<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>Stieg</first-name><last-name>Larsson</last-name></author><book-title>Os Homens Que N�o Amavam as Mulheres</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>pt</lang></title-info><document-info><author><first-name>Stieg</first-name><last-name>Larsson</last-name></author><program-used>calibre 0.9.25, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>3.4.2013</date><id>f1edaa8e-d281-42df-9d06-5441dd51acaa</id><version>1.0</version></document-info></description><body><section><p><image l:href="#_1.jpg"/></p><empty-line/><p>MILLENNIUM</p><p><image l:href="#2"/></p><p>STIEG LARSSON</p><p><strong/></p><p><strong>OS HOMENS QUE N�O AMAVAM AS MULHERES</strong></p><p><emphasis/></p><p><emphasis>Tradu��o </emphasis></p><p>Paulo Neves</p><p><emphasis/></p><p>4�<emphasis> reimpress�o</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis/></p><p><strong>SUM�RIO</strong></p><p><strong/></p><p><strong>Pr�logo</strong>: sexta-feira 1� de novembro</p><p>I. <strong>Incita��o</strong> (20 de dezembro a 3 de janeiro)</p><p>II. <strong>An�lise das consequ�ncias</strong> (3 de janeiro a 17 de mar�o)</p><p>III. <strong>Fus�es</strong> (16 de maio a 14 de julho)</p><p>IV. <strong><emphasis>Takeover</emphasis></strong><emphasis/>hostil (11 de julho a 30 de dezembro)</p><p><strong>Ep�logo</strong> � acerto de contas: quinta-feira 27 de novembro a ter�a-feira 30 de dezembro</p><p><strong/></p><p>PR�LOGO<strong>SEXTA-FEIRA 1� DE NOVEMBRO</strong></p><p>Acontecia todos os anos, quase como um ritual. O homem que recebia a flor festejava naquele dia seus oitenta e dois anos. Ele abriu o envelope e retirou o papel de presente do embrulho. Depois pegou o telefone e digitou o n�mero de um ex-inspetor de pol�cia que desde sua aposentadoria instalara-se na Dalecarlia, perto do lago Siljan. Os dois homens n�o s� tinham a mesma idade mas haviam nascido no mesmo dia � o que, nessas circunst�ncias, parecia ir�nico. O inspetor sabia que receberia esse telefonema ap�s a passagem do carteiro por volta das onze da manh�, e tomava seu caf� enquanto aguardava. Nesse ano, o telefone tocou �s dez e meia. Ele atendeu e foi direto ao assunto.</p><p>� Ela chegou, suponho. E ent�o, qual � a flor deste ano?</p><p>� N�o fa�o a menor id�ia. Vou mandar identific�-la. Uma flor branca.</p><p>� Nenhuma carta, como sempre?</p><p>� N�o. Apenas a flor. A moldura � a mesma do ano passado. Uma dessas molduras baratas do tipo fa�a-voc�-mesmo.</p><p>� Selo do correio?</p><p>� Estocolmo.</p><p>� Escrita?</p><p>� Como sempre, mai�sculas de imprensa. Letras retas e bem tra�adas.</p><p>Haviam esgotado o assunto e ficaram em sil�ncio durante quase um minuto. O inspetor aposentado inclinou-se para tr�s na cadeira da cozinha e aspirou seu cachimbo. Sabia muito bem que n�o se esperava dele uma pergunta concisa ou um coment�rio perspicaz que lan�assem uma nova luz sobre o caso. Essa �poca acabara havia anos, e a conversa entre os dois homens idosos tinha o car�ter de um ritual em torno de um mist�rio que ningu�m mais no mundo, a n�o ser eles, estava disposto a resolver.</p><p>O nome latino da planta era <emphasis>Leptospermum rubinette (Myrtaceae). </emphasis>Uma planta de mato, relativamente comum, com folhas pequenas que lembram as da urze, e uma flor branca de dois cent�metros com cinco p�talas. Comprimento total: cerca de dez cent�metros.</p><p>Era encontrada no mato e nas regi�es montanhosas da Austr�lia, onde brotava sob a forma de grossos tufos de erva. L�, chamavam-na <emphasis>desert snow. </emphasis>Mais tarde, uma especialista do jardim bot�nico de Uppsala constataria se tratar de uma planta rara, muito pouco cultivada na Su�cia. Em seu relat�rio, a bot�nica escreveu que a planta era aparentada da murta de apartamento, seguidamente confundida com sua prima bem mais comum, a <emphasis>Leptospermum scoparium, </emphasis>abundante na Nova Zel�ndia. Segundo a especialista, a diferen�a consistia num n�mero restrito de microsc�picos pontos rosados na extremidade das p�talas, que davam � flor uma leve tonalidade r�sea.</p><p>De maneira geral, a <emphasis>rubinette </emphasis>era uma flor particularmente insignificante. N�o tinha valor comercial nem virtudes medicinais conhecidas, e n�o era alucin�gena. N�o comest�vel, inutiliz�vel como condimento e desprovida de propriedade colorante. Contudo, tinha certa import�ncia para os abor�genes da Austr�lia, que, por tradi��o, consideravam sagradas a regi�o e a flora ao redor de Ayers Rock. Assim, a �nica finalidade dessa flor parecia ser valorizar agradavelmente o entorno com sua beleza caprichosa.</p><p>Em seu relat�rio, a bot�nica de Uppsala constatava que, se na Austr�lia a <emphasis>desert snow </emphasis>era pouco difundida, na Escandin�via, ent�o, era rar�ssima. Ela pr�pria nunca vira nenhum exemplar, mas, por informa��es obtidas com alguns colegas, sabia de tentativas de introdu��o da planta num jardim em G�teborg, e n�o se exclu�a a possibilidade de que jardineiros amadores e fan�ticos da bot�nica a cultivassem em pequenas estufas pessoais. A principal dificuldade de sua aclimata��o na Su�cia era que ela exigia um clima suave e seco, e devia passar os seis meses do inverno protegida. Os solos calc�rios n�o lhe convinham e ela necessitava de uma irriga��o subterr�nea, diretamente absorvida pela raiz. Exigia conhecimento e habilidade no cultivo.</p><p>Em tese, o fato de essa planta ser rara na Su�cia devia facilitar o rastreamento da origem desse exemplar, mas, concretamente, era uma tarefa imposs�vel. N�o existiam nem registros a consultar nem licen�as a examinar. Ningu�m sabia quantos horticultores amadores podiam ter importado aleatoriamente uma planta t�o dif�cil � poucas pessoas ou at� mesmo centenas de apaixonados por flores podiam ter tido acesso �s sementes e �s plantas. Qualquer jardineiro poderia t�-las comprado de um colega sem nota fiscal, ou por correspond�ncia, ou de algum jardim bot�nico na Europa. Ela podia at� mesmo ter entrado na Su�cia com algu�m que estivesse retornando de uma viagem � Austr�lia. Ou seja, identificar esses cultivadores entre os milh�es de suecos propriet�rios de uma pequena estufa ou de um vaso de flores no peitoril da janela era uma tarefa destinada ao fracasso.</p><p>Ela n�o passava de mais um n�mero na s�rie de flores inexplic�veis que chegavam todos os anos, sempre num grande envelope acolchoado, no dia 1� de novembro. A esp�cie mudava de ano para ano, mas eram sempre flores lindas e em geral bastante raras. Como sempre, a flor estava prensada em um vidro, cuidadosamente fixada sobre papel de desenho e emoldurada no formato 29 por 16.</p><p>O mist�rio dessas flores nunca fora divulgado � imprensa e s� era conhecido por um c�rculo limitado. Tr�s d�cadas antes, a chegada anual da flor fora objeto de an�lises � do laborat�rio criminol�gico do Estado, de peritos em impress�es digitais e grafologistas, de criminologistas formados e de um certo n�mero de familiares e amigos do destinat�rio. Agora, os atores desse drama n�o eram mais que tr�s: o velho her�i aniversariante, o policial aposentado e, naturalmente, a pessoa desconhecida que enviava o presente. Como pelo menos os dois primeiros haviam atingido uma idade mais que respeit�vel, chegava o momento de se preparar para a inelut�vel diminui��o, em breve, desse c�rculo de iniciados.</p><p>O policial aposentado era um veterano fortalecido pela profiss�o. Nunca esquecera sua primeira ocorr�ncia: a deten��o de um b�bado � um mec�nico ferrovi�rio �, violento e disposto a colocar sua vida ou a de qualquer um em jogo. Ao longo de sua carreira, o policial pusera na pris�o gatunos, homens que batiam na mulher, vigaristas, ladr�es de carro e motoristas embriagados. Confrontara-se com assaltantes, ladr�es, traficantes, estupradores e um dinamitador com uma certa dose de problemas mentais. Participara de nove inqu�ritos sobre crimes e assassinatos. Em cinco deles, o pr�prio culpado, atormentado pelo remorso, chamara a pol�cia para confessar o assassinato da mulher, do irm�o ou de algum outro familiar. Tr�s casos haviam exigido investiga��es; dois tiveram seu desfecho depois de alguns dias e um, com o aux�lio da Pol�cia Federal, passados dois anos.</p><p>O nono inqu�rito n�o tinha bases policiais s�lidas, isto �, os investigadores sabiam quem era o assassino, mas as provas eram t�o insignificantes que o procurador decidiu deixar o caso em suspenso. Para grande preju�zo do inspetor, o caso acabou prescrevendo. No todo, por�m, ele deixara atr�s de si uma carreira impressionante e, claro, deveria se sentir satisfeito pelo trabalho realizado.</p><p>Mas ele n�o estava nada satisfeito.</p><p>Para o inspetor, o <emphasis>caso das flores secas </emphasis>era um espinho que continuava encravado � o inqu�rito frustrante, jamais resolvido, ao qual indiscutivelmente dedicara mais tempo.</p><p>A situa��o era duplamente absurda porque, ap�s milhares de horas de reflex�o, tanto em servi�o como em seu tempo livre, ele n�o estava sequer seguro de ter havido um crime.</p><p>Os dois homens sabiam que a pessoa que colara a flor seca utilizara luvas, por�m n�o havia impress�es nem na moldura nem no vidro. Sabiam que era imposs�vel descobrir o remetente. Sabiam que a moldura era vendida em lojas de fotografias ou em papelarias do mundo inteiro. Simplesmente n�o havia como seguir a menor pista. E o selo do correio sempre mudava; com mais frequ�ncia era de Estocolmo, mas tr�s vezes foi de Londres, duas de Paris, duas de Copenhague, uma de Madri, uma de Bonn e uma vez, a mais intrigante, de Pensacola, nos Estados Unidos. Enquanto todas as outras cidades eram capitais, Pensacola era um nome t�o desconhecido que o inspetor foi obrigado a procurar a cidade num atlas.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Depois de desligar o telefone, o homem que festejava seus oitenta e dois anos permaneceu im�vel por um longo momento, contemplando a bela mas insignificante flor cujo nome ainda n�o conhecia. Em seguida ergueu os olhos para a parede acima da escrivaninha. Havia ali quarenta e tr�s flores penduradas, prensadas sob o vidro e emolduradas, formando quatro fileiras de dez flores e uma fileira inacabada de quatro. Na fileira superior, faltava um quadro. O n�mero 9 estava vazio. A <emphasis>desert snow </emphasis>ia ser o n�mero 44.</p><p>Pela primeira vez, no entanto, ocorreu algo que quebrou a rotina de todos aqueles anos. De repente, de forma inesperada, ele come�ou a chorar. Ele mesmo se surpreendeu com essa s�bita efus�o sentimental depois de quase quarenta anos.</p><p><image l:href="#3"/></p><empty-line/></section><section><p><strong>I. INCITA��O - 20 DE DEZEMBRO A 3 DE JANEIRO</strong></p><p><emphasis/></p><p><emphasis>Na Su�cia, 18% das mulheres foram amea�adas por um homem pelo menos uma vez na vida.</emphasis></p><p><emphasis/><strong>1. SEXTA-FEIRA 20 DE DEZEMBRO</strong></p><p>O processo estava definitivamente encerrado e tudo que podia ser dito fora dito. Ele n�o duvidara um s� instante que seria declarado culpado. A senten�a fora pronunciada �s dez da manh� desta sexta-feira e agora n�o restava sen�o ouvir a opini�o dos jornalistas que aguardavam no corredor do tribunal.</p><p>Mikael Blomkvist os viu pela fresta da porta e deteve-se alguns segundos. N�o tinha vontade de discutir o veredicto cuja c�pia acabava de obter, mas as perguntas eram inevit�veis e ele sabia � melhor que ningu�m � que elas deviam ser feitas e que era preciso respond�-las. <emphasis>Eis o que � ser um criminoso, </emphasis>pensou. <emphasis>Do outro lado do microfone. </emphasis>Endireitou-se, pouco � vontade, e tentou sorrir. Os rep�rteres o receberam e o cumprimentaram gentilmente, um pouco constrangidos.</p><p>� Vejamos... <emphasis>Aftonbladet, Expressen, </emphasis>TT, TV4 e... voc� de onde �?<emphasis>... </emphasis>Ah, sim, <emphasis>Dagens Industri. </emphasis>Parece que virei uma celebridade � constatou Mikael Blomkvist.</p><p>� Uma declara��o, por favor, Super-Blomkvist! � disparou o enviado de um dos jornais vespertinos.</p><p>Mikael Blomkvist, cujo nome completo era Carl Mikael Blomkvist, for�ou-se a n�o levantar os olhos para o c�u como fazia todas as vezes que ouvia esse apelido. Certa vez, vinte anos antes, quando tinha vinte e tr�s anos e iniciava-se na profiss�o de jornalista como substituto de f�rias de ver�o, Mikael Blomkvist descobrira por acaso uma gangue de assaltantes de bancos, autores de cinco a��es violentas muito noticiadas naqueles �ltimos dois anos. Tratava-se, com toda a certeza, do mesmo grupo; sua especialidade era chegar de carro em cidades pequenas e assaltar um ou dois bancos com precis�o militar. Usavam m�scaras de borracha dos personagens de Walt Disney e foram batizados � segundo uma l�gica policial n�o de todo absurda � de o Bando do Pato Donald. Os jornais, por�m, preferiram cham�-los de os Irm�os Metralha, apelido um pouco mais s�rio, j� que em duas ocasi�es haviam disparado, sem escr�pulos, tiros de advert�ncia, sem se importar com a seguran�a das pessoas, amea�ando transeuntes e curiosos.</p><p>O sexto ataque � m�o armada ocorreu num banco de �sterg�tland, em pleno ver�o. Um rep�rter da r�dio local achava-se no banco no momento do assalto e reagiu de acordo com as regras da profiss�o. Assim que os assaltantes deixaram o banco, ele correu at� uma cabine telef�nica e se comunicou com a r�dio para transmitir ao vivo a informa��o.</p><p>Mikael Blomkvist passava alguns dias com uma amiga na casa de campo dos pais dela, n�o muito distante de Katrineholm. Quando a pol�cia o interrogou, ele n�o soube dizer exatamente por que fizera a liga��o, mas no momento em que escutava as informa��es no r�dio lembrou-se de quatro sujeitos numa casa de veraneio a poucas centenas de metros dali. J� os vira dois dias antes, quando passeava com a amiga: os sujeitos jogavam <emphasis>badminton </emphasis>no jardim.</p><p>Ele vira apenas quatro jovens louros e atl�ticos, de bermuda e peito nu, visivelmente adeptos do <emphasis>body-building, </emphasis>mas algo nesses jogadores de <emphasis>badminton </emphasis>o fizera olhar uma segunda vez � talvez porque jogassem, sob um sol escaldante, com uma energia e uma viol�ncia espantosas. N�o parecia um jogo, e isso chamara a aten��o de Mikael.</p><p>N�o havia nenhum motivo racional para suspeitar que aqueles homens fossem os assaltantes do banco; no entanto, depois do <emphasis>flash </emphasis>na r�dio, Mikael Blomkvist saiu para dar uma volta e se posicionou numa colina com vista para a casa, de onde constatou que tudo ali parecia vazio at� o momento. Depois de uns quarenta minutos, ele viu o grupo chegar num Volvo e estacionar. Pareciam apressados, cada um carregava uma sacola, o que apenas podia significar que eles haviam sa�do para tomar banho em algum lugar. Mas um deles voltou ao carro e pegou um objeto, que se apressou a cobrir com o blus�o do abrigo. Mesmo de seu posto de observa��o relativamente afastado, Mikael viu que se tratava de um rifle AK4, do tipo dos que ele mesmo manipulara havia n�o muito tempo durante seu ano de servi�o militar. Foi o que o levou a chamar a pol�cia e a relatar suas observa��es. Come�aram ent�o tr�s dias de uma intensa vigil�ncia da casa, com Mikael na primeira fila, sustentado por copiosos honor�rios de <emphasis>freelance </emphasis>pagos por um dos jornais vespertinos. A pol�cia montou seu quartel-general num <emphasis>trailer </emphasis>estacionado no terreno da casa de campo onde Mikael passava f�rias.</p><p>O caso dos Irm�os Metralha deu a Mikael a incontest�vel condi��o de vedete, que ele tanto necessitava como jornalista iniciante. O reverso da celebridade foi que o outro jornal vespertino n�o p�de deixar de dar a manchete: "Super-Blomkvist resolve o mist�rio dos Metralha". O texto gozador, escrito por uma redatora n�o muito jovem, continha v�rias refer�ncias ao her�i dos romances juvenis de Astrid Lindgren. Para completar, o jornal ilustrava o artigo com uma foto n�o muito clara, em que Mikael, de boca aberta e dedo indicador erguido, parecia dar instru��es a um policial de uniforme. Na realidade, o que ele indicava nesse momento eram os sanit�rios no fundo do jardim.</p><p>A partir desse dia, para seu grande desespero, seus colegas jornalistas passaram a cham�-lo de Super-Blomkvist. Era um apelido pronunciado com um toque malicioso, nunca maldoso, mas tamb�m nunca verdadeiramente carinhoso. Ele n�o tinha nada contra a pobre Astrid Lindgren � adorava seus livros e as aventuras de seu jovem her�i detetive �, por�m detestava o apelido. Haviam sido necess�rios v�rios anos e m�ritos jornal�sticos bem mais consistentes para que o apelido come�asse a se diluir, e Mikael ainda hoje se contra�a toda vez que o chamavam de Super-Blomkvist.</p><p>Assim, armou um sorriso tranquilo e olhou o enviado do jornal vespertino bem nos olhos.</p><p>� Voc� s� precisa inventar alguma coisa. N�o � o que costuma fazer quando escreve?</p><p>O tom n�o era �spero. Todos se conheciam um pouco, e os cr�ticos mais ferrenhos de Mikael n�o tinham vindo. Ele j� havia trabalhado com um dos rapazes que estavam ali; quanto � mo�a da Tv4, por pouco n�o transara com ela numa festa anos antes.</p><p>� Eles n�o acreditaram em voc� � constatou o <emphasis>Dagens Industri, </emphasis>que parecia ter enviado um foca.</p><p>� Pode-se dizer que sim � reconheceu Mikael. Dificilmente poderia responder outra coisa.</p><p>� Como est� se sentindo?</p><p>Apesar da gravidade da situa��o, nem Mikael nem os jornalistas credenciados puderam deixar de esbo�ar um sorriso ao ouvir a pergunta. Mikael trocou um olhar com a mo�a da TV4. <emphasis>Como est� se sentindo? </emphasis>Pergunta que os jornalistas s�rios dizem ser a �nica que os rep�rteres esportivos sabem fazer ao Esportista Sem F�lego que cruzou a linha de chegada. Mas ele voltou a ficar s�rio.</p><p>� � evidente que s� posso lamentar que o tribunal n�o tenha chegado a outras conclus�es � respondeu um tanto formal.</p><p>� Tr�s meses de pris�o e cento e cinquenta mil coroas por perdas e danos. N�o � pouco � disse a mo�a da TV4.</p><p>� Sobreviverei.</p><p>� Voc� pretende se desculpar com Wennerstr�m, apertar-lhe a m�o?</p><p>� N�o, nem imagino uma coisa dessas. Minha opini�o sobre a moralidade do senhor Wennerstr�m nos neg�cios n�o mudou muito.</p><p>� Ent�o continua afirmando que ele � um escroque? � perguntou vivamente o <emphasis>Dagens Industri.</emphasis></p><p>Uma declara��o acompanhada de uma manchete potencialmente devastadora anunciava-se por tr�s da pergunta, e Mikael poderia ter pisado na casca de banana se o rep�rter n�o tivesse assinalado o perigo ao avan�ar o microfone com demasiada pressa. Ele refletiu sobre a resposta por alguns segundos.</p><p>O tribunal acabara de concluir que Mikael Blomkvist caluniara o financista Hans-Erik Wennerstr�m. Ele fora condenado por difama��o. O processo terminara e Mikael n�o pretendia recorrer. Mas o que aconteceria se, por imprud�ncia, reiterasse suas acusa��es ao sair da sala do tribunal? Decidiu que n�o tinha vontade de saber.</p><p>� Julguei ter tido boas raz�es para publicar as informa��es de que eu dispunha. A opini�o do tribunal foi outra e evidentemente sou obrigado a aceitar que o processo siga seu curso. Agora vamos discutir esse julgamento a fundo na reda��o da revista antes de decidir o que faremos. N�o posso dizer mais nada.</p><p>� Mas voc� est� esquecendo que n�s, como jornalistas, devemos ter como provar nossas afirma��es � disse a mo�a da TV4 com um tom de voz levemente c�ustico. Ponto dif�cil de contestar. Eles haviam sido amigos. Ela exibia um rosto neutro, mas Mikael teve a impress�o de vislumbrar uma sombra de decep��o em seus olhos.</p><p>Ainda durante alguns dolorosos minutos, Mikael Blomkvist respondeu �s perguntas. A que pairava no ar e que nenhum rep�rter decidia-se a fazer � talvez porque de t�o incompreens�vel se tornava inc�moda � era como Mikael pudera escrever um texto t�o sem subst�ncia. Os rep�rteres ali presentes, com exce��o do foca do <emphasis>Dagens Industri, </emphasis>eram todos veteranos, com grande experi�ncia profissional. Para eles, a resposta a essa pergunta achava-se al�m do limite do compreens�vel.</p><p>A mo�a da TV4 pediu que ele ficasse em frente � porta do Pal�cio de Justi�a e fez suas perguntas � parte, diante da c�mera. Ela foi mais am�vel do que ele merecia, e Mikael deu declara��es suficientes para satisfazer a todos os jornalistas. O caso renderia grandes manchetes � era inevit�vel �, mas ele se for�ou a p�r na cabe�a que n�o se tratava, de modo algum, do maior acontecimento do ano na m�dia. Quando os rep�rteres conseguiram o que queriam, foram embora para suas respectivas reda��es.</p><p>Tinha a inten��o de voltar a p� para casa, mas ventava muito naquele dia de dezembro e ele sentia frio. Ao sair sozinho do Pal�cio de Justi�a, viu William Borg descer de um carro no qual permanecera durante a entrevista. Seus olhares se cruzaram, William Borg exibia um grande sorriso.</p><p>� Valeu a pena vir at� aqui para v�-lo com esse documento na m�o. Mikael n�o respondeu. William Borg e Mikael Blomkvist se conheciam havia quinze anos. Durante algum tempo trabalharam juntos como jornalistas substitutos na se��o de economia de um di�rio matutino. Talvez pela falta de qu�mica entre os dois, esse per�odo estabelecera uma hostilidade permanente entre eles. Aos olhos de Mikael, Borg era um jornalista execr�vel, um sujeito fatigante e vingativo, de esp�rito curto, que aborrecia os que estavam a sua volta com gracejos imbecis e que insinuava desprezo pelos jornalistas mais velhos, portanto mais experientes. Borg parecia ter particular avers�o por jornalistas mulheres de uma certa idade. Eles discutiram uma primeira vez, depois outras, at� que suas diferen�as adquiriram um car�ter profundamente pessoal.</p><p>No decorrer dos anos, Mikael e Borg haviam se cruzado com regularidade, mas s� se indispuseram de fato no final dos anos 1990. Mikael escrevera um livro sobre jornalismo econ�mico e extra�ra mais de uma cita��o absurda dos artigos assinados por Borg. Segundo Mikael, Borg era um presun�oso que entendera de maneira errada a maior parte das informa��es e elevara �s nuvens empresas "pontocom" que n�o tardariam a sucumbir. Borg n�o gostou da cr�tica de Mikael e, quando se encontraram por acaso num bar em S�der, por pouco n�o chegaram �s vias de fato. Borg abandonara o jornalismo e agora trabalhava como rela��es-p�blicas, recebendo um sal�rio consideravelmente mais alto, numa empresa que, para completar, pertencia � esfera de interesses do industrial Hans-Erik Wennerstr�m.</p><p>Eles se encararam por um bom tempo antes de Mikael virar as costas e ir embora. Vir ao Pal�cio com a �nica finalidade de tirar um sarro era bem t�pico de Borg.</p><p>Mikael tinha come�ado a caminhar quando o 40 chegou e ele subiu no �nibus, antes de mais nada para sair dali. Desceu em Fridhemsplan e ficou indeciso no abrigo de �nibus, sempre segurando na m�o a c�pia de sua senten�a. Decidiu enfim ir a p� at� o caf� Anna, ao lado da garagem da delegacia.</p><p>Menos de um minuto depois de pedir um <emphasis>caff� latte </emphasis>e um sandu�che, o notici�rio do meio-dia come�ou pelo r�dio. O assunto foi o terceiro, depois de um atentado suicida em Jerusal�m e da not�cia de que o governo formara uma comiss�o de inqu�rito para investigar aparentes cart�is il�citos na constru��o civil.</p><p>O jornalista Mikael Blomkvist, da revista <emphasis>Millennium, </emphasis>foi condenado nesta sexta-feira a tr�s meses de pris�o por difama��o contra o industrial Hans-Erik Wennerstr�m. Num artigo sobre o suposto caso Minos, que h� alguns meses chocou a opini�o p�blica, Blomkvist acusava Wennerstr�m de ter desviado fundos sociais, destinados a investimentos industriais na Pol�nia, para o tr�fico de armas. Mikael Blomkvist tamb�m foi condenado a pagar cento e cinquenta mil coroas por perdas e danos. O advogado de Wennerstr�m, Bertil Camnermarker, disse que seu cliente estava satisfeito com a senten�a. "Trata-se de um caso de difama��o particularmente grave", declarou.</p><p>A senten�a ocupava vinte e seis p�ginas. Ela apresentava as raz�es pelas quais Mikael fora julgado culpado em quinze pontos, por difama��o agravada contra o financista Hans-Erik Wennerstr�m. Mikael constatou que cada uma das acusa��es que o condenavam custava dez mil coroas e seis dias de pris�o. Sem contar as custas do processo e suas pr�prias custas com advogado. Ele n�o tinha sequer a coragem de come�ar a refletir sobre o tamanho da conta, mas tamb�m dizia a si mesmo que podia ter sido pior; o tribunal o inocentara em sete itens.</p><p>A medida que lia o enunciado da senten�a, uma sensa��o de peso cada vez mais desagrad�vel ia se instalando em seu est�mago. Ficou surpreso com isso. Desde o in�cio do processo, sabia que s� um milagre o livraria da condena��o. N�o tinha a menor d�vida a respeito e acostumara-se com a id�ia. Permanecera com o esp�rito relativamente tranquilo durante os dois dias em que transcorrera o julgamento, e por onze dias esperou, sem sentir nada de especial, que o tribunal acabasse de refletir e formulasse o texto que ele segurava na m�o. Mas s� agora, encerrado o julgamento, � que o mal-estar se insinuara.</p><p>Mordeu um peda�o do sandu�che, mas o p�o pareceu inchar dentro de sua boca. Teve dificuldade de engolir e o cuspiu no prato.</p><p>Era a primeira vez que Mikael Blomkvist era condenado por um delito � a primeira vez que se via acusado de alguma coisa ou chamado a comparecer em ju�zo. Pensando bem, a senten�a era insignificante. Um delito peso-pena. Afinal, n�o se tratava de roubo � m�o armada, de assassinato ou estupro. Mas, do ponto de vista financeiro, a condena��o teria consequ�ncias. A <emphasis>Millennium </emphasis>n�o era nenhum carro-chefe do mundo da m�dia, nem dotada de recursos ilimitados � a revista atuava com uma estreita margem de lucro �, mas a condena��o tamb�m n�o era uma cat�strofe. O problema � que Mikael era ao mesmo tempo um dos acionistas da <emphasis>Millennium </emphasis>e, estupidamente, redator e editor respons�vel pela publica��o. Ele pretendia tirar do pr�prio bolso as cento e cinquenta mil coroas por perdas e danos, o que reduziria a zero sua poupan�a. A revista se encarregaria dos custos judiciais. Navegando com perspic�cia, dava para seguir em frente.</p><p>Ocorreu-lhe vender o apartamento, mas essa hip�tese ficou atravessada em sua garganta. No final dos felizes anos 1980, numa �poca em que tinha emprego fixo e um sal�rio relativamente alto, adquirira um im�vel. Visitou uma por��o de apartamentos e recusou todos, at� encontrar uma �gua-furtada de sessenta e cinco metros quadrados, bem no come�o da Bellmansgatan. O ex-propriet�rio havia come�ado a transform�-la em algo habit�vel, mas fora contratado por uma empresa de inform�tica no exterior e Mikael adquiriu seu projeto de reforma por um pre�o irris�rio.</p><p>Mikael n�o quis plantas desenhadas por arquitetos, preferiu ele mesmo terminar as obras, reservando dinheiro para a cozinha e o banheiro, e deixando o resto como estava. Em vez de substituir o piso e instalar divis�rias para criar dois ambientes, poliu o assoalho, passou cal nas grosseiras paredes originais e cobriu os defeitos mais graves com algumas aquarelas de Emanuel Bernstone. O resultado foi um <emphasis>loft </emphasis>arejado, com um quarto atr�s de uma estante de livros, um canto para refei��es e uma sala com uma pequena cozinha americana. O apartamento tinha duas janelas de mansarda e outra triangular com vista para os telhados, para as �guas do Riddarfjarden e para a cidade velha. Ele at� podia avistar uma ponta do Slussen e do pa�o municipal. Levando em conta os pre�os de mercado, agora ele n�o podia mais pagar um apartamento como aquele, por isso tinha muita vontade de conserv�-lo.</p><p>Mas o risco de perder o apartamento n�o era nada comparado � enorme bofetada profissional que sofrera, cujos danos levaria algum tempo para reparar, supondo que fossem repar�veis.</p><p>Era uma quest�o de confian�a. Num futuro pr�ximo, muitos redatores hesitariam em publicar artigos em sua revista. Ele ainda tinha amigos capazes de entender que fora v�tima do azar e das circunst�ncias, mas n�o poderia mais se dar ao luxo de cometer o menor erro.</p><p>O mais doloroso, por�m, era a humilha��o.</p><p>Tivera todos os trunfos na m�o, mas perdera para uma esp�cie de gangster vestido de Armani. Um especulador safado. Um <emphasis>yuppie </emphasis>defendido por um advogado do <emphasis>jet-set </emphasis>que passou o processo inteiro rindo.</p><p><emphasis>Como as coisas tinham dado t�o errado?</emphasis></p><p>O caso Wennestr�m, no entanto, come�ara de forma bastante promissora um ano e meio antes na cabine de um veleiro M�lar-30 amarelo, numa noite de S�o Jo�o. Tudo porque o acaso fizera um ex-colega seu jornalista, na �poca rela��es-p�blicas da prefeitura, alugar um Scampi, sem muito refletir, para impressionar a mais recente namorada, levando-a a um cruzeiro rom�ntico de alguns dias pelo arquip�lago de Estocolmo. A garota, que tinha vindo de Hallstahammar para estudar em Estocolmo, ap�s certa resist�ncia, concordou em ir, mas com a condi��o de que sua irm� e o namorado dela tamb�m fossem. O problema � que os tr�s nunca tinham estado num veleiro, e o rela��es-p�blicas era um marujo mais entusiasmado que experiente. Tr�s dias antes da partida, desesperado, ele chamou Mikael e o convenceu a ser o quinto tripulante, por ter mais experi�ncia que ele em navega��o.</p><p>A princ�pio reticente, Mikael acabou cedendo diante da oportunidade de ter pela frente alguns dias de descanso no arquip�lago e da anunciada perspectiva de boa comida e companhia agrad�vel. As promessas se revelaram falsas, e o cruzeiro acabou sendo uma cat�strofe que superou seus piores pesadelos. Eles haviam navegado, a menos de dez n�s, de Bulland� at� o estreito de Furusund � bonito, � verdade, mas pouco excitante �, o que n�o impediu que a namorada do rela��es-p�blicas enjoasse desde o in�cio. Sua irm� brigou com o namorado e ningu�m mostrava o menor interesse em aprender o m�nimo que fosse de navega��o. Logo ficou evidente que esperavam que Mikael fizesse o barco funcionar, enquanto eles se limitavam a dar conselhos bem-intencionados por�m totalmente in�teis. Ap�s a primeira noite ancorado numa enseada de �ngs�, ele estava decidido a descer em Furusund e pegar o primeiro �nibus de volta para casa. Somente as s�plicas desesperadas do rela��es-p�blicas o convenceram a permanecer a bordo.</p><p>Na manh� seguinte, por volta do meio-dia, cedo ainda para que encontrassem alguns lugares, eles atracaram ao cais dos visitantes em Arholma. Prepararam uma refei��o e tinham acabado de comer quando Mikael avistou um M-30 com casco de poli�ster entrando na enseada com apenas a vela mestra. O barco deu uma volta tranquila enquanto seu piloto procurava uma vaga no cais. Mikael deu uma olhada ao redor e constatou que o espa�o entre o seu Scampi e um iate a estibordo era provavelmente o �nico lugar dispon�vel, suficiente e na medida exata, para o estreito M-30. Foi at� a proa e agitou o bra�o; o piloto do M-30 ergueu a m�o em sinal de agradecimento e virou em dire��o ao cais. Um solit�rio que n�o usa o motor para atracar, observou Mikael. Ele ouviu o ru�do da corrente da �ncora e, segundos depois, a vela mestra foi arriada, enquanto o piloto saltava de um lado a outro para manter o leme em posi��o e, ao mesmo tempo, preparar a ancoragem na proa.</p><p>Mikael saltou para o cais e estendeu a m�o para oferecer ajuda. O rec�m-chegado corrigiu a rota uma �ltima vez e o barco veio com seu impulso colocar-se suavemente ao longo do Scampi. No momento em que o piloto lan�ou a amarra a Mikael, eles se reconheceram e sorriram, encantados.</p><p>� Ol�, Robban � disse Mikael. � Se utilizasse o motor, evitaria arranhar outros barcos no porto.</p><p>� Ol�, Micke. Eu disse a mim mesmo que conhecia esse cara. Sabe, eu teria usado o motor se tivesse conseguido faz�-lo funcionar. Essa droga pifou h� dois dias perto de R�d�ga.</p><p>Apertaram-se as m�os por cima da amurada.</p><p>Uma eternidade antes, no col�gio de Kungsholmen nos anos 1970, Mikael Blomkvist e Robert Lindberg haviam sido companheiros, e at� mesmo muito bons amigos. Como acontece com frequ�ncia entre velhos colegas de escola, a amizade acabou depois da conclus�o do secund�rio. Cada um seguiu seu caminho e eles se viram raras vezes nos vinte anos seguintes. O �ltimo encontro antes deste, inesperado, no cais de Arholma, ocorrera sete ou oito anos atr�s. Agora os dois se examinavam com curiosidade. Robert estava bronzeado, com cabelos emaranhados e uma barba de quinze dias.</p><p>De repente, Mikael recobrou o �nimo. Quando o rela��es-p�blicas e seu bando de imbecis partiram para dan�ar em volta do mastro de s�o Jo�o erguido diante do armaz�m, do outro lado da ilha, ele ficou na cabine do M-30 batendo papo com seu velho companheiro de col�gio, em volta do tradicional arenque regado a aquavita.</p><p>� noite, em dado momento, depois de muitos tragos e de terem desistido de lutar contra os tristemente famosos mosquitos de Arholma e irem se refugiar na cabine, a conversa se transformou numa alterca��o amistosa sobre a moralidade e a �tica no mundo dos neg�cios. Os dois tinham escolhido carreiras que, de um modo ou de outro, estavam focalizadas nas finan�as do pa�s. Robert Lindberg passara do col�gio aos estudos de com�rcio e depois ao mundo financeiro. Mikael Blomkvist cursara a faculdade de jornalismo e dedicara grande parte de sua vida a denunciar neg�cios duvidosos justamente do mundo financeiro. A conversa girava em torno da imoralidade de alguns p�ra-quedas dourados (as famosas indeniza��es milion�rias de demiss�o) surgidos ao longo dos anos 1990. Depois de ter valentemente defendido alguns dos mais espetaculares, Lindberg acabou admitindo, a contragosto, que no mundo das finan�as provavelmente havia alguns especuladores corruptos disfar�ados. Ele ficou s�rio de repente e olhou Mikael bem nos olhos.</p><p>� J� que voc� � jornalista investigativo e vasculha delitos econ�micos, por que n�o escreve alguma coisa sobre Hans-Erik Wennerstr�m?</p><p>� N�o sabia que havia algo a escrever sobre ele.</p><p>� Pelo amor de Deus, que esp�cie de bisbilhoteiro voc� �? Ent�o n�o conhece o programa CAI?</p><p>� Bem, era uma esp�cie de programa de apoio, nos anos 1990, para reabilitar a ind�stria dos ex-pa�ses do Leste Europeu. Foi extinto h� alguns anos. Nunca escrevi nada a respeito.</p><p>� Isso, CAI, Comit� de Apoio Industrial. O projeto tinha o aval do governo, e a tram�ia era gerenciada por representantes de uma dezena de grandes empresas suecas. O CAI obteve garantias do Estado para uma s�rie de projetos firmados em acordos com os governos da Pol�nia e dos pa�ses b�lticos. A confedera��o oper�ria participava, para garantir que o movimento oper�rio dos pa�ses do Leste Europeu se fortalecesse gra�as ao modelo sueco. Na teoria, o projeto significava um apoio baseado no princ�pio de ajuda ao desenvolvimento, e supostamente oferecia aos regimes do Leste Europeu uma possibilidade de sanear suas economias. Na pr�tica, equivalia a conceder subven��es do Estado para que empresas suecas estabelecessem parcerias com empresas do Leste Europeu. Lembra daquele ministro crist�o cretino? Era um defensor ardoroso do CAI. Falava-se de construir uma f�brica de papel na Crac�via, de restabelecer a ind�stria metal�rgica em Riga, de montar uma usina de cimento em Tallinn, e por a� afora. O dinheiro era distribu�do pelo conselho do CAI, exclusivamente formado por pesos pesados do mundo financeiro e industrial.</p><p>� Ou seja, dinheiro do contribuinte?</p><p>� Cerca de cinquenta por cento eram subven��es do Estado, o resto vinha dos bancos e da ind�stria. Mas n�o se pode realmente falar de uma atividade desinteressada. Os bancos e as empresas contavam com um lucro consistente, caso contr�rio n�o teriam por que se lan�ar no neg�cio.</p><p>� Qual era o montante desses fundos?</p><p>� Espere um minuto, escute. O CAI era constitu�do principalmente por empresas suecas s�lidas, desejosas de penetrar no mercado do Leste Europeu. Empresas de peso, como ABB, Skanska e outras do g�nero. Nada de capital especulativo, se entende o que quero dizer.</p><p>� Voc� est� dizendo que a Skanska n�o faz especula��o? Como explicar ent�o a demiss�o de seu diretor-executivo, depois que um de seus rapazes perdeu meio bilh�o especulando com t�tulos de curto prazo? E como n�o rir de seus neg�cios imobili�rios hist�ricos em Londres e Oslo?</p><p>� Sim, claro, h� cretinos em todas as empresas do mundo, mas voc� sabe o que estou querendo dizer. Trata-se de empresas que pelo menos produzem alguma coisa. A coluna vertebral da ind�stria sueca, como se diz.</p><p>� E Wennestr�m, onde ele entra no esquema?</p><p>� Wennerstr�m � o curinga da hist�ria. Ou seja, um cara surgido do nada, sem nenhum passado na ind�stria pesada e que, na realidade, nada tem a ver com esse meio. Mas ele acumulou uma fortuna colossal na Bolsa e investiu em empresas est�veis. Entrou, por assim dizer, pela porta de servi�o.</p><p>Mikael tornou a encher seu copo com a aquavita Reimersholms e inclinou-se para tr�s na cadeira, refletindo sobre o que sabia a respeito de Wennerstr�m. Era magro. Nascido na regi�o do Norrland, onde criou uma empresa de investimentos nos anos 1970, juntou algum dinheiro e se transferiu para Estocolmo, fazendo ali uma carreira fulgurante nos gloriosos anos 1980. Criou o Wennerstr�mgruppen, rebatizado de Wennerstr�m Group quando foram abertos os escrit�rios de Londres e Nova York, e quando nos jornais a empresa come�ou a ser mencionada no mesmo n�vel que a Beijer. Negociando com a��es, participa��es e opera��es r�pidas, passou a figurar na imprensa VIP como um dos novos bilion�rios suecos, propriet�rio de um <emphasis>loft </emphasis>em Strandw�gen, de uma suntuosa resid�ncia de ver�o em V�rmd� e de um iate de vinte e tr�s metros, comprado de uma ex-estrela do t�nis em decad�ncia. Um calculista esperto, certamente, mas os anos 1980 foram sobretudo a d�cada dos calculistas e dos especuladores imobili�rios, e Wennerstr�m n�o se destacou mais que os outros. Pelo contr�rio, permaneceu de certo modo � sombra dos figur�es. N�o tinha a l�bia de um Stenbeck nem se exibia na imprensa como Barnevik. Desprezando os bens imobili�rios, focalizou seu interesse em investimentos maci�os no ex-bloco do Leste Europeu. Quando, nos anos 1990, a bolha murchou e os empres�rios foram obrigados, um ap�s outro, a recolher seus p�ra-quedas dourados, as empresas de Wennerstr�m continuaram em �timo estado. Nenhuma sombra de esc�ndalo. A <emphasis>Swedish success story, </emphasis>foi assim que o <emphasis>Financial Times </emphasis>resumiu seu caso.</p><p>� Foi em 1992 que Wennerstr�m, de repente, recorreu ao CAI. Ele precisava de ajuda financeira. Apresentou um projeto que aparentemente atendia gente interessada na Pol�nia: tratava-se de estabelecer um setor de fabrica��o de embalagens para a ind�stria aliment�cia.</p><p>� Quer dizer, uma f�brica de latas de conserva?</p><p>� N�o exatamente, mas algo do tipo. N�o fa�o a menor id�ia das pessoas que ele conhecia no CAI, mas saiu de l� com sessenta milh�es de coroas no bolso, sem problema.</p><p>� A hist�ria come�a a me interessar. Deixe-me adivinhar: ningu�m mais voltou a ver a cor desse dinheiro.</p><p>� Errado � disse Robert Lindberg.</p><p>E sorriu como quem sabe das coisas, antes de beber as �ltimas gotas de sua aquavita.</p><p>� O que se passou depois foi o cl�ssico em mat�ria de balan�o financeiro. Wennerstr�m de fato montou uma f�brica de embalagens na Pol�nia, mais precisamente em Lodz. A empresa chamava-se Minos. O CAI recebeu alguns relat�rios entusiasmados em 1993. E ent�o, em 1994, a Minos faliu de repente.</p><p>Robert Lindberg bateu o copo vazio na mesa, com um golpe seco, para sublinhar a que ponto a empresa afundara.</p><p>� O problema do CAI � que n�o havia procedimentos bem definidos para avaliar os relat�rios sobre os projetos. Lembre-se do esp�rito da �poca. Todo mundo estava otimista com a queda do muro de Berlim. Iam introduzir a democracia, a amea�a de uma guerra nuclear n�o existia mais e os bolchevistas se tornavam verdadeiros capitalistas da noite para o dia. O governo queria ancorar a democracia no Leste Europeu. Todos os capitalistas desejavam contribuir para a constru��o da nova Europa.</p><p>� Eu nunca soube de capitalistas propensos � caridade.</p><p>� Acredite, era o sonho tropical de todo capitalista. Agora a R�ssia e os pa�ses do Leste Europeu s�o os maiores mercados depois da China. Os industriais n�o hesitavam em ajudar o governo, sobretudo quando as empresas s� precisavam contribuir com uma parte �nfima dos gastos. Somando tudo, o CAI abocanhou mais de trinta bilh�es de coroas do contribuinte. O dinheiro voltaria sob a forma de ganhos futuros. No papel, o CAI era uma iniciativa governamental, mas a influ�ncia da ind�stria era t�o grande que, na pr�tica, o conselho do CAI desfrutava de uma completa liberdade de a��o.</p><p>� Entendo. Mas h� material para um artigo tamb�m sobre esse ponto?</p><p>� Calma. Quando os projetos come�aram, n�o havia problema de financiamento. A Su�cia ainda n�o conhecia o choque das taxas de juros. O governo estava feliz de poder pedir, atrav�s do CAI, uma contribui��o sueca importante em favor da democracia do Leste Europeu.</p><p>� Era um governo de direita.</p><p>� N�o misture pol�tica com isso. Trata-se de dinheiro, e pouco importa saber se s�o os socialistas ou os moderados que indicam os ministros. Ent�o, com os cofres cheios, surgiram os problemas de c�mbio, e em seguida aqueles novos democratas imbecis � lembra-se da Nova Democracia? � come�aram a se lamentar, achando que faltava transpar�ncia �s atividades do CAI. Um deles confundiu o CAI com a Swedish International Development Authority, imaginando um projeto de desenvolvimento para boas obras, como a ajuda � Tanz�nia. Na primavera de 1994, uma comiss�o foi encarregada de investigar o CAI. A essa altura, j� se faziam cr�ticas a v�rios projetos, mas um dos primeiros a ser investigados foi o da Minos.</p><p>� E Wennerstr�m n�o conseguiu justificar a utiliza��o dos fundos.</p><p>� Pelo contr�rio. Wennerstr�m apresentou um excelente relat�rio financeiro, mostrando que mais de cinquenta e quatro milh�es de coroas haviam sido investidas na Minos. Mas alegou que os problemas estruturais de um pa�s a reboque como a Pol�nia eram grandes demais para que uma f�brica de embalagens moderna pudesse dar certo, e ela acabou desbancada pela concorr�ncia de um projeto alem�o similar. Os alem�es estavam comprando tudo no bloco do Leste Europeu.</p><p>� Voc� disse que ele obteve sessenta milh�es de coroas.</p><p>� Isso mesmo. O dinheiro do CAI funcionava na forma de empr�stimos sem juros. A id�ia, evidentemente, era que as empresas reembolsassem uma parte depois de alguns anos. Mas a Minos faliu e o projeto fracassou. Wennerstr�m n�o podia ser responsabilizado. � aqui que entram as garantias do Estado: a d�vida de Wennerstr�m foi apagada. Ele simplesmente n�o precisou reembolsar o dinheiro perdido na fal�ncia da Minos e conseguiu demonstrar que perdera a mesma quantia do pr�prio bolso.</p><p>� Deixa eu ver se entendi bem toda essa hist�ria. Al�m de fornecer bilh�es do contribuinte, o governo oferecia diplomatas para abrir portas. A ind�stria recebia o dinheiro e o utilizava para investir em <emphasis>joint ventures </emphasis>que lhe permitiam, em seguida, acumular um lucro recorde. Em outras palavras, as negociatas de sempre. Alguns enchem os bolsos enquanto outros pagam a conta, e conhecemos bem os atores dessa pe�a.</p><p>� Meu Deus, como voc� � c�nico! Os empr�stimos deviam ser devolvidos ao Estado.</p><p>� Voc� disse que n�o corriam juros. Isso significa que os contribuintes n�o receberam nenhum dividendo pelo que pagaram. Wennerstr�m obteve sessenta milh�es e investiu cinquenta e quatro. O que fez com os outros seis milh�es?</p><p>� No momento em que ficou evidente que os projetos do CAI passariam a ser controlados, Wennerstr�m enviou um cheque de seis milh�es para reembolsar a diferen�a. Assim o caso estava resolvido do ponto de vista jur�dico.</p><p>Robert Lindberg calou-se e lan�ou um olhar inquieto a Mikael.</p><p>� Wennerstr�m certamente desviou um pouco de dinheiro do CAI, mas, comparado ao meio bilh�o que desapareceu da Skanska ou � hist�ria do p�ra-quedas dourado de um bilh�o do diretor da ABB � coisas que realmente revoltaram as pessoas �, n�o me parece um caso realmente digno de uma reportagem � constatou Mikael. � Os leitores, hoje, est�o fartos de textos sobre especuladores incompetentes da Bolsa, mesmo aqueles que operam com fundos p�blicos. H� algo mais na sua hist�ria?</p><p>� Ela est� apenas come�ando.</p><p>� Como voc� ficou sabendo desses neg�cios do Wennerstr�m na Pol�nia?</p><p>� Eu trabalhei no Banco do Com�rcio nos anos 1990. Adivinhe quem conduziu as investiga��es como representante do banco no CAI?</p><p>� Entendo. Continue.</p><p>� Bem... resumindo: o CAI recebeu uma explica��o de Wennerstr�m. Documentos foram redigidos. O dinheiro restante foi reembolsado. Esse retorno de seis milh�es foi esperto. Se algu�m chega na sua casa insistindo em te dar um saco de milho, voc� diz que aquele � um bom sujeito, n�o � mesmo?</p><p>� Vamos aos fatos.</p><p>� Mas, meu velho, o fato � exatamente esse. O CAI ficou satisfeito com o relat�rio do Wennerstr�m. O investimento fracassou, mas n�o havia nada a dizer sobre a maneira como fora conduzido. Examinamos faturas, transfer�ncias e um monte de papelada. Tudo estava minuciosamente justificado. Eu acreditei. Meu chefe acreditou. O CAI acreditou e o governo nada teve a acrescentar.</p><p>� E onde � que a coisa trope�a?</p><p>� A hist�ria entra agora na sua fase sens�vel � disse Lindberg com um tom de voz subitamente f�nebre. � Levando em conta que voc� � jornalista, o que vou dizer agora � <emphasis>off the record.</emphasis></p><p>� Espere a�. Voc� n�o pode come�ar a me contar falcatruas e depois me dizer que n�o posso divulg�-las.</p><p>� Claro que posso. Tudo que contei at� agora � de conhecimento p�blico. Voc� mesmo pode consultar o relat�rio, se quiser. Concordo que escreva sobre o resto da hist�ria � que ainda n�o contei �, mas quero ser tratado como fonte an�nima.</p><p>� Ah, melhor assim, porque, na terminologia habitual, <emphasis>off the record </emphasis>significa que obtive uma informa��o confidencial, mas que n�o tenho o direito de escrever sobre ela.</p><p>� Pouco importa a terminologia. Escreva o que quiser, contanto que eu seja sua fonte an�nima. Estamos de acordo?</p><p>� Claro � respondeu Mikael.</p><p>Considerando o que houve depois, sua resposta foi naturalmente um erro.</p><p>� Bem, esse caso Minos aconteceu h� dez anos, logo ap�s a queda do Muro e quando os bolcheviques come�aram a virar capitalistas frequent�veis. Eu era um dos que investigavam Wennerstr�m, e sempre tive uma puta impress�o de que toda a hist�ria estava mal contada.</p><p>� E por que n�o disse nada na �poca?</p><p>� Discuti com o meu chefe. A quest�o � que n�o havia nada de s�lido. Todos os pap�is estavam em ordem. Nada mais fiz que p�r minha assinatura no final do relat�rio. Mas em seguida, sempre que eu topava com o nome de Wennerstr�m na imprensa, Minos me vinha � lembran�a.</p><p>� E a�?</p><p>� Acontece que alguns anos mais tarde, em meados dos anos 1990, meu banco fez alguns neg�cios com Wennerstr�m. Na verdade, altos neg�cios. E a coisa n�o foi muito bem.</p><p>� Ele roubou voc�s?</p><p>� N�o, eu n�o diria isso. As duas partes lucraram. Tratava-se de... N�o sei bem como explicar. � que agora come�o a falar do homem que me contratou e isso n�o me agrada. Mas a impress�o que ficou � a impress�o geral e duradoura, como dizem � n�o foi nada positiva. Na m�dia, Wennerstr�m � apresentado como um consider�vel or�culo da economia. � disso que ele vive. � seu capital de confian�a.</p><p>� Entendo o que quer dizer.</p><p>� Eu tinha a impress�o de que o sujeito era simplesmente um blefe. Que n�o tinha nenhum dom especial para as finan�as. Ao contr�rio, achei-o de uma estupidez assombrosa em certas �reas, embora estivesse cercado de alguns jovens tubar�es de fato astutos como conselheiros. Eu o detestava cordialmente.</p><p>� Continue.</p><p>� H� cerca de um ano, fui � Pol�nia por outro motivo. Nossa delega��o jantou com alguns investidores de Lodz e na minha mesa estava o prefeito. Discutimos sobre o quanto era dif�cil repor a economia da Pol�nia nos trilhos et cetera, e mencionei o projeto Minos. O prefeito me pareceu totalmente perplexo por um momento � como se nunca tivesse ouvido falar de Minos �, depois lembrou que era um pequeno neg�cio de merda que dera em nada. Despachou o assunto com um sorrisinho, dizendo que � reproduzo exatamente suas palavras � se isso fosse tudo que os investidores suecos sabiam fazer, nosso pa�s entraria em fal�ncia rapidamente. Est� me acompanhando?</p><p>� Essa declara��o revela que o prefeito de Lodz � um homem sensato. Mas continue.</p><p>� Essa declara��o, como voc� diz, n�o parou de me azucrinar. No dia seguinte, eu tinha uma reuni�o de manh�, mas estava com a tarde livre. S� para remexer na merda, resolvi visitar, numa pequena aldeia perto de Lodz, a f�brica abandonada da Minos, situada dentro de uma granja com latrinas no p�tio. A grande f�brica Minos era um dep�sito arruinado prestes a desabar, um velho hangar com telhas onduladas, montado pelo Ex�rcito Vermelho nos anos 1950. Encontrei um guarda no local que falava algumas palavras em alem�o, e soube que um de seus primos trabalhara na f�brica. O primo morava quase ali ao lado e fomos at� a casa dele. O guarda serviu de int�rprete. Est� interessado em ouvir o que ele disse?</p><p>� � �bvio que sim.</p><p>� A Minos come�ou a funcionar n� outono de 1992. Ela tinha quinze empregados, quando muito, na maior parte mulheres velhas. O sal�rio equivalia a cento e cinquenta coroas por m�s. No come�o n�o havia m�quinas, os empregados se ocupavam fazendo a limpeza do local. No in�cio de outubro chegaram tr�s m�quinas de cartonagem compradas em Portugal. Estavam velhas, deterioradas e totalmente ultrapassadas. No ferro-velho, n�o valeriam mais que algumas notas de mil. Funcionavam, � verdade, mas pifavam a todo instante. Evidentemente n�o havia pe�as de reposi��o, de modo que a Minos sofria de eternas paradas de produ��o. Em geral era um empregado que consertava as m�quinas, como podia.</p><p>� Agora est� come�ando a parecer uma mat�ria de verdade � reconheceu Mikael. � O que a Minos fabricava realmente?</p><p>� Em 1992 e na primeira metade de 1993, as cl�ssicas embalagens de sab�o em p�, caixas de ovos e coisas do g�nero. Depois passaram a produzir sacos de papel. Mas sempre faltava mat�ria-prima e o volume de produ��o era m�nimo.</p><p>� Nada que correspondesse a um investimento gigantesco.</p><p>� Fiz as contas. O custo total do aluguel em dois anos equivale a quinze mil coroas. Os sal�rios podem ter chegado a cento e cinquenta mil no m�ximo � e estou sendo generoso. Compra de m�quinas e meios de transporte... uma caminhonete que entregava as caixas de ovos... vamos p�r uns duzentos e cinquenta mil. Mais taxas de autoriza��o, alguns custos de viagem � aparentemente, s� uma pessoa veio da Su�cia algumas vezes para visitar a aldeia. Digamos que todo o neg�cio custou menos de um milh�o. Num dia do ver�o de 1993, o contramestre foi at� a f�brica, anunciou que ela seria fechada e, algum tempo depois, um caminh�o h�ngaro recolheu e levou embora a maquinaria. <emphasis>Bye-bye, </emphasis>Minos.</p><p>Durante o processo, Mikael recordara v�rias vezes essa noite de S�o Jo�o.</p><p>De modo geral, a conversa transcorrera como uma discuss�o entre dois colegas, em tom de camaradagem, exatamente como nos tempos de col�gio. Adolescentes, eles haviam compartilhado os fardos que se carrega nessa idade. Adultos, eram na verdade estranhos um para o outro, seres totalmente diferentes. Durante a noitada, Mikael refletiu que n�o conseguia de fato se lembrar do que os havia aproximado no col�gio. Lembrava-se de Robert como um rapaz taciturno e reservado, t�mido ao extremo com as meninas. Adulto, ele era... bem, um talentoso alpinista do universo banc�rio. Para Mikael, n�o havia d�vida que seu colega tinha opini�es diametralmente opostas � sua pr�pria concep��o de mundo.</p><p>Mikael quase nunca bebia a ponto de se embriagar, mas esse encontro fortuito transformara um cruzeiro malsucedido numa noitada agrad�vel, em que o n�vel da garrafa de aquavita se aproximava aos poucos do fundo. Justamente porque a conversa teve esse tom ginasiano, de in�cio ele n�o levou a s�rio o relato de Robert sobre Wennerstr�m, mas no final seus instintos jornal�sticos despertaram. De repente, escutava atentamente a hist�ria de Robert, e as obje��es naturais apareceram.</p><p>� Espere um pouco � disse Mikael. � Wennerstr�m � uma estrela entre os investidores da Bolsa. Se n�o estou enganado, ele deve ser bilion�rio...</p><p>� O capital do Grupo Wennerstr�m � de cerca de duzentos bilh�es. Voc� deve estar querendo saber por que um bilion�rio roubaria as pessoas por uns magros cinquenta milh�es, quase um dinheiro de bolso.</p><p>� O que quero saber antes de mais nada � por que ele arriscaria tudo com uma fraude t�o evidente.</p><p>� N�o sei se se pode dizer que se trata de uma fraude evidente, j� que o conselho do CM, os representantes dos bancos, o governo e os auditores do Parlamento aceitaram as contas apresentadas por Wennerstr�m.</p><p>� Mesmo assim � uma soma rid�cula.</p><p>� Certo. Mas veja: o Grupo Wennerstr�m � uma empresa de investimentos que lida com qualquer coisa que possa dar lucro a curto prazo � im�veis, t�tulos, op��es, moedas... Wennerstr�m entrou em contato com o CAI em 1992, no momento em que o mercado estava a ponto de atingir o fundo. Lembra do outono de 1992?</p><p>� E acha que posso esquecer? Eu tinha feito empr�stimos a taxas vari�veis para comprar meu apartamento, quando os juros do Banco da Su�cia atingiram quinhentos por cento em outubro. Tive que arcar com juros de dezenove por cento durante um ano.</p><p>� N�o foi f�cil! � disse Robert sorrindo. � Tamb�m perdi um bocado naquele ano. E Hans-Erik Wennerstr�m � como todos os outros no mercado � enfrentava os mesmos problemas. A empresa tinha bilh�es aplicados em contratos de diferentes tipos, mas muito pouca liquidez. E a� fica imposs�vel conseguir facilmente novos empr�stimos. Numa situa��o dessas, em geral se vendem alguns im�veis para lamber as feridas � s� que em 1992 n�o havia ningu�m para comprar im�veis.</p><p>� <emphasis>Cash-flow problem.</emphasis></p><p>� Exatamente. E Wennerstr�m n�o era o �nico a enfrentar esse tipo de problema. Qualquer homem de neg�cios...</p><p>� N�o diga homem de neg�cios. Chame como quiser, mas qualific�-los de homens de neg�cios � ofender uma categoria profissional s�ria.</p><p>� ... qualquer investidor da Bolsa, ent�o, tinha <emphasis>cash-flow problems... </emphasis>Considere as coisas assim: Wennerstr�m obteve sessenta milh�es de coroas. Devolveu seis, e somente depois de tr�s anos. Os gastos com a Minos dificilmente ultrapassaram um milh�o. Mas os juros de sessenta milh�es durante tr�s anos representam uma boa quantia. Dependendo da maneira como foi investido, o dinheiro do CAI pode ter sido dobrado ou multiplicado por dez. E a� n�o estamos mais falando de bagatelas. A prop�sito, um brinde ao nosso encontro!</p><empty-line/><p><strong>2. SEXTA-FEIRA 20 DE DEZEMBRO</strong></p><p>Dragan Armanskij tinha cinquenta e seis anos e nascera na Cro�cia. Seu pai era um judeu arm�nio da Bielo-R�ssia. A m�e, uma mu�ulmana b�snia de ascend�ncia grega. Como ela � que se encarregara de sua educa��o cultural, na idade adulta ele se viu inclu�do no grande grupo que a m�dia define como mu�ulmanos. Estranhamente, os servi�os de imigra��o o registraram como s�rvio. O passaporte estabelecia que ele era cidad�o sueco, e a foto mostrava um rosto quadrado com poderosas mand�bulas, um fundo de barba escuro e cabelos grisalhos nas t�mporas. Frequentemente chamavam-no de �rabe, embora n�o houvesse a menor gota de sangue �rabe em seu passado. Por outro lado, era um aut�ntico cruzamento do tipo que os aficionados por biologia racial descreveriam, sem a menor hesita��o, como mat�ria humana inferior.</p><p>Seu rosto lembrava vagamente o de um gangster de filme americano. Na realidade, ele n�o era um traficante de drogas nem um assassino mafioso; era um economista de talento que come�ara como assistente da Milton Security no in�cio dos anos 1970, e tr�s d�cadas mais tarde chefiava todas as opera��es como diretor-executivo.</p><p>O interesse por quest�es de seguran�a crescera aos poucos at� se transformar em fasc�nio. Era como um jogo de estrat�gia � identificar situa��es de amea�a, desenvolver contra-estrat�gias e sempre se antecipar aos espi�es industriais, aos vigaristas e aos fraudadores. Tudo come�ou quando descobriu a maneira como tinha se dado um engenhoso golpe contra um cliente, com o aux�lio de uma contabilidade sutilmente maquiada. Conseguiu apontar, num grupo de umas doze pessoas, quem estava por tr�s da manipula��o, e hoje, decorridos trinta anos, lembra-se de como ficou surpreso ao se dar conta de que o desvio s� ocorrera porque a empresa em quest�o omitira alguns pontos nos processos de seguran�a. Desde ent�o, passou de simples contador a respons�vel pelo desenvolvimento da empresa, e mais tarde a especialista em crimes financeiros. Cinco anos depois, j� fazia parte da dire��o e, passados dez anos, tornou-se � n�o sem alguma relut�ncia � diretor-executivo. Agora a relut�ncia havia muito se acalmara. Durante seus anos de chefia, tinha transformado a Milton Security numa das empresas de seguran�a mais competentes e mais consultadas da Su�cia.</p><p>A Milton Security contava com trezentos e oitenta funcion�rios trabalhando em tempo integral e com mais de trezentos <emphasis>freelancers, </emphasis>remunerados por tarefa. Uma pequena empresa, portanto, se comparada com a Falck ou com a Svensk Bevakningstj�nts, o Servi�o de Prote��o Sueco. Quando Armanskij entrou na empresa, ela ainda se chamava Companhia de Vigil�ncia Geral Johan Fredrik Milton e sua clientela era formada por centros comerciais que tinham necessidade de controladores e seguran�as musculosos. Sob sua dire��o, a empresa passou a se chamar Milton Security, nome mais prop�cio para um ambiente internacional, e investiu em tecnologia de ponta. Houve uma renova��o de pessoal; guardas-noturnos em fim de carreira, fetichistas do uniforme e estudantes apenas interessados em bicos foram substitu�dos por pessoas mais competentes. Armanskij contratou ex-policiais j� de uma certa idade como chefes de opera��es, cientistas pol�ticos especializados em terrorismo internacional, em prote��o pessoal e em espionagem industrial e, principalmente, t�cnicos em telecomunica��es e inform�tica. A empresa deixou Solna e a periferia para se instalar em pr�dios mais prestigiosos do Slussen, no centro de Estocolmo.</p><p>No come�o dos anos 1990, a Milton Security estava pronta para oferecer um novo tipo de sistema de seguran�a a um c�rculo exclusivo de clientes, sobretudo empresas de m�dio porte com volume de neg�cios extremamente elevado, e novos-ricos � astros do rock em evid�ncia, investidores da Bolsa e chefes de empresas "pontocom". Grande parte da atividade estava centrada na oferta de prote��o pessoal e solu��es de seguran�a para empresas suecas no exterior, sobretudo no Oriente M�dio. Essas atividades representavam atualmente cerca de setenta por cento do volume de neg�cios. Durante o reinado de Armanskij, o volume de neg�cios passou de quarenta milh�es de coroas para cerca de dois bilh�es. Vender seguran�a era um ramo extremamente lucrativo.</p><p>A atividade estava distribu�da em tr�s �reas principais: <emphasis>consultoria em seguran�a, </emphasis>que consistia na identifica��o de perigos poss�veis ou imaginados; <emphasis>medidas preventivas, </emphasis>que em geral consistiam na instala��o de c�meras de vigil�ncia custosas, alarmes contra roubo ou inc�ndio, sistemas eletr�nicos de bloqueio e equipamentos de inform�tica; e, por fim, <emphasis>a prote��o pessoal </emphasis>de indiv�duos ou empresas que se julgavam v�timas de amea�as, reais ou imagin�rias. Este �ltimo mercado mais que quadruplicara na �ltima d�cada, e nos �ltimos anos surgira um novo tipo de clientela: mulheres ricas querendo proteger-se de um ex-namorado ou marido, ou de molestadores desconhecidos que as teriam visto na televis�o e se teriam fixado em sua blusa colante ou no batom de seus l�bios. Al�m disso, a Milton Security trabalhava em parceria com empresas que gozavam da mesma boa reputa��o que ela em outros pa�ses europeus e nos Estados Unidos, encarregando-se da seguran�a de personalidades internacionais em visita � Su�cia, como uma c�lebre atriz americana em filmagem durante dois meses em Trollh�ttan, cujo agente achou que seu status exigia que ela estivesse acompanhada de seguran�as em seus rar�ssimos passeios em volta do hotel.</p><p>Uma quarta �rea, bem mais restrita, que ocupava apenas alguns funcion�rios de tempo em tempo, era constitu�da pelas chamadas IP, isto �, as investiga��es pessoais. Armanskij n�o era um adepto incondicional desse setor de atividade. Al�m de ser menos lucrativo, era um ramo delicado, que exigia do funcion�rio mais discernimento e habilidade do que conhecimento em t�cnica de telecomunica��es ou em instala��o discreta de aparelhos de vigil�ncia. As investiga��es pessoais eram aceit�veis quando se tratava de simples informa��es sobre a solv�ncia de algu�m, de verificar o curr�culo de um futuro colaborador ou a conduta de um empregado suspeito de deixar vazar informa��es sobre sua empresa ou de se entregar a uma atividade criminosa.</p><p>Nesses casos, as IP ca�am no �mbito operativo.</p><p>Mas a toda hora os clientes vinham lhe apresentar problemas de ordem pessoal que tendiam a trazer consequ�ncias indesejadas. <emphasis>Quero saber quem � o vagabundo com quem minha filha est� saindo... Acho que minha mulher est� me traindo... O rapaz � legal, mas est� se envolvendo com m�s companhias... Est�o me chantageando... </emphasis>Na maioria das vezes, Armanskij respondia com um n�o categ�rico. Se a filha era maior de idade, ela tinha o direito de sair com o vagabundo que quisesse, e na sua opini�o a infidelidade devia ser resolvida entre os c�njuges. Por tr�s de todas essas demandas, havia armadilhas dissimuladas que podiam potencialmente conduzir a esc�ndalos e causar problemas jur�dicos para a Milton Security, raz�o pela qual Dragan Armanskij exercia um controle rigoroso sobre essas miss�es, que, al�m do mais, s� geravam rendimentos modestos no volume total de neg�cios da empresa.</p><p>O assunto desta manh�, por azar, era justamente uma investiga��o pessoal, e Dragan Armanskij arrumou o vinco da cal�a antes de se inclinar para tr�s na sua confort�vel poltrona do escrit�rio. Com ceticismo, contemplou Lisbeth Salander, sua colaboradora trinta e dois anos mais jovem, e pela mil�sima vez constatou que ningu�m parecia mais mal instalada que ela numa prestigiosa empresa de seguran�a. Seu ceticismo era ao mesmo tempo refletido e irracional. Aos olhos de Armanskij, Lisbeth Salander era indiscutivelmente a <emphasis>researcher </emphasis>mais competente que ele encontrara em todos os seus anos naquele ramo. Durante os quatro anos em que trabalhava para ele, Lisbeth Salander n�o havia falhado em uma �nica miss�o nem produzido um s� relat�rio med�ocre.</p><p>Ao contr�rio, o que ela realizava podia ser classificado como fora de s�rie. Armanskij estava convencido de que Lisbeth Salander possu�a um dom �nico. Qualquer um era capaz de obter informa��es banc�rias ou efetuar um controle fiscal, mas Salander tinha imagina��o e trazia sempre algo mais do que era esperado. Ele realmente nunca entendeu como ela conseguia; �s vezes sua capacidade de obter informa��es parecia magia pura. Familiarizada ao extremo com os arquivos administrativos, ela sabia desencavar as informa��es mais obscuras. Tinha sobretudo a capacidade de se infiltrar na pele da pessoa investigada. Se houvesse merda a revelar, atingia o alvo como um m�ssil programado.</p><p>Sem d�vida, ela possu�a o dom.</p><p>Seus relat�rios podiam se revelar uma verdadeira cat�strofe para a pessoa detectada por seu radar. Armanskij nunca se esqueceu de uma miss�o que uma vez lhe dera, uma investiga��o de rotina sobre um pesquisador da ind�stria farmac�utica que estava prestes a se associar a uma empresa. O trabalho, que devia durar uma semana, prolongava-se. Depois de quatro semanas de sil�ncio e de v�rias chamadas que ela ignorou, Salander apareceu com um relat�rio especificando que o objeto da pesquisa era a pedofilia. Duas vezes, pelo menos, o sujeito recorrera a uma prostituta de treze anos em Tallinn, e havia ind�cios de que estava interessado na filha menor de idade da companheira com quem vivia.</p><p>Salander tinha qualidades que em alguns momentos levavam Armanskij � beira do desespero. Quando descobriu que o homem era ped�filo, ela n�o telefonou para avisar Armanskij, n�o correu at� seu escrit�rio para terem uma conversa. Ao contr�rio: sem indicar por uma palavra sequer que o relat�rio continha informa��es explosivas de propor��es quase nucleares, colocou-o certa noite sobre a mesa, no momento em que Armanskij se preparava para deixar o escrit�rio e voltar para casa. Ele levou consigo o relat�rio e s� o abriu mais tarde, no momento em que, finalmente descontra�do, dividia uma garrafa de vinho com a mulher diante da tev�, na sua casa de campo em Liding�.</p><p>Como sempre, o relat�rio era de uma min�cia quase cient�fica, com notas de rodap�, cita��es e indica��es exatas das fontes. As primeiras p�ginas reconstitu�am o passado do objeto, sua forma��o, carreira e situa��o econ�mica. Somente na p�gina 24, num par�grafo intermedi�rio, � que Salander soltava a bomba das escapadas a Tallinn, no mesmo tom objetivo utilizado para dizer que ele morava numa casa de campo em Sollentuna e que dirigia um Volvo azul-marinho. Para sustentar suas afirma��es, ela remetia a um anexo volumoso, com fotografias da menor de idade em companhia do objeto. A foto fora tirada no corredor de um hotel em Tallinn e a m�o dele estava debaixo da blusa da menina. Al�m disso, Lisbeth Salander conseguira, n�o se sabe como, encontrar a menina e convenc�-la a prestar um depoimento detalhado, gravado em fita cassete.</p><p>O relat�rio desencadeou exatamente o caos que Armanskij queria evitar. Para come�ar, ele foi obrigado a tomar dois comprimidos que o m�dico receitara para sua �lcera de est�mago. Depois, convocou o pesquisador farmac�utico para uma conversa sinistra e breve. Para terminar � e apesar dos veementes desmentidos deste �, viu-se obrigado a transmitir imediatamente as informa��es � pol�cia. O que significava que a Milton Security corria o risco de se envolver num processo de acusa��es e contra-acusa��es. Se o dossi� n�o fosse aceito ou se o homem fosse absolvido, a empresa podia ser processada por difama��o. Desastre total!</p><p>No entanto, n�o era a surpreendente falta de emo��o em Lisbeth Salander que mais o perturbava. A �poca exigia investimento na imagem, e a imagem da Milton era a de uma estabilidade conservadora. E Lisbeth Salander correspondia t�o pouco a essa imagem quanto uma escavadeira num sal�o n�utico.</p><p>Armanskij teve dificuldade de se habituar ao fato de seu melhor c�o de ca�a ser uma jovem p�lida, de uma magreza anor�xica, com cabelos quase raspados e <emphasis>piercings </emphasis>no nariz e nas sobrancelhas. Tinha a tatuagem de uma vespa no pesco�o e uma faixa tatuada ao redor do b�ceps do bra�o esquerdo. Nas poucas vezes em que Lisbeth usara uma regata, Armanskji constatara que ela tamb�m tinha uma tatuagem maior na omoplata, representando um drag�o. Originalmente ruiva, tingira os cabelos de preto. Parecia estar sempre chegando de uma semana de farra na companhia de uma banda de <emphasis>heavy-metal.</emphasis></p><p>Ela n�o sofria de dist�rbios alimentares � Armanskij estava convencido disso. Ao contr�rio, parecia consumir qualquer tipo de comida. Simplesmente nascera magra, com uma ossatura fina que indicava um aspecto fr�gil e delicado de menina, com m�os pequenas, tornozelos estreitos e seios que mal despontavam sob as roupas. Tinha vinte e quatro anos, mas parecia ter catorze.</p><p>A boca era larga, o nariz pequeno e as ma��s do rosto altas, o que lhe dava um vago ar oriental. Tinha movimentos r�pidos e aracn�deos, e quando trabalhava no computador seus dedos voavam excitados sobre as teclas. O corpo n�o se prestava a uma carreira de modelo, mas, com uma maquiagem adequada, um primeiro plano de seu rosto n�o faria m� figura num cartaz publicit�rio. Embora �s vezes passasse nos l�bios um repugnante batom preto, e apesar das tatuagens e dos <emphasis>piercings, </emphasis>ela era... digamos... atraente. De um modo totalmente incompreens�vel.</p><p>O fato de Lisbeth Salander trabalhar para Dragan Armanskij era, em si, assombroso. Ela n�o era o tipo de mulher com quem ele cruzava habitualmente, muito menos a quem pensaria oferecer trabalho.</p><p>Ele lhe oferecera um emprego no escrit�rio depois que Holger Palmgren, um advogado semi-aposentado que cuidava dos assuntos pessoais do velho J. F. Milton, os informara que Lisbeth Salander era uma <emphasis>mo�a perspicaz, apesar do seu comportamento um pouco perturbado. </emphasis>Palmgren pedira que Armanskij desse uma oportunidade � menina, o que ele prometera, a contragosto. Palmgren era desses homens que um n�o s� faz redobrar esfor�os, de modo que o mais simples era dizer sim imediatamente. Armanskij sabia que Palmgren se encarregava de crian�as problem�ticas e de outras insignific�ncias sociais do g�nero, mas que possu�a, apesar de tudo, um bom julgamento.</p><p>Ele se arrependeu no instante em que viu Lisbeth Salander.</p><p>Ela n�o s� parecia perturbada � aos olhos dele, ela era o pr�prio sin�nimo da perturba��o � como tamb�m abandonara a escola e n�o tinha nenhum tipo de estudo superior.</p><p>Nos primeiros meses, ela trabalhou em tempo integral, ou melhor, quase em tempo integral; s� de vez em quando aparecia no trabalho. Preparava o caf�, cuidava da correspond�ncia e tirava fotoc�pias. O problema � que n�o dava a m�nima para os hor�rios normais do escrit�rio ou os m�todos de trabalho.</p><p>Em compensa��o, tinha uma grande capacidade de irritar os funcion�rios. Era chamada de <emphasis>a mo�a de dois neur�nios, </emphasis>um para respirar, o outro para se manter de p�. Nunca falava de si mesma. Os colegas que tentavam iniciar uma conversa raramente obtinham uma resposta e logo desistiam. As tentativas de brincar com ela nunca davam certo � ou porque contemplava o gracejador com grandes olhos inexpressivos, ou porque reagia com uma irrita��o manifesta.</p><p>Logo ganhou a reputa��o de irasc�vel, de mudar drasticamente de humor se enfiasse na cabe�a que algu�m estava zombando dela, comportamento bastante comum num ambiente de trabalho. Sua atitude n�o encorajava confid�ncias nem amizade, e ela rapidamente se tornou um fen�meno ocasional que vagava como um gato perdido pelos corredores da Milton. Consideravam-na totalmente irrecuper�vel.</p><p>Depois de um m�s de confus�es ininterruptas, Armanskij chamou-a � sua sala com a inten��o de despedi-la. Ela ouviu passivamente a enumera��o de seus erros, sem obje��es e sem sequer levantar a sobrancelha. Ele terminou por dizer que ela n�o tinha a <emphasis>atitude correta, </emphasis>e estava a ponto de lhe sugerir outro emprego, no qual soubessem <emphasis>tirar proveito da sua compet�ncia, </emphasis>quando foi interrompido no meio de uma frase. Pela primeira vez, ela n�o falou apenas com palavras esparsas.</p><p>� Olha, se � um criado que o senhor quer, procure algu�m na ag�ncia de empregos tempor�rios. Quanto a mim, posso descobrir qualquer coisa sobre qualquer pessoa, e se quer me usar apenas para separar a correspond�ncia, ent�o o senhor � um idiota.</p><p>Armanskij ainda lembrava o quanto ficou mudo de c�lera e de surpresa, enquanto ela continuava, sem prestar aten��o nele.</p><p>� H� na sua empresa um sujeito que dedicou tr�s semanas a escrever um relat�rio completamente nulo sobre esse <emphasis>yuppie </emphasis>que est�o pensando em recrutar como presidente do conselho administrativo de uma "pontocom", o senhor sabe do que estou falando. Fotocopiei ontem � noite o relat�rio de merda dele e, se n�o estou enganada, � esse que est� a� na sua mesa.</p><p>Armanskij p�s os olhos no relat�rio e, o que n�o era de seu feitio, elevou o tom de voz.</p><p>� Voc� n�o est� autorizada a ler relat�rios confidenciais.</p><p>� Provavelmente n�o, mas as rotinas de seguran�a na sua empresa deixam um pouco a desejar. Segundo suas instru��es, ele mesmo deve tirar a fotoc�pia, mas ele me passou o relat�rio antes de sair para o almo�o. Ali�s, h� algumas semanas o relat�rio anterior que ele tinha feito ficou esquecido na cantina.</p><p>� Como assim, esquecido? � exclamou Armanskij, chocado.</p><p>� N�o se preocupe. Guardei-o no cofre dele.</p><p>� Ele te passou a combina��o do seu cofre pessoal? � perguntou Armanskij, sufocado.</p><p>� N�o exatamente. Mas anotou num papel que deixa sobre sua mesa de trabalho, com a senha do computador. Mas o ponto aonde quero chegar � que o relat�rio que ele fez, esse seu detetive particular de araque, n�o tem o menor valor. Ele n�o descobriu que o cara tem d�vidas monumentais, que cheira coca mais que um aspirador, e que sua companheira precisou se refugiar no SOS-Mulheres porque ele a espancou.</p><p>Depois, sil�ncio. Armanskij n�o disse nada durante alguns minutos, distra�do em folhear o relat�rio. Ele era apresentado com compet�ncia, escrito numa prosa compreens�vel e carregada de refer�ncias, fontes e declara��es de amigos e conhecidos do objeto. Por fim, levantou os olhos e pronunciou duas palavras:</p><p>� Prove isso.</p><p>� Quanto tempo me d�?</p><p>� Tr�s dias. Se n�o conseguir provar suas afirma��es at� sexta-feira ao meio-dia, est� despedida.</p><p>Tr�s dias depois, ela entregou um relat�rio com refer�ncias de fontes igualmente expl�citas, que transformavam o agrad�vel jovem <emphasis>yuppie </emphasis>numa pessoa n�o confi�vel. Armanskij leu o relat�rio v�rias vezes durante o fim de semana e passou parte da segunda-feira numa contraverifica��o pouco entusiasmada de algumas daquelas afirma��es. Antes mesmo de come�ar o controle, sabia que as informa��es se revelariam exatas.</p><p>Armanskij estava perplexo e irritado consigo mesmo por t�-la manifestamente julgado mal. Achou-a est�pida, talvez at� um pouco retardada. N�o esperava que uma menina que falhara nos estudos e que n�o tinha sequer notas no final do col�gio pudesse escrever um relat�rio n�o somente correto do ponto de vista lingu�stico mas que apresentava tamb�m observa��es e informa��es que o faziam se perguntar como ela as tinha obtido.</p><p>Ele sabia que ningu�m na Milton Security poderia conseguir um trecho do di�rio confidencial de um m�dico do SOS-Mulheres. Quando lhe perguntou como procedera, s� obteve uma resposta evasiva. Ela disse que n�o pretendia queimar suas fontes. Aos poucos, ficou claro para Armanskij que Lisbeth Salander tamb�m n�o tinha a inten��o de discutir seus m�todos de trabalho, nem com ele nem com qualquer pessoa. Isso o inquietou, mas n�o o bastante para resistir � tenta��o de p�-la � prova.</p><p>Refletiu sobre esse ponto durante alguns dias.</p><p>Lembrou-se das palavras de Holger Palmgren quando a enviou. <emphasis>Todo mundo deve ter sua chance. </emphasis>Pensou em sua pr�pria educa��o mu�ulmana, que lhe ensinara que o dever para com Deus era ajudar os exclu�dos. Embora ele n�o acreditasse em Deus e nunca tivesse posto os p�s numa mesquita desde a adolesc�ncia, tinha a impress�o de que Lisbeth Salander era algu�m que precisava de ajuda e de um apoio s�lido. Na verdade, ele n�o realizara muitas a��es desse g�nero em sua vida.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Em vez de despedi-la, convocou Lisbeth Salander para uma conversa particular, na qual tentou entender qual era realmente o problema daquela mo�a complicada. Sua convic��o de que ela sofria de um dist�rbio s�rio se refor�ou, mas ele descobriu que por tr�s de seu perfil problem�tico escondia-se uma pessoa inteligente. Achava-a fr�gil e complicada, mas tamb�m come�ava � n�o sem espanto � a gostar dela.</p><p>Nos meses seguintes, Armanskij p�s Lisbeth Salander debaixo de suas asas. Se fosse sincero consigo mesmo, diria que se encarregava dela como de um pequeno projeto social. Dava-lhe tarefas de pesquisa simples e procurava instru�-la sobre a melhor maneira de proceder. Ela escutava com paci�ncia, ia embora e realizava a miss�o totalmente � sua maneira. Ele pediu ao respons�vel pelos servi�os t�cnicos da Milton para dar-lhe um curso b�sico de inform�tica; Salander permaneceu sem protestar em sua cadeira durante toda uma tarde, antes que o respons�vel, um pouco deslumbrado, viesse relatar que ela parecia ter mais conhecimentos de inform�tica que a maioria dos funcion�rios da empresa.</p><p>Armanskij rapidamente percebeu que, apesar das conversas sobre plano de carreira, ofertas de desenvolvimento interno e outros meios de persuas�o, Lisbeth Salander n�o tinha a inten��o de se adaptar �s rotinas da Milton. Isso o colocou diante de um dilema complicado.</p><p>Ela continuava sendo um elemento de irrita��o para os colegas. Armanskij tinha consci�ncia de que n�o aceitaria tais hor�rios aleat�rios de outro colaborador, e que numa situa��o normal lhe teria dado um ultimato, exigindo uma mudan�a. Imaginava tamb�m que, se desse um ultimato a Lisbeth Salander ou amea�asse despedi-la, ela apenas encolheria os ombros. Portanto, teria ou que se separar dela, ou aceitar que ela n�o funcionava como as pessoas normais.</p><p>O maior problema para Armanskij, por�m, � que ele n�o conseguia definir seus sentimentos em rela��o � mo�a. Ela era como uma comich�o desconfort�vel, repulsiva e atraente ao mesmo tempo. N�o se tratava de atra��o sexual � pelo menos n�o de algum tipo que Armanskij quisesse reconhecer.</p><p>As mulheres que ele cobi�ava eram geralmente louras e opulentas, com l�bios carnudos que ati�avam sua imagina��o. Al�m do mais, estava casado havia vinte anos com uma finlandesa chamada Ritva, que, mesmo tendo passado dos cinquenta, ainda satisfazia essas exig�ncias. Ele nunca fora infiel � digamos que vivera s� alguns raros momentos que a mulher poderia interpretar mal se ficasse sabendo �, tinha um casamento feliz e duas filhas da idade de Salander. Seja como for, n�o se interessava por meninas sem peito que de longe podiam ser confundidas com rapazes magricelas. N�o era seu estilo.</p><p>N�o obstante, come�ou a pegar-se em flagrante delito tendo sonhos acordados com Lisbeth Salander, e admitiu que n�o era totalmente indiferente � presen�a dela. Mas a atra��o, dizia Armanskij a si mesmo, vinha do fato de Salander ser para ele uma criatura ex�tica. Ele poderia ter se enamorado tamb�m do quadro de uma ninfa grega. Salander representava uma vida irreal que o fascinava mas que ele n�o podia compartilhar � e que de todo modo ela o impedia de compartilhar.</p><p>Um dia, Armanskij estava no terra�o de um caf� na pra�a Stortorget, na cidade velha, quando Lisbeth Salander chegou e instalou-se numa mesa na outra ponta do terra�o. Estava acompanhada de tr�s mo�as e de um rapaz, todos vestidos de forma semelhante. Armanskij a observou com curiosidade. Parecia t�o reservada como no escrit�rio, mesmo assim sorriu quando uma das mo�as, de cabelo roxo, lhe contou alguma coisa.</p><p>Armanskij perguntou-se como Salander reagiria se ele chegasse ao escrit�rio com cabelos verdes, um jeans rasgado e um blus�o de couro com rebites e pingentes. Seria aceito como um dos seus? Talvez � ela parecia aceitar tudo ao redor com um ar de <emphasis>tanto faz, n�o estou nem a� </emphasis>�, mas o mais prov�vel � que zombasse dele.</p><p>Ela estava de costas e n�o olhou uma �nica vez para o lado dele, parecendo ignorar que ele estivesse ali. Mas Armanskij sentiu-se estranhamente perturbado pela presen�a dela quando, passado um momento, levantou-se para sair de mansinho e ela virou a cabe�a, o mirou bem nos olhos, como se soubesse o tempo todo que ele estava ali e o tivesse sob vigil�ncia. Seu olhar o atingiu t�o de repente que ele o sentiu como um ataque; fingiu n�o v�-la e deixou o terra�o com passos r�pidos. Ela n�o o chamou, mas o seguiu com os olhos, e esse olhar n�o cessou de arder em suas costas at� ele dobrar a esquina.</p><p>Ela raramente ria. Armanskij, no entanto, tinha a impress�o de haver notado um abrandamento nela. Seu humor era seco e eventualmente acompanhado de um leve sorriso ir�nico.</p><p>�s vezes, Armanskij sentia-se t�o provocado pela falta de resposta emocional de Lisbeth Salander que tinha vontade de sacudi-la e abrir uma passagem nessa carapa�a para conquistar sua amizade ou pelo menos seu respeito.</p><p>Numa �nica ocasi�o, quando fazia nove meses que ela trabalhava para ele, tentou discutir esses sentimentos com ela. Foi numa noite de dezembro, na festa de Natal da Milton Security, e dessa vez ele bebera bastante. Nada de inconveniente se passou � ele apenas tentou dizer que gostava muito dela. Sobretudo, quis explicar que tinha um instinto de prote��o por ela e que, se um dia ela precisasse de alguma coisa, podia procur�-lo com toda a confian�a. Tentou mesmo abra��-la � amigavelmente, � claro.</p><p>Ela se desvencilhou desse abra�o desajeitado e foi embora da festa. N�o apareceu mais no escrit�rio nem atendia o celular. Dragan Armanskij viveu sua aus�ncia como uma tortura � quase como uma puni��o pessoal. N�o tinha ningu�m com quem dividir seus sentimentos, e pela primeira vez compreendeu, com uma lucidez aterradora, o poder devastador que Lisbeth Salander tinha sobre ele.</p><p>Tr�s semanas depois, numa noite de janeiro, quando Armanskij fazia hora extra para verificar o balancete do ano, Salander voltou. Entrou na sala suavemente como um fantasma e de s�bito ele a percebeu junto � porta, observando-o dali da penumbra. N�o tinha a menor id�ia de quanto tempo fazia que ela estava ali.</p><p>� Quer caf�? � ela perguntou, estendendo-lhe um copinho da m�quina de caf� expresso da cantina.</p><p>Sem dizer uma palavra, ele pegou o copinho e sentiu ao mesmo tempo al�vio e temor quando ela fechou a porta com a ponta do p� e instalou-se na poltrona dos visitantes, olhando-o bem nos olhos. A seguir, fez a pergunta tabu de tal modo que ele nem p�de despach�-la com um gracejo nem contorn�-la.</p><p>� Dragan, voc� sente tes�o por mim?</p><p>Armanskij ficou como que paralisado, refletindo como um louco sobre que resposta dar. Seu primeiro impulso foi negar, com ar ofendido. Depois, viu o olhar dela e entendeu que, pela primeira vez, ela perguntava alguma coisa. Uma pergunta s�ria e, se ele tentasse se safar com um gracejo, ela tomaria aquilo como um insulto pessoal. Ela queria falar com ele, e ele se perguntou h� quanto tempo ela estava reunindo coragem para fazer essa pergunta. Depositando a caneta bem devagar sobre a mesa, ele se reclinou na poltrona e, por fim, conseguiu relaxar.</p><p>� O que a faz supor isso? � perguntou.</p><p>� A maneira como me olha e a maneira como n�o me olha. E �s vezes em que esteve a ponto de estender a m�o para me tocar e se conteve.</p><p>Ele sorriu de repente.</p><p>� Eu tinha a impress�o de que voc� morderia a minha m�o se eu tocasse um dedo em voc�.</p><p>Ela n�o sorriu. Esperava.</p><p>� Lisbeth, sou seu chefe e, mesmo que estivesse atra�do por voc�, nunca faria um gesto.</p><p>Ela continuava esperando.</p><p>� Entre n�s, sim, houve momentos em que me senti atra�do. N�o consigo explicar, mas aconteceu. Por uma raz�o que eu mesmo n�o entendo, gosto imensamente de voc�. Mas n�o � nada f�sico.</p><p>� Melhor assim. Porque nunca haver� nada entre n�s.</p><p>Armanskij soltou uma risada. Mesmo dando a informa��o mais negativa que um homem podia receber, Salander acabava de lhe falar, de certa maneira, com intimidade. Ele buscou as palavras apropriadas.</p><p>� Lisbeth, entendo que n�o esteja interessada em um velho com mais de cinquenta anos.</p><p>� N�o estou interessada num velho com mais de cinquenta anos <emphasis>que � meu chefe. </emphasis>� Ela ergueu a m�o. � Espere, deixe-me falar. �s vezes voc� � tacanho e insuport�vel com esse seu jeito de burocrata, mas o fato � que tamb�m � um homem atraente e... eu tamb�m posso me sentir... S� que voc� � meu chefe, eu conheci sua mulher, quero conservar esse emprego na firma, e a pior coisa que eu poderia fazer seria ter um caso com voc�.</p><p>Amanskij ficou em sil�ncio, ele mal ousava respirar.</p><p>� Estou perfeitamente consciente do que fez por mim, e n�o sou uma ingrata. Aprecio de verdade que tenha passado por cima dos preconceitos e tenha me dado uma chance aqui. Mas n�o o quero como amante e voc� n�o � meu pai.</p><p>Ela se calou. Depois de um momento, Armanskij suspirou, desamparado.</p><p>� O que quer de mim ent�o?</p><p>� Quero continuar trabalhando para voc�. Se acha isso conveniente. Ele assentiu com a cabe�a e em seguida respondeu com a maior franqueza poss�vel.</p><p>� Realmente, tenho muita vontade que trabalhe para mim. Mas tamb�m quero que sinta alguma forma de amizade e de confian�a por mim.</p><p>Ela concordou com a cabe�a.</p><p>� Voc� n�o � uma pessoa que incite � amizade � ele disparou de repente. Ela se contraiu um pouco, por�m ele prosseguiu, inexor�vel. � Entendi que n�o quer que se envolvam com a sua vida e tentarei n�o fazer isso. Mas tudo bem se continuo a gostar de voc�?</p><p>Salander refletiu por um bom tempo. Sua resposta, ent�o, foi se levantar, contornar a mesa e abra��-lo. Ele ficou paralisado. Somente quando ela o soltou, ele pegou sua m�o.</p><p>� Podemos ser amigos? � ele perguntou. Ela concordou com a cabe�a mais uma vez.</p><p>Foi a �nica ocasi�o em que ela lhe mostrara ternura e a �nica em que o tocara. Um momento de que Armanskij se lembrava sempre com emo��o.</p><p>Quatro anos haviam transcorrido agora, e ela quase nada revelara a Armanskij sobre sua vida pessoal ou sobre seu passado. Uma vez, ele direcionou a ela sua pr�pria compet�ncia na arte da investiga��o. Teve tamb�m uma longa conversa com Holger Palmgren � que n�o pareceu surpreso de ouvi-lo �, e o que acabou por saber em nada contribuiu para aumentar sua confian�a. Nunca discutiu esse assunto com ela, nunca fez a menor alus�o nem lhe deu a entender que vasculhara sua vida privada. Em vez disso, ocultou sua inquieta��o e refor�ou a vigil�ncia.</p><p>Antes que essa memor�vel noitada terminasse, Salander e Armanskij chegaram a um acordo. Ela passaria a trabalhar para ele como <emphasis>freelancer. </emphasis>Receberia um pequeno pagamento mensal fixo, quer realizasse ou n�o miss�es; os verdadeiros rendimentos viriam das faturas que apresentasse em cada miss�o. Trabalharia como bem entendesse; em contrapartida, ela se comprometeria a nunca fazer nada que prejudicasse ou criasse problemas para a Milton Security.</p><p>De acordo com Armanskji, era uma solu��o vantajosa para a empresa, para ele mesmo e para Salander. Ele restringiu o penoso servi�o das IP a um �nico funcion�rio fixo, um colaborador muito jovem que desempenhava corretamente as tarefas rotineiras e cuidava das informa��es sobre solv�ncia. Todas as miss�es complicadas e duvidosas, ele reservou a Salander e a outros <emphasis>freelancers </emphasis>que � se as coisas sa�ssem mal � eram seus pr�prios patr�es e pelos quais a Milton Security n�o precisava responder. Como ele lhe passava miss�es com frequ�ncia, ela obtinha rendimentos confort�veis. Rendimentos que at� poderiam ser bem mais elevados, por�m ela trabalhava somente quando tinha vontade, segundo o princ�pio de que, se Armanskij n�o gostasse, bastava dispens�-la.</p><p>Armanskij a aceitou tal como era, com a condi��o de que n�o devia se encontrar com os clientes. Quase nunca havia exce��es a essa regra, mas o caso que hoje se apresentava era, infelizmente, uma delas.</p><p>Naquele dia, Lisbeth Salander vestia uma camiseta preta com uma imagem do E. T. exibindo dentes ferozes e as palavras I <emphasis>am also an alien. </emphasis>Usava saia preta com a bainha desfeita, uma jaqueta curta de couro tamb�m preta e ralada, cinto com rebites, botas Doc. Martens e meias com listas transversais vermelhas e verdes, subindo at� os joelhos. A maquiagem indicava que talvez fosse dalt�nica. Ou seja, apresentava-se com o maior esmero.</p><p>Armanskij suspirou e dirigiu o olhar � terceira pessoa presente na sala � um visitante de aspecto antiquado e �culos com lentes espessas. O advogado Dirch Frode tinha sessenta e oito anos e insistira para se encontrar com o autor do relat�rio, a fim de lhe fazer algumas perguntas. Armanskij tentou evitar o encontro recorrendo a falsos expedientes, dizendo que Salander estava gripada, que estava viajando e �s voltas com outros trabalhos. Frode respondera despreocupadamente que n�o tinha pressa � o caso n�o era urgente e ele podia esperar mais alguns dias sem problema. Armanskij praguejou em voz baixa e n�o achou outra sa�da sen�o reuni-los. Agora Frode observava Lisbeth Salander com evidente fasc�nio. Salander respondeu com um olhar furioso, sua express�o indicando claramente que n�o nutria a menor simpatia por ele.</p><p>Armanskij suspirou mais uma vez e olhou para o dossi� que ela depositara em cima da mesa, com o t�tulo <emphasis>Carl Mikael Blomkvist. </emphasis>O nome era acompanhado de um n�mero de registro, meticulosamente escrito na capa. Ele pronunciou o nome em voz alta. Frode saiu de seu estado de enfeiti�amento e voltou os olhos para Armanskij.</p><p>� Bem, o que pode me dizer sobre Mikael Blomkvist? � perguntou.</p><p>� Esta � a senhorita Salander, que redigiu o relat�rio. � Armanskji hesitou um segundo e prosseguiu com um sorriso destinado a transmitir confian�a a Frode, mas que sobretudo pedia desculpas desamparadas. � N�o se surpreenda com a juventude dela. � sem d�vida nossa melhor investigadora.</p><p>� Estou certo disso � respondeu Frode com uma voz seca que indicava o contr�rio. � Conte-me o que ela descobriu.</p><p>Evidentemente o advogado n�o fazia a menor id�ia de que comportamento adotar com Lisbeth Salander e procurava pisar um terreno mais seguro dirigindo a pergunta a Armanskij, como se ela n�o estivesse na sala. Salander aproveitou a ocasi�o para fazer uma grande bola com seu chiclete. Antes que Armanskij tivesse tempo de responder, ela falou ao chefe como se Frode n�o existisse.</p><p>� Pode ver com o seu cliente se ele deseja a vers�o longa ou a resumida?</p><p>Na mesma hora Frode percebeu a gafe que cometera. Seguiu-se um breve e penoso sil�ncio, ent�o ele se virou para Lisbeth Salander e tentou corrigir o erro adotando um tom gentilmente paternal.</p><p>� Eu ficaria muito grato, senhorita, se pudesse me fazer um resumo do que descobriu.</p><p>Salander parecia uma fera cruel das savanas espreitando Dirch Frode para devor�-lo. Havia em seu olhar um �dio t�o intenso e inesperado que Frode sentiu um arrepio nas costas. Rapidamente o rosto dela suavizou-se. Frode se perguntou se o que vira naquele olhar fora imagina��o. Quando ela come�ou a falar, seu tom de voz era o de um funcion�rio de Estado.</p><p>� Antes de mais nada, permita-me dizer que essa miss�o n�o foi especialmente complicada, a n�o ser pelo fato de que a descri��o das tarefas a cumprir era bastante vaga. O senhor queria que bisbilhot�ssemos por toda parte para descobrir tudo a respeito dele, mas esqueceu de indicar se buscava algo em particular. Raz�o pela qual chegamos a uma esp�cie de amostra de sua vida. O relat�rio cont�m cento e noventa e tr�s p�ginas, mas cento e vinte s�o, na verdade, c�pias de artigos que ele escreveu ou recortes de imprensa nos quais aparece. Blomkvist � uma figura p�blica com poucos segredos e n�o tem muito a esconder.</p><p>� Mas ent�o ele tem segredos? � perguntou Frode.</p><p>� Todo mundo tem segredos � ela respondeu, imperturb�vel. � Trata-se apenas de descobrir quais.</p><p>� Sou todo ouvidos.</p><p>� Mikael Blomkvist nasceu em 18 de janeiro de 1960, portanto logo completar� quarenta e tr�s anos. Nasceu em Borl�nge, mas nunca morou l�. Seus pais, Kurt e Anita Blomkvist, tinham cerca de trinta e cinco anos quando ele nasceu; atualmente os dois s�o falecidos. O pai era instalador de m�quinas e devia se deslocar bastante; a m�e nunca foi sen�o dona de casa, pelo que entendi. A fam�lia mudou-se para Estocolmo quando Mikael come�ou a escola. Ele tem uma irm� tr�s anos mais nova, ela se chama Annika e � advogada. Tem tamb�m tios e primos... E esse caf�, vem ou n�o vem?</p><p>A �ltima frase era dirigida a Armanskij, que sem demora abriu a garrafa t�rmica que ele pedira para a reuni�o. Com um gesto, convidou Salander a continuar.</p><p>� Em 1966, portanto, a fam�lia se mudou para Estocolmo. Moravam em Lilla Essingen. Blomkvist cursou a escola prim�ria e secund�ria em Bromma, depois fez o colegial em Kungsholmen. Suas notas de final de curso foram excelentes, encontrar� c�pias delas no dossi�. Quando estava no col�gio, fazia m�sica, tocava baixo num grupo de rock, os Bootstrap, que teve at� um compacto tocado no r�dio, no ver�o de 1979. Depois do col�gio, trabalhou como vigia no metr�, juntou dinheiro para viajar ao exterior. Esteve fora um ano, passeando principalmente pela �sia � �ndia, Tail�ndia e uma breve estadia na Austr�lia. Come�ou a estudar jornalismo em Estocolmo quando tinha vinte e um anos, mas interrompeu o curso ao cabo de um ano para prestar o servi�o militar no regimento de ca�adores, em Kiruna. Uma esp�cie de unidade de machos, da qual saiu com notas 10-9-9, o que � um bom resultado. Depois do servi�o militar, formou-se jornalista e come�ou a trabalhar. At� onde devo ir com os detalhes?</p><p>� Conte tudo que lhe pare�a essencial.</p><p>� Certo. Ele � sobretudo o tipo primeiro da classe. At� hoje tem sido um jornalista talentoso. Nos anos 1980, fez uma s�rie de servi�os tempor�rios, primeiro na imprensa do interior, depois em Estocolmo. A lista est� no dossi�.</p><p>Mas se tornou realmente conhecido com a hist�ria dos Irm�os Metralha � o bando de assaltantes que ele ajudou a prender.</p><p>� Super-Blomkvist.</p><p>� Ele detesta esse apelido, o que � compreens�vel. Eu deixaria algu�m de olho roxo se me chamassem de P�ppi Meialonga numa manchete de jornal.</p><p>Ela lan�ou um olhar sombrio para Armanskij, que engoliu em seco. Mais de uma vez, ele pensara em Lisbeth Salander justamente como P�ppi Meialonga, e felicitou-se por nunca haver soltado esse gracejo. Fez sinal para que ela prosseguisse, agitando o indicador no ar.</p><p>� Uma fonte diz que at� ent�o ele queria ser rep�rter criminal, chegou mesmo a fazer um trabalho tempor�rio nessa se��o num jornal vespertino, mas o que o tornou famoso foi sua atua��o como investigador pol�tico e econ�mico. Trabalhou principalmente como <emphasis>freelancer </emphasis>e teve um �nico emprego fixo num jornal vespertino, no final dos anos 1980. Pediu demiss�o em 1990, quando participou da cria��o da revista mensal <emphasis>Millennium. </emphasis>Ela come�ou como zebra, sem um editor de peso que a bancasse. A tiragem aumentou, hoje est� em torno de vinte e um mil exemplares. A reda��o est� instalada na G�tgatan, a poucas ruas daqui.</p><p>� Uma publica��o de esquerda.</p><p>� Tudo depende de como se define esquerda. A <emphasis>Millennium </emphasis>� tida como uma revista de cr�tica � sociedade, mas algo me diz que os anarquistas a v�em como uma publica��o pequeno-burguesa do mesmo fil�o da <emphasis>Arena </emphasis>ou da <emphasis>Ordfront, </emphasis>enquanto a Uni�o dos Estudantes Moderados provavelmente pensa que a reda��o � composta de bolchevistas. Nada indica que Blomkvist tenha exercido uma atividade pol�tica, mesmo durante a onda esquerdista do seu tempo de col�gio. Quando estava na faculdade de jornalismo, viveu com uma militante sindicalista que hoje ocupa uma cadeira no Parlamento pelo partido da esquerda. O r�tulo de esquerdista se deve sobretudo ao fato de ele ter se especializado, como jornalista econ�mico, em reportagens que revelaram a corrup��o e neg�cios suspeitos no mundo empresarial. Ele fez algumas descri��es devastadoras de empres�rios e pol�ticos, sem d�vida nenhuma bem merecidas, e est� na origem de um bom n�mero de demiss�es e processos jur�dicos. O mais conhecido � o caso Arboga, que resultou na demiss�o for�ada de um pol�tico conservador e na senten�a de um ano de pris�o dada a um ex-tesoureiro municipal, por desvio de verba. Denunciar delitos dificilmente pode ser considerado uma atitude de esquerda.</p><p>� Entendo o que quer dizer. E o que mais?</p><p>� Ele escreveu dois livros. Um sobre o caso Arboga e outro sobre jornalismo econ�mico, intitulado <emphasis>Os templ�rios </emphasis>e publicado h� tr�s anos. N�o li, mas, a julgar pelas cr�ticas, o livro � bastante controvertido e suscitou muitos debates na m�dia.</p><p>� E quanto a dinheiro?</p><p>� Ele n�o � rico, mas n�o tem do que se queixar. Suas declara��es de renda est�o anexadas ao dossi�. Tem pouco mais de duzentas e cinquenta mil coroas no banco, aplicadas num plano de aposentadoria e num fundo de poupan�a. Disp�e de cerca de cem mil coroas na conta corrente, que usa para as despesas normais, viagens et cetera. Possui um apartamento que comprou financiado e j� terminou de pagar. Sessenta e cinco metros quadrados na Bellmansgatan. N�o fez empr�stimos nem d�vidas.</p><p>Salander levantou um dedo.</p><p>� Ele possui ainda um outro bem: uma propriedade rural em Sandhamn. � uma cabana de vinte e cinco metros quadrados, que funciona como casa de f�rias, situada � beira-mar, na parte mais atraente da aldeia. Ao que parece foi comprada por um dos tios nos anos 1940, quando os simples mortais ainda podiam se oferecer esse tipo de coisa, e foi por causa da heran�a que a cabana passou a pertencer a Blomkvist. Ele e a irm� dividiram os bens, ela ficou com o apartamento dos pais em Lilla Essingen e Mikael Blomkvist com a cabana. N�o sei quanto ela vale hoje, com certeza alguns milh�es, mas ele n�o parece querer vend�-la e vai para l� com bastante frequ�ncia.</p><p>� Seus rendimentos?</p><p>� � co-propriet�rio da <emphasis>Millennium, </emphasis>mas retira apenas doze mil coroas de sal�rio mensal. Compensa com atividades de <emphasis>freelancer; </emphasis>no final, a soma � vari�vel. Atingiu um pico h� tr�s anos, quando recebeu muitas solicita��es da m�dia, o que lhe rendeu cerca de quatrocentas e cinquenta mil coroas no ano. No ano passado, seus honor�rios n�o foram al�m de cento e vinte mil.</p><p>� Ele vai ter que pagar cento e cinquenta mil por perdas e danos, mais as custas do advogado e coisas desse tipo � constatou Frode. � Pode-se dizer que a soma ser� elevada, sem esquecer que ele n�o ter� rendimentos enquanto estiver cumprindo a pena de pris�o.</p><p>� O que significa que sair� sem nada no bolso � observou Salander.</p><p>� Ele � honesto? � perguntou Dirch Frode.</p><p>� E o seu capital de confian�a, por assim dizer. Ele insiste em se apresentar como um s�lido guardi�o da moral no mundo das empresas, e seguidamente � convidado a ir � televis�o para comentar diversos casos.</p><p>� Certamente n�o restar� muita coisa desse capital ap�s o julgamento de hoje � disse Frode com ar pensativo.</p><p>� N�o estou muito por dentro do que se exige de um jornalista, mas depois dessa bofetada certamente vai demorar muito at� o Super-Blomkvist receber o Grande Pr�mio de Jornalismo. Ele se queimou magistralmente � constatou Salander com lucidez. � Mas se me permite uma reflex�o pessoal...</p><p>Armanskij abriu bem os olhos. Nos anos em que Lisbeth Salander vinha trabalhando para ele, nunca emitira a menor reflex�o pessoal numa investiga��o sobre um indiv�duo. Para ela, contavam apenas os fatos brutos, mas hoje abria uma exce��o.</p><p>� N�o competia � minha miss�o examinar o caso Wennerstr�m, mas acompanhei o processo e confesso que fiquei perplexa. Todo o caso parece muito mal contado, e � totalmente... totalmente improv�vel que Mikael Blomkvist publicasse algo a tal ponto sem fundamento.</p><p>Salander co�ou o queixo. Frode parecia aguardar com paci�ncia. Armanskij se perguntou se estava enganado ou se Salander n�o sabia realmente como prosseguir. A Salander que ele conhecia nunca se mostrava indecisa nem hesitante. Por fim ela se decidiu.</p><p>� Isto ficar� fora do relat�rio... realmente n�o mergulhei no caso Wennerstr�m, mas acho que o Super-Blomkvist... perd�o, Mikael Blomkvist, caiu numa armadilha. Acho que h� nessa hist�ria algo bem diferente daquilo que a senten�a indica.</p><p>Dessa vez, foi Dirch Frode que se ergueu de repente na poltrona. O advogado examinou Salander com aten��o e Armanskij notou que, pela primeira vez desde o in�cio da exposi��o, ele mostrava um interesse que ia al�m da simples polidez. De in�cio, Armanskij achou que o caso Wennerstr�m representava aparentemente algo bem preciso para Frode. Mas logo se corrigiu. <emphasis>Na verdade, o caso Wennerstr�m n�o interessa a Frode </emphasis>� <emphasis>foi somente quando Salander insinuou que Blomkvist se deixou pegar que Frode reagiu.</emphasis></p><p>� O que est� querendo dizer exatamente?</p><p>� Simples especula��o, mas estou convencida de que algu�m o enganou.</p><p>� E o que a faz supor isso?</p><p>� Tudo no passado de Blomkvist indica que ele � um jornalista muito prudente. Todas as revela��es pass�veis de controv�rsia que ele fez sempre foram muito bem documentadas. Assisti a uma sess�o do julgamento. Ele n�o forneceu argumentos contradit�rios; pareceu ter abandonado a luta, o que n�o combina com seu car�ter. A acreditar no tribunal, ele fabricou uma hist�ria sobre Wennerstr�m sem nenhuma prova e a publicou como se fosse um jornalista camicase, e esse n�o � de modo algum o estilo de Blomkvist.</p><p>� O que aconteceu, na sua opini�o?</p><p>� Posso apenas especular. Blomkvist acreditou na sua hist�ria, mas algo aconteceu no caminho e a informa��o se revelou falsa. Isso significa que a fonte era algu�m em quem ele confiava, ou ent�o que algu�m deliberadamente lhe passou informa��es erradas, o que me parece complicado e inveross�mil. A alternativa pode ser ele ter sido exposto a uma amea�a t�o grave que preferiu jogar a toalha e passar por um imbecil incompetente em vez de entrar na luta. Mas, como eu disse, s�o s� especula��es.</p><p>Salander se preparava para prosseguir seu relato, quando Dirch Frode a interrompeu com um gesto. Ficou um momento silencioso tamborilando com a ponta dos dedos no bra�o da cadeira, antes de se voltar novamente para ela com alguma hesita��o.</p><p>� Se quis�ssemos contrat�-la para desvendar o caso Wennerstr�m... quais seriam suas chances de descobrir alguma coisa?</p><p>� N�o sei dizer. Talvez n�o haja nada para descobrir.</p><p>� Mas aceitaria tentar? Ela encolheu os ombros.</p><p>� N�o cabe a mim decidir. Trabalho para Dragan Armanskij e � ele quem decide que tarefas deseja me atribuir. Depois, depende do tipo de informa��o que o senhor quer descobrir.</p><p>� Deixe-me p�r as coisas assim... Presumo que esta conversa seja confidencial, n�o? � Armanskij assentiu com a cabe�a. � Nada sei sobre esse caso, mas sei, de forma incontest�vel, que Wennerstr�m foi desonesto em outros contextos. Esse caso teve um impacto enorme na vida de Mikael Blomkvist e eu gostaria de saber se suas especula��es poderiam conduzir a algum lugar.</p><p>A conversa tomara um rumo inesperado e Armanskij imediatamente ficou alerta. O que Dirch Frode pedia era que a Milton Security aceitasse investigar um caso judici�rio j� julgado, no qual talvez tivesse ocorrido alguma forma de amea�a il�cita contra Mikael Blomkvist e no qual a Milton potencialmente se arriscava a entrar em colis�o com o ex�rcito de advogados de Wennerstr�m. Armanskij n�o estava nem um pouco tentado pela id�ia de lan�ar Lisbeth Salander em tal situa��o, como um m�ssil descontrolado.</p><p>N�o se tratava apenas de preocupa��o com a tarefa. Salander j� dissera claramente que n�o queria ver Armanskij desempenhando o papel de pai adotivo angustiado, e depois do acordo que fizeram ele evitava comportar-se como tal, mas interiormente nunca deixaria de se preocupar com ela. �s vezes, surpreendia-se comparando Salander com as pr�prias filhas. Considerava-se um bom pai que n�o interferia inutilmente na vida das filhas, mas sabia que jamais aceitaria que elas se comportassem ou vivessem como Lisbeth Salander.</p><p>No fundo do seu cora��o croata � ou b�snio, talvez, ou arm�nio �, ele nunca conseguira se libertar de uma convic��o de que a vida de Salander era uma corrida rumo ao desastre. A seus olhos, ela se oferecia como v�tima ideal para algu�m com m�s inten��es, e ele temia ser despertado uma manh� com a not�cia de que algu�m lhe fizera mal.</p><p>� O custo de uma investiga��o como essa pode ser muito alto � disse Armanskij com prud�ncia, para sondar a seriedade da proposta de Frode.</p><p>� Precisamos apenas fixar um teto � replicou Frode, perspicaz. � N�o estou pedindo o imposs�vel, mas � evidente que sua colaboradora, como voc� afirmou, � competente.</p><p>� Salander? � disse Armanskij, erguendo uma sobrancelha em dire��o a ela.</p><p>� N�o tenho nenhum outro trabalho em andamento.</p><p>� Certo. Mas eu gostaria que cheg�ssemos a um acordo sobre algumas formalidades. Vamos ouvir o resto do relat�rio.</p><p>� N�o h� muita coisa mais, exceto detalhes sobre a vida privada dele. Em 1986 casou-se com uma tal Monica Abrahamsson, e no mesmo ano tiveram uma filha chamada Pernilla, hoje com dezesseis anos. O casamento n�o durou muito, em 1991 eles se divorciaram. Abrahamsson voltou a se casar, mas parece que os dois continuam tendo boas rela��es. A filha mora com a m�e e n�o v� Blomkvist com muita frequ�ncia.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Frode pediu uma segunda x�cara de caf� e voltou-se outra vez para Salander.</p><p>� H� pouco voc� deu a entender que todo mundo tem segredos. Descobriu algum?</p><p>� Eu quis dizer que as pessoas t�m coisas que consideram privadas e que n�o costumam expor. Blomkvist parece apreciar o conv�vio com as mulheres. Teve v�rias hist�rias de amor e muitas liga��es ocasionais. Em suma, tem uma vida sexual intensa. No entanto, existe uma pessoa em sua vida j� h� muitos anos e o relacionamento deles � bastante incomum.</p><p>� Em que sentido?</p><p>� Ele tem um relacionamento sexual com Erika Berger, diretora da <emphasis>Millennium; </emphasis>filha da alta sociedade, de m�e sueca e pai belga radicado na Su�cia. Berger e Blomkvist se conheceram na faculdade de jornalismo e desde ent�o t�m uma liga��o mais ou menos constante.</p><p>� N�o parece t�o incomum � observou Frode.</p><p>� Certamente n�o. Mas Erika Berger � casada com o artista pl�stico Lars Beckman, um sujeito ligeiramente famoso, que espalhou uma por��o de instala��es horrorosas em lugares p�blicos.</p><p>� Ou seja, ela � infiel.</p><p>� N�o. Beckman sabe do relacionamento deles. � um <emphasis>m�nage � trois, </emphasis>aparentemente aceito pelas partes. �s vezes ela dorme na casa de Blomkvist, �s vezes na casa do marido. N�o sei bem como a coisa funciona, mas sem d�vida foi o que fez acabar o casamento de Blomkvist e de Monica Abrahamsson.</p><empty-line/><p><strong>3. SEXTA-FEIRA 20 DE DEZEMBRO � S�BADO 21 DE DEZEMBRO</strong></p><empty-line/><p>Erika Berger levantou as sobrancelhas quando um Mikael Blomkvist visivelmente morto de frio chegou � reda��o j� no final da tarde. O escrit�rio da <emphasis>Millennium </emphasis>ficava na G�tgatan, na parte alta da rua, um andar acima da sede do Greenpeace. O aluguel, na verdade, era um pouco superior aos recursos da revista, mas Erika, Mikael e Christer julgavam que deviam conservar o local.</p><p>Ela olhou seu rel�gio: cinco e dez. J� havia algum tempo que escurecera em Estocolmo. Achando que ele voltaria mais cedo, ela o esperara para o almo�o.</p><p>� Desculpe o atraso � ele falou, antes que ela tivesse tempo de dizer alguma coisa. � Eu queria ficar sozinho, n�o estava com vontade de falar. Sa� andando por a� para pensar.</p><p>� Ouvi a senten�a pelo r�dio. Uma mo�a da TV4 telefonou, queria uma declara��o minha.</p><p>� E o que voc� disse?</p><p>� Mais ou menos o que j� t�nhamos decidido, que vamos estudar o veredicto detalhadamente antes de nos pronunciarmos. Ou seja, n�o disse nada. E a minha opini�o continua a mesma: acho que n�o � uma boa estrat�gia nos colocarmos numa posi��o de fraqueza e perdermos o apoio da m�dia. A tev� deve abordar o assunto hoje � noite.</p><p>Abatido, Blomkvist assentiu com a cabe�a.</p><p>� Como est� se sentindo?</p><p>Ele encolheu os ombros e deixou-se cair em sua poltrona preferida em frente � janela da sala de Erika. A pe�a era escassamente mobiliada: uma mesa de trabalho, uma estante funcional e m�veis de escrit�rio baratos. Foram comprados na Ikea, com exce��o de duas poltronas confort�veis e extravagantes, e de uma pequena mesa baixa � uma concess�o � minha educa��o, como ela costumava gracejar. Quando queria fazer uma pausa Erika geralmente se instalava numa das poltronas, com os p�s recolhidos. Mikael olhava pela janela. Embaixo, na penumbra, pedestres apressados galopavam pela G�tgatan. A histeria das compras de Natal chegava � reta final.</p><p>� Suponho que vai passar � disse ele. � Mas neste momento � como se eu acabasse de levar uma tremenda surra.</p><p>� Sim, � mais ou menos isso, e o mesmo vale para todos n�s. Janne Dahlman foi embora hoje de manh� para casa.</p><p>� Imagino que ele n�o tinha ilus�es quanto � senten�a.</p><p>� N�o � exatamente o homem mais otimista que eu j� conheci. Mikael assentiu com a cabe�a. Janne Dahlman era secret�rio de reda��o da <emphasis>Millennium </emphasis>havia nove meses. Entrou quando o caso Wennerstr�m estava come�ando e viu-se numa reda��o em crise. Mikael tentou lembrar a conversa que tiveram, ele e Erika, quando decidiram contrat�-lo. Era um jovem competente, sua passagem pela TT o familiarizara com as assessorias de imprensa, e trabalhara como tempor�rio em jornais vespertinos e na r�dio. Mas n�o era algu�m pronto para enfrentar tempestades. Durante o ano que terminava, Mikael se arrependeu v�rias vezes de ter contratado Dahlman, que tinha uma tend�ncia profundamente irritante de ver tudo sob os aspectos mais negativos.</p><p>� Teve not�cias do Christer? � perguntou Mikael sem desviar o olhar da rua.</p><p>Christer Malm, respons�vel pela ilustra��o e diagrama��o da <emphasis>Millennium, </emphasis>era co-propriet�rio da revista com Erika e Mikael, e no momento estava no exterior, viajando com o namorado.</p><p>� Ele telefonou, te mandou um abra�o.</p><p>� Ele vai ter de ficar no meu lugar como editor.</p><p>� Espere a�, Micke, voc� deveria saber que um editor respons�vel leva muitos socos no nariz, faz parte do jogo.</p><p>� Sim, eu sei. Mas acontece que eu � que redigi o texto que foi publicado na revista da qual eu sou o redator-chefe, ou, mais exatamente, o editor respons�vel. Isso muda tudo. Isso se chama erro de avalia��o.</p><p>Erika Berger sentiu que a ansiedade que o acompanhara o dia todo estava a ponto de explodir. Antes do julgamento, nas �ltimas semanas, Mikael Blomkvist estivera mal-humorado, mas ela n�o o sentira t�o tristonho e resignado como parecia estar agora, no momento da derrota. Ela contornou a mesa de trabalho, sentou-se de pernas abertas sobre os joelhos dele e passou os bra�os em volta de seu pesco�o.</p><p>� Mikael, escute. Sabemos bem como tudo aconteceu. Sou t�o respons�vel quanto voc�. Temos que enfrentar essa tempestade.</p><p>� N�o h� tempestade para enfrentar. Essa senten�a significa que levei um tiro na nuca, que estou morto do ponto de vista da m�dia. N�o posso continuar dirigindo a <emphasis>Millennium. </emphasis>A<emphasis/>credibilidade da revista est� em jogo, � preciso reduzir os preju�zos. Voc� sabe t�o bem quanto eu.</p><p>� Se acha que pretendo deix�-lo assumir o erro sozinho, ent�o voc� nunca entendeu, nesses anos todos, como eu funciono.</p><p>� Sei exatamente como voc� funciona, Ricky. Voc� � de uma lealdade cega com seus colegas. Se pudesse se lan�ar contra os advogados de Wennerstr�m, faria isso at� tamb�m perder sua credibilidade. Precisamos ser mais inteligentes.</p><p>� E acha inteligente abandonar o navio como se eu tivesse te despedido?</p><p>� J� falamos sobre isso centenas de vezes. Se a <emphasis>Millennium </emphasis>deve sobreviver, cabe a voc� comandar. Christer � um cara �timo, um sujeito que entende de fotografia e diagrama��o, mas enfrentar bilion�rios n�o � o forte dele. � preciso que eu desapare�a da <emphasis>Millennium </emphasis>por algum tempo como publisher, jornalista e membro da equipe; voc� fica no meu lugar. Wennerstr�m sabe que eu sei o que ele faz, e estou convencido de que, enquanto eu estiver ligado � revista, far� o poss�vel para afund�-la. N�o podemos permitir isso.</p><p>� Mas por que ent�o n�o contar o que se passou? Ou vai ou racha!</p><p>� Porque n�o podemos provar nada e porque neste momento n�o tenho credibilidade nenhuma. Wennerstr�m ganhou esse <emphasis>round. </emphasis>Ponto final.</p><p>� Est� bem, eu despe�o voc�. E o que vai fazer em seguida?</p><p>� Preciso de um tempo, s� isso. Estou completamente esgotado, entrei de cabe�a na parede, como se diz. Vou cuidar de mim durante algum tempo. Depois veremos.</p><p>Erika estreitou Mikael com for�a nos bra�os e encostou a cabe�a no peito dele. Ficaram em sil�ncio por alguns minutos.</p><p>� Quer companhia esta noite? � ela perguntou. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Eu j� tinha avisado Lars que dormiria na sua casa hoje.</p><p>A �nica fonte de luz do quarto era a ilumina��o da rua que entrava pela janela. Erika adormecera pouco depois das duas da manh� e Mikael, ainda acordado, observava o perfil dela na penumbra. A colcha a cobria at� a cintura e ele observou os seios erguendo-se e abaixando-se num ritmo lento. Estava apaziguado e a bola de ang�stia no est�mago se dissolvera. Erika produzia esse efeito nele, sempre fora assim. E ele sabia que produzia exatamente o mesmo efeito nela.</p><p>Vinte anos, pensou. Fazia vinte anos que ele e Erika mantinham uma liga��o. E ele esperava que continuassem fazendo amor por mais vinte anos ainda. Pelo menos. Nunca haviam tentado a s�rio esconder essa rela��o, mesmo quando ela criou situa��es um pouco amb�guas com os outros. Ele sabia que as pessoas em volta falavam e faziam perguntas, �s quais tanto Erika quanto ele davam respostas evasivas, sem se preocupar com os coment�rios.</p><p>Conheceram-se numa festa na casa de amigos comuns. Ambos estavam no segundo ano da faculdade de jornalismo e cada um, na �poca, tinha um parceiro regular. De in�cio foi s� uma paquera divertida, se � que as lembran�as eram exatas. Depois, levaram mais longe o jogo de sedu��o m�tua e, antes de se separar, trocaram os n�meros de telefone. Os dois sabiam que iam se reencontrar na cama e, menos de uma semana depois, executaram esse plano sem que os respectivos parceiros soubessem.</p><p>Mikael tinha certeza de que n�o se tratava de amor � pelo menos n�o do amor tradicional, que acaba num domic�lio comum, em compromissos comuns, �rvore de Natal e crian�as. Algumas vezes, nos anos 1980, chegaram a pensar em alugar um apartamento juntos. Mikael teria gostado. Mas Erika sempre desistia no �ltimo instante, argumentando que n�o daria certo e que n�o deviam arriscar destruir sua rela��o se apaixonando um pelo outro.</p><p>Sabiam que a rela��o se baseava no sexo, e Mikael v�rias vezes se perguntou se era poss�vel sentir mais desejo por uma mulher do que o que sentia por Erika. A rela��o funcionava como uma verdadeira droga.</p><p>�s vezes viam-se com tanta frequ�ncia que tinham a impress�o de ser um casal; outras vezes transcorriam semanas, meses, entre cada encontro. Mas, como os alco�latras atra�dos pela prateleira de bebidas ap�s um per�odo de abstin�ncia, retornavam sempre um para o outro em busca de mais.</p><p>A coisa, evidentemente, n�o funcionava. Uma rela��o como essa s� podia ser uma fonte de dor. Erika e ele haviam deixado pelo caminho promessas n�o cumpridas e liga��es frustradas � o pr�prio casamento de Mikael acabou porque ele n�o conseguiu se manter afastado de Erika. Nunca mentiu � mulher sobre a exist�ncia desse caso, mas ela pensou que, com o casamento e o nascimento da filha, ele terminaria. Al�m do mais, praticamente na mesma �poca, Erika se casou com Lars Beckman. Mikael tamb�m pensou que o caso terminaria e, nos primeiros anos do casamento dela, ele e Erika s� se viram profissionalmente. A� veio a <emphasis>Millennium </emphasis>e, menos de uma semana depois, todas as resolu��es vieram abaixo quando, no final de um dia de trabalho, os dois fizeram amor selvagemente em cima da mesa de Erika. Seguiu-se um per�odo dif�cil, no qual Mikael queria viver com a fam�lia e ver a filha crescer, ao mesmo tempo que, contra a vontade, era atra�do para Erika como se n�o conseguisse mais comandar seus atos. O que, evidentemente, era s� uma quest�o de for�a de vontade, como Lisbeth Salander bem percebeu: foi essa perp�tua infidelidade que levou Monica a querer acabar com o casamento.</p><p>O estranho � que Lars Beckman parecia aceitar totalmente a liga��o deles. Erika sempre foi clara sobre sua rela��o com Mikael e imediatamente informou o marido quando os dois recome�aram. Talvez s� uma alma de artista pudesse suportar isso, um artista voltado � sua cria��o, ou talvez voltado somente a si mesmo, que n�o reagia quando sua mulher dormia na casa de outro homem ou at� mesmo interrompia as f�rias para passar uma semana com o amante na cabana em Sandhamn. Mikael n�o gostava muito de Lars e nunca entendeu por que Erika havia se ligado a ele. Mas apreciava que Lars aceitasse que ela pudesse amar dois homens ao mesmo tempo.</p><p>Ele suspeitava que Lars considerava que a liga��o da mulher trazia uma excita��o extra ao casamento. Mas nunca abordou esse assunto com Erika.</p><p>Mikael n�o conseguia dormir e por volta das quatro da manh� levantou-se. Instalou-se na cozinha e mais uma vez leu o veredicto do come�o ao fim.</p><p>A leitura do dossi� lhe permitia enxergar com mais clareza, e ele percebia o quanto o encontro em Arholma tinha a ver com o destino. Nunca conseguiu descobrir se Robert Lindberg revelara a fraude de Wennerstr�m apenas como uma boa hist�ria durante uma conversa entre dois tragos, ou se a inten��o fora de fato faz�-la vir a p�blico.</p><p>Espontaneamente, Mikael pendia a favor da primeira possibilidade, mas tamb�m era poss�vel imaginar que Robert, por raz�es altamente particulares ou profissionais, desejasse atingir Wennerstr�m e aproveitou a oportunidade de ter um jornalista disposto a escut�-lo numa cabine fechada. Robert talvez tivesse bebido um pouco, o que n�o o impediu de cravar os olhos em Mikael no instante decisivo da hist�ria, quando evocou as palavras m�gicas que o transformariam numa fonte an�nima. Com isso, Robert tinha a certeza de que Mikael podia divulgar o que quisesse, mas nunca se permitiria revelar o nome de seu informante.</p><p>No entanto Mikael estava certo de uma coisa: se o encontro em Arholma tinha sido organizado por um conspirador com o objetivo de atrair sua aten��o, a atua��o de Robert fora perfeita. S� que o encontro em Arholma acontecera por puro acaso.</p><p>Robert n�o tinha a menor id�ia da extens�o do desprezo de Mikael por gente como Hans-Erik Wennerstr�m. Depois de anos de observa��o, Mikael estava convencido de que n�o havia um �nico diretor de banco ou dono de empresa c�lebre que n�o fosse tamb�m um escroque.</p><p>Mikael nunca ouvira falar de Lisbeth Salander e ignorava completamente o relat�rio que ela fizera naquele dia, mas, se o tivesse lido, teria balan�ado a cabe�a em concord�ncia quando ela afirmou que a avers�o dele pelos tubar�es das finan�as n�o era um mero acesso de radicalismo de esquerda. Mikael n�o era um desinteressado de pol�tica, mas encarava os <emphasis>ismos </emphasis>pol�ticos com a maior desconfian�a. Na �nica elei��o em que votou � as legislativas de 1982 �, escolhera sem muita convic��o os socialdemocratas simplesmente porque para ele nada podia ser pior do que mais tr�s anos com um moderado como G�sta Bohman nas finan�as, um centrista como Thorbj�rn F�lldin e um liberal como Ola Ullsten no comando do governo. Assim, votou em Olof Palme sem grande entusiasmo, para depois deparar com o assassinato do primeiro-ministro, o esc�ndalo da venda de armas de Bofors em Om� e as intrigas s�rdidas de Ebbe Carlsson no inqu�rito sobre o assassinato de Olof Palme.</p><p>O desprezo de Mikael pelos jornalistas econ�micos se devia a algo t�o elementar, a seus olhos, como a moral. Para ele era uma equa��o simples. Um diretor de banco que perde algumas centenas de milh�es em especula��es tresloucadas n�o deveria permanecer no cargo. Um empres�rio que monta firmas fict�cias para seus neg�cios pessoais devia ser preso. Um propriet�rio de im�veis que obriga jovens a pagar, sem nota, o aluguel de um quarto com banheiro no quintal devia ser pendurado pelos p�s no pelourinho.</p><p>Mikael Blomkvist acreditava que a miss�o do jornalista econ�mico era investigar e desmascarar os tubar�es financeiros capazes de provocar crises de juros e de especular com o dinheiro do pequeno poupador. Acreditava que sua verdadeira miss�o jornal�stica era investigar os donos de empresa com o mesmo zelo implac�vel que os jornalistas pol�ticos vigiam o menor passo em falso de ministros e parlamentares. Jamais ocorreria a um jornalista pol�tico transformar em �cone um chefe de partido, e Mikael tinha dificuldade em entender por que tantos jornalistas econ�micos, dos mais importantes ve�culos do pa�s, estavam prontos a elevar med�ocres arrivistas � categoria de vedetes do <emphasis>showbiz.</emphasis></p><p>Essa atitude um tanto at�pica no jornalismo econ�mico o levou a ter, mais de uma vez, conflitos abertos com colegas, entre os quais William Borg, que virou seu inimigo ferrenho. Mikael erguera a cabe�a e criticara os colegas, acusando-os de n�o cumprir sua miss�o e de fazer o jogo dos arrivistas financeiros. O papel de cr�tico da sociedade certamente dera a Mikael algum status e o transformara no arroz-de-festa das c�meras de tev� � era sempre convidado a dar sua opini�o quando se sabia que algum empres�rio se safara de dificuldades com um p�ra-quedas no valor de alguns bilh�es �, por�m isso tamb�m lhe angariava um c�rculo fiel de inimigos jurados.</p><p>Mikael bem podia imaginar que algumas reda��es haviam estourado champanhe naquela noite.</p><p>Erika tinha a mesma postura que ele diante do papel do jornalista, e desde que se formaram os dois se divertiam juntos pensando numa publica��o com esse perfil.</p><p>Mikael n�o podia imaginar um chefe melhor do que Erika. Perfeita organizadora, ela transmitia calor e confian�a aos funcion�rios, mas ao mesmo tempo n�o temia o confronto e sabia se mostrar intrat�vel quando necess�rio. Sua sensibilidade se exacerbava sobretudo na hora de tomar decis�es sobre o conte�do da edi��o que estava sendo preparada. Ela e Mikael tinham muitas vezes opini�es contr�rias e os dois �s vezes discutiam abertamente, mas nutriam uma confian�a inabal�vel um pelo outro e formavam uma equipe imbat�vel. Ele fazia a coleta, ela encaixotava e vendia.</p><p>A <emphasis>Millennium </emphasis>era uma cria��o dos dois, mas nunca teria existido sem a capacidade de Erika de levantar um financiamento. Um filho de oper�rio e uma filha de burgu�s reunidos. Erika dispunha de uma boa heran�a. De in�cio, lan�ou m�o de seus recursos e convenceu o pai e amigos a investir quantias consider�veis no projeto.</p><p>Muitas vezes Mikael se perguntou por que Erika apostara na <emphasis>Millennium. </emphasis>� verdade que ela era acionista � majorit�ria � e diretora de sua pr�pria revista, o que lhe dava prest�gio e uma liberdade editorial que ela n�o teria em nenhum outro local de trabalho. Diferentemente de Mikael, ela se encaminhara para a tev� depois da faculdade de jornalismo. Tinha coragem, apresentava-se com compet�ncia diante da c�mera e sabia se afirmar entre os concorrentes. Possu�a, al�m disso, bons contatos no governo. Se tivesse continuado, certamente teria alcan�ado um cargo de dire��o na tev�, com um sal�rio muito alto. Mas preferiu abandonar tudo e apostar na <emphasis>Millennium, </emphasis>um projeto de alto risco iniciado em instala��es prec�rias no bairro de Midsom-markransen, mas que deu suficientemente certo para se transferir, poucos anos depois, para salas mais amplas e agrad�veis na G�tgatan, a dois passos do centro da cidade, no S�dermalm.</p><p>Erika tamb�m convencera Christer Malm a se associar � revista; celebridade do mundo gay, exibicionista nas horas vagas, aparecia de vez em quando nas colunas sociais em companhia do namorado. O interesse da m�dia voltou-se para ele quando passou a viver com Arnold Magnusson, conhecido por Arn, um ator de teatro que s� se revelou verdadeiramente ao desempenhar o pr�prio papel num <emphasis>reality show </emphasis>na tev�. A vida de Christer e Arn virou ent�o um folhetim na m�dia.</p><p>Aos trinta e seis anos, Christer Malm, fot�grafo profissional e <emphasis>designer </emphasis>muito requisitado, sabia dar � <emphasis>Millennium </emphasis>um padr�o gr�fico moderno e atraente. Seu escrit�rio ficava no mesmo andar que a reda��o da <emphasis>Millennium, </emphasis>e ele cuidava da diagrama��o em tempo parcial, uma semana por m�s.</p><p>Al�m desses tr�s, a <emphasis>Millennium </emphasis>contava com dois colaboradores fixos, tr�s em tempo parcial e um tempor�rio. Era o tipo de publica��o que estava sempre no vermelho, por�m muito prestigiosa e na qual os colaboradores adoravam trabalhar.</p><p>A <emphasis>Millennium </emphasis>n�o era um neg�cio lucrativo, mas havia conseguido equilibrar suas despesas, e tanto a tiragem quanto as receitas publicit�rias n�o cessavam de aumentar. At� o momento, a revista mantinha a imagem de um produto com estilo editorial franco e confi�vel.</p><p>Provavelmente agora as coisas iam mudar. Mikael lia o breve comunicado que ele e Erika haviam escrito algumas horas antes e que logo se transformou num despacho da ag�ncia de not�cias TT veiculado nas p�ginas da <emphasis>Aftonbladet, </emphasis>na internet.</p><p>condenado na justi�a, mikael blomkvist abandona a <emphasis>millennium</emphasis></p><p>Estocolmo (TT). O jornalista Mikael Blomkvist deixa o cargo de editor respons�vel da revista mensal <emphasis>Millennium, </emphasis>anuncia Erika Berger, diretora e acionista majorit�ria.</p><p>Mikael Blomkvist deixa a <emphasis>Millennium </emphasis>por decis�o pr�pria. Esgotado ap�s o per�odo dram�tico que acaba de viver, ele precisa de um descanso, diz Erika, que assume o cargo de editora respons�vel da publica��o.</p><p>Mikael Blomkvist foi um dos criadores da <emphasis>Millennium </emphasis>em 1990. Segundo Erika Berger, o caso Wennerstr�m n�o dever� interferir no futuro da revista.</p><p>"A <emphasis>Millennium </emphasis>sair� normalmente no m�s que vem", ela acrescenta. "Mikael Blomkvist teve um papel fundamental no desenvolvimento da revista, mas agora vamos virar a p�gina. Considero o caso Wennerstr�m como uma sucess�o de circunst�ncias infelizes e lamento os dissabores causados a Hans-Erik Wennerstr�m."</p><p>N�o foi poss�vel encontrar Mikael Blomkvist para obter seu depoimento.</p><p>� Acho isso terr�vel � dissera Erika ap�s enviar por e-mail o comunicado de imprensa. � A maioria das pessoas vai concluir que voc� � um cretino incompetente e que eu n�o passo de uma puta que aproveita a ocasi�o para te acertar um tiro pelas costas.</p><p>� Considerando todos os outros boatos que circulam, pelo menos nossos amigos ter�o algo de novo com que se divertir � tentou gracejar Mikael. Mas Erika n�o achou gra�a.</p><p>� N�o tenho um plano B, mas acho que estamos cometendo um erro.</p><p>� � a �nica solu��o � replicou Mikael. � Se a revista quebrar a cara, todos os nossos esfor�os ter�o sido in�teis. Voc� sabe que a partir de agora vamos perder muitas receitas. Ali�s, qual foi a decis�o daquela empresa de inform�tica?</p><p>Ela suspirou.</p><p>� Hoje de manh� eles comunicaram que n�o v�o anunciar na edi��o de janeiro.</p><p>� E, n�o por acaso, Wennerstr�m det�m muitas cotas dessa empresa.</p><p>� Podemos cortejar outros anunciantes. Por mais que Wennerstr�m seja um figur�o das finan�as, ele n�o possui tudo neste mundo, e n�s tamb�m temos nossos contatos.</p><p>Mikael estreitou Erika no peito.</p><p>� Um dia vamos torpedear Hans-Erik Wennerstr�m a ponto de fazer tremer Wall Street. Mas n�o hoje. A <emphasis>Millennium </emphasis>deve sair do campo minado. N�o podemos nos arriscar a perder a confian�a que alguns depositam em n�s.</p><p>� Eu sei, eu sei, mas vou ser vista como a bruxa de plant�o e voc� ficar� numa pior se dermos a entender que houve um rompimento entre n�s.</p><p>� Eu, voc� e Ricky confiamos um no outro, temos uma chance. Precisamos tocar o barco, e chegou a hora de eu me retirar.</p><p>Ela reconheceu, a contragosto, que havia uma triste l�gica nessa conclus�o.</p><empty-line/><p><strong>4. SEGUNDA-FEIRA 23 DE DEZEMBRO �  QUINTA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO</strong></p><p>Erika passou o fim de semana na casa de Mikael Blomkvist. Praticamente s� sa�ram da cama para ir ao banheiro e comer alguma coisa, mas nem por isso ficaram o tempo todo fazendo amor; passaram horas um junto do outro, discutindo o futuro e pesando consequ�ncias, possibilidades e probabilidades. Na segunda-feira de manh� � faltavam dois dias para o Natal �, Erika beijou Mikael, despediu-se com um "at� breve" e voltou para a casa do marido.</p><p>Mikael come�ou a segunda-feira lavando a lou�a e pondo um pouco de ordem no apartamento, depois foi caminhando at� a reda��o, para recolher seus pap�is no escrit�rio. N�o tinha a menor inten��o de romper com a revista, mas acabou convencendo Erika que durante algum tempo era importante separar Mikael Blomkvist da <emphasis>Millennium. </emphasis>A partir de agora, ele trabalharia no seu apartamento da Bellmansgatan.</p><p>Estava sozinho na reda��o, fechada por causa do Natal e com os funcion�rios de folga. Selecionava alguns pap�is e livros para p�r numa pasta quando o telefone tocou.</p><p>� Gostaria de falar com Mikael Blomkvist � disse uma voz desconhecida mas cheia de expectativa na outra ponta da linha.</p><p>� � ele.</p><p>� Sinto muito perturb�-lo na v�spera de Natal. Meu nome � Dirch Frode. � Instintivamente, Mikael anotou o nome e a hora. � Sou advogado e represento um cliente que gostaria muito de conversar com o senhor.</p><p>� Bem, diga a seu cliente que ele mesmo me telefone.</p><p>� O que quero dizer � que ele gostaria de encontr�-lo.</p><p>� Tudo bem, marque um encontro e mande-o vir at� o meu escrit�rio. Mas seja r�pido, pois estou esvaziando a mesa.</p><p>� Meu cliente gostaria muito que fosse encontr�-lo na casa dele. Ele mora em Hedestad, s�o apenas tr�s horas de trem.</p><p>Mikael parou de selecionar os pap�is. A imprensa tem a capacidade de atrair as pessoas mais malucas, detentoras das informa��es mais absurdas. Todas as reda��es do mundo recebem chamados de fan�ticos por �vnis, graf�logos, cientologistas, paran�icos e outros te�ricos da grande conspira��o.</p><p>Um dia, Mikael ouvia uma confer�ncia do escritor Karl Alvar Nilsson, organizada pela universidade popular na �poca do anivers�rio do assassinato de Olof Palme. A confer�ncia era absolutamente s�ria e na plat�ia se achavam Lennart Bodstr�m e outros velhos amigos de Palme. Mas muitas pessoas comuns tamb�m compareceram, entre elas uma mulher de uns quarenta anos, que se apoderou do microfone quando chegou o inevit�vel momento das perguntas. Com exce��o da voz baixa, como num cochicho, nada fazia prever uma sequ�ncia interessante, e ningu�m ficou especialmente surpreso quando a mulher come�ou sua interven��o anunciando: <emphasis>"Sei quem matou Olof Palme". </emphasis>Os que estavam � mesa responderam, com uma ponta de ironia, que, se ela possu�a aquela informa��o t�o decisiva, seria do maior interesse comunic�-la � comiss�o de inqu�rito. Ao que ela vivamente retrucou, num murm�rio quase inaud�vel: <emphasis>"N�o posso, � perigoso demais!".</emphasis></p><p>Mikael se perguntou se Dirch Frode tamb�m n�o seria um desses profetas ansiosos por revelar a exist�ncia de um hospital psiqui�trico secreto, onde a Pol�cia Federal se dedicava a experimentos de controle mental.</p><p>� N�o atendo em domic�lio � respondeu secamente.</p><p>� Nesse caso, espero convenc�-lo a abrir uma exce��o. Meu cliente tem mais de oitenta anos e vir a Estocolmo representa para ele uma viagem penosa. Se o senhor insiste, creio que poder�amos encontrar outra solu��o, mas, para ser bem franco, seria prefer�vel que tivesse a gentileza de...</p><p>� Quem � o seu cliente?</p><p>� Algu�m de quem o senhor nunca deve ter ouvido falar na sua profiss�o, imagino: Henrik Vanger.</p><p>Mikael fez um movimento para tr�s, surpreso. Henrik Vanger � claro que ouvira falar dele. Grande industrial e ex-diretor administrativo do grupo Vanger, um imp�rio cujos neg�cios eram serrarias, florestas, minas, f�bricas de a�o, empresas metal�rgicas e t�xteis, produ��o e exporta��o. Henrik Vanger fora um dos grandes de seu tempo, com a reputa��o de um honesto patriarca � antiga que n�o se curvava diante da tempestade. Fazia parte dos fundamentos da vida econ�mica sueca, bravo seguidor da velha escola, ao lado dos Matts Carlgren, de MoDo e de Hans Werthen, da antiga Electrolux. A coluna vertebral da ind�stria democr�tica sueca, por assim dizer.</p><p>O grupo Vanger, ainda hoje uma empresa familiar, fora sacudido nos �ltimos vinte e cinco anos por reestrutura��es, cat�strofes na Bolsa, crises de juros, concorr�ncia asi�tica, decl�nio das exporta��es e outros problemas que, somados, relegaram Vanger ao pelot�o da rabeira. A empresa agora era dirigida por Martin Vanger, cujo nome Mikael associava a um sujeito gordo de cabelos fofos que ele vira na televis�o, mas que na verdade n�o conhecia. Fazia bem uns vinte anos que Henrik Vanger estava fora de circuito e Mikael ignorava que ainda estivesse vivo.</p><p>� Por que Henrik Vanger quer me ver?</p><p>� Sinto muito. Sou o advogado de Vanger h� muitos anos, mas cabe a ele contar o que deseja. Por outro lado, posso adiantar que Henrik Vanger gostaria de discutir com o senhor um poss�vel trabalho.</p><p>� Um trabalho? N�o tenho nenhuma inten��o de passar a trabalhar para as empresas Vanger. Est�o precisando de um assessor de imprensa?</p><p>� N�o se trata em absoluto desse tipo de trabalho. N�o sei como me exprimir... tudo que posso dizer � que Henrik Vanger est� particularmente interessado em v�-lo e consult�-lo sobre um assunto particular.</p><p>� O senhor n�o poderia ser mais direto?</p><p>� Pe�o que me perdoe. Mas me diga: existe alguma possibilidade de o senhor fazer uma visita a Hedestad? Claro que reembolsaremos sua viagem e lhe daremos uma remunera��o razo�vel.</p><p>� Seu telefonema chega numa p�ssima hora. Estou bastante ocupado... e suponho que viu as not�cias sobre mim nesses �ltimos dias.</p><p>� O caso Wennerstr�m? � e Dirch Frode deixou escapar um risinho abafado na outra ponta da linha. � Sim, ele teve o m�rito de interessar bastante o p�blico. Mas, para dizer a verdade, foi justamente a publicidade em torno desse processo que atraiu a aten��o de Henrik Vanger para o senhor.</p><p>� E mesmo? E quando � que Henrik Vanger gostaria que eu fosse visit�-lo? � quis saber Mikael.</p><p>� O mais cedo poss�vel. Amanh� � noite � v�spera de Natal e suponho que o senhor n�o esteja livre. Mas que tal 26 de dezembro? Ou um dos dias seguintes?</p><p>� Ent�o � urgente mesmo. Sinto muito, mas se n�o me der uma pista aceit�vel da finalidade da visita...</p><p>� Eu lhe garanto que o convite � totalmente s�rio. Henrik Vanger gostaria de consult�-lo, ao senhor e n�o a uma outra pessoa. Gostaria de lhe propor um trabalho como <emphasis>freelancer, </emphasis>se isso lhe interessa. Quanto a mim, sou apenas um intermedi�rio. Cabe a ele explicar do que se trata.</p><p>� � um dos chamados mais estranhos que j� recebi. Vou pensar no assunto. Como posso contat�-lo?</p><p>Ap�s desligar o telefone, Mikael ficou contemplando a desordem em sua mesa. N�o conseguia entender por que Henrik Vanger desejava encontr�-lo. Uma viagem a Hedestad n�o lhe despertava nenhum entusiasmo, mas o advogado Frode conseguira despertar sua curiosidade.</p><p>Ligou o computador, conectou-se no www.google.com e digitou "empresas Vanger". Centenas de p�ginas estavam dispon�veis. Embora o grupo Vanger agora andasse a reboque, ele figurava praticamente todos os dias na m�dia. Salvou uma d�zia de artigos de an�lise do grupo e passou em seguida �s pesquisas sobre Dirch Frode, Henrik Vanger e Martin Vanger.</p><p>Martin Vanger aparecia com frequ�ncia, na qualidade de atual diretor do grupo. O advogado Dirch Frode estava aposentado, era membro da Associa��o de golfe de Hedestad e seu nome estava associado ao Rotary. Henrik Vanger s� era encontrado em textos ligados ao grupo Vanger, com uma �nica exce��o. Dois anos antes, o <emphasis>Hedestads-Kuriren, </emphasis>jornal local, celebrara o octog�simo anivers�rio do ex-magnata da ind�stria e o jornalista tra�ara um breve perfil dele. Mikael imprimiu alguns textos que pareciam conter informa��es s�lidas e constituiu assim um dossi� de umas cinquenta p�ginas. Depois terminou de arrumar sua mesa, encheu as pastas e foi para casa. N�o fazia a menor id�ia de quando iria voltar.</p><p>Lisbeth Salander passava a v�spera de Natal na casa de sa�de de Appelviken, em Upplands-V�sby. Trouxera de presente um frasco de �gua-de-toalete Dior e um bolo ingl�s comprado na Ahlens. Ela contemplava a mulher de quarenta e cinco anos que, com dedos in�beis, tentava desfazer o la�o do embrulho. Havia ternura nos olhos de Salander, embora sempre lhe causasse espanto que aquela mulher estranha diante dela <emphasis>pudesse </emphasis>ser sua m�e. Por mais que tentasse, n�o conseguia encontrar a menor semelhan�a f�sica ou de personalidade.</p><p>A m�e por fim abandonou seus esfor�os e olhou o embrulho com ar desamparado. Ela n�o estava num de seus bons dias. Lisbeth Salander empurrou a tesoura que estava bem � vista em cima da mesa e a m�e se iluminou como se despertasse de repente.</p><p>� Voc� deve me achar uma est�pida.</p><p>� N�o, mam�e. Voc� n�o � est�pida. A vida � que � injusta.</p><p>� Tem visto sua irm�?</p><p>� Falei com ela h� pouco tempo.</p><p>� Ela nunca vem me ver.</p><p>� Eu sei, mam�e. Ela tamb�m n�o vem me ver.</p><p>� Voc� trabalha?</p><p>� Sim, mam�e. Estou me virando bem.</p><p>� Est� morando onde? Eu nem sei onde voc� mora.</p><p>� Moro no nosso antigo apartamento da Lundagatan. Estou ali h� muitos anos. Paguei as contas atrasadas.</p><p>� Quem sabe no ver�o vou visitar voc�.</p><p>� Claro. No ver�o.</p><p>A m�e acabou abrindo a embalagem e aspirou o perfume, deliciada.</p><p>� Obrigada, Camilla � disse.</p><p>� Lisbeth. Sou a Lisbeth. Camilla � a minha irm�.</p><p>A m�e pareceu incomodada. Lisbeth Salander prop�s que elas fossem at� a sala de tev�.</p><p><strong/></p><p><strong>* * *</strong></p><p>Os programas Disney de Natal eram retransmitidos a toda hora na televis�o quando Mikael Blomkvist passou para ver sua filha Pernilla na casa da ex-mulher Monica e do novo marido dela, em Sollentuna. Trazia presentes para Pernilla; ap�s discutir o assunto com Monica, eles concordaram em dar � filha um iPod, um MP3-player bastante caro e n�o maior que uma caixa de f�sforos, capaz de abrigar toda a sua volumosa cole��o de discos.</p><p>Pai e filha passaram uma hora juntos no quarto dela, no andar de cima. Mikael e a m�e de Pernilla se divorciaram quando ela tinha somente cinco anos, e dois anos depois ela ganhara um novo pai. Mikael n�o havia de modo algum evitado o contato; Pernilla ia visit�-lo algumas vezes por m�s e todo ano, durante as f�rias, passava temporadas de uma semana na cabana de Sandhamn. Monica nunca tentou impedir que os dois se encontrassem, e Pernilla nada tinha contra rever o pai � ao contr�rio, os dias que eles passavam juntos costumavam ser bons momentos. Ainda assim, Mikael deixou a filha decidir em que medida desejava v�-lo, sobretudo depois que Monica voltou a se casar. Houve alguns anos, no in�cio da adolesc�ncia, em que o contato praticamente cessou e Pernilla s� havia pedido para voltar a v�-lo com mais frequ�ncia nos �ltimos dois anos.</p><p>A filha acompanhara o processo convicta de que Mikael afirmava a verdade: ele era inocente mas n�o podia provar.</p><p>Ela falou de um eventual namorado no col�gio e o surpreendeu ao revelar que se tornara membro de uma Igreja local e que se considerava uma devota. Mikael se absteve de qualquer coment�rio.</p><p>Foi convidado para jantar, mas recusou a oferta; j� combinara com a irm� passar a v�spera de Natal com ela e a fam�lia no sub�rbio <emphasis>yuppie </emphasis>de St�ket.</p><p>De manh�, tamb�m fora convidado a passar o Natal com Erika e o marido em Saltsj�baden. Recusou o convite com polidez, certo de que havia sem d�vida um limite na boa vontade de Lars para com os dramas triangulares, e ele n�o tinha vontade nenhuma de descobrir at� onde ia esse limite. De acordo com Erika, a proposta partira do pr�prio marido, e ela criticou sua timidez em participar dos jogos de um trio. Mikael rira � Erika sabia que ele era um heterossexual inflex�vel e que o convite n�o era a s�rio �, mas a decis�o de n�o festejar o Natal na companhia do marido da amante era irrevog�vel.</p><p>Em vez disso, ele foi bater � porta da irm� Annika Blomkvist, agora Annika Giannini. O marido de origem italiana, os dois filhos e v�rios outros membros da fam�lia do marido cortavam naquele momento o peru de Natal. Annika cursara direito sem a menor vontade, depois trabalhara alguns anos como estagi�ria no tribunal e como substituta de promotor, antes de abrir seu pr�prio escrit�rio de advocacia, associada a alguns amigos e numa sala com vista para o bairro de Kungsholmen. Especializou-se em direito de fam�lia e, sem que Mikael percebesse, sua irm� mais nova come�ou a aparecer nas p�ginas das revistas e em debates da televis�o como feminista c�lebre e advogada dos direitos da mulher. Defendia com frequ�ncia mulheres amea�adas ou importunadas por ex-maridos ou ex-namorados.</p><p>Quando Mikael a ajudava a preparar o caf�, ela p�s a m�o em seu bra�o e lhe perguntou como ele estava.</p><p>� Nunca me senti t�o por baixo, se quer saber.</p><p>� Da pr�xima vez arranje um advogado de verdade � disse ela.</p><p>� Acho que nesse caso nem o melhor advogado do mundo mudaria a situa��o.</p><p>� O que realmente aconteceu?</p><p>� Depois eu conto, maninha.</p><p>Ela o abra�ou com ternura e deu-lhe um beijo na bochecha antes de voltarem para junto dos outros com o bolo e o caf�.</p><p>Por volta das sete da noite, Mikael se desculpou e pediu licen�a para utilizar o telefone na cozinha. Chamou Dirch Frode e ouviu sua voz na outra ponta da linha, com uma algazarra de vozes ao fundo.</p><p>� Feliz Natal! � saudou Frode. � Ent�o, decidiu?</p><p>� N�o tenho nada de especial para fazer e o senhor conseguiu despertar minha curiosidade. Irei no dia 26, se lhe conv�m.</p><p>� Perfeito. N�o sabe o quanto sua decis�o me alegra. Desculpe-me, mas estou cercado de filhos e netos e mal consigo ouvir o que diz. Posso ligar amanh� para marcar uma hora?</p><p>Mikael Blomkvist se arrependeu da decis�o antes mesmo que a noite terminasse, mas como agora lhe parecia muito complicado voltar atr�s, na manh� do dia 26 instalou-se num trem rumo ao Norte. Mikael tinha carteira de habilita��o, por�m nunca se dera o trabalho de comprar um carro.</p><p>Frode tinha raz�o, a viagem era curta. Ele passou por Uppsala, depois percorreu as pequenas cidades industriais espalhadas ao longo da costa. Hedestad era uma das menores, a pouco mais de uma hora ao norte de G�vle.</p><p>Durante a noite houvera fortes precipita��es de neve, mas o c�u limpara e o ar estava gelado quando ele desceu na esta��o. Mikael logo percebeu que suas roupas n�o estavam adequadas ao inverno rigoroso do Norrland. Dirch Frode o identificou imediatamente, o acolheu com simpatia na plataforma e o fez entrar depressa no interior aquecido de um Mercedes. Na cidade, o trabalho de desobstru��o da neve era intenso, e Frode manobrou com prud�ncia entre as grandes escavadeiras. A neve criava um contraste ex�tico com Estocolmo, teriam dito em outro pa�s, embora n�o houvesse mais de tr�s horas de dist�ncia at� a capital e seus enfeites de Natal na cidade velha. Mikael olhava furtivamente o advogado: um rosto anguloso, cabelos brancos bem curtos, �culos de lentes grossas sobre um nariz volumoso.</p><p>� � a primeira vez que vem a Hedestad? � perguntou Frode. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� � um velho burgo industrial. N�o muito grande, tem apenas oitenta mil habitantes. Mas as pessoas gostam daqui. Henrik mora em Hedeby, na parte antiga, a aldeia, como � chamada. Fica logo na entrada sul da cidade.</p><p>� O senhor tamb�m mora aqui? � perguntou Mikael.</p><p>� Atualmente, sim. Nasci em Skane, mas comecei a trabalhar para Vanger logo depois que me formei, em 1962. Especializei-me em direito comercial e, com o passar dos anos, Henrik e eu nos tornamos amigos. Hoje estou aposentado, mas Henrik continua sendo meu cliente, o �nico. Ele tamb�m est� aposentado e n�o precisa dos meus servi�os com muita frequ�ncia.</p><p>� A n�o ser para aliciar jornalistas de m� reputa��o.</p><p>� N�o se subestime. Voc� n�o � o �nico que perdeu uma parada contra Hans-Erik Wennerstr�m.</p><p>Mikael olhou Frode de soslaio, n�o sabendo muito bem como interpretar essa observa��o.</p><p>� Esse convite tem algo a ver com Wennerstr�m? � perguntou.</p><p>� N�o � respondeu Frode. � Henrik Vanger n�o faz parte exatamente do c�rculo de amigos de Wennerstr�m, e ele acompanhou o processo com grande interesse. � para um caso bem diferente que ele deseja v�-lo.</p><p>� Sobre o qual o senhor n�o quer me falar.</p><p>� Sobre o qual n�o me cabe falar. Ajeitamos as coisas de modo que possa passar a noite na casa de Henrik Vanger. Se n�o lhe conv�m, podemos fazer uma reserva no Grande Hotel da cidade.</p><p>� Bem, � poss�vel que eu volte a Estocolmo de trem esta noite.</p><p>Na entrada de Hedeby, a aldeia, a escavadeira de neve ainda n�o havia passado, e Frode fez o carro avan�ar por trilhas congeladas deixadas pelas rodas. Havia ali um pequeno n�cleo de velhas casas de madeira, no estilo das antigas aglomera��es mineiras ao longo do golfo de Botnia. Ao redor viam-se mans�es modernas maiores. A aldeia come�ava em terra firme e, cruzando uma ponte, prosseguia numa ilha de relevo acidentado � Hedeby�n. No lado do continente, uma igrejinha de pedra pintada de branco erguia-se junto � ponte e defronte cintilava um velho cartaz luminoso anunciando <emphasis>P�es e doces. Caf� Susanne. </emphasis>Depois de atravessar a ponte, Frode continuou por mais uma centena de metros at� entrar numa esplanada diante de uma casa de pedra. A casa era pequena demais para ser qualificada de solar, embora fosse maior que as outras constru��es, e tratava-se, evidentemente, dos dom�nios senhoriais.</p><p>� Eis a casa Vanger � disse Dirch Frode. � Antigamente havia muita anima��o, mas hoje apenas Henrik e uma governanta moram aqui. E n�o � por falta de quartos de h�spedes.</p><p>Desceram do carro. Frode apontou com o dedo para o norte.</p><p>� A tradi��o exige que quem dirige o grupo Vanger more aqui, mas Martin Vanger, o sobrinho-neto de Henrik, queria algo mais moderno e mandou construir uma mans�o na ponta do promont�rio.</p><p>Mikael olhou ao redor e se perguntou que loucura o fizera aceitar o convite do advogado Frode. Prometeu-se tentar a qualquer pre�o voltar a Estocolmo naquela mesma noite. Uma escada de pedra conduzia at� a entrada e, antes que tivessem tempo de chegar, a porta se abriu. Mikael reconheceu prontamente Henrik Vanger, cujas fotos vira na internet.</p><p>As fotos o mostravam mais jovem, mas ele parecia surpreendentemente vigoroso para os seus oitenta e dois anos; um corpo musculoso, rosto severo e de tra�os marcantes, grossos cabelos grisalhos penteados para tr�s, provando que seus genes n�o o destinavam � calv�cie. Vestia uma cal�a escura cuidadosamente passada, camisa branca e uma malha marrom um tanto gasta. Tinha um bigode estreito e usava �culos com arma��o de metal.</p><p>� Sou Henrik Vanger � ele se apresentou. � Obrigado por ter concordado em vir me ver.</p><p>� Bom dia. Admito que achei o convite surpreendente.</p><p>� Vamos entrar. Mandei preparar um quarto de h�spedes. Quer descansar um pouco? Passaremos � mesa mais tarde. Esta � Anna Nygren, que lhe prestar� os servi�os necess�rios.</p><p>Mikael cumprimentou com um breve aperto de m�o uma mulher de uns sessenta anos. Ela pegou seu sobretudo para pendur�-lo num cabide e prop�s que ele usasse pantufas para proteger os p�s das correntes de ar do ch�o.</p><p>Mikael agradeceu e voltou-se para Henrik Vanger:</p><p>� N�o estou certo se ficarei at� o almo�o. Depende um pouco do objetivo deste encontro.</p><p>Henrik Vanger trocou um olhar com Dirch Frode. Havia uma coniv�ncia entre os dois que Mikael n�o conseguiu entender bem.</p><p>� Bem, vou deix�-los agora � disse Frode. � Preciso voltar para casa e impor um pouco de disciplina antes que meus netos destruam tudo.</p><p>E, dirigindo-se a Mikael:</p><p>� Moro � direita, do outro lado da ponte. Daqui at� l� s�o cinco minutos a p�; passando a padaria, � a terceira casa do lado da praia. Se precisar de mim, telefone.</p><p>Mikael p�s a m�o no bolso e acionou um gravador. <emphasis>Virei paran�ico?, </emphasis>pensou. N�o tinha a menor id�ia do que Henrik Vanger queria, mas, depois do que acontecera com Hans-Erik Wennerstr�m, fazia quest�o de ter evid�ncias precisas de todas as coisas estranhas que se passassem a sua volta, e esse inesperado convite a Hedestad pertencia, definitivamente, a tal categoria.</p><p>O ex-industrial bateu no ombro de Dirch Frode para se despedir e fechou a porta de entrada, antes de se voltar para Mikael.</p><p>� Ent�o irei diretamente ao que interessa. N�o se trata de um jogo. Gostaria de falar com voc�, mas o assunto exige uma longa conversa. Pe�o-lhe que escute o que tenho a dizer e depois decida. O senhor � jornalista e eu gostaria de contrat�-lo para um trabalho. Anna serviu o caf� no meu escrit�rio, no andar de cima.</p><p>Henrik Vanger indicou o caminho e Mikael o acompanhou. Entraram num gabinete comprido, de cerca de quarenta metros quadrados, situado na extremidade da casa. Uma das paredes estava coberta por prateleiras de livros, dez metros de comprimento do ch�o ao teto, numa mistura curiosa de romances, biografias, livros de hist�ria, manuais de com�rcio e de pesca, folhas de of�cio encadernadas. Os livros estavam dispostos sem uma classifica��o aparente, mas pareciam ser consultados com regularidade, e Mikael concluiu que Henrik Vanger era um homem que lia. No lado oposto, havia uma mesa de carvalho escuro, posicionada de modo a deixar um espa�o livre entre a cadeira e a parede, e nela estava pendurada uma cole��o bastante consider�vel de flores emolduradas e meticulosamente alinhadas.</p><p>Pela janela ao fundo, Henrik Vanger podia contemplar a ponte e a igreja. Havia um sof�, poltronas e uma mesa baixa sobre a qual Anna dispusera x�caras, uma garrafa t�rmica e biscoitos caseiros.</p><p>Com um gesto, Henrik Vanger convidou Mikael a se sentar, gesto que Mikael fingiu n�o perceber, o que lhe permitiu observar um pouco mais o ambiente. Primeiro notou a biblioteca, depois a parede com os quadros. A mesa estava arrumada, com exce��o de alguns pap�is empilhados. Numa das pontas havia uma foto emoldurada de uma menina bonita e morena, de olhos inteligentes. <emphasis>Uma mocinha que vai causar estragos, </emphasis>pensou Mikael. Parecia uma foto de primeira comunh�o, descolorida, que dava a impress�o de estar ali havia muitos anos. Mikael percebeu, de repente, que Henrik Vanger o observava.</p><p>� Lembra-se dela, Mikael? � perguntou.</p><p>� Como assim? � Mikael levantou as sobrancelhas.</p><p>� Sim, voc� a conheceu. Ali�s, voc� j� esteve neste escrit�rio. Mikael olhou ao redor e negou com a cabe�a.</p><p>� N�o? Como poderia se lembrar? Conheci seu pai. Contratei Kurt Blomkvist em v�rias ocasi�es nos anos 1950 e 1960, para instalar m�quinas e cuidar da manuten��o. Era um homem talentoso. Tentei convenc�-lo a prosseguir os estudos e a ser engenheiro. E voc�... voc� esteve aqui no ver�o de 1963, quando renovamos o maquin�rio da f�brica de papel aqui em Hedestad. Como foi dif�cil achar um alojamento para sua fam�lia, solucionamos o problema instalando voc�s numa pequena casa de madeira do outro lado da estrada, que pode ser vista dessa janela.</p><p>Henrik Vanger se aproximou da mesa e pegou o retrato.</p><p>� Esta � Harriet Vanger, a neta do meu irm�o Richard. Ela brincou com voc� mais de uma vez naquele ver�o. Voc� ia completar, ou talvez j� tivesse, tr�s anos, n�o lembro bem. Na �poca ela tinha doze.</p><p>� Desculpe, mas n�o me lembro de nada do que o senhor diz, do que voc� diz, se me permite trat�-lo assim.</p><p>� Naturalmente. Posso entender que n�o se lembre, mas eu me lembro muito bem de voc� correndo por todos os lados, com Harriet nos seus calcanhares. Eu ouvia voc� chorar quando trope�ava em alguma coisa. Lembro que dei um brinquedo de presente para voc�, um trator de metal amarelo, que eu mesmo tive quando era garoto, e que voc� recebeu com um entusiasmo incr�vel. Acho que foi por causa da cor.</p><p>Mikael sentiu um arrepio gelado. De fato, ele se lembrava do trator amarelo. Quando cresceu, o trator continuou enfeitando uma prateleira do seu quarto.</p><p>� Lembra? Lembra desse brinquedo?</p><p>� Lembro. E talvez voc� fique feliz de saber que esse trator ainda existe, no Museu do Brinquedo em Estocolmo. H� uns dez anos, fiz a doa��o quando eles procuravam brinquedos antigos.</p><p>� � mesmo? � Henrik Vanger riu, encantado. � Deixe-me mostrar... O velho foi buscar um �lbum de fotografias numa das prateleiras baixas da estante. Mikael notou que ele tinha dificuldade de se inclinar e que foi obrigado a se apoiar na prateleira para se reerguer. Henrik Vanger fez sinal para que Mikael se sentasse no sof� enquanto ele mesmo folheava o �lbum. Ele parecia saber o que procurava e, quando encontrou, depositou o �lbum sobre a mesa baixa. Mostrou uma foto de amador, em preto-e-branco, na base da qual se percebia a sombra do fot�grafo. No primeiro plano, um garotinho louro olhava para a objetiva com ar perturbado e um pouco inquieto.</p><p>� � voc� naquele ver�o. Seus pais aparecem ao fundo, nas cadeiras de jardim. Harriet est� um pouco encoberta pela sua m�e, e o rapaz � esquerda de seu pai � o irm�o de Harriet, Martin Vanger, que atualmente dirige o grupo.</p><p>Mikael n�o teve nenhuma dificuldade em reconhecer seus pais. A m�e, visivelmente gr�vida � a irm� de Mikael estava a caminho. Contemplou a foto, n�o sabendo bem o que pensar, enquanto Henrik Vanger servia o caf� e lhe oferecia o prato com biscoitos.</p><p>� Sei que seu pai morreu. E sua m�e, ainda est� viva?</p><p>� N�o � disse Mikael. � Morreu h� tr�s anos.</p><p>� Era uma mulher agrad�vel. Lembro muito bem dela.</p><p>� Mas estou certo de que n�o me chamou aqui para falar dos meus pais e dos bons velhos tempos.</p><p>� Tem raz�o. H� v�rios dias venho preparando o que vou lhe dizer, mas agora que voc� finalmente est� diante de mim n�o sei por onde come�ar. Bem, voc� sabe que houve um tempo em que tive uma grande influ�ncia sobre a ind�stria sueca e o mercado de trabalho. Hoje sou um velho que n�o deveria tardar a morrer, e a morte � talvez um ponto de partida bastante conveniente para esta conversa.</p><p>Mikael tomou um gole de caf�. Um aut�ntico caf� fervido e amargo do Norrland, pensou, perguntando-se aonde aquilo tudo ia levar.</p><p>� Sofro de lombalgia, n�o consigo mais fazer grandes caminhadas. Um dia voc� tamb�m ver� que a for�a acaba nos faltando, mas n�o sou hipocondr�aco nem senil. Tampouco obcecado pela morte, por�m estou na idade em que devo aceitar que meu tempo est� chegando ao fim. H� um momento em que se tem vontade de fazer um balan�o e resolver o que ficou inacabado. Entende o que quero dizer?</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. Henrik Vanger falava com voz clara e firme, e Mikael j� conclu�ra que o velho n�o era nem senil nem irracional.</p><p>� O que me intriga � a raz�o pela qual estou aqui � ele repetiu.</p><p>� Pedi que viesse porque gostaria que me ajudasse nesse balan�o de que falei. Tenho algumas quest�es que precisam ser resolvidas.</p><p>� E por que eu? Quero dizer... por que imagina que posso ajud�-lo?</p><p>� � que no momento em que eu estava pensando em chamar algu�m, seu nome come�ou a aparecer no caso Wennerstr�m. Eu sabia quem voc� era. E tamb�m porque subiu nos meus joelhos quando era um garotinho.</p><p>Ele agitou a m�o como para apagar suas palavras.</p><p>� N�o me entenda mal. N�o espero que me ajude por raz�es sentimentais. Quis apenas explicar por que tive o impulso de procur�-lo.</p><p>Mikael sorriu afavelmente.</p><p>� Bem, n�o tenho a menor lembran�a desses joelhos. Mas como soube quem eu era? Afinal, isso aconteceu no come�o dos anos 1960.</p><p>� Desculpe, n�o me expliquei bem. Voc� foi para Estocolmo quando seu pai assumiu o cargo de chefe de se��o na Zarinder. Era uma das muitas empresas do grupo Vanger e fui eu que lhe arranjei esse emprego. Ele n�o tinha diploma, mas eu sabia o quanto valia. Encontrei seu pai v�rias vezes quando tinha assuntos a tratar na Zarinder. Talvez n�o f�ssemos amigos �ntimos, mas sempre fic�vamos um bom tempo conversando. A �ltima vez que o vi foi um ano antes de sua morte, e ele me disse que voc� havia entrado na faculdade de jornalismo. Estava muito orgulhoso. Depois voc� ficou famoso no pa�s com aquela hist�ria da gangue � Super-Blomkvist e tudo aquilo. Acompanhei sua carreira e li muitos artigos que escreveu ao longo dos anos. Leio a <emphasis>Millennium </emphasis>com bastante frequ�ncia.</p><p>� Certo, entendo. Mas o que quer exatamente que eu fa�a?</p><p>Henrik Vanger examinou suas m�os por um breve instante e tomou um gole de caf�, como se precisasse de uma pequena pausa antes de entrar no assunto.</p><p>� Mikael, antes de chegar aos detalhes, eu gostaria que fiz�ssemos um acordo. Que voc� fizesse duas coisas por mim. Uma � um pretexto e a outra � o meu verdadeiro pedido.</p><p>� Que esp�cie de acordo?</p><p>� Vou contar uma hist�ria em duas partes. Uma parte fala da fam�lia Vanger: � o pretexto. E uma hist�ria longa e sombria, mas tentarei me ater � estrita verdade. A outra parte da hist�ria envolve o meu verdadeiro pedido. Acho que em alguns momentos interpretar� meu relato como... loucura. O que desejo � que escute minha hist�ria at� o fim � meu pedido e minha oferta � antes de tomar a decis�o de aceitar ou n�o o trabalho.</p><p>Mikael suspirou. Evidentemente, Henrik Vanger n�o pretendia expor seu pedido de maneira breve e concisa, para que ele pudesse embarcar no trem da tarde. Mikael tinha certeza de que, se chamasse Dirch Frode e lhe pedisse para lev�-lo � esta��o, o motor do carro se recusaria a pegar por causa do frio.</p><p>O velho devia ter dedicado muito tempo pensando num meio de amarr�-lo. Mikael sentia como encena��o tudo o que se passara desde que entrou naquela casa; a come�ar pela surpresa de ficar sabendo que j� estivera com Henrik Vanger quando crian�a, depois a foto de seus pais no �lbum e a �nfase no fato de seu pai e Henrik Vanger terem sido amigos; depois, ainda, quando o velho o lisonjeou ao contar ter acompanhado sua carreira � dist�ncia ao longo dos anos... No todo certamente havia um fundo de verdade, mas se tratava tamb�m de psicologia das mais elementares. Em outras palavras: Henrik Vanger era um bom manipulador, habituado havia anos a lidar com pessoas inflex�veis atr�s das portas fechadas das salas de negocia��o. N�o por acaso ele se tornara um dos mais eminentes magnatas da ind�stria sueca.</p><p>Mikael concluiu que Henrik Vanger queria que ele fizesse algo que, com certeza, n�o tinha a menor vontade de fazer. Restava descobrir do que se tratava e em seguida dizer n�o. Quem sabe, a tempo ainda de pegar o trem da tarde.</p><p>� Sinto muito, senhor Vanger, sem acordo � respondeu Mikael, olhando seu rel�gio. � Estou aqui h� vinte minutos e lhe dou mais trinta para me contar o que deseja. Depois pego um t�xi e volto para casa.</p><p>Por um instante, Henrik Vanger abandonou seu papel de patriarca benevolente e Mikael entreviu o dono de empresas amea�ador, do tempo de seus amplos poderes, que acabava de sofrer um rev�s ou que era obrigado a se haver com um funcion�rio recalcitrante. Sua boca contraiu-se rapidamente num sorriso severo.</p><p>� Entendo.</p><p>� � simples. N�o h� necessidade de tantos rodeios. Diga o que quer que eu fa�a e sem d�vida vou poder julgar se quero ou n�o fazer.</p><p>� Voc� quer dizer que, se eu n�o conseguir convenc�-lo em trinta minutos, tampouco conseguirei em trinta dias?</p><p>� � mais ou menos isso.</p><p>� Mas a verdade � que meu relato � longo e complicado.</p><p>� Abrevie e simplifique. � o que fazemos no jornalismo. Vinte e nove minutos.</p><p>Henrik Vanger ergueu uma das m�os.</p><p>� Est� bem, entendi. Mas tamb�m n�o exagere, por favor. O fato � que preciso de algu�m dotado de esp�rito cr�tico que saiba fazer pesquisas, e que seja igualmente �ntegro. Acho que voc� � tudo isso, e n�o o estou adulando. Um bom jornalista deve possuir minimamente essas qualidades, e li seu livro <emphasis>Os templ�rios </emphasis>com grande interesse. Sou bastante honesto quando digo que escolhi voc� porque conheci seu pai e porque sei quem voc� �. Se entendi bem, voc� foi licenciado da <emphasis>Millennium </emphasis>depois do caso Wennerstr�m � ou decidiu afastar-se por conta pr�pria. Isso significa que por ora n�o tem emprego, e n�o � preciso ser muito inteligente para entender que provavelmente seu dinheiro est� curto.</p><p>� O que lhe permite tirar proveito da minha situa��o, n�o � o que est� querendo dizer?</p><p>� Talvez. Mas n�o pretendo mentir nem inventar falsos pretextos, Mikael. Estou muito velho para esse tipo de coisa. Se n�o gosta do que eu disse, basta cair fora. E ent�o terei que procurar outra pessoa que aceite trabalhar para mim.</p><p>� Est� bem, em que consiste esse trabalho que quer me oferecer?</p><p>� O que voc� sabe sobre a fam�lia Vanger? Mikael afastou as m�os.</p><p>� Mais ou menos o que tive tempo de ler na internet depois do telefonema de Frode na segunda-feira. O grupo Vanger chegou a ser, na sua �poca, um dos grupos industriais mais importantes da Su�cia, hoje a empresa est� consideravelmente enfraquecida, Martin Vanger � o diretor-executivo. Bem, sei mais duas ou tr�s coisas al�m disso, mas aonde est� querendo chegar?</p><p>� Martin... � um bom sujeito, mas no fundo s� gosta de navegar com vento fraco. Deixa muito a desejar como diretor-executivo de um grupo em crise. Ele quer modernizar e especializar, o que � razo�vel, por�m tem dificuldade de transmitir suas id�ias e mais ainda de financi�-las. H� vinte e cinco anos, o grupo Vanger era um concorrente s�rio do imp�rio Wallenberg. T�nhamos cerca de quarenta mil funcion�rios na Su�cia. Produz�amos emprego e rendimentos ao pa�s inteiro. Hoje a maior parte desses empregos deslocou-se para a Cor�ia ou para o Brasil. Atualmente, temos pouco mais de dez mil funcion�rios e dentro de um ano ou dois � se Martin n�o conseguir decolar � cairemos para cinco mil funcion�rios, essencialmente em pequenas manufaturas. Ou seja, o grupo Vanger est� a ponto de ser relegado a lixo da hist�ria.</p><p>Mikael concordou, balan�ando a cabe�a. O que Henrik Vanger contava era aproximadamente o que ele conclu�ra ap�s a pesquisa em seu computador.</p><p>� O grupo Vanger continua sendo uma das raras empresas familiares do pa�s, com uns trinta membros da fam�lia como acionistas mais ou menos minorit�rios. Isso foi sempre a for�a do grupo, mas tamb�m nossa maior fraqueza.</p><p>Henrik Vanger fez uma pausa ret�rica e ent�o passou a falar com mais intensidade na voz.</p><p>� Mikael, fa�a perguntas depois, mas quero que acredite na minha palavra quando digo que detesto a maioria dos membros da minha fam�lia. Ela � principalmente formada por trapaceiros, aproveitadores, fanfarr�es e incapazes. Dirigi o grupo durante trinta e cinco anos, praticamente sempre envolvido em lutas implac�veis com os demais membros da fam�lia. Eles � que eram os meus piores inimigos, n�o os concorrentes. Fez uma pausa.</p><p>� Eu disse que desejo contrat�-lo para que fa�a duas coisas. Gostaria que escrevesse uma cr�nica ou uma biografia da fam�lia Vanger. Para simplificar, digamos a minha biografia. O resultado n�o ser� um texto a ser lido numa igreja, mas uma hist�ria de �dio, disputas familiares e cobi�a imensur�veis. Porei � sua disposi��o todos os meus di�rios �ntimos e meus arquivos. Ter� livre acesso aos meus pensamentos mais secretos e poder� publicar exatamente toda a merda que encontrar, sem restri��o. Acho que essa hist�ria far� de Shakespeare um mero divertidor do grande p�blico.</p><p>� E qual a finalidade disso?</p><p>� Por que quero publicar uma hist�ria de esc�ndalos sobre a fam�lia Vanger? Ou qual � minha motiva��o para pedir que escreva essa hist�ria?</p><p>� As duas coisas.</p><p>� Sinceramente, pouco me importa saber se o livro ser� publicado ou n�o. Mas acho que essa hist�ria merece ser escrita, nem que seja num �nico exemplar, que voc� depositar� na Biblioteca Real. Quero minha hist�ria acess�vel � posteridade quando eu estiver morto. Minha motiva��o � a mais simples que se pode imaginar � vingan�a.</p><p>� E de quem voc� quer se vingar?</p><p>� Voc� n�o � obrigado a acreditar em mim, mas tentei ser um homem honesto, mesmo sendo um capitalista e um dirigente industrial. Tenho orgulho de que meu nome esteja associado a um homem que cumpriu sua palavra e suas promessas. Nunca me envolvi em jogos pol�ticos. Nunca tive problemas para negociar com os sindicatos. E mesmo um socialdemocrata inveterado como Tage Erlander me respeitava. A meu ver, tratava-se de uma quest�o de �tica; eu era respons�vel pelo ganha-p�o de milhares de pessoas e cuidava dos meus empregados. � curioso, Martin tem a mesma atitude, embora seja um tipo de homem bem diferente. Ele tamb�m tentou agir de maneira correta. Talvez nem sempre tenhamos sido bem-sucedidos, mas de modo geral me envergonho de poucas coisas. Infelizmente, Martin e eu somos exce��es em nossa fam�lia � prosseguiu Henrik Vanger. � H� muitas raz�es que explicam por que o grupo Vanger est� hoje � beira da bancarrota, mas uma das mais importantes � a avidez de curto prazo de muitos membros da fam�lia. Se aceitar esse trabalho, explicarei direitinho como eles levaram o grupo a afundar.</p><p>Mikael refletiu por um instante.</p><p>� O.k. Mas tamb�m n�o vou mentir. Escrever um livro como esse exigir� meses de trabalho. N�o tenho vontade nem for�a para isso.</p><p>� Acho que posso convenc�-lo.</p><p>� Duvido. Mas voc� disse que h� duas coisas que deseja que eu fa�a. Acabou de me dar o pretexto. Qual � o objetivo real?</p><p>Henrik Vanger levantou-se, mais uma vez com dificuldade, e foi buscar na mesa a fotografia de Harriet Vanger. Colocou-a na frente de Mikael.</p><p>� Se desejo que escreva uma biografia da fam�lia Vanger, � porque quero que trace um panorama das pessoas com olhos de jornalista. � tamb�m um pretexto para esquadrinhar a hist�ria da fam�lia. O que desejo realmente � que me resolva um mist�rio. Esse � o seu trabalho.</p><p>� Um mist�rio?</p><p>� Harriet, como eu disse, era a neta do meu irm�o Richard, filha do filho dele. �ramos cinco irm�os. Richard o mais velho, nascido em 1907, e eu o mais novo, nascido em 1920. N�o entendo como Deus p�de produzir um grupo de irm�os que...</p><p>Durante alguns segundos, Henrik Vanger perdeu o fio da meada e pareceu mergulhar nos pr�prios pensamentos. Depois virou-se para Mikael com uma nova resolu��o na voz.</p><p>� Deixe-me falar um pouco do meu irm�o Richard Vanger. � tamb�m uma amostra da cr�nica que quero que escreva.</p><p>Serviu-se de caf� e ofereceu a Mikael uma segunda x�cara.</p><p>� Em 1924, com dezessete anos, Richard era um nacionalista fan�tico. Antisemita not�rio, aderiu � Liga nacional-socialista sueca pela liberdade, um dos primeiros grupos nazistas suecos. � fascinante como os nazistas sempre conseguem colocar a palavra "liberdade" em sua propaganda, n�o � mesmo?</p><p>Henrik Vanger pegou outro �lbum de fotografias e o folheou at� encontrar a p�gina buscada.</p><p>� Aqui est� Richard na companhia de Birger Furugard, um veterin�rio que rapidamente passou a liderar o chamado Movimento de Furugard, principal grupo nazista dos anos 1930. Mas Richard n�o permaneceu nele. Um ano mais tarde, aderiu � SFKO, organiza��o de luta fascista sueca. Ali conheceu Per Engdahl e outros indiv�duos que ao longo dos anos haveriam de ser a vergonha da na��o.</p><p>Virou uma p�gina do �lbum. Richard Vanger de uniforme.</p><p>� Em 1927, ele se juntou ao Ex�rcito, contra a vontade do nosso pai, e durante os anos 1930 aderiu � maior parte dos grupos nazistas do pa�s. Voc� poder� encontrar seu nome na lista de membros at� mesmo do menor grupo de conspira��o. Em 1933 foi fundado o Movimento de Lindholm, isto �, o Partido Oper�rio Nacional-socialista. Voc� est� um pouco familiarizado com a hist�ria do nazismo sueco?</p><p>� N�o sou historiador, mas li alguns livros.</p><p>� Bem, a Segunda Guerra come�ou em 1939 e a Guerra de Inverno da Finl�ndia em 1940. Muitos ativistas do Movimento de Lindholm se engajaram como volunt�rios a favor da Finl�ndia. Richard estava entre eles; era capit�o do Ex�rcito sueco. Foi morto em 1940, pouco antes do acordo de paz com a Uni�o sovi�tica. O movimento nazista o transformou num m�rtir e seu nome foi dado a um grupo de luta. Ainda hoje, alguns fan�ticos se re�nem num cemit�rio de Estocolmo no dia do anivers�rio da morte de Richard Vanger para homenage�-lo.</p><p>� Entendo.</p><p>� Em 1926, quando tinha dezenove anos, ele frequentava uma certa Margareta, filha de um professor de Falun. Viam-se em contextos pol�ticos e tiveram uma liga��o da qual nasceu um filho, Gottfried, em 1927. Richard se casou com Margareta quando seu filho nasceu. Durante a primeira metade dos anos 1930, meu irm�o instalou a mulher e o filho aqui em Hedestad, enquanto eu servia no regimento de G�vle. Ele ocupava quase todo o seu tempo com viagens de propaganda pr�-nazismo. Em 1936, teve um s�rio atrito com meu pai. O resultado � que meu pai retirou toda a ajuda financeira a Richard, que a seguir foi obrigado a se manter sozinho. Ele se mudou para Estocolmo com a fam�lia, onde viveram em relativa pobreza.</p><p>� Ele n�o tinha seu pr�prio dinheiro?</p><p>� A parte que lhe cabia no grupo estava bloqueada. N�o podia ser vendida fora da fam�lia. � preciso tamb�m dizer que Richard, em casa, era um tirano brutal. Batia na mulher e maltratava o filho. Gottfried era uma crian�a submissa e humilhada. Tinha treze anos quando Richard morreu na guerra; acho que foi o dia mais feliz da vida de Gottfried. Meu pai se compadeceu da vi�va e do neto e os chamou de volta a Hedestad, alojando-os num apartamento e cuidando para que Margareta tivesse uma exist�ncia decente. Se Richard representava o lado sombrio e fan�tico da fam�lia, Gottfried representava seu lado pregui�oso. Quando completou dezoito anos, eu me encarreguei dele, afinal, era filho do meu falecido irm�o, ainda que a diferen�a de idade entre n�s n�o fosse grande. Eu era apenas sete anos mais velho que meu sobrinho, mas j� estava na dire��o do grupo e era evidente que assumiria o comando depois do meu pai, enquanto Gottfried era praticamente considerado um intruso na fam�lia.</p><p>Henrik Vanger refletiu por um momento.</p><p>� Meu pai n�o sabia muito bem como se comportar com o neto e fui eu que insisti para que cuid�ssemos dele. Arranjei-lhe trabalho no grupo, isso depois da guerra. Sem d�vida ele tentou desempenhar honestamente suas tarefas, mas tinha dificuldade em se concentrar. Era um cabe�a-tonta, charmoso e festeiro, sempre �s voltas com mulheres, e havia �pocas em que bebia muito. Eu n�o sabia definir meus sentimentos por ele... n�o era um incapaz, mas estava longe de ser confi�vel, e muitas vezes me decepcionou profundamente. Com os anos tornou-se alco�latra e, em 1965, morreu afogado num acidente. Aconteceu aqui, na outra extremidade da ilha, onde constru�ra uma cabana para a qual se retirava seguidamente a fim de beber.</p><p>� Ent�o ele � o pai de Harriet e de Martin? � perguntou Mikael, apontando para o retrato sobre a mesa baixa. A contragosto, foi obrigado a reconhecer que o relato do velho o interessava.</p><p>� Exatamente. No fim dos anos 1940, Gottfried conheceu uma mulher chamada Isabella Koenig, uma jovem alem� que havia chegado � Su�cia depois da guerra. Isabella era uma mulher linda, t�o linda como Greta Garbo ou Ingrid Bergman. Sem d�vida Harriet herdou genes mais de Isabella que de Gottfried. Como voc� pode ver na foto, ela j� era muito bonita com apenas catorze anos.</p><p>Imitando Henrik Vanger, Mikael contemplou a foto.</p><p>� Mas deixe-me prosseguir. Isabella nasceu em 1928 e ainda est� viva. Tinha onze anos quando estourou a guerra, e voc� bem pode imaginar o que era ser adolescente em Berlim com a avia��o aliada despejando bombas sobre a cidade. Imagino que, quando desembarcou na Su�cia, ela teve a impress�o de estar chegando ao para�so. Infelizmente, tinha muitos v�cios em comum com Gottfried: era esbanjadora e vivia o tempo todo em festas; ela e Gottfried mais pareciam companheiros de bebida que marido e mulher. Viajava sem parar, na Su�cia e no exterior, e de maneira geral n�o tinha o menor senso de responsabilidade. O que evidentemente afetou os filhos. Martin nasceu em 1948 e Harriet em 1950. A inf�ncia deles foi ca�tica, com uma m�e que a toda hora os abandonava e um pai que afundava no alcoolismo. Em 1958 resolvi intervir. Gottfried e Isabella moravam em Hedestad e forcei-os a se mudar para c�. Eu estava come�ando a ficar cansado daquilo e decidi romper aquele c�rculo infernal. Martin e Harriet viviam ao deus-dar�. Henrik Vanger olhou seu rel�gio.</p><p>� Meus trinta minutos se esgotaram, mas estou chegando ao final da hist�ria. Concede-me alguns minutos mais?</p><p>Mikael balan�ou a cabe�a e falou:</p><p>� Continue.</p><p>� Vou ser breve ent�o. Eu n�o tinha filhos, um contraste consider�vel com os outros irm�os e membros da fam�lia, que pareciam obcecados pela necessidade est�pida de perpetuar a linhagem. Gottfried e Isabella vieram morar aqui, mas o casamento come�ou a se desfazer. Depois de um ano, Gottfried se instalou em sua cabana, onde passava longos per�odos sozinho, s� retornando � casa de Isabella quando estava muito frio. Acabei me encarregando de Martin e de Harriet. Em mais de um aspecto eles passaram a ser os filhos que nunca tive. Martin era... Para dizer a verdade, houve um momento em sua juventude em que temi que seguisse as pegadas do pai. Era indolente, introvertido e hipocondr�aco, mas tamb�m podia ser charmoso e entusiasta. Passou por alguns anos dif�ceis na adolesc�ncia, mas se endireitou ao come�ar a universidade. Ele... bem, apesar de tudo ele � o diretor-executivo do que resta do grupo Vanger, o que deve ser encarado como um saldo razo�vel.</p><p>� E Harriet? � perguntou Mikael.</p><p>� Harriet tornou-se a menina dos meus olhos. Tentei dar a ela seguran�a e, a partir da�, confian�a em si mesma. N�s dois nos entend�amos muito bem. Considerava-a como filha e ela passou a ser mais pr�xima de mim que dos pr�prios pais. Entenda, Harriet era uma menina muito especial. Introvertida como o irm�o, na adolesc�ncia teve uma atra��o rom�ntica pela religi�o, o que a distinguia de todos os outros membros da fam�lia. Mas tamb�m tinha talentos evidentes e uma intelig�ncia rara. Um grande senso moral e uma grande honestidade. Quando estava com catorze, quinze anos, eu tinha a certeza de que ela, mais do que o irm�o e todos os primos e sobrinhos ao meu redor, seria um dia chamada para dirigir o grupo Vanger ou, pelo menos, para desempenhar algum papel central nele.</p><p>� E o que aconteceu?</p><p>� Chegamos agora � verdadeira raz�o pela qual eu gostaria de contrat�-lo. Quero que descubra quem, na fam�lia, assassinou Harriet Vanger e h� quase quarenta anos vem tentando me fazer mergulhar na loucura.</p><empty-line/><p><strong>5. QUINTA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO</strong></p><p>Pela primeira vez desde que Henrik Vanger iniciara seu mon�logo, o velho conseguiu surpreender Mikael, que pediu mesmo que ele repetisse, para estar certo de ter ouvido bem. Nenhuma das informa��es que colhera na internet sugeria que um assassinato tivesse ocorrido na fam�lia Vanger.</p><p>� Foi em 22 de setembro de 1966. Harriet tinha dezesseis anos e acabava de se classificar em primeiro lugar no col�gio. Era um s�bado e foi o pior dia da minha vida. Reconstitu� o desenrolar dos acontecimentos tantas vezes que penso ser capaz de descrever minuto a minuto o que se passou naquele dia, exceto o mais importante.</p><p>Fez um gesto com a m�o, como se varresse o ar.</p><p>� Grande parte da fam�lia estava reunida aqui nesta casa. Era um daqueles terr�veis jantares anuais de fam�lia, quando s�cios do grupo Vanger se reuniam para discutir neg�cios. Meu av� criara essa tradi��o na sua �poca, e o resultado, na maioria das vezes, eram reuni�es mais ou menos detest�veis. A tradi��o chegou ao fim nos anos 1980, quando Martin decidiu, pura e simplesmente, que todas as discuss�es relativas � empresa ocorreriam nas reuni�es e nas assembl�ias regulares. Foi a melhor decis�o que tomou na vida. Faz vinte anos que a fam�lia n�o se re�ne para esse tipo de encontro.</p><p>� Voc� disse que Harriet foi assassinada...</p><p>� Espere. Deixe-me contar o que aconteceu. Era um s�bado, portanto. Era tamb�m a Festa das Crian�as, com um desfile organizado pelo clube de atletismo de Hedestad. Harriet foi � cidade, durante o dia, para assistir ao desfile com alguns colegas do col�gio. Voltou um pouco depois das duas da tarde; o jantar estava previsto para as cinco e ela era esperada, como todos os outros jovens da fam�lia.</p><p>Henrik Vanger levantou-se e foi at� a janela. Fez um sinal para que Mikael o acompanhasse e apontou com um dedo:</p><p>� As duas e quinze, alguns minutos depois de Harriet ter chegado em casa, um acidente terr�vel aconteceu ali na ponte. Um certo Gustav Aronsson, irm�o de um propriet�rio rural de �stergarden, uma fazenda aqui da ilha, entrou de carro na ponte e colidiu de frente com um caminh�o-tanque que se dirigia � ilha para fornecer �leo dom�stico. Nunca se chegou a estabelecer realmente como o acidente ocorreu, pois h� boa visibilidade nos dois sentidos, mas ambos vinham muito depressa, e o que podia ter sido um acidente menor se transformou em uma cat�strofe. O motorista do caminh�o tentou evitar a colis�o girando instintivamente o volante. O caminh�o-tanque bateu na grade lateral e virou, ficando atravessado na ponte com a traseira em grande parte para fora da beirada... Uma barra de metal furou o tanque, e �leo inflam�vel come�ou a vazar. Enquanto isso, Gustav Aronsson, prensado no carro e sofrendo terrivelmente, berrava sem parar. O motorista do caminh�o-tanque tamb�m se feriu, mas conseguiu sair da cabine.</p><p>O velho fez uma pausa e voltou a se sentar.</p><p>� Na verdade, o acidente n�o teve rela��o alguma com Harriet. Mas, de certo modo, desempenhou seu papel. Pois foi um caos completo quando as pessoas correram para ajudar. Havia amea�a de inc�ndio, e o alerta foi dado. A pol�cia, uma ambul�ncia, as primeiras pessoas aproximando-se depressa para socorrer, os bombeiros, jornalistas e curiosos acorreram na maior desordem ao local. Evidentemente, todos se amontoavam do lado do continente, enquanto na ilha faz�amos o poss�vel para tirar Aronsson dos destro�os, o que acabou sendo uma tarefa terrivelmente dif�cil. Ele estava prensado e seriamente ferido. Tentamos retir�-lo das ferragens com a for�a das m�os, mas n�o adiantou. Era preciso usar uma serra. O problema � que n�o pod�amos fazer nada que produzisse fagulhas, est�vamos no meio de um mar de �leo ao lado de um caminh�o-tanque virado. Se ele explodisse, seria o nosso fim. Demorou algum tempo at� chegarem refor�os do continente; o caminh�o atravessado obstru�a a ponte, e passar por cima do tanque era o mesmo que escalar uma bomba.</p><p>Mikael teve a impress�o de que o velho fazia um relato minuciosamente ensaiado e calculado com a inten��o de captar seu interesse. E foi obrigado a admitir que Henrik Vanger era um excelente contador de hist�rias. Sabia <emphasis>cativar o ouvinte. No entanto, ele continuava </emphasis>sem ter a menor id�ia de que rumo a hist�ria tomaria.</p><p>� O importante nesse acidente � que a ponte permaneceu fechada durante as vinte e quatro horas seguintes. S� no fim da tarde de domingo � que conseguiram bombear o �leo que restava no tanque, remover o caminh�o e reabrir a ponte para circula��o. Durante essas vinte e quatro horas, a ilha esteve separada do mundo. O �nico meio de se chegar ao continente era atrav�s de uma canoa dos bombeiros, mobilizada para transportar as pessoas do porto de recreio na ilha at� o velho porto atr�s da igreja. Durante v�rias horas, o barco s� foi utilizado pelos socorristas. S� bem tarde no s�bado, � noite, � que come�aram a transportar os moradores. Entende o que isso significa?</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Suponho que alguma coisa aconteceu a Harriet na ilha e que o n�mero de suspeitos se limita �s pessoas que estavam aqui. Uma esp�cie de vers�o insular do mist�rio do quarto fechado?</p><p>Henrik Vanger deu um sorriso ir�nico.</p><p>� Mikael, voc� n�o sabe o quanto tem raz�o. Eu tamb�m li Dorothy Sayers. Eis os fatos comprovados: Harriet chegou aqui por volta das duas e dez. Se contarmos tamb�m as crian�as e os casais n�o casados, ao todo haviam chegado cerca de quarenta pessoas durante o dia. Contando empregados e moradores fixos, havia sessenta e quatro pessoas aqui ou nos arredores da casa. Alguns, os que pretendiam passar a noite, ocupavam-se em se instalar nas casas vizinhas ou nos quartos de h�spedes. Harriet havia morado antes numa casa do outro lado da estrada, mas, como j� contei, nem seu pai Gottfried nem sua m�e Isabella eram muito est�veis, e percebi o quanto Harriet andava atormentada. N�o conseguia se concentrar nos estudos e, em 1964, quando completou catorze anos, fiz que viesse se instalar aqui em casa. Isabella certamente achou c�modo poder desembara�ar-se dos cuidados que a filha representava. Harriet tinha um quarto no andar de cima, e passamos dois anos juntos. Assim, foi para c� que ela veio naquele dia. Sabemos que trocou algumas palavras com Harald Vanger no p�tio, ele � um dos meus irm�os. Depois, subiu a escada e veio at� aqui, a este c�modo, me dar um al�. Disse que queria me contar alguma coisa. Outros membros da fam�lia estavam comigo nesse momento e n�o tive tempo para escut�-la. Mas ela parecia t�o preocupada que prometi ir ao seu quarto sem demora. Ela concordou com a cabe�a e saiu por aquela porta. Foi a �ltima vez que a vi. Um minuto mais tarde, houve o choque na ponte e o caos que se seguiu alterou todos os outros planos do dia.</p><p>� Como ela morreu?</p><p>� Espere. A coisa � mais complicada e devo contar a hist�ria em ordem cronol�gica. Quando ocorreu a colis�o, as pessoas deixaram tudo o que estavam fazendo e se precipitaram ao local do acidente. Eu era... digamos que assumi a dire��o das opera��es, n�o pensei em outra coisa nas horas seguintes. Sabemos que Harriet tamb�m foi at� a ponte depois da colis�o, v�rias pessoas a viram, mas o risco de explos�o me fez ordenar que todos que n�o estavam ajudando a retirar Aronsson dos destro�os se afastassem. �ramos somente cinco pessoas no local do acidente: eu e meu irm�o Harald; Magnus Nilsson, esp�cie de empregado faz-tudo em minha casa; um oper�rio da serraria chamado Sixten Nordlander, que morava numa cabana junto ao porto de recreio; e um jovem chamado Jerker Aronsson. Este tinha dezesseis anos e eu devia t�-lo mandado embora, mas era o sobrinho do Aronsson prensado dentro do carro e chegara de bicicleta um minuto ou dois ap�s o acidente; ele estava indo para a cidade. Por volta das vinte para as tr�s, Harriet estava na cozinha, aqui em casa. Bebeu um copo de leite e trocou algumas palavras com Astrid, a cozinheira. Juntas, elas ficaram olhando pela janela o que se passava na ponte. As cinco para as tr�s, Harriet atravessou o p�tio. Foi vista, entre outros, pela m�e, Isabella, mas elas n�o se falaram. Um minuto depois, ela cruzou com Otto Falk, o pastor de Hedeby. Nessa �poca, o presbit�rio ficava onde hoje Martin Vanger tem a sua casa, do lado de c� da ponte. O pastor, resfriado, fazia uma sesta quando a colis�o ocorreu; n�o vira o acidente, acabavam de inform�-lo e ele se dirigia apressado � ponte. Harriet o deteve no caminho, queria falar com ele, mas o pastor a interrompeu com um gesto de m�o e prosseguiu em seu caminho. Otto Falk � a �ltima pessoa que a viu viva.</p><p>� Como ela morreu? � repetiu Mikael.</p><p>� N�o sei � respondeu Henrik Vanger com um olhar atormentado. � S� conseguimos retirar Aronsson do carro por volta das cinco da tarde (ali�s, mesmo gravemente ferido, ele sobreviveu) e as seis a amea�a de inc�ndio j� n�o existia. A ilha continuava isolada, mas as coisas come�avam a se acalmar. S� nos demos conta da aus�ncia de Harriet no momento em que nos sentamos � mesa para um jantar tardio, �s oito da noite. Enviei uma de suas primas para cham�-la no quarto, mas ela voltou dizendo que n�o a encontrara. Isso n�o me deixou muito inquieto; achei que ela resolvera dar uma volta ou que n�o fora informada de que o jantar estava servido. E durante a noite estive ocupado com diversas disputas familiares. S� na manh� seguinte, porque Isabella a procurava, � que percebemos que ningu�m sabia onde ela estava e que ningu�m a vira desde a v�spera.</p><p>Ele abriu amplamente os bra�os.</p><p>� Desde esse dia, Harriet Vanger continua desaparecida, sem que haja o menor sinal dela.</p><p>� Desaparecida? � ecoou Mikael.</p><p>� Em todos esses anos n�o conseguimos descobrir nada, nem um fragmento microsc�pico dela.</p><p>� Mas, se ela desapareceu, ent�o n�o se pode afirmar que tenha sido assassinada.</p><p>� Entendo sua alega��o. Meus pensamentos seguiram o mesmo caminho. Quando algu�m desaparece sem deixar sinal, quatro coisas podem ter acontecido. A pessoa resolveu desaparecer por livre e espont�nea vontade e est� escondida. Pode ter sofrido um acidente fatal. Pode ter se suicidado. E, por fim, pode ter sido v�tima de um crime. Pesei todas as possibilidades.</p><p>� E por que acha que algu�m a matou?</p><p>� Porque � a �nica conclus�o plaus�vel. Henrik Vanger levantou um dedo e continuou:</p><p>� No in�cio achei que ela tivesse fugido. Mas os dias se passaram e todos n�s percebemos que n�o era esse o caso. Quero dizer: uma jovem de dezesseis anos que vivia num ambiente relativamente protegido, mesmo sendo esperta, como poderia se virar, se esconder e permanecer escondida sem ser descoberta? Onde conseguiria dinheiro? E, mesmo se arranjasse trabalho em algum lugar, precisaria de um documento de identidade e de um endere�o.</p><p>Levantou dois dedos.</p><p>� Meu segundo racioc�nio, evidentemente, � que ela tenha sofrido um acidente. Fa�a-me um favor, abra a gaveta de cima da escrivaninha. Vai encontrar um mapa ali.</p><p>Mikael fez o que ele pedia, depois abriu o mapa sobre a mesa baixa. Hedeby�n, a ilha, era uma massa de terra irregular de cerca de tr�s quil�metros de comprimento e um e meio em sua parte mais larga. Um bom trecho da ilha era constitu�do de floresta. As moradias se concentravam ao redor da ponte e do porto de recreio; na outra extremidade da ilha havia uma fazenda, �stergarden, de onde o infeliz Aronsson iniciara seu trajeto de carro.</p><p>� Lembre que ela n�o deixou a ilha � sublinhou Henrik Vanger. � Aqui em Hedeby�n pode-se morrer num acidente como em qualquer lugar do mundo. A pessoa pode ser atingida por um raio, embora naquele dia n�o tivesse desabado nenhuma tempestade. Pode ser pisoteada por um cavalo, cair num po�o ou numa furna. Certamente h� in�meras maneiras de se sofrer um acidente aqui. Refleti sobre tudo isso.</p><p>Ele ergueu um terceiro dedo.</p><p>� Resta um problema, e equivale tamb�m � terceira possibilidade: que, contra todas as expectativas, ela tenha se suicidado. Mas ent�o o corpo teria sido encontrado em alguma parte desta �rea t�o limitada.</p><p>Henrik Vanger espalmou a m�o no meio do mapa.</p><p><image l:href="#_4.jpg"/></p><p>� Nos dias seguintes ao desaparecimento, organizamos uma batida, primeiro num sentido, depois no outro. Os homens vasculharam o menor fosso, a menor por��o de mato, tudo que se assemelhasse a uma furna ou a um monte de terra. Examinamos cada constru��o, cada chamin�, cada po�o, cada granja, cada celeiro.</p><p>O velho moveu a cabe�a e olhou para fora. Come�ava a escurecer. Sua voz ficou mais baixa e mais intimista.</p><p>� No outono continuei procurando-a, depois que as buscas tinham se encerrado e todos j� haviam desistido. Quando eu n�o estava ocupado com meu trabalho, percorria a ilha em todas as dire��es. O inverno chegou sem que tiv�ssemos encontrado o menor sinal dela. Na primavera eu prossegui, mesmo sabendo que meus esfor�os eram irracionais. O ver�o chegou, contratei tr�s peritos em floresta, que reiniciaram as buscas com c�es. Eles rastrearam sistematicamente cada metro quadrado da ilha. Eu come�ava a considerar que algu�m podia ter feito mal a ela. Assim, eles buscavam uma esp�cie de cova onde a tivessem enterrado. Procuraram por tr�s meses. N�o encontramos o menor sinal de Harriet. � como se ela tivesse evaporado.</p><p>� H� outras possibilidades � lembrou Mikael.</p><p>� Diga.</p><p>� Ela pode ter se afogado, acidental ou voluntariamente. Estamos numa ilha e a �gua pode ocultar muitas coisas.</p><p>� E verdade. Mas n�o � muito prov�vel. Veja: se Harriet sofreu um acidente e se afogou, isso logicamente deve ter acontecido muito perto do povoado. Lembre que a confus�o na ponte era o maior drama que Hedeby�n vivia desde muitas d�cadas, e seria estranho uma jovem de dezesseis anos escolher bem esse momento para ir passear do outro lado da ilha. Mais importante ainda � prosseguiu � � que n�o h� muitas correntes por aqui, e nessa �poca do ano os ventos costumam soprar do norte e do nordeste. Qualquer coisa que ca�sse na �gua teria sido lan�ada � praia do lado da terra firme, onde h� constru��es praticamente ao longo de toda a costa. Claro que pensamos nisso e investigamos todos os locais onde ela poderia ter ca�do na �gua. Tamb�m contratei jovens de um clube de mergulho de Hedestad. Passaram o ver�o esquadrinhando o fundo do canal e das praias pr�ximas... Nenhum sinal. Estou convencido de que ela n�o est� no mar, sen�o a ter�amos encontrado.</p><p>� E se ela sofreu um acidente em outra parte? A ponte estava fechada, � verdade, mas a dist�ncia entre a ilha e o continente n�o � grande. Ela pode ter atravessado a nado ou de barco.</p><p>� Era final de setembro, a �gua estava muito fria. Se Harriet decidisse tomar banho no meio da confus�o geral, teria sido vista e chamaria a aten��o. Havia gente na ponte e, do lado da terra firme, duzentas ou trezentas pessoas observavam a cena.</p><p>� E um barco?</p><p>� Naquele dia havia exatamente treze barcos em Hedeby�n. A maioria j� havia deixado o mar. No porto de recreio, apenas dois estavam na �gua. Havia sete barcos, cinco dos quais j� trazidos para a praia. Abaixo do presbit�rio, havia um bote recolhido em terra e um na �gua. Todos esses barcos foram verificados e se achavam exatamente em seus respectivos lugares. Se ela tivesse feito a travessia a remo, teria sido obrigada a deixar a embarca��o do outro lado.</p><p>Henrik Vanger levantou um quarto dedo.</p><p>� S� resta uma possibilidade veross�mil, a de que Harriet desapareceu contra a sua vontade. Algu�m lhe fez mal e deu sumi�o no corpo.</p><p>Lisbeth Salander passou a manh� de Natal lendo o controvertido livro de Mikael Blomkvist sobre jornalismo econ�mico. O livro tinha duzentas e dez p�ginas e chamava-se <emphasis>Os templ�rios, </emphasis>com o subt�tulo <emphasis>O jornalismo econ�mico em quest�o. </emphasis>A capa, de <emphasis>design </emphasis>muito moderno, assinada por Christer Malm, representava a Bolsa de Estocolmo. Christer trabalhara no Photoshop e o observador levava algum tempo para perceber que o pr�dio flutuava livremente no ar. N�o havia fundo. Dif�cil imaginar uma capa mais expl�cita e eficaz para dar o tom do que viria a seguir.</p><p>Salander constatou que Blomkvist tinha um estilo excelente. O livro era escrito de maneira direta e envolvente, e mesmo pessoas que n�o conheciam os meandros do jornalismo econ�mico podiam ler e tirar proveito. O tom era mordaz e sarc�stico, mas sobretudo convincente.</p><p>O primeiro cap�tulo era uma esp�cie de declara��o de guerra em que Blomkvist falava sem papas na l�ngua. Os analistas econ�micos suecos haviam se tornado, nos �ltimos anos, um grupo de lacaios incompetentes, que se julgavam importantes e n�o possu�am o menor pensamento cr�tico. Mikael chegava a essa conclus�o depois de mostrar que os jornalistas econ�micos se contentavam o tempo todo, e sem a menor obje��o, em reproduzir as afirma��es transmitidas por dirigentes de empresas e especuladores da Bolsa � mesmo quando essas afirma��es eram claramente falaciosas e err�neas. Esses jornalistas, portanto, ou eram ing�nuos e cr�dulos que deviam ser demitidos de seus cargos, ou, pior, gente que tra�a deliberadamente sua miss�o jornal�stica por n�o proceder a exames cr�ticos e por n�o fornecer ao p�blico uma informa��o correta. Blomkvist escrevia que muitas vezes se envergonhava de ser qualificado como jornalista econ�mico, pois se arriscava a ser confundido com pessoas que ele n�o considerava nem mesmo jornalistas.</p><p>Blomkvist comparava as contribui��es dos analistas econ�micos com o trabalho dos jornalistas especializados em assuntos criminais ou dos correspondentes no exterior. Tra�ava um panorama dos protestos que se levantariam se um jornalista jur�dico de um grande jornal passasse a publicar, sem o menor senso cr�tico, afirma��es do promotor, dando-as automaticamente como ver�dicas, por exemplo, no processo de um assassinato, sem buscar as informa��es da defesa e sem entrevistar a fam�lia da v�tima, para formar uma id�ia do que seria plaus�vel ou n�o. Dizia que as mesmas regras deviam se aplicar aos jornalistas econ�micos.</p><p>O restante do livro trazia uma s�rie de provas que refor�avam o discurso da introdu��o. Um longo cap�tulo examinava declara��es sobre uma empresa "pontocom" em seis importantes jornais, bem como nas revistas <emphasis>Finanstidningen, Dagens Industri </emphasis>e no programa de tev� <emphasis>A-ekonomi. </emphasis>Primeiro ele reproduzia essas cita��es e depois acrescentava o que os rep�rteres tinham dito e escrito, antes de comparar com a situa��o real. Descrevendo o desenvolvimento da empresa, v�rias vezes ele mencionava perguntas simples que um <emphasis>jornalista s�rio </emphasis>teria feito, mas que o grupo de especialistas da economia n�o fizera, numa clara omiss�o.</p><p>Outro cap�tulo abordava a privatiza��o da Telia � era a parte mais c�mica e ir�nica do livro, na qual articulistas econ�micos declaradamente citados eram reduzidos a p�, entre os quais um certo William Borg, contra quem Mikael parecia sentir uma particular hostilidade. Outro cap�tulo, mais no final do livro, comparava o n�vel de compet�ncia entre jornalistas econ�micos suecos e estrangeiros. Blomkvist descrevia a maneira como <emphasis>jornalistas s�rios </emphasis>do <emphasis>Financial Times, The Economist </emphasis>e de alguns peri�dicos econ�micos alem�es haviam noticiado os mesmos assuntos em seus pa�ses. A compara��o n�o era muito favor�vel aos jornalistas suecos. O �ltimo cap�tulo esbo�ava uma proposta para corrigir essa lament�vel situa��o. A conclus�o do livro remetia de volta � introdu��o:</p><p>Se um rep�rter, no Parlamento, realizasse sua tarefa do mesmo modo, sustentando sem a menor cr�tica cada mo��o proposta, ainda que totalmente insensata, ou se um jornalista pol�tico carecesse de uma forma semelhante de julgamento, esse jornalista seria despedido ou pelo menos transferido a um servi�o no qual ele ou ela n�o pudesse causar preju�zos. No jornalismo econ�mico, por�m, n�o � a miss�o jornal�stica natural que prevalece, ou seja, oferecer aos leitores an�lises cr�ticas e um relato objetivo dos resultados. N�o, aqui se celebra o vigarista mais bem-sucedido. E � assim que o futuro da Su�cia est� sendo moldado, minando-se a �ltima confian�a ainda depositada nos jornalistas como categoria profissional.</p><p>N�o havia rodeios. O tom era �spero e Salander n�o teve dificuldade em entender o debate enfurecido que se seguiu tanto no <emphasis>Journalisten, </emphasis>o �rg�o da categoria, em alguns jornais de economia como tamb�m nos artigos de fundo das revistas especializadas. Mesmo que apenas um n�mero pequeno de jornalistas econ�micos tivesse sido mencionado no livro, Lisbeth Salander supunha que a corpora��o era bastante pequena para que todos soubessem exatamente quem era visado quando se citavam as diferentes publica��es. Blomkvist arranjara s�rios inimigos, o que se refletia tamb�m nas dezenas de coment�rios que se alegravam de maneira maldosa com a senten�a do caso Wennerstr�m.</p><p>Ela fechou o livro e observou a fotografia do autor na quarta capa. Mikael Blomkvist aparecia numa foto pequena. Uma mecha castanho-clara pendia displicentemente sobre a testa, como se uma rajada de vento tivesse passado bem na hora em que o fot�grafo acionou o bot�o da m�quina, ou como se (o que era mais prov�vel) o ilustrador Christer Malm tivesse feito algum retoque. Ele olhava para a objetiva com um sorriso ir�nico e um olhar que certamente pretendia ser charmoso e travesso. <emphasis>Um cara bastante atraente. Tirado de circula��o por tr�s meses de pris�o.</emphasis></p><p>� Muito bem, Super-Blomkvist � disse ela em voz alta. � Voc� s� quis se divertir um pouco, n�o foi?</p><p>* * *</p><p>Por volta do meio-dia, Lisbeth Salander ligou seu notebook e abriu o programa Eudora para passar um e-mail. Digitou uma �nica e eloquente linha:</p><p>[Vc tem tempo?]</p><p>Assinou Wasp e enviou a mensagem para Praga_xyz_666@hotmail.com. Por precau��o, passou pelo programa de encripta��o PGP.</p><p>Depois vestiu um jeans preto, botas de inverno, malha de gola alta, jaqueta escura, luvas, um gorro e um cachecol da mesma cor amarelo-p�lido. Tirou os an�is das sobrancelhas e do nariz, passou nos l�bios um batom cor-de-rosa e examinou-se no espelho do banheiro. Estava parecida com qualquer pessoa que fosse passear num domingo e achou que sua indument�ria era uma camuflagem de combate adequada para uma incurs�o �s linhas inimigas. Tomou o metr� de Zinkensdamm na �stermalmstorg e depois foi a p� para a Strandv�gen. Caminhou pelo canteiro central enquanto ia lendo o n�mero dos pr�dios. Um pouco antes de chegar � ponte de Djurgarden, deteve-se e contemplou a porta que procurava. Atravessou a rua e esperou a alguns metros da entrada.</p><p>Observou que a maioria das pessoas que havia sa�do para passear nesse dia frio de Natal andava no meio da rua; somente uns poucos utilizavam a cal�ada diante dos pr�dios.</p><p>Foi preciso esperar cerca de meia hora at� que uma mulher j� de uma certa idade se aproximasse, com uma bengala, vindo da Djurgarden. A mulher parou e lan�ou um olhar desconfiado a Salander, que sorriu amavelmente e cumprimentou-a com um breve movimento de cabe�a. A senhora com a bengala devolveu o cumprimento e pareceu tentar se lembrar de onde conhecia a jovem. Salander deu-lhe as costas e se afastou da porta com alguns passos, como se estivesse andando para l� e para c� � espera de algu�m. Quando se virou de novo, a senhora j� estava diante da porta, digitando o c�digo de acesso com muita aplica��o. Salander n�o teve dificuldade em v�-la digitar 1260.</p><p>Esperou mais cinco minutos antes de se aproximar da porta. Quando acionou o c�digo, a fechadura emitiu um estalo. Ela abriu a porta e olhou para dentro. No <emphasis>hall </emphasis>havia uma c�mera de seguran�a, ela deu uma espiada e depois a ignorou; o modelo, vendido pela Milton Security, s� era ativado em caso de arrombamento. No fundo, � esquerda, passando um elevador antigo, havia outra porta com um c�digo de seguran�a; ela testou 1260 e constatou que a combina��o da porta de entrada era a mesma da porta de acesso ao subsolo e ao dep�sito de lixo. <emphasis>Que neglig�ncia! </emphasis>Levou exatamente tr�s minutos para examinar o subsolo, onde localizou uma lavanderia destrancada e um local de triagem do lixo. Depois utilizou um conjunto de chaves falsas que havia pegado "emprestadas" do serralheiro da Milton para abrir uma porta trancada que dava para o que parecia ser a sala de reuni�es do condom�nio. Bem ao fundo havia um local para jogos e passatempos. Por fim encontrou o que procurava � o quadro de luz do pr�dio. Examinou os rel�gios, os fus�veis e as jun��es, tirou do bolso uma m�quina fotogr�fica digital, uma Canon do tamanho de um ma�o de cigarros. Tirou tr�s fotos do que a interessava.</p><p>Ao sair, passou os olhos pela lista de nomes junto ao elevador e leu o do �ltimo andar: <emphasis>Wennerstr�m.</emphasis></p><p>Depois deixou o pr�dio e andou com passos r�pidos at� o Museu Nacional. Entrou na cafeteria para se aquecer e tomar um caf�. Meia hora depois, retornou ao S�der e subiu ao seu apartamento.</p><p>Ela recebera uma resposta de Praga_xyz_666@hotmail.com. Descriptografou-a em PGP, e a resposta lac�nica formava simplesmente o n�mero 20.</p><empty-line/><p><strong>6. QUINTA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO</strong></p><p>O prazo de trinta minutos fixado por Mikael Blomkvist fora amplamente ultrapassado. Eram quatro e meia e n�o havia mais como cogitar o trem da tarde. Mas Mikael ainda podia pegar o trem das nove e meia da noite. De p� diante da janela, ele massageou a nuca enquanto contemplava a fachada iluminada da igreja do outro lado da ponte. Henrik Vanger mostrara-lhe um �lbum de recortes com artigos sobre o acontecimento publicados tanto nos jornais da regi�o quanto na imprensa nacional. O interesse da m�dia fora relativamente grande durante algum tempo � a filha de uma c�lebre fam�lia industrial desaparecida sem deixar vest�gios era uma not�cia e tanto. Mas, como o corpo n�o foi encontrado e as investiga��es n�o avan�aram, o interesse foi diminuindo. Embora o caso Harriet Vanger envolvesse uma ilustre fam�lia industrial, passados mais de trinta e seis anos era uma hist�ria esquecida. A teoria preponderante nos artigos do final dos anos 1960 era de que ela se afogara e fora arrastada ao largo � uma trag�dia que podia atingir qualquer fam�lia.</p><p>Curiosamente, Mikael ficara fascinado com o relato do velho, mas, quando Henrik Vanger pediu uma pausa para ir ao banheiro, Mikael voltou a ficar c�tico. No entanto o velho ainda n�o conclu�ra a hist�ria e Mikael prometera escut�-lo at� o fim.</p><p>� E o que aconteceu a ela, na sua opini�o? � perguntou Mikael quando Henrik voltou.</p><p>� Normalmente, cerca de vinte e cinco pessoas tinham domic�lio permanente aqui, mas por causa da reuni�o familiar havia umas sessenta pessoas na ilha naquele dia. Dessas, entre vinte e vinte e cinco podem ser exclu�das. Creio que um desses que restam, muito provavelmente algu�m da fam�lia, matou Harriet e escondeu o corpo.</p><p>� � preciso levar em conta algumas coisas.</p><p>� Diga.</p><p>� Bem, uma, evidentemente, � que mesmo que algu�m tivesse escondido o corpo, ele teria sido descoberto se as buscas foram mesmo t�o minuciosas como voc� disse.</p><p>� Para falar a verdade, as buscas foram ainda mais amplas do que descrevi. S� quando comecei a pensar que Harriet podia ter sido v�tima de um assassinato foi que me dei conta de que o corpo podia ter desaparecido de outras formas. N�o posso provar que o que digo � verdade, mas estamos dentro dos limites do poss�vel.</p><p>� Certo, continue.</p><p>� Harriet desapareceu por volta das tr�s da tarde. As cinco para as tr�s, o pastor Otto Falk a viu, quando se dirigia apressado ao local do acidente. Mais ou menos no mesmo instante, um fot�grafo do jornal local passou a tirar um grande n�mero de fotos de todo o drama. N�s, isto �, a pol�cia, examinamos essas fotos e constatamos que Harriet n�o aparecia em nenhuma delas; em compensa��o, todas as outras pessoas que moravam na ilha podiam ser vistas em pelo menos uma fotografia, com exce��o das crian�as muito pequenas.</p><p>Henrik Vanger foi buscar outro �lbum, que colocou sobre a mesa diante de Mikael.</p><p>� S�o as fotos daquele dia. A primeira foi tirada em Hedestad, durante o desfile das crian�as. Pelo mesmo fot�grafo. Foi tirada � uma e quinze e nela Harriet aparece.</p><p>A foto fora tirada do primeiro andar de uma casa e via-se uma rua por onde passava o desfile � caminh�es com palha�os e meninas com maio de banho. Espectadores amontoavam-se na cal�ada. Henrik Vanger mostrou uma pessoa na multid�o.</p><p>� Aqui est� Harriet. Mais ou menos duas horas antes do desaparecimento, ela est� na cidade com algumas colegas da escola. � sua �ltima foto. Mas h� outra interessante.</p><p>Henrik folheou algumas p�ginas. O restante do �lbum continha pouco mais de cento e oitenta fotos � seis rolos � da cat�strofe na ponte. Depois de ouvido o relato, era quase desconfort�vel ver tudo ali de repente, sob a forma de fotografias em preto-e-branco. O fot�grafo que imortalizara o caos do acidente era um bom profissional. Um grande n�mero de imagens focalizava as atividades em torno do caminh�o-tanque tombado. Mikael n�o teve dificuldade de identificar um Henrik Vanger de quarenta e seis anos gesticulando, manchado de �leo.</p><p>� Este � o meu irm�o Harald. � Henrik indicou um homem em mangas de camisa meio inclinado para a frente e que apontava com o dedo alguma coisa nos destro�os onde Aronsson estava esmagado. � Meu irm�o Harald � um homem desagrad�vel, mas creio que se pode risc�-lo da lista de suspeitos. Com exce��o de um breve momento, quando foi obrigado a correr at� a casa para trocar de sapato, esteve o tempo todo na ponte.</p><p>As fotos se sucederam. Primeiro plano do caminh�o-tanque. Plano geral dos espectadores � beira d'agua. Detalhe do carro destro�ado de Aronsson. Panor�micas. Fotos indiscretas com teleobjetiva.</p><p>� Esta foto � muito interessante � disse Henrik Vanger. � Pelo que calculamos, foi tirada entre 15h40 e 15h45, portanto quarenta e cinco minutos depois que Harriet foi vista pelo pastor Falk. Se observar nossa casa, a janela do meio, no primeiro andar, � a do quarto de Harriet. Aqui ela aparece aberta.</p><p>� Ent�o algu�m estava no quarto de Harriet nesse momento.</p><p>� Perguntei isso a todos; ningu�m admitiu ter aberto a janela.</p><p>� O que significa que foi Harriet mesmo que a abriu, e portanto estava viva naquele momento, ou que algu�m mentiu. Mas por que um assassino entraria no quarto dela para abrir a janela? E por que algu�m mentiria?</p><p>Henrik Vanger balan�ou a cabe�a. Ele n�o tinha a resposta.</p><p>� Harriet desapareceu por volta das tr�s, ou um pouco depois. Essas fotos d�o uma id�ia do lugar onde as pessoas estavam naquela hora. Por isso posso riscar algumas da lista de suspeitos. Pela mesma raz�o, posso dizer que outras que n�o aparecem nas fotos na hora em quest�o devem ser acrescentadas � lista de suspeitos.</p><p>� Voc� n�o respondeu � minha pergunta: como acha que o corpo desapareceu? Sei que j� tem uma resposta: algum passe de m�gica.</p><p>� H� v�rias maneiras bastante realistas de se fazer isso. Por volta das tr�s, o assassino age. Ele ou ela provavelmente n�o utilizou uma arma, sen�o ter�amos encontrado sinais de sangue. Suponho que Harriet foi estrangulada e que a coisa aconteceu aqui: atr�s do muro do p�tio, um lugar que o fot�grafo n�o p�de ver e que forma um �ngulo oposto em rela��o � casa. H� um atalho dissimulado para quem vem do presbit�rio a p� para a casa, �ltimo lugar onde ela foi vista. Hoje existe uma pequena planta��o e um gramado nesse lugar, mas nos anos 1960 era um terreno coberto de saibro e usado como estacionamento de carros. Tudo o que o assassino precisava fazer era abrir o porta-malas e p�r Harriet ali. Quando come�amos as buscas no dia seguinte, ningu�m imaginava que um crime tivesse sido cometido; nos concentramos nas praias, nas constru��es e na parte arborizada mais pr�xima do povoado.</p><p>� Ent�o ningu�m examinou os porta-malas.</p><p>� E, na noite seguinte, o assassino estava livre para pegar seu carro, atravessar a ponte e esconder o corpo em outro lugar.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Nas barbas de todos os que participavam das buscas. Se foi o que aconteceu, trata-se de um canalha com muito sangue-frio.</p><p>Henrik Vanger deixou escapar um riso amargo.</p><p>� Voc� acaba de dar uma descri��o perfeita de um grande n�mero de membros da fam�lia Vanger.</p><p>Eles continuaram a discuss�o durante o jantar, �s seis. Anna serviu lebre assada com batatas e gel�ia de groselha. Henrik Vanger abriu uma garrafa de vinho tinto seco. Mikael ainda tinha tempo de pegar o �ltimo trem. Sua inten��o era encerrar a conversa.</p><p>� Reconhe�o que me contou uma hist�ria fascinante. Mas n�o consigo realmente entender por que me contou.</p><p>� Eu j� disse. Quero descobrir quem foi o canalha que matou minha jovem sobrinha. � para isso que quero contrat�-lo.</p><p>� Mas por que agora? Henrik Vanger dep�s os talheres.</p><p>� Mikael, vai fazer trinta e sete anos que eu me consumo refletindo sobre o que aconteceu com Harriet. Com os anos, passei a usar cada vez mais meu tempo livre para procur�-la.</p><p>Calou-se, retirou os �culos e contemplou uma mancha invis�vel no copo. Depois levantou os olhos e disse a Mikael:</p><p>� Para ser bem honesto, o desaparecimento de Harriet foi o que me levou a abandonar progressivamente a dire��o do grupo. Perdi toda a motiva��o. Sabia que havia um assassino na minha fam�lia, e as especula��es e a busca da verdade se tornaram um peso para o meu trabalho. O pior � que o fardo n�o aliviou com o tempo; ao contr�rio. Por volta de 1970, houve um per�odo em que quis, sobretudo, ser deixado em paz. Nessa �poca Martin entrou para o conselho administrativo e foi se encarregando aos poucos do meu trabalho. Em 1976 aposentei-me e Martin se tornou o diretor-executivo. Continuei participando do conselho administrativo, mas n�o fiz grande coisa depois dos meus cinquenta anos. Nos �ltimos trinta e sete anos, n�o houve um dia em que eu n�o tivesse levantado hip�teses sobre o desaparecimento de Harriet. Voc� deve achar que isso beira a obsess�o. Em todo caso, � o que pensam a maioria dos membros da nossa fam�lia. E eles provavelmente t�m raz�o.</p><p>� O que aconteceu foi terr�vel.</p><p>� Mais do que isso. Destruiu minha vida. E fui tomando cada vez mais consci�ncia disso � medida que o tempo passava. Voc�... voc� acha que se conhece bem?</p><p>� Acho que sim.</p><p>� Eu tamb�m. N�o consigo esquecer o que aconteceu. Mas minhas motiva��es mudaram com os anos. No come�o era mais um sofrimento profundo, uma afli��o. Queria encontr�-la para pelo menos poder enterr�-la. Tratava-se de reabilitar Harriet.</p><p>� O que mudou ent�o?</p><p>� Hoje se trata mais de descobrir o canalha que a matou. Mas o estranho � que quanto mais envelhe�o, mais isso se transformou numa esp�cie de hobby para mim.</p><p>� Hobby?</p><p>� Sim, a palavra cai bem. Depois que a investiga��o da pol�cia n�o deu em nada, continuei por conta pr�pria. Tentei proceder de maneira sistem�tica e cient�fica. Coletei todas as informa��es que consegui encontrar: as fotos que voc� viu, o inqu�rito policial, anotei tudo o que as pessoas me disseram ter feito naquele dia. Ou seja, dediquei quase metade da minha vida a coletar informa��es relativas a um �nico dia.</p><p>� Voc� tem consci�ncia de que o pr�prio assassino, trinta e seis anos depois, j� pode estar morto e enterrado?</p><p>� N�o acredito nisso.</p><p>Mikael ergueu as sobrancelhas diante dessa declara��o categ�rica.</p><p>� Vamos terminar a refei��o e depois voltaremos ao meu escrit�rio. Resta um detalhe para eu completar minha hist�ria. E � o mais desconcertante.</p><p>Lisbeth Salander estacionou o Corolla autom�tico junto � esta��o ferrovi�ria de Sundbyberg. Ela havia pegado emprestado o Toyota da frota de ve�culos da Milton Security. N�o pedira exatamente permiss�o, mas Armanskij tampouco nunca a proibira, de forma expl�cita, de utilizar os ve�culos da Milton. Cedo ou tarde, ela pensou, vou precisar de um carro. Possu�a apenas uma moto, uma Kawasaki 125 de segunda m�o, que usava no ver�o. Durante o inverno, a moto ficava na garagem.</p><p>Caminhou at� a H�gklintav�gen e tocou o interfone pontualmente �s seis da tarde. A porta abriu depois de alguns segundos, ela subiu a escada at� o primeiro andar e bateu na porta onde se lia o nome banal Svensson. N�o fazia a menor id�ia de quem era Svensson, nem mesmo se essa pessoa havia morado no apartamento.</p><p>� Oi, Praga � ela saudou.</p><p>� Wasp. Voc� s� aparece quando precisa de alguma coisa.</p><p>O homem, que tinha tr�s anos mais que Lisbeth Salander, media um metro e oitenta e nove e pesava cento e cinquenta e dois quilos. Ela, que media um metro e cinquenta e quatro e pesava quarenta e dois quilos, sempre se sentia uma an� ao lado de Praga. Como de costume, o apartamento estava na penumbra, s� se entrevia a frouxa claridade de uma �nica l�mpada acesa no quarto que ele usava como escrit�rio. Cheirava a mofo.</p><p>� � porque voc� nunca toma banho e fede como um macaco que te chamam de Praga? Se um dia voc� resolver sair � rua, eu te digo onde comprar sab�o.</p><p>Ele esbo�ou um sorriso, mas n�o disse nada e fez a ela um sinal para acompanh�-lo at� a cozinha. Instalou-se � mesa sem acender a luz. A �nica claridade vinha de um poste de ilumina��o p�blica diante da janela.</p><p>� Tamb�m n�o sou muito chegada a limpeza dom�stica, mas quando caixas de leite vazias come�am a atrair moscas, eu junto tudo e jogo fora.</p><p>� Recebo uma pens�o por invalidez � ele disse. � Sou socialmente incompetente.</p><p>� E por isso que o Estado te deu uma moradia e rapidamente te esqueceu. Voc� n�o tem medo que os vizinhos se queixem e chamem a inspe��o sanit�ria? Desse jeito vai acabar num asilo de loucos.</p><p>� Tem alguma coisa para mim?</p><p>Lisbeth Salander abriu o z�per da jaqueta e tirou cinco mil coroas.</p><p>� � tudo o que posso dar. Estou sacando dos meus fundos pessoais e n�o posso inclu�-lo como dependente.</p><p>� O que voc� quer?</p><p>� O cabo de que me falou dois meses atr�s. Conseguiu faz�-lo? Ele sorriu e p�s um objeto sobre a mesa diante dela.</p><p>� Me explica como funciona.</p><p>Durante uma hora, ela escutou com aten��o. Depois testou o cabo. Praga podia ser socialmente incapaz, mas sem d�vida nenhuma era um g�nio.</p><p>De volta a seu escrit�rio, Henrik Vanger esperou ter novamente a aten��o de Mikael. Este consultou seu rel�gio.</p><p>� Voc� comentou sobre um detalhe desconcertante. Henrik concordou com a cabe�a.</p><p>� Nasci num 1� de novembro. Quando Harriet tinha oito anos, ela me deu um quadro de presente de anivers�rio. Uma flor prensada sob um vidro dentro de uma moldura simples.</p><p>Henrik deu a volta ao redor da mesa e mostrou a primeira flor. Camp�nula. Emoldurada sem muita habilidade.</p><p>� Foi o primeiro quadro, que recebi em 1958. Ele mostrou o quadro seguinte.</p><p>� 1959, ran�nculo. 1960, margarida. Passou a ser uma tradi��o. Ela preparava o quadro durante o ver�o e o guardava para o meu anivers�rio. Sempre os pendurei aqui, nessa parede. Em 1966 ela desapareceu e a tradi��o foi interrompida.</p><p>Henrik Vanger calou-se e mostrou uma lacuna no alinhamento dos quadros. Mikael sentiu os cabelos se eri�arem na nuca. A parede inteira estava coberta de flores prensadas.</p><p>� Em 1967, um ano ap�s o desaparecimento dela, recebi esta flor no meu anivers�rio. Uma violeta.</p><p>� Recebeu como? � perguntou Mikael em voz baixa.</p><p>� Num pequeno embrulho de presente dentro de um envelope enviado pelo correio. Postado em Estocolmo. Sem remetente. Nenhuma mensagem.</p><p>� Quer dizer que... � Mikael fez um gesto largo com a m�o.</p><p>� Exatamente. No meu anivers�rio, todo maldito ano! Entende o que sinto? � dirigido contra mim, como se o assassino quisesse me torturar. Mortifiquei-me com especula��es, dizendo a mim mesmo que Harriet foi eliminada por algu�m que talvez quisesse me atingir, a mim. Todos sabiam que Harriet e eu t�nhamos uma rela��o especial e que eu a considerava como filha.</p><p>� O que quer que eu fa�a? � perguntou Mikael, com a voz de repente mais dura.</p><p>Depois de deixar o Corolla na garagem do subsolo da Milton Security, Lisbeth Salander aproveitou para subir ao escrit�rio com a inten��o de ir ao banheiro. Usou o cart�o com senha no elevador e foi direto para o segundo andar, sem passar pela entrada principal no primeiro, onde trabalhavam os que estavam de guarda. Ao sair do banheiro, pegou um caf� na m�quina de <emphasis>espressos </emphasis>que Dragan Armanskij por fim resolvera adquirir, ao entender que Lisbeth jamais prepararia bem um caf�. Em seguida foi at� sua sala e estendeu a jaqueta de couro no encosto de uma cadeira.</p><p>Seu lugar de trabalho era um cub�culo de dois metros por tr�s, atr�s de uma divis�ria de vidro. Havia uma mesa com um computador Dell bastante antigo, uma cadeira girat�ria, um cesto de lixo, um telefone e uma estante com uma por��o de listas telef�nicas e tr�s blocos de notas n�o usados. As duas gavetas da mesa continham algumas canetas esferogr�ficas usadas, clipes de papel e um bloco. No parapeito da janela, um vaso com uma planta murcha de folhas castanhas e secas. Lisbeth Salander examinou a planta com ar pensativo, como se a visse pela primeira vez. Um momento depois, jogou-a decididamente no cesto de lixo.</p><p>Ela quase nunca tinha o que fazer em seu escrit�rio e passava por ali n�o mais que umas seis vezes por ano, principalmente quando sentia necessidade de ficar a s�s e de trabalhar num relat�rio antes de entreg�-lo. Dragan Armanskij insistira que ela tivesse seu pr�prio espa�o, acreditando que assim ela se sentiria parte da empresa, mesmo trabalhando como freelancer. Mas Lisbeth suspeitava que Armanskij queria mesmo era ficar de olho nela e acompanhar seus passos. De in�cio fora instalada em outro ponto do corredor, numa sala maior que deveria dividir com um colega, mas, como nunca estava presente, Armanskij acabou por lhe destinar esse cub�culo, que n�o servia a ningu�m.</p><p>Lisbeth Salander pegou o cabo que trouxera do apartamento de Praga. Depositou o objeto � sua frente, na mesa, e o contemplou, refletindo e mordendo o l�bio inferior.</p><p>Passava das onze da noite, ela estava sozinha no andar. Sentiu-se de repente muito cansada.</p><p>Alguns minutos depois, levantou-se e foi at� o fim do corredor, onde testou a porta da sala de Dragan Armanskij. Trancada. Olhou ao redor. A probabilidade de algu�m surgir no corredor � meia-noite daquele 26 de dezembro era quase zero. Abriu a porta com uma c�pia do cart�o com a senha principal da empresa, pirateado alguns anos antes.</p><p>O escrit�rio de Armanskij era amplo, com escrivaninha, cadeiras para visitantes e uma pequena mesa de reuni�o de oito lugares num canto. Limpeza impec�vel. Fazia tempo que n�o revistava as coisas dele, mas j� que estava ali... Passou uma hora no escrit�rio e coletou os �ltimos dados do dossi� de um prov�vel espi�o industrial, folheou um outro de colegas est�pidos destacados para uma empresa onde agiam ladr�es bem organizados, e tomou conhecimento das medidas secretas adotadas para proteger uma cliente que temia que o filho fosse sequestrado pelo pr�prio pai.</p><p>Ao terminar, recolocou todos os pap�is exatamente no mesmo lugar, trancou a porta do escrit�rio de Armanskij e voltou a p� para sua casa na Lundagatan. Estava satisfeita com sua jornada.</p><p>Mikael Blomkvist balan�ou de novo a cabe�a. Sentado atr�s de sua escrivaninha, Henrik Vanger contemplava Mikael com olhos calmos, como se j� estivesse preparado para todas as suas obje��es.</p><p>� N�o sei se algum dia descobriremos a verdade, mas n�o quero descer ao t�mulo sem fazer ao menos uma �ltima tentativa � disse o velho. � Gostaria de contrat�-lo para que percorresse uma �ltima vez todo o material reunido nessa investiga��o.</p><p>� Isso � totalmente insano � constatou Mikael.</p><p>� Por que insano?</p><p>� Ouvi com aten��o, Henrik, entendo seu pesar, mas vou ser franco. O que voc� me pede � uma perda de tempo e de dinheiro. Pede que eu solucione, como por magia, um mist�rio que a pol�cia e investigadores experientes, dispondo de recursos bem mais completos, n�o encontraram em todos esses anos. Pede que eu solucione um crime quase quarenta anos depois de ele ter sido cometido. Como eu conseguiria?</p><p>� Ainda n�o falamos de seus honor�rios � replicou Henrik Vanger.</p><p>� N�o vale � pena.</p><p>� Se recusar, n�o poderei for��-lo. Mas escute o que ofere�o. Dirch Frode j� redigiu um contrato. Podemos discutir detalhes, por�m o contrato � simples e a �nica coisa que falta � sua assinatura.</p><p>� Henrik, isso n�o vai servir para nada. N�o posso resolver o enigma do desaparecimento de Harriet.</p><p>� O contrato n�o estipula isso. Tudo o que pe�o � que fa�a o melhor poss�vel. Se fracassar, ser� a vontade de Deus ou, se n�o cr� em Deus, do destino.</p><p>Mikael suspirou. Come�ava a se sentir cada vez menos � vontade e queria p�r um ponto final na sua visita a Hedeby, mas mesmo assim cedeu.</p><p>� V� l�, diga.</p><p>� Quero que durante um ano more e trabalhe aqui em Hedeby. Quero que percorra toda a investiga��o sobre o desaparecimento de Harriet, documento ap�s documento. Quero que examine tudo com olhos novos, totalmente novos. Quero que questione todas as antigas conclus�es, como deve fazer um jornalista investigative Quero que examine o que eu mesmo, a pol�cia e outros investigadores podem ter deixado escapar.</p><p>� Est� pedindo que eu abandone a minha vida e a minha carreira para me dedicar durante um ano a uma coisa que ser� uma completa perda de tempo?</p><p>Henrik Vanger sorriu.</p><p>� No que se refere � carreira, admita que por ora ela est� bastante atravancada.</p><p>Mikael n�o soube o que responder.</p><p>� Quero comprar um ano da sua vida, oferecer-lhe um trabalho. O sal�rio � superior a qualquer outra oferta que voc� jamais receber�. Pagarei duzentas mil coroas por m�s, ou seja, dois milh�es e quatrocentas mil coroas, se aceitar e permanecer por um ano.</p><p>Mikael emudeceu de espanto.</p><p>� N�o tenho ilus�o. Sei que a probabilidade de �xito � m�nima, mas se, contra todas as expectativas, voc� resolver o enigma, ofere�o um b�nus � emolumentos dobrados, isto �, quatro milh�es e oitocentas mil coroas. Sejamos generosos: cinco milh�es para arredondar.</p><p>Henrik Vanger cedeu o corpo para tr�s e inclinou de lado a cabe�a.</p><p>� Posso depositar o dinheiro na conta banc�ria de sua escolha, em qualquer lugar do mundo. Voc� tamb�m pode receber o dinheiro em papel-moeda, numa valise, cabendo-lhe decidir se quer ou n�o declarar a soma ao fisco.</p><p>� N�o �... correto � gaguejou Mikael.</p><p>� E por qu�? � perguntou Henrik calmamente. � Tenho mais de oitenta anos e continuo dono da minha cabe�a. Tenho uma imensa fortuna pessoal e disponho dela como quiser. N�o tenho filhos e n�o sinto a menor vontade de dar dinheiro a parentes que odeio. Meu testamento estipula que a maior parte do meu dinheiro ir� para o World Wildlife Fund. Algumas poucas pessoas que me s�o pr�ximas v�o receber quantias merecidas � entre elas Anna, do andar de baixo.</p><p>Mikael Blomkvist balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>� Tente me entender. Estou velho e em breve morrerei. S� desejo uma coisa no mundo: uma resposta � quest�o que me atormenta h� quase quatro d�cadas. N�o acredito que acharei a resposta, mas possuo meios suficientes para fazer uma �ltima tentativa. Diga-me o que h� de extravagante em utilizar parte da minha fortuna para essa finalidade. � uma d�vida para com Harriet. E tamb�m para comigo.</p><p>� Vai gastar v�rios milh�es de coroas para nada. Tudo o que preciso fazer � assinar o contrato e ficar numa boa durante um ano.</p><p>� Voc� n�o far� isso. Ao contr�rio, trabalhar� mais duro do que jamais trabalhou em toda a sua vida.</p><p>� Como pode ter certeza?</p><p>� Porque posso lhe oferecer algo que deseja mais do que qualquer outra coisa no mundo e que dinheiro nenhum conseguir� comprar.</p><p>� O qu�?</p><p>Os olhos de Henrik Vanger se estreitaram.</p><p>� Posso lhe entregar Hans-Erik Wennerstr�m. Posso provar que ele � um vigarista. Come�ou sua carreira na minha empresa h� trinta e cinco anos e posso lhe oferecer a cabe�a dele numa bandeja. Resolva esse mist�rio e poder� transformar a sua derrota no tribunal na reportagem do ano.</p><empty-line/><p><strong>7. SEXTA-FEIRA 3 DE JANEIRO</strong></p><p>Erika estava de costas para Mikael. De p� em frente � janela da casa dele, ela olhava a cidade velha. Eram nove da manh� do dia 3 de janeiro. Toda a neve desaparecera com a chuva que ca�ra durante as festas de fim de ano.</p><p>� Sempre gostei da vista da sua casa � ela disse. � S� um apartamento como este poderia me fazer abandonar Saltsj�baden.</p><p>� Voc� tem as chaves. Nada contra voc� deixar seu condom�nio classe A para vir morar aqui � disse Mikael. Ele fechou a mala e colocou-a na entrada. Erika voltou-se e olhou para ele com ar incr�dulo.</p><p>� Isso n�o faz sentido! � disse. � Estamos na pior das crises e voc� enche duas malas e vai embora para se instalar num fim de mundo.</p><p>� Em Hedestad. A algumas horas de trem. E n�o estou indo para sempre.</p><p>� Poderia ser tamb�m Ulan Bator! N�o entende que dar� a impress�o de estar fugindo com o rabo entre as pernas?</p><p>� � exatamente o que estou fazendo. Sem esquecer que este ano tamb�m terei de cumprir uma pena de pris�o.</p><p>Christer Malm estava sentado no sof� de Mikael. Sentia-se pouco � vontade. Desde o come�o da <emphasis>Millennium, </emphasis>era a primeira vez que via Mikael e Erika divergindo tanto. Ao longo dos anos, os dois haviam se tornado insepar�veis.</p><p>Se eventualmente entravam em furiosas discuss�es, elas sempre se referiam a quest�es cujo ponto litigioso se dissolvia antes de ca�rem nos bra�os um do outro e sa�rem para fazer um lanche. Ou irem para a cama. O �ltimo outono n�o fora f�cil, e agora era como se um abismo tivesse se aberto. Christer Malm se perguntou se assistia ao come�o do fim da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� N�o tenho escolha � disse Mikael. � N�s n�o temos escolha. Atravessou a sala e foi sentar-se junto � mesa da cozinha. Erika balan�ou a cabe�a e sentou-se diante dele.</p><p>� E voc�, Christer, o que pensa disso? � ela perguntou.</p><p>Christer Malm afastou as m�os. Ele esperava a pergunta, temendo o momento em que seria obrigado a tomar posi��o. Era o terceiro s�cio, mas os tr�s sabiam que a <emphasis>Millennium </emphasis>era Mikael e Erika. S� lhe pediam conselho quando estavam realmente em desacordo.</p><p>� Com toda a franqueza � respondeu Christer �, voc�s dois sabem que o que eu penso n�o tem a menor import�ncia.</p><p>Calou-se. Ele adorava criar imagens. Adorava trabalhar com formas gr�ficas. Nunca se considerara um artista, mas sabia que era um <emphasis>designer </emphasis>de primeira. Em compensa��o, era uma nulidade quando se tratava de intrigas e decis�es pol�ticas.</p><p>Erika e Mikael se olharam. Ela, com uma c�lera fria. Ele, refletindo.</p><p>N�o estou assistindo a uma discuss�o, pensou Christer, mas a um div�rcio. Foi Mikael que rompeu o sil�ncio.</p><p>� Bem, deixem-me expor os argumentos mais uma vez. � Ele fitou Erika. � Ir embora n�o significa que estou abandonando a <emphasis>Millennium. </emphasis>Trabalhamos duro demais para eu agora querer abandon�-la.</p><p>� Mas n�o estar� na reda��o, eu e Christer � que carregaremos o fardo. N�o entende que est� se auto-exilando?</p><p>� Esse � o outro aspecto. Preciso dar um tempo, Erika. Estou fora de combate. Completamente estressado. F�rias remuneradas em Hedestad talvez seja exatamente o que eu preciso.</p><p>� Toda essa hist�ria � muito estranha, Mikael. � como se voc� resolvesse ir trabalhar num circo.</p><p>� Eu sei. Mas me dar�o dois milh�es e quatrocentos mil para ficar com a bunda numa cadeira por um ano, e n�o estarei inativo. Esse � o terceiro aspecto. O primeiro <emphasis>round </emphasis>contra Wennerstr�m terminou e ele ganhou. O segundo j� est� em andamento: ele tentar� afundar definitivamente a <emphasis>Millennium, </emphasis>pois sabe que, enquanto a revista existir, h� pessoas na reda��o que sabem o que ele est� fazendo.</p><p>� Sei muito bem disso. � o que venho constatando h� seis meses nas receitas publicit�rias, todo fim de m�s.</p><p>� Exatamente. Por isso mesmo � que eu preciso me afastar da reda��o. Eu represento uma amea�a para ele. Ele fica paran�ico comigo. Enquanto eu permanecer, ele prosseguir� na sua campanha. N�s agora temos que nos preparar para o terceiro <emphasis>round. </emphasis>Se quisermos ter uma chance m�nima contra Wennerstr�m, precisamos dar marcha a r� e elaborar uma nova estrat�gia. Precisamos descobrir alguma coisa em que possamos bater firme. Ser� o meu trabalho durante este ano.</p><p>� Eu entendo tudo isso � replicou Erika. � Mas por que simplesmente voc� n�o tira f�rias? V� viajar, pegar sol numa praia durante um m�s, fazer uma pesquisa sobre a vida amorosa das espanholas. Relaxe, passe um tempo em Sandhamn olhando para o mar.</p><p>� E quando eu voltar nada ter� mudado. Wennerstr�m vai esmagar a <emphasis>Millennium. </emphasis>Voc� sabe. A �nica coisa capaz de det�-lo � descobrirmos algo sobre ele que possa derrub�-lo.</p><p>� E acha que descobrir� isso em Hedestad?</p><p>� Verifiquei recortes de imprensa. Wennerstr�m trabalhou para o grupo Vanger de 1969 a 1972. Fazia parte do estado-maior, respons�vel pelos investimentos estrat�gicos. Saiu muito de repente. N�o se pode excluir a possibilidade de que Henrik Vanger saiba de fato alguma coisa sobre ele.</p><p>� Mas se Wennerstr�m cometeu um delito h� trinta anos, dificilmente isso poder� ser provado hoje.</p><p>� Henrik Vanger prometeu contar tudo o que sabe. Ele � obcecado pela sobrinha desaparecida. Eu diria que nada mais no mundo lhe interessa e, se isso significa queimar Wennerstr�m, acho que h� muita chance de que o fa�a. Em todo caso, n�o podemos nos dar ao luxo de deixar escapar essa chance. Ele � o primeiro a se dizer disposto a revelar toda a merda sobre Wennerstr�m.</p><p>� Mesmo que voc� volte com provas de que Wennerstr�m estrangulou a menina, n�o poder�amos utiliz�-las. N�o depois de tanto tempo. Ele nos massacraria no tribunal.</p><p>� Eu tamb�m pensei nisso, mas sinto muito: ele cursava a escola superior de com�rcio quando ela desapareceu e n�o tinha nenhuma liga��o com o grupo Vanger. � Mikael fez uma pausa. � Erika, n�o vou deixar a <emphasis>Millennium, </emphasis>mas � importante que as pessoas tenham essa impress�o. Voc� e Christer devem continuar levando adiante a revista. Se puderem... se tiverem a possibilidade de propor um acordo de paz com Wennerstr�m, proponham. N�o v�o poder fazer isso se eu estiver na reda��o.</p><p>� Tudo bem, a situa��o est� ruim, mas acho que voc� est� indo atr�s de nada em Hedestad.</p><p>� Tem uma id�ia melhor para me propor? Erika encolheu os ombros.</p><p>� Dever�amos buscar informantes. Retomar a investiga��o desde o in�cio. Sem cometer erros desta vez.</p><p>� Esque�a, Ricky, o assunto est� morto.</p><p>Erika deixou a cabe�a pender sobre as m�os em cima da mesa, num gesto de abandono. Quando voltou a falar, no in�cio teve dificuldade de olhar para Mikael.</p><p>� Estou muito irritada com voc�. N�o por ter escrito o que escreveu, eu me envolvi no caso tanto quanto voc�. E n�o por abandonar seu cargo de editor, essa � uma decis�o prudente na atual situa��o. N�o me importo que pensem que houve um conflito ou uma luta de poder entre n�s. Entendo a l�gica de fazer Wennerstr�m supor que eu sou apenas uma figura inofensiva e que a amea�a � voc�.</p><p>Fez uma pausa e olhou diretamente nos olhos dele, com os dentes cerrados.</p><p>� Mas acho que est� enganado. Wennerstr�m n�o morder� a isca. Continuar� tentando afundar a <emphasis>Millennium. </emphasis>A �nica diferen�a � que a partir de agora terei de enfrent�-lo sozinha, e voc� sabe o quanto � necess�rio aqui na reda��o. Est� certo, tamb�m quero levar adiante a guerra contra Wennerstr�m, mas me incomoda voc� abandonar o navio desse jeito, nos deixando no meio da tempestade.</p><p>Mikael estendeu a m�o e acariciou-lhe os cabelos.</p><p>� Voc� n�o est� sozinha. Pode contar com Christer e com o resto da reda��o.</p><p>� N�o com Janne Dahlman. Ali�s, por falar nele, acho que foi um erro contrat�-lo. � competente, mas faz mais mal do que bem. N�o confio nele.</p><p>Passou o outono inteiro com aquele sorriso falso nos l�bios. N�o sei se apenas est� esperando uma chance para pegar o seu lugar ou se simplesmente h� uma incompatibilidade de humor entre ele e o resto da reda��o.</p><p>� Acho que voc� tem raz�o � disse Mikael.</p><p>� E o que devo fazer? Demiti-lo?</p><p>� Erika, voc� � a diretora e a principal acionista da <emphasis>Millennium. </emphasis>Se acha que deve demiti-lo, demita-o.</p><p>� Nunca demitimos ningu�m, Micke. E agora voc� tamb�m joga para cima de mim essa decis�o. N�o vejo mais gra�a em sair de manh� para ir trabalhar.</p><p>Nesse instante Christer Malm decidiu se levantar.</p><p>� Se quer pegar mesmo o trem, Mikael, precisamos ir. � Erika esbo�ou um protesto, mas ele a interrompeu com um gesto de m�o. � Espere, Erika, voc� me perguntou o que eu pensava. Acho que � uma situa��o fodida. Mas se o que Mikael diz � verdade, ou seja, que n�o h� outra sa�da, deixe que ele v�, nem que seja s� por ele mesmo. Devemos isso a ele.</p><p>Tanto Mikael quanto Erika olharam Christer surpresos, enquanto este lan�ava um olhar aborrecido a Mikael.</p><p>� Voc�s dois sabem que a <emphasis>Millennium � </emphasis>voc�s. Sou s�cio, voc�s sempre foram legais comigo, adoro a revista e tudo o mais, mas poderiam me substituir por qualquer outro <emphasis>designer </emphasis>sem o menor problema. Voc�s me perguntaram o que eu penso e vou dizer. No que se refere a Janne Dahlman, sou da mesma opini�o. Se est� querendo demiti-lo, Erika, posso fazer isso no seu lugar. Precisamos apenas de um motivo razo�vel.</p><p>Fez uma pausa antes de continuar.</p><p>� Concordo com voc�, de fato pega mal Mikael desaparecer justamente agora. Mas acho que n�o temos muita escolha. � Olhou para Mikael. � Vou com voc� at� a esta��o. Erika e eu seguraremos as pontas at� a sua volta.</p><p>Mikael balan�ou devagar a cabe�a.</p><p>� Meu medo � que Mikael n�o volte � disse Erika em voz baixa.</p><p>Dragan Armanskij despertou Lisbeth Salander ao cham�-la ao telefone � uma e meia da tarde.</p><p>� O que �? � ela perguntou, meio dormindo. Sua boca estava com gosto de alcatr�o.</p><p>� A hist�ria de Mikael Blomkvist. Acabo de falar com o nosso cliente, o senhor Frode.</p><p>� E a�?</p><p>� Ele telefonou para dizer que podemos abandonar a investiga��o sobre Wennerstr�m.</p><p>� Abandonar? Mas eu j� comecei a trabalhar no caso.</p><p>� Entendo, mas Frode n�o est� mais interessado.</p><p>� Assim, sem mais?</p><p>� Ele � quem decide. Se n�o quer continuar, paci�ncia.</p><p>� Hav�amos acertado uma remunera��o.</p><p>� Voc� trabalhou quanto tempo? Lisbeth Salander refletiu.</p><p>� Um pouco mais que tr�s dias completos.</p><p>� Acertamos um teto de quarenta mil coroas. Vou fazer uma fatura de dez mil; voc� ficar� com a metade, o que � razo�vel para tr�s dias desperdi�ados. � o pre�o que ele ter� de pagar por ter iniciado o caso.</p><p>� E o que fa�o com o material que encontrei?</p><p>� � alguma coisa importante? Ela refletiu um pouco.</p><p>� N�o.</p><p>� Frode n�o pediu um relat�rio. Guarde o material em algum lugar, caso ele volte. Ou ent�o jogue fora. Tenho um outro trabalho para voc� na semana que vem.</p><p>Lisbeth Salander permaneceu um momento com o telefone na m�o depois que Armanskij desligou. Foi at� seu canto de trabalho na sala de estar e olhou as anota��es que espetara na parede e o monte de pap�is amontoados na escrivaninha. Sua coleta consistia principalmente de recortes da imprensa e textos copiados da internet. Pegou os pap�is e os enfiou numa gaveta da escrivaninha.</p><p>Franziu as sobrancelhas. O estranho comportamento de Mikael Blomkvist na sala do tribunal lhe parecera um desafio interessante e Lisbeth Salander n�o gostava de interromper o que havia come�ado. Todo mundo tem segredos. Trata-se apenas de descobrir quais s�o.</p><empty-line/></section><section><p><strong>II. AN�LISE DAS CONSEQU�NCIAS - 3 DE JANEIRO A 17 DE MAR�O</strong></p><p><emphasis/></p><p><emphasis>Na</emphasis><emphasis>Su�cia, </emphasis>46% <emphasis>das mulheres sofreram viol�ncia de um homem.</emphasis></p><p><strong/><strong>8. SEXTA-FEIRA 3 DE JANEIRO � DOMINGO 5 DE JANEIRO</strong></p><p>Quando Mikael Blomkvist desceu do trem em Hedestad pela segunda vez, o c�u estava azul-pastel e o ar gelado. Um term�metro na fachada da esta��o indicava dezoito graus negativos. Mais uma vez ele usava sapatos pouco adaptados ao frio. Ao contr�rio da visita anterior, o am�vel advogado Frode n�o viera esper�-lo com um carro aquecido. Mikael apenas dissera o dia em que chegaria, sem especificar o hor�rio do trem. Sup�s que haveria um �nibus para a aldeia, mas n�o teve vontade de carregar duas malas pesadas e uma sacola atr�s de um ponto de �nibus. Dirigiu-se a um ponto de t�xi do outro lado da esplanada em frente � esta��o.</p><p>Entre o Natal e o Ano-novo, as precipita��es de neve haviam sido violentas e as montanhas acumuladas ao longo do caminho provavam que o servi�o de desobstru��o da prefeitura de Hedestad trabalhara sem parar. O motorista de t�xi, que a placa de identifica��o no p�ra-brisa dizia chamar-se Hussein, concordou com a cabe�a quando Mikael perguntou se o tempo causara muitos problemas. Com o mais puro sotaque do Norrland, contou que fora a pior tempestade de neve havia d�cadas e que se arrependia de n�o ter tirado f�rias de inverno para passar o Natal na Gr�cia.</p><p>Mikael indicou o caminho ao taxista at� o p�tio amplo em frente � casa de Henrik Vanger e, depois de subir com as malas at� a entrada, olhou o carro desaparecendo em dire��o a Hedestad. Sentiu-se de repente muito s� e indeciso. Erika talvez tivesse raz�o em dizer que todo esse projeto era insensato. Ouviu a porta se abrir �s suas costas e se virou. Henrik Vanger estava ali, vestindo um espesso casaco de couro, cal�ando botas forradas e tendo na cabe�a um bon� com orelheiras. Mikael vestia apenas jeans e uma jaqueta leve de couro.</p><p>� J� que vai morar aqui, primeiro precisa aprender a se vestir nesta �poca do ano. � Apertaram-se as m�os. � Tem certeza de que n�o quer ficar na casa principal? N�o? Ent�o vamos acomod�-lo em sua nova moradia.</p><p>Uma das exig�ncias nas negocia��es com Henrik Vanger e Dirch Frode fora que Mikael pudesse morar num lugar onde ficasse independente e pudesse ir e vir � vontade. Henrik guiou Mikael em dire��o � ponte e abriu o port�o de um p�tio recentemente desobstru�do diante de uma pequena casa de madeira. N�o estava trancada, e o velho abriu a porta. Entraram num pequeno vest�bulo, onde Mikael depositou as malas com um suspiro de al�vio.</p><p>� Aqui est� o que chamamos a casa dos convidados, onde hospedamos as pessoas que ficam por algum tempo. Foi aqui que voc� e seus pais se instalaram em 1963. � uma das constru��es mais antigas do povoado, embora modernizada. Cuidei para que Gunnar Nilsson, o meu faz-tudo, pusesse o aquecimento para funcionar esta manh�.</p><p>A casa consistia em uma grande cozinha e dois pequenos quartos, ao todo uns cinquenta metros quadrados. A cozinha ocupava a metade da �rea; moderna, tinha fog�o el�trico, uma pequena geladeira, um balc�o com pia, e junto � parede que dava para o vest�bulo havia tamb�m um velho aquecedor de metal fundido, no qual j� ardia um bom fogo.</p><p>� S� precisar� usar esse aquecedor se fizer muito frio. H� um ba� com lenha no vest�bulo e um pequeno dep�sito nos fundos da casa. Estava desativado desde o �ltimo outono e voltamos a acend�-lo esta manh� para aquecer as paredes. Mas os aquecedores el�tricos dever�o ser suficientes durante o dia. Evite apenas p�r roupas em cima deles, para n�o provocar um inc�ndio.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a e olhou ao redor. Havia janelas em tr�s lados; da mesa da cozinha avistava-se a ponte a uns trinta metros. Al�m da mesa, a cozinha era equipada com dois arm�rios, cadeiras, um antigo banco de madeira e uma prateleira com jornais. No alto da pilha, um n�mero de Se, datado de 1967. Num canto pr�ximo � mesa, um aparador podia servir de escrivaninha.</p><p>A porta de entrada da cozinha ficava pr�xima ao aquecedor a lenha. Do outro lado, duas portas estreitas conduziam a dois pequenos c�modos. O da esquerda, mais pr�ximo da parede externa, estava mobiliado com uma mesa de trabalho, uma cadeira e uma estante ao longo da parede. O outro c�modo, entre o vest�bulo e o escrit�rio, era um quarto relativamente pequeno, com uma cama de casal bastante estreita, um criado-mudo e um arm�rio. Nas paredes havia alguns quadros com cenas da natureza. Os m�veis e os pap�is de parede da casa estavam velhos e descoloridos, mas tudo cheirava a limpeza. O soalho fora cuidadosamente encerado. O quarto tinha outra porta, que levava diretamente ao vest�bulo, onde um velho cub�culo fora transformado em banheiro com ducha.</p><p>� A �gua pode vir a ser um problema � disse Henrik. � Verificamos que est� funcionando bem hoje de manh�, mas como a tubula��o � muito superficial, se o frio persistir, pode congelar. H� um balde no vest�bulo. Se for necess�rio, v� buscar �gua na minha casa.</p><p>� Vou precisar de um telefone � disse Mikael.</p><p>� J� fiz o pedido. Vir�o instalar depois de amanh�. E ent�o, o que acha? Se mudar de opini�o, pode se transferir para a casa principal quando quiser.</p><p>� Tudo vai correr bem � respondeu Mikael, longe de estar convencido de que a situa��o na qual se metera era razo�vel.</p><p>� �timo. Ainda temos uma hora antes que escure�a. Podemos dar uma volta para voc� conhecer o povoado. Sugiro que use botas e meias grossas de l�, que poder� encontrar no arm�rio do vest�bulo.</p><p>Mikael aquiesceu, mas decidiu que no dia seguinte percorreria as lojas para comprar ceroulas e cal�ados pr�prios para o inverno.</p><p>O velho come�ou o passeio explicando que o vizinho de Mikael do outro lado da estrada era Gunnar Nilsson, o empregado que Henrik insistia em chamar de seu faz-tudo. Mas Mikael logo entendeu que ele cuidava da manuten��o das constru��es da ilha e tamb�m de v�rias resid�ncias em Hedestad.</p><p>� O pai dele, Magnus Nilsson, trabalhou do mesmo modo em minha casa nos anos 1960, e foi um dos que prestaram ajuda no dia do acidente na ponte. Magnus ainda est� vivo, mas se aposentou e mora em Hedestad. Gunnar vive nessa casa com a mulher, chamada Helen. Os filhos partiram para viver sua vida.</p><p>Henrik Vanger fez uma pausa e refletiu um momento antes de prosseguir.</p><p>� Mikael, a explica��o oficial para sua presen�a aqui � que voc� vai me ajudar a escrever a minha biografia. Isso permitir� que voc� investigue em todos os cantos e fa�a perguntas �s pessoas. Mas a verdadeira miss�o � um assunto restrito a voc�, a mim e a Dirch Frode. Somos os �nicos que a conhecem.</p><p>� Entendo. E repito o que j� disse: � uma perda de tempo. N�o vou poder resolver o enigma.</p><p>� Pe�o apenas que tente. Devemos, no entanto, prestar aten��o ao que dizemos quando houver pessoas por perto.</p><p>� Tudo bem.</p><p>� Gunnar tem cinquenta e seis anos agora, portanto tinha dezenove quando Harriet desapareceu. H� uma quest�o para a qual nunca obtive resposta: Harriet e Gunnar eram bons amigos e creio que houve uma esp�cie de flerte adolescente entre os dois. Em todo caso, ele estava bastante interessado nela. No dia do desaparecimento, Gunnar estava em Hedestad, � um dos que ficaram presos em terra por causa do acidente na ponte. Considerando-se a rela��o dos dois, evidentemente ele foi investigado com cuidado. A pol�cia verificou seu �libi e ele � s�lido. Passou o dia com colegas e s� voltou para c� no come�o da noite.</p><p>� Imagino que voc� tenha uma lista completa de quem estava na ilha e de quem fez o que durante o dia.</p><p>� Isso mesmo. Continuamos?</p><p>Detiveram-se na subida, no cruzamento dos caminhos diante da casa Vanger, e Henrik indicou o porto de recreio.</p><p>� Toda a ilha de Hedeby pertence � fam�lia Vanger, ou, para ser mais preciso, a mim. A n�o ser pela fazenda de �stergarden e algumas casas particulares aqui no povoado. As pequenas cabanas ali embaixo, onde antigamente ficava o porto de pesca, s�o propriedades privadas, mas funcionam como casas de veraneio e, de modo geral, permanecem desabitadas no inverno. A �nica exce��o � a cabana bem ali na ponta. Est� vendo a fuma�a da chamin�?</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a. J� estava gelado at� os ossos.</p><p>� Aquele barraco miser�vel est� cheio de frestas, mas serve de habita��o o ano todo. Quem mora ali � Eugen Norman. Tem sessenta e sete anos, � uma esp�cie de artista, pintor. Acho as pinturas dele um tanto kitsch, mas ele � bastante conhecido por suas paisagens. � um pouco o tipo exc�ntrico da aldeia.</p><p>Henrik guiou os passos de Mikael ao longo do caminho em dire��o ao promont�rio, apontando cada uma das casas pelas quais passavam. O povoado tinha seis casas do lado oeste da estrada e quatro do lado do Leste Europeu. A primeira, muito pr�xima da casa dos convidados onde Mikael se instalara e defronte � casa Vanger, pertencia a Harald, irm�o de Henrik. Era um sobrado retangular, de pedra, aparentemente abandonado. As cortinas nas janelas estavam corridas e meio metro de neve se acumulava no caminho que subia at� a casa. Examinando mais de perto, por�m, marcas de passos revelavam que algu�m pisara a neve entre a estrada e a porta.</p><p>� Harald � um misantropo. Nunca nos entendemos bem, eu e ele. Com exce��o dos conflitos relacionados �s empresas � ele � acionista �, mal nos falamos nos �ltimos sessenta anos. � mais velho que eu, tem noventa e dois anos e � o �nico dos meus cinco irm�os ainda vivo. Contarei os detalhes mais tarde, mas ele estudou medicina e trabalhou principalmente em Uppsala. Voltou a morar em Hedeby�n ao completar setenta anos.</p><p>� Entendi que n�o gosta dele. No entanto s�o vizinhos.</p><p>� Acho-o detest�vel e teria preferido que continuasse em Uppsala, mas a casa lhe pertence. Estou falando como um verdadeiro cr�pula, n�o?</p><p>� Fala apenas como algu�m que n�o gosta do seu irm�o.</p><p>� Passei os primeiros vinte e cinco, trinta anos da minha vida desculpando pessoas como Harald apenas porque �ramos da mesma fam�lia. Depois descobri que o parentesco n�o � uma garantia de amor e que eu tinha muito poucas raz�es para defender Harald.</p><p>A casa seguinte pertencia a Isabella, a m�e de Harriet Vanger.</p><p>� Ela completar� setenta e cinco este ano, continua sendo uma mulher vistosa e elegante. � a �nica no povoado que fala com Harald e o visita de vez em quando, mas eles n�o t�m muita coisa em comum.</p><p>� Como eram as rela��es entre ela e Harriet?</p><p>� Boa pergunta. As mulheres tamb�m devem entrar no c�rculo de suspeitos. Eu disse a voc� que muitas vezes ela n�o dava a menor aten��o aos filhos. N�o sei muito bem, acho que ela at� gostaria mas era incapaz de assumir responsabilidades. Harriet e ela n�o tinham intimidade, por�m n�o eram inimigas. Isabella pode se mostrar um pouco insens�vel, �s vezes tamb�m � um pouco individualista. Voc� vai entender o que estou querendo dizer quando a vir.</p><p>A vizinha de Isabella era Cecilia Vanger, filha de Harald Vanger.</p><p>� Enquanto esteve casada, ela morou em Hedestad, mas h� pouco mais de vinte anos separou-se do marido. A casa me pertence e propus a ela que viesse morar aqui. Cecilia � professora e � o oposto do pai em muitos aspectos. Posso acrescentar que ela e o pai se falam apenas o necess�rio.</p><p><image l:href="#_5.jpg"/></p><p>� Qual a idade dela?</p><p>� Nasceu em 1946. Tinha ent�o vinte anos quando Harriet desapareceu. E era uma das pessoas que estavam na ilha naquele dia.</p><p>Refletiu por um momento.</p><p>� Cecilia pode parecer meio cabe�a-tonta, mas na realidade � bastante esperta. N�o a subestime. Se algu�m vier a descobrir o que voc� est� realmente fazendo aqui, ser� ela. Eu diria que � um dos membros da fam�lia que mais aprecio.</p><p>� Isso significa que n�o suspeita dela?</p><p>� N�o chegaria a tanto. Gostaria que considerasse o caso sem a menor restri��o, independentemente do que eu penso ou acredito.</p><p>A casa ao lado da de Cecilia pertencia a Henrik Vanger, mas estava alugada a um casal de idade que trabalhara na dire��o do grupo Vanger. Como vieram morar na ilha nos anos 1980, nada tinham a ver, portanto, com o desaparecimento de Harriet. A casa seguinte era propriedade de Birger Vanger, o irm�o de Cecilia. Estava vazia havia anos, desde que Birger se instalara numa mans�o moderna em Hedestad.</p><p>Em sua maior parte, as constru��es ao longo da estrada eram s�lidas casas de pedra que datavam do come�o do s�culo anterior. A �ltima, por�m, era de outro tipo, uma casa de arquitetura moderna, de tijolos brancos, portas e janelas escuras. Sua localiza��o era excelente. Mikael calculava que a vista do primeiro andar devia ser magn�fica: o mar no Leste Europeu e Hedestad ao norte.</p><p>� � aqui que mora Martin Vanger, o irm�o de Harriet e atual diretor-executivo do grupo Vanger. Antigamente era aqui que o presbit�rio estava situado, mas foi parcialmente destru�do por um inc�ndio nos anos 1970 e Martin resolveu construir essa casa quando assumiu o comando.</p><p>Bem ao fundo, do lado do Leste Europeu da estrada, morava Gerda Vanger, vi�va de Greger, um outro irm�o de Henrik, e seu filho Alexander Vanger.</p><p>� Gerda � inv�lida, sofre de reumatismo. Alexander tem uma pequena participa��o no grupo Vanger, mas possui tamb�m alguns neg�cios pr�prios, restaurantes, por exemplo. Costuma passar v�rios meses do ano em Barbada, nas Antilhas, onde investiu dinheiro no turismo.</p><p>Entre a casa de Gerda e a de Henrik havia duas casas pequenas, vazias, utilizadas para hospedar membros da fam�lia em visita. Do outro lado da casa de Henrik, havia outra, alugada para um ex-empregado do grupo, agora aposentado, e sua mulher. Mas o casal passava o inverno na Espanha, e a casa estava desabitada.</p><p>Voltaram ao cruzamento dos caminhos e o passeio terminou. Come�ava a escurecer. Mikael tomou a iniciativa.</p><p>� Henrik, s� posso voltar a dizer que nos lan�amos numa aventura que n�o dar� resultado, mas farei aquilo para o qual fui contratado. Escreverei sua biografia e, conforme me pediu, lerei o material sobre Harriet Vanger com o m�ximo de aten��o e cuidado. Quero simplesmente que entenda que n�o sou detetive particular, portanto n�o deposite em mim esperan�as sem fundamento.</p><p>� N�o espero nada. Como eu disse, quero apenas que seja feita uma �ltima tentativa para descobrir a verdade.</p><p>� Ent�o, perfeito.</p><p>� Deito-me cedo � explicou Henrik. � Poder� me encontrar depois do caf�-da-manh� e ao longo do dia. Vou preparar um local de trabalho aqui para voc�, do qual poder� dispor � vontade.</p><p>� N�o, obrigado. J� tenho um lugar de trabalho na casa dos convidados e � l� que tenho a inten��o de trabalhar.</p><p>� Como quiser.</p><p>� Quando eu precisar de informa��es, conversaremos no seu escrit�rio, mas n�o vou come�ar com perguntas j� esta noite.</p><p>� Entendo. � O velho deixava transparecer uma timidez enganadora.</p><p>� Vou precisar de algumas semanas para ler todos os dossi�s. Trabalharemos em duas frentes: nos veremos algumas horas por dia, quando farei perguntas para coletar material para a biografia. Quando eu tiver perguntas sobre Harriet, virei discuti-las com voc�.</p><p>� Parece razo�vel.</p><p>� Trabalharei com bastante liberdade, sem hor�rios fixos.</p><p>� Organize-se como quiser.</p><p>� Voc� n�o deve ter esquecido que, dentro de alguns meses, vou precisar cumprir uma pena de pris�o. N�o sei ainda quando ser�, mas n�o vou recorrer. O que significa que acontecer� durante este ano.</p><p>Henrik Vanger franziu o cenho.</p><p>� Isso � ruim. Teremos que achar uma solu��o quando chegar o momento. Poderia pedir um <emphasis>sursis.</emphasis></p><p>� Se tudo correr bem e eu j� tiver elementos suficientes sobre a fam�lia, poderei trabalhar na pris�o. Mas vamos esquecer isso por enquanto. Outra coisa: continuo sendo s�cio da <emphasis>Millennium, </emphasis>que neste momento � uma revista em crise. Se acontecer algo que exija minha presen�a em Estocolmo, serei obrigado a deixar o que estou fazendo aqui para ir at� l�.</p><p>� N�o o contratei como escravo. Quero que trabalhe de forma racional e leve adiante a tarefa que lhe passei, mas � evidente que deve se organizar como bem entender, trabalhar de acordo com seus pr�prios m�todos. Se precisar licenciar-se, fa�a-o, mas se eu notar que est� negligenciando o trabalho, considerarei como um rompimento de contrato.</p><p>Mikael concordou com a cabe�a. Henrik Vanger olhava em dire��o � ponte. O homem era magro e Mikael de repente teve a impress�o de que ele parecia um espantalho.</p><p>� No que se refere � <emphasis>Millennium, </emphasis>dever�amos ter uma conversa sobre a crise, para ver se posso ser �til de alguma forma.</p><p>� O melhor meio de ser �til � entregar-me a cabe�a de Wennerstr�m logo.</p><p>� Ah, n�o, essa n�o � a minha inten��o. � O velho lan�ou um olhar severo a Mikael. � A �nica raz�o pela qual aceitou minha proposta � que prometi desmascarar Wennerstr�m. Se eu entreg�-lo agora, poderia ficar tentado a abandonar o trabalho. Ter� essa informa��o dentro de um ano.</p><p>� Henrik, perdoe-me falar assim cruamente, mas nada me garante que voc� estar� vivo daqui a um ano.</p><p>� Entendo. Vou falar com Dirch Frode e veremos como arranjar isso. Mas, no que se refere � <emphasis>Millennium, </emphasis>talvez eu possa intervir de outro modo. Pelo que entendi, o problema � que os anunciantes est�o saindo.</p><p>Mikael assentiu lentamente com a cabe�a antes de responder:</p><p>� Os anunciantes s�o o problema mais imediato, por�m a crise � mais profunda. E uma quest�o de confian�a. Pouco importa o n�mero de anunciantes que temos se as pessoas n�o quiserem mais comprar a revista.</p><p>� Sim, entendo. Mas continuo sendo membro do conselho administrativo de um grupo importante, mesmo como membro passivo. Tamb�m temos necessidade de divulgar nossas informa��es em algum lugar. Discutiremos isso mais tarde. Quer comer alguma coisa...?</p><p>� N�o. Vou me instalar na casa, fazer algumas compras e me familiarizar com o lugar. Amanh� irei a Hedestad comprar roupas de inverno.</p><p>� Boa id�ia.</p><p>� Gostaria que transferisse os arquivos relativos a Harriet para minha casa.</p><p>� Eles devem ser manipulados...</p><p>� ... com o maior cuidado, imagino eu.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael retornou � casa dos convidados batendo os dentes. Um term�metro diante da janela indicava quinze graus negativos, e ele n�o lembrava de alguma vez ter sentido tanto frio como ap�s esse passeio de apenas meia hora.</p><p>Ele dedicou a hora seguinte a se instalar na que haveria de ser a sua moradia naquele ano. Tirou as roupas da mala e as colocou no arm�rio do quarto. Artigos de toalete, no m�vel do banheiro. A segunda bagagem era uma volumosa mala com rodinhas; dela tirou livros, CDs, um MP3, blocos de anota��es, um gravador Sanyo, uma m�quina fotogr�fica digital Minolta e v�rios outros objetos que julgara indispens�veis para um ex�lio de um ano.</p><p>Distribuiu os livros e os CDs na estante da saleta de trabalho, ao lado de dois arquivos contendo documentos relativos � sua investiga��o sobre Hans-Erik Wennerstr�m. O material n�o tinha valor, mas Mikael n�o conseguia se desembara�ar dele. Como se os dois arquivos devessem se transformar, de uma maneira ou de outra, em elementos determinantes na continua��o de sua carreira.</p><p>Abriu por fim a bolsa e tirou de l� o notebook, que p�s sobre a mesa de trabalho. Depois deteve-se e olhou ao redor, com uma express�o est�pida no rosto. Da vantagem da vida no campo! Acabava de perceber que n�o havia tomada para o cabo. N�o havia sequer uma entrada de telefone para ligar um velho modem.</p><p>Mikael voltou � cozinha e, usando seu celular, ligou para a companhia telef�nica Telia. Depois de insistir um pouco, conseguiu convencer algu�m a localizar o pedido que Henrik Vanger fizera para a casa dos convidados. Perguntou se a linha tinha capacidade para ADSL e responderam-lhe que era poss�vel atrav�s de um ponto retransmissor em Hedeby, mas que levaria alguns dias.</p><p>Eram pouco mais de quatro da tarde quando Mikael terminou a arruma��o. P�s as meias grossas de l�, as botas e vestiu um pul�ver suplementar. Quando ia sair, deteve-se diante da porta: n�o lhe haviam dado as chaves da casa, e seu instinto de habitante de Estocolmo revoltava-se contra a id�ia de deixar a porta de entrada aberta. Voltou � cozinha e vasculhou as gavetas. Acabou por encontrar a chave pendurada num prego no guarda-comida.</p><p>O term�metro descera a menos dezessete. Mikael atravessou a ponte com passos r�pidos e subiu a encosta diante da igreja. O supermercado Konsum ficava a apenas trezentos metros. Encheu duas sacolas de papel com produtos b�sicos, que transportou para casa. Antes de cruzar a ponte uma segunda vez, passou pelo Caf� Susanne. Perguntou a uma mulher de cinquenta anos, atr�s do balc�o, se ela era a Susanne do letreiro e apresentou-se dizendo que provavelmente viria com regularidade durante algum tempo. Era o �nico fregu�s e Susanne ofereceu-lhe caf� para acompanhar o sandu�che que ele pediu. Mikael comprou tamb�m p�o e croissants. Pegou o <emphasis>Hedestads-Kuriren </emphasis>do mostru�rio de jornais e instalou-se numa mesa, de onde avistava a ponte e a igreja, cuja fachada estava iluminada e parecia, na obscuridade, um cart�o de Natal. Quatro ou cinco minutos foram suficientes para ler o jornal. A �nica informa��o interessante era um artigo curto que dizia que um representante da comunidade, Birger Vanger (liberal), queria investir no IT TechCent � um centro de desenvolvimento tecnol�gico em Hedestad. Ficou ali por meia hora, at� que o caf� fechasse, �s seis.</p><p>�s sete e meia, Mikael ligou para Erika, mas s� obteve como resposta uma voz dizendo que o telefone procurado n�o estava dispon�vel. Sentou-se no banco da cozinha e tentou ler um romance, que, pelo que dizia a quarta capa, era a estr�ia sensacional de uma adolescente feminista. O romance narrava as tentativas da autora de p�r ordem em sua vida sexual durante uma viagem a Paris, e Mikael se perguntou se o chamariam de feminista se ele pr�prio escrevesse um romance com um vocabul�rio de colegial sobre sua vida sexual. Provavelmente n�o. Uma das raz�es que levaram Mikael a comprar o livro era que o editor descrevia a estreante como "uma nova Carina Rydberg". Logo constatou que n�o era nada disso, nem no estilo nem no conte�do. Fechou o livro e come�ou a ler uma novela sobre Hopalong Cassidy numa <emphasis>Rekordmagasinet </emphasis>dos anos 1950.</p><p>Cada meia hora era pontuada por um breve toque do sino da igreja. Havia luz nas janelas da casa de Gunnar Nilsson, o faz-tudo do outro lado da estrada, mas Mikael n�o distinguia ningu�m no interior. A casa de Harald Vanger estava mergulhada na escurid�o. Por volta das nove da noite, um carro atravessou a ponte e desapareceu em dire��o ao promont�rio. Cerca de meia-noite, a ilumina��o da fachada da igreja se apagou. Aparentemente, resumiam-se a isso as distra��es que Hedeby oferecia numa noite de sexta-feira naquele come�o de janeiro. O sil�ncio era impressionante.</p><p>Tentou falar com Erika mais uma vez, e ouviu uma voz pedindo que deixasse uma mensagem. Fez isso, depois apagou a luz e foi se deitar. Seu �ltimo pensamento antes de dormir foi que corria o s�rio risco de enlouquecer com o isolamento em Hedeby.</p><p>Despertar num sil�ncio total foi completamente inusitado para ele. Mikael passou do sono profundo a um estado de vig�lia absoluta numa fra��o de segundos e em seguida permaneceu tranquilo, escutando. O frio reinava no c�modo. Virou a cabe�a e olhou o rel�gio que pusera num banquinho ao lado da cama: 7h08. Nunca acordava cedo e precisava de duas chamadas do despertador para levantar. Mas ali, despertado sem alarme, sentia-se repousado.</p><p>Esquentou �gua para o caf� antes de tomar um banho, onde foi subitamente invadido pela sensa��o prazerosa da autocontempla��o. Super-Blomkvist, o explorador das causas perdidas.</p><p>Ao mais leve toque, o misturador passava de uma �gua escaldante para uma �gua gelada. N�o havia jornal para ler no caf�-da-manh�. A manteiga congelara e n�o havia fatiador de queijo na gaveta dos talheres. L� fora, ainda estava tudo escuro. O term�metro indicava vinte e um graus negativos. Era um s�bado.</p><p>O ponto de �nibus na aldeia Hedeby ficava diante do supermercado Konsum, e Mikael iniciou seu ex�lio indo �s compras. Em Hedestad, desceu em frente � esta��o e foi at� o centro da cidade para comprar cal�ados de inverno, duas ceroulas, algumas camisas de flanela, uma jaqueta espessa, gorro de l� e luvas forradas. Na Teknikbutiken, encontrou um pequeno aparelho de televis�o com antena telesc�pica. O vendedor garantiu que na aldeia ele conseguiria captar pelo menos a rede nacional, e Mikael o fez prometer um reembolso caso n�o fosse verdade.</p><p>Inscreveu-se na biblioteca e emprestou dois romances policiais de Elizabeth George. Numa papelaria, adquiriu canetas e blocos de notas. Comprou tamb�m uma mochila para carregar suas novas aquisi��es.</p><p>Para terminar, comprou um ma�o de cigarros. Parara de fumar dez anos antes, mas tinha reca�das epis�dicas e estava sentindo uma necessidade s�bita de nicotina. P�s o ma�o no bolso da jaqueta sem abri-lo. A �ltima visita foi a uma �tica, onde procurou um produto de limpeza e encomendou novas lentes de contato.</p><p>Aproximadamente �s duas da tarde, j� de volta � ilha, estava retirando as etiquetas das roupas, quando ouviu a porta de entrada ser aberta. Uma mulher loura de uns cinquenta anos bateu na porta da cozinha ao entrar. Trazia um p�o-de-l� num prato.</p><p>� Bom dia, venho desejar as boas-vindas. Meu nome � Helen Nilsson, moro do outro lado da estrada. Somos vizinhos agora.</p><p>Mikael apertou-lhe a m�o e se apresentou.</p><p>� Sim, j� vi voc� na tev�. � agrad�vel ver luz acesa � noite na casa dos convidados.</p><p>Mikael preparou caf� � ela primeiro o recusou, mas acabou sentando-se � mesa da cozinha. Olhou pela janela.</p><p>� A� vem vindo Henrik com meu marido. Est�o trazendo caixas para o senhor, acredito.</p><p>Henrik Vanger e Gunnar Nilsson detiveram-se diante da casa com um carrinho de m�o e Mikael saiu depressa para cumprimentar os dois homens e ajudar a carregar quatro pesadas caixas. Depuseram-nas no ch�o, ao lado do aquecedor a lenha. Mikael serviu mais x�caras de caf� e cortou em fatias o p�o-de-l� de Helen.</p><p>Gunnar e Helen Nilsson eram pessoas simp�ticas. N�o pareciam muito curiosos de saber por que Mikael se achava em Hedestad � trabalhar para Henrik Vanger parecia-lhes uma explica��o suficiente. Mikael constatou que os Nilsson e Henrik Vanger tratavam-se de maneira muito natural, sem distin��o entre patr�o e empregados. Falavam da aldeia e de quem constru�ra a casa onde Mikael habitava. O casal corrigia Vanger quando sua mem�ria falhava; este, por sua vez, contou com humor a vez em que Gunnar Nilsson, ao voltar para casa tarde da noite, avistou o retardado mental da aldeia tentando entrar pela janela da casa dos convidados, e ent�o perguntou ao pobre-coitado por que n�o entrava pela porta, que n�o estava trancada. Gunnar Nilsson observou com ceticismo o pequeno aparelho de televis�o e convidou Mikael a ir � casa deles � noite, quando quisesse ver algum programa. Tinham uma parab�lica.</p><p>Henrik Vanger ficou mais um momento depois que os Nilsson foram embora. O velho explicou que preferia deixar o pr�prio Mikael fazer uma sele��o dos arquivos e que viria v�-lo se surgisse um problema. Mikael agradeceu, certo de que seria melhor assim.</p><p>Quando voltou a ficar a s�s, Mikael levou as caixas para a saleta de trabalho e come�ou a examinar seu conte�do.</p><p>As investiga��es pessoais de Henrik Vanger sobre o desaparecimento de sua jovem sobrinha haviam sido feitas ao longo de trinta e seis anos. Mikael tinha dificuldade de determinar se o interesse devia-se a uma obsess�o doentia ou se, com o passar do tempo, transformara-se num jogo intelectual. O certo � que o velho patriarca pusera m�os � obra com a aplica��o de um arque�logo amador. As pastas, enfileiradas, chegavam a quase sete metros.</p><p>Vinte e seis arquivos compunham a base do inqu�rito policial sobre o desaparecimento de Harriet. Era dif�cil para Mikael imaginar que um desaparecimento "normal" produzisse um resultado t�o volumoso. Henrik Vanger provavelmente exercera bastante influ�ncia para que a pol�cia de Hedestad seguisse todas as pistas, tanto as plaus�veis como as inconceb�veis.</p><p>Al�m do inqu�rito policial, havias pastas com recortes de imprensa, �lbuns de fotografias, mapas, suvenires, artigos de jornais sobre Hedestad e as empresas Vanger, o di�rio �ntimo de Harriet Vanger (relativamente pequeno), livros de escola, atestados de sa�de et cetera. Havia tamb�m uns quinze volumes encadernados, formato of�cio, de cem p�ginas cada um, que poderiam ser definidos como o di�rio de bordo pessoal das investiga��es de Henrik Vanger. Nesses pap�is o patriarca anotara, com letra cuidadosa, suas pr�prias reflex�es, suas id�ias, suas pistas que n�o levaram a nada e suas observa��es. Mikael folheou-os ao acaso. O texto era bem redigido e ele teve a impress�o de que esses volumes eram c�pias passadas a limpo de cadernos mais antigos. Para terminar, havia uns dez arquivos com material sobre diferentes membros da fam�lia Vanger; as p�ginas estavam datilografadas e haviam sido claramente redigidas por um longo per�odo.</p><p>Henrik Vanger conduzira a investiga��o contra a pr�pria fam�lia.</p><p>Por volta das sete da noite, Mikael ouviu um miado alto e abriu a porta da entrada. Um gato ruivo, diante dele, entrou correndo em busca de calor.</p><p>� Eu te entendo � disse Mikael.</p><p>O gato ficou algum tempo farejando tudo pela casa. Mikael despejou um pouco de leite numa travessa que o convidado n�o tardou a lamber. Depois o gato saltou para cima do banco e se enrolou, quieto, decidido a n�o sair dali.</p><p>Passava das dez da noite quando Mikael conseguiu ter uma id�ia clara do material e dispor tudo nas prateleiras numa ordem compreens�vel. Foi at� a cozinha, esquentou �gua para o caf� e preparou dois sandu�ches. Ofereceu um pouco de presunto e pat� de f�gado ao gato. N�o comera de forma adequada durante o dia, mas sentia-se estranhamente pouco preocupado com a alimenta��o. Depois de comer, tirou o ma�o de cigarros do bolso da jaqueta e o abriu.</p><p>Ouviu as mensagens do celular. Erika n�o chamara e ele tentou localiz�-la. Novamente obteve como resposta apenas a secret�ria eletr�nica.</p><p>Uma das primeiras provid�ncias de Mikael em sua investiga��o particular foi escanear o mapa de Hedeby�n. Colocou o nome dos moradores em cada casa, enquanto ainda os tinha na mem�ria ap�s a visita guiada por Henrik. Logo percebeu que o cl� Vanger oferecia uma galeria de personagens t�o vasta que ele precisaria de tempo para se familiarizar com cada um.</p><p>Um pouco antes da meia-noite, agasalhou-se, p�s os cal�ados novos e saiu para um passeio do outro lado da ponte. Tomou a estrada que costeava o canal abaixo da igreja. O gelo cobria o canal e o velho porto, mas ao longe podia-se ver uma faixa mais escura de �gua livre. A ilumina��o da fachada da igreja se apagou nesse meio-tempo e ele ficou cercado pela escurid�o. O frio era intenso e o c�u estrelado.</p><p>De repente, Mikael sentiu-se muito deprimido. N�o conseguia entender como pudera se deixar convencer a aceitar aquele trabalho insensato. Erika tinha raz�o, era perda de tempo. Ele deveria estar em Estocolmo agora � na cama com Erika, por exemplo �, preparando a ofensiva contra Hans-Erik Wennerstr�m. Mas mesmo isso n�o o animava e ele n�o fazia a menor id�ia de como iniciar uma estrat�gia de ataque.</p><p>Se n�o fosse t�o tarde, teria procurado Henrik Vanger para romper o contrato e voltar para casa. Do alto da colina da igreja, podia constatar que a casa Vanger j� estava em sil�ncio e com as luzes apagadas. Da igreja, via todas as moradias da ilha. A casa de Harald tamb�m estava �s escuras, mas havia luz na de Cecilia e na mans�o de Martin na ponta do promont�rio, e tamb�m uma l�mpada acesa na casa alugada. Pr�ximo ao porto de recreio, via-se luz na casa de Eugen Norman, o pintor que morava no barraco com frestas, cuja chamin� expelia fagulhas. Tamb�m o andar superior do Caf� Susanne estava iluminado e Mikael se perguntou se ela morava ali e, nesse caso, se vivia sozinha.</p><p>Mikael dormiu at� tarde no domingo e despertou, assustado, com um alarido irreal dominando toda a casa. Precisou de um segundo para se localizar e entender que eram os sinos chamando para a missa, e que portanto deviam ser quase onze horas. Ficou mais um pouco na cama, sem vontade de nada. Quando ouviu um miado exigente diante da porta, levantou-se e deixou o gato sair.</p><p>Perto do meio-dia, tomou um banho e fez o desjejum. Entrou decididamente na saleta de trabalho e pegou o primeiro arquivo do inqu�rito policial. Depois hesitou. Da janela lateral da casa, avistou o letreiro do Caf� Susanne, p�s o arquivo na bolsa e vestiu a jaqueta. Ao chegar ao caf�, viu que estava abarrotado de fregueses e ent�o teve a resposta a uma pergunta que lhe martelava a cabe�a: como um caf� pode sobreviver num buraco como a aldeia de Hedeby? Susanne contava com os fi�is que iam � igreja e com as refei��es ligeiras ap�s os enterros e outras cerim�nias.</p><p>Optou por uma caminhada. Como o Konsum fechava aos domingos, andou mais umas centenas de metros pela estrada de Hedestad, onde comprou jornais na loja de conveni�ncias de um posto de gasolina. Dedicou uma hora andando a p� pela aldeia e se familiarizando com os arredores em terra firme. A �rea mais pr�xima da igreja e diante do Konsum constitu�a o n�cleo, com edifica��es antigas, sobrados de pedra que Mikael julgou constru�dos nos anos 1910 ou 1920, alinhados para formar uma pequena rua. No come�o da via de acesso a Hedestad, erguiam-se pequenos pr�dios de apartamento para fam�lias com filhos e, mais adiante, junto � margem e do lado sul do supermercado, algumas mans�es. A aldeia Hedeby era sem d�vida onde moravam as pessoas abastadas de Hedestad.</p><p>Quando voltou a se aproximar da ponte, o Caf� Susanne j� n�o estava t�o cheio, mas a propriet�ria ainda limpava as mesas.</p><p>� Rush de domingo? � ele comentou ao entrar.</p><p>Ela concordou com a cabe�a e ajeitou uma mecha de cabelos atr�s da orelha.</p><p>� Bom dia, senhor Mikael.</p><p>� Lembra o meu nome?</p><p>� Dif�cil n�o lembrar � ela respondeu. � Eu o vi na tev�, no julgamento antes do Natal.</p><p>Mikael sentiu-se constrangido.</p><p>� Eles precisam ocupar os notici�rios com alguma coisa � murmurou, apressando-se em dire��o � mesa de canto, de onde podia avistar a ponte. Quando seu olhar cruzou com o de Susanne, ela sorria.</p><p>�s tr�s da tarde, Susanne avisou que o caf� ia fechar. Ap�s a aflu�ncia de clientes depois da missa, raros fregueses apareceram. Mikael lera pouco mais de um quinto do primeiro arquivo do inqu�rito policial sobre o desaparecimento de Harriet. Tornou a fech�-lo, p�s o bloco de anota��es na bolsa e atravessou a ponte com passos r�pidos, de volta para casa.</p><p>O gato esperava junto � porta e Mikael olhou ao redor perguntando-se a quem pertencia aquele gato. Mesmo assim deixou que ele entrasse, afinal era alguma companhia.</p><p>Tentou outra vez o celular de Erika, mas de novo caiu na secret�ria eletr�nica. Ela estava certamente furiosa com ele. Poderia ter ligado direto para a reda��o ou para a casa dela, mas, teimoso como era, decidiu n�o fazer isso. J� deixara mensagens suficientes. Preparou um caf�, conduziu o gato ao banco da cozinha e abriu o arquivo em cima da mesa.</p><p>Lia devagar, concentrando-se para n�o deixar escapar detalhes. Quando voltou a fechar o arquivo, tarde da noite, enchera v�rias p�ginas do seu bloco com pontos de refer�ncia e perguntas cuja resposta esperava encontrar nos arquivos seguintes. Tudo estava organizado em ordem cronol�gica; n�o sabia ao certo se Henrik Vanger classificara assim ou se era esse o sistema da pol�cia nos anos 1960.</p><p>A primeira folha era a fotoc�pia de um formul�rio de declara��o, preenchido � m�o, do comissariado central da pol�cia de Hedestad. O agente que atendera o chamado assinara Ap Ryttinger, o que Mikael interpretou como "agente de plant�o". Henrik Vanger fora designado como declarante, seu endere�o e n�mero de telefone estavam anotados. O relat�rio trazia a data: domingo, 23 de setembro de 1966, 11h 14. O texto era breve e seco:</p><p><emphasis/></p><p><emphasis>Chamado de Hrk Vanger inf. que sua sobrinha </emphasis>(?) <emphasis>Harriet Ulrika Vanger, nascida em 15 jan. 1950 (16 anos), desapareceu do seu domic�lio na ilha Hedeby desde s�bado � tarde. O declarante demonstra grande inquieta��o.</emphasis></p><p>�s 11h20, uma nota estabelecia que P-014 (policial? patrulha? piloto de uma lancha?) fora despachado ao local.</p><p>�s 1 lh35, outro texto, mais dif�cil de interpretar que o de Ryttinger, acrescentava que <emphasis>Magnusson inf. ponte Hedeby ilha cont. fechada. Transp. por barco. </emphasis>Na margem, a assinatura era ileg�vel.</p><p>�s 12hl4, Ryttinger novamente: <emphasis>Chamada tel. Magnusson em H-by inf. que Harriet Vanger, 16 anos, est� ausente desde come�o tarde de s�bado. Fam. demonstra grande inquieta��o. Aparentemente n�o dormiu em sua cama. N�o p�de deixar ilha por causa acidente na ponte. Nenhum dos membros da fam�lia sabe onde HV se encontra.</emphasis></p><p>�s 12h l9: G. M. <emphasis>informado do caso por tel.</emphasis></p><p>A �ltima informa��o fora anotada �s 13h42: G. M. <emphasis>chegou a H-by; encarrega-se do caso.</emphasis></p><p>A folha seguinte revelava que as misteriosas iniciais G. M. referiam-se a Gustav Morell, um inspetor de pol�cia que chegara de barco � ilha Hedeby, assumira o comando das opera��es e fizera uma declara��o formal sobre o desaparecimento de Harriet Vanger. Ao contr�rio das notas preliminares com suas abrevia��es, os relat�rios de Morell estavam escritos � m�quina e numa prosa leg�vel. Nas p�ginas seguintes, ele relatava as medidas que haviam sido tomadas com uma objetividade e uma riqueza de detalhes que surpreenderam Mikael.</p><p>Morell fora sistem�tico. Primeiro interrogara Henrik Vanger em companhia de Isabella Vanger, a m�e de Harriet. A seguir falara sucessivamente com Ulrika Vanger, Harald Vanger, Greger Vanger, com o irm�o de Harriet, Martin Vanger, e Anita Vanger. Mikael concluiu que essas pessoas haviam sido interrogadas segundo uma esp�cie de escala de import�ncia decrescente.</p><p>Ulrika Vanger era a m�e de Henrik e parecia ter um estatuto semelhante ao de uma rainha-m�e. Ulrika morava na casa Vanger e n�o tinha nenhuma informa��o para dar. Fora deitar-se cedo na v�spera e fazia dias n�o via Harriet. Na verdade, ela s� insistira em falar com o inspetor Morell para expressar sua opini�o de que a pol�cia devia agir imediatamente.</p><p>Harald Vanger era o irm�o de Henrik e o n�mero dois na lista dos membros influentes da fam�lia. Ele explicava que tinha visto Harriet muito rapidamente quando ela voltou do desfile em Hedestad, mas que n�o a vira desde que o acidente ocorrera na ponte e n�o sabia onde ela se encontrava no momento.</p><p>Greger Vanger, irm�o de Henrik e Harald, declarava que vira a jovem desaparecida quando ela tinha ido ao escrit�rio de Henrik pedir para conversar com o tio-av� ap�s sua ida a Hedestad, na manh� de s�bado. Greger acrescentava que n�o dirigira a ela sen�o um bom-dia. N�o sabia onde ela podia estar, mas achava que decerto fora � casa de alguma colega sem avisar ningu�m e que seguramente n�o tardaria a voltar. N�o soube responder � pergunta de como, ent�o, ela teria deixado a ilha.</p><p>Martin Vanger fora interrogado �s pressas. Aluno do �ltimo ano num col�gio de Uppsala, morava nessa cidade na casa de Harald Vanger. Como n�o houve lugar para ele no carro de Harald, viera de trem a Hedeby. Chegou t�o tarde que ficou preso do outro lado da ponte e s� p�de chegar � ilha tarde da noite, de barco. Fora interrogado na esperan�a de que a irm� pudesse ter se aberto com ele e talvez confessado a inten��o de fugir. A pergunta fora recebida com protestos da m�e de Harriet, mas o inspetor Morell julgou naquele instante que uma fuga representava antes uma esperan�a. Martin, por�m, n�o falava com a irm� desde as �ltimas f�rias e n�o tinha nenhuma informa��o importante a dar.</p><p>Anita Vanger, a filha de Harald, era apresentada, de maneira err�nea, como "prima" de Harriet� na realidade, Harriet era filha do primo de Anita. Estava no primeiro ano da faculdade em Estocolmo e passara o ver�o em Hedeby. Tinha quase a mesma idade que Harriet e as duas eram muito amigas. Ela declarava que chegara � ilha com o pai no s�bado, que se alegrara em poder rever Harriet, mas que n�o tivera tempo para isso. Anita dizia-se inquieta porque n�o era pr�prio de Harriet desaparecer sem dizer nada � fam�lia. Nisso concordava tanto com Henrik quanto com Isabella Vanger.</p><p>Enquanto interrogava os membros da fam�lia, o inspetor Morell ordenara aos agentes de pol�cia Magnusson e Bergman � a patrulha 014! � que organizassem uma primeira busca antes do anoitecer. A ponte continuava fechada, era dif�cil trazer refor�os do continente; o primeiro grupo de busca foi formado por cerca de trinta pessoas dispon�veis, homens e mulheres de idades variadas. At� o final da tarde foram examinadas as cabanas desabitadas no porto de recreio, as praias do promont�rio e as margens do canal, a parte arborizada perto do povoado e tamb�m o monte Sul, acima do porto de recreio, isso depois de algu�m sugerir que Harriet talvez tivesse subido l� para obter uma boa vis�o geral do acidente na ponte. Patrulhas foram igualmente enviadas a �stergarden e ao chal� de Gottfried do outro lado da ilha, para onde Harriet ia de vez em quando.</p><p>No entanto as buscas n�o deram em nada e foram interrompidas com a noite j� avan�ada, por volta das dez horas. Na madrugada, a temperatura ca�ra a zero grau.</p><p>Durante a tarde, o inspetor Morell instalara seu QG numa sala que Henrik Vanger pusera � sua disposi��o no andar t�rreo da casa Vanger. Ele tomou uma s�rie de provid�ncias.</p><p>Acompanhado de Isabella Vanger, inspecionou o quarto de Harriet para tentar descobrir se faltava alguma coisa, roupas, uma sacola ou algo semelhante que pudesse indicar que Harriet fugira, Isabella, pouco prestativa, n�o parecia ter a menor id�ia do guarda-roupa da filha. <emphasis>Ela geralmente veste jeans, mas s�o todos parecidos. </emphasis>A bolsa de Harriet foi encontrada em cima da escrivaninha. Continha sua carteira de identidade, um porta-moedas com nove coroas e cinquenta centavos, um pente, um espelhinho e um len�o. Ap�s a inspe��o, o quarto de Harriet foi lacrado.</p><p>Morell interrogou outras pessoas, tanto membros da fam�lia quanto empregados. Todos os interrogat�rios foram minuciosamente registrados.</p><p>Como os participantes da primeira batida iam voltando aos poucos e sem informa��es proveitosas, o inspetor decidiu realizar buscas mais sistem�ticas. No come�o da noite, refor�os foram chamados; Morell entrou em contato, entre outros, com o presidente do clube de orienta��o de Hedestad, pedindo-lhe que convocasse seus membros para uma batida. Por volta da meia-noite, responderam-lhe que cinquenta e tr�s atletas ativos, sobretudo da categoria j�nior, estariam na casa Vanger �s sete da manh� do dia seguinte. A contribui��o de Henrik Vanger fora convocar, pura e simplesmente, toda a equipe da manh� da f�brica de papel Vanger local, cinquenta homens, al�m de providenciar bebida e comida para todo esse pessoal.</p><p>Mikael Blomkvist n�o teve nenhuma dificuldade em imaginar as cenas que devem ter se passado na casa Vanger durante aqueles dias repletos de acontecimentos. Estava claro que o acidente na ponte contribu�ra para a confus�o das primeiras horas, seja complicando a possibilidade de obter refor�os eficazes, seja porque todos achavam que dois acontecimentos t�o dram�ticos ocorridos no mesmo lugar e na mesma hora tinham necessariamente uma liga��o. Depois que retiraram o caminh�o-tanque da ponte, contra todas as probabilidades, o inspetor Morell fora certificar-se pessoalmente de que Harriet n�o se achava sob os destro�os. Foi a �nica a��o irracional que Mikael identificou nos procedimentos do inspetor, pois a jovem desaparecida fora comprovadamente vista na ilha depois de ocorrido o desastre. No entanto, sem que pudesse explicar a si mesmo por qu�, o respons�vel pelas investiga��es n�o conseguia tirar da cabe�a a id�ia de que um dos acontecimentos havia, de algum modo, provocado o outro.</p><p>As primeiras vinte e quatro horas viram minguar as esperan�as de um desfecho r�pido e feliz do caso, substitu�das gradualmente por duas especula��es. Apesar das dificuldades evidentes de poder abandonar a ilha sem ser vista, Morell n�o queria excluir a possibilidade de Harriet ter fugido. Decidiu ampliar as buscas e ordenou que os policiais da patrulha em Hedestad ficassem de olhos abertos. Tamb�m passou a um colega da divis�o criminal a tarefa de interrogar motoristas de �nibus e o pessoal da ferrovia, para o caso de algu�m a ter visto.</p><p>Quanto mais respostas negativas chegavam, mais parecia prov�vel que Harriet fora v�tima de um acidente. Essa hip�tese passou a dominar a organiza��o das buscas nos dias seguintes.</p><p>Dois dias depois do desaparecimento, uma grande batida foi realizada, e, de acordo com a avalia��o de Mikael Blomkvist, com a maior compet�ncia. Policiais e bombeiros com experi�ncia em casos semelhantes comandaram as buscas. Embora houvesse algumas �reas de dif�cil acesso, a superf�cie era limitada e a ilha inteira foi submetida a uma opera��o pente-fino. Um barco da pol�cia e dois de recreio, volunt�rios, sondaram da melhor maneira poss�vel as �guas ao redor da ilha.</p><p>No dia seguinte, as buscas foram retomadas com uma equipe reduzida. Dessa vez, patrulhas foram enviadas a uma segunda batida nos pontos de acesso mais dif�cil, bem como numa �rea chamada "A Fortifica��o" � um conjunto de bunkers abandonados que a defesa costeira havia montado durante a Segunda Guerra. Assim foram examinados nesse dia todos os pequenos redutos, po�os, grutas, dep�sitos e por�es do povoado.</p><p>Podia-se ler uma certa frustra��o numa nota de servi�o que anunciava a interrup��o das buscas no terceiro dia ap�s o desaparecimento. Naturalmente Gustav Morell ainda n�o tinha consci�ncia disto, mas naquele instante, na realidade, ele havia atingido o ponto culminante de suas buscas, o qual jamais ultrapassaria. Mergulhado na maior perplexidade, n�o sabia como recomendar a pr�xima etapa l�gica ou um local onde as buscas devessem recome�ar. Harriet Vanger aparentemente sumira no ar, e o calv�rio de Henrik Vanger, que haveria de prosseguir por quarenta anos, estava apenas come�ando.</p><empty-line/><p><strong>9. SEGUNDA-FEIRA 6 DE JANEIRO � QUARTA-FEIRA 8 DE JANEIRO</strong></p><p>Mikael continuou lendo at� o amanhecer e levantou-se tarde no Dia de Reis. Um Volvo azul-marinho, �ltimo tipo, estava estacionado diante da casa de Henrik Vanger. No momento em que Mikael punha a m�o na ma�aneta da porta, ela se abriu e um homem de uns cinquenta anos saiu. Por pouco n�o colidiram. O homem parecia apressado.</p><p>� Sim, posso ajud�-lo?</p><p>� Vim ver Henrik Vanger � respondeu Mikael.</p><p>O olhar do homem se abrandou. Ele sorriu e estendeu a m�o.</p><p>� Voc� deve ser Mikael Blomkvist, o homem que vai ajudar Henrik a fazer a cr�nica da fam�lia, n�o?</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a e apertou-lhe a m�o. Aparentemente, Henrik j� come�ara a espalhar a hist�ria que, para todos os efeitos, explicaria a presen�a de Mikael em Hedestad. O homem tinha excesso de peso � resultado dos muitos anos de estresse em escrit�rios e salas de reuni�o �, mas Mikael notou imediatamente em seu rosto tra�os que lembravam Harriet Vanger.</p><p>� Sou Martin Vanger � ele confirmou. � Bem-vindo a Hedestad.</p><p>� Obrigado.</p><p>� Vi voc� na televis�o n�o faz muito tempo.</p><p>� Tenho a impress�o de que o mundo todo me viu na televis�o.</p><p>� Wennerstr�m n�o �... muito popular nesta casa.</p><p>� Foi o que Henrik me disse. Estou esperando o desenrolar da hist�ria.</p><p>� Ele me contou outro dia que o havia contratado. � Martin Vanger deu uma risada. � Disse-me que foi provavelmente por causa de Wennerstr�m que voc� aceitou este trabalho.</p><p>Mikael hesitou um segundo antes de se decidir a falar com franqueza.</p><p>� Admito que � uma das raz�es. Mas, para ser franco, estava precisando me afastar de Estocolmo, e Hedestad apareceu na hora certa, acho. N�o posso fazer de conta que o processo n�o existiu. Terei que cumprir uma pena de pris�o.</p><p>Martin Vanger assentiu com a cabe�a e voltou a ficar s�rio.</p><p>� Voc� tem a possibilidade de recorrer?</p><p>� No meu caso n�o adiantaria nada. Martin consultou seu rel�gio.</p><p>� Preciso estar em Estocolmo hoje � noite. Estou com pressa, voltarei dentro de alguns dias. V� jantar l� em casa qualquer dia. Tenho muita vontade de ouvir o que realmente se passou nesse processo.</p><p>Apertaram-se de novo as m�os antes de Martin descer e abrir a porta do Volvo. Ele se virou e disse a Mikael:</p><p>� Henrik est� no andar de cima. V� at� l�.</p><p>Henrik Vanger estava sentado no sof� de seu escrit�rio com o <emphasis>Hedestads-Kuriren, </emphasis>o <emphasis>Dagens Industri, </emphasis>o <emphasis>Svenska Dagbladet </emphasis>e os dois jornais vespertinos sobre a mesa diante dele.</p><p>� Encontrei Martin na entrada.</p><p>� Est� partindo em socorro do imp�rio � respondeu Henrik, brandindo a garrafa t�rmica. � Caf�?</p><p>� Sim, aceito � respondeu Mikael. Sentou-se, perguntando-se por que Henrik Vanger parecia divertir-se tanto.</p><p>� Est�o falando de voc� no jornal.</p><p>Henrik Vanger empurrou um dos jornais da noite, aberto na manchete "Curto-circuito jornal�stico". O artigo era escrito por um ex-cronista do <emphasis>Finansmagasinet Monopol, </emphasis>o perfeito ins�pido de terno e gravata, especialista na arte de denegrir todos os que se engajavam em alguma causa ou que ousavam levantar a cabe�a. Feministas, anti-racistas e militantes do meio ambiente podiam contar com suas farpas, sem que ele pr�prio emitisse nenhuma opini�o pass�vel de controv�rsia. Mas agora, aparentemente, convertera-se em cr�tico; semanas ap�s o julgamento do caso Wennerstr�m, passou a focalizar suas energias contra Mikael Blomkvist, que descrevia com todas as letras como um verdadeiro idiota. Erika Berger era pintada como um vaso decorativo da m�dia, perfeitamente incompetente:</p><p>Corre o rumor de que a <emphasis>Millennium </emphasis>est� sucumbindo, embora sua diretora seja uma feminista de minissaia e desfile seu mau humor na tev�. Por v�rios anos a revista sobreviveu da imagem que a reda��o conseguiu vender � a de jovens rep�rteres �vidos por investiga��es que desmascaram os vigaristas do mundo dos neg�cios. O truque comercial talvez funcione com jovens anarquistas desejosos de ouvir essa mensagem, mas n�o funciona no tribunal. E o Super-Blomkvist acaba de comprovar isso.</p><p>Mikael verificou no celular se havia alguma chamada de Erika. N�o havia nenhuma. Henrik Vanger esperava, silencioso. Mikael percebeu de repente que o velho pretendia que ele interrompesse o sil�ncio.</p><p>� Ele � um cretino � disse Mikael.</p><p>Henrik riu, mas acrescentou um coment�rio desprovido de qualquer sentimentalismo:</p><p>� � poss�vel. Mas n�o foi ele que foi condenado pela Justi�a.</p><p>� � verdade. E tamb�m nunca ser�. N�o � o tipo que gosta de investigar, pega sempre o trem em marcha e joga a �ltima pedra nos termos mais degradantes poss�veis.</p><p>� Cansei de encontrar gente assim na minha vida. Um bom conselho, se � que quer aceitar um conselho meu: ignore-o quando ele estiver provocando, nunca esque�a nada e d�-lhe o troco quando puder. Mas n�o agora que ele ataca em posi��o de for�a.</p><p>Mikael o interrogou com o olhar.</p><p>� Tive numerosos inimigos ao longo dos anos e aprendi uma coisa: n�o aceitar o combate quando � certo que se vai perder. Em compensa��o, jamais d� folga a quem o demoliu. Seja paciente e responda quando estiver em posi��o de for�a, mesmo que n�o haja mais necessidade de responder.</p><p>� Obrigado por essa aula de filosofia. Mas agora gostaria que me falasse da sua fam�lia. � Mikael colocou um gravador na mesa entre os dois e acionou a tecla.</p><p>� O que deseja saber?</p><p>� Li o primeiro arquivo, sobre o desaparecimento de Harriet e as buscas dos primeiros dias. Mas h� tantos Vanger que n�o consigo distinguir um do outro.</p><p>Im�vel no <emphasis>hall </emphasis>do elevador vazio, Lisbeth Salander permaneceu durante cerca de dez minutos com o olhar fixo na placa de metal amarelo que anunciava Dr. N. E. Bjurman, advogado, antes de tocar a campainha. A fechadura da porta emitiu um pequeno estalo.</p><p>Era ter�a-feira. Era o segundo encontro e ela tinha maus pressentimentos.</p><p>N�o que tivesse medo do dr. Bjurman � Lisbeth Salander raramente tinha medo das pessoas ou das coisas. Mas sentia um profundo mal-estar diante desse novo tutor. O predecessor de Bjurman, o dr. Holger Palmgren, tinha uma �ndole bem diferente; correto, cort�s e am�vel. Sua rela��o com ele terminara brutalmente tr�s meses antes, Palmgren sofrera um derrame cerebral. E Nils Erik Bjurman o sucedera segundo uma l�gica administrativa que ela n�o entendia.</p><p>Durante os doze anos em que Lisbeth Salander foi objeto de cuidados sociais e psiqui�tricos, dois deles passados numa cl�nica pedi�trica, em nenhum momento ela respondeu � nem uma vez sequer � � simples pergunta "Como voc� est� se sentindo hoje?".</p><p>Lisbeth Salander tinha treze anos quando o tribunal de primeira inst�ncia, cumprindo a lei de prote��o a menores, decidiu que ela deveria ser internada na cl�nica de psiquiatria infantil Sankt Stefan, em Uppsala. A decis�o se baseava principalmente num parecer segundo o qual ela apresentava dist�rbios psiqui�tricos e era considerada potencialmente perigosa para seus colegas de classe e eventualmente para si mesma.</p><p>Essa suposi��o se apoiava mais em julgamentos emp�ricos do que numa an�lise cuidadosa. Cada tentativa de m�dicos e professores para iniciar uma conversa sobre seus sentimentos, seus pensamentos ou seu estado de sa�de sempre esbarrara, para grande frustra��o deles, num sil�ncio compacto, obtuso e num olhar obstinadamente dirigido ao ch�o, ao teto e �s paredes. Ela cruzava os bra�os de modo sistem�tico e se recusava a participar de testes psicol�gicos. Sua total resist�ncia a todas as tentativas de medi-la, pes�-la, cartograf�-la, analis�-la e educ�-la se aplicava tamb�m aos trabalhos escolares � as autoridades podiam lev�-la a uma sala de aula e acorrent�-la � carteira, mas n�o podiam impedi-la de tapar os ouvidos e de se recusar a pegar uma caneta na hora dos testes. Ela deixou a escola sem um boletim de avalia��o.</p><p>O simples estabelecimento de um diagn�stico sobre seus problemas mentais revelou-se, portanto, algo complicado. Lisbeth Salander era tudo, menos uma pessoa manej�vel.</p><p>Tinha treze anos quando foi tomada tamb�m a decis�o de atribuir-lhe um administrador <emphasis>ad hoc </emphasis>para zelar por seus interesses e bens at� a maioridade. O administrador designado, o advogado Holger Palmgren, apesar de um come�o relativamente dif�cil, foi bem-sucedido onde psiquiatras e m�dicos fracassaram. Aos poucos, ganhou n�o apenas uma certa confian�a mas tamb�m uma pequena afei��o dessa menina complicada.</p><p>Quando completou quinze anos, os m�dicos puseram-se mais ou menos de acordo sobre ela n�o ser violenta e perigosa e n�o constituir um perigo para si mesma. Como sua fam�lia fora declarada incompetente, e n�o havendo mais ningu�m que pudesse se responsabilizar por seu bem-estar, decidiu-se que Lisbeth Salander poderia deixar a cl�nica de Uppsala e retornar � sociedade por interm�dio de uma fam�lia substituta.</p><p>A opera��o n�o foi simples. Ela fugiu da casa da primeira fam�lia substituta j� na segunda semana. As fam�lias n�mero 2 e n�mero 3 tamb�m foram descartadas rapidamente. Palmgren teve ent�o uma conversa s�ria com ela e explicou que, se prosseguisse naquele caminho, fatalmente acabaria voltando a uma institui��o. A falsa amea�a fez que ela aceitasse a fam�lia n�mero 4 � um casal idoso que morava em Midsommarkransen.</p><p>Isso n�o quis dizer que ela se transformou em uma mo�a bem-comportada. Com dezessete anos, Lisbeth Salander foi detida pela pol�cia quatro vezes, duas delas num estado de embriaguez t�o avan�ado que precisou ser levada ao hospital, e uma vez sob o efeito de drogas. Numa dessas ocasi�es, encontraram-na completamente b�bada e com as roupas em desordem no banco traseiro de um carro estacionado na S�der M�larstrand. Estava acompanhada de um homem tamb�m embriagado e consideravelmente mais velho que ela.</p><p>A �ltima interven��o ocorrera tr�s semanas antes de ela completar dezoito anos, quando desferiu um pontap� na cabe�a de um passageiro na esta��o de metr� de Gamla Stan. Estava perfeitamente s�bria. O incidente lhe valeu um indiciamento por insulto e agress�o. Salander justificou o gesto dizendo que o homem a bolinara e, como sua apar�ncia era de algu�m de doze e n�o de dezoito anos, ela achou que o bolinador tinha tend�ncias ped�filas. Na medida, � claro, em que conseguiu explicar alguma coisa. Contudo, suas declara��es foram sustentadas por testemunhas e o promotor arquivou o caso.</p><p>Mesmo assim, com base em informa��es sobre seu passado, o tribunal ordenou um exame psiqui�trico. Fiel a seus h�bitos, ela se recusou a responder �s perguntas e a participar dos exames, e os m�dicos consultados pela dire��o de Sa�de e Assist�ncia Social acabaram dando um parecer sobre "suas observa��es da paciente". O que exatamente se podia observar no caso de uma jovem sempre calada, sentada de bra�os cruzados e com express�o amuada, era um tanto vago. Ficou estabelecido apenas que ela sofria de problemas ps�quicos que requeriam tratamento. O relat�rio m�dico-legal preconizava um acompanhamento numa institui��o psiqui�trica. Paralelamente, um subdiretor da comiss�o de assist�ncia social redigiu um relat�rio no qual constavam as conclus�es da per�cia psiqui�trica.</p><p>Referindo-se ao quadro de Lisbeth Salander, o relat�rio mencionava <emphasis>um grande risco de abuso de �lcool ou de drogas e falta de instinto de preserva��o. </emphasis>Seu caso era descrito em termos categ�ricos: <emphasis>introvertida, socialmente limitada, aus�ncia de empatia, egoc�ntrica, comportamento psicopata e anti-social, dificuldades de colabora��o e de aprendizado. </emphasis>Quem lesse o dossi� podia facilmente concluir que ela tinha um grave retardo. Outro fato tamb�m a prejudicava: a equipe de interven��o dos servi�os sociais a observara diversas vezes na companhia de diferentes homens nos arredores da rua Mariatorget. Certa vez, fora tamb�m interpelada no parque Tantolunden, de novo acompanhada de um homem consideravelmente mais velho. Supunha-se que, de uma forma ou de outra, Lisbeth Salander praticava, ou corria o risco de come�ar a praticar, a prostitui��o.</p><p>No dia em que o tribunal de primeira inst�ncia � a jurisdi��o � qual cabia determinar seu futuro � se reuniu para tomar uma decis�o sobre o caso, a sa�da parecia tra�ada de antem�o. Sendo manifestamente uma jovem com problemas, era pouco prov�vel que os magistrados seguissem outro caminho que n�o as recomenda��es dadas pelo inqu�rito social e pelo inqu�rito de psiquiatria legal.</p><p>Na manh� do dia em que deveria comparecer ao tribunal, foram buscar Lisbeth Salander na cl�nica psiqui�trica onde ela estava internada desde o incidente na esta��o de Gamla Stan. Ela se sentia como um boi no matadouro, sem a menor esperan�a de sobreviv�ncia. A primeira pessoa que avistou na sala de audi�ncia foi Holger Palmgren, e ela demorou um momento at� entender que ele n�o estava ali na qualidade de administrador, mas como seu advogado e conselheiro jur�dico. Descobriu ent�o um novo aspecto desse homem.</p><p>Para sua grande surpresa, Palmgren estava a seu lado no canto do ringue e argumentou vigorosamente contra a proposta de interna��o. Ela n�o deixou transparecer surpresa nem sequer erguendo uma sobrancelha, mas escutou intensamente cada palavra pronunciada por ele. Palmgren mostrou-se brilhante durante as duas horas em que interrogou o dr. Jesper H. L�derman, o m�dico que assinara a recomenda��o de encerrar Salander numa institui��o. Tudo o que o relat�rio dizia foi discutido e o m�dico chamado a explicar o fundamento cient�fico de cada afirma��o. Aos poucos ficou evidente, visto que a paciente se recusara a se submeter aos testes, que as conclus�es m�dicas se baseavam apenas em suposi��es e n�o numa certeza.</p><p>No final das delibera��es do tribunal, Palmgren deu a entender que, muito provavelmente, uma interna��o coercitiva n�o apenas se opunha �s decis�es do Parlamento sobre quest�es desse g�nero mas tamb�m podia se tornar um cavalo de batalha para os pol�ticos e a m�dia. Portanto, era do interesse de todos encontrar uma alternativa conveniente. Tal linguagem n�o era habitual nas delibera��es desse tipo de caso, e os membros do tribunal manifestaram certa inquieta��o.</p><p>A solu��o foi, de fato, um acordo pol�tico. O tribunal de primeira inst�ncia estabeleceu que Lisbeth Salander sofria de doen�a mental, mas que sua loucura n�o requeria necessariamente interna��o. Em troca, levou-se em conta a recomenda��o, feita pelo diretor da assist�ncia social, de uma tutela. Ao que o presidente do tribunal se virou com um sorriso venenoso em dire��o a Holger Palmgren, que at� ent�o fora o administrador <emphasis>ad hoc </emphasis>de Salander, perguntando-lhe se aceitava assumir esse papel. O presidente esperava evidentemente que o advogado recuasse e tentasse tirar o corpo fora, mas Palmgren declarou, ao contr�rio, que se encarregaria com prazer da tarefa de tutoriar a srta. Salander � com uma condi��o.</p><p>"Isso pressup�e, evidentemente, que a senhorita Salander tenha confian�a em mim e me aceite como tutor."</p><p>E virou-se para ela. Lisbeth Salander estava um pouco perplexa ap�s as trocas de r�plicas disparadas acima de sua cabe�a ao longo de toda a jornada. At� ent�o, nunca ningu�m pedira sua opini�o. Ela olhou demoradamente para Holger Palmgren e ent�o assentiu com a cabe�a uma vez.</p><p>Palmgren era uma mistura estranha de jurista e trabalhador social da velha escola. No in�cio da carreira, fora membro da comiss�o de assist�ncia social e dedicara quase toda a vida a lidar com crian�as dif�ceis. Um respeito constrangido, que beirava a amizade, se estabeleceu entre o advogado e sua protegida incomparavelmente mais dif�cil.</p><p>A rela��o dos dois durou onze anos, desde os treze anos de Lisbeth at� o final do ano anterior, quando ela fora � casa de Palmgren algumas semanas antes do Natal, j� que ele n�o comparecera a um de seus encontros marcados. Como ele n�o abriu a porta, embora se ouvissem ru�dos no apartamento, ela entrou por fora, escalando um tubo de escoamento pluvial at� a sacada do quarto andar. Encontrou-o estendido no vest�bulo, consciente mas incapaz de falar e de se mover ap�s um derrame cerebral. Ela chamou a ambul�ncia e o acompanhou ao hospital com uma sensa��o crescente de p�nico no est�mago. Durante tr�s dias e tr�s noites, ela praticamente n�o deixou o corredor da UTI. Como um c�o de guarda fiel, vigiava cada passo dos m�dicos e enfermeiras que entravam e sa�am. Andava pelo corredor de um lado para o outro e cravava os olhos em cada m�dico que se aproximava dela. Finalmente, um m�dico, cujo nome ela nunca soube, a introduziu numa sala e lhe explicou a gravidade da situa��o. O estado de Holger Palmgren era cr�tico ap�s uma grave hemorragia cerebral. Provavelmente n�o recuperaria a consci�ncia. Tinha apenas sessenta e quatro anos. Ela n�o chorou nem demonstrou o menor sentimento. Levantou-se, deixou o hospital e nunca mais retornou.</p><p>Cinco semanas depois, a comiss�o de tutelas convocou Lisbeth Salander para um primeiro encontro com o novo tutor. Seu primeiro impulso foi ignorar a convoca��o, mas Holger Palmgren inculcara cuidadosamente em sua consci�ncia que todo ato acarreta consequ�ncias. Nesse est�gio, ela aprendera a analisar as consequ�ncias antes de agir e, refletindo melhor, concluiu que a sa�da mais indolor para aquele dilema era satisfazer a comiss�o de tutelas, comportando-se como se a opini�o deles realmente importasse.</p><p>Assim, em dezembro apresentou-se docilmente � uma curta pausa na investiga��o sobre Mikael Blomkvist � no escrit�rio de Bjurman na rua Sankt Eriksplan, onde uma mulher de idade, representante da comiss�o, entregara o volumoso dossi� ao advogado. A senhora perguntou-lhe gentilmente como estava e pareceu satisfeita com o sil�ncio obstinado que obteve como resposta. Ao cabo de meia hora, deixou Salander aos cuidados de Bjurman.</p><p>Lisbeth Salander detestou o advogado cinco segundos depois de apertar-lhe a m�o.</p><p>Examinou-o furtivamente enquanto ele lia o dossi�. Pouco mais de cinquenta anos. Corpo atl�tico, de quem joga t�nis �s ter�as e sextas-feiras. Louro. Cabelos finos. Covinha no queixo. Lo��o de barba Boss. Terno azul. Gravata vermelha com alfinete dourado e bot�es no punho da camisa com as iniciais N. E. B. �culos com arma��o met�lica. Olhos cinzentos. A julgar pelas revistas em cima de uma mesa baixa, interessava-se por ca�a e tiro.</p><p>Durante os dez anos em que se encontrara regularmente com Palmgren, ele lhe oferecia caf� e conversava com ela. Mesmo suas piores fugas das fam�lias substitutas ou suas aus�ncias sistem�ticas da escola n�o conseguiram desestabiliz�-lo. A �nica vez que Palmgren ficou realmente furioso foi quando a indiciaram por insulto e agress�o ao sujeito nojento que a tinha bolinado no metr�. Percebe o que fez? Voc� atacou um ser humano, Lisbeth. Parecia um velho professor e ela pacientemente ignorou cada palavra da descompostura.</p><p>Bjurman n�o estava disposto a conversar. Logo de in�cio constatou que havia incompatibilidade entre os deveres de Holger Palmgren previstos pelo regulamento da tutela e o fato de ele aparentemente ter deixado que a pr�pria Lisbeth Salander administrasse seu apartamento e seu or�amento. Fez uma esp�cie de interrogat�rio. Quanto voc� ganha? Quero uma c�pia da sua contabilidade. Quem s�o seus amigos? Paga o aluguel em dia? Costuma beber? Palmgren estava de acordo com esses an�is que tem no rosto? � cuidadosa em mat�ria de higiene?</p><p>V� se foder!</p><p>Palmgren tornara-se seu administrador <emphasis>ad hoc </emphasis>pouco depois que todo o Mal aconteceu. Ele insistira em v�-la pelo menos uma vez por m�s em encontros fixos, e �s vezes com mais frequ�ncia. Desde que ela retornara � Lundagatan, eles eram praticamente vizinhos. Palmgren morava na Hornsgatan, perto da casa dela, e quase sempre se cruzavam e iam tomar um caf� no Giffy ou em outra parte do bairro. Palmgren nunca fora importuno, mas �s vezes passava para v�-la com um presentinho de anivers�rio, por exemplo. Ela tinha o convite permanente para visit�-lo a qualquer momento, privil�gio que raramente usou, mas nos �ltimos anos passara as v�speras de Natal na casa dele depois de visitar a m�e. Comiam peru de Natal e jogavam xadrez. Esse jogo de modo nenhum a interessava, mas, depois que aprendeu as regras, n�o perdeu uma s� partida. Palmgren era vi�vo e Lisbeth Salander encarava como um dever seu ter piedade dele e de sua solid�o nesses dias de festa.</p><p>Achava que lhe devia isso, e ela sempre pagava suas d�vidas.</p><p>Palmgren � que sublocara o apartamento da m�e na Lundagatan at� que Lisbeth tivesse necessidade de lugar pr�prio para morar. O apartamento de quarenta e nove metros quadrados estava decr�pito e sujo, mas ainda assim era um teto.</p><p>Agora Palmgren se fora, e outro la�o com a sociedade normal acabava de ser desfeito. Nils Bjurman era outro tipo de gente. Ela n�o imaginava passar uma v�spera de Natal na casa dele. A primeira medida que ele tomou foi estabelecer novas regras sobre o acesso � conta banc�ria na qual era depositado seu sal�rio. Palmgren fechara gentilmente os olhos para o regime das tutelas e deixara que ela mesma administrasse seu or�amento. Lisbeth pagava as contas e podia utilizar sua poupan�a quando bem entendesse.</p><p>Tendo se preparado para o encontro com Bjurman na semana anterior ao Natal, ela tentou explicar a ele que seu predecessor confiara nela e que ela nunca o decepcionara. Palmgren deixara-a conduzir o barco sem se intrometer em sua vida particular.</p><p>� Esse � justamente um dos problemas � respondeu Bjurman, tamborilando sobre a pasta do dossi�.</p><p>Depois fez um longo discurso a respeito das regras e dos decretos administrativos referentes �s tutelas, antes de inform�-la que uma nova ordem entraria em vigor.</p><p>� Ele deixou que voc� agisse � vontade, n�o foi? Eu me pergunto como conseguiu n�o bater com o martelo nos dedos.</p><p><emphasis>Porque fazia quarenta anos que o velho cuidava de adolescentes com problemas, seu imbecil!</emphasis></p><p>� N�o sou mais uma crian�a � disse Lisbeth Salander, como se isso bastasse como explica��o.</p><p>� N�o, n�o � mais uma crian�a. Mas fui designado para ser seu tutor e, como tal, sou jur�dica e economicamente respons�vel por voc�.</p><p>A primeira medida de Bjurman foi abrir uma nova conta banc�ria em nome dele, que ela devia indicar � contabilidade da Milton e que seria utilizada da� em diante. Salander se deu conta de que os dias felizes tinham acabado: agora Bjurman pagaria suas contas e ela teria uma quantia fixa para os gastos mensais e lhe forneceria os recibos das despesas. Ele decidiu que ela receberia mil e quatrocentas coroas por semana � "para alimenta��o, roupas, cinema e coisas do g�nero".</p><p>Conforme escolhesse trabalhar muito ou pouco, Lisbeth Salander podia ganhar at� cento e sessenta mil coroas por ano. Podia facilmente dobrar essa quantia se trabalhasse em tempo integral e aceitasse todas as miss�es que Dragan Armanskij viesse a propor. Por outro lado, tinha poucas contas a pagar e n�o gastava muito. O apartamento custava-lhe duas mil coroas por m�s e, apesar de seus rendimentos modestos, tinha noventa mil coroas na conta de poupan�a. Poupan�a da qual n�o ia mais poder dispor livremente.</p><p>� Eu sou o respons�vel pelo seu dinheiro � ele explicou. � Voc� deve reservar um dinheiro para o futuro. Mas n�o se preocupe, eu me encarregarei disso.</p><p><emphasis>Eu mesma me encarrego disso h� dez anos, seu babaca!</emphasis></p><p>� Est� se saindo suficientemente bem de um ponto de vista social para n�o precisar ser internada, mas a sociedade � respons�vel por voc�.</p><p>Ele a interrogou em detalhe sobre suas tarefas na Milton Security. Instintivamente, ela mentiu sobre seu trabalho. A resposta que forneceu era uma descri��o do que havia feito nas primeiras semanas de trabalho. Assim, Bjurman teve a impress�o de que ela apenas fazia o caf� e selecionava a correspond�ncia � atividades de uma pessoa de pouca intelig�ncia � e pareceu satisfeito com as respostas.</p><p>Ela n�o sabia por que mentira, mas estava convencida de que agira bem.</p><p>Mesmo que o advogado Bjurman figurasse numa lista de esp�cies de insetos amea�adas de extin��o, n�o teria hesitado em esmag�-lo com o calcanhar.</p><p>Mikael Blomkvist passou cinco horas na companhia de Henrik Vanger e dedicou uma parte da noite e a ter�a-feira toda para organizar suas notas e montar o quebra-cabe�a geneal�gico dos Vanger. A hist�ria familiar que resultava das conversas com Henrik era uma vers�o muito diferente da que era dada no retrato oficial da fam�lia. Mikael sabia perfeitamente que todas as fam�lias t�m esqueletos no arm�rio. A fam�lia Vanger tinha um cemit�rio inteiro.</p><p>Mikael precisou lembrar-se v�rias vezes de que seu trabalho real n�o era escrever uma biografia da fam�lia Vanger, mas desvendar o que acontecera com Harriet Vanger. Aceitara a miss�o convencido de que, na realidade, desperdi�aria um ano com a bunda numa cadeira e de que os esfor�os que faria por Henrik Vanger n�o levariam a nada. Ao cabo de um ano, receberia um sal�rio extravagante � o contrato redigido por Dirch Frode fora assinado. Mas o verdadeiro sal�rio, ele esperava, seria a informa��o sobre Hans-Erik Wennerstr�m, que Henrik afirmava possuir.</p><p>Depois da conversa com Henrik Vanger, ele come�ou a dizer a si mesmo que podia n�o ser um ano perdido. Um livro sobre a fam�lia Vanger tinha l� seu valor � era simplesmente um assunto interessante.</p><p>N�o lhe passava pela mente, nem por um �nico segundo, que pudesse descobrir o assassino de Harriet Vanger � se � que ela fora mesmo assassinada; podia ter sido v�tima de um acidente absurdo ou desaparecido de outra maneira. Mikael concordava com Henrik sobre a quase improbabilidade de uma jovem de dezesseis anos desaparecer por vontade pr�pria e conseguir permanecer oculta a todos os sistemas de vigil�ncia oficiais durante trinta e seis anos. Em contrapartida, Mikael n�o exclu�a a possibilidade de Harriet Vanger ter fugido, para Estocolmo talvez, e de alguma coisa ter acontecido no caminho � drogas, prostitui��o, uma agress�o ou simplesmente um acidente.</p><p>Por seu lado, Henrik estava convencido de que Harriet fora assassinada e de que um membro da fam�lia era o respons�vel � talvez em colabora��o com outro. A for�a do seu racioc�nio se baseava no fato de Harriet ter desaparecido durante as horas dram�ticas de isolamento da ilha, quando todos os olhos estavam voltados para o acidente.</p><p>Erika teve raz�o em dizer a Mikael que seu trabalho era mais do que insensato se o objetivo era resolver o mist�rio de um crime, mas ele come�ava a entender que o destino de Harriet Vanger tivera um papel central na fam�lia, principalmente para Henrik Vanger. Justificadas ou n�o, as acusa��es de Henrik contra seus familiares eram de grande import�ncia para a hist�ria dessa fam�lia. Ele os acusava abertamente havia mais de trinta anos e essa suspeita marcara as reuni�es familiares e criara oposi��es inflamadas que contribu�ram para desestabilizar o grupo. Examinar o desaparecimento de Harriet, portanto, seria um cap�tulo � parte e at� mesmo um fio condutor da hist�ria da fam�lia � e as fontes eram abundantes. Um ponto de partida l�gico seria estabelecer uma galeria de personagens � sem se importar se Harriet Vanger era sua principal miss�o ou se ele se contentaria em escrever uma cr�nica familiar. Foi esse o tema da conversa com Henrik naquele dia.</p><p>A fam�lia Vanger era constitu�da de uma centena de pessoas, contando os filhos de primos de primeiro e segundo grau de todos os ramos. A fam�lia era t�o numerosa que Mikael foi obrigado a criar um banco de dados no notebook. Utilizou o programa NotePad (www.ibrium.se), um desses produtos completos que dois rapazes do KTH [Real Instituto de Tecnologia], de Estocolmo, haviam criado e disponibilizado na internet em troca de quase nada. Programas como esse, t�o indispens�veis a um jornalista investigativo, eram raros, pensou Mikael. Cada membro da fam�lia ganhou sua pr�pria ficha.</p><p>A �rvore geneal�gica podia ser reconstitu�da com seguran�a at� o come�o do s�culo XVI, �poca em que o nome era Vangeersad. Segundo Henrik Vanger, o nome talvez se originasse do holand�s Van Geerstad; nesse caso, a �rvore geneal�gica retrocedia ainda mais no tempo, at� o s�culo XII.</p><p>Numa �poca mais recente, a fam�lia se estabelecera no norte da Fran�a e chegara � Su�cia com Jean-Baptiste Bernadotte no come�o do s�culo XIX. Alexander Vangeersad n�o conheceu pessoalmente o rei, mas destacou-se como chefe militar e, em 1818, recebeu as terras de Hedeby em agradecimento por seus longos e fi�is servi�os. Alexander Vangeersad obteve assim uma fortuna pessoal que utilizou para adquirir �reas florestais bastante extensas no Norrland. Seu filho Adrian nasceu na Fran�a, mas, a pedido do pai, veio morar no canto perdido de Hedeby, longe dos sal�es parisienses, para administrar a propriedade. Explorando as terras e as florestas com novos m�todos importados da Europa, fundou a f�brica de papel em torno da qual Hedestad se desenvolveu.</p><p>O neto de Alexander chamava-se Henrik e reduziu o nome para Vanger. Montou uma rede comercial com a R�ssia e criou uma pequena frota de escunas mercantis que assegurava a liga��o com os pa�ses b�lticos, a Alemanha e a Inglaterra das metalurgias, em meados do s�culo XIX. Henrik Vanger, o antigo, diversificou a empresa familiar e iniciou uma modesta explora��o de minas e as primeiras ind�strias metal�rgicas do Norrland. Deixou dois filhos, Birger e Gottfried, que deram in�cio �s atividades financeiras da fam�lia Vanger.</p><p>� Voc� conhece alguma coisa sobre as antigas leis da heran�a? � perguntara Henrik Vanger.</p><p>� N�o � exatamente a minha �rea de compet�ncia.</p><p>� Entendo. � algo que tamb�m me deixa perplexo. De acordo com a tradi��o familiar, Birger e Gottfried eram como c�o e gato, concorrentes legend�rios em luta por poder e influ�ncia. Essa disputa tornou-se uma amea�a � sobreviv�ncia da empresa e o pai deles decidiu, pouco antes de morrer, criar um sistema em que cada membro da fam�lia teria uma parte na heran�a da empresa. Isso provavelmente partiu de um bom sentimento, mas provocou uma situa��o insustent�vel. Em vez de atrair pessoas competentes e poss�veis parceiros do exterior, deparamo-nos com uma dire��o composta de membros da fam�lia, cada qual com um ou dois por cento de direito de voto.</p><p>� A regra se aplica ainda hoje?</p><p>� Totalmente. Se um membro da fam�lia quiser vender sua parte, ter� que ser para algu�m da fam�lia. A assembl�ia geral re�ne hoje uns cinquenta membros da fam�lia. Martin possui pouco mais de dez por cento das a��es. Eu tenho cinco por cento, pois as vendi, entre outros, a Martin. Meu irm�o Harald tem sete por cento, mas a maioria dos que comparecem �s assembl�ias tem apenas um ou um e meio por cento.</p><p>� N�o acredito. Parece coisa da Idade M�dia.</p><p>� � completamente absurdo. Significa que, se Martin quiser hoje adotar determinada pol�tica, ele � obrigado a fazer um lobby em grande escala para conseguir o apoio de pelo menos vinte e cinco por cento dos co-propriet�rios. � uma mix�rdia de alian�as, divis�es e intrigas.</p><p>Henrik Vanger prosseguiu.</p><p>� Gottfried Vanger morreu sem filhos em 1901. Perd�o: na verdade era pai de quatro filhas, mas naquela �poca as mulheres n�o contavam. Possu�am cotas, por�m eram os homens da fam�lia que recebiam os juros. Foi s� com a introdu��o do direito de voto, no s�culo XX, que as mulheres passaram a assistir �s assembl�ias gerais.</p><p>� Muito liberais, pelo que vejo.</p><p>� N�o zombe. Eram tempos diferentes. Seja como for, o irm�o de Gottfried, Birger, tinha tr�s filhos homens: Johan, Fredrik e Gideon Vanger, todos nascidos no final do s�culo XIX. Podemos eliminar Gideon: ele vendeu sua parte e emigrou para a Am�rica, onde seguimos tendo um ramo. Mas Johan e Fredrik fizeram da empresa o grupo Vanger moderno.</p><p>Enquanto narrava, Henrik Vanger pegou um �lbum com fotos desses personagens. As fotos do come�o do s�culo passado mostravam dois homens de queixos vigorosos e cabelos lisos de brilhantina olhando para a c�mera sem a menor sombra de um sorriso. Depois prosseguiu:</p><p>� Johan Vanger era o g�nio da fam�lia. Estudou engenharia e desenvolveu a ind�stria mec�nica com v�rias novas inven��es que patenteou. O a�o e o ferro passaram a ser a base do grupo, mas a sociedade estendeu seus neg�cios a outras �reas, como a t�xtil. Johan Vanger morreu em 1956 e deixou tr�s filhas, Sofia, M�rit e Ingrid, que foram as primeiras mulheres a ter acesso autom�tico � assembl�ia geral do grupo. O outro irm�o, Fredrik Vanger, era meu pai. Ele foi o homem de neg�cios, o capit�o de ind�stria que transformou as inven��es de Johan em rendimentos. Meu pai s� morreu em 1964. Participou ativamente da dire��o at� sua morte, ainda que, j� nos anos 1950, tivesse me passado a dire��o do dia-a-dia da empresa. Johan Vanger, ao contr�rio da gera��o precedente, teve apenas filhas. � Henrik Vanger mostrou fotos de mulheres com seios generosos, usando sombrinhas e chap�us de abas largas. � E Fredrik, meu pai, teve apenas filhos homens. �ramos cinco irm�os. Richard, Harald, Greger, Gustav e eu.</p><p>Para tentar situar-se entre todos os membros da fam�lia, Mikael desenhou uma �rvore geneal�gica em algumas folhas tamanho of�cio coladas pelas pontas. Assinalou com um marca-texto o nome dos membros presentes na ilha de Hedeby durante a reuni�o de fam�lia em 1966 e que, portanto, ao menos teoricamente, poderiam ter alguma liga��o com o desaparecimento de Harriet.</p><p>Mikael deixou de lado as crian�as com menos de doze anos � partia do princ�pio de que, qualquer que tenha sido a sorte de Harriet Vanger, ele devia se limitar ao que era plaus�vel. Sem colocar-se muitas quest�es, omitiu tamb�m Henrik Vanger � se o patriarca estivesse implicado no desaparecimento da neta do irm�o, seus procedimentos nos �ltimos trinta e seis anos eram um caso psicopatol�gico. A m�e de Henrik Vanger, que em 1966 tinha a vener�vel idade de oitenta e um anos, podia razoavelmente ser riscada tamb�m. Os vinte e dois membros restantes da fam�lia, segundo Henrik, deviam entrar no grupo dos "suspeitos". Sete j� haviam morrido e alguns atingiam idades respeit�veis.</p><p>Contudo, Mikael n�o estava disposto a aceitar sem exame a convic��o de Henrik de que um membro da fam�lia era o respons�vel pelo desaparecimento de Harriet. A lista de suspeitos deviam ser acrescentadas outras pessoas.</p><p>Dirch Frode come�ara a trabalhar como advogado de Henrik na primavera de 1962. E, quando Harriet desapareceu, o faz-tudo da �poca, Gunnar Nilsson � n�o importa se com um �libi ou n�o �, tinha dezenove anos e, assim como seu pai, Magnus Nilsson, estava na ilha de Hedeby, do mesmo modo que o artista pintor Eugen Norman e o pastor Otto Falk. E esse Falk, era casado? O fazendeiro de �stergarden, Martin Aronsson, assim como seu filho Jerker Aronsson, se encontravam na ilha e foram pr�ximos de Harriet Vanger ao longo de toda a sua inf�ncia. Quais eram as rela��es deles? Martin Aronsson era casado? Havia outras pessoas na fazenda?</p><p>Quando Mikael escreveu todos os nomes, o grupo chegou a umas quarenta pessoas. Com um gesto de frustra��o, jogou longe o marca-texto. J� eram tr�s e meia da manh� e o term�metro indicava vinte e um graus negativos. A onda de frio parecia querer se instalar. Seu desejo era estar na cama, em sua cama na Bellmansgatan.</p><p>Mikael Blomkvist despertou �s nove da manh� da quarta-feira, quando o t�cnico da Telia bateu � sua porta para instalar a linha telef�nica e o modem ADSL. �s onze j� podia se conectar e n�o se sentia mais em total desvantagem profissional. O telefone, por�m, permanecia mudo. Fazia uma semana que Erika n�o respondia a seus chamados. Devia estar realmente zangada. Ele tamb�m come�ava a se sentir um pouco teimoso e recusava-se a cham�-la na reda��o; ao ligar para ela do celular, ela podia ver que era ele e decidir se queria atender ou n�o. Portanto, ela n�o queria.</p><p>FREDRIK VANGER</p><p>(1886-1964)</p><p>esp. <strong>Ulrika</strong> (1885-1969)</p><p>JOHAN VANGER</p><p>(1884-1956)</p><p>esp. Gerda (1888-1960)</p><p>Richard (1907-1940)</p><p>esp. Margareta (1906-1959)</p><p>Gottfried</p><p>(1927-1965)</p><p>esp. <strong>Isabella </strong>(1928-)</p><p>Martin (1948-)</p><p><emphasis>Harriet </emphasis>(1950-)</p><p><strong/></p><p><strong>Sofia </strong>(1909-1977)</p><p>esp. <strong>�ke Sj�gren </strong>(1906-1967)</p><p><strong/></p><p><strong>Magnus Sj�gren</strong></p><p>(1929-1994)</p><p><strong>Sara Sj�gren (1931-)</strong></p><p>Erik Sj�gren (1951-)</p><p><strong>H�kan Sjogren</strong> (1955-)</p><p><strong/></p><p><strong>Harald</strong> (1911-)</p><p>esp. <strong>Ingrid</strong></p><p>(1925-1992)</p><p><strong>Birger </strong>(1939-)</p><p><strong>Cecilia </strong>(1946-)</p><p><strong>Anita (1</strong>948-)</p><p><strong/></p><p><strong>M�rit </strong>(1911-1988)</p><p>esp. <strong>Algot Giinther</strong></p><p>(1904-1987)</p><p>Ossian Gunther (1930-)</p><p>esp. <strong>Agnes </strong>(1933-)</p><p><strong>Jakob Gunther</strong> (1952-)</p><p><strong/></p><p><strong>Greger </strong>(1912-1974)</p><p>esp. <strong>Gerda</strong>(1922-)</p><p><strong/></p><p><strong>Ingrid </strong>(1916-1990)</p><p>esp. <strong>Harry Karlman</strong></p><p>(1912-1984)</p><p>Alexander (1946-)</p><p><strong>Gunnar Karlman </strong>(1942-)</p><p><strong>Maria Karlman </strong>(1944-)</p><p>Gustav (1918-1955)</p><p>solteiro, sem filhos</p><p>Henrik(1920-)</p><p>esp. Edith (1921-1958)</p><p>sem<strong/>filhos</p><empty-line/><p>Seja como for, ele abriu sua caixa de mensagens e passou os olhos pelos trezentos e cinquenta e-mails que lhe haviam sido enviados na �ltima semana. Conservou uma d�zia deles, o resto eram spams ou mailings dos quais era assinante. O primeiro e-mail que abriu era de demokrat88@yahoo.com e dizia: "Espero que nesse buraco te fa�am chupar muitos paus, seu comunista sujo". Mikael arquivou o e-mail numa pasta intitulada Cr�tica Inteligente.</p><p>Escreveu uma breve mensagem a erika.berger@millenium.se.</p><p> [Oi, Ricky. Suponho que est� com muita raiva de mim, pois n�o atende os meus chamados. Quero apenas te dizer que agora estou na internet e podemos conversar por e-mail, se voc� quiser me perdoar. Fora isso, Hedeby � um lugarzinho r�stico que vale uma visita. M.]</p><p>Na hora do almo�o, p�s o notebook na bolsa e foi at� o Caf� Susanne, onde se acomodou na habitual mesa de canto. Quando Susanne lhe serviu um caf� com sandu�che, ela lan�ou um olhar de curiosidade ao computador e perguntou no que ele estava trabalhando. Mikael utilizou pela primeira vez seu pretexto e explicou que Henrik Vanger o contratara para escrever uma biografia. Trocaram algumas palavras polidas. Susanne convidou Mikael a procur�-la quando estivesse preparado para as verdadeiras revela��es.</p><p>� Atendo os Vanger h� trinta e cinco anos e conhe�o a maior parte dos mexericos da fam�lia � ela falou, antes de voltar � cozinha com um passo meio gingado.</p><p>O quadro que Mikael desenhou indicava que a fam�lia Vanger n�o cessava de produzir novos rebentos. Somando os filhos, netos e bisnetos � que ele nem se deu o trabalho de mencionar �, os irm�os Fredrik e Johan Vanger tinham cerca de cinquenta descendentes. Mikael constatou tamb�m que havia na fam�lia uma tend�ncia � longevidade. Fredrik Vanger morrera com setenta e oito anos, seu irm�o Johan com setenta e dois. Ulrika Vanger falecera com oitenta e quatro. Dos dois irm�os ainda vivos, Harald tinha noventa e dois anos e Henrik Vanger oitenta e dois.</p><p>A �nica exce��o fora Gustav, o irm�o de Henrik, morto de uma doen�a pulmonar aos trinta e sete anos. Henrik explicou que Gustav sempre tivera a sa�de fr�gil e seguira seu pr�prio caminho, um pouco � margem do resto da fam�lia. N�o se casou nem teve filhos.</p><p>Quanto aos demais, os que morreram jovens n�o sucumbiram a doen�as, mas por outros motivos. Richard Vanger foi morto como volunt�rio durante a guerra de Inverno da Finl�ndia, com trinta e quatro anos. Gottfried Vanger, o pai de Harriet, havia se afogado um ano antes do desaparecimento da filha. E a pr�pria Harriet tinha ent�o somente dezesseis anos. Mikael notou a estranha coincid�ncia nesse ramo da fam�lia em que av�, pai e filha foram v�timas de acidentes. De Richard restava apenas Martin Vanger, que aos cinquenta e cinco anos continuava solteiro e sem filhos. Henrik Vanger informou, por�m, que Martin tinha uma companheira, uma mulher que morava em Hedestad.</p><p>Martin tinha dezoito anos quando a irm� desapareceu. Fazia parte dos raros parentes pr�ximos que, com toda a certeza, n�o podiam ter liga��o alguma com o desaparecimento. Naquele outono, ele morava em Uppsala, onde conclu�a o colegial. Devia participar da reuni�o de fam�lia, mas s� chegou no fim da tarde e ficou retido do outro lado da ponte durante a hora cr�tica em que a irm� evaporou.</p><p>Mikael notou duas outras particularidades na �rvore geneal�gica. A primeira � que os casamentos pareciam ser vital�cios; nenhum membro da fam�lia Vanger se divorciara nem voltara a se casar, mesmo quando o parceiro havia morrido jovem. Perguntou-se qual a frequ�ncia disso em termos estat�sticos. Cecilia Vanger estava separada do marido havia v�rios anos, mas, se Mikael tinha entendido bem, ainda eram casados.</p><p>A outra particularidade � que a fam�lia parecia geograficamente dividida entre "homens" e "mulheres". Os descendentes de Henrik Vanger, aos quais Henrik pertencia, tradicionalmente haviam desempenhado papel de destaque na empresa e morado principalmente em Hedestad ou arredores. Os membros do ramo Johan Vanger � apenas mulheres na primeira gera��o � espalharam-se por outros cantos do pa�s; moravam em Estocolmo, Malm� e G�teborg ou no exterior, e s� vinham a Hedestad para as f�rias de ver�o e as reuni�es importantes do grupo. A �nica exce��o era Ingrid Vanger, cujo filho Gunnar Karlman morava em Hedestad. Era o redator-chefe do jornal local, o <emphasis>Hedestads-Kuriren.</emphasis></p><p>Na conclus�o de seu inqu�rito pessoal, Henrik observava que o "motivo por tr�s do assassinato de Harriet" devia ser buscado, talvez, na estrutura da empresa e no fato de ele ter assinalado muito cedo as qualidades excepcionais de Harriet. A inten��o talvez fosse prejudicar o pr�prio Henrik, ou ent�o Harriet descobrira uma esp�cie de informa��o delicada relativa ao grupo e se convertera numa amea�a para algu�m. Tudo isso n�o passava de especula��o, mas, partindo dessa hip�tese, ele identificou um c�rculo de treze pessoas que apresentava como "particularmente interessantes".</p><p>A conversa da v�spera com Henrik Vanger tamb�m esclarecera Mikael sobre outro ponto. Desde a primeira conversa, o velho falara da fam�lia em termos t�o desdenhosos e degradantes que chegava a ser estranho. Mikael se perguntara se as suspeitas do patriarca sobre a fam�lia, quanto ao desaparecimento de Harriet, haviam afetado seu ju�zo, mas agora come�ava a entender que a avalia��o de Henrik era, na verdade, de uma clarivid�ncia estupenda.</p><p>A imagem que come�ava a se esbo�ar revelava uma fam�lia bem-sucedida social e economicamente, mas claramente cheia de disfun��es no cotidiano.</p><p>O pai de Henrik Vanger, homem frio e insens�vel, trouxera os filhos ao mundo e depois delegara � esposa o cuidado com sua educa��o e seu bem-estar. Eles raramente viam o pai antes de completarem dezesseis anos, exceto nas festas de fam�lia �s quais deviam comparecer e ficar invis�veis. Henrik Vanger n�o se lembrava do pai manifestando, de alguma maneira, algum tipo de amor; ao contr�rio, v�rias vezes Henrik fora chamado de incompetente e recebera cr�ticas arrasadoras. Castigos corporais eram raros por serem desnecess�rios. S� veio a ganhar o respeito do pai mais tarde, quando passou a trabalhar para o grupo Vanger.</p><p>O irm�o mais velho, Richard, se revoltara. Ap�s uma disputa cujo motivo nunca foi discutido em fam�lia, Richard partiu para Uppsala com a inten��o de l� estudar. Foi quando iniciou sua carreira nazista, j� mencionada por Henrik a Mikael, e que mais tarde o levaria �s trincheiras da guerra de Inverno da Finl�ndia.</p><p>O que o velho ainda n�o havia contado � que dois outros irm�os tomaram caminhos id�nticos.</p><p>Harald Vanger e seu irm�o Greger seguiram os passos do irm�o mais velho em Uppsala, em 1930. Harald e Greger eram muito pr�ximos, mas Henrik Vanger n�o sabia dizer se conviveram muito com Richard. O certo � que os irm�os aderiram ao movimento fascista de Per Engdahl, a Nova Su�cia. Harald Vanger manteve-se leal a Per Engdahl ao longo dos anos, primeiro na Uni�o Nacional da Su�cia, depois na Oposi��o sueca e, por fim, no Movimento neo-sueco, desde sua funda��o, no final da guerra. Continuou como membro at� a morte de Per Engdahl nos anos 1990 e em alguns per�odos foi um dos mais importantes financiadores do fascismo sueco remanescente.</p><p>Harald Vanger formou-se m�dico em Uppsala e em seguida envolveu-se com grupos entusiastas por higiene e biologia racial. Em certa �poca, trabalhou no instituto sueco de biologia das ra�as e, como m�dico, foi um agente de primeira ordem na campanha de esteriliza��o dos elementos indesej�veis da popula��o.</p><p>Declara��o de Henrik Vanger, cassete 2, 02950:</p><p><emphasis>Harald foi mais longe ainda. Em 1937, foi co-autor </emphasis>� <emphasis>sob pseud�nimo, gra�as a Deus! </emphasis>� <emphasis>de um livro intitulado </emphasis>A Nova Europa dos povos. <emphasis>Fiquei sabendo disso s� nos anos 1970. Tenho uma c�pia que voc� pode ler. E provavelmente um dos livros mais ign�beis j� publicados na Su�cia. Harald n�o argumenta apenas a favor da esteriliza��o, mas tamb�m da eutan�sia </emphasis>� <emphasis>uma ajuda ativa para morrer direcionada �s pessoas que perturbavam seu gosto est�tico e n�o se adaptavam � sua imagem do sueco perfeito. Ou seja, um arrazoado a favor do massacre, redigido numa prosa acad�mica impec�vel e contendo todos os argumentos m�dicos necess�rios. Livremo-nos dos retardados. N�o deixemos a popula��o dos lap�es aumentar; eles possuem genes mong�is. Os doentes mentais aceitar�o a morte como uma liberta��o, n�o � mesmo? Mulheres de maus costumes, vagabundos, ciganos e judeus </emphasis>� <emphasis>pode-se ter uma id�ia do quadro. Nos fantasmas do meu irm�o, Auschwitz podia ser aqui mesmo, na Dalecarlia.</emphasis></p><p>Depois da guerra, Greger Vanger se tornou professor e mais tarde diretor do col�gio de Hedestad. Henrik achava que ele havia abandonado o nazismo ap�s a guerra e se tornado apol�tico. Morreu em 1974, e s� quando Henrik examinou seus pap�is � que ficou sabendo, pelas cartas conservadas, que nos anos 1950 seu irm�o aderira ao Partido N�rdico Nacional, o NRP, uma seita sem import�ncia pol�tica mas totalmente desmiolada, da qual foi membro at� falecer.</p><p>Declara��o de Henrik Vanger, cassete 2, 04167: <emphasis>"Tr�s dos meus irm�os eram, portanto, politicamente dementes. At� onde iria a doen�a deles em outras circunst�ncias?"'.</emphasis></p><p>O �nico irm�o benquisto, em certa medida, por Henrik Vanger, era Gustav, de sa�de fr�gil e v�tima de uma doen�a pulmonar em 1955. Gustav n�o se interessava por pol�tica e era visto sobretudo como um esp�rito art�stico distante do mundo, sem o menor interesse pelos neg�cios nem por uma atividade no grupo Vanger. Mikael perguntou a Henrik:</p><p>� Restam apenas voc� e Harald hoje. Por que ele voltou a morar em Hedeby?</p><p>� Ele voltou em 1979, pouco antes de seus setenta anos. A casa lhe pertence.</p><p>� Deve ser estranho viver t�o perto de um irm�o odiado. Henrik Vanger olhou Mikael, surpreso.</p><p>� Voc� me entendeu mal. N�o odeio meu irm�o. Na verdade, tenho pena dele; � um perfeito imbecil. E ele quem me odeia.</p><p>� Ele odeia voc�?</p><p>� Muito. Acho que foi por isso que voltou a viver aqui. Para poder passar seus �ltimos anos me odiando de perto.</p><p>� Por que ele te odeia?</p><p>� Porque me casei.</p><p>� Acho que ter� que me explicar isso.</p><p>Henrik Vanger perdera o contato com os irm�os mais velhos bastante cedo. Era o �nico dos cinco que revelava talento para os neg�cios � a �ltima esperan�a do pai. N�o se interessava por pol�tica e evitou Uppsala, tendo preferido estudar economia em Estocolmo. Desde os dezoito anos, passou todas as suas f�rias estagiando num dos muitos escrit�rios do grupo Vanger ou colaborando nos conselhos de administra��o. Ficou conhecendo todos os labirintos da sociedade familiar.</p><p>Em 10 de junho de 1941 � no auge da Segunda Guerra �, Henrik foi enviado � Alemanha para uma visita de seis semanas aos escrit�rios comerciais do grupo Vanger em Hamburgo. Tinha vinte e um anos, e o representante alem�o das empresas Vanger, um veterano idoso chamado Herman Lobach, serviu-lhe de protetor e mentor.</p><p>� N�o vou fatig�-lo com todos os detalhes, mas naquele momento Hitler e Stalin ainda eram bons amigos e n�o havia at� ent�o combates no fronte oriental. Todos achavam Hitler invenc�vel. Havia um sentimento de... otimismo e desespero, acho que s�o as palavras adequadas. Mais de meio s�culo depois, continua sendo dif�cil encontrar palavras apropriadas. N�o me entenda mal: nunca fui nazista e Hitler me parecia um personagem rid�culo de opereta. Mas era dif�cil n�o se contaminar pela f� no futuro que reinava entre as pessoas comuns de Hamburgo. A guerra se aproximava lentamente e v�rios bombardeios ocorreram em minha temporada na cidade; apesar disso, todos pareciam pensar que era um momento de irrita��o passageiro: a paz logo chegaria e Hitler ia instaurar sua Neuropa, a nova Europa. As pessoas queriam acreditar que Hitler era Deus: � o que a propaganda dava a entender. Henrik Vanger abriu um de seus numerosos �lbuns fotogr�ficos.</p><p>� Este � Hermann Lobach. Ele desapareceu em 1944, provavelmente morto e sepultado durante um bombardeio. Nunca soubemos que destino ele teve. Na minha temporada em Hamburgo, fiquei muito amigo dele. Eu tinha um quarto na sua suntuosa resid�ncia, num bairro onde s� moravam fam�lias ricas. N�s nos v�amos diariamente. Era t�o pouco nazista quanto eu, mas filiara-se ao partido por comodidade. A carteira de membro abria portas e facilitava suas chances de neg�cio em favor do grupo Vanger, e neg�cios era exatamente o que faz�amos. Constru�amos vag�es para trens, e ainda hoje me pergunto se esses vag�es partiam com destino � Pol�nia. Vend�amos tecidos para os uniformes e tubos cat�dicos para aparelhos de r�dio, mas oficialmente n�o faz�amos id�ia de para que servia a mercadoria. E Hermann Lobach sabia como agir para obter um bom contrato, tinha uma boa l�bia e era jovial. Um perfeito nazista. Aos poucos, entendi que era tamb�m um homem que tentava desesperadamente esconder um segredo. Na noite de 22 de junho de 1941, Hermann Lobach bateu na porta do meu quarto e me acordou. Meu quarto ficava ao lado do quarto de sua mulher e com um sinal ele me pediu que eu n�o fizesse barulho, me vestisse e o acompanhasse. Descemos ao t�rreo e nos instalamos numa pequena sala de fumar. Lobach certamente estivera acordado a noite toda. Ligou o r�dio e compreendi que algo dram�tico acontecera. Tivera in�cio a opera��o "Barbarossa", a Alemanha atacara a Uni�o Sovi�tica no fim de semana em que o ver�o se iniciava.</p><p>Henrik Vanger fez um gesto resignado com a m�o.</p><p>� Hermann Lobach pegou dois copos e despejou uma dose generosa de aquavita em cada um. Pareceu-me meio embriagado. Quando lhe perguntei quais poderiam ser as consequ�ncias, respondeu-me com lucidez que aquilo significava o fim para a Alemanha e para o nazismo. S� acreditei em parte � Hitler parecia invenc�vel �, mas Lobach brindou comigo a derrota da Alemanha. Em seguida p�s-se a falar de assuntos pr�ticos.</p><p>Mikael balan�ou a cabe�a para indicar que acompanhava a hist�ria.</p><p>� Em primeiro lugar, ele descartou a possibilidade de entrar em contato com meu pai para pedir instru��es e por conta pr�pria decidiu interromper minha temporada na Alemanha, mandando-me de volta para casa o mais cedo poss�vel. Em segundo lugar, queria que eu lhe prestasse um servi�o.</p><p>Henrik mostrou um retrato amarelecido e com os cantos rasgados, em tamanho tr�s por quatro, de uma mulher morena.</p><p>� Herman Lobach era casado havia quarenta anos, mas em 1919 conhecera uma mulher que tinha a metade da sua idade, uma pobre e modesta costureira, de uma beleza avassaladora. Apaixonou-se por ela. Cortejou-a e, como tantos outros homens ricos, tinha os meios de instal�-la num apartamento a pouca dist�ncia de seu escrit�rio. Ela passou a ser sua amante. Em 1921, deu � luz uma menina, que foi chamada Edith.</p><p>� Um homem rico j� de alguma idade, uma mulher pobre e uma filha desse amor: isso n�o deveria causar um grande esc�ndalo, mesmo nos anos 1940 � comentou Mikael.</p><p>� � verdade. Se n�o houvesse um problema. A mulher era judia e Lobach, portanto, pai de uma menina judia em plena Alemanha nazista. Concretamente, ele era um <emphasis>traidor de sua ra�a.</emphasis></p><p>� Ah! isso muda tudo. O que aconteceu?</p><p>� A m�e de Edith foi detida em 1939. Desapareceu e pode-se imaginar o que lhe aconteceu. Todos sabiam que tinha uma filha que ainda n�o fora inscrita nas listas de transporte, e essa mo�a judia era procurada pela unidade da Gestapo encarregada de capturar judeus fugitivos. No ver�o de 1941, na mesma semana em que cheguei a Hamburgo, fez-se a liga��o entre a m�e de Edith e Hermann Lobach, e convocaram-no para um interrogat�rio. Ele admitiu a liga��o e a paternidade, mas declarou que n�o fazia a menor id�ia do lugar onde se encontrava a filha e que havia dez anos n�o tinha contato com ela.</p><p>� E onde ela estava?</p><p>� Eu a via diariamente na casa de Lobach. Uma mo�a de vinte anos, meiga e calma, que fazia a limpeza do meu quarto e ajudava a servir o jantar. Em 1937, as persegui��es aos judeus j� duravam v�rios anos e a m�e de Edith suplicou a Hermann que a ajudasse. E ele ajudou � amava a filha ileg�tima tanto quanto seus filhos leg�timos. Escondeu-a no lugar mais improv�vel � diante do nariz de todo mundo. Providenciou-lhe falsos documentos e a contratou como empregada.</p><p>� A mulher dele sabia quem ela era?</p><p>� N�o, n�o fazia a menor id�ia.</p><p>� E depois, o que houve?</p><p>� A coisa funcionou durante quatro anos, mas Lobach sentia que o cerco se estreitava. Em breve a Gestapo viria bater � sua porta. Foi tudo o que me contou naquela noite, poucas semanas antes de eu voltar � Su�cia. Depois, mandou chamar a filha e fomos apresentados. Era muito t�mida e n�o ousou sequer me olhar nos olhos. Lobach me suplicou que salvasse a vida dela.</p><p>� Como?</p><p>� Ele arranjara tudo. Segundo seus planos, eu devia ficar por mais tr�s semanas e em seguida tomar o trem noturno para Copenhague, depois o <emphasis>ferryboat </emphasis>para atravessar o estreito de Oresund � uma viagem sem muita import�ncia, mesmo em tempo de guerra. No entanto, dois dias depois da nossa conversa, um cargueiro de propriedade do grupo Vanger devia deixar Hamburgo com destino � Su�cia. Lobach resolveu enviar-me com o cargueiro, para que eu deixasse a Alemanha sem demora. Qualquer altera��o dos projetos de viagem devia ser aprovada pelos servi�os de seguran�a; problemas burocr�ticos, mas n�o insuper�veis. Lobach insistiu para que eu fosse naquele navio.</p><p>� Com Edith, suponho.</p><p>� Edith embarcou ilegalmente, escondida numa das trezentas caixas contendo pe�as para m�quinas. Minha tarefa era proteg�-la se fosse descoberta antes de deixarmos as �guas territoriais da Alemanha, e impedir o capit�o de fazer uma besteira. N�o havendo problemas, eu devia esperar at� estarmos a uma boa dist�ncia da Alemanha e ent�o deix�-la sair.</p><p>� E a�?</p><p>� Parecia simples, mas a viagem foi um pesadelo. O capit�o chamava-se Oskar Granath e n�o estava nem um pouco encantado com a responsabilidade de conduzir o herdeiro do seu patr�o. Deixamos Hamburgo �s nove horas de uma noite de ver�o. Est�vamos saindo do porto quando as sirenes de alerta antia�reo puseram-se a uivar. Um raide ingl�s: o pior que vivi, e o porto era evidentemente um alvo estrat�gico. N�o exagero ao dizer que por pouco n�o me mijei quando as bombas come�aram a explodir muito perto. Mas, de um modo ou de outro, conseguimos sair e, ap�s uma pane de motor e uma noite horr�vel de tempestade nas �guas recheadas de minas, chegamos � Su�cia, em Karlskrona, no dia seguinte � tarde. Agora voc� vai me perguntar o que aconteceu com a mo�a.</p><p>� Acho que j� sei.</p><p>� Meu pai ficou furioso, claro. Coloquei muita coisa em risco com meu ato insensato. E a mo�a podia ser extraditada a qualquer momento � lembre que est�vamos em 1941. Mas nesse meio-tempo tamb�m me apaixonei por ela, como Lobach se apaixonara pela m�e dela. Pedi-a em casamento e dei um ultimato a meu pai: ou aceitava o casamento, ou que procurasse outra jovem esperan�a para a empresa da fam�lia. Ele cedeu.</p><p>� Mas ela morreu?</p><p>� Sim, morreu muito jovem. Em 1958. Vivemos juntos pouco mais de dezesseis anos. Ela tinha um problema card�aco, de nascen�a. E eu me revelei est�ril � nunca tivemos filhos. � por isso que meu irm�o me odeia.</p><p>� Porque se casou com ela.</p><p>� Porque me casei � s�o os termos dele � com uma prostituta suja judia. No entender dele, eu tra� a ra�a, o povo, a moral e tudo o que ele defendia.</p><p>� Mas ele � completamente louco.</p><p>� Eu s�o saberia dizer melhor.</p><empty-line/><p><strong>10. QUINTA-FEIRA 9 DE JANEIRO � SEXTA-FEIRA 31 DE JANEIRO</strong></p><p>A julgar pelo <emphasis>Hedestads-Kuriren, </emphasis>o primeiro m�s de Mikael no ex�lio foi o mais frio j� registrado na mem�ria ou, pelo menos (segundo Henrik Vanger), desde o inverno da guerra em 1942. Mikael estava inclinado a acreditar nessa informa��o. Ap�s uma semana em Hedeby, aprendera tudo a respeito de ceroulas, meias de l� e camisetas forradas.</p><p>Viveu alguns dias e noites terr�veis em meados de janeiro, quando a temperatura baixou a inconceb�veis trinta e sete graus negativos. Nunca enfrentara nada semelhante, mesmo no ano que passou em Kiruna durante o servi�o militar. Uma manh�, a tubula��o da �gua congelou. Gunnar Nilsson arranjou-lhe dois grandes baldes de pl�stico para que pudesse cozinhar e se lavar, mas o frio era paralisante. Ros�ceas de gelo formaram-se nas vidra�as da janela, do lado interno, e, por mais que alimentasse o aquecedor a lenha, sentia-se continuamente gelado. Todos os dias passava longos minutos rachando lenha no dep�sito dos fundos da casa.</p><p>Em alguns momentos, tinha vontade de chorar e pensava em tomar um t�xi at� a cidade e embarcar no primeiro trem com destino ao Sul. Em vez disso, enfiava mais um pul�ver e se enrolava num cobertor, sentado � mesa da cozinha com seu caf� e os velhos relat�rios da pol�cia.</p><p>Depois a tend�ncia se inverteu e a temperatura subiu para agrad�veis dez graus negativos.</p><p>Mikael come�ou a conhecer as pessoas em Hedeby. Martin Vanger cumpriu sua promessa e lhe ofereceu um jantar que ele mesmo preparou � assado de carne de alce regado a vinho tinto italiano. O chefe da empresa n�o era casado, por�m convivia com uma certa Eva Hassel, que os acompanhava. Eva era uma mulher calorosa e divertida, que Mikael achou muito atraente. Era dentista e morava em Hedestad, mas passava os fins de semana na casa de Martin. Mikael ficou sabendo que fazia muitos anos que eles se conheciam, mas come�aram a conviver somente na idade madura e julgaram n�o haver necessidade de casamento.</p><p>� A verdade � que ela � a minha dentista � disse Martin Vanger.</p><p>� E misturar-me a essa fam�lia de malucos n�o � bem o que eu quero � disse Eva, batendo afetuosamente com os dedos no joelho de Martin.</p><p>Desenhada por um arquiteto, a mans�o de Martin Vanger era o sonho de todo celibat�rio, com m�veis pretos, brancos e de metal cromado. Pe�as dispendiosas e com um <emphasis>design </emphasis>que teria fascinado Christer Malm, o ilustrador da <emphasis>Millennium. </emphasis>A cozinha tinha equipamentos de um cozinheiro profissional. Na sala de estar havia uma aparelhagem de som estereof�nico com, entre outras preciosidades, uma excelente cole��o de jazz em vinil, de Tommy Dorsey a John Coltrane. Martin tinha dinheiro e seu lar era suntuoso e funcional, embora um pouco impessoal. Mikael notou que os quadros nas paredes eram simples reprodu��es e p�steres encontrados em grandes lojas, como a Ikea � bonitos mas sem nada de especial. As estantes, pelo menos na parte da casa que Mikael viu, estavam cuidadosamente ocupadas pela <emphasis>Enciclop�dia Nacional </emphasis>e por alguns livros desses que as pessoas oferecem como presente de Natal na falta de id�ia melhor. Em suma, Mikael conseguiu perceber apenas duas paix�es na vida de Martin Vanger: a m�sica e a culin�ria. A primeira se manifestava em cerca de tr�s mil �lbuns de trinta e tr�s rota��es. A segunda podia-se ver na carne opulenta de Martin Vanger.</p><p>Como pessoa, Martin era uma estranha mistura de estupidez, causticidade e amabilidade. N�o era preciso ser um grande analista para concluir que o chefe da empresa era um homem com problemas. Enquanto escutavam <emphasis>Night in Tunisia, </emphasis>a conversa se voltou para o grupo Vanger, e Martin n�o tentou esconder que lutava pela sobreviv�ncia do grupo. A escolha desse assunto deixou Mikael perplexo; Martin n�o ignorava que tinha por convidado um jornalista econ�mico que ele conhecia muito pouco, no entanto discutia os problemas internos da empresa com tanta franqueza que havia nisso alguma imprud�ncia. Ele parecia considerar Mikael como algu�m da fam�lia, j� que trabalhava para Henrik, e, a exemplo do ex-diretor-executivo, achava que a fam�lia s� podia culpar a si mesma pela situa��o na qual a empresa se encontrava. Contudo, n�o compartilhava a amargura e o desprezo intransigente do velho em rela��o � fam�lia, parecendo antes achar gra�a da loucura incur�vel dela. Eva Hassel assentiu com a cabe�a, mas n�o fez coment�rios. Certamente j� haviam conversado sobre essa quest�o.</p><p>Martin Vanger sabia, portanto, que Mikael fora contratado para escrever uma cr�nica familiar e perguntou como estava indo o trabalho. Mikael respondeu, sorrindo, que tinha dificuldade de lembrar os nomes dos membros da fam�lia, depois perguntou a Martin se podia voltar para entrevist�-lo em outra ocasi�o. Em v�rios momentos tentou dirigir a conversa para a obsess�o do velho pelo desaparecimento de Harriet Vanger. Supunha que Henrik devia ter aborrecido o irm�o de Harriet mais de uma vez com suas teorias. Martin certamente sabia que, se a incumb�ncia de Mikael era escrever uma cr�nica familiar, ele n�o podia ignorar o fato de que um membro da fam�lia desaparecera sem deixar vest�gios. No entanto, Martin n�o mostrou a menor inten��o de entrar no assunto e Mikael decidiu esperar. Oportunamente, teriam raz�es para conversar sobre Harriet.</p><p>Depois de v�rias rodadas de vodca, encerraram a noitada por volta das duas da manh�. Mikael estava um tanto b�bado e titubeou no percurso de trezentos metros de volta para casa. De maneira geral, fora uma noite agrad�vel.</p><p>Uma tarde, na segunda semana de Mikael em Hedeby, bateram � porta de sua casa. Mikael deixou de lado o arquivo do inqu�rito policial que acabara de abrir � o sexto � e fechou a porta da saleta de trabalho atr�s de si, antes de ir abrir a porta da frente para uma mulher loura de uns cinquenta anos, vestida como para o P�lo Norte.</p><p>� Bom dia. Vim conhec�-lo. Sou Cecilia Vanger.</p><p>Apertaram-se as m�os e Mikael foi pegar x�caras para o caf�. Cecilia Vanger, filha do nazista Harald Vanger, parecia uma mulher aberta e encantadora sob muitos aspectos. Mikael lembrou que Henrik falara dela com estima e mencionara que raramente via o pai, embora morasse quase ao lado da casa dele. Conversaram por alguns momentos antes que ela mencionasse o motivo da visita.</p><p>� Fiquei sabendo que vai escrever um livro sobre a fam�lia. N�o acho que seja uma id�ia que me agrada � disse. � Quis saber que tipo de pessoa � o senhor.</p><p>� Bem, Henrik Vanger me contratou. E um assunto dele, por assim dizer.</p><p>� E o bom Henrik n�o � l� muito objetivo quando se trata de dar seu ponto de vista sobre a fam�lia.</p><p>Mikael examinou seus olhos, n�o sabendo muito bem aonde ela queria chegar.</p><p>� Op�e-se a que escrevam um livro sobre sua fam�lia?</p><p>� Eu n�o disse isso. E certamente minha opini�o n�o tem a menor import�ncia. Mas acho que j� deve ter percebido que nem sempre foi muito f�cil ser uma Vanger.</p><p>Mikael n�o tinha nenhuma id�ia do que Henrik dissera e em que medida Cecilia conhecia seu trabalho. Afastou as m�os num gesto de escusa:</p><p>� Fui procurado por Henrik para escrever uma cr�nica familiar. Henrik tem opini�es acirradas sobre v�rios membros da fam�lia, mas pretendo me ater aos fatos comprovados.</p><p>Cecilia Vanger sorriu, por�m de forma pouco calorosa.</p><p>� O que eu gostaria de saber � se devo escolher o ex�lio e emigrar quando o livro sair.</p><p>� Creio que n�o � respondeu Mikael. � As pessoas s�o capazes de ver a diferen�a entre uma pessoa e outra.</p><p>� Como meu pai, por exemplo.</p><p>� Seu pai, o nazista? � perguntou Mikael. Cecilia Vanger levantou os olhos para o c�u.</p><p>� Meu pai � louco. S� o vejo uma ou duas vezes por ano, embora nossas casas sejam vizinhas.</p><p>� Por que n�o quer v�-lo?</p><p>� Antes de me fazer um monte de perguntas, diga: tem a inten��o de citar o que estou dizendo? Ou podemos ter apenas uma conversa normal sem que eu precise ter medo de ser apresentada como uma imbecil?</p><p>Mikael hesitou um segundo, n�o muito seguro de que esclarecimento devia dar.</p><p>� Meu trabalho � escrever um livro que come�a quando Alexander Vangeersad desembarca com Bernadotte e vem at� os dias de hoje. Ele acompanhar� o imp�rio industrial dos Vanger ao longo de muitas d�cadas, mas evidentemente tamb�m falar� da raz�o pela qual o imp�rio est� desmoronando e das diverg�ncias que existem no seio da fam�lia. Nesse tipo de relato, � imposs�vel evitar que a lama venha � tona. O que n�o significa que farei um retrato abomin�vel da senhora nem que tra�arei uma imagem infame da fam�lia. Estive com Martin Vanger, por exemplo. Achei-o um homem simp�tico e pretendo descrev�-lo como tal.</p><p>Cecilia Vanger n�o respondeu.</p><p>� Tudo que sei a seu respeito � que � professora...</p><p>� Pior que isso; sou diretora de col�gio em Hedestad.</p><p>� Desculpe. Sei que Henrik a quer muito bem, que � casada mas est� separada... e � mais ou menos tudo. Claro que poder� falar comigo sem medo de ser citada ou lan�ada ao esc�ndalo. Contudo, com certeza a procurarei algum dia para pedir que me conte sobre determinado acontecimento, porque necessito da sua vers�o. Mas direi claramente quando fizer uma pergunta desse g�nero.</p><p>� Ent�o posso lhe falar... <emphasis>off the record, </emphasis>como dizem.</p><p>� Com certeza.</p><p>� E isto � <emphasis>off the record?</emphasis></p><p>� A senhora � apenas uma vizinha que veio me dar bom-dia e tomar uma x�cara de caf�, nada mais.</p><p>� Perfeito. Ser� que posso lhe perguntar uma coisa?</p><p>� Fique � vontade.</p><p>� At� que ponto esse livro falar� sobre Harriet Vanger?</p><p>Mikael mordeu o l�bio inferior e hesitou. Tentou permanecer tranquilo.</p><p>� Para ser sincero, n�o sei. � verdade que haver� talvez um cap�tulo... afinal foi um acontecimento dram�tico, n�o se pode negar, e que influenciou pelo menos Henrik Vanger.</p><p>� Mas n�o est� aqui para investigar o desaparecimento dela?</p><p>� O que a faz pensar assim?</p><p>� Bem, o fato de Gunnar Nilsson ter trazido para c� quatro caixas volumosas. Suponho que seja o conjunto das pesquisas pessoais de Henrik ao longo dos anos. Quando dei uma espiada no antigo quarto de Harriet onde Henrik costuma guardar sua cole��o, ela n�o estava mais l�.</p><p>Cecilia n�o era boba.</p><p>� Preferiria que discutisse isso com Henrik e n�o comigo � respondeu Mikael. � De todo modo, � claro que Henrik me falou bastante sobre o desaparecimento da menina, e acho interessante ler os documentos a respeito.</p><p>Cecilia mais uma vez esbo�ou um sorriso triste.</p><p>� �s vezes me pergunto quem � o mais louco, se meu pai ou meu tio. Cansei de ouvi-lo falar milhares de vezes sobre o desaparecimento de Harriet.</p><p>� O que acha que aconteceu com ela?</p><p>� Essa pergunta faz parte da entrevista?</p><p>� N�o � disse Mikael, rindo. � Apenas curiosidade.</p><p>� O que eu gostaria de saber � se o senhor tamb�m � maluco. Se aderiu ao racioc�nio de Henrik ou se est� instigando Henrik.</p><p>� Est� querendo dizer que Henrik � maluco?</p><p>� N�o me entenda mal. Henrik � um dos homens mais calorosos e gentis que conhe�o. Gosto imensamente dele. Mas, quando se trata desse assunto, ele � obsessivo.</p><p>� Uma obsess�o, c� para n�s, que parece ter fundamento. Harriet realmente desapareceu.</p><p>� � que estou simplesmente farta de toda essa hist�ria. Ela envenenou nossas vidas durante tantos anos e n�o acaba nunca.</p><p>Levantou-se de repente e vestiu seu casaco de pele.</p><p>� Preciso ir. O senhor me pareceu simp�tico. Foi o que Martin tamb�m disse, mas o julgamento dele nem sempre � o melhor. Passe para tomar um caf� quando quiser. � noite estou quase sempre em casa.</p><p>� Obrigado � disse Mikael. Quando ela se encaminhava para a porta de entrada, ele falou �s suas costas: � N�o respondeu � minha pergunta, que, afinal, n�o era uma pergunta de entrevista.</p><p>Ela se deteve diante da porta e respondeu sem olhar para ele:</p><p>� N�o fa�o a menor id�ia do que aconteceu a Harriet. Mas acho que foi um acidente com uma explica��o t�o simples e banal que vamos ficar surpresos quando um dia soubermos a resposta.</p><p>Virou-se e sorriu para ele � pela primeira vez com calor. Depois acenou com a m�o e partiu. Mikael permaneceu im�vel � mesa, pensativo. Cecilia Vanger era uma das pessoas relacionadas na lista de membros da fam�lia presentes � ilha quando Harriet Vanger desapareceu.</p><p>Se conhecer Cecilia Vanger foi relativamente agrad�vel, o mesmo n�o aconteceu com Isabella Vanger. Com setenta e cinco anos, a m�e de Harriet Vanger era uma mulher muito elegante, uma esp�cie de Lauren Bacall idosa. Magra, vestindo um casaco de astrac� preto e um gorro que combinava com ele, apoiava-se numa bengala preta quando Mikael topou com ela, uma manh�, ao dirigir-se ao Caf� Susanne. Ele pensou num vampiro come�ando a envelhecer, de uma beleza impressionante mas venenosa como uma serpente. Isabella parecia estar voltando para casa ap�s uma caminhada; ela o chamou quando se cruzaram.</p><p>� Voc� a�, mo�o! Venha c�.</p><p>Dif�cil equivocar-se quanto ao tom de comando. Mikael olhou ao redor e concluiu que ele � que estava sendo chamado. Aproximou-se.</p><p>� Sou Isabella Vanger � anunciou a mulher.</p><p>� Bom dia, meu nome � Mikael Blomkvist. � E estendeu uma m�o que ela ignorou soberbamente.</p><p>� Voc� � o sujeito que est� remexendo na hist�ria da nossa fam�lia?</p><p>� Digamos que sou o sujeito que Henrik Vanger procurou para ajud�-lo a fazer o hist�rico da fam�lia Vanger.</p><p>� N�o � um assunto que lhe compete.</p><p>� Qual � o problema? O fato de Henrik ter me procurado ou de eu ter aceitado? No primeiro caso, acho que isso diz respeito a Henrik; no segundo, o problema � meu.</p><p>� Sabe muito bem o que estou querendo dizer. N�o gosto de gente vasculhando a minha vida.</p><p>� N�o vou vasculhar a sua vida. Al�m do mais, deve discutir isso com Henrik.</p><p>Isabella Vanger ergueu subitamente a bengala e bateu no peito de Mikael com o cast�o. Um golpe sem viol�ncia, mas a surpresa o fez recuar um passo.</p><p>� Mantenha-se a uma boa dist�ncia de mim.</p><p>Isabella Vanger girou os calcanhares e prosseguiu em dire��o � sua casa. Mikael continuou pregado no lugar, com o rosto im�vel como se tivesse acabado de conhecer um personagem de quadrinhos em carne e osso. Mikael moveu os olhos e avistou Henrik Vanger na janela de seu escrit�rio. Tinha uma x�cara de caf� na m�o, que levantou com ironia. Mikael afastou as m�os num gesto de impot�ncia, balan�ou a cabe�a e retomou o caminho em dire��o ao Caf� Susanne.</p><p>A �nica viagem que Mikael fizera durante o primeiro m�s foi uma excurs�o de um dia �s margens do lago Siljan. Tomou emprestado o Mercedes de Dirch Frode e rodou numa paisagem nevada para passar uma tarde em companhia do inspetor Gustav Morell. Mikael tentara fazer uma id�ia de Morell baseando-se na impress�o que emanava do inqu�rito policial; encontrou um velho encurvado que se movia devagar e falava ainda mais devagar. Mikael rabiscara num bloco umas dez perguntas que lhe ocorrera fazer depois da leitura do inqu�rito. Morell forneceu uma resposta did�tica a cada pergunta. No final, Mikael deixou o bloco de lado e explicou ao inspetor aposentado que aquelas perguntas tinham sido apenas um pretexto para visit�-lo. O que ele queria realmente era conversar e poder lhe fazer a �nica pergunta fundamental: havia algo no inqu�rito que ele n�o pusera no papel, alguma reflex�o ou intui��o que pudesse lhe transmitir?</p><p>Como Morell, do mesmo modo que Henrik Vanger, havia passado trinta e seis anos refletindo sobre o mist�rio do desaparecimento de Harriet, Mikael esperava encontrar certa retic�ncia ao novato que vinha se embrenhar no matagal onde ele se perdera. Mas Morell n�o mostrou a menor sombra de hostilidade. Encheu cuidadosamente o cachimbo e riscou um f�sforo antes de responder.</p><p>� Sim, � claro que tenho minhas teorias. Mas s�o t�o vagas e fugazes que n�o consigo formul�-las muito bem.</p><p>� O que aconteceu a Harriet, na sua opini�o?</p><p>� Creio que foi assassinada. Nesse ponto, concordo com Henrik. � a �nica explica��o plaus�vel. Mas nunca entendemos o motivo. Acho que foi morta por alguma raz�o precisa. N�o foi obra de um louco nem de um estuprador, ou coisa que o valha. Se conhec�ssemos o motivo, saber�amos quem a matou.</p><p>Morell refletiu um instante.</p><p>� O assassinato p�de ser cometido de improviso. Quero dizer com isso que algu�m aproveitou a ocasi�o quando uma possibilidade surgiu na confus�o ocasionada pelo acidente. O assassino escondeu o corpo e o transportou mais tarde, enquanto todos sa�am para procur�-la.</p><p>� Nesse caso, falamos de algu�m que agiu com sangue-frio.</p><p>� H� um detalhe. Harriet foi ao gabinete de Henrik pedir para falar com ele. Isso me parece um comportamento estranho. Ela sabia que ele estava �s voltas com os membros da fam�lia que n�o paravam de chegar. Acho que Harriet significava uma amea�a para algu�m, acho que ela quis contar alguma coisa a Henrik e o assassino percebeu que ela ia... digamos, denunci�-lo.</p><p>� Henrik estava ocupado com alguns membros da fam�lia...</p><p>� Havia quatro pessoas no c�modo, al�m de Henrik. Seu irm�o Greger, o filho de uma prima chamado Magnus Sj�gren e os dois filhos de Harald Vanger, Birger e Cecilia. Mas isso n�o significa nada de especial. Vamos supor que Harriet descobriu que algu�m estava desviando dinheiro da empresa. Apenas uma hip�tese. Ela pode ter guardado essa informa��o por meses, ou mesmo t�-la discutido v�rias vezes com a pessoa em quest�o. Pode ter tentado chantage�-la ou ter se compadecido dela, sem saber se deveria denunci�-la. Pode ter tomado uma decis�o repentina, informou o assassino disso, e ele, assustado, a eliminou.</p><p>� O senhor disse "assassino"?</p><p>� Do ponto de vista estat�stico, os assassinos s�o em geral homens. Mas n�o se pode negar que a fam�lia Vanger tem algumas mulheres que s�o verdadeiras v�boras.</p><p>� Conheci Isabella.</p><p>� � uma delas. Mas h� outras. Cecilia Vanger pode se mostrar bastante inflex�vel. Conheceu Sara Sj�gren? � Mikael fez que n�o com a cabe�a. � � a filha de Sofia Vanger, uma das primas de Henrik. Uma mulher realmente desagrad�vel e sem escr�pulos, eu lhe garanto. Mas ela morava em Malm� e, at� onde consegui descobrir, n�o tinha raz�o para eliminar Harriet.</p><p>� Humm.</p><p>� O �nico problema � que, por mais que tenhamos virado e revirado essa hist�ria, jamais entendemos o motivo. Esse � o ponto. Quando descobrirmos o motivo, saberemos o que houve e quem foi o respons�vel.</p><p>� O senhor trabalhou a fundo nesse caso. H� alguma pista que n�o tenha seguido?</p><p>Gustav Morell deu uma risadinha.</p><p>� Ah, n�o, Mikael. Dediquei um tempo danado a esse caso e n�o h� o menor detalhe que eu n�o tenha rastreado t�o longe quanto poss�vel. Mesmo depois que fui promovido e que deixei Hedestad.</p><p>� Deixou?</p><p>� Sim, n�o sou origin�rio de Hedestad. Fui destacado para l� entre 1963 e 1968. Depois fui nomeado delegado e trabalhei o restante da minha carreira na pol�cia de G�vle. Mas mesmo em G�vle continuei trabalhando no desaparecimento de Harriet.</p><p>� Henrik Vanger n�o largou do seu p�, imagino.</p><p>� Sim, � claro, mas n�o foi por isso. O enigma Harriet me fascina at� hoje. Quero dizer... entenda, todo tira tem seu pr�prio mist�rio n�o resolvido. Lembro que quando eu estava em Hedestad meus colegas mais velhos falavam do caso Rebecka na hora do caf�. Havia um policial chamado Torstensson, ele j� morreu h� muitos anos, que voltava a esse caso ano ap�s ano. Durante seu tempo livre e nas f�rias. Quando as coisas estavam calmas com os delinquentes locais, ele pegava os arquivos e punha-se a refletir.</p><p>� Tamb�m se tratava de uma jovem desaparecida?</p><p>O comiss�rio Morell pareceu surpreso por um segundo. Depois sorriu quando percebeu que Mikael buscava uma esp�cie de liga��o.</p><p>� N�o, n�o o mencionei por esse motivo. Falo da alma de um policial. O caso Rebecka data de bem antes do nascimento de Harriet Vanger e est� prescrito h� muito tempo. Nos anos 1940, uma mulher de Hedestad foi atacada, violentada e assassinada. Isso n�o � nada raro. Durante sua carreira, todo policial tem que elucidar esse tipo de acontecimento pelo menos uma vez. O que quero dizer � que h� casos que se incrustam, se enfiam debaixo da pele dos investigadores. Essa mo�a foi morta de uma forma particularmente brutal. O assassino atou-lhe as m�os e os p�s e afundou sua cabe�a nas brasas de uma lareira. N�o sei quanto tempo a pobre mo�a levou para morrer, nem que dores foi obrigada a suportar.</p><p>� Que horror!</p><p>� Exatamente. Um horror total. O pobre Torstensson foi o primeiro investigador a chegar quando a descobriram, e o crime nunca foi elucidado, mesmo com o refor�o de peritos de Estocolmo. Ele nunca conseguiu abandonar o caso.</p><p>� Entendo.</p><p>� O meu caso Rebecka � Harriet. N�o sabemos como ela morreu. Tecnicamente, n�o podemos sequer provar que houve um crime. Mas jamais consegui abandon�-lo.</p><p>Ele refletiu por um momento.</p><p>� O of�cio de investigador criminal talvez seja o mais solit�rio do mundo. Os amigos da v�tima ficam revoltados e desesperados, mas cedo ou tarde, ao cabo de algumas semanas ou meses, a vida volta ao normal. Para os familiares pr�ximos, leva mais tempo, por�m eles tamb�m acabam superando o desgosto e o desespero. A vida continua. Mas os crimes n�o resolvidos permanecem nos corroendo por dentro. No final das contas, uma �nica pessoa permanece pensando na v�tima e tentando lhe fazer justi�a: o tira encarregado do inqu�rito.</p><p>Tr�s outras pessoas da fam�lia Vanger viviam na ilha. Alexander Vanger, nascido em 1946 e filho de Greger, morava numa casa de madeira reformada, constru�da no come�o do s�culo XX. Henrik informou a Mikael que Alexander encontrava-se atualmente nas Antilhas, onde se dedicava a suas atividades favoritas � velejar e viver � toa. Henrik demoliu o sobrinho com tamanho vigor que Mikael concluiu que Alexander Vanger era um de seus principais suspeitos. Alexander tinha vinte anos quando Harriet Vanger desapareceu e era um dos que estavam no local.</p><p>Com Alexander morava sua m�e Gerda, de oitenta anos e vi�va de Greger Vanger. Mikael nunca a via; tinha a sa�de fr�gil e permanecia a maior parte do tempo na cama.</p><p>A terceira pessoa era, evidentemente, Harald Vanger. Durante o primeiro m�s, Mikael n�o conseguiu avistar sequer a sombra do velho biologista das ra�as. A casa de Harald, o vizinho mais pr�ximo de Mikael, tinha um aspecto l�gubre com suas janelas cobertas por espessas cortinas. V�rias vezes Mikael teve a impress�o de ver um leve movimento dessas cortinas, e uma noite, j� bem tarde, quando se preparava para deitar-se, viu luz no quarto do andar de cima. A cortina estava semi-aberta. Durante mais de vinte minutos, ficou ali fascinado, na escurid�o da cozinha, observando a luz, antes de desistir e ir para a cama tiritando de frio. De manh�, a cortina estava novamente fechada.</p><p>Harald Vanger parecia um esp�rito invis�vel mas eternamente presente, marcando a vida do povoado com sua aus�ncia. Na imagina��o de Mikael, Harald adquiria cada vez mais a forma de um Gollum mal�volo que espionava os arredores atr�s das cortinas e se entregava a atividades misteriosas em seu covil hermeticamente fechado.</p><p>Uma vez por dia, Harald recebia a visita de uma empregada dom�stica, uma mulher de idade que vinha do outro lado da ponte e chafurdava, com cestos carregados de alimentos, na neve amontoada at� a porta, j� que ele se recusava a desobstruir a entrada. Gunnar Nilsson, o faz-tudo, balan�ou a cabe�a quando Mikael o questionou. Explicou que se propusera limpar a neve, mas que Harald n�o queria ningu�m pondo o p� no seu terreno. Uma �nica vez, no primeiro inverno depois que Harald retornou � ilha, Gunnar Nilsson dirigiu-se automaticamente com o trator � casa de Harald para desobstruir a neve da entrada, como fazia diante de todas as casas. A iniciativa lhe valeu ver Harald Vanger sair de casa, vociferando, gesticulando, exigindo que ele fosse embora.</p><p>Por outro lado, Nilsson lamentava n�o poder limpar o p�tio de Mikael, pois o trator n�o passava naquela entrada estreita. Ali era preciso uma p� de neve e trabalho bra�al.</p><p>Em meados de janeiro, Mikael Blomkvist encarregou seu advogado de tentar saber quando ele deveria cumprir os tr�s meses de pris�o. Queria se livrar da pena o mais r�pido poss�vel. Ir para a pris�o revelou-se mais f�cil do que imaginava. Ap�s uma semana de lengalenga, ficou decidido que Mikael se apresentaria no dia 17 de mar�o � pris�o de Rullaker, perto de �stersund, penitenci�ria em regime aberto para condena��es leves. O advogado de Mikael informou tamb�m que a pena provavelmente seria reduzida.</p><p>� �timo � disse Mikael sem grande entusiasmo.</p><p>Estava sentado � mesa da cozinha acariciando o gato de p�los ruivos, que se habituara a surgir a intervalos regulares para passar a noite na casa dele. Helen Nilsson, do outro lado da estrada, disse-lhe que o gato se chamava Tjorven, que n�o pertencia a ningu�m em particular, mas fazia a ronda de casa em casa.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael se reunia com Henrik Vanger quase todas as tardes. �s vezes para uma breve conversa, �s vezes para discutir durante horas o desaparecimento de Harriet e diferentes detalhes da investiga��o particular de Henrik.</p><p>Quase sempre Mikael formulava uma teoria que Henrik se aplicava em torpedear. Mikael tentava manter distanciamento de sua miss�o, mas em alguns momentos se sentia terrivelmente fascinado pelo mist�rio do desaparecimento de Harriet.</p><p>Mikael prometera a Erika montar tamb�m uma estrat�gia que lhes permitisse retomar a luta contra Hans-Erik Wennerstr�m, mas, depois de um m�s em Hedestad, n�o havia sequer aberto as pastas sobre o caso que o levara ao tribunal. Ao contr�rio � recha�ava inteiramente o problema. Toda vez que come�ava a refletir sobre Wennerstr�m e sua pr�pria situa��o, ca�a num des�nimo profundo. Nos momentos de lucidez, perguntava-se se n�o estaria ficando maluco como o velho Vanger. Sua carreira profissional desabara como um castelo de cartas e sua rea��o fora refugiar-se num vilarejo do campo para expulsar seus fantasmas. Sem contar a falta que sentia de Erika.</p><p>Henrik Vanger observava seu colega de investiga��o com uma discreta inquietude. Notava que Mikael nem sempre exibia um equil�brio perfeito. Em fins de janeiro, o velho tomou uma decis�o que surpreendeu a si pr�prio. Pegou o telefone e ligou para Estocolmo. A conversa durou vinte minutos e girou principalmente em torno de Mikael Blomkvist.</p><p>Foi necess�rio cerca de um m�s para que a c�lera de Erika se abrandasse. �s nove e meia de uma das �ltimas noites de janeiro, ela telefonou.</p><p>� Ent�o est� mesmo disposto a continuar a�? � perguntou de supet�o. O telefonema pegou Mikael t�o de surpresa que de pronto n�o soube o que responder. Depois sorriu e estreitou o cobertor junto ao corpo.</p><p>� Oi, Ricky. Voc� tamb�m devia vir aqui experimentar.</p><p>� Por qu�? H� algum atrativo particular em morar nesse fim de mundo?</p><p>� Acabo de escovar os dentes com �gua gelada. Isso faz minhas obtura��es berrarem.</p><p>� A culpa � toda sua. Mas confesso que aqui em Estocolmo tamb�m est� fazendo um frio danado.</p><p>� Me conte as novidades.</p><p>� Perdemos dois ter�os dos nossos anunciantes fixos. Ningu�m tem vontade de dizer claramente, mas...</p><p>� Eu sei. Guarde o nome de todos que pularam fora. Um dia faremos uma boa reportagem sobre eles.</p><p>� Micke... fiz uns c�lculos e, se n�o conseguirmos novos anunciantes, afundaremos no outono. Simples assim.</p><p>� O vento vai mudar.</p><p>Ela deu uma risada cansada do outro lado da linha.</p><p>� Voc� n�o pode dizer uma coisa como essa e se contentar em ficar a� nesse inferno lap�o.</p><p>� N�o exagere, a aldeia lap�nia mais pr�xima fica a mais de quinhentos quil�metros daqui.</p><p>Erika calou-se um momento e depois prosseguiu:</p><p>� Eu sei. Homem que � homem executa seu trabalho, patati, patat�, conhe�o bem essa hist�ria. N�o estou pedindo que se justifique. Me desculpe por ter sido grossa e por n�o ter respondido aos seus telefonemas. Ser� que podemos recome�ar? Seria muita ousadia minha eu ir visit�-lo?</p><p>� Quando voc� quiser.</p><p>� Devo levar um fuzil para enfrentar os lobos?</p><p>� De jeito nenhum. Contrataremos alguns lap�es com tren�s puxados por c�es. Quando voc� vem?</p><p>� Sexta-feira � tarde. Est� bem?</p><p>De um momento para o outro, a vida pareceu infinitamente mais alegre para Mikael.</p><p>Com exce��o do estreito caminho desobstru�do at� a porta, o terreno estava coberto por cerca de um metro de neve. Mikael olhou demoradamente a p�, pensando no que precisaria fazer, depois foi perguntar aos Nilsson se Erika podia estacionar o BMW na casa deles durante a perman�ncia dela ali. N�o havia problema. A garagem era ampla e eles at� ofereceram um aquecedor de bloco para o motor.</p><p>Erika fez o trajeto � tarde e chegou por volta das seis. Os dois se olharam com certa reserva por alguns segundos e depois se estreitaram um nos bra�os do outro durante um tempo bem mais longo.</p><p>A n�o ser pela igreja iluminada, n�o havia muito o que ver na obscuridade do anoitecer. O supermercado Konsum e o Caf� Susanne j� estavam fechando as portas. Eles se apressaram a entrar em casa. Enquanto Mikael preparava o jantar, Erika bisbilhotava todos os cantos, lan�ando coment�rios sobre os <emphasis>Rekordmagasinet </emphasis>dos anos 1950 e folheando os arquivos na saleta de trabalho. Jantaram costeletas de carneiro com batatas � <emphasis>la creme </emphasis>� muitas calorias � e beberam vinho tinto. Mikael tentou retomar o assunto, mas Erika n�o estava disposta a conversar sobre a <emphasis>Millennium. </emphasis>Em vez disso, falaram durante duas horas de si mesmos e das atividades de Mikael. Depois foram verificar se a cama era bastante larga para dois.</p><p>O terceiro encontro com o advogado Nils Bjurman fora cancelado, transferido e finalmente marcado para as cinco da tarde da mesma sexta-feira. Nas reuni�es anteriores, Lisbeth Salander fora recebida por uma cinquentona perfumada de alm�scar que funcionava como secret�ria. Desta vez, ela n�o estava presente e o advogado Bjurman exalava um leve cheiro de �lcool. Ele fez sinal para Salander se sentar numa poltrona e ficou folheando distraidamente pap�is at� parecer de repente se dar conta da presen�a dela.</p><p>Seguiu-se um novo interrogat�rio. Ele indagou Lisbeth acerca de sua vida sexual, que ela considerava definitivamente um assunto privado, sem ter a menor inten��o de discuti-lo com quem quer que fosse.</p><p>Depois do encontro, viu que havia conduzido mal a conversa. Silenciosa de in�cio, evitara responder �s perguntas dele, que interpretara aquilo como timidez, defici�ncia mental ou uma tentativa de dissimula��o, enquanto a pressionava para obter respostas. Percebendo que ele n�o desistiria, dera respostas sum�rias ou an�dinas, do tipo que supunha combinar com seu perfil psicol�gico. Mencionou Magnus � descrito como um programador nerd da sua idade que se comportava como um gentleman com ela, que a levava ao cinema e �s vezes para a cama. Magnus era pura fic��o e foi tomando forma � medida que ela falava, mas Bjurman aproveitou o pretexto para tra�ar um mapa detalhado da vida sexual dela na hora seguinte. Com que frequ�ncia voc� faz amor? De tempo em tempo. Quem toma a iniciativa, voc� ou ele? Eu. Voc�s usam preservativos? Claro � ela ouvira falar do HIV. Qual � a sua posi��o preferida? Geralmente de costas. Gosta de fazer sexo oral? Ei, espera a�... J� praticou sexo anal?</p><p>� N�o, n�o acho nem um pouco divertido me foderem por tr�s, mas isso n�o � da sua conta, de modo nenhum!</p><p>Era a segunda vez que se irritava com Bjurman. Consciente de que ele poderia interpretar seu olhar de modo equivocado, ela o fixou no teto para tentar controlar a raiva. Quando voltou a olh�-lo, ele estava rindo do outro lado da mesa. Lisbeth Salander entendeu de repente que sua vida tomaria um rumo dram�tico. Deixou o advogado Bjurman com um sentimento de nojo. N�o estava preparada para isso. Jamais ocorreria a Palmgren fazer esse tipo de pergunta; ao contr�rio, ele estava sempre disposto a escut�-la, oferecimento que ela raramente aproveitou.</p><p>Bjurman era um <emphasis>problema s�rio </emphasis>em vias de se tornar um problema <emphasis>muito s�rio.</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis/><strong>11. S�BADO 1� DE FEVEREIRO � TER�A-FEIRA 18 DE FEVEREIRO</strong></p><p>Aproveitando as breves horas de luz do s�bado, Mikael e Erika fizeram um passeio que os levou das cabanas do porto � fazenda �stergarden. Embora estivesse na ilha havia um m�s, Mikael ainda n�o visitara seu interior; o frio e v�rias tempestades de neve o dissuadiram de tais exerc�cios. Mas o s�bado estava ensolarado e agrad�vel, como se Erika tivesse trazido um come�o de primavera ao horizonte. A temperatura era de cinco graus negativos. �s margens da estrada, elevava-se um metro de neve arrastada pelos tratores. Assim que deixaram a regi�o das cabanas, entraram num bosque de pinheiros denso e Mikael ficou surpreso ao constatar que o monte Sul, que dominava o porto de recreio, era bem mais alto e inacess�vel do que diria quem o visse do povoado. Por um momento perguntou-se quantas vezes Harriet Vanger fora brincar ali quando crian�a, depois n�o pensou mais nisso. Alguns quil�metros adiante, o bosque terminava de modo brusco diante do cercado da fazenda de �stergarden. Viram uma casa branca de madeira e um imponente celeiro vermelho. Decidiram n�o ir at� a fazenda e voltaram pelo mesmo caminho.</p><p>Passavam em frente ao acesso da casa Vanger, quando Henrik bateu palmas na janela do andar de cima e, com gestos, os convidou a subir. Mikael e Erika se olharam.</p><p>� Quer conhecer um industrial legend�rio? � perguntou Mikael.</p><p>� Ele morde?</p><p>� N�o aos s�bados.</p><p>Henrik Vanger os recebeu � porta de seu escrit�rio com um aperto de m�o.</p><p>� Acho que sei quem voc� �, deve ser a senhorita Berger � disse. � Mikael n�o comentou que viria a Hedeby.</p><p>Uma das maiores qualidades de Erika era sua capacidade de criar v�nculos de amizade com as mais diversas pessoas. Mikael j� a vira despejar seu charme sobre garotinhos de cinco anos que, dez minutos depois, n�o queriam mais saber da m�e. Velhos com mais de oitenta anos n�o pareciam ser exce��o. Suas covinhas sorridentes eram s� o aperitivo. Passados dois minutos, Erika e Henrik Vanger ignoravam totalmente Mikael e conversavam como se fossem velhos amigos de inf�ncia � digamos, da inf�ncia de Erika, considerando a diferen�a de idade deles.</p><p>Sem nenhum constrangimento, Erika come�ou censurando Henrik por ter atra�do seu melhor redator para aquele buraco. O velho replicou que, segundo entendera ao ler os diversos comunicados de imprensa, ela j� o havia dispensado e, se n�o o tivesse feito, seria um �timo momento para aliviar a reda��o. Fingindo-se de interessada, Erika examinou Mikael com olhar cr�tico. De todo modo, uma pausa no campo seria proveitosa ao jovem Blomkvist, acrescentou Henrik Vanger. Erika estava inteiramente de acordo.</p><p>Durante cinco minutos, eles fizeram piada sobre os reveses de Mikael. Afundado na poltrona, calado, fingindo-se ofendido, ele fez cara feia quando Erika lan�ou alguns coment�rios equ�vocos que podiam eventualmente se aplicar aos seus defeitos como jornalista, mas tamb�m ao seu desempenho sexual. Com a cabe�a para tr�s, Henrik gargalhava muito.</p><p>Mikael ficou estupefato; eram apenas chacotas amistosas, mas nunca tinha visto Henrik t�o descontra�do e � vontade. Ocorreu-lhe ent�o que um Henrik Vanger cinquenta anos mais jovem � digamos, com trinta anos � devia ter sido um homem sedutor e atraente. N�o voltara a se casar. Certamente tivera mulheres pelo caminho, mas continuara solteiro por quase meio s�culo.</p><p>Mikael tomou um gole de caf� e voltou a prestar aten��o na conversa, que de repente tinha ficado s�ria e tratava da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Mikael deu a entender que voc�s est�o com problemas na revista. Erika voltou-se para Mikael.</p><p>� N�o, ele n�o falou de assuntos internos, mas seria preciso ser surdo e cego para n�o perceber que tanto a revista de voc�s como as empresas Vanger est�o em dificuldades.</p><p>� Acredito que podemos dar um jeito na situa��o � respondeu Erika com prud�ncia.</p><p>� Duvido � replicou Henrik.</p><p>� �? Por qu�?</p><p>� Vejamos: quantos funcion�rios voc�s t�m, seis? Uma tiragem de vinte e um mil exemplares com circula��o mensal, custos de impress�o e de distribui��o, aluguel... Precisam de algo em torno de dez milh�es, digamos. Metade dessa quantia � assegurada pelos anunciantes.</p><p>� E...?</p><p>� Hans-Erik Wennerstr�m � um safado, vingativo, mesquinho que n�o vai esquecer de voc�s t�o cedo. Quantos anunciantes voc�s perderam nos �ltimos meses?</p><p>Erika aguardou o que viria a seguir, observando Henrik Vanger. Mikael surpreendeu-se de respira��o contida. Quando ele e o velho falavam da <emphasis>Millennium, </emphasis>era apenas para fazer coment�rios insignificantes ou para falar do quanto a situa��o da revista podia depender da capacidade de Mikael fazer um bom trabalho em Hedestad. Mikael e Erika eram co-fundadores e co-propriet�rios da <emphasis>Millennium, </emphasis>mas era evidente que naquele momento Vanger dirigia-se exclusivamente a Erika, de patr�o para patr�o. Uma conversa que seguia um c�digo que Mikael n�o conseguia entender nem interpretar e que talvez se devesse ao fato de, no fundo, ele ser apenas um filho de oper�rio pobre do Norrland e ela uma filha da aristocracia, dotada de uma bela �rvore geneal�gica internacional.</p><p>� Posso tomar mais um caf�? � perguntou Erika. Henrik a serviu imediatamente.</p><p>� Bem, vamos admitir que o senhor seja perspicaz. A �gua est� come�ando a subir nos por�es da <emphasis>Millennium. </emphasis>Mas estamos sobrevivendo.</p><p>� Por quanto tempo?</p><p>� Temos seis meses pela frente para dar meia-volta. Oito, nove meses no m�ximo. Mas n�o temos liquidez suficiente para nos manter � tona por mais tempo que isso.</p><p>O rosto do velho estava insond�vel quando olhou pela janela. A igreja continuava em seu lugar.</p><p>� Sabem que j� fui propriet�rio de um jornal?</p><p>Mikael e Erika balan�aram negativamente a cabe�a ao mesmo tempo. Henrik deu uma risada.</p><p>� Possu�amos seis jornais do Norrland. Foi nos anos 1950 e 1960. Id�ia do meu pai; ele achava que podia haver vantagens pol�ticas em participar da m�dia. Ainda somos propriet�rios do <emphasis>Hedestads-Kuriren, </emphasis>Birger Vanger � presidente do conselho administrativo do jornal. � o filho de Harald � acrescentou, dirigindo-se a Mikael.</p><p>� Ele tamb�m � vereador � observou Mikael.</p><p>� Martin tamb�m faz parte do conselho. Procura manter Birger sob controle.</p><p>� Por que n�o participa mais dos jornais? � perguntou Mikael.</p><p>� Reestrutura��o nos anos 1960. A atividade jornal�stica era mais um hobby do que um interesse. Quando precisamos reduzir o or�amento, foi um dos primeiros bens que pusemos � venda nos anos 1970. Mas sei o que significa estar � frente de um peri�dico... Posso fazer uma pergunta pessoal?</p><p>A pergunta era dirigida a Erika, que levantou uma sobrancelha e com um gesto convidou Vanger a prosseguir.</p><p>� N�o perguntei a Mikael sobre isso e, se n�o quiserem responder, n�o se sintam obrigados. Gostaria de saber por que se meteram nesse loda�al. Havia ou n�o uma hist�ria?</p><p>Mikael e Erika trocaram olhares. Desta vez, Mikael � que parecia ter um ar insond�vel. Erika hesitou um segundo antes de falar.</p><p>� T�nhamos uma hist�ria. Mas na verdade est�vamos abordando outra. Henrik Vanger balan�ou a cabe�a, como se entendesse perfeitamente.</p><p>Mas o pr�prio Mikael n�o entendia.</p><p>� N�o quero falar sobre isso � interveio Mikael. � Fiz minhas investiga��es e escrevi o texto. Tinha todas as fontes necess�rias. E a� a coisa desandou.</p><p>� Mas tinha uma fonte para tudo o que escreveu?</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. A voz de Henrik tornou-se incisiva de repente.</p><p>� N�o vou fingir que entendo como conseguiu meter o p� em cima dessa mina. N�o conhe�o nenhuma hist�ria similar, exceto talvez o caso Lundhall no <emphasis>Expressen, </emphasis>nos anos 1960, se � que j� ouviram falar dele, pois s�o muito jovens. Seu informante tamb�m era um perfeito mit�mano? � Ele balan�ou a cabe�a e voltou-se para Erika, baixando a voz. � J� fui editor de peri�dicos e posso voltar a ser. O que acha de ter mais um s�cio?</p><p>A pergunta foi como um rel�mpago num c�u azul, mas Erika n�o pareceu nem um pouco surpresa.</p><p>� O que est� querendo dizer?</p><p>Henrik Vanger evitou a pergunta fazendo outra.</p><p>� Quanto tempo ficar� em Hedestad?</p><p>� At� amanh�.</p><p>� O que � que voc� acha � voc� e Mikael, claro � de fazer um velho feliz e vir jantar comigo esta noite? �s sete?</p><p>� Por mim tudo bem. Viremos com prazer. Mas o senhor se esquivou da pergunta que eu fiz. Por que deseja se associar � <emphasis>Millennium?</emphasis></p><p>� N�o me esquivei da pergunta. Achei que poder�amos falar sobre isso no jantar. Preciso discutir com meu advogado, Dirch Frode, antes de propor algo mais concreto. Mas, para resumir, digamos que tenho dinheiro para investir. Se a revista sobreviver e come�ar a ser rent�vel, terei lucro. Caso contr�rio... bem, j� sofri perdas bem maiores que essa na vida.</p><p>Mikael ia abrir a boca quando Erika p�s a m�o em seu joelho.</p><p>� Mikael e eu sempre lutamos para ser inteiramente independentes.</p><p>� Bobagem. Ningu�m � inteiramente independente. Mas n�o estou querendo me apossar da revista e n�o estou interessado no conte�do. Aquele cretino do Stenbeck encheu os bolsos publicando <emphasis>Moderna Tider; </emphasis>por que n�o posso ajudar a <emphasis>Millennium, </emphasis>que, al�m do mais, � uma boa revista?</p><p>� H� alguma rela��o com Wennerstr�m? � perguntou Mikael subitamente. Henrik Vanger sorriu.</p><p>� Mikael, tenho mais de oitenta anos. H� coisas que lamento n�o ter feito e pessoas que lamento n�o ter importunado um pouco mais. Mas, voltando ao assunto � e virou-se novamente para Erika �, esse investimento inclui pelo menos uma condi��o.</p><p>� Qual? � disse Erika.</p><p>� Mikael deve reassumir seu posto de editor respons�vel.</p><p>� N�o � disse Mikael de pronto.</p><p>� Sim � disse Henrik Vanger num tom igualmente firme. � Wennerstr�m ter� um ataque se divulgarmos um comunicado � imprensa anunciando que as empresas Vanger ap�iam a <emphasis>Millennium </emphasis>e que, ao mesmo tempo, voc� reassume como editor respons�vel. Ser� o sinal mais claro que podemos enviar. Todo mundo vai entender que n�o se trata de tomada de poder e que a pol�tica editorial permanecer� a mesma. E isso dar� aos anunciantes que pensam em se retirar uma raz�o para refletir um pouco mais. Wennerstr�m n�o � todo-poderoso. Ele tamb�m tem inimigos, e algumas empresas v�o achar que � o momento de buscar espa�o na revista.</p><p>� Afinal, que hist�ria maluca � essa? � disparou Mikael no momento em que Erika fechou a porta de entrada.</p><p>� � o que chamam de sondagem preliminar tendo em vista um acordo comercial � ela respondeu. � Voc� n�o me contou que Henrik era t�o irresist�vel.</p><p>Mikael plantou-se bem na frente dela.</p><p>� Ricky, voc� j� sabia exatamente qual seria o tema dessa conversa.</p><p>� Acalme-se, meu bem! S�o apenas tr�s da tarde e quero que se ocupem muito bem de mim antes do jantar.</p><p>Mikael Blomkvist fervia de c�lera. Mas ele nunca conseguiu ficar furioso com Erika por muito tempo.</p><p>Erika usava um vestido preto, um casaquinho e escarpins, que, por precau��o, pusera na sacola de viagem. Insistiu para que Mikael vestisse palet� e gravata. Ao chegarem na hora marcada � casa de Henrik Vanger, viram que Dirch Frode e Martin Vanger tamb�m tinham sido convidados, ambos de terno e gravata, enquanto Henrik vestia gravata-borboleta e uma malha de l� marrom.</p><p>� A vantagem de ter mais de oitenta anos � que ningu�m ousa criticar a sua maneira de vestir � ele observou.</p><p>Erika mostrou excelente humor durante todo o jantar.</p><p>A discuss�o s� come�ou de fato quando passaram a uma sala com lareira e o conhaque foi servido em todos os copos. Falaram durante cerca de duas horas, at� o rascunho de um acordo ser esbo�ado.</p><p>Dirch Frode criaria uma sociedade em nome de Henrik Vanger, cujo conselho administrativo seria formado por ele mesmo, Frode e Martin Vanger. Durante quatro anos, a sociedade investiria uma soma de dinheiro que cobriria a diferen�a entre as receitas e as despesas da <emphasis>Millennium. </emphasis>O dinheiro viria dos recursos pessoais de Henrik Vanger. Em contrapartida, ele teria uma posi��o determinante no conselho administrativo da revista. O acordo seria v�lido por quatro anos, mas poderia ser rescindido pela <emphasis>Millennium </emphasis>depois de dois. Tal rescis�o, por�m, custaria caro, pois a parte de Henrik s� poderia ser resgatada adquirindo-se a totalidade da soma investida.</p><p>Em caso da morte s�bita de Henrik Vanger, Martin Vanger o substituiria no conselho administrativo durante o per�odo de vig�ncia do contrato. Martin decidiria, chegado o momento, se estenderia ou n�o o acordo al�m desse prazo. Martin parecia tentado pela possibilidade de dar o troco a Hans-Erik Wennerstr�m, e Mikael se perguntou em que realmente consistia a disputa entre eles.</p><p>Estabelecido o acordo preliminar, Martin encheu novamente os copos com conhaque. Henrik aproveitou para se inclinar em dire��o a Mikael e explicar em voz baixa que o acordo n�o afetava de maneira nenhuma o contrato entre os dois.</p><p>Tamb�m ficou decidido que para que essa reorganiza��o tivesse o m�ximo de repercuss�o na imprensa ela seria anunciada em meados de mar�o, no mesmo dia em que Mikael Blomkvist fosse para a pris�o. Associar um acontecimento necessariamente negativo com uma reestrutura��o era t�o estranho do ponto de vista da comunica��o, que s� poderia confundir os detratores de Mikael e dar o m�ximo de audi�ncia � chegada de Henrik Vanger � <emphasis>Millennium. </emphasis>O sinal seria claramente percebido deste modo: retirava-se a bandeira amarela da peste que pairava sobre a reda��o e a revista tinha protetores que n�o estavam dispostos a ceder. Por mais que as empresas Vanger estivessem em crise, elas continuavam sendo um grupo industrial de peso e capaz de ter atua��o p�blica se necess�rio.</p><p>Toda a conversa foi uma discuss�o entre Erika, de um lado, e Henrik e Martin, de outro. Ningu�m pediu a opini�o de Mikael.</p><p>Mais tarde, � noite, Mikael estava apoiado sobre o peito de Erika e a fitava com olhos inquiridores.</p><p>� H� quanto tempo voc� e Henrik vinham discutindo esse acordo? � perguntou.</p><p>� H� cerca de uma semana � ela respondeu sorrindo.</p><p>� Christer est� sabendo?</p><p>� Claro.</p><p>� Por que n�o me disse nada?</p><p>� E por que eu deveria dizer? Voc� foi demitido, abandonou a reda��o e veio se instalar neste fim de mundo.</p><p>Mikael refletiu um momento sobre o que ela tinha dito.</p><p>� Est� querendo me dizer que mere�o ser tratado como um cretino?</p><p>� Isso mesmo � ela disse, marcando as palavras.</p><p>� Voc� ficou mesmo muito zangada comigo?</p><p>� Mikael, eu nunca me senti t�o furiosa, abandonada e tra�da como no momento em que voc� deixou a reda��o. Nunca tive tanta raiva de voc�. � E o pegou firmemente pelos cabelos e o empurrou mais para baixo na cama.</p><p>Quando Erika deixou a aldeia no domingo, Mikael estava t�o zangado com Henrik Vanger que n�o queria correr o risco de topar com ele ou com outro membro do cl�. Partiu ent�o para Hedestad e passou a tarde dando voltas pela cidade, foi � biblioteca, tomou caf� numa confeitaria... A noite foi ao cinema assistir a <emphasis>O senhor dos an�is, </emphasis>que ainda n�o tinha visto, embora o filme j� estivesse h� um ano em cartaz. Disse a si mesmo que os orcos, diferentemente dos humanos, eram criaturas simples, nada complicadas.</p><p>Encerrou a noitada no McDonald's de Hedestad e voltou � ilha � meia-noite, no �ltimo �nibus. Preparou caf� e instalou-se � mesa da cozinha para examinar um arquivo. Ficou lendo at� as quatro da manh�.</p><p>Alguns pontos de interroga��o no inqu�rito sobre Harriet Vanger revelavam-se cada vez mais estranhos � medida que Mikael avan�ava na leitura da documenta��o. N�o se tratava de nenhuma descoberta revolucion�ria que acabara de fazer, mas de problemas que haviam mantido o inspetor Gustav Morell ocupado por longos per�odos, sobretudo em seu tempo livre.</p><p>No �ltimo ano de sua vida, Harriet Vanger havia sofrido uma transforma��o. Mudan�a explic�vel, em certa medida, pela metamorfose que todos os jovens passam na adolesc�ncia. Harriet come�ava, certamente, a se tornar adulta, mas v�rias pessoas, tanto colegas de classe quanto professores e membros da fam�lia, afirmaram que ela se tornara mais fechada e reservada.</p><p>A menina que dois anos antes era uma adolescente perfeitamente normal e brincalhona parecia ter se distanciado de seu meio. Na escola, continuou a estar com os amigos, mas de um modo definido como "impessoal" por uma das colegas. Um termo bastante incomum para que Morell o registrasse e fizesse outras perguntas. A explica��o que lhe deram � que Harriet deixara de falar de si mesma, de comentar as �ltimas fofocas ou de fazer confid�ncias.</p><p>Na juventude, Harriet Vanger fora crist� como a maioria das crian�as � culto aos domingos, ora��es � noite etc. No �ltimo ano, pareceu ter virado crente. Lia a B�blia e ia regularmente � igreja. No entanto n�o se confiou ao pastor Otto Falk, amigo da fam�lia Vanger, e na primavera passou a frequentar uma congrega��o de pentecostais de Hedestad. Sua liga��o com a Igreja pentecostal n�o durou muito. Dois meses depois, deixou a congrega��o e passou a ler livros sobre catolicismo.</p><p>Exalta��o religiosa da adolesc�ncia? Talvez, mas ningu�m na fam�lia Vanger havia sido crente, e era dif�cil saber que impulsos guiaram seus pensamentos. Uma explica��o do interesse por Deus podia ser, evidentemente, a morte do pai, afogado num acidente um ano antes. Em todo caso, Gustav Morell concluiu que algo ocorrera na vida de Harriet que a oprimira e a influenciara, mas ele n�o sabia determinar o qu�. Assim como Henrik Vanger, Morell dedicou muito tempo a conversar com as amigas de Harriet, na esperan�a de encontrar algu�m a quem ela pudesse ter feito confid�ncias.</p><p>Havia muita expectativa a respeito de Anita Vanger, a filha de Harald Vanger que passou o ver�o de 1966 na ilha, que se dizia amiga �ntima de Harriet e era dois anos mais velha que ela. Mas tampouco Anita tinha alguma informa��o pessoal a dar. As duas se viram durante o ver�o, tomaram banho juntas, passearam, falaram de filmes, grupos de rock e livros. Harriet v�rias vezes acompanhou Anita em suas aulas de habilita��o de motorista. Um dia, se embriagaram levemente com uma garrafa de vinho surrupiada da adega. Tamb�m passaram v�rias semanas sozinhas na pequena casa de Gottfried na extremidade da ilha, uma cabana r�stica constru�da pelo pai de Harriet no come�o dos anos 1950.</p><p>As quest�es sobre os pensamentos �ntimos e os sentimentos de Harriet permaneciam sem resposta. Mikael notou, por�m, uma discord�ncia nas opini�es sobre ela: aqueles que achavam seu car�ter fechado eram em grande parte colegas de classe e, em certa medida, membros da fam�lia, mas Anita Vanger n�o a achara de modo algum retra�da. Ele anotou esse ponto para discuti-lo eventualmente com Henrik Vanger.</p><p>Um problema mais concreto, que levara Morell a se fazer muitas perguntas, era uma p�gina misteriosa da agenda finamente encadernada de Harriet Vanger, um presente de Natal recebido um ano antes de seu desaparecimento. A primeira metade da agenda continha anota��es di�rias com hor�rios de encontros, datas de provas no col�gio, deveres de casa e coisas do g�nero. Havia espa�o para anota��es pessoais, mas s� muito esporadicamente Harriet escrevia um di�rio �ntimo. Come�ou em janeiro com muita ambi��o, com observa��es sobre pessoas encontradas durante as f�rias de Natal e alguns coment�rios sobre os filmes que tinha visto. Depois, n�o escreveu mais nada de pessoal at� o fim do ano escolar, quando parece � � assim que se pode interpretar as anota��es � ter se interessado de longe por um rapaz cujo nome n�o revelou.</p><p>O verdadeiro mist�rio, por�m, estava na lista de endere�os e telefones. Minuciosamente caligrafados em ordem alfab�tica, apareciam os nomes de alguns de seus familiares, colegas de classe, professores, membros da Igreja pentecostal e outras pessoas de seu meio facilmente identific�veis. Na �ltima p�gina da lista, depois de um espa�o em branco e fora de ordem alfab�tica, havia cinco nomes associados a n�meros telef�nicos. Tr�s nomes de mulheres e duas iniciais.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Os n�meros de cinco algarismos que come�avam por 32 correspondiam a telefones de Hedestad nos anos 1960. A exce��o iniciada por 30 era de Norrbyn, perto de Hedestad. O �nico problema, depois que o inspetor Morell contatou sistematicamente todo o c�rculo de conhecidos de Harriet, era que ningu�m tinha a menor id�ia de a quem pertenciam esses n�meros de telefone.</p><p>O primeiro, "Magda", parecia promissor. Levou a uma loja de retr�s na rua do Parque, n�mero 12. O telefone estava em nome de uma Margot Lundmark, cuja m�e chamava-se Magda e que de vez em quando trabalhava na loja. No entanto Magda tinha sessenta e nove anos e n�o fazia id�ia de quem era Harriet Vanger. Nada indicava tamb�m que Harriet tivesse ido l� fazer compras. A costura n�o fazia parte de suas atividades.</p><p>O segundo n�mero, "Sara", levou a uma fam�lia com filhos pequenos, os Toresson, que moravam em V�ststan, do outro lado da ferrovia. A fam�lia era formada por Anders, Monica e seus filhos Jonas e Peter, que na �poca ainda n�o tinham idade de ir � escola. N�o havia nenhuma Sara na fam�lia e eles tampouco sabiam quem era Harriet Vanger, a n�o ser pelo que tinham lido nos jornais sobre seu desaparecimento. A �nica liga��o muito vaga entre Harriet e a fam�lia Toresson era que Anders, pedreiro, trabalhara durante algumas semanas, um ano antes, na reforma do telhado da escola em que Harriet cursava o �ltimo ano do colegial. Teoricamente, portanto, havia uma possibilidade de que tivessem se encontrado, ainda que isso fosse bastante improv�vel.</p><p>Os tr�s outros n�meros telef�nicos conduziam a becos sem sa�da id�nticos. O n�mero 32027 pertencera de fato a uma Sosemaroe Larsson, mas ela falecera havia muitos anos.</p><p>Durante o inverno de 1966-1967, o inspetor Morell dedicou grande parte de suas investiga��es a tentar explicar por que Harriet anotara esses nomes e n�meros.</p><p>Uma primeira suposi��o era que os n�meros telef�nicos seguiam uma esp�cie de c�digo pessoal � e Morell se esfor�ou para raciocinar como uma adolescente. Como a s�rie iniciada por 32 se aplicava claramente a Hedestad, ele tentou inverter os outros tr�s algarismos. Mas nem tentando 32601, nem 32160, conseguiu chegar a alguma Magda. Obstinado em resolver o mist�rio dos n�meros, descobriu que, se modificasse bastante os algarismos, cedo ou tarde acabaria encontrando alguma liga��o com Harriet. Por exemplo, se somasse 1 a cada um dos tr�s �ltimos algarismos de 32016, obteria o n�mero 32127, que era o do escrit�rio do advogado Frode em Hedestad. O problema era que tal liga��o n�o significava absolutamente nada. Al�m do mais, ele nunca descobriu um c�digo que pudesse explicar os cinco n�meros ao mesmo tempo.</p><p>Morell ampliou seu racioc�nio. Ser� que os algarismos podiam significar outra coisa? Os n�meros das placas dos ve�culos nos anos 1960 tinham uma letra associada a uma regi�o, e cinco algarismos � novo impasse.</p><p>Depois o inspetor abandonou os algarismos para se concentrar nos nomes. Chegou a fazer uma lista de todas as pessoas de Hedestad chamadas Mari, Magda e Sara e outras com nomes iniciados pelas letras RL e RJ. Obteve um repert�rio de trezentas e sete pessoas. Entre elas, vinte e nove tinham alguma conex�o com Harriet; por exemplo, um colega de classe do col�gio chamava-se Roland Jacobsson, RJ. Mas eles n�o eram particularmente pr�ximos e haviam deixado de ter contato desde que Harriet fora para o colegial. Al�m disso, n�o existia nenhuma liga��o com o n�mero de telefone.</p><p>O mist�rio da agenda telef�nica continuou sem solu��o.</p><p>O quarto encontro com o dr. Bjurman n�o fora marcado com anteced�ncia. Ela � que foi obrigada a entrar em contato com ele.</p><p>Na segunda semana de fevereiro, o computador port�til de Lisbeth Salander sofreu um acidente t�o est�pido que ela esteve a ponto de assassinar o planeta Terra inteiro. Ao chegar de bicicleta para uma reuni�o na Milton Security, estacionou atr�s de um pilar e p�s a mochila no ch�o para pegar o cadeado. Um Saab vermelho-escuro escolheu bem esse momento para dar marcha a r�. Ela estava virada de costas e ouviu o estalo. O motorista n�o se deu conta de nada e tranquilamente subiu a rampa para desaparecer pela sa�da da garagem.</p><p>A mochila continha seu iBook Apple 600, branco, com um disco r�gido de 25 gigas e mem�ria RAM de 420 megas, fabricado em janeiro de 2002 e com tela de 14 polegadas. Quando o adquiriu, era o que havia de melhor na Apple. Os computadores de Lisbeth Salander dispunham das configura��es mais recentes e �s vezes bastante caras � seu equipamento de inform�tica era o �nico item extravagante de suas despesas.</p><p>Ela abriu a mochila e constatou que a tampa do computador estava quebrada. Tentou faz�-lo funcionar, mas ele n�o emitiu sequer um �ltimo suspiro. Levou os restos � MacJesus Shop de Timmy, na Br�nnkyrkagatan, na esperan�a de que pelo menos uma parte do disco r�gido pudesse ser recuperada. Ap�s um breve exame do aparelho, Timmy balan�ou a cabe�a.</p><p>� Sinto muito, n�o h� o que fazer � anunciou. � Pode encomendar o enterro.</p><p>A perda do computador era um golpe moral, mas n�o uma cat�strofe. Lisbeth Salander se entendera perfeitamente bem com ele ao longo de um ano de conviv�ncia. Fizera c�pias de todos os documentos e ainda possu�a um velho computador de mesa Mac G3 e outro Toshiba port�til que poderia usar. Mas ela precisava de uma m�quina r�pida e moderna.</p><p>Optou, como era de se esperar, pela melhor escolha poss�vel: o novo Apple Powerbook G4 de 1 Ghz, com tampa de alum�nio e dotado de um processador PowerPC 7451, AltiVec Velocity Engine, mem�ria RAM de 960 megas e disco r�gido de 60 gigas. Tinha Bluetooth e um gravador de CD e DVD integrado.</p><p>Mais que isso, era o primeiro notebook do mundo com tela de 17 polegadas, uma placa Nvidia e resolu��o de 1440 por 900 pixels que deixavam embasbacados adeptos dos PC e faziam esquecer tudo o que havia de novo no mercado.</p><p>Era o Rolls-Royce dos computadores port�teis, mas o que mais agu�ou a vontade de Lisbeth Salander de possu�-lo foi um teclado esperto provido de retro-ilumina��o, que permitia enxergar as letras das teclas mesmo na escurid�o total. Simples, n�o? Por que ningu�m pensara nisso antes?</p><p>Foi um caso de amor � primeira vista.</p><p>Custava trinta e oito mil coroas, mais as taxas.</p><p>A� havia um problema s�rio.</p><p>Mesmo assim fez a encomenda na MacJesus, onde sempre comprava seus equipamentos de inform�tica e que lhe concedia um desconto razo�vel. Alguns dias depois, Lisbeth Salander fez as contas. O seguro do computador acidentado cobriria boa parte da compra, mas, considerando a franquia e o pre�o elevado da nova aquisi��o, faltava-lhe ainda um pouco mais de dezoito mil coroas. Em casa, ela guardava dez mil coroas num pote de caf� para ter sempre dinheiro l�quido � m�o, mas isso n�o cobria toda a soma. Mesmo amaldi�oando-o, decidiu telefonar para o dr. Bjurman e explicar que precisava de dinheiro para uma despesa imprevista. Bjurman respondeu que n�o tinha tempo de receb�-la naquele dia. Salander explicou que ele n�o demoraria mais de vinte segundos para passar um cheque de dez mil coroas. Ele retrucou que n�o podia fazer um cheque com t�o poucos elementos, mas depois acabou cedendo e, ap�s um instante de reflex�o, marcou um encontro com ela ap�s o expediente, �s sete e meia.</p><p>Mikael admitia n�o ter compet�ncia para avaliar um inqu�rito criminal, mas ainda assim concluiu que o inspetor Morell fora excepcionalmente consciencioso e movera c�us e terras muito al�m do que seu trabalho exigia. Deixando de lado o inqu�rito policial, Mikael via Morell retornar �s anota��es de Henrik; uma amizade desenvolvera-se entre os dois e Mikael se perguntou se Morell se tornara t�o obsessivo quanto o empres�rio. Mas concluiu que nada de importante escapara a Morell. A solu��o do mist�rio Harriet Vanger n�o podia estar num inqu�rito policial praticamente perfeito. Todas as quest�es imagin�veis haviam sido levantadas e todos os ind�cios verificados, mesmo os mais absurdos.</p><p>Ele ainda n�o lera todo o inqu�rito, mas, quanto mais avan�ava, mais os ind�cios e as pistas exploradas se tornavam obscuros. N�o esperava descobrir algo que seu predecessor n�o tivesse percebido, e n�o via sob que novo �ngulo atacar o problema. Uma conclus�o se impunha aos poucos: o �nico caminho poss�vel era tentar descobrir as motiva��es psicol�gicas das pessoas implicadas.</p><p>O ponto de interroga��o mais evidente dizia respeito � pr�pria Harriet. Quem era ela afinal?</p><p>Da janela de sua casa, Mikael viu acender-se, por volta das cinco da tarde, a luz no andar de cima da casa de Cecilia Vanger. Bateu � sua porta �s sete e meia, no momento em que o notici�rio come�ava na tev�. Ela vestia um penhoar quando abriu a porta, e tinha os cabelos molhados sob uma toalha amarela. Assim que a viu, Mikael desculpou-se por incomod�-la e j� se preparava para partir quando ela o convidou a entrar na cozinha. Ligou a cafeteira el�trica e desapareceu no alto da escada durante alguns minutos, para depois descer vestindo um jeans e uma camisa de flanela xadrez.</p><p>� Eu j� estava come�ando a achar que voc� n�o teria coragem de vir. Podemos nos tratar por voc�?</p><p>� Claro. Sim, eu deveria ter telefonado antes, mas, quando passei e vi a luz acesa, me deu uma vontade repentina.</p><p>� E eu tenho visto que a luz fica acesa a noite toda na sua casa. E que geralmente voc� sai para passear depois da meia-noite. Voc� � uma ave noturna?</p><p>Mikael encolheu os ombros.</p><p>� Foi o ritmo que adotei aqui. � Seus olhos dirigiram-se a alguns livros escolares empilhados na beira da mesa. � Continua dando aulas, senhora diretora?</p><p>� N�o, como diretora n�o tenho mais tempo. Mas j� dei aulas de hist�ria, religi�o e de educa��o c�vica. E s� me restam uns poucos anos.</p><p>� Poucos? Ela sorriu.</p><p>� Estou com cinquenta e seis. Em breve me aposento.</p><p>� Sinceramente, eu lhe dava uns quarenta.</p><p>� Bondade sua. E voc�, que idade tem?</p><p>� Um pouco mais de quarenta � sorriu Mikael.</p><p>� E ainda ontem voc� tinha apenas vinte. Como passa depressa... a vida, eu quero dizer.</p><p>Cecilia Vanger serviu o caf� e perguntou se Mikael estava com fome. Ele respondeu que j� tinha comido; o que era verdade, a n�o ser por um detalhe: ele andava se alimentando de sandu�ches em vez de preparar refei��es de verdade. Mas n�o estava com fome.</p><p>� Ent�o, o que o traz aqui? Chegou a hora de me fazer as famosas perguntas?</p><p>� Para falar a verdade... n�o vim fazer perguntas. Acho que estava simplesmente com vontade de v�-la.</p><p>Cecilia Vanger sorriu, surpresa.</p><p>� Voc� foi condenado � pris�o, trocou Estocolmo por Hedeby, anda mergulhado nos arquivos favoritos de Henrik, n�o dorme � noite, faz longas caminhadas noturnas debaixo de um frio de rachar... esqueci alguma coisa?</p><p>� Minha vida � um trem fora dos trilhos. � Mikael retribuiu o sorriso.</p><p>� Quem � a mulher que veio v�-lo no fim de semana?</p><p>� Erika... a dona da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Sua namorada?</p><p>� N�o exatamente. Ela � casada. Sou mais um amigo e um amante ocasional.</p><p>Cecilia Vanger deu uma gargalhada.</p><p>� O que � t�o engra�ado?</p><p>� O modo como voc� disse isso. Amante ocasional. Adorei a express�o. Mikael riu. Essa Cecilia Vanger decididamente lhe agradava.</p><p>� Gostaria muito de ter um amante ocasional � ela disse.</p><p>Descal�ou as pantufas e p�s o p� sobre o joelho de Mikael. Maquinalmente ele pegou o p� dela e acariciou sua pele. Hesitou um segundo � sentiu que navegava em �guas inesperadas e incertas. Mas com o polegar come�ou a massagear com suavidade a planta do p� de Cecilia Vanger.</p><p>� Tamb�m sou casada � disse ela.</p><p>� Eu sei. Ningu�m se divorcia no cl� Vanger.</p><p>� N�o vejo meu marido h� quase vinte anos.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� N�o te interessa. N�o fa�o amor h�... humm... digamos, h� uns tr�s anos.</p><p>� Voc� me surpreende.</p><p>� Por qu�? � uma quest�o de oferta e procura. N�o estou nem um pouco interessada em ter um namorado, um marido leg�timo ou um companheiro. Sinto-me bem comigo mesma. Com quem eu faria amor? Com um dos professores da escola? Duvido. Com um aluno? Seria um assunto delicioso para as fofocas da cidade. Todos vigiam de perto os Vanger. E aqui em Hedeby�n moram apenas membros da fam�lia ou pessoas j� casadas.</p><p>Ela se inclinou para a frente e enla�ou os bra�os no pesco�o dele.</p><p>� Estou chocando voc�?</p><p>� N�o. Mas n�o sei se � uma boa id�ia. Trabalho para o seu tio.</p><p>� E eu seria certamente a �ltima pessoa a contar para ele. Mas � bem prov�vel que Henrik n�o tivesse nada contra.</p><p>Ela sentou de pernas abertas sobre os joelhos de Mikael e o beijou na boca. Os cabelos ainda estavam �midos e cheiravam a xampu. Ele demorou um pouco para abrir os bot�es da camisa de flanela, descobrindo-lhe os ombros. Ela n�o se dera o trabalho de p�r suti�. Quando ele tocou seus seios, ela estreitou o corpo contra o dele.</p><p>O advogado Bjurman contornou a mesa e mostrou-lhe o extrato da conta, cujo saldo ela conhecia at� o �ltimo centavo, mas do qual n�o podia mais dispor livremente. Ele se mantinha de p� �s suas costas. S�bito, come�ou a acariciar a nuca de Lisbeth, deslizando a m�o sobre o ombro esquerdo e o seio dela. P�s a outra m�o sobre o seio direito e a deixou ali. Como ela n�o protestou, ele apertou o seio. Lisbeth Salander n�o se mexia. Sentiu o h�lito dele em sua nuca e olhou para o cortador de papel em cima da mesa; poderia facilmente atingi-lo com a m�o livre.</p><p>Mas n�o fez nada. Uma coisa que Holger Palmgren lhe ensinara ao longo dos anos era que atos impulsivos traziam problemas, e problemas podiam trazer consequ�ncias desagrad�veis. Ela nunca fazia nada sem antes pesar as consequ�ncias.</p><p>Esse primeiro abuso sexual � em termos jur�dicos podia ser qualificado como abuso sexual e de poder sobre uma pessoa dependente, e teoricamente podia significar at� dois anos de pris�o para Bjurman � durou apenas alguns segundos. O suficiente, por�m, para transpor, sem volta, uma fronteira. Lisbeth Salander entendeu isso como a demonstra��o de for�a de uma tropa inimiga � um modo de deixar claro que, para al�m da rela��o jur�dica cuidadosamente estabelecida, ela estava � merc� da boa vontade dele, e desarmada. Quando seus olhos se cruzaram alguns segundos depois, a boca de Bjurman estava entreaberta e ela viu desejo em seu rosto. O rosto de Salander n�o tra�a o menor sentimento.</p><p>Bjurman contornou novamente a mesa e sentou-se em sua confort�vel cadeira de couro.</p><p>� N�o posso te passar cheques assim, sem mais � disse abruptamente. � Por que voc� precisa de um computador t�o caro? H� equipamentos bem mais baratos nos quais voc� pode instalar seus jogos.</p><p>� Quero dispor do meu dinheiro como antes. Bjurman lan�ou-lhe um olhar cheio de piedade.</p><p>� Veremos isso mais tarde. Primeiro voc� precisa aprender a ser soci�vel e a se entender com as pessoas.</p><p>O sorriso do dr. Bjurman certamente teria se contra�do um pouco se ele pudesse ler os pensamentos de Lisbeth por tr�s de seus olhos inexpressivos.</p><p>� Acho que podemos ser bons amigos � disse Bjurman. � Precisamos confiar um no outro.</p><p>Como ela n�o respondeu, ele foi mais expl�cito.</p><p>� Voc� agora � uma mulher adulta, Lisbeth.</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Venha c� � disse ele, estendendo-lhe uma m�o.</p><p>Lisbeth Salander p�s novamente os olhos no cortador de papel por alguns segundos antes de se levantar e ir at� l�. Consequ�ncias. Ele pegou a m�o dela e a p�s em seu p�bis. Ela sentiu o membro atrav�s da cal�a de gabardine escura.</p><p>� Se for gentil comigo, serei gentil com voc� � ele disse.</p><p>Ela estava r�gida como um tronco quando ele p�s a outra m�o atr�s de sua nuca e for�ou-a a ajoelhar-se, o rosto diante do p�bis.</p><p>� J� fez esse tipo de coisa, n�o fez? � ele perguntou, abrindo a braguilha. Ela percebeu que ele se lavara com �gua e sabonete.</p><p>Lisbeth Salander virou o rosto para o lado e tentou se levantar, mas ele a reteve com firmeza. Na for�a pura, n�o podia medir-se com ele; pesava quarenta e dois quilos contra os noventa e cinco dele. Ele pegou a cabe�a de Lisbeth com as m�os e virou-lhe o rosto para v�-la bem nos olhos.</p><p>� Se voc� for gentil comigo, serei gentil com voc� � repetiu. � Se me criar problemas, posso faz�-la ficar internada com os loucos o resto da sua vida. Gostaria disso?</p><p>Ela n�o respondeu.</p><p>� Gostaria disso? � ele repetiu.</p><p>Ela balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>Bjurman esperou at� que ela abaixasse o olhar, submissa, ele pensou. Depois a puxou para junto de si. Lisbeth Salander descerrou os l�bios e p�s o membro na boca. Em momento nenhum ele deixou de segur�-la pela nuca e de pression�-la violentamente. Ela se sentiu como que amorda�ada ao longo dos dez minutos em que ele se agitou at� finalmente ejacular; ele a segurara com tanta for�a que ela mal p�de respirar.</p><p>Bjurman deixou-a usar um pequeno banheiro anexo ao gabinete. O corpo inteiro de Lisbeth Salander tremia quando ela lavou o rosto e tentou limpar as manchas do pul�ver. Usou o dentifr�cio dele para tirar o gosto da boca. Ao voltar ao gabinete, encontrou-o instalado � mesa, folheando pap�is, como se nada tivesse acontecido.</p><p>� Sente-se, Lisbeth � ele disse, sem olhar para ela. Ela sentou-se. Finalmente ele olhou para ela e sorriu.</p><p>� Voc� agora � adulta, n�o �, Lisbeth?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ent�o deve ser capaz de jogar jogos de adultos � ele disse, como se falasse com uma crian�a.</p><p>Lisbeth n�o respondeu. Uma pequena ruga se formou na testa de Bjurman.</p><p>� Acho que n�o seria uma boa id�ia falar dos nossos jogos a outra pessoa. Pense bem: quem acreditaria em voc�? H� pap�is que comprovam sua irresponsabilidade. � Como ela n�o respondeu, ele prosseguiu: � Seria a sua palavra contra a minha. Qual delas voc� acha que pesaria mais?</p><p>Ele suspirou diante da obstina��o dela em n�o responder. De repente ficou irritado de v�-la sentada ali, muda, com os olhos fixos nele. Mas controlou-se.</p><p>� Seremos bons amigos, voc� e eu. Foi muito sensata em vir me procurar. Conte sempre comigo.</p><p>� Preciso de dez mil coroas para o meu computador � ela falou de repente, em voz baixa, como se retomasse a conversa iniciada antes da interrup��o.</p><p>O dr. Bjurman ergueu as sobrancelhas. Que puta mais dura de roer! � totalmente retardada. Estendeu-lhe o cheque que havia preparado enquanto ela estava no banheiro. � mais que uma puta; ela se paga com o pr�prio dinheiro! Dirigiu-lhe um sorriso superior. Lisbeth Salander pegou o cheque e foi embora.</p><empty-line/><p><strong>12. QUARTA-FEIRA 19 DE FEVEREIRO</strong></p><p>Se Lisbeth Salander fosse uma cidad� comum, ela provavelmente iria � pol�cia denunciar o estupro no instante em que deixava o escrit�rio do dr. Bjurman. Os hematomas na nuca e no pesco�o, bem como as manchas de esperma com o DNA de Bjurman em seu corpo e em suas roupas, teriam sido provas materiais pesadas. Mesmo que o advogado se esquivasse, alegando que <emphasis>ela concordou </emphasis>ou <emphasis>foi ela que me seduziu, </emphasis>ou <emphasis>foi ela que quis a fela��o </emphasis>e outras afirma��es para as quais os estupradores apelam sistematicamente, ainda assim ele seria culpado de tantas infra��es do c�digo de tutelas, que lhe teriam retirado de imediato o controle que exercia sobre ela. Uma den�ncia teria provavelmente permitido a Lisbeth Salander conseguir um verdadeiro advogado, bem informado a respeito dos abusos de poder sobre as mulheres, o que por sua vez poderia levar a uma discuss�o do problema central � sua condi��o de tutelada.</p><p>Desde 1989, a no��o de maior de idade incapaz deixou de existir.</p><p>H� dois n�veis de assist�ncia � a curadoria e a tutela.</p><p>Um curador interv�m para ajudar, com benevol�ncia, pessoas que por diversas raz�es t�m dificuldade de lidar com suas atividades cotidianas, pagar contas ou cuidar da sa�de. O curador designado em geral � um parente ou amigo pr�ximo. Se a pessoa n�o tem ningu�m na vida, as autoridades sociais se encarregam de encontrar algu�m que cumpra essa fun��o. A curadoria � uma forma moderada de tutela em que a pessoa interessada conserva o controle de seus recursos e em que as decis�es s�o tomadas em comum.</p><p>A tutela � uma forma de controle bem mais estrita. A pessoa � impedida de dispor livremente de seu dinheiro e de tomar decis�es em diferentes �reas. A formula��o exata declara que o tutor <emphasis>administra os bens e efetua todos os atos c�vicos ou jur�dicos </emphasis>da pessoa em quest�o. Na Su�cia, cerca de quatro mil pessoas se encontram nessa situa��o. As causas mais frequentes que levam algu�m a ser posto sob tutela s�o uma doen�a ps�quica manifesta ou uma doen�a ps�quica ligada a forte depend�ncia de �lcool ou drogas. Os dementes senis constituem uma parcela menor. N�o deixa de ser surpreendente que haja, entre as pessoas colocadas sob tutela, muitas relativamente jovens, com menos de trinta e cinco anos. Uma delas era Lisbeth Salander.</p><p>Privar uma pessoa do controle de sua vida, ou seja, de sua conta banc�ria, � uma das medidas mais degradantes a que pode recorrer uma democracia, ainda mais quando se trata de um jovem. E degradante, mesmo que a inten��o seja considerada boa e socialmente justific�vel. As quest�es de tutela, portanto, s�o um problema pol�tico que pode se revelar bastante delicado, cercadas de disposi��es rigorosas e controladas por uma comiss�o de tutelas. Esta depende do conselho geral, submetido por sua vez ao procurador geral.</p><p>Via de regra, a comiss�o de tutelas trabalha em condi��es dif�ceis. Levando em conta as quest�es delicadas de que se ocupa essa administra��o, � surpreendente que t�o poucas reclama��es ou esc�ndalos tenham sido divulgados nos meios de comunica��o.</p><p>De vez em quando se toma conhecimento de uma a��o na Justi�a contra um curador ou um tutor que desviou dinheiro ou que vendeu indevidamente o apartamento do cliente para embolsar o dinheiro. Mas s�o casos relativamente raros, e isso por duas poss�veis raz�es: ou porque a administra��o cumpre muito bem suas tarefas, ou porque as pessoas em quest�o n�o t�m a possibilidade de prestar queixa e de se fazerem ouvir de modo convincente por jornalistas e autoridades.</p><p>A comiss�o de tutelas � obrigada a avaliar, todos os anos, se h� alguma raz�o para solicitar a suspens�o de uma tutela. Como Lisbeth Salander persistia em sua recusa obstinada de submeter-se a exames psiqui�tricos � n�o dirigia sequer um polido bom-dia aos m�dicos �, a administra��o nunca encontrou raz�es para modificar sua decis�o. Mantido o <emphasis>statu quo, </emphasis>sua tutela era renovada anualmente.</p><p>O texto da lei estipula, por�m, que a determina��o de uma tutela <emphasis>deve se adaptara cada caso. </emphasis>Quando Holger Palmgren era o respons�vel, ele interpretou isso � sua maneira e deixou a Lisbeth Salander a responsabilidade de administrar seu dinheiro e sua vida. Ele cumpria meticulosamente as exig�ncias da administra��o e fazia um relat�rio mensal e uma revis�o anual. Fora isso, tratava Lisbeth Salander como qualquer jovem normal e n�o se imiscu�a em suas escolhas de vida ou amizades. Achava que n�o cabia nem a ele nem � sociedade decidir se aquela jovem queria ter um <emphasis>piercing </emphasis>no nariz e uma tatuagem no pesco�o. Essa atitude um tanto permissiva em rela��o � decis�o do tribunal de inst�ncia era uma das raz�es pelas quais Lisbeth e ele se entendiam t�o bem.</p><p>Enquanto Holger Palmgren foi seu tutor, Lisbeth Salander n�o se preocupou muito com seu estatuto jur�dico. Mas o dr. Nils Bjurman interpretava a lei de tutela de modo radicalmente diferente.</p><p>Seja como for, Lisbeth Salander n�o pertencia � categoria das pessoas normais. Tinha um conhecimento rudimentar em direito � �rea na qual nunca se interessou em se aprofundar � e sua confian�a no servi�o de manuten��o da ordem quase n�o existia. Para ela, a pol�cia era um poder inimigo relativamente imperfeito, cujas interven��es concretas ao longo dos anos haviam sido det�-la ou humilh�-la. A �ltima vez que havia se defrontado com a pol�cia fora numa tarde de maio do ano anterior. Caminhava pela G�tgatan para ir � Milton Security, quando de repente viu-se cara a cara com um policial munido de capacete com viseira, que, sem a menor provoca��o da parte dela, aplicou-lhe um golpe de cassetete no ombro. Seu instinto de defesa a levou imediatamente � ofensiva com a garrafa de Coca-Cola que trazia na m�o. Por sorte, antes que ela tivesse tempo de reagir, o policial j� virara as costas e partia para reprimir outras pessoas. Mais tarde, ficou sabendo que naquele dia a associa��o A Rua Nos Pertence organizara uma manifesta��o no bairro.</p><p>A id�ia de ir ao QG dos capacetes-com-viseira ou de denunciar Nils Bjurman por abuso sexual n�o lhe passava pela cabe�a. Ali�s, denunciar o qu�? Bjurman tocara-lhe os seios. Qualquer policial a examinaria com os olhos para constatar que, com seus peitinhos de menina, aquilo parecia improv�vel e, mesmo que houvesse acontecido, ela devia mais era se orgulhar de <emphasis>algu�m </emphasis>t�-la tocado. Quanto � hist�ria de chupar � era a palavra dela contra a de Bjurman e, geralmente, a palavra dos outros contava mais que a dela. A <emphasis>pol�cia n�o era uma boa alternativa.</emphasis></p><p>Depois de deixar o escrit�rio de Bjurman, foi para casa, tomou um banho, devorou dois sandu�ches de queijo com picles, e ent�o instalou-se para refletir no sof� da sala com seu tecido pu�do e embolotado.</p><p>Qualquer indiv�duo normal talvez tivesse considerado sua falta de rea��o como um elemento de acusa��o � uma prova de que, de certo modo, Lisbeth era t�o anormal que mesmo um estupro n�o conseguia provocar nela uma resposta emocional satisfat�ria.</p><p>Seu c�rculo de amizades era bastante restrito e tamb�m n�o abrangia jovens de classe m�dia protegidos por seus condom�nios fechados do sub�rbio. Desde a maioridade, Lisbeth Salander n�o conhecia uma �nica garota que, pelo menos uma vez, n�o tivesse sido for�ada a realizar algum tipo de ato sexual. Eram abusos cometidos quase sempre por namorados mais velhos que, usando de alguma persuas�o, davam um jeito de conseguir o que queriam. Pelo que ela sabia, tais incidentes resultavam �s vezes em crises de choro e de raiva, mas jamais numa queixa levada � delegacia.</p><p>No mundo de Lisbeth Salander, era esse o estado natural das coisas. Enquanto mulher, ela era uma presa autorizada, sobretudo a partir do momento em que vestia uma jaqueta de couro preto e gasto, tinha <emphasis>piercings </emphasis>nas sobrancelhas, tatuagens e um status social nulo.</p><p>N�o havia por que derramar l�grimas por isso.</p><p>Por outro lado, estava fora de quest�o que o dr. Bjurman pudesse obrig�-la a chupar seu pau <emphasis>impunemente. </emphasis>Lisbeth Salander nunca esquecia uma afronta e estava disposta a tudo, menos a perdoar.</p><p>Mas seu estatuto jur�dico trazia um problema. Desde suas lembran�as mais remotas, fora considerada uma menina obstinada e de uma viol�ncia injustific�vel. As primeiras anota��es a seu respeito haviam sido feitas pela enfermeira da escola prim�ria. Fora mandada para casa por ter batido num colega de classe e por t�-lo empurrado com tanta for�a contra um cabide que ele se machucou. Ela ainda se lembrava com irrita��o da v�tima, um menino gordo chamado David Gustavsson que n�o parava de provoc�-la e de atirar-lhe coisas na cabe�a, e que com o passar do tempo tornou-se um perfeito algoz, embora na �poca ela n�o conhecesse a palavra. De volta � escola, David prometeu vingar-se em tom amea�ador e ela o derrubou com um soco bem dirigido e refor�ado por uma bola de golfe no punho, o que resultou em mais sangue derramado e em um novo registro de mau comportamento.</p><p>As regras da vida em comum na escola sempre a deixaram perplexa. Ela se ocupava de seus afazeres e n�o se intrometia na vida dos outros. Mas havia sempre algu�m disposto a jamais deix�-la em paz.</p><p>No ensino prim�rio, foi mandada v�rias vezes para casa em virtude de violentas disputas com colegas. Os garotos de sua classe, bem mais fortes que ela, logo descobriram que podia ser desagrad�vel implicar com aquela menina franzina � ao contr�rio das outras meninas, ela nunca batia em retirada e n�o hesitava um segundo em usar os punhos ou instrumentos diversos para se defender. Sua atitude significava que ela preferia ser maltratada at� a morte a aceitar qualquer abuso.</p><p>Al�m disso, vingava-se.</p><p>No gin�sio, Lisbeth Salander desentendeu-se com um rapaz bem mais alto e mais forte que ela. Do ponto de vista puramente f�sico, ela n�o representava um grande obst�culo para ele. V�rias vezes o rapaz divertiu-se em faz�-la cair, para depois esbofete�-la quando ela tentava reagir. Mas, apesar dessa superioridade, a idiota insistia em reagir e, depois de algum tempo, mesmo os outros alunos come�aram a achar que a coisa estava indo longe demais. Ela era t�o visivelmente indefesa que dava pena. O rapaz acabou por acertar-lhe um soco magistral que cortou seu l�bio e a fez ver estrelas. Ficou ca�da no p�tio do gin�sio. Passou dois dias em casa. Na manh� do terceiro dia, esperou seu algoz com um taco de beisebol e o desferiu contra sua orelha. Isso lhe valeu uma convoca��o do diretor, que decidiu apresentar queixa contra ela por agress�o f�sica, o que resultou num inqu�rito social.</p><p>Seus colegas de classe diziam que ela era maluca e a tratavam como tal. Ela tamb�m despertava pouca simpatia entre os professores, que em alguns momentos achavam-na insuport�vel. Nunca fora especialmente loquaz e era considerada a aluna que nunca levantava a m�o e que em geral n�o respondia quando o professor lhe fazia uma pergunta. Ningu�m sabia se era porque ela n�o conhecia a resposta ou se a raz�o era outra, mas suas notas refletiam uma situa��o de fato. Com certeza ela tinha problemas, por�m, curiosamente, ningu�m quis se encarregar dessa menina dif�cil, embora seu caso fosse discutido v�rias vezes entre os professores. Assim, mesmo eles a deixavam de lado, enclausurada num sil�ncio intrat�vel.</p><p>Certo dia, um substituto que n�o conhecia seu comportamento peculiar a intimou a responder a uma quest�o de matem�tica; ela teve uma crise hist�rica e atacou o professor com socos e pontap�s. Ao terminar o gin�sio, foi cursar o colegial em outra escola sem ter um �nico colega a quem dizer adeus. Uma menina de comportamento desviante que ningu�m amava.</p><p>Depois, quando estava no auge da adolesc�ncia, aconteceu-lhe todo o Mal no qual n�o queria pensar, a �ltima crise que veio completar o quadro e que fez com que reabrissem os arquivos do gin�sio. Desde ent�o foi considerada, do ponto de vista jur�dico... enfim, maluca. <emphasis>Uma doente mental. </emphasis>Lisbeth Salander nunca teve necessidade de documentos para saber que era diferente. No entanto, ningu�m a aborreceu enquanto seu tutor foi Holger Palmgren, um homem que ela podia conduzir � vontade, se necess�rio.</p><p>Com a chegada de Bjurman, a tutela corria o risco de virar um peso dram�tico em sua vida. N�o importa para quem se voltasse, haveria armadilhas potenciais em seu caminho, e o que aconteceria se perdesse o combate? Seria levada a uma institui��o? Encerrada num asilo de loucos? <emphasis>Bela alternativa!</emphasis></p><p>Mais tarde na noite, quando Cecilia Vanger e Mikael se aquietaram, pernas entrela�adas, Cecilia repousando a cabe�a no peito de Mikael, ela levantou os olhos para ele.</p><p>� Obrigada. Fazia muito tempo. Voc� n�o � ruim de cama.</p><p>Mikael sorriu. Esse tipo de elogio sempre lhe causava uma satisfa��o pueril.</p><p>� Foi bom � disse Mikael. � Inesperado, mas gostoso.</p><p>� Gostaria que se repetisse � disse Cecilia. � Se isso lhe agrada.</p><p>Mikael olhou para ela.</p><p>� Est� dizendo que gostaria de ter um amante?</p><p>� Um amante ocasional, como voc� disse. Mas quero que v� dormir em sua casa. N�o quero acordar de manh� com voc� aqui, antes de eu poder recompor meus m�sculos e meu rosto. E tamb�m n�o seria bom voc� sair espalhando pelo povoado o que fazemos juntos.</p><p>� Acha que eu faria isso? � disse Mikael.</p><p>� Sobretudo n�o quero que Isabella saiba. � uma mulher muito maldosa.</p><p>� E sua vizinha mais pr�xima... eu sei, j� nos encontramos.</p><p>� Ainda bem que da casa dela n�o se v� minha porta de entrada. Seja discreto, Mikael, por favor.</p><p>� Serei.</p><p>� Obrigada. Voc� bebe?</p><p>� �s vezes.</p><p>� Estou com vontade de beber um gim-t�nica. Que tal?</p><p>� �timo.</p><p>Ela se envolveu no len�ol e desceu a escada. Mikael aproveitou para ir ao banheiro e lavar o rosto. Nu, ele observava os livros na estante quando ela voltou com uma garrafa de �gua gelada e dois gins-t�nicas com lim�o. Fizeram um brinde.</p><p>� Por que veio � minha casa? � ela perguntou.</p><p>� Por nada de especial. Simplesmente eu...</p><p>� Estava na sua casa lendo o inqu�rito de Henrik e depois vem me ver. N�o � preciso ser muito inteligente para perceber o que o atormenta.</p><p>� Voc� leu o inqu�rito?</p><p>� Em parte. Passei toda a minha vida adulta �s voltas com esse inqu�rito. N�o se pode conviver com Henrik sem ser contaminado pelo mist�rio Harriet.</p><p>� A verdade � que � um problema fascinante. Quero dizer, � a vers�o insular do mist�rio do quarto fechado. E nada no inqu�rito me parece seguir a l�gica normal. Todas as quest�es continuam sem resposta, todos os ind�cios levam a um beco sem sa�da.</p><p>� Humm, essas coisas tornam as pessoas obsessivas.</p><p>� Voc� estava na ilha naquele dia.</p><p>� Sim. Estava aqui e presenciei os acontecimentos. Na �poca eu estudava em Estocolmo. Preferia ter ficado em casa naquele fim de semana.</p><p>� Como era Harriet de fato? As pessoas parecem t�-la interpretado de tantas maneiras diferentes.</p><p>� � <emphasis>off the record </emphasis>ou...?</p><p>� <emphasis>Off the record.</emphasis></p><p>� N�o fa�o a menor id�ia do que se passava na cabe�a de Harriet. Suponho que voc� queira falar do �ltimo ano. Num dia era uma crente, no dia seguinte maquiava-se como uma puta e ia � escola com a blusa mais colante que encontrava. N�o � preciso ser psic�logo para perceber que estava profundamente infeliz. Mas eu n�o vivia aqui, como eu disse; apenas ouvia as hist�rias.</p><p>� O que desencadeou esses problemas?</p><p>� Gottfried e Isabella, sem d�vida. Que desgra�a de casamento! Levianos e sempre dispostos a brigar. N�o fisicamente. Gottfried n�o era do tipo que bate em mulher, e ele at� tinha medo de Isabella. No come�o dos anos 1960, instalou-se de modo mais ou menos definitivo em sua cabana na extremidade da ilha, onde Isabella nunca punha os p�s. De tempos em tempos surgia aqui na aldeia parecendo um mendigo. Depois voltava ao normal e vestia-se com cuidado, tentando retomar seu trabalho.</p><p>� N�o havia ningu�m disposto a ajudar Harriet?</p><p>� Henrik, claro. Ela acabou vindo morar na casa dele. Mas n�o esque�a que ele andava ocupado em desempenhar seu papel de grande industrial. Geralmente estava viajando a neg�cios para algum lugar e n�o tinha muito tempo de se dedicar a Harriet e a Martin. N�o acompanhei bem essa hist�ria, pois morei primeiro em Uppsala e depois em Estocolmo � e tamb�m n�o tive uma juventude muito f�cil com Harald como pai, posso lhe assegurar. Mas aos poucos entendi que o problema vinha do fato de Harriet nunca se abrir com ningu�m. Ao contr�rio, ela procurava manter as apar�ncias e fingir que eles eram uma fam�lia feliz.</p><p>� Nega��o sistem�tica.</p><p>� Exatamente. Mas ela mudou depois que o pai se afogou. N�o podia mais fingir que estava tudo bem. At� ent�o ela fora... n�o sei como dizer, superdotada e precoce, mas de modo geral uma adolescente bem comum. No �ltimo ano, continuou sendo de uma intelig�ncia brilhante, tirava as melhores notas do col�gio, mas era como se n�o tivesse uma verdadeira personalidade.</p><p>� Como seu pai se afogou?</p><p>� Gottfried? Da maneira mais banal poss�vel. Caiu de um barco que estava pr�ximo da sua cabana. A braguilha estava aberta e verificou-se uma taxa de �lcool extremamente alta no sangue, d� pra imaginar o que aconteceu. Martin foi quem o encontrou.</p><p>� Eu n�o sabia.</p><p>� � engra�ado. Martin evoluiu, tornou-se uma pessoa saud�vel. Se me perguntassem isto trinta e cinco anos atr�s, eu teria dito que, de todos na fam�lia, ele � que precisava de um psic�logo.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Harriet n�o era a �nica a sofrer com a situa��o. Durante anos Martin foi t�o taciturno e fechado que podia ter sido apelidado de urso. As duas crian�as viviam momentos penosos. Mas n�o era muito diferente com todos n�s. Eu tinha problemas com meu pai, voc� deve ter percebido que ele � louco de dar n�. Minha irm� Anita tinha os mesmos problemas, assim como Alexander, meu primo. Era duro ser jovem na fam�lia Vanger.</p><p>� O que aconteceu com sua irm�?</p><p>� Anita mora em Londres. Foi para l� nos anos 1970, a fim de trabalhar numa ag�ncia de viagens sueca, e l� ficou. Viveu com um sujeito que ela nunca quis apresentar � fam�lia e de quem depois se separou. Hoje � chefe de escala na British Airways. Nos damos bem, eu e ela, mas temos muito pouco contato, nos vemos mais ou menos de dois em dois anos. Ela nunca vem a Hedestad.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Nosso pai � louco. Basta como explica��o?</p><p>� Mas voc� ficou aqui.</p><p>� Eu e Birger, meu irm�o.</p><p>� O pol�tico.</p><p>� Est� tirando um sarro? Birger � mais velho que Anita e eu. Nunca nos entendemos muito bem. Ele se considera um pol�tico muito importante com um futuro no Parlamento e talvez um cargo de ministro, se os conservadores ganharem. Na realidade, � um vereador med�ocre num povoado perdido, o que deveria representar ao mesmo tempo o auge e o fim de sua carreira.</p><p>� Uma coisa que me fascina na fam�lia Vanger � o �dio rec�proco de todos os lados.</p><p>� N�o � bem assim. Gosto muito de Martin e de Henrik. E sempre me dei bem com minha irm�, mesmo nos vendo pouco. Detesto Isabella, n�o tenho muita simpatia por Alexander. E n�o falo com meu pai. Eu diria que � mais ou menos meio a meio na fam�lia. Mas sei o que voc� quer dizer. Entenda assim: quando se � da fam�lia Vanger, aprende-se muito cedo a falar �s claras. Costumamos dizer o que pensamos.</p><p>� Sim, percebi que voc� foi muito franca. � Mikael estendeu a m�o e tocou os seios dela. � Bastaram quinze minutos na sua casa para voc� pular em cima de mim.</p><p>� Para ser bem franca, j� na primeira vez que o vi eu me perguntei como voc� seria na cama. E me pareceu muito normal eu querer fazer o teste.</p><p>Pela primeira vez na vida, Lisbeth Salander sentiu uma necessidade premente de pedir um conselho. No entanto havia um problema: para se aconselhar com algu�m, ela seria obrigada a confiar na pessoa, o que significava ser obrigada a se entregar e a contar seus segredos. Com quem poderia falar? N�o era muito boa em se relacionar com as pessoas.</p><p>Quando passou mentalmente em revista seu caderninho de endere�os, Lisbeth Salander contou n�o mais que dez pessoas que, de um modo ou de outro, pertenciam a seu c�rculo de conhecidos. Uma estimativa generosa, ela mesma admitiu.</p><p>Podia falar com Praga, um ponto mais ou menos fixo em sua exist�ncia. Mas n�o se tratava de um amigo, e ele seria o �ltimo a poder ajud�-la a resolver seus problemas. N�o era uma boa solu��o.</p><p>Na verdade, a vida sexual de Lisbeth Salander n�o era t�o modesta como dera a entender ao dr. Bjurman. E, na maioria das vezes, seus relacionamentos se desenrolaram de acordo com suas condi��es e por iniciativa sua. Desde os quinze anos, teve uns cinquenta parceiros, ou seja, algo como cinco por ano, o que era normal para uma mulher solteira da idade dela que considerava o sexo como um passatempo.</p><p>Mas ela conheceu a maioria desses parceiros ocasionais num per�odo de dois anos, na �poca tumultuosa do fim da adolesc�ncia. Lisbeth Salander viu-se ent�o numa encruzilhada, sem controle real sobre sua vida, e seu futuro poderia ter se transformado numa nova s�rie de ocorr�ncias relacionadas com drogas, �lcool e interna��o em diferentes institui��es. Depois dos vinte anos e de seu in�cio na Milton Security, ela se acalmara consideravelmente e julgava estar no comando de sua vida.</p><p>N�o se sentia mais obrigada a retribuir favores a quem lhe tivesse pago tr�s cervejas num bar, nem a menor obriga��o de acompanhar um b�bado, cujo nome mal lembrava, at� a casa dele. No �ltimo ano, teve um �nico parceiro regular, o que dificilmente se podia qualificar de atitude desavergonhada, como insinuavam os documentos m�dicos do final de sua adolesc�ncia.</p><p>Fora isso, para ela o sexo estava ligado ao fato de pertencer a um grupo de garotas do qual na realidade n�o fazia parte, mas que a aceitara por ser amiga de Cilla Nor�n. Ela conhecera Cilia no final da adolesc�ncia, quando, a pedido insistente de Holger Palmgren, tentou obter o certificado de conclus�o do segundo grau em um curso supletivo. Cilla tinha cabelos vermelhos com mechas escuras, vestia cal�a de couro preto, tinha um piercing no nariz e um cinto com rebites, como Lisbeth. Elas se olharam com desconfian�a na primeira aula.</p><p>Por uma raz�o que Lisbeth n�o conseguia entender, come�aram a se ver. Lisbeth n�o era das que logo faziam amizade, sobretudo naquela �poca, mas Cilla ignorou seu sil�ncio e a levou a um bar. Por interm�dio dela, Lisbeth tornou-se membro das Evil Fingers, originalmente um grupo da periferia composto de quatro adolescentes de Enskede que gostavam de <emphasis>hard rock </emphasis>e que, dez anos depois, formavam um grupo consider�vel de amigas que se reuniam no Moulin, ter�as-feiras � noite, para falar mal dos rapazes, conversar sobre feminismo, ci�ncias ocultas, m�sica e pol�tica, e beber quantidades enormes de cerveja. Elas, de fato, faziam jus ao nome.</p><p>Salander gravitava na periferia desse grupo e raramente dava sua contribui��o �s discuss�es, mas era aceita do jeito que era, podia ir e vir � vontade e ficar a noite toda com um copo de chope na m�o sem dizer nada. Tamb�m era convidada para os anivers�rios de uma ou outra, Natal e festas do g�nero, embora quase nunca comparecesse.</p><p>Durante os cinco anos em que frequentou as Evil Fingers, as meninas sofreram transforma��es. As cores dos cabelos foram voltando ao normal e as roupas agora provinham mais das lojas H&amp;M que dos brech�s do Ex�rcito da Salva��o. Todas ou estudavam ou trabalhavam, e uma deu � luz um menino. Lisbeth tinha a impress�o de ser a �nica que n�o mudara em nada, o que talvez significasse que patinava no mesmo lugar.</p><p>Mas elas se divertiam sempre que se encontravam. Se havia um lugar ao qual sentia uma esp�cie de pertencimento, era na companhia das Evil Fingers e, por extens�o, na companhia dos rapazes que constitu�am o c�rculo de amigos do grupo.</p><p>As Evil Fingers a escutariam e se mobilizariam a seu favor. Mas elas ignoravam que Lisbeth Salander estava submetida a uma decis�o da Justi�a que a declarava juridicamente irrespons�vel. N�o queria que elas tamb�m passassem a olh�-la torto. <emphasis>N�o era uma boa alternativa.</emphasis></p><p>Quanto ao resto, nem um �nico colega de classe de antigamente figurava no seu caderninho de endere�os. Ela n�o dispunha de nenhuma rede de apoio ou de contatos pol�ticos. Haveria algu�m a quem pudesse contar seus problemas com Nils Bjurman?</p><p>Sim, talvez houvesse algu�m. Ela refletiu demoradamente sobre a id�ia de se abrir com Dragan Armanskij, de procur�-lo para expor sua situa��o. Ele dissera que se ela precisasse de qualquer tipo de ajuda n�o devia hesitar em procur�-lo. Ela estava convencida de sua sinceridade.</p><p>Armanskij tamb�m a tocara uma vez, mas fora um gesto gentil, sem m�s inten��es, n�o tivera nada de demonstra��o de for�a. No entanto ela relutava em lhe pedir ajuda. Ele era seu chefe, e isso a tornaria devedora. Lisbeth Salander sorriu ao pensar em como seria sua vida se tivesse Armanskij como tutor em vez de Bjurman. A id�ia n�o era desagrad�vel, mas Armanskij certamente levaria t�o a s�rio a miss�o que a sufocaria com sua solicitude. <emphasis>Era... humm... uma alternativa poss�vel.</emphasis></p><p>Embora estivesse perfeitamente a par do papel do SOS-Mulheres, nunca lhe passou pela cabe�a utilizar esse recurso. Para ela, esses centros de apoio destinavam-se �s <emphasis>v�timas </emphasis>e ela nunca tinha se considerada como tal. Portanto, a �nica boa alternativa que lhe restava era agir como sempre agira � resolver ela mesma seus problemas. <emphasis>Essa, sim, era a boa solu��o.</emphasis></p><p>E uma solu��o que nada de bom prometia ao dr. Nils Bjurman.</p><empty-line/><p><strong>13. QUINTA-FEIRA 20 DE FEVEREIRO � SEXTA-FEIRA 7 DE MAR�O</strong></p><p>Na �ltima semana de fevereiro, Lisbeth Salander confiou a si mesma uma miss�o, que tinha o dr. Nils Bjurman, nascido em 1950, como objeto principal. Trabalhou cerca de dezesseis horas por dia e fez uma investiga��o mais minuciosa do que nunca. Utilizou todos os arquivos e todos os documentos oficiais que conseguiu encontrar. Vasculhou as rela��es familiares e pessoais, verificou as contas e reconstituiu em detalhe a carreira e os trabalhos realizados pelo advogado.</p><p>O resultado foi desanimador.</p><p>Ele era jurista, membro da Ordem dos Advogados e autor de uma tese verborr�gica e especialmente tediosa sobre direito comercial. Sua reputa��o era impec�vel. O dr. Bjurman nunca recebera uma cr�tica. Uma �nica vez foi chamado � Ordem dos Advogados � teria intermediado neg�cios imobili�rios escusos dez anos antes �, mas comprovou sua inoc�ncia e o caso foi arquivado. Suas contas estavam em ordem; Bjurman era rico, dispunha de pelo menos dez milh�es de coroas. Pagava mais impostos que o necess�rio, era membro do Greenpeace e da Anistia Internacional, e fazia doa��es regulares � Funda��o para o Cora��o e os Pulm�es. Seu nome raramente aparecia na m�dia, mas v�rias vezes assinou peti��es a favor de prisioneiros pol�ticos do Terceiro Mundo. Morava num apartamento de cinco quartos da Upplandsgatan, perto da Odenplan, e era secret�rio do conselho de cond�minos de seu pr�dio. Divorciado, sem filhos.</p><p>Lisbeth Salander dirigiu o foco para sua ex-mulher, chamada Elena. Nascera na Pol�nia, mas sempre vivera na Su�cia. Trabalhava num centro de reeduca��o e voltara a se casar, aparentemente um casamento melhor, com um colega de Bjurman. Nada a investigar desse lado. O casamento durara catorze anos e o div�rcio fora amig�vel.</p><p>Bjurman se ocupava regularmente do controle de jovens com problemas na Justi�a. Fora curador de quatro menores de idade antes de ser nomeado tutor de Lisbeth Salander. Cada uma dessas miss�es terminou por simples decis�o do tribunal no dia em que alcan�aram a maioridade. Um desses clientes ainda tinha Bjurman como advogado, mas tamb�m a� n�o parecia haver nada de importante a descobrir. Se Bjurman montara um sistema para tirar proveito de seus protegidos, pelo menos nada aparecia na superf�cie, e, por mais que Lisbeth pesquisasse em profundidade, tamb�m nada encontrou de errado. Os quatro tinham vidas regulares com um namorado ou namorada, emprego, casa e um monte de cart�es de cr�dito.</p><p>Ela entrou em contato com os quatro, apresentando-se como secret�ria de assuntos sociais encarregada de pesquisar jovens que no passado estiveram sob regime de curadoria, para saber como estava a vida deles comparada � de outros jovens. <emphasis>Sim, com certeza, � uma pesquisa completamente sigilosa. </emphasis>Montou um question�rio com dez itens. V�rias das perguntas eram formuladas de modo a incitar os interlocutores a dar sua opini�o sobre o funcionamento da curadoria � se tivessem algo a dizer sobre Bjurman, isso certamente teria transparecido em pelo menos um dos entrevistados. Mas ningu�m tinha nada de negativo a declarar.</p><p>Terminada a pesquisa, Salander enfiou toda a documenta��o num saco de papel de supermercado e o p�s, com um monte de jornais velhos, na entrada de seu pr�dio. O dr. Bjurman era, aparentemente, irreproch�vel. Nada havia em seu passado que Lisbeth pudesse usar como alavanca. No entanto, e ela tinha motivos para pensar isto, o cara n�o passava de um canalha est�pido e nojento. Ainda assim, n�o encontrava nada que pudesse utilizar como prova.</p><p>Chegou o momento de considerar outras possibilidades. Depois de passar em revista todas as an�lises, restava uma solu��o relativamente tentadora � ao menos muito realista. O mais simples seria Bjurman desaparecer de vez da sua vida. Um infarto fulminante. Fim dos problemas. A quest�o � que mesmo sujeitos viciosos de cinquenta e cinco anos n�o estavam t�o vulner�veis a um infarto.</p><p>Mas se podia dar um jeito nisso.</p><p>Mikael Blomkvist conduzia seu relacionamento com Cecilia Vanger na maior discri��o. Ela estabelecera tr�s condi��es: n�o queria que ningu�m soubesse que eles se encontravam. Queria que ele fosse � casa dela somente quando o chamasse pelo telefone e quando ela estivesse de bom humor. E queria que ele fosse embora antes da meia-noite.</p><p>A atitude de Cecilia deixava Mikael perplexo. Quando a via casualmente no Caf� Susanne, ela se mostrava am�vel, por�m fria e distante. Mas, quando se encontravam em seu quarto, ela ardia de paix�o.</p><p>Mikael n�o tinha nenhum motivo especial para revolver a vida particular dela, mas fora contratado para investigar a de toda a fam�lia Vanger. Sentia-se dividido e ao mesmo tempo curioso. Um dia, perguntou a Henrik Vanger com quem ela se casara e o que acontecera. Fez a pergunta quando eles falavam do passado de Alexander, de Birger e de todos os outros membros da fam�lia presentes na ilha no dia em que Harriet desapareceu.</p><p>� Cecilia? Pelo que sei, ela n�o se relacionava com Harriet.</p><p>� Fale-me do passado dela.</p><p>� Veio morar aqui depois de seus estudos e come�ou a trabalhar como professora. Conheceu um certo Jerry Karlsson, que infelizmente trabalhava no grupo Vanger. Casaram-se. Pensei que fosse um casamento feliz � ao menos no come�o. Mas depois de alguns anos percebi que as coisas n�o andavam bem. Ele batia nela. A hist�ria de sempre: ele batia, mas ela concedia-lhe circunst�ncias atenuantes. At� que um dia ele bateu demais. Ela ficou gravemente ferida e precisou ser hospitalizada. Falei com ela e ofereci-lhe ajuda. Ela veio morar na ilha e desde ent�o se recusa a ver o marido. Encarreguei-me de despedi-lo.</p><p>� Mas eles continuam casados.</p><p>� S� no papel. N�o sei por que ela n�o pediu o div�rcio. Como n�o quis se casar de novo, nunca houve problema.</p><p>� Esse Jerry Karlsson tinha alguma rela��o...</p><p>� ... com Harriet? N�o, ele n�o morava em Hedestad em 1966 e ainda n�o havia entrado para o grupo.</p><p>� Certo.</p><p>� Mikael, eu gosto de Cecilia. Ela pode ser complicada, mas � uma das raras pessoas boas da minha fam�lia.</p><p>T�o sistem�tica como um perfeito burocrata, Lisbeth Salander dedicou uma semana planejando a morte do dr. Nils Bjurman. Considerou � e rejeitou � diferentes m�todos, at� dispor de um n�mero de roteiros realistas entre os quais escolher. <emphasis>N�o agir impulsivamente. </emphasis>Seu primeiro pensamento foi tentar forjar um acidente, mas, refletindo bem, logo concluiu que pouco importava que falassem de homic�dio.</p><p>Apenas uma condi��o era necess�ria. Bjurman devia morrer sem que jamais a associassem com o crime. Suspeitava que cedo ou tarde, quando os tiras examinassem as atividades de Bjurman, seu nome apareceria num inqu�rito policial. Mas ela era somente um gr�o de areia numa gal�xia de clientes atuais e antigos, encontrara-se com ele raras vezes e, a menos que Bjurman tivesse anotado na agenda que a for�ara a chupar seu pinto � o que era bastante improv�vel �, n�o tinha raz�o para assassin�-lo. N�o haveria a menor prova de que a morte dele tinha alguma rela��o com seus clientes; poderiam pensar em ex-namoradas, parentes, conhecidos e um monte de outras pessoas. Poderiam mesmo classificar o caso como <emphasis>viol�ncia casual, </emphasis>quando assassino e v�tima n�o se conhecem.</p><p>Mas digamos que o nome dela aparecesse. E a�? Ela seria apenas uma pobre menina sob tutela, amparada por documentos que provavam que era uma retardada mental. O ideal, portanto, � que a morte de Bjurman se desse num esquema bastante sofisticado, para que n�o fosse plaus�vel pensar que uma retardada mental pudesse ser a autora do crime.</p><p>De sa�da rejeitou a solu��o arma de fogo. N�o teria muitos problemas de ordem pr�tica para obter uma, mas os tiras sabem como descobrir a origem das balas.</p><p>Considerou uma arma branca; embora uma faca pudesse ser comprada em qualquer bazar, rejeitou tamb�m essa solu��o. Mesmo que agisse com presteza e lhe cravasse a faca nas costas, nada garantia que ele fosse morrer em seguida e sem ru�do, nem mesmo que morreria. Pior: poderia haver luta, o que chamaria a aten��o, e suas roupas manchadas de sangue poderiam incrimin�-la.</p><p>Considerou tamb�m uma bomba, coisa, por�m, ainda mais complicada. Preparar uma bomba n�o seria problema � a internet est� cheia de manuais que ensinam a fabricar os objetos mais mort�feros. Dif�cil seria achar um jeito de explodir o canalha sem atingir tamb�m um inocente. Sem contar, mais uma vez, que nada garantiria a elimina��o do canalha.</p><p>O telefone tocou.</p><p>� Oi, Lisbeth, � Dragan. Tenho um trabalhinho para voc�.</p><p>� Estou sem tempo.</p><p>� � importante.</p><p>� Estou ocupada. E desligou.</p><p>Por fim, decidiu-se por uma solu��o inesperada � o veneno. A escolha a surpreendeu, mas, pensando bem, era perfeita.</p><p>Lisbeth Salander dedicou alguns dias e noites a pesquisar na internet um veneno adequado. A escolha era ampla. Primeiro aparecia o veneno mais mortal conhecido pela ci�ncia, considerando todas as categorias � o �cido cian�drico, tamb�m chamado de �cido pr�ssico.</p><p>O �cido cian�drico era utilizado na ind�stria qu�mica, entre outras, como componente de algumas tintas. Alguns miligramas bastariam para liquidar algu�m; um litro despejado no reservat�rio de �gua de uma cidade de porte m�dio poderia destru�-la completamente.</p><p>Por raz�es evidentes, tal subst�ncia mortal sofria um controle rigoroso. Mas se um fan�tico com projetos de assassinato pol�tico n�o podia entrar na farm�cia mais pr�xima e pedir dez mililitros de �cido cian�drico, era poss�vel fabric�-lo em quantidades quase ilimitadas numa cozinha qualquer. Um modesto equipamento de laborat�rio, dispon�vel num jogo infantil como O <emphasis>pequeno qu�mico, </emphasis>custa duzentas coroas e n�o requer mais que alguns ingredientes, que podem ser extra�dos de produtos dom�sticos comuns. A receita estava dispon�vel na internet.</p><p>Havia tamb�m a nicotina. De um �nico ma�o de cigarros, Lisbeth poderia extrair miligramas suficientes da subst�ncia para preparar um xarope n�o muito viscoso. Melhor ainda, embora um pouco mais dif�cil de fabricar: o sulfato de nicotina, que tinha a vantagem de ser absorvido pela pele; bastaria p�r luvas de borracha, encher uma pistola d'agua e dispar�-la no rosto do dr. Bjurman. Em vinte segundos ele perderia a consci�ncia e em alguns minutos estaria morto.</p><p>At� ent�o Lisbeth Salander n�o imaginava que tantos produtos dom�sticos perfeitamente comuns, encontrados em drogarias, pudessem se transformar em armas mortais. Examinando a fundo o assunto durante alguns dias, convenceu-se de que n�o haveria obst�culos t�cnicos para acertar as contas com seu tutor.</p><p>S� havia dois problemas: a morte de Bjurman n�o lhe devolveria o controle de sua vida e n�o havia garantia de que o sucessor de Bjurman n�o fosse dez vezes pior. <emphasis>An�lise das consequ�ncias.</emphasis></p><p>O que ela precisava era descobrir um meio de controlar seu tutor e desse modo controlar sua pr�pria situa��o. Estendida no velho sof� da sala, passou a noite reconsiderando mentalmente as possibilidades. Por volta das dez, havia eliminado os projetos de assassinato por envenenamento e elaborado um plano B.</p><p>O plano n�o era atraente e compreendia deixar Bjurman atac�-la mais uma vez. Mas, se chegasse at� o fim, ganharia a parada.</p><p>Pelo menos � o que acreditava.</p><p>Nos �ltimos dias de fevereiro, a temporada de Mikael em Hedeby j� adquirira uma rotina. Levantava-se �s nove todos os dias, tomava o caf�-da-manh� e trabalhava at� meio-dia, lendo e reunindo novos dados. Depois dava uma caminhada de uma hora, qualquer que fosse o tempo. A tarde retomava o trabalho, em casa ou no Caf� Susanne, aprofundando o que lera de manh� ou escrevendo passagens do que haveria de ser a biografia de Henrik. Estabeleceu seu tempo livre entre tr�s e seis da tarde, para fazer compras, lavar a roupa, ir a Hedestad e cuidar de outros assuntos. Por volta das sete da noite, passava na casa de Henrik e lhe expunha os pontos de interroga��o que haviam surgido durante a jornada. �s dez j� estava em casa e lia at� uma ou duas da manh�. Examinava sistematicamente os documentos fornecidos por Henrik.</p><p>Descobriu com surpresa que o trabalho de reda��o da biografia de Henrik avan�ava rapidamente. J� dispunha, num primeiro jato, de cerca de cento e vinte p�ginas da cr�nica familiar � o vasto per�odo desde o desembarque de Jean-Baptiste Bernadotte na Su�cia at� por volta dos anos 1920. A partir da� precisaria avan�ar mais lentamente e come�ar a pesar suas palavras.</p><p>Na biblioteca de Hedestad, conseguiu livros que tratavam do nazismo nessa �poca, entre outros a tese de doutorado de Helene L��w A <emphasis>su�stica e o feixe dos Wasa. </emphasis>Rascunhou mais quarenta p�ginas sobre Henrik e seus irm�os, tendo Henrik como personagem principal. Tinha uma lista extensa de pesquisas a fazer sobre as empresas do come�o do s�culo, sua estrutura e seu funcionamento, e descobriu que a fam�lia Vanger esteve intimamente envolvida com o imp�rio de Ivar Kreuger � mais uma hist�ria paralela para investigar. Calculou que ao todo faltava escrever umas trezentas p�ginas. Planejara apresentar um primeiro esbo�o a Henrik no come�o de setembro e previa utilizar o outono para dar acabamento ao texto.</p><p>Em contrapartida, Mikael n�o avan�ou um mil�metro na investiga��o sobre Harriet. Por mais que lesse e refletisse sobre detalhes dos numerosos documentos, n�o encontrou um s� que fizesse as coisas andarem.</p><p>Num s�bado � noite, no fim de fevereiro, teve uma longa conversa com Henrik, na qual prestou contas de seus inexistentes progressos. Pacientemente, o velho o escutou enumerar todos os becos sem sa�da que visitara.</p><p>� Ou seja, Henrik, n�o encontrei nada no inqu�rito que j� n�o tenha sido explorado a fundo.</p><p>� Entendo o que quer dizer. Tamb�m refleti sobre isso at� ficar doente. E ao mesmo tempo tenho certeza de que deixamos escapar alguma coisa. N�o existe crime perfeito.</p><p>� Mas nem somos capazes de afirmar que houve realmente um crime. Henrik Vanger suspirou e fez um gesto vago com a m�o.</p><p>� Continue � disse. � V� at� o fim.</p><p>� N�o vai adiantar nada.</p><p>� Talvez. Mas n�o desista. Mikael suspirou.</p><p>� Os n�meros de telefone � acabou dizendo.</p><p>� Sim.</p><p>� Eles significam necessariamente alguma coisa.</p><p>� Sim.</p><p>� Foram anotados com alguma inten��o.</p><p>� Sim.</p><p>� Mas n�o sabemos interpret�-los.</p><p>� N�o.</p><p>� Ou os interpretamos mal.</p><p>� Exatamente.</p><p>� N�o s�o n�meros de telefone. Querem dizer alguma outra coisa.</p><p>� Talvez.</p><p>Mikael suspirou novamente e voltou para casa a fim de continuar a ler.</p><p>O dr. Nils Bjurman deu um suspiro de al�vio quando Lisbeth Salander lhe telefonou para explicar que precisava de mais dinheiro. Ela n�o comparecera ao �ltimo encontro marcado alegando que precisava trabalhar, e uma pequena inquieta��o come�ara a perturb�-lo. Estaria lidando com uma crian�a-problema intrat�vel? Ao cancelar o encontro marcado, ela ficara impedida de receber a mesada e cedo ou tarde seria obrigada a entrar em contato. Ele se preocupava tamb�m com a possibilidade de ela ter aberto a boca para algu�m.</p><p>Seu breve telefonema para dizer que precisava de dinheiro confirmou de maneira satisfat�ria que a situa��o estava sob controle. Mas essa menina precisava ser domada � concluiu Nils Bjurman. Ia ter que aprender quem � que decidia, somente ent�o poderia haver uma rela��o mais construtiva. Foi o que o levou a indicar, desta vez, que se vissem em sua casa, perto da Odenplan, e n�o no escrit�rio. Ao ouvir essa exig�ncia, Lisbeth Salander ficou um bom momento calada na outra ponta da linha � <emphasis>essa tonta tem dificuldade de entender </emphasis>� antes de aceitar.</p><p>O plano de Lisbeth era se encontrar com ele no escrit�rio, como da outra vez. Agora seria obrigada a v�-lo em territ�rio desconhecido. O encontro foi marcado para sexta-feira � noite. Ele lhe passou a senha de entrada e �s oito e meia ela tocou a campainha, meia hora depois do combinado. Foi o tempo que ela precisou para, na obscuridade do <emphasis>hall </emphasis>do edif�cio, revisar uma �ltima vez seu plano, considerar alternativas, blindar-se e reunir a coragem necess�ria.</p><p>Por volta das oito da noite, Mikael desligou o computador e agasalhou-se para sair. Deixou a luz acesa na saleta de trabalho. O c�u estava estrelado e a temperatura em torno de zero grau. Subiu a encosta com passos ligeiros, passou em frente � casa de Henrik Vanger, na estrada em dire��o a �stergarden. Logo depois da casa de Henrik, pegou uma bifurca��o � esquerda e seguiu por um caminho que costeava a praia. As b�ias luminosas piscavam na �gua e as luzes de Hedestad cintilavam na noite. Era bonito. Ele tinha necessidade de ar fresco, mas queria sobretudo evitar os olhos inquisidores de Isabella Vanger. Junto � casa de Martin Vanger, voltou para a estrada e chegou � casa de Cecilia pouco depois das oito e meia. Logo subiram para o quarto dela.</p><p>Viam-se uma ou duas vezes por semana. Cecilia tornara-se n�o apenas sua amante naquele fim de mundo mas tamb�m a pessoa com quem come�ava a se abrir. Discutia muito mais sobre Harriet Vanger com ela do que com Henrik.</p><p>O plano come�ou a fracassar quase imediatamente.</p><p>O dr. Nils Bjurman vestia um robe ao abrir a porta do apartamento. Ficara nervoso com o atraso dela e fez-lhe um sinal para que entrasse. Ela vestia jeans preto, uma camiseta preta e sua indefect�vel jaqueta de couro. Botas pretas, uma pequena mochila nas costas, com al�as a tiracolo sobre o peito.</p><p>� N�o sabe ler as horas? � perguntou Bjurman, irritado.</p><p>Salander n�o disse nada. Olhou ao redor. O apartamento era o que havia imaginado depois de examinar a planta nos arquivos municipais. Os m�veis eram de madeira clara.</p><p>� Entre � disse Bjurman num tom mais am�vel. P�s o bra�o sobre os ombros dela e a guiou atrav�s de um pequeno vest�bulo. <emphasis>N�o vale a pena perder tempo com conversa. </emphasis>Abriu a porta de um quarto. N�o havia nenhuma d�vida sobre os favores que esperava de Lisbeth Salander.</p><p>Ela deu uma r�pida olhada na pe�a. Quarto de solteiro. Cama de casal com uma cabeceira alta de a�o inox. Uma c�moda tamb�m fazia �s vezes de mesa-de-cabeceira. Luzes indiretas. Um espelho ao longo da parede. Uma poltrona de vime e uma mesa baixa no canto, junto � porta. Ele pegou sua m�o e a conduziu at� a cama.</p><p>� Conte-me por que precisa de dinheiro desta vez. Mais equipamentos para o computador?</p><p>� Para comprar comida � ela respondeu.</p><p>� Claro. Eu sou mesmo um est�pido. Mas voc� faltou ao nosso �ltimo encontro. � P�s a m�o sob o queixo dela e ergueu-lhe o rosto para que seus olhos se encontrassem. � Como vai? Ela encolheu os ombros.</p><p>� Refletiu sobre o que falei outro dia?</p><p>� O qu�?</p><p>� Lisbeth, n�o se fa�a de mais boba ainda. Quero que voc� e eu sejamos bons amigos e que nos ajudemos.</p><p>Ela n�o respondeu. O dr. Bjurman resistiu ao impulso de dar-lhe uma bofetada para despert�-la.</p><p>� Gostou da brincadeira de gente adulta que fizemos da outra vez?</p><p>� N�o.</p><p>Ele ergueu as sobrancelhas.</p><p>� Lisbeth, n�o seja idiota.</p><p>� Preciso de dinheiro para comprar comida.</p><p>� � exatamente do que falamos na �ltima vez. Basta ser gentil comigo que serei gentil com voc�. Mas se insistir em me contrariar... � Apertou-lhe com mais for�a o queixo e ela se soltou.</p><p>� Quero meu dinheiro. O que est� querendo que eu fa�a?</p><p>� Sabe muito bem o que eu quero. � Pegou-a pelo ombro e jogou-a sobre a cama.</p><p>� Espere � disse r�pido Lisbeth.</p><p>Dirigiu a ele um olhar resignado, depois balan�ou secamente a cabe�a. Tirou a jaqueta de couro e olhou ao redor. Jogou a jaqueta em cima da poltrona de vime, p�s a mochila em cima da mesinha e deu alguns passos hesitantes em dire��o � cama. Ent�o se deteve, tomada de uma apreens�o s�bita. Bjurman se aproximou.</p><p>� Espere � disse ela outra vez, como se tentasse faz�-lo ser razo�vel. � N�o quero ser obrigada a te chupar toda vez que preciso de dinheiro.</p><p>O rosto de Bjurman mudou de express�o. De repente, esbofeteou-a com a palma da m�o. Salander arregalou os olhos, mas, antes que tivesse tempo de reagir, ele a pegou pelo ombro e a p�s de bru�os na cama. Ela ficou sem a��o diante dessa viol�ncia repentina. Como tentasse se virar, ele a comprimiu contra a cama e sentou-se sobre ela com os joelhos abertos.</p><p>Assim como da outra vez, ela foi uma presa f�cil para ele do ponto de vista puramente f�sico. Sua �nica possibilidade de resistir seria enfiar-lhe as unhas nos olhos ou usar uma arma. Mas o plano que previra fracassara. <emphasis>Merda, </emphasis>pensou Lisbeth Salander quando ele lhe arrancou a camiseta. Com uma lucidez aterradora, se deu conta de como havia sido ing�nua.</p><p>Ouviu-o abrir uma gaveta da c�moda ao lado da cama, depois um ru�do de metal. De in�cio n�o entendeu o que estava acontecendo, at� ver a argola fechar-se em volta de seu punho. Ele ergueu o bra�o dela, passou as algemas em volta de um dos pilares da cabeceira da cama e prendeu sua outra m�o. Num abrir e fechar de olhos, arrancou-lhe as botas e o jeans. Por fim retirou-lhe a calcinha, que brandiu no ar.</p><p>� Vai aprender a confiar em mim, Lisbeth � disse. � Vou ensinar a voc� as regras desse jogo de adultos. Se n�o cooperar comigo, ser� punida. Se for gentil, seremos amigos.</p><p>E sentou-se novamente de joelhos abertos em cima dela.</p><p>� Ent�o n�o gosta de sexo anal... � falou.</p><p>Lisbeth Salander abriu a boca para gritar. Ele a pegou pelos cabelos e enfiou-lhe a calcinha na boca. Ela sentiu que ele punha alguma coisa em volta de seus tornozelos, que abria suas pernas e as atava de modo a deix�-la totalmente vulner�vel. Ela o ouvia andar pelo c�modo, mas n�o podia v�-lo. Os minutos passaram. Ela mal conseguia respirar. Por fim sentiu uma dor horr�vel quando ele brutalmente lhe enfiou alguma coisa no �nus.</p><p>A regra de Cecilia Vanger era que Mikael n�o devia ficar para dormir. Pouco depois das duas da manh�, ele tornou a se vestir, enquanto ela permanecia nua na cama sorrindo-lhe carinhosamente.</p><p>� Voc� me agrada, Mikael. Gosto da sua companhia.</p><p>� Voc� tamb�m me agrada.</p><p>Ela o puxou de volta para a cama e tirou-lhe a camisa que ele acabara de vestir. Mikael ficou mais uma hora.</p><p>Quando por fim Mikael passou diante da casa de Harald Vanger, teve a n�tida impress�o de ver a cortina se mexer no andar de cima. Mas estava muito escuro para ter absoluta certeza.</p><p>Lisbeth Salander s� conseguiu voltar a vestir suas roupas �s quatro da manh� do s�bado. Pegou a jaqueta de couro, a mochila e dirigiu-se, manquejando, at� o vest�bulo, onde ele a esperava depois de j� ter tomado um banho e se vestido com cuidado. Ele entregou-lhe um cheque de duas mil e quinhentas coroas.</p><p>� Eu levo voc� para casa � ele falou, abrindo a porta.</p><p>Ela saiu do apartamento e se virou para ele. Seu corpo parecia alquebrado, o rosto estava inchado com olhos avermelhados de l�grimas, e ele quase fez um movimento de recuo ao cruzar seu olhar. Nunca na vida havia se deparado com um �dio t�o seco e inflamado. Lisbeth Salander tinha realmente o aspecto da doente mental que sua ficha indicava.</p><p>� N�o � ela disse em voz t�o baixa que ele mal conseguiu distinguir as palavras. � Posso voltar para casa sozinha.</p><p>Ele p�s a m�o em seu ombro.</p><p>� Tem certeza?</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a. A m�o em seu ombro a apertou com mais for�a.</p><p>� Lembre-se do nosso acordo. Volte no s�bado que vem. Ela balan�ou de novo a cabe�a, submissa. Ele a soltou.</p><empty-line/><p><strong>14. S�BADO 8 DE MAR�O � SEGUNDA-FEIRA 17 DE MAR�O</strong></p><p>Lisbeth Salander passou a semana na cama com dores no abdome, hemorragias no �nus e outras feridas, menos vis�veis, que levariam mais tempo para curar. O que ela vivera ultrapassara de longe o primeiro abuso no escrit�rio; n�o se tratava mais de um ato de coer��o e de humilha��o, mas de uma brutalidade sistem�tica.</p><p>Percebia tarde demais que havia subestimado Bjurman, e muito.</p><p>Tomara-o como um homem de poder que gostava de dominar, e n�o como um s�dico total. Ele a mantivera algemada a noite toda. V�rias vezes ela pensou que fosse ser morta, e houve um momento em que ele pressionou o travesseiro sobre seu rosto at� ela quase desmaiar.</p><p>N�o chorou.</p><p>Afora as l�grimas causadas pelas dores f�sicas, n�o derramou uma l�grima sequer. Ap�s deixar o apartamento de Bjurman, claudicou at� o ponto de t�xi da Odenplan, voltou para casa e subiu com dificuldade a escada at� chegar a seu apartamento. Tomou um banho e lavou o sangue dos genitais. Depois bebeu meio litro de �gua, ingeriu dois son�feros e desabou na cama com o cobertor puxado at� a cabe�a.</p><p>Despertou por volta do meio-dia de domingo com a cabe�a dolorida e vazia, com dores nos m�sculos e no baixo-ventre. Levantou-se, bebeu dois copos de leite e comeu uma ma��. Tomou mais dois son�feros e voltou a se deitar.</p><p>S� teve for�as para sair da cama na ter�a-feira. Foi comprar uma pizza Billy Pan, aqueceu-a no microondas e encheu uma garrafa t�rmica com caf�. Depois passou a noite lendo na internet artigos e teses sobre a psicopatologia do sadismo.</p><p>O que mais chamou sua aten��o foi um artigo publicado por um grupo de mulheres americanas. A autora afirmava que o s�dico escolhia suas <emphasis>liga��es </emphasis>com uma precis�o quase intuitiva: sua melhor v�tima era a que se prestava voluntariamente a todos os seus desejos por acreditar que n�o tinha outra escolha. O s�dico escolhia indiv�duos que dependiam de outra pessoa, e tinha uma capacidade inquietante de identificar as presas que lhe convinham.</p><p>O dr. Bjurman a escolhera como v�tima.</p><p>Isso a fez refletir.</p><p>Isso tamb�m indicava que id�ia as pessoas faziam dela.</p><p>Na sexta-feira, uma semana ap�s o segundo estupro, Lisbeth Salander saiu de casa para ir a um tatuador em Hornstull. Havia telefonado para marcar hora e ele n�o tinha outros clientes na loja. Ele a saudou com um movimento de cabe�a quando a reconheceu.</p><p>Ela escolheu uma pequena tatuagem, simples, na forma de uma estreita faixa, e pediu que ele a pusesse no tornozelo. Mostrou o lugar.</p><p>� A pele � muito fina. Vai doer um bocado � disse o tatuador.</p><p>� N�o faz mal � Lisbeth respondeu, levantando a cal�a e apresentando a perna.</p><p>� Est� certo, uma faixa. Voc� j� tem muitas tatuagens. Tem certeza de que quer mais uma?</p><p>� � um lembrete � ela disse.</p><p>Mikael Blomkvist deixou o Caf� Susanne na hora em que ele ia fechar, �s duas da tarde do s�bado. Estivera passando a limpo suas anota��es no notebook, e foi at� o Komsun comprar comida e cigarros antes de voltar para casa. Havia descoberto a especialidade local: a <emphasis>p�lsa </emphasis>cozida com batatas e beterrabas vermelhas � um prato que jamais apreciara, mas que por uma estranha raz�o combinava perfeitamente bem com uma pequena casa no campo.</p><p>Por volta das sete, p�s-se a refletir enquanto olhava pela janela da cozinha. Cecilia Vanger n�o havia telefonado. Ele a vira brevemente no caf�, no come�o da tarde, quando ela fora comprar p�o, por�m estava mergulhada em seus pr�prios pensamentos. Tudo indicava que n�o ia telefonar naquele s�bado � noite. Olhou para o pequeno aparelho de tev� que quase nunca ligava, mas preferiu instalar-se no banco da cozinha e abrir um romance policial de Sue Grafton.</p><p>Lisbeth Salander retornou ao apartamento de Bjurman na Odenplan na hora combinada, s�bado � noite. Ele a fez entrar com um sorriso polido e acolhedor.</p><p>� E hoje, como vai, minha cara Lisbeth? Ela n�o respondeu.</p><p>� Acho que exagerei um pouco na �ltima vez � ele disse. � Voc� me pareceu meio nocauteada.</p><p>Ela apenas sorriu com o canto dos l�bios e ele sentiu uma s�bita inquieta��o. <emphasis>Essa menina � maluca. N�o posso me esquecer disso. </emphasis>E perguntou-se se ela poderia se adaptar.</p><p>� Vamos para o quarto? � perguntou Lisbeth Salander.</p><p><emphasis>Por outro lado, parece que ela s� sabe pedir isso... </emphasis>P�s-lhe o bra�o sobre o ombro como fizera no encontro anterior, para lev�-la at� o quarto. <emphasis>Hoje vou mais devagar com ela. Para criar confian�a. </emphasis>Ele j� havia deixado as algemas em cima da c�moda. Foi s� quando se aproximaram da cama que o dr. Bjurman percebeu que alguma coisa n�o ia bem.</p><p>Era ela que o conduzia � cama, n�o o contr�rio. Ele se deteve e, com perplexidade, viu-a tirar algo do bolso que a princ�pio acreditou ser um telefone celular. Depois viu os olhos dela.</p><p>� Diga boa-noite � ela disse.</p><p>P�s o bast�o el�trico debaixo da axila esquerda dele e disparou setenta mil volts. Quando as pernas dele come�aram a ceder, ela aproximou seu ombro e mobilizou todas as for�as para faz�-lo cair sobre a cama.</p><p>Cecilia Vanger sentia-se ligeiramente b�bada. Decidira n�o telefonar para Mikael Blomkvist. A liga��o deles adquirira a apar�ncia de uma rid�cula farsa de alcova que obrigava Mikael a rodeios e desvios para poder encontr�-la sem ser notado. Ela se comportava como uma adolescente apaixonada incapaz de controlar seu desejo. Sua conduta nas �ltimas semanas fora absurda.</p><p>O problema � que comecei a gostar muito dele, pensou. Vou sofrer com isso. E passou um bom tempo desejando que Mikael Blomkvist nunca tivesse vindo a Hedeby.</p><p>Ela havia aberto uma garrafa de vinho e bebido dois copos sozinha. Ligou a tev� para ver o notici�rio e tentar entender o que acontecia no mundo, mas imediatamente se cansou dos coment�rios racionais que explicavam por que o presidente Bush devia esmagar o Iraque com bombas. Instalou-se ent�o no sof� da sala com o livro de Gellert Tama sobre o louco que matara onze pessoas em Estocolmo por motivos racistas. S� conseguiu ler algumas p�ginas antes de ser obrigada a p�r o livro de lado. O assunto a fez pensar imediatamente em seu pai, em quais seriam os fantasmas dele.</p><p>A �ltima vez em que tinham se visto fora em 1984, quando o acompanhou, com Birger, numa ca�a � lebre ao norte de Hedestad, para que Birger testasse um novo c�o de ca�a � um hamilton st�vare adquirido recentemente. Harald Vanger tinha setenta e tr�s anos e ela fizera o poss�vel para aceitar sua loucura, essa loucura que transformara sua inf�ncia num pesadelo e afetara toda a sua vida adulta.</p><p>Cecilia nunca fora t�o fr�gil como naquela �poca. Seu casamento se desfizera tr�s meses antes. Mulher que apanha do marido � express�o banal. Para ela, isso significava maus-tratos leves por�m cont�nuos. Amea�as, bofetadas, empurr�es, ser derrubada no ch�o da cozinha. As explos�es do marido eram sempre inexplic�veis, mas os golpes nunca eram fortes o suficiente para feri-la a s�rio. Ele evitava bater nela com o punho, e ela se acostumou.</p><p>At� o dia em que Cecilia revidou e ele se descontrolou. No final, enlouquecido, ele a atacara com golpes de tesoura nas costas.</p><p>Arrependido e em p�nico, conduziu-a ao hospital, onde inventou a hist�ria delirante de um acidente, que a equipe de emerg�ncia logo decifrou � medida que ele ia pronunciando as palavras. Ela sentiu-se envergonhada. Deram-lhe doze pontos de sutura e ficou dois dias no hospital. Ent�o Henrik Vanger foi busc�-la e levou-a para a casa dele. Nunca mais falou com o marido.</p><p>Naquele dia ensolarado, tr�s meses depois do fim do casamento, Harald Vanger estava bem-humorado, quase am�vel. Mas de uma hora para a outra, em pleno bosque, passou a insultar grosseiramente a filha, fazendo coment�rios vulgares sobre sua vida e seus h�bitos sexuais, terminando por dizer que era natural que uma puta como ela n�o soubesse conservar um homem.</p><p>O irm�o nem sequer reparou que as palavras do pai a atingiam como uma chicotada. Birger Vanger limitou-se a rir e a passar o bra�o em volta de seus ombros, tentando desanuviar a situa��o a seu modo, com um coment�rio do g�nero <emphasis>Sabemos bem como s�o as mulheres. </emphasis>Deu uma piscadela para Cecilia e aconselhou Harald Vanger a ficar atento a uma pequena eleva��o do terreno.</p><p>Houve um segundo, um instante g�lido, em que Cecilia olhou para o pai e o irm�o com a consci�ncia s�bita de que trazia na m�o uma espingarda de ca�a carregada. Fechou os olhos. Se n�o tivesse feito isso, teria levantado a arma e disparado os dois cartuchos. Sua vontade era matar o pai e o irm�o. Mas abaixou a espingarda, girou os calcanhares e voltou ao lugar onde haviam estacionado o carro. Deixou-os ali e voltou sozinha para casa. Desse dia em diante, passou a falar com o pai s� em rar�ssimas ocasi�es, quando obrigada pelas circunst�ncias. Negara-lhe acesso � sua casa e nunca ia v�-lo na casa dele.</p><p><emphasis>Voc� arruinou a minha vida, </emphasis>pensou Cecilia Vanger. <emphasis>Arruinou a minha vida desde a inf�ncia.</emphasis></p><p>�s oito e meia da noite, Cecilia Vanger pegou o telefone e pediu que Mikael Blomkvist fosse v�-la.</p><p>O dr. Nils Bjurman sofria um mart�rio. Seus m�sculos n�o respondiam, o corpo parecia paralisado. N�o tinha certeza de haver perdido a consci�ncia, mas estava desorientado e sem a menor lembran�a do que havia acontecido. Quando recuperou lentamente o controle do corpo, viu que estava nu, deitado de costas na cama, com os punhos atados por algemas e as pernas dolorosamente afastadas. Tinha queimaduras no local onde os eletrodos haviam tocado seu corpo.</p><p>Lisbeth Salander trouxera a poltrona de vime para perto da cama e, com as botas em cima do colch�o, esperava pacientemente, fumando um cigarro. Quando Bjurman tentou falar, ele percebeu que sua boca estava coberta por uma fita adesiva larga. Virou a cabe�a. Ela havia aberto e esvaziado uma das gavetas da c�moda.</p><p>� Descobri seus brinquedinhos � disse Salander.</p><p>Brandiu um chicote e remexeu na cole��o de objetos er�ticos, morda�as e m�scaras de borracha espalhadas no ch�o.</p><p>� Para que serve este treco? � E mostrou um enorme <emphasis>p�nis anal. </emphasis>� N�o, n�o tente falar, n�o estou entendendo o que voc� diz. Foi o que utilizou em mim na semana passada? Basta balan�ar a cabe�a. � Ela se inclinou para ele, divertindo-se antecipadamente com a resposta.</p><p>Nils Bjurman sentiu um s�bito calafrio de terror no peito e se descontrolou. For�ou as algemas. <emphasis>Ela assumiu </emphasis>o <emphasis>controle. Imposs�vel. </emphasis>Estava impossibilitado de fazer o que quer que fosse quando Salander se inclinou e p�s o tamp�o anal entre suas n�degas.</p><p>� N�o � assim que um s�dico faz? � ela perguntou. � Gosta de enfiar coisas nas pessoas, n�o � verdade? � Fitou-o. O rosto dele era uma m�scara inexpressiva. � Sem lubrificante, n�o � mesmo?</p><p>Bjurman urrou atrav�s da fita adesiva quando Lisbeth Salander afastou brutalmente suas n�degas e enfiou o tamp�o no lugar previsto.</p><p>� Pare de berrar � disse Lisbeth Salander imitando a voz dele. � Se n�o se comportar, serei obrigada a te punir.</p><p>Levantou-se e contornou a cama. Ele a acompanhou com o olhar... <emphasis>Merda, o que � isso? </emphasis>Lisbeth Salander havia trazido a tev� de tela grande da sala para o quarto. O aparelho de DVD estava no ch�o. Ela olhou para ele, sempre segurando o chicote na m�o.</p><p>� Est� prestando bastante aten��o? � perguntou. � N�o tente falar, basta balan�ar a cabe�a. � Entende o que estou dizendo?</p><p>Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� Certo. � Ela se inclinou para pegar sua mochila. � Reconhece isto? � Ele aquiesceu com a cabe�a. � � a mochila que eu trazia quando vim te ver na semana passada. Peguei emprestada da Milton Security. � Ela abriu um z�per na parte inferior. � Aqui tem uma c�mera digital. Voc� costuma assistir de vez em quando <emphasis>Insider </emphasis>na Tv3? Os rep�rteres sacanas utilizam uma mochila como esta para filmar cenas com uma c�mera oculta.</p><p>Tornou a fechar a mochila.</p><p>� Deve estar se perguntando onde fica a objetiva. O detalhe est� todo a�. Grande angular com fibra �tica. A lente parece um bot�o e est� disfar�ada na fivela da al�a. Voc� deve estar lembrado que eu pus a mochila bem aqui, em cima desta mesa, antes que voc� come�asse a me tocar. Tomei o cuidado de verificar se a objetiva estava dirigida para a cama.</p><p>Ela mostrou um DVD e a seguir o introduziu no aparelho. Depois virou a poltrona e se instalou de modo a poder ver a tela da tev�. Acendeu mais um cigarro e acionou o controle remoto. O advogado Bjurman viu-se abrindo a porta a Lisbeth Salander. <emphasis>N�o sabe ler as horas?, </emphasis>ele perguntava, irritado.</p><p>Ela passou o DVD inteiro. O filme tinha noventa minutos de dura��o e terminou no meio de uma cena em que o dr. Bjurman, nu e encostado � cabeceira da cama, bebia um copo de vinho enquanto contemplava Lisbeth Salander estendida com as m�os atadas nas costas.</p><p>Ela desligou a tev� e continuou sentada na poltrona sem dizer nada por uns dez minutos e sem olhar para ele. Bjurman nem ousava se mexer. Ela se levantou, foi at� o banheiro, depois voltou e sentou-se de novo na poltrona: Sua voz era como lixa.</p><p>� Cometi um erro na semana passada � disse. �Achei que mais uma vez seria obrigada a te chupar, o que � absolutamente nojento, mas n�o ultrapassa demais minhas capacidades. Achei que fosse obter, de modo muito tranquilo, provas inquestion�veis, evidentes, de como voc� � um canalha perverso e imundo. Eu o subestimei. N�o percebi o quanto voc� � um sujeito podre e doente. Vou ser bem clara � ela continuou. � Esse filme mostra voc� estuprando uma jovem de vinte e quatro anos, retardada mental, da qual voc� � o tutor respons�vel. Com certeza voc� nem imagina o quanto posso ser retardada mental quando � necess�rio. Qualquer um que vir esse DVD vai entender que voc� n�o s� � um lixo mas tamb�m um s�dico louco furioso. Um filme bem instrutivo, n�o acha? Eu diria que voc�, e n�o eu, � que seria internado. Concorda comigo?</p><p>Esperou. Ele n�o reagiu, mas ela viu que ele tremia. Pegou o chicote e desferiu um golpe seco nos �rg�os sexuais dele.</p><p>� Concorda comigo? � repetiu com voz mais forte. Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� �timo. Assim estamos nos entendendo.</p><p>Ela puxou a poltrona e sentou-se de modo a poder olh�-lo bem nos olhos.</p><p>� Bem, o que voc� e eu poder�amos fazer para remediar essa situa��o? � Ele n�o podia responder. � N�o tem algumas id�ias? � Como ele n�o reagisse, ela esticou a m�o, pegou seus test�culos e puxou at� o rosto de Bjurman se contorcer de dor. � Tem ou n�o tem algumas boas id�ias? � repetiu.</p><p>Ele balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>� Melhor assim. Porque, se por acaso vier a ter alguma id�ia no futuro, eu ficarei muito zangada com voc�.</p><p>Jogou o corpo para tr�s e acendeu outro cigarro.</p><p>� Ent�o eu vou te contar, <emphasis>eu, </emphasis>o que vai acontecer. Na semana que vem, assim que voc� conseguir expulsar esse brinquedinho de borracha do seu cu, voc� vai dar instru��es ao meu banco de que somente eu � <emphasis>e mais ningu�m</emphasis></p><p>� ter� acesso � minha conta daqui pra frente. Entende o que estou dizendo?</p><p>O advogado Bjurman concordou com a cabe�a.</p><p>� Perfeito. Voc� n�o entrar� mais em contato comigo. No futuro s� nos veremos se eu tiver vontade. Que fique bem claro que voc� est� proibido de me visitar.</p><p>Ele concordou com a cabe�a v�rias vezes e deu um suspiro. <emphasis>Ela n�o tem a inten��o de me matar.</emphasis></p><p><emphasis>� </emphasis>Se tentar entrar em contato comigo, c�pias desse DVD v�o chegar a todas as reda��es dos jornais de Estocolmo. Est� entendendo?</p><p>Ele assentiu com a cabe�a v�rias vezes. <emphasis>Preciso p�r as m�os nesse filme.</emphasis></p><p>� Uma vez por ano, enviar� o relat�rio sobre o meu estado � comiss�o de tutelas. Escrever� que levo uma exist�ncia perfeitamente normal, que tenho um trabalho fixo, que ajo de maneira conveniente e que voc� n�o v� nada de anormal no meu comportamento. Certo?</p><p>Ele fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Todo m�s voc� escrever� um relat�rio fict�cio sobre os nossos encontros. Contar� em detalhe o quanto sou confi�vel e o quanto estou progredindo. Enviar� uma c�pia para mim, certo?</p><p>Ele balan�ou de novo a cabe�a. De passagem, Lisbeth Salander notou gotas de suor surgindo em sua testa.</p><p>� Dentro de um ano ou dois, iniciar� conversa��es com o juiz para obter a revoga��o da minha tutela, usando para isso os relat�rios fict�cios dos nossos encontros mensais. Encontrar� um psic�logo que prestar� juramento de que sou absolutamente normal. Voc� se esfor�ar� nesse sentido. Far� exatamente tudo que estiver ao seu alcance para que eu seja declarada emancipada.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>� E sabe por que far� o melhor poss�vel? Porque tem uma raz�o fodida para voc� agir assim. Se n�o fizer o melhor poss�vel, mostro esse filminho pra todo mundo.</p><p>Ele escutava cada s�laba pronunciada por Lisbeth Salander. Um brilho s�bito de �dio passou por seus olhos. Disse a si mesmo que ela cometia um erro em deix�-lo viver. <emphasis>Vai pagar caro, sua puta suja. Cedo ou tarde, vou te esmagar. </emphasis>Mas continuou balan�ando a cabe�a com entusiasmo a cada pergunta.</p><p>� O mesmo vale se tentar entrar em contato comigo. � E passou a m�o pelo pesco�o num gesto de degola. � Adeus, belo apartamento; adeus, trabalho; adeus, seus milh�es em contas do exterior.</p><p>Os olhos de Bjurman se arregalaram ao ouvi-la mencionar o dinheiro. <emphasis>Merda, como ela sabe disso?...</emphasis></p><p>Ela sorriu, deu uma tragada no cigarro, depois o jogou no carpete e o esmagou com o calcanhar.</p><p>� Voc� me dar� c�pias das suas chaves daqui e do escrit�rio. Bjurman franziu as sobrancelhas. Ela se inclinou com um sorriso hip�crita.</p><p>� Daqui em diante eu controlarei a sua vida. Quando menos esperar, talvez quando estiver dormindo, vou entrar de repente aqui no seu quarto com isto nas m�os. � Mostrou o bast�o el�trico. � Vou vigiar voc�. � Se alguma vez eu te encontrar com uma mulher � e pouco importa que ela esteja aqui de livre e espont�nea vontade ou n�o �, se alguma vez eu te encontrar com uma mulher, qualquer que seja...</p><p>E Lisbeth passou novamente os dedos pelo pesco�o.</p><p>� Se eu morrer... se eu sofrer um acidente, for atropelada, seja l� o que for... c�pias desse filme ser�o enviadas aos jornais. Junto com uma hist�ria detalhada onde eu conto como � ter voc� como tutor. Outra coisa. � E ela se inclinou para a frente, para que seu rosto ficasse a poucos cent�metros do dele. � Se me tocar outra vez, eu te mato. Pode ter certeza.</p><p>O dr. Bjurman acreditou nessas palavras. N�o havia lugar para blefe nos olhos dela.</p><p>� Lembre-se de que eu sou maluca.</p><p>Ele assentiu com a cabe�a.</p><p>Ent�o ela o fitou com um olhar circunspecto.</p><p>� N�o acho que vamos ser bons amigos, eu e voc� � disse Lisbeth Salander com voz grave. � Voc� deve estar todo alegre de eu ser suficientemente idiota para te deixar viver. Embora seja meu prisioneiro, acha que est� no controle porque imagina que a �nica coisa que eu posso fazer, se n�o te matar, � te soltar. Ent�o tem a esperan�a de recuperar em breve seu poder sobre mim, n�o � mesmo?</p><p>Ele balan�ou negativamente a cabe�a, tomado de s�bito por um mau pressentimento.</p><p>� Vou te presentear com uma coisa para voc� se lembrar sempre do nosso acordo.</p><p>Sorriu com o canto dos l�bios, subiu em cima da cama e se ajoelhou entre as pernas dele. O advogado Bjurman n�o entendeu o que ela quis dizer, mas ficou aterrorizado.</p><p>Depois viu a agulha na m�o dela.</p><p>Moveu violentamente a cabe�a e tentou se virar, mas ela apoiou o joelho sobre seu escroto como advert�ncia.</p><p>� N�o se mexa. � a primeira vez que utilizo esses instrumentos.</p><p>Ela trabalhou concentradamente durante duas horas. Quando terminou, ele n�o emitia mais som algum. Parecia estar num estado pr�ximo ao da apatia.</p><p>Ela desceu da cama, abaixou a cabe�a e examinou sua obra com olhar cr�tico. Seus talentos art�sticos eram limitados. As letras, irregulares, lembravam um desenho impressionista. Ela utilizara o vermelho e o azul para tatuar a mensagem, escrita com letras mai�sculas e em cinco linhas que cobriam todo o ventre dele, desde os mamilos at� o p�bis: sou um porco s�dico, um canalha estuprador.</p><p>Recolheu as agulhas e guardou as bisnagas de cor na mochila. Depois foi lavar as m�os no banheiro. Sentia-se consideravelmente melhor ao voltar para o quarto.</p><p>� Boa noite � disse.</p><p>Antes de partir, abriu uma das algemas e p�s a chave sobre o ventre de Bjurman. Ao sair, levou o DVD e o molho de chaves de Bjurman.</p><p>Foi no momento em que compartilhavam um cigarro, pouco depois da meia-noite, que Mikael contou que eles n�o iam poder se ver durante algum tempo. Cecilia virou-se para ele espantada.</p><p>� O que est� querendo dizer? � perguntou.</p><p>Ele pareceu envergonhado.</p><p>� Segunda-feira que vem vou cumprir minha pena de tr�s meses na pris�o. Mais explica��es eram desnecess�rias. Cecilia permaneceu um longo tempo silenciosa. Estava prestes a chorar.</p><p>Dragan Armanskij j� tinha perdido as esperan�as, quando Lisbeth Salander o procurou na segunda-feira � tarde. N�o a via desde que a investiga��o do caso Wennerstr�m fora cancelada no come�o de janeiro, e toda vez que tentou cham�-la, ou ela n�o respondera ou telefonara de volta dizendo que estava ocupada.</p><p>� Tem algum trabalho para mim? � ela perguntou sem perder tempo com sauda��es in�teis.</p><p>� Ol�! Quem bom te ver. Achei que estava morta ou algo do g�nero.</p><p>� Eu tinha umas duas ou tr�s coisinhas para resolver.</p><p>� Voc� sempre tem umas coisinhas para resolver.</p><p>� Era urgente. Mas estou de volta. Tem algum trabalho para mim?</p><p>Armanskij negou com a cabe�a.</p><p>� Sinto muito. No momento, n�o.</p><p>Lisbeth Salander o contemplou com um olhar tranquilo. Depois de alguns segundos, ele continuou.</p><p>� Lisbeth, voc� sabe que eu a quero bem e que sempre que posso lhe ofere�o trabalho. Mas voc� desapareceu por dois meses, quando eu estava com um monte de solicita��es de trabalho. � simples, n�o se pode contar com voc�. Fui obrigado a recorrer a outras pessoas para cobrir a sua aus�ncia, e no momento n�o tenho nada.</p><p>� Aumente o volume.</p><p>� Qu�?</p><p>� Do r�dio.</p><p><emphasis> ... a revista </emphasis>Millenium<emphasis>. O an�ncio de que o veterano da ind�stria Henrik Vanger tornou-se co-propriet�rio da </emphasis>Millenium<emphasis> e de que far� parte do conselho administrativo da revista chega no mesmo dia em que o ex-editor respons�vel da publica��o, Mikael Blomkvist, come�a a cumprir tr�s meses de pris�o por difama��o contra o financista Hans-Erik Wennerstr�m. Erika Berger, diretora da </emphasis>Millenium<emphasis>, explicou na coletiva de imprensa que M�kael Blomkvist reassumir� o cargo de editor-chefe assim que deixar a pris�o.</emphasis></p><p>� Qual �? � disse Lisbeth Salander em voz t�o baixa que Armanskij nem ouviu, apenas notou os l�bios dela se mexendo. Ela se levantou de repente e foi saindo.</p><p>� Espere. Aonde voc� vai?</p><p>� Para a minha casa. Tenho duas ou tr�s coisas para verificar. Me chame quando tiver alguma coisa para mim.</p><p>A not�cia de que a <emphasis>Millennium </emphasis>recebera o refor�o de Henrik Vanger era um acontecimento bem mais importante do que Lisbeth Salander imaginara. <emphasis>A Aftonbladet </emphasis>j� havia publicado na internet um longo comunicado da ag�ncia de not�cias TT, fazendo um balan�o da carreira de Henrik Vanger e constatando que era a primeira vez em mais de vinte anos que o velho magnata da ind�stria aparecia em p�blico. O an�ncio de que investia seu capital na <emphasis>Millennium </emphasis>era t�o inimagin�vel quanto ver de repente os velhos conservadores Peter Wallenberg ou Erik Penser virarem a casaca para se associar � ETC ou para patrocinar a revista <emphasis>Ordfront.</emphasis></p><p>O acontecimento era t�o incomum que a edi��o das sete e meia de <emphasis>Rapport, </emphasis>na tev�, transformou-o num dos principais assuntos, dedicando-lhe tr�s minutos. Erika Berger era entrevistada por jornalistas na reda��o da <emphasis>Millennium. </emphasis>De uma hora para outra, o caso Wennerstr�m voltava �s manchetes.</p><p>� No ano passado cometemos um erro grave, que resultou na condena��o da revista por difama��o. Evidentemente � uma coisa que lamentamos... e temos a inten��o de retomar esse caso num momento prop�cio.</p><p>� O que voc� quer dizer com retomar o caso? � perguntou um rep�rter.</p><p>� Quero dizer que vamos contar a nossa vers�o dos fatos, o que n�o fizemos at� agora.</p><p>� Mas poderiam ter feito durante o processo.</p><p>� Preferimos n�o fazer. Mas � claro que vamos manter nossa linha editorial cr�tica.</p><p>� Significa que continuam sustentando a vers�o pela qual foram condenados?</p><p>� N�o tenho coment�rios a fazer sobre isso.</p><p>� A senhora demitiu Mikael Blomkvist ap�s o julgamento.</p><p>� Est� completamente enganado. Leia o nosso comunicado de imprensa. Ele precisava de uma pausa e de um descanso merecido. Ainda este ano reassumir� a publica��o.</p><p>A c�mera fez uma panor�mica da reda��o, enquanto o rep�rter enumerava alguns dados sobre a agitada hist�ria da <emphasis>Millennium, </emphasis>revista conhecida por sua independ�ncia e por suas cr�ticas contundentes. Mikael Blomkvist n�o p�de ser ouvido. Acabava de ser preso no centro de deten��o de Rullaker, situado � beira de um pequeno lago, em plena floresta, a uma dezena de quil�metros de �stersund, no J�mtland.</p><p>Lisbeth Salander viu Dirch Frode aparecer de repente, pela fresta de uma porta da reda��o, ao fundo da imagem televisionada. Ela franziu o cenho e mordeu pensativamente o l�bio inferior.</p><p>A segunda-feira fora pobre em acontecimentos e Henrik Vanger p�de dispor de quatro minutos no notici�rio das nove. Foi entrevistado num est�dio da tev� local em Hedestad. O rep�rter come�ou observando que, <emphasis>ap�s duas d�cadas de sil�ncio, o m�tico industrial Henrik Vanger voltou �s luzes da ribalta. </emphasis>Na introdu��o, a reportagem apresentava um pouco da vida de Henrik Vanger mostrando imagens antigas de tev�, em preto-e-branco, nas quais ele era visto na companhia do primeiro-ministro Tage Erlander inaugurando f�bricas nos anos 1960. A seguir a c�mera mostrou um sof� no est�dio de grava��o, onde Henrik Vanger aparecia tranquilamente instalado, de pernas cruzadas. Vestia camisa amarela, uma gravata verde fina e casaco esporte marrom. N�o escapava a ningu�m que estava descarnado e envelhecido, mas se expressava com uma voz sonora e firme. E com franqueza. O rep�rter come�ou perguntando o que o levara a se associar � <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� <emphasis>A Millennium </emphasis>� uma boa publica��o que venho acompanhando com interesse h� v�rios anos. Hoje ela est� sofrendo alguns ataques. Tem inimigos poderosos que organizam um boicote de anunciantes com o objetivo de torpede�-la.</p><p>O rep�rter, com certeza, n�o estava preparado para uma resposta como essa, mas percebeu de imediato que a hist�ria, j� bastante interessante em si mesma, ganhava dimens�es inesperadas.</p><p>� O que h� por tr�s desse boicote?</p><p>� E uma das coisas que a <emphasis>Millennium </emphasis>vai verificar minuciosamente. Mas aproveito para declarar que a revista n�o pretende se deixar afundar ao primeiro tiro.</p><p>� E por essa raz�o que entrou como s�cio?</p><p>� A liberdade de express�o sofreria um duro golpe se interesses particulares tivessem o poder de reduzir ao sil�ncio vozes que os incomodam na m�dia.</p><p>Henrik Vanger agia como se tivesse passado a vida toda defendendo radicalmente a liberdade de express�o. Mikael Blomkvist come�ou a rir de repente na sala de televis�o do centro de deten��o de Rullaker, que ele inaugurava naquela noite. Seus colegas de pris�o lan�aram-lhe olhares inquietos.</p><p>Mais tarde, deitado em sua cela que lembrava um quarto de motel, com uma pequena mesa, uma cadeira e uma prateleira fixa � parede, ele foi obrigado a admitir que Henrik e Erika estavam certos sobre a maneira de lan�ar essa informa��o no mercado. Sem ter falado com ningu�m, ele sabia que alguma coisa havia mudado na atitude com rela��o � <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>A apari��o de Henrik Vanger era nada mais nada menos que uma declara��o de guerra a Hans-Erik Wennerstr�m. A mensagem, muito clara � daqui em diante voc� n�o vai mais lutar contra uma revista com seis funcion�rios e um or�amento anual equivalente a um jantar de neg�cios do grupo Wennerstr�m. Vai enfrentar tamb�m as empresas Vanger, que certamente s�o apenas a sombra de sua grandeza de outrora, mas que ainda assim representam um desafio bem mais �rduo. Agora Wennerstr�m podia escolher: ou se retirava do conflito ou encarava a tarefa de reduzir tamb�m a migalhas as empresas Vanger.</p><p>Henrik Vanger acabava de anunciar na tev� que estava disposto a lutar. Talvez n�o tivesse nenhuma chance contra Wennerstr�m, mas a guerra ia custar caro.</p><p>Erika escolhera cuidadosamente as palavras. Na verdade n�o dissera grande coisa, mas sua afirma��o de que a revista ainda n�o "apresentara sua vers�o dos fatos" fazia supor que havia uma vers�o a dar. Embora Mikael tivesse sido julgado e no momento estivesse preso, ela n�o se constrangera em dizer � sem dizer � que na realidade ele era inocente e que existia uma outra verdade.</p><p>Mesmo sem usar a palavra "inoc�ncia", tornou a inoc�ncia dele ainda mais tang�vel. O an�ncio de que ele reassumiria o cargo de respons�vel pela publica��o sublinhava que a <emphasis>Millennium </emphasis>n�o tinha do que se censurar. Aos olhos do grande p�blico, a verdade n�o era um problema � todo mundo adora a teoria do compl� e, entre um homem de neg�cios cheio de ases na manga e uma bonita diretora de revista, n�o era dif�cil adivinhar para que lado tenderiam as simpatias. A m�dia decerto n�o endossaria facilmente a hist�ria, mas Erika desarmara alguns cr�ticos que agora n�o ousariam levantar a cabe�a.</p><p>Nenhum dos acontecimentos do dia alterou fundamentalmente a situa��o, mas eles conseguiram ganhar tempo e modificar um pouco o equil�brio de for�as. Mikael imaginou que Wennerstr�m passara uma noite desagrad�vel. Wennerstr�m n�o tinha como saber em que medida � em que pequen�ssima medida � eles sabiam de alguma coisa, e, antes de mover seu pr�ximo pe�o, seria obrigado a descobrir o que eles sabiam de fato.</p><p>Com express�o s�ria, Erika desligou a tev� e o videocassete depois de assistir primeiro a suas pr�prias declara��es e depois � grava��o da entrevista de Henrik Vanger. Olhou o rel�gio, quinze para as tr�s da manh�, e conteve o impulso de ligar para Mikael. Ele estava preso e era pouco prov�vel que estivesse com seu celular na cela. Ela chegara t�o tarde em casa, em Saltsj�baden, que seu marido j� estava dormindo. Levantou e se serviu de uma dose de u�sque Aberlour � ingeria �lcool s� uma ou duas vezes por ano �, sentou-se diante da janela e contemplou o mar e o farol na entrada do estreito de Skurusund.</p><p>Mikael e ela haviam trocado palavras �speras quando se viram sozinhos depois do acordo que ela fizera com Henrik Vanger. Ao longo dos anos, eles discutiram muitas vezes sobre a orienta��o a dar a um texto, o visual da revista, a avalia��o da credibilidade das fontes e v�rias outras coisas relacionadas � produ��o de um peri�dico. Mas a discuss�o na casa dos convidados de Henrik fora sobre princ�pios, e ela sabia estar pisando num terreno incerto.</p><p>� N�o sei o que vou fazer agora � dissera Mikael. � Henrik Vanger me contratou para escrever sua biografia. At� agora fui livre para me levantar e ir embora no momento em que ele tentasse me for�ar a escrever algo que n�o fosse a verdade ou procurasse me convencer a orientar a hist�ria para um lado ou outro. Agora ele � um dos propriet�rios da nossa revista, e mais: o �nico com recursos financeiros para salv�-la. Com isso me vejo de repente servindo a dois senhores, numa posi��o que a comiss�o de �tica profissional n�o apreciaria nada.</p><p>� Tem uma id�ia melhor a propor? � perguntou Erika. � Se tem, o momento de dizer � agora, antes de seguirmos adiante e assinarmos o acordo.</p><p>� Ricky, Vanger est� nos usando numa esp�cie de vendeta particular contra Hans-Erik Wennerstr�m.</p><p>� E da�? Tamb�m n�o estamos numa vendeta particular contra Wennerstr�m?</p><p>Mikael evitou olhar para ela e acendeu um cigarro com um gesto irritado. A discuss�o prosseguiu por um bom tempo, at� Erika entrar no quarto de Mikael, despir-se e se deitar na cama. Ela fingiu que dormia quando, duas horas depois, Mikael foi se encolher ao lado dela.</p><p>Naquela noite, um rep�rter do <emphasis>Dagens Nyheter </emphasis>lhe fizera a mesma pergunta:</p><p>� At� que ponto, agora, a <emphasis>Millennium </emphasis>poder� manter sua credibilidade e afirmar sua independ�ncia?</p><p>� Como assim?</p><p>O rep�rter ergueu as sobrancelhas. Ele achou sua pergunta suficientemente clara, mas ainda assim explicou-a.</p><p>� A miss�o da <emphasis>Millennium </emphasis>�, entre outras coisas, avaliar se as empresas est�o se conduzindo bem. Como � que a revista vai poder, agora, garantir que est� mesmo de olho na boa conduta das empresas Vanger?</p><p>Erika o encarou com ar estupefato, como se a pergunta fosse totalmente inesperada.</p><p>� Voc� est� insinuando que a credibilidade da <emphasis>Millennium </emphasis>pode diminuir porque um empres�rio conhecido e de recursos entrou em cena?</p><p>� Sim, me parece bastante evidente que voc�s perder�o a credibilidade como observadores das empresas Vanger.</p><p>� E essa regra se aplica somente � <emphasis>Millennium?</emphasis></p><p>� Desculpe, n�o entendi.</p><p>� O que eu quero dizer � que voc� trabalha para um jornal que est� totalmente nas m�os dos grandes interesses econ�micos. Por acaso isso significa que nenhum dos jornais pertencentes ao grupo Bonniers � digno de cr�dito? A <emphasis>Aftonbladet </emphasis>pertence a uma grande empresa norueguesa que, por sua vez, tem grande influ�ncia na �rea da inform�tica e da comunica��o. Por acaso isso significa que as an�lises da ind�stria eletr�nica feitas pela <emphasis>Aftonbladet </emphasis>n�o t�m credibilidade? O <emphasis>Metro </emphasis>pertence ao grupo Stenbeck. Est� querendo dizer que nenhum jornal sueco sustentado por grandes interesses econ�micos � digno de cr�dito?</p><p>� N�o, claro que n�o.</p><p>� Nesse caso, por que est� insinuando que a <emphasis>Millennium </emphasis>perderia credibilidade por contarmos tamb�m com o apoio de financistas?</p><p>O rep�rter desculpou-se.</p><p>� Est� bem, retiro a pergunta.</p><p>� N�o, n�o retire. Quero que voc� reproduza exatamente o que acabo de dizer. E pode acrescentar que, se o <emphasis>Dagens Nyheter </emphasis>decidir se concentrar mais particularmente nas empresas Vanger, n�s tamb�m vamos nos concentrar um pouco mais no grupo Bonniers.</p><p>Apesar de tudo, havia, de fato, um dilema �tico.</p><p>Mikael trabalhava para Henrik Vanger, que, por sua vez, se achava numa posi��o em que podia, numa canetada, afundar a <emphasis>Millennium. </emphasis>O que aconteceria se Mikael e Henrik Vanger se indispusessem por qualquer raz�o?</p><p>E mais: que pre�o ela fixava para sua pr�pria credibilidade e em que momento passaria de diretora independente a diretora corrupta? Ela n�o gostava nem das perguntas nem das respostas.</p><p>Lisbeth Salander desconectou-se da internet e fechou seu Powerbook. Estava sem trabalho e com fome. A primeira coisa n�o a perturbava diretamente desde que retomara o controle de sua conta banc�ria e que o dr. Bjurman adquirira o car�ter de um vago estorvo do passado. A fome ela remediou indo at� a cozinha e ligando a cafeteira. Preparou tr�s grossos sandu�ches com queijo, atum e ovo cozido, sua primeira refei��o depois de muitas horas. Devorou os sandu�ches noturnos encolhida no sof� da sala e ao mesmo tempo concentrada na informa��o que acabava de obter.</p><p>Dirch Frode, de Hedestad, a contratara para investigar Mikael Blomkvist, condenado � pris�o por difamar o financista Hans-Erik Wennerstr�m. Poucos meses depois, Henrik Vanger, tamb�m de Hedestad, entra no conselho administrativo da <emphasis>Millennium </emphasis>e afirma haver uma conspira��o destinada a afundar a revista. Tudo isso no mesmo dia em que Mikael Blomkvist come�a a cumprir sua pena. O mais fascinante: um pequeno artigo publicado dois anos antes � "Com as duas m�os vazias" � sobre Hans-Erik Wennerstr�m, que ela descobriu na edi��o <emphasis>on-line </emphasis>do <emphasis>Finansmagasinet Monopol. </emphasis>O artigo dizia que ele come�ara sua ascens�o no mundo das finan�as justamente nas empresas Vanger, no final dos anos 1960.</p><p>N�o era preciso ser nenhum g�nio para concluir que os acontecimentos estavam de alguma forma interligados. Havia um segredo no neg�cio, e Lisbeth Salander adorava desvendar segredos. Ainda mais quando n�o tinha outra coisa para fazer.</p><empty-line/></section><section><p><strong>III. FUS�ES</strong></p><p><strong> 16 DE MAIO A 14 DE JULHO</strong></p><p><emphasis/></p><p><emphasis/></p><p><emphasis>Na Su�cia, 13% das mulheres foram v�timas de viol�ncias sexuais cometidas fora de uma rela��o sexual.</emphasis></p><p><strong/><strong>15. SEXTA-FEIRA 16 DE MAIO �  S�BADO 31 DE MAIO</strong></p><p>Mikael Blomkvist deixou o centro de deten��o de Rullaker na sexta-feira 16 de maio, dois meses depois de ter sido preso. No mesmo dia em que se apresentou na pris�o, ele havia entrado, sem muitas expectativas, com um pedido de redu��o da pena. Nunca soube dos segredos administrativos de sua liberta��o, mas imaginou um relat�rio mencionando que ele n�o utilizara as licen�as de fim de semana e que o centro de deten��o abrigava quarenta e duas pessoas, quando o n�mero m�ximo de vagas era trinta e um. O fato � que o diretor da pris�o � um ex-exilado polon�s de quarenta anos chamado Peter Sarowski com quem Mikael se entendeu muito bem � assinou uma recomenda��o de redu��o da pena.</p><p>O per�odo passado em Rullaker foi calmo e agrad�vel. O estabelecimento, como dizia o pr�prio Sarowski, era uma pris�o para vadios e motoristas embriagados, e n�o para criminosos de verdade. As rotinas di�rias lembravam o funcionamento de um albergue da juventude. Os quarenta e um companheiros de Mikael, metade dos quais imigrantes da segunda gera��o, viam-no como uma esp�cie de ave ex�tica � e com toda a raz�o. Ele era o �nico prisioneiro de quem falavam na tev�, o que lhe conferiu alguma import�ncia, embora nenhum deles o considerasse um criminoso de peso.</p><p>Tampouco a dire��o do estabelecimento. Desde o primeiro dia, Mikael foi chamado para algumas conversas; propuseram-lhe diferentes atividades, cursos de treinamento ou possibilidades de outros estudos, bem como uma orienta��o profissional. Mikael respondeu que n�o precisava de inser��o social, que conclu�ra os estudos havia muitos anos e que j� tinha um emprego. Em contrapartida, pediu autoriza��o para conservar seu notebook na cela, a fim de continuar trabalhando no livro que estava sendo pago para escrever. O pedido foi aceito imediatamente e Sarowski ofereceu-lhe at� mesmo um arm�rio com cadeado para que ele pudesse deixar o computador na cela sem o risco de roubo ou vandalismos. Mas era m�nimo o risco de um dos detentos querer se divertir com esse tipo de coisa � ao contr�rio, eles estendiam uma m�o protetora sobre Mikael.</p><p>Foi o que lhe permitiu passar dois meses relativamente agrad�veis, trabalhando cerca de seis horas por dia na cr�nica da fam�lia Vanger, com interrup��es para algumas horas de trabalho ou de recrea��o. Mikael e dois colegas, um proveniente de Sk�vde e o outro com ra�zes no Chile, tinham como tarefa limpar diariamente o gin�sio do centro de deten��o. Recrea��o significava ver tev�, jogar cartas ou fazer muscula��o. Mikael descobriu que n�o se sa�a t�o mal no p�quer, mas todos os dias costumava perder algumas moedas de cinquenta centavos. O regulamento autorizava o jogo desde que a bolada n�o ultrapassasse cinco coroas.</p><p>O an�ncio de sua liberta��o foi comunicado na v�spera; Sarowski o convocou � sua sala para um brinde com aquavita. � noite, Mikael juntou suas roupas e seus cadernos.</p><p>Uma vez libertado, Mikael foi diretamente para sua casa em Hedeby. Ao cruzar a ponte, ouviu um miado e andou os �ltimos metros acompanhado pelo gato ruivo, que lhe dava boas-vindas esfregando-se em suas pernas.</p><p>� Certo, entre � disse. � Mas n�o tive tempo de comprar leite.</p><p>Desfez a mala. Tinha a impress�o de estar voltando de f�rias e se deu conta de que a companhia de Sarowski e dos outros detentos lhe fazia falta. Podia parecer estranho, mas a temporada em Rullaker fora agrad�vel. E a liberta��o ocorrera de forma t�o inesperada que n�o havia avisado ningu�m.</p><p>Eram pouco mais de seis da tarde. Correu at� o supermercado para comprar produtos b�sicos, antes que fechasse. Na volta, ligou para Erika no celular, mas s� ouviu a voz da secret�ria eletr�nica informando que no momento ela n�o estava dispon�vel. Deixou um recado propondo que se falassem no dia seguinte.</p><p>Depois foi visitar Henrik Vanger. O pr�prio Henrik abriu a porta e ficou estupefato ao v�-lo.</p><p>� Voc� fugiu? � exclamou o velho.</p><p>� Liberdade antecipada, coisa absolutamente legal.</p><p>� Ah, mas que surpresa boa!</p><p>� Para mim tamb�m. Fiquei sabendo ontem.</p><p>Olharam-se durante alguns segundos. Ent�o o velho surpreendeu Mikael enla�ando-o e estreitando-o com for�a nos bra�os.</p><p>� Eu estava me preparando para jantar. N�o quer me fazer companhia?</p><p>Anna serviu omelete com toicinho e salada verde. Ficaram na sala de jantar por cerca de duas horas. Mikael contou at� onde chegara na cr�nica familiar e indicou os pontos onde havia lacunas e falta de informa��o. N�o falaram de Harriet Vanger, mas estenderam-se demoradamente sobre a <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p><emphasis>� </emphasis>Fizemos tr�s reuni�es do conselho administrativo. A senhorita Berger e seu s�cio Christer Malm tiveram a delicadeza de realizar duas reuni�es aqui, e Dirch representou-me numa reuni�o em Estocolmo. � muito cansativo para mim deslocar-me para t�o longe, confesso que gostaria de ter alguns anos a menos. Mas tentarei ir at� l� no pr�ximo ver�o.</p><p>� Eles podem fazer as reuni�es aqui sem problema � disse Mikael. � E o que est� achando de ser s�cio da revista?</p><p>Henrik Vanger fingiu um sorriso.</p><p>� � uma das coisas mais divertidas que me aconteceram em muitos anos, voc� sabe. Examinei as finan�as e a coisa n�o est� t�o mal. N�o precisarei investir tanto dinheiro quanto eu pensava. A lacuna entre receitas e despesas est� diminuindo.</p><p>� Falei com Erika por telefone na semana passada. Pelo que entendi, a publicidade voltou a crescer.</p><p>Henrik concordou com a cabe�a.</p><p>� A tend�ncia est� se invertendo, mas levar� algum tempo. No in�cio, foram empresas do grupo Vanger que compraram p�ginas. Mas dois ex-clientes, uma operadora de telefonia e uma ag�ncia de viagens, j� est�o de volta. � Ele deu um sorriso largo. � Tamb�m fizemos uma campanha mais personalizada junto aos velhos inimigos de Wennerstr�m. E a lista � comprida, acredite.</p><p>� Tem not�cias de Wennerstr�m?</p><p>� N�o, n�o exatamente. Mas espalhamos a informa��o de que Wennerstr�m est� organizando um boicote contra a <emphasis>Millennium. </emphasis>E as pessoas est�o come�ando a ach�-lo mesquinho. Parece que um jornalista do <emphasis>Dagens Nyheter </emphasis>tocou nessa quest�o e levou uma descompostura.</p><p>� Voc� se diverte com isso.</p><p>� N�o � a palavra exata. � o que eu deveria ter feito v�rios anos atr�s.</p><p>� Mas o que h� entre voc� e Wennerstr�m?</p><p>� N�o se apresse. Saber� isso no fim do ano.</p><p>O ar transmitia uma agrad�vel sensa��o de primavera. Quando Mikael deixou Henrik por volta das nove, j� era noite. Hesitou um instante, depois foi bater � porta de Cecilia Vanger.</p><p>N�o tinha certeza de que a encontraria. Cecilia arregalou os olhos e imediatamente pareceu incomodada, mas o convidou a entrar no vest�bulo. Ambos estavam embara�ados. Ela tamb�m perguntou se ele fugira e ele explicou o que houve.</p><p>� Queria s� lhe dar um al�. Estou atrapalhando?</p><p>Cecilia evitou o olhar dele. Mikael logo percebeu que ela n�o estava particularmente feliz em v�-lo.</p><p>� N�o... n�o, entre. Quer um caf�?</p><p>� Seria �timo.</p><p>Acompanhou-a at� a cozinha. Ela virou-lhe as costas enquanto punha �gua na cafeteira. Mikael aproximou-se e p�s a m�o em seu ombro. Ela ficou dura.</p><p>� Cecilia, eu diria que voc� n�o est� com nenhuma vontade de me oferecer um caf�.</p><p>� Eu te esperava daqui a um m�s � disse ela. � Voc� me pegou desprevenida.</p><p>Ele a sentia pouco � vontade. Girou o corpo dela para olh�-la nos olhos. Ficaram calados por um breve instante. Ela continuava recusando-se a olhar para ele.</p><p>� Cecilia, esque�a o caf�. O que est� havendo? Ela balan�ou a cabe�a e respirou fundo.</p><p>� Mikael, quero que v� embora. N�o pergunte nada. Simplesmente v� embora.</p><p>Mikael voltou para casa, mas ficou indeciso diante da cerca do jardim. Em vez de entrar, foi at� a beira da �gua ao lado da ponte e sentou-se numa pedra. Acendeu um cigarro, perguntando-se o que podia ter modificado t�o radicalmente a atitude de Cecilia Vanger com rela��o a ele.</p><p>Nesse momento, ouviu o ru�do de um motor e avistou um barco grande, branco, entrando no canal sob a ponte. Quando o barco passou � sua frente, Mikael viu que quem o manobrava era Martin Vanger, com o olhar atento para evitar eventuais baixios. Tratava-se de um iate de cruzeiro de doze metros � um mastodonte impressionante. Mikael levantou-se e seguiu o caminho que costeava a praia. Viu ent�o que muitos barcos j� haviam sido postos na �gua, amarrados em diferentes poitas, tanto barcos a motor quanto veleiros, especialmente v�rios Pettersson e um IF que se p�s a oscilar ap�s a passagem do iate. Havia tamb�m barcos maiores e mais caros, entre os quais um Hallberg-Rassy. A boa esta��o estava de volta e Mikael p�de fazer uma id�ia dos recursos financeiros dos aficionados n�uticos de Hedeby � Martin Vanger possu�a indiscutivelmente o barco maior e mais caro do lugar.</p><p>Deteve-se abaixo da casa de Cecilia e espiou as janelas iluminadas no andar de cima. Depois voltou para fazer um caf� em casa. Examinou sua saleta de trabalho enquanto esperava o caf� ficar pronto.</p><p>Antes de se apresentar na pris�o, devolvera a maior parte dos arquivos de Henrik Vanger sobre Harriet. Julgou prudente n�o deixar toda a documenta��o numa casa desocupada durante um per�odo t�o longo. Agora as prateleiras pareciam vazias. Tudo o que lhe restava do inqu�rito eram cinco cadernos de anota��es de Henrik que ele levara para Rullaker e que neste momento j� conhecia de cor. E, como constatou naquele momento, um �lbum de fotografias que esquecera na prateleira de cima.</p><p>Pegou o �lbum e voltou para a cozinha. Serviu-se de caf�, sentou e come�ou a folhe�-lo.</p><p>Eram fotos tiradas no dia do desaparecimento de Harriet. A primeira era a �ltima foto de Harriet, no desfile da Festa das Crian�as em Hedestad. Seguiam-se cento e oitenta fotos, muito n�tidas, do acidente do caminh�o-tanque na ponte. Foto por foto, ele j� examinara o �lbum com lupa, v�rias vezes. Agora o folheava distraidamente; sabia que n�o encontraria nada que representasse um avan�o. De repente sentiu-se farto do enigma Harriet Vanger e fechou o �lbum com um golpe seco.</p><p>Irritado, aproximou-se da janela da cozinha e olhou a escurid�o l� fora.</p><p>Depois tornou a olhar para o �lbum de fotos. N�o conseguiu explicar a sensa��o, mas um pensamento fugaz de repente se apresentou, como se reagisse a algo que acabara de ver. Como se um ser invis�vel lhe soprasse suavemente no ouvido, e os cabelos em sua nuca se eri�aram de leve.</p><p>Sentou-se de novo e tornou a abrir o �lbum. Percorreu, uma por uma, todas as fotos da ponte. Contemplou um Henrik Vanger mais jovem manchado de �leo e um jovem Harald Vanger, esse homem que ele ainda n�o vira. A amurada destru�da da ponte, as constru��es, as janelas e os ve�culos que se viam nas imagens. N�o teve nenhuma dificuldade em identificar Cecilia Vanger, com vinte anos, no meio dos espectadores. Usava um vestido claro e um casaco escuro, e aparecia em cerca de vinte fotos.</p><p>Sentiu uma brusca excita��o. Ao longo dos anos, Mikael aprendera a confiar em seus instintos. Ele reagira a alguma coisa no �lbum, mas n�o conseguia saber exatamente a qu�.</p><p>Por volta das onze da noite, continuava sentado na mesa da cozinha examinando as fotos, quando ouviu a porta da frente ser aberta.</p><p>� Posso entrar? � perguntou Cecilia Vanger.</p><p>Sem esperar a resposta, sentou-se diante dele do outro lado da mesa. Mikael teve um estranho sentimento de <emphasis>d�j�-vu. </emphasis>Ela usava um vestido claro, apertado na cintura, e um casaco cinza-azulado, roupas quase id�nticas �s que trazia nas fotos de 1966.</p><p>� O problema � voc� � ela disse. Mikael levantou as sobrancelhas.</p><p>� Sinto muito, mas me pegou de surpresa esta noite quando bateu na minha porta. Agora estou t�o agitada que n�o consigo dormir.</p><p>� Por que agitada?</p><p>� Voc� n�o percebe?</p><p>Ele fez que n�o com a cabe�a.</p><p>� Se eu disser, promete que n�o vai rir de mim?</p><p>� Prometo.</p><p>� Quando eu o seduzi no inverno, n�o refleti, apenas cedi aos meus impulsos. Queria me divertir, nada mais. Na primeira noite eu estava bastante b�bada e n�o tinha a menor inten��o de iniciar algo duradouro com voc�. Depois virou outra coisa. Quero que saiba que as semanas em que foi meu amante ocasional foram as mais agrad�veis de toda a minha vida.</p><p>� Eu tamb�m achei muito bom.</p><p>� Mikael, eu menti para voc� e para mim o tempo todo. Nunca fui especialmente atirada em mat�ria de sexo. Se tive cinco ou seis parceiros em toda a minha vida, foi muito. A primeira vez, eu tinha vinte e um anos. Depois veio meu marido, que conheci quando tinha vinte e cinco e que se revelou um canalha. A seguir, mais tr�s homens que conheci com alguns anos de intervalo. Mas voc�... voc� fez brotar n�o sei o que em mim. Nunca me canso. Certamente porque com voc� n�o h� a menor exig�ncia.</p><p>� Cecilia, voc� n�o � obrigada...</p><p>� Psiu... n�o me interrompa. Sen�o nunca vou conseguir dizer o que tenho a dizer.</p><p>Mikael ficou em sil�ncio.</p><p>� No dia em que voc� partiu para a pris�o, me senti terrivelmente infeliz. De repente voc� n�o estava mais aqui, como se nunca tivesse existido. N�o havia mais luz na casa dos convidados. E a minha cama ficou fria e vazia. De uma hora para a outra voltei a ser uma velha de cinquenta e seis anos.</p><p>Calou-se um instante e olhou Mikael bem nos olhos.</p><p>� Apaixonei-me por voc� neste inverno. Sem querer, apenas aconteceu. E ent�o me dei conta de que voc� estava aqui apenas temporariamente e que um dia iria partir de vez, enquanto eu iria continuar aqui o resto da vida. Isso me fez tanto mal, me doeu tanto, que decidi n�o deixar voc� entrar quando voltasse da pris�o.</p><p>� Sinto muito.</p><p>� N�o � culpa sua.</p><p>Ficaram calados durante um momento.</p><p>� Quando voc� foi embora hoje � noite, eu chorei. Queria uma chance de voltar � vida. Ent�o pensei numa coisa.</p><p>� No qu�?</p><p>� Que eu seria totalmente doida se deixasse de te ver s� porque um dia voc� vai embora. Mikael, ser� que podemos recome�ar? Ser� que voc� pode esquecer o que se passou h� pouco?</p><p>� Est� esquecido � disse Mikael. � E obrigado por ter me contado. Ela continuou a olhar a mesa.</p><p>� Se voc� me quiser, estou com muita vontade.</p><p>Ergueu os olhos e encontrou os dele. Depois levantou-se e dirigiu-se at� o quarto. Deixou cair o casaco no ch�o e foi retirando o vestido pela cabe�a enquanto andava.</p><p>Mikael e Cecilia foram despertados ao mesmo tempo pelo ru�do da porta da frente se abrindo e pelos passos de algu�m na cozinha. Ouviram o baque surdo de uma sacola jogada no ch�o ao lado do aquecedor. Ent�o Erika apareceu � porta do quarto com um sorriso que logo se transformou em susto.</p><p>� � meu Deus! � Ela deu um passo para tr�s.</p><p>� Oi, Erika � disse Mikael.</p><p>� Oi. Desculpe. Pe�o mil desculpas por ter entrado desse jeito. Eu deveria ter batido antes.</p><p>� Dever�amos ter trancado a porta. Erika, esta � Cecilia Vanger. Cecilia, Erika Berger: a diretora da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Bom dia � disse Cecilia.</p><p>� Bom dia � disse Erika.</p><p>Ela parecia n�o saber se devia se aproximar para apertar educadamente a m�o de Cecilia ou se devia apenas ir embora.</p><p>� Bem, eu... posso sair e dar uma volta...</p><p>� E que tal se antes preparasse um caf�? � Mikael olhou o despertador em cima da mesa-de-cabeceira. Passava do meio-dia.</p><p>Erika fez que sim com a cabe�a e voltou a fechar a porta do quarto. Mikael e Cecilia se olharam. Cecilia estava embara�ada. Haviam feito amor e conversado at� as quatro da manh�. Depois Cecilia disse que passaria a noite ali e que da� em diante n�o daria a m�nima de mostrar a todo mundo que trepava com Mikael. Ela dormira de costas para o ventre dele, o bra�o de Mikael envolvendo-lhe o peito.</p><p>� N�o se preocupe, est� tudo bem � disse Mikael. � Erika � casada e n�o � minha namorada. Nos vemos de vez em quando, e ela n�o se importa de saber que voc� e eu temos um caso. E provavelmente est� se sentindo bastante envergonhada neste momento.</p><p>Na cozinha, Erika preparou um desjejum com caf�, suco de frutas, gel�ia de laranja, queijo e p�o grelhado. O cheiro era bom. Cecilia dirigiu-se a ela e estendeu-lhe a m�o.</p><p>� Foi muito r�pido h� pouco. Bom dia.</p><p>� Cecilia, desculpe ter chegado assim, como um elefante � disse Erika realmente chateada.</p><p>� Deixe pra l�, esque�a. Vamos ao caf�.</p><p>� Sabe � disse Mikael, estreitando Erika nos bra�os antes de sentar-se. � Como voc� veio para c�?</p><p>� Vim de carro esta manh�, o que voc� acha? Li sua mensagem �s duas da madrugada e tentei ligar.</p><p>� Desliguei o celular � disse Mikael, dirigindo um sorriso a Cecilia Vanger.</p><p>Depois do caf�, Erika pediu licen�a e deixou Mikael e Cecilia a s�s, alegando que precisava ir cumprimentar Henrik Vanger. Enquanto Cecilia limpava a mesa, Mikael se aproximou dela por tr�s e a abra�ou.</p><p>� E agora, o que vai acontecer? � perguntou Cecilia.</p><p>� Nada. Tudo continua do mesmo jeito. Erika � minha melhor amiga. Temos uma liga��o espor�dica que j� dura vinte anos e que espero dure ainda mais vinte. Mas nunca formamos um casal e nunca nos impedimos de ter aventuras pessoais.</p><p>� � o que existe entre n�s? Uma aventura?</p><p>� N�o sei o que existe entre n�s, mas parece que estamos bem um com o outro.</p><p>� Onde ela dormir� esta noite?</p><p>� Arranjar�o um quarto em algum lugar. Um quarto de h�spedes na casa de Henrik. Ela n�o vai dormir na minha cama.</p><p>Cecilia refletiu um instante.</p><p>� N�o sei se vou saber lidar com isso. Voc� e ela talvez funcionem bem assim, mas eu n�o sei... eu nunca... � Ela balan�ou a cabe�a. � Vou para casa agora. Preciso refletir um pouco.</p><p>� Cecilia, voc� me fez perguntas a esse respeito e eu falei da minha rela��o com Erika. A exist�ncia dela n�o pode ser uma surpresa para voc�.</p><p>� � verdade. Mas enquanto ela estava a uma dist�ncia confort�vel, l� em Estocolmo, eu podia ignor�-la.</p><p>Cecilia vestiu o casaco.</p><p>� A situa��o � c�mica. � Ela sorriu. � Venha jantar esta noite. Com Erika. Acho que vou gostar muito dela.</p><p>Erika j� havia resolvido a quest�o da hospedagem. Nas vezes em que visitara Henrik Vanger, dormira num dos quartos de h�spedes, e pediu muito singelamente se podia utiliz�-lo de novo. Henrik mal conteve o entusiasmo e assegurou que ela era bem-vinda sempre que quisesse vir.</p><p>Ap�s essas formalidades, Mikael e Erika atravessaram a ponte e se instalaram no terra�o do Caf� Susanne antes da hora de fechamento.</p><p>� Estou superchateada � disse Erika. � Venho aqui para comemorar sua liberdade e o encontro na cama com a mulher fatal da aldeia.</p><p>� Desculpe.</p><p>� H� quanto tempo voc� e a senhorita Tetuda... � Erika fez um movimento com o indicador.</p><p>� Mais ou menos desde que Henrik se associou a n�s.</p><p>� Ah, �?</p><p>� Como assim ah, �?</p><p>� Simples curiosidade.</p><p>� Cecilia � uma mulher querida. Gosto dela.</p><p>� N�o estou criticando. Estou apenas chateada. Uma guloseima ao alcance da m�o e sou obrigada a fazer regime. E a pris�o, como foi?</p><p>� Tipo f�rias de estudo. E a revista, como vai?</p><p>� Melhor. Ainda estamos ziguezagueando no vermelho, mas pela primeira vez em um ano o volume de an�ncios aumentou. Continuamos bem abaixo do que t�nhamos antes, mas j� estamos nos recuperando. Gra�as a Henrik. E o mais estranho � que as assinaturas tamb�m aumentaram.</p><p>� E normal, sempre h� uma oscila��o.</p><p>� De algumas centenas a mais ou a menos. Mas tivemos tr�s mil assinantes a mais nos �ltimos meses. O aumento se mant�m constante com duzentos e cinquenta novos assinantes por semana. Primeiro achei que fosse coincid�ncia, mas novos assinantes continuam afluindo. � o maior aumento de tiragem j� obtido por uma revista mensal. Representa mais que as receitas dos anunciantes. Ao mesmo tempo, nossos antigos anunciantes parecem em geral dispostos a renovar.</p><p>� Como se explica isso? � perguntou Mikael, confuso.</p><p>� N�o sei. Nem n�s estamos entendendo. N�o fizemos campanha publicit�ria. Christer passou uma semana verificando sistematicamente o perfil desses novos assinantes. Em primeiro lugar, s�o novos mesmo. Em segundo, setenta por cento s�o mulheres. Em geral, os assinantes s�o setenta por cento de homens. Em terceiro, pode-se caracterizar esse tipo de assinante como um assalariado m�dio dos sub�rbios com um trabalho qualificado: professores, pequenos executivos, funcion�rios p�blicos.</p><p>� A revolta da classe m�dia contra o capitalismo?</p><p>� N�o sei. Mas se a tend�ncia prosseguir vamos assistir a uma enorme mudan�a na nossa lista de assinantes. A reda��o se reuniu h� duas semanas e decidimos ir incluindo aos poucos novos temas na revista; quero mais artigos sobre o mundo do trabalho, relacionado a sindicatos como o dos funcion�rios p�blicos, por exemplo, e tamb�m mais reportagens investigativas, sobre feminismo e outros assuntos do momento.</p><p>� Mas cuidado para n�o mudar demais � disse Mikael. � Se temos novos assinantes, � provavelmente porque gostam do que j� existe na revista.</p><p>Cecilia Vanger tamb�m convidara Henrik Vanger para o jantar, talvez para diminuir o risco de assuntos mais melindrosos. Preparou um assado de carne de veado e serviu vinho tinto para acompanhar. Erika e Henrik monopolizaram grande parte da conversa comentando a recupera��o da <emphasis>Millennium </emphasis>e os novos assinantes; depois, aos poucos, passou-se a se falar de outras coisas. De repente Erika se voltou para Mikael e perguntou como ia seu trabalho.</p><p>� Em aproximadamente um m�s, espero terminar um primeiro rascunho completo da cr�nica familiar, que Henrik j� vai poder ler.</p><p>� Uma cr�nica no esp�rito da fam�lia Adams � disse Cecilia sorrindo.</p><p>� Ela inclui alguns aspectos hist�ricos � admitiu Mikael. Cecilia lan�ou um olhar de soslaio para Henrik Vanger.</p><p>� Mikael, na verdade Henrik n�o est� nem um pouco interessado nessa cr�nica familiar. Ele quer � que voc� resolva o enigma do desaparecimento de Harriet.</p><p>Mikael n�o disse nada. Desde que come�ara a se relacionar com Cecilia, falara mais ou menos abertamente com ela acerca de Harriet. Cecilia j� entendera que era esse o verdadeiro trabalho dele, embora Mikael nunca tivesse admitido. Por outro lado, ele nunca dissera a Henrik que discutia isso com Cecilia. As grossas sobrancelhas de Henrik se contra�ram ligeiramente. Erika se calou.</p><p>� Querido tio � disse Cecilia a Henrik �, eu n�o sou idiota. N�o sei exatamente que tipo de acordo voc� e Mikael fizeram, mas a temporada dele aqui em Hedeby tem a ver com Harriet, n�o tem?</p><p>Henrik assentiu com a cabe�a e olhou para Mikael.</p><p>� Bem que eu lhe disse que ela era esperta. � Depois virou-se para Erika. � Suponho que Mikael j� lhe explicou o que ele faz aqui em Hedeby.</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� E suponho que deve achar essa tarefa insensata. N�o, n�o � obrigada a responder. � realmente uma tarefa absurda e insensata. Mas tenho necessidade de saber.</p><p>� N�o tenho opini�o a respeito � disse Erika, diplom�tica.</p><p>� � �bvio que tem. � Henrik voltou-se para Mikael. � Em breve metade do ano ter� passado. Conte. Descobriu algo que ainda n�o averiguamos?</p><p>Mikael evitou o olhar de Henrik. Pensou imediatamente na sensa��o estranha que tivera na noite anterior, ao folhear o �lbum de fotografias. A sensa��o n�o o abandonara durante o dia, por�m ele n�o tivera tempo de abrir novamente o �lbum. N�o sabia se estava imaginando coisas, mas sabia que havia uma id�ia no caminho. Estivera a ponto de pensar em algo de decisivo. Por fim levantou os olhos para Henrik e balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o descobri a menor pista.</p><p>O velho o examinou com express�o atenta. Absteve-se de comentar a resposta de Mikael e por fim balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o sei o que voc�s, jovens, pensam disto, mas para mim chegou a hora de me retirar. Obrigado pelo jantar, Cecilia. Boa noite, Erika. Passe para me ver antes de ir embora amanh�.</p><p>Depois que Henrik fechou a porta da frente, o sil�ncio se instalou. Foi Cecilia que o rompeu.</p><p>� Mikael, o que isso quer dizer afinal?</p><p>� Quer dizer que Henrik Vanger � t�o sens�vel �s rea��es das pessoas como um sism�grafo. Ontem � noite, quando voc� foi � minha casa, eu estava olhando o �lbum de fotos.</p><p>� E?</p><p>� Eu vi alguma coisa. N�o sei o qu�, e n�o consigo p�r o dedo em cima. Alguma coisa que se tornou quase um pensamento, s� que me escapou.</p><p>� Mas voc� estava pensando em qu�?</p><p>� N�o sei. Logo depois voc� chegou e eu... humm... passei a ter coisas mais interessantes na cabe�a.</p><p>Cecilia corou. Evitou os olhos de Erika e foi at� a cozinha a pretexto de fazer um caf�.</p><p>Era um dia quente e ensolarado de maio. A vegeta��o estava brotando e Mikael surpreendeu-se a assobiar <emphasis>Blossom time is coming.</emphasis></p><p>Erika passou a noite no quarto de h�spedes de Henrik. Depois do jantar, Mikael perguntara a Cecilia se queria companhia. Ela respondeu que devia preparar a reuni�o dos conselhos de classe, que estava cansada e preferia ir dormir. Na segunda-feira de manh� bem cedo, Erika depositou um beijo no rosto de Mikael e partiu.</p><p>Quando Mikael foi para a pris�o, em meados de mar�o, a neve ainda cobria a paisagem. Agora as videiras j� exibiam folhas e a relva em volta da casa verdejava, abundante. Pela primeira vez, ele tinha a oportunidade de passear pela ilha. Por volta das oito, passou na casa de Henrik para pedir uma garrafa t�rmica a Anna. Conversou um pouco com Henrik e pediu-lhe emprestado um mapa da ilha. Queria ver de perto a cabana de Gottfried, mencionada de maneira indireta no inqu�rito policial, pois Harriet estivera ali v�rias vezes. Henrik explicou que a cabana pertencia a Martin Vanger, mas estava desocupada havia v�rios anos. De vez em quando um parente de passagem a ocupava.</p><p>Mikael encontrou Martin Vanger a tempo, antes de ele ir para Hedestad trabalhar, e perguntou se podia emprestar a chave da cabana. Martin olhou para ele com um sorriso brincalh�o.</p><p>� Suponho que a cr�nica familiar chegou agora ao cap�tulo sobre Harriet.</p><p>� Eu s� queria dar uma olhada...</p><p>Martin Vanger foi buscar a chave e voltou em seguida.</p><p>� Posso ir ent�o? Sem problemas?</p><p>� Por mim, pode at� se instalar l�, se quiser. A n�o ser pelo fato de ficar no outro extremo da ilha, � um lugar bem melhor que a casa onde voc� est� hospedado.</p><p>Mikael preparou caf� e sandu�ches. Encheu uma garrafa com �gua e p�s as provis�es numa mochila que jogou sobre o ombro. Seguiu um caminho estreito e em parte invadido pelo mato, ao longo da ba�a na costa norte da ilha. A cabana de Gottfried ficava num promont�rio a cerca de dois quil�metros do povoado, e ele fez o trajeto em meia hora, sem pressa.</p><p>Martin Vanger tinha raz�o. Ao sair de uma curva do caminho, Mikael viu abrir-se um lugar verdejante em frente ao mar, com uma ampla vista de Hedestad que abarcava a embocadura do rio, a marina � esquerda e o porto comercial � direita.</p><p>Achou surpreendente que ningu�m tivesse se apossado da cabana de Gottfried. Era uma constru��o r�stica de toras de madeira horizontais, coberta de telhas, com os caixilhos das janelas pintados de verde e uma pequena varanda na entrada. A manuten��o da casa e do jardim mostrava sinais de abandono; a pintura das portas e das janelas estava descascando, e o que devia ter sido uma relva transformara-se em arbustos de um metro de altura. Seria necess�rio um dia de trabalho com foice e cortador de grama para p�r tudo em ordem.</p><p>Mikael destrancou a porta, entrou e abriu as janelas. Parecia o interior de um celeiro de uns trinta e cinco metros quadrados. Era uma �nica e grande pe�a, forrada de lambris, com amplas janelas que davam para o mar de um lado e de outro para a porta da frente. No fundo da pe�a, uma escada conduzia a um quarto-mezanino que ocupava metade da superf�cie da casa. Debaixo da escada havia um pequeno nicho com um fog�o a g�s, um balc�o e um lavabo. A mob�lia era simples; � esquerda da entrada, um banco fixado � parede, uma escrivaninha em mau estado e uma ampla estante de madeira. Mais adiante, do mesmo lado, um arm�rio de tr�s portas. A direita da entrada, uma mesa redonda com cinco cadeiras de madeira e, no centro, uma lareira.</p><p>V�rias lamparinas indicavam que a eletricidade n�o chegara at� ali. No parapeito de uma janela descansava um velho transistor Grundig com a antena quebrada. Mikael acionou o bot�o <emphasis>on, </emphasis>mas as pilhas estavam gastas.</p><p>Subiu a escada estreita e deu uma espiada no mezanino: uma cama de casal, um colch�o sem colcha, uma mesa-de-cabeceira e uma c�moda.</p><p>Mikael ficou um momento vasculhando a casa. A c�moda estava vazia, com exce��o de algumas toalhas de rosto e roupas de cama cheirando a mofo. No arm�rio havia algumas roupas de trabalho, um avental, um par de botas de borracha, um t�nis gasto e uma pequena lamparina a querosene. Nas gavetas da escrivaninha encontrou papel, l�pis, um bloco de desenho n�o usado, um baralho e alguns marcadores de p�gina. O arm�rio da cozinha continha lou�as, x�caras de caf�, copos, velas e pacotes esquecidos de sal, saquinhos de ch� e coisas do g�nero. Numa gaveta da mesa havia talheres.</p><p>Os �nicos vest�gios de car�ter intelectual estavam na prateleira acima da escrivaninha. Mikael subiu numa cadeira para ver melhor. Na prateleira de baixo havia n�meros antigos de <emphasis>Se, Rekordmagasinet, Tidsf�rdriv </emphasis>e <emphasis>Lektyr, </emphasis>do final dos anos 1950 e in�cio dos 1960; <emphasis>Bildjoumalen </emphasis>de 1965 e 1966, <emphasis>Mitt Livs Novell </emphasis>e algumas revistas em quadrinhos: <emphasis>91:an, Fantomen </emphasis>e <emphasis>Romans. </emphasis>Mikael abriu um n�mero da <emphasis>Lektyr </emphasis>de 1964 e constatou que a <emphasis>pin-up </emphasis>tinha um aspecto relativamente inocente.</p><p>Uns cinquenta livros tamb�m, a metade deles romances policiais em formato de bolso da s�rie Manhattan de Wahlstr�m; alguns Mickey Spillane com t�tulos evocadores como <emphasis>O beijo da morte, </emphasis>nas capas cl�ssicas de Bertil Hegland. Encontrou ainda seis <emphasis>Kitty, </emphasis>alguns <emphasis>Clube dos cinco </emphasis>de Enid Blyton e um volume dos <emphasis>Detetives g�meos </emphasis>de Sivar Ahlrud � O <emphasis>mist�rio no metr�. </emphasis>Mikael sorriu com nostalgia. Tr�s livros de Astrid Lindgren: <emphasis>N�s, os filhos de Bullerbyn, Super Blomkvist e Rasmus </emphasis>e <emphasis>P�ppi Meialonga. </emphasis>Na prateleira de cima havia um r�dio de ondas curtas, dois livros de astronomia, um sobre aves, um intitulado O <emphasis>imp�rio do mal, </emphasis>que falava da Uni�o Sovi�tica, um sobre a guerra de inverno na Finl�ndia, o <emphasis>Catecismo </emphasis>de Lutero, o livro de hinos da Igreja sueca e uma B�blia.</p><p>Mikael abriu a B�blia e leu no interior da capa: <emphasis>Harriet Vanger, 12/5/1963. </emphasis>A B�blia da crisma de Harriet. Consternado, devolveu o livro � estante.</p><p>Logo atr�s da casa havia um pequeno dep�sito que abrigava lenha e ferramentas, uma foice, um ancinho, um martelo, uma caixa contendo pregos, uma plaina, uma serra e outras ferramentas. O sanit�rio estava situado a uns vinte metros para o Leste Europeu, no bosque. Mikael olhou um pouco por ali e depois voltou para a casa. Puxou uma cadeira, sentou-se na varanda e abriu a garrafa t�rmica para tomar caf�. Acendeu um cigarro e contemplou a ba�a de Hedestad atrav�s da cortina do matagal.</p><p>A cabana de Gottfried era bem mais modesta do que ele imaginara. Era esse ent�o o lugar onde o pai de Harriet e de Martin se recolhera quando o casamento com Isabella come�ou a desmoronar no final dos anos 1950. Onde tinha ido viver e onde se embriagava. E mais abaixo junto ao pont�o onde havia se afogado com uma taxa elevada de �lcool no sangue. A vida na cabana certamente era agrad�vel no ver�o, mas, quando a temperatura se aproximava do zero, devia ser bastante fria e penosa. De acordo com Henrik, Gottfried continuou a trabalhar no grupo Vanger � com interrup��es nos per�odos de auge da bebedeira � at� 1964. O fato de morar nessa cabana de forma mais ou menos permanente e n�o obstante apresentar-se ao trabalho barbeado e de terno e gravata indicava, apesar de tudo, certa disciplina pessoal.</p><p>Mas tamb�m era um lugar aonde Harriet ia com frequ�ncia, tanto assim que foi um dos primeiros onde a procuraram. Henrik contou que no �ltimo ano ela tinha ido v�rias vezes � cabana, nos fins de semana ou nas f�rias. No �ltimo ver�o, havia morado ali durante tr�s meses, embora fosse ao povoado todos os dias. Fora ali tamb�m que sua amiga Anita Vanger, irm� de Cecilia, lhe fizera companhia por seis semanas.</p><p>O que ela fazia na solid�o? As revistas e os livros de literatura juvenil falavam por si mesmos. O bloco de desenho talvez tenha lhe pertencido. Mas havia tamb�m a B�blia.</p><p>Queria ficar perto do pai afogado e passar ali um per�odo de luto? Era s� essa a explica��o? Ou o isolamento tinha a ver com suas d�vidas religiosas? A cabana era monacal; ela vivia ali como num convento?</p><p>* * *</p><p>Mikael seguiu pela praia na dire��o sudeste, mas o terreno, barrado por muitas ravinas e jun�peros, era quase impratic�vel. Retornou e andou um pouco em dire��o a Hedeby. De acordo com o mapa, devia haver uma picada atrav�s do bosque que levava � chamada Fortifica��o, e ele levou uns vinte minutos para achar o acesso, invadido pela vegeta��o. A Fortifica��o eram restos da defesa costeira que datavam da Segunda Guerra: bunkers de concreto com trincheiras distribu�das em volta de uma constru��o de comando. Tudo coberto de mato.</p><p>Mikael continuou no caminho at� chegar a um dep�sito de barcos numa clareira junto ao mar. Ao lado do dep�sito encontrou restos de um veleiro. Retornou � Fortifica��o e seguiu at� ir dar num cercado � eram as terras da fazenda de �stergarden.</p><p>Continuou no caminho que serpenteava atrav�s do bosque, em alguns pontos paralelo ao campo pertencente � fazenda. O caminho era de dif�cil acesso e ele foi obrigado a contornar alguns loda�ais. Por fim chegou a um p�ntano junto a um celeiro. Aparentemente o caminho terminava ali, mas ele estava a apenas cem metros da estrada de �stergarden.</p><p>Do outro lado da estrada, se elevava o monte Sul. Mikael escalou uma encosta �ngreme e precisou do apoio das m�os nos �ltimos metros. O monte Sul terminava numa fal�sia quase vertical sobre o mar. Mikael retornou a Hedeby seguindo pela crista, de onde avistou as cabanas, o velho porto dos pescadores, a igreja e a pequena casa em que estava hospedado. Sentou-se numa pedra e serviu-se de um �ltimo resto de caf� morno.</p><p>N�o tinha a menor id�ia do que fazia em Hedeby, mas a vista lhe agradava.</p><p>Cecilia Vanger mantinha dist�ncia e Mikael n�o quis parecer insistente. Mas depois de uma semana resolveu ir visit�-la. Ela o recebeu e foi preparar um caf�.</p><p>� Deve estar me achando uma idiota, uma professora respeit�vel de cinquenta e seis anos se comportando como uma adolescente.</p><p>� Cecilia, voc� � uma mulher adulta e tem o direito de agir como quiser.</p><p>� Eu sei. Por isso decidi n�o te ver mais. N�o consigo administrar...</p><p>� Voc� n�o me deve nenhuma explica��o. Espero que continuemos bons amigos.</p><p>� � o que desejo tamb�m. Mas um caso com voc� � muito complicado para mim. Relacionamentos amorosos nunca foram o meu forte. Acho que preciso ficar s� por algum tempo.</p><empty-line/><p><strong>16. DOMINGO 1� DE JUNHO �  TER�A-FEIRA 10 DE JUNHO</strong></p><p>Ap�s seis meses de especula��es infrut�feras, uma brecha se abriu no caso Harriet Vanger quando Mikael, em apenas alguns dias da primeira semana de junho, descobriu tr�s novas pe�as do quebra-cabe�a. Duas completamente sozinho, a terceira com um pouco de ajuda.</p><p>Depois da visita de Erika, ele reabrira o �lbum de fotografias e por v�rias horas examinara as fotos uma ap�s outra, tentando entender o que o fizera reagir. Depois deixou tudo de lado e voltou a trabalhar na cr�nica familiar.</p><p>Num dos primeiros dias de junho, Mikael foi a Hedestad. Estava pensando em outra coisa, quando o �nibus entrou na rua da Esta��o, e foi ent�o que subitamente se deu conta do que havia germinado em seu c�rebro. A luz o atingiu como um rel�mpago num c�u sem nuvens. Ficou t�o abalado que continuou at� o terminal da esta��o ferrovi�ria e voltou imediatamente a Hedeby para verificar se suas lembran�as eram exatas.</p><p>Tratava-se da primeira foto do �lbum. A �ltima de Harriet, tirada na rua da Esta��o em Hedestad naquele dia funesto, quando ela assistia ao desfile da Festa das Crian�as.</p><p>A foto destoava no �lbum. Estava ali porque fora tirada no mesmo dia, mas era a �nica entre as outras cento e oitenta que n�o mostrava o acidente na ponte. Sempre que Mikael e (supunha ele) todos os outros olhavam o �lbum, eram as pessoas e os detalhes das fotos da ponte que lhes chamavam a aten��o. Nada havia de dram�tico na fotografia de uma multid�o assistindo ao desfile da Festa das Crian�as em Hedestad, v�rias horas antes dos acontecimentos decisivos.</p><p>Henrik Vanger devia ter olhado para aquela foto milhares de vezes, constatando com pesar que nunca mais tornaria a ver Harriet. Provavelmente se irritou por a foto ter sido tirada de t�o longe e de Harriet Vanger s� aparecer como uma figura qualquer na multid�o.</p><p>Mas n�o foi isso que tinha feito Mikael reagir.</p><p>A foto fora tirada do outro lado da rua, provavelmente de uma janela do primeiro andar. A grande-angular captava a frente de um dos caminh�es do desfile. Sobre a carroceria, vestidas com maios de banho cintilantes e pantalonas ex�ticas, mulheres lan�avam bombons aos espectadores. Algumas pareciam dan�ar. Diante do caminh�o saltitavam tr�s palha�os.</p><p>Harriet estava na cal�ada, na primeira fila de espectadores. A seu lado, tr�s colegas de classe e, ao redor, pelo menos uns cem outros habitantes de Hedestad.</p><p>Foi isso que o subconsciente de Mikael registrara e que de repente veio � tona quando o �nibus passou exatamente no local onde a foto fora tirada.</p><p>Os espectadores se comportavam como costumam se comportar. Os olhos dos espectadores sempre seguem a bolinha numa partida de t�nis ou o disco de borracha no h�quei sobre gelo. Os que estavam mais � esquerda olhavam os palha�os bem � frente deles. Os mais pr�ximos do caminh�o dirigiam o olhar para a carroceria com as mo�as escassamente vestidas. Seus rostos estavam sorridentes. Crian�as apontavam com o dedo. Alguns riam. Todos pareciam felizes.</p><p>Todos exceto uma pessoa.</p><p>Harriet Vanger olhava para o lado. Suas tr�s colegas e as pessoas ao redor olhavam os palha�os. O rosto de Harriet estava voltado uns trinta ou trinta e cinco graus para a direita. Seu olhar parecia fixo em alguma coisa do outro lado da rua, mas que n�o aparecia no canto inferior � esquerda da foto.</p><p>Mikael pegou a lupa e tentou distinguir os detalhes. A foto fora tirada de muito longe para que ele tivesse absoluta certeza, mas, ao contr�rio de todos os outros, o rosto de Harriet n�o exprimia nenhuma alegria. A boca era um tra�o estreito. Olhos muito abertos. M�os repousadas frouxamente ao longo do corpo.</p><p>Ela parecia estar com medo. Com medo ou com raiva.</p><p>Mikael tirou a foto do �lbum, enfiou-a numa folha de pl�stico e pegou o �nibus com destino a Hedestad. Desceu na rua da Esta��o e colocou-se no local onde a foto provavelmente fora tirada. Era numa das pontas do que constitu�a o centro da cidade. Tratava-se de um sobrado de madeira que agora abrigava uma videolocadora e uma loja de moda masculina, Sundstr�m, existente desde 1932, conforme informava uma placa acima da porta de entrada. Ele entrou e logo percebeu que a loja ocupava os dois andares; uma escada em caracol conduzia � parte de cima.</p><p>No alto, duas janelas davam para a rua. Foi ali que o fot�grafo se instalara.</p><p>� Posso ajud�-lo? � perguntou um vendedor de certa idade, quando Mikael tirou do bolso o pl�stico com a fotografia. Havia pouca gente na loja.</p><p>� Bem, na verdade eu gostaria apenas de verificar de onde esta fotografia foi tirada. Posso abrir um instante a janela?</p><p>Deram-lhe permiss�o e ele estendeu a foto � sua frente. Podia ver o local exato onde Harriet Vanger estivera. Uma das duas casas de madeira que se viam atr�s dela desaparecera, substitu�da por uma de tijolos. A outra casa, que sobreviveu, abrigava uma papelaria em 1966; atualmente havia ali uma loja de produtos diet�ticos e um sol�rio. Mikael fechou a janela, agradeceu e desculpou-se pelo inc�modo.</p><p>Embaixo, na rua, foi se colocar no lugar onde Harriet estivera. N�o teve dificuldade em se orientar entre a janela do primeiro andar da loja e a porta do sol�rio. Virou a cabe�a e reconstituiu a linha de mira de Harriet. Pelo que Mikael p�de avaliar, ela dirigira o olhar a um canto da casa que abrigava a loja de moda masculina. Era um canto de casa inteiramente comum, de onde sa�a uma rua lateral. <emphasis>O</emphasis><emphasis>que Harriet teria visto l�?</emphasis></p><p>Mikael guardou a fotografia na mochila e foi a p� at� a entrada da esta��o, onde sentou-se num terra�o e pediu um <emphasis>caff� latte. </emphasis>Sentia-se subitamente agitado.</p><p>Nos romances policiais ingleses, isso se chamava uma <emphasis>new evidence, o </emphasis>que era bem mais que um "novo dado". Ele acabava de ver algo novo, que ningu�m mais observara numa investiga��o que se arrastava havia trinta e sete anos.</p><p>O �nico problema � que ele n�o sabia muito bem qual o valor dessa nova descoberta, nem mesmo se havia algum. No entanto ela lhe parecia importante.</p><p>O dia de setembro em que Harriet desapareceu fora dram�tico de diversas maneiras. Era um dia de festa em Hedestad com milhares de pessoas nas ruas, tanto jovens como velhos. E havia a reuni�o familiar anual na ilha. S� esses dois acontecimentos j� quebravam a rotina do lugar. E o acidente na ponte, como a cereja no bolo, veio lan�ar sua sombra sobre o resto.</p><p>O inspetor Morell, Henrik Vanger e todos os que refletiram sobre o desaparecimento de Harriet haviam se concentrado nos acontecimentos da ilha. O pr�prio Morell escrevera que n�o conseguia afastar a suspeita de que havia uma liga��o entre o acidente e o desaparecimento de Harriet. De repente Mikael se convenceu de que isso era inteiramente falso.</p><p>A cadeia de incidentes n�o come�ara na ilha, mas na cidade de Hedestad, v�rias horas antes naquele dia. Harriet Vanger tinha visto alguma coisa ou algu�m que lhe causara medo e que a fizera voltar para casa e procurar de imediato Henrik Vanger, que infelizmente n�o teve tempo de lhe dar aten��o. Depois aconteceu o acidente na ponte. Em seguida o assassino agiu.</p><p>Mikael fez uma pausa. Era a primeira vez que formulava conscientemente a suposi��o de que Harriet havia sido morta. Hesitou, mas logo percebeu que concordava com a convic��o de Henrik Vanger. Harriet fora morta e agora ele buscava um assassino.</p><p>Retornou ao inqu�rito policial. Nos milhares de p�ginas, s� uma parte m�nima falava das horas em Hedestad. Harriet estava com tr�s colegas de classe, e todas foram interrogadas. Elas se encontraram na entrada da esta��o ferrovi�ria �s nove da manh�. Uma das meninas precisava comprar um jeans e as outras a acompanharam. Tomaram um caf� no restaurante das lojas EPA e depois foram at� a feira na pra�a de esportes, onde passearam entre as bancas e os pequenos lagos com patos, e onde tamb�m cruzaram com outros colegas de escola. Ao meio-dia, dirigiram-se ao centro da cidade para ver o desfile da Festa das Crian�as. Um pouco antes das duas, Harriet anunciou repentinamente que precisava voltar para casa. Elas se separaram num ponto de �nibus perto da rua da Esta��o.</p><p>Nenhuma das colegas observou algo fora do comum. Uma delas, Inger Stenberg, afirmou que Harriet se tornara "impessoal", ao descrever sua mudan�a no �ltimo ano. Disse que naquele dia Harriet estava taciturna como de costume e que apenas acompanhava as outras.</p><p>O inspetor Morell entrevistou todos os que tinham visto Harriet naquele dia, mesmo os que apenas a cumprimentaram na feira ou na rua. Sua foto foi publicada nos jornais da regi�o quando a deram por desaparecida. V�rios habitantes de Hedestad entraram em contato com a pol�cia para dizer que julgavam t�-la visto durante o dia, mas ningu�m observou nada de incomum.</p><p>Mikael passou a noite refletindo sobre como continuar investigando a pista que acabava de formular. Na manh� seguinte, foi se encontrar com Henrik Vanger no momento em que ele tomava o caf�-da-manh�.</p><p>� Voc� me disse que a fam�lia Vanger sempre teve participa��es no <emphasis>Hedestads-Kuriren.</emphasis></p><p><emphasis>� </emphasis>Isso mesmo.</p><p>� Preciso consultar os arquivos fotogr�ficos do jornal. De 1966. Henrik Vanger pousou o copo de leite e enxugou o l�bio superior.</p><p>� Mikael, o que voc� descobriu? Ele olhou o velho bem nos olhos.</p><p>� Nada de concreto. Mas acho que podemos ter cometido um erro de interpreta��o no que se refere ao desenrolar dos acontecimentos.</p><p>Mostrou a foto e relatou suas conclus�es; Henrik n�o disse nada por um longo tempo.</p><p>� Se tenho mesmo raz�o, devemos nos concentrar no que se passou em Hedestad naquele dia, n�o apenas no que se passou na ilha � disse Mikael. � N�o sei o que foi feito delas depois de tantos anos, mas muitas fotografias das festividades certamente nem foram publicadas. S�o essas fotos que quero ver.</p><p>Henrik Vanger utilizou o telefone de parede na cozinha. Chamou Martin Vanger, explicou o que procurava e perguntou quem era hoje o respons�vel pelo arquivo fotogr�fico do <emphasis>Kuriren. </emphasis>Dez minutos mais tarde, a pessoa foi localizada e a autoriza��o obtida.</p><p>A respons�vel pelo arquivo fotogr�fico do <emphasis>Hedestads-Kuriren </emphasis>chamava-se Madeleine Blomberg, mais conhecida por Maja, e tinha sessenta anos. Era a primeira mulher nessa fun��o que Mikael encontrava em sua carreira, numa profiss�o em que ainda se julgava a fotografia como um dom�nio art�stico reservado aos homens.</p><p>Era um s�bado e a reda��o estava vazia, mas Maja Blomberg morava a apenas cinco minutos a p� dali e recebeu Mikael na porta do jornal. Ela havia trabalhado no <emphasis>Hedestads-Kuriren </emphasis>a maior parte de sua vida. Come�ou como revisora em 1964, a seguir trabalhou na prepara��o das fotos e passou muitos anos no laborat�rio, sendo enviada tamb�m para algumas coberturas fotogr�ficas quando os efetivos faltavam. Acabou sendo promovida a editora e, dez anos antes, quando o ex-respons�vel pelo setor de fotografia se aposentou, ela assumiu a chefia do departamento. Mas isso n�o significava que dirigisse um vasto imp�rio. O departamento de fotografia fora integrado ao de publicidade dez anos antes e contava com apenas seis pessoas, todas encarregadas do mesmo trabalho por turno.</p><p>Mikael perguntou como os arquivos estavam organizados.</p><p>� Na verdade, o arquivo est� uma grande bagun�a. Depois dos computadores e das fotos digitais, passamos a arquivar tudo em CDs. Um dos nossos estagi�rios escaneou as fotos antigas importantes, mas isso s� representa um ou dois por cento das fotos catalogadas. As mais antigas est�o organizadas em arquivos de negativos, por data. Est�o ou aqui na reda��o, ou no dep�sito.</p><p>� O que me interessa s�o as fotos tiradas no desfile da Festa das Crian�as de 1966, mas tamb�m, de modo geral, fotos tiradas naquela semana.</p><p>Maja Blomberg perscrutou Mikael com o olhar.</p><p>� N�o � a semana em que Harriet Vanger desapareceu?</p><p>� A senhora conhece a hist�ria?</p><p>� Imposs�vel ter trabalhado a vida inteira no <emphasis>Hedestads-Kuriren </emphasis>e n�o conhec�-la, e quando Martin Vanger me chamou hoje de manh�, no meu dia de folga, tirei minhas pr�prias conclus�es. Revisei artigos que falavam do caso nos anos 1960. Por que est� investigando? Haveria novas revela��es?</p><p>Maja Blomberg tamb�m parecia ter faro. Mikael balan�ou a cabe�a com um breve sorriso e lan�ou seu pretexto.</p><p>� N�o, e duvido muito que algum dia tenhamos a resposta para o que aconteceu com ela. Pe�o que n�o espalhe, mas estou escrevendo a biografia de Henrik Vanger. O desaparecimento de Harriet � um assunto � parte, mas tamb�m um cap�tulo que n�o se pode ignorar. Procuro fotos que possam ilustrar aquele dia, de Harriet e de suas colegas.</p><p>Maja Blomberg pareceu c�tica, por�m como a explica��o era plaus�vel ela n�o tinha por que duvidar do que ele dizia.</p><p>O fot�grafo de um jornal utiliza em m�dia entre dois e dez filmes por dia. Em �pocas de grandes acontecimentos, esse n�mero pode facilmente dobrar. Cada filme cont�m trinta e seis negativos, portanto n�o � incomum um jornal acumular mais de trezentas fotos todos os dias, das quais poucas s�o publicadas. Uma reda��o bem organizada divide os filmes em seis e p�e cada tira dessas em seis envelopes numa p�gina. Com isso, um filme equivale a mais ou menos uma p�gina num arquivo de negativos. Um arquivo cont�m pouco mais de cento e dez filmes. Em um ano, acumulam-se entre vinte e trinta arquivos. Ao longo dos anos, isso acaba se transformando numa quantidade espantosa de arquivos, geralmente sem o menor valor comercial, atulhando as prateleiras da reda��o. No entanto, todos os fot�grafos e editores de fotografia est�o convencidos de que as imagens representam um <emphasis>documento hist�rico de valor inestim�vel </emphasis>e n�o jogam nada fora.</p><p>Fundado em 1922, o <emphasis>Hedestads-Kuriren </emphasis>dispunha de uma editoria de fotografia desde 1937. O dep�sito do <emphasis>Kuriren </emphasis>abrigava mais de mil e duzentos arquivos de fotos, classificados por data. As imagens de setembro de 1966 representavam quatro arquivos de encaderna��o barata.</p><p>� Como eu fa�o? � perguntou Mikael. � Vou precisar de um negatosc�pio e tamb�m copiar as fotos que me interessarem.</p><p>� N�o temos mais laborat�rio. Escaneamos tudo. Sabe usar um esc�ner de negativos?</p><p>� Sim, j� fiz fotos, eu mesmo tenho um Agfa em casa. Trabalho com o Photoshop.</p><p>� Ent�o est� t�o bem equipado como n�s.</p><p>Maja Blomberg levou Mikael para dar uma volta r�pida pela reda��o, indicou-lhe um lugar diante de um negatosc�pio e ligou um computador e um esc�ner. Mostrou-lhe tamb�m onde preparar caf� na copa. Arrumou tudo para que Mikael pudesse trabalhar sozinho e livremente, mas ele devia chamar Maja Blomberg quando fosse embora da reda��o, para que ela viesse trancar tudo e ligar o alarme. Ela o deixou com um jovial "Divirta-se".</p><p>Mikael precisou de v�rias horas para percorrer os arquivos. Dois fot�grafos trabalhavam no <emphasis>Hedestads-Kuriren </emphasis>naquela �poca. O que trabalhou no dia em quest�o foi Kurt Nylund, que Mikael j� conhecia. Na �poca, Nylund tinha vinte anos. Mais tarde foi morar em Estocolmo e tornou-se um fot�grafo profissional reconhecido, atuando como <emphasis>freelancer </emphasis>mas tamb�m com a Pressens Bild, em Marieberg. Seus caminhos se cruzaram v�rias vezes nos anos 1990, quando a <emphasis>Millennium </emphasis>comprou fotos da Pressens Bild. Mikael tinha a lembran�a de um homem magro de cabelos finos. Kurt Nylund utilizara um filme pouco sens�vel usado por muitos rep�rteres-fotogr�ficos.</p><p>Mikael tirou dos envelopes as fotos do jovem Nylund e as p�s no negatosc�pio, examinando uma por uma com a lupa. Mas ler negativos � uma arte que requer algum h�bito, coisa que Mikael n�o tinha. Para saber se as fotos continham alguma informa��o valiosa, ele percebeu que seria obrigado a escanear cada imagem para observ�-la depois no computador. Isso levaria horas. Decidiu ent�o fazer um levantamento dos negativos que poderiam interess�-lo.</p><p>Come�ou selecionando as fotografias do acidente com o caminh�o-tanque. Mikael constatou que o arquivo de cento e oitenta fotos de Henrik Vanger n�o estava completo; a pessoa que copiara a cole��o � talvez o pr�prio Nylund � eliminara cerca de trinta fotos, ou porque estavam desfocadas, ou porque sua qualidade era med�ocre para publica��o.</p><p>Mikael deixou o computador do <emphasis>Hedestads-Kurirem </emphasis>e ligou o esc�ner em seu pr�prio notebook. Passou duas horas escaneando o restante das fotos.</p><p>Uma delas chamou de imediato sua aten��o. Num certo momento entre 15hl0 e 15hl5, exatamente nos minutos em que Harriet desapareceu, algu�m abrira a janela do quarto dela; Henrik Vanger tentara em v�o descobrir quem foi. De repente, Mikael tinha na tela uma foto que devia ter sido tirada no momento em que a janela estava aberta. Era poss�vel ver uma silhueta e um rosto, mas imprecisos, desfocados. Concluiu que a an�lise dessa foto poderia esperar at� que ele escaneasse o resto.</p><p>Nas horas seguintes, Mikael examinou as fotos da Festa das Crian�as. Kurt Nylund usou seis filmes, isto �, tirou mais de duzentas fotos. Era uma s�rie descont�nua de crian�as com bal�es, adultos, vendedores de cachorro-quente, o desfile propriamente dito, um artista local sobre um estrado e uma distribui��o de pr�mios.</p><p>Mikael decidiu, por fim, escanear o conjunto de fotos. Ao cabo de seis horas, tinha um dossi� com noventa fotografias. Ele seria obrigado a voltar ao <emphasis>Hedestads-Kuriren.</emphasis></p><p>�s nove da noite, ligou para Maja Blomberg, agradeceu e voltou para sua casa na ilha.</p><p>Ele regressou �s nove da manh� do domingo. Tamb�m n�o havia ningu�m quando Maja Blomberg o fez entrar. Mikael n�o se dera conta de que era feriado de Pentecostes e que o jornal s� sairia na ter�a-feira. P�de utilizar a mesma mesa de trabalho da v�spera e passou o dia escaneando. Por volta das seis, ainda restavam quarenta fotos da Festa das Crian�as. Mikael examinou os negativos e concluiu que os belos primeiros planos com crian�as ou as fotos de artistas em cena n�o tinham o menor interesse para ele. O que lhe interessava era a anima��o das ruas e da multid�o.</p><p>Mikael passou toda a segunda-feira de Pentecostes examinando o novo material fotogr�fico. Fez duas descobertas. A primeira o encheu de consterna��o. A segunda fez seu cora��o bater mais r�pido.</p><p>A primeira descoberta era sobre o rosto na janela do quarto de Harriet Vanger. A foto estava desfocada por causa da movimenta��o e por isso fora eliminada da cole��o. O fot�grafo se posicionara diante da igreja e visara a ponte. As casas se achavam no plano de fundo. Mikael enquadrou a imagem de modo a recortar apenas a janela em quest�o, e a seguir fez diversas tentativas, ajustando o contraste e aumentando a precis�o, at� obter o que julgou ser a melhor qualidade poss�vel.</p><p>O resultado foi uma imagem granulada de tons cinza, que mostrava uma janela retangular, uma cortina, a ponta de um bra�o e um rosto difuso em forma de meia-lua um pouco recuado no c�modo.</p><p>Constatou que o rosto n�o pertencia a Harriet Vanger, que tinha cabelos pretos, mas a uma pessoa com cabelos bem mais claros.</p><p>Constatou ainda que se podia distinguir partes mais escuras onde ficavam os olhos, o nariz e a boca, mas que era imposs�vel obter tra�os n�tidos do rosto. Estava convencido, por�m, de que via uma mulher; a parte mais clara ao lado do rosto continuava at� os ombros e indicava uma cabeleira feminina. Constatou que a pessoa usava roupas claras.</p><p>Fez uma estimativa da altura dela tomando por base a janela; uma mulher de cerca de um metro e setenta.</p><p>Ao fazer desfilar outras fotos do acidente da ponte, constatou que uma pessoa correspondia exatamente aos sinais que distinguia � Cecilia Vanger, aos vinte anos.</p><p>Kurt Nylund tirara ao todo dezoito fotos postado � janela do primeiro andar da Sundstr�m, Moda Masculina. Harriet Vanger aparecia em dezessete. Harriet e suas colegas haviam chegado � rua da Esta��o no mesmo instante em que Kurt Nylund come�ara a fotografar. Mikael calculou que as fotos deviam ter sido tiradas num lapso de tempo de cinco minutos. Na primeira, Harriet e suas colegas estavam descendo a rua e entraram no campo da imagem. Nas fotos de 2 a 7 estavam im�veis, observando o desfile. Depois se deslocaram cerca de seis metros adiante na rua. Na �ltima foto, talvez tirada um pouco mais tarde, o grupo inteiro havia desaparecido.</p><p>Mikael reuniu uma s�rie de imagens na qual enquadrou Harriet da cintura para cima, tentando obter o melhor contraste. Colocou as fotos numa nova pasta, abriu o programa Graphic Converter e executou a fun��o Diaporama. O efeito foi um filme mudo e entrecortado em que cada imagem aparecia durante dois segundos.</p><p>Harriet chega, foto de perfil. Harriet se det�m e olha a cal�ada. Harriet vira o rosto para a rua. Harriet abre a boca para dizer alguma coisa � sua colega. Harriet ri. Harriet toca a orelha da colega com a m�o esquerda. Harriet sorri. Harriet parece de repente surpresa, o rosto num �ngulo de aproximadamente vinte graus � esquerda da objetiva. Harriet arregala os olhos e p�ra de sorrir. A boca de Harriet se transforma num tra�o estreito. Harriet fixa o olhar em alguma coisa. Em seu rosto se pode ler... o qu�? Afli��o, choque, raiva? Harriet baixa os olhos. Harriet n�o est� mais l�.</p><p>Mikael repassou a sequ�ncia v�rias vezes.</p><p>Ela confirmava nitidamente a hip�tese que ele formulara. Alguma coisa ocorreu na rua da Esta��o em Hedestad. A l�gica era evidente.</p><p><emphasis>Ela v� alguma coisa </emphasis>� <emphasis>algu�m </emphasis>� <emphasis>do outro lado da rua. Est� chocada. Mais tarde vai procurar Henrik Vanger para uma conversa particular que nunca aconteceu. Depois desaparece sem deixar vest�gios.</emphasis></p><p>Alguma coisa ocorreu naquele dia. Mas as fotos n�o explicavam o qu�.</p><p>�s duas da manh� de ter�a-feira, Mikael fez caf� e preparou sandu�ches que comeu sentado no banco da cozinha. Estava ao mesmo tempo desanimado e excitado. Contra todas as expectativas, ele havia descoberto novos ind�cios. O problema era que, se eles jogavam uma nova luz sobre os acontecimentos, n�o o faziam avan�ar um mil�metro na solu��o do enigma.</p><p>Refletiu muito sobre o papel que Cecilia Vanger desempenhara no drama. Henrik Vanger descrevera em detalhe as atividades de todos os protagonistas naquele dia e Cecilia n�o fora exce��o. Em 1966 ela morava em Uppsala, mas chegou a Hedeby dois dias antes daquele s�bado funesto. Estava hospedada num quarto de h�spedes da casa de Isabella Vanger. Declarou ter visto Harriet de manh�, mas n�o chegou a falar com ela. No s�bado foi a Hedestad fazer compras. N�o viu Harriet e regressou � ilha por volta da uma da tarde, no momento em que Kurt Nylund tirava a s�rie de fotos na rua da Esta��o. Trocou de roupa e �s duas come�ou a ajudar a preparar a mesa para o almo�o.</p><p>Como �libi, era fraco. As horas eram aproximadas, sobretudo no que dizia respeito a seu retorno � ilha, mas Henrik Vanger nunca duvidou um segundo de que ela pudesse ter mentido. Cecilia era uma das pessoas da fam�lia que Henrik queria bem. Al�m disso, fora amante de Mikael. Ele tinha dificuldade de ser objetivo e n�o podia de modo algum imagin�-la no papel de uma assassina.</p><p>E eis que agora uma foto na janela vinha insinuar que ela mentira ao dizer que n�o havia entrado no quarto de Harriet. Os pensamentos se engalfinhavam na cabe�a de Mikael.</p><p><emphasis>Se ela mentiu sobre isso, que outras mentiras teria contado?</emphasis></p><p>Mikael fez um balan�o do que sabia sobre Cecilia. Via-a como uma pessoa apesar de tudo reservada, aparentemente marcada pelo passado, e o resultado � que vivia sozinha, carente de vida sexual e com dificuldade de se aproximar das pessoas. Guardava dist�ncia dos outros e, quando por um momento se deixou levar e se lan�ou sobre um homem, escolheu Mikael, um estranho de passagem. Cecilia disse que estava rompendo a rela��o deles por n�o suportar a id�ia de que ele ia desaparecer de sua vida de uma hora para a outra. Mas foi exatamente pela mesma raz�o, talvez, que ousou dar um passo e iniciar um caso com ele. Como se tratava de um caso passageiro, ela n�o precisava temer uma transforma��o radical de sua vida. Mikael suspirou e deixou essas especula��es psicol�gicas de lado.</p><p>Ele fez a segunda descoberta nessa mesma noite. A chave do enigma � ele estava convencido � era o que Harriet tinha visto na rua da Esta��o em Hedestad. Mikael nunca saberia o que era, a n�o ser que inventasse uma m�quina do tempo e se colocasse atr�s de Harriet para olhar por cima de seu ombro.</p><p>No momento mesmo em que esse pensamento lhe aflorou ao esp�rito, ele bateu na testa com a palma da m�o e precipitou-se ao notebook. Clicou para fazer surgir a s�rie de imagens n�o recortadas da rua da Esta��o e... <emphasis>ali estava!</emphasis></p><p>Atr�s de Harriet Vanger, cerca de um metro � direita dela, havia um jovem casal, ele de su�ter listado e ela com uma blusa clara. Ela segurava uma m�quina fotogr�fica na m�o. Mikael ampliou a foto e teve a impress�o de ver uma Kodak Instamatic com flash embutido � um aparelho barato para pessoas que n�o entendem de fotografia.</p><p>A mulher mantinha o aparelho na altura do queixo. Depois o levantava e fotografava os palha�os, no momento em que o rosto de Harriet mudava de express�o.</p><p>Mikael comparou a posi��o da m�quina com a dire��o do olhar de Harriet. A mulher havia fotografado quase exatamente o que Harriet Vanger estivera olhando.</p><p>De repente, Mikael tomou consci�ncia de que seu cora��o batia com for�a. Jogou o corpo para tr�s e tirou o ma�o de cigarros do bolso da camisa. <emphasis>Algu�m havia tirado uma foto. </emphasis>Mas como identificar essa mulher? Como obter sua foto? Teria o filme sido aproveitado e, nesse caso, a foto existiria em algum lugar?</p><p>Mikael abriu a pasta com as fotos que Kurt Nylund havia tirado da multid�o. Passou a hora seguinte ampliando cada fotografia e examinando-a cent�metro quadrado por cent�metro quadrado. Reencontrou o casal exatamente na �ltima. Kurt Nylund havia fotografado outro palha�o, com bal�es na m�o, posando diante da objetiva com um eternizado sorriso nos l�bios. A foto fora tirada no estacionamento junto � pra�a de esportes onde se realizava a festa. Deve ter sido depois das duas da tarde � a seguir Nylund fora avisado do acidente com o caminh�o-tanque e interrompera a cobertura da Festa das Crian�as.</p><p>A mulher estava quase inteiramente oculta, mas via-se com clareza o perfil do homem de su�ter listado. Ele tinha chaves na m�o e se inclinava para abrir a porta de um carro. A imagem mostrava o palha�o em primeiro plano e a foto estava ligeiramente desfocada. N�o se via toda a placa, mas ela come�ava por AC3 alguma coisa.</p><p>As placas dos ve�culos nos anos 1960 come�avam com a letra das regi�es, e Mikael aprendera, quando crian�a, a identificar a proveni�ncia dos carros. AC designava o V�sterbotten.</p><p>Depois Mikael identificou outra coisa. No vidro traseiro havia um adesivo. Deu um <emphasis>zoom, </emphasis>por�m o texto desapareceu numa mancha. Real�ou o adesivo e levou algum tempo trabalhando no contraste e na nitidez. N�o conseguia ler o texto, mas se baseou nas formas imprecisas para determinar a que letras podiam corresponder. Muitas se assemelhavam. Um O podia ser tomado por um D, um B por um E ou v�rias outras letras. Trabalhando com papel e l�pis, e ap�s eliminar algumas letras, deparou com um texto incompreens�vel.</p><p><image l:href="#1"/></p><p>Fixou a imagem at� seus olhos doerem. E ent�o o texto apareceu: MARCENARIA DE NORSJ�, seguido de sinais menores e imposs�veis de ler, mas que formavam, provavelmente, um n�mero telef�nico.</p><empty-line/><p><strong>17. QUARTA-FEIRA 11 DE JUNHO �  S�BADO 14 DE JUNHO</strong></p><p>Quanto � terceira pe�a do quebra-cabe�a, Mikael recebeu uma ajuda inesperada.</p><p>Depois de trabalhar nas fotos a noite toda, dormiu pesadamente at� o meio-dia. Acordou com uma dor de cabe�a difusa, tomou um banho e foi at� o Caf� Susanne fazer seu desjejum. N�o conseguia juntar as id�ias. Deveria ir ver Henrik Vanger e relatar suas descobertas. Em vez disso, foi bater � porta de Cecilia. Queria lhe perguntar o que fora fazer no quarto de Harriet e por que mentira, dizendo que n�o havia ido l�. Ningu�m atendeu.</p><p>Ele estava deixando o local quando ouviu uma voz.</p><p>� A sua puta n�o est� em casa.</p><p>O Gollum acabava de sair da caverna. Era alto, quase dois metros de altura, mas t�o curvado pela idade que os olhos ficavam na altura dos de Mikael. A pele estava manchada de sardas escuras. Vestia um pijama e um robe marrom e se apoiava numa bengala. Parecia a vers�o hollywoodiana do velho rabugento.</p><p>� Que foi que o senhor disse?</p><p>� Eu disse que a sua puta n�o est� em casa.</p><p>Mikael se aproximou at� quase tocar o nariz de Harald Vanger.</p><p>� E de sua pr�pria filha que est� falando, seu velho indecente.</p><p>� N�o sou eu que venho vagar aqui � noite � respondeu Harald Vanger com um sorriso desdentado. Seu h�lito fedia. Mikael desviou-se dele e prosseguiu seu caminho sem se virar. Foi at� a casa de Henrik Vanger e o encontrou em seu escrit�rio.</p><p>� Acabo de encontrar seu irm�o � disse Mikael �, e ele mal p�de conter sua rabugice.</p><p>� Harald? Ora vejam, ent�o ele ousou uma sa�da! Isso acontece uma ou duas vezes por ano.</p><p>� Eu batia � porta de Cecilia quando ele apareceu. Ele falou, abre aspas: A sua puta n�o est� em casa. Fecha aspas.</p><p>� � bem coisa do Harald � disse Henrik Vanger calmamente.</p><p>� Ele chama de puta a pr�pria filha!</p><p>� H� anos age assim. Por isso n�o se falam mais.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Cecilia perdeu a virgindade quando tinha vinte e um anos. Aconteceu aqui em Hedestad, uma hist�ria de amor que ela teve durante o ver�o, um ano ap�s o desaparecimento de Harriet.</p><p>� E a�?</p><p>� O homem que ela amava chamava-se Peter Samuelsson, trabalhava no grupo Vanger como assistente financeiro. Um rapaz inteligente. Hoje trabalha para a ABB. Eu me orgulharia de t�-lo como genro se ela fosse minha filha. Mas ele tinha um defeito.</p><p>� Acho que posso adivinhar qual �.</p><p>� Harald mediu-lhe o cr�nio, ou verificou sua �rvore geneal�gica, ou qualquer coisa que o valha, e descobriu que tinha antepassados judeus.</p><p>� Santo Deus!</p><p>� Desde ent�o passou a cham�-la de puta.</p><p>� Ele sabia que Cecilia e eu...</p><p>� Todo o povoado sabe, imagino, talvez com exce��o de Isabella, porque nenhuma pessoa razo�vel iria lhe contar qualquer coisa e por sorte ela tem o h�bito de ir dormir �s dez da noite. Harald provavelmente acompanhou o menor dos seus passos.</p><p>Mikael sentou-se. Sentia-se meio est�pido.</p><p>� Quer dizer ent�o que todo mundo est� sabendo...</p><p>� Evidentemente.</p><p>� E voc� n�o tem nada contra?</p><p>� Querido Mikael, isso realmente n�o me diz respeito.</p><p>� Onde est� ela, Cecilia?</p><p>� O ano escolar terminou. No s�bado passado ela viajou a Londres para visitar a irm� e depois vai partir de f�rias para... humm... a Fl�rida, acho. Voltar� daqui a um m�s.</p><p>Mikael se sentiu ainda mais est�pido.</p><p>� Resolvemos, digamos assim, suspender a nossa rela��o.</p><p>� Entendo, mas tamb�m n�o � da minha conta. Como vai o trabalho?</p><p>Mikael serviu-se de caf� da garrafa t�rmica de Henrik. Olhou para o velho.</p><p>� Descobri uma novidade e vou precisar que algu�m me empreste um carro.</p><p>Mikael passou longo tempo expondo suas conclus�es. Tirou o notebook da mochila e apresentou a s�rie de fotos que mostravam a rea��o de Harriet na rua da Esta��o. Mostrou tamb�m como descobrira os fot�grafos amadores e seu carro com o adesivo da Marcenaria de Norsj�. Quando terminou sua exposi��o, Henrik pediu para rever a sequ�ncia de fotos. Mikael tornou a passar.</p><p>Quando Henrik levantou os olhos da tela do computador, seu rosto estava p�lido. Mikael sentiu um medo s�bito e p�s a m�o no ombro dele. Henrik fez-lhe um sinal para tranquiliz�-lo e permaneceu silencioso por um momento.</p><p>� Voc� fez o que eu achava imposs�vel! Descobriu algo totalmente novo. O que vai fazer agora?</p><p>� Preciso encontrar essa foto, se � que ainda existe.</p><p>Mikael nada disse sobre o rosto na janela e a suspeita contra Cecilia. O que provavelmente indicava que estava longe de ser um detetive particular objetivo.</p><p>Quando Mikael saiu, Harald Vanger havia desaparecido, certamente de volta � sua caverna. Ao fazer a curva, viu algu�m de costas junto � entrada de sua casa, lendo um jornal. Por um segundo, imaginou que fosse Cecilia Vanger, mas logo viu que n�o. Ao se aproximar, reconheceu imediatamente a pr�pria filha.</p><p>� Oi, papai � disse Pernilla Abrahamsson. Mikael estreitou a filha nos bra�os.</p><p>� Mas de onde voc� est� vindo?!</p><p>� De casa, � claro. Vou a Skelleftea. Vim passar uma noite aqui.</p><p>� E como me descobriu?</p><p>� Mam�e sabia e perguntei ali no caf� onde voc� morava. Indicaram-me esta casa. Est� contente de me ver?</p><p>� Claro que sim. Entre. Devia ter me avisado, eu teria comprado alguma coisa gostosa para comer.</p><p>� Pensei em te avisar, mas depois resolvi fazer uma surpresa para comemorar a sua sa�da da pris�o, e voc� tamb�m nunca me telefonou.</p><p>� Desculpe.</p><p>� Tudo bem. Mam�e diz que voc� est� sempre mergulhado nos seus pensamentos.</p><p>� � isso que ela fala de mim?</p><p>� Mais ou menos. Mas n�o faz mal. Mesmo assim eu te amo.</p><p>� Eu tamb�m, mas quero que voc� saiba...</p><p>� Eu sei. Acho que sou bastante madura para a minha idade.</p><p>Mikael preparou ch� e serviu alguns petiscos. De repente percebeu que o que a filha dissera era verdade. Ela n�o era mais uma menina, tinha quase dezessete anos e em breve seria uma mulher adulta. Ele precisava aprender a n�o trat�-la mais como uma crian�a.</p><p>� E ent�o, como foi?</p><p>� O qu�?</p><p>� A pris�o.</p><p>� Acredita se eu disser que foi como umas f�rias remuneradas para apenas pensar e escrever?</p><p>� Acredito. Acho que n�o h� muita diferen�a entre uma pris�o e um convento, e as pessoas sempre entram no convento para evoluir.</p><p>� Bem, � uma maneira de ver as coisas. Espero que n�o venha a ter problemas porque seu pai esteve na pris�o.</p><p>� De modo nenhum. Estou orgulhosa e n�o perco uma ocasi�o para sublinhar que voc� foi preso por suas convic��es.</p><p>� Minhas convic��es?</p><p>� Vi Erika Berger na tev�.</p><p>Mikael empalideceu. Ele n�o pensara na filha quando Erika montou a estrat�gia, e ela o julgava totalmente inocente.</p><p>� Pernilla, eu n�o sou inocente. Lamento n�o poder falar do que se passou, mas n�o fui injustamente condenado. O tribunal emitiu a senten�a baseado no que ficou sabendo durante o processo.</p><p>� Mas voc� n�o contou sua vers�o.</p><p>� N�o, porque n�o posso prov�-la. Cometi uma gafe monumental e por isso fui obrigado a ir para a pris�o.</p><p>� Certo. Mas responda � minha pergunta: Wennerstr�m � ou n�o � um cr�pula?</p><p>� � um dos cr�pulas mais sinistros que j� conheci.</p><p>� Est� vendo? Isso basta. Trouxe um presente para voc�.</p><p>Tirou um pacote da sacola. Mikael abriu e encontrou um CD com as melhores m�sicas do Eurythmics. Ela sabia que era uma de suas bandas favoritas. Ele transferiu imediatamente o CD para o notebook e escutaram juntos "Sweet dreams".</p><p>� O que vai fazer em Skelleftea? � perguntou Mikael.</p><p>� � uma reuni�o de estudos b�blicos com uma congrega��o chamada Luz da Vida � respondeu Pernilla, como se fosse a coisa mais natural do mundo.</p><p>Mikael sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.</p><p>Percebeu o quanto sua filha e Harriet se assemelhavam. Pernilla tinha dezesseis anos, assim como Harriet quando desapareceu. Ambas tinham um pai ausente. Ambas sentiram uma atra��o religiosa por seitas menores; Harriet na comunidade local dos pentecostais e Pernilla na sucursal de algo t�o bizarro como essa Luz da Vida.</p><p>Mikael n�o sabia muito bem como lidar com o interesse novo da filha pela religi�o. Tinha medo de interferir no seu direito de decidir por si mesma o caminho que queria seguir na vida. Por outro lado, Luz da Vida era exatamente o tipo de congrega��o sobre a qual ele e Erika n�o hesitariam em fazer uma reportagem de den�ncia na <emphasis>Millennium. </emphasis>Decidiu debater a quest�o com a m�e de Pernilla na primeira oportunidade.</p><p>* * *</p><p>Pernilla dormiu na cama de Mikael e ele passou a noite no banco da cozinha. Despertou com torcicolo e com os m�sculos doloridos. Como Pernilla tinha pressa de prosseguir sua viagem, Mikael preparou logo o caf�-da-manh� e a acompanhou at� a esta��o. Restavam-lhes alguns momentos antes de o trem partir. Compraram caf� numa lanchonete e instalaram-se num banco na extremidade da plataforma, conversando sobre v�rios assuntos. Pouco antes da chegada do trem, Pernilla falou:</p><p>� Acho que voc� n�o est� gostando muito de eu ir a Skelleftea. Mikael n�o soube o que responder. Ela continuou:</p><p>� N�o se preocupe. Mas voc� n�o � crente, �?</p><p>� N�o. Pelo menos n�o um bom crente.</p><p>� N�o acredita em Deus?</p><p>� N�o, n�o acredito. Mas respeito a sua cren�a. Todo mundo precisa acreditar em alguma coisa.</p><p>Quando o trem chegou � esta��o, eles se abra�aram demoradamente. No momento em que subia a bordo, Pernilla se voltou.</p><p>� Papai, n�o estou querendo fazer proselitismo. Voc� � livre para acreditar no que bem quiser que eu vou sempre te amar. Mas acho que deveria perseverar nos seus estudos b�blicos.</p><p>� Como assim?</p><p>� Vi as cita��es na parede do seu quarto � ela disse. � Por que voc� foi procurar passagens t�o sinistras? Um beijo. Tchau.</p><p>Ela acenou com a m�o e entrou no trem. Perplexo, Mikael ficou na plataforma vendo o trem sumir em dire��o ao norte. O �ltimo vag�o j� desaparecia na curva quando finalmente o significado do coment�rio dela lhe aflorou � consci�ncia, junto com uma sensa��o gelada no peito.</p><p>Mikael se precipitou para fora da esta��o e consultou as horas. S� haveria �nibus para Hedeby dali a quarenta minutos. Seus nervos n�o suportariam a espera. Correu at� o ponto de t�xi do outro lado da esplanada da esta��o e encontrou Hussein com seu sotaque carregado.</p><p>Dez minutos depois, Mikael pagava a corrida e entrava em sua saleta de trabalho. O peda�o de papel estava preso com durex acima da escrivaninha.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>Olhou ao redor. Depois lembrou onde poderia encontrar uma B�blia. Pegou o peda�o de papel, encontrou as chaves que deixara dentro de uma tigela na beirada da janela e correu at� a cabana de Gottfried. Suas m�os estavam quase tremendo quando pegou a B�blia de Harriet na prateleira.</p><p>N�o eram n�meros telef�nicos que Harriet havia anotado. Os algarismos indicavam cap�tulos e vers�culos do <emphasis>Lev�tico, </emphasis>o terceiro livro do Pentateuco. Os castigos.</p><p>(Magda), <emphasis>Lev�tico, </emphasis>cap�tulo XX, vers�culo 16:</p><p><emphasis>"Se uma mulher se aproximar de um animal para se prostituir com ele, ser� morta juntamente com o animal. Ser�o mortos e levar�o a sua iniquidade."</emphasis></p><p>(Sara), <emphasis>Lev�tico, </emphasis>cap�tulo XXI, vers�culo 9:</p><p><emphasis>"Se a filha de um sacerdote se desonrar pela prostitui��o, ela desonra o pai; ser�</emphasis></p><p><emphasis>queimada no fogo."</emphasis></p><p>(Rj), <emphasis>Lev�tico, </emphasis>cap�tulo I, vers�culo 12:</p><p>"A <emphasis>seguir a v�tima ser� cortada em peda�os, com a cabe�a e a gordura, que o sacerdote dispor� sobre a lenha colocada sobre o fogo do altar."</emphasis></p><p>(rl), <emphasis>Lev�tico, </emphasis>cap�tulo XX, vers�culo 27:</p><p><emphasis>"Qualquer homem ou mulher que evocar os esp�ritos ou fizer adivinha��es ser�</emphasis></p><p><emphasis>morto. Ser�o apedrejados e levar�o a sua culpa."</emphasis></p><p> (Mari), <emphasis>Lev�tico, </emphasis>cap�tulo XX, vers�culo 18:</p><p><emphasis>"Se um homem dormir com uma mulher durante o tempo de sua menstrua��o e vir a sua nudez, descobrindo o seu fluxo e descobrindo-o ela mesma, ser�o ambos cortados do meio de seu povo."</emphasis></p><p>Mikael saiu e sentou-se no patamar em frente � casa. Sem d�vida, era a isso que Harriet se referia quando anotou os algarismos na sua agenda de telefones. Cada cita��o estava cuidadosamente sublinhada na B�blia de Harriet. Ele acendeu um cigarro e ficou escutando o canto dos p�ssaros.</p><p>Havia entendido os n�meros, mas n�o os nomes: Magda, Sara, Mari, RJ e RL.</p><p>De repente, um abismo se abriu quando o c�rebro de Mikael deu um salto intuitivo. Lembrou-se do sacrif�cio pelo fogo em Hedestad de que lhe falara o inspetor Gustav Morell: o caso Rebecka nos anos 1940, a jovem violentada e assassinada. Para mat�-la, haviam posto sua cabe�a sobre carv�es ardentes. "A <emphasis>seguir a v�tima ser� cortada em peda�os, com a cabe�a e a gordura, que o sacerdote dispor� sobre a lenha colocada sobre o fogo do altar." </emphasis>Rebecka. RJ. Qual era o sobrenome dela?</p><p><emphasis>Santo Deus! Com que hist�ria de gente maluca Harriet havia se metido?</emphasis></p><p>Henrik Vanger adoecera e fora se deitar � tarde, explicaram a Mikael quando ele bateu � sua porta. Mesmo assim Anna o fez entrar e ele viu o velho durante alguns minutos.</p><p>� Um resfriado de ver�o � explicou Henrik, fungando. � O que o traz aqui?</p><p>� Uma pergunta.</p><p>� Diga.</p><p>� Ouviu falar de um assassinato cometido aqui em Hedestad nos anos 1940? Uma mo�a chamada Rebecka, que foi morta por terem posto sua cabe�a numa lareira?</p><p>� Rebecka Jacobsson � disse Henrik sem hesitar um segundo. � Jamais vou esquecer esse nome, mas fazia anos que eu n�o ouvia ningu�m mencion�-lo.</p><p>� Lembra como foi o assassinato?</p><p>� E como! Rebecka Jacobsson tinha vinte e tr�s ou vinte e quatro anos quando foi morta. Isso deve ter acontecido... acho que foi em 1949. Houve um grande inqu�rito, no qual tive uma pequena participa��o.</p><p>� Voc�? � exclamou Mikael, surpreso.</p><p>� Sim. Rebecka Jacobsson trabalhava num dos escrit�rios do grupo Vanger. Uma mo�a bastante conhecida, e muito bonita. Mas por que essas perguntas sobre ela de repente?</p><p>Mikael n�o sabia bem o que dizer. Levantou-se e se aproximou da janela.</p><p>� N�o sei exatamente, Henrik, talvez eu tenha descoberto alguma coisa, mas primeiro preciso refletir um pouco.</p><p>� Est� querendo me dizer que existe uma liga��o entre Harriet e Rebecka? Transcorreram... mais de dezessete anos entre os dois acontecimentos.</p><p>� D�-me mais algum tempo para refletir. Voltarei amanh�, se voc� estiver melhor.</p><p>Mikael n�o encontrou Henrik Vanger no dia seguinte. Um pouco antes da uma da manh�, ainda estava sentado � mesa da cozinha lendo a B�blia de Harriet, quando ouviu o ru�do de um carro atravessando a ponte em alta velocidade. Olhou pela janela e viu a luz girat�ria azul de uma ambul�ncia.</p><p>Tomado de um mau pressentimento, Mikael precipitou-se atr�s da ambul�ncia. Ela estacionara em frente � casa de Henrik. Havia luz no andar de baixo e Mikael logo percebeu que algo acontecera. Subiu depressa a escada da frente e deu de cara com Anna Nygren, muito perturbada no vest�bulo.</p><p>� O cora��o � ela disse. � Ele me chamou h� pouco e se queixou de dor no peito. Depois desmaiou.</p><p>Mikael estreitou nos bra�os a leal governanta e ali permaneceu at� que os enfermeiros descessem com um Henrik Vanger inconsciente numa padiola. Martin Vanger, visivelmente aflito, logo chegou. J� havia se deitado quando Anna o avisou; estava com os p�s nus metidos num par de pantufas e com a braguilha aberta. Saudou Mikael brevemente e se voltou para Anna.</p><p>� Eu vou com ele para o hospital. Chame Birger e tente entrar em contato com Cecilia em Londres. E avise Dirch Frode.</p><p>� Posso ir at� a casa de Frode � prop�s Mikael. � Anna fez um sinal de agradecimento com a cabe�a.</p><p>Bater � porta de algu�m depois da meia-noite em geral significa m�s not�cias, pensou Mikael ao p�r o dedo na campainha de Dirch Frode. Esperou v�rios minutos at� que ele viesse abrir a porta, ainda sonolento.</p><p>� Tenho m�s not�cias. Acabam de levar Henrik Vanger para o hospital. Parece que foi um infarto. Martin me pediu que eu viesse at� aqui avis�-lo.</p><p>� Meu Deus � disse Frode. Consultou o rel�gio. � Hoje � sexta-feira 13 � acrescentou, com uma l�gica incompreens�vel e um ar de perplexidade.</p><p>Mikael voltou para casa �s duas e meia da manh�. Hesitou um instante, mas depois resolveu n�o telefonar para Erika naquele momento. S� por volta das dez da manh�, depois de falar brevemente com Dirch Frode pelo celular e de ficar sabendo que Henrik Vanger continuava vivo, � que chamou Erika para informar que o novo s�cio da <emphasis>Millennium </emphasis>fora hospitalizado, v�tima de um infarto. Como era de se esperar, seu an�ncio foi recebido com tristeza e inquieta��o.</p><p>Mais tarde, Dirch Frode passou na casa de Mikael levando not�cias detalhadas sobre o estado de sa�de de Henrik.</p><p>� Ele est� vivo, mas nada bem. Teve um infarto s�rio, agravado por uma esp�cie de infec��o.</p><p>� Chegou a v�-lo?</p><p>� N�o. Est� na UTI. Martin e Birger est�o com ele.</p><p>� Qual � o progn�stico?</p><p>Dirch Frode balan�ou a m�o de um lado para o outro.</p><p>� Ele sobreviveu ao infarto, e isso � sempre um bom sinal. Seu estado geral de sa�de � excelente, mas � um homem idoso. S� nos resta esperar.</p><p>Calaram-se, refletindo por um momento. Mikael serviu caf�. Dirch Frode parecia desanimado.</p><p>� Preciso lhe fazer algumas perguntas sobre como v�o ficar as coisas � disse Mikael.</p><p>Frode olhou para ele.</p><p>� Nada vai mudar no que diz respeito ao seu emprego. As condi��es est�o definidas num contrato v�lido at� o fim do ano, esteja Henrik Vanger vivo ou n�o. N�o se preocupe.</p><p>� N�o me refiro a isso. Gostaria de saber a quem devo entregar meus relat�rios na aus�ncia dele.</p><p>Dirch Frode suspirou.</p><p>� Mikael, voc� sabe t�o bem quanto eu que toda essa hist�ria de Harriet Vanger � um passatempo para Henrik.</p><p>� N�o estou t�o certo disso.</p><p>� O que est� querendo dizer?</p><p>� Descobri novos ind�cios � respondeu Mikael. � Ontem falei um pouco sobre isso com Henrik. Receio at� que possa ter contribu�do para provocar seu infarto.</p><p>Dirch Frode lan�ou um olhar estranho para Mikael.</p><p>� Voc� est� brincando.</p><p>Mikael balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>� Dirch, nos �ltimos dias desenterrei mais material sobre o desaparecimento de Harriet do que fez o inqu�rito oficial em trinta e cinco anos. Meu problema agora � que n�o definimos a quem entrego meu relat�rio na aus�ncia de Henrik.</p><p>� Pode entreg�-lo a mim.</p><p>� Certo. Preciso prosseguir nesse caminho. Voc� disp�e de algum tempo? Mikael relatou suas novas descobertas t�o didaticamente quanto poss�vel.</p><p>Mostrou a sequ�ncia de fotos da rua da Esta��o e exp�s sua teoria. A seguir explicou como sua pr�pria filha o levara a elucidar o mist�rio da agenda telef�nica de Harriet. Para terminar, mencionou o brutal assassinato de Rebecka Jacobsson ocorrido em 1949.</p><p>A �nica informa��o que omitiu foi sobre o rosto de Cecilia Vanger na janela de Harriet. Queria primeiro falar com ela, antes de deix�-la numa posi��o em que pudessem suspeitar dela.</p><p>Rugas grossas de preocupa��o apareceram na testa de Dirch Frode.</p><p>� Est� querendo me dizer que o assassinato de Rebecka tem algo a ver com o desaparecimento de Harriet?</p><p>� N�o sei. Parece improv�vel, mas ao mesmo tempo h� o fato de Harriet ter anotado as iniciais RJ na sua agenda com a remiss�o � lei b�blica sobre os holocaustos ritualistas. Rebecka Jacobsson foi queimada viva. A liga��o com a fam�lia Vanger � evidente: ela trabalhava para o grupo Vanger.</p><p>� E como explica tudo isso?</p><p>� Ainda n�o sei. Mas quero seguir em frente e vou consider�-lo o representante de Henrik. Tomar� as decis�es no lugar dele.</p><p>� Talvez dev�ssemos informar a pol�cia.</p><p>� N�o. De qualquer forma, n�o sem a autoriza��o de Henrik. O assassinato de Rebecka est� prescrito h� muito tempo e o caso foi arquivado. Eles n�o v�o reabrir o inqu�rito de um crime cometido h� cinquenta e quatro anos.</p><p>� Entendo. E o que pretende fazer ent�o? Mikael levantou-se e deu a volta ao redor da mesa.</p><p>� Primeiro gostaria de seguir a pista da foto. Se conseguirmos ver o que Harriet viu, acho que teremos a� uma chave. Em segundo lugar, preciso de um carro para ir a Norsj� e ver at� onde essa pista me leva. E, em terceiro, gostaria de pesquisar essas cita��es b�blicas. Fizemos a liga��o entre uma delas e um assassinato particularmente terr�vel. Restam outras quatro. Para conseguir isso... vou precisar de ajuda.</p><p>� Que esp�cie de ajuda?</p><p>� Preciso de um assistente de pesquisa que saiba vasculhar arquivos antigos de imprensa e encontre Magda, Sara e os outros nomes. Se eu n�o estiver enganado, Rebecka n�o foi a �nica v�tima.</p><p>� Est� querendo que mais algu�m participe desse segredo...</p><p>� De repente estamos com uma quantidade enorme de pesquisas para serem feitas. Se eu fosse o tira respons�vel por alguma investiga��o, poderia poupar tempo e recursos e destacar muita gente para essas pesquisas. Preciso de um profissional que entenda de arquivos e que ao mesmo tempo seja de confian�a.</p><p>� Entendo... Na verdade, conhe�o uma pessoa realmente competente. Foi ela quem fez a investiga��o sobre voc� � disse Frode, antes de se dar conta do que tinha dito.</p><p>� Fez o qu�? � perguntou Mikael com voz imperiosa.</p><p>Dirch Frode percebeu tarde demais que falara mais do que devia. Estou ficando velho, pensou.</p><p>� Pensei em voz alta. N�o � nada � tentou dizer.</p><p>� Mandou fazer uma investiga��o sobre mim?</p><p>� Nada de dram�tico, Mikael. Como quer�amos contrat�-lo, fomos verificar que tipo de homem voc� �.</p><p>� Ent�o � por isso que Henrik Vanger sempre parece saber exatamente qual � a minha situa��o. E essa investiga��o? Foi muito aprofundada?</p><p>� Sim, bastante aprofundada.</p><p>� Levantou os problemas da <emphasis>Millennium? </emphasis>Dirch Frode encolheu os ombros.</p><p>� Era necess�rio.</p><p>Mikael acendeu um cigarro. O quinto do dia. Percebeu que aquilo estava virando um h�bito.</p><p>� Houve um relat�rio por escrito?</p><p>� Mikael, n�o d� tanta import�ncia a isso.</p><p>� Quero ler esse relat�rio � disse.</p><p>� Veja, Mikael, n�o h� nada de extraordin�rio. Apenas quisemos saber um pouco mais sobre voc� antes de contrat�-lo.</p><p>� Quero ler esse relat�rio � repetiu Mikael.</p><p>� Somente Henrik pode dar a permiss�o.</p><p>� Ah �? Ent�o vou dizer de outro modo: quero esse relat�rio nas minhas m�os dentro de uma hora. Do contr�rio, pe�o demiss�o imediatamente e pego o trem da noite para Estocolmo. Onde est� o relat�rio?</p><p>Dirch Frode e Mikael Blomkvist mediram-se com os olhos por alguns segundos. Frode ent�o suspirou e baixou os olhos.</p><p>� Na minha casa, na minha mesa.</p><p>O caso Harriet, sem d�vida, era a hist�ria mais bizarra com a qual Mikael Blomkvist j� se envolvera. De modo geral, o �ltimo ano, desde a publica��o da hist�ria de Hans-Erik Wennerstr�m, n�o fora sen�o uma longa s�rie de montanhas-russas � com grandes quedas livres. E aparentemente n�o havia terminado.</p><p>Dirch Frode ainda tentou ganhar tempo e Mikael s� p�s as m�os no relat�rio de Lisbeth Salander �s seis da tarde. Um pouco mais de oitenta p�ginas de an�lise e cem p�ginas de c�pias de artigos, diplomas e outros detalhes marcantes da vida de Mikael.</p><p>Foi uma experi�ncia estranha ver-se descrito no que podia ser considerado uma combina��o de biografia com relat�rio de servi�o secreto. Mikael ficou pasmo de ver como o relat�rio era detalhado. Lisbeth Salander apresentava detalhes que ele acreditava enterrados para sempre no h�mus da hist�ria. Revelava uma liga��o de sua juventude com uma sindicalista brilhante, atualmente dedicada em tempo integral � pol�tica. <emphasis>Quem contou a ela essa hist�ria? </emphasis>Mencionava seu grupo de rock Bootstrap, do qual certamente ningu�m mais devia se lembrar. Examinava com detalhes suas finan�as. <emphasis>Mas que diabos! Como ela conseguiu?</emphasis></p><p>Como jornalista, Mikael passara anos buscando informa��es com diferentes pessoas e por isso era capaz de avaliar profissionalmente a qualidade desse trabalho. Lisbeth Salander era, sem a menor d�vida, um �s da pesquisa. Ele mesmo n�o se achava capaz de produzir um relat�rio como aquele, sobre uma pessoa totalmente desconhecida.</p><p>Mikael concluiu que n�o houve raz�o para que ele e Erika tivessem mantido uma dist�ncia polida na frente de Henrik Vanger; ele conhecia muito bem a rela��o dos dois e o tri�ngulo que formavam com Lars Beckman. Lisbeth Salander tamb�m avaliara com espantosa exatid�o a situa��o da <emphasis>Millennium; </emphasis>Henrik Vanger sabia o quanto as coisas iam mal quando entrou em contato com Erika e se ofereceu como s�cio. <emphasis>Qual era exatamente o jogo dele?</emphasis></p><p>O caso Wennerstr�m era abordado apenas superficialmente, mas Lisbeth Salander com certeza assistira a algumas audi�ncias no tribunal. Ela tamb�m comentava a estranha recusa de Mikael em se pronunciar durante o processo. <emphasis>Uma garota esperta, seja ela quem for.</emphasis></p><p>Um segundo depois, Mikael ficou estarrecido, sem acreditar no que lia. Lisbeth Salander escrevera um breve texto sobre como vira a sequ�ncia de acontecimentos depois do processo. Reproduzia quase literalmente o comunicado de imprensa que ele e Erika enviaram quando ele deixou o cargo de editor respons�vel da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p><emphasis>Lisbeth Salander teria usado o rascunho original dele? </emphasis>Ele olhou outra vez a primeira p�gina do relat�rio. A data era anterior ao comunicado � imprensa, tr�s dias antes de Mikael Blomkvist receber sua senten�a. <emphasis>Imposs�vel.</emphasis></p><p>At� ent�o o comunicado s� existia num �nico lugar do mundo: no computador de Mikael. Em seu notebook pessoal, n�o no computador que ele usava na reda��o. O texto nunca fora impresso. A pr�pria Erika Berger n�o tinha uma c�pia dele, embora os dois tivessem discutido em linhas gerais o assunto.</p><p>Mikael Blomkvist pousou lentamente o relat�rio que Lisbeth Salander fizera sobre ele. Decidiu n�o fumar mais um cigarro. Em vez disso, p�s um blus�o e saiu na noite clara, uma semana antes do solst�cio de ver�o. Seguiu pela praia ao longo do canal, passou em frente da casa de Cecilia Vanger, depois diante do luxuoso iate ancorado defronte � casa de Martin Vanger. Caminhava devagar e refletia. Por fim, sentou-se numa pedra e olhou as luzes das balizas piscando na ba�a de Hedestad. S� havia uma conclus�o poss�vel.</p><p><emphasis>Voc� entrou no meu computador, senhorita Salander, </emphasis>disse a si mesmo em voz alta. <emphasis>Voc� � uma hacker fodida!</emphasis></p><empty-line/><p><emphasis/><strong>18. QUARTA-FEIRA 18 DE JUNHO</strong></p><p>Lisbeth Salander emergiu sobressaltada de um sono sem sonhos. Sentia uma ligeira n�usea. N�o precisou virar a cabe�a para saber que Mimmi j� fora trabalhar, mas o cheiro dela permanecia no ar confinado do quarto. Havia bebido cerveja demais na reuni�o de ter�a � noite no Moulin com as Evil Fingers. Pouco antes de o bar fechar, Mimmi aparecera e a acompanhara at� sua casa e at� sua cama.</p><p>Ao contr�rio de Mimmi, Lisbeth Salander nunca se considerou uma aut�ntica l�sbica. Nunca se preocupou em saber se era h�tero, homo ou talvez bissexual. De modo geral, dava pouca import�ncia a r�tulos e achava que n�o competia a ningu�m saber com quem ela passava a noite. Se fosse absolutamente necess�rio escolher, sua prefer�ncia sexual seria os rapazes � pelo menos eles lideravam as estat�sticas. O �nico problema era encontrar um que n�o fosse um debil�ide e fosse bom de cama, e Mimmi representava uma boa solu��o-tamp�o, capaz de mant�-la acesa. Ela a conhecera um ano antes numa barraca de cerveja da festa do Orgulho Gay, e fora a �nica pessoa que Lisbeth tinha apresentado �s Evil Fingers. A rela��o se manteve com altos e baixos ao longo do ano, mas ainda n�o ia al�m de um passatempo para ambas. Mimmi era um corpo gostoso junto ao qual Lisbeth podia se aquecer, e tamb�m um ser humano em cuja companhia era bom acordar de manh� e fazer o desjejum.</p><p>O rel�gio na mesa-de-cabeceira indicava nove e meia e ela se perguntava o que a fizera acordar, quando a campainha da porta tocou de novo. At�nita, sentou-se na cama. <emphasis>Ningu�m </emphasis>jamais tocava a sua campainha �quela hora da manh�. Ali�s, quase ningu�m tocava a sua campainha. Ainda sonolenta, enrolou-se no len�ol e foi cambaleando at� o vest�bulo para abrir a porta. Viu-se cara a cara com Mikael Blomkvist, sentiu o p�nico invadir seu corpo e sem querer deu um passo para tr�s.</p><p>� Bom dia, senhorita Salander � ele saudou cordialmente. � Vejo que a noite foi movimentada. Posso entrar?</p><p>Sem esperar ser convidado, ele passou pela porta e a fechou atr�s de si. Contemplou com curiosidade as roupas espalhadas no ch�o do vest�bulo, as pilhas de jornais, e lan�ou um olhar pela porta do quarto, enquanto o mundo de Lisbeth Salander parecia oscilar � <emphasis>quem, o qu�, como? </emphasis>Mikael Blomkvist divertia-se com o olhar espantado dela.</p><p>� Como achei que voc� ainda n�o havia tomado o caf�-da-manh�, trouxe uns sandu�ches. Um de rosbife, um de peru com mostarda de Dijon e um vegetariano com abacate. N�o sei qual voc� prefere. O de rosbife? � Ele desapareceu na cozinha e logo encontrou a cafeteira el�trica. � Onde guarda o caf�? � perguntou. Salander permaneceu como que paralisada no vest�bulo at� ouvir a torneira ser aberta. Deu tr�s passos r�pidos.</p><p>� Pare! � Percebeu que dera um grito e baixou o tom. � N�o pode ir entrando assim na casa das pessoas, porra! Aqui n�o � a sua casa. N�s nem nos conhecemos.</p><p>Mikael Blomkvist parou de p�r �gua na cafeteira e virou a cabe�a na dire��o dela. Respondeu com uma voz grave.</p><p>� Negativo! Voc� me conhece melhor que a maioria das pessoas. N�o � mesmo?</p><p>E virou-se para continuar enchendo a cafeteira com �gua. Depois come�ou a abrir as portas do arm�rio da cozinha.</p><p>� Ali�s, eu sei como voc� faz. Conhe�o os seus segredos.</p><p>Lisbeth Salander fechou os olhos e quis que o ch�o se abrisse sob seus p�s. Sentia-se num estado de paralisia mental. Estava com a boca seca. A situa��o era irreal e seu c�rebro recusava-se a funcionar. Nunca antes havia estado face a face com um de seus objetos de investiga��o. <emphasis>Ele sabe onde eu moro! </emphasis>Ele estava em sua cozinha. Imposs�vel! Isso n�o podia estar acontecendo. <emphasis>Ele sabe quem eu sou!</emphasis></p><p>De repente ela se deu conta de que o len�ol escorregara e o apertou ainda mais em volta do corpo. Ele disse alguma coisa que ela no come�o n�o entendeu.</p><p>� Eu e voc� precisamos conversar � ele repetiu. � Mas tenho a impress�o de que primeiro voc� precisa tomar um banho.</p><p>Ela tentou se expressar de modo coerente.</p><p>� Olha aqui, se veio criar problema, n�o � comigo que deve falar. Fiz um trabalho. V� discutir com o meu chefe.</p><p>Ele se plantou diante dela e levantou as m�os, com as palmas � vista. <emphasis>N�o estou armado. </emphasis>Um sinal de paz universal.</p><p>� J� falei com Dragan Armanskij. Ali�s, ele pediu para voc� ligar, mas voc� n�o respondeu � chamada dele no celular ontem � noite.</p><p>Ele se aproximou. Ela n�o se sentiu amea�ada, mas recuou alguns cent�metros quando ele ro�ou em seu bra�o e indicou a porta do banheiro. N�o gostava de que a tocassem sem autoriza��o, mesmo com inten��o amistosa.</p><p>� N�o vim criar problema � disse ele com uma voz calma. � Mas preciso muito falar com voc�. Assim que tiver despertado, � claro. O caf� estar� pronto quando estiver vestida. Vamos, v� tomar seu banho.</p><p>Ela obedeceu passivamente. <emphasis>Lisbeth Salander nunca � passiva, </emphasis>pensou.</p><p>No banheiro, ela se apoiou contra a porta e tentou juntar os pensamentos. Estava mais abalada do que achava que devia ficar. Depois, lentamente tomou consci�ncia de que sua bexiga estava a ponto de explodir e de que um banho n�o era apenas um bom conselho mas uma necessidade ap�s a noite agitada. Quanto terminou, entrou no quarto, vestiu uma calcinha, um jeans e uma camiseta com a inscri��o <emphasis>Armageddon was yesterday </emphasis>� <emphasis>today we have a serious problem.</emphasis></p><p>Ap�s um segundo de reflex�o, pegou a jaqueta de couro que deixara sobre uma cadeira. Tirou do bolso o bast�o el�trico, verificou se estava carregado e o colocou no bolso de tr�s do jeans. Um cheiro de caf� se espalhou pelo apartamento. Ela respirou fundo e voltou para a cozinha.</p><p>� Nunca limpa a casa? � perguntou Mikael em tom brincalh�o.</p><p>Ele havia posto toda a lou�a suja na pia, esvaziado os cinzeiros, jogado fora as caixas de leite vazias, limpado a mesa atulhada de jornais de cinco semanas, distribu�do nela as x�caras e � viu que n�o tinha sido brincadeira � os sandu�ches prontos. Pareciam apetitosos e Lisbeth realmente tinha fome depois da noite com Mimmi. <emphasis>Est� bem, veremos aonde tudo isso vai levar. </emphasis>Ela se instalou diante dele, com um p� atr�s.</p><p>� N�o respondeu � minha pergunta. Rosbife, peru ou vegetariano?</p><p>� Rosbife.</p><p>� Fico ent�o com o de peru.</p><p>Comeram em sil�ncio, observando-se mutuamente. Quando ela terminou o sandu�che, devorou tamb�m a metade do vegetariano. Encontrou um ma�o de cigarros amarrotado na beirada da janela e tirou um de l�.</p><p>Ele rompeu o sil�ncio.</p><p>� Talvez eu n�o seja t�o bom como voc� em investiga��es pessoais, mas noto que n�o � nem vegetariana nem � como pensava Dirch Frode � anor�xica. Vou incluir esses dados no meu relat�rio a seu respeito.</p><p>Salander o encarou, mas ao ver sua express�o percebeu que ele estava brincando com ela. Parecia divertir-se tanto que ela n�o p�de deixar de retribuir com um sorriso de esguelha. A situa��o era absurda. Ela afastou o prato. Os olhos desse cara eram amistosos. Concluiu, por fim, que n�o era um mau sujeito. A investiga��o que ela fizera tamb�m n�o dava a entender que fosse um cafajeste pronto para espancar suas companheiras, ou coisa do g�nero. Lembrou que ela � que sabia tudo a respeito dele � n�o o contr�rio. <emphasis>Conhecimento � poder.</emphasis></p><p>Do que est� rindo? � ela perguntou.</p><p>� Desculpe. � que n�o imaginei que fosse ser assim. N�o tinha a inten��o de assust�-la, mas foi o que aconteceu. Precisava ter visto a sua cara quando abriu a porta. Impag�vel. N�o resisti � tenta��o de brincar um pouco com voc�.</p><p>Sil�ncio. Para a sua grande surpresa, Lisbeth Salander achou aceit�vel, de repente, a companhia daquele intruso � ou pelo menos n�o desagrad�vel.</p><p>� Considere que me vinguei por voc� ter vasculhado a minha vida � disse ele num tom alegre. � Est� com medo de mim?</p><p>� N�o � respondeu Salander.</p><p>� Melhor. N�o estou aqui para lhe fazer mal nem para criar problemas.</p><p>� Se tentar me tocar, eu lhe farei muito mal. S�rio.</p><p>Mikael a observou. Ela media pouco mais de um metro e meio e parecia n�o ter como se defender se ele fosse um malfeitor que tivesse entrado em seu apartamento. Mas os olhos dela eram inexpressivos e calmos.</p><p>� N�o ser� necess�rio � ele disse por fim. � Minhas inten��es s�o boas. Preciso falar com voc�. Se quiser que eu v� embora, � s� dizer. � Refletiu um segundo. � E curioso, tenho a impress�o de... n�o, nada � ele se interrompeu.</p><p>� Diga.</p><p>� N�o sei se o que vou dizer faz sentido, mas h� quatro dias eu nem sabia da sua exist�ncia. Depois li a avalia��o que voc� fez de mim � remexeu dentro da bolsa e encontrou o relat�rio �, o que n�o foi exatamente uma leitura divertida.</p><p>Calou-se e olhou um momento pela janela.</p><p>� Ser� que posso filar um cigarro seu? � Ela empurrou o ma�o na dire��o dele.</p><p>� Voc� disse agora h� pouco que n�o nos conhec�amos e eu respondi que n�o era verdade. � Ele mostrou o relat�rio. � Ainda n�o alcancei voc�, fiz apenas algumas checagens de rotina para saber seu endere�o, data de nascimento, estado civil et cetera. Mas voc� sabe muito a meu respeito. Boa parte s�o coisas pessoais que s� meus amigos �ntimos conhecem. E agora eu estou aqui na sua cozinha, comendo sandu�ches com voc�. Faz meia hora que nos conhecemos e tenho a sensa��o de que nos conhecemos h� anos. Entende o que quero dizer?</p><p>Ela assentiu com a cabe�a.</p><p>� Voc� tem olhos lindos � ele disse.</p><p>� Voc� tem olhos gentis � ela respondeu.</p><p>Ele n�o conseguiu definir se era uma ironia.</p><p>Sil�ncio.</p><p>� O que est� fazendo aqui? � ela perguntou.</p><p>Super-Blomkvist � o apelido lhe ocorreu e ela conteve o impulso de diz�-lo em voz alta � assumiu de repente um ar s�rio. Ela captou cansa�o em seu olhar. A seguran�a que demonstrara ao entrar no apartamento dela havia desaparecido e ela concluiu que as brincadeiras tinham acabado ou pelo menos estavam suspensas. Pela primeira vez, sentiu que ele a examinava com intensidade e reflex�o. N�o conseguiu imaginar o que se passava na cabe�a dele, mas sentiu imediatamente que a visita adquiria um tom mais s�rio.</p><p>Lisbeth Salander tinha consci�ncia de que sua calma era apenas aparente. Ela n�o controlava de fato seus nervos. A visita inesperada de Blomkvist mexera com ela de um modo que nunca sentira antes em seu trabalho. Ganhava a vida espionando as pessoas. Na realidade, nunca classificara o que fazia para Dragan Armanskij como um <emphasis>trabalho de verdade, </emphasis>e sim como um passatempo complexo, quase um <emphasis>hobby.</emphasis></p><p>Fazia tempo que chegara � conclus�o de que na verdade gostava de fu�ar a vida dos outros e revelar segredos que as pessoas tentavam esconder. Agia assim � de uma forma ou de outra � desde que se conhecia como gente. E era o que continuava fazendo n�o s� quando Armanskij lhe passava miss�es, mas �s vezes apenas por prazer. Aquilo lhe dava uma esp�cie de satisfa��o � exatamente como num videogame complicado, com a diferen�a de que se tratava de pessoas reais. E eis que de repente seu <emphasis>hobby </emphasis>estava instalado na sua cozinha oferecendo-lhe sandu�ches. Uma situa��o absurda.</p><p>� Tenho um problema fascinante � disse Mikael. � Me diga uma coisa: quando voc� fez suas investiga��es sobre mim para Dirch Frode, sabia qual era a finalidade delas?</p><p>� N�o.</p><p>� O objetivo era obter informa��es a meu respeito porque Frode � ou, melhor, o seu cliente � queria me contratar para um trabalho <emphasis>freelance.</emphasis></p><p>� <emphasis>Entendo.</emphasis></p><p>Ele dirigiu-lhe um breve sorriso.</p><p>� Algum dia eu e voc� teremos uma conversa sobre os aspectos �ticos de bisbilhotar a vida dos outros. Mas por enquanto preciso resolver um problema... O trabalho que me passaram, e que por uma raz�o incompreens�vel aceitei, � sem d�vida a miss�o mais estranha que j� tive. Ser� que posso confiar em voc�, Lisbeth?</p><p>� Como assim?</p><p>� Dragan Armanskij disse que voc� � uma pessoa totalmente confi�vel. Mesmo assim eu pergunto: se eu te contar alguns segredos, voc� promete que n�o os divulgar�, n�o importa a quem for?</p><p>� Espere um pouco. Ent�o voc� falou com Dragan; foi ele que te mandou aqui?</p><p>Vou <emphasis>acabar com a ra�a daquele arm�nio cretino.</emphasis></p><p>� N�o exatamente. Voc� n�o � a �nica pessoa que sabe levantar um endere�o. Na verdade fiz isso sozinho. Pesquisei nos registros do cart�rio. H� tr�s pessoas chamadas Lisbeth Salander, e as outras duas estavam fora de cogita��o. Mas ontem entrei em contato com Armanskij e tivemos uma longa conversa. No come�o, ele tamb�m pensou que eu quisesse vir aqui criar problemas por voc� ter se intrometido na minha vida, mas depois acabou entendendo que o meu objetivo � bastante leg�timo.</p><p>� O que voc� quer dizer?</p><p>� Bem, um cliente de Dirch Frode me contratou para um trabalho e cheguei a um ponto em que preciso da ajuda de um investigador qualificado, e com urg�ncia. Frode me falou de voc� e da sua compet�ncia. Ele bateu com a l�ngua nos dentes e acabei sabendo que voc� tinha feito uma investiga��o a meu respeito. Ontem falei com Armanskij e expliquei o que queria. Ele autorizou e tentou falar com voc� por telefone, mas voc� n�o respondeu. E assim... aqui estou eu. Pode ligar para Armanskij e confirmar tudo, se quiser.</p><p>Lisbeth Salander precisou de alguns minutos para localizar seu celular debaixo das roupas que Mimmi a ajudara a tirar na noite anterior. Mikael Blomkvist contemplou sua busca ca�tica com interesse, enquanto andava pelo apartamento. Todos os m�veis, sem exce��o, pareciam ter sido pegos na rua. Numa pequena mesa de trabalho destacava-se uma imponente instala��o de inform�tica. Havia um aparelho de CD numa prateleira, mas a cole��o de discos era pequena e formada por bandas das quais Mikael jamais ouvira falar, com artistas na capa que pareciam vampiros sa�dos dos confins do espa�o. M�sica, de fato, n�o era o forte de Lisbeth.</p><p>Salander constatou que Armanskij a chamara pelo menos sete vezes durante a noite e duas de manh�. Ela digitou o n�mero dele enquanto Mikael se encostava no batente da porta para escutar a conversa.</p><p>� Sou eu... Desculpe, desliguei o celular... Sei que ele quer me contratar... N�o, est� aqui em casa... � Ela levantou a voz. � Dragan, estou com a boca seca e com dor de cabe�a, por favor, fale logo; voc� autorizou ou n�o?... Obrigada.</p><p>Lisbeth Salander espiou Mikael Blomkvist pelo v�o da porta. Ele olhava seus CDs e tirava livros das prateleiras; viu-o pegar um frasco de rem�dio marrom, sem etiqueta, e examin�-lo contra a luz com curiosidade. Quando se preparava para abrir a tampa, ela estendeu a m�o e tomou-lhe o frasco; depois foi para a cozinha, sentou-se, massageou as t�mporas e esperou que Mikael voltasse a se sentar.</p><p>� As regras s�o simples � ela disse. � Nada do que conversar comigo ou com Dragan chegar� a algu�m de fora. Vamos assinar um contrato no qual a Milton Security se compromete a manter sigilo. Quero saber em que consiste o trabalho antes de decidir se vou querer ou n�o trabalhar para voc�. Isso significa que manterei sigilo sobre o que me contar, quer aceite ou n�o o trabalho, contanto que n�o se trate de uma atividade criminosa s�ria. Nesse caso, farei um relat�rio a Dragan, que, por sua vez, avisar� a pol�cia.</p><p>� Certo. � Ele hesitou. � Armanskij talvez n�o saiba exatamente por que quero contrat�-la...</p><p>� Ele disse que voc� precisa de ajuda para uma pesquisa hist�rica.</p><p>� Sim, isso mesmo. Mas o que eu quero que voc� fa�a � me ajudar a descobrir um assassino.</p><p>Mikael levou mais de uma hora contando todos os detalhes confusos do caso Harriet Vanger. N�o omitiu nenhum. Tinha a autoriza��o de Frode para contrat�-la e, para tanto, via-se na obriga��o de conquistar sua inteira confian�a.</p><p>Falou tamb�m do seu relacionamento com Cecilia Vanger e de como descobrira seu rosto na janela de Harriet. Deu a Lisbeth o m�ximo de informa��es poss�veis sobre a personalidade dela. Come�ava a admitir que Cecilia figurava entre os principais suspeitos. Mas estava longe de entender como Cecilia podia estar ligada a um assassino em atividade, numa �poca em que ela ainda era jovem.</p><p>Depois, entregou a Lisbeth Salander uma c�pia da lista da agenda telef�nica de Harriet.</p><p><image l:href="#0"/></p><p>� O que quer que eu fa�a?</p><p>� Identifiquei RJ, Rebecka Jacobsson, e fiz a conex�o entre ela e uma cita��o da B�blia que fala dos sacrif�cios por imola��o. Ela foi morta de um modo semelhante ao que est� descrito na cita��o � sua cabe�a foi posta sobre brasas. Se eu n�o estiver enganado, encontraremos outras quatro v�timas � Magda, Sara, Mari e RL.</p><p>� Acredita que foram mortas?</p><p>� Por um assassino que agia nos anos 1950, talvez 60. E que, de uma maneira ou de outra, est� ligado a Harriet Vanger. Examinei n�meros antigos do <emphasis>Hedestads-Kuriren. </emphasis>O assassinato de Rebecka � o �nico crime monstruoso que, pelo que descobri, tem a ver com Hedestad. Quero que continue pesquisando em toda a Su�cia.</p><p>Lisbeth Salander permaneceu mergulhada em pensamentos e num sil�ncio inexpressivo t�o longo que Mikael come�ou a se impacientar. Perguntava-se se havia escolhido a pessoa certa quando ela por fim ergueu os olhos.</p><p>� Est� certo, aceito o trabalho. Mas primeiro assine o contrato com Armanskij.</p><p>Dragan Armanskij imprimiu o contrato que Mikael Blomkvist ia levar a Hedestad para que Dirch Frode o assinasse. Ao voltar � saleta de trabalho de Lisbeth Salander, viu, atrav�s da divis�ria envidra�ada, que ela e Mikael Blomkvist estavam inclinados sobre o Powerbook dela. Mikael pousava a m�o em seu ombro � <emphasis>ele a tocava </emphasis>� e lhe indicava alguma coisa. Armanskij esperou algum tempo.</p><p>Mikael disse algo que pareceu surpreender Salander e ela riu ruidosamente.</p><p>Armanskij nunca a ouvira rir, embora tivesse tentado ganhar sua confian�a naqueles anos todos. Mikael Blomkvist a conhecia havia poucas horas e ela j� ria na companhia dele.</p><p>De repente detestou Mikael Blomkvist com uma intensidade que o surpreendeu. Pigarreou ao cruzar a porta e depositou sobre a mesa o envelope de pl�stico com o contrato.</p><p>Mikael teve tempo para fazer uma r�pida visita � reda��o da <emphasis>Millennium </emphasis>� tarde. Era a primeira vez que entrava l� desde que fora limpar sua mesa antes do Natal, e de repente lhe pareceu estranho subir aquelas escadas t�o familiares. O c�digo de acesso n�o tinha sido alterado; entrou pela porta da reda��o sem ser notado e ficou um instante comprazendo-se em olhar tudo por ali.</p><p>A sede da <emphasis>Millennium </emphasis>tinha a forma de um L. A entrada propriamente dita era um grande <emphasis>hall </emphasis>que ocupava uma ampla �rea inutilizada. Havia ali um canap� e poltronas para os visitantes. Atr�s do canap� abria-se uma copa com quitinete, sanit�rios e dois cub�culos onde eram guardados os arquivos. Havia tamb�m uma mesa para o estagi�rio. A direita da entrada, uma divis�ria envidra�ada dava para o est�dio de Christer Malm, cuja empresa, com entrada separada no corredor do edif�cio, ocupava uma �rea de oitenta metros quadrados. A esquerda ficava a reda��o, cerca de cento e cinquenta metros quadrados com vista para a rua G�tgatan.</p><p>Erika concebera o projeto e instalara divis�rias envidra�adas para criar tr�s ambientes individuais e uma ampla sala comum para os outros tr�s colaboradores. Ficara com a maior, no fundo da reda��o, e Mikael fora colocado na outra ponta. Era a �nica sala que se podia ver da entrada. Ele notou que ningu�m havia se instalado ali.</p><p>A terceira pe�a, um pouco afastada, era ocupada por Sonny Magnusson, de sessenta anos, o eficiente vendedor de publicidade da <emphasis>Millennium </emphasis>j� h� alguns anos. Erika descobriu Sonny quando ele se viu desempregado ap�s a reestrutura��o da empresa onde trabalhou a maior parte de sua vida. Sonny estava ent�o na idade em que n�o era f�cil conseguir emprego. Erika o escolheu de prop�sito; ofereceu-lhe um pequeno sal�rio fixo e uma porcentagem sobre as receitas publicit�rias. Sonny aceitou e os dois ficaram satisfeitos. Mas no �ltimo ano, por melhor vendedor que fosse, as receitas tinham desabado. Os rendimentos de Sonny diminu�ram demais; contudo, em vez de tentar outra coisa, ele apertou o cinto e permaneceu fiel a seu cargo. <emphasis>Diferentemente de mim, que sou a causa dessa degringolada toda, </emphasis>pensou Mikael.</p><p>Ele reuniu coragem e entrou por fim na reda��o, quase vazia naquela hora. Viu Erika em sua sala, com um telefone colado � orelha. Somente dois colaboradores estavam na reda��o. Monika Nilsson, de trinta e sete anos, experiente rep�rter geral, especializada em vigil�ncia pol�tica e provavelmente a pessoa mais entendida em cinismo que Mikael j� conhecera. Trabalhava na <emphasis>Millennium </emphasis>havia nove anos e divertia-se imensamente. Henry Cortez tinha vinte e quatro anos e era o mais jovem colaborador da reda��o; dois anos antes, assim que se formou no instituto de jornalistas JMK, procurou Erika e disse que queria trabalhar na <emphasis>Millennium </emphasis>e em nenhum outro lugar. Erika n�o tinha dinheiro para contrat�-lo, mas prop�s-lhe um est�gio, ofereceu-lhe uma sala num canto e depois o absorveu como <emphasis>freelancer </emphasis>fixo.</p><p>Os dois gritaram de contentamento ao ver Mikael, que foi recebido com beijos e tapas nas costas. Logo lhe perguntaram se estava voltando ao trabalho, mas se decepcionaram quando ele explicou que lhe restavam mais seis meses no Norrland, e que apenas estava passando para dar um al� e falar com Erika.</p><p>Erika tamb�m ficou contente em v�-lo, serviu caf� e fechou a porta de sua sala. Come�ou pedindo not�cias de Henrik Vanger. Mikael n�o sabia muito mais do que Dirch Frode relatara; o estado dele era grave, mas o velho continuava vivo.</p><p>� O que voc� est� fazendo na cidade?</p><p>Mikael sentiu-se subitamente embara�ado. Passara na reda��o sem pensar muito, a Milton Security ficava a poucos passos dali. Pareceu-lhe dif�cil explicar a Erika que tinha acabado de contratar a consultora particular em seguran�a que invadira seu computador. Limitou-se a encolher os ombros e dizer que fora obrigado a vir a Estocolmo por causa de alguns assuntos ligados a Vanger e que j� estava voltando para o norte. Perguntou como iam as coisas na reda��o.</p><p>� Junto com as boas not�cias do volume de publicidade e do n�mero de assinantes que n�o param de crescer, h� uma nuvem escura se formando no horizonte.</p><p>� Quem?</p><p>� Janne Dahlman. Fui obrigada a ficar de olho nele logo depois que soltamos a not�cia da entrada de Henrik Vanger na sociedade. N�o sei se � apenas a natureza dele ou se tem a ver com alguma coisa mais profunda. Ele est� fazendo uma esp�cie de jogo.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� N�o confio mais nele. Depois que assinamos o acordo com Henrik Vanger, Christer e eu ficamos pensando se inform�vamos imediatamente toda a reda��o de que n�o corr�amos mais o risco de fechar no outono ou se...</p><p>� Ou se informavam apenas alguns colaboradores.</p><p>� Exatamente. Talvez eu seja paran�ica, mas n�o queria que Dahlman espalhasse a hist�ria. Ent�o decidimos avisar toda a reda��o s� no dia em que o acordo se tornasse p�blico. Portanto, guardamos segredo por um m�s.</p><p>� E?</p><p>� Bem, eram as primeiras boas not�cias que a reda��o recebia depois de um ano. Todos festejaram, com exce��o de Dahlman. Claro, n�o somos a maior reda��o do mundo, mas tr�s pessoas se alegraram, o estagi�rio tamb�m, e uma se zangou por n�o termos passado a informa��o mais cedo.</p><p>� Ele teve um pouco de raz�o...</p><p>� Eu sei. Mas o fato � que continuou falando disso o tempo todo e despejando mau humor pela reda��o. Depois de duas semanas, chamei-o � minha sala e expliquei que, se eu n�o havia informado a reda��o, � porque n�o tinha confian�a nele e n�o estava certa de que ele guardaria segredo.</p><p>� Como ele reagiu?</p><p>� Ficou muito magoado, claro, e furioso. N�o recuei e dei a ele um ultimato: ou fazia um esfor�o para melhorar ou come�asse a procurar outro emprego.</p><p>� E ele?</p><p>� Resolveu se esfor�ar. Mas permanece distante e h� muita tens�o entre ele e o resto da equipe. Christer n�o o suporta mais e demonstra isso claramente.</p><p>� E o que suspeita que Dahlman esteja fazendo? Erika suspirou.</p><p>� N�o sei. N�s o contratamos h� um ano, quando j� est�vamos em campanha contra Wennerstr�m. N�o posso provar absolutamente nada, mas pressinto que ele n�o trabalha para n�s.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Confie nos seus instintos.</p><p>� Talvez n�o passe de um pobre-coitado cheio de mau humor por n�o estar no seu lugar.</p><p>� � poss�vel. Mas concordo com voc� que cometemos um erro de avalia��o ao contrat�-lo.</p><p>Vinte minutos depois, Mikael pegava as vias expressas do Slussen rumo ao norte, no carro que emprestara da mulher de Dirch Frode, um Volvo de dez anos que ela nunca utilizava e que Mikael agora podia usar quando quisesse.</p><p>Os detalhes eram m�nimos e sutis, e Mikael poderia nem t�-los percebido se n�o estivesse atento. Uma pilha de pap�is um pouco mais inclinada do que antes. Um arquivo um pouco fora de lugar na prateleira. A gaveta da escrivaninha inteiramente fechada � Mikael lembrava-se muito bem de t�-la deixado um pouco entreaberta na v�spera, quando foi para Estocolmo.</p><p>Ficou im�vel por um momento, em d�vida. Depois, uma certeza se imp�s: algu�m entrara na casa.</p><p>Foi at� o patamar de entrada e olhou ao redor. Ele trancara a porta, mas como se tratava de uma fechadura velha e bastante comum provavelmente podia ser aberta com uma chave de fenda, e n�o havia como saber se existiam c�pias daquela chave. Voltou a entrar na casa e passou em revista, sistematicamente, a saleta de trabalho para verificar se algo desaparecera. Depois de algum tempo, concluiu que tudo parecia ainda estar ali.</p><p>Mas o fato � que algu�m havia entrado, se instalado em sua saleta de trabalho e folheado seus pap�is e arquivos. Ele levara o computador consigo, portanto a pessoa n�o tivera acesso a ele. Duas quest�es se apresentavam. Quem? E ser� que o visitante misterioso tinha podido concluir alguma coisa do que vira ali?</p><p>Os arquivos eram uma parte dos que ele trouxera de volta da casa de Henrik Vanger ap�s sair da pris�o. N�o havia nenhum material novo. Os cadernos de anota��es eram indecifr�veis para um n�o-iniciado. Mas ser� que a pessoa que vasculhara sua mesa era uma n�o-iniciada?</p><p>O mais preocupante era o pequeno envelope de pl�stico em cima da mesa, onde ele pusera a lista de n�meros da agenda telef�nica de Harriet e uma c�pia das cita��es b�blicas �s quais eles se referiam. A pessoa que vasculhara a saleta agora sabia que ele havia decifrado o c�digo da B�blia.</p><p><emphasis>Quem?</emphasis></p><p>Henrik Vanger estava no hospital. Ele n�o suspeitava de Anna, a governanta. Dirch Frode? Mas Mikael j� havia lhe contado todos os detalhes... Cecilia Vanger adiara a viagem � Fl�rida e voltara de Londres com a irm�. Ele a vira na noite anterior, atravessando a ponte de carro. Martin Vanger? Harald Vanger? Birger Vanger regressara para participar de uma reuni�o de fam�lia, � qual Mikael n�o fora convidado, no dia seguinte ao infarto de Henrik. Alexander Vanger? Isabella Vanger? Ela era tudo menos simp�tica.</p><p>Com quem Frode havia falado? Deixara escapar alguma coisa? Quantos, dos mais pr�ximos, haviam percebido que Mikael descobrira algo novo nas investiga��es?</p><p>Passava de oito da noite. Ele telefonou para um serralheiro em Hedestad e pediu uma nova fechadura. O serralheiro explicou que s� poderia ir na manh� seguinte. Mikael prometeu pagar o dobro se ele fosse imediatamente, e ele concordou em passar �s dez e meia para instalar uma nova fechadura na casa.</p><p>Enquanto esperava o serralheiro, Mikael foi at� a casa de Dirch Frode, por volta das oito e meia. A mulher de Frode apontou para o jardim atr�s da casa e lhe prop�s uma cerveja gelada, que Mikael aceitou com prazer. Ele pediu a Frode not�cias de Henrik.</p><p>� Foi operado. Tem arteriosclerose nas coron�rias. O m�dico disse que seu estado continua cr�tico, mas que ainda h� esperan�as.</p><p>Ficaram um instante em sil�ncio, bebendo cerveja.</p><p>� Suponho que n�o conseguiu falar com ele.</p><p>� N�o, n�o est� em condi��es de falar. E como foi l� em Estocolmo?</p><p>� Lisbeth Salander aceitou. Eu trouxe o contrato de Dragan Armanskij. Precisa assin�-lo e envi�-lo de volta.</p><p>Dirch Frode leu o documento.</p><p>� Ela n�o cobra barato � constatou.</p><p>� Henrik pode pagar.</p><p>Frode foi buscar uma caneta e assinou.</p><p>� Ainda posso assinar este contrato por Henrik enquanto ele estiver vivo. Pode deix�-lo na caixa de correspond�ncia do Konsum quando voltar para casa?</p><p><strong>* * *</strong></p><p>A meia-noite, Mikael j� estava na cama, por�m n�o conseguia dormir. At� ent�o, sua temporada na ilha de Hedeby limitara-se a desencavar extravag�ncias hist�ricas. Mas quem sabe o passado n�o estivesse mais pr�ximo do presente do que ele imaginava, se algu�m suficientemente interessado no que ele fazia foi capaz de se introduzir na sua saleta de trabalho?</p><p>De repente lhe ocorreu que outras pessoas fora da ilha tamb�m podiam estar interessadas nas atividades dele. A s�bita entrada de Henrik Vanger no conselho administrativo da <emphasis>Millennium </emphasis>n�o devia ter passado despercebida a Hans-Erik Wennerstr�m. Ou esse tipo de pensamento indicava que ele estava ficando paran�ico?</p><p>Mikael levantou-se, postou-se completamente nu diante da janela da cozinha e olhou pensativo para a igreja do outro lado da ponte. Acendeu um cigarro.</p><p>N�o conseguia entender Lisbeth Salander. Ela tinha um comportamento estranho, fazia longas pausas no meio da conversa. Seu apartamento era um caos, com montanhas de jornais no vest�bulo e uma cozinha que n�o passava por uma limpeza havia bem um ano. Roupas espalhadas pelo ch�o, com certeza ele a tinha encontrado depois de uma noite de farra. No pesco�o havia vest�gios de chupadas, reveladoras de grande atividade noturna. Tinha v�rias tatuagens pelo corpo, <emphasis>piercings </emphasis>no rosto e provavelmente tamb�m em lugares que ele n�o vira. Ou seja, uma criatura especial.</p><p>Por outro lado, Armanskij garantira que ela era indiscutivelmente a melhor investigadora de sua empresa, e a investiga��o que fizera sobre ele indicava com certeza que ela ia fundo nas coisas. <emphasis>Uma garota estranha.</emphasis></p><p>Lisbeth Salander estava diante do seu Powerbook refletindo sobre como reagira a Mikael Blomkvist. Em toda a sua vida adulta, jamais deixara entrar em sua casa algu�m que n�o tivesse sido expressamente convidado, e podia-se contar tais pessoas nos dedos de uma m�o. Sem a menor cerim�nia, Mikael se intrometera em sua vida e ela n�o reagira sen�o com uns protestos frouxos.</p><p>E n�o foi tudo � ele havia mexido com ela, zombado dela.</p><p>De h�bito, esse tipo de comportamento a teria levado a mentalmente engatilhar uma arma. No entanto, n�o sentiu a menor amea�a, nenhuma hostilidade vinda de Mikael Blomkvist. Ele tinha todos os motivos para estar zangado � e at� mesmo para process�-la depois de ter descoberto que ela invadira seu computador. Mas n�o, levou isso tamb�m na brincadeira.</p><p>Foi a parte mais delicada da conversa que tiveram. Como se Mikael propositalmente n�o quisesse tocar no assunto. Por fim, ela mesma n�o conseguiu evitar.</p><p>� Voc� disse que sabe o que eu fiz.</p><p>� Voc� invadiu o meu computador, � uma <emphasis>hacker.</emphasis></p><p>� Como sabe disso? � Lisbeth tinha a certeza de que n�o havia deixado vest�gios e de que n�o seria descoberta, a menos que algu�m muito experiente em seguran�a estivesse escaneando o disco r�gido no momento em que ela o invadiu.</p><p>� Voc� cometeu um erro. � Ele explicou que ela reproduzira um texto que s� existia no computador dele e em nenhum outro lugar.</p><p>Lisbeth Salander ficou em sil�ncio por um bom tempo. Por fim, fixou nele uns olhos inexpressivos.</p><p>� Como conseguiu? � ele perguntou.</p><p>� Segredo. O que pretende fazer? Mikael encolheu os ombros.</p><p>� O que eu posso fazer? No m�ximo, deveria levar um papo com voc� sobre �tica e moral, e sobre os perigos de bisbilhotar a vida alheia.</p><p>� Que � exatamente o que voc� faz como jornalista. Ele concordou com a cabe�a.</p><p>� Sem d�vida. � justamente por isso que n�s, jornalistas, temos um comit� de �tica nos vigiando nas quest�es morais. Quando escrevo um texto sobre um corrupto do mundo financeiro, deixo de lado, por exemplo, sua vida sexual. N�o escrevo que uma estelionat�ria � l�sbica ou que sonha trepar com seu cachorro, ou coisas do g�nero, ainda que seja verdade. Mesmo os corruptos t�m direito a uma vida privada, e � muito f�cil prejudicar algu�m atacando sua maneira de viver. Entende o que quero dizer?</p><p>� Sim.</p><p>� Portanto, voc� atentou contra a minha integridade. Henrik Vanger n�o precisava saber com quem eu fa�o amor. � problema meu.</p><p>Um sorriso acanhado despontou nos l�bios de Lisbeth Salander.</p><p>� Acha ent�o que eu n�o devia ter falado disso?</p><p>� No que me diz respeito, n�o faz muito diferen�a. Metade da cidade sabe da minha liga��o com Erika. Estou falando � do princ�pio.</p><p>� Talvez voc� ache divertido saber que eu tamb�m tenho princ�pios que correspondem ao do seu comit� de �tica. � o que chamo de Princ�pio Salander. Na minha opini�o, um corrupto sempre ser� um corrupto e, se posso prejudic�-lo desencavando sujeiras a seu respeito, ele tem o que merece. N�o fa�o sen�o dar-lhe o troco.</p><p>� Certo � disse Mikael Blomkvist sorrindo. � Meu racioc�nio n�o � inteiramente diferente do seu, mas...</p><p>� A verdade � que ao fazer uma investiga��o levo em conta tamb�m o que a pessoa me inspira. N�o fico neutra. Se julgo que se trata de uma pessoa boa, posso ser discreta no meu relat�rio.</p><p>� � mesmo?</p><p>� No seu caso, fui discreta. Poderia ter escrito um livro sobre a sua vida sexual. Poderia ter contado a Frode que Erika Berger tem um passado no clube Xtreme e que flertava com o BDSM nos anos 1980, o que inevitavelmente teria criado algumas associa��es de id�ias sobre a vida sexual de voc�s.</p><p>Mikael Blomkvist encarou o olhar de Lisbeth Salander. Depois de um momento, olhou pela janela e deu uma gargalhada.</p><p>� Realmente nada te escapa. Por que n�o p�s isso no relat�rio?</p><p>� Voc� e Erika Berger s�o adultos e parecem gostar muito um do outro. O que fazem na cama n�o interessa a ningu�m, e tudo que eu conseguiria, ao falar dela, seria s� prejudicar voc� ou oferecer material de chantagem a algu�m. Sei l�, n�o conhe�o Dirch Frode, e esse material poderia chegar �s m�os de Wennerstr�m.</p><p>� E voc� n�o quer fornecer material a Wennerstr�m?</p><p>� Se eu precisasse escolher entre voc� e ele, escolheria o seu lado do ringue.</p><p>� Eu e Erika temos um... nosso relacionamento �...</p><p>� Estou pouco me lixando para o relacionamento de voc�s. Mas n�o respondeu � minha pergunta: o que pretende fazer agora que sabe que eu invadi o seu computador?</p><p>A pausa de Mikael foi quase t�o longa quanto a dela.</p><p>� Lisbeth, eu n�o vim aqui para aborrec�-la, n�o vou denunciar voc�.</p><p>Estou aqui para pedir sua ajuda numa investiga��o. Responda sim ou n�o. Se disser n�o, vou embora, procuro outra pessoa e n�o ter� mais not�cias de mim. � Ele refletiu um segundo e depois sorriu. � Com a condi��o de eu n�o pegar voc� de novo no meu computador, � claro. Ela o olhou com uma express�o vazia.</p><empty-line/><p><strong>19. QUINTA-FEIRA 19 DE JUNHO � DOMINGO 29 DE JUNHO</strong></p><p>Mikael passou dois dias estudando seus documentos, enquanto aguardava not�cias sobre se Henrik Vanger sobreviveria ou n�o. Permanecia em contato com Dirch Frode. Na quinta-feira � noite, Frode foi v�-lo na casa dos convidados para anunciar que a crise parecia superada por enquanto.</p><p>� Ele est� fraco, mas consegui falar um pouco com ele hoje. Quer te ver o mais breve poss�vel.</p><p>A uma da tarde do s�bado, dia do solst�cio de ver�o, Mikael foi ao hospital de Hedestad e dirigiu-se ao setor onde Henrik Vanger estava internado. Deparou com Birger Vanger, muito irritado, que lhe barrou o caminho dizendo, com muita autoridade, que Henrik n�o estava em condi��es de receber visitas. Sem perder a calma, Mikael contemplou o conselheiro municipal.</p><p>� E estranho. Henrik Vanger me mandou um recado muito claro de que desejava me ver hoje.</p><p>� Voc� n�o � da fam�lia e n�o tem nada o que fazer aqui.</p><p>� � verdade, n�o fa�o parte da fam�lia. Mas vim atender um pedido expresso de Henrik, e s� recebo ordens dele.</p><p>A troca de palavras poderia ter virado uma disputa violenta se Dirch Frode n�o tivesse sa�do do quarto de Henrik justamente naquele momento.</p><p>� Ah, a� est� voc�. Henrik acabou de perguntar onde voc� estava. Frode manteve a porta aberta e Mikael entrou no quarto, passando por</p><p>Birger Vanger.</p><p>Henrik parecia ter envelhecido dez anos em uma semana. Suas p�lpebras permaneciam semicerradas, um tubo de oxig�nio entrava pelo nariz e seus cabelos estavam mais emaranhados do que nunca. Uma enfermeira deteve Mikael, pondo a m�o em seu bra�o.</p><p>� S� dois minutos. E evite emo��es. � Mikael assentiu com a cabe�a e sentou-se numa cadeira de modo a poder ver o rosto de Henrik. Ficou surpreso por sentir-se t�o enternecido e estendeu a m�o para apertar suavemente a do velho, muito frouxa. Henrik Vanger falou com voz fraca, entrecortada.</p><p>� Novidades?</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Farei um relat�rio assim que voc� melhorar. Ainda n�o resolvi o mist�rio, mas descobri novos elementos e estou seguindo algumas pistas. Dentro de uma semana ou duas, poderei dizer se isso nos leva a algum lugar.</p><p>Henrik tentou balan�ar a cabe�a. Foi com um bater de p�lpebras que indicou haver entendido.</p><p>� Vou me ausentar por alguns dias.</p><p>As sobrancelhas de Henrik se contra�ram.</p><p>� N�o, n�o estou abandonando o navio. Vou fazer uma investiga��o. Combinei com Dirch Frode de passar meus relat�rios a ele. Est� de acordo?</p><p>� Dirch �... meu mandat�rio... em todos os assuntos. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Mikael... se por acaso... eu vier a... quero que termine... o trabalho assim mesmo.</p><p>� Prometo que vou terminar.</p><p>� Dirch tem todas as... procura��es.</p><p>� Henrik, quero que se restabele�a logo. Eu ficaria muito chateado com voc� se desaparecesse agora que avancei tanto em meu trabalho.</p><p>� Dois minutos � disse a enfermeira.</p><p>� Preciso ir. Da pr�xima vez que eu vier, espero ter uma longa conversa com voc�.</p><p>Birger Vanger esperava Mikael quando ele saiu no corredor e o deteve pondo uma m�o em seu ombro.</p><p>� N�o quero que perturbe Henrik outra vez. Ele est� gravemente doente e n�o deve ser incomodado, seja qual for o motivo.</p><p>� Entendo sua preocupa��o. N�o vou mais perturb�-lo.</p><p>� Todos sabem que Henrik o contratou para investigar seu pequeno <emphasis>hobby... </emphasis>Harriet. Dirch Frode me contou que Henrik ficou muito perturbado depois de uma conversa que voc�s tiveram pouco antes do infarto. Disse que voc� mesmo achou que ela pode ter deflagrado a crise.</p><p>� N�o penso mais assim. Henrik Vanger tem uma arteriosclerose nas coron�rias. Poderia ter sofrido um infarto ao ir ao banheiro. Tenho certeza de que voc� tamb�m sabe muito bem disso.</p><p>� Quero ter o direito de fiscalizar todas essas bobagens. � na minha fam�lia que voc� est� se metendo.</p><p>� Bem, como eu disse... trabalho para Henrik, n�o para a sua fam�lia.</p><p>Birger Vanger n�o estava aparentemente habituado a que algu�m o contrariasse. Por um breve instante, encarou Mikael com um olhar destinado a lhe inspirar respeito, mas que lhe dava sobretudo o aspecto de um alce presun�oso. Depois, girou os calcanhares e entrou no quarto de Henrik.</p><p>Mikael conteve o riso. N�o era muito conveniente rir no corredor t�o perto do leito onde Henrik se achava enfermo, que tamb�m poderia vir a ser seu leito de morte. Mas Mikael se lembrou de repente de uma estrofe de um abeced�rio rimado de Lennart Hyland, divulgado no r�dio nos anos 1960, e que por uma raz�o incompreens�vel ele memorizara quando estava sendo alfabetizado: Era a letra A: o <emphasis>Alce soberbo e solit�rio insiste/ em olhar o bosque arruinado e triste.</emphasis></p><p>Na entrada do hospital, Mikael topou com Cecilia Vanger. Havia ligado para o celular dela dezena de vezes desde que ela retornara de suas f�rias interrompidas, mas n�o obtivera resposta. Ela tamb�m n�o estava em sua casa na ilha quando ele passou por l� e bateu na porta.</p><p>� Oi, Cecilia � ele disse. � Lamento o que aconteceu com Henrik. Ela agradeceu com um gesto de cabe�a. Mikael tentou captar seus sentimentos, mas n�o percebeu nem calor nem frieza.</p><p>� Precisamos conversar.</p><p>� Sinto muito ter te exclu�do daquela forma. Entendo que esteja furioso, mas estou passando por um momento dif�cil.</p><p>Mikael franziu o cenho at� entender o que ela queria dizer. P�s a m�o no bra�o de Cecilia e sorriu.</p><p>� Espere, n�o � isso, Cecilia. N�o estou nem um pouco furioso com voc�. Queria muito continuar seu amigo, mas se n�o tem vontade de me ver... se for essa a sua decis�o, eu respeitarei.</p><p>� Os relacionamentos nunca foram o meu forte � ela disse.</p><p>� Nem o meu. Vamos tomar um caf�?</p><p>Ele fez um sinal com a cabe�a em dire��o � cafeteria do hospital. Cecilia hesitou.</p><p>� N�o, hoje n�o. Gostaria de ver Henrik agora.</p><p>� Tudo bem, mas mesmo assim preciso falar com voc�. Sobre trabalho.</p><p>� O que est� querendo dizer? � Ela se p�s em guarda.</p><p>� Lembra-se quando nos vimos pela primeira vez, quando voc� veio me ver em janeiro? Eu disse que tudo o que fal�ssemos seria <emphasis>off the record </emphasis>e que quando eu tivesse perguntas de verdade para lhe fazer, eu avisaria. � sobre Harriet.</p><p>O rosto de Cecilia inflamou-se num furor s�bito.</p><p>� Seu filho-da-puta!</p><p>� Cecilia, descobri coisas sobre as quais preciso falar com voc�. Ela deu um passo para tr�s.</p><p>� Voc� n�o entende que essa maldita investiga��o dessa maldita Harriet � s� uma maneira de Henrik se ocupar? N�o entende que ele talvez esteja morrendo l� em cima e que a �ltima coisa que ele precisa agora � ser perturbado e que lhe d�em falsas esperan�as?...</p><p>Ela se calou.</p><p>� Talvez seja um <emphasis>hobby </emphasis>para Henrik, mas o fato � que descobri novos elementos que n�o tinham sido descobertos em trinta e cinco anos. H� quest�es nessa investiga��o que ficaram sem resposta, e estou trabalhando de acordo com as instru��es de Henrik.</p><p>� Se Henrik morrer, esta droga de investiga��o vai acabar em seguida e voc� ser� o primeiro a cair fora � disse Cecilia, afastando-se e cruzando a porta.</p><p>* * *</p><p>Tudo estava fechado, Hedestad praticamente deserta. A popula��o parecia ter ido ao campo para as festividades de S�o Jo�o. Mikael encontrou por fim o terra�o do Grande Hotel e ali pediu um caf� e um sandu�che enquanto lia os jornais da tarde. Nada de importante acontecera no mundo.</p><p>Deixou os jornais e refletiu sobre Cecilia Vanger. N�o havia contado nem a Henrik nem a Dirch Frode que suspeitava que ela tinha aberto a janela do quarto de Harriet. N�o queria transform�-la em suspeita e a �ltima coisa que desejava era prejudic�-la. Mas cedo ou tarde seria preciso tocar nessa quest�o.</p><p>Permaneceu no terra�o por uma hora at� decidir deixar de lado aquele problema e dedicar o Dia de S�o Jo�o a outra coisa que n�o � fam�lia Vanger. Seu celular permanecia silencioso. Erika viajara no fim de semana e se divertia em algum lugar com o marido, e ele n�o tinha com quem falar.</p><p>Regressou � ilha por volta das quatro da tarde e tomou outra decis�o � parar de fumar. Ele se exercitava com regularidade desde a �poca do servi�o militar, gin�stica e <emphasis>jogging </emphasis>ao longo da S�der M�larstrand, mas parara completamente quando os problemas com Hans-Erik Wennerstr�m come�aram. Em Rullaker tentou desenferrujar o corpo, sobretudo como terapia, mas desde que deixara a pris�o n�o fizera muitos progressos. Era hora de recome�ar. Com determina��o, vestiu um abrigo e se p�s a correr em marcha lenta pelo caminho que conduzia � cabana de Gottfried, pegou a trilha para a Fortifica��o e empregou um ritmo mais forte fora da pista. N�o praticava corrida de percurso desde o servi�o militar, mas sempre preferira correr no bosque do que nas pistas de treinamento. Passou pela fazenda de �stergarden para voltar ao povoado. Sentia-se exausto quando completou, bufando, os �ltimos metros at� a casa dos convidados.</p><p>�s seis da tarde tomou um banho. Adepto, mesmo contra a vontade, do tradicional jantar de S�o Jo�o, p�s algumas batatas para cozinhar, preparou o arenque marinado com cebolinha e ovos duros e instalou-se numa mesa fr�gil, fora de casa, no lado que dava para a ponte. Serviu-se de aquavita e brindou sozinho. Depois abriu um romance policial intitulado O <emphasis>canto das sereias, </emphasis>de Vai McDermid.</p><p>Por volta das sete da noite, Dirch Frode passou para v�-lo e instalou-se pesadamente numa cadeira do jardim diante dele. Mikael ofereceu-lhe uma dose de aquavita.</p><p>� Voc� causou muitos ressentimentos hoje � disse Frode.</p><p>� Eu percebi.</p><p>� Birger Vanger � um fanfarr�o.</p><p>� Eu sei.</p><p>� Mas Cecilia Vanger n�o �, e est� furiosa com voc�. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ela me falou que voc� precisa parar de remexer nos assuntos da fam�lia.</p><p>� Entendo. E o que voc� respondeu?</p><p>Dirch Frode olhou seu copo de aquavita e o esvaziou num trago.</p><p>� Respondi que Henrik deu instru��es muito claras sobre o que deseja que voc� fa�a. Enquanto ele n�o modificar essas instru��es, voc� segue o contrato que fizemos. Espero que fa�a o poss�vel para cumprir sua parte no contrato.</p><p>Mikael concordou com a cabe�a. Olhou o c�u, onde nuvens de chuva se acumulavam.</p><p>� H� uma tempestade no ar � disse Frode. � Se os ventos come�arem a soprar muito fortes, estarei aqui para ajud�-lo.</p><p>� Obrigado.</p><p>Ficaram um instante em sil�ncio.</p><p>� Pode me servir mais um trago? � pediu Frode.</p><p>Alguns minutos depois de Dirch Frode ter voltado para casa, Martin Vanger estacionou o carro em frente � casa dos convidados. Desceu e foi cumprimentar Mikael, que lhe desejou boa Festa de S�o Jo�o e lhe ofereceu uma bebida.</p><p>� N�o, obrigado. Vim � ilha s� para trocar de roupa. Vou voltar agora � cidade para passar a noite com Eva.</p><p>Mikael esperou.</p><p>� Falei com Cecilia. Ela est� um pouco perturbada, � muito apegada a Henrik. Espero que a perdoe se ela disse coisas... desagrad�veis.</p><p>� Gosto muito de Cecilia � respondeu Mikael.</p><p>� Eu sei. Mas ela tem l� seus humores. Saiba apenas que Cecilia � totalmente contra voc� remexer no passado.</p><p>Mikael suspirou. Todo mundo em Hedestad parecia saber por que Henrik o contratara.</p><p>� E voc�?</p><p>Martin afastou as m�os num gesto de perplexidade.</p><p>� H� d�cadas Henrik est� obcecado com essa hist�ria da Harriet. N�o sei o que dizer... Harriet era minha irm�, mas de certo modo j� est� distante de mim. Dirch Frode me disse que voc� tem um contrato que somente Henrik pode romper. Considerando seu atual estado de sa�de, creio que isso cause mais mal do que bem.</p><p>� E voc�, quer que eu continue?</p><p>� Descobriu alguma coisa?</p><p>� Desculpe, Martin, mas eu quebraria o contrato se lhe contasse alguma coisa sem a autoriza��o de Henrik.</p><p>� Entendo. � Ele sorriu de repente. � Henrik gosta muito de conspira��es, tem um monte de teorias a respeito, mas eu n�o gostaria que voc� lhe desse falsas esperan�as.</p><p>� Fique tranquilo. A �nica coisa que apresento a ele s�o fatos que posso comprovar atrav�s de documentos.</p><p>� Bem... Ali�s, por falar nisso, precisamos pensar tamb�m no outro contrato. Como Henrik est� doente e impossibilitado de cumprir suas obriga��es no conselho administrativo da <emphasis>Millennium, </emphasis>me ofere�o para ficar no seu lugar.</p><p>Mikael esperou.</p><p>� Precisamos convocar uma reuni�o para avaliar a situa��o.</p><p>� � uma boa id�ia, mas, pelo que entendi, a pr�xima reuni�o j� foi marcada para agosto.</p><p>� Sim, mas talvez possamos antecip�-la. Mikael sorriu polidamente.</p><p>� Sem d�vida. Mas est� falando com a pessoa errada. Por enquanto n�o fa�o parte do conselho administrativo da <emphasis>Millennium. </emphasis>Deixei a revista em dezembro e nada posso dizer sobre as decis�es tomadas pelo conselho. Sugiro que converse com Erika Berger sobre isso.</p><p>Martin Vanger n�o esperava essa resposta. Refletiu um momento antes de se levantar.</p><p>� Tem raz�o, claro. Vou telefonar para ela. � Deu um tapinha no ombro de Mikael para se despedir e foi se encaminhando para o carro.</p><p>Mikael olhou para ele pensativamente. Nada de preciso fora dito, mas pairava no ar uma clara amea�a. Martin Vanger havia colocado a <emphasis>Millennium </emphasis>na balan�a. Um instante depois, Mikael serviu-se de uma nova dose de aquavita e voltou � sua leitura de Vai McDermid.</p><p>Por volta das nove da noite, o gato ruivo chegou e se esfregou em suas pernas. Ele o acariciou atr�s das orelhas.</p><p>� � isso a�, meu velho. Vamos nos aborrecer juntos na noite de S�o Jo�o � disse.</p><p>Quando ca�ram as primeiras gotas de chuva, entrou para se deitar. O gato preferiu ficar l� fora.</p><p>Lisbeth Salander passou o Dia de S�o Jo�o fazendo uma boa revis�o na sua Kawasaki. Uma moto de 125 cilindradas n�o era a m�quina ideal, mas ela sabia conduzi-la e a reformara, pe�a por pe�a, inclusive ajustando-a para poder correr um pouco acima da velocidade autorizada.</p><p>� tarde, p�s o capacete e a jaqueta de couro e foi at� a casa de sa�de de �ppelviken, onde passou algumas horas com sua m�e no jardim. Saiu de l� com uma ponta de preocupa��o e com maus pressentimentos. A m�e parecia mais ausente do que nunca. Durante as tr�s horas em que ficaram juntas, s� trocaram umas poucas palavras, e sua m�e nem parecia saber com quem falava.</p><p>Mikael passou dias tentando identificar o carro com placa AC. Embora tenha ficado um pouco perdido no in�cio, acabou encontrando um mec�nico aposentado em Hedestad que identificou o ve�culo como um Ford Anglia, modelo aparentemente comum, do qual, por�m, Mikael nunca tinha ouvido falar. Depois entrou em contato com um funcion�rio do Departamento de Tr�nsito, para ver se era poss�vel conseguir uma rela��o de todos os Ford Anglia de 1966 com placa iniciada por AC3 alguma coisa. Estava tentando seguir outras pistas, quando veio a resposta de que um exame de registros at� era poss�vel, s� que demoraria algum tempo por ser algo muito diferente do que se podia considerar como informa��o de interesse p�blico.</p><p>V�rios dias depois do fim de semana de S�o Jo�o, Mikael sentou-se ao volante do Volvo emprestado e pegou a rodovia E4 rumo ao norte. Dirigia sem pressa, como sempre. Pouco antes da ponte de H�rn�sand, parou para tomar um caf� na confeitaria de Vesterlund.</p><p>A parada seguinte foi Umea, onde pediu o prato do dia num hotel. Comprou um mapa rodovi�rio e prosseguiu at� Skelleftea, entrando depois � esquerda em dire��o a Norsj�. Chegou por volta das seis da tarde e hospedou-se no hotel Norsj�.</p><p>Come�ou suas pesquisas logo cedo na manh� seguinte. N�o existia nenhuma Marcenaria de Norsj� no anu�rio da cidade. A recepcionista desse pequeno hotel nos confins do norte, uma jovem de uns vinte anos, nunca ouvira falar dessa marcenaria.</p><p>� Quem poderia me informar?</p><p>Por um instante ela pareceu um pouco confusa, mas em seguida disse que ia telefonar para o pai. Dois minutos depois, voltou e explicou que a Marcenaria de Norsj� fechara no come�o dos anos 1980. Se Mikael quisesse conversar com algu�m que sabia um pouco mais sobre a empresa, devia procurar um tal de Hartman que trabalhara ali como contramestre e agora morava no bairro dos Girass�is.</p><p>Norsj� era um vilarejo nascido ao longo de uma rua que, muito apropriadamente, fora batizada de Rua Principal; os estabelecimentos comerciais atravessavam a localidade de ponta a ponta, enquanto as moradias ficavam nas ruas transversais. Na entrada do vilarejo havia uma pequena zona industrial e estrebarias; na sa�da, a oeste, erguia-se uma bela igreja de madeira. Mikael notou que a aldeia abrigava tamb�m uma congrega��o de mission�rios e uma de pentecostais. Um cartaz fixado num painel do ponto de �nibus falava de um Museu da Ca�a e de um Museu do Esqui. Outro anunciava que Veronika cantaria na Festa de S�o Jo�o. Ele percorreu o vilarejo de ponta a ponta, a p�, em pouco mais de vinte minutos.</p><p>O bairro dos Girass�is era um condom�nio residencial situado a uns cinco minutos do hotel. Hartman n�o estava em casa. Eram nove e meia da manh� e ele sup�s que o homem estivesse trabalhando ou sa�ra para fazer compras.</p><p>A etapa seguinte foi o armaz�m da Rua Principal. Quem mora em Norsj� deve passar, uma hora ou outra, no armaz�m, pensou Mikael. Havia dois vendedores; Mikael escolheu o mais velho, de uns cinquenta anos.</p><p>� Bom dia, estou procurando um casal que deve ter morado aqui em Norsj� nos anos 1960. O homem parece que trabalhava na marcenaria. N�o sei como se chamavam, mas tenho aqui duas fotos deles, de 1966.</p><p>O vendedor olhou demoradamente as fotos, mas disse que n�o conhecia nem o homem nem a mulher.</p><p>Na hora do almo�o, Mikael pediu um cachorro-quente no quiosque ao lado do ponto de �nibus. Depois das lojas, passou pela prefeitura, pela biblioteca, pela farm�cia. N�o havia ningu�m na delegacia e ele come�ou a conversar ao acaso com pessoas mais velhas. Por volta das duas da tarde, abordou duas mulheres mais jovens que, mesmo n�o reconhecendo o casal da foto, lhe deram uma boa id�ia.</p><p>� Se a foto foi tirada em 1966, essas pessoas devem ter hoje uns sessenta anos. Por que n�o vai at� a Casa da Terceira Idade em Solbacka?</p><p>Mikael foi at� l� e apresentou-se a uma mulher de uns trinta anos, explicando o que queria. Ela o olhou desconfiada, mas acabou cedendo. Acompanhou Mikael � sala de conviv�ncia, onde ele passou meia hora mostrando as fotos a um grande n�mero de pensionistas de setenta anos ou mais. Apesar da amabilidade deles, ningu�m identificou as pessoas fotografadas em Hedestad em 1966.</p><p>Por volta das cinco, retornou ao bairro dos Girass�is e dessa vez encontrou Hartman em casa. Ele e a mulher, ambos aposentados, haviam passado o dia fora. Fizeram-no entrar na cozinha, onde a mulher imediatamente foi preparar um caf� enquanto Mikael explicava o que procurava. Como nas outras tentativas do dia, n�o teve sorte. Hartman co�ou a cabe�a, acendeu o cachimbo e depois de um momento admitiu que n�o reconhecia as pessoas da foto. Marido e mulher falavam num dialeto local que Mikael �s vezes tinha dificuldade em compreender. A mulher certamente quis dizer "cabelos encaracolados" quando comentou que a mo�a da foto tinha <emphasis>"kn�velh�ra".</emphasis></p><p>� Mas o senhor n�o se enganou, � um adesivo da marcenaria � disse o marido. � Soube reconhec�-lo muito bem. O problema � que distribu�amos esses adesivos a torto e a direito. Aos motoristas, aos clientes que compravam ou forneciam madeira, aos t�cnicos das m�quinas e a muitas outras pessoas.</p><p>� Ent�o vai ser mais dif�cil encontr�-los do que eu imaginava.</p><p>� Por que precisa encontr�-los?</p><p>Mikael havia decidido dizer a verdade se as pessoas perguntassem. Qualquer hist�ria que ele tentasse inventar sobre o casal da foto soaria de todo modo inveross�mil e s� criaria confus�o.</p><p>� � uma longa hist�ria. Estou investigando um crime ocorrido em He-destad em 1966, e acho que h� uma possibilidade, embora pequena, de que as pessoas dessa foto tenham visto o que aconteceu. Elas n�o s�o suspeitas de absolutamente nada e acredito que talvez nem saibam que possuem informa��es que poderiam solucionar esse crime.</p><p>� Um crime? Que tipo de crime?</p><p>� Sinto muito, mas n�o posso dizer mais nada. Sei que deve parecer misterioso algu�m vir aqui procurar essas pessoas quarenta anos depois, mas o crime nunca foi solucionado e s� h� pouco tempo alguns novos elementos vieram � tona.</p><p>� Entendo. Sim, de fato � uma pesquisa estranha essa que est� fazendo.</p><p>� Quantas pessoas trabalhavam na marcenaria?</p><p>� A equipe completa tinha quarenta pessoas. Trabalhei ali desde os dezessete anos, em meados dos anos 1950, at� a empresa fechar as portas. Depois virei motorista de caminh�o.</p><p>Hartman refletiu por um momento.</p><p>� Posso garantir que o rapaz da foto nunca trabalhou na marcenaria. A menos que fosse um motorista, mas acho que mesmo assim eu o teria reconhecido. Quem sabe n�o era pai desse mo�o da foto ou algu�m da fam�lia que trabalhava na f�brica? Talvez o carro n�o fosse dele.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� E verdade, as possibilidades s�o muitas. O senhor sabe de algu�m com quem eu possa falar?</p><p>� Sim � disse Hartman, levantando o indicador. � Passe aqui amanh� de manh�, e daremos uma volta para conversar com os velhos.</p><p>Lisbeth Salander estava diante de um problema metodol�gico. Ela era uma especialista na arte de obter informa��es sobre qualquer pessoa, mas sempre dispunha, como ponto de partida, do nome e do n�mero de identidade de um indiv�duo ainda vivo. Se a pessoa figurasse num banco de dados, o que inevitavelmente acontecia com todo mundo, poderia ser localizada bem r�pido em sua teia de aranha. Se possu�sse um computador conectado � internet, e-mail e at� mesmo um site, o que era o caso de quase todos que se encaixavam em seu tipo de pesquisa, ela podia penetrar em seus segredos mais �ntimos.</p><p>O trabalho que aceitara fazer para Mikael Blomkvist era completamente diferente. Desta vez a tarefa consistia em identificar quatro n�meros pessoais a partir de dados extremamente vagos. Al�m disso, essas pessoas tinham vivido v�rias dezenas de anos atr�s, o que talvez eliminasse a possibilidade de constarem num banco de dados.</p><p>A tese de Mikael, baseada no caso Rebecka Jacobsson, era que essas pessoas haviam sido assassinadas. Portanto, deveriam estar em inqu�ritos policiais n�o resolvidos. Ela n�o dispunha de nenhuma pista sobre a data e o lugar onde esses crimes teriam sido cometidos, exceto que ocorreram, sem d�vida, antes de 1966. Do ponto de vista da pesquisa, uma situa��o inteiramente nova.</p><p><emphasis>Bem, o que � que eu fa�o ent�o?</emphasis></p><p>Ligou o computador e entrou no Google com as palavras-chave Magda + crime. Era a forma de pesquisa mais simples que podia fazer. Para sua grande surpresa, uma porta abriu-se imediatamente em suas investiga��es. A primeira ocorr�ncia era a programa��o da TV-V�rmland em Karlstad, que indicava um epis�dio da s�rie <emphasis>Crimes no V�rmland </emphasis>levada ao ar em 1999. Depois, ela encontrou um breve artigo no <emphasis>V�rmlands Folkblad.</emphasis></p><p>Um novo epis�dio da s�rie <emphasis>Crimes no V�rmland </emphasis>focaliza o caso Magda Lovisa Sj�berg, de Ranmotr�sk, um crime misterioso e abomin�vel que mobilizou a pol�cia de Karlstad dezenas de anos atr�s. Em abril de 1960, a propriet�ria rural Lovisa Sj�berg, de quarenta e seis anos, foi encontrada no est�bulo de seu s�tio, assassinada de maneira brutal. O rep�rter Claes Gunnars reconstitui seus �ltimos momentos e a busca infrut�fera do criminoso. Esse crime provocou muita como��o na �poca e in�meras teorias sobre o culpado. No programa, um parente mais jovem, suspeito do crime, conta o quanto sua vida foi destru�da por essa acusa��o. 20 horas.</p><p>Lisbeth encontrou informa��es mais consistentes no artigo "O caso Lovisa abalou toda uma regi�o", publicado na revista <emphasis>V�rmlandskultur, </emphasis>cujo texto aparecia na net reproduzido na �ntegra. Num tom persuasivo e envolvente, contava como o marido de Lovisa, o lenhador Holger Sj�berg, encontrara a mulher morta ao voltar do trabalho, �s cinco da tarde. Ela fora violentada, apunhalada e por fim morta com um forcado. O crime ocorrera no est�bulo da fam�lia, mas o que causara mais como��o � que o assassino, depois de cometer o crime, a pusera de joelhos numa baia de cavalo.</p><p>Mais tarde, descobriu-se que um dos animais do s�tio, uma vaca, recebera uma facada no pesco�o.</p><p>De in�cio suspeitaram do marido, mas ele apresentou um �libi s�lido. Estava com os colegas de trabalho desde as seis da manh� numa �rea de corte a quarenta quil�metros do s�tio. Lovisa Sj�berg ainda estava viva �s dez da manh�, quando uma vizinha passou para v�-la. Ningu�m viu nem ouviu nada; o s�tio mais pr�ximo ficava a cerca de quatrocentos metros.</p><p>Depois de abandonar o marido como principal suspeito, o inqu�rito policial voltou-se para um sobrinho da mulher assassinada, um jovem de vinte e tr�s anos. Ele j� tivera v�rios problemas com a Justi�a, estava seriamente endividado e quase sempre pedia dinheiro emprestado � tia. Seu �libi era bem mais fr�gil. Ele foi detido para investiga��es e depois solto por falta de provas. Mesmo assim, muitos habitantes da aldeia o consideravam o mais prov�vel culpado.</p><p>A pol�cia tamb�m seguiu outras pistas. Grande parte das investiga��es girou em torno de um misterioso caixeiro-viajante visto na regi�o; circulava ainda um boato sobre um grupo de supostos ciganos que teriam praticado uma s�rie de roubos. Nada se falava, por�m, sobre a raz�o que os teria levado a cometer um assassinato brutal de car�ter sexual, sem que nada tivesse sido roubado.</p><p>Por um momento, o interesse se voltou para um vizinho da aldeia, um homem solteiro que na juventude fora suspeito de um crime homossexual � isso numa �poca em que a homossexualidade ainda era crime � e que, segundo v�rias declara��es, tinha a reputa��o de ser "estranho". Mas tampouco ficou esclarecido por que um eventual homossexual cometeria um crime sexual contra uma mulher. Nenhuma dessas ou outras pistas jamais levou a uma deten��o ou condena��o.</p><p>Lisbeth Salander achou que a liga��o com a lista da agenda telef�nica de Harriet era evidente. A cita��o do <emphasis>Lev�tico </emphasis>XX, 16 dizia: <emphasis>"Se uma mulher se aproximar de um animal para se prostituir com ele, ser� morta juntamente com o</emphasis><emphasis>animal. Ser�o mortos e levar�o a sua iniquidade." </emphasis>Imposs�vel atribuir ao acaso o assassinato de uma camponesa de prenome Magda, propriet�ria de um est�bulo, e seu corpo ter sido colocado numa baia de cavalo.</p><p>Mas por que Harriet Vanger anotara o prenome Magda, e n�o Lovisa, como a v�tima era mais conhecida? Se o nome completo dela n�o estivesse na programa��o de tev�, Lisbeth nada teria percebido.</p><p>E permanecia, claro, a quest�o fundamental: havia uma liga��o entre o assassinato de Rebecka em 1949, o de Magda Lovisa em 1960 e o desaparecimento de Harriet Vanger em 1966? Em caso afirmativo, como Harriet Vanger soube disso?</p><p>No s�bado, Hartman acompanhou Mikael em um passeio sem muitas expectativas at� Norsj�. De manh�, visitaram cinco ex-funcion�rios da marcenaria que moravam suficientemente perto um do outro para que pudessem ir a p�. Tr�s moravam no centro e dois em S�rbyn, na periferia do vilarejo. Todos ofereceram caf�. Todos examinaram as fotos e sacudiram negativamente a cabe�a.</p><p>Ap�s um almo�o trivial na casa dos Hartman, sa�ram de carro para mais uma volta. Foram a quatro aldeias nos arredores de Norsj� onde moravam outros ex-funcion�rios da marcenaria. A cada parada, Hartman era calorosamente recebido, mas ningu�m foi capaz de ajud�-los. Mikael come�ava a se desesperar e a achar que a viagem a Norsj� n�o serviria para nada.</p><p>Por volta das quatro da tarde, Hartman estacionou o carro em frente a uma casa pintada de vermelho, t�pica do V�sterbotten, em Norsj�vallen, ao norte de Norsj�, e apresentou Mikael a Henning Forsman, marceneiro aposentado.</p><p>� Sim, � o filho de Assar Br�nnlund � disse Henning Forsman assim que Mikael mostrou a fotografia.</p><p><emphasis>Bingo!</emphasis></p><p>� E onde posso encontr�-lo?</p><p>� Esse rapaz? Bem, vai ter que cavar. Chamava-se Gunnar, morreu numa explos�o em meados dos anos 1970.</p><p><emphasis>Droga!</emphasis></p><p><emphasis>� </emphasis>Mas a mulher dele ainda est� viva. � essa da foto. Chama-se Mildred e mora em Bjursele.</p><p>� Bjursele?</p><p>� Fica a uns dez quil�metros logo que se pega a estrada de Bastutr�sk. Mora numa casinha vermelha � direita, na entrada na aldeia. A terceira casa. Conhe�o bem a fam�lia.</p><p>"Bom dia, meu nome � Lisbeth Salander. Estou fazendo uma tese de criminologia sobre a viol�ncia contra as mulheres no s�culo XX e gostaria de saber se � poss�vel passar no distrito policial de Landskrona para examinar documentos sobre um caso de 1957. Trata-se do assassinato de uma mulher de quarenta e cinco anos chamada Rakel Lunde. Por acaso sabe onde esses documentos podem estar hoje?"</p><p>Bjursele parecia uma publicidade viva da vida rural do V�sterbotten. A aldeia era composta de umas vinte casas, relativamente pr�ximas, que formavam um semic�rculo na extremidade de um lago. No meio da aldeia havia um cruzamento com uma placa indicando Hemmingen, 11 km, e outra apontando para Bastutr�sk, 17 km. Ao lado do cruzamento, uma pequena ponte cruzava um riacho que Mikael sup�s ser o <emphasis>sele </emphasis>de Bjursele. Nessa �poca, em pleno ver�o, era t�o bonito como um cart�o-postal.</p><p>Mikael estacionou no p�tio de um supermercado Konsum definitivamente fechado, do outro lado da estrada, a pouca dist�ncia da terceira casa � direita. Quando bateu � porta, ningu�m atendeu.</p><p>Andou durante uma hora pela estrada de Hemmingen. Passou num lugar onde o riacho se transformava numa torrente impetuosa, viu dois gatos e uma cabra antes de retornar, mas nenhum ser humano. A porta de Mildred Brannlund continuava fechada.</p><p>Num poste junto � ponte, um pequeno cartaz convidava para assistir ao BTCC, o <emphasis>Bjursele Tukting Car Championship 2002. </emphasis>Mikael olhou pensativamente para o cartaz. <emphasis>Tukt a car </emphasis>parecia ser uma distra��o de inverno que consistia em conduzir um ve�culo sobre o lago gelado at� arrebent�-lo.</p><p><emphasis>Esperou at� as dez da noite antes de desistir e retornar a Norsj�, onde jantou tarde e recolheu-se para terminar de ler o policial de Vai McDermid.</emphasis></p><p>Um final abomin�vel.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>�s dez da noite, Lisbeth Salander acrescentou outro nome � lista de Harriet Vanger. Fez isso com muita hesita��o, depois de refletir por horas.</p><p>Ela descobrira um atalho. Regularmente eram publicados artigos sobre crimes n�o solucionados, e no suplemento de um jornal vespertino topou com um artigo de 1999 intitulado "Matadores de mulheres continuam em liberdade". O artigo era conciso, mas trazia os nomes e as fotos de v�rias v�timas que fizeram correr muita tinta. O caso Solveig em Norrt�lje, o assassinato de Anita em Norrk�ping, o de Margareta em Helsingborg e uma s�rie de outros mist�rios.</p><p>Os casos mais antigos datavam dos anos 1960 e nenhum dos crimes figurava na lista que Mikael passara a Lisbeth. No entanto, um deles chamou sua aten��o.</p><p>Em junho de 1962, uma prostituta de trinta e dois anos, Lea Persson, de G�teborg, foi a Uddevalla para visitar sua m�e e seu filho de nove anos de quem a m�e tinha a guarda. Alguns dias depois, Lea abra�ou a m�e, despediu-se e partiu para pegar o trem de volta a G�teborg. Foi encontrada dois dias depois atr�s de um cont�iner abandonado num terreno baldio industrial. Fora violentada e seu corpo sofrera sev�cias particularmente brutais.</p><p>O assassinato de Lea foi objeto de v�rias mat�rias folhetinescas na imprensa, mas o culpado jamais foi identificado. O nome Lea n�o estava na lista de Harriet Vanger e nenhuma das cita��es b�blicas correspondia a esse crime.</p><p>Contudo, um detalhe muito bizarro levantou as antenas de Lisbeth Salander. A cerca de dez metros do local onde o corpo de Lea foi encontrado, descobriram um vaso de flores com um pombo dentro. Algu�m pusera um cord�o em volta do pesco�o do pombo e o puxara pelo buraco no fundo do vaso. Depois, o vaso foi colocado sobre um pequeno fogo entre dois tijolos. Nada provava que essa crueldade com o animal tivesse rela��o com o assassinato de Lea; talvez apenas crian�as se divertindo dessa maneira ign�bil. Na imprensa, por�m, o caso ficou conhecido como "O crime do pombo".</p><p>Lisbeth Salander n�o lia a B�blia � nem mesmo possu�a uma �, mas no fim da tarde foi at� a igreja de H�galid e, depois de insistir um pouco, emprestaram-lhe uma B�blia. Ela se instalou num banco no adro da igreja e leu o <emphasis>Lev�tico. </emphasis>Ao chegar ao cap�tulo XII, vers�culo 8, levantou as sobrancelhas. O cap�tulo XII falava da purifica��o da mulher que deu � luz:</p><p><emphasis>"Se as suas posses n�o lhe permitirem trazer um cordeiro, ela tomar� duas rolas ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para o sacrif�cio pelo pecado. O sacerdote far� por ela a expia��o e ela ser� purificada."</emphasis></p><p>Lea poderia perfeitamente ter figurado na lista de Harriet Vanger como Lea 31208.</p><p>De repente Lisbeth Salander percebeu que as investiga��es que fizera at� ent�o n�o possu�am, nem de longe, as dimens�es de sua atual miss�o.</p><p>Mildred Br�nnlund, que voltara a se casar e agora tinha o nome Berggren, atendeu Mikael Blomkvist quando ele bateu � sua porta �s dez horas da manh� do domingo. Com quarenta anos a mais, a mulher parecia ter engordado tamb�m uns quarenta quilos. Mas Mikael a reconheceu de imediato.</p><p>� Bom dia, meu nome � Mikael Blomkvist. � Mildred Berggren, imagino.</p><p>� Sim, sou eu.</p><p>� Desculpe incomod�-la, mas h� algum tempo venho tentando encontr�-la por causa de um assunto bastante dif�cil de explicar. � Mikael sorriu. � Ser� que posso entrar e tomar um pouquinho do seu tempo?</p><p>Como o marido de Mildred e seu filho de trinta e cinco anos estavam em casa, sem muita hesita��o ela convidou Mikael a entrar e a se sentar na cozinha. Mikael bebera mais caf� do que nunca nos �ltimos dias, mas sabia que uma recusa, no Norrrland, seria uma descortesia. Quando as x�caras foram postas na mesa, Mildred sentou-se e perguntou, muito curiosa, o que podia fazer por ele. Como Mikael n�o compreendia bem seu dialeto de Norsj�, ela passou a falar no sueco de Estocolmo.</p><p>Mikael respirou fundo.</p><p>� E uma longa e estranha hist�ria. Em setembro de 1966, a senhora estava em Hedestad com seu marido, na �poca Gunnar Br�nnlund.</p><p>Ela parecia estupefata. Ele esperou at� que ela assentisse com a cabe�a e depois colocou na mesa a foto tirada na rua da Esta��o.</p><p>� E ent�o tiraram essa foto. Lembra-se da ocasi�o?</p><p>� Santo Deus � disse Mildred Berggren. � Faz uma eternidade. O segundo marido e o filho olharam a foto por cima de seu ombro.</p><p>� Era uma viagem de n�pcias. Fomos a Estocolmo e a Sigtuna de carro, est�vamos voltando e simplesmente paramos em qualquer lugar. O senhor disse Hedestad?</p><p>� Sim, Hedestad. Essa foto foi tirada por volta da uma da tarde. J� h� algum tempo venho tentando identificar a senhora. N�o foi nada f�cil.</p><p>� Descobriu uma velha foto minha e me encontrou. Nem consigo imaginar como fez isso.</p><p>Mikael mostrou-lhe a foto do estacionamento.</p><p>� Foi gra�as a esta outra foto, tirada um pouco mais tarde no mesmo dia, que pude seguir sua pista. � Mikael explicou como, atrav�s da Marcenaria de Norsj�, encontrara Hartman, que, por sua vez, o levou a Henning Forsman em Norj�svallen.</p><p>� Suponho que tenha uma boa raz�o para estar fazendo essa estranha pesquisa.</p><p>� De fato. A jovem na foto diante da senhora chamava-se Harriet. Ela desapareceu nesse dia e muitos acham que foi morta. Por favor, deixe que eu lhe mostre.</p><p>Mikael pegou seu notebook e, enquanto o computador iniciava, foi explicando todo o contexto da hist�ria. Depois passou a sequ�ncia que mostrava a mudan�a de express�o do rosto de Harriet.</p><p>� Foi ao examinar essas fotos antigas que eu a vi. A senhora est� bem atr�s de Harriet, tem na m�o uma m�quina fotogr�fica e parece estar fotografando justamente o que ela est� vendo e que provocou essa rea��o nela. Sei que � uma aposta insensata. Mas a raz�o que me levou a procur�-la � que talvez a senhora ainda conserve as fotos desse dia.</p><p>Mikael esperava que Mildred Berggren abanasse as m�os dizendo que n�o sabia o que fora feito das fotos, que as jogara fora ou que o filme nunca fora revelado. Em vez disso, ela fitou Mikael com seus olhos azul-claros e anunciou, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que ainda guardava todas as fotos de suas viagens.</p><p>Foi at� outro c�modo e voltou depois de um minuto ou dois com uma caixa contendo �lbuns onde havia um grande n�mero de fotos. N�o demorou muito para encontrar as da viagem a Hedestad. Ela tirara tr�s fotos na cidade. Uma estava desfocada e mostrava a rua principal. Na outra estava seu ex-marido. Na terceira, viam-se os palha�os no desfile.</p><p>Mikael se aproximou, muito excitado. Viu uma pessoa do outro lado da rua. A foto n�o lhe dizia absolutamente nada.</p><empty-line/><p><strong>20. TER�A-FEIRA 1� DE JULHO �  QUARTA-FEIRA 2 DE JULHO</strong></p><p>A primeira coisa que Mikael fez de manh� assim que chegou a Hedestad foi procurar Dirch Frode para ter not�cias de Henrik Vanger. O estado de sa�de do velho havia melhorado consideravelmente durante a semana. Ainda estava fraco e fr�gil, mas j� podia se sentar na cama. Seu estado n�o era mais considerado cr�tico.</p><p>� Gra�as a Deus! � disse Mikael. � Descobri que gosto muito dele.</p><p>� Eu sei. Henrik tamb�m gosta de voc� � respondeu Frode balan�ando a cabe�a. � E a viagem ao Grande Norte, como foi?</p><p>� Bem-sucedida e insatisfat�ria. Mais tarde eu conto. Agora tenho uma pergunta a lhe fazer.</p><p>� Diga.</p><p>� O que acontecer� � <emphasis>Millennium </emphasis>se Henrik falecer?</p><p>� Nada de especial. Martin assumir� o lugar dele no conselho administrativo.</p><p>� H� um risco, mesmo hipot�tico, de que Martin crie problemas para a <emphasis>Millennium </emphasis>se eu n�o parar de investigar o desaparecimento de Harriet Vanger?</p><p>Dirch Frode lan�ou um olhar inquiridor a Mikael.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� Para dizer a verdade, nada. � Mikael relatou a conversa que teve com Martin na noite de S�o Jo�o. � Quando voltei de Norsj�, Erika me telefonou para dizer que Martin entrou em contato com ela e lhe pediu que insistisse comigo que eles est�o precisando de mim na reda��o.</p><p>� Entendo. Suponho que Cecilia foi importun�-lo. Mas n�o acredito que Martin faria barganhas. Ele � muito honesto para isso. E lembre-se que eu tamb�m participo do conselho administrativo da pequena sociedade paralela que criamos no momento que entramos na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Mas, caso a situa��o se complique, qual seria a posi��o dele?</p><p>� Contratos s�o feitos para ser respeitados. Trabalho para Henrik. Ele e eu somos amigos h� quarenta e cinco anos e atuamos mais ou menos da mesma forma nesse tipo de contexto. Se Henrik morrer, serei eu, e n�o Martin, o sucessor dele na sociedade paralela. O contrato estipula claramente que nos comprometemos a gerar recursos para a <emphasis>Millennium </emphasis>durante quatro anos. Se Martin quiser criar obst�culos � o que n�o acredito �, poder�, teoricamente, barrar a entrada de alguns novos anunciantes.</p><p>� O que � a base da exist�ncia da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Sim, mas considere as coisas deste modo: entregar-se a tais baixezas toma tempo. Martin est� lutando por sua pr�pria sobreviv�ncia industrial e trabalha catorze horas por dia. N�o tem tempo de se dedicar a outras coisas.</p><p>Mikael ficou em sil�ncio, pensativo.</p><p>� Se me permite uma pergunta: sei que isto n�o me diz respeito, mas qual � a situa��o geral do grupo?</p><p>Dirch Frode assumiu um ar mais grave.</p><p>� Estamos com problemas.</p><p>� Certo, mesmo um simples jornalista econ�mico como eu percebeu isso. Mas at� que ponto s�o problemas s�rios?</p><p>� Promete que fica entre n�s?</p><p>� Com certeza.</p><p>� Nas �ltimas semanas perdemos dois grandes pedidos na ind�stria eletr�nica e estamos sendo ejetados do mercado russo. Em setembro, seremos obrigados a demitir mil e seiscentos funcion�rios em �rebro e em Trollh�ttan. Uma triste recompensa para pessoas que trabalham h� tantos anos no grupo. Sempre que fechamos uma f�brica, a confian�a no grupo fica abalada.</p><p>� Martin est� sob press�o?</p><p>� � um boi de carga pisando em ovos.</p><p>Mikael voltou para casa e ligou para Erika. Ela n�o estava na reda��o e ele discutiu o assunto com Christer Malm.</p><p>� E o seguinte: Erika me telefonou ontem quando voltei de Norsj�. Martin Vanger conversou com ela e a estimulou, por assim dizer, a propor que eu voltasse a trabalhar na reda��o.</p><p>� � o que eu tamb�m acho � disse Christer.</p><p>� Entendo. Mas o fato � que tenho um contrato com Henrik Vanger que n�o posso romper e Martin age a pedido de uma pessoa que deseja que eu pare de investigar e desapare�a da aldeia. A proposta dele, portanto, n�o passa de uma tentativa de me afastar daqui.</p><p>� Entendo.</p><p>� Diga a Erika que s� voltarei para Estocolmo quando eu tiver terminado tudo, n�o antes.</p><p>� Est� bem, transmitirei seu recado. Mas voc� � completamente louco.</p><p>� Christer, est� acontecendo algo aqui, e eu n�o tenho a menor inten��o de recuar.</p><p>Christer deu um forte suspiro.</p><p>Mikael foi procurar Martin Vanger. Eva Hassel abriu a porta e o saudou amigavelmente.</p><p>� Bom dia. Martin est�?</p><p>Em resposta � pergunta, Martin apareceu com sua pasta de executivo na m�o. Beijou o rosto de Eva e cumprimentou Mikael.</p><p>� Estou indo para o escrit�rio. Quer falar comigo?</p><p>� Posso esperar, se est� com pressa.</p><p>� Vamos, fale.</p><p>� N�o tenho a inten��o de voltar para a reda��o da <emphasis>Millennium </emphasis>antes de terminar o trabalho que Henrik me confiou. Aviso desde j�, para que n�o conte comigo no conselho administrativo antes do fim do ano.</p><p>Martin Vanger balan�ou-se nos calcanhares para a frente e para tr�s.</p><p>� Entendo. Acha que estou querendo me livrar de voc�. � Fez uma pausa. � Mikael, falaremos disso mais tarde. N�o tenho realmente tempo para me dedicar a uma atividade no conselho administrativo da revista e preferia n�o ter aceitado a proposta de Henrik. Mas, acredite, farei o melhor que puder para que a <emphasis>Millennium </emphasis>sobreviva.</p><p>� Nunca duvidei disso � respondeu Mikael polidamente.</p><p>� Faremos uma reuni�o na semana que vem para avaliar toda a situa��o financeira e depois eu lhe darei uma opini�o a esse respeito. Mas acredito sinceramente que a <emphasis>Millennium </emphasis>n�o pode se dar ao luxo de ter um de seus principais representantes ocioso aqui em Hedeby�n. Gosto da revista e estou certo de que poderemos recuper�-la, mas voc� � indispens�vel para esse trabalho. Quanto a mim, vejo-me pressionado por um conflito de interesses: seguir a vontade de Henrik ou cumprir meu trabalho no conselho administrativo da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>Mikael vestiu uma roupa esportiva e saiu para praticar <emphasis>jogging </emphasis>at� a Fortifica��o. Depois passou pela cabana de Gottfried antes de voltar, num ritmo mais lento, beirando a praia. Dirch Frode estava sentado � mesa do jardim. Ele esperou pacientemente que Mikael esvaziasse uma garrafa de �gua e enxugasse o rosto.</p><p>� Tem certeza de que � bom para a sa�de com esse calor?</p><p>� Ora, vamos! � respondeu Mikael.</p><p>� Eu me enganei. N�o � Cecilia quem est� importunando Martin. � Isabella que est� mobilizando todo o cl� Vanger para arrancar as suas penas e, se poss�vel, assar voc� na panela. Ela � apoiada por Birger.</p><p>� Isabella?</p><p>� � uma mulher maldosa e mesquinha que, de modo geral, n�o gosta de ningu�m. Neste momento, o �dio dela se dirige a voc� em particular. Espalhou boatos de que voc� � um vigarista que convenceu Henrik a contrat�-lo e que o excitou a ponto de causar-lhe um infarto.</p><p>� E algu�m acreditou nisso?</p><p>� H� sempre gente pronta a acreditar nas m�s-l�nguas.</p><p>� Estou tentando descobrir o que aconteceu com a filha dela e ela me odeia. Se fosse a minha filha, acho que eu reagiria de outro modo.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Por volta das duas da tarde, o celular de Mikael tocou.</p><p>� Bom dia, meu nome � Cony Torsson, trabalho no <emphasis>Hedestads-Kuriren. </emphasis>Teria um tempinho para responder a algumas perguntas? Obtivemos informa��es confidenciais de que est� morando aqui na aldeia.</p><p>� Nesse caso as informa��es demoraram um pouco a chegar. Estou morando aqui desde 1� de janeiro.</p><p>� Eu n�o sabia. E o que faz em Hedeby?</p><p>� Estou escrevendo. E tendo uma esp�cie de ano sab�tico.</p><p>� Est� escrevendo sobre o qu�?</p><p>� Saber� quando for publicado.</p><p>� Voc� acaba de sair da pris�o...</p><p>� E...?</p><p>� Qual � a sua opini�o sobre jornalistas que falsificam dados?</p><p>� Jornalistas que falsificam dados s�o imbecis.</p><p>� Est� querendo dizer que � um imbecil?</p><p>� Por que eu diria isso? Nunca falsifiquei dados.</p><p>� Mas foi condenado por difama��o.</p><p>� E...?</p><p>O rep�rter Conny Torsson hesitou tanto tempo que Mikael foi obrigado a explicar.</p><p>� Fui condenado por difama��o, n�o por ter falsificado dados.</p><p>� Mas publicou esses dados.</p><p>� Se telefonou para falar da minha condena��o, n�o tenho nenhum coment�rio a fazer.</p><p>� Gostaria de entrevist�-lo.</p><p>� Sinto muito, nada tenho a dizer sobre esse assunto.</p><p>� Ent�o n�o quer conversar sobre o processo?</p><p>� Isso mesmo � respondeu Mikael, pondo fim � conversa. Ele refletiu um bom tempo antes de voltar ao computador.</p><p>Lisbeth Salander seguiu as instru��es que lhe deram e cruzou a ponte na sua Kawasaki. Parou diante da primeira casa � esquerda. Era um lugar distante, mas estaria disposta a ir ao P�lo Norte se estivesse sendo paga para isso. Al�m do mais, fora bom correr a toda a velocidade pela rodovia E4. Estacionou a moto e desatou a correia que prendia sua sacola de viagem.</p><p>Mikael Blomkvist abriu a porta e acenou com a m�o. Saiu e inspecionou a moto com um assombro sincero.</p><p>� Uau! Voc� veio de moto!</p><p>Lisbeth Salander n�o disse nada, mas observou-o atentamente tocar o volante e experimentar o acelerador. Ela n�o gostava que mexessem nas suas coisas, mas viu o sorriso dele, um sorriso de garoto, e considerou aquilo como uma circunst�ncia atenuante. Em geral, as pessoas interessadas por motocicletas sentiam desprezo pela sua moto de baixa cilindrada.</p><p>� Quando eu tinha dezenove anos, tive uma moto � disse Mikael virando-se para ela. � Obrigado por ter vindo. Entre. Vou mostrar a casa.</p><p>Mikael pedira emprestada uma cama de armar a Nilsson, do outro lado da estrada, e a instalara na saleta de trabalho. Desconfiada, Lisbeth Salander deu uma volta pela casa, mas relaxou ap�s constatar que n�o havia nenhuma armadilha. Mikael indicou o banheiro.</p><p>� N�o quer tomar um banho e se refrescar?</p><p>� Preciso me trocar. N�o pretendo ficar com este macac�o de couro.</p><p>� V�, enquanto isso eu vou fazendo o jantar.</p><p>Mikael preparou costeletas de cordeiro ao molho de vinho tinto e p�s a mesa fora, enquanto Lisbeth tomava um banho e trocava de roupa. Saiu de p�s descal�os, vestindo uma regata preta e uma saia jeans curta. O cheiro da comida era bom e ela devorou duas por��es. Mikael observou discretamente sua tatuagem nas costas.</p><p>Cinco mais tr�s � disse Lisbeth Salander. � Cinco casos da lista da sua Harriet e mais tr�s que, na minha opini�o, tamb�m deveriam figurar.</p><p>� Me conte tudo.</p><p>� Faz apenas onze dias que trabalho nisso e n�o tive tempo de ver todos os inqu�ritos policiais. Alguns foram transferidos para os arquivos nacionais, outros ainda est�o no distrito respons�vel pelo caso. Em um dia visitei tr�s distritos diferentes, n�o deu tempo de fazer mais. Mas os cinco est�o identificados.</p><p>Lisbeth Salander p�s uma pilha impressionante de pap�is sobre a mesa, mais de quinhentas folhas de papel of�cio. Rapidamente distribuiu o material em diferentes partes.</p><p>� Vamos ver por ordem cronol�gica. � Ela entregou uma lista a Mikael.</p><p>1949 � Rebecka Jacobsson, Hedestad (30112)</p><p>1954 � Mari Holmberg, Kalmar (32018)</p><p>1957 � Rakel Lunde, Landskrona (32027)</p><p>1960 � (Magda) Lovisa Sj�berg, Karlstad (32016)</p><p>1960 � Liv Gustavsson, Estocolmo (32016)</p><p>1962 � Lea Persson, Uddevalla (31208)</p><p>1964 � Sara Witt, Ronneby (32109)</p><p>1966 � Lena Andersson, Uppsala (30112)</p><p>� O primeiro caso dessa s�rie parece ser Rebecka Jacobsson, 1949, do qual voc� j� conhece os detalhes. O caso seguinte que encontrei � Mari Holmberg, uma prostituta de trinta e dois anos de Kalmar, morta em sua casa em outubro de 1954. N�o se sabe exatamente quando ela foi assassinada, pois s� foi encontrada algum tempo depois, provavelmente nove ou dez dias.</p><p>� E como voc� fez a liga��o entre ela e a lista de Harriet?</p><p>� Ela tinha as m�os e os p�s amarrados e o corpo coberto de ferimentos terr�veis, mas a causa da morte foi asfixia. O assassino enfiou um guardanapo na garganta dela.</p><p>Mikael ficou em sil�ncio antes de abrir a B�blia no local indicado, cap�tulo XX do <emphasis>Lev�tico, </emphasis>vers�culo 18.</p><p><emphasis>"Se um homem dormir com uma mulher durante o tempo de sua menstrua��o e vir a sua nudez, descobrindo o seu fluxo e descobrindo-o ela mesma, ser�o ambos cortados do meio de seu povo."</emphasis></p><p>Lisbeth concordou com a cabe�a.</p><p>� Harriet Vanger fez a mesma liga��o. Bem, vamos ao pr�ximo.</p><p>� Maio de 1957, Rakel Lunde, quarenta e cinco anos. Era dona de casa e considerada uma esp�cie de exc�ntrica da regi�o. Via a sorte das pessoas consultando as cartas, lendo a m�o e coisas do g�nero. Rakel morava numa casa bem isolada na periferia de Landskrona, onde foi morta ao amanhecer. Encontraram-na nua e amarrada a um varal de roupa no p�tio, com a boca tapada por uma fita adesiva. Causa da morte: foi agredida com uma pedra pesada v�rias vezes. Apresentava v�rias contus�es e fraturas.</p><p>� Que horror, Lisbeth! Tudo isso � monstruoso.</p><p>� E � s� o come�o. As iniciais RL coincidem � achou a cita��o?</p><p>� � evidente. <emphasis>"Qualquer homem ou mulher que evocar os esp�ritos ou fizer adivinha��es, ser� morto. Ser�o apedrejados e levar�o a sua culpa."</emphasis></p><p>� A seguir vem Lovisa Sj�berg em Ranmo, perto de Karlstad. � a que Harriet se refere como Magda. Seu nome completo era Magda Lovisa, mas todos a chamavam de Lovisa.</p><p>Mikael escutou com aten��o Lisbeth relatar os detalhes bizarros do assassinato de Karlstad. Quando ela acendeu um cigarro, ele a interrogou com o olhar, mostrando o ma�o. Ela o empurrou para ele.</p><p>� Ent�o o assassino tamb�m atacou o animal?</p><p>� A B�blia diz que, se uma mulher se acasala com um animal, os dois ser�o mortos.</p><p>� Mas � pouco prov�vel que essa mulher tenha se acasalado com uma vaca!</p><p>� A cita��o pode ser interpretada em sentido amplo. Basta que ela tenha entrado em contato com um animal, o que uma propriet�ria rural certamente precisa fazer todos os dias.</p><p>� Certo. Continue.</p><p>� O pr�ximo caso da lista de Harriet � Sara. Identifiquei-a como Sara Witt, trinta e sete anos, residente em Ronneby. Foi morta em janeiro de 1964. Encontraram-na amarrada � cama. Sofreu graves sev�cias sexuais, mas a causa da morte foi asfixia. Morreu estrangulada. O assassino tamb�m provocou um inc�ndio criminoso. A inten��o era que a casa toda queimasse, s� que uma parte do fogo s� extinguiu sozinha e outra parte foi controlada pelos bombeiros.</p><p>� E a liga��o?</p><p>� Escute mais um pouco. Sara Witt era filha de pastor e mulher de pastor. O marido estava fora justamente naquele fim de semana.</p><p>� <emphasis>"Se a filha de um sacerdote se desonrar pela prostitui��o, ela desonra o pai; ser� queimada no fogo." </emphasis>De fato, confere com a lista. Voc� disse que descobriu outros casos.</p><p>� Descobri outras tr�s mulheres mortas em circunst�ncias t�o estranhas que poderiam ter figurado na lista de Harriet. O primeiro caso � o de uma jovem chamada Liv Gustavsson. Ela tinha vinte e dois anos e morava em Farsta.</p><p>Era apaixonada por equita��o; participava de competi��es e era muito bem-dotada. Tinha tamb�m uma pequena <emphasis>pet shop </emphasis>com a irm�.</p><p>� E?</p><p>� Foi encontrada na loja, onde ficara sozinha at� mais tarde fazendo a contabilidade. Deve ter deixado o assassino entrar voluntariamente. Foi estuprada e estrangulada.</p><p>� Isso n�o parece ter muito a ver com a lista de Harriet.</p><p>� N�o, se n�o fosse por uma coisa. O assassino encerrou seu trabalho enfiando um periquito na vagina dela e soltando todos os animais que havia na loja. Gatos, tartarugas, <emphasis>hamsters, </emphasis>coelhos, aves. At� os peixes do aqu�rio. Imagine o espet�culo terr�vel que a irm� presenciou na manh� seguinte.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Ela foi morta em agosto de 1960, quatro meses depois do assassinato de Magda Lovisa em Karlstad. Nos dois casos, trata-se de mulheres cuja profiss�o as punham em contato com animais, e em ambos houve sacrif�cio de animais. A vaca em Karlstad sobreviveu, � verdade, mas imagino que seja bem dif�cil matar uma vaca com uma simples facada. Matar um periquito � mais f�cil. Sem contar que h� um outro sacrif�cio de animal na lista.</p><p>� Qual?</p><p>� Lisbeth contou do estranho "Crime do pombo" de Lea Persson em Uddevalla. Mikael ficou refletindo tanto tempo em sil�ncio que Lisbeth se impacientou.</p><p>� Certo, concordo com a sua teoria � ele acabou por dizer. � H� mais um caso.</p><p>� Um dos que descobri. N�o sei quantos outros me escaparam.</p><p>� Me conte.</p><p>� Fevereiro de 1966, em Uppsala. A v�tima, a mais jovem de todas, foi uma colegial de dezessete anos chamada Lena Andersson. Desapareceu ap�s uma festa da sua turma e foi encontrada tr�s dias depois numa vala da plan�cie de Uppsala, bastante longe da cidade. Foi morta em outro lugar e levada para l�.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Esse assassinato deu o que falar, mas as circunst�ncias exatas sobre a morte nunca foram divulgadas. A mo�a foi torturada de maneira atroz. Li o relat�rio do legista. Foi torturada com fogo; as m�os e os seios estavam gravemente queimados e o corpo apresentava queimaduras em diversos pontos. Foram encontradas manchas de estearina, sugerindo que uma vela deve ter sido utilizada, mas as m�os estavam t�o carbonizadas que certamente foram postas num fogo mais intenso. Para terminar, o assassino serrou a cabe�a e a deixou ao lado do corpo. Mikael empalideceu.</p><p>� Meu Deus! � disse.</p><p>� N�o encontrei nenhuma cita��o b�blica que encaixe, mas h� v�rias passagens que falam de imola��o e de sacrif�cio pelo pecado, e em alguns trechos se preconiza que o animal de sacrif�cio, geralmente um touro, seja decepado de modo que <emphasis>a cabe�a se separe da gordura. </emphasis>A utiliza��o do fogo lembra tamb�m o primeiro assassinato, o de Rebecka aqui em Hedestad.</p><p>Quando os mosquitos come�aram sua dan�a noturna, Mikael e Lisbeth deixaram a mesa de jardim e se instalaram na cozinha para continuar a conversa.</p><p>� O fato de voc� n�o ter encontrado uma cita��o b�blica exata n�o quer dizer grande coisa. N�o se trata de cita��es, mas de uma par�dia grotesca do que diz a B�blia; s�o mais associa��es com vers�culos esparsos.</p><p>� Eu sei. Um exemplo dessa falta de l�gica � a cita��o de que os dois devem ser exterminados se um homem faz amor com uma mulher menstruada. Se interpretarmos literalmente, o assassino deveria ter se suicidado.</p><p>� E tudo isso nos leva a qu�? � perguntou Mikael.</p><p>� Ou a sua Harriet tinha o estranho <emphasis>hobby </emphasis>de colecionar cita��es b�blicas para associ�-las a v�timas de crimes dos quais ouviu falar, ou ela sabia da exist�ncia de uma liga��o entre os crimes.</p><p>� Entre 1949 e 1966, talvez antes e depois tamb�m, teria existido um louco furioso e s�dico que andou com uma B�blia debaixo do bra�o matando mulheres durante dezessete anos sem que ningu�m tivesse feito uma liga��o entre os crimes. Parece inacredit�vel.</p><p>Lisbeth Salander afastou a cadeira e foi buscar caf� no fog�o. Acendeu um cigarro e soprou a fuma�a ao redor. Mikael praguejou por dentro e lhe pediu mais um cigarro.</p><p>� N�o, n�o � nada inacredit�vel. Primeiro � disse ela erguendo o polegar �, h� dezenas e dezenas de assassinatos de mulheres n�o solucionados na Su�cia do s�culo XX. Certa vez ouvi Persson, o professor de criminologia, dizer na tev� que os assassinos seriais s�o muito raros na Su�cia, embora alguns jamais tenham sido identificados.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. Ela levantou um segundo dedo.</p><p>� Esses crimes foram cometidos num per�odo muito longo e em diferentes regi�es do pa�s. Dois ocorreram sucessivamente em 1960, mas em circunst�ncias relativamente diferentes � uma camponesa em Karlstad e uma mo�a de vinte e dois anos apaixonada por equita��o em Estocolmo.</p><p>Tr�s dedos.</p><p>� N�o h� um esquema claro, marcante. Os crimes foram cometidos de formas diferentes e n�o h� uma verdadeira assinatura, apesar de alguns elementos retornarem toda vez. Animais. Fogo. Viol�ncias sexuais graves. E, como voc� disse, uma par�dia de conhecimentos b�blicos. Mas, pelo que se sabe, nenhum dos investigadores da pol�cia usou a B�blia para interpretar os crimes.</p><p>Mikael concordou com a cabe�a e a examinou discretamente. Com seu corpo fr�gil, sua regata preta, as tatuagens e os piercings no rosto, Lisbeth Salander era de fato uma figura estranha na casa dos convidados em Hedeby. Quando ele tentara ser soci�vel durante o jantar, ela permaneceu taciturna e mal respondeu. Mas trabalhando era uma profissional dos p�s � cabe�a. Seu apartamento em Estocolmo parecia uma ru�na ap�s um bombardeio, por�m Mikael foi obrigado a reconhecer que Lisbeth Salander tinha a cabe�a muito bem organizada. <emphasis>Que estranho!</emphasis></p><p>� � dif�cil ver a rela��o entre uma prostituta de Uddevalla assassinada atr�s de um container num terreno baldio industrial e a mulher do pastor de Ronneby estrangulada e v�tima de um inc�ndio criminoso. A menos que encontremos a chave que Harriet nos deixou, � claro.</p><p>� O que nos leva � pr�xima quest�o � disse Lisbeth.</p><p>� Como Harriet foi se envolver com toda essa merda? Ela, uma menina de dezesseis anos que vivia num meio bastante protegido.</p><p>� S� h� uma resposta � disse ela. Mikael assentiu com a cabe�a outra vez.</p><p>� Existe, necessariamente, uma liga��o com a fam�lia Vanger.</p><p>Por volta das onze da noite, eles haviam repassado a s�rie de crimes e discutido rela��es e detalhes curiosos, a ponto de os pensamentos girarem sem parar na cabe�a de Mikael. Ele esfregou os olhos, se espregui�ou e perguntou se Lisbeth n�o tinha vontade de dar uma caminhada. Ela pareceu achar esse tipo de exerc�cio uma perda de tempo, mas, depois de refletir um instante, concordou. Mikael sugeriu que ela vestisse uma cal�a comprida por causa dos mosquitos.</p><p>Deram uma volta pelo porto de recreio, passaram junto � ponte e seguiram em dire��o ao promont�rio onde Martin Vanger morava. Mikael apontou as casas e contou quem eram seus moradores. Teve dificuldade de falar sobre Cecilia Vanger quando mostrou sua casa. Lisbeth olhou para ele discretamente.</p><p>Passaram em frente ao luxuoso iate de Martin Vanger e chegaram ao promont�rio, onde se sentaram numa pedra e dividiram um cigarro.</p><p>� H� um outro tipo de liga��o entre as v�timas � disse Mikael de repente. � Talvez j� tenha lhe ocorrido isso.</p><p>� O qu�?</p><p>� Os prenomes.</p><p>Lisbeth Salander refletiu por um instante e depois balan�ou negativamente a cabe�a.</p><p>� Todas t�m prenomes b�blicos.</p><p>� N�o, n�o � verdade � respondeu Lisbeth vivamente. � N�o h� nem Liv nem Lena na B�blia.</p><p>� Pois eu digo que sim � replicou Mikael. � Liv significa "viver", que � o sentido b�blico do prenome Eva. E, pense um pouco, Lisbeth: Lena � uma redu��o de qu�?</p><p>Lisbeth Salander contraiu os olhos com for�a, irritada consigo mesma. Mikael raciocinara mais r�pido que ela, e ela n�o gostava disso.</p><p>� De Magdalena, assim como Magda. Ou seja, Madalena � ela disse.</p><p>� A pecadora, a primeira mulher, a Virgem Maria... eis todas elas reunidas. � uma hist�ria bem maluca, capaz de fundir a cabe�a de qualquer psic�logo. Mas, na verdade, ainda estou pensando em outra coisa sobre os prenomes.</p><p>Lisbeth aguardou pacientemente.</p><p>� S�o tamb�m prenomes femininos judaicos tradicionais. A fam�lia Vanger teve um bom contingente de doidos anti-semitas, nazistas e te�ricos da conspira��o. Harald Vanger, no topo da lista, tem mais de noventa anos e estava no auge de sua forma nos anos 1960. A �nica vez em que o encontrei, disse com desprezo que sua filha era uma puta. Ele claramente tem problemas com as mulheres.</p><p>De volta � casa, eles prepararam sandu�ches e esquentaram o caf�. Mikael lan�ou um olhar �s quinhentas p�ginas que a investigadora favorita de Dragan Armanskij havia produzido.</p><p>� Fez um trabalho de pesquisa fant�stico num tempo recorde. Obrigado. E obrigado tamb�m pela gentileza de vir at� aqui me trazer o relat�rio.</p><p>� E o que faremos agora? � perguntou Lisbeth.</p><p>� Falarei com Dirch Frode amanh� de manh� para que paguem voc�.</p><p>� N�o foi isso que eu quis dizer. Mikael olhou para ela.</p><p>� Bem... o trabalho de pesquisa para o qual eu a contratei terminou � ele disse com prud�ncia.</p><p>� Ainda n�o acabei de resolver essa hist�ria.</p><p>Mikael inclinou-se para tr�s no banco da cozinha e sondou os olhos dela. N�o conseguiu detectar absolutamente nada. Durante seis meses havia trabalhado sozinho no desaparecimento de Harriet e de repente outra pessoa � uma investigadora habilidosa � captava todas as implica��es do caso. Ele tomou uma s�bita decis�o.</p><p>� Entendo. Essa hist�ria tamb�m est� mexendo com os meus nervos. Falarei com Dirch Frode amanh�. Contrataremos voc� por mais uma semana ou duas como... humm... assistente de pesquisa. N�o sei se ele est� disposto a pagar o mesmo que paga a Armanskij, mas daremos um jeito de conseguir uma remunera��o satisfat�ria.</p><p>Lisbeth agradeceu com um breve sorriso. Ela n�o tinha a menor vontade de ficar inativa e teria aceitado de bom grado o trabalho de gra�a.</p><p>� Vou dormir � ela anunciou. E, sem dizer mais nada, foi para o quarto e fechou a porta.</p><p>Dez minutos depois, abriu a porta e p�s a cabe�a para fora.</p><p>� Acho que voc� est� enganado. Ele n�o � um assassino serial, um doente que leu a B�blia demais. � simplesmente um canalha ordin�rio que odeia as mulheres.</p><empty-line/><p><strong>21. QUINTA-FEIRA 3 DE JULHO � QUINTA-FEIRA 10 DE JULHO</strong></p><p>Lisbeth Salander acordou antes de Mikael, �s seis da manh�. P�s a �gua do caf� para esquentar e tomou um banho. Quando Mikael acordou por volta das sete e meia, encontrou-a lendo seu resumo do caso Harriet Vanger no notebook. Foi at� a cozinha, com uma toalha de banho em volta da cintura, e esfregou os olhos para espantar o sono.</p><p>� O caf� est� pronto � disse Lisbeth. Mikael olhou por cima do ombro dela.</p><p>� Esse documento estava protegido por uma senha de acesso � disse. Ela virou a cabe�a e olhou para ele.</p><p>� Em trinta segundos pode-se baixar um programa na internet que abre as senhas do Word � ela disse.</p><p>� N�s dois precisamos ter uma conversinha sobre o que lhe pertence e o que me pertence � disse Mikael, e foi tomar seu banho.</p><p>Quando voltou, Lisbeth j� havia fechado e recolocado o computador de Mikael na saleta de trabalho, e trabalhava no seu pr�prio Powerbook. Ele podia jurar que ela j� havia transferido todo o conte�do do seu computador para o dela.</p><p>Lisbeth Salander era uma <emphasis>junkie </emphasis>da inform�tica com uma concep��o muito liberal a respeito de moral e �tica.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael tinha acabado de se sentar � mesa para tomar o caf�-da-manh�, quando bateram � porta. Ao abrir, deu com um Martin Vanger t�o crispado que, por um instante, acreditou que ele vinha anunciar a morte de Henrik.</p><p>� N�o, o estado de Henrik continua o mesmo. Venho por outro motivo. Ser� que posso entrar um momento?</p><p>Mikael o fez entrar e o apresentou � sua "colaboradora" Lisbeth Salander. Ela o cumprimentou com um breve aceno de cabe�a antes de voltar ao computador. Martin Vanger respondeu com uma sauda��o autom�tica, mas dava a impress�o de estar t�o distra�do que nem pareceu not�-la. Mikael serviu-lhe uma x�cara de caf� e o convidou a se sentar.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� Voc� � assinante do <emphasis>Hedestads-Kuriren?</emphasis></p><p>� N�o. Leio o jornal de vez em quando no Caf� Susanne.</p><p>� Ent�o n�o leu a edi��o de hoje?</p><p>� Pelo jeito, acho que eu deveria ter lido.</p><p>Martin Vanger p�s o <emphasis>Hedestads-Kuriren </emphasis>em cima da mesa, na frente de Mikael. Havia duas colunas dedicadas a ele na primeira p�gina, com uma continua��o na p�gina 4. Ele leu a manchete.</p><p>jornalista condenado por difama��o se esconde entre n�s</p><p>O texto era ilustrado por uma foto de Mikael saindo de casa, tirada da igreja, do outro lado da ponte, com teleobjetiva.</p><p>O rep�rter Conny Torsson tra�ava um perfil grosseiro e devastador de Mikael. O artigo recapitulava o caso Wennerstr�m, sublinhava que Mikael deixara a <emphasis>Millennium </emphasis>com o rabo entre as pernas e que acabava de amargar uma pena de pris�o. O texto terminava informando, segundo a f�rmula-padr�o, que Mikael se recusara a conceder uma entrevista ao <emphasis>Hedestads-Kuriren. </emphasis>A id�ia da mat�ria era fazer o habitante de Hedestad acreditar que um vagabundo da capital, um indiv�duo perigoso, se encontrava nas imedia��es. Nenhuma das afirma��es era abertamente caluniosa, mas todas procuravam jogar uma luz suspeita sobre Mikael; a foto e o texto adotavam a linha "descri��o de terroristas pol�ticos". <emphasis>A Millennium </emphasis>era apresentada como uma "revista de agitadores" pouco digna de cr�dito, e o livro de Mikael sobre jornalismo econ�mico como um amontoado de afirma��es destinadas a denegrir jornalistas respeitados.</p><p>� Mikael... n�o tenho palavras para dizer o que senti quando li esse artigo. � ign�bil.</p><p>� � cobra mandada � respondeu Mikael calmamente. Ele perscrutou Martin Vanger com o olhar.</p><p>� Espero que n�o pense que eu tenho algo a ver com isso. Mal consegui engolir meu caf� hoje de manh�, ao ler o jornal.</p><p>� Quem teria sido?</p><p>� Dei alguns telefonemas agora h� pouco. Conny Torsson est� cobrindo f�rias de ver�o. Mas ele fez esse trabalho a pedido de Birger.</p><p>� N�o sabia que Birger tinha influ�ncia na reda��o. Pensei que fosse apenas conselheiro municipal e pol�tico.</p><p>� Formalmente n�o tem influ�ncia alguma. Mas o redator-chefe do <emphasis>Kuriren </emphasis>� Gunnar Karlman, filho de Ingrid Vanger, do ramo Johan Vanger. Birger e Gunnar s�o amigos �ntimos h� muitos anos.</p><p>� Entendo.</p><p>� Torsson ser� despedido imediatamente.</p><p>� Que idade ele tem?</p><p>� N�o sei. Para dizer a verdade, nunca o vi.</p><p>� N�o o demita. Quando ele me telefonou, parecia bastante jovem e um rep�rter pouco experiente.</p><p>� Mas isso n�o pode ficar assim.</p><p>� Se quer saber minha opini�o, acho um pouco absurdo o redator-chefe de um jornal que pertence � fam�lia Vanger atacar outro peri�dico que tem Henrik Vanger como s�cio e de cujo conselho administrativo voc� participa. O redator-chefe Karlman est� atacando Henrik e voc�.</p><p>Martin Vanger pesou as palavras de Mikael e assentiu lentamente com a cabe�a.</p><p>� Entendo o que quer dizer. Eu deveria apurar melhor as responsabilidades. Karlman tem participa��es no grupo e sempre tentou me atacar pelas costas, mas isso est� me parecendo mais uma vingan�a do Birger por voc� ter batido boca com ele no corredor do hospital. Para ele, voc� � uma pedra no sapato.</p><p>� Sim, e � por isso que acho Torsson o mais inocente de todos. � muito raro um jovem jornalista substituto dizer n�o quando o redator-chefe lhe ordena que escreva desse ou daquele modo.</p><p>� Posso exigir que lhe apresentem desculpas p�blicas nas p�ginas de amanh�.</p><p>� N�o fa�a isso. O �nico resultado seria uma luta intermin�vel, o que s� pioraria a situa��o.</p><p>� Est� querendo me dizer que n�o devo fazer nada?</p><p>� Sim, ser� melhor. Karlman inventar� hist�rias, e voc� corre o risco de ser classificado como um propriet�rio com vontade de influenciar de maneira il�cita a opini�o do p�blico.</p><p>� Desculpe, Mikael, mas n�o concordo com voc�. Tamb�m tenho o direito de emitir minha opini�o. Acho esse artigo imundo e tenho a inten��o de deixar bem claro o que penso. Afinal, sou o suplente de Henrik na dire��o da <emphasis>Millennium </emphasis>e n�o posso me calar diante dessas insinua��es.</p><p>� Tudo bem.</p><p>� Vou exigir direito de resposta. E, se eu fizer Karlman parecer um idiota, a culpa � dele.</p><p>� Certo, aja de acordo com as suas convic��es.</p><p>� Para mim tamb�m � importante que voc� saiba que eu nada tive a ver com esse ataque infame.</p><p>� Acredito em voc� � disse Mikael.</p><p>� Al�m do mais, n�o vou discutir o assunto agora, mas isso remete � nossa conversa de antes. E importante que voc� volte � reda��o da <emphasis>Millennium </emphasis>para que possamos montar uma frente unida. Enquanto estiver ausente, os boatos v�o continuar. Acredito na <emphasis>Millennium </emphasis>e estou convencido de que podemos vencer essa batalha juntos.</p><p>� Entendo seu ponto de vista, mas agora � a minha vez de discordar. N�o posso romper meu contrato com Henrik e na verdade tamb�m n�o desejo romp�-lo. Gosto dele, voc� sabe. E essa hist�ria da Harriet...</p><p>� Sim?</p><p>�� Sei que � uma hist�ria penosa para voc� e sei que Henrik est� obcecado h� anos por ela.</p><p>� C� entre n�s, gosto de Henrik e ele � o meu mentor, mas, no que diz respeito a Harriet, essa obsess�o virou uma ocupa��o de aposentado.</p><p>� Quando comecei esse trabalho, achei que seria uma perda de tempo. Mas o fato � que, contra todas as expectativas, encontramos novidades. Acho que estamos perto de uma descoberta e que talvez seja poss�vel explicar o que aconteceu.</p><p>� N�o quer me dizer o que foi que descobriu?</p><p>� De acordo com o contrato, n�o posso falar disso com ningu�m sem o consentimento de Henrik.</p><p>Martin Vanger p�s a m�o no queixo. Mikael viu d�vida nos olhos dele, mas por fim Martin se decidiu.</p><p>� Certo, nesse caso o melhor a fazer � resolver primeiro o mist�rio de Harriet. Darei todo o apoio que puder para que voc� termine o trabalho de forma satisfat�ria, o mais r�pido poss�vel, e em seguida retorne � <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Que bom. N�o tenho vontade de ser obrigado a lutar contra voc� tamb�m.</p><p>� N�o ser� necess�rio. Tem meu inteiro apoio. Pode me procurar quando quiser, se tiver problemas. Pressionarei Birger para que n�o crie mais obst�culos. E tentarei acalmar Cecilia.</p><p>� Obrigado. Preciso fazer umas perguntas a ela, mas h� um m�s vem evitando minhas tentativas de conversa.</p><p>Martin Vanger sorriu.</p><p>� Talvez tenha outras coisas a acertar com ela. Mas n�o � da minha conta.</p><p>Despediram-se com um aperto de m�o.</p><p>Lisbeth Salander havia escutado em sil�ncio a conversa entre Mikael e Martin Vanger. Assim que o industrial foi embora, ela pegou o <emphasis>Hedestads-Kuriren </emphasis>e leu o artigo. A seguir, largou o jornal sem fazer nenhum coment�rio.</p><p>Mikael n�o disse nada. Ele refletia. Gunnar Karlman nascera em 1942, portanto tinha vinte e quatro anos em 1966. Tamb�m era uma das pessoas presentes na ilha quando Harriet desapareceu.</p><p>Depois do caf�-da-manh�, Mikael incumbiu sua colaboradora de ler o inqu�rito policial. Fez uma triagem do material e lhe passou os arquivos que enfocavam o desaparecimento de Harriet. Passou-lhe tamb�m todas as fotos do acidente na ponte, bem como a longa s�ntese que escreveu com base nas investiga��es particulares de Henrik.</p><p>Depois Mikael foi � casa de Dirch Frode e o convenceu a redigir um contrato determinando a contrata��o de Lisbeth como colaboradora por um m�s.</p><p>Ao voltar � casa dos convidados, encontrou Lisbeth no jardim, mergulhada no inqu�rito policial. Mikael entrou para esquentar o caf� e a espiou pela janela da cozinha. Ela parecia percorrer o inqu�rito superficialmente, n�o dedicando mais que dez ou quinze segundos a cada p�gina. Folheava o documento de maneira autom�tica. Mikael achou estranha essa neglig�ncia, ainda mais considerando a aplica��o com que realizara sua pr�pria investiga��o. Levou duas x�caras de caf� ao jardim e juntou-se a ela.</p><p>� O que voc� escreveu sobre o desaparecimento de Harriet foi escrito antes de perceber que estamos atr�s de um assassino serial.</p><p>� Exato. Anotei o que me pareceu importante, perguntas que gostaria de fazer a Henrik Vanger et cetera. Como voc� deve ter percebido, est� bem mal estruturado. Na verdade, at� agora andei tateando no escuro, e ao mesmo tempo tentando escrever uma hist�ria, um cap�tulo da biografia de Henrik Vanger.</p><p>� E agora?</p><p>� No come�o, todas as investiga��es estavam centradas em Hedeby�n. Agora estou convencido de que a hist�ria come�ou mais cedo no mesmo dia, n�o na ilha, mas em Hedestad. Isso muda a perspectiva.</p><p>Lisbeth assentiu com a cabe�a e refletiu por um momento.</p><p>� � fant�stico o que descobriu com as fotos � ela disse.</p><p>Mikael levantou as sobrancelhas. Lisbeth Salander n�o parecia ser do tipo pr�digo em elogios e Mikael sentiu-se estranhamente lisonjeado. Mas, do ponto de vista jornal�stico, tratava-se mesmo de uma proeza bastante in-comum.</p><p>� Preciso de mais alguns detalhes. Conte o que descobriu sobre a fotografia que foi buscar em Norsj�.</p><p>� Est� me dizendo que <emphasis>n�o </emphasis>viu essa foto no meu computador?</p><p>� N�o tive tempo. Preferi me concentrar nos resumos, nas conclus�es que tirou.</p><p>Mikael suspirou, abriu seu notebook e depois a pasta de fotos.</p><p>� A viagem a Norsj� foi ao mesmo tempo um avan�o e uma decep��o total. Encontrei a foto, mas ela n�o revela grande coisa. A tal Mildred Berggren conservou todas as suas fotos de viagem num �lbum, e ali colou com cuidado toda a cole��o. A foto que eu procurava estava l�, tirada com um filme colorido barato. Depois de trinta e sete anos, a c�pia est� bastante apagada e amarelada, mas Mildred tamb�m conservou os negativos numa caixa de sapatos. Ela me emprestou os de Hedestad e eu os escaneei. Aqui est� o que Harriet viu.</p><p>Ele clicou num arquivo chamado harriet/bd-19.eps.</p><p>Lisbeth entendeu a decep��o dele. Era uma foto em plano geral, bastante mal enquadrada, mostrando os palha�os no desfile da Festa das Crian�as. Ao fundo via-se o canto da loja Sundstr�m. Umas dez pessoas apareciam na cal�ada em frente � loja.</p><p>Mikael apontou com o dedo.</p><p>� Acho que foi este o sujeito que ela viu. Primeiro, porque tentei calcular o que ela via baseando-me no rosto dela e na dire��o para a qual ele estava voltado; fiz um desenho exato do local. Depois, porque ele � a �nica pessoa que parece olhar diretamente para a m�quina fotogr�fica, ou seja, para Harriet.</p><p>Lisbeth viu uma figura imprecisa um pouco recuada atr�s dos espectadores, na rua transversal. Vestia uma jaqueta escura com um tom diferente nos ombros, vermelho, e uma cal�a escura, provavelmente um jeans. Mikael ampliou a imagem para que a figura ocupasse toda a tela a partir da cintura. A imagem ficou ainda mais imprecisa.</p><p>� � um homem. Mede cerca de um metro e oitenta, corpul�ncia normal. Cabelos castanho-claros, n�o muito curtos, sem barba. Mas � imposs�vel distinguir as fei��es ou mesmo calcular a idade. Pode ser tanto um adolescente quanto um quinquagen�rio.</p><p>� Podemos retocar a foto...</p><p>� J� retoquei. Inclusive enviei uma c�pia a Christer Malm da <emphasis>Millennium, </emphasis>que � um craque em tratamento de imagens. � Mikael clicou em outra foto. � O que vemos aqui � o que se pode obter de melhor. O problema � que a m�quina fotogr�fica � muito ruim e a dist�ncia muito grande.</p><p>� Mostrou essa foto a algu�m? As pessoas podem reconhecer a atitude...</p><p>� Mostrei a Dirch Frode. Ele n�o tem a menor id�ia de quem possa ser.</p><p>� Dirch Frode n�o � o cara mais esperto de Hedestad.</p><p>� Mas � para ele e para Henrik que eu trabalho. Quero mostrar a foto a Henrik antes de faz�-la circular.</p><p>� Talvez seja apenas um simples espectador.</p><p>� � poss�vel. Mas nesse caso ele soube provocar uma rea��o bem estranha em Harriet.</p><p>Na semana seguinte, Mikael e Lisbeth trabalharam no caso Harriet praticamente o tempo todo. Lisbeth continuou lendo o inqu�rito e fez uma s�rie de perguntas �s quais Mikael tentou responder. S� podia haver uma verdade e as respostas pouco claras, os dados equ�vocos os levavam a aprofundar a discuss�o. Passaram um dia inteiro verificando os hor�rios das pessoas durante o acidente na ponte.</p><p>Lisbeth Salander deixava Mikael cada vez mais perplexo. Embora percorresse superficialmente os textos do inqu�rito, ela parecia deter-se nos detalhes mais obscuros e incompat�veis.</p><p>Eles faziam uma pausa � tarde, quando o calor os impedia de continuar no jardim. V�rias vezes foram tomar banho no canal ou beber alguma coisa no Caf� Susanne. Susanne passou a olhar Mikael com uma frieza ostensiva. Ele se deu conta de que Lisbeth parecia mais jovem do que era e estava hospedada em sua casa, o que aos olhos de Susanne o transformava num velho safado que gosta de menininhas. Era desagrad�vel.</p><p>Mikael continuava praticando <emphasis>jogging </emphasis>todos os fins de tarde. Lisbeth n�o fazia nenhum coment�rio sobre esses exerc�cios quando ele voltava ofegante para casa. Correr n�o era bem a id�ia que ela fazia de um lazer de ver�o.</p><p>� Passei dos quarenta � disse Mikael. � Sou obrigado a fazer exerc�cio para n�o engordar.</p><p>� Ah!</p><p>� N�o pratica nenhuma atividade f�sica?</p><p>� Um pouco de boxe de vez em quando.</p><p>� Boxe?</p><p>� Sim, sabe, com luvas.</p><p>Mikael foi tomar banho e tentou imaginar Lisbeth num ringue. Ela talvez estivesse zombando dele. Uma pergunta se impunha.</p><p>� Voc� boxeia em que categoria de peso?</p><p>� Em nenhuma. Sirvo de <emphasis>sparring </emphasis>para uns rapazes de um clube de boxe de S�der.</p><p>Por que ser� que eu n�o me surpreendo?, pensou Mikael. Mas ele constatou que, de qualquer modo, ela acabava de contar alguma coisa sobre si. Ele continuava sem nenhuma informa��o sobre ela; por que come�ara a trabalhar para Armanskij, qual era a sua forma��o ou o que faziam seus pais. Assim que Mikael tentava conversar sobre a vida privada dela, Lisbeth se fechava como uma ostra e respondia por monoss�labos ou o ignorava totalmente.</p><p>Uma tarde, Lisbeth Salander depositou na mesa um arquivo e olhou para Mikael com uma ruga entre as sobrancelhas.</p><p>� O que sabe sobre Otto Falk? O pastor.</p><p>� Muito pouco. Encontrei o pastor atual, uma mulher, algumas vezes na igreja no come�o do ano. Ela disse que Falk ainda est� vivo, mas numa casa de sa�de em Hedestad. Alzheimer.</p><p>� De onde ele �?</p><p>� Daqui, de Hedestad. Estudou em Uppsala e aos trinta anos retornou.</p><p>� Ele n�o era casado. E Harriet o via.</p><p>� Por que est� perguntando isso?</p><p>� Apenas notei que o tira, esse Morell, foi bastante indulgente com ele nos interrogat�rios.</p><p>� Nos anos 1960, os pastores ainda gozavam de um outro status social. Era natural que ele quisesse morar aqui na ilha, mais perto do poder, digamos assim.</p><p>� Fico me perguntando se os policiais realmente revistaram o presbit�rio. As fotos mostram que era uma grande constru��o de madeira; l� devia haver muitos lugares onde esconder um corpo por algum tempo.</p><p>� � verdade. Mas nada indica que ele tenha tido alguma liga��o com assassinatos em s�rie ou com o desaparecimento de Harriet.</p><p>� Voc� se engana � disse Lisbeth com um sorriso no canto dos l�bios. � Em primeiro lugar, ele era um pastor, e os pastores, mais do que ningu�m, possuem uma rela��o especial com a B�blia. Em segundo, foi o �ltimo a ter visto Harriet e falado com ela.</p><p>� Mas ele foi correndo ao local do acidente e permaneceu ali v�rias horas. � visto em muitas fotos, sobretudo durante o lapso de tempo em que Harriet deve ter desaparecido.</p><p>� Pfff, posso desmontar esse �libi num instante! Mas eu estava pensando em outra coisa. Estamos diante de um matador de mulheres s�dico.</p><p>� E?</p><p>� Eu fui... eu tive um tempo livre na primavera passada e pesquisei coisas sobre s�dicos num contexto bem diferente. Um dos documentos que li era um manual do FBI americano que afirmava que um n�mero impressionante de assassinos seriais capturados v�m de lares problem�ticos e na inf�ncia se comprazem em torturar animais. Al�m disso, muitos <emphasis>serial killers </emphasis>americanos foram presos por inc�ndios criminosos.</p><p>� Sacrif�cio de animais e sacrif�cio pelo fogo, � isso que est� querendo dizer?</p><p>� Sim. Os animais torturados e o fogo constam em v�rios casos registrados por Harriet. Mas eu pensava mais no presbit�rio, que foi incendiado no final dos anos 1970.</p><p>Mikael refletiu por um momento.</p><p>� � muito vago � disse por fim. Lisbeth balan�ou a cabe�a.</p><p>� Concordo. Mas vale a pena anotar. N�o encontrei nada no inqu�rito sobre a causa do inc�ndio e gostaria muito de saber se houve outros inc�ndios misteriosos nos anos 1960. Seria interessante tamb�m descobrirmos sobre se houve casos de crueldade com animais ou amputa��es de animais nessa �poca, na regi�o.</p><p>Quando Lisbeth foi se deitar na s�tima noite em Hedeby, ela estava um pouco irritada com Mikael Blomkvist. Durante uma semana, estivera praticamente todos os minutos do dia com ele, quando em geral sete minutos na companhia de qualquer pessoa bastavam para faz�-la ter dor de cabe�a.</p><p>Fazia tempo ela constatara que as rela��es sociais n�o eram o seu forte e se preparara para uma vida solit�ria. Sentia-se perfeitamente satisfeita quando as pessoas a deixavam em paz. Mas as pessoas n�o eram muito perspicazes e compreensivas, o que sempre a obrigava a prevenir-se contra autoridades sociais, autoridades de prote��o da inf�ncia e da comiss�o de tutelas, contra o fisco, contra a pol�cia, curadores, psic�logos, psiquiatras, professores e seguran�as que nunca queriam deix�-la entrar nas boates, embora j� tivesse vinte e cinco anos (com exce��o dos seguran�as da Moulin, que a conheciam). Havia todo um ex�rcito de gente que parecia n�o ter mais o que fazer a n�o ser tentar comandar a sua vida e, se poss�vel, mudar o modo como ela escolhera viver.</p><p>Aprendera muito cedo que n�o adiantava nada chorar. Tamb�m aprendera que, sempre que tentou alertar algu�m para alguma coisa de sua vida, a situa��o s� piorava. Portanto, ela mesma � que devia resolver seus problemas com os m�todos que julgasse necess�rios. Atitude que o dr. Nils Bjurman pagou caro para descobrir.</p><p>Mikael Blomkvist tinha a mesma tend�ncia irritante de todos os outros de fu�ar sua vida privada e de fazer perguntas que ela n�o queria responder. S� que ele n�o reagia como a maioria dos homens que ela conheceu.</p><p>Quando ela ignorava as perguntas, ele se contentava em encolher os ombros, desistia do assunto e a deixava tranquila. <emphasis>Surpreendente.</emphasis></p><p>A prioridade de Lisbeth, quando conseguiu se apoderar do notebook dele em seu primeiro dia na casa, era evidentemente transferir todos os dados para o seu pr�prio computador. Desse modo, seria menos ruim se ele a despedisse; ela continuaria tendo acesso ao material.</p><p>Mas em seguida ela o provocou de prop�sito, lendo ostensivamente os documentos do notebook dele. Esperava que ele fosse ficar furioso. No entanto ele pareceu resignado, resmungou alguma coisa levemente sarc�stica e foi tomar um banho, s� voltando a abordar o assunto mais tarde. <emphasis>Cara estranho. </emphasis>Ela quase concluiu que ele confiava nela.</p><p>Mas o fato de ele estar a par de seus talentos como <emphasis>hacker </emphasis>era grave. Lisbeth Salander sabia muito bem que o termo jur�dico aplicado ao tipo de pirataria que ela praticava, profissionalmente e por conta pr�pria, era intrus�o inform�tica ilegal, que lhe podia valer at� dois anos de pris�o. Era um ponto sens�vel: ela n�o queria ser presa porque uma pena de pris�o significaria que muito provavelmente lhe confiscariam o computador, �nica ocupa��o na qual se distinguia. Nunca pensou em contar a Dragan Armanskij ou a quem quer que fosse como obtinha as informa��es que eles compravam.</p><p>Com exce��o de Praga e de algumas poucas pessoas conectadas que, como ela, se dedicavam profissionalmente � pirataria � e quase todas s� a conheciam pelo codinome Wasp, ningu�m sabia quem ela era nem onde morava �, somente Super-Blomkvist descobrira seu segredo. E a tinha desmascarado porque ela cometeu um erro que mesmo iniciantes com poucos anos no ramo n�o cometem, o que provava que seu c�rebro andava falhando e que merecia ser castigada. Mas ele n�o ficou furioso nem amea�ou process�-la; em vez disso a contratou.</p><p>Assim, ela estava ligeiramente irritada com ele.</p><p>Um pouco antes de ela se retirar para o quarto, tinham acabado de comer um sandu�che quando ele perguntou, de repente, se ela era uma boa <emphasis>hacker. </emphasis>E ela respondera com naturalidade:</p><p>� Sou provavelmente a melhor da Su�cia. H� talvez uns dois ou tr�s do meu n�vel.</p><p>N�o hesitou nem um pouco sobre a veracidade de sua resposta. Numa certa �poca, Praga fora melhor que ela, mas fazia muito tempo que o superara.</p><p>No entanto Lisbeth espantou-se consigo mesma por pronunciar essas palavras. Nunca fizera isso. Nem tinha um interlocutor para esse tipo de conversa, e de repente saboreou o fato de ele parecer impressionado com seus conhecimentos. Mas ele estragou tudo ao levantar a quest�o problem�tica: como ela aprendera a pirataria.</p><p>Ela n�o sabia o que responder. Eu <emphasis>sempre soube. </emphasis>Preferiu ir se deitar sem dizer boa-noite.</p><p>Para irrit�-la ainda mais, Mikael n�o pareceu reagir quando ela virou as costas. De sua cama, ela o escutou mexer-se na cozinha, limpar a mesa e lavar a lou�a. Ele sempre ficava de p� mais tempo que ela, mas agora estava claramente indo se deitar. Ela o ouviu no banheiro, o ouviu entrar no quarto e fechar a porta.. Um momento depois, ouviu o rangido da cama quando ele se deitou, a cinquenta cent�metros dela, do outro lado da parede.</p><p>Durante a semana que passou na casa dele, ele n�o tentou abord�-la sexualmente. Trabalhou com ela, pediu sua opini�o, criticou-a quando raciocinava errado e apreciou suas obje��es quando ela o corrigia. Tratou-a, nem mais nem menos, como um ser humano.</p><p>De repente, ela percebeu que gostava da companhia de Mikael Blomkvist e que at� mesmo confiava nele. Nunca confiara em ningu�m, com exce��o de Holger Palmgren. Mas por raz�es bem diferentes. Palmgren fora uma boa alma previs�vel.</p><p>Levantou-se, foi at� a janela e ficou olhando, nervosa, a escurid�o l� fora. O que mais a paralisava era mostrar-se nua diante de algu�m pela primeira vez. Estava convencida de que seu corpo raqu�tico era repulsivo. Os seios, pat�ticos. N�o tinha quadris que merecessem esse nome. A seus pr�prios olhos, n�o tinha grande coisa a oferecer. No entanto, era uma mulher perfeitamente normal, com os mesmos desejos e puls�es sexuais que as outras. Refletiu durante cerca de vinte minutos antes de se decidir.</p><p>Mikael estava deitado e lia um romance de Sara Paretsky quando ouviu a ma�aneta da porta girar e viu Lisbeth Salander aparecer. Estava envolvida num len�ol e se mantinha no v�o da porta sem dizer nada, como se refletisse.</p><p>� Algum problema? � perguntou Mikael. Ela fez que n�o com a cabe�a.</p><p>� O que voc� quer?</p><p>Ela se aproximou dele, pegou seu livro e o p�s na mesa-de-cabeceira. Depois se curvou para a frente e o beijou na boca. As inten��es dela n�o podiam ser mais claras. Sentou-se na cama e ficou olhando-o de um jeito perscrutador. P�s uma m�o sobre o len�ol acima do ventre dele. Como ele n�o protestasse, ela se inclinou e mordiscou um de seus mamilos.</p><p>Mikael Blomkvist estava totalmente perplexo, mas n�o indiferente. Depois de alguns segundos, pegou-a pelos ombros e afastou-a um pouco para poder ver seu rosto.</p><p>� Lisbeth... n�o sei se � uma boa id�ia. Devemos trabalhar juntos.</p><p>� Quero fazer sexo com voc�. E n�o vejo problema algum em trabalharmos juntos; ao contr�rio, terei um problema s�rio se me mandar embora.</p><p>� Mas nem nos conhecemos direito.</p><p>Ela riu, um riso abrupto que mais parecia uma tosse.</p><p>� Quando fiz minha investiga��o sobre voc�, percebi que nunca teve esse tipo de problema. Ao contr�rio, voc� � daqueles que t�m dificuldade de ficar longe das mulheres. Que est� havendo? N�o pare�o bastante <emphasis>sexy?</emphasis></p><p>Mikael balan�ou a cabe�a e tentou encontrar algo inteligente para dizer. Como ele n�o respondeu, ela afastou o len�ol e sentou-se de pernas abertas sobre ele.</p><p>� N�o tenho preservativos � disse Mikael.</p><p>� N�o faz mal.</p><p>Quando Mikael despertou, Lisbeth j� estava de p�. Ouviu-a mexendo nas lou�as da cozinha. Eram quase sete da manh�. Ele dormira apenas duas horas e continuou de olhos fechados.</p><p>N�o conseguia entender Lisbeth Salander. Em nenhum momento ela havia insinuado, nem mesmo atrav�s de um olhar, que estivesse interessada nele.</p><p>� Bom dia � disse Lisbeth � porta. Ela sorria. Um pouco, � verdade.</p><p>� Oi � disse Mikael.</p><p>� N�o temos mais leite. Vou at� o supermercado. Eles abrem �s sete. E afastou-se t�o depressa que Mikael nem teve tempo de responder. Ele a ouviu cal�ar-se, pegar a mochila, o capacete da moto e sair pela porta da frente. Ele fechou os olhos. Depois ouviu a porta ser aberta de novo e em alguns segundos ela reapareceu. Desta vez n�o sorria mais.</p><p>� Venha, voc� precisa ver uma coisa � disse com uma voz estranha. Mikael saltou imediatamente da cama e enfiou a cal�a. Durante a noite algu�m viera lhe trazer um presente indesejado. No terra�o da entrada, jazia o cad�ver semicarbonizado de um gato esquartejado. As patas e a cabe�a haviam sido cortadas, o ventre aberto e as entranhas removidas; os restos do gato estavam ao lado do cad�ver, que parecia ter sido posto no fogo. A cabe�a estava intacta e fora colocada em cima do assento da moto de Lisbeth. Mikael reconheceu a pelagem ruiva.</p><empty-line/><p><strong>22. QUINTA-FEIRA 10 DE JULHO</strong></p><p>Eles tomaram o caf�-da-manh� no jardim, em sil�ncio e sem leite no caf�. Lisbeth havia apanhado uma pequena Canon digital e fotografado a cena macabra antes de Mikael trazer um saco de lixo para levar tudo. Ele p�s o gato no porta-malas do carro que lhe emprestaram, mas n�o tinha muita certeza do que fazer com o cad�ver. O l�gico seria apresentar queixa por crueldade contra os animais, talvez tamb�m por amea�as, mas n�o sabia muito bem como explicar o porqu� da amea�a.</p><p>Por volta das oito e meia, Isabella Vanger passou a p� e dirigiu-se � ponte. N�o os viu ou fingiu n�o v�-los.</p><p>� Como est� se sentindo? � perguntou finalmente Mikael a Lisbeth.</p><p>� Bem. � Ela olhou para ele, surpresa. <emphasis>Entendi. Ele gostaria que eu estivesse nervosa. </emphasis>� Quando encontrar o canalha que torturou um pobre gato inocente s� para nos deixar uma advert�ncia, vou acert�-lo com um taco de beisebol.</p><p>� Acha que � uma advert�ncia?</p><p>� Tem explica��o melhor? Claro que significa alguma coisa. Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Seja o que for, a verdade � que acabamos inquietando muito algu�m, a ponto de deixar essa pessoa doente. Mas h� um outro problema � disse ele.</p><p>� Eu sei. E um sacrif�cio de animal semelhante aos de 1954 e 1960. E parece imposs�vel que um matador em atividade h� cinquenta anos continue por a�, deixando animais torturados na sua porta.</p><p>� Os �nicos que podem figurar na lista, nesse caso, s�o Harald Vanger e Isabella Vanger. Existem alguns parentes mais velhos do ramo Johan Vanger, mas nenhum mora na regi�o.</p><p>Mikael suspirou antes de prosseguir.</p><p>� Isabella � uma mulher est�pida que certamente n�o hesitaria em matar um gato, mas duvido que passasse o tempo matando mulheres em s�rie nos anos 1950. Harald Vanger... n�o sei, parece t�o decr�pito que mal consegue andar e � dif�cil acreditar que saia sorrateiramente � noite para achar um gato e fazer isso.</p><p>� A n�o ser que sejam duas pessoas, uma velha e uma jovem.</p><p>Mikael ouviu um carro passar, ergueu os olhos e viu Cecilia Vanger desaparecer no final da ponte. <emphasis>Harald e Cecilia, </emphasis>pensou. Mas havia um grande ponto de interroga��o: pai e filha n�o se viam e raramente se falavam. Apesar de Martin Vanger ter prometido falar com ela, Cecilia continuava sem responder aos telefonemas de Mikael.</p><p>� Com certeza � algu�m que sabe que estamos investigando e que fizemos progressos � disse Lisbeth, levantando-se e entrando na casa.</p><p>Ao voltar, ela vestia sua roupa de motoqueira.</p><p>� Vou a Estocolmo. Volto � noite.</p><p>� O que voc� vai fazer?</p><p>� Umas pesquisas. Se um cara � bastante louco para matar um gato desse jeito, ele, ou ela, pode nos atacar da pr�xima vez. Ou p�r fogo no barraco enquanto dormimos. Quero que v� a Hedestad comprar dois extintores e dois detectores de inc�ndio hoje. Um dos extintores deve ser com halon.</p><p>Sem dizer mais nada, p�s o capacete, acionou a moto e desapareceu pela ponte.</p><p>Mikael jogou o cad�ver no coletor de lixo do posto de gasolina, antes de ir a Hedestad comprar os extintores e os detectores de inc�ndio. P�s as compras no porta-malas do carro e foi para o hospital. Havia telefonado para Dirch Frode e marcado um encontro com ele na cafeteria. Contou o que havia acontecido de manh�. Dirch Frode empalideceu.</p><p>� Mikael, nunca pensei que essa hist�ria pudesse se tornar perigosa.</p><p>� Por que n�o? Afinal, o objetivo � desmascarar um assassino.</p><p>� Mas quem poderia... � pura loucura. Se n�o est�o em seguran�a, voc� e a senhorita Salander, devemos parar tudo. Posso falar com Henrik.</p><p>� N�o, de jeito nenhum. N�o vamos provocar outro infarto nele.</p><p>� Ele pergunta o tempo todo o que voc� est� fazendo.</p><p>� Diga a ele que continuo desembara�ando os fios.</p><p>� O que vai fazer agora?</p><p>� Tenho algumas perguntas. O primeiro incidente ocorreu pouco depois do infarto de Henrik, quando eu estava em Estocolmo. Algu�m vasculhou minha saleta de trabalho. Foi logo depois de eu decifrar o c�digo da B�blia e descobrir as fotos da rua da Esta��o. Falei disso com voc� e com o Henrik. Martin estava sabendo, pois foi ele que me facilitou o acesso ao <emphasis>Hedestads-Ruriren. </emphasis>Quem mais estava a par?</p><p>� Bem, n�o sei exatamente para quem Martin falou. Mas Birger e Cecilia tamb�m sabiam. Conversaram entre si sobre a sua ca�ada �s fotos. At� Alexander est� sabendo. E Gunnar e Helen Nilsson tamb�m. Vieram visitar Henrik e ouviram a conversa. E Anita Vanger.</p><p>� Anita? A de Londres?</p><p>� A irm� de Cecilia. Ela veio de avi�o com Cecilia quando Henrik teve o infarto, mas ficou no hotel; que eu saiba, n�o p�s os p�s na ilha. Assim como Cecilia, ela n�o quer se encontrar com o pai. Mas voltou h� uma semana, quando Henrik saiu da UTI.</p><p>� Onde Cecilia est� morando? Eu a vi esta manh� atravessando a ponte, mas sua casa continua fechada.</p><p>� Suspeita dela?</p><p>� N�o, s� quero saber onde est� morando.</p><p>� Na casa do irm�o, Birger. Da casa dele pode-se ir a p� ao hospital.</p><p>� Sabe onde ela est� agora?</p><p>� N�o. Em todo caso, com Henrik n�o est�.</p><p>� Obrigado � disse Mikael e levantou-se.</p><p>A fam�lia Vanger gravitava em torno do hospital de Hedestad. No sagu�o de entrada, Birger Vanger dirigia-se aos elevadores. Mikael n�o quis cruzar com ele e esperou que desaparecesse antes de passar pelo sagu�o. Mas deu de cara com Martin Vanger na entrada, quase no mesmo lugar onde encontrara Cecilia Vanger na visita anterior. Eles trocaram um aperto de m�o.</p><p>� Foi ver Henrik?</p><p>� N�o, s� passei aqui para falar com Dirch Frode rapidamente.</p><p>Martin tinha olheiras e parecia fatigado. Mikael notou que ele envelhecera consideravelmente desde que se conheceram, havia seis meses. A luta para salvar o imp�rio Vanger e a s�bita doen�a de Henrik lhe pesavam.</p><p>� E como v�o as coisas com voc�? � perguntou Martin.</p><p>Mikael anunciou que n�o tinha a inten��o de interromper sua temporada para voltar a Estocolmo.</p><p>� Bem, obrigado. A cada dia est�o ficando mais interessantes. Quando Henrik melhorar, espero poder satisfazer a curiosidade dele.</p><p>Birger Vanger morava num conjunto de casas geminadas, de tijolos brancos, a apenas cinco minutos de caminhada do hospital. Ningu�m atendeu quando Mikael bateu � porta. Tentou o celular de Cecilia, mas n�o obteve resposta. Ficou um momento no carro tamborilando os dedos sobre o volante. Birger Vanger era uma p�gina em branco na cole��o. Nascido em 1939, tinha apenas dez anos quando Rebecka Jacobsson foi morta. Mas tinha vinte e sete quando Harriet desapareceu.</p><p>Segundo Henrik Vanger, Birger e Harriet pouco se viram. Birger cresceu com sua fam�lia, em Uppsala, e veio para Hedestad a fim de trabalhar no grupo, mas alguns anos depois se afastou para entrar na pol�tica. Estava em Uppsala quando Lena Andersson foi assassinada.</p><p>Mikael n�o conseguia deslindar a hist�ria, mas o incidente com o gato lan�ara um sentimento de amea�a iminente e sugeria que o tempo come�ava a correr r�pido.</p><p>O ex-pastor de Hedeby Otto Falk tinha trinta e seis anos quando Harriet desapareceu. Estava com setenta e dois agora, era mais jovem que Henrik Vanger, por�m se achava numa condi��o intelectual bem inferior. Mikael o encontrou na casa de sa�de A Andorinha, um pr�dio amarelo situado numa eleva��o �s margens do Hede, no outro extremo da cidade. Mikael apresentou-se na recep��o e pediu para falar com o pastor Falk. Disse saber que o pastor sofria de Alzheimer e pediu informa��es sobre seu n�vel de comunica��o. Uma atendente respondeu-lhe que o pastor recebera o diagn�stico tr�s anos antes e que a evolu��o da doen�a fora r�pida. Falk podia comunicar-se, mas tinha uma p�ssima mem�ria imediata, n�o reconhecia alguns membros da fam�lia e estava entrando numa completa aliena��o. Mikael tamb�m foi prevenido contra crises de ang�stia que o velho tinha quando lhe faziam perguntas �s quais n�o conseguia responder.</p><p>O velho pastor estava sentado num banco de jardim com tr�s outros pacientes e um enfermeiro. Mikael passou uma hora tentando falar com ele.</p><p>O pastor Falk disse que se lembrava muito bem de Harriet Vanger. Seu rosto iluminou-se e ele a descreveu como uma menina encantadora. Mikael logo percebeu, por�m, que o pastor esquecera que ela estava desaparecida havia quase trinta e sete anos; falava dela como se tivesse acabado de v�-la e pediu que Mikael lhe mandasse um abra�o e a encorajasse a vir visit�-lo. Mikael prometeu fazer isso.</p><p>Quando Mikael comentou o que tinha acontecido no dia em que Harriet desapareceu, o pastor se mostrou perplexo. Era evidente que n�o se lembrava do acidente na ponte. No entanto, no final da conversa, mencionou algo que fez levantar as orelhas de Mikael.</p><p>Mikael havia conduzido a conversa para o interesse de Harriet pela religi�o, e o pastor de repente ficou pensativo. Como se uma nuvem tivesse passado sobre seu rosto. P�s-se a balan�ar para a frente e para tr�s por um momento, depois olhou fixamente Mikael e perguntou quem ele era. Mikael apresentou-se de novo e o velho refletiu mais um instante. Por fim, balan�ou a cabe�a e pareceu irritado.</p><p>� Ela ainda est� procurando. Precisa estar atenta e voc� deve preveni-la.</p><p>� Devo preveni-la do qu�?</p><p>O pastor ficou subitamente agitado. Balan�ou a cabe�a, franzindo as sobrancelhas.</p><p>� Ela deve ler <emphasis>sola scriptura </emphasis>e compreender <emphasis>sufficientia scripturae. </emphasis>S� assim poder� manter uma <emphasis>sola fide. </emphasis>Jos� os exclui formalmente. Eles nunca foram inclu�dos no c�none.</p><p>Mikael n�o compreendeu nada, mas registrou. A seguir, o pastor Falk inclinou-se para ele e cochichou em tom confidencial:</p><p>� Acho que ela � cat�lica. Est� apaixonada por magia e ainda n�o encontrou seu Deus. E preciso gui�-la.</p><p>A palavra "cat�lica" parecia ter uma conota��o negativa para o pastor Falk.</p><p>� Eu achava que ela estava interessada no pentecostalismo.</p><p>� N�o, n�o, no pentecostalismo n�o. Ela busca a verdade proibida. N�o � uma boa crist�.</p><p>Nesse ponto, o pastor pareceu esquecer tanto Mikael quanto a conversa e voltou-se para falar com um dos outros pacientes.</p><p>Mikael voltou � ilha pouco depois das duas da tarde. Foi bater � porta de Cecilia Vanger, mas sem sucesso. Tentou o celular, n�o obteve resposta.</p><p>Instalou um detector de inc�ndio na cozinha e outro no vest�bulo. Colocou um dos extintores junto ao aquecedor, ao lado da porta do quarto, e o outro junto � porta do banheiro. Preparou ent�o uma refei��o leve, sandu�ches e caf�, e sentou-se no jardim para passar ao notebook o registro de sua conversa com o pastor Falk. Refletiu por um longo momento, depois ergueu os olhos na dire��o da igreja.</p><p>O novo presbit�rio de Hedeby era uma casa moderna, sem nada de especial, a algumas centenas de metros da igreja. Mikael bateu � porta do pastor Margareta Strandh por volta das quatro e explicou que vinha fazer uma consulta sobre uma quest�o teol�gica. Margareta era uma mulher da idade de Mikael, de cabelos castanhos, e vestia jeans e camisa de flanela. Estava descal�a e tinha as unhas dos p�s pintadas de vermelho. Ele j� a encontrara algumas vezes no Caf� Susanne e lhe falara do pastor Falk. Mikael foi gentilmente recebido e convidado a se sentar no jardim da casa dela, bem como a trat�-la sem cerim�nia.</p><p>Mikael contou que conversara com Otto Falk e repetiu as respostas dele, acrescentando que n�o entendera seu significado. Margareta Strandh escutou e pediu que Mikael repetisse palavra por palavra o que Falk dissera. Ela refletiu por um instante.</p><p>� Comecei a trabalhar aqui em Hedeby h� apenas tr�s anos e nunca vi o pastor Falk. Ele j� havia se aposentado v�rios anos antes, mas soube que era bastante tradicionalista. O que ele disse significa mais ou menos que devemos nos ater unicamente aos escritos � <emphasis>sola scriptura </emphasis>� e que eles s�o <emphasis>sufficientia scripturae. </emphasis>Para os crentes tradicionalistas, essa �ltima express�o significa o reconhecimento da Sagrada Escritura como �nica fonte de autoridade. <emphasis>Sola fide </emphasis>significa "a �nica f�", ou "a f� pura".</p><p>� Entendo.</p><p>� Tudo isso pertence, por assim dizer, aos dogmas fundadores. � a base da Igreja e nada tem de extraordin�rio. Ele disse simplesmente: <emphasis>Leia a B�blia </emphasis>� <emphasis>ela oferece o conhecimento suficiente e garante a f� pura.</emphasis></p><p>Mikael sentiu-se um pouco desconfort�vel.</p><p>� Mas permita que eu lhe pergunte: em que contexto ocorreu essa conversa?</p><p>� Fiz perguntas sobre algu�m que ele conheceu h� muito tempo e sobre quem estou escrevendo.</p><p>� Algu�m numa busca religiosa?</p><p>� Algo do g�nero.</p><p>� Certo. Acho que percebo a rela��o. O pastor Falk disse duas outras coisas � que <emphasis>Jos� os exclui formalmente </emphasis>e que <emphasis>eles nunca foram inclu�dos no c�none. </emphasis>Ser� que voc� n�o entendeu mal e ele disse Josefo em vez de Jos�? Na verdade, � o mesmo nome.</p><p>� � poss�vel � disse Mikael. � Gravei a conversa, se quiser escutar.</p><p>� N�o, acho que n�o � necess�rio. As duas frases estabelecem de maneira clara o que ele quis dizer. Josefo era um historiador judeu e a frase <emphasis>eles nunca foram inclu�dos no c�none </emphasis>provavelmente indica que nunca fizeram parte do c�none hebraico.</p><p>� E o que isso quer dizer?</p><p>Ela riu.</p><p>� O pastor Falk afirmou que essa pessoa tinha uma atra��o por fontes esot�ricas, mais precisamente pelos ap�crifos. A palavra <emphasis>apokryphos </emphasis>significa "oculto", e os ap�crifos s�o livros ocultos que alguns contestam fortemente e que outros consideram como parte do Antigo Testamento. S�o os livros de Tobias, Judite, Ester, Baruc, Sirac, os Macabeus e mais outros dois ou tr�s.</p><p>� Desculpe a minha ignor�ncia. J� ouvi falar dos ap�crifos, mas nunca os li. O que eles t�m de especial?</p><p>� Na verdade, nada de especial, a n�o ser que foram escritos um pouco mais tarde que o restante do Antigo Testamento. Por isso os ap�crifos foram riscados da B�blia hebraica. N�o que os doutores da lei desconfiassem de seu conte�do, mas simplesmente porque foram escritos depois da �poca em que a obra da revela��o de Deus estava terminada. Em contrapartida, os ap�crifos figuram na velha tradu��o grega da B�blia. Portanto, n�o s�o controvertidos na Igreja cat�lica.</p><p>� Entendo.</p><p>� Contudo, s�o particularmente controvertidos na Igreja protestante. Na �poca da Reforma, os te�logos buscavam se aproximar ao m�ximo da velha B�blia hebraica. Martinho Lutero retirou os ap�crifos da B�blia da Reforma, e mais tarde Calvino afirmou que os ap�crifos n�o deviam em hip�tese alguma servir de base para as confiss�es de f�, por conterem afirma��es que contradiziam a <emphasis>claritas Scripturae </emphasis>� a clareza das Escrituras.</p><p>� Ou seja, livros censurados.</p><p>� Exatamente. Os ap�crifos afirmam, por exemplo, que se pode praticar a magia, que a mentira � autorizada em alguns casos e outras coisas semelhantes, que evidentemente indignam os exegetas dogm�ticos das Escrituras.</p><p>� E n�o � nada imposs�vel, se algu�m sente uma atra��o pela religi�o, que os ap�crifos apare�am na sua lista de leitura, para a grande irrita��o de homens como o pastor Falk.</p><p>� Isso mesmo. � quase inevit�vel o confronto com os ap�crifos se nos interessamos pela B�blia ou pelo catolicismo, e � muito prov�vel que algu�m interessado pelo esoterismo, de maneira geral, os leia.</p><p>� Por acaso teria um exemplar dos ap�crifos? Ela riu mais uma vez. Um riso aberto, amistoso.</p><p>� Claro. Os ap�crifos foram editados pela comiss�o b�blica nos anos 1980 por ocasi�o de um estudo nacional.</p><p>Dragan Armanskij perguntou-se o que poderia estar havendo quando Lisbeth Salander pediu uma conversa particular. Ele fechou a porta e fez sinal para ela se sentar na poltrona dos visitantes. Ela contou que o trabalho para Mikael Blomkvist estava terminado � Dirch Frode pagaria antes do fim do m�s �, mas que decidira prosseguir a investiga��o. Mikael lhe oferecera um sal�rio mensal consideravelmente inferior.</p><p>� Em suma, � uma quest�o pessoal � disse Lisbeth Salander. � At� agora nunca aceitei trabalho a n�o ser de voc�, segundo nosso acordo. O que quero saber � o que ser� da nossa rela��o se eu come�ar a pegar trabalhos por conta pr�pria.</p><p>Dragan Armanskij afastou as m�os.</p><p>� Voc� � seu patr�o, pode pegar os trabalhos que quiser e cobrar como quiser. Fico contente de que tenha fontes pr�prias de dinheiro. Mas seria desleal atrair para voc� clientes que conheceu por nosso interm�dio.</p><p>� N�o tenho essa inten��o. Fiz o trabalho conforme o contrato que estabelecemos com Blomkvist. Esse trabalho est� terminado. Agora <emphasis>eu </emphasis>� que quero continuar no caso. Faria at� mesmo de gra�a.</p><p>� Nunca fa�a nada de gra�a.</p><p>� Entenda, estou querendo dizer que quero saber aonde vai dar essa hist�ria. Convenci Mikael Blomkvist a pedir a Dirch Frode um contrato suplementar como assistente de pesquisa.</p><p>Ela estendeu o contrato a Armanskij, que o percorreu com os olhos.</p><p>� Esse sal�rio equivale quase a trabalhar por nada. Lisbeth, voc� tem talento. Sabe que pode ganhar bem mais trabalhando comigo, se aceitasse um regime de tempo integral.</p><p>� N�o quero trabalhar em tempo integral. Mas continuarei fiel a voc�, Dragan. Voc� tem sido correto comigo desde que comecei aqui. Quero saber se para voc� est� bem esse tipo de contrato, porque n�o quero que haja problemas entre n�s.</p><p>� Entendo. � Ele refletiu um instante. � Para mim est� certo. Obrigado por me procurar. Se outras situa��es como essa surgirem no futuro, pe�o que me avise, para n�o haver mal-entendidos.</p><p>Lisbeth Salander ficou em sil�ncio por um minuto ou dois, calculando se havia algo a acrescentar. Fixou os olhos em Armanskij sem dizer nada. Depois balan�ou a cabe�a, levantou-se e saiu, como de h�bito sem se despedir. Uma vez obtida a resposta que esperava, o interesse por Armanskij tinha evaporado. Ele sorriu com serenidade. O fato de ela ter vindo se aconselhar com ele significava um avan�o em seu processo de socializa��o.</p><p>Abriu uma pasta com um relat�rio sobre a seguran�a de um museu onde estava prevista uma exposi��o de impressionistas franceses. Depois deixou a pasta de lado e olhou para a porta por onde Salander acabara de sair. Lembrou-se do dia em que a vira rindo na companhia de Mikael Blomkvist e perguntou-se se ela estava ficando adulta ou se era Blomkvist que a atra�a. Mas sentiu tamb�m uma inquieta��o. Ele nunca conseguira se livrar da sensa��o de que Lisbeth Salander era uma v�tima perfeita. E eis que agora ela seguia a pista de um assassino furioso numa aldeia perdida.</p><p>Retornando em dire��o ao norte, Lisbeth sentiu vontade de passar na casa de sa�de de �ppelviken para ver sua m�e. Exceto pela visita no Dia de S�o Jo�o, ela n�o via a m�e desde o Natal e culpava-se por visit�-la t�o pouco. Essa nova visita, apenas algumas semanas depois, era incomum.</p><p>A m�e estava na sala de conviv�ncia. Lisbeth ficou pouco mais de uma hora e a levou para passear no laguinho dos patos, no jardim em frente � institui��o. A m�e continuava confundindo-a com a irm�. Como de h�bito, n�o estava inteiramente presente, embora a visita parecesse agit�-la.</p><p>Quando Lisbeth despediu-se, a m�e n�o quis soltar sua m�o. Lisbeth prometeu voltar em breve, mas a m�e a olhou com inquieta��o e um ar muito infeliz.</p><p>Como se estivesse pressentindo uma cat�strofe iminente.</p><p>Mikael passou duas horas no jardim dos fundos da casa, folheando os ap�crifos, sem chegar a outra conclus�o sen�o a de que estava perdendo tempo.</p><p>Mas de repente lhe ocorreu uma pergunta: Harriet teria sido mesmo t�o crente como parecia? Seu interesse pelos estudos b�blicos se revelou no �ltimo ano antes de seu desaparecimento. Ela fizera a liga��o entre um certo n�mero de cita��es b�blicas e uma s�rie de assassinatos, a seguir lera com aplica��o n�o somente a B�blia mas os ap�crifos, e se interessara pelo catolicismo.</p><p>Teria iniciado a mesma investiga��o a que Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander se dedicavam trinta e sete anos mais tarde? Teria sido a busca de um assassino que estimulara seu interesse, e n�o a religiosidade? O pastor Falk, em todo caso, dera a entender que ela parecia algu�m em busca, e n�o uma boa crist�.</p><p>Suas reflex�es foram interrompidas por um chamado de Erika no celular.</p><p>� Queria apenas te dizer que eu e Lars vamos tirar f�rias na semana que vem. Estarei fora por um m�s.</p><p>� Aonde voc�s v�o?</p><p>� Nova York. Lars tem uma exposi��o e depois vamos ao Caribe. Um amigo nos emprestou uma casa em Ant�gua, onde ficaremos duas semanas.</p><p>� Maravilha! Divirtam-se. E d� lembran�as ao Lars.</p><p>� N�o tiro f�rias de verdade h� tr�s anos. A pr�xima edi��o est� pronta e o n�mero seguinte j� est� quase terminado. Gostaria que voc� supervisionasse, mas Christer prometeu se encarregar disso.</p><p>� Ele pode me chamar, se precisar de ajuda. E como ficou o caso de Janne Dahlman?</p><p>Ela hesitou um instante.</p><p>� Ele sai de f�rias na semana que vem. Pus Henry como secret�rio de reda��o tempor�rio. Ele e Christer v�o conduzir o barco.</p><p>� Certo.</p><p>� N�o confio em Dahlman, mas ele est� se esfor�ando. Estarei de volta no dia 7 de agosto.</p><p>Eram cerca de sete da noite, e Mikael havia tentado falar com Cecilia Vanger cinco vezes. Deixara um bilhete na casa dela pedindo que entrasse em contato com ele, mas n�o obtivera resposta.</p><p>Fechou decididamente os ap�crifos, vestiu uma roupa esportiva e trancou a porta antes de sair para o seu <emphasis>jogging </emphasis>de todos os dias.</p><p>Seguiu pelo caminho estreito ao longo da praia, depois tomou a dire��o do bosque. Atravessou o mais depressa que p�de uma zona de matagal e �rvores desenraizadas at� chegar exausto � Fortifica��o, com a pulsa��o bastante acelerada. Deteve-se num ponto da trincheira, ao sol, e fez alongamentos por alguns minutos.</p><p>De repente, ouviu uma forte detona��o, ao mesmo tempo que uma bala atingia a parede de concreto a alguns cent�metros de sua cabe�a. Depois sentiu uma dor na raiz dos cabelos, onde os estilha�os abriram uma ferida profunda.</p><p>Mikael ficou petrificado durante o que lhe pareceu uma eternidade, incapaz de entender o que havia acontecido. Em seguida jogou-se no ch�o na trincheira, machucando o ombro ao aterrissar. O segundo tiro ocorreu no instante em que mergulhava. A bala cravou-se na parede de concreto, bem no lugar onde ele havia estado.</p><p>Mikael levantou a cabe�a e olhou em volta. Estava mais ou menos na metade da Fortifica��o. � direita e � esquerda, passagens estreitas, com profundidade de um metro e cobertas de vegeta��o, conduziam a abrigos de tiro espalhados numa linha de duzentos e cinquenta metros de comprimento. P�s-se a correr, curvado, na dire��o sul do labirinto.</p><p>Ent�o, ouviu ressoar dentro dele a voz inimit�vel do capit�o Adolfsson no dia de um exerc�cio de inverno na escola de infantaria em Kiruna. <emphasis>Puta que pariu, Blomkvist, baixe a cabe�a se n�o quiser ter o rabo arrancado por uma bala! </emphasis>Vinte anos depois, se lembrava dos ensinamentos do capit�o Adolfsson.</p><p>Cerca de sessenta metros adiante, parou, sem f�lego e com o cora��o palpitando. N�o ouvia outros ru�dos a n�o ser o da pr�pria respira��o. O <emphasis>olho humano percebe os movimentos mais rapidamente que as formas e as silhuetas. N�o fique afoito quando se desloca! </emphasis>Mikael levantou os olhos alguns cent�metros acima da borda do abrigo. O sol estava bem � sua frente e o impedia de distinguir os detalhes, mas ele n�o percebeu nenhum movimento.</p><p>Baixou a cabe�a e prosseguiu at� o �ltimo abrigo. <emphasis>Pouco importa se o inimigo tem armas muito boas. Enquanto n�o puder te ver, ele n�o pode te tocar. Proteja-se, proteja-se! N�o se exponha!</emphasis></p><p>Mikael achava-se agora a uns trezentos metros das terras da fazenda de �stergarden. Quarenta metros � frente, estendia-se um espesso matagal de arbustos. Mas, para alcan�ar esse matagal partindo da trincheira, ele seria obrigado a descer uma encosta onde estaria totalmente exposto. Era a �nica sa�da. �s suas costas havia o mar.</p><p>Mikael agachou-se e raciocinou. De repente teve consci�ncia da dor nas t�mporas; percebeu que sangrava abundantemente, sua camiseta estava molhada de sangue. Fragmentos da bala ou estilha�os da parede haviam aberto uma ferida profunda na raiz dos cabelos. As <emphasis>feridas do couro cabeludo sempre sangram muito e por muito tempo, </emphasis>pensou, antes de se concentrar novamente na situa��o. Um �nico tiro poderia ter sido um disparo acidental. Dois tiros significavam que algu�m tentara mat�-lo. N�o sabia se o atirador ainda estava nas proximidades, com o rifle recarregado esperando que ele se mostrasse.</p><p>Tentou se acalmar e pensar de forma racional. Suas op��es eram esperar ou abandonar o local de uma maneira ou de outra. Se o atirador ainda estivesse � espreita, a segunda possibilidade n�o convinha de modo algum. Mas, se ficasse ali esperando, o atirador poderia tranquilamente subir at� a Fortifica��o, encontr�-lo e mat�-lo � queima-roupa.</p><p><emphasis>Ele (ou ela?) n�o pode saber se fui para a direita ou para a esquerda. </emphasis>Um rifle, talvez para a ca�a de alce. Provavelmente com mira telesc�pica. Isso significava que o atirador tinha um campo de vis�o limitado se observasse Mikael atrav�s da lente.</p><p><emphasis>Se estiver encurralado, tome a iniciativa. </emphasis>� melhor do que esperar. Ele espreitou o momento favor�vel e escutou os ru�dos por dois minutos; ent�o ergueu-se sobre a borda da trincheira e correu encosta abaixo o mais r�pido que p�de.</p><p>Ouviu um terceiro disparo, mas bem atr�s de suas costas, quando estava na metade do caminho para o matagal. Um instante depois, lan�ou-se de barriga na cortina de arbustos e rolou num mar de urtigas. Imediatamente voltou a ficar de p� e, ainda curvado, come�ou a se afastar do atirador. Cinquenta metros adiante, parou e escutou. Ouviu um galho estalar em alguma parte entre ele e a Fortifica��o. Suavemente, estendeu-se de novo no ch�o.</p><p><emphasis>Sobre os cotovelos, cambada! N�o de quatro patas! </emphasis>Era uma das express�es favoritas do capit�o Adolfsson. Mikael percorreu os cento e cinquenta metros seguintes rastejando na vegeta��o do matagal. Avan�ou sem fazer ru�do, muito atento aos galhos. Em dois momentos, ouviu estalos no matagal. O primeiro parecia vir de perto, talvez uns vinte metros � direita de onde estava. Ficou totalmente im�vel, como que petrificado. Ao cabo de um momento, ergueu devagar a cabe�a e espiou; n�o viu ningu�m. Continuou im�vel por muito tempo, com os nervos alertas, pronto para fugir ou mesmo lan�ar um contra-ataque se o <emphasis>inimigo </emphasis>viesse em sua dire��o. O estalo que ouviu a seguir vinha de mais longe. Depois nada, sil�ncio.</p><p><emphasis>Ele sabe que estou aqui. Mas ter� se instalado em algum lugar � espera de que eu comece a me mexer ou ter� ido embora?</emphasis></p><p>Mikael continuou avan�ando no matagal at� chegar ao cercado do pasto de �stergarden.</p><p>Come�ava outro momento cr�tico. Um caminho costeava o cercado no lado de fora. Ele ficou de bru�os no ch�o, � espreita. Viu as constru��es � sua frente, a cerca de quatrocentos metros, num terreno com ligeiro declive; � direita, viu umas dez vacas pastando. <emphasis>Como se explica que ningu�m tenha ouvido os disparos e tenha vindo ver o que aconteceu? Ver�o. N�o deve haver ningu�m na fazenda neste momento.</emphasis></p><p>Nem pensar em se aventurar pelo pasto � estaria totalmente exposto �, e o caminho ao longo do cercado era o lugar onde ele mesmo teria se posicionado para ter o campo livre para atirar. Retrocedeu discretamente pelo matagal e prosseguiu at� chegar a um bosque de pinheiros.</p><p>Mikael contornou as terras de �stergarden e dirigiu-se ao monte Sul para regressar. Ao passar pela fazenda, constatou que o carro n�o estava l�. Deteve-se no alto do monte Sul e contemplou Hedeby. As pequenas cabanas do antigo porto dos pescadores estavam ocupadas por veranistas; algumas mulheres de maio conversavam num pont�o. Ele sentiu o cheiro de carne assada num braseiro. Crian�as brincavam na �gua em volta dos pont�es.</p><p>Mikael consultou o rel�gio. Pouco mais de oito da noite. Os tiros haviam sido disparados cinquenta minutos atr�s. Gunnar Nilsson regava o jardim, de cal��o e nu da cintura para cima. <emphasis>H� quanto tempo voc� est� a�? </emphasis>A casa de Henrik Vanger estava desabitada, com exce��o da governanta Anna Nygren. A de Harald Vanger parecia deserta como sempre. Viu Isabella Vanger sentada no jardim dos fundos de sua casa. Falava com algu�m. Mikael demorou um pouco para perceber que era Gerda Vanger, nascida em 1922 e de sa�de fr�gil, que morava com o filho Alexander numa das casas atr�s da de Henrik. Nunca a encontrara, mas algumas vezes a vira em seu terreno. A casa de Cecilia Vanger parecia vazia, por�m de repente Mikael viu uma luz se acender na cozinha. <emphasis>Ela est� em casa. Ser� que o atirador poderia ser uma mulher? </emphasis>N�o duvidava que Cecilia Vanger soubesse manejar um rifle. Mais adiante viu o carro de Martin Vanger na esplanada diante de sua casa. E <emphasis>voc�, h� quanto tempo est� em casa?</emphasis></p><p>Ou teria sido alguma outra pessoa, em quem ele ainda nem sequer pensara? Frode? Alexander? Possibilidades demais.</p><p>Desceu o monte Sul, seguiu o caminho at� o povoado e foi diretamente para casa, sem encontrar ningu�m. A primeira coisa que viu foi a porta da casa entreaberta. Contraiu-se instintivamente. Depois sentiu cheiro de caf� e viu Lisbeth Salander pela janela da cozinha.</p><p>* * *</p><p>Lisbeth ouviu Mikael no vest�bulo e virou-se para ele. Ficou paralisada. O rosto de Mikael tinha um aspecto assustador, com sangue por toda parte come�ando a coagular. O lado esquerdo da camiseta estava molhado de sangue.</p><p>� Foi s� um ferimento no couro cabeludo; est� sangrando muito, mas n�o � grave � disse Mikael antes que ela tivesse tempo de abrir a boca.</p><p>Ela se virou e foi buscar o estojo de primeiros socorros no guarda-lou�as, um estojo que continha apenas dois rolos de algod�o, gaze e uma caixinha de curativos adesivos. Ele tirou as roupas, deixou-as espalhadas no ch�o e foi se olhar no espelho do banheiro.</p><p>O ferimento na t�mpora tinha uns tr�s cent�metros de comprimento e era t�o profundo que Mikael p�de ver um bom peda�o de carne. Continuava sangrando e provavelmente precisaria de alguns pontos, mas um simples curativo resolveria, ele pensou. Umedeceu a toalha e enxugou o rosto.</p><p>Apoiou a toalha sobre a t�mpora e entrou no chuveiro para uma ducha, fechando os olhos. Deu ent�o um murro t�o forte na parede que seus dedos doeram. <emphasis>Filho-da-puta!</emphasis>, pensou. <emphasis>Vou pegar voc�!</emphasis></p><p>Quando Lisbeth tocou seu bra�o, ele sentiu um sobressalto, como se tivesse recebido uma descarga. Olhou-a com tanta raiva nos olhos que, sem querer, ela deu um passo para tr�s. Lisbeth entregou-lhe um sabonete e voltou para a cozinha sem dizer uma palavra.</p><p>Mikael p�s tr�s curativos adesivos ao sair do chuveiro. Entrou no quarto, vestiu uma cal�a e uma camiseta limpas, pegou uma pasta com as fotos que copiara na impressora. A raiva o fazia quase tremer.</p><p>� Fique aqui! � ordenou, �spero, a Lisbeth Salander.</p><p>Foi at� a casa de Cecilia Vanger e calcou a m�o na campainha. Depois de um minuto e meio ela atendeu.</p><p>� N�o quero falar com voc� � ela disse. Depois, viu o rosto dele e o sangue que j� come�ava a vazar dos curativos. � O que aconteceu?</p><p>� Deixe-me entrar. Precisamos conversar. Ela hesitou.</p><p>� N�o temos nada a nos dizer.</p><p>� Agora temos, sim, coisas a nos dizer e podemos discuti-las aqui na porta ou na cozinha.</p><p>A voz de Mikael deixava transparecer sua raiva contida e Cecilia Vanger deu um passo para o lado, deixando-o entrar. Ele foi se sentar � mesa da cozinha.</p><p>� O que aconteceu? � ela perguntou novamente.</p><p>� Voc� diz que as minhas investiga��es sobre o desaparecimento de Harriet s�o um passatempo terap�utico para Henrik. � poss�vel, mas uma hora atr�s algu�m tentou acertar um tiro na minha cabe�a e, na noite passada, algu�m p�s um gato cortado em peda�os na entrada de casa.</p><p>Cecilia Vanger abriu a boca, mas Mikael a interrompeu.</p><p>� Cecilia, pouco me importa quais s�o as suas id�ias fixas e o que a preocupa, ou por que agora voc� me odeia. N�o vou mais me aproximar de voc�, n�o precisa ter medo que eu a importune ou a persiga. Neste momento, eu gostaria de nunca ter ouvido falar de voc� nem da fam�lia Vanger. Mas quero que responda �s minhas perguntas. Quanto mais depressa responder, mais depressa se livrar� de mim.</p><p>� O que quer saber?</p><p>� Primeiro: onde voc� estava uma hora atr�s? O rosto de Cecilia turvou-se.</p><p>� Eu estava em Hedestad. Voltei faz meia hora.</p><p>� H� testemunhas que comprovem isso?</p><p>� Sei l�. N�o preciso me justificar para voc�.</p><p>� Segundo: por que abriu a janela do quarto de Harriet Vanger no dia em que ela desapareceu?</p><p>� O que voc� disse?</p><p>� Voc� ouviu minha pergunta. Durante todos esses anos, Henrik tentou descobrir quem abriu a janela do quarto de Harriet exatamente nos minutos cr�ticos do seu desaparecimento. Todo mundo negou ter feito isso. Algu�m est� mentindo.</p><p>� E o que o faz pensar que fui eu?</p><p>� Esta foto � disse Mikael, jogando a fotografia em cima da mesa. Cecilia Vanger aproximou-se para olhar a foto. Mikael teve a impress�o de ver surpresa e medo. Ela levantou os olhos para ele. Mikael sentiu um pequeno filete de sangue escorrer pelo rosto e pingar na camiseta.</p><p>� Havia umas sessenta pessoas na ilha naquele dia � ele disse. � Vinte e oito eram mulheres. Cinco ou seis tinham cabelos louros e um pouco compridos. S� uma usava um vestido claro.</p><p>Ela olhou intensamente a foto.</p><p>� E acha que sou eu nesta foto?</p><p>� Se n�o �, eu gostaria muito de saber quem voc� acha que �. Ningu�m sabe da exist�ncia dessa foto at� agora. H� v�rias semanas a tenho comigo, mas n�o mostrei a Henrik nem a qualquer outra pessoa, porque tinha um medo terr�vel de transformar voc� em suspeita ou de prejudic�-la. Mas preciso de uma resposta.</p><p>� Ter� a sua resposta. � Ela pegou a foto e a estendeu a ele. � Nesse dia n�o fui ao quarto de Harriet. N�o sou eu nessa foto. N�o tenho absolutamente nada a ver com o desaparecimento dela.</p><p>Dirigiu-se � porta de entrada.</p><p>� Essa � a minha resposta. Agora quero que v� embora. E acho que deveria mostrar esse ferimento a um m�dico.</p><p>Lisbeth Salander o levou ao hospital de Hedestad. Mikael levou dois pontos, puseram-lhe um grande curativo sobre a ferida e deram-lhe uma pomada de cortisona para os arranh�es de urtiga no pesco�o e nas m�os.</p><p>Ao deixar o hospital, Mikael refletiu demoradamente se n�o deveria avisar a pol�cia. Mas logo imaginou as manchetes: "Jornalista condenado por difama��o � alvo de atirador misterioso". Ele balan�ou a cabe�a.</p><p>� Vamos para casa � disse a Lisbeth.</p><p>Ao regressarem � ilha j� estava escuro, o que convinha bem a Lisbeth Salander. Ela p�s uma sacola em cima da mesa da cozinha.</p><p>� Peguei emprestado um equipamento da Milton Security e chegou a hora de utiliz�-lo. Prepare um caf� enquanto isso.</p><p>Ela espalhou quatro detectores de movimento ao redor da casa e explicou que, se algu�m se aproximasse a menos de seis, sete metros, um sinal de r�dio dispararia o bipe que havia instalado no quarto de Mikael. Na mesma hora, duas c�meras de v�deo ultra-sens�veis colocadas nas �rvores, na frente e atr�s da casa, come�ariam a enviar sinais a um laptop dentro do arm�rio do vest�bulo. Ela dissimulou as c�meras com um tecido escuro, deixando apenas as objetivas descobertas.</p><p>Colocou uma terceira c�mera numa gaiola de passarinho em cima da porta. Para introduzir o cabo ali, fez um buraco na parede. A objetiva estava apontada para a estrada e para o caminho do port�o at� a porta de entrada. A c�mera tirava uma foto de baixa resolu��o por segundo, armazenada no disco r�gido de um segundo laptop no arm�rio.</p><p>Em seguida, instalou um capacho com captores de press�o no vest�bulo. Se algu�m burlasse os detectores de movimento e entrasse na casa, um alarme de cento e quinze decib�is dispararia. Lisbeth mostrou como fazer para desativar os detectores com a chave de um pequeno cofre colocado no arm�rio. Ela tamb�m emprestara um bin�culo de vis�o noturna, que deixou na mesa da saleta de trabalho.</p><p>� Voc� parece ter pensado em tudo � disse Mikael, servindo-lhe uma x�cara de caf�.</p><p>� Outra coisa, nada mais de <emphasis>jogging </emphasis>at� que a gente tenha resolvido tudo isso.</p><p>� Pode crer que perdi todo o interesse pelo treinamento.</p><p>� N�o estou brincando. Esse caso come�ou como um enigma hist�rico, mas hoje de manh� havia um gato morto na entrada e no fim da tarde algu�m tentou estourar os seus miolos. N�s cutucamos algu�m do esconderijo.</p><p>Eles fizeram uma refei��o fora de hora, com carne fria e salada de batatas. Mikael estava muito cansado e com uma dor de cabe�a terr�vel. N�o conseguia falar mais nada e foi se deitar.</p><p>Lisbeth Salander permaneceu ali de p� e depois continuou lendo o inqu�rito at� as duas da manh�. A miss�o em Hedeby havia se transformado em algo amea�ador e complicado ao mesmo tempo.</p><empty-line/><p><strong>23. SEXTA-FEIRA 11 DE JULHO</strong></p><p>Mikael despertou �s seis da manh� com o sol batendo direto no rosto porque a cortina n�o fora bem fechada. A cabe�a estava vagamente dolorida e ele sentiu uma dor aguda ao tocar o curativo. Lisbeth Salander dormia de bru�os, com um bra�o em cima dele. Ele olhou o drag�o que se estendia em suas costas, do ombro direito �s n�degas.</p><p>Contou as tatuagens. Al�m do drag�o nas costas e de uma vespa no pesco�o, havia uma tira em volta do tornozelo, outra em volta do b�ceps esquerdo, um macaco chin�s no quadril e uma rosa na panturrilha. Afora o drag�o, todas as tatuagens eram pequenas e discretas.</p><p>Mikael saiu lentamente da cama e puxou a cortina. Foi ao banheiro e voltou para a cama sem fazer ru�do, para n�o despertar Lisbeth.</p><p>Algumas horas depois, tomavam o caf�-da-manh� no jardim. Lisbeth olhou para Mikael.</p><p>� Temos um mist�rio para resolver. Como faremos?</p><p>� Vamos fazer um balan�o das informa��es que j� temos e tentar descobrir outras.</p><p>� Uma das informa��es � que algu�m da vizinhan�a est� tentando te acertar.</p><p>� A quest�o � saber <emphasis>por qu�. </emphasis>� porque estamos prestes a resolver o mist�rio de Harriet ou porque descobrimos um assassino serial at� ent�o desconhecido?</p><p>� Deve haver uma liga��o. Mikael concordou com a cabe�a.</p><p>� Se Harriet descobriu um assassino serial, era, necessariamente, algu�m do seu meio. Se examinarmos a galeria dos personagens dos anos 1960, havia pelo menos duas d�zias de candidatos poss�veis. Hoje n�o resta praticamente ningu�m, com exce��o de Harald Vanger, e n�o d� para acreditar que ele, com quase noventa e cinco anos, anda pelos bosques com um rifle. N�o teria for�a sequer para levantar uma espingarda de ca�a. Hoje todos s�o ou muito velhos para ser perigosos, ou muito jovens para terem agido nos anos 1950. O que nos leva de volta ao ponto de partida.</p><p>� A menos que dois colaborem um com o outro. Um velho e um jovem.</p><p>� Harald e Cecilia. N�o creio. Acho que ela disse a verdade quando afirmou que n�o estava na janela.</p><p>� Quem seria ent�o?</p><p>Abriram o notebook de Mikael e passaram a hora seguinte examinando com aten��o todas as pessoas que apareciam nas fotos do acidente.</p><p>� Imagino que a aldeia inteira veio ver o acidente. Era setembro. A maioria est� de casaco ou pul�ver. S� uma pessoa tem cabelos louros compridos e vestido claro.</p><p>� Cecilia Vanger aparece em muitas fotos. D� a impress�o de estar o tempo todo em movimento, entre as casas e as pessoas que observam o acidente. Aqui ela est� falando com Isabella. Aqui est� com o pastor Falk. Aqui com Greger, o irm�o de Henrik.</p><p>� Espere! � interrompeu Mikael. � O que � isso na m�o dele, Greger?</p><p>� Uma coisa quadrada. Parece uma caixinha.</p><p>� � uma Hasselblad! Ele tamb�m estava com uma m�quina fotogr�fica.</p><p>Repassaram as fotos mais uma vez. Greger era visto em v�rias, mas em geral encoberto. Numa das fotos, via-se claramente que ele tinha uma caixa quadrada na m�o.</p><p>� Acho que voc� est� certo. � uma m�quina fotogr�fica.</p><p>� O que significa que podemos nos lan�ar a uma outra ca�a �s fotos.</p><p>� Vamos deixar isso pra l� por enquanto � disse Lisbeth Salander. � Posso levantar uma hip�tese?</p><p>� Diga.</p><p>� O que acha disto: algu�m da jovem gera��o descobre que algu�m da velha gera��o era um assassino serial, mas n�o quer que ningu�m saiba. A honra da fam�lia, et cetera e tal. Isso significaria que existem duas pessoas envolvidas na hist�ria, mas que n�o agem juntas. O assassino pode estar morto h� muito tempo, enquanto o nosso perseguidor quer simplesmente que a gente abandone o caso e saia daqui.</p><p>� Tamb�m pensei nisso � disse Mikael. � Mas, nesse caso, por que p�r um gato esquartejado na nossa porta? � uma refer�ncia direta aos assassinatos. � Mikael tocou a B�blia de Harriet. � Mais uma par�dia das leis sobre os sacrif�cios por imola��o.</p><p>Lisbeth Salander inclinou-se para tr�s e olhou a igreja enquanto citava a B�blia com ar pensativo. Parecia falar sozinha.</p><p>� <emphasis>"Depois imolar� o novilho diante do Senhor, e os sacerdotes, filhos de Aar�o, oferecer�o o sangue e o derramar�o ao redor sobre o altar que est� � entrada da Tenda da Reuni�o. Depois esfolar� a v�tima e a cortar� em peda�os."</emphasis></p><p>Ela se calou e de repente percebeu que Mikael a olhava com o rosto tenso. Ele abriu a B�blia no in�cio do <emphasis>Lev�tico.</emphasis></p><p>� Conhece o vers�culo 12 tamb�m? Lisbeth permaneceu calada.</p><p>� A seguir... � come�ou Mikael, balan�ando a cabe�a para estimul�-la a continuar.</p><p>� "A <emphasis>seguir a v�tima ser� cortada em peda�os, com a cabe�a e a gordura, que o sacerdote dispor� sobre a lenha colocada no fogo do altar." </emphasis>A voz dela estava gelada.</p><p>� E o seguinte?</p><p>Ela se levantou de repente.</p><p>� Lisbeth, voc� tem mem�ria fotogr�fica! � exclamou Mikael, estupefato. � � por isso que l� as p�ginas do inqu�rito em segundos.</p><p>A rea��o dela foi quase explosiva. Fulminou Mikael com tanta raiva no olhar que ele ficou perplexo. Depois, os olhos de Lisbeth se encheram de desespero; virou-se e saiu correndo em dire��o ao port�o do jardim.</p><p>� Lisbeth! � chamou Mikael, completamente at�nito.</p><p>Ela desapareceu na estrada.</p><p><strong><emphasis>* * *</emphasis></strong></p><p>Mikael levou o computador para dentro de casa, ativou o alarme e trancou a porta antes de sair atr�s de Lisbeth. Encontrou-a vinte minutos depois sentada num pont�o do porto de recreio molhando os p�s na �gua e fumando um cigarro. Lisbeth o ouviu chegar e ele percebeu os ombros dela se enrijecerem um pouco. Deteve-se a dois metros de onde ela estava.</p><p>� N�o sei o que fiz de mal, mas n�o tive a inten��o de deix�-la nesse estado.</p><p>Ela n�o respondeu.</p><p>Ele se aproximou, sentou-se ao lado dela e p�s docemente a m�o sobre o seu ombro.</p><p>� Por favor, Lisbeth, fale comigo. Ela virou a cabe�a e olhou para ele.</p><p>� N�o h� nada a dizer. Sou um monstro, s� isso.</p><p>� Eu ficaria feliz se tivesse a metade da sua mem�ria. Ela jogou o toco de cigarro na �gua.</p><p>Mikael permaneceu um bom tempo em sil�ncio. <emphasis>Que devo dizer? Voc� � uma menina perfeitamente normal. E qual � o problema se for um pouco diferente? Por que essa auto-imagem te perturba?</emphasis></p><p>� Percebi que voc� � diferente das outras mulheres desde o primeiro instante em que eu te vi � ele falou. � E vou dizer uma coisa: fazia muito tempo que eu n�o gostava naturalmente de algu�m assim desde o primeiro instante.</p><p>Crian�as sa�ram de uma cabana em frente ao porto e se atiraram na �gua. Eugen Norman, o artista pintor com quem Mikael ainda n�o trocara uma s� palavra, estava sentado numa cadeira diante de sua casa, fumando um cachimbo e observando Mikael e Lisbeth.</p><p>� Tenho vontade de ser seu amigo, se me quiser como amigo � disse Mikael. � Mas cabe a voc� decidir. Vou para casa preparar um caf�. Volte quando tiver vontade.</p><p>Levantou-se e a deixou tranquila. Estava na metade do caminho, na subida, quando ouviu os passos dela �s suas costas. Voltaram juntos em sil�ncio.</p><p>Ela se deteve no momento em que chegavam em frente � casa.</p><p>� Eu estava pensando... dissemos que tudo � uma par�dia da B�blia. Certo. Ele cortou em peda�os um gato, mas imagino que n�o era f�cil achar um novilho. De todo modo, est� seguindo o enredo b�sico. Eu me pergunto...</p><p>Ela levantou os olhos para a igreja.</p><p>� <emphasis>"...os sacerdotes oferecer�o o sangue e o derramar�o ao redor sobre o altar que est� � entrada da Tenda da Reuni�o..."</emphasis></p><p>Atravessaram a ponte e subiram em dire��o � igreja, olhando ao redor. Mikael verificou a porta da igreja: trancada. Continuaram andando mais um pouco, olhando ao acaso os t�mulos do cemit�rio, at� chegar � capela situada � beira d'agua. Mikael arregalou os olhos. N�o era uma capela, era um jazigo. Acima da porta podia-se ler gravado na pedra o nome Vanger, seguido de uma frase em latim que ele n�o soube decifrar.</p><p>� <emphasis>"Para repousar at� o fim dos tempos" </emphasis>� disse Lisbeth. Mikael olhou-a admirado. Ela encolheu os ombros.</p><p>� J� li essa frase em algum lugar � disse.</p><p>Mikael deu uma risada. Ela ficou r�gida e a princ�pio pareceu furiosa, mas logo relaxou ao perceber que ele n�o tinha zombado dela. A situa��o � que era c�mica.</p><p>Mikael verificou a porta. Trancada. Ele refletiu um instante e disse a Lisbeth para sentar-se ali e esperar. Foi bater � porta de Henrik, e Anna Nygren veio abrir. Explicou que queria conhecer a capela mortu�ria da fam�lia Vanger e perguntou onde Henrik guardava a chave. Anna pareceu hesitar, mas cedeu quando Mikael lembrou a ela que trabalhava diretamente para Henrik. Ela foi buscar a chave no gabinete.</p><p>No momento em que Mikael e Lisbeth abriram a porta, viram que estavam certos. O fedor de cad�ver queimado e de restos carbonizados pairava, pesado, no ar. Mas o torturador do gato n�o acendera o fogo. Num canto havia um ma�arico semelhante ao usado pelos esquiadores para derreter a cera dos esquis. Lisbeth pegou a m�quina digital do bolso da saia jeans e tirou algumas fotos. Pegou tamb�m o ma�arico.</p><p>� Pode ser uma prova. Talvez tenha deixado impress�es digitais � ela disse.</p><p>� Claro, podemos pedir a todos os membros da fam�lia Vanger que nos forne�am suas impress�es digitais � ironizou Mikael. � Gostaria de v�-la tentando obter as de Isabella.</p><p>� Existem meios � retrucou Lisbeth.</p><p>No ch�o havia sangue em abund�ncia e uma tesoura de latoeiro que eles deduziram ter servido para cortar a cabe�a do gato.</p><p>Mikael olhou ao redor. Um t�mulo principal, mais elevado, era certamente o de Alexander Vangeersad; outros quatro, no ch�o, abrigavam os ancestrais da fam�lia. Depois deles, a fam�lia Vanger optara, aparentemente, pela crema��o. Uns trinta pequenos nichos de parede traziam nomes de membros do cl�. Mikael seguiu a hist�ria familiar na ordem cronol�gica e perguntou-se onde estariam enterrados os membros que n�o tinham lugar na capela � os que talvez n�o fossem considerados suficientemente importantes.</p><p>� Agora temos certeza � disse Mikael, quando atravessaram de volta a ponte. � Estamos atr�s de um louco furioso.</p><p>� Explique.</p><p>Mikael parou no meio da ponte e se apoiou na amurada.</p><p>� Se fosse um doido comum que quisesse nos amedrontar, teria matado o gato na sua garagem ou no bosque. Mas ele foi � capela da fam�lia. H� algo de compulsivo nisso. Imagine o risco que correu. � ver�o e as pessoas andam por a� at� tarde. O caminho do cemit�rio � um atalho muito usado pelos habitantes de Hedeby. Mesmo que o sujeito tenha fechado a porta, n�o � f�cil calar um gato e evitar o cheiro de queimado.</p><p>� Quem?</p><p>� N�o consigo imaginar Cecilia indo l� � noite com um ma�arico. Lisbeth encolheu os ombros.</p><p>� N�o confio em nenhum desses doidos, nem mesmo em Frode e no seu amigo Henrik. Toda essa gente � capaz de enrolar voc�. Que vamos fazer agora?</p><p>Houve um momento de sil�ncio. Mikael disse ent�o:</p><p>� Consegui descobrir muitos segredos a seu respeito. Quantas pessoas sabem que voc� � uma <emphasis>hacker?</emphasis></p><p>� Ningu�m.</p><p>� Exceto eu, quer dizer.</p><p>� Aonde voc� quer chegar?</p><p>� Quero saber se est� comigo. Se confia em mim.</p><p>Ela o olhou por um bom tempo. Acabou encolhendo novamente os ombros.</p><p>� N�o sei o que responder.</p><p>� Confia em mim? � insistiu Mikael.</p><p>� At� agora, sim � ela respondeu.</p><p>� Bem. Vamos fazer um pequeno passeio at� a casa de Dirch Frode.</p><p>Sorrindo educadamente, a mulher do advogado Frode, que n�o conhecia Lisbeth Salander, arregalou os olhos quando a viu. Indicou-lhes o jardim nos fundos da casa. O rosto de Frode iluminou-se ao ver Lisbeth. Ele se levantou e a saudou com cortesia.</p><p>� Estou feliz de v�-la � disse. � Estava me sentindo culpado de n�o ter expressado suficientemente minha gratid�o pelo trabalho extraordin�rio que fez para n�s. Tanto no �ltimo inverno quanto agora.</p><p>Lisbeth o encarou desconfiada.</p><p>� Fui paga para isso � disse.</p><p>� N�o foi isso que eu quis dizer. Julguei-a mal quando a vi pela primeira vez. Gostaria de me desculpar.</p><p>Mikael ficou surpreso. Dirch Frode era capaz de pedir desculpas a uma jovem de vinte e cinco anos coberta de <emphasis>piercings </emphasis>e tatuagens, por algo de que nem precisava se desculpar. O advogado subiu alguns pontos na estima de Mikael. Lisbeth Salander olhava para a frente e o ignorava.</p><p>Frode voltou-se para Mikael.</p><p>� O que aconteceu na sua testa?</p><p>Sentaram-se. Mikael resumiu os acontecimentos dos �ltimos dias. Quando contou que algu�m havia disparado tr�s tiros contra ele, Frode ergueu-se bruscamente. Sua indigna��o parecia incontest�vel.</p><p>� Mas isso � uma loucura! � Fez uma pausa e olhou fixamente para Mikael. � Sinto muito, mas temos que parar. N�o posso colocar a vida de voc�s em perigo. Preciso falar com Henrik e anular o contrato.</p><p>� Sente-se � disse Mikael.</p><p>� Voc� n�o entende...</p><p>� O que eu entendo � que Lisbeth e eu chegamos t�o perto do alvo que quem est� por tr�s de tudo isso entrou em p�nico e come�ou a agir de maneira irracional. Lisbeth e eu gostar�amos de lhe fazer algumas perguntas. Em primeiro lugar: quantas chaves existem da capela funer�ria da fam�lia Vanger e quem possui uma?</p><p>Frode refletiu um instante.</p><p>� Na verdade, n�o sei. Eu diria que v�rios membros da fam�lia t�m acesso � capela. Sei que Henrik possui uma chave e que Isabella vai at� l� �s vezes, mas desconhe�o se ela tem sua pr�pria chave ou se usa a de Henrik.</p><p>� Certo. Voc� continua fazendo parte do conselho administrativo do grupo Vanger. Existem arquivos da empresa? Uma biblioteca ou algo semelhante, onde haja recortes de imprensa e informa��es sobre o grupo de ano em ano?</p><p>� Sim. Na sede da empresa em Hedestad.</p><p>� Precisamos ter acesso a tudo isso. H� tamb�m velhos boletins do grupo diretivo, esse tipo de material?</p><p>� Mais uma vez sou obrigado a responder que n�o sei. H� trinta anos n�o ponho os p�s no departamento de arquivos. Mas eu o porei em contato com Bodil Lindgren. Ela � a respons�vel pelo arquivamento de todos os documentos do grupo.</p><p>� Pode telefonar para ela e conseguir que Lisbeth comece a percorrer os arquivos j� a partir de hoje � tarde? Ela quer ler todos os velhos recortes de imprensa sobre o grupo Vanger. Eu disse todos, e caber� a ela julgar o que pode ter interesse.</p><p>� N�o h� problema. Algo mais?</p><p>� Sim. Greger Vanger estava com uma Hasselblad na m�o no dia do acidente da ponte. Isso significa que tamb�m pode ter tirado fotos. Onde elas foram guardadas depois da morte dele?</p><p>� O mais prov�vel � que estejam com a vi�va.</p><p>� Ser� que voc� poderia...</p><p>� Vou telefonar para Alexander e perguntar.</p><p>� E voc� quer que eu procure o qu�? � perguntou Lisbeth quando eles deixaram Frode e atravessaram a ponte para voltar � ilha.</p><p>� Recortes de imprensa e publica��es do tipo boletim do grupo empresarial. Quero que leia tudo que se relacione com as datas em que os assassinatos foram cometidos nos anos 1950 e 1960. Anote tudo o que lhe parecer um pouco estranho. Acho melhor voc� se encarregar dessa pesquisa. Pelo que percebi, sua mem�ria � melhor do que a minha.</p><p>Ela desferiu-lhe um soco muito profissional nas costelas. Cinco minutos depois, sua Kawasaki atravessava a ponte.</p><p>Mikael apertou a m�o de Alexander Vanger. Ele estivera viajando na maior parte do tempo da estadia de Mikael em Hedeby, que s� o avistara rapidamente. <emphasis>Ele tinha vinte anos quando Harriet desapareceu.</emphasis></p><p>� Dirch Frode disse que voc� queria ver umas fotografias antigas.</p><p>� Seu pai possu�a uma Hasselblad.</p><p>� Exato. Ela ainda existe, mas ningu�m a usa mais.</p><p>� Voc� deve estar sabendo que estou pesquisando o que aconteceu a Harriet, a pedido de Henrik.</p><p>� Foi o que entendi. H� muita gente que n�o est� gostando disso.</p><p>� � bem poss�vel. Evidentemente, n�o � obrigado a me mostrar nada.</p><p>� Ora, n�o h� problema! O que deseja ver?</p><p>� Fotos que seu pai possa ter tirado no dia do desaparecimento de Harriet.</p><p>Subiram at� o s�t�o. Alexander precisou de alguns minutos para localizar uma caixa com um monte de fotografias soltas e misturadas.</p><p>� Pode levar a caixa � disse. � Se existir alguma das que procura, deve estar a� dentro.</p><p>Mikael passou uma hora selecionando as fotos da caixa que Alexander lhe entregara. Para ilustrar a cr�nica familiar, a caixa continha algumas verdadeiras preciosidades, entre as quais um grande n�mero de fotografias de Greger Vanger na companhia do grande l�der nazista sueco dos anos 1940, Sven Olof Lindholm. Mikael as separou.</p><p>Encontrou v�rios envelopes com fotos que o pr�prio Greger certamente tirara e que mostravam diferentes pessoas e reuni�es de fam�lia, bem como fotos t�picas de f�rias, pesca em torrentes nas montanhas e uma viagem � It�lia com a fam�lia. Entre outros lugares, haviam visitado a torre de Pisa.</p><p>Acabou encontrando quatro fotografias do acidente do caminh�o-tanque. Embora a m�quina fosse de excelente qualidade, Greger era um p�ssimo fot�grafo. As fotos mostravam ou apenas o caminh�o, ou pessoas de costas. Somente numa delas via-se Cecilia Vanger de perfil.</p><p>Mikael escaneou as fotos, mesmo sabendo que nada de novo ofereciam. P�s tudo de volta na caixa e comeu um sandu�che enquanto refletia. Por volta das tr�s da tarde, foi ver Anna Nygren.</p><p>� Eu gostaria de saber se Henrik tem outros �lbuns de fotografias al�m dos que fazem parte das investiga��es dele sobre Harriet.</p><p>� Sim, Henrik sempre gostou de fotografia, desde jovem, que eu saiba. H� muitos �lbuns no escrit�rio dele.</p><p>� Eu poderia v�-los?</p><p>Anna Nygren hesitou. Uma coisa era dar a chave da capela funer�ria � l� quem reinava era Deus �, outra permitir que Mikael entrasse no gabinete de Henrik Vanger � o dom�nio de Deus n�o chegava at� l�. Mikael sugeriu que Anna telefonasse a Dirch Frode, se tinha d�vidas. Por fim, a contragosto, ela deixou Mikael entrar. Um metro da prateleira de baixo, junto ao ch�o, continha unicamente pastas com fotografias. Mikael sentou-se na mesa de Henrik e abriu o primeiro �lbum.</p><p>Henrik Vanger guardava todo tipo de fotografia de fam�lia. Muitas datavam de seus antepassados. As mais antigas remontavam aos anos 1870 e mostravam homens austeros e mulheres r�gidas. Havia fotos dos pais de Henrik e de outros membros da fam�lia. Numa, o pai de Henrik festejava o Dia de S�o Jo�o com amigos em Sandhamn, em 1906. Uma outra de Sandhamn mostrava Fredrik Vanger e sua mulher Ulrika na companhia do pintor Anders Zorn e do escritor Albert Engstr�m, em volta de uma mesa. Viu um Henrik Vanger adolescente, de terno, numa bicicleta. Viu o capit�o Oskar Granath que, no auge da guerra, transportara com seguran�a Henrik e sua bem-amada Edith Lobach a Karlskrona.</p><p>Anna subiu para servir-lhe uma x�cara de ch�. Ele agradeceu. Chegou aos tempos modernos e passou rapidamente por algumas fotos que mostravam Henrik na flor da idade, inaugurando f�bricas ou apertando a m�o de Tage Erlander. Uma foto do in�cio dos anos 1960 mostrava Henrik e o grande industrial e financista Marcus Wallenberg. Os dois capitalistas olhavam-se com ar carrancudo; visivelmente n�o havia uma rela��o cordial entre eles.</p><p>Seguiu folheando um pouco mais e deteve-se numa p�gina que Henrik rotulara de <emphasis>Conselho de fam�lia 1966, </emphasis>escrito a l�pis. Duas fotos coloridas mostravam homens discutindo e fumando charuto. Mikael reconheceu Henrik, Harald, Greger e os genros de Johan Vanger. Duas fotos do jantar, em que cerca de quarenta homens e mulheres estavam � mesa e olhavam para a m�quina fotogr�fica. Mikael se deu conta de que essas fotos tinham sido tiradas ap�s o drama na ponte, mas antes que soubessem do desaparecimento de Harriet. Examinou as fisionomias. Era desse jantar que ela deveria ter participado. Um daqueles homens j� sabia que ela desaparecera? As fotos, claro, n�o forneciam nenhuma resposta.</p><p>De repente, Mikael viu algo que o fez engasgar-se com o ch�. Tossiu e endireitou-se na cadeira.</p><p>Sentada num canto da mesa com um vestido claro, Cecilia Vanger sorria para a c�mera. Ao lado dela estava sentada outra mulher loura de cabelos compridos e com um vestido claro id�ntico. Eram t�o parecidas que poderiam passar por g�meas. E ent�o a pe�a do quebra-cabe�a se encaixou. N�o era Cecilia Vanger na janela de Harriet � era sua irm� Anita, dois anos mais jovem e que hoje morava em Londres.</p><p>O que foi mesmo que Lisbeth dissera? <emphasis>Cecilia Vanger aparece em muitas fotos. D� a impress�o de estar o tempo todo andando entre as pessoas. </emphasis>N�o. Eram duas mulheres diferentes e o acaso quis que nunca aparecessem juntas na mesma foto. Nas fotos em preto-e-branco tiradas de longe, pareciam id�nticas. Henrik provavelmente sempre distinguiu as irm�s, mas para Mikael e Lisbeth elas eram t�o semelhantes que pensaram numa �nica pessoa. E ningu�m lhes apontou o erro, pois nunca ocorreu a eles perguntar nada.</p><p>Mikael virou as p�ginas e sentiu os cabelos se arrepiarem na nuca. Como se uma corrente de ar gelado tivesse entrado no escrit�rio.</p><p>Eram fotografias tiradas no dia seguinte, quando as buscas de Harriet come�aram. Um jovem inspetor de pol�cia, Gustav Morell, dava instru��es a um grupo com dois policiais uniformizados e uns dez homens de botas, reunidos para a batida. Henrik Vanger vestia uma capa de chuva que descia at� os joelhos e um chap�u ingl�s de aba longa.</p><p>Bem � esquerda havia um jovem um pouco gordo, de cabelos louros n�o muito curtos. Vestia uma jaqueta escura com um tom vermelho nos ombros. A foto estava bem n�tida. Mikael reconheceu-o imediatamente � e a jaqueta �, mas, para ter certeza, pegou a foto e desceu para perguntar a Anna Nygren se ela sabia quem era.</p><p>� Sim, claro, � Martin. Devia ter uns dezoito anos nessa foto.</p><p>Lisbeth Salander percorreu, por ordem cronol�gica, as diversas not�cias divulgadas na imprensa sobre o grupo Vanger, ano ap�s ano. Come�ou em 1949 e foi avan�ando metodicamente. O problema era a imensid�o de arquivos de recortes. O grupo era mencionado na imprensa quase todos os dias durante esse per�odo � na imprensa nacional e sobretudo na local. Havia an�lises econ�micas, coment�rios dos sindicatos, not�cias de negocia��es e amea�as de greve, inaugura��es e fechamentos de f�bricas, balan�os anuais, mudan�as de diretoria, lan�amentos de novos produtos no mercado... uma quantidade enorme de informa��es. <emphasis>Clique. Clique. Clique. </emphasis>Seu c�rebro trabalhava a pleno vapor quando focalizava e absorvia a informa��o de um recorte antigo.</p><p>Esfalfava-se havia j� uma hora, quando teve uma id�ia. Dirigiu-se � respons�vel pelos arquivos, Bodil Lindgren, e perguntou se havia um quadro das implanta��es das f�bricas das empresas Vanger nos anos 1950 e 1960.</p><p>Bodil Lindgren olhou Lisbeth Salander com uma desconfian�a e uma frieza evidentes. N�o apreciava de modo algum que uma pessoa estranha tivesse sido autorizada a introduzir-se nos arquivos sagrados do grupo para examinar o que bem entendesse � ainda mais uma mo�a com aquela apar�ncia de uma anarquista de quinze anos de idade, completamente doida. Mas Dirch Frode lhe dera instru��es bem claras. Lisbeth Salander podia examinar o que quisesse. E era urgente. Bodil Lindgren foi buscar os balan�os anuais do per�odo solicitado por Lisbeth; cada balan�o trazia um mapa com os tent�culos do grupo por toda a Su�cia.</p><p>Lisbeth olhou o mapa e observou que o grupo tinha in�meras f�bricas, escrit�rios e pontos de venda. Constatou que em cada localidade onde um assassinato fora cometido havia igualmente um ponto vermelho, ou v�rios, indicando a presen�a do grupo Vanger.</p><p>Encontrou a primeira liga��o em 1957. Rakel Lunde, em Landskrona, fora encontrada morta um dia depois de a sociedade V. &amp; C. Constru��es arrebatar uma grande encomenda de v�rios milh�es de coroas para a constru��o de um novo centro comercial na regi�o. V. &amp; C. significava Vanger &amp; Carlen Constru��es e fazia parte do grupo Vanger. O jornal local havia entrevistado Gottfried Vanger, que fora assinar o contrato.</p><p>Lisbeth lembrou-se de uma coisa que lera no inqu�rito policial nos arquivos do condado de Landskrona. Rakel Lunde, cartomante nas horas vagas, era faxineira. Havia trabalhado na V. <emphasis>&amp; </emphasis>C. Constru��es.</p><p>�s sete da noite, Mikael chamou Lisbeth umas dez vezes e constatou que seu celular estava desligado. Ela n�o queria ser interrompida enquanto vasculhava os arquivos.</p><p>Ele andava de um lado para o outro na casa. Havia retornado �s anota��es de Henrik sobre o que Martin Vanger fazia na �poca do desaparecimento de Harriet.</p><p>Martin Vanger cursava o �ltimo ano do colegial em Uppsala, em 1966. <emphasis>Uppsala. Lena Andersson, colegial de dezessete anos. A cabe�a separada da gordura.</emphasis></p><p>Henrik mencionara a certa altura � mas Mikael precisou consultar suas anota��es para encontrar a passagem � que Martin fora um rapaz fechado. As pessoas preocupavam-se com ele. Quando o pai morreu afogado, sua m�e, Isabella, decidiu envi�-lo a Uppsala � uma mudan�a de ambiente, e ele foi acolhido por Harald Vanger. <emphasis>Harald e Martin? </emphasis>N�o combinava.</p><p>N�o havia lugar no carro para Martin Vanger ir � reuni�o de fam�lia em Hedestad. Ele perdeu o trem e s� chegou � tarde; foi um dos que estavam retidos no outro lado da ponte na hora do acidente. S� conseguiu chegar � ilha por volta das seis, de barco. Foi recebido, entre outros, pelo pr�prio Henrik Vanger. Por causa disso, Henrik colocou-o bem embaixo na lista dos que podiam ter alguma rela��o com o desaparecimento de Harriet.</p><p>Martin Vanger afirmou n�o ter encontrado Harriet naquele dia. Ele mentia. Chegou a Hedestad mais cedo e foi visto pela irm� na rua da Esta��o. Mikael podia refutar sua mentira com fotos que haviam ficado enterradas durante quase quarenta anos.</p><p>Harriet Vanger viu o irm�o e isso a chocou. Ela voltou � ilha e tentou falar com Henrik Vanger, por�m desapareceu antes que a conversa ocorresse. O <emphasis>que pretendia contar? Uppsala? Mas Lena Andersson, Uppsala, n�o estava na sua lista. Voc� n�o estava sabendo.</emphasis></p><p>A hist�ria ainda n�o fazia sentido para Mikael. Harriet desapareceu por volta das tr�s da tarde. Havia provas de que Martin estava do outro lado da ponte nessa hora. Ele � visto em fotografias tiradas do p�tio da igreja. Era imposs�vel que pudesse ter feito mal a Harriet na ilha. Faltava ainda uma pe�a do quebra-cabe�a. <emphasis>Um c�mplice ent�o? Anita Vanger?</emphasis></p><p>Os arquivos permitiram a Lisbeth constatar que a posi��o de Gottfried Vanger no grupo havia mudado ao longo dos anos. Ele nascera em 1927. Aos vinte anos, conheceu Isabella e logo a engravidou. Martin Vanger nasceu em 1948 e os dois jovens n�o tiveram outra sa�da sen�o casar.</p><p>Gottfried tinha vinte e dois anos quando Henrik o introduziu no escrit�rio central do grupo. Era muito talentoso e come�avam a consider�-lo um futuro l�der. Aos vinte e cinco anos, assegurou um lugar na dire��o, como diretor adjunto da �rea de desenvolvimento de empresas. Uma estrela em ascens�o.</p><p>Em determinado momento, em meados dos anos 1950, sua carreira se interrompeu. <emphasis>Passou a beber. O casamento com Isabella se deteriorava. Os filhos, Martin e Harriet, padeciam com isso. Henrik deu um basta. </emphasis>A carreira de Gottfried atingira seu ponto culminante. Em 1956, outro cargo de diretor adjunto de desenvolvimento foi criado. Dois diretores adjuntos � um que trabalhava e outro que bebia e permanecia ausente por longos per�odos.</p><p>Mas Gottfried continuava sendo um Vanger, al�m disso charmoso e bem-falante. De 1957 em diante, sua miss�o parecia ter sido percorrer o pa�s para inaugurar f�bricas, resolver conflitos locais e mostrar a todos que a dire��o do grupo levava a s�rio os problemas e se preocupava. <emphasis>Enviamos um de nossos filhos para escutar as queixas de voc�s.</emphasis></p><p>Ela descobriu a segunda liga��o por volta das seis e meia da tarde. Gottfried havia participado de negocia��es em Karlstad, onde o grupo Vanger adquirira uma empresa de madeiras para constru��o. No dia seguinte, a propriet�ria rural Magda Lovisa Sj�berg foi encontrada assassinada.</p><p>A terceira liga��o foi descoberta quinze minutos depois. Uddevalla, 1962. No mesmo dia em que Lea Persson desapareceu, o jornal local entrevistava Gottfried acerca de uma poss�vel extens�o do porto.</p><p>Tr�s horas depois, Lisbeth Salander constatava que Gottfried Vanger, pelo menos em cinco dos oito crimes, estivera nas localidades nos dias que antecediam ou sucediam ao acontecimento. N�o obteve nenhuma informa��o sobre os assassinatos de 1949 e 1954. Examinou uma foto dele num recorte de imprensa. Um homem magro de cabelos castanhos; lembrava um pouco Clark Gable em ...E o <emphasis>vento levou.</emphasis></p><p>Em 1949, Gottfried tinha vinte e dois anos. O primeiro crime ocorreu em terreno conhecido, Hedestad. Rebecka Jacobsson, empregada de escrit�rio do grupo Vanger. Onde se encontraram? O que teria prometido a ela?</p><p>Quando Bodil Lindgren quis fechar o local e voltar para casa �s sete, Lisbeth lhe respondeu secamente que n�o havia terminado. Que fosse embora e deixasse uma chave; ela fecharia tudo ao sair. A respons�vel pelos arquivos ficou t�o irritada com o fato de uma mo�a se achar no direito de lhe dar ordens, que telefonou a Dirch Frode para pedir instru��es. Frode decidiu prontamente que Lisbeth podia ficar a noite toda, se julgasse necess�rio. A srta. Lindgren poderia fazer a gentileza de avisar o guarda do escrit�rio para que a acompanhasse no momento em que ela quisesse sair?</p><p>Lisbeth Salander mordeu o l�bio inferior. O problema, evidentemente, era que Gottfried se afogara numa noite de bebedeira em 1965, enquanto o �ltimo crime ocorrera em Uppsala em fevereiro de 1966. Teria cometido um engano ao incluir a colegial de dezessete anos, Lena Andersson, na lista? <emphasis>N�o. A assinatura n�o era exatamente a mesma, por�m a par�dia b�blica era id�ntica. Havia com certeza uma liga��o.</emphasis></p><p>Nove da noite, anoitecia. O ar estava mais fresco e uma chuva mi�da come�ou a cair. Mikael estava sentado na cozinha, tamborilando na mesa com os dedos, quando o Volvo de Martin Vanger atravessou a ponte e desapareceu em dire��o ao promont�rio. De certo modo, as coisas estavam caminhando r�pido.</p><p>Mikael n�o sabia como agir. Todo o seu corpo ardia de vontade de fazer perguntas � de confrontar. Uma atitude certamente pouco razo�vel, se suspeitava que Martin Vanger era um louco que assassinara a irm� e uma jovem em Uppsala, al�m de haver tentado matar o pr�prio Mikael. Mas Martin Vanger funcionava tamb�m como um �m�. E ele n�o sabia que Mikael sabia. Mikael podia perfeitamente passar na casa dele com um pretexto... digamos, devolver a chave da cabana de Gottfried? Mikael trancou a porta e dirigiu-se ao promont�rio.</p><p>A casa de Harald Vanger estava, como de h�bito, mergulhada na mais completa escurid�o. Tamb�m n�o havia luzes na casa de Henrik, com exce��o de um quarto que dava para o p�tio. Anna fora deitar-se. A casa de Isabella, �s escuras. Cecilia n�o estava em casa. Havia luzes no primeiro andar da casa de Alexander Vanger, mas elas estavam apagadas nas duas casas habitadas por pessoas que n�o pertenciam � fam�lia Vanger. Ele n�o avistou ningu�m.</p><p>Hesitante, deteve-se diante da casa de Martin Vanger, pegou o celular e digitou o n�mero de Lisbeth Salander. Continuava n�o atendendo. Desligou o celular para evitar que tocasse.</p><p>Luzes estavam acesas no andar de baixo. Mikael atravessou a relva e parou a alguns metros da janela da cozinha, por�m n�o viu nenhum movimento. Contornou a casa detendo-se diante de cada janela, mas n�o via Martin Vanger. Contudo, percebeu que a porta lateral da garagem estava entreaberta. <emphasis>N�o v� fazer uma besteira agora. </emphasis>Mas n�o resistiu � tenta��o de dar uma espiada r�pida.</p><p>A primeira coisa que viu, numa bancada de marceneiro, foi uma caixa aberta com muni��o para rifle de ca�a. A seguir, viu dois gal�es de gasolina no ch�o, embaixo da bancada. Est� <emphasis>preparando outra visita noturna, Martin?</emphasis></p><p>� Entre, Mikael. Vi voc� na estrada.</p><p>O cora��o de Mikael parou. Ele virou lentamente a cabe�a e viu Martin Vanger na penumbra de uma porta que levava ao interior da casa.</p><p>� N�o conseguiu se conter, precisava vir at� aqui, n�o � mesmo? A voz era calma, quase amistosa.</p><p>� Oi, Martin � respondeu Mikael.</p><p>� Entre � repetiu Martin. � Por aqui.</p><p>Deu um passo para o lado e estendeu a m�o esquerda num gesto convidativo. Levantou a m�o direita e Mikael viu um reflexo de metal fosco.</p><p>� Para a sua informa��o, � uma Glock. N�o fa�a besteira. A essa dist�ncia eu n�o costumo errar o alvo.</p><p>Mikael se aproximou devagar. Quando estava bem perto de Martin Vanger, parou e o olhou nos olhos.</p><p>� Eu precisava vir. Tenho uma por��o de perguntas a lhe fazer.</p><p>� Entendo. Pela porta, venha.</p><p>Mikael entrou lentamente na casa. A passagem conduzia ao vest�bulo e depois � cozinha, mas antes de chegar l� Martin o deteve pondo de leve a m�o em seu ombro.</p><p>� N�o, na cozinha n�o. Entre � direita. Abra a porta ao lado.</p><p>O por�o. Mikael havia descido metade da escada quando Martin girou um interruptor e as luzes se acenderam. A direita ficava a caldeira. A sua frente, sentiu o cheiro da lavanderia. Martin Vanger o conduziu � esquerda, a um pequeno quarto com velhos m�veis e pastas. Bem ao fundo havia outra porta. Uma porta blindada de a�o com uma fechadura de seguran�a.</p><p>� Tome � disse Martin, jogando um molho de chaves para Mikael. � Abra.</p><p>Mikael abriu a porta.</p><p>� H� um interruptor � esquerda. Mikael acabava de abrir a porta do inferno.</p><p>Por volta das nove da noite, Lisbeth foi buscar um caf� e um sandu�che numa m�quina autom�tica que havia no corredor dos arquivos. Continuou a folhear velhos documentos, tentando encontrar algum sinal de Gottfried Vanger em Kalmar, em 1954. N�o encontrou nada.</p><p>Pensou em ligar para Mikael, mas antes de ir embora decidiu dar uma olhada tamb�m nos boletins de diretoria; ent�o seria o suficiente para essa noite.</p><p>A pe�a media cerca de cinco metros por dez. Mikael calculou que, geograficamente, ela ficava no lado norte da casa.</p><p>Martin Vanger montara com capricho sua c�mara de tortura particular. A esquerda, correntes, argolas de metal no teto e no ch�o, uma mesa com correias de couro onde podia amarrar suas v�timas. Havia tamb�m um equipamento de v�deo. E um est�dio de grava��o. No fundo da pe�a via-se uma jaula de a�o onde seus h�spedes podiam ficar aprisionados por longos per�odos. A direita da porta, uma cama e um aparelho de tev�. Numa prateleira, Mikael viu uma grande quantidade de videocassetes.</p><p>Assim que entraram, Martin Vanger apontou a pistola para Mikael e ordenou que se deitasse de bru�os no ch�o. Mikael se recusou.</p><p>� Como quiser � disse Martin. � Nesse caso, vou dar um tiro no seu joelho.</p><p>Apontou a arma. Mikael capitulou, n�o tinha escolha.</p><p>Ele havia esperado que Martin se descuidasse por um d�cimo de segundo � sabia que numa luta corporal o venceria. Houvera uma pequena oportunidade no corredor, no momento em que Martin p�s a m�o em seu ombro, mas ele hesitou. Depois Martin n�o voltou a se aproximar. Sem r�tula, ele n�o teria a menor chance. Assim, estendeu-se no ch�o.</p><p>Martin aproximou-se por tr�s e mandou Mikael p�r as m�os nas costas. Imobilizou-as com algemas. Come�ou ent�o a lhe dar pontap�s na virilha e a lhe desferir socos violentos.</p><p>O que se passou a seguir foi como um pesadelo. Martin Vanger oscilava entre a racionalidade e a loucura. Em alguns momentos parecia calmo. No instante seguinte, come�ava a andar de um lado para o outro do por�o como uma fera enjaulada, voltando a chutar Mikael. Tudo que ele conseguiu fazer foi tentar proteger a cabe�a e receber os golpes em outras partes do corpo, que, depois de alguns minutos, apresentavam diversos ferimentos.</p><p>Durante a primeira meia hora, Martin n�o disse uma s� palavra e permaneceu insens�vel a tudo o que Mikael dissesse. Depois pareceu se acalmar. Foi buscar uma corrente, passou-a em volta do pesco�o de Mikael, fixou-a a uma argola no ch�o e depois fechou com um cadeado. Deixou Mikael sozinho por quinze minutos. Ao retornar, trazia uma garrafa pl�stica com �gua. Sentou-se numa cadeira e contemplou Mikael enquanto bebia.</p><p>� Posso beber um pouco de �gua? � perguntou Mikael.</p><p>Martin Vanger inclinou-se e p�s a garrafa na boca de Mikael. Ele bebeu sofregamente.</p><p>� Obrigado.</p><p>� Sempre bem-educado, Super-Blomkvist.</p><p>� Por que todos esses chutes? � perguntou Mikael.</p><p>� Porque me deixou muito zangado e merece ser punido. Por que simplesmente n�o voltou para a sua casa? Precisavam de voc� na <emphasis>Millennium. </emphasis>Falo s�rio, poder�amos ter feito dela uma grande revista. Poder�amos ter trabalhado juntos por muitos anos.</p><p>Mikael fez uma careta e procurou acomodar o corpo numa posi��o confort�vel. Estava sem defesa. S� lhe restava a voz.</p><p>� Imagino que esteja querendo dizer que a ocasi�o j� passou � disse Mikael.</p><p>Martin Vanger riu.</p><p>� Sinto muito, Mikael. Sim, voc� entendeu bem: voc� n�o vai sair vivo daqui.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Mas como fizeram para me desmascarar, voc� e aquela m�mia anor�xica que se envolveu na hist�ria?</p><p>� Voc� mentiu sobre o que fez no dia em que Harriet desapareceu. Posso provar que estava em Hedestad no desfile da Festa das Crian�as. Foi fotografado olhando para Harriet.</p><p>� Por isso voc� foi a Norsj�?</p><p>� Sim, para buscar essa foto. Foi tirada por um casal que estava por acaso em Hedestad. Apenas de passagem.</p><p>Martin Vanger balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o, voc� est� tentando me enganar � disse.</p><p>Mikael refletia intensamente no que poderia dizer para impedir, ou ao menos retardar, sua morte.</p><p>� Onde est� essa foto agora?</p><p>� O negativo? No meu cofre no Handelsbank, aqui em Hedestad... N�o sabia que tenho um cofre no banco? � Ele mentia com desenvoltura. � As c�pias est�o em v�rios lugares: no meu computador e no de Lisbeth, no servidor de imagens da <emphasis>Millennium </emphasis>e no da Milton Security, onde Lisbeth trabalha.</p><p>Martin Vanger calou-se por um momento, tentando descobrir se Mikael blefava ou n�o.</p><p>� O que ela sabe, a m�mia Salander?</p><p>Mikael hesitou. Por enquanto, Lisbeth era sua �nica esperan�a de salva��o. O que ela faria ao voltar para casa e descobrir que ele n�o estava? Ele deixara a foto de Martin vestido com sua jaqueta na mesa da cozinha. Ela faria a liga��o? Dispararia o alarme? <emphasis>Ela n�o � do tipo que chama a pol�cia. </emphasis>O pesadelo seria se ela fosse � casa de Martin e batesse � porta para tentar saber onde Mikael estava.</p><p>� Responda � disse Martin com uma voz gelada.</p><p>� Acho que Lisbeth sabe o mesmo que eu, talvez at� mais. Eu diria que ela sabe mais que eu, � muito esperta. Foi ela quem fez a liga��o com Lena Andersson.</p><p>� Lena Andersson? � Martin Vanger pareceu perplexo.</p><p>� A adolescente que voc� torturou at� a morte em Uppsala, em fevereiro de 1966. N�o me diga que se esqueceu dela.</p><p>Pela primeira vez o olhar de Martin Vanger deixou transparecer o quanto ele estava perturbado. Ele n�o imaginava que algu�m pudesse fazer essa liga��o � Lena Andersson n�o constava na agenda telef�nica de Harriet.</p><p>� Martin � disse Mikael com a voz mais calma poss�vel. � Acabou, Martin. Voc� pode me matar, mas acabou. Muita gente est� sabendo, e desta vez voc� ser� pego.</p><p>Martin Vanger ergueu-se rapidamente e come�ou a andar de um lado para o outro. De repente desferiu um murro na parede.</p><p><emphasis>Preciso me lembrar de que ele � irracional. O gato. Poderia ter trucidado o gato aqui, mas o levou � capela da fam�lia. Ele n�o age de maneira racional.</emphasis></p><p>Martin Vanger deteve-se.</p><p>� Acho que voc� est� mentindo. S� voc� e Salander est�o sabendo. N�o falaram para mais ningu�m. Sen�o a pol�cia j� teria aparecido. Um bom inc�ndio na casa dos convidados e as provas v�o virar fuma�a.</p><p>� E se voc� estiver enganado? Ele sorriu.</p><p>� Se eu estiver enganado, ent�o de fato acabou. Mas n�o acredito nisso. Aposto que voc� est� blefando. Que outra escolha me resta? � Ele refletiu. � � essa putinha anor�xica que est� me atrapalhando. Preciso encontr�-la.</p><p>� Ela foi para Estocolmo ao meio-dia. Martin Vanger deu uma risada.</p><p>� � mesmo? Ent�o por que passou a tarde nos arquivos do grupo Vanger?</p><p>O cora��o de Mikael saltou no peito. <emphasis>Ele sabia. Sabia desde o in�cio.</emphasis></p><p>� � verdade. Ela primeiro ia passar nos arquivos e depois seguir para Estocolmo � respondeu Mikael o mais calmamente que p�de. � Eu n�o sabia que ia ficar tanto tempo l�.</p><p>� Cale-se. A respons�vel pelos arquivos me contou que Dirch Frode a autorizou a deixar Salander ficar l� at� tarde, se ela quisesse. Isso significa que ela voltar� a qualquer momento esta noite. O guarda me avisar� assim que ela deixar o escrit�rio.</p><empty-line/></section><section><p><strong>IV. TAKEOVER HOSTIL �  11 DE JULHO A 30 DE DEZEMBRO</strong></p><p><emphasis/></p><p><emphasis/></p><p><emphasis>Na Su�cia, 92% das mulheres que sofreram viol�ncias sexuais ap�s uma agress�o n�o apresentaram queixa a pol�cia.</emphasis></p><p><strong/><strong>24. SEXTA-FEIRA 11 DE JULHO � S�BADO 12 DE JULHO</strong></p><p>Martin Vanger se abaixou para vasculhar os bolsos de Mikael e pegou as chaves.</p><p>� Esperteza sua trocar a fechadura. Vou me encarregar da sua namorada quando ela voltar.</p><p>Mikael n�o respondeu. Lembrou-se que Martin Vanger era um negociador com experi�ncia em muitas batalhas industriais. Sabia quando estavam blefando com ele.</p><p>� Por qu�?</p><p>� Por que o qu�?</p><p>� Por que tudo isto? � Mikael tentou indicar a pe�a com um gesto de cabe�a.</p><p>Martin Vanger se abaixou, p�s a m�o sob o queixo de Mikael e ergueu-lhe a cabe�a para que seus olhares se cruzassem.</p><p>� Porque � muito f�cil � disse. � Mulheres desaparecem o tempo todo. Elas n�o fazem falta a ningu�m. Imigrantes, prostitutas russas. Milhares de pessoas passam pela Su�cia todos os anos.</p><p>Soltou a cabe�a de Mikael e levantou-se, quase orgulhoso de poder esclarecer seu visitante.</p><p>As palavras de Martin atingiram Mikael como uma bofetada. <emphasis>Meu Deus, ent�o n�o se trata de um enigma hist�rico. Martin Vanger mata mulheres at� hoje. E eu, como um idiota, me lancei em...</emphasis></p><p>� N�o tenho nenhuma convidada no momento. Mas talvez voc� ache divertido saber que no inverno passado e na primavera, enquanto voc� e Henrik quebravam a cabe�a com suas hist�rias, eu tinha uma mulher aqui. Chamava-se Irina e era da Bielo-R�ssia. No dia em que voc� veio jantar comigo, ela estava presa aqui na jaula. Foi uma noitada agrad�vel, n�o foi?</p><p>Martin Vanger sentou em cima da mesa e deixou pender as pernas. Mikael fechou os olhos. Sentiu regurgita��es �cidas na garganta e engoliu v�rias vezes.</p><p>� O que faz com os corpos?</p><p>� Meu barco est� amarrado no pont�o logo abaixo. Levo-as para longe, ao largo. Ao contr�rio do meu pai, n�o deixo vest�gios. Mas ele tamb�m era esperto. Suas v�timas se espalhavam por toda a Su�cia.</p><p>As pe�as do quebra-cabe�a come�avam a se juntar na mente de Mikael. <emphasis>Gottfried Vanger. De </emphasis>1949 <emphasis>a </emphasis>1965<emphasis>. Martin Vanger a partir de </emphasis>1966<emphasis>, em Uppsala.</emphasis></p><p>� Voc� admirava seu pai.</p><p>� Foi ele quem me ensinou. Fui iniciado aos catorze anos.</p><p>� Uddevalla. Lea Persson.</p><p>� Isso mesmo, eu estava l�. Fui apenas um espectador, mas estava l�.</p><p>� Em 1964, Sara Witt, em Ronneby.</p><p>� Eu tinha dezesseis anos. Foi a primeira vez que tive uma mulher para mim. Gottfried me ensinou. Fui eu que a estrangulei.</p><p><emphasis>Ele se orgulha! Meu Deus, que fam�lia de psicopatas!</emphasis></p><p>� N�o percebe que � patol�gico?</p><p>Martin Vanger encolheu ligeiramente os ombros.</p><p>� Voc� n�o entende que sensa��o divina � ter o controle absoluto sobre a vida e a morte de algu�m.</p><p>� O prazer de torturar e matar mulheres...</p><p>O industrial refletiu um instante, com o olhar fixo num ponto vazio da parede atr�s de Mikael. Depois exibiu seu sorriso charmoso.</p><p>� N�o � bem assim. Se eu fosse fazer uma an�lise racional do meu estado, eu diria que sou um estuprador serial, n�o um assassino serial. Na verdade, sou um sequestrador serial. Matar � apenas o desfecho natural, porque devo ocultar o crime, entende?</p><p>Mikael n�o soube o que responder e limitou-se a assentir com a cabe�a.</p><p>� Evidentemente meus atos n�o s�o aceit�veis pela sociedade, mas meu crime � em primeiro lugar um crime contra as conven��es sociais. A morte s� acontece no final da temporada de minhas h�spedes aqui, quando estou cansado. � sempre fascinante ver a decep��o delas.</p><p>� Decep��o? � perguntou Mikael, estupefato.</p><p>� Exatamente. <emphasis>Decep��o. </emphasis>Elas imaginam que, porque me satisfazem, v�o sobreviver. Come�am a confiar em mim e a criar uma camaradagem, e at� o final esperam que essa camaradagem signifique algo. A decep��o vem quando descobrem, de repente, que foram enganadas.</p><p>Martin deu a volta em torno da mesa e se apoiou na jaula de a�o.</p><p>� Voc�, com suas conven��es pequeno-burguesas, nunca vai entender, mas � planejar o sequestro que produz a excita��o. N�o se deve agir impulsivamente; sequestradores desse tipo sempre se d�o mal. � uma verdadeira ci�ncia, com muitos detalhes a se levar em conta. Devo identificar uma presa e catalogar toda a sua vida. Quem � ela? De onde vem? Onde peg�-la? Como fazer para estar a s�s com ela sem que meu nome apare�a num futuro inqu�rito policial?</p><p><emphasis>Chega, </emphasis>pensou Mikael. Martin Vanger falava de sequestros e assassinatos num tom quase acad�mico, um pouco como se tivesse expondo sua opini�o contr�ria numa quest�o de teologia esot�rica.</p><p>� Ser� que isso realmente te interessa, Mikael?</p><p>E inclinou-se para a frente acariciando o rosto de Mikael. O contato da m�o era suave, quase terno.</p><p>� Tenho certeza de que voc� compreende que esse caso s� pode terminar de uma maneira. Se importa que eu fume?</p><p>Mikael disse n�o com a cabe�a.</p><p>� Pode me dar um cigarro tamb�m? � perguntou Mikael.</p><p>Martin Vanger atendeu o pedido. Acendeu dois cigarros e p�s um deles entre os l�bios de Mikael, deixando-o dar uma longa tragada.</p><p>� Obrigado � disse Mikael automaticamente. Martin Vanger riu de novo.</p><p>� Veja s�, voc� j� come�ou a se adaptar ao princ�pio da submiss�o.</p><p>Tenho a sua vida em minhas m�os, Mikael. Sabe que posso mat�-lo de um momento para o outro. Suplicou que eu melhorasse sua qualidade de vida e fez isso utilizando a raz�o e as boas maneiras. Foi recompensado.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. Seu cora��o batia desordenadamente, era quase insuport�vel.</p><p>�s onze e quinze da noite, Lisbeth Salander bebeu um gole de �gua da sua garrafa enquanto virava as p�ginas. De repente viu algo que a fez arregalar os olhos, mas, ao contr�rio do que acontecera com Mikael naquele mesmo dia, n�o engasgou quando estabeleceu a rela��o.</p><p><emphasis>Clique!</emphasis></p><p>Durante duas horas ela percorrera boletins administrativos das v�rias empresas do grupo Vanger. A publica��o principal intitulava-se <emphasis>Informa��es do grupo Vanger </emphasis>e trazia o logotipo do grupo � uma bandeira sueca flutuando ao vento e cuja ponta formava uma flecha. A revista fora claramente concebida pelo departamento de comunica��o do grupo como ve�culo de propaganda destinado a garantir que os funcion�rios se sentissem membros de uma grande fam�lia.</p><p>Nas f�rias de inverno de fevereiro de 1967, Henrik Vanger, num gesto magn�nimo, convidara cinquenta funcion�rios da sede para passar uma semana na esta��o de esqui de H�rjedalen com suas fam�lias. Motivo do convite: o grupo obtivera resultados recordes no ano precedente e ele queria agradecer os esfor�os de todos. O departamento de comunica��o, tamb�m presente, fazia uma reportagem fotogr�fica do evento.</p><p>Havia muitas fotos das pistas de esqui com legendas divertidas. Algumas foram tiradas no bar, onde se viam homens risonhos, com o rosto marcado pelo frio, erguendo canecas de cerveja. Duas fotos de uma pequena cerim�nia matinal em que Henrik Vanger premiava, como "A Funcion�ria de Escrit�rio do Ano", uma secret�ria chamada Ulla-Britt Mogren, de quarenta e um anos. Ela recebia um pr�mio de quinhentas coroas e uma saladeira de vidro.</p><p>A entrega do pr�mio fora no terra�o do hotel, aparentemente pouco antes de as pessoas se lan�arem de novo nas pistas de esqui. Havia umas vinte pessoas na foto. A direita, logo atr�s de Henrik Vanger, achava-se um homem de cabelos compridos louros. Vestia uma jaqueta escura com um tom diferente nos ombros. Embora a foto fosse em preto-e-branco, Lisbeth Salander teve a certeza e podia apostar que era vermelho.</p><p>A legenda dizia: <emphasis>Bem � direita, Martin Vanger, 19 anos, estudante de Uppsala. J� � considerado algu�m com um futuro muito promissor na dire��o do grupo.</emphasis></p><p>� Agora te peguei, safado � disse Lisbeth Salander em voz baixa.</p><p>Ela apagou a luz da sala e deixou os boletins administrativos espalhados em cima da mesa � <emphasis>aquela cretina da Bodil Lindgren que d� um jeito nisto amanh�!</emphasis></p><p>Foi para o estacionamento por uma porta lateral. Enquanto se encaminhava para a sua moto, lembrou que havia prometido avisar o guarda quando sa�sse. Parou e olhou para o estacionamento. O guarda estava do outro lado do pr�dio. Isso significava que ela seria obrigada a retornar e dar toda a volta. <emphasis>Foda-se!</emphasis></p><p>Ao chegar � moto, pegou o celular e chamou o n�mero de Mikael. Uma voz anunciou que o aparelho n�o estava dispon�vel. Mas ela descobriu que Mikael havia tentado cham�-la treze vezes entre as tr�s e meia da tarde e �s nove da noite. Nas �ltimas duas horas ele n�o fizera chamadas.</p><p>Lisbeth digitou o n�mero do telefone fixo da casa dos convidados, mas ningu�m atendeu. Franziu o cenho, p�s a mochila com o computador nas costas, o capacete, e ligou a moto. Levou dez minutos para ir do escrit�rio Vanger, na zona industrial de Hedestad, at� a ilha. Havia luz na cozinha, por�m a casa estava vazia.</p><p>Lisbeth Salander saiu para dar uma espiada no lado externo da casa. Seu primeiro pensamento foi que Mikael fora � casa de Dirch Frode, mas da ponte constatou que as luzes da casa de Frode, na outra margem, estavam apagadas. Olhou seu rel�gio: onze e quarenta.</p><p>Voltou para casa, abriu o arm�rio e examinou os laptops que armazenavam as imagens das c�meras de seguran�a. N�o precisou mais de um momento para estabelecer a sequ�ncia dos acontecimentos.</p><p>�s 15h32, Mikael chegou em casa.</p><p>�s 16h03, saiu para beber um caf� no jardim. Levava consigo uma pasta, que examinava. Deu tr�s breves telefonemas durante a hora em que esteve no jardim. Pelo hor�rio, as tr�s chamadas correspondiam, aproximadamente, �s que ela n�o atendera.</p><p>�s 17h21, Mikael saiu. Voltou um pouco menos de quinze minutos depois.</p><p>�s 18h20, foi at� o port�o e olhou para o lado da ponte.</p><p>�s 21h03, saiu outra vez. N�o voltou mais.</p><p>Lisbeth passou rapidamente as imagens do segundo computador, que mostravam o port�o e a estrada. Ela podia ver as idas e vindas de outras pessoas durante o dia.</p><p>�s 19h12, Gunnar Nilsson chegou em sua casa.</p><p>�s 19h42, algu�m no Saab da fazenda de �stergarden partiu em dire��o a Hedestad.</p><p>�s 20h02, o carro estava de volta � uma ida at� a loja de conveni�ncias do posto de gasolina?</p><p>A seguir, nada mais at� as nove em ponto, quando o carro de Martin Vanger passou. Tr�s minutos depois, Mikael saiu de casa.</p><p>Cerca de uma hora depois, �s 21h50, Martin Vanger apareceu de repente no campo da objetiva. Ficou diante do port�o por um minuto, contemplando a casa e olhando pela janela da cozinha. Depois dirigiu-se � porta da frente, tentando abri-la com uma chave. Deve ter percebido que a fechadura fora trocada e ficou im�vel por um instante, antes de se virar e ir embora.</p><p>Lisbeth Salander sentiu, de repente, um frio na barriga.</p><p>Mikael fora deixado novamente sozinho por longo tempo. Estava estendido, im�vel, em sua posi��o desconfort�vel, com as m�os algemadas �s costas e o pesco�o preso � argola no ch�o por uma corrente fina. Moveu as algemas, mesmo sabendo que n�o conseguiria abri-las. Estavam t�o apertadas que ele perdera a sensibilidade nas m�os.</p><p>N�o tinha nenhuma chance. Fechou os olhos.</p><p>N�o soube dizer quanto tempo transcorreu at� ouvir de novo os passos de Martin Vanger. O empres�rio surgiu em seu campo de vis�o. Tinha um ar preocupado.</p><p>� Desconfort�vel? � ele perguntou.</p><p>� Sim � respondeu Mikael.</p><p>� � o �nico culpado por isso. Deveria ter voltado para Estocolmo.</p><p>� Por que voc� gosta de matar, Martin?</p><p>� � uma escolha que eu fiz. Poderia ficar aqui discutindo com voc� a noite toda sobre os aspectos morais e o sentido racional dos meus atos, e isso n�o alteraria em nada os fatos. Tente ver as coisas desse modo: o ser humano � um inv�lucro de pele que acondiciona c�lulas, sangue e componentes qu�micos. Algumas pessoas, raras, conservam-se nos livros de hist�ria. A grande maioria sucumbe e desaparece sem deixar sinal.</p><p>� Voc� mata mulheres.</p><p>� N�s, que matamos por prazer, pois n�o sou o �nico a me dedicar a esse passatempo, levamos uma vida de intensidade m�xima.</p><p>� Mas por que Harriet, sua pr�pria irm�?</p><p>O rosto de Martin alterou-se de repente. Num salto, aproximou-se de Mikael e o pegou pelos cabelos.</p><p>� O que aconteceu a ela?</p><p>� Que est� querendo dizer? � arquejou Mikael.</p><p>Tentou virar a cabe�a para diminuir a dor no couro cabeludo. A corrente logo se esticou em volta de seu pesco�o.</p><p>� Voc� e Salander. O que voc�s descobriram?</p><p>� Solte-me, n�o consigo falar.</p><p>Martin Vanger soltou os cabelos de Mikael e sentou-se diante dele com as pernas cruzadas. Ent�o pegou uma faca e p�s a ponta dela na pele bem debaixo do olho de Mikael, que fez um esfor�o para olhar Martin.</p><p>� O que aconteceu a ela, seu filho-da-puta?</p><p>� N�o entendo. Achei que voc� a tivesse matado.</p><p>Martin Vanger fixou Mikael por um longo momento, depois relaxou. Levantou-se e p�s-se a caminhar pelo por�o enquanto refletia. Ent�o jogou a faca no ch�o, riu e voltou-se para Mikael.</p><p>� Harriet, Harriet, sempre essa maldita Harriet. Tentamos... convenc�-la. Gottfried tentou ensin�-la. Achamos que era uma das nossas e que aceitaria seu dever, mas ela n�o passava de uma... <emphasis>putinha </emphasis>ordin�ria. Achei que a tinha sob controle, mas ela estava planejando avisar Henrik e percebi que n�o podia confiar nela. Cedo ou tarde ela falaria de mim.</p><p>� E ent�o a matou.</p><p>� Eu <emphasis>quis </emphasis>mat�-la. Tinha a <emphasis>inten��o </emphasis>de fazer isso, mas cheguei tarde demais. N�o consegui vir para a ilha.</p><p>O c�rebro de Mikael tentava assimilar a informa��o, mas era como se uma janela se abrisse e anunciasse: <emphasis>mem�ria insuficiente. </emphasis>Martin Vanger n�o sabia o que acontecera � irm�!</p><p>De repente, Martin tirou o celular do casaco, examinou a tela e o colocou sobre a cadeira ao lado da pistola.</p><p>� Chegou a hora de liquidar esse assunto. Preciso de um tempo para me encarregar tamb�m da sua companheira anor�xica ainda esta noite.</p><p>Abriu um arm�rio, tirou uma correia de couro e passou-a com um n� corredi�o em volta do pesco�o de Mikael, desatando a corrente que o prendia ao ch�o. Fez Mikael levantar-se e o empurrou contra a parede. Passou a correia por uma argola acima da cabe�a de Mikael e a esticou, obrigando-o a ficar na ponta dos p�s.</p><p>� Est� muito apertado? N�o consegue respirar? � Afrouxou um cent�metro ou dois e prendeu a ponta da correia mais abaixo na parede. � N�o quero que morra asfixiado daqui a pouco.</p><p>O la�o apertava o pesco�o de Mikael com tanta for�a que ele n�o conseguia falar. Martin Vanger o observou atentamente.</p><p>Com um gesto brusco, desatou o cinto da cal�a de Mikael e a abaixou juntamente com a cueca. Mikael perdeu o equil�brio e pendeu por um segundo no n� corredi�o, antes que os dedos do p� voltassem a tocar o ch�o. Martin Vanger foi buscar uma tesoura num m�vel. Cortou a camiseta de Mikael e jogou os retalhos no ch�o. Depois postou-se a alguma dist�ncia e contemplou sua v�tima.</p><p>� Nunca tive um homem aqui � disse Martin com uma voz grave. � Nunca toquei outro homem... a n�o ser meu pai. Era meu dever.</p><p>As t�mporas de Mikael latejavam. Ele n�o podia apoiar o peso do corpo nos p�s sem se estrangular. Tentou achar um ponto onde se segurar na parede de concreto �s suas costas, mas n�o encontrou nada.</p><p>� Chegou a hora � disse Martin Vanger.</p><p>P�s a m�o sobre a correia e a pressionou. Mikael sentiu o la�o apertar ainda mais seu pesco�o.</p><p>� Sempre quis saber qual � o gosto de um homem.</p><p>Pressionou ainda mais a correia, inclinou-se para a frente e beijou Mikael na boca, bem no momento em que uma voz cortante soou no por�o.</p><p>� Seu canalha... Voc� deveria saber que s� eu tenho o direito de fazer isso.</p><p>Mikael ouviu a voz de Lisbeth atrav�s de uma neblina vermelha. Conseguiu focalizar os olhos e a viu de p� � porta. Ela fitava Martin Vanger com um olhar inexpressivo.</p><p>� N�o... corra! � grasnou Mikael.</p><p>Ele n�o viu a express�o de Martin Vanger, mas sentiu fisicamente o choque que percorreu o corpo dele quando se virou. Por um segundo, Martin ficou im�vel, depois estendeu a m�o para alcan�ar a pistola que deixara em cima da cadeira.</p><p>Num rel�mpago, Lisbeth deu tr�s passadas e ergueu um taco de golfe que trazia escondido. O taco descreveu um amplo c�rculo no ar e atingiu Martin na clav�cula. O golpe foi fort�ssimo, Mikael ouviu quebrar-se alguma coisa. Martin Vanger urrou.</p><p>� Gosta de dor? � perguntou Lisbeth Salander.</p><p>Sua voz era �spera como uma lixa. Enquanto vivesse, Mikael jamais esqueceria o rosto dela no momento do ataque. Lisbeth mostrou os dentes como uma fera. Os olhos eram negros e brilhantes. Movia-se com a rapidez de uma aranha e parecia inteiramente concentrada em sua presa quando desferiu um novo golpe em Martin Vanger, nas costelas.</p><p>Ele trope�ou na cadeira e estatelou-se no ch�o. A pistola caiu diante de Lisbeth, que, com o p�, atirou-a para longe.</p><p>Ela o golpeou ent�o uma terceira vez, no momento em que Martin tentava se levantar. Um estalo indicou que o atingira no quadril. Martin emitiu um som terr�vel. O quarto golpe se abateu sobre suas costas.</p><p>� Lis... errth... � arquejou Mikael.</p><p>Ele estava perdendo a consci�ncia, e a dor nas t�mporas era quase insuport�vel.</p><p>Lisbeth virou-se para ele e viu seu rosto vermelho, cor de tomate, os olhos esbugalhados de pavor e a l�ngua come�ando a sair pela boca.</p><p>Lan�ou um olhar r�pido em volta e viu a faca no ch�o. Olhou brevemente para Martin Vanger, que havia se ajoelhado e tentava escapar, com um bra�o pendendo frouxamente. Ele n�o seria um problema muito s�rio nos pr�ximos segundos. Soltou o taco e pegou a faca. Embora tivesse a ponta afiada, ela estava quase sem fio. Lisbeth ficou na ponta dos p�s e tentou febrilmente cortar a correia. Demorou alguns segundos at� Mikael conseguir se apoiar no ch�o. Mas o n� corredi�o continuava prendendo seu pesco�o.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Lisbeth Salander voltou a olhar para Martin Vanger. Ele conseguira ficar de p�, por�m estava curvado sobre si mesmo. Ela o ignorou e tentou enfiar os dedos entre a correia e o pesco�o de Mikael. No in�cio n�o ousou utilizar a faca, mas por fim decidiu introduzir a ponta dela ali, esfolando a pele ao tentar desfazer o n�. Este acabou cedendo e Mikael, num estertor, aspirou um pouco de ar.</p><p>Por um breve instante, Mikael teve a maravilhosa sensa��o de uni�o entre corpo e esp�rito. Sua vis�o voltou a ficar perfeita, ele conseguia enxergar o menor gr�o de poeira no c�modo. Era como se cada respira��o, cada ro�ar de roupa sa�ssem de alto-falantes direto para seus ouvidos; ele tamb�m sentia o cheiro da transpira��o de Lisbeth e do couro de sua jaqueta. Depois, como um raio luminoso, o sangue afluiu novamente � cabe�a e seu rosto recuperou a cor normal.</p><p>Lisbeth Salander virou a cabe�a no momento em que Martin fugia pela porta. Ergueu-se num salto e pegou a pistola no ch�o, verificando se estava carregada. Destravou-a. Mikael notou que ela parecia familiarizada com as armas. Olhando em volta, os olhos dela se detiveram por meio segundo nas chaves das algemas em cima da mesa.</p><p>� Eu cuido dele � disse enquanto corria em dire��o � porta. No caminho apanhou as chaves e as fez deslizar pelo ch�o, at� onde Mikael estava.</p><p>Ele tentou lhe pedir que esperasse, mas s� conseguiu emitir um som rouco quando ela j� havia desaparecido pela porta.</p><p>Lisbeth n�o esquecera que Martin Vanger possu�a um rifle em algum lugar. Segurando a pistola engatilhada, ela se deteve ao chegar � passagem entre a garagem e a cozinha. Ficou prestando aten��o, mas nenhum ru�do revelou onde se achava a sua presa. Instintivamente dirigiu-se � cozinha. Quando j� estava quase l�, ouviu um carro dar a partida.</p><p>Deu meia-volta e correu para o p�tio, onde viu as luzes traseiras de um carro passando diante da casa de Henrik Vanger em dire��o � ponte. Correu o mais r�pido que p�de at� a casa dos convidados, p�s a pistola no bolso da jaqueta e n�o perdeu tempo com o capacete quando ligou a moto. Alguns segundos depois, atravessava a ponte.</p><p>Ele estava talvez uns noventa segundos � sua frente quando ela chegou ao viaduto de acesso � rodovia E4. N�o o viu. Freou e desligou o motor para escutar.</p><p>O c�u estava carregado de nuvens. No horizonte despontava um come�o de aurora. Ent�o avistou os far�is do carro de Martin Vanger na E4, na dire��o sul. Lisbeth acionou a moto e passou sob o viaduto. Estava a oitenta quil�metros por hora quando saiu da curva de acesso e entrou na pista, sem tr�fego naquele momento. Acelerou tudo. Depois de uma curva, num longo declive da estrada, atingiu cento e setenta quil�metros por hora, o m�ximo que sua m�quina de baixa cilindrada podia alcan�ar. Dois minutos depois, avistou o carro de Martin Vanger a cerca de quatrocentos metros.</p><p><emphasis>An�lise dos par�metros. Que devo fazer agora?</emphasis></p><p>Reduziu para cento e vinte quil�metros por hora, mantendo a mesma velocidade que a dele. Em algumas curvas perdeu-o de vista por alguns segundos. Depois pegaram um longo trecho reto. Ela estava a uns duzentos metros atr�s de Martin Vanger.</p><p>Certamente ele viu o farol da moto, pois acelerou a marcha. Ela voltou a exigir o m�ximo da moto, mas nas curvas perdia terreno.</p><p>De longe ela viu os far�is de um caminh�o. Martin Vanger tamb�m viu. Inesperadamente, ele acelerou ainda mais e passou para a pista da esquerda cento e cinquenta metros antes do choque. Lisbeth viu o caminh�o frear e dar repetidos sinais de farol, mas a colis�o foi inevit�vel. O carro de Martin Vanger chocou-se contra o caminh�o com um estrondo terr�vel.</p><p>Lisbeth freou instintivamente ao ver o caminh�o virar na pista. Na velocidade em que estava, levou dois segundos para chegar ao local do acidente e por pouco n�o foi atingida pela traseira do caminh�o. Quando passou, viu com o canto do olho labaredas surgindo na parte dianteira.</p><p>Continuou por mais uns cento e cinquenta metros antes de parar e se virar. Viu o motorista do caminh�o saltar da cabine. Ent�o seguiu at� Akerby, dois quil�metros ao sul, onde entrou � esquerda para pegar a estrada velha rumo ao norte, paralela � E4. Passou pelo local do acidente e viu que dois carros haviam parado. O de Martin estava totalmente esmagado debaixo do caminh�o, envolto em labaredas enormes. Um homem tentava apagar o fogo com um pequeno extintor.</p><p>Ela acelerou e logo estava de volta a Hedeby. Cruzou a ponte, estacionou em frente � casa dos convidados e retornou a p� para a casa de Martin Vanger.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael continuava tentando se livrar das algemas. Suas m�os estavam t�o dormentes que ele n�o conseguia pegar a chave. Lisbeth abriu as algemas e o manteve apertado contra o peito at� o sangue voltar a circular por suas m�os.</p><p>� E Martin? � perguntou Mikael com uma voz rouca.</p><p>� Morto. Chocou-se de frente, a cento e cinquenta por hora, contra um caminh�o a poucos quil�metros daqui, na E4.</p><p>Mikael fitou-a espantado. N�o fazia muito tempo que ela havia sa�do.</p><p>� Precisamos... chamar a pol�cia � arquejou Mikael antes de ser tomado por um violento acesso de tosse.</p><p>� Para qu�? � perguntou Lisbeth Salander.</p><p>Mikael n�o conseguia se levantar. Permaneceu sentado no ch�o ainda por dez minutos, nu e encostado � parede. Massageou-se no pesco�o e ergueu a garrafa de �gua com dedos insens�veis. Lisbeth esperou pacientemente ele se recuperar. Aproveitou para refletir.</p><p>� Vista-se.</p><p>Ela utilizou a camiseta cortada de Mikael para limpar as impress�es digitais nas algemas, na faca e no taco de golfe. Pegou a garrafa de �gua.</p><p>� O que est� fazendo?</p><p>� Vista-se. Est� amanhecendo. Vamos, depressa.</p><p>Mikael ergueu-se sobre as pernas cambaleantes e conseguiu vestir a cueca e a cal�a. Enfiou os p�s nos t�nis. Lisbeth p�s as meias dele no bolso da jaqueta e perguntou:</p><p>� Tocou em alguma coisa aqui no por�o?</p><p>Mikael olhou ao redor, tentando se lembrar. Por fim, disse que n�o havia tocado em nada a n�o ser na porta e nas chaves. Lisbeth encontrou as chaves no casaco que Martin Vanger deixara no encosto da cadeira. Limpou meticulosamente a ma�aneta da porta e o interruptor, depois apagou a luz. Conduziu Mikael at� o alto da escada e pediu-lhe que esperasse na passagem, enquanto ela recolocava o taco de golfe no lugar. Ao voltar, trazia uma camiseta escura que pertencera a Martin Vanger.</p><p>� Vista. N�o quero que algu�m te veja passeando sem camisa de madrugada.</p><p>Mikael percebeu que estava em estado de choque. Lisbeth assumira o comando e ele obedecia a suas ordens sem discutir. Deixaram a casa de Martin Vanger. Enquanto caminhavam, ela o amparava com seu corpo. Quando cruzaram a porta de Mikael, ela voltou-se para ele e disse:</p><p>� Se algu�m nos viu e perguntar o que est�vamos fazendo l� fora esta noite, diga que fomos dar um passeio at� o promont�rio e depois transamos por l�.</p><p>� Lisbeth, n�o posso...</p><p>� Agora v� tomar um banho!</p><p>Ajudou-o a tirar as roupas e apontou-lhe o banheiro. Depois foi preparar um caf� e meia d�zia de torradas com queijo, pat� de f�gado e pepino em conserva. Estava sentada � mesa da cozinha, mergulhada numa intensa reflex�o, quando Mikael retornou, mancando. Ela examinou os ferimentos e as escoria��es vis�veis em seu corpo. A correia deixara uma mancha vermelha-escura em volta da garganta e a faca produzira um corte no lado esquerdo do pesco�o.</p><p>� Venha � ela disse. � Deite-se na cama.</p><p>Foi buscar curativos e cobriu a ferida com uma compressa. Depois serviu-lhe caf� e estendeu-lhe uma torrada.</p><p>� N�o estou com fome � disse Mikael.</p><p>� Coma! � ordenou Lisbeth Salander, enquanto ela mesma dava uma grande bocada na torrada de queijo.</p><p>Mikael fechou os olhos por alguns segundos. Depois sentou-se e mordeu a torrada. Sua garganta do�a tanto que mal conseguia engolir.</p><p>� Deixe o caf� esfriar um pouco. Deite-se de bru�os.</p><p>Ela ficou cinco minutos massageando-lhe as costas com uma pomada. Depois virou-o de frente para ela e administrou o mesmo tratamento na parte frontal do corpo.</p><p>� Vai ficar com alguns s�rios hematomas durante um bom tempo.</p><p>� Lisbeth, precisamos chamar a pol�cia.</p><p>� N�o � ela disse, e com tal determina��o na voz que Mikael arregalou os olhos. � Se voc� chamar a pol�cia, eu vou embora. N�o quero nada com eles. Martin Vanger est� morto. Morreu num acidente de carro. H� testemunhas. Deixe a pol�cia ou quem quer que seja descobrir aquela maldita c�mara de tortura. Voc� e eu n�o sabemos de nada, assim como os outros habitantes do povoado.</p><p>� Por qu�?</p><p>Ela ignorou a pergunta e continuou a massagear-lhe as coxas doloridas.</p><p>� Lisbeth, mas � simplesmente imposs�vel...</p><p>� Se voc� continuar me aborrecendo, eu te levo de volta � masmorra de Martin e te acorrento de novo.</p><p>Nem havia terminado a frase quando Mikael adormeceu, t�o subitamente como se tivesse desmaiado.</p><empty-line/><p><strong>25. S�BADO 12 DE JULHO � SEGUNDA-FEIRA 14 DE JULHO</strong></p><p>Mikael despertou sobressaltado �s cinco da manh� e levou desesperadamente as m�os ao pesco�o para tirar a correia. Lisbeth foi v�-lo, segurou-lhe as m�os e o acalmou. Ele abriu os olhos e a fitou com um vago olhar. N�o sabia que voc� jogava golfe � murmurou, voltando a fechar os olhos.</p><p>Ela permaneceu ao lado dele por alguns minutos, ate ter certeza de que ele adormecera de novo. Enquanto Mikael estivera dormindo, ela havia retornado ao por�o de Martin Vanger para inspecionar o local do crime. Al�m dos instrumentos de tortura, havia encontrado uma cole��o enorme de revistas de pornografia violenta e uma s�rie de fotos polar�ide coladas em �lbuns.</p><p>N�o havia um di�rio �ntimo. No entanto ela achou duas pastas com fotos tr�s por quatro e anota��es sobre mulheres escritas � m�o. Trouxe consigo essas pastas num cesto de n�ilon, junto com o laptop de Martin Vanger, que havia encontrado numa mesinha, no andar de cima. Depois que Mikael voltou a dormir, Lisbeth continuou a explorar o computador e as pastas de Martin. Eram mais de seis da manh� quando desligou o computador. Acendeu um cigarro e mordeu pensativamente o l�bio inferior.</p><p>Ela e Mikael haviam se lan�ado � ca�a do que julgavam ser um assassino serial do passado, mas depararam com uma hist�ria bem diferente. Ela mal conseguia imaginar os horrores que haviam acontecido no por�o de Martin Vanger, em meio �quele lugar id�lico e bem-apresentado.</p><p>Ela tentava entender.</p><p>Martin Vanger havia matado mulheres desde os anos 1960, nos �ltimos quinze anos ao ritmo de uma ou duas v�timas por ano. A matan�a fora t�o discreta e bem organizada que ningu�m sequer percebera que havia um assassino serial em atividade. Como era poss�vel?</p><p>As pastas sugeriam parte da resposta.</p><p>Suas v�timas eram mulheres an�nimas, geralmente rec�m-imigradas, que<emphasis/>n�o tinham amigos nem contatos sociais na Su�cia. Havia tamb�m prostitutas e mulheres socialmente marginalizadas, com abuso de drogas, �lcool e outros problemas existenciais.</p><p>Em seus estudos sobre a psicologia do sadismo sexual, Lisbeth Salander aprendera que esse tipo de assassino gostava de colecionar objetos das v�timas. Eles serviam de suvenires utilizados para recriar em parte o gozo sentido. Martin Vanger desenvolvera essa tend�ncia redigindo uma compila��o necrol�gica. Catalogara minuciosamente suas v�timas, com anota��es que comentavam e descreviam seus sofrimentos, juntando a seus crimes filmes de v�deo e fotografias.</p><p>A viol�ncia e o assassinato eram o objetivo final, mas Lisbeth concluiu que, na realidade, a ca�a era o que interessava a Martin Vanger. Em seu laptop ele criara um banco de dados com o registro de centenas de mulheres. Havia empregadas do grupo Vanger, dos restaurantes onde ele fazia suas refei��es, recepcionistas dos hot�is onde se hospedava, funcion�rias da previd�ncia social, secret�rias de homens de neg�cios com quem se relacionava e uma s�rie de outras mulheres. Era como se Martin Vanger registrasse e catalogasse praticamente todas as mulheres que encontrava.</p><p>S� uma parte �nfima delas havia sido assassinada, mas todas eram v�timas potenciais que ele anotava e examinava. Esse cat�logo tinha o car�ter de uma distra��o passional, � qual ele devia dedicar muitas horas.</p><p><emphasis>Ela � casada ou solteira? Tem filhos e uma fam�lia? Onde trabalha? Onde </emphasis><emphasis>mora? Que carro dirige? Experi�ncia profissional? Cor dos cabelos? Cor da pe</emphasis><emphasis>le? Corpul�ncia?</emphasis></p><p>Lisbeth percebeu que a coleta de dados pessoais das poss�veis v�timas devia ocupar uma parte importante das fantasias sexuais de Martin Vanger. Ele era primeiro um ca�ador, depois um matador.</p><p>Quando Lisbeth terminou de ler, encontrou um pequeno envelope numa das pastas. Dentro dele havia duas fotos polar�ide com as pontas amassadas e amarelecidas. Na primeira via-se unia jovem morena sentada a uma meia. Vestia uma cal�a escura e estava com o torso nu, deixando ver pequenos seios. Ela desviava o rosto da objetiva e fazia men��o de levantar um bra�o para se proteger, como se o fot�grafo a tivesse surpreendido com a m�quina. Na segunda foto, ela tamb�m estava com o torso nu, mas deitada de bru�os numa cama com uma colcha azul. O rosto tamb�m fugia da objetiva.</p><p>Lisbeth p�s o envelope com as fotos no bolso da jaqueta. Ent�o introduziu as pastas no aquecedor a lenha, riscou um f�sforo, deixou que se consumissem e retirou as cinzas. Chovia forte quando ela saiu de casa para jogar, discretamente, o laptop de Martin Vanger nas �guas sob a ponte.</p><p>Quando Dirch Frode abriu com um golpe seco a porta da frente, Lisbeth fumava um cigarro diante de seu caf� � mesa da cozinha. O rosto de Krode estava cor de cinza e ele parecia algu�m que fora despertado brutalmente.</p><p>� Onde est� Mikael? � perguntou.</p><p>� Dormindo.</p><p>Dirch Frode desabou numa cadeira. Lisbeth encheu uma x�cara de caf� e a empurrou na dire��o dele.</p><p>� Martin... Acabo de saber que Martin se matou quando dirigia seu carro esta noite.</p><p>� Que triste � disse Lisbeth antes de beber um gole de caf�.</p><p>Dirch Frode ergueu os olhos. Primeiro olhou-a perplexo. Depois seus olhos se arregalaram.</p><p>� Como...?</p><p>� Houve um acidente. Um acidente est�pido.</p><p>� Voc� sabe o que aconteceu?</p><p>� Ele se atirou na frente de um caminh�o. Suicidou-se. A press�o, o estresse e um imp�rio financeiro em decl�nio, tudo isso deve ter sido demais para ele. Em todo caso, acho que � o que dir�o as manchetes.</p><p>Dirch Frode parecia a ponto de um ataque de f�ria. Levantou-se vivamente e foi abrir a porta do quarto.</p><p>� Deixe-o dormir � disse Lisbeth com voz firme.</p><p>Frode olhou o corpo adormecido. Viu hematomas e ferimentos no torso de Mikael, a marca vermelha deixada pela correia no pesco�o. Lisbeth tocou o bra�o dele e voltou a fechar a porta. Frode recuou e sentou-se devagar, prostrado, no banco.</p><p>Lisbeth Salander contou rapidamente o que se passara durante a noite. Fez uma descri��o detalhada da c�mara de horrores de Martin Vanger e explicou que encontrara Mikael suspenso por um n� corredi�o e o diretor administrativo do grupo Vauger de p� na frente dele. Contou o que descobrira no dia anterior nos arquivos do grupo e de que maneira fizera a liga��o entre o pai de Martin e pelo menos sete assassinatos de mulheres.</p><p>Dirch Frode n�o a interrompeu uma �nica vez. Quando ela terminou de falar, permaneceu mudo por um longo tempo antes de suspirar profundamente e de balan�ar lentamente a cabe�a.</p><p>� O que vamos fazer?</p><p>� N�o � problema meu � disse Lisbeth num tom inexpressivo.</p><p>� Mas...</p><p>� Quer que eu te diga? Nunca pus os p�s em Hedestad.</p><p>� N�o estou entendendo.</p><p>� Em hip�tese alguma quero aparecer num relat�rio policial. Eu n�o existo nessa hist�ria. Se meu nome for mencionado e relacionado ao que aconteceu, negarei ter vindo aqui e n�o responderei a pergunta nenhuma.</p><p>Dirch Frode tentava entend�-la.</p><p>� N�o entendo.</p><p>� N�o precisa entender.</p><p>� Que vou fazer ent�o?</p><p>� Voc� � que decide, contanto que n�o nos envolva nisso, nem a mim nem a Mikael.</p><p>Dirch Frode estava l�vido.</p><p>� � s� considerar as coisas assim: tudo o que voc� sabe � que Martin morreu num acidente na estrada. Desconhece completamente que ele tamb�m era um assassino psicopata e nunca ouviu falar daquele por�o.</p><p>Ela p�s a chave diante dele, em cima da mesa.</p><p>� Voc� ainda tem tempo antes que algu�m v� examinar o por�o de Martin e descubra aquele c�modo. Certamente n�o vai acontecer agora.</p><p>� N�s temos que chamar a pol�cia.</p><p>� N�s, n�o. Chame a pol�cia se quiser. A decis�o � sua.</p><p>� N�o podemos abafar esse caso.</p><p>� N�o estou propondo que o abafe, apenas que n�o envolva a Mikael e a mim. Quando tiver visto o por�o, vai tirar suas pr�prias conclus�es e decidir com quem quer falar.</p><p>� Se o que voc� diz � verdade, isso significa que Martin sequestrou e matou mulheres... portanto h� fam�lias desesperadas que n�o sabem onde est�o suas filhas. N�o podemos simplesmente...</p><p>� � verdade. Mas h� um problema: os corpos desapareceram. Talvez voc� encontre passaportes ou carteiras de identidade numa gaveta. Algumas v�timas poder�o ser identificadas pelos v�deos. Mas voc� n�o � obrigado a tomar nua decis�o hoje. Reflita um pouco mais.</p><p>Dirch Frode parecia em p�nico.</p><p>� Meu Deus! Isso vai ser o tiro de miseric�rdia do grupo. Quantas pessoas v�o ficar desempregadas se for revelado que Martin...</p><p>Frode balan�ava-se para a frente e para tr�s, pressionado por um dilema moral.</p><p>� Esse � um dos aspectos. Se Isabella Vanger assumir o cargo de Martin, n�o seria bom que ela fosse a primeira a saber do passatempo do filho.</p><p>� Preciso ir ver...</p><p>� Na minha opini�o, voc� deveria se manter longe daquele por�o hoje � disse Lisbeth com autoridade.</p><p>� H� muitas provid�ncias a tomar. Voc� precisa avisar Henrik, precisa convocar a diretoria para uma reuni�o extraordin�ria e fazer o que fariam se o diretor administrativo tivesse falecido em circunst�ncias normais.</p><p>Dirch Frode ponderou sobre as palavras dela. Seu cora��o deixou-se levar. Ele, o velho advogado que resolvia problemas e de quem se esperava um plano pronto diante de qualquer obst�culo, sentia-se totalmente paralisado. De repente se deu conta de que estava aceitando orienta��es de uma jovem. De um modo ou de outro, ela assumira o comando da situa��o e tra�ava as linhas de a��o que ele n�o conseguia formular.</p><p>� E Harriet...?</p><p>� Mikael e eu ainda n�o terminamos. Mas pode dizer a Henrik Vanger que acho que vamos resolver isso tamb�m.</p><p>O desaparecimento inesperado de Martin Vanger era o destaque do notici�rio das nove da manh�, quando Mikael despertou. Nada foi mencionado sobre os acontecimentos da noite, a n�o ser que o industrial deixara a pista da direita de forma inexplic�vel, em alta velocidade.</p><p>Ele estava sozinho no carro. A emissora de r�dio local demorava-se mais sobre as inquieta��es quanto ao futuro do grupo Vanger e quanto �s consequ�ncias financeiras que essa morte traria ao grupo.</p><p>Ao meio-dia, um despacho da TT, redigido �s pressas, anunciava na tev� "Uma regi�o em estado de choque" e resumia as repercuss�es imediatas para o grupo Vanger. N�o escapava a ningu�m que, s� em Hedestad, tr�s mil vinte e quatro mil habitantes eram empregados do grupo Vanger ou dependiam indiretamente da sa�de financeira do grupo. O atual diretor morrera e o ex-diretor era um velho tentando se recuperar de um infarto recente. Faltava um herdeiro natural. Tudo isso num per�odo considerado como o mais cr�tico da hist�ria da empresa.</p><p>Mikael Blomkvist tinha a possibilidade de ir � delegacia de pol�cia para explicar o que acontecera durante a noite, mas Lisbeth Salander j� havia tra�ado o caminho. Uma vez que ele n�o chamara a pol�cia imediatamente, tornava-se cada vez mais dif�cil fazer isso a cada hora que passava. Durante a<emphasis/>manh�, ele ficou afundado no banco da cozinha, num sil�ncio mal-humorado, enquanto contemplava a chuva e as grossas nuvens que cobriam o c�u. Por volta das dez, desabou uma nova tempestade, mas ao meio-dia a chuva parou e o vento acalmou um pouco. Ele saiu, enxugou as cadeiras do jardim e sentou-se com uma x�cara de caf�. Teve o cuidado de levantar a gola da camisa.</p><p>Como era de se esperar, a morte de Martin estendeu uma sombra sobre o cotidiano do povoado. Carros come�aram a estacionar diante da casa de Isabella Vanger, indicando que o cl� se reunia. Pessoas apresentavam suas condol�ncias. Lisbeth contemplava o desfile com indiferen�a. Mikael permanecia mudo.</p><p>� Como est� se sentindo? � ela perguntou enfim.</p><p>Mikael refletiu um momento antes de responder.</p><p>� Acho que ainda estou em estado de choque � disse. � Fiquei totalmente indefeso por v�rias horas. Achei que ia morrer. A ang�stia de morrer me revolvia as tripas e eu me sentia totalmente impotente.</p><p>Estendeu a m�o e a pousou sobre o joelho de Lisbeth.</p><p>� Obrigado � disse. � Se voc� n�o tivesse chegado, ele teria me matado.</p><p>Lisbeth retribuiu com um sorriso enviesado. Mikael prosseguiu:</p><p>� S� que... eu n�o consigo entender como p�de ser t�o louca de enfrent�-lo sozinha. Eu estava ali, no ch�o, rezando para que voc� visse a foto, fizesse a liga��o e chamasse a pol�cia.</p><p>� Se eu esperasse a pol�cia chegar, voc� n�o teria sobrevivido. Eu n�o</p><empty-line/><p>podia deixar aquele canalha te trucidar.</p><p>� Por que voc� n�o quer ver a pol�cia?</p><p>� N�o falo com as autoridades.</p><p>� Por que n�o?</p><p>� Problema meu. Mas, no que diz respeito a voc�, n�o acho que seria muito interessante para a sua carreira te apresentarem como o jornalista violentado por Martin Vanger, o conhecido assassino serial. Se j� n�o gosta do Super-Blomkvist, imagine os novos apelidos que viriam.</p><p>Mikael olhou-a intensamente, depois abandonou o assunto.</p><p>� Temos um problema � disse Lisbeth.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a, sabia a que ela estava se referindo.</p><p>� O que aconteceu a Harriet?</p><p>Lisbeth p�s as duas fotos polar�ide em cima da mesa diante dele. Explicou onde as encontrara. Mikael examinou as fotos com aten��o antes de levantar os olhos.</p><p>� Pode ser ela � disse por fim. � N�o posso jurar, mas a corpul�ncia e os cabelos lembram todas as fotos que vi dela.</p><p>Mikael e Lisbeth ficaram no jardim por uma hora, encaixando as pe�as do quebra-cabe�a. Descobriram que ambos, cada um de seu lado, haviam identificado Martin Vanger como o elo perdido.</p><p>Lisbeth n�o chegara a ver a foto que Mikael havia deixado em cima da mesa da cozinha. Na noite anterior, depois de examinar as imagens das c�meras de seguran�a, ela conclu�ra que Mikael fizera algo est�pido e fora at� a casa de Martin pelo caminho que margeava a �gua. Observou todas as janelas e n�o viu ningu�m. Muito discretamente, verificou todas as portas e janelas do t�rreo e ent�o foi escalando a parede at� alcan�ar uma sacada aberta no andar de cima. Levou tempo, e ela agiu com a maior prud�ncia, examinando c�modo por c�modo da casa. Por fim, descobriu a escada que levava ao por�o. Martin fora negligente: deixara entreaberta a porta de sua c�mara de torturas e ela logo entendeu tudo.</p><p>� Voc� ficou escutando por algum tempo o que ele dizia?</p><p>� N�o muito. Cheguei quando ele estava te interrogando sobre o que havia acontecido a Harriet, pouco antes de te suspender como um porco. Me afastei s� por um minuto e subi para buscar uma arma. Encontrei o taco golfe num arm�rio.</p><p>� Martin Vanger n�o tinha a menor ideia do que aconteceu a Harriet.</p><p>� E voc� acredita?</p><p>� Sim � disse Mikael sem hesitar. � Martin estava mais enlouquecido do que uma doninha furiosa... n�o sei de onde me veio essa imagem... mas ele admitiu todos os crimes que cometeu. Falava � vontade. Tive at� a impress�o de que queria me impressionar. Mas, no que se refere a Harriet, estava t�o desesperadamente em busca da verdade quanto Henrik Vanger.</p><p>� E ent�o... isso nos leva aonde?</p><p>� Sabemos que Gottfried estava por tr�s da primeira s�rie de assassinatos, entre 1949 e 1965.</p><p>� Certo. E que ele iniciou Martin.</p><p>� Estamos falando de uma fam�lia com problemas � disse Mikael. � Na verdade, Martin n�o tinha chance nenhuma.</p><p>Lisbeth Salander lan�ou um olhar estranho a Mikael.</p><p>� O que Martin me contou, embora aos peda�os, � que o pai come�ou a inici�-lo na �poca da puberdade. Ele assistiu ao assassinato de Lea em Uddevalla, em 1962. Na �poca tinha catorze anos. Assistiu ao assassinato de Sara, em 1964. Dessa vez participou ativamente. Tinha dezesseis anos.</p><p>� E?</p><p>� Ele me disse que n�o era homossexual e que nunca havia tocado um homem, exceto o pai. Isso me faz pensar... bem, a �nica conclus�o que se pode tirar � que o pai o violentava. Os abusos sexuais devem ter prosseguido por muito tempo. Ele foi iniciado, por assim dizer, pelo pai.</p><p>� Voc� est� dizendo bobagem � falou Lisbeth Salander.</p><p>Sua voz de repente ficou dura como pedra. Mikael olhou para ela surpreso. Havia algo de inflex�vel no olhar dela, sem a menor compaix�o.</p><p>� Martin poderia resistir como qualquer outra pessoa. Ele fez sua escolha. Matava e violentava porque gostava disso.</p><p>� Concordo. Mas Martin era um menino maltratado, influenciado pelo pai, assim como Gottfried foi maltratado pelo seu pai nazista.</p><p>� Ah, sei, voc� parte do princ�pio de que Martin n�o tinha vontade pr�pria e que as pessoas se tornam aquilo para o qual foram educadas.</p><p>Mikael sorriu prudentemente.</p><p>� E um ponto sens�vel para voc�?</p><p>Os olhos de Lisbeth flamejaram numa s�bita c�lera contida. Mikael prosseguiu r�pido.</p><p>� N�o estou afirmando que as pessoas s�o influenciadas apenas pela educa��o que recebem, mas acho que ela desempenha um papel importante. O pai de Gottfried o espancou, e seriamente, por anos e anos. Isso deixa marcas.</p><p>� Voc� est� dizendo bobagem � repetiu Lisbeth. � Gottfried n�o foi o �nico coitado no mundo a ter sido surrado. O que tamb�m n�o lhe dava carta branca para assassinar mulheres. Foi uma escolha que ele mesmo fez. E isso tamb�m vale para Martin.</p><p>Mikael ergueu uma m�o.</p><p>� N�o vamos discutir.</p><p>� N�o estou discutindo. Simplesmente acho pat�tico que sempre concedam circunst�ncias atenuantes aos canalhas.</p><p>� Concordo. Eles t�m mesmo uma responsabilidade pessoal. Passaremos isso a limpo depois. O fato � que Gottfried morreu quando Martin tinha dezessete anos e ele ficou sem ningu�m para gui�-lo. Tentou prosseguir nas pegadas do pai. Fevereiro de 1966, Uppsala.</p><p>Mikael inclinou-se para pegar um dos cigarros de Lisbeth.</p><p>� N�o vou nem come�ar a especular sobre que puls�es Gottfried estava tentando satisfazer, nem de que maneira interpretava seus atos. Ele se apoiou numa algaravia b�blica que um psiquiatra, talvez, pudesse esclarecer que fala de castigos e de purifica��o num sentido ou noutro. N�o importa. Ele era um assassino serial.</p><p>Refletiu um segundo antes de continuar.</p><p>� Gottfried queria matar mulheres e revestia os crimes numa esp�cie de racioc�nio pseudo-religioso. Mas Martin nem sequer fingia ter uma desculpa. Era organizado e matava de maneira sistem�tica. Al�m disso, tinha dinheiro para se dedicar a seu <emphasis>hobby. </emphasis>E era mais astuto que o pai. Toda vez que Gottfried deixava para tr�s um cad�ver, isso significava um inqu�rito policial e o risco de<strong/>algu�m chegar at� ele, ou pelo menos de fazer a liga��o entre os diferentes assassinatos.</p><p>� Martin Vanger mandou construir sua casa nos anos 1970 � disse Lisbeth pensativamente.</p><p>� Acho que Henrik disse 1978. Ele provavelmente encomendou um por�o de seguran�a para arquivos importantes ou algo do g�nero. Obteve uma<strong/>pe�a � prova de som, sem janelas e com uma porta blindada.</p><p>� Usou esse lugar por vinte e cinco anos.</p><p>Calaram-se por alguns momentos e Mikael pensou que atrocidades n�o<strong/>teriam se passado naquela id�lica ilha de Hedeby durante um quarto de s�culo. Lisbeth n�o precisou imaginar; tinha visto a cole��o de v�deos. Ela percebeu que Mikael tocava involuntariamente o pr�prio pesco�o.</p><p>� Gottfried odiava as mulheres e ensinou o filho a tamb�m odiar as mulheres, enquanto o violentava. Mas havia algo mais... acho que Gottfried imaginava que os filhos deviam compartilhar sua vis�o pervertida do mundo, para dizer o m�nimo. Quando perguntei a Martin sobre Harriet, sua pr�pria irm�, ele disse: <emphasis>Tentamos convenc�-la. Mas ela n�o passava de uma putinha or</emphasis><emphasis>din�ria. Estava planejando avisar Henrik.</emphasis></p><p>Lisbeth assentiu com a cabe�a.</p><p>� Eu ouvi. Foi mais ou menos nesse momento que eu cheguei ao por�o. Isso significa que agora conhecemos o motivo da misteriosa conversa que ela queria ter com Henrik.</p><p>Mikael franziu a testa.</p><p>� N�o exatamente. Pense na cronologia dos fatos. N�o sabemos quando Gottfried violentou o filho pela primeira vez, mas ele levou Martin a Uddevalla para matar Lea Persson em 1962. Gottfried afogou-se em 1965. Antes disso, ele e Martin haviam tentado <emphasis>convencer </emphasis>Harriet. O que se pode deduzir da�?</p><p>� Que Gottfried n�o violentou apenas Martin. Ele atacou tamb�m Harriet.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� Gottfried era o professor, Martin o aluno. E Harriet era o joguete dos dois, digamos assim.</p><p>� Gottfried ensinou Martin a ter intimidades com a irm�. � Lisbeth mostrou as fotos polar�ide. � � dif�cil determinar a atitude dela por essas duas fotos, pois s� vemos seu rosto tentando se esconder da objetiva.</p><p>� Digamos que tudo come�ou quando ela tinha catorze anos, em 1964. Ela se defendeu � <emphasis>n�o conseguia aceitar </emphasis>�, segundo Martin. Era isso que ela amea�ava contar. Martin certamente n�o tinha grande experi�ncia na �poca, ele consultava o pai, mas Gottfried e ele firmaram uma esp�cie de pacto atrav�s do qual tentavam iniciar Harriet.</p><p>Lisbeth assentiu com a cabe�a.</p><p>� Voc� escreveu, nas suas anota��es, que Henrik Vanger insistiu para que Harriet fosse morar na casa dele no inverno de 1964.</p><p>� Henrik percebeu que algo n�o ia bem naquela fam�lia. Para ele, a causa eram discuss�es e desaven�as entre Gottfried e Isabella, por isso acolheu Harriet em sua casa para que ela pudesse ficar tranquila e se dedicar aos estudos.</p><p>� Um contratempo para Gottfried e Martin. Eles n�o podiam mais dispor dela facilmente, nem controlar sua vida. Mas de tempo em tempo... Onde aconteciam esses abusos?</p><p>� Provavelmente na cabana de Gottfried. Tenho quase certeza que as fotos foram tiradas l�. Vai ser f�cil verificar. A casa tem uma localiza��o perfeita, � isolada e longe do povoado. At� que um dia Gottfried bebeu demais e acabou se afogando como um imbecil.</p><p>Lisbeth balan�ou pensativamente a cabe�a.</p><p>� O pai de Harriet tinha ou tentava ter rela��es sexuais com ela, mas aposto que n�o a iniciou nos assassinatos.</p><p>Mikael entendeu que esse era um ponto a ser esclarecido. Harriet anotara os nomes das v�timas de Gottfried e os associara a cita��es b�blicas, mas seu interesse pela B�blia s� havia se manifestado no �ltimo ano, quando Gottfried j� havia morrido. Refletiu um momento, tentando encontrar uma explica��o l�gica.</p><p>� E ent�o, um dia, Harriet descobre que Gottfried n�o � apenas um pai incestuoso como tamb�m um assassino serial furioso � disse.</p><p>� N�o sabemos quando ela descobriu os assassinatos. Talvez um pouco antes de Gottfried se afogar, talvez depois, se ele tinha um di�rio ou se guardou recortes de jornal sobre os assassinatos. Alguma coisa a colocou na pista.</p><p>� Mas n�o era isso que ela amea�ava contar a Henrik � insistiu Mikael.</p><p>� Era sobre Martin � disse Lisbeth. � O pai havia morrido, mas Martin continuava a assedi�-la.</p><p>� Exatamente � disse Mikael balan�ando a cabe�a.</p><p>� Mas ela levou um ano para se decidir.</p><p>� O que voc� faria se descobrisse que seu pai � um assassino serial que estupra o seu irm�o?</p><p>� Eu massacraria um lixo desses � disse Lisbeth com uma voz t�o fria que Mikael percebeu que ela n�o estava brincando. De repente se lembrou do rosto de Lisbeth quando ela saltou sobre Martin Vanger. Esbo�ou um sorriso n�o muito alegre.</p><p>� Certo. Mas Harriet n�o � voc�. Gottfried morreu em 1965, antes que ela tivesse tempo de fazer o que quer que fosse. Faz sentido. Com a morte de Gottfried, Isabella enviou Martin a Uppsala. Ele talvez voltasse para casa no Natal e nas f�rias, mas no ano seguinte n�o encontrou muito Harriet. Ela p�de se distanciar um pouco dele.</p><p>� E passou a estudar a B�blia.</p><p>� E, pelo que sabemos hoje, n�o necessariamente por raz�es religiosas. Talvez quisesse apenas tentar entender o que o pai fizera. Ela ficou remoen-do isso at� a Festa das Crian�as em 1966. E a�, de repente, v� o irm�o surgir na rua da Esta��o e se d� conta de que a coisa vai recome�ar. N�o sabemos se eles se falaram e se ele disse algo a ela. Seja como for, Harriet voltou depressa para casa querendo falar com urg�ncia com Henrik.</p><p>� E em seguida desapareceu.</p><p>Reconstitu�da assim a sequ�ncia dos acontecimentos, a solu��o do quebra-cabe�a parecia pr�xima. Mikael e Lisbeth fizeram as malas. Antes de partir, Mikael ligou para Dirch Frode e explicou que Lisbeth e ele precisavam deixar Hedeby por algum tempo, mas que fazia quest�o de se despedir de Henrik Vanger antes de ir embora.</p><p>Mikael quis saber o que Frode contara a Henrik. Pela voz, o advogado parecia t�o estressado que Mikael se preocupou com ele. Frode demorou um momento para dizer que somente contara que Martin havia morrido num acidente de carro.</p><p>Quando estacionou na frente do hospital, Mikael ouviu novas trovoadas num c�u carregado de nuvens que anunciavam chuva. Apressou o passo no estacionamento ao sentir as primeiras gotas.</p><p>Henrik Vanger estava sentado em frente � janela do quarto, vestindo um robe. A doen�a certamente o marcara, mas ele readquiria alguma cor nas faces e parecia <emphasis>a </emphasis>caminho da recupera��o. Apertaram-se as m�os. Mikael pediu que a enfermeira particular os deixasse a s�s por alguns minutos.</p><p>� Voc� n�o veio me ver � disse Henrik Vanger.</p><p>� N�o pude. Sua fam�lia n�o quer me ver aqui no hospital, mas hoje est�o todos com Isabella.</p><p>� Pobre Martin � disse Henrik.</p><p>� Henrik, voc� me pediu para descobrir a verdade sobre o que aconteceu a Harriet. Esperava que a verdade n�o doesse?</p><p>O velho olhou para ele. Depois abriu bem os olhos.</p><p>� Martin?</p><p>� Ele faz parte da hist�ria. Henrik fechou os olhos.</p><p>� Agora preciso lhe fazer uma pergunta.</p><p>� Qual?</p><p>� Voc� ainda quer saber o que aconteceu? Mesmo que doa e mesmo que a verdade seja pior do que voc� sempre imaginou?</p><p>Henrik Vanger olhou Mikael demoradamente. Depois balan�ou a cabe�a.</p><p>� Quero saber. � o objetivo do seu trabalho.</p><p>� Certo. Acho que sei o que aconteceu a Harriet. Mas ainda falta uma �ltima pe�a do quebra-cabe�a.</p><p>� Me conte tudo.</p><p>� N�o, hoje n�o. Agora quero que continue repousando. O m�dico disse que o alerta j� deixou de soar e que logo voc� estar� curado.</p><p>� N�o me trate como uma crian�a.</p><p>� Ainda n�o terminei minha investiga��o. S� tenho suposi��es por enquanto, mas vou tentar achar essa �ltima pe�a do quebra-cabe�a. Da pr�xima vez contarei a hist�ria toda. Pode demorar um pouco, mas quero que saiba que eu voltarei e que voc� saber� a verdade.</p><empty-line/><p>Lisbeth cobriu a moto com uma lona, deixou-a do lado da casa oposto ao sol e instalou-se com Mikael no carro emprestado. A chuva aumentou e, ao sul de G�vle, enfrentaram um aguaceiro t�o forte que Mikael mal via a estrada � frente. Por cautela, resolveu parar num posto de gasolina. Tomaram um caf� enquanto esperavam a chuva acalmar e s� chegaram a Estocolmo por volta das sete da noite. Mikael deu a Lisbeth o c�digo do seu pr�dio e a deixou numa esta��o de metr�. O apartamento pareceu-lhe estranho quando entrou.</p><p>Passou o aspirador e um pano de p�, enquanto Lisbeth ia ver Praga em Sundbyberg. Ela chegou � casa de Mikael cerca de meia-noite e passou dez minutos examinando cada detalhe do apartamento. Depois ficou um longo tempo diante da janela, olhando a vista do Slussen.</p><p>Arm�rios e estantes comprados na Ikea serviam de divis�ria entre a sala e o quarto do <emphasis>loft. </emphasis>Eles se despiram e dormiram algumas horas.</p><p>Quando no dia seguinte aterrissaram em Gatwick por volta do meio-dia, foram recebidos pela chuva. Mikael havia reservado um quarto no hotel James perto do Hyde Park, um excelente hotel comparado �s espeluncas de Bayswater onde sempre se hospedava em suas visitas a Londres. As despesas corriam por conta de Dirch Frode.</p><p>�s cinco da tarde, um homem de uns trinta anos encontrou-se com eles no bar do hotel. Era quase calvo, tinha uma barba loura, vestia um <emphasis>casaco </emphasis>muito largo, jeans e <emphasis>dockside.</emphasis></p><p>� Wasp? � ele perguntou.</p><p>� Trinity? � ela rebateu. Cumprimentaram-se com um aceno de cabe�a. Ele n�o perguntou o nome de Mikael.</p><p>O parceiro de Trinity foi apresentado como Bob the Dog. Ele esperava numa velha kombi estacionada na esquina. Entraram pela porta lateral e sentaram-se em bancos dobr�veis. Enquanto Bob ziguezagueava pelo tr�nsito londrino, Wasp e Trinity conversavam.</p><p>� Praga me disse que se trata de um <emphasis>crash-bang job.</emphasis></p><p>� Escuta telef�nica e controle de e-mails num computador. Pode ser coisa r�pida ou levar alguns dias, depende da press�o dele. � Lisbeth apontou para Mikael com o polegar. � Voc�s conseguem?</p><p>� Os cachorros t�m pulgas? � respondeu Trinity.</p><p>Anita Vanger morava numa das pequenas casas alinhadas em fila e de aspecto asseado do sub�rbio de St. Albans, ao norte de Londres, um trajeto de pouco mais de uma hora de carro. Da kombi, viram-na chegar e abrir a porta �s sete da noite. Esperaram uni pouco para que ela tomasse banho, comesse alguma coisa e se instalasse na frente da tev�, antes de Mikael tocar a campainha.</p><p>Uma c�pia quase id�ntica de Cec�lia Vanger abriu a porta, o rosto formando um cort�s ponto de interroga��o.</p><p><emphasis>� </emphasis>Boa noite, Anita. Meu nome � Mikael Blomkvist. Henrik Vanger pediu-me que viesse v�-la. Suponho que soube de Martin.</p><p>O rosto dela passou da surpresa � vigil�ncia. Assim que ouviu o nome Mikael Blomkvist, ela soube exatamente quem ele era. Estava em contato com Cec�lia Vanger, que talvez tivesse manifestado uma certa irrita��o com Mikael. Mas mencionar Henrik Vanger a obrigou a abrir a porta. Convidou Mikael a se instalar na sala. Ele olhou ao redor. A decora��o da casa, embora bastante discreta, indicava uma pessoa com dinheiro e unia vida profissional. Observou uma litografia assinada por Auders Zorn acima de uma lareira transformada em aquecedor a g�s.</p><p>� Desculpe eu ter vindo sem avisar, eu estava em Londres c tentei telefonar durante o dia.</p><p>� Entendo. Do que se trata? � A voz estava na defensiva.</p><p>� Est� pretendendo ir ao funeral?</p><p>� N�o. Martin e eu n�o �ramos muito pr�ximos e n�o posso me afastar do trabalho.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a. Anita Vanger fizera o poss�vel para se manter distante de Hedestad durante trinta anos. Desde que o pai voltara � ilha de Hedeby, ela praticamente n�o pusera mais os p�s l�.</p><p>� Quero saber o que aconteceu a Harriet Vanger. A hora da verdade chegou.</p><p>� Harriet? O que est� querendo dizer?</p><p>Mikael fez um trejeito, dando a entender que n�o estava disposto a se deixar enganar.</p><p>� Voc� era a amiga mais pr�xima de Harriet na fam�lia e foi a pessoa que ela procurou para contar sua terr�vel hist�ria.</p><p>� Voc� est� completamente doido � disse Anita Vanger.</p><p>� Talvez voc� esteja certa � disse Mikael com a voz tranquila. � Anita, voc� esteve no quarto de Harriet naquele dia. Tenho fotos provando isso. Daqui a alguns dias farei um relat�rio a Henrik e depois ele assumir� o meu lugar. Por que n�o me conta o que aconteceu?</p><p>Anita Vanger levantou-se.</p><p>� Saia imediatamente da minha casa.</p><p>Mikael levantou-se.</p><p>� Tudo bem, mas cedo ou tarde ser� obrigada a me contar.</p><p>� N�o tenho nada a lhe dizer.</p><p>� Martin est� morto � disse Mikael com firmeza. �� Voc� nunca gostou dele. Acredito que veio morar em Londres n�o apenas para ficar longe de seu pai mas tamb�m para n�o ser obrigada a encontrar Martin. Isso significa que voc� tamb�m estava sabendo, e a �nica que pode ter lhe contado Harriet. A quest�o � saber o que voc� fez depois de ficar sabendo.</p><p>Anita Vanger bateu a porta na cara de Mikael.</p><empty-line/><p>Lisbeth Salander dirigiu um sorriso de satisfa��o a Mikael enquanto retirava o microfone que ele trazia sob a camisa.</p><p>� Ela deu um telefonema trinta segundos depois de ter batido a porta na sua cara � disse Lisbeth.</p><p>� A indica��o do pa�s � Austr�lia � acrescentou Trinity, repondo o aparelho de escuta em cima da mesinha dentro da kombi. Preciso verificar qual � o c�digo da �rea.</p><p>Digitou alguma coisa no teclado de seu laptop.</p><p>� Aqui est�, ela chamou este n�mero: � um telefone numa localidade chamada Tennant Creek, ao norte de Alice Springs, no Territ�rio do Norte. Quer escutar a conversa?</p><p>Mikael fez que sim com a cabe�a.</p><p>� Que horas s�o na Austr�lia agora?</p><p>� Mais ou menos cinco da manh�. � Trinity acionou a grava��o digital e um alto-falante. Mikael contou oito chamadas antes de uma voz atender. Conversavam em ingl�s.</p><p>� Oi, sou eu.</p><p>� Humm, est� certo que eu sou madrugador, mas...</p><p>� Eu quis te ligar ontem... Martin morreu. Matou-se num acidente de carro anteontem.</p><p>Sil�ncio. Depois, algo semelhante a uma ligeira tosse, mas que podia ser interpretado como "melhor assim".</p><p>� S� h� um problema. Um jornalista detest�vel que Henrik contratou acabou de sair aqui de casa. Fez perguntas sobre o que aconteceu em 1966. Ele sabe de alguma coisa.</p><p>Sil�ncio outra vez. Depois, uma voz de comando.</p><p>� Anita, desligue agora. Devemos evitar qualquer contato por algum tempo.</p><p>� Mas...</p><p>� Escreva cartas. Mantenha-me informado do que se passa. � E a conversa foi interrompida.</p><p>� Cara esperto! � disse Lisbeth Salander com admira��o na voz. Voltaram ao hotel um pouco antes das onze. A recep��o encarregou-se de reservar lugares no primeiro voo dispon�vel para a Austr�lia. Em quinze minutos, conseguiram lugar num avi�o que sairia �s 19h05 no dia seguinte, com destino a Canberra, Nova Gales do Sul.</p><p>Resolvidos todos os detalhes, deitaram-se na cama, exaustos.</p><empty-line/><p>Era a primeira visita de Lisbeth Salander a Londres e eles sa�ram para passear de manh�, da Tottenham Court Road ao Soho. Pararam para beber um <emphasis>caffe latte </emphasis>na Old Compton Street. Por volta das tr�s, voltaram ao hotel para pegar as malas. Enquanto Mikael fechava a conta, Lisbeth viu que havia uma mensagem de texto urgente no seu celular.</p><p>� Dragan Armanskij precisa falar com voc�.</p><p>Ela usou um telefone da recep��o para falar com seu chefe. Mikael estava a seu lado e de repente viu Lisbeth virar-se para ele com o rosto paralisado.</p><p>� O que aconteceu?</p><p>� Minha m�e morreu. Preciso voltar.</p><p>Lisbeth parecia t�o desesperada que Mikael abra�ou-a. Ela o afastou. Beberam um caf� no bar. Quando Mikael disse que mudaria as reservas para a Austr�lia e a acompanharia a Estocolmo, ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o � disse secamente. � N�o podemos abandonar o trabalho agora. Voc� ir� sozinho � Austr�lia.</p><p>Separaram-se em frente ao hotel e cada um tomou o seu �nibus, com destino a aeroportos diferentes.</p><empty-line/><p><strong>26. TER�A-FEIRA 15 DE JULHO � QUINTA-FEIRA 17 DE JULHO</strong></p><p>Mikael pegou um voo dom�stico de Canberra a Alice Springs, �nica possibilidade de que dispunha no meio da tarde. Depois, p�de escolher entre um voo particular e um carro alugado. Escolheu o carro para enfrentar os quatrocentos quil�metros restantes.</p><p>Um desconhecido com o nome b�blico de Joshua, e que fazia parte da rede web internacional de <emphasis>Praga, </emphasis>ou talvez de Trinity, deixara um envelope destinado a Mikael na recep��o do aeroporto de Canberra.</p><p>O n�mero de telefone para o qual Anita ligara era de uma fazenda, Cochran Farm. Uma breve nota acompanhava a informa��o: cria��o de ovelhas.</p><p>Um artigo extra�do na internet fornecia detalhes sobre a cria��o de ovelhas na Austr�lia.</p><p>O pa�s tem 18 milh�es de habitantes, entre os quais 53 mil criadores de ovelhas cuidando de cerca de 120 milh�es de animais. Somente a exporta��o de l� rende mais de 3,5 bilh�es de d�lares por ano, sem contar a exporta��o de 700 milh�es de toneladas de carne de ovelha e mais as peles para a ind�stria do vestu�rio. A produ��o de carne e de l� � um dos setores econ�micos mais importantes do pa�s.</p><p>A Cochran Farm, fundada em 1891 por um certo Jeremy Cochran, era a quinta maior empresa agropecu�ria da Austr�lia, com cerca de sessenta mil <emphasis>merino sheep, </emphasis>cuja l� era considerada de excelente qualidade. Al�m de ovelhas, a fazenda criava tamb�m vacas, porcos e galinhas.</p><p>Mikael constatou que a Cochran Farm era uma empresa com um volume anual de neg�cios impressionante, que exportava para os Estados Unidos, China, Jap�o e Europa, entre outros.</p><p>As biografias eram ainda mais interessantes.</p><p>Em 1972, a Cochran Farm passou das m�os de Raymond Cochran para seu herdeiro Spencer Cochran, formado em Oxford, na Inglaterra. Spencer falecera em 1994 e desde ent�o a fazenda era dirigida por sua vi�va. Ela aparecia numa foto de baixa resolu��o extra�da do site da Cochran Farm, que mostrava uma mulher loura de cabelos curtos. Parte de seu rosto estava virado um cordeiro, que ela acariciava. Segundo Joshua, Spencer e ela haviam se casado na It�lia em 1971.</p><p>Ela se chamava Anita Cochran.</p><p>Mikael passou a noite num lugarejo perdido e des�rtico com um nome que exalava esperan�a: Wannado. Num bar de esquina, comeu carne de carneiro assada e bebeu tr�s <emphasis>pints, </emphasis>na companhia de alguns tipos locais que o chamavam de <emphasis>mate, e </emphasis>que falavam com um sotaque engra�ado. Ele tinha a impress�o de estar em plena filmagem de <emphasis>Crocodilo Dundee.</emphasis></p><p>Na noite anterior, antes de ir dormir, ele havia telefonado para Erika em Nova York.</p><p>� Desculpe, Ricky, mas andei t�o ocupado que nem tive tempo de ligar.</p><p>� Mas o que est� havendo em Hedestad, criatura?! � ela explodiu. � Christer me telefonou para dizer que Martin morreu num acidente de carro.</p><p>� E uma longa hist�ria.</p><p>� E por que voc� n�o atende o telefone? Estou chamando sem parar h� dois dias.</p><p>� Aqui n�o pega.</p><p>� Aqui onde?</p><p>� Neste momento, a uns duzentos quil�metros ao norte de Alice Springs. Na Austr�lia, portanto.</p><p>Mikael quase nunca conseguia surpreender Erika, mas desta vez ela emudeceu por uns dez segundos.</p><p>� E o que voc� est� fazendo na Austr�lia, ainda que mal pergunte?</p><p>� Estou terminando o trabalho. Voltarei � Su�cia daqui a alguns dias. Liguei apenas para contar que a miss�o para Henrik Vanger est� quase no fim.</p><p>� Quer dizer que descobriu o que aconteceu a Harriet?</p><p>� Acho que sim.</p><p>Ele chegou � Cochran Farm no dia seguinte, ao meio-dia, e ficou sabendo que Anita Cochran se encontrava num distrito de produ��o, numa localidade chamada Makawaka, cento e vinte quil�metros a oeste.</p><p>Eram quatro da tarde quando Mikael encontrou o lugar, ap�s percorrer um grande n�mero de estradas vicinais. Parou diante de uma cerca onde um grupo de pe�es estava reunido em volta do capo de um jipe, comendo alguma coisa. Mikael desceu, apresentou-se e disse que procurava Anita Cochran. Os rapazes olharam para um homem musculoso, de uns trinta anos, que parecia ser quem tomava as decis�es. Tinha o torso nu e bronzeado, exceto nas partes normalmente cobertas pela camiseta. Usava um chap�u de caub�i.</p><p>� <emphasis>Well, mate, </emphasis>a patroa est� uns dez quil�metros para l� � disse, apontando com o dedo.</p><p>Ele olhou para o carro de Mikael com ceticismo e acrescentou que n�o era uma boa ideia prosseguir na estrada com aquele brinquedinho japon�s. Mas disse que de todo modo ele precisava ir at� l� e que podia levar Mikael no jipe, �nico ve�culo adaptado ao tipo de terreno que os esperava. Mikael agradeceu e teve o cuidado de pegar a sacola com seu notebook.</p><p>O homem disse que se chamava Jeff e contou que era o <emphasis>studs manager al the station. </emphasis>Mikael perguntou o que aquilo significava. Jeff olhou-o curioso, percebendo que Mikael n�o devia ser do pa�s. Explicou que <emphasis>studs manager </emphasis>equivalia a um gerente de banco, s� que lidava com ovelhas, e que <emphasis>station </emphasis>era a palavra australiana para "rancho".</p><p>Continuaram conversando enquanto Jeff manobrava o jipe com tranquilidade a vinte quil�metros por hora, num declive impressionante at� o fundo de um desfiladeiro. Mikael agradeceu sua boa estrela por n�o ter tentado prosseguir no carro alugado. Ficou sabendo que na base do desfiladeiro havia pastagens para cerca de setecentas ovelhas.</p><p>� Se entendi bem, Cochran Farm � uma grande empresa agropecu�ria.</p><p>� Uma das maiores da Austr�lia � respondeu Jeff com algum orgulho na voz. � Temos cerca de nove mil ovelhas aqui no distrito de Makawaka, mas possu�mos tamb�m <emphasis>stations </emphasis>na Nova Gales do Sul e na Austr�lia Ocidental. Ao todo, s�o mais de sessenta e tr�s mil ovelhas.</p><p>Sa�ram do desfiladeiro para um terreno ondulado mais suave. De repente Mikael ouviu tiros. Viu ovelhas mortas, grandes braseiros e uns dez pe�es, todos com espingardas na m�o. Pareciam ocupar-se do abate de animais.</p><p>Involuntariamente, Mikael fez a associa��o com os cordeiros do sacrif�cio b�blico.</p><p>Ent�o viu uma mulher vestindo jeans e camisa xadrez branca e vermelha, de cabelos louros curtos. Jeff estacionou a poucos metros dela.</p><p>� <emphasis>Hi</emphasis><emphasis>boss. We got a tourist </emphasis>� disse.</p><p>Mikael desceu do jipe e olhou para ela, que o encarou com olhos interrogativos.</p><p>� Bom dia, Harriet. Faz um bom tempo que n�o nos vemos � disse Mikael em sueco.</p><p>Nenhum dos homens que trabalhavam para Anita Cochran entendeu que ele disse, mas eles viram a rea��o dela. Anita Cochran deu um passo para tr�s, amedrontada. Os empregados tiveram o reflexo instant�neo de proteger a patroa. Viram-na empalidecer, calaram-se e se aproximaram, prontos para se interpor entre ela e aquele estranho que claramente a perturbava. A amabilidade de Jeff havia desaparecido por completo quando ele deu um passo na dire��o de Mikael.</p><p>Mikael deu-se conta de que estava num lugar inacess�vel do outro lado do planeta, cercado por um bando de criadores de ovelhas encharcados de suor<strong/>com espingardas na m�o. Uma palavra de Anita Cochran, e eles o encheriam de chumbo.</p><p>Mas o instante havia passado. Harriet Vanger ergueu a m�o num gesto de apaziguamento e seus homens recuaram. Ela se aproximou de Mikael e o olhou nos olhos. Estava molhada de suor e com o rosto sujo. Mikael notou ra�zes mais escuras sob os cabelos louros. Tinha o rosto mais envelhecido e macilento, mas se tornara exatamente a bela mulher que sua fotografia de crisma havia pressagiado.</p><p>� N�s j� nos encontramos? � perguntou Harriet Vanger.</p><p>� Sim. Meu nome � Mikael Blomkvist. Voc� foi minha bab� num ver�o, quando eu tinha tr�s anos. Voc� tinha doze ou treze na �poca.</p><p>Alguns segundos se passaram e ent�o o olhar dela se iluminou e Mikael percebeu que ela se lembrava dele. Parecia estupefata.</p><p>� O que voc� quer?</p><p>� Harriet, n�o sou seu inimigo, n�o estou aqui para lhe fazer mal. Mas precisamos conversar.</p><p>Ela se virou para Jeff e pediu-lhe que a substitu�sse, depois fez um sinal para que Mikael a acompanhasse. Andaram uns duzentos metros at� um grupo de barracas de lona branca num pequeno bosque. Ela indicou uma cadeira dobr�vel em frente a uma mesa pouco firme, despejou �gua numa bacia, lavou o rosto, enxugou-se e entrou na barraca para trocar de camisa. Pegou duas cervejas numa caixa de isopor com gelo e sentou-se diante de Mikael.</p><p>� Pronto. Agora fale, estou escutando.</p><p>� Por que est�o matando as ovelhas?</p><p>� H� uma epidemia. Provavelmente a maioria dessas ovelhas est� saud�vel, mas n�o podemos correr o risco de a epidemia se alastrar. Seremos obrigados a abater mais de seiscentas ovelhas esta semana. Por isso n�o estou de muito bom humor.</p><p>Mikael aquiesceu com a cabe�a.</p><p>� Seu irm�o se matou dirigindo um carro dias atr�s.</p><p>� Eu soube.</p><p>� Atrav�s de Anita, que telefonou para voc�.</p><p>Ela o fitou por um bom tempo. Depois assentiu com a cabe�a. Percebeu que era in�til negar as evid�ncias.</p><p>� Como me encontrou?</p><p>� Grampeamos o telefone de Anita. � Mikael tamb�m achou que n�o havia raz�o para mentir. � Estive com seu irm�o um pouco antes de ele morrer.</p><p>Harriet Vanger franziu o cenho e o interrogou com o olhar. Ent�o ele retirou o len�o rid�culo que havia posto no pesco�o, baixou a gola da camisa e mostrou a marca do n� corredi�o. Uma cicatriz de um vermelho-vivo que provavelmente ficaria como lembran�a de Martin Vanger.</p><p>� Seu irm�o suspendeu-me num n� corredi�o e s� fui salvo porque minha companheira chegou para dar a maior surra que aquele canalha j� levou na vida.</p><p>Alguma coisa se acendeu nos olhos de Harriet.</p><p>� Acho melhor voc� me contar essa hist�ria desde o in�cio.</p><p>Mikael levou mais de uma hora para contar tudo. Come�ou se apresentando e resumindo suas desventuras profissionais. Depois contou como Henrik Vanger o incumbira daquela miss�o e por que tinha sido conveniente para ele instalar-se em Hedeby. Falou do inqu�rito policial que n�o dera em nada e de como Henrik fizera sua investiga��o pessoal durante todos aqueles anos, convencido de que algu�m da fam�lia havia matado Harriet. Ligou o computador e explicou como descobriu as fotos da rua da Esta��o e como ele e Lisbeth come�aram a buscar um assassino serial que eles acabaram brindo que eram dois.</p><p>Enquanto ele falava, come�ou a anoitecer. Os homens se preparavam para passar a noite ali, acendendo fogueiras e pondo marmitas para aquecer. Mikael observou que Jeff permanecia perto de sua chefe e que continuava a olh�-lo com desconfian�a. O cozinheiro serviu Harriet e Mikael. Abriram outra cerveja. Quando Mikael terminou seu relato, Harriet ficou em sil�ncio por um momento.</p><p>� Meu Deus � disse ela.</p><p>� Voc� n�o anotou na agenda o assassinato de Uppsala.</p><p>� Nem mesmo investiguei. Estava aliviada por meu pai ter morrido e a viol�ncia acabar. Nunca me passou pela cabe�a que Martin... � Ela se calou. � Estou contente que tenha morrido.</p><p>� Eu te entendo.</p><p>� Voc� s� n�o me explicou como voc�s conclu�ram que eu estava viva.</p><p>� Depois que descobrimos o que se passou, n�o foi muito dif�cil deduzir o resto. Para poder desaparecer, voc� precisou de ajuda. Anita Vanger era sua confidente e voc�s haviam passado alguns dias do ver�o na cabana de Gottfried. Se fosse contar a algu�m, seria para ela, e ela acabava de receber sua habilita��o de motorista.</p><p>Harriet Vanger olhou para ele com uma express�o indefinida.</p><p>� Agora que voc� sabe que eu estou viva, o que vai <emphasis>fazer?</emphasis></p><p>� Vou contar a Henrik. Ele merece saber.</p><p>� E depois? Voc� � um jornalista.</p><p>� Harriet, n�o tenho nenhuma inten��o de entreg�-la � m�dia. Cometi tantas faltas profissionais nessa triste hist�ria que a Associa��o dos Jornalistas provavelmente me expulsaria se ficasse sabendo. � Ele tentou fazer gra�a. � Uma falta a mais ou a menos n�o faz diferen�a, e n�o quero prejudicar minha ex-bab�.</p><p>Ela n�o pareceu achar gra�a.</p><p>� Quantas pessoas sabem a verdade?</p><p>� De que voc� est� viva? Neste momento, apenas eu, voc�, Anita e a minha parceira Lisbeth. Dirch Frode conhece uns dois ter�os da hist�ria, mas continua achando que voc� morreu em 1966.</p><p>Harriet Vanger parecia refletir sobre alguma coisa. Olhou ao longe, na obscuridade do campo. Mikael teve de novo a sensa��o de estar exposto a uma situa��o desagrad�vel e lembrou que Harriet tinha uma espingarda apoiada contra a lona da barraca, ao alcance da m�o. Mas procurou afastar esses pensamentos. Mudou de assunto.</p><p>� Como voc� virou criadora de ovelhas na Austr�lia? Deduzi que Anita Vanger ajudou-a a abandonar a ilha, provavelmente no porta-malas do carro dela, quando a ponte foi reaberta um dia depois do acidente.</p><p>� Na verdade, apenas fiquei deitada no banco de tr�s do carro com um cobertor por cima de mim. Eu disse a Anita que precisava fugir. Voc� deduziu bem. Entreguei-me a ela, ela me ajudou e foi uma amiga leal durante todos esses anos.</p><p>� Como veio parar aqui na Austr�lia?</p><p>� Primeiro, antes de deixar a Su�cia, morei por algumas semanas no quarto de estudante de Anita em Estocolmo. Anita tinha um dinheiro dela, que generosamente me emprestou. Tamb�m me deu seu passaporte. �ramos parecidas, e tudo que precisei fazer foi mudar a cor do cabelo para ficar loura. Morei num convento na It�lia por quatro anos. N�o como freira; existem conventos onde � poss�vel alugar celas a um pre�o baixo, s� para ficar ali em paz, meditando. Depois conheci Spencer Cochran por acaso. Era alguns anos mais velho que eu, conclu�ra seus estudos na Inglaterra e passeava pela Europa. Me apaixonei e ele tamb�m. Foi isso que aconteceu. <emphasis>Anita </emphasis>Vanger casou-se com ele em 1971. Nunca me arrependi, era um homem maravilhoso. Mas ele morreu h� oito anos e de repente me tornei propriet�ria da empresa.</p><p>� E o passaporte? Algu�m poderia notar que havia duas Anita Vanger.</p><p>� N�o. Por que notariam? Uma sueca chamada Anita Vanger casou-se com Spencer Cochran. O fato de morar em Londres ou na Austr�lia n�o tem import�ncia nenhuma. Em Londres, ela � a mulher separada de Spencer Cochran. Na Austr�lia, � sua esposa. Os cart�rios de Canberra e Londres n�o se comunicam. Al�m disso, obtive um passaporte australiano com o nome Cochran. E um arranjo que funciona perfeitamente bem. O plano s� n�o daria certo se Anita quisesse se casar. Meu casamento precisou ser registrado num cart�rio sueco.</p><p>� E ela n�o se casou.</p><p>� Disse que nunca encontrou ningu�m, mas sei que se absteve por minha causa. Foi uma verdadeira amiga.</p><p>� O que ela fazia no seu quarto?</p><p>� Eu n�o estava raciocinando muito bem naquele dia. Tinha medo de Martin. Enquanto ele esteve em Uppsala, deixei o problema de lado, mas quando o vi na rua em Hedestad percebi que nunca mais estaria segura. Hesitei entre contar a Henrik e fugir. Henrik n�o p�de falar comigo, ent�o sa� andando � toa pelo povoado. Claro que o acidente na ponte fez todo mundo esquecer tudo mais, � natural. Mas n�o foi esse o meu caso. Eu tinha meu pr�prios problemas e mal tomei consci�ncia do acidente. Tudo parecia irreal. Ent�o encontrei Anita, que estava hospedada num anexo da casa de Gerda e Alexander. Por fim tomei uma decis�o e pedi que ela me ajudasse. Fiquei no quarto dela e n�o ousei mais sair dali. Mas havia uma coisa que eu precisava levar comigo: um di�rio �ntimo onde eu tinha anotado tudo o que aconteceu. Tamb�m precisava de roupas. Anita foi buscar.</p><p>� E suponho que ela n�o resistiu � tenta��o de abrir a janela para dar uma olhada no acidente. � Mikael refletiu um momento. � O que eu n�o entendo � por que voc� n�o foi ver Henrik, como era a sua inten��o.</p><p>� O que voc� acha?</p><p>� N�o sei, n�o entendo. Estou certo de que Henrik a teria ajudado. Martin n�o tinha como prejudic�-la imediatamente, e Henrik n�o a trairia. Teria conduzido o caso com discri��o, encaminhando-o para uma esp�cie de terapia ou tratamento.</p><p>� Voc� n�o entendeu o que se passou.</p><p>At� ent�o, Mikael mencionara apenas o abuso sexual que Martin sofrera de Gottfried, sem mencionar o caso de Harriet.</p><p>� Gottfried abusou de Martin � disse Mikael discretamente. � Imagino que tenha abusado tamb�m de voc�.</p><p>Harriet Vanger n�o mexeu um s� m�sculo. Depois respirou profundamente e escondeu o rosto nas m�os. Em menos de tr�s segundos, Jeff apareceu ao lado dela, perguntando se tudo estava <emphasis>all right. </emphasis>Harriet Vanger olhou para ele e dirigiu-lhe um breve sorriso. Ent�o surpreendeu Mikael ao se levantar e abra�ar seu <emphasis>studs manager, </emphasis>dando-lhe um beijo no rosto. Virou-se para Mikael, com o bra�o no ombro de Jeff.</p><p>� Jeff, este � Mikael, um velho... amigo de muito, muito tempo atr�s. Ele est� me trazendo problemas e m�s not�cias, mas nunca devemos matar o mensageiro. Mikael, este � Jeff Cochran, meu filho mais velho. Tenho tamb�m outro filho e uma filha.</p><p>Mikael balan�ou a cabe�a. Jeff tinha uns trinta anos. Harriet Vanger deve ter engravidado logo ap�s o casamento com Spencer Cochran. Ele se levantou, estendeu a m�o para Jeff e disse que sentia muito perturbar a m�e dele, mas que infelizmente era necess�rio. Harriet trocou algumas palavras com Jeff e o mandou embora. Tornou a sentar-se com Mikael e pareceu tomar uma decis�o.</p><p>� Chega de mentira. Acho que agora acabou. De certo modo, eu estava esperando por esse dia desde 1966. Durante muitos anos, minha ang�stia era que algu�m se dirigisse a mim pelo meu verdadeiro nome. E n�o me importa mais que voc� saiba. Meu crime est� prescrito. E estou pouco ligando para o que as pessoas v�o pensar.</p><p>� Que crime? � perguntou Mikael.</p><p>Ela o fitou bem nos olhos, mas ele ainda n�o sabia do que ela estava falando.</p><p>� Eu tinha dezesseis anos. Estava com medo, envergonhada, desesperada. E sozinha. Somente Anita e Martin sabiam a verdade. Contei a Anita sobre os abusos sexuais, mas n�o consegui contar que meu pai tamb�m era um psicopata assassino de mulheres. Anita nunca soube. Em troca, confessei-lhe o crime que eu mesma havia cometido e que era suficientemente horr�vel para que afinal n�o ousasse cont�-lo a Henrik. Pedi perd�o a Deus e me escondi num convento por v�rios anos.</p><p>� Harriet, seu pai era um estuprador e um assassino. Voc� n�o � culpada de nada.</p><p>� Eu sei. Meu pai abusou de mim durante um ano. Fiz de tudo para evitar que ele... mas ele era meu pai e eu n�o podia me recusar a fazer alguma coisa com ele sem lhe dar uma explica��o. Ent�o menti e aceitei participar da com�dia, como se aquilo fosse natural, cuidando sempre para que houvesse outras pessoas quando eu me encontrava com ele. Minha m�e sabia o que ele fazia, mas n�o se importava.</p><p>� Isabella sabia? � exclamou Mikael, consternado.</p><p>A voz de Harriet Vanger ficou mais dura.</p><p>� Claro que sim. Nada se passava em nossa fam�lia sem que Isabella soubesse. Mas ela nunca dava aten��o �s coisas desagrad�veis ou que pudessem depreci�-la. Meu pai podia me estuprar na sala diante de seus olhos sem que ela visse. Era incapaz de reconhecer que algo n�o ia bem na minha vida ou na dela.</p><p>� Cheguei a conhec�-la. � uma v�bora.</p><p>� E o que foi a vida inteira. Muitas vezes refleti sobre o relacionamento entre meu pai e ela. Conclu� que depois do meu nascimento eles raramente, ou nunca mais, tiveram rela��es sexuais. Meu pai tinha mulheres, mas estranhamente temia Isabella. Estava afastado dela sem poder se divorciar.</p><p>� Ningu�m se divorcia na fam�lia Vanger.</p><p>Ela riu pela primeira vez.</p><p>� � verdade. O fato � que eu n�o tive coragem de contar. O mundo inteiro ficaria sabendo. Meus colegas de escola, todos na fam�lia...</p><p>Mikael p�s a m�o sobre a de Harriet.</p><p>� Harriet, estou arrasado.</p><p>� Eu tinha catorze anos quando ele me violentou pela primeira vez. Levava-me regularmente � cabana. V�rias vezes Martin tamb�m estava l�. For�ava n�s dois a fazer coisas com ele. Segurava-me nos bra�os para que Martin... se satisfizesse em cima de mim. E assim, depois da morte do meu pai, Martin estava pronto para assumir o papel dele. Queria que eu fosse sua amante e achava natural que eu me submetesse. E nesse momento n�o tive mais escolha, fui obrigada a fazer o que Martin queria. Havia me livrado de um carrasco para cair nas garras de outro, e tudo o que podia fazer era procurar nunca ficar a s�s com ele.</p><p>� Henrik teria...</p><p>� Voc� ainda n�o entendeu � ela disse, elevando a voz.</p><p>Mikael viu os homens na tenda ao lado virarem-se para eles. Ela baixou de novo a voz e inclinou-se para ele.</p><p>� Est� com todas as cartas agora. Tire voc� mesmo as conclus�es. Levantou-se e foi buscar mais duas cervejas. Quando voltou, Mikael disse uma �nica palavra.</p><p>� Gottfried?</p><p>Ela fez que sim com a cabe�a.</p><p>� No dia 7 de agosto de 1965, meu pai me obrigou a acompanh�-lo at� a cabana. Henrik estava viajando. Meu pai havia bebido e tentou me for�ar. Mas n�o conseguiu gozar e come�ou a delirar. Ele era sempre... grosseiro e violento comigo quando est�vamos a s�s, mas dessa vez ultrapassou os limites. Urinou em cima de mim. A seguir contou-me o que gostaria de fazer comigo. Um pouco antes havia falado das mulheres que matara. Vangloriava-se. Citava a B�blia. Aquilo durou horas. N�o entendi a metade do que ele dizia, mas percebi que ele estava completamente maluco.</p><p>Ela tomou um gole de cerveja.</p><p>� A certa altura, por volta de meia-noite, ele teve uma crise. Parecia um louco furioso. Est�vamos no mezanino. Ele p�s uma camiseta em volta do meu pesco�o e apertou com toda a for�a. Vi tudo preto. N�o duvido um segundo que ele realmente tentou me matar e, pela primeira vez naquela noite, conseguiu me estuprar.</p><p>Harriet Vanger p�s uns olhos suplicantes em Mikael.</p><p>� Mas estava t�o b�bado que consegui me livrar, n�o sei como. Saltei do mezanino at� a pe�a de baixo e sa�<emphasis/>correndo, em p�nico. Estava nua e corri sem refletir, at� chegar ao pont�o. Ele chegou cambaleando atr�s de mim.</p><p>De repente, Mikael desejou que ela parasse de contar.</p><p>� Eu era suficientemente forte para derrubar um b�bado na �gua. Utilizei um remo para mante-lo debaixo da �gua at� que parasse de se mexer. Bastaram alguns segundos.</p><p>O sil�ncio foi ensurdecedor quando ela fez uma pausa.</p><p>� E, assim que levantei os olhos, Martin estava ali. Parecia aterrorizado e, ao mesmo tempo, divertia-se. N�o sei desde quando nos espionava em frente � casa. E assim eu fiquei entregue �<emphasis/>sua vontade. Ele se aproximou de mim e me pegou pelos cabelos, me levou de volta para a cabana e me jogou na cama de Gottfried. Me amarrou e me violentou, enquanto nosso pai ainda flutuava na �gua junto ao pont�o. N�o pude sequer me defender.</p><p>Mikael fechou os olhos. Sentiu vergonha e desejou ter deixado Harriet Vanger em paz. Mas a voz dela adquirira uma nova for�a.</p><p>� Desse dia em diante ca� sob seu poder. Fazia o que ele me dizia, estava como que paralisada. Se escapei da loucura, foi porque Isabella decidiu que Martin precisava mudar de ares ap�s o desaparecimento tr�gico do pai e o enviou a Uppsala. Evidentemente, era porque ela sabia o que ele fazia comigo; era sua maneira de resolver o problema. Voc� pode imaginar a decep��o de Martin.</p><p>Mikael assentiu com a cabe�a.</p><p>� No ano seguinte, ele s� voltou nas f�rias de Natal, e consegui ficar distante. Acompanhei Henrik numa viagem a Copenhague entre o Natal e o Ano-novo. E, quando chegaram as f�rias de ver�o, Anita estava l�. Abri-me com ela e ela permaneceu o tempo todo comigo, o que o impediu de se aproximar de mim.</p><p>� E ent�o voc� o viu na rua da Esta��o.</p><p>� Sim, fiquei sabendo que n�o viria � reuni�o de fam�lia e que permaneceria em Uppsala. Mas parece ter mudado de ideia e ent�o eu o vi ali, do outro lado da rua, olhando fixamente para mim. Sorrindo para mim. Como um pesadelo. Eu assassinara meu pai e me dei conta de que nunca me libertaria do meu irm�o. At� ent�o, s� havia pensado em me matar, mas finalmente preferi fugir.</p><p>Ela olhou para Mikael com um olhar aliviado.</p><p>� Como � bom contar a verdade... Agora voc� sabe de tudo. Como pretende utilizar o que sabe?</p><empty-line/><p><strong>27. S�BADO 26 DE JULHO � SEGUNDA-FEIRA 28 DE JULHO</strong></p><p>Mikael se encontrou com Lisbeth Salander na frente do seu pr�dio na Lundagatan �s dez da manh� e a levou ao cremat�rio do cemit�rio norte. Fez-lhe companhia durante a cerim�nia. Por um bom tempo, Lisbeth e Mikael foram as �nicas pessoas presentes al�m do pastor, mas, quando o ritual funer�rio come�ou, Dragan Armanskij apareceu. Dirigiu um breve aceno de cabe�a a Mikael, colocou-se atr�s de Lisbeth e p�s suavemente a m�o em seu ombro. Ela inclinou a cabe�a sem olhar para ele, como se soubesse quem havia chegado �s suas costas. Mas logo o ignorou, assim como ignorava Mikael.</p><p>Lisbeth n�o havia contado nada sobre a m�e, mas o pastor aparentemente falara com algu�m da casa de sa�de onde ela falecera, e Mikael entendeu que a causa da morte fora uma hemorragia cerebral. Lisbeth n�o disse uma s� palavra durante a cerim�nia. O pastor perdeu o fio da meada por duas vezes quando se dirigiu diretamente a Lisbeth, que o olhava bem nos olhos sem responder. Ao terminar, ela virou as costas e foi embora sem agradecer nem se despedir. Mikael e Dragan respiraram fundo e se olharam de soslaio. Eles ignoravam totalmente o que se passava na cabe�a dela.</p><p>� Ela n�o est� nada bem � disse Dragan.</p><p>� Acho que eu a entendo � respondeu Mikael. � Foi bom o senhor ter vindo.</p><p>� N�o estou t�o certo disso. Armanskij fixou o olhar em Mikael.</p><p>� Voc�s v�o voltar para o Norte? Cuide dela.</p><p>Mikael prometeu. Eles se separaram em frente � porta da igreja. Lisbeth j� esperava no carro.</p><p>Ela precisava retornar a Hedestad para buscar a moto e o equipamento que pegara emprestado da Milton Security. S� rompeu o sil�ncio depois que passaram de Uppsala, para perguntar como tinha sido a viagem � Austr�lia. Mikael desembarcara no aeroporto de Arlanda na noite anterior e s� dormira algumas horas. Enquanto conduzia o carro, ele contou a hist�ria de Harriet Vanger. Lisbeth Salander ficou em sil�ncio por meia hora, e s� depois abriu a boca.</p><p>� Cretina � disse.</p><p>� De quem voc� est� falando?</p><p>� Da Harriet Cretina Vanger. Se ela tivesse feito alguma coisa em 1966. Martin Vanger n�o teria continuado a matar e a estuprar durante trinta e sete anos.</p><p>� Harriet sabia dos assassinatos do pai, mas n�o que Martin participara deles. Ela fugiu de um irm�o que a violentava e que amea�ava contar que ela afogara o pai, se n�o obedecesse a suas ordens.</p><p>� Conversa mole.</p><p>O resto da viagem a Hedestad transcorreu em sil�ncio. Lisbeth estava com um humor particularmente sombrio. Mikael estava atrasado para o encontro que havia marcado e pediu que ela descesse no cruzamento antes da ponte, perguntando-lhe se estaria ainda ali quando ele voltasse.</p><p>� Pretende passar a noite aqui? � ela perguntou.</p><p>� Acho que sim.</p><p>� Quer que eu esteja aqui quando voc� voltar?</p><p>Ele desceu do carro, deu a volta e se aproximou para abra��-la. Lisbeth o recha�ou quase com viol�ncia. Mikael recuou,</p><p>� Lisbeth, voc� � minha amiga. Ela o olhou sem express�o.</p><p>� Quer que eu fique s� para que voc� possa trepar com algu�m esta noite?</p><p>Mikael olhou demoradamente para ela. Depois virou-se, entrou no carro e ligou o motor. Baixou o vidro. A hostilidade de Lisbeth era palp�vel.</p><p>� Quero ser seu amigo � disse. � Se est� imaginando outra coisa, n�o vale nem a pena estar aqui quando eu voltar.</p><p>Henrik Vanger estava sentado numa poltrona quando Dirch Frode convidou Mikael a entrar em seu quarto no hospital. Ele logo perguntou como Henrik estava.</p><p>� Eles est�o pretendendo me deixar ir ao enterro de Martin amanh�.</p><p>� Que parte da hist�ria Dirch contou a voc�? Henrik Vanger baixou o olhar.</p><p>� O que Martin e Gottfried fizeram. Pelo que entendi, a coisa foi mais longe do que eu imaginei nos meus piores pesadelos.</p><p>� Eu sei o que aconteceu a Harriet.</p><p>� Conte-me como ela morreu.</p><p>� Harriet n�o morreu. Est� viva. Se estiver de acordo, ela gostaria muito de rev�-lo.</p><p>Num mesmo movimento, Henrik Vanger e Dirch Frode olharam Mikael como se o mundo tivesse acabado de virar de pernas para o ar.</p><p>� Levei algum tempo at� convenc�-la a vir comigo, mas ela concordou. Est� bem e neste momento se encontra em Hedestad. Chegou hoje de manh� e poder� estar aqui dentro de uma hora. Se voc� quiser v�-la, � claro.</p><p>Mais uma vez, Mikael precisou contar a hist�ria do come�o ao fim. Henrik Vanger escutou com tanta concentra��o, como se escutasse um Serm�o da Montanha moderno. Em algumas raras ocasi�es, fez uma pergunta ou pediu que Mikael repetisse. Dirch Frode n�o abriu a boca.</p><p>Terminado o relato, o velho permaneceu quieto. Embora os m�dicos tivessem garantido que Henrik tinha se restabelecido do infarto, Mikael temia o instante da revela��o de toda a hist�ria � temia que o velho n�o aguentasse. Mas Henrik n�o demonstrou nenhum sinal de emo��o. Apenas sua voz parecia um pouco pastosa quando quebrou o sil�ncio.</p><p>� Pobre Harriet. Se tivesse vindo falar comigo... Mikael olhou a hora. Eram cinco para as quatro.</p><p>� Quer v�-la? Ela tem medo que voc� a rejeite, agora que sabe o que ela fez.</p><p>� E as flores?</p><p>� Perguntei isso a ela no avi�o. S� havia uma pessoa que ela amava na fam�lia: voc�. Evidentemente, era ela quem enviava as flores. Disse que esperava faz�-lo entender que ela estava viva, e bem, sem ser obrigada a se revelar. Mas, como sua �nica fonte de informa��o era Anita, que nunca vinha a Hedestad e que foi morar no exterior depois de terminar seus estudos, Harriet sabia muito pouco do que se passava aqui. Nunca soube o quanto voc� sofria nem que se acreditava perseguido pelo assassino dela.</p><p>� Imagino que Anita era quem postava as flores.</p><p>� Ela trabalhava para uma companhia a�rea e as enviava de onde se encontrava.</p><p>� E como voc� descobriu que era Anita que a ajudava?</p><p>� Pela fotografia na qual ela aparece na janela do quarto de Harriet.</p><p>� Mas ela podia estar envolvida... poderia ser a assassina. Como deduziu que Harriet estava viva?</p><p>Mikael olhou demoradamente para Henrik Vanger. Depois sorriu pela primeira vez desde que voltara a Hedestad,</p><p>� Anita estava envolvida no desaparecimento de Harriet, mas n�o poderia t�-la matado.</p><p>� Como teve a certeza disso?</p><p>� Porque isto n�o � um romance policial e de mist�rio. Se Anita tivesse matado Harriet, voc� j� teria encontrado o corpo h� muito tempo. Portanto, o mais l�gico � que ela tivesse ajudado Harriet a fugir e a se manter distante. Quer v�-la?</p><p>� Mas � claro que quero ver Harriet.</p><p>Mikael foi buscar Harriet, que o aguardava em frente aos elevadores do sagu�o de entrada. No primeiro momento n�o a reconheceu; depois que eles haviam se separado no aeroporto, na v�spera, ela refizera a cor escura original de seus cabelos. Vestia cal�a preta, camisa branca e um casaco cinza elegante. Estava magn�fica e Mikael inclinou-se para lhe dar um beijo de encorajamento no rosto,</p><p>Henrik levantou-se da poltrona quando Mikael abriu a porta para deixar Harriet Vanger passar. Ela respirou fundo.</p><p>� Bom dia, Henrik.</p><p>O velho a examinou dos p�s � cabe�a. Depois Harriet avan�ou <emphasis>e o </emphasis>beijou no rosto. Mikael fez um sinal com o queixo para Dirch Frode, fechou a porta e deixou os dois a s�s.</p><p>Lisbeth Salander n�o estava mais em casa quando Mikael voltou � ilha. O equipamento de v�deo e a moto haviam desaparecido, assim como a sacola com as roupas e os produtos de toalete dela no banheiro.</p><p>Ele percorreu os c�modos. A casa de repente lhe pareceu sinistra, estranha, irreal. Olhou as pilhas de pap�is na saleta de trabalho, que ele devia distribuir em pastas e entregar a Henrik Vanger, mas n�o teve �nimo de come�ar a arruma��o. Foi at� o Konsum para comprar p�o, leite, queijo e alguma coisa para beliscar � noite. Ao voltar, preparou um caf�, instalou-se no jardim e leu os jornais da tarde com a cabe�a vazia, sem pensar em nada.</p><p>Por volta das cinco e meia da tarde, um t�xi passou pela ponte e voltou tr�s minutos depois. Mikael avistou Isabella Vanger no banco traseiro.</p><p>Por volta das sete, estava cochilando na cadeira do jardim quando Dirch Frode chegou e o despertou.</p><p>� Como foi o encontro de Henrik e Harriet? � perguntou Mikael.</p><p>� Essa triste hist�ria tem tamb�m seu lado divertido � respondeu Frode com um sorriso contido. � Isabella irrompeu de repente no quarto de Henrik. Ela ficou sabendo que voc� havia voltado e estava uma fera. Berrou que era preciso acabar com essas imbecilidades sobre Harriet e que voc� era um investigador de merda que causara a morte do filho dela.</p><p>� De certa forma ela tem raz�o.</p><p>� Ordenou que Henrik demitisse voc�, obrigasse voc� a sumir daqui e que parasse de procurar fantasmas.</p><p>� Uau!</p><p>� Ela nem sequer olhou para a mulher que estava com Henrik. Certamente a tomou como uma funcion�ria do hospital. N�o esquecerei jamais o instante em que Harriet se levantou, olhou para Isabella e disse: <emphasis>Bom dia, mam�e.</emphasis></p><p>� E o que aconteceu?</p><p>� Foi preciso chamar o m�dico para reanimar Isabella. Agora ela est� negando que se trata mesmo de Harriet; voc� � acusado de ter trazido uma impostora.</p><p>Dirch Frode estava indo anunciar a Cec�lia e a Alexander que Harriet ressuscitara dos mortos. Ele seguiu seu caminho e deixou Mikael a s�s.</p><p>Lisbeth Salander parou para p�r gasolina num posto um pouco antes de Uppsala. Estivera dirigindo com os dentes cerrados e o olhar fixo � frente. Pagou r�pido, deu a partida na moto e avan�ou at� a sa�da, onde se deteve mais uma vez, indecisa.</p><p>Ainda se sentia mal. Estava furiosa quando deixou Hedeby, mas a raiva lentamente se dissolvera ao longo do trajeto. N�o sabia muito bem por que estava t�o <emphasis>zangada </emphasis>com Mikael Blomkvist, nem mesmo se era com ele que estava <emphasis>zangada.</emphasis></p><p>S� tinha na cabe�a Martin Vanger, aquela maldita Harriet Vanger e aquele maldito Dirch Frode, toda aquela maldita fam�lia Vanger bem instalada em Hedestad, que reinava em seu pequeno imp�rio fazendo intrigas uns contra os outros. Eles haviam precisado da ajuda dela. Normalmente n�o a teriam sequer cumprimentado, muito menos lhe confiado segredos.</p><p><emphasis>Fam�lia de merda!</emphasis></p><p>Inspirou profundamente e pensou na m�e enterrada naquela manh�. Aquilo, sim, n�o tinha solu��o. A morte da m�e significava que a ferida jamais seria curada, pois Lisbeth jamais teria resposta �s perguntas que gostaria de ter feito a ela.</p><p>Pensou em Dragan Armanskij atr�s dela durante o enterro. Deveria ter dito alguma coisa a ele. Pelo menos ter enviado um sinal de que sabia que ele estava ali. Mas a� ele teria usado aquilo como pretexto para querer organizar a vida dela. Se lhe desse a pontinha do dedo, ele iria pegar o bra�o inteiro. Ele nunca entenderia.</p><p>Pensou no dr. Nils Canalha Bjurman, seu tutor, que, ao menos por enquanto, estava neutralizado e fazendo o que ela mandava.</p><p>Sentiu um �dio implac�vel e cerrou os dentes.</p><p>Pensou em Mikael Blomkvist e perguntou-se qual seria a rea��o dele se soubesse que ela estava sob tutela e que toda a sua vida n�o passava de um maldito ninho de ratos.</p><p>Percebeu que n�o queria mal a ele. Mikael fora simplesmente a pessoa de quem ela dispunha para descarregar sua raiva, sobretudo quando sentia vontade de matar algu�m. N�o adiantava nada culp�-lo.</p><p>Sentia-se estranhamente amb�gua em rela��o a ele.</p><p>Ele metia o nariz em toda parte, fu�ava a vida privada dela e... Mas ela tamb�m tinha gostado de trabalhar com ele. E essa era uma sensa��o estranha � trabalhar <emphasis>com </emphasis>algu�m! N�o tinha esse h�bito, mas fora algo surpreendentemente sem dor. Ele n�o ficava martelando nos ouvidos dela, n�o ficava tentando lhe dizer como deveria viver sua vida.</p><p>E fora ela que o seduzira, n�o o contr�rio.</p><p>Sem contar que havia sido bom.</p><p>Ent�o por que essa vontade de chut�-lo?</p><p>Suspirou e contemplou com olhos infelizes um caminh�o enorme que passava pela rodovia E4.</p><p>Mikael ainda estava no jardim por volta das oito da noite quando ouviu o barulho da moto e viu Lisbeth Salander passar pela ponte. Ela estacionou e tirou o capacete. Aproximou-se da mesa do jardim e examinou a cafeteira, que estava fria e <emphasis>vazia. </emphasis>Mikael olhou para ela surpreso. Ela pegou a cafeteira e entrou na casa. Quando voltou, havia tirado o macac�o de couro e posto um jeans e uma camiseta com a inscri��o <emphasis>I can be a regular bitch. Just try me.</emphasis></p><p>� Achei que j� estivesse em Estocolmo � disse Mikael.</p><p>� Dei meia-volta em Uppsala.</p><p>� Um passeio longo.</p><p>� Estou com a bunda dolorida.</p><p>� Por que deu meia-volta?</p><p>Ela n�o respondeu. Mikael n�o insistiu e esperou que ela falasse enquanto tomavam o caf�. Passados dez minutos, ela rompeu o sil�ncio.</p><p>� Gosto da sua companhia � ela reconheceu a contragosto. Eram palavras que nunca havia pronunciado.</p><p>� Foi... interessante trabalhar com voc� nesse caso.</p><p>� Tamb�m gostei de trabalhar com voc� � disse Mikael.</p><p>� Humm.</p><p>� Nunca trabalhei com um pesquisador t�o competente. Certo, sei que voc� � uma <emphasis>hacker </emphasis>terr�vel e conhece c�rculos suspeitos com os quais, depois de um simples telefonema, pode montar urna escuta telef�nica em Londres em vinte e quatro horas, mas de fato voc� obt�m resultados.</p><p>Ela o olhou pela primeira vez desde que se sentara ali. Ele conhecia muitos dos seus segredos. Como era poss�vel?</p><p>� E simples. Conhe�o computadores. Nunca tive problema para ler um texto <emphasis>e </emphasis>entender exatamente o que est� escrito l�.</p><p>� E a sua mem�ria fotogr�fica � ele disse tranquilamente.</p><p>� Acho que sim. N�o sei bem como a coisa funciona. N�o � s� com computadores e redes telef�nicas, mas tamb�m com o motor da minha moto, aparelhos de tev�, aspiradores de p�, processos qu�micos e f�rmulas astrof�sicas. Admito, sou meio maluca, uma verdadeira <emphasis>freak.</emphasis></p><p>Mikael franziu as sobrancelhas. N�o disse nada por um bom tempo.</p><p><emphasis>A s�ndrome de Asperger, </emphasis>pensou. <emphasis>Ou algo parecido. Um talento para ver esquemas e entender racioc�nios abstra�as onde os outros n�o v�em sen�o a mais completa desordem.</emphasis></p><p>Lisbeth olhou fixamente a mesa.</p><p>� A maioria das pessoas pagaria caro para ter esse dom.</p><p>� N�o quero falar sobre isso.</p><p>� Tudo bem, deixa pra l�. Por que voc� voltou?</p><p>� N�o sei. Talvez tenha sido um erro. Ele a perscrutou com o olhar.</p><p>� Lisbeth, pode me dar uma defini��o da palavra "amizade"?</p><p>� Gostar muito de algu�m.</p><p>� Sim, mas o que faz gostar muito de algu�m? Ela encolheu os ombros.</p><p>� Minha defini��o da amizade se baseia em duas coisas � ele disse. � O respeito e a confian�a. Esses dois fatores precisam necessariamente estai presentes. E deve ser rec�proco. Pode-se ter respeito por algu�m, mas se n�o houver confian�a, a amizade vira p�.</p><p>Ela continuou calada.</p><p>� Tudo bem voc� n�o querer falar de si mesma comigo; s� que, mais cedo ou mais tarde, vai precisar decidir se tem confian�a em mim ou n�o. Quero que sejamos amigos, mas n�o posso ser seu amigo sozinho.</p><p>� Gosto de trepar com voc�.</p><p>� O sexo n�o tem nada a ver com a amizade. Claro que amigos podem fazer amor, mas ou�a, Lisbeth: se eu tiver que escolher entre sexo e amizade com voc�, sei muito bem o que escolherei.</p><p>� N�o entendo. Quer fazer amor comigo ou n�o?</p><p>Mikael mordeu o l�bio. Por fim, suspirou.</p><p>� N�o � bom que pessoas que trabalham juntas fa�am amor juntas � ele murmurou. � Acaba dando problemas.</p><p>� Posso estar enganada, mas me parece que voc� e Erika trepam assim que surge uma chance. E al�m disso ela � casada.</p><p>Mikael ficou um momento em sil�ncio.</p><p>� Eu e Erika... temos uma hist�ria que come�ou muito antes de trabalharmos juntos. O fato de ela ser casada n�o lhe diz respeito.</p><p>� Est� vendo? Agora � voc� que n�o quer falar dos seus assuntos. A amizade n�o era uma quest�o de confian�a?...</p><p>� Sim, mas o que eu quero dizer � que n�o falo de uma amiga nas costas dela. Seria trair sua confian�a. Tamb�m n�o falaria de voc� com Erika nas suas costas.</p><p>Lisbeth Salander pensou sobre o que ele disse. A conversa havia ficado complicada e ela n�o gostava de conversas complicadas.</p><p>� Gosto de trepar com voc� � repetiu.</p><p>� E eu tamb�m... mas j� tenho idade para ser seu pai.</p><p>� N�o dou a m�nima para a sua idade.</p><p>� Voc� n�o pode ignorar nossa diferen�a de idade. Ela n�o � um bom ponto de partida para uma rela��o duradoura.</p><p>� Quem falou de algo duradouro? � disse Lisbeth. � Acabamos de resolver um caso em que homens com uma sexualidade pervertida de merda desempenharam um papel e tanto. Se dependesse de mim, homens como esses seriam exterminados, todos.</p><p>� Bem, pelo menos voc� n�o faz concess�es.</p><p>� N�o � disse ela, com seu sorriso enviesado que n�o era bem um sorriso. � Mas voc� n�o � como eles.</p><p>Levantou-se.</p><p>� Vou tomar um banho e depois pretendo me deitar nua na sua cama. Se voc� se sente muito velho, pode ir dormir na cama de armar.</p><p>Mikael olhou para ela. Quaisquer que fossem os problemas de Lisbeth Salander, a timidez n�o era um deles. Ele sempre sa�a perdendo nas discuss�es que tinha com ela. Foi lavar as x�caras de caf� e depois entrou no quarto.</p><p>Levantaram-se por volta das dez, tomaram banho juntos e se instalaram no jardim para o caf�-da-manh�. Aproximadamente �s onze horas, Dirch Frode telefonou e disse que o enterro seria �s duas. Perguntou se tinham a inten��o de ir.</p><p>� Acho que n�o � disse Mikael.</p><p>Frode perguntou se poderia passar por volta das seis da tarde para terem uma conversa. Mikael disse que n�o havia problema.</p><p>Passou algumas horas guardando os pap�is nas pastas e depois levando-as ao escrit�rio de Henrik. Por fim, restaram s� seus pr�prios cadernos de anota��es e as duas pastas sobre o caso Hans-Erik Wennerstr�m, que havia seis meses ele n�o abria. Suspirou e colocou-as na mala.</p><p>Dirch Frode se atrasou e s� chegou �s oito da noite. Ainda vestia a roupa de enterro e parecia muito preocupado quando se sentou no banco da cozinha. Aceitou com prazer a x�cara de caf� que Lisbeth lhe serviu. Ela se sentou na outra mesa e concentrou-se em seu computador, enquanto Mikael perguntava como a ressurrei��o de Harriet repercutira na fam�lia.</p><p>� Pode-se dizer que eclipsou a morte de Martin. Mas a m�dia tamb�m ficou sabendo do caso dela.</p><p>� E como voc�s est�o explicando a situa��o?</p><p>� Harriet conversou com um jornalista do <emphasis>Kuriren. </emphasis>Sua vers�o c que fugiu de casa porque n�o se entendia com a fam�lia, mas que, afinal, acabou se dando bem, pois hoje dirige uma empresa com um volume de neg�cios t�o grande quanto o do grupo Vanger.</p><p>Mikael assobiou.</p><p>� Percebi que ovelhas australianas davam dinheiro, mas n�o sabia que chegava a tanto.</p><p>� A cria��o de ovelhas vai muito bem, mas n�o � a �nica fonte de renda. As empresas Cochran possuem tamb�m minas, refinam opalas, atuam no setor de transporte, de eletr�nica e se dedicam a uma s�rie de outras coisas.</p><p>� N�o diga! E como foi a sequ�ncia dos acontecimentos?</p><p>� Para dizer a verdade, n�o sei. Pessoas foram chegando no transcorrer do dia e a fam�lia est� reunida pela primeira vez depois de muitos anos. V�m tanto do lado de Fredrik Vanger quanto do de Johann Vanger, e h� muitos da nova gera��o, os que t�m entre vinte e trinta anos. Deve haver uns quarenta Vanger em Hedestad agora � noite; uma metade est� no hospital com Henrik, esgotando-o, e a outra metade no Grande Hotel, conversando com Harriet.</p><p>� Harriet � a grande sensa��o. Quantas pessoas est�o sabendo da verdade sobre Martin?</p><p>� Por enquanto, somente eu, Henrik e Harriet. Tivemos uma longa conversa a s�s. Essa hist�ria de Martin e de... suas pervers�es � a nossa principal preocupa��o hoje. A morte de Martin gerou uma crise enorme no grupo.</p><p>� Entendo.</p><p>� N�o h� um sucessor natural, mas Harriet vai ficar em Hedestad durante algum tempo. Entre outras coisas, precisamos ver quem possui o qu�, como as heran�as ser�o divididas, coisas do g�nero. Harriet tem direito a uma parte da heran�a, que teria sido bem maior se ela tivesse ficado aqui o tempo todo. E uma situa��o complicada.</p><p>Mikael riu. Dirch Frode permaneceu s�rio.</p><p>� Isabella passou mal no enterro. Foi hospitalizada. Harriet se recusa a v�-la.</p><p>� Entendo.</p><p>� Por outro lado, Anita vai chegar de Londres. Convocamos um conselho de fam�lia para a pr�xima semana. Ser� a primeira vez em vinte e cinco anos que ela participa.</p><p>� Quem ser� o novo diretor-executivo?</p><p>� Birger luta pelo cargo, mas est� fora de quest�o. O que vai acontecer � que Henrik reassumir� como diretor tempor�rio at� que algu�m de fora seja contratado, ou ent�o algu�m da fam�lia...</p><p>N�o terminou a frase. Mikael levantou as sobrancelhas.</p><p>� Harriet? N�o est� falando s�rio.</p><p>� Por que n�o? E uma mulher de neg�cios muito competente e respeitada.</p><p>� Ela tem uma empresa para dirigir na Austr�lia.</p><p>� Sim, mas seu filho Jeff Cochran dirige o neg�cio na aus�ncia dela.</p><p>� Ele � <emphasis>studs manager </emphasis>numa cria��o de ovelhas. Se entendi direito, cuida para que as ovelhas se reproduzam bem.</p><p>� Tamb�m diplomou-se em economia pela Oxford e em direito em Melbourne.</p><p>Mikael pensou no homem musculoso e sem camisa que o conduzira pelo despenhadeiro e tentou imagin�-lo de terno e gravata. Por que n�o?</p><p>� Isso n�o se resolver� de uma hora para a outra � disse Frode. � Mas ela seria uma diretora-executiva perfeita. Com um apoio apropriado, poderia orientar o grupo para uma nova dire��o.</p><p>� Ela n�o tem experi�ncia...</p><p>� E verdade. Claro que Harriet n�o pode surgir do nada depois de d�cadas e come�ar a dirigir tudo em detalhe. Mas o grupo Vanger � internacional e poder�amos trazer para c� um executivo americano que n�o fala uma palavra de sueco... para tocar o <emphasis>business, </emphasis>como dizem.</p><p>� Cedo ou tarde voc�s v�o ter que enfrentar o problema do por�o de Martin.</p><p>� Eu sei. Mas n�o podemos revelar nada sem arruinar Harriet... Alegro-me de n�o ser eu a ter que tomar uma decis�o sobre isso.</p><p>� Que merda, Dirch! Voc�s n�o podem silenciar sobre Martin ter sido um assassino serial.</p><p>Dirch Frode contorceu-se em sil�ncio. Mikael sentiu de repente um gosto ruim na boca.</p><p>� Mikael, encontro-me numa... situa��o muito desconfort�vel.</p><p>� Fale.</p><p>� Tenho um recado de Henrik. � muito simples. Ele agradece a voc� pelo seu trabalho e diz que considera o contrato encerrado. Isso significa que o est� liberando de outras obriga��es e que voc� n�o est� mais obrigado a viver e a trabalhar aqui em Hedestad et cetera. Ou seja, pode partir imediatamente para Estocolmo e dedicar-se a seus compromissos.</p><p>� Ele quer que eu desapare�a de cena?</p><p>� De modo nenhum. Quer que mais tarde venha visit�-lo para conversarem sobre o assunto. Disse que espera poder manter sem restri��es seus compromissos na dire��o da <emphasis>Millennium. </emphasis>Mas...</p><p>Dirch Frode pareceu ainda mais constrangido.</p><p>� Mas n�o quer mais que eu escreva uma cr�nica sobre a fam�lia Vanger, n�o �?</p><p>Frode assentiu com a cabe�a. Pegou um caderno, abriu-o e entregou a Mikael.</p><p>� Ele escreveu esta carta para voc�.</p><p><emphasis>Prezado Mikael!</emphasis></p><p>Tenho o maior respeito pela sua integridade e n�o vou ofend�-lo tentando ditar o que deve escrever. Pode escrever e publicar exatamente o que quiser, n�o tenho a inten��o de exercer a menor press�o sobre voc�.</p><p>Nosso contrato permanece em vigor, se quiser reivindic�-lo. Tem elementos suficientes para terminar a cr�nica sobre a fam�lia Vanger. Mikael, nunca implorei nada a ningu�m em toda a minha vida. Sempre achei que um homem deve seguir sua moral e sua convic��o. Mas desta vez n�o tenho escolha.</p><p>Peco-lhe, tanto como amigo quanto como co-propriet�rio da <emphasis>Millennium, </emphasis>que n�o revele a verdade sobre Gottfried e Martin. Sei que n�o � correto, mas n�o vejo nenhuma sa�da nessa escurid�o. Devo escolher entre dois males, e s� h� perdedores.</p><p>Peco-lhe que n�o escreva nada que prejudique Harriet. Voc� viveu isso na pele, sabe o que significa ser objeto de uma campanha da imprensa. A campanha dirigida contra voc� foi de propor��es relativamente modestas, mas imagine o que ser� de Harriet se a verdade for conhecida. Ela viveu um calv�rio durante quarenta anos e n�o precisa sofrer ainda mais pelos atos que o irm�o e o pai dela cometeram. Ent�o eu lhe pe�o que reflita nas consequ�ncias que essa hist�ria poder� ter para milhares de funcion�rios do grupo. Isso destruiria Harriet e nos aniquilaria.</p><p><emphasis>H</emphasis><emphasis>e</emphasis><emphasis>nrik</emphasis></p><p><emphasis/></p><p>� Henrik disse tamb�m que, se voc� quiser exigir uma indeniza��o pelas perdas ocasionadas pela n�o-publica��o da hist�ria, ele est� totalmente aberto a discutir isso. Pode propor as condi��es financeiras que quiser.</p><p>� Henrik Vanger est� tentando me comprar. Diga-lhe que eu teria preferido que ele nunca tivesse me feito essa oferta.</p><p>� Essa situa��o � t�o penosa para Henrik quanto para voc�. Ele gosta imensamente de voc� e o considera um amigo.</p><p>� Henrik Vanger � um sujeito esperto � disse Mikael, voltando a se irritar. � Ele quer abafar a hist�ria. Joga com os meus sentimentos e sabe que eu tamb�m gosto dele. O que ele est� dizendo � que na pr�tica eu tenho as m�os livres para publicar o que quiser, mas, se eu fizer isso, ele ser� obrigado a rever sua postura com rela��o � <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Tudo mudou depois que Harriet reapareceu.</p><p>� E agora Henrik quer saber qual � o meu pre�o. N�o vou entregar Harriet �s feras, mas <emphasis>algu�m </emphasis>precisa falar sobre as mulheres que Martin levou para o por�o. Dirch, n�o sabemos quantas mulheres ele massacrou. Quem vai falar em nome delas?</p><p>Lisbeth Salander levantou de repente os olhos do computador. Sua voz tinha uma do�ura desagrad�vel quando ela se virou para Dirch Frode.</p><p>� No grupo de voc�s n�o h� ningu�m com a inten��o de comprar a <emphasis>mim </emphasis>tamb�m?</p><p>Frode olhou-a surpreso. Mais uma vez, ele havia ignorado a exist�ncia dela.</p><p>� Se Martin Vanger estivesse vivo neste instante, eu o entregaria �s feras � ela prosseguiu. � Seja qual fosse o arranjo de voc�s com Mikael, eu iria contar tudo sobre ele ao jornal mais pr�ximo. E, se pudesse, o arrastaria � sua pr�pria sala de tortura, o prenderia naquela mesa e lhe enfiaria agulhas nos colh�es. Mas ele est� morto.</p><p>Ela se virou para Mikael antes de continuar.</p><p>� O arranjo podre deles me conv�m. Nada do que fizermos poder� reparar o mal que Martin Vanger causou a suas v�timas. Mas por outro lado surgiu uma situa��o interessante. Voc� est� numa posi��o em que pode continuar prejudicando mulheres inocentes, especialmente essa Harriet que voc� defendeu t�o calorosamente quando volt�vamos de carro para c�. Minha quest�o � a seguinte: o que � pior? Que Martin Vanger a tenha violentado na cabana ou que voc� fa�a isso em papel impresso? Voc� est� diante de um belo dilema. O comit� de �tica da Associa��o dos Jornalistas talvez possa te dar uma ideia de que caminho seguir.</p><p>Ela fez uma pausa. Mikael n�o conseguiu mais sustentar o olhar de Lisbeth Salander. Baixou os olhos para a mesa.</p><p>� S� que eu n�o sou jornalista � disse ela por fim.</p><p>� O que est� querendo? � perguntou Dirch Frode soltando um suspiro</p><p>� Martin filmou suas v�timas. Quero que tentem identificar o maior n�mero poss�vel dessas mulheres e d�em �s fam�lias delas uma compensa��o apropriada. E depois quero que o grupo Vanger fa�a uma doa��o anual e permanente de dois milh�es de coroas ao SOS-Mulheres V�timas de Maus-tratos. Por um minuto, Dirch Frode meditou no pre�o a pagar. Depois assentiu com a cabe�a.</p><p>� Pode viver com isso, Mikael? � perguntou Lisbeth.</p><p>Mikael sentiu-se subitamente desesperado. Passara toda a sua vida profissional denunciando o que outros tentavam esconder, e sua moral o proibia de participar da oculta��o dos crimes terr�veis cometidos no por�o de Martin Vanger. O objetivo de seu trabalho era justamente denunciar o que ele sabia. N�o hesitava em criticar colegas que n�o contassem a verdade. No entanto, ali estava ele discutindo o abafamento do caso mais macabro de que jamais ouvira falar.</p><p>Permaneceu calado por um bom tempo. Depois tamb�m assentiu com a cabe�a.</p><p>� Melhor assim. � Dirch Frode virou-se para Mikael. � E quanto � oferta de Henrik de uma compensa��o financeira...</p><p>� Enfie naquele lugar � disse Mikael. � E agora quero que v� embora, Dirch. Entendo sua posi��o, mas neste momento estou t�o furioso com voc�, com Henrik e com Harriet que, se ficar, vamos deixar de ser amigos.</p><p>Dirch Frode permaneceu sentado � mesa sem fazer men��o de se levantar.</p><p>� Ainda n�o posso ir � disse. � N�o terminei. Tenho outro recado que voc� tamb�m n�o vai gostar. Henrik insistiu para que eu o transmitisse esta noite. Amanh� voc� pode ir ao hospital esfol�-lo, se quiser.</p><p>Mikael levantou devagar a cabe�a e olhou Dirch bem nos olhos.</p><p>� E provavelmente a coisa mais dif�cil que j� precisei fazer na vida � disse Frode. � Mas acho que agora apenas uma sinceridade total e todas as cartas na mesa podem salvar a situa��o.</p><p>� Diga logo.</p><p>� Quando Henrik o convenceu a aceitar esse trabalho no Natal passado, nem ele nem eu pensamos que iria dar em alguma coisa. Foi exatamente o que ele disse: queria fazer uma �ltima tentativa. Ele examinou minuciosamente a sua situa��o, baseando-se muito no relat�rio feito pela senhorita Salander. Contou com seu isolamento, prop�s uma boa remunera��o e utilizou uma boa isca.</p><p>� Wennerstr�m � disse Mikael. Frode assentiu com a cabe�a.</p><p>� Voc�s blefaram?</p><p>� N�o.</p><p>Lisbeth Salander levantou uma sobrancelha, interessada.</p><p>� Henrik vai cumprir todas as suas promessas � continuou Frode. �Dar� uma entrevista e lan�ar� publicamente um ataque frontal contra Wennerstr�m. Voc� ter� todos os detalhes mais tarde, mas em linhas gerais o fato � o seguinte: quando Wennerstr�m esteve ligado ao departamento financeiro do grupo Vanger, ele utilizou v�rios milh�es de coroas para especular com moedas estrangeiras. Isso bem antes desse tipo de especula��o se generalizar. Agiu por conta pr�pria, sem pedir a autoriza��o da dire��o. Os neg�cios n�o iam bem e ele se viu de uma hora para a outra com um d�ficit de sete milh�es de coroas, que tentou cobrir, de um lado, mexendo na contabilidade e, de outro, especulando ainda mais. Foi desmascarado e despedido.</p><p>� Ele obteve ganhos pessoais nessas opera��es?</p><p>� Sim, desviou cerca de meio milh�o de coroas, e o mais c�mico dessa hist�ria, se � que se pode dizer assim, � que essa quantia serviu para fundar o grupo Wennerstr�m. Temos provas de tudo. Voc� pode utilizar essa informa��o � vontade e Henrik sustentar� publicamente suas afirma��es. Mas...</p><p>� Mas essa informa��o n�o tem o menor valor! � disse Mikael, batendo com a m�o na mesa.</p><p>Dirch Frode assentiu com a cabe�a.</p><p>� Aconteceu h� trinta anos e � um cap�tulo encerrado � disse Mikael.</p><p>� Mas voc� ter� a confirma��o de que Wennerstr�m � um escroque.</p><p>� Wennerstr�m se aborrecer� que isso venha a p�blico, por�m n�o ser� atingido mais que por uma bolinha de papel soprada num canudo. Dar� de ombros e divulgar� um comunicado de imprensa dizendo que Henrik Vanger � um velho ultrapassado que implica com ele sem motivo, depois afirmar� que na verdade agiu por ordem de Henrik. Mesmo que n�o possa provar sua inoc�ncia, saber� espalhar fuma�a suficiente para que a hist�ria logo perca o interesse.</p><p>Dirch Frode tinha um aspecto sinceramente pesaroso.</p><p>� Voc�s me enganaram � disse Mikael por fim.</p><p>� Mikael... n�o era nossa inten��o.</p><p>� A culpa � minha. Eu buscava ind�cios de falsidade e deveria ter entendido que esse era um deles. � Deu uma risada brusca, um riso seco. � Henrik � um velho tubar�o. Tinha um produto para vender e me disse o que eu precisava ouvir.</p><p>Mikael levantou-se e foi at� a bancada da cozinha. Virou-se para Frode e resumiu seus sentimentos em duas palavras.</p><p>� V� embora.</p><p>� Mikael... lamento que...</p><p>� Caia fora, Dirch!</p><p>Lisbeth Salander n�o sabia se devia se aproximar de Mikael ou deix�-lo em paz. Ele resolveu o problema para ela ao pegar de repente a jaqueta, sem dizer nada, e bater a porta atr�s de si.</p><p>Durante mais de uma hora, ela andou de um lado para o outro na cozinha. Sentia-se t�o inquieta que limpou a mesa e lavou a lou�a � tarefa que normalmente deixava para Mikael. V�rias vezes foi at� a janela espiar. Por fim, resolveu p�r sua jaqueta de couro e ir procur�-lo.</p><p>Primeiro foi at� o porto de recreio, onde havia luzes ainda nas janelas, mas n�o viu sinal de Mikael. Seguiu o caminho da praia, onde eles faziam seus passeios noturnos. A casa de Martin Vanger estava �s escuras e j� se notava que n�o era mais habitada. Foi at� a pedra do promont�rio, onde Mikael e ela costumavam se sentar, depois retornou para casa. Ele ainda n�o tinha voltado.</p><p>Lisbeth foi procurar do lado da igreja. Nenhum sinal de Mikael tamb�m. Ela hesitou um momento, perguntando-se o que devia fazer. Resolveu pegar a moto, p�s uma lanterna no estojo debaixo do assento e partiu pelo caminho da praia outra vez. Demorou um pouco at� pegar o atalho invadido em parte pela vegeta��o e mais algum tempo at� encontrar a trilha que conduzia � cabana de Gottfried. Avistou-a de repente na escurid�o, atr�s de algumas �rvores, quando estava quase chegando. N�o viu Mikael na varanda e a porta estava trancada.</p><p>J� ia voltar ao povoado, quando se deteve ao avistar a silhueta de Mikael no escuro, no pont�o onde Harriet afogara o pai. Deu um suspiro de al�vio.</p><p>Mikael percebeu que ela se aproximava pelo barulho das t�buas e se virou. Ela sentou ao lado dele sem dizer nada. Por fim ele rompeu o sil�ncio.</p><p>� Desculpe. Eu precisava ficar um pouco sozinho.</p><p>� Eu entendo.</p><p>Ela acendeu dois cigarros e estendeu um a ele. Mikael olhou para ela. Lisbeth Salander era a pessoa mais anti-social que ele conhecera; recusava-se a falar de coisas pessoais e nunca aceitara a menor demonstra��o de simpatia dele. Tinha salvado sua vida e agora sa�a no meio da noite para procur�-lo pela ilha. Ele p�s um bra�o em torno dela.</p><p>� Agora sei o quanto valho. Abandonamos todas aquelas mulheres � disse. � Eles v�o abafar a hist�ria. Tudo que h� no por�o de Martin vai desaparecer.</p><p>Lisbeth n�o respondeu.</p><p>� Erika tinha raz�o � ele continuou. � Teria sido melhor se eu tivesse ido � Espanha dormir com as espanholas por um m�s, depois voltar a me encarregar de Wennerstr�m. Foram meses jogados fora.</p><p>� Se voc� tivesse ido � Espanha, Martin Vanger continuaria agindo no seu por�o.</p><p>Sil�ncio. Eles ficaram ali juntos por bastante tempo at� que Mikael se levantou e prop�s que voltassem.</p><p>Mikael adormeceu antes de Lisbeth. Ela ficou acordada escutando a respira��o dele. Esperou um momento, depois foi � cozinha fazer caf�. Sentou-se no banco, no escuro, e fumou v�rios cigarros enquanto refletia intensamente. Para ela, era evidente que Vanger e Frode iam enganar Mikael. Essa gente era assim por natureza. Mas o problema era de Mikael, e n�o dela. Ou era?</p><p>Acabou tomando uma decis�o. Esmagou o cigarro, foi para junto de Mikael, acendeu a l�mpada de cabeceira e sacudiu-o at� que despertasse. Eram duas e meia da manh�.</p><p>� Que foi?</p><p>� Tenho uma pergunta pra te fazer. Sente-se. Mikael sentou-se, ainda sonolento.</p><p>� Quando voc� foi condenado por difama��o, por que n�o se defendeu? Mikael sacudiu a cabe�a e olhou para ela. Depois olhou para o despertador.</p><p>� � uma longa hist�ria, Lisbeth.</p><p>� Conte. N�o tenho pressa.</p><p>Ele permaneceu um bom tempo em sil�ncio, refletindo sobre o que deveria dizer. Por fim decidiu contar a verdade.</p><p>� Eu n�o tinha como me defender. O conte�do do artigo estava errado.</p><p>� Quando pirateei seu computador e os e-mails que voc� trocou com Erika Berger, havia muitas refer�ncias ao caso Wennerstr�m, mas sempre para discutir detalhes pr�ticos do processo e nunca o que realmente aconteceu. O que foi que n�o deu certo?</p><p>� Lisbeth, n�o posso revelar a verdadeira hist�ria. Ca� numa armadilha. Erika e eu estamos totalmente de acordo que seria ainda mais prejudicial � nossa credibilidade se tent�ssemos contar o que de fato se passou.</p><p>� Ent�o me diga, Super-Blomkvist. Ontem � tarde voc� me passou um serm�o sobre amizade, confian�a e n�o sei mais o qu�. Acha que estou pretendendo divulgar a sua hist�ria pela internet?</p><p>Mikael protestou uma ou duas vezes. Lembrou a Lisbeth que era madrugada e que n�o tinha �nimo para pensar no assunto. Ela permaneceu obstinadamente sentada at� ele ceder. Mikael foi lavar o rosto e esquentar o caf�. Ent�o voltou para a cama e contou como, dois anos antes, seu ex-colega de classe Robert Lindberg havia despertado sua curiosidade na cabine de um veleiro atracado na marina de Arholma.</p><p>� Quer dizer que seu colega mentiu?</p><p>� N�o, de modo nenhum. Ele contou exatamente o que sabia e verifiquei cada palavra do que ele disse em documentos existentes no Comit� de Apoio Industrial. Cheguei a ir � Pol�nia fotografar o hangar onde a empresa Minos tinha sido instalada. E entrevistei v�rias pessoas que haviam sido contratadas. Todas disseram exatamente a mesma coisa.</p><p>� N�o entendo.</p><p>Mikael suspirou. Demorou um pouco para prosseguir.</p><p>� Eu tinha uma �tima hist�ria. Ainda faltava colocar Wennerstr�m na parede, mas a hist�ria era consistente e, se eu tivesse publicado na hora, teria desestabilizado o cara. Ele talvez n�o fosse condenado por fraude, o caso j� tinha o aval dos auditores, mas pelo menos eu teria abalado sua reputa��o.</p><p>� E o que impediu isso?</p><p>� Nesse meio-tempo algu�m percebeu a jogada e Wennerstr�m ficou sabendo da investiga��o. E um monte de coisas estranhas come�aram a acontecer. Primeiro recebi amea�as. Telefonemas an�nimos feitos de cabines p�blicas imposs�veis de localizar. Erika tamb�m recebeu amea�as. Os absurdos de sempre: pare de investigar sen�o vamos te pegar, coisas desse tipo. Ela evidentemente ficou irritada.</p><p>Ele pegou um dos cigarros de Lisbeth.</p><p>� Depois aconteceu algo muito desagrad�vel. Uma noite, ao sair da re-da��o bem tarde, fui atacado por dois sujeitos que me deram uma surra. Eu estava completamente desprevenido, eles me espancaram pra valer e desmaiei. N�o consegui identific�-los, mas um deles me pareceu ser um motoqueiro.</p><p>� E?</p><p>� Bem, todas essas manifesta��es de simpatia acabaram deixando Erika mais furiosa e eu mais obstinado. Refor�amos a seguran�a da <emphasis>Millennium. O </emphasis>problema � que eram ataques desproporcionais em rela��o ao conte�do da nossa hist�ria. N�o entend�amos por que tudo aquilo estava acontecendo.</p><p>� Mas a hist�ria que voc� publicou era muito diferente.</p><p>� Exato. De repente descobrimos uma brecha. Fizemos contato com uma fonte, um Garganta Profunda do c�rculo de Wennerstr�m. O sujeito estava borrado de medo e s� nos encontr�vamos com ele em quartos de hot�is an�nimos. Contou que o dinheiro do caso Minos fora utilizado para comprar armas destinadas � guerra na Jugosl�via. Wennerstr�m tinha feito neg�cios com o grupo de direita croata Ustacha. E mais: o cara nos deu c�pias de documentos que confirmavam suas den�ncias.</p><p>� E voc�s acreditaram?</p><p>� Ele foi habilidoso. Tamb�m nos passou informa��es suficientes para nos levar a uma outra fonte que podia confirmar a hist�ria. Tivemos inclusive uma foto que mostrava um dos mais pr�ximos colaboradores de Wennerstr�m apertando a m�o do comprador, diante de caixas com a etiqueta "Explosivos". Tudo parecia ver�dico, e publicamos.</p><p>� Era uma isca.</p><p>� Uma isca do come�o ao fim � confirmou Mikael. � Os documentos haviam sido habilmente falsificados. E o advogado de Wennerstr�m provou que a foto do subalterno de Wennerstr�m e do chefe da Ustacha era uma montagem de duas fotos diferentes feita no Photoshop.</p><p>� Fascinante � disse Lisbeth Salander, assentindo com a cabe�a pensativamente. Tudo estava muito claro para ela.</p><p>� N�o � mesmo? Depois foi f�cil ver como hav�amos sido manipulados. Nossa hist�ria original teria prejudicado Wennerstr�m, no entanto ela se perdeu numa falsifica��o e caiu numa armadilha. Publicamos uma hist�ria que permitiu a Wennerstr�m desmantel�-la ponto por ponto e provar sua inoc�ncia. <emphasis>Foi </emphasis>um golpe de mestre.</p><p>� E voc�s n�o podiam voltar atr�s e contar a verdade. N�o tinham nenhuma prova de que Wennerstr�m fizera a falsifica��o.</p><p>� Pior que isso. Se tent�ssemos contar a verdade e comet�ssemos a imbecilidade de acusar Wennerstr�m de estar por tr�s de tudo, ningu�m acreditaria em n�s. Interpretariam isso apenas como uma tentativa desesperada de culpar um grande empres�rio inocente. Ser�amos vistos como uns obcecados por compl� e doidos completos.</p><p>� Entendo.</p><p>� Wennerstr�m estava duplamente protegido. Se o truque fosse revelado, ele poderia dizer que um de seus inimigos quisera arrast�-lo para <emphasis>a </emphasis>lama. E n�s da <emphasis>Millennium </emphasis>perder�amos mais uma vez a credibilidade, pois ter�amos engolido informa��es que depois se revelaram falsas.</p><p>� Ent�o voc� escolheu n�o se defender e encarar uma pena de pris�o.</p><p>� Mereci a pena � disse Mikael com voz amarga. � Fui culpado por difama��o. � isso, agora voc� j� sabe. Posso dormir?</p><p>Mikael apagou a luz e fechou os olhos. Lisbeth estendeu-se ao lado dele. N�o disse nada por um momento.</p><p>� Wennerstr�m � um g�ngster.</p><p>� Eu sei.</p><p>� N�o, eu quis dizer que eu <emphasis>sei </emphasis>que ele � um g�ngster. Ele negocia com tudo, desde a m�fia russa at� o cartel de Medell�n na Col�mbia.</p><p>� O que est� querendo dizer?</p><p>� Quando entreguei meu relat�rio a Frode, ele me incumbiu de uma miss�o suplementar. Pediu que eu tentasse descobrir o que realmente havia acontecido no processo. Eu estava envolvida nisso quando Armanskij me chamou para cancelar o trabalho.</p><p>� Suponho que n�o precisavam mais da investiga��o depois que voc� aceitou a proposta de Henrik Vanger. N�o havia mais interesse.</p><p>� Sim, e da�?</p><p>� Bem, n�o gosto de deixar as coisas pela metade. Tive algumas semanas... digamos, livres na primavera, num per�odo em que Armanskij n�o tinha trabalho para mim. Ent�o, para me distrair, comecei a escavar o caso Wennerstr�m.</p><p>Mikael empertigou-se, acendeu a l�mpada e olhou para Lisbeth. Os olhares dos dois se cruzaram. Ela parecia realmente algu�m que tinha feito algo errado.</p><p>� Descobriu alguma coisa?</p><p>� Tenho todo o disco r�gido dele no meu computador. Se te interessa, posso fornecer quantas provas voc� quiser de que ele � um verdadeiro g�ngster.</p><empty-line/><p><strong>28. TER�A-FEIRA 29 DE JULHO � SEXTA-FEIRA 24 DE OUTUBRO</strong></p><p>Fazia tr�s dias que Mikael Blomkvist estava debru�ado sobre as c�pias dos fich�rios de Lisbeth Salander � pastas repletas de documentos. O problema � que as evid�ncias seguiam em todas as dire��es. Uma negocia��o com t�tulos em Londres, outra com moedas estrangeiras em Paris atrav�s de um agente. Uma empresa-fantasma em Gibraltar. O saldo de uma conta no Chase Manhattan Bank, em Nova York, de repente multiplicado por dois.</p><p>E tamb�m v�rios pontos de interroga��o: uma empresa comercial com duzentas mil coroas numa conta sem movimenta��o aberta cinco anos antes em Santiago do Chile � uma entre trinta outras semelhantes em doze pa�ses diferentes � e sem a menor indica��o da atividade principal. Empresas em estado latente? A <emphasis>espera de qu�? </emphasis>Biombos para ocultar outras atividades? O computador n�o fornecia respostas para o que Wennerstr�m guardava na cabe�a, e que certamente era muito evidente para que precisasse estar num documento eletr�nico.</p><p>Salander tinha se convencido de que jamais encontrariam resposta para a maior parte dessas quest�es. Eles podiam ver a mensagem, mas n�o podiam interpretar seu sentido sem o c�digo. O imp�rio Wennerstr�m era como uma cebola cujas peles podiam ser retiradas uma a uma; um conjunto de empresas propriet�rias umas das outras. Companhias, contas, fundos, valores. Eles constatavam que ningu�m, nem mesmo Wennerstr�m, conseguiria ter uma vis�o global. O imp�rio Wennerstr�m era dotado de vida pr�pria.</p><p>Havia uma estrutura, ou pelo menos um esbo�o de estrutura. Um labirinto de empresas interdependentes. O imp�rio Wennerstr�m podia ser avaliado, de acordo com a pessoa que fizesse o c�lculo e de acordo com a maneira de calcular, entre 100 bilh�es e 400 bilh�es de coroas. Mas, no caso de empresas propriet�rias umas das outras, que valor t�m, afinal, essas empresas?</p><p>Quando Lisbeth lan�ou a pergunta, Mikael olhou-a com um ar atormentado.</p><p>� Tudo isso � esot�rico � respondeu ele antes de passar ao exame das contas banc�rias.</p><p>Eles deixaram a ilha de Hedeby �s pressas, de manh�, depois que Lisbeth Salander soltou a bomba que agora absorvia Mikael o tempo todo. Foram direto para a casa de Lisbeth e passaram dois dias e duas noites diante do computador dela, enquanto Mikael era conduzido ao universo de Wennerstr�m. Ele tinha muitas perguntas a fazer. Uma delas por pura curiosidade.</p><p>� Lisbeth, como voc� pode pilotar o computador dele?</p><p>� E uma pequena inven��o fabricada pelo meu colega Praga. Wennerstr�m trabalha num laptop IBM, tanto em casa como no escrit�rio. Isso quer dizer que toda a informa��o fica guardada num �nico disco r�gido. O cabo de banda larga est� na casa dele. Praga inventou uma esp�cie de tubo que se conecta ao cabo propriamente dito e que venho testando para ele; tudo o que Wennerstr�m v� � registrado por esse tubo, que envia a informa��o a um servidor em algum lugar.</p><p>� Ele n�o tem um <emphasis>firewall?</emphasis></p><p>� Sim, tem, mas a ideia � que o pr�prio tubo funcione tamb�m como uma esp�cie de <emphasis>firewall. </emphasis>Demora um pouco para piratear desse modo. Digamos que Wennerstr�m receba um e-mail; ele chega primeiro ao tubo de Praga e podemos l�-lo antes mesmo que seja captado pelo <emphasis>firewall </emphasis>de Wennerstr�m. Mas o engenhoso � que a mensagem � reescrita e injetamos alguns <emphasis>bytes </emphasis>de um c�digo-fonte. A opera��o repete-se toda vez que ele faz um <emphasis>download </emphasis>em seu computador. A coisa funciona ainda melhor com imagens. Ele navega muito na internet. Sempre que baixa uma foto porn� ou abre um novo site, acrescentamos alguns sinais desse c�digo-fonte. Depois de um certo tempo, algumas horas ou dias, conforme o uso que ele fizer do computador, Wennerstr�m ter� baixado um programa inteiro de cerca de tr�s megabytes, em que os <emphasis>bits </emphasis>foram se somando uns aos outros.</p><p>� E?</p><p>� Depois que os �ltimos <emphasis>bits </emphasis>foram instalados, o programa se integra ao navegador da internet do laptop. Ele pensa que o computador travou e � obrigado a reiniciar. Ao fazer isso, est� carregando um novo programa. Wennerstr�m usa o Microsoft Explorer. Na pr�xima vez que abrir o Explorer, na verdade abrir� um programa diferente, invis�vel no seu computador e semelhante ao Explorer. Funciona como o Explorer, mas faz tamb�m um monte de outras coisas. Esse programa come�a a escanear o computador e envia <emphasis>bits </emphasis>de informa��o sempre que Wennerstr�m clica no mouse ao navegar. Depois de um tempo, e dependendo do per�odo que ele passa navegando, acumulamos um espelho completo do conte�do do disco r�gido dele num outro servidor. E ent�o que o TH interv�m.</p><p>� TH?</p><p>� � como Praga chamou: <emphasis>Takeover hostil.</emphasis></p><p>� Ah!</p><p>� O engenhoso � o que vem a seguir. Quando a estrutura est� pronta, Wennerstr�m tem dois discos r�gidos completos, um em sua pr�pria m�quina e outro no nosso servidor. Na verdade, quando ele inicia o computador, est� iniciando o computador-espelho. N�o trabalha mais no pr�prio computador, e sim no nosso servidor. Seu computador vai rodar um pouco mais lento, mas nem se percebe. E, quando estou conectada ao servidor, posso acompanhar o computador dele em tempo real. Toda vez que Wennerstr�m digita uma tecla, aparece no meu monitor.</p><p>� Vejo que o seu colega tamb�m � um <emphasis>hacker.</emphasis></p><p>� Foi ele que montou a escuta telef�nica em Londres. Socialmente falando, � um incompetente, mas na internet � legend�rio.</p><p>� Certo � disse Mikael com um sorriso resignado. � Pergunta n�mero dois: por que n�o me falou de Wennerstr�m antes?</p><p>� Voc� nunca me pediu.</p><p>� E se eu nunca tivesse pedido � digamos que n�o tiv�ssemos nos conhecido � ent�o voc� teria se calado sobre as atividades il�citas de Wennerstr�m, enquanto a <emphasis>Millennium ca�a </emphasis>em desgra�a?</p><p>� Ningu�m nunca me pediu para denunciar Wennerstr�m � respondeu Lisbeth com uma voz sentenciosa.</p><p>� Mas e se pedissem?</p><p>� Ora, j� contei a voc�! � ela retrucou na defensiva. Mikael deixou o assunto de lado.</p><p>Mikael estava totalmente absorvido pelo que descobria no computador de Wennerstr�m. Lisbeth gravara o conte�do do disco r�gido de Wennerstr�m</p><p>� cerca de cinco gigabytes � nuns dez CDs, e tinha mais ou menos a impress�o de ter se mudado para a casa de Mikael. Esperava pacientemente e respondia �s perguntas que ele n�o parava de fazer.</p><p>� N�o entendo como ele pode ser t�o imbecil a ponto de guardar todas as informa��es dos seus neg�cios suspeitos num disco r�gido � disse Mikael.</p><p>� Se ca�sse nas m�os da pol�cia...</p><p>� As pessoas n�o s�o racionais. Eu diria que ele nem imagina que a pol�cia possa querer confiscar seu computador.</p><p>� Acima de qualquer suspeita. Concordo que ele � um sujeito arrogante, mas deve estar bem cercado de consultores em seguran�a que lhe dizem como lidar com seu computador. Vi arquivos de 1993.</p><p>� O computador � bastante recente. Foi fabricado h� um ano, mas Wennerstr�m parece ter transferido toda a sua velha correspond�ncia e coisas do g�nero para o disco r�gido, em vez de salvar em CDs. Mas ele se previne com programas de encripta��o.</p><p>� Precau��o totalmente in�til, j� que voc� est� dentro do computador dele e l� as senhas toda vez que ele digita.</p><p>Fazia quatro dias que eles tinham voltado a Estocolmo, quando Christer Malm ligou para o celular de Mikael e o despertou �s tr�s da manh�.</p><p>� Henry Cortez foi a uma festa com uma namorada esta noite.</p><p>� Ah, sim? � respondeu Mikael, ainda tonto de sono.</p><p>� Antes de voltarem para casa, passaram no bar da Esta��o central.</p><p>� N�o � o melhor lugar para namorar.</p><p>� Escuta esta: Janne Dahlman est� de f�rias e Henry o viu numa mesa junto com um homem.</p><p>� E?</p><p>� Henry reconheceu imediatamente o tal homem. Krister S�der.</p><p>� O nome me diz alguma coisa, mas...</p><p>� Trabalha no <emphasis>Finansmagasinet Monopol, </emphasis>que pertence ao grupo Wennerstr�m � prosseguiu Malm.</p><p>Mikael ergueu-se na cama.</p><p>� Est� me ouvindo?</p><p>� Sim, estou. Pode n�o significar nada. S�der � jornalista, talvez seja um velho colega de Dahlman.</p><p>� Talvez eu esteja sendo meio paran�ico, mas h� tr�s meses a <emphasis>Millennium </emphasis>comprou a reportagem de um <emphasis>freelancer. </emphasis>Uma semana antes de n�s a publicarmos, S�der publicou uma not�cia quase id�ntica. Era o mesmo assunto sobre um fabricante de celulares. Ele ocultava a informa��o de que utilizavam um componente defeituoso que pode causar curtos-circuitos.</p><p>� Entendo. Mas essas coisas acontecem. Comentou isso com Erika?</p><p>� N�o, ela est� viajando, s� volta a semana que vem.</p><p>� N�o faz mal. Volto a te ligar � disse Mikael e desligou o celular.</p><p>� Problemas? � perguntou Lisbeth Salander.</p><p>� A <emphasis>Millennium </emphasis>� disse Mikael. � Preciso dar uma sa�da. Quer vir comigo?</p><p>A reda��o estava deserta �s quatro da manh�. Lisbeth precisou de tr�s minutos para descobrir o c�digo de acesso do computador de Janne Dahlman e mais dois para transferir seu conte�do para o notebook de Mikael.</p><p>A maior parte dos e-mails, por�m, achava-se no laptop pessoal de Dahlman, ao qual n�o tinham acesso. Mas no computador dele na <emphasis>Millennium </emphasis>Lisbeth encontrou um endere�o hotmail de Dahlman, e ela levou seis minutos para entrar na conta dele e transferir toda a sua correspond�ncia do ano anterior. Cinco minutos depois, Mikael tinha provas de que Janne Dahlman deixara vazar informa��es sobre a situa��o da <emphasis>Millennium </emphasis>e de que informara o redator do <emphasis>Finansmagasinet Monopol </emphasis>sobre as reportagens que Erika programava publicar nos pr�ximos n�meros. A espionagem prosseguira pelo menos at� o outono anterior.</p><p>Eles desligaram os computadores e voltaram ao apartamento de Mikael para dormir mais algumas horas. Ele chamou Christer Malm por volta das dez da manh�.</p><p>� Tenho provas de que Dahlman trabalha para Wennerstr�m.</p><p>� Eu tinha certeza disso. Certo, vou despedir esse canalha ainda hoje.</p><p>� N�o fa�a isso. N�o fa�a absolutamente nada. � Nada?</p><p>� Christer, confie em mim. At� quando Dahlman estar� de f�rias?</p><p>� Ele volta na segunda-feira de manh�.</p><p>� H� quantas pessoas na reda��o hoje?</p><p>� Mais ou menos a metade.</p><p>� Ser� que pode anunciar uma reuni�o para as duas da tarde? N�o diga qual o assunto. Estarei a�.</p><p>Seis pessoas estavam sentadas em volta da mesa de reuni�o diante de Mikael. Christer Malm tinha um ar cansado. Henry Cortez exibia aquela felicidade que s� os jovens apaixonados de vinte e quatro anos conseguem sentir. Monika Nilsson parecia ansiosa, � espera de revela��es bomb�sticas; Christer Malm n�o dissera uma palavra sobre o tema da reuni�o, mas ela j� trabalhava na reda��o havia bastante tempo para entender que algo incomum estava sendo tramado, e n�o saber de nada a deixava aborrecida. A �nica que exibia um comportamento normal era Ingela Oskarsson, funcion�ria de tempo parcial encarregada da administra��o, das assinaturas e de outras tarefas que lhe ocupavam dois dias da sua semana, embora ela n�o parecesse muito folgada desde que se tornara m�e dois anos antes. A outra funcion�ria de tempo parcial era a jornalista <emphasis>freelancer </emphasis>Lotta Karim, com um contrato semelhante ao de Henry Cortez e que acabava de voltar de f�rias. Christer tamb�m conseguira trazer para a reuni�o Sonny Magnusson, embora ele ainda estivesse de f�rias.</p><p>Mikael come�ou cumprimentando a todos e desculpando-se por ter estado fora durante o ano.</p><p>� Nem Christer nem eu tivemos tempo de informar Erika sobre o que nos preocupa hoje, mas posso garantir que nesse assunto falo tamb�m em nome dela. Hoje vamos decidir o futuro da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>Fez uma pausa e deixou as palavras produzirem efeito. Ningu�m fez perguntas.</p><p>� Este ano foi pesado. Estou surpreso de que nenhum de voc�s tenha ido procurar emprego em outro lugar. S� posso concluir que voc�s s�o ou completamente loucos ou excepcionalmente leais e que gostam de trabalhar na revista. Por isso vou botar as cartas na mesa e pedir uma �ltima contribui��o.</p><p>� Ultima contribui��o? � espantou-se Monika Nilsson. � � como se voc� tivesse a inten��o de fechar a <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Isso mesmo � respondeu Mikael. � Quando voltar das f�rias, Erika convocar� n�s todos para uma triste reuni�o, na qual anunciar� que a <emphasis>Millennium </emphasis>vai deixar de circular no Natal e que todos ser�o dispensados.</p><p>Desta vez, uma certa inquieta��o se espalhou no ar. Mesmo Christer Malm acreditou, por um segundo, que Mikael falava s�rio, antes de notar seu sorriso satisfeito.</p><p>� Durante este outono, voc�s v�o desempenhar um duplo papel. Devo dizer que o nosso caro secret�rio de reda��o, Janne Dahlman, andou passando informa��es nossas para Hans-Erik Wennerstr�m. O que significa que o inimigo est� sempre muito bem informado do que se passa aqui, e isso explica muitos dos reveses que sofremos neste ano. Sobretudo voc�, Sonny, pois alguns anunciantes que pareciam firmes se retiraram subitamente.</p><p>� Dahlman, aquele merda! N�o me surpreende � disse Monika Nilsson.</p><p>Janne Dahlman nunca fora muito popular na reda��o e a revela��o n�o chegou a chocar ningu�m. Mikael interrompeu os murm�rios.</p><p>� S� estou contando isso porque tenho inteira confian�a em voc�s. Trabalhamos juntos h� v�rios anos e sei que voc�s t�m a cabe�a no lugar, por isso sei tamb�m que aceitar�o participar desse jogo, n�o importa o que acontecer neste outono. E fundamental que Wennerstr�m seja levado a acreditar que a <emphasis>Millennium </emphasis>est� afundando. E o trabalho de voc�s ser� faz�-lo acreditar nisso.</p><p>� Qual � a nossa verdadeira situa��o? � perguntou Henry Cortez.</p><p>� Resumindo: foi um per�odo dif�cil para todos e ainda n�o estamos livres das dificuldades. Tudo levava a crer que a <emphasis>Millennium </emphasis>ia acabar. Mas garanto que isso n�o vai acontecer. A <emphasis>Millennium </emphasis>hoje est� mais forte do que h� um ano. Depois desta reuni�o, vou desaparecer novamente por dois meses. L� pelo fim de outubro estarei de volta. Ent�o cortaremos as asas de Hans-Erik Wennerstr�m.</p><p>� De que maneira? � quis saber Cortez.</p><p>� Sinto muito, mas n�o posso revelar detalhes. Vou escrever uma nova hist�ria sobre Wennerstr�m, s� que desta vez faremos tudo direitinho. Ent�o come�aremos a preparar a festa de Natal da revista. Espero ter como prato principal do card�pio Wennerstr�m assado e diversos cr�ticos como sobremesa.</p><p>A descontra��o logo tomou conta do ambiente. Mikael se perguntou como estaria se sentindo se estivesse ali, sentado, escutando a si mesmo naquela mesa de reuni�o. C�tico? Provavelmente. Mas parecia que ele contava com um capital de confian�a entre os colaboradores da <emphasis>Millennium. </emphasis>Levantou a m�o outra vez.</p><p>� Para que isso aconte�a, � importante que Wennerstr�m acredite que a <emphasis>Millennium </emphasis>est� afundando. N�o quero que ele monte uma campanha defensiva ou que elimine provas no �ltimo minuto. Por isso vamos tra�ar um roteiro para os pr�ximos meses. Em primeiro lugar, � fundamental que nada do que discutimos aqui hoje seja registrado por escrito em e-mails ou comunicado a algu�m fora desta sala. N�o sabemos at� que ponto Dahlman tem acesso aos nossos computadores, e descobri que � bastante f�cil ler os e-mails particulares dos colaboradores. Portanto, faremos tudo verbalmente. Se nas pr�ximas semanas quiserem discutir alguma coisa, falem com Christer na casa dele. Com extrema discri��o.</p><p>Mikael escreveu numa lousa: <emphasis>nenhuma mensagem eletr�nica.</emphasis></p><p>� Em segundo lugar, voc�s far�o fofocas. Quero que comecem a me denegrir toda vez que Janne Dahlman estiver por perto. N�o exagerem. Apenas d�em vaz�o ao ego naturalmente avacalhador de voc�s. Christer, gostaria que voc� e Erika tivessem uma discuss�o s�ria. Usem a imagina��o e guardem mist�rio sobre as raz�es, mas d�em a impress�o de que a revista est� rachando e que todos est�o se indispondo uns contra os outros.</p><p>Ele escreveu <emphasis>Avacalhem </emphasis>na lousa.</p><p>� Em terceiro lugar: quando Erika voltar, voc�, Christer, a informar� sobre a trama. Caber� a ela, em seguida, fazer Janne Dahlman acreditar que nosso acordo com o grupo Vanger, que nos mant�m � tona no momento, afundou porque Henrik Vanger est� gravemente doente e porque Martin Vanger morreu num acidente de carro.</p><p>Escreveu a palavra <emphasis>Desinforma��o.</emphasis></p><p>� Ent�o isso significa que o acordo � s�lido? � perguntou Monika Nilsson.</p><p>� Pode acreditar em mim � disse Mikael s�rio. � O grupo Vanger est� empenhado em que a <emphasis>Millennium </emphasis>sobreviva. Daqui a algumas semanas, digamos, no final de agosto, Erika convocar� uma reuni�o para avisar das dispensas. E importante que todos entendam que � uma isca e que o �nico a desaparecer daqui ser� Janne Dahlman. Mas voc�s precisam continuar fingindo. Comecem a dizer que est�o procurando emprego e falem da refer�ncia ruim que a <emphasis>Millennium </emphasis>representa no curr�culo.</p><p>� E voc� acha que essa com�dia vai salvar a <emphasis>Millennium? </emphasis>� perguntou Sonny Magnusson.</p><p>� Tenho certeza que sim. Sonny, quero que fa�a um relat�rio mensal fict�cio mostrando que a tend�ncia dos anunciantes se inverteu nos �ltimos meses e que o n�mero de assinantes caiu outra vez.</p><p>� Vai ser divertido � disse Monika. � Isso vai ficar s� dentro da reda��o ou deixaremos vazar para outras m�dias?</p><p>� S� dentro da reda��o. Se a hist�ria vazar, saberemos quem � o respons�vel. Se daqui a alguns meses algu�m nos pedir explica��es, poderemos simplesmente dizer: N�o, meu velho, voc� ouviu boatos sem fundamento; de modo nenhum, nunca se falou em fechar a <emphasis>Millennium. </emphasis>O melhor que pode acontecer � Dahlman ventilar a informa��o para outras m�dias. Ent�o, ele � que passar� por imbecil. Se puderem soprar a Dahlman uma hist�ria plaus�vel mas completamente idiota, t�m carta branca.</p><p>Passaram duas horas montando um roteiro e distribuindo o papel de cada um.</p><p>Depois da reuni�o, Mikael foi tomar um caf� com Christer Malm no Java, no centro da cidade.</p><p>� Christer, � muito importante que v� esperar Erika no aeroporto, para coloc�-la a par da situa��o. Ter� que convenc�-la a jogar o jogo. Se eu bem a conhe�o, ela vai querer se confrontar com Dahlman imediatamente, mas isso n�o pode acontecer. N�o quero que Wennerstr�m suspeite de alguma coisa e d� sumi�o nas provas.</p><p>� Certo.</p><p>� E diga a Erika que se mantenha longe do correio eletr�nico at� ter instalado o encriptador PGP e ter aprendido a utiliz�-lo. E prov�vel que, atrav�s de Dahlman, Wennerstr�m esteja lendo todos os nossos e-mails internos. Quero que usem o PGP, voc� e todo mundo na reda��o. Como se fosse a coisa mais natural. Darei o nome de um t�cnico de inform�tica, voc� vai cham�-lo e ele vir� dar uma olhada na rede interna e nos computadores da reda��o. Deixe-o instalar o programa como se fosse um servi�o normal.</p><p>� Farei o melhor poss�vel. Mas diga, Mikael, o que voc� est� tramando exatamente?</p><p>� Vou acabar com a carreira de Wennerstr�m.</p><p>� De que maneira?</p><p>� Sinto muito, por enquanto � segredo. S� posso dizer que tenho informa��es sobre ele que far�o nossa den�ncia anterior parecer uma coisa �-toa.</p><p>Christer Malm pareceu incomodado.</p><p>� Sempre confiei em voc�, Mikael. Voc� n�o confia em mim? Mikael riu.</p><p>� Claro que confio. Mas neste momento estou envolvido numa atividade criminosa muito s�ria, que pode me valer uns dois anos de pris�o. � que os procedimentos da minha pesquisa s�o, por assim dizer, um pouco duvidosos... Utilizo m�todos t�o il�citos quanto os de Wennerstr�m. N�o quero que nem voc� nem Erika nem ningu�m da <emphasis>Millennium </emphasis>se envolva nisso.</p><p>� Voc� tem o dom de me deixar preocupado.</p><p>� Fique tranquilo. E pode dizer a Erika que essa hist�ria vai repercutir. Muito.</p><p>� Erika vai querer saber o que voc� est� tramando... Mikael refletiu um segundo, depois sorriu.</p><p>� Diga a ela que, na �ltima primavera, ela deixou muito claro para mim, quando assinou o contrato com Henrik Vanger � minha revelia, que eu n�o passava de um reles e mortal <emphasis>freelancer, </emphasis>sem lugar no conselho administrativo da revista e sem nenhuma influ�ncia na linha seguida pela <emphasis>Millennium. </emphasis>Isso tamb�m significa que n�o sou obrigado a inform�-la de nada. Mas prometo que, se ela se comportar direitinho, vai ser a primeira a saber da hist�ria.</p><p>Christer deu uma risada.</p><p>� Ela vai ficar furiosa � comentou, divertido.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Mikael sabia muito bem que n�o dissera a verdade a Christer Malm: ele estava evitando Erika propositalmente. O normal teria sido avis�-la de imediato das informa��es de que dispunha. Mas Mikael n�o queria falar com ela. Chegou a digitar seu n�mero uma dezena de vezes no celular. Sempre desistia.</p><p>Sabia qual era o problema: n�o podia olh�-la nos olhos.</p><p>Ter concordado em abafar o caso de Hedestad era jornalisticamente imperdo�vel. Ele n�o sabia como explicar isso sem mentir, e se havia uma coisa que nunca queria fazer era mentir para Erika Berger.</p><p>Al�m do mais, n�o tinha coragem de enfrentar esse problema e ao mesmo tempo atacar Wennerstr�m. Assim adiou o confronto, desligou o celular e poupou-se de falar com ela. Sabia que era um descanso de curta dura��o.</p><p>Logo depois da reuni�o da reda��o, Mikael foi se instalar em sua cabana em Sandhamn, onde n�o punha os p�s havia mais de um ano. Na bagagem, levou duas caixas de folhas impressas e os CDs que Lisbeth lhe dera. Fez provis�es, trancou-se ali, abriu o notebook e p�s-se a escrever. Todos os dias sa�a para passear e aproveitava para comprar jornais e mantimentos. Ainda havia muitos veleiros no porto, e v�rios daqueles jovens que tinham pedido emprestado o barco do papai estavam, como sempre, enchendo a cara no Bar do Mergulhador. Alheio a tudo a sua volta, Mikael passava os dias na frente do computador, desde o momento em que abria os olhos at� cair de cansa�o � noite.</p><p>Mensagem eletr�nica encriptada da diretora de publica��o erika.berger@millennium.se ao editor licenciado mikael.blomkvist@millennium.se:</p><p>[Mikael. Preciso saber o que est� acontecendo � entenda, voltei de f�rias e ca� em pleno caos. Primeiro fico sabendo o que Janne Dahlman andou fazendo, depois o jogo duplo que voc� bolou. Martin Vanger est� morto. Harriet Vanger est� viva. O que est� havendo em Hedeby? Onde voc� est�? Temos uma hist�ria para publicar? Por que n�o atende o celular? E.</p><p>P. S. Entendi a sua alfinetada que Christer divertiu-se muito em me transmitir. Voc� me paga. Est� zangado comigo de verdade?]</p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se </strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Oi, Ricky. N�o, fique tranquila, n�o estou zangado. Perdoe-me por n�o ter tido tempo de esclarecer as coisas para voc�, � que nos �ltimos meses minha vida virou uma montanha-russa. Contarei tudo quando nos virmos, mas n�o por e-mail. Agora estou em Sandhamn. H� uma hist�ria para ser publicada, mas n�o se trata de Harriet Vanger. Vou ficar aqui enfurnado por algum tempo. At� terminar, confie em mim. Bjs. M.]</p><p><strong>De erika.berger@millennium.se </strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@ millennium.se:</strong></p><p>[Sandhamn? Vou a� te ver assim que eu puder.]</p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se </strong></p><p><strong>A erika.berger@ millennium.se:</strong></p><p>[N�o venha j�. Espere algumas semanas, pelo menos at� eu ter um texto consistente. Al�m disso, estou esperando uma visita.]</p><p><strong>De erika.berger@millennium.se </strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Certo, n�o vou impor a minha presen�a, claro. Mas tenho o direito de saber o que est� acontecendo. Henrik Vanger tornou-se membro do conselho, mas ele n�o responde quando chamo. Se o acordo com Vanger deu em nada, voc� precisa me dizer. N�o sei o que fazer. Preciso saber se a revista vai continuar ou n�o. Ricky.</p><p>P. S. Como ela se chama?]</p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se </strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Primeiro: fique tranquila, Henrik n�o vai sair. Mas ele teve um infarto s�rio e s� tem trabalhado poucas horas por dia, e suponho que o impacto causado pela morte de Martin e a ressurrei��o de Harriet absorveu todas as suas for�as.</p><p>Segundo: a <emphasis>Millennium </emphasis>vai continuar. Estou trabalhando na reportagem mais importante da nossa vida e, quando a publicarmos, liquidaremos Wennerstr�m de uma vez por todas.</p><p>Terceiro: minha vida est� de pernas para o ar neste momento, mas entre mim, voc� e a <emphasis>Millennium </emphasis>nada mudou. Confie em mim. Bjs. Mikael.</p><p>P. S. Te apresentarei a ela assim que der. Voc� vai se surpreender.]</p><p>Quando Lisbeth Salander chegou a Sandhamn, foi recebida por um Mikael de olheiras e com uma barba de alguns dias. Ele a abra�ou rapidamente e pediu que preparasse um caf� enquanto terminava uma passagem do texto.</p><p>Lisbeth deu uma olhada na cabana e percebeu quase imediatamente que se sentia bem ali. O chalezinho ficava junto a um pont�o, com o mar a dois metros da porta. Media apenas seis metros por cinco, mas a constru��o tinha altura suficiente para um mezanino, ao qual se chegava por uma escada em caracol. Lisbeth podia ficar de p� ali, por�m Mikael era obrigado a baixar um pouco a cabe�a. Ela inspecionou a cama e constatou que era suficientemente larga para os dois.</p><p>A cabana tinha uma janela ampla que dava para o mar, bem ao lado da porta de entrada. A mesa da cozinha tamb�m servia como mesa de trabalho para Mikael. Na parede ao lado dela, havia uma pequena prateleira com um aparelho de CD e alguns discos de Elvis Presley e de <emphasis>hard rock, </emphasis>dois g�neros que ela n�o teria posto no topo da sua lista.</p><p>Num canto havia um aquecedor a lenha. O resto da mob�lia resumia-se a um grande arm�rio embutido, para guardar roupas, len��is e toalhas, e uma bancada de cozinha que prosseguia, separada por uma cortina, at� uma pia e um chuveiro. Acima da bancada abria-se uma pequena janela. Sob a escada em caracol, Mikael montara um banheiro com vaso sanit�rio. Toda a cabana lembrava a cabine de um barco, com arranjos e compartimentos engenhosos.</p><p>Na sua investiga��o particular sobre Mikael Blomkvist, ela dissera que ele mesmo havia reformado a cabana e cuidado da decora��o � dedu��o baseada no e-mail que um amigo de Mikael, impressionado com sua habilidade, lhe enviara ap�s uma visita a Sandhamn. Tudo era limpo, modesto e simples, quase espartano. Ela entendeu por que gostava tanto daquela cabana.</p><p>Depois de duas horas, ela conseguiu distrair a aten��o de Mikael do trabalho. Ele deixou o computador com ar frustrado, barbeou-se c levou-a para conhecer Sandhamn. O tempo estava chuvoso e ventava, e eles logo foram para o albergue. Mikael contou o que havia escrito, e Lisbeth lhe entregou um CD com informa��es atualizadas do PC de Wennerstr�m.</p><p>Depois voltaram para a cabana, e no mezanino ela conseguiu despi-lo e distra�-lo ainda mais. Lisbeth despertou tarde da noite sozinha na cama e, ao dar uma espiada para baixo, o viu debru�ado sobre o teclado. Ficou um bom tempo com a cabe�a apoiada na m�o, olhando-o. Ele parecia feliz e ela, por sua vez, sentiu-se estranhamente satisfeita com a vida.</p><p>Lisbeth s� ficou cinco dias. Depois voltou a Estocolmo, atendendo a um chamado de Dragan Armanskij ao telefone, que, desesperado, a convocava para um novo trabalho. Dedicou a esse trabalho onze dias, fez seu relat�rio e regressou a Sandhamn. A pilha de folhas impressas ao lado do notebook de Mikael crescera.</p><p>Desta vez ficou quatro semanas. Eles acabaram criando uma esp�cie de rotina. Levantavam-se<strong/>�s oito e tomavam o caf�-da-manh� juntos por uma hora. A seguir, Mikael trabalhava intensamente at� depois do meio-dia quando, ent�o, sa�am para passear e conversar. Lisbeth passava a maior parte do dia na cama lendo livros ou navegando na internet pelo modem ADSL de Mikael. Evitava perturb�-lo durante o dia. Jantavam bem tarde e somente ent�o Lisbeth tomava a iniciativa e o for�ava a subir at� o mezanino, onde queria todo tipo de aten��o dele.</p><p>Lisbeth tinha a impress�o de viver as primeiras f�rias de sua vida.</p><p>Mensagem eletr�nica encriptada de erika.berger@millennium.se a mikael.blomkvist@millennium.se:</p><p>[Oi, Mikael. E oficial agora, Janne Dahlinan pediu demiss�o e come�a a trabalhar no <emphasis>Finansmagasinet Monopol </emphasis>dentro de tr�s semanas. Segui suas instru��es, n�o disse nada e todos est�o representando a farsa. E.</p><p>P. S. De qualquer maneira, todos est�o se divertindo um bocado. Outro dia, Henry e Lotta trocaram inj�rias a ponto de quase se agredir. Levaram a brincadeira t�o longe com Dahlman que me espanta ele n�o ter sacado que era um blefe.]</p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se </strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Deseje-lhe boa sorte e deixe-o ir embora. Mas guarde a prataria num arm�rio fechado a chave. Bjs. M.]</p><p><strong>De erika.berger@millennium.se </strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Estou sem secret�rio de reda��o a duas semanas de sair o pr�ximo n�mero e meu rep�rter investigativo est� recolhido em Sandhamn e se recusa a falar comigo. Micke, ponho-me de joelhos. Ser� que pode nos ajudar? Erika.]</p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se </strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Aguente mais algumas semanas, e a� chegaremos a um porto tranquilo. E comece a preparar o n�mero de dezembro, que ser� diferente de tudo o que j� publicamos. Meu texto ocupar� cerca de quarenta p�ginas da revista. M.]</p><p><strong>De erika.berger@millennium.se </strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Quarenta p�ginas!!! Voc� ficou louco?]</p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se </strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Ser� uma edi��o tem�tica. Preciso de mais tr�s semanas. Ser� que voc� pode: (1) criar uma estrutura editorial em nome da <emphasis>Millennium, </emphasis>(2) conseguir um n�mero ISBN, (3) pedir a Clirister a cria��o de um belo logotipo para nossa nova editora e (4) encontrar uma boa gr�fica que possa lan�ar um livro de bolso r�pido e barato? Ali�s, precisaremos de dinheiro para os custos de impress�o do nosso primeiro livro. Bjs. Mikael.]</p><p><strong>De erika.berger@millennium.se </strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@ millennium.se:</strong></p><p>[Edi��o tem�tica. Editora. Custos de impress�o. As suas ordens, meu comandante. Que mais quer que eu ta�a? Dan�ar nua na Slussplan? E.</p><p>P. S. Suponho que saiba o que est� fazendo. Mas o que eu fa�o com Dahl-man?]</p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se </strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[N�o fa�a nada com Dahlman. Deixe-o ir embora. O <emphasis>Monopol </emphasis>n�o sobreviver� por muito tempo. Arranje substitutos para esse n�mero. E contrate uni novo secret�rio de reda��o, pelo amor de Deus! M.</p><p>P. S. Gostaria muito de te ver dan�ar nua na Slussplan,]</p><p><strong>De erika.berger@millennium.se </strong></p><p><strong>A mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Para o <emphasis>strip-tease </emphasis>em p�blico, n�o conte comigo. Mas sempre fizemos as contrata��es juntos. Ricky.]</p><p><strong/></p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se </strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Sempre estivemos de acordo sobre a pessoa a contratar. E continuaremos de acordo, seja quem for que voc� contrate. Vamos encurralar Wennerstr�m. A hist�ria toda � essa. Mas deixe-me termin�-la em paz. M.)</p><p>No come�o de outubro, Lisbeth Salander leu um pequeno artigo que encontrou no <emphasis>site </emphasis>do <emphasis>Hedestads-Kuriren, </emphasis>e informou Mikael. Isabella Vanger havia falecido ap�s uma breve doen�a. Sua morte era lamentada pela filha, Harriet Vanger, que recentemente voltara da Austr�lia.</p><p>Mensagem eletr�nica encriptada de erika.berger@millennium.se a mikael.blomkvist@millennium.se.</p><p>[Oi, Mikael.</p><p>Harriet Vanger passou hoje na reda��o para me ver. Telefonou cinco minutos antes de chegar e me pegou totalmente desprevenida. Uma bela mulher, muito elegante e de olhar frio.</p><p>Veio anunciar que participaria do conselho administrativo no lugar de Martin Vanger, que estava substituindo Henrik. Mostrou-se cort�s, am�vel, e me garantiu que o grupo Vanger n�o tem nenhuma inten��o de abandonar nosso acordo; ao contr�rio, a fam�lia apoia os compromissos de Henrik com a revista. Pediu para ver a reda��o e quis saber como estavam as coisas.</p><p>Eu disse a verdade. Que tenho a impress�o de estar andando sobre areia movedi�a, que voc� me proibiu de ir a Sandhamn e que eu n�o sei sobre o que voc� est� escrevendo, a n�o ser que espera encurralar Wennerstr�m. (Acho que eu podia dizer isso. Afinal, ela faz parte do conselho.) Ela levantou uma sobrancelha, sorriu e perguntou se eu tinha d�vidas sobre o seu �xito. Como responder a essa pergunta? Eu disse que estaria bem mais calma se soubesse o que voc� est� tramando. E que evidentemente confio em voc�, mas que voc� me deixa louca!</p><p>Perguntei se ela sabia o que voc� est� escrevendo. Ela respondeu que n�o, mas acrescentou que o achava muito perspicaz, com uma maneira de refletir inovadora (palavras dela).</p><p>Eu tamb�m disse ter conclu�do que algo de dram�tico havia acontecido em Hedestad no passado, e que estava muito curiosa para saber mais. Ela respondeu que eu e voc� parec�amos ter uma rela��o especial e que voc� me contaria tudo assim que tivesse tempo. Depois me perguntou se podia confiar em mim. O que eu podia dizer? Ela faz parte do conselho da <emphasis>Millennium </emphasis>e voc� n�o me deu nenhuma informa��o para que eu pudesse estabelecer uma conduta nesse caso.</p><p>Ent�o ela disse uma coisa estranha: me pediu que eu n�o julgasse nem a ela nem a voc� com demasiada severidade. Que tinha uma d�vida de gratid�o com voc� e que gostaria muito de que ela e eu f�ssemos amigas. E prometeu me contar a hist�ria oportunamente, se voc� n�o contasse. Acho que gosto muito dela, mas n�o sei muito bom se posso confiar. Erika.</p><p>P. S. Sinto sua falta. Tenho a impress�o de que aconteceu algo terr�vel em Hedestad. Christer disse que voc� est� com uma marca estranha � de estrangulamento? � no pesco�o.]</p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se</strong></p><p><strong>A erika.berger@millennium.se:</strong></p><p>[Oi, Ricky. A hist�ria de Harriet � t�o triste, t�o lament�vel, que voc� nem vai acreditar. Seria melhor que ela mesma te contasse. De minha parte, coloquei-a um pouco de lado na minha cabe�a.</p><p>Mas pode confiar em Harriet Vanger, eu garanto. Ela <emphasis>� </emphasis>sincera quando diz ter uma d�vida de gratid�o comigo, e pode crer que ela nunca far� nada que possa prejudicar a <emphasis>Millennium</emphasis><strong><emphasis>. </emphasis></strong>Se gosta dela, seja sua amiga; se n�o gosta, deixe pra l�. Mas ela merece respeito. <emphasis>� </emphasis>uma mulher que passou por duras provas e sinto uma grande simpatia por ela. M.]</p><p>No dia seguinte, Mikael recebeu mais um e-mail.</p><p><strong>De harriet.vanger@vangerindustries.com </strong></p><p><strong>a mikael.blomkvist@millennium.se:</strong></p><p>[Oi, Mikael. H� semanas venho tentando encontrar uma horinha para te dar not�cias, mas o tempo passa r�pido. Voc� saiu t�o depressa de Hedeby que nem pude me despedir.</p><p>Desde que voltei � Su�cia, estou soterrada por uma quantidade de impress�es e por muito trabalho. As empresas Vanger est�o um caos s�, e trabalhei duro com Henrik para p�r ordem nos neg�cios. Ontem visitei a <emphasis>Millennium; </emphasis>daqui em diante representarei Henrik no conselho. Ele me descreveu em detalhe a situa��o da revista e a sua.</p><p>Espero que aceite me ver desembarcar assim. Se n�o me quer no conselho (ou a algu�m mais da fam�lia), vou entender, mas garanto que farei tudo para servir a <emphasis>Millennium. </emphasis>Tenho uma enorme d�vida com voc� e asseguro que minhas inten��es ser�o sempre as melhores. Conheci sua amiga Erika Berger. N�o sei muito bem qual foi a opini�o dela a meu respeito e fiquei surpresa de que n�o tenha contado a ela o que aconteceu.</p><p>Quero muito ser sua amiga. Se est� disposto, � claro, a frequentar os membros da fam�lia Vanger. Um abra�o. Harriet.</p><p>P. S. Erika deu a entender que voc� pretende atacar novamente Wennerstr�m. Dirch Frode me contou como Henrik te levou na conversa. Que posso dizer? Apenas que sinto muito. Se houver algo que eu possa fazer, diga-me.]</p><p><strong>De mikael.blomkvist@millennium.se </strong></p><p><strong>A harriet.vanger@vangerindustries.com</strong></p><p>[Oi, Harriet. Desapareci de repente de Hedeby e neste momento estou trabalhando no que deveria ter feito este ano. Voc� ser� informada antes de o texto ir para a impress�o, mas acho que posso adiantar que os problemas deste �ltimo ano logo v�o terminar.</p><p>Espero que voc� e Erika se tornem amigas e evidentemente n�o h� problema nenhum de voc� "desembarcar" no conselho da <emphasis>Millennium. </emphasis>Vou contar o que aconteceu a Erika. S� que neste momento n�o tenho disposi��o nem tempo, ainda gostaria de manter uma certa dist�ncia.</p><p>Continuamos em contato. Um abra�o. Mikael.]</p><p>Lisbeth n�o mostrava muito interesse pelo que Mikael estava escrevendo. Ela levantou a cabe�a do seu livro. Mikael acabara de dizer algo que ela n�o ouvira. Pediu que ele repetisse.</p><p>� Desculpe. Estava pensando em voz alta. Eu dizia que � o c�mulo.</p><p>� O que � o c�mulo?</p><p>� Wennerstr�m teve um caso com uma servente de vinte e dois anos que ele engravidou. N�o leu a correspond�ncia dele com o advogado?</p><p>� Querido Mikael, existem dez anos de correspond�ncias, e-mails, contratos, relat�rios de viagens e n�o sei mais o que no disco r�gido. O seu Wennerstr�m n�o me fascina a ponto de eu querer guardar na cabe�a seis gigas de bobagens. Li uma parte �nfima, apenas para satisfazer a minha curiosidade, e foi o suficiente para entender que esse cara � um g�ngster.</p><p>� Concordo. Mas escute isso: ele a engravidou em 1997. Quando ela exigiu uma compensa��o, os advogados de Wennerstr�m despacharam algu�m para convenc�-la a abortar. Suponho que a inten��o era oferecer-lhe dinheiro, mas ela n�o aceitou. Ent�o a persuas�o tomou outro caminho: um capanga qualquer manteve a cabe�a dela mergulhada numa banheira at� que aceitasse deixar Wennerstr�m em paz. E esse advogado idiota do Wennerstr�m escreveu isso num e-mail! Encriptado, � verdade, mas mesmo assim... O n�vel de intelig�ncia dessa gente � muito baixo.</p><p>� O que aconteceu com a mo�a?</p><p>� Abortou. Wennerstr�m ficou satisfeito.</p><p>Lisbeth Salander n�o disse nada durante dez minutos. Seus olhos ficaram de repente sombrios.</p><p>� Mais um homem que odiava as mulheres � murmurou enfim. Mikael n�o a ouviu.</p><p>Ela pegou os CDs e passou os dias seguintes vasculhando o correio eletr�nico de Wennerstr�m, assim como outros documentos. Enquanto Mikael continuava seu trabalho, Lisbeth estava no mezanino com seu Powerbook sobre os joelhos, refletindo sobre o estranho imp�rio Wennerstr�m.</p><p>Ocorrera-lhe um pensamento curioso, do qual agora n�o conseguia mais se afastar. Antes de mais nada, perguntou-se por que n�o havia tido essa ideia antes.</p><p>Num dia de fins de outubro, Mikael imprimiu a �ltima p�gina e desligou o computador por volta das onze da manh�. Sem uma palavra, subiu at� o mezanino e entregou a Lisbeth uma pilha de pap�is. Depois foi dormir. Ela o despertou no final da tarde e passou-lhe suas observa��es.</p><p>Pouco depois das duas da manh�, Mikael fez uma �ltima corre��o no texto.</p><p>No dia seguinte, fechou as janelas da cabana e trancou a porta. As f�rias de Lisbeth haviam terminado. Voltaram juntos para Estocolmo.</p><p>Antes de chegar a Estocolmo, Mikael precisava conversar com Lisbeth sobre uma quest�o delicada. Entrou no assunto quando tomavam caf� na balsa de Vaxholm.</p><p>� A quest�o � o que devo contar a Erika. Ela vai se recusar a publicar isto se eu n�o explicar como obtive as informa��es.</p><p>Erika Berger! A amante de Mikael h� muitos anos e sua chefe. Lisbeth nunca a vira e n�o tinha muita certeza se queria v�-la. Erika Berger era um ligeiro aborrecimento em sua vida.</p><p>� O que ela sabe de mim?</p><p>� Nada. � Ele suspirou. � Venho evitando Erika desde o ver�o. N�o consegui contar a ela o que houve em Hedestad porque estou muito envergonhado. Ela est� frustrada com a pouca informa��o que lhe dei. Sabe, evidentemente, que me recolhi em Sandhamn para escrever esse texto, mas n�o faz ideia do seu conte�do.</p><p>� Humm.</p><p>� Daqui a algumas horas ela estar� com o texto nas m�os e vai me encher de perguntas. A quest�o �: o que devo dizer a ela?</p><p>� O que voc� tem vontade de dizer?</p><p>� A verdade.</p><p>Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas de Lisbeth.</p><p>� Escute, Lisbeth: eu e Erika discutimos o tempo todo, isso j� � um h�bito nosso. Mas temos uma confian�a ilimitada um no outro. Ela � absolutamente confi�vel. Voc� � uma fonte. Ela preferiria morrer a tra�-la.</p><p>� E a quem mais voc� vai precisar contar?</p><p>� A ningu�m mais. N�s dois levaremos isso para o t�mulo. Se voc� se opuser, n�o revelarei o segredo a ela. Contudo, n�o tenho a inten��o de mentir para Erika e de inventar uma fonte.</p><p>Lisbeth refletiu at� a balsa atracar ao p� do Grande Hotel. <emphasis>An�lise das consequ�ncias. </emphasis>Com relut�ncia, ela acabou permitindo que Mikael a apresentasse a Erika. Ele ligou o celular e chamou.</p><p>Erika recebeu o telefonema de Mikael em meio a um almo�o profissional com Malu Eriksson, que ela pretendia contratar como secret�ria de reda��o. Malu tinha vinte e nove anos e havia trabalhado como substituta durante cinco anos. Nunca teve emprego fixo e come�ava a perder as esperan�as de encontrar um. Nenhum an�ncio havia sido feito para o cargo; Erika entrou em contato com Malu atrav�s de um velho colega jornalista. Chamou-a no mesmo dia em que Malu terminava uma substitui��o, para saber se lhe interessava um bico na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� � apenas por tr�s meses � disse Erika. � Mas, se der certo, posso vir a contrat�-la.</p><p>� Ouvi boatos de que a <emphasis>Millennium </emphasis>em breve vai fechar.</p><p>� N�o acredite em boatos.</p><p>� Esse Dahlman que devo substituir... � Malu hesitou. � Ele vai para um dos jornais de Hans-Erik Wennerstr�m...</p><p>Erika assentiu com a cabe�a.</p><p>� N�o � segredo para ningu�m nesse meio que estamos em lit�gio com Wennerstr�m. Ele n�o gosta de pessoas que trabalham na <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>� Isso significa que, se eu aceitar o cargo, tamb�m vou ser inclu�da nessa categoria.</p><p>� � muito prov�vel que sim.</p><p>� Mas Dahlman conseguiu trabalho no <emphasis>Finansmagasinet...</emphasis></p><p>� Pode-se dizer que � a retribui��o de Wennerstr�m pelos servi�os prestados por Dahlman. Ainda est� interessada?</p><p>Malu refletiu um instante e depois assentiu com a cabe�a.</p><p>� Quer que eu comece quando?</p><p>Foi nesse momento que Mikael Blomkvist chamou, interrompendo a entrevista de contrata��o.</p><p>Erika utilizou as pr�prias chaves para abrir a porta do apartamento de Mikael. Era a primeira vez, desde a breve apari��o dele no final de junho, que ela o encontrava. Entrou na sala e viu uma jovem de uma magreza anor�xica sentada no sof�, vestindo uma jaqueta de couro gasto e com os p�s apoiados na mesinha de centro. A princ�pio, deu uns quinze anos � mo�a, at� ver seus olhos. Contemplava essa apari��o quando Mikael chegou trazendo caf� e biscoitos.</p><p>Mikael e Erika se examinaram.</p><p>� Desculpe meu comportamento estranho � disse Mikael.</p><p>Erika inclinou <emphasis>a </emphasis>cabe�a para o lado. Alguma coisa havia mudado em Mikael. Parecia mais sofrido, mais magro. Seus olhos estavam envergonhados, e por um breve segundo ele evitou o olhar dela. Erika olhou para o pesco�o, onde se via uma mancha amarelada, p�lida mas muito distinta.</p><p>� Andei evitando voc�. � uma longa hist�ria e n�o estou muito orgulhoso do meu papel nela. Mas falaremos disso mais tarde... Agora, gostaria de apresent�-la a essa jovem. Erika, essa � Lisbeth Salander. Lisbeth, Erika Berger � a diretora de publica��o da <emphasis>Millennium </emphasis>e minha melhor amiga.</p><p>Lisbeth observou as roupas elegantes e a apar�ncia segura de Erika, e em menos de dez segundos concluiu que ela n�o seria sua melhor amiga.</p><p>A reuni�o durou cinco horas. Erika telefonou duas vezes para desmarcar outras reuni�es. Dedicou uma hora � leitura de algumas partes do texto que Mikael lhe p�s nas m�os. Tinha mil perguntas a fazer, mas percebeu que levaria semanas antes de obter uma resposta. O importante era o texto, que ela acabou colocando a seu lado. Se uma parte m�nima daquelas afirma��es fosse correta, eles estavam diante de uma situa��o totalmente nova.</p><p>Erika olhou para Mikael. Nunca duvidara da honestidade dele, mas bastou um segundo para sentir uma vertigem e se perguntar se o caso Wennerstr�m n�o teria afetado a mente dele � se n�o o fizera imaginar coisas. No mesmo instante, Mikael lhe mostrou duas caixas cheias de dados impressos. Erika empalideceu. Naturalmente quis saber como havia obtido aquele material.</p><p>Foi preciso um bom tempo para convenc�-la de que a estranha jovem, que ainda n�o pronunciara uma s� palavra, tinha acesso irrestrito ao computador de Hans-Erik Wennerstr�m. E n�o s� isso: tamb�m havia pirateado v�rios dos computadores de seus advogados e colaboradores pr�ximos.</p><p>A rea��o natural de Erika foi dizer que eles n�o podiam utilizar esse material, pois fora obtido por meios il�citos.</p><p>Mas isso n�o era um empecilho. Mikael lembrou-a de que eles n�o eram obrigados a declarar como haviam obtido as informa��es. Podiam muito bem contar com uma fonte que tivera acesso ao computador de Wennerstr�m e copiara seu disco r�gido em alguns CDs.</p><p>Erika logo se deu conta da arma que tinha nas m�os. Sentia-se exausta e gostaria de fazer algumas perguntas, mas n�o sabia por onde come�ar. Por fim, deixou-se cair no sof� e balan�ou a cabe�a.</p><p>� Mikael, o que aconteceu em Hedestad?</p><p>Lisbeth Salander levantou vivamente a cabe�a. Mikael ficou em sil�ncio por um longo tempo. Respondeu fazendo outra pergunta.</p><p>� Como est� se entendendo com Harriet Vanger?</p><p>� Bem, eu acho. Estive com ela duas vezes. Christer e eu fomos a Hedestad na semana passada para uma reuni�o do conselho administrativo. Exageramos um pouco no vinho, ficamos bem embriagados.</p><p>� E como foi a reuni�o?</p><p>� Harriet cumpre suas promessas.</p><p>� Ricky, sei que voc� est� frustrada de ver que estou me esquivando e inventando pretextos para n�o falar. Nunca tivemos segredos um para o outro e, de repente, tenho seis meses da minha vida que... n�o consigo te contar.</p><p>Erika olhou Mikael bem nos olhos. Conhecia-o de cor, mas o que viu em seus olhos era algo completamente novo. Ele parecia suplicar, implorar que ela n�o perguntasse. Ela abriu a boca e olhou para ele totalmente desamparada. Lisbeth observava essa conversa muda com um olhar neutro. N�o se intrometeu.</p><p>� Foi t�o catastr�fico assim?</p><p>� Pior. Tenho medo dessa conversa. Prometo te contar, mas passei v�rios meses reprimindo meus sentimentos e deixando meu interesse se voltar todo para Wennerstr�m... Ainda n�o estou inteiramente preparado. Preferiria que Harriet tivesse te contado.</p><p>� O que s�o essas marcas no pesco�o?</p><p>� Lisbeth salvou a minha vida. Se n�o fosse ela, eu estaria morto agora. Erika arregalou os olhos. Ela olhou a mo�a da jaqueta de couro.</p><p>� E agora voc� precisa fazer um acordo com ela. Ela � a nossa fonte. Erika ficou im�vel durante um bom tempo, refletindo. Ent�o fez uma coisa que desconcertou Mikael e chocou Lisbeth, e que surpreendeu a ela pr�pria tamb�m. O tempo todo em que estivera junto � mesa da sala de Mikael, ela sentira o olhar de Lisbeth Salander. Uma mo�a taciturna com vibra��es hostis.</p><p>Erika levantou-se, contornou a mesa e tomou Lisbeth nos bra�os. Lisbeth defendeu-se como uma minhoca sendo enfiada num anzol.</p><empty-line/><p><strong>29. S�BADO 1� DE NOVEMBRO � TER�A-FEIRA 25 DE NOVEMBRO</strong></p><p>Lisbeth Salander navegava no ciberimp�rio de Hans-Erik Wennerstr�m, Estava grudada � tela do computador havia mais de onze horas. A ideia vaga que se materializara num canto inexplorado de seu c�rebro, na �ltima semana em Sandhamn, transformara-se numa atividade obsessiva. Durante quatro semanas, isolou-se em seu apartamento e ignorou todos os chamados de Dragan Armanskij. Passou de doze a quinze horas por dia na frente do monitor e, no resto do tempo em que estava acordada, pensava no mesmo problema.</p><p>Ao longo do m�s, teve contatos espor�dicos com Mikael Blomkvist; ele estava t�o obcecado e ocupado quanto ela com seu trabalho na reda��o da <emphasis>Millennium. </emphasis>Duas ou tr�s vezes por semana conversavam por telefone e ela o mantinha continuamente informado sobre a correspond�ncia de Wennerstr�m e de seus outros neg�cios.</p><p>Pela cent�sima vez, repassou cada detalhe. N�o temia ter esquecido alguma coisa, mas n�o estava certa de haver entendido o que reunia todas aquelas conex�es complexas.</p><p>O imp�rio Wennerstr�m, t�o badalado na m�dia, era um organismo vivo, informe, pulsante, que n�o parava de mudar de apar�ncia. Consistia em t�tulos, a��es, parcerias, juros de empr�stimos, juros de receita, hipotecas, contas, transfer�ncias e uma s�rie de outras opera��es. Uma parte imensa dos ativos estava aplicada em empresas-fantasmas imbricadas umas nas outras.</p><p>As an�lises mais entusiasmadas dos economistas calculavam o valor do grupo Wennerstr�m em mais de novecentos bilh�es de coroas. Era um blefe, ou pelo menos um n�mero muito exagerado. Mas Wennerstr�m certamente n�o tinha do que se queixar. Lisbeth Salander calculou os verdadeiros recursos em noventa ou mesmo cem bilh�es de coroas, o que tamb�m n�o era pouco. Um exame s�rio do grupo exigiria anos. Ao todo, Salander identificou cerca de tr�s mil contas e ativos banc�rios diferentes no mundo inteiro. Wennestr�m dedicava-se � fraude em t�o grande escala que n�o se tratava mais de crime, e sim de neg�cios.</p><p>Em alguma parte desse organismo Wennerstr�miano, havia tamb�m subst�ncia. Tr�s fundos apareciam continuamente na hierarquia. Os ativos suecos eram inatac�veis e aut�nticos e estavam dispon�veis para o exame <emphasis>de </emphasis>todos, com balan�os e auditorias. A atividade americana era s�lida, e um banco em Nova York servia de base para a movimenta��o de todo o dinheiro. Mas o interessante da hist�ria eram as empresas-fantasmas em cantos do mundo como Gibraltar, Chipre e Macau. Wennerstr�m era como um bazar onde se praticava o tr�fico de armas, a lavagem de dinheiro de empresas suspeitas na Col�mbia e de neg�cios muito pouco ortodoxos na R�ssia.</p><p>Uma conta an�nima nas ilhas Caim�s tinha uma particularidade: era controlada pessoalmente por Wennerstr�m e n�o estava conectada �s demais empresas. Algumas fra��es de mil�simo de cada neg�cio feito por Wennerstr�m pingava o tempo todo na conta das ilhas Caim�s atrav�s das empresas-fantasmas.</p><p>Salander trabalhava como que hipnotizada. Contas � <emphasis>clique </emphasis>� e-mails � <emphasis>clique </emphasis>� balan�os � <emphasis>clique. </emphasis>Anotou as �ltimas transfer�ncias. Acompanhou a trajet�ria de uma pequena transa��o do Jap�o a Cingapura, depois para as ilhas Caim�s atrav�s de Luxemburgo. Percebeu seu funcionamento. Ela era como uma parte dos impulsos do ciberespa�o. Min�sculas mudan�as. O �ltimo e-mail, uma breve mensagem que tratava de uma quest�o acess�ria, fora enviado �s dez da noite. O programa de encripta��o PGP era uma piada para ela, que parasitava o computador. Leu claramente a mensagem:</p><p>[Berger parou de correr atr�s de an�ncios. Ela desistiu ou tem outra coisa no bolso? O informante na reda��o confirmou que eles est�o em queda livre, mas parece que contrataram algu�m. Informe-se sobre o que est� havendo. Blomkvist passou as �ltimas semanas escrevendo como um louco em Sandhamn, mas ningu�m sabe o qu�. Ele apareceu na reda��o h� poucos dias. Pode me conseguir as provas do pr�ximo n�mero? HEW.]</p><p>Nada de dram�tico. Ele que fique matutando. � <emphasis>Voc� j� t� fodido, meu caro!</emphasis></p><p>�s cinco e meia ela se desconectou, desligou o computador e procurou outro ma�o de cigarros. Havia bebido cinco Cocas durante a noite, foi pegar uma sexta e instalou-se no sof�. Vestia s� calcinha e camiseta de camuflagem desbotada da Soldier of Fortune Magazine, com os dizeres: <emphasis>Kill them all and let God sort them out. </emphasis>Come�ou a sentir frio e pegou uma manta para se cobrir.</p><p>Sentia-se meio chapada, como se tivesse ingerido algum entorpecente. Fixou o olhar numa l�mpada diante da janela e ficou sem se mexer enquanto seu c�rebro trabalhava sob press�o. Mam�e � <emphasis>clique </emphasis>� irm�zinha � <emphasis>clique </emphasis>� Mimmi � <emphasis>clique </emphasis>� Holger Palmgren. Evil Fingers. E Armanskij. O trabalho. Harriet Vanger. <emphasis>Clique. </emphasis>Martin Vanger. <emphasis>Clique. </emphasis>O taco de golfe. <emphasis>Clique. </emphasis>Dr. Nils Bjurman. <emphasis>Clique. </emphasis>Um monte de detalhes que ela n�o conseguia esquecer nem se tentasse.</p><p>Perguntou-se se Bjurman ainda estaria se despindo diante de uma mulher e, nesse caso, como estaria explicando a tatuagem na barriga. E como faria para n�o tirar a roupa da pr�xima vez que fosse ao m�dico.</p><p>E depois Mikael Blomkvist. <emphasis>Clique.</emphasis></p><p>Ela o considerava um homem bom, em alguns momentos com um complexo de primeiro aluno da classe um pouco exagerado. E, infelizmente, de uma ingenuidade insuport�vel em algumas quest�es morais elementares. Ele tinha uma natureza indulgente e pronta a perdoar, que buscava explica��es e desculpas psicol�gicas para as atitudes dos outros e que jamais entenderia que as feras deste mundo s� conhecem uma linguagem. Ela sentia quase um desconfort�vel instinto de prote��o quando pensava nele.</p><p>N�o se lembrou em que momento adormeceu, mas despertou �s nove da manh� seguinte com torcicolo, a cabe�a apoiada de mau jeito na parede atr�s do sof�. Foi cambaleando para o quarto e voltou a dormir.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Sem d�vida nenhuma, era a reportagem da vida deles. Pela primeira vez em um ano e meio, Erika estava feliz como s� pode estar um propriet�rio de ve�culo que tem um furo sensacional no forno. Ela revisava uma �ltima vez o texto com Mikael, quando Lisbeth Salander o chamou no celular.</p><p>� Esqueci de te dizer que Wennerstr�m est� come�ando a se preocupar com o que voc� andou escrevendo nesse tempo e pediu as provas do pr�ximo n�mero.</p><p>� Como � que voc� soube... Ah, esque�a! Tem ideia do que ele pretende fazer?</p><p>� N�o. Apenas uma suposi��o l�gica. Mikael refletiu alguns instantes.</p><p>� A gr�fica! � exclamou. Erika levantou as sobrancelhas.</p><p>� Se o pessoal da reda��o ficou mesmo de boca fechada, n�o h� muitas outras possibilidades. A menos que um dos capangas dele fa�a uma visita noturna � reda��o.</p><p>Mikael virou-se para Erika.</p><p>� Arranje outra gr�fica para a pr�xima edi��o. Agora. E ligue para Dragan Armanskij: quero vigias noturnos para a semana que vem.</p><p>Ligou de volta para Lisbeth.</p><p>� Obrigado, Sally.</p><p>� Isso vale quanto?</p><p>� O que quer dizer?</p><p>� A informa��o, quanto vale?</p><p>� Quanto quer?</p><p>� Gostaria que discut�ssemos isso tomando um caf�. Agora.</p><empty-line/><p>Encontraram-se no Bar-Caf� na Hornsgatan. Salander tinha um ar t�o s�rio que Mikael, ao sentar-se no banquinho ao lado dela, sentiu uma certa inquieta��o. Como sempre, ela foi direto ao ponto.</p><p>� Preciso de um dinheiro emprestado.</p><p>Mikael exibiu um de seus sorrisos mais retardados e puxou a carteira.</p><p>� Claro. Quanto quer?</p><p>� Cento e vinte mil coroas.</p><p>� Uau! � Rep�s a carteira no bolso. � N�o tenho tanto assim comigo.</p><p>� N�o estou brincando. Preciso de um empr�stimo de cento e vinte mil coroas por... digamos, seis semanas. Surgiu uma oportunidade de investimento, mas n�o tenho a quem recorrer. Voc� tem uma conta com cento e quarenta mil coroas no momento. Devolverei o dinheiro.</p><p>Mikael n�o comentou nada sobre Lisbeth ter quebrado o sigilo banc�rio de sua conta e descoberto quanto dinheiro ele tinha. Ele acessava o banco pela internet e a resposta era evidente.</p><p>� N�o precisa me pedir dinheiro emprestado � ele respondeu. � Ainda n�o discutimos a sua parte, mas ela � bem maior do que esse empr�stimo que est� querendo.</p><p>� Que parte?</p><p>� Sally, tenho honor�rios insanos para receber de Henrik Vanger e vamos acertar isso no final do ano. Sem voc� eu estaria morto e a <emphasis>Millennium </emphasis>teria afundado. Pretendo dividir meu pagamento com voc�. Meio a meio.</p><p>Lisbeth Salander o examinou com o olhar. Havia uma ruga em sua testa. Mikael j� estava se habituando com essas pausas silenciosas. Por fim ela balan�ou a cabe�a.</p><p>� N�o quero o seu dinheiro.</p><p>� Mas...</p><p>� N�o quero uma �nica coroa. � Ela sorriu de esguelha, de repente. � A menos que elas venham sob a forma de um presente de anivers�rio.</p><p>� Agora � que me dei conta que n�o sei quando � o seu anivers�rio.</p><p>� O jornalista � voc�. Descubra.</p><p>� Sinceramente, Sally, estou falando s�rio quando digo que quero dividir o dinheiro com voc�.</p><p>� Eu tamb�m estou falando s�rio. N�o quero o seu dinheiro. Quero as cento e vinte mil coroas emprestadas, e preciso delas para amanh�.</p><p>Mikael Blomkvist calou-se. <emphasis>Ela nem quer saber qual � o valor da sua parte.</emphasis></p><p>� Sally, irei hoje ao banco com voc� e emprestarei o que voc� me pede. Mas no fim do ano teremos uma outra conversa sobre a sua parte. � Ele levantou a m�o. � Por falar nisso, quando � o seu anivers�rio?</p><p>� Trinta de abril � ela respondeu. � N�o � perfeito? Sempre saio com uma vassoura entre as pernas para festejar com as feiticeiras a noite de santa Walpurgis.</p><p>Ela aterrissou em Zurique �s sete e meia da noite e tomou um t�xi at� o hotel Matterhorn. Havia feito uma reserva sob o nome de Irene Nesser e apresentou um passaporte noruegu�s com esse nome. Irene Nesser tinha cabelos louros um pouco compridos. Ela comprara a peruca em Estocolmo e utilizara dez mil coroas do empr�stimo de Mikael Blomkvist para adquirir dois passaportes atrav�s de seus contatos obscuros com a rede internacional de Praga.</p><p>Subiu para o seu quarto, trancou a porta e se despiu. Estendeu-se na cama e ficou olhando para o teto do quarto, cuja di�ria era de mil e seiscentas coroas. Sentiu-se vazia. J� havia gasto a metade da quantia que Mikael emprestara e, embora tivesse juntado o que tinha em sua pr�pria poupan�a, seu or�amento era estreito. Parou de pensar e adormeceu imediatamente.</p><p>Despertou pouco depois das cinco da manh�. Primeiro tomou um banho e depois passou um bom tempo camuflando a tatuagem do pesco�o com uma espessa camada de base e p�. O segundo item da lista era uma hora marcada num sal�o de beleza, no sagu�o de um hotel consideravelmente bem mais caro, �s seis e meia. Comprou mais uma peruca loura, com franja reta, depois foi � manicure para aplicar falsas unhas vermelhas sobre suas unhas ro�das, falsos c�lios, mais p�, <emphasis>blush, </emphasis>batom e outros embelezamentos. Custo: um pouco mais de oito mil coroas.</p><p>Pagou com um cart�o de cr�dito de Ver�nica Sholes e apresentou como identidade um passaporte ingl�s com esse nome.</p><p>A parada seguinte foi na <emphasis>Camille's House of Fashion</emphasis>, cento e cinquenta metros adiante. Uma hora depois, saiu vestida com botas pretas, saia cor de areia combinando com a blusa, casaco curto e boina. Apenas pe�as caras, de grife. Teve o cuidado de deixar que a vendedora escolhesse as roupas. Comprou ainda uma luxuosa maleta de couro e uma bolsa de m�o Samsonite. Para completar, brincos discretos e uma corrente de ouro ao redor do pesco�o. O cart�o de cr�dito acusou um d�bito de quarenta e quatro mil coroas.</p><p>Pela primeira vez na vida, Lisbeth Salander tinha tamb�m um busto que, quando se olhou no espelho da porta, a fez perder a respira��o. Os seios eram t�o falsos como a identidade de Ver�nica Sholes. Eram de borracha e tinham sido comprados numa loja de Copenhague frequentada por travestis.</p><p>Lisbeth Salander estava pronta para o combate.</p><p>Pouco depois das nove, ela caminhou duas quadras at� o respeit�vel hotel Zimmertal, onde reservara um quarto em nome de Ver�nica Sholes. Deu o equivalente a cem coroas de gorjeta a um rapaz que carregou a maleta que acabara de comprar e onde estava sua sacola de viagem. A su�te era pequena e a di�ria era de apenas vinte e duas mil coroas. Ela fizera a reserva para uma noite. Quando ficou sozinha, olhou ao redor. A janela oferecia uma vista espl�ndida para o lago de Zurique, o que n�o a interessou nem um pouco. Passou os cinco minutos seguintes examinando-se, de olhos arregalados, num espelho. Via uma pessoa totalmente diferente. Ver�nica Sholes, de peitos generosos e cabelos com franja reta, tinha mais maquiagem no rosto que a que Lisbeth usaria em um m�s. Ela parecia... diferente.</p><p>�s nove e meia, desceu ao bar do hotel para tomar o caf�-da-manh�, que consistiu em duas x�caras de caf� e um <emphasis>bagel </emphasis>com gel�ia. Custo: duzentas e dez coroas. <emphasis>Mas n�o s�o mesmo doidas as pessoas que pagam isso?</emphasis></p><p><emphasis/></p><p><emphasis/></p><p>Pouco antes das dez da manh�, Ver�nica Sholes pousou sua x�cara de caf� na mesa, pegou seu telefone celular e digitou um n�mero que a conectava ao Hava�. Depois de tr�s chamadas, ouviu um sinal que confirmava a conex�o via modem. Ver�nica Sholes respondeu digitando um c�digo de seis algarismos no celular e enviou uma mensagem de texto com a instru��o para que fosse aberto um programa que Lisbeth Salander havia preparado exatamente para essa finalidade.</p><p>Em Honolulu, o programa foi acionado num site an�nimo de um servidor formalmente situado na universidade. O programa era simples. Sua �nica fun��o consistia em enviar instru��es que abriam outro programa em outro servidor, no caso um site comercial muito conhecido que oferecia servi�os pela internet na Holanda. Esse programa, por sua vez, tinha como tarefa procurar o disco r�gido espelhado de Hans-Erik Wennerstr�m e assumir o comando do programa que gerenciava o conte�do de mais de tr�s mil contas banc�rias no mundo inteiro.</p><p>Somente uma apresentava algum interesse. Lisbeth Salander observara que Wennerstr�m verificava essa conta duas ou tr�s vezes por semana. Se ele fosse buscar justamente esse arquivo em seu computador, tudo pareceria normal. O programa assinalava pequenas mudan�as esperadas, calculadas segundo a evolu��o da conta nos �ltimos seis meses. Se Wennerstr�m entrasse na conta nas pr�ximas quarenta e oito horas e emitisse ordens de pagamento ou de transfer�ncia, o programa registraria obedientemente esses pedidos. Mas na verdade a mudan�a ocorreria apenas no disco r�gido espelhado na Holanda.</p><p>Ver�nica Sholes desligou seu celular no momento em que ouviu quatro breves sinais confirmando que o programa fora acionado.</p><p>Ela deixou o Zimmertal e foi at� o Bank Hauser General, em frente ao hotel, onde havia marcado um encontro com um certo Herr Wagner, diretor, �s dez da manh�. Chegou tr�s minutos antes e utilizou esse tempo de espera para ficar bem em frente � c�mera de seguran�a, que a fotografou quando ela se dirigiu �s salas de consultas privadas.</p><p>�Estou precisando de ajuda para algumas transa��es � disse Ver�nica Sholes num impec�vel ingl�s de Oxford. Quando abriu sua pasta de documentos, deixou cair sem querer uma caneta com o logotipo do hotel Zimmerhil, que indicava que ela estava hospedada l�. O diretor Wagner gentilmente pegou a caneta e lhe devolveu. Ela lan�ou-lhe um sorriso malicioso e anotou o n�mero da conta num bloco colocado � sua frente na mesa.</p><p>O diretor Wagner a examinou rapidamente e a classificou como a filha mimada de algum rica�o.</p><p>� S�o algumas contas no Banco de Kroenenfeld nas ilhas Caim�s. Transfer�ncia autom�tica mediante c�digos de compensa��o banc�ria.</p><p>� <emphasis>Fr�ulein </emphasis>Sholes, imagino que a senhorita tenha todos os c�digos de compensa��o...</p><p>� <emphasis>Aber nat�rlich </emphasis>� ela respondeu, com um sotaque t�o pronunciado que ficou evidente seu conhecimento m�nimo do alem�o.</p><p>Ela come�ou a recitar s�ries de n�meros de dezesseis algarismos sem recorrer ao papel uma �nica vez. O diretor Wagner viu que a manh� ia ser trabalhosa, mas por quatro por cento sobre as transfer�ncias estava disposto a atrasar o almo�o.</p><p>Levou mais tempo do que ela previa. E somente depois do meio-dia, um pouco atrasada em seus hor�rios, � que Ver�nica Sholes deixou o Bank Hauser General para retornar ao hotel Zimmertal. Exibiu-se na recep��o antes de subir ao quarto e tirar as roupas que acabara de comprar. Conservou os seios de borracha, mas substituiu a peruca pela de cabelos louros mais compridos de Irene Nesser. Vestiu roupas mais familiares: botas de salto alto, cal�a preta, uma blusa e uma elegante jaqueta de couro comprada na Malungsboden, em Estocolmo. Examinou-se no espelho. Sua apar�ncia continuava bem-cuidada, mas sem sinais da herdeira rica. Antes de deixar o quarto, Irene Nesser contou algumas deb�ntures, que acomodou numa pequena pasta.</p><p>� uma e cinco da tarde, com alguns minutos de atraso, entrou no Bank Dorffmann, situado a cerca de setenta metros do Bank Hauser General. Irene Nesser marcara um encontro com um certo Herr Hasselmann, diretor. Desculpou-se pelo atraso num alem�o perfeito com sotaque noruegu�s.</p><p>� N�o h� problema, <emphasis>Fr�ulein </emphasis>� disse o diretor Hasselmann. � Em que posso ajud�-la?</p><p>� Gostaria de abrir uma conta. Tenho algumas deb�ntures que desejo resgatar.</p><p>Irene Nesser p�s a pasta em cima da mesa.</p><p>O diretor Hasselmann percorreu o conte�do, primeiro bem depressa, depois mais e mais devagar. Levantou uma sobrancelha e sorriu educadamente.</p><p>Ela abriu cinco contas que podia movimentar pela internet e cujo titular era uma empresa-fantasma particularmente an�nima em Gibraltar, que um intermedi�rio local abrira para ela mediante cinquenta mil coroas emprestadas de Mikael Blomkvist. Ela converteu cinquenta deb�ntures em dinheiro, que foi depositado nas contas. Cada deb�nture tinha o valor de um milh�o de coroas.</p><p>Seus neg�cios no Bank Dorffmann demoraram muito tempo e ela se atrasou ainda mais no seu cronograma. N�o teria tempo para concluir as demais opera��es antes do fechamento dos bancos no dia. Irene Nesser voltou ent�o ao hotel Matterhorn, onde passou uma hora exibindo-se e marcando presen�a. Mas estava com dor de cabe�a e em seguida se retirou. Comprou analg�sicos na recep��o, pediu para ser acordada �s oito da manh� seguinte e voltou ao quarto.</p><p>Eram quase cinco da tarde e todos os bancos da Europa j� estavam fechados. No continente americano, por�m, os bancos acabavam de abrir. Ela p�s seu Powerbook para funcionar e conectou-se � internet pelo celular. Passou uma hora esvaziando as contas rec�m-abertas no Bank Dorffmann.</p><p>O dinheiro foi dividido em partes e utilizado para pagar faturas de um grande n�mero de empresas-fantasmas no mundo inteiro. Quando terminou, o dinheiro fora curiosamente transferido de novo para o Bank of Kroenenfeld nas ilhas Caim�s, mas desta vez numa conta diferente daquela de onde sa�ra mais cedo naquele mesmo dia.</p><p>Irene Nesser considerou que essa primeira etapa estava segura e que era quase imposs�vel de ser rastreada. Fez uma �nica retirada dessa conta; um pouco mais de um milh�o de coroas foi transferido para uma conta vinculada a um cart�o de cr�dito que ela utilizava. O titular da conta era uma sociedade an�nima com o nome Wasp Enterprises, registrada em Gibraltar.</p><p>Alguns minutos depois, uma loura de franja deixou o Mattherhorn por uma porta lateral do bar do hotel. Ver�nica Sholes foi ao hotel Zimmertal, cumprimentou o recepcionista com um educado gesto de cabe�a, pegou o elevador e subiu at� seu quarto.</p><p>Dedicou-se ent�o a vestir o uniforme de combate de Ver�nica Sholes, refazendo a maquiagem e pondo uma camada suplementar de base sobre a tatuagem, antes de descer ao restaurante do hotel para comer um delicioso peixe. Pediu uma garrafa de vinho do Porto do qual nunca ouvira falar mas que custava mil e duzentas coroas, bebeu apenas um copo e deixou negligentemente o resto, antes de dirigir-se ao bar do hotel. Distribuiu quinhentas coroas de gorjeta, o que lhe valeu a aten��o dos atendentes.</p><p>Passou tr�s horas flertando com um jovem italiano b�bado, com um nome aristocr�tico que ela nem se deu o trabalho de guardar. Dividiram duas garrafas de champanhe, das quais ela consumiu apenas um copo.</p><p>Por volta das onze da noite, o sedutor de bigodes inclinou-se e apalpou seus seios sem o menor constrangimento. Satisfeita, ela afastou sua m�o. Ele parecia n�o ter notado que apalpara seios de borracha. Em v�rios momentos, comportaram-se de maneira bastante indiscreta para causar uma certa indigna��o nos outros h�spedes. Pouco antes da meia-noite, notando que o seguran�a come�ava a ficar de olho neles, Ver�nica Sholes ajudou seu amigo italiano a subir ao quarto dele.</p><p>Enquanto ele estava no banheiro, serviu-lhe um �ltimo copo de vinho tinto. Abriu um saquinho de papel e adicionou ao vinho uni comprimido de son�fero triturado. Ele bebeu e, um minuto depois, jazia de bru�os sobre a cama. Ela desatou-lhe o n� da gravata, tirou seus sapatos, lavou os copos no banheiro e os enxugou. Ent�o deixou o quarto.</p><p>No dia seguinte, Ver�nica Sholes tomou o caf�-da-manh� em seu quarto �s seis, deixou uma gorjeta generosa, pagou a conta e foi embora do Zirnmertal quando n�o eram ainda sete horas. Antes de deixar o quarto, passou cinco minutos apagando as impress�es digitais em ma�anetas de porta, arm�rios, pia do banheiro, aparelho de telefone e em outros objetos que havia tocado.</p><p>Irene Nesser fechou sua conta no hotel Matterhorn por volta das oito e meia, pouco depois de acordar. Tomou uni t�xi e deixou suas malas num guarda-volumes da esta��o ferrovi�ria. Passou as horas seguintes indo a nove bancos, nos quais depositou partes das deb�ntures das ilhas Caim�s. �s tr�s da tarde, havia convertido cerca de dez por cento das debentures em dinheiro, depositado em cerca de trinta contas. Guardou o restante dos t�tulos num cofre banc�rio.</p><p>Irene Nesser teria de voltar a Zurique, mas n�o havia pressa.</p><p>�s quatro e meia, Irene Nesser tomou um t�xi at� o aeroporto. Foi ao banheiro e com uma tesoura destruiu o passaporte e o cart�o de cr�dito de Ver�nica Sholes, fazendo-os sumir com a descarga de �gua na privada. Jogou a tesoura num cesto de lixo. Depois do 11 de setembro de 2001, n�o era aconselh�vel chamar a aten��o com objetos pontiagudos na bagagem de m�o.</p><p>Irene Nesser embarcou no voo CD 890 da Lufthansa para Oslo, depois pegou um �nibus at� a esta��o ferrovi�ria central da cidade, onde foi ao banheiro fazer uma triagem de suas roupas. P�s todos os pertences da personagem Ver�nica Sholes � a peruca e as roupas de grife � em tr�s sacos pl�sticos, que jogou em diferentes lixeiras da esta��o. Deixou a bolsa Samsonite, vazia, num compartimento aberto do guarda-volumes. A corrente de ouro e os brincos eram objetos de <emphasis>designer </emphasis>cuja pista poderia ser seguida; ela os fez sumir numa boca de lobo.</p><p>Ap�s um momento de uma angustiada hesita��o, Irene Nesser decidiu conservar os seios falsos de borracha.</p><p>Dispondo de pouco tempo, fez um lanche r�pido, um hamb�rguer no McDonald's, enquanto transferia o conte�do da luxuosa maleta de couro para sua sacola de viagem. Ao sair, deixou a maleta vazia em cima da mesa. Comprou um copo de <emphasis>caff� latte </emphasis>num quiosque e correu para pegar o trem noturno com destino a Estocolmo bem no momento em que anunciavam a partida. Havia reservado uma cabine no vag�o-leito.</p><p>S� depois que trancou a porta da cabine � que sentiu sua adrenalina baixar a um n�vel normal pela primeira vez em dois dias. Abriu a janela e, desrespeitando a proibi��o de fumar, acendeu um cigarro para acompanhar o caf� enquanto o trem se afastava de Oslo.</p><p>Repassou mentalmente sua <emphasis>cheklist, </emphasis>para ter certeza de que n�o esquecera nenhum detalhe. Um momento depois, franziu o cenho e tateou os bolsos da jaqueta. Tirou de l� a caneta do hotel Zimmertal, avaliou-a pensativamente por um minuto ou dois e em seguida jogou-a pela janela.</p><p>Quinze minutos depois, esticou-se no leito e dormiu quase instantaneamente.</p><empty-line/></section><section><p><strong>EP�LOGO: ACERTO DE CONTAS - QUINTA-FEIRA 27 DE NOVEMBRO A TER�A-FEIRA 30 DE DEZEMBRO</strong></p><p>A edi��o tem�tica da <emphasis>Millennium </emphasis>sobre Hans-Erik Wennerstr�m tinha quarenta e seis p�ginas e caiu como uma bomba na �ltima semana de novembro. A mat�ria principal era assinada por Mikael Blomkvist e Erika Berger. Nas primeiras horas, a imprensa n�o soube muito bem como lidar com esse furo; um texto do mesmo g�nero, publicado um ano antes, condenara Mikael Blomkvist a uma pena de pris�o por difama��o e ocasionara seu aparente afastamento da revista <emphasis>Millennium. </emphasis>Sua credibilidade, portanto, era bastante fr�gil. E eis que o mesmo jornalista voltava na mesma revista com uma hist�ria carregada de acusa��es bem mais pesadas que o texto pelo qual fora condenado. O conte�do parecia �s vezes t�o absurdo que alguns suspeitaram da sa�de mental dos autores. Assim, a imprensa sueca permaneceu desconfiada e na expectativa.</p><p>Mas, no come�o da noite, o programa <emphasis>Ela, </emphasis>da TV4, mostrou seus trunfos, resumindo em onze minutos os pontos fortes das acusa��es de Blomkvist. Erika Berger almo�ara com a apresentadora do programa dias antes e lhe apresentara as provas com exclusividade.</p><p>O furo dado pela TV4 eclipsou as tev�s p�blicas, que s� mencionaram as informa��es nos notici�rios das nove da noite. A TT emitiu um primeiro comunicado, prudentemente intitulado: "Jornalista condenado acusa financista de crimes graves". O texto retomava o essencial da reportagem da TV4, mas o fato de a TT abordar o assunto desencadeou uma atividade febril nas reda��es do jornal matutino conservador e de uma d�zia de outros grandes di�rios da prov�ncia, que decidiram modificar �s pressas sua primeira p�gina antes que as rotativas come�assem a rodar. At� ent�o os jornais haviam mais ou menos decidido ignorar as acusa��es da <emphasis>Millennium.</emphasis></p><p>O jornal matutino liberal comentou o furo da <emphasis>Millennium </emphasis>num editorial escrito pelo pr�prio redator-chefe na mesma tarde. Esse redator compareceu depois a um jantar no momento em que iam ao ar as informa��es da TV4 e ignorou os insistentes apelos de seu secret�rio de reda��o � para quem "podia haver alguma coisa" nas afirma��es de Blomkvist � com uma frase que ficaria famosa: "Bobagem, nossos rep�rteres de economia j� teriam descoberto isso h� muito tempo". Resultado: seu jornal foi a �nica voz na m�dia do pa�s a negar totalmente as afirma��es da <emphasis>Millennium. </emphasis>O editorial continha express�es como <emphasis>persegui��o pessoal, imprensa marrom, atitude </emphasis>criminosa, e reclamava <emphasis>medidas contra os que lan�am afirma��es contr�rias � lei e atacam cidad�os honestos. </emphasis>Mas foi a �nica contribui��o desse redator-chefe ao debate que come�aria a seguir.</p><p>Ningu�m arredou p� da reda��o da <emphasis>Millennium </emphasis>� noite. Estava previsto que apenas Erika Berger e Maln Eriksson, a nova secret�ria de reda��o, ficariam para atender eventuais chamados. Mas �s nove da noite todos os colaboradores ainda estavam por ali, al�m de quatro ex-associados e meia d�zia de <emphasis>freelancers </emphasis>fi�is. Por volta da meia-noite, Christer Malm abriu uma garrafa de champanhe, depois que um velho amigo de um jornal vespertino lhe passou uma primeira c�pia de um dossi� de dezesseis p�ginas dedicado ao caso Wennerstr�m sob o t�tulo "A m�fia das finan�as". Quando os jornais vespertinos sa�ram no dia seguinte, uma investiga��o sem precedente havia come�ado na m�dia.</p><p>A secret�ria de reda��o Malu Eriksson concluiu que ia se divertir muito na <emphasis>M�llennium.</emphasis></p><p><emphasis/></p><p><emphasis/></p><p>Nos dias seguintes, a Bolsa da Su�cia tremeu quando o departamento de pol�cia especializado em crimes financeiros come�ou a se envolver no caso, com procuradores sendo chamados para participar do inqu�rito, e uma lufada de p�nico desencadeou uma onda de vendas. Dois dias ap�s a den�ncia, o caso Wennerstr�m transformou-se em assunto governamental, obrigando o ministro da Ind�stria a se pronunciar.</p><p>A investiga��o n�o significou que a m�dia engoliu as den�ncias da <emphasis>Millennium </emphasis>sem questionamento � eram revela��es s�rias demais para isso. Mas, diferentemente do primeiro caso Wennerstr�m, desta vez a <emphasis>Millennium </emphasis>respaldou seu dossi� com provas muito consistentes: o correio eletr�nico pessoal de Wennerstr�m e c�pias do conte�do de seu computador, com movimentos de fundos secretos nas ilhas Caim�s e em vinte e tantos outros pa�ses, acordos sigilosos e outros disparates que um criminoso mais prudente jamais teria deixado no disco r�gido de seu computador. Ficou rapidamente estabelecido que, se as afirma��es da <emphasis>Millennium </emphasis>fossem levadas � Corte Suprema � e todos concordavam que cedo ou tarde o caso acabaria chegando l� �, seria sem d�vida nenhuma a maior bomba a explodir no mundo sueco das finan�as desde o colapso financeiro de Kreuger em 1932. Em compara��o com o caso Wennerstr�m, as negociatas do Banco Gota e <emphasis>a </emphasis>fraude de Trustor pareciam amenas. Tratava-se agora de um crime de dimens�es t�o amplas que ningu�m ousava sequer especular sobre o n�mero de infra��es � lei que ele implicava.</p><p>Pela primeira vez no jornalismo econ�mico sueco foram usadas express�es tais como <emphasis>criminalidade sistem�tica, m�fia e reinado de g�ngsteres. </emphasis>Wennerstr�m e seu c�rculo de jovens corretores, associados e advogados em traje Armani foram comparados a um bando qualquer de assaltantes de banco ou traficantes de droga.</p><p>Durante os primeiros dias da investiga��o na m�dia, Mikael Blomkvist permaneceu invis�vel. N�o respondia a e-mails nem atendia telefone. Todas as declara��es foram dadas por Erika Berger, que ronronava como um gato ao ser entrevistada por representantes das principais m�dias do pa�s, por jornais de prov�ncias importantes e, aos poucos, tamb�m pela imprensa internacional. Sempre que lhe perguntavam como a <emphasis>Millennium </emphasis>tivera acesso �quela documenta��o interna altamente privada, ela respondia com um sorriso misterioso que se transformava depressa em cortina de fuma�a: "N�o podemos, evidentemente, revelar nossas fontes".</p><p>Quando lhe perguntavam por que a den�ncia do ano anterior contra Wennerstr�m fora um fiasco, ela se mostrava ainda mais enigm�tica. N�o mentia, mas tamb�m n�o dizia toda a verdade. <emphasis>Off the record, </emphasis>quando n�o tinha um microfone sob o nariz, deixava escapar algumas frases impenetr�veis que, quando ligadas entre si, incitavam a conclus�es apressadas. Assim, surgiu um boato que logo adquiriu propor��es legend�rias, segundo o qual Mikael Blomkvist n�o se defendera no processo e deixara-se voluntariamente condenar a uma pena de pris�o para proteger a sua fonte. Ele foi comparado a modelos da m�dia americana que preferem a pris�o a ter que revelar uma fonte, e descreveram-no como um her�i em termos t�o lisonjeiros que ele se aborreceu. Mas n�o era momento de desmentir mal-entendidos.</p><p>Todos concordavam sobre uma coisa: a pessoa que passara as informa��es era certamente algu�m do c�rculo mais �ntimo de confian�a de Wennerstr�m. Assim teve in�cio um debate paralelo intermin�vel para saber quem seria o "Garganta Profunda". Colaboradores descontentes, advogados, e mesmo a filha viciada em coca�na de Wennerstr�m e outros membros de sua fam�lia foram apontados como poss�veis informantes. Nem Mikael Blomkvist nem Erika Berger disseram nada. Nunca comentavam o assunto.</p><p>Erika exibiu um grande sorriso de satisfa��o e soube que eles haviam ganhado quando um dos jornais vespertinos, no terceiro dia da investiga��o, deu a manchete "A revanche da <emphasis>Millennium". </emphasis>O texto apresentava uma imagem muito positiva da revista e de seus colaboradores e era ilustrado com uma foto em que Erika aparecia muito bem. Ela era chamada de a rainha do jornalismo investigativo. Isso significava pontos na hierarquia das personalidades colun�veis e j� se cogitava no Grande Pr�mio de Jornalismo.</p><p>Cinco dias depois de a <emphasis>Millennium </emphasis>ter disparado a primeira salva de canh�o, o livro de Mikael Blomkvist, O <emphasis>banqueiro da m�fia, </emphasis>chegou �s livrarias. O livro, escrito durante os dias febris em Sandhamn nos meses de setembro e outubro, fora impresso a toque de caixa e no maior sigilo pela Hallvigs Reklam em Morgongava, uma gr�fica de folhetos: publicit�rios. Era o primeiro livro lan�ado por uma nova editora que trazia o logotipo Millennium. A dedicat�ria era misteriosa: A <emphasis>Sally, que me apresentou aos benef�cios do golfe.</emphasis></p><p>Tratava-se de um calhama�o de seiscentas e quinze p�ginas em formato de bolso. A pequena tiragem de dois mil exemplares antevia um lan�amento a fundo perdido, mas a primeira edi��o esgotou-se em poucos dias e Erika rapidamente providenciou uma reimpress�o de mais dois mil exemplares.</p><p>Os cr�ticos constataram que desta vez Mikael Blomkvist n�o havia economizado muni��o no que se referia � divulga��o de suas fontes, e nisso tinham toda a raz�o. Dois ter�os do livro eram dedicados a anexos, com c�pias diretas da documenta��o proveniente do computador de Wennerstr�m. Juntamente com a publica��o do livro, a <emphasis>Millennium </emphasis>disponibilizou em seu site trechos dessas p�ginas sob forma de dados que podiam ser baixados no formato PDF. Qualquer um que se interessasse podia ter acesso a esses dados.</p><p>A estranha aus�ncia de Mikael Blomkvist fazia parte da estrat�gia de m�dia que Erika e ele haviam montado. Todos os jornais do pa�s o procuravam. Para o lan�amento do livro, por�m, Mikael concedeu uma entrevista exclusiva ao programa <emphasis>Ela </emphasis>da TV4, que mais uma vez saiu na frente das tev�s p�blicas. N�o se tratava, por�m, de uma conversa entre amigos, e as perguntas foram tudo menos obsequiosas.</p><p>Ao assistir ao v�deo da entrevista, Mikael ficou particularmente satisfeito com seu desempenho numa troca de r�plicas. A entrevista fora realizada ao vivo no momento em que a Bolsa de Estocolmo estava em queda livre e jovens arrivistas do mundo financeiro amea�avam se jogar pela janela. Perguntaram-lhe sobre a responsabilidade da <emphasis>Millennium </emphasis>no naufr�gio da economia sueca que ocorria naquele momento.</p><p>� Afirmar que a economia da Su�cia est� naufragando � um contra-senso � respondeu Mikael sem pestanejar.</p><p>A entrevistadora da TV4 mostrou-se perplexa. A resposta n�o seguia o esquema previsto e ela foi obrigada a improvisar. A pergunta seguinte foi exata-mente a que Mikael esperava: "Estamos passando pelo maior desastre individual da hist�ria da Bolsa sueca e o senhor afirma que � um contra-senso?".</p><p>� Veja, n�o podemos misturar estas duas coisas: a economia sueca e o mercado da Bolsa sueca. A economia sueca � a soma de todas as mercadorias e de todos os servi�os produzidos neste pa�s diariamente. S�o os telefones da Ericsson, os ve�culos da Volvo, os frangos da Scan e os transportes mar�timos de Kiruna a Sk�vde. Essa � a economia sueca, e hoje ela continua t�o forte ou t�o fraca quanto uma semana atr�s.</p><p>Fez uma pausa ret�rica e bebeu um gole de �gua.</p><p>� A Bolsa � algo bem diferente. Nela n�o h� economia, nenhuma produ��o de mercadorias ou de servi�os. H� somente fantasias nas quais, de uma hora para outra, decide-se que essa ou aquela empresa vale alguns bilh�es a mais ou a menos. Isso n�o tem nada a ver com a realidade nem com a economia sueca.</p><p>� Quer dizer ent�o que n�o tem a menor import�ncia que a Bolsa esteja cm plena queda livre?</p><p>� Isso mesmo, n�o tem a menor import�ncia � respondeu Mikael com uma voz t�o cansada e resignada que ele parecia uma esp�cie de or�culo. Sua frase seguinte seria citada mais de uma vez ao longo do ano. Ele prosseguiu: � Significa apenas que os grandes especuladores est�o transferindo suas aplica��es financeiras em empresas suecas para empresas alem�s. Se comportam como as hienas das finan�as que um rep�rter um pouco mais corajoso deveria saber identificar e levar ao pelourinho como traidores da p�tria. S�o eles que, de forma sistem�tica e deliberada, minam a economia sueca para satisfazer os interesses de seus clientes.</p><p>Em seguida, a entrevistadora da TV4 cometeu o erro de fazer exatamente a pergunta que Mikael desejava ouvir.</p><p>� Ent�o est� querendo dizer que a m�dia n�o tem nenhuma responsabilidade?</p><p>� Ao contr�rio, a m�dia tem uma enorme responsabilidade. Durante pelo menos vinte anos, um grande n�mero de jornalistas econ�micos se omitiu de examinar o caso Hans-Erik Wennerstr�m. Em vez disso, esses jornalistas ajudaram a construir o prest�gio dele atrav�s de retratos id�latras e delirantes. Se tivessem trabalhado corretamente durante todos esses anos, n�o estar�amos nessa situa��o hoje.</p><p>Sua apari��o significou uma mudan�a de atitude. Erika foi percebendo que somente no instante em que Mikael defendia calmamente suas acusa��es na televis�o � que a imprensa sueca ia entendendo, embora a <emphasis>Millennium </emphasis>figurasse nas manchetes havia uma semana, que a hist�ria era consistente e que as alega��es da revista eram de fato reais. A atitude dele determinou o rumo da hist�ria.</p><p>Depois dessa entrevista, o caso Wennerstr�m passou imperceptivelmente da �rea de economia para a da reportagem policial. Houve tamb�m uma mudan�a na maneira de pensar da imprensa. Antes, os rep�rteres policiais raramente, ou nunca, escreviam sobre crimes econ�micos, exceto para falar da m�fia russa ou dos contrabandistas de cigarros iugoslavos. N�o se esperava que rep�rteres policiais investigassem as opera��es escusas da Bolsa. Um jornal vespertino chegou a levar ao p� da letra o que Mikael havia dito e abriu duas p�ginas duplas com fotos de um dos corretores mais importantes de ag�ncias financeiras adquirindo t�tulos alem�es. A manchete do jornal: "Eles est�o vendendo o pa�s". Os corretores foram convidados a comentar as acusa��es. Todos se recusaram. Mas o volume de transa��es diminuiu consideravelmente nesse dia e alguns corretores desejosos de parecer progressistas come�aram a remar contra a corrente. Mikael Blomkvist divertia-se a valer.</p><p>A press�o foi t�o forte que homens s�rios de terno escuro assumiram um ar grave e pecaram contra a regra n�mero um do c�rculo mais fechado das finan�as suecas � pronunciaram-se sobre um colega. De repente, dirigentes aposentados da Volvo, industriais e diretores de banco apareceram na tev� respondendo �s perguntas e tentando diminuir os preju�zos. Todos admitiam a gravidade da situa��o e queriam se distanciar o mais r�pido poss�vel do grupo Wennerstr�m, desembara�ando-se de suas a��es. Wennerstr�m (eles constataram quase por unanimidade) n�o era um verdadeiro industrial e nunca fora inteiramente aceito no "clube". Algu�m lembrou que, no fundo, era apenas um filho de oper�rio do Norrland que talvez tivesse se deixado levar pelo sucesso. Outro descreveu suas a��es como <emphasis>uma trag�dia pessoal. </emphasis>N�o faltou quem dissesse que sempre duvidara de Wennerstr�m � era muito arrogante e mal-educado.</p><p>Nas semanas seguintes, � medida que os documentos que a <emphasis>Millennium </emphasis>apresentara eram examinados com lupa e o quebra-cabe�a remontado, foi estabelecida a liga��o entre o imp�rio wernnerstr�miano de empresas obscuras e a m�fia internacional, que englobava tudo, desde o tr�fico de armas e a lavagem de dinheiro vindo do tr�fico sul-americano de drogas at� a prostitui��o em Nova York e at� mesmo, indiretamente, o com�rcio sexual de crian�as no M�xico. Uma empresa de Wennerstr�m sediada em Chipre suscitou uma indigna��o colossal quando se divulgou que ela havia tentado comprar ur�nio enriquecido no mercado negro da Ucr�nia. Por toda parte, uma ou outra das in�meras empresas-fantasmas de Wennerstr�m parecia surgir num contexto nebuloso.</p><p>Erika Berger constatou que o livro sobre Wennerstr�m era o que Mikael j� havia escrito de melhor. O estilo era desigual e a pr�pria linguagem era pobre em alguns momentos � ele n�o tivera tempo de cuidar da forma �, mas Mikael dava o troco e o livro inteiro era movido por uma raiva que seria for�osamente percebida por qualquer leitor.</p><p>Por acaso, Mikael Blomkvist topou com seu antagonista, o ex-rep�rter de economia William Borg, � porta do Moulin, onde Mikael, Erika Berger e Christer Malm foram festejar com seus colaboradores o Dia de Santa Luzia, numa noitada generosamente regada a bebidas, patrocinada pela revista. Borg estava acompanhado de uma garota completamente b�bada, da idade de Lisbeth Salander.</p><p>Mikael deteve-se e o encarou. Borg sempre lhe despertara seus piores impulsos e ele foi obrigado a se controlar para n�o dizer ou fazer algo inconveniente. Os dois mediram-se com o olhar sem dizer uma palavra.</p><p>A avers�o de Mikael por Borg era vis�vel. Erika interrompeu esse comportamento de machos tomando Mikael pelo bra�o e conduzindo-o para dentro do bar.</p><p>Mikael decidiu que, numa pr�xima ocasi�o, pediria que Lisbeth Salander fixasse uma de suas investiga��es pessoais sobre Borg. Apenas formalidade.</p><p>Durante toda a tempestade na m�dia, o personagem principal do drama, o financista Hans-Erik Wennerstr�m, permaneceu praticamente invis�vel. No dia cm que a reportagem da <emphasis>Millennium </emphasis>saiu, o magnata das finan�as comentou o texto numa entrevista coletiva de imprensa j� marcada para tratar de outro assunto. Wennerstr�m declarou que as acusa��es n�o tinham fundamento e que a documenta��o apresentada era falsa. Lembrou que o mesmo rep�rter fora condenado por difama��o um ano antes.</p><p>Depois disso, somente os advogados de Wennerstr�m responderam �s perguntas da imprensa. Dois dias ap�s o lan�amento do livro de Mikael Blomkvist, rumores insistentes indicavam que Wennerstr�m havia deixado a Su�cia. Os jornais vespertinos usaram a palavra "fuga" nas manchetes. Quando, durante a segunda semana, a pol�cia de crimes financeiros tentou entrar em contato com Wennerstr�m, constatou-se que ele n�o se encontrava mais no pa�s. Em meados de dezembro, a pol�cia confirmou que Wennerstr�m estava sendo procurado e, na v�spera do Dia de S�o Silvestre, um comunicado de busca formal foi expedido para as pol�cias internacionais. Nesse mesmo dia, um dos conselheiros pr�ximos de Wennerstr�m foi detido quando tentava pegar um avi�o para Londres.</p><p>V�rias semanas depois, um turista sueco disse ter visto Hans-Erik Wennerstr�m entrando num carro em Bridgetown, capital de Barbada, nas Pequenas Antilhas. Para provar o que dizia, o turista enviou uma foto tirada a grande dist�ncia que mostrava um homem de �culos escuros vestindo uma camisa branca desabotoada e cal�a clara. O homem n�o podia ser identificado com certeza, mas os jornais vespertinos enviaram rep�rteres que tentaram, sem �xito, seguir a pista de Wennerstr�m nas ilhas antilhanas. Foi o come�o de uma persegui��o fotogr�fica do bilion�rio em fuga.</p><p>Seis meses mais tarde, a ca�ada foi interrompida. Hans-Erik Wennerstr�m foi encontrado morto num apartamento em Marbella, na Espanha, onde residia sob o nome de Victor Fleming. Fora morto com tr�s tiros na nuca disparados � queima-roupa. A pol�cia espanhola seguiu a hip�tese de que ele fora v�tima de um assaltante.</p><p>A morte de Wennerstr�m n�o foi surpresa para Lisbeth Salander. Ela tinha boas raz�es para suspeitar que sua morte estava relacionada ao fato de ele n�o ter mais acesso ao dinheiro de um certo banco nas ilhas Caim�s, que teria necessitado para pagar algumas d�vidas na Col�mbia.</p><p>Se algu�m tivesse se dado o trabalho de pedir a ajuda de Lisbeth Salander para localizar Wennerstr�m, ela teria podido dizer exatamente onde ele estava quase todos os dias. Ela acompanhara pela internet sua fuga desesperada por cerca de dez pa�ses e observara seu p�nico crescente atrav�s do correio eletr�nico, quando ele conectava seu computador em algum lugar. Mas nem Mikael Blomkvist teria acreditado que o ex-bilion�rio em fuga fosse t�o cretino a ponto de levar consigo o mesmo computador que fora t�o cuidadosamente invadido.</p><p>Depois de seis meses, Lisbeth cansou-se de seguir Wennerstr�m. A pergunta que ela devia responder agora era at� onde ia seu envolvimento.</p><p>Wennerstr�m era certamente um vigarista de primeira categoria, mas n�o era seu inimigo pessoal; ela n�o tinha interesse em interferir na vida dele. Poderia avisar Mikael Blomkvist, mas ele se contentaria em publicar uma boa hist�ria. Poderia avisar a pol�cia, mas a probabilidade de Wennerstr�m ser avisado a tempo e desaparecer era muito grande. Al�m disso, por princ�pio ela n�o falava com a pol�cia.</p><p>Mas havia outras contas a acertar. Ela pensava na servente de vinte e dois anos cuja cabe�a fora mantida mergulhada na banheira.</p><p>Quatro dias antes de encontrarem o corpo de Wennerstr�m, ela tomou uma decis�o. De seu celular, ligou para um advogado em Miami, na Fl�rida, que parecia ser uma das pessoas que Wennerstr�m mais tentava evitar. Falou com uma secret�ria e pediu que lhe transmitisse uma mensagem sibilina. Um nome, Wennerstr�m, e um endere�o em Marbella. Nada mais.</p><p>Quando a tev� anunciou a morte de Wennerstr�m, ela abandonou a reportagem pela metade. Foi preparar um caf� e um sandu�che de pat� de f�gado com pepinos em conserva.</p><p>Erika Berger e Christer Malm ocupavam-se dos costumeiros preparativos para o Natal. Sentado na cadeira de Erika, Mikael olhava os dois enquanto bebia um vinho quente. Todos os colaboradores c muitos dos <emphasis>freelancers </emphasis>regulares receberam de presente de fim de ano uma sacola de couro com o logotipo da <emphasis>Mlllennium. </emphasis>Depois de prepararem os pacotes, eles se lan�aram ao trabalho de escrever e selar mais de duzentos cart�es de Natal destinados � imprensa, fot�grafos e colegas.</p><p>Mikael tentou resistir � tenta��o, mas n�o conseguiu. Pegou um �ltimo cart�o de Natal e escreveu: <emphasis>Feliz Natal e Feliz Ano </emphasis>Novo. <emphasis>Obrigado por sua inestim�vel contribui��o no longo deste ano.</emphasis></p><p>Assinou e endere�ou o cart�o a Janne Dahlman, aos cuidados da reda��o do <emphasis>Finansmagasinet Monopol.</emphasis></p><p>Quando Mikael voltou para casa � noite, encontrou um aviso do correio na caixa de correspond�ncia. Foi buscar a encomenda na manh� seguinte e a abriu assim que chegou � reda��o. O pacote continha um repelente contra mosquito e meia garrafa de Reimersholm Aquavita. Um bilhete dizia: <emphasis>Se n�o tiver programa melhor, estarei ancorado em Arholma no pr�ximo solst�cio de ver�o. </emphasis>Estava assinado por seu ex-colega de classe Robert Lindberg.</p><p>Tradicionalmente, a reda��o da <emphasis>Millennium </emphasis>parava de trabalhar antes do Natal e durante as festas de fim de ano. Desta vez as coisas n�o puderam ser assim; a pequena reda��o estava sendo muito solicitada, e jornalistas do mundo inteiro continuavam a procur�-la diariamente. Dois dias antes do Natal, Mikael Blomkvist leu quase por acaso um artigo no <emphasis>Financial Times </emphasis>que resumia a situa��o atual da comiss�o banc�ria c financeira internacional, constitu�da �s pressas para investigar o imp�rio Wennerstr�m. O artigo dizia que a comiss�o trabalhava com a hip�tese de que Wennerstr�m recebera no �ltimo momento uma advert�ncia de que seria desmascarado.</p><p>De fato, suas contas no Bank of Kroenenfeld nas ilhas Caim�s, com duzentos e sessenta milh�es de d�lares, haviam sido esvaziadas na v�spera da den�ncia publicada pela <emphasis>Millemium.</emphasis></p><p>Esse dinheiro encontrava-se em contas que somente Wennerstr�m podia movimentar. Ele nem tinha necessidade de ir ao banco; bastava apresentar uma s�rie de c�digos de compensa��o para que o dinheiro fosse transferido a qualquer banco de qualquer lugar do mundo. O dinheiro fora transferido para a Su��a, onde uma colaboradora convertera a soma em obriga��es nominativas an�nimas. Todos os c�digos de compensa��o estavam em ordem.</p><p>A Europol expedira um comunicado de busca internacional da mulher desconhecida que utilizara um passaporte ingl�s roubado em nome de Ver�nica Sholes e que teria se hospedado num dos hot�is mais caros de Zurique. Uma foto relativamente n�tida, tirada por uma c�mera de seguran�a, mostrava uma mulher de baixa estatura com cabelos de franja reta, uma boca grande, seios generosos, roupas de grife e j�ias de ouro.</p><p>Mikael Blomkvist examinou a foto, primeiro com uma r�pida olhada, depois com express�o cada vez mais c�tica. Passados alguns segundos, pegou uma lupa na gaveta de sua mesa e tentou distinguir detalhes do rasto na foto do jornal.</p><p>Por fim, largou o jornal e ficou de boca aberta por alguns minutos, at� soltar unia gargalhada t�o hist�rica que Christer Malm levantou a cabe�a e perguntou o que estava acontecendo. Mikael conseguiu apenas agitar a m�o como resposta.</p><p><strong>* * *</strong></p><p>Na manh� da v�spera de Natal, Mikael foi a Arsta se encontrar com a ex-mulher e a filha Pernilla para a troca de presentes. Pernilla recebeu o computador que estava no topo da sua lista e que Mikael e Monika haviam comprado juntos. Mikael ganhou uma gravata de Monika e, da filha, um romance policial de Ake Edwardson. Diferentemente do Natal anterior, todos estavam excitados com a aten��o que a <emphasis>Millennium </emphasis>despertava na imprensa.</p><p>Almo�aram juntos. Mikael olhava Pernilla com o rabo do olho. N�o via a filha desde que ela passara por Hedestad. Deu-se conta de que n�o havia conversado com Monika sobre a atra��o de Pernilla por aquela seita tradicionalista em Skelleftea. Tampouco podia contar que foram os conhecimentos b�blicos dela que o puseram finalmente na pista certa sobre o desaparecimento de Harriet Vanger. N�o havia falado com a filha desde ent�o e sentia uma ponta de remorso.</p><p>Ele n�o era um bom pai.</p><p>Depois do almo�o, despediu-se da filha com um beijo e foi se encontrar com Lisbeth Salander no Slussen, para irem juntos a Sandhamn. Pouco haviam se visto desde que a <emphasis>Millennium </emphasis>soltara a bomba. Chegaram l� tarde da noite e ficaram at� depois do Natal.</p><p>Como sempre, Mikael era uma companhia divertida, mas Lisbeth Salander teve a desagrad�vel sensa��o de que ele a olhou de um modo particularmente estranho quando ela devolveu, com um cheque de cento e vinte mil coroas, o dinheiro que ele lhe emprestara. Mikael se absteve, por�m, de qualquer coment�rio.</p><p>Fizeram um passeio at� Trovill (o que Lisbeth considerou uma perda de tempo) e na volta compartilharam a ceia de Natal no albergue. Depois recolheram-se � cabana de Mikael, acenderam o aquecedor a lenha, puseram um disco de Elvis e se entregaram a brincadeiras sexuais tranquilas. De tempo em tempo, quando Lisbeth voltava � tona, ela tentava compreender o que estava sentindo.</p><p>Ela n�o tinha nenhum problema com Mikael como amante. Eles se divertiam na cama, era um entendimento f�sico muito espont�neo. E ele nunca tentava se impor.</p><p>O problema � que ela n�o entendia o que sentia por ele. Desde a puberdade, nunca baixara a guarda desse modo, deixando outra pessoa se aproximar tanto. Mikael Blomkvist tinha uma capacidade impressionante de transpor seus mecanismos de defesa e de lev�-la, mais de uma vez, a falar de assuntos e sentimentos pessoais. Mesmo tendo o bom senso de ignorar a maior parte das perguntas dele, ela falava de si mesma como n�o podia imaginar que o faria com algu�m, nem se amea�ada de morte. Isso a inquietava e a fazia se sentir nua e entregue � vontade dele.</p><p>Ao mesmo tempo � quando o olhava adormecido e escutava os seus roncos �, sentia que nunca confiara t�o incondicionalmente em algu�m. Sabia com uma certeza absoluta que Mikael Blomkvist jamais se aproveitaria do que sabia dela para feri-la. N�o fazia parte da natureza dele.</p><p>A �nica coisa de que n�o falavam era da rela��o deles. Lisbeth n�o ousava falar e Mikael nunca tocava no assunto.</p><p>Na manh� seguinte � noite de Natal, tudo lhe pareceu de uma clareza assustadora. Ignorava como isso havia acontecido e tampouco n�o sabia o que iria fazer. Estava apaixonada pela primeira vez na vida.</p><p>Pouco importava que ele tivesse quase o dobro da sua idade. Nem que ele fosse, no momento, uma das pessoas mais badaladas da Su�cia, que tinha inclusive sido capa da <emphasis>Newsweek </emphasis>� tudo n�o passava de blablabl�. Mikael Blomkvist, por�m, n�o era nem uma fantasia er�tica nem um sonho acordado. Aquilo teria um fim e n�o poderia dar certo. Que necessidade ele tinha dela? A rigor, ela era apenas um passatempo enquanto ele aguardava a chegada de algu�m cuja vida n�o fosse um maldito ninho de ratos.</p><p>De repente ela percebeu que o amor era o instante em que o cora��o fica a ponto de explodir.</p><p>Quando Mikael acordou, quase no final da manh�, ela j� havia preparado o caf� e posto a mesa para o desjejum. Ele a acompanhou � mesa e logo percebeu que alguma coisa mudara na atitude dela � ela estava um pouco mais reservada. Quando ele perguntou o que havia, ela o olhou com uma express�o indefinida, como quem n�o est� entendendo.</p><p>Depois do Natal, Mikael Blomkvist tomou o trem para Hedestad. Estava bem agasalhado e com verdadeiros cal�ados de inverno quando Dirch Frode foi busc�-lo na esta��o e o felicitou em voz baixa por seu sucesso jornal�stico. Desde agosto n�o vinha a Hedestad e fazia quase uni ano que aparecera ali pela primeira vez. Os dois trocaram um aperto de m�o, trataram-se cortesmente, mas havia entre eles muitas coisas n�o ditas, e Mikael sentia-se pouco � vontade.</p><p>Tudo fora preparado e a transa��o na casa de Dirch Frode durou apenas alguns minutos. Frode prop�s que o dinheiro fosse depositado numa conta no exterior, mas Mikael quis que o pagamento fosse feito como honor�rios comuns.</p><p>� N�o disponho de meios para receber o pagamento de outra forma � respondeu, seco, quando Frode insistiu.</p><p>N�o era uma visita de natureza meramente econ�mica. Mikael tinha deixado roupas, livros e alguns objetos pessoais na casa dos convidados, quando ele e Lisbeth sa�ram �s pressas de Hedeby.</p><p>Henrik Vanger continuava fr�gil desde o infarto, mas deixara o hospital de Hedestad e estava de volta � sua casa. Era constantemente acompanhado por uma enfermeira particular que o proibia de fazer longas caminhadas, subir escadas c discutir qualquer coisa que pudesse lhe causar fortes emo��es. Bem naqueles dias ele pegara um resfriado e tinha ordens de n�o sair da cama.</p><p>� Al�m de tudo, ela custa caro � queixou-se Henrik Vanger. Mikael Blomkvist n�o ficou especialmente comovido; achou que o velho tinha condi��es de pagar, considerando o n�mero de coroas que sonegara na vida. Henrik Vanger olhou para ele, contrariado, mas logo come�ou a rir.</p><p>� Dane-se! Voc� valeu todo esse dinheiro. Eu sabia.</p><p>� Para falar a verdade, n�o achei que pudesse resolver o mist�rio.</p><p>� N�o pretendo te agradecer � disse Henrik.</p><p>� E eu nem esperava por isso � respondeu Mikael.</p><p>� Voc� foi regiamente pago.</p><p>� N�o me queixo.</p><p>� Fez um trabalho para mim e o sal�rio deveria bastar como agradecimento.</p><p>� Vim apenas para dizer que considero o trabalho encerrado. Henrik Vanger fez um trejeito de fingida contrariedade.</p><p>� Voc� ainda n�o terminou o trabalho � disse.</p><p>� Eu sei.</p><p>� N�o escreveu a cr�nica da fam�lia Vanger, como est� no nosso acordo.</p><p>� Eu sei. E n�o vou escrever.</p><p>Refletiram em sil�ncio sobre essa quebra de contrato. Depois Mikael continuou:</p><p>� N�o posso escrever essa hist�ria. N�o posso falar da fam�lia Vanger e deixar deliberadamente de lado os acontecimentos essenciais das �ltimas d�cadas: Harriet, seu pai, seu irm�o e os assassinatos. Como poderia escrever um cap�tulo sobre o empres�rio Martin Vanger e fazer de conta que n�o sei o que havia no por�o da casa dele? E tampouco posso escrever a hist�ria sem destruir mais uma vez a vida de Harriet.</p><p>� Entendo seu dilema e agrade�o a escolha que fez.</p><p>� Portanto vou jogar essa hist�ria no lixo. Henrik Vanger assentiu com a cabe�a.</p><p>� Parab�ns � disse Mikael. �Voc� conseguiu me corromper. Vou destruir todas as minhas anota��es e os registros das nossas conversas.</p><p>� N�o acho que tenha sido corrompido � disse Henrik.</p><p>� E como estou me sentindo. E acho que � isso mesmo.</p><p>� Precisou escolher entre seu trabalho como jornalista e seu trabalho como ser humano. Eu n�o teria conseguido comprar seu sil�ncio. Tenho certeza de que teria escolhido seu papel de jornalista e nos exposto � degrada��o p�blica, se Harriet estivesse de algum modo implicada no caso ou se voc� me considerasse uma pessoa baixa.</p><p>Mikael n�o disse nada. Henrik olhava para ele.</p><p>� Informamos Cec�lia de tudo. Em breve Dirch Frode e eu n�o estaremos mais aqui e Harriet vai precisar do apoio de alguns membros da fam�lia. Cec�lia passar� a participar de forma ativa do conselho administrativo. Ela e Harriet � que dirigir�o o grupo no futuro.</p><p>� Como ela reagiu quando soube?</p><p>� Ficou chocada, evidentemente. Viajou ao exterior por algumas semanas. Achei que n�o fosse voltar.</p><p>� Mas voltou.</p><p>� Martin era um dos raros membros da fam�lia com quem Cec�lia sempre havia se dado bem. Foi duro para ela saber a verdade a respeito dele. Cec�lia agora tamb�m sabe o que voc� fez por nossa fam�lia.</p><p>Mikael encolheu os ombros.</p><p>� Obrigado, Mikael � disse Henrik Vanger.</p><p>Mikael encolheu novamente os ombros e depois falou:</p><p>� De qualquer forma, eu n�o conseguiria escrever essa hist�ria. A fam�lia Vanger me d� n�useas.</p><p>Refletiram um pouco, antes de Mikael mudar de assunto.</p><p>� Qual a sensa��o de voltar a ser diretor-executivo depois de vinte e cinco anos?</p><p>� E tempor�rio, mas... eu gostaria de ser mais jovem. Agora s� trabalho tr�s horas por dia. Todas as reuni�es se realizam aqui neste c�modo e Dirch Frode reassumiu seu lugar como meu homem de confian�a, caso haja algum problema.</p><p>� Os jovens executivos devem estar tremendo. Demorei para entender que Dirch Frode n�o era apenas um fiel conselheiro econ�mico, mas algu�m que resolve problemas para voc�.</p><p>� Exatamente. Mas todas as decis�es s�o tomadas com Harriet, � ela quem fica no escrit�rio.</p><p>� Como ela est�? � perguntou Mikael.</p><p>� Herdou as partes do irm�o e da m�e. Juntos controlamos mais de trinta e tr�s por cento do grupo.</p><p>� � o suficiente?</p><p>� N�o sei. Birger est� resistindo e tentando faz�-la trope�ar. Alexander descobriu que tem uma possibilidade de ser importante c aliou-se a Birger. Meu irm�o Harald tem um c�ncer e n�o vai viver muito. E ele que ocupa o segundo lugar com sete por cento das a��es, que passar�o aos filhos. Mas Cec�lia e Anita v�o se aliar com Harriet.</p><p>� Ent�o controlar�o mais de quarenta por cento.</p><p>� Nunca houve uma tal alian�a de votos na fam�lia. E h� muitos pequenos acionistas, com um ou dois por cento, que votar�o conosco. Harriet dever� me suceder como diretora em fevereiro.</p><p>� Fia n�o fitar� feliz.</p><p>� N�o, mas � necess�rio. Precisamos de novos parceiros c de sangue novo. Temos tamb�m a possibilidade de trabalhar com o grupo dela na Austr�lia. Os meios existem.</p><p>� Onde est� Harriet agora?</p><p>� Voc� n�o teve sorte. Ela est� em Londres. Mas tem muita vontade de ver voc�.</p><p>� Eu a verei na reuni�o do conselho da <emphasis>Millennium </emphasis>em janeiro, se ela o substituir.</p><p>� Certo.</p><p>� Diga-lhe que nunca falarei com ningu�m sobre o que aconteceu em 1966, exceto com Erika Berger.</p><p>� Sei disso, e Harriet tamb�m sabe. Voc� � um homem honesto, Mikael.</p><p>� Mas diga-lhe tamb�m que tudo o que fizer a partir de agora pode aparecer nas p�ginas da revista se ela n�o tomar cuidado. O grupo Vanger n�o estar� livre de observa��o.</p><p>� Eu a prevenirei.</p><p>Mikael deixou Henrik Vanger quando ele come�ou a pegar no sono. P�s seus pertences em duas malas. Fechou a porta da casa dos convidados pela �ltima vez, hesitou um instante, depois foi bater na porta de Cec�lia Vanger. Ela n�o estava. Ele pegou sua agenda de bolso, arrancou uma p�gina e rabiscou algumas palavras. <emphasis>Perdoe-me. Desejo-lhe uma vida feliz. </emphasis>Deixou a folhinha de papel com seu cart�o de visita na caixa de correspond�ncia. A casa de Martin Vanger estava vazia. Havia uma lumin�ria de Natal acesa na janela da cozinha.</p><p>Ele voltou a Estocolmo no trem da noite.</p><p>Entre o Natal e o Ano-novo, Lisbeth Salander desconectou-se do mundo. N�o atendeu o telefone e n�o ligou o computador. Passou dois dias lavando suas roupas e arrumando o apartamento. Embalagens de pizza e jornais velhos de um ano foram empacotados e jogados fora. Ao todo, utilizou nessa triagem seis sacos pretos de pl�stico, grandes, e uns vinte sacos de papel com jornais. Parecia ter decidido come�ar vida nova. Pretendia comprar um apartamento � quando encontrasse um que lhe conviesse �, mas at� l� seu apartamento atual estaria t�o reluzente como ela n�o se lembrava de ter visto.</p><p>Depois, ficou como que paralisada, refletindo. Nunca sentira uma vontade como aquela. Queria que Mikael Blomkvist tocasse a campainha e... o qu�? Que a erguesse nos bra�os? Que a levasse apaixonadamente at� o quarto e arrancasse suas roupas? N�o, na verdade desejava apenas a companhia dele. Queria ouvi-lo dizer que gostava dela como ela era. Que ela era uma pessoa especial no mundo e na vida dele. Queria que lhe fizesse um gesto de amor, n�o apenas de amizade e camaradagem. Estou <emphasis>ficando doida, </emphasis>pensou.</p><p>Ela duvidava de si mesma. Mikael Blomkvist vivia num mundo habitado por pessoas com profiss�es respeit�veis, que tinham vidas organizadas e talentos de gente adulta. Os amigos de Mikael faziam coisas, apareciam na tev� e produziam grandes manchetes. <emphasis>Para que eu serviria? </emphasis>O maior terror de Lisbeth Salander, t�o grande e negro que assumia propor��es f�bicas, era que as pessoas rissem de seus sentimentos. E de repente teve a impress�o de que todo o seu amor-pr�prio, t�o laboriosamente constru�do, desmoronava.</p><p>Ent�o decidiu-se. Levou v�rias horas mobilizando a coragem necess�ria, mas sentia-se na obriga��o de v�-lo e de dizer a ele o que sentia.</p><p>Todo o resto era insuport�vel.</p><p>Ela precisava de um pretexto para ir � casa dele. N�o lhe dera uni presente de Natal, mas sabia o que comprar. Tinha visto num antiqu�rio uma s�rie de cartazes publicit�rios de metal dos anos 1950, com figuras em relevo. Um dos cartazes mostrava Elvis Presley apoiando a guitarra no quadril e os dizeres: <emphasis>Heartbreak Hotel, </emphasis>Hotel do Cora��o Partido. Ela n�o tinha o menor jeito para a decora��o, mas sabia que o cartaz caberia perfeitamente na cabana de Sandhamn. Custava setecentas e oitenta coroas e, por princ�pio, regateou o pre�o c baixou para setecentas. Fizeram-lhe um pacote, ela o p�s debaixo do bra�o e foi a p� para o apartamento de Mikael na Bellmansgatan.</p><p>Quando passava pela Hornsgatan, olhou para o Bar-Caf� e viu Mikael saindo dali acompanhado de Erika Berger. Ele disse alguma coisa, Erika riu, passou o bra�o pela cintura dele e beijou seu rosto. Eles desapareceram pela Brannkyrkagatan em dire��o � Bellmansgatan. A linguagem corporal dos dois n�o dava margem a falsas interpreta��es � era �bvio o que eles tinham em mente.</p><p>A dor foi t�o instant�nea e insuport�vel que Lisbeth se deteve imediatamente, incapaz de se mexer. Uma parte dela quis correr para alcan��-los. Ela queria usar a borda afiada do cartaz de metal para cortar a cabe�a de Erika Berger. N�o fez nada, enquanto os pensamentos se agitavam em sua cabe�a. <emphasis>An�lise das consequ�ncias. </emphasis>Acabou se acalmando.</p><p><emphasis>Salander, que rid�cula, que idiota voc� �!, </emphasis>disse a si mesma em voz alta.</p><p>Virou as costas e tomou o caminho de volta ao seu reluzente apartamento. Passava pelo hotel Zinkensdamm quando come�ou a nevar. Jogou o Elvis num coletor de lixo.</p></section></body><binary id="cover" 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