advogada e preciso falar de novo com a minha cliente, Lisbeth Salander.</p><p>Evert Gullberg virou a cabe�a e olhou, surpreso, para a mulher que viera com ele no elevador. Desviou o olhar para a sua pasta, enquanto a enfermeira verificava a identidade de Giannini e consultava uma lista.</p><p>� Quarto n�mero 12 � disse a enfermeira.</p><p>� Obrigada. J� estive aqui, sei onde �.</p><p>Pegou a pasta e desapareceu do campo visual de Gullberg.</p><p>� Posso ajudar? � perguntou a enfermeira.</p><p>� Sim, obrigado, eu queria deixar essas flores para Karl Axel Bodin.</p><p>� Ele n�o est� autorizado a receber visitas.</p><p>� Eu sei, s� queria deixar as flores.</p><p>� Posso cuidar disso.</p><p>Gullberg s� trouxera o buqu� como pretexto. Queria ter uma id�ia da burocracia de entrada. Agradeceu e se dirigiu para a sa�da. No caminho, cassou em frente ao quarto de Zalachenko, o n�mero 14 segundo Jonas Sandberg.</p><p>Esperou no patamar. Pela porta de vidro, viu a enfermeira pegar o buqu� que ele acabara de trazer e entrar no quarto de Zalachenko. Assim que ela voltou para a sua mesa, Gullberg empurrou a porta, dirigiu-se rapidamente para o quarto n�mero 14 e entrou.</p><p>� Ol�, Zalachenko � disse.</p><p>Zalachenko fitou, espantado, aquele visitante inesperado.</p><p>� Achei que voc� j� estivesse morto a esta altura � disse ele.</p><p>� Ainda n�o � disse Gullberg.</p><p>� O que voc� quer? � perguntou Zalachenko.</p><p>� O que voc� acha?</p><p>Gullberg puxou a cadeira dos visitantes e se sentou.</p><p>� Me ver morto, provavelmente.</p><p>� Sim, at� que eu ia gostar. Como voc� conseguiu ser t�o idiota? N�s lhe demos uma vida nova, e aqui est� voc� de novo.</p><p>Se Zalachenko pudesse sorrir, sem d�vida o teria feito. Para ele, a Seguran�a sueca era composta de amadores, entre os quais Evert Gullberg e Sven Jansson, ou melhor, Gunnar Bj�rck. Para n�o falar naquele inepto do dr. Nils Bjurman.</p><p>� E mais uma vez a gente � que tem que apagar o seu inc�ndio.</p><p>A met�fora n�o foi muito do agrado de Zalachenko, que j� tinha sido v�tima de graves queimaduras,</p><p>� Pare de me dar serm�o. Voc�s t�m que me tirar daqui.</p><p>� E sobre isso que quero falar com voc�.</p><p>P�s a pasta no colo, pegou um novo bloco de anota��es e abriu uma p�gina em branco. Depois, observou Zalachenko.</p><p>� Uma coisa me intriga: voc� seria capaz de nos fritar depois de tudo que fizemos por voc�?</p><p>� O que voc� acha?</p><p>� Depende do tamanho da sua loucura.</p><p>� N�o me chame de louco. Sou um sobrevivente. Fa�o o que tenho que fazer para sobreviver.</p><p>Gullberg balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o, Alexander, voc� faz o que faz porque � ruim e depravado. Voc� queria saber qual a posi��o da Se��o. Pois estou aqui para te informar. Desta vez n�o vamos levantar um dedo para te ajudar.</p><p>Pela primeira vez, Zalachenko pareceu hesitar.</p><p>� Voc� n�o tem escolha � disse.</p><p>� Sempre se tem escolha � disse Gullberg.</p><p>� Eu vou...</p><p>� Voc� n�o vai fazer coisa nenhuma.</p><p>Gullberg respirou fundo, enfiou a m�o no bolso externo da pasta marrom e pegou uma Smith &amp; Wesson 9 mil�metros com coronha banhada a ouro. A arma era um presente de vinte e cinco anos atr�s do servi�o de informa��es ingl�s � fruto de uma informa��o inestim�vel que ele extorquira de Zalachenko e transformara numa s�lida moeda de troca: o nome de um esten�grafo do MI-5 ingl�s que, no bom e velho esp�rito de Philby, trabalhava para os russos.</p><p>Zalachenko pareceu surpreso. Deu uma risada.</p><p>� E o que voc� vai fazer com isso? Me matar? Vai passar o resto da sua miser�vel vida na cadeia.</p><p>� Acho que n�o � disse Gullberg.</p><p>De repente, Zalachenko j� n�o sabia se Gullberg estava blefando ou n�o.</p><p>� Vai ser um esc�ndalo e tanto.</p><p>� Tamb�m acho que n�o. Vai dar s� algumas manchetes. Daqui a uma semana ningu�m mais vai se lembrar do nome Zalachenko.</p><p>Os olhos de Zalachenko se estreitaram.</p><p>� Seu canalha � disse Gullberg, com uma voz t�o fria que Zalachenko ficou gelado.</p><p>Ele apertou o gatilho e enfiou a bala no meio da testa de Zalachenko no exato momento em que este come�ava a puxar a pr�tese sobre a beira da cama. Zalachenko foi projetado para tr�s, sobre o travesseiro. Seu corpo se agitou em alguns movimentos espasm�dicos, depois se aquietou. Gullberg viu os respingos formarem uma flor vermelha na parede atr�s da cabeceira da cama. O tiro ecoava em seus ouvidos e ele esfregou maquinalmente o canal auditivo com o dedo indicador livre.</p><p>Em seguida levantou-se, acercou-se de Zalachenko, pressionou o cano da arma em sua t�mpora e atirou mais duas vezes. Queria ter certeza de que o velho canalha estava realmente morto.</p><p>Lisbeth Salander ergueu-se de um salto quando o primeiro tiro foi disparado. Sentiu uma dor intensa no ombro. Quando os dois tiros seguintes ecoaram, tentou jogar as pernas sobre a beira da cama.</p><p>Annika Giannini estava conversando com Lisbeth havia poucos minutos quando ouviram os tiros. De in�cio, ficou paralisada, tentando entender de onde vinha o disparo. A rea��o de Lisbeth Salander lhe mostrou que algo estava acontecendo.</p><p>� N�o se mexa! � gritou. P�s automaticamente a m�o no peito de Lisbeth Salander, prendendo sua cliente na cama com tanta for�a que Lisbeth se sentiu sufocar.</p><p>Ent�o Annika atravessou depressa o quarto e abriu a porta. Avistou duas enfermeiras correndo em dire��o a um quarto duas portas adiante. A primeira estacou de chofre ao entrar. Annika ouviu-a gritar: "N�o fa�a isso" e dar um passo atr�s, esbarrando na outra.</p><p>� Ele est� armado. Corra.</p><p>Annika viu as duas enfermeiras abrirem a porta do quarto vizinho ao de Lisbeth e se refugiarem l� dentro.</p><p>No instante seguinte, viu o homem magro de cabelos grisalhos e palet� pied-de-poule aparecer no corredor. Segurava uma pistola na m�o. Annika reconheceu o homem que subira com ela no elevador poucos minutos antes.</p><p>Ent�o seus olhares se cruzaram. Ele pareceu embara�ado. Em seguida, viu que ele virava a arma em sua dire��o e dava um passo � frente. Ela levou a cabe�a para tr�s, bateu a porta e olhou em volta, desesperada. Bem � seu lado havia uma mesa alta de enfermagem. Puxou-a num gesto brusco para junto da porta e prendeu-a debaixo da ma�aneta.</p><p>Escutou um movimento, virou a cabe�a e viu que Lisbeth Salander tentava sair da cama novamente. Alcan�ou sua cliente em poucas passadas e pegou-a no colo. Arrancou os eletrodos e o gotejador para lev�-la at� o banheiro, onde a acomodou sobre a tampa do vaso sanit�rio. Virou-se e fechou a porta a chave. Em seguida, pegou o celular no bolso do casaco e ligou para o 112.</p><empty-line/><p>Evert Gullberg se aproximou do quarto de Lisbeth Salander e tentou mover a ma�aneta da porta. Estava bloqueada com alguma coisa. N�o se mexeu um mil�metro sequer.</p><p>Por um instante, ficou indeciso diante da porta. Sabia que Annika Giannini estava no quarto e se perguntou se uma c�pia do relat�rio de Bj�rck n�o estaria em sua bolsa. N�o podia entrar no quarto e n�o tinha for�as suficientes para arrombar a porta.</p><p>Mas isso n�o fazia parte do plano. O encarregado de Giannini e da amea�a que ela podia representar era o Clinton. A parte dele limitava-se a Zalachenko.</p><p>Gullberg olhou em volta no corredor e percebeu que estava sendo observado por cerca de vinte enfermeiras, pacientes e visitantes que esticavam a cabe�a pela abertura das portas. Ergueu a pistola e deu um tiro num painel afixado no fundo do corredor. Sua plat�ia desapareceu como num passe de m�gica.</p><p>Lan�ou um �ltimo olhar para a porta fechada, voltou resolutamente para o quarto de Zalachenko e fechou a porta. Sentou-se na poltrona dos visitantes e contemplou o dissidente russo que durante tantos anos fora parte integrante de sua vida.</p><p>Permaneceu im�vel durante quase dez minutos, at� que ouviu a agita��o no corredor e percebeu que a pol�cia estava chegando. N�o pensou em nada de especial.</p><p>Ent�o ergueu a pistola uma �ltima vez, apontou-a para a pr�pria t�mpora e apertou o gatilho.</p><p>Os acontecimentos que se seguiram demonstraram a imprud�ncia de tentar se suicidar no Hospital Sahlgrenska. Evert Gullberg foi levado com urg�ncia ao servi�o de traumatologia do hospital, sendo recebido pelo Dr. Anders Jonasson, que imediatamente deu in�cio a uma s�rie de medidas destinadas a manter suas fun��es vitais.</p><p>Pela segunda vez em menos de uma semana, Jonasson realizou uma cirurgia de emerg�ncia para extrair uma bala dos tecidos cerebrais humanos.</p><empty-line/><p>Ap�s cinco horas de cirurgia, o estado de Gullberg permanecia cr�tico. Mas ele estava vivo.</p><p>Os ferimentos de Evert Gullberg, por�m, eram bem mais graves que os de Lisbeth Salander. Durante v�rios dias ele oscilou entre a vida e a morte.</p><p>Mikael Blomkvist estava no Kaffebar, na Hornsgatan, quando escutou no r�dio a not�cia de que um homem de cerca de sessenta anos, ainda n�o identificado e que estava sendo acusado de tentar matar Lisbeth Salander, havia sido morto com um tiro no Hospital Sahlgrenska em G�teborg. Ele largou a x�cara, apanhou a sacola do computador e correu para a reda��o na G�tgatan. Atravessou a Mariatorget e estava entrando na Sankt Paulsgatan quando seu celular tocou. Atendeu sem parar de caminhar.</p><p>� Blomkvist.</p><p>� Oi, � a Malu.</p><p>� Acabo de ouvir o notici�rio. J� se sabe quem atirou?</p><p>� Ainda n�o. O Henry Cortez est� indo atr�s.</p><p>� Eu estou indo para a�. Chego em cinco minutos.</p><p>Na porta da Millennium, Mikael cruzou com Henry Cortez, que ia saindo.</p><p>� O Ekstr�m vai dar uma entrevista coletiva �s tr�s da tarde � disse Henry. � Estou indo para Kungsholmen.</p><p>� E o que j� se sabe? � gritou Mikael �s suas costas.</p><p>� Malu � disse Henry, e desapareceu.</p><p>Mikael dirigiu-se � sala de Erika Berger... opa, de Malu Eriksson. Ela estava ao telefone, tomando notas febrilmente num post-it amarelo. Fez com a m�o um sinal para que ele sa�sse. Mikael foi at� a copa e encheu de caf� com leite duas canecas, uma com o logotipo da Juventude Crist�-Democrata e outra com o do C�rculo da Juventude Social-Democrata. Quando voltou � sala de Malu, ela estava encerrando a liga��o. Ele lhe ofereceu a caneca do cjs.</p><p>� Bem � disse Malu. � O Zalachenko foi morto hoje �s 13h15. Ela olhou para Mikael.</p><p>� Acabo de falar com uma enfermeira do Sahlgrenska. Diz ela que o assassino � um homem de certa idade, em torno dos setenta anos, que foi levar flores para o Zalachenko minutos antes do assassinato. Deu v�rios tiros � queima-roupa na cabe�a do Zalachenko e depois apontou a arma para si mesmo. O Zalachenko est� morto. O assassino sobreviveu, est� sendo operado.</p><p>Mikael respirou aliviado. Desde que ouvira a not�cia no Kaffebar, estava com um aperto no cora��o e a sensa��o, bem pr�xima do p�nico, de que Lisbeth Salander � que tivesse disparado a arma. O que iria realmente complicar seu plano.</p><p>� J� sabem o nome do assassino? � ele perguntou.</p><p>Malu balan�ava a cabe�a quando o telefone voltou a tocar. Ela atendeu e, pela conversa, Mikael percebeu que era um freelancer enviado por Malu at� o Sahlgrenska. Ele fez um gesto com a m�o e foi para a sua sala.</p><p>Tinha a impress�o de que era a primeira vez, em semanas, que ia para a reda��o da Millennium. Decididamente, empurrou de lado uma pilha de correspond�ncia ainda fechada. Ligou para a irm�.</p><p>� Giannini.</p><p>� Oi. E o Mikael. Voc� soube do que aconteceu no Sahlgrenska?</p><p>� �, pode-se dizer que sim.</p><p>� Aonde voc� est�?</p><p>� No Sahlgrenska. O canalha apontou a arma para mim.</p><p>Mikael permaneceu calado por v�rios segundos at� entender o que sua irm� estava dizendo.</p><p>� Puta merda... voc� estava a�?</p><p>� Estava. Foi a pior experi�ncia que j� tive na vida.</p><p>� Voc� est� ferida?</p><p>� N�o. Mas ele tentou entrar no quarto da Lisbeth. Eu bloqueei a porta e me tranquei com ela no banheiro.</p><p>Mikael, de repente, sentiu seu mundo balan�ar. Sua irm� por pouco n�o...</p><p>� Como est� a Lisbeth? � ele perguntou.</p><p>� Est� tudo bem. Quero dizer, tudo bem quanto a essa trag�dia de hoje.</p><p>Ele respirou um pouco melhor.</p><p>� Annika, voc� sabe alguma coisa sobre o assassino?</p><p>� Nadica de nada. � um homem de idade, bem-vestido. Achei seu ar um pouco perturbado. Nunca o tinha visto, mas ele estava comigo no elevador minutos antes do assassinato.</p><p>� E o Zalachenko est� mesmo morto?</p><p>� Est�. Eu escutei tr�s tiros e, pelo que ouvi por aqui, atiraram nele tr�s vezes. Foi um caos absoluto, os policiais correndo para l� e para c�, e um setor inteiro de pessoas gravemente feridas, que n�o podem ser removidas, teve de ser evacuado. Quando a pol�cia chegou, algu�m at� tentou interrogar a Salander sem entender at� que ponto ela est� mal. Fui obrigada a falar grosso.</p><p>O inspetor Marcus Ackerman avistou Annika Giannini no quarto de Lisbeth Salander pela abertura da porta. A advogada estava com o celular junto ao ouvido e ele esperou que ela terminasse a liga��o.</p><p>Duas horas depois do assassinato, um caos mais ou menos organizado ainda reinava no corredor. O quarto de Zalachenko estava interditado. Alguns m�dicos haviam tentado intervir logo ap�s os tiros, mas desistiram em seguida. Zalachenko n�o precisava mais de ajuda. Seu corpo fora levado ao necrot�rio e o exame da cena do crime estava em andamento.</p><p>O celular de Ackerman tocou. Era Frank Malmberg, da equipe de investiga��o.</p><p>� Temos uma identifica��o segura do assassino � disse Malmberg. � Seu nome � Evert Gullberg, tem setenta e oito anos. Meio velho para um assassino!</p><p>� E quem � o puto desse Evert Gullberg?</p><p>� Aposentado. Mora em Laholm. Parece que � advogado empresarial. Recebi uma liga��o da DGPN/Sapo dizendo que recentemente eles abriram um inqu�rito preliminar sobre ele.</p><p>� Quando e por qu�?</p><p>� Quando eu n�o sei. Por qu�... bem, porque ele tinha o p�ssimo h�bito de mandar cartas amea�adoras e sem p� nem cabe�a para figuras p�blicas.</p><p>� Para quem, por exemplo?</p><p>� Para o ministro da Justi�a.</p><p>Marcus Ackermann suspirou. Quer dizer, um louco. Um justiceiro.</p><p>� Hoje de manh� a Sapo recebeu liga��es de v�rios jornais para os quais o Gullberg tinha escrito cartas. O Minist�rio da Justi�a tamb�m telefonou, depois que o tal Gullberg amea�ou expressamente o Karl Axel Bodin de morte.</p><p>� Quero uma c�pia dessas cartas.</p><p>� Da Sapo?</p><p>� Claro, porra. V� at� Estocolmo busc�-las pessoalmente, se preciso. Quero as cartas na minha mesa quando eu voltar para a chefatura de pol�cia. Ou seja, daqui a uma hora mais ou menos.</p><p>Ele refletiu um instante e fez mais uma pergunta.</p><p>� Foi a Sapo que ligou para voc�?</p><p>� Foi o que eu disse.</p><p>� Quero dizer, foram eles que ligaram para voc�, e n�o o contr�rio?</p><p>� Isso mesmo.</p><p>� Certo � disse Marcus Ackerman, e desligou o celular.</p><p>Perguntou-se o que dera na telha da Sapo para, de repente, ter a iniciativa de contatar a pol�cia comum. Em geral, era praticamente imposs�vel conseguir que ela desse o menor sinal de vida.</p><p>Com um gesto brusco, Wadensj�� abriu a porta do quarto que Fredrik Clinton usava para repousar na Se��o. Clinton se ergueu com cautela na cama.</p><p>� Eu gostaria de saber que baderna � essa � berrou Wadensj��. � O Gullberg matou o Zalachenko e depois deu um tiro na cabe�a.</p><p>� Eu sei � disse Clinton.</p><p>� Voc� sabe? � exclamou Wadensj��.</p><p>Ele estava escarlate e parecia prestes a ter um derrame cerebral.</p><p>� J� pensou, o idiota deu um tiro em si pr�prio. Tentou se suicidar. Ele por acaso pirou?</p><p>� Quer dizer que ele ainda est� vivo?</p><p>� Por enquanto, sim, mas est� com les�es enormes no c�rebro. Clinton suspirou.</p><p>� Que pena � disse, a voz repleta de tristeza.</p><p>� Pena?! � gritou Wadensj��. � Ora essa, o Gullberg est� � completamente maluco. Voc� n�o percebe que...</p><p>Clinton interrompeu-o.</p><p>� O Gullberg est� com c�ncer. No est�mago, no c�lon e na bexiga. Faz meses que ele est� morrendo e, na melhor das hip�teses, s� teria mais dois meses de vida.</p><p>- C�ncer?</p><p>- Faz seis meses que ele carregava essa arma com ele, firmemente disposto a us�-la quando a dor se tornasse insuport�vel e antes que ele pr�prio se transformasse num pacote humilhado em alguma UTI. Com isso, ele p�de prestar um �ltimo servi�o � Se��o. Foi uma sa�da triunfal.</p><p>Wadensj�� parecia at�nito.</p><p>__Voc� sabia que ele pretendia matar o Zalachenko.</p><p>� � evidente. A miss�o dele era dar um jeito para o Zalachenko nunca mais ter a oportunidade de falar. E voc� sabe muito bem que ele n�o se deixava amea�ar, muito menos convencer.</p><p>� Mas voc� n�o percebe o esc�ndalo que isso vai provocar? Voc� est� t�o maluco quanto o Gullberg?</p><p>Clinton levantou-se com dificuldade. Fitou Wadensj�� olho no olho e lhe passou uma pilha de faxes.</p><p>� A decis�o depende do setor de interven��es. Eu lamento pelo meu amigo, mas � bem prov�vel que eu o siga muito em breve. Quanto a esta hist�ria de esc�ndalo... Um ex-perito em assuntos fiscais escreveu cartas claramente paran�icas, fruto de uma mente perturbada, e mandou para os jornais, a pol�cia e o Minist�rio da Justi�a. Aqui tem uma. O Gullberg acusa o Zalachenko de tudo que � coisa, desde o assassinato do Palme at� uma tentativa de envenenar a popula��o sueca com cloro. As cartas foram manifestamente escritas por um doente mental, em certos trechos a letra est� ileg�vel, com mai�sculas, sublinhados e pontos de exclama��o. Gosto do jeito como ele escreve na margem.</p><p>Wadensj�� leu as cartas, enquanto seu espanto crescia. Passou a m�o pela testa. Clinton olhou para ele.</p><p>� O que quer que aconte�a, a morte de Zalachenko n�o vai ter nada a ver com a Se��o. Quem atirou foi um aposentado desnorteado e demente.</p><p>Ele fez uma pausa.</p><p>� O mais importante, a partir de agora, � voc� se manter na linha. N�o fique se agitando dentro da canoa, que ela pode virar!</p><p>Cravou o olhar em Wadensj��. De s�bito, o olhar daquele homem exibiu uma dureza de a�o.</p><p>� Voc� precisa entender que a Se��o � figura de proa no conjunto da Defesa sueca. Somos a �ltima linha de defesa. Nossa miss�o � zelar pela seguran�a do pa�s. O resto n�o tem a menor import�ncia.</p><empty-line/><p>Wadensj�� mirou Clinton fixamente, com um olhar de d�vida.</p><p>� N�s somos aqueles que n�o existem. Somos aqueles a quem ningu�m agradece. Somos aqueles que precisam tomar as decis�es que ningu�m mais consegue tomar... muito menos os pol�ticos.</p><p>Havia desprezo em sua voz quando pronunciou a �ltima palavra.</p><p>� Fa�a o que eu estou dizendo, e a Se��o talvez sobreviva. Mas para que isso aconte�a vamos precisar ter muita determina��o e n�o usar meias-medidas.</p><p>Wadensj�� sentiu-se invadido pelo p�nico.</p><p>Henry Cortez anotou febrilmente tudo o que era dito no tablado durante a entrevista coletiva da chefatura de pol�cia em Kungsholmen. O procurador Ekstr�m foi quem abriu a coletiva. Explicou que, naquela manh�, eles haviam decidido entregar a um procurador da jurisdi��o de G�teborg a instru��o do assassinato de um policial em Gosseberga, pelo qual Ronald Niedermann era procurado, mas que qualquer outra investiga��o referente a Niedermann seria dirigida por ele pr�prio. Niedermann era, portanto, suspeito dos assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman. O dr. Bjurman n�o foi mencionado. Ekstr�m tamb�m iria investigar Lisbeth Salander e entrar com uma a��o na Justi�a cobrindo uma extensa lista de infra��es.</p><p>Ele explicou que decidira tornar p�blica essa informa��o ap�s os acontecimentos de G�teborg naquele dia, j� que o pai de Lisbeth Salander, Karl Axel Bodin, havia sido morto a tiros. O primeiro motivo daquela entrevista coletiva � que ele queria desmentir algumas informa��es j� divulgadas pela imprensa, sobre as quais j� recebera v�rias liga��es.</p><p>� Com base nas informa��es de que dispomos no momento, posso dizer que a filha de Karl Axel Bodin, que se encontra detida por tentativa de homic�dio contra o seu pai, n�o tem nada a ver com os acontecimentos desta manh�.</p><p>� E quem � o assassino? � gritou um jornalista do Dagens Eko.</p><p>� Foi identificado o homem que, �s 13hl5 de hoje, fez os disparos que mataram Karl Axel Bodin e depois tentou se suicidar. E um aposentado de setenta e oito anos, que fazia algum tempo vinha se tratando de uma doen�a fatal e dos problemas ps�quicos decorrentes dessa doen�a.</p><p>- Existe alguma liga��o com Lisbeth Salander?</p><p>- N�o. Podemos refutar essa hip�tese com toda a seguran�a. Essas duas pessoas nunca se viram e n�o se conhecem. O homem de setenta e oito anos � uma figura tr�gica. Ele agiu sozinho, levado por suas pr�prias fantasias, claramente paran�icas. N�o faz muito tempo, a Sapo iniciou uma investiga��o sobre ele por causa de uma quantidade de cartas confusas que ele escreveu para pol�ticos de destaque e para a imprensa. Ainda hoje de manh�, cartas desse homem chegaram aos jornais e a autoridades, contendo amea�as de morte contra Karl Axel Bodin.</p><p>� Por que a pol�cia n�o colocou Bodin sob prote��o?</p><p>� As cartas foram enviadas ontem � noite e, pelo que se sabe, chegaram justamente no instante em que ele cometia o assassinato. N�o houve nenhuma margem de a��o para n�s.</p><p>� Qual o nome desse homem?</p><p>� N�o podemos divulgar o nome dele antes que a fam�lia tenha sido informada.</p><p>� Sabe-se alguma coisa do passado dele?</p><p>� Pelo que entendi at� agora, ele era auditor e especialista em assuntos fiscais. Estava aposentado havia quinze anos. As investiga��es continuam, mas, como mostram as cartas, essa trag�dia talvez pudesse ter sido evitada se a sociedade fosse mais vigilante.</p><p>� Ele amea�ou outras pessoas?</p><p>� Segundo me informaram, amea�ou, mas n�o tenho mais detalhes.</p><p>� O que isso significa para o processo de Lisbeth Salander?</p><p>� Por enquanto, nada. Dispomos do depoimento que o pr�prio Karl Axel Bodin prestou aos policiais que o interrogaram e temos provas t�cnicas consider�veis contra ela.</p><p>� E quanto � informa��o de que Bodin teria tentado matar a filha?</p><p>� Isso est� sendo investigado, mas h� fortes ind�cios de que � verdade. Tudo parece indicar que estamos diante de s�rios antagonismos de uma fam�lia desfeita de modo tr�gico.</p><p>Henry Cortez parecia pensativo. Cocou a orelha. Observou que seus alegas tomavam notas t�o febrilmente quanto ele.</p><p>Gunnar Bj�rck sentiu o p�nico invadi-lo ao escutar a not�cia dos tiros no Sahlgrenska. Estava com dores terr�veis nas costas.</p><p>Primeiro, permaneceu indeciso por mais de uma hora. Depois, pegou o telefone e tentou ligar para seu antigo protetor, Evert Gullberg, em Laholm. Ningu�m atendeu.</p><p>Assistiu ao notici�rio e ouviu o resumo do que havia sido dito na entrevista coletiva da pol�cia. Zalachenko morto por um justiceiro.</p><p>Caramba. Setenta e oito anos.</p><p>Tentou ligar mais uma vez para Evert Gullberg, sem sucesso.</p><p>Por fim, o p�nico e a ang�stia prevaleceram. Ele n�o podia ficar na casa que tinham lhe emprestado em Sm�dalar�, pois ali se sentia cercado e exposto. Precisava de tempo para pensar. Enfiou roupa, analg�sicos e objetos de higiene pessoal numa sacola. Preferiu n�o usar o telefone e foi mancando at� uma cabine, em frente � mercearia, a fim de ligar para Landsort e fazer uma reserva no velho farol transformado em pousada. Landsort ficava no fim do mundo, e pouca gente iria procur�-lo l�. Fez uma reserva para duas semanas.</p><p>Consultou o rel�gio. Precisava correr se quisesse pegar a �ltima balsa e voltar para casa t�o depressa quanto suas costas doloridas permitiam. Passou pela cozinha para conferir se a cafeteira el�trica estava desligada, e foi at� o hall de entrada apanhar a sacola. Deu uma �ltima olhada na sala e se deteve, at�nito.</p><p>De in�cio, n�o entendeu o que via.</p><p>O lustre fora misteriosamente retirado e colocado sobre a mesa de centro. Em seu lugar, havia uma corda presa no gancho, acima de um banquinho que costumava ficar na cozinha.</p><p>Bj�rck olhou para a corda sem entender.</p><p>Ent�o escutou um movimento atr�s de si e sentiu as pernas fraquejarem.</p><p>Virou-se lentamente.</p><p>Eram dois homens de cerca de trinta anos. Observou que tinham um tipo mediterr�neo. N�o teve tempo de reagir quando o agarraram delicadamente, cada um por um bra�o, ergueram-no e o puxaram para tr�s em dire��o ao banquinho. Quando ele tentou resistir, a dor transpassou-o como uma facada nas costas. Estava quase paralisado quando sentiu que o colocavam sobre o banco.</p><empty-line/><p>Tonas Sandberg estava acompanhado de um homem de cerca de cinq�enta anos, apelidado de Falun, que quando jovem fora assaltante profissional e mais tarde se tornara chaveiro. Hans von Rottinger, da Se��o, recrutara Falun em 1986 para uma opera��o que consistia em arrombar a casa do l�der de uma organiza��o anarquista. Depois disso, Falun tinha sido regularmente recrutado at� meados dos anos 1990, quando esse tipo de a��o perdera o f�lego. Cedo, pela manh�, Fredrik Clinton reativara o relacionamento contatando Falun para uma miss�o. Falun ia ganhar dez mil coroas livres de impostos para trabalhar cerca de dez minutos. Em troca, comprometera-se a n�o roubar nada no apartamento visado; a Se��o, afinal, n�o tinha uma atua��o criminosa.</p><p>Falun n�o sabia ao certo o que Clinton representava, mas supunha que tinha alguma rela��o com o Ex�rcito. Ele lera Jan Guillou. N�o fazia perguntas. Em compensa��o, estava feliz por voltar � ativa ap�s tantos anos de sil�ncio por parte do s�cio.</p><p>Sua fun��o era abrir portas. Era especialista em arrombamentos e utilizava uma picareta el�trica. Contudo, precisou de cinco minutos para for�ar as fechaduras do apartamento de Mikael Blomkvist. Depois, Falun esperou no patamar enquanto Jonas Sandberg passava pela porta.</p><p>� Entrei � disse Sandberg ao microfone do seu headset.</p><p>� �timo � disse Fredrik Clinton no seu receptor. � Fique calmo e aja com prud�ncia. Descreva-me o que est� vendo.</p><p>� Estou no hall de entrada, h� um arm�rio e uma prateleira para chap�us � direita e um banheiro � esquerda. O resto do apartamento � uma sala grande, de uns cinq�enta metros quadrados. Tem uma pequena cozinha americana � direita.</p><p>� Por acaso tem uma mesa de trabalho ou...</p><p>� Tenho a impress�o de que ele trabalha na mesa da cozinha, ou ent�o no sof�... espere.</p><p>Clinton esperou.</p><p>� �. Tem uma pasta na mesa da cozinha com o relat�rio do Bj�rck. Parece ser o original.</p><p>� �timo. H� mais alguma coisa interessante em cima da mesa?</p><p>� Livros. As mem�rias de I. G. Vinge. Luta pelo controle da Sapo, de Krik Magnusson. Uns seis livros desse tipo.</p><p>� Computador?</p><p>� N�o.</p><p>� Arm�rio com chave?</p><p>� N�o... n�o estou vendo.</p><p>- Certo. N�o tenha pressa. Examine cada metro quadrado do apartamento. O M�rtensson est� me informando que o Blomkvist continua na veda��o. Voc� est� usando luvas?</p><p>� � claro.</p><p>Marcus Ackerman esperou que Annika Giannini terminasse a liga��o para entrar no quarto de Bishelh Salander. Estendeu a m�o para Annika e se apresentou. Depois cumprimentou Bishelh e perguntou-lhe como estava se sentindo. Bishelh Salander n�o disse nada. Ele se virou para Annika (�iannini.</p><p>� Eu queria fazer umas perguntas.</p><p>� Tudo bem.</p><p>� Poderia me contai o que aconteceu?</p><p>Annika Giannini contou o que ela linha vivenciado c sua atua��o ale o momento em que se trancou com Lisbeth no banheiro. Ackerman pareceu pensativo. Olhou para Bishelh Salander e depois para a advogada.</p><p>� Ent�o a senhora acha que ele vinha para este quarto.</p><p>� Eu ouvi, ele tentou abrir a porta.</p><p>- Tem certeza? A gente imagina um monte de coisa quando est� com medo ou enlouquecido.</p><p>� Eu ouvi. Ele me viu. Apontou a arma paia num.</p><p>� Acha que ele tamb�m estava tentando matar a senhora?</p><p>� N�o sei. Pus a cabe�a para dentro e bloqueei a porta.</p><p>� Fez muito bem. E fez melhor ainda quando escondeu sua cliente no banheiro. Essas portas s�o t�o finas que as balas provavelmente teriam atravessado a madeira caso ele atirasse. O que estou tentando entender � se ele quis de fato apontar a arma para a senhora ou se apenas reagiu porque a senhora estava olhando. Estava muito perto dele, no corredor.</p><p>� � verdade.</p><p>- Tive a impress�o de que ele a conhecia, ou reconhecia, quem sabe?</p><p>- Na verdade, n�o.</p><p>� Voc� poderia conhec�-la dos jornais? A senhora foi mencionada em v�rios casos importantes.</p><p>� Pode ser. N�o sei.</p><p>� E a senhora nunca o tinha visto antes?</p><p>� Vi no elevador, quando cheguei aqui.</p><p>� Ali, isso eu n�o sabia. Voc�s conversaram?</p><p>� N�o. Olhei para ele durante talvez meio segundo. Ele estava com um buqu� de flores numa m�o e uma pasta na outra.</p><p>� Voc�s fizeram contato visual?</p><p>� N�o. Ele estava olhando para a frente.</p><p>� Ele foi o primeiro a entrar no elevador, ou foi a senhora? Annika refletiu.</p><p>� Acho que entramos mais ou menos na mesma hora.</p><p>� Ele parecia perturbado ou...</p><p>� N�o. Distava ali parado segurando as flores.</p><p>� O que aconteceu em seguida?</p><p>� Sa� do elevador. Ele tamb�m saiu, e eu fui me encontrar com a minha cliente.</p><p>� Veio direto para o quarto?</p><p>� Sim... n�o. Ou�a! Primeiro fui at� a recep��o me identificar. O procurador decretou proibi��o de visitas para a minha cliente.</p><p>� Onde estava o homem nessa hora?</p><p>Annika Giaimini hesitou.</p><p>� N�o tenho certeza. Imagino que tenha vindo atr�s de mim. Espere... Ele saiu do elevador primeiro, mas parou e segurou a porta para mim. Eu n�o posso jurar, mas acho que ele tamb�m foi at� a recep��o. Eu s� fui mais r�pida que ele.</p><p>Um assassino aposentado muito galante, pensou Ackerman.</p><p>� � verdade, ele foi ate a recep��o � ele confirmou. � Falou com a enfermeira e entregou o buqu� de flores para ela. Mas a senhora n�o viu isso?</p><p>� N�o, acho que n�o.</p><p>Marcus Ackerman pensou uni pouco, mas n�o se lembrou de mais nada para perguntar. Uma sensa��o de frustra��o o incomodava. J� tivera essa sensa��o e aprendera a interpret�-la como um alerta de seu instinto.</p><p>O assassino fora identificado como Evert Gullberg, setenta e oito anos, ex-auditor, eventual consultor de empresas e especialista em assuntos fiscais. Um homem de idade avan�ada. Um homem que estava sofrendo um inqu�rito preliminar aberto recentemente pela Sapo, porque ele era um doido que mandava cartas com amea�as para celebridades.</p><p>Sabia, por sua experi�ncia como policial, que existia um bocado de gente doida, gente obcecada que ficava assediando celebridades e ia em busca do amor fixando resid�ncia num bosque atr�s das mans�es delas. E, ao n�o ser correspondido, esse amor podia rapidamente se transformar num �dio cego. Existiam assediadores que sa�am da Alemanha ou da It�lia para declarar sua paix�o � jovem cantora de um famoso grupo pop, e ficavam injuriados quando ela n�o permitia uma rela��o de intimidade. Existiam os justiceiros que ficavam ruminando ofensas reais ou imagin�rias e podiam apresentar um comportamento bastante amea�ador. Existiam os psicopatas puros e os doidos obcecados por conspira��es, capazes de detectar mensagens ocultas que escapavam ao resto do mundo.</p><p>Tamb�m n�o faltavam exemplos de malucos que faziam seus fantasmas entrar em a��o. O assassinato de Anna Lindh n�o seria justamente o impulso de um doente desses? Talvez sim. Talvez n�o.</p><p>Mas o inspetor Marcus Ackerman n�o gostou nem um pouco que um ex-especialista em assuntos fiscais, ou outra profiss�o qualquer, psiquicamente perturbado, tivesse conseguido entrar no Hospital Sahlgrenska com um buqu� de flores na m�o e uma pistola na outra e executado uma pessoa que, naquele momento, era objeto de investiga��o policial � a sua investiga��o. Um homem que nos registros oficiais tinha o nome de Karl Axel Bodin, mas que, segundo Mikael Blomkvist, chamava-se Zalachenko e era um maldito agente russo dissidente, al�m de assassino.</p><p>Zalachenko, no melhor dos casos, era uma testemunha, e no pior, estava envolvido numa s�rie de homic�dios. Ackerman tivera a oportunidade de interrogar Zalachenko duas vezes e em momento algum acreditara em seus protestos de inoc�ncia.</p><p>Al�m disso, o assassino mostrara interesse por Lisbeth Salander ou, pelo menos, por sua advogada. Tinha tentado entrar em seu quarto.</p><empty-line/><p>Depois tentara se suicidar com um tiro na cabe�a. Segundo os m�dicos, parecia estar t�o mal que a tentativa provavelmente seria bem-sucedida, embora seu corpo ainda n�o tivesse entendido que chegara a hora de abandonar o jogo. Tudo levava a crer que Evert Gullberg nunca compareceria diante de um juiz.</p><p>Marcus Ackerman n�o estava gostando da situa��o. Nem um pouco. Mas nada provava que os disparos de Gullberg eram algo al�m do que pareciam. De qualquer modo, resolveu n�o descartar nada. Olhou para Annika Giannini.</p><p>� Decidi transferir Lisbeth Salander para outro quarto. Ainda tem um vago no pedacinho de corredor � direita da recep��o que, do ponto de vista da seguran�a, � muito melhor que este. Fica vis�vel da recep��o e da sala das enfermeiras do dia e da noite. Toda visita est� proibida, com exce��o da senhora. Ningu�m vai entrar no quarto dela sem autoriza��o, a n�o ser um m�dico ou enfermeira conhecidos no Sahlgrenska. Vou mandar instalar uma vigil�ncia vinte e quatro horas na frente do quarto.</p><p>� Acha que ela est� amea�ada?</p><p>� Nada indica isso. Mas n�o quero correr nenhum risco.</p><p>Lisbeth Salander escutou atentamente a conversa entre sua advogada e seu advers�rio policial. Estava impressionada de ouvir Annika Giannini responder com tanta precis�o e clareza, e com tantos detalhes. Estava ainda mais impressionada pela atua��o l�cida da advogada num momento de estresse.</p><p>Afora isso, estava com uma tremenda dor de cabe�a desde que Annika a puxara da cama e carregara para o banheiro. Por instinto, queria ter o m�nimo poss�vel a ver com a equipe do hospital. N�o gostava de pedir ajuda e dar sinais de fragilidade. Mas a dor de cabe�a era t�o arrasadora que ela n�o conseguia concatenar as id�ias. Estendeu a m�o e apertou a campainha.</p><p>Annika Giannini planejara a viagem a G�teborg como o pr�logo de um trabalho de f�lego. Pensara em conhecer Lisbeth Salander, informar-se sobre seu real estado de sa�de e tra�ar um primeiro esbo�o da estrat�gia que ela e Mikael Blomkvist tinham combinado com vistas ao processo. De in�cio, imaginara voltar para Estocolmo naquela noite, mas os extraordin�rios acontecimentos do Sahlgrenska impediram que conversasse com Lisbeth Salander. O estado de sua cliente era bem pior do que ela tinha entendido quando os m�dicos o classificaram como est�vel. Lisbeth continuava atormentada por uma dor de cabe�a terr�vel e estava com muita febre, motivo pelo qual uma m�dica chamada Helena Endrin prescrevia-lhe analg�sicos fortes, antibi�ticos e repouso. T�o logo sua cliente foi transferida para o novo quarto e um policial foi designado para a sua vigil�ncia, Annika foi expulsa de l�.</p><empty-line/><p>Ela resmungou e consultou o rel�gio, que indicava quatro e meia da tarde. Hesitou. Se fosse para Estocolmo, provavelmente teria de voltar a G�teborg no dia seguinte. Podia passar a noite ali, mas tamb�m se arriscar a que no dia seguinte sua cliente n�o estivesse em condi��es de suportar uma visita. N�o tinha reservado um quarto num hotel; afinal, ela era apenas uma advogada com or�amento reduzido que representava mulheres expostas � viol�ncia e sem recursos, portanto procurava n�o inchar suas despesas com faturas caras de hotel. Ligou primeiro para casa, depois para sua colega Lillian Josefsson, membro da Rede de Mulheres e uma velha amiga da universidade. Fazia dois anos que n�o se viam e conversaram um pouco antes de Annika contar por que estava ligando.</p><p>� Estou em G�tehorg � disse. � Eu tinha planejado voltar no final da tarde, mas aconteceram umas coisas e vou ser obrigada a passar a noite aqui. Achei que talvez voc� pudesse me convidar para ficar um pouco na sua casa.</p><p>� �timo. Adoro parasitas. Faz uma eternidade que a gente n�o se v�.</p><p>� N�o vou incomodar?</p><p>� N�o, claro que n�o. Eu me mudei. Estou morando perto da Linnegatan. Tenho um quarto de h�spedes. A gente podia dar uma volta pelos bares � noite.</p><p>� Se eu tiver energia. A que horas posso ir para a�? Combinaram que Annika apareceria por volta das seis da tarde. Annika pegou o �nibus para a Linnegatan e passou a hora seguinte num restaurante grego. Estava faminta, pediu um espetinho com salada. Refletiu demoradamente sobre os acontecimentos do dia. Estava meio tr�mula, agora que o pico de adrenalina tinha baixado, mas contente consigo mesma. Agira sem hesita��o diante do perigo, com calma e efici�ncia. Era bom ter essa seguran�a sobre suas pr�prias capacidades.</p><p>Por fim, pegou sua agenda Filofax dentro da pasta e deu uma folheada na parte das anota��es. Leu concentradamente. O que seu irm�o lhe explicara a deixava perplexa. Na hora, tinha parecido l�gico, mas na verdade havia belas lacunas naquele plano. Contudo, ela n�o tinha inten��o de recuar.</p><p>�s seis horas, pagou, foi a p� para o pr�dio de Lillian Josefsson, na Olivedalsgatan, e teclou o c�digo de acesso que sua amiga lhe fornecera. Quando entrou no hall e come�ou a procurar o elevador com os olhos, o ataque caiu sobre ela feito um raio. Sem nenhum tipo de aviso, foi brutal e violentamente jogada contra a parede de tijolos do hall. Bateu a testa e sentiu uma dor lancinante.</p><p>No instante seguinte, ouviu passos que se afastavam rapidamente, e a porta se abrindo e fechando. Levantou-se, apalpou a testa e viu sangue em sua m�o. Caramba! Confusa, olhou em volta e foi para a rua. Avistou as costas de um homem dobrando a esquina da Sveaplan. Ficou atordoada, sem se mover, durante um longo minuto.</p><p>Ent�o percebeu que sua pasta n�o estava mais ali, que acabava de ser roubada. Demorou alguns segundos para que as conseq��ncias disso chegassem at� seu c�rebro. N�o! O dossi� Zalachenko. Sentiu o choque se espalhando a partir do est�mago e deu alguns passos hesitantes atr�s do homem que fugia. N�o ia adiantar. Ele j� havia sumido.</p><p>Sentou-se devagar na beira da cal�ada.</p><p>Ent�o, de um salto, se p�s de p� e vasculhou o bolso do casaco. A agenda. Gra�as a Deus. Ao sair do restaurante ela a tinha guardado no bolso em vez de na pasta. Continha, item por item, a primeira vers�o da sua estrat�gia no caso Lisbeth Salander.</p><p>Correu para a porta, teclou novamente o c�digo, entrou e subiu a escada at� o terceiro andar, onde se p�s a martelar na porta de Lillian Josefsson.</p><p>J� eram mais de seis e meia quando Annika, recuperada de suas emo��es, conseguiu ligar para Mikael Blomkvist. Estava com um olho roxo e um corte aberto no superc�lio, que Lillian Josefsson tinha limpado com �lcool antes de aplicar um curativo. N�o, Annika n�o queria ir para o hospital. Sim, aceitava uma x�cara de ch�. S� ent�o come�ou a pensar racionalmente. Sua Primeira medida foi chamar seu irm�o.</p><p>Mikael Blomkvist ainda estava na reda��o da Millennium, buscando informa��es sobre o assassino de Zalachenko junto com Henry Cortez e Malu Eriksson. Escutou o relato de Annika com um espanto crescente.</p><p>� Voc� est� bem? � perguntou.</p><p>� Olho roxo. Vou estar em condi��es de agir depois que eu me acalmar.</p><p>� Puta merda, roubo seguido de viol�ncia?</p><p>� Levaram a minha pasta com o dossi� Zalachenko que voc� tinha me dado. Sumiu.</p><p>� N�o faz mal, posso fazer uma c�pia.</p><p>Ele se interrompeu, sentindo os cabelos se arrepiarem de repente na cabe�a. Primeiro Zalachenko. Agora Annika.</p><p>� Annika... eu j� te ligo.</p><p>Fechou o iBook, enfiou-o na sacola e saiu depressa da reda��o, sem uma palavra. Correu at� em casa, na Bellmansgatan, e subiu os degraus da escada de quatro em quatro.</p><p>A porta estava trancada.</p><p>Assim que entrou no apartamento, percebeu que a pasta azul que tinha deixado na mesa da cozinha havia desaparecido. Nem se deu ao trabalho de procur�-la. Sabia exatamente onde havia deixado a pasta quando sa�ra do apartamento. Deixou-se cair devagar numa cadeira diante da mesa enquanto os pensamentos borbulhavam em sua cabe�a.</p><p>Algu�m tinha entrado no apartamento. Algu�m estava tentando apagar o rastro de Zalachenko.</p><p>A sua c�pia e a de Annika haviam sumido.</p><p>Bublanski ainda tinha o relat�rio.</p><p>Ou?</p><p>Mikael se levantou e foi at� o telefone, mas parou, com o fone na m�o. Algu�m tinha entrado no apartamento. De repente, olhou desconfiado para o telefone e apalpou o bolso do casaco em busca do celular.</p><p>Serd que � poss�vel p�r um celular sob escuta?</p><p>Devagar, deixou o celular ao lado do aparelho fixo e olhou em volta.</p><p>Estou lidando com profissionais. Ser� poss�vel colocar um apartamento inteiro sob escuta?</p><p>Voltou a se sentar � mesa da cozinha.</p><p>Fitou a sacola do computador.</p><p>Ser� que � f�cil interceptar e-mails? A Lisbeth sabe bem disso, ela consegue em cinco minutos.</p><p>Ficou um bom tempo refletindo antes de voltar ao telefone e ligar para a sua irm� em G�teborg. Escolheu as palavras com cuidado.</p><p>� Oi... tudo bem?</p><p>� Estou bem, Mike.</p><p>� Me conte o que aconteceu desde que voc� saiu do Sahlgrenska at� ser agredida.</p><p>Ela levou dez minutos para fazer um balan�o do seu dia. Mikael n�o comentou nada sobre o impacto do que ela estava relatando, mas foi encaixando algumas perguntas at� se sentir satisfeito. Passava a impress�o de um irm�o preocupado, mas ao mesmo tempo seu c�rebro atuava em outro n�vel, estabelecendo pontos de refer�ncia.</p><p>�s quatro e meia da tarde, ela tinha resolvido ficar em G�teborg e ligara do celular para a sua amiga, que lhe fornecera o endere�o e o c�digo da entrada do pr�dio dela. O ladr�o estava esperando por ela no hall �s seis em ponto.</p><p>O celular de sua irm� estava grampeado. Era a �nica explica��o.</p><p>O que significava que o seu tamb�m estava.</p><p>Sen�o, n�o teria sentido.</p><p>� Mas eles pegaram o dossi� Zalachenko � repetiu Annika.</p><p>Mikael hesitou um instante. Quem tinha roubado o dossi� j� sabia que Mikael tinha sido roubado. Era natural que contasse a Annika por telefone.</p><p>� O meu tamb�m � disse ele.</p><p>� O qu�?</p><p>Ele explicou que viera correndo para casa e que a pasta azul sobre a mesa da cozinha havia desaparecido.</p><p>� Certo � disse Mikael com voz surda. � E um desastre. O dossi� Zalachenko evaporou. Era o ponto forte da nossa argumenta��o.</p><p>� Mike... eu sinto muito.</p><p>� Eu tamb�m � disse Mikael. � Droga! Mas n�o � culpa sua. Eu deveria ter divulgado o relat�rio no dia em que o encontrei.</p><p>� E agora, o que a gente faz?</p><p>� N�o sei. � a pior coisa que podia acontecer. Nosso plano todo foi para o espa�o. N�o temos nem sombra de prova contra o Bj�rck e o Teleborian.</p><p>Conversaram mais uns dois minutos, ent�o Mikael encerrou a conversa.</p><p>� Queria que voc� voltasse para Estocolmo amanh� � disse ele.</p><p>� Lamento. Preciso ver a Salander.</p><p>� Fa�a isso de manh�. Volte � tarde. Temos que nos encontrar para pensar no que fazer.</p><p>Encerrada a conversa, Mikael permaneceu im�vel no sof�, fitando um ponto � sua frente. Ent�o um sorriso se espalhou por seu rosto. Quem tinha escutado a conversa agora sabia que a Millennium tinha perdido o relat�rio Bj�rck de 1991, assim como a correspond�ncia entre Bj�rck e Teleborian, o m�dico de doidos. Sabia que Mikael e Annika estavam desesperados.</p><p>A desinforma��o � a base de toda espionagem, pelo menos isso Mikael aprendera ao estudar a hist�ria da Sapo na noite anterior. E ele acabava de plantar uma desinforma��o que, a longo prazo, podia se revelar inestim�vel.</p><p>Abriu a sacola do computador e tirou a c�pia que fizera para Dragan Armanskij, mas que ainda n�o tivera tido tempo de lhe passar. Era o �nico exemplar remanescente. N�o pretendia perd�-lo. Pelo contr�rio, pretendia fazer de imediato cinco c�pias, no m�nimo, e distribu�-las em locais apropriados.</p><p>Ent�o deu uma olhada no rel�gio e ligou para a reda��o da Millennium. Malu Eriksson ainda estava l�, mas j� de sa�da.</p><p>� Por que voc� saiu correndo daquele jeito?</p><p>� Voc� poderia esperar um pouco para ir embora? Vou voltar para a reda��o e preciso ver uma coisa com voc� antes de voc� sair.</p><p>Havia semanas que n�o punha a roupa para lavar. N�o tinha tido tempo. Todas as suas camisas estavam no cesto de roupa suja. Pegou o barbeador e Luta pelo controle da Sapo, junto com o �nico exemplar remanescente do relat�rio de Bj�rck. Foi caminhando at� a Dressman, comprou quatro camisas, duas cal�as e dez cuecas, e levou as compras para a reda��o. Malu Eriksson esperou enquanto ele tomava um banho r�pido. Perguntou o que ele estava tramando.</p><empty-line/><p>� Algu�m arrombou o meu apartamento e roubou o relat�rio Zalachenko. Algu�m agrediu a Annika em G�teborg e roubou a c�pia dela. Tive a confirma��o de que o telefone dela est� grampeado, o que significa que o meu, e talvez o seu, e talvez todos os telefones da Millennium estejam sob escuta. E imagino que se algu�m se deu ao trabalho de entrar na minha casa, seria burrice n�o ter aproveitado para p�r o apartamento inteiro sob escuta.</p><p>� Ah � disse Malu Eriksson com voz apagada. Ela olhou para o seu celular que estava em cima da mesa, � sua frente.</p><p>� Continue trabalhando normalmente. Use o celular, mas n�o passe nenhuma informa��o. Amanh� a gente avisa o Henry Cortez.</p><p>� Est� bem. Ele saiu faz uma hora. Deixou uma pilha de investiga��es do Estado em cima da sua mesa. Mas o que voc� est� fazendo aqui...?</p><p>� Pretendo dormir na Millennium esta noite. Se eles hoje mataram o Zalachenko, roubaram os relat�rios e colocaram o meu apartamento sob vigil�ncia, tudo leva a crer que est�o s� come�ando, e ainda n�o tiveram tempo de cuidar da Millennium. Teve gente aqui o dia inteiro. N�o quero que a reda��o fique deserta durante a noite.</p><p>� Voc� acha que o assassinato do Zalachenko... Mas o assassino era um velho perturbado de setenta e oito anos.</p><p>� N�o acredito nesse tipo de acaso nem por um segundo. Algu�m est� apagando o rastro do Zalachenko. N�o estou nem a� para quem � esse velho e para quantas cartas piradas ele mandou para os ministros. Ele era uma esp�cie de matador de aluguel. Foi at� l� com a inten��o de matar o Zalachenko... e talvez a Lisbeth Salander.</p><p>� Mas ele se matou depois, ou pelo menos tentou. Um matador de aluguel faria isso?</p><p>Mikael refletiu um instante. Seu olhar cruzou com o da redatora-chefe.</p><p>� Sim, se tiver setenta e oito anos e, talvez, nada a perder. Ele est� envolvido nisso tudo e, depois de cavarmos bastante, n�s vamos conseguir provar.</p><p>Malu Eriksson observou com aten��o o semblante de Mikael. Nunca o tinha visto t�o friamente seguro e decidido. De repente, sentiu um arrepio. Mikael notou a rea��o dela.</p><p>� Outra coisa. N�s agora n�o estamos jogando contra um bando de criminosos, mas contra uma autoridade de Estado. A coisa vai esquentar.</p><p>Malu concordou com a cabe�a.</p><p>� Nunca pensei que isso fosse t�o longe. Malu, se voc� quiser tirar o time de campo, � s� dizer.</p><p>Ela hesitou um instante. Perguntou-se o que Erika Berger teria respondido. Ent�o, desafiadoramente, disse n�o com a cabe�a.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>II.� HACKER REPUBLIC 1�. A 22 DE MAIO</strong></p><empty-line/><p>Uma lei irlandesa do ano 697 pro�be as mulheres de serem soldados � o que significa que, antes disso, as mulheres de fato foram soldados. Como exemplo de povos que, em diferentes momentos da hist�ria, tiveram mulheres soldados, podemos mencionar, entre outros, os �rabes, os berberes, os curdos, os rajput, os chineses, os filipinos, os maoris, os papuas, os abor�genes australianos, os micron�sios e os �ndios americanos.</p><p>S�o abundantes as lendas de tem�veis guerreiras na Gr�cia antiga. Essas hist�rias falam de mulheres treinadas desde a inf�ncia na arte da guerra, no manejo das armas e nas priva��es f�sicas. Viviam separadas dos homens e iam para a guerra com seus pr�prios regimentos. S�o abundantes nessas hist�rias trechos indicando que elas venciam os homens nos campos de batalha. Na literatura grega, as amazonas s�o mencionadas, por exemplo, na ll�ada de Homero, narrativa que data de cerca de sete s�culos antes de Cristo.</p><p>E tamb�m aos gregos que devemos o termo "amazonas". A palavra significa, literalmente, "sem peito". A explica��o que costuma ser difundida � que elas praticavam a abla��o do seio direito para melhor estenderem o arco. Embora dois dos mais importantes m�dicos gregos da hist�ria, Hip�crates e Galiano, concordem que tal opera��o de fato aumentava a capacidade de manejo das armas, n�o se sabe ao certo se ela era mesmo praticada. Oculta-se a� um ponto de interroga��o ling��stico � n�o � certo que o prefixo "a" de "amazona" signifique de fato "sem", e foi sugerido que significaria justamente o contr�rio � de que a amazona era uma mulher com seios particularmente volumosos. N�o existe nenhum exemplo, em museu algum, de uma imagem, um amuleto ou uma est�tua representando uma mulher desprovida do seio direito, e, fosse a lenda ver�dica, esse deveria ter sido um tema freq�ente.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>8.��� DOMINGO 15 DE MAIO � SEGUNDA-FEIRA 2 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Erika Berger inspirou fundo antes de abrir a porta do elevador e entrar na reda��o do Svenska Morgon-Posten. Eram 10h 15. Estava discretamente vestida com uma cal�a preta, um pul�ver vermelho e um casaco escuro. O tempo, naquele primeiro dia de maio, estava magn�fico, e ao atravessar a cidade ela observara que o movimento oper�rio estava reunindo suas tropas. Constatara que, no que lhe dizia respeito, n�o participava de um desfile de 1�. de Maio havia mais de vinte anos.</p><p>Por um r�pido instante, deixou-se ficar sozinha e invis�vel em frente ao elevador. Era o primeiro dia em seu novo local de trabalho. De onde estava, enxergava boa parte da reda��o central, com a editoria de Atualidades no meio. Ergueu um pouco o olhar e viu as portas envidra�adas da sala do redator--chefe que, pelo pr�ximo ano, seria sua.</p><p>N�o estava totalmente convencida de que era a pessoa certa para dirigir a monstruosa organiza��o que o Svenska Morgon-Posten constitu�a. Era um passo gigantesco entre a pequena Millennium, com seus cinco funcion�rios, e um jornal di�rio que empregava oitenta jornalistas e outros noventa profissionais, incluindo administra��o, pessoal t�cnico, designers gr�ficos, fot�grafos, �rea comercial, distribui��o e tudo mais relacionado � produ��o de um jornal. Somava-se a isso uma editora, uma empresa de produ��o e uma empresa de gerenciamento. Ao todo, mais de duzentas e trinta pessoas.</p><p>Por um breve instante, perguntou-se se n�o tinha cometido um erro monumental.</p><p>Ent�o a recepcionista mais velha percebeu quem acabava de chegar � reda��o e saiu de tr�s de seu balc�o, aproximando-se com a m�o estendida.</p><p>� Senhora Berger. Seja bem-vinda ao SMP.</p><p>� Obrigada. Bom dia.</p><p>� Meu nome � Beatrice Sahlberg. Seja bem-vinda entre n�s. Vou lev�-la ao redator-chefe, o senhor Morander... enfim, quero dizer, ao redator-chefe que vai deixar o cargo.</p><p>� Obrigada, mas vejo que ele est� ali no aqu�rio � disse Erika, sorrindo. � Acho que posso achar o caminho. De qualquer modo, obrigada.</p><p>Atravessou a reda��o num passo r�pido e observou que o burburinho diminu�a um pouco. Sentiu de repente todos os olharem se voltarem para ela. Deteve-se diante da editoria de Atualidades semi-vazia e meneou cordialmente a cabe�a.</p><p>� Vamos ter tempo de nos apresentarmos daqui a pouco � disse e, prosseguindo, foi bater na porta envidra�ada.</p><p>Com cinq�enta e nove anos, H�kan Morander, redator-chefe demission�rio, passara doze anos no aqu�rio em frente � reda��o do SMP. Como Erika, ele viera de outro ve�culo e fora cuidadosamente escolhido � tamb�m fizera, portanto, o trajeto que ela acabava de percorrer para ir ter com ele. Olhou-a perturbado, deu uma olhada no rel�gio e se levantou.</p><p>� Bom dia, Erika � cumprimentou. � Achei que voc� s� come�aria na segunda-feira.</p><p>� N�o ag�entei ficar mais um dia em casa, portanto aqui estou. Morander estendeu a m�o.</p><p>� Bem-vinda. Estou feliz por voc� assumir o meu lugar.</p><p>� E a sua sa�de, como vai? � perguntou Erika.</p><p>Ele deu de ombros. Beatrice, a recepcionista, entrou trazendo caf� e leite.</p><p>� Tenho a impress�o de j� estar funcionando em meia fase. Na verdade, prefiro n�o falar sobre isso. A gente passa a vida se sentindo um adolescente imortal e, de repente, s� tem pouqu�ssimo tempo pela frente. E uma coisa � certa: n�o pretendo desperdi�ar esse pouco tempo aqui dentro deste aqu�rio.</p><p>Inconscientemente, ele esfregou o peito. Seus problemas cardiovasculares eram o motivo de sua s�bita demiss�o e de Erika ter de come�ar v�rios meses antes da data combinada a princ�pio.</p><p>Erika se virou e contemplou a paisagem das mesas da reda��o. Estavam semi-ocupadas naquele feriado. Um jornalista e um fot�grafo dirigiam-se ao elevador, decerto para irem cobrir o desfile de 1�. de Maio, ela pensou.</p><p>� Se eu estiver atrapalhando, ou se voc� estiver ocupado, � s� dizer que eu vou embora.</p><p>� Hoje o meu trabalho � escrever um editorial de quatro mil e quinhentos caracteres sobre os desfiles do 1- de Maio. J� escrevi tantos que posso fazer isso at� dormindo. Se os sociais-democratas querem declarar guerra � Dinamarca, tenho de explicar no que eles est�o errados. Se os sociais-democratas querem evitar a guerra com a Dinamarca, tenho de explicar no que eles est�o errados.</p><p>� Dinamarca? � perguntou Erika.</p><p>� Pois �, parte da mensagem do 1- de Maio fala do conflito da quest�o da integra��o. E, seja l� o que digam, os sociais-democratas est�o sempre errados.</p><p>Ele caiu na risada.</p><p>� Voc� me parece bem c�nico � disse Erika.</p><p>� Bem-vinda ao Svenska Morgon-Postenl</p><p>Erika nunca tivera nenhuma opini�o especial sobre H�kan Morander. Ele detinha um poder an�nimo em meio � elite dos diretores de reda��o. Quando lia seus editoriais, ela o achava tedioso, conservador e um especialista em lamenta��es contra os impostos, um t�pico liberal militando pela liberdade de express�o, mas nunca tivera a oportunidade de encontr�-lo pessoalmente ou de ter contato com ele.</p><p>� Me fale sobre o trabalho � disse ela.</p><p>� Eu saio no final de junho. Vamos trabalhar dois meses juntos, por isso me permiti trat�-la logo com informalidade, � uma regra da casa. Voc� vai descobrir coisas positivas e negativas a meu respeito. Sou um c�nico, voc� tem raz�o, de modo que meu olhar se volta, principalmente, acho, para as coisas negativas.</p><p>Ele se levantou e ficou ao lado dela, diante do vidro.</p><p>� Voc� vai perceber que fora deste aqu�rio voc� tem um certo n�mero de advers�rios � redatores-chefes diurnos e alguns veteranos, entre os redatores, que criaram seus pr�prios imperiozinhos ou clubes particulares dos quais voc� n�o vai poder participar. V�o tentar for�ar os limites, impor suas manchetes e vis�es pessoais; cabe a voc� ser rigorosa para conseguir resistir.</p><p>Erika meneou a cabe�a.</p><p>� Os redatores-chefes da noite, Billinger e Karlsson... s�o um cap�tulo � parte. Eles se odeiam e, por sorte, n�o formam uma equipe, mas se comportam como se fossem respons�veis pela publica��o e redatores-chefes. Na editoria de Atualidades, voc� tem o Lukas Holm, com quem, necessariamente, vai ter muito contato. Tenho certeza de que voc�s v�o se atritar mais de uma vez. Na verdade, ele � quem produz diariamente o SMP. Temos aqui jornalistas que s�o leg�timas prima-donas e outros que na verdade deveriam estar aposentados.</p><p>� H� algum colaborador decente no meio disso tudo? Morander caiu na risada.</p><p>� Sim. Mas cabe a voc� descobrir com quem vai se entender. Temos alguns jornalistas que s�o mesmo muito bons.</p><p>� E quanto � dire��o?</p><p>� O Magnus Borgsj� � o presidente do conselho administrativo. Foi ele quem a contratou. � cheio de charme, metade velha escola, metade renovador, mas, antes de mais nada, � quem decide. Junte a isso alguns membros do conselho, v�rios deles oriundos da fam�lia propriet�ria do jornal que mais parecem figurantes, e outros que agitam como profissionais de conselhos administrativos.</p><p>� Voc� n�o parece muito satisfeito com o conselho administrativo.</p><p>� Cada um na sua. Voc� produz o jornal. Eles cuidam das finan�as. Para todos os efeitos, eles n�o se metem no conte�do do jornal, mas sempre surgem umas situa��es problem�ticas. Para ser bem sincero, Erika, voc� vai passar alguns apuros.</p><p>� Por qu�?</p><p>� A tiragem baixou praticamente cento e cinq�enta mil exemplares desde a belle �poque dos anos 1960, e o SMP est� a ponto de come�ar a operar no vermelho. J� racionalizamos e eliminamos mais de cento e oitenta cargos de 1980 para c�. Passamos para o formato tabl�ide � o que j� dev�amos ter feito h� vinte anos. O SMP ainda est� entre os grandes jornais, mas falta pouco para cairmos para a segunda divis�o. Se � que j� n�o ca�mos. __Mas, ent�o, por que me escolheram? � perguntou Erika.</p><p>� Porque a idade m�dia dos leitores do SMP � de cinq�enta anos ou mais, e os leitores na faixa dos vinte anos s�o praticamente zero. O SMP precisa se renovar. E o racioc�nio da dire��o foi chamar o redator-chefe mais improv�vel que se pudesse imaginar.</p><p>� Uma mulher?</p><p>� N�o qualquer mulher. A mulher que derrubou o imp�rio Wennerstr�m e � aclamada como a rainha do jornalismo investigativo, com fama de ser dura na queda. Ponha-se no lugar deles. � irresist�vel. Se voc� n�o conseguir renovar o jornal, ningu�m mais conseguir�. O SMP n�o est�, portanto, contratando apenas Erika Berger, mas, principalmente, a reputa��o de Erika Berger.</p><p>Mikael Blomkvist saiu do Caf� Copacabana, ao lado do cinema Kvartersbion em Hornstull, pouco depois das duas da tarde. P�s os �culos escuros e estava chegando ao Passeio de Bergsund, a caminho da esta��o de metr�, quando avistou o Volvo cinza estacionado na esquina. Continuou andando sem alterar o passo e constatou que a placa era a mesma e que n�o havia ningu�m no carro.</p><p>Era a s�tima vez em quatro dias que ele reparava naquele carro! N�o sabia dizer desde quando ele vinha gravitando � sua volta, a verdade � que o notara por mero acaso. Na primeira vez que viu o carro, ele estava a caminho da reda��o da Millennium. Era quarta-feira de manh� e o ve�culo estava estacionado perto do seu pr�dio, na Bellmansgatan. Seu olhar havia batido na placa, que come�ava com as letras KAB, O que lhe chamara a aten��o j� que aquele era o nome da empresa inativa de Alexander Zalachenko, a Karl Axel Bodin S.A. Provavelmente ele n�o teria mais pensado no assunto se n�o tivesse visto o mesmo carro, com a mesma placa, horas depois, enquanto almo�ava com Henry Cortez e Malou Eriksson na Medborgarplats. Dessa vez, o Volvo estava estacionado numa rua transversal � da reda��o da Millennium.</p><p>Perguntou-se vagamente se estava ficando paran�ico, mas passado algum tempo, naquela mesma tarde, quando foi visitar Holger Palmgren no centro de reabilita��o de Ersta, l� estava o Volvo cinza no estacionamento dos visitantes. N�o podia ser apenas coincid�ncia. Mikael Blomkvist come�ou a vigiar os arredores. N�o se surpreendeu quando, na manh� seguinte, tornou a ver o carro.</p><p>Em nenhum momento chegara a ver o motorista. Mas uma liga��o para o departamento de tr�nsito revelou que o ve�culo pertencia a um certo G�ran M�rtensson, de quarenta anos, residente na Vittangigatan, em V�llingby. Uma r�pida pesquisa revelou que G�ran M�rtensson era consultor de empresas, tinha seu pr�prio neg�cio, com uma caixa postal por endere�o, na Fleminggatan sobre Kungsholmen. Por volta dos dezoito anos, em 1983, prestara o servi�o militar numa unidade especial da defesa costeira, ingressando em seguida na Defesa. Fora promovido a tenente antes de se demitir, em 1989, com o intuito de mudar de rumo, e entrara para a Escola de Pol�cia em Solna. De 1991 a 1996, trabalhara na pol�cia de Estocolmo. Em 1997, desaparecera e, em 1999, abrira sua empresa.</p><p>Conclus�o: Sapo.</p><p>Mikael mordeu o l�bio inferior. Um jornalista investigativo s�rio podia ficar paran�ico por muito menos. Mikael concluiu que estava sob discreta vigil�ncia, e realizada com tal inabilidade que ele tinha percebido.</p><p>Mas ser� que era mesmo in�bil? S� tinha notado o carro por causa da placa, que por acaso tinha um significado para ele. Se n�o fosse pelo KAB, n�o teria sequer reparado.</p><p>Na sexta-feira, KAB se fez notar por sua aus�ncia. Mikael n�o tinha certeza absoluta, mas achava que talvez nesse dia tivesse tido a companhia de um Audi vermelho, cuja placa n�o conseguiu identificar. No s�bado, o Volvo estava de volta.</p><p>Exatamente vinte segundos depois que Mikael Blomkvist saiu do Caf� Copacabana, Christer Malm ergueu sua Nikon digital e tirou, do seu lugar � sombra da varanda do Caf� Rossos, uma seq��ncia de doze fotos do outro lado da rua. Fotografou dois homens que sa�am do caf� logo atr�s de Mikael e o seguiam em frente � Kvartersbion.</p><p>Um deles era de uma meia-idade dif�cil de definir, mais para jovem do que para velho, cabelos loiros. O outro parecia ser mais velho, tinha cabelos finos de um loiro ardente e usava �culos escuros. Ambos vestiam jeans e jaquetas de couro escuras.</p><p>Separaram-se ao chegar ao Volvo cinza. O mais velho abriu a porta, enquanto o mais jovem seguiu Mikael Blomkvist a p� na dire��o do metr�.</p><p>Christer Malm largou a m�quina fotogr�fica e deu um suspiro. N�o sabia por que Mikael o chamara a um canto e insistira que ele desse uma volta pelo bairro do Copacabana no domingo � tarde e procurasse um Volvo cinza com determinada placa. Ele teria que se posicionar de modo a conseguir fotografar a pessoa que, segundo Mikael, muito provavelmente iria abrir a porta do carro pouco depois das tr�s horas. Ao mesmo tempo, tinha que ficar de olhos bem abertos para tentar descobrir se algu�m seguia Mikael Blomkvist.</p><p>Aquilo estava com todo o jeito de um novo epis�dio das aventuras do Super-Blomkvist. Christer Malm sempre ficava na d�vida se Mikael Blomkvist era um paran�ico por natureza ou se tinha talentos extrassensoriais. Desde os acontecimentos de Gosseberga, Mikael andava extremamente fechado e avesso � comunica��o. Isso n�o tinha nada de estranho, claro, j� que ele estava trabalhando numa mat�ria complexa � Christer j� observara a mesma obsess�o e os mesmos segredinhos durante o caso Wennerstr�m, mas dessa vez era ainda mais evidente.</p><p>Em compensa��o, n�o foi dif�cil para Christer constatar que Mikael Blomkvist estava de fato sendo seguido. Perguntou-se que encrenca estaria vindo pela frente e que provavelmente exigiria tempo, energia e os recursos da Millennium. Christer Malm achava que Mikael tinha escolhido uma p�ssima hora para dar uma de Super-Blomkvist, com a diretora da revista desertando para o Grande Drag�o e com a estabilidade duramente conquistada da Millennium amea�ada.</p><p>Por outro lado, n�o pretendia ir ao desfile � fazia pelo menos dez anos que n�o participava de uma manifesta��o p�blica, com exce��o da Gay Pride � e n�o tinha nada melhor para fazer, naquele domingo 1- de maio, do que quebrar um galho para o Mikael. Levantou-se e acompanhou com passos indolentes o homem que seguia Mikael Blomkvist. Isso n�o fazia parte das instru��es que recebera. Por�m, perdeu o homem de vista assim que entraram na L�ngholmsgatan.</p><empty-line/><p>Ao perceber que seu telefone, muito provavelmente, estava sob escuta, uma das primeiras medidas de Mikael Blomkvist foi mandar Henry Cortez comprar alguns celulares em promo��o. Cortez conseguira numa ponta de estoque um Ericsson TIO a pre�o de banana. Mikael comprou cart�es Conviq, ficou com um telefone para si mesmo e distribuiu os outros para Malu Eriksson, Henry Cortez, Annika Giannini, Christer Malm e Dragan Armanskij. Seriam usados exclusivamente para conversas confidenciais. As liga��es comuns seriam feitas dos n�meros habituais. O resultado � que todos eles tinham que carregar dois celulares.</p><p>Mikael foi do Copacabana para a Millennium, onde Henry Cortez estava assumindo o plant�o do fim de semana. Depois do assassinato de Zalachenko, Mikael estabelecera um rod�zio, para que sempre houvesse algu�m na reda��o da Millennium, inclusive para dormir. O rod�zio inclu�a ele pr�prio, Henry Cortez, Malu Eriksson e Christer Malm. Ficaram de fora Lottie Karim, Monika Nilsson e Sonny Magnusson, o respons�vel pela publicidade. Nem sequer tinham sido convocados. Lottie Karim n�o escondia que tinha medo do escuro e jamais teria aceitado dormir na reda��o. Monika Nilsson n�o tinha esse tipo de problema, mas trabalhava feito louca em seus artigos e era dessas pessoas que voltam para casa no fim da jornada de trabalho. E Sonny Magnusson tinha sessenta e um anos, n�o estava envolvido no trabalho da reda��o e em breve iria tirar f�rias.</p><p>� Alguma novidade? � perguntou Mikael.</p><p>� Nada de especial � disse Henry Cortez. � As not�cias de hoje est�o obviamente ligadas ao 1- de Maio.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Vou ficar aqui por uma ou duas horas. Tire o dia de folga e volte s� � noite, l� pelas nove.</p><p>Assim que Henry Cortez saiu, Mikael pegou o celular novo em sua mesa. Ligou para Daniel Olofsson, um jornalista freelancer de G�teborg. A Millennium publicara v�rios textos de Olofsson ao longo dos anos e Mikael tinha a maior confian�a na sua capacidade jornal�stica de colher material de base.</p><p>� Ol�, Daniel. � o Mikael Blomkvist. Voc� est� dispon�vel?</p><p>� Estou.</p><p>� Tenho um trabalho de pesquisa para voc�. Voc� vai poder faturar cinco dias e n�o vai precisar escrever nenhum texto. Sendo mais claro: se voc� quiser escrever alguma coisa, a gente topa publicar, mas o que nos interessa, acima de tudo, � a pesquisa.</p><p>� Sou todo ouvidos.</p><p>� E um pouco delicado. Voc� s� vai poder falar sobre o assunto comigo e utilizar apenas o hotmail para se comunicar comigo. N�o quero que comente com ningu�m que est� fazendo uma pesquisa para a Millennium.</p><p>� Trabalhinho simp�tico. O que voc� est� procurando?</p><p>� Queria que voc� fosse ao Hospital Sahlgrenska fazer uma reportagem sobre determinado setor de trabalho. A reportagem vai se chamar "Plant�o M�dico", e para todos os efeitos vai mostrar as diferen�as entre a realidade e o seriado da tev�. Queria que voc� acompanhasse por alguns dias o trabalho do pronto-socorro e da UTI. Que conversasse com os m�dicos, as enfermeiras, o pessoal da limpeza, todos que trabalham l�. Quais as condi��es de trabalho, as tarefas, esse tipo de coisa. Com fotos, evidentemente.</p><p>� UTI? � disse Olofsson.</p><p>� Isso mesmo. Queria que voc� se concentrasse nos cuidados dispensados aos pacientes do setor 11C, que apresentam ferimentos graves. Quero um mapa do setor, que pessoas trabalham ali, de que tipo elas s�o e qual o passado delas.</p><p>� Humm � disse Daniel Olofsson. � Ou muito me engano, ou uma tal de Lisbeth Salander est� internada no 11C.</p><p>Ele n�o tinha nascido ontem.</p><p>� Ah �? � disse Mikael Blomkvist. � Interessante. Descubra em que quarto ela est�, o que h� nos quartos vizinhos e qual a rotina de atendimento.</p><p>� Imagino que essa reportagem v� tratar de algo bem diferente � disse Daniel Olofsson.</p><p>� Como eu dizia... S� estou interessado na pesquisa que voc� vai fazer. Trocaram seus endere�os hotmail.</p><p>Lisbeth Salander estava deitada de costas no ch�o de seu quarto no Sahlgrenska, quando a enfermeira Marianne abriu a porta.</p><p>� Humm � disse Marianne, expressando suas reservas sobre a pertin�ncia de se ficar deitada no ch�o numa unidade de terapia intensiva. Mas reconheceu que era o �nico lugar poss�vel para fazer um pouco de exerc�cio.</p><p>Lisbeth Salander estava molhada de suor depois de passar trinta minutos tentando fazer flex�es de bra�os, alongamentos e abdominais, de acordo com as recomenda��es de seu fisioterapeuta. Havia uma seq��ncia de movimentos que ela precisava executar todos os dias para refor�ar a musculatura das escapulas e do quadril ap�s a cirurgia de tr�s semanas antes. Respirou pesadamente e sentiu que tinha perdido muito de sua forma. Cansava-se r�pido e seu ombro repuxava e latejava ao menor esfor�o. Mas sem d�vida nenhuma estava se recuperando. A dor de cabe�a que a atormentara nos primeiros dias ap�s a cirurgia se abrandara e s� se manifestava de vez em quando.</p><p>Ela se sentia restabelecida o suficiente para deixar o hospital sem hesita��o ou, pelo menos, para dar uma r�pida sa�da, se fosse poss�vel, o que ainda n�o era o caso. De um lado, os m�dicos n�o a tinham declarado restabelecida e, por outro, a porta de seu quarto continuava fechada a chave e vigiada por um maldito tira da Securitas que ficava plantado numa cadeira, no corredor.</p><p>Em compensa��o, estava em condi��o de ser transportada para um setor de reabilita��o comum. Por�m, depois de discutirem por longo tempo o assunto, a pol�cia e a dire��o do hospital haviam conclu�do que era melhor ela ficar no quarto 18 at� segunda ordem. O motivo alegado era que o quarto podia ser facilmente vigiado, pois sempre havia algu�m da equipe por perto, e que o quarto ficava num corredor em L. Era mais simples, portanto, mant�-la no setor 11C, onde a equipe de l�, ap�s o assassinato de Zalachenko, j� havia assimilado as regras de seguran�a e j� estava � par dos problemas que a cercavam, do que transferi-la para um novo setor com tudo o que isso implicaria em termos de mudan�a na rotina.</p><p>De qualquer modo, sua perman�ncia no Sahlgrenska era, quando muito, quest�o de semanas. Assim que os m�dicos assinassem a alta, seria transferida para a casa de deten��o de Kronoberg, em Estocolmo, onde aguardaria o julgamento. E a decis�o caberia ao dr. Anders Jonasson.</p><p>Tinham se passado dez dias do tiroteio em Gosseberga, quando o Dr. Jonasson autorizou a pol�cia a realizar o primeiro interrogat�rio de fato, o que aos olhos de Annika Giannini era magn�fico.</p><p>Depois do caos decorrente do assassinato de Zalachenko, ele fizera uma avalia��o do estado de Lisbeth Salander. A conclus�o foi que ela havia, obviamente, sido exposta a um elevado n�vel de estresse, considerando-se que ficara sob a suspeita de haver cometido um triplo assassinato. Anders Jonasson nada sabia sobre sua eventual culpa ou inoc�ncia e, como m�dico, a resposta n�o o interessava nem um pouco. Limitou-se a afirmar que Lisbeth Salander tinha sido exposta a um estresse. Levara tr�s tiros, um dos quais atingira seu c�rebro e por pouco n�o a matara. Estava com uma febre persistente e uma forte dor de cabe�a.</p><p>Ele optara pela cautela. Suspeita de assassinato ou n�o, ela era sua paciente e o trabalho dele era cuidar para que se recuperasse o quanto antes. Em virtude disso, decretou uma proibi��o de visitas que nada tinha a ver com a proibi��o da procuradora, cujo embasamento era jur�dico. Prescreveu um tratamento m�dico e repouso absoluto.</p><p>Visto que Anders Jonasson acreditava que o isolamento era uma forma desumana de punir pessoas, francamente equipar�vel � tortura, e que ningu�m poderia ficar bem estando afastado dos amigos, decidiu que a advogada de Lisbeth Salander, Annika Giannini, faria as vezes de amiga. Conversou com ela a s�s e explicou que Annika poderia visitar Lisbeth Salander todos os dias, por uma hora. Durante a visita poderia conversar com ela ou simplesmente lhe fazer companhia, sem dizer nada. Na medida do poss�vel, o assunto n�o deveria abordar os problemas de Lisbeth Salander nem as batalhas jur�dicas que tinha pela frente.</p><p>� Lisbeth Salander levou um tiro na cabe�a e se machucou gravemente � ele explicou. � Acho que ela est� fora de perigo, mas sempre existe o risco de uma hemorragia ou de alguma outra complica��o. Ela precisa de repouso e de tempo para se recuperar. S� depois vai poder come�ar a pensar nos seus problemas jur�dicos.</p><p>Annika Giannini percebeu a l�gica do racioc�nio do dr. Jonasson. Teve com Lisbeth Salander algumas conversas de ordem geral, mencionando qual era a sua estrat�gia e a de Mikael, mas nos primeiros dias n�o teve a menor condi��o de desenvolver nenhum racioc�nio muito detalhado. Lisbeth Salander estava simplesmente entorpecida pela medica��o, e t�o exausta que quase todas as vezes ca�a no sono no meio da conversa.</p><empty-line/><p>Dragan Armanskij examinou a s�rie de fotos que Christer Malm tirara dos dois homens que haviam seguido Mikael Blomkvist. Estavam bem n�tidas.</p><p>� N�o � disse ele. � Nunca vi esses homens antes.</p><p>Mikael Blomkvist balan�ou a cabe�a. Estavam na sala de Armanskij, da Milton Security, na segunda-feira de manh�. Mikael entrara no pr�dio pela garagem.</p><p>� O mais velho � G�ran M�rtensson, o propriet�rio do Volvo, portanto. Ele me seguiu feito consci�ncia pesada durante no m�nimo uma semana, mas quem sabe faz at� mais tempo.</p><p>� E voc� acha que ele � da Sapo.</p><p>Mikael contou sobre a carreira pregressa de M�rtensson, que ele havia reconstitu�do. Era muito eloq�ente. Armanskij hesitou. A revela��o de Blomkvist o deixava dividido.</p><p>Tudo bem, os agentes secretos do Estado pisavam muitas vezes na bola. Era a ordem natural das coisas, n�o s� na Sapo como provavelmente em todos os servi�os de informa��o do mundo. Pois se a pol�cia secreta francesa tinha at� mandado uma equipe de mergulhadores � Nova Zel�ndia para torpedear o Rainbow Warrior, do Greenpeace! Tratava-se, sem d�vida, da opera��o de informa��es mais idiota da hist�ria mundial, com exce��o, talvez, do arrombamento do Watergate do presidente Nixon. Com um comando t�o tolo, n�o era de surpreender que esc�ndalos acontecessem. Em compensa��o, seus �xitos nunca eram revelados. Pelo contr�rio, a m�dia literalmente ca�a em cima da pol�cia secreta quando acontecia alguma coisa il�cita, est�pida ou algum fracasso, assumindo a atitude de bem-que-eu-falei, t�o f�cil de adotar depois.</p><p>Armanskij nunca entendera a rela��o da m�dia sueca com a Sapo.</p><p>De um lado, a m�dia tinha na Sapo uma �tima fonte, e praticamente toda falha pol�tica impensada acabava nas manchetes. A Sapo suspeita... Uma declara��o da Sapo era tinha peso para a primeira p�gina.</p><p>De outro, a m�dia e os pol�ticos de todas as tend�ncias n�o hesitavam em execrar como se deve, quando desmascarados, os agentes da Sapo envolvidos na espionagem de cidad�os suecos. Era t�o paradoxal que Armanskij mais de uma vez conclu�ra que tanto os pol�ticos como a m�dia se perdiam completamente nessa quest�o.</p><empty-line/><p>Armanskij nada tinha contra a exist�ncia da Sapo. Afinal, algu�m precisava cuidar para que algum iluminado nacional-bolchevique que tivesse lido Bakunin ou outro guru qualquer at� enjoar n�o resolvesse fabricar uma bomba com adubo qu�mico e petr�leo e coloc�-la num furg�o em frente ao Pal�cio Rosenbad, s� para explodir com todo o governo sueco. Armanskij achava que a Sapo era indispens�vel e que um pouco de espionagem an�dina n�o fazia mal enquanto seu objetivo fosse zelar pela seguran�a dos cidad�os.</p><p>O problema � que, evidentemente, uma organiza��o cuja tarefa era espionar os cidad�os precisava, de forma obrigat�ria, estar sujeita a um r�gido controle, e cabia � Constitui��o garantir acesso �s informa��es. Ora, era praticamente imposs�vel que pol�ticos ou deputados conseguissem manter um olhar sobre a Sapo, mesmo quando o primeiro-ministro designava um investigador especial que, no papel, teria acesso a tudo. Armanskij tomara emprestado Uma miss�o, de Carl Lidbom, que lera com um espanto crescente. Nos Estados Unidos, pelo menos uns dez cabe�as da Sapo j� teriam sido detidos por obstru��o da justi�a e intimados a comparecerem perante uma comiss�o do Congresso. Na Su�cia, eles eram aparentemente inatac�veis.</p><p>O caso Lisbeth Salander mostrava que havia algo de podre no seio da organiza��o, mas quando Mikael Blomkvist aparecera para lhe dar um telefone celular seguro, a primeira rea��o de Dragan Armanskij fora achar que Blomkvist estava paran�ico. Contudo, depois de estudar os detalhes e examinar as fotos de Christer Malm, foi for�ado a reconhecer, a contragosto, que as suspeitas de Blomkvist tinham fundamento. E isso n�o prenunciava nada de bom; pelo contr�rio, indicava que a maquina��o que derrubara Lisbeth Salander quinze anos antes n�o era algo � toa.</p><p>Havia simplesmente coincid�ncias demais para ser algo fortuito. Em �ltimo caso, at� se poderia aceitar que Zalachenko tivesse sido morto por um justiceiro solit�rio. Mas j� n�o dava para acreditar nessa hip�tese quando se sabia que, no mesmo instante, era roubado, tanto de Mikael Blomkvist como de Annika Giannini, o documento que constitu�a o fundamento da argumenta��o deles. Aquilo era uma verdadeira calamidade. E, ainda por cima, a principal testemunha resolvera se enforcar.</p><p>� Bem � disse Armanskij, juntando a documenta��o de Mikael. � Estamos de acordo que eu transmita isto aqui para o meu contato?</p><p>� J� que se trata de uma pessoa em quem voc� diz ter inteira confian�a...</p><p>� Sei que � uma pessoa de muita �tica e com um comportamento absolutamente democr�tico.</p><p>� Dentro da Sapo � disse Mikael Blomkvist, com evidente desconfian�a na voz.</p><p>� N�s precisamos estar de acordo. Tanto eu como o Holger Palmgren aceitamos o seu plano e estamos colaborando. Mas posso garantir que n�o vamos conseguir apenas com nossos recursos. Se a gente n�o quiser que isto acabe mal, temos de encontrar aliados na administra��o governamental.</p><p>� Est� bem � disse Mikael a contragosto. � E que estou acostumado a esperar que a Millennium esteja impressa para me sentir desobrigado. Nunca entreguei uma informa��o relativa a uma mat�ria antes de ela estar publicada.</p><p>� Mas foi o que voc� fez neste caso. J� contou para mim, para a sua irm� e para o Palmgren.</p><p>Mikael fez um gesto de concord�ncia com a cabe�a.</p><p>� E se fez isso, � porque voc� mesmo percebe que este caso � muito maior do que uma mat�ria .de capa da sua revista. Aqui voc� n�o � um jornalista neutro, e sim um personagem da trama.</p><p>Mikael concordou de novo com a cabe�a.</p><p>� E, enquanto personagem, precisa de ajuda para atingir seus objetivos. Mikael meneou a cabe�a mais uma vez. Sabia perfeitamente que n�o tinha contado toda a verdade nem para Armanskij nem para Annika Giannini. Ainda partilhava alguns segredos com Lisbeth Salander. Apertou a m�o de Armanskij.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>9. QUARTA-FEIRA - 4 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Por volta do meio-dia da quarta-feira, tr�s dias depois de Erika Berger ter assumido o cargo de redatora-chefe no SMP, ainda sob a orienta��o do redator-chefe H�kan Morander, ele morreu. Ele passara a manh� no aqu�rio enquanto Erika, acompanhada do assistente de reda��o Peter Fredriksson, participava de uma reuni�o com a equipe de Esportes para conhecer os colaboradores e avaliar como a editoria funcionava. Fredriksson tinha quarenta e cinco anos e, como Erika Berger, era relativamente novo no SMP. Fazia apenas quatro anos que trabalhava no jornal. Era taciturno, de modo geral competente e agrad�vel, e Erika j� resolvera contar com os conhecimentos de Fredriksson quando assumisse o comando do barco. Ela gastava boa parte de seu tempo tentando definir em quem confiar e quem integrar de imediato no seu novo esquema. Fredriksson, definitivamente, era um dos candidatos. Estavam retornando � �rea central da reda��o quando viram, no aqu�rio, H�kan Morander se levantar e se aproximar da porta.</p><p>Parecia estupefato.</p><p>Ent�o ele se curvou e agarrou o encosto de uma cadeira por alguns segundos, desabando em seguida no ch�o.</p><p>J� estava morto quando a ambul�ncia chegou.</p><empty-line/><p>O clima da reda��o durante a tarde foi confuso. O presidente do conselho administrativo, Magnus Borgsj�, chegou por volta das duas horas e reuniu todos os colaboradores para uma r�pida homenagem. Falou sobre Morander, que dedicara os �ltimos quinze anos de sua vida ao jornal, e sobre o pre�o que o jornalismo �s vezes cobrava. Prop�s um minuto de sil�ncio. Depois olhou inseguro � sua volta, como se n�o soubesse direito como continuar.</p><p>Morrer no local de trabalho n�o � comum � � mesmo bastante raro. � de bom-tom se retirar para morrer. Desaparecer na aposentadoria ou no sistema de sa�de e um dia, de repente, virar assunto de conversa na cafeteria da empresa. "Por falar nisso, voc� viu que o velho Karlsson morreu na sexta-feira? E, do cora��o. O sindicato decidiu mandar uma coroa de flores para o enterro." Morrer no local de trabalho, na frente dos colegas, incomoda muito mais. Erika percebeu o choque que pairava sobre a reda��o. O SMP estava sem leme. De repente, se deu conta de que diversos funcion�rios olhavam para ela. A carta desconhecida.</p><p>Sem ter sido convidada e sem saber de fato o que dizer, deu uma tossidinha, um passo � frente e falou com voz forte e segura.</p><p>� Conheci o H�kan Morander h� apenas tr�s dias. E pouco tempo, mas, pelo pouco que pude observar, posso dizer com toda a sinceridade que gostaria de ter tido a oportunidade de conhec�-lo melhor.</p><p>Fez uma pausa quando viu, pelo canto do olho, que Borgsj� a observava. Parecia surpreso por ela ter tomado a palavra. Ela deu mais um passo � frente. N�o sorria. Voc� n�o pode sorrir. Iria parecer insegura. Ela ergueu um pouco a voz.</p><p>� O falecimento repentino de Morander vai criar problemas aqui na reda��o. Estava previsto que eu o sucedesse daqui a dois meses, e eu gostava da id�ia de ter mais tempo para absorver a experi�ncia dele.</p><p>Percebeu que Borgsj� abria a boca para falar.</p><p>� Mas n�o � assim que vai ser, e durante algum tempo n�s vamos passar por algumas mudan�as. Acontece que o Morander era redator-chefe de um jornal di�rio, e esse jornal ter� de sair amanh�. Neste momento, temos nove horas at� a �ltima impress�o, e quatro horas at� a �ltima prova da p�gina dos editoriais. Posso perguntar... quem de voc�s era o melhor amigo e confidente de Morander?</p><p>�Houve um breve sil�ncio enquanto os funcion�rios se entreolhavam. Por fim, Erika escutou uma voz � sua esquerda.</p><p>� Acho que era eu. Gunder Storman, tenho sessenta e um anos, sou assistente de reda��o da p�gina dos editoriais e estou h� trinta e cinco anos no SMP.</p><p>� Algu�m precisa escrever o obitu�rio do Morander. N�o posso fazer isso... seria muita presun��o da minha parte. Voc� se sente capaz de escrever esse texto?</p><p>Gunder Storman hesitou um instante, depois assentiu com a cabe�a.</p><p>� Eu me encarrego disso.</p><p>� Vamos usar a p�gina dos editoriais inteira e tirar todo o resto. Gunder concordou com a cabe�a.</p><p>� Precisamos de fotos...</p><p>Ela olhou � direita para o editor de fotografia, Lennart Torkelsson. Ele fez um sinal de assentimento com a cabe�a.</p><p>� Precisamos p�r m�os � obra. Pode haver alguma turbul�ncia nos pr�ximos dias. Quando eu precisar de ajuda para tomar decis�es, vou consult�-los e confiar na compet�ncia e experi�ncia de voc�s. Voc�s sabem como fazer este jornal, ao passo que eu ainda vou ter que passar algum tempo no banco da escola.</p><p>Voltou-se para Peter Fredriksson, o assistente de reda��o.</p><p>� Peter, o Morander comentou que tinha absoluta confian�a em voc�. Voc� ser� o meu mentor nos pr�ximos dias, e vai ficar um pouco mais atarefado que de costume. Vou te pedir para ser meu conselheiro. Tudo bem para voc�?</p><p>Ele fez que sim com a cabe�a. O que mais poderia fazer? Voltou-se novamente para o Editorial.</p><p>� Outra coisa... hoje de manh� o Morander estava redigindo o editorial. Gunder, voc� poderia ver no computador dele se ele tinha acabado? Mesmo que n�o esteja totalmente pronto, vamos public�-lo. � o �ltimo editorial de H�kan Morander e seria vergonhoso n�o public�-lo. O jornal em que estamos trabalhando hoje ainda � o jornal de H�kan Morander.</p><p>Sil�ncio.</p><p>� Se voc�s sentirem necessidade de fazer uma pausa para pensar nele, fa�am, sem culpa nenhuma. Voc�s sabem quais s�o os deadlines.</p><p>Sil�ncio. Ela reparou que algumas pessoas meneavam de leve a cabe�a em sinal de aprova��o.</p><p>� Bem, ao trabalho todo mundo � disse ela em voz baixa.</p><p>Jerker Holmberg afastou as m�os num gesto de impot�ncia. Jan Bublanski e Sonja Modig estavam com uma express�o c�tica e Curt Bolinder com uma express�o neutra. Os tr�s contemplavam o resultado do inqu�rito preliminar que Holmberg conclu�ra naquela manh�.</p><p>� Nada? � disse Sonja Modig. Ela parecia surpresa.</p><p>� Nada � disse Holmberg, balan�ando a cabe�a. � O relat�rio do legista chegou hoje de manh�. Nada indica que n�o tenha sido mesmo suic�dio por enforcamento.</p><p>Seus olhares percorreram as fotografias tiradas na sala da casa de campo de Sm�ladar�. Tudo indicava que Gunnar Bj�rck, chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros da Sapo, prendera uma corda no gancho do lustre, passara-a em volta do pesco�o e, resolutamente, chutara o banquinho a uma dist�ncia de v�rios metros. O m�dico-legista tinha hesitado quanto � hora exata da morte, mas acabara definindo que fora na tarde de 12 de abril. Bj�rck fora encontrado no dia 17 por Curt Bolinder. Bublanski tentara entrar em contato com Bj�rck v�rias vezes, acabara se irritando e mandara Bolinder ir busc�-lo.</p><p>Em algum momento entre essas datas, o gancho se soltara do teto com o peso, e o corpo ca�ra no ch�o. Bolinder vira Bj�rck atrav�s de uma janela e dera o alerta. Bublanski e os outros que foram at� o local tinham, de sa�da, considerado a casa como o cen�rio de um crime; tiveram a impress�o que Bj�rck tinha sido garroteado por algu�m. Em seguida, a equipe t�cnica descobriu o gancho no teto. Coubera a Jerker Holmberg a tarefa de estabelecer de que modo Bj�rck tinha morrido.</p><p>� Nada indica que tenha havido um crime nem que Bj�rck estivesse com algu�m naquele momento � disse Holmberg.</p><p>� O lustre...</p><p>� O lustre tem as digitais do propriet�rio da casa � que o instalou h� dois anos � e as do pr�prio Bj�rck. O que mostra que ele tirou a l�mpada.</p><p>� De onde saiu a corda?</p><p>� Do mastro do pavilh�o atr�s da casa. Algu�m cortou mais de dois metros da corda. Havia uma faca no peitoril da janela, em frente � porta do terra�o. O propriet�rio diz que a faca era dele. Ele geralmente a guardava numa caixa de ferramentas debaixo da pia. As digitais de Bj�rck est�o tanto no cabo e na l�mina como na caixa de ferramentas. .� Humm � fez Sonja Modig.</p><p>� Qual era o tipo de n�? � perguntou Curt Bolinder.</p><p>� Eram n�s comuns. O n� corredi�o propriamente dito n�o passa de um simples la�o. Essa talvez seja a �nica coisa meio estranha. O Bj�rck velejava e sabia dar n�s de verdade. Mas vai saber se um homem prestes a se suicidar se d� ao trabalho de pensar em n�s.</p><p>� Alguma droga?</p><p>� Segundo o laudo toxicol�gico, no sangue de Bj�rck h� vest�gios de analg�sicos potentes. S�o rem�dios vendidos com receita e que tinham sido prescritos para ele. Tamb�m h� vest�gios de �lcool, mas uma quantidade m�nima. Ou seja, ele estava praticamente s�brio.</p><p>� O m�dico-legista escreveu que ele estava com algumas escoria��es.</p><p>� Uma, de tr�s cent�metros de comprimento, na face externa do joelho esquerdo. Um arranh�o. Pensei nisso, mas pode ter acontecido de mil maneiras... ele pode, por exemplo, ter esbarrado numa cadeira ou algo do g�nero.</p><p>Sonja Modig ergueu uma foto que mostrava o rosto deformado de Bj�rck. O n� corredi�o penetrara a pele com tal profundidade que j� n�o se enxergava a corda propriamente dita. Seu rosto apresentava um incha�o grotesco.</p><p>� D� para afirmar que ele ficou pendurado ali v�rias horas, quase vinte e quatro, antes de o gancho ceder. O sangue se concentrou, de um lado, na cabe�a, onde o n� corredi�o n�o permitiu que ele flu�sse para o resto do corpo, e de outro, nas extremidades inferiores. Quando o gancho cedeu, ele bateu com a caixa tor�cica na quina da mesa de jantar. Mas essa les�o ocorreu muito tempo depois da morte.</p><p>� Que jeito escroto de morrer � disse Curt Bolinder.</p><p>� N�o tenho tanto certeza. A corda era t�o fina que penetrou profundamente a pele e deteve o fluxo sang��neo. Ele deve ter perdido a consci�ncia em poucos segundos e morreu em um ou dois minutos.</p><p>Bublanski fechou o inqu�rito preliminar com cara de nojo. N�o estava gostando nem um pouco. N�o gostava nada de Zalachenko e Bj�rck terem morrido no mesmo dia. Um, eliminado por um justiceiro demente, e o outro por suas pr�prias m�os. Mas, qualquer que fosse a especula��o, n�o se podia negar o fato de que o exame da cena do crime em nada corroborava a tese de que algu�m teria ajudado Bj�rck a morrer.</p><p>� Ele vinha sofrendo uma press�o enorme � disse Bublanski. � Sabia que o caso Zalachenko estava sendo desmantelado, que ele pr�prio corria o risco de ser pego por infringir a lei de remunera��o de servi�os sexuais e tamb�m de ficar exposto na m�dia. Estava doente e convivia com uma dor cr�nica fazia j� algum tempo... N�o sei. Eu gostaria que ele tivesse deixado uma carta ou algo assim.</p><p>� Muitos candidatos ao suic�dio n�o escrevem cartas de despedida.</p><p>� Eu sei. Tudo bem. N�o temos escolha. Vamos arquivar o Bj�rck.</p><empty-line/><p>Erika Berger foi incapaz de se instalar de imediato na cadeira de Morander dentro do aqu�rio e separar os objetos pessoais dele. Combinou com Gunder Storman que ele falaria com a vi�va e pediria que ela viesse pegar o que pertencera ao marido quando fosse conveniente para ela.</p><p>Por enquanto, contentou-se em abrir um pequeno espa�o de trabalho no meio do oceano da reda��o, onde colocou seu laptop e assumiu o comando. Foi um caos. Mas tr�s horas depois de ela prontamente assumir o leme do SMP, a p�gina do editorial estava no prelo. Gunder Storman redigira quatro colunas sobre a vida e a obra de H�kan Morander. A p�gina estava montada em torno de uma foto de Morander, no centro, com seu editorial inacabado � esquerda e uma s�rie de fotos na parte inferior. A diagrama��o estava prec�ria, mas tinha um toque de emo��o que tornava as imperfei��es aceit�veis.</p><p>Pouco antes das seis da tarde, Erika percorria os t�tulos da primeira p�gina e discutia alguns textos com o chefe de reda��o, quando Borgsj� apareceu e tocou seu ombro. Ela ergueu os olhos.</p><p>� Eu queria falar com voc�.</p><p>Foram juntos at� a m�quina de caf� na sala dos funcion�rios.</p><p>� Eu s� queria dizer que gostei muito da maneira como voc� assumiu o comando hoje. Acho que surpreendeu a todos n�s.</p><p>� � que eu n�o tinha muito por onde escapar. Mas as coisas v�o ficar meio inst�veis at� eu pegar o jeito.</p><p>� A gente sabe.</p><p>� A gente?</p><p>� Quero dizer, tanto os funcion�rios como a dire��o. Especialmente a dire��o. Mas depois de tudo que aconteceu hoje estou mais do que convencido de que voc� � a pessoa de que precisamos. Caiu como sopa no mel e teve de assumir as r�deas numa situa��o muito dif�cil.</p><p>Erika por pouco n�o enrubesceu, coisa que n�o acontecia desde seus catorze anos.</p><p>� Posso lhe dar um conselho?</p><p>� Naturalmente.</p><p>� Ouvi dizer que haveria diverg�ncias entre voc� e o chefe de Atualidades, o Lukas Holm.</p><p>� N�s discordamos quanto � orienta��o do texto .sobre a proposta fiscal do governo. Ele tinha opinado demais na p�gina de Atualidades. A gente deve manter a neutralidade quando se trata de informa��o bruta. As opini�es ficam para as p�ginas dos editoriais. E, por falar nisso: pretendo escrever um editorial de vez em quando, mas como n�o milito em nenhum partido pol�tico vamos ter de decidir quem vai assumir a frente dos editoriais.</p><p>� O Storman pode cuidar disso at� segunda ordem � disse Borgsj�. Erika deu de ombros.</p><p>� Quem voc� escolher para mim est� bom. Mas, a princ�pio, precisa ser algu�m que responda pelas posi��es do jornal.</p><p>� Entendo. O que eu queria dizer � que seria bom voc� deixar certa margem de manobra para o Holm. Ele j� est� h� tempos no SMP e faz quinze anos que � chefe de Atualidades. Ele sabe o que faz. �s vezes se mostra meio obtuso, mas � praticamente indispens�vel.</p><p>� Sei disso. O Morander me falou. Mas no que diz respeito � nossa pol�tica de atualidades, tenho a impress�o que eu vou precisar coloc�-lo na linha. Afinal, voc�s me contrataram para renovar o jornal.</p><p>Borgsj� balan�ou a cabe�a, pensativo.</p><p>� Est� bem. O jeito � ir resolvendo os problemas � medida que eles aparecerem.</p><p>Annika Giannini estava n�o s� cansada como irritada na quarta-feira � noite, quando pegou o X2000 na esta��o central de G�teborg para voltar a Estocolmo. Tinha a impress�o de estar morando no trem naquele �ltimo m�s. A fam�lia fora relegada a segundo plano. Foi buscar um caf� no vag�o--restaurante e, ao retornar ao seu lugar, abriu a pasta que continha as anota��es de sua �ltima entrevista com Lisbeth Salander. Ela tamb�m era uma das raz�es de seu cansa�o e irrita��o.</p><p>Ela est� escondendo coisas, pensou Annika Giannini. Essa idiota n�o est� me dizendo a verdade. E o Mike tamb�m est� me ocultando alguma coisa. S� Deus sabe o que eles est�o aprontando.</p><p>Considerando-se que n�o houvera nenhuma comunica��o entre seu irm�o e sua cliente, as manobras deles � se � que havia manobra � deviam ser fruto de algum acordo t�cito e natural. Ela n�o sabia do que se tratava, mas supunha ser algo que Mikael Blomkvist julgava importante esconder.</p><p>Temia que fosse alguma quest�o moral, o ponto fraco de seu irm�o. Ele era amigo de Lisbeth Salander. Annika o conhecia muito bem e sabia que ele era leal at� as raias da estupidez com aqueles que classificava definitivamente como amigos, mesmo que o amigo em quest�o fosse insuport�vel e estivesse errado de A a Z. Ela tamb�m sabia que Mikael era capaz de tolerar muitas bobagens, mas que havia uma fronteira que n�o podia ser ultrapassada. Em que ponto exatamente se situava essa fronteira, isso variava de acordo com a pessoa, mas ela sabia que duas ou tr�s vezes Mikael rompera com amigos pr�ximos porque eles tinham se comportado de um jeito que ele considerava imoral ou inaceit�vel. Nesses casos, ficava intransigente. A ruptura era total, definitiva e irrevog�vel. Mikael nem atendia mais o telefone, mesmo que a pessoa em quest�o estivesse ligando para se ajoelhar aos seus p�s e pedir perd�o.</p><p>Annika Giannini sabia muito bem o que Mikael Blomkvist tinha em mente. Em compensa��o, n�o fazia id�ia do que se passava pela cabe�a de Lisbeth Salander. Em alguns momentos, tinha a impress�o de que nela reinava o vazio absoluto.</p><p>Mikael insinuara que Lisbeth Salander podia se mostrar explosiva e extremamente reservada com as pessoas � sua volta. Antes de conhec�-la, Annika pensava que seria uma situa��o passageira e que tudo era uma quest�o de confian�a. Mas constatara, depois de um m�s de conv�vio � embora as duas primeiras semanas n�o contassem, j� que Lisbeth estava muito fraca para conversar �, que a comunica��o quase sempre se dava num sentido s�.</p><p>Annika tamb�m reparara que Lisbeth Salander �s vezes parecia mergulhada em uma profunda depress�o e n�o manifestava nenhum interesse aparente em resolver sua situa��o e seu futuro. Parecia simplesmente n�o entender � ou n�o estava nem a� � que para Annika a �nica possibilidade de oferecer uma defesa adequada era se inteirar dos fatos. Ela n�o podia trabalhar no escuro.</p><p>Lisbeth Salander era teimosa e fechada. Fazia longas pausas para pensar e em seguida expressava com precis�o o pouco que dizia. Com freq��ncia n�o respondia a coisa alguma, ou �s vezes respondia de repente a uma pergunta que Annika fizera v�rios dias antes. Durante os interrogat�rios da pol�cia, Lisbeth Salander ficara sentada em sua cama sem dizer uma palavra, o olhar fixo � frente. Salvo uma exce��o, n�o trocara nenhuma palavra com os policiais. A exce��o foi quando o inspetor Marcus Ackerman lhe perguntou o que ela sabia sobre Ronald Niedermann; ela ent�o olhara para ele e respondera �s perguntas com precis�o. Assim que ele mudou de assunto, ela se desinteressara totalmente e voltara a olhar fixo para a frente.</p><p>Annika estava preparada para que Lisbeth n�o dissesse nada � pol�cia. Por princ�pio, ela n�o falava com autoridades. O que, no atual caso, era compreens�vel. Embora Annika tivesse repetidamente encorajado sua cliente a responder as perguntas da pol�cia, no fundo estava muito satisfeita com o sil�ncio compacto de Salander. O motivo era simples. Era um sil�ncio coerente. Assim n�o poderiam acus�-la de nenhuma mentira ou racioc�nios contradit�rios capazes de causar m� impress�o no processo.</p><p>Mesmo preparada, por�m, para o sil�ncio, Annika se perturbou ao ver o quanto ele era inabal�vel. Quando ficaram a s�s, perguntou a Lisbeth por que ela se negava t�o ostensivamente a falar com a pol�cia.</p><p>� Eles v�o desvirtuar tudo o que eu disser e usar contra mim.</p><p>� Mas se voc� n�o se explicar, vai ser condenada.</p><p>� Azar, que seja. N�o tenho nada a ver com esta confus�o. Se eles quiserem me condenar, n�o � problema meu.</p><p>Para Annika, Lisbeth Salander fora contando aos poucos, mesmo que tivesse sido preciso arrancar dela, quase tudo que se passara em Stallarholmen. Tudo, menos uma coisa. Ela n�o explicou como Magge Lundin levara uma bala no p�. Por mais que Annika perguntasse e implorasse, Lisbeth Salander apenas a encarou com um ar c�nico e esbo�ou seu sorriso enviesado.</p><p>Ela tamb�m contou o que acontecera em Gosseberga. Mas sem mencionar por que tinha ido atr�s do pai. Teria ido l� para mat�-lo � como sugeria a procuradora � ou para tentar faz�-lo cair em si? Do ponto de vista jur�dico a diferen�a era consider�vel.</p><p>Quando Annika tocou no assunto do antigo tutor, o advogado Nils Bjurman, Lisbeth mostrou-se ainda mais lac�nica. Sua resposta-padr�o era que ela n�o o matara e que isso tampouco constava nas acusa��es que lhe faziam.</p><p>E quando Annika chegou ao ponto central de toda a trama, o papel desempenhado pelo Dr. Peter Teleborian em 1991, Lisbeth se transformou numa compacta parede de sil�ncio.</p><p>Esta hist�ria n�o vai dar certo, constatou Annika. Se a Lisbeth n�o confiar em mim, vamos perder a causa. Preciso falar com o Mikael.</p><p>Lisbeth Salander estava sentada na beira da cama, olhando pela janela. Dali ela via a fachada que ficava do outro lado do estacionamento. Permanecera im�vel, sem ser incomodada, durante mais de uma hora depois que Annika Giannini se levantara e fora embora batendo a porta, furiosa. A dor de cabe�a tinha voltado, mas inofensiva e distante. Em compensa��o, sentia-se pouco � vontade.</p><p>Estava irritada com Annika Giannini. De um ponto de vista pragm�tico, podia entender por que sua advogada a pressionava para obter detalhes sobre seu passado. Racionalmente, entendia por que Annika precisava dispor de todos os fatos. Mas n�o tinha a menor vontade de falar sobre seus sentimentos ou suas a��es. Achava que sua vida s� dizia respeito a si mesma. N�o tinha culpa se seu pai era um s�dico patol�gico e um assassino. N�o tinha culpa se seu irm�o era um leg�timo a�ougueiro. E, gra�as a Deus, ningu�m sabia que era seu irm�o, pois do contr�rio seria mais um ponto contra ela na avalia��o psiqui�trica que tinha pela frente. Ela n�o matara Dag Svensson e Mia Bergman. N�o era ela que tinha designado um tutor que se revelara um porco e que a violentara.</p><p>No entanto, era a vida dela que eles queriam revirar, e era dela que vinham exigir explica��es e desculpas por ter se defendido.</p><p>Queria ser deixada em paz. Afinal, ela � que era obrigada a conviver consigo mesma. N�o esperava que ningu�m se tornasse seu amigo. Essa Maldita Annika Giannini provavelmente estava do seu lado, mas era uma amizade profissional, j� que ela era uma advogada. O Maldito Super-Blomkvist estava l� fora, em algum lugar � Annika n�o falava muito sobre o irm�o e Lisbeth nunca perguntava. N�o esperava que ele se desdobrasse particularmente por ela agora que o assassinato de Dag Svensson estava solucionado e que ele fechara a sua mat�ria.</p><p>Perguntava-se o que Dragan Armanskij pensava a seu respeito depois de tudo o que acontecera.</p><p>Perguntava-se como Holger Palmgren via a situa��o.</p><p>Segundo Annika Giannini, ambos estavam do seu lado, mas isso eram apenas palavras. Eles nada podiam fazer para resolver seus problemas pessoais.</p><p>Perguntava-se o que Miriam Wu sentia por ela.</p><p>Perguntava-se o que ela sentia por si mesma, e acabou se dando conta de que a vida lhe inspirava, antes de mais nada, indiferen�a.</p><p>De s�bito, foi interrompida pelo vigia da Securitas, que enfiou a chave na fechadura e fez entrar o Dr. Anders Jonasson.</p><p>� Boa noite, senhorita Salander. Como est� se sentindo?</p><p>� Tudo bem � disse ela.</p><p>Ele conferiu sua ficha e constatou que Lisbeth n�o tinha mais febre. Ela se acostumara com as visitas dele, que aconteciam duas ou tr�s vezes por semana. Em meio a todas as pessoas que a manipulavam e tocavam, ele era o �nico em quem ela sentia um pouco de confian�a. Em nenhum momento tivera a impress�o de que ele a olhava atravessado. Entrava no quarto, conversava um pouco e observava como estava seu corpo. N�o fazia perguntas sobre Ronald Niedermann ou Alexander Zalachenko, nem sobre sua eventual loucura, e n�o perguntava por que a pol�cia a mantinha a sete chaves. Parecia se interessar exclusivamente pela condi��o de seus m�sculos, pela recupera��o de seu c�rebro e por seu estado geral. Desde o come�o ele a tratara por voc�", e ela tamb�m o tratava por "voc�"; parecia natural.</p><p>Al�m disso, ele tinha literalmente fu�ado seu c�rebro. Uma pessoa que fazia isso merecia ser tratada com respeito. Ela se deu conta, para sua imensa surpresa, que achava as visitas de Anders agrad�veis, ainda que ele a tocasse e analisasse os gr�ficos da temperatura.</p><p>� Posso dar uma olhada em voc�?</p><p>Ele realizou o exame rotineiro, examinou suas pupilas, escutou sua respira��o, tomou seu pulso e conferiu a press�o.</p><p>� Como � que eu estou? � ela perguntou.</p><p>� Est� a caminho da recupera��o total, isso � certo. Mas deve se esfor�ar mais nos exerc�cios f�sicos. E est� cocando a casquinha na cabe�a. Tem que parar com isso.</p><p>Ele fez uma pausa.</p><p>� Posso fazer uma pergunta pessoal?</p><p>Ela o olhou com o rabo do olho. Ele esperou at� que ela dissesse sim com a cabe�a.</p><p>� Essa tatuagem, o drag�o... eu n�o vi inteira, mas d� para perceber que � imensa e cobre boa parte de suas costas. Por que voc� fez isso?</p><p>� Voc� n�o viu o drag�o? Ele sorriu de repente.</p><p>� Quero dizer, eu vi de longe, mas quando voc� esteve totalmente nua na minha frente eu estava mais preocupado em deter as hemorragias e extrair as balas do seu corpo, com coisas assim.</p><p>� Por que voc� quer saber?</p><p>� Pura curiosidade.</p><p>Lisbeth Salander refletiu por um bom tempo. Por fim, olhou para ele.</p><p>� Eu fiz por um motivo pessoal sobre o qual n�o estou a fim de falar. Anders Jonassoji meditou sobre a resposta, depois meneou a cabe�a, pensativo.</p><p>� Certo. Desculpe ter perguntado.</p><p>� Quer dar uma olhada nela? Ele pareceu surpreso.</p><p>� Quero, por que n�o?</p><p>Ela virou de costas e tirou a camisola pela cabe�a. Posicionou-se de modo a que a claridade vinda da janela batesse em suas costas. Ele observou que o drag�o cobria boa parte do lado direito das costas. Come�ava na escapula, na altura do ombro, e acabava numa cauda na parte inferior do quadril. Era lindo, executado pela m�o de um profissional. Uma verdadeira obra de arte.</p><p>Passados alguns instantes, ela virou a cabe�a.</p><p>� Satisfeito?</p><p>� E muito bonito. Mas deve ter do�do � beca.</p><p>� E � ela admitiu. � Doeu.</p><p>Anders Jonasson deixou o quarto de Lisbeth Salander levemente desconcertado. Estava satisfeito com a recupera��o dela. Mas n�o conseguia entender aquela garota estranha. N�o precisava de um mestrado em psicologia para concluir que ela n�o estava mentalmente muito bem. O modo como ela falava com ele era educado, mas repleto de uma �spera desconfian�a. Sabia que ela tamb�m era educada com o restante da equipe, por�m se fechava como ostra quando a pol�cia aparecia. Metia-se dentro da carapa�a e sempre estabelecia uma dist�ncia entre ela e os outros.</p><p>A pol�cia a pusera em pris�o cautelar e um procurador pretendia indici�-la por tentativa de homic�dio e golpes e ferimentos agravados. Ele duvidava seriamente que uma garota t�o mi�da e com uma constitui��o t�o fr�gil tivesse tido a for�a f�sica necess�ria para esse tipo de ato violento, mesmo porque as agress�es tinham sido contra homens adultos.</p><p>Ele perguntara sobre o drag�o principalmente para poder conversar algo mais pessoal com ela. N�o estava de fato interessado em saber por que ela se enfeitara daquele jeito exagerado, mas imaginava que se ela optara por marcar seu corpo com uma tatuagem daquele tamanho � porque aquilo tinha para ela bastante import�ncia. Conclus�o, era um bom assunto para iniciar uma conversa.</p><p>Ele adquirira o h�bito de ir v�-la v�rias vezes por semana. As visitas, na verdade, ficavam fora do seu expediente, e a Dra. Helena Endrin � que era a m�dica dela. Mas Anders Jonasson era o chefe do servi�o de traumatologia e estava extremamente satisfeito com sua pr�pria contribui��o na noite em que Lisbeth Salander chegara ao pronto-socorro. Tomara a decis�o certa ao optar por extrair a bala e, at� onde podia avaliar, ela n�o tivera seq�elas do ferimento a bala, como lapsos de mem�ria, fun��es corporais diminu�das ou qualquer outra defici�ncia. Se a recupera��o continuasse assim, ela deixaria o hospital sem mais complica��es que uma cicatriz no couro cabeludo. J� quanto � cicatriz formada em sua alma, ele n�o saberia dizer.</p><p>Ao voltar para a sua sala, deparou com um homem de casaco escuro esperando por ele, encostado na parede ao lado da porta. Tinha cabelos emaranhados e uma barba bem-cuidada.</p><p>� Doutor Jonasson?</p><p>� Sim.</p><p>� Bom dia. Meu nome � Peter Teleborian. Sou m�dico-chefe da cl�nica psiqui�trica de Sankt Stefan, em Uppsala.</p><p>� Sim, estou reconhecendo o senhor.</p><p>� Bem, eu gostaria de ter uma conversa particular com o senhor, se tiver um instante livre.</p><p>Anders Jonasson destrancou a porta de sua sala.</p><p>� O que posso fazer pelo senhor? � perguntou.</p><p>� � sobre uma de suas pacientes. Lisbeth Salander. Preciso v�-la.</p><p>� Humm. Nesse caso, ter� de pedir autoriza��o � procuradora. Ela est� sob pris�o cautelar, proibida de receber visitas. Todas as visitas tamb�m devem ser comunicadas de antem�o para a advogada da Salander...</p><p>� Sim, sim, eu sei disso. Achei que n�s dois pud�ssemos dispensar toda essa burocracia. Sou m�dico, portanto o senhor pode, sem nenhum problema, me dar acesso a ela por motivos m�dicos.</p><p>� Sim, talvez se justifique. Mas n�o estou vendo a rela��o.</p><p>� Durante v�rios anos fui o psiquiatra de Lisbeth Salander, quando ela esteve internada na Sankt Stefan, em Uppsala. Eu a acompanhei at� ela completar dezoito anos, quando o Tribunal de Inst�ncias a reconduziu � sociedade, embora sob tutela. Talvez seja bom eu enfatizar que naturalmente me opus a essa decis�o. Depois a deixaram sair por a� sem rumo, e a� est� o resultado.</p><p>� Entendo � disse Anders Jonasson.</p><p>� Ainda me sinto bastante respons�vel por ela e queria ter a oportunidade de avaliar o agravamento de sua condi��o nesses dez �ltimos anos.</p><p>� Agravamento?</p><p>� Comparado a quando ela recebia tratamento especializado na adolesc�ncia. Pensei que poder�amos pensar numa solu��o adequada, c� entre n�s, como m�dicos.</p><p>� A prop�sito, antes que eu me esque�a... O senhor talvez possa me esclarecer um aspecto que n�o entendi direito, quero dizer, c� entre n�s, como m�dicos. Quando ela deu entrada aqui no Sahlgrenska, pedi um exame cl�nico extenso. Um colega pediu que eu desse uma olhada na investiga��o m�dico-legal relativa a Lisbeth Salander. Que era assinada pelo doutor Jesper H. L�derman.</p><p>� Exato. Eu fui o orientador de Jesper em seu doutorado.</p><p>- Entendo. Mas observei que essa investiga��o m�dico-legal est� extremamente vaga.</p><p>� Ah,�?</p><p>� N�o apresenta nenhum diagn�stico, lembra mais a an�lise convencional de um paciente que se recusa a falar. Peter Teleborian deu uma risada.</p><p>� �, ela n�o � f�cil. Como a investiga��o demonstrou, ela se negava categoricamente a participar das entrevistas com o L�derman. Por isso ele viu-se obrigado a se expressar em termos t�o vagos. Ele foi muito correto.</p><p>� Entendo. Mesmo assim, recomendou que ela fosse internada.</p><p>� Com base no passado dela. Temos total experi�ncia sobre a doen�a dela, que se estende por v�rios anos.</p><p>� Pois ent�o, � isso que n�o consigo entender direito. Quando ela deu entrada aqui, tentamos conseguir a ficha dela na Sankt Stefan. Mas ainda n�o foi enviada.</p><p>� Sinto muito. E um arquivo considerado sigiloso por decis�o do Tribunal de Inst�ncias.</p><p>� Sei. E como � que a gente, aqui no Sahlgrenska, pode dar a ela o tratamento adequado sem termos acesso a esse arquivo? Acontece que, hoje, n�s � que somos os m�dicos respons�veis por ela.</p><p>� Tratei da Lisbeth Salander desde que ela tinha doze anos e acho que nenhum m�dico na Su�cia sabe tanto sobre a doen�a dela quanto eu.</p><p>� Que �...?</p><p>� Ela sofre de um grave desequil�brio ps�quico. Como o senhor sabe, a psiquiatria n�o � uma ci�ncia exata. N�o gosto de me sentir limitado por um diagn�stico preciso. Mas ela tem alucina��es manifestas com tra�os esquizofr�nicos paran�icos muito claros. Acrescente-se a isso per�odos man�aco-depressivos, e que ela carece de empatia.</p><p>Anders Jonasson perscrutou o Dr. Peter Teleborian durante uns dez segundos antes de fazer um gesto incisivo de m�os.</p><p>� N�o vou contestar o seu diagn�stico, doutor Teleborian, mas o senhor nunca considerou a possibilidade de um diagn�stico mais simples?</p><p>� Como assim?</p><p>� A s�ndrome de Asperger, por exemplo. Claro, eu n�o a submeti a nenhum exame psiqui�trico, mas, se me perguntassem, minha primeira opini�o seria alguma forma de autismo. O que explicaria sua incapacidade em se subjugar �s conven��es sociais.</p><p>� Lamento, mas os pacientes de Asperger n�o costumam atear fogo nos pais. Acredite, nunca deparei com uma sociopata t�o claramente definida.</p><p>� O que eu vejo � uma pessoa fechada em si mesma, mas n�o uma sociopata paran�ica.</p><p>� Ela � manipuladora ao extremo � disse Peter Teleborian. � Ela se comporta como acha que o senhor gostaria que se comportasse.</p><p>Anders Jonasson franziu imperceptivelmente o cenho. Peter Teleborian estava, de repente, contrariando sua pr�pria avalia��o de Lisbeth Salander. E se havia uma coisa que ele n�o percebia nela era a manipula��o. Pelo contr�rio; era uma pessoa que mantinha uma imperturb�vel dist�ncia dos outros e n�o demonstrava nenhuma emo��o. Tentou conciliar o quadro tra�ado por Teleborian com a id�ia que ele pr�prio formara de Lisbeth Salander.</p><p>� O senhor esteve muito pouco com ela, e quando seus ferimentos a condenaram � prostra��o. Eu assisti �s suas crises de viol�ncia e ao seu �dio desmedido. Passei anos tentando ajudar Lisbeth Salander. Por isso estou aqui. Proponho uma colabora��o entre o Sahlgrenska e a Sankt Stefan.</p><p>� Em que tipo de colabora��o o senhor est� pensando?</p><p>� Voc�s est�o cuidando dos problemas f�sicos, e estou certo de que ela ter� o melhor tratamento poss�vel. Mas estou muito preocupado com o estado ps�quico dela, e gostaria de intervir rapidamente. Estou pronto para oferecer todo o aux�lio que estiver ao meu alcance.</p><p>� Entendo.</p><p>� Para come�ar, preciso ver a Lisbeth para avaliar seu estado.</p><p>� Entendo, mas, infelizmente, n�o posso fazer nada pelo senhor.</p><p>� Como assim?</p><p>� � como eu disse, ela est� detida. Se quiser come�ar um tratamento psiqui�trico, precisa entrar em contato com a procuradora Jervas, que � quem toma as decis�es nesses casos, e isso deve ser feito com a concord�ncia da advogada Annika Giannini. Como se trata de uma avalia��o psiqui�trica legal, o senhor precisa ser designado pelo Tribunal de Inst�ncias.</p><p>� Eram justamente esses tr�mites burocr�ticos todos que eu queria evitar.</p><p>� �, mas como eu sou o respons�vel por ela e ela vai comparecer diante de um tribunal num futuro pr�ximo, teremos que justificar todas as medidas que tomarmos. De modo que � necess�rio seguir os tr�mites burocr�ticos.</p><p>� Entendo. Sendo assim, devo inform�-lo que o procurador Richard Ekstr�m, de Estocolmo, j� solicitou que eu fa�a uma avalia��o psiqui�trica legal na �poca do julgamento.</p><p>� Melhor assim. Quer dizer que o senhor vai obter uma autoriza��o para visita sem que a gente precise contornar o regulamento.</p><p>� Mas enquanto tratamos da burocracia, existe o perigo de o estado dela se agravar. S� o que me interessa � a sa�de dela.</p><p>� A mim tamb�m � disse Anders Jonasson. � E, c� entre n�s, posso adiantar que n�o vejo nela o menor sinal de qualquer tipo de doen�a ps�quica. Ela est� bastante machucada e passando por um grande estresse. Mas n�o acredito, de maneira alguma, que seja esquizofr�nica ou sofra de fobias paran�icas.</p><p>O Dr. Peter Teleborian ainda passou um bom tempo tentando fazer Anders Jonasson mudar de id�ia. Quando afinal entendeu que estava perdendo tempo, levantou-se bruscamente e se despediu.</p><p>Anders Jonasson demorou-se algum tempo contemplando a cadeira na qual Teleborian estivera sentado. Claro, era comum que outros m�dicos o procurassem para dar conselhos ou opini�es sobre um tratamento. Mas eram quase sempre pacientes que j� tinham um m�dico respons�vel por algum tipo de tratamento em curso. Nunca vira nenhum psiquiatra aparecer daquele jeito, feito um �vni, e insistir para ter acesso a uma paciente passando por cima do regulamento, paciente essa que ele, aparentemente, j� n�o tratava havia muitos anos. Depois de alguns instantes, Anders Jonasson consultou o rel�gio e viu que eram quase sete da noite. Pegou o telefone e ligou para Martina Karlgren, a psic�loga de plant�o que o Sahlgrenska oferecia aos pacientes da traumatologia.</p><p>� Ol�. Imagino que j� tenha encerrado seu dia de trabalho. Estou atrapalhando?</p><p>� N�o se preocupe. Estou em casa, mas n�o estou fazendo nada de especial.</p><p>� S�o umas d�vidas aqui que eu tenho. Voc� conversou com a nossa paciente Lisbeth Salander. Poderia me dizer que impress�o teve dela?</p><p>� Olhe, estive tr�s vezes com ela, propondo uma conversa. Ela recusou, gentil, mas firmemente.</p><p>� Que impress�o ela lhe passa?</p><p>� Em que sentido?</p><p>� Martina, eu sei que voc� n�o � psiquiatra, mas � uma pessoa experiente e sensata. Que impress�o ela lhe passa?</p><p>Martina Karlgren hesitou um instante.</p><p>� N�o sei bem o que dizer. Estive com ela duas vezes pouco depois que foi internada. Estava t�o mal que n�o tivemos de fato nenhum contato. Depois disso, fiz uma visita h� mais ou menos uma semana, a pedido da Helena Endrin.</p><p>� Por que a Helena pediu que voc� falasse com ela?</p><p>� A Lisbeth Salander est� em recupera��o. Passa a maior parte do tempo deitada, olhando para o teto. A Endrin queria que eu desse uma olhada nela.</p><p>� E como foi?</p><p>� Eu me apresentei. Conversamos alguns minutos. Perguntei como ela estava e se sentia necessidade de ter algu�m para conversar. Ela disse que n�o. Perguntei se eu podia ajudar em alguma coisa. Ela pediu que eu lhe conseguisse um ma�o de cigarros.</p><p>� Ela estava irritada ou hostil? Martina Karlgren refletiu um instante.</p><p>� N�o, n�o d� para dizer isso. Estava calma, mas mantinha uma dist�ncia enorme. Levei seu pedido para eu conseguir cigarros mais como uma brincadeira do que como algo s�rio. Perguntei se ela queria ler alguma coisa, se eu podia levar uns livros. De in�cio, ela n�o quis, mas depois perguntou se eu tinha alguma revista cient�fica sobre gen�tica e pesquisas sobre o c�rebro.</p><p>� Sobre o qu�?</p><p>� Gen�tica.</p><p>� Gen�tica?</p><p>� �. Eu disse que havia uns livros mais gen�ricos sobre o assunto na nossa biblioteca. Ela n�o se interessou. Disse que j� tinha lido alguns livros a respeito e citou algumas obras mais b�sicas das quais eu nunca tinha ouvido falar. Ou seja, ela estava mais interessada na pesquisa cient�fica nessa �rea.</p><p>� Ah, �? � disse Anders Jonasson, estupefato.</p><p>� Eu disse que decerto n�o haveria livros t�o especializados na biblioteca do hospital, que havia mais Philip Marlowe do que literatura cient�fica, mas que eu ia tentar conseguir alguma coisa para ela.</p><p>� E conseguiu?</p><p>� Peguei emprestados uns exemplares da Nature e do New England Journal of Medicine. Ela ficou satisfeita e me agradeceu pelo esfor�o.</p><p>� Mas essas revistas s�o um bocado �ridas, trazem principalmente artigos cient�ficos e pesquisa pura.</p><p>� Ela est� lendo com muito interesse. Anders Jonasson ficou um instante sem voz.</p><p>� Como voc� avalia o estado ps�quico dela?</p><p>� Ela � fechada. N�o conversou nada pessoal comigo.</p><p>� Voc� tem a impress�o de que ela � psiquicamente perturbada, man�aco-depressiva ou paran�ica?</p><p>� N�o, de jeito nenhum. Nesse caso, eu teria dado o alerta. Ela � especial, sem d�vida, tem problemas s�rios e est� passando por um estresse enorme. Mas � calma e objetiva, e parece capaz de administrar a situa��o.</p><p>� �timo.</p><p>� Por que est� perguntando? Aconteceu alguma coisa?</p><p>� N�o, nada. � s� que eu n�o consigo formar uma imagem precisa sobre ela.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>10.� S�BADO - 7 DE MAIO � QUINTA-FEIRA - 12 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist largou a pasta com os resultados da pesquisa enviada pelo freelancer Daniel Olofsson, de G�teborg. Olhou, pensativo, pela janela e contemplou o fluxo de transeuntes na G�tgatan. Gostava demais da localiza��o da M�llennium. A G�tgatan era cheia de vida a qualquer hora do dia ou da noite, e quando se sentava diante da janela nunca se sentia realmente sozinho ou isolado.</p><p>Estava estressado, embora n�o estivesse �s voltas com nenhuma urg�ncia. Continuara trabalhando obstinadamente nos textos com que pretendia montar a edi��o de ver�o da Millennium, mas acabara percebendo que seu material era t�o vasto que nem um n�mero tem�tico seria suficiente. Diante outra vez da mesma situa��o em que se vira no caso Wennerstr�m, decidira publicar um livro com aquelas informa��es. J� tinha material suficiente para mais de cento e cinq�enta p�ginas e calculava que o livro todo teria entre trezentas e trezentas e cinq�enta p�ginas.</p><p>A parte mais simples estava pronta. Descrevera os assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman, contando como acabara sendo ele quem descobrira os corpos. Explicara por que tinham suspeitado de Lisbeth Salander. Reservou um cap�tulo inteiro de trinta e sete p�ginas para detonar violentamente de um lado, tudo o que a m�dia havia escrito sobre Lisbeth Salander e, de outro, o procurador Richard Ekstr�m � e indiretamente toda a investiga��o conduzida pela pol�cia. Depois de algumas pondera��es, suavizara a cr�tica a Bublanski e seus colegas. Isso depois de assistir a um v�deo de uma entrevista coletiva de Ekstr�m que revelava de maneira evidente como Bublanski estava pouqu�ssimo � vontade e obviamente descontente com as conclus�es precipitadas de Ekstr�m.</p><p>Depois desses dram�ticos acontecimentos iniciais, Mikael voltava no tempo para contar a chegada de Zalachenko � Su�cia, a inf�ncia de Lisbeth Salander e os fatos que a tinham conduzido para tr�s das grades da Sankt Stefan, em Uppsala. Tomava especial cuidado em acabar com o dr. Peter Teleborian e com o falecido Gunnar Bj�rck. Apresentava a avalia��o psiqui�trica legal de 1991 e explicava por que Lisbeth Salander se tornara uma amea�a para funcion�rios an�nimos do Estado que haviam tomado para si a miss�o de proteger o dissidente russo. Reproduzia extensos trechos da correspond�ncia entre Teleborian e Bj�rck.</p><p>Ele revelava a nova identidade de Zalachenko e seu campo de atividade como g�ngster em tempo integral. Descrevia seu assistente Ronald Nieder-mann, o rapto de Miriam Wu e a interven��o de Paolo Roberto. Por fim, fazia um resumo do desenlace em Gosseberga, onde Lisbeth Salander fora enterrada viva depois de levar uma bala na cabe�a, e explicava por que um policial fora morto desnecessariamente, quando Niedermann j� havia sido capturado.</p><p>Depois disso, sua hist�ria j� n�o era t�o f�cil de ser contada. O problema de Mikael era que ela ainda continha muitas lacunas. Gunnar Bj�rck n�o agira sozinho. Por tr�s dos elementos havia necessariamente um grupo importante e influente que dispunha de recursos. Sen�o teria sido imposs�vel. Acima de tudo, ele conclu�ra que o modo como Lisbeth Salander havia sido tratada, desrespeitando-se seus direitos mais elementares, n�o podia ter sido autorizado pelo governo ou pela dire��o da Sapo. Chegava a essa conclus�o n�o por uma confian�a absoluta no poder do Estado, mas por sua f� na natureza humana. Uma opera��o daquele calibre jamais teria permanecido secreta se tivesse alguma raiz pol�tica. Algu�m teria tido contas para acertar com �utro algu�m e j� teria aberto a boca, e h� muitos anos a m�dia teria enfiado o nariz no caso Zalachenko.</p><empty-line/><p>Ele imaginava o clube Zalachenko como um grupelho de ativistas an�nimos. O problema � que ele era incapaz de identificar qualquer um deles, a n�o ser, talvez, G�ran M�rtensson, quarenta anos, policial em miss�o secreta que passava o tempo seguindo Mikael Blomkvist.</p><p>A id�ia era o livro estar impresso e pronto para ser distribu�do no dia em que teria in�cio o julgamento de Lisbeth Salander. Com Christer Malm, ele planejava uma edi��o de bolso envolta em celofane e vendida como suplemento do n�mero de ver�o da Millennium, cujo pre�o seria um pouco maior. Ele dividira as tarefas entre Henry Cortez e Malu Eriksson, que iam preparar textos sobre a hist�ria da Sapo, sobre o caso do IB, o servi�o secreto de informa��es militares cuja exist�ncia fora revelada em 1973 por dois colegas da revista Folket i Bild/Kulturfront, e outros casos semelhantes.</p><p>Pois ele agora tinha a certeza de que seria aberto um processo contra Lisbeth Salander.</p><p>O procurador Richard Ekstr�m a indiciara por golpes e ferimentos agravados no caso Magge Lundin, e golpes e ferimentos agravados acompanhados de tentativa de homic�dio no caso Karl Axel Bodin, ali�s Alexander Zalachenko.</p><p>A data do julgamento ainda n�o estava marcada, mas Mikael pegara no ar o coment�rio de alguns colegas. Aparentemente Ekstr�m previa o julgamento para julho, dependendo do estado de sa�de de Lisbeth Salander. Mikael adivinhava a sua inten��o. Um julgamento no meio do ver�o sempre chamava menos aten��o que em outras �pocas do ano.</p><p>Ele franziu a testa e olhou pela janela de sua sala na reda��o da Millennium.</p><p>Essa hist�ria ainda n�o acabou. A conspira��o contra Lisbeth continua. E a �nica explica��o para os telefones sob escuta, a agress�o a Annika e o roubo do relat�rio Salander de 1991. E, quem sabe, para o assassinato de Zalachenko.</p><p>S� que ele n�o tinha provas.</p><p>Com a concord�ncia de Malu Eriksson e Christer Malm, Mikael decidira que as edi��es Millennium tamb�m iriam publicar o livro de Dag Svensson sobre o tr�fico de mulheres, de olho no julgamento. Era melhor apresentar o pacote inteiro de uma vez; n�o havia por que esperar para public�-lo. Pelo contr�rio � em nenhum outro momento o livro despertaria mais interesse. Malu assumira a reda��o final do livro de Dag Svensson, ao passo que Henry Cortez assessorava Mikael na reda��o do livro sobre o caso Salander. Lottie Karim e Christer Malm (contra a sua vontade) tamb�m tinham virado assistentes de reda��o tempor�rios da Millennium, uma vez que Monika Nilsson era a �nica jornalista dispon�vel. O resultado dessa carga extra de trabalho sobrecarregou a reda��o da Millennium, e Malu Eriksson contratara v�rios free-lancers para redigir os textos. Ia custar caro, mas eles n�o tinham escolha.</p><p>Mikael anotou num post-it que precisava acertar a quest�o dos direitos autorais do livro com a fam�lia de Dag Svensson. Ele se informara que os pais de Dag moravam em Orebro e eram seus �nicos herdeiros. Em princ�pio, n�o precisava de autoriza��o para publicar o livro com o nome de Dag Svensson, mas mesmo assim pretendia ir at� Orebro conversar com eles para obter seu aval. Vinha adiando o tempo todo essa visita por andar muito ocupado, mas j� era mais do que na hora de acertar esse detalhe.</p><p>Depois disso, restavam apenas dezenas de outros detalhes! Alguns estavam ligados ao modo de se referir a Lisbeth Salander nos textos. Para definir isso de uma vez por todas, seria obrigado a ter uma conversa particular com ela e obter sua autoriza��o para contar a verdade, ou pelo menos a verdade parcial. E essa conversa particular era imposs�vel de conseguir, j� que Lisbeth estava sob pris�o cautelar e proibida de receber visitas.</p><p>Nesse aspecto, Annika Giannini n�o lhe era de nenhuma ajuda. Ela seguia escrupulosamente o regulamento em vigor e n�o tinha a inten��o de transmitir recados sigilosos de Mikael Blomkvist. Annika tamb�m n�o lhe contava sobre o que ela e sua cliente conversavam, com exce��o de epis�dios relativos � maquina��o contra ela, para os quais Annika precisava de ajuda. Era frustrante, mas correto. Mikael, portanto, ignorava totalmente se Lisbeth revelara a Annika que seu ex-tutor a violentara e que ela se vingara tatuando-lhe uma mensagem gritante na barriga. Enquanto Annika n�o abordasse o assunto, Mikael tampouco poderia faz�-lo.</p><p>O isolamento de Lisbeth Salander constitu�a, antes de mais nada, uma aut�ntica complica��o. Ela era perita em inform�tica, uma hacker, o que Mikael sabia, mas Annika n�o. Mikael prometera a Lisbeth nunca revelar seu segredo e mantivera a promessa. O problema era que, no momento, ele pr�prio estava necessitad�ssimo de suas compet�ncias t�cnicas.</p><p>Logo, precisava estabelecer de alguma maneira um contato com Lisbeth Salander.</p><p>Suspirou, voltou a abrir a pasta de Daniel Olofsson e separou duas folhas. Uma era uma ficha do cadastro de passaportes em nome de Idris Ghidi, nascido em 1950. Era um homem de bigode, pele morena e cabelo preto grisalho nas t�mporas.</p><p>O outro documento era o resumo que Daniel Olofsson fizera do passado de Idris Ghidi.</p><p>Ghidi era um refugiado curdo que viera do Iraque. Daniel Olofsson ob-tivera mais dados decisivos sobre Idris Ghidi do que sobre qualquer outro funcion�rio. A explica��o desse desequil�brio era que, durante algum tempo, Idris Ghidi gozara de certa notoriedade na m�dia e constava nos arquivos da imprensa.</p><p>Nascido na cidade de Mossul, no norte do Iraque, Idris Ghidi se formara em engenharia e participara do grande boom econ�mico dos anos 1970. Em 1984, come�ara a lecionar na escola t�cnica de Mossul. N�o estava ligado a nenhuma atividade pol�tica conhecida. Infelizmente, era curdo e, por defini��o, um criminoso potencial no Iraque de Saddam Hussein. Em outubro de 1987, o pai de Idris Ghidi foi preso, sob suspeita de ativismo curdo. N�o foi dada nenhuma pista sobre a natureza de seu crime. Foi executado como traidor da p�tria, provavelmente em janeiro de 1988. Dois meses depois, a pol�cia secreta iraquiana foi buscar Idris Ghidi, que estava come�ando a dar uma aula sobre a resist�ncia dos materiais aplicada � constru��o de pontes. Foi levado para uma pris�o fora de Mossul, onde durante onze meses foi submetido a torturas ferozes que pretendiam faz�-lo confessar. Idris Ghidi n�o entendia direito o que esperavam que ele confessasse, de modo que a tortura se prolongou.</p><p>Em mar�o de 1989, um tio de Idris Ghidi pagou uma quantia equivalente a cinq�enta mil coroas suecas para o chefe local do Partido Baas, decerto uma esp�cie de compensa��o suficiente pelos estragos que Idris Ghidi causara ao Estado iraquiano. Dois dias depois, ele foi solto e entregue ao tio. Pesava trinta e nove quilos e n�o conseguia caminhar. Antes de solt�-lo, haviam quebrado seu quadril esquerdo com uma grande quantidade de golpes, para impedi-lo de andar por a� e cometer futuras besteiras.</p><p>Idris Ghidi ficou entre a vida e a morte durante v�rias semanas. Quando finalmente sentiu-se um pouco melhor, seu tio o levou para um s�tio a seiscentos quil�metros de Mossul. Ele refez as energias durante o ver�o at� ficar forte o bastante para reaprender a andar de muletas de modo mais ou menos aceit�vel. Sabia perfeitamente que nunca se restabeleceria por completo. A quest�o agora era o que ele faria dali em diante. Em agosto, seus dois irm�os foram presos pela pol�cia secreta. Jamais tornaria a v�-los. Deviam estar enterrados em algum lugar nos sub�rbios de Mossul. Em setembro, seu tio descobriu que a pol�cia secreta de Saddam Hussein estava novamente procurando Idris Ghidi. Ele ent�o resolveu procurar um atravessador an�nimo, que, por uma quantia equivalente a trinta mil coroas, fez Idris Ghidi cruzar a fronteira turca e, com um passaporte falso, levou-o para a Europa.</p><p>Idris Ghidi aterrissou no aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, em 19 de outubro de 1989. N�o falava uma palavra de sueco, mas tinham lhe explicado que ele deveria se apresentar na pol�cia de fronteiras e imediatamente pedir asilo pol�tico, o que ele fez usando um ingl�s prec�rio. Foi transferido para um centro de refugiados em Upplands-V�sby, e ali passou os dois anos seguintes, at� que o Minist�rio da Imigra��o concluiu que n�o havia motivos suficientes para Idris Ghidi obter um visto de resid�ncia na Su�cia.</p><p>A essa altura, Ghidi j� havia aprendido a falar sueco e recebido tratamento m�dico para o seu quadril esmagado. Passara por duas cirurgias e conseguia se locomover sem muletas. Nesse meio-tempo, houvera o "n�o" dos moradores de Sj�bo aos imigrantes, alguns centros de refugiados tinham sido alvo de atentados e Bert Karlsson fundara o Partido Nova Democracia.</p><p>O motivo exato pelo qual Idris Ghidi constava nos arquivos da imprensa era que, no �ltimo instante, um novo advogado reunira a imprensa para explicar a situa��o. Outros curdos que viviam na Su�cia se mobilizaram a favor de Idris Ghidi, entre os quais alguns membros da combativa fam�lia Baksi. Houve reuni�es de protesto, e abaixo-assinados foram enviados ao ministro da Imigra��o, Birgit Friggebo. A repercuss�o na m�dia foi tanta que o Minist�rio da Imigra��o acabou modificando sua decis�o. Ghidi obteve um visto de resid�ncia e um emprego no reino da Su�cia. Em janeiro de 1992, deixou o centro de refugiados de Upplands-V�sby na condi��o de homem livre.</p><p>Ao deixar o centro de refugiados, um novo desafio aguardava Idris Ghidi. Ele precisava encontrar trabalho enquanto ainda fazia fisioterapia no seu quadril destru�do. Idris Ghidi logo iria descobrir que o fato de ele ter uma s�lida forma��o como engenheiro civil, com anos de experi�ncia e diplomas legalmente reconhecidos n�o queria dizer nada. Nos anos que se seguiram trabalhou como entregador de jornais, lavador de pratos, gari e motorista de t�xi. Viu-se obrigado a pedir demiss�o do emprego de entregador de jornais Simplesmente n�o conseguia subir escadas no ritmo necess�rio. Gostava do trabalho de taxista, mas havia dois problemas. N�o conhecia minimamente a rede vi�ria de Estocolmo e n�o conseguia ficar im�vel mais de uma hora seguida sem que a dor no quadril se tornasse insuport�vel.</p><p>Em maio de 1998, Idris Ghidi se mudou para G�teborg. Um parente distante se compadecera de sua situa��o e lhe oferecera um emprego fixo numa firma de limpeza. Como Idris Ghidi n�o podia trabalhar em tempo integral, deram-lhe um servi�o de meio per�odo como chefe de uma das equipes de faxineiros do Hospital Sahlgrenska, que terceirizava os servi�os. Seu trabalho, f�cil e met�dico, consistia em lavar o piso de alguns setores, entre eles o 11C, seis dias por semana.</p><p>Mikael Blomkvist leu o resumo de Daniel Olofsson e examinou a foto de Idris Ghidi no cadastro de passaportes. Em seguida, abriu o site dos arquivos de imprensa e selecionou v�rios que haviam servido de base para o resumo de Olofsson. Leu atentamente e depois passou um bocado de tempo refletindo. Acendeu um cigarro. A proibi��o de fumar na reda��o fora rapidamente abolida depois da sa�da" de Erika Berger. Henry Cortez chegava a deixar um cinzeiro sobre sua mesa, � vista de todos.</p><p>Por fim, Mikael pegou a folha A4 que Daniel Olofsson produzira sobre Anders Jonasson. Leu o texto, e sulcos profundos foram marcando sua testa.</p><p>Mikael Blomkvist n�o estava vendo o carro com a placa KAB nem tinha a sensa��o de estar sendo seguido, mas preferiu n�o dar chance ao azar na segunda-feira, quando foi da livraria universit�ria � entrada secund�ria da loja de departamentos NK, saindo em seguida pela porta principal. Para conseguir vigiar algu�m dentro de uma loja de departamentos, s� sendo um super-homem. Desligou os dois celulares e foi a p� at� a Pra�a Gustaf Adolf. Entrou na galeria, passou em frente ao Hotel do Parlamento e penetrou na cidade velha. At� onde podia avaliar, n�o estava sendo seguido. Deu v�rias voltas pelas pequenas vielas at� chegar ao endere�o que queria e bateu � porta da editora Svartvitt.</p><p>Eram duas e meia da tarde. Mikael n�o avisara que ia aparecer, mas o redator Kurdo Baksi estava l� e seu rosto se iluminou ao ver Mikael Blomkvist.</p><p>- Ora, como vai � disse Baksi cordialmente. � Por que n�o vem mais nos visitar?</p><p>- Aqui estou � disse Mikael.</p><p>- Sim, mas deve fazer uns tr�s anos, no m�nimo, desde a �ltima vez.</p><p>Apertaram-se as m�os.</p><p>Mikael Blomkvist conhecia Kurdo Baksi desde os anos 1980. Mikael fora um dos que tinham ajudado Baksi quando ele lan�ara a Svartvitt, que eles ainda imprimiam � noite e �s escondidas na Federa��o dos Sindicatos. Kurdo fora flagrado por Per-Erik-Astr�m, o futuro ca�ador de ped�filos do Radda Bamen. Certa noite, Astr�m entrou na gr�fica da Federa��o e deu com pilhas de p�ginas do primeiro n�mero da Svartvitt e com um Kurdo Baksi totalmente sem gra�a. Astr�m contemplou a diagrama��o horrorosa da primeira p�gina e declarou que n�o era daquele jeito que se fazia a droga de uma revista. Em seguida, desenhou o logotipo que apareceria no cabe�alho da Svartvitt por quinze anos, at� a revista ser enterrada e sucedida pela editora Svarvitt. Na �poca, Mikael encerrava um per�odo odioso como respons�vel pelo setor de atualidades na Federa��o � sua �nica e exclusiva passagem por essa �rea. Per-Erik Astr�m o convencera a corrigir as provas da Svartvitt e a dar uma m�ozinha na reda��o dos textos. A partir da�, Kurdo Baksi e Mikael Blomkvist se tornaram amigos.</p><p>Mikael Blomkvist sentou-se num sof� enquanto Kurdo Baksi ia buscar caf� na m�quina do corredor. Conversaram durante algum tempo, como � natural quando as pessoas n�o se v�em h� muito, mas a todo momento eram mterrompidos pelo celular de Kurdo. Ele tinha breves di�logos em curdo, ou quem sabe em turco, ou �rabe, ou sabe Deus em que outra l�ngua que Mikael n�o entendia. Toda vez que Mikael fora � editora Svartvitt tinha sido a mesma coisa. Gente ligando do mundo inteiro para falar com Kurdo.</p><p>� Meu caro Mikael, voc� parece preocupado. O que o traz aqui? � Perguntou Kurdo Baksi por fim.</p><p>� Voc� poderia desligar o celular por uns cinco minutos para a gente Poder falar em paz?</p><p>Kurdo desligou o celular.</p><p>�- � o seguinte... preciso de um favor. Um favor importante, e ainda por cima tem que ser r�pido e n�o pode ser comentado fora desta sala.</p><p>� Diga.</p><p>� Em 1989, um refugiado curdo chamado Idris Ghidi chegou � Su�cia vindo do Iraque. Quando amea�aram expuls�-lo, a sua fam�lia, Kurdo, o ajudou, e � gra�as a ela que ele acabou conseguindo um visto de perman�ncia. N�o sei se quem o ajudou foi seu pai ou alguma outra pessoa da fam�lia.</p><p>� Foi meu tio, Mahmut Baksi, quem ajudou o Idris Ghidi. Eu conhe�o o Idris. O que houve com ele?</p><p>� Ele agora trabalha em G�teborg. Preciso da sua ajuda para um servi�o simples. Eu pago.</p><p>� Que tipo de servi�o?</p><p>� Voc� confia em mim, Kurdo?</p><p>� Mas � claro. Sempre fomos amigos.</p><p>� Trata-se de um servi�o especial. Muito especial. N�o quero dizer em que ele consiste, mas garanto a voc� que n�o � nada ilegal e que n�o vai criar nenhum problema para voc� nem para o Idris Ghidi.</p><p>Kurdo Baksi fitou Mikael Blomkvist atentamente.</p><p>� Entendo. Mas voc� n�o quer me dizer do que se trata.</p><p>� Quanto menos voc� souber, melhor. Mas preciso que voc� me ponha em contato com o Idris, para que ele ou�a o que eu tenho a dizer.</p><p>Kurdo refletiu um instante. Ent�o foi at� sua mesa e abriu uma caderneta. Procurou um pouco at� encontrar o n�mero do telefone de Idris Ghidi. Pegou o fone. A conversa se deu em curdo. Pela express�o de Kurdo, Mikael percebeu que ela come�ou com as frases e os pre�mbulos rituais de gentileza. Depois, ficou s�rio e explicou o que queria. Passado um momento, virou-se para Mikael.</p><p>� Quando voc� quer se encontrar com ele?</p><p>� Na sexta � tarde, se poss�vel. Pergunte se posso ir � casa dele. Kurdo falou mais um pouco e encerrou a liga��o.</p><p>� O Idris Ghidi mora em Angered � disse Kurdo Baksi. � Voc� tem o endere�o?</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Ele vai te esperar em casa, na sexta-feira, �s cinco da tarde.</p><p>� Obrigado, Kurdo � disse Mikael.</p><p>� Ele trabalha no Hospital Sahlgrenska, na limpeza � disse Kurdo Baksi.</p><p>- Eu sei � disse Mikael.</p><p>- Soube pelos jornais que voc� est� envolvido nesse caso Salander.</p><p>___ � verdade.</p><p>� Andaram atirando nela. .� Isso mesmo.</p><p>� � interessante que ela esteja justamente no Sahlgrenska.</p><p>� Isso tamb�m � verdade.</p><p>Kurdo Baksi tamb�m n�o tinha nascido ontem.</p><p>Percebeu que Blomkvist tramava algo suspeito, era a especialidade dele. Conhecia Mikael desde os anos 1980. Nunca tinham sido muito pr�ximos, mas Mikael sempre atendera quando Kurdo lhe pedira algum favor. Nos �ltimos anos, tinha acontecido de eles tomarem uma ou outra cerveja juntos, quando se cruzavam numa festa ou num bar.</p><p>� Ser� que eu n�o estou me envolvendo em alguma coisa que eu deveria saber? � perguntou Kurdo.</p><p>� Voc� n�o est� se envolvendo em nada. Seu papel � apenas fazer o favor de me apresentar um conhecido seu. E repito... o que eu vou pedir para o Idris Ghidi fazer n�o � ilegal.</p><p>Kurdo assentiu com a cabe�a. Esta garantia lhe bastava. Mikael se levantou.</p><p>� Fico te devendo essa.</p><p>� Uma vez eu, outra voc�... a gente est� sempre se devendo algum favor � disse Kurdo Baksi.</p><p>Henry Cortez p�s o fone no gancho e tamborilou t�o ruidosamente os dedos na beira da mesa que Monika Nilsson, irritada, ergueu uma sobrancelha e lan�ou-lhe um olhar mort�fero. Notou que ele estava profundamente imerso em seus pensamentos. Estava com os nervos � flor da pele e resolveu n�o descontar em Henry.</p><p>Monika Nilsson sabia que Blomkvist andava de segredos com Cortez, Malu Eriksson e Christer Malm em raz�o do caso Salander, enquanto esperavam que ela e Lottie Karim fizessem o grosso do trabalho para o pr�ximo numero de uma revista que, na verdade, estava sem dire��o desde a sa�da de</p><empty-line/><p>Erika Berger. N�o havia o que criticar em Malu, mas ela n�o tinha nem a experi�ncia nem o peso de Erika Berger. E Cortez n�o passava de um garoto.</p><p>A irrita��o de Monika Nilsson n�o vinha de ela se sentir exclu�da ou querer estar no lugar deles � era, ali�s, a �ltima coisa que ela iria querer. Seu trabalho consistia em observar o governo, o Parlamento e o funcionalismo pela Millennium. Gostava desse trabalho e conhecia todos os seus meandros. Tamb�m estava envolvida em muitas outras tarefas, entre outras coisas escrever uma coluna semanal para um jornal sindical e um trabalho volunt�rio para a Anistia Internacional. Isso era inconcili�vel com o cargo de redatora--chefe da Millennium, que a levaria a trabalhar no m�nimo doze horas por dia, al�m de sacrificar fins de semana e feriados.</p><p>Tinha, por�m, a impress�o de que algo mudara na Millennium. N�o estava reconhecendo a revista. E n�o conseguia detectar o que soava errado.</p><p>Como sempre, Mikael Blomkvist vinha tendo um comportamento irrespons�vel, sumindo em suas viagens misteriosas e entrando e saindo quando bem entendesse. Claro, ele era co-propriet�rio da Millennium e tinha o direito de decidir o que queria fazer, mas era leg�timo exigir dele um m�nimo de responsabilidade.</p><p>Christer Malm era o outro copropriet�rio, mas n�o ajudava mais do que quando estava de f�rias. Era, sem d�vida alguma, muito talentoso e j� assumira o posto de redator-chefe quando Erika estava de licen�a ou ocupada, por�m de modo geral s� organizava o que j� havia sido decidido pelos outros. Era brilhante em tudo que se relacionava com cria��o gr�fica e diagrama��o, mas completamente in�til para planejar uma revista.</p><p>Monika Nilsson franziu o cenho.</p><p>N�o, estava sendo injusta. O que a irritava era alguma coisa ter acontecido na reda��o. Mikael trabalhava com Malu e Henry, e os demais ficavam, de certa forma, exclu�dos. Eles tinham formado uma panelinha e se trancavam na sala de Erika... de Malu, e sa�am de l� sem dizer uma palavra. Sob a dire��o de Erika, tudo era coletivo. Monika n�o entendia o que acontecera, mas entendia que estava sendo deixada de lado.</p><p>Mikael estava trabalhando no caso Salander e n�o deixava escapar uma palavra sobre o assunto. Isso, por�m, n�o era novidade. Ele tampouco dissera alguma coisa na �poca do caso Wennerstr�m � a pr�pria Erika n�o soubera de nada �, mas desta vez tinha Henry e Malu como confidentes.</p><p>Em suma, Monika estava irritada. Estava precjsando de f�rias. Precisando de dist�ncia. Viu Henry Cortez vestir seu casaco de veludo cotel�.</p><p>� Vou dar uma volta � disse ele. � Voc� pode dizer para a Malu que eu vou ficar fora por umas duas horas?</p><p>� O que houve?</p><p>� Acho que talvez eu tenha descoberto alguma coisa. Um superfuro. Sobre vasos sanit�rios. Preciso conferir uns detalhes, mas, se estiver tudo certo, vamos ter um texto legal para o n�mero de junho.</p><p>� Vasos sanit�rios? � espantou-se Monika Nilsson, enquanto ele sa�a.</p><p>Erika Berger cerrou os dentes e largou devagar o texto sobre o futuro julgamento de Lisbeth Salander. N�o era longo, duas colunas, destinado � p�gina 5 com as atualidades nacionais. Eram tr�s e meia da tarde de uma quinta-feira. Fazia doze dias que ela estava trabalhando no SMP. Pegou o telefone e ligou para o chefe de Atualidades, Lukas Holm.</p><p>� Ol�, � a Berger. Voc� poderia procurar o jornalista Johannes Frisk e vir com ele agora mesmo at� a minha sala, por favor?</p><p>Ela desligou e esperou pacientemente at� Holm chegar ao aqu�rio, seguido por Johannes Frisk. Erika olhou o rel�gio.</p><p>� Vinte e dois � disse ela.</p><p>� O qu�? � disse Holm.</p><p>� Vinte e dois minutos. Voc� precisou de vinte e dois minutos para se levantar de sua mesa, percorrer os quinze metros que te separam da mesa de Johannes Frisk e se dignar a vir at� aqui.</p><p>� Voc� n�o falou que era urgente. Estou razoavelmente ocupado.</p><p>� Eu n�o falei que era urgente. Falei que era para voc� buscar o Johannes Frisk e vir at� a minha sala. Eu disse "agora mesmo", o que queria dizer imediatamente, e n�o hoje � noite ou na semana que vem, ou quando fosse conveniente para voc� tirar a bunda da cadeira.</p><p>� Ei, eu estou achando...</p><p>� Feche a porta.</p><p>Ela esperou Lukas Holm fechar a porta atr�s de si. Erika o observou em sil�ncio. Ele era, sem d�vida, um chefe de Atualidades particularmente competente, cujo papel era cuidar para que as p�ginas do SMP sempre trouxessem bons textos, compreens�veis e organizados no espa�o definido durante a reuni�o da manh�. Lukas Holm, de fato, fazia diariamente malabarismo com uma quantidade gigantesca de tarefas. E fazia isso sem deixar cair nenhuma bola.</p><p>O problema � que ele ignorava sistematicamente as decis�es de Erika Berger. Por quase duas semanas, ela tentara achar um jeito de conseguir trabalhar com ele. Argumentara com cordialidade, experimentara ordens diretas, o estimulara a pensar de forma diferente e, no geral, fizera de tudo para ele entender qual a concep��o que ela tinha do jornal.</p><p>Nada disso funcionara.</p><p>Um texto recusado por ela � tarde aparecia no jornal � noitinha, quando ela voltava para casa. E que exclu�mos um texto e ficamos com uma lacuna que t�nhamos que preencher de qualquer maneira, ele dizia.</p><p>O t�tulo escolhido por Erika de repente era rejeitado e substitu�do por outro bem diferente. Nem sempre era ruim, mas isso acontecia sem que ela fosse consultada. Acontecia, inclusive, de maneira provocativa e ostensiva.</p><p>Sempre se tratava de ninharias. A reuni�o da reda��o prevista para as catorze horas era adiantada para as 13h50 de uma hora para outra, sem que ela fosse informada, a maioria das decis�es j� estava tomada quando ela por fim chegava. Oh, me desculpe... esqueci completamente de te avisar.</p><p>Era muito dif�cil para Erika Berger entender por que Lukas Holm assumia essa atitude em rela��o a ela, mas o fato � que as conversas cordiais e as reprimendas discretas n�o funcionavam. At� ent�o, achara melhor n�o discutir o problema na presen�a de outros colaboradores da reda��o, procurando limitar sua irrita��o �s conversas pessoais e confidenciais. Nada surtira efeito, de modo que chegara a hora de se expressar mais claramente, dessa vez na presen�a do colaborador Johannes Frisk, garantia de que o teor da conversa se espalharia por toda a reda��o.</p><p>� A primeira coisa que eu disse quando comecei a trabalhar aqui foi que tenho um particular interesse por tudo o que diz respeito a Lisbeth Salander. Expliquei que queria ser informada de todos os artigos que estivessem previstos e que queria olhar e aprovar tudo o que fosse ser publicado. J� lembrei voc� disso pelo menos uma d�zia de vezes, sendo que a �ltima vez foi na reuni�o da reda��o de sexta-feira passada. Que parte dessa instru��o voc� n�o entendeu?</p><p>� Todos os textos previstos ou j� na fase de reda��o est�o nas pautas di�rias na intranet. Eles s�o sistematicamente enviados para o seu computador. Voc� � informada o tempo todo.</p><p>� Balela. Quando recebi o SMP na minha caixa de correspond�ncia hoje de manh�, encontrei tr�s colunas sobre a Salander e o acompanhamento do caso de Stallarholmen no espa�o nobre de Atualidades.</p><p>� Era o texto da Margareta Orring. Ela � frila e s� mandou o texto ontem l� pelas sete da noite.</p><p>� A Margareta Orring ligou para oferecer o artigo ontem �s onze da manh�. Voc� aceitou e encomendou o trabalho por volta das onze e meia. E n�o disse uma palavra sobre assunto na reuni�o das duas da tarde.</p><p>� Mas ele consta na pauta do dia.</p><p>� Ah, �? Na pauta do dia consta o seguinte: "Margareta Orring, entrevista com a procuradora Martina Fransson. Cf. apreens�o de entorpecentes em S�dert�lje".</p><p>� O assunto de base era uma entrevista com a Martina Fransson a respeito de uma apreens�o de esteroides anabolizantes, que resultou na pris�o de um membro do MC Svavelsj�.</p><p>� T� bom! E na pauta do dia n�o aparece uma palavra sobre o MC Svavelsj� nem sobre o fato de que o artigo iria se articular em torno de Magge Lundin e Stallarholmen e, portanto, em torno de Lisbeth Salander.</p><p>� Imagino que a coisa tenha se definido no decorrer da entrevista...</p><p>� Lukas, n�o sei qual o motivo, mas voc� est� mentindo para mim enquanto olha nos meus olhos. Eu falei com a Margareta Orring, que escreveu o texto. Ela lhe explicou muito claramente qual era o assunto central da entrevista.</p><p>� Sinto muito, mas acho que n�o entendi que ela ia focar na Salander. Acontece que recebi o texto muito tarde, j� de noite. O que eu devia fazer? Jogar tudo fora? E um bom texto, esse da Orring.</p><p>� Nesse ponto n�s concordamos. E um texto excelente. E chegamos � sua terceira mentira em mais ou menos tr�s minutos. Porque a Orring entregou o texto �s tr�s e vinte da tarde, ou seja, muito antes das seis horas, quando eu sa�.</p><p>� Berger, eu n�o estou gostando do seu tom.</p><p>� �timo. Ent�o posso dizer que eu tamb�m n�o gosto do seu tom, nem dos seus pretextos, nem das suas mentiras.</p><p>� Quem ouve at� pode achar que eu estou armando algum tipo de conspira��o contra voc�.</p><p>� Voc� ainda n�o respondeu a minha pergunta. E agora mais esta: hoje chega � minha mesa este texto do Johannes Frisk. N�o lembro de termos falado sobre ele na reuni�o das duas horas. Como pode um dos nossos jornalistas ter passado o dia trabalhando sobre a Salander sem que eu estivesse � par?</p><p>johannes Frisk se remexeu na cadeira. Teve o bom senso de permanecer calado.</p><p>� Mas afinal... a gente est� produzindo um jornal. Deve haver centenas de textos que voc� n�o conhece. Aqui no SMP a gente tem uma rotina, e cabe a cada um se adaptar a ela. N�o tenho nem tempo nem condi��es de me deter em certos textos espec�ficos.</p><p>� Eu n�o lhe pedi que se detivesse em certos textos espec�ficos. Eu exigi, primeiro, ser informada de tudo o que diz respeito ao caso Salander e, segundo, poder endossar tudo o que fosse publicado sobre o assunto. Ent�o vou repetir a pergunta: que parte dessa instru��o voc� n�o entendeu?</p><p>Lukas Holm suspirou e exibiu uma express�o atormentada.</p><p>� Est� bem � disse Erika Berger. � Ent�o vou ser mais clara ainda. N�o tenho a inten��o de ficar discutindo. Vamos ver se voc� entende a seguinte mensagem. Se essa situa��o se repetir, tiro voc� da editoria de Atualidades. Vai ser o maior bafaf�, e depois disso voc� vai ficar redigindo a p�gina Fam�lia, ou Lazer, ou algo assim. N�o posso ficar com um editor de Atualidades em quem n�o confio, ou com quem n�o posso trabalhar, e que passa o tempo todo boicotando as minhas decis�es. Est� entendido?</p><p>Lukas Holm fez um gesto de m�os para expressar como achava um del�rio as acusa��es de Erika Berger.</p><p>� Entendeu? Ou n�o?</p><p>� Estou escutando.</p><p>� Eu perguntei se voc� entendeu ou n�o.</p><p>� Voc� acha mesmo que vai se safar desse jeito? Esse jornal s� sai porque eu e outras pe�as desta engrenagem nos matamos de trabalhar. O conselho administrativo vai...</p><p>� O conselho vai fazer o que eu mandar. Estou aqui para renovar o jornal. Tenho uma miss�o expressa, que a gente negociou juntos com o maior cuidado e que me d� o direito de fazer mudan�as de peso na reda��o no n�vel das chefias. Posso me desfazer do sup�rfluo e contratar sangue novo quando eu quiser. E, Holm, para mim voc� est� come�ando a parecer cada vez mais sup�rfluo.</p><p>Ela se calou. Holm cruzou o olhar com o seu. Parecia furioso.</p><p>� � s� isso � disse Erika Berger. � Sugiro que voc� reflita seriamente no que acabamos de falar.</p><p>� N�o tenho a inten��o...</p><p>� S� depende de voc�. � s�. Pode se retirar.</p><p>Ele deu meia-volta e saiu do aqu�rio. Ela o viu atravessar o formigueiro da reda��o e desaparecer na sala dos funcion�rios. Johannes Frisk se levantou para ir atr�s dele.</p><p>� Voc� fica, Johannes. Sente-se.</p><p>Ela pegou o texto dele e o percorreu com os olhos mais uma vez.</p><p>� Pelo que entendi, voc� est� aqui como substituto.</p><p>� Sim. Faz cinco meses, esta � a minha �ltima semana.</p><p>� Quantos anos voc� tem?</p><p>� Vinte e sete.</p><p>� Lamento ter te colocado nesta briga entre mim e o Holm. Me fale sobre o seu artigo.</p><p>� Me passaram uma informa��o hoje de manh� e eu comuniquei ao Holm. Ele falou para eu tocar em frente.</p><p>� Certo. Quer dizer que, no momento, a pol�cia est� trabalhando com a hip�tese de que a Lisbeth Salander estaria envolvida numa venda de ester�ides anabolizantes. O seu artigo tem alguma rela��o com o texto de ontem, sobre S�dert�lje, que tamb�m falava em anabolizantes?</p><p>� N�o sei, pode ser. Essa hist�ria de anabolizantes surgiu da rela��o dela com o boxeador. O Paolo Roberto e os amigos dele.</p><p>� Porque o Paolo Roberto usa anabolizantes?</p><p>� O qu�? N�o, claro que n�o. Tem mais a ver com o ambiente do boxe. A Salander treina boxe com uns caras meio suspeitos num clube do S�der. Mas essa � a vis�o da pol�cia, n�o a minha. Foi em algum ponto por a� que surgiu a id�ia de que ela estaria metida com a venda de anabolizantes.</p><p>� Portanto o artigo n�o se fundamenta em nada, a n�o ser num boato � toa?</p><p>� N�o � um boato, � uma hip�tese que a pol�cia est� considerando. Se eles est�o certos ou errados, a� j� n�o fa�o id�ia.</p><p>� Perfeito, Johannes. Quero que voc� saiba que o que eu estou conversando com voc� agora n�o tem nada a ver com a minha rela��o com o Lukas Holm. Acho voc� um excelente jornalista. Escreve bem e � atento aos detalhes. Em suma, esse artigo que voc� escreveu est� muito bom. Meu �nico problema � que n�o acredito numa s� palavra do conte�do dele.</p><p>� Posso garantir que ele est� absolutamente correto.</p><p>� Vou te explicar por que esse artigo traz um erro fundamental. Quem lhe passou a informa��o?</p><p>� Uma fonte policial.</p><p>� Quem?</p><p>Johannes Frisk hesitou. Sua retic�ncia era instintiva. Como qualquer jornalista no mundo inteiro, ele n�o gostava de revelar suas fontes. Por outro lado, Erika Berger era a redatora-chefe e, portanto, uma das poucas pessoas que podiam exigir que ele desse essa informa��o.</p><p>� Um policial da Brigada Criminal chamado Hans Faste.</p><p>� Foi ele que ligou ou voc�?</p><p>� Ele.</p><p>Erika Berger suspirou.</p><p>� E por que voc� acha que ele te ligou?</p><p>� Eu o entrevistei v�rias vezes durante a ca�ada � Salander. Ele sabe quem eu sou.</p><p>� E ele sabe que voc� tem vinte e sete anos, que � um jornalista substituto e que pode ser �til quando ele quiser plantar informa��es que o procurador gostaria de divulgar.</p><p>� Sim, entendo. Mas, veja bem, eu recebo uma informa��o de um investigador, vou tomar um caf� com o Faste e o que ele me conta � isso. Reproduzo fielmente a hist�ria dele. Ent�o, o que devo fazer?</p><p>� Tenho certeza de que voc� transcreveu tudo corretamente. O certo teria sido voc� levar a informa��o para o Lukas Holm, que me procuraria para explicar a situa��o, e assim a gente decidiria juntos como encaminhar o caso.</p><p>- Entendo. Mas eu...</p><p>- Voc� entregou o material ao Holm, que � o chefe de Atualidades.</p><p>- Voc� fez o certo. O Holm � que pisou na bola. Mas vamos dar uma analisada no seu texto. Primeiro, por que o Faste quer que essa informa��o se torne p�blica?</p><p>Johannes Frisk deu de ombros.</p><p>� Isso quer dizer que voc� n�o sabe ou que n�o est� nem a�?</p><p>� Que eu n�o sei.</p><p>� Tudo bem. Se eu disser que o seu artigo � mentiroso e que a Salander n�o tem nada a ver com ester�ides anabolizantes, voc� vai responder o qu�?</p><p>� Que eu n�o posso provar o contr�rio.</p><p>� Exato. Isso quer dizer que, segundo voc�, a gente pode publicar um artigo que talvez seja mentiroso s� porque n�o temos nada em contr�rio.</p><p>� N�o, a gente tem uma responsabilidade jornal�stica. Mas sempre se deve achar um equil�brio. N�o d� para deixar de publicar alguma coisa que uma fonte afirma expressamente.</p><p>� Essa � uma filosofia. A gente tamb�m pode se perguntar por que a fonte quer divulgar essa informa��o. Deixe eu explicar por que dei ordem para que tudo o que diz respeito � Salander passe pela minha mesa. Tenho informa��es particulares sobre esse assunto que mais ningu�m aqui no SMP tem. O jur�dico foi informado de que eu detenho essas informa��es e que n�o posso discuti-las com eles. A Millennium vai publicar uma mat�ria e, por contrato, n�o posso revelar nada ao SMP, embora eu esteja trabalhando aqui. Obtive essa informa��o na qualidade de diretora da Millennium e, no momento, estou numa situa��o delicada. Voc� entende o que quero dizer?</p><p>� Sim.</p><p>� E o que eu sei atrav�s Millennium me autoriza, sem hesita��o, a declarar que esse artigo � mentiroso e visa prejudicar a Lisbeth Salander antes do julgamento.</p><p>� E dif�cil prejudicar mais a Lisbeth Salander. Com todas as revela��es que j� foram feitas sobre ela...</p><p>� Revela��es que s�o, na maioria, mentirosas e deturpadas. O Hans Faste � uma das principais fontes de todas essas revela��es de que Lisbeth Salander seria uma l�sbica paran�ica e violenta que mexe com satanismo e sadomasoquismo. E a m�dia engoliu a vers�o do Faste apenas porque ele � uma fonte aparentemente s�ria e porque sempre � divertido escrever sobre sexo Agora ele est� enveredando por outra linha de tiro, que pretende condenar a Lisbeth Salander perante a opini�o p�blica, e ele quer que o SMP contribua nessa divulga��o. Lamento, mas n�o sob o meu comando.</p><p>� Entendo.</p><p>� Tem certeza? �timo. Ent�o posso resumir o meu discurso numa s� frase. A sua miss�o como jornalista � questionar e manter um olhar cr�tico, e n�o repetir tolamente qualquer declara��o, mesmo que ela venha de um figur�o das altas esferas administrativas. Voc� � um redator de primeira, mas seu talento n�o vai ter valor nenhum se voc� se esquecer da sua miss�o.</p><p>� Certo.</p><p>� Pretendo invalidar este artigo.</p><p>� Tudo bem.</p><p>� Ele n�o se sustenta. N�o acredito no que ele diz.</p><p>� Entendo.</p><p>� Isso n�o significa que eu n�o confie em voc�.</p><p>� Obrigado.</p><p>� Por isso vou te mandar de volta para a sua mesa com a proposta de um outro artigo.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Tem a ver com o meu contrato com a Millennium. Eu n�o posso revelar o que sei sobre o caso da Lisbeth Salander. Ao mesmo tempo, sou redatora-chefe de um jornal que est� sujeito a dar uma tremenda pisada na bola, j� que a reda��o n�o disp�e das mesmas informa��es que eu.</p><p>� Humm.</p><p>� Isso n�o � bom. Estamos numa situa��o �nica, que s� diz respeito � Salander. Por isso resolvi escolher um jornalista e gui�-lo na dire��o certa para a gente n�o ficar com cara de bobo quando a Millennium sair.</p><p>� E voc� acha que a Millennium vai publicar algo excepcional sobre a Salander?</p><p>� Eu n�o acho. Eu sei. A Millennium est� preparando um furo que vai dar uma reviravolta completa no caso Salander, e eu fico doida por n�o poder publicar a mat�ria. Por�m isso � imposs�vel.</p><p>� Mas voc� disse que vai rejeitar o meu texto porque sabe que ele esta errado. - Ent�o significa que voc� j� est� sabendo que existe alguma coisa no caso que os outros jornalistas deixaram passar.</p><p>- Exato.</p><p>- Me desculpe, mas � dif�cil acreditar que a m�dia sueca inteirinha</p><p>tenha ca�do numa armadilha dessas...</p><p>- A Lisbeth Salander foi v�tima de uma persegui��o da m�dia. Em casos assim, as regras deixam de ter valor e qualquer bobagem pode ir parar na primeira p�gina.</p><p>� Voc� est� dizendo que a Salander n�o � o que aparenta ser.</p><p>� Tente imaginar que ela � inocente das acusa��es que est�o lhe fazendo, que a imagem dela, constru�da pelas manchetes sensacionalistas, � falsa e que est�o envolvidas for�as bem diferentes das que se viram at� agora.</p><p>� Voc� est� dizendo que esse � o caso? Erika Berger fez que sim com a cabe�a.</p><p>� E isso significa que o que eu acabo de escrever faz parte da campanha que tem sido feita contra ela.</p><p>� Exato.</p><p>� Mas voc� n�o pode dizer o porqu� disso tudo?</p><p>� N�o.</p><p>Johannes Frisk cocou a cabe�a. Erika Berger esperou que ele terminasse de pensar.</p><p>� Est� bem... o que voc� quer que eu fa�a?</p><p>� Volte para a sua mesa e comece a pensar num outro artigo. N�o precisa se estressar, mas pouco antes de come�ar o julgamento eu queria publicar um texto longo, talvez de duas p�ginas, que analisasse a veracidade de todas as afirma��es que j� foram feitas sobre a Lisbeth Salander. Para come�ar, leia todos os artigos que sa�ram na imprensa, fa�a uma lista de tudo o que foi dito sobre ela e questione todas as afirma��es, uma por uma.</p><p>� Ah�...</p><p>� Pense como rep�rter. Descubra quem est� espalhando essa hist�ria, por que ela se espalhou e quem pode se beneficiar com ela.</p><p>� O detalhe � que n�o sei se ainda vou estar no SMP quando o julgamento come�ar. Como eu disse, esta � a minha �ltima semana como substituto.</p><p>Erika pegou uma pasta de pl�stico da gaveta da escrivaninha, tirou de l� de dentro um papel e o colocou diante de Johannes Frisk.</p><p>� J� prorroguei a sua substitui��o por mais tr�s meses. Esta semana voc� continua normalmente, e volta a se apresentar na segunda-feira que vem.</p><p>� Hum...</p><p>� Quer dizer, isso se voc� estiver interessado em continuar aqui.</p><p>� Claro que sim.</p><p>� Voc� foi contratado para um servi�o de investiga��o fora do trabalho normal da reda��o. Vai trabalhar diretamente sob as minhas ordens. Ser� o nosso enviado especial no julgamento Salander.</p><p>� O chefe de Atualidades vai estrilar...</p><p>� N�o se preocupe com o Holm. J� falei com o chefe do jur�dico, e ele vai cuidar para que n�o haja problema com eles. Mas voc� vai meter o nariz nos bastidores, em vez de ficar levantando informa��es comuns. Est� bem assim?</p><p>� Est� �timo.</p><p>� Bem... ent�o era isso. At� segunda.</p><p>Ela fez um sinal para que ele se retirasse. Quando tornou a levantar os olhos, percebeu que Lukas Holm olhava para ela do outro lado do polo central. Ele baixou os olhos e fingiu n�o v�-la.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>11.� SEXTA-FEIRA 13 DE MAIO - S�BADO 14 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist tomou o maior cuidado para n�o ser seguido quando, na sexta-feira bem cedo, foi a p� da reda��o da Millennium at� o antigo endere�o de Lisbeth Salander na Lundagatan. Precisava ir a G�teborg se encontrar com Idris Ghidi. A quest�o era achar um meio de transporte seguro, sem riscos de ser identificado e que n�o deixasse pistas. Depois de muito ponderar, rejeitara o trem, por n�o querer usar seu cart�o de banco. Em geral, pegava emprestado o carro de Erika Berger, mas isso j� n�o era poss�vel. Chegara a pensar em pedir que Henry Cortez, ou outra pessoa, alugasse um carro para ele, mas isso tamb�m acabaria deixando pistas em alguma papelada.</p><p>Por fim, descobriu a solu��o �bvia. Sacou uma quantia significativa num caixa autom�tico da G�tgatan. Usou as chaves de Lisbeth Salander para abrir a porta do Honda cor de vinho dela, que estava abandonado na frente de sua resid�ncia desde o m�s de mar�o. Ajustou o assento e constatou que o tanque estava pela metade. Deu a partida e dirigiu-se para a E4 pela ponte de Liljeholmen.</p><p>Em G�teborg, estacionou �s 14h50 numa rua transversal � Avenyn. Pediu um almo�o tardio no primeiro bar que encontrou. As 16hl0, pegou o bonde para Angered e desceu no centro. Levou vinte minutos para achar o endere�o de Idris Ghidi. Estava dez minutos atrasado para o encontro.</p><p>Idris Ghidi mancava. Abriu a porta, apertou a m�o de Mikael Blomkvist e o convidou a entrar numa sala de mob�lia espartana. Sobre uma c�moda ao lado da mesa em que convidou Mikael a se sentar, havia uma d�zia de fotografias emolduradas, que Mikael contemplou.</p><p>� Minha fam�lia � disse Idris Ghidi.</p><p>Falava com um sotaque carregado. Mikael calculou que ele n�o sobreviveria ao teste de profici�ncia no idioma proposto pelos moderados.</p><p>� S�o seus irm�os?</p><p>� Meus dois irm�os, � esquerda, foram assassinados por Saddam nos anos 1980, assim como meu pai, que est� ali no meio. A minha m�e morreu em 2000. Minhas tr�s irm�s est�o vivas. Moram no exterior. Duas na S�ria e a ca�ula em Madri.</p><p>Mikael meneou a cabe�a. Idris Ghidi serviu um caf� turco.</p><p>� O Kurdo Baksi mandou lembran�as.</p><p>Idris Ghidi fez um gesto de assentimento com a cabe�a.</p><p>� Ele lhe explicou o que eu queria?</p><p>�� O Kurdo me disse que voc� queria me contratar para um servi�o, mas n�o disse o que era. J� vou dizendo que n�o aceito fazer nada ilegal. N�o posso me dar ao luxo de me envolver nesse tipo de coisa.</p><p>Mikael balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o h� nada de ilegal no que eu vou lhe pedir, mas � uma coisa meio incomum. O servi�o vai durar v�rias semanas, e seu trabalho propriamente dito dever� ser feito todos os dias. Por outro lado, vai levar apenas poucos minutos por dia. Estou disposto a lhe pagar mil coroas por semana. O dinheiro vai para voc� direto, nem precisa passar pelo fisco.</p><p>� Entendo. O que eu teria que fazer?</p><p>� Voc� trabalha no setor de limpeza do Hospital Sahlgrenska. Idris Ghidi fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Uma das suas tarefas di�rias � ou pelo menos seis dias por semana, pelo que entendi � consiste em fazer a faxina do setor 11C, ou seja, a unidade de tratamento intensivo.</p><p>Idris Ghidi meneou a cabe�a.</p><p>� O que eu queria de voc� � o seguinte.</p><p>Mikael Blomkvist se inclinou para a frente e explicou sua proposta.</p><p>O procurador Richard Ekstr�m contemplou, pensativo, seu visitante. Era a terceira vez que se encontrava com o delegado Georg Nystr�m. Viu um rosto enrugado, emoldurado por cabelos grisalhos. Georg Nystr�m o visitara pela primeira vez nos dias que se seguiram ao assassinato de Zalachenko. Exibira uma carteira profissional provando que trabalhava para a DGPN/S�po. Tiveram uma longa conversa em voz baixa.</p><p>� � importante que o senhor entenda que de maneira alguma estou tentando interferir na sua atua��o ou fazer o seu trabalho � disse Nystr�m.</p><p>Ekstr�m fez um gesto de assentimento com a cabe�a.</p><p>� Queria tamb�m enfatizar que em hip�tese alguma o senhor poder� tornar p�blica a informa��o que vou lhe passar.</p><p>� Entendo � disse Ekstr�m.</p><p>Para ser sincero, Ekstr�m n�o entendia muito bem, mas n�o queria parecer tolo fazendo perguntas demais. Percebera que o caso Zalachenko era algo a ser tratado com a m�xima cautela. Percebera tamb�m que as visitas de Nystr�m eram totalmente informais, mesmo havendo uma conex�o com o chefe da Seguran�a.</p><p>� Estamos falando de vidas humanas � explicara Nystr�m j� no primeiro encontro. � Para n�s, da Sapo, tudo o que se refere � verdade sobre o caso Zalachenko � considerado segredo de Estado. Posso confirmar que se trata de um ex-agente secreto que desertou da espionagem militar sovi�tica e uma das figuras-chave na ofensiva dos russos contra a Europa Ocidental nos anos 1970.</p><p>� Pois �... aparentemente, � o que afirma o Mikael Blomkvist.</p><p>� Nesse caso, o Mikael Blomkvist est� coberto de raz�o. Ele � jornalista e deparou com um dos casos mais secretos da Defesa sueca em todos os tempos.</p><p>� Ele vai publicar essa hist�ria.</p><p>� Evidentemente. Ele representa a imprensa, com todas as suas vantagens e desvantagens. Vivemos numa democracia e n�o temos nenhuma influ�ncia sobre o que circula na m�dia. A desvantagem, nesse caso, � que o Blomkvist obviamente s� conhece uma parte �nfima da verdade sobre o Zalachenko, e muito do que ele sabe est� errado.</p><p>� Entendo.</p><p>� O que o Blomkvist n�o percebe � que, se a verdade sobre o Zalachenko vier � tona, os russos v�o conseguir identificar os nossos informantes e as nossas fontes entre eles. Isso significa que pessoas que arriscaram a vida pela democracia poderiam ser mortas.</p><p>� Mas a R�ssia tamb�m se tornou uma democracia, n�o �? Quero dizer, se tudo isso aconteceu no tempo dos comunistas, ent�o...</p><p>� Que ilus�o! Estamos falando de gente que fez espionagem contra a R�ssia � nenhum regime do mundo aceitaria uma coisa dessas, mesmo que tenha acontecido h� v�rios anos. E muitas dessas fontes ainda est�o em atividade...</p><p>Esses agentes n�o existiam, mas isso o procurador Ekstr�m n�o tinha como saber. Era obrigado a aceitar o que Nystr�m dizia. E, contra a sua vontade, sentia-se lisonjeado por partilhar, daquele modo informal, informa��es consideradas segredo de seguran�a nacional. Estava vagamente surpreso que a Seguran�a sueca tivesse conseguido penetrar na defesa russa at� onde Nystr�m dava a entender e entendia perfeitamente que aquele tipo de informa��o sem d�vida n�o podia ser divulgado.</p><p>� Quando me encarregaram de entrar em contato com o senhor, realizamos uma avalia��o minuciosa a seu respeito � disse Nystr�m.</p><p>Para seduzir uma pessoa, sempre � preciso identificar seus pontos fracos. O ponto fraco do procurador Ekstr�m era a convic��o que ele tinha de sua pr�pria import�ncia, e, como todo mundo, ele apreciava a lisonja. O objetivo era ele pensar que havia sido escolhido.</p><p>� E constatamos que o senhor goza da maior confian�a dentro da pol�cia... e tamb�m, � claro, nas esferas governamentais � acrescentou Nystr�m.</p><p>Ekstr�m se sentia no c�u. Que pessoas n�o mencionadas das esferas governamentais confiassem nele era uma informa��o que indicava, sem ser claramente dito, que ele poderia contar com alguma gratid�o se soubesse jogar suas cartas com habilidade. Era uma boa perspectiva para a sua carreira.</p><p>� Entendo... e o que voc�s desejam?</p><p>� Falando de maneira simples, minha miss�o � lhe fornecer elementos da forma mais discreta poss�vel. O senhor entende, claro, a que ponto essa hist�ria � incrivelmente complicada. Por um lado, h� um inqu�rito preliminar dentro das normas, pelo qual o senhor � o respons�vel. Ningu�m... nem 0 governo, nem a Seguran�a, nem quem quer que seja pode interferir na maneira como o senhor conduz esse inqu�rito. O seu trabalho consiste em descobrir a verdade e indiciar os culpados. E uma das fun��es mais importantes que existem num Estado de direito. Ekstr�m assentiu com a cabe�a.</p><p>� Por outro lado, seria uma cat�strofe nacional de propor��es quase inconceb�veis se toda a verdade sobre o Zalachenko fosse revelada.</p><p>� Qual �, ent�o, o objetivo de sua visita?</p><p>� Primeiro, cabe a mim chamar sua aten��o para essa situa��o delicada. N�o creio que a Su�cia tenha estado numa situa��o mais vulner�vel desde a Segunda Guerra Mundial. Pode-se dizer que o destino do pa�s est�, em certa medida, nas suas m�os.</p><p>� Quem � o seu chefe?</p><p>� Lamento, mas n�o posso revelar o nome das pessoas que est�o trabalhando nesse caso. Mas posso lhe garantir que as minhas instru��es v�m do escal�o mais alto que se possa imaginar.</p><p>Meu Deus. Ele est� agindo por ordem do governo. Mas isso n�o pode ser dito, pois isso desencadearia um desastre pol�tico.</p><p>Nystr�m viu que Ekstr�m estava mordendo a isca.</p><p>� Em compensa��o, o que posso fazer � ajud�-lo fornecendo informa��es. Estou autorizado a lhe repassar, na medida em que me parecer pertinente, um material considerado dos mais secretos que temos no pa�s.</p><p>� Entendo.</p><p>� Isso quer dizer que, quando o senhor tiver perguntas a fazer, quaisquer que sejam, dever� dirigir-se a mim. N�o dever� falar com mais ningu�m da Seguran�a, s� comigo. Minha miss�o � gui�-lo nesse labirinto, e se houver qualquer risco de um choque de interesses, vamos ter de encontrar juntos uma solu��o.</p><p>� Entendo. Nesse caso, permita-me dizer que fico muito grato por o senhor e seus colegas estarem dispostos a facilitar as coisas para mim, como est�o fazendo.</p><p>� Fazemos quest�o que as vias jur�dicas sigam seu curso normal, embora a situa��o seja delicada.</p><empty-line/><p>� Melhor assim. Posso garantir que serei de uma discri��o absoluta. N�o � a primeira vez que trabalho com dados sigilosos.</p><p>� Sim, estamos informados.</p><p>Ekstr�m fizera uma d�zia de perguntas, que Nystr�m anotara meticulosamente para tentar lhe trazer mais tarde respostas t�o completas quanto poss�vel. Durante uma terceira visita, Ekstr�m teria a resposta para v�rias dessas perguntas. A mais importante era o que havia de ver�dico no relat�rio de Bj�rckdel991.</p><p>� Isso � um problema para n�s � disse Nystr�m. Ele parecia preocupado.</p><p>� Talvez eu deva explicar, antes de mais nada, que desde que esse relat�rio veio � tona temos um grupo de an�lise trabalhando quase vinte e quatro horas por dia para esclarecer exatamente o que aconteceu. E j� estamos, afinal, chegando a algumas conclus�es. S�o conclus�es bastante desagrad�veis.</p><p>� Posso entender, j� que o relat�rio prova que a Sapo e o psiquiatra Peter Teleborian conspiraram para mandar internar Lisbeth Salander num hospital psiqui�trico.</p><p>� Antes tivesse sido assim � disse Nystr�m com um sorrisinho.</p><p>� O que o senhor quer dizer?</p><p>� Bem, se tivesse sido assim, tudo seria muito simples. Teria havido uma infra��o � lei que poderia resultar em indiciamento. O problema � que o relat�rio n�o corresponde ao que est� nos nossos arquivos.</p><p>� Como assim?</p><p>Nystr�m pegou uma pasta azul e a abriu.</p><p>� O que eu tenho aqui � o verdadeiro relat�rio que Gunnar Bj�rck redigiu em 1991. Temos tamb�m nos nossos arquivos os originais da correspond�ncia entre ele e o Teleborian. O problema � que as duas vers�es n�o batem.</p><p>� Me explique melhor.</p><p>� � um tremendo azar o Bj�rck ter se enforcado. Sup�e-se que ele tenha feito isso por causa das revela��es sobre seus desvios sexuais, que iam ser publicadas em breve. A Millennium pretendia denunci�-lo. Eles o levaram a tal desespero que ele preferiu acabar com a pr�pria vida.</p><p>� Sei...</p><p>� O relat�rio original � uma investiga��o sobre a tentativa de Lisbeth Salander de matar o pai, Alexander Zalachenko, com um coquetel Molotov.</p><p>As trinta primeiras p�ginas que o Blomkvist descobriu batem com o original. Essas p�ginas n�o trazem nenhuma informa��o sensacional. � s� a partir da p�gina 33, quando o Bj�rck tira suas conclus�es e emite um parecer, que aparece a diverg�ncia.</p><p>� De que jeito?</p><p>� Na vers�o original, o Bj�rck faz cinco recomenda��es muito claras. N�o vou esconder que ele prop�e que o caso Zalachenko desapare�a dos notici�rios. O Bj�rck sugere que a recupera��o de Zalachenko � que ficou gravemente queimado � fosse feita no exterior. Coisas desse tipo. Sugere tamb�m que seja oferecido a Lisbeth Salander o melhor tratamento psiqui�trico.</p><p>� Ah, �?</p><p>� O problema � que um bocado de frases foram alteradas, de maneira bem sutil. Na p�gina 34, h� um trecho em que o Bj�rck parece sugerir que a Salander seja declarada psic�tica, de modo a desacredit�-la caso algu�m come�asse a fazer perguntas sobre o Zalachenko.</p><p>� E essa sugest�o n�o consta no relat�rio original?</p><p>� Exatamente. O Gunnar Bj�rck jamais sugeriu nada do g�nero. Sem contar que teria sido contra a lei. Ele sugeriu que ela recebesse o tratamento de que de fato precisava. Na c�pia do Blomkvist, isso tudo vira uma maquina��o.</p><p>� Posso ler o original?</p><p>� Pois n�o. Mas preciso lev�-lo comigo quando sair. E, antes que o leia, permita-me chamar sua aten��o para o anexo, a correspond�ncia que posteriormente se estabeleceu entre o Bj�rck e o Teleborian. Foi quase que toda falsificada. E nesse caso n�o se trata de altera��es sutis, e sim de falsifica��es grosseiras.</p><p>� Falsifica��es?</p><p>� Acho que a palavra � essa. O original mostra que Peter Teleborian foi indicado pelo Tribunal de Inst�ncias para fazer uma avalia��o psiqui�trica legal de Lisbeth Salander. O que n�o � nada estranho. Lisbeth Salander tinha doze anos e havia tentado matar o pai com um coquetel Molotov. Estranho seria se n�o tivesse havido nenhuma avalia��o psiqui�trica.</p><p>� Sim, claro.</p><p>� Se o senhor fosse procurador naquela �poca, imagino que tamb�m teria pedido n�o s� uma investiga��o social como uma avalia��o psiqui�trica.</p><empty-line/><p>� Sem d�vida.</p><p>� J� naquela �poca o Teleborian era um psiquiatra infantil conhecido e respeitado, al�m de j� ter trabalhado com medicina legal. Foi indicado e realizou um exame absolutamente normal, concluindo que Lisbeth Salander apresentava perturba��es ps�quicas... desculpe se estou deixando de lado os termos t�cnicos.</p><p>� Sim, sim...</p><p>� O Teleborian registrou todas as suas conclus�es num relat�rio, que ele enviou ao Bj�rck e que posteriormente foi apresentado ao Tribunal de Inst�ncias, o qual decidiu que a Salander deveria ser tratada na cl�nica Sankt Stefan.</p><p>� Entendo.</p><p>� Na vers�o do Blomkvist, n�o consta a avalia��o feita pelo Teleborian. Em seu lugar, h� uma correspond�ncia entre o Bj�rck e o Teleborian insinuando que o Bj�rck orienta o Teleborian a apresentar um exame psiqui�trico forjado.</p><p>� E, segundo o senhor, essa correspond�ncia � falsa.</p><p>� Sem d�vida.</p><p>� E quem teria interesse em fazer essas falsifica��es? Nytstr�m largou o relat�rio e franziu o cenho.</p><p>� Agora o senhor p�s o dedo no n� da quest�o.</p><p>� E a resposta �...</p><p>� N�o sabemos. O nosso grupo de an�lise est� dando um duro justamente para descobrir a resposta a essa pergunta.</p><p>� Seria poss�vel imaginar que o Blomkvist forjou tudo isso? Nystr�m riu.</p><p>� No come�o tamb�m pensamos assim. Mas parece inveross�mil. Achamos que essas falsifica��es foram feitas muito tempo atr�s, provavelmente na �poca em que o relat�rio original foi escrito.</p><p>� Ah, �?</p><p>� O que nos leva a conclus�es desagrad�veis. Quem fez essa falsifica��o estava bem por dentro do caso. Al�m disso, o fals�rio tinha acesso � mesma m�quina de escrever do Bj�rck.</p><p>� Est� querendo dizer que...</p><p>� N�o sabemos onde o Bj�rck redigiu o relat�rio. Pode ter usado uma m�quina de escrever em casa, ou no seu trabalho, ou em qualquer outro lugar- Estamos considerando duas alternativas. O fals�rio era uma pessoa do meio psiqui�trico ou m�dico-legal que, por algum motivo, queria desacreditar o Teleborian. Ou ent�o a falsifica��o foi feita por outro motivo bem diferente por algu�m da Sapo.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Isso aconteceu em 1991. Poderia ser que um agente russo infiltrado na DGPN/S�po tivesse farejado o Zalachenko. Essa possibilidade nos levou a verificar, atualmente, uma boa quantidade de arquivos pessoais.</p><p>� Mas se a KGB tivesse ouvido rumores do... isso teria sido revelado h� alguns anos.</p><p>� Bem pensado. Mas n�o esque�a que foi justamente nessa �poca que a Uni�o Sovi�tica caiu e a KGB foi dissolvida. N�o sabemos o que deu errado. Quem sabe uma opera��o planejada acabou sendo abortada. A KGB era realmente mestra em falsificar documentos e em desinforma��o.</p><p>� Mas por que a KGB faria uma coisa dessas?</p><p>� Tamb�m n�o sabemos. Mas um motivo plaus�vel, claro, seria humilhar o governo sueco.</p><p>Ekstr�m beliscou o l�bio inferior.</p><p>� Est� querendo dizer que a avalia��o m�dica da Salander est� correta?</p><p>� Se est�! Sem sombra de d�vida. A Salander � completamente insana, com o perd�o da express�o. N�o tenha o menor receio quanto a isso. A decis�o de intern�-la numa institui��o foi totalmente justificada.</p><p>� Vasos sanit�rios! � disse, incr�dula, a redatora-chefe interina Malu Eriksson. Pelo visto, ela achava que Henry Cortez estava de goza��o com ela.</p><p>� Vasos sanit�rios � repetiu Henry Cortez meneando a cabe�a.</p><p>� Voc� pretende fazer um artigo sobre vasos sanit�rios para a Millennium?</p><p>Monika Nilsson deu uma s�bita e inoportuna gargalhada de esc�rnio. Ela notara o mal disfar�ado entusiasmo dele ao chegar � reuni�o de sexta-feira e identificara todos os sintomas do jornalista �s voltas com um bom assunto para um artigo.</p><p>� Certo, explique-se.</p><p>� � muito simples � disse Henry Cortez. � A maior ind�stria sueca em todas as categorias, � a da constru��o civil. � uma ind�stria que, na pr�tica, n�o pode ser transferida para outro lugar, mesmo que a Skanska finja ter escrit�rios em Londres e coisas do g�nero. Seja como for, os pr�dios t�m de ser constru�dos na Su�cia.</p><p>� Sim, isso n�o � novidade.</p><p>� N�o. O que � mais ou menos uma novidade � que a constru��o civil est� anos-luz atr�s de todas as demais ind�strias suecas quando se trata de concorr�ncia e efici�ncia. Se a Volvo fabricasse autom�veis do mesmo jeito, um carro �ltimo modelo estaria custando um ou dois milh�es. Qualquer ind�stria normal s� pensa em baixar os pre�os. Na constru��o civil, � o oposto. Eles n�o est�o nem a� para os pre�os, o custo do metro quadrado aumenta o tempo todo e o Estado tem de oferecer subs�dio com o dinheiro do contribuinte para que o neg�cio simplesmente n�o se inviabilize.</p><p>� E isso d� mat�ria?</p><p>� Espere. E complicado. Se o pre�o do hamb�rguer tivesse subido do mesmo jeito de 1970 para c�, um Big Mac estaria custando umas cento e cinq�enta coroas ou mais. Prefiro n�o imaginar o quanto estaria custando com as batatas fritas e uma Coca. Meu sal�rio aqui da Millennium n�o seria suficiente. Quantos de voc�s aqui em volta desta mesa topariam comprar um hamb�rguer por cem coroas?</p><p>Ningu�m respondeu.</p><p>� T�m raz�o. Mas quando a NCC ergue rapidinho em G�shaga uns cont�ineres de lat�o que eles chamam de moradia, ela tem a ousadia de pedir dez ou doze mil coroas de aluguel mensal por dois dormit�rios. Quantos de voc�s podem pagar isso?</p><p>� Eu, pelo menos, n�o posso � disse Monika Nilsson.</p><p>� N�o pode. E olhe que voc� j� mora num quarto-e-sala em Danvikstull, que seu pai comprou para voc� h� vinte anos e que voc� poderia vender por, digamos, um milh�o e meio. Mas o que faz um jovem de vinte anos que quer sair do ninho? N�o tem condi��es. Ele ent�o faz uma subloca��o, ou at� uma subsubloca��o, ou fica morando com a velha m�ezinha dele at� se aposentar.</p><p>� E onde � que entram os vasos sanit�rios? � perguntou Christer Malm.</p><p>� Estou chegando l�. O fato � que a gente deve se perguntar por que os apartamentos s�o t�o caros. Ora, porque o pessoal que encomenda os pr�dios n�o sabe como se faz. Para simplificar, o caso � o seguinte: um promotor municipal chama uma empresa de constru��o civil como a Skanska, diz que deseja encomendar cem apartamentos e pergunta quanto vai custar. A Skanska faz uns c�lculos e liga de volta dizendo que vai custar, digamos, quinhentos milh�es de coroas. O que significa que o pre�o por metro quadrado � xis coroas, e vai lhe custar uns dez mil paus por m�s se voc� quiser morar ali. Porque, diferentemente do que acontece no caso do MacDonald's, voc� n�o pode n�o morar em algum lugar. � obrigado, portanto, a pagar o quanto custa.</p><p>� Por favor, Henry... vamos aos fatos.</p><p>� Mas o fato � justamente esse. Por que me custa dez mil paus morar num desses malditos caixotes em Hammarbyhamnen? Vou explicar. � porque as construtoras n�o se preocupam em segurar os pre�os. O cliente paga seja l� o que for. Um dos maiores custos � o material de constru��o. O com�rcio de material de constru��o passa pelos atacadistas, que estabelecem seus pr�prios pre�os. Como n�o h� concorr�ncia de fato, uma banheira, na Su�cia, custa cinco mil coroas. Na Alemanha, a mesma banheira, do mesmo fabricante, custa duas mil coroas. N�o sei como se explica essa diferen�a de pre�o.</p><p>� Certo.</p><p>� Boa parte disso tudo pode ser lida num relat�rio da Comiss�o do Governo para Custos de Constru��o, que se movimentou bastante no final dos anos 1990. De l� para c�, as coisas n�o avan�aram muito. Ningu�m negocia com os construtores para denunciar essa aberra��o de pre�os. Os clientes pagam documente o pre�o que custar e, no fim de tudo, os locat�rios ou os contribuintes � que pagam a conta.</p><p>� E os vasos sanit�rios, Henry?</p><p>� Depois que a Comiss�o para Custos de Constru��o foi criada, os poucos avan�os ocorreram em n�vel local, principalmente na periferia de Estocolmo. Alguns clientes se cansaram dos pre�os altos. Um exemplo � a Karlskronahem, que constr�i mais barato que qualquer outra, simplesmente comprando ela pr�pria os seus materiais. Al�m disso, a Federa��o de Com�rcio sueca andou se envolvendo. Eles acham os pre�os do material de constru��o completamente delirantes e t�m tentado facilitar as coisas para os clientes importando produtos equivalentes mais baratos. O que resultou num pequeno conflito na Feira da Constru��o de �lvj� um ano atr�s. O com�rcio sueco tinha trazido um sujeito da Tail�ndia que estava liquidando vasos sanit�rios por pouco mais de quinhentas coroas a unidade.</p><p>� Ah�. E da�?</p><p>� O concorrente imediato era um atacadista sueco, a Vitavara S.A., que vende aut�nticos vasos sanit�rios suecos por mil e setecentas coroas cada um. E alguns consumidores mais espertos, em quase todos os munic�pios, est�o come�ando a cocar a cabe�a e se perguntar por que eles devem morrer com mil e setecentas coroas quando poderiam conseguir um vaso sanit�rio equivalente, made in Tail�ndia, por quinhentos paus.</p><p>� Talvez seja de melhor qualidade? � perguntou Lottie Karim.</p><p>� N�o. � um produto equivalente.</p><p>� Tail�ndia � disse Christer Malm. � Isso cheira a trabalho infantil clandestino, coisas assim. O que talvez explique o pre�o inferior.</p><p>� N�o � disse Henry Cortez. � Na Tail�ndia, o trabalho infantil � praticado principalmente na ind�stria t�xtil e de suvenires. Al�m de no com�rcio de pedofilia, claro. Estou falando em ind�stria de verdade. A ONU tem estado de olho no trabalho infantil, e eu verifiquei a empresa. Nada a opor. Trata-se de uma grande emprega, moderna e respeit�vel, de produtos sanit�rios.</p><p>� Bem... estamos falando de um pa�s em que os sal�rios s�o baixos, e podemos acabar escrevendo uma mat�ria clamando para que a ind�stria sueca seja eliminada pela concorr�ncia tailandesa. Despe�am os oper�rios suecos, fechem as empresas e importem da Tail�ndia. Com essa voc� n�o vai crescer na estima dos oper�rios suecos.</p><p>Um sorriso iluminou o rosto de Henry Cortez. Ele se inclinou para tr�s e adotou um ar escandalosamente fanfarr�o.</p><p>� N� n� n� � disse. � Adivinhem onde � que a Vitavara S.A. fabrica seus vasos sanit�rios de mil e setecentos paus?</p><p>Fez-se um sil�ncio na reda��o.</p><p>� No Vietn� � disse Henry Cortez.</p><p>� N�o acredito! � exclamou Malu Eriksson.</p><p>� Mas �, minha cara � disse Henry. � Faz pelo menos dez anos que eles terceirizam l� a fabrica��o de vasos sanit�rios. Os oper�rios suecos j� foram despedidos nos anos 1990.</p><p>� Puta merda!</p><p>� Mas a cereja do bolo � a seguinte: se a gente importasse diretamente da f�brica vietnamita, o pre�o seria pouco mais de trezentas e noventa coroas. Adivinhem como se explica a diferen�a de pre�o entre a Tail�ndia e o Vietn�?</p><p>__N�o vai me dizer que...</p><p>Henry Cortez fez que sim com a cabe�a. O sorriso transbordava em seu rosto.</p><p>� A Vitavara S.A. entrega a fabrica��o a uma coisa chamada Fong Soo Industries. Ela consta na lista da ONU das empresas que, pelo menos numa investiga��o de 2001, empregava crian�as. Mas a maior parte dos oper�rios � de prisioneiros.</p><p>Malu Eriksson sorriu de repente.</p><p>� Isso � bom � disse ela. � Realmente muito bom. Assim voc� vai acabar virando jornalista quando crescer. Quando � que voc� acha que pode terminar esse texto?</p><p>�� Daqui a duas semanas. Ainda tenho que checar v�rias coisas sobre o com�rcio internacional. Al�m disso, vamos precisar de um bad guy para o artigo, e preciso me informar sobre os donos da Vitavara S.A.</p><p>� Podemos publicar no n�mero de junho? � perguntou Malu, esperan�osa.</p><p>� No problem.</p><p>O inspetor Jan Bublanski contemplou o procurador Richard Ekstr�m com um olhar sem express�o. A reuni�o tinha durado quarenta minutos, e Bublanski sentia uma imensa vontade de estender a m�o para pegar o exemplar de A Lei do reino que estava na ponta da mesa de Ekstr�m e debochar do procurador. O que sem d�vida resultaria em grandes manchetes nos tabl�ides e, provavelmente, num indiciamento por golpes e ferimentos. Descartou a id�ia. A vantagem de ser um homem civilizado � n�o ceder a esse tipo de impulso, qualquer que seja a provoca��o do advers�rio. E, em geral, era justamente quando algu�m cedia a um impulso desse tipo que se recorria ao inspetor Bublanski.</p><p>� �timo � disse Ekstr�m. � Parece que estamos de acordo.</p><p>� N�o, n�o estamos � respondeu Bublanski, levantando-se. � Mas o senhor � quem est� � frente do inqu�rito preliminar.</p><empty-line/><p>Ele resmungou baixinho ao virar no corredor de sua sala e em seguida reuniu os inspetores Curt Bolinder e Sonja Modig, que compunham toda a sua equipe naquela tarde. Jerker Holmberg tivera a p�ssima id�ia de tirar duas semanas de f�rias.</p><p>� Na minha sala � disse Bublanski. � Tragam caf�.</p><p>Depois que se acomodaram, Bublanski abriu sua caderneta com as anota��es da reuni�o com Ekstr�m.</p><p>� A atual situa��o � que o nosso chefe do inqu�rito preliminar descartou todas as acusa��es contra Lisbeth Salander relativas aos assassinatos pelos quais ela foi procurada. De modo que, no que nos diz respeito, ela n�o est� mais inclu�da no inqu�rito preliminar.</p><p>� Bem, temos que ver isso como um avan�o � disse Sonja Modig. Curt Bolinder, como sempre, n�o disse nada.</p><p>� N�o tenho tanta certeza � disse Bublanski. � A Salander ainda est� sendo acusada de infra��es graves em Stallarholmen e Gosseberga. Mas isso n�o faz mais parte da nossa investiga��o. O que sobrou para a gente � encontrar o Niedermann e explicar o cemit�rio selvagem de Nykvarn.</p><p>� Entendi.</p><p>� O certo � que, agora, quem vai indiciar a Lisbeth Salander � o Ekstr�m. O caso foi transferido para Estocolmo e foram pedidas investiga��es bem diferentes.</p><p>� Ah, �?</p><p>� E adivinhe quem vai investigar a Salander.</p><p>� J� estou temendo o pior.</p><p>� O Hans Faste voltou. Vai assessorar o Ekstr�m.</p><p>� Que absurdo! O Faste n�o �, de jeito nenhum, a pessoa certa para investigar a Salander.</p><p>� Eu sei. Mas o Ekstr�m tem bons argumentos. O Faste estava de licen�a m�dica desde que teve um... humm... esgotamento em abril, e est�o dando a ele uma investiga��ozinha simples.</p><p>Sil�ncio.</p><p>� Portanto, vamos repassar para ele hoje � tarde todo o nosso material sobre a Salander.</p><p>� E a hist�ria do Gunnar Bj�rck, e da Sapo, e do relat�rio de 1991...</p><p>� O Ekstr�m e o Faste v�o cuidar dessa parte.</p><p>- N�o estou gostando nada disso � disse Sonja Modig.</p><p>�- Nem eu. Mas o chefe � o Ekstr�m, e ele tem contatos l� em cima. Ou a nossa tarefa ainda � encontrar o assassino. Curt, em que p� estamos?</p><p>Curt Bolinder balan�ou a cabe�a.</p><p>- O Niedermann continua sumido. Devo confessar que nesses anos todos de casa nunca passei por nada igual. N�o temos um �nico informante que conhe�a o sujeito ou aparente saber onde ele se encontra.</p><p>� Muito suspeito � disse Sonja Modig. � Em todo caso, ele est� sendo procurado pelo homic�dio do policial de Gosseberga, por golpes e ferimentos agravados contra um policial, tentativa de assassinato de Lisbeth Salander e rapto agravado mais golpes e ferimentos sobre Anita Kaspersson, a assistente de odontologia. E tamb�m pelos assassinatos de Dag Svensson e Mia Berg-son. Em todos esses casos, as provas t�cnicas s�o satisfat�rias.</p><p>� Deve ser suficiente. E como vai a investiga��o sobre o consultor financeiro do MC Svavelsj�?</p><p>� Viktor G�ransson e sua companheira Lena Nygren. Temos provas t�cnicas que ligam o Niedermann ao local. Impress�es digitais e DNA no corpo do G�ransson. O Niedermann ralou o dorso das m�os quando deu uma surra nele.</p><p>� Certo. Novidades sobre o MC Svavelsj�?</p><p>� O Benny Nieminen assumiu a chefia enquanto o Magge Lundin est� em pris�o preventiva, aguardando o julgamento pelo rapto da Miriam Wu. Corre o boato de que o Nieminen prometeu uma bela recompensa para quem der uma pista do paradeiro do Niedermann.</p><p>� O que torna ainda mais estranho o fato de o cara ainda n�o ter sido encontrado. E o carro de G�ransson?</p><p>� Como o carro da Anita Kaspersson foi encontrado no s�tio de G�ransson, est�o achando que o Niedermann mudou de carro. N�o temos nenhuma pista sobre esse outro.</p><p>� E de se perguntar, ent�o, se o Niedermann ainda est� entocado em algum lugar da Su�cia � e, nesse caso, onde e com quem � ou se j� teve tempo de se p�r em seguran�a no exterior. O que o pessoal est� achando?</p><p>� Nada indica que ele foi para o exterior, mas n�o deixa de ser a �nica Possibilidade l�gica.</p><p>� Nesse caso, onde � que ele abandonou o carro?</p><p>Num mesmo gesto, Sonja Modig e Curt Bolinder balan�aram a cabe�a O trabalho da pol�cia, nove em cada dez vezes, era razoavelmente simples quando se tratava de procurar um indiv�duo cujo nome se sabia. Bastava criar uma cadeia l�gica e come�ar a puxar os fios. Quem eram seus amigos? Com quem dividira uma cela no xadrez? Em que �rea seu celular fora usado recentemente? Onde estava o carro dele? No final da cadeia, em geral se encontrava a pessoa procurada.</p><p>O problema com Ronald Niedermann � que ele n�o tinha amigos, n�o tinha namorada, nunca tinha sido preso e n�o tinha celular conhecido.</p><p>Grande parte da investiga��o havia se concentrado, portanto, em procurar o carro de Viktor G�ransson, que Niedermann supostamente estava usando. Se encontrassem o carro, j� seria uma indica��o de por onde prosseguir as buscas. De in�cio, imaginaram que o carro iria aparecer em alguns dias, provavelmente num estacionamento de Estocolmo. Mas, apesar dos avisos de busca, o ve�culo continuava se destacando pela aus�ncia.</p><p>� Se ele estiver no exterior... onde estar�?</p><p>� Ele � cidad�o alem�o, o mais natural seria ele tentar ir para a Alemanha.</p><p>� Ele est� sendo procurado na Alemanha. E n�o parece ter mantido contato com seus antigos amigos de Hamburgo.</p><p>Curt Bolinder agitou as m�os.</p><p>� Se o plano dele era se mandar para a Alemanha... por que, neste caso, ele iria para Estocolmo? O certo seria ele pegar a dire��o de Malm� e a ponte de 0resund, ou de uma das balsas.</p><p>� Eu sei. Nos primeiros dias o Marcus Ackerman, de G�teborg, direcionou o grosso das buscas nessa dire��o. A pol�cia da Dinamarca est� informada sobre o carro do G�ransson, e podemos afirmar com seguran�a que ele n�o pegou nenhuma balsa.</p><p>� Mas ele foi a Estocolmo, at� o MC Svavelsj�, trucidou o tesoureiro e � sup�e-se � roubou uma quantia ignorada de dinheiro. Qual seria o passo seguinte?</p><p>� Ele precisa deixar a Su�cia � disse Bublanski. � O mais natural seria ele pegar uma balsa para os Pa�ses B�lticos. O G�ransson e a companheira foram mortos bem tarde da noite de 9 de abril. Isso quer dizer que o Niedermann pode ter pego uma balsa de manh�. S� fomos avisados dezesseis horas i p0js da morte deles, e desde ent�o estamos procurando o carro.</p><p>- Se ele pegou a balsa de manh�, o carro do G�ransson deveria estar estacionado perto de um dos portos � constatou Sonja Modig.</p><p>Curt Bolinder meneou a cabe�a.</p><p>� De repente, � muito mais simples. Talvez n�o tenhamos encontrado o carro do G�ransson porque o Niedermann saiu do pa�s pelo norte, via Haparanda. � um tremendo desvio contornar o Golfo de B�tnia, mas em dezesseis horas ele certamente teve tempo de atravessar a fronteira finlandesa.</p><p>� �, mas depois ele teria que abandonar o carro em algum lugar da Finl�ndia e, a essa altura, nossos colegas finlandeses j� deveriam t�-lo encontrado.</p><p>Ficaram um bom momento calados. Por fim, Bublanski se levantou e foi para a frente da janela.</p><p>� � contra toda a l�gica e probabilidade, mas o fato � que o carro do G�ransson continua desaparecido. Ser� que ele conseguiu achar um esconderijo e est� entocado esperando a hora certa, uma casa de campo ou...</p><p>� Dificilmente pode ser uma casa de campo. Nessa �poca do ano, todos os propriet�rios est�o ajeitando e enfeitando as casas para o ver�o.</p><p>� E n�o deve ser nada ligado ao MC Svavelsj�. Imagino que sejam as �ltimas pessoas que ele quer ver pela frente.</p><p>� Portanto, daria para excluir o c�rculo dele... Ser� que existe uma namorada e a gente n�o sabe?</p><p>As especula��es eram muitas, mas eles n�o dispunham de nenhum dado concreto.</p><p>Assim que Curt Bolinder foi embora, Sonja Modig retornou � sala de Jan Bublanski e bateu no batente da porta. Ele fez sinal para ela entrar.</p><p>� Voc� teria dois minutinhos?</p><p>� O que foi?</p><p>� A Salander.</p><p>� Pode falar.</p><p>� N�o gosto nem um pouco desse novo planejamento, com o Ekstr�m e o Faste e um novo processo. Voc� leu o relat�rio do Bj�rck. Eu li o relat�rio do Bj�rck. A Salander foi sabotada em 1991, e o Ekstr�m sabe disso. Que diabos est� acontecendo?</p><p>Bublanski tirou seus �culos fundo de garrafa e guardou-os no bolso da camisa.</p><p>� Eu n�o sei.</p><p>� Voc� n�o tem nenhuma id�ia?</p><p>� O Ekstr�m diz que o relat�rio do Bj�rck e a correspond�ncia dele com o Teleborian foram falsificados.</p><p>� Mentira. Se tivessem sido falsificados, o Bj�rck teria dito isso quando foi interrogado.</p><p>� Diz o Ekstr�m que o Bj�rck se negava a falar disso por ser um assunto sigiloso de seguran�a nacional. Ele me censurou por eu ter me adiantado e detido o Bj�rck.</p><p>� Cada dia que passa detesto mais o Ekstr�m.</p><p>� Ele est� sendo pressionado.</p><p>� Isso n�o � desculpa.</p><p>� N�s n�o temos o monop�lio da verdade. O Ekstr�m afirma que lhe apresentaram provas de que o relat�rio � falso; n�o existe nenhuma investiga��o de fato cadastrada com esse n�mero. Ele diz tamb�m que a falsifica��o foi muito benfeita e que � uma mescla de verdade e de inven��o.</p><p>� Que parte � verdadeira e que parte foi inventada?</p><p>� O conjunto est� mais ou menos certo. O Zalachenko � pai da Lisbeth Salander, um cretino que espancava a m�e dela. A hist�ria de sempre � a m�e nunca queria dar queixa, de modo que a situa��o se manteve daquele jeito por anos a fio. A tarefa do Bj�rck era descobrir o que aconteceu quando a Lisbeth tentou matar o pai com um coquetel Molotov. Ele mantinha uma correspond�ncia com o Teleborian, mas, no conjunto, a correspond�ncia que n�s vimos era falsificada. O Teleborian fez uma avalia��o psiqui�trica de rotina na Salander e constatou que ela era louca, e um procurador resolveu desistir das acusa��es que pesavam contra ela. Ela precisava de tratamento e foi internada na Sankt Stefan.</p><p>� Mas foi tudo uma encena��o... Quem teria feito isso, e com que objetivo?</p><p>Bublanski fez um gesto separando as m�os.</p><p>� Voc� est� de goza��o?</p><p>- Pelo que entendi, o Ekstr�m vai exigir outro exaustivo exame psiqui�trico da Salander.</p><p>- N�o consigo aceitar isso.</p><p>- N�o � mais assunto nosso. Fomos desligados do caso Salander.</p><p>- E o Hans Faste foi ligado... Jan, pretendo alertar a imprensa se esses nojentos atacarem de novo a Salander...</p><p>� N�o, Sonja. Voc� n�o vai fazer isso. Primeiro, porque n�o temos mais acesso � investiga��o; logo, voc� n�o tem mais como provar o que vai dizer. V�o te achar uma paran�ica de primeira e a sua carreira acaba num piscar de olhos.</p><p>� Eu ainda estou com o relat�rio � disse Sonja Modig com voz d�bil. � Eu tinha feito uma c�pia para o Curt Bolinder, mas n�o tive tempo de entregar antes de o Minist�rio P�blico recolher tudo.</p><p>� Se voc� deixar vazar esse relat�rio, n�o s� vai ser despedida como vai incorrer em falha profissional grave por colocar um relat�rio sigiloso nas m�os da imprensa.</p><p>Sonja Modig ficou um instante calada e encarou seu chefe.</p><p>� Sonja, me prometa que n�o vai fazer nada. Ela hesitou.</p><p>� N�o, Jan, n�o posso prometer isso. Tem algo de podre nessa hist�ria. Bublanski concordou com a cabe�a.</p><p>� Tem, sim. Mas no momento n�o sabemos quem s�o nossos inimigos. Sonja Modig inclinou a cabe�a.</p><p>� E voc�, tem a inten��o de fazer alguma coisa?</p><p>� Isso eu n�o vou lhe contar. Confie em mim. Estamos no final da tarde de sexta-feira. Curta o seu fim de semana. V� para casa. Essa conversa nunca aconteceu.</p><p>Era uma e meia da tarde de s�bado quando o agente da Securitas Niklas Adamsson ergueu os olhos do livro de economia pol�tica que estava estudando para um exame que ocorreria dali a tr�s semanas. Acabava de ouvir o discreto zumbido das escovas rotativas do carrinho de faxina e viu que se datava do imigrante manco. O sujeito sempre o cumprimentava educada-rtlente, mas n�o falava muito e nunca ria nas vezes em que Adamsson tentava brincar com ele. Observou-o enquanto ele pegava um frasco e vaporizava o balc�o da recep��o, enxugando em seguida com um pano. Depois, ele pegou a vassoura com franjas e passou-a pelos cantos da recep��o que as escovas do carrinho n�o alcan�avam. Niklas Adamsson tornou a enfiar o nariz no livro e continuou sua leitura.</p><p>O funcion�rio da limpeza levou dez minutos para chegar � cadeira de Adamsson, no fim do corredor. Cumprimentaram-se com um gesto de cabe�a. Adamsson se levantou e deixou o faxineiro cuidar do piso em volta de sua cadeira, em frente ao quarto de Lisbeth Salander. Ele via aquele homem praticamente todos os dias desde que come�ara seu plant�o em frente ao quarto, mas seria incapaz de lembrar o nome dele. De qualquer modo, era um nome de turco. Adamsson n�o via realmente necessidade de controlar a identidade dele. De um lado, o imigrante n�o ia fazer faxina dentro do quarto da prisioneira � duas mulheres cuidavam disso de manh� � e, de outro, aquele manco n�o parecia representar nenhuma amea�a.</p><p>Quando o homem terminou a limpeza no fim do corredor, abriu com a chave a porta vizinha ao quarto de Lisbeth Salander. Adamsson o observou com o rabo dos olhos, mas isso tampouco significava um desvio da rotina. Ali, no fim do corredor, ficava o arm�rio das vassouras. Ele passou os cinco minutos seguintes esvaziando o balde, limpando as escovas e enchendo o carrinho com sacos pl�sticos para o lixo. Em seguida, empurrou o carrinho para dentro do arm�rio.</p><p>Idris Ghidi estava ciente da presen�a do vigilante da Securitas no corredor. Era um rapaz loiro de uns vinte e cinco anos mais ou menos, que em geral ficava de plant�o dois ou tr�s dias por semana e lia livros de economia pol�tica. Ghidi conclu�ra que ele trabalhava meio per�odo na Securitas e ao mesmo tempo estudava, e prestava t�o pouca aten��o ao que se passava em volta quanto um tijolo da parede.</p><p>Idris Ghidi perguntou-se o que Adamsson faria se algu�m tentasse de fato entrar no quarto de Lisbeth Salander.</p><p>Idris Ghidi tamb�m se perguntou o que Mikael Blomkvist teria em mente. Estava perplexo. Ele, claro, tinha lido os jornais e fizera a associa��o com a Lisbeth Salander do 11C, e sua expectativa era que Mikael Blomkvist quisesse que ele introduzisse alguma coisa clandestinamente no quarto. Nesse caso ele teria sido obrigado a recusar, pois n�o tinha acesso ao quarto nem nunca o tinha visto. A proposta que ele lhe fizera, por�m, n�o tinha nada a ver com isso.</p><p>Ele n�o via nada de ilegal em sua tarefa. Deu uma olhada pela fresta da porta e viu que Adamsson voltara a se sentar na cadeira em frente � porta e estava lendo seu livro. Estava satisfeito por n�o haver mais ningu�m por perto o que geralmente era o caso, j� que o arm�rio das vassouras ficava no fim do corredor. Enfiou a m�o no avental e pegou um celular novo, um Sony Eriksson Z600. Idris Ghidi vira aquele modelo num folheto publicit�rio e sabia que custava mais de tr�s mil e quinhentas coroas no mercado e dispunha de todos os macetes imagin�veis.</p><p>Olhou para o mostrador e notou que o celular estava ligado, mas com o som de chamada no silencioso e o vibrador desativado. Ent�o ficou na ponta dos p�s e desencaixou o tampo branco e redondo de um sistema de ventila��o que ia at� o quarto de Lisbeth Salander. Colocou o celular dentro do conduto, fora do alcance da vista, exatamente como Mikael Blomkvist lhe pedira.</p><p>A manobra durou cerca de trinta segundos. No dia seguinte, levaria cerca de dez. Sua tarefa ent�o seria pegar o celular, trocar a bateria e colocar o aparelho de volta no conduto de ventila��o. Levaria a bateria usada para casa e a recarregaria durante a noite.</p><p>Era s� o que Idris Ghidi precisava fazer.</p><p>Contudo, isso n�o ajudaria Lisbeth Salander. Do lado de l�, havia uma grade parafusada na parede. Ela jamais conseguiria pegar o celular se n�o tivesse acesso a uma chave de fenda cruciforme e a uma escada.</p><p>� Eu sei � dissera Mikael. � Mas ela n�o vai precisar tocar no celular.</p><p>Idris Ghidi teria de realizar essa tarefa todos os dias, at� Mikael Blomkvist avisar que ela n�o era mais necess�ria.</p><p>E para isso Idris Ghidi receberia mil coroas l�quidas por semana. Al�m disso, poderia ficar com o celular depois de conclu�do o servi�o.</p><p>Ele balan�ou a cabe�a. Sabia, � claro, que Mikael tramava alguma coisa, mas n�o conseguia imaginar o qu�. Colocar um celular ligado, mas n�o conectado, num sistema de ventila��o fechado a chave era uma id�ia t�o esquisita que Ghidi n�o entendia para que servia. Se Blomkvist queria se comunicar com Lisbeth Salander, seria mais inteligente subornar uma enfermeira para lhe passar o telefone. N�o havia nenhuma l�gica naquela opera��o.</p><p>Ghidi balan�ou a cabe�a. Por outro lado, n�o se negaria a fazer esse favor para Mikael Blomkvist enquanto ele lhe pagasse mil coroas por semana. E n�o pretendia fazer perguntas.</p><p>O Dr. Anders Jonasson diminuiu o passo ao avistar um homem de uns quarenta anos apoiado na grade da entrada de seu pr�dio, na Hagagatan. O homem, que lhe parecia vagamente familiar, dirigiu-lhe um sinal de reconhecimento com a cabe�a.</p><p>� Doutor Jonasson?</p><p>� Sou eu.</p><p>� Lamento incomod�-lo assim, na rua, na frente da sua casa. Mas n�o queria procur�-lo no seu trabalho e preciso falar com o senhor.</p><p>� Do que se trata, e quem � o senhor?</p><p>� Meu nome � Mikael Blomkvist. Sou jornalista da revista Millennium. Trata-se de Lisbeth Salander.</p><p>� Ah, sim, estou lembrado. Foi o senhor que ligou para o sos-Brigada quando ela foi encontrada... Tamb�m foi o senhor que colocou fita adesiva nos ferimentos?</p><p>� Fui.</p><p>� Foi um gesto inteligente. Mas lamento. N�o estou autorizado a falar sobre os meus pacientes com os jornalistas. Vai ter de fazer como todo mundo e ver com a �rea de comunica��o do Sahlgrenska.</p><p>� O senhor n�o me entendeu. N�o estou atr�s de informa��es, estou aqui em car�ter privado. N�o precisa me dizer nada nem me passar informa��es. Na verdade, � o contr�rio. Eu � que gostaria de lhe passar alguns dados.</p><p>Anders Jonasson franziu o cenho.</p><p>� Por favor � suplicou Mikael Blomkvist. � N�o costumo assediar cirurgi�es no meio da rua, mas � extremamente importante que eu fale com o senhor. H� um caf� mais adiante, ali na esquina. Posso convid�-lo para tomar alguma coisa?</p><p>� N�s vamos falar sobre o qu�?</p><p>� Sobre o futuro e o bem-estar de Lisbeth Salander. Eu sou amigo dela.</p><empty-line/><p>Anders Jonasson hesitou bastante. Sabia que se fosse outra pessoa que n�o Mikael Blomkvist que o abordasse assim no meio da rua, se fosse um desconhecido qualquer, teria recusado. Mas Blomkvist era uma figura conhecida e, de repente, Anders Jonasson convenceu-se de que n�o se tratava de uma brincadeira de mau gosto.</p><p>� N�o quero, de jeito nenhum, ser entrevistado e n�o vou falar sobre a minha paciente.</p><p>� Para mim est� bem � disse Mikael.</p><p>Por fim, Anders Jonasson assentiu rapidamente com a cabe�a e acompanhou Blomkvist at� o caf�.</p><p>� Do que se trata? � ele perguntou num tom neutro, depois que foram servidos. � Estou ouvindo, mas n�o pretendo fazer nenhum coment�rio.</p><p>� O senhor tem medo que eu o cite ou o exponha na imprensa. Quero que fique absolutamente claro desde j� que n�o se trata de nada disso. No que me diz respeito, esta conversa nunca aconteceu.</p><p>� Certo.</p><p>� Gostaria de lhe pedir um favor. Mas antes preciso explicar exatamente o porqu�, para que o senhor possa julgar se � moralmente aceit�vel para o senhor me fazer esse favor.</p><p>� N�o estou gostando do rumo desta conversa.</p><p>� S� o que estou lhe pedindo � que me escute. Como m�dico da Lisbeth Salander, cabe ao senhor zelar pelo bem-estar f�sico e mental dela. Como amigo da Lisbeth, cabe a mim fazer o mesmo. N�o sou m�dico, portanto n�o posso remexer na cabe�a dela para extrair balas de l�, por exemplo. Mas tenho outro tipo de compet�ncia, t�o importante quanto, para o bem-estar dela.</p><p>� Ah�.</p><p>� Sou jornalista e, cavando aqui e ali, descobri a verdade sobre tudo o que aconteceu.</p><p>� Certo.</p><p>� Posso lhe contar, em linhas gerais, para que o senhor possa avaliar Por si mesmo.</p><p>� Ah�.</p><p>� Eu talvez deva dizer, para come�ar, que Annika Giannini � a advogada da Lisbeth Salander. O senhor j� cruzou com ela.</p><p>Anders Jonasson fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Annika � minha irm� e sou eu que a estou pagando para defender a Lisbeth,</p><p>� Ah, �?</p><p>� Pode verificar no cart�rio de registro civil que ela � mesmo minha irm�. N�o posso pedir esse favor para a Annika. Ela n�o fala comigo sobre a Lisbeth. Est� presa ao sigilo profissional e sujeita a regras bem diferentes.</p><p>� Humm.</p><p>� Imagino que o senhor leu o que os jornais falam sobre a Lisbeth. Jonasson concordou com a cabe�a.</p><p>� Ela foi pintada como uma assassina em s�rie l�sbica, psic�tica e doente mental. Isso tudo � bobagem. A Lisbeth Salander n�o � psic�tica; � talvez t�o psiquicamente saud�vel quanto eu e o senhor. E as prefer�ncias sexuais dela n�o interessam a ningu�m.</p><p>� Se entendi direito, houve uma reviravolta. Atualmente, o tal alem�o � que est� sendo acusado dos assassinatos.</p><p>� � a mais pura verdade. O Ronald Niedermann � culpado, � um assassino sem nenhum escr�pulo. Mas a Lisbeth tem inimigos. Inimigos de verdade, fortes e cru�is. Alguns deles est�o dentro da Sapo.</p><p>Anders Jonasson.ergueu as sobrancelhas com ar c�tico.</p><p>� Quando a Lisbeth tinha doze anos, ela foi internada na psiquiatria infantil de um hospital em Uppsala porque tinha topado com um segredo que a Sapo tentava ocultar a todo custo. O pai dela, Alexander Zalachenko, que foi assassinado no hospital, era um ex-espi�o russo dissidente, uma rel�quia da guerra fria. Era tamb�m um homem extremamente violento com as mulheres e durante anos espancou a m�e da Lisbeth. Quando a Lisbeth estava com doze anos, ela revidou e tentou matar o Zalachenko com um coquetel Molotov. Por isso � que ela foi internada na psiquiatria infantil.</p><p>�� N�o estou entendendo. Se ela tentou matar o pai, talvez houvesse motivo para intern�-la para um tratamento psiqui�trico.</p><p>� A minha teoria, que pretendo publicar, � que a Sapo sabia o que tinha acontecido, mas optou por proteger o Zalachenko porque ele era uma fonte importante de informa��es. Eles bolaram um diagn�stico fajuto e deram um jeito de a Lisbeth ser internada.</p><p>Anders Jonasson exibiu tamanho ar de d�vida que Mikael teve de sorrir.</p><p>� Tenho provas de tudo o que estou dizendo. E vou publicar um texto detalhado antes do julgamento da Lisbeth. Acredite, vai fazer um barulho e tanto.</p><p>� Entendo.</p><p>- Vou denunciar e bater feio em dois m�dicos que serviram de paus-mandados da Sapo e contribu�ram para que a Lisbeth fosse enviada para o hosp�cio. Vou acabar com eles sem d� nem piedade. Um deles � uma autoridade p�blica respeitada. E, insisto, disponho de todas as provas.</p><p>� Entendo. Se houve um m�dico envolvido nessa tram�ia, � uma vergonha para a classe m�dica.</p><p>�� N�o, n�o acredito em culpa coletiva. � uma vergonha para todos os envolvidos. Isso tamb�m vale para a Sapo. H� certamente gente honesta trabalhando l�. Mas nesse caso temos um grupo paralelo. Quando a Lisbeth completou dezoito anos, eles mais uma vez fizeram o poss�vel para ela ser internada. N�o deu certo, mas ela foi posta sob tutela. No julgamento, v�o acus�-la ao m�ximo. Eu e minha irm� vamos lutar pela inoc�ncia da Lisbeth e para que seja posto um fim � tutela.</p><p>� Certo.</p><p>� Mas ela precisa de muni��o. S�o as condi��es deste jogo. � bom que o senhor saiba que alguns policiais est�o apoiando a Lisbeth nesta batalha. Ao contr�rio da pessoa que dirige o inqu�rito preliminar e que a indiciou.</p><p>� Ah�.</p><p>� A Lisbeth vai precisar de ajuda para o julgamento.</p><p>� Ah�. Mas eu n�o sou advogado.</p><p>� N�o. Mas � m�dico, e tem acesso � Lisbeth. Os olhos de Anders Jonasson se estreitaram.</p><p>� O que eu vou lhe pedir n�o � �tico, e talvez at� possa ser considerado infra��o � lei.</p><p>� Ai.</p><p>� Mas, moralmente, � a coisa certa a fazer. Os direitos dela est�o sendo ultrajados por pessoas que deveriam proteg�-la.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Vou dar um exemplo. Como o senhor sabe, a Lisbeth est� proibida de receber visitas e n�o tem o direito de ler jornais ou de se comunicar com ningu�m. Al�m disso, o procurador imp�s sil�ncio � sua advogada. Annika tem cumprido estoicamente as normas. Em compensa��o, o procurador � a principal fonte de informa��es dos jornalistas, que continuam escrevendo bobagens sobre a Lisbeth Salander.</p><p>� � mesmo?</p><p>� Veja este artigo, por exemplo. � Mikael brandiu um tabloide da semana anterior. � Uma fonte interna da investiga��o afirma que a Lisbeth � irrespons�vel. Resultado: o jornal faz um monte de especula��es sobre o estado mental dela.</p><p>� Eu li o artigo. � pura bobagem.</p><p>� Ent�o o senhor n�o considera a Salander uma louca?</p><p>� N�o posso me pronunciar a respeito. Agora, o que sei � que n�o foi feita nenhuma avalia��o psiqui�trica.</p><p>� Certo. Mas tenho provas de que essas informa��es foram divulgadas por um policial chamado Hans Faste e que ele trabalha para o procurador Ekstr�m.</p><p>� Puta merda!</p><p>� O Ekstr�m vai exigir que o julgamento se d� a portas fechadas, o que significa que nenhum estranho ao caso vai poder conferir e avaliar as provas contra ela. Mas, o que � pior... a partir do momento em que o procurador mandou isolar a Lisbeth, ela n�o tem como fazer as pesquisas necess�rias para preparar sua defesa.</p><p>� Eu achava que a advogada era quem estava tratando disso.</p><p>� Como o senhor a esta altura j� deve ter percebido, a Lisbeth � uma pessoa muito especial. Ela tem alguns segredos que eu conhe�o mas n�o posso revelar para a minha irm�. Em compensa��o, cabe � Lisbeth avaliar se vai querer us�-los para se defender no julgamento.</p><p>� Ah�.</p><p>� E, para isso, ela precisa disto aqui.</p><p>Mikael colocou entre eles, sobre a mesa, um Palm Tungsten T3, o computador de m�o de Lisbeth Salander, al�m de um carregador.</p><p>� Essa � a arma mais importante do arsenal da Lisbeth. Ela precisa dela.</p><p>Anders Jonasson olhou para ele, desconfiado.</p><p>� Por que n�o o entrega � advogada dela?</p><p>� Porque s� a Lisbeth sabe o que fazer para ter acesso �s provas de sua defesa.</p><p>Anders Jonasson permaneceu um longo tempo em sil�ncio, sem tocar no computador de bolso.</p><p>_� Deixe eu lhe falar sobre o doutor Peter Teleborian � disse Mikael, pando a pasta em que reunira todo o material essencial, passaram duas horas conversando em voz baixa.</p><p>Eram oito e pouco da noite de s�bado quando Dragan Armanskij deixou sua sala na Milton Security e foi a p� at� a sinagoga do Sbder, na Sankt Paulsgatan. Bateu � porta, apresentou-se e foi recebido pelo rabino.</p><p>� Marquei um encontro aqui com uma pessoa � disse Armanskij.</p><p>� Primeiro andar. Vou lhe mostrar o caminho.</p><p>O rabino ofereceu um quip�, que Armanskij vestiu ap�s alguma hesita��o. Tinha sido criado numa fam�lia mu�ulmana, em que o uso do quip� e visitas � sinagoga n�o faziam exatamente parte da rotina. Sentia-se pouco � vontade com o barrete judeu na cabe�a.</p><p>Jan Bublanski tamb�m estava usando um quip�.</p><p>� Ol�, Dragan. Obrigado por ter vindo. Pedi uma sala emprestada ao rabino para podermos conversar sem sermos interrompidos.</p><p>Armanskij sentou-se na frente de Bublanski.</p><p>� Imagino que voc� tenha bons motivos para esses segredinhos.</p><p>� N�o vou ficar dando voltas. Sei que voc� � amigo da Lisbeth Salander. Armanskij fez que sim com a cabe�a.</p><p>�� Quero saber o que voc� e o Blomkvist combinaram para ajudar a Salander.</p><p>� O que o faz pensar que combinamos alguma coisa?</p><p>� O procurador Richard Ekstr�m j� me perguntou no m�nimo uma d�zia de vezes qual o verdadeiro acesso da Milton Security � investiga��o Salander. Ele n�o me perguntou � toa, e sim porque tem medo que voc� tente fazer alguma coisa que venha a repercutir na imprensa.</p><p>� Humm.</p><p>� E se o Ekstr�m est� preocupado � porque ele sabe que voc� est� com alguma coisa articulada, ou tem receio disso. Ou, como eu estou achando, ele pelo menos conversou com algu�m que tem esse receio.</p><p>� Algu�m?</p><p>� Dragan, n�o se trata de um jogo de esconde-esconde. Voc� sabe que a Salander foi v�tima de abuso de poder em 1991, e temo que ela seja v�tima de mais um quando o julgamento come�ar.</p><p>� Voc� � policial de uma democracia. Se tem alguma informa��o, cabe a voc� agir.</p><p>Bublanski meneou a cabe�a.</p><p>� Eu pretendo agir. O problema � saber como.</p><p>� V� direto aos fatos.</p><p>� Quero saber o que voc� e o Blomkvist combinaram. Imagino que voc�s n�o estejam a� parados, de bra�os cruzados.</p><p>� E complicado. Como � que eu vou saber se posso confiar em voc�?</p><p>� Tem aquele relat�rio de 1991, que o Mikael Blomkvist tinha encontrado...</p><p>� Estou sabendo.</p><p>� Eu n�o tenho mais acesso a esse relat�rio.</p><p>� Nem eu. Os dois exemplares, o do Blomkvist e o da irm� dele, se perderam.</p><p>� Se perderam? � Bublanski surpreendeu-se.</p><p>�� O exemplar do Blomkvist foi roubado depois de invadirem a casa dele, e a c�pia de Annika Giannini sumiu quando ela sofreu uma agress�o em G�teborg. Os dois roubos ocorreram no mesmo dia em que o Zalachenko foi assassinado.</p><p>Bublanski ficou um longo tempo em sil�ncio.</p><p>� Por que a gente n�o ouviu falar disso?</p><p>� Como diz o Mikael Blomkvist: s� existe um momento certo para publicar, e um n�mero incalcul�vel de momentos inadequados.</p><p>� Quer dizer que voc�s... que ele pretende publicar? Armanskij assentiu rapidamente com a cabe�a.</p><p>�� Uma agress�o em G�teborg e uma invas�o de domic�lio aqui em Estocolmo. No mesmo dia. Bublanski, isso significa que os nossos advers�rios s�o bem organizados. Posso tamb�m te dizer que temos provas de que o telefone da Giannini estava grampeado.</p><p>� Algu�m anda cometendo um bocado de infra��es por aqui.</p><p>� A quest�o, ent�o, � descobrir quem s�o nossos advers�rios � disse Dragan Armanskij.</p><p>- � verdade, eu tamb�m acho. � primeira vista, a Sapo � quem teria interesse em abafar o relat�rio do Bj�rck. Mas, Dragan... estamos falando na pol�cia de Seguran�a sueca. Trata-se de uma autoridade de Estado. Custo a acreditar que este caso conte com o aval da Sapo. Nem sequer acredito que e]a tenha compet�ncia para orquestrar uma coisa assim.</p><p>� Eu sei. Tamb�m custei a acreditar. Sem falar no fato de um homem entrar no Sahlgrenska e enfiar uma bala na cabe�a do Zalachenko.</p><p>Bublansk� calou-se. Armanskij deu a �ltima cartada.</p><p>� E no meio disso tudo o Bj�rck resolve se enforcar.</p><p>� Quer dizer que voc� acha que foram assassinatos organizados. Eu conhe�o o Marcus Ackerman, que era respons�vel pela investiga��o em G�teborg. Ele n�o descobriu nada indicando que aquele assassinato pudesse ser mais que o gesto impulsivo de um indiv�duo insano. E a gente investigou minuciosamente a morte de Bj�rck. Tudo leva a crer que foi suic�dio.</p><p>Armanskij balan�ou a cabe�a.</p><p>� Evert Gullberg, setenta e oito anos, com c�ncer e condenado � morte, tratado de uma depress�o poucos meses antes do assassinato. Pedi que o Fr�klund revirasse os documentos oficiais atr�s de tudo o que se relaciona com o Gullberg.</p><p>� E?</p><p>� Ele fez o servi�o militar em Karlskrona nos anos 1940, depois cursou direito e virou consultor fiscal no mercado privado. Teve um escrit�rio aqui em Estocolmo por mais de trinta anos, discreto, clientes particulares... n�o se sabe quem eram. Aposentou-se em 1991. Voltou para a sua cidade natal, Laholm, em 1994... Nada que chame muita aten��o.</p><p>� Mas?</p><p>� A n�o ser por uns detalhes intrigantes. O Fr�klund n�o consegue encontrar uma �nica refer�ncia a Gullberg em nenhum tipo de contexto. Ele nunca foi mencionado na imprensa e ningu�m sabe quem eram seus clientes. � como se ele nunca tivesse existido na vida profissional.</p><p>� O que voc� est� tentando dizer?</p><p>� A Sapo � a liga��o �bvia. O Zalachenko era um dissidente russo, e quem teria lidado com ele se n�o a Sapo? H� tamb�m essa capacidade para Orquestrar o internamento psiqui�trico da Lisbeth Salander em 1991. Sem talar em roubo a domic�lio, agress�o e escutas telef�nicas quinze anos depois... Mas tamb�m n�o acho que a Sapo � que esteja por tr�s disso tudo. O Mikael Blomkvist o chama de Clube Zalachenko... um grupinho de sect�rios formado por combatentes da guerra fria sa�dos da hiberna��o e escondidos em algum lugar num corredor escuro da Sapo.</p><p>Bublanski meneou a cabe�a.</p><p>� Ent�o, o que a gente pode fazer?</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>12. DOMINGO 15 DE MAIO � SEGUNDA-FEIRA 16 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>O delegado Torsten Edklinth, chefe do servi�o de Prote��o � Constitui��o na DGPN/Sapo, beliscou o l�bulo da orelha e contemplou, pensativo, o presidente da respeitada empresa de seguran�a privada Milton Security, que havia ligado e, sem pre�mbulos, insistido que ele fosse jantar em sua casa, em Linding�, no domingo. Ritva, a mulher de Armanskij, servira uma deliciosa carne salteada. Eles tinham comido e conversado educadamente. Edklinth se perguntava o que Armanskij teria em mente. Ap�s o jantar, Ritva se retirara para a frente da tev� e os deixara a s�s � mesa de jantar. Armanskij come�ara a contar a hist�ria de Lisbeth Salander.</p><p>Edklinth girava lentamente sua ta�a de vinho tinto.</p><p>Dragan Armanskij n�o era nenhum maluco. Isso ele sabia.</p><p>Conheciam-se havia doze anos, desde que uma deputada de esquerda recebera uma s�rie de amea�as de morte an�nimas. Ela relatara os fatos ao presidente do grupo do seu partido, o qual informara o setor de seguran�a do Parlamento. Tratava-se de amea�as escritas, vulgares, contendo informa��es que indicavam que o autor an�nimo conhecia certos aspectos pessoais da vida da deputada. A Sapo ent�o se debru�ara sobre a hist�ria e, durante as averigua��es, a deputada fora mantida sob prote��o.</p><empty-line/><p>Naquela �poca, Prote��o � Pessoa era o setor da Sapo com or�amento mais magro. Seus recursos eram limitados. A �rea era encarregada da prote��o da fam�lia real e do primeiro-ministro, al�m de, individualmente, ministros e presidentes de partidos pol�ticos, quando houvesse necessidade. Como essas necessidades costumam extrapolar as verbas, na pr�tica a maioria dos pol�ticos suecos carece de uma prote��o pessoal rigorosa. A deputada ficava sob vigil�ncia durante algumas apari��es oficiais, mas era abandonada no fim de sua jornada de trabalho, ou seja, na hora em que era mais prov�vel que um biruta partisse para a agress�o. A desconfian�a da deputada em rela��o � capacidade da Sapo de proteg�-la s� fora crescendo.</p><p>Ela morava numa mans�o em Nacka. Certa noite, ao voltar tarde para casa depois de uma contenda na Comiss�o de Finan�as, descobriu que algu�m tinha arrombado as portas do terra�o, penetrado na sala, pixado as paredes com express�es de cunho sexual degradantes e em seguida ido ao seu quarto se masturbar. Ela pegara imediatamente o telefone e pedira que a Milton Security cuidasse de sua seguran�a pessoal. N�o informou a Sapo sobre a decis�o e, no dia seguinte, enquanto ela dava uma palestra numa escola de T�by, houve um confronto entre os agentes do Estado e os agentes privados.</p><p>Na �poca, Torsten Edklinth era chefe-adjunto interino da Prote��o � Pessoa. Detestava, instintivamente, situa��es em que hooligans privados eram encarregados de executar tarefas que os hooligans pagos pelo Estado supostamente deveriam executar. Admitia, por�m, que a deputada tinha todos os motivos para estar descontente � sua cama manchada era uma prova suficiente da inefici�ncia do Estado. Em vez de se come�ar a comparar seus talentos rec�procos, Edklinth se acalmara e marcara um almo�o com o dono da Milton Security, Dragan Armanskij. Conclu�ram que a situa��o era sem d�vida mais s�ria do que a Sapo de in�cio imaginara e que seria o caso de refor�ar a prote��o � deputada. Edklinth era sensato o bastante para perceber que n�o s� os homens de Armanskij tinham a compet�ncia exigida para a tarefa, como possu�am uma forma��o no m�nimo equivalente e um equipamento t�cnico superior. Tinham resolvido o problema entregando � equipe de Armanskij a responsabilidade pela prote��o pessoal, ao passo que a Pol�cia de Seguran�a se encarregaria da investiga��o propriamente dita e pagaria a conta.</p><p>Os dois homens tinham descoberto tamb�m que se apreciavam mutuamente e trabalhavam bem em conjunto. Com o passar dos anos, haviam tornado a se encontrar em outras colabora��es. Edklinth, portanto, nutria imenso respeito pela compet�ncia profissional de Dragan Armanskij, e quando este o convidou para jantar, pedindo que tivessem uma conversa confidencial estava absolutamente disposto a ouvi-lo.</p><p>Em compensa��o, n�o estava preparado para que Armanskij lhe jogasse no colo uma bomba com o pavio aceso.</p><p>� Se entendi direito, voc� est� afirmando que a Pol�cia de Seguran�a anda envolvida numa atividade claramente criminosa.</p><p>� N�o � disse Armanskij. � Voc� n�o entendeu nada. Estou afirmando que algumas pessoas, funcion�rios da Pol�cia de Seguran�a, andam envolvidos nessa atividade. N�o acredito nem por um segundo que eles tenham o aval da dire��o da Sapo ou qualquer outra forma de autoriza��o do Estado.</p><p>Edklinth olhou para as fotografias de Christer Malm que mostravam o homem subindo num carro cujas placas come�avam com as letras KAB.</p><p>� Dragan... voc� n�o est� de brincadeira comigo?</p><p>� Bem que eu gostaria que fosse brincadeira. Edklinth refletiu um instante.</p><p>� E como voc� sup�e que eu vou me sair dessa?</p><p>No dia seguinte, Torsten Edklinth limpava cuidadosamente seus �culos, enquanto refletia. Tinha cabelos grisalhos, orelhas grandes e uma fisionomia en�rgica. No momento, por�m, sua fisionomia estava mais perplexa do que en�rgica. Encontrava-se em sua sala no Pal�cio da Pol�cia, na ilhota de Kungsholmen, e passara boa parte da noite ruminando as conclus�es a serem tiradas da informa��o fornecida por Dragan Armanskij.</p><p>Eram reflex�es pouco agrad�veis. A Sapo era uma institui��o sueca que, com raras exce��es, todos os partidos consideravam de um valor inestim�vel para o pa�s. Mas tamb�m era uma institui��o de que todos pareciam desconfiar, responsabilizando-a pelos mais variados e descabidos planos conspirat�rios. Era ineg�vel que os esc�ndalos tinham sido muitos, sobretudo nos anos 1970, com os radicais de esquerda, quando certos... disparates constitucionais haviam de fato ocorrido. Mas depois de cinco comiss�es p�blicas de inqu�rito sobre a Sapo, duramente criticada, surgira uma nova gera��o de funcion�rios. Elementos trabalhadores, recrutados nas brigadas financeiras, de armas e fraudes da pol�cia comum � policiais acostumados a investigar crimes de verdade e n�o fantasias pol�ticas.</p><p>A Sapo se modernizara, e a �nfase fora direcionada para a Prote��o � Constitui��o. Sua miss�o, tal como estabelecida nas diretrizes governamentais, era prevenir e contornar amea�as � seguran�a interna do pa�s. Em outras palavras, impedir toda atividade ilegal que se utilize de viol�ncia, amea�as ou constrangimento com o objetivo de alterar nossa Constitui��o, levando �rg�os pol�ticos ou autoridades decis�rias a tomar decis�es orientadas ou impedir o cidad�o de desfrutar das liberdades e dos direitos que a Constitui��o lhe garante.</p><p>A miss�o de Prote��o � Constitui��o era, portanto, defender a democracia sueca de compl�s antidemocr�ticos reais ou imaginados. Estes �ltimos eram esperados, principalmente, de anarquistas e nazistas. Anarquistas, porque eles insistiam em praticar a desobedi�ncia civil provocando inc�ndios criminosos nas lojas de peles. Nazistas, porque eram nazistas e, portanto, por defini��o, advers�rios da democracia.</p><p>Formado inicialmente em direito, Torsten Edklinth come�ara sua carreira como procurador, trabalhando em seguida na Sapo por vinte e um anos. Primeiro em campo, como administrador da Prote��o � Pessoa, depois na Prote��o � Constitui��o, onde ascendera da an�lise e dire��o administrativa at� a poltrona de chefe de gabinete. Em outras palavras, era o chefe supremo da �rea policial da defesa da democracia sueca. O delegado Torsten Edklinth considerava-se um democrata. Nesse sentido, a defini��o era simples. A Constitui��o era votada pelo Parlamento, e sua miss�o era zelar para que ela se mantivesse intacta.</p><p>A democracia sueca se fundamenta numa �nica lei, que pode ser resumida em tr�s letras: YGL, abrevia��o de yttrandefrihetsgrundlagen, a lei fundamental sobre liberdade de express�o. A YGL estabelece o direito imprescrit�vel de dizer, ter como opini�o, pensar e acreditar em qualquer coisa. Esse direito � concedido a todos os cidad�os suecos, do nazista mais retardado ao anarquista apedrejador, passando por todos os intermedi�rios.</p><p>Todas as outras leis fundamentais, como por exemplo a Constitui��o, n�o passam de floreios de ordem pr�tica em torno da liberdade de express�o. A YGL, por conseguinte, � a lei que garante a sobreviv�ncia da democracia. Edklinth julgava que sua principal tarefa era defender a liberdade que os suecos tinham de pensar e dizer exatamente o que queriam, mesmo ele n�o partilhasse um segundo sequer com o teor desses pensamentos e declara��es.</p><p>Tal liberdade, no entanto, n�o significa que tudo seja permitido, o que alguns xiitas da liberdade de express�o, notadamente ped�filos e grupos racistas procuram fazer valer no debate da pol�tica cultural. Toda democracia tem seus limites, e os limites da YGL s�o regulados pela lei da liberdade de imprensa, a tryckfrihetsf�rordningen, ou TF, que em princ�pio define quatro restri��es dentro da democracia. E proibido publicar pornografia envolvendo crian�as e determinadas cenas de viol�ncia sexual, qualquer que seja o n�vel art�stico reivindicado pelo autor. E proibido estimular a revolta e incitar o crime. E proibido difamar e caluniar um concidad�o. E � proibido incitar o �dio racial.</p><p>A liberdade de imprensa tamb�m foi ratificada pelo Parlamento e constitui uma restri��o � democracia social e democraticamente aceit�vel, ou seja, o contrato social que estabelece os padr�es de uma sociedade civilizada. Em ess�ncia, a legisla��o assegura que ningu�m tem o direito de perseguir ou humilhar outro ser humano.</p><p>Posto que a liberdade de express�o e a liberdade de imprensa s�o garantidas por leis, h� que haver uma autoridade que assegure a obedi�ncia a essas leis. Na Su�cia, essa fun��o � partilhada por duas institui��es, cabendo a uma delas, o justitiekanslern, ou JK, o chanceler da justi�a, autuar judicialmente os contraventores da liberdade de imprensa.</p><p>Nesse aspecto, Torsten Edklinth estava longe de se sentir satisfeito. Achava o JK muit�ssimo condescendente no tocante �s autua��es judiciais referentes a infra��es diretas cometidas contra a Constitui��o sueca. O JK costumava retrucar que o princ�pio da democracia tinha tamanha import�ncia que s� em casos extremos ele podia intervir e mover um processo. Tal atitude, por�m, vinha sendo mais e mais contestada nos �ltimos anos, principalmente depois que o secret�rio-geral do comit� de Helsinque na Su�cia, Robert H�rdh, desenterrara um relat�rio analisando a falta de iniciativa do JK ao longo de v�rios anos. O relat�rio constatava que era praticamente imposs�vel mover um processo e condenar algu�m por incita��o ao �dio racial.</p><p>A segunda institui��o era o departamento da Sapo para a Prote��o � Constitui��o, e o delegado Torsten Edklinth levava muito a s�rio a sua miss�o. Julgava que era o mais belo cargo, e o mais importante, que um policia sueco poderia ocupar, e n�o o teria trocado por nenhum outro em toda a Su�cia judicial ou policial. Ele era simplesmente o �nico policial do pa�s que tinha por miss�o cumprir o papel de policial pol�tico. Era uma fun��o delicada que exigia grande sabedoria e um senso de justi�a extremamente acurado j� que a experi�ncia de vim n�mero excessivo de pa�ses mostrava que uma pol�cia pol�tica podia com facilidade se transformar na maior amea�a contra a democracia.</p><p>A m�dia e a popula��o pensavam que o principal objetivo da Prote��o � Constitui��o era administrar nazistas e militantes vegetarianos. Esse tipo de manifestante decerto interessava muit�ssimo � Prote��o � Constitui��o, mas existia, al�m disso, toda uma s�rie de institui��es e acontecimentos que tamb�m faziam parte das atribui��es do departamento. Se, por exemplo, o rei ou do comandante em chefe do Ex�rcito pusesse na cabe�a que o sistema parlamentar estava superado e que o Parlamento deveria ser substitu�do por uma ditadura militar, a Prote��o � Constitui��o ficaria imediatamente de olho no rei ou no comandante em chefe. E se um grupo de policiais resolvesse interpretar livremente a lei a tal ponto que os direitos constitucionais de um indiv�duo ficassem prejudicados, cabia tamb�m � Prote��o � Constitui��o reagir. Al�m disso, em casos graves, a investiga��o ficava sob as ordens do procurador-geral da na��o.</p><p>O problema, evidentemente, era que a Prote��o � Constitui��o tinha a tarefa quase que apenas de an�lise e averigua��o, e nenhuma a��o de interven��o. Por isso, em geral, era a pol�cia comum ou outras divis�es da Sapo que intervinham quando da pris�o de nazistas.</p><p>Torsten Edklinth julgava essa realidade profundamente insatisfat�ria. Quase todos os pa�ses normais mant�m, de uma forma ou de outra, um tribunal constitucional independente com o objetivo espec�fico de zelar para que as autoridades n�o lesem a democracia. Na Su�cia, essa fun��o era confiada ao procurador-geral da Coroa, ou o justitieombudsman, um indiv�duo designado pelo Parlamento para cuidar que os funcion�rios do Estado respeitassem a lei no exerc�cio de suas fun��es, tendo, por�m, de se conformar �s decis�es de outros indiv�duos. Se a Su�cia tivesse um tribunal constitucional, a advogada de Lisbeth Salander poderia ter movido imediatamente um processo contra o Estado sueco por viola��o de direitos constitucionais. O tribunal poderia, assim, ter exigido a apresenta��o de todos os documentos ter intimado qualquer pessoa, inclusive o primeiro-ministro, at� que o caso fosse solucionado. Na atual situa��o, a advogada poderia, a rigor, alertar o institieombudsman, o qual, contudo, n�o tinha autoridade para ir at� a Sapo e exigir examinar os documentos.</p><p>Torsten Edklinth fora durante v�rios anos um caloroso defensor da implanta��o de um tribunal constitucional. Se fosse assim, ele poderia lidar de uma forma muito simples com a informa��o repassada por Dragan Armanskij, dando um depoimento � pol�cia e comunicando os fatos ao tribunal. Desse modo, um processo inexor�vel seria posto em andamento.</p><p>No atual estado de coisas, Torsten Edklinth n�o possu�a compet�ncia jur�dica para abrir um inqu�rito preliminar.</p><p>Ele suspirou e serviu-se de uma pitada de rape.</p><p>Caso as informa��es de Dragan Armanskij procedessem, isso significava que alguns ocupantes de cargos superiores da Sapo haviam fechado os olhos para uma s�rie de delitos graves contra uma mulher sueca, e mais tarde tinham mandado internar sua filha, com bases falsas, num hospital psiqui�trico e, por fim, tinham deixado livre um ex-espi�o da elite russa, para que ele se dedicasse ao tr�fico de armas, de drogas e de mulheres. Torsten Edklinth fez uma careta. Nem queria come�ar a contar quantas infra��es � lei n�o teriam ocorrido ao longo do caminho. Para n�o falar no roubo ao domic�lio de Mikael Blomkvist, na agress�o � advogada de Lisbeth Salander e talvez at� � o que Edklinth se negava a acreditar � em cumplicidade no assassinato de Alexander Zalachenko.</p><p>Torsten Edklinth n�o tinha a menor vontade de se envolver numa confus�o daquelas. Infelizmente, por�m, j� fora envolvido desde o instante em que Dragan Armanskij o convidara para jantar.</p><p>A quest�o agora era descobrir uma maneira de administrar a situa��o. Formalmente, a resposta era simples. Se o relato de Armanskij fosse ver�dico, as liberdades e os direitos constitucionais de Lisbeth Salander tinham sido completamente desrespeitados. O mais prov�vel era topar com um aut�ntico ninho de cobras, considerando-se que �rg�os pol�ticos ou autoridades com poder de decis�o podiam ter sido influenciados em suas senten�as, o que punha o dedo no cerne das fun��es da Prote��o � Constitui��o. Torsten Edklinth era um policial com conhecimento de um crime, e seu dever, portanto, seria alertar um procurador. De modo mais informal, a resposta n�o era t�o simples. Era, por sinal, bastante complicada.</p><p>A inspetora Rosa Figuerola, apesar de seu nome incomum, nascera na Dalecarlia, numa fam�lia estabelecida na Su�cia desde os tempos de Gustavo Vasa. Era uma dessas mulheres em que as pessoas reparam, e por diversos motivos. Tinha trinta e seis anos, olhos azuis, e n�o media menos de um metro e oitenta e quatro. Era bonita, e seu jeito de se vestir a tornava ainda mais atraente.</p><p>E tinha o corpo excepcionalmente bem definido.</p><p>Na adolesc�ncia, praticara atletismo de alto n�vel e, aos dezessete anos, por pouco n�o se classificara pela equipe sueca para os Jogos Ol�mpicos. De l� para c�, abandonara o atletismo, mas malhava cinco vezes por semana feito uma condenada numa academia. Malhava com tanta freq��ncia que as endorfinas funcionavam como droga, o que a deixava em abstin�ncia quando interrompia as atividades f�sicas. Praticava corrida e muscula��o, jogava t�nis, lutava carat� e, al�m disso, j� se dedicara ao bodybuilding por dez anos. Contudo, reduzira consideravelmente essa variante extrema do culto ao corpo dois anos antes, numa �poca em que ficava duas horas por dia puxando ferro. Atualmente, cumpria apenas uma meia horinha di�ria, mas sua forma f�sica era tal, e seu corpo t�o musculoso, que alguns colegas pouco simp�ticos a chamavam de Sr. Figuerola. Quando vestia regatas ou vestidos de ver�o, ningu�m conseguia n�o reparar em seus b�ceps e delt�ides.</p><p>Sua constitui��o f�sica, portanto, incomodava v�rios de seus colegas homens, e tamb�m o fato de seu papel n�o ser meramente decorativo. Conclu�ra o secund�rio com as melhores notas e aos vinte anos ingressara na Escola de Pol�cia, trabalhando depois por nove anos na pol�cia de Uppsala, enquanto em seu tempo livre estudava direito. S� por brincadeira, prestara exame para Ci�ncias Pol�ticas, e tamb�m passara. N�o tinha o menor problema em memorizar e analisar dados. Raramente lia romances policiais ou qualquer literatura de lazer. Em compensa��o, mergulhava com o maior interesse nos assuntos mais variados, do direito internacional � hist�ria da Antig�idade.</p><p>Na pol�cia, deixara de ser agente � o que representara uma perda imensa para a seguran�a das ruas de Uppsala � para assumir o cargo de inspetora criminal, primeiro na Brigada Criminal, depois na brigada especializada em crimes financeiros. Em 2000, solicitara um posto na Pol�cia de Seguran�a de Uppsala e, em 2001, fora transferida para Estocolmo. Come�ara trabalhando na contra-espionagem, mas fora quase imediatamente chamada para a Prote��o � Constitui��o por Torsten Edklinth, que conhecia o pai de Rosa Figuerola e acompanhara a carreira dela ao longo dos anos.</p><p>Quando Edklinth finalmente concluiu que precisava agir com rapidez a respeito da informa��o fornecida por Dragan Armanskij, refletiu um momento, e ent�o pegou o telefone e convocou Rosa Figuerola para sua sala. Como ainda n�o fazia tr�s anos que ela trabalhava na Prote��o � Constitui��o, Figuerola ainda estava mais pr�xima de uma aut�ntica policial que de uma burocrata escaldada.</p><p>Naquele dia, usava uma cal�a jeans justa, sand�lias de saltinho turquesa e uma jaqueta azul-marinho.</p><p>� No momento, voc� est� trabalhando em qu�? � perguntou Edklinth cumprimentando-a, para ent�o convid�-la a sentar-se.</p><p>� Estamos investigando o assalto �quela mercearia de Sunne, sabe, que aconteceu h� duas semanas.</p><p>Certamente n�o era papel da Sapo se encarregar de assaltos a mercearias. Esse tipo de trabalho de base cabia exclusivamente � pol�cia comum. Rosa Figuerola coordenava, na Prote��o � Constitui��o, uma �rea com cinco colaboradores que lidava com an�lise de criminalidade pol�tica. Sua ferramenta mais importante era um certo n�mero de computadores em rede com o arquivo dos incidentes relatados pela pol�cia comum. Praticamente todos os depoimentos dados � pol�cia, em qualquer ponto da Su�cia, passavam pelos computadores chefiados por Rosa Figuerola. Esses computadores continham um software que rastreava automaticamente todos os relat�rios policiais e era programado para reagir a trezentas e dez palavras espec�ficas, tais como turco, skinhead, su�stica, imigrante, anarquista, sauda��o hitleriana, nazista, nacional-democrata, traidor da p�tria, puta judia ou mu�ulmano. Assim que uma palavra desse tipo aparecia num relat�rio policial, o computador dava o alerta e o relat�rio em quest�o era baixado e examinado de perto. Caso o contexto justificasse, era poss�vel pedir acesso ao inqu�rito preliminar e aprofundar as investiga��es.</p><p>Uma das tarefas da Prote��o � Constitui��o era publicar anualmente um relat�rio intitulado Amea�as � seguran�a de Estado, que constitu�a no �nico levantamento estat�stico confi�vel sobre criminalidade pol�tica. Essa estat�stica baseava-se exclusivamente nos depoimentos colhidos nas delegacias locais. No caso do assalto � mercearia de Sunne, o software reagira a tr�s palavras-chave � imigrante, dragona e turco. Dois jovens, usando m�scaras e armados com uma pistola, tinham limpado a mercearia, de propriedade de um imigrante. Levaram a quantia de 2780 coroas e um pacote de cigarros. Um dos delinq�entes usava uma jaqueta de couro com dragonas representando a bandeira sueca. O outro bandido tinha gritado v�rias vezes "seu turco de merda" para o propriet�rio da loja e o obrigara a se deitar no ch�o.</p><p>Era o que bastava para a equipe de Figuerola acessar o inqu�rito preliminar com o objetivo de descobrir se os ladr�es estavam mancomunados com as gangues nazistas do V�rmland, e nesse caso, se o assalto poderia ser considerado crime racial, j� que um dos ladr�es se expressara nesse sentido. Conforme o caso, o assalto poderia constar em estat�sticas futuras, que mais tarde seriam analisadas e lan�adas na estat�stica europ�ia que os escrit�rios da Uni�o Europ�ia de Viena preparavam todos os anos. Poderia tamb�m acontecer de os ladr�es serem escoteiros que tinham comprado uma jaqueta com a bandeira sueca e que n�o passasse de mero acaso o propriet�rio da loja ser um imigrante e a palavra "turco" ter sido pronunciada. Se assim fosse, a �rea de Figuerola apagaria aquele assalto das estat�sticas.</p><p>� Tenho uma miss�o arriscada para voc� � disse Torsten Edklinth.</p><p>� Ah, �? � fez Rosa Figuerola.</p><p>� Um servi�o que pode te jogar no mais profundo descr�dito ou at� afundar sua carreira.</p><p>� Entendo.</p><p>� Mas se voc� for bem-sucedida e as coisas acontecerem do jeito certo, pode significar um passo enorme na sua carreira. Pretendo transferir voc� para a unidade de interven��o da Prote��o � Constitui��o.</p><p>� Lamento informar, mas a Prote��o � Constitui��o n�o tem unidade de interven��o.</p><p>� Tem, sim � disse Torsten Edklinth. � Agora tem. Eu criei essa unidade hoje de manh�. Por enquanto, conta com uma s� pessoa. Voc�.</p><p>Rosa Figuerola pareceu hesitar.</p><p>�A tarefa da Prote��o � Constitui��o � proteger a Constitui��o de amea�as internas, o que, grosso modo, quer dizer nazistas e anarquistas. Mas o que a gente faz se a amea�a � Constitui��o vier da nossa pr�pria organiza��o?</p><p>Torsten Edklinth passou a meia hora seguinte contando em detalhe a hist�ria que Dragan Armanskij lhe relatara na noite anterior.</p><p>� Quem � a fonte dessas informa��es? � perguntou Rosa Figuerola.</p><p>� Por enquanto n�o tem a menor import�ncia. Concentre-se na informa��o que temos.</p><p>� O que eu quero saber � se voc� confia nessa fonte.</p><p>� Conhe�o essa fonte h� muitos anos e considero-a extremamente confi�vel.</p><p>� Isso tudo � simplesmente... bem, n�o sei. Se eu chamar de "inveross�mil", vai ser pouco.</p><p>Edklinth meneou a cabe�a.</p><p>� Como um romance de espionagem � disse ele.</p><p>� Bem, e o que voc� quer de mim?</p><p>� A partir de agora, est� desligada de todas as suas demais miss�es. Agora voc� s� tem uma: descobrir at� que ponto essa hist�ria � verdadeira. Ou voc� confirma, ou rejeita essas afirma��es. Preste contas diretamente para mim, e para mais ningu�m.</p><p>� Meu Deus � disse Rosa Figuerola. �Agora entendo o que voc� quis dizer quando avisou que eu poderia me queimar.</p><p>�� E. Mas se for verdade... se uma parte m�nima dessas informa��es for verdade, estaremos diante de uma crise constitucional que vamos ter de administrar.</p><p>� Por onde eu come�o? E como?</p><p>� Comece pelo mais simples. Leia o tal relat�rio que o Gunnar Bj�rck escreveu em 1991. Em seguida, identifique o pessoal que estaria vigiando o Mikael Blomkvist. De acordo com a minha fonte, o propriet�rio do carro � um tal de G�ran M�rtensson, um policial de quarenta anos que mora na Vittangi-gatan, em V�llingby. Depois disso, identifique o outro cara que aparece nas fotos tiradas pelo fot�grafo do Mikael Blomkvist. O mais jovem, este loiro aqui.</p><p>� Certo.</p><p>� Depois, levante o passado do Evert Gullberg. Nunca ouvi falar nesse sujeito, mas, pelo que diz minha fonte, ele necessariamente tem uma liga��o com a Pol�cia de Seguran�a.</p><p>� O que significaria que algu�m daqui teria encomendado o assassinato de um espi�o a um velho de setenta e oito anos. N�o acredito.</p><p>� Mesmo assim, verifique. E sua investiga��o deve ser sigilosa. Antes de tomar qualquer atitude, quero ser informado. N�o quero nenhum furo.</p><p>� Voc� est� me pedindo uma investiga��o gigantesca. Como � que vou fazer tudo isso sozinha?</p><p>� Voc� n�o vai fazer sozinha. S� vai cuidar dessa primeira investiga��o. Se me disser que n�o descobriu nada, fica por isso mesmo. Se descobrir qualquer coisa suspeita, a� a gente v�.</p><p>Rosa Figuerola passou o intervalo do almo�o puxando ferro na academia do Pal�cio da Pol�cia. Seu almo�o propriamente dito consistia num caf� preto e num sandu�che de alm�ndegas com salada de beterraba, que ela foi comer em sua sala. Fechou a porta, abriu espa�o na mesa e come�ou a ler o relat�rio de Gunnar Bj�rck enquanto comia o sandu�che.</p><p>Leu tamb�m o anexo com a correspond�ncia entre Bj�rck e o Dr. Peter Teleborian. Anotou todos os nomes e fatos do relat�rio que seriam objeto de investiga��o. Ao fim de duas horas, levantou-se e foi at� a m�quina buscar mais um caf�. Ao sair da sala, trancou a porta, seguindo um dos procedimentos rotineiros da Sapo.</p><p>Primeiro, conferiu o n�mero do cadastro. Ligou para o arquivista, que confirmou n�o existir nenhum relat�rio com aquele n�mero. Segundo, consultou os arquivos da imprensa, o que foi mais proveitoso. Os dois jornais vespertinos e um matutino mencionavam uma pessoa gravemente ferida no inc�ndio de um carro na Lundagatan naquele dia de 1991. A v�tima era um homem de meia-idade cujo nome n�o era citado. Um dos vespertinos publicava o relato de uma testemunha dizendo que o inc�ndio fora provocado por uma garota. Seria, portanto, o famoso coquetel Molotov que Lisbeth Salan-der teria jogado num agente russo chamado Zalachenko. Em todo caso, o incidente parecia ter ocorrido de fato.</p><p>Gunnar Bj�rck, autor do relat�rio, era um indiv�duo de carne e osso conhecido, com poder de decis�o e um alto cargo na Brigada dos Estrangeiros. Ele estava de licen�a m�dica, quando, infelizmente, se suicidara.</p><p>O departamento pessoal, contudo, n�o podia dizer nada sobre as atividades de Gunnar Bj�rck em 1991. Eram informa��es sigilosas at� para os colaboradores da Sapo. Tudo muito normal.</p><p>Foi f�cil verificar que Lisbeth Salander morava na Lundagatan em 1991 e que passara os dois anos seguintes na ala de psiquiatria infantil da cl�nica Sankt Stefan. Pelo menos at� a�, a realidade n�o parecia contradizer o relat�rio.</p><p>Peter Teleborian era um psiquiatra conhecido, com freq�entes apari��es na tev�. Trabalhara na Sankt Stefan em 1991, sendo hoje em dia seu m�dico-chefe.</p><p>Rosa Figuerola refletiu demoradamente no significado daquele relat�rio. Depois, ligou para o chefe-adjunto do departamento pessoal.</p><p>� Tenho uma pergunta cabeluda para lhe fazer � ela disse.</p><p>� Qual?</p><p>� Estamos com um caso de an�lise aqui na Prote��o � Constitui��o. Trata-se de avaliar a credibilidade de uma pessoa e sua sa�de ps�quica. Eu precisaria consultar um psiquiatra, ou algum outro especialista habilitado em lidar com informa��es consideradas sigilosas. Me falaram no doutor Peter Teleborian e eu queria saber se posso recorrer a ele.</p><p>A resposta custou um pouco a chegar.</p><p>� O doutor Peter Teleborian atuou como consultor externo da Sapo em algumas ocasi�es. Ele est� autorizado e, em termos gerais, voc� pode conversar com ele sobre informa��es sigilosas. Mas antes de entrar em contato com ele, voc� vai precisar seguir alguns procedimentos administrativos. O seu chefe tem que dar o aval e entrar com um pedido formal para voc� poder consultar o Teleborian.</p><p>O cora��o de Rosa Figuerola p�s-se a bater mais depressa. Ela acabava de obter a confirma��o de algo que pouqu�ssima gente devia saber. Peter Teleborian j� fora ligado � Sapo. O que refor�ava a credibilidade do relat�rio.</p><p>Ela abandonou um pouco aquele ponto e passou para outros aspectos do dossi� que Torsten Edklinth lhe passara. Examinou as duas pessoas das fotos tiradas por Christer Malm, que teriam seguido Mikael Blomkvist depois de ele sair do Caf� Copacabana em 1�. de maio.</p><empty-line/><p>Consultou o cadastro de emplacamentos e constatou que G�ran M�rtensson existia de fato e era propriet�rio de um Volvo cinza com a placa mencionada. Em seguida, o departamento pessoal da Sapo confirmou que ele era um de seus funcion�rios. Aquele era o controle mais elementar que ela poderia fazer, e essa informa��o tamb�m parecia correta. Seu cora��o bateu um pouco mais r�pido.</p><p>G�ran M�rtensson trabalhava no servi�o de Prote��o � Pessoa. Era guarda-costas. Fazia parte do grupo de colaboradores que em diversas ocasi�es respondera pela seguran�a do primeiro-ministro. Havia algumas semanas, por�m, estava temporariamente locado na contra-espionagem. Sua licen�a tivera in�cio em 10 de abril, poucos dias depois de Alexander Zalachenko e Lisbeth Salander terem dado entrada no Hospital Sahlgrenska, mas transfer�ncias desse tipo eram bastante comuns, caso faltasse pessoal para um caso urgente.</p><p>Rosa Figuerola ligou em seguida para o chefe-adjunto da contra-espionagem, um homem que ela conhecia pessoalmente e para quem trabalhara durante sua breve passagem pelo departamento. Perguntou se G�ran M�rtensson estava trabalhando num caso importante ou se poderia ficar � disposi��o da Prote��o � Constitui��o para uma investiga��o.</p><p>O chefe-adjunto da contra-espionagem ficou perplexo. Ela devia ter sido mal informada. G�ran M�rtensson, da Prote��o � Pessoa, nunca trabalhara na contraespionagem. Sinto muito.</p><p>Rosa Figuerola colocou o fone no gancho e ficou dois minutos contemplando o aparelho. Na Prote��o � Pessoa, achavam que M�rtensson estava locado na contra-espionagem. Na contra-espionagem, ningu�m solicitara seus servi�os. Transfer�ncias desse tipo eram concedidas e administradas pelo secret�rio-geral. Estendeu a m�o para telefonar para o secret�rio-geral, mas mudou de id�ia. Se a Prote��o � Pessoa cedera M�rtensson, o secret�rio-geral necessariamente dera o aval. M�rtensson, por�m, n�o se encontrava na contra-espionagem. O que devia ser do conhecimento do secret�rio-geral. E se M�rtensson estava � disposi��o de um departamento que vinha seguindo Mikael Blomkvist, o secret�rio-geral tamb�m devia saber disso.</p><p>Torsten Edklinth lhe pedira para n�o deixar furos. Fazer essa pergunta ao secret�rio-geral seria como jogar um enorme paralelep�pedo numa po�a d'�gua.</p><empty-line/><p>Erika Berger sentou-se � sua mesa no aqu�rio, pouco depois das dez e meia da manh� de segunda-feira, e suspirou profundamente. Estava bem precisada da x�cara de caf� que acabava de trazer da sala dos funcion�rios. Passara as primeiras horas do seu dia de trabalho em duas reuni�es. A primeira, uma reuni�o de quinze minutos em que o assistente de reda��o Peter Fredriksson apresentara as principais linhas de trabalho do dia. Considerando-se sua falta de confian�a em Lukas Holm, vinha sendo cada vez mais obrigada a se fiar no julgamento de Fredriksson.</p><p>A segunda reuni�o, que se estendera por mais de uma hora, fora com o presidente do conselho administrativo, Magnus Borgsj�, o diretor financeiro do SMP, Christer Sellberg, e o respons�vel pelo or�amento, Ulf Flodin. Tinham passado em revista a baixa do mercado de an�ncios e a queda das vendas por exemplar. O chefe de or�amento e o diretor financeiro se uniam para pedir medidas que reduzissem o d�ficit do jornal.</p><p>� Este ano, s� fechamos o primeiro trimestre gra�as a uma pequena alta do mercado de an�ncios e � aposentadoria de dois funcion�rios no Ano--Novo. Os dois cargos tinham ficado vagos, dissera Ulf Flodin. Vamos, sem d�vida, conseguir fechar o atual trimestre com um d�ficit insignificante. Mas, ao que tudo indica, os jornais gratuitos Metro e Stockholm City continuam beliscando o mercado de an�ncios de Estocolmo. Nosso progn�stico � que o terceiro trimestre do ano vai registrar um d�ficit acentuado.</p><p>� E qual ser� nossa resposta? � perguntara Borgsj�.</p><p>� A �nica solu��o l�gica seria realizar cortes radicais. N�o tivemos nenhuma demiss�o desde 2002. Calculo que, antes do final do ano, pelo menos dez cargos precisem ser eliminados.</p><p>� Quais? � perguntara Erika Berger.</p><p>� Vamos ter que cortar a gordura e escolher um cargo aqui, outro ali. Esportes disp�e no momento de seis cargos e meio. A id�ia � conseguir reduzir para cinco cargos de per�odo integral.</p><p>� Se entendi direito, o pessoal de Esportes j� est� sobrecarregado. Isso significaria ent�o uma redu��o na cobertura dos eventos esportivos.</p><p>Flodin dera de ombros.</p><p>� Se tiver alguma id�ia melhor, sou todo ouvidos.</p><p>� N�o tenho nenhuma id�ia melhor, mas o princ�pio � que, se reduzirmos o pessoa, vamos ter que fazer um jornal mais fino, e se fizermos um jornal mais fino o n�mero de leitores vai diminuir e, conseq�entemente, o n�mero de anunciantes tamb�m.</p><p>� O eterno c�rculo vicioso � dissera o diretor financeiro, Sellberg.</p><p>� Fui contratada para inverter essa tend�ncia, e isso significa apostar todas as minhas fichas na ofensiva com o objetivo de introduzir mudan�as no jornal e torn�-lo mais atraente para os leitores. Mas n�o posso fazer isso cortando pessoal.</p><p>Ela se voltara para Borgsj�.</p><p>� O jornal pode sangrar durante quanto tempo? Que d�ficit podemos ag�entar antes de chegarmos a um ponto sem volta?</p><p>Borgsj� fizera um muxoxo.</p><p>� Desde o in�cio dos anos 1990, o SMP vem mordendo boa parte dos seus fundos. Nossa carteira de a��es perdeu quase trinta por cento do valor nos �ltimos dez anos. Muitos desses fundos foram usados para investimentos na �rea de inform�tica. Ou seja, realmente despesas vultosas.</p><p>� Reparei que o SMP desenvolveu seu pr�prio programa de textos, essa coisa chamada AXT. Quanto custou?</p><p>� Em torno de cinco milh�es de coroas.</p><p>� Para mim, � uma l�gica dif�cil de entender. Existem programas baratos no mercado. Por que o SMP fez quest�o de desenvolver seu pr�prio software?</p><p>� Erika... eu bem que gostaria que algu�m me explicasse. Mas foi o ex--diretor de tecnologia que nos convenceu a fazer isso. Ele dizia que, a longo prazo, acabar�amos ganhando e que, al�m disso, o SMP poderia vender a licen�a do software para outros jornais.</p><p>� E houve quem comprasse?</p><p>� Sim, de fato, um jornal da Noruega.</p><p>� Uau, que maravilha! � dissera Erika secamente. � Pr�xima pergunta: estamos hoje com computadores de cinco, seis anos...</p><p>� Est� fora de cogita��o investir em computadores novos este ano � dissera Flodin.</p><p>A discuss�o prosseguira. Erika percebera muito bem que Flodin e Sellberg ignoravam suas observa��es. Para eles, o �nico argumento v�lido eram os cortes, o que era compreens�vel para um chefe de or�amento e um diretor financeiro, mas inaceit�vel para uma nova redatora-chefe. O que a irritara era eles rejeitarem sistematicamente seus argumentos com sorrisos am�veis que faziam com que ela se sentisse uma colegial sendo sabatinada na frente da turma. Sem que uma s� palavra inconveniente fosse pronunciada, a atitude deles em rela��o a ela era t�o cl�ssica que chegava a ser c�mica. N�o canse sua cabecinha com esses assuntos complicados, minha crian�a.</p><p>Borgsj� n�o fora de grande aux�lio. Mantivera-se na expectativa e deixara os demais participantes dizerem tudo o que tinham para dizer, embora ela n�o sentisse a mesma atitude aviltante da parte dele.</p><p>Suspirou, abriu o celular e verificou seu correio eletr�nico. Recebera dezenove e-mails. Quatro eram spams de algu�m que queria: 1) que ela comprasse Viagra, 2) propor-lhe um cibersexo com The sexiest Lolitas on the net por apenas quatro d�lares por minuto, 3) fazer uma oferta um pouco mais expl�cita de Animal sex, the juiciest horse fuck in the universe, al�m de 4) propor uma assinatura da newsletter Mode.nu, editada por uma empresa pirata que inundava o mercado com ofertas promocionais e n�o parava de lhe mandar aquele lixo, ignorando seus reiterados pedidos. Sete e-mails eram pretensas cartas da Nig�ria, enviadas pela vi�va do antigo diretor do Banco Nacional de Abu Dhabi, que prometia lhe remeter somas fant�sticas desde que ela pudesse investir um pequeno capital no intuito de estabelecer uma confian�a rec�proca, e outras excentricidades do g�nero.</p><p>Os demais e-mails eram a pauta da manh�, a pauta do meio-dia, tr�s e-mails de Peter Fredriksson, o assistente de reda��o, indicando as corre��es do editorial, um e-mail do seu contador pessoal marcando uma reuni�o para fazerem os acertos decorrentes da altera��o do seu sal�rio com a mudan�a da Millennium para o SMP, e um e-mail de seu dentista confirmando sua consulta trimestral. Anotou a consulta na agenda eletr�nica e percebeu imediatamente que teria de transferi-la, pois j� tinha na mesma data uma importante reuni�o de reda��o.</p><p>Por fim, abriu o �ltimo e-mail, enviado por centralred@smpost.se, com o assunto [aos cuidados da redatora-chefe]. Largou, devagar, a x�cara de caf�.</p><empty-line/><p>[PUTA NOJENTA! QUEM VOC� ACHA QUE �, SUA CRETINA, N�O PENSE QUE PODE IR CHEGANDO ASSIM COM SEU NARIZ EMPINADO. VAI TOMAR UMA CHAVE DE FENDA NA BUNDA, SUA PUTA NOJENTA! MELHOR VOC� SE MANDAR BEM RAPIDINHO.]</p><empty-line/><p>Erika Berger ergueu os olhos e procurou o chefe de Atualidades, Lukas Holm. Ele n�o estava � sua mesa e ela n�o conseguia avist�-lo em nenhum lugar da reda��o. Conferiu o remetente, pegou o telefone e ligou para Peter Fleming, o diretor de tecnologia do SMP.</p><p>� Oi. Quem � o usu�rio do endere�o centralred@smpost.se?</p><p>� Ningu�m. N�o temos esse endere�o aqui.</p><p>� Pois acabo de receber um e-mail desse endere�o.</p><p>� Foi forjado. Veio com algum v�rus?</p><p>� N�o. Pelo menos o antiv�rus n�o detectou nada.</p><p>� Certo. Esse endere�o n�o existe. Mas � muito f�cil criar um endere�o com jeito de aut�ntico. Existem sites na rede que transmitem esse tipo de e-mail.</p><p>� H� como descobrir a origem dele?</p><p>� � quase imposs�vel, mesmo que a pessoa seja idiota o bastante para ter mandado do seu computador pessoal. Pode-se eventualmente seguir a pista do n�mero do IP at� um servidor, mas se ele usou uma conta aberta no hotmail, por exemplo, a pista acaba a�.</p><p>Erika agradeceu a informa��o e em seguida refletiu por alguns instantes. N�o era a primeira vez que recebia uma mensagem com amea�as ou com o recado de algum maluco. Esse e-mail se referia claramente a seu novo cargo de redatora-chefe no SMP. Ficou imaginando se seria um doido que a identificara no funeral de Morander ou se o remetente trabalhava na empresa.</p><p>Rosa Figuerola refletia exaustivamente sobre a forma de agir a respeito de Evert Gullberg. Uma das vantagens de trabalhar na Prote��o � Constitui��o era ela ter legitimidade para consultar praticamente toda investiga��o policial sueca ligada a um crime racial ou pol�tico. Constatou que Alexander Zalachenko era um imigrante, sendo a miss�o dela, entre outras coisas, examinar a viol�ncia exercida contra pessoas nascidas no exterior e determinar poss�veis motiva��es racistas. Estava, portanto, autorizada a ler a investiga��o sobre o assassinato de Zalachenko para definir se Evert Gullberg estava ligado a alguma organiza��o racista ou expressara opini�es racistas no momento do assassinato. Solicitou a investiga��o e leu-a atentamente. Deparou com cartas enviadas ao ministro da Justi�a e constatou que, al�m de alguns ataques pessoais degradantes e de car�ter revanchista, havia nelas tamb�m as express�es "capacho dos turcos" e "traidor da p�tria".</p><p>A essa altura, j� eram cinco da tarde. Rosa Figuerola trancou todo o material no cofre-forte de sua sala, pegou a caneca de caf�, desligou o computador e bateu o ponto para sair. Andou a passos r�pidos at� uma academia na Pra�a de Sankt Erik e dedicou a hora seguinte a um treino soft.</p><p>Em seguida, voltou a p� para o seu quarto e sala na Pontonj�rgatan, tomou um banho e ingeriu um jantar tardio mas dieteticamente correto. Considerou a possibilidade de ligar para Daniel Mogren, que morava a tr�s pr�dios dali, na mesma rua. Daniel era marceneiro e bodybuilder e, de tr�s anos para c�, seu colega de treino regular. Nos �ltimos meses tinham tamb�m se encontrado para alguns momentos er�ticos entre amigos.</p><p>Fazer amor era quase t�o satisfat�rio quanto uma sess�o intensa na academia, mas agora que j� tinha passado bastante dos trinta e se aproximava dos quarenta, Rosa Figuerola come�ava a pensar que deveria se interessar por um homem de forma mais permanente e por uma situa��o mais est�vel. Quem sabe at� ter filhos. Mas n�o com Daniel Mogren.</p><p>Depois de hesitar um pouco, concluiu que, na verdade, n�o estava querendo ver ningu�m. Foi se deitar com um livro sobre hist�ria da Antig�idade. Adormeceu pouco antes da meia-noite.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>13. TER�A-FEIRA 17 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Na ter�a-feira, Rosa Figuerola acordou �s seis e dez, fez um jogging puxado ao longo da Norr M�larstrand, tomou um banho e �s oito e dez bateu o ponto no Pal�cio da Pol�cia. Passou a primeira hora da manh� redigindo um relat�rio com as conclus�es a que chegara no dia anterior.</p><p>�s nove horas, Torsten Edklinth chegou. Ela esperou vinte minutos, para que ele tivesse tempo de abrir sua correspond�ncia da manh�, e em seguida foi bater � sua porta. Esperou dez minutos enquanto seu chefe lia seu relat�rio. Ele leu duas vezes as quatro folhas A4 de ponta a ponta. Por fim, ele a fitou.</p><p>� O secret�rio-geral � disse, pensativo. Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ele necessariamente deve ter aprovado a recoloca��o do M�rtensson. Por conseguinte, deve saber que o M�rtensson n�o est� na contraespionagein, onde, de acordo com a Prote��o � Pessoa, deveria estar.</p><p>Torsten Edklinth tirou os �culos, pegou um len�o de papel e limpou-os meticulosamente. P�s-se a refletir. Estivera em reuni�es com o secret�rio-geral Albert Shenke um n�mero incalcul�vel de vezes, mas n�o podia dizer que o conhecia bem. Era um sujeito relativamente baixo, de cabelos finos e loiro-arruivados, cuja cintura fora crescendo com o passar dos anos. Sabia que Shenke tinha pelo menos cinq�enta e cinco anos e que trabalhara na Sapo por pelo menos vinte e cinco, talvez mais. Era secret�rio-geral havia dez anos, antes disso fora secret�rio-geral adjunto ou ocupara outros cargos dentro da administra��o. Via Shenke como uma pessoa taciturna que n�o hesitava em recorrer � for�a. Edklinth n�o fazia id�ia de como Shenke ocupava seu tempo livre, mas lembrava de t�-lo visto certo dia na garagem do Pal�cio da Pol�cia, vestido informalmente e carregando tacos de golfe no ombro. Tamb�m cruzara com Shenke na �pera uma vez, por acaso, muitos anos antes.</p><p>� Uma coisa me chamou a aten��o � disse Rosa.</p><p>� Estou te escutando.</p><p>� Evert Gullberg. Ele fez o servi�o militar nos anos 1940, depois virou um advogado especializado em assuntos fiscais e desapareceu nos anos 1950.</p><p>� Sim?</p><p>� Quando falamos nisso, falamos como se ele tivesse sido um matador de aluguel.</p><p>� Sei que pode parecer for�a��o de barra, mas...</p><p>� O que me chamou a aten��o � que o passado dele, nos documentos, � t�o t�nue que parece quase fabricado. Nos anos 1950 e 1960, a Sapo, assim como o servi�o secreto do Ex�rcito, estabeleceu unidades fora da matriz.</p><p>Torsten Edklinth meneou a cabe�a.</p><p>� Eu estava me perguntando quando ia lhe ocorrer essa possibilidade.</p><p>� Preciso de uma autoriza��o para entrar nos arquivos dos funcion�rios dos anos 1950 � disse Rosa Figuerola.</p><p>� N�o � disse Torsten Edklinth, balan�ando a cabe�a. � N�o d� para entrar nos arquivos sem autoriza��o do secret�rio-geral, e n�o queremos chamar a aten��o antes de termos algo mais nas m�os.</p><p>� Ent�o como a gente faz, na sua opini�o?</p><p>�� M�rtensson � disse Edklinth. � Descubra no que ele est� trabalhando.</p><p>No seu quarto fechado a chave, Lisbeth Salander examinava cuidadosamente o sistema de ventila��o quando ouviu a porta se abrir e o Dr. Anders Jonasson entrou. Passava das dez da noite de ter�a-feira. Ele interrompeu seus Projetos de fuga do Sahlgrenska.</p><empty-line/><p>Depois de medir a parte de ventila��o da janela, constatara que conseguiria passar a cabe�a e que n�o deveria encontrar muita dificuldade corri o resto do corpo tamb�m. Havia tr�s andares entre ela e o t�rreo, mas uma combina��o de len��is rasgados com a extens�o de tr�s metros de uma l�mpada de apoio deveria resolver o problema.</p><p>Em pensamento, j� planejara sua fuga nos m�nimos detalhes. O problema eram as roupas. Estava usando calcinha e camisola do Conselho Geral e sand�lias de pl�stico emprestadas. Tinha as duzentas coroas em dinheiro que Annika Giannini lhe dera para que pudesse pedir doces no quiosque do hospital. Era o suficiente para comprar uma cal�a jeans e uma camiseta no Fourmis, desde que conseguisse localizar o brech� em G�teborg. O restante do dinheiro deveria ser suficiente para ela ligar para Praga. Depois, as coisas entrariam nos eixos. Ela cogitava aterrissar em Gibraltar poucos dias depois da fuga e a partir da� construir uma nova identidade em algum lugar do mundo.</p><p>Anders Jonasson fez um gesto de cumprimento com a cabe�a e se sentou na poltrona dos visitantes. Ela fez o mesmo em sua cama.</p><p>� Ol�, Lisbeth. Desculpe n�o ter tido tempo de vir visit�-la nesses �ltimos dias, mas me aprontaram horrores no pronto-socorro e, ainda por cima, fui indicado para servir como mentor de dois jovens m�dicos.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a. N�o esperava que o tal Anders Jonasson lhe fizesse visitas pessoais.</p><p>Ele pegou a ficha dela e examinou com aten��o o gr�fico da temperatura e sua medica��o. Observou que a temperatura tinha se estabilizado entre 37 e 37,5 graus e que, naquela semana, ela n�o precisara de analg�sicos para a dor de cabe�a.</p><p>� A sua m�dica � a doutora Endrin. Voc� se d� bem com ela?</p><p>� Ela � legal � respondeu Lisbeth sem muito entusiasmo.</p><p>� Tudo bem se eu examinar voc�?</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a. Ele tirou do bolso uma lanterna-caneta, inclinou-se sobre ela e iluminou seus olhos para verificar a contra��o das pupilas. Pediu que ela abrisse a boca e examinou a garganta. Em seguida, pos suavemente as m�os em seu pesco�o e virou sua cabe�a para a frente e para tr�s, e depois para os lados, v�rias vezes.</p><p>� Nenhum problema na nuca? � ele perguntou. Ela negou com a cabe�a.</p><p>- E a dor de cabe�a?</p><p>�- Aparece de vez em quando, mas depois passa.</p><p>�- O processo de cicatriza��o ainda n�o est� completo. A dor de cabe�a vai sumir aos poucos.</p><p>O cabelo dela ainda estava t�o curto que ele s� precisou afastar um pequeno tufo para apalpar a cicatriz acima da orelha. N�o apresentava nenhum problema, mas ainda havia uma casquinha.</p><p>� Voc� andou cocando a ferida de novo. Pare com isso, est� ouvindo? Ela concordou com a cabe�a. Ele pegou seu cotovelo esquerdo e levantou-lhe o bra�o.</p><p>� Voc� consegue erguer o bra�o, sozinha? Ela ergueu o bra�o.</p><p>� Sente alguma dor ou inc�modo no ombro? Ela fez que n�o com a cabe�a.</p><p>� Ele n�o repuxa?</p><p>� Um pouco.</p><p>� Acho que voc� deveria trabalhar mais os m�sculos do ombro.</p><p>� Dif�cil, num quarto trancado. Ele sorriu.</p><p>� Isso n�o vai durar para sempre. Voc� est� fazendo os exerc�cios que a fisioterapeuta indicou?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>Ele pegou o estetosc�pio e encostou-o no pr�prio pulso para aquec�-lo. Depois, sentou-se na beirada da cama, desabotoou a camisola de Lisbeth, auscultou-lhe o cora��o e tomou seu pulso. Pediu que ela se inclinasse para a frente e colocou o estetosc�pio em suas costas para auscultar os pulm�es.</p><p>� Tussa. Ela tossiu.</p><p>� Certo. Pode abotoar a camisola. Clinicamente falando, voc� est� mais ou menos recuperada.</p><p>Ela meneou a cabe�a. Esperou que ele se levantasse, prometendo voltar a v�-la em alguns dias, mas ele permaneceu sentado na beirada da cama. N�o ralou nada por um bom tempo, parecia refletir. Lisbeth aguardou pacientemente.</p><p>� Sabe por que eu me tornei m�dico? � ele perguntou de repente.</p><p>Ela fez que n�o com a cabe�a.</p><p>� Venho de uma fam�lia de oper�rios. Eu sempre quis ser m�dico. Na verdade, quando eu era adolescente queria ser psiquiatra. Eu era todo intelectual.</p><p>Lisbeth observou-o com uma s�bita aten��o assim que ele pronunciou a palavra "psiquiatra".</p><p>� Mas eu n�o tinha certeza se conseguiria terminar o curso. Por isso, depois do col�gio, me formei como soldador e exerci essa profiss�o durante alguns anos.</p><p>Balan�ou a cabe�a, como se para confirmar que o que dizia era verdade.</p><p>� Eu achava uma boa id�ia ter um diploma no bolso para o caso de dar zebra no curso de medicina. E a diferen�a entre um m�dico e um soldador n�o � muito grande. Nos dois casos, trata-se de uma esp�cie de bricolagem. E atualmente trabalho aqui no Sahlgrenska consertando pessoas como voc�.</p><p>Ela franziu o cenho perguntando-se, desconfiada, se ele estava zoando com ela. Mas ele parecia absolutamente s�rio.</p><p>� Lisbeth... eu estava pensando...</p><p>Ele ficou calado tanto tempo que Lisbeth quase teve vontade de perguntar o que ele queria. Mas controlou-se e esperou.</p><p>� Eu estava pensando se voc� ficaria aborrecida se eu fizesse uma pergunta pessoal, �ntima. Quero dizer, n�o como m�dico. N�o vou anotar sua resposta e n�o vou comentar com quem quer que seja. Voc� n�o precisa responder se n�o quiser.</p><p>� O que �?</p><p>� � uma pergunta pessoal e indiscreta. O olhar dela cruzou com o dele.</p><p>� Na �poca em que internaram voc� na Sankt Stefan, em Uppsala, quando voc� tinha doze anos, voc� se negou a responder todas as vezes que um psiquiatra tentou falar com voc�. Como pode ser isso?</p><p>Os olhos de Lisbeth Salander escureceram um pouco. Ela fitou Anders Jonasson com um olhar sem emo��o. Permaneceu calada por uns dois minutos.</p><p>� Por que est� perguntando isso? � ela quis saber, por fim.</p><p>� Para ser sincero, n�o sei muito bem. Acho que estou tentando entender alguma coisa.</p><p>A boca de Lisbeth se contraiu ligeiramente.</p><p>- N�o falo com os m�dicos de doidos porque eles nunca escutam o que eu digo.</p><p>Anders Jonasson assentiu com a cabe�a e ent�o, de repente, come�ou a rir.</p><p>� Est� certo. Me diga... o que voc� acha do Peter Teleborian? Anders Jonasson soltara aquele nome de um jeito t�o inesperado que Lisbeth quase se sobressaltou. Seus olhos se estreitaram um bocado.</p><p>� Que porra � essa? Uma pegadinha? O que voc� est� querendo?</p><p>De repente, a voz dela soava como lixa. Anders Jonasson inclinou-se tanto em sua dire��o que estava quase invadindo seu espa�o pessoal.</p><p>� E que um... como voc� disse mesmo?... um m�dico de doidos chamado Peter Teleborian, que n�o � exatamente desconhecido na minha �rea, tentou me convencer duas vezes, nesses �ltimos dias, a lhe dar uma oportunidade para te examinar.</p><p>Lisbeth sentiu de repente uma corrente gelada percorrer suas costas.</p><p>� O Tribunal de Inst�ncias vai design�-lo para fazer sua avalia��o ps�quica legal.</p><p>� E?</p><p>� Eu n�o gosto do Peter Teleborian. N�o permiti que ele tivesse acesso a voc�. Na segunda vez, ele apareceu sem avisar e tentou entrar escondido, passando a conversa numa enfermeira.</p><p>Lisbeth cerrou a boca.</p><p>� O comportamento dele me pareceu meio estranho e insistente demais para ser normal. Por isso minha vontade de saber o que voc� acha dele.</p><p>Ent�o foi a vez de Anders Jonasson esperar pacientemente que Lisbeth Salander se dispusesse a falar.</p><p>� O Teleborian � um canalha � ela respondeu afinal.</p><p>� Existe uma quest�o pessoal entre voc�s?</p><p>� Pode-se dizer que sim.</p><p>� Tamb�m tive uma conversa com um sujeito l� de cima que, por assim dizer, gostaria que eu permitisse que o Teleborian tivesse acesso a voc�.</p><p>� E?</p><p>� Perguntei se ele tinha compet�ncia t�cnica para avaliar o seu estado e a� mandei ele se catar. S� que com termos um pouco mais diplom�ticos.</p><p>� Certo.</p><p>� S� mais uma pergunta. Por que voc� est� me dizendo tudo isso?</p><p>� Voc� � que perguntou.</p><p>� Sei. Mas eu sou m�dico e fiz psiquiatria. Ent�o por que voc� est� falando comigo? Devo deduzir que voc� confia um pouco em mim?</p><p>Ela n�o respondeu.</p><p>� Bem, prefiro interpretar assim. Saiba que voc� � minha paciente. Isso significa que trabalho para voc� e para mais ningu�m.</p><p>Ela o fitou, desconfiada. Ele a observou em sil�ncio durante algum tempo. Ent�o se p�s a falar em tom casual.</p><p>� Do ponto de vista m�dico, voc� est� mais ou menos restabelecida. S� precisa de mais algumas semanas de convalesc�ncia. Infelizmente, voc� est� �tima.</p><p>� Infelizmente?</p><p>� Sim. � Ele lhe endere�ou um sorrisinho. � Definitivamente, voc� est� bem at� demais.</p><p>� O que est� querendo dizer?</p><p>� Quero dizer que n�o tenho mais nenhum motivo para mant�-la aqui isolada e que a procuradora logo vai poder pedir sua transfer�ncia para uma casa de deten��o em Estocolmo, at� o julgamento, que deve ocorrer daqui a seis semanas. Na minha opini�o, esse pedido deve ocorrer j� na pr�xima semana. E isso significa que o Peter Teleborian vai ter a oportunidade de examinar voc�.</p><p>Ela ficou completamente im�vel na cama. Anders Jonasson pareceu aborrecido e se inclinou para ajeitar o travesseiro dela. Falou claro, como se estivesse pensando em voz alta.</p><p>� Voc� n�o tem mais dor de cabe�a e est� sem febre, � prov�vel que a doutora Endrin lhe d� alta.</p><p>Ele se levantou de repente.</p><p>� Obrigado por ter falado comigo. Ainda venho te ver antes de voc� ser transferida.</p><p>J� estava na porta quando ela falou.</p><p>� Doutor Jonasson.</p><p>Ele se virou em sua dire��o.</p><p>� Obrigada.</p><empty-line/><p>Ele meneou brevemente a cabe�a antes de sair e fechar a porta � chave.</p><p>Lisbeth Salander permaneceu um bom tempo com os olhos fixos na norta trancada. Por fim, deitou-se e olhou para o teto.</p><p>Foi ent�o que descobriu que havia algo duro debaixo de sua nuca. Ergueu o travesseiro e teve a surpresa de ver um saquinho de pano que certamente n�o se encontrava ali antes. Abriu-o e descobriu, sem entender nada, um computador de m�o Palm Tungsten T3 e um carregador de bateria. Ent�o olhou melhor para o computador e percebeu uma ranhura na borda superior. Seu cora��o deu um salto. E o meu Palm! Mas como... At�nita, desviou o olhar para a porta trancada. Anders Jonasson era um homem cheio de surpresas. Ligou o computador, mas logo viu que ele estava protegido por uma senha.</p><p>Olhou, frustrada, para a tela que piscava impaciente. E como � que esses idiotas acham que eu vou... Ent�o olhou para o saquinho de pano e descobriu, l� dentro, um peda�o de papel dobrado. Pegou-o, abriu e leu a linha escrita numa caligrafia caprichada.</p><p>Voc� n�o � a rainha dos hackers? Pois ent�o descubra! Super B.</p><p>Lisbeth riu pela primeira vez desde v�rias semanas. Obrigada por pag�-la na mesma moeda! Refletiu alguns segundos. Ent�o pegou a canetinha do Palm e escreveu a combina��o 9277, que correspondia �s letras WASP no teclado. Era o c�digo que o Maldito Super-Blomkvist tinha sido obrigado a descobrir quando entrara no apartamento dela na Fiskargatan, em Mosebacke, para desativar o alarme.</p><p>N�o funcionou.</p><p>Tentou o 78737, que correspondia �s letras SUPER.</p><p>Tamb�m n�o funcionou. Era �bvio que o Maldito Super-Blomkvist queria que ela usasse o computador, portanto devia ter escolhido uma senha relativamente simples. Tinha assinado Super-Blomkvist, apelido que ele detestava. Ela fez algumas associa��es, refletiu um instante. Com toda certeza, envolveria alguma alfinetada. Teclou 3434, equivalente a FIFI.</p><p>O computador ligou suavemente.</p><p>Ainda teve direito a um emoticon sorridente munido de um bal�o.</p><p>[Est� vendo? N�o foi t�o dif�cil. Proponho que voc� clique em Meus Documentos.]</p><p>Ela imediatamente encontrou o documento [Ol� Sally] bem no alto da lista. Abriu e leu.</p><p>[Antes de mais nada: isto fica s� entre n�s. A sua advogada, ou seja, a minha irm� Annika, ignora por completo que voc� est� com esse computador. Deve continuar sendo assim.</p><p>N�o fa�o id�ia de at� que ponto voc� est� a par do que se passa fora desse seu quarto trancado, mas saiba que estranhamente, apesar desse seu temperamento, alguns babacas cheios de lealdade est�o trabalhando por voc�. Quando tudo isso acabar, vou fundar uma associa��o beneficente que vou chamar de Os Cavaleiros da T�vola Biruta, cujo �nico objetivo ser� organizar um jantar anual em que a gente vai morrer de rir falando mal de voc�. (N�o, voc� n�o ser� convidada.)</p><p>Bem. Vamos aos fatos. A Annika est� se preparando para o julgamento. Um problema, nesse contexto, � que ela obviamente trabalha para voc� e � adepta dessa bobajada toda de integridade. Isso significa que nem comigo ela comenta o que voc�s duas conversam, o que � meio limitador. Por sorte, ela aceita receber informa��es.</p><p>Eu e voc� precisamos estar de acordo.</p><p>N�o use meu endere�o de e-mail.</p><p>Eu talvez seja meio paran�ico, mas tenho bons motivos para achar que n�o sou o �nico a consultar minha caixa postal. Se tiver alguma coisa para me enviar, entre no grupo Yahoo [Tavola-Biruta]. Login: Fifi e senha: I9i2f7i7.]</p><p>Lisbeth leu duas vezes a carta de Mikael e olhou, perplexa, para o computador de m�o. Depois de um per�odo de celibato inform�tico absoluto, estava num estado de incalcul�vel cibercar�ncia. Achou que o Super-Blomkvist tinha mesmo raciocinado com os p�s quando dera um jeito de lhe passar clandestinamente um computador, esquecendo por completo que ela precisava de um celular para acessar a rede.</p><p>Estava nesse ponto de suas reflex�es quando escutou passos no corredor.</p><p>Jogou imediatamente o computador e enfiou-o debaixo do travesseiro. A chave estava girando na fechadura quando ela percebeu que o saquinho de e o carregador ainda estavam sobre o criado-mudo. Estendeu a m�o, enfiou depressa o saquinho debaixo do cobertor, e prendeu o cabo e o carregador no meio das pernas. Estava comportadamente deitada, olhando para o teto quando a enfermeira da noite entrou, cumprimentou-a com gentileza e perguntou-lhe como estava e se precisava de alguma coisa.</p><p>Lisbeth falou que estava tudo bem e que s� precisava de um ma�o de cigarros. O pedido foi gentil, mas firmemente recusado. Por�m teve direito a um pacote de chiclete de nicotina. Quando a enfermeira tornou a fechar a porta, Lisbeth avistou o vigia da Securitas a postos em sua cadeira no corredor. Lisbeth esperou at� escutar os passos se distanciando para pegar o computador de m�o.</p><p>Ligou-o e tentou se conectar.</p><p>A sensa��o foi pr�xima de um choque quando o computador, de repente, indicou que tinha encontrado uma conex�o. Uma conex�o. N�o � poss�vel.</p><p>Ela pulou da cama t�o depressa que sentiu uma explos�o de dor no quadril machucado. Lan�ou um olhar abobalhado pelo quarto. Como? Deu uma volta devagar, examinando os m�nimos recantos... N�o, n�o h� nenhum celular neste quarto. No entanto, estava conseguindo se conectar � rede. Ent�o, um sorriso enviesado se espalhou em seu rosto. A conex�o era necessariamente sem fio e estava sendo feita atrav�s de um celular com Bluetooth, que operava facilmente num raio de dez a doze metros. Seu olhar se dirigiu para a grade de ventila��o no alto da parede.</p><p>O Super-Blomkvist havia plantado um telefone bem do lado do seu quarto. Era a �nica explica��o poss�vel.</p><p>Mas por que n�o trazer simplesmente o telefone para dentro do quarto... A bateria. Claro!</p><p>O seu Palm precisava ser recarregado mais ou menos a cada tr�s dias. Um celular, que ela for�aria at� o limite ao navegar, iria consumir rapidamente a bateria. Blomkvist, ou melhor, a pessoa que ele recrutara e que estava ali fora, devia carregar regularmente a bateria.</p><p>Em compensa��o, ele lhe fornecera, � claro, o carregador do Palm. Ela Precisava t�-lo � m�o. Era mais f�cil esconder e utilizar um objeto em vez de dois. O Super-Blomkvist, afinal, n�o era t�o burro assim.</p><empty-line/><p>Lisbeth primeiro se perguntou onde poderia esconder o computador Precisava de um esconderijo. Al�m da tomada el�trica ao lado da porta, havia outra no painel atr�s da cama, onde ficavam ligados a luz de cabeceira e o rel�gio digital. Como o r�dio tinha sido tirado da cabeceira, havia ali uma cavidade. Ela sorriu. Tanto o carregador como o computador de bolso cabiam dentro dela. Podia usar a tomada do criado-mudo para deixar o computador carregando durante o dia.</p><p>Lisbeth Salander estava feliz. Seu cora��o batia disparado quando, pela primeira vez depois de dois meses, ligou o computador de m�o e entrou na internet.</p><p>Navegar com um computador de m�o Palm, uma tela min�scula e uma canetinha n�o era t�o simples como surfar com um PowerBoolc e um monitor de dezessete polegadas. Mas ela estava conectada. Da sua cama no Sahlgrenska, podia alcan�ar o mundo inteiro.</p><p>Para come�ar, entrou num site que anunciava fotos relativamente desinteressantes de um fot�grafo amador chamado Bill Bates, em Jobsville, Pensilv�nia. Um dia, Lisbeth tinha verificado e chegado � conclus�o que Jobsville n�o existia. Ainda assim, Bates tinha tirado mais de duzentas fotos daquela localidade e as pusera em seu site em forma de pequenas abas. Foi passando pelas fotos at� chegar ao n�mero 167 e clicou na lente de aumento. A foto mostrava a igreja de Jobsville. Posicionou o cursor no topo do campan�rio e clicou. Imediatamente surgiu uma janela pedindo seu login e sua senha. Pegou a canetinha e escreveu Remarkable no campo do login e A(89) Cx#magnolia no da senha.</p><p>Abriu-se uma janela: [ERROR � You have the wrong password] e um bot�o [O.K. � Tryagain]. Lisbeth sabia que se clicasse em [O.K. � Try again] e tentasse outra senha, iria dar na mesma janela � podia tentar ano ap�s ano ao infinito. Em vez disso, clicou na letra O da palavra [ERROR].</p><p>A tela ficou preta. Em seguida, abriu-se uma porta de anima��o e apareceu uma figura parecida com Lara Croft. Materializou-se um bal�o com os dizeres [WHO GOES THERE?].</p><p>Ela clicou no bal�o e escreveu a palavra Wasp. A resposta foi imediata: [PROVE IT � OR ELSE...] enquanto a Lara Croft animada soltava a trava de seguran�a de uma pistola. Lisbeth sabia que a amea�a n�o era de todo fict�cia. Se escrevesse a senha errada tr�s vezes seguidas, a p�gina se apagaria nome Wasp seria riscado da lista dos membros. Escreveu com bastante cuidado a senha MonkeyBusiness.</p><p>A tela mudou novamente de forma e exibiu um fundo azul com o texto:</p><p>[Welcome to Hacker Republic, citizen Wasp. It is 56 days since your last visit. There are 10 citizens online. Do you want to (a) Browse the F�rum (b) Send a Message (c) Search the Archive (d) Talk (e) Get laid?]</p><p>Ela clicou em [(d) Talk], passou para o menu [Who's online?} e obteve uma lista com os nomes Andy, Bambi, Dakota, Jabba, BuckRogers, Mandrake, Pred, Slip, Sisterjen, Six Of One e Trinity.</p><p>[Hi, gang], escreveu Wasp.</p><p>[Wasp. That really U?], escreveu SixOfOne imediatamente.</p><p>[Look who's home.]</p><p>[Onde voc� andava?], perguntou Trinity.</p><p>[Praga falou que voc� estava com problemas], escreveu Dakota.</p><p>Lisbeth n�o tinha certeza, mas achava que Dakota era uma mulher. Os outros membros on-line, inclusive Sisterjen, eram homens. A Hacker Republic tinha ao todo (da �ltima vez que ela se conectara) sessenta e dois membros, dos quais quatro eram mulheres.</p><p>[Ol�, Trinity], escreveu Lisbeth. [Ol�, todo mundo.]</p><p>[Por que voc� s� d� ol� para Trin? A gente n�o est� atacado pela peste], escreveu Dakota.</p><p>[A gente j� saiu junto], escreveu Trinity. [Wasp s� freq�enta pessoas inteligentes.]</p><p>Ele imediatamente recebeu cinco v� se...</p><p>Dos sessenta e dois membros, Wasp se encontrara com dois na vida real. Um deles era Praga, que excepcionalmente n�o estava on-line. Trinity era o outro. Era ingl�s, residente em Londres. Dois anos antes, ela estivera com ele por algumas horas, quando ele a ajudara, e ao Mikael, na ca�ada a Harriet Vanger, instalando uma escuta telef�nica clandestina no pacato sub�rbio de St. Albans. Lisbeth estava se atrapalhando com a pouco pr�tica canetinha eletr�nica e lamentava n�o dispor de um teclado.</p><p>[Voc� ainda est� a�?], perguntou Mandrake.</p><p>Ela marcou as letras, uma por uma.</p><p>[Sorry. Estou com um Palm. E meio lerdo.]</p><p>[O que houve com o seu computador?], perguntou Pred.</p><p>[O meu computador vai bem. Eu � que estou com problemas.]</p><p>[Conte aqui para o seu irm�o mais velho], escreveu Slip.</p><p>[O Estado me mant�m prisioneira.]</p><p>[O qu�? Por qu�?] A resposta veio, de imediato, de tr�s membros.</p><p>Lisbeth resumiu sua situa��o em cinco linhas, que foram recebidas pelo que parecia ser um murm�rio de preocupa��o.</p><p>[Como voc� est�?], perguntou Trinity.</p><p>[Estou com um buraco na cabe�a.]</p><p>[N�o estou vendo nenhuma diferen�a], constatou Bambi.</p><p>[Wasp sempre teve vento na cabe�a], disse Sisterjen, antes de engatar uma s�rie de fantasias pejorativas sobre as capacidades intelectuais de Wasp.</p><p>Lisbeth sorriu. A conversa foi retomada com uma r�plica de Dakota.</p><p>[Esperem. Estamos diante de um ataque a um cidad�o da Hacker Republic. Qual ser� nossa resposta?]</p><p>[Ataque nuclear sobre Estocolmo?], sugeriu SixOfOne.</p><p>[N�o, seria um exagero], disse Wasp.</p><p>[Uma bomba em miniatura?]</p><p>[V� se catar, SixOO.]</p><p>[Agente poderia apagar Estocolmo], sugeriu Mandrake.</p><p>[Um v�rus que apaga o governo?]</p><empty-line/><p>Os cidad�os da Hacker Republic n�o costumavam espalhar v�rus. Pelo contr�rio � eram hackers e, conseq�entemente, ferozes advers�rios dos idiotas que lan�am v�rus com o �nico objetivo de sabotar a rede e fazer naufragar computadores. Eram viciados em informa��o e queriam manter a rede funcionando para poder pirate�-la.</p><p>Em compensa��o, a proposta de apagar o governo sueco n�o era uma amea�a � toa. A Hacker Republic era um clube super exclusivo que contava com os melhores entre os melhores, uma for�a de elite a que qualquer Defesa Nacional teria pago somas colossais em troca de ajuda para objetivos ciber-militares, se � que the citizen podiam ser levados a nutrir uma lealdade desse tipo com um Estado. N�o parecia prov�vel.</p><p>Por outro lado, eles tamb�m eram computer wizards perfeitamente sintonizados com a arte da fabrica��o de v�rus. Tampouco era dif�cil convenc�-los a realizar campanhas especiais caso a situa��o exigisse. Anos antes, a patente de um citizen da Hacker Rep, um freelancer criador de softwares da Calif�rnia, tinha sido roubada por uma start-up, que ainda por cima tivera o atrevimento de levar o cidad�o aos tribunais. Isso fizera com que todos os ativistas da Hacker Rep dedicassem, durante seis meses, uma energia consider�vel a piratear e destruir todos os computadores da empresa. Cada segredo comercial e cada e-mail � e tamb�m alguns documentos forjados, sugerindo que a empresa praticava fraude fiscal � eram alegremente exibidos na internet, assim como informa��es sobre a amante secreta do presidente da empresa e fotos de uma festa em Hollywood em que esse presidente aparecia cheirando coca�na. A empresa fora � fal�ncia em seis meses e, embora j� tivessem transcorrido v�rios anos, alguns membros rancorosos da mil�cia popular da Hacker Republic continuavam assombrando o antigo presidente.</p><p>Caso cerca dos cinq�enta hackers mais eminentes do mundo decidissem se unir numa ofensiva conjunta contra um Estado, esse Estado provavelmente sobreviveria, mas n�o sem antes enfrentar problemas consider�veis. Os custos, sem d�vida, chegariam a bilh�es se Lisbeth apontasse o polegar para cima. Ela refletiu um pouco.</p><empty-line/><p>[Por enquanto, n�o. Mas se as coisas n�o andarem do jeito que eu quero, talvez eu pe�a ajuda.]</p><p>[� s� falar], disse Dakota.</p><p>[Faz tempo que a gente n�o perturba nenhum governo], disse Mandrake.</p><p>[Tenho uma proposta, a id�ia geral � inverter o sistema de pagamento de impostos. Um programa feito sob medida para um pa�s pequeno como a Noruega], escreveu Bambi.</p><p>[Muito bom, s� que Estocolmo fica na Su�cia], escreveu Trinity.</p><p>[E da�? S� o que a gente tem que fazer �...]</p><p>Lisbeth Salander se recostou no travesseiro e acompanhou a conversa com um sorrisinho. Perguntou-se por que ela, que tinha tanta dificuldade em falar de si mesma quando se via frente a frente com algu�m, n�o tinha problemas em revelar seus segredos mais �ntimos pela internet para um bando de malucos totalmente desconhecidos. O fato � que se Lisbeth Salander tinha alguma fam�lia e pertencia a algum grupo, era justamente a esse bando de loucos. Nenhum deles tinha de fato condi��es de ajud�-la em seus dissabores com o Estado sueco. Mas ela sabia que, se fosse preciso, gastariam um tempo e uma energia consider�veis em demonstra��es de for�a bem pertinentes. Gra�as � rede da internet, ela tamb�m poderia achar esconderijos no exterior. Praga fora quem a ajudara a obter o passaporte noruegu�s em nome de Irene Nesser.</p><p>Lisbeth n�o tinha a menor id�ia da apar�ncia f�sica dos cidad�os da Hacker Rep nem do que faziam fora da internet � os cidad�os eram particularmente vagos sobre suas identidades. SixOfOne, por exemplo, declarava-se um cidad�o negro, do sexo masculino e de origem cat�lica residente em Toronto, Canad�. Poderia tamb�m ser uma mulher, branca, luterana e residente em Sk�vde, na Su�cia.</p><p>Quem ela conhecia melhor era Praga � fora ele quem um dia a apresentara � fam�lia, e ningu�m se tornava membro daquela sociedade exclusiva sem recomenda��es muito bem fundamentadas. Al�m disso, o novo membro tinha de conhecer pessoalmente outro cidad�o � no caso de Lisbeth, era o Praga.</p><p>Na internet, Praga era um cidad�o inteligente e socialmente talentoso.</p><empty-line/><p>Na verdade, era um trint�o obeso e antissocial que recebia uma pens�o por invalidez e vivia em Sundbyberg. Era �bvio que tomava banho de vez em quando e seu apartamento fedia. Lisbeth limitava ao m�ximo as visitas � casa dele. Freq�ent�-lo na rede era mais que suficiente.</p><p>Enquanto o bate-papo prosseguia, Wasp ia baixando os e-mails de sua caixa postal da Hacker Rep. Um e-mail de Poison continha uma vers�o melhorada do seu programa Asphyxia 1.3, dispon�vel nos arquivos a todos os cidad�os da rep�blica. O software Asphyxia permitia controlar o computador de outras pessoas via internet. Poison explicou que usara o programa com �xito e que sua vers�o melhorada cobria as �ltimas vers�es do Unix, do Apple e do Windows. Ela enviou uma resposta breve e agradeceu a atualiza��o.</p><p>Na hora seguinte, enquanto a noite ca�a sobre os Estados Unidos, mais meia d�zia de citizens foi se conectando, dando as boas-vindas a Wasp e se envolvendo na discuss�o. Quando Lisbeth finalmente se retirou, o debate tratava da possibilidade de fazer com que o computador do primeiro-ministro sueco enviasse mensagens educadas, mas totalmente delirantes, para outros chefes de governo mundo afora. Criara-se um grupo de trabalho para aprofundar a quest�o. Lisbeth acabou oferecendo uma r�pida contribui��o com a ponta de sua canetinha.</p><p>[Continuem conversando, mas n�o fa�am nada sem a minha aprova��o. Volto assim que eu puder me conectar.]</p><p>Todos mandaram "bjs, bjs" e recomendaram que cuidasse bem do buraco da sua cabe�a.</p><p>Uma vez desconectada da Hacker Republic, Lisbeth entrou em [www. yahoo.com] e conectou-se ao newsgroup [Tavola-Biruta]. Descobriu que a usta de discuss�o comportava dois membros, ela pr�pria e Mikael Blomkvist. Na caixa de entrada havia um �nico e-mail, enviado dois dias antes. O assunto era [Leia isto primeiro].</p><p>[Ol�, Sally. A situa��o atual � a seguinte:</p><p>A pol�cia ainda n�o descobriu seu endere�o e n�o teve acesso ao DVD do estupro do Bjurman. Esse DVD constitui uma prova de peso, mas n�o quer entreg�-lo para a Annika sem sua autoriza��o. Tamb�m estou com as chaves d seu apartamento e com o passaporte em nome de Irene Nesser.</p><p>Em compensa��o, a pol�cia est� com a mochila que voc� levou para Gos seberga. N�o sei se cont�m algo comprometedor.]</p><p>Lisbeth refletiu por um momento. Que nada. Uma garrafa t�rmica de caf� semi-vazia, umas ma��s e uma muda de roupa. N�o havia com que se preocupar.</p><p>[Voc� vai ser processada por golpes e ferimentos agravados, seguidos de tentativa de homic�dio contra Zalachenko, assim como golpes e ferimentos agravados contra Carl-Magnus Lundin, do MC Svavelsj� em Stallarholmen � eles partem do princ�pio que voc� atirou no p� dele e deu um pontap� que quebrou seu maxilar. Uma fonte confi�vel da pol�cia, no entanto, informa que em ambos os casos as provas s�o um tanto vagas. � importante:</p><p>(1) Antes de o Zalachenko ser morto, ele negou tudo e afirmou que o Niedermann � que tinha atirado em voc� e te enterrado no mato. Ele deu queixa contra voc� por tentativa de homic�dio. O procurador vai insistir no fato de que foi a segunda vez que voc� tentou matar o Zalachenko.</p><p>(2) Nem o Magge Lundin nem o Benny Nieminen disseram uma palavra sequer sobre o que aconteceu em Stallarholmen. O Lundin est� detido pelo seq�estro da M�riam Wu. O Nieminen foi solto.]</p><p>Lisbeth refletiu sobre as palavras de Mikael e deu de ombros. J� havia conversado sobre tudo aquilo com Annika Giannini. Era uma situa��o ruim, mas at� a� nada de novo. Com o cora��o na m�o, ela relatara o que tinha acontecido em Gosseberga, por�m sem entrar em detalhes sobre Bjurman.</p><p>[Durante quinze anos, o Zala foi protegido, independentemente do que ele aprontasse. Algumas carreiras se constru�ram em torno da import�ncia que se dava ao Zalachenko. Algumas vezes, ajudavam a fazer uma limpeza depois que o Zala aprontava. Isso � crime. Ou seja, autoridades suecas ajudaram a ocultar crimes contra pessoas.</p><p>Se isso vier � tona, haver� um esc�ndalo pol�tico que provavelmente ir� atingir tanto governos de direita como social-democratas. Isso significa, antes de mais nada, que alguns altos funcion�rios da Sapo seriam jogados aos le�es e apontados como respons�veis por atividades criminosas e imorais. Mesmo que os crimes individuais estejam prescritos, haver� esc�ndalo. Trata-se de pesos-pesados que hoje est�o aposentados, ou quase.</p><p>Eles v�o fazer de tudo para reduzir os danos, e a� � que voc� de repente volta a ser um pe�o no jogo. Dessa feita, por�m, n�o se trata de sacrificar um pe�o do tabuleiro � trata-se de eles reduzirem esses danos de maneira decisiva e por conta pr�pria. Portanto, voc� vai acabar ficando sem sa�da.</p><p>Pensativa, Lisbeth mordeu o l�bio inferior.</p><p>[A coisa funciona assim: eles sabem que n�o v�o conseguir manter o Zalachenko em segredo por muito mais tempo. Eu sei da hist�ria e eu sou um jornalista. Eles sabem que mais cedo ou mais tarde eu vou publicar. Agora eles est�o lutando � pela sobrevida deles. Por isso os seguintes pontos est�o no topo da lista de prioridades deles:</p><p>(1) Eles precisam convencer o tribunal de grande inst�ncia (ou seja, a opini�o p�blica) de que a decis�o de internar voc� na Sankt Stefan em 1991 foi leg�tima � que voc� estava de fato psiquicamente perturbada.</p><p>(2) Precisam separar o "caso Lisbeth Salander" do "caso Zalachenko". Eles est�o tentando se colocar em condi��es de afirmar que "Claro, o Zalachenko era um calhorda, mas isso nada teve a ver com a decis�o de internar a filha dele. Ela foi internada porque era uma doente mental � qualquer afirma��o diferente disso n�o passa de invencionices doentias de jornalistas amargurados. N�o, n�o apoiamos o Zalachenko em nenhum crime; isso n�o passa de divaga��o rid�cula de uma adolescente doente mental".</p><p>(3) O problema, portanto, � que se voc� for inocentada no pr�ximo julgamento, o tribunal ter� declarado que voc� n�o � louca, o que provar� que sua interna��o em 1991 tinha algo de suspeito. Isso quer dizer que eles precisam conden�-la a todo custo a um tratamento psiqui�trico numa institui��o. Se o tribunal estabelecer que voc� � psiquicamente perturbada, a imprensa j� n�o vai estar t�o interessada em revolver o caso Salander. A imprensa funciona assim.</p><p>Voc� est� acompanhando?</p><empty-line/><p>Lisbeth meneou a cabe�a para si mesma. J� havia chegado a essas conclus�es havia muito tempo. O problema � que ela n�o sabia muito bem como solver a situa��o.</p><p>Lisbeth � isso � s�rio �, esse jogo vai se dar na imprensa e n�o na sala de audi�ncias. Infelizmente, por "raz�es de integridade", o julgamento vai ser a portas fechadas.</p><p>No dia em que o Zalachenko foi morto, meu apartamento foi assaltado. N�o houve arrombamento nem mexeram em nada � com exce��o de uma coisa. O dossi� que estava na casa de campo de Bjurman e que continha o relat�rio de 1991 do Gunnar Bj�rck desapareceu. No mesmo dia, minha irm� foi atacada e a c�pia que ela tinha foi roubada. Esse dossi� � a sua prova mais importante.</p><p>Fingi que t�nhamos perdido os documentos Zalachenko. Na verdade, tenho um terceiro exemplar, que eu ia passar para o Armanskij. Fiz v�rias c�pias, que espalhei por a�.</p><p>Nosso advers�rio, que re�ne algumas autoridades e alguns psiquiatras, tamb�m est� tratando de montar o processo, � claro, com a ajuda do procurador Richard Ekstr�m. Tenho uma fonte que fornece algumas informa��es sobre o que est� se tramando, mas imagino que voc� tenha mais condi��es de obter informa��es adequadas... Se for esse o caso, n�o temos muito tempo.</p><p>O procurador vai tentar fazer com que voc� seja condenada a uma interna��o psiqui�trica. Para isso, conta com o aux�lio do seu velho amigo Peter Teleborian.</p><p>A Annika n�o vai poder se lan�ar numa campanha de imprensa no mesmo n�vel que o Minist�rio P�blico, que pode deixar vazar informa��es como bem lhe conv�m. Ou seja, ela est� de m�os atadas.</p><p>J� eu, n�o estou preso por restri��es desse tipo. Posso escrever rigorosamente o que quiser � e tenho, al�m disso, uma revista � minha disposi��o.</p><p>Faltam dois detalhes importantes:</p><p>(1) Primeiro, voc� precisaria de alguma coisa demonstrando que o procurador Ekstr�m est� colaborando com o Teleborian de maneira indevida, e sempre com o objetivo de intern�-la com os loucos. Eu queria poder aparecer no hor�rio nobre da televis�o e apresentar documentos acabando com os argumentos do procurador.</p><p>(2) Para poder sustentar uma guerra na imprensa contra a Sapo, preciso discutir em p�blico coisas que voc� provavelmente considera de sua esfera privada. Desejar o anonimato a esta altura � meio que pedir demais, levando-se em conta tudo que foi dito na imprensa a seu respeito desde a P�scoa. Preciso ter condi��es de construir na m�dia uma imagem sua inteiramente nova � mesmo que a seu ver isso represente uma agress�o � sua intimidade �, e de prefer�ncia com o seu aval. Voc� entende o que eu quero dizer?]</p><p>Ela abriu a pasta [Tavola-Biruta]. Continha vinte e seis arquivos de tamanhos variados.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>14.� QUARTA-FEIRA 18 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Rosa Figuerola se levantou �s cinco da manh� na quarta-feira e fez um r�pido jogging antes de tomar um banho e vestir uma cal�a jeans preta, uma regata branca e uma jaqueta leve de linho cinza. Preparou sandu�ches e encheu uma garrafa t�rmica de caf�. Tamb�m vestiu o cintur�o e tirou sua Sig Sauer do arm�rio de armas. Pouco depois das seis horas, saiu no seu Saab 9-5 branco e foi at� a Vittangigatan em V�llingby.</p><p>G�ran M�rtensson morava no segundo e �ltimo andar de um prediozinho do sub�rbio. Na ter�a-feira, ela levantara tudo o que conseguira sobre ele nos arquivos p�blicos. Era solteiro, o que n�o queria dizer que n�o morasse com algu�m. N�o havia nada sobre ele na Receita, ele n�o possu�a nenhuma fortuna e seu n�vel de vida n�o parecia extravagante. Raramente faltava por motivo de sa�de.</p><p>O �nico aspecto que poderia parecer digno de aten��o era ele ter licen�a para dezesseis armas de fogo, sendo tr�s espingardas de ca�a e pistolas de diferentes tipos. Ele ter porte de armas obviamente n�o constitu�a um crime, mas Rosa Figuerola nutria uma bem fundada desconfian�a por pessoas que possu�am grande quantidade de armas.</p><p>O Volvo com a placa com as iniciais KAB estava num estacionamento a cerca de quarenta metros da pra�a em que Rosa Figuerola parou o carro. Ela serviu de meio copo de caf� preto e comeu um sandu�che de queijo e salada Depois descascou uma laranja e chupou demoradamente seus gomos.</p><p>Durante a visita matinal, Lisbeth Salander n�o estava em boa forma, sentia uma dor de cabe�a terr�vel. Pediu um Alvedon, que lhe deram sem discutir.</p><p>Uma hora depois, a dor de cabe�a tinha piorado. Tocou a campainha para chamar a enfermeira e pediu mais um Alvedon, que n�o fez efeito. L� pelo meio-dia, Lisbeth estava com tanta dor de cabe�a que a enfermeira chamou a Dra. Endrin, a qual, ap�s um r�pido exame, prescreveu analg�sicos potentes.</p><p>Lisbeth deixou os comprimidos debaixo da l�ngua e cuspiu-os fora assim que ficou sozinha.</p><p>Por volta das duas da tarde, come�ou a vomitar. Os v�mitos recome�aram por volta das tr�s horas.</p><p>Por volta das quatro horas, chegou o Dr. Anders Jonasson, pouco antes de a Dra. Helena Endrin ir embora. Conversaram rapidamente.</p><p>� Ela est� com n�useas e uma dor de cabe�a muito forte. Receitei Dexofen. N�o entendo o que est� acontecendo... Ela vinha evoluindo t�o bem nas �ltimas semanas. Pode ser algum tipo de gripe...</p><p>� Ela est� com febre? � perguntou o Dr. Jonasson.</p><p>� N�o, estava com 37,2 h� uma hora. A press�o est� normal.</p><p>� Certo. Vou ficar de olho nela esta noite.</p><p>� O problema � que estou saindo de f�rias por tr�s semanas � disse Endrin. � Voc� ou o Svantesson � que v�o ter que cuidar dela. Mas o Svantesson n�o acompanhou o caso direito...</p><p>� Certo. Passo a ser o m�dico respons�vel por ela enquanto voc� estiver fora.</p><p>� Maravilha. Se houver alguma crise e voc� precisar de ajuda, n�o hesite em me ligar.</p><p>Foram juntos visitar Lisbeth. Ela estava na cama, com o cobertor puxado at� o nariz, e parecia p�ssima. Anders Jonasson p�s a m�o em sua testa e verificou que estava �mida.</p><empty-line/><p>� Acho que vou ter que dar uma examinada nela.</p><p>Ele agradeceu � Dra. Endrin e deu-lhe boa-noite.</p><p>Por volta das cinco da tarde, o Dr. Jonasson notou que a temperatura de Lisbeth subira rapidamente para 37,8 graus, o que foi registrado na ficha. Ele foi v�-la tr�s vezes no in�cio da noite e anotou na ficha que a temperatura se mantinha est�vel em torno dos 38 graus � muito alta para ser considerada normal e muito baixa para constituir um problema de fato. Por volta das oito da noite, pediu uma tomografia do cr�nio.</p><p>Ao receber as tomografias, examinou-as minuciosamente. N�o detectou nada digno de nota, mas constatou que havia uma �rea mais escura logo ao redor do orif�cio de entrada da bala. Registrou na ficha uma observa��o cuidadosamente formulada e inconclusiva:</p><p>"As tomografias n�o permitem nenhuma conclus�o definitiva, mas o estado da paciente decaiu sensivelmente durante o dia. N�o � de se excluir o surgimento de uma pequena hemorragia, n�o vis�vel nas tomografias. Nos pr�ximos dias, a paciente dever� permanecer em repouso e sob estrita vigil�ncia."</p><p>Erika Berger encontrou vinte e tr�s e-mails ao chegar ao SMP na quarta-feira �s seis e meia da manh�.</p><p>Um deles tinha como remetente o endere�o redaktion-sr@sverigesradio.com</p><p>O texto era breve. Apenas duas palavras.</p><p>[PUTA NOJENTA]</p><p>Ela suspirou e estava prestes a apagar o e-mail quando, no �ltimo instante, mudou de id�ia. Repassou todos os e-mails recebidos e abriu aquele enviado dois dias antes. O remetente era centralred@smpost.se. Humm. Dois e-mails com as palavras "puta nojenta" enviados por falsos remetentes da m�dia. Criou uma pasta chamada [PIRADODAM�DIA] e nela guardou as duas mensagens. Em seguida, passou � pauta das atualidades daquela manh�.</p><p>G�ran M�rtensson saiu de casa �s 7h40. Pegou seu Volvo, tomou a dire��o do centro da cidade e entrou pela Stora Essingen e Gr�ndal rumo a Ardermalm. Foi pela Hornsgatan e chegou � Bellmansgatan via Br�nnkyrka. n Dobrou � esquerda na Tavastgatan, na altura do pub Bishop's Arms, e estacionou na esquina.</p><p>Rosa Figuerola teve uma sorte enorme. No exato momento em que chegou na frente do Bishop's Arms, uma caminhonete saiu, deixando-lhe uma vaga para que ela estacionasse na Bellmansgatan. Ficou com o capo exatamente na esquina da Bellmansgatan com a Tavastgatan. Da eleva��o onde estava, defronte ao Bishop's Arms, tinha uma vis�o perfeita. Enxergava um pedacinho do vidro traseiro do Volvo de M�rtensson na Tavastgatan. Logo em frente, na ladeira �ngreme que descia em dire��o a Pryssgr�nd, ficava o n�mero 1 da Bellmansgatan. Ela enxergava a lateral da fachada, de modo que n�o podia ver propriamente a porta de entrada, mas conseguia ver quando algu�m sa�a. N�o tinha a menor d�vida de que aquele endere�o era o motivo da visita de M�rtensson ao bairro. Era a entrada do pr�dio de Mikael Blomkvist.</p><p>Rosa Figuerola se deu conta de que era um pesadelo vigiar a �rea em torno do n�mero 1 da Bellmansgatan. Os �nicos pontos de onde se podia observar diretamente a porta, na baixada da Bellmansgatan, eram a cal�ada e a passarela no alto da rua, no n�vel dos elevadores p�blicos e da Casa Laurin. N�o havia mais lugar para estacionar l� em cima, e um observador na passarela se destacaria t�o claramente como uma andorinha num antigo fio de telefone. O lugar em que Rosa Figuerola estacionara era a princ�pio o �nico em que ela podia ficar dentro do carro e ter condi��es de observar toda a �rea. Mas era tamb�m um lugar ruim, pois qualquer pessoa mais atenta poderia avist�-la facilmente dentro do carro.</p><p>Ela virou a cabe�a. N�o queria sair do carro e come�ar a zanzar pelo bairro; sabia que chamava facilmente a aten��o. Para seu trabalho de tira, seu f�sico tamb�m tinha suas desvantagens.</p><p>Mikael Blomkvist saiu de seu pr�dio �s nove e dez. Rosa Figuerola anotou a hora. Ela percebeu seu olhar percorrendo a passarela que transpunha o alto da Bellmansgatan. Ele come�ou a subir a ladeira vindo diretamente em sua dire��o.</p><p>Rosa Figuerola pegou no porta-luvas um mapa de Estocolmo e o deixou aberto no banco do passageiro. Depois abriu um caderno de anota��es, tirou Uma caneta do bolso, pegou o celular e fingiu estar conversando. Mantinha a cabe�a baixa de modo a que a m�o que segurava o telefone escondesse parte do rosto.</p><p>Viu Mikael Blomkvist dando uma r�pida olhada na Tavastgatan. Ele sabia que estava sendo vigiado e devia ter visto o carro de M�rtensson, mas continuou andando sem demonstrar nenhum interesse pelo carro. Agiu calma e friamente. Outros teriam rebentado a porta e dado uma surra no motorista.</p><p>Logo em seguida, ele passou pelo carro. Rosa Figuerola estava ocupad�ssima procurando um endere�o no mapa de Estocolmo enquanto falava ao celular, mas sentiu que Mikael olhou para ela ao passar. Desconfia de tudo que v�. Viu suas costas no retrovisor do passageiro enquanto ele seguia em dire��o � Hornsgatan. J� o tinha visto algumas vezes na tev�, mas era a primeira vez que o via pessoalmente. Usava jeans, camiseta e um palet� cinza. Estava com uma sacola pendurada no ombro e andava com grandes passadas indolentes. At� que era um cara bonito.</p><p>G�ran M�rtensson surgiu na esquina do Bishop's Arms e acompanhou Mikael Blomkvist com o olhar. Estava com uma sacola esportiva um tanto volumosa no ombro e conclu�a uma liga��o no celular. Rosa Figuerola imaginou que ele fosse seguir Mikael Blomkvist, mas para sua surpresa ele atravessou a rua bem na frente de seu carro, dobrou � esquerda e desceu a ladeira em dire��o ao pr�dio de Mikael Blomkvist. No instante seguinte, um homem de macac�o de trabalho passou pelo carro de Rosa Figuerola e foi andando atr�s de M�rtensson. Ora, ora, de onde voc� surgiu?</p><p>Pararam em frente � porta do pr�dio de Mikael Blomkvist. M�rtensson teclou o c�digo e os dois sumiram na escadaria. Eles est�o querendo examinar o apartamento. A festa dos amadores. Esse a� acha que pode tudo.</p><p>Em seguida, Rosa Figuerola levantou os olhos para o retrovisor e teve um sobressalto ao ver Mikael Blomkvist. Ele tinha voltado e estava uns dez metros atr�s dela, pr�ximo o suficiente para avistar M�rtensson e seu assistente ali da parte mais elevada da rua que dominava o n�mero 1. Ela observou seu rosto. Ele n�o estava olhando para ela. Em compensa��o, viu quando G�ran M�rtensson sumiu pela porta. Um instante depois, Blomkvist deu meia-volta e seguiu em dire��o � Hornsgatan.</p><p>Rosa Figuerola permaneceu im�vel por uns trinta segundos. Ele sab&amp; que est� sendo seguido. Est� observando o que acontece a sua volta. Mas por n�o faz nada? Uma pessoa normal j� teria mexido c�us e terras... ele tem algum plano.</p><p>Mikael Blomkvist desligou e contemplou, pensativo, o bloco de notas sobre sua mesa. O Departamento de Tr�nsito acabava de lhe informar que o carro que ele notara no alto da Bellmansgatan pertencia a uma tal de Rosa Fieuerola, nascida em 1969 e com endere�o na Pontonj�rgatan em Kungsholmen. Como ele vira uma mulher dentro do carro, Mikael sup�s que se tratava da pr�pria Rosa Figuerola.</p><p>Ela estava falando ao celular e consultando um mapa da cidade, aberto no banco do passageiro. Mikael n�o tinha nenhum motivo para imaginar que ela tivesse algo a ver com o bando Zalachenko, mas ele costumava registrar qualquer coisa que fugisse da rotina � sua volta, principalmente nas proximidades de sua casa.</p><p>Ergueu a voz e ligou para Lottie Karim.</p><p>� Quem � essa mulher? Consiga uma foto dela, descubra onde trabalha e tudo o que puder sobre o seu passado.</p><p>� Est� bem, chefe � disse Lottie Karim, e voltou para sua sala.</p><p>O diretor financeiro do SMP, Christer Sellberg, parecia simplesmente at�nito. Afastou a folha A4 com os nove itens sucintos que Erika Berger apresentara na reuni�o semanal da comiss�o de or�amento. O chefe do or�amento, Ulf Flodin, parecia preocupado. Borgsj�, o presidente do conselho administrativo, exibia seu costumeiro ar neutro.</p><p>� Imposs�vel � decretou Sellberg com um sorriso educado.</p><p>� Por qu�? � perguntou Erika Berger.</p><p>� O conselho nunca vai aceitar isso. Vai contra o bom-senso.</p><p>� Vamos retomar do in�cio � sugeriu Erika Berger. � Fui contratada Para fazer o SMP voltar a ser rent�vel. Para conseguir isso, preciso ter condi��es de trabalhar, n�o �?</p><p>� �, mas...</p><p>� N�o posso produzir o conte�do de um jornal di�rio num passe de M�gica, torcendo para tudo dar certo trancada naquele aqu�rio.</p><p>� Voc� n�o entende nada da realidade econ�mica.</p><p>� Pode at� ser. Mas sei fazer um jornal. E a realidade � que de quinze anos para c� o n�mero de funcion�rios do SMP sofreu uma redu��o de cento e dezoito pessoas. At� entendo que a metade era de designers gr�ficos que foram substitu�dos pelos avan�os tecnol�gicos etc. e tal, mas o n�mero de jornalistas que produzem texto sofreu uma redu��o de quarenta e oito pessoas nesse per�odo.</p><p>� Foram cortes necess�rios. Sem eles, o jornal j� teria deixado de existir h� muito tempo.</p><p>� Vejamos o que � necess�rio e o que n�o �. Nesses tr�s �ltimos anos, dezoito cargos de jornalistas foram eliminados. Al�m disso, hoje, nove cargos est�o vagos e parcialmente cobertos por freelancers. A se��o de Esportes tem um d�ficit enorme de pessoal. Deveria haver l� nove funcion�rios e, por mais de um ano, dois cargos ficaram sem ser preenchidos.</p><p>� Trata-se de economia. Simples assim.</p><p>� Tr�s cargos n�o preenchidos na Cultura. Um cargo na editoria de Economia. A editoria de Direito n�o existe na pr�tica, mas... temos ali um redator--chefe que quando necess�rio apela para os jornalistas da Geral. E tem muito mais, e pior. O SMP n�o faz nenhuma cobertura digna desse nome sobre os servi�os estatais e as autoridades h� pelo menos oito anos. Para isso, dependemos totalmente de freelancers e das informa��es repassadas pela TT... e, como voc�s sabem, faz s�culos que a TT desativou sua �rea de Servi�os P�blicos. Ou seja, n�o existe uma �nica reda��o na Su�cia em condi��es de observar os Servi�os P�blicos e as autoridades do Estado.</p><p>� A imprensa escrita est� passando por uma situa��o delicada...</p><p>� A realidade � que ou o SMP fecha as portas imediatamente, ou a dire��o resolve passar para o ataque. Temos hoje menos funcion�rios produzindo mais textos por dia. Os textos s�o med�ocres, superficiais e carecem de credibilidade. Resultado: as pessoas deixam de ler o SMP.</p><p>� Parece que voc� n�o est� entendendo...</p><p>� Estou cheia de ouvir voc�s dizerem que eu n�o estou entendendo. N�o sou nenhuma colegial estagi�ria que est� aqui para se divertir.</p><p>� Mas a sua postura � insensata.</p><p>� Ah, �? Por qu�?</p><p>� Est� sugerindo que o jornal n�o gere receita.</p><p>- Escute, Sellberg, este ano voc� vai distribuir uma alta quantia de dinheiro em dividendos para os vinte e tr�s acionistas do jornal. Acrescente-se b�nus delirantes para os nove membros do conselho administrativo, que dever� custar ao SMP perto de dez milh�es de coroas. Claro, estamos longe dos b�nus que alguns diretores se auto-atribu�ram na Skandia, mas a meu ver voc�s n�o valem nem um centavo. Espera-se que o b�nus seja dado quando algu�m faz alguma coisa que fortale�a o SMP. Na verdade, as demiss�es que voc�s promoveram enfraqueceram o SMP e s� serviram para aumentar a crise.</p><p>� O que voc� est� dizendo � muito injusto. O conselho ratificou todas as medidas que eu tomei.</p><p>� O conselho ratifica as suas medidas porque voc� garantiu uma distribui��o anual de dividendos. � isso que deve acabar aqui e agora.</p><p>� Voc� est� propondo a s�rio que o conselho tome a decis�o de abolir toda a distribui��o de dividendos e todos os b�nus? Voc� imagina mesmo que os acionistas v�o aceitar?</p><p>� Estou propondo um sistema de lucro zero para este ano. Isso equivaleria a uma economia de quase vinte e um milh�es de coroas e � possibilidade de fortalecer a equipe e as finan�as do SMP. Eu ganho por m�s oitenta e oito mil coroas, o que � uma insanidade pura num jornal que n�o tem sequer condi��es de garantir os cargos da se��o de Esportes.</p><p>� Ent�o voc� quer reduzir seu pr�prio sal�rio? Est� defendendo uma esp�cie de comunismo dos sal�rios, � isso?</p><p>� N�o fale besteira. Voc� ganha cento e doze mil coroas por m�s, contando o b�nus anual. Isso � uma loucura. Se o jornal estivesse firme e os lucros fossem astron�micos, voc� poderia se conceder quantos b�nus quisesse. Mas o momento, este ano, n�o � de aumentos. Proponho dividir pela metade o sal�rio de todos os diretores.</p><p>�� O que voc� n�o entende � que os nossos acionistas s�o acionistas Porque querem ganhar dinheiro. Isso se chama capitalismo. Se propuser que eles percam dinheiro, n�o v�o mais querer ser acionistas.</p><p>� N�o estou propondo que eles percam dinheiro, mas tamb�m � poss�vel que se chegue a isso. Ser propriet�rio implica responsabilidades. Voc� mesmo disse: aqui quem manda � o capitalismo. Os donos do SMP querem lucrar. Mas nas regras do capitalismo quem decide se vai haver lucro ou preju�zo � o mercado. Pelo seu racioc�nio, voc� gostaria que essas regras valessem para todos os funcion�rios do SMP, mas que voc� e os acionistas fossem exce��es.</p><p>Sellberg suspirou e ergueu os olhos para o c�u. Desamparado, procurou Borgsj� com o olhar. Borgsj� estudava, pensativo, o programa de nove itens de Erika Berger.</p><p>Rosa Figuerola esperou quarenta e nove minutos at� que G�ran M�rtensson e o desconhecido sa�ssem do pr�dio da Bellmansgatan. Quando come�aram a subir a ladeira em sua dire��o, ela ergueu sua Nikon com teleobjetiva de trezentos mil�metros e tirou duas fotos. Guardou a c�mera no porta-luvas e voltou a se ocupar com seu mapa de Estocolmo, quando deu uma olhada na dire��o dos elevadores p�blicos. N�o acreditou no que via. No alto da Bellmansgatan, bem do lado das portas do elevador, uma mulher morena estava filmando M�rtensson e seu assistente com uma c�mera digital. Caramba... que porra � essa? Um congresso de espionagem na Bellmansgatan?</p><p>M�rtensson e o desconhecido se separaram no alto da rua sem se falar. M�rtensson foi at� seu carro, na Tavastgatan. Ligou o motor, se afastou da cal�ada e saiu do campo de vis�o de Rosa Figuerola.</p><p>Ela desviou o olhar para o retrovisor e viu as costas do homem de macac�o. Ergueu os olhos e viu que a mulher da c�mera conclu�ra as filmagens e, indo na dire��o dele, chegava em frente � Casa Laurin.</p><p>Cara ou coroa? Ela j� sabia quem era G�ran M�rtensson e qual sua profiss�o. Tanto o homem de macac�o como a mulher da c�mera eram cartas desconhecidas. Mas se ela sa�sse do carro, corria o risco de ser notada pela mulher da c�mera.</p><p>N�o se moveu. Pelo retrovisor, viu o homem de macac�o dobrar na Br�nnkyrkagatan. Esperou que a mulher da c�mera chegasse ao cruzamento � sua frente. Por�m, em vez de seguir o homem de macac�o, a mulher virou cento e oitenta graus e desceu em dire��o ao n�mero 1 da Bellmansgatan. Rosa Figuerola viu uma mulher de uns trinta e cinco anos. Tinha cabelos castanhos curtos e usava cal�a jeans escura e jaqueta preta. Quando a mulher se distanciou um pouco mais, Rosa Figuerola abriu �s pressas a porta do carro e correu em dire��o � Br�nnkyrkagatan. N�o conseguia avistar o homem de macac�o. Logo em seguida, uma caminhonete Toyota se afastou da cal�ada. Rosa Figuerola viu o homem de perfil e memorizou a placa. Mesmo que errasse n�mero, conseguiria encontr�-lo. As laterais da caminhonete exibiam um n�ncio da Chaves e Ferraduras Lars Faulsson, com o n�mero de telefone.</p><p>N�o tentou correr at� seu carro para seguir a Toyota. Andou calmamente chegou ao alto do morro bem a tempo de ver a mulher com a c�mera desaparecendo dentro do pr�dio de Mikael Blomkvist.</p><p>Tornou a entrar no carro e anotou no caderninho o n�mero da placa e do telefone de Chaves e Fechaduras Lars Faulsson. Depois, cocou a cabe�a. Quanta movimenta��o misteriosa em torno do endere�o de Mikael Blomkvist! Ergueu os olhos e avistou o telhado do pr�dio no n�mero 1 da Bellmansgatan. Sabia que Blomkvist tinha um apartamento no �ltimo andar, mas, ao conferir os mapas do servi�o municipal, observara que era um apartamento de fundos que dava para o lago de Riddarfj�rden e a cidade velha. Um endere�o chique num antigo bairro hist�rico. Perguntou-se se ele se gabava disso.</p><p>Esperou nove minutos at� que a mulher com a c�mera sa�sse do pr�dio. Em vez de subir a ladeira em dire��o � Tavastgatan, a mulher continuou descendo e dobrou � direita na esquina da Pryssgr�nd. Humm. Se ela estivesse com um carro estacionado na baixada da Pryssgr�nd, Rosa Figuerola n�o teria como segui-la. Mas se estivesse a p�, s� tinha um caminho a fazer � subir a Br�nnkyrkagatan por Pustegr�nd, mais pr�ximo de Slussen.</p><p>Rosa Figuerola saiu do carro e se dirigiu para os lados de Slussen na Br�nnkyrkagatan. Estava quase chegando a Pustegr�nd quando a mulher da c�mera apareceu diante dela. Bingo! Seguiu-a quando passou em frente ao Hilton, pela Pra�a de S�dermalm, defronte ao Museu da Cidade de Slussen. A mulher andava a passos r�pidos e decididos, sem olhar para os lados. Rosa Figuerola deu-lhe uns trinta metros de vantagem. Ela entrou no metr� de Slussen e Rosa Figuerola apressou o passo, mas se deteve ao ver que a mulher se dirigia � banca de jornal em vez de passar pelas roletas.</p><p>Rosa Figuerola ficou observando a mulher na fila. Tinha cerca de um metro e setenta de altura e, com seu t�nis, um jeito mais esportivo. De repente, ao v�-la ali, com os p�s firmemente plantados em frente � banca de jornal, Kosa Figuerola teve a sensa��o de que se tratava de uma policial. A mulher comprou algo que parecia ser uma caixa de pastilhas, em seguida voltou para a Pra�a de S�dermalm e entrou � direita na Katarinav�gen.</p><empty-line/><p>Rosa Figuerola foi atr�s dela. Estava relativamente segura de que a mulher n�o a notara. Desapareceu na esquina pouco depois do McDonald's com Rosa Figuerola a cerca de quarenta metros atr�s dela.</p><p>Ao virar a esquina, n�o viu mais sinal da mulher. Droga! Passou devagar em frente �s v�rias entradas. Ent�o seu olhar bateu numa placa. Milton Security.</p><p>Rosa Figuerola meneou a cabe�a e retornou a p� para a Bellmansgatan.</p><p>Dirigiu at� a G�tgatan, onde ficava a reda��o da Millennium, e passou a meia hora seguinte percorrendo as ruas nas proximidades da reda��o. N�o viu o carro de M�rtensson. Por volta do meio-dia, voltou para o Pal�cio da Pol�cia em Kungsholmen e foi puxar ferro na academia por uma hora.</p><p>� Estamos com um problema � disse Henry Cortez.</p><p>Malu Eriksson e Mikael Blomkvist levantaram os olhos do manuscrito do futuro livro sobre Zalachenko. Era uma e meia da tarde.</p><p>� Sente-se � disse Malu.</p><p>� Trata-se da Vitavara S.A., a empresa que fabrica vasos sanit�rios no Vietn� para vender jx&gt;r mil e setecentas coroas a pe�a.</p><p>� Hum. E qual � o problema? � perguntou Mikael.</p><p>� A Vitavara S.A. pertence quase integralmente a uma empresa-m�e, a SveaBygg S.A.</p><p>� Ah�. � uma firma grande.</p><p>� �. O presidente do conselho administrativo se chama Magnus Borgsj�. � um profissional em conselhos administrativos. Entre outros, � presidente do conselho administrativo do Svenska Morgon-Posten e det�m quase dez por cento do jornal.</p><p>Mikael lan�ou um olhar penetrante para Henry Cortez.</p><p>� Tem certeza?</p><p>� Tenho. O chefe da Erika Berger � um puta de um safado que explora criancinhas no Vietn�.</p><p>� Merda! � fez Malu Eriksson.</p><empty-line/><p>O assistente de reda��o Peter Fredriksson parecia pouco � vontade quando� bateu suavemente � porta do aqu�rio de Erika Berger por volta das duas da tarde.</p><p>� Sim?</p><p>- Bem, � um assunto meio delicado. Mas algu�m aqui na reda��o recebeu um e-mail seu.</p><p>� Meu?</p><p>� Sim. � Suspiro.</p><p>� Do que se trata?</p><p>Ele lhe passou umas folhas A4 com e-mails endere�ados a Eva Carlsson, uma substituta de vinte e seis anos da editoria de Cultura. O remetente, de acordo com o cabe�alho, era erika.berger@smpost.se</p><p>[Minha Eva adorada. Tenho vontade de acariciar e beijar teus seios. Estou ardendo de tes�o e mal consigo me controlar. Eu te suplico, corresponda aos meus sentimentos. A gente poderia se encontrar? Erika.]</p><p>Eva Carlsson n�o respondera a essa abordagem, o que resultar� em mais dois e-mails nos dias seguintes.</p><p>[Eva, minha amada adorada. Eu te suplico, n�o me rejeite. Estou louca de desejo. Quero voc� nua. Quero, custe o que custar. Voc� vai ficar bem comigo. N�o vai se arrepender. Vou beijar cada cent�metro da sua pele nua, seus seios magn�ficos e sua doce gruta. Erika.]</p><p>[Eva. Por que n�o me responde? N�o tenha medo de mim. N�o me rejeite. Voc� n�o � nenhuma sonsa. Sabe do que eu estou falando. Quero fazer amor com voc� e voc� ser� ricamente recompensada. Se for boazinha comigo, serei boazinha com voc�. Voc� pediu para estender seu contrato de substituta. Est� em meu poder atend�-la, e inclusive transform�-lo num contrato permanente. Venha encontrar-se comigo �s 21 horas no meu carro, na garagem. Sua Erika.]</p><p>� Ah, sim � disse Erika Berger. � E agora ela est� se perguntando se sou mesmo eu quem est� mandando essas propostas obscenas.</p><p>� N�o � bem isso... quer dizer... h�.</p><p>� Peter, n�o fale escondido atr�s da barba.</p><p>� Ela talvez tenha mais ou menos acreditado no primeiro e-mail pelo menos ficou bastante surpresa. Mas depois ela entendeu que era um loucura total, nada a ver com seu estilo, e a�...</p><p>� E a�?</p><p>� Bem, ela acha constrangedor e n�o sabe direito o que fazer. Devo dizer que ela tem muita admira��o por voc�, gosta de voc�... quero dizer, corno chefe. Ent�o ela veio se aconselhar comigo.</p><p>� Entendo. E o que voc� disse a ela?</p><p>� Disse que algu�m falsificou o seu endere�o para assedi�-la. Ou assediar voc�s duas. E prometi que ia falar com voc�.</p><p>� Obrigada. Voc� poderia pedir para ela vir falar comigo daqui a uns dez minutos?</p><p>Erika aproveitou esse tempo para escrever um e-mail realmente seu.</p><p>[Vejo-me na obriga��o de informar a todos que uma de nossas colegas recebeu mensagens eletr�nicas aparentemente enviadas por mim. Esses e-mails cont�m alus�es sexuais extremamente grosseiras. Quanto a mim, recebi mensagens de conte�do chulo de um remetente que se diz "centralred" no SMP. Como sabem, esse endere�o n�o existe no SMP.</p><p>Consultei o diretor de tecnologia, e ele me afirmou ser muito f�cil forjar um endere�o de remetente falso. N�o sei como se faz, mas aparentemente existem sites na internet que oferecem esses servi�os. Chego � triste conclus�o de que existe um doente entre n�s que se compraz com esse tipo de coisa.</p><p>Gostaria de saber se outros funcion�rios receberam e-mails estranhos. Caso positivo, gostaria que entrassem imediatamente em contato com o assistente de reda��o Peter Fredriksson. Se essa coisa vergonhosa persistir, teremos de pensar em registrar queixa na pol�cia.</p><p>Erika Berger, redatora-chefe.]</p><p>Imprimiu uma c�pia do e-mail e em seguida clicou em Enviar, para que a mensagem fosse para todos os funcion�rios do SMP. Nisso, Eva Carlsson bateu � porta.</p><p>� Bom dia, sente-se � disse Erika. � Soube que voc� recebeu e-mails em meu nome.</p><p>- Ora, n�o pensei um segundo sequer que pudessem ser mesmo seus.</p><p>- Em todo caso, no instante em que voc� entrou aqui voc� estava recebendo um e-mail meu. Um e-mail que eu de fato escrevi e que mandei para todos os funcion�rios.</p><p>Mostrou para Eva Carlsson a c�pia impressa.</p><p>- Certo. Compreendo � disse Eva Carlsson.</p><p>- Lamento que tenham usado voc� como alvo nessa campanha desagrad�vel.</p><p>__Voc� n�o tem culpa se um maluco inventa esse tipo de coisa.</p><p>- Eu s� queria estar segura de que voc� n�o guarda nenhuma suspeita em rela��o a mim nessa hist�ria.</p><p>� Jamais pensei que isso tivesse partido de voc�.</p><p>� Perfeito, obrigada � disse Erika, e sorriu.</p><p>Rosa Figuerola passou a tarde levantando informa��es. Primeiro, pediu uma foto de Lars Faulsson, para conferir se era a mesma pessoa que ela vira em companhia de G�ran M�rtensson. Depois, digitou o nome dele no cadastro das fichas policiais e obteve imediatamente um resultado.</p><p>Lars Faulsson, de quarenta e sete anos e conhecido pelo apelido de Fa-lun, iniciara sua carreira aos dezessete anos com roubos de carro. Nos anos 1970 e 1980, fora interrogado duas vezes e acusado de arrombamento, roubo agravado e recepta��o. Fora condenado uma primeira vez a uma pena moderada, e na segunda, a tr�s anos de pris�o. Na �poca, era considerado um indiv�duo com um futuro promissor no meio da delinq��ncia, e fora interrogado como suspeito de pelo menos mais tr�s assaltos, um deles envolvendo a quebra de um cofre bastante complexo e intrincado numa loja de departamentos de V�steras. Depois de cumprir a pena, mantivera-se na unha � ou, pelo menos, n�o cometera nenhuma infra��o que o levasse a ser detido e julgado. Em compensa��o, convertera-se � por coincid�ncia � em chaveiro e, em 1987, abrira seu pr�prio neg�cio, o Chaves e Fechaduras Lars Faulsson, situado em Norrtull.</p><p>Identificar a mulher desconhecida que filmara M�rtensson e Faulsson se revelou mais f�cil do que Rosa imaginara. Ela simplesmente ligou para a recep��o da Milton Security e alegou que estava procurando uma de suas funcion�rias, que conhecera algum tempo atr�s mas cujo nome esquecera Podia, no entanto, fornecer uma boa descri��o da mulher. A recep��o lhe in formou que parecia se tratar de Susanne Linder, e passou a liga��o. Quando Susanne Linder atendeu, Rosa Figuerola se desculpou dizendo que discara o n�mero errado.</p><p>Entrou nos arquivos do registro civil e constatou que existiam dezoito Susanne Linder na regi�o de Estocolmo. Tr�s tinham em torno de trinta e cinco anos. Uma residia em Norrt�lje, a outra em Estocolmo, a terceira em Nacka. Pediu as fotos e identificou de imediato a mulher que ela seguira naquela manh� como sendo a Susanne Linder que residia em Nacka.</p><p>Resumiu as atividades do dia num relat�rio e foi at� a sala de Torsten Edklinth.</p><p>Por volta das cinco da tarde, Mikael Blomkvist fechou o arquivo da pesquisa de Henry Cortez. Christer Malm largou o texto, que ele j� lera quatro vezes. Henry Cortez estava sentado no sof� da sala de Malu Eriksson, aparentando um ar de culpa.</p><p>� Caf�? � perguntou Malu, levantando-se. Voltou com quatro canecas e a cafeteira.</p><p>Mikael suspirou.</p><p>� � uma puta de uma hist�ria � disse. � Pesquisa impec�vel. Documentada do in�cio ao fim. Muito bem narrada, com um calhorda que extorque os suecos utilizando o sistema � o que � absolutamente legal �, mas que � suficientemente ganancioso e mal�fico para recorrer a uma empresa que explora crian�as no Vietn�.</p><p>� E ainda por cima est� muito bem escrita � disse Christer Malm. � No dia seguinte � publica��o, o Borgsj� ser� persona non grata na vida econ�mica do pa�s. A tev� vai reagir a esse texto. Ele vai ficar na mesma situa��o que os diretores da Skandia e outros tubar�es. Um verdadeiro furo da Millennium. Boa, Henry.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� S� tem esse problema com a Erika para estragar a festa � disse ele. Christer Malm meneou a cabe�a.</p><p>� E por que isso seria um problema? � perguntou Malu. � A escroque � a Erika. A gente tem o direito de investigar qualquer presidente de conselho administrativo, mesmo que, por acaso, ele seja o chefe da Erika.</p><p>- Mesmo assim, � um problema e tanto � disse Mikael.</p><p>- A Erika Berger n�o foi embora totalmente � disse Christer Malm.</p><p>- Ela ainda det�m trinta por cento da Millennium e faz parte do nosso conselho administrativo. � inclusive presidente do conselho administrativo, at� a gente poder eleger a Harriet Vanger na pr�xima assembl�ia, que vai ser em agosto. E a Erika trabalha para o SMP, tamb�m participa do conselho de l�, e n�s vamos denunciar o presidente dela.</p><p>Sil�ncio morno.</p><p>� Bem, o que a gente faz? � perguntou Henry Cortez. � Esquecemos o texto?</p><p>Mikael fitou Henry Cortez, olho no olho.</p><p>� N�o, Henry. N�o vamos esquecer o texto. N�o � assim que a gente trabalha aqui na Millennium. Mas isso vai nos custar um bocado de tarefas ingratas. N�o d� simplesmente para jogar isso em cima da Erika sem falar com ela antes.</p><p>Christer Malm fez um gesto de concord�ncia com a cabe�a e balan�ou um dedo.</p><p>� Vamos colocar a Erika numa encrenca daquelas. A �nica sa�da para ela vai ser vender a sua parte e se demitir de imediato do conselho administrativo da Millennium, ou, no pior dos casos, ser demitida do SMP. Seja como for, ela vai ficar num tremendo conflito de interesses. Francamente, Henry... concordo com o Mikael sobre publicar o artigo, mas talvez a gente tenha que adiar por um m�s.</p><p>Mikael meneou a cabe�a.</p><p>� Pois a gente tamb�m est� com um conflito de lealdades � disse.</p><p>� Quer que eu ligue para ela? � perguntou Christer Malm.</p><p>� N�o � disse Mikael. � Eu ligo e marco um encontro. Tipo hoje � noite.</p><p>Torsten Edklinth escutou com aten��o Rosa Figuerola resumir todo o Clrco armado em torno do pr�dio de Mikael Blomkvist no n�mero 1 da Bell-niansgatan. Sentiu o ch�o balan�ar ligeiramente.</p><empty-line/><p>� Com que ent�o um funcion�rio da Sapo entrou no pr�dio do Mikael Blomkvist acompanhado de um ex-arrombador de cofres-fortes reconvertido em chaveiro.</p><p>� Exato.</p><p>� Na sua opini�o, o que eles fizeram depois que atravessaram a porta?</p><p>� N�o sei. Mas ficaram l� dentro quarenta e nove minutos. E de se supor que o Faulsson abriu a porta e o M�rtensson entrou no apartamento de Blomkvist.</p><p>� Para fazer o qu�?</p><p>� Dificilmente seria s� para instalar material de escuta, pois isso n�o leva mais que um minuto. O M�rtensson deve ter vasculhado os pap�is do Blomkvist, ou o que quer que ele guarde em casa.</p><p>� Mas o Blomkvist est� escaldado... j� roubaram o relat�rio do Bj�rck da casa dele.</p><p>� Isso mesmo. Ele sabe que est� sendo vigiado, e est� vigiando os que o vigiam. Ele est� impass�vel.</p><p>� Como assim?</p><p>� Ele tem um plano. Est� reunindo provas e pretende denunciar o G�ran M�rtensson. � a �nica explica��o.</p><p>� E a� aparece essa mulher, a tal Linder.</p><p>� Susanne Linder, trinta e quatro anos, que mora em Nacka. E uma ex-policial.</p><p>� Policial?</p><p>� Ela cursou a Escola de Pol�cia e trabalhou seis anos nas Brigadas de Interven��o em S�dermalm. Ent�o, de repente, pediu demiss�o. Nada na ficha dela explica por qu�. Ficou alguns meses desempregada at� ser contratada pela Milton Security.</p><p>� Dragan Armanskij � disse Edklinth, pensativo. � Quanto tempo ela ficou no pr�dio?</p><p>� Nove minutos.</p><p>� Que ela ocupou de que maneira?</p><p>� Eu diria, j� que ela estava filmando o M�rtensson e o Faulsson na rua, que ela est� reunindo provas das atividades deles. Isso quer dizer que a Milton Security est� trabalhando com o Blomkvist e instalou c�meras de vigil�ncia apartamento ou na escada. Ela provavelmente foi at� l� recolher as informa��es das c�meras.</p><p>Edklinth suspirou. Aquele caso Zalachenko estava come�ando a ficar altamente complicado.</p><p>- Bem. Obrigado. V� para casa. Preciso pensar sobre tudo isso.</p><p>Rosa Figuerola foi at� a academia da Pra�a Sankt Erik e fez uma aula de spinning.</p><p>Mikael Blomkvist usou seu telefone extra Ericsson TIO azul para ligar para Erika Berger no SMP. Interrompeu-a em meio a uma discuss�o com os redatores sobre a orienta��o a ser dada a um texto sobre terrorismo internacional.</p><p>� Que surpresa! Oi... espere um pouquinho.</p><p>Erika tapou o aparelho com a m�o e olhou em redor.</p><p>� Acho que terminamos � disse, e passou umas �ltimas instru��es. Quando ficou sozinha no aqu�rio, voltou ao telefone.</p><p>� Oi, Mikael. Lamento n�o ter dado not�cias. Estou abarrotada de trabalho e com mil coisas para assimilar.</p><p>� Eu tamb�m n�o ando muito parado � disse Mikael.</p><p>� Como vai o caso Salander?</p><p>� Vai bem. Mas n�o � por isso que estou ligando. Preciso ver voc�. Hoje � noite.</p><p>� Eu adoraria, mas vou ficar aqui at� as oito horas. E estou exausta. Estou trabalhando desde as seis.</p><p>� Ricky... n�o estou falando em alimentar sua vida sexual. Preciso falar com voc�. � importante.</p><p>Erika ficou um instante calada.</p><p>� � sobre o qu�?</p><p>� Eu falo quando a gente se encontrar. Mas o assunto n�o tem a menor gra�a.</p><p>� Tudo bem. Passo na sua casa l� pelas oito e meia.</p><p>� N�o, na minha casa n�o. E uma longa hist�ria, mas o meu apartamento est� interditado por um tempo. A gente se encontra no Samirs Gryta e toma uma bela cerveja.</p><p>� Estou-dirigindo.</p><p>� Ent�o a gente toma cerveja sem �lcool.</p><p>Erika Berger estava levemente irritada quando chegou ao Samirs Gryta por volta das oito e meia. Sentia-se culpada de n�o ter dado sinal de vida a Mikael desde que pusera os p�s no SMP. Mas ela nunca trabalhara tanto como agora.</p><p>Mikael Blomkvist fez um sinal com a m�o l� da mesa do canto em frente � janela. Ela se demorou � porta. Por um instante, Mikael lhe pareceu uma pessoa totalmente estranha e sentiu que olhava para ele de um jeito diferente. Quem � esse? Meu Deus, estou cansada. Ent�o ele se levantou e lhe deu um beijo, e ela se deu conta, consternada, que n�o pensava nele havia semanas e que ele lhe fazia uma falta tremenda. Era como se o tempo passado no SMP tivesse sido um sonho e que, de repente, ela fosse acordar no sof� da sede da Millennium. Parecia irreal.</p><p>� Ol�, Mikael.</p><p>� Ol�, senhora redatora-chefe. J� comeu?</p><p>� S�o oito e meia. N�o tenho seus detest�veis hor�rios de refei��es.</p><p>Em seguida percebeu que estava com uma fome de leoa. Samir apareceu com o card�pio e ela pediu uma cerveja sem �lcool e uma por��o pequena de lula e batata frita. Mikael pediu um cuscuz e uma cerveja.</p><p>� Como voc� est�? � ela perguntou.</p><p>� Estamos vivendo um momento interessante. Ando ocupado.</p><p>� Como vai a Salander?</p><p>� Ela faz parte das coisas interessantes.</p><p>� Micke, eu n�o tenho a inten��o de me apropriar da sua mat�ria.</p><p>� Desculpe... eu n�o estou evitando responder. Nesse momento, as coisas est�o meio enroladas. Posso at� te contar, mas vai levar metade da noite. Como � ser chefe no SMP?</p><p>� N�o � exatamente como na Millennium. Ela ficou um instante em sil�ncio.</p><p>� Quando chego em casa, caio no sono e apago como uma vela sopra" da, e acordo com c�lculos de or�amento colados na retina. Voc� me fez falta. Eu queria que a gente fosse para a sua casa dormir. Estou cansada demais para fazer amor, mas gostaria de te abra�ar e dormir do seu lado.</p><p>- Sinto muito, Ricky. O meu apartamento n�o � o melhor lugar neste momento.</p><p>- Por que n�o? Aconteceu alguma coisa?</p><p>- Bem... Uns engra�adinhos andaram instalando microfones no apartamento e escutam cada palavra que eu digo. Da minha parte, instalei umas c�meras de seguran�a que mostram o que acontece ali quando eu n�o estou. Acho que podemos poupar o mundo da vis�o da sua bunda nua.</p><p>� Voc� est� falando s�rio? Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>� Estou. Mas n�o � por isso que eu precisava te ver sem falta.</p><p>� O que aconteceu? Voc� est� estranho.</p><p>� Bem... voc� foi para o SMP. E n�s, na Millennium, topamos com uma hist�ria que vai detonar o presidente do seu conselho administrativo. Ele est� envolvido num caso de explora��o de menores e prisioneiros pol�ticos no Vietn�. Parece que estamos entrando num conflito de interesses.</p><p>Erika largou o garfo e olhou para Mikael. Percebeu imediatamente que ele n�o estava brincando.</p><p>� Vou resumir � disse ele. � O Borgsj� � presidente do conselho administrativo e acionista majorit�rio de uma empresa chamada SveaBygg, que por sua vez tem uma filial chamada Vitavara S.A. Eles mandam fabricar vasos sanit�rios numa empresa vietnamita que est� fichada na ONU por explora��o de trabalho infantil.</p><p>� Voc� poderia repetir?</p><p>Mikael contou os detalhes da hist�ria reconstitu�da por Henry Cortez. Abriu sua pasta e tirou uma c�pia dos documentos. Erika leu, devagar, o artigo de Cortez. Por fim, ergueu os olhos e cruzou o olhar com Mikael. Sentiu um p�nico irracional mesclado de desconfian�a.</p><p>� Como se explica que a primeira medida da Millennium depois que eu sa� foi passar pelo crivo os membros do conselho administrativo do SMP?</p><p>� N�o foi assim que aconteceu, Ricky.</p><p>Ele contou de que modo o artigo fora se encorpando.</p><p>� E desde quando voc� sabe disso?</p><p>� Desde hoje � tarde. N�o gosto nem um pouco do rumo que as coisa est�o tomando.</p><p>� O que voc�s pretendem fazer?</p><p>� N�o sei. A gente tem que publicar. N�o d� para abrir uma exce��o s� porque se trata do seu chefe. Mas nenhum de n�s quer te prejudicar.</p><p>Fez um gesto com a m�o. � Estamos meio desesperados. Principalmente o Henry.</p><p>� Eu continuo fazendo parte do conselho administrativo da Millennium. Sou acionista... � claro que as pessoas v�o pensar que...</p><p>� Sei exatamente o que as pessoas v�o pensar. Voc� vai ficar encrencada no SMP.</p><p>Erika sentiu-se invadida pelo cansa�o. Cerrou os dentes e resistiu ao impulso de pedir a Mikael que abafasse o caso.</p><p>� Puta merda � disse ela. � E voc�s t�m certeza de que est� tudo fundamentado...?</p><p>Mikael assentiu devagar com a cabe�a.</p><p>� Passei o final da tarde repassando toda a documenta��o do Henry. Estamos com o Borgsj� prontinho para o matadouro.</p><p>� O que voc�s v�o fazer?</p><p>� O que voc� teria feito se top�ssemos com essa hist�ria h� dois meses? Erika Berger observou com aten��o seu amigo e amante de mais de vinte anos. Ent�o, baixou os olhos.</p><p>� Voc� sabe o que eu teria feito.</p><p>� Isso tudo � um acaso infeliz. N�o � nada contra voc�. Eu sinto muito mesmo. Por isso insisti em te ver imediatamente. A gente precisa decidir que atitude tomar.</p><p>� A gente?</p><p>� Digamos... que esse artigo era para a edi��o de junho. Eu adiei. Vai ser publicado no m�nimo em agosto, e pode ser adiado um pouco mais se voc� precisar.</p><p>� Entendo.</p><p>Sua voz adquirira um tom amargo.</p><p>� Proponho que a gente n�o decida nada hoje. Voc� pega a documenta��o e vai para casa pensar. N�o fa�a nada antes de a gente elaborar uma estrat�gia conjunta. Temos tempo.</p><p>- Estrat�gia conjunta?</p><p>- Ou voc� tem que se demitir do conselho administrativo da Millennium muito antes de a gente publicar, ou tem que se demitir do SMP. Voc� n�o pode ficar em cima do muro.</p><p>Ela concordou com a cabe�a.</p><p>- As pessoas me identificam tanto com a Millennium que ningu�m vai acreditar que eu n�o tenho nada a ver com isso, mesmo que eu me demita.</p><p>- H� uma alternativa. Voc� pega o artigo para o SMP, p�e o Borgsj� contra a parede e exige a sa�da dele. Tenho certeza que o Henry Cortez concordaria. Mas, por favor, n�o fa�a nada sem estarmos todos de acordo.</p><p>� E eu come�o na minha nova fun��o dando um jeito para que a pessoa que me contratou seja demitida.</p><p>� Sinto muito.</p><p>� Ele n�o � m� pessoa.</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Acredito. Mas � um ganancioso.</p><p>� Vou para casa.</p><p>� Ricky, eu...</p><p>Ela o interrompeu.</p><p>� Eu estou esgotada, s� isso. Obrigada por ter me avisado. Preciso pensar nas conseq��ncias disso tudo.</p><p>Mikael meneou a cabe�a.</p><p>Ela foi embora sem lhe dar um beijo e deixando-lhe a conta.</p><p>Erika Berger estacionara o carro a duzentos metros do Samirs Gryta, e estava a meio caminho dele quando sentiu o cora��o bater t�o depressa que precisou parar e se apoiar na parede. Estava com n�useas.</p><p>Ficou um bom tempo assim, respirando o frescor da noite de maio. De repente, se deu conta de que vinha trabalhando uma m�dia de quinze horas Por dia desde 1- de maio. Quase tr�s semanas. Como estaria se sentindo dali a tr�s anos? Como se sentia Morander quando desabara, morto, na reda��o?</p><p>Passados dez minutos, ela voltou para o restaurante e encontrou Mikael, que estava deixando o local. Ele estacou, surpreso.</p><p>� Erika...</p><p>� N�o fale nada, Mikael. A gente � amigo h� tanto tempo que nada poderia estragar isso. Voc� � o meu melhor amigo e o que est� acontecendo agora � exatamente igual a quando voc� foi se enfurnar em Hedestad dois anos atr�s, s� que ao contr�rio. Estou me sentindo estressada e infeliz.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a e a abra�ou. Ela sentiu seus olhos se encherem de l�grimas.</p><p>� Tr�s semanas no SMP j� acabaram comigo � disse, com um sorriso amargo.</p><p>� Calma. Acho que � preciso mais que isso para acabar com Erika Berger.</p><p>� O seu apartamento � invi�vel. Estou cansada demais para ir at� minha casa em Saltsj�baden. Vou acabar dormindo na dire��o e me matando. Acabei de tomar uma decis�o. Vou caminhar at� o Scandic Crown e pedir um quarto. Venha comigo.</p><p>Ele meneou a cabe�a.</p><p>� O nome agora � Hilton.</p><p>� E o que � que tem?</p><p>Fizeram o breve trajeto a p�. Nenhum dos dois falava. Mikael estava com o bra�o no ombro de Erika. Ela o olhou de lado e percebeu que ele estava t�o cansado quanto ela.</p><p>Foram direto para a recep��o, pediram um quarto duplo e pagaram com o cart�o de cr�dito de Erika. Subiram at� o quarto, se despiram e se deitaram na cama. Erika estava com dores musculares, como se acabasse de correr na maratona de Estocolmo. Trocaram dois ou tr�s beijos e ca�ram num sono profundo.</p><p>Nenhum dos dois percebera que estavam sendo vigiados. N�o viram o homem que os observava � entrada do hotel.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>15. QUINTA-FEIRA 19 DE MAIO � DOMINGO 22 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander passou a maior parte da noite de quinta-feira lendo os artigos de Mikael Blomkvist e os cap�tulos de seu livro que estavam quase conclu�dos. Uma vez que o procurador Ekstr�m contava com o julgamento em julho, Mikael estipulara 20 de junho como o prazo de impress�o. Isso significava que o Super-Blomkvist dispunha de um m�s para terminar a reda��o e preencher todas as lacunas do texto.</p><p>Lisbeth n�o entendia como ele ia achar tempo, mas esse era um problema de Mikael, n�o dela. Seu problema era definir que atitude tomar em rela��o �s quest�es que ele lhe propusera.</p><p>Pegou seu Palm e entrou em [Tavola-Biruta] para ver se ele tinha escrito alguma coisa desde o dia anterior. Viu que n�o. Ent�o abriu o documento que ele intitulara [Quest�es centrais]. J� sabia o texto de cor, mas mesmo assim releu-o mais uma vez.</p><p>Era um esbo�o da estrat�gia que Annika Giannini j� lhe expusera. Enquanto Annika falava, ela escutara com um interesse distra�do e distante, um Pouco como se n�o estivesse interessada. Mas Mikael Blomkvist conhecia segredos seus que Annika Giannini n�o conhecia. Por isso ele conseguia apresentar a tal estrat�gia de forma mais substancial. Ela foi para o quarto par�grafo.</p><empty-line/><p>[A �nica pessoa que pode determinar como ser� o seu futuro � voc� mesma Pouco importam os esfor�os de Annika para te ajudar, ou os meus esfor�os de Armanskij, os de Palmgren e os de outras pessoas para te apoiar. N�o pretendo te convencer a agir. Cabe a voc� decidir o que fazer. Ou voc� reverte o processo a seu favor, ou deixa que eles te condenem. Mas se quiser vencer, vai ter que lutar.]</p><p>Ela se desconectou e fitou o teto. Mikael pedia sua autoriza��o para contar a verdade em seu livro. A inten��o dele era omitir o estupro de Bjurman. O cap�tulo j� estava escrito e ele juntava as pontas partindo do princ�pio de que Bjurman iniciara uma colabora��o com Zalachenko, na qual tinha entrado areia quando Bjurman se apavorou e Niedermann se viu obrigado a mat�-lo. Mikael n�o mencionava os motivos de Bjurman.</p><p>O Maldito Super-Blomkvist estava complicando a vida de Lisbeth Salander.</p><p>Ela refletiu por um longo tempo.</p><p>�s duas da manh�, ligou o Palm e abriu o editor de texto. Clicou em Novo Arquivo, pegou a canetinha digital e come�ou a marcar as letras no teclado.</p><p>[Meu nome � Lisbeth Salander. Nasci em 30 de abril de 1978. Minha m�e se chamava Agneta Sofia Salander. Tinha dezessete anos quando eu nasci. Meu pai era um psicopata, um assassino e um espancador de mulheres chamado Ale-xander Zalachenko. Ele havia trabalhado na Europa Ocidental como operador ilegal do GRO, O servi�o de informa��es militares sovi�tico.]</p><p>O texto avan�ava muito devagar, pois ela era obrigada a marcar letra por letra. Formulava cada frase mentalmente antes de escrev�-la. N�o fez uma �nica altera��o no que tinha escrito. Trabalhou at� as quatro da manh�, quando desligou o computador de m�o e guardou-o na cavidade atr�s do criado-mudo. Produzira o equivalente a duas folhas A4 com entrelinhas simples.</p><empty-line/><p>Erika Berger acordou �s sete horas. Sentia-se longe de ter preenchido cota de sono, mas dormira sem interrup��o por oito horas. Lan�ou um olhar para Mikael Blomkvist, que ainda dormia pesadamente.</p><p>Antes de mais nada, ligou o celular e conferiu se tinha alguma mensagem. A tela indicou que seu marido, Lars Beckman, ligara-lhe onze vezes. Dro&amp;z. Esqueci de avisar. Discou o n�mero dele, explicou onde estava e por que n�o tinha voltado para casa na noite anterior. Ele estava aborrecido.</p><p>� Erika, nunca mais fa�a isso. Voc� sabe que n�o � por causa do Mikael, mas eu passei a noite toda louco de preocupa��o. Fiquei com medo que tivesse acontecido alguma coisa. Voc� precisa me avisar quando n�o vem para casa. N�o pode esquecer, nunca.</p><p>Lars Beckman sabia perfeitamente que Mikael Blomkvist era amante de sua mulher. A rela��o existia com seu aval e consentimento. Mas sempre que Erika resolvia passar a noite na casa de Mikael Blomkvist, ela ligava para o marido e explicava a situa��o. Dessa vez, tinha ido para o hotel sem pensar em nada al�m de dormir.</p><p>� Me desculpe � disse ela. � Eu estava de-mo-li-da ontem � noite. Ele ainda resmungou mais um pouco.</p><p>� N�o fique bravo, Lars. N�o estou com energia para isso agora. � noite voc� me d� uma bronca.</p><p>Ele resmungou um pouco menos e prometeu lhe dar uma bronca quando pusesse as m�os nela.</p><p>� Bem. Como vai o Blomkvist?</p><p>� Est� dormindo. � Ela riu de repente. � N�o estou pedindo para voc� acreditar, mas ca�mos no sono cinco minutos depois de deitar. E a primeira vez que isso acontece.</p><p>� Erika, isso � s�rio. Voc� talvez devesse consultar um m�dico. Terminada a conversa com o marido, ela ligou para o PABX do SMP e deixou um recado para o assistente de reda��o, Peter Fredriksson. Explicou que tinha tido um imprevisto e chegaria um pouco mais tarde. Pediu que ele desmarcasse uma reuni�o agendada com os colaboradores da editaria de Cultura.</p><p>Depois, procurou sua bolsa, pegou uma escova de dentes e foi at� o banheiro. Ent�o voltou para a cama e acordou Mikael.</p><p>� Oi � ele murmurou.</p><p>� Oi � disse ela. � V� depressa at� o banheiro tomar um banho de gato e escovar os dentes.</p><p>� Qu�... o qu�?</p><p>Ele se sentou e olhou em volta t�o espantado que ela precisou lembr�-lo de que estavam no Hotel Hilton de Slussen. Ele meneou a cabe�a.</p><p>� Vamos. J� para o banheiro.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Porque assim que voc� sair de l�, vou fazer amor com voc�. Ela consultou o rel�gio.</p><p>� E seja r�pido. Tenho uma reuni�o �s onze e preciso de pelo menos meia hora para ajeitar o rosto. E ainda vou ter que comprar uma blusa a caminho do trabalho. S� temos duas horas para recuperar um monte de tempo perdido.</p><p>Mikael correu para o banheiro.</p><p>Jerker Holmberg estacionou o Ford de seu pai no p�tio da casa do ex-primeiro-ministro Thprbj�rn F�lldin, em As, pr�ximo a Ramvik, na comuna de H�rn�sand. Desceu do carro e deu uma olhada ao redor. Era quinta-feira de manh�. Garoava e os campos estavam claramente verdes. Aos setenta e nove anos, F�lldin j� n�o era um agricultor em atividade e Holmberg se perguntou quem plantava e colhia ali. Fazia parte das regras do campo. Ele pr�prio tinha se criado em H�lledal, perto de Ramvik, a poucos metros de dist�ncia de Sand�bron, um dos lugares mais belos do mundo. Na opini�o de Jerker Holmberg.</p><p>Ele subiu os degraus da frente e bateu na porta.</p><p>O antigo l�der dos centristas estava envelhecido, mas ainda parecia cheio de vigor.</p><p>� Como vai, Thorbj�rn? Meu nome � Jerker Holmberg. J� nos encontramos, mas faz alguns anos que nos vimos pela �ltima vez. Meu pai � Gustav Holmberg, ele foi vereador centrista da comuna nos anos 1970 e 1980.</p><p>� Como vai? Sim, claro que estou reconhecendo voc�, Jerker. Voc� e policial em Estocolmo, se n�o me engano. Deve fazer uns dez, quinze anos que n�o nos vemos.</p><p>� Acho que at� mais. Posso entrar?</p><p>Sentou-se � mesa da cozinha e Thorbj�rn F�lldin tratou de servir um caf�.</p><p>� Espero que seu pai esteja bem. N�o � por isso que voc� veio?</p><p>� N�o. Meu pai est� bem. Est� refazendo o telhado da casa de campo.</p><p>� Com que idade ele est�?</p><p>� Fez setenta e um h� dois meses.</p><p>� Sim � disse F�lldin, sentando-se. � Ent�o, a que devo a honra da sua visita?</p><p>Jerker Holmberg olhou pela janela e viu uma gralha aterrissando ao lado de seu carro e ficar observando o ch�o. Virou-se para F�lldin.</p><p>� Eu vim sem ser convidado e trago um problema enorme. E poss�vel que no final desta conversa eu seja demitido. Estou aqui por motivo de trabalho, mas o meu chefe, o inspetor Jan Bublanski, da Brigada Criminal de Estocolmo, n�o est� sabendo.</p><p>� Parece coisa s�ria.</p><p>� Vou estar bem encrencado se os meus superiores souberem desta visita.</p><p>� Entendo.</p><p>� Mas receio que, se eu n�o agir, um erro judicial terr�vel possa acontecer, e pela segunda vez.</p><p>� Seria melhor voc� se explicar.</p><p>� � a respeito de um homem chamado Alexander Zalachenko. Ele era espi�o do GRO russo e veio procurar asilo na Su�cia no dia das elei��es de 1976. O asilo foi concedido e ele passou a trabalhar para a Sapo. Tenho motivos para acreditar que voc� conhece essa hist�ria.</p><p>Thorbj�rn F�lldin fitou Jerker Holmberg atentamente.</p><p>� � uma longa hist�ria � disse Holmberg, e come�ou a falar sobre o inqu�rito preliminar que o mantivera ocupado naqueles �ltimos meses.</p><p>Erika Berger rolou de bru�os e descansou a cabe�a sobre as m�os.</p><p>� Mikael, nunca lhe passou pela cabe�a que na verdade n�s dois somos completamente doidos?</p><p>� Como assim?</p><p>� No meu caso, pelo menos. Tenho por voc� um desejo incr�vel. lVle sinto como uma adolescente maluquete.</p><p>� Ah, �?</p><p>� E depois quero voltar para casa e fazer amor com o meu marido. Mikael riu.</p><p>� Conhe�o um bom terapeuta � disse ele. Ela tamborilou o dedo na barriga dele.</p><p>� Mikael, estou come�ando a achar que essa hist�ria do SMP n�o passa de um erro tremendo.</p><p>� Bobagem! E uma oportunidade fant�stica para voc�. Se existe algu�m capaz de reanimar aquele cad�ver velho, esse algu�m � voc�.</p><p>� �, pode ser. Mas o problema � justamente esse. O SMP tem todo o jeito de um cad�ver. E ontem � noite voc� ainda me entregou esse presente do Magnus Borgsj�. N�o sei o que estou fazendo l�.</p><p>� Deixe a poeira baixar um pouco.</p><p>� Sim. Mas n�o vejo a menor gra�a nesse caso Borgsj�. N�o fa�o id�ia de como vou administrar esse problema.</p><p>� Eu tamb�m n�o. Mas vamos achar um jeito. Ela ficou um instante calada.</p><p>� Sinto sua falta.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a e a fitou.</p><p>� Eu tamb�m sinto sua falta � disse.</p><p>� O que seria preciso para voc� ir para o SMP e se tornar chefe da Atualidades?</p><p>� Nem pensar. O editor de Atualidades n�o � um tal de Holm?</p><p>� �. Um cretino.</p><p>� Concordo.</p><p>� Voc� o conhece?</p><p>� Claro. Eu fui substituto sob as ordens dele, durante tr�s meses, nos anos 1980. � um idiota que fica jogando as pessoas umas contra as outras. Al�m disso...</p><p>� Al�m disso o qu�?</p><p>� Ah, nada. N�o quero ficar repassando fofoca.</p><p>� Conta para mim.</p><p>� Uma mulher chamada Ulla qualquer coisa, tamb�m substituta, afirmava que ele a assediava sexualmente. N�o sei se � verdade ou n�o, mas 3o houve interven��o do sindicato e ela n�o conseguiu prorrogar o contrato que tinha sido combinado de in�cio.</p><p>Erika Berger olhou a hora e suspirou, jogou as pernas para fora da cama desapareceu no chuveiro. Mikael n�o se mexeu quando ela voltou se secando e se vestiu rapidamente.</p><p>� Vou ficar mais um pouco � disse ele.</p><p>Ela tascou-lhe um beijo no rosto, acenou com a m�o e foi embora.</p><p>Rosa Figuerola estacionou a vinte metros do carro de G�ran M�rtensson na Luntmakaregatan, bem ao lado da Rua Olof Palmes gata. Viu M�rtensson percorrer a p� os sessenta metros que o separavam do parqu�metro. Ele foi at� a Sveav�gen.</p><p>Rosa Figuerola dispensou o pagamento. Ela o perderia de vista se parasse na m�quina. Seguiu M�rtensson at� a Kungsgatan, onde ele dobrou � esquerda. Empurrou a porta do Kungstornet. Ela reclamou, mas n�o tinha escolha e esperou tr�s minutos antes de ir atr�s dele dentro do caf�. Ele estava sentado no t�rreo e falava com um homem loiro, de uns trinta e cinco anos, com jeito de fort�o. Um tira, pensou Rosa Figuerola.</p><p>Reconheceu-o como o homem que Christer Malm fotografara em frente ao Copacabana em 1�. de maio.</p><p>Ela pediu um caf�, sentou-se do outro lado do Kungstornet e abriu o Nagens Nyheter. M�rtensson e seu companheiro falavam em voz baixa. Ela n�o conseguia captar as palavras. Pegou o celular e fingiu ligar para algu�m � o que foi in�til, j� que nenhum dos dois olhava para ela. Tirou uma foto com o celular, sabendo perfeitamente que seria de 72 dpi, portanto de baixa qualidade para ser impressa. Em compensa��o, poderia servir como prova de que o encontro realmente acontecera.</p><p>Passados pouco mais de quinze minutos, o homem loiro se levantou e saiu do Kungstornet. Rosa Figuerola soltou intimamente um palavr�o. Por que ela n�o tinha ficado l� fora? Ela o teria reconhecido quando ele sa�sse do caf�. Teve vontade de se levantar e recome�ar a ca�ada. Mas M�rtensson estava ali tranq�ilamente, terminando seu caf�. N�o queria chamar a aten��o dele ao se levantar para seguir seu amigo n�o identificado.</p><p>Um minuto depois, M�rtensson se levantou e foi ao banheiro. Assim que fechou a porta, Rosa Figuerola levantou-se de um salto e saiu pela Kungsgatan Espiou nas duas dire��es, mas o homem loiro tivera tempo de desaparecer.</p><p>Ela apostou no tudo ou nada e correu para o cruzamento da Sveav�gen N�o o via em lugar algum e desceu no metr�. Sem nenhuma esperan�a.</p><p>Retornou ao Kungstornet. M�rtensson tamb�m tinha sumido.</p><p>Erika Berger n�o conteve um palavr�o quando chegou ao local onde estacionara sua BMW na noite anterior, a duas quadras do Samirs Gryta.</p><p>O carro ainda estava l�, mas, durante a noite, algu�m havia furado seus quatro pneus. Seus porra de uns putos de uns ratos de merda!, exclamou intimamente, fervendo de raiva.</p><p>N�o havia alternativa. Ligou para a oficina mec�nica e explicou a situa��o. N�o tinha tempo para ficar ali esperando, portanto enfiou a chave no cano de escapamento para que os mec�nicos pudessem abrir o carro. Depois foi at� a Mariatorget e pegou um t�xi.</p><p>Lisbeth Salander entrou no site da Hacker Republic e constatou que Praga estava conectado. Chamou-o.</p><p>[Ol�, Wasp. Como � estar no Sahlgrenska?]</p><p>[Repousante. Preciso da sua ajuda.]</p><p>[N�o diga!!!]</p><p>[Eu n�o achava que fosse precisar.]</p><p>[Deve ser coisa s�ria.]</p><p>[G�ran M�rtensson, residente em Vallingby. Preciso ter acesso ao computador dele.]</p><p>[O.k.]</p><p>[Todo o material deve ser transferido para o Mikael Blomkvist, da Millen-nium.]</p><p>[O.k. Eu cuido disso.]</p><p>[O Big Brother est� vigiando o telefone do Super-Blomkvist e provavelmente os e-mails tamb�m. Voc� tem que mandar para um endere�o hotmail.]</p><p>[O.k.]</p><p>[Se eu n�o estiver dispon�vel, o Blomkvist vai precisar da sua ajuda. Ele tem que poder te contatar.] [Humm.]</p><p>[Ele � meio certinho, mas voc� pode confiar nele.] [Humm.] [Quanto voc� vai querer?]</p><p>Praga ficou calado por alguns segundos.</p><p>[Isso tem algo a ver com a sua atual situa��o?]</p><p>[Tem.]</p><p>[E vai te ajudar?]</p><p>[Vai.]</p><p>[Ent�o eu pago essa rodada.]</p><p>[Obrigada. Mas eu sempre pago as minhas d�vidas. Vou precisar da sua ajuda at� o julgamento. Pago 30 mil.]</p><p>[Voc� tem como pagar?]</p><p>[Tenho como pagar.]</p><p>[O.k.]</p><p>[Acho que vamos precisar do Trinity. Voc� acha que consegue fazer com que ele venha at� a Su�cia?]</p><p>[Para qu�?]</p><p>[Para fazer o que ele sabe fazer de melhor. Pago honor�rios-padr�o + despesas.]</p><p>[O.k. Quem?]</p><p>Ela explicou o que queria que ele fizesse.</p><p>O dr. Anders Jonasson parecia preocupado na sexta-feira de manh� enquanto fitava um inspetor Hans Faste um tanto irritado sentado do outro lado da mesa.</p><p>� Lamento � disse Anders Jonasson.</p><p>� N�o consigo entender. Pensei que a Salander estivesse recuperada.</p><empty-line/><p>Vim at� G�teborg n�o s� para interrog�-la mas para organizar a transfer�ncia dela para uma cela de Estocolmo, onde � o lugar dela.</p><p>� Lamento � Anders Jonasson repetiu. � Estou com muita vontade de me livrar dela, mesmo porque n�o temos muitos leitos. Mas...</p><p>� Existe a possibilidade de ela estar fingindo? Anders Jonasson riu.</p><p>� N�o acho prov�vel. Veja bem. A Lisbeth Salander tem um ferimento na cabe�a. Extra� uma bala do c�rebro dela; casos assim s�o uma loteria no que diz respeito �s chances de sobreviv�ncia. Ela sobreviveu, e o progn�stico foi particularmente bom... t�o bom que eu e meus colegas est�vamos prestes a lhe dar alta. Ent�o aconteceu, ontem, essa n�tida regress�o. Ela se queixou de uma forte dor de cabe�a e vem apresentando uma febre intermitente. Ontem estava com 38, e vomitou duas vezes. Durante a noite, a febre baixou e a temperatura estava quase normal, achei que tinha sido algo passageiro. Mas quando a examinei de manh�, estava com quase 39, e isso � s�rio. Durante o dia, a febre baixou de novo.</p><p>� Mas qual � o problema?</p><p>� N�o sei, por�m o fato de a temperatura oscilar desse modo mostra que n�o se trata de uma gripe ou algo do g�nero. Contudo, n�o posso afirmar exatamente o que �, pode ser uma simples alergia a algum medicamento ou a outra coisa que ela tenha tocado.</p><p>Ele exibiu uma foto no computador e mostrou a tela para Hans Faste.</p><p>� Pedi uma tomografia do cr�nio. Como voc� v�, aqui temos uma parte mais escura, bem no local do ferimento. N�o consigo definir o que �. Pode ser o ferimento cicatrizando, mas tamb�m uma pequena hemorragia. S� que antes de definir o problema n�o posso dar alta, por mais urgente que seja.</p><p>Hans Faste concordou com a cabe�a, resignado. N�o chegara a ponto de argumentar com um m�dico, profissional com poder de vida e morte, o que mais se aproxima de um representante de Deus na terra. Exce��o feita aos policiais. De qualquer forma, ele n�o se sentia competente nem tinha conhecimentos para definir at� que ponto Lisbeth Salander estava mal.</p><p>� E o que vai acontecer agora?</p><p>� Recomendei repouso completo e a interrup��o da fisioterapia, de que ela precisa por causa dos ferimentos no ombro e no quadril.</p><p>- Certo... preciso entrar em contato com o procurador Ekstr�m em Estocolmo. Isso tudo aconteceu meio de surpresa. O que digo a ele?</p><p>� H� dois dias, eu estava prestes a autorizar a transfer�ncia talvez para o fim de semana. Na atual situa��o, vamos ter que aguardar algum tempo. Deve avis�-lo de que eu provavelmente n�o tome nenhuma decis�o nesta semana, talvez ainda demore umas duas semanas at� que voc�s possam transferi-la para a casa de deten��o de Estocolmo. Tudo vai depender da evolu��o do caso.</p><p>� A data do julgamento est� marcada para julho...</p><p>� Se n�o houver nenhum imprevisto, ela dever� estar de p� bem antes disso.</p><p>O inspetor Jan Bublanski contemplou com desconfian�a a mulher musculosa sentada do outro lado da mesa do caf�. Estavam numa esplanada da Norr M�larstrand. Era sexta-feira, 20 de maio, e fazia um dia de ver�o. Ela fora apanh�-lo �s cinco da tarde, quando ele estava indo para casa, e exibira suas credenciais, que anunciavam Rosa Figuerola, da Seguran�a. Propusera uma conversa particular acompanhada por uma x�cara de caf�.</p><p>De in�cio, Bublanski se mostrara reticente e rabugento. Depois de algum tempo, ela o olhara nos olhos e disse que n�o estava em miss�o oficial para interrog�-lo, e que obviamente ele n�o tinha que falar com ela se n�o quisesse. Ele perguntara o que ela queria e ela explicara com toda a franqueza que seu chefe a incumbira de investigar o que havia de falso e de verdadeiro no pretenso caso Zalachenko, �s vezes chamado de caso Salander. Explicara tamb�m que n�o tinha certeza de estar autorizada a lhe fazer perguntas e que cabia a ele optar por responder ou n�o.</p><p>� O que voc� quer saber? � Bublanski acabou perguntando.</p><p>� Me conte o que voc� sabe sobre Lisbeth Salander, Mikael Blomkvist, Gunnar Bj�rck e Alexander Zalachenko. Como � que essas pe�as todas acabam se juntando?</p><p>Conversaram por mais de duas horas.</p><p>Torsten Edklinth refletiu exaustivamente, tentando achar uma forma de prosseguir. Ap�s cinco dias de investiga��o, Rosa Figuerola lhe fornecera uma seq��ncia de elementos claros e precisos que indicavam algo de muito ruim ocorrendo dentro da Sapo. Ele percebia a necessidade de agir com cautela, at� dispor de provas suficientes para fundamentar suas afirma��es. Na atual situa��o, ele mesmo se via em meio a certa desorienta��o constitucional, j� que n�o tinha compet�ncia para levar adiante investiga��es secretas de interven��o, muito menos contra seus pr�prios colaboradores.</p><p>Portanto, precisava encontrar uma maneira de legitimar sua atua��o. Em uma situa��o de crise, poderia apelar para sua condi��o de policial e para o dever que tem um policial de elucidar crimes � mas o crime em quest�o era de uma natureza constitucional t�o delicada que ele provavelmente seria demitido se desse um passo em falso. Passou a sexta-feira em meio a rumina��es solit�rias dentro de sua sala.</p><p>As conclus�es a que chegava eram de que Dragan Armanskij estava certo, mesmo que parecesse inveross�mil. Existia uma conspira��o dentro da Sapo, e algumas pessoas estavam atuando al�m de suas atividades regulares, ou paralelamente a elas. Considerando-se que fazia anos que tais atividades vinham se desenvolvendo � desde 1976, no m�nimo, quando Zalachenko chegara � Su�cia �, isso significava que elas eram organizadas e contavam com o aval de algumas "autoridades dentro da hierarquia. Ele ignorava at� que n�vel remontava essa conspira��o.</p><p>Escreveu tr�s nomes num bloco de anota��es.</p><p>G�ran M�rtensson. Prote��o � Pessoa. Inspetor criminal.</p><p>Gunnar Bj�rck, chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros. Falecido. (Suic�dio?)</p><p>Albert Shenke, secret�rio-geral, DGPN/Sapo.</p><p>Rosa Figuerola conclu�ra que pelo menos o secret�rio-geral devia ter orquestrado o caso quando M�rtensson, da Prote��o � Pessoa, fora transferido, embora n�o de fato, para a contra-espionagem. Ele passava o tempo vigiando o jornalista Mikael Blomkvist, o que n�o tinha absolutamente nada a ver com atividades de contraespionagem.</p><p>A essa lista cabia acrescentar outros nomes de fora da Sapo.</p><p>Peter Teleborian, psiquiatra Lars Faulsson, chaveiro</p><p>Teleborian fora contratado algumas vezes pela Sapo como consultor em psiquiatria no final dos anos 1980 e in�cio dos 1990. Isso se dera, mais precisamente, tr�s vezes, e Edklinth examinara os relat�rios dos arquivos. A primeira fora uma ocasi�o extraordin�ria: a contra-espionagem identificara um informante russo infiltrado na ind�stria de telefonia sueca, e o passado daquele espi�o levava a pensar que ele poderia recorrer ao suic�dio caso fosse desmascarado. Teleborian fizera uma an�lise, elogiada por sua precis�o, sugerindo que o informante fosse convertido em agente duplo. Nas duas outras ocasi�es, Teleborian fora consultado para avalia��es de menor import�ncia, uma de um funcion�rio da Sapo com problemas de alcoolismo e outra de um diplomata de um pa�s africano com um estranho comportamento sexual.</p><p>Nem Teleborian nem Faulsson, por�m � e muito menos Faulsson �, eram empregados da Sapo. No entanto, pelas miss�es que lhes confiavam, tinham algum v�nculo com... com qu�?</p><p>A conspira��o estava intimamente ligada ao falecido Alexander Zalachenko, agente russo desertor do GRO e que, de acordo com as fontes, chegara � Su�cia no dia das elei��es de 1976. E do qual ningu�m nunca ouvira falar. Como era poss�vel?</p><p>Edklinth tentou imaginar o que poderia ter acontecido caso ele estivesse entre os executivos dirigentes da Sapo em 1976, quando Zalachenko havia desertado. Como ele teria se comportado? Discri��o absoluta. Evidentemente. A deser��o s� podia ser do conhecimento de um pequeno c�rculo exclusivo, para evitar o risco de a informa��o chegar at� os russos e... Que tipo de pequeno c�rculo?</p><p>Uma se��o de interven��o?</p><p>Uma se��o de interven��o desconhecida?</p><p>Se tudo tivesse sido feito dentro das normas, Zalachenko teria sido entregue � contra-espionagem. No melhor dos casos, o servi�o de informa��o militar teria cuidado dele. S� que eles n�o tinham nem recursos nem compet�ncia para realizar esse tipo de interven��o. Ent�o tinha sido a Sapo.</p><p>E a contra-espionagem jamais tivera esses recursos e compet�ncia. A chave era Bj�rck; ele obviamente tinha sido um dos que administraram Zalachenko. Mas Bj�rck nunca tivera nenhuma liga��o com a contra-espionagem Bj�rck era um mist�rio. Oficialmente, desde os anos 1970 ele tinha um cargo na Brigada dos Estrangeiros, mas na pr�tica ningu�m o vira no departamento antes dos anos 1990, quando foi repentinamente nomeado chefe-adjunto.</p><p>Bj�rck, no entanto, era a principal fonte de informa��es de Blomkvist. Como Blomkvist conseguira que Bj�rck lhe revelasse tamanhas bombas em potencial? A ele, um jornalista?</p><p>As prostitutas. Bj�rck freq�entava prostitutas adolescentes e a Millennium pretendia denunci�-lo. Blomkvist devia ter chantageado Bj�rck.</p><p>Em seguida, Lisbeth Salander entrara na hist�ria.</p><p>O falecido Dr. Nils Bjurman trabalhara na Brigada dos Estrangeiros na mesma �poca que o falecido Bj�rck. Eles � que receberam Zalachenko. Mas o que tinham feito com ele?</p><p>Algu�m havia, necessariamente, tomado as decis�es. Com um desertor daquele gabarito, a ordem tinha que ter vindo do alto.</p><p>Do governo. Devia haver uma liga��o. Ou seria impens�vel.</p><p>Impens�vel?</p><p>O mal-estar fazia Edklinth suar frio. Em termos oficiais, aquilo tudo era compreens�vel. Um desertor da import�ncia de Zalachenko precisava ser tratado com o maior sigilo. Ele pr�prio teria decidido assim. E era isso que o governo Falldin devia ter decidido. Fazia sentido.</p><p>Em compensa��o, o que acontecera em 1991 n�o era nem um pouco normal. Bj�rck contratara Peter Teleborian para mandar internar Lisbeth Salander numa cl�nica de psiquiatria infantil, com o pretexto de que ela era psiquicamente perturbada. Isso constitu�a um crime. Um crime t�o gigantesco que Edklinth tornou a suar frio.</p><p>Algu�m tomara essas decis�es. Nesse caso, n�o podia ter sido o governo... Ingvar Carlsson fora primeiro-ministro, seguido por Carl Bildt. Mas nenhum pol�tico se atreveria a considerar uma decis�o que ia t�o totalmente contra qualquer lei e qualquer justi�a, e que resultaria num esc�ndalo catastr�fico caso fosse descoberta.</p><p>Se o governo estava envolvido nesse caso, a Su�cia n�o era melhor que a pior ditadura do mundo.</p><p>E isso n�o era poss�vel.</p><p>Depois, vieram os fatos de 12 de abril em Sahlgrenska. Zalachenko muito oportunamente morto por um justiceiro doente mental, enquanto um assalto ocorria no apartamento de Mikael Blomkvist, e Annika Giannini sofria una agress�o. Em ambos os casos, o estranho relat�rio de 1991 de Bunnar Bi�rck fora roubado. Essa era uma informa��o passada por Dragan Armanskij ern car�ter confidencial. Porque nenhuma queixa havia sido registrada.</p><p>E, simultaneamente, Gunnar Bj�rck resolvera se enforcar. Logo ele que, entre tantos outros, Edklinth teria gostado de enfrentar numa conversa s�ria, olhos nos olhos.</p><p>Torsten Edklinth n�o acreditava no acaso quando este assumia tais dimens�es. O inspetor criminal Jan Bublanski n�o acreditava num acaso assim. Mikael Blomkvist n�o acreditava. Edklinth pegou novamente a caneta.</p><p>Evert Gullberg, setenta e oito anos. Especialista em assuntos fiscais???</p><p>Quem era esse maldito Evert Gullberg?</p><p>Pensou em ligar para o diretor da Sapo, mas desistiu, pelo simples fato de que ignorava at� que escal�o remontava a conspira��o. Ou seja, ele n�o sabia em quem confiar.</p><p>Tendo eliminado a hip�tese de procurar algu�m da Sapo, considerou por um momento procurar a pol�cia comum. Jan Bublanski conduzia as investiga��es sobre Ronald Niedermann e certamente teria interesse em alguma informa��o anexa. Mas, do ponto de vista pol�tico, isso era imposs�vel.</p><p>Sentiu um fardo enorme pesar sobre seus ombros.</p><p>No fim das contas, s� lhe restava uma sa�da constitucionalmente correta e que talvez representasse uma prote��o caso, no futuro, ca�sse em desgra�a pol�tica. Precisava dirigir-se ao chefe a fim de obter apoio pol�tico para seus atos.</p><p>Olhou a hora. Quase quatro da tarde. Pegou o telefone e ligou para o ministro da Justi�a, que conhecia havia muitos anos e com quem estivera em in�meras palestras no minist�rio. Conseguiu t�-lo na linha em menos de cinco minutos.</p><p>� Ol�, Torsten � disse o ministro da Justi�a. � Quanto tempo! A que se deve esta chamada?</p><p>� Para ser franco, acho que estou ligando para conferir qual a minha credibilidade junto a voc�.</p><p>� Credibilidade? Que pergunta. Sua credibilidade comigo � muito grande. Por que essa pergunta esquisita?</p><p>� Porque depois dela vem um pedido s�rio e fora do comum... Preciso me encontrar com voc� e com o primeiro-ministro, e com urg�ncia.</p><p>� S� isso?</p><p>� Para poder explicar, gostaria que estiv�ssemos bem confort�veis e a s�s. Estou com um caso t�o espantoso aqui na minha mesa que queria informar voc� e o primeiro-ministro a respeito.</p><p>� Parece s�rio.</p><p>� � s�rio.</p><p>� Tem alguma coisa a ver com terrorismo ou amea�as...</p><p>� N�o. E ainda mais s�rio. Com esta liga��o para voc�, estou arriscando a minha reputa��o e a minha carreira. Eu n�o teria esse tipo de conversa se n�o julgasse que a situa��o � extremamente grave.</p><p>� Compreendo. Por isso a pergunta sobre sua credibilidade... Voc� queria se encontrar com o primeiro-ministro quando?</p><p>� Ainda hoje � noite, se poss�vel.</p><p>� Voc� est� me deixando preocupado.</p><p>� Receio que voc� tenha todos os motivos para ficar preocupado.</p><p>� O encontro deve durar quanto tempo? Edklinth refletiu.</p><p>� Acho que vou precisar de uma hora para resumir todos os detalhes.</p><p>� Eu ligo para voc� daqui a pouco.</p><p>O ministro da Justi�a ligou quinze minutos depois dizendo que o primeiro-ministro tinha a possibilidade de receber Torsten Edklinth em sua resid�ncia naquela noite, �s nove e meia. Edklinth estava com as m�os �midas quando desligou. Bem, puxa vida, n�o � imposs�vel que amanh� de manh� minha carreira esteja encerrada.</p><p>Pegou o telefone e ligou para Rosa Figuerola.</p><p>� Oi, Rosa. Apresente-se �s vinte e uma horas para o servi�o. Traje adequado obrigat�rio.</p><p>� Estou sempre com um traje adequado � disse Rosa Figuerola.</p><p>O primeiro-ministro contemplava o diretor da Prote��o � Constitui��o com um olhar que s� poderia ser qualificado de c�tico. Edklinth podia imaginar engrenagens rodando a toda a velocidade por tr�s dos �culos do homem.</p><p>O primeiro-ministro desviou o olhar para Rosa Figuerola, que n�o abrira boca durante a uma hora de explana��o. Viu uma mulher muito alta e musculosa que retribu�a seu olhar com uma polidez repleta de expectativa.</p><p>Ent�o voltou-se para o ministro da Justi�a, que empalidecera ligeiramente durante a explana��o.</p><p>Por fim, o primeiro-ministro respirou fundo, tirou os �culos e deixou seu olhar se perder ao longe.</p><p>� Acho que vamos precisar de mais um caf� � disse por fim.</p><p>� Sim, obrigada � disse Rosa Figuerola.</p><p>Edklinth meneou a cabe�a e o ministro da Justi�a pegou a garrafa t�rmica.</p><p>� Deixem eu fazer um resumo para ter certeza de que entendi tudo direito � disse o primeiro-ministro. � Voc�s desconfiam que exista uma conspira��o dentro da Sapo, a qual estaria extrapolando suas atribui��es constitucionais, e que, com o passar dos anos, essa conspira��o manteve atividades que s� podemos qualificar de criminosas.</p><p>Edklinth fez que sim com a cabe�a.</p><p>� E voc�s vieram me procurar porque n�o confiam na dire��o da Sapo.</p><p>� Sim e n�o � respondeu Edklinth. � Resolvi procur�-lo porque esse tipo de atividade contraria a Constitui��o, mas desconhe�o o objetivo da conspira��o e n�o sei se posso ter interpretado mal algum elemento. Essa atividade poderia, afinal, ser leg�tima, e pode ter o aval do governo. Nesse caso, eu estaria partindo de informa��es erradas ou mal interpretadas e estaria arriscado a revelar uma opera��o secreta em andamento.</p><p>O primeiro-ministro olhou para o ministro da Justi�a. Ambos compreendiam que Edklinth tomasse suas precau��es.</p><p>� Nunca ouvi falar em nada parecido. Voc� est� a par de alguma coisa?</p><p>� Em absoluto � respondeu o primeiro-ministro. � N�o vi nada em nenhum relat�rio da Seguran�a que pudesse confirmar essa hist�ria.</p><p>� O Mikael Blomkvist acha que se trata de um grupo dentro da Sapo. Ele o chama de clube Zalachenko.</p><p>� Nunca ouvi falar nisso. A Su�cia teria acolhido e mantido um dissidente russo desse calibre... Quer dizer que ele desertou durante o governo de F�lldin...</p><p>� Custo a acreditar que F�lldin tenha ocultado uma hist�ria dessas. - disse o ministro da Justi�a. � Uma deser��o dessa import�ncia era para ser passada em absoluta prioridade para o governo seguinte.</p><p>Edklinth pigarreou.</p><p>� O governo de direita deixou para Olof Palme. N�o � segredo para ningu�m que alguns dos meus antecessores na Sapo tinham uma opini�o bem particular sobre Palme...</p><p>� Quer dizer que algu�m teria esquecido de informar o governo social -democrata...</p><p>Edklinth concordou com a cabe�a.</p><p>� Eu gostaria de lembrar que F�lldin cumpriu dois mandatos. Em ambas as ocasi�es, o governo rachou. Na primeira vez, ele cedeu o lugar para Ola Ullsten, cujo governo era minorit�rio em 1979. Depois, o governo se fragmentou pela segunda vez, quando os moderados abandonaram o barco e F�lldin governou com os liberais. Desconfio que a chancelaria do governo estava pr�xima do caos durante essas transfer�ncias de poder. � at� poss�vel que um caso como o de Zalachenko tenha permanecido num c�rculo t�o restrito que o primeiro-ministro F�lldin nem tomou conhecimento dele, de forma que nunca teve coisa alguma para repassar ao Palme.</p><p>� Nesse caso, quem seria o respons�vel? � perguntou o primeiro-ministro.</p><p>Todos, com exce��o de Rosa Figuerola, balan�aram a cabe�a.</p><p>� Suponho que seja inevit�vel a imprensa ficar sabendo � disse o primeiro-ministro.</p><p>� O Mikael Blomkvist e a Millennium v�o publicar. Ou seja, estamos numa posi��o inc�moda.</p><p>Edklinth tivera o cuidado de usar a palavra n�s. O primeiro-ministro meneou a cabe�a. Entendia a gravidade da situa��o.</p><p>� Bem. Em primeiro lugar, queria lhe agradecer por ter me informado desse caso t�o rapidamente. N�o costumo aceitar encontros desse tipo sem aviso pr�vio, mas o ministro da Justi�a me garantiu que o senhor era um homem sensato e que necessariamente algo extraordin�rio estava acontecendo, para que quisesse me ver assim, driblando todos os canais de praxe.</p><p>Edklinth respirou um pouco melhor. O que quer que acontecesse, n�o ria fulminado pela f�ria do primeiro-ministro.</p><p>- Agora s� nos resta resolver como administrar tudo isso. O senhor tem alguma sugest�o?</p><p>� Talvez � respondeu Edklinth, hesitante.</p><p>Permaneceu calado por tanto tempo que Rosa Figuerola acabou dando uma tossidinha.</p><p>� Posso falar?</p><p>� Pois n�o � disse o primeiro-ministro.</p><p>� Se � mesmo verdade que o governo n�o est� a par dessa opera��o, isso significa que ela � ilegal. Em casos assim, o criminoso � o respons�vel, ou seja, � o funcion�rio, ou os funcion�rios do Estado, que extrapolou suas atribui��es. Se conseguirmos provar tudo o que Mikael Blomkvist afirma, significa que um grupo de funcion�rios da Seguran�a dedicou-se a uma atividade criminosa. O problema assume ent�o dois aspectos.</p><p>� O que voc� quer dizer com isso?</p><p>� Em primeiro lugar, precisamos responder �s perguntas: como isso foi poss�vel? Quem � o respons�vel? Como uma conspira��o dessas pode ter se realizado no �mbito de um �rg�o policial legitimamente estabelecido? Permita-me lembrar que eu mesma trabalho para a DGPN/Sapo, e me orgulho disso. Como isso pode ter se prolongado por tanto tempo? Como essa atividade p�de ser dissimulada e financiada?</p><p>O primeiro-ministro concordou com a cabe�a.</p><p>� Esse aspecto vai ser abordado em livros que ser�o publicados � prosseguiu Rosa Figuerola. � Mas uma coisa � certa: existe necessariamente um financiamento, e ele deve girar em torno de v�rios milh�es de coroas por ano. Examinei o or�amento da Seguran�a e n�o encontrei nada que pudesse ser chamado de clube Zalachenko. Mas, como sabem, existem alguns fundos secretos a que o secret�rio-geral e o diretor do or�amento t�m acesso, e eu n�o.</p><p>O primeiro-ministro balan�ou a cabe�a com tristeza. Por que a gest�o da �poca sempre significava pesadelo?</p><p>� O outro aspecto diz respeito aos personagens principais dessa hist�ria. Mais precisamente, �s pessoas que conv�m apanharmos.</p><p>O primeiro-ministro fez um muxoxo.</p><p>� Na minha opini�o, as respostas a essas perguntas dependem da decis�o que o senhor vai tomar dentro de alguns minutos.</p><p>Torsten Edklinth prendeu a respira��o. Se pudesse, teria desfechado um pontap� na t�bia de Rosa Figuerola. Ela acabava de entrar de sola na ret�rica afirmando que o primeiro-ministro era pessoalmente respons�vel. Ele pr�prio cogitara chegar a essa conclus�o, mas somente ap�s uma longa digress�o diplom�tica.</p><p>� Que decis�o a senhora acha que devo tomar? � perguntou o primeiro-ministro.</p><p>� Quanto a n�s, temos interesses em comum. Eu trabalho h� tr�s anos na Prote��o � Constitui��o e considero essa miss�o de uma import�ncia crucial para a democracia sueca. Nesses �ltimos anos, a Seguran�a se conduziu corretamente, dentro da Constitui��o. Para n�s, � importante deixar claro que se trata de uma atividade criminosa comandada por indiv�duos que agiram por conta pr�pria.</p><p>� Esse tipo de atividade n�o conta, definitivamente, com o aval do governo � disse o ministro da Justi�a.</p><p>Rosa Figuerola meneou a cabe�a e refletiu por alguns segundos.</p><p>� De sua parte, imagino que o senhor n�o queira que esse esc�ndalo atinja o governo, o que aconteceria se o governo tentasse ocultar o caso � disse ela.</p><p>� O governo n�o tem o h�bito de ocultar atividades criminosas � disse o ministro da Justi�a.</p><p>� N�o, mas vamos, hipoteticamente, supor que ele tenha vontade de fazer isso. Nesse caso, o esc�ndalo seria incalcul�vel.</p><p>� Prossiga � disse o primeiro-ministro.</p><p>� A situa��o atual se complica com o fato de n�s, da Prote��o � Constitui��o, sermos obrigados a praticar a��es que contrariam o regulamento para termos uma chance m�nima de elucidar essa hist�ria. Gostar�amos que isso se desse do modo jur�dica e constitucionalmente correto.</p><p>� � o que todos n�s queremos � disse o primeiro-ministro.</p><p>� Sendo assim, sugiro que, na qualidade de primeiro-ministro, o senhor ordene que a Prote��o � Constitui��o esclare�a essa confus�o o quanto antes. Que nos forne�a uma ordem de miss�o por escrito e as autoriza��es necess�rias.</p><p>- N�o estou certo de que o que est� sugerindo seja legal � disse o ministro da Justi�a.</p><p>� Sim, � legal. O governo tem poder para tomar decis�es mais amplas caso de amea�a � Constitui��o. Se um grupo de militares ou policiais come�ar a conduzir uma pol�tica independente do Minist�rio de Rela��es Exteriores, significa que houve um golpe de Estado em nosso pa�s.</p><p>- Rela��es Exteriores? � perguntou o ministro da Justi�a.</p><p>O primeiro-ministro balan�ou subitamente a cabe�a.</p><p>� O Zalachenko era um dissidente de uma pot�ncia estrangeira � disse Rosa Figuerola. � Segundo o Mikael Blomkvist, ele transmitia informa��es para servi�os de intelig�ncia estrangeiros. Se o governo n�o foi informado, significa que houve um golpe de Estado.</p><p>� Entendo aonde voc� quer chegar � disse o primeiro-ministro. � Agora, deixe-me expressar a minha opini�o.</p><p>O primeiro-ministro se levantou e deu a volta na mesa. Parou diante de Edklinth.</p><p>� O senhor tem uma colaboradora inteligente. E que, al�m disso, fala sem papas na l�ngua.</p><p>Edklinth engoliu em seco e meneou a cabe�a. O primeiro-ministro voltou-se para o seu ministro da Justi�a.</p><p>� Chame seu secret�rio de Estado e o diretor jur�dico. Amanh� de manh�, quero um documento que d� � Prote��o � Constitui��o poderes extraordin�rios para atuar neste caso. A miss�o consiste em definir o grau de veracidade das afirma��es que nos preocupam, reunir uma documenta��o sobre sua amplitude e identificar as pessoas respons�veis ou implicadas.</p><p>Edklinth assentiu com a cabe�a.</p><p>� Esse documento n�o diz que voc�s v�o conduzir um inqu�rito preliminar; posso estar enganado, mas acho que nesse est�gio s� o procurador-geral da na��o pode indicar o respons�vel por um inqu�rito preliminar. Em compensa��o, posso encarreg�-lo da miss�o de conduzir sozinho uma investiga��o com o objetivo de descobrir a verdade. Portanto, vai conduzir uma investiga��o oficial do Estado. Est� me acompanhando?</p><p>� Sim. Mas, se me permite observar, eu mesmo sou um ex-procurador.</p><p>� Humm. Vamos pedir que o diretor jur�dico d� uma olhada e defina 0 que � oficialmente correto. Seja como for, o senhor � o �nico respons�vel por essa investiga��o. Pode designar os colaboradores de que vai precisar. Se encontrar provas de alguma atividade criminosa, dever� transmiti-las ao Minist�rio P�blico, que decidir� sobre eventuais a��es judici�rias.</p><p>� Tenho que verificar nos textos o que, exatamente, est� em vigor, mas me parece que o senhor tem obriga��o de informar o porta-voz do governo e a Comiss�o Constitucional... isso tudo vir� � tona rapidamente � disse o ministro da Justi�a.</p><p>� Ou seja, vamos ter que agir depressa � disse o primeiro-ministro.</p><p>� Humm � fez Rosa Figuerola.</p><p>� O que foi? � perguntou o primeiro-ministro.</p><p>� Ainda h� dois problemas... Em primeiro lugar, a publica��o da Millennium poderia se chocar com a nossa investiga��o e, em segundo, o julgamento da Lisbeth Salander vai come�ar em poucas semanas.</p><p>� Temos como saber quando a Millennium pretende publicar?</p><p>� N�o custa perguntar � disse Edklinth. � A �ltima coisa que queremos � nos envolver no trabalho da imprensa.</p><p>� No que diz respeito � Salander... � come�ou a dizer o primeiro--ministro. Refletiu por um momento. � Seria terr�vel descobrir que ela realmente foi v�tima dos abusos relatados pela Millennium... isso pode ser mesmo verdade?</p><p>� Creio que sim � disse Edklinth.</p><p>� Nesse caso, precisamos garantir que ela seja indenizada e, antes de mais nada, que n�o volte a ser v�tima de outro abuso de poder � disse o primeiro-ministro.</p><p>� E como vamos fazer isso? � perguntou o ministro da Justi�a. � O governo n�o pode, de modo algum, interferir numa a��o judicial em andamento. E contra a lei.</p><p>� Talvez pud�ssemos falar com o procurador...</p><p>� N�o � disse Edklinth. � Como primeiro-ministro, o senhor n�o pode influenciar no processo judici�rio.</p><p>� Em outras palavras, a Salander ter� que travar seu combate no tribunal � disse o ministro da Justi�a. � E s� se ela perder o processo e apelar e que o governo pode intervir para indult�-la ou ordenar ao Minist�rio P�blico que avalie se � o caso de reabrir o processo.</p><p>E acrescentou:</p><p>- Mas isso s� vale se ela for condenada a uma pena prisional. Se ela for condenada a uma interna��o psiqui�trica, o governo nada pode fazer. Quando se trata de uma quest�o de ordem m�dica, n�o compete ao primeiro-ministro determinar se ela � mentalmente s� ou n�o.</p><p>�s dez da noite de sexta-feira, Lisbeth Salander escutou a chave na fechadura. Desligou imediatamente o computador de m�o e o enfiou debaixo do travesseiro. Quando levantou os olhos, viu Anders Jonasson fechando a porta.</p><p>� Boa noite, senhorita Salander � disse ele. � Como vai?</p><p>� Estou com uma dor de cabe�a terr�vel e me sinto febril � disse Lisbeth.</p><p>� Isso n�o � nada bom.</p><p>Lisbeth n�o parecia particularmente incomodada com a febre nem com a dor de cabe�a. Anders Jonasson examinou-a por dez minutos. Verificou que no in�cio da noite a febre tornara a subir bastante.</p><p>� E uma pena que isso esteja acontecendo agora, quando voc� estava se restabelecendo t�o bem. Infelizmente, n�o vou poder lhe dar alta antes de pelo menos duas semanas.</p><p>� Duas semanas s�o suficientes. Ele fitou-a demoradamente.</p><p>A dist�ncia entre Londres e Estocolmo pela estrada �, por alto, de mil e oitocentos quil�metros, e teoricamente s�o necess�rias vinte horas para percorr�-los. Na pr�tica, foram quase vinte horas s� para chegar � fronteira da Alemanha com a Dinamarca. O c�u estava coberto por nuvens pesadas como chumbo, e na segunda-feira, enquanto o homem que se apresentava como Trinity atravessava a ponte de 0resund, a chuva desabou. Ele reduziu a velocidade e acionou os limpadores do p�ra-brisa.</p><p>Trinity achava um pesadelo dirigir na Europa, com o continente inteiro teimando em andar do lado errado da estrada. Preparara sua caminhonete no s�bado de manh� e pegara a balsa de Doves para Calais, em seguida atravessara a B�lgica passando por Li�ge. Cruzara a fronteira alem� em Aix-la-Chapel-le e subira pela auto-estrada em dire��o a Hamburgo e depois Dinamarca.</p><p>Seu s�cio, Bob the Dog, dormia no banco traseiro. Tinham se revezado na dire��o e, exceto por algumas paradas de uma hora para comer, mantiveram uma velocidade regular de noventa quil�metros por hora. Com dezoito anos de idade, a caminhonete n�o tinha condi��es de andar mais r�pido.</p><p>Havia maneiras mais simples de ir de Londres a Estocolmo, mas infelizmente era pouco prov�vel que se pudesse entrar na Su�cia com cerca de trinta quilos de equipamento eletr�nico fazendo um v�o regular. Embora tivessem cruzado seis fronteiras durante o trajeto, Trinity n�o fora parado por nenhum aduaneiro ou policial. Ele era um ardente partid�rio da Uni�o Europ�ia, cujas regras simplificavam as visitas ao continente.</p><p>Trinity estava com trinta e dois anos e nascera na cidade de Bradford, mas desde crian�a morava no norte de Londres. Tivera uma forma��o bastante med�ocre, uma escola profissionalizante que lhe fornecera um diploma de t�cnico em telefonia, e depois dos dezenove anos, ele de fato trabalhara como instalador na British Telecom por tr�s anos.</p><p>Na verdade, tinha conhecimentos te�ricos em eletr�nica e inform�tica que lhe permitiam encarar sem problema discuss�es em que superava qualquer especialista no assunto. Vivera no meio de computadores desde os dez anos, e pirateara seu primeiro computador aos treze. Isso agu�ara sua vontade e, aos dezesseis anos, j� evolu�ra tanto, que podia ser comparado aos melhores do mundo. Em determinada ocasi�o, passara cada minuto do seu dia acordado diante da tela do computador, criando seus pr�prios programas e jogando spams na rede. Conseguiu se infiltrar na BBC, no Minist�rio da Defesa ingl�s e na Scotland Yard. Conseguiu at� assumir por algum tempo o comando de um submarino nuclear brit�nico que patrulhava o Mar do Norte. Felizmente, Trinity era mais um curioso do que um g�nio do mal da inform�tica. Seu fasc�nio acabava assim que conseguia invadir um computador e descobria um acesso a seus segredos. Quando muito, permitia-se uma brincadeira de moleque do tipo configurar um computador de submarino para que ele convidasse o capit�o a limpar a bunda quando este solicitava uma posi��o. Esse incidente provocara uma s�rie de reuni�es de emerg�ncia no Minist�rio da Defesa, e Trinity acabara entendendo que talvez n�o fosse uma boa id�ia se gabar de seus conhecimentos numa �poca em que os governos n�o estavam brincando quando amea�avam condenar os hackers a pesadas penas de pris�o.</p><p>Trinity fizera o curso de t�cnico em telefonia porque j� sabia como funcionava a rede telef�nica. Logo constatara como tudo estava desesperadoramente obsoleto e se tornara consultor de seguran�a para instala��o de alarmes e supervis�o de sistemas contra roubo. Para alguns clientes cuidadosamente selecionados, ele tamb�m podia oferecer servi�os exclusivos, como vigil�ncia e escuta telef�nica.</p><p>Era um dos fundadores da Hacker Republic, da qual Wasp era uma das cidad�s.</p><p>Eram sete e meia da noite de domingo quando Trinity e Bob the Dog entraram no sub�rbio de Estocolmo. Estavam passando por Kungens kurva, em Sk�rholmen, quando Trinity pegou o celular e discou um n�mero que havia decorado.</p><p>� Praga � disse Trinity.</p><p>� Onde voc�s est�o?</p><p>� Voc� pediu para eu ligar quando a gente passasse pela Ikea.</p><p>Praga explicou como chegar ao albergue da juventude de L�ngholmen, onde fizera uma reserva para seus colegas ingleses. Embora Praga quase nunca sa�sse de seu apartamento, combinaram de se encontrar l� �s dez horas do dia seguinte.</p><p>Depois de refletir um instante, Praga resolveu fazer um esfor�o imenso e encarou a lou�a suja, a faxina e a ventila��o do local para receber seus convidados.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>III. BISC CRASH 27 DE MAIO A 6 DE JUNHO</strong></p><empty-line/><p>O historiador Diodoro da Sic�lia, do s�culo I antes de Cristo (que alguns historiadores consideram uma fonte pouco confi�vel), conta sobre as amazonas da L�bia, que naquela �poca abrangia do Norte da �frica ao Oeste do Egito. Esse imp�rio de amazonas era uma ginecocracia, ou seja, somente �s mulheres era permitido exercer fun��es oficiais, inclusive as militares. Reza a lenda que o pa�s era governado por uma rainha, Myrina, que com trinta mil mulheres na infantaria e tr�s mil cavaleiras atravessou o Egito, a S�ria, at� o mar Egeu, submetendo uma s�rie de ex�rcitos masculinos pelo caminho. Quando a rainha Myrina foi enfim derrotada, seu ex�rcito se dispersou.</p><p>O ex�rcito de Myrina, por�m, deixou marcas na regi�o. As mulheres da Anat�lia pegaram em armas para debelar uma invas�o do C�ucaso depois que os soldados homens foram aniquilados num imenso genoc�dio. Essas mulheres eram treinadas em todo tipo de armas, incluindo o arco, a espada, o machado de guerra e a lan�a. Copiaram dos gregos as cotas de malha de bronze e as armaduras.</p><p>Recusavam o casamento, que consideravam uma sujei��o. Para fins de procria��o, eram decretados feriados, durante os quais elas praticavam o coito com homens an�nimos escolhidos ao acaso nas aldeias das redondezas. S� tinha o direito de abandonar a virgindade a mulher que houvesse matado um homem em combate.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>16.� SEXTA-FEIRA 11 DE MAIO TER�A-FEIRA 31 DE MAIO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist deixou a reda��o da Millennium �s dez e meia da noite de sexta-feira. Desceu at� o t�rreo, mas, em vez de sair para a rua, virou � esquerda no hall de entrada, atravessou o por�o, subiu at� o p�tio interno e saiu na H�kens gata, passando pelo pr�dio vizinho. Cruzou com um grupo de jovens que sa�am da Mosebacke, mas ningu�m prestou aten��o nele. Se por acaso algu�m o estivesse vigiando ia achar que ele estava passando a noite na reda��o, como de costume. Ele estabelecera esse esquema em abril. Na verdade, era Christer Malm que ficava � noite de plant�o na reda��o.</p><p>Por uns quinze minutos, passeou pelas ruazinhas e vielas dos arredores de Mosebacke, antes de rumar para o n�mero 9 da Fiskargatan. Entrou depois de digitar o c�digo de acesso e subiu a p� at� o apartamento l� do alto, usando as chaves de Lisbeth Salander para abrir a porta. Desligou o alarme. Ainda se sentia perturbado quando entrava naquele apartamento de vinte e um c�modos, dos quais apenas tr�s estavam mobiliados.</p><p>Preparou caf� e sandu�ches antes de entrar no escrit�rio de Lisbeth e ligar o PowerBook.</p><p>Desde meados de abril, quando o relat�rio de Bj�rck havia sido roubado. Mikael percebera que estava sendo vigiado, ele montara seu quartel-general particular no apartamento de Lisbeth. Transferira para l� toda a documenta��o importante. Passava v�rias noites por semana no apartamento, dormia na cama de Lisbeth e trabalhava no computador dela. Lisbeth apagara todos os dados antes de ir para Gosseberga acertar as contas com Zalachenko. Mikael achava que ela provavelmente n�o tivera a inten��o de voltar. Ele usara os HDS de Lisbeth para p�r a m�quina em funcionamento outra vez.</p><p>Desde abril ele n�o usava seu pr�prio computador com ADSL. Usava a conex�o de Lisbeth, abria o ICQ e se comunicava com o n�mero que ela criara para ele e lhe passara atrav�s do grupo Yahoo [Tavola-Biruta].</p><p>[Oi, Sally.]</p><p>[Fala.]</p><p>[Mexi nos dois cap�tulos sobre os quais discutimos durante esta semana. Voc� pode encontrar a nova vers�o no Yahoo. E com voc�, em que p� est�o as coisas?]</p><p>[Terminei dezessete p�ginas. Estou postando agora no Tavola-Biruta.]</p><p>Pling.</p><p>[O.k. Peguei. Deixe eu dar uma lida, depois a gente conversa.]</p><p>[Tenho mais uma coisa. 1</p><p>[O qu�</p><p>?</p><p>[Criei um grupo Yahoo chamado Os-Cavaleiros.] Mikael sorriu.</p><p>[O.k. Os Cavaleiros da T�vola Biruta.]</p><p>[Senha yacaracal2.]</p><p>[O.k.]</p><p>[Quatro membros. Eu, voc�, Praga e Trinity.]</p><p>[Seus misteriosos amigos da internet.]</p><p>[Estou me protegendo.]</p><p>[O.k.]</p><p>[O Praga pegou informa��es do computador do procurador Ekstr�m. A gente j� tinha pirateado a m�quina em abril.]</p><p>[O.k.]</p><p>[Se eu perder meu computador de bolso, ele te manter� informado.]</p><p>[Certo. Obrigado.]</p><empty-line/><p>Mikael se desconectou do ICQ e entrou no novo grupo Yahoo [Os-Cavaleiros]- A �nica coisa que encontrou foi um link de Praga para um endere�o http an�nimo, composto de apenas oito algarismos. Copiou o endere�o no Explorer, deu Enter e entrou imediatamente num site de 16 gb em algum lugar da internet, e que constitu�a o disco r�gido do procurador Richard Ekstr�m.</p><p>Praga aparentemente facilitara as coisas para si mesmo copiando todo o disco r�gido de Ekstr�m. Mikael passou uma hora selecionando o conte�do. Rejeitou arquivos de sistema, programas e uma imensa quantidade de inqu�ritos preliminares que pareciam remontar a v�rios anos. Por fim, baixou quatro arquivos. Tr�s tinham os nomes [INQPRELIM/SALANDER], [LIXEIRA/SA-LANDER] e [INQPRELIM/NIEDERMANN]. O quarto era uma c�pia dos e-mails recebidos pelo procurador Ekstr�m at� as catorze horas do dia anterior.</p><p>� Obrigado, Praga! � disse Mikael Blomkvist em voz alta, no apartamento vazio.</p><p>Passou tr�s horas lendo o inqu�rito preliminar de Ekstr�m e sua estrat�gia para o processo de Lisbeth Salander. Como era de se esperar, muita coisa girava em torno de seu estado mental. Ekstr�m pedia um exame psiqui�trico aprofundado e enviara um bom n�mero de e-mails mandando que fosse transferida para a casa de deten��o de Kronoberg o quanto antes.</p><p>Mikael constatou que as investiga��es de Ekstr�m para encontrar Niedermann pareciam estar marcando passo. Bublanski era quem comandava as buscas. Ele conseguira juntar uma documenta��o t�cnica acusando Niedermann do assassinato de Dag Svensson e de Mia Bergman, assim como do assassinato do Dr. Bjurman. O pr�prio Mikael Blomkvist contribu�ra com boa parte daquelas provas nos tr�s longos interrogat�rios a que fora submetido em abril, e seria obrigado a testemunhar caso Niedermann fosse preso. O DNA identificado em alguns pingos de suor e dois fios de cabelo colhidos no apartamento de Bjurman puderam finalmente ser associados com o DNA colhido no quarto de Niedermann em Gosseberga. Uma grande quantidade do mesmo DNA tamb�m havia sido encontrada no corpo do consultor financeiro do MC Svavelsj�, Viktor G�ransson.</p><p>Em compensa��o, surpreendentemente, Ekstr�m possu�a poucas informa��es sobre Zalachenko.</p><p>Mikael acendeu um cigarro e, enquanto fumava, virou-se para a janela a fim de contemplar a vista sobre o Djurg�rden.</p><empty-line/><p>Ekstr�m chefiava dois inqu�ritos preliminares, que haviam sido separados um do outro. O inspetor Hans Faste era a autoridade respons�vel nela investiga��o de tudo o que se referia a Lisbeth Salander. Bublanski tratava exclusivamente de Niedermann.</p><p>O mais natural teria sido Ekstr�m entrar em contato com o diretor-geral da Sapo assim que o nome de Zalachenko surgiu no inqu�rito preliminar para perguntar sobre a real identidade dele. Mikael n�o achou nenhum contato desse tipo entre os e-mails de Ekstr�m, nem em seu di�rio ou anota��es. Em contrapartida, tudo indicava que ele tinha algumas informa��es sobre Zalachenko. Entre as anota��es, Mikael encontrou algumas afirma��es intrigantes.</p><p>O relat�rio sobre a Salander foi forjado. O original de Bj�rck n�o corresponde � vers�o de Blomkvist. Arquivado como confidencial.</p><p>Humm. Mais adiante, uma s�rie de anota��es sustentava que Lisbeth Salander tinha esquizofrenia paran�ica.</p><p>Foi certo internar Salander em 1991.</p><p>Em [LIXEIRA/SALANDER] Mikael encontrou aquilo que ligava um inqu�rito ao outro, ou seja, informa��es acess�rias que o procurador julgava n�o estar associadas ao inqu�rito preliminar e que, por conseguinte, n�o seriam utilizadas no processo nem fariam parte das provas contra ela. Praticamente tudo o que se referia ao passado de Zalachenko estava ali.</p><p>Mikael tinha diante de si uma investiga��o lament�vel.</p><p>Perguntou-se at� que ponto tudo aquilo era acaso e at� que ponto havia sido manipulado. Onde estava a fronteira entre as duas coisas? Ekstr�m teria consci�ncia de que havia uma fronteira?</p><p>Ou algu�m estaria fornecendo a Ekstr�m, de prop�sito, informa��es veross�meis por�m enganosas?</p><p>Por fim, entrou no hotmail e passou os dez minutos seguintes consultando a meia d�zia de contas an�nimas que havia criado. Todos os dias, religiosamente, ele dava uma olhada no endere�o hotmail que havia fornecido � inspetora Sonja Modig. N�o tinha muita esperan�a de que ela se manifestasse, por isso ficou agradavelmente surpreso ao abrir a caixa postal e encontrar um e-mail de viagemtrem9deabril@hotmail.com. A mensagem continha uma linha apenas.</p><p>[Caf� Madalena, primeiro andar, s�bado 11 horas.]</p><p>Mikael Blomkvist meneou a cabe�a, pensativo.</p><p>Praga entrou em contato com Lisbeth Salander por volta da meia-noite, interrompendo-a enquanto ela escrevia sobre sua vida na �poca em que Holger Palmgren era seu tutor. Irritada, olhou para a tela.</p><p>[O que voc� quer?]</p><p>[Trinity acertou tudo em tempo recorde.]</p><p>[Como?]</p><p>[O Sr. doutor dos doidos n�o para quieto. Fica o tempo todo indo de Uppsala para Estocolmo e n�o d� para fazer um hostile takeover.]</p><p>[Eu sei. Como ele conseguiu?]</p><p>[O Teleborian joga t�nis duas vezes por semana. Duas boas horas. Deixou o computador no carro num estacionamento coberto.]</p><p>[Ha ha.]</p><p>[Trinity neutralizou facilmente o alarme do carro e pegou o computador. Bastou meia hora para copiar tudo via Firewire e instalar o Asphyxia.]</p><p>[Onde eu encontro o material?]</p><p>Praga deu o endere�o http do servidor onde estava o disco r�gido de Peter Teleborian.</p><p>[Como diz o Trinity... This is some nasty shit.)</p><p>[?]</p><p>[D� uma olhada no disco r�gido dele.]</p><p>Lisbeth Salander se despediu de Praga e procurou na internet o servidor que ele indicara. Passou as tr�s horas seguintes verificando, um por um, os arquivos do computador de Teleborian.</p><p>Descobriu uma correspond�ncia entre Teleborian e uma pessoa com Uma conta no hotmail que lhe enviava e-mails criptografados. Como ela tinha a chave PGP de Teleborian, n�o encontrou dificuldade em ler a mensagem.</p><p>Seu nome era Jonas, sem sobrenome. Jonas e Teleborian demonstravam um interesse anormal pelos problemas de sa�de de Lisbeth Salander.</p><p>Yes... podemos provar que existe uma conspira��o.</p><p>Mas o que mais interessou a Lisbeth Salander foram as quarenta e sete pastas com 8756 fotos pornogr�ficas pesadas de crian�as. Uma ap�s outra ela abriu as fotos que mostravam crian�as de uns quinze anos ou menos Algumas eram de crian�as muito pequenas. A maioria, meninas. V�rias fotos tinham um car�ter s�dico.</p><p>Descobriu links de pelo menos uma d�zia de pessoas de v�rios pa�ses que trocavam figurinhas sobre pedofilia.</p><p>Lisbeth mordeu o l�bio inferior. No mais, seu rosto n�o demonstrava express�o nenhuma.</p><p>Lembrou-se de quando tinha doze anos e das noites em que ficava amarrada num quarto desprovido de est�mulos sensoriais na cl�nica de psiquiatria infantil de Sankt Stefan. Teleborian nunca deixava de ir at� o quarto para contempl�-la � luz fraca do clar�o que passava pela porta.</p><p>Ela sabia. Ele nunca encostara nela, mas ela sempre soubera.</p><p>Ela sentiu muita raiva de si mesma. H� muitos anos deveria ter cuidado de Teleborian. Mas se reprimira, tentando ignorar a exist�ncia dele.</p><p>Ela o deixara livre para agir.</p><p>Depois de alguns instantes, chamou Mikael Blomkvist pelo ICQ.</p><p>Mikael Blomkvist passou a noite no apartamento de Lisbeth Salander na Fiskargatan. S� desligou o computador �s seis e meia da manh�. Adormeceu com as fotos pornogr�ficas infantis ainda na retina e acordou �s dez e quinze. Pulou da cama, tomou um banho e chamou um t�xi, que foi apanh�-lo em frente ao S�dra Teatern. Saltou na Birger Jarlsgatan �s cinco para as onze e seguiu a p� at� o Caf� Madalena.</p><p>Sonja Modig o aguardava diante de uma x�cara de caf� preto.</p><p>� Oi � disse Mikael.</p><p>� Estou me arriscando muito � disse ela, sem cumpriment�-lo. Vou ser demitida e posso ser processada se algu�m souber que me encontrei com voc�.</p><p>� Eu � que n�o vou contar para ningu�m.</p><empty-line/><p>Ela parecia estressada.</p><p>__Um colega meu visitou recentemente o ex-primeiro-ministro ThorbVirn F�lldin. Foi em car�ter pessoal, e ele tamb�m est� correndo um s�rio risco.</p><p>� Entendo.</p><p>� Exijo, portanto, que o nosso anonimato seja preservado.</p><p>� Eu nem sei de que colega voc� est� falando.</p><p>� Eu vou te contar. Quero que voc� prometa que vai proteg�-lo como fonte.</p><p>� Tem minha palavra. Ela espiou o rel�gio.</p><p>� Voc� est� com pressa?</p><p>� Estou. Vou me encontrar com meu marido e meus filhos na galeria Sture daqui a dez minutos. Meu marido acha que estou trabalhando.</p><p>� E o Bublanski n�o est� sabendo.</p><p>� N�o.</p><p>� O.k. Voc� e seu colega s�o minhas fontes e est�o totalmente protegidos. Os dois. Isso vale at� o t�mulo.</p><p>� O meu colega � o Jerker Holmberg, que voc� conheceu em G�teborg. O pai dele � um militante centrista e o Jerker conhece o F�lldin desde menino. Foi visit�-lo em car�ter particular para falar sobre o Zalachenko.</p><p>� Sei.</p><p>O cora��o de Mikael disparou.</p><p>� O F�lldin parece ser um homem decente. O Holmberg contou sobre o Zalachenko e perguntou o que o F�lldin sabia sobre a deser��o dele. O F�lldin n�o disse nada. Ent�o o Holmberg falou que achamos que Lisbeth Salander foi internada na psiquiatria pelo pessoal que protegia o Zalachenko. O F�lldin ficou revoltad�ssimo.</p><p>� Entendo.</p><p>� O F�lldin contou que o diretor da Sapo, na �poca, e um colega dele loram procur�-lo pouco depois de ele se tornar primeiro-ministro. Contaram Uma hist�ria extraordin�ria sobre um espi�o russo dissidente que tinha se refugiado na Su�cia. Nesse dia, o F�lldin soube que esse era o segredo militar �teis delicado da Su�cia... imagine, em toda a Defesa sueca, n�o lhe chegava nem aos p�s em termos de import�ncia.</p><p>� Humm.</p><p>� O F�lldin explicou que n�o sabia como administrar o caso. Acabava de ser nomeado e seu governo n�o tinha nenhuma experi�ncia. Fazia mais de quarenta anos que os socialistas estavam no poder. Os homens responderam que as decis�es cabiam a ele e que a Sapo se eximiria de qualquer responsabilidade caso ele consultasse seus colegas de governo. Isso foi muito desagrad�vel para o F�lldin. Ele simplesmente n�o sabia o que fazer.</p><p>� Certo.</p><p>� Por fim, o F�lldin se sentiu obrigado a agir como aqueles senhores da Sapo sugeriam. Redigiu uma diretriz que outorgava � Sapo a guarda exclusiva de Zalachenko. Comprometeu-se a nunca mais falar sobre o assunto com ningu�m. Ele nunca soube qual era o nome do dissidente.</p><p>� Entendo.</p><p>�� Depois disso, o F�lldin praticamente n�o ouviu mais falar no caso durante seus dois mandatos. Em compensa��o, fez algo muito sensato. Insistiu para que um secret�rio de Estado fosse posto a par de tudo para atuar como intermedi�rio entre o gabinete do governo e os homens que protegiam o Zalachenko.</p><p>� Ah,�?</p><p>� Esse secret�rio de Estado era Bertil K. Janeryd. Hoje ele tem sessenta e tr�s anos e � embaixador da Su�cia em Haya.</p><p>� S� isso?</p><p>� Quando o F�lldin se deu conta da gravidade desse inqu�rito preliminar, escreveu uma carta ao Janeryd.</p><p>Sonja Modig passou um envelope a Mikael, que o abriu e leu.</p><p>Caro Bertil,</p><p>O segredo que ambos guardamos durante meu mandato no governo esta sendo seriamente amea�ado. O indiv�duo envolvido hoje est� morto e n�o pode mais ser implicado. Em compensa��o, outras pessoas podem.</p><p>� de suma import�ncia obtermos a resposta para algumas perguntas necess�rias.</p><p>O portador desta carta trabalha oficiosamente e tem toda a minha confian�a. Pe�o que ou�a seu relato e responda �s suas perguntas.</p><p>Fa�a uso desse seu incontest�vel poder de discernimento.</p><p>- Esta carta, portanto, faz men��o ao Jerker Holmberg.</p><p>- N�o. O Holmberg pediu ao F�lldin que o nome dele n�o fosse citado.</p><p>Declarou expressamente que n�o sabia quem iria at� Haya.</p><p>- Voc� quer dizer...</p><p>� Eu e o Jerker conversamos sobre isso. J� estamos t�o mergulhados nesta hist�ria que precisar�amos � de um bote salva-vidas, e n�o de uma simples b�ia. N�o temos legitimidade para ir � Holanda conversar com o embaixador. Voc�, em compensa��o, pode fazer isso.</p><p>Mikael dobrou a carta e estava colocando-a no bolso do palet� quando Sonja Modig segurou sua m�o. Apertou-a com for�a.</p><p>� Uma m�o lava a outra � disse ela. � Depois vamos querer saber o que o Janeryd te contou.</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a. Sonja Modig se levantou. Mikael deteve-a.</p><p>� Espere. Voc� disse que o F�lldin recebeu duas pessoas da Sapo. Uma era o diretor. Quem era o colega dele?</p><p>� O F�lldin s� o viu aquela vez e n�o consegue lembrar o nome dele. N�o foi feito nenhum registro. Ele se recorda de um homem magro com um bigode fino. Foi apresentado como chefe da Se��o de An�lise Especial, ou algo assim. Mais tarde, o F�lldin olhou num organograma da Sapo e n�o encontrou a tal se��o.</p><p>O clube Zalachenko, pensou Mikael.</p><p>Sonja Modig tornou a se sentar. Parecia medir as palavras.</p><p>� Certo � disse ela por fim. � Mas estou me arriscando a ir para o pared�o de fuzilamento. Existe um registro que n�o ocorreu nem ao F�lldin nem aos seus visitantes.</p><p>� Qual?</p><p>� O registro dos visitantes do F�lldin no Pal�cio Rosenbad.</p><p>� E?</p><p>� O Jerker pediu para ver esse registro. � um documento oficial, mantido na sede do governo.</p><p>� E?</p><p>Sonja Modig hesitou mais uma vez.</p><p>� O registro indica apenas que o primeiro-ministro encontrou-se com o diretor da Sapo mais um colega, para discutir assuntos gerais.</p><p>� E h� um nome?</p><p>� Sim, E. Gullberg. Mikael sentiu o sangue subir � cabe�a.</p><p>� Evert Gullberg � disse ele. Sonja Modig parecia estar cerrando os dentes, levantou-se e saiu.</p><p>Mikael Blomkvist ainda estava no Caf� Madalena quando pegou o celular para reservar uma passagem a�rea para Haya. O avi�o sa�a de Arlanda �s 14h 50. Foi at� a Dressman da Kungsgatan, onde comprou uma camisa e roupa de baixo, e em seguida � farm�cia de Klara, onde adquiriu uma escova de dentes e outros produtos de higiene pessoal. Tomou o maior cuidado para n�o ser seguido quando correu para apanhar a van que levava ao aeroporto. Chegou dez minutos adiantado.</p><p>�s seis e meia da tarde, pediu um quarto num hotel desbotado a uns dez minutos a p� da esta��o central.</p><p>Passou duas horas tentando localizar o embaixador sueco e conseguiu contat�-lo por telefone por volta das nove horas. Recorreu a toda a sua capacidade de persuas�o, destacando que o assunto era da mais alta import�ncia e precisava ser discutido sem demora. O embaixador acabou cedendo e aceitou encontrar-se com Mikael no domingo, �s dez da manh�.</p><p>Em seguida Mikael pediu um jantar leve num restaurante pr�ximo do hotel. Foi dormir por volta das onze horas.</p><p>O embaixador Bertil K. Janeryd n�o estava muito loquaz enquanto servia o caf� em sua resid�ncia.</p><p>� Muito bem... O que seria t�o urgente a este ponto?</p><p>� Alexander Zalachenko. O dissidente russo que chegou � Su�cia em 1976 � disse Mikael, estendendo-lhe a carta de F�lldin.</p><p>Janery pareceu estupefato. Leu a carta, soltando-a depois devagarinho. Mikael passou a meia hora seguinte explicando as quest�es centrais do problema e por que F�lldin tinha escrito aquela carta.</p><p>� Eu... eu n�o posso falar sobre isso � disse Janeryd por fim.</p><p>Meneou a cabe�a, levantando-se.</p><p>� � claro que pode.</p><p>� N�o, s� diante da Comiss�o Constitucional.</p><p>� E muito prov�vel que o senhor tenha a oportunidade de fazer isso tamb�m. Mas a carta pede que o senhor use sua capacidade de discernimento.</p><p>� O F�lldin � um homem decente.</p><p>� N�o tenho a menor d�vida disso. E n�o estou querendo constranger o senhor nem o F�lldin. N�o � preciso revelar nenhum segredo militar que o Zalachenko eventualmente tenha contado.</p><p>� N�o conhe�o segredo nenhum. Eu nem sabia que o nome dele era Zalachenko... Eu s� conhecia o nome de guerra.</p><p>� Que era?</p><p>� Ele era chamado de Ruben.</p><p>� Muito bem.</p><p>� N�o posso falar sobre isso.</p><p>� Mas � claro que pode � repetiu Mikael, acomodando-se melhor. � Daqui a pouco toda essa hist�ria vai se tornar p�blica. E, quando isso acontecer, ou a imprensa vai atac�-lo com tudo, ou vai trat�-lo como um funcion�rio honesto do Estado que fez o poss�vel para consertar uma situa��o abomin�vel. O senhor foi incumbido pelo F�lldin de servir como intermedi�rio entre ele e o pessoal que cuidava do Zalachenko. Isso eu j� sei.</p><p>Janeryd balan�ou a cabe�a.</p><p>� Fale sobre isso.</p><p>Janeryd permaneceu em sil�ncio por quase um minuto.</p><p>� Eles n�o me davam nenhuma informa��o. Eu era muito jovem... n�o sabia bem como administrar a situa��o. Estive com eles umas duas vezes por ano naquele per�odo. Diziam que Ruben... Zalachenko estava bem de sa�de, colaborando, e que as informa��es que ele passava eram valiosas. Nunca soube detalhes. N�o precisava saber.</p><p>Mikael esperou.</p><p>� O dissidente tinha atuado em outros pa�ses e n�o conhecia nada da Su�cia, motivo pelo qual nunca foi considerado uma prioridade pela nossa pol�tica de seguran�a. Informei o primeiro-ministro em duas ou tr�s oportunidade, mas de modo geral n�o havia nada a dizer.</p><p>� Certo.</p><p>� Eles repetiam que ele estava sendo tratado como era de praxe nesses casos e que as informa��es fornecidas por ele seguiam o processo habitual atrav�s dos nossos canais regulares. O que eu podia dizer? Quando perguntava o que isso significava, eles sorriam e diziam que isso estava acima do meu n�vel de compet�ncia. Eu me sentia um idiota.</p><p>� O senhor nunca achou que havia algo estranho nessa hist�ria?</p><p>� N�o. N�o havia nada estranho. Eu partia do princ�pio de que o pessoal da Sapo sabia o que estava fazendo, que eles tinham a experi�ncia e a pr�tica necess�rias. Mas n�o posso falar sobre isso.</p><p>A essa altura, Janeryd j� estava falando havia v�rios minutos.</p><p>�� Tudo isso n�o tem muita import�ncia. S� uma coisa interessa no momento.</p><p>� O qu�?</p><p>� O nome das pessoas com quem o senhor se encontrava. Janeryd interrogou Mikael com o olhar.</p><p>� Os homens que cuidavam do Zalachenko extrapolaram, e muito, suas fun��es. Envolveram-se em uma atividade criminosa grave e v�o ser objeto de um inqu�rito preliminar. Por isso o F�lldin me mandou aqui. O F�lldin n�o sabe os nomes. Quem encontrava com essas pessoas era o senhor.</p><p>Janeryd piscou nervosamente e apertou os l�bios.</p><p>� O senhor esteve com o Evert Gullberg... ele era o chefe. Janeryd concordou com a cabe�a.</p><p>� Quantas vezes esteve com ele?</p><p>� Ele participou de todos os encontros, menos um. Foram uns dez encontros no per�odo em que F�lldin foi primeiro-ministro.</p><p>� E onde aconteciam esses encontros?</p><p>� No lobby de um hotel. Em geral, no Sheraton. Uma vez foi no Amaranten, em Kungsholmen, e algumas vezes no pub do Continental.</p><p>� E quem mais participava? Janeryd piscou com ar resignado.</p><p>� Foi h� tanto tempo... N�o lembro.</p><p>� Tente lembrar.</p><p>� Havia um... Clinton. Como o presidente americano.</p><p>� E o primeiro nome?</p><p>� Fredrik Clinton. Estive com ele quatro ou cinco vezes.</p><p>� Certo... mais algum?</p><p>� Hans von Rottinger. Eu o conhecia atrav�s da minha m�e.</p><p>� Da sua m�e?</p><p>� �, minha m�e conhecia a fam�lia Von Rottinger. Hans von Rottinger era um homem simp�tico. Antes de v�-lo de repente numa reuni�o com Gullberg, eu ignorava que ele trabalhava para a Sapo.</p><p>� Ele n�o trabalhava para a Sapo � disse Mikael. Janeryd empalideceu.</p><p>� Ele trabalhava para uma coisa chamada Se��o de An�lise Especial � disse Mikael. � O que lhe disseram sobre esse grupo?</p><p>� Nada... quer dizer, eram eles que cuidavam do dissidente.</p><p>� Sim. Mas admita que � esquisito eles n�o constarem no organograma da Sapo.</p><p>� E um absurdo...</p><p>� N�o �? Como voc�s marcavam as reuni�es? Eram eles que ligavam ou o senhor?</p><p>�� N�o... a data e o local do encontro seguinte eram decididos na reuni�o.</p><p>� E se o senhor precisasse contat�-los? Para mudar a data do encontro, por exemplo?</p><p>� Eu tinha um n�mero de telefone.</p><p>� Qual era o n�mero?</p><p>� Sinceramente, n�o lembro.</p><p>� Era o n�mero de quem?</p><p>� N�o sei. Nunca usei.</p><p>� Certo. Outra pergunta: quem sucedeu ao senhor?</p><p>� Como assim?</p><p>� Quando o F�lldin renunciou. Quem ficou no seu lugar?</p><p>� N�o sei.</p><p>� O senhor redigiu algum relat�rio?</p><p>�� N�o, era tudo confidencial. Eu n�o era sequer autorizado a fazer anota��es.</p><p>� E o senhor nunca instruiu nenhum sucessor?</p><p>� N�o.</p><p>� O que aconteceu ent�o?</p><p>� Bem... o F�lldin renunciou e passou o bast�o para Ola Ullsten. Me disseram que ter�amos de ficar afastados at� as elei��es seguintes. Ent�o o F�lldin foi reeleito e as reuni�es foram retomadas. Em seguida, houve as elei��es de 1985 e os socialistas ganharam. E suponho que Palme tenha indicado algu�m para me suceder. Depois disso, comecei minha carreira diplom�tica no Minist�rio das Rela��es Exteriores. Estive no Egito, depois na �ndia.</p><p>Mikael prosseguiu com as perguntas por mais alguns minutos, mas estava convencido de que j� sabia tudo o que Janeryd tinha para contar. Tr�s nomes.</p><p>Fredrik Clinton.</p><p>Hans von Rottinger.</p><p>E Evert Gullberg � o homem que matara Zalachenko.</p><p>O clube Zalachenko.</p><p>Agradeceu Janeryd pelas informa��es e pegou um t�xi para voltar � esta��o. S� quando j� estava acomodado no t�xi � que enfiou a m�o no bolso para desligar o gravador.</p><p>�s sete e meia da noite do domingo, j� estava de volta ao aeroporto de Estocolmo.</p><p>Erika Berger contemplou, pensativa, a foto na tela. Ergueu os olhos e observou a reda��o semi-vazia do lado de l� do aqu�rio. Aparentemente, ningu�m demonstrava o menor interesse por ela, nem aberto nem dissimulado. Tampouco tinha motivo para achar que algu�m da reda��o lhe desejasse algum mal.</p><p>O e-mail chegara um minuto antes. O remetente era redax@aftonbladet.com</p><p>Por que justamente Aftonbladet? Mais um endere�o fajuto.</p><p>A mensagem de hoje n�o continha texto. S� uma imagem JPEG que ela abriu no Photoshop.</p><p>Era uma foto pornogr�fica de uma mulher nua com seios imensos e uma coleira de cachorro no pesco�o. Estava de quatro e se deixando sodomizar.</p><p>O rosto da mulher tinha sido modificado. O retoque n�o estava muito bom, o que decerto nem era o objetivo. O rosto de Erika Berger havia sido colado no lugar do rosto original. A foto era a que lhe servia de assinatura na Millennium e podia ser baixada na internet.</p><empty-line/><p>Embaixo da foto, duas palavras tinham sido escritas com a ferramenta Aer�grafo do Photoshop.</p><p>Puta nojenta.</p><p>Era a nona mensagem an�nima que ela recebia chamando-a de "puta nojenta" e parecia ter sido enviada por um grande grupo de comunica��o sueco. Ela estava claramente sendo v�tima de um ciberass�dio.</p><p>As escutas telef�nicas eram mais dif�ceis de instalar do que a vigil�ncia de computadores. Trinity n�o tivera nenhuma dificuldade em localizar o cabo do telefone fixo do procurador Ekstr�m; o problema era que Ekstr�m nunca usava esse telefone, ou s� usava raramente, para fazer liga��es de trabalho. Trinity nem se esfor�ou para grampear o telefone de Ekstr�m no Pal�cio da Pol�cia de Kungsholmen. Para isso precisaria ter acesso � rede de cabos sueca, o que Trinity n�o tinha.</p><p>Em compensa��o, Trinity e Bob the Dog passaram praticamente a semana inteira rastreando o celular de Ekstr�m em meio aos ru�dos de fundo de quase duzentos mil outros celulares num raio de um quil�metro em torno do Pal�cio da Pol�cia.</p><p>Trinity e Bob the Dog utilizaram uma t�cnica chamada Random Frequency Tracking System, a RFTS. Era uma t�cnica conhecida, desenvolvida pela americana National Security Agency, a NSA, e integrada a um n�mero indeterminado de sat�lites que vigiavam, de modo pontual, focos de crise particularmente interessantes e capitais que ocorriam no mundo todo.</p><p>A NSA dispunha de imensos recursos e usava uma esp�cie de rede para captar uma quantidade grande de liga��es por celular efetuadas simultaneamente num dado per�metro. Cada liga��o era individualizada e passada digitalmente para programas criados com o objetivo de reagir a determinados termos, por exemplo, "terrorista" ou "kalachnikov". Se o termo era localizado, o computador enviava automaticamente um sinal, um operador entrava, escutava a conversa e decidia se ela tinha ou n�o algum interesse.</p><p>A coisa complicava quando era preciso identificar um celular espec�fico. Cada celular tem sua assinatura exclusiva � como uma impress�o digital �, que � o seu n�mero telef�nico. Com aparelhos extremamente sens�veis, a NSA conseguia focalizar determinada �rea, para distinguir e escutar chamadas feitas por celulares. A t�cnica era simples, mas n�o cem por cento segura. As liga��es geradas eram especialmente dif�ceis de identificar, ao passo que as liga��es recebidas eram mais f�ceis, pois iniciavam com a pr�pria impress�o digital destinada ao aparelho chamado para que ele captasse o sinal.</p><p>A diferen�a entre as ambi��es de Trinity e da NSA em mat�ria de escuta telef�nica era de ordem financeira. A NSA dispunha de um or�amento anual de v�rios bilh�es de d�lares, cerca de doze mil agentes em tempo integral e acesso a uma tecnologia de ponta incontest�vel em computa��o e telefonia. Trinity, por sua vez, dispunha de uma caminhonete contendo o equivalente a trinta quilos de equipamento eletr�nico, boa parte dele feita em casa por Bob the Dog. Gra�as � sua vigil�ncia global atrav�s de sat�lite, a NSA podia apontar suas antenas extremamente sens�veis para qualquer edif�cio de qualquer lugar do mundo. Trinity possu�a uma �nica antena fabricada por Bob the Dog, com um alcance efetivo de cerca de quinhentos metros.</p><p>A t�cnica de que Trinity dispunha o obrigava a estacionar a caminhonete na Bergsgatan, ou numa rua pr�xima, e a muito custo calibrar seu equipamento at� ele identificar a impress�o digital representada pelo n�mero do celular do procurador Richard Ekstr�m. Como Trinity n�o falava sueco, era obrigado a redirecionar as chamadas para outro celular, o de Praga, que se incumbia da escuta propriamente dita.</p><p>Durante cinco dias e cinco noites, um Praga de olhos cada vez mais fundos tinha escutado at� a exaust�o um n�mero assustador de chamadas feitas para ou do Pal�cio da Pol�cia e nos pr�dios vizinhos. Ouviu fragmentos de investiga��es em andamento, gravou uma s�rie de liga��es contendo bobagens sem interesse. No quinto dia, tarde da noite, Trinity mandou um sinal que um mostrador digital identificou imediatamente como sendo o n�mero do celular do procurador Ekstr�m. Praga bloqueou a antena parab�lica na freq��ncia exata.</p><p>A t�cnica funcionava melhor para chamadas externas dirigidas a Ekstr�m. A parab�lica de Trinity captou facilmente a busca do n�mero de celular de Ekstr�m lan�ada aos c�us da Su�cia inteira.</p><p>Assim que Trinity come�ou a gravar as chamadas de Ekstr�m, conseguiu igualmente a impress�o de sua voz, sobre a qual Praga p�de trabalhar.</p><p>Praga inseriu devagar a voz digitalizada de Ekstr�m num programa chamado VPRS, Voiceprint Recognition System. Em seguida, indicou uma d�zia de palavras empregadas com freq��ncia pelo procurador, como "combinado" ou "Salander". Assim que conseguiu reunir cinco exemplos de palavras diferentes, ele compilou o tempo necess�rio para pronunci�-la, sua altura e freq��ncia, a t�nica final e mais uma d�zia de outros marcadores. Depois de obter, desse modo, uma representa��o gr�fica, Praga passou a escutar tamb�m as liga��es feitas pelo procurador Ekstr�m. Sua parab�lica estava o tempo todo ligada, � espreita de uma chamada em que constasse exatamente o esquema gr�fico de uma das palavras utilizadas com freq��ncia; elas eram doze no total. A t�cnica estava longe de ser perfeita, mas eles calculavam que cinq�enta por cento das liga��es feitas por Ekstr�m pelo celular, dentro do Pal�cio da Pol�cia ou de algum local pr�ximo, estavam sendo ouvidas e gravadas.</p><p>Infelizmente, a t�cnica tinha um s�rio inconveniente. Assim que o procurador Ekstr�m deixava o Pal�cio da Pol�cia, acabavam as possibilidades de escuta, a n�o ser que Trinity soubesse para onde ele ia e estacionasse a caminhonete nas proximidades.</p><p>Agora que dispunha de uma ordem vinda de cima, Torsten Edklinth podia criar uma unidade de interven��o, pequena sem d�vida, mas leg�tima. Selecionou a dedo quatro colaboradores, jovens talentos origin�rios da pol�cia comum e recrutados pela Sapo havia pouco tempo. Dois haviam passado pela Brigada de Fraudes, um pela Brigada Criminal e outro havia cuidado de casos financeiros. Eles foram chamados � sala de Edklinth e informados sobre a natureza da miss�o e da necessidade de sigilo absoluto. Edklinth frisou que a investiga��o era um pedido expresso do primeiro-ministro. Rosa Figuerola era a chefe e conduzia os trabalhos com uma energia proporcional ao seu f�sico.</p><p>Mas a investiga��o avan�ava devagar, principalmente porque nenhum deles tinha muita certeza de quem era o alvo de suas pesquisas. V�rias vezes, Edklinth e Figuerola pensaram em deter apenas M�rtensson, para interrog�-lo. Mas depois sempre optavam por esperar mais um pouco. Uma deten��o tornaria p�blica toda a investiga��o.</p><p>Na ter�a-feira, por�m, onze dias depois da conversa com o primeiro-ministro, Rosa Figuerola bateu � porta da sala de Edklinth.</p><p>� Acho que temos alguma coisa.</p><p>� Sente-se.</p><p>� Evert Gullberg.</p><p>� Sim?</p><p>� Um dos investigadores conversou com o Marcus Ackerman, que est� chefiando a investiga��o sobre o assassinato do Zalachenko. Ackerman diz que a Sapo procurou a pol�cia de G�teborg para informar sobre as cartas amea�adoras de Gullberg duas horas depois do assassinato.</p><p>� Agiram r�pido.</p><p>� E. Ali�s, r�pido demais. A Sapo passou para a pol�cia de G�teborg, por fax, nove cartas cujo autor seria o Gullberg. S� tem um problema.</p><p>� Qual?</p><p>� Duas cartas eram endere�adas ao Minist�rio da Justi�a: uma ao ministro da Justi�a e outra ao ministro da Democracia.</p><p>� Sim, eu sei disso.</p><p>� Pois �, s� que a carta para o ministro da Democracia foi registrada pelo minist�rio apenas no dia seguinte. Estava em outra leva.</p><p>Edklinth olhou fixamente para Rosa Figuerola. Pela primeira vez, temeu de fato que as suspeitas tivessem fundamento. Inflex�vel, Rosa prosseguiu:</p><p>� Em outras palavras, a Sapo mandou o fax de uma carta que ainda n�o tinha chegado ao destinat�rio.</p><p>� Meu Deus! � disse Edklinth.</p><p>� Foi um funcion�rio da Prote��o � Pessoa que mandou o fax.</p><p>� Quem?</p><p>� N�o acredito que ele tenha algo a ver com isso. Encontrou as cartas sobre sua mesa de manh� e, pouco depois do assassinato, pediram que ele contatasse a pol�cia de G�teborg.</p><p>� Quem deu a ordem?</p><p>� O secret�rio do secret�rio-geral.</p><p>� Meu Deus, Rosa... Voc� percebe o que isso significa?</p><p>� Percebo.</p><p>� Significa que a Sapo est� envolvida no assassinato de Zalachenko.</p><p>� N�o. Significa, definitivamente, que algumas pessoas dentro da Sapo sabiam do assassinato antes de ele ser cometido. A quest�o � descobrir quem.</p><p>� O secret�rio-geral...</p><p>� Sim. Mas estou come�ando a achar que esse clube Zalachenko fica fora da casa.</p><p>� Como assim?</p><p>� O M�rtensson. Ele foi transferido do Servi�o de Prote��o � Pessoa e trabalha sozinho. N�s o mantivemos sob vigil�ncia em tempo integral a semana toda. At� onde pudemos perceber, ele n�o teve contato com ningu�m da casa. Recebe chamadas num celular que n�o conseguimos escutar. N�o temos o n�mero desse celular, mas de qualquer forma n�o � o dele. Ele se encontrou com um homem loiro que ainda n�o identificamos.</p><p>Edklinth franziu a testa. Nisso, Niklas Berglund bateu � porta. Era o colaborador da nova equipe de interven��o que tinha atuado em assuntos financeiros.</p><p>� Acho que descobri o Evert Gullberg � disse Berglund.</p><p>� Entre � disse Edklinth.</p><p>Berglund depositou uma fotografia amassada sobre a mesa. Edklinth e Figuerola observaram a foto. Os dois reconheceram imediatamente o lend�rio coronel espi�o Stig Wennerstr�m. Dois robustos policiais � paisana o conduziam atrav�s de uma porta.</p><p>� Essa foto, da editora �hl�n &amp; �kerlund, foi publicada na revista Se na primavera de 1964. Foi tirada durante o julgamento em que Wennerstr�m foi condenado � pris�o perp�tua.</p><p>� Ah�.</p><p>� Ao fundo, d� para ver tr�s pessoas. � direita, o delegado Otto Danielsson, que foi quem prendeu o Wennerstr�m.</p><p>� Sim...</p><p>� Vejam o homem � esquerda, atr�s do Danielsson.</p><p>Edklinth e Figuerola viram um homem alto, de bigode fino e chap�u. Parecia vagamente o escritor Dashiell Hammet.</p><p>� Comparem esse rosto com a foto de identifica��o do Gullberg. Ele tinha setenta anos quando tirou essa foto.</p><p>Edklinth franziu o cenho.</p><p>� Eu n�o me arriscaria a jurar que se trata da mesma pessoa...</p><p>� Mas eu sim � disse Berglund. � Vire a foto.</p><p>No verso, um carimbo indicava que a foto era propriedade da editora Ahl�n &amp; Akerlund e que o fot�grafo se chamava Julius Estholm. Havia um texto escrito a l�pis. Stig Wennerstr�m, ladeado por dois policiais, entrando no Tribunal de Inst�ncias de Estocolmo. Ao fundo, O. Danielsson, E. Gullberg e H. W. Francke.</p><p>� Evert Gullberg � disse Rosa Figuerola. � Da Sapo.</p><p>� N�o � disse Berglund. � Do ponto de vista meramente t�cnico, ele n�o era. Pelo menos n�o quando essa foto foi tirada.</p><p>� Ah, �?</p><p>� A Sapo s� seria criada quatro meses depois. Nessa foto, ele ainda era da pol�cia secreta do Estado.</p><p>� Quem � H. W. Francke? � perguntou Rosa Figuerola.</p><p>� Hans Wilhelm Francke � disse Edklinth. � Morreu no in�cio dos anos 1990, mas foi diretor-adjunto da pol�cia secreta do Estado no final dos anos 1950 e in�cio dos 1960. Era uma esp�cie de lenda, assim como o Otto Danielsson. Estive com ele uma ou duas vezes.</p><p>� Ah, sim � disse Rosa Figuerola.</p><p>� Ele deixou a Sapo no final dos anos 1960. Francke e P. G. Vinge nunca se deram bem. Imagino que ele tenha sido demitido quando estava com uns cinq�enta, cinq�enta e cinco anos. Abriu sua pr�pria empresa.</p><p>� Sua pr�pria empresa?</p><p>� �, ele virou consultor de seguran�a para a ind�stria privada. Tinha um escrit�rio em Stureplan, mas de vez em quando tamb�m dava palestras nos cursos internos da Sapo. Foi assim que o conheci.</p><p>� Entendo. Que desentendimento foi esse entre o Vinge e o Francke?</p><p>� Eles n�o se suportavam. O Francke fazia o g�nero caub�i, enxergava agentes da KGB por toda parte, e Vinge era um burocrata da velha escola. Verdade � que Vinge foi demitido pouco depois. Era at� engra�ado, porque ele estava convencido de que o Palme trabalhava para a KGB.</p><p>� Humm � fez Rosa Figuerola, examinando a foto em que Gullberg e Francke apareciam lado a lado.</p><p>� Acho que chegou a hora de ter outra conversa com o Minist�rio da Justi�a � disse Edklinth.</p><p>� Hoje saiu a Millennium � disse Rosa Figuerola. Edklinth lan�ou-lhe um olhar penetrante.</p><p>� Nem uma palavra sobre o caso Zalachenko � disse ela.</p><p>� Isso significa que temos, provavelmente, um m�s pela frente at� o nr�ximo n�mero. � bom saber. Mas precisamos cuidar do Blomkvist. Ele est� corno uma granada sem pino no meio de toda essa encrenca.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>17. QUARTA-FEIRA 1�.� DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Nada fizera Mikael Blomkvist desconfiar de que havia algu�m na escadaria quando ele dobrou o �ltimo patamar em frente ao seu soft no n�mero 1 da Bellmansgatan. Eram sete da noite. Ele estacou ao ver uma mulher loira, de cabelos curtos e cacheados, sentada no �ltimo degrau. Identificou-a imediatamente como sendo Rosa Figuerola, da Sapo, lembrava-se muito bem da foto que Lottie Karim conseguira.</p><p>� Ol�, Blomkvist � disse ela com um jeito alegre, fechando o livro que estivera lendo.</p><p>Mikael deu uma olhada no t�tulo e viu que era um livro em ingl�s sobre os deuses na Antig�idade. Afastou os olhos do livro para examinar sua inesperada visitante. Ela se levantou. Usava um vestido branco de ver�o de mangas curtas e pendurara uma jaqueta de couro vermelho-tijolo no corrim�o da escada.</p><p>� A gente precisava falar com voc� � disse ela.</p><p>Mikael Blomkvist observou-a. Era alta, mais alta que ele, e essa impress�o era refor�ada pelo fato de ela estar dois degraus acima dele. Observou seus bra�os, baixou o olhar para as pernas e percebeu que ela era muito mais musculosa que ele.</p><p>- Voc� deve passar v�rias horas por semana na academia � disse ele.</p><p>Ela sorriu e mostrou suas credenciais.</p><p>- Eu me chamo...</p><p>- Voc� se chama Rosa Figuerola, nasceu em 1969 e mora na Pontoj�rcatan, em Kungsholmen. Origin�ria de Borl�nge, trabalhou como policial em Uppsala. Est� h� tr�s anos na Sapo, na Prote��o � Constitui��o. Obcecada por muscula��o, houve um tempo em que era atleta de alto n�vel e por pouco n�o integrou a equipe sueca nos Jogos Ol�mpicos. O que quer de mim?</p><p>Ela ficou surpresa, mas meneou a cabe�a e se recomp�s rapidamente.</p><p>� Melhor assim � disse ela com um tom casual. � Voc� j� sabe quem eu sou, portanto sabe tamb�m que n�o tem nada a temer da minha parte.</p><p>� N�o tenho?</p><p>� Algumas pessoas est�o precisando conversar calmamente com voc�. Como o seu apartamento e o seu celular parecem estar sob escuta, e h� motivos para permanecermos discretos, me mandaram aqui para lhe fazer o convite.</p><p>� E por que eu iria a algum lugar com uma pessoa da Sapo? Ela refletiu por um instante.</p><p>� Bem... voc� pode me acompanhar, atendendo a esse convite pessoal e amig�vel, ou, se preferir, posso lhe passar as pulseiras e lev�-lo.</p><p>Ela exibiu um sorriso encantador. Mikael retribuiu.</p><p>� Escute, Blomkvist... entendo que voc� n�o tenha motivo para confiar em ningu�m da Sapo. Mas acontece que nem todos que trabalham l� s�o seus inimigos, e h� muitos bons motivos para voc� aceitar bater um papo com meus chefes.</p><p>Ele esperou.</p><p>� Ent�o, o que voc� escolhe? As pulseiras ou a boa vontade?</p><p>� J� fui detido uma vez pela pol�cia este ano. J� tive a minha cota. Aonde vamos?</p><p>Ela tinha um Saab 9-5 novo, que estava estacionado na esquina da Pryssgr�nd. Ao subir no carro, pegou o celular e ligou para um n�mero pr�--gravado.</p><p>� Estaremos l� em quinze minutos � disse.</p><p>Pediu que Mikael Blomkvist pusesse o cinto de seguran�a e ent�o pegou por Slussen, foi at� �stermalm e estacionou numa rua lateral da Artillerigatan. Ficou um instante parada olhando para ele.</p><p>� Blomkvist... � uma reuni�o amistosa. Voc� n�o corre nenhum perig0 Mikael Blomkvist n�o respondeu. Preferia aguardar o que ia acontecer</p><p>antes de fazer um julgamento. Ela digitou o c�digo de entrada. Subiram ao terceiro andar pelo elevador, at� um apartamento em que havia uma placa com o nome Wahl�f.</p><p>� � vim apartamento que pegamos emprestado para a reuni�o desta noite � disse Rosa Figuerola, abrindo a porta. � A sala fica � direita.</p><p>Mikael avistou primeiro Torsten Edklinth, o que n�o era nenhuma surpresa j� que a Sapo estava envolvida no caso e Edklinth era o chefe de Rosa Figuerola. O fato de o diretor da Prote��o � Constitui��o ter se dado ao trabalho de procur�-lo mostrava que havia algu�m preocupado.</p><p>Em seguida avistou, diante de uma janela, uma figura que se virou para ele. O ministro da Justi�a. Isso, sim, era surpreendente.</p><p>Ent�o ouviu um ru�do � direita e viu uma pessoa extremamente familiar levantar-se de uma poltrona. Nunca teria imaginado que Rosa Figuerola o levaria a uma reuni�o noturna de conspiradores. O primeiro-ministro!</p><p>� Boa noite, senhor Blomkvist � cumprimentou o primeiro-ministro. Pe�o desculpas por traz�-lo a esta reuni�o de forma t�o precipitada, mas andamos discutindo sobre a situa��o e todos concordamos que era necess�rio falar com o senhor. Posso lhe oferecer um caf� ou algo para beber?</p><p>Mikael olhou em volta. Viu uma mesa grande de madeira escura repleta de copos, x�caras de caf� vazias e restos de uma torta salgada. J� deviam estar ali havia v�rias horas.</p><p>� Uma Raml�sa � disse.</p><p>Rosa Figuerola serviu-lhe a �gua mineral. Acomodaram-se nos sof�s em volta de uma mesinha de centro, enquanto ela permaneceu � parte.</p><p>� Ele me reconheceu. Sabia meu nome, onde moro, onde trabalho e que sou viciada em muscula��o � disse Rosa Figuerola.</p><p>O primeiro-ministro olhou rapidamente para Torsten Edklinth, depois para Mikael Blomkvist. De s�bito, Mikael sentiu-se fortalecido, numa posi��o favor�vel para falar. O primeiro-ministro precisava dele para alguma coisa e talvez ignorasse at� que ponto Mikael Blomkvist estava informado.</p><p>� Estou tentando me situar em meio �s personagens dessa confus�o - disse Mikael em tom casual.</p><p>Experimente blefar com o primeiro-ministro.</p><p>- E como conseguiu descobrir o nome da senhorita Figuerola? � perguntou Edklinth.</p><p>Mikael olhou de lado para o diretor da Prote��o � Constitui��o. N�o fazia a menor id�ia do motivo que levara o primeiro-ministro a organizar uma reuni�o secreta com ele num apartamento emprestado de Ostermalm, mas sentia-se inspirado. Na verdade, n�o havia mil maneiras de as coisas acontecerem. Tudo come�ara com Dragan Armanskij passando informa��es para algu�m de sua confian�a. Que fora necessariamente Edklinth ou algu�m pr�ximo a ele. Mikael arriscou.</p><p>� Um conhecido em comum lhe contou � disse ele a Edklinth. � O senhor pediu � senhorita Figuerola que investigasse o que estava sendo tramado e ela descobriu que alguns membros da Sapo mant�m escutas telef�nicas ilegais e invadiram meu apartamento, esse tipo de coisa. Isso significa que o senhor teve a confirma��o da exist�ncia do clube Zalachenko. E isso o deixou t�o perturbado que sentiu necessidade de levar as coisas adiante, mas ficou algum tempo em seu escrit�rio sem saber a quem se dirigir. Ent�o foi falar com o ministro da Justi�a, que por sua vez dirigiu-se ao primeiro-ministro. E aqui estamos n�s. O que espera de mim?</p><p>Mikael falava de um jeito que dava a entender que ele dispunha de uma fonte bem situada e acompanhara cada passo de Edklinth. Pelos olhos arregalados dele, percebeu que seu blefe tinha dado certo. Prosseguiu.</p><p>� O clube Zalachenko est� me vigiando, eu o vigio, voc�s vigiam o clube Zalachenko e, a esta altura, o primeiro-ministro est� furioso e preocupado porque sabe que no fim desta conversa restar� um esc�ndalo ao qual o governo talvez n�o sobreviva.</p><p>Rosa Figuerola sorriu de repente, mas disfar�ou erguendo seu copo. Percebera o blefe de Blomkvist e sabia como ele tinha feito para surpreend�-la, sabendo seu nome e que n�mero ela cal�ava.</p><p>Ele me viu dentro do carro na Bellmansgatan. Ele � tremendamente atento. Anotou a placa do carro e me identificou. O resto n�o passa de suposi��o.</p><p>Ela n�o disse nada.</p><p>O primeiro-ministro pareceu preocupado.</p><p>� � isso que nos espera? � perguntou. � Um esc�ndalo que ir� derrubar o governo?</p><p>� O governo n�o � problema meu � disse Mikael. � Minha miss�o consiste em revelar merdas como o clube Zalachenko.</p><p>O primeiro-ministro balan�ou a cabe�a.</p><p>� E a minha consiste em dirigir o pa�s de acordo com a Constitui��o</p><p>� Isso significa que o meu problema � um problema espec�fico do governo. Enquanto a rec�proca n�o � verdadeira.</p><p>� Ser� que poder�amos parar de falar e n�o dizer nada? Por que acha que eu organizei esta reuni�o?</p><p>� Para descobrir o que eu sei e o que pretendo fazer.</p><p>� Em parte, � isso mesmo. Mas seria mais certo dizer que estamos diante de uma crise constitucional. Permita que eu lhe diga, em primeiro lugar, que o governo n�o tem nada a ver com isso. Fomos pegos totalmente de surpresa. Eu nunca tinha ouvido falar nesse... nisso que o senhor chama de clube Zalachenko. O ministro da Justi�a nunca tinha ouvido falar. Torsten Edklinth, que tem um alto cargo na Sapo h� v�rios anos, nunca tinha ouvido falar.</p><p>� Continua n�o sendo problema meu.</p><p>� Eu sei. O que n�s queremos saber � quando voc� pretende publicar o seu texto, e tamb�m gostar�amos de saber o que pretende publicar. Estou apenas fazendo uma pergunta. N�o tem nada a ver com algum tipo de controle sobre poss�veis preju�zos.</p><p>� N�o?</p><p>� Blomkvist, a pior coisa que eu poderia fazer nesta situa��o seria tentar interferir no conte�do da sua mat�ria. Em compensa��o, pretendo lhe propor uma colabora��o.</p><p>� Explique.</p><p>� Agora que confirmamos que existe uma conspira��o dentro de uma ramifica��o excepcionalmente delicada da administra��o do Estado, dei ordem para que seja feita uma investiga��o. � O primeiro-ministro voltou-se para o ministro da Justi�a. Poderia nos explicar no que consiste exatamente essa ordem do governo?</p><p>� � muito simples. Torsten Edklinth foi incumbido de verificar se e poss�vel provar isso tudo. A tarefa dele consiste em reunir provas, que ser�o encaminhadas ao procurador-geral da na��o, o qual, por sua vez, ficar� incumbido de avaliar a necessidade de se entrar com uma a��o judicial. Trata-se, portanto, de uma instru��o bastante precisa.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>- Esta noite, Edklinth nos relatou como a investiga��o tem avan�ado.</p><p>Tivemos uma longa conversa sobre aspectos constitucionais. Fazemos quest�o evidentemente, que tudo corra dentro da legalidade.</p><p>__Naturalmente � disse Mikael, com um tom que dava a entender que ele n�o confiava nem um pouco nas promessas do primeiro-ministro.</p><p>__ No momento, a investiga��o se encontra numa fase delicada. Ainda n�o identificamos exatamente os envolvidos. Para isso, precisamos de tempo. Por isso pedimos que a senhorita Rosa Figuerola o convidasse para esta reuni�o.</p><p>� Ela foi bastante direta. N�o tive muita escolha.</p><p>O primeiro-ministro franziu o cenho e olhou de esguelha para Rosa Figuerola.</p><p>� Esque�a o que eu disse � disse Mikael. � Ela teve um comportamento exemplar. O que voc�s querem?</p><p>� Queremos saber quando voc� pretende publicar. No momento, a investiga��o est� sendo conduzida dentro do maior sigilo, e se voc� agir antes que o Edklinth conclua, poder� p�r tudo a perder.</p><p>� Humm. E quando querem que eu publique? Depois das elei��es?</p><p>� O senhor � quem decide. N�o posso influenciar em nada. O que lhe pe�o � que nos diga quando vai publicar, para que possamos saber qual o deadline da investiga��o.</p><p>� Compreendo. O senhor mencionou uma colabora��o... O primeiro-ministro fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Antes de mais nada eu queria dizer que em tempos normais eu jamais pensaria em trazer um jornalista para uma reuni�o desse tipo.</p><p>� Em tempos normais, o senhor provavelmente faria de tudo para manter os jornalistas � dist�ncia de uma reuni�o desse tipo.</p><p>� Sim. Mas, pelo que entendi, o senhor tem diversos motivos. E um jornalista com fama de pegar pesado quando se trata de corrup��o. Quanto a isso, n�o h� diverg�ncia entre n�s.</p><p>� N�o?</p><p>� N�o. Nenhuma. Ou melhor... as poss�veis diverg�ncias s�o decerto de car�ter jur�dico, por�m n�o h� nenhuma no que diz respeito a objetivos. E esse clube Zalachenko existe, trata-se n�o s� de um grupo criminoso, mas de uma amea�a � seguran�a da na��o. Eles precisam ser detidos e os respons�veis devem responder por seus atos. Suponho que estamos de acordo sobre esse ponto, certo?</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Pelo que entendi, n�o h� quem saiba mais sobre este caso do que o senhor. Nossa proposta � que divida conosco as suas informa��es. Caso se tratasse de uma investiga��o policial regular sobre um crime comum, o respons�vel pelo inqu�rito preliminar poderia convoc�-lo para um interrogat�rio. Mas estamos numa situa��o extrema, como sabe.</p><p>Mikael permaneceu calado por um breve momento, avaliando a situa��o.</p><p>� E o que eu ganho em troca, se cooperar?</p><p>� Nada. N�o estou negociando. Se quiser publicar tudo amanh�, publique. N�o posso enveredar por uma negocia��o question�vel do ponto de vista constitucional. Estou lhe pedindo para cooperar pelo bem do pa�s.</p><p>� O bem pode assumir in�meras facetas � disse Mikael Blomkvist. � Deixe eu lhe explicar uma coisa... estou furioso. Furioso com o Estado, com o governo, com a Sapo e com esses idiotas que internaram sem motivo uma menina de doze anos num hospital psiqui�trico, e depois deram um jeito de declar�-la incapaz.</p><p>� Lisbeth Salander se tornou um assunto de Estado � disse o primeiro-ministro, chegando a sorrir. � Mikael, estou pessoalmente revoltado com o que aconteceu com ela. E acredite em mim quando digo que os respons�veis ter�o de se explicar. Mas antes precisamos descobrir quem s�o os respons�veis.</p><p>� O senhor tem seus pr�prios problemas. O meu � que quero que a Lisbeth Salander seja absolvida e recupere seus direitos civis.</p><p>� N�o posso ajud�-lo nesse aspecto. N�o estou acima da lei e n�o posso dirigir as decis�es do procurador e dos tribunais. A absolvi��o dela precisa vir de um tribunal.</p><p>� Perfeito � disse Mikael Blomkvist. � Voc�s querem colabora��o. Me d�em acesso � investiga��o do Edklinth e eu digo quando e o que pretendo publicar.</p><p>� N�o posso lhe conceder esse acesso. Isso eq�ivaleria a me colocar, em rela��o ao senhor, na mesma posi��o em que o antecessor do ministro da Justi�a se colocou diante de um certo Ebbe Carlsson antes de irromper o esc�ndalo das revela��es sobre o assassinato de Palme.</p><p>-� Eu n�o sou Ebbe Carlsson � disse Mikael calmamente.</p><p>� Isso eu entendi. No entanto, o pr�prio Torsten Edklintb pode decidir se est� disposto a partilhar com o senhor informa��es de sua miss�o.</p><p>� Est� bem, est� bem � disse Mikael Blomkvist. � Quero saber quem era Evert Gullberg.</p><p>Fez-se um sil�ncio em torno dos sof�s.</p><p>� Evert Gullberg foi, provavelmente por v�rios anos, o chefe da se��o da Sapo que o senhor chama de clube Zalachenko � disse Edklinth.</p><p>O primeiro-ministro lan�ou um olhar severo para Edklinth.</p><p>� Acho que isso ele j� sabe � desculpou-se Edklinth.</p><p>� � verdade � disse Mikael. � Ele come�ou a trabalhar na Sapo nos anos 1950 e se tornou diretor de uma coisa chamada Se��o de An�lise Especial. Foi ele que administrou todo o caso Zalachenko.</p><p>O primeiro-ministro meneou a cabe�a suspirando.</p><p>� O senhor sabe mais do que deveria. Eu gostaria de saber como descobriu. Mas n�o vou perguntar.</p><p>� Estou com v�rias lacunas na minha mat�ria � disse Mikael. � Gostaria de preench�-las. Me d�em as informa��es, n�o vou aprontar com voc�s.</p><p>� Na condi��o de primeiro-ministro, n�o posso passar essas informa��es. E o Torsten Edklinth ficaria numa situa��o delicada se o fizesse.</p><p>� Isso � bobagem. Eu sei o que voc�s querem. Voc�s sabem o que eu quero. Se me derem essa informa��o, vou trat�-los como fontes, com todo o anonimato que isso requer. N�o me entendam mal, na minha reportagem vou contar a verdade tal como a vejo. Se estiverem envolvidos, vou acusados e dar um jeito para que nunca mais sejam eleitos. Mas no momento n�o tenho motivos para pensar assim.</p><p>O primeiro-ministro lan�ou um olhar de esguelha para Edklinth. Depois de um momento, balan�ou a cabe�a. Mikael interpretou isso como um sinal de que o primeiro-ministro acabava de infringir a lei � por mais te�rica que ela fosse � e dar seu silencioso consentimento para que Mikael fosse inteirado de informa��es confidenciais.</p><p>� Podemos resolver tudo isso de maneira bem simples � disse Edkhnth. � Eu sou o �nico investigador e eu mesmo decido que colaboradores contrato para a investiga��o. O senhor n�o pode ser formalmente contratado como investigador, pois seria obrigado a assinar um compromisso de sigilo. Mas posso contrat�-lo como um consultor externo.</p><p>Desde que Erika Berger assumira a chefia de reda��o no lugar de H�kan Morander, sua vida andava lotada de reuni�es e de uma pilha de trabalho tanto de dia como de noite. Sentia-se o tempo todo despreparada, inadequada e uma n�o iniciada.</p><p>Somente na quarta-feira � noite, quase duas semanas depois de Mikael Blomkvist ter lhe passado o dossi� de Henry Cortez sobre o presidente do conselho administrativo, Magnus Borgsj�, � que Erika teve tempo de encarar o problema. Ao abrir o dossi�, percebeu que aquele adiamento vinha tamb�m do fato de que n�o tinha vontade de enfrent�-lo. Sabia de antem�o que, qualquer que fosse sua atitude, a situa��o terminaria em cat�strofe.</p><p>Voltou para sua casa, em Saltsj�baden, um pouco cedo, por volta das sete da noite, desligou o alarme da entrada e constatou, surpresa, que seu marido, Lars Beckman, n�o estava. Depois de alguns instantes, lembrou que o beijara com especial carinho de manh� porque ele estava indo para Paris, onde daria algumas palestras, e n�o voltaria antes do fim de semana. Deu-se conta de que ignorava por completo para quem eram as palestras, sobre o que ele iria falar e quando fora decidida a confer�ncia.</p><p>Oh, meu Deus, me perdoe, mas me afastei do meu marido! Sentiu-se como uma personagem de um livro do dr. Richard Schwarts e se perguntou se n�o estaria necessitada de uma terapia de casal.</p><p>Foi para o andar de cima, preparou um banho e se despiu. Levou o dossi� para a banheira e passou a meia hora seguinte lendo toda a mat�ria. Terminada a leitura, n�o p�de deixar de sorrir. Henry Cortez ainda seria um jornalista formid�vel. Tinha vinte e seis anos e trabalhava na Millennium desde que se formara na faculdade de jornalismo, quatro anos antes. Ela sentiu um certo orgulho. A mat�ria sobre os vasos sanit�rios e o Borgsj� trazia do in�cio ao fim a marca da Millennium, e cada linha escrita estava documentada.</p><p>Contudo, sentiu-se tamb�m muito triste. Magnus Borgsj� era um homem decente e ela gostava dele. N�o fazia muito alarde, sabia escutar, tinha charme e parecia ser uma pessoa simples. Al�m disso, era seu chefe e empregador. Borgsj�, seu puto. Como voc� p�de ser t�o burro?</p><p>Refletiu por um instante, tentando achar outras liga��es ou circunst�ncias atenuantes, mas j� sabia que seria imposs�vel negar as evid�ncias.</p><p>P�s o dossi� na beirada da janela e se esticou dentro da banheira para pensar.</p><p>Era inevit�vel, a Millennium ia publicar a mat�ria. Se ela ainda fosse diretora da revista, n�o hesitaria um segundo sequer, e o fato de a Millennium ter lhe passado discretamente a informa��o nada mais era que uma tentativa de amenizar um pouco os estragos para o seu lado. Se a situa��o fosse inversa, se o SMP tivesse desencavado bandalheiras parecidas sobre o presidente do conselho administrativo da Millennium (que vinha a ser ela pr�pria, Erika Berger!), ela tampouco teria hesitado em publicar.</p><p>A publica��o iria prejudicar seriamente Magnus Borgsj�. No fundo, o mais grave n�o era a sua empresa Vitavara S.A. ter encomendado vasos sanit�rios a uma empresa do Vietn� que constava na lista negra da ONU como empresa exploradora do trabalho infantil e, no caso, de prisioneiros usados como escravos. Sem esquecer tamb�m que, com toda a certeza, alguns desses prisioneiros poderiam ser considerados prisioneiros pol�ticos. O mais grave era Magnus Borgsj� estar a par dessa situa��o e ainda assim ter optado por continuar encomendando vasos sanit�rios da Fong Soo Industries. Era uma atitude gananciosa que, a exemplo da de outros g�ngsteres capitalistas como o ex-presidente da Skandia, o povo sueco n�o aceitava com facilidade.</p><p>Magnus Borgsj� iria naturalmente afirmar que n�o fora informado sobre a situa��o da Fong Soo, mas Henry Cortez tinha provas consistentes do contr�rio, e no momento em que Borgsj� tentasse se justificar com essas bobagens estaria se revelando um mentiroso. Pois em junho de 1997 Magnus Borgsj� estivera no Vietn� para assinar os primeiros contratos. Passara dez dias no pa�s e, entre outras coisas, visitara as f�bricas da empresa. Se afirmasse n�o ter percebido que diversos oper�rios da f�brica n�o tinham mais que doze ou treze anos, passaria por um rematado est�pido.</p><p>Al�m disso, a quest�o de Borgsj� querer alegar uma eventual ignor�ncia ficava definitivamente esclarecida pelas provas que Henry Cortez tinha de que a comiss�o da ONU contra o trabalho infantil inclu�ra a Fong Soo em sua lista de empresas exploradoras de crian�as em 1999. Isso resultar� em alguns artigos nos jornais, al�m de duas ONGS � independentes uma da outra e que atuavam contra o trabalho infantil, sendo uma delas a prestigiosa International Joint Effort Against Child Labour de Londres � terem escrito cartas �s empresas que tinham neg�cios com a Fong Soo. Nada menos que sete cartas haviam sido enviadas � Vitavara S.A., duas pessoalmente endere�adas a Magnus Borgsj�. A organiza��o de Londres tivera o maior prazer em repassar a documenta��o para Henry Cortez, frisando que em momento algum tivera uma resposta da Vitavara S.A.</p><p>Em compensa��o, Magnus Borgsj� estivera no Vietn� em duas outras ocasi�es, em 2001 e 2004, para renovar os contratos. Era o golpe de miseric�rdia. Acabava a� qualquer possibilidade de Borgsj� tentar fingir que desconhecia a situa��o.</p><p>A aten��o que a m�dia daria ao assunto s� poderia ter uma conseq��ncia. Se Borgsj� tivesse algum bom-senso, reconheceria seu erro e pediria demiss�o de seus cargos nos conselhos administrativos. Caso se mostrasse recalcitrante, acabaria sendo engolido no processo.</p><p>Que Borgsj� fosse ou n�o presidente do conselho administrativo da empresa Vitavara era a menor das preocupa��es de Erika Berger. O grave, para ela, era ele ser tamb�m presidente do SMP. A revela��o o for�aria a pedir demiss�o. Num momento em que o jornal vinha se equilibrando � beira do abismo e estava se iniciando um trabalho de renova��o, o SMP n�o podia se permitir ter um presidente com pr�ticas duvidosas. O jornal sofreria com isso. Ele precisava, portanto, deixar o SMP.</p><p>Para Erika Berger, configuravam-se duas linhas de conduta.</p><p>Ela poderia ir falar com Borgsj�, p�r as cartas na mesa e mostrar a documenta��o, para que ele pr�prio conclu�sse que era preciso se demitir antes que a mat�ria fosse publicada.</p><p>Ou, caso ele resistisse, ela teria de convocar uma reuni�o extraordin�ria e urgente do conselho administrativo, p�r os membros a par da situa��o e exigir que o conselho administrativo o demitisse. Caso o conselho n�o quisesse seguir esse caminho, ela pr�pria se veria obrigada a pedir imediatamente demiss�o do cargo de redatora-chefe do SMP.</p><p>Quando Erika chegou a esse ponto de suas reflex�es, a �gua do banho ja tinha esfriado. Ela tomou uma ducha, enxugou-se e foi at� o quarto vestir um roup�o. Em seguida, pegou o celular e ligou para Mikael Blomkvist. Como n�o obtivesse resposta, desceu ao andar de baixo, preparou um caf� e, pela primeira vez desde que come�ara a trabalhar no SMP, foi olhar se, por acaso, n�o havia um filme decente na tev� que ela pudesse assistir para relaxar.</p><p>Ao passar diante da janela da sala, sentiu uma dor forte no p�, baixou os olhos e descobriu que estava sangrando abundantemente. Deu mais um passo e a dor transpassou-lhe o p� inteiro. Pulando num p� s�, alcan�ou uma cadeira e se sentou. Ergueu o p� e viu, horrorizada, um estilha�o de vidro cravado em seu calcanhar. De in�cio, sentiu que fraquejava. Ent�o se recomp�s, segurou o estilha�o e o extraiu. Doeu � beca e o sangue jorrou atrav�s do corte.</p><p>Ela abriu �s pressas a gaveta da c�moda do hall de entrada, onde guardava seus len�os, luvas e gorros. Achou um len�o de seda e usou-o para enrolar o p�, apertando com for�a. N�o foi suficiente, e ela refor�ou com outra bandagem improvisada. A hemorragia conteve-se um pouco.</p><p>Olhou, estarrecida, para o caco de vidro ensang�entado. Como � que isso veio parar aqui? Ent�o encontrou outros fragmentos de vidro no piso do hall. Que porra de... Levantou-se, deu uma olhada na sala e percebeu que a ampla janela panor�mica com vista para a bacia de Saltsj�n estava quebrada, e o ch�o repleto de estilha�os de vidro.</p><p>Recuou at� a porta de entrada e cal�ou os sapatos que havia tirado ao entrar. Ou melhor, cal�ou um dos sapatos e enfiou os dedos do p� ferido no outro, e foi meio que saltitando at� a sala para conferir o desastre.</p><p>Ent�o viu o tijolo no meio da mesa.</p><p>Foi mancando at� a porta do terra�o e saiu para o p�tio dos fundos.</p><p>Tinham pichado duas palavras na fachada, com letras de um metro de altura.</p><p>PUTA NOJENTA</p><p>Eram pouco mais de nove da noite quando Rosa Figuerola abriu a porta de seu carro para Mikael Blomkvist. Deu a volta no ve�culo e sentou-se no banco do motorista.</p><p>� Quer que eu o leve em casa ou prefere que eu o deixe em algum outro lugar?</p><p>O olhar de Mikael Blomkvist estava sem express�o.</p><p>� Para ser bem sincero... nem sei direito onde estou. Essa foi a primeira vez que chantageei um primeiro-ministro.</p><p>Rosa Figuerola riu muito.</p><p>� Voc� at� que administrou muito bem suas cartadas � disse ela. � Eu n�o sabia que voc� tinha talento para o p�quer de blefe.</p><p>� Cada palavra minha foi sincera.</p><p>� Sim, o que eu quis dizer � que voc� fingiu saber muito mais do que na verdade sabe. Percebi isso no momento em que entendi como voc� me identificou.</p><p>Mikael voltou a cabe�a e olhou para o perfil dela.</p><p>� Voc� anotou o n�mero da placa do meu carro quando eu estava estacionada na ladeira em frente � sua casa.</p><p>� Por que n�o disse nada?</p><p>Ela lhe lan�ou um breve olhar e virou na Grev Turegatan.</p><p>�� S�o as regras do jogo. Eu n�o devia ter ficado ali. Mas foi o �nico lugar onde consegui estacionar.</p><p>� Voc� anda superatento a tudo que se passa � sua volta, ou estou enganada?</p><p>� Voc� estava com um mapa no banco da frente e falava ao telefone. Anotei o n�mero da placa e apenas verifiquei por desencargo de consci�ncia. Verifico todos os carros que me chamam a aten��o. Em geral n�o d� em nada. No seu caso, descobri que trabalhava na Sapo.</p><p>� Eu estava vigiando o M�rtensson. Depois descobri que voc� tamb�m o vigiava atrav�s da Susanne Linder, da Milton Security.</p><p>� O Armanskij a encarregou de ficar de olho em tudo o que acontece em torno do meu apartamento.</p><p>� E como a vi entrando no seu pr�dio, imagino que o Armanskij tenha instalado algum tipo de vigil�ncia oculta na sua casa.</p><p>� Exato. Temos um v�deo excelente de quando eles entram l� e revistam a minha papelada. O M�rtensson tinha com ele uma fotocopiadora port�til. Voc�s identificaram o ajudante do M�rtensson?</p><p>� Ele n�o tem a menor import�ncia. � um chaveiro com passado criminoso, que provavelmente foi pago para arrombar a sua porta.</p><p>� O nome dele?</p><p>� Fonte protegida?</p><p>� � evidente.</p><p>� Lars Faulsson. Quarenta e sete anos. Conhecido como Falun. Foi condenado por arrombamento de cofre-forte nos anos 1980, mais outras coi-sinhas. Tem uma loja em Norrtull.</p><p>� Obrigado.</p><p>� Mas vamos deixar os segredos para amanh�.</p><p>A reuni�o terminara com um acordo firmado entre eles, estabelecendo que Mikael Blomkvist iria no dia seguinte � Prote��o � Constitui��o para dar in�cio a um interc�mbio de informa��es. Mikael refletiu. Estavam passando pela pra�a de Sergelstorg.</p><p>� Sabe o que mais? Estou com uma fome e tanto. Almocei l� pelas duas horas e estava pretendendo cozinhar um macarr�o ao chegar em casa, quando voc� me deteve. E voc�, j� comeu?</p><p>� J� faz um tempinho.</p><p>� Voc� n�o nos levaria a um restaurantezinho que sirva algo com�vel?</p><p>� Toda comida � com�vel. Ele olhou de lado para ela.</p><p>� Achei que voc� fosse viciada em dietas.</p><p>� N�o, sou viciada em muscula��o. Quem se exercita pode comer o que quiser. Nos limites do razo�vel, claro.</p><p>Ela entrou no viaduto de Klaraberg e considerou as op��es. Em vez de ir na dire��o de S�dermalm, seguiu reto rumo a Kungsholmen.</p><p>� N�o sei como s�o os restaurantes do S�der, mas conhe�o um, b�snio, na Fridhemsplan. Serve uns b�rek fabulosos.</p><p>� Para mim est� �timo � disse Mikael Blomkvist.</p><p>Lisbeth Salander digitava seu relato letra por letra. Trabalhava em m�dia cinco horas por dia. Expressava-se com muita precis�o. Tamb�m tomava o cuidado de omitir qualquer detalhe que pudesse ser usado contra ela.</p><p>O fato de estar trancada a chave se transformara numa vantagem. Podia trabalhar assim que ficava sozinha no quarto, e o tilintar do molho de chaves ou a chave sendo introduzida na fechadura sempre a alertava quando tinha de dar sumi�o no computador de m�o.</p><p>[Eu j� estava quase trancando a casa de Bjurman, em Stallarholmen, quando Carl-Magnus Lundin e Benny Nieminen chegaram nas suas motos. Corno fazia algum tempo que vinham me procurando e n�o me encontravam, p0r ordem de Zalachenko/Niedermann, ficaram surpresos de me ver ali. Maggi Lundin desceu da moto dizendo que "n�o seria nada mau essa sapat�o dar urna provada num pinto". Lundin e Nieminen estavam t�o amea�adores que fuj obrigada a me defender. Deixei o local na moto de Lundin, que abandonei mais tarde junto ao Parque de Exposi��es de Alvsj�.]</p><p>Ela releu o trecho e meneou a cabe�a em sinal de aprova��o. N�o havia motivo para contar que Magge Lundin tamb�m a chamara de puta nojenta e que ent�o ela se abaixara para apanhar a Wanad P-83 de Benny Nieminen e castigara Lundin baleando-o no p�. Os tiras decerto poderiam imaginar essa parte, sozinhos, mas cabia a eles provar como ela tinha feito. N�o pretendia facilitar a tarefa deles confessando algo que a levaria � pris�o por viol�ncias agravadas.</p><p>O texto j� tinha trinta e tr�s p�ginas e estava chegando ao fim. Em certos trechos ela era especialmente parcimoniosa nos detalhes, e tomava o maior cuidado para nunca tentar introduzir provas com o objetivo apenas de confirmar v�rias de suas afirma��es. Chegou inclusive a ocultar certas provas evidentes, preferindo deixar que os fatos se encadeassem naturalmente no texto.</p><p>Refletiu um instante, ent�o rolou a tela para cima e releu os trechos em que relatava o estupro violento e s�dico que sofrer� do Dr. Nils Bjurman. Era o trecho em que ela mais tinha se demorado e um dos poucos que ela refizera v�rias vezes antes de se dar por satisfeita. Contava de maneira objetiva como ele a espancara, jogara de bru�os na cama, algemara e amorda�ara sua boca com fita adesiva. Relatou ent�o que durante a noite toda ele a sujeitara a diversos atos sexuais violentos, incluindo penetra��es anais e orais. Contava que em dado momento do estupro ele envolvera seu pesco�o com a pr�pria camiseta dela e a estrangulara por um per�odo t�o longo que ela chegou a perder momentaneamente os sentidos. Em seguida, descrevia em poucas linhas os apetrechos que ele utilizara no estupro, um chicote pequeno, uma bijuteria anal, um p�nis artificial enorme e pin�as, que ele aplicara em seus mamilos.</p><p>Lisbeth franziu a testa e examinou o texto. Por fim, pegou a canetinha digital e acrescentou-lhe mais algumas linhas.</p><p>[Em dado momento, quando eu ainda estava amorda�ada, Bjurman comentou o fato de eu ter algumas tatuagens e piercings, inclusive uma argola no mamilo esquerdo. Perguntou se eu gostaria de fazer outro piercing e saiu do quarto por alguns instantes. Retornou com um alfinete, que ele espetou no meu mamilo direito.]</p><p>Depois de reler o novo par�grafo, ela balan�ou a cabe�a. O tom burocr�tico dava ao texto um car�ter t�o surrealista que ele mais parecia uma absurda fabula��o.</p><p>A hist�ria simplesmente n�o era cr�vel.</p><p>E era exatamente essa a inten��o de Lisbeth Salander.</p><p>Nisso, escutou o tilintar do molho de chaves do vigia da Securitas. Desligou o computador no ato e enfiou-o no buraco atr�s do painel da cabeceira. Era Annika Giannini. Franziu o cenho. Eram mais de nove da noite e Giannini n�o costumava aparecer assim t�o tarde.</p><p>� Ol�, Lisbeth.</p><p>� Ol�.</p><p>� Como voc� est�?</p><p>� Ainda n�o estou pronta. Annika Giannini suspirou.</p><p>� Lisbeth... marcaram o julgamento para 13 de julho.</p><p>� Est� bem.</p><p>� N�o, n�o est� bem. O tempo est� voando e voc� se recusa a confiar em mim. Estou come�ando a achar que cometi um erro enorme ao aceitar ser sua advogada. Se a gente quiser ter alguma chance, voc� tem de confiar em mim. N�s precisamos trabalhar juntas.</p><p>Lisbeth observou Annika Giannini por um bom tempo. Por fim, inclinou a cabe�a para tr�s e fitou o teto.</p><p>� Agora sei o que a gente vai fazer � disse. � Entendi o plano de Mikael. E ele est� certo.</p><p>� N�o tenho tanta certeza disso � disse Annika.</p><p>� Mas eu tenho.</p><p>� A pol�cia quer te interrogar mais uma vez. Um tal de Hans Faste, de Estocolmo.</p><p>� Ele pode me interrogar. N�o vou dizer uma s� palavra.</p><p>� Voc� precisa dar alguma explica��o.</p><p>Lisbeth lan�ou um olhar duro para Annika Giannini.</p><p>� Repito. N�o vamos dizer uma s� palavra � pol�cia. Quando chegarmos ao tribunal, o procurador n�o pode ter uma s�laba sequer de interrogat�rio nenhum para se apoiar. Eles s� v�o ter o relato que eu estou escrevendo e que em boa parte vai parecer exagerado. E s� o ter�o poucos dias antes do julgamento.</p><p>� E quando � que voc� vai se sentar, de caneta na m�o, para redigir esse relato?</p><p>� Voc� vai receber daqui a alguns dias. Mas s� vai ser entregue ao procurador poucos dias antes do julgamento.</p><p>Annika Giannini mostrou um ar c�tico. Lisbeth dirigiu-lhe de repente um cauteloso sorriso enviesado.</p><p>� Voc� fala em confian�a... Ser� que voc� pode confiar em mim?</p><p>� Claro.</p><p>� Certo, voc� pode me trazer ilegalmente um computador de m�o, para eu poder contatar umas pessoas pela internet?</p><p>� N�o. E claro que n�o. Se descobrissem, eu seria processada e perderia minha licen�a de advogada.</p><p>� Mas se outra pessoa me fornecesse um computador, voc� avisaria a pol�cia?</p><p>Annika ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Se eu n�o estiver sabendo...</p><p>� Mas se voc� estivesse sabendo, o que faria? Annika refletiu demoradamente.</p><p>� Eu fecharia os olhos. Por qu�?</p><p>� Esse computador hipot�tico vai lhe enviar em breve um e-mail hipot�tico. Depois que voc� tiver lido, quero que venha me ver.</p><p>� Lisbeth...</p><p>� Espere. Veja bem o que est� acontecendo. O procurador est� jogando com cartas marcadas. O que quer que eu fa�a, estou em posi��o de inferioridade, e o objetivo desse processo � me internar na psiquiatria.</p><p>� Eu sei.</p><p>� Se eu quiser sobreviver, tamb�m preciso usar m�todos il�citos.</p><p>Annika Giannini acabou concordando com a cabe�a.</p><p>� Quando voc� veio me ver pela primeira vez, trouxe um recado do Mikael Blomkvist. Ele dizia que tinha te contado praticamente tudo, tirando alguns detalhes. Um desses detalhes s�o uns talentos que eu tenho, que ele descobriu quando est�vamos em Hedestad.</p><p>� Sei.</p><p>� Ele estava se referindo ao fato de eu ter habilidades incr�veis em computa��o. Sou t�o boa nisso que posso ler e copiar o conte�do do computador do procurador Ekstr�m.</p><p>Annika Giannini empalideceu.</p><p>� Voc� n�o pode se envolver com isso. Portanto, voc� n�o pode usar esse material no julgamento � disse Lisbeth.</p><p>� De fato.</p><p>� Portanto, voc� nem sabe que ele existe.</p><p>� Certo.</p><p>� Em compensa��o, outra pessoa, digamos o seu irm�o, pode publicar trechos desse material. Voc� precisa levar isso em conta ao montar nossa estrat�gia para o julgamento.</p><p>� Entendo.</p><p>� Annika, vai ganhar esse julgamento quem melhor souber utilizar a for�a.</p><p>� Sei disso.</p><p>� Estou feliz por voc� ser minha advogada. Confio em voc� e preciso da sua ajuda.</p><p>� Humm.</p><p>� Mas se voc� se opuser a que eu tamb�m lance m�o de m�todos pouco �ticos, n�s vamos perder o processo.</p><p>� Sim.</p><p>� Por isso, preciso saber agora de voc�. Sen�o vou ter que lhe agradecer I procurar outro advogado.</p><p>� Lisbeth, eu n�o posso infringir a lei.</p><p>� N�o se trata de infringir a lei. Mas de fechar os olhos por eu estar infringindo. Voc� seria capaz disso?</p><p>Lisbeth Salander esperou pacientemente por quase um minuto at� que Annika Giannini assentisse com a cabe�a.</p><p>� Muito bem. Deixe eu lhe contar, em linhas gerais, o meu relato. Conversaram por duas horas.</p><p>Rosa Figuerola estava certa. Os b�rek do restaurante b�snio eram sensacionais. Mikael Blomkvist lan�ou-lhe um olhar de esguelha quando ela voltou do toalete. Ela se movia com a gra�a de uma bailarina cl�ssica, mas tinha um corpo que... Mikael n�o conseguia evitar, estava fascinado. Refreou o impulso de estender a m�o para apalpar os m�sculos de suas pernas.</p><p>� H� quanto tempo voc� faz muscula��o? � ele perguntou.</p><p>� Desde a adolesc�ncia.</p><p>� E voc� malha quantas horas por semana?</p><p>� Duas horas por dia. �s vezes tr�s.</p><p>� Por qu�? Quero dizer, eu sei por que as pessoas malham, mas...</p><p>� Voc� acha um exagero.</p><p>� N�o sei direito o que eu acho.</p><p>Ela sorriu, aparentemente nem um pouco irritada com suas perguntas.</p><p>� Talvez voc� se incomode de ver uma mulher musculosa e acha que isso n�o � muito feminino nem er�tico.</p><p>� N�o. Nada disso. Eu diria que fica bem em voc�. Voc� � tremendamente sexy.</p><p>Ela riu de novo.</p><p>� Ando diminuindo o ritmo. H� dez anos, eu praticava um bodyhu�ding puro e pesado. Era legal. Mas agora s� preciso cuidar para que meus m�sculos n�o se transformem em gordura e eu fique toda fl�cida. Assim, s� puxo um pouco de ferro uma vez por semana, e o resto do tempo eu como, nado, jogo peteca, esse tipo de coisa. � mais exerc�cio do que treino enlouquecido.</p><p>� J� n�o � pouca coisa!</p><p>� Fa�o isso porque acho gostoso. � um fen�meno bem comum em quem se dedica a fundo. O corpo produz uma subst�ncia relaxante que deixa a gente dependente. Depois de certo tempo, a gente tem sintomas de abstin�ncia se n�o corre todo dia. Quando a gente d� tudo de si, � como uma inje��o de bem-estar. Quase t�o bacana como fazer amor.</p><p>Mikael riu.</p><p>� Voc� tamb�m deveria fazer � disse ela. � A sua cintura est� um pouco fora de forma.</p><p>� Eu sei � disse ele. � Minha consci�ncia me cutuca o tempo todo. �s vezes eu recome�o a correr. Me livro de alguns quilos, mas logo me envolvo em alguma outra coisa e n�o encontro mais tempo durante um m�s ou dois.</p><p>.� De fato voc� andou bem ocupado nos �ltimos meses. Ele ficou s�rio de repente. Ent�o meneou a cabe�a.</p><p>� Li muitas coisas � seu respeito nas duas �ltimas semanas. Voc� deu de dez a zero na pol�cia ao encontrar o Zalachenko e identificar o Niedermann.</p><p>� A Lisbeth Salander foi ainda mais r�pida.</p><p>� Como foi que voc� chegou a Gosseberga? Mikael deu de ombros.</p><p>� Trabalho rotineiro de pesquisa, tudo direitinho. N�o fui eu que localizei os dois, foi nossa assistente de reda��o, a Malu Eriksson, que agora � nossa redatora-chefe. Ela conseguiu encontr�-los pelo cadastro de empresas. Ele constava do conselho administrativo da empresa de Zalachenko, a K. A. B.</p><p>� Entendo.</p><p>� Por que voc� entrou na Sapo? � ele perguntou.</p><p>� Voc� pode n�o acreditar, mas sou t�o antiquada quanto democrata. Considero a pol�cia necess�ria e que uma democracia precisa de seguran�a pol�tica. Por isso me orgulho de trabalhar na Prote��o � Constitui��o.</p><p>� Humm � fez Mikael Blomkvist.</p><p>� Voc� n�o gosta muito da Seguran�a.</p><p>� N�o gosto muito de institui��es que est�o acima do controle parlamentar. S�o um convite a abusos de poder, mesmo que essas institui��es sejam boas. Por que voc� se interessa por mitologia antiga?</p><p>Ela ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Voc� estava lendo um livro sobre isso na escadaria do meu pr�dio.</p><p>� Ah, � verdade. Sou fascinada pelo assunto.</p><p>� Ah�.</p><p>� Eu me interesso por um bocado de coisas. Fiz direito e ci�ncias pol�ticas nos meus anos de policial. Antes, eu tinha estudado hist�ria das mentalidades e filosofia.</p><p>� Voc� n�o tem nenhum ponto fraco?</p><p>� N�o leio fic��o, nunca vou ao cinema e na televis�o s� vejo o notici�rio. E voc�? Por que se tornou jornalista?</p><p>� Porque existem institui��es como a Sapo, �s quais o Parlamento n�o tem acesso e que precisam ser constantemente denunciadas.</p><p>Mikael sorriu e ent�o prosseguiu.</p><p>� Francamente, n�o sei direito. Na verdade, a resposta � a mesma que a sua. Acredito numa democracia constitucional e de vez em quando � preciso defend�-la.</p><p>� Como foi o caso com o financista Hans-Erik Wennerstr�m?</p><p>� Por a�.</p><p>� Voc� � solteiro. Voc� namora a Erika Bergman?</p><p>� A Erika Bergman � casada.</p><p>� Est� certo. Quer dizer que todos os boatos sobre voc�s s�o pura besteira. Voc� tem namorada?</p><p>� Nenhuma permanente.</p><p>� Quer dizer que esses boatos tamb�m s�o verdadeiros. Mikael deu de ombros e sorriu outra vez.</p><p>A redatora-chefe Malu Eriksson ficou at� o amanhecer � mesa da cozinha de sua casa em �rsta. Estava debru�ada sobre umas c�pias do or�amento da Millennium e t�o envolvida que seu amigo Anton acabou desistindo de tentar conversar com ela. Lavou a lou�a, preparou um sandu�che e caf� para mais tarde da noite. Depois, deixou-a tranq�ila e se acomodou na frente de uma reprise de C.S.I. na televis�o.</p><p>At� ent�o, Malu Eriksson nunca administrara algo mais sofisticado que um or�amento dom�stico, mas havia trabalhado com Erika Berger nos or�amentos mensais e entendia os princ�pios da coisa. Tornara-se redatora-chefe e isso a fazia respons�vel tamb�m pela parte financeira da revista. Em dado momento, depois da meia-noite, concluiu que, acontecesse o que acontecesse, iria precisar de um assistente para ajud�-la naquele malabarismo. Ingela Oscarsson, que cuidava da contabilidade uma vez por semana, n�o tinha compet�ncia em mat�ria de or�amento e n�o ajudava em nada quando ela tinha de decidir quanto poderiam pagar para um frila ou se tinham condi��es de comprar uma impressora a laser nova usando uma verba extra e n�o aquela reservada para investimento tecnol�gico. Na pr�tica, era uma situa��o rid�cula. A Millennium tinha claramente uma boa folga, mas isso gra�as a Erika, que sempre conseguira se equilibrar mesmo com um or�amento zero. Algo t�o elementar como uma impressora colorida de quarenta e cinco mil coroas ficava reduzido a uma impressora em preto e branco de oito mil coroas.</p><p>Por um momento, invejou Erika Berger. No SMP, ela dispunha de um or�amento em que uma despesa dessas equivalia a uns trocados para o caf�.</p><p>A situa��o financeira da Millennium fora declarada boa na �ltima assembl�ia, mas talvez o excedente no or�amento se explicasse pelas vendas do livro de Mikael Blomkvist sobre o caso Wennerstr�m. Investido em aplica��es, esse excedente vinha diminuindo a uma velocidade preocupante. Um dos motivos eram os gastos de Mikael no caso Salander. A Millennium n�o dispunha dos recursos necess�rios para manter os gastos correntes de um colaborador, muito menos quando ele inclu�a aluguel de carro, quartos de hotel, t�xis, compra de material tecnol�gico de ponta, celulares e tudo mais!</p><p>Malu registrou uma nota do freelancer Daniel Olofsson em G�teborg. Ela suspirou. Mikael Blomkvist aprovara a quantia de catorze mil coroas para uma semana de pesquisa sobre um assunto que nem sequer ia ser publicado. A remunera��o de um tal Idris Ghidi, de G�teborg, seria lan�ada na conta de honor�rios para fontes an�nimas, que por defini��o n�o dava mais detalhes sobre sua identidade, o que significava que o revisor da contabilidade iria criticar a falta de nota e o caso iria virar assunto da pr�xima reuni�o do conselho administrativo. A Millennium tamb�m pagava honor�rios para Annika Giannini, que evidentemente tamb�m receberia dinheiro dos cofres p�blicos, mas que, afinal, de imediato, precisava de algum para pagar suas viagens de trem etc.</p><p>Ela largou a caneta e contemplou o total obtido. Mikael Blomkvist usara sem nenhum prurido cento e cinq�enta mil coroas para o caso Salander, totalmente fora do or�amento. Aquilo n�o podia continuar.</p><p>Percebeu que precisaria ter uma conversa com ele.</p><p>Erika Berger passou o final do dia no pronto-socorro do hospital de Nacka, e n�o relaxando no sof�, em frente � tev�, como pretendia. O caco de vidro penetrara t�o fundo que a hemorragia n�o parava, e durante o exame perceberam que ainda havia um estilha�o pontiagudo alojado no calcanhar que precisava ser extra�do. De modo que ela foi brindada com uma anestesia local e tr�s pontos.</p><p>Durante toda a sua perman�ncia no hospital, Erika Berger ficou reclamando intimamente e tentando ligar ora para Lars Beckman, ora para Mikael Blomkvist. Por�m nem seu marido nem seu amante se dignaram a responder. Por volta das dez da noite, seu p� estava empacotado numa enorme bandagem. Emprestaram-lhe muletas e ela pegou um t�xi para voltar para casa.</p><p>Mancando sobre um p� e a ponta dos artelhos do outro, passou algum tempo varrendo a sala e encomendando uma vidra�a nova � SOS Vidros. Teve sorte. A noite estava calma no centro da cidade e o vidraceiro chegou em vinte minutos. Ent�o a sorte virou. A janela da sala era t�o grande que n�o tinham vidro adequado em estoque. O vidraceiro sugeriu que a tapassem provisoriamente com uma chapa de compensado, o que ela aceitou agradecida.</p><p>Enquanto o homem instalava o compensado, ela ligou para o plant�o da empresa de seguran�a NIP, Nacka Integrated Protection, e perguntou por qu�, porra, o sofisticado alarme n�o tinha disparado quando jogaram um tijolo na maior janela da sua casa de duzentos e cinq�enta metros quadrados.</p><p>Um carro da NIP foi despachado para verificar e constatou-se que o t�cnico que fizera a instala��o v�rios anos antes esquecera de ligar os fios da janela da sala.</p><p>Erika Berger ficou sem voz.</p><p>A NIP se ofereceu para remediar a situa��o na manh� seguinte. Erika retrucou que n�o precisava. Ligou para a emerg�ncia da Milton Security, explicou a situa��o e pediu um sistema completo de alarme para o mais breve poss�vel. Sim, eu sei que tenho que assinar um contrato, mas diga ao Dragan Armanskij que a Erika Berger ligou, e d� um jeito para que o alarme seja instalado j� de manh�.</p><p>Por fim, ligou para a pol�cia. Disseram-lhe que n�o havia nenhuma viatura dispon�vel para ir colher seu depoimento. Aconselharam-na a procurar a delegacia mais pr�xima no dia seguinte. Obrigada! V�o se catar!</p><p>Depois disso, ficou um bom tempo fervendo por dentro at� que a adrenalina come�ou a baixar e ela se deu conta de que ia dormir sozinha numa casa sem alarme enquanto algu�m que a chamava de puta nojenta e mostrava inclina��es � viol�ncia rondava as proximidades.</p><p>Por um breve momento, perguntou-se se n�o seria melhor ir para o centro e passar a noite num hotel, mas Erika Berger era dessas pessoas que n�o gostam nem um pouco de se sentir v�timas de amea�as, e menos ainda de ceder a elas. Nem pensar num canalha de merda me expulsar da minha pr�pria casa.</p><p>Para compensar, tomou algumas medidas extras de seguran�a.</p><p>Mikael Blomkvist lhe contara como Lisbeth Salander enfrentara o matador em s�rie Martin Vanger com um taco de golfe. Ent�o ela foi at� a garagem e passou dez minutos revirando tudo at� encontrar sua sacola de golfe, que ela n�o usava havia uns quinze anos. Escolheu um ferro 7 e colocou-o a uma confort�vel dist�ncia da cama. Deixou um putter no hall de entrada e outro taco de ferro na cozinha. Pegou um martelo na caixa de ferramentas do por�o e o p�s no banheiro da sua su�te.</p><p>Tirou da bolsa a bomba de g�s lacrimog�neo e deixou-a na mesa de cabeceira. Por fim, achou um cal�o de borracha, trancou a porta do quarto e travou-a com ele. Estava quase desejando que o merdinha que a chamava de puta e estourava sua janela fosse idiota o bastante para voltar durante a noite.</p><p>J� era uma da manh� quando se julgou suficientemente protegida. Precisava estar no SMP �s oito. Consultou a agenda e viu que tinha quatro reuni�es marcadas a partir das dez horas. Seu p� estava muito dolorido e ela n�o conseguia caminhar normalmente. Despiu-se e enfiou-se na cama. N�o tinha camisola e se perguntou se n�o seria melhor vestir uma camiseta ou outra coisa qualquer, mas como dormia nua desde a adolesc�ncia, concluiu que n�o era um tijolo pela janela da sala que iria mudar seus h�bitos.</p><p>Evidentemente, n�o conseguiu pegar no sono e ficou ruminando.</p><p>Puta nojenta.</p><p>Recebera nove e-mails contendo essas palavras e que pareciam ter vindo de diferentes reda��es. O primeiro, inclusive, era da reda��o que ela dirigia, mas com um remetente falso.</p><p>Saiu da cama e foi buscar o novo laptop Dell que ganhara ao assumir o cargo no SMP.</p><p>O primeiro e-mail � o mais vulgar e amea�ador, que propunha curr�-la com uma chave de fenda � chegara no dia 16 de maio, ou seja, dez dias antes.</p><p>O segundo chegara dois dias mais tarde, em 18 de maio.</p><empty-line/><p>Depois tivera uma semana de tr�gua, at� que os e-mails voltaram, com intervalos regulares de cerca de vinte e quatro horas. E agora o ataque � sua resid�ncia. Puta nojenta.</p><p>Nesse meio-tempo, Eva Carlsson, da Cultura, recebera aqueles e-mails esquisitos com sua assinatura, ou melhor, assinados Erika Berger. E se Eva Carlsson recebera e-mails esquisitos, era bem poss�vel que o verdadeiro autor das mensagens tivesse se divertido com mais algu�m � que outras pessoas tivessem recebido e-mails "seus" que ela desconhecia por completo.</p><p>Era um pensamento desagrad�vel.</p><p>O mais preocupante, por�m, era o ataque � sua casa.</p><p>O ataque significava que algu�m havia se dado ao trabalho de ir at� Saltsj�baden, achar sua resid�ncia e jogar um tijolo pela janela. O ataque fora planejado � o agressor trouxera tinta spray. Em seguida, sentiu um calafrio percorr�-la quando percebeu que talvez devesse acrescentar outra agress�o � lista. Seu carro amanhecera com os quatro pneus furados na noite que ela estivera com Mikael Blomkvist no Hilton de Slussen.</p><p>A conclus�o era t�o desagrad�vel quanto �bvia. Ela estava sendo perseguida por um man�aco perigoso.</p><p>Em algum lugar l� fora havia um sujeito que, por alguma raz�o, gastava seu tempo assediando Erika Berger.</p><p>Que sua casa fosse objeto de um ataque, era compreens�vel � ela n�o podia ser removida nem escondida. Mas se seu carro sofria um ataque quando estava estacionado casualmente numa Rua de S�dermalm, isso queria dizer que o tal man�aco rondava o tempo todo as proximidades.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>18. QUINTA-FEIRA 2 DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Erika Berger foi despertada pelo toque de seu celular �s 9h05.</p><p>� Bom dia, senhorita Berger. Quem fala � Dragan Armanskij. Soube que teve problemas esta noite.</p><p>Erika explicou o que acontecera e perguntou se a Milton Security poderia substituir a Nacka Integrated Protection.</p><p>� Podemos pelo menos instalar um alarme que funcione � disse Armanskij em tom sarc�stico. � O problema � que o nosso ve�culo mais pr�ximo � noite fica no centro de Nacka. Ele levaria uns trinta minutos para chegar a�. Se fecharmos neg�cio, vou ter que terceirizar o servi�o para a sua casa. Temos um acordo com uma empresa de seguran�a local, a Adam Sakerhet, em Fisks�tra, que se compromete a chegar ao local num prazo de dez minutos, se tudo funcionar como deve.</p><p>� Melhor do que a NIP, que nem chega.</p><p>� � preciso dizer que se trata de uma empresa familiar, com o pai, dois filhos e alguns primos. S�o gregos, pessoas honestas, conhe�o o pai h� v�rios anos. Eles d�o cobertura trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Nos dias em que n�o podem vir, devido a f�rias e coisas assim, avisam com anteced�ncia e o nosso carro de Nacka assume o servi�o.</p><p>� Para mim est� bem.</p><p>� Vou lhe mandar algu�m agora de manh�. O nome dele � David Rosin e j� est� a caminho. Vai fazer uma an�lise de seguran�a. Ele vai precisa da chave, se voc� n�o estiver em casa, e de uma autoriza��o sua para per correr a casa do por�o ao s�t�o. Vai tirar fotografias da casa, do terreno e das proximidades.</p><p>� Entendo.</p><p>� O Rosin tem muita experi�ncia. Depois, vamos lhe apresentar sugest�es de seguran�a. Teremos um projeto no papel em alguns dias. Vai incluir o alarme contra ataque e contra inc�ndio, a evacua��o e uma prote��o contra arrombamento.</p><p>� Perfeito.</p><p>� Tamb�m vamos querer que voc� saiba o que fazer, se for o caso, durante os dez minutos que o carro de Fisks�tra vai levar para chegar � sua casa.</p><p>� Sei.</p><p>� Vamos instalar o sistema hoje � tarde. Depois voc� ter� de assinar o contrato.</p><p>Logo depois do telefonema de Dragan Armanskij, Erika se deu conta de que n�o tinha acordado a tempo. Pegou o celular e ligou para Peter Fredriksson, o assistente de reda��o, explicou que tinha se machucado e pediu que ele desmarcasse a reuni�o das dez.</p><p>� Voc� est� bem? � ele perguntou.</p><p>� Fiz um belo corte no p� � disse Erika. � Vou chegar mancando o mais r�pido poss�vel.</p><p>Primeiro foi ao banheiro de seu quarto. Ent�o vestiu uma cal�a preta e pegou emprestada do marido uma pantufa que ela conseguia cal�ar com o p� machucado. Escolheu uma camisa preta e foi buscar o casaco. Antes de tirar o cal�o de borracha que enfiara debaixo da porta, armou-se com a bomba de g�s lacrimog�neo.</p><p>Andou pela casa, todos os sentidos alertas, e ent�o ligou a cafeteira. Tomou o caf� da manh� � mesa da cozinha, o tempo todo espreitando o mais leve ru�do. Acabava de se servir de uma segunda x�cara de caf� quando David Rosin, da Milton Security, bateu � porta.</p><empty-line/><p>Rosa Figuerola foi a p� at� a Bergsgatan e reuniu seus quatro colaboradores para uma conversa matinal.</p><p>- Agora temos um deadline � disse Rosa Figuerola. � Nosso trabalho precisa estar conclu�do at� 13 de julho, quando come�a o julgamento de Lisbeth Salander. Isso significa que temos pouco mais de um m�s pela frente. Vamos repassar a situa��o e decidir o que � mais importante no momento. Quem quer come�ar?</p><p>Berglund deu uma tossidinha.</p><p>� O loiro que se encontra com o M�rtensson. Quem � ele? Todos balan�aram a cabe�a. A conversa come�ou.</p><p>� Temos fotos dele, mas n�o fazemos id�ia de onde encontr�-lo. E n�o d� para lan�ar uma ordem de busca.</p><p>� E quanto ao Gullberg? Deveria ser poss�vel conseguir alguma coisa. Sabemos que estava na pol�cia secreta do Estado desde o in�cio dos anos 1950 at� 1964, quando a Sapo foi criada. Depois disso, evaporou no espa�o.</p><p>Figuerola meneou a cabe�a.</p><p>� Devemos deduzir que o clube Zalachenko foi fundado em 1964? Ou seja, muito antes da chegada do Zalachenko?</p><p>� Se for assim, o objetivo inicial devia ser outro... uma organiza��o secreta dentro da organiza��o.</p><p>� Isso foi depois do caso Stig Wennerstr�m. Todo mundo ficou paran�ico.</p><p>� Uma esp�cie de Seguran�a secreta da Seguran�a?</p><p>� Existem paralelos em outros pa�ses. Nos Estados Unidos, um grupo aut�nomo de ca�adores de espi�es foi criado dentro da CIA nos anos 1960. Era dirigido por um tal de James Jesus Angleton e por pouco n�o sabotou a CIA toda. A turma do Angleton era um bando de paran�icos exaltados � suspeitavam que todo mundo na CIA fosse um agente russo. Um dos resultados da atua��o deles foi paralisar in�meros setores de atividade da CIA.</p><p>� Mas isso s�o s� especula��es...</p><p>� Onde est�o guardados os arquivos antigos dos funcion�rios?</p><p>� O Gullberg n�o consta neles. J� verifiquei.</p><p>� E o or�amento? Uma opera��o dessas tem de ser necessariamente financiada...</p><empty-line/><p>A discuss�o prosseguiu at� a hora do almo�o, quando Rosa Figuerola pediu licen�a e foi para a academia, a fim de poder pensar com calma.</p><p>Erika Berger s� chegou, mancando, na reda��o do SMP por volta do meio-dia. Sentia tanta dor no p� que n�o conseguia apoi�-lo no ch�o. Saltitou at� seu aqu�rio e deixou-se cair, aliviada, na cadeira. Peter Fredriksson avistou-a de seu lugar no p�lo central. Ela o chamou com um aceno.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� Pisei num caco de vidro, ele se quebrou e ficou preso dentro do meu calcanhar.</p><p>� Ai, que horror!</p><p>� Pois �. Me diga uma coisa, Peter, algu�m mais recebeu algum e-mail esquisito?</p><p>� N�o que eu saiba.</p><p>� Certo. Abra bem os ouvidos. Eu quero ficar sabendo se acontecerem coisas estranhas no SMP.</p><p>� O que voc� quer dizer com isso?</p><p>� Desconfio que um pirado que gosta de mandar e-mails perversos me pegou para cristo. Portanto quero ser informada se voc� souber que alguma coisa est� acontecendo.</p><p>� E-mails do tipo que a Eva Carlsson recebeu?</p><p>� Qualquer coisa que saia do comum. De minha parte, recebi uma avalanche de e-mails rid�culos me acusando de tudo que � tipo de coisa e me propondo um monte de coisas perversas.</p><p>Peter Fredriksson ficou preocupado.</p><p>� Faz tempo que isso vem acontecendo?</p><p>� H� algumas semanas. Agora me conte. O que vamos ter no jornal de amanh�?</p><p>� Humm.</p><p>� Como assim, humm?</p><p>� O Holm e o respons�vel pela editoria de Direito est�o caminhando juntos para a guerra.</p><p>� Ah, �? Por qu�?</p><p>� Por causa do Johannes Frisk. Voc� estendeu o contrato dele e deu uma reportagem para ele fazer, mas ele n�o quer dizer qual � o assunto.</p><p>__Ele n�o pode dizer. S�o ordens minhas.</p><p>� Foi o que ele disse. Mas com isso o Holm e o editor de Direito ficaram bem irritados com voc�.</p><p>� Entendo. Marque uma reuni�o com o pessoal da editoria de Direito para as tr�s horas, vou explicar a situa��o para eles.</p><p>� O Holm est� meio furioso...</p><p>� Eu tamb�m estou meio furiosa com o Holm, portanto estamos quites.</p><p>� Ele est� t�o furioso que foi se queixar ao conselho.</p><p>Erika ergueu os olhos. Droga. Ainda preciso cuidar�o Borgsj�.</p><p>� O Borgsj� vai passar por aqui � tarde. Quer falar com voc�. Desconfio que o Holm esteja por tr�s disso.</p><p>� Tudo bem. A que horas?</p><p>� �s duas.</p><p>E ele come�ou a expor a pauta do meio-dia.</p><p>O Dr. Anders Jonasson foi ver Lisbeth Salander na hora do almo�o. Ela afastou o prato com legumes refogados. Como sempre, ele a examinou rapidamente, mas ela observou que ele deixara de se empenhar ao fazer os exames.</p><p>� Voc� est� recuperada � ele observou.</p><p>� Humm. Voc� deveria tomar uma provid�ncia sobre a comida.</p><p>� A comida?</p><p>� Voc� n�o poderia me conseguir uma pizza ou algo do g�nero?</p><p>� Lamento. Restri��es or�ament�rias.</p><p>� Foi o que eu pensei.</p><p>� Lisbeth, amanh� n�s vamos fazer uma minuciosa avalia��o do seu estado de sa�de...</p><p>� Compreendo. E eu estou recuperada.</p><p>� Est� suficientemente recuperada para poder ser transferida para a casa de deten��o de Kronoberg em Estocolmo.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>� Talvez eu ainda conseguisse adiar a transfer�ncia por mais uma semana, mas meus colegas j� andam me fazendo perguntas.</p><p>� N�o fa�a isso.</p><p>� Tem certeza?</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Estou pronta. E isso vai ter que acontecer mais cedo ou mais tarde. Ele fez um gesto de concord�ncia.</p><p>� Bem � disse Anders Jonasson. �Amanh� vou dar o sinal verde para sua alta. Isso significa que voc� talvez seja transferida rapidamente.</p><p>Ela meneou a cabe�a.</p><p>� � poss�vel que isso aconte�a j� no fim de semana. A dire��o do hospital n�o faz quest�o de ficar com voc� aqui.</p><p>� D� para entender.</p><p>� H�... conseq�entemente, o seu brinquedinho...</p><p>� Vai estar no v�o atr�s do criado-mudo. Ela mostrou o lugar.</p><p>� Certo.</p><p>Permaneceram um instante em sil�ncio e ent�o Anders Jonasson se levantou.</p><p>� Preciso visitar outros pacientes que est�o mais precisados da minha ajuda.</p><p>� Obrigada por tudo. Fico lhe devendo uma.</p><p>� Eu s� fiz o meu trabalho.</p><p>� N�o. Fez muito mais. N�o vou esquecer.</p><p>Mikael Blomkvist entrou no Pal�cio da Pol�cia em Kungsholmen pela porta da Polhemsgatan. Rosa Figuerola o recebeu e o acompanhou at� a sede da Prote��o � Constitui��o. Olharam-se disfar�ada e silenciosamente dentro do elevador.</p><p>� Ser� que � prudente eu aparecer aqui no Pal�cio da Pol�cia? � perguntou Mikael. � Algu�m poderia me ver e ficar imaginando coisas.</p><p>Rosa Figuerola balan�ou a cabe�a.</p><p>� Esta vai ser a �nica vez. Depois vamos nos encontrar num pequeno escrit�rio que alugamos na Fridhemsplan. Vamos poder us�-lo a partir de manh�. Mas por hoje n�o tem problema. A Prote��o � Constitui��o � uma pequena unidade praticamente aut�noma e ningu�m da Sapo presta aten��o gente. Ali�s, nem estamos no mesmo andar do restante da Sapo. Com um gesto da cabe�a, cumprimentou Torsten Edklinth sem lhe apertar a m�o e mais dois colaboradores que aparentemente trabalhavam na investiga��o. Eles se apresentaram como sendo Stefan e Niklas. Mikael reparou que eles n�o mencionaram os sobrenomes.</p><p>� Por onde a gente come�a? � perguntou Mikael.</p><p>� Poderia ser com um caf�... Rosa?</p><p>� Obrigada, aceito � disse Rosa Figuerola.</p><p>Mikael viu que o chefe da Prote��o � Constitui��o hesitou um instante antes de se levantar e pegar ele pr�prio a cafeteira e coloc�-la na mesa de reuni�es, onde j� estavam as x�caras. Torsten Edklinth na certa quisera dizer a Rosa que servisse o caf�. Mikael tamb�m observou que Edklinth sorria consigo mesmo, o que interpretou como um bom sinal. Ent�o Edklinth ficou s�rio.</p><p>� Para ser franco, n�o sei como administrar uma situa��o como esta. Creio que nunca um jornalista participou das reuni�es da Sapo. Boa parte das informa��es que vamos discutir agora � segredo de seguran�a nacional.</p><p>� N�o estou interessado em segredos militares. S� me interessa o clube Zalachenko.</p><p>� Precisamos fazer um acordo. Em primeiro lugar, os colaboradores n�o devem ser citados nos seus textos.</p><p>� Combinado.</p><p>Edklinth lan�ou um olhar surpreso para Mikael Blomkvist.</p><p>� Em segundo lugar, voc� n�o pode falar com outros colaboradores que n�o eu e a Rosa Figuerola. N�s � que determinamos o que podemos lhe revelar.</p><p>� Se voc� tinha tantas exig�ncias, deveria ter me falado ontem.</p><p>� Ontem eu ainda n�o tinha tido tempo de pensar no assunto.</p><p>� Ent�o vou lhe contar uma coisa. Esta deve ser a primeira e �nica vez na minha carreira profissional que vou revelar o conte�do de um artigo ainda n�o publicado para um policial. Portanto, e citando voc�... para ser franco, nao sei como administrar esta situa��o.</p><p>Fez-se um breve sil�ncio em volta da mesa.</p><p>� A gente talvez pudesse...</p><p>� O que voc�s acham...</p><p>Edklinth e Rosa Figuerola come�aram a falar ao mesmo tempo e s calaram.</p><p>� Estou querendo pegar o clube Zalachenko. Voc�s querem denunciar o clube Zalachenko. N�o vamos discutir al�m disso � disse Mikael.</p><p>Edklinth meneou a cabe�a.</p><p>� O que voc� j� tem?</p><p>Edklinth relatou o que Rosa Figuerola e sua equipe tinham descoberto Mostrou a foto de Evert Gullberg com o coronel espi�o Stig Wennerstr�m.</p><p>� �timo. Eu queria uma c�pia dessa foto.</p><p>� Pode ser encontrada nos arquivos da �hl�n &amp; �kerlund � disse Rosa Figuerola.</p><p>� Tamb�m est� na mesa � minha frente. Com um texto no verso � disse Mikael.</p><p>� Certo. D� uma c�pia para ele � disse Edklinth.</p><p>� Isso significa que Zalachenko foi morto pela Se��o.</p><p>� Assassinado por um homem que estava morrendo de c�ncer e se suicidou em seguida. O Gullberg ainda est� vivo, mas os m�dicos lhe d�o poucas semanas. Suas les�es no c�rebro s�o tamanhas, depois da sua tentativa de suic�dio, que ele est� como um vegetal.</p><p>� E ele era o principal respons�vel pelo Zalachenko quando este desertou.</p><p>� Como voc� sabe?</p><p>� O Gullberg esteve com o primeiro-ministro Thorbj�rn F�lldin seis semanas ap�s a deser��o de Zalachenko.</p><p>� Voc� tem como provar?</p><p>� Tenho. No registro das visitas da chancelaria do governo. O Gullberg estava acompanhado do diretor da Sapo na �poca.</p><p>� Que hoje est� morto.</p><p>� Mas o F�lldin est� vivo e concorda em falar sobre isso.</p><p>� Voc�...</p><p>� N�o, eu n�o falei com o F�lldin. Mas outra pessoa falou. N�o posso dizer quem �. Estou protegendo minha fonte.</p><p>Mikael contou como Thorbj�rn F�lldin reagira � informa��o sobre Zalachenko e como ele pr�prio tinha ido aos Pa�ses Baixos interrogar Janeryd.</p><empty-line/><p>- Conclus�o: o clube Zalachenko fica em algum lugar aqui da casa - disse Mikael, apontando para a foto.</p><p>- Em parte. Achamos que se trata de uma organiza��o dentro da organiza��o. O clube Zalachenko n�o poderia existir sem o apoio de pessoas-chave desta casa. Mas suspeitamos que a suposta Se��o de An�lise Especial se estabeleceu em algum lugar l� fora.</p><p>� Se entendi direito como isso funciona, uma pessoa pode ser empregada da Sapo, receber seu sal�rio pela Sapo e depois fazer seus relat�rios para outro empregador.</p><p>� E mais ou menos isso.</p><p>� Ent�o quem, aqui, apoia o clube Zalachenko?</p><p>� Ainda n�o sabemos. Mas temos alguns suspeitos.</p><p>� O M�rtensson � sugeriu Mikael. Edklinth concordou com a cabe�a.</p><p>� O M�rtensson trabalha para a Sapo e, quando precisam dele no clube Zalachenko, ele � liberado de suas fun��es habituais � disse Rosa Figuerola.</p><p>� Como isso � poss�vel na pr�tica?</p><p>� �tima pergunta � disse Edklinth com um sorrisinho. � Voc� n�o gostaria de vir trabalhar para a gente?</p><p>� Nem pensar � disse Mikael.</p><p>� Estou brincando. Mas � exatamente essa a pergunta que deve ser feita. Temos um suspeito, mas nada que nos autorize a passar da desconfian�a �s provas.</p><p>� Vejamos... � necessariamente algu�m que goza de alguma autoridade administrativa.</p><p>� Suspeitamos do secret�rio-geral Albert Shenke � disse Rosa Figuerola.</p><p>� O que nos leva ao primeiro obst�culo � disse Edklinth. � N�s lhe dissemos o nome, mas a informa��o n�o pode ser confirmada. De que jeito voc� pensa usar isso?</p><p>� N�o posso publicar um nome sem provas em que me apoiar. Se o Shenke for inocente, pode processar a Millennium por difama��o.</p><p>� Muito bem. Ent�o estamos de acordo. Essa colabora��o deve se basear na confian�a rec�proca. Agora � sua vez. O que voc� tem?</p><p>� Tenho tr�s nomes � disse Mikael. � Os dois primeiros eram membros do clube Zalachenko nos anos 1980.</p><p>Edklinth e Figuerola agu�aram imediatamente o ouvido.</p><p>� Hans vou Rottinger e Fredrik Clinton. Rottinger est� morto. O Qinton est� aposentado. Mas ambos faziam parte do c�rculo mais pr�ximo de Zalachenko.</p><p>� E o terceiro nome? � perguntou Edklinth.</p><p>� O Teleborian tem uma liga��o com um tal de ]onas. N�o sabemos seu sobrenome, apenas que ele fazia parte da turma de 2005 do clube Zalachenko... Temos motivos para acreditar que ele � quem aparece com o M�rtensson nas fotos do Copacabana.</p><p>� E esse nome Jonas surgiu em que contexto?</p><p>� A Lisbeth Salander invadiu o computador de Peter Teleborian, e estamos em condi��es de acompanhar uma correspond�ncia mostrando que o Teleborian tem conspirado com o Jonas do mesmo jeito que conspirava com o Bj�rck em 1991. Jonas d� instru��es a Teleborian. E aqui chegamos ao segundo obst�culo � disse Mikael, sorrindo para Edklinth. � Posso provar o que digo, mas n�o posso mostrar as provas sem revelar minha fonte. Voc�s v�o ter que acreditar na minha palavra.</p><p>Edklinth pareceu pensativo.</p><p>� Um colega do Teleborian em Uppsala, quem sabe � disse ele. � Certo. Vamos come�ar pelo Clinton e o Rottinger. Conte o que voc� sabe.</p><p>O presidente do conselho administrativo Magnus Borgsj� recebeu Erika Berger em sua sala, ao lado da sala de reuni�es da diretoria. Parecia preocupado.</p><p>� Me disseram que voc� estava machucada � disse, indicando seu p�.</p><p>� Vai passar � disse Erika. Ela apoiou as bengalas na mesa enquanto sentava-se na poltrona dos visitantes.</p><p>� Ah, que bom. Erika, faz um m�s que voc� est� aqui e gostaria que fiz�ssemos um balan�o dessa experi�ncia. Qual a sua avalia��o?</p><p>Preciso falar com ele sobre a Vitavara. Mas como? Quando?</p><p>� Estou come�ando a me situar. H� dois aspectos. De um lado, o SMP enfrenta problemas financeiros e o or�amento est� estrangulando o jornal. De outro, h� uma quantidade incr�vel de peso morto na reda��o. __N�o h� nenhum aspecto positivo?</p><p>� H�, sim. V�rios profissionais tarimbados que sabem como tocar o trabalho. O problema � que existem outros que atrapalham o tempo todo.</p><p>� O Holm me falou...</p><p>� Eu sei.</p><p>Borgsj� ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Ele tem um bocado de coisas a dizer sobre voc�. Praticamente todas negativas.</p><p>� N�o faz mal. Eu tamb�m tenho um bocado de coisas a dizer sobre ele.</p><p>� Negativas? N�o � bom que voc�s n�o consigam trabalhar juntos...</p><p>� Eu n�o tenho nenhum problema em trabalhar com ele. Em compensa��o, ele tem problemas para trabalhar comigo.</p><p>Erika suspirou.</p><p>� Ele me deixa louca. O Holm tem experi�ncia, � sem d�vida duas vezes um dos editores de Atualidades mais competentes que j� conheci. Mas tamb�m � um cretino. Fica fazendo intriga e jogando as pessoas umas contra as outras. Eu trabalho na imprensa h� vinte e cinco anos e nunca cruzei com um homem assim num cargo executivo.</p><p>� Ele � obrigado a ter m�o de ferro para dar conta do trabalho. � pressionado de todos os lados.</p><p>� M�o de ferro, tudo bem. Mas isso n�o significa que ele precise ser um idiota. Infelizmente, o Holm � desastroso. Com ele � quase imposs�vel fazer o pessoal trabalhar em equipe. Ele parece achar que o trabalho dele consiste em administrar dividindo.</p><p>� Voc� n�o mede as palavras.</p><p>� Vou dar ao Holm um m�s para que ele mude de atitude. Sen�o, tiro ele da chefia de Atualidades.</p><p>� Voc� n�o pode fazer isso. Seu trabalho n�o � detonar a organiza��o do trabalho.</p><p>Erika se calou e examinou o presidente do conselho administrativo.</p><p>� Me desculpe, mas n�o se esque�a que foi exatamente para isso que voc� me chamou. N�s, inclusive, assinamos um contrato que me d� carta branca para eu fazer as mudan�as que julgar necess�rias na reda��o. Minha miss�o � renovar o jornal, e s� posso fazer isso modificando a organiza��o certos h�bitos.</p><p>� O Holm dedicou a vida dele ao SMP.</p><p>� E. E est� com cinq�enta e oito anos e vai se aposentar daqui a seis - n�o posso me dar ao luxo de mant�-lo aqui como um fardo esse tempo todo Assim que me instalei naquele aqu�rio, minha principal miss�o na vida passou a ser melhorar a qualidade do SMP e aumentar a tiragem. O Holm pode escolher entre fazer as coisas do meu jeito ou ir fazer outra coisa. Pretendo passar por cima de quem quer que se ponha no meu caminho ou que esteja prejudicando o SMP.</p><p>Droga... preciso falar da hist�ria da Vitavara. O Borgsj� vai ser despedido. Borgsj� sorriu de repente.</p><p>� Parece que voc� tamb�m tem m�o de ferro.</p><p>� � verdade, e nesse caso � uma pena, porque n�o precisaria ser assim. Meu trabalho � fazer um bom jornal, mas s� posso conseguir isso se houver uma diretoria que funcione e colaboradores que gostem do que fazem.</p><p>Depois da reuni�o com Borgsj�, Erika voltou mancando para o aqu�rio. Sentia-se pouco � vontade. Falara com Borgsj� durante quarenta e cinco minutos e n�o dissera nada que lembrasse a Vitavara. Em outras palavras, n�o fora especialmente franca ou sincera com ele.</p><p>Quando Erika Berger ligou o computador, viu que recebera um e-mail de MikBlom@millenium.nu Como sabia muito bem que esse endere�o eletr�nico n�o existia na Millennium, n�o foi dif�cil deduzir que era um novo sinal de vida do seu ciberassediador. Abriu o e-mail.</p><p>[EST� ACHANDO QUE O BORGSJ� VAI PODER TE SALVAR, SUA PUTINHA NOJENTA? COMO VAI O SEU P�?]</p><p>Ergueu os olhos e fitou instintivamente a reda��o. Seu olhar bateu em Holm. Ele olhava para ela. Ent�o ele lhe acenou com a cabe�a e sorriu. Esses e-mails s�o de algu�m aqui do SMP.</p><p>A reuni�o na Prote��o � Constitui��o n�o terminou antes das cinco da tarde. Marcaram outra para a semana seguinte e combinaram que Mikael Rlomkvist deveria procurar Rosa Figuerola caso precisasse entrar em contato com a Sapo antes disso. Mikael pegou a mochila com seu computador e se levantou.</p><p>- Como eu fa�o para encontrar a sa�da? � perguntou.</p><p>- Acho que voc� n�o deveria andar sozinho por aqui � disse Edklinth.</p><p>- Eu o acompanho � sugeriu Rosa Figuerola. � Espere um pouco,</p><p>vou s� pegar umas coisas na minha sala.</p><p>Sa�ram juntos pelo parque de Kronoberg na dire��o da Fridhemsplan.</p><p>� O que vai acontecer agora? � perguntou Mikael.</p><p>� Vamos ficar em contato � disse Rosa Figuerola.</p><p>� Estou come�ando a gostar desse contato com a Sapo � disse Mikael, sorrindo para ela.</p><p>� O que voc� acha de jantarmos juntos mais � noite?</p><p>� No restaurante b�snio de novo?</p><p>� N�o, n�o tenho condi��es de jantar fora toda noite. Pensei numa coisinha simples l� em casa.</p><p>Ela parou e sorriu para ele.</p><p>� Pra ser sincera, sabe o que eu estou com vontade de fazer agora, neste momento? � disse ela.</p><p>� N�o.</p><p>� Estou com vontade de te levar rapidinho para a minha casa e tirar a sua roupa.</p><p>� Isso pode ficar complicado.</p><p>� Eu sei. N�o tenho propriamente a inten��o de comentar com o meu chefe.</p><p>� N�o fa�o id�ia de como toda essa hist�ria vai evoluir. A gente talvez acabe em lados opostos da trincheira.</p><p>�� Eu assumo o risco. Voc� vem por vontade pr�pria ou vou ter que algem�-lo?</p><p>Ele balan�ou a cabe�a. Ela passou o bra�o pelo ombro dele e conduziu-o at� a Pontonjargatan. Estavam nus trinta segundos depois que a porta do apartamento dela se fechou.</p><empty-line/><p>David Rosin, consultor de seguran�a da Milton Security, esperava Eric Berger quando ela chegou em casa por volta das sete da noite. Ela estava com uma dor terr�vel no p� e foi se arrastando at� a cozinha, onde se deixou cair na primeira cadeira que encontrou. Ele tinha feito um caf� e serviu-lhe uma x�cara.</p><p>� Obrigada. O caf� est� inclu�do nos servi�os da Milton?</p><p>Ele sorriu educadamente. David Rosin era um homem rechonchudo de uns cinq�enta anos de idade.</p><p>� Obrigado por ter me emprestado a cozinha durante o dia todo.</p><p>� Era o m�nimo que eu podia fazer. Como v�o as coisas?</p><p>� Nossos t�cnicos vieram instalar um alarme decente. Daqui a pouco eu mostro como funciona. Tamb�m passei um pente-fino na sua casa, do por�o ao s�t�o, e examinei as redondezas. Na seq��ncia desta opera��o, eu vou conversar sobre a sua situa��o com os meus colegas da Milton, e daqui a alguns dias teremos uma an�lise pronta para discutir com a senhora. Enquanto isso, h� algumas coisinhas que precisar�amos ver.</p><p>� Estou escutando.</p><p>� Em primeiro lugar, temos uns pap�is para assinar. Mais tarde vamos redigir o contrato definitivo, dependendo de que servi�os a senhora vai querer, mas tenho aqui um formul�rio pelo qual a senhora incumbe a Milton de instalar o alarme que j� instalamos hoje. � um contrato-padr�o rec�proco, pelo qual n�s da Milton estabelecemos algumas exig�ncias e, em troca, nos comprometemos a algumas coisas, entre elas o sigilo profissional, esse tipo de coisa.</p><p>� Voc�s fazem exig�ncias?</p><p>� Sim. Um alarme � um alarme e n�o significa muito se houver um louco furioso armado com uma metralhadora na sua sala. Para ter certeza de que ele ser� �til, a senhora e o seu marido ter�o de considerar alguns pontos e aceitar algumas medidas. Vamos analisar esses pontos juntos.</p><p>� Vamos l�.</p><p>� N�o posso antecipar a an�lise definitiva, mas por enquanto vejo a situa��o da seguinte maneira. A senhora e o seu marido moram numa casa. Atr�s da casa h� uma praia e algumas casas grandes na vizinhan�a. At� onde percebi, os vizinhos n�o t�m uma vis�o de sua casa, que fica relativamente isolada.</p><p>� Exato.</p><p>- Isso significa que um intruso tem boas condi��es de se aproximar da sua casa sem ser visto.</p><p>� Os vizinhos da direita viajam a maior parte do ano, e � esquerda mora um casal idoso que costuma dormir cedo.</p><p>� Exato. Al�m disso, as casas d�o uma para a outra pela lateral, onde h� poucas janelas. Caso um intruso penetre no seu terreno, e ele s� precisa de cinco segundos para vir da estrada at� os fundos, n�o h� como ningu�m perceber. Os fundos est�o cercados por uma sebe alta, uma garagem e outra constru��o isolada.</p><p>� � o ateli� do meu marido.</p><p>� Pelo que entendi, ele � artista.</p><p>� Isso. E o que mais?</p><p>� O intruso que quebrou a janela e pichou a fachada p�de fazer isso com toda a tranq�ilidade. Ele apenas se arriscou a que o barulho de vidro quebrado fosse ouvido e algu�m reagisse, mas como a casa forma um L, o barulho � abafado pela fachada.</p><p>� Puxa.</p><p>� Outro ponto � que voc�s t�m uma casa grande, de duzentos e cinq�enta metros quadrados, sem contar o s�t�o e o por�o. S�o onze c�modos distribu�dos em dois pisos.</p><p>� Essa casa � monstruosa. E a casa de inf�ncia do Lars, que ele herdou dos pais.</p><p>� Pode-se tamb�m entrar na casa de v�rias maneiras. Pela porta da frente, pelo terra�o dos fundos, pela varanda do andar de cima e pela garagem. Al�m disso, h� janelas no t�rreo e seis janelas no por�o sem prote��o nenhuma. Por fim, pode-se entrar usando tamb�m a escada de inc�ndio nos fundos da casa, passando pela lucarna do s�t�o, que est� fechada com um simples trinco.</p><p>� De fato, as portas desta casa n�o s�o muito herm�ticas. O que precisamos fazer?</p><p>� O alarme que instalamos hoje � apenas provis�rio. Vamos voltar na semana que vem e fazer uma instala��o em regra, com alarme em todas as janelas do t�rreo e do por�o. Ser� uma prote��o contra arrombamento, para quando voc�s viajarem.</p><p>� Hum.</p><p>� Mas a atual situa��o � que a senhora foi amea�ada diretamente n um indiv�duo espec�fico. O que � muito mais s�rio. Ignoramos de quem trata, quais suas motiva��es e at� onde ele pretende ir, mas podemos tira algumas conclus�es. Se se tratasse de uma simples correspond�ncia an�nima com amea�as, far�amos apenas uma avalia��o do grau de amea�a, mas no caso estamos falando de uma pessoa que se deu ao trabalho de vir at� a sua casa (e Saltsj�baden n�o fica logo ali...) para praticar esse atentado. Isso n�o � um bom sinal.</p><p>� Concordo inteiramente.</p><p>� Conversei com o Armanskij hoje e n�s dois achamos que a amea�a � clara e direta.</p><p>� Ah, �?</p><p>� At� sabermos mais sobre a pessoa que a est� amea�ando, n�o podemos deixar nada ao acaso.</p><p>� O que significa...</p><p>� Em primeiro lugar, o alarme que instalamos hoje � composto por dois elementos. De um lado, um alarme anti-intrus�o comum, que fica ligado quando voc�s n�o est�o na casa, e, de outro, um sensor de movimentos, que deve ficar ligado quando voc�s est�o no andar de cima � noite.</p><p>� Certo.</p><p>� N�o � muito pr�tico, porque voc�s v�o ter que desligar o alarme toda vez que descerem para o t�rreo.</p><p>� Entendo.</p><p>� Em segundo lugar, trocamos a porta do seu quarto.</p><p>� Trocaram a porta do meu quarto?</p><p>� Sim. Instalamos uma porta de seguran�a de a�o. N�o se preocupe, ela � pintada de branco, parece uma porta comum. A diferen�a � que ela se tranca automaticamente quando fechada. Para abri-la por dentro, basta girar a ma�aneta, como em qualquer porta. Mas para abrir por fora � preciso digitar um c�digo de acesso de tr�s algarismos numa placa integrada a ma�aneta.</p><p>� Certo.</p><p>� Portanto, se por acaso a sua casa for invadida, a senhora ter� um c�modo seguro onde vai poder se trancar. As paredes s�o fortes, e seria demorado p�r essa porta abaixo, mesmo com ferramentas. Em terceiro lugar, vamos instalar uma c�mera de v�deo que vai lhe permitir observar o que acontece no p�tio dos fundos e no t�rreo, quando estiver no quarto. Vamos instalar na semana que vem, junto com os sensores de movimento na �rea externa da casa.</p><p>� Pelo jeito, o meu quarto n�o vai ser um lugar muito rom�ntico.</p><p>� � um monitor bem pequeno. Pode ficar num arm�rio qualquer ou num guarda-roupa, assim a senhora n�o precisa ficar vendo o tempo todo.</p><p>� Certo.</p><p>� Durante a semana, eu tamb�m gostaria de trocar a porta do escrit�rio e de algum outro c�modo do t�rreo. Se acontecer alguma coisa, a senhora tem como se p�r a salvo rapidamente e fechar a porta enquanto aguarda socorro.</p><p>� Entendo.</p><p>� Caso acione o alarme anti-intrus�o por engano, a senhora deve ligar imediatamente para a central da Milton e cancelar a interven��o. Para cancelar, ter� de informar o c�digo. Se n�o se lembrar do c�digo, a interven��o ir� ocorrer e a fatura ser� debitada na sua conta.</p><p>� Entendo.</p><p>� Em quarto lugar, existem atualmente alarmes contra agress�o em quatro pontos da casa. Aqui na cozinha, no hall de entrada, no escrit�rio do andar de cima e no seu quarto. Esse alarme tem dois bot�es que devem ser pressionados ao mesmo tempo por tr�s segundos. Isso pode ser feito com uma m�o s�, mas n�o h� como fazer por engano.</p><p>� Ah...</p><p>� Caso o alarme contra agress�o seja acionado, v�o acontecer tr�s coisas. Uma: a Milton manda carros at� aqui. O carro mais pr�ximo vem da Adam S�kerhet, em Fisks�tra. Dois sujeitos fort�es v�o estar aqui em dez ou doze minutos. Duas: um carro da Milton vai vir de Nacka. Vai levar no m�nimo vinte minutos, mas � mais prov�vel que leve vinte e cinco. Tr�s: a pol�cia � avisada automaticamente. Ou seja, v�rios carros chegam ao local com alguns minutos de intervalo.</p><p>� Caramba!</p><p>� N�o d� para cancelar um alarme anti-agress�o como se pode fazer com um anti-intrus�o. N�o d� para ligar dizendo que foi engano. A senhora at� pode nos receber na porta de casa e dizer que foi engano, mas a pol�cia vai entrar do mesmo jeito. S� para conferir se n�o tem ningu�m apontando um rev�lver para a cabe�a do seu marido ou algo do g�nero. S� se deve acionar o alarme anti-agress�o quando houver um perigo real.</p><p>� Entendo.</p><p>� N�o necessariamente uma agress�o f�sica. Pode ser que algu�m tente arrombar a casa ou apare�a no p�tio dos fundos, por exemplo. A senhora deve acion�-lo quando se sentir amea�ada, mas usando o bom senso.</p><p>� Prometo.</p><p>� Reparei que h� tacos de golfe espalhados por quase toda a casa.</p><p>� Pois �. Eu dormi sozinha aqui esta noite.</p><p>� Se fosse eu, teria ido para um hotel. N�o h� problema, a senhora pode tomar suas pr�prias precau��es, mas espero que entenda que, com um taco de golfe, pode-se matar facilmente um agressor.</p><p>� Humm.</p><p>� Fa�a isso e com toda certeza ser� acusada de homic�dio. Se, al�m disso, disser que tinha deixado os tacos pela casa para ter uma arma ao alcance da m�o, pode acrescentar premedita��o a esse crime.</p><p>� Ou seja, eu tenho que...</p><p>� N�o diga nada. J� sei o que vai dizer.</p><p>� Se algu�m me atacar, mesmo assim vou tentar arrebentar a cabe�a dele.</p><p>� Entendo. Mas se a senhora chamou a Milton Security foi para ter uma alternativa. Agora vai poder chamar por socorro e, principalmente, n�o se ver� na situa��o de ter que arrebentar a cabe�a de ningu�m.</p><p>� Combinado.</p><p>� Ali�s, de que adiantam tacos de golfe se ele tiver uma arma de fogo? Quando se pensa em seguran�a, a id�ia � estar um passo � frente da pessoa que quer nos fazer mal.</p><p>� Como eu fa�o quando estou com um cara aparentemente na minha cola?</p><p>� D� um jeito para que ele nunca tenha uma chance de se aproximar. No caso, n�o vamos concluir a instala��o antes de alguns dias, e depois vamos ter que conversar tamb�m com o seu marido. Ele precisa ter o mesmo desejo de seguran�a que a senhora.</p><p>� Humm.</p><p>� At� l�, eu preferiria que a senhora n�o ficasse aqui.</p><p>� N�o tenho condi��es de ir para outro lugar. Meu marido volta daqui a alguns dias. Mas tanto ele quanto eu viajamos com freq��ncia, e �s vezes acontece de um de n�s ficar sozinho.</p><p>� Entendo. Mas estou falando s� de alguns dias, at� terminarmos de fazer a instala��o. N�o tem um amigo com quem possa ficar?</p><p>Erika pensou no apartamento de Mikael Blomkvist, ent�o lembrou que n�o seria uma boa id�ia.</p><p>� Obrigada..., mas prefiro ficar em casa.</p><p>� Era o que eu temia. Nesse caso, quero que algu�m venha para c� e fique at� o fim de semana.</p><p>� Humm.</p><p>� Conhece algu�m que poderia vir dormir aqui?</p><p>� Sem d�vida. Mas n�o �s sete e meia da noite e se houver um assassino maluco rondando o p�tio dos fundos.</p><p>David Rosin refletiu por um instante.</p><p>� Muito bem. A senhora se importaria de ter a companhia de uma colaboradora da Milton? Posso ligar para Susanne Linder e ver se ela est� dispon�vel hoje � noite. Acho que ela concordaria em ganhar umas notas de cem como extra.</p><p>� Quanto iria custar?</p><p>� E preciso ver com ela. Isso n�o faz parte dos arranjos formais, que fique claro. Mas realmente eu n�o gostaria que a senhora ficasse sozinha.</p><p>� Eu n�o tenho medo do escuro.</p><p>� N�o duvido nem um pouco. Ou n�o teria ficado aqui ontem � noite. Mas a Susanne Linder � uma ex-policial. E seria s� por alguns dias. Se tiv�ssemos de organizar uma prote��o pesada, seria diferente, e muito mais caro.</p><p>A seriedade de David Rosin come�ou a contagi�-la. De repente, Erika Berger se deu conta de que ele estava lembrando, com a maior tranq�ilidade, que a vida dela podia estar amea�ada. Exagero? Seria caso de considerar a preocupa��o daquele homem como meramente profissional? Ent�o, por que ela havia ligado para a Milton Security para pedir que instalassem um alarme?</p><p>� Tudo bem. Vou arrumar o quarto de h�spedes.</p><empty-line/><p>Rosa Figuerola e Mikael Blomkvist s� sa�ram do quarto �s dez da noite enrolados nos len��is, para ir � cozinha de Rosa preparar uma salada de ma carr�o com atum, bacon e outras sobras encontradas na geladeira. Estavam bebendo �gua. De repente, Rosa come�ou a gargalhar.</p><p>� O que foi?</p><p>� Imagino que o Edklinth ficaria meio chocado se nos visse agora. N�o acho que ele estava me estimulando a dormir com voc� quando disse que era para eu ficar em contato.</p><p>� Foi voc� que come�ou. Eu s� podia escolher entre vir algemado ou por vontade pr�pria.</p><p>� Eu sei. Mas n�o foi t�o dif�cil te convencer.</p><p>� Voc� talvez n�o tenha consci�ncia, embora eu ache que sim, que tudo em voc� � um convite para o sexo. Voc� acha que algum homem resistiria?</p><p>� Obrigada. Mas n�o me acho t�o sexy. E n�o vou para a cama com algu�m t�o r�pido.</p><p>� Humm.</p><p>� Verdade. N�o � muito freq�ente eu acabar na cama com um homem. Andei mais ou menos namorando um cara na primavera. Mas acabou.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Ele at� que era bonitinho, mas acabou virando uma queda de bra�o meio cansativa. Eu era mais forte que ele e ele n�o ag�entou.</p><p>� Ah.</p><p>� Voc� � do tipo que vai querer fazer queda de bra�o comigo?</p><p>� Voc� est� querendo saber se eu sou o tipo de homem que se incomoda se voc� estiver mais em forma e mais malhada do que eu? N�o.</p><p>�� Seja sincero. Reparei que muitos homens ficam interessados, mas depois come�am a entrar numas de desafio e tentam achar um jeito de me dominar. Principalmente quando descobrem que sou tira.</p><p>� N�o pretendo competir com voc�. O que eu sei fazer, fa�o melhor que voc�. E o que voc� sabe fazer, faz melhor que eu.</p><p>� �timo. Est� a� uma postura que combina comigo.</p><p>� Por que voc� deu em cima de mim?</p><p>� Eu costumo seguir os meus impulsos. E voc� foi um desses impulsos.</p><p>� Certo. Mas voc� � uma policial da Sapo, o que n�o � pouca coisa, e por acaso est� envolvida numa investiga��o em que eu sou um dos personagens...</p><p>- Voc� est� querendo dizer que eu n�o fui profissional. Tem raz�o.</p><p>M�o deveria ter feito isso. E estarei encrencada se souberem. Edklinth ficaria furioso.</p><p>� Eu � que n�o vou dedurar.</p><p>� Obrigada.</p><p>Ficaram calados por um instante.</p><p>� N�o sei no que isso vai dar. Pelo que entendi, voc� � um cara cheio de mulheres no curr�culo. Confere?</p><p>� Sim. Infelizmente. E acho que n�o estou procurando namorada fixa.</p><p>� Certo. Estou avisada. Acho que eu tamb�m n�o estou procurando um namorado fixo. Voc� concorda se a gente ficar na amizade?</p><p>� Prefiro assim. Rosa, n�o vou contar para ningu�m que ficamos juntos, mas, se alguma coisa der errado, eu poderia ficar numa saia justa com seus colegas.</p><p>� Acho que n�o. O Edklinth � legal. E estamos muito dispostos a pegar esse clube Zalachenko. Parece uma loucura, se as suas teorias estiverem certas.</p><p>� Vamos ver.</p><p>� Voc� tamb�m teve um caso com a Lisbeth Salander. Mikael ergueu os olhos e encarou Rosa.</p><p>� Ei... eu n�o sou um di�rio �ntimo que todo mundo pode ler. Ningu�m tem nada a ver com a minha rela��o com a Lisbeth.</p><p>� Ela � filha do Zalachenko.</p><p>� �. E tem que conviver com isso. Mas ela n�o � o Zalachenko. Tem uma enorme diferen�a a�.</p><p>� N�o foi isso que eu quis dizer. Eu s� estava me perguntando sobre o seu envolvimento nessa hist�ria.</p><p>� A Lisbeth � minha amiga. � raz�o mais que suficiente.</p><p>Susanne Linder, da Milton Security, estava usando jeans, uma jaqueta de couro preta e t�nis de corrida. Chegou a Saltsj�baden por volta das nove da noite, foi inteirada da situa��o por David Rosin e deu uma volta pela casa com ele. Trazia um laptop, um cassetete da pol�cia, uma bomba de g�s lacrimog�neo, algemas e uma escova de dentes numa mochila militar verde que ela abriu no quarto de h�spedes de Erika Berger. Erika lhe ofereceu um caf�.</p><p>� Obrigada. A senhora talvez me veja como uma visita e ache que tem obriga��o de me agradar de todas as maneiras poss�veis. Na verdade, n�o tenho nada de visita. Sou um mal necess�rio que apareceu de repente na sua vida, mesmo que seja s� por uns dias. Trabalhei seis anos como policial e quatro na Milton Security. Tenho diploma de guarda-costas.</p><p>� Ah�.</p><p>� Existe uma amea�a contra a senhora e estou aqui como sua guardi�, para que a senhora possa dormir tranq�ila, trabalhar, ler um livro, fazer o que tiver vontade. Se precisar conversar, estou pronta para escut�-la. Se n�o, eu trouxe um livro para me fazer companhia.</p><p>� �timo.</p><p>� O que eu quero dizer � que a senhora pode seguir com a sua vida sem se sentir no dever de me dar aten��o. Sen�o, logo vai come�ar a me sentir como uma intrusa no seu dia a dia. O melhor seria me considerar uma colega ocasional.</p><p>� A verdade � que n�o estou acostumada com este tipo de situa��o. J� recebi amea�as na �poca em que era diretora da Millennium, mas tinha a ver com meu trabalho. Agora trata-se de uma pessoa superdesagrad�vel que...</p><p>� Que pegou no seu p�.</p><p>� �, por a�.</p><p>� Se tivermos mesmo que montar uma prote��o pessoal, isso vai lhe custar os olhos da cara e ter�amos que conversar com o Dragan Armanskij. S� valeria a pena se a amea�a fosse muito clara e espec�fica. Fa�o isso apenas para ganhar um dinheirinho extra. Cobro quinhentas coroas por noite para dormir aqui at� o final da semana, em vez de dormir na minha casa. N�o � caro, � muito menos do que eu pediria se pegasse esse servi�o por interm�dio da Milton. Est� bem para a senhora?</p><p>� Est� muito bem.</p><p>� Se acontecer o que quer que seja, quero que se tranque no quarto e deixe o agito por minha conta. A senhora s� precisa acionar o alarme anti-agress�o.</p><p>� Entendo.</p><p>� Estou falando s�rio. N�o quero a senhora me atrapalhando se houver confus�o.</p><p>Erika Berger foi se deitar por volta das onze horas. Ouviu o estalido da fechadura quando fechou a porta do quarto. Despiu-se, pensativa, e deitou-se na cama.</p><p>Embora sua convidada a tivesse encorajado a n�o lhe dar aten��o, passara duas horas com Susanne Linder � mesa da cozinha. Descobrira que elas se entendiam bem e que a conversa flu�a sem dificuldade. Tinham falado sobre psicologia e essa tend�ncia que leva alguns homens a perseguir mulheres. Susanne Linder afirmara que n�o estava nem a� para a lenga-lenga psicol�gica. Disse que era importante deter os malucos, que gostava muit�ssimo do seu trabalho na Milton Security e que sua miss�o era, em boa parte, servir de medida preventiva contra os doidos.</p><p>� Por que voc� saiu da pol�cia? � perguntou Erika Berger.</p><p>� Pergunte antes por que me tornei policial.</p><p>� Certo. Por que voc� se tornou policial?</p><p>� Porque, quando eu tinha dezessete anos, uma amiga �ntima minha foi agredida e estuprada por tr�s marginais dentro de um carro. Eu me tornei policial porque tinha uma imagem rom�ntica da pol�cia, achava que ela existia para impedir esse tipo de crime.</p><p>� Sim...</p><p>� N�o consegui impedir cois�ssima nenhuma. Como policial, eu sempre chegava ao local depois que o crime j� tinha sido cometido. N�o ag�entei ser a idiota que faz perguntas idiotas na viatura da pol�cia. E logo descobri que certos crimes nunca s�o solucionados. Voc� � um bom exemplo. Voc� tentou avisar a pol�cia do que aconteceu?</p><p>� Tentei.</p><p>� E a pol�cia veio correndo para c�?</p><p>� N�o exatamente. Sugeriram que eu fizesse um B. O. na delegacia mais pr�xima.</p><p>� Bem, ent�o voc� entende. Agora trabalho para o Armanskij e entro em cena antes de o crime ser cometido.</p><p>� Amea�as contra mulheres?</p><p>� Trabalho em v�rias dire��es. An�lise de seguran�a, prote��o pessoal vigil�ncia etc. Mas muitas vezes se trata de pessoas que receberam amea�as e gosto muito mais disso que da pol�cia.</p><p>� Humm.</p><p>� Mas reconhe�o que tamb�m existe um inconveniente.</p><p>� Ah, �? Qual?</p><p>� S� oferecemos ajuda aos clientes que podem pagar.</p><p>Deitada, Erika Berger refletia sobre o que Susanne Linder tinha dito. Nem todo mundo tinha condi��es de pagar para ter seguran�a. Quanto a ela aceitara sem piscar a sugest�o de David Rosin para trocar v�rias portas, chamar os t�cnicos e instalar sistemas duplos de alarme e tudo mais. A conta de todas aquelas medidas chegaria a cinq�enta mil coroas. Ela podia pagar.</p><p>Refletiu um instante sobre sua impress�o de que quem a amea�ava tinha alguma liga��o com o SMP. Essa pessoa sabia que ela estava com o p� machucado. Pensou em Lukas Holm. N�o gostava dele, o que contribu�a para dirigir suas suspeitas a ele, mas por outro lado a not�cia de que ela machucara o p� tinha se espalhado depressa na reda��o, assim que ela chegara usando muletas.</p><p>E ela ainda precisava enfrentar o problema Borgsj�.</p><p>Sentou-se na cama de repente, franziu o cenho e olhou em volta. Perguntava-se onde havia deixado a pasta de Henry Cortez sobre Borgsj� e a Vitavara S.A.</p><p>Erika se levantou, enfiou o roup�o e apoiou-se na bengala. Ent�o abriu a porta do quarto, foi at� o seu escrit�rio, acendeu a luz. N�o, ela n�o tinha voltado ao escrit�rio desde que... desde que lera o dossi� na banheira na noite anterior. Deixara-o na beira da janela.</p><p>Entrou no banheiro. A pasta n�o estava na janela.</p><p>Permaneceu um bom tempo im�vel, refletindo.</p><p>Eu sa� da banheira, depois fui ligar a cafeteira, pisei no caco de vidro e minha cabe�a ficou envolvida com outras coisas.</p><p>Ela n�o lembrava de ter visto a pasta de manh�. N�o a tinha guardado em outro lugar.</p><p>De repente, sentiu que gelava. Passou os cinco minutos seguintes vasculhando o banheiro sistematicamente, revirando pilhas de pap�is e jornais na cozinha e em seu quarto. Por fim, viu-se obrigada a reconhecer que a pasta havia sumido.</p><p>Em algum momento depois que ela pisara no caco de vidro e antes que ! David Rosin aparecesse naquela manh�, algu�m tinha entrado no banheiro e pegado os documentos da Milennium sobre a Vitavara S.A.</p><p>Ent�o ela se lembrou que guardava outros segredos em casa. Foi mancando at� o quarto e abriu a gaveta de baixo, junto � cama. Seu cora��o se desfez dentro do peito. Todo mundo tem seus segredos. Erika Berger guardava os seus na c�moda do quarto. N�o mantinha um di�rio �ntimo regular, mas o fizera em certos per�odos. Na gaveta estavam tamb�m antigas cartas de amor de sua adolesc�ncia.</p><p>Havia tamb�m um envelope com fotos que tinham tido gra�a quando foram tiradas, mas que eram impr�prias para publica��o. Quando Erika tinha uns vinte e cinco anos, fora membro do Clube Extremo, que organizava festas particulares para amantes do couro e do l�tex. Havia fotos suas, tiradas nessas festas, em que ela n�o parecia nada bem no quesito sobriedade.</p><p>E desastre total: havia um v�deo feito durante umas f�rias no in�cio dos anos 1990, quando ela e o marido tinham se hospedado na casa do artista vidreiro Torkel Bollinger, na Costa dei Sol. Nessas f�rias, Erika descobrira que seu marido tinha uma clara tend�ncia bissexual, e os dois haviam acabado na cama de Torkel. Tinham sido f�rias maravilhosas. Na �poca, as c�meras de v�deo ainda eram um fen�meno relativamente recente e o filme que haviam produzido n�o era do tipo que se deixa ao alcance das crian�as.</p><p>A gaveta estava vazia.</p><p>Como eu pude ser burra a esse ponto?</p><p>No fundo da gaveta, algu�m pichara as duas palavras que j� haviam se tornado familiares.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>19. SEXTA-FEIRA 3 DE JUNHO � S�BADO 4 DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander terminou de escrever sua biografia por volta das quatro da manh� de sexta-feira, e mandou uma c�pia para Mikael Blomkvist pelo grupo Yahoo [T�vola-Biruta]. Depois ficou deitada, im�vel, contemplando o teto.</p><p>Deu-se conta que no dia 30 de abril completara vinte e sete anos, mas que n�o tinha se lembrado de seu anivers�rio. Estava no cativeiro. Tivera a mesma experi�ncia na cl�nica de psiquiatria infantil de Sankt Stefan e, se os ventos n�o virassem a seu favor, estava arriscada a passar v�rios outros anivers�rio numa institui��o qualquer.</p><p>Isso ela n�o pretendia aceitar.</p><p>A �ltima vez que tinha sido trancafiada, ainda n�o era uma adolescente. Agora, era adulta, com outros conhecimentos e compet�ncias. Perguntou-se quanto tempo precisaria para fugir, colocar-se em seguran�a em algum lugar no exterior e conseguir uma nova identidade e uma nova vida.</p><p>Levantou-se da cama, foi ao banheiro e olhou-se no espelho. N�o mancava mais. Apalpou o quadril no lugar onde o ferimento causado pela bala criara uma cicatriz. Girou os bra�os e esticou o ombro. Sentiu umas pontadas, mas ela estava praticamente restabelecida. Deu umas batidinhas na cabe�a. Supunha que seu c�rebro n�o havia sofrido grandes danos, apesar de ter sido perfurado por uma bala.</p><p>Tivera muita sorte.</p><p>Quando ainda estava sem seu computador de m�o, tinha se ocupado pensando numa maneira de fugir daquele quarto trancado do hospital Sahlgrenska.</p><p>Depois, Anders Jonasson e Mikael Blomkvist haviam atropelado seus planos fornecendo-lhe o computador. Ela lera os textos de Mikael Blomkvist e refletira bastante. Tinha analisado as conseq��ncias, pensado no plano de Mikael e avaliado as possibilidades. E resolvera, pela primeira vez, que iria aceitar a sugest�o dele. Ia testar o sistema. Mikael Blomkvist a convencera de que ela realmente n�o tinha nada a perder, e oferecia-lhe uma possibilidade de fuga bem diferente. Se o plano fracassasse, s� lhe restaria pensar numa forma de fugir da cl�nica Sankt Stefan ou de algum outro hospital de doidos.</p><p>O que a convencera a aceitar o plano de Mikael fora sua sede de vingan�a.</p><p>Ela n�o perdoava.</p><p>Zalachenko, Bj�rck e Bjurman estavam mortos.</p><p>Mas Teleborian ainda estava vivo.</p><p>Assim como Ronald Niedermann, seu irm�o. Mesmo que, a princ�pio, ele n�o fosse problema dela. Certo, ele estivera ali para assassin�-la e enterr�-la, mas ainda assim ela o considerava secund�rio. Se eu topar com ele algum dia, a� a gente v�, mas at� l� ele � um problema da pol�cia.</p><p>Mikael tinha raz�o. Por tr�s da conspira��o havia outros rostos desconhecidos que haviam contribu�do para moldar a vida dela. Ela precisava saber os nomes e curr�culos desses rostos an�nimos.</p><p>Assim, resolvera seguir o plano de Mikael e escrevera a verdade nua sobre sua vida, sem maquiagem, na forma de uma biografia fria e seca de quarenta p�ginas. Tomara o maior cuidado com suas afirma��es. Todas as frases eram ver�dicas. Aceitara o racioc�nio de Mikael segundo o qual a m�dia sueca j� havia divulgado tantas fantasias grotescas sobre ela, que uma cota verdadeira de loucura n�o iria prejudicar sua reputa��o.</p><p>Em compensa��o, a biografia era falsa porque ela n�o contava de fato toda a verdade sobre si mesma e sobre sua vida. N�o tinha nenhum motivo para isso.</p><p>Voltou para a cama e se enfiou debaixo das cobertas. Sentia uma irrita��o que n�o conseguia definir. Esticou-se para apanhar o bloco de anota��es que Annika Giannini lhe dera e que praticamente n�o usara. Abriu a primeira p�gina, onde anotara apenas uma linha.</p><p>(x'+f=z')</p><p>No inverno anterior ela havia passado v�rias semanas nas Antilhas queimando neur�nios at� quase pirar, tentando solucionar o teorema de Fermat. Ao voltar para a Su�cia, e antes de ser envolvida na ca�ada a Zalachenko, continuara brincando com as equa��es. Seu problema agora era a sensa��o enervante de ter vislumbrado uma solu��o... de ter vivenciado uma solu��o.</p><p>Mas n�o conseguia se lembrar.</p><p>N�o se lembrar de alguma coisa era um fen�meno desconhecido para Lisbeth Salander. Ela fizera alguns testes, entrando na internet e pin�ando ao acaso alguns c�digos HTML, que ela lera de um jato e decorara, e depois reconstitu�ra corretamente.</p><p>N�o tinha perdido sua mem�ria fotogr�fica, que ela vivenciava como uma maldi��o.</p><p>Tudo estava como sempre fora na sua cabe�a.</p><p>A n�o ser por isto: tinha a impress�o de ter visto uma solu��o para o teorema de Fermat, mas n�o conseguia se lembrar onde, quando ou como.</p><p>O pior � que n�o sentia o menor interesse pelo enigma. O teorema de Fermat j� n�o lhe interessava. Mau sinal. Era bem assim que ela funcionava. Ficava fascinada por um enigma, mas depois que o desvendava perdia o interesse por ele.</p><p>Era exatamente o que sentia em rela��o a Fermat. Ele j� n�o era aquele diabinho saltitando em seu ombro, pedindo aten��o e ati�ando sua intelig�ncia. N�o passava de uma f�rmula ins�pida, de rabiscos numa folha de papel, e ela n�o tinha a menor vontade de mexer nisso.</p><p>O que era preocupante. Largou o bloco de anota��es.</p><p>Ela deveria ir dormir.</p><p>Em vez disso, tornou a pegar o computador de m�o e conectou-se � internet. Refletiu por um momento e ent�o entrou no disco r�gido de Dragan Armanskij, que ela n�o visitava desde que recebera o computador. Armanskij vinha colaborando com Mikael Blomkvist, mas ela n�o sentira uma necessidade imediata de ver no que ele trabalhava.</p><p>Leu distraidamente sua correspond�ncia eletr�nica.</p><p>Ent�o deparou com a an�lise de seguran�a feita por David Rosin para a resid�ncia de Erika Berger. Franziu o cenho.</p><p>Erika Berger estava com um ciberassediador na sua cola.</p><p>Encontrou o relat�rio de uma funcion�ria chamada Susanne Linder, que aparentemente pernoitara na casa de Erika Berger e enviara um relat�rio por e-mail � noite. Deu uma olhada no hor�rio. O e-mail fora enviado pouco antes das tr�s da manh� e relatava que Berger descobrira que di�rios �ntimos, cartas e fotografias, al�m de um v�deo de car�ter estritamente pessoal, haviam sido roubados de uma c�moda de seu quarto.</p><p>[Depois de conversarmos sobre o incidente, conclu�mos que o roubo deve ter ocorrido enquanto a Sra. Berger ainda se encontrava no hospital de Nacka, depois de ter pisado num caco de vidro. Por um per�odo de mais ou menos duas horas e meia, a casa ficou sem vigil�ncia e com o alarme incompleto da NIP fora de funcionamento. Exceto isso, ou Berger ou David Rosin estiveram o tempo todo na casa at� o roubo ser descoberto.</p><p>Pode-se deduzir que o assediador da Sra. Berger devia estar nas proximidades e viu quando ela saiu de t�xi, como decerto tamb�m viu que ela estava mancando e com o p� machucado. Ent�o aproveitou a oportunidade para entrar na casa.</p><p>Lisbeth fechou o discou r�gido de Armanskij e desligou, pensativa, o computador de m�o. Estava tomada por sentimentos contradit�rios.</p><p>N�o tinha motivo nenhum para gostar de Erika Berger. Ainda se lembrava de como se sentira humilhada ao v�-la desaparecer na Hornsgatan com Mikael Blomkvist um ano e meio atr�s, no dia 30 de dezembro.</p><p>Fora o momento mais idiota de toda a sua vida e ela nunca mais se permitiria sentir aquilo de novo.</p><p>Lembrava-se do �dio irracional que a invadira e do desejo de alcan��-los e de machucar Erika Berger.</p><p>Fora doloroso.</p><p>Ela estava curada.</p><p>�timo. Portanto, n�o tinha motivo nenhum para gostar de Erika BemP&amp;er.</p><p>No instante seguinte, perguntou-se qual seria o conte�do do v�deo de car�ter estritamente pessoal de Berger. Ela tamb�m possu�a um v�deo de car�ter estritamente pessoal que mostrava o calhorda do Nils Bjurman violentando. O v�deo estava agora com Mikael Blomkvist. Perguntou-se como ela reagiria se algu�m entrasse em sua casa e roubasse o filme. Que era o que Mikael Blomkvist, afinal, tinha feito, embora n�o com o objetivo de prejudic�-la.</p><p>Humm.</p><p>Complicado.</p><p>Erika Berger n�o conseguiu dormir na noite de sexta para s�bado. Ficou andando incansavelmente pela casa, manquejando, enquanto Susanne Linder ficava de olho nela. Sua ang�stia pairava na casa como uma verdadeira neblina.</p><p>Por volta das duas e meia, Susanne Linder conseguiu convencer Berger a pelo menos se deitar para descansar um pouco, mesmo sem dormir. Deu um suspiro de al�vio quando Berger fechou a porta do quarto. Abriu seu lap-top e resumiu o que se passara num e-mail para Dragan Armanskij. Mal tinha tido tempo de enviar o e-mail, quando voltou a ouvir Erika Berger de p�, se movimentando.</p><p>Por volta das sete da manh�, conseguira convencer Erika Berger a ligar para o SMP dizendo que estava doente e que n�o iria ao jornal naquele dia. A contragosto, Erika admitira que n�o trabalharia com muita efici�ncia com os olhos se fechando de sono. Em seguida, dormira no sof� da sala, diante da janela vedada com a chapa de compensado. Susanne Linder fora pegar um cobertor. Depois fizera um caf� e ligara para Dragan Armanskij, a fim de explicar sua presen�a no local e como fora chamada por David Rosin.</p><p>� Eu tamb�m n�o preguei o olho esta noite � disse Susanne Linder.</p><p>� Certo. Fique a� com a Berger. V� se deitar e durma algumas horas � disse Armanskij.</p><p>� N�o sei como vou faturar isso...</p><p>� Depois a gente d� um jeito.</p><p>Erika Berger dormiu at� as duas e meia da tarde. Quando acordou, deu com Susanne Linder dormindo numa poltrona do outro lado da sala.</p><p>Rosa Figuerola perdeu a hora na sexta-feira de manh� e n�o teve tempo de fazer sua corrida matinal antes de ir trabalhar. P�s a culpa em Mikael, tomou um banho e o fez sair da cama rapidinho.</p><p>Mikael Blomkvist foi at� a Millennium, e todos se surpreenderam ao v�-lo chegar t�o cedo. Ele resmungou uma explica��o qualquer, foi pegar um caf� e chamou Malu Eriksson e Henry Cortez � sua sala. Passaram tr�s horas revisando os textos para a edi��o tem�tica que estava para sair e conferiram o andamento da produ��o de livros.</p><p>� O livro do Dag Svensson foi para a gr�fica ontem � disse Malu. � Vai sair em formato de bolso.</p><p>� Certo.</p><p>� A revista vai sair com o t�tulo The Lisbeth Salander Story � disse Henry Cortez. � Est�o alterando a data, mas o julgamento est� marcado para a quarta-feira 13 de julho. A revista j� vai estar impressa, por�m vamos esperar at� o meio da semana para come�ar a distribui��o. Voc� � que decide a data em que ela deve estar nas bancas.</p><p>� �timo. Ent�o s� falta o livro do Zalachenko, que no momento est� um verdadeiro pesadelo. T�tulo: A Se��o. A primeira parte, na verdade, � o que vamos publicar na Millennium. O ponto de partida � o assassinato de Dag Svensson e Mia Bergman, depois temos a ca�ada a Lisbeth Salander, Zalachenko e Niedermann. A segunda parte do livro vai falar do que sabemos sobre a Se��o.</p><p>� Mikael, mesmo que a gr�fica fa�a todo o poss�vel, temos que entregar os originais definitivos, prontos para imprimir, no m�ximo em 30 de junho � disse Malu. � O Christer precisa de uns dois, tr�s dias para diagramar. lemos pouco mais de duas semanas. N�o vejo como a gente vai conseguir.</p><p>� N�o vamos ter tempo de levantar a hist�ria toda � admitiu Mikael. � Mas acho que n�o conseguir�amos nem que tiv�ssemos um ano pela frente. O que vamos fazer nesse livro � expor o que aconteceu. Se n�o conseguirmos nenhuma fonte para dar uma declara��o, eu mesmo escrevo e dou a minha declara��o. Se ficarmos s� especulando, isso vai transparecer. De um lado, a gente escreve o que aconteceu e n�o podemos provar; de outro, o que a gente acha que aconteceu.</p><p>� Ou seja, uma coisa capenga � disse Henry Cortez. Mikael balan�ou a cabe�a.</p><p>� Se eu disser que algu�m da Sapo entrou no meu apartamento e provo isso com um v�deo, ent�o est� provado. Se eu disser que quem mandou fazer isso foi a Se��o, � especula��o, mas, diante de todas as revela��es que vamos fazer, � uma especula��o plaus�vel. Entende?</p><p>� �...</p><p>� N�o vou ter tempo de escrever todos os textos sozinho. Henry, estou com uma lista de textos para voc� rever. S�o umas cinq�enta p�ginas do livro. Malu, voc� d� assist�ncia ao Henry, como quando a gente fez o livro do Dag Svensson? N�s tr�s vamos assinar o livro. Tudo bem para voc�s?</p><p>� Claro � disse Malu. � S� que temos outros problemas.</p><p>� Quais?</p><p>� Enquanto voc� enlouquecia com o caso Zalachenko, a gente aqui ficou com um puta trabalho para fazer...</p><p>� Voc� quer dizer que eu n�o ando dispon�vel? Malu Eriksson fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Tem raz�o. Desculpe.</p><p>� N�o se desculpe. Todos n�s sabemos que quando voc� fica obcecado com um caso, o resto deixa de existir. Mas com a gente n�o funciona assim. N�o funciona comigo. A Erika Berger podia contar comigo. Eu tenho o Henry, e ele � b�rbaro, mas est� trabalhando na sua mat�ria tanto quanto voc�. Mesmo contando com voc�, ainda faltam duas pessoas na reda��o.</p><p>� Certo.</p><p>� E eu n�o sou a Erika Berger. Ela tinha uma quilometragem que eu n�o tenho. Ainda estou aprendendo. A Monika Nilsson est� se matando de trabalhar. E a Lottie Karim tamb�m. S� que ningu�m tem tempo nem de parar para pensar.</p><p>� Tudo isso � passageiro. Assim que o julgamento come�ar...</p><p>� N�o, Mikael. N�o vai passar. Quando o julgamento come�ar, vai ser um inferno. Lembre-se do caso Wennerstr�m. O que vai acontecer � que n�o vamos te ver por uns dois meses, enquanto voc� estiver se exibindo no hor�rio nobre da tev�.</p><p>Mikael suspirou. Balan�ou a cabe�a devagar.</p><p>� O que voc� sugere?</p><p>� Se quisermos dar conta da Millennium desse outono, vamos precisar contratar pelo menos duas pessoas, talvez mais. N�o temos condi��es de fazer o que estamos pretendendo e...</p><p>� E?</p><p>� E nem tenho certeza se quero mesmo fazer isso.</p><p>� Entendo.</p><p>� Estou falando s�rio. Eu sou uma �tima assistente editorial, e as coisas rolavam numa boa com a Erika na chefia. Combinamos de fazer um teste no ver�o... Bem, a gente tentou. N�o sou uma boa redatora-chefe.</p><p>� Isso � bobagem � disse Henry Cortez. Malu meneou a cabe�a.</p><p>� Certo � disse Mikael. � Estou entendendo. Mas considere que estamos passando por uma situa��o at�pica.</p><p>Malu sorriu para ele.</p><p>� Voc� deve encarar isso como a reclama��o de uma funcion�ria � disse ela.</p><p>A unidade de interven��o da Brigada de Prote��o � Constitui��o passou a sexta-feira tentando elucidar a informa��o fornecida por Mikael Blomkvist. Dois colaboradores se instalaram num escrit�rio provis�rio na Fridhemsplan, e ali ficou centralizada toda a documenta��o. Era pouco pr�tico, j� que todo o sistema de computa��o ficava no Pal�cio da Pol�cia e os colaboradores, portanto, tinham de ir e vir todos os dias. Mesmo sendo um trajeto de apenas minutos, era inc�modo. Ao meio-dia, j� dispunham de uma ampla documenta��o mostrando que tanto Fredrik Clinton como Hans von Rottinger tinham sido ligados � Sapo nos anos 1960 e in�cio dos 1970.</p><p>Rottinger era origin�rio do servi�o de informa��es militares e trabalhara v�rios anos na ag�ncia coordenando Defesa e Seguran�a. Fredrik Clinton tinha passado pela For�a A�rea e come�ara a trabalhar no controle de pessoal da Sapo em 1967.</p><p>Ambos, por�m, haviam sa�do da Sapo no in�cio dos anos 1970; Clinton em 1971 e Rottinger em 1973. Clinton voltara para a vida civil como consultor e Rottinger tinha sido contratado para fazer investiga��es pela Ag�ncia Internacional de Energia At�mica. Fora baseado em Londres.</p><p>A tarde j� ia longe quando Rosa Figuerola foi bater � porta de Edklinth para contar que tudo indicava que as carreiras de Clinton e Rottinger, desde que haviam deixado a Sapo, tinham sido forjadas. A carreira de Clinton era dif�cil de rastrear. Trabalhar como consultor para o setor industrial pode significar praticamente qualquer coisa. A pessoa n�o tem obriga��o de prestar contas de suas atividades ao Estado. As declara��es de renda de Clinton mostravam que ele ganhava muito dinheiro; infelizmente, sua clientela parecia ser formada, sobretudo, por empresas an�nimas sediadas na Su��a e em pa�ses similares. Portanto, n�o era muito f�cil provar que tudo aquilo n�o passava de fachada.</p><p>Rottinger, em compensa��o, nunca pusera os p�s no escrit�rio de Londres onde supostamente trabalhava. Em 1973, na verdade o pr�dio onde ficava o tal escrit�rio havia sido demolido e substitu�do por uma extens�o da King's Cross Station. Era �bvio que algu�m se enganara redondamente ao criar aquela lenda. Durante o dia, a equipe de Figuerola conversou com v�rios colaboradores aposentados da Ag�ncia Internacional de Energia At�mica. Nenhum deles sequer ouvira falar em Rottinger.</p><p>� J� temos as informa��es � disse Edklinth. � Agora s� nos resta descobrir quais as reais atividades desses senhores.</p><p>Rosa Figuerola concordou com a cabe�a.</p><p>� E quanto ao Blomkvist, o que a gente faz?</p><p>� Como assim?</p><p>� N�s prometemos mant�-lo informado do que descobr�ssemos sobre Clinton e Rottinger.</p><p>Edklinth refletiu.</p><p>� Est� certo. E ele mesmo vai acabar descobrindo se continuar vasculhando. Mais vale mantermos boas rela��es com ele. Voc� conta para o Blomkvist. Mas use a cabe�a.</p><p>Rosa Figuerola prometeu. Conversaram alguns minutos sobre a agenda do fim de semana. Dois colaboradores de Rosa iam continuar trabalhando. Ela estaria de folga.</p><p>Ela bateu seu ponto e foi at� a academia da Pra�a Sankt Erik, onde passou duas horas se recuperando desenfreadamente do treino que havia perdido. Ao voltar para casa por volta das sete da noite, tomou um banho, preparou uma refei��o leve e ligou a tev� para ver o notici�rio. Por voltas das sete e meia, j� estava zanzando � toa e cal�ou o t�nis de corrida. Deteve-se � porta de casa e pensou um pouco. Maldito Blomkvist! Pegou o celular e ligou para o de Mikael.</p><p>� Descobrimos umas duas, tr�s coisas sobre o Rottinger e o Clinton.</p><p>� Fale � disse Mikael.</p><p>� Se voc� vier me visitar eu te conto.</p><p>� Humm � fez Mikael.</p><p>� Acabei de p�r o t�nis de corrida para ir gastar meu excesso de energia � disse Rosa Figuerola. � Saio ou te espero?</p><p>� Est� bem para voc� se eu chegar depois das nove?</p><p>� Est� �timo.</p><p>Por volta das oito da noite de sexta-feira, o Dr. Anders Jonasson foi ver Lisbeth Salander. Ele se sentou na poltrona dos visitantes e recostou-se.</p><p>� Vai me examinar? � perguntou Lisbeth Salander.</p><p>� N�o. Hoje n�o.</p><p>� Que maravilha!</p><p>� Fizemos uma avalia��o do seu estado hoje e informamos o procurador de que estamos prontos para lhe dar alta.</p><p>� Entendo.</p><p>� Eles queriam transferir voc� para a casa de deten��o de G�teborg esta noite mesmo.</p><p>� T�o r�pido?</p><p>Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� Parece que Estocolmo est� pressionando. Eu disse que ainda tinha uns testes para fazer com voc� amanh� e que n�o ia liber�-la antes de domingo.</p><p>� Por qu�?</p><p>� N�o sei. A pressa deles me irritou.</p><p>Lisbeth Salander sorriu de verdade. Ela sem d�vida conseguiria transformar o Dr. Anders Jonasson num bom anarquista, se lhe dessem alguns anos. Pelo menos tend�ncias � desobedi�ncia civil ele tinha.</p><p>� Fredrik Clinton � disse Mikael Blomkvist, olhos fixos no teto acima da cama de Rosa Figuerola.</p><p>� Acenda esse cigarro e eu apago ele no seu umbigo � disse Rosa. Mikael olhou, surpreso, para o cigarro que acabava de tirar do bolso do palet�.</p><p>� Desculpe � disse ele. � Voc� me empresta a sua sacada?</p><p>� S� se voc� escovar os dentes depois.</p><p>Ele concordou balan�ando a cabe�a e se enrolou num len�ol. Ela o seguiu at� a cozinha e encheu um copo grande com �gua fria. Apoiou-se no v�o da porta da sacada.</p><p>� Fredrik Clinton?</p><p>� Ele ainda est� vivo. � o elo com o passado.</p><p>� Ele est� morrendo. Precisa de um rim, e passa a maior parte do tempo fazendo di�lise ou algum outro tratamento.</p><p>� Mas est� vivo. Poder�amos entrar em contato com ele e perguntar diretamente. Ele talvez queira falar.</p><p>� N�o � disse Rosa. � Em primeiro lugar, trata-se de um inqu�rito preliminar e a pol�cia � que est� investigando. N�s n�o existimos nessa hist�ria. Em segundo lugar, como foi combinado com Edklinth, voc� est� recebendo as informa��es, mas se comprometeu a n�o atrapalhar a investiga��o.</p><p>Mikael olhou para ela e sorriu. Apagou o cigarro.</p><p>� Epa � disse ele. � Olha a Sapo puxando a coleira... De repente, ela pareceu preocupada.</p><p>� Mikael, eu n�o estou brincando.</p><p>Quando Erika Berger foi para o Svenska Morgon-Posten no s�bado de manh�, estava com um n� no est�mago. Sentia que come�ava a dominar o modo de fazer o jornal e na verdade planejara tirar folga no fim de semana � pela primeira vez desde que entrara no SMP�, por�m ter descoberto que suas lembran�as mais pessoais e �ntimas haviam sumido junto com o relat�rio sobre Borgsj� a impedia de relaxar totalmente.</p><p>Durante sua noite em claro, passada em boa parte na cozinha com Su-sanne Linder, Erika esperara que Pena Podre atacasse outra vez e que imagens suas, que podiam ser tudo menos lisonjeiras, fossem rapidamente divulgadas. A internet era uma arma perfeita para os canalhas. Meu Deus, um v�deo em que eu apare�o trepando com meu marido e outro homem, e eu vou sair nos jornais sensacionalistas do mundo inteiro. N�o poderia haver coisa mais �ntima.</p><p>Durante toda a noite, fora torturada pelo p�nico e pela ang�stia.</p><p>Por fim, Susanne Linder a obrigara a ir se deitar.</p><p>Levantou-se �s oito horas e foi para o SMP. N�o conseguia ficar longe por muito tempo. Se havia uma tempestade esperando por ela, queria ser a primeira a enfrent�-la.</p><p>Mas na equipe de reda��o, reduzida por ser s�bado, estava tudo normal. As pessoas a cumprimentaram cordialmente quando ela passou pelo p�lo central. Lukas Holm n�o estava trabalhando. Peter Fredriksson chefiava Atualidades.</p><p>� Oi, achei que voc� n�o vinha trabalhar hoje.</p><p>� Eu tamb�m. Mas ontem eu n�o estava bem, e tenho umas pend�ncias. Alguma novidade?</p><p>� N�o, o notici�rio est� fraco. O que temos de mais excitante � a divulga��o de uma melhora na situa��o do setor madeireiro na Dalecarlia e um assalto em Norrk�ping com um ferido.</p><p>� Certo. Vou trabalhar um pouco na primeira p�gina.</p><p>Sentou-se, apoiou as muletas na estante de livros e se conectou � internet. Primeiro, abriu os e-mails. Tinha recebido v�rios, mas nada do Pena Podre. Franziu o cenho. J� haviam se passado dois dias desde o assalto a sua casa e ele ainda n�o reagira ao que deveria representar um aut�ntico tesouro de possibilidades. Por qu�? Ser� que est� pretendendo mudar de t�tica? Quer me deixar em suspense?</p><p>Como ela n�o tinha nenhum trabalho especial para fazer, abriu o arquivo da estrat�gia para o SMP que estava escrevendo. Ficou olhando para a tela por uns quinze minutos, sem nem ver as letras.</p><p>Tinha tentado falar com Lars, sem sucesso. Nem sabia se o celular dele funcionava em outro pa�s. Claro que poderia localiz�-lo se fizesse um esfor�o, mas sentia-se completamente ap�tica. Ou melhor, sentia-se desesperada e paralisada.</p><p>Tentou ligar para Mikael Blomkvist no intuito de avisar que o dossi� Borgsj� havia sido roubado. Ele n�o atendia.</p><p>�s dez da manh�, ainda n�o tinha feito nada de importante e resolveu voltar para casa. Estava estendendo a m�o para desligar o computador quando seu ICQ tilintou. At�nita, fitou o menu. Sabia o que era o ICQ, mas raramente entrava em chats e nunca usara aquele programa desde que come�ara no SMP.</p><p>Hesitante, clicou em Responder.</p><p>[Oi, Erika.]</p><p>[Oi. Quem �?]</p><p>[� particular. Voc� est� sozinha?]</p><p>Uma armadilha? Pena Podre?</p><p>[Estou. Quem � voc�?]</p><p>[A gente se conheceu no apartamento do Super-Blomkvist quando ele voltou de Sandhamn.]</p><p>Erika contemplou a tela. Levou alguns segundos at� entender. Lisbeth Salander, isso � imposs�vel.</p><p>[Voc� est� a�?] [Estou.]</p><p>[Sem citar nomes. Voc� sabe quem eu sou?] [Como posso saber que n�o � uma armadilha?] [Eu sei como o Milcael adquiriu aquela cicatriz no pesco�o.]</p><p>Erika engoliu em seco. Apenas quatro pessoas no mundo sabiam como ele adquirira aquela cicatriz. Lisbeth Salander era uma delas.</p><p>[Certo. Mas como voc� est� conseguindo falar comigo?] [Eu costumo me sair bem em computa��o.]</p><p>A Lisbeth Salander � fera em computa��o. Mas queria que algu�m me explicasse como ela consegue se comunicar estando em Sahlgrenska e isolada desde abril.</p><p>[Certo.]</p><p>[Posso confiar em voc�?]</p><p>[Em que sentido?]</p><p>[Esta conversa tem que ficar entre n�s.]</p><p>Ela n�o quer que a pol�cia saiba que ela tem acesso � internet. Claro. Por isso � que ela est� batendo papo com a redatora-chefe de um dos maiores jornais da Su�cia.</p><p>[N�o tem problema. O que voc� quer?] [Ressarcir.] [Como assim?] [A Millennium me apoiou.] [Fizemos o nosso trabalho.] [Ao contr�rio de outros ve�culos.]</p><p>[Voc� n�o � culpada das acusa��es que est�o lhe fazendo.] [Tem um canalha assediando voc�.]</p><p>O cora��o de Erika disparou. Hesitou por um bom tempo.</p><p>[O que voc� sabe?]</p><p>[V�deo roubado. Arrombamento.] [Sim. Voc� pode fazer alguma coisa?]</p><p>Erika Berger custou a acreditar que ela mesma tinha feito aquela pergunta. Era uma loucura absoluta. Lisbeth Salander estava hospitalizada em Sahlgrenska e j� estava mais que saturada de problemas. Era a pessoa menos prov�vel para Erika pedir ajuda.</p><p>[N�o sei. Deixe eu tentar.] [Como?]</p><p>[Pergunta. Voc� acha que esse cretino � do SMP?] [N�o tenho como provar.] [Por que voc� acha que ele � do SMP?]</p><p>Erika ponderou por algum tempo antes de responder.</p><p>[� uma sensa��o. Come�ou quando eu entrei no SMP. Outras pessoas do jornal tamb�m receberam e-mails desagrad�veis do Pena Podre como se tivessem sido mandados por mim.]</p><p>[Pena Podre?]</p><p>[E assim que eu chamo esse canalha.]</p><p>[Certo. Por que o Pena Podre estaria mirando em voc� e n�o em outra pessoa?]</p><p>[N�o sei.]</p><p>[H� alguma coisa que indique que � pessoal?]</p><p>[Como assim?]</p><p>[Quantos funcion�rios tem no SMP?]</p><p>[Cerca de 230, incluindo a editora.]</p><p>[Quantos voc� conhece pessoalmente?]</p><p>[N�o sei dizer ao certo. Conheci v�rios jornalistas e colaboradores ao longo dos anos, em diferentes situa��es.]</p><p>[Voc� j� se indisp�s com algum deles?]</p><p>[N�o. Nada especial.]</p><p>[Algu�m pode estar querendo se vingar?]</p><p>[Se vingar? Do qu�?]</p><p>[A vingan�a � um motivo poderoso.]</p><p>Erika olhou para a tela tentando entender a que Lisbeth Salander estaria referindo.</p><p>[Voc� est� a�?]</p><p>[Estou. Por que voc� falou em vingan�a?]</p><p>[Eu li a lista do Rosin com todos os incidentes que voc� associa ao Pena Podre.]</p><p>Por que � que eu n�o estou surpresa?</p><p>[Certo???]</p><p>[Ele n�o tem jeito de assediador.]</p><p>[O que voc� quer dizer?]</p><p>[Um assediador � algu�m dominado pela obsess�o sexual. Esse parece que est� imitando o tipo assediador. Chave de fenda na bunda... imagina, isso � pura par�dia.]</p><p>[Ah, �?]</p><p>[J� vi assediadores de verdade. S�o muito mais perversos, vulgares e grotescos. Expressam amor e �dio ao mesmo tempo. Essa hist�ria n�o est� batendo direito.]</p><p>[Voc� acha que n�o est� suficientemente vulgar.]</p><p>[N�o. O e-mail para a Eva Carlsson n�o tem nada a ver. Isso � algu�m querendo te perturbar.]</p><p>[Sei. Eu n�o estava vendo as coisas por esse �ngulo.]</p><p>[N�o � um man�aco sexual. E algo contra voc�, pessoal.]</p><p>[Bem, e o que voc� sugere?]</p><p>[Voc� confia em mim?]</p><p>[Talvez.]</p><p>[Preciso acessar a rede do SMP.]</p><p>[Ei, calma l�!]</p><p>[N�o demora, eu vou ser transferida e vou ficar sem internet.]</p><p>Erika hesitou por uns dez segundos. Entregar o SMP a... a quem? A uma verdadeira maluca? Claro, Lisbeth era inocente dos assassinatos de que fora acusada, por�m, definitivamente, n�o era uma pessoa normal.</p><p>Mas o que ela tinha a perder?</p><p>[Como?]</p><p>[Preciso instalar um programa no seu computador.]</p><p>[A gente tem firewall.]</p><p>[Voc� vai me ajudar. Entre na internet.]</p><p>[Isso eu j� estou.]</p><p>[Explorer?]</p><p>[Sim.]</p><p>[Vou escrever um endere�o. Copie e cole no Explorer.]</p><p>[Pronto.]</p><p>[Voc� est� vendo uma lista com uma quantidade de programas. Clique em Asphyxia Server e carregue.]</p><p>Erika seguiu as instru��es.</p><p>[Pronto.]</p><p>[Inicie o Asphyxia. Clique em Instalar e escolha o Explorer.]</p><p>A opera��o levou tr�s minutos.</p><p>[Pronto. Certo. Agora voc� tem que reiniciar o computador. Vamos perder o contato por um momento.]</p><p>[Certo.]</p><p>[Quando nos reconectarmos, vou transferir o seu disco r�gido para um servidor da internet.]</p><p>[Certo.]</p><p>[Pode reiniciar. At� daqui a pouco.]</p><p>Erika Berger olhou fascinada para a tela enquanto seu computador reiniciava devagar. Perguntava-se se estava totalmente bem da cabe�a. Ent�o seu ICQ tilintou.</p><p>[Ol� de novo.]</p><p>[Ol�.]</p><p>[Vai ser mais r�pido se voc� fizer. Conecte-se � internet e copie o endere�o que vou lhe passar por e-mail.]</p><p>[Certo.]</p><p>[Voc� vai ver uma pergunta. Clique em Start.]</p><p>[Certo.]</p><p>[Agora est�o pedindo que voc� d� um nome ao disco r�gido. Ponha SMP-2.]</p><p>[Certo.]</p><p>[Pode ir buscar um caf�. Vai demorar um tempinho.]</p><empty-line/><p>Rosa Figuerola acordou, no s�bado, por volta das oito da manh�, quase duas horas depois de seu hor�rio habitual. Sentou-se na cama e contemplou Mikael Blomkvist. Ele roncava. Bem, ningu�m � perfeito.</p><p>Perguntou-se aonde aquela hist�ria com Mikael Blomkvist iria lev�-la. Ele n�o era do tipo fiel, com quem se podia investir num relacionamento a longo prazo � isso ela logo viu ao analisar a biografia dele. Por outro lado, ela n�o tinha realmente certeza de estar buscando um relacionamento est�vel, com noivo, geladeira e crian�as. Depois de uma d�zia de tentativas fracassadas desde a adolesc�ncia, achava cada vez mais que o mito do relacionamento est�vel era superestimado. Seu relacionamento mais duradouro se mantivera por dois anos, com um colega de Uppsala.</p><p>Ela tampouco era o tipo de mulher que se envolvia em aventuras sexuais de uma s� noite, mesmo achando que muitas pessoas se esqueciam do valor inestim�vel do sexo como um rem�dio para praticamente tudo. E o sexo com Mikael Blomkvist era muito legal. Mais que legal, ali�s. Ele era um cara bacana. Dava vontade de repetir.</p><p>Aventura de f�rias? Namorico? Estaria apaixonada?</p><p>Foi at� o banheiro, passou uma �gua no rosto, escovou os dentes, enfiou um short e uma camiseta de corrida e saiu do apartamento p� ante p�. Fez um alongamento e trotou quarenta e cinco minutos em volta do hospital de R�lambshov, via Fredh�ll, retornando por Smedsudden. Voltou para casa �s nove horas e viu que Blomkvist ainda dormia. Inclinou-se e mordiscou-lhe a orelha at� ele abrir uns olhos enevoados.</p><p>� Bom dia, meu querido. Estou precisando de algu�m para esfregar as minhas costas.</p><p>Ele a olhou fixamente e resmungou alguma coisa.</p><p>� O que voc� disse?</p><p>� Voc� n�o precisa tomar banho. J� est� hiper molhada.</p><p>� Eu fui correr. Voc� deveria ir comigo.</p><p>� Se eu tentar acompanhar o seu ritmo, voc� vai ter que chamar uma ambul�ncia. Parada card�aca na Norr M�lastrand.</p><p>� N�o diga bobagem. Vamos l�. Voc� precisa acordar.</p><p>Ele esfregou-lhe as costas e ensaboou seus ombros. E quadris. E barriga. E seios. Momentos depois, Rosa Figuerola perdera totalmente o interesse pelo banho e o arrastou de volta para a cama. S� sa�ram por volta das onze horas, para tomar um caf� no Norr Malastrand.</p><p>� Voc� tem tudo para virar um mau h�bito � disse Rosa. � Faz s� alguns dias que a gente se conhece.</p><p>� Tenho um tes�o louco por voc�. Mas acho que isso voc� j� sabe. Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Ah, eu n�o sei dizer. Nunca entendi por que uma mulher de repente me atrai enquanto outra n�o me interessa nem um pouco.</p><p>Ela sorriu, pensativa.</p><p>� Hoje eu n�o trabalho � disse.</p><p>� E eu sim. Tenho um monte de coisas para fazer antes do in�cio do julgamento, e passei as tr�s �ltimas noites na sua casa em vez de trabalhar.</p><p>� Que pena.</p><p>Ele se levantou e deu-lhe um beijo no rosto. Ela o segurou pela manga da camisa.</p><p>� Blomkvist, tenho muita vontade de continuar vendo voc�.</p><p>� Eu tamb�m � disse ele. � Mas vai haver altos e baixos at� que a gente consiga levar essa, hist�ria para um final feliz.</p><p>Ele desapareceu na dire��o de Hantverkargatan.</p><p>Erika Berger retornara com seu caf� e observava a tela. N�o havia acontecido nada durante quarenta e cinco minutos, a n�o ser o protetor de tela entrando de tempos em tempos. Por fim seu ICQ tilintou novamente.</p><p>[Pronto. Tem um monte de porcaria no seu disco r�gido, inclusive dois v�rus.] [Sinto muito. E o que vem agora?] [Quem � o administrador da rede do SMP?]</p><p>[N�o sei. Provavelmente o Peter Fleming, que � o diretor de tecnologia.] [Certo.]</p><p>[O que eu devo fazer?] [Nada. Volte para casa.] [Assim, simplesmente?]</p><p>[Eu dou not�cias.]</p><p>[Tenho que deixar o computador ligado?]</p><p>Mas Lisbeth Salander j� tinha sa�do do ICQ. Erika Berger olhou para a tela, frustrada. Por fim, desligou o computador e saiu, buscando uma cafeteria onde pudesse refletir sem ser interrompida.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>20. S�BADO 4 DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist desceu do �nibus em Slussen, pegou o elevador Katarina para subir at� Mosebacke e em seguida rumou para o n�mero 9 da Fiskargatan, subindo at� o apartamento. Tinha comprado p�o, leite e queijo no mercadinho em frente ao Conselho Geral e, antes de mais nada, guardou as compras na geladeira. Depois ligou o computador de Lisbeth Salander.</p><p>Ap�s pensar um instante, ligou tamb�m seu Ericsson TIO azul. Deixou para l� o celular normal, j� que, de todo modo, n�o queria falar com ningu�m que n�o estivesse relacionado com o caso Zalachenko. Verificou que recebera seis chamadas nas �ltimas vinte e quatro horas, tr�s de Henry Cortez, duas de Malu Eriksson e uma de Erika Berger.</p><p>Ligou primeiro para Henry Cortez, que estava num caf� da Vasastan e tinha umas coisinhas para lhe mostrar, mas nada urgente.</p><p>Malu Eriksson tinha ligado s� para dar not�cias.</p><p>Em seguida ligou para Erika Berger, mas estava ocupado.</p><p>Entrou no grupo Yahoo [Tavola-Biruta] e encontrou a vers�o final da biografia de Lisbeth Salander. Balan�ou a cabe�a, sorrindo, imprimiu o documento e iniciou imediatamente a leitura.</p><p>Lisbeth Salander teclava no seu Palm Tungsten T3. Passara uma hora explorando a rede do SMP atrav�s da conta de usu�rio de Erika Berger. Nem entrara na conta de Peter Fleming, pois n�o precisava dos direitos de usu�rio. 0 que a interessava era ter acesso � administra��o do SMP e da� aos arquivos dos funcion�rios. E Erika Berger tinha esse direito de acesso.</p><p>Lamentava amargamente que Mikael Blomkvist n�o tivesse tido a gentileza de lhe repassar seu PowerBook, com um teclado de verdade e uma tela de dezessete polegadas, em vez do computador de m�o. Fez o download de uma lista de todos que trabalhavam no SMP e se p�s ao trabalho. Eram duzentas e vinte e tr�s pessoas, das quais oitenta e duas eram mulheres.</p><p>Para come�ar, eliminou todas as mulheres. N�o que as mulheres estivessem isentas da loucura, mas as estat�sticas demonstravam que a esmagadora maioria das pessoas que assediavam mulheres era homem. Restavam cento e quarenta e uma pessoas.</p><p>As estat�sticas tamb�m indicavam que os Penas Podres eram, em sua maioria, adolescentes ou pessoas de meia-idade. Como n�o havia nenhum adolescente empregado no SMP, ela tra�ou uma curva de idade e eliminou todos os que tinham mais de cinq�enta e cinco anos e menos de vinte e cinco. Restavam cento e tr�s pessoas.</p><p>Refletiu por um momento. N�o dispunha de muito tempo. Talvez menos de vinte e quatro horas. Tomou rapidamente uma decis�o. De uma ceifada s�, eliminou todos os funcion�rios da distribui��o, publicidade, imagem, manuten��o e suporte t�cnico. Com isso, concentrou-se no grupo "jornalistas e equipe de reda��o" e obteve uma lista com quarenta e oito homens entre vinte e seis e cinq�enta e quatro anos.</p><p>Escutou o tilintar de um molho de chaves, desligou imediatamente o computador e o colocou debaixo do cobertor, entre suas coxas. Seu �ltimo almo�o de s�bado em Sahlgrenska acabava de chegar. Resignada, contemplou o refogado de repolho. Sabia que, depois do almo�o, poderia trabalhar durante algum tempo sem ser interrompida. Enfiou o Palm na cavidade atr�s do criado-mudo e armou-se de paci�ncia enquanto duas africanas passavam o aspirador de p� e arrumavam sua cama.</p><p>Uma das mo�as, que se chamava Sara, deu-lhe dois cigarros. Sara passara alguns Marlboro light a Lisbeth durante aquele m�s. Tamb�m lhe dera um isqueiro, que Lisbeth escondia atr�s do criado-mudo. Lisbeth era-lhe grata por poder fumar na frente do sistema de ventila��o, � noite, quando n�o havia mais perigo de ningu�m aparecer.</p><p>A tranq�ilidade s� retornou por volta das duas da tarde. Lisbeth pegou o Palm e se conectou. Pensara inicialmente em voltar aos arquivos do SJVfP mas se lembrou que tinha seus pr�prios problemas para administrar. Efetuou a varredura di�ria, come�ando pelo grupo Yahoo [Tavola-Biruta]. Constatou que Mikael Blomkvist n�o aparecera com nenhuma novidade nos �ltimos tr�s dias e se perguntou o que ele andava fazendo. N�o me espantaria esse safado estar se divertindo com uma perua bem peituda.</p><p>Em seguida entrou no grupo Yahoo [Os-Cavaleiros] para conferir se Praga tinha deixado alguma contribui��o. Nada.</p><p>Depois examinou o disco r�gido do procurador Richard Ekstr�m (uma correspond�ncia pouco interessante, relacionada com o julgamento por vir) e o do Dr. Peter Teleborian.</p><p>Cada vez que entrava no disco r�gido de Teleborian, Lisbeth tinha a impress�o de que sua temperatura corporal baixava alguns graus.</p><p>Deparou com a avalia��o psiqui�trica legal sobre ela, que ele j� redigira, mas que, claro, oficialmente n�o poderia estar escrita antes que ele a examinasse. Ele tinha aprimorado sua prosa, mas no geral n�o trazia nada de novo. Ela leu, um por um, todos os e-mails de Teleborian das �ltimas vinte e quatro horas, e quase deixou passar uma breve mensagem fundamental.</p><p>[S�bado, 15 horas no po�o da esta��o central. Jonas.]</p><p>Merda. Jonas. Aparece num monte de e-mails para o Teleborian. Tem uma conta hotmail. N�o identificado.</p><p>Lisbeth Salander olhou para o rel�gio digital sobre o criado-mudo. 14h28. Chamou imediatamente Mikael Blomkvist pelo ICQ. N�o obteve resposta.</p><p>Mikael Blomkvist imprimira as duzentas e vinte p�ginas do manuscrito que j� estavam prontas. Depois, desligara o computador e se instalara � mesa da cozinha de Lisbeth Salander com um l�pis para corrigir as provas.</p><p>Estava satisfeito com a narrativa. S� que ainda havia um buraco imenso.</p><p>Como ele iria descobrir o resto da Se��o? Malu Eriksson estava certa. Era poss�vel. Ele n�o dispunha de tempo.</p><p>Frustrada, Lisbeth Salander resmungou um palavr�o e tentou achar Praga no ICQ. Ele n�o respondeu. Ela olhou para o rel�gio. 14h30.</p><p>Sentou-se na beira da cama e tentou lembrar de outras contas do ICQ. Primeiro, tentou Henry Cortez, depois Malu Eriksson. Ningu�m respondeu. Hoje � s�bado. Eles n�o est�o trabalhando. Olhou a hora. 14h32.</p><p>Em seguida tentou Erika Berger. Sem sucesso. Eu falei para ela ir para casa. Droga. 14h33.</p><p>Podia mandar uma mensagem de texto para o celular de Mikael Blomkvist..., mas ele estava grampeado. Mordeu o l�bio inferior.</p><p>Por fim, virou-se desesperada para o criado-mudo e tocou a campainha para chamar a enfermeira. O rel�gio marcava 14h35 quando escutou a chave na fechadura. Uma enfermeira de uns cinq�enta anos, Agneta, apontou a cabe�a.</p><p>� Oi. Algum problema?</p><p>� O doutor Anders Jonasson est� no hospital?</p><p>� Voc� n�o est� se sentindo bem?</p><p>� Eu estou bem, mas precisava falar com ele. Se poss�vel.</p><p>� Eu vi o doutor Anders n�o faz muito tempo. Sobre o que seria?</p><p>� Preciso falar com ele.</p><p>Agneta franziu o cenho. A paciente Lisbeth Salander raramente chamava as enfermeiras, a n�o ser que estivesse com muita dor de cabe�a ou algum outro problema s�rio. Nunca tinha criado caso e at� ent�o nunca havia pedido para falar com determinado m�dico. No entanto Agneta tinha reparado que Anders Jonasson se demorava com aquela paciente com mandato de pris�o, que, ali�s, costumava se mostrar fechada com as pessoas. Ele talvez tivesse conseguido estabelecer algum tipo de contato com ela.</p><p>� Est� bem. Vou ver se ele est� dispon�vel � disse Agneta com gentileza, e fechou a porta. A chave. O rel�gio marcava 14h36, ent�o passou para 14h37.</p><p>Lisbeth saiu da cama e se aproximou da janela. De tempo em tempo, dava uma olhada no rel�gio. 14h39. 14h40.</p><p>�s 14h44, ouviu passos no corredor e o tilintar do molho de chaves do vigia da Securitas. Anders Jonasson lan�ou-lhe um olhar inquisitivo e estacou ao ver o olhar desesperado de Lisbeth.</p><p>� Aconteceu alguma coisa?</p><p>� Est� acontecendo neste exato momento. Voc� tem um celular?</p><p>� O qu�?</p><p>� Um celular. Preciso fazer uma liga��o.</p><p>Anders Jonasson deu uma espiada na porta, hesitante.</p><p>� Anders... Preciso de um celular. Agora!</p><p>Ele percebeu o desespero em sua voz, enfiou a m�o no bolso e estendeu seu Motorola para Lisbeth. Ela praticamente o arrancou de suas m�os. N�o podia ligar para Mikael Blomkvist, j� que ele parecia estar sob escuta do inimigo. O problema � que ele n�o lhe passara o n�mero do seu Ericsson sigiloso, o TIO azul. N�o havia por qu�, pois a princ�pio estava fora de quest�o ela ligar do isolamento de seu quarto. Lisbeth hesitou um d�cimo de segundo, ent�o ligou para o celular de Erika Berger. Ouviu o telefone tocar tr�s vezes antes de Erika atender.</p><p>Erika Berger estava na sua BMW, a um quil�metro de casa em Saltsj�baden, quando recebeu uma chamada inesperada. E Lisbeth Salander j� a surpreendera um bocado naquela manh�.</p><p>� Berger.</p><p>� Salander. N�o d� tempo de eu explicar. Voc� teria o n�mero do celular sigiloso do Mikael? O que n�o est� grampeado?</p><p>� Tenho.</p><p>� Ligue para ele. Agora! O Teleborian vai se encontrar com Jonas �s tr�s da tarde no po�o da esta��o central, sabe, aquela r�tula grande aberta para os tr�s andares.</p><p>� O que �...</p><p>� Ande logo. Teleborian, Jonas. Po�o da esta��o central. Tr�s horas. Ele s� tem quinze minutos.</p><p>Lisbeth desligou o celular para que Erika n�o se visse tentada a desperdi�ar segundos preciosos com perguntas in�teis. Olhou para o rel�gio quando ele estava justamente passando para 14h46.</p><p>Erika Berger freou e estacionou � beira da estrada. Inclinou-se para pegar caderninho de endere�os da bolsa e o folheou procurando o n�mero que Mikael lhe passara na noite em que tinham se encontrado no Samirs Gryta.</p><p>Mikael Blomkvist escutou o toque do celular. Levantou-se da mesa da cozinha, voltou ao escrit�rio de Lisbeth Salander e pegou o celular em cima da mesa.</p><p>� Sim?</p><p>� Erika.</p><p>� Oi.</p><p>� O Teleborian vai se encontrar com o Jonas no po�o da esta��o central �s tr�s horas. Voc� s� tem alguns minutos para ir at� l�.</p><p>� O qu�? O qu�?</p><p>� O Teleborian...</p><p>� Eu escutei. Como voc� sabe disso?</p><p>� Pare de discutir e se mande. Mikael espiou a hora. 14h47.</p><p>� Obrigado. Tchau.</p><p>� Pegou a mochila do laptop e desceu pela escada em vez de esperar pelo elevador. Enquanto corria, teclou o n�mero do TIO de Henry Cortez.</p><p>� Cortez.</p><p>� Onde voc� est�?</p><p>� Na livraria da universidade.</p><p>� O Teleborian vai se encontrar com o Jonas no po�o da esta��o central �s tr�s horas. Estou voando para l�, mas voc� est� mais perto.</p><p>� Puta merda! Estou indo.</p><p>Mikael foi correndo at� a G�tgatan e depois correu ainda mais r�pido na dire��o de Slussen. Olhou para o rel�gio ao chegar, sem f�lego, a Slussplan. Rosa Figuerola estava certa ao insistir que ele deveria come�ar a correr. 14h56. N�o ia dar tempo. Buscou um t�xi com o olhar.</p><p>Lisbeth Salander estendeu o celular a Anders Jonasson.</p><p>� Obrigada � disse.</p><p>� Teleborian? � inquiriu Anders Jonasson. Acabar� ouvindo o nome dele.</p><p>Ela assentiu com a cabe�a e cruzou o olhar com Anders Jonasson.</p><p>� O Teleborian � perverso, voc� nem imagina o quanto.</p><p>� N�o imagino. Mas vejo que alguma coisa a deixou agitada de um jeito que eu ainda n�o tinha visto nesse tempo todo em que cuidei de voc� Espero que saiba o que est� fazendo.</p><p>Lisbeth dirigiu um sorrisinho enviesado a Anders Jonasson.</p><p>� Logo voc� vai ter a resposta para essa sua pergunta � disse ela.</p><p>Henry Cortez saiu da livraria universit�ria feito um louco. Na altura da ponte de M�ster Samuelsgatan atravessou a Sveavagen e seguiu reto para a Klara Norra, subindo pela Klaraberg e entrando na Vasagatan. Atravessou a Klarabergsgatan entre um �nibus e dois carros que buzinaram freneticamente e transp�s o port�o da esta��o central �s tr�s horas em ponto.</p><p>Desceu pela escada rolante at� o piso central, saltando de tr�s em tr�s degraus, e chegou correndo � banca de jornal, onde reduziu o passo para n�o chamar aten��o. Examinou atentamente as pessoas que se encontravam nas proximidades do po�o.</p><p>N�o avistou Teleborian nem o homem que Christer Malm fotografara em frente ao Copacabana e que eles julgavam ser Jonas. Consultou o rel�gio. 15h01. Ele respirava como se acabasse de participar da maratona de Estocolmo.</p><p>Tentou a sorte e precipitou-se pelo sagu�o para sair na Vasagatan. Parou e olhou ao redor, examinando uma por uma as pessoas pr�ximas. Nada de Peter Teleborian. Nada de Jonas.</p><p>Deu meia-volta e retornou � esta��o. 15h03. Estava tudo deserto para os lados do po�o.</p><p>Ent�o ergueu os olhos e, num relance, vislumbrou o perfil descabelado com cavanhaque de Peter Teleborian no instante em que ele sa�a da banca de jornal do outro lado do sagu�o. No momento seguinte, materializava-se ao lado dele o sujeito das fotos de Christer Malm. Jonas! Os dois atravessaram o hall e desapareceram na Vasagatan pelo port�o norte.</p><p>Henry Cortez respirou. Enxugou o suor da testa com a palma da m�o e orneǰu a seguir os dois homens.</p><p>�s 15h07, Mikael Blomkvist chegou de t�xi � esta��o central de Estocolmo. Entrou imediatamente no sagu�o central, mas n�o avistou nem Teleborian nem Jonas. Nem Henry Cortez, por sinal.</p><p>Pegou seu TIO e ia ligar para Henry Cortez quando o telefone come�ou a tocar em sua m�o.</p><p>� Achei os dois. Est�o no pub Les Trois Hanaps, na Vasagatan, perto da descida para a linha de Akalla.</p><p>� Legal, Henry. E voc�, onde est�?</p><p>� Estou no bar. Tomando uma cerveja. Merecida.</p><p>� Certo. Como eles me conhecem, vou ficar do lado de fora. Imagino que voc� n�o tem a menor condi��o de ouvir o que eles est�o falando.</p><p>� Sem chance. Estou vendo as costas do Jonas, e o safado do Teleborian s� est� murmurando, nem d� para ver os l�bios dele se mexerem.</p><p>� Entendo.</p><p>� Mas pode surgir um problema.</p><p>� Qual?</p><p>� O Jonas deixou a carteira e o celular em cima da mesa. E, junto, as chaves de um carro.</p><p>� Tudo bem. Eu cuido disso.</p><p>O celular de Rosa Figuerola emitiu o toque polif�nico da trilha sonora de Era uma vez no Oeste. Ela largou o livro sobre os deuses na Antig�idade, que, aparentemente, nunca conseguiria terminar.</p><p>� Oi. E o Mikael. O que voc� est� fazendo?</p><p>�� Estou em casa separando umas fotos de ex-amantes. O �ltimo me abandonou covardemente hoje de manh�.</p><p>� Me desculpe. O seu carro est� nas redondezas?</p><p>� Na �ltima vez que eu olhei ele estava l� embaixo, no estacionamento.</p><p>� �timo. Que tal uma voltinha pelo centro?</p><p>� N�o me atrai muito. O que aconteceu?</p><p>� Neste exato momento, o Peter Teleborian est� tomando uma cerveja com o Jonas na Vasagatan. E como eu estou trabalhando em parceria com a Sapo e essa burocracia estilo Stasi, achei que talvez te interessasse vir at� aqui...</p><p>Rosa j� estava de p� apanhando as chaves do carro.</p><p>� Voc� n�o est� de sacanagem comigo?</p><p>� N�o exatamente. E o Jonas deixou as chaves de um carro em cima da mesa.</p><p>� Estou indo.</p><p>Malu Eriksson n�o atendeu o telefone, mas Mikael Blomkvist teve sorte e conseguiu falar com Lottie Karim, que estava na �hl�ns comprando um presente de anivers�rio para o seu marido. Mikael lhe imp�s umas horas extras e pediu que ela fosse com a maior urg�ncia at� o pub ajudar Henry Cortez. Depois ligou para Cortez.</p><p>� O plano � o seguinte. Vou estar com um carro no local daqui a cinco minutos. Vamos estacionar na J�rnv�gsgatan, embaixo do pub.</p><p>� Certo.</p><p>� A Lottie Karim est� chegando daqui a pouco para te ajudar.</p><p>� �timo.</p><p>� Quando eles sa�rem do pub, voc� cuida do Jonas. V� a p� atr�s dele e me diga, por celular, onde voc�s est�o. Assim que ele se aproximar de um carro, voc� me avisa. A Lottie vai cuidar do Teleborian. Se a gente n�o chegar a tempo, anote o n�mero da placa.</p><p>� Combinado.</p><p>Rosa Figuerola estacionou em frente ao Nordic Light Hotel, pr�ximo ao �nibus do aeroporto de Arlanda. Mikael Blomkvist abriu a porta do motorista um minuto depois.</p><p>� Em que pub eles est�o? Mikael indicou.</p><p>� Preciso pedir refor�os.</p><p>� N�o se preocupe. Estamos de olho neles. Cozinheiros demais podem azedar o molho.</p><p>Rosa Figuerola fitou-o, desconfiada.</p><p>� E como voc� ficou sabendo desse encontro?</p><p>� Sinto muito. Fontes protegidas.</p><p>� Voc�s t�m seu pr�prio maldito servi�o de informa��es na Millennium 0u o qu�? � ela exclamou.</p><p>Mikael parecia satisfeito. Era sempre um prazer ganhar da Sapo no pr�prio terreno deles.</p><p>Na verdade, ele n�o fazia a menor id�ia de como tinha sido poss�vel Erika Berger ligar para ele, como um rel�mpago riscando o c�u azul, para avisar que Teleborian e Jonas iam se encontrar. Ela n�o tinha acesso ao trabalho da Millennium desde 10 de abril. � claro que sabia quem era Teleborian, mas Jonas s� entrara em cena em maio e, at� onde Mikael sabia, Erika n�o tinha no��o da exist�ncia dele, muito menos que ele suscitava suspeitas tanto da Millennium como da Sapo.</p><p>Precisava ter uma conversa s�ria com Erika o quanto antes.</p><p>Lisbeth Salander deu um estalo com a l�ngua e contemplou a tela do seu computador de m�o. Ap�s a liga��o feita pelo celular do Dr. Anders Jonasson, deixara de pensar na Se��o e se concentrara nos problemas de Erika Berger. Depois de muito ponderar, riscou todos os homens do grupo vinte e seis/cinq�enta e quatro anos que eram casados. Sabia que trabalhava com um espectro muito amplo e que n�o havia nenhum motivo racional, estat�stico e cient�fico por tr�s de sua decis�o. Pena Podre podia perfeitamente ser um homem casado com cinco filhos e um cachorro. Podia ser um faxineiro. Podia, afinal, ser uma mulher, mesmo que Lisbeth n�o acreditasse nisso.</p><p>Ela queria simplesmente reduzir o n�mero de nomes da lista e, com esta �ltima decis�o, sua amostra passara de quarenta e oito para dezoito pessoas. Constatou que ela se compunha em boa parte de rep�rteres importantes, chefes ou subchefes com mais de trinta e cinco anos de casa. Se n�o achasse nada de interessante entre eles, poderia facilmente ampliar a lista.</p><p>�s quatro da tarde, entrou no site da Hacker Republic e repassou a lista para Praga. Ele deu sinal de vida alguns minutos depois.</p><p>[18 nomes. O que � isso?]</p><p>[Um projetinho secund�rio. Considere como um exerc�cio.]</p><p>[E?]</p><p>[Um dos nomes � de um canalha. Descubra quem �.] [Quais s�o os crit�rios?]</p><p>[Tem que ser r�pido. Amanh� v�o me desconectar. Voc� precisa descobrir isso antes.]</p><p>Ela fez um resumo da hist�ria do Pena Podre de Erika Berger.</p><p>[Certo. Eu ganho alguma coisa com isso?]</p><p>Lisbeth Salander pensou um pouco.</p><p>[Ganha. N�o vou aparecer em Sundbyberg para tocar fogo na sua casa.]</p><p>[Voc� seria capaz?]</p><p>[Eu pago toda vez que te pe�o para fazer uma coisa para mim. Dessa vez n�o � para mim. Considere como reten��o de impostos.]</p><p>[Voc� est� come�ando a dar sinais de compet�ncia social.]</p><p>[E ent�o?]</p><p>[Combinado.]</p><p>Ela lhe mandou os c�digos de acesso � reda��o do SMP e saiu do ICQ.</p><p>Henry Cortez ligou �s 16h20.</p><p>� Parece que est�o come�ando a se mexer.</p><p>� Certo. Estamos prontos. Sil�ncio.</p><p>� Est�o se despedindo na frente da porta. O Jonas est� indo para o norte. A Lottie segue o Teleborian para o sul.</p><p>Mikael ergueu um dedo e apontou para Jonas, que ia passando na Vasagatan. Rosa Figuerola fez um sinal com a cabe�a. Alguns segundos depois, Mikael tamb�m viu Henry Cortez. Rosa Figuerola ligou o carro.</p><empty-line/><p>__Atravessou a Vasagatan e est� indo para a Kungsgatan � disse Henry Cortez pelo celular.</p><p>- Mantenha dist�ncia, ele n�o pode te ver.</p><p>- Fica frio, as ruas est�o cheias de gente.</p><p>Sil�ncio.</p><p>� Ele est� subindo a Kungsgatan no sentido norte. -� Kungsgatan, norte � disse Mikael.</p><p>Rosa Figuerola engatou a marcha e entrou na Vasagatan. Ficaram um instante parados no sinal vermelho.</p><p>� Onde � que voc�s est�o? � perguntou Mikael, quando eles entraram na Kungsgatan.</p><p>� Na altura da loja PUB. Ele est� indo depressa. Aten��o, est� pegando a Drottninggatan no sentido norte.</p><p>� Drottninggatan, norte � disse Mikael.</p><p>� Certo � disse Rosa Figuerola, que fez um retorno proibido para passar pela Klara Norra e entrar rapidamente na Olof Palmes gata e parar em frente ao pr�dio da SIF. Jonas estava atravessando a Olof Palmes gata e se dirigia para a Sveav�gen. Henry Cortez o seguia do outro lado da rua.</p><p>� Ele virou para leste...</p><p>� Certo. Estamos vendo voc�s dois.</p><p>� Est� entrando na Holl�ndaregatan... Al�! Est� me ouvindo? Carro. Audi vermelho.</p><p>� Carro � disse Mikael, e anotou o n�mero da placa que Cortez informou correndo.</p><p>� Ele est� estacionado em que dire��o? � perguntou Rosa Figuerola.</p><p>� De frente para o sul � relatou Cortez. � Vai aparecer na frente de voc�s na Olof Palmes gata... agora.</p><p>Rosa Figuerola j� estava em movimento e passou a Drottninggatan. Buzinou e fez sinal para que alguns pedestres que tentavam atravessar o sem�foro no vermelho recuassem.</p><p>� Obrigado, Henry. Daqui para a frente a gente assume.</p><p>O Audi vermelho vinha descendo a Sveav�gen rumo ao sul. Rosa Figuerola o seguiu enquanto pegava o celular e teclava um n�mero com a m�o esquerda.� .</p><p>� Eu queria uma pesquisa sobre o n�mero de uma placa, Audi vermelho � disse ela, e passou o n�mero fornecido por Henry Cortez. � Sim estou ouvindo. Jonas Sandberg, nascido em 1971. O que voc� disse?... j-[e] sing�rsgatan, em Sollentuna. Obrigada.</p><p>Mikael anotou os dados obtidos por Rosa Figuerola.</p><p>Seguiram o Audi vermelho pela Hamngatan, pela Strandv�gen e em seguida pela Artillerigatan. Jonas Sandberg estacionou a um quarteir�o do Museu do Ex�rcito. Atravessou a rua e desapareceu pela porta de um pr�dio estilo 1900.</p><p>� Humm � fez Rosa Figuerola, olhando para Mikael com ar entendido.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a. Jonas Sandberg acabava de entrar num edif�cio situado a apenas poucas ruas do pr�dio em que o primeiro-ministro emprestara um apartamento para uma reuni�o privada.</p><p>� Bom trabalho � disse Rosa.</p><p>Neste exato momento, Lottie Karim ligou contando que o Dr. Peter Teleborian subira a Klaragatan pela escada rolante da esta��o central e fora para o Pal�cio da Pol�cia em Kungsholmen.</p><p>� Pal�cio da Pol�cia. �s cinco da tarde de um s�bado? � surpreendeu-se Mikael.</p><p>Rosa Figuerola e Mikael Blomkvist se olharam, c�ticos. Rosa refletiu concentradamente por alguns segundos. Ent�o pegou o celular e ligou para o inspetor Jan Bublanski.</p><p>�� Ol�. � a Rosa, da Seguran�a. N�s nos vimos na Norr Malastrand algum tempo atr�s.</p><p>� O que voc� quer? � perguntou Bublanski.</p><p>� Voc� tem algu�m de plant�o neste fim de semana?</p><p>� A Sonja Modig � disse Bublanski.</p><p>� Eu preciso de um favor. Voc� sabe se ela est� em casa?</p><p>� Duvido. Est� um dia lindo, e em pleno s�bado � tarde...</p><p>� Certo. Voc� poderia tentar contat�-la, ou contatar alguma outra pessoa da investiga��o que pudesse dar uma olhada no corredor do procurador Richard Ekstr�m? Desconfio que pode estar havendo uma reuni�o na sala dele agora.</p><p>� Uma reuni�o?</p><p>� N�o d� tempo de explicar. Eu precisava saber se ele est� com algu�m neste exato momento. E, se estiver, com quem.</p><p>� Voc� est� me pedindo para espionar um procurador, e que � o meu chefe?</p><p>Rosa Figuerola fez uma careta. Ent�o deu de ombros.</p><p>� Estou � respondeu.</p><p>� Est� bem � disse ele ao desligar.</p><p>Sonja Modig encontrava-se mais perto do Pal�cio da Pol�cia do que Bublanski temia. Ela e o marido estavam tomando caf� na varanda da casa de uma amiga na Vasastan. Fazia uma semana que estavam sem os filhos, que os pais de Sonja tinham levado em uma viagem de f�rias, e ela e o marido tinham planejado fazer algo bem convencional, como comer alguma coisa num restaurante antes de irem ao cinema.</p><p>Bublanski explicou o que queria.</p><p>� E que desculpa eu vou dar para aparecer na sala do Ekstr�m?</p><p>� Eu tinha prometido entregar para ele ontem, antes de ir embora, uma atualiza��o do caso Niedermann, mas me esqueci. A pasta est� na minha sala.</p><p>� Certo � disse Sonja Modig.</p><p>Ela olhou para o marido e para sua amiga.</p><p>� Preciso dar um pulo no pal�cio. Vou pegar o carro e, se eu tiver sorte, estou de volta daqui uma hora.</p><p>Seu marido suspirou. Sua amiga suspirou.</p><p>� Afinal, estou de plant�o � justificou Sonja Modig.</p><p>Ela estacionou na Bergsgatan, subiu at� a sala de Bublanski e pegou as tr�s folhas A4 que constitu�am o parco resultado das investiga��es para encontrar Ronald Niedermann, o assassino de um policial. Nada de espetacular, pensou.</p><p>Foi at� a escadaria e subiu um andar. Parou na frente da porta de acesso ao corredor. O Pal�cio da Pol�cia estava praticamente deserto naquele final de tarde de um lindo dia. N�o procurou dissimular nada. Apenas caminhou bem devagar. Deteve-se diante da porta fechada de Ekstr�m. Ouviu o som de vozes e mordeu o l�bio.</p><p>De repente, a coragem a abandonou e ela se sentiu muito tola. Em uma situa��o normal, teria batido, aberto a porta e exclamado: Ah, oi, voc� ainda est� a�, e teria entrado. Naquele momento, no entanto, parecia imposs�vel agir dessa forma.</p><p>Olhou ao redor.</p><p>Por que Bublanski tinha ligado para ela? Que reuni�o era aquela?</p><p>Dirigiu-se � salinha de reuni�es em frente � sala de Ekstr�m, planejada para umas dez pessoas. Muitas vezes estivera ali para ouvir comunicados.</p><p>Entrou na sala e fechou a porta sem fazer barulho. As persianas estavam abaixadas, e as cortinas da janela de vidro que dava para o corredor, fechadas. A sala estava imersa na penumbra. Pegou uma cadeira, sentou-se e afastou uma das cortinas para obter uma fresta pequena que lhe permitisse observar o corredor.</p><p>Sentia-se pouco � vontade. Se algu�m abrisse a porta, seria muito dif�cil explicar o que estava fazendo ali. Pegou o celular para ver as horas. Quase seis. Colocou o aparelho no modo silencioso, recostou-se na cadeira e ficou observando a porta fechada da sala de Ekstr�m.</p><p>�s sete da noite, Praga chamou Lisbeth Salander.</p><p>[Pronto. J� sou o administrador do SJV�P.] [Onde?]</p><p>Ele baixou um endere�o http.</p><p>[Em 24 horas n�o vai dar. Mesmo que a gente consiga todos os e-mails dos 18 homens, vai levar dias para piratear os computadores pessoais deles. A maioria provavelmente nem est� conectada num s�bado � noite.]</p><p>[Pragua, concentre-se nos computadores pessoais e eu cuido dos computadores do SJV�P.]</p><p>[� o que eu tinha pensado. Seu computador de m�o � meio limitado. Quer que eu foque algu�m em especial?]</p><p>[N�o. Qualquer um serve.]</p><p>[Certo.]</p><p>[Praga.]</p><p>[Sim.]</p><p>[Se a gente n�o achar nada at� amanh�, quero que voc� continue.]</p><p>[Certo.]</p><p>[Nesse caso, eu vou pagar.]</p><p>[Que nada. Na verdade, estou me divertindo.]</p><p>Ela saiu do ICQ e entrou no endere�o http em que Praga havia baixado todos os direitos de administra��o do SMP. Para come�ar, verificou se Peter Fleming estava conectado e se se encontrava na reda��o. N�o estava. Lisbeth ent�o usou seu login para entrar no servidor do correio eletr�nico do SMP. Conseguiu acesso a um longo hist�rico, inclusive a e-mails deletados desde muito tempo das contas de usu�rios particulares.</p><p>Come�ou com Ernst Teodor Billing, quarenta e tr�s anos, um dos chefes do SMP no turno da noite. Abriu seu e-mail e foi voltando no tempo. Demorou cerca de dois segundos em cada e-mail, s� para ter uma id�ia do remetente e do assunto. Passados alguns minutos, j� apreendera a correspond�ncia de rotina em forma de menus, planejamento e outras coisas sem nenhum interesse. Pulou essa parte.</p><p>Conferiu e-mail por e-mail num per�odo de tr�s meses. Em seguida, foi olhando de m�s em m�s, mas verificando apenas o assunto e s� abrindo a mensagem se alguma coisa lhe chamava a aten��o. Soube que Ernst Billing relacionava-se com uma certa Sofia, � qual se dirigia num tom desagrad�vel. Constatou que n�o havia nada de estranho nisso, pois Billing tinha um tom desagrad�vel com a maioria das pessoas com quem se comunicava � jornalistas, designers gr�ficos e outros. Achou incr�vel, por�m, que vim homem pudesse se dirigir sem nenhum constrangimento � sua namorada chamando-a de balofa, sua abobada ou est�pida.</p><p>Depois de ver os e-mails de at� um ano antes, ela parou. Entrou ent�o no Explorer de Billing e analisou a maneira como ele navegava na internet. Observou que, como a maioria dos homens de sua faixa et�ria, ele acessava regularmente p�ginas pornogr�ficas, mas que a maior parte de sua navega��o parecia estar relacionada com o trabalho. Constatou tamb�m que se interessava por carros e visitava com freq��ncia sites que apresentavam novos modelos.</p><p>Depois de quase uma hora de explora��o, encerrou a pesquisa sobre Billing e eliminou-o da lista. Passou para Lars �rjan Wollberg, cinq�enta e um anos, jornalista veterano da editoria de Direito.</p><p>Torsten Edklinth chegou ao Pal�cio da Pol�cia, em Kungsholmen, por volta das sete e meia da noite de s�bado. Rosa Figuerola e Mikael Blomkvist o aguardavam. Estavam sentados � mesa de reuni�es que Blomkvist j� conhecia desde o dia anterior.</p><p>Edklinth achava que tinha se aventurado sobre uma camada de gelo muito fina e que algumas regras internas haviam sido infringidas quando autorizara Blomkvist a entrar naquele corredor. Definitivamente, Rosa Figuerola n�o devia t�-lo convidado. Via de regra, nem mesmo as esposas e os maridos eram autorizados a pisar nos corredores secretos da Sapo � tinham de aguardar l� embaixo, na portaria, quando vinham visitar seus companheiros. E Blomkvist, ainda por cima, era jornalista! No futuro, Blomkvist s� receberia permiss�o para entrar no escrit�rio provis�rio da Fridhemsplan.</p><p>Por outro lado, pessoas n�o autorizadas tamb�m costumavam circular pelos corredores com um convite especial. Colegas estrangeiros, pesquisadores, professores universit�rios, consultores ocasionais... Ele podia incluir Blomkvist na categoria "consultores ocasionais". Afinal, essa hist�ria de classifica��o de seguran�a n�o passava de conversa-fiada. Sempre havia algu�m para concluir que outro algu�m podia ser considerado "pessoa autorizada". E Edklinth resolvera que, caso houvesse cr�ticas, iria declarar que ele pr�prio inclu�ra Blomkvist entre as pessoas autorizadas.</p><p>Desde que o caso n�o enveredasse para o enfrentamento. Edklinth se sentou e fitou Rosa Figuerola.</p><p>� Como voc� soube dessa reuni�o?</p><p>� O Blomkvist me ligou l� pelas quatro da tarde � ela respondeu sorrindo.</p><p>� E voc�, como soube?</p><p>� Uma fonte me passou a dica � disse Mikael Blomkvist.</p><p>� Devo concluir que voc� colocou o Teleborian sob algum tipo de vigil�ncia?</p><p>Rosa Figuerola negou com a cabe�a.</p><p>� Foi o que eu tamb�m pensei no in�cio � disse ela com voz alegre, como se Mikael Blomkvist n�o estivesse na sala. � Mas n�o faz sentido. Mesmo que algu�m tivesse seguido o Teleborian a pedido de Blomkvist, esse algu�m n�o tinha como deduzir de antem�o que ele ia se encontrar justamente com o Jonas Sandberg.</p><p>Edklinth balan�ou a cabe�a devagar.</p><p>� Ent�o... o que mais pode ser? Escuta ilegal ou o qu�?</p><p>� Posso garantir que n�o pratico escuta ilegal com quem quer que seja, nem sequer ouvi dizer que esse tipo de coisa poderia acontecer � disse Mikael Blomkvist, s� para lembrar que estava presente na sala. � Seja um pouco realista. As escutas ilegais s�o compet�ncia do Estado.</p><p>Edklinth fez uma express�o melindrada.</p><p>� Quer dizer que voc� n�o vai me contar como soube desse encontro.</p><p>� Vou, sim. J� disse. Uma fonte me passou a dica. A fonte � protegida. E se a gente se concentrasse no resultado dessa dica?</p><p>� N�o gosto de floreios � disse Edklinth. � Mas tudo bem. O que a gente tem?</p><p>� O cara se chama Jonas Sandberg � disse Rosa. � Diploma de mergulhador de combate, cursou a Escola de Pol�cia no in�cio dos anos 1990. Trabalhou primeiro em Uppsala, depois em S�dert�lje.</p><p>� Voc� tamb�m esteve em Uppsala.</p><p>� E, mas nos desencontramos por quest�o de um ano ou dois. Eu entrei justamente quando ele foi para S�dert�lje.</p><p>� Certo.</p><p>� Ele foi recrutado pela contra-espionagem da Sapo em 1998. Em 2000, recolocado num posto secreto no exterior. De acordo com a nossa pr�pria documenta��o, encontra-se oficialmente na embaixada de Madri. Verifiquei na embaixada. N�o fazem a menor id�ia de quem � Jonas Sandberg.</p><p>� A mesma coisa com o M�rtensson. Oficialmente, foi transferido para um lugar onde ele n�o est�.</p><p>� S� o secret�rio-geral da administra��o tem condi��es de fazer regularmente esse tipo de coisa e dar um jeito para que funcione.</p><p>� Numa situa��o normal, isso seria explicado como uma confus�o na papelada burocr�tica. N�s s� percebemos porque estamos mexendo com isso. Se algu�m insistir, eles v�o simplesmente alegar sigilo ou que o caso tem a ver com terrorismo.</p><p>� Ainda temos um bocado de contabilidade para conferir.</p><p>� O chefe do or�amento?</p><p>� Pode ser.</p><p>� Certo. Que mais?</p><p>� Jonas Sandberg mora em Sollentuna. N�o � casado, mas tem um filho com uma professora de S�dert�lje. N�o h� nada que o desabone em lugar nenhum. Licen�a para porte de duas armas de fogo. Tranq�ilo, n�o bebe. A �nica coisa que pega um pouco � ele ser crente; era seguidor da Palavra de Vida nos anos 1990.</p><p>� Como voc� sabe?</p><p>� Falei com o meu antigo chefe de Uppsala. Ele se lembra muito bem de Sandberg.</p><p>� Certo. Um mergulhador de combate crist�o com duas armas e um filho em S�dert�lje. Que mais?</p><p>� Faz s� tr�s horas que o identificamos. At� que a gente trabalhou bem r�pido.</p><p>� Desculpe. O que se sabe sobre o pr�dio da Artillerigatan?</p><p>� Por enquanto, n�o muita coisa. O Stefan teve que recorrer a uma pessoa da prefeitura para consultar a planta do im�vel. E um pr�dio de direito cooperativo constru�do em 1900. Cinco andares, vinte e dois apartamentos ao todo, mais oito num edif�cio anexo no p�tio. Investiguei os moradores, mas n�o achei nada muito fora do comum. Dois moradores t�m passagem na pol�cia.</p><p>� Quem?</p><p>� Um tal de Lindstr�m, do t�rreo. Sessenta e tr�s anos. Condenado por fraudar o seguro nos anos 1970. E um tal de Wittfelt, do segundo andar. Quarenta e sete anos. Condenado em duas ocasi�es por viol�ncia contra a ex-mulher.</p><p>� Humm.</p><p>� As pessoas que moram ali s�o do tipo classe m�dia bem-comportada. S� um apartamento chama a aten��o.</p><p>� Qual?</p><p>� No �ltimo andar. Onze c�modos, tem todo o jeito de um apartamento para eventos. Pertence a uma empresa chamada Bellona S.A.</p><p>� Que faz o qu�?</p><p>� S� Deus sabe. Eles fazem an�lise de marketing e t�m um faturamento anual de mais de trinta milh�es de coroas. Todos os donos da Bellona no exterior.</p><p>� Ah�.</p><p>� Como assim, ah�?</p><p>� S� isso, ah�. Continue com a Bellona.</p><p>Nesse instante, o funcion�rio que Mikael s� conhecia pelo nome de Stefan entrou na sala e dirigiu-se a Torsten Edklinth.</p><p>� Ol�, chefe. Achei um neg�cio engra�ado. Verifiquei o que h� por tr�s do apartamento da Bellona.</p><p>� E ent�o? � perguntou Rosa Figuerola.</p><p>� A empresa Bellona foi fundada nos anos 1970 e comprou o apartamento dos herdeiros da antiga propriet�ria, uma tal de Kristina Cederholm, nascida em 1917.</p><p>� E?</p><p>� Ela era casada com Hans Wilhelm Francke, o caub�i que criava caso com o P. G. Winge quando a Sapo foi fundada.</p><p>� �timo � disse Torsten Edklinth. � �timo. Rosa, quero que o pr�dio seja vigiado dia e noite. Encontre todos os telefones. Quero saber quem entra e quem sai, que carros que visitam o pr�dio. Enfim, a rotina.</p><p>Edklinth deu uma olhada para Mikael Blomkvist. Pareceu que ia dizer alguma coisa, mas desistiu. Mikael ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Satisfeito com o volume de informa��es? � Edklinth acabou perguntando.</p><p>� Acho que n�o falta nada. E voc�, satisfeito com a contribui��o da Millennium?</p><p>Edklinth balan�ou a cabe�a devagar.</p><p>� Voc� se d� conta de como eu posso me encrencar por causa dessa hist�ria toda? � ele perguntou.</p><p>� N�o por minha causa. Estou tratando toda informa��o que consigo aqui como protegida. Vou revelar os fatos, mas sem dizer como cheguei a eles. Antes de publicar, vou fazer uma entrevista normal com voc�. Se voc� n�o quiser responder, � s� dizer: Sem coment�rios. Ou ent�o voc� pode denegrir � vontade a Se��o de An�lise Especial. Voc� � quem sabe.</p><p>Edklinth fez um gesto de assentimento com a cabe�a.</p><p>Mikael estava satisfeito. Em poucas horas, a Se��o ganhara uma form concreta. Era um furo e tanto.</p><p>Frustrada, Sonja Modig se deu conta de que a reuni�o na sala do procurador Ekstr�m estava se estendendo demais. Achou uma garrafa de �gua mineral deixada por algu�m na mesa de reuni�es. Ligou para o marido duas vezes para avisar que ia se atrasar, e prometeu compens�-lo depois com uma noite bem bacana assim que chegasse. Come�ava a se impacientar e se sentia como um voyeur de plant�o.</p><p>A reuni�o s� terminou por volta das sete e meia. S�nia foi pega de surpresa quando a porta se abriu e Hans Faste saiu para o corredor. Logo atr�s dele vinha o Dr. Peter Teleborian. Em seguida, um homem mais velho, grisalho, que Sonja Modig nunca tinha visto. Por fim surgiu o procurador Ekstr�m, vestindo o palet� enquanto apagava a luz. Em seguida fechou a porta a chave.</p><p>Sonja Modig ergueu o celular entre a fresta da cortina e tirou duas fotos de baixa resolu��o do grupo em frente � sala de Ekstr�m. Eles se demoraram alguns segundos antes de sa�rem pelo corredor.</p><p>Ela prendeu a respira��o quando eles passaram pela sala onde ela estava escondida. Quando finalmente ouviu a porta da escada se fechando, percebeu que estava molhada de um suor frio. Ao levantar-se, tinha as pernas bambas.</p><p>Bublanski ligou para Rosa Figuerola pouco depois das oito da noite.</p><p>� Voc� queria saber se o Ekstr�m estava com algu�m.</p><p>� Isso � disse Rosa.</p><p>� A reuni�o terminou neste momento. O Ekstr�m estava com o doutor Peter Teleborian, com um antigo colaborador meu, o inspetor Hans Faste, e com um homem mais velho que n�o conhecemos.</p><p>� Espere s� um pouco � disse Rosa Figuerola, tapando o fone com a m�o e virando-se para os demais: � A gente estava certo. O Teleborian foi direto para a sala do procurador Ekstr�m.</p><p>� Al�?</p><p>� Desculpe. Voc� tem uma descri��o do desconhecido, do terceiro homem?</p><p>� Melhor que isso. Vou lhe mandar uma foto.</p><p>- Uma foto! Sensacional. Fico te devendo um favor e tanto.</p><p>� Eu faria at� melhor se soubesse o que est� acontecendo.</p><p>� Eu volto a te ligar.</p><p>Por um instante, o sil�ncio tomou conta da sala de reuni�es.</p><p>� Certo � disse Edklinth por fim. � O Teleborian se encontra com a Se��o e depois vai direto falar com o procurador Ekstr�m. Eu pagaria muito caro para saber sobre o que eles conversaram.</p><p>� Se quiser, pode perguntar para mim � sugeriu Mikael Blomkvist. Edklinth e Figuerola olharam para ele.</p><p>� Eles se encontraram para acertar os detalhes da estrat�gia que vai derrubar a Lisbeth Salander no julgamento, daqui a um m�s.</p><p>Rosa Figuerola o fitou. Ent�o meneou a cabe�a devagar.</p><p>� Isso n�o passa de suposi��o � disse Edklinth. � A menos que voc� tenha dons paranormais.</p><p>� N�o � uma suposi��o � disse Mikael. � Eles se encontraram para revisar os detalhes da avalia��o psiqui�trica da Salander. O Teleborian tinha acabado de redigi-la.</p><p>� Isso � um absurdo. A Salander ainda nem foi examinada. Mikael Blomkvist deu de ombros e abriu a sacola de seu computador.</p><p>� O Teleborian nunca perdeu tempo com futilidades como essa. Aqui est� a �ltima vers�o da avalia��o psiqui�trica dele. Como podem ver, a data � a da semana em que vai ter in�cio o julgamento.</p><p>Edklinth e Figuerola olharam para os pap�is � sua frente. Ent�o trocaram um olhar e se viraram para Mikael Blomkvist.</p><p>� E como voc� conseguiu p�r as m�os nisso? � perguntou Edklinth.</p><p>� Lamento. Eu protejo as minhas fontes � disse Mikael Blomkvist.</p><p>� Blomkvist... A gente tem que confiar um no outro. Voc� est� retendo informa��es. Voc� tem mais alguma surpresa desse tipo?</p><p>� Tenho. � claro que eu tenho os meus segredos. Assim como estou convencido de que voc� n�o me deu carta branca para ver tudo o que voc�s t�m aqui na Sapo. N�o �?</p><p>� E diferente.</p><p>� N�o. � exatamente igual. O nosso acerto significa colabora��o. Como voc� disse, a gente tem que confiar um no outro. N�o estou omitindo nada que possa ajudar sua investiga��o a tra�ar uma imagem da Se��o ou detecta os diversos crimes que foram cometidos. J� entreguei um material provando que o Teleborian cometeu crimes com o Bj�rck em 1991 e avisei que ele vai ser chamado a fazer a mesma coisa agora. E aqui est� o documento comprn_ vando que � verdade.</p><p>� Mas voc� guarda alguns segredos.</p><p>� � evidente. Voc� pode escolher entre encerrar a nossa colabora��o ou se conformar.</p><p>Rosa Figuerola ergueu um dedo diplom�tico.</p><p>� Me desculpe, mas por acaso isso significa que o procurador Ekstr�m trabalha para a Se��o?</p><p>Mikael franziu o cenho.</p><p>� Eu n�o sei. Tenho a impress�o de que ele � mais um idiota �til manobrado pela Se��o, isso sim. Ele � um carreirista, mas acho que � honesto, e meio tapado. Em compensa��o, uma fonte me contou que ele engoliu praticamente tudo o que o Teleborian falou sobre a Lisbeth Salander quando ela ainda estava sendo procurada.</p><p>� Voc� quer dizer que ele � f�cil de se manipular?</p><p>� Exato. E o Hans Faste � um cretino que acha que a Lisbeth Salander � uma l�sbica satanista.</p><p>Erika Berger estava sozinha em casa, em Saltsj�baden. Sentia-se paralisada e incapaz de se concentrar em qualquer trabalho s�rio. Esperava que a qualquer momento algu�m ligaria dizendo que havia fotos dela num site qualquer da internet.</p><p>Surpreendeu-se v�rias vezes pensando em Lisbeth Salander e se deu conta de que estava esperando demais dela. Salander estava trancafiada em Sahlgrenska. N�o podia receber visitas e nem tinha o direito de ler os jornais. Mas era uma garota de muitos recursos. Apesar de seu isolamento, conseguira entrar em contato com Erika pelo ICQ, e depois por telefone. E, sozinha, fizera ruir o imp�rio de Wennerstr�m e salvara a Millennium dois anos antes.</p><p>�s oito da noite, Susanne Linder bateu � porta. Erika sobressaltou-se como se tivessem disparado um tiro na sala.</p><p>� Oi, Erika. Voc� parece mesmo angustiada, sozinha assim no escuro.</p><p>Erika assentiu com a cabe�a e acendeu a luz. �- Oi. Vou fazer um caf�...</p><p>� N�o. Deixe que eu fa�o. Alguma novidade?</p><p>Ah, claro. Lisbeth Salander deu not�cias e assumiu o controle do meu computador. E ligou para dizer que o Teleborian e um sujeito chamado Jonas iam se encontrar hoje � tarde na esta��o central.</p><p>� N�o, nada � disse ela. � Mas eu queria trocar uma id�ia com voc�.</p><p>� Tudo bem.</p><p>� O que voc� acha da possibilidade de n�o se tratar de um assediador, e sim de algu�m pr�ximo a mim querendo me perturbar?</p><p>� Qual � a diferen�a?</p><p>� Um assediador � uma pessoa desconhecida que teria desenvolvido uma fixa��o por mim. A outra variante � algu�m querendo se vingar ou sabotar a minha vida por motivos pessoais.</p><p>� E uma id�ia interessante. De onde voc� tirou?</p><p>� Eu... eu conversei sobre o assunto hoje com uma pessoa. N�o posso te dizer quem �, mas ela veio com a tese de que as amea�as de um aut�ntico pervertido sexual seriam de outro jeito. E, principalmente, que esse tipo de cara jamais teria escrito aquele e-mail para a Eva Carlsson, da Cultura. E um comportamento completamente fora do contexto.</p><p>Susanne Linder meneou a cabe�a devagar.</p><p>� O que voc� est� dizendo faz sentido. Sabe que eu ainda n�o li esses e-mails? Voc� me mostra?</p><p>Erika pegou seu laptop e abriu-o sobre a mesa da cozinha.</p><p>Ao sa�rem do Pal�cio da Pol�cia por volta das dez da noite, Rosa Figuerola deu carona para Mikael Blomkvist. Pararam no mesmo local do dia anterior, no parque de Kronoberg.</p><p>� Aqui estamos n�s, no mesmo lugar. Voc� pretende sumir para trabalhar ou quer ir para a minha casa fazer amor?</p><p>� Bem...</p><p>� Mikael, n�o se sinta pressionado. Se voc� est� precisando trabalhar, fique � vontade.</p><p>� Caramba, Rosa, voc� � mesmo viciada.</p><p>� E voc� n�o quer depender de ningu�m. E o que voc� est� querendo dizer?</p><p>� N�o. N�o desse jeito. Mas eu tenho que falar com uma pessoa hoje � noite, e vai levar um tempinho. Ou seja, at� eu me liberar voc� j� vai estar dormindo.</p><p>Ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� At�.</p><p>Ele beijou-a no rosto e come�ou a andar at� o ponto de �nibus de Frid-hemsplan.</p><p>� Blomkvist! � ela gritou.</p><p>� O que foi?</p><p>� Eu n�o trabalho amanh� tamb�m. Se tiver tempo, venha tomar o caf� da manh� comigo.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>21.��� S�BADO 4 DE JUNHO � SEGUNDA-FEIRA 6 DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Lisbeth Salander sentiu uma onda de vibra��es negativas assim que come�ou a trabalhar no chefe de Atualidades Lukas Holm. Ele tinha cinq�enta e oito anos e estava fora do padr�o, mas Lisbeth o inclu�ra mesmo assim, j� que ele e Erika Berger andavam se estranhando. Era um intrigante, do tipo que fica mandando e-mails comentando que Fulano fez um trabalho lament�vel.</p><p>Lisbeth constatou que Holm n�o gostava de Erika Berger e que gastava um tempo consider�vel com coment�rios sobre essa mulherzinha que andou fazendo isso e aquilo. Quanto � internet, ele navegava exclusivamente em sites relacionados com seu trabalho. Se tinha outros interesses, dedicava-se a eles durante seu tempo livre ou usando outro computador.</p><p>Ela o manteve como candidato ao papel de Pena Podre, mas isso seria bom demais. Por um momento, Lisbeth se perguntou por que n�o acreditava realmente que fosse ele e concluiu que Holm era t�o cheio de si que n�o iria querer se esconder atr�s de e-mails an�nimos. Se quisesse chamar Erika de puta nojenta, ele o faria abertamente. E n�o parecia ser do tipo que se d� ao trabalho de arrombar a casa de Erika Berger no meio da noite.</p><p>Por volta das dez da noite, ela fez uma pausa e entrou em [Tavola-Biruta], s� para constatar que Mikael Blomkvist ainda n�o aparecera. Sentiu uma onda de irrita��o e se perguntou o que ele andava fazendo, se tinha chegado a tempo ao encontro de Teleborian.</p><p>Em seguida, voltou ao servidor do SMP.</p><p>Pegou o nome seguinte da lista, o assistente de reda��o da p�gina de Esportes, Claes Lundin, vinte e nove anos. Acabava de abrir a caixa postal dele quando se deteve e mordeu o l�bio inferior. Deixou Lundin para l� e abriu a correspond�ncia de Erika Berger.</p><p>Foi percorrendo a lista de e-mails, mas ela era relativamente pequena, j� que sua conta s� fora aberta em 2 de maio. O primeiro e-mail era uma pauta da manh� enviada pelo assistente de reda��o Peter Fredriksson. Naquele primeiro dia, v�rias pessoas tinham lhe enviado um e-mail de boas-vindas.</p><p>Lisbeth leu com aten��o cada um dos e-mails recebidos por Erika Berger. Reparou no tom hostil, desde o primeiro dia, da correspond�ncia com o editor de Atualidades Lukas Holm. Eles pareciam n�o concordar em nada, e Lisbeth constatou que Holm complicava as coisas mandando dois ou tr�s e-mails por qualquer bobagem.</p><p>Ela pulou propagandas, spams e pautas s� de not�cias. Concentrou-se nas mensagens de tom pessoal. Leu c�lculos de or�amentos, resultados das �reas de publicidade e marketing, uma troca de e-mails com o diretor financeiro Christer Sellberg que se estendia por uma semana e quase podia ser classificada como um mega desentendimento sobre cortes de pessoal. Ela recebera e-mails exasperados do editor de Direito sobre um substituto chamado Johannes Frisk, que Erika Berger aparentemente incumbira de uma mat�ria que n�o agradava. Com exce��o dos primeiros e-mails de boas--vindas, tinha-se a impress�o de que nenhum funcion�rio em cargo de chefia via nada de positivo nos argumentos ou nas propostas de Erika.</p><p>Pouco depois, ela voltou ao in�cio da lista e fez um c�lculo mental. Constatou que, de todos os executivos de alto n�vel do SMP que rodeavam Erika Berger, apenas quatro n�o tentavam solapar sua posi��o: Borgsj�, o presidente do conselho administrativo; Peter Fredriksson, assistente de reda��o; Gunder Storman, respons�vel pelo editorial; e Sebastian Strandlund, chefe da se��o Cultura.</p><p>Ser� que eles nunca ouviram falar em mulher no SMP? Os chefes s�o todos homens.</p><p>A pessoa com quem Erika Berger tinha menos envolvimento era o editor da se��o de Cultura. Desde que trabalhava l�, Erika trocara apenas dois e-mails com Sebastian Strandlund. Os e-mails mais cordiais, e manifestamente os mais simp�ticos, vinham do redator editorial Storman. Borgsj� era sucinto e �spero. Todos os demais chefes estavam envolvidos numa aut�ntica guerrilha.</p><p>Por que essa merda de grupo de homens foi contratar a Erika Berger, se s� o que eles querem � acabar com ela?</p><p>A pessoa com quem ela parecia ter mais contato era o assistente de reda��o Peter Fredriksson. Era sempre ele quem redigia as atas das reuni�es. Ele preparava os caminhos, brifava Erika sobre diferentes textos e problemas, fazia girar a engrenagem.</p><p>Trocava uns doze e-mails por dia com Erika.</p><p>Lisbeth reuniu todos os e-mails de Peter Fredriksson para Erika e os leu um por um. Duas ou tr�s vezes, ele tinha se oposto a uma decis�o de Erika. Explicara quais eram seus motivos. Erika Berger parecia confiar nele, pois voltara atr�s em suas decis�es ou aceitara seus argumentos. Ele nunca fora hostil. Em compensa��o, n�o havia nenhum ind�cio de uma rela��o pessoal com Erika.</p><p>Lisbeth fechou a caixa postal de Erika Berger e refletiu por um instante.</p><p>Ent�o abriu a conta de Peter Fredriksson.</p><p>Praga revirara os computadores pessoais de v�rios funcion�rios do SMP desde o in�cio da noite, em v�o. Conseguira entrar na casa do chefe de Atualidades, Lukas Holm, j� que ele tinha uma conex�o permanente com sua sala na reda��o, para poder intervir a qualquer momento do dia ou da noite na coordena��o dos trabalhos. O computador pessoal de Holm era um dos mais tediosos que Praga j� tinha pirateado. Em compensa��o, fracassaia com os outros dezoito nomes da lista de Lisbeth Salander. Um dos motivos � que nenhum deles estava on-line num s�bado � noite. Come�ava a se cansar um pouco daquela tarefa imposs�vel quando Lisbeth Salander deu sinal, por volta das dez e meia.</p><p>[O qu� foi?]</p><p>[Peter Fredriksson.]</p><p>[Certo.]</p><p>[Deixe os outros para l�. Concentre-se nele.]</p><p>[Por qu�?]</p><p>[Pressentimento.]</p><p>[Vai demorar um tempinho.]</p><p>[Existe um atalho. O Fredriksson � assistente de reda��o e trabalha com um programa chamado Integrator para verificar de casa o que acontece no seu computador do SMP.]</p><p>[N�o sei nada sobre o Integrator.]</p><p>[E um programinha que foi lan�ado h� alguns anos. J� est� ultrapassado. O Integrator tem um bug. Est� nos arquivos da Hacker Rep. Teoricamente, voc� pode inverter o programa e entrar no computador pessoal dele a partir do SMP.]</p><p>Praga soltou um suspiro profundo. Aquela garota, que tinha sido sua aluna, estava mais por dentro que ele.</p><p>[Certo. Vou ver isso.]</p><p>[Se encontrar alguma coisa, passe para o Super-Blomkvist caso eu n�o esteja mais on-line.]</p><p>Mikael Blomkvist voltou ao apartamento de Lisbeth Salander, em Mose-backe, pouco antes da meia-noite. Estava cansado, e a primeira coisa que fez foi tomar um banho. Depois ligou a cafeteira e em seguida o computador de Lisbeth Salander. Chamou-a pelo ICQ.</p><p>[At� que enfim.] [Desculpe.]</p><p>[Onde voc� andou nesses �ltimos dias?] [Na cama com uma agente secreta. E atr�s de Jonas.] [Voc� conseguiu ir ao encontro?] [Sim. Foi voc� que avisou a Erika?] [Era o �nico jeito de contatar voc�.] [Garota esperta.]</p><p>[Vou se transferida amanh� para a casa de deten��o.] [Eu sei.]</p><p>[O Praga vai te ajudar com a internet.]</p><p>[�timo.]</p><p>[S� falta a grande final.]</p><p>Mikael meneou a cabe�a para si mesmo.</p><p>[Sally... a gente vai fazer o que tem de ser feito.] [Eu sei. Voc� � previs�vel.] [E voc�, encantadora como sempre.] [H� mais uma coisa que eu deva saber?] [N�o.]</p><p>[Nesse caso, tenho um bocado de coisas para fazer na internet.] [Tudo bem. Se cuide.]</p><p>O ru�do em seu fone de ouvido despertou Susan Linder num sobressalto. Algu�m acionara o detector de movimentos que ela instalara no hall de entrada, no t�rreo da casa de Erika Berger. Apoiou-se num cotovelo para ver a hora, eram 5h23 de domingo. Saiu da cama sem fazer barulho e enfiou jeans, camiseta e t�nis. Colocou a bomba de g�s lacrimog�neo no bolso de tr�s e levou o cassetete telesc�pico.</p><p>Passou silenciosamente pela porta do quarto de Erika Berger, verificou que estava fechada e, portanto, trancada.</p><p>Deteve-se no alto da escada para escutar. Ouviu um tinido fraco e um movimento no t�rreo. Desceu a escada devagar e se deteve no hall de entrada para escutar.</p><p>Uma cadeira rangeu na cozinha. Segurando o cassetete com m�o firme, dirigiu-se em sil�ncio para a porta da cozinha, onde viu um homem calvo e n�o barbeado sentado � mesa com um copo de suco de laranja, lendo o SMP. Ele sentiu sua presen�a e ergueu os olhos.</p><p>� Quem � voc�? � ele perguntou.</p><p>Susanne Linder relaxou e se apoiou no batente da porta.</p><p>� Imagino que seja Lars Berger. Eu sou Susanne Linder.</p><p>� Ah, sim. Vai me rachar a cabe�a com esse cassetete ou aceita um suco de laranja?</p><empty-line/><p>� Com prazer � disse Susanne, largando o cassetete. � Quero dizer o suco de laranja.</p><p>Lars Beckman se esticou para apanhar um copo no escorredor de lou�a e serviu-lhe o suco de uma embalagem de papel�o.</p><p>� Eu trabalho para a Milton Security � disse Susanne Linder. � Acho que seria melhor se a sua mulher lhe explicasse por que estou aqui.</p><p>Lars Beckman se levantou.</p><p>� Aconteceu alguma coisa com a Erika?</p><p>� A sua mulher est� bem. Mas houve uns probleminhas. Tentamos contat�-lo em Paris.</p><p>� Em Paris? Mas eu estava em Helsinque, caramba.</p><p>� Ah. Desculpe, sua mulher achava que era Paris. Lars dirigiu-se � porta.</p><p>� A porta do quarto est� fechada a chave. Precisa de um c�digo para abri-la � disse Susanne Linder.</p><p>� C�digo?</p><p>Ela lhe passou os tr�s algarismos que ele teria de teclar para abrir a porta do quarto. Ele galgou os degraus de quatro em quatro. Susanne Linder estendeu o bra�o e juntou o SMP que ele tinha deixado ali.</p><p>�s dez horas do domingo, o dr. Anders Jonasson entrou no quarto de Lisbeth Salander.</p><p>� Ol�, Lisbeth.</p><p>� Ol�.</p><p>� Eu s� queria te avisar que a pol�cia vai chegar l� pelo meio-dia.</p><p>� Tudo bem.</p><p>� Voc� n�o me parece muito preocupada.</p><p>� N�o estou mesmo.</p><p>� Tenho um presente para voc�.</p><p>� Um presente? Por qu�?</p><p>� Voc� foi uma das pacientes mais divertidas que eu j� tive.</p><p>� Ah, �? � disse Lisbeth Salander, desconfiada.</p><p>� Pelo que entendi, voc� � fascinada por DNA e gen�tica.</p><p>� Quem disse... aposto que foi a psic�loga.</p><p>Anders Jonasson assentiu com a cabe�a.</p><p>� Se voc� estiver se chateando na casa de deten��o... aqui est� a �ltima novidade em mat�ria de pesquisa sobre o DNA.</p><p>Ele entregou-lhe um tijol�o intitulado Spirals � Mysteries of DNA, escrito por um certo professor Yoshito Takamura, da Universidade de T�quio. Lisbeth Salander abriu o livro e examinou o sum�rio.</p><p>� Bacana � disse ela.</p><p>� Um dia, seria interessante descobrir como � isso de voc� ler artigos de pesquisadores que nem eu entendo.</p><p>Assim que Anders Jonasson saiu do quarto, Lisbeth pegou o computador de m�o. A reta final. Verificando no departamento de pessoal do SMP, Lisbeth calculou que Peter Fredriksson trabalhava havia seis anos no jornal. Nesses seis anos, estivera em licen�a m�dica por dois per�odos bastante longos. Os arquivos do departamento pessoal informavam Lisbeth que, nas duas vezes, ele havia surtado. Em certo momento, Morander, o antecessor de Erika Berger, questionara a capacidade de Fredriksson em permanecer como assistente de reda��o.</p><p>Palavras, palavras, palavras. Nada de concreto em que se prender.</p><p>Quinze para o meio-dia, Praga chamou-a pelo ICQ.</p><p>[O que foi? j</p><p>[Voc� ainda est� em Sahlgrenska?]</p><p>[Adivinhe.]</p><p>[� ele.]</p><p>[Tem certeza?]</p><p>[Ele entrou no computador de casa para trabalhar faz uma meia hora. Aproveitei para visitar o computador pessoal dele. Tem umas fotos da Erika Berger escaneadas no disco r�gido.]</p><p>[Obrigada.]</p><p>[Ela at� que � bonitona.]</p><p>[Praga.]</p><p>[Eu sei. O que eu tenho que fazer?]</p><p>[Ele colocou as fotos na internet?]</p><p>[N�o que eu tenha visto.]</p><p>[Voc� consegue atacar o computador dele?]</p><p>[Isso eu j� fiz. Se ele tentar mandar as fotos por e-mail ou colocar algo com mais de 20 kb na internet, o disco r�gido bate as botas.] [Sensacional.]</p><p>[Estou querendo dormir. Voc� agora se vira sozinha?] [Como sempre.]</p><p>Lisbeth saiu do ICQ. Verificou a hora e se deu conta de que j� era quase meio-dia. Redigiu rapidamente uma mensagem que endere�ou para o grupo Yahoo [Tavola-Biruta].</p><p>[Mikael. Importante. Ligue imediatamente para Erika Berger e diga a ela que Peter Fredriksson � o Pena Podre.]</p><p>Quando estava enviando a mensagem, ouviu uma movimenta��o no corredor. Ergueu o Palm Tungsten T3 e deu um beijo na tela. Depois desligou-o e o guardou na cavidade atr�s do criado-mudo.</p><p>� Oi, Lisbeth � disse, l� da porta, sua advogada Annika Giannini.</p><p>� Oi.</p><p>� A pol�cia vem te buscar daqui a pouco. Eu trouxe algumas roupas. Espero que o tamanho esteja certo.</p><p>Lisbeth olhou, desconfiada, para uma cole��o de cal�as escuras elegantes e camisas claras.</p><p>Duas mulheres com uniforme da pol�cia de G�teborg � que foram buscar Lisbeth Salander. Sua advogada a acompanhou at� a casa de deten��o.</p><p>Quando sa�ram do quarto e seguiram pelo corredor, Lisbeth reparou que v�rios membros da equipe a fitavam, curiosos. Ela acenou gentilmente com a cabe�a e um deles abanou a m�o em resposta. Anders Jonasson, por acaso, estava na recep��o. Eles se olharam e trocaram um cumprimento. Antes que elas virassem no corredor, Lisbeth notou que Anders Jonasson j� se dirigia ao quarto dela.</p><p>Durante todo o procedimento que a conduzira � casa de deten��o, Lisbeth Salander n�o disse uma palavra sequer aos policiais.</p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist desligou o iBook e parou de trabalhar �s sete da manh� de domingo. Permaneceu por algum tempo � mesa de Lisbeth Salander olhos fixos no nada � sua frente.</p><p>Ent�o foi at� o quarto e contemplou a gigantesca cama de casal de Lisbeth. Minutos depois, voltou ao escrit�rio, abriu seu laptop e chamou Rosa Figuerola.</p><p>� Oi. � o Mikael.</p><p>� Oi, voc�. J� de p�?</p><p>� Parei de trabalhar neste instante e vou me deitar. S� queria dar um al�.</p><p>� Homens que ligam s� para dar um al� t�m algo na cabe�a. Ele riu.</p><p>� Blomkvist, pode vir dormir aqui se quiser.</p><p>� N�o vou ser uma companhia divertida.</p><p>� Eu me acostumo.</p><p>Ele pegou um t�xi para a Pontonj�rgatan.</p><p>Erika Berger passou o domingo na cama com Lars Beckman, ora conversando, ora cochilando. A tarde, vestiram-se e fizeram um longo passeio at� o pont�o do barco a vapor e deram uma volta em torno do vilarejo.</p><p>� O SMP foi um erro � disse Erika Berger quando chegaram em casa.</p><p>�� N�o diga isso. Est� dif�cil agora, mas voc� sabia que ia ser assim. Quando voc� pegar o ritmo, as coisas se ajeitam.</p><p>� O problema n�o � o trabalho. Com isso eu lido numa boa. � a atitude.</p><p>� Humm.</p><p>� N�o me sinto bem l�. Mas n�o posso pedir demiss�o depois de poucas semanas.</p><p>Sentou-se, triste, � mesa da cozinha e ficou olhando para o vazio, sem animo. Lars Beckman nunca tinha visto sua mulher t�o resignada.</p><p>O inspetor Hans Faste encontrou com Lisbeth Salander pela primeira vez ao meio-dia e meia de domingo, quando uma policial de G�teborg a acompanhou at� a sala de Marcus Ackerman.</p><p>� Foi uma trabalheira danada conseguir te pegar � disse Hans Faste.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander examinou-o demoradamente, ent�o concluiu que era um abobado e que n�o pretendia gastar mais que poucos segundos pensando na exist�ncia dele.</p><p>� A inspetora Gunilla W�ring vai com voc�s at� Estocolmo � disse Ackerman.</p><p>� Ah, �? � disse Faste. � Bem, ent�o vamos indo. E que tem um bocado de gente querendo falar com voc�, Salander.</p><p>Ackerman disse at�-logo a Lisbeth Salander. Ela o ignorou.</p><p>Ficara resolvido que seria mais pr�tico realizar a transfer�ncia da prisioneira para Estocolmo numa viatura policial. Gunilla Waring foi dirigindo. No come�o, Hans Faste, sentado no banco do passageiro, � frente, foi com a cabe�a virada para tr�s, tentando falar com Lisbeth Salander. A altura de Alings�s, come�ou a ficar com torcicolo e desistiu.</p><p>Lisbeth Salander contemplava a paisagem pela janela. A impress�o era de que Faste n�o existia no seu mundo.</p><p>O Teleborian est� certo. Essa a� � completamente retardada, pensou Faste. Em Estocolmo a gente resolve isso.</p><p>De vez em quando ele dava uma espiada em Lisbeth Salander, tentando formar uma opini�o sobre a mulher que ele perseguira durante tanto tempo. E o pr�prio Hans Faste tinha suas d�vidas ao ver a fragilidade daquela garota. Lembrou-se de que ela era l�sbica e, portanto, n�o era uma mulher de verdade.</p><p>Em compensa��o, era poss�vel que a hist�ria do satanismo fosse exagero. A garota n�o parecia ser muito sat�nica.</p><p>Por ironia, dava-se conta de que teria preferido, de longe, prend�-la pelos tr�s assassinatos de que a acusavam no in�cio, mas a realidade se impusera � investiga��o. At� uma garota magricela pode manejar uma pistola. Atualmente, ela estava detida por golpes e ferimentos agravados contra o supremo dirigente do MC Svavelsj�, e disso ela era culpada sem sombra de d�vida; que tamb�m havia provas t�cnicas caso ela pretendesse negar.</p><p>Rosa Figuerola acordou Mikael Blomkvist por volta da uma da tarde. Ela ficara na sacada terminando seu livro sobre os deuses da Antig�idade, enquanto escutava os roncos de Mikael no quarto. Um momento tranq�ilo.</p><empty-line/><p>Quando entrou no quarto e olhou para ele, percebeu que havia muitos anos n�o se sentia t�o atra�da por um homem.</p><p>Era uma sensa��o agrad�vel, mas preocupante. Mikael Blomkvist n�o parecia ser um elemento est�vel em sua exist�ncia.</p><p>Depois que ele acordou, desceram at� Norr M�larstrand para tomar um caf�- Em seguida, ela o arrastou de volta para sua casa e fizeram amor pelo resto da tarde. Ele foi embora l� pelas sete da noite. Ela sentiu sua falta assim que ele deu um beijo em seu rosto e fechou a porta ao sair.</p><p>Por volta das oito horas da noite de domingo, Susanne Linder tocou a campainha da casa de Erika Berger. N�o ia dormir l�, pois Lars Beckman estava de volta, e a visita, portanto, n�o tinha nada de profissional. As poucas noites que passara com Erika as aproximaram bastante em suas longas conversas na cozinha. Descobriu que gostava de Erika Berger e a via como uma mulher desesperada que todos os dias ia para o trabalho vestindo uma m�scara, como se estivesse tudo bem. Mas a verdade � que Erika era uma pilha de ang�stia ambulante.</p><p>Susanne Linder desconfiava que a ang�stia n�o se devia apenas ao Pena Podre. Mas ela n�o era assistente social, e a vida e os problemas de Erika Berger n�o lhe diziam respeito. Assim, foi at� a casa dos Berger apenas para dar um al� e perguntar se estava tudo bem. Encontrou Erika e o marido na cozinha, imersos numa atmosfera surda e pesada. Pareciam ter passado o domingo conversando sobre coisas s�rias.</p><p>Lars Beckman fez um caf�. N�o fazia muito tempo que Susanne Linder estava com eles quando o celular de Erika tocou.</p><p>Naquele dia, Erika Berger atendera todas as liga��es com uma sensa��o de naufr�gio iminente.</p><p>� Berger.</p><p>� Oi, Ricky.</p><p>Mikael Blomkvist. Droga. Ainda n�o contei para ele que o dossi� Borgsj� sumiu.</p><p>� Oi, Micke.</p><p>� A Salander foi transferida hoje � tarde para a casa de deten��o de G�teborg e deve ser levada para Estocolmo amanh�.</p><p>� Sei.</p><p>� Ela me passou um... recado para voc�.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Meio misterioso.</p><p>� O que �?</p><p>� Ela mandou dizer que o Pena Podre � o Peter Fredriksson.</p><p>Erika Berger ficou calada por uns dez segundos, enquanto os pensamentos pipocavam em seu c�rebro. Imposs�vel. O Peter n�o � assim. A Salander deve ter se enganado.</p><p>� Mais alguma coisa?</p><p>� N�o. Esse � o recado. Voc� sabe do que se trata?</p><p>� Sei.</p><p>� Ricky, afinal, o que voc� e a Lisbeth andam tramando? Ela ligou para voc� para dar o toque sobre o Teleborian e...</p><p>� Obrigada, Micke. Depois a gente conversa.</p><p>Ela desligou o celular e fitou Susanne Linder com olhos apavorados.</p><p>� Conta � disse Susanne Linder.</p><p>Susanne Linder experimentava sentimentos contradit�rios. Erika Berger acabava de receber um recado avisando que seu assistente de reda��o, Peter Fredriksson, era o Pena Podre. Suas palavras tinham jorrado como um rio quando ela come�ara a falar. Ent�o, Susanne Linder lhe perguntara como ela sabia que Fredriksson era o sujeito que a vinha assediando.</p><p>Ent�o, Erika Berger se calara. Susanne observou seus olhos e percebeu que alguma coisa mudara na atitude da redatora-chefe. De repente, Erika Berger parecia incomodada.</p><p>� Eu n�o posso dizer...</p><p>� Como assim?</p><p>� Susanne, eu sei que o Pena Podre � o Fredriksson. Mas n�o posso dizer como consegui essa informa��o. O que eu fa�o?</p><p>� Voc� tem que me dizer se quiser*que eu te ajude.</p><p>� Eu... eu n�o posso. Voc� n�o entende.</p><p>Erika Berger se levantou e foi at� a janela da cozinha, dando as costas nara Susanne Linder. Por fim, se virou.</p><p>� Vou � casa desse canalha falar com ele.</p><p>� Nem pensar. Voc� n�o vai a lugar nenhum, muito menos na casa de um sujeito que, tudo leva a crer, sente um �dio violento de voc�.</p><p>Erika Berger pareceu hesitar.</p><p>� Sente-se. Me conte o que aconteceu. Era o Mikael Blomkvist no telefone, n�o era?</p><p>Erika meneou a cabe�a.</p><p>� Eu... hoje eu pedi que um hacker desse uma olhada nos computadores pessoais dos funcion�rios.</p><p>� Ah�. E com essa voc� provavelmente incorreu num crime de inform�tica agravado. E n�o quer dizer quem � o hacker.</p><p>� Eu prometi n�o falar... N�o s�o as mesmas pessoas. Um caso em que o Mikael est� trabalhando.</p><p>� O Blomkvist est� sabendo sobre o Pena Podre?</p><p>� N�o, ele s� me repassou o recado.</p><p>Susanne Linder inclinou a cabe�a e observou Erika Berger. De repente, uma cadeia de associa��es foi se criando em sua mente.</p><p>Erika Berger. Mikael Blomkvist. Millenium. Policiais suspeitos invadiram o apartamento do Blomkvist e instalaram microfones. Eu vigiei os vigias dele. O Blomkvist est� trabalhando como um doido numa mat�ria sobre a Lisbeth Salander.</p><p>Que a Lisbeth Salander era fera em computa��o, todo mundo sabia na Milton Security. Ningu�m tinha id�ia de onde vinham esses conhecimentos, e Susanne nunca ouvira dizer que Salander era uma hacker. Mas Dragan Armanskij mencionara certa vez que Salander entregava relat�rios simplesmente espantosos quando fazia investiga��es sobre pessoas. Uma hacker...</p><p>Mas, puta merda, a Salander est� isolada em G�teborg!</p><p>N�o fazia sentido.</p><p>� Estamos falando da Salander? � perguntou Susanne Linder. Foi como se Erika Berger tivesse sido atingida por um raio.</p><p>� N�o posso contar a origem da informa��o. Nenhuma palavra sobre isso.</p><p>De repente, Susanne Linder come�ou a rir.</p><p>� a Salander. A confirma��o da Erika n�o poderia ser mais clara. Ela est� completamente perdida.</p><p>S� tem uma impossibilidade s�ria.</p><p>Mas o que est� acontecendo, porra?</p><p>Durante seu cativeiro, Lisbeth Salander teria se encarregado da tarefa de descobrir quem era Pena Podre. Possibilidade zero.</p><p>Susanne Linder refletiu intensamente.</p><p>N�o fazia nenhuma id�ia muito precisa sobre Lisbeth Salander ou sobre o que as pessoas diziam a respeito dela. Tinha cruzado com Lisbeth umas cinco vezes, talvez, durante os anos em que ela trabalhara na Milton Security, e nunca tiveram uma s� conversa pessoal. A imagem que tinha de Salander era de uma criadora de casos, uma pessoa t�o antissocial e com uma coura�a t�o dura que nem uma perfuradora seria capaz de romper. Tamb�m havia constatado que Dragan Armanskij estendera sobre Lisbeth Salander suas asas protetoras. Como Susanne Linder respeitava Dragan Armanskij, supunha, portanto, que ele tivesse bons motivos para adotar essa atitude em rela��o �quela mo�a complicada.</p><p>Peter Fredriksson � o Pena Podre.</p><p>Ser� que ela estava certa? Ser� que havia provas?</p><p>Em seguida, Susanne Linder passou uma hora interrogando Erika Berger sobre tudo que ela sabia a respeito de Peter Fredriksson, qual era o papel dele no SMP e como era a rela��o profissional entre os dois. As respostas n�o levavam a lugar nenhum.</p><p>Erika Berger hesitou at� se sentir frustrada, oscilando entre o desejo de ir � casa de Fredriksson ouvir suas explica��es e a d�vida sobre a veracidade da informa��o. Por fim, Susanne Linder a convenceu de que n�o podia correr para Peter Fredriksson com acusa��es � se ele fosse inocente, Berger faria papel de idiota.</p><p>Susanne Linder prometeu cuidar do caso. Uma promessa de que se arrependeu assim que a pronunciou, pois n�o fazia id�ia de como poderia cumpri-la.</p><p>Em todo caso, estacionou seu Fiat Strada o mais pr�ximo poss�vel do apartamento de Fredriksson, em Fisks�tra. Trancou as portas e olhou ao redor. N�o estava muito certa do que faria, mas ponderou que deveria cham�-lo na casa dele e, de alguma maneira, induzi-lo a responder a algumas perguntas. Tinha consci�ncia de que aquilo nada tinha a ver com o trabalho combinado com a Milton Security e de que Dragan Armanskij ficaria furioso se soubesse o que ela estava aprontando.</p><p>N�o era um bom plano. E, de todo modo, fracassou antes mesmo que ela tivesse tempo de coloc�-lo em a��o.</p><p>Quando estava entrando no p�tio e aproximando-se do pr�dio de Peter Fredriksson, a porta se abriu. Susanne Linder o reconheceu de imediato, lembrando-se da foto do departamento pessoal que vira no computador de Erika Berger. Ela seguiu em frente e os dois se cruzaram. Susanne Linder parou, hesitante, virou-se e o viu desaparecer na dire��o da garagem. Ent�o constatou que eram quase onze da noite e que Peter Fredriksson estava indo para algum lugar. Perguntou-se para onde ele poderia estar indo e correu at� seu pr�prio carro.</p><p>Mikael Blomkvist permaneceu um bom tempo contemplando seu celular depois que Erika Berger interrompeu a liga��o. Perguntou-se o que estava acontecendo. Lan�ou um olhar frustrado ao computador de Lisbeth Salan-der. Aquela hora ela j� teria sido transferida para a casa de deten��o de G�teborg e n�o havia a menor possibilidade de lhe perguntar nada.</p><p>Ligou seu TIO azul e telefonou para Idris Ghidi, em Angered.</p><p>� Oi. � o Mikael Blomkvist.</p><p>� Oi � disse Idris Ghidi.</p><p>� Era s� para dizer que voc� pode encerrar o servi�o que estava fazendo para mim.</p><p>Idris Ghidi assentiu com a cabe�a sem falar nada. J� imaginava que Mikael Blomkvist iria ligar, uma vez que Lisbeth Salander tinha sido levada para a casa de deten��o.</p><p>� Entendo � disse.</p><p>� Voc� pode ficar com o celular, conforme a gente combinou. Te mando seu pagamento durante a semana.</p><p>� Obrigado.</p><p>� Eu � que agrade�o pela ajuda.</p><p>Ligou seu iBook e se p�s ao trabalho. Em fun��o dos acontecimentos dos �ltimos dias, boa parte do original teria de ser alterado, e uma hist�ria nova precisaria, sem d�vida, ser inclu�da. Ele suspirou.</p><p>�s onze e quinze da noite, Peter Fredriksson estacionou o carro a tr�s quarteir�es da casa de Erika Berger. Susanne Linder j� sabia para onde ele ia e se distanciara para n�o chamar a aten��o. Continuou rodando por mais de dois minutos depois que ele estacionou. Constatou que o carro estava vazio. Passou pela casa de Erika Berger e foi um pouco mais adiante, para estacionar sem ser vista. Suas m�os estavam molhadas de suor.</p><p>Pegou uma lata de Catch Dry e p�s na boca um pouco de fumo de mascar.</p><p>Ent�o abriu o carro e olhou em redor. Assim que percebera que Fredriksson se dirigia para Saltsj�baden, compreendeu que a pista oferecida por Salander estava certa. Ignorava como Salander tinha conseguido descobrir, mas n�o havia mais nenhuma d�vida de que Fredriksson era Pena Podre. Com toda certeza, ele n�o estava indo � noite para Saltsj�baden por acaso. Alguma coisa estava sendo tramada.</p><p>O que era perfeito para que ela o pegasse em flagrante.</p><p>Pegou o cassetete telesc�pico no compartimento lateral da porta e avaliou seu peso rapidamente. Destravou o cabo, soltando o pesado fio de a�o flex�vel. Cerrou os dentes.</p><p>Por isto deixara de trabalhar na patrulha de interven��o de S�dermalm.</p><p>Certo dia, ficara absolutamente enfurecida quando a patrulha, pela terceira vez em tr�s dias, fora a um endere�o em H�gersten depois de uma mulher, sempre a mesma, ter chamado a pol�cia e gritado por socorro porque o marido a espancava. E, como nas duas primeiras vezes, a situa��o se acalmara antes de a patrulha chegar.</p><p>Por pura rotina, levaram o homem para a escadaria do pr�dio enquanto interrogavam a mulher. N�o, ela n�o queria registrar uma queixa. N�o, era um engano. N�o, ele era bonzinho... na verdade, a culpa era dela. Ela � que tinha provocado...</p><p>Enquanto isso, o safado ficara rindo o tempo todo, encarando Susanne Linder.</p><p>N�o saberia explicar por que tinha agido daquela maneira. Mas de repente alguma coisa explodiu dentro dela, ela pegou o cassetete e o golpeou na boca. O primeiro golpe teve pouca for�a. Ele se esquivou e ela s� lhe estourou o l�bio. Nos dez segundos que se seguiram � at� que seus colegas a agarrassem e a levassem para fora � for�a � deixara as cassetadas choverem nas costas do homem, na lombar, nos quadris e nos ombros.</p><p>N�o tinha sido indiciada. Pedira demiss�o naquela mesma tarde e fora para casa, onde passara uma semana chorando. Ent�o se recobrou e foi bater � porta de Dragan Armanskij. Contou-lhe o que tinha feito e por que sa�ra da pol�cia. Estava procurando emprego. Armanskij hesitou e lhe pediu um prazo para pensar. Ela j� tinha perdido as esperan�as quando ele ligara, seis semanas depois, dizendo-se disposto a contrat�-la para um per�odo de experi�ncia.</p><p>Susanne Linder fez uma careta de �dio e enfiou o cassetete no cintur�o, �s costas. Verificou se a bomba de g�s lacrimog�neo estava mesmo no bolso direito da jaqueta e se os cadar�os de seu t�nis estavam bem amarrados. Caminhou at� a casa de Erika Berger e se esgueirou pelo terreno.</p><p>Sabia que o detector de movimentos no p�tio dos fundos ainda n�o estava instalado e avan�ou sem fazer barulho pelo gramado rente � sebe que contornava o terreno. N�o estava vendo o homem. Deu a volta na casa e parou, im�vel. Avistou-o de repente, uma sombra em meio � escurid�o, junto ao ateli� de Lars Beckman.</p><p>Ele n�o se d� conta do quanto � est�pido voltar aqui. N�o consegue deixar de vir.</p><p>Ele estava agachado e tentando espiar, por uma fresta entre as cortinas, dentro de uma saleta cont�gua � sala de estar. Ent�o subiu ao terra�o e espreitou pelos v�os das persianas fechadas, ao lado da janela panor�mica ainda tapada com o compensado.</p><p>De repente, Susanne Linder sorriu.</p><p>Esgueirou-se pelo p�tio at� a esquina da casa enquanto ele estava de costas para ela. Escondeu-se atr�s de umas groselheiras e esperou. Conseguia v�-lo atrav�s dos ramos. De onde estava, Fredriksson devia estar enxergando o hall de entrada e boa parte da cozinha. Ele topara com algo interessante para olhar e dez minutos se passaram antes que se pusesse de novo em movimento. Aproximou-se de Susanne Linder.</p><p>Quando ele estava prestes a virar a esquina da casa, passando na frente dela, Susanne Linder se ergueu e falou baixinho:</p><p>� Oi, Fredriksson!</p><p>Ele estacou e virou-se para ela.</p><p>Ela viu seus olhos cintilando no escuro. N�o conseguia enxergar seu rosto, mas podia ouvir que o choque o havia feito perder o f�lego.</p><p>� Existem duas maneiras de lidar com isso, uma simples e uma complicada � disse ela. �Vamos at� o seu carro e...</p><p>Ele deu meia-volta e come�ou a correr.</p><p>Susanne Linder ergueu o cassetete telesc�pico e desfechou um golpe doloroso e arrasador na parte externa de seu joelho esquerdo.</p><p>Ele caiu, produzindo um som abafado.</p><p>Ela ergueu o cassetete para bater mais uma vez, mas se conteve. Podia sentir os olhos de Dragan Armanskij em sua nuca.</p><p>Inclinou-se e o fez ficar de bru�os, ent�o enfiou-lhe um joelho na parte inferior das costas. Apanhou a m�o direita dele e torceu-lhe o bra�o por tr�s, algemando-o. Ele estava fraco e n�o op�s nenhuma resist�ncia.</p><p>Erika Berger apagou a luz da sala e subiu a escada mancando. N�o precisava mais das muletas, mas a planta do p� ainda do�a quando jogava seu peso em cima. Lars Beckman apagou a luz da cozinha e seguiu os passos da mulher. Nunca tinha visto Erika t�o mal. Nada do que ele dizia parecia acalm�-la nem atenuava sua ang�stia.</p><p>Ela se despiu e deitou-se na cama, de costas para ele.</p><p>� N�o � nada com voc�, Lars � disse ela, quando o escutou se deitar.</p><p>� Voc� realmente n�o parece estar bem � disse ele. � Quero que fique alguns dias em casa.</p><p>Passou o bra�o em volta dos ombros dela. Ela n�o tentou recha��-lo, mas estava totalmente passiva. Ele se inclinou, beijou-lhe o pesco�o com suavidade e a abra�ou.</p><p>� N�o h� nada que voc� possa dizer ou fazer para melhorar a situa��o. Eu sei que estou precisando de um tempo. Me sinto como num trem expresso que acabei de perceber que vai sair dos trilhos.</p><p>� A gente podia passear de barco por uns dias. Deixar tudo isso para l� e fazer uma parada.</p><p>� N�o. Eu n�o quero deixar tudo isso para l�.</p><p>Virou-se para ele.</p><p>� O pior que eu poderia fazer agora seria fugir, a� � que est�. Vou resolver esse problema. E depois a gente faz o passeio.</p><p>� Tudo bem � disse Lars. � S� acho que n�o posso ser de grande ajuda para voc�.</p><p>Ela quase sorriu.</p><p>� � verdade. Mas obrigada por estar aqui. Amo voc� muito, muito, voc� sabe disso.</p><p>Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>� N�o consigo acreditar que � o Peter Fredriksson � disse Erika Berger. � Nunca senti nenhuma hostilidade da parte dele.</p><p>Ao ver as luzes do t�rreo se apagarem, Susanne Linder se perguntou se deveria bater � porta de Erika. Olhou para Peter Fredriksson. Ele n�o dissera uma s� palavra. Estava totalmente passivo. Ela refletiu alguns instantes antes de se decidir.</p><p>Inclinou-se, segurou as algemas, puxou-o para que ele ficasse em p� e encostou-o na parede da casa.</p><p>� Voc� consegue ficar de p�? � perguntou. Ele n�o respondeu.</p><p>� Bem, ent�o vamos simplificar as coisas. Se voc� esbo�ar qualquer tipo de resist�ncia, vai receber o mesmo tratamento na perna direita. E, se insistir, eu arrebento seus bra�os. Est� me entendendo?</p><p>Percebeu que ele respirava depressa. Medo?</p><p>Empurrou-o � sua frente para a rua, at� o carro dele, a tr�s quarteir�es de dist�ncia. Ele mancava. Ela o amparava. Ao chegarem ao carro, cruzaram com um homem que fazia seu passeio noturno com o cachorro. Ele parou e fitou as algemas de Peter Fredriksson.</p><p>� Pol�cia � disse Susanne Linder com voz decidida. � V� para casa. Ela o acomodou no banco traseiro e o levou para a casa dele em Fisks�tra.</p><p>Era meia-noite e meia e eles n�o cruzaram com ningu�m na frente do pr�dio. Susanne Linder apanhou suas chaves e o fez subir a escada at� seu apartamento, no segundo andar.</p><p>� Voc� n�o pode entrar na minha casa � disse Peter Fredriksson.</p><p>Eram suas primeiras palavras desde que ela o tinha algemado.</p><p>� Voc� n�o tem o direito. Precisa de um mandato...</p><p>� Eu n�o sou tira � ela sussurrou. Ele olhou para ela com ar c�tico.</p><p>Ela o agarrou pela camisa e o empurrou para a sala, onde o deixou cair no sof�. Era um apartamento de tr�s c�modos, limpo e bem-arrumado. O quarto ficava � esquerda, a cozinha do outro lado do hall de entrada, o pequeno escrit�rio junto � sala.</p><p>Ela deu uma olhada no escrit�rio e soltou um suspiro de al�vio. A arma do crime! Avistou imediatamente fotos do �lbum de Erika Berger espalhadas sobre a mesa de trabalho, ao lado do computador. Ele afixara umas trinta fotos na parede. Susanne Linder contemplou a exposi��o de sobrancelhas erguidas. Erika Berger era superbonita. E a vida sexual dela parecia ser mais divertida que a sua.</p><p>Escutou Peter Fredriksson se mexendo e voltou para a sala a fim de peg�-lo. Deu-lhe uma cassetada, puxou-o at� o escrit�rio e o fez sentar-se no ch�o.</p><p>� N�o se mexa � disse.</p><p>Foi at� a cozinha e pegou uma sacola de papel da Konsum. A seguir foi retirando as fotos da parede, uma por uma. Achou o �lbum de fotos vazio e os di�rios �ntimos de Erika Berger.</p><p>� Cad� o v�deo? � perguntou.</p><p>Peter Fredriksson n�o respondeu. Susanne Linder foi at� a sala e ligou a tev�. Havia uma fita dentro do aparelho, mas precisou tatear alguns instantes at� descobrir o bot�o no controle remoto.</p><p>Ejetou a fita, e ent�o ficou um bom tempo conferindo se ele n�o tinha feito alguma c�pia.</p><p>Achou as cartas de amor da adolesc�ncia de Erika e o relat�rio sobre Borgsj�. Notou que ele tinha um esc�ner Microtek conectado a um computador IBM. Ergueu a tampa do esc�ner e encontrou uma foto esquecida que mostrava Erika Berger numa festa do Club Xtreme no Ano-Novo de 1986, a julgar por uma bandeirola pendurada numa parede.</p><p>Ligou o computador e se deu conta de que ele estava protegido por uma senha.</p><p>� Qual � a senha? � ela perguntou.</p><p>Peter Fredriksson permaneceu sentado no ch�o, teimosamente im�vel e recusando-se a falar.</p><p>De repente, Susanne Linder sentiu-se muito calma. Sabia que, tecnicamente falando, cometera uma s�rie de infra��es no decorrer da noite, incluindo o que se poderia qualificar como constrangimento, ou mesmo seq�estro agravado. N�o estava nem a�. Pelo contr�rio, estava at� satisfeita.</p><p>Passado algum tempo, acabou dando de ombros e pegou no bolso seu canivete su��o. Desligou todos os fios do computador, virou a parte traseira da CPU para a frente e usou a chave cruciforme para abri-lo. Levou breves quinze minutos para desmontar o computador e tirar dali o disco r�gido.</p><p>Olhou em volta. Tinha pegado tudo, mas por seguran�a examinou minuciosamente todas as gavetas da mesa, as pilhas de papel e as prateleiras. De s�bito, seu olhar bateu num antigo anu�rio de escola deixado na beirada da janela. Constatou que era o anu�rio do liceu de Djursholm, 1978. Erika Berger n�o pertencera � nata de Djursholm...? Abriu o anu�rio e percorreu, uma a uma, todas as turmas do �ltimo ano.</p><p>Encontrou Erika Berger com dezoito anos, usando o chap�u dos formandos e ostentando um sorriso feliz de belas covinhas. Usava um vestido elegante de algod�o branco e segurava um buqu� de flores na m�o. O aut�ntico clich� de uma adolescente ing�nua com men��o honrosa em todas as mat�rias.</p><p>Por pouco Susanne Linder n�o deixou o elo passar, mas ele estava na p�gina seguinte. Jamais o teria reconhecido na foto, por�m a legenda n�o deixava d�vida. Peter Fredriksson. Estava em outra classe, no mesmo ano que Erika Berger. Viu um garoto magrela e de semblante s�rio encarando a objetiva por sob a viseira do bon�.</p><p>Ela ergueu os olhos e eles cruzaram com os de Peter Fredriksson.</p><p>� Ela j� era uma puta nojenta naquela �poca.</p><p>� Fascinante � disse Susanne Linder.</p><p>� Trepava com todos os caras do col�gio.</p><p>� Acho dif�cil.</p><p>� Ela n�o passava de uma...</p><p>� N�o fale. O que aconteceu? Ela n�o quis dar para voc�?</p><p>� Ela me tratava como se eu fosse vento. Ria de mim pelas costas. E quando entrou no SMP nem me reconheceu.</p><p>� Certo, certo � disse Susanne Linder, cansada. � Voc� deve ter tido uma juventude dif�cil. Vamos falar s�rio um pouquinho?</p><p>� O que voc� quer?</p><p>� Eu n�o sou tira � disse Susanne Linder. � Perten�o ao time das pessoas que lidam com gente da sua esp�cie.</p><p>Esperou, deixando que a imagina��o de Fredriksson fizesse a sua parte.</p><p>� Quero saber se voc� colocou as fotos dela em algum lugar da internet. Ele negou com a cabe�a.</p><p>� Verdade verdadeira? Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� A Erika Berger � quem vai decidir se quer dar queixa contra voc� por ass�dio, amea�as e invas�o de domic�lio, ou se prefere resolver tudo amigavelmente.</p><p>Ele n�o disse nada.</p><p>� Se ela resolver te ignorar � o que, na minha opini�o, � o �nico tipo de aten��o que voc� merece �, quem vai ficar de olho em voc� sou eu.</p><p>Ela mostrou o cassetete telesc�pico.</p><p>� Se por acaso voc� tentar se aproximar de novo da casa da Erika Berger, ou mandar e-mails, ou-perturbar de alguma maneira, eu volto aqui. E vou te quebrar de um jeito que nem sua m�e vai te reconhecer. Est� entendendo?</p><p>Ele n�o respondeu.</p><p>� Em outras palavras, voc� tem uma chance de influir no final dessa hist�ria. Est� interessado?</p><p>Ele assentiu lentamente com a cabe�a.</p><p>� Nesse caso, vou sugerir � Erika Berger que deixe tudo por isso mesmo. Voc� n�o precisa mais ir trabalhar. Est� sendo demitido desde j�.</p><p>Ele meneou a cabe�a.</p><p>� Voc� some da vida dela e de Estocolmo. N�o estou nem a� para o que voc� vai fazer ou para onde vai. Ache um emprego para os lados de G�teborg ou Malm�. Pe�a outra licen�a m�dica. Fa�a o que quiser. Mas deixe Erika Berger em paz.</p><p>Ele concordou com a cabe�a.</p><p>� Estamos combinados?</p><p>De repente, Peter Fredriksson come�ou a chorar.</p><p>� Eu n�o queria fazer nenhum mal � disse. � S� queria...</p><p>-� Queria transformar a vida dela num inferno, e conseguiu. Voc� me J� a sua palavra?</p><p>Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>Ela se inclinou, virou-o de bru�os e abriu as algemas. Saiu levando a sacola da Komsum contendo a vida de Erika Berger e deixando o sujeito estatelado no ch�o.</p><p>Eram duas horas e meia da madrugada de segunda-feira quando Susan-ne Linder deixou o pr�dio de Fredriksson. Pensou em esperar o dia nascer para agir, mas se deu conta de que, se fosse com ela, teria gostado de saber logo. Al�m disso, seu carro continuava estacionado em Saltsj�baden. Chamou um t�xi.</p><p>Lars Beckman abriu a porta antes que ela tivesse tempo de apertar a campainha. Estava de cal�a jeans e n�o parecia nada sonolento.</p><p>� A Erika est� acordada? � perguntou Susanne Linder. Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� Alguma novidade? � perguntou.</p><p>Ela fez um gesto indicando que sim e sorriu.</p><p>� Entre. A gente estava conversando na cozinha. Entraram.</p><p>� Ol�, Erika � disse Susanne. � Voc� precisa aprender a dormir de vez em quando.</p><p>� O que houve?</p><p>Susanne estendeu-lhe a sacola.</p><p>� O Peter Fredriksson promete te deixar em paz daqui para a frente. N�o sei se d� para confiar nele, mas se ele cumprir com a promessa vai ser menos doloroso do que registrar uma queixa e enfrentar um processo. Voc� decide.</p><p>� Ent�o era ele mesmo?</p><p>Susanne Linder meneou a cabe�a. Lars Bergman ofereceu caf�, mas Susanne n�o aceitou. J� tomara muito caf� nos �ltimos dias. Sentou-se e contou o que tinha acontecido em frente � casa deles durante a noite.</p><p>Erika Berger permaneceu um bom tempo calada. Depois, foi ao anda de cima e voltou com seu exemplar do anu�rio do col�gio. Contemplou demoradamente o rosto de Peter Fredriksson.</p><p>� Eu me lembro dele � disse por fim. � Mas nem de longe iria imaginar que se tratava do mesmo Peter Fredriksson do SMP. Eu nem me lembrava do nome dele antes de consultar o anu�rio.</p><p>� Ele diz que voc� o tratava como vento. Erika balan�ou a cabe�a.</p><p>� E deve ser verdade. Eu n�o o conhecia, ele n�o fazia parte do nosso grupinho.</p><p>� Ele era algum saco de pancada, ou algo assim?</p><p>� N�o, imagina! Eu nunca gostei desse tipo de coisa. A gente inclusive fazia campanhas antipersegui��o no col�gio, e eu era a presidente do conselho de alunos. N�o consigo lembrar se ele alguma vez chegou a falar comigo ou se cheguei a trocar alguma palavra com ele.</p><p>� Certo � disse Susanne Linder. � Seja como for, ele obviamente tinha um ressentimento contra voc�. Ele tirou uma licen�a m�dica por estresse duas vezes, e por per�odos longos. Parecia totalmente arrasado. Pode haver outros motivos que n�o conhecemos para essas licen�as m�dicas.</p><p>Ela se levantou � vestiu a jaqueta de couro.</p><p>� Vou ficar com o disco r�gido dele. Tecnicamente falando, � um objeto roubado que n�o pode ser encontrado na sua casa. N�o se preocupe, vou destruir assim que chegar em casa.</p><p>� Susanne, espere... Como posso te agradecer?</p><p>� Bem, voc� pode me apoiar quando a f�ria do Armanskij desabar como um raio sobre mim.</p><p>Erika a encarou, s�ria.</p><p>� Voc� vai se encrencar por causa disso?</p><p>� N�o sei... realmente n�o sei.</p><p>� A gente poderia te pagar para...</p><p>� Isso n�o. Mas talvez o Armanskij lhe cobre por essa noite. Espero que cobre, assim � uma forma de ele aprovar o que eu fiz e dificilmente vai poder me demitir.</p><p>� Vou dar um jeito de ele cobrar.</p><p>Erika Berger se levantou e abra�ou Susanne Linder demoradamente.</p><p>� Obrigada, Susanne. Se um dia precisar de mim, saiba que eu sou sua arniga- Para qualquer coisa.</p><p>__Obrigada. N�o deixe essas fotos por a�. Ah, a prop�sito: a Milton Security oferece a instala��o de uns arm�rios de seguran�a muito legais.</p><p>Erika Berger sorriu.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>22. SEGUNDA-FEIRA 6 DE JUNHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Erika Berger acordou �s seis da manh� na segunda-feira. Embora n�o tivesse dormido mais que uma hora, sentia-se maravilhosamente repousada. Imaginou que fosse uma esp�cie de rea��o f�sica. Pela primeira vez desde v�rios meses, p�s o t�nis de corrida e foi at� o pont�o da barca a vapor num ritmo puxado. Quer dizer, correu com energia durante uns cem metros, at� o seu calcanhar machucado come�ar a doer e obrig�-la a reduzir o passo e a continuar num ritmo mais calmo. A cada passo, experimentava prazer na dor do calcanhar.</p><p>Sentia-se literalmente renascer. Era como se a Foice tivesse passado em frente � sua porta, mudado de id�ia no �ltimo minuto e entrado na casa vizinha. N�o conseguia sequer entender que sorte incr�vel tinha sido Peter Fredriksson ficar com as fotos durante quatro dias sem fazer nada. Se ele as escaneara, era sinal de que sua mente de fato planejava algo, s� que ele ainda n�o tomara nenhuma atitude.</p><p>Seja como for, daria um presente de Natal bem caro e surpreendente para Susanne Linder no fim do ano. Iria procurar alguma coisa realmente original para ela.</p><p>As sete e meia, deixou Lars dormindo, entrou na sua BMW e foi para a reda��o do SMP em Norrtull. Deixou o carro na garagem, pegou o elevador at� a reda��o e se instalou no seu aqu�rio. Sua primeira provid�ncia foi chamar um faxineiro.</p><p>� O Peter Fredriksson se demitiu do SMP � disse ela. � Encontre uma caixa, recolha todos os objetos pessoais da sala dele e cuide para que sejam levados � casa dele agora de manh�.</p><p>Contemplou o p�lo Atualidades. Lukas Holm acabava de chegar. Ele cruzou o olhar com o dela e dirigiu-lhe um aceno de cabe�a.</p><p>Ela retribuiu.</p><p>Holm era um babaca nojento, mas depois da briga de poucas semanas antes ele tinha parado de criar caso. Se continuasse com a mesma atitude positiva, talvez sobrevivesse como chefe de Atualidades. Talvez.</p><p>Sentiu que ia conseguir dar uma guinada.</p><p>�s 8h45, viu Borgsjo saindo do elevador e desaparecendo na escada interna em dire��o � sua sala, no andar de cima. Preciso falar com ele ainda hoje.</p><p>Foi buscar caf� e ent�o dedicou algum tempo � pauta da manh�. Era uma manh� pobre em not�cias. O �nico texto interessante era uma notinha bem neutra informando que Lisbeth Salander tinha sido transferida para a casa de deten��o de G�teborg no domingo. Deu sinal verde para a mat�ria e enviou para Lucas Holm por e-mail.</p><p>�s 8h59, Borgsjo ligou.</p><p>� Berger. Venha imediatamente � minha sala. E desligou.</p><p>Magnus Borgsjo estava l�vido quando Erika Berger abriu a porta da sala. Estava de p�, virou-se para ela e ent�o jogou uma pilha de pap�is em cima da mesa.</p><p>� Que porcaria � essa? � berrou.</p><p>O cora��o de Erika Berger se desmanchou dentro do peito. Uma r�pida olhada na primeira p�gina foi suficiente para ela entender o que Borgsjo tinha encontrado na correspond�ncia da manh�.</p><p>Fredriksson n�o tivera tempo de cuidar das fotos. Mas tivera tempo de mandar o artigo de Henry Cortez para Borgsjo.</p><p>Ela se sentou calmamente diante dele.</p><p>� � um texto escrito pelo jornalista Henry Cortez que a revista Millen-nium planejava publicar na edi��o da semana passada.</p><p>Borgsj� parecia desesperado.</p><p>� Mas que porra de jeito de agir � esse? Eu te trouxe para o SMP e a primeira coisa que voc� faz � manobrar pelas minhas costas. Quem � voc� alguma puta de merda da m�dia?</p><p>Os olhos de Erika Berger se estreitaram e ela ficou gelada. Estava saturada da palavra "puta".</p><p>� Voc� acha mesmo que algu�m vai dar import�ncia a isso? Acha que pode me derrubar inventando besteiras? E por que me mandar isso anonimamente, puta que pariu?</p><p>� N�o foi assim que as coisas aconteceram, Borgsj�.</p><p>� Ent�o como foi?</p><p>� Quem te mandou esse texto anonimamente foi o Peter Fredriksson. Eu o despedi ontem do SMP.</p><p>� O que voc� est� dizendo?</p><p>� � uma longa hist�ria. Mas faz mais de duas semanas que estou enrolando com esse texto, sem saber como tocar no assunto com voc�.</p><p>� Voc� � que est� por tr�s desse texto.</p><p>� N�o, n�o sou. O Henry Cortez investigou e escreveu isso. Eu n�o sabia de nada.</p><p>� E quer que eu acredite nisso?</p><p>� Quando meus colegas da Millennium perceberam que voc� era mencionado no texto, o Mikael Blomkvist freou a publica��o. Ele me chamou e me deu uma c�pia. Para me poupar. Essa c�pia foi roubada e agora apareceu aqui. A Millennium fazia quest�o que eu pudesse conversar com voc� antes que eles publicassem. Isso vai acontecer na edi��o de agosto.</p><p>� Nunca conheci um jornalista t�o sem escr�pulos. Essa voc� ganhou disparado.</p><p>� Bem. J� que voc� leu a reportagem, talvez tamb�m tenha dado uma olhada no �ndice de refer�ncias. A vers�o do Cortez faz sentido para ser publicada. E voc� sabe disso.</p><p>� Isso significa o qu�, exatamente?</p><p>� Se voc� ainda estiver no cargo de presidente do conselho administrativo quando a Millennium for para a impress�o, vai prejudicar o SMP. Eu j� quebrei a cabe�a tentando achar uma solu��o, mas n�o achei.</p><p>� O que voc� quer dizer com isso?</p><p>� Voc� precisa se demitir.</p><p>� Est� brincando? N�o cometi rigorosamente nenhuma infra��o � lei</p><p>� Magnus, voc� n�o est� percebendo o alcance dessa revela��o. N�o me obrigue a convocar o conselho administrativo. Seria doloroso demais.</p><p>� Voc� n�o vai convocar coisa nenhuma. Seu tempo no SMP acabou.</p><p>�� Sinto muito. S� o conselho administrativo � que pode me mandar embora. Acho que voc� vai ter que convocar uma reuni�o extraordin�ria. Sugiro que seja hoje � tarde.</p><p>Borgsj� deu a volta na mesa e se colocou t�o pr�ximo de Erika que ela sentiu seu h�lito.</p><p>� Berger... voc� ainda tem uma chance de sobrevida por aqui. Voc� vai falar com os seus malditos colegas da Millennium e dar um jeito para esse artigo nunca ser publicado. Se voc� agir direito, posso considerar a hip�tese de esquecer o que voc� fez.</p><p>Erika Berger suspirou.</p><p>� Magnus, voc� n�o est� percebendo que a coisa � s�ria. N�o tenho nenhuma influ�ncia no que a Millennium publica ou deixa de publicar. Eu posso falar o quanto quiser, essa hist�ria vai vir a p�blico. A �nica coisa que me interessa � saber que conseq��ncias isso vai ter para o SMP. Por isso � que voc� precisa se demitir.</p><p>Borgsj� p�s as m�os no encosto da cadeira e se inclinou na dire��o de Erika.</p><p>� Os seus amiguinhos da Millennium talvez pensem duas vezes se souberem que voc� vai ser despedida assim que eles tornarem p�blicas essas asneiras.</p><p>Ele se reergueu.</p><p>� Estou indo hoje para uma reuni�o em Norrk�ping. � Olhou para ela e acrescentou uma palavra, com �nfase: � Svea-Bygg.</p><p>� Ah, �?</p><p>� At� a minha volta, amanh�, voc� vai me deixar um relat�rio contando que o caso est� encerrado. Entendido?</p><p>Ele vestiu o palet�. Erika Berger ficou observando-o, olhos semicerrados.</p><p>� Conduza esse caso direitinho e talvez voc� sobreviva no SMP. E agora saia da minha sala.</p><p>Ela se levantou, voltou para o aqu�rio e permaneceu uns vinte minutos totalmente im�vel em sua cadeira. Ent�o pegou o telefone e pediu a Lukas Holm que viesse at� sua sala. Ele aprendera a li��o de seus erros passados e chegou um minuto depois.</p><p>� Sente-se.</p><p>Lukas Holm ergueu uma sobrancelha e se sentou.</p><p>� Bem, o que foi que eu fiz desta vez? � perguntou, ir�nico.</p><p>� Lukas, hoje � o meu �ltimo dia de trabalho no SMP. Estou me demitindo neste momento. Vou chamar o vice-presidente e os demais membros do conselho para uma reuni�o na hora do almo�o.</p><p>Ele a fitou com genu�na surpresa.</p><p>� Pretendo indicar voc� para redator-chefe interino.</p><p>� O qu�?</p><p>� Tudo bem para voc�?</p><p>Lukas Holm se recostou na poltrona e observou Erika Berger.</p><p>� Puta merda, mas eu nunca quis ser redator-chefe � disse ele.</p><p>� Eu sei. Mas voc� tem a fibra necess�ria. E � capaz de passar por cima de muitos cad�veres para conseguir publicar uma boa mat�ria. Eu s� queria que tivesse um pouco mais de bom-senso nessa sua cabe�a.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� Tenho um estilo diferente do seu. N�s dois brigamos o tempo todo sobre a maneira de orientar as mat�rias e nunca vamos nos entender.</p><p>� �, � verdade que a gente nunca vai se entender � disse ele. � Pode ser que o meu estilo � que seja meio ultrapassado.</p><p>� N�o sei se "ultrapassado" � a palavra certa. Voc� � fera em Atualidades, mas age como um idiota. N�o precisava. O que mais nos dividiu � voc� ter sustentado o tempo todo que, como editor de Atualidades, n�o pode deixar que considera��es de ordem pessoal influenciem a avalia��o das not�cias.</p><p>De repente, Erika Berger sorriu maldosamente para Lukas Holm. Abriu sua bolsa e pegou o original do artigo sobre Borgsj�.</p><p>� Vamos fazer um teste sobre a sua capacidade de avaliar uma not�cia. Estou aqui com um artigo que o Henry Cortez me passou, ele � colaborador da revista Millennium. Decidi, agora de manh�, que vamos pegar esse texto como a mat�ria principal do dia.</p><p>Jogou a pasta no colo de Holm.</p><p>� Voc� � o chefe de Atualidades. Vai ser interessante ver se voc� partilha a minha opini�o.</p><p>Lukas Holm abriu a pasta e come�ou a ler. J� na introdu��o, seus olhos se arregalaram. Aprumou-se na cadeira e fitou Erika Berger. Em seguida baixou os olhos e leu o texto inteiro, do come�o ao fim. Abriu a parte das "refer�ncias" e leu atentamente. Levou uns dez minutos. Ent�o foi largando devagar a pasta na mesa.</p><p>� Vai ser um puta de um esc�ndalo.</p><p>� Eu sei. Por isso � que hoje � o meu �ltimo dia de trabalho aqui. A M�lennium pretendia publicar a mat�ria na edi��o de junho, mas o Mikael Blomkvist deu uma segurada. Ele me passou o texto para que eu pudesse conversar com o Borgsj� antes de ser publicado.</p><p>� E?</p><p>� O Borgsj� me mandou abafar o caso.</p><p>� Entendo. A� voc� pensou em publicar no SMP por puro despeito.</p><p>� N�o. Por despeito, n�o. � a �nica solu��o. Se o SMP publicar a mat�ria, temos uma chance de escapar dessa confus�o com a dignidade intacta. O Borgsj� precisa sair. Mas isso tamb�m significa que eu n�o posso ficar.</p><p>Holm se manteve calado por cerca de dois minutos.</p><p>� Puta merda, Berger... Eu n�o imaginava que voc� tivesse tanta coragem. Nunca pensei que um dia eu ainda fosse dizer isto, mas se voc� tem essa aud�cia toda, francamente, vou lamentar sua sa�da.</p><p>� Voc� tamb�m poderia impedir a publica��o do texto, mas se n�s dois aprovarmos... Voc� pretende ir em frente?</p><p>� Sim, � claro que vamos publicar. Cedo ou tarde isso vai vir a p�blico.</p><p>� Exato.</p><p>Lukas Holm se levantou e parou, hesitante, diante da mesa de Erika.</p><p>� V� trabalhar � disse Erika.</p><p>Depois que Holm saiu, ela esperou cinco minutos e pegou o telefone para ligar para Malu Eriksson, da Milennium.</p><p>� Oi, Malu. O Henry Cortez est� por a�?</p><p>� Est� na sala dele.</p><empty-line/><p>� Voc� pode pedir a ele que venha at� sua sala e depois ligar o viva-voz? Precisamos conversar.</p><p>Henry Cortez apareceu em quinze segundos.</p><p>� O que houve?</p><p>� Henry, hoje eu fiz uma coisa amoral.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Dei o seu artigo sobre a Vitavara para o Lukas Holm, o editor de Atualidades aqui do SMP.</p><p>� Sim...</p><p>� Mandei ele publicar o artigo no SMP de amanh�. Assinado por voc�. E voc� vai receber por isso, claro. � s� dar o pre�o.</p><p>� Erika... que confus�o � essa?</p><p>Ela resumiu os acontecimentos das �ltimas semanas e contou como Peter Fredriksson por pouco n�o acabara com ela.</p><p>� Puta merda! � disse Henry Cortez.</p><p>� Eu sei que a mat�ria � sua, Henry. Mas eu simplesmente n�o tenho escolha. Voc� pode nos dar essa for�a?</p><p>Henry Cortez permaneceu calado por alguns segundos.</p><p>�� Obrigado por ligar, Erika. Tudo bem voc�s publicarem a mat�ria, assinada por mim. Quero dizer, se estiver tudo bem para a Malu.</p><p>� Por mim tudo bem � disse Malu.</p><p>� Certo � disse Erika. �Voc�s poderiam informar o Mikael? Imagino que ele ainda n�o esteja a�.</p><p>� Eu falo com o Mikael � disse Malu Eriksson. � Mas, Erika, isso n�o significa que a partir de hoje voc� est� desempregada?</p><p>Erika come�ou a rir.</p><p>� Resolvi tirar umas f�rias at� o final do ano. Acredite, essas poucas semanas no SMP foram mais que suficientes.</p><p>� N�o � uma boa id�ia come�ar a fazer planos para as f�rias � disse Malu.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� Voc� poderia dar um pulo aqui na Millenn�um hoje � tarde?</p><p>� Por qu�?</p><p>� Preciso de ajuda. Se voc� quiser ser redatora-chefe, pode come�ar amanh� de manh�.</p><p>-� Malu, a redatora-chefe da Millennium � voc�. Nem pensar em mudar isso.</p><p>� Tudo bem. Ent�o voc� poderia come�ar como assistente de reda��o disse Malu, rindo.</p><p>� Voc� est� falando s�rio?</p><p>� Porra, Erika, voc� me faz tanta falta que eu estou desabando. Aceitei esse emprego na Millennium, entre outras coisas, para ter a oportunidade de trabalhar com voc�. E a� voc� pega e vai para outro ve�culo.</p><p>Erika Berger ficou calada durante um minuto. Nem tinha tido tempo de pensar na possibilidade de voltar para a Millennium.</p><p>� E eu seria bem-vinda? � ela perguntou, devagar.</p><p>� O que voc� acha? Imagino que para come�ar a gente faria uma megafesta, organizada por voc�. E voc� voltaria exatamente na hora de a gente publicar voc� sabe o qu�.</p><p>Erika olhou para o rel�gio da sua sala. 9h55. Em uma hora, o seu mundo tinha desabado. De repente, sentiu o quanto tinha vontade de voltar a subir a escada da Millennium.</p><p>� Tenho umas duas, tr�s coisas a fazer aqui no SMP nas pr�ximas horas. Tudo bem se eu passar a� l� pelas quatro?</p><p>Susanne Linder encarou Dragan Armanskij olho no olho enquanto lhe contava detalhadamente o que acontecera � noite. A �nica coisa que ela omitiu foi sua s�bita convic��o de que a invas�o do computador de Peter Fredriksson era obra de Lisbeth Salander. Absteve-se por dois motivos. Por um lado, achava muito irreal. Por outro, sabia que Dragan Armanskij estava intimamente ligado ao caso Salander junto com Mikael Blomkvist.</p><p>Armanskij escutou atentamente. Uma vez conclu�do o seu relato, Susanne Linder aguardou em sil�ncio a rea��o dele.</p><p>� O Lars Beckman ligou uma hora atr�s � disse ele.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Ele e a Erika Berger v�o passar por aqui durante a semana para assinar alguns contratos. Fazem quest�o de agradecer a Milton Security pela interven��o, e principalmente a sua.</p><p>� Entendo. � legal quando os clientes ficam satisfeitos.</p><p>� Ele tamb�m quer encomendar um arm�rio de seguran�a para a casa dele. Vamos fechar o kit de alarmes e instalar durante a semana.</p><p>� Que bom.</p><p>� Ele insiste que a gente cobre pela sua interven��o desse fim de semana.</p><p>� Humm.</p><p>� Em outras palavras, vai ser uma conta salgada para eles.</p><p>� Ah�. Armanskij suspirou.</p><p>� Susanne, voc� est� ciente de que o Fredriksson pode ir � pol�cia dar queixa contra voc� por uma s�rie de coisas.</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� � claro que ele tamb�m seria preso, em grande estilo, mas ele pode achar que vale a pena.</p><p>� N�o acho que ele tenha colh�es para ir � pol�cia.</p><p>� Que seja, mas voc� agiu contra todas as instru��es que eu lhe dei.</p><p>� Eu sei � disse Susanne Linder.</p><p>� E na sua opini�o, como eu deveria reagir?</p><p>� Isso s� voc� pode decidir.</p><p>� Mas como � que voc� acha que deveria ser a minha rea��o?</p><p>� O que eu acho n�o interessa. Voc� pode me mandar embora.</p><p>� � dif�cil. N�o posso me permitir perder um colaborador do seu calibre.</p><p>� Obrigada.</p><p>� Mas se voc� me aprontar outra dessas de novo, eu vou ficar muito, muito zangado.</p><p>Susanne Linder assentiu com a cabe�a.</p><p>� O que voc� fez com o disco r�gido?</p><p>� Destru�. Prendi o disco num torno hoje de manh�. Ficou reduzido a farelos,</p><p>� Certo. E^nt�o vamos virar a p�gina.</p><p>Erika Berger passou a manh� ligando para os membros do conselho administrativo do SMP. Localizou o vice-presidente na sua casa de campo em l Vaxholm e conseguiu que ele concordasse em pegar o carro e ir o quanto \ antes para a reda��o. Depois do almo�o, reuniu-se um conselho bastante f reduzido. Erika Berger passou uma hora relatando a origem do dossi� Cortez e suas conseq��ncias.</p><p>Como era previsto, assim que ela acabou de falar surgiram propostas de que eles encontrassem uma solu��o alternativa. Erika explicou que pretendia publicar a mat�ria no jornal do dia seguinte. Explicou tamb�m que aquele era o seu �ltimo dia de trabalho e que sua decis�o era irrevog�vel.</p><p>Erika fez com que o conselho administrativo aprovasse e registrasse em ata duas decis�es. Primeiro, Magnus Borgsj� seria convidado a deixar vago, imediatamente, seu cargo no conselho e, segundo, Lukas Holm seria nomeado redator-chefe interino. Em seguida, pediu licen�a para sair da sala e deixou os membros do conselho discutirem a situa��o entre si.</p><p>�s duas da tarde, desceu ao departamento pessoal para firmar um contrato. Depois subiu at� a editoria de Cultura e pediu para falar com o chefe, Sebastian Strandlund, e com a jornalista Eva Carlsson.</p><p>� Pelo que percebi, a Eva Carlsson � vista como uma jornalista talentosa e competente aqui no Cultura.</p><p>� � verdade � disse Strandlund.</p><p>� E nas solicita��es de verba desses dois �ltimos anos voc�s pediram que a �rea fosse refor�ada com pelo menos mais duas pessoas.</p><p>� Sim.</p><p>� Eva, levando em conta os e-mails que voc� recebeu, talvez surjam uns boatos desagrad�veis se eu lhe oferecer um cargo fixo. Voc� est� interessada assim mesmo?</p><p>� Mas � claro.</p><p>� Nesse caso, a minha �ltima decis�o aqui no SMP vai ser assinar essa contrata��o.</p><p>� �ltima?</p><p>� E uma longa hist�ria. Vou embora hoje. Pediria para voc�s guardarem sigilo' por mais uma horinha.</p><p>� O que...</p><p>� Tenho uma reuni�o daqui a um minuto.</p><p>Erika Berger assinou o contrato e o passou para Eva Carlsson, do outro lado da mesa.</p><p>� Boa sorte � disse ela, sorrindo.</p><p>� O homem desconhecido e j� de uma certa idade que no s�bado participou da reuni�o na sala do Ekstr�m se chama Georg Nystr�m. Ele � delegado � disse Rosa Figuerola, dispondo as fotos sobre a mesa diante de Torsten Edklinth.</p><p>� Delegado � resmungou Edklinth.</p><p>� O Stefan o identificou ontem � noite. Ele chegou de carro ao apartamento da Artillerigatan.</p><p>� O que se sabe sobre ele?</p><p>� Ele era da pol�cia comum e trabalha na Sapo desde 1983. Desde 1996, tem um cargo de confian�a como investigador. Ele cuida dos controles internos e da avalia��o dos casos arquivados da Sapo.</p><p>� Muito bem.</p><p>� De s�bado para c�, um total de seis pessoas com algum interesse passou por aquela porta. Al�m de Jonas Sandberg e Georg Nystr�m, Fredrik Clinton est� no pr�dio. De manh�, ele foi para a di�lise de ambul�ncia.</p><p>� Quem s�o os outros?</p><p>� Um tal de Otto Hallberg. Ele trabalhou na Sapo nos anos 1980, mas na verdade pertence ao estado-maior da Defesa. Atua na Marinha e com informa��es militares.</p><p>� Ah�. Por que ser� que eu n�o estou surpreso? Rosa Figuerola mostrou mais uma foto.</p><p>� Este aqui ainda n�o foi identificado. Ele almo�ou com o Hallberg. Vamos tentar identific�-lo quando ele voltar para casa hoje � noite.</p><p>� Certo.</p><p>� Mas o mais interessante � este cara aqui. Colocou outra foto sobre a mesa.</p><p>� Esse eu reconhe�o � disse Edklinth.</p><p>� Ele se chama Wadensj��.</p><p>� Isso. H� uns quinze anos, ele trabalhava para a Brigada Antiterrorista. Um general de escrit�rio. Era um dos candidatos ao cargo de chefe supremo aqui da Casa. N�o sei que fim levou.</p><p>� Ele se demitiu em 1991. Adivinhe com quem ele almo�ou uma hora atr�s?</p><p>Colocou a �ltima foto sobre a mesa.</p><p>� O secret�rio-geral Albert Shenke e o chefe do or�amento, Gustav Atterbom. Quero esses sujeitos vigiados dia e noite. Quero saber exatamente com quem eles se encontram.</p><p>� Imposs�vel. S� tenho quatro homens. E algu�m precisa trabalhar na documenta��o.</p><p>Edklinth meneou a cabe�a e beliscou, pensativo, o l�bio inferior. Passados alguns instantes, voltou a olhar para Rosa Figuerola.</p><p>� Precisamos de mais gente � disse ele. � Voc� acha que poderia contatar discretamente o inspetor Jan Bublanski e perguntar se ele aceitaria jantar comigo hoje, depois do expediente? L� pelas sete horas, digamos.</p><p>Edklinth pegou o telefone e discou um n�mero de cabe�a.</p><p>� Oi, Armanskij. � o Edklinth. Queria retribuir aquele jantar simp�tico que voc� me ofereceu outro dia... N�o, eu insisto. L� pelas sete horas est� bem para voc�?</p><p>Lisbeth Salander passou a noite na casa de deten��o de Kronoberg, numa cela de mais ou menos quatro metros por quatro. A mob�lia era bastante modesta. Adormeceu cinco minutos depois de trancarem sua porta e, obedecendo ao fisioterapeuta do Sahlgrenska, acordou cedo na segunda--feira para fazer os exerc�cios de alongamento recomendados. Depois disso, tomou o caf� da manh� e ficou sentada em sil�ncio em seu catre, fitando um ponto � frente.</p><p>�s nove e meia, foi levada para uma sala de interrogat�rio na outra extremidade do corredor. O guarda era um homem idoso, baixinho e careca, de rosto redondo e �culos com arma��o de tartaruga. Tratou-a com corre��o e complac�ncia.</p><p>Annika Giannini cumprimentou-a gentilmente. Lisbeth ignorou Hans Faste. Depois, encontrou-se pela primeira vez com o procurador Richard Ekstr�m, e passou a meia hora seguinte sentada numa cadeira fitando teimosamente um ponto na parede, pouco acima da cabe�a de Ekstr�m. Ng0 pronunciou uma palavra sequer e n�o moveu nenhum m�sculo.</p><p>�s dez horas, Ekstr�m interrompeu o interrogat�rio fracassado. Estava irritado por n�o ter conseguido arrancar dela uma resposta sequer. Pela primeira vez, teve alguma d�vida ao observar Lisbeth Salander. Como � que aquela jovem miudinha, com jeito de boneca, tinha sido capaz de derrubar Magm Lundin e Benny Nieminen em Stallarholmen? O tribunal estaria preparado para aceitar essa vers�o, mesmo que ele apresentasse provas convincentes?</p><p>Ao meio-dia, serviram a Lisbeth um almo�o leve, e ela gastou a hora seguinte resolvendo umas equa��es de cabe�a. Concentrou-se no cap�tulo "Astronomia esf�rica" de um livro que tinha lido dois anos antes.</p><p>�s duas e meia, foi novamente levada para a sala de interrogat�rio. Dessa vez, o guarda era uma mulher bastante jovem. A sala estava vazia. Ela se sentou numa cadeira e continuou matutando sobre uma equa��o particularmente �rdua.</p><p>Passados dez minutos, a porta se abriu.</p><p>� Bom dia, Lisbeth � cumprimentou-a cordialmente Peter Teleborian. Ele sorriu. Lisbeth Salander ficou gelada. Os componentes da equa��o, que ela edificara no ar � sua frente, desabaram no ch�o. Ela ouviu os n�meros e os signos quicarem e tilintarem como se fossem de fato caquinhos reais.</p><p>Peter Teleborian ficou parado, observando-a, por um minuto e ent�o se sentou diante dela. Ela continuou olhando para a parede.</p><p>Passado algum tempo, ela moveu os olhos e o encarou.</p><p>� Lamento que voc� esteja passando por essa situa��o � disse Peter Teleborian. � Vou fazer o poss�vel para tentar te ajudar. Espero que a gente consiga estabelecer uma rela��o de confian�a.</p><p>Lisbeth examinava cada cent�metro do sujeito sentado diante dela. O cabelo desalinhado. A barba. O pequeno espa�o entre os dentes da frente. Os l�bios finos. O palet� marrom. A camisa de gola aberta. Escutava sua voz doce e trai�oeiramente amig�vel.</p><p>� Tamb�m espero poder ajudar mais do que na �ltima vez que nos encontramos.</p><p>Ele colocou um bloco de anota��es e uma caneta na mesa � sua frente. Lisbeth baixou os olhos e contemplou a caneta. Um comprido cilindro prateado e pontudo.</p><p>An�lise das conseq��ncias.</p><p>Refreou o impulso de estender a m�o e se apoderar da caneta.</p><p>Seu olhar se voltou para o dedo m�nimo da m�o esquerda de Teleborian percebeu um risco fino e branco no lugar em que, quinze anos antes, ela cravara os dentes e cerrara o maxilar com tanta for�a que quase cortara o dedo fora. Tinha sido necess�rio que tr�s enfermeiros se juntassem para segur�-la e abrir � for�a seu maxilar.</p><p>Naquela �poca, eu era uma menininha apavorada que mal entrara na adolesc�ncia. Hoje sou adulta. Posso matar voc� quando quiser.</p><p>Fixou os olhos num ponto da parede atr�s de Teleborian, recolheu do ch�o os n�meros e os s�mbolos matem�ticos que haviam ca�do e, lentamente, recome�ou a equacion�-los.</p><p>O Dr. Peter Teleborian contemplou Lisbeth Salander com uma express�o imperturb�vel. N�o teria se tornado um psiquiatra internacionalmente respeitado se lhe faltassem conhecimentos sobre o ser humano. Possu�a uma boa capacidade para ler os sentimentos e os estados de �nimo. Sentiu que uma sombra gelada percorria a sala, mas interpretou-a como um sinal de medo e vergonha da paciente por tr�s daquela fachada impass�vel. Entendeu-a como uma indica��o positiva de que, apesar de tudo, ela reagia � presen�a dele. Tamb�m estava satisfeito de o comportamento dela n�o haver mudado. Ela vai sabotar a si mesma no tribunal.</p><p>A �ltima medida tomada por Erika Berger no SMP foi sentar-se no aqu�rio e escrever um comunicado dirigido a todos os colaboradores. Estava razoavelmente irritada quando come�ou e, sem querer, a irrita��o se transformou em tr�s mil caracteres, atrav�s dos quais ela explicava por que se demitira do SMP e emitia sua opini�o sobre algumas pessoas. Depois, apagou tudo e recome�ou em tom mais neutro.</p><p>N�o mencionou Peter Fredriksson. Isso poderia atrair muita aten��o sobre ele e fazer com que os verdadeiros motivos de Erika desaparecessem debaixo de manchetes sobre um ass�dio sexual.</p><p>Ela apresentou dois motivos. O mais s�rio deles era que sua proposta de os dirigentes e propriet�rios do jornal baixarem seus sal�rios e dividendos havia enfrentado uma s�lida resist�ncia da dire��o. Em vista disso, seria obrigada a come�ar seu trabalho no SMP fazendo cortes radicais na equipe, o que para ela n�o s� contrariava as perspectivas com que haviam lhe acenado quando aceitara o emprego, mas tamb�m constitu�a uma medida que inviabilizava quaisquer tentativas de mudan�a a longo prazo e de fortalecimento do jornal</p><p>O segundo motivo era a revela��o a respeito de Borgsj�. Ela explicou que recebera a ordem de abafar a mat�ria, o que era incompat�vel com a sua posi��o. Portanto, ela n�o tinha escolha e precisava deixar a reda��o. Concluiu dizendo que o problema do SMP n�o estava na sua equipe, e sim na sua dire��o.</p><p>Releu o comunicado, corrigiu um erro de ortografia e o enviou por e-mail a todos os funcion�rios do grupo. Mandou com c�pia para a Pressenstidning e para o �rg�o sindical Journalisten. Em seguida, guardou o laptop na mochila e foi falar com Lukas Holm.</p><p>� Bom, ent�o tchau � disse ela.</p><p>� Tchau, Berger. Foi dureza trabalhar com voc�. Trocaram um sorriso.</p><p>� Tenho um �ltimo pedido � disse ela.</p><p>� Qual?</p><p>� O Johannes Frisk estava trabalhando numa mat�ria para mim.</p><p>� Sim, ali�s, ningu�m sabe o que ele anda fazendo.</p><p>�� D� uma for�a para ele. O Frisk j� avan�ou bastante e eu vou me manter em contato com ele. Deixe ele terminar essa mat�ria. Prometo que voc� vai sair ganhando.</p><p>Lukas Holm pareceu hesitar. Ent�o concordou com a cabe�a.</p><p>Apertaram-se as m�os. Ela deixou a chave da reda��o na mesa de Holm e desceu at� a garagem para pegar sua BMW. Pouco depois das quatro da tarde, estacionou nas proximidades da reda��o da Millennium.</p><empty-line/></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>IV. REBOOTING SYSTEM 1�- DE JULHO A 7 DE OUTUBRO</strong></p><empty-line/><p>Apesar da farta colet�nea de lendas sobre as amazonas da Gr�cia antiga, Am�rica do Sul, �frica e outras regi�es, s� existe um exemplo hist�rico comprovado de mulheres guerreiras. Trata-se do ex�rcito feminino dos Fons, uma etnia do Daom�, na �frica ocidental, pa�s hoje rebatizado de Benim.</p><p>Essas mulheres guerreiras nunca s�o mencionadas na hist�ria militar oficial, n�o foi rodado nenhum filme em que elas sejam as hero�nas e atualmente elas s� existem, quando muito, em notas hist�ricas de rodap�. Uma �nica obra cient�fica foi escrita sobre essas mulheres, Amazons of Black Sparta, do historiador Stanley B. Alpern (Hurst &amp; Co Ltd, Londres, 1998). Era, contudo, um ex�rcito capaz de lutar, entre as v�rias for�as que amea�avam seu pa�s, contra qualquer ex�rcito de elite de soldados homens da �poca.</p><p>N�o se sabe quando o ex�rcito feminino dos Fons foi constitu�do, mas algumas fontes situam o fato no s�culo XVII. Esse ex�rcito surgiu originalmente como uma guarda real, por�m, foi crescendo at� se tornar um efetivo militar de seis mil soldados com status quase divino. Sua fun��o n�o era nem um pouco decorativa. Durante mais de dois s�culos, elas foram a unidade de elite dos Fons contra a invas�o dos colonos europeus. Eram temidas pelo ex�rcito franc�s, vencido em diversas batalhas O ex�rcito feminino s� foi derrotado em 1892, depois que a Fran�a mandou vir por navio o refor�o de tropas mais bem equipadas, com artilharia, soldados da Legi�o Estrangeira e um regimento de infantaria da Marinha e da Cavalaria.</p><p>Ignora-se quantas guerreiras ca�ram nessa batalha. As sobreviventes sustentaram uma guerrilha por v�rios anos, e at� meados dos anos 1940 veteranas desse ex�rcito ainda estavam vivas, deixando-se entrevistar e fotografar.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>23. SEXTA-FEIRA 1�. DE JULHO DOMINGO � 10 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Duas semanas antes do processo de Lisbeth Salander, Christer Malm concluiu a diagrama��o do livro de 364 p�ginas, sobriamente intitulado A Se��o. A capa trazia as cores da Su�cia, letras amarelas sobre um fundo azul. Christer Malm colocara sete fotos de primeiros-ministros suecos, do tamanho de um selo postal, na parte inferior. Acima deles, pairava a foto de Zalachenko. Ele usara a foto do passaporte de Zalachenko, aumentando o contraste para que somente as partes mais escuras aparecessem, como uma esp�cie de sombra sobre toda a capa. Um design n�o muito sofisticado, mas eficiente. Assinavam o livro Mikael Blomkvist, Henry Cortez e Malu Eriksson.</p><p>Eram cinco e meia da manh�, Christer Malm passara a noite trabalhando. Sentia um pouco de n�usea e uma enorme necessidade de ir para casa dormir. Malu Eriksson lhe fizera companhia a noite toda, propondo aqui e ali umas �ltimas corre��es que Christer aprovara antes de imprimir. Ela ca�ra no sono no sof� da reda��o.</p><p>Christer Malm reuniu o texto, as fotos e o arquivo de fontes numa pasta. Abriu o programa Toast e gravou dois CDS. Guardou um no arm�rio de seguran�a da reda��o. O outro foi levado por um Mikael Blomkvist sonolento, que havia chegado pouco antes das sete da manh�.</p><p>� V� para casa dormir � disse Mikael.</p><p>� Estou indo.</p><p>Deixaram Malu Eriksson dormindo na reda��o e ligaram o alarme. Henry Cortez chegaria �s oito horas para o seu turno. Apertaram-se as m�os e se despediram na frente do pr�dio.</p><p>Mikael Blomkvist foi a p� at� a Lundagatan, onde mais uma vez pegou emprestado o Honda esquecido de Lisbeth Salander. Ele mesmo foi entregar o CD a Jan K�bin, dono da Hallvigs Reklam, uma gr�fica instalada num modesto edif�cio de tijolo aparente, ao lado da linha de trem, em Morgong�va, perto de Sala. Era uma entrega que ele n�o queria confiar aos correios.</p><p>Dirigiu devagar e, chegando ao local, esperou tranq�ilamente que o impressor conferisse se estava tudo certo com os arquivos. Assegurou-se de que o livro de fato estaria pronto no primeiro dia do julgamento. O problema n�o era tanto a impress�o do miolo, e sim a da capa, que poderia demorar mais. Mas Jan K�bin garantiu que pelo menos quinhentos exemplares, de uma primeira edi��o de dez mil, em formato bolso grande, seriam entregues na data combinada.</p><p>Mikael verificou ainda se estava bem claro para todos os funcion�rios da gr�fica que eles precisavam manter sigilo. Recomenda��o, decerto, um tanto desnecess�ria. Dois anos antes, Hallvigs Reklam imprimira o livro de Mikael sobre o financista Hans-Erik Wennerstr�m em circunst�ncias semelhantes. Eles sabiam que os livros da pequena editora Millennium eram particularmente promissores.</p><p>Em seguida, Mikael voltou com toda a calma para Estocolmo. Estacionou em frente ao seu pr�dio na Bellmansgatan e deu um pulo ao seu apartamento para pegar uma pequena mala, na qual enfiou uma muda de roupa, um barbeador e uma escova de dentes. Seguiu at� o pont�o de Stavsn�s, em V�rmd�, onde estacionou o carro e pegou a balsa para Sandhamn.</p><p>Era a primeira vez, desde o Natal, que ia para a sua cabana. Abriu todas as venezianas para arejar o ambiente e bebeu uma garrafa de �gua mineral. Como sempre acontecia ao encerrar um trabalho, quando o texto j� estava na gr�fica e nada mais podia ser alterado, sentia-se vazio.</p><p>Passou uma hora varrendo, tirando p�, limpando o chuveiro, ligando a geladeira, conferindo os registros de �gua e trocando a roupa de cama do mezanino. Deu um pulo na mercearia e comprou o necess�rio para o fim de semana. Depois, ligou a cafeteira el�trica, foi sentar-se no pont�o, l� fora e fumou um cigarro sem pensar em nada de especial.</p><p>Pouco antes das cinco da tarde, desceu at� o cais para ir buscar Rosa Figuerola.</p><p>� Achei que voc� n�o ia conseguir se liberar � disse ele, dando-lhe um beijo.</p><p>� Eu tamb�m. Mas simplesmente expliquei ao Edklinth em que p� estavam as coisas. Que eu tinha trabalhado cada minuto em que estive acordada nessas �ltimas semanas e que estava come�ando a ficar improdutiva. Que precisava de dois dias de folga para recarregar as baterias.</p><p>� Em Sandhamm?</p><p>� Eu n�o contei para onde estava indo � disse ela, com um sorriso. Durante alguns instantes, Rosa vasculhou todos os cantos dos vinte e</p><p>cinco metros quadrados da cabana de Mikael. Examinou a copa ao fundo, o banheiro e o mezanino, antes de balan�ar a cabe�a, satisfeita. Refrescou-se rapidamente e p�s um vestido leve de ver�o enquanto Mikael preparava umas costelas de cordeiro ao molho de vinho e arrumava a mesa no pont�o. Comeram em sil�ncio, contemplando os v�rios veleiros que entravam e sa�am da marina de Sandhamm. Dividiram uma garrafa de vinho.</p><p>�� E maravilhosa a sua cabana. � para c� que voc� traz todas as suas namoradas? � perguntou, de repente, Rosa Figuerola.</p><p>� Nem todas. S� as mais importantes.</p><p>� A Erika Berger j� veio aqui?</p><p>� V�rias vezes.</p><p>� E a Lisbeth Salander?</p><p>� Ela passou umas semanas aqui quando eu estava escrevendo o livro sobre o Wennerstr�m. E h� dois anos passamos o Natal, aqui, juntos.</p><p>� Conclus�o, a Berger e a Salander s�o importantes na sua vida?</p><p>� A Erika � a minha melhor amiga. Somos amigos h� mais de vinte e cinco anos. A Lisbeth � outra hist�ria. Ela � muito especial, � a pessoa mais antissocial que eu j� vi. Mas confesso que ela realmente me impressionou quando a conheci. Gosto dela. E uma amiga.</p><p>� Voc� tem pena dela?</p><p>� N�o. Ela pr�pria atraiu boa parte da encrenca em que est� metida Mas sinto uma enorme simpatia por ela e a compreendo muito.</p><p>� E voc� n�o est� apaixonado por ela ou pela Berger?</p><p>Ele deu de ombros. Rosa Figuerola acompanhou com os olhos um Amigo 23 retornando tardiamente ao porto, luzes acesas, motor roncando.</p><p>� Se estar apaixonado significa gostar imensamente de algu�m, ent�o imagino que eu esteja apaixonado por v�rias pessoas � disse ele.</p><p>� Inclusive por mim agora?</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. Rosa Figuerola fez uma careta e observou-o.</p><p>� Isso te incomoda? � ele perguntou.</p><p>� Que tenha havido v�rias mulheres na sua vida? N�o. Mas me perturba n�o saber exatamente o que est� acontecendo entre a gente. Eu n�o vou conseguir ter um relacionamento com um cara que fica transando � toa por a�...</p><p>� Eu n�o pretendo me desculpar pela vida que levo.</p><p>�� Mas eu tamb�m penso que, de algum modo, voc� me atrai exatamente por ser do jeito que �. E f�cil fazer amor com voc� porque voc� � descomplicado, eu me sinto segura ao seu lado. Mas isso s� come�ou porque cedi a um impulso maluco. N�o � coisa que me aconte�a com freq��ncia, eu n�o tinha planejado. E agora estamos no est�gio em que eu sou uma das mulheres que foram convidadas para vir aqui.</p><p>Mikael ficou um instante calado.</p><p>� Voc� n�o precisava vir.</p><p>� Precisava. Claro que precisava. Puxa, Mikael, que merda...</p><p>� Eu sei.</p><p>� Estou mal. Eu n�o queria me apaixonar por voc�. Vai doer para caramba quando acabar.</p><p>� Eu herdei essa cabana depois que meu pai morreu e que minha m�e foi para Norrland. Eu e minha irm� fizemos uma divis�o, ela ficou com o apartamento e eu com a cabana. Vai fazer vinte e cinco anos.</p><p>� Ah�.</p><p>� Com exce��o de alguns conhecidos ocasionais no in�cio dos anos 1980, antes de voc� estiveram aqui exatamente cinco mulheres. A Erika, a Lisbeth, a minha ex, com quem vivi no in�cio dos anos 1980, uma mo�a com quem namorei firme no final dos anos 1990 e uma mulher alguns anos mais velha que eu, que conheci h� dois anos e com a qual me encontro de vez em guando. Uma situa��o meio especial...</p><p>�Ah, sim.</p><p>� Eu tenho essa cabana para poder fugir da cidade e ficar em paz. Venho para c� quase sempre sozinho. Leio livros, escrevo, relaxo, e fico no pont�o olhando os barcos. Aqui n�o � nenhum trep�dromo secreto de um solteir�o.</p><p>Ele se levantou e foi pegar a garrafa de vinho que deixara � sombra, ao lado da porta.</p><p>� Eu n�o vou prometer nada � disse ele. � O meu casamento acabou porque eu e a Erika n�o consegu�amos nos comportar. Voc� estava aonde? Fazendo o qu�? Que camiseta � essa?</p><p>Ele encheu as ta�as.</p><p>� H� s�culos eu n�o conhecia uma pessoa t�o interessante como voc�. E como se a nossa rela��o funcionasse com tudo desde o primeiro dia. Acho que eu me entreguei naquele momento em que voc� estava me esperando na escadaria do meu pr�dio. Nas poucas vezes em que dormi na minha casa, acordei no meio da noite desejando voc�. N�o sei se quero uma rela��o est�vel, mas tenho um medo tremendo de te perder.</p><p>Ele olhou para ela.</p><p>� Ent�o, o que voc� acha que a gente faz?</p><p>� Precisamos pensar � disse Rosa Figuerola. � Eu tamb�m sinto uma atra��o enorme por voc�.</p><p>� Essa hist�ria est� ficando s�ria � disse Mikael.</p><p>Ela concordou com a cabe�a e, de repente, sentiu uma imensa melancolia. Ficaram um bom tempo calados. Quando come�ou a anoitecer, tiraram a mesa e entraram na cabana fechando a porta atr�s de si.</p><p>Na sexta-feira da semana anterior ao julgamento, Mikael parou na banca de jornal de Slussen e deu uma olhada nas manchetes. O diretor e presidente do conselho administrativo do Svenska Morgon-Posten, Maguns Borgsj�, cedera e anunciara sua demiss�o. Ele comprou os jornais e foi a p� at� o Java da Hornsgatan para tomar um caf� da manh� tardio. Borgsj� alegava raz�es familiares para sua repentina demiss�o. N�o queria comentar os boatos que associavam sua demiss�o ao fato de Erika Berger ter se sentido obrigada ela pr�pria a se demitir depois de ele ordenar que ela omitisse o envolvimento dele na Vitavara S.A. Contudo, um boxe informava que, no intuito de esclarecer a situa��o dos profissionais, o presidente da Svenskt N�ringsliv decidira criar uma comiss�o de �tica para investigar o comportamento das empresas suecas em rela��o a empresas do Extremo Oriente que exploravam o trabalho infantil.</p><p>De repente, Mikael Blomkvist caiu na risada.</p><p>Ent�o voltou a dobrar os jornais matutinos, pegou seu Ericsson TIO e ligou para a Mo�a da TV4, deixando um pouco de lado seu sandu�che.</p><p>� Oi, querida � disse Mikael Blomkvist. � Imagino que voc� continue n�o querendo sair comigo uma noite dessas.</p><p>� Oi, Mikael � respondeu a Mo�a da TV4, rindo. � Sinto muito, � que voc� � mais ou menos o oposto do meu tipo de homem. Mas digamos que voc� � divertido.</p><p>� Mas ser� que voc� poderia pelo menos considerar jantar comigo hoje para falarmos de trabalho?</p><p>� O que voc� est� aprontando desta vez?</p><p>� A Erika Berger fez um acordo com voc� h� dois anos sobre o caso Wennerstr�m. Funcionou legal. Queria fazer um acordo do mesmo tipo.</p><p>� Fale.</p><p>� N�o antes de acertarmos as condi��es. A gente vai fazer exatamente o que fez no caso Wennerstr�m: publicar um livro junto com uma edi��o tem�tica da revista. Uma mat�ria que vai fazer barulho. Minha proposta � te passar todo o material com exclusividade, e em troca voc� n�o deixa vazar nada antes da publica��o. Nesse caso, a publica��o est� mais complicada porque deve acontecer numa data determinada.</p><p>� Que tipo de barulho essa mat�ria vai fazer?</p><p>�� Maior que o do Wennerstr�m � disse Mikael Blomkvist. � Est� interessada?</p><p>� S�rio? Onde a gente se encontra?</p><p>� Sabe o Samirs Gryta? A Erika Berger tamb�m vai.</p><p>� Que hist�ria � essa com a Berger? Ela voltou para a Millennium depois que foi despedida do SMP?</p><p>� Ela n�o foi despedida. Ela se demitiu de uma hora para outra porque divergiu de opini�o com o Borgsj�.</p><p>� Tenho a impress�o que esse cara � um perfeito idiota.</p><p>� E � mesmo � disse Mikael Blomkvist.</p><p>Fredrik Clinton ouvia Verdi com seus fones de ouvido. A m�sica era a �nica coisa que lhe restava capaz de lev�-lo para longe dos aparelhos de di�lise e de uma dor crescente na parte inferior das costas. Ele n�o cantarolava. Estava de olhos fechados e acompanhava a melodia com uma m�o direita que flutuava no ar e que parecia ter vida pr�pria junto a seu corpo em plena deteriora��o.</p><p>A vida � assim. A gente nasce. Vive. Fica velho. Morre. Ele j� conclu�ra o seu ciclo. S� lhe restava a deteriora��o.</p><p>Sentia-se estranhamente satisfeito com a vida.</p><p>Tocava para seu amigo Evert Gullberg.</p><p>Era s�bado, 9 de julho. Faltava menos de uma semana para o julgamento come�ar e a Se��o poder arquivar aquele caso infeliz. Ele tinha sido avisado naquela manh�. Gullberg resistira mais do que muita gente. Quem dispara uma bala de nove mil�metros contra a pr�pria cabe�a est� preparado para morrer. Por�m, tr�s meses haviam transcorrido antes que o corpo de Gullberg abandonasse o jogo, o que talvez se devesse mais ao acaso do que ao Dr. Anders Jonasson, que, em sua teimosia, negava-se a aceitar a derrota. O c�ncer, e n�o a bala, � que acabara pondo fim � situa��o.</p><p>Sua morte, contudo, fora dolorosa, e isso entristecia Clinton. Gullberg ficara sem condi��es de se comunicar, mas em alguns momentos estivera numa esp�cie de estado consciente. A equipe m�dica notou que ele sorria quando algu�m lhe acariciava o rosto e resmungava quando parecia sentir algo desagrad�vel. Uma vez ou outra, tentara se comunicar com os enfermeiros proferindo sons que ningu�m entendia.</p><p>Ele n�o tinha fam�lia, e nenhum amigo foi visit�-lo no hospital. Sua �ltima percep��o da vida foi uma enfermeira da noite, nascida na Eritr�ia, chamada Sara Kitama, que estava � sua cabeceira segurando sua m�o quando ele deu o �ltimo suspiro.</p><p>Fredrik Clinton estava convencido de que logo seguiria seu antigo companheiro de armas. N�o nutria nenhuma ilus�o quanto a isso. O transplante de rim de que precisava desesperadamente parecia cada dia mais hipot�tico e a deteriora��o de seu corpo prosseguia. A cada exame, seu f�gado e intestino mostravam-se mais devastados.</p><p>Esperava viver at� o Natal.</p><p>Mas estava satisfeito. Sentia uma satisfa��o quase sobrenatural e excitante por ter voltado � ativa nos �ltimos meses, e de maneira t�o inesperada.</p><p>Uma b�n��o que ele nunca teria esperado.</p><p>As �ltimas notas de Verdi se desvaneceram no momento em que Birger Wadensj�� abriu a porta do quartinho de descanso de Clinton no Q. G. da Se��o, na Artillerigatan.</p><p>Clinton abriu os olhos.</p><p>Acabara se dando conta de que Wadensj�� era um fardo. Ele era completamente inadequado para o cargo de chefe da unidade de elite mais importante da Defesa sueca. N�o conseguia entender como ele pr�prio e Hans von Rottinger podiam ter feito, um dia, uma avalia��o t�o equivocada, considerando Wadensj�� um herdeiro natural.</p><p>Wadensj�� era um guerreiro que precisava de ventos que o direcionassem. Em per�odos de crise, mostrava-se fraco e incapaz de tomar uma decis�o. Um pequeno veleiro. Um peso inerte e assustado que carecia de a�o na espinha; se dependesse dele, ficaria paralisado, sem a��o, e deixaria a Se��o afundar.</p><p>Simples assim.</p><p>Alguns possu�am o dom. Outros sempre se trairiam na hora decisiva.</p><p>� Voc� queria falar comigo � disse Wadensj��.</p><p>� Sente-se � disse Clinton. Wadensj�� se sentou.</p><p>� Estou numa idade em que n�o tenho mais tempo para pre�mbulos. Vou ser direto. Quando tudo isso acabar, quero que voc� deixe a dire��o da Se��o.</p><p>� Ah, �?</p><p>Clinton suavizou o tom.</p><p>� Voc� � um cara legal, Wadensj��, mas infelizmente n�o serve de jeito nenhum para assumir a responsabilidade depois do Gullberg. Nunca deveria ter assumido. Foi realmente um erro eu e o Rottinger n�o termos nos envolvido de maneira mais clara na sucess�o depois que eu fiquei doente.</p><p>� Voc� nunca gostou de mim.</p><p>� A� � que voc� se engana. Voc� era um excelente administrador quando eu e o Rottinger chefi�vamos a Se��o. Ter�amos ficado perdidos sem voc� e tamb�m confio demais no seu patriotismo. N�o confio � na sua capacidade de tomar decis�es.</p><p>De repente, Wadensj�� sorriu amargamente.</p><p>� Ent�o n�o sei se quero continuar na Se��o.</p><p>� Agora que o Gullberg e o Rottinger se foram, eu preciso tomar, sozinho, as decis�es finais. Voc� rejeitou sistematicamente tudo que eu decidi nesses �ltimos meses.</p><p>� Repito: suas decis�es s�o insanas. Isso vai acabar em cat�strofe.</p><p>� Pode ser. Mas a sua falta de firmeza seria para n�s a garantia de um naufr�gio. Em todo caso, no momento temos uma chance, e parece estar dando certo. A Millennium est� sem margem de manobra. Eles talvez desconfiem que a gente exista de algum modo, mas n�o t�m provas e n�o t�m a m�nima chance de encontrar uma, ou de nos descobrir. Estamos controlando pesadamente tudo o que eles fazem.</p><p>Wadensj�� olhou pela janela. Avistou os telhados de alguns pr�dios vizinhos.</p><p>� O �nico fio solto � a filha do Zalachenko. Se algu�m for levantar a hist�ria dela e ouvir o que ela tem a falar, tudo pode acontecer. Mas, enfim, o julgamento come�a daqui a uns dias, e ent�o tudo isso acaba. Dessa vez, vamos ter que enterr�-la bem fundo para ela nunca mais nos assombrar.</p><p>Wadensj�� balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o entendo essa sua atitude � disse Clinton.</p><p>� Pois �. Compreendo que voc� n�o entenda. Voc� acaba de completar sessenta e oito anos. Est� morrendo. Suas decis�es n�o s�o racionais, mas mesmo assim parece que conseguiu enfeiti�ar o Georg Nystr�m e o Jonas Sandberg. Eles lhe obedecem como se voc� fosse o Todo-Poderoso.</p><p>� Eu sou o Todo-Poderoso em tudo o que diz respeito � Se��o. Estamos trabalhando de acordo com um plano. A nossa determina��o deu uma chance � Se��o. E me sinto muito seguro de dizer que a Se��o nunca mais vai se ver numa situa��o de tanta fragilidade. Uma vez terminado esse caso, vamos fazer uma revis�o geral da nossa atividade.</p><p>� Entendo.</p><p>� O Georg Nystrom vai ser o novo chefe. Na verdade, ele est� velho demais, mas � o �nico que pode ser levado em considera��o, e ele prometeu ficar pelo menos mais seis anos. O Sandberg � muito jovem, e seu estilo de chefia mostra toda a sua inexperi�ncia. A forma��o dele j� deveria estar conclu�da.</p><p>�� Clinton, voc� n�o tem no��o do que fez. Voc� assassinou um homem. O Bj�rck trabalhou trinta e cinco anos para a Se��o, e voc� mandou mat�-lo. Voc� n�o percebe que...</p><p>� Voc� sabe muito bem que era preciso. Ele tinha nos tra�do e jamais suportaria a press�o quando a pol�cia come�asse a apert�-lo de jeito.</p><p>Wadensj�� se levantou.</p><p>� Eu ainda n�o terminei.</p><p>� Ent�o fica para mais tarde. Tenho trabalho a fazer, enquanto voc� fica a� deitado com suas fantasias de onipot�ncia divina.</p><p>Wadensj�� se encaminhou para a porta.</p><p>� Se voc� est� moralmente t�o indignado, por que n�o vai falar com o Bublanski e confessa seus crimes?</p><p>Wadensj�� virou-se para o doente.</p><p>� Essa id�ia chegou a me passar pela cabe�a. Mas, apesar do que voc� acha, eu defendo a Se��o com todas as minhas for�as.</p><p>Ao abrir a porta, deu de cara com Georg Nystrom e Jonas Sandberg.</p><p>� Ol�, Clinton � disse Nystrom. � Temos umas duas, tr�s coisas para conversar.</p><p>� Entrem. O Wadensj�� estava mesmo de sa�da. Nystrom esperou a porta se fechar.</p><p>�� Fredrik, estou come�ando a ficar seriamente preocupado � disse Nystrom.</p><p>� Por qu�?</p><p>� O Sandberg e eu andamos pensando. Est�o acontecendo umas coisas que a gente n�o est� entendendo direito. Hoje de manh�, a advogada da Salander entregou a autobiografia dela para o procurador.</p><p>� O qu�!?</p><p>O inspetor criminal Hans Faste contemplava Annika Giannini enquanto o procurador Richard Ekstr�m servia caf� de uma garrafa t�rmica. Ekstr�m estava estupefato com o documento que tinham lhe apresentado naquela manh� assim que chegou ao escrit�rio. Lera, junto com Faste, as quarenta p�ginas que constitu�am o relato de Lisbeth Salander. Tinham discutido demoradamente sobre o estranho documento. Por fim, sentira-se no dever de chamar Annika Giannini para uma conversa informal.</p><p>Sentaram-se � uma mesinha de reuni�es na sala de Ekstr�m.</p><p>� Obrigado por ter vindo � come�ou Ekstr�m. � Eu li esse... relat�rio que a senhora me encaminhou hoje pela manh� e senti a necessidade de esclarecer alguns pontos...</p><p>� Sim? � disse Annika Giannini para ajud�-lo.</p><p>� Na verdade n�o sei como lidar com isso. Para come�ar, eu talvez deva dizer que tanto eu como o inspetor Faste estamos extremamente desconcertados.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Quero entender qual � a sua inten��o.</p><p>� Como assim?</p><p>� Qual � o objetivo dessa autobiografia, ou seja l� como isso deve ser chamado?</p><p>� Para mim, parece bastante �bvio. Minha cliente faz quest�o de expor sua pr�pria vers�o de tudo que aconteceu.</p><p>Ekstr�m riu com simpatia. Passou a m�o no cavanhaque, num gesto familiar que, por algum motivo, havia come�ado a irritar Annika.</p><p>�� Sim, mas a sua cliente teve v�rios meses para se explicar. Ela n�o disse uma s� palavra nos interrogat�rios a que foi submetida pelo Faste.</p><p>�� Pelo que me consta, n�o existe nenhuma lei que a obrigue a falar quando conv�m ao inspetor Faste.</p><p>� N�o, mas quero dizer... O julgamento da Lisbeth Salander come�a daqui a dois dias e ela resolve me entregar isso na �ltima hora. Isso me faz sentir uma esp�cie de responsabilidade que extrapola um pouco o meu papel de procurador.</p><p>� Ah, �?</p><p>� N�o quero, de modo algum, me expressar de uma maneira que possa lhe parecer ofensiva. N�o � essa a minha inten��o. Temos que respeitar as formas processuais de nosso pa�s. Mas, doutora Giannini, a senhora advoga no direito da mulher e nunca representou um cliente em um processo criminal. Eu n�o acusei a Lisbeth Salander por ela ser mulher, e sim por ser a autora de viol�ncias agravadas. Tenho certeza de que a senhora mesma deve ter percebido que ela est� seriamente perturbada em termos ps�quicos e que precisa do tratamento e da assist�ncia oferecidos pela sociedade.</p><p>� Permita que eu lhe d� uma ajuda � disse gentilmente Annika Giannini. � O senhor tem medo que eu n�o garanta a Lisbeth Salander unia defesa satisfat�ria.</p><p>� N�o estou insinuando nada que a desabone � disse Ekstr�m. � N�o estou questionando a sua compet�ncia. S� estou observando que lhe falta experi�ncia.</p><p>� Entendo. Ent�o deixe-me dizer que estou de pleno acordo. Me falta muita experi�ncia em casos criminais...</p><p>� No entanto, rejeitou sistematicamente a ajuda que lhe foi oferecida por advogados muito mais experientes...</p><p>� Esse era o desejo da minha cliente. A Lisbeth Salander quer que eu seja sua advogada e pretendo represent�-la perante o tribunal daqui a dois dias.</p><p>Ela sorriu educadamente.</p><p>� Muito bem. Mas posso saber se pretende mesmo apresentar ao tribunal esse relato?</p><p>� Mas � claro. Trata-se da hist�ria da Lisbeth Salander.</p><p>Ekstr�m e Faste consultaram-se com um olhar. Faste ergueu as sobrancelhas. N�o compreendia por que Ekstr�m insistia tanto. Se Giannini n�o percebia que ia prejudicar sua cliente, esse n�o era exatamente um problema do procurador. S� lhe restava aceitar, agradecer e arquivar o caso.</p><p>Ele n�o tinha a menor d�vida de que Salander era completamente maluca. Mobilizara todos os seus talentos para tentar fazer com que ela ao menos dissesse onde morava. Durante os interrogat�rios, por�m, aquela maldita garota tinha permanecido muda feito uma porta, olhando para a parede atr�s dele. N�o se movera um mil�metro sequer. Recusara os cigarros que ele tinha oferecido, assim como o caf� e os sucos. N�o reagira nem quando ele suplicara, nem nos momentos de irrita��o, quando ele erguera o tom de voz.</p><p>Tinham sido, provavelmente, os interrogat�rios mais frustrantes que o inspetor Hans Faste j� conduzira.</p><p>Ele suspirou.</p><p>� Doutora Giannini � disse Ekstr�m por fim �, considero que sua cliente deveria ser dispensada desse julgamento. Ela � doente. Estou me baseando num exame psiqui�trico altamente qualificado. Ela merece receber, de uma vez por todas, os cuidados psiqui�tricos que lhe faltaram nesses anos todos.</p><p>� Nesse caso, suponho que o senhor v� comunicar sua opini�o ao tribunal.</p><p>� Vou fazer isso. N�o cabe a mim lhe dizer como conduzir a defesa. Mas se realmente pretende seguir essa linha, a situa��o � um absurdo completo. Essa autobiografia cont�m acusa��es insanas e infundadas contra v�rias pessoas... e principalmente contra o antigo tutor dela, o doutor Bjurman, e o doutor Peter Teleborian. Espero que a senhora n�o acredite de fato que o tribunal vai aceitar esses argumentos que, sem nenhuma prova, p�em o Teleborian em xeque. Esse documento vai ser o prego final do caix�o da sua cliente, com o perd�o da express�o.</p><p>� Entendo.</p><p>� A senhora pode passar o processo inteiro negando que ela � doente e exigir uma avalia��o psiqui�trica suplementar, e o caso ent�o pode ser encaminhado � supervis�o de Medicina Legal para avalia��o. Mas, para ser bem franco, depois desse relato da Salander n�o resta d�vida que os demais psiquiatras juramentados v�o chegar � mesma conclus�o que Peter Teleborian. Esse relato s� vem refor�ar as evid�ncias de que ela sofre de esquizofrenia paran�ica.</p><p>Annika Giannini sorriu educadamente.</p><p>� Mas existe outra possibilidade � disse ela.</p><p>� E qual seria? � perguntou Ekstr�m.</p><p>� Ora, a de que o relato dela seja verdadeiro e que o tribunal resolva acreditar nele.</p><p>O procurador Ekstr�m pareceu surpreso. Ent�o sorriu educadamente e acariciou o cavanhaque.</p><p>Fredrik Clinton estava sentado diante da janela de seu quarto. Escutava com aten��o o que Georg Nystr�m e Jonas Sandberg diziam. Seu rosto estava repleto de rugas, mas seus olhos eram atentos e concentrados.</p><p>� Desde abril estamos controlando as liga��es telef�nicas e o correio eletr�nico dos principais funcion�rios da Millennium � disse Clinton.</p><p>- Constatamos que o Mikael Blomkvist, a Malu Eriksson e o tal Cortez praticamente se resignaram. Lemos a sinopse do pr�ximo n�mero da Millennium Parece que o pr�prio Blomkvist recuou para uma posi��o em que, afinal considera a Salander louca. Ele defende a Lisbeth Salander, mas apenas no plano social; argumenta que ela n�o recebeu o apoio que deveria da sociedade e que, portanto, de certa forma, n�o � culpa dela se tentou matar o pai... essa opini�o, por�m, n�o significa absolutamente nada. N�o h� uma s� palavra sobre a invas�o ao apartamento dele, nem sobre a agress�o � irm� dele em G�teborg, nem sobre o sumi�o dos relat�rios. Ele sabe que n�o pode provar nada.</p><p>� Esse � o problema � disse Jonas Sandberg. � O mais l�gico � que o Blomkvist soubesse que h� algo errado. No entanto ele desconhece a resposta para todos os pontos de interroga��o. Me desculpe, mas isso n�o se parece nada com o estilo da Millennium. Al�m disso, a Erika Berger voltou � reda��o. Esse n�mero da Millennium est� t�o vazio e sem conte�do que at� parece piada.</p><p>� Voc� quer dizer que... � uma farsa? Jonas Sandberg assentiu com a cabe�a.</p><p>� A edi��o de ver�o da Millennium j� deveria ter sa�do na �ltima semana de junho. Pelo que conclu�mos dos e-mails da Malu Eriksson para o Mikael Blomkvist, esse n�mero vai ser impresso em uma gr�fica de S�dert�lje. Mas eu verifiquei hoje com a empresa, e eles ainda n�o receberam nenhuma arte final. Eles s� t�m l� um pedido de or�amento com data de um m�s atr�s.</p><p>� Humm � disse Fredrik Clinton.</p><p>� Onde eles imprimiram das outras vezes?</p><p>� Numa gr�fica chamada Hallvigs Reklam, em Morgong�va. Eu liguei para l� e perguntei como andava a impress�o � fingi que trabalhava na Millennium. O chefe da Hallvigs n�o quis me dizer nada. Pensei em passar por l� hoje � noite para dar uma olhada.</p><p>� Entendi. Georg?</p><p>�� Examinei todas as liga��es desta semana � disse Georg Nystr�m. � � estranho, mas nenhum funcion�rio da Millennium fala sobre nada que diga respeito ao julgamento ou ao caso Zalachenko.</p><p>� Nada?</p><p>�� Nada. Esses assuntos s� s�o mencionados quando um funcion�rio conversa com pessoas de fora da Millennium. Escute isto aqui, por exemplo � o Mikael Blomkvist recebendo uma liga��o de um rep�rter do Aftonbladet que pergunta se ele tem alguma declara��o a fazer sobre o julgamento que est� para come�ar.</p><p>Ele pegou um gravador.</p><p>� Lamento, mas n�o tenho nada a dizer.</p><p>� Voc� est� envolvido nesse caso desde o come�o. Foi voc� que encontrou a Lisbeth Salander em Gosseberga. E ainda n�o publicou nem uma palavra a respeito. Quando pretende publicar alguma coisa?</p><p>� No momento oportuno. Desde que eu tenha alguma coisa para publicar.</p><p>� E � esse o caso?</p><p>� Bem, acho que voc� vai ter de comprar a Millennium para saber. Ele desligou o gravador.</p><p>� Verdade que a gente n�o tinha pensado nisso antes, mas voltei a escutar as grava��es meio ao acaso. � o tempo todo assim. Ele quase nunca fala no caso Zalachenko, a n�o ser de modo bem geral. Nem com a irm�, que � a advogada da Salander.</p><p>� Pode ser que ele n�o tenha nada a dizer.</p><p>� Ele se nega sistematicamente a especular sobre o que quer que seja. Parece morar na reda��o vinte e quatro horas por dia e quase nunca est� no seu apartamento da Bellmansgatan. Se est� trabalhando assim dia e noite, poderia ter produzido algo melhor do que se v� no pr�ximo n�mero da Millennium.</p><p>� E continuamos sem nenhuma chance de colocar escutas na reda��o?</p><p>� N�o tem como � disse Jonas Sandberg, intervindo na conversa. � Sempre fica algu�m l� de plant�o, de dia e de noite. Isso tamb�m � revelador.</p><p>�- Humm.</p><p>� Desde que entramos no apartamento do Blomkvist, sempre fica algu�m na reda��o. O Blomkvist passa por l� o tempo todo e a luz da sala dele est� permanentemente acesa. Quando n�o � ele, � o Cortez ou a Malu Eriksson, ou aquele veado... h�, o Christer Malm.</p><p>Clinton cocou o queixo. Refletiu um instante.</p><p>� Certo. Quais suas conclus�es? Georg Nystr�m hesitou um pouco.</p><empty-line/><p>� Bem... a menos que me apresentem outra explica��o, acho que eles est�o encenando.</p><p>Clinton sentiu um arrepio percorrer-lhe a nuca.</p><p>� E como � que a gente n�o percebeu isso antes?</p><p>� A gente ficou escutando o que eles diziam, e n�o o que eles n�o diziam. Ficamos satisfeitos ao ouvir, ou constatar pelos e-mails, como ficaram perturbados. O Blomkvist percebeu que algu�m roubou, dele e da irm�, o relat�rio Salander de 1991. Mas o que ele poderia fazer, porra?</p><p>� Eles n�o deram queixa? Nystr�m fez que n�o com a cabe�a.</p><p>� AGiannini participou dos interrogat�rios da Salander. Ela � muito educada, mas n�o disse nada importante. E a Salander n�o disse nada de nada.</p><p>� Isso � uma vantagem para n�s. Quanto mais ela ficar de bico calado, melhor. O que diz o Elkstr�m?</p><p>� Estive com ele h� duas horas. Ele tinha acabado de receber o relato da Salander.</p><p>Apontou a c�pia que estava no colo de Clinton.</p><p>� O Ekstr�m est� preocupado. Para um n�o iniciado, esse relato tem todo jeito de uma teoria da conspira��o insana com toques de pornografia. Mas ela de fato atira bem pr�ximo do alvo. Conta exatamente o que aconteceu quando foi internada na Sankt Stefan, sustenta que o Zalachenko trabalhava para a Sapo e coisas do g�nero. Ela diz que deve haver uma pequena seita dentro da Sapo, o que significa que ela suspeita da exist�ncia de alguma coisa parecida com a Se��o. No geral, � uma descri��o muito precisa sobre n�s. Mas, como eu disse, ningu�m vai acreditar. O Ekstr�m est� perturbado pelo que parece ser a defesa que a Giannini vai apresentar na audi�ncia.</p><p>� Droga! � exclamou Clinton.</p><p>Ele inclinou a cabe�a para a frente e refletiu intensamente durante v�rios minutos. Por fim, ergueu a cabe�a.</p><p>� Jonas, v� at� Morgong�va hoje � noite e veja se eles est�o produzindo alguma coisa. Se estiverem imprimindo a Millennium, quero uma c�pia.</p><p>� Vou levar o Falun comigo.</p><p>�� �timo. Georg, quero que voc� sonde o Ekstr�m agora � tarde. Por enquanto tudo estava indo �s mil maravilhas, mas de fato n�o posso ignorar o que voc�s acabam de me dizer.</p><p>� N�o pode. Clinton ficou mais um instante calado.</p><p>� O melhor seria n�o haver julgamento... � disse afinal.</p><p>Ergueu a cabe�a e fitou Nystr�m no olho. Nystr�m meneou a cabe�a. Sandberg meneou a cabe�a. Entendiam-se perfeitamente.</p><p>� Nystr�m, verifique quais s�o as possibilidades.</p><p>Jonas Sandberg e o chaveiro Lars Faulsson, mais conhecido como Falun, deixaram o carro um pouco antes da linha de trem e atravessaram Morgong�va a p�. Eram oito e meia da noite. Ainda estava muito claro e era cedo demais para tentarem alguma coisa, mas eles pretendiam fazer o reconhecimento do terreno e ter uma vis�o geral da �rea.</p><p>� Se tiver alarme eu n�o me meto � disse Falun.</p><p>Sandberg assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ent�o � melhor s� dar uma olhada pela janela. Se der para ver alguma coisa, voc� joga unia pedra, pega o que te interessa e se manda.</p><p>� Est� certo � disse Sandberg.</p><p>� Se voc� s� precisa de um exemplar da revista, a gente pode ver se tem algum carrinho de lixo atr�s do pr�dio. Sempre tem algum papel ca�do, umas provas, esse tipo de coisa.</p><p>A gr�fica Hallvigs ficava num pr�dio baixo de tijolo aparente. Eles se aproximaram vindo do sul, do outro lado da rua. Sandberg estava prestes a atravessar quando Falun segurou seu bra�o.</p><p>� Siga em frente � disse.</p><p>� O qu�?</p><p>� Siga em frente, como se a gente estivesse passeando. Passaram em frente � gr�fica e deram uma volta pelo bairro.</p><p>� O que foi? � perguntou Sandberg.</p><p>� Voc� precisa ficar de olhos abertos. Este lugar n�o est� s� protegido por um alarme. Tinha um carro estacionado ao lado do pr�dio.</p><p>� E havia algu�m l� dentro?</p><p>� Era um carro da Milton Security. Puta merda! Essa gr�fica est� sob vigil�ncia pesada.</p><p>� Milton Security! � exclamou Fredrik Clinton. Ele acusou o golpe bem no est�mago.</p><p>� Se n�o fosse o Falun, eu teria ca�do direitinho na armadilha � disse Jonas Sandberg.</p><p>� Eu falei, eles est�o tramando alguma coisa n�o muito cat�lica � disse Georg Nystr�m. � N�o tem sentido uma pequena gr�fica de um vilarejo perdido contratar a Milton Security para fazer vigil�ncia permanente.</p><p>Clinton meneou a cabe�a. Sua boca tinha a forma de um tra�o r�gido. Eram onze da noite e ele precisava descansar.</p><p>� Isso significa que a M�llenn�um est� tramando alguma coisa � disse Sandberg.</p><p>� Isso eu j� entendi � disse Clinton. � Certo. Vamos examinar a situa��o. Qual seria o pior cen�rio? O que eles podem estar sabendo?</p><p>Olhou para Nystr�m, estimulando-o a responder.</p><p>� Deve ter alguma liga��o com o relat�rio Salander de 1991 � disse Nystr�m. � Eles aumentaram a seguran�a depois que roubamos as c�pias. Devem ter desconfiado que estavam sendo vigiados. Na pior das hip�teses, eles tinham mais uma c�pia do relat�rio.</p><p>� Mas o Blomkvist parecia desesperado por ter perdido o relat�rio.</p><p>� Eu sei. Mas ele podia estar enrolando a gente. N�o d� para desconsiderar essa possibilidade.</p><p>Clinton concordou com a cabe�a.</p><p>� Vamos partir dessa id�ia. Sandberg?</p><p>� Temos a vantagem de conhecer a defesa da Salander. Ela conta a verdade tal como a viveu. Reli a pretensa autobiografia dela. Na verdade, at� facilita para a gente. Cont�m acusa��es de estupro e abuso do Poder Judici�rio t�o grandes que a hist�ria toda vai parecer os del�rios de uma mit�mana.</p><p>Nystr�m fez um gesto de concord�ncia com a cabe�a.</p><p>� Al�m disso, ela n�o pode provar nada do que afirma. O Ekstr�m vai virar o tal relato contra ela. Vai esmagar a credibilidade dela.</p><p>� Certo. O novo relat�rio do Teleborian est� excelente. � claro que resta a possibilidade de a Giannini vir com seu pr�prio especialista afirmando que a Salander n�o � louca, e a� o caso vai parar na supervis�o de Medicina Legal. Mas repito: a menos que a Salander mude de t�tica, se ela se negar a falar com eles tamb�m, eles v�o concluir que o Telebonan tem raz�o e que ela � maluca. Ela � a pior inimiga de si mesma.</p><p>� Mesmo assim, o melhor seria n�o haver julgamento � disse Clinton. Nystr�m balan�ou a cabe�a.</p><p>� Isso � praticamente imposs�vel. Ela est� trancada na casa de deten��o de Kronoberg, sem contato com os outros presos. Tem direito a uma hora de exerc�cios por dia no p�tio do terra�o, mas tamb�m ali n�o temos acesso a ela. E n�o temos nenhum contato entre o pessoal da casa de deten��o.</p><p>� Entendo.</p><p>�� Se quis�ssemos peg�-la, dever�amos ter feito isso quando ela estava no Sahlgrenska. Agora, s� em plena luz do dia. � quase cem por cento certo que o assassino seria apanhado. Onde encontrar um atirador que aceite essas condi��es? Em t�o pouco tempo, � imposs�vel organizar um suic�dio ou um acidente.</p><p>� Foi o que eu pensei. Sem contar que mortes inesperadas tendem a levantar d�vidas. Certo, vamos ver o que acontece no tribunal. Concretamente, nada mudou. Estivemos o tempo todo preparados para um contra-ataque deles, que aparentemente � essa tal autobiografia.</p><p>� O problema � a Millennium � disse Jonas Sandberg. Os tr�s menearam a cabe�a.</p><p>� A Millennium e a Milton Security � disse Clinton, pensativo. � A Salander trabalhou para o Armanskij, e o Blomkvist teve um caso com ela. Devemos concluir que eles abra�aram essa causa?</p><p>�� E poss�vel, considerando-se que a Milton Security est� vigiando a gr�fica que est� imprimindo a Millennium. N�o pode ser um acaso.</p><p>� Certo. Quando � que eles pretendem lan�ar a revista? Sandberg, voc� disse que eles j� atrasaram o lan�amento em duas semanas, em rela��o � data normal de circula��o. Supondo que a Milton Security esteja vigiando a gr�fica para impedir que algu�m ponha as m�os na Millennium antes da hora, isso por um lado significa que eles pretendem publicar alguma coisa que n�o querem revelar antes da hora, e, por outro, que a revista j� deve estar impressa.</p><p>� Junto com o julgamento � disse Jonas Sandberg. � � a �nica hip�tese que faz sentido.</p><p>Clinton assentiu com a cabe�a.</p><p>� O que ser� que tem nessa revista? Qual seria o pior cen�rio?</p><p>Os tr�s ficaram um bom tempo refletindo. Nystr�m foi quem quebrou o sil�ncio.</p><p>� Portanto, no pior dos casos, eles t�m uma c�pia do relat�rio de 1991. Clinton e Sandberg menearam a cabe�a. Tinham chegado � mesma conclus�o.</p><p>� O problema � saber o que eles podem fazer com isso � disse Sandberg. � O relat�rio implica o Bj�rck e o Teleborian. O Bj�rck est� morto. Eles v�o pressionar o Teleborian, mas ele pode alegar que apenas fez uma avalia��o m�dica absolutamente normal. Vai ser a palavra dele contra a deles, e � claro que ele saber� demonstrar uma perfeita consterna��o diante das acusa��es.</p><p>�� O que a gente faz se eles publicarem o relat�rio? � perguntou Nystr�m.</p><p>� Acho que temos uma vantagem � disse Clinton. � Se o relat�rio causar alguma turbul�ncia, quem vai ficar no foco � a Sapo, n�o a Se��o. E quando os jornalistas come�arem a fazer perguntas, a Sapo vai tirar o relat�rio dos arquivos...</p><p>� E ser� outro relat�rio � disse Sandberg.</p><p>�� O Shenke colocou nos arquivos uma vers�o modificada, ou seja, a vers�o lida pelo procurador Ekstr�m. Ele j� deu um n�mero de cadastro para ela. Podemos passar rapidamente a desinforma��o para a imprensa... Estamos com o original que o Bjurman tinha conseguido e do qual a Millennium s� tem uma c�pia. Podemos inclusive divulgar uma nota sugerindo que o Blomkvist falsificou o relat�rio original.</p><p>� Certo. O que mais o pessoal da Millennium pode estar sabendo?</p><p>� Eles n�o t�m como saber da Se��o. � imposs�vel. Ou seja, eles v�o se concentrar na Sapo, dando a impress�o de que o Blomkvist est� obcecado por conspira��es, e a Sapo vai sustentar que ele est� completamente pirado.</p><p>� Ele � bastante conhecido � disse Clinton devagar. � Depois do caso Wennerstr�m, ele passou a gozar de boa credibilidade.</p><p>Nystr�m concordou com a cabe�a.</p><p>� Ser� que existe um jeito de reduzir essa credibilidade? � perguntou Jonas Sandberg.</p><empty-line/><p>Nystr�m e Clinton trocaram um olhar. Ent�o, os dois assentiram Clin-ton olhou para Nystr�m.</p><p>� Voc� acha que poderia conseguir... digamos, cinq�enta gramas de coca?</p><p>� Talvez, com os iugoslavos.</p><p>� Certo. N�o custa tentar. Mas � urgente. O julgamento come�a daqui a dois dias.</p><p>� N�o estou entendendo... � disse Jonas Sandberg.</p><p>� � um truque t�o velho quanto a nossa profiss�o. Mas continua especialmente eficaz.</p><p>� Morgong�va? � perguntou Torsten Edklinth, franzindo o cenho. Ele estava de roup�o, sentado no sof� de sua sala relendo pela terceira vez a autobiografia de Salander, quando Rosa Figuerola ligou. Como j� passava havia muito da meia-noite, percebeu que algo estranho estava acontecendo.</p><p>�� Morgong�va � repetiu Rosa Figuerola. � O Sandberg e o Lars Faulsson estiveram l� por volta das sete da noite. O Curt Bolinder e o pessoal do Bublanski seguiram os dois o tempo todo, e ainda com a facilidade de termos uma escuta no carro do Sandberg. Eles estacionaram perto da antiga esta��o, depois deram uma volta pelo bairro, pegaram o carro e voltaram para Estocolmo.</p><p>� Entendo. Eles se encontraram com algu�m ou...?</p><p>�� N�o. Isso � que � estranho. Desceram do carro, deram uma volta, subiram no carro e retornaram a Estocolmo.</p><p>� Ah. E por que voc� est� me chamando � meia-noite e meia para me contar isso?</p><p>� Levamos um tempinho para entender. Eles passaram na frente do pr�dio onde fica a gr�fica Hallvigs Reklam. Conversei com o Mikael Blomkvist. E l� que a Millennium est� sendo impressa.</p><p>� Puta merda! � exclamou Edklinth.</p><p>Ele percebeu as implica��es imediatamente.</p><p>� Se o Falun estava junto, � porque eles pretendiam fazer uma visitinha � gr�fica, mas tiveram que interromper a excurs�o � disse Rosa Figuerola.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Porque o Blomkvist pediu que o Dragan Armanskij vigiasse a gr�fica at� o dia da distribui��o da revista. Eles devem ter visto o carro da Milton Security. Achei que voc� ia gostar de ter essa informa��o logo.</p><p>� Tem raz�o. Isso significa que eles est�o come�ando a desconfiar que h� alguma coisa esquisita nesta hist�ria...</p><p>�� Seja como for, algum alarme deve ter come�ado a soar na cabe�a deles quando viram o carro. O Sandberg deixou o Falun no centro e em seguida voltou ao pr�dio da Artillerigatan. Sabemos que o Fredrik Clinton est� l�. O Georg Nystr�m chegou quase ao mesmo tempo. O problema � saber o que eles v�o fazer.</p><p>� O julgamento come�a na ter�a-feira... Ligue para o Blomkvist e diga a ele para refor�ar a seguran�a na Millennium. S� por preven��o.</p><p>� Eles j� est�o com uma boa seguran�a. E o jeito deles de criar cortina de fuma�a nos telefones grampeados n�o fica devendo nada aos profissionais. O Blomkvist est� t�o paran�ico que aperfei�oou uns m�todos para desviar a aten��o que podem at� nos ser �teis.</p><p>� Certo. Mas ligue para ele assim mesmo.</p><p>Rosa Figuerola desligou o celular e o colocou sobre o criado-mudo. Ergueu os olhos e fitou Mikael Blomkvist, semideitado, nu, recostado na ponta da cama.</p><p>� � para eu te ligar pedindo que voc� reforce a seguran�a da Millennium � disse ela.</p><p>� Obrigado pela sugest�o � disse ele, lac�nico.</p><p>� Falando s�rio. Se eles come�arem a desconfiar de alguma coisa, h� o risco de agirem sem pensar. E um assalto � f�cil de acontecer.</p><p>� O Henry Cortez est� dormindo l� esta noite. E temos um alarme anti--invas�o diretamente ligado � Milton Security, que fica a tr�s minutos dali.</p><p>Ele ficou em sil�ncio por um instante.</p><p>� Ah, paran�ia... � resmungou.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>24. SEGUNDA-FEIRA � 11 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Eram seis horas da manh� de segunda-feira quando Susanne Linder, da Milton Security, ligou para Mikael Blomkvist no seu TIO azul.</p><p>� Voc� n�o dorme nunca? � perguntou Mikael, mal e mal acordado. Espiou Rosa Figuerola, j� de p� e vestida com uma bermuda esporte, mas ainda sem a camiseta.</p><p>� Durmo. Mas fui acordada pelo guarda da noite. O alarme silencioso que instalamos no seu apartamento disparou �s tr�s da manh�.</p><p>� Ah, �?</p><p>� A� precisei ir at� l� ver o que estava acontecendo. N�o � coisa simples. Voc� poderia dar uma chegada na Milton Security agora de manh�? Ou melhor, a gora mesmo?</p><p>� A coisa est� ficando s�ria � disse Dragan Armanskij.</p><p>Passava um pouco das oito horas quando se reuniram diante de uma tela na sala de reuni�es da Milton Security. Estavam presentes Armanskij, Mikael Blomkvist e Susanne Linder. Armanskij tamb�m mandara chamar Johan Fr�klund, de sessenta e dois anos, antigo inspetor criminal da pol�cia de Solna, que dirigia a unidade de interven��o da Milton, e o ex-inspetor criminal Steve Bohman, de quarenta e oito anos, que acompanhara o caso Salander desde o come�o. Todos refletiam sobre o v�deo que Susanne Linder acabava de exibir.</p><p>�� O que se v� � o Jonas Sandberg abrindo a porta do apartamento de Mikael Blomkvist �s 3h17. Ele tem suas pr�prias chaves... Lembrem que Faulsson, o chaveiro, fez um molde das chaves de Blomkvist h� algumas semanas, quando ele e o G�ran M�rtensson entraram no apartamento.</p><p>Armanskij, semblante s�rio, meneou a cabe�a.</p><p>� O Sandberg fica no apartamento pouco mais de oito minutos. Nesse per�odo, ele faz o seguinte: vai at� a cozinha, pega um saco pl�stico e enche esse saco com alguma coisa. Depois, desparafusa a grade de um v�o que tem l� na sua sala, Mikael. E coloca o saco l� dentro.</p><p>� Humm � disse Mikael Blomkvist.</p><p>� O fato de ele pegar um saco na sua cozinha � muito revelador.</p><p>� � um saco de mini-p�es do Konsum � disse Mikael. � Eu sempre uso para guardar queijo e coisas desse tipo.</p><p>� Eu tamb�m fa�o isso l� em casa. O que � revelador, obviamente, � o saco ter as suas impress�es digitais. Em seguida, ele pega um SMP velho na lixeira de pap�is do hall de entrada. Usa uma p�gina do jornal para enrolar um objeto que ele coloca no alto do arm�rio.</p><p>� Humm � fez Mikael novamente.</p><p>� Mesma coisa. O jornal tem suas impress�es digitais.</p><p>� Entendo � disse Mikael Blomkvist.</p><p>� Eu entrei no seu apartamento por volta das cinco horas. Encontrei isto aqui. No v�o da sua sala h� neste momento cento e oitenta gramas de coca�na. Peguei um grama como amostra, aqui est�.</p><p>Ela colocou um saco pl�stico para per�cia em cima da mesa.</p><p>� E dentro do arm�rio, o que tem l�? � perguntou Mikael.</p><p>� Cerca de cento e vinte mil coroas em dinheiro.</p><p>Armanskij fez sinal para que Susanne Linder parasse o v�deo. Olhou para Fr�klund.</p><p>� E assim Mikael Blomkvist est� envolvido com o tr�fico de coca�na � disse Fr�klund, af�vel. � Ao que parece, eles come�aram a se preocupar com o que o Blomkvist estaria aprontando.</p><p>� � um contra-ataque � disse Mikael Blomkvist.</p><p>� Contra-ataque?</p><p>�� Eles descobriram os guardas da Milton em Morgong�va ontem � noite.</p><p>Ele relatou o que Rosa Figuerola lhe contara sobre a excurs�o de Sandberg a Morgong�va.</p><p>� Garoto safado � disse Steve Bohman.</p><p>� Mas por que agora?</p><p>� Eles devem estar preocupados com o que a Millennium poder� provocar quando o julgamento tiver in�cio � disse Fraklund. � Se o Blomkvist for preso por tr�fico de drogas, a credibilidade dele diminui consideravelmente.</p><p>Susanne Linder meneou a cabe�a. Mikael Blomkvist parecia hesitar.</p><p>�� Bem, como � que a gente vai lidar com isso? � perguntou Ar-manskij.</p><p>� Por enquanto, a gente n�o faz nada � sugeriu Fraklund. � Temos v�rias cartas na manga. Temos uma excelente documenta��o provando que o Sandberg plantou provas no seu apartamento, Mikael. Vamos deixar a armadilha se fechar. A gente vai poder provar sua inoc�ncia na hora e, al�m disso, teremos mais uma prova de uma atitude criminosa da Se��o. Eu adoraria ser o procurador quando esses engra�adinhos passarem pelo banco dos r�us.</p><p>� N�o sei � disse Mikael Blomkvist devagar. � O julgamento come�a depois de amanh�. A Millennium deve sair na sexta-feira, no terceiro dia da audi�ncia. Se eles quiserem me pegar por tr�fico de coca�na, vai ter que ser antes... e eu n�o vou poder me explicar antes de a revista sair. Ou seja, corro o risco de ser preso e perder o come�o do julgamento.</p><p>�� Em outras palavras, voc� tem bons motivos para sair de circula��o esta semana � prop�s Armanskij.</p><p>� Bem... eu tenho um trabalho para fazer com a TV4, e tamb�m estou preparando outras coisas. Realmente, n�o � uma boa hora...</p><p>� Por que bem agora? � Susanne Linder perguntou de repente.</p><p>� O que voc� quer dizer? � perguntou Armanskij.</p><p>� Eles tiveram tr�s meses para jogar o Blomkvist na lama. Por que est�o agindo b�m agora? O que quer que eles fa�am, n�o v�o conseguir impedir a publica��o.</p><p>Todos permaneceram em sil�ncio por um momento.</p><p>� Pode ser que eles n�o estejam entendendo o que voc� vai publicar Mikael � disse Armanskij devagar. � Eles sabem que voc� est� tramando alguma coisa..., mas talvez achem que voc� s� est� com o relat�rio de Bj�rck de 1991.</p><p>Mikael assentiu lentamente com a cabe�a.</p><p>� Eles n�o se deram conta de que voc� pretende denunciar toda a Se��o. Sendo s� o relat�rio do Bj�rck, basta criar um clima de desconfian�a em torno de voc�. As suas eventuais revela��es v�o se perder no meio da sua pris�o e indiciamento. Superesc�ndalo. O famoso jornalista Mikael Blomkvist preso por tr�fico de drogas. De seis a oito anos de pris�o.</p><p>� Posso ficar com duas c�pias do filme da c�mera de vigil�ncia? � perguntou Mikael.</p><p>� O que voc� pretende fazer?</p><p>� Uma c�pia vai para o Edklinth. E eu devo encontrar o pessoal da TV4 daqui a tr�s horas. Acho que seria legal se a gente estivesse pronto para jogar isso na tev� quando a tempestade desabar.</p><p>Rosa Figuerola desligou o leitor de DVD e deixou o controle remoto em cima da mesa. Estavam no escrit�rio provis�rio da Fridhemsplan.</p><p>� Coca�na � disse Edklinth. � Eles est�o pegando pesado! Rosa Figuerola pareceu hesitar. Olhou de esguelha para Mikael.</p><p>� N�o estou gostando nada disso � falou. � Tem todo o jeito de uma a��o impensada. Eles devem saber muito bem que voc� n�o vai deixar de se defender se te mandarem para a cadeia por tr�fico de drogas.</p><p>� Claro � disse Mikael.</p><p>� Mesmo que voc� seja condenado, eles correm um s�rio risco de as pessoas acreditarem em voc�. E os seus colegas da Millennium n�o v�o ficar quietos.</p><p>� Al�m do qu�, isso tudo est� saindo caro � disse Edklinth. � Ent�o eles disp�em de um or�amento suficiente para aparecer assim de repente com cento e vinte mil coroas mais o que custou a coca.</p><p>� Eu sei � disse Mikael. � Mas o plano deles � muito bom. Eles imaginam que a Lisbeth Salander vai ser mandada para um hospital psiqui�trico e que eu vou desaparecer num turbilh�o de acusa��es. Tamb�m devem estar imaginando que todas as aten��es v�o se concentrar na Sapo, e n�o na Se��o Como ponto de partida n�o � nada mal.</p><p>� Mas como eles v�o convencer a Narcotr�ficos a fazer uma busca na sua casa? Quero dizer, uma den�ncia an�nima n�o basta para arrombarem a porta de um jornalista c�lebre. E, para a coisa funcionar, voc� tem que se transformar em um suspeito nesses pr�ximos dias.</p><p>� Bem, n�o conhecemos o cronograma deles � disse Mikael. Sentia-se cansado e gostaria que tudo j� tivesse acabado. Levantou-se.</p><p>� Aonde voc� vai? � perguntou Rosa Figuerola. � Queria saber onde posso te encontrar nos pr�ximos dias.</p><p>� Vou passar na TV4 no in�cio da tarde. E �s seis vou comer um cordeiro salteado no Samirs Gryta com a Erika Berger. Vamos preparar uns releases para a imprensa. Mais tarde, imagino que eu v� estar na reda��o.</p><p>Os olhos de Rosa Figuerola se estreitaram um pouco ao ouvir o nome de Erika Berger.</p><p>� Quero que voc� mantenha contato durante o dia. De prefer�ncia, que mantenha um contato direto at� o julgamento come�ar.</p><p>� Certo. Quem sabe eu n�o me mudo para a sua casa por alguns dias � disse Mikael de brincadeira, sorrindo.</p><p>O semblante de Rosa Figuerola endureceu. Ela olhou rapidamente para Edklinth.</p><p>� A Rosa est� certa � disse Edklinth. � O melhor seria voc� ficar meio escondido at� tudo isso acabar. Se a Narcotr�ficos te pegar, fique calado at� o in�cio do julgamento.</p><p>� Calma � disse Mikael. � N�o pretendo entrar em p�nico nem p�r nada a perder. Voc�s cuidam da sua parte que eu cuido da minha.</p><p>A Mo�a da TV4 mal conseguia disfar�ar a excita��o diante do material em v�deo que Mikael Blomkvist lhe entregara. Mikael sorriu ao ver seu deleite. Tinham passado uma semana trabalhando como condenados para editar um material sobre a Se��o que fosse compreens�vel para a televis�o. Tanto o produtor para o qual ela trabalhava como o chefe de Atualidades da TV4 tinham percebido o tamanho do furo. O programa fora produzido no maior sigilo, e por apenas alguns profissionais. Tinham aceitado a exig�ncia de Mikael de s� levar a mat�ria ao ar na noite do terceiro dia do julgamento. Decidiram lan��-la numa edi��o especial do notici�rio.</p><p>Mikael fornecera uma boa quantidade de imagens fixas para que ela pudesse usar, mas em televis�o nada melhor que imagens em movimento E aquele v�deo absolutamente n�tido que mostrava um policial identificado plantando coca�na no apartamento de Mikael Blomkvist a deixara simplesmente alucinada.</p><p>� Isso aqui � televis�o de primeira � disse ela. � Na vinheta: A Sapo plantando coca�na no apartamento do jornalista.</p><p>� A Sapo n�o... a Se��o � corrigiu Mikael. � N�o cometa o erro de confundir uma com a outra.</p><p>� Mas o Sandberg trabalha na Sapo � ela protestou.</p><p>�� Sim, s� que, concretamente, ele deve ser considerado um agente infiltrado. Voc� deve deixar essa diferen�a muito clara.</p><p>� Certo. Quem est� na berlinda � a Se��o. E n�o a Sapo. Mikael, voc� poderia me explicar como � que voc� est� sempre envolvido em mat�rias pol�micas? Voc� tem raz�o. Isso aqui vai fazer mais barulho do que o caso Wennerstr�m.</p><p>� Acho que eu tenho algumas habilidades. Parece ironia do destino, mas essa hist�ria tamb�m come�a com um caso Wennerstr�m. Quero dizer, com aquele caso de espionagem dos anos 1960.</p><p>�s quatro horas, Erika Berger ligou. Estava reunida com a Tidningsutgivarna para comunicar aos dirigentes de imprensa seu ponto de vista sobre as demiss�es previstas no SMP, opera��o que provocara um conflito sindical s�rio depois que ela deixara o jornal. Ela avisou que chegaria atrasada ao Samirs Gryta, provavelmente por volta de seis e meia.</p><p>Jonas Sandberg ajudou Fredrik Clinton a passar da cadeira de rodas para a cama da sala de repouso que constitu�a o centro de comando do QG da Se��o na Artillerigatan. Clinton estava voltando da di�lise, que tinha se prolongado por toda a tarde. Sentia-se com cem anos e esgotado. Mal dormira nos �ltimos dias e desejava que aquilo tudo acabasse logo. Nem bem tinha se acomodado na cama quando Georg Nystr�m juntou-se a eles.</p><p>Clinton reuniu suas energias.</p><p>� Est� tudo ajeitado? � perguntou.</p><p>Georg Nystr�m fez um gesto de assentimento com a cabe�a.</p><p>� Acabo de encontrar com os irm�os Nikoli� � disse. � Vai custar cinq�enta mil.</p><p>� Podemos pagar � disse Clinton. Puta merda, se eu ainda fosse jovem.</p><p>Ele virou a cabe�a e examinou alternadamente Georg Nystr�m e Jonas Sandberg.</p><p>� Sem escr�pulos? � ele perguntou. Ambos balan�aram a cabe�a.</p><p>� Quando? � perguntou Clinton.</p><p>� Nas pr�ximas vinte e quatro horas � disse Nystr�m. � Est� dif�cil descobrir onde o Blomkvist se meteu, mas na pior das hip�teses eles v�o agir na frente da reda��o.</p><p>Clinton aquiesceu.</p><p>� Talvez tenhamos uma brecha j� no fim da tarde, daqui a umas duas horas � disse Jonas Sandberg.</p><p>� Ah, �?</p><p>�� A Erika Berger ligou h� pouco tempo. Eles v�o jantar no Samirs Gryta. E um restaurante que fica para os lados da Bellmansgatan.</p><p>� Berger... � disse Clinton, escandindo as s�labas.</p><p>� S� espero que ela... � disse Georg Nystr�m.</p><p>� N�o seria necessariamente ruim � interrompeu Jonas Sandberg.</p><p>� Ent�o, resumindo: Blomkvist constitui a maior amea�a para n�s e � prov�vel que ele publique alguma coisa no pr�ximo n�mero da Millennium. J� que n�o podemos impedir a publica��o, temos que acabar com a credibilidade dele. Se ele for morto no que parece ser um acerto de contas e depois a pol�cia encontrar droga e dinheiro no apartamento dele, o inqu�rito vai tirar certas conclus�es.</p><p>Clinton concordou com a cabe�a.</p><p>� Acontece que Erika Berger � amante do Blomkvist � disse Sandberg, destacando bem as palavras. � � casada e infiel. Se ela tamb�m morrer de forma violenta, isso levar� a mais um monte de especula��es.</p><p>Clinton e Nystr�m trocaram um olhar. Sandberg era um g�nio em criar cortinas de fuma�a. Ele aprendia depressa. Mas tanto Clinton como Nystr�m tiveram um instante de d�vida. Sandberg sempre tinha aquele jeito despreocupado quando se tratava de decidir sobre a vida e a morte. Isso n�o era bom O assassinato era uma decis�o extrema que n�o podia ser tomada s� porque a oportunidade surgia. N�o era uma solu��o pronta, e sim uma sa�da a se recorrer apenas quando n�o houvesse alternativa.</p><p>Clinton balan�ou a cabe�a.</p><p>Danos colaterais, pensou. De repente, sentiu-se enojado com o encaminhamento de todo aquele caso.</p><p>Depois de uma vida inteira a servi�o da na��o, aqui estamos n�s como meros assassinos. Zalachenko fora necess�rio. Bj�rck fora... lament�vel, mas Gullberg estava certo. Bj�rck teria cedido. Blomkvist era... provavelmente necess�rio. Mas Erika Berger n�o passava de uma testemunha inocente.</p><p>Deu uma olhada de esguelha em Jonas Sandberg. Esperava que o rapaz n�o evolu�sse para a psicopatia.</p><p>� E os irm�os Nikoli�, o que eles est�o sabendo?</p><p>� Nada. Quero dizer, sobre a gente. Eu fui o �nico que estive com eles, usei outra identidade e eles n�o t�m como chegar at� mim. Eles acham que o assassinato est� ligado ao tr�fico de mulheres.</p><p>� E depois do assassinato, o que os irm�os Nikoli� v�o fazer?</p><p>� V�o deixar a Su�cia imediatamente � disse Nystr�m. � Como aconteceu depois do Bj�rck. Se a investiga��o da pol�cia n�o der em nada, eles v�o poder voltar, discretamente, algumas semanas mais tarde.</p><p>� E o plano?</p><p>� Modelo siciliano. Eles v�o simplesmente se aproximar do Blomkvist, descarregar a arma nele e dar no p�.</p><p>� Arma?</p><p>� Eles t�m uma autom�tica. N�o sei o tipo.</p><p>� Espero que n�o espirrem sangue pelo restaurante todo...</p><p>� N�o se preocupe. Eles s�o do tipo tranq�ilo e sabem o que t�m de fazer. Mas se a Berger estiver sentada na mesma mesa que o Blomkvist...</p><p>Danos colaterais.</p><p>� Escutem � disse Clinton. � E importante que o Wadensj�� n�o saiba do nosso envolvimento nisso. Principalmente se a Erika Berger acabar sendo uma das v�timas. Ele j� est� a ponto de rebentar de t�o tenso. Tenho a impress�o de que vamos precisar aposent�-lo quando isso tudo acabar.</p><p>Nystr�m assentiu.</p><p>� Isso significa que, quando recebermos a not�cia da morte do Blomkvist vamos ter que fazer um jogo de cena. Vamos convocar uma reuni�o de emerg�ncia e fingir que estamos at�nitos. Vamos especular sobre quem poderia estar por tr�s do homic�dio, mas sem falar nada sobre a droga etc, at� a pol�cia descobrir as evid�ncias.</p><p>Mikael Blomkvist despediu-se da Mo�a da TV4 pouco antes das cinco horas. Tinham passado a tarde revisando os pontos ainda obscuros do material, e em seguida Mikael havia sido maquiado e concedera uma extensa entrevista.</p><p>Tinham-lhe feito uma pergunta que ele tivera dificuldade em responder de forma coerente, e na qual eles haviam insistido v�rias vezes.</p><p>Como funcion�rios do Estado chegaram a ponto de cometer assassinatos?</p><p>Mikael se fizera essa mesma pergunta muito antes da Mo�a da TV4. A Se��o deve ter visto em Zalachenko uma enorme amea�a incr�vel, mas essa n�o era uma resposta satisfat�ria. A resposta que ele acabou dando tampouco era satisfat�ria.</p><p>� A �nica explica��o que me ocorre � que, com o passar do tempo, a Se��o foi se transformando em uma seita, no sentido real da palavra. Eles ficaram iguais � seita de Knutsby, ao pastor Jim Jones e a pessoas desse tipo. Eles escrevem suas pr�prias leis, nas quais a no��o de bem e de mal n�o tem mais import�ncia, e parecem estar completamente afastados da sociedade.</p><p>� Como uma esp�cie de doen�a mental?</p><p>� Essa sua defini��o n�o est� totalmente errada.</p><p>Ele pegou o metr� para Slussen e se deu conta de que era cedo demais para ir ao Samirs Gryta. Demorou-se algum tempo na pra�a de S�dermalm. Estava preocupado, mas, por outro lado, a vida voltara a ter sentido. S� quando Erika Berger reassumira a Millennium � que ele se deu conta de como ela lhe fizera falta. De um modo catastr�fico. E o fato de o leme estar de novo nas m�os dela n�o criara nenhum conflito interno, pelo contr�rio. Malu estava felic�ssima por recuperar seu cargo de assistente de reda��o, sentia-se exultante por a vida (como ela dizia) ter voltado ao seu curso normal.</p><p>O retorno de Erika tamb�m tornara evidente o d�ficit de pessoal nos tr�s meses anteriores. Erika tivera de voltar �s pressas e, com a ajuda de Malu Eriksson, conseguira dominar boa parte do trabalho de organiza��o que havia se acumulado e sido deixado um pouco para l�. De uma boa reuni�o de reda��o sa�ra a decis�o de que a Millennium precisava crescer e contratar pelo menos um colaborador, provavelmente dois. N�o tinham, por�m, a menor id�ia de onde buscar recursos para tanto.</p><p>Por fim, Mikael comprou os jornais da tarde e entrou no Java da Hornsgatan para tomar um caf� e fazer hora at� se encontrar com Erika.</p><p>A procuradora Ragnhild Gustavsson, do Minist�rio P�blico, largou seus �culos de leitura sobre a mesa de reuni�es e observou os presentes. Tinha cinq�enta e oito anos e cabelos grisalhos curtos que emolduravam um rosto rechonchudo e riscado de rugas. Ela havia sido procuradora por vinte e cinco anos e trabalhava no Minist�rio P�blico desde o in�cio dos anos 1990.</p><p>Apenas tr�s semanas tinham transcorrido desde que ela fora repentinamente chamada ao gabinete oficial do procurador-geral da na��o para encontrar-se com Torsten Edklinth. Naquele dia, estava encerrando alguns casos rotineiros e preparando-se para umas f�rias de seis semanas na sua casa de campo de Husar�. Em vez disso, fora incumbida de conduzir uma investiga��o sobre um grupo de funcion�rios de alto n�vel do Estado, reunidos por enquanto sob o termo "a Se��o". Todos os seus planos de f�rias tinham sido rapidamente abandonados. Descobrira que aquela seria sua principal tarefa por tempo indeterminado e tinham-lhe deixado quase inteiramente livre para organizar ela pr�pria seu trabalho e tomar as decis�es necess�rias.</p><p>� Esse caso vai ser uma das investiga��es criminais mais espetaculares da hist�ria da Su�cia � dissera o procurador-geral da na��o.</p><p>Ela n�o tinha como n�o concordar.</p><p>Em seguida, fora tendo surpresa atr�s de surpresa quando Torsten Edklinth lhe fez um resumo do caso e da investiga��o que ele realizara por ordem do primeiro-ministro. A investiga��o n�o estava conclu�da, mas ele achava que tinha chegado a um ponto em que precisava apresentar o caso a um procurador.</p><p>Primeiro ela quis ter uma vis�o do conjunto do material que Torsten</p><p>Edklinth lhe repassara. Mas � medida que a extens�o dos crimes cometidos come�ou a se definir, percebeu que tudo o que ela estava fazendo e todas as decis�es que iria tomar seriam julgados pelos futuros livros de hist�ria. A partir da�, passou a dedicar cada minuto do seu dia a tentar formar uma vis�o coerente daquela lista quase inconceb�vel de crimes com que estava lidando. Era um caso �nico na hist�ria do direito sueco e, j� que se tratava de desenterrar atos criminosos que vinham sendo cometidos havia pelo menos trinta anos, compreendeu a necessidade de uma organiza��o muito estrita do trabalho. Lembrou-se dos agentes italianos que investigaram oficialmente a m�fia e de como eles tiveram de trabalhar quase clandestinamente para sobreviver aos anos 1970 e 1980. Entendia que Edklinth tivesse sido obrigado a agir em segredo. Ele n�o sabia em quem confiar.</p><p>A primeira provid�ncia de Ragnhild Gustavsson foi chamar tr�s colaboradores do Minist�rio P�blico. Escolheu gente que ela conhecia fazia anos. Em seguida, contratou um historiador conhecido do Conselho de Preven��o da Criminalidade para esclarec�-la sobre o surgimento das pol�cias de seguran�a ao longo das d�cadas. Por fim, nomeou Rosa Figuerola para comandar de forma oficial as investiga��es.</p><p>Assim, o inqu�rito sobre a Se��o assumira um car�ter constitucional. J� era poss�vel trat�-lo como uma investiga��o policial qualquer, mesmo tendo sido decretado seu sigilo.</p><p>Durante as duas �ltimas semanas, a procuradora Gustavsson convocara uma consider�vel quantidade de pessoas para interrogat�rios formais, por�m muito discretos. Al�m de Edklinth e Figuerola, ela falara com os inspetores Bublanski, Sonja Modig, Curt Bolinder e Jerker Holmberg. Em seguida, com Mikael Blomkvist, Malu Eriksson, Henry Cortez, Christer Malm, Annika Giannini, Dragan Armanskij, Susanne Linder e Holger Palmgren. Com exce��o dos funcion�rios da Millennium, que por princ�pio n�o respondiam a perguntas que pudessem comprometer a prote��o de suas fontes, todos ofereceram obsequiosamente provas e relat�rios detalhados.</p><p>Ragnhild Gustavsson n�o tinha gostado nada, nada quando lhe foi apresentado um cronograma definido pela Millennium que indiretamente a obrigava a se decidir pela pris�o de determinado n�mero de pessoas numa data determinada. De sua parte, calculava que iria precisar de v�rios meses at� alcan�ar aquele est�gio da investiga��o. Nesse caso espec�fico, por�m, n�o tivera escolha. Mikael Blomkvist, da revista*. M/7/ennzum, mostrara-se irredut�vel. N�o estava subordinado a nenhum decreto ou regulamento oficial e sua inten��o era publicar a mat�ria no terceiro dia do julgamento de Lisbeth Salander. Ragnhild Gustavsson, portanto, fora obrigada a se adaptar e, simultaneamente, a agir para que suspeitos e provas eventuais n�o tivessem tempo de desaparecer. Blomkvist, diga-se, gozava do surpreendente apoio de Edklinth e Figuerola, e, aos poucos, a procuradora foi percebendo que o modelo blomkvistiano tinha l� suas vantagens. Como procuradora, ela iria poder contar com a bem orquestrada m�ozinha da imprensa de que precisaria para conduzir a acusa��o. Al�m disso, o processo seria t�o r�pido que a delicada investiga��o n�o teria tempo de vazar pelos corredores da administra��o e chegar aos ouvidos da Se��o.</p><p>� Para o Blomkvist, antes de mais nada trata-se de fazer justi�a a Lisbeth Salander. Desmascarar a Se��o � mera conseq��ncia � constatou Rosa Figuerola.</p><p>O julgamento de Lisbeth Salander come�aria dali a dois dias, na quarta--feira, e a reuni�o desta segunda tinha por objetivo revisar todo o material dispon�vel e distribuir tarefas.</p><p>Treze pessoas participavam da reuni�o. Do Minist�rio P�blico, Ragnhild Gustavsson trouxera seus dois colaboradores mais pr�ximos. Da Prote��o � Constitui��o, estava presente a chefe das investiga��es, Rosa Figuerola, com seus colegas Stefan Bladh e Niklas Berglund. O diretor da Prote��o � Constitui��o, Torsten Edklinth, participara como observador.</p><p>Ragnhild Gustavsson decidira, contudo, que um caso daquela import�ncia n�o poderia, por uma quest�o de credibilidade, se limitar � Sapo. Motivo pelo qual chamara o inspetor Jan Bublanski e sua equipe, Sonja Modig, Jerker Holmberg e Curt Bolinder, da pol�cia comum. Eles vinham trabalhando no caso Salander desde a P�scoa e conheciam perfeitamente a hist�ria. Al�m disso, solicitara a presen�a da procuradora Agneta J�rvas e do inspetor Marcus Ackerman, de G�teborg. A investiga��o sobre a Se��o tinha uma liga��o direta com o inqu�rito sobre o assassinato de Alexander Zalachenko.</p><p>Quando Rosa Figuerola mencionou que o ex-primeiro-ministro Thorbj�rn F�lldin deveria eventualmente ser chamado para testemunhar, Jerker Holmberg e Sonja Modig se mexeram na cadeira, incomodados.</p><p>Durante cinco horas, eles examinaram, um por um, nomes de pessoas identificadas como ativas na Se��o, o que os fez concluir que a lei estava sendo infringida e que seria preciso efetuar algumas pris�es. Sete pessoas ao todo, foram identificadas e relacionadas com o apartamento da Artillerigatan. Outras nove pessoas identificadas estariam ligadas � Se��o, mas nunca apareciam na Artillerigatan. Trabalhavam sobretudo na Sapo, em Kungsholmen, por�m j� tinham se encontrado com um ou outro membro ativo da Se��o.</p><p>� No momento, � imposs�vel dizer at� onde se estende essa conspira��o. N�o sabemos em que circunst�ncias essas pessoas se encontram com Wadensj�� ou com outro membro qualquer. Podem ser informantes ou podem ter sido levadas a acreditar que est�o trabalhando para investiga��es internas ou algo assim. Fica, portanto, a d�vida sobre o envolvimento delas, e essa d�vida s� ser� resolvida quando pudermos ouvi-las. S�o, al�m disso, pessoas que s� notamos durante as semanas de vigil�ncia; pode haver outras pessoas implicadas que ainda n�o conhecemos.</p><p>� Mas o secret�rio-geral e o chefe do or�amento...</p><p>�� N�o podemos afirmar com seguran�a que eles trabalham para a Se��o.</p><p>Eram seis horas da tarde de segunda-feira quando Ragnhild Gustavsson resolveu fazer um intervalo de uma hora para que todos pudessem comer alguma coisa antes de voltarem � reuni�o.</p><p>Quando todos estavam se levantando e come�ando a se movimentar, Jesper Thoms, o colaborador de Rosa Figuerola na unidade de interven��o da Prote��o � Constitui��o, pediu aten��o para comunicar o que surgira de novo nas �ltimas horas de investiga��o.</p><p>� O Clinton esteve na di�lise boa parte do dia e voltou para a Artillerigatan por volta das tr�s horas. O �nico que fez alguma coisa diferente foi o Georg Nystr�m, s� que n�o temos bem certeza do que foi.</p><p>� Ah, �? � disse Rosa Figuerola.</p><p>� Hoje, � uma e meia da tarde, o Nystr�m foi at� a esta��o central se encontrar com dois sujeitos. Eles foram a p� at� o hotel Sheraton e tomaram um caf� no bar. A conversa durou pouco mais de vinte minutos, e em seguida o Nystr�m voltou para a Artillerigatan.</p><p>� Humm. E quem eram esses sujeitos?</p><p>� N�o sabemos. S�o umas caras novas. Dois homens na faixa dos trinta anos, com jeito de quem vem do Leste europeu. Infelizmente, nosso investigador os perdeu de vista quando pegaram o metr�.</p><p>� Ah, �? � disse Rosa Figuerola, cansada.</p><p>� Tiramos umas fotos deles � disse Jesper Thoms, passando-lhe uma seq��ncia de fotografias.</p><p>Ela examinou aqueles rostos, que via pela primeira vez.</p><p>� Certo, obrigada � disse, e, deixando as fotos em cima da mesa de reuni�es, levantou-se para ir buscar alguma coisa para comer.</p><p>Curt Bolinder, que estava a seu lado, baixou os olhos para as fotos.</p><p>� Puta merda! � disse ele. � Os irm�os Nikoli� est�o metidos nisso? Rosa Figuerola se deteve.</p><p>� Quem?</p><p>� Esses dois aqui s�o uns verdadeiros bandidos � disse Curt Bolinder. � Tomi e Miro Nikoli�.</p><p>� Voc� conhece?</p><p>� Conhe�o. S�o dois irm�os, eles v�m de Huddinge. S�rvios. J� vigiamos os dois em v�rias ocasi�es, quando eles tinham seus vinte anos, na �poca eu estava na Brigada Antigangue. O mais perigoso dos dois � o Miro Nikoli�. Ali�s, faz um ano que est� sendo procurado por viol�ncias agravadas. Eu pensei que eles tivessem voltado para a S�rvia e virado pol�ticos ou coisa do g�nero.</p><p>� Pol�ticos?</p><p>� �. Eles estiveram na Iugosl�via na primeira metade dos anos 1990 para dar uma m�ozinha na faxina �tnica. Trabalhavam para o chef�o da m�fia, o Arkan, que mantinha uma esp�cie de mil�cia fascista particular. Eles tinham a fama de ser shooters.</p><p>� Shooters?</p><p>� Matadores de aluguel. Circulavam entre Belgrado e Estocolmo. O tio deles tem um restaurante em Norrmalm, onde eles oficialmente trabalhavam de vez em quando. Tivemos v�rias indica��es de que teriam participado de pelo menos dois assassinatos, ligados a acertos de conta internos, naquela guerra dos cigarros dos iugoslavos, mas nunca conseguimos prend�-los por motivo nenhum.</p><p>Rosa Figuerola, calada, olhou para as fotos da investiga��o. Ent�o ficou l�vida. Fitou Torsten Edklinth.</p><p>� O Blomkvist! � ela exclamou, em p�nico. � Eles n�o v�o se contentar em detonar a reputa��o dele. V�o mat�-lo e deixar que a pol�cia encontre a coca�na durante o inqu�rito e tire suas pr�prias conclus�es.</p><p>Edklinth encarou-a fixamente.</p><p>� Ele ia se encontrar com a Erika Berger no Samirs Gryta � disse Rosa Figuerola. Ela tocou no ombro de Curt Bolinder. � Voc� est� armado?</p><p>� Estou...</p><p>� Venha comigo.</p><p>Rosa Figuerola saiu correndo da sala de reuni�es. Sua sala ficava tr�s portas adiante no corredor. Destrancou a porta e pegou sua arma de servi�o na gaveta da mesa. Desrespeitando o regulamento, deixou a porta de sua sala escancarada enquanto corria para os elevadores. Curt Bolinder ficou um segundo indeciso.</p><p>� V� � disse Bublanski. � Sonja... v� com eles.</p><p>Mikael Blomkvist chegou ao Samirs Gryta �s 18h20. Erika Berger acabava de sentar-se a uma mesa vazia ao lado do bar, perto da entrada. Ele beijou-a no rosto. Pediram uma boa cerveja e um salteado de cordeiro cada um, e a cerveja logo foi servida.</p><p>� Como estava a Mo�a da TV4? � perguntou Erika Berger.</p><p>� Vistosa como sempre. Erika Berger riu.</p><p>� Se voc� n�o se cuidar, ela vai acabar virando uma obsess�o. J� pensou, uma mulher resistindo ao charme de Blomkvist?</p><p>�� Um monte de mulheres resistiu nesses anos todos � disse Mikael Blomkvist. � Como foi seu dia?</p><p>� Um desperd�cio. Mas aceitei participar de um debate sobre o SMP no Clube dos Articulistas. Foi minha �ltima contribui��o para essa hist�ria.</p><p>� Maravilha.</p><p>� Voc� n�o sabe como � sensacional estar de volta � M�lennium � disse ela.</p><p>�� E voc� nem imagina como � maravilhoso ter voc� de volta. Ainda estou todo emocionado.</p><p>� Ir para o trabalho voltou a ser uma coisa legal.</p><p>� Humm.</p><p>� Estou feliz.</p><p>� E eu preciso ir ao banheiro � disse Mikael levantando-se.</p><p>Deu alguns passos e por pouco n�o esbarrou num homem de uns trinta anos que acabava de entrar no restaurante. Mikael notou que ele tinha a apar�ncia de algu�m do Leste europeu e que o encarava. Ent�o viu a metralhadora.</p><p>Estavam passando por Riddarholmen quando Torsten Edklinth ligou avisando que nem Mikael Blomkvist nem Erika Berger estavam atendendo o celular. Decerto tinham desligado seus aparelhos para jantar em paz.</p><p>Rosa Figuerola soltou um palavr�o e atravessou a pra�a de S�dermalm a quase oitenta quil�metros por hora, a m�o grudada na buzina. Quando fez violentamente a curva da Hornsgatan, Curt Bolinder precisou se segurar na porta. Ele tinha puxado sua arma e conferia se estava carregada. Sonja Modig fazia o mesmo no banco de tr�s.</p><p>� Vamos ter que pedir refor�os � disse Curt Bolinder. � Com os irm�os Nikoli� n�o se brinca.</p><p>Rosa Figuerola concordou.</p><p>� Vamos fazer o seguinte � disse ela. � Eu e a Sonja vamos entrar direto no Samirs Gryta, na esperan�a de que estejam l�. Curt, voc�, que conhece os irm�os, fica do lado de fora de olho bem aberto.</p><p>� Certo.</p><p>� Se estiver tudo tranq�ilo, levamos imediatamente o Blomkvist e a Berger para o carro, e para Kungsholmen. Se sentirmos qualquer coisa no ar, ficamos no restaurante e pedimos refor�os.</p><p>� Certo � disse Sonja Modig.</p><p>Rosa Figuerola ainda estava na Hornsgatan quando o r�dio do painel come�ou a chiar.</p><p>Todas as unidades. Alerta de tiroteio na Tavastgatan, em S�dermalm. Tiroteio no restaurante Samirs Gryta.</p><p>De repente, Rosa Figuerola sentiu seu est�mago se torcer.</p><p>Erika Berger viu Mikael Blomkvist esbarrar num homem de uns trinta anos enquanto ia at� o banheiro, que ficava perto da entrada. Ela franziu o cenho sem saber direito por qu�. Tinha a impress�o de que o desconhecido fitava Mikael com uma express�o surpresa. Perguntou-se se n�o seria algum conhecido dele.</p><p>Ent�o viu o homem dar um passo para tr�s e largar uma sacola no ch�o. De in�cio, ela n�o entendeu o que via. Ficou paralisada quando percebeu que ele apontava uma arma autom�tica para Mikael.</p><p>Mikael Blomkvist reagiu sem pensar. Segurou o cano com a m�o esquerda e apontou-o para o teto. Por um microssegundo, a boca da arma passou diante de seu rosto.</p><p>Naquele lugar min�sculo, o crepitar da pistola-metralhadora foi ensurdecedor. Uma chuva de gesso e vidro do lustre pulverizado desabou sobre Mikael enquanto Miro Nikoli� soltava uma rajada de uma dezena de balas. Por um instante, Mikael Blomkvist olhou nos olhos do homem que queria a sua morte.</p><p>Ent�o Miro Nikoli� deu um passo para tr�s. Arrancou a arma das m�os de Mikael, que, pego de surpresa, soltou o cano. Mikael percebeu de repente que sua vida corria perigo. Sem pensar, jogou-se sobre o agressor em vez de se esconder. Mais tarde, saberia que se tivesse agido de outra forma, se tivesse se abaixado ou recuado, teria sido morto no ato. Mais uma vez, conseguiu segurar o cano da arma. Usou todo o seu peso para encurralar o homem contra a parede. Ainda escutou seis ou sete tiros sendo disparados e pressionou desesperadamente a metralhadora tentando apontar o cano para o ch�o.</p><p>Erika Berger se abaixou instintivamente quando veio a segunda rajada de tiros. Caiu e bateu a cabe�a numa cadeira. Ent�o se encolheu no ch�o, ergueu os olhos e viu os tr�s buracos que as balas tinham deixado na parede, no lugar exato em que ela estava sentada no minuto anterior.</p><p>Abalada, virou a cabe�a e viu Mikael Blomkvist lutando com o homem perto da entrada. Estava ca�do de joelhos, segurando a metralhadora com as duas m�os e tentando apoderar-se dela. Viu o agressor lutando para se soltar Com o punho, batia sem parar no rosto e na t�mpora de Mikael.</p><p>Rosa Figuerola freou bruscamente em frente ao Samirs Gryta, abriu a porta do carro com viol�ncia e correu para o restaurante. Estava com a Sig Sauer na m�o quando notou o carro estacionado bem em frente ao restaurante.</p><p>Viu Tomi Nikoli� ao volante e apontou a arma para o rosto dele do outro lado do vidro.</p><p>� Pol�cia. Mostre as m�os! � gritou. Tomi Nikoli� levantou as m�os.</p><p>� Saia do carro e deite no ch�o � ela berrou com a voz cheia de raiva. Virou a cabe�a e olhou rapidamente para Curt Bolinder. � O restaurante � disse.</p><p>Curt Bolinder e Sonja Modig atravessaram a rua o mais r�pido poss�vel.</p><p>Sonja Modig pensou em seus filhos. Ia contra todas as normas policiais correr para um pr�dio de arma na m�o sem uma boa retaguarda no local, sem colete � prova de balas e sem uma vis�o total da situa��o...</p><p>Ent�o ela ouviu o som de um tiro disparado dentro do restaurante.</p><p>Mikael Blomkvist conseguira enfiar o dedo m�dio entre o gatilho e o protetor do gatilho, quando Miro Nikoli� recome�ou a atirar. Ouviu um vidro se quebrando atr�s dele. Sentiu uma dor atroz quando o atirador acionou o gatilho v�rias vezes seguidas, prensando seu dedo; mas enquanto o dedo estivesse ali os tiros n�o podiam ser disparados. Os socos choviam na lateral de seu rosto e ele de repente se sentiu com quarenta e cinco anos e realmente com um p�ssimo condicionamento f�sico.</p><p>Eu n�o vou conseguir. Isto precisa acabar.</p><p>Foi seu primeiro pensamento racional desde que vira o homem com a metralhadora.</p><p>Cerrou os dentes e enfiou ainda mais o dedo atr�s do gatilho.</p><p>Ent�o, inclinando-se e pressionando o piso com os p�s, jogou o ombro no corpo do matador. Soltou a m�o direita da metralhadora e ergueu o cotovelo para se proteger dos golpes. Miro Mikoli� come�ou a bater em sua axila e nas costelas. Por um segundo, ficaram mais uma vez face a face.</p><p>No momento seguinte, Mikael sentiu que afastavam o matador dali Sentiu uma �ltima dor fulgurante no dedo e avistou a figura imensa de Curt Bolinder. Bolinder levantou Miro Nikoli� literalmente pela pele do pesco�o e bateu sua cabe�a contra a parede. Miro Nikoli� desabou feito um pacote fl�cido.</p><p>� Deitado � ouviu Sonja Modig gritar. � Pol�cia. Fique deitado! Virou a cabe�a e a viu de p�, pernas afastadas e segurando a arma com ambas as m�os, enquanto tentava formar uma id�ia da ca�tica situa��o. Por fim, ergueu a arma para o teto e voltou o olhar para Mikael Blomkvist.</p><p>� Voc� est� ferido? � perguntou.</p><p>Mikael olhou para ela, destru�do. O nariz e as sobrancelhas sangravam.</p><p>� Acho que um dedo quebrou � disse ele, e sentou-se no ch�o.</p><p>Rosa Figuerola recebeu ajuda da Brigada de S�dermalm menos de um minuto depois de ter feito Tomi Nikoli� se deitar na cal�ada. Ela se identificou e deixou que os policiais fardados cuidassem do prisioneiro, correndo ela pr�pria para o restaurante. Ao chegar � porta parou, tentando avaliar a situa��o.</p><p>Mikael Blomkvist e Erika Berger estavam sentados no ch�o. Mikael tinha sangue no rosto e parecia em estado de choque. Rosa soltou um suspiro de al�vio. Ele estava vivo. Ent�o franziu a testa quando viu Erika Berger passar o bra�o pelos ombros dele.</p><p>Sonja Modig estava agachada, examinando a m�o de Blomkvist. Curt Bolinder punha as algemas em Miro Nikoli�, que parecia ter sido atropelado por um trem expresso. Avistou, no ch�o, um policial militar do Ex�rcito sueco.</p><p>Ergueu os olhos e viu os funcion�rios do restaurante chocados, clientes apavorados e um cen�rio de lou�as quebradas, cadeiras e mesas viradas e outros estragos causados pelos in�meros tiros. Sentiu cheiro de p�lvora. Mas n�o via nenhum morto ou ferido no local. Os policiais da viatura de apoio entraram' empunhando armas. Ela estendeu a m�o e tocou no ombro de Curt Bolinder. Ele se levantou.</p><p>� Voc� disse que Miro Nikoli� estava sendo procurado?</p><p>� Isso mesmo. Viol�ncias agravadas, h� cerca de um ano. Uma briga em Hallunda.</p><p>� Certo. N�s vamos fazer o seguinte. Eu vou sumir rapidinho com o Blomkvist e a Berger. Voc� fica. Vers�o oficial: voc� e a Sonja Modig vieram jantar aqui juntos, voc� reconheceu o Nikoli� do tempo que passou na Brigada Antigangue. Tentou interpel�-lo, ele puxou a arma e come�ou a atirar feito doido. Voc� o prendeu.</p><p>Curt Bolinder pareceu surpreso.</p><p>� N�o vai colar... h� testemunhas.</p><p>� As testemunhas v�o dizer que umas pessoas brigaram e deram uns tiros. O importante � a minha hist�ria colar at� sa�rem os jornais de amanh� � tarde. Portanto, a vers�o � que os irm�os Nikoli� foram presos por acaso porque voc� os reconheceu.</p><p>Curt Bolinder contemplou o caos ao seu redor. Ent�o concordou rapidamente com a cabe�a.</p><p>Rosa Figuerola abriu caminho na rua em meio � multid�o de policiais e acomodou Mikael Blomkvist e Erika Berger no banco de tr�s do seu carro. Virou-se para o comandante e falou com ele em voz baixa por uns trinta segundos. Fez um sinal na dire��o do carro em que estavam Mikael e Erika. O comandante pareceu perturbado, mas acabou assentindo com a cabe�a. Ela dirigiu at� Zinkensdamm, estacionou e virou-se para tr�s.</p><p>� Voc� est� muito machucado?</p><p>�� Levei alguns socos. Meus dentes continuam no lugar. Estourei o dedo.</p><p>� Vamos para o pronto-socorro de Sankt G�ran.</p><p>� O que aconteceu? � perguntou Erika Berger. � Quem � voc�?</p><p>� Me desculpem � disse Mikael. � Erika, essa � a Rosa Figuerola. Ela trabalha na Sapo. Rosa, essa � a Erika Berger.</p><p>�� Eu imaginei � disse Rosa Figuerola com uma voz sem express�o. Ela n�o encarava Erika Berger.</p><p>� Eu e a Rosa nos conhecemos durante as investiga��es. Ela � o meu contato na Sapo.</p><p>� Entendo � disse Erika Berger, que de repente come�ou a tremer por causa do choque.</p><p>Rosa Figuerola observou Erika Berger.</p><p>� O que aconteceu? � perguntou Mikael.</p><p>� A gente entendeu errado o lance da coca�na � disse Rosa Figuerola. � Achamos que eles tinham preparado uma armadilha para te comprometer. Na verdade, a inten��o deles era te matar e deixar a pol�cia encontrar a coca�na durante o exame t�cnico do seu apartamento.</p><p>� Que coca�na? � perguntou Erika Berger. Mikael fechou os olhos por um instante.</p><p>� Me leve para Sankt G�ran � disse.</p><p>�� Presos? � exclamou Fredrik Clinton. Sentiu um ligeiro aperto no cora��o.</p><p>� Achamos que n�o h� perigo � disse Georg Nystr�m. � Parece que foi puro acaso.</p><p>� Acaso?</p><p>� O Miro Nikoli� estava sendo procurado por uma hist�ria antiga de golpes e ferimentos. Um tira da Seguran�a P�blica o reconheceu e prendeu quando ele entrou no Samirs Gryta. O Nikoli� entrou em p�nico e tentou escapar atirando.</p><p>� E o Blomkvist?</p><p>� N�o se envolveu no incidente. Nem sabemos se ele estava no Samirs Gryta na hora da pris�o.</p><p>� Porra, eu n�o acredito � disse Fredrik Clinton. � O que os irm�os Nikoli� sabem?</p><p>� Sobre n�s? Nada. Eles acham que o Bj�rck e o Blomkvist eram servi�os ligados ao tr�fico de mulheres.</p><p>� Mas eles sabem que o alvo era o Blomkvist?</p><p>�� Sabem, mas eles n�o v�o sair contando que aceitaram um servi�o. V�o ficar'bem quietinhos at� o julgamento. V�o ser condenados por porte ilegal de armas e, imagino, por agress�o a um agente do governo.</p><p>� Aut�nticos amadores � disse Cl�nton.</p><p>�� �, eles pisaram mesmo na bola. S� nos resta deixar o Blomkvist � solta por enquanto, mas nada est� perdido.</p><p>Eram onze da noite quando Susanne Linder e dois sarad�es da prote��o pessoal da Milton Security vieram buscar Mikael Blomkvist e Erika Berger em Kungsholmen.</p><p>� Pode-se dizer que voc� realmente n�o perde uma � disse Susanne Linder para Erika Berger.</p><p>� Pois �... � respondeu Erika com voz neutra.</p><p>S� dentro do carro, a caminho do hospital de Sankt G�ran, � que Erika se deu conta do que havia acontecido. De repente concluiu que tanto ela como Mikael Blomkvist por pouco n�o haviam sido mortos.</p><p>Mikael ficou uma hora no pronto-socorro, tempo para que cuidassem do seu rosto, tirassem uma radiografia e enfaixassem seu dedo m�dio esquerdo. Tinha uma contus�o grave na ponta do dedo e provavelmente iria perder a unha. O ferimento mais s�rio, por ironia do destino, ocorrera durante a interven��o de Curt Bolinder, quando ele puxara Miro Nikoli� para tr�s. O dedo de Mikael ficara preso no protetor do gatilho e se quebrara na hora. Sentia uma dor insuport�vel, mas sua vida certamente n�o corria risco.</p><p>Mikael s� foi sentir o impacto de tudo aquilo quase duas horas depois, quando chegou � Prote��o � Constitui��o da Sapo para fazer um relat�rio ao inspetor Bublanski e � procuradora Ragnhild Gustavsson. De repente, come�ou a tremer da cabe�a aos p�s e se sentiu t�o cansado que por pouco n�o dormiu entre uma pergunta e outra. Discutiram um pouco o assunto.</p><p>� N�o sabemos o que eles pretendem fazer � disse Rosa Figuerola. � N�o sabemos se eles queriam dar um fim apenas no Blomkvist ou se a Berger tamb�m seria morta. N�o sabemos se eles v�o tentar de novo nem se mais algu�m da Millennium est� amea�ado... E por que n�o matar a Salander, que representa a verdadeira amea�a � Se��o?</p><p>� Enquanto o Mikael estava sendo atendido, liguei para o pessoal da Millennium para contar o que tinha acontecido � disse Erika Berger. � Eles v�o sair um pouco de circula��o at� a revista ser publicada. A reda��o vai ficar vazia.</p><p>A primeira rea��o de Torsten Edklinth tinha sido pedir de imediato prote��o pessoal para Mikael Blomkvist e Erika Berger. Depois, ele e Rosa Fi-guerola ponderaram que talvez n�o fosse a melhor coisa chamar a Brigada de Prote��o � Pessoa da Sapo.</p><p>Erika Berger resolvera o problema declarando que n�o queria nenhuma prote��o policial. Pegou o telefone, ligou para Dragan Armanskij e explicou a situa��o. Assim, Susanne Linder foi chamada de volta ao trabalho, �s pressas, tarde da noite.</p><p>Mikael Blomkvist e Erika Berger foram instalados no piso superior de uma safe house situada pouco depois de Drottningholm, na estrada do centro de Eker�. Era uma casa grande dos anos 1930, com vista para o mar, um jardim espetacular, constru��es anexas e cercada de terras. A propriedade pertencia � Milton Security, mas era ocupada por Martina Sj�gren, de sessenta e oito anos, vi�va de Hans Sj�gren, um antigo e fiel funcion�rio, morto num acidente quinze anos antes. Durante uma miss�o, ele ca�ra sobre o piso apodrecido de uma casa abandonada na regi�o de Sala. Depois do enterro, Dragan Armanskij conversara com Martina Sj�gren e a contratara como intendente e administradora da propriedade. Ela morava de gra�a num anexo do t�rreo e mantinha o primeiro piso em ordem para ocasi�es como aquelas, que ocorriam algumas vezes ao ano, quando a Milton Security precisava abrigar pessoas que, por motivos reais ou imagin�rios, temiam por sua seguran�a.</p><p>Rosa Figuerola acompanhou-os. Deixou-se cair numa cadeira da cozinha e aceitou o caf� que Martina Sj�gren lhe servia, enquanto Erika Berger e Mikael Blomkvist iam se instalar no andar de cima e Susanne Linder verificava os alarmes e o equipamento eletr�nico de vigil�ncia em volta da propriedade.</p><p>� Temos escovas de dentes e artigos de higiene pessoal na c�moda em frente ao banheiro � gritou Martina Sj�gren na escada.</p><p>Susanne Linder e os dois guarda-costas da Milton Security se acomodaram num c�modo do andar t�rreo.</p><p>� Eu ainda n�o parei desde que me acordaram �s quatro da manh� � disse Susanne Linder. � Voc�s podem montar um rod�zio, mas me deixem dormir pelo menos uma hora.</p><p>� Pode dormir a noite toda, a gente cuida disso � disse um dos agentes.</p><p>� Obrigada � disse Susanne Linder, e foi se deitar.</p><p>Rosa Figuerola escutou, distra�da, os guarda-costas ligarem os sensores de movimento no jardim e jogarem no palitinho para ver quem ficaria com o primeiro turno do plant�o. O perdedor preparou um sandu�che e se instalou numa sala de televis�o ao lado da cozinha. Rosa Figuerola examinou as x�caras de caf� floridas. Ela tamb�m estava de p� desde muito cedo e tamb�m se sentia esgotada. Estava pensando em voltar para casa quando Erika Berger desceu e serviu-se de uma x�cara de caf�. Sentou-se do outro lado da mesa.</p><p>� O Mikael desabou no sono assim que se deitou.</p><p>� Uma rea��o � adrenalina � disse Rosa Figuerola.</p><p>� O que vai acontecer agora?</p><p>� Voc�s v�o ficar bem quietinhos por alguns dias. Daqui a uma semana vai estar tudo acabado, seja qual for o fim da hist�ria. Como est� se sentindo?</p><p>�� Ufa. Ainda meio abalada. N�o � todo dia que acontece uma coisa assim. Acabo de ligar para o meu marido para explicar por que n�o vou para casa hoje.</p><p>� Humm.</p><p>� Eu sou casada com...</p><p>� Eu sei com quem voc� � casada.</p><p>Sil�ncio. Rosa Figuerola esfregou os olhos e bocejou.</p><p>� Preciso ir para casa dormir � disse.</p><p>� Por favor, pare com essa bobagem e v� se deitar com o Mikael � disse Erika.</p><p>Rosa Figuerola olhou para ela.</p><p>� Est� t�o na cara assim? � perguntou. Erika balan�ou a cabe�a, negando.</p><p>� O Mikael falou alguma coisa...</p><p>� N�o falou nada. Ele costuma ser bastante discreto sobre suas namoradas. Mas �s vezes ele � um livro aberto. E voc�, quando olha para mim, � descaradamente hostil. Voc�s est�o tentando esconder alguma coisa.</p><p>� � por causa do meu chefe � disse Rosa Figuerola.</p><p>� O seu chefe?</p><p>� O Torsten Edklinth ficaria furioso se soubesse de mim e do Mikael...</p><p>� Entendo. Sil�ncio.</p><p>� Eu n�o sei o que est� havendo entre voc� e o Mikael, mas eu n�o sou uma rival � disse Erika.</p><p>� N�o �?</p><p>� O Mikael e eu somos amantes de vez em quando. Mas n�o sou casada com ele.</p><p>� Pelo que entendi, voc�s t�m um relacionamento especial. Ele falou de voc� quando est�vamos em Sandhamm.</p><p>� Ele levou voc� para Sandhamm? Ent�o � coisa s�ria.</p><p>� N�o brinque comigo.</p><p>� Rosa... eu espero que voc� e o Mikael... vou procurar ficar no meu lugar.</p><p>� E se voc� n�o conseguir? Erika Berger deu de ombros.</p><p>� A ex-mulher dele caiu em depress�o quando o Mikael foi infiel comigo. Botou ele para fora. Por culpa minha. Enquanto o Mikael estiver solteiro e dispon�vel, n�o pretendo ter nenhum escr�pulo. Mas prometi a mim mesma que se ele se envolvesse seriamente com algu�m eu me afastaria.</p><p>� N�o sei se me arrisco a investir nessa rela��o.</p><p>� O Mikael � especial. E voc� est� apaixonada por ele.</p><p>� Acho que sim.</p><p>� Ent�o n�o o ponha logo contra a parede. E agora v� se deitar.</p><p>Rosa refletiu um pouco. Ent�o subiu ao piso superior, despiu-se e deitou-se na cama junto de Mikael. Ele resmungou alguma coisa e p�s o bra�o em sua cintura.</p><p>Erika Berger ficou um bom tempo a s�s na cozinha com seus pensamentos. Sentiu-se, de repente, profundamente infeliz.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>25. QUARTA-FEIRA 13 DE JULHO � QUINTA-FEIRA 14 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Mikael Blomkvist sempre se perguntara por que os alto-falantes dos tribunais de inst�ncia emitiam um som t�o baixo e discreto. Teve dificuldade em distinguir as palavras anunciando que o julgamento de Lisbeth Salander teria in�cio �s dez horas da manh� na sala 5. No entanto, chegara cedo e postara-se diante das portas da sala de audi�ncia. Foi um dos primeiros a entrar. Instalou-se na fileira do p�blico, do lado esquerdo da sala, de onde teria a melhor vis�o da mesa da defesa. Os lugares reservados ao p�blico foram ocupados rapidamente. O interesse da m�dia aumentara � medida que o julgamento se aproximava, e na �ltima semana o procurador Richard Ekstr�m concedera entrevistas todos os dias.</p><p>Ekstr�m n�o parar� quieto.</p><p>Lisbeth Salander era acusada de viol�ncia e viol�ncia agravada contra Carl-Magnus Lundin; de amea�a, tentativa de assassinato e viol�ncia agravada contra o falecido Karl Axel Bodin, ali�s Alexander Zalachenko; de dois arrombamentos � da casa de campo do Dr. Nils Bjurman e de seu apartamento em Odenplan; de roubo de ve�culo motorizado � uma Harley Davidson pertencente a um certo Benny Nieminen, membro do MC Svavelsj�; de porte ilegal de tr�s armas � uma bomba de g�s lacrimog�neo, um cassetete el�trico e uma pistola Wanad P-83 polonesa, encontrados em Gosseberga; e de roubo e oculta��o de provas � formula��o vaga, relacionada com a documenta��o que ela encontrara na casa de campo de Bjurman e com uma s�rie de delitos menores. No total, Lisbeth Salander tinha contra si dezesseis acusa��es.</p><p>Ekstr�m tamb�m deixara vazar insinua��es sobre o estado mental de Lisbeth Salander, o qual deixaria a desejar. Fundamentava-se, por um lado, na avalia��o psiqui�trica m�dico-legal do dr. Jesper H. L�derman, realizada quando ela atingira a maioridade, e, por outro, numa avalia��o feita pelo Dr. Peter Teleborian na �poca de uma audi�ncia preparat�ria, a pedido do Tribunal de Inst�ncias. Visto que a doente mental, como era seu costume, recusara-se categoricamente a falar com os psiquiatras, a an�lise baseara-se em "observa��es" feitas ap�s sua pris�o na casa de deten��o de Kronoberg, em Estocolmo, no m�s anterior ao julgamento. Teleborian, que tinha v�rios anos de experi�ncia com a paciente, declarava que Lisbeth Salander sofria de um grave dist�rbio ps�quico; ele se apoiava em termos como psicopatia, narcisismo patol�gico e esquizofrenia paran�ica.</p><p>A imprensa relatara que ela fora interrogada sete vezes pela pol�cia. Em todas as ocasi�es, a acusada se recusara a dar sequer bom-dia �s pessoas que estavam ali para interrog�-la. As primeiras sess�es foram conduzidas pela pol�cia de G�teborg e as demais ocorreram no Pal�cio da Pol�cia de Estocolmo. Os autos registravam simp�ticas tentativas de estabelecer contato, persuas�es cuidadosas e repetidas perguntas, sem que se obtivesse uma �nica resposta.</p><p>Nem mesmo uma tossidinha.</p><p>Em diversas oportunidades, ouvia-se a voz de Annika Giannini nas grava��es, intercedendo quando percebia que sua cliente obviamente n�o tinha a inten��o de responder. Assim, a acusa��o contra Lisbeth Salander baseava-se apenas em provas t�cnicas e nas informa��es que a pol�cia conseguira levantar.</p><p>Em alguns momentos, o sil�ncio de Lisbeth deixara sua advogada numa situa��o dif�cil, j� que a obrigava a permanecer quase t�o calada quanto sua cliente. O que Annika Giannini e Lisbeth Salander conversavam em particular permanecia, � claro, confidencial.</p><p>Ekstr�m n�o fez nenhum segredo de sua inten��o de pedir, em primeiro lugar, o internamente psiqui�trico de Lisbeth Salander e, em segundo, uma respectiva pena de pris�o. Em situa��es normais, esses pedidos eram feitos na ordem inversa, mas ele considerava que no caso de Lisbeth Salander os dist�rbios ps�quicos eram t�o evidentes que o tinham deixado sem escolha. Era mesmo muito raro um tribunal se opor a uma avalia��o m�dico-legal.</p><p>Ele considerava, al�m disso, que a tutela de Salander n�o devia ser anulada. Numa entrevista, declarara com ar preocupado que na Su�cia havia um certo n�mero de sociopatas portadores de dist�rbios ps�quicos t�o graves que constitu�am um perigo para si mesmos e para os outros, e que cientificamente ele n�o tinha outra op��o sen�o manter essas pessoas internadas. Citara o caso de Anette, uma jovem violenta cuja vida, durante os anos 1970, fora tema de novela e que, trinta anos depois, ainda estava sendo tratada numa institui��o fechada. A cada tentativa de abrandar as restri��es ela atacara violenta e insanamente seus pais e a equipe m�dica, ou ent�o tentara se automutilar. Segundo Ekstr�m, Lisbeth Salander sofria de uma forma semelhante de dist�rbio ps�quico.</p><p>O interesse da m�dia tamb�m aumentara porque a advogada de Lisbeth Salander n�o havia se pronunciado. Recusara sistematicamente as entrevistas que lhe ofereciam a oportunidade de expor os pontos de vista da outra parte. A m�dia via-se, portanto, diante de uma situa��o complicada: a acusa��o a sufocava com informa��es, ao passo que a defesa, de modo at�pico, n�o oferecia o menor ind�cio sobre a atitude de Salander ou a estrat�gia para o caso.</p><p>Toda essa situa��o fora analisada por um especialista jur�dico contratado por um jornal vespertino para cobrir o caso. Numa cr�nica, o articulista observara que Annika Giannini era uma advogada respeitada na �rea de direitos da mulher, mas que era terrivelmente inexperiente em casos fora da sua al�ada, concluindo que ela n�o tinha cacife para defender Lisbeth Salander. Atrav�s de sua irm�, Mikael Blomkvist ficou sabendo que v�rios advogados famosos tinham entrado em contato com ela para oferecer ajuda. Annika Giannini recusara gentilmente todas as propostas.</p><p>Enquanto aguardava o in�cio do julgamento, Mikael observou o p�blico. De repente, avistou Dragan Armanskij num lugar pr�ximo � sa�da.</p><p>Seus olhares se cruzaram por um instante.</p><p>Ekstr�m tinha uma pilha consider�vel de pap�is sobre sua mesa. Acenava com a cabe�a ao reconhecer alguns jornalistas.</p><p>Annika Giannini estava sentada � mesa em frente a Ekstr�m. Separava uns pap�is e n�o olhava para ningu�m. Mikael teve a impress�o de que sua irm� estava um pouco nervosa. Uma ligeira apreens�o, pensou.</p><p>Ent�o o presidente do tribunal, o assessor e os jurados entraram na sala. O presidente se chamava J�rgen Iversen, era um homem de cinq�enta e sete anos de cabelos brancos, rosto magro e andar atl�tico. Mikael pesquisara o passado de Iversen e constatara que ele era tido como um juiz muito experiente e correto, e que j� presidira v�rios julgamentos de repercuss�o na m�dia.</p><p>Por �ltimo, Lisbeth Salander foi trazida para a sala.</p><p>Por mais que Mikael j� estivesse acostumado com a capacidade que Lisbeth Salander tinha de se vestir de maneira chocante, ficou estupefato ao ver que Annika Giannini permitira que ela se apresentasse na sala do tribunal vestida com uma saia curta de couro preto, bainha desfeita, e uma regata com os dizeres I am irritated que mal escondia suas tatuagens. Usava coturnos, um cinto com tachas e meias americanas listradas de preto e lil�s. Estava com uma d�zia de piercings nas orelhas e argolas no l�bio e nas sobrancelhas. Depois da cirurgia seu cabelo crescera como uma esp�cie de palha preta desgrenhada. Al�m disso, estava exageradamente maquiada. Usava um batom cinzento, sobrancelhas acentuadas e uma quantidade in�dita de rimei preto. Na �poca em que os dois conviveram, Lisbeth n�o se interessava particularmente por maquiagem.</p><p>Ela parecia um tanto vulgar. G�tica. Lembrava um vampiro de um filme B dos anos 1960. Mikael reparou que v�rios jornalistas engasgaram de surpresa e exibiram um sorriso divertido ao v�-la surgir. Quando, enfim, tinham a oportunidade de conhecer aquela garota cercada de esc�ndalos, sobre a qual eles tanto haviam escrito, ela correspondia amplamente a suas expectativas.</p><p>Ent�o Mikael se deu conta de que Lisbeth Salander estava fantasiada. Em tempos normais, ela se vestia de qualquer maneira, e obviamente sem nenhum bom gosto. Mikael sempre achara que ela n�o se vestia daquele jeito para seguir uma moda, e sim para marcar sua identidade. Lisbeth Salander demarcava seu territ�rio para que ele parecesse hostil. Ele sempre associara as tachas da jaqueta de couro de Lisbeth aos espinhos de um porco-espinho. Era o mesmo mecanismo de defesa. Era um sinal para os que a cercavam. N�o tente me afagar. Vai doer.</p><p>Mas para sua entrada no tribunal ela acentuara de tal modo o estilo de sua roupa que ele parecia quase par�dico de t�o exagerado.</p><p>Mikael percebeu de repente que n�o se tratava de acaso, e sim de parte da estrat�gia de defesa de Annika.</p><p>Se Lisbeth Salander chegasse bem penteada, com uma blusa comportada e sapatos sem salto, iria lembrar um bandido querendo vender uma imagem de bonzinho ao tribunal. Era uma quest�o de credibilidade. Ela estava vindo tal como era, e n�o como outra pessoa. E num estado ligeiramente exagerado, para deixar as coisas bem claras. N�o pretendia ser o que n�o era. Sua mensagem ao tribunal era que n�o tinha nenhum motivo para se envergonhar ou fazer de conta. Se para o tribunal sua apar�ncia f�sica era um problema, n�o era problema de Lisbeth. A sociedade a acusava de uma s�rie de coisas e o procurador a tinha levado a julgamento. Com sua simples apari��o, ela j� mostrava como o racioc�nio do procurador lhe parecia uma bobagem.</p><p>Caminhou com seguran�a e sentou-se no lugar indicado, ao lado de sua advogada. Seu olhar percorreu o p�blico. N�o havia a menor curiosidade em seus olhos. Antes de mais nada, eles pareciam captar e registrar, furiosos, as pessoas que j� a tinham condenado nas p�ginas dos jornais.</p><p>Era a primeira vez que Mikael a via desde que a encontrara, como uma boneca de pano ensang�entada, no banco da cozinha de Gosseberga, e mais de um ano e meio se passara desde que a vira em circunst�ncias normais. Se � que a express�o "circunst�ncias normais" era apropriada tratando-se de Lisbeth Salander. Seus olhares se cruzaram por alguns segundos. O dela passou por ele brevemente, sem dar nenhum sinal de reconhecimento. No entanto, ela observou os hematomas que cobriam a face e a t�mpora de Mikael, e o curativo cir�rgico sobre seu superc�lio direito. Por um instante, Mikael teve a impress�o de vislumbrar um esbo�o de sorriso nos olhos dela. N�o soube dizer se ele apenas havia fantasiado aquilo. Ent�o o juiz Iversen bateu o martelo e a sess�o come�ou.</p><p>O p�blico permaneceu na sala do tribunal apenas por meia hora. Ouviu o procurador Ekstr�m apresentar os fatos e expor os t�picos da acusa��o.</p><p>Com exce��o de Mikael Blomkvist, todos os rep�rteres tomaram nota assiduamente, mesmo que j� estivessem cansados de saber que acusa��es Ekstr�m pretendia fazer contra Lisbeth Salander. Quanto a Mikael ele j� escrevera seu artigo e s� viera ao tribunal para marcar presen�a e cruzar o olhar com Lisbeth.</p><p>A introdu��o de Ekstr�m durou vinte e dois minutos. Ent�o chegou a vez de Annika Giannini. Sua r�plica durou trinta segundos. Sua voz estava firme.</p><p>�� A defesa refuta todos os t�picos da acusa��o, menos um. Minha cliente se reconhece culpada de porte ilegal de armas, no caso uma bomba de g�s lacrimog�neo. Quanto aos outros t�picos, minha cliente nega toda e qualquer responsabilidade ou inten��o criminosa. Vamos demonstrar que as acusa��es do procurador s�o falsas e que Lisbeth Salander foi v�tima de abuso agravado do Poder Judici�rio. Vou solicitar que minha cliente seja declarada inocente, que sua tutela seja anulada e que ela seja posta em liberdade.</p><p>Ouviam-se as canetas riscando os blocos de anota��o dos rep�rteres. A estrat�gia da Dra. Giannini era por fim revelada, e mostrava-se bem diferente daquela que muitos rep�rteres esperavam. A maioria julgara que Annika Giannini iria apelar para a doen�a mental de sua cliente e explor�-la a seu favor. Mikael n�o conseguiu disfar�ar um sorriso.</p><p>�� Humm � disse o juiz Iversen, anotando alguma coisa. Ele olhou para Annika Giannini. � J� concluiu?</p><p>� Minha solicita��o j� est� feita.</p><p>� O procurador tem algo a acrescentar? � perguntou Iversen.</p><p>Foi ent�o que o procurador Ekstr�m pediu que as delibera��es se dessem a portas fechadas, alegando que se tratava do estado ps�quico e do bem--estar de uma pessoa sofrida, al�m de haver detalhes que podiam implicar a seguran�a da na��o.</p><p>� Imagino que esteja falando do suposto caso Zalachenko? � perguntou Iversen.</p><p>� Exato. Alexander Zalachenko chegou � Su�cia como refugiado pol�tico, tentando escapar de uma terr�vel ditadura. Alguns aspectos do caso, v�nculos entre algumas pessoas e outros elementos desse tipo, ainda se encontram sob sigilo, embora o senhor Zalachenko esteja morto. Por esse motivo, solicito que a audi�ncia se d� a portas fechadas e que seja imposto o sigilo profissional no momento em que as delibera��es se mostrarem especialmente delicadas.</p><p>� Entendo � disse Iversen, e em sua testa desenharam-se sulcos profundos.</p><p>� Al�m disso, boa parte das delibera��es estar� relacionada com a tutela da acusada, o que automaticamente remete a quest�es quase sempre confidenciais. De modo que � por solidariedade � acusada que eu pe�o a audi�ncia a portas fechadas.</p><p>� Qual a posi��o da doutora Giannini quanto ao pedido do procurador?</p><p>� No que nos diz respeito, � indiferente.</p><p>O juiz Iversen refletiu por alguns instantes. Consultou seu assessor e em seguida declarou, para grande irrita��o dos presentes, que iria atender � solicita��o do procurador. Assim, Mikael Blomkvist foi obrigado a deixar a sala.</p><p>Dragan Armanskij aguardava Mikael Blomkvist embaixo da escadaria do Pal�cio da Justi�a. Fazia um calor terr�vel naquele dia de julho e Mikael sentiu duas manchas de suor come�ando a se formar em suas axilas. Seus dois guarda-costas o seguiram l� fora. Cumprimentaram Dragan Armanskij com um gesto de cabe�a e passaram a examinar os arredores.</p><p>� � esquisito andar com guarda-costas � disse Mikael. � E quanto est� custando essa brincadeira?</p><p>� Presente da empresa � disse Armanskij. � Tenho um interesse pessoal em manter voc� vivo. E tamb�m faturamos o equivalente a duzentas e cinq�enta mil coroas nos �ltimos meses.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Que tal um caf�? � sugeriu Mikael, apontando para o caf� italiano da Bergsgatan.</p><p>Armanskij concordou. Mikael pediu um caff� latte, enquanto Armanskij optou por um expresso duplo com um pingo de leite. Sentaram-se no terra�o, � sombra. Os guarda-costas sentaram-se a uma mesa vizinha diante de um copo de Coca-Cola.</p><p>� Portas fechadas � observou Armanskij.</p><p>� Era de se esperar. E � at� bom, assim a gente domina melhor o fluxo de informa��es.</p><p>�� �, tudo bem, mas estou gostando cada vez menos desse Richard Ekstr�m.</p><p>Mikael concordou. Tomaram o caf� contemplando o Pal�cio da Justi�a, onde o futuro de Lisbeth Salander iria ser decidido.</p><p>� O contra-ataque foi lan�ado � disse Mikael.</p><p>� E est� muito bem preparado � disse Armanskij. � Preciso admitir que sua irm� me impressionou. Quando ela come�ou a apresentar sua estrat�gia, pensei que ela estivesse brincando, mas quanto mais penso sobre isso mais me parece o certo a fazer.</p><p>� Esse processo n�o vai se resolver l� dentro � disse Mikael.</p><p>Fazia v�rios meses que ele repetia essas palavras como se fosse um mantra.</p><p>� Voc� vai ser chamado para testemunhar � disse Armanskij.</p><p>�� Eu sei. Estou preparado. Mas isso ser� s� depois de amanh�. Pelo menos � com o que estamos contando.</p><p>O procurador Richard Ekstr�m tinha esquecido seus �culos bifocais em casa e teve de erguer os olhos de leitura sobre a testa e estreitar os olhos para conseguir ler suas anota��es escritas em letra mi�da. Esfregou rapidamente o cavanhaque loiro antes de recolocar os �culos e observar a sala.</p><p>Lisbeth Salander estava sentada com as costas eretas e contemplava o procurador com um olhar insond�vel. Sua fisionomia e olhos estavam im�veis. N�o parecia estar totalmente presente. Chegara a hora de o procurador iniciar seu interrogat�rio.</p><p>� Gostaria de lembrar, senhorita Salander, que est� sob juramento � disse Ekstr�m por fim.</p><p>Lisbeth Salander n�o reagiu. O procurador Ekstr�m parecia esperar algum tipo de rea��o e aguardou alguns segundos. Ele ergueu os olhos.</p><p>� A senhorita est� sob juramento � repetiu.</p><p>Lisbeth Salander inclinou levemente a cabe�a. Annika Giannini estava ocupada lendo alguma coisa no relat�rio do inqu�rito preliminar e n�o parecia interessada no que o procurador Ekstr�m dizia. Ele juntou seus pap�is. Depois de alguns minutos de um sil�ncio desconfort�vel, ele pigarreou.</p><p>�� Muito bem � disse Ekstr�m num tom brando. � Vamos diretamente aos fatos ocorridos na casa de campo do falecido doutor Bjurman em Stallarholmen, em 6 de abril deste ano, fatos que s�o o ponto de partida da apresenta��o dos acontecimentos que fiz nesta manh�. Vamos tentar esclarecer os motivos pelos quais a senhorita foi at� Stallarholmen e disparou uma bala em Carl-Magnus Lundin.</p><p>Ekstr�m exortou Lisbeth Salander com o olhar. Ela continuava n�o reagindo. De repente, o procurador pareceu exasperado. Afastou as m�os e voltou o olhar para o presidente do tribunal. O juiz J�rgen Iversen parecia hesitar. Deu uma espiada na dire��o de Annika Giannini, ainda envolvida com um documento, totalmente alheia ao mundo � sua volta.</p><p>O juiz Iversen deu uma tossidinha. Olhou para Lisbeth Salander.</p><p>� Devemos entender seu sil�ncio como uma recusa a responder �s perguntas? � perguntou.</p><p>Lisbeth Salander virou a cabe�a e cruzou o olhar com o do juiz Iversen.</p><p>� Estou disposta a responder �s perguntas � retrucou. O juiz Iversen meneou a cabe�a.</p><p>�� Ent�o talvez possa responder � pergunta � sugeriu o procurador Ekstr�m.</p><p>Lisbeth Salander voltou a olhar para Ekstr�m. Permaneceu calada.</p><p>� A senhorita poderia fazer a gentileza de responder � pergunta? � pediu o juiz Iversen.</p><p>Lisbeth mais uma vez dirigiu o olhar para o presidente do tribunal e levantou as sobrancelhas. Sua voz era n�tida e clara.</p><p>� Que pergunta? Por enquanto, esse senhor � ela inclinou a cabe�a na dire��o de Ekstr�m � fez algumas afirma��es sem apresentar nenhuma prova. N�o ouvi nenhuma pergunta.</p><p>Annika Giannini ergueu os olhos. P�s os cotovelos na mesa e apoiou o queixo na palma da m�o com um s�bito interesse no olhar.</p><p>O procurador Ekstr�m perdeu o fio da meada por alguns segundos.</p><p>� Pode repetir a pergunta? � pediu o juiz Iversen.</p><p>� Eu perguntei... a senhorita foi at� a casa de campo do doutor Bjurman em Stallarholmen com a inten��o de atirar em Carl-Magnus Lundin?</p><p>� N�o, o que o senhor disse foi: "Vamos tentar esclarecer os motivos pelos quais a senhorita foi at� Stallarholmen atirar em Carl-Magnus Lundin". N�o era uma pergunta. Era uma afirma��o antecipando uma resposta. Eu n�o sou respons�vel pelas suas afirma��es.</p><p>� N�o seja impertinente. Responda � pergunta.</p><p>� N�o.</p><p>Sil�ncio.</p><p>� Como assim, n�o?</p><p>� Essa � a resposta � pergunta.</p><p>O procurador Ekstr�m suspirou. Ia ser um dia longo. Lisbeth Salander o fitou, esperando o resto.</p><p>�� Talvez seja melhor retomar do in�cio � disse ele. � A senhorita esteve na casa de campo do doutor Bjurman, em Stallarholmen, na tarde de 6 de abril deste ano?</p><p>� Sim.</p><p>� Como foi at� l�?</p><p>�� Peguei o trem de sub�rbio at� S�dertalje e depois o �nibus para Str�ngn�s.</p><p>�� Por que a senhorita foi at� Stallarholmen? Tinha marcado algum encontro com Carl-Magnus Lundin e seu amigo Benny Nieminen?</p><p>� N�o.</p><p>� Como se explica eles terem aparecido?</p><p>� Isso o senhor tem de perguntar para eles.</p><p>� Nesse momento, estou perguntando para a senhorita. Lisbeth Salander n�o respondeu.</p><p>O juiz Iversen pigarreou.</p><p>�� Suponho que a senhorita Salander n�o est� respondendo porque, semanticamente, o senhor est� outra vez fazendo uma afirma��o � disse Iversen cheio de boa vontade.</p><p>Annika Giannini n�o conteve uma risada, alta o bastante para ser ouvida. Silenciou imediatamente e tornou a mergulhar em sua papelada. Ekstr�m lan�ou-lhe um olhar irritado.</p><p>�� Na sua opini�o, por que Lundin e Nieminen teriam ido � casa de campo de Bjurman?</p><p>� N�o sei. Imagino que tenha sido para incendiar a casa. O Lundin estava com um litro de gasolina numa garrafa pl�stica, na sacola da sua Harley Davidson.</p><p>Ekstr�m fez um muxoxo.</p><p>� Por que a senhorita foi at� a casa de campo do doutor Bjurman?</p><p>� Eu estava atr�s de informa��es.</p><p>� Que tipo de informa��o?</p><p>� As mesmas informa��es que, imagino, o Lundin e o Nieminen que. riam destruir e que, portanto, podiam ajudar a descobrir quem tinha matado aquele outro excremento.</p><p>� A senhora considera que o doutor Bjurman era um "excremento"? Eu ouvi bem?</p><p>� Sim.</p><p>� E qual o motivo dessa sua opini�o?</p><p>� Esse homem era um porco s�dico, um canalha estuprador, portanto n�o passava de um excremento.</p><p>Ela citou, palavra por palavra, a frase tatuada na barriga do falecido Dr. Bjurman, reconhecendo assim, indiretamente, que ela era a autora do texto. Essa, por�m, n�o era uma das acusa��es contra Lisbeth Salander. Bjurman jamais mencionara essa viol�ncia � pol�cia, sendo imposs�vel determinar se ele consentira em se deixar tatuar ou se a tatuagem tinha sido feita � for�a.</p><p>� A afirma��o, ent�o, � de que seu tutor teria abusado da senhorita. Poderia nos dizer quando tais abusos ocorreram?</p><p>� Na ter�a-feira 18 de fevereiro de 2003 e, depois, na sexta-feira 7 de mar�o do mesmo ano.</p><p>� A senhorita negou-se a responder todas as perguntas dos policiais que tentaram se comunicar consigo durante os interrogat�rios. Por qu�?</p><p>� Eu n�o tinha nada a dizer para eles.</p><p>� Eu li a sua suposta autobiografia, que sua advogada nos apresentou repentinamente alguns dias atr�s. Devo dizer que se trata de um documento estranho, voltaremos a ele depois. Mas nele a senhorita afirma que, na primeira vez, o doutor Bjurman a teria obrigado a praticar uma fela��o e, na segunda vez, a teria estuprado repetidas vezes, torturando-a durante uma noite inteira.</p><p>Lisbeth n�o respondeu.</p><p>� � verdade?</p><p>� Sim.</p><p>� A senhorita denunciou esses estupros � pol�cia?</p><p>� N�o.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� A pol�cia nunca me escutou nas vezes em que tentei contar alguma coisa. Logo, n�o fazia nenhum sentido ir denunciar o que quer que fosse.</p><p>�� A senhorita comentou esses abusos com algu�m? Com alguma amiga?</p><p>� N�o.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� Porque n�o dizia respeito a mais ningu�m.</p><p>� Certo. A senhorita consultou um advogado?</p><p>� N�o.</p><p>� A senhorita foi a algum m�dico tratar dos ferimentos que lhe teriam sido infligidos?</p><p>� N�o.</p><p>� E n�o recorreu ao sos-Mulheres.</p><p>� Mais uma vez o senhor est� fazendo uma afirma��o.</p><p>�� Me desculpe. A senhorita procurou alguma unidade do sos-Mulheres?</p><p>� N�o.</p><p>Ekstr�m voltou-se para o presidente do tribunal.</p><p>� Eu gostaria de chamar a aten��o do tribunal para o fato de que a r� declarou ter sido v�tima de dois abusos sexuais, o segundo extremamente grave. Ela afirma que o autor dos estupros era seu tutor, o j� falecido doutor Nils Bjurman. Paralelamente, deve-se levar em conta os seguintes fatos...</p><p>Ekstr�m remexeu seus pap�is.</p><p>� A investiga��o da Brigada Criminal n�o encontrou, no passado do doutor Bjurman, nada que confirme a veracidade do relato de Lisbeth Salan-der. Bjurman nunca foi condenado. Jamais foi objeto de uma den�ncia ou de uma investiga��o policial. J� foi tutor ou administrador legal de v�rios jovens e nenhum deles revela ter sido v�tima de qualquer tipo de abuso. Pelo contr�rio, insistem que Bjurman sempre se comportou correta e gentilmente com eles.</p><p>Ekstr�m virou a p�gina.</p><p>� Tamb�m devo lembrar que Lisbeth Salander foi diagnosticada como esquizofr�nica paran�ica. Est�o a� v�rios documentos atestando as tend�ncias violentas dessa jovem e que ela teve, desde o in�cio da adolesc�ncia, problemas de conv�vio social. Passou v�rios anos numa institui��o de psiquiatria infantil e est� sob tutela desde os dezoito anos. Mesmo que seja lament�vel, existem raz�es para tanto. Minha convic��o � de que ela n�o deve ser presa, e sim tratada.</p><p>Ele fez uma pausa eloq�ente.</p><p>� Debater sobre o estado mental de uma jovem � um exerc�cio repugnante. Tantas coisas atingem uma vida, e depois o estado mental da pessoa se transforma em objeto de interpreta��es. No presente caso, por�m, podemos nos basear na confusa imagem de mundo da pr�pria Lisbeth Salander. Uma imagem que se manifesta, de um modo que n�o poderia ser mais claro, em sua suposta autobiografia. Em nenhum lugar sua falta de contato com a realidade aparece de maneira t�o evidente. N�o h� necessidade de testemunhas ou de interpreta��es que joguem com as palavras. Temos suas pr�prias palavras. Podemos avaliar n�s mesmos a credibilidade de suas afirma��es.</p><p>Seus olhos pousaram em Lisbeth Salander. Seus olhares se encontraram. Ela sorriu. Ela tinha um ar de poucos amigos. A testa de Ekstr�m se contraiu.</p><p>� Doutora Giannini, n�o tem nada a dizer? � perguntou o juiz Iversen.</p><p>� N�o � respondeu Annika Giannini. � A n�o ser que as conclus�es do procurador Ekstr�m s�o fantasiosas.</p><p>A tarde, a audi�ncia come�ou com o interrogat�rio de uma testemunha, Ulrika von Liebenstaalil, da Comiss�o de Tutelas, que Ekstr�m convocara na tentativa de esclarecer se j� houvera alguma queixa contra o dr. Bjurman. A id�ia foi rejeitada com veem�ncia por Liebenstaahl. Esta julgava tal afirma��o ofensiva.</p><p>�� Existe um controle rigoroso nas quest�es de tutela. O doutor Bjurman j� trabalhava para a Comiss�o de Tutelas havia quase vinte anos quando foi assassinado de forma t�o vergonhosa.</p><p>Lan�ou um olhar maldoso para Lisbeth Salander, embora Lisbeth n�o fosse acusada desse homic�dio e j� estivesse definido que Bjurman fora morto por Ronald Niedermann.</p><p>� Nesses anos todos, nunca houve uma queixa sequer contra o doutor Bjurman. Ele era um homem consciencioso que muitas vezes revelou um profundo envolvimento com seus clientes.</p><p>� Ent�o a senhora n�o acha prov�vel que ele tenha submetido Lisbeth Salander a uma viol�ncia sexual?</p><p>� Acho essa afirma��o absurda. Temos os relat�rios mensais enviados pelo doutor Bjurman e estive pessoalmente com ele em v�rias ocasi�es para conversarmos sobre esse caso.</p><p>� A doutora Giannini apresentou uma solicita��o para que a tutela de Lisbeth Salander seja anulada imediatamente.</p><p>� Ningu�m mais do que n�s, da Comiss�o de Tutelas, fica feliz quando uma tutela pode ser anulada. Mas infelizmente � nossa responsabilidade seguir as regras em vigor. A comiss�o, seguindo os procedimentos normais, estabeleceu a exig�ncia de que uma avalia��o psiqui�trica declare Lisbeth Salander curada antes que se cogite a possibilidade de anular sua tutela.</p><p>� Entendo.</p><p>�� Isso significa que ela deve se submeter a exames psiqui�tricos. E, como se sabe, ela se recusa.</p><p>O interrogat�rio de Ulrika von Liebenstaahl se estendeu por quarenta minutos, durante os quais foram examinados os relat�rios mensais de Bjurman.</p><p>Annika Giannini fez apenas uma pergunta, pouco antes de o interrogat�rio terminar.</p><p>� A senhora se encontrava no quarto do doutor Bjurman na noite de 7 para 8 de mar�o de 2003?</p><p>� � claro que n�o.</p><p>� Em outras palavras, a senhora ignora por completo se as afirma��es de minha cliente s�o verdadeiras ou falsas?</p><p>� Essa acusa��o contra o doutor Bjurman � um disparate.</p><p>� Isso � a sua opini�o. A senhora tem como oferecer um �libi ou provar de alguma maneira que ele n�o abusou da minha cliente?</p><p>� Isso � obviamente imposs�vel. Mas a probabilidade...</p><p>� Obrigada. Era s� isso � interrompeu Annika Giannini.</p><p>Mikael Blomkvist encontrou-se com a irm� por volta das sete da noite na sede da Milton Security, perto de Slussen, para fazer o balan�o daquele dia.</p><p>� Tudo transcorreu mais ou menos como previsto � disse Annika. � O Ekstr�rn engoliu a autobiografia da Salander.</p><p>� �timo. Como ela est� se saindo? Annika come�ou a rir.</p><p>� �s mil maravilhas, parece uma perfeita psicopata. S� est� se comportando com naturalidade.</p><p>� Humm.</p><p>�� Hoje o assunto foi principalmente Stallarholmen. Amanh� vai ser Gosseberga, o pessoal da Brigada T�cnica vai ser interrogado, coisas assim. O Ekstr�m vai tentar provar que a Salander foi at� l� para assassinar o pai.</p><p>� Certo.</p><p>� Mas a gente talvez tenha um problema t�cnico. Hoje � tarde, o Ekstr�m convocou uma tal de Ulrika von Liebenstaahl, da Comiss�o de Tutelas. Ela ficou insistindo que eu n�o tenho o direito de representar a Lisbeth Salander.</p><p>� Como assim?</p><p>� Ela diz que como a Lisbeth est� sob tutela n�o tem o direito de escolher seu pr�prio advogado.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Ou seja, tecnicamente falando, n�o posso ser a advogada dela se eu n�o for aprovada pela Comiss�o de Tutelas.</p><p>� E a�?</p><p>� O juiz Iversen vai se pronunciar a respeito amanh� de manh�. Falei com ele rapidamente depois das delibera��es. Mas acho que ele vai decidir que eu continue a represent�-la. Aleguei que a Comiss�o de Tutelas teve tr�s meses para protestar e que � muita cara de pau apresentar uma solicita��o dessas agora que o julgamento j� come�ou.</p><p>� O Teleborian vai testemunhar na sexta-feira. E tem que ser interrogado por voc�.</p><p>Depois de passar a quinta-feira estudando mapas e fotografias e ouvindo conclus�es t�cnicas verborr�gicas sobre o que se passara em Gosseberga, o procurador Ekstr�m conseguira estabelecer que todas as provas indicavam que Lisbeth Salander fora at� a casa do pai com a inten��o de mat�-lo. O elo mais forte na cadeia de provas era ela ter levado consigo uma arma de fogo, uma Wanad P-83 polonesa.</p><p>O fato de Alexander Zalachenko (de acordo com o relato de Lisbeth Salander), ou, a rigor, Ronald Niedermann, que assassinara um policial (de acordo com o depoimento dado por Zalachenko antes de ser assassinado no hospital de Sahlgrenska), ter tentado matar Lisbeth Salander e ela ter sido enterrada num buraco dentro da mata n�o atenuava em nada o fato de que ela seguira a pista do pai at� Gosseberga com a inten��o de mat�-lo. Ali�s por pouco n�o conseguira, ao golpe�-lo no rosto com um machado. Ekstr�m exigiu que Lisbeth Salander fosse condenada por tentativa de homic�dio, homic�dio premeditado e, de qualquer forma, por viol�ncias agravadas.</p><p>Segundo a vers�o de Lisbeth Salander, ela fora a Gosseberga para se confrontar com o pai e faz�-lo confessar o assassinato de Dag Svensson e Mia Bergman. Esse dado era de fundamental import�ncia no tocante � pre-medita��o.</p><p>Assim que Ekstr�m havia acabado de interrogar a testemunha Melker Hansson, da Brigada T�cnica de G�teborg, a Dra. Annika Giannini fizera algumas perguntas r�pidas.</p><p>� Senhor Hansson, existe alguma coisa na sua investiga��o e em toda a documenta��o t�cnica reunida pelo senhor que permita afirmar que Lisbeth Salander est� mentindo sobre a premedita��o de sua visita a Gosseberga? Tem como provar que ela foi at� l� com a inten��o de matar o pai?</p><p>Melker Hansson refletiu por um instante.</p><p>� N�o � respondeu afinal.</p><p>� A conclus�o do procurador Ekstr�m, portanto, embora eloq�ente e loquaz, n�o passa de especula��o?</p><p>� Suponho que sim.</p><p>� Existe algum elemento entre as provas t�cnicas que contradiga Lisbeth Salander quando ela diz ter levado a pistola polonesa, uma Wanad P-83, por acaso, simplesmente porque a arma estava em sua bolsa e ela n�o sabia o que fazer com ela depois que a tirou de Benny Nieminen em Stallarholmen, no dia anterior?</p><p>� N�o.</p><p>� Obrigada � disse Annika Giannini, tornando a se sentar. Foram suas �nicas palavras no interrogat�rio de Hansson, que se estendera por uma hora.</p><p>Por volta das seis da tarde da quinta-feira, Birger Wandensj�� deixou o pr�dio da Se��o da Artillerigatan com a sensa��o de estar cercado por nuvens amea�adoras e de estar caminhando para um naufr�gio iminente. Havia v�rias semanas percebera que seu t�tulo de diretor, e, portanto, de chefe, da Se��o de An�lise Especial n�o passava de um r�tulo sem sentido. Suas opini�es protestos e s�plicas n�o tinham o menor peso. Fredrik Clinton reassumira o comando. Se a Se��o fosse uma institui��o aberta e oficial, isso n�o teria tido import�ncia � ele simplesmente teria se dirigido ao seu superior direto e exposto suas queixas.</p><p>Na atual situa��o, por�m, n�o havia a quem se queixar. Estava sozinho e dependente da boa vontade de um homem que ele considerava um doente mental. E o pior era que a autoridade de Clinton mostrava-se absoluta. Fedelhos do tipo de Jonas Sandberg ou seguidores fi�is como Georg Nystr�m pareciam entrar de imediato no esquema e obedecer religiosamente ao velho moribundo.</p><p>Reconhecia que Clinton era uma autoridade discreta que n�o trabalhava para enriquecimento pr�prio. Admitia que Clinton trabalhava apenas tendo em mente o bem da Se��o. Mas era como se toda a organiza��o estivesse em queda livre, num estado de sugest�o coletiva em que profissionais tarimbados se recusavam a perceber que cada movimento, cada decis�o tomada e posta em pr�tica s� os aproximava cada vez mais do abismo.</p><p>Wadensj�� sentia um peso no peito quando entrou na Linnegatan. Achou um lugar para estacionar, desligou o alarme, pegou as chaves e estava prestes a abrir a porta do carro quando escutou uma movimenta��o atr�s de si. Ele se virou. A contraluz o atrapalhou. Precisou de alguns segundos para reconhecer o homem alto parado na cal�ada.</p><p>�� Boa noite, senhor Wadensj�� � disse Torsten Edklinth, diretor da Prote��o � Constitui��o. � Faz anos que eu n�o ponho os p�s em campo, mas hoje senti que minha presen�a era necess�ria.</p><p>Wadensj�� fitou, perturbado, os dois policiais � paisana que acompanhavam Edklinth. Eram Jan Bublanski e Marcus Ackerman. De repente se deu conta do que estava para acontecer.</p><p>� Tenho o triste dever de lhe comunicar que, por decis�o do Minist�rio P�blico, voc� est� sendo detido por uma s�rie t�o extensa de delitos e infra��es que decerto levar� semanas para que se defina a rela��o completa deles.</p><p>� O que significa isso? � disse Wadensj�� fora de si.</p><p>� Significa que voc� est� preso, acusado, e de maneira bem fundamentada, de cumplicidade num homic�dio. Tamb�m est� sendo acusado de chantagem, corrup��o, escuta ilegal, de diversos casos de falsifica��o de documentos agravada e prevarica��o agravada, cumplicidade em arrombamento abuso de autoridade, espionagem e outras coisinhas mais. No momento, n�s dois vamos at� Kungsholmen para ter uma conversa tranq�ila e s�ria j� esta noite.</p><p>� Eu n�o matei ningu�m � disse Wadensj�� num sopro.</p><p>� Isso quem vai dizer � a investiga��o.</p><p>� Foi o Clinton. Foi o Clinton o tempo todo � disse Wadensj��. Torsten Edklinth assentiu com a cabe�a, satisfeito.</p><p>Qualquer policial sabe perfeitamente que existem duas formas cl�ssicas de conduzir o interrogat�rio de um suspeito. A do policial malvado e a do policial bonzinho. O policial malvado amea�a, xinga, d� socos na mesa e, de modo geral, se comporta de maneira brutal com o intuito de assustar o acusado, de submet�-lo e induzi-lo a confessar. O policial bonzinho, de prefer�ncia um velhinho grisalho, oferece cigarros e caf�, balan�a a cabe�a com simpatia e adota um tom razo�vel.</p><p>A maioria dos policiais � mas n�o todos � tamb�m sabe que a t�cnica de interrogat�rio do policial bonzinho � a mais eficiente. O criminoso veterano, duro na queda, n�o se impressiona nem um pouco com o policial malvado. E o criminoso amador, inseguro, que se assusta com o policial malvado e acaba confessando, provavelmente acabaria confessando qualquer que fosse a t�cnica utilizada.</p><p>Mikael Blomkvist assistiu ao interrogat�rio de Birger Wadensj�� de uma sala cont�gua. Sua presen�a fora objeto de algumas discuss�es internas, at� Edklinth decidir que talvez pudesse tirar vantagem das observa��es de Mikael.</p><p>Mikael observou que Torsten Edklinth recorria a uma terceira variante de interrogat�rio, a do policial indiferente, que nesse caso espec�fico parecia funcionar ainda melhor. Edklinth entrou na sala, serviu caf� em canecas de porcelana, ligou o gravador e recostou-se na poltrona.</p><p>� J� temos contra voc� todas as provas t�cnicas que se possa imaginar. De modo geral, n�o temos nenhum interesse em escutar sua vers�o, a n�o ser para confirmar o que j� sabemos. Mas gostar�amos de ter a resposta a uma pergunta: por qu�? Como voc�s podem ter sido loucos a ponto de resolverem eliminar pessoas, aqui na Su�cia, como se estivessem no Chile do Pinochet? O gravador est� ligado. Se quiser dizer alguma coisa, este � o momento. Se n�o quiser falar, desligo o gravador, tiramos sua gravata e seus cadar�os e te hospedamos na casa de deten��o enquanto voc� espera por seu advogado, pelo julgamento e pela senten�a.</p><p>Edklinth tomou um gole de caf� e n�o disse mais nada. Depois que dois minutos se passaram sem que nenhuma palavra fosse dita, ele estendeu a m�o e desligou o gravador. Levantou-se.</p><p>� Vou pedir que venham busc�-lo daqui a alguns minutos. Boa noite.</p><p>� Eu n�o matei ningu�m � disse Wadensj��, quando Edklinth j� havia aberto a porta. Edklinth estacou.</p><p>� N�o estou interessado em conversar amenidades com voc�. Se quiser se explicar, eu me sento e ligo o gravador. Todas as autoridades suecas � em especial o primeiro-ministro � est�o impacientes para ouvir o que voc� tem a dizer. Se voc� falar, posso ir at� o primeiro-ministro ainda esta noite e contar a ele a sua vers�o sobre o que aconteceu. Se n�o falar, ser� processado e condenado da mesma forma.</p><p>� Sente-se � disse Wadensj��.</p><p>Sua resigna��o n�o passou despercebida. Mikael suspirou aliviado. Com ele estavam Rosa Figuerola, a procuradora Ragnhild Gustavsson, Stefan, um colaborador an�nimo da Sapo, e mais duas pessoas desconhecidas. Mikael desconfiava que pelo menos uma delas representava o ministro da Justi�a.</p><p>� N�o tenho nada a ver com esses assassinatos � disse Wadensj�� assim que Edklinth tornou a ligar o gravador.</p><p>� Esses assassinatos � disse Mikael Blomkvist para Rosa Figuerola.</p><p>� Shhh � ela respondeu.</p><p>� Foram o Clinton e o Gullberg. Eu ignorava totalmente o que eles iam fazer. Juro. Fiquei chocado quando soube que o Gullberg tinha matado o Za-lachenko. Custei a acreditar que era verdade... custei a acreditar. E, quando soube o que tinha acontecido com o Bj�rck, por pouco n�o tive um infarto.</p><p>� Me fale sobre o assassinato de Bj�rck � disse Edklinth sem alterar o tom de voz. � Como foi?</p><p>� O Clinton contratou uma pessoa. N�o sei como foi, mas sei que foram dois iugoslavos. S�rvios, acho. Foi o Georg Nystr�m quem instruiu e pagou os dois. Quando soube, me dei conta de que est�vamos caminhando para a cat�strofe.</p><p>� Que tal a gente voltar ao in�cio de tudo? � prop�s Edklinth.</p><p>- Quando voc� come�ou a trabalhar para a Se��o?</p><p>- Uma vez que Wadensj�� se p�s a falar, foi imposs�vel cont�-lo. O interrogat�rio se estendeu por quase cinco horas.</p></section><section><p><strong><emphasis>26. SEXTA-FEIRA 15 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>No banco das testemunhas, na sexta-feira � tarde, o Dr. Peter Teleborian revelou ser um homem que inspirava confian�a. Foi interrogado pelo procurador Ekstr�m por mais de noventa minutos e respondeu com calma e autoridade a todas as perguntas. Em alguns momentos seu semblante assumia um ar preocupado, em outros ele parecia estar se divertindo.</p><p>� Ou seja... � disse Ekstr�m, folheando suas anota��es � sua impress�o, do alto de sua experi�ncia como psiquiatra em todos esses anos, � de que Lisbeth Salander sofre de esquizofrenia paran�ica?</p><p>� Eu sempre digo que � extremamente dif�cil fazer uma avalia��o precisa do estado dela. A paciente, como sabem, deve ser vista quase como uma autista na sua rela��o com m�dicos e autoridades. Calculo que ela sofra de uma doen�a ps�quica grave, mas neste momento n�o tenho como fornecer um diagn�stico acurado. Tamb�m n�o tenho como definir em que est�gio de psicose ela se encontra sem antes proceder a exames mais profundos.</p><p>�� Seja como for, o senhor considera que ela n�o goza de boa sa�de mental.</p><p>� Toda a hist�ria de vida dela � uma prova eloq�ente disso.</p><p>� O senhor teve a oportunidade de ler a suposta autobiografia que Lisbeth Salander escreveu para se explicar e que encaminhou a este tribunal Que coment�rios o senhor tem a fazer?</p><p>Peter Teleborian afastou as m�os e deu de ombros, permanecendo em sil�ncio.</p><p>� Que credibilidade, digamos, o senhor atribui a esse relato?</p><p>� Credibilidade nenhuma. Trata-se de uma s�rie de afirma��es sobre v�rias pessoas, uma hist�ria mais fantasiosa que a outra. De modo geral, sua explica��o por escrito apenas refor�a as suspeitas de que ela sobre de esquizofrenia paran�ica.</p><p>� O senhor poderia citar alguns exemplos?</p><p>�� O mais flagrante � o relato do estupro de que ela acusa seu tutor Bjurman.</p><p>� Poderia falar um pouco mais sobre isso?</p><p>� O relato � extremamente detalhado. � um exemplo cl�ssico do tipo de imagina��o delirante que crian�as podem apresentar. Existe uma grande quantidade de ocorr�ncias similares nos casos de incesto, em que a crian�a oferece descri��es inaceit�veis de t�o imposs�veis, e com total falta de provas. Trata-se, digamos, de fantasias er�ticas que podem se desenvolver mesmo em crian�as muito pequenas... � um pouco como se elas assistissem a filmes de terror na televis�o.</p><p>� Lisbeth Salander n�o � mais uma crian�a, � uma mulher adulta � disse Ekstr�m.</p><p>�� Sim, e sem d�vida ainda ser� preciso definir com precis�o em que n�vel mental ela se encontra. Mas o senhor est� certo. Ela � adulta e provavelmente acredita no pr�prio relato.</p><p>� Na sua opini�o, trata-se de mentiras.</p><p>� N�o, se ela acredita no que diz n�o se trata de mentira. � uma hist�ria que s� demonstra que ela n�o sabe distinguir entre imagina��o e realidade.</p><p>� Quer dizer que ela n�o foi estuprada pelo doutor Bjurman?</p><p>� N�o. Pode-se considerar a verossimilhan�a inexistente. Lisbeth Salander necessita de tratamento especializado.</p><p>� O senhor � citado no relato de Lisbeth Salander...</p><p>�� Sim, e � um detalhe que n�o deixa de ser picante. Mais uma vez, por�m, quem est� falando � a imagina��o dela. A julgar por essa pobre mo�a, eu seria quase um ped�filo...</p><p>Ele sorriu e continuou:</p><p>� Mas o que ela expressa l� � o que eu n�o canso de dizer. A biografia de Salander nos revela que ela foi maltratada ao ser mantida imobilizada na maior parte do tempo que passou em Sankt Stefan e que eu ia visit�-la em seu quarto � noite. Eis a� um caso praticamente cl�ssico de incapacidade de interpreta��o da realidade. Ou, para ser mais preciso, � desse modo que ela interpreta a realidade.</p><p>� Obrigado. E agora a defesa, se a doutora Giannini tiver alguma pergunta...</p><p>Como nos dois primeiros dias do julgamento Annika Giannini tinha feito poucas perguntas e obje��es, todos esperavam que mais uma vez ela apenas colocasse uma ou outra quest�o por desencargo de consci�ncia e em seguida conclu�sse o interrogat�rio. A atua��o da defesa est� t�o deplor�vel que come�a a ficar constrangedor, pensou Ekstr�m.</p><p>� Tenho, sim � disse Annika Giannini. � Tenho diversas perguntas e pode ser que demore algum tempo. S�o onze e meia da manh�. Sugiro que fa�amos um intervalo, para que eu possa interrogar a testemunha depois do almo�o, sem interrup��o.</p><p>O juiz Iversen decidiu que o tribunal iria almo�ar.</p><p>Curt Bolinder estava acompanhado de dois policiais uniformizados quando, ao meio-dia em ponto, p�s sua m�o imensa no ombro do delegado Georg Nystr�m em frente ao restaurante Master Anders na Hantverkargatan. Nystr�m olhou estupefato para Curt Bolinder, que brandiu suas credenciais diante do nariz do outro.</p><p>� Bom dia. Voc� est� preso por cumplicidade em homic�dio e tentativa de homic�dio. Os itens da acusa��o lhe ser�o comunicados ainda esta tarde pelo procurador-geral da na��o. Eu o aconselho a me acompanhar de livre e espont�nea vontade � disse Curt Bolinder.</p><p>Georg Nystr�m parecia n�o entender que l�ngua Curt Bolinder estava falando. Mas percebeu que o melhor era seguir aquele homem sem protestar.</p><p>O inspetor Jan Bublanski estava acompanhado de Sonja Modig e de sete policiais fardados quando seu colega Stefan B�adh, da Prote��o � Constitui��o, os introduziu, ao meio-dia em ponto, no departamento confidencial que constitu�a os dom�nios da Sapo em Kungsholmen. Eles andaram pelos corredores at� Stefan se deter e apontar para uma sala. A secret�ria do secret�rio-geral pareceu totalmente at�nita quando Bublanski mostrou suas credenciais.</p><p>� Fique sentada, por favor. � uma interven��o policial.</p><p>Ele foi at� a porta interna e interrompeu o secret�rio-geral Albert Shenke em meio a uma conversa telef�nica.</p><p>� O que � isso? � perguntou Shenke.</p><p>�� Sou o inspetor Jan Bublanski. O senhor est� preso por infringir a Constitui��o sueca. Os v�rios itens da acusa��o lhe ser�o comunicados hoje � tarde.</p><p>� Isso ultrapassa todos os limites � disse Shenke.</p><p>� Sim, exatamente � disse Bublanski.</p><p>Ele mandou interditar a sala de Shenke e destacou dois policiais para guardar a porta, com ordens de n�o deixar ningu�m entrar. Estavam autorizados a usar o cassetete, e at� a arma, caso algu�m tentasse entrar � for�a.</p><p>Continuaram a prociss�o pelos corredores at� Stefan apontar para outra porta, e ali repetiram o procedimento com o chefe da contabilidade Gustav Atterbom.</p><p>Jerker Holmberg contava com o aux�lio da Brigada de Interven��o de S�dermalm quando, ao meio-dia em ponto, bateu � porta de um escrit�rio alugado temporariamente no segundo andar de um pr�dio em frente � reda��o da revista Millennium, na G�tgatan.</p><p>Como ningu�m apareceu para abrir a porta, Jerker Holmberg ordenou que a brigada a arrombasse. Mas a porta se entreabriu antes que o p� de cabra entrasse em a��o.</p><p>� Pol�cia � disse Jerker Holmberg. � Deixe as m�os bem � vista.</p><p>� Eu sou da pol�cia � disse o inspetor G�ran M�rtensson.</p><p>�� Eu sei. E voc� tem porte de armas para uma por��o de armas de fogo.</p><p>� Sim, mas sou um policial em servi�o.</p><p>� Conta outra! � disse Jerker Holmberg.</p><p>Com a ajuda dos outros, prensou M�rtensson contra a parede e tirou sua arma.</p><p>� Voc� est� preso por escuta ilegal, falta profissional grave, diversas viola��es do domic�lio do jornalista Mikael Blomkvist, na Bellmansgatan, e provavelmente v�rios outros itens de acusa��o. Ponham as algemas nele.</p><p>Jerker Holmberg realizou uma r�pida revista no escrit�rio e constatou que havia ali material eletr�nico suficiente para montar um est�dio de grava��o. Destacou um policial para vigiar o local, com ordens de ficar sentado numa cadeira e n�o deixar nenhuma impress�o digital.</p><p>Quando M�rtensson foi levado pela porta do pr�dio, Henry Cortez ergueu sua Nikon digital e bateu uma seq��ncia de vinte e duas fotos. Com certeza ele n�o era um fot�grafo profissional, e suas fotos deixavam um bocado a desejar no quesito qualidade. Mas foram vendidas no dia seguinte para um tabl�ide por uma quantia indecente.</p><p>Rosa Figuerola foi a �nica, entre os agentes que participavam das batidas policiais daquele dia, a enfrentar um incidente. Auxiliada pela Brigada de Interven��o de Norrmalm e mais tr�s colegas da Sapo, ao meio-dia em ponto ela entrou no pr�dio da Artillerigatan e subiu a escada que levava ao apartamento do �ltimo andar, de propriedade da empresa Bellona.</p><p>A opera��o tinha sido montada num espa�o muito curto de tempo. Assim que a for�a de interven��o chegou � porta do apartamento, ela deu o sinal verde. Dois policiais muito fortes e uniformizados da brigada de Norrmalm ergueram um ar�ete de a�o de quarenta quilos e abriram a porta com dois golpes bem dados. A for�a de interven��o, munida de coletes � prova de balas e armas � altura, ocupou o apartamento nos dez segundos que se seguiram ao arrombamento da porta.</p><p>A vigil�ncia montada desde o amanhecer indicava que cinco indiv�duos identificados corno colaboradores da Se��o haviam passado pela porta durante a manh�. Os cinco foram localizados em poucos segundos e algemados.</p><p>Rosa Figuerola usava um colete � prova de balas. Percorreu o apartamento que fora o QG da Se��o desde os anos 1960 e, uma por uma, foi abrindo brutalmente as portas. Constatou que ia precisar de um arque�logo para ajud�-la a fazer a triagem da imensa quantidade de pastas que lotavam os c�modos.</p><p>Poucos segundos depois de invadir o apartamento, ela abriu a porta de uma salinha mais afastada e descobriu um quarto de dormir. De repente, viu-se frente a frente com Jonas Sandberg. Ele representara um ponto de interroga��o quando as tarefas foram divididas de manh�. Na noite anterior, o investigador encarregado de vigiar Sandberg o perdera de vista. Seu carro estava estacionado em Kungsholmen e ele n�o fora visto em sua casa � noite. De manh�, n�o sabiam onde ele estava para ir prend�-lo.</p><p>Por motivos de seguran�a eles mant�m uma equipe noturna. E �bvio. E o Sandberg dormiu aqui depois que seu plant�o terminou.</p><p>Jonas Sandberg estava apenas de cuecas e parecia mal ter acordado. Vi-rou-se para apanhar a arma no criado-mudo. Rosa Figuerola se inclinou para a frente e empurrou a arma pelo ch�o para longe de Sandberg.</p><p>� Jonas Sandberg, voc� est� preso por cumplicidade nos assassinatos de Gunnar Bj�rck e Alexander Zalachenko, e de cumplicidade na tentativa de assassinato de Michael Blomkvist e Erika Berger. Vista a cal�a.</p><p>Jonas Sandberg levantou o punho na dire��o de Rosa Figuerola. Ela aparou o golpe por mero reflexo, sem prestar um cent�simo de segundo sequer de aten��o a Jonas Sandberg.</p><p>� Voc� est� brincando? � disse ela. Pegou o bra�o dele e torceu-lhe o pulso com tanta for�a que Sandberg caiu de costas no ch�o. Ela o virou de bru�os e enfiou-lhe um joelho na parte inferior das costas. Ela pr�pria o algemou. Era a primeira vez, desde que trabalhava na Sapo, que usava as algemas em servi�o.</p><p>Deixou Sandberg aos cuidados de um policial e prosseguiu sua busca. Para encerrar, abriu a �ltima porta no fundo do apartamento. De acordo com a planta fornecida pela prefeitura, tratava-se de um pequeno c�modo que dava para um p�tio. Deteve-se na soleira da porta e contemplou o espectro mais descarnado que j� tinha visto na vida. Percebeu de imediato que se achava diante de um homem que estava morrendo.</p><p>� Fredrik Clinton, voc� est� preso por cumplicidade em assassinato, tentativa de homic�dio e uma s�rie de outros crimes � disse ela. � N�o saia da cama. Vamos chamar uma ambul�ncia para transport�-lo para Kungsholmen.</p><empty-line/><p>Christer Malm estava postado junto � entrada do pr�dio da Artillerigatan. Ao contr�rio de Henry Cortez, ele sabia manejar sua Nikon digital. Usou uma pequena teleobjetiva e as fotos sa�ram muito profissionais.</p><p>Mostravam os membros da Se��o deixando o pr�dio, um por um, cercados de policiais e sendo empurrados para as viaturas policiais; e por fim uma ambul�ncia vindo buscar Fredrik Clinton. Seus olhos fitaram a objetiva bem no momento em que Christer clicava o bot�o. Parecia inquieto e preocupado.</p><p>Uma foto que mais tarde seria considerada A Foto do Ano.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>27.� SEXTA-FEIRA 15 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>O juiz Iversen bateu o martelo na mesa �s doze e trinta e declarou reaberta a sess�o do Tribunal Correcional. Reparou imediatamente numa terceira pessoa sentada � mesa de Annika Giannini. Holger Palmgren, numa cadeira de rodas.</p><p>� Boa tarde, Holger � disse o juiz Iversen. � Faz s�culos que n�o o vejo numa sala de audi�ncia.</p><p>�� Boa tarde, juiz Iversen. Voc� sabe, alguns casos s�o t�o complexos que os jovens precisam de alguma assist�ncia.</p><p>� Pensei que voc� tivesse encerrado suas atividades profissionais.</p><p>� Estive doente. Mas a doutora Giannini recorreu a mim para assessorada neste caso.</p><p>� Entendo.</p><p>Annika Giannini deu uma tossidinha.</p><p>� Cabe lembrar, tamb�m, que por v�rios anos Holger Palmgren representou Lisbeth Salander.</p><p>� Bem, vamos deixar a conversa de lado � disse o juiz Iversen. Com um sinal de cabe�a, indicou que Annika Giannini podia come�ar.</p><p>Ela se levantou. Nunca apreciara o mau h�bito sueco de conduzir as audi�ncias num tom informal, todos sentados ao redor de uma mesa intimista, quase como se estivessem num jantar. Sentia-se muito melhor quando podia falar de p�, portanto se levantou.</p><p>� Acho que poder�amos come�ar pelos coment�rios que encerraram a sess�o desta manh�. Senhor Teleborian, por que o senhor desaprova sistematicamente todas as afirma��es de Lisbeth Salander?</p><p>� Porque est� muito claro que elas s�o falsas � respondeu Peter Teleborian.</p><p>Ele estava calmo e relaxado. Annika Giannini meneou a cabe�a e se voltou para o juiz Iversen.</p><p>� Excel�ncia, Peter Teleborian afirma que Lisbeth Salander est� mentindo e fantasiando. A defesa vai demonstrar agora que cada palavra da autobiografia de Lisbeth Salander � ver�dica. Vamos apresentar provas. Escritas e testemunhais. Nesse est�gio do julgamento, o procurador j� exp�s as linhas gerais de sua argumenta��o. N�s o ouvimos e agora sabemos no que consistem precisamente as acusa��es contra Lisbeth Salander.</p><p>De repente, Annika Giannini sentiu a boca seca e que sua m�o tremia. Respirou fundo e tomou um gole de �gua mineral. Ent�o segurou com firmeza o encosto da cadeira para que o tremor das m�os n�o tra�sse seu nervosismo.</p><p>� Da argumenta��o do procurador, podemos concluir que ele disp�e de uma abund�ncia de opini�es, mas de pouqu�ssimas provas. Ele acredita que Lisbeth Salander atirou em Carl-Magnus Lundin em Stallarholmen. Ele afirma que ela foi at� Gosseberga para matar o pai. Ele sup�e que minha cliente sofre de esquizofrenia paran�ica e que tem todos os tipos de doen�as mentais que se possa imaginar. E ele fundamenta essa suposi��o nos dados fornecidos por uma �nica fonte, o doutor Peter Teleborian.</p><p>Ela fez uma pausa e acertou sua respira��o. Obrigou-se a falar devagar.</p><p>� No momento, a situa��o das provas � tal que a opini�o do procurador baseia-se exclusivamente em Peter Teleborian. Se este estiver certo, ent�o est� tudo perfeito; nesse caso, seria muito bom que minha cliente pudesse receber a ajuda psiqui�trica adequada conforme o procurador e ele pr�prio pleiteiam.</p><p>Pausa.</p><p>� Mas se o doutor Teleborian estiver errado, o caso adquire de imediato outra conota��o. Se, al�m disso, ele estiver mentindo de forma proposital, ficamos numa situa��o em que minha cliente se v� v�tima de abuso do Poder Judici�rio, abuso, ali�s, que vem ocorrendo h� muitos anos. Ela olhou para Ekstr�m.</p><p>� Nesta tarde, vamos demonstrar que sua testemunha est� errada e que o senhor, como procurador, foi enganado e induzido a aceitar essas falsas conclus�es.</p><p>Peter Teleborian exibia um sorriso divertido. Afastou as m�os e fez um sinal de cabe�a para Annika Giannini, convidando-a a come�ar. Ela voltou-se novamente para Iversen.</p><p>�� Excel�ncia, vou demonstrar que a pretensa avalia��o psiqui�trica m�dico-legal do doutor Peter Teleborian foi pura encena��o, do come�o ao fim. Vou demonstrar que ele est� mentindo de modo consciente a respeito de Lisbeth Salander. Vou demonstrar que minha cliente foi v�tima de abuso agravado do Poder Judici�rio. E vou demonstrar que ela � t�o inteligente e sensata como qualquer um de n�s aqui presente.</p><p>� Me desculpe, mas... � Ekstr�m come�ou a dizer.</p><p>�� Um momento. � Ela ergueu um dedo. � Eu o deixei falar sem nenhuma interrup��o durante dois dias. Agora � a minha vez.</p><p>Virou-se novamente para o juiz Iversen.</p><p>� Eu n�o pronunciaria acusa��es t�o graves num tribunal se n�o contasse com provas irrefut�veis.</p><p>� Por favor, prossiga � disse Iversen. � Mas n�o quero ouvir falar em grandes conspira��es. Tenha em mente que a senhora pode ser processada por difama��o, mesmo que seja por declara��es feitas perante um tribunal.</p><p>� Obrigada. N�o vou me esquecer disso.</p><p>Virou-se para Teleborian. Ele ainda parecia achar a situa��o divertida.</p><p>� A defesa solicitou v�rias vezes a consulta ao dossi� de Lisbeth Salander que datava da �poca em que, ainda adolescente, ela estava internada na sua cl�nica de Sankt Stefan. Por que n�o tivemos acesso a esse dossi�?</p><p>� Porque o Tribunal de Inst�ncias declarou que ele era confidencial. A decis�o foi tomada para proteger Lisbeth Salander, mas se um tribunal de cassa��o revisse esse ponto e voltasse atr�s, eu evidentemente lhe passaria o dossi�.</p><p>� Obrigada. Durante os dois anos que Lisbeth Salander permaneceu em Sankt Stefan, quantas noites ela ficou imobilizada?</p><p>� N�o me lembro assim de pronto.</p><p>� Ela, por sua vez, sustenta que foram trezentas e oitenta noites, das setecentas e oitenta e seis que ela passou na Sankt Stefan.</p><p>� N�o saberia dizer quantas foram exatamente, mas esse n�mero � um tanto exagerado. De onde foi tirado?</p><p>� Da autobiografia dela.</p><p>� A senhora est� querendo dizer que ela se lembraria com precis�o, hoje, de cada uma das noites que passou imobilizada? Imposs�vel.</p><p>� Ah, �? Que n�mero o senhor sugere?</p><p>� Lisbeth Salander era uma paciente muito agressiva, com tend�ncias � viol�ncia, e foi sem d�vida nenhuma necess�rio coloc�-la numa sala de priva��o sensorial um certo n�mero de vezes. Talvez eu devesse explicar qual a finalidade dessa sala...</p><p>� Obrigada, mas n�o � preciso. Trata-se de uma sala onde um paciente n�o recebe nenhum est�mulo sensorial supostamente pass�vel de perturb�-lo. Quantos dias e quantas noites Lisbeth Salander passou imobilizada numa sala assim quando tinha treze anos?</p><p>� Bem... por alto, cerca de trinta vezes durante o per�odo de sua interna��o.</p><p>� Trinta. Isso � uma fra��o m�nima das trezentas e oitenta vezes que ela menciona.</p><p>� Sem d�vida.</p><p>� Menos de dez por cento do n�mero que ela apresenta.</p><p>� Sim.</p><p>� O seu dossi� poderia nos informar de modo mais preciso?</p><p>� � poss�vel.</p><p>�� Excelente � disse Annika Giannini, apanhando em sua pasta um volume pesado de pap�is. Eu gostaria ent�o de apresentar ao tribunal uma c�pia do dossi� da Sankt Stefan sobre Lisbeth Salander. Contei o n�mero de anota��es referentes � imobiliza��o e obtive trezentas e oitenta e uma vezes, uma a mais, portanto, do que afirma minha cliente.</p><p>Os olhos de Peter Teleborian se arregalaram.</p><p>� Espere... s�o informa��es confidenciais. Onde conseguiu isso?</p><p>� Um jornalista da revista Millennium me passou. Portanto, n�o � t�o confidencial assim se pode andar pelas reda��es em meio a um monte de outros dossi�s. Eu talvez tamb�m deva dizer que a revista Millennium est� publicando hoje excertos desse dossi�. Me parece que este tribunal deva ter a oportunidade de dar uma olhada nele.</p><p>� Isso tudo � ilegal...</p><p>�� N�o. Lisbeth Salander concordou com a publica��o dos excertos pois minha cliente n�o tem nada a esconder.</p><p>� Sua cliente � considerada incapaz e n�o tem o direito de tomar esse tipo de decis�o sozinha.</p><p>� Daqui a pouco voltaremos � declara��o de incapacidade de Lisbeth Salander. Primeiro, vamos examinar o que aconteceu com ela em Sankt Stefan.</p><p>O juiz Iversen franziu o cenho e pegou o dossi� que Annika Giannini lhe oferecia.</p><p>� N�o tirei uma c�pia para o procurador Ekstr�m. De qualquer modo, j� faz um m�s que ele recebeu esses documentos que atentam contra a integridade de minha cliente.</p><p>� Como? � perguntou Iversen.</p><p>� O procurador Ekstr�m recebeu uma c�pia desse dossi� confidencial das m�os do doutor Teleborian no dia 4 de junho deste ano, um s�bado, numa reuni�o realizada em sua sala �s dezessete horas.</p><p>� Isso � verdade? � perguntou Iversen.</p><p>O primeiro impulso de Richard Ekstr�m foi negar. Em seguida se deu conta de que Annika Giannini talvez tivesse provas.</p><p>� Pedi para ler partes do dossi� sob sigilo profissional � admitiu Ekstr�m. � Eu precisava conferir se a hist�ria da Salander era mesmo como ela declara.</p><p>� Obrigada � disse Annika Giannini. � Isso confirma que o doutor Teleborian, al�m de dizer mentiras, tamb�m infringiu a lei entregando um dossi� que ele pr�prio afirma ser confidencial.</p><p>� Registramos o fato � disse Iversen.</p><p>O juiz Iversen sentia-se totalmente desperto. De maneira muito inabitual, Annika Giannini acabava de atacar uma testemunha e j� reduzira a p� um dado importante de seu depoimento. E ela ainda afirma poder provar tudo o que est� dizendo. Iversen ajeitou os �culos.</p><p>� Doutor Teleborian, de acordo com esse dossi� criado pessoalmente pelo senhor, pode me dizer, agora, quantas noites Lisbeth Salander passou imobilizada?</p><p>� N�o me lembro que tenham sido tantas, mas se � o que consta no relat�rio, ent�o s� me resta acreditar.</p><p>� Trezentas e oitenta e uma noites. N�o � um n�mero impressionante?</p><p>� De fato, � muita coisa.</p><p>� Como o senhor vivenciaria coisas assim se tivesse treze anos e algu�m o deixasse por mais de um ano preso com correias na estrutura met�lica de sua cama? Como uma tortura?</p><p>�� E preciso entender que a paciente representava um perigo para si mesma e para os outros...</p><p>� Certo. Um perigo para si mesma. Lisbeth Salander alguma vez feriu a si pr�pria? Sim ou n�o?</p><p>� Era de se temer...</p><p>�� Repito a pergunta: Lisbeth Salander alguma vez feriu a si pr�pria? Sim ou n�o?</p><p>� N�s, psiquiatras, temos de aprender a interpretar a imagem em seu todo. No que diz respeito a Lisbeth Salander, por exemplo, nota-se que h� em seu corpo uma quantidade de tatuagens e piercings que tamb�m denotam um comportamento autodestrutivo e uma forma de ferir o pr�prio corpo. Podemos interpretar isso como uma manifesta��o de �dio contra si mesma.</p><p>Annika Giannini virou-se para Lisbeth Salander.</p><p>� Essas tatuagens s�o uma manifesta��o do �dio que voc� tem de si mesma?</p><p>Holger Palmgren conteve uma risada, conseguindo transformar o riso numa tossidinha.</p><p>�� N�o, n�o � isso... as tatuagens tamb�m podem fazer parte de um ritual social.</p><p>�� Ent�o o senhor est� querendo dizer que Lisbeth Salander n�o tem nada a ver com esse ritual social?</p><p>� A senhora mesma pode constatar que essas tatuagens s�o grotescas e cobrem partes amplas do corpo dela. N�o se trata de um fetichismo est�tico comum nem de uma ornamenta��o do corpo.</p><p>� Quantos por cento?</p><p>� Como?</p><p>� A partir de que percentagem uma superf�cie tatuada do corpo deixa de ser um fetichismo ligado � est�tica e passa a ser doen�a mental?</p><p>� A senhora est� desvirtuando as minhas palavras.</p><p>� � mesmo? Como se explica que, no seu entender, esse seja um ritual social perfeitamente aceit�vel quando se trata de mim ou de outros jovens, mas se torne uma acusa��o contra minha cliente quando se trata de avaliar o estado ps�quico dela?</p><p>� Como eu dizia, enquanto psiquiatra cabe-me observar a imagem em seu todo. As tatuagens s�o apenas um ind�cio, um dos in�meros ind�cios que devo levar em conta ao avaliar seu quadro.</p><p>Annika Giannini calou-se por alguns segundos e fitou Peter Teleborian. Falou devagar.</p><p>� Mas, doutor Teleborian, o senhor come�ou a atacar a minha cliente quando ela ainda n�o tinha completado treze anos. E naquela �poca n�o havia tatuagem nenhuma, n�o �?</p><p>Peter Teleborian hesitou por alguns segundos. Annika retomou a palavra.</p><p>�� Suponho que o senhor n�o a manteve amarrada por prever que algum dia ela viria se tatuar.</p><p>� N�o, claro que n�o. Suas tatuagens n�o t�m nada a ver com seu estado em 1991.</p><p>� Voltamos ent�o � minha pergunta inicial. Lisbeth Salander alguma vez feriu a si mesma de uma forma que justificasse ela ser mantida durante um ano imobilizada numa cama? Ela, por exemplo, se cortou com uma faca ou uma l�mina de barbear, ou algo do g�nero?</p><p>Por um instante, Peter Teleborian pareceu inseguro.</p><p>� N�o, mas t�nhamos todos os motivos para acreditar que ela constitu�a um perigo para si mesma.</p><p>� Motivos para acreditar. O senhor quer dizer que a deixou amarrada porque supunha alguma coisa...</p><p>� N�s fazemos avalia��es.</p><p>� Faz cinco minutos que eu estou lhe fazendo a mesma pergunta. O senhor afirma que o comportamento autodestrutivo de minha cliente foi um dos motivos pelos quais a manteve imobilizada por mais de um ano, durante os dois anos em que ela esteve sob seus cuidados. O senhor faria a gentileza de me oferecer, afinal, algum exemplo do comportamento autodestrutivo que ela apresentava com doze anos de idade?</p><p>� Essa garota estava, por exemplo, absolutamente subnutrida. Isso porque, entre outras coisas, ela se negava a comer. Chegamos a suspeitar que estivesse anor�xica. Fomos obrigados a aliment�-la � for�a em v�rias oportunidades.</p><p>� E por que motivo?</p><p>� Porque ela se negava a comer, claro. Annika Giannini virou-se para sua cliente.</p><p>� Lisbeth, � verdade que voc� se negou a comer na Sankt Stefan?</p><p>� �.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Porque esse cr�pula misturava psicotr�picos na minha comida.</p><p>� Ah�. Quer dizer que o doutor Teleborian queria lhe dar rem�dios. E por que voc� n�o queria tom�-los?</p><p>�� Eu n�o gostava daqueles rem�dios. Eles me deixavam ap�tica. Eu n�o conseguia mais pensar e ficava entorpecida boa parte do tempo que passava acordada. Era desagrad�vel. E esse cr�pula se negava a me dizer o que havia naqueles psicotr�picos.</p><p>� Ent�o voc� se negava a tom�-los?</p><p>� Sim. Ent�o eles come�aram a colocar aquela porcaria na minha comida. A� eu parei de comer. Cada vez que aparecia alguma coisa na comida, eu me negava a comer por cinco dias.</p><p>� Ent�o voc� ficava com fome.</p><p>� Nem sempre. V�rias vezes alguns enfermeiros me deram sandu�ches �s escondidas. Especialmente um, que me levava alguma coisa para comer tarde da noite. Isso aconteceu diversas vezes.</p><p>� Voc� est� dizendo que a equipe da Sankt Stefan percebia que voc� estava passando fome e lhe dava de comer para voc� n�o ficar faminta?</p><p>� Isso foi na �poca em que eu briguei com esse cr�pula por causa dos psicotr�picos.</p><p>� Ent�o havia um motivo perfeitamente racional para que voc� se recusasse a se alimentar?</p><p>� Sim.</p><p>� E n�o era porque voc� simplesmente recusava os alimentos</p><p>� N�o. Eu senti fome muitas vezes.</p><p>�� Est� correto afirmar que houve um conflito entre voc� e o doutor Teleborian?</p><p>� Pode-se dizer que sim.</p><p>� Voc� foi internada na Sankt Stefan por ter jogado gasolina no seu pai e ateado fogo.</p><p>� �.</p><p>� Por que voc� fez isso?</p><p>� Porque ele maltratava a minha m�e.</p><p>� Voc� chegou a contar isso para algu�m?</p><p>� Sim.</p><p>� Para quem?</p><p>� Eu contei para os policiais que me interrogaram, para o Servi�o Social, para a Comiss�o para a Inf�ncia, para os m�dicos, para um pastor e para esse cr�pula.</p><p>� Quando diz esse cr�pula voc� se refere a...?</p><p>� A esse sujeito a�.</p><p>Ela apontou para o Dr. Teleborian.</p><p>� Por que voc� o chama de cr�pula?</p><p>� Quando eu cheguei na Sankt Stefan, tentei explicar para ele o que tinha acontecido.</p><p>� E o que o doutor Teleborian disse?</p><p>� Ele n�o quis me ouvir. Dizia que eram fantasias minhas. E que, como castigo, eu iria ficar imobilizada at� que parasse de fantasiar. Depois ele tentou me entupir de psicotr�picos.</p><p>� Isso tudo � um disparate � disse Peter Teleborian.</p><p>� E por isso que voc� n�o fala com ele?</p><p>� Eu jamais dirigi uma �nica palavra a ele desde a noite em que completei treze anos. Naquela noite eu tamb�m estava amarrada. N�o falar mais com ele foi um presente de anivers�rio que eu mesma me dei.</p><p>Annika Giannini virou-se mais uma vez para Teleborian.</p><p>� Doutor Teleborian, pelo que parece, o motivo pelo qual minha cliente se recusava a comer era n�o aceitar que o senhor lhe desse psicotr�picos.</p><p>� � poss�vel que ela visse as coisas dessa maneira.</p><p>� E como o senhor v� as coisas?</p><p>� Eu estava com uma paciente extremamente dif�cil. Afirmo que seu comportamento j� indicava que ela representava um perigo para si mesma embora esse seja um ponto pass�vel de interpreta��o. Em compensa��o, ela era violenta e demonstrava um comportamento psic�tico. N�o h� d�vida de que ela representava um perigo para os outros. N�o se esque�a de que ela foi mandada para a Sankt Stefan depois de tentar matar o pai.</p><p>� N�s vamos chegar l�. O senhor foi o respons�vel pelo tratamento dela durante dois anos. Manteve-a imobilizada por trezentas e oitenta e uma noites. � l�cito supor que o senhor usava a imobiliza��o como castigo, quando minha cliente n�o obedecia �s suas ordens?</p><p>� Isso n�o faz sentido.</p><p>� E mesmo? No entanto, no relat�rio que o senhor fez para a sua paciente reparei que a maioria das imobiliza��es ocorreu durante o primeiro ano... trezentas e vinte de um total de trezentas e oitenta e uma. Por que as imobiliza��es cessaram depois?</p><p>� O quadro da paciente evoluiu e ela se tornou mais equilibrada.</p><p>� N�o seria porque a equipe de enfermagem considerava suas medidas brutais e in�teis?</p><p>� O que a senhora quer dizer com isso?</p><p>� N�o seria porque a equipe se queixou, entre outras coisas, da alimenta��o for�ada de Lisbeth Salander?</p><p>� � claro que sempre pode haver diverg�ncias na maneira de ver as coisas. Isso n�o � incomum. Mas aliment�-la � for�a tinha se tornado um fardo porque, em fun��o da violenta resist�ncia dela...</p><p>� Porque ela se recusava a tomar psicotr�picos que a deixavam entorpecida e passiva. Ela n�o tinha nenhum problema em comer quando n�o estava sob efeito de medicamentos. N�o teria sido um tratamento mais razo�vel n�o recorrer imediatamente a medidas coercitivas?</p><p>� Com todo o respeito, doutora Giannini, acontece que eu sou m�dico. Suponho que minha compet�ncia m�dica seja superior � sua. Cabe a mim julgar a adequa��o dos procedimentos m�dicos a serem adotados.</p><p>� E verdade, eu n�o sou m�dica, doutor Teleborian. Em compensa��o, n�o sou assim t�o destitu�da de compet�ncia. Al�m de advogada, sou tamb�m psic�loga formada pela Universidade de Estocolmo. Trata-se de uma compet�ncia indispens�vel � minha profiss�o de jurista.</p><p>Seria poss�vel escutar uma mosca sobrevoando a sala de audi�ncias Ekstr�m e Teleborian fitavam Annika Giannini at�nitos. Ela prosseguiu, impiedosa.</p><p>� N�o � verdade que os seus m�todos para tratar minha cliente acabaram por criar s�rios conflitos entre o senhor e o seu superior, o m�dico-chefe daquela �poca, o doutor Johannes Caldin?</p><p>� N�o... n�o � verdade.</p><p>� O doutor Caldin faleceu h� v�rios anos e n�o pode nos prestar seu depoimento. Mas nesta sala de audi�ncias, hoje, est� presente uma pessoa que conversou diversas vezes com o doutor Caldin. Refiro-me ao meu assessor, Holger Palmgren.</p><p>Ela se virou para ele.</p><p>� Voc� poderia nos esclarecer sobre um aspecto?</p><p>Holger Palmgren pigarreou. Ainda se ressentia das seq�elas de seu derrame cerebral e precisava se concentrar para pronunciar as palavras sem gaguejar.</p><p>� Fui nomeado administrador legal da Lisbeth depois que sua m�e, em decorr�ncia dos maus-tratos que seu marido lhe inflingia, e que a deixaram deficiente, tornou-se incapaz de cuidar da filha. Ela tinha muitas les�es cerebrais e sofria de repetidas hemorragias.</p><p>� Voc� est� falando de Alexander Zalachenko? O procurador Ekstr�m pigarreou mais uma vez.</p><p>� Eu gostaria de destacar que estamos entrando num assunto considerado segredo de Estado.</p><p>� N�o pode ser segredo que Alexander Zalachenko maltratou a m�e de Lisbeth Salander durante v�rios anos.</p><p>Peter Teleborian levantou a m�o.</p><p>� Os fatos n�o s�o t�o evidentes como a doutora Giannini apresenta.</p><p>� Como assim?</p><p>�� N�o resta d�vida de que Lisbeth Salander foi testemunha de uma trag�dia familiar, de que algo desencadeou os inacredit�veis maus-tratos em 1991. Mas n�o h� documenta��o alguma que prove que essa situa��o se prolongou por v�rios anos, como afirma a senhora Giannini. Pode-se tratar de um fato isolado ou de uma briga que degenerou. Verdade seja dita: n�o existe sequer um documento provando que o senhor Zalachenko era quem maltratava a m�e de Lisbeth. H� informa��es de que ela se prostitu�a, e pode haver outros culpados.</p><p>Annika Giannini fitou Peter Teleborian surpresa. Durante um instante, deu a impress�o de estar sem voz. Ent�o seu olhar se tornou penetrante.</p><p>� O senhor poderia explicar melhor? � pediu.</p><p>� O que eu quero dizer � que, na pr�tica, s� temos as afirma��es de Lisbeth para nos basear.</p><p>� E?</p><p>�� Em primeiro lugar, eram duas irm�s. Camilla, a irm� de Lisbeth, nunca fez acusa��es desse tipo. Negou que essas coisas tivessem acontecido. Al�m disso, � preciso levar em conta que se tivesse mesmo havido maus-tratos durante todo esse per�odo mencionado por sua cliente, eles teriam, obviamente, sido averiguados pelo Servi�o Social.</p><p>�� Existe algum depoimento de Camilla Salander que possamos consultar?</p><p>� Depoimento?</p><p>� O senhor tem algum documento que prove que perguntaram a Camilla Salander sobre o que se passava na casa delas?</p><p>Lisbeth Salander se remexeu na cadeira quando foi pronunciado o nome da irm�. Ela olhou para Annika Giannini.</p><p>� Estou pressupondo que o Servi�o Social tenha feito alguma investiga��o...</p><p>� O senhor acabou de afirmar que Camilla Salander nunca fez nenhuma acusa��o contra Alexander Zalachenko e que, pelo contr�rio, ela negou que ele maltratasse a m�e dela. A sua declara��o foi categ�rica. De onde o senhor tirou essa informa��o?</p><p>Peter Teleborian permaneceu calado por alguns segundos. Annika Giannini viu seu olhar se alterar quando se deu conta de que cometera um erro. Percebeu por onde ela ia enveredar, mas n�o tinha mais como escapar da pergunta.</p><p>� Tenho impress�o de que constava na investiga��o policial - ele disse por fim.</p><p>� O senhor tem a impress�o... Quanto a mim, procurei por toda parte uma investiga��o policial sobre os acontecimentos na Lundagatan, quando Alexander Zalachenko foi gravemente queimado. S� encontrei uns poucos relat�rios redigidos pelos policiais enviados ao local.</p><p>� � poss�vel...</p><p>� Ent�o eu gostaria de saber como � poss�vel o senhor ter lido um relat�rio policial que n�o estava dispon�vel para a defesa.</p><p>� N�o saberia responder a essa pergunta � disse Teleborian. � Tive a oportunidade de consultar esse relat�rio quando, em 1991, efetuei uma avalia��o m�dico-legal de Lisbeth Salander depois que ela tentou matar o pai.</p><p>� E o senhor, procurador Ekstr�m, teve oportunidade de ler esse relat�rio?</p><p>Ekstr�m se remexeu na cadeira e acariciou o cavanhaque. J� percebera que havia subestimado Annika Giannini. Por outro lado, n�o tinha por que mentir.</p><p>� Sim, tive.</p><p>� Por que a defesa n�o teve acesso a esse material?</p><p>� N�o achei que fosse relevante para o processo.</p><p>� O senhor pode me dizer como conseguiu ter acesso a esse relat�rio? Todas as vezes que me dirigi � pol�cia, me disseram que esse relat�rio n�o existia.</p><p>� A investiga��o foi conduzida pela Sapo. � um relat�rio confidencial.</p><p>� Quer dizer ent�o que a Sapo investigou um caso de maus-tratos agravados contra uma mulher e decidiu arquiv�-lo como segredo de Estado?</p><p>� Devido ao autor... Alexander Zalachenko. Ele era um refugiado pol�tico.</p><p>� Quem conduziu a investiga��o? Sil�ncio.</p><p>� N�o ouvi. Qual o nome que constava na primeira p�gina?</p><p>� A Investiga��o foi conduzida por Gunnar Bj�rck, da Brigada dos Estrangeiros da Sapo.</p><p>� Obrigada. Ser� o mesmo Gunnar Bj�rck que, segundo afirma minha cliente, colaborou com o doutor Peter Teleborian para falsificar o relat�rio m�dico-legal de 1991 sobre ela?</p><p>� Imagino que sim.</p><p>Annika Giannini dirigiu sua aten��o a Peter Teleborian.</p><p>�� Em 1991, um Tribunal de Inst�ncias decidiu internar Lisbeth Salander numa cl�nica de psiquiatria infantil. O tribunal tomou essa decis�o por qu�?</p><p>� O Tribunal de Inst�ncias fez uma avalia��o cuidadosa dos atos e do estado ps�quico de sua cliente; afinal ela tinha tentado matar o pai com um coquetel Molotov. Essa n�o � uma atitude comum nos adolescentes normais, sejam eles tatuados ou n�o.</p><p>Peter Teleborian sorriu educadamente.</p><p>� E em que o Tribunal de Inst�ncias se baseou nessa avalia��o? Pelo que entendi, eles tinham um �nico parecer m�dico no qual se orientar. Esse parecer foi redigido pelo senhor e por um policial chamado Gunnar Bj�rck.</p><p>� Doutora Giannini, agora entramos com tudo nas teorias da conspira��o apresentadas pela senhorita Salander. Nesse ponto, devo...</p><p>� Me desculpe, n�o se preocupe, mas eu n�o vou me perder � disse Annika Giannini dirigindo-se a Holger Palmgren. � Holger, acabamos de dizer que voc� esteve com o superior do doutor Teleborian, o m�dico-chefe Caldin.</p><p>�� Sim. Eu tinha sido nomeado administrador legal de Lisbeth Salander. Eu ainda n�o havia estado com ela, mas t�nhamos nos cruzado. Como todo mundo, eu acreditava que ela estivesse gravemente afetada no plano ps�quico. No entanto, como se tratava da minha tarefa, procurei me informar sobre seu estado geral de sa�de.</p><p>� E o que disse o m�dico-chefe Caldin?</p><p>� Ela era paciente do doutor Teleborian, e o doutor Caldin n�o prestara muita aten��o nela, al�m da aten��o de praxe que lhe dispensava na hora das avalia��es. Somente mais de um ano depois � que comecei a conversar sobre alguma forma poss�vel de reintegr�-la � sociedade. Propus uma fam�lia adotiva. N�o sei exatamente o que se passou entre as quatro paredes da cl�nica Sankt Stefan, mas, em dado momento, quando Lisbeth j� estava l� havia mais de um ano, o doutor Caldin come�ou a se interessar por ela.</p><p>� De que modo se manifestou esse interesse?</p><p>� Tive a sensa��o de que ele havia feito uma avalia��o diferente daquela do doutor Teleborian. Certo dia, ele me disse que decidira fazer algumas mudan�as no tratamento. S� mais tarde vim a entender que se tratava da imobiliza��o. O Caldin simplesmente resolveu que ela n�o seria mais amarrada. Dizia que nada justificava esse procedimento.</p><p>� Contrariando a opini�o do doutor Teleborian?</p><p>� Desculpem, mas tudo isso n�o passa de falat�rio � protestou Eks-tr�m.</p><p>� N�o � disse Holger Palmgren. � N�o s�. Eu solicitei a opini�o do doutor Caldin sobre diferentes formas de reintegrar Lisbeth Salander na sociedade. Ele me deu essa opini�o por escrito. Ainda est� comigo.</p><p>Ele estendeu uma folha de papel para Annika Giann�ni.</p><p>� Pode nos dizer o que est� escrito?</p><p>� Trata-se de uma carta que o doutor Caldin me escreveu. E de outubro de 1992, ou seja, fazia vinte meses que Lisbeth se encontrava em Sankt Stefan. Citando o que escreveu o doutor Caldin: "Minha decis�o de que a paciente n�o fosse mantida imobilizada nem alimentada � for�a tamb�m obteve o not�vel resultado de que ela est� calma. Os psicotr�picos n�o s�o necess�rios. Contudo, a paciente � extremamente fechada e pouco comunicativa, precisa de um acompanhamento regular". Fim da cita��o.</p><p>� Portanto, ele deixa claro que a decis�o partiu dele.</p><p>� Exato. Foi tamb�m o doutor Caldin quem decidiu que Lisbeth seria reinserida na sociedade atrav�s de uma fam�lia adotiva.</p><p>Lisbeth fez um gesto de assentimento com a cabe�a. Lembrava-se do Dr. Caldin, assim como se lembrava, nos m�nimos detalhes, de sua estada na cl�nica Sankt Stefan. Ela se recusara a falar com o Dr. Caldin, ele era um m�dico de loucos, mais um entre todos aqueles jalecos brancos que iam vasculhar seus sentimentos. Mas ele fora gentil e complacente. Ela o escutara em sua sala, quando ele tinha lhe explicado de que modo a via.</p><p>Ele parecera magoado por Lisbeth n�o querer falar com ele. Por fim, ela olhara dentro de seus olhos e lhe revelara sua decis�o. "Nunca vou falar nem com voc� nem com nenhum outro psiquiatra. Voc�s n�o escutam o que eu digo. Podem me deixar trancada aqui pelo resto da vida. Isso n�o vai mudar nada. N�o vou falar com voc�s". Ele a fitara com olhos surpresos. Ent�o meneara a cabe�a como se acabasse de entender alguma coisa.</p><p>� Doutor Teleborian... Constatei que foi o senhor quem mandou internar a Lisbeth Salander numa cl�nica de psiquiatria infantil. Foi o senhor quem forneceu ao Tribunal de Inst�ncias o relat�rio que veio a ser a �nica base do julgamento. Correto?</p><p>� Sim, est� correto, mas eu acho...</p><p>� O senhor ter� muito tempo para dizer o que acha. Quando Lisbeth Salander chegou � maioridade, o senhor interveio novamente na vida dela e tentou fazer com que ela fosse internada uma segunda vez.</p><p>� Dessa vez n�o fui eu quem fez a avalia��o m�dico-legal...</p><p>� N�o, ela foi feita por um certo doutor Jesper H. L�derman. Por coincid�ncia, na �poca ele fazia doutorado sob sua orienta��o. Logo, tamb�m nesse caso foram as suas opini�es que prevaleceram.</p><p>�� N�o h� nada de errado ou anti�tico nessas avalia��es. Elas foram realizadas dentro das regras.</p><p>� Hoje Lisbeth Salander tem vinte e sete anos e, pela terceira vez, nos vemos numa situa��o em que o senhor tenta convencer um tribunal de que ela � uma doente mental e que deve ser internada numa institui��o.</p><p>O Dr. Peter Teleborian respirou fundo. Annika Giannini estava bem preparada. Ela o surpreendera com algumas perguntas maliciosas que o tinham obrigado a alterar suas respostas. Ela n�o era receptiva ao seu charme e ignorava totalmente sua autoridade. Ele era um homem acostumado a que as pessoas concordassem quando ele falava.</p><p>O que ela sabe, afinal?</p><p>Lan�ou um olhar para o procurador Ekstr�m, mas percebeu que n�o podia esperar nenhuma ajuda dele. Teria que se sair dessa sozinho.</p><p>Lembrou-se que, apesar de tudo, era uma autoridade muito respeitada.</p><p>N�o importa o que ela diga. A minha avalia��o fala mais alto.</p><p>Annika Giannini pegou na mesa o relat�rio da avalia��o psiqui�trica feita por Teleborian.</p><p>� Vamos examinar mais de perto sua �ltima avalia��o. O senhor se dedica bastante a analisar a vida espiritual de Lisbeth Salander. Boa parte s�o interpreta��es que o senhor faz sobre ela, sobre seu comportamento e seus h�bitos sexuais.</p><p>� Nessa investiga��o, procurei oferecer uma imagem completa.</p><p>�� �timo. E partindo dessa imagem completa o senhor conclui que Lisbeth Salander sofre de esquizofrenia paran�ica.</p><p>� Prefiro n�o me prender a um diagn�stico preciso.</p><p>� Mas o senhor n�o chegou a essa conclus�o conversando com Lisbeth Salander, n�o �?</p><p>� A senhora sabe muito bem que sua cliente nega-se sistematicamente a responder �s perguntas feitas por mim ou por qualquer outra autoridade. S� esse comportamento j� � bem eloq�ente. Uma poss�vel interpreta��o � que as tend�ncias paran�ides da paciente se manifestam de forma t�o forte que ela se v� literalmente incapaz de manter uma conversa��o com qualquer pessoa que represente uma autoridade. Ela acha que todo mundo est� tentando prejudic�-la e sente-se t�o amea�ada que se fecha atr�s de uma coura�a impenetr�vel, ficando literalmente muda.</p><p>� Observo que o senhor se expressa com muita cautela. O senhor disse "uma poss�vel interpreta��o"...</p><p>� De fato. Eu me expresso com cautela. A psiquiatria n�o � uma ci�ncia exata e � meu dever ser cauteloso nas minhas conclus�es. Acontece tamb�m que n�s, psiquiatras, n�o apresentamos suposi��es levianas.</p><p>� O senhor toma cuidado para se proteger. Na verdade, o senhor n�o trocou uma palavra sequer com a minha cliente desde a noite em que ela completou treze anos, j� que depois disso ela se negou sistematicamente a falar com o senhor.</p><p>� N�o s� comigo. Ela n�o tem condi��es de manter uma conversa com um psiquiatra, seja ele quem for.</p><p>� Isso significa que, como escreveu aqui, suas conclus�es se baseiam na sua experi�ncia e nas suas observa��es sobre minha cliente.</p><p>� Exato.</p><p>� O que � poss�vel descobrir observando uma garota que fica sentada de bra�os cruzados numa cadeira e se nega a falar?</p><p>Peter Teleborian suspirou, querendo mostrar o quanto era cansativo ter de explicar o �bvio. Sorriu.</p><p>� Sobre um paciente que n�o diz uma s� palavra, � poss�vel descobrir que ele � um paciente que faz isso muito bem: n�o dizer uma s� palavra. O que em si j� representa um comportamento perturbado, mas n�o foi nisso que baseei minhas conclus�es.</p><p>� Vou chamar aqui, esta tarde, outro psiquiatra para testemunhar. Seu nome � Svante Brand�n, e ele � m�dico-chefe da supervis�o de Medicina Legal e especialista em psiquiatria infantil. O senhor o conhece?</p><p>Peter Teleborian sentiu-se mais tranq�ilo. Sorriu. Ele de fato previra que Giannini ia tirar outro psiquiatra da cartola para tentar questionar suas conclus�es. Tinha se preparado para essa situa��o e saberia enfrentar qualquer obje��o, palavra por palavra. Seria mais simples administrar um colega universit�rio numa discuss�o amistosa do que uma pessoa como essa Giannini, que n�o tinha nenhuma pondera��o e estava pronta para distorcer suas palavras e ironiz�-las.</p><p>� Conhe�o. � um psiquiatra competente e respeitado da �rea de medicina legal. Mas perceba, doutora Giannini, que uma avalia��o desse tipo � um processo acad�mico e cient�fico. A senhora pode discordar das minhas conclus�es e outro psiquiatra pode interpretar comportamentos ou algum fato de maneira distinta da minha. Trata-se ent�o de diferentes formas de enxergar as coisas, ou talvez at� do conhecimento que o m�dico tem de seu paciente. O doutor Brand�n talvez chegue a uma conclus�o muito diferente no caso de Lisbeth Salander. Isso � comum na psiquiatria.</p><p>� N�o � por isso que o chamei. Ele nunca esteve com Lisbeth Salander nem a examinou, portanto n�o vai dar nenhuma opini�o sobre o estado ps�quico dela.</p><p>� Ah,�?...</p><p>� Eu pedi que ele lesse o seu relat�rio e toda a documenta��o redigida pelo senhor sobre Lisbeth Salander, e desse uma olhada no dossi� dos anos que ela passou na cl�nica Sankt Stefan. Pedi que ele avaliasse n�o o estado de sa�de da minha cliente, mas se existe, de um ponto de vista t�cnico, uma base s�lida para as suas conclus�es tal como s�o apresentadas no seu parecer.</p><p>Peter Teleborian deu de ombros.</p><p>� Com todo o respeito... acho que eu conhe�o melhor a Lisbeth Salander do que qualquer psiquiatra deste pa�s. Acompanhei sua evolu��o desde que ela tinha doze anos e, infelizmente, s� constato que o comportamento dela sempre confirmou minhas conclus�es.</p><p>�� Tanto melhor � disse Annika Giannini. � Vamos ver ent�o suas conclus�es. Nos seus relat�rios, o senhor diz que o tratamento foi interrompido quando ela tinha quinze anos e que em seguida ela foi encaminhada para uma fam�lia adotiva.</p><p>� Exato. Um grande erro, ali�s. Se tiv�ssemos continuado o tratamento at� o fim, talvez n�o estiv�ssemos aqui hoje.</p><p>� O senhor est� querendo dizer que se tivesse tido a possibilidade de mant�-la imobilizada por mais um ano ela talvez fosse mais d�cil?</p><p>� Esse coment�rio � um tanto gratuito.</p><p>� Queira me desculpar. O senhor cita repetidamente a avalia��o realizada por seu aluno Jesper H. L�derman pouco antes da maioridade da Lis-beth Salander. Diz que "seu comportamento autodestrutivo e antissocial � confirmado pelos excessos e pela libertinagem que ela exibe desde que teve alta da Sankt Stefan". A que o senhor se refere?</p><p>Peter Teleborian se manteve em sil�ncio por alguns segundos.</p><p>� Bem... preciso voltar um pouco no tempo. Depois que saiu da cl�nica Sankt Stefan, Lisbeth Salander teve, como eu havia previsto, problemas com excesso de �lcool e drogas. Foi detida v�rias vezes pela pol�cia. Uma investiga��o do Servi�o Social apontou que ela mantinha rela��es sexuais compulsivas com homens mais velhos e que provavelmente se entregasse � prostitui��o.</p><p>� Vamos tentar esclarecer esse ponto. O senhor diz que ela se tornou alco�latra. Com que freq��ncia ela se embriagava?</p><p>� Como?</p><p>� Ela ficava b�bada todos os dias depois que recebeu alta at� completar dezoito anos? Ficava b�bada uma vez por semana?</p><p>� Isso eu evidentemente n�o posso responder.</p><p>� Mesmo assim o senhor concluiu que ela abusava do �lcool?</p><p>� Ela era menor de idade e tinha sido detida v�rias vezes pela pol�cia por embriaguez.</p><p>� E a segunda vez que o senhor usa a express�o "detida v�rias vezes. Isso significa com que freq��ncia? Uma vez por semana, uma vez a cada duas semanas...?</p><p>� N�o, n�o era t�o freq�ente...</p><p>�� Lisbeth Salander foi detida por embriaguez na via p�blica apenas duas vezes, quando tinha dezesseis anos e depois com dezessete anos. Numa dessas ocasi�es, estava t�o b�bada que foi mandada para o hospital. S�o essas ent�o as v�rias vezes de que o senhor fala. Sabe de alguma outra ocasi�o em que ela tenha estado embriagada?</p><p>� N�o, mas � de se temer que o comportamento dela...</p><p>� Desculpe, ser� que eu ouvi direito? Ent�o o senhor n�o sabe se ela se embriagou mais que duas vezes na adolesc�ncia, mas teme que tenha sido esse o caso. Ainda assim, declara que Lisbeth Salander embarcou num c�rculo infernal de �lcool e drogas?</p><p>� Cabe ao Servi�o Social cuidar dessa parte. N�o a mim. Tratava-se do estado geral de Lisbeth Salander. Como era esperado, e conforme o progn�stico pessimista oferecido ap�s a interrup��o do tratamento, toda a sua vida se transformou num c�rculo de �lcool, interven��es policiais e libertinagem descontrolada.</p><p>� O senhor usa a express�o "libertinagem descontrolada".</p><p>� Sim... � um termo que significa que ela n�o tinha controle sobre sua pr�pria vida. Mantinha rela��es sexuais com homens bem mais velhos.</p><p>� Isso n�o � contra a lei.</p><p>�� � verdade, mas n�o � um comportamento normal numa garota de dezesseis anos. Cabe nos perguntar se ela participava disso por livre e espont�nea vontade ou se sofria algum tipo de press�o.</p><p>� Mas o senhor afirmou que ela se prostitu�a.</p><p>� Talvez como uma decorr�ncia natural de sua forma��o prec�ria, de sua incapacidade de acompanhar o ensino escolar e concluir seus estudos e do conseq�ente desemprego. Ela talvez enxergasse um pai nos homens mais velhos, com o b�nus da compensa��o financeira por seus servi�os sexuais. Seja como for, isso para mim revela um comportamento neur�tico.</p><p>� O senhor est� querendo dizer que uma garota de dezesseis anos que faz amor � uma neur�tica?</p><p>� A senhora est� desvirtuando as minhas palavras.</p><p>� Mas o senhor n�o sabe se alguma vez ela foi remunerada em troca de servi�os sexuais?</p><p>� Ela nunca foi detida por prostitui��o.</p><p>�� O que dificilmente poderia acontecer, j� que a prostitui��o n�o � proibida por lei.</p><p>� H�, de fato. No caso de Lisbeth Salander, trata-se de um comportamento neur�tico compulsivo.</p><p>� E com base nesse escasso material o senhor n�o hesitou em concluir que Lisbeth Salander � uma doente mental. Quando eu tinha dezesseis anos tomei um porre de rolar no ch�o com meia garrafa de vodca que eu tinha roubado do meu pai. O senhor diria que eu sou uma doente mental?</p><p>� N�o, � evidente que n�o.</p><p>� E verdade que o senhor mesmo, quando tinha dezessete anos, participou de uma festa em que se embebedou a ponto de sair com um bando para quebrar vitrines no centro de Uppsala? O senhor foi detido pela pol�cia e colocado na cela de desembebedamento e ainda ganhou uma multa.</p><p>Peter Teleborian pareceu estupefato.</p><p>� E verdade?</p><p>� Sim... a gente faz tanta bobagem quando tem dezessete anos. Mas...</p><p>�� Mas isso n�o o levou a concluir que o senhor sofria de uma grave doen�a ps�quica?</p><p>Peter Teleborian estava irritado. Aquela maldita advogada n�o parava de desvirtuar suas palavras e se concentrava em detalhes espec�ficos. Ela se recusava a ver o todo. E, totalmente fora de prop�sito, alardeava a quem quisesse ouvir que ele pr�prio um dia se embebedara... como ela conseguiu descobrir?</p><p>Ele deu uma tossidinha e ergueu a voz.</p><p>� Os relat�rios do Servi�o Social eram inequ�vocos e confirmavam, em todos os aspectos essenciais, que Lisbeth Salander levava uma vida dedicada ao �lcool, �s drogas e � libertinagem. O Servi�o Social concluiu ainda que Lisbeth Salander se prostitu�a.</p><p>� N�o. O Servi�o Social jamais afirmou que ela se prostitu�a.</p><p>� Ela foi presa em...</p><p>� N�o. Ela n�o foi presa. Ela foi interpelada no parque de Tantolun-den quaYido tinha dezessete anos e estava acompanhada por um homem muito mais velho. No mesmo ano, ela foi pega embriagada, tamb�m na companhia de um homem muito mais velho. O Servi�o Social talvez receasse que ela estivesse se prostituindo. Mas nunca houve qualquer prova que confirmasse isso.</p><p>� A vida sexual dela era muito intensa e ela mantinha rela��es com um n�mero grande de pessoas, tanto homens como mulheres.</p><p>� No seu relat�rio, e cito aqui a p�gina 4, o senhor se det�m nos h�bitos sexuais de Lisbeth Salander. Afirma que o relacionamento com sua amiga Miriam Wu confirma suas suspeitas de uma psicopatia sexual. Poderia explicar isso melhor?</p><p>Peter Teleborian calou-se de repente.</p><p>� Espero sinceramente que o senhor n�o tenha a inten��o de afirmar que a homossexualidade � uma doen�a. Declara��es desse tipo podem acarretar um processo.</p><p>� N�o, � claro que n�o. Quero falar nos toques de sadismo sexual presentes no relacionamento delas.</p><p>� O senhor est� querendo dizer que ela � s�dica?</p><p>� Eu...</p><p>� Tivemos acesso ao depoimento prestado por Miriam Wu � pol�cia. N�o havia nenhum tipo de viol�ncia no relacionamento delas.</p><p>� Elas praticavam bondage, sadomasoquismo e...</p><p>� Prefiro pensar que o senhor leu tabloides demais. Lisbeth Salander e sua amiga Miriam Wu experimentaram vez ou outra jogos er�ticos em que Miriam Wu amarrava minha cliente e lhe oferecia satisfa��o sexual. Isso n�o chega a ser incomum, e n�o � proibido. � por esse motivo que o senhor quer internar a minha cliente?</p><p>Peter Teleborian abanou a m�o para negar.</p><p>� Permita-me fazer algumas confidencias. Quando eu tinha dezesseis anos, me embriaguei at� dizer chega. Me embebedei v�rias vezes durante meus anos de col�gio. Experimentei drogas. Fumei maconha e at� experimentei coca�na uma vez h� uns vinte anos. Me iniciei sexualmente aos quinze anos com um colega da minha classe, e tinha uns vinte anos quando me relacionei com um garoto que amarrava minhas m�os na cabeceira da cama. Tinha vinte e dois anos quando mantive, por v�rios meses, um relacionamento com um homem de quarenta e sete anos. Em outras palavras, eu sou uma doente mental?</p><p>� Doutora Giannini... a senhora est� apelando para a ironia, mas as suas experi�ncias sexuais n�o t�m nada a ver com o presente caso.</p><p>� E por que n�o? Lendo a sua suposta avalia��o de Lisbeth Salander deparo com muitos aspectos que, extra�dos do contexto, poderiam ser aplicados a mim mesma. Por que � que eu sou s� de esp�rito, ao passo que Lisbeth Salander � uma s�dica perigosa?</p><p>� N�o s�o os detalhes que determinam isso. A senhora n�o tentou matar seu pai duas vezes...</p><p>�� Doutor Teleborian, a verdade � que os parceiros sexuais da Lisbeth n�o dizem respeito a ningu�m. O sexo dos parceiros dela n�o diz respeito ao senhor, nem de que modo ela leva sua vida sexual. No entanto, o senhor vasculha detalhes da vida dela e se serve deles para sustentar a tese de que ela � uma doente mental.</p><p>�� Desde a escola prim�ria, toda a vida da Lisbeth n�o passa de uma s�rie de ocorr�ncias registradas nos arquivos m�dicos e sociais, mostrando violentos acessos de raiva contra professores e colegas.</p><p>� Um momento...</p><p>A voz de Annika Giannini de repente soou como um raspador de gelo no p�ra-brisa congelado de um carro.</p><p>� Olhe para a minha cliente. Todos olharam para Lisbeth Salander.</p><p>�� Ela cresceu numa condi��o familiar execr�vel, vendo seu pai, por anos e anos, infligir maus-tratos violentos e sistem�ticos � sua m�e.</p><p>� �...</p><p>� Deixe eu terminar. A m�e de Lisbeth Salander tinha um verdadeiro terror por Alexander Zalachenko. N�o se atrevia a protestar. N�o se atrevia a procurar um m�dico. N�o se atrevia a procurar o sos-Mulheres. Foi massacrada e, por fim, t�o seriamente espancada que ficou com les�es cerebrais permanentes. A pessoa respons�vel pela fam�lia, a �nica pessoa que tentou assumir a responsabilidade da fam�lia antes mesmo de chegar � adolesc�ncia, foi Lisbeth Salander. Uma responsabilidade que ela foi obrigada a assumir sozinha porque o espi�o Zalachenko era mais importante que a m�e de Lisbeth.</p><p>� Eu n�o posso...</p><p>� E aqui estamos n�s, confrontados com uma situa��o em que a sociedade abandonou a m�e de Lisbeth e suas filhas. O senhor se surpreende que Lisbeth tenha tido problemas na escola? Olhe s� para ela. Ela � magra e miudinha. Sempre foi a menina mais baixinha da classe. Era fechada e diferente e n�o tinha amigas. O senhor sabe como as crian�as costumam tratar aquelas que s�o diferentes do resto da turma?</p><p>Peter Teleborian assentiu com a cabe�a.</p><p>� Eu posso rever os dossi�s escolares e anotar, uma por uma, as situa��es em que Lisbeth se mostrou violenta � disse Annika Giannini. � Sempre havia antes alguma provoca��o. Reconhe�o a�, perfeitamente, os sinais da persegui��o. Posso lhe dizer uma coisa?</p><p>� O qu�?</p><p>� Eu admiro Lisbeth Salander. Ela tem mais fibra do que eu. Se tivessem me amarrado com correias quando eu tinha treze anos, � prov�vel que eu tivesse desabado completamente. Ela revidou com a �nica arma de que dispunha. Em outras palavras, com seu desprezo pelo senhor.</p><p>A voz de Annika Giannini se inflamou de repente. H� muito seu nervosismo tinha se dissipado. Sentia que estava no controle.</p><p>� Um pouco antes, em seu testemunho, o senhor falou muito em fantasias, chegando a afirmar que a descri��o do estupro que Lisbeth sofreu do doutor Bjurman era pura inven��o.</p><p>� Exato.</p><p>� Essa conclus�o do senhor se baseia em qu�?</p><p>� Na minha experi�ncia no h�bito que ela tem de fantasiar.</p><p>� Na sua experi�ncia no h�bito que ela tem de fantasiar... Como o senhor pode ter certeza de que ela fantasia? Quando ela contou ter sido imobilizada por trezentas e oitenta noites, o senhor disse que isso era uma fantasia dela, embora seu pr�prio relat�rio demonstre que � verdade.</p><p>� Trata-se de algo bem diferente. N�o existe a menor sombra de prova de que o Bjurman tenha estuprado Lisbeth Salander. Quero dizer, alfinetes espetados no mamilo e viol�ncias t�o excessivas que ela sem d�vida deveria ter sido levada de ambul�ncia para o hospital... � muito claro que esses fatos n�o podem ter ocorrido.</p><p>Annika Giannini dirigiu-se ao juiz Iversen.</p><p>� Eu havia solicitado um videoprojetor para mostrar um DVD...</p><p>� J� est� dispon�vel � disse Iversen.</p><p>� Podemos fechar as cortinas?</p><p>Annika Giannini abriu seu PowerBook e conectou os fios. Virou-se para sua cliente.</p><p>� Lisbeth. N�s vamos assistir a um filme. Voc� est� preparada para isso?</p><p>� Eu j� vivi esse filme � respondeu Lisbeth secamente.</p><p>� E tenho sua autoriza��o para mostr�-lo?</p><p>Lisbeth disse que sim com a cabe�a. Manteve o tempo todo o olhar fixo em Peter Teleborian.</p><p>� Voc� poderia nos dizer quando este filme foi feito?</p><p>� No dia 7 de mar�o de 2003.</p><p>� Quem filmou?</p><p>� Eu. Usei uma c�mera oculta, que integra o equipamento-padr�o da Milton Security.</p><p>� Um momento � exclamou o procurador Ekstr�m. � Isso est� come�ando a parecer um verdadeiro circo.</p><p>� O que vamos assistir? � perguntou o juiz Iversen com voz cortante.</p><p>�� Peter Teleborian sustenta que o relato de Lisbeth Salander � pura inven��o. Vou lhe provar que � ver�dico, palavra por palavra. O filme tem noventa minutos, vou mostrar apenas alguns trechos. Devo alertar que cont�m cenas desagrad�veis.</p><p>� Trata-se de alguma esp�cie de arma��o? � perguntou Ekstr�m.</p><p>� S� h� uma maneira de saber � disse Annika Giannini, e deu in�cio � proje��o.</p><p>� Voc� n�o sabe ver as horas? � cumprimentou Bjurman com raiva. A c�mera penetrou no seu apartamento.</p><p>Passados nove minutos, o juiz Iversen bateu na mesa com o martelo, no exato instante em que o dr. Bjurman era imortalizado tentando enfiar um p�nis artificial no �nus de Lisbeth Salander. Annika Giannini regulara o som num volume mais alto. Os gritos de Lisbeth abafados pela fita adesiva que lhe cobria a boca ressoavam na sala de audi�ncias.</p><p>� Pare o filme � disse Iversen com voz forte e determinada. Annika Giannini apertou o stop. A luz da sala foi acesa. O juiz Iversen estava vermelho. O procurador Ekstr�m, petrificado. Peter Teleborian, l�vido.</p><p>�� Doutora Giannini, quanto tempo a senhora disse que durava esse filme? � perguntou o juiz Iversen.</p><p>� Noventa minutos. O estupro propriamente dito se dividiu em v�rias partes durante cerca de seis horas, mas minha cliente s� guarda uma vaga lembran�a da viol�ncia das �ltimas horas. � Annika Giannini virou-se ent�o para Teleborian. � Em compensa��o, vemos a cena em que o Bjurman fura o mamilo da minha cliente com um alfinete, isso que o doutor Teleborian afirma ser uma manifesta��o da imagina��o desenfreada de Lisbeth Salander. Isso se d� aos setenta e dois minutos, e proponho exibir o epis�dio aqui e agora.</p><p>�� Obrigado, mas n�o ser� necess�rio � disse Iversen. � Senhorita Salander...</p><p>Por um momento, ele perdeu o fio da meada e n�o soube como prosseguir.</p><p>� Senhorita Salander, por que fez esse filme?</p><p>� O Bjurman j� tinha me violentado uma vez e estava exigindo mais. Na primeira vez, fui for�ada a chupar aquele velho nojento. Achei que ele ia repetir a dose e queria ter provas suficientes para poder chantagear o velho e mant�-lo bem longe de mim. Mas eu o subestimei.</p><p>�� Mas por que n�o o denunciou por estupro agravado, j� que tinha provas... t�o contundentes?</p><p>� Eu n�o falo com policiais � disse Lisbeth Salander em tom monoc�rdio.</p><p>Ent�o, de repente, Holger Palmgren se levantou da cadeira de rodas. Apoiou-se na beira da mesa. Sua voz estava muito clara.</p><p>� Por princ�pio, nossa cliente n�o fala com policiais e com qualquer pessoa investida de alguma autoridade, muito menos com psiquiatras. O motivo � muito simples. Desde crian�a, ela tentou o tempo todo contar � pol�cia, aos assistentes sociais e �s autoridades que sua m�e era violentamente agredida por Alexandre Zalachenko. Todas as vezes, ela � que foi punida, porque os funcion�rios do Estado tinham resolvido que Zalachenko era mais importante que Salander.</p><p>Ele pigarreou e prosseguiu.</p><p>� Quando ela acabou se dando conta de que ningu�m lhe daria ouvidos, a �nica sa�da foi tentar salvar a m�e sendo violenta com Zalachenko E a� esse canalha que se diz m�dico � ele apontou para Teleborian � redigiu um diagn�stico psiqui�trico falsificado, declarando-a doente mental, o que lhe permitiu manter Lisbeth imobilizada na Sankt Stefan por trezentas e oitenta noites. Que merda! E o que eu tenho a dizer.</p><p>Palmgren se sentou. Iversen parecia surpreso com a explos�o de Palm-gren. Dirigiu-se a Lisbeth Salander.</p><p>� A senhorita talvez queira fazer uma pausa...</p><p>� Por qu�? � perguntou Lisbeth.</p><p>�� Bem, ent�o vamos continuar. Doutora Giannini, esse v�deo vai ser examinado, vou pedir uma avalia��o t�cnica sobre a autenticidade dele. Por enquanto vamos dar seguimento � audi�ncia.</p><p>� Naturalmente. Eu tamb�m acho isso muito desagrad�vel. Mas a verdade � que minha cliente foi v�tima de abusos f�sicos, ps�quicos e judici�rios. E a pessoa respons�vel por essa situa��o deplor�vel � Peter Teleborian. Ele traiu seu juramento de m�dico e traiu sua paciente. Junto com Gunnar Bj�rck, colaborador de um grupo irregular dentro da Pol�cia de Seguran�a, ele forjou uma avalia��o psiqui�trica com o objetivo de trancafiar uma testemunha inc�moda. Acho que deve ser um caso �nico na hist�ria jur�dica da Su�cia.</p><p>� Essas acusa��es s�o inacredit�veis � disse Peter Teleborian. � Eu procurei ajudar Lisbeth Salander da melhor maneira poss�vel. Ela tentou matar o pai. Era evidente que havia algo errado...</p><p>Annika Giannini o interrompeu.</p><p>� Eu agora gostaria de chamar a aten��o do tribunal para outras avalia��es psiqui�tricas m�dico-legais da minha cliente realizadas pelo doutor Teleborian. A avalia��o mencionada hoje, nesta audi�ncia. Afirmo que ela � falsa, t�o falsa quanto a de 1991.</p><p>� Mas afinal, isso �...</p><p>� Excel�ncia, poderia pedir � testemunha que pare de me interromper?</p><p>� Senhor Teleborian...</p><p>� Eu vou me calar. Mas s�o acusa��es inconceb�veis. � natural que eu me insurja...</p><p>�� Senhor Teleborian, fique calado at� que lhe fa�am uma pergunta. Prossiga, doutora Giannini.</p><p>� Aqui est� o relat�rio de psiquiatria legal que o doutor Teleborian apresentou a este tribunal. Baseia-se em supostas observa��es da minha cliente, que teriam ocorrido ap�s sua transfer�ncia para a casa de deten��o de Kronoberg, em 6 de junho, e se estendido at� o dia 5 de julho.</p><p>� Foi o que entendi � disse o juiz Iversen.</p><p>� Doutor Teleborian, � verdade que o senhor n�o teve a oportunidade de realizar testes ou observa��es com minha cliente antes do dia 6 de junho? Antes disso, sabemos que ela se encontrava isolada num quarto do hospital Sahlgrenska.</p><p>� Sim � disse Teleborian.</p><p>� Por duas vezes o senhor tentou ter acesso � minha cliente no Sahlgrenska. Nas duas vezes, esse acesso lhe foi negado. Correto?</p><p>� Sim.</p><p>Annika Giannini abriu novamente sua pasta e dela tirou um documento. Contornou a mesa e o entregou ao juiz Iversen.</p><p>� Bem, certo � disse Iversen. � � uma c�pia da avalia��o do doutor Teleborian. O que isso pretende provar?</p><p>� Eu gostaria de chamar duas testemunhas que est�o aguardando do lado de fora da sala.</p><p>� Quem s�o elas?</p><p>� Mikael Blomkvist, da revista Millennium, e o delegado Torsten Edk-linth, diretor da Prote��o � Constitui��o da Pol�cia de Seguran�a, ou seja, da Sapo.</p><p>� E eles est�o esperando l� fora?</p><p>� Sim.</p><p>� Fa�a-os entrar � disse o juiz Iversen.</p><p>� Isso � contra as regras � reclamou o procurador Ekstr�m, que fazia algum tempo estava calado.</p><p>Quase em estado de choque, Ekstr�m se deu conta de que Annika Giannini estava reduzindo a p� sua principal testemunha. O filme era arrasador.</p><p>Iversen ignorou Ekstr�m e fez sinal ao meirinho para que abrisse a porta Mikael Blomkvist e Torsten Edklinth entraram.</p><p>� Em primeiro lugar, gostaria de chamar Mikael Blomkvist.</p><p>� Eu pediria a Peter Teleborian que se retirasse por um instante.</p><p>� J� terminou comigo? � perguntou Teleborian.</p><p>� N�o, longe disso � disse Annika Giannini.</p><p>Mikael Blomkvist tomou o lugar de Teleborian no banco das testemunhas. O juiz Iversen passou rapidamente pelas formalidades e Mikael jurou falar apenas a verdade.</p><p>Annika Giannini se aproximou de Iversen e pediu emprestado, por um momento, o relat�rio psiqui�trico m�dico-legal que acabara de lhe entregar. Estendeu a c�pia para Mikael.</p><p>� Voc� j� viu este documento?</p><p>� J� vi, sim. Tenho tr�s vers�es dele. Obtive a primeira por volta de 12 de maio, a segunda em 19 de maio e a terceira � esta, portanto � em 3 de junho.</p><p>� Poderia nos dizer como essa c�pia chegou �s suas m�os?</p><p>� Eu a obtive, na condi��o de jornalista, de uma fonte que n�o pretendo revelar.</p><p>Lisbeth Salander tinha os olhos grudados em Peter Teleborian. De repente, ele ficou l�vido.</p><p>� O que voc� fez com esse relat�rio?</p><p>� Entreguei a Torsten Edklinth, da Prote��o � Constitui��o.</p><p>� Obrigada, Mikael. Vou chamar agora Torsten Edklinth � disse Annika Giannini pegando de volta o relat�rio. Ela o entregou a Iversen, que o segurou, pensativo.</p><p>Repetiu-se a formalidade do juramento.</p><p>�� Delegado Edklinth, � verdade que o senhor recebeu de Mikael Blomkvist um relat�rio m�dico-legal sobre Lisbeth Salander?</p><p>� Sim.</p><p>� Quando foi isso?</p><p>� Est� registrado na DGPN/S�po em 4 de junho.</p><p>� E trata-se da mesma avalia��o que acabo de entregar ao juiz Iversen?</p><p>� Se a minha assinatura est� no verso do relat�rio, trata-se da mesma avalia��o.</p><p>Iversen virou o documento e constatou que havia a assinatura de Torsten no verso.</p><p>�� Delegado Edklinth, poderia nos explicar como � poss�vel o senhor ter recebido uma avalia��o psiqui�trica m�dico-legal de uma pessoa que se encontrava isolada no hospital Sahlgrenska?</p><p>� Sim.</p><p>� Pode falar.</p><p>� A avalia��o m�dico-legal de Peter Teleborian � uma falsifica��o que ele redigiu junto com um tal de Jonas Sandberg, da mesma forma como em 1991 ele produziu uma falsifica��o similar junto com Gunnar Bj�rck.</p><p>� Isso � mentira � disse Teleborian num fio de voz.</p><p>� E mentira? � perguntou Annika Giannini.</p><p>� N�o, de forma alguma. Eu talvez deva mencionar que Jonas Sandberg � uma das cerca de dez pessoas que foram detidas hoje por ordem do procurador-geral da na��o. Ele foi preso por cumplicidade no assassinato de Gunnar Bj�rck. Ele integra um grupo irregular que operava no cora��o da Pol�cia de Seguran�a e protegeu Alexander Zalachenko a partir dos anos 1970. Esse mesmo grupo est� por tr�s da decis�o de internar Lisbeth Salander em 1991. Temos uma enorme quantidade de provas, assim como a confiss�o do chefe do grupo.</p><p>Um sil�ncio mortal caiu sobre a sala.</p><p>� Doutor Peter Teleborian, o senhor gostaria de fazer algum coment�rio sobre o que acaba de ser dito? � perguntou o juiz Iversen.</p><p>Teleborian balan�ou a cabe�a.</p><p>� Nesse caso, aviso-lhe que o senhor pode ser processado por perj�rio e, eventualmente, sofrer outras acusa��es � disse o juiz Iversen.</p><p>� Se me permite... � disse Mikael Blomkvist.</p><p>� Sim? � disse Iversen.</p><p>�� O Peter Teleborian est� com problemas muito mais s�rios do que esse. Atr�s dessa porta h� duas policiais que gostariam de v�-lo.</p><p>� O senhor quer dizer que eu deveria mand�-las entrar?</p><p>� Sem d�vida seria uma boa id�ia.</p><p>Iversen fez sinal ao meirinho, que deixou entrar a inspetora Sonja Modig e uma mulher que o procurador Ekstr�m reconheceu de imediato. Chamava--se Lisa Collsj�, inspetora da Brigada de Prote��o de Menores, a unidade da Pol�cia Nacional que tinha por miss�o, entre outras, investigar abusos sexuais e pedofilia.</p><p>� Por que as senhoras est�o aqui? � perguntou Iversen.</p><p>� Para dar voz de pris�o a Peter Teleborian t�o logo seja poss�vel, sem que a nossa interven��o perturbe as delibera��es deste tribunal.</p><p>Iversen olhou para Annika Giannini.</p><p>� Eu ainda n�o terminei com ele, mas, enfim, tudo bem.</p><p>� Fa�am seu trabalho � disse Iversen.</p><p>Lisa Collsj� acercou-se de Peter Teleborian.</p><p>�� O senhor est� preso por viola��o agravada das leis de pornografia infantil.</p><p>Peter Teleborian j� n�o respirava. Annika Giannini reparou que a luz parecia ter sumido de seus olhos.</p><p>� Mais precisamente pela apreens�o de mais de oito mil fotos de pornografia infantil em seu computador.</p><p>Ela se inclinou e pegou a maleta de Peter Teleborian, onde estava seu computador.</p><p>� O computador est� sendo apreendido � disse ela.</p><p>Enquanto o levavam para fora do tribunal, o olhar de Lisbeth Salander ardia feito fogo nas costas de Peter Teleborian.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>28. SEXTA-FEIRA 15 DE JULHO � S�BADO 16 DE JULHO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>O juiz Iversen bateu com a caneta na beirada da mesa para fazer cessar o burburinho que se irrompera depois da pris�o de Peter Teleborian. Ent�o, permaneceu um longo momento calado, claramente inseguro quanto � maneira de dar seguimento aos trabalhos. Dirigiu-se ao procurador Ekstr�m.</p><p>� O senhor tem algo a acrescentar aos fatos ocorridos nessa �ltima hora?</p><p>Richard Ekstr�m n�o fazia a menor id�ia do que dizer. Levantou-se e olhou para Iversen, depois para Torsten Edklinth, antes de virar a cabe�a e encontrar o olhar implac�vel de Lisbeth Salander. Entendeu que a batalha estava perdida. Voltou o olhar para Mikael Blomkvist e se deu conta, repentinamente apavorado, de que ele pr�prio estava arriscado a aparecer na revista Milennium... O que seria uma cat�strofe impens�vel.</p><p>Em compensa��o, ele, que chegara ao julgamento certo de conhecer todos os diferentes aspectos do caso, n�o entendia o que se passara.</p><p>Ele compreendera o delicado equil�brio necess�rio para a seguran�a da na��o ap�s v�rias conversas francas com o delegado Georg Nystr�m. Tinham lhe garantido que o relat�rio Salander de 1991 era forjado. Recebera toda a informa��o confidencial de que precisava. Fizera perguntas � centenas delas � para as quais obtivera todas as respostas. Mentiras. E agora estava reduzido a nada, a julgar pelo que dizia a Dra. Giannini. Ele confiara em Peter Teleborian, que parecia t�o... t�o competente e sensato. T�o convincente</p><p>Meu Deus. No que � que eu fui me meter?</p><p>E em seguida:</p><p>Como vou fazer para sair desta encrenca?</p><p>Passou a m�o pelo cavanhaque. Tossiu de leve. Tirou lentamente os �culos.</p><p>� Lamento, mas, ao que parece, fui muito mal informado sobre muitos pontos deste processo.</p><p>Perguntou-se se poderia incriminar os investigadores e, de repente, veio--lhe a imagem do inspetor Bublanski. Bublanski jamais o apoiaria. Se ele ultrapassasse o limite, Bublanski convocaria no ato uma coletiva de imprensa. Acabaria com ele.</p><p>Ekstr�m cruzou o olhar com Lisbeth Salander. Ela esperava pacientemente, com os olhos repletos de curiosidade e sede de vingan�a.</p><p>N�o havia concess�o poss�vel.</p><p>Ele ainda poderia peg�-la por viol�ncias agravadas em Stallarholmen. Provavelmente pudesse peg�-la pela tentativa de assassinato de seu pai em Gosseberga. Isso significava que ele teria de modificar, de improviso, toda a sua estrat�gia e livrar-se de tudo o que estava ligado a Peter Teleborian. Significava que todas as explica��es que a faziam passar por uma psicopata iriam ruir, significava tamb�m que a vers�o de Lisbeth estaria retroativamente fortalecida at� 1991. A coloca��o sob tutela tamb�m iria ruir e...</p><p>E ela ainda tinha o maldito filme que...</p><p>Ent�o uma certeza o invadiu.</p><p>Meu Deus. Ela � inocente!</p><p>� Excel�ncia... eu n�o sei o que aconteceu, mas percebo que n�o posso mais me fiar nos documentos que tenho em m�os.</p><p>� De fato, � isso mesmo � disse Iversen com um tom seco.</p><p>� Acho que preciso solicitar uma pausa, ou a interrup��o do julgamento at� que eu consiga esclarecer o que aconteceu exatamente.</p><p>� Doutora Giannini? � disse Iversen.</p><p>�� Pe�o que minha cliente seja inocentada de todos os crimes de que est� sendo acusada e seja imediatamente posta em liberdade. Pe�o tamb�m que o tribunal de inst�ncias se pronuncie sobre a tutela da senhorita Salander. Considero que ela deva ser indenizada pelas viola��es de que foi v�tima.</p><p>Lisbeth Salander voltou os olhos para o juiz Iversen.</p><p>Sem concess�es.</p><p>O juiz Iversen desviou o olhar para a autobiografia de Lisbeth Salander, e depois para o procurador Ekstr�m.</p><p>�� Eu tamb�m acho uma boa id�ia esclarecer o que aconteceu. Mas temo que o senhor n�o seja a pessoa indicada para conduzir essa instru��o.</p><p>Ele refletiu por um momento.</p><p>� Nesses anos todos como juiz e magistrado, jamais vivi algo nem parecido com a situa��o jur�dica deste caso. Devo admitir que me sinto acuado. Jamais tinha ouvido falar numa testemunha principal de um procurador que tivesse sido presa em pleno tribunal, durante as delibera��es. Jamais tinha visto provas que pareciam t�o convincentes se revelarem falsas. Francamente, n�o sei se, no atual contexto, resta algum ponto de acusa��o do procurador.</p><p>Holger Pahngren deu uma tossidinha, pedindo a palavra.</p><p>� Sim? � perguntou Iversen.</p><p>� Como representante da defesa, s� me resta partilhar seus sentimentos. �s vezes, somos obrigados a dar um passo atr�s e deixar que o bom-senso volte a prevalecer. Gostaria de esclarecer que, enquanto juiz, o senhor s� viu o come�o de um caso que vai abalar a Su�cia at� o alto de suas institui��es. Cerca de dez policiais da Sapo foram presos hoje. Eles ser�o indiciados por assassinatos e por mais uma lista t�o extensa de crimes que vai levar um bocado de tempo at� que a instru��o se conclua.</p><p>� Suponho que eu deva me decidir por uma pausa no julgamento.</p><p>� Com todo o respeito, acho que n�o seria uma boa decis�o.</p><p>� Estou ouvindo.</p><p>Palmgren claramente estava tendo dificuldade em articular as palavras. Mas, falando devagar, conseguiu n�o gaguejar.</p><p>� A Lisbeth Salander � inocente. Sua autobiografia fantasiosa, como dizia o senhor Ekstr�m com tanto desprezo, � ver�dica. E isso pode ser provado. Ela foi v�tima de um escandaloso abuso do Poder Judici�rio. Este tribunal pode ater-se �s normas e seguir com o julgamento por mais algum tempo, at� a absolvi��o. Mas tamb�m temos outra alternativa �bvia. Deixar que uma nova instru��o se encarregue de tudo o que diz respeito a Lisbeth Salander.</p><p>Esta investiga��o j� est� atolada numa lama que cabe ao procurador-geral da na��o limpar.</p><p>� Entendo o que o senhor est� querendo dizer.</p><p>� Na condi��o de juiz, o senhor pode fazer essa escolha agora. O mais s�bio, nesse caso, seria rejeitar o inqu�rito preliminar do procurador e incit�-lo a refazer o seu texto.</p><p>O juiz Iversen fitou Ekstr�m, pensativo.</p><p>� Justi�a seria p�r imediatamente nossa cliente em liberdade. Ela tamb�m mereceria um pedido de desculpas, mas sua reabilita��o vai levar tempo e vai depender do restante da investiga��o.</p><p>� Compreendo seus pontos de vista, doutor Palmgren. Mas para poder declarar a inoc�ncia de sua cliente tenho que entender toda a hist�ria. Isso talvez leve algum tempo...</p><p>Ele hesitou e olhou para Annika Giannini.</p><p>�� Caso eu decida suspender o julgamento at� segunda-feira e se eu concordar com sua solicita��o e decidir que n�o h� mais motivo para que sua cliente permane�a presa, isso significa que voc�s ter�o raz�es para esperar que ela n�o seja condenada a nenhuma pena. Nesse caso, voc�s me garantem que ela ir� se apresentar para as delibera��es quando for chamada?</p><p>� Evidentemente � disse Holger Palmgren, r�pido.</p><p>� N�o � disse Lisbeth Salander com voz cortante.</p><p>Todos os olhares se voltaram para a personagem central dos acontecimentos.</p><p>� O que voc� quer dizer? � perguntou o juiz Iversen.</p><p>� No instante em que o senhor me soltar, eu vou viajar. N�o pretendo dedicar mais nem um minuto do meu tempo a esse processo.</p><p>O juiz Iversen, estupefato, fitou Lisbeth Salander.</p><p>� A senhorita se recusa a se apresentar?</p><p>� Exatamente. Se o senhor quiser que eu responda a mais perguntas, ter� de me manter na casa de deten��o. Assim que me soltar, para mim este caso vira hist�ria passada. E isso n�o inclui ficar � sua disposi��o, ou � disposi��o do Ekstr�m e da pol�cia, por tempo indeterminado.</p><p>O juiz Iversen suspirou. Holger Palmgren pareceu abalado.</p><p>� Concordo com a minha cliente � disse Annika Giannini. � O Estado e as autoridades � que est�o em falta com Lisbeth Salander, e n�o o contr�rio. Ela merece sair desta sala levando uma absolvi��o na bagagem e podendo esquecer essa hist�ria toda.</p><p>Sem nenhuma concess�o.</p><p>O juiz Iversen consultou o rel�gio.</p><p>� S�o quase quinze horas. Isso significa que a senhora est� me obrigando a manter sua cliente na deten��o.</p><p>�� Se for essa a sua decis�o, n�s a acatamos. Como representante de Lisbeth Salander, pe�o que ela seja absolvida das acusa��es que o procurador Ekstr�m fez contra ela. Pe�o que liberte minha cliente desde j�. E pe�o que sua antiga tutela seja anulada e que ela recobre imediatamente seus direitos civis.</p><p>� A quest�o da tutela � processo muit�ssimo mais demorado. Vou precisar da opini�o de especialistas, que ir�o examin�-la. N�o posso deliberar sobre isso num abrir e fechar de olhos.</p><p>� N�o � disse Annika Giannini. � N�o aceitamos essa proposta.</p><p>� Como assim?</p><p>� Lisbeth Salander tem os mesmos direitos civis que qualquer sueco. Ela foi v�tima de um crime. Sua incapacidade foi declarada tendo como base uma falsifica��o. Essa falsifica��o pode ser provada. A decis�o de coloc�-la sob tutela j� n�o tem, portanto, fundamento jur�dico e deve ser anulada incondicionalmente. N�o h� motivo algum para que minha cliente se submeta a uma avalia��o psiqui�trica m�dico-legal. Ningu�m precisa provar que n�o � louco quando foi v�tima de um crime.</p><p>O juiz Iversen refletiu por um instante.</p><p>�� Doutora Giannini � disse ele. � Reconhe�o que estamos diante de uma situa��o excepcional. Decreto um intervalo de quinze minutos para que possamos esticar as pernas e nos refazer um pouco. N�o tenho o menor desejo que sua cliente passe a noite na casa de deten��o se ela for inocente, mas isso significa que esta audi�ncia dever� prosseguir at� que tenhamos conclu�do tudo.</p><p>� Para mim parece perfeito � disse Annika Giannini.</p><p>Mikael Blomkvist deu um beijo em sua irm�.</p><p>� Como foi?</p><p>� Mikael, acho que fui brilhante com o Teleborian. Eu literalmente acabei com ele.</p><p>� Eu te falei que voc� ia ser imbat�vel nesse processo. No fim das contas, o tema principal desta hist�ria n�o s�o nem os espi�es nem os organismos secretos dentro do Estado, e sim a viol�ncia de todos os dias cometida contra as mulheres, e os homens que tornam isso poss�vel. Do pouco que eu soube deu para ver que voc� foi fant�stica. Logo ela vai ser absolvida.</p><p>� Sim. N�o h� mais nenhuma d�vida sobre isso.</p><p>Ap�s o intervalo, o juiz Iversen bateu novamente na mesa.</p><p>� Posso lhe pedir que me conte esta hist�ria desde o come�o, para que eu possa formar uma opini�o sobre o que de fato aconteceu?</p><p>� Naturalmente � disse Annika Giannini. � Vamos come�ar pela espantosa hist�ria de um grupo de policiais da Sapo que se autodenomina "a Se��o" e que se encarregou de cuidar de um dissidente russo em meados dos anos 1970. Isso tudo est� no livro que a Millennium lan�ou hoje. Aposto como vai ser a principal not�cia dos telejornais da noite.</p><p>Por volta das seis da tarde, o juiz Iversen decidiu colocar Lisbeth Salan-der em liberdade e anular sua tutela.</p><p>Mas com uma condi��o. O juiz J�rgen Iversen exigiu que Lisbeth se submetesse a um interrogat�rio, a fim de depor oficialmente sobre o caso Zalachenko. Lisbeth a princ�pio se recusou secamente. Seguiu-se um di�logo nervoso, at� que o juiz Iversen ergueu o tom de voz. Inclinou-se para a frente e encarou-a com severidade.</p><p>�� Senhorita Salander, se eu estou anulando a sua tutela isso significa que a senhorita tem exatamente os mesmos direitos que todos os outros cidad�os. Mas significa tamb�m que tem os mesmos deveres. � seu dever administrar seu or�amento, pagar impostos, obedecer � lei e auxiliar a pol�cia nas investiga��es de crimes graves. Ser�, portanto, convocada a depor como qualquer cidad�o que tem informa��es a oferecer para um inqu�rito.</p><p>A l�gica daquele racioc�nio pareceu surtir efeito em Lisbeth Salander. Ela esticou o l�bio inferior, pareceu descontente, mas parou de argumentar.</p><p>� Depois que a pol�cia colher seu depoimento, o diretor do inqu�rito preliminar � nesse caso espec�fico, o procurador-geral da na��o � ir� avaliar a necessidade de cham�-la para depor num eventual futuro processo. Como qualquer cidad�o sueco, a senhorita pode se negar a obedecer � convoca��o. O que a senhorita vai fazer n�o me diz respeito, mas haver� uma conta a ser paga. Caso se negue a comparecer, poder� ser condenada, como toda pessoa maior de idade, por obstru��o da a��o da Justi�a e perj�rio. N�o h� exce��es.</p><p>Lisbeth Salander ficou ainda mais carrancuda.</p><p>� O que a senhorita decide? � perguntou Iversen.</p><p>Depois de refletir um minuto, ela assent�u rapidamente com a cabe�a.</p><p>Tudo bem. Uma pequena concess�o.</p><p>No in�cio da noite, ao repassar o caso Zalachenko, Annika Giannini bateu forte no procurador Ekstr�m. Aos poucos, Ekstr�m foi admitindo que as coisas tinham se passado mais ou menos como Annika Giannini havia descrito. Ele recebera assist�ncia do delegado Georg Nystr�m no inqu�rito preliminar e aceitara informa��es de Peter Teleborian. No que lhe dizia respeito, n�o havia conspira��o alguma. Se na condi��o de chefe do inqu�rito preliminar ele fizera o jogo da Se��o, fora na maior boa-f�. Quando percebeu a extens�o do que de fato havia ocorrido, resolveu desistir do processo contra Lisbeth Salander. Tal decis�o significava que v�rias formalidades administrativas poderiam ser descartadas. O juiz Iversen pareceu aliviado.</p><p>Holger Palmgren estava exausto ao fim de seu primeiro dia num tribunal depois de tantos anos. Foi obrigado a voltar para o seu quarto no centro de reabilita��o de Ersta. Um agente uniformizado da Milton Security o levou at� l�. Antes de sair, ele p�s a m�o no ombro de Lisbeth Salander. Entreolharam--se. Depois de alguns instantes ela balan�ou a cabe�a e sorriu ligeiramente.</p><p>As sete da noite, Annika Giannini teclou rapidamente o n�mero de Mikael Blomkvist para avisar que Lisbeth Salander fora inocentada de todos os crimes de que era acusada, mas que ainda teria de permanecer algumas horas no Pal�cio da Pol�cia para prestar depoimento.</p><p>O an�ncio chegou quando todos os funcion�rios da Millennium se encontravam na reda��o. O telefone n�o tinha parado de tocar desde que os primeiros exemplares come�aram a ser distribu�dos por entrega especial para outras reda��es de Estocolmo. Durante a tarde, a Tv4 levara ao ar os primeiros programas especiais sobre Zalachenko e a Se��o. Aquilo estava virando uma verdadeira festa da m�dia.</p><p>Mikael foi at� o meio da sala, p�s os dedos na boca e assobiou forte.</p><p>� Acabo de ser informado que a Lisbeth foi totalmente absolvida.</p><p>Os aplausos brotaram espontaneamente. Em seguida, cada um continuou falando ao seu telefone como se nada tivesse acontecido.</p><p>Mikael ergueu os olhos e observou a tev� ligada no meio da reda��o. Acabava de come�ar o Nyheterna na TV4. O tema inclu�a um trecho do filme que mostrava Jonas Sandberg plantando coca�na no apartamento da Bellmansgatan.</p><p>� Aqui, um funcion�rio da Sapo escondendo coca�na na casa do jornalista Mikael Blomkvist da revista Millennium.</p><p>Em seguida, teve in�cio o telejornal.</p><p>� Cerca de dez funcion�rios da Pol�cia de Seguran�a foram presos hoje por crimes agravados, entre eles assassinatos. Bem-vindos ao programa desta noite, uma longa edi��o especial.</p><p>Mikael cortou o som quando a Mo�a da TV4 apareceu e ele viu a si pr�prio sentado na poltrona do est�dio. J� sabia o que tinha dito. Seu olhar foi para a mesa que Dag Svensson usara para trabalhar. Os vest�gios de sua reportagem sobre o tr�fico de mulheres haviam desaparecido e a mesa tinha virado um dep�sito de jornais e pilhas de pap�is desarrumados que ningu�m guardava.</p><p>Naquela mesa � que o caso Zalachenko come�ara para Mikael. Gostaria muito que Dag Svensson pudesse assistir ao seu final. Alguns exemplares do livro de Dag sobre o tr�fico de mulheres, com a tinta ainda fresca, estavam expostos ali, junto com o livro sobre a Se��o.</p><p>Voc� teria gostado, Dag.</p><p>Ouviu o telefone tocando em sua sala, mas n�o encontrou for�as para ir atender. Fechou a porta e entrou na sala de Erika Berger, deixando-se cair numa das confort�veis poltronas diante da janela. Erika estava ao telefone. Ele olhou ao redor. Fazia um m�s que ela tinha voltado, mas ainda n�o tivera tempo de encher a sala com todos os objetos pessoais que ela havia levado ao partir, em abril. As prateleiras da estante estavam vazias e n�o havia quadros nas paredes.</p><p>� Qual � a sensa��o? � ela perguntou depois que desligou.</p><p>� Acho que estou feliz � disse ele. Ela riu.</p><p>� A Se��o vai causar devasta��es. O pessoal est� a mil em tudo que � reda��o. O que voc� acha de aparecer na Aktuellt agora �s nove?</p><p>� N�o.</p><p>� Foi o que eu pensei.</p><p>� Vamos ter que falar sobre isso por meses. N�o precisamos tirar o pai da forca.</p><p>Ela concordou com a cabe�a.</p><p>� O que voc� vai fazer hoje � noite?</p><p>� N�o sei.</p><p>Ele mordeu o l�bio inferior.</p><p>� Erika... eu...</p><p>� Rosa � disse Erika Berger, sorrindo. Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>� E s�rio?</p><p>� N�o sei.</p><p>� Ela est� superapaixonada.</p><p>� Acho que eu tamb�m estou apaixonado � disse ele.</p><p>� Vou manter dist�ncia at� voc� ter certeza. Ele meneou a cabe�a.</p><p>� Talvez � disse ela.</p><p>�s oito da noite, Dragan Armanskij e Susanne Linder foram at� a reda��o da Millennium. Achavam que a ocasi�o pedia champanhe e chegaram com uma sacola repleta de garrafas. Erika Berger abra�ou Susanne Linder e lhe mostrou toda a reda��o, enquanto Armanskij se sentava na sala de Mikael.</p><p>Beberam. Durante algum tempo, nenhum dos dois falou. Armanskij foi quem quebrou o sil�ncio.</p><p>� Sabe o que mais, Blomkvist? Quando a gente se conheceu durante aquele caso em Hedestad, eu francamente te detestava.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Voc�s dois apareceram depois que voc� contratou a Lisbeth para fazer umas pesquisas.</p><p>� Lembro.</p><p>� Acho que fiquei com ci�mes. Voc�s se conheciam havia apenas algumas horas. Ela ria com voc�. Eu tentei ser amigo da Lisbeth durante anos e nunca consegui que ela relaxasse.</p><p>� Bem... eu tamb�m n�o consegui grande coisa. Permaneceram algum tempo em sil�ncio.</p><p>� Que bom que acabou � disse Armanskij.</p><p>� Am�m � disse Mikael.</p><p>O interrogat�rio oficial de Lisbeth Salander foi conduzido pelos inspetores Jan Bublanski e Sonja Modig. Eles tinham acabado de estar com suas respectivas fam�lias depois de um dia de trabalho especialmente longo, e precisaram voltar quase em seguida para o Pal�cio da Pol�cia em Kungsholmen.</p><p>Salander estava sendo assistida por Annika Giannini, a qual, por�m, n�o teve motivo para muitas interven��es. Lisbeth Salander expressava de modo bem preciso suas respostas a todas as perguntas de Bublanski e Modig.</p><p>Coerente com seu jeito de ser, mentiu em dois pontos centrais. Ao descrever o que se passara durante a luta em Stallarholmen, teimou que Benny Nieminen � quem tinha, por engano, atirado no p� de Carl-Magnus "Magge" Lundin no momento em que ela o atingira com o cassetete el�trico. Onde conseguira o cassetete el�trico? Arrancara-o de Magge Lundin, afirmou.</p><p>Tanto Bublanski como Modig exibiram uma express�o bastante c�tica. Mas n�o havia nenhuma prova ou testemunha para contradizer sua vers�o. Benny Nieminen, a rigor, poderia protestar, mas ele se negava a comentar o incidente. O fato � que ele ignorava tudo o que acontecera nos segundos que se seguiram ao seu nocaute pelo cassetete el�trico.</p><p>Quanto � viagem de Lisbeth para Gosseberga, ela explicou que o objetivo havia sido se encontrar com o pai e convenc�-lo a se entregar para a pol�cia.</p><p>Ao dizer isso, Lisbeth Salander exibiu a maior candura.</p><p>Ningu�m tinha como definir se ela estava ou n�o dizendo a verdade. Annika Giannini n�o tinha a menor id�ia a respeito.</p><p>A �nica pessoa que sabia que Lisbeth Salander fora at� a granja de Gosseberga com a firme inten��o de dar um fim definitivo em seu relacionamento com o pai era Mikael Blomkvist. Mas ele fora retirado da sala de audi�ncias pouco ap�s o reinicio do julgamento. Ningu�m sabia que ele e Lisbeth Salander haviam mantido longas conversas noturnas via internet durante a estada dela em Sahlgrenska.</p><p>A imprensa perdeu a liberta��o de Lisbeth Salander. Se o hor�rio tivesse sido divulgado, teria havido um ajuntamento gigantesco diante do Pal�cio da Pol�cia. Mas os rep�rteres estavam exaustos depois do caos instalado naquele dia com a publica��o da Millennium, dia em que tamb�m alguns policiais da Sapo prenderam outros policiais da Sapo.</p><p>A Mo�a da TV4, como sempre, foi a �nica jornalista a saber o que estava acontecendo. Sua reportagem de uma hora tornou-se um cl�ssico que, alguns meses depois, receberia o pr�mio de Melhor Reportagem Informativa da Televis�o.</p><p>Sonja Modig tirou Lisbeth Salander do Pal�cio da Pol�cia simplesmente levando-a at� a garagem �om Annika Giannini e de l� para o escrit�rio da advogada em Kungsholms Kyrkoplan. Ao chegar, trocaram de carro e pegaram o de Annika Giannini. Annika esperou Sonja sumir de vista para ligar o motor. Foi pegando a dire��o de S�dermalm. Quando passavam perto do Pal�cio do Parlamento, ela quebrou o sil�ncio.</p><p>� Para onde vamos? � perguntou. Lisbeth pensou por alguns segundos.</p><p>� Voc� pode me deixar num ponto qualquer da Lundagatan.</p><p>� A Miriam Wu n�o est� l�.</p><p>Lisbeth lan�ou um olhar de esguelha para Annika Giannini.</p><p>�� Ela foi para a Fran�a pouco depois que teve alta do hospital. Est� morando com os pais, caso queira entrar em contato com ela.</p><p>� Por que voc� n�o me contou?</p><p>� Voc� n�o perguntou.</p><p>� Humm.</p><p>� Ela precisava de um tempo. O Mikael, hoje cedo, me pediu para te entregar isto aqui. Disse que voc� provavelmente ia querer de volta.</p><p>Estendeu um molho de chaves. Lisbeth o pegou sem dizer uma palavra</p><p>� Obrigada. Ent�o voc� pode me deixar em algum ponto da Folkun-gagatan.</p><p>� Voc� n�o quer dizer onde mora nem para mim?</p><p>� Mais tarde. Agora eu quero que me deixem em paz.</p><p>� Tudo bem.</p><p>Annika tinha ligado o celular ao sair do Pal�cio da Pol�cia depois do interrogat�rio. Quando passaram por Slussen, ele come�ou a apitar. Ela olhou a tela.</p><p>� � o Mikael. Nessas �ltimas horas ele ligou mais ou menos de dez em dez minutos.</p><p>� Eu n�o quero falar com ele.</p><p>� Tudo bem. Posso fazer uma pergunta pessoal?</p><p>� Qual?</p><p>� O que o Mikael fez para voc� ter tanto �dio dele? Quero dizer, sem ele voc� hoje estaria provavelmente sendo internada num hospital psiqui�trico.</p><p>� Eu n�o tenho �dio do Mikael. Ele n�o me fez nada. S� n�o quero falar com ele agora.</p><p>Annika Giannini observou sua cliente com o canto do olho.</p><p>� N�o pretendo me meter nas suas hist�rias, mas voc� n�o resistiu aos encantos dele, n�o foi?</p><p>Sem responder, Lisbeth olhou pela janela lateral.</p><p>� O meu irm�o � totalmente irrespons�vel quando se trata de relacionamentos. Ele vai transando com as mulheres pela vida, sem perceber que pode machucar aquelas que v�em nele mais do que um caso eventual.</p><p>Lisbeth a encarou.</p><p>� Eu n�o quero falar sobre o Mikael com voc�.</p><p>� Tudo bem � disse Annika. Estacionou rente � cal�ada pouco antes da Erstagatan. Aqui est� bom para voc�?</p><p>� Est�.</p><p>Permaneceram em sil�ncio. Lisbeth n�o esbo�ou nenhum gesto para abrir a porta. Passados alguns momentos, Annika desligou o motor.</p><p>� O que vai acontecer agora? � perguntou Lisbeth afinal.</p><p>� O que vai acontecer � que a partir de hoje voc� n�o est� mais sob tutela. Pode fazer o que bem entender. Embora a gente tenha sido muito firme hoje no tribunal, ainda resta uma boa papelada para ajeitar. Vai haver inqu�ritos de responsabilidade dentro da Comiss�o de Tutelas, quest�es sobre a indeniza��o e coisas assim. E a instru��o vai seguir seu curso.</p><p>� Eu n�o quero indeniza��o. Quero que me deixem em paz.</p><p>�� Entendo. Mas o que voc� acha n�o tem muita import�ncia. Esse processo vai correr apesar de voc�. Proponho que contrate um advogado para defender seus interesses.</p><p>� Voc� n�o quer continuar sendo minha advogada?</p><p>Annika esfregou os olhos. Depois de passada toda a tens�o daquele dia, sentia-se exaurida. Queria voltar para casa, tomar um banho e deixar que seu marido lhe fizesse uma massagem nas costas.</p><p>� N�o sei. Voc� n�o confia em mim. E eu n�o confio em voc�. N�o quero me ver envolvida num longo processo, em que tudo que vou receber vai ser um sil�ncio frustrante quando eu fizer uma sugest�o ou quiser discutir alguma coisa.</p><p>Lisbeth ficou um bom tempo calada.</p><p>� Eu... eu n�o sou muito boa para me relacionar. Mas confio em voc�. Pareceu quase uma" desculpa.</p><p>� Pode ser. Mas n�o � problema meu se voc� � um zero � esquerda em relacionamentos. S� que isso se torna um problema se eu for te representar.</p><p>Sil�ncio.</p><p>� Voc� quer que eu continue sendo sua advogada? Lisbeth assentiu com a cabe�a. Annika suspirou.</p><p>� Eu moro na Fiskargatan, n�mero 9. Em frente � pra�a de Moseba-cke. Voc� pode me levar at� l�?</p><p>Annika olhou sua cliente com o rabo dos olhos. Por fim, ligou o motor. Deixou que Lisbeth a guiasse at� o endere�o. Pararam a pouca dist�ncia do pr�dio.</p><p>�� Bem � disse Annika. � Vamos fazer um teste. Minhas condi��es s�o as seguintes. Vou te representar. Quando eu quiser entrar em contato com voc�, quero que voc� atenda. Quando quiser saber como voc� quer que eu atue, vou querer respostas claras. Se eu ligar pedindo que voc� fale com algum policial, ou procurador, ou seja l� quem for, relacionado � investiga��o, � porque acho necess�rio. E exijo que voc� compare�a ao local na hora marcada, sem criar caso. Voc� pode viver com isso?</p><p>� Est� certo.</p><p>� E se voc� come�ar a criar caso, eu deixo de ser sua advogada. Entendeu?</p><p>Lisbeth fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Outra coisa. N�o quero me ver no meio dessa hist�ria entre voc� e o meu irm�o. Se tiver algum problema com ele, resolva com ele. Mas o fato � que ele n�o � seu inimigo.</p><p>� Eu sei. Vou dar um jeito nisso. Mas preciso de um tempo.</p><p>� O que voc� pretende fazer agora?</p><p>� N�o sei. Voc� pode entrar em contato comigo por e-mail. Prometo responder o mais r�pido poss�vel, mas eu talvez n�o verifique a caixa postal todo dia...</p><p>� Voc� n�o vira uma escrava s� porque tem uma advogada. Por enquanto � isso. E agora des�a do carro. Estou exausta e quero ir para casa dormir.</p><p>Lisbeth abriu a porta e desceu do carro. Quando ia fechar a porta, parou. Parecia querer dizer alguma coisa, mas n�o encontrar as palavras. Por um momento, Annika a percebeu com um jeitinho quase vulner�vel.</p><p>� Est� bem � disse Annika. �V� dormir. E n�o se meta em nenhuma encrenca nas pr�ximas semanas.</p><p>Lisbeth Salander ficou parada na cal�ada olhando para Annika Giannini at� os far�is traseiros do carro sumirem ao longe.</p><p>� Obrigada � disse ela afinal.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>29. S�BADO 16 DE JULHO � SEXTA-FEIRA 7 DE OUTUBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Deparou com seu Palm no m�vel do hall de entrada. Tamb�m estavam ali as chaves do seu "carro e a bolsa que ela tinha perdido na noite em que Magge Lundin a agredira em frente ao pr�dio da Lundagatan. Havia cartas abertas e outras fechadas, que algu�m fora pegar na caixa postal da Hornsgatan. Mikael Blomkvist.</p><p>Lentamente, deu uma volta pela parte mobiliada do apartamento. Havia vest�gios dele por todos os lados. Ele dormira em sua cama e trabalhara em seu escrit�rio. Usara sua impressora, e no cesto de pap�is ela achou os rascunhos do texto dele sobre a Se��o, anota��es e rabiscos que ele depois jogou fora.</p><p>Ele comprou e deixou na geladeira um litro de leite, p�o, queijo, pasta de peixe e dez pacotes de Billys Pan Pizza.</p><p>Na mesa da cozinha, ela encontrou um pequeno envelope branco com seu nome. Era um bilhete dele. A mensagem era sucinta. O n�mero do seu celular. Mais nada.</p><p>Lisbeth Salander percebeu de repente que a bola estava com ela. Ele n�o pretendia procur�-la. Ele tinha conclu�do a mat�ria, devolvera as chaves dela e n�o estava pensando em dar not�cias. Que cara mais teimoso, porra!</p><p>Ligou a cafeteira, preparou quatro torradas e em seguida se acomodou no recanto da janela, contemplando o parque de Djurg�rden. Acendeu um cigarro e se p�s a refletir.</p><p>Tudo tinha acabado, no entanto sua vida lhe parecia mais travada do que nunca.</p><p>Miriam Wu tinha ido para a Fran�a. A culpa � minha se voc� quase morreu. Ela receara o momento de rever Miriam Wu, e tinha decidido que, assim que fosse libertada, esta seria sua primeira visita. E a Miriam n�o est� em casa, est� na Fran�a. Droga!</p><p>De repente sentiu-se em d�vida com um monte de gente.</p><p>Holger Palmgren. Dragan Armanskij. Teria de procur�-los para agradecer. Paolo Roberto. E Praga, e Trinity. Se quisesse ser bem objetiva, at� aqueles malditos tiras, Bublanski e Modig, tinham ficado do seu lado. E ela n�o gostava de dever nada para ningu�m. Sentia-se como um pe�o num jogo sobre o qual n�o tinha o menor controle.</p><p>Maldito Super-Blomkvist. E talvez tamb�m Maldita Erika Berger, com suas lindas covinhas, belas roupas e autoconfian�a.</p><p>Acabou, dissera Annika Giannini quando elas estavam deixando o Pal�cio da Pol�cia. Sim. O julgamento tinha acabado. Acabado para Annika Giannini. E acabado para Mikael Blomkvist, que publicara a sua mat�ria, ia aparecer na tev� e, de quebra, com certeza ainda ia ganhar um ou outro maldito pr�mio.</p><p>Mas n�o tinha acabado para Lisbeth Salander. Aquele era s� o primeiro dia do resto de sua vida.</p><p>�s quatro da manh�, parou de refletir. Jogou sua roupa de punk no ch�o do quarto e foi at� o banheiro tomar um banho. Limpou toda a maquiagem que usara na audi�ncia e vestiu uma cal�a leve de linho escuro, uma camiseta regata branca e uma jaqueta fina. Preparou uma maleta de m�o com alguma roupa de baixo e camisetas, e escolheu sapatos baixos simples.</p><p>Pegou seu Palm e em seguida chamou um t�xi. Foi para o aeroporto de Arlanda, onde chegou um pouco antes das seis da manh�. Olhou o painel de embarques e comprou uma passagem para o primeiro destino que viu indicado. Usou seu passaporte com o pr�prio nome. Ficou surpresa que ningu�m no balc�o de reservas ou no check-in demonstrasse reconhec�-la ou reagisse ao ver seu nome.</p><p>Encontrara um lugar num v�o matutino para M�laga, onde aterrissou por volta do meio-dia sob um sol escaldante. Permaneceu algum tempo no terminal, hesitante. Ent�o resolveu consultar um mapa, perguntando-se o que iria fazer na Espanha. Minutos depois, j� tomara sua decis�o. N�o estava com a menor vontade de ficar pensando em �nibus ou em qualquer outro meio de transporte. Comprou �culos de sol numa loja do aeroporto, saiu do terminal e se acomodou no banco traseiro do primeiro t�xi vazio que apareceu.</p><p>� Gibraltar. Vou pagar com cart�o de cr�dito.</p><p>O trajeto durou tr�s horas pela nova autoestrada ao longo da costa sul. O t�xi a deixou no posto de fronteira do territ�rio brit�nico e ela seguiu a p� at� a Europa Road e o Rock Hotel, situado na subida do rochedo de quatrocentos e vinte e cinco metros, onde perguntou se tinham um quarto dispon�vel. Tinham um quarto duplo. Fez a reserva por duas semanas e apresentou seu cart�o de cr�dito.</p><p>Tomou um banho e se sentou na sacada, enrolada numa toalha de banho, contemplando o estreito de Gibraltar. Avistou uns cargueiros e alguns veleiros. Distinguiu vagamente o Marrocos do lado de l� do estreito. Uma paisagem serena.</p><p>Passado algum tempo, voltou para o quarto, deitou-se e dormiu.</p><p>Na manh� seguinte, Lisbeth Salander acordou �s cinco e meia. Levantou-se, passou rapidamente pelo chuveiro e foi tomar caf� da manh� no t�rreo, no restaurante do hotel. �s sete horas, deixou o hotel e foi comprar mangas e ma��s, depois pegou um t�xi para o The Peak e foi ver os macacos. Chegou cedo, havia pouqu�ssimos turistas, portanto se viu quase sozinha com os animais.</p><p>Ela gostava de Gibraltar. Era a terceira vez que visitava aquele estranho rochedo que dava para o Mediterr�neo, com sua cidade inglesa de uma densidade populacional absurda. Gibraltar n�o se parecia com nenhum outro lugar. A cidade permanecera isolada durante d�cadas, uma col�nia que se negava persistentemente a ser anexada � Espanha. Os espanh�is protestavam, � claro, contra a ocupa��o. Mas Lisbeth achava que era melhor eles calarem a boca enquanto estivessem ocupando o enclave de Ceuta em territ�rio marroquino, do outro lado do estreito. Era um lugar curioso, afastado do resto do mundo, uma cidade de pouco mais de dois quil�metros quadrados constitu�da de um rochedo singular e um aeroporto que avan�ava sobre o mar. Era uma povoa��o t�o pequena que cada cent�metro quadrado era aproveitado e a expans�o se dava necessariamente em dire��o ao mar. Para entrar na cidade, os visitantes eram obrigados a atravessar a pista de pouso do aeroporto.</p><p>Gibraltar era um exemplo not�vel do conceito de compact living.</p><p>Lisbeth viu um macaco macho, grande, trepar numa mureta pr�xima � trilha de passeio. Olhava para ela com o rabo dos olhos. Um Barbary ape. Ela sabia que n�o dava para tentar acariciar aqueles bichos.</p><p>� E a�, cara? � disse ela. � Sou eu, voltei.</p><p>Antes de sua primeira estada em Gibraltar, ela nunca tinha ouvido falar nesses macacos. Subira no alto do Rochedo apenas para admirar a vista e fora pega totalmente de surpresa, quando acompanhava um grupo de turistas, ao se ver no meio de um bando de macacos trepando por tudo, de um lado a outro do caminho.</p><p>Tinha sido uma sensa��o esquisita estar caminhando por uma trilha e topar de repente com mais de vinte macacos. Olhou para eles bem desconfiada. N�o eram perigosos nem agressivos. Em compensa��o, eram fortes o bastante para morder seriamente se estivessem nervosos ou se sentissem amea�ados.</p><p>Ela localizou um dos guardas, mostrou sua sacola e perguntou se podia dar frutas aos animais. O homem n�o fez nenhuma obje��o.</p><p>Pegou uma manga e colocou-a na mureta, a alguma dist�ncia do macho.</p><p>�� Caf� da manh� � disse, apoiando-se na mureta para comer uma ma��.</p><p>O macaco olhou para ela, arreganhou os dentes e ent�o pegou a manga, feliz da vida.</p><p>Cinco dias depois, por volta das quatro da tarde, Lisbeth Salander caiu de um banco do Harry's Bar, numa rua lateral da Main Street, a dois quarteir�es de seu hotel. Tinha estado regularmente b�bada desde que deixara a montanha dos macacos, e a maior parte de sua bebedeira acontecera no bar de Harry O'Connell, o propriet�rio do bar que tinha um sotaque irland�s adquirido a grande custo, j� que nunca na vida pusera os p�s na Irlanda. Ele a observava com ar preocupado.</p><p>Quando ela pediu o primeiro copo, quatro tardes antes, ele quis ver seu passaporte, julgando estar diante de uma menina. Sabia que seu nome era Lisbeth e a chamava de Liz. Ela em geral chegava na hora do almo�o, sentava-se num banco do fundo do bar e se encostava na parede. Em seguida, dedicava seu tempo a enxugar um n�mero consider�vel de cervejas ou u�sques.</p><p>Quando tomava cerveja, n�o ligava para a marca; aceitava o que ele servisse. Quando pedia u�sque, sempre escolhia o Tullamore Dew, com exce��o de uma vez em que examinara as garrafas atr�s do balc�o e pedira para experimentar o Lagavulin. Ela havia cheirado o copo, erguido as sobrancelhas e ent�o tomara um gole bem pequeno. Descansara o copo na mesa e continuara olhando para ele durante um minuto, com uma express�o que dava a entender que considerava seu conte�do um inimigo perigoso.</p><p>Acabara empurrando o copo de lado e pedindo que Harry lhe desse alguma coisa n�o destinada � calafetagem de barcos. Ele voltara a lhe servir Tullamore Dew e ela recome�ou a bebedeira. Nos �ltimos quatro dias, esvaziara uma garrafa sozinha. Ele n�o tinha contado as cervejas. Harry estava muito surpreso que uma mo�a com aquela modesta massa corp�rea conseguisse absorver tantas, mas ponderava que se ela estava pretendendo beber, iria beber, fosse no seu bar ou em qualquer outro lugar.</p><p>Ela bebia devagar, n�o falava com ningu�m e n�o criava caso. Sua �nica ocupa��o, fora o consumo de �lcool, parecia ser brincar com um computador de m�o que, de vez em quando, ela conectava ao celular. Ele tinha tentado v�rias vezes iniciar uma conversa, mas fora recebido por um sil�ncio obstinado. Ela parecia evitar qualquer companhia. Algumas vezes, quando havia gente demais no bar, ela tinha fugido para o terra�o, e em outras ocasi�es fora comer num restaurante italiano duas portas adiante. Depois voltara ao Harry's para pedir mais um Tullamore Dew. Em geral, deixava o bar por volta das nove da noite e seguia na dire��o norte.</p><p>Naquele dia em particular, bebera mais e mais depressa que nos outros, e Harry come�ou a vigi�-la. Ela j� havia entornado sete copos de Tullamore Dew em duas horas, quando ele decidiu que se recusaria a lhe servir mais um. N�o teve tempo de p�r em pr�tica sua decis�o, pois um estrondo anunciou que ela tinha ca�do do banco.</p><p>Ele largou o copo que estava enxugando, foi para o outro lado do balc�o e levantou-a. Ela fez um ar ofendido.</p><p>� Acho que voc� j� preencheu sua cota de hoje � disse ele. Ela o fitou com olhos turvos.</p><p>� Acho que voc� tem raz�o � respondeu, com voz surpreendentemente clara.</p><p>Agarrou-se ao balc�o com uma das m�os, tirou algumas c�dulas do bolso superior da jaqueta e ent�o foi cambaleando em dire��o � porta. Ele segurou seu ombro com suavidade.</p><p>� Espere um pouco. Queria que voc� fosse at� o banheiro vomitar os �ltimos copos e depois ficasse mais um tempo no bar. N�o posso te deixar sair nesse estado.</p><p>Ela n�o reclamou quando ele a acompanhou at� o banheiro. Ela enfiou os dedos na garganta e fez o que ele tinha mandado. Quando voltou para o bar, ele lhe serviu um copo grande de �gua mineral. Ela o tomou inteiro e arrotou. Ele lhe serviu mais um.</p><p>� Amanh�, voc� vai estar com uma ressaca daquelas � disse Harry. Ela concordou com a cabe�a.</p><p>� N�o tenho nada a ver com isso, mas no seu lugar eu passaria a seco por alguns dias.</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a. Em seguida foi vomitar no banheiro outra vez.</p><p>Lisbeth Salander permaneceu no Harry's Bar por mais uma hora, at� que seu olhar estivesse focado o bastante para que Harry se atrevesse a deix�-la ir embora. Ela saiu de pernas bambas, foi caminhando na dire��o do aeroporto e em seguida beirando o mar e a marina. Ficou passeando at� as oito e meia da noite, hora em que o sol parava de se balan�ar. S� ent�o voltou ao hotel. Foi direto para o quarto, escovou os dentes, lavou o rosto, trocou de roupa e se encaminhou ao bar do hotel, onde pediu uma x�cara de caf� preto e uma garrafa de �gua mineral.</p><p>Permaneceu sentada em sil�ncio e sem chamar aten��o junto a uma coluna, observando os clientes do bar. Avistou um casal na faixa dos trinta anos conversando em voz baixa. A mulher estava com um vestido claro de ver�o. O homem segurava a m�o dela embaixo da mesa. Duas mesas adiante, havia uma fam�lia africana, o homem com as t�mporas grisalhas, a mulher com um lindo vestido estampado de amarelo, preto e vermelho. Tinham dois filhos pr�-adolescentes. Examinou um grupo de homens de neg�cios, de camisa branca e gravata, o palet� no encosto da cadeira. Tomavam cerveja. Viu um grupo de aposentados, turistas americanos sem sombra de d�vida. Os homens usavam bon� de beisebol, camisa p�lo e cal�as descontra�das. E as mulheres, jeans de marca, tops vermelhos e �culos de sol com um cord�ozinho. Viu um homem de palet� de linho claro, camisa cinza e gravata escura entrando na recep��o para pegar as chaves antes de se dirigir ao bar e pedir uma cerveja. Estava sentada a tr�s metros dele e seu olhar ficou atento quando ele pegou o celular e come�ou a falar em alem�o.</p><p>� Oi, sou eu... tudo bem?... est� tudo certo, a pr�xima reuni�o � amanh� � tarde... n�o, acho que vai dar... fico aqui mais uns cinco, seis dias pelo menos, depois vou para Madri... n�o, s� volto no fim da semana que vem... eu tamb�m... te amo... claro... eu te ligo durante a semana... beijo.</p><p>Ele media um metro e oitenta e cinco, tinha uns cinq�enta, cinq�enta e cinco anos, cabelos grisalhos bem curtos, um queixo para dentro e uns bons quilos a mais na cintura.. Ainda assim, era relativamente bem conservado. Estava lendo o Financial Times. Quando terminou a cerveja e dirigiu-se ao elevador, Lisbeth Salander se levantou e o seguiu.</p><p>Ele apertou o bot�o do quinto andar. Lisbeth se postou a seu lado e recostou a cabe�a na parede do fundo do elevador.</p><p>� Estou b�bada � disse. Ele olhou para ela.</p><p>� Ah,�?</p><p>� �. Esta semana eu n�o parei. Deixe eu adivinhar. Voc� � assim uma esp�cie de executivo, de Hanover ou de algum outro lugar do norte da Alemanha. � casado. Ama a sua mulher. E tem que ficar mais alguns dias aqui em Gibraltar. Foi o que entendi ao escutar seu telefonema l� no bar.</p><p>Ele a fitou, estupefato. Ela prosseguiu:</p><p>� Eu sou da Su�cia. Estou com uma vontade irresist�vel de transar com algu�m. N�o estou nem a� se voc� � casado e n�o quero o n�mero do seu telefone.</p><p>Ele ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Estou no quarto 711, dois andares acima do seu. Vou para o meu quarto, tirar a roupa, tomar um banho e me deitar. Se quiser me fazer companhia pode bater na porta daqui uma meia hora. Depois disso vou pegar no sono.</p><p>� Isso por acaso � alguma pegadinha? � ele perguntou, quando o elevador parou.</p><p>� N�o. Estou com pregui�a de sair para ca�ar pelos bares. Ou voc� vem bater na minha porta, ou ent�o azar o seu.</p><p>Vinte e cinco minutos depois, bateram na porta do quarto de Lisbeth. Ela foi abrir, enrolada numa toalha.</p><p>� Entre � disse.</p><p>Ele entrou e lan�ou um olhar desconfiado pelo quarto.</p><p>� Estou sozinha � disse ela.</p><p>� A prop�sito, qual � a sua idade?</p><p>Ela estendeu a m�o para pegar o passaporte que estava em cima de uma c�moda, e mostrou a ele.</p><p>� Voc� parece mais jovem.</p><p>� Eu sei � disse ela, ent�o tirou a toalha e jogou-a em cima da cadeira. Voltou para a cama e dobrou a colcha.</p><p>Ele fitou as tatuagens. Ela olhou para ele por cima do ombro.</p><p>� N�o � nenhuma armadilha. Eu sou mulher, solteira, e vou passar uns dias aqui. Faz meses que n�o transo.</p><p>� E por que voc� me escolheu?</p><p>� Porque voc� era o �nico no bar que n�o parecia estar acompanhado.</p><p>� Eu sou casado...</p><p>� Eu n�o quero saber quem � ela nem quem � voc�. E n�o quero discutir sociologia. Eu quero trepar. Tire a roupa, ou ent�o volte para o seu quarto.</p><p>� Assim, direto?</p><p>� E por que n�o? Eu j� sou bem adulta e voc� sabe o que precisa fazer. Ele pensou por uns trinta segundos. Parecia prestes a ir embora. Ela se sentou na beira da cama e esperou. Ele mordeu o l�bio inferior. Ent�o tirou a cal�a e a camisa, e ficou de cueca, hesitante.</p><p>� Tudo � disse Lisbeth Salander. � N�o pretendo trepar com um cara de cueca. E voc� tem que usar camisinha. Eu sei o que eu fiz, mas n�o sei o que voc� andou fazendo.</p><p>Ele tirou a cueca, aproximou-se dela e p�s a m�o em seu ombro. Lisbeth fechou os olhos quando ele se inclinou para beij�-la. Ele tinha um gosto bom. Ela deixou que ele a deitasse na cama. Era pesado em cima dela.</p><p>O advogado Jeremy Stuart MacMillan sentiu seu cabelo se eri�ar na cabe�a no instante em que abriu a porta de seu escrit�rio da Buchanan House, no Queensway Quay, sobre a marina. Sentiu um cheiro de cigarro e ouviu o rangido de uma cadeira. Era um pouco antes das sete da manh�, e a primeira coisa que pensou foi que surpreendera um assaltante.</p><p>Em seguida sentiu um cheiro de caf� vindo da copa. Depois de alguns segundos, foi entrando cautelosamente, cruzou o hall e olhou para a sua sala, ampla e elegante. Lisbeth Salander estava sentada na poltrona dele, de costas, os saltos apoiados no peitoril da janela. O computador estava ligado e ela aparentemente n�o tivera dificuldade para descobrir sua senha. Tamb�m n�o tivera dificuldade para abrir seu arm�rio de seguran�a. No colo dela havia uma pasta aberta contendo sua correspond�ncia particular e sua contabilidade.</p><p>� Bom dia, senhorita Salander � disse ele por fim.</p><p>� Humm � ela respondeu. � Tem caf� quentinho e uns croissants na copa.</p><p>� Obrigado � disse ele, com um suspiro resignado.</p><p>Ele havia, sem d�vida, comprado aquele escrit�rio com o dinheiro de Lisbeth Salander, e a pedido dela, mas n�o esperava que ela fosse aparecer sem avisar. Al�m disso, ela encontrara, e obviamente folheara, uma revista pornogr�fica que ele guardava numa gaveta da escrivaninha.</p><p>Realmente constrangedor.</p><p>Ou talvez n�o.</p><p>Ele tinha a impress�o de que Lisbeth Salander era a pessoa mais r�gida que ele conhecia no que dizia respeito a pessoas que a irritavam, mas em compensa��o ela nem sequer erguia a sobrancelha diante das fraquezas pessoais dos outros. Ela sabia que ele era oficialmente heterossexual mas que secretamente sentia-se atra�do por homens e que, desde que se divorciara, havia quinze anos, come�ara a realizar suas fantasias mais �ntimas.</p><p>Estranho. Me sinto seguro com ela.</p><empty-line/><p>J� que estava mesmo em Gibraltar, Lisbeth tinha resolvido fazer uma visita ao Dr. Jeremy MacMillan, que cuidava de suas finan�as. N�o tinha tido contato com ele desde o Ano-Novo e queria saber se ele aproveitara a oportunidade para arruin�-la durante sua aus�ncia.</p><p>Mas n�o era coisa urgente, e n�o era esse o motivo de ela ter ido direto a Gibraltar depois de sua liberta��o. Fora at� l� porque sentia uma imperiosa necessidade de mudar de ares, e Gibraltar era perfeito para isso. Passara quase uma semana em estado de embriaguez e mais uns dias fazendo amor com o executivo alem�o que acabara dizendo que se chamava Dieter. Duvidava que aquele fosse seu nome verdadeiro, mas n�o quisera saber mais. Ele passava os dias em reuni�es e as noites jantando com ela antes de se recolherem, no seu quarto ou no de Lisbeth.</p><p>Ele n�o era ruim de cama, constatou Lisbeth. Sem muito treino, talvez, e �s vezes desnecessariamente brutal.</p><p>Dieter de fato parecera surpreso que ela, apenas por impulso, tivesse dado em cima de um executivo alem�o com excesso de peso e que nem sequer estava buscando uma aventura. Era casado e n�o costumava ser infiel ou procurar companhia feminina durante suas viagens de neg�cios. Mas quando a possibilidade se apresentou na forma de uma garota fr�gil e tatuada, n�o resistira � tenta��o. Foi o que ele disse.</p><p>A Lisbeth Salander importava muito pouco o que ele dizia. Seu �nico objetivo eram alguns bons momentos de sexo, mas surpreendera-se ao ver que ele realmente se esfor�ava por satisfaz�-la. Na quarta noite, a �ltima que passaram juntos, ele tivera de repente um angustiado acesso de p�nico e come�ara a se perguntar o que diria a sua mulher. Lisbeth Salander achava que ele devia ficar de boca fechada e n�o contar nada para a mulher.</p><p>Mas ela n�o disse o que pensava.</p><p>Ele j� era bem crescidinho e poderia ter recusado sua oferta. Ela n�o estava nem a� com os ataques de culpa dele ou se ele iria confessar tudo para a mulher. Ela deu-lhe as costas e o escutou por uns quinze minutos, at� que, irritada, ergueu os olhos para o c�u, virou-se e sentou escarranchada em cima dele.</p><p>� Ser� que voc� podia dar um tempo para a sua ang�stia e me dar prazer mais uma vez? � perguntou.</p><p>J� Jeremy MacMillan era outra hist�ria. Lisbeth Salander n�o se sentia nem um pouco atra�da por ele. Era um tratante. Estranhamente, lembrava um pouco Dieter. Tinha quarenta e oito anos, algum charme, tamb�m uns quilos a mais, cabelos grisalhos penteados para tr�s. Usava �culos finos com aro de metal dourado.</p><p>No passado, fora advogado de empresas, com diploma de Oxbridge e baseado em Londres. Tinha um futuro promissor, era s�cio num escrit�rio de advocacia que prestava consultoria para grandes empresas e yuppies cheios da grana que brincavam com quest�es imobili�rias e fiscais. Passara os alegres anos 1980 freq�entando novos-ricos que brincavam de celebridades. Tinha bebido um bocado e cheirado coca com gente que ele na verdade preferia n�o encontrar na sua cama ao acordar no dia seguinte. Nunca tinha sido indiciado, mas perdera a mulher e os dois filhos, e depois fora despedido por m� gest�o e por ter se apresentado embriagado numa audi�ncia de concilia��o.</p><p>Passada a ressaca, sem parar muito para pensar, fugira de Londres um tanto envergonhado. N�o sabia por que tinha escolhido justamente Gibraltar, mas em 1991 associara-se a um advogado local e abrira um modesto escrit�rio de segunda categoria que oficialmente cuidava de sucess�es e testamentos n�o muito glamorosos. De maneira nem t�o oficial, o escrit�rio MacMillan &amp; Marks tamb�m abria empresas-fantasma e servia de testa de ferro para europeus que optavam por permanecer na sombra. A atividade se mantinha aos trancos e barrancos, at� que Lisbeth Salander escolheu Jeremy MacMillan para administrar os 2,4 bilh�es de d�lares que ela surrupiara do imp�rio falido do financista Hans-Erik Wennerstr�m.</p><p>MacMillan era inegavelmente um vigarista. Mas Lisbeth o considerava o seu vigarista, e ele pr�prio se surpreendera ao manter com ela um relacionamento de uma honestidade irretoc�vel. Na primeira vez, ela o contratara para uma tarefa simples. Por uma modesta quantia, ele abrira algumas empresas--fantasma que ela poderia usar e nas quais investira um milh�o de d�lares. Ela o contatara por telefone e n�o passara de uma voz long�nqua. Ele nunca havia lhe perguntado de onde vinha aquele dinheiro. Contentara-se em agir conforme as instru��es dela, separando cinco por cento do neg�cio para si mesmo. Pouco depois, ela injetara uma quantia maior, que ele deveria usar para abrir uma empresa, a Wasp Enterprises, com a finalidade de comprar um apartamento em Estocolmo. Assim, a rela��o com Lisbeth Salander se tornara lucrativa, mesmo que para ele se tratasse de pequenas quantias.</p><p>Dois meses depois, ela fora visit�-lo repentinamente em Gibraltar. Ligara para ele e propusera que ele fosse jantar com ela no seu quarto do Rock que era, se n�o o maior, o hotel mais refinado do Rochedo. Ele n�o sabia bem o que esperar, mas certamente n�o uma cliente com jeito de boneca, uma garota que aparentava n�o ter mais que quinze anos. Por um momento, pensou que fosse alguma brincadeira.</p><p>Logo mudou de opini�o. A garota estranha falava, despreocupada, sem nunca sorrir ou se mostrar calorosa. Ali�s, nem distante. Ele ficara paralisado quando, em poucos minutos, ela pusera abaixo a fachada profissional de respeitabilidade mundana que ele fazia quest�o de exibir.</p><p>� O que voc� quer? � ele perguntou.</p><p>� Eu roubei uma quantia de dinheiro � ela respondeu muito s�ria. � Preciso de um vigarista para administr�-la.</p><p>Ele se perguntara se ela batia bem da cabe�a, mas entrara educadamente no jogo. Ela era um alvo potencial para uma trapa�a pass�vel de render pequenos lucros. Depois, ficara como que fulminado quando ela lhe explicara de quem tinha roubado o dinheiro, como tinha sido e qual o total da pilhagem. O caso Wennerstr�m vinha sendo o assunto mais discutido no mundo das finan�as internacionais.</p><p>� Entendi.</p><p>Vieram-lhe � cabe�a in�meras possibilidades.</p><p>� Voc� � um bom advogado empresarial e um bom investidor. Se fosse algum idiota, n�o teria obtido os contratos que obteve nos anos 1980. Agora, voc� se comportou como um idiota, a ponto de ter sido mandado embora.</p><p>Ele ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Daqui para a frente, eu vou ser sua �nica cliente.</p><p>Ela o fitara com os olhos mais inocentes que ele j� tinha visto.</p><p>� Tenho duas exig�ncias. A primeira � que voc� nunca deve cometer nenhum crime ou se envolver com qualquer coisa que possa nos criar problemas e �hamar a aten��o das autoridades para as minhas empresas e as minhas contas banc�rias. A outra � que voc� jamais deve mentir para mim. Jamais, est� entendendo? Nem uma vez. E por motivo nenhum. Se voc� mentir, nosso contrato fica imediatamente anulado e, caso eu me aborre�a de fato, arru�no voc�.</p><p>Ela lhe serviu uma ta�a de vinho.</p><p>� N�o h� motivo nenhum para mentir para mim. J� sei tudo o que h� para saber sobre sua vida. Sei quanto voc� ganha nos meses das vacas gordas e nos meses das vacas magras. Sei quanto voc� gasta. Sei que freq�entemente voc� fica sem dinheiro. Sei que tem uma d�vida de cento e vinte mil libras, a ser quitada a curto e m�dio prazo, e se arrisca e trapaceia o tempo todo para saldar essa d�vida. Voc� se safa com eleg�ncia e tenta manter as apar�ncias, mas est� afundando e faz meses que n�o compra um palet� novo. Em compensa��o, h� duas semanas mandou consertar o forro de um palet� velho. Antigamente, voc� colecionava livros raros, mas aos poucos foi vendendo todos. No m�s passado, vendeu uma antiga edi��o de Oliver Twist por setecentas e sessenta libras.</p><p>Ela se calou e olhou para ele. Ele engoliu em seco.</p><p>� Mesmo assim, na semana passada, voc� tirou a sorte grande. Uma fraude esperta contra a vi�va que voc� representa. Voc� passou a m�o em seis mil libras que decerto n�o v�o fazer muita falta para ela.</p><p>� Droga, como voc� sabe disso?</p><p>� Eu sei que voc� foi casado, que tem na Inglaterra dois filhos que n�o querem te ver e que depois do div�rcio voc� deu seu grande salto, mantendo hoje em dia basicamente rela��es homossexuais. Talvez sinta vergonha, j� que foge de boates gays, evita ser visto na cidade com um de seus namorados e sempre atravessa a fronteira espanhola para se encontrar com outros homens.</p><p>Com o choque, Jeremy MacMillan tinha ficado mudo. De repente, ficou apavorado. Ignorava como ela descobrira tudo aquilo, mas o fato � que ela tinha informa��es suficientes para acabar com ele.</p><p>�� E eu vou falar uma vez s�: n�o me interessa nem um pouco com quem voc� trepa. N�o tenho nada com isso. Quero saber quem voc� �, mas jamais iria tirar vantagem do que sei. N�o tenho a inten��o de te amea�ar nem de te chantagear.</p><p>MacMillan n�o era nenhum idiota. Percebeu, obviamente, que o que ela sabia a seu respeito representava uma amea�a. Ela estava no controle. Por um instante, considerou a possibilidade de ergu�-la e jog�-la sacada abaixo, mas controlou-se. Nunca na vida havia sentido tanto medo.</p><p>� O que voc� quer? � conseguiu articular.</p><p>� Uma associa��o com voc�. Voc� vai encerrar todos os seus outros casos em andamento e trabalhar para mim com exclusividade. Vai ganhar mais dinheiro do que jamais sonhou.</p><p>Ela explicou o que queria que ele fizesse e como imaginava as linhas gerais do caso.</p><p>�� Quero permanecer invis�vel � ela explicou. � Voc� administra meus neg�cios. Tudo na mais perfeita legalidade. O que eu aprontar do meu lado nunca ir� te atingir e nunca vai ter rela��o com os nossos neg�cios.</p><p>� Entendo.</p><p>� Ent�o eu vou ser sua �nica cliente. Voc� tem uma semana para encerrar com os seus outros clientes e com todas as suas tramoiazinhas.</p><p>Ele tamb�m percebeu que acabava de receber uma proposta que nunca se repetiria. Refletiu por um minuto, e ent�o aceitou. Tinha apenas uma pergunta a fazer.</p><p>� Como voc� sabe que eu n�o vou te sacanear?</p><p>� Fa�a isso, e voc� vai se arrepender pelo resto da sua vidinha miser�vel.</p><p>N�o havia motivo nenhum para trapacear. Lisbeth Salander lhe propunha um trabalho que era potencialmente t�o vantajoso que seria um absurdo coloc�-lo em risco por uma ninharia. Enquanto ele n�o tivesse grandes pretens�es e n�o fizesse besteira, seu futuro estava garantido.</p><p>N�o tinha a inten��o de sacanear Lisbeth Salander.</p><p>Portanto tinha se tornado honesto, ou pelo menos t�o honesto quanto pode ser um advogado suspeito que administra uma pilhagem de propor��es astron�micas.</p><p>Lisbeth n�o estava nem um pouco interessada em administrar suas finan�as. A tarefa de MacMillan era aplicar o dinheiro dela e cuidar para que houvesse saldo suficiente nos cart�es banc�rios que ela utilizava. Conversaram por algumas horas. Ela explicou como queria que suas finan�as funcionassem. O trabalho dele consistia em cuidar desse funcionamento.</p><p>Boa parte da quantia roubada fora aplicada em fundos est�veis, o que a tornava financeiramente independente pelo resto da vida, mesmo que ela resolve-se gastar a rodo e levar uma exist�ncia perdul�ria. Esses fundos serviriam para abastecer o saldo de seus cart�es de cr�dito.</p><p>Quanto ao restante do dinheiro, ele podia brincar de investir � vontade, contanto que n�o investisse em nada que criasse problemas com a pol�cia. Ele estava proibido de cometer pequenos furtos rid�culos e fraudes insignificantes, que � se o azar resolvesse dar as caras � acarretariam investiga��es que, por sua vez, poderiam chamar a aten��o para ela. Restava definir o quanto ele ganharia com o servi�o.</p><p>� Os honor�rios iniciais s�o de quinhentas mil libras. Voc� vai poder pagar suas d�vidas e ainda ficar com uma bela quantiazinha. Depois disso, voc� vai ganhar seu pr�prio dinheiro. Vai abrir uma empresa, tendo a mim como s�cia. Vinte por cento dos lucros s�o seus. Quero que voc� seja suficientemente rico para n�o ficar tentado a fazer besteira, mas n�o rico o bastante para se acomodar.</p><p>Ele deu in�cio a seu novo trabalho em 1�. de fevereiro. No final de mar�o, j� tinha quitado todas as suas d�vidas pessoais e equilibrado seu or�amento. Lisbeth insistira para que ele priorizasse a organiza��o de suas finan�as e sa�sse do vermelho. Em maio, ele encerrou a sociedade com seu colega alco�latra George Marks, a outra metade da MacMillan &amp; Marks. Sentiu uma pontinha de culpa em rela��o a seu antigo parceiro, mas estava fora de cogita��o envolver Marks nos neg�cios de Lisbeth Salander.</p><p>Ele conversou sobfe o assunto com Lisbeth quando, no in�cio de julho, ela o visitou um dia em Gibraltar e descobriu que MacMillan estava trabalhando em seu apartamento e n�o no pequeno escrit�rio numa rua afastada que lhe coubera at� ent�o.</p><p>� O meu s�cio � alco�latra e seria dif�cil para ele se virar nos nossos assuntos. Pelo contr�rio, ele representaria um grande fator de risco. Mas quando eu cheguei a Gibraltar, h� quinze anos, ele me salvou a vida ao me aceitar como s�cio.</p><p>Ela refletiu por uns dois minutos, observando MacMillan.</p><p>� Entendo. Voc� � um patife leal. Essa �, sem d�vida, uma qualidade admir�vel. Sugiro que voc� abra uma pequena conta para que ele se divirta � vontade. Cuide para que ele ganhe todo m�s algumas notas de mil, o suficiente para viver.</p><p>� Voc� me d� sinal verde?</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a e olhou para o apartamento de solteir�o dele. MacMillan morava numa quitinete numa das vielas pr�ximas ao hospital. A �nica coisa agrad�vel era a vista. Embora fosse dif�cil escapar daquela vista em Gibraltar.</p><p>� Voc� precisa de um escrit�rio e de outro apartamento � disse ela</p><p>� N�o deu tempo � ele respondeu.</p><p>� Tudo bem � disse ela.</p><p>E ent�o ela o levou �s compras e conseguiu um escrit�rio de cento e trinta metros quadrados com uma pequena sacada com vista para o mar, no Buchanan House, em Queensway Quay, o que em Gibraltar era o suprassumo. Contratou um arquiteto de interiores para repaginar e mobiliar o local.</p><p>MacMillan recordou que, enquanto ele se ocupava da papelada, Lisbeth acompanhara pessoalmente a instala��o do sistema de alarme, do equipamento de inform�tica e do arm�rio de seguran�a, esse mesmo que ela havia vasculhado antes de ele chegar ao escrit�rio naquela manh�.</p><p>� Ca� em desgra�a? � ele perguntou.</p><p>Ela largou a pasta de correspond�ncia que estava examinando.</p><p>� N�o, Jeremy. Voc� n�o caiu em desgra�a.</p><p>� Que bom � disse ele, e foi buscar um caf�. � Voc� realmente tem o dom de aparecer quando a gente menos espera.</p><p>� Andei ocupada nos �ltimos tempos. Eu s� queria me atualizar sobre as �ltimas not�cias.</p><p>� Se entendi bem a hist�ria toda, voc� esteve sendo procurada por triplo assassinato, levou uma bala na cabe�a e foi acusada de mais um monte de crimes. Teve uma hora em que fiquei realmente preocupado. Achei que voc� ainda estivesse atr�s das grades. Voc� fugiu?</p><p>� N�o. Fui absolvida de todas as acusa��es e me puseram em liberdade. Voc� ouviu dizer o qu�, exatamente?</p><p>Ele hesitou um segundo.</p><p>�� Certo. N�o vou mentir. Quando percebi que voc� estava na pior, contratei uma ag�ncia de tradu��o, que foi me dissecando todos os jornais suecos e me informando do desenrolar da hist�ria. Estou relativamente bem informado.</p><p>� Se voc� se baseou no que saiu nos jornais, n�o pode estar bem informado. Mas imagino que tenha descoberto alguns segredos sobre mim.</p><p>Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>� E agora, o que vai acontecer? � perguntou MacMillan. Ela olhou para ele, surpresa.</p><p>� Nada. Vai continuar tudo igual. A nossa rela��o n�o tem nada a ver com os meus problemas na Su�cia. Me conte o que aconteceu durante a minha aus�ncia. Como � que voc� se virou?</p><p>� Eu n�o bebo � disse ele. � Se � o que voc� quer dizer.</p><p>� N�o. A sua vida pessoal n�o � assunto meu, desde que n�o interfira nos meus neg�cios. O que eu quero dizer �: estou mais ou menos rica do que um ano atr�s?</p><p>Ele puxou a cadeira das visitas e se sentou. N�o via o menor problema em Lisbeth Salander estar sentada no lugar dele. N�o havia motivo para entrar numa luta de poder com ela.</p><p>�� Voc� me entregou dois bilh�es e quatrocentos milh�es de d�lares. Investimos duzentos milh�es em fundos para voc�. O resto voc� me deu para brincar.</p><p>� Isso.</p><p>� Os seus fundos pessoais s� variaram nos juros. Posso aumentar seus rendimentos se...</p><p>� N�o estou interessada em aumentar meus rendimentos.</p><p>�� Certo. Voc� s� gastou uma quantia rid�cula. As maiores despesas foram o apartamento que comprei para voc� e o fundo beneficente para aquele advogado, o Palmgren. No mais, voc� teve um consumo normal, pequeno at�. Os juros foram vantajosos. Voc� est� mais ou menos com o que tinha no in�cio.</p><p>� �timo.</p><p>� O resto eu investi. No ano passado n�o conseguimos grande coisa. Eu estava meio enferrujado e levei algum tempo at� reaprender como o mercado funciona. Tivemos despesas. Este ano � que vamos come�ar a ter lucro. Enquanto voc� esteve presa, tivemos uma entrada de povico mais de sete milh�es. De d�lares, quero dizer.</p><p>� Dos quais vinte por cento s�o para voc�.</p><p>� Dos quais vinte por cento s�o para mim.</p><p>� Est� satisfeito?</p><p>�� Ganhei mais de um milh�o de d�lares em seis meses. Sim Estou satisfeito.</p><p>� Olha... n�o seja guloso demais. Voc� pode se afastar quando estiver satisfeito. Mas continue administrando meus neg�cios algumas horas, aqui e ali.</p><p>� Dez milh�es de d�lares � disse ele.</p><p>� Como?</p><p>� Depois que eu juntar dez milh�es de d�lares, eu paro. Foi bom voc� ter vindo. Temos umas coisas para conversar.</p><p>� Diga-</p><p>Ele afastou as m�os.</p><p>� Essa coisa toda representa tanto dinheiro que entro meio em p�nico. N�o sei como lidar com isso. N�o sei qual o objetivo das opera��es, fora ganhar mais e mais. Para que vai servir esse dinheiro todo?</p><p>� N�o sei.</p><p>� Nem eu. Mas o objetivo do dinheiro pode acabar virando o pr�prio dinheiro. E isso n�o � bom. Por isso, resolvi parar depois que juntar dez milh�es. N�o quero mais essa responsabilidade.</p><p>� Certo.</p><p>� Antes de eu me afastar, queria que voc� decidisse como quer que sua fortuna seja administrada no futuro. Precisa haver um objetivo, diretrizes e uma organiza��o que assuma a responsabilidade.</p><p>� Humm.</p><p>� E imposs�vel uma pessoa s� aplicar tanto dinheiro assim em m�ltiplas aplica��es. Eu dividi a quantia, de um lado em investimentos fixos a longo prazo: im�veis, t�tulos, esse tipo de coisa. Tenho uma lista completa no computador.</p><p>� Eu li.</p><p>� A outra parte eu uso para especular, mas � tanto dinheiro para administrar que n�o estou dando conta. Por isso, abri uma empresa de investimentos em Jersey. Por enquanto, voc� tem seis funcion�rios em Londres. Dois jovens investidores competentes mais um pessoal de escrit�rio.</p><p>� A Yellow Ballroom Ltd.? Eu estava mesmo me perguntando o que era isso.</p><p>� � a nossa empresa. Aqui, em Gibraltar, eu contratei uma secret�ria e um jovem e promissor advogado... ali�s, eles devem chegar daqui a uma meia hora.</p><p>� Ah�. Molly Flint, quarenta e um anos, e Brian Delaney, vinte e seis</p><p>anos.</p><p>� Voc� quer conhecer os dois?</p><p>� N�o. O Brian � seu amante?</p><p>� O qu�? N�o!</p><p>Ele pareceu chocado.</p><p>� Eu n�o misturo...</p><p>� Muito bem.</p><p>� Ali�s... carinhas jovens n�o me interessam... quero dizer, os caras sem experi�ncia.</p><p>� Eu sei, voc� tem atra��o por uns caras com uma apar�ncia mais sarada do que um garot�o pode oferecer. Continua n�o sendo assunto meu. Mas, Jeremy...</p><p>� Sim?</p><p>� Tome cuidado.</p><p>Lisbeth n�o tinha programado ficar em Gibraltar mais do que duas semanas para reorientar a sua vida. A certa altura, por�m, descobriu que n�o tinha a menor id�ia do que ia fazer nem de que rumo tomar. Ficou doze semanas. Verificava seu correio eletr�nico uma vez por dia e respondia com docilidade aos e-mails de Annika Giannini nas raras vezes em que mandava not�cias. N�o dizia onde estava. N�o respondia aos outros e-mails.</p><p>Continuava freq�entando o Harry's Bar, mas agora s� aparecia no final da tarde para tomar uma cerveja. Passava a maior parte do dia no Rock, ou no terra�o, ou na cama. Teve mais um relacionamento casual, com um oficial trint�o da Marinha brit�nica, mas foi apenas um caso de uma noite e, em suma, uma experi�ncia desinteressante.</p><p>Ela percebeu que estava se entediando.</p><p>No in�cio de outubro, jantou com Jeremy MacMillan. Os dois tinham se visto poucas vezes durante sua estada. J� anoitecera, e eles bebiam um vinho branco frutado e discutiam a melhor maneira de empregar os bilh�es de Lisbeth. De repente, ele a surpreendeu perguntando-lhe o que a estava perturbando.</p><p>Ela olhou para ele enquanto refletia. Ent�o, de forma tamb�m surpreendente, falou na sua rela��o com Miriam Wu, de como ela fora espancada e quase morta por Ronald Niedermann. Por sua culpa. A n�o ser por um al� transmitido por Annika Giannini, Lisbeth n�o tivera mais not�cia de Miriam Wu, que agora estava morando na Fran�a.</p><p>Jeremy MacMillan ficou algum tempo sem falar nada.</p><p>� Voc� est� apaixonada por ela? � perguntou de repente.</p><p>Lisbeth Salander pensou antes de responder. Por fim, balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o. N�o acho que eu seja do tipo que se apaixona. Ela era uma amiga. E transava muito bem.</p><p>� Ningu�m pode evitar de se apaixonar � disse ele. � A gente talvez queira negar, mas a amizade � sem d�vida a forma mais comum de amor.</p><p>Ela olhou para ele, estupefata.</p><p>� Voc� vai ficar chateada se eu disser uma coisa pessoal?</p><p>� N�o.</p><p>� Se manda pra Paris, caramba.</p><p>Ela aterrissou no aeroporto Charles de Gaulle �s duas e meia da tarde, pegou o �nibus para o Arco do Triunfo e passou duas horas percorrendo as redondezas em busca de um quarto de hotel. Foi na dire��o do sul e do Sena, e s� muito tempo depois encontrou por fim um quarto no pequeno Hotel Victor-Hugo, na Rue Copernic.</p><p>Tomou um banho e ligou para Miriam Wu. Elas se encontraram por volta das nove da noite num bar perto de Notre-Dame. Miriam Wu usava uma camisa branca e um blazer. Estava sublime. Lisbeth sentiu-se imediatamente desconfort�vel. Trocaram beijos.</p><p>� Desculpe eu n�o ter te dado not�cias nem ter aparecido no julgamento � disse Miriam Wu.</p><p>� Tudo bem. O julgamento acabou sendo a portas fechadas.</p><p>� Passei tr�s semanas no hospital e, quando voltei para a Lundagatan, estava tudo um caos. Eu n�o conseguia dormir. Tinha pesadelos com esse canalha do Niedermann. Liguei para a minha m�e dizendo que queria vir morar com eles.</p><p>Lisbeth meneou a cabe�a.</p><p>� Me desculpe � disse Miriam Wu.</p><p>� N�o seja boba. Eu � que vim te pedir desculpas.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Eu fui muito burra. Em nenhum momento me ocorreu que eu estivesse colocando sua vida em perigo quando deixei o apartamento para voc� mas continuei oficialmente morando nele. Se voc� quase morreu, � culpa minha. Entendo que voc� me odeie.</p><p>Miriam pareceu estupefata.</p><p>� Isso nem me passou pela cabe�a. Quem tentou me matar foi o Ronald Niedermann. N�o voc�.</p><p>Permaneceram algum tempo em sil�ncio.</p><p>� Est� bem � disse Lisbeth afinal.</p><p>� Certo � disse Miriam Wu.</p><p>� Eu n�o vim atr�s de voc� porque estou apaixonada � disse Lisbeth. Miriam fez um gesto de assentimento com a cabe�a.</p><p>� Voc� � superboa d� cama, mas eu n�o estou apaixonada por voc� � enfatizou Lisbeth.</p><p>� Lisbeth... eu acho...</p><p>� O que eu queria dizer � que eu espero que... droga.</p><p>� O qu�?</p><p>� Eu n�o tenho muitos amigos... Miriam Wu assentiu com a cabe�a.</p><p>� Vou ficar em Paris por um tempo. Meu curso na Su�cia n�o deu certo e acabei me matriculando na universidade daqui. Vou ficar no m�nimo um ano.</p><p>Lisbeth fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Depois, n�o sei. Mas vou voltar para Estocolmo. Vou pagar as taxas do apartamento da Lundagatan, eu queria ficar com ele. Se voc� topar.</p><p>� O apartamento � seu. Voc� faz o que quiser com ele.</p><p>� Lisbeth, voc� � mesmo especial � disse ela. � Eu quero continuar sendo sua amiga.</p><p>Conversaram por cerca de duas horas. Lisbeth n�o tinha nenhum motivo para esconder seu passado de Miriam Wu. Qualquer pessoa que tivesse tido acesso aos jornais suecos conhecia o caso Zalachenko, e Miriam o acompanhara com interesse. Ela contou com detalhes o que acontecera em Nykvarn na noite em que Paolo Roberto salvara sua vida.</p><p>Depois, foram at� o quarto de estudante de Miriam Wu, perto da universidade.</p><empty-line/></section><section><p><strong><emphasis>EP�LOGO: INVENT�RIO DE SUCESS�O: SEXTA-FEIRA 2 DE DEZEMBRO � DOMINGO 18 DE DEZEMBRO</emphasis></strong></p><empty-line/><p>Annika Giannini encontrou-se com Lisbeth no bar do S�dra Teatern por volta das nove da noite. Lisbeth terminava seu segundo copo de cerveja.</p><p>� Desculpe o atraso � disse Annika, dando uma olhada no rel�gio. � Tive um pepino com outro cliente.</p><p>� Ah, �? � disse Lisbeth.</p><p>� O que voc� est� comemorando?</p><p>� Nada. Apenas me deu vontade de encher a cara.</p><p>Annika observou-a com ceticismo e se sentou.</p><p>� Voc� tem sempre essa vontade?</p><p>� Eu tomei o maior porre quando me soltaram, mas n�o tenho tend�ncia ao alcoolismo, se � isso que te preocupa. Apenas tive consci�ncia de que, pela primeira vez na vida, desde que sou maior de idade, estou legalmente autorizada a me embebedar aqui na Su�cia.</p><p>Annika pediu um Campari.</p><p>� Bem � disse ela. � Voc� quer beber sozinha ou quer companhia?</p><p>� D� prefer�ncia, sozinha. Mas se voc� n�o falar muito, pode ficar comigo. Imagino que n�o queira ir at� a minha casa dar uma trepada?</p><p>� Hein? � disse Annika Giannini.</p><p>� N�o, foi o que eu pensei. Voc� � dessas h�teros convictas. De repente, Annika Giannini pareceu achar gra�a.</p><p>� � a primeira vez que um cliente me prop�e uma trepada.</p><p>� Est� interessada?</p><p>� Nem um pouco, sinto muito. Mas obrigada pelo convite.</p><p>� Ent�o, o que voc� queria comigo, senhora advogada?</p><p>� Duas coisas. Ou voc� come�a a atender os meus telefonemas, ou eu renuncio a ser sua advogada aqui e agora. J� conversamos sobre isso quando voc� foi solta.</p><p>Lisbeth fitou Annika Giannini.</p><p>� Faz uma semana que estou tentando falar com voc�. Liguei, escrevi, mandei e-mails.</p><p>� Eu estava viajando.</p><p>� Voc� esteve incomunic�vel quase o outono todo. N�o d� para ser desse jeito. Aceitei ser sua representante jur�dica em tudo o que diz respeito aos seus problemas com o Estado. Isso implica formalidades e documentos. Pap�is para assinar. Perguntas que devem ser respondidas. Preciso ter como te encontrar, e n�o acho a menor gra�a em ficar feito uma boba, sem saber onde voc� se meteu.</p><p>� Entendo. Passei duas semanas no exterior. Cheguei ontem e liguei assim que percebi que voc� estava tentando falar comigo.</p><p>� N�o basta. Voc� precisa me manter informada sobre onde voc� est� e me dar not�cias pelo menos uma vez por semana at� que todas as pend�ncias de indeniza��o e coisas desse tipo estejam resolvidas.</p><p>�� Estou me lixando para a indeniza��o. S� quero que o Estado me deixe em paz.</p><p>� Mas o Estado n�o vai te deixar em paz, isso n�o depende de voc�. A sua absolvi��o, no julgamento, trouxe uma cadeia de conseq��ncias. Voc� n�o � a �nica envolvida. O Peter Teleborian vai ser processado pelo que fez com voc�. Isso significa que voc� vai ter que testemunhar. O procurador Ekstr�m est� sendo investigado por erro profissional, e tamb�m pode acabar sendo indiciado se ficar provado que ele, em s� consci�ncia, negligenciou seu dever como funcion�rio a pedido da Se��o.</p><p>Lisbeth ergueu as sobrancelhas. Por um segundo, pareceu quase interessada.</p><p>�� N�o acredito que haja indiciamento. Ele se deixou enganar e, na verdade, n�o tem nada a ver com a Se��o. Mas, ainda na semana passada um procurador abriu um inqu�rito preliminar sobre a Comiss�o de Tutelas O ombudsman recebeu v�rias reclama��es e o mediador, uma.</p><p>� Eu n�o dei queixa contra ningu�m.</p><p>� N�o. Mas � �bvio que erros profissionais graves foram cometidos e tudo isso ter� que ser investigado. Voc� n�o � a �nica pessoa sob responsabilidade da comiss�o.</p><p>Lisbeth deu de ombros.</p><p>� Eu n�o me sinto envolvida. Mas prometo manter um contato mais regular com voc�. As duas �ltimas semanas foram uma exce��o. Eu estava trabalhando.</p><p>Annika Giannini olhou desconfiada para sua cliente.</p><p>� Trabalhando no qu�?</p><p>� Servi�o de consultoria.</p><p>� Est� bem � ela disse afinal. � O outro assunto � que o invent�rio da sucess�o foi conclu�do.</p><p>� Que invent�rio?</p><p>�� O invent�rio dos bens do seu pai. O advogado do Estado me procurou, j� que ningu�m sabia onde te achar. Voc� e sua irm� s�o as �nicas herdeiras.</p><p>Lisbeth Salander contemplou Annika sem esbo�ar nenhuma rea��o. Depois, capturou o olhar da gar�onete e apontou para o seu copo.</p><p>� Eu n�o quero nenhuma heran�a do meu pai. Pode fazer o que quiser com ela.</p><p>� Errado. Voc� pode fazer o que quiser com essa heran�a. O meu trabalho � cuidar para que voc� possa fazer isso.</p><p>� Eu n�o quero um s� ore daquele porco.</p><p>� Certo. Doe o dinheiro para o Greenpeace, ou para quem voc� quiser.</p><p>� Estou pouco me lixando para as baleias.</p><p>De repente, a voz de Annika tornou-se autorit�ria.</p><p>� Lisbeth, se voc� quer ser maior de idade, j� est� na hora de se comportar como tal. N�o estou nem a� para o que voc� faz com o seu dinheiro. S� assine aqui dizendo que recebeu e depois pode ficar bebendo � vontade.</p><p>Lisbeth olhou de esguelha para Annika, depois para a mesa. Annika sup�s que aquilo fosse uma esp�cie de gesto arrependido, ao qual, quem sabe, se seguiria um pedido de desculpas no limitado repert�rio de m�micas de Lisbeth Salander.</p><p>� Certo. Qual � a quantia?</p><p>� E bastante razo�vel. Seu pai tinha pouco mais de trezentas mil coroas em t�tulos. A propriedade de Gosseberga, que inclui alguns hectares de floresta, est� avaliada em cerca de um milh�o e meio de coroas. Al�m disso, seu pai era propriet�rio de mais tr�s bens im�veis.</p><p>� Bens im�veis?</p><p>� Sim. Parece que ele investiu algum dinheiro. N�o s�o propriedades de um valor extraordin�rio. Ele era dono de um pequeno pr�dio em Uddevalla, com seis apartamentos, o que gera alguma renda de alugu�is. Mas o pr�dio est� em mau estado, falta manuten��o. O fato de ser um im�vel velho at� foi mencionado na Comiss�o de Loca��es. Isso n�o vai te deixar rica, mas a venda vai render uma quantia razo�vel. Ele tamb�m tinha uma casa de campo em Sm�land, avaliada em duzentas e cinq�enta mil coroas.</p><p>� Ah, �?</p><p>� E tamb�m um pr�dio industrial deteriorado pr�ximo a Norrt�lje.</p><p>� Por que ele juntou essa porcaria toda?</p><p>� N�o fa�o a menor id�ia. De modo geral, depois de vender tudo e descontando impostos e coisas assim, a heran�a poderia chegar a quatro milh�es e pouco, mas...</p><p>� Sim?</p><p>� Depois, ela tem que ser dividida igualmente entre voc� e sua irm�. O problema � que ningu�m sabe onde ela se encontra.</p><p>Lisbeth fitou Annika Giannini com um sil�ncio inexpressivo.</p><p>� E ent�o?</p><p>� Ent�o o qu�?</p><p>� Onde est� sua irm�?</p><p>� N�o fa�o id�ia. Faz dez anos que eu n�o sei dela.</p><p>� Ela det�m informa��es protegidas como segredo de seguran�a nacional, mas tiveram a gentileza de me informar que nos cadastros do pa�s ela n�o consta como residente.</p><p>� Ah, �? � disse Lisbeth com um interesse controlado. Annika suspirou, resignada.</p><p>� Tudo bem. Ent�o eu sugiro que a gente liquide todos os ativos e deposite a metade do dinheiro no banco at� sua irm� ser localizada. Posso dar entrada em todos os pap�is, se voc� me autorizar.</p><p>Lisbeth deu de ombros.</p><p>� Eu n�o quero o dinheiro dele.</p><p>� D� para entender. Mas, seja como for, temos que apresentar um balan�o. Faz parte das suas responsabilidades como maior de idade.</p><p>� Ent�o venda essa porcaria toda. Deposite a metade do dinheiro no banco e o resto voc� doa para quem quiser.</p><p>Annika Giannini ergueu uma sobrancelha. J� percebera que Lisbeth Salander tinha dinheiro guardado, mas n�o havia se dado conta de que sua cliente era rica o suficiente para se permitir desprezar uma heran�a de quase dois milh�es de coroas, talvez mais. N�o fazia a menor id�ia de como Lisbeth tinha tanto dinheiro, nem de quanto era exatamente. No entanto, gostaria de encerrar todos aqueles tr�mites administrativos.</p><p>� Por favor, Lisbeth... Leia o invent�rio da sucess�o e me d� sinal verde para pormos um ponto final nesse assunto.</p><p>Lisbeth resmungou um pouco, mas acabou cedendo e enfiou a pasta na bolsa. Prometeu que iria ler o invent�rio e dar instru��es para que Annika Giannini pudesse agir em seu nome. A seguir, concentrou-se em sua cerveja. Annika lhe fez companhia por mais uma hora, atendo-se � �gua mineral.</p><p>Somente muitos dias depois, quando Annika Giannini ligou e insistiu no assunto do invent�rio, � que Lisbeth Salander tirou da bolsa os pap�is amassados e os ajeitou. Sentou-se � mesa da cozinha de seu apartamento da Fiskargatan e leu os documentos.</p><p>O invent�rio da sucess�o era composto por v�rias p�ginas e continha informa��es das mais variadas � o aparelho de jantar que havia no arm�rio da cozinha de Gosseberga, roupas, o valor de c�meras fotogr�ficas e de outros objetos pessoais. Alexander Zalachenko n�o deixara muita coisa valiosa, e nenhum daqueles objetos tinha qualquer significado afetivo para Lisbeth Salander. Ela pensou um pouco e concluiu que sua atitude n�o mudara desde que se encontrara com Annika no bar. Venda essa porcaria toda e queime o dinheiro. Algo do g�nero. Estava absolutamente segura de que n�o queria um �nico ore de seu pai, mas tamb�m tinha bons motivos para desconfiar que as verdadeiras posses de Zalachenko estavam enterradas em algum lugar onde oficial de justi�a nenhum teria ido procurar.</p><p>Em seguida, abriu o descritivo do pr�dio industrial de Norrt�lje.</p><p>Tratava-se de uma propriedade de vinte mil metros quadrados, dividida em tr�s constru��es, situada nas proximidades de Skederid entre Norrt�lje e Rimbo.</p><p>O oficial de justi�a incumbido do invent�rio fizera uma r�pida visita ao local s� para constatar que se tratava de uma antiga olaria, mais ou menos abandonada desde que encerrara as atividades nos anos 1970. Ele observara que o local estava em p�ssimo estado e que n�o poderia ser reformado para que abrigasse outra atividade. Com p�ssimo estado ele queria dizer, entre outras coisas, que o chamado "edif�cio norte" tinha sido devastado pelo fogo e desabara. Alguns consertos, no entanto, haviam sido feitos no "edif�cio principal".</p><p>O que intrigou Lisbeth Salander foi o hist�rico. Alexander Zalachenko tinha adquirido esse bem im�vel por uma ninharia em 12 de mar�o de 1984, mas Agneta Sofia Salander � que aparecia como compradora.</p><p>A m�e de Lisbeth Salander tinha, portanto, sido a propriet�ria do im�vel. Sua participa��o, contudo, cessara em 1987. Zalachenko comprara os pr�dios por duas mil coroas. A partir da�, eles tinham aparentemente ficado abandonados por mais de quinze anos. O invent�rio da sucess�o registrava que, em 17 de setembro de 2004, a empresa KAB contratara a empresa de engenharia NorrBygg S. A. para realizar uma reforma que inclu�a reparo de pisos e telhado, al�m de melhorias nas redes de �gua e energia el�trica. As obras tinham se estendido por quase dois meses, at� 30 de novembro de 2004, quando foram interrompidas. NorrBygg enviara uma fatura, que havia sido paga.</p><p>Essa propriedade deixada por seu pai era intrigante. Lisbeth Salander franziu o cenho. Seria compreens�vel seu pai possuir um pr�dio industrial para ele mostrar que sua empresa legal, a KAB, tinha uma atividade qualquer ou alguns bens. Era compreens�vel ele ter usado a m�e de Lisbeth Salander como laranja, ou nome de fachada, na ocasi�o da compra, para em seguida se apoderar do contrato de compra e venda.</p><p>Mas por que diabos ele gastara, em 2004, quase 440 mil coroas para reformar um pr�dio caindo aos peda�os que, de acordo com o inventariante, continuava sem ser usado em 2005?</p><p>Lisbeth Salander estava desconcertada mas n�o muito interessada. Fechou a pasta e ligou para Annika Giannini.</p><p>� Eu li o invent�rio. Minha decis�o permanece igual. Venda essa porcaria toda e fa�a o que quiser com o dinheiro. N�o quero ficar com nada que era dele.</p><p>� Certo. Vou cuidar para que metade do valor seja depositada em uma conta para sua irm�. Depois, vou sugerir a voc� algumas possibilidades de doa��o.</p><p>� Ah� � disse Lisbeth, e desligou sem dizer mais nada.</p><p>Sentou-se no recanto da janela, acendeu um cigarro e ficou contemplando a bacia de Saltsj�n.</p><p>Lisbeth Salander passou a semana seguinte dando assist�ncia a Dragan Armanskij num caso urgente. Tratava-se de seguir a pista e identificar uma pessoa suspeita de ter sido contratada para seq�estrar uma crian�a cuja guarda era motivo de conflito no div�rcio de uma sueca e um cidad�o liban�s. A contribui��o de Lisbeth Salander se limitava a controlar os e-mails da pessoa suspeita de ser o mandante. O servi�o terminou quando as duas partes, reconciliadas, aceitaram um acordo diante do juiz.</p><p>Dia 18 de dezembro era o domingo anterior ao Natal. Lisbeth acordou �s seis e meia e pensou que deveria comprar um presente de Natal para Hol-ger Palmgren. Refletiu por um instante na possibilidade de comprar outros presentes � quem sabe para Annika Giannini. Sem pressa, levantou-se, tomou banho e desfrutou calmamente seu caf� da manh�, composto por caf�, torradas com queijo e geleia de laranja.</p><p>N�o tinha nenhum plano espec�fico para aquele dia e passou algum tempo tirando um monte de pap�is e jornais de seu escrit�rio. Nisso, seu olhar bateu na pasta do invent�rio. Abriu-o e releu a p�gina com a descri��o do pr�dio industrial de Norrt�lje. Por fim, deu um suspiro. Tudo bem. Preciso descobrir o que ele estava aprontando.</p><p>Vestiu uma roupa quente e botas de cano alto. Eram oito e meia quando saiu com seu Honda cor de vinho da garagem do subsolo do pr�dio da Fiskar-gatan, n- 9. Fazia um frio intenso, mas o dia estava ensolarado e o c�u, azul-pastel. Passou por Slussen e pela perimetral da Klaraberg e ziguezagueou pela E18 em dire��o a Norrt�lje. N�o tinha pressa. Eram quase dez horas quando parou num posto de gasolina a poucos quil�metros de Skederid para perguntar o caminho da antiga olaria. Quando estava estacionando, percebeu que n�o seria necess�rio perguntar.</p><p>Encontrava-se num morro que dava para um pequeno vale do outro lado da estrada. � esquerda, na estrada de Norrt�lje, havia uma ind�stria de tintas e material de constru��o e um terreno de estacionamento para maquinado de terraplanagem. � direita, beirando a zona industrial, a cerca de quatrocentos metros da estrada principal, erguia-se um pr�dio sombrio de tijolo aparente com uma chamin� em ru�nas. A f�brica tinha o aspecto de uma �ltima sentinela da zona industrial, meio isolada por uma estrada e pequeno riacho. Ela contemplou o pr�dio, pensativa, e se perguntou o que a levara a reservar o dia para fazer uma visita � cidade de Norrt�lje.</p><p>Virou a cabe�a e olhou na dire��o do posto de gasolina, aonde acabava de chegar um caminh�o peso pesado ostentando placas TIR.* De s�bito, deu--se conta de que estava na art�ria principal do porto mercante de Kapellsk�r, por onde passava boa parte das mercadorias que transitavam entre a Su�cia e os Estados b�lticos.</p><p>Voltou a ligar o carro e retomou a estrada, virando logo em seguida na entrada para a olaria abandonada. Estacionou no meio do p�tio e desceu do carro. A temperatura estava abaixo de zero, ela enfiou um bon� preto e luvas de couro pretas.</p><p>O pr�dio principal tinha dois andares. No t�rreo, as janelas estavam todas condenadas, cobertas com chapas de compensado. No andar de cima, ela notou um bom n�mero de vidros quebrados. A olaria era muito maior do que ela imaginara, e parecia tremendamente deteriorada. Lisbeth n�o conseguia distinguir um vest�gio sequer de reforma. N�o viu nenhum sinal de vida, mas reparou numa camisinha usada jogada no meio do p�tio e que parte da fachada tinha sido alvo de artistas grafiteiros.</p><p>Por que o Zalachenko fazia tanta quest�o de ser dono desse pr�dio?</p><p>Contornou a olaria e, nos fundos, deparou com a ala demolida. Constatou que todas as portas do pr�dio principal estavam fechadas com correntes e cadeados. Por fim, examinou, frustrada, uma porta lateral. Em todas as outras, os cadeados estavam fixados com parafusos firmes e placas antirroubo O cadeado da porta lateral parecia mais fr�gil e estava preso apenas por um prego grande. Ora, dane-se, afinal eu sou a propriet�ria. Deu uma olhada ao redor, encontrou um cano de metal em cima de um monte de tralha e o usou como alavanca para quebrar a presilha do cadeado.</p><p>Entrou numa escada que se abria para o c�u. Com as janelas tapadas, reinava uma escurid�o quase total, exce��o feita a algumas esparsas estrias de luz que se esgueiravam pela beirada das placas de aglomerado. Ela ficou parada por alguns minutos, at� seus olhos se habituarem � escurid�o. Aos poucos foi distinguindo um amontoado de velharias, banquinhos abandonados, pe�as usadas de maquinaria e madeira de constru��o, numa sala que devia medir uns quarenta e cinco metros de comprimento por vinte de largura, com o teto sustentado por pilares maci�os. Os antigos fornos da olaria tinham virado tanques cheios de �gua e havia bolor e po�as enormes no piso. Daquela bagun�a se desprendia um cheiro de mofo e podrid�o. Ela franziu as narinas.</p><p>Lisbeth deu meia-volta e subiu a escada. O andar de cima estava seco e compunha-se de duas salas, uma seguida � outra, de pouco mais de vinte metros por vinte, com pelo menos oito metros de p�-direito. Janelas altas junto ao telhado eram inacess�veis. N�o permitiam, portanto, que se visse o lado de fora, mas traziam uma luz agrad�vel. Ali tamb�m reinava a mais incr�vel miscel�nea. Ela passou em frente a d�zias de caixotes de embalagem de um metro de altura empilhadas. Tentou erguer um deles. O caixote nem se moveu. Leu M�quina partes 0-A77 escrito na madeira. Abaixo, o mesmo texto em russo. Ela reparou num monta-cargas a meio caminho da primeira sala.</p><p>Uma esp�cie de dep�sito de m�quinas que n�o poderiam gerar fortuna alguma enquanto ficassem enferrujando naquela antiga olaria.</p><p>Ela foi at� a sala dos fundos e percebeu que era ali que a reforma tinha sido feita. A sala estava repleta de velharias, caixotes e m�veis de escrit�rio organizados de uma forma labir�ntica. Uma parte do piso fora desocupada e recebera um laminado novo. Lisbeth observou que a reforma parecia ter sido interrompida de forma abrupta. As ferramentas, uma serra circular e uma serra de fita, uma pregadora autom�tica, um p� de cabra, uma barra de ferro, assim como caixas de ferramentas, continuavam ali. Ela fez uma careta. Mesmo que as obras tenham sido interrompidas, a empresa respons�vel deveria ter levado o material. Mas tamb�m essa pergunta foi respondida quando ela pegou uma chave de fenda e constatou que a inscri��o no cabo estava em russo. Zalachenko tinha importado as ferramentas e tamb�m, quem sabe, os oper�rios.</p><p>Ela se aproximou da serra circular e girou o bot�o. Uma l�mpada verde se acendeu. Havia energia el�trica. Desligou a m�quina.</p><p>No fundo da sala, havia tr�s portas que davam para pe�as menores, talvez os antigos escrit�rios. Ela experimentou a ma�aneta da porta que ficava mais ao norte. Trancada. Olhou em torno e foi at� onde estavam as ferramentas para pegar um p� de cabra. Levou algum tempo para conseguir abrir a porta.</p><p>A pe�a estava na mais completa escurid�o e cheirava a mofo. Tateou com a m�o e achou um interruptor que acendeu uma l�mpada simples no teto. Lisbeth ficou estarrecida.</p><p>A mob�lia consistia em tr�s camas com colch�es sujos e outros tr�s colch�es colocados no ch�o. Len��is sujos por toda parte. A direita, uma chapa el�trica e algumas panelas ao lado de uma torneira enferrujada. A um canto, um balde de metal e um rolo de papel higi�nico.</p><p>Algu�m havia morado ali* V�rias pessoas.</p><p>Ent�o, reparou que a porta n�o tinha ma�aneta do lado de dentro do quarto. Um arrepio gelado percorreu suas costas.</p><p>No fundo da pe�a, havia um guarda-roupa grande. Abriu-o e deparou com duas malas. Pegou a que estava em cima. Havia roupas dentro. Vasculhou a mala e tirou de l� uma saia cuja etiqueta estava escrita em russo. Achou uma bolsa e esvaziou seu conte�do no ch�o. Dentre a maquiagem e outras miudezas, achou um passaporte emitido para uma mulher morena de mais ou menos vinte anos. O texto estava em russo. Ela decifrou o nome: Valentina.</p><p>Lisbeth Salander saiu lentamente da pe�a com uma sensa��o de d�j�-vu. Examinara um cen�rio de crime muito similar num por�o de Hedestad, dois anos e meio antes. Roupas de mulher. Uma pris�o. Ficou um bom tempo parada, refletindo. Preocupava-a que o passaporte e as roupas ainda estivessem ali. Um mau press�gio.</p><p>Ent�o voltou at� onde estavam as ferramentas e revirou tudo ali at� encontrar uma lanterna potente. Verificou as pilhas e em seguida voltou ao t�rreo e entrou na sala grande. A �gua das po�as penetrou em suas botas.</p><p>Quanto mais ela avan�ava pela sala, mais o cheiro de putrefa��o se tornava insuport�vel. O fedor parecia atingir seu ponto m�ximo no meio do c�modo. Deteve-se diante da base de um dos antigos fornos para tijolos. Estava com �gua quase at� a borda. Iluminou a �gua escura com a lanterna, mas n�o conseguiu ver nada. A superf�cie estava parcialmente coberta de algas que formavam um magma verde. Olhou em volta e encontrou uma barra de concreto armado de tr�s metros de comprimento. Enfiou-a dentro do tanque e mexeu. A profundidade da �gua era de apenas uns cinq�enta cent�metros. Quase de imediato, deparou com uma resist�ncia. Fez for�a durante alguns segundos at� que o corpo subisse � superf�cie, a come�ar pelo rosto, uma m�scara contorcida de morte e decomposi��o. Respirou pela boca, contemplou o rosto � luz da lanterna e constatou que se tratava de uma mulher, talvez a mulher do passaporte do piso superior. N�o entendia sobre a velocidade de decomposi��o em �gua fria e estagnada, mas o corpo parecia estar naquele tanque fazia algum tempo.</p><p>De repente, viu algo se mexendo na superf�cie da �gua. Algum tipo de larva.</p><p>Deixou o corpo voltar para o fundo da �gua e continuou procurando com a barra. Na borda do tanque, encostou no que parecia ser outro corpo. Recolheu a barra da �gua, deixou-a no ch�o e ficou parada em frente ao tanque, mergulhada em pensamentos.</p><p>Lisbeth Salander retornou ao andar de cima. Usou o p� de cabra para abrir a porta do meio. O c�modo estava vazio e n�o parecia ter sido usado.</p><p>Aproximou-se da �ltima porta e posicionou o p� de cabra, mas, antes mesmo que come�asse a for��-la, a porta se entreabriu. N�o estava trancada. Abriu-a de par em par empurrando com o p� de cabra e olhou em torno.</p><p>A sala tinha uns trinta metros quadrados. As janelas ficavam a uma altura normal e davam para o p�tio em frente � olaria. Avistou o posto de gasolina no morro acima da estrada. Havia ali uma cama, uma mesa e uma bancada com lou�a em cima. Ent�o viu uma sacola aberta no ch�o. C�dulas de dinheiro. Perplexa, deu dois passos � frente antes de perceber que fazia calor ali dentro. Seu olhar foi atra�do por uma estufa el�trica no meio da sala. Avistou uma cafeteira el�trica. A luz vermelha estava acesa.</p><p>Tem algu�m morando aqui. N�o estou sozinha.</p><p>Deteve-se e logo em seguida saiu correndo. Passou pela sala do fundo, pelas portas intermedi�rias e se precipitou para a sa�da na primeira sala. Freou a cinco passos da escada, ao ver que a porta tinha sido fechada com um cadeado. Estava presa. Virou-se lentamente e olhou em volta. N�o viu nada.</p><p>� Oi, mana � disse uma voz clara, vindo da lateral.</p><p>Virou a cabe�a e deu com a estatura imensa de Ronald Niedermann se materializando junto a uns caixotes. Ele tinha uma baioneta na m�o.</p><p>� Eu tinha esperan�a de voltar a te ver � disse Niedermann. � Na primeira vez foi tudo muito r�pido.</p><p>Lisbeth olhou em volta.</p><p>� N�o adianta � disse Niedermann. � S� estamos n�s dois aqui, e a �nica sa�da � essa porta trancada atr�s de voc�.</p><p>Lisbeth voltou o olhar para seu meio-irm�o.</p><p>� Como est� a sua m�o? � perguntou.</p><p>Niedermann continuava sorrindo para ela. Ergueu a m�o direita para lhe mostrar. Estava sem o dedo m�nimo.</p><p>� Infeccionou. Fui obrigado a amputar.</p><p>Ronald Niedermann sofria de analgesia cong�nita e era incapaz de sentir qualquer tipo de dor. Lisbeth acertara a m�o dele com uma pazada, em Gosseberga, poucos segundos antes de Zalachenko disparar uma bala na cabe�a dela.</p><p>� Eu deveria ter mirado na sua cabe�a � disse Lisbeth Salander com uma voz sem express�o. � O que voc� est� fazendo aqui? Achei que tinha se mandado h� meses para o exterior.</p><p>Ele sorriu para ela.</p><p>Mesmo que quisesse, n�o poderia responder � pergunta de Lisbeth Salander. Nem ele pr�prio sabia o que estava fazendo naquela olaria abandonada.</p><p>Ele deixara Gosseberga para tr�s com um sentimento de liberta��o. Achava que Zalachenko estava morto e que ele iria assumir a empresa. Sabia que era um excelente organizador.</p><empty-line/><p>Trocara de carro em Alings�s, enfiara no porta-malas Anita Kaspersson, a assistente de odontologia apavorada, e rumara para Bor�s. Ele n�o tinha um plano, ia improvisando. N�o dedicara um s� pensamento � sorte de Anita Kaspersson. Para ele tanto fazia ela viver ou morrer, e achava que precisaria se livrar de uma testemunha inc�moda. Em algum lugar nos arredores de Bor�s percebeu de repente que poderia us�-la de outra maneira. Continuara em dire��o ao sul e descobrira uma �rea florestal isolada perto de Seglora. Amarrara a mulher numa granja e a abandonara l�. Calculava que em algumas horas ela conseguiria se soltar e ent�o direcionaria as buscas policiais para o sul. E se ela n�o conseguisse se soltar e morresse ali de fome ou de frio, n�o era problema dele.</p><p>Na verdade, ele voltara a Bor�s e seguira em dire��o ao leste e a Estocolmo. Fora direto ao MC Svavelsj�, embora tomando o cuidado de evitar as instala��es do clube. Era uma chatea��o Magge Lundin estar na cadeia. Ent�o fora procurar o sergeant at arms do clube, Hans-�ke Waltari, na casa dele. Pedira ajuda e um lugar para se esconder, e Waltari ent�o o mandou procurar o tesoureiro e respons�vel pela �rea financeira do clube, Viktor G�ransson. No entanto, ficara com ele apenas por algumas horas.</p><p>Teoricamente, Ronald Niedermann n�o tinha por que se preocupar com dinheiro. Sem d�vida, fora obrigado a deixar em Gosseberga quase duzentas mil coroas em dinheiro, mas possu�a quantias muito maiores aplicadas no exterior. Seu problema era que lhe faltava dinheiro vivo. G�ransson administrava as finan�as do MC Svavelsj�, e Niedermann percebeu que havia ali uma bela oportunidade. Fora brincadeira de crian�a convencer G�ransson a lhe mostrar onde ficava o cofre-forte, na granja, e se abastecer de oitocentas mil coroas em dinheiro.</p><p>Niedermann lembrava vagamente de que havia tamb�m uma mulher na casa, mas n�o tinha muita certeza do que havia feito com ela.</p><p>G�ransson tamb�m tinha um carro, que ainda n�o estava sendo procurado pela pol�cia. Niedermann rumou para o norte. Planejava pegar uma das balsas para Tall�nn que sa�am de Kapellsk�r.</p><p>Ao chegar a Kapellsk�r, parar� num estacionamento. Desligara o motor e ficara trinta minutos observando os arredores. Estava fervilhando de tiras.</p><p>Tornara a ligar o carro e continuou rodando ao acaso. Precisava de um esconderijo onde pudesse se entocar por algum tempo. Passando nas proximidades de Norrtalje, lembrara da antiga olaria. Fazia mais de um ano que n�o pensava nela, desde a reforma. Os irm�os Harry e Atho Ranta usavam o local como dep�sito intermedi�rio de mercadorias provenientes ou destinadas aos pa�ses b�lticos, mas eles estavam no exterior havia v�rias semanas, desde que o jornalista Dag Svensson, da M�llenn�um, come�ara a bisbilhotar o com�rcio das putas. A olaria estava vazia.</p><p>Escondera o Saab de G�ransson num hangar atr�s da f�brica e entrara. Tinha sido obrigado a arrombar uma porta do t�rreo, e uma de suas primeiras iniciativas, depois, fora providenciar uma sa�da de emerg�ncia, uma chapa de compensado remov�vel na lateral menor do t�rreo. Mais tarde, substitu�ra o cadeado quebrado. Ent�o se acomodara no quartinho confort�vel do piso superior.</p><p>Uma tarde inteira se passou antes de ele ouvir o ru�do nas paredes. No come�o pensou que fossem seus fantasmas habituais. Ficou escutando por uma hora, extremamente tenso, e ent�o se levantou e foi escutar na sala grande. N�o ouviu nada, mas esperou, at� perceber o som de algo raspando.</p><p>Encontrou a chave na bancada.</p><p>Raramente Ronald Niedermann tinha ficado t�o surpreso quanto ficou ao abrir a porta e deparar com as duas putas russas. At� onde entendeu, elas estavam descarnadas daquele jeito por falta de comida, depois que o �ltimo pacote de arroz acabou. Tinham sobrevivido � base de ch� e �gua.</p><p>Uma das putas estava t�o esgotada que n�o teve energia para se erguer na cama. A outra estava em melhores condi��es. S� falava russo, mas ele conhecia suficientemente o idioma para entender que ela agradecia a Deus e a ele por salv�-las. Ele a recha�ara, estupefato, recuara e trancara a porta.</p><p>N�o sabia o que fazer com elas. Preparou uma sopa com os enlatados encontrados na cozinha e serviu a elas enquanto refletia. A mulher mais esgotada que estava de cama parecia recobrar as for�as. Ele passara a noite interrogando as duas. Levou algum tempo para entender que elas n�o eram putas, e sim estudantes que haviam pago aos irm�os Ranta para que as fizessem entrar na Su�cia. Eles tinham lhes prometido visto de perman�ncia e um trabalho. Chegaram a Kapellsk�r em fevereiro e foram levadas diretamente para aquele dep�sito, onde foram trancafiadas.</p><p>Niedermann se aborrecera. Ent�o aqueles malditos irm�os Ranta tinham mantido uma atividade paralela sem que Zalachenko soubesse. Depois, haviam simplesmente esquecido as mulheres, ou talvez as tivessem abandonado de prop�sito � pr�pria sorte quando deixaram a Su�cia �s pressas.</p><p>A quest�o era o que fazer com elas. Ele n�o tinha motivo algum para lhes fazer mal. Mas tamb�m n�o podia se dar ao luxo de libert�-las, pois elas muito provavelmente conduziriam a pol�cia at� a olaria. Simples assim. N�o podia mand�-las de volta para a R�ssia, pois nesse caso teria de ir com elas at� Kapellskar. Parecia arriscado demais. A morena, que se chamava Valentina, oferecera seu corpo em troca de ajuda. Ele n�o tinha a menor vontade de transar com ela, nem com a outra, mas a proposta transformara a garota em puta. Todas as mulheres eram putas. Simples assim.</p><p>Ao fim de tr�s dias, cansara-se de suas s�plicas incessantes, apelos e golpes na parede. N�o via outra sa�da. De sua parte, tudo que mais desejava era tranq�ilidade. De modo que abrira a porta pela �ltima vez e, rapidamente, dera um fim ao problema. Pedira perd�o a Valentina antes de estender as m�os e, num s� gesto, quebrar-lhe o pesco�o entre a segunda e a terceira v�rtebra. Depois cuidara da loira, deitada na cama, cujo nome ignorava. Ela ficara deitada, passiva e sem resistir. Levara os corpos para o t�rreo e os escondera num tanque cheio de �gua. Finalmente pudera experimentar uma esp�cie de paz.</p><p>N�o tinha a inten��o de permanecer na olaria. S� pretendia esperar at� grande parte da mobiliza��o policial diminuir. Raspou a cabe�a e deixou a barba crescer um cent�metro. Isso mudou sua fisionomia. Encontrou um macac�o que pertencera a um dos oper�rios da NorrBygg e que era quase do seu tamanho. Vestiu o macac�o, p�s um bon� esquecido da Beckers F�rg, enfiou uma trena de marceneiro no bolso e foi fazer compras no posto de gasolina no morro do outro lado da estrada. Tinha bastante dinheiro vivo, roubado do MC Svavelsj�. Foi no final do dia. Parecia um oper�rio comum parando ali antes de voltar para casa. Ningu�m pareceu reparar nele. Habituou-se a fazer compras uma ou duas vezes por semana. No posto de gasolina, o reconheciam logo e o cumprimentavam cordialmente.</p><p>Desde o in�cio, dedicara um bom tempo protegendo-se dos seres que povoavam o local. Entocavam-se nas paredes e sa�am durante a noite. Ele os ouvia andando pela sala.</p><p>Entrincheirou-se no quarto. Depois de alguns dias, se cansou daquilo. Armou-se de uma baioneta encontrada numa gaveta da cozinha e saiu para enfrentar seus monstros. Chegara a hora de acertar as contas com eles.</p><p>De repente, percebeu que as criaturas recuavam. Pela primeira vez na vida, a presen�a delas dependia da vontade dele. Elas fugiam quando ele se aproximava. Podia ver suas caudas e seus corpos deformados atr�s dos caixotes e arm�rios. Berrou com elas. Elas fugiram.</p><p>At�nito, voltou ao seu quartinho confort�vel e passou a noite toda acordado, esperando os monstros voltarem. Eles repetiram o ataque ao amanhecer, e mais uma vez foi preciso enfrent�-los. E eles fugiram novamente.</p><p>Ele oscilava entre o p�nico e a euforia.</p><p>A vida inteira tinha sido perseguido por essas criaturas das trevas e, pela primeira vez, sentia que dominava a situa��o. N�o fazia nada. Comia. Dormia. Pensava. Uma vida tranq�ila.</p><p>Os dias se transformaram em semanas, o ver�o chegou. Pelo r�dio e pelos jornais vespertinos, acompanhou o decl�nio da ca�ada a Ronald Niedermann. Observou com interesse os relatos do assassinato de Alexander Zalachenko. Chega a ser engra�ado! Um maluco vai e p�e um ponto final na vida do Zalachenko. Em julho, seu interesse se reavivou com o julgamento de Lisbeth Salander. Ficou at�nito ao ver que ela tinha sido absolvida. Alguma coisa estava errada. Ela estava livre, enquanto ele era obrigado a se esconder.</p><p>Comprou a Millennium no posto de gasolina e leu a edi��o sobre Lisbeth Salander, Alexander Zalachenko e Ronald Niedermann. Um jornalista chamado Mikael Blomkvist descrevia Ronald Niedermann como um assassino e doente mental, um psicopata. Niedermann fez uma careta.</p><p>De repente, chegou o outono e ele ainda n�o tinha ido embora. Quando veio o frio, comprou uma estufa el�trica no posto de gasolina. N�o sabia explicar a si mesmo por que n�o deixava a f�brica.</p><p>As vezes apareciam alguns jovens de carro, eles estacionavam no p�tio em frente � olaria, mas ningu�m nunca fora perturb�-lo nem tentara entrar no pr�dio. Em setembro, um carro estacionara no p�tio e um homem de parca azul mexera na ma�aneta das portas e dera uma volta pelo terreno, olhando tudo por ali. Niedermann o observara da janela do andar de cima.</p><empty-line/><p>De tempos em tempos, o homem tomava notas num caderninho. Ficara uns vinte minutos, ent�o dera uma �ltima olhada em volta, entrara no carro e deixara o local. Niedermann respirou aliviado. N�o tinha id�ia de quem era aquele homem nem do que ele procurava, mas ele parecera estar fazendo uma esp�cie de avalia��o dos pr�dios. Niedermann n�o relacionou a morte de Zalachenko com o conseq�ente invent�rio de sucess�o.</p><p>Ele pensava muito em Lisbeth Salander. N�o esperava, nunca mais, cruzar com ela, por�m ela o fascinava e o assustava. Ronald Niedermann n�o tinha medo dos vivos. Mas sua irm� � sua meia-irm� � causara-lhe uma impress�o extraordin�ria. Ningu�m o tinha vencido como ela vencera. Ela havia ressurgido apesar de ele a ter enterrado. Ela havia ressurgido e o perseguira. Sonhava com ela todas as noites. Acordava encharcado de um suor frio e percebia que ela substitu�ra seus fantasmas habituais.</p><p>Em outubro, tomou uma decis�o. N�o deixaria a Su�cia antes de encontrar sua irm� e acabar com ela. N�o tinha nenhum plano, mas sua vida ganhara um objetivo. N�o sabia onde ela estava nem como poderia seguir seu rastro. Ficava sentado na sala do andar de cima da olaria, olhando pela janela, dia ap�s dia, m�s ap�s m�s.</p><p>At� que o Honda cor de vinho estacionou um dia em frente ao pr�dio e, para sua imensa surpresa, ele viu Lisbeth Salander descer do carro. Deus � misericordioso, pensou. Lisbeth Salander ia ter o mesmo destino que as duas mulheres ali no t�rreo, cujos nomes esquecera. Sua espera chegara ao fim e agora ele finalmente poderia seguir sua vida.</p><p>Lisbeth Salander avaliou a situa��o e achou que ela estava longe de estar sob controle. Seu c�rebro trabalhava sob press�o. Clique, clique, clique. Ainda tinha o p� de cabra na m�o, mas percebeu que era uma arma demasiado fr�gil contra um homem que n�o sentia dor alguma. Estava trancada numa �rea de aproximadamente mil metros quadrados junto com um rob� assassino sa�do direto do inferno.</p><p>Quando Niedermann de repente se moveu em sua dire��o, ela jogou o p� de cabra em cima dele. Ele se esquivou com tranq�ilidade. Lisbeth Salander p�s o p� num banquinho, tomou impulso e se ergueu sobre um caixote de embalagem, continuando a escalar feito uma aranha os dois caixotes seguintes. Deteve-se e olhou para Niedermann, a pouco mais de quatro metros abaixo.</p><p>� Des�a � disse ele com calma. � Voc� n�o tem como fugir. O fim � inevit�vel.</p><p>Ela se perguntou se ele tinha uma arma de fogo. Isso, sem d�vida, seria um problema.</p><p>Ele se inclinou � frente, levantou uma cadeira e jogou-a em cima dela. Ela se abaixou.</p><p>De repente, Niedermann pareceu irritado. P�s o p� no banquinho e come�ou a subir em sua dire��o. Ela esperou ele chegar quase no alto antes de tomar impulso em duas passadas r�pidas, pular por cima do v�o central e aterrissar sobre um caixote alguns metros adiante. Desceu at� o ch�o para pegar o p� de cabra.</p><p>Niedermann n�o era desajeitado, mas sabia que n�o podia saltar sobre os caixotes, arriscando-se a torcer o p�. Teria de descer devagarinho, at� tocar o p� no ch�o. Era obrigado a se mexer lenta e metodicamente; passara a vida inteira dominando seu corpo. J� estava quase l� embaixo quando ouviu passos atr�s de si e mal teve tempo de virar o corpo para aparar o golpe de p� de cabra com o ombro. Perdeu a baioneta.</p><p>Lisbeth largou o p� de cabra no instante em que desfechou o golpe. N�o teve tempo de pegar a baioneta, mas empurrou-a com o p� para perto dos banquinhos. Em seguida, desviou-se de um tapa da m�o imensa de Niedermann e escapou para cima dos caixotes do outro lado do v�o central. Com o rabo do olho, viu Niedermann se esticar para agarr�-la. R�pida como um raio, levantou as pernas. Os caixotes de embalagem formavam duas fileiras, empilhados em tr�s n�veis de um lado a outro do v�o central e em dois n�veis do lado externo. Desceu ao segundo n�vel e, arqueando as costas, usou toda a for�a das pernas. O caixote devia pesar pelo menos duzentos quilos. Sentiu que ele se moveu, e ent�o caiu no v�o central.</p><p>Niedermann viu o caixote caindo e mal teve tempo de se jogar para o lado. Um canto do caixote bateu em seu peito, por�m ele se safou sem grandes danos. Deteve-se. Mas n�o � que ela est� mesmo resistindo! Subiu na dire��o de Lisbeth. A cabe�a dele estava alcan�ando a altura do terceiro n�vel quando ela desfechou-lhe um pontap�. Sua bota pesada atingiu a testa de Niedermann. Ele resmungou e se ergueu para cima dos caixotes. Lisbeth</p><p>Salander fugiu saltando mais uma vez sobre os caixotes do outro lado do v�o central. Deixou-se cair atr�s deles e sumiu de vista. Ele escutou seus passos e viu quando ela passou pela porta da sala do fundo.</p><p>Lisbeth Salander lan�ou um olhar avaliador � sua volta. Clique. Clique. Sabia que n�o tinha nenhuma chance. Podia sobreviver enquanto conseguisse se desviar das patas enormes de Niedermann e mant�-lo � dist�ncia, mas assim que cometesse um erro � o que aconteceria cedo ou tarde �, seria a morte. Tinha de evit�-lo a qualquer custo. Se ele encostasse a m�o nela, seria uma vez s� e o combate estaria terminado.</p><p>Precisava de uma arma.</p><p>Uma pistola. Uma metralhadora. Um obus perfurador e explosivo. Uma mina antipessoal.</p><p>Qualquer arma de merda, droga!</p><p>Mas n�o havia armas ali.</p><p>Olhou ao redor.</p><p>Nenhuma arma.</p><p>S� ferramentas. Clique, clique. Seu olhar bateu numa serra de fita, mas teria de ser muito persuasiva para faz�-lo se deitar na bancada. Clique. Avistou uma barra de ferro que poderia servir de lan�a, mas era pesada demais para ser manejada de forma eficaz. Clique. Deu uma olhada para a porta e viu que Niedermann descera dos caixotes, a uns quinze metros dali. Vinha novamente em sua dire��o. Ela come�ou a se afastar da porta. Restavam-lhe uns cinco segundos, talvez, antes que Niedermann a alcan�asse. Deu uma �ltima olhada nas ferramentas.</p><p>Uma arma... ou um esconderijo. Ela estacou de repente.</p><p>Niedermann n�o tinha pressa. Sabia que n�o havia sa�da e que, mais cedo ou mais tarde, pegaria sua irm�. Mas n�o havia como negar que ela era perigosa. Afinal, era filha de Zalachenko. E ele n�o queria sair ferido. Era melhor deixar que ela esgotasse suas for�as.</p><p>Ele parou junto � porta que dava para a sala dos fundos e examinou o monte de ferramentas, l�minas de assoalho semi-instaladas e m�veis. Ela n�o estava vis�vel.</p><p>� Sei que voc� est� a�. Vou te encontrar.</p><p>Ronald Niedermann parou de se mexer e escutou. A �nica coisa que ouviu foi a pr�pria respira��o. Ela tinha se escondido. Ele sorriu. Ela o desafiava. Sua visita se transformara, de repente, num jogo entre irm�os.</p><p>Nisso, ouviu um farfalhar descuidado em algum lugar no meio da sala. Virou a cabe�a, sem conseguir identificar de onde vinha o ru�do. Ent�o sorriu outra vez. No meio da sala, meio distante do resto de toda aquela tralha, havia uma bancada de trabalho de cinco metros de comprimento, de madeira, com uma fileira de gavetas e portas corredi�as na parte inferior.</p><p>Aproximou-se do m�vel pela lateral e olhou atr�s dele para ter certeza de que ela n�o estava tentando engan�-lo. Nada.</p><p>Ela est� escondida dentro do m�vel. Que imbecilidade.</p><p>Arrancou a primeira porta da parte esquerda do arm�rio.</p><p>Ouviu imediatamente o barulho de algu�m se movimentando dentro do m�vel. O ru�do vinha da parte central. Deu dois passos r�pidos e abriu a porta com ar triunfante.</p><p>Nada.</p><p>Ent�o ouviu uma s�rie de detona��es secas parecidas com tiros de pistola. O som chegou t�o r�pido que de in�cio custou a entender de onde vinha. Virou a cabe�a. Em seguida sentiu uma press�o esquisita no p� esquerdo. N�o sentiu nenhuma dor. Olhou para baixo, a tempo de ver a m�o de Lisbeth Salander deslocar a pregadora para o seu p� direito.</p><p>Ela est� embaixo do arm�rio!</p><p>Ficou paralisado durante os segundos de que Lisbeth precisava para mirar a ponta do seu sapato e disparar mais cinco pregos de constru��o em seu p�.</p><p>Ele tentou se mover.</p><p>Levou preciosos segundos para entender que seus p�s estavam pregados no piso rec�m-reformado. A m�o de Lisbeth Salander deslocou a pregadora para o p� esquerdo. Parecia uma arma autom�tica cuspindo proj�teis um atr�s do outro. Ela ainda teve tempo de disparar mais quatro pregos de constru��o antes que ele tivesse presen�a de esp�rito para reagir.</p><p>Ele come�ou a se inclinar para a frente com a inten��o de segurar a m�o de Lisbeth Salander, mas logo perdeu o equil�brio. Conseguiu se estabilizar apoiando-se no arm�rio, enquanto escutava a pregadora cuspindo pregos cla-blam, cla-blam, cla-blam. Ela voltara ao p� direito. Viu que ela disparava os pregos de vi�s, pelo calcanhar, para dentro do assoalho.</p><p>Ronald Niedermann urrou, repentinamente louco de raiva. Esticou-se uma vez mais em dire��o � m�o de Lisbeth Salander.</p><p>De onde estava, embaixo do m�vel, Lisbeth Salander viu a perna de sua cal�a subir, indicando que ele estava se inclinando para a frente. Largou a pregadora. Ronald Niedermann viu sua m�o sumir debaixo do arm�rio com a rapidez de um r�ptil antes que ele pudesse alcan��-la.</p><p>Ele avan�ou a m�o para pegar a pregadora, mas, assim que a tocou com a ponta do dedo, Lisbeth Salander puxou-a pelo fio para baixo do m�vel.</p><p>O espa�o entre o ch�o e o m�vel era de pouco mais de vinte cent�metros. Ele derrubou o arm�rio, usando toda a for�a de que era capaz. Lisbeth Salander fitou-o com olhos arregalados e uma express�o ofendida. Deu um giro na m�quina e descarregou-a a uma dist�ncia de cinq�enta cent�metros. O prego se cravou no meio da t�bia.</p><p>No instante seguinte, ela largou a pregadora e, rolando, se afastou rapidamente, tornando a se levantar fora do alcance dele. Recuou dois metros e parou.</p><p>Ronald Niedermann tentava se mover, perdeu novamente o equil�brio, balan�ava para a frente e para tr�s, os bra�os se agitando em c�rculos amplos. Recuperou o equil�brio e se inclinou para a frente, louco de raiva.</p><p>Dessa vez, conseguiu apanhar a pregadora. Ergueu-a e apontou-a para Lisbeth Salander. Pressionou o bot�o.</p><p>Mas nada aconteceu. Confuso, olhou para o aparelho. Depois ergueu os olhos para Lisbeth Salander. Com express�o vaga, ela indicou a tomada. Ele, com raiva, jogou a pregadora em cima dela. Ela se esquivou rapidamente.</p><p>Ent�o ela reconectou o plugue e puxou a pregadora para si.</p><p>O olhar dele cruzou com o olhar inexpressivo de Lisbeth Salander e de repente ele se sentiu surpreso. J� sabia que ela havia vencido. Ela � sobrenatural. Tentou instintivamente soltar o p� do ch�o. Ela � um monstro. Teve for�a suficiente para levant�-lo alguns mil�metros, at� ele ser travado pela cabe�a dos pregos. Estes tinham se cravado em diferentes �ngulos e, para se soltar, Niedermann seria literalmente obrigado a estra�alhar os p�s. Nem mesmo mobilizando sua for�a quase sobre-humana conseguiu soltar-se do ch�o. Ficou alguns segundos cambaleando como se estivesse prestes a desmaiar. Continuava pregado. Viu uma po�a de sangue se formando devagar entre seus sapatos.</p><p>Lisbeth Salander sentou-se diante dele numa cadeira sem encosto, tentando captar sinais de que ele teria for�a para arrancar os p�s do ch�o. Como ele n�o sentia dor, passar a cabe�a dos pregos pelos p�s era s� uma quest�o de for�a. Permaneceu parada, sem mover um m�sculo, por dez minutos, contemplando a luta dele. O tempo todo, seus olhos se mantiveram totalmente inexpressivos.</p><p>Acabou se levantando e se posicionando atr�s dele, e ent�o apontou a pregadora para sua coluna vertebral, logo abaixo da nuca.</p><p>Lisbeth Salander refletiu muito. Aquele homem diante dela tinha importado, drogado, maltratado e vendido mulheres no atacado e no varejo. Matara pelo menos oito pessoas, inclusive um policial de Gosseberga e um membro do MC Svavelsj�. N�o fazia id�ia de quantas outras mortes seu meio-irm�o tinha na consci�ncia, mas, por causa dele, ela pr�pria fora ca�ada por todo o pa�s como um c�o raivoso, acusada de tr�s homic�dios cometidos por ele.</p><p>Seu dedo pesava sobre o bot�o.</p><p>Ele matara Dag Svensson e Mia Bergman.</p><p>Com Zalachenko, tamb�m matara a ela, Lisbeth, e a enterrara, em Gosseberga. E agora, de novo, quisera mat�-la.</p><p>Motivos para se irritar n�o faltavam.</p><p>N�o via raz�o alguma para deix�-lo viver. Ele a odiava com uma intensidade que ela n�o entendia. O que aconteceria se ela o entregasse � pol�cia? Um processo? Pris�o perp�tua? Quando poderia sair? Quando iria fugir? E agora que finalmente j� n�o havia seu pai, por quantos anos ela ainda teria que ficar olhando atr�s de si, � espera do dia que seu irm�o ressurgisse? Sentiu o peso da pregadora. Podia dar um fim definitivo �quilo tudo.</p><p>An�lise das conseq��ncias.</p><p>Mordeu o l�bio inferior.</p><p>Lisbeth Salander n�o tinha medo nem dos seres humanos nem de coisa nenhuma. Sabia que carecia da imagina��o necess�ria para tanto � mais uma prova de que seu c�rebro era absolutamente normal.</p><p>Ronald Niedermann a odiava e ela retribu�a com um �dio tamb�m desmedido. Ele era daqueles homens do tipo Magge Lundin, Martin Vanger Alexander Zalachenko e dezenas de outros canalhas que, a seu ver n�o tinham por que permanecer entre os vivos. Se pudesse juntar todos numa ilha deserta e jogar uma bomba nuclear em cima deles, ficaria satisfeita.</p><p>Mas um assassinato? Ser� que valia a pena? O que aconteceria com ela se o matasse? Quais eram as chances de ela n�o ser pega? O que ela estaria pronta a sacrificar em troca da satisfa��o de acionar a pregadora uma �ltima vez?</p><p>Ela poderia alegar leg�tima defesa... n�o muito, com os p�s dele pregados no ch�o.</p><p>Lembrou-se de repente de Harriet Vanger, que tamb�m havia sido assediada pelo pai e pelo irm�o. Lembrou-se da discuss�o que tivera com Mikael Blomkvist, quando ela condenara Harriet Vanger com palavras duras. Era culpa de Harriet Vanger se seu irm�o Martin continuara a matar por anos a fio.</p><p>� O que voc� faria? � Mikael tinha perguntado.</p><p>� Eu acabaria com aquele traste � ela respondera com uma convic��o vinda do mais fundo da sua alma gelada.</p><p>E n�o � que agora ali estava ela exatamente na mesma situa��o de Harriet Vanger? Quantas mulheres Ronald Niedermann ainda n�o iria matar se ela o deixasse livre? Ela era maior de idade e socialmente respons�vel por seus atos. Quantos anos de sua vida estaria pronta a sacrificar? Quantos anos Harriet Vanger aceitara sacrificar?</p><p>Ent�o a pregadora foi ficando muito pesada para que ela conseguisse mant�-la apontada para a nuca, mesmo com ambas as m�os.</p><p>Abaixou a arma e teve a impress�o de estar retornando � realidade. Viu que Ronald Niedermann resmungava palavras incoerentes em alem�o. Falava sobre um diabo que tinha vindo busc�-lo.</p><p>Percebeu, de repente, que ele n�o falava com ela. Niedermann parecia enxergar algu�m do outro lado da sala. Virou a cabe�a e acompanhou seu olhar. N�o havia nada. Sentiu o cabelo se arrepiar.</p><p>Deu meia-volta, pegou a barra de ferro e foi at� a sala da frente onde estava sua bolsa. Ao se abaixar para peg�-la, viu a baioneta no ch�o. Ainda estava usando as luvas, e agarrou a arma.</p><empty-line/><p>Hesitou por um instante, e ent�o colocou-a bem � vista no v�o central, entre os caixotes. Usando a barra de ferro, trabalhou uns tr�s minutos no cadeado que trancava a sa�da.</p><p>Ficou um bom tempo dentro do carro, refletindo. Por fim, pegou o celular. Levou dois minutos para achar o n�mero de telefone da sede do MC Svavelsj�.</p><p>� Sim � disse uma voz do outro lado da linha.</p><p>� Nieminen � pediu ela.</p><p>� Um momento.</p><p>Aguardou tr�s minutos at� que Benny Nieminen, presidente em exerc�cio do MC Svavelsj�, atendesse.</p><p>� Quem est� falando?</p><p>� N�o interessa � disse Lisbeth, com uma voz t�o baixa que ele mal conseguiu distinguir as palavras. N�o saberia sequer dizer se quem estava ligando era um homem ou uma mulher.</p><p>� Ah�. E o que voc� quer?</p><p>� Acho que voc� gostaria de ter uma pista do Ronald Niedermann.</p><p>� Ah,�?</p><p>� Larga de besteira. Voc� quer ou n�o saber onde ele est�?</p><p>� Estou ouvindo.</p><p>Lisbeth descreveu o caminho para chegar � olaria abandonada perto de Norrt�lje. Informou que Niedermann estaria ali tempo suficiente para Nieminen ir at� l�, desde que fosse logo.</p><p>Desligou o celular, ligou o carro e foi at� o posto de gasolina do outro lado da estrada. Estacionou de modo a poder ver a olaria bem na sua frente.</p><p>Esperou mais de duas horas. J� passava da uma e meia quando avistou uma caminhonete rodando devagar mais abaixo na estrada. O ve�culo parou num estacionamento. Ficou ali por cinco minutos, depois deu meia-volta e entrou na estrada de acesso � olaria. J� come�ava a escurecer. O c�u cinzento de dezembro n�o ajudava a melhorar os dias.</p><p>Ela abriu o porta-luvas, pegou um bin�culo Minolta 2 X 8 e viu a caminhonete estacionando. Viu Benny Nieminen, Hans-�ke Waltari e mais tr�s pessoas que ela n�o conhecia. Reestrutura��o. Eles est�o tendo que substituir o pessoal.</p><p>Assim que Benny Nieminen e seus ajudantes encontraram a entrada lateral do pr�dio, ela pegou de novo o celular. Escreveu uma mensagem e a enviou por e-mail para o centro de opera��es da pol�cia de Norrt�lje.</p><p>[R. NIEDERMANN, QUE ASSASSINOU UM POLICIAL, SE ENCONTRA NA ANTIGA OLARIA PR�XIMA AO POSTO DE GASOLINA DE SKEDERID. NO MOMENTO, EST� SENDO MORTO POR B. NIEMINEN &amp; MEMBROS DO MC SVAVELSJ�. MULHER MORTA NO TANQUE DO T�RREO.]</p><p>N�o viu nenhum movimento na dire��o da f�brica.</p><p>Aguardou pacientemente.</p><p>Enquanto esperava, pegou o cart�o SIM do telefone e o destruiu, cortando-o em peda�os com uma tesourinha de unhas. Abriu o vidro e jogou os peda�os fora. Depois tirou um cart�o SIM novinho da carteira e o inseriu no celular. Ela usava cart�es recarreg�veis Comviq, praticamente imposs�veis de localizar. Ligou para a Comviq e carregou quinhentas coroas no novo cart�o.</p><p>Onze minutos haviam se passado quando um cambur�o da pol�cia, sem sirene mas com a luz girat�ria ligada, chegou � olaria vindo de Norrt�lje. O cambur�o estacionou na estrada de acesso, seguido, um minuto depois, por duas viaturas. Os policiais trocaram algumas palavras e em seguida avan�aram em grupo at� a olaria, estacionando ao lado da caminhonete de Nieminen. Ela ergueu o bin�culo. Viu um dos policiais falando em um radiofone enquanto olhava para a placa da caminhonete. Os policiais olharam em volta, mas n�o se moveram. Dois minutos depois, ela avistou mais um cambur�o aproximando-se em alta velocidade.</p><p>Compreendeu, ent�o, que estava tudo acabado.</p><p>A hist�ria que come�ara no dia em que ela nasceu acabava de chegar ao fim dentro daquela olaria.</p><p>Ela estava livre.</p><p>Quando os policiais retiraram um arsenal respeit�vel de dentro do cambur�o, vestiram coletes � prova de balas e come�aram a se posicionar em volta da olaria, Lisbeth Salander entrou no posto de gasolina e comprou um caf� para viagem e um sandu�che. Comeu em p� diante de uma mesa alta da loja.</p><p>J� estava escuro quando voltou para o carro. Ao abrir a porta, ouviu dois disparos distantes, na certa tiros de pistola, do outro lado da estrada. Avistou vultos escuros, policiais � espreita bem junto � fachada, perto da entrada lateral. Escutou as sirenes de mais um carro de interven��o da pol�cia chegando de Uppsala como refor�o. Alguns carros particulares estavam parados � beira da estrada tentando ver o que estava acontecendo.</p><p>Ela deu partida no Honda cor de vinho, entrou na E18 e voltou para casa, em Estocolmo.</p><p>Eram sete da noite quando Lisbeth Salander, irritad�ssima, ouviu a campainha tocando. Estava na banheira, numa �gua ainda fumegante. Pensando bem, s� uma pessoa teria motivo para vir bater � sua porta.</p><p>De in�cio, pensou em ignorar a campainha, mas, ao terceiro toque, suspirou, se enrolou numa toalha e foi respingando gotas d'�gua no ch�o do hall de entrada.</p><p>� Oi � disse Mikael Blomkvist, quando ela abriu a porta. Ela n�o respondeu.</p><p>� Voc� viu o notici�rio?</p><p>Ela fez que n�o com a cabe�a.</p><p>�Achei que voc� talvez gostasse de saber que o Ronald Niedermann est� morto. Foi assassinado hoje por um pessoal do MC Svavelsj� em Norrt�lje.</p><p>� Olha s�... � disse Lisbeth Salander com voz controlada.</p><p>� Falei com um policial de plant�o em Norrt�lje. Parece ter sido um acerto de contas. Ao que consta, o Niedermann foi torturado e retalhado com uma baioneta. Encontraram no local uma sacola com v�rias centenas de milhares de coras.</p><p>� Ah, �?</p><p>� A gangue de Svavelsj� foi pega em flagrante. E eles ainda resistiram. Houve um tiroteio e a pol�cia teve de pedir refor�o para a pol�cia nacional de Estocolmo. Svavelsj� se rendeu por volta das seis da tarde.</p><p>� Ah�.</p><empty-line/><p>� O seu velho amigo Benny Nieminen, de Stallarholmen, j� era. Ele se apavorou, ficou atirando feito um louco para se safar.</p><p>� Que bom.</p><p>Mikael Blomkvist ficou em sil�ncio por alguns segundos. Os dois se olharam atrav�s da porta entreaberta.</p><p>� Estou incomodando? � ele perguntou. Ela deu de ombros.</p><p>� Eu estava no banho.</p><p>� Estou vendo. Quer companhia? Ela lan�ou-lhe um olhar penetrante.</p><p>�� Eu n�o quis dizer na banheira. Eu trouxe uns bagels � disse ele, mostrando um pacote. � Tamb�m comprei caf� para fazer um expresso. Considerando-se que voc� tem uma Jura Impressa X7 na sua cozinha, devia pelo menos aprender a us�-la.</p><p>Ela ergueu as sobrancelhas. N�o sabia se ficava decepcionada ou aliviada.</p><p>� S� companhia? � ela perguntou.</p><p>� S� companhia � ele confirmou. � Sou um bom amigo visitando uma boa amiga. Quer dizer, isso se eu for bem-vindo.</p><p>Ela hesitou por alguns segundos. Durante dois anos, mantivera-se o mais longe poss�vel de Mikael Blomkvist. No entanto, ele parecia sempre acabar grudado na sua vida feito chiclete na sola do sapato, tanto na internet como na vida real. Na internet, at� podia ser. Ali ele n�o passava de el�trons e letras. Na vida real, em frente � sua porta, continuava sendo aquele puta homem atraente. E ele conhecia todos os seus segredos, assim como ela conhecia os dele.</p><p>Ela observou-o e constatou que n�o sentia mais nada por ele. Ou pelo menos n�o aquele tipo de sentimento.</p><p>Ele havia de fato sido seu amigo ao longo de todo aquele ano.</p><p>Confiava nele. Talvez. Era chato que uma das raras pessoas em quem ela confiava fosse um homem que ela passava o tempo todo evitando.</p><p>Ela de repente se decidiu. Bobagem fazer de conta que ele n�o existia. V�-lo j� n�o do�a mais.</p><p>Abriu a porta e tornou a acolh�-lo em sua vida.</p><p><image l:href="#4"/></p></section><section><empty-line/><empty-line/><p><strong>AUTOR</strong></p><empty-line/><empty-line/><p><strong><image l:href="#7"/></strong></p><empty-line/><p><strong/></p><empty-line/><p>Stieg Larsson (1954-2004) foi fundador e editor-chefe da revista sueca Expo, que denuncia grupos neofacistas e racistas. Especialista na atua��o das organiza��es de extrema direita em seu pa�s, � coautor de Extremh�gern, livro no qual p�e o assunto em evid�ncia. Morreu em sua casa, v�tima de um ataque card�aco, pouco depois de ter entregado os originais dos romances que comp�em a trilogia Millennium.</p><empty-line/><p><image l:href="#4"/></p><empty-line/><empty-line/></section><section><empty-line/><p><image l:href="#8"/></p></section></body><binary id="cover" 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