<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>Douglas</first-name><last-name>Adams</last-name></author><book-title>A Vida , O Universo e Tudo Mais</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>ru</lang></title-info><document-info><author><first-name>Douglas</first-name><last-name>Adams</last-name></author><program-used>calibre 0.9.27, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>16.4.2013</date><id>abcd1f90-3f2f-49c5-9ee5-f2537a7b07a0</id><version>1.0</version></document-info></description><body><section><p><image l:href="#1"/></p><p><strong/></p><p><strong/></p><p><strong/></p><p><strong/></p><p><strong/></p><p><strong/></p><p><strong/></p><p><strong/></p><p><strong/></p><p><strong>A Vida, o Universo e Tudo Mais  </strong></p><p><strong>Douglas Adams  </strong></p><empty-line/><p><emphasis>Para Sally </emphasis></p><empty-line/><p>
2</p><p>
Cap�tulo 1</p><p>
 O j� habitual grito matinal de horror era o som de Arthur Dent ao acordar e lembrarse de onde estava. O  que  o  perturbava  n�o  era  apenas  a  caverna  fria  nem  o  fato  de  ser  �mida  e fedorenta. Era o fato de que ela ficava bem no meio de Islington e que o pr�ximo �nibus s�</p><p>
iria passar dentro de dois milh�es de anos.</p><p>
O tempo �, por assim dizer, o pior lugar onde ficar perdido, como Arthur Dent havia descoberto.  Ele  j�  tinha  se  perdido  v�rias  vezes,  tanto  no  tempo  quanto  no  espa�o.  Pelo menos estar perdido no espa�o mant�m a pessoa ocupada.</p><p>
Estava ilhado na Terra Pr�-Hist�rica como resultado de uma complexa seq��ncia de eventos envolvendo o fato de ele ter sido alternadamente detonado ou insultado em regi�es da  Gal�xia  mais  estranhas  do  que  poderia  sonhar.  Por  conta  disso,  ainda  que  sua  vida no momento fosse extremamente mon�tona, continuava se sentindo muito assustado. Fazia cinco anos que ningu�m o detonava.</p><p>
Como  n�o  tinha  encontrado  ningu�m  desde  que  ele  e  Ford  Prefect  se  separaram quatro anos antes, tamb�m n�o havia sido insultado durante todo aquele tempo. Exceto uma vez.</p><p>
Aconteceu numa tarde de primavera cerca de dois anos antes.</p><p>
Ele estava voltando para sua caverna, pouco depois do entardecer, quando percebeu estranhas luzes piscando atrav�s das nuvens. Virou-se para observar, sentindo seu cora��o encher-se  de  esperan�a.  Resgate.  Uma  sa�da.  O  sonho  imposs�vel  de  todo  n�ufrago:  uma nave.</p><p>
Observou,  fascinado  e  animado, uma  nave prateada  e  comprida  descer  em  meio  �</p><p>
brisa morna da tarde, em sil�ncio, delicadamente, suas longas e esguias hastes desdobrandose em um suave bale tecnol�gico. Assentou-se suavemente no terreno e o pequeno zumbido que havia gerado sumiu, como se fosse embalado pela calma da tarde.</p><p>
Uma rampa estendeu-se.</p><p>
Surgiram luzes pela abertura.</p><p>
Uma silhueta alta apareceu na portinhola, desceu a rampa e parou bem na frente de Arthur.</p><p>
&#x2015; Voc� � um idiota, Dent &#x2015; foi tudo o que disse.</p><p>
Era  um  alien�gena,  do  tipo  bem  alien�gena.  Tinha  uma  altura  peculiarmente alien�gena,  uma  cabe�a  achatada  peculiarmente  alien�gena,  pequenos  olhos  em  fenda peculiarmente  alien�genas,  estava  vestido  com  uma  roupa  elaboradamente  desenhada  e usava  um  colar  peculiarmente  alien�gena,  e  tinha  uma  cor  p�lida  cinza-esverdeada  de alien�gena que reluzia com um brilho lustroso que a maioria das faces cinza-esverdeadas s�</p><p>
podia conseguir por meio de muitos exerc�cios e de sabonetes absurdamente caros. Arthur olhou-o, at�nito.</p><p>
O alien�gena olhou-o de volta.</p><p>
O sentimento  inicial  de  esperan�a  e excita��o  havia sido  completamente superado pelo  espanto,  e  pensamentos  de  todos  os  tipos  estavam,  naquele  momento,  brigando  pelo controle de suas cordas vocais.</p><p>
&#x2015;  Qqqu...?  &#x2015;  disse  ele.  &#x2015;  Mmms...  ah...  aahn...  &#x2015;  acrescentou  em  seguida. &#x2015;</p><p>
Qqqm... eeeerrr... ehh... quem? � conseguiu finalmente dizer e depois caiu numa esp�cie de sil�ncio fren�tico. Estava sentindo os efeitos de n�o ter dito nada a ningu�m por mais tempo do que podia se lembrar.</p><p>
A  criatura  alien�gena  franziu  o  rosto  brevemente  e  consultou  uma  esp�cie  de</p><p>
3</p><p>
prancheta que estava segurando com sua m�o fina e esguia de alien�gena.</p><p>
&#x2015; Arthur Dent? &#x2015; disse ele.</p><p>
Arthur assentiu, balan�ando a cabe�a.</p><p>
&#x2015; Arthur Phillip Dent? &#x2015; prosseguiu o alien�gena, com um tom de voz de firme.</p><p>
&#x2015; Ahhh... ah... sim... ����... ���� &#x2015; confirmou Arthur.</p><p>
&#x2015; Voc� � um idiota &#x2015; repetiu o alien�gena &#x2015;, um bund�o completo.</p><p>
&#x2015; Ehhh...</p><p>
A  criatura  pareceu  ter  ficado  satisfeita  com  aquilo.  Balan�ou  a  cabe�a  levemente, depois  fez  uma  marquinha  peculiarmente  alien�gena  em  sua  prancheta  e  virou-se bruscamente, caminhando em dire��o � nave.</p><p>
&#x2015; Ehhh... &#x2015; disse Arthur, desesperado. &#x2015; Ehhhh...</p><p>
&#x2015;  Ah,  n�o  me  venha  com  esse  papo!  &#x2015;  retrucou  o  alien�gena.  Subiu  a  rampa, passou  pela portinhola e desapareceu dentro da nave. A portinhola se fechou, a rampa foi recolhida e a nave come�ou a emitir um leve zumbido grave.</p><p>
&#x2015;  Ehhh,  hei!  &#x2015;  gritou  Arthur,  correndo  logo  em  seguida  na  dire��o  da  nave. &#x2015;</p><p>
Espere a�! &#x2015; disse. &#x2015; O que foi isso? O qu�? Espere!</p><p>
A nave elevou-se no ar, removendo seu peso como quem joga uma capa no ch�o, e pairou  brevemente.  Balan�ava  estranhamente  no  c�u  da  tarde.  Passou  pelas  nuvens, iluminando-as brevemente, e depois se foi, deixando Arthur sozinho, naquela imensid�o de terra, dan�ando uma pequena dan�a pat�tica e sem sentido.</p><p>
&#x2015; O qu�? &#x2015; gritou Arthur. &#x2015; O qu�? Qu�? Ei, o que foi? Volte aqui e repita isso!</p><p>
Pulou  e  dan�ou  at�  suas  pernas  come�arem  a  tremer,  gritou  at�  seus  pulm�es arderem. Ningu�m respondeu. N�o tinha ningu�m para ouvir ou falar com ele. A  nave  alien�gena  j�  cruzava  em  alta  velocidade  as  camadas  mais  altas  da atmosfera,  a  caminho  do  vazio  aterrador  que  separa  as  poucas  coisas  que  existem  no Universo umas das outras.</p><p>
No  interior  da  nave,  seu  ocupante,  o  alien�gena  com  a  pele  milion�ria,  estava esticado  no  �nico  assento.  Seu  nome  era  Wowbagger,  o  Infinitamente  Prolongado.  Um homem com um objetivo. Na verdade, n�o era um objetivo muito nobre, como ele mesmo seria o primeiro a admitir, mas ao menos tinha um objetivo e isso o mantinha ocupado. Wowbagger,  o  Infinitamente  Prolongado,  era  &#x2015;  na  verdade,  �  &#x2015;  um  dos pouqu�ssimos seres imortais do Universo.</p><p>
Aqueles que j� nascem imortais sabem como lidar com isso instintivamente. Contudo,  Wowbagger  n�o  tinha  nascido  imortal.  N�o.  Passou  a  desprezar  os imortais,  aquela  corja  de  babacas  tranq�il�es.  Tinha  se  tornado  imortal  por  um  infeliz acidente envolvendo um acelerador de part�culas irracionais, uma refei��o l�quida e um par de el�sticos. Os detalhes exatos do acidente n�o s�o importantes, porque ningu�m jamais foi capaz  de  duplicar  as  circunst�ncias  exatas  em  que  as  coisas  aconteceram  e,  ao  tentarem, muitas pessoas acabaram ficando com cara de idiotas, morreram no processo, ou ambas as coisas.</p><p>
Com  uma  careta  e  uma  express�o  de  cansa�o,  Wowbagger  fechou  seus  olhos, colocou uma m�sica de fundo no som da nave e pensou que at� poderia ter conseguido... Se n�o fosse pelas tardes de domingo, teria conseguido.</p><p>
No in�cio tudo parecia engra�ado: havia se divertido muito, vivendo perigosamente, se arriscando ao extremo, enriquecendo com investimentos de longo prazo e altas taxas de retorno e, no geral, permanecendo vivo enquanto os outros morriam. Contudo, no final foram as tardes de domingo que se tornaram insuport�veis: aquela terr�vel  sensa��o  de  n�o  ter  absolutamente  nada  para  fazer  que  se  instala  em  torno  das 14h55,  quando  voc�  sabe  que  j�  tomou  um  n�mero  mais  que razo�vel de  banhos  naquele dia, quando sabe que, por mais que tente se concentrar nos artigos dos jornais, voc� nunca</p><p>
4</p><p>
conseguir� l�-los nem colocar em pr�tica a nova e revolucion�ria t�cnica de jardinagem que eles descrevem, e quando  sabe  que,  enquanto olha  para o  rel�gio, os ponteiros se movem impiedosamente em dire��o �s 16 horas e logo voc� entrar� no longo e sombrio entardecer da alma.</p><p>
A  partir  da�  as  coisas  come�aram  a  perder  o  sentido.  Os  sorrisos  alegres  que costumava  distribuir  durante  os  funerais  dos  outros  come�aram  a  sumir.  Aos  poucos, come�ou a desprezar o Universo em geral e cada um dos seus habitantes em particular. Foi ent�o que concebeu seu objetivo, aquilo que o faria prosseguir e que, at� onde podia compreender, iria faz�-lo prosseguir para todo o sempre. Era o seguinte: Iria insultar o Universo.</p><p>
Isto �, iria insultar todos no Universo. Individualmente, pessoalmente e &#x2015; esse foi o ponto no qual realmente decidiu se empenhar &#x2015; em ordem alfab�tica. Quando as pessoas reclamavam cora ele, como algumas vezes j� o tinham feito, que o  plano  n�o  somente  era  mal-intencionado  como  tamb�m  completamente  imposs�vel, devido  ao  n�mero  de  pessoas  que  nasciam  e  morriam  sem  parar,  ele  simplesmente  as encarava com um olhar g�lido e dizia:</p><p>
&#x2015; Um homem tem o direito de sonhar, n�o �?</p><p>
Foi  assim  que  tudo  come�ou.  Construiu  uma  nave  feita  Para  durar,  com  um computador capaz de lidar com a infinitude de dados necess�rio para manter o controle de toda a popula��o do Universo conhecido e calcular as complicadas rotas envolvidas. Sua nave atravessou as �rbitas internas do sistema estelar Sol, preparando-se para ganhar impulso ao circundar sua estrela e depois partir para o espa�o interestelar.</p><p>
&#x2015; Computador.</p><p>
&#x2015; Presente &#x2015; respondeu o computador.</p><p>
&#x2015; Para onde vamos?</p><p>
&#x2015; Vou calcular.</p><p>
Wowbagger observou por alguns instantes o intricado colar de brilhantes da noite, bilh�es de pequenos diamantes polvilhando a infinita escurid�o com sua luz. Cada um deles, absolutamente  todos,  estava  em  seu  itiner�rio.  Iria  passar  milh�es  de  vezes  pela  grande maioria deles.</p><p>
Imaginou  brevemente  sua  rota,  conectando  todos  os  pontos  do  c�u  como  um desenho  infantil  de  unir  os  pontos.  Torceu  para  que,  visto  de  algum  lugar  do  Universo, aquele tra�ado soletrasse uma palavra extremamente obscena.</p><p>
O  computador  emitiu  um  bipe  chocho  para  indicar  que  havia  terminado  seus c�lculos.</p><p>
&#x2015;  Folfanga  &#x2015;  disse.  E  bipou  novamente.  &#x2015;  Quarto planeta do  sistema  Folfanga</p><p>
&#x2015; prosseguiu. E bipou mais uma vez. &#x2015; Dura��o estimada para a viagem: tr�s semanas &#x2015;</p><p>
disse  depois.  Bipou  de  novo.  &#x2015;  Vamos  encontrar  uma  pequena  lesma  &#x2015;  bipou  &#x2015;  do g�nero A-Rth-Urp-Hil-Ipdenu. &#x2015; Acredito &#x2015; acrescentou, ap�s uma breve pausa na qual bipou &#x2015; que voc� decidiu cham�-la de "bundona descerebrada". Wowbagger  resmungou.  De  sua  janela,  observou  a  grandiosidade  da  cria��o  por mais alguns instantes.</p><p>
&#x2015;  Acho  que  vou  tirar  um  cochilo.  Por  quais  redes  de  transmiss�o  vamos  passar durante as pr�ximas horas?</p><p>
O computador bipou.</p><p>
&#x2015; Cosmovid, Thinkpix e Home Brain Box &#x2015; disse. Ent�o bipou mais uma vez.</p><p>
&#x2015; Vai passar algum filme a que eu ainda n�o tenha assistido umas 30 mil vezes?</p><p>
&#x2015; N�o.</p><p>
&#x2015; Ah.</p><p>
&#x2015; Bem, tem Ang�stia no Espa�o. Este voc� s� viu 33.517 vezes.</p><p>
5</p><p>
&#x2015; Me acorde para a segunda parte. O computador bipou.</p><p>
&#x2015; Durma bem &#x2015; disse.</p><p>
A nave deslizava pela noite.</p><p>
Enquanto  isso,  na  Terra,  ca�a  uma  chuva  fina.  Arthur  Dent  sentou-se  em  sua caverna e teve uma das noites mais tenebrosas de sua vida, pensando em milhares de coisas que poderia ter dito ao alien�gena e matando mosquitos, que tamb�m tiveram uma noite bem tenebrosa.</p><p>
No dia seguinte, decidiu fazer uma sacola usando uma pele de coelho porque achou que seria �til para colocar coisas dentro.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 2</p><p>
Dois anos depois disso ter acontecido, a manh� estava doce e calma quando Arthur saiu da caverna que chamava de "casa" at� conseguir encontrar um nome melhor para aquilo ou ent�o encontrar uma caverna melhor.</p><p>
Sua  garganta  estava  novamente  irritada  devido  a  seu  grito  matinal  de  horror,  mas ainda  assim  ele  estava  de  �timo  humor.  Enrolou  firmemente  seu  roup�o  esfarrapado  ao redor do corpo e sorriu, feliz, olhando aquela linda manh�.</p><p>
O ar  estava claro  e  cheio  de  aromas  suaves, a brisa acariciava levemente a grama alta  que  cercava  a  caverna,  os  p�ssaros  gorjeavam  uns  para  os  outros,  as  borboletas borboleteavam  lindamente  ao  seu  redor  e  toda  a  natureza  parecia  conspirar  para  ser  t�o gentil e agrad�vel quanto poss�vel.</p><p>
N�o eram, contudo, aquelas del�cias buc�licas que haviam deixado Arthur t�o feliz. Ele acabara de ter uma �tima id�ia sobre como lidar com o terr�vel e solit�rio isolamento, os pesadelos,  o  fracasso  de  todas  as  suas  tentativas  de  horticultura  e  a  completa  aus�ncia  de futuro e a futilidade de sua vida ali, na Terra pr�-hist�rica. Tinha decidido enlouquecer. Sorriu de novo, feliz, e mordeu um peda�o de perna de coelho que havia sobrado de seu  jantar.  Mastigou  alegremente  durante  algum  tempo  e  ent�o  resolveu  anunciar formalmente sua decis�o.</p><p>
Ficou de p�, endireitou o corpo e olhou de frente para os campos e montanhas. Para dar  mais  peso �s suas  palavras,  enfiou o  osso  de coelho  na barba. Abriu bem os bra�os e disse:</p><p>
&#x2015; Vou ficar louco!</p><p>
&#x2015;  Boa  id�ia  &#x2015;  disse  Ford  Prefect,  descendo  com  cuidado  de  uma  rocha  onde estivera sentado.</p><p>
O c�rebro de Arthur fez piruetas. Seu maxilar fez flex�es.</p><p>
&#x2015;  Eu  fiquei  louco  por  um  tempo  &#x2015;  disse  Ford  &#x2015;  e  isso  me  fez  muito  bem.  Os olhos de Arthur come�aram a dar cambalhotas.</p><p>
&#x2015; Sabe... &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; Por onde voc� andou? &#x2015; interrompeu Arthur, agora que sua cabe�a havia parado com a gin�stica.</p><p>
&#x2015; Por a� &#x2015; respondeu Ford &#x2015;, aqui e ali. &#x2015; Ele sorriu de uma forma que julgou (corretamente)  ser  absolutamente  irritante.  &#x2015;  Tirei  minha  mente  de  circula��o  por  uns tempos. Achei que, se o mundo precisasse muito de mim, ele viria me chamar. E veio. Pegou  em  sua  mochila,  agora  completamente  em  farrapos,  seu  Sensorm�tico Subeta.</p><p>
&#x2015; Pelo menos &#x2015; prosseguiu &#x2015; acho que veio. Isso aqui tem se mexido bastante.</p><p>
6</p><p>
&#x2015; Sacudiu o Subeta. &#x2015; Se for um alarme falso, vou enlouquecer. De novo. Arthur sacudiu a cabe�a e sentou-se. Olhou para cima.</p><p>
&#x2015; Achei que voc� estivesse morto... &#x2015; disse, perplexo.</p><p>
&#x2015;  Foi  o  mesmo  que  eu  pensei  durante  algum  tempo  &#x2015;  disse  Ford  &#x2015;  e  depois decidi  que  eu  era  um  lim�o  durante  algumas  semanas.  Me  diverti  bastante  nessa  �poca, pulando para dentro e para fora de um gim-t�nica.</p><p>
Arthur limpou a garganta, depois repetiu:</p><p>
&#x2015; Onde &#x2015; disse ele &#x2015; � que voc�...?</p><p>
&#x2015;  Onde encontrei gim-t�nica? &#x2015; disse Ford, animado. &#x2015; Encontrei um pequeno lago que pensava ser um gim-t�nica, ent�o fiquei pulando para dentro e para fora dele. Bem, pelo menos creio que ele achava que era um gim-t�nica.</p><p>
&#x2015;  Eu  poderia  &#x2015;  disse  com  um  sorriso  que  faria  qualquer  homem  s�o  procurar abrigo nas �rvores &#x2015; ter imaginado tudo isso.</p><p>
Esperou alguma rea��o de Arthur, mas este j� o conhecia demasiadamente bem.</p><p>
&#x2015; Continue &#x2015; disse ele, sem se alterar.</p><p>
&#x2015; Como voc� pode ver &#x2015; disse Ford &#x2015;, o sentido disso tudo � que n�o h� sentido em  tentar  enlouquecer  para  impedir-se  de  ficar  louco.  Voc�  pode  muito  bem  dar-se  por vencido e guardar sua sanidade para mais tarde.</p><p>
&#x2015;  E isto � seu estado de sanidade, n�o �? &#x2015; disse Arthur. &#x2015; Estou perguntando apenas por curiosidade.</p><p>
&#x2015; Fui at� a �frica. &#x2015; disse Ford. &#x2015; �?</p><p>
&#x2015; �.</p><p>
&#x2015; E como foi l�?</p><p>
&#x2015; Ent�o esta � sua caverna, n�o �? &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; Ehh, sim � respondeu Arthur. Sentia-se muito estranho. Ap�s quase quatro anos de isolamento, estava t�o feliz e aliviado por reencontrar Ford que tinha vontade de chorar. Por outro lado, Ford era uma pessoa que se tornava insuport�vel quase instantaneamente.</p><p>
&#x2015; Muito legal &#x2015; disse Ford, falando da caverna de Arthur.</p><p>
&#x2015; Voc� deve odi�-la.</p><p>
Arthur sequer se preocupou em responder.</p><p>
&#x2015;  A  �frica  foi  bem  interessante  &#x2015;  prosseguiu.  &#x2015;  Me  comportei  de  forma  bem estranha por l�.</p><p>
Olhou para longe, pensativo.</p><p>
&#x2015;  Resolvi  ser  cruel  com  os  animais  &#x2015;  disse,  meio  a�reo.  &#x2015;  Mas  apenas  por divers�o.</p><p>
&#x2015; N�o me diga &#x2015; respondeu Arthur, cauteloso.</p><p>
&#x2015; � verdade &#x2015; afirmou Ford. &#x2015; N�o vou perturb�-lo com os detalhes porque eles iriam...</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015;  Perturb�-lo.  Mas  voc�  pode  achar  interessante  saber  que  sou  o  integralmente respons�vel  pela  evolu��o  do  animal  que,  dentro  de alguns  s�culos,  voc�s  ir�o chamar de girafa. Tamb�m tentei aprender a voar. Acredita?</p><p>
&#x2015; Conte-me.</p><p>
&#x2015; Eu conto depois. S� vou mencionar que o Guia diz...</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; O Guia do Mochileiro das Gal�xias. Voc� se lembra, n�o?</p><p>
&#x2015; Sim, lembro-me de t�-lo jogado no rio.</p><p>
&#x2015; �, mas eu o pesquei de volta depois &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; Voc� n�o me contou isso.</p><p>
&#x2015; N�o queria que voc� o jogasse fora de novo.</p><p>
7</p><p>
&#x2015; Tudo bem &#x2015; respondeu Arthur. &#x2015; E o que ele diz?</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; O que o Guia diz?</p><p>
&#x2015;  Ah.  O  Guia  diz  que  h�  toda  uma  arte  para  voar  &#x2015;  respondeu  Ford.  &#x2015;  Ou melhor, um jeitinho. O jeitinho consiste em aprender como se jogar no ch�o e errar. &#x2015; Deu um sorrisinho. Apontou para as marcas em suas cal�as na altura dos joelhos e levantou os bra�os  para  mostrar  os  ombros.  Estavam  arranhados  e  machucados.  &#x2015; At� agora n�o dei muita  sorte  &#x2015;  disse.  Depois  estendeu  a  m�o.  &#x2015;  Estou  muito  feliz  em  v�-lo  novamente, Arthur.</p><p>
Arthur sacudiu a cabe�a em um acesso s�bito de emo��o e perplexidade.</p><p>
&#x2015;  H�  anos  que  n�o  vejo  algu�m  &#x2015;  disse.  �  Absolutamente  ningu�m.  Mal  me lembro de como se fala. Me esque�o de algumas palavras. Tenho praticado, sabe. Eu pratico falando com... falando com... como se chamam aquelas coisas que fazem os outros acharem que ficamos loucos quando falamos com elas? Como George III.</p><p>
&#x2015; Reis? &#x2015; tentou Ford.</p><p>
&#x2015; N�o, n�o &#x2015; respondeu Arthur. &#x2015; As coisas com as quais ele costumava falar. Estamos  cercados  por  elas,  mas  que  droga.  Eu  mesmo  plantei  centenas  delas.  Todas morreram. �rvores! Eu pratico falando com �rvores. Para que � isso?</p><p>
Ford continuava com a m�o estendida. Arthur olhava, sem entender.</p><p>
&#x2015; Aperte &#x2015; sugeriu Ford.</p><p>
Arthur apertou a m�o, meio nervoso no in�cio, como se ela pudesse se transformar em  um  peixe.  Ent�o  segurou-a  vigorosamente  com  suas  duas  m�os,  sentindo  um  enorme al�vio. Apertou, apertou e apertou.</p><p>
Depois de um tempo, Ford achou que j� bastava. Subiram em uma colina rochosa pr�xima e olharam o cen�rio em volta.</p><p>
&#x2015; O que aconteceu com os golgafrinchenses? Arthur deu de ombros.</p><p>
&#x2015; Muitos n�o sobreviveram ao inverno, tr�s anos atr�s. Os poucos que viveram at�</p><p>
a primavera disseram que precisavam de umas f�rias e partiram em uma jangada. A Hist�ria nos diz que devem ter sobrevivido...</p><p>
&#x2015;  �  &#x2015;  disse  Ford.  &#x2015;  Certo,  certo.  &#x2015;  Ele  colocou  as  m�os  na  cintura  e  olhou novamente em volta para o planeta vazio. Repentinamente, Ford sentiu-se cheio de energia e perspectivas.</p><p>
&#x2015; Estamos de partida &#x2015; disse, animado.</p><p>
&#x2015; Para onde? Como? &#x2015; perguntou Arthur.</p><p>
&#x2015;  N�o  sei  &#x2015;  disse  Ford  &#x2015;,  mas  posso  sentir  que  chegou  a  hora.  V�o  acontecer coisas. Estamos a caminho.</p><p>
Falou em voz baixa, quase sussurrando.</p><p>
&#x2015;  Detectei  &#x2015;  disse  ele  &#x2015;  perturba��es  na  corrente.  Lan�ou  um  olhar  decidido para o horizonte, como se quisesse que o vento soprasse em seus cabelos dramaticamente naquele momento. O vento, contudo, estava ocupado brincando com umas folhas n�o muito longe.</p><p>
Arthur  pediu  para  Ford  repetir  o  que  acabara  de  dizer,  porque  n�o  havia compreendido totalmente o sentido. Ford repetiu.</p><p>
&#x2015; A corrente? &#x2015; perguntou Arthur.</p><p>
&#x2015; A corrente do espa�o-tempo &#x2015; disse Ford e, quando o vento soprou brevemente ao redor deles, abriu um largo sorriso.</p><p>
Arthur concordou, e limpou a garganta.</p><p>
&#x2015; Estar�amos falando &#x2015; perguntou, cautelosamente &#x2015; a respeito de alguma coisa que os vogons arrastam por a� ou o que exatamente?</p><p>
&#x2015; H� um z�firo &#x2015; disse Ford &#x2015; no cont�nuo espa�o-temporal.</p><p>
8</p><p>
&#x2015; Ah &#x2015; concordou Arthur &#x2015;, onde ele est�? Onde est�? &#x2015; Colocou as m�os nos bolsos de seu roup�o e perscrutou o horizonte.</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; Bem, quem � esse tal de Z�firo exatamente? &#x2015; perguntou Arthur. Ford olhou para ele, furioso.</p><p>
&#x2015; Voc� quer me ouvir, por favor? N�o estou falando de uma pessoal</p><p>
&#x2015; Eu estava ouvindo &#x2015; disse Arthur &#x2015;, mas n�o acho que tenha ajudado muito. Ford  agarrou-o  pelas  lapelas  do  roup�o  e  falou  com  ele  t�o  lenta,  articulada  e pacientemente  como  se  fosse  algu�m  do  servi�o  de  atendimento  ao  cliente  de  uma companhia telef�nica.</p><p>
&#x2015;  Parece...  &#x2015;  disse  &#x2015;  ...haver  alguns  n�cleos...  &#x2015;  disse  em  seguida  &#x2015;  ...de instabilidade... &#x2015; continuou &#x2015; ...na tessitura... &#x2015; prosseguiu. Arthur olhava abestalhado para o tecido de seu roup�o, onde Ford o segurava. Ford soltou o roup�o antes que Arthur transformasse seu olhar abestalhado em uma observa��o abestalhada.</p><p>
&#x2015; ...na tessitura do espa�o-tempo &#x2015; concluiu.</p><p>
&#x2015; Ah, � isso &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Sim, isso &#x2015; confirmou Ford.</p><p>
L� estavam eles, sozinhos sobre uma colina na Terra pr�-hist�rica, olhando um para o outro intensamente.</p><p>
&#x2015; E isso fez o qu�? &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Isso &#x2015; respondeu Ford &#x2015; desenvolveu n�cleos de instabilidade.</p><p>
&#x2015; � mesmo?? &#x2015; disse Arthur, sem piscar os olhos por um segundo sequer.</p><p>
&#x2015; Sim, de fato &#x2015; retrucou Ford, com o mesmo grau de imobilidade ocular.</p><p>
&#x2015; Que bom! &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Entendeu? &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; N�o &#x2015; disse Arthur. Fizeram uma pausa silenciosa.</p><p>
&#x2015;  A  dificuldade  desta  conversa  &#x2015;  disse  Arthur,  depois  que  uma  express�o pensativa havia lentamente subido por todo o seu rosto, como um alpinista escalando uma passagem trai�oeira &#x2015; � que ela � muito diferente das que tenho tido nos �ltimos tempos. Como expliquei h� pouco, foram basicamente com �rvores. N�o eram assim. Exceto talvez por  algumas  conversas  que  tive  com  os  olmeiros,  que  algumas  vezes  ficam  um  pouco desorientados.</p><p>
&#x2015; Arthur &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; Sim? &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Basta acreditar no que eu lhe disser e tudo ser� extremamente simples.</p><p>
&#x2015; Puxa, n�o sei se acredito nisso.</p><p>
Sentaram-se  para  tentar  reorganizar  os  pensamentos.  Ford  pegou  o  Sensorm�tico Subeta. Estava emitindo zumbidos variados e havia uma luz piscando, fraquinha.</p><p>
&#x2015; Pilha fraca?</p><p>
&#x2015;  N�o  &#x2015;  disse  Ford  &#x2015;,  h�  uma  perturba��o  em  movimento  na  tessitura  do espa�o-tempo, um z�firo, um n�cleo de instabilidade, e parece estar bem pr�ximo de n�s.</p><p>
&#x2015; Onde?</p><p>
Ford moveu o aparelho em um semic�rculo, balan�ando-o ligeiramente. De repente a luz piscou.</p><p>
&#x2015; L�! &#x2015; disse Ford, apontando com o bra�o. &#x2015; Bem atr�s daquele sof�!</p><p>
Arthur  olhou.  Ficou  completamente  surpreso  ao  notar  que  havia  um  sof�</p><p>
Chesterfield, forrado de veludo paisley, no campo bem na frente deles. Olhou para ele com uma perplexidade inteligente. Perguntas perspicazes perpassaram sua mente.</p><p>
&#x2015; Por que &#x2015; perguntou ele &#x2015; tem um sof� naquele campo?</p><p>
9</p><p>
&#x2015; Acabei de explicar! &#x2015; gritou Ford, irritado. &#x2015; Um z�firo no cont�nuo espa�otemporal.</p><p>
&#x2015; E este sof� � do Z�firo? &#x2015; perguntou Arthur, tentando se apoiar em seus p�s e, apesar da falta de otimismo, tamb�m em seus sentidos.</p><p>
&#x2015;  Arthur!  &#x2015;  gritou  Ford  com  ele.  &#x2015;  Aquele  sof�  est�  ali  por  causa  da instabilidade  no  espa�o-tempo  que  estou  tentando  incutir  em  sua  mente  terminalmente debilitada. Ele foi jogado para fora do cont�nuo, � um res�duo nas margens do espa�o-tempo</p><p>
&#x2015; ali�s, seja o que for, temos que agarr�-lo, pois � a �nica forma de sairmos daqui!</p><p>
Saltou at� a base da rocha onde estavam e come�ou a correr pelo campo.</p><p>
�Agarr�-lo?�,  pensou  Arthur,  depois  levantou  as  sobrancelhas,  espantado,  quando viu que o Chesterfield estava balan�ando e flutuando lentamente pela grama. Com  um  grito  de  prazer  totalmente  inesperado,  desceu  saltitante  da  rocha  e  saiu correndo atr�s de Ford Prefect e daquela pe�a irracional de mob�lia. Correram  tresloucadamente  pela  grama,  pulando,  rindo  e  gritando  instru��es  para levar aquela coisa para um lado ou para o outro. O sol brilhava ardentemente sobre a relva e pequenos animais sa�am correndo para abrir caminho.</p><p>
Arthur sentia-se feliz. Estava profundamente contente porque, pelo menos uma vez, seu  dia  estava  saindo  exatamente  como  planejado.  H�  apenas  20  minutos  havia  decidido ficar louco e, pouco depois, l� estava ele, ca�ando um Chesterfield atrav�s dos campos da Terra pr�-hist�rica.</p><p>
O sof� ondulava de um lado para o outro, parecendo ser ao mesmo tempo t�o s�lido quanto as �rvores ao passar entre algumas delas e t�o nebuloso quanto um sonho alucinado ao flutuar como um fantasma atrav�s de outras.</p><p>
Ford  e  Arthur  corriam  desvairadamente  atr�s  dele,  mas  o  sof�  se  desviava  e  se esquivava  como  se  seguisse  uma  complexa  topografia  matem�tica  pr�pria  &#x2015;  era exatamente o que estava fazendo. Continuavam a persegui��o, o sof� continuava dan�ando e girando, at� que, subitamente, virou-se e mergulhou, como se estivesse cruzando o limite de  um  gr�fico  catastr�fico,  e  se  viram  praticamente  em  cima  dele.  Dando  impulso  e gritando,  subiram  no  sof�,  o  sol  tremeluziu,  ca�ram  por  um  vazio  doentio  e  apareceram inesperadamente no meio do campo de cr�quete conhecido como Lord's Cricket Ground, em St. John's Wood, Londres, perto do final da �ltima partida [Test Match] da S�rie Australiana no ano de 198&#x2015;, quando a Inglaterra precisava de apenas 28 runs para vencer.</p><p>
 Cap�tulo 3</p><p>
 Fatos importantes extra�dos da Hist�ria Gal�ctica, n�mero um: (Reproduzido do Livro de Hist�ria Gal�ctica Popular do S�derial Daily Mentioner's.) O c�u noturno do planeta Krikkit � a vista menos interessante de todo o Universo.</p><p>
Cap�tulo 4</p><p>
Era um dia lindo e agrad�vel no Lord's Cricket Ground quando Ford e Arthur foram casualmente  jogados  para  fora  de  uma  anomalia  espa�o-temporal  e  se  estatelaram violentamente sobre o gramado perfeito.</p><p>
10</p><p>
A torcida aplaudia estrondosamente. N�o eram eles que estavam sendo aplaudidos, mas se curvaram, em um gesto instintivo de agradecimento, o que foi uma grande sorte, j�</p><p>
que  a  pequena  e  pesada  bola  vermelha  que  a  torcida  estava  aplaudindo  passou  zunindo  a poucos mil�metros da cabe�a de Arthur. Na multid�o, um homem desmaiou. Eles  se  jogaram  de  volta  no  ch�o,  que  parecia  girar  de  forma  medonha  em  torno deles.</p><p>
&#x2015; O que foi isso? &#x2015; sussurrou Arthur.</p><p>
&#x2015; Algo vermelho &#x2015; sussurrou Ford de volta.</p><p>
&#x2015; Onde estamos?</p><p>
&#x2015; Ahn, sobre algo verde.</p><p>
&#x2015; Formas &#x2015; murmurou Arthur. &#x2015; Preciso de formas.</p><p>
O aplauso da multid�o foi rapidamente substitu�do por exclama��es de perplexidade e pelas risadas tensas de centenas de pessoas que ainda n�o tinham decidido se acreditavam ou n�o no que haviam acabado de ver.</p><p>
&#x2015; Este sof� � de voc�s? &#x2015; disse uma voz.</p><p>
&#x2015; O que foi isso? &#x2015; sussurrou Ford.</p><p>
Arthur olhou para cima.</p><p>
&#x2015; Algo azul.</p><p>
&#x2015; Forma? &#x2015; perguntou Ford.</p><p>
Arthur olhou novamente.</p><p>
&#x2015;  Tem  a  forma  &#x2015;  sussurrou  para  Ford,  com  as  sobrancelhas  furiosamente contra�das &#x2015; de um policial.</p><p>
Permaneceram  agachados  por  alguns  instantes,  franzindo  os  olhos  o  m�ximo poss�vel. A coisa azul com a forma de policial cutucou os dois.</p><p>
&#x2015;  Vamos  l�,  voc�s  dois  &#x2015;  disse  a  forma  &#x2015;,  vamos  andando.  Essas  palavras tiveram  um  forte  efeito  sobre  Arthur.  Em  um  segundo  estava  de  p�,  como um  escritor  ao ouvir o telefone tocar, e olhou espantado para as coisas em volta dele, que haviam se fixado em uma familiaridade bem terr�vel.</p><p>
&#x2015; De onde voc� tirou isso? &#x2015; gritou para a forma de policial.</p><p>
&#x2015; O que voc� disse? &#x2015; respondeu a forma, espantada.</p><p>
&#x2015;  Isso  aqui  �  Lord's  Cricket  Ground,  n�o  �?  &#x2015;  retrucou  Arthur.  &#x2015;  Onde  voc�</p><p>
encontrou  isso,  como  voc�  o  trouxe  at�  aqui?  Acho  &#x2015;  acrescentou,  colocando  a  m�o  na testa &#x2015; que � melhor eu me acalmar. &#x2015; Agachou-se abruptamente diante de Ford.</p><p>
&#x2015; � um policial &#x2015; disse. &#x2015; O que vamos fazer? Ford deu de ombros.</p><p>
&#x2015; O que voc� quer fazer?</p><p>
&#x2015; Eu quero &#x2015; disse Arthur &#x2015; que voc� me diga que passei os �ltimos cinco anos sonhando.</p><p>
Ford deu de ombros novamente e obedeceu.</p><p>
&#x2015; Voc� passou os �ltimos cinco anos sonhando. Arthur levantou-se outra vez.</p><p>
&#x2015;  Est�  tudo  bem,  seu  guarda  &#x2015;  disse  ele.  &#x2015;  Eu  passei  os  �ltimos  cinco  anos sonhando.  Pergunte  a  ele  &#x2015;  acrescentou,  apontando  para  Ford  &#x2015;,  ele  tamb�m  estava  no sonho.</p><p>
Tendo dito isso, saiu andando em dire��o � divis�ria do campo, espanando o p� de seu roup�o. Foi ent�o que notou seu roup�o e parou. Olhou para ele. Atirou-se sobre o guarda.</p><p>
&#x2015; Ent�o de onde foi que vieram estas roupas? &#x2015; gritou. Desmaiou e caiu sobre o gramado.</p><p>
Ford balan�ou a cabe�a.</p><p>
&#x2015; Os �ltimos dois milh�es de anos foram dif�ceis para ele &#x2015; disse para o guarda. Juntos,  colocaram  Arthur  sobre  o  sof�  e  o  carregaram  para  fora  do  campo,  sendo</p><p>
11</p><p>
brevemente interrompidos, no meio do caminho, pela s�bita desapari��o do sof�. A  multid�o  reagiu  de  formas  bem  variadas  a  tudo  isso.  Muitos  n�o  tiveram est�mago para assistir � cena e preferiram ouvir a narra��o pelo r�dio.</p><p>
&#x2015; Olha, Brian, essa foi interessante &#x2015; disse um dos locutores para o outro. &#x2015; N�o me lembro de nenhuma materializa��o misteriosa no campo desde que... bom, acho que isso nunca aconteceu antes, n�o que eu me lembre.</p><p>
&#x2015; Que tal Edgbaston, 1932?</p><p>
&#x2015; O que foi que aconteceu por l�? Y</p><p>
&#x2015;  Bem,  Peter,  acho  que  era  Canter  contra  Wil�cox,  vindo  para  arremessar  do extremo do campo quando um espectador subitamente atravessou o gramado. Ficaram em sil�ncio enquanto o primeiro locutor pensava a respeito.</p><p>
&#x2015; Eeeee�... � &#x2015; disse ele. &#x2015; Bem, n�o vejo nenhum grande mist�rio nisso, n�o �</p><p>
mesmo?  Pelo  que  entendi,  o  sujeito  n�o  se  materializou  em  campo,  ele  apenas  entrou correndo, n�o?</p><p>
&#x2015;  �  verdade,  �  verdade,  mas  ele  disse  que  tinha  visto  algo  se  materializar  no campo.</p><p>
&#x2015; Ah! E o que ele viu?</p><p>
&#x2015; Acho que era um jacar�.</p><p>
&#x2015; Certo. E algu�m mais notou o jacar� em campo?</p><p>
&#x2015;  Aparentemente  n�o.  Como  ningu�m  conseguiu  que  o  tal  homem  desse  uma descri��o muito detalhada, fizeram uma busca r�pida pelo campo mas n�o acharam nada.</p><p>
&#x2015; E que fim levou o sujeito?</p><p>
&#x2015;  Bem,  pelo  que  me  lembro,  algu�m  se  ofereceu  para  tir�-lo  de  l�  e  pagar  um almo�o para o homem, mas ele disse que j� havia comido muito, ent�o deixaram o caso de lado e a partida acabou com Warwickshire vencendo por tr�s wickets.</p><p>
&#x2015; Eu diria que foi bem diferente desse caso agora. Para os ouvintes que acabaram de sintonizar nossa transmiss�o, o que est� acontecendo por aqui � que... bem... dois homens</p><p>
&#x2015;  usando  uns  farrapos  em  p�ssimo  estado,  ali�s  &#x2015;  e  tamb�m  um  sof�...  Era  um Chesterfield, n�o era?</p><p>
&#x2015; Isso mesmo, Peter, um Chesterfield.</p><p>
&#x2015;  Eles  se  materializaram  sensacionalmente  bem  aqui,  no  meio  do  Lord's  Cricket Ground. Mas n�o acho que tenham feito isso por maldade, parecem bemintencionados e...</p><p>
&#x2015; Peter, Peter, um momento... Queria interromp�-lo para dizer que o sof� acaba de desaparecer.</p><p>
&#x2015;  �  verdade.  Temos  um  mist�rio  a  menos,  ent�o.  Ainda  assim,  definitivamente essa  vai  entrar  para  a  hist�ria,  sobretudo  porque  ocorreu  em  um  momento  dram�tico  da partida, a Inglaterra s� precisa de 24 runs para vencer a rodada. Neste momento, um policial est� escoltando os dois homens para fora do gramado, os espectadores est�o se sentando e parece que a partida vai recome�ar.</p><p>
&#x2015;  Senhor  &#x2015;  disse  o  policial  depois  que  passaram  por  um  grupo  de  espectadores curiosos e colocaram o corpo pacificamente inerte de Arthur sobre um cobertor &#x2015;, talvez possa me contar quem voc� �, de onde vem e qual o significado de toda essa confus�o?</p><p>
Ford  olhou  para  o  ch�o  por  um  momento,  como  se  estivesse  se  preparando  para algo, depois endireitou-se e disparou um olhar para o policial que o atingiu com toda a for�a de cada mil�metro dos 600 anos-luz de dist�ncia que separam a Terra e o planeta de Ford, pr�ximo de Betelgeuse.</p><p>
&#x2015; Tudo bem &#x2015; disse Ford, com toda a calma do mundo &#x2015;, vou contar.</p><p>
&#x2015; Ah, olha, n�o vai ser necess�rio &#x2015; disse o policial apressadamente. &#x2015; Apenas n�o deixe que seja l� o que for aconte�a de novo. &#x2015; O policial virou-se e partiu em busca de algu�m que n�o fosse de Betelgeuse. Felizmente o campo estava cheio de pessoas assim.</p><p>
12</p><p>
A consci�ncia de Arthur aproximou-se de seu corpo, relutantemente, como se viesse de muito longe. Ela j� tinha passado por maus bocados l� dentro. Tensa e lentamente, entrou e assentou-se em sua posi��o habitual.</p><p>
Arthur sentou-se.</p><p>
&#x2015; Onde estou? &#x2015; perguntou.</p><p>
&#x2015; No Lord's Cricket Ground &#x2015; respondeu Ford.</p><p>
&#x2015; �timo &#x2015; disse Arthur, e sua consci�ncia saiu de novo para tomar um pouco de ar. Seu corpo voltou a cair na grama.</p><p>
Dez  minutos  depois,  agarrado  a  uma  x�cara  de  ch�  em  uma  barraquinha  de refrigerantes, seu rosto exausto j� estava menos p�lido.</p><p>
&#x2015; Como est� se sentindo? &#x2015; perguntou Ford.</p><p>
&#x2015;  Estou  em  casa  &#x2015;  respondeu  Arthur,  com  uma  voz  rouca.  Fechou  os  olhos  e deliciou-se com o aroma de seu ch� como se fosse... bem, do ponto de vista de Arthur, como se aquilo fosse ch�, o que de fato era.</p><p>
&#x2015;  Estou  em  casa  &#x2015;  repetiu  &#x2015;,  em  casa.  Estou  na  Inglaterra,  no  presente,  o pesadelo acabou. &#x2015; Abriu seus olhos novamente e deu um sorriso sereno. &#x2015; Estou aqui, onde perten�o &#x2015; disse, com um suspiro emocionado.</p><p>
&#x2015;  Acho  que  h�  duas  coisas  que  devo  lhe  dizer  &#x2015;  disse  Ford,  colocando  um exemplar do jornal Guardian � frente de Arthur.</p><p>
&#x2015; Estou em casa &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015;  Sim  &#x2015;  disse  Ford.  &#x2015;  A  primeira  coisa  &#x2015;  continuou,  apontando  para  a  data impressa no jornal &#x2015; � que a Terra ser� demolida dentro de dois dias. Estou em casa &#x2015; disse Arthur. &#x2015; Ch�, cr�quete, grama aparada, bancos de madeira, blazers de linho branco, latas de cerveja...</p><p>
Focou lentamente o jornal. Torceu um pouco a cabe�a para o lado e franziu a testa.</p><p>
&#x2015;  Acho  que  j�  vi  isso  antes.  &#x2015;  Seus  olhos  subiram  lentamente  pela  p�gina  at�</p><p>
chegar  �  data,  sobre  a  qual  Ford  continuava  batendo  com  o  dedo.  Seu  rosto  se  congelou durante alguns segundos, depois come�ou a fazer aquela coisa terr�vel de rachar lentamente que os icebergs do �rtico costumam fazer de forma t�o dram�tica na primavera.</p><p>
&#x2015; A outra coisa &#x2015; disse Ford &#x2015; � que h� um osso enfiado em sua barba. &#x2015; Ele tomou seu ch�.</p><p>
Do lado de fora da barraquinha de refrigerantes, o sol brilhava sobre uma multid�o alegre. Brilhava sobre chap�us brancos e rostos rosados. Brilhava sobre picol�s, derretendoos.  Brilhava  sobre  as  l�grimas  das  criancinhas  cujos  picol�s  derretiam  e  ca�am  no  ch�o. Brilhava sobre as �rvores, reluzia nos bast�es de cr�quete que giravam, fulgurava sobre um objeto  absolutamente  extraordin�rio  que  estava  estacionado  atr�s  dos  outdoors  e  que, aparentemente, ningu�m havia notado. Resplandecia sobre Ford e Arthur quando sa�ram da barraquinha de refrigerantes, ofuscados pela claridade, e olharam para a cena em volta. Arthur estava tr�mulo.</p><p>
&#x2015; Talvez &#x2015; ele disse &#x2015; eu devesse...</p><p>
&#x2015; N�o &#x2015; retrucou Ford, seco.</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; N�o tente telefonar para si mesmo em casa.</p><p>
&#x2015; Mas como voc� sabia? Ford deu de ombros.</p><p>
&#x2015; Por que n�o? &#x2015; insistiu Arthur.</p><p>
&#x2015; Falar consigo mesmo no telefone &#x2015; respondeu Ford &#x2015; nunca leva a nada.</p><p>
&#x2015; Mas...</p><p>
&#x2015; Veja &#x2015; disse Ford. Pegou um telefone imagin�rio e apertou teclas imagin�rias.</p><p>
&#x2015;  Al�?  &#x2015;  disse  ele,  no  fone  imagin�rio.  &#x2015;  Gostaria  de  falar  com  Arthur  Dent?</p><p>
Ah, sim, bom dia. Aqui � Arthur Dent falando. N�o desligue.</p><p>
13</p><p>
Lan�ou um olhar desapontado para o fone imagin�rio.</p><p>
&#x2015; Desligou! &#x2015; disse, e depois colocou o fone imagin�rio cuidadosamente de volta em seu gancho imagin�rio. &#x2015; Olha, esta n�o � minha primeira anomalia temporal. Um olhar ainda mais abatido substituiu o olhar abatido no rosto de Arthur.</p><p>
&#x2015;  Quer  dizer  que  n�o  estamos  s�os  e  salvos  em  casa,  relaxando  ap�s  um  bom banho? &#x2015; perguntou.</p><p>
&#x2015; Acho que n�o podemos sequer dizer &#x2015; respondeu Ford &#x2015; que estamos em casa nos secando vigorosamente com uma toalha.</p><p>
O  jogo  prosseguia.  O  arremessador  aproximou-se  do  wicket  com  passos  r�pidos, depois trotando, ent�o correndo. Subitamente explodiu em uma rajada de bra�os e pernas da qual saiu voando uma bola. O rebatedor acertou a bola e lan�ou-a para tr�s, por cima dos outdoors.  Ford  seguiu  a  bola  com  os  olhos  e  congelou  por  um  instante.  Ficou  im�vel. Percorreu novamente a trajet�ria da bola e mais uma vez seus olhos se contra�ram.</p><p>
&#x2015; Esta n�o � minha toalha &#x2015; disse Arthur, que estava revirando o conte�do de sua bolsa de pele de coelho.</p><p>
&#x2015; Psst! &#x2015; disse Ford. Travou os olhos, concentrado.</p><p>
Eu  tinha  uma  toalha  esportiva  de  Golgafrinchan  &#x2015;  prosseguiu Arthur &#x2015; que  era azul com umas estrelas amarelas. N�o � esta!</p><p>
&#x2015; Psst! &#x2015; repetiu Ford. Cobriu um dos olhos enquanto olhava com o outro.</p><p>
&#x2015; Esta � rosa &#x2015; disse Arthur. &#x2015; Por acaso � sua?</p><p>
&#x2015; Queria que voc� ficasse quieto e parasse de falar sobre sua toalha &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015;  Mas  n�o  �  minha  toalha  &#x2015;  insistiu  Arthur  &#x2015;,  �  justamente  isso  que  estou tentando...</p><p>
&#x2015; E eu queria que voc� ficasse quieto exatamente agora &#x2015; completou Ford, quase rosnando.</p><p>
&#x2015;  Tudo  bem  &#x2015;  disse  Arthur,  colocando  a  toalha  de  volta  em  sua  bolsa pr�hist�rica.</p><p>
&#x2015;  Entendo  que  provavelmente  n�o  seja  um  evento  importante  na  escala  c�smica, mas ainda assim � peculiar. Uma toalha rosa, do nada, em vez da toalha azul com estrelas amarelas...</p><p>
Ford  estava come�ando a agir  de forma  bastante  estranha, ou talvez  n�o estivesse realmente  come�ando  a  agir  estranhamente,  mas  come�ando  a  agir  de  uma  forma  que  era estranhamente  diferente  das  outras  formas  estranhas  como  ele  geralmente  agia.  Estava fazendo o seguinte: ignorando solenemente os olhares de estranhamento que provocava no restante  do  p�blico,  passava  as  m�os  em  movimentos  r�pidos  na  frente  de  seu  rosto, agachava-se  atr�s  de  algumas  pessoas,  pulava  por  tr�s  de  outras,  depois  ficava  im�vel, piscando muito. Fez isso por alguns instantes e ent�o come�ou a andar sorrateiramente para a frente, de forma lenta e dissimulada, com o rosto completamente franzido e concentrado, como um leopardo que n�o estivesse bem certo de ter visto uma lata quase vazia de comida de gato a um quil�metro de dist�ncia em uma plan�cie quente e poeirenta.</p><p>
&#x2015; Esta tamb�m n�o � a minha sacola &#x2015; disse Arthur, subitamente. Arthur quebrou a concentra��o de Ford, que olhou para ele irritado.</p><p>
&#x2015; N�o estava mais falando sobre minha toalha &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; J� conclu�mos que n�o � minha. � que a bolsa onde estava guardando a toalha, a tal  que  n�o  �  minha,  tamb�m  n�o  �  minha,  apesar  de  ser  incrivelmente  parecida. Pessoalmente acho que isso � muito estranho, at� porque eu mesmo fiz essa bolsa na Terra pr�-hist�rica.  E  estas  tamb�m  n�o  s�o  minhas  pedras  &#x2015;  acrescentou,  tirando  algumas pedras  cinzentas  e  achatadas  da  bolsa.  &#x2015;  Estava  fazendo  uma  cole��o  de  pedras interessantes e estas aqui s�o claramente bobas.</p><p>
Um grito animado varreu a multid�o e interrompeu qualquer coisa que Ford fosse</p><p>
14</p><p>
responder. A bola de cr�quete, que havia causado aquela rea��o, caiu do c�u precisamente dentro da misteriosa bolsa de pele de coelho de Arthur.</p><p>
&#x2015;  Devo  dizer  que  este  tamb�m  foi  um  evento  muito  peculiar  &#x2015;  disse  Arthur, fechando rapidamente sua bolsa e fingindo procurar a bola no ch�o.</p><p>
&#x2015; Acho que n�o caiu aqui &#x2015; disse para os garotos que imediatamente se juntaram ao seu redor procurando a bolinha.</p><p>
&#x2015; Provavelmente rolou para outro lugar. Acho que foi, para l�.</p><p>
&#x2015;  Apontou  vagamente  na  dire��o  para  a  qual  gostaria  que  eles  fossem.  Um  dos garotos ficou olhando para ele, curioso.</p><p>
&#x2015; Voc� est� bem? &#x2015; perguntou o garoto.</p><p>
&#x2015; N�o &#x2015; respondeu Arthur.</p><p>
&#x2015; Ent�o por que voc� est� com um osso em sua barba? &#x2015; disse o garoto.</p><p>
&#x2015; Estou treinando-o para se sentir bem em qualquer lugar.</p><p>
&#x2015; Arthur ficou orgulhoso por ter dito aquilo. Em sua vis�o, era exatamente o tipo de coisa que iria entreter e estimular a mente de um jovem.</p><p>
&#x2015; Ah &#x2015; respondeu o garoto, cocando a cabe�a enquanto pensava sobre aquilo. &#x2015;</p><p>
Qual o seu nome?</p><p>
&#x2015; Dent &#x2015; disse Arthur &#x2015;, Arthur Dent.</p><p>
&#x2015;  Voc�  � um idiota, Dent &#x2015; disse o garoto &#x2015;, um bund�o completo. &#x2015; Depois olhou  para  o  lado,  demonstrando  que  n�o  estava  minimamente  preocupado  em  fugir  e finalmente saiu andando, cocando o nariz. Arthur lembrou-se de que a Terra seria demolida novamente dentro de dois dias e, pelo menos uma vez, isso n�o fez com que se sentisse mal. A  partida  recome�ou  com  uma  nova  bola,  o  sol  continuava  brilhando  e  Ford continuava pulando para cima e para baixo, sacudindo a cabe�a e piscando.</p><p>
&#x2015; Voc� est� preocupado com alguma coisa, n�o �? � disse Arthur.</p><p>
&#x2015;  Acho  &#x2015;  respondeu  Ford,  em  um  tom  de  voz  que  Arthur  j�  tinha  aprendido  a reconhecer  como algo que precede alguma outra coisa completamente incompreens�vel &#x2015;</p><p>
que tem um POP ali.</p><p>
Apontou. Curiosamente, a dire��o para a qual ele apontou n�o era para onde estava olhando.  Arthur  olhou  para  aquele  lado,  pr�ximo  aos  outdoors,  e  para  o  outro  lado,  na dire��o do campo. Ele assentiu e deu de ombros. Deu de ombros de novo.</p><p>
&#x2015; Um o qu�? &#x2015; perguntou.</p><p>
&#x2015; Um POP. �Um P...?</p><p>
&#x2015; ...OP.</p><p>
&#x2015; E isso seria?</p><p>
&#x2015; Um Problema de Outra Pessoa.</p><p>
&#x2015; Ah, que bom &#x2015; disse Arthur, relaxando. N�o tinha id�ia do que se tratava, mas o assunto parecia ter terminado. N�o tinha.</p><p>
&#x2015; L� &#x2015; disse Ford, apontando novamente para os gigantescos outdoors e olhando para o campo.</p><p>
&#x2015; Onde?</p><p>
-Ali! &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; Estou vendo &#x2015; disse Arthur, que n�o estava.</p><p>
&#x2015; Est�? &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; O qu�? &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Voc� est� vendo &#x2015; disse Ford, pacientemente &#x2015; o POP?</p><p>
&#x2015; Achei que voc� tinha dito que isso era problema de outra pessoa.</p><p>
&#x2015; Exato.</p><p>
Arthur assentiu lentamente, cuidadosamente e com uma cara de total imbecilidade.</p><p>
&#x2015; E quero saber &#x2015; disse Ford &#x2015; se voc� consegue v�-lo.</p><p>
15</p><p>
&#x2015; Quer mesmo?</p><p>
&#x2015; Sim.</p><p>
&#x2015; Com o que &#x2015; disse Arthur &#x2015; ele se parece?</p><p>
&#x2015; E como diabos vou saber, seu burro? &#x2015; gritou Ford. &#x2015; Se voc� consegue v�-lo, voc� � quem tem que me dizer.</p><p>
Arthur  sentiu  aquela  estranha  pulsa��o  atr�s  das  t�mporas  que  era  uma  marca registrada de muitas de suas conversas com Ford. Sua mente se escondia como um c�ozinho assustado no canil. Ford agarrou-o pelo bra�o.</p><p>
&#x2015; Um POP � alguma coisa que n�o podemos ver, ou n�o vemos, ou nosso c�rebro n�o nos deixa ver porque pensamos que � um problema de outra pessoa. � isso que POP quer dizer: Problema de Outra Pessoa. O c�rebro simplesmente o apaga,  como  um  ponto  cego.  Se  voc�  olhar  diretamente  para  ele, n�o  ver� nada,  a  menos que saiba exatamente o que �. A �nica chance � conseguir ver algo olhando de soslaio.</p><p>
&#x2015; Ah &#x2015; disse Arthur &#x2015;, ent�o � por isso que...</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; disse Ford, que sabia o que Arthur iria dizer.</p><p>
&#x2015; ...voc� estava pulando para cima e...</p><p>
&#x2015; Sim.</p><p>
&#x2015; ...para baixo e piscando...</p><p>
&#x2015; Sim.</p><p>
&#x2015; ...e...</p><p>
&#x2015; Acho que voc� captou a mensagem.</p><p>
Eu  posso  v�-la  &#x2015;  disse  Arthur.  &#x2015;  �  uma  espa�onave.  Arthur  ficou momentaneamente atordoado pela rea��o que esta revela��o havia provocado. Um ru�do veio da multid�o estava em completo tumulto. Pessoas corriam em todas as  dire��es,  gritando,  berrando  e  trope�ando  umas  nas  outras  em  completo  caos.  Deu  um passo para tr�s e olhou em volta espantado. Depois olhou novamente em volta, ainda mais espantado.</p><p>
&#x2015;  Emocionante,  n�o?  &#x2015;  disse  uma apari��o. A apari��o tremeu diante dos olhos de  Arthur,  embora,  na  pr�tica,  provavelmente  fossem  os  olhos  de  Arthur  que  estavam tremendo diante da apari��o. Sua boca tamb�m tremeu.</p><p>
&#x2015; O... o... o... o... &#x2015; disse sua boca.</p><p>
&#x2015; Acho que seu time acaba de ganhar &#x2015; disse a apari��o.</p><p>
&#x2015; O... o... o... o... &#x2015; repetiu Arthur, pontuando cada tremelique com uma cutucada nas costas de Ford Prefect. Ford observava o tumulto, apreensivo.</p><p>
&#x2015; Voc� � ingl�s, n�o �? &#x2015; disse a apari��o.</p><p>
&#x2015; S... s... s... s... sim &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Como eu disse, seu time acaba de ganhar a partida. Isto significa que eles ficam com as Cinzas. Voc� deve estar muito feliz. Devo dizer que sou particularmente apaixonado pelo  cr�quete,  embora  prefira  que  ningu�m  de  outro  planeta  me  ou�a  dizendo  isto.  �, realmente n�o seria nada bom.</p><p>
A apari��o deu o que poderia ter sido um sorriso travesso, mas era dif�cil dizer ao certo  porque  o  sol  estava  batendo  por  tr�s,  criando  uma  aura  ofuscante  ao  redor  de  sua cabe�a e iluminando seus cabelos e barba grisalhos de uma forma impressionante, dram�tica e muito dif�cil de conciliar com sorrisos travessos.</p><p>
&#x2015; Mesmo assim &#x2015; prosseguiu &#x2015; tudo estar� acabado dentro de dois dias, n�o �?</p><p>
Apesar de que, como lhe disse da �ltima vez em que nos encontramos, eu sinto muit�ssimo por isso. Bem, aquilo que tiver que ter sido ter� sido.</p><p>
Arthur tentou falar, mas desistiu da luta desigual. Cutucou Ford novamente.</p><p>
&#x2015; Achei que algo terr�vel houvesse acontecido &#x2015; disse Ford &#x2015; mas era apenas o final da partida. Temos que sair. Ah, oi, Slartibartfast, o que voc� est� fazendo por aqui?</p><p>
16</p><p>
&#x2015; Apenas dando uma volta, voc� sabe &#x2015; disse o velho, seriamente.</p><p>
&#x2015; Aquela nave � sua? Voc� poderia nos dar uma carona at� algum lugar?</p><p>
&#x2015; Paci�ncia, paci�ncia &#x2015; retrucou o velho.</p><p>
&#x2015; Tudo bem &#x2015; disse Ford. &#x2015; � s� porque este planeta ser� demolido em pouco tempo.</p><p>
&#x2015; Eu sei &#x2015; respondeu Slartibartfast.</p><p>
&#x2015; Ent�o, pois �, eu s� queria que isto ficasse claro &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; Est� claro.</p><p>
&#x2015; E se voc� acha que realmente � uma boa id�ia, a essa altura, ficar perambulando por um campo de cr�quete...</p><p>
&#x2015; Acho.</p><p>
&#x2015; A nave � sua, claro.</p><p>
&#x2015; De fato.</p><p>
&#x2015; Suponho que sim &#x2015; disse Ford, depois virou-se bruscamente.</p><p>
&#x2015; Al�, Slartibartfast &#x2015; disse Arthur, finalmente.</p><p>
&#x2015; Al�, terr�queo &#x2015; respondeu Slartibartfast.</p><p>
&#x2015; Afinal &#x2015; disse Ford &#x2015; s� se morre uma vez.</p><p>
O  velho  ignorou  o  �ltimo  coment�rio  e  olhou  intensamente  para  o  campo,  com olhos  que  pareciam  espelhar  sentimentos  sem  qualquer  rela��o  com  o  que  estava acontecendo  l�.  O  que  estava  acontecendo  l�  era  que  a  multid�o  se  reunira  num  grande c�rculo em torno do centro do campo. O que Slartibartfast estava vendo era algo que s� ele sabia.</p><p>
Ford  estava  cantarolando  algo.  Era  apenas  uma  nota,  repetida  em  intervalos regulares.  Ele  queria  que  algu�m  perguntasse  o  que  estava  cantarolando,  mas  ningu�m perguntou. Se algu�m tivesse perguntado, teria respondido que estava repetindo v�rias vezes o in�cio de uma can��o de Noel Coward chamada Mad About the Boy (Louco pelo garoto]. Algu�m  diria,  ent�o,  que  estava  cantando  apenas  uma  nota,  e  ele  responderia  que,  por motivos que lhe pareciam �bvios, estava omitindo a parte do "about the boy". Ficou muito chateado, j� que ningu�m lhe perguntou nada disso.</p><p>
&#x2015;  �  s�  que  &#x2015;  acabou  dizendo,  irritado  &#x2015;,  se  n�o  sairmos  logo  daqui,  podemos ficar  presos  naquela  confus�o  de  novo.  E  nada  me  deprime  mais  do  que  ver  um  planeta sendo  destru�do.  Com  a  exce��o,  talvez, de  estar no planeta quando  isso acontece.  Ou &#x2015;</p><p>
acrescentou, em voz baixa &#x2015; assistir a partidas de cr�quete.</p><p>
&#x2015; Paci�ncia &#x2015; repetiu Slartibartfast. &#x2015; Grandes coisas ir�o acontecer.</p><p>
&#x2015; Foi exatamente o que voc� disse da �ltima vez &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; E aconteceram coisas &#x2015; disse Slartibartfast.</p><p>
&#x2015; � verdade &#x2015; admitiu Arthur.</p><p>
Ainda  assim,  aparentemente  tudo  o  que  estava  acontecendo  era  uma  cerim�nia. Tinha  sido  especialmente  preparada  para  a  TV, em  detrimento  dos espectadores,  e  tudo  o que podiam perceber de onde estavam era o que ouviam em um r�dio pr�ximo. Ford  estava  agressivamente  desinteressado.  Ele  se  aborreceu  quando  explicaram que  as  Cinzas  seriam  entregues  ao  capit�o  do  time  da  Inglaterra,  se  enfureceu  quando disseram que as Cinzas estavam sendo entregues porque era a en�sima vez que a Inglaterra ganhava, rosnou de irrita��o ao saber que eram os restos de uma trave de cr�quete e quando, al�m  disso  tudo,  lhe  Pediram  para  lidar  com  o  fato  de  que  a  trave  em  quest�o  havia  sido queimada  em  Melbourne,  na  Austr�lia,  em  1882,  para  simbolizar  a  "morte  do  cr�quete ingl�s",  virou-se  para  Slartibartfast,  inspirou  profundamente,  mas  n�o  p�de  dizer  nada porque o velho n�o estava mais l�. Ele seguia rapidamente em dire��o ao centro do campo com  uma  forte  determina��o  em  seu  andar,  e  seus  cabelos,  sua  barba  e  sua  t�nica esvoa�avam atr�s dele, o que fazia com que se parecesse muito com Mois�s, n�o fosse pelo</p><p>
17</p><p>
fato de que o Monte Sinai em geral � representado como um imponente monte fumegante e n�o como um gramado bem aparado.</p><p>
&#x2015; Ele disse para nos encontrarmos na nave &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Por Z�rquon, o que diabos este velho tolo est� fazendo? &#x2015; gritou Ford.</p><p>
&#x2015;  Est�  indo  nos  encontrar  em  sua  nave  dentro  de  dois  minutos  &#x2015;  disse  Arthur, com uma cara que indicava total aus�ncia de pensamentos. Come�aram a andar na dire��o da nave. Estranhos sons chegavam at� eles. Tentaram n�o ouvi-los, mas n�o podiam deixar de notar que Slartibartfast estava exigindo, com veem�ncia, que a urna de prata contendo as Cinzas lhe fosse entregue, posto que era, disse ele, "de vital import�ncia para a seguran�a presente,  passada  e  futura  da  Gal�xia".  Era  isso  que  estava  causando  os  risos  hist�ricos. Resolveram ignorar o assunto.</p><p>
N�o  puderam,  contudo,  ignorar  o  que  aconteceu  em  seguida.  Com  um  barulho similar  a  100  mil  pessoas  dizendo  "uop",  uma  espa�onave  branca  met�lica  pareceu  se materializar do  nada  diretamente sobre  o campo  de cr�quete  e  l�  ficou  parada,  com um ar infinitamente amea�ador e um leve zumbido.</p><p>
Por  algum  tempo,  n�o  fez  nada,  como  se  desejasse  que  as  pessoas  continuassem com seus afazeres e n�o se preocupassem com o fato de ela ficar suspensa no ar. Depois fez algo muito extraordin�rio. Ou, mais precisamente, ela se abriu e deixou que coisas muito extraordin�rias sa�ssem dela, 11 coisas muito extraordin�rias. Eram rob�s brancos.</p><p>
O que havia de mais extraordin�rio a respeito deles era que pareciam estar vestidos para  aquele  evento.  N�o  apenas  eram  brancos,  mas  al�m  disso  carregavam  coisas  que pareciam  ser  bast�es  de  cr�quete,  e  n�o  apenas  isso,  mas  tamb�m  carregavam  o  que pareciam ser bolas de cr�quete, e n�o apenas isso, mas tamb�m usavam joelheiras brancas na parte  inferior  de  suas  pernas.  As  joelheiras  eram  extraordin�rias,  porque  continham  jatos que permitiam a esses rob�s curiosamente civilizados descer voando de sua nave suspensa sobre o campo e come�ar a matar pessoas, que foi exatamente o que eles fizeram.</p><p>
&#x2015; Olhe &#x2015; disse Arthur &#x2015;, parece que est� acontecendo alguma coisa.</p><p>
&#x2015;  V�  para  a  nave  &#x2015;  gritou  Ford.  &#x2015;  N�o  quero  saber,  n�o  quero  ver,  n�o  quero ouvir  &#x2015;  gritou  enquanto  corria.  &#x2015;  Este  n�o  �  meu  planeta,  n�o  escolhi  estar  aqui,  n�o quero  me  envolver,  s�  quero  que  me  tirem  daqui  e  me  levem  para  uma  festa  onde  tenha pessoas como eu!</p><p>
Fuma�a e chamas subiam do campo.</p><p>
&#x2015;  Nossa,  parece  que  a  brigada  sobrenatural  resolveu  aparecer  por  aqui  hoje  com for�a total... &#x2015; um r�dio gargarejou alegremente para si mesmo.</p><p>
&#x2015; Eu preciso &#x2015; gritou Ford, a fim de esclarecer suas observa��es anteriores &#x2015; �</p><p>
de  um  drinque  bem  forte  e  uma  galera  legal.  &#x2015; Continuou  correndo, parando apenas  um breve  instante  para  puxar  Arthur  pelo  bra�o.  Arthur  havia  retomado  seu  papel  habitual durante  crises,  que  era  o  de  ficar  parado,  com  a  boca  aberta,  deixando-se  levar  pelos eventos.</p><p>
&#x2015; Est�o jogando cr�quete &#x2015; murmurou Arthur, cambaleando atr�s de Ford. &#x2015; Juro que est�o jogando cr�quete. N�o sei por que, mas � o que est�o fazendo. N�o est�o apenas matando as Pessoas, est�o debochando delas &#x2015; gritou. &#x2015; Ford, est�o debochando de nos!</p><p>
Teria sido dif�cil n�o acreditar nisso sem conhecer muito mais Hist�ria Gal�ctica do que os poucos peda�os que Arthur havia conseguido pescar em suas viagens. As violentas e fantasmag�ricas  formas  que  se  moviam  na  espessa  nuvem  de  fuma�a  pareciam  estar realizando uma s�rie de par�dias peculiares de movimentos com os bast�es, com a diferen�a que  cada  uma  das  bolas  que  rebatiam  com  seus  bast�es  explodia  ao  tocar  em  algo.  A primeira delas alterou a rea��o inicial de Arthur, que tinha pensado que aquilo poderia ser um mero golpe publicit�rio dos fabricantes australianos de margarina.</p><p>
18</p><p>
Ent�o, t�o repentinamente quanto havia come�ado, acabou-se. Os 11 rob�s brancos subiram em meio � nuvem de fuma�a em uma forma��o cerrada e entraram no interior de sua  nave  branca  flutuante  que,  com  o  ru�do  de  centenas  de  milhares  de  pessoas  dizendo</p><p>
"uop",  imediatamente  desapareceu  no  ar,  da  mesma  forma  como  havia  feito  "uop" anteriormente.</p><p>
Durante  um  instante  houve  um  terr�vel  sil�ncio  de  perplexidade  e,  em  seguida,  a figura  p�lida  de  Slartibartfast  surgiu  em  meio  �  fuma�a,  parecendo-se  ainda  mais  com Mois�s  porque,  apesar  da  persistente  aus�ncia  do  monte,  ao  menos  agora  ele  estava caminhando atrav�s de um imponente e fumegante campo de grama bem aparada. Ele  olhou  em  volta,  meio  perdido,  at�  vislumbrar  Arthur  e  Ford,  que  estavam abrindo  caminho  em  meio  �  multid�o  apavorada  que,  nesse  momento,  estava  ocupada correndo  em  p�nico  na  dire��o  oposta.  A  multid�o  estava  claramente  pensando  consigo mesma  sobre  qu�o  estranho  aquele  dia  estava  sendo,  sem  saber  de  fato  em  que  dire��o deveria seguir, se � que deveria seguir em alguma dire��o.</p><p>
Slartibartfast  estava  gesticulando  desesperadamente  para  Ford  e  Arthur,  gritando algo,  conforme  os  tr�s  aos  poucos  convergiam  na  dire��o  de  sua  nave,  ainda  estacionada atr�s  dos  outdoors,  ignorada  pela  multid�o  que  corria  desembestada  ao  redor  dela  e  que provavelmente tinha muitos problemas pr�prios com os quais lidar.</p><p>
&#x2015;  Eles  grabaram  solfaras  finzasl  &#x2015;  gritou  Slartibartfast,  com  sua  voz  fina  e tr�mula.</p><p>
O que ele disse? &#x2015; perguntou Ford, arfando, enquanto abria caminho � sua frente. Arthur balan�ou a cabe�a.</p><p>
&#x2015; Eles... alguma coisa &#x2015; respondeu.</p><p>
&#x2015; Eles mesaram solfaras finzas! &#x2015; gritou Slartibartfast novamente. Ford e Arthur trocaram olhares espantados.</p><p>
&#x2015; Parece ser algo importante &#x2015; disse Arthur. Parou e gritou:</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; Eles grabaram solfaras finzas! &#x2015; gritou Slartibartfast, gesticulando para eles.</p><p>
&#x2015; Ele est� dizendo &#x2015; disse Arthur &#x2015; que levaram as Cinzas. Pelo menos � o que acho. &#x2015; Continuaram correndo.</p><p>
&#x2015; As...? &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; Cinzas &#x2015; completou Arthur. &#x2015; Os restos queimados de uma trave de cr�quete. � um trof�u. Isso... &#x2015; continuou, sem f�lego. &#x2015; Aparentemente... �... o que eles... vieram pegar.</p><p>
&#x2015;  Balan�ou  a  cabe�a  levemente,  como  se  tentasse  fazer  com  que  seu  c�rebro  se fixasse na base do cr�nio.</p><p>
&#x2015; Que coisa estranha para nos dizer &#x2015; retrucou Ford.</p><p>
&#x2015; Que coisa estranha para algu�m levar.</p><p>
&#x2015; Que nave estranha.</p><p>
Chegaram � nave. A segunda coisa estranha a respeito da nave era ver o campo de Problema  de  Outra  Pessoa  em  a��o.  Agora  podiam  ver  nitidamente  a  nave  simplesmente porque  sabiam  que  estava  l�.  Era  �bvio,  contudo,  que  ningu�m  mais  a  via.  N�o  porque estivesse de fato invis�vel ou algo igualmente hiperimposs�vel. A tecnologia necess�ria para tornar  algo  invis�vel  �  t�o  infinitamente  complexa  que,  em  um  bilh�o  de  casos,  �  999</p><p>
bilh�es,  999  milh�es,  999  mil,  999  vezes  mais  simples  e  mais  eficaz  remover  a  coisa  e esquecer  o  assunto.  Uma  vez,  o  ultrafamoso  mago-cientista  Effrafax  de  Wug  apostou  sua vida  que,  em  um  ano,  seria  capaz  de  tornar  a  grande  megalomontanha  Magramal completamente invis�vel.</p><p>
Ap�s  passar  a  maior  parte  do  ano  futucando  com  imensas  Luxov�lvulas  e Refratonulificadores e Espectrodefletr�nicos, ele percebeu, nove horas antes do prazo final,</p><p>
19</p><p>
que n�o ia conseguir.</p><p>
Ent�o, ele e seus amigos, e os amigos de seus amigos, e os amigos dos amigos de seus amigos, e os amigos dos amigos dos amigos de seus amigos, al�m de alguns outros que eram menos amigos mas que por acaso tinham uma grande empresa de transportes estelares, se lan�aram naquela que � hoje amplamente reconhecida como a mais dura noite de trabalho de toda a hist�ria. Como resultado, no dia seguinte Magramal n�o era mais vis�vel. Effrafax perdeu  a  aposta  &#x2015; e tamb�m a vida &#x2015; apenas porque um juiz pedante notou que: (a) ao andar  pela  �rea  onde  Magramal  deveria  estar,  ele  n�o  trope�ou  nem  quebrou  o  nariz  em nada e (b) havia uma nova lua bastante suspeita no c�u.</p><p>
O campo de Problema de Outra Pessoa � muito mais simples e mais eficaz. Melhor ainda, pode funcionar durante mais de 100 anos usando uma �nica bateria de lanterna. Isso porque ele conta com a tend�ncia natural das pessoas de n�o verem nada que n�o querem, que n�o est�o esperando ou que n�o podem explicar. Se Effrafax tivesse pintado a montanha de rosa e gerado um simples e econ�mico campo de Problema de Outra Pessoa sobre ela, ent�o as pessoas teriam passado por ela, teriam andado em torno dela ou mesmo por cima dela e jamais teriam notado que a montanha estava l�. Era exatamente isso que estava acontecendo com a nave de Slartibartfast. Ela n�o era rosa, mas, se fosse, teria sido o menor de seus problemas visuais, e as pessoas continuariam ignorando-a. O  mais  extraordin�rio  a  respeito  dessa  nave  �  que  ela  se  parecia  apenas  em  parte com  uma  espa�onave,  com  barbatanas  estabilizadoras,  foguetes  propulsores,  escotilhas  de emerg�ncia, etc., e se parecia muito mais com um pequeno bistr� italiano de pernas para o ar.</p><p>
Ford e Arthur olharam para ela maravilhados e profundamente ofendidos.</p><p>
&#x2015;  �,  eu  sei  &#x2015;  disse  Slartibartfast,  alcan�ando-os  naquele  momento,  ofegante  e agitado &#x2015;, mas h� um motivo. Venham, temos que partir. O antigo pesadelo retornou. O</p><p>
Fim est� diante de n�s. Temos que ir imediatamente.</p><p>
&#x2015;  Espero  que  seja  para  algum  lugar  ensolarado  &#x2015;  disse  Ford.  Ford  e  Arthur entraram na nave com Slartibartfast. Ficaram t�o perplexos com o que viram l� dentro que nem perceberam o que aconteceu em seguida do lado de fora.</p><p>
Uma  terceira  nave,  desta  vez  comprida  e  prateada,  desceu  sobre  o  gramado, silenciosamente,  suas  longas  e  esguias  hastes  desdobrando-se  em  um  suave  bale tecnol�gico.</p><p>
Pousou  com  suavidade  e  dela  saiu  uma  pequena  rampa.  Uma  figura  alta  e  cinzaesverdeada  saiu  l�  de  dentro,  andando  rapidamente,  e  aproximou-se  do  pequeno grupo  de pessoas  que  estavam  no  centro  do  campo  cuidando  dos  feridos  do  recente  e  bizarro massacre. Foi afastando as pessoas com uma autoridade calma e controlada, at� chegar a um homem  que  estava  deitado  em  meio  a  uma  po�a  de  sangue,  em  seus  �ltimos  estertores, claramente  al�m  das  possibilidades  da  medicina  terr�quea.  A  figura  ajoelhou-se pacificamente ao seu lado.</p><p>
&#x2015; Arthur Philip Deodat? &#x2015; perguntou.</p><p>
O homem, com os olhos tomados por uma terr�vel confus�o, assentiu debilmente.</p><p>
&#x2015; Voc� � um m�sero paspalh�o imprest�vel &#x2015; sussurrou a criatura. &#x2015; Achei que deveria saber disso antes de morrer.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 5</p><p>
Fatos  importantes  extra�dos  da  Hist�ria  Gal�ctica,  n�mero  dois:  (Reproduzido  do</p><p>
20</p><p>
Livro de Hist�ria Gal�ctica Popular do Siderial Daily Mentioner's.) Desde  que  esta  Gal�xia  surgiu,  vastas  civiliza��es  cresceram  e  desapareceram, cresceram  e  desapareceram, cresceram  e desapareceram  tantas  vezes que  � muito tentador pensar que a vida na Gal�xia deve ser (a) similar a um enj�o mar�timo, espacial, temporal, hist�rico ou similar e (b) imbecil.</p><p>
 Cap�tulo 6</p><p>
Pareceu a Arthur que todo o c�u subitamente se afastara para lhes dar passagem. Pareceu-lhe que os �tomos de seu c�rebro e os �tomos do cosmos estavam fluindo uns atrav�s dos outros.</p><p>
Pareceu-lhe que estava sendo soprado pelo vento do Universo e que o vento era ele. Pareceu-lhe que era um dos pensamentos do Universo e que o Universo era um de seus pensamentos.</p><p>
Pareceu  a  quem  estava  no  Lord's  Cricket  Ground  que  outro  restaurante  da  regi�o norte de Londres havia surgido e sumido, como freq�entemente ocorria, e que isso era um Problema de Outra Pessoa.</p><p>
&#x2015; O que aconteceu? &#x2015; murmurou Arthur, muito admirado.</p><p>
&#x2015; Decolamos &#x2015; disse Slartibartfast.</p><p>
Arthur ficou sentado, im�vel e comovido, no assento de v�o. N�o sabia ao certo se havia ficado enjoado ou religioso.</p><p>
&#x2015;  Bela  m�quina  &#x2015;  disse  Ford,  numa  tentativa  malsucedida  de  disfar�ar  qu�o impressionado havia ficado com o que a nave de Slartibartfast acabara de fazer &#x2015;, pena que a decora��o seja t�o ruim.</p><p>
O  velho  n�o  respondeu  imediatamente.  Estava  olhando  para  um  grupo  de instrumentos com a cara de quem est� tentando converter graus Fahrenheit para Celsius de cabe�a enquanto sua casa est� pegando fogo. Ent�o sua face se descontraiu e ele olhou por alguns  instantes  a  enorme  tela  panor�mica  �  sua  frente,  que  mostrava  uma  complexidade espantosa de estrelas fluindo como fios de prata ao redor deles. Seus l�bios se moveram como se fosse dizer algo. Subitamente, olhou, tenso, para seus instrumentos, mas depois franziu a testa e sua express�o se fixou. Olhou de volta para a tela. Mediu seu pr�prio pulso. Franziu ainda mais a testa por alguns instantes, depois relaxou.</p><p>
&#x2015; � um erro tentar entender as m�quinas &#x2015; disse ele &#x2015;, apenas me deixam mais preocupado. O que voc� disse?</p><p>
&#x2015; A decora��o &#x2015; repetiu Ford. &#x2015; � lament�vel.</p><p>
&#x2015; No fundo do cora��o fundamental da mente e do Universo &#x2015; disse Slartibartfast</p><p>
&#x2015; h� uma raz�o.</p><p>
Ford olhou em volta, curioso. Ele realmente achava aquilo uma vis�o otimista das coisas.  O  interior  da  cabine  de  comando  era  verde-escuro,  vermelho-escuro,  marromescuro, entulhado de coisas e com uma ilumina��o suave. Inexplicavelmente,  a  semelhan�a  com  um  bistr�  italiano  n�o  havia  terminado  ao cruzarem  a  escotilha.  Pequenos  focos  de  luz  delineavam  vasos  de  plantas,  azulejos vitrificados e uma multiplicidade de pequenos objetos met�licos. Medonhas garrafas envolvidas em r�fia se escondiam nas sombras. Os  instrumentos  nos  quais  Slartibartfast  estivera  concentrado  pareciam  ter  sido</p><p>
21</p><p>
montados no fundo de garrafas enfiadas em concreto.</p><p>
Ford estendeu a m�o e tocou o concreto.</p><p>
Era falso. Pl�stico. Garrafas falsas enfiadas em concreto falso.</p><p>
"O  fundo  do  cora��o  fundamental  da  mente  e  do  Universo  que  se  dane",  pensou consigo mesmo, "isso aqui � um lixo." Por outro lado, n�o podia negar que a nave havia se movido de uma forma que fazia a Cora��o de Ouro parecer um carrinho de beb� el�trico. Levantou-se  de  seu  assento.  Espanou  a  roupa.  Olhou  para  Arthur,  que  estava cantarolando baixinho em um canto. Olhou para a tela e n�o reconheceu nada. Olhou para Slartibartfast.</p><p>
&#x2015; Quanto j� viajamos?</p><p>
&#x2015;  Cerca  de...  &#x2015;  respondeu  Slartibartfast  &#x2015;  cerca  de  dois  ter�os  do  caminho atrav�s do disco gal�ctico, eu diria, aproximadamente. Sim, cerca de dois ter�os, acho.</p><p>
&#x2015;  �  t�o  estranho  &#x2015;  disse  Arthur,  baixinho  &#x2015;  que,  quanto  mais  longe  e  mais r�pido viajamos pelo Universo, mais a nossa posi��o dentro dele pare�a ser absolutamente imaterial, e isso nos preencha com um profundo, ou melhor, nos esvazie de um...</p><p>
&#x2015; Sim, � muito estranho &#x2015; disse Ford. &#x2015; Para onde estamos indo?</p><p>
&#x2015;  Estamos  indo  &#x2015;  respondeu  Slartibartfast  &#x2015;  confrontar  um  antigo  pesadelo do Universo.</p><p>
&#x2015; E onde voc� pretende nos deixar??</p><p>
&#x2015; Vou precisar da ajuda de voc�s.</p><p>
&#x2015;  Dif�cil.  Olhe,  h�  um  lugar  aonde  voc�  pode  nos  levar  para  nos  divertirmos  &#x2015;</p><p>
ainda estou pensando onde, exatamente &#x2015; e da� podemos ficar b�bados e ouvir uma m�sica bem  diab�lica.  Pera�,  vou  achar  algo.  &#x2015;  Pegou  sua  c�pia  do  Guia  do  Mochileiro  das Gal�xias  e passou os  olhos  pelo  �ndice, concentrando-se nas partes que tinham a ver com sexo, drogas e rock'n'roll.</p><p>
&#x2015; Uma maldi��o se levantou das n�voas do tempo &#x2015; disse Slartibartfast.</p><p>
&#x2015;  �,  creio  que  sim  &#x2015;  disse  Ford.  &#x2015;  Ei  &#x2015;  disse,  selecionando  por  acaso  uma entrada em particular &#x2015;, Eccentrica Gallumbits, voc� j� esteve com ela? A prostituta de tr�s seios de Eroticon 6. Algumas pessoas dizem que suas zonas er�genas come�am a uns seis quil�metros de seu corpo. Pessoalmente, discordo, acho que s�o oito.</p><p>
&#x2015; Uma maldi��o &#x2015; disse Slartibartfast &#x2015; que ir� mergulhar a Gal�xia em fogo e destrui��o e possivelmente levar o Universo a um fim prematuro. N�o estou exagerando &#x2015;</p><p>
acrescentou.</p><p>
&#x2015; Parece mesmo que a barra vai pesar &#x2015; disse Ford &#x2015;, ent�o com um pouco de sorte, vou estar suficientemente b�bado para n�o notar. Aqui &#x2015; disse, enfiando o dedo na tela do Guia &#x2015; esse seria um lugar realmente devasso para irmos, e acho que � para onde devemos ir. O que voc� me diz, Arthur? Pare de cantar mantras e preste aten��o. Voc� est�</p><p>
perdendo coisas importantes.</p><p>
Arthur levantou-se do sof� e sacudiu a cabe�a.</p><p>
&#x2015; Aonde estamos indo? &#x2015; disse.</p><p>
&#x2015; Confrontar um antigo pesa...</p><p>
&#x2015; Fecha a matraca &#x2015; disse Ford. &#x2015; Arthur, vamos sair por a�, pela Gal�xia, para nos divertir. Voc� consegue conviver com isso?</p><p>
&#x2015; Por que Slartibartfast est� t�o ansioso? &#x2015; perguntou Arthur.</p><p>
&#x2015; N�o � nada &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; O Fim de Tudo &#x2015; disse Slartibartfast. &#x2015; Venham &#x2015; acrescentou, com um tom subitamente autorit�rio &#x2015;, h� muitas coisas que preciso lhes contar e lhes mostrar. Andou  em  dire��o  a  uma  escada  em  espiral,  feita  de  ferro  e  pintada  de  verde, incompreensivelmente colocada no meio da cabine de comando, e come�ou a subir. Arthur franziu a testa e foi atr�s dele.</p><p>
22</p><p>
Ford jogou o Guia de volta em sua mochila, irritado.</p><p>
&#x2015; Meu m�dico diz que tenho uma gl�ndula de senso de dever malformada, al�m de uma  defici�ncia  natural  em  fibras  morais  &#x2015;  grunhiu  para  si  mesmo  &#x2015;  e  portanto  estou dispensado de salvar Universos.</p><p>
Apesar disso, subiu as escadas atr�s deles. O que encontraram no andar de cima era simplesmente obtuso, ou pelo menos assim parecia, e Ford sacudiu a cabe�a, cobriu o rosto com as m�os e esbarrou em um vaso de plantas, jogando-o contra a parede.</p><p>
&#x2015; Esta � a �rea central de computa��o &#x2015; disse Slartibartfast, impass�vel &#x2015;, onde s�o realizados todos os c�lculos que afetam a nave de alguma forma. �, eu sei com o que isso se parece, mas na verdade, � um complexo mapa topogr�fico em quatro dimens�es de uma s�rie de fun��es matem�ticas altamente complexas.</p><p>
&#x2015; Parece mais uma piada &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Eu sei com o que se parece &#x2015; disse Slartibartfast, entrando. Exatamente quando ele entrou, Arthur teve uma s�bita e vaga sensa��o do que aquilo podia significar, mas se recusou  a  acreditar  nela.  "O  Universo  n�o  podia  funcionar  daquela  forma,  n�o  podia", pensou. "Aquilo", pensou consigo mesmo, "seria t�o absurdo quanto... quanto..." E decidiu terminar a� sua linha de racioc�nio. Em sua maioria, as coisas realmente absurdas nas quais podia pensar j� haviam acontecido.</p><p>
Aquela era uma delas.</p><p>
Era uma grande gaiola de vidro, ou uma caixa &#x2015; na verdade, um quarto. Dentro havia uma mesa bem longa. Em volta da mesa estavam espalhadas cerca de 12  cadeiras  de  madeira,  do  tipo  austr�acas.  Sobre  a  mesa  havia  uma  toalha  quadriculada vermelha  e  branca,  suja,  com  algumas  marcas  de  cigarro,  cada  uma  das  quais, presumivelmente, estava em um local matematicamente determinado com grande precis�o. Sobre essa toalha estavam colocados alguns pratos italianos comidos pela metade, cercados por peda�os de p�o comidos pela metade e copos de vinho bebidos pela metade, todos incessantemente manuseados por rob�s.</p><p>
Tudo  ali  era artificial. Os  clientes rob�s  eram atendidos por um  gar�om  rob�,  um sommelier rob� e um ma�tre rob�. Os M�veis eram artificiais, a toalha de mesa era artificial e  cada  um  dos  peda�os  de  comida  era  claramente  capaz  de  exibir  todas  as  caracter�sticas mec�nicas de, digamos, um pollo sorpreso, sem de fato ser um.</p><p>
E  todos  participavam  juntos  de  uma  pequena  dan�a:  uma  coreografia  complexa envolvendo a manipula��o de menus tal�es de pedidos, carteiras, tal�es de cheques, cart�es de cr�dito, rel�gios, l�pis e guardanapos de papel, que parecia estar o tempo todo beirando o limite da viol�ncia, sem nunca chegar a lugar algum.</p><p>
Slartibartfast  entrou  apressado  e  depois  pareceu  trocar  amenidades  tranq�ilamente com o ma�tre, enquanto um dos clientes rob�s, um auto-Rory, escorregou lentamente para baixo da mesa, enquanto mencionava para um rapaz o que pretendia fazer com uma garota. Slartibartfast sentou-se na cadeira que acabara de vagar e deu uma olhada atenta no menu. O ritmo da coreografia pareceu acelerar-se imperceptivelmente. Surgiam discuss�es e as pessoas tentavam provar coisas usando guardanapos. Gesticulavam ferozmente  umas para as outras e tentavam examinar os peda�os de galinha  uns  dos  outros.  A  m�o  do  gar�om  come�ou  a  mover-se  sobre  o  tal�o  de  pedidos muito mais r�pido do que qualquer m�o humana seria capaz, e depois mais r�pido do que um olho humano poderia acompanhar. O ritmo se acelerou.</p><p>
Logo  uma  extraordin�ria  e  insistente  polidez  tomou  conta  do  grupo  e,  segundos depois, pareciam ter atingido um consenso. Uma nova vibra��o espalhou-se pela nave. Slartibartfast saiu da sala de vidro.</p><p>
&#x2015; Bistrom�tica &#x2015; disse. &#x2015; O maior poder computacional conhecido nos dom�nios da paraci�ncia. Venham comigo at� a Sala de Ilus�es Informacionais.</p><p>
23</p><p>
Slartibartfast passou e eles o seguiram, perplexos.</p><p>
Cap�tulo 7</p><p>
O  Propulsor  Bistrom�tico  �  um  novo  e  maravilhoso  m�todo  de  cruzar  vastas dist�ncias  interestelares  sem  todo  o  perigo  envolvido  em  ficar  mexendo  com  Fatores  de Improbabilidade.</p><p>
A  Bistrom�tica  em  si  �  apenas  uma  nova  e  revolucion�ria  forma  de  entender  o comportamento dos n�meros. Assim como Einstein observou que o tempo n�o era absoluto, mas algo que dependia do movimento de um observador no espa�o, e que o espa�o n�o era absoluto,  mas  dependia  do  movimento  do  observador  no  tempo,  hoje  sabemos  que  os n�meros n�o s�o absolutos, mas dependem do movimento do observador nos restaurantes. O  primeiro  n�mero  n�o-absoluto  �  o  n�mero  de  pessoas  para  quem  a  mesa  est�</p><p>
reservada. Ele ir� variar no decorrer das primeiras tr�s liga��es para o restaurante e depois n�o apresentar� nenhuma rela��o aparente com o n�mero de pessoas que realmente estar�o presentes, ou  com o n�mero de pessoas que ir�o se juntar a elas depois do show, partida, festa, filme, ou ainda com o n�mero de pessoas que ir�o embora ao ver quem mais apareceu por l�.</p><p>
O  segundo  n�mero  n�o-absoluto  �  a  hora  real  de  chegada.  Este  numero  �  hoje conhecido como um dos mais bizarros conceitos matem�ticos, uma reciproversexclus�o, um n�mero cuja exist�ncia s� pode ser definida como sendo qualquer outra coisa diferente de si mesmo. Em outras palavras, a hora real de chegada � o �nico momento no tempo no qual �</p><p>
imposs�vel que qualquer participante do grupo chegue de fato. A rec�proversexclus�o tem, atualmente,  um  papel  vital  em  diversos  campos  da  matem�tica,  incluindo  a  estat�stica  e contabilidade, al�m de fazer parte das equa��es b�sicas usadas na engenharia dos campos de Problema de Outra Pessoa.</p><p>
O terceiro e mais misterioso n�o-absolutismo de todos diz respeito � rela��o entre o n�mero de itens na conta, o valor de cada item e o n�mero de pessoas na mesa, assim como quanto cada uma delas est� disposta a pagar. (O n�mero de pessoas que trouxeram algum dinheiro � apenas um subfen�meno desse campo.)</p><p>
As  assombrosas  discrep�ncias  que  costumavam  ocorrer  nesse  ponto  passaram d�cadas sem ser estudadas simplesmente porque ningu�m as levou a s�rio. No passado, as pessoas diziam que essas coisas eram causadas pela educa��o, falta de educa��o, avareza, desejo de aparecer, emotividade ou simplesmente porque j� era tarde, e tudo era esquecido na manh� seguinte.</p><p>
Nunca foram feitos testes em laborat�rio, � claro, porque nada disso acontecia nos laborat�rios &#x2015; pelo menos n�o em laborat�rios de boa reputa��o. Foi apenas com o surgimento dos computadores de bolso que a espantosa verdade finalmente  se  tornou  evidente.  Era  a  seguinte:  Os  n�meros  escritos  em  contas  de restaurantes dentro dos confins de restaurantes n�o seguem as mesmas leis que os n�meros escritos em qualquer outro tipo de papel em outros lugares do Universo. Esse fato singelo causou enorme alvoro�o no mundo cient�fico. Foi uma revolu��o completa.  Realizaram-se  tantas  confer�ncias  matem�ticas  em  bons  restaurantes  que  as mentes  mais  brilhantes  de  toda  uma  gera��o  morreram  de  obesidade  e  doen�as  card�acas, retardando os progressos da matem�tica em alguns anos.</p><p>
Aos  poucos,  contudo, as implica��es  dessa  id�ia  come�aram  a ser entendidas. No in�cio a coisa toda era muito radical, muito doidona, o tipo de coisa que faria uma pessoa</p><p>
24</p><p>
normal dizer: "Sim, claro, exatamente o que eu teria dito." Ent�o inventaram algumas frases como  "Frameworks  de  Subjetividade  Interativa"  e,  a  partir  da�,  as  pessoas  relaxaram  e puderam levar adiante a teoria.</p><p>
Os pequenos grupos de monges que come�aram a se reunir nos principais institutos de pesquisa entoando estranhos c�nticos dizendo que o Universo era apenas um produto de sua pr�pria imagina��o e acabaram recebendo verbas para pesquisa teatral e foram embora.</p><p>
Cap�tulo 8</p><p>
Nas  viagens  espaciais,  voc�s  sabem  &#x2015;  disse  Slartibartfast,  enquanto  mexia  em alguns instrumentos na Sala de Ilus�es Informacionais &#x2015;, nas viagens espaciais... Parou e deu uma olhada em volta.</p><p>
A  Sala  de  Ilus�es  Informacionais  era  um  al�vio  para  os  olhos  ap�s  as monstruosidades da �rea central de computa��o. N�o havia nada l�. Nenhuma informa��o, nenhuma  ilus�o  &#x2015;  apenas  eles,  as  paredes  brancas  e  alguns  pequenos  instrumentos  que deveriam aparentemente ser ligados em algo que Slartibartfast n�o conseguia encontrar.</p><p>
&#x2015;  Sim?  &#x2015;  perguntou  Arthur.  Ele  captou  o  sentido  de  urg�ncia  de  Slartibartfast, mas n�o tinha id�ia do que fazer com ele.</p><p>
&#x2015; Sim o qu�? &#x2015; perguntou o velho.</p><p>
&#x2015; O que voc� estava dizendo? Slartibartfast encarou-o.</p><p>
&#x2015; Os n�meros &#x2015; disse ent�o &#x2015; s�o terr�veis. &#x2015; Continuou procurando algo. Arthur concordou, com um ar de sabedoria. Depois de algum tempo percebeu que aquilo n�o o levaria a lugar algum e decidiu que deveria dizer "o qu�?" novamente.</p><p>
&#x2015; Nas viagens espaciais &#x2015; repetiu Slartibartfast &#x2015; todos os n�meros s�o terr�veis. Arthur assentiu novamente, olhando em volta para ver se Ford o ajudava, mas Ford estava praticando a arte de ficar ranzinza e se saindo muito bem nisso.</p><p>
&#x2015; Estava apenas tentando evitar que voc� se desse ao trabalho de me perguntar por que  todos  os  c�lculos  da  nave  estavam  sendo  feitos  no  tal�o  de  um  gar�om  &#x2015;  disse Slartibartfast finalmente, com um suspiro. Arthur n�o entendeu.</p><p>
&#x2015; Por que &#x2015; perguntou ele &#x2015; todos os c�lculos da nave estavam sendo feitos no tal�o de...</p><p>
Parou.</p><p>
Slartibartfast retrucou:</p><p>
&#x2015; Porque nas viagens espaciais todos os n�meros s�o terr�veis. Percebeu que n�o estava conseguindo se fazer entender.</p><p>
&#x2015;  Preste  aten��o  &#x2015;  disse.  &#x2015;  No  talon�rio  de  um  gar�om, os n�meros  mudam  o tempo todo. Voc� j� deve ter percebido.</p><p>
&#x2015; Bem...</p><p>
&#x2015; No talon�rio de um gar�om &#x2015; continuou Slartibartfast &#x2015;, realidade e irrealidade colidem  em  um  n�vel  t�o  fundamental  que  as  duas  se  fundem  e  qualquer  coisa  se  torna poss�vel, dentro de certos par�metros.</p><p>
&#x2015; Quais?</p><p>
&#x2015;  E  imposs�vel  dizer  &#x2015;  disse  Slartibartfast.  &#x2015;  Este  �  um  deles.  Estranho,  mas verdadeiro.  Pelo  menos  eu  acho  que  �  estranho  &#x2015;  acrescentou &#x2015; e me garantiram que �</p><p>
verdadeiro.</p><p>
Ele  finalmente  localizou  na  parede  o  orif�cio  que  estava  Procurando  e  inseriu  o instrumento que segurava.</p><p>
25</p><p>
&#x2015; N�o tenham medo &#x2015; disse, e subitamente ele mesmo pareceu se assustar com o instrumento, pulando para tr�s &#x2015;, � que...</p><p>
N�o  ouviram  o  que  ele  disse  porque  naquele  momento  a  nave  piscou  e  sumiu  ao redor  deles  e  uma  astronave  de  combate  do  tamanho  de  uma  cidade  industrial  surgiu cortando a na dire��o deles, disparando seus lasers estelares.</p><p>
 Cap�tulo 9</p><p>
Outro  mundo,  outro  dia,  outro  amanhecer.  O  primeiro  t�nue  raio  de  luz  matinal apareceu sem alarde.</p><p>
Muitos  bilh�es  de  trilh�es  de  toneladas  de  n�cleos  de  hidrog�nio  superaquecidos explodindo  se  levantaram  aos  poucos  sobre  o  horizonte  e  conseguiram  parecer  pequenos, frios e ligeiramente �midos.</p><p>
H�  um  momento  em  cada  amanhecer  no  qual  a  luz  parece  flutuar  e  tudo  parece m�gico. A cria��o prende a respira��o.</p><p>
O momento passou sem incidentes, como habitualmente ocorre em Squornshellous Zeta.</p><p>
A n�voa aderia � superf�cie dos p�ntanos, acinzentando as niss�ceas e borrando os altos juncos. Pairava est�tica como uma respira��o presa.</p><p>
Nada se movia.</p><p>
Sil�ncio.</p><p>
O  sol  lutou  sem  convic��o  com  a  n�voa,  tentando  gerar  um  pouco  de  calor  aqui, irradiar um pouco de luz ali, mas claramente aquele dia seria outro penoso percurso atrav�s do c�u.</p><p>
Nada se movia.</p><p>
Novamente sil�ncio.</p><p>
Nada se movia.</p><p>
Sil�ncio.</p><p>
Fm  Squornshellous  Zeta,  freq�entemente  dias  inteiros  transcorriam  assim,  e,  de fato, parecia que seria mais um deles. Quatorze horas mais tarde o sol afundou no horizonte oposto  desanimado,  sentindo  que  todo  o  seu  esfor�o  fora  em  v�o.  Algumas  horas  depois reapareceu, ajeitou os ombros e come�ou a galgar o c�u novamente. Desta  vez,  contudo,  algo  estava  acontecendo.  Um  colch�o  havia  acabado  de encontrar um rob�. &#x2015; Oi, rob� &#x2015; disse o colch�o.</p><p>
&#x2015;  Bah  &#x2015;  respondeu  o  rob�,  continuando  com  o  que  estava  fazendo,  que  era  se arrastar, penosa e vagarosamente, em um c�rculo muito pequeno.</p><p>
&#x2015; Feliz? &#x2015; perguntou o colch�o.</p><p>
O  rob�  parou  e  lan�ou  um  olhar  interrogativo  para  o  colch�o.  Era  claramente  um colch�o muito idiota. O colch�o retornou um olhar arregalado.</p><p>
Depois de calcular, com precis�o de dez casas decimais, a dura��o exata da pausa que mais provavelmente transmitiria um total desprezo por todas as criaturas colchon�ticas, o rob� continuou a andar em pequenos c�rculos.</p><p>
&#x2015; Poder�amos conversar &#x2015; disse o colch�o. &#x2015; Voc� gostaria de conversar?</p><p>
Era um colch�o grande e provavelmente de alta qualidade. Pouqu�ssimas coisas s�o fabricadas  hoje  em  dia,  j�  que,  em  um  Universo  infinitamente  grande  &#x2015;  tal  como,  por exemplo, aquele em que vivemos &#x2015;, a maioria das coisas que se possa imaginar e muitas outras  coisas,  que  no  geral  �  prefer�vel  n�o  imaginar,  crescem  em  algum  lugar.</p><p>
26</p><p>
(Recentemente  foi  descoberta  uma  floresta  onde  muitas  das  �rvores  d�o  frutos  que  s�o chaves de catraca. O ciclo de vida do fruto de chaves de catraca � bem interessante. Uma vez colhido, � necess�rio guard�-lo dentro de uma gaveta escura e poeirenta na qual possa permanecer esquecido durante anos. Ent�o, uma noite ele eclode, livrando-se de sua casca externa, que se desfaz em p�, e ressurge como um pequeno objeto de metal imposs�vel de ser  identificado,  com  roscas  nas  duas  pontas  e  uma  esp�cie  de  sulco  e  uma  esp�cie  de buraco para parafusos. Quando encontrado, esse objeto ser� jogado fora. Ningu�m  sabe  o  que  o  fruto  tem  a  ganhar  com  isso.  A  Natureza,  em  sua  infinita sabedoria possivelmente est� trabalhando no assunto.)</p><p>
Ningu�m sabe tampouco o que os colch�es t�m a ganhar com suas vidas. S�o  criaturas  grandes,  amig�veis  e  cheias  de  molas  que  levam  vidas  tranq�ilas  e pacatas  nos  p�ntanos  de  Squornshellous  Zeta.  Muitos  s�o  capturados,  cruelmente  mortos, secados, despachados e usados para as pessoas dormirem. Nenhum deles parece se importar com isso e todos se chamam Zem.</p><p>
&#x2015; N�o &#x2015; respondeu Marvin.</p><p>
&#x2015; Meu nome &#x2015; prosseguiu o colch�o &#x2015; � Zem. Poder�amos falar um pouco sobre o tempo, talvez.</p><p>
Marvin fez outra pausa em sua penosa marcha circular.</p><p>
&#x2015;  O  orvalho  &#x2015;  observou  &#x2015;  realmente  caiu  com  um  ru�do  particularmente detest�vel esta manh�.</p><p>
Continuou a andar como se aquele �mpeto comunicativo o tivesse inspirado a atingir revigorantes  patamares  de  melancolia  e  des�nimo.  Ele  arrastou-se  obstinadamente.  Se tivesse dentes, poderia rang�-los naquele momento. N�o tinha. N�o podia. O simples ato de se arrastar j� dizia tudo.</p><p>
O colch�o flopolou em volta. S� colch�es vivos em p�ntanos s�o capazes de fazer isso, o que explica por que a palavra n�o � usada mais freq�entemente. Ele flopolou de forma simp�tica, movendo uma boa quantidade de �gua ao faz�-lo. Soprou algumas bolhas na �gua por divers�o. Suas listras azuis e brancas brilharam rapidamente em um raio de sol que, inesperadamente, havia conseguido atravessar a n�voa, fazendo com que a criatura se aquecesse por um instante.</p><p>
Marvin arrastou-se.</p><p>
Voc� est� pensando em alguma coisa, n�o �? &#x2015; disse o colch�o, flupidamente.</p><p>
&#x2015; Muito mais do que voc� seria capaz de imaginar &#x2015; disse Marvin, pesaroso.</p><p>
&#x2015;  Minha  capacidade  para  atividades  mentais  de  todos  os  tipos  �  t�o  ilimitada quanto  a  infinita  imensid�o  do  pr�prio espa�o.  Exceto,  claro,  no que diz respeito � minha capacidade de ser feliz.</p><p>
Tunc, tunc, prosseguiu ele.</p><p>
&#x2015;  Minha  capacidade  para  ser  feliz  &#x2015;  acrescentou  &#x2015;  poderia  ser  colocada  numa caixa de f�sforos, sem tirar os f�sforos antes.</p><p>
O colch�o gotejamingou. Este � o ru�do feito por um colch�o vivo em seu habitat natural,  o  p�ntano,  quando  profundamente  tocado  por  uma hist�ria de  trag�dia  pessoal.  A palavra tamb�m pode significar, de acordo com O Dicion�rio Maximegalon Ultracompleto de Todas as L�nguas Desde Sempre, o ru�do feito pelo Lorde High Sanvalvwag de Hollop ao  descobrir  que  havia  se  esquecido  do  anivers�rio  de  sua  mulher  pelo  segundo  ano consecutivo. J� que houve um �nico Lorde High Sanvalvwag de Hollop e como ele nunca se casou,  a  palavra  s�  �  usada  com  um  sentido  negativo  ou  especulativo,  e  tem  crescido  o n�mero  de  pessoas  que  acreditam  que  o  Dicion�rio  Maximegalon  n�o  vale  a  frota  de caminh�es necess�ria para transportar sua edi��o microarmazenada. Mais curioso ainda � o fato  de  que  o  dicion�rio  omite  a  palavra  "flupidamente",  que  significa  apenas  "de  forma fl�pida".</p><p>
27</p><p>
O colch�o gotejamingou novamente.</p><p>
&#x2015;  Posso  sentir  um  profundo  desalento  em  seus  diodos  �  ele  voluiu  (para  saber  o significado  de  "voluir",  compre  uma  c�pia  do  Jarg�o  dos  P�ntanos  de  Squornshellous  em qualquer  sebo  ou,  se  preferir,  compre  o  Dicion�rio  Maximegalon  Ultracompleto,  j�  que  a Universidade de Maximegalon certamente ficaria feliz em se livrar dele e voltar a usar um enorme  espa�o  de  seu  estacionamento)  e  isso  me  deixa  triste.  Voc�  deveria  ser  mais colchonesco.</p><p>
Levamos vidas tranq�ilas e pacatas nos p�ntanos e nos contentamos em flopolar e voluir  e  observar  a  umidade  com  grande  flupidez.  Alguns  de  n�s  s�o  mortos,  mas,  como todos nos chamamos Zem ent�o nunca sabemos quem foi e, assim, gotejamingamos muito pouco. Por que voc� est� andando em c�rculos?</p><p>
&#x2015; Porque minha perna est� com defeito &#x2015; respondeu Marvin seco.</p><p>
&#x2015; Me parece &#x2015; disse o colch�o, penalizado &#x2015; que � uma perna bem ruinzinha.</p><p>
&#x2015; Voc� est� certo &#x2015; disse Marvin. &#x2015; De fato �.</p><p>
&#x2015; Vuum &#x2015; respondeu o colch�o.</p><p>
&#x2015;  Espero  que  sim  &#x2015;  disse  Marvin  &#x2015;  e  tamb�m  espero  que  voc�  ache  muito engra�ada  a  id�ia  de  um  rob�  com  uma  perna  artificial.  Voc�  deveria  contar  isso  quando encontrar  seus  amigos  Zem  e  Zem  mais  tarde.  Eles  ir�o  achar  gra�a,  se  os  conhe�o  bem, mas obviamente n�o os conhe�o, a n�o ser na exata medida que conhe�o todas as formas de vida org�nica, ou seja, muito mais do que eu gostaria. Ah, mas a minha vida nada � sen�o uma caixa de engrenagens sem fim.</p><p>
Ele continuou estompeando em torno de seu pequeno c�rculo, em torno de sua fina perna, uma estaca de metal que se arrastava na lama, mas ainda assim parecia emperrada.</p><p>
&#x2015; Mas por que voc� continua a andar em c�rculos? &#x2015; perguntou o colch�o.</p><p>
&#x2015; S� para deixar isso bem claro &#x2015; disse Marvin, que continuou girando.</p><p>
&#x2015; Est� claro, prezado amigo &#x2015; flurbulou o colch�o &#x2015;, est� bem claro.</p><p>
&#x2015; S� por mais alguns milh�es de anos &#x2015; disse Marvin &#x2015;, uns poucos milh�es. Depois vou tentar andar para tr�s. Para variar um pouco, entende. O colch�o podia sentir, no mais profundo de suas molas, que o rob� queria muito que  lhe  perguntassem  h�  quantos  anos  marchando  daquela  forma  f�til  e  infrut�fera.  Foi  o que ele fez, com outra flurbula��o silenciosa.</p><p>
&#x2015; H� pouco tempo passei da marca de 1,5 milh�o de anos &#x2015; disse Marvin, a�reo.</p><p>
&#x2015; Pergunte-me se em algum momento me sinto chateado, vamos, pergunte-me. O colch�o perguntou.</p><p>
Marvin ignorou a pergunta, apenas se arrastou com mais determina��o.</p><p>
&#x2015;  Fiz  um  discurso  uma  vez  &#x2015;  disse  ele,  do nada,  e aparentemente sem qualquer conex�o com o assunto. &#x2015; Voc� talvez n�o entenda por que estou tocando neste assunto, mas  �  s�  porque  minha  mente  funciona  t�o  fenomenalmente  r�pido  e  sou,  em  uma estimativa  gen�rica,  30  bilh�es  de  vezes  mais  inteligente  que  voc�.  Deixe-me  lhe  dar  um exemplo. Pense em um n�mero, qualquer n�mero.</p><p>
&#x2015; Ahn... cinco &#x2015; disse o colch�o.</p><p>
&#x2015; Errado &#x2015; respondeu Marvin. &#x2015; Voc� entende agora?</p><p>
O colch�o ficou muito impressionado por isso e percebeu que estava na presen�a de uma  mente  invulgar.  Ele  uilomeou  ao  longo  de  todo  o  seu  corpo,  gerando  pequenas ondula��es excitadas ao longo de sua po�a coberta por algas.</p><p>
Glupou.</p><p>
&#x2015; Conte-me &#x2015; pediu, animado &#x2015; sobre o seu discurso, eu adoraria ouvi-lo.</p><p>
&#x2015;  Foi  muito  mal  recebido  &#x2015;  disse  Marvin  &#x2015;,  por  uma  s�rie  de  motivos.  Eu  fiz esse discurso a cerca de um quil�metro e meio naquela dire��o &#x2015; acrescentou, fazendo uma pausa  numa  tentativa  de  apontar  que  resultou  num  gesto  estranho  com  seu  bra�o  que  n�o</p><p>
28</p><p>
estava exatamente bem. O seu bra�o que estava melhor era o que estava deprimentemente soldado a seu lado esquerdo.</p><p>
Estava apontando t�o bem quanto podia, e obviamente queria deixar bem claro que aquilo era o melhor que podia fazer atrav�s da n�voa, sobre os juncos, indicando uma parte do p�ntano que se parecia exatamente com qualquer outra parte do p�ntano.</p><p>
&#x2015; Ali &#x2015; repetiu. &#x2015; Eu era uma esp�cie de celebridade na �poca. O colch�o  foi tomado  por  grande excita��o. Nunca tinha ouvido falar que algu�m tivesse  feito  um  discurso  em  Squornshellous  Zeta,  sobretudo  n�o  uma  celebridade.  Gotas d'�gua respingaram dele enquanto um tremor de excita��o gluriou por suas costas. Ele fez algo que os colch�es muito raramente se d�o ao trabalho de fazer. Reunindo cada �tomo de sua for�a, ele curvou seu corpo retangular, elevou-o no ar e  o  manteve  tremendo  por  l�  durante  alguns  segundos  enquanto  tentava  olhar,  atrav�s  da n�voa, sobre os juncos, na dire��o do p�ntano que havia sido indicada por Marvin, notando, sem nenhum desapontamento, que era exatamente igual a qualquer outra parte do p�ntano. Foi esfor�o demais, e ele acabou flogando de volta em sua po�a, encharcando Marvin com uma lama fedorenta, musgo e ervas daninhas.</p><p>
&#x2015; Eu fui uma celebridade &#x2015; prosseguiu o rob� em tom monoc�rdio &#x2015; durante um curto per�odo de tempo devido � minha miraculosa escapada (da qual muito me ressinto) de um destino quase t�o bom quanto a morte no cora��o de um sol resplandecente. Voc� pode perceber, olhando para a minha condi��o atual &#x2015; acrescentou &#x2015;, por qu�o pouco escapei. Fui  salvo  por  um  vendedor  de  ferro-velho,  imagine  s�.  Aqui  estou,  com  um  c�rebro  do tamanho de um... ah, deixa pra l�.</p><p>
Arrastou-se novamente por mais algum tempo.</p><p>
&#x2015;  Foi  ele  que  me  arrumou  esta  perna.  Odiosa,  n�o  �?  Me  vendeu  para  um Zool�gico Mental. Eu era a estrela da exposi��o. Tinha que ficar sentado em uma caixa e contar a minha hist�ria enquanto as pessoas me diziam para me animar e pensar de forma positiva.  "D�  um  sorriso,  robozinho",  gritavam  eles,  "d�  uma  risada."  Nessa  hora  eu geralmente explica-que, para fazer meu rosto sorrir, levaria algumas horas em uma oficina com  um  alicate,  o  que  resolvia  bem  a  situa��o.  &#x2015;  O  discurso  &#x2015;  insistiu  o  colch�o.  &#x2015;</p><p>
Quero muito ouvir o discurso que voc� deu no p�ntano.</p><p>
&#x2015;  Uma  ponte  ia  ser  constru�da  atrav�s  dos  p�ntanos.  Era  uma  hiperponte ciberestruturada, com centenas de quil�metros de extens�o, para carregar carro�as i�nicas e transportes de cargas por cima do p�ntano.</p><p>
&#x2015; Uma ponte? &#x2015; inquirulou o colch�o. &#x2015; Aqui no p�ntano?</p><p>
&#x2015;  Sim,  uma  ponte  &#x2015;  confirmou  Marvin  &#x2015;,  aqui  no  p�ntano.  A  id�ia  �  que  ela revitalizasse  a  economia  do  Sistema  de  Squornshellous.  Dedicaram  todos  os  recursos  da economia  do  Sistema  de  Squornshellous  para  constru�-la.  E  me  pediram  para  inaugur�-la. Pobres tolos.</p><p>
Uma chuva fina come�ou a cair atrav�s da n�voa.</p><p>
&#x2015;  L�  estava  eu  na  plataforma.  Por  centenas  de  quil�metros  �  minha  frente  e centenas de quil�metros atr�s de mim estendia-se a ponte.</p><p>
&#x2015; Ela reluzia? &#x2015; perguntou o colch�o, entusiasmado.</p><p>
&#x2015; Sim, reluzia.</p><p>
&#x2015; Atravessava as milhas majestosamente?</p><p>
&#x2015; Sim, atravessava as milhas majestosamente.</p><p>
&#x2015; Alongava-se como um fio de prata at� se tornar invis�vel em meio � n�voa?</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; disse Marvin. &#x2015; Voc� quer ou n�o ouvir a hist�ria?</p><p>
&#x2015; Quero ouvir o seu discurso &#x2015; respondeu o colch�o.</p><p>
&#x2015;  Eis  o  que  eu  disse.  Disse:  "Gostaria  de  dizer  que  �  um  grande  prazer,  uma enorme  honra  e  um  privil�gio  para  mim  inaugurar  esta  ponte,  mas  n�o  posso  fazer  isso</p><p>
29</p><p>
porque  todos  os  meus  circuitos  de  falsidade  est�o  fora  de  a��o.  Eu  odeio  desprezo  todos voc�s.  A  partir  deste  momento,  declaro  esta  miser�vel  ciberestrutura  aberta  aos  abusos inimagin�veis de todos aqueles que ir�o petulantemente cruz�-la." Em seguida me conectei aos circuitos de abertura.</p><p>
Marvin fez uma pausa enquanto se lembrava da ocasi�o.</p><p>
O  colch�o  flureou  e  gluriou.  Ele  flopolou,  glupou  e  uilomeou  de  uma  forma particularmente fl�pida.</p><p>
&#x2015; Vuum &#x2015; vurfou por fim. &#x2015; E foi uma ocasi�o magn�fica?</p><p>
&#x2015; Razoavelmente magn�fica. A ponte de 1.500 quil�metros em toda a sua extens�o, espontaneamente  redobrou-se  em  sua  cintilante  travessia  e  submergiu,  chorando,  no  lodo, levando todos junto com ela.</p><p>
Houve uma triste e terr�vel pausa neste ponto da conversa, durante a qual a 100 mil pessoas  pareceram  ter  dito  "uop"  inesperadamente  e  um  time  de  rob�s  brancos desceu do c�u como sementes de dentes-de-le�o esvoa�ando pelo vento em forma��o militar cerrada. Durante  um  curto  e  violento  momento  estavam  todos  l�,  no  p�ntano,  arrancando  a  perna falsa de Marvin e, logo em seguida, estavam de volta em sua nave, que fez "fuop".</p><p>
&#x2015;  Voc�  entende  o  tipo  de  coisa  que  tenho  que  aturar?  &#x2015;  disse  Marvin  para  o colch�o goberingante.</p><p>
Ent�o,  logo  em  seguida,  os  rob�s  voltaram  para  outro  incidente  violento  e,  desta vez, quando partiram, o colch�o estava sozinho no p�ntano. Ele flopolou em volta, perplexo e assustado. Quase lurglou de medo. Suspendeu a si mesmo para ver por cima dos juncos, mas n�o havia nada para ver a n�o ser mais juncos.</p><p>
Prestou  aten��o  aos  sons,  mas  o  �nico  som  vindo  com  o  vento  era  o  j�  familiar ru�do de alguns etimologistas semi-enlouquecidos gritando � dist�ncia, uns para os outros, atrav�s do lodo fedorento.</p><p>
 Cap�tulo 10</p><p>
O corpo de Arthur Dent girou.</p><p>
O Universo se estilha�ou em um milh�o de fragmentos reluzentes em volta dele e cada um dos cacos girou silenciosamente pelo vazio, refletindo em sua superf�cie prateada um �nico e causticante holocausto de fogo e destrui��o.</p><p>
E ent�o a escurid�o por tr�s do Universo explodiu, e cada peda�o de escurid�o era a furiosa fuma�a do inferno.</p><p>
E por tr�s da escurid�o por tr�s do Universo irrompeu o vazio, e por tr�s do vazio por tr�s da escurid�o por tr�s do Universo estilha�ado surgiu enfim a sombria figura de um homem imenso proferindo imensas palavras.</p><p>
&#x2015; Essas, ent�o &#x2015; disse a figura, sentada em uma cadeira imensamente confort�vel</p><p>
&#x2015;, foram as Guerras de Krikkit, a maior devasta��o que j� tomou conta de nossa Gal�xia. O</p><p>
que voc�s acabaram de vivenciar...</p><p>
Slartibartfast passou flutuando e gesticulando.</p><p>
&#x2015;  �  s�  um  document�rio  &#x2015;  gritou.  &#x2015;  Essa  n�o  �  a  parte  legal.  Mil  desculpas, estou procurando o bot�o de rewind...</p><p>
&#x2015; ...foi aquilo que bilh�es de bilh�es de inocentes...</p><p>
&#x2015;  Em  hip�tese  alguma  &#x2015;  gritou  Slartibartfast,  flutuando  para  o  outro  lado  e mexendo  furiosamente  na  coisa  que  ele  havia  enfiado  na  parede  da  Sala  de  Ilus�es Informacionais e que continuava enfiada l� &#x2015; aceitem comprar o que quer que seja agora.</p><p>
30</p><p>
&#x2015; ...pessoas, criaturas, seres semelhantes a voc�s...</p><p>
A trilha sonora cresceu. Tamb�m a m�sica era imensa com acordes imensos. E por tr�s do homem, lentamente, tr�s altos pilares come�aram a emergir da n�voa imensamente turbilhonante.</p><p>
&#x2015;  ...vivenciaram  ou,  na  maioria  dos  casos,  n�o  foram  capazes  de  vivenciar  at�  o fim.  Pensem  nisso,  meus  amigos.  N�o  devemos  nunca  nos  esquecer  &#x2015;  e  em  breve  irei sugerir uma forma de nos ajudar a lembrar para sempre disso &#x2015; de que antes das Guerras de Krikkit a Gal�xia era um lugar precioso e maravilhoso, uma Gal�xia feliz!</p><p>
A esta altura, a m�sica estava transbordando de imensid�o.</p><p>
&#x2015; Uma Gal�xia feliz, meus amigos, representada pelo s�mbolo do Portal de Wikkit!</p><p>
Os tr�s pilares destacavam-se em primeiro plano agora, tr�s pilares com duas traves colocadas  horizontalmente  sobre  eles  de  uma  forma  que  parecia  estupendamente  familiar para o c�rebro aturdido de Arthur.</p><p>
&#x2015;  Os  tr�s  Pilares  &#x2015;  disse  triunfalmente  o  homem.  O  Pilar  de  A�o,  que representava a For�a e o Poder da Gal�xia!</p><p>
Refletores foram acionados e dan�avam loucamente para cima e para baixo do pilar da esquerda, claramente feito de a�o ou algo muito parecido com a�o. A m�sica tonitruou estrondosamente.</p><p>
&#x2015; O Pilar de Acr�lico &#x2015; anunciou o homem &#x2015; representando as for�as da Ci�ncia e da Raz�o na Gal�xia.</p><p>
Outros  refletores  se  projetaram  exoticamente  sobre  o  pilar  transparente  �  direita, gerando  padr�es  deslumbrantes  dentro  dele  e  gerando  tamb�m  um  s�bito  e  inexplic�vel desejo de tomar sorvete no est�mago de Arthur.</p><p>
&#x2015; E &#x2015; bradou a voz &#x2015; o Pilar de Madeira, representando... &#x2015; nesse ponto sua voz tornou-se  suavemente  rouca  e  cheia  de  sentimento  &#x2015;  as  for�as  da  Natureza  e  da Espiritualidade.</p><p>
A  luzes  focaram  o  pilar  central.  A  m�sica  ascendeu  destemidamente  ao  reino  da completa indescritibilidade.</p><p>
&#x2015;  Entre  elas  est�o  apoiadas  &#x2015;  retumbou  a  voz,  pr�xima  do  auge  &#x2015;  a  Trave Dourada da Prosperidade e a Trave Prateada da paz!</p><p>
Agora a estrutura inteira estava inundada por luzes deslumbrantes, e a m�sica havia, felizmente,  ultrapassado  em  muito  os  limites  da  compreens�o.  No  topo  dos  tr�s  pilares estavam assentadas as duas traves lindamente reluzentes.</p><p>
Parecia  haver  garotas  sentadas  nelas,  ou  talvez  fossem  anjos.  Anjos,  contudo, geralmente s�o representados usando mais roupas.</p><p>
Subitamente um sil�ncio dram�tico percorreu o que presumivelmente era o Cosmos, e as luzes diminu�ram.</p><p>
&#x2015;  N�o  h�  um  �nico  mundo  &#x2015;  anunciou  o  homem,  com  voz  de  profundo conhecedor do assunto &#x2015;, um �nico mundo civilizado em toda a Gal�xia onde este s�mbolo n�o  seja  reverenciado  at�  hoje.  Mesmo  nos  planetas  mais  primitivos,  ele  persiste  na mem�ria  coletiva.  Foi  isto  que  as  for�as  de  Krikkit  destru�ram  e  �  isto  que  atualmente mant�m seu planeta trancado at� o fim da eternidade.</p><p>
Com um floreio, o homem fez surgir em suas m�os um modelo do Portal de Wikkit. Era extremamente dif�cil ter uma no��o de escala em meio �quele espet�culo extraordin�rio, mas o modelo parecia ter quase um metro de altura.</p><p>
&#x2015; Esta n�o � a chave original, � claro. Ela foi, como todos sabem, destru�da, jogada nos turbilhonantes z�firos do cont�nuo espa�o-temporal e perdida para sempre. O que temos aqui � uma r�plica minuciosa, feita � m�o por h�beis artes�os, carinhosamente manufaturada usando antigos segredos para criar uma lembran�a que voc�s ter�o orgulho em guardar, uma lembran�a em mem�ria daqueles que ca�ram, um tributo � Gal�xia &#x2015; � nossa Gal�xia &#x2015;,</p><p>
31</p><p>
em defesa da qual deram suas vidas...</p><p>
Slartibartfast flutuou novamente nesse ponto.</p><p>
&#x2015;  Finalmente  encontrei  &#x2015;  disse.  &#x2015;  Podemos  passar  todo  esse  lixo.  Apenas  n�o acenem, s� isso.</p><p>
&#x2015;  Agora,  vamos  inclinar  nossas  cabe�as  em  pagamento  entoou  a  voz,  antes  de dizer tudo de novo, s� que bem mais r�pido e ao contr�rio.</p><p>
As  luzes  dan�aram,  os  pilares  desapareceram,  o  homem tagarelou consigo mesmo retrocedendo no vazio e o Universo reconstruiu-se com um estalo em torno deles. .</p><p>
&#x2015; Pegaram o sentido da coisa? &#x2015; perguntou Slartibartfast.</p><p>
&#x2015; Estou estupefato &#x2015; disse Arthur &#x2015; e perplexo.</p><p>
&#x2015; Estava dormindo &#x2015; disse Ford, que flutuou na frente deles naquele momento. &#x2015;</p><p>
Perdi alguma coisa?</p><p>
Encontraram-se  mais  uma  vez  cambaleando  bem  rapidamente  na  beira  de  um precip�cio  aflitivamente  alto.  O  vento  varria  seus  rostos  e  percorria  uma  ba�a  na  qual  os restos de uma das maiores e mais poderosas frotas de naves de guerra j� reunidas na Gal�xia estava  velozmente  se  queimando  de  volta  �  exist�ncia.  O  c�u  era  de  uma  cor  rosaacinzentada, passando depois para uma cor bastante peculiar e escurecendo at� ficar azul e, finalmente, preto. Um turbilh�o de fuma�a subia com uma rapidez impressionante. Os  eventos  agora  retrocediam  quase  r�pido  demais  para  serem  distinguidos  e quando,  pouco  tempo  depois,  um  imenso  cruzador  estelar  afastou-se  rapidamente  deles, como  se  tivessem  gritado  "buuu",  s�  puderam  reconhec�-lo  porque  haviam  come�ado  a assistir � proje��o naquele ponto.</p><p>
Agora as coisas passavam depressa demais, um borr�o videot�ctil que os sacudia e espanava atrav�s de s�culos de hist�ria gal�ctica, girando, revirando, piscando. O �nico som era um pequeno sibilar tr�mulo.</p><p>
Periodicamente,  em  meio  �  crescente  massa  de  eventos,  podiam  sentir  cat�strofes gigantescas,  profundos  horrores,  choques  catacl�smicos,  todos  eles  sempre  associados  a algumas  vagens  recorrentes,  as  �nicas  imagens  que  surgiam  claramente  em  meio  �</p><p>
avalanche de hist�ria: um portal de wicket, uma bolinha vermelha e dura, rob�s brancos e duros, al�m de uma outra coisa menos distinta, algo envolto em sombras e n�voa. Mas havia uma outra sensa��o que surgia claramente dessa estonteante passagem do tempo.</p><p>
Assim  como  uma  s�rie  de  cliques,  quando  acelerados,  perdem  sua  defini��o individual  e,  aos  poucos,  se  tornam  um  tom  uniforme  e  cada  vez  mais  agudo,  da  mesma forma uma s�rie de impress�es individuais foi se transformando numa emo��o prolongada que,  ao  mesmo  tempo,  n�o  chegava  a  ser  uma  emo��o.  Se  fosse  uma  emo��o,  era desprovida  de  qualquer  emotividade.  Era  �dio,  um  �dio  implac�vel.  Era  fria,  n�o  como  o gelo, mas como uma parede. Era impessoal, n�o como um soco no meio de uma multid�o �</p><p>
impessoal, mas como uma multa de estacionamento emitida por computador � impessoal. E</p><p>
era  mort�fera  &#x2015;  novamente,  n�o  como  uma  bala  ou  uma  faca,  mas  como  uma  parede  de tijolos colocada no meio de uma auto-estrada.</p><p>
E, da mesma forma como um tom crescente ir� mudar seu timbre e adquirir novos harm�nicos  conforme  se  torna  mais  agudo,  assim  tamb�m  essa  emo��o  n�o-emotiva pareceu crescer at� tornar-se um grito insuport�vel, ainda que inaud�vel, e, subitamente, um grito de culpa e fracasso.</p><p>
De repente, tudo parou.</p><p>
Estavam de p� no topo de um monte numa tarde tranq�ila.</p><p>
O sol estava se pondo.</p><p>
Em volta deles o verde suave dos campos serpenteava gentilmente a perder de vista. P�ssaros  cantavam  suas  opini�es  a  respeito,  que,  no  geral,  pareciam  ser  boas.  Um  pouco</p><p>
32</p><p>
mais  ao  longe  podia-se  ouvir  o  som  de  crian�as  brincando  e,  ainda  mais  ao  longe  que  a aparente fonte deste som, podia-se ver, na primeira escurid�o da noite, o contorno de uma pequena cidade.</p><p>
A  cidade  era  formada  por  pr�dios  baixos,  feitos  de  pedra  branca.  Recortava  o horizonte de forma suave.</p><p>
O sol havia se posto quase totalmente.</p><p>
Surgida do nada, uma m�sica come�ou a tocar. Slartibartfast apertou um bot�o e ela parou.   Uma voz disse:</p><p>
&#x2015; Isso... &#x2015; Slartibartfast apertou outro bot�o e a voz tamb�m parou.</p><p>
&#x2015; Eu mesmo vou lhes contar essa parte &#x2015; disse, suavemente. O lugar era pac�fico. Arthur sentia-se feliz. At� mesmo Ford parecia alegre. Caminharam um pouco em dire��o �</p><p>
cidade.  A  Ilus�o  Informacional  de  grama  era  agrad�vel  e  fofa  sob  seus  p�s,  e  a  Ilus�o Informacional de flores tinha uma fragr�ncia doce.</p><p>
Apenas Slartibartfast parecia estar apreensivo e aborrecido.</p><p>
Ele parou e olhou para cima.</p><p>
Arthur  pensou  subitamente  que,  como  a  parte  onde  estavam  vinha  no  final,  por assim  dizer,  ou,  mais  exatamente,  no  in�cio  de  todo  o  horror  que  haviam  acabado  de presenciar  de  forma borrada,  provavelmente  algo profundamente  desagrad�vel  estava  para acontecer.  Ficou  transtornado  ao  pensar  que  algo  de  profundamente  desagrad�vel pudesse acontecer em um lugar t�o id�lico quanto aquele. Tamb�m olhou para cima. N�o havia nada no c�u.</p><p>
&#x2015; Eles n�o v�o atacar aqui, v�o? &#x2015; disse. Sabia que estava apenas andando dentro de uma grava��o, mas ainda assim ficou tenso.</p><p>
&#x2015;  Nada  vai  atacar  aqui  &#x2015;  disse  Slartibartfast  com  uma  voz  inesperadamente tr�mula de emo��o. &#x2015; Foi aqui que tudo come�ou. Este � o lugar em si. O planeta Krikkit. Olhou para o c�u acima deles.</p><p>
O  c�u,  de  um  horizonte  ao  outro,  de  leste  a  oeste,  de  norte  a  sul,  era  total  e completamente negro.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 11</p><p>
 Estompe, estompe.</p><p>
R-r-r-r-rrr.</p><p>
&#x2015; � um prazer servi-lo.</p><p>
&#x2015; Cale-se.</p><p>
&#x2015; Obrigado.</p><p>
Estompe estompe estompe estompe estompe.</p><p>
R-r-r-r-rrr.</p><p>
&#x2015; Obrigado por tornar uma simples porta muito feliz.</p><p>
&#x2015; Espero que seus diodos enferrujem.</p><p>
&#x2015; Obrigado. Tenha um bom dia.</p><p>
&#x2015; Estompe estompe estompe estompe.</p><p>
R-r-r-r-rrr.</p><p>
&#x2015; � um prazer abrir para voc�...</p><p>
&#x2015; V� se zarcarl</p><p>
&#x2015;  ...e  uma  grande  satisfa��o  fechar  de  novo,  com  a  consci�ncia  de  um  trabalho</p><p>
33</p><p>
bem-feito.</p><p>
&#x2015; J� disse para se zarcar!</p><p>
&#x2015; Obrigado por ouvir esta mensagem.</p><p>
Estompe estompe estompe estompe.</p><p>
&#x2015; Uop.</p><p>
Zaphod parou de estompear. Estava estompeando pela Cora��o de Ouro h� dias e, at� aquele momento, nenhuma porta tinha dito "uop" para ele. Na verdade, estava bem certo de  que  nenhuma  porta  teria  dito  "uop"  agora.  Portas,  em  geral  n�o  dizem  algo  assim.  �</p><p>
muito conciso. Al�m disso, n�o havia portas suficientes.</p><p>
Soou  como  se 100  mil pessoas  tivessem  dito "uop", o  que  o deixava  intrigado, j�</p><p>
que era a �nica pessoa na nave.</p><p>
Estava escuro. A maioria dos sistemas n�o-essenciais da nave estavam desligados. Ela  estava  �  deriva  em  uma  �rea  remota  da  Gal�xia,  no  mais  negro  nanquim  do  espa�o. Ent�o como 100 mil pessoas iriam at� l� para dizer um "uop" totalmente inesperado?</p><p>
Olhou em volta, para um lado e para o outro do corredor. Tudo estava envolto em trevas.  Havia  apenas  os  contornos  rosados  e  fracamente  iluminados  das  portas,  que brilhavam no escuro e pulsavam sempre que elas falavam, apesar de tudo que ela j� tinha tentado para impedi-las.</p><p>
As luzes estavam apagadas para evitar que suas cabe�as pudessem olhar uma para a outra, porque nenhuma delas era uma vis�o particularmente atraente no momento, como j�</p><p>
n�o eram desde que Zaphod cometera o erro de examinar sua alma. Aquilo tinha sido um grande erro. Era tarde da noite, � claro. Tinha sido um dia dif�cil, � claro.</p><p>
Uma m�sica suave estava tocando no som da nave, � claro.</p><p>
Ele estava, � claro, ligeiramente b�bado.</p><p>
Em outras palavras, todas as condi��es habituais que levam a um surto de exame da alma estavam presentes. Ainda assim, claramente havia sido um erro. Andando  agora,  silencioso  e  solit�rio,  no  corredor  sombrio,  lembrou-se  daquele momento e sentiu um frio na espinha. Uma de suas cabe�as olhou para um lado, a outra para o outro, e cada qual decidiu que o lado oposto era o caminho a seguir. Estava prestando aten��o, mas n�o havia som algum.</p><p>
S� tinha havido aquele "uop".</p><p>
Parecia  uma  viagem  terrivelmente  longa  para  trazer  um  numero  terrivelmente grande de pessoas para dizer uma �nica palavra. Ficou nervoso e come�ou a caminhar em dire��o � ponte.</p><p>
Ao menos l� se sentiria no controle da situa��o. Parou de novo. Da forma como se sentia  agora,  n�o  achava  que  fosse  uma  pessoa  muito  adequada  para  estar  no  controle  de nada.   Lembrando agora daquele momento, o primeiro choque tinha sido a descoberta de que ele realmente tinha uma alma.</p><p>
De certa forma sempre presumira que tinha uma, j� que parecia ter todas as outras coisas,  e  na  verdade tinha  at�  duas de algumas coisas, mas encontrar de fato aquela coisa escondida l� dentro dele havia sido um grande choque.</p><p>
E ter descoberto, em seguida (este foi o segundo choque), que sua alma n�o era a coisa  fant�stica  que  acreditava  ter  o  direito  natural  de  esperar,  sendo  um  homem  de  sua posi��o, o havia chocado novamente.</p><p>
Ent�o havia pensado a respeito de qual era exatamente sua posi��o e o novo choque quase fez com que derrubasse seu drinque. Virou o copo rapidamente antes que algo s�rio pudesse acontecer � bebida. Em seguida tomou um outro drinque, para seguir o primeiro e verificar se estava tudo bem.</p><p>
34</p><p>
&#x2015; Liberdade &#x2015; disse em voz alta.</p><p>
Naquele  momento,  Trillian  apareceu  na  cabine  de  comando  e  disse  v�rias  coisas entusi�sticas a respeito da liberdade.</p><p>
&#x2015;  N�o  posso  lidar  com  isso  &#x2015;  respondeu  ele,  soturno,  e  enviou  um  terceiro drinque  para  averiguar  por  que  o  segundo  ainda  n�o  havia  enviado  um  relat�rio  sobre  a situa��o  do Primeiro.  Olhou  inseguro para  as  duas  Trillians e  concluiu que  preferia a que estava � direita.</p><p>
Jogou  um  drinque  garganta  abaixo  pela  outra  garganta,  penando  que  este  iria encontrar  o  anterior  na  jun��o,  onde  ambos  uniriam  for�as  e  fariam  com  que  o  segundo tomasse jeito.</p><p>
Ent�o os tr�s partiriam em busca do primeiro, teriam uma boa conversa com ele e talvez cantassem um pouco tamb�m.</p><p>
Estava em d�vida se o quarto drinque tinha entendido tudo aquilo, portanto mandou descer um quinto para detalhar o plano e um sexto para dar apoio moral.</p><p>
&#x2015; Voc� est� bebendo muito &#x2015; disse Trillian.</p><p>
Suas cabe�as colidiram enquanto tentavam reunir, em uma �nica pessoa, as quatro Trillians  que  estavam  vendo.  Acabou  desistindo  e  olhou  para  a  tela  de  navega��o.  Ficou espantado ao ver que havia um n�mero fenomenal de estrelas.</p><p>
&#x2015; Divers�o e aventura e coisas ex�ticas &#x2015; murmurou.</p><p>
&#x2015;  Olha  &#x2015;  disse  ela  com  uma  voz  simp�tica,  sentando-se  ao  lado  dele  &#x2015;,  �</p><p>
compreens�vel que voc� se sinta um pouco vazio e desnorteado por algum tempo. Espantou-se com ela. Nunca antes havia visto algu�m se sentar em seu pr�prio colo.</p><p>
&#x2015; Uau &#x2015; disse. E tomou outro drinque.</p><p>
&#x2015; Voc� completou a miss�o que te envolveu durante quatro anos.</p><p>
&#x2015; Ela n�o me envolveu. Eu procurei evitar ficar envolvido nela.</p><p>
&#x2015; Mesmo assim voc� a concluiu.</p><p>
Ele resmungou. Aparentemente estavam dando uma grande festa em seu est�mago.</p><p>
&#x2015;  Acho  que  isso  acabou  comigo  &#x2015;  disse.  &#x2015;  Aqui  estou,  Zaphod  Beeblebrox,  e posso  ir  a  qualquer  lugar,  posso  fazer  qualquer  coisa.  Tenho  a  melhor  nave  de  todo  o espa�o, uma garota com quem as coisas parecem estar indo bem...</p><p>
&#x2015; Parecem?</p><p>
&#x2015; At� onde posso ver. N�o sou especialista em relacionamentos pessoais... Trillian levantou as sobrancelhas.</p><p>
&#x2015;  Sou &#x2015; prosseguiu  Zaphod  &#x2015;  um  grande cara, posso fazer tudo que quiser, s�</p><p>
que n�o tenho a menor id�ia do que seja isto.</p><p>
Fez uma pausa.</p><p>
Uma  coisa  deixou  de levar  �  pr�xima  &#x2015; em contradi��o com o que disse, tomou outro drinque e escorregou desajeitadamente de sua cadeira.</p><p>
Enquanto  ele  dormia,  Trillian  pesquisou  algumas  coisas  na  c�pia  do  Guia  do Mochileiro  das  Gal�xias  que  havia  na  nave.  O  Guia  tinha  alguns  conselhos  a  respeito  de porres.</p><p>
&#x2015; V� fundo &#x2015; dizia o texto &#x2015; e boa sorte.</p><p>
Havia  uma  refer�ncia  cruzada  para  o  verbete  que  falava  sobre  o  tamanho  do Universo e como lidar com isso.</p><p>
Ent�o ela encontrou o verbete sobre Han Wavel, um ex�tico planeta tur�stico e um dos prod�gios da Gal�xia.</p><p>
Han  Wavel  �  um  mundo  constitu�do  basicamente  de  fabulosos  hot�is  e  cassinos ultraluxuosos. Todos formados por eros�o natural, provocada pela chuva e pelo vento. As  chances  de  que  algo  assim  aconte�a  s�o  mais  ou  menos  de  um  sobre  infinito. Pouco se sabe a respeito de como isso aconteceu porque nenhum dos geof�sicos, estat�sticos</p><p>
35</p><p>
de  probabilidade,  meteoroanalistas  ou  bizarrologistas  que  gostariam  muito  de  estudar  o assunto podem se dar ao luxo de ficar l�.</p><p>
Incr�vel, pensou Trillian, e em poucas horas a grande nave branca estava lentamente descendo  do  c�u,  iluminada  por  um  sol  quente  e  brilhante,  em  dire��o  a  um  espa�oporto recoberto por areia colorida. A nave estava obviamente causando sensa��o na superf�cie e Trillian estava se divertindo com isso. Ouviu Zaphod se movendo e assobiando em algum lugar da nave.</p><p>
&#x2015; Como voc� est�? &#x2015; perguntou pelo intercomunicador.</p><p>
&#x2015; Bem &#x2015; disse ele alegremente &#x2015;, incrivelmente bem.</p><p>
&#x2015; Onde voc� est�?</p><p>
&#x2015; No banheiro.</p><p>
&#x2015; Fazendo o qu�?</p><p>
&#x2015; Ficando aqui.</p><p>
Depois de uma ou duas horas tornou-se �bvio que ele realmente pretendia ficar por l� e a nave subiu novamente sem sequer abrir sua escotilha.</p><p>
&#x2015; Putz! &#x2015; disse Eddie, o computador.</p><p>
Trillian  assentiu  pacientemente,  batucou  com  seus  dedos  algumas  vezes  e  depois pressionou de novo o bot�o do intercomunicador.</p><p>
&#x2015;  Acho  que  divers�o  obrigat�ria  provavelmente  n�o  �  algo  de  que  voc�  precise neste momento.</p><p>
&#x2015; Provavelmente n�o &#x2015; retrucou Zaphod de algum lugar.</p><p>
&#x2015; Acho que uma boa atividade f�sica ajudaria a tirar voc� de dentro de si mesmo.</p><p>
&#x2015;  O  que  voc�  achar  eu  tamb�m  acho  &#x2015;  respondeu  Zaphod.  "Impossibilidades Recreativas" foi um t�pico que chamou a aten��o de Trillian quando, pouco depois, ela se sentou  para  dar  outra  lida  no  Guia.  Enquanto  a  Cora��o  de  Ouro  cruzava  o  espa�o  a velocidades  improv�veis  em  uma  dire��o  indeterminada,  ela  tomava  uma  x�cara  de  algo impens�vel  preparado  pela  m�quina  Nutrim�tica  de  bebidas  e  lia  sobre  como  aprender  a voar.   O Guia do Mochileiro das Gal�xias diz o seguinte a respeito de voar: H� toda uma arte, ele diz, ou melhor, um jeitinho para voar.</p><p>
O jeitinho consiste em aprender como se jogar no ch�o e errar. Encontre um belo dia, ele sugere, e experimente.</p><p>
A primeira parte � f�cil.</p><p>
Ela  requer  apenas  a  habilidade  de  se  jogar  para  a  frente,  com  todo  seu  peso,  e  o desprendimento para n�o se preocupar com o fato de que vai doer. Ou melhor, vai doer se voc� deixar de errar o ch�o.</p><p>
Muitas pessoas deixam de errar o ch�o e, se estiverem praticando da forma correta, o mais prov�vel � que v�o deixar de errar com muita for�a.</p><p>
Claramente  �  o  segundo  ponto,  que  diz  respeito  a  errar,  que  representa  a  maior dificuldade.</p><p>
Um  dos  problemas  �  que  voc�  precisa  errar  o  ch�o  acidentalmente.  N�o  adianta tentar errar o ch�o de forma deliberada, porque voc� n�o ir� conseguir. � preciso que sua aten��o  seja  subitamente  desviada  por  outra  coisa  quando  voc�  est�  a  meio  caminho,  de forma que voc� n�o pense mais a respeito de estar caindo, ou a respeito do ch�o, ou sobre o quanto isso tudo ir� doer se voc� deixar de errar.</p><p>
� reconhecidamente dif�cil remover sua aten��o dessas tr�s coisas durante a fra��o de segundo que voc� tem � sua disposi��o. O que explica por que muitas pessoas fracassam, bem como a eventual desilus�o com esse esporte divertido e espetacular. Contudo, se voc� tiver a sorte de ficar completamente distra�do no momento crucial por, digamos, lindas pernas (tent�culos, pseud�podos, de acordo com o filo e/ou inclina��o</p><p>
36</p><p>
pessoal)  ou  por  uma  bomba  explodindo  por  perto,  ou  por  notar  subitamente  uma  esp�cie muito  rara  de  besouro  subindo  num  galho  pr�ximo,  ent�o,  em  sua  perplexidade,  voc�  ir�</p><p>
errar o ch�o completamente e ficar� flutuando a poucos cent�metros dele, de uma forma que ir� parecer ligeiramente tola.</p><p>
Esse � o momento para uma sublime e delicada concentra��o.</p><p>
Balance e flutue, flutue e balance.</p><p>
Ignore todas as considera��es a respeito de seu pr�prio peso e simplesmente deixese flutuar mais alto. N�o ou�a nada que possam dizer nesse momento porque dificilmente seria algo de �til.</p><p>
Provavelmente dir�o algo como: "Meu Deus, voc� n�o pode estar voando!" � de vital import�ncia que voc� n�o acredite nisso: do contr�rio, subitamente estar�</p><p>
certo.   Flutue cada vez mais alto.</p><p>
Tente alguns mergulhos, bem devagar no in�cio, depois deixe-se levar para cima das �rvores, sempre respirando pausadamente.</p><p>
N�O ACENE PARA NINGU�M.</p><p>
Quando  voc�  j�  tiver  repetido  isso  algumas  vezes,  perceber�  que  o  momento  da distra��o logo se torna cada vez mais f�cil de atingir.</p><p>
Voc�  pode,  ent�o,  aprender  diversas  coisas  sobre  como  controlar  seu  v�o,  sua velocidade, como manobrar, etc. O truque est� sempre em n�o pensar muito a fundo naquilo que voc� quer fazer. Apenas deixe que aconte�a, como se fosse algo perfeitamente natural. Voc� tamb�m ir� aprender como pousar suavemente, coisa com a qual, com quase toda certeza, voc� ir� se atrapalhar &#x2015; e se atrapalhar feio &#x2015; em sua primeira tentativa. H�  clubes  privados  de  v�o  aos  quais  voc�  pode  se  juntar  e  que  ir�o  ajud�-lo  a atingir  esse  momento  fundamental  de  distra��o.  Eles  contratam  pessoas  com  um  f�sico inacredit�vel  &#x2015;  ou  com  opini�es  inacredit�veis  &#x2015;,  e  essas  pessoas  pulam  de  tr�s  de arbustos  para  exibir  seus  corpos  &#x2015;  ou  suas  opini�es  &#x2015;  nos  momentos  cruciais.  Poucos mochileiros  de  verdade  ter�o  dinheiro  para  se  juntar  a  esses  clubes,  mas  �  poss�vel conseguir um emprego tempor�rio em um deles.</p><p>
Trillian  leu  isso  tudo  em  detalhes,  mas,  relutantemente,  decidiu  que  Zaphod realmente n�o estava no clima certo para tentar voar, ou para caminhar por montanhas, ou para tentar conseguir que um funcion�rio p�blico de Brantisvogan aceitasse uma notifica��o de  mudan�a  de  endere�o  �  estas  eram  as  outras  coisas  listadas  sob  o  t�pico</p><p>
"Impossibilidades Recreativas".</p><p>
Ela decidiu ent�o levar a nave at� Allosimanius Syneca, um planeta feito de gelo e neve, de uma beleza atordoante e um frio estonteante. A viagem das plan�cies nevadas de Liska at� o pico das Pir�mides de Cristal de Gelo de Sastantua � longa e exaustiva, mesmo com esquis  a jato e uma matilha de c�es de neve de Syneca, mas a vista l� de cima, uma vista que abrange os Campos de Geleiras de Stin, as reluzentes Montanhas Prism�ticas e as long�nquas  luzes  de  gelo,  et�reas  e  dan�antes,  �  algo  que  congela  a  mente  e  ent�o,  aos poucos,  a  liberta  para  horizontes  de  beleza  at�  ent�o  nunca  experimentados,  e, pessoalmente, Trillian achava que se sentiria bem com essa coisa de ter sua mente libertada aos poucos para horizontes de beleza at� ent�o nunca experimentados. Entraram em uma �rbita baixa.</p><p>
A beleza branco-prateada de Allosimanius Syneca desfilava abaixo deles. Zaphod  ficou  na  cama,  com  uma  cabe�a  enfiada  embaixo  de  um  travesseiro enquanto a outra montava quebra-cabe�as at� tarde.</p><p>
Trillian assentiu pacientemente mais uma vez, contou at� um n�mero bem grande e depois  disse  a  si  mesmo  que  a  coisa  mais  importante  agora  era  fazer  com  que  Zaphod</p><p>
37</p><p>
falasse.</p><p>
Tendo desativado todos os rob�s sintom�ticos da cozinha, preparou a refei��o mais fantasticamente  deliciosa  que  ela  podia  conceber  &#x2015;  carnes  sutilmente  untadas,  frutas perfumadas, queijos de aromas delicados e vinhos finos de Aldebaran. Levou a comida at� Zaphod e perguntou-lhe se gostaria de conversar.</p><p>
&#x2015; V� se zarcar! &#x2015; foi a resposta.</p><p>
Trillian assentiu pacientemente para si mesma, contou at� n�mero muito maior que o anterior, colocou suavemente a bandeja de lado, foi at� a sala do transporte e teleportou-se para fora daquela vida idiota dele.</p><p>
Ela  sequer  programou  as  coordenadas.  N�o  tinha  a  menor  id�ia  para  onde  estava indo, apenas foi &#x2015; uma fileira de pontinhos flutuando aleatoriamente pelo Universo.</p><p>
&#x2015; Qualquer coisa &#x2015; disse para si mesma ao sair &#x2015; � melhor que isto.</p><p>
&#x2015; Tamb�m acho &#x2015; murmurou Zaphod para si mesmo, depois virou-se e fracassou completamente em dormir.</p><p>
No  dia  seguinte,  ele  andou  inquieto  pelos  corredores  na  nave,  fingindo  n�o  estar procurando  por  ela,  apesar  de  saber  que  n�o  estava  mais  l�.  Ele  ignorou  as  perguntas insistentes do computador a respeito do que estava acontecendo por l� e acabou conectando uma morda�a eletr�nica num par de terminais.</p><p>
Depois de um tempo, come�ou a desligar as luzes. N�o havia nada para ser visto. Nada iria acontecer.</p><p>
Deitado  na  cama,  uma  noite  &#x2015;  e  a  noite  agora  era  cont�nua  na  nave  &#x2015;,  decidiu tomar  jeito  e  colocar  as  coisas  em  perspectiva.  Com  um  movimento  r�pido,  sentou-se  e come�ou  a  vestir  as  roupas.  Decidiu  que,  em  algum  lugar  do  Universo,  deveria  haver algu�m se  sentindo mais  desprez�vel,  miser�vel e abandonado  do  que  ele mesmo e estava determinado a encontrar essa pessoa.</p><p>
A meio caminho da ponte ocorreu-lhe que poderia ser o Marvin. Ent�o voltou para a cama.</p><p>
Foi  algumas  horas  depois,  enquanto  estompeava  desconsolado  atrav�s  dos corredores  escuros  xingando  as  portas  alegres,  que  ele  ouviu  dizerem  "uop",  coisa  que  o deixou bem nervoso.</p><p>
Encostou-se, tenso, contra a parede do corredor e franziu o cenho como algu�m que tentasse endireitar um saca-rolhas por telecinesia. Pressionou a ponta de seus dedos contra a parede  e  sentiu  uma  vibra��o  incomum.  Al�m  disso,  agora  podia  ouvir  claramente  leves ru�dos e tamb�m podia ouvir de onde estavam vindo &#x2015; era da ponte.</p><p>
&#x2015; Computador? &#x2015; sussurrou.</p><p>
&#x2015; Mmmm? &#x2015; respondeu o terminal mais pr�ximo, tamb�m sussurrando.</p><p>
&#x2015; H� mais algu�m nesta nave?</p><p>
&#x2015; Mmmmmm &#x2015; disse o computador?</p><p>
&#x2015; Quem �?</p><p>
&#x2015; Mmmmmm mmmm mm mmmmmmmm.</p><p>
Zaphod enfiou uma de suas caras em duas de suas m�os.</p><p>
&#x2015; Por Zarquon &#x2015; murmurou. Ent�o olhou pelo corredor na dire��o da entrada da ponte, meio distante, da qual ru�dos mais sugestivos estavam vindo e onde estavam situados os terminais amorda�ados.</p><p>
&#x2015; Computador &#x2015; murmurou de novo.</p><p>
&#x2015; Mmm?</p><p>
&#x2015; Quando eu retirar a morda�a...</p><p>
&#x2015; Mmm.</p><p>
&#x2015; ...me lembre de dar um soco em minha pr�pria boca.</p><p>
&#x2015; Mmmm mmmmm?</p><p>
38</p><p>
&#x2015; Qualquer uma. Me diga apenas uma coisa. Uma vez significa sim, duas significa n�o. � algo perigoso?</p><p>
&#x2015; Mmm.</p><p>
&#x2015; �?</p><p>
&#x2015; Mmm.</p><p>
&#x2015; Voc� n�o disse "mmm" duas vezes agora?</p><p>
&#x2015; Mmm mmm.</p><p>
Avan�ou  lentamente  pelo  corredor,  como  se  na  verdade  estivesse  querendo  sair correndo na outra dire��o, o que era verdade.</p><p>
Estava  a  dois  metros  da  porta  para  a  ponte  de  comando  quando  percebeu, horrorizado, que ela iria ser gentil com ele.</p><p>
Parou  imediatamente.  N�o  havia  sido  capaz  de  desligar  os  circuitos  vocais  de cortesia das portas.</p><p>
A  porta  que  levava  �  ponte  estava  fora  do  campo  de  vis�o  de  quem  estivesse  l�</p><p>
dentro,  por  conta  da  forma  fascinantemente  recurvada  que  usaram  ao  projetar  a  ponte. Zaphod esperava poder entrar sem ser visto.</p><p>
Desanimado,  apoiou-se  novamente  contra  a  parede  e  disse  algumas  palavras  que deixaram sua outra cabe�a bastante chocada.</p><p>
Deu uma olhadela para o contorno rosado da porta e descobriu que, na escurid�o do corredor, podia entrever o t�nue Campo Sensor que se estendia para fora, pelo corredor, e avisava � porta quando havia algu�m para quem ela deveria se abrir e para quem ela deveria fazer uma alegre e agrad�vel observa��o.</p><p>
Pressionou  o  corpo  com  for�a  contra  a  parede  e  foi  se  esgueirando  em  dire��o  �</p><p>
porta,  encolhendo  o  peito  o  m�ximo  poss�vel  para  evitar  contato  com  o  per�metro  muito, muito  fracamente  iluminado  do  campo.  Segurou  a  respira��o  e  parabenizou-se  por  ter passado  os  �ltimos  dias  jogado  na  cama,  em  vez  de  tentar  resolver  seus  problemas sentimentais na sala de muscula��o da nave.</p><p>
Percebeu, ent�o, que teria que dizer algo.</p><p>
Respirou  rapidamente algumas vezes  e depois  falou t�o r�pido e t�o baixo quanto p�de:</p><p>
&#x2015; Porta, se voc� estiver me ouvindo, diga que sim o mais baixo que puder. O mais baixo que p�de, a porta murmurou: &#x2015; Posso ouvi-lo.</p><p>
&#x2015; Bom. Preste aten��o. Daqui a pouco, vou pedir que se abra. Quando se abrir, n�o quero que diga que voc� ficou feliz com isso, certo?</p><p>
&#x2015; Certo.</p><p>
&#x2015; E tamb�m n�o quero que me diga que eu tornei uma simples porta muito feliz, ou que � um prazer abrir para mim e grande satisfa��o fechar de novo, com a consci�ncia de um trabalho bem-feito, certo?</p><p>
&#x2015; Certo.</p><p>
&#x2015; E n�o quero que me diga para ter um bom dia, entendido?</p><p>
&#x2015; Entendido.</p><p>
&#x2015; Certo &#x2015; disse Zaphod, tensionando o corpo &#x2015;, abra, agora. A porta abriu-se em sil�ncio. Zaphod passou atrav�s dela em sil�ncio. A porta se fechou silenciosamente atr�s dele.</p><p>
&#x2015; Era assim que o senhor queria, senhor Beeblebrox? &#x2015; disse a porta em voz alta.</p><p>
&#x2015;  Quero  que  imaginem  &#x2015;  disse  Zaphod  para  o  grupo  de  rob�s  brancos  que  se viraram naquele momento para olhar para ele &#x2015; que estou segurando uma pistola Zapogun extremamente poderosa.</p><p>
O  sil�ncio  que  veio  a  seguir  era  intensamente  frio  e  selvagem.  Os  rob�s  o examinaram  com  olhos  hediondamente  morti�os.  Mantiveram-se  im�veis.  Havia  algo</p><p>
39</p><p>
intensamente macabro em sua apar�ncia, especialmente para Zaphod, que nunca havia visto um  deles  antes,  nem  sabia  nada  a  respeito.  As  Guerras  de  Krikkit  pertenciam  ao  passado antigo  da  Gal�xia,  e  Zaphod  havia  gasto  a  maioria  de  suas  aulas  de  hist�ria  antiga elaborando um plano para transar com a garota que ocupava o cibercub�culo ao lado. Uma  vez  que  o  computador  respons�vel  por  suas  aulas  era  parte  integral  desse plano, ele eventualmente teve todos os seus circuitos de hist�ria apagados e substitu�dos por um  conjunto  completamente  diferente  de  id�ias.  Como  resultado  isso,  o  computador  foi desmontado e enviado para um abrigo para Cibertrastes Degenerados. Ele foi seguido pela garota, que  havia inadvertidamente  se apaixonado  pela  pobre  m�quina,  coisa  que, por  sua vez,  resultou  em  (a)  Zaphod  nunca  ter  conseguido  nada  com  ela  e  (b)  ele  ter  deixado  de estudar  um  per�odo  de  hist�ria  antiga  que  teria  um  valor  inestim�vel  para  ele  naquele momento.</p><p>
Zaphod olhou, chocado, para os rob�s.</p><p>
Era  imposs�vel  explicar  a  causa,  mas  seus  corpos  brancos  de  curvas  perfeitas  e reluzentes,  pareciam  ser  a  mais  perfeita  incorpora��o  de  uma  malignidade  calculada  e eficaz.  Desde  seus  olhos  hediondamente  morti�os  at�  seus  poderosos  p�s  sem  vida,  eram claramente  o  produto  perfeito  de  uma  mente  que  simplesmente  desejava  matar.  Zaphod engoliu em seco tomado pelo medo.</p><p>
Eles  estavam  desmantelando  parte  da  parede  traseira  da  ponte  e  haviam  for�ado passagem atrav�s de alguns dos pontos internos vitais da nave. Em meio ao emaranhado de pe�as, Zaphod podia ver, com uma sensa��o ainda maior e mais profunda de choque, que estavam criando um t�nel em dire��o ao pr�prio n�cleo da nave, o cora��o do Gerador de Improbabilidade que havia sido misteriosamente criado a partir do nada, o Cora��o de Ouro em si.</p><p>
O rob� que estava mais pr�ximo olhou pra ele de uma forma que sugeria que estava medindo  cada  min�scula  part�cula  de  seu  corpo,  sua  mente  e  suas  habilidades.  Quando falou, aquilo que disse pareceu transmitir exatamente isso.</p><p>
Antes  de  seguirmos  para  a  parte  do  que  ele  realmente  disse, vale a  pena registrar aqui que Zaphod era o primeiro ser org�nico a ouvir uma dessas criaturas falar em mais de dez bilh�es de anos. Se ele tivesse prestado mais aten��o em suas aulas de hist�ria antiga e menos em seu corpo org�nico, sem d�vida teria ficado mais impressionado com essa honra. A voz do rob� era como seu corpo: fria, perfeita e sem vida. Quase chegava a ter um verniz de eleg�ncia. Soava t�o antiga quanto era.</p><p>
Ele disse:</p><p>
&#x2015; Voc� de fato est� segurando uma pistola Zapogun em sua m�o.</p><p>
Inicialmente, Zaphod n�o entendeu bem o que ele quis dizer, mas ent�o olhou para sua m�o e ficou aliviado ao perceber r que aquilo que encontrara montado em um suporte na parede de fato era o que ele pensava ser.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; respondeu em um tom de al�vio desdenhoso, o que � bem dif�cil &#x2015;, bem, eu n�o quis exigir muito de sua imagina��o, rob�. &#x2015; Durante algum tempo ningu�m disse nada e Zaphod compreendeu que os rob�s obviamente n�o estavam ali para conversar. Essa parte ficaria por conta dele. &#x2015; Por acaso notei que voc�s estacionaram a nave de voc�s &#x2015;</p><p>
disse, apontando com uma de suas cabe�as na dire��o adequada &#x2015; dentro da minha. N�o  havia  como  negar  isso.  Sem  o  menor  respeito  por  qualquer  tipo  de comportamento  dimensional,  haviam  simplesmente  materializado  sua  nave  precisamente onde queriam que ela ficasse. Isso significava que estava entrela�ada atrav�s da Cora��o de Ouro como se n�o fossem nada al�m de dois pentes.</p><p>
Novamente n�o responderam nada, e Zaphod pensou que a conversa poderia ganhar um pouco de dinamismo se ele transformasse as suas falas em perguntas.</p><p>
&#x2015; ...n�o � verdade? &#x2015; acrescentou.</p><p>
40</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; respondeu o rob�.</p><p>
&#x2015; Ah. Certo &#x2015; disse Zaphod. &#x2015; Ent�o o que voc�s, meus chapas, est�o fazendo por aqui?</p><p>
Sil�ncio.</p><p>
&#x2015; Rob�s &#x2015; disse Zaphod &#x2015;, o que voc�s est�o fazendo por aqui?</p><p>
&#x2015; Viemos &#x2015; respondeu o rob� &#x2015; em busca da Trave de Ouro. Zaphod assentiu. Sacudiu a arma, indicando que gostaria de informa��es.</p><p>
O rob� pareceu entender o gesto.</p><p>
&#x2015;  A  Trave  de  Ouro  �  parte  da  chave  que  buscamos  prosseguiu  &#x2015;  para  libertar nossos Mestres de Krikkit.</p><p>
Zaphod assentiu novamente. Sacudiu a arma de novo.</p><p>
&#x2015;  A  Chave  &#x2015;  prosseguiu  o  rob�,  indiferente  &#x2015;  foi desintegrada  no espa�o e no tempo. A Trave de Ouro est� embutida no dispositivo que impulsiona sua nave. Ser� usada para reconstituir a Chave. Nossos Mestres ser�o libertados. O Reajuste Universal ir� continuar.</p><p>
Zaphod assentiu mais uma vez.</p><p>
&#x2015; Do que voc� est� falando? &#x2015; perguntou.</p><p>
A face totalmente inexpressiva do rob� pareceu ser atravessada por um leve pesar. Ele parecia estar achando aquela conversa deprimente.</p><p>
&#x2015; Aniquila��o &#x2015; disse. &#x2015; Procuramos a Chave &#x2015; repetiu &#x2015; e j� temos o Pilar de Madeira, o Pilar de A�o e o Pilar de Acr�lico. Mais um pouco e teremos o Pilar de Ouro...</p><p>
&#x2015; N�o, n�o ter�o.</p><p>
&#x2015; Teremos &#x2015; declarou o rob�.</p><p>
&#x2015; N�o ter�o n�o. Ele faz minha nave funcionar.</p><p>
&#x2015; Mais um pouco &#x2015; repetiu o rob�, pacientemente &#x2015; e teremos o Pilar de Ouro...</p><p>
&#x2015; N�o ter�o &#x2015; disse Zaphod.</p><p>
&#x2015; E depois temos que ir &#x2015; disse o rob�, absolutamente s�rio &#x2015; a uma festa.</p><p>
&#x2015; Ah &#x2015; disse Zaphod, surpreso. &#x2015; Posso ir tamb�m?</p><p>
&#x2015; N�o &#x2015; disse o rob�. &#x2015; Vamos atirar em voc�.</p><p>
&#x2015; � mesmo? &#x2015; disse Zaphod, sacudindo sua arma.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; disse o rob�, e atiraram nele.</p><p>
Zaphod ficou t�o surpreso que tiveram de atirar de novo antes que ele ca�sse.</p><p>
 Cap�tulo 12</p><p>
&#x2015; Shhh &#x2015; fez Slartibartfast. &#x2015; Ou�am e observem.</p><p>
A noite havia ca�do no antigo planeta Krikkit. O c�u estava escuro e vazio. A �nica luz provinha da cidade vizinha, a partir da qual sons pac�ficos e amig�veis vagavam  suavemente  pela  brisa.  Estavam  de  p�  sob  uma  �rvore  que  exalava  odores inebriantes. Arthur agachou-se para sentir a Ilus�o Informacional do solo e da grama. Pegou um pouco de terra e deixou cair entre seus dedos. O solo parecia denso e rico, a grama tinha vigor. Era dif�cil evitar a impress�o de que aquele lugar era absolutamente maravilhoso de todas as formas.</p><p>
Contudo, o c�u era vazio, e Arthur tinha a impress�o de que ele transmitia uma certa frieza  �  paisagem  que,  embora  n�o  pudesse  ser  vista  no  momento,  era  id�lica.  Sup�s, entretanto, que fosse apenas quest�o de h�bito.</p><p>
Sentiu  um  cutuc�o  no  seu  ombro  e  olhou  para  cima.  Slartibartfast  estava  lhe</p><p>
41</p><p>
mostrando, em sil�ncio, algo que vinha descendo do outro lado da colina. Ele olhou e p�de perceber luzes distantes que serpenteavam, movendo-se devagar na dire��o deles. Quando chegaram mais perto, p�de ouvir os sons tamb�m, e logo as luzes e sons se transformaram em um pequeno grupo de pessoas retornando para casa, vindo das colinas e dirigindo-se � cidade.</p><p>
Passaram  andando  bem  perto  dos  observadores  sob  a  �rvore  com  suas  tochas balan�ando  e  projetando  focos  suaves  de  luz  que  dan�avam  sobre  as  �rvores  e  a  grama. Estavam  tagarelando  alegremente  e  cantando  uma  m�sica  que  falava  sobre  o  qu�o maravilhoso  aquilo  era,  sobre  como  estavam  felizes,  como  gostavam  de  trabalhar  nas fazendas e como era bom voltar para suas casas e ver as mulheres e os filhos, com um refr�o animado  que  dizia  o  qu�o  docemente  perfumadas  as  flores  eram  naquela  �poca  do  ano,  e tamb�m que era uma pena que o cachorro, que gostava tanto deles, tivesse morrido. Arthur quase podia imaginar Paul McCartney sentado, com seus p�s diante da lareira no entardecer, cantarolando  aquilo  para  Linda  e  pensando  no  que  compraria  com  os  royalties  &#x2015;</p><p>
provavelmente Essex.</p><p>
&#x2015; Os Mestres de Krikkit &#x2015; sussurrou Slartibartfast em tom sepulcral. Essa  observa��o  causou  em  Arthur  uma  breve  confus�o,  tendo  chegado  t�o rapidamente  ap�s  seus  pr�prios  pensamentos  sobre  Essex.  Ent�o  a  l�gica  da  situa��o  se imp�s em sua mente dispersa e descobriu que continuava sem entender o que o velho queria dizer.</p><p>
&#x2015; O qu�? &#x2015; perguntou.</p><p>
&#x2015; Os Mestres de Krikkit &#x2015; repetiu Slartibartfast e, se o tom anterior foi sepulcral, desta vez ele soou como algu�m que est� com bronquite no Hades. Arthur  examinou  o  grupo  e  tentou  extrair  algum  sentido  das  poucas  informa��es que tinha � disposi��o at� o momento.</p><p>
As  pessoas  do  grupo  eram  claramente  alien�genas  por  pequenos  detalhes,  como  o fato de parecerem um pouco altas, magras, de fei��es duras e quase t�o p�lidas que se podia dizer  brancas.  Fora  isso,  pareciam  muito  agrad�veis.  Bem,  talvez  fossem  um  pouco esquisitonas e talvez n�o fossem pessoas com quem se gostaria de fazer uma longa viagem de �nibus, mas o ponto � que, se, de alguma forma, se desviavam de serem pessoas boas e honestas,  era  por  serem  legais  em  excesso  e  n�o  o  contr�rio.  Ent�o  por  que  toda  essa constri��o pulmonar de Slartibartfast, que parecia mais adequada a um comercial de r�dio para um daqueles filmes de terror asquerosos a respeito de operadores de serras el�tricas que levavam trabalho para fazer em casa � noite?</p><p>
Essa  quest�o  do  Krikkit  tamb�m  era  complexa.  Ele  ainda  n�o  tinha  conseguido fazer a ponte entre o que conhecia como cr�quete e aquilo que... Slartibartfast  interrompeu  os  pensamentos  de  Arthur  nesse  ponto,  como  se percebesse o que o outro estava pensando.</p><p>
&#x2015;  O  jogo  que  voc�  conhece  como  cr�quete  &#x2015;  disse,  com  uma  voz  que  parecia ainda  vagar  por  subterr�neos  &#x2015;  �  apenas  uma  dessas  peculiaridades  da  mem�ria  racial, capaz de manter algumas imagens vivas na mente s�culos ap�s seu verdadeiro sentido ter se perdido  nas  n�voas  do  tempo.  De  todas  as  ra�as  da  Gal�xia,  apenas  os  ingleses  seriam capazes  de  reviver  a  mem�ria  da  mais  terr�vel  das  guerras  que  j�  cindiram  o  Universo  e transform�-la  naquilo  que,  lamento  dizer,  �  visto  como  um  jogo  incompreensivelmente chato e sem sentido.</p><p>
&#x2015;  Eu  at�  gosto  dele  &#x2015;  acrescentou  &#x2015;,  mas,  aos  olhos  de  muitos,  voc�s  foram inadvertidamente  culpados  de  um  grotesco  mau  gosto.  Aquela  parte  da  bolinha  vermelha acertando o wicket � particularmente cruel.</p><p>
&#x2015; Hum &#x2015; disse Arthur, franzindo o rosto de forma reflexiva para indicar que suas sinapses cognitivas estavam lidando com aquilo da melhor forma poss�vel. &#x2015; Hum.</p><p>
42</p><p>
&#x2015; E estes &#x2015; disse Slartibartfast, retornando a seu tom criptogural e apontando para o grupo de homens de Krikkit que passou por eles &#x2015; s�o os que come�aram tudo, e tudo ir�</p><p>
come�ar hoje � noite. Venham, vamos segui-los para ver o que vem a seguir. Sa�ram de baixo da �rvore e seguiram o grupo animado longo da trilha escura pela colina. Seus instintos naturalmente diziam para que se movessem furtivamente e em sil�ncio atr�s  de  suas  presas.  Contudo,  como  estavam  apenas  andando  em  meio  uma  Ilus�o Informacional,  poderiam  estar  tocando  tuba  pintados  de  azul  sem  problema algum, j� que ningu�m iria notar.</p><p>
Arthur  observou  que  alguns  deles  tinham  passado  a  cantar  uma  outra  m�sica. Chegava at� eles carregada pela suave brisa da noite e era uma balada rom�ntica e doce que permitiria  a  Paul  McCartney  comprar  Kent  e  Sussex,  al�m  de  fazer  uma  boa  oferta  por Hampshire.</p><p>
&#x2015; Voc� certamente sabe &#x2015; disse Slartibartfast, virando-se para Ford &#x2015; o que est�</p><p>
para acontecer, n�o?</p><p>
&#x2015; Eu? &#x2015; disse Ford. &#x2015; N�o.</p><p>
&#x2015; Voc� n�o estudou Hist�ria Antiga da Gal�xia quando era jovem?</p><p>
&#x2015; Eu ficava no cibercub�culo atr�s de Zaphod &#x2015; disse Ford &#x2015;, era imposs�vel me concentrar.  O  que  n�o  significa  que  n�o  tenha  aprendido  algumas  coisas  muito impressionantes.</p><p>
Nesse  momento,  Arthur  notou  um  detalhe  curioso  naquela  can��o.  Os  oito compassos do meio &#x2015; que fariam com que Paul se consolidasse em Winchester e olhasse com interesse sobre o Test Valley chegando at� as ricas terras de New Forest logo a seguir</p><p>
&#x2015; tinham uma letra peculiar. Quem escreveu a can��o falava sobre encontrar-se com uma garota, mas n�o dizia "sob o luar" ou "sob as estrelas", e sim "sobre a grama". Aquilo soava um pouco prosaico para Arthur.</p><p>
Ent�o  ele  olhou  novamente  para  o  c�u,  desconcertantemente  preto,  e  teve  a sensa��o de que havia uma quest�o importante a� &#x2015; se ao menos pudesse definir qual era. A sensa��o era a de estar sozinho no Universo, que foi o que ele disse para os outros.</p><p>
&#x2015;  N�o  &#x2015;  disse  Slartibartfast,  apressando  ligeiramente  o  passo  &#x2015;  o  povo  de Krikkit  nunca  pensou  �Estamos  sozinhos  no  Universo�.  Eles  est�o  cercados  por  uma enorme  Nuvem  de  Poeira,  entende?  Um  �nico  sol  com  um  �nico  mundo  e  est�o  na extremidade  leste  da  Gal�xia.  Por  causa  da  Nuvem  de  Poeira  nunca  houve  nada  para  ser visto no c�u. Durante a noite � completamente escuro.</p><p>
Durante o dia h� o sol, mas n�o � poss�vel olhar diretamente para o sol, ent�o eles n�o olham. Quase n�o percebem que h� um c�u. � como se tivessem um ponto cego que se estende 180 graus, de um horizonte a outro.</p><p>
&#x2015;  O  �nico  motivo  pelo  qual  nunca  pensaram  "Estamos  sozinhos  no  Universo"  �</p><p>
porque, at� esta noite, eles sequer sabiam que h� um Universo. Ao menos n�o at� esta noite. Continuou andando, deixando suas palavras reverberando no ar atr�s de si.</p><p>
&#x2015;  Imagine  como  seria  nem  mesmo  ter  pensado  "Estamos  s�s",  simplesmente porque voc� nunca houvesse pensado que havia outra possibilidade. Andou novamente</p><p>
&#x2015; Creio que seria apavorante &#x2015; acrescentou.</p><p>
Enquanto falava, come�aram a ouvir um ru�do agudo de algo muito alto, cortando o c�u sem  estrelas  acima  deles.  Olharam para cima, preocupados, mas n�o conseguiram ver nada num primeiro momento.</p><p>
Ent�o  Arthur  notou  que  o  grupo  �  sua  frente  tamb�m  havia  ouvido  o  ru�do,  mas ningu�m sabia muito como agir. Estavam olhando em volta, confusos, para a esquerda, para a direita, Para a frente, para tr�s e at� mesmo para o ch�o. Sequer penaram em olhar para cima.</p><p>
43</p><p>
A profundidade do choque e do horror que demonstraram logo em seguida, quando os destro�os em chamas de uma espa�onave desceram do c�u com um estrondo, chocandose contra o solo cerca de um quil�metro � frente, era algo que s� podia ser entendido por quem estava l�.</p><p>
Alguns  falam  com  admira��o  da  Cora��o  de  Ouro,  outros  da  Nave  Estelar Bistrom�tica.</p><p>
Muitos  falam,  com  toda  raz�o,  da  lend�ria  e  gigantesca  Espa�onave  Titanic,  uma majestosa  e  luxuosa  nave  de  cruzeiro  lan�ada  dos  grandes  estaleiros  nos  complexos  de aster�ides de Artifactovol h� centenas de anos.</p><p>
De infinita beleza, estonteantemente enorme e equipada com mais divers�es do que qualquer  outra  nave  daquilo  que  hoje  ainda  nos  resta  da  Hist�ria,  teve  o  azar  de  ser constru�da logo no in�cio das pesquisas em F�sica da Improbabilidade muito antes que este dif�cil ramo do saber fosse completamente &#x2015; ou ao menos minimamente &#x2015; compreendido. Os projetistas e engenheiros decidiram, em sua inoc�ncia, construir um prot�tipo de Campo de Improbabilidade na nave, cujo prop�sito seria, supostamente, o de assegurar que fosse Infinitamente Improv�vel que qualquer coisa desse errado em qualquer parte da nave. N�o perceberam que, por conta da natureza quase-rec�proca e circular de todos os c�lculos  de  Improbabilidade,  qualquer  coisa  que  fosse  Infinitamente  Improv�vel  muito possivelmente aconteceria quase instantaneamente.</p><p>
A Espa�onave Titanic era uma vis�o incrivelmente bela, atracada como uma Baleia Megavoid  arcturiana  prateada  entre  o  tracejado  laser  dos  guindastes  de  constru��o,  uma nuvem  brilhante de agulhas de luz sobressaindo-se contra a profunda escurid�o do espa�o interestelar. Entretanto, ao ser lan�ada, n�o conseguiu nem mesmo completar sua primeira mensagem  de r�dio  &#x2015; um S.O.S. &#x2015; antes de sofrer um s�bito e fortuito colapso total de exist�ncia.</p><p>
Ainda assim, o mesmo evento que demonstrou a desastrosa falha de uma ci�ncia em sua  inf�ncia  tamb�m  testemunhou  a  apoteose  de  outra  ci�ncia.  Foi  provado,  de  forma definitiva  que  o  n�mero  de  pessoas  assistindo  �  cobertura  na  TV  3D  do  lan�amento  era maior  do  que  o  n�mero  de  pessoas  que  existiam  de  fato  na  �poca  &#x2015;  algo  que  �  hoje reconhecido como a maior fa�anha de todos os tempos na ci�ncia da pesquisa de audi�ncia. Outro evento espetacular da m�dia naquela �poca foi o fato a estrela Ysllodins ter se tornado uma supernova poucas horas depois. Ysllodins � a estrela ao redor da qual a maioria dos grandes agentes de seguro vive ou, melhor dizendo, vivia.</p><p>
Ainda  assim,  enquanto  essas  espa�onaves,  assim  como  outras famosas  que  v�m  �</p><p>
mente, como os Cruzadores da Frota Gal�ctica &#x2015; o GSS Daring, o GSS Audacy e o GSS</p><p>
Suicidal  Insanity  &#x2015;,  s�o  mencionadas  com  rever�ncia,  entusiasmo,  afeto,  admira��o, l�stima,  inveja,  ressentimento  &#x2015;  e  todas  as  emo��es  mais  comumente  conhecidas  &#x2015;, aquela que em geral evoca o mais sincero espanto � a Krikkit One, a primeira espa�onave constru�da pelo povo de Krikkit.</p><p>
N�o que fosse uma nave fant�stica. N�o era.</p><p>
Era uma pilha insana de sucata amontoada. Parecia ter sido montada no quintal de algu�m,  e  na  verdade  foi  exatamente  em  um  quintal  que  ela  foi  montada.  O  que  era fant�stico a  respeito  daquela  nave  n�o �  que houvesse sido bem constru�da (n�o foi), mas simplesmente  que  houvesse  sido  constru�da.  O  tempo  decorrido  entre  o  momento  que  o povo de Krikkit descobriu que havia algo chamado "espa�o" e o lan�amento de sua primeira nave foi de quase um ano.</p><p>
Ford Prefect estava profundamente aliviado, enquanto afivelava o cinto, por aquela ser apenas outra Ilus�o Informacional e portanto ele estar em seguran�a. Na vida real, aquela n�o era uma nave na qual ele colocaria os p�s, nem por todo o saqu� da China. Uma das express�es que lhe vinham � mente era</p><p>
44</p><p>
"Completamente desconjuntada". A outra express�o era �Posso sair daqui?�.</p><p>
&#x2015; Essa coisa vai mesmo voar? &#x2015; disse Arthur, olhando com desconfian�a para as tubula��es e o cabeamento primitivos que entulhavam o interior da nave. Slartibartfast lhe assegurou que aquilo iria voar, que estavam perfeitamente seguros e que tudo seria extremamente instrutivo e nada desconfort�vel. Ford e Arthur decidiram relaxar e ficar angustiados numa boa.</p><p>
&#x2015; Por que n�o &#x2015; disse Ford &#x2015; pirar?</p><p>
Na frente deles estavam os tr�s pilotos que, naturalmente n�o percebiam a presen�a deles pelo simples motivo de n�o estarem realmente l�. Tinham participado da constru��o da nave. Estiveram na trilha da colina naquela noite cantando suas m�sicas profundamente comoventes.  Suas  mentes  haviam  sido  ligeiramente  reviradas  pela  colis�o  da  nave alien�gena.  Passaram  semanas  revirando  cada  min�sculo  segredo  dos  destro�os  daquela nave incendiada, tudo isso enquanto cantarolavam melodiosas cantigas sobre revirar naves espaciais.</p><p>
Depois haviam constru�do sua pr�pria nave e l� estava ela. Aquela era a sua nave e no  momento  estavam  cantarolando  sobre  isso  tamb�m,  expressando  a  dupla  alegria  de  ter realizado e de possuir algo. O refr�o era tocante e falava sobre a tristeza de que seu trabalho os tivesse obrigado a passar tanto tempo na garagem, longe de suas mulheres e filhos, que sentiram  muita  falta  deles  mas  sempre  os  mantiveram  alegres  contando-lhes  como  o cachorrinho estava crescendo, saud�vel.</p><p>
Pow!, decolaram.</p><p>
Cruzaram o c�u como uma nave que sabe exatamente o que est� fazendo.</p><p>
&#x2015;  N�o  �  poss�vel  &#x2015;  disse  Ford,  um  pouco  depois  de  terem  se  recuperado  do choque  da  acelera��o,  enquanto  subiam  para  al�m  da  atmosfera  do  planeta  &#x2015;,  n�o  �</p><p>
poss�vel &#x2015; repetiu &#x2015; que algu�m possa projetar e construir uma nave destas em um ano, n�o  importa  o  qu�o  motivados  estivessem.  N�o  acredito.  Mesmo  que  me  provem,  n�o acredito. &#x2015; Sacudiu a cabe�a, pensativo, e olhou por uma escotilha para o vazio do lado de fora.   Por algum tempo nada aconteceu, e Slartibartfast apertou a tecla de avan�o r�pido para prosseguirem.</p><p>
Muito rapidamente, ent�o, chegaram  at� o per�metro interno da Nuvem de Poeira, oca e esf�rica, que circundava seu sol e seu planeta, ocupando a pr�xima �rbita. Foi como se houvesse uma mudan�a gradual na textura e consist�ncia do espa�o. A escurid�o  parecia  agora  estar  sendo  arranhada  e  rasgada  conforme  passavam.  Era  uma escurid�o muito fria, um v�cuo pesado; era a escurid�o do c�u da noite de Krikkit. Sua frieza e seu peso e seu vazio aos poucos se infiltraram no cora��o de Arthur e ele podia sentir nitidamente os sentimentos dos pilotos de Krikkit que flutuavam no ar como uma potente carga est�tica. Estavam agora no pr�prio limite do conhecimento hist�rico de sua ra�a. Era este o ponto al�m do qual nenhum deles havia especulado, ou sequer tomado conhecimento de que havia algo sobre o qual especular.</p><p>
A  escurid�o  da  nuvem  esbofeteava  a  nave.  L�  dentro  havia  apenas  o  sil�ncio  da hist�ria. Sua miss�o hist�rica era a de descobrir se havia algo ou algum lugar do outro lado do  c�u  de  onde  a  espa�onave  destro�ada  pudesse  ter  vindo.  Um  outro  mundo,  talvez, por mais  estranho  e  incompreens�vel  que  esse  pensamento  fosse  para  as  mentes  fechadas daqueles que viviam sob o c�u de Krikkit.</p><p>
A hist�ria estava se preparando para desfechar outro duro golpe. Em  volta,  a  escurid�o  continuava  arranhando-os,  aquela  escurid�o  vazia  e envolvente.  Parecia  estar  cada  vez  mais  pr�xima,  cada  vez  mais  densa,  cada  vez  mais pesada. E subitamente se desfez.</p><p>
Voaram para al�m dos confins da nuvem.</p><p>
45</p><p>
Viram as maravilhosas j�ias da noite em sua infinita poeira e suas mentes zumbiam de medo.</p><p>
Permaneceram voando por mais algum tempo, im�veis contra a imensid�o estrelada da Gal�xia, tamb�m ela im�vel contra a imensid�o do Universo. Depois fizeram meia-volta.</p><p>
&#x2015;  Isso  n�o  pode  ficar  a�  &#x2015;  disseram  os  homens  de  Krikkit  enquanto navegavam para casa.</p><p>
No caminho de volta entoaram diversas can��es que ponderavam sobre paz, justi�a, moral,  cultura,  esportes  vida  em  fam�lia  e  o  aniquilamento  de  todas  as  outras  formas  de vida.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 13</p><p>
Agora  voc�s  compreendem  &#x2015;  disse  Slartibartfast,  mexendo  devagar  seu  caf�</p><p>
artificialmente preparado e, ao faz�-lo, mexendo tamb�m as interfaces turbilhonantes entre n�meros  reais  e  irreais,  entre  as  percep��es  interativas  da  mente  e  do  Universo,  gerando, dessa forma, as matrizes reestruturadas de uma subjetividade implicitamente redobrada que permitia sua nave redefinir o pr�prio conceito de tempo e espa�o &#x2015; como foi.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015;  O  que  eu  fa�o  &#x2015;  disse  Arthur  &#x2015;  com  este  peda�o  de  galinha?  Slartibartfast olhou para ele seriamente.</p><p>
&#x2015;  Brinque  com  ele  &#x2015;  disse  &#x2015;,  brinque  com  ele.  Pegou  um  de  seus  peda�os  e mostrou-lhe  o  que  fazer.  Arthur  imitou-o  e  p�de  sentir  o  ligeiro  formigamento  de  uma fun��o  matem�tica  perpassando  a  coxa  de  galinha  enquanto  se  movia  quadridimensionalmente atrav�s daquilo que Slartibartfast havia lhe dito ser um espa�o de cinco dimens�es.</p><p>
&#x2015;  De  um  dia  para  o  outro  &#x2015;  disse  Slartibartfast  &#x2015;  toda  a  popula��o  de  Krikkit deixou de ser um grupo de encantadoras, agrad�veis, inteligentes...</p><p>
&#x2015; ...e esquisitonas...</p><p>
&#x2015; ...pessoas comuns &#x2015; disse Slartibartfast &#x2015; para se tornar grupo de encantadoras, agrad�veis, inteligentes...</p><p>
&#x2015; ...e esquisitonas...</p><p>
&#x2015;  ...pessoas  xen�fobas  e  man�acas.  A  ideia  de  que  havia  um  Universo  n�o  se enquadrava em sua vis�o de mundo, digam assim. N�o podiam lidar com ele. Ent�o, de forma encantadora, agrad�vel e inteligente &#x2015; at� mesmo esquisitona, j�</p><p>
que voc� insiste &#x2015;, decidiram destruir o Universo. Qual o problema agora?</p><p>
&#x2015; N�o gostei muito do vinho &#x2015; disse Arthur, cheirando-o.</p><p>
&#x2015;  Mande  devolver.  Tudo  faz  parte  da  matem�tica  da  coisa.  Arthur  devolveu  o vinho.  N�o  gostou  muito  da  topografia  do  sorriso  do  gar�om,  mas  ele  nunca  gostara  de gr�ficos mesmo.</p><p>
&#x2015; Para onde estamos indo? &#x2015; perguntou Ford.</p><p>
&#x2015;  De  volta  para  a  Sala  de  Ilus�es  Informacionais  &#x2015;  disse  Slartibartfast, levantando-se  e  limpando  a  boca  com  a  representa��o  matem�tica  de  um  guardanapo  de papel &#x2015; para assistirmos � segunda parte.</p><empty-line/><p>
46</p><p>
Cap�tulo 14</p><p>
 O povo de Krikkit &#x2015; disse Sua Alt�ssima Supremacia Judicial, o Magistrado Pag, Presidente  CIMR  (Culto,  Imparcial  e  Muit�ssimo  Relaxado)  do  Conselho  de  Juizes  no Tribunal de Crimes da Guerra de Krikkit &#x2015; �, puxa, voc�s, sabem, s�o apenas um bando de caras muito legais, n�o �, que estavam apenas querendo matar todo mundo. Muitas vezes �</p><p>
exatamente como me sinto pela manh�. Que merda. Bem &#x2015; prosseguiu, colocando seus p�s em  cima  do  banquinho  � sua frente e fazendo uma pausa para catar um fiozinho solto em seu Chinelo de Praia Cerimonial &#x2015;, n�o s�o pessoas com quem se deseje compartilhar uma Gal�xia.</p><p>
Era verdade.</p><p>
O ataque de Krikkit contra a Gal�xia havia sido formid�vel. Milhares e milhares de imensas  naves  de  guerra  de  Krikkit  haviam  sa�do  subitamente  do  hiperespa�o  e  atacado simultaneamente  milhares  e  milhares  de  planetas  centrais,  pegando  Primeiro  suprimentos materiais  vitais  para  a  constru��o  da  Pr�xima  leva  e  depois  calmamente  aniquilando  os planetas.</p><p>
A  Gal�xia,  que  naquela  �poca  passava  por  um  per�odo  de  grande  paz  e prosperidade, ficou atordoada como um homem sendo assaltado em um pasto.</p><p>
&#x2015;  Quero  dizer  &#x2015;  continuou  o  Magistrado  Pag,  olhando  em  volta  da  imensa  e ultramoderna  (isso  fora  h�  dez  bilh�es  de  anos,  quando  "ultramoderno"  significava  a�o escovado e concreto em profus�o) sala do tribunal &#x2015;, esses caras s�o totalmente obsessivos. Aquilo  tamb�m  era  verdade,  e  era  a  �nica  explica��o  que  j�  tinham  conseguido formular para a velocidade inimagin�vel com a qual o povo de Krikkit havia perseguido seu novo e �nico prop�sito &#x2015; a destrui��o de qualquer coisa que n�o fosse de Krikkit. Tamb�m  era  a  �nica  explica��o  para  a  espantosa  velocidade  com  que  tinham compreendido  toda  a  hipertecnologia  necess�ria  para  construir  milhares  de  espa�onaves  e milh�es de rob�s brancos mort�feros.</p><p>
Os  rob�s  haviam  aterrorizado  profundamente  todos  aqueles  que  os  encontraram, muito embora, na maioria dos casos, esse terror tivesse uma vida extremamente curta, assim como  a  vida  da  pessoa  aterrorizada.  Eram  tem�veis  e  cru�is  m�quinas  de guerra voadoras com um �nico prop�sito. Traziam consigo terr�veis bast�es de guerra multifuncionais que, quando  erguidos  de  uma  forma,  destru�am  pr�dios  e,  quando  erguidos  de  outra  forma, disparavam  fulgurantes  Raios  Zapogun  Omnidestrutivos;  erguidos  de  uma  terceira  forma, lan�avam  um  pavoroso  arsenal  de  granadas,  que  iam  desde  pequenos  dispositivos incendi�rios  at�  Dispositivos  Hipernucleares Maxi-Slorta capazes de aniquilar uma estrela das grandes. O simples ato de bater nas granadas com os bast�es de guerra fazia com que as granadas  se  ativassem  e  as  lan�avam,  com  fenomenal  precis�o,  a  dist�ncias  que  iam  de alguns metros a centenas de milhares de quil�metros.</p><p>
&#x2015; Bem &#x2015; disse novamente o Magistrado Pag &#x2015;, ent�o fomos n�s que vencemos.</p><p>
&#x2015; Fez uma pausa e mastigou um chiclete. &#x2015; Vencemos &#x2015; repetiu &#x2015;, mas n�o chega a ser um  grande  feito.  Afinal,  temos  toda  uma  gal�xia  de  tamanho  m�dio  contra  um  pequeno mundo... e quanto tempo levamos? Oficial de Justi�a?</p><p>
&#x2015;  Merit�ssimo?  &#x2015;  disse  o  homem  de  apar�ncia  austera,  vestido  de  preto, levantando-se.</p><p>
&#x2015; Quanto tempo, rapaz?</p><p>
&#x2015; � um pouco dif�cil, Merit�ssimo, dizer com exatid�o. A dist�ncia e o tempo...</p><p>
&#x2015; Relaxe, rapaz, chute um n�mero.</p><p>
&#x2015; � dif�cil chutar um n�mero, Merit�ssimo, em um assunto t�o...</p><p>
&#x2015; Vamos, coragem, desembucha.</p><p>
47</p><p>
O  Oficial  de  Justi�a  piscou.  Claramente,  como  a  maioria  dos  que  trabalhavam  no Judici�rio,  achava  que  o  Magistrado  Pag  [tamb�m  conhecido  pessoalmente  como  Zipo Bibrok 5 x IO8, inexplicavelmente) era uma figura deplor�vel. Era obviamente grosseiro e n�o sabia se portar. Parecia pensar que o fato de possuir o c�rebro jur�dico mais brilhante jamais conhecido lhe dava  o  direito  de se comportar como bem entendesse e infelizmente parecia estar correto.</p><p>
&#x2015; �, hum, bem, Merit�ssimo, de forma muito aproximada, uns dois mil anos</p><p>
&#x2015; murmurou o Oficial, descontente.</p><p>
&#x2015; E quantos carinhas foram detonados?</p><p>
&#x2015;  Dois  grilh�es,  Merit�ssimo  &#x2015;  o  Oficial  de  Justi�a  sentou-se.  Uma  foto  de  seu hidrospectro naquele momento teria revelado que estava fumegando levemente. O  Magistrado  Pag  olhou  mais  uma  vez  para  o tribunal,  no qual  estavam reunidos centenas dos mais altos oficiais de toda a administra��o gal�ctica, todos eles em uniformes ou corpos de gala, dependendo do metabolismo e costumes locais. Atr�s de uma parede de Cristal  Blindado  AntiZap  havia  um  grupo  de  representantes  do  povo  de  Krikkit,  olhando com um  desd�m  calmo e polido para  todos os alien�genas  ali  reunidos  a  fim  de julg�-los. Aquela  era  a  ocasi�o  mais  importante  da  hist�ria  do  Judici�rio,  e  o Magistrado Pag sabia disso.   Tirou o chiclete da boca e colou-o embaixo de sua cadeira.</p><p>
&#x2015; � um mont�o de cad�veres &#x2015; disse, em tom de voz</p><p>
O  sil�ncio  desconfort�vel  que  perpassou  o  tribunal  parecia  indicar  que  todos concordavam.</p><p>
&#x2015; Ent�o, como eu disse, s�o um bando de caras legais, ma n�o o tipo de gente com quem desejemos compartilhar Gal�xia, sobretudo n�o se eles forem continuar com isso, se n�o  aprenderem  a  relaxar  um  pouco.  Quero  dizer,  vamos  todos  continuar  tensos,  n�o  �?</p><p>
Pow, pow, pow &#x2015; quando v�o nos atacar de novo?</p><p>
N�o  h�  a  menor  chance  de  coexist�ncia  pac�fica,  n�o  �?  Algu�m  pode  me  trazer �gua, por favor?</p><p>
Sentou-se e bebericou, refletindo.</p><p>
&#x2015;  Tudo  bem &#x2015; disse  &#x2015;,  ou�am-me, ou�am-me.  �  que,  assim esses caras, voc�s sabem,  t�m  direito  �  vis�o  deles  do  Universo.  E,  de acordo com  essa  vis�o,  imposta  pelo Universo,  correto,  eles  agiram  certo.  Parece  louco,  mas  voc�s  t�m  que  concordar.  Eles acreditam em...</p><p>
Consultou um peda�o de papel que tirou do bolso de tr�s de seu jeans judicial.</p><p>
&#x2015; Acreditam na "paz, justi�a, moral, cultura, esporte, vida familiar e na aniquila��o de todas as outras formas de vida".</p><p>
Deu de ombros.</p><p>
&#x2015; J� ouvi coisas bem piores. Co�ou o saco de forma pensativa.</p><p>
&#x2015;  Freeeow  &#x2015;  disse.  Tomou  outro  gole  de  �gua,  depois  colocou-a  contra  a  luz  e olhou-a intensamente, enquanto girava o copo.</p><p>
&#x2015; Ei, tem alguma coisa nesta �gua? &#x2015; perguntou.</p><p>
&#x2015; Ahn, n�o, Merit�ssimo &#x2015; disse nervosamente o serventu�rio que havia trazido a �gua.</p><p>
&#x2015; Ent�o leve-a &#x2015; retrucou o Magistrado &#x2015; e coloque algo dentro dela. Tive uma ideia.</p><p>
Afastou o copo e inclinou-se para a frente.</p><p>
&#x2015; Ou�am-me, ou�am-me todos &#x2015; disse.</p><p>
Sua brilhante solu��o era a seguinte:</p><p>
O planeta de Krikkit deveria ser trancado, por toda a eternidade, em um envolt�rio de  Tempolento,  dentro  do  qual  a  vida  continuaria  quase  infinitamente  lenta.  Toda  luz  em</p><p>
48</p><p>
torno do envolt�rio seria desviada, de forma que ele permanecesse invis�vel e impenetr�vel. Escapar do envolt�rio seria completamente imposs�vel, a menos que fosse aberto do lado de fora.   Quando o restante do Universo chegasse ao derradeiro fim, quando toda a cria��o emitisse seu �ltimo suspiro (claro que isso foi antes de se descobrir que o fim do Universo seria  um  fant�stico  neg�cio  para  a  �rea  de  culin�ria  e  restaurantes)  e  a  vida  e  a  mat�ria deixassem  de  existir,  ent�o  o  planeta  Krikkit  e  seu  sol  emergiriam  do  envolt�rio  de Tempolento  para  continuar  sua  exist�ncia  solit�ria,  como  desejavam,  no  crep�sculo  do vazio universal.</p><p>
A  Fechadura  ficaria  em  um  aster�ide  colocado  em  �rbita  lenta  ao  redor  do envolt�rio.</p><p>
Sua chave seria o s�mbolo da Gal�xia &#x2015; o Portal de Wikkit.</p><p>
Quando os aplausos no tribunal finalmente cessaram, o Magistrado Pag j� estava no Chuveiro Sensorm�tico com uma bela participante do j�ri, para a qual havia mandado um bilhete meia hora antes.</p><p>
 Cap�tulo 15</p><p>
Dois  meses  mais  tarde,  Zipo  Bibrok  5  x  IO8  havia  transformado  seus  jeans  do Estado Gal�ctico em bermudas e estava gastando parte dos enormes honor�rios que cobrava por  seus  julgamentos  deitado  em uma  praia  de areia de pedras preciosas, e aquela mesma bela  participante do j�ri estava massageando suas costas com Ess�ncia de Qualactina. Ela era uma garota soolfiniana, vinda de tr�s dos Neblimundos de Yaga. Sua pele parecia seda de lim�o e ela se interessava profundamente por corpos jur�dicos.</p><p>
&#x2015; Voc� ouviu o notici�rio?</p><p>
&#x2015; Aaaiiuuuauuu! &#x2015; disse Zipo Bibrok 5 x IO8, e somente estando l� para entender por que ele disse isso. Nada foi gravado na fita de Ilus�es Informacionais e tudo se baseia em boatos.</p><p>
&#x2015;  N�o  &#x2015;  respondeu  depois  que  a  coisa  que  o  havia  feito  dizer  "Aaaiiuuuauuu!" tinha parado de acontecer. Ele virou o corpo ligeiramente para pegar os primeiros raios do terceiro  e  maior  dos  s�is  primevos  de  Vod,  que  subia  agora  pelo  horizonte  de  inef�vel beleza  enquanto  o  c�u  brilhava  com  uma  das  maiores  for�as  bronzeadoras  jamais encontradas.</p><p>
Uma  brisa  de  aroma  suave  levantou-se  do  mar,  passeou  pela  praia  e  retornou  ao mar,  pensando  aonde  iria  depois.  Em  um  impulso  s�bito,  retornou  �  praia,  depois  voltou para o mar.</p><p>
&#x2015;  Espero  que  n�o  sejam  boas  not�cias  &#x2015;  murmurou  Zipo  Bibrok  5  x  IO8  &#x2015;, porque acho que n�o suportaria.</p><p>
Sua senten�a no caso de Krikkit foi executada hoje � disse a garota suntuosamente. N�o havia necessidade de dizer uma coisa t�o simples suntuosamente, mas ela foi em frente e disse asim mesmo porque combinava com o jeit�o do dia. � Ouvi no r�dio &#x2015; disse ela &#x2015;</p><p>
quando voltei � nave para pegar a lo��o.</p><p>
&#x2015; Ahn &#x2015; murmurou Zipo, descansando sua cabe�a na areia de pedras preciosas.</p><p>
&#x2015; Aconteceu algo.</p><p>
&#x2015; Mmrnm?</p><p>
&#x2015;  Logo  depois  do  envolt�rio  de  Tempolento  ser  trancado  &#x2015;  disse  ela, interrompendo  sua  massagem  &#x2015;,  uma  nave  de  guerra  Krikkit,  que  achavam  que  estava</p><p>
49</p><p>
desaparecida e possivelmente destru�da, estava apenas desaparecida mesmo. Ela reapareceu e tentou se apoderar da Chave.</p><p>
Zipo sentou-se com um gesto brusco.</p><p>
&#x2015; Como assim?</p><p>
&#x2015; Est� tudo bem &#x2015; continuou ela, num tom de voz que acalmaria at� mesmo o Big Bang.  &#x2015;  Parece que  houve uma  r�pida batalha. A Chave e  a  nave foram desintegradas e desapareceram  no  cont�nuo  espa�o-temporal.  Aparentemente,  ambos  se  perderam  para sempre.  Ela sorriu e deixou cair um pouco mais de Ess�ncia de Qualactina nos dedos. Ele relaxou e deitou-se de costas.</p><p>
&#x2015; Fa�a de novo o que voc� fez agora h� pouco.</p><p>
&#x2015; Isso? &#x2015; perguntou ela.</p><p>
&#x2015; N�o, n�o &#x2015; respondeu ele. &#x2015; Isso.</p><p>
Ela tentou novamente.</p><p>
&#x2015; Isso? &#x2015; perguntou.</p><p>
&#x2015; Aaaiiuuuauuu!</p><p>
Novamente, s� mesmo estando l�.</p><p>
A brisa de aroma suave levantou-se do mar outra vez.</p><p>
Um m�gico vagava pela praia, mas ningu�m precisava dele.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 16</p><p>
Nada est� perdido para sempre &#x2015; disse Slartibartfast, seu rosto tremeluzindo com a luz da vela que o gar�om rob� estava tentando levar &#x2015; a n�o ser a Catedral de Chalesm.</p><p>
&#x2015; A o qu�? &#x2015; perguntou Arthur.</p><p>
&#x2015; A Catedral de Chalesm &#x2015; repetiu Slartibartfast. &#x2015; Foi durante o tempo em que eu estava fazendo pesquisas para a Campanha pelo Tempo Real que eu...</p><p>
&#x2015; A o qu�? &#x2015; perguntou Arthur novamente.</p><p>
O velho parou e reuniu seus pensamentos, para aquele que ele esperava ser o �ltimo ataque � sua hist�ria. O gar�om rob� moveu-se pelas matrizes espa�otemporais conseguindo combinar,  de  forma  espetacular,  uma  rispidez  malhumorada  com  uma  gentil  gra�a,  voou sobre  a  vela  e  conseguiu  peg�-la.  Eles  j�  tinham  recebido  a  conta,  tinham  discutido convincentemente  sobre  quem  havia  comido  o  canelone  e  quantas  garrafas  de  vinho  eles tinham  tomado  e,  como  Arthur  havia  percebido  vagamente,  atrav�s  disso  tudo  haviam manobrado  com  sucesso  a  nave  para  fora  do  espa�o  subjetivo  em  uma �rbita  estacion�ria em torno de um planeta estranho. O gar�om estava agora ansioso para completar sua parte nesta confus�o e limpar o bistr�.</p><p>
&#x2015; Tudo ir� se esclarecer &#x2015; disse Slartibartfast.</p><p>
&#x2015; Quando?</p><p>
&#x2015;  Breve.  Os  fluxos  temporais  est�o  muito  polu�dos  atualmente.  H�  um monte  de lixo  flutuando  por  eles,  refugos  e  destro�os,  e  cada  vez  mais  essas  coisas  est�o  sendo regurgitadas do mundo f�sico. S�o z�firos no cont�nuo espa�otemporal, sabe?</p><p>
&#x2015; � ouvi falar &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015;  Ei,  para  onde  estamos  indo?  &#x2015;  disse  Ford,  afastando  sua  cadeira  com impaci�ncia. &#x2015; Queria muito que cheg�ssemos l�.</p><p>
&#x2015;  Estamos  indo  &#x2015;  disse  Slartibartfast  em  uma  voz  lenta  e  comedida  &#x2015;  tentar evitar que os rob�s de guerra de Krikkit possam reunir toda a Chave de que precisam para</p><p>
50</p><p>
libertar  o  planeta de Krikkit do envolt�rio de Tempolento e, assim, libertar o resto de seu ex�rcito e seus Mestres ensandecidos.</p><p>
&#x2015; � s� &#x2015; disse Ford &#x2015; que voc� falou sobre uma festa.</p><p>
&#x2015; Falei &#x2015; respondeu Slartibartfast, abaixando a cabe�a.</p><p>
Ele  percebeu  que  aquilo  havia  sido  um  erro,  porque  a  ideia  parecia  exercer  uma estranha fascina��o doentia na mente de Ford Prefect. Quanto mais Slartibartfast revelava a sombria  e  tr�gica  hist�ria  de  Krikkit  e  de  seus  habitantes,  maior  era  o  desejo  de  Ford  de beber muito e dan�ar com garotas.</p><p>
O velho sentiu que n�o deveria ter mencionado a festa at� o �ltimo momento. Mas era  tarde,  ele  j� falara e  Ford Prefect  havia se  agarrado  � ideia da  mesma forma  que  uma Megalesma Arcturiana se agarra � sua v�tima antes de arrancar sua cabe�a e sumir com sua nave.</p><p>
&#x2015; Quando &#x2015; disse Ford, ansioso &#x2015; vamos chegar l�?</p><p>
&#x2015; Quando eu tiver acabado de lhes contar por que temos que ir l�.</p><p>
&#x2015; Eu sei por que estou indo &#x2015; disse Ford, e inclinou-se para tr�s e apoiando a nuca nas m�os. Deu um daqueles seus sorrisos que faziam as pessoas estremecerem. Slartibartfast havia esperado, em v�o, que sua aposentadoria fosse ser tranquila. Planejara  aprender  a  tocar  o  heebiefone  octaventral,  uma  tarefa  agradavelmente f�til, pois sabia que tinha o n�mero inadequado de bocas.</p><p>
Tamb�m  planejara  escrever  uma  monografia  exc�ntrica  completamente  incorreta sobre fiordes equatoriais, s� para deixar bem obscuras algumas coisas que ele considerava realmente importantes.</p><p>
Em vez disso, de alguma forma convenceram-no a trabalhar em tempo parcial para a Campanha pelo Tempo Real e ele come�ou a levar as coisas a s�rio pela primeira vez em sua vida. Por conta disso l� estava ele, passando seus �ltimos anos de vida combatendo o mal e tentando salvar a Gal�xia.</p><p>
Achava aquele trabalho exaustivo. Suspirou profundamente.</p><p>
&#x2015; Ou�am &#x2015; disse ele &#x2015; na Camtem...</p><p>
&#x2015; O qu�? &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; A Campanha pelo Tempo Real, que eu explico para voc�s mais tarde. Notei  que  cinco  destro�os  que  haviam  recentemente  sido  jogados  de  volta  �</p></section><section><p>
exist�ncia  pareciam  corresponder  �s  cinco  partes  desaparecidas  da  Chave.  S�  consegui determinar com exatid�o o destino de duas delas &#x2015; o Pilar de Madeira, que reapareceu no seu  planeta,  e  a  Trave  de  Prata,  que  parece  ter  ido  parar  em  uma  esp�cie  de  festa. Precisamos ir at� l� peg�-la antes que os rob�s de Krikkit a encontrem, sen�o ningu�m sabe o que poder� acontecer.</p><p>
&#x2015;  N�o  &#x2015;  disse  Ford  com  firmeza.  &#x2015;  Precisamos  ir  �  festa  para  beber  muito  e dan�ar com garotas.</p><p>
&#x2015; Mas ser� que voc� ainda n�o entendeu tudo que eu...?</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; declarou Ford, com inesperada veem�ncia &#x2015;, entendi tudo perfeitamente bem. � justamente por isso que quero beber tudo o que puder e dan�ar com todas as garotas que encontrar enquanto elas ainda est�o por a�. Se tudo que voc� nos mostrou � verdade...</p><p>
&#x2015; Verdade? Claro que sim!</p><p>
Ent�o estamos t�o ferrados quanto um molusco numa supernova.</p><p>
&#x2015; Um o qu�? &#x2015; entrecortou Arthur novamente. Mal ou bem, ele tinha conseguido seguir a conversa at� aquele ponto e n�o queria perder o fio da meada agora. T�o  ferrados  quanto  um  molusco  numa  supernova  &#x2015;  repetiu  Ford,  sem  perder  o ritmo. &#x2015; A...</p><p>
&#x2015; O que os moluscos t�m a ver com as supernovas? &#x2015; perguntou Arthur.</p><p>
&#x2015; Eles n�o t�m &#x2015; disse Ford, sem se alterar &#x2015; a menor chance dentro delas.</p><p>
51</p><p>
Fez uma pausa para ter certeza de que estava tudo claro agora. As novas express�es de perplexidade que se espalhavam pelo rosto de Arthur lhe diziam que nada estava claro.</p><p>
&#x2015; Uma supernova &#x2015; continuou Ford o mais r�pido e claramente poss�vel &#x2015; � uma estrela  que  explode  com  cerca  da  metade  da  velocidade  da  luz  e  queima  com  o  brilho  de bilh�es  de  s�is  antes  de  entrar  em  colapso  e  virar  uma  estrela  de  n�utrons  superdensa.  �</p><p>
uma  estrela  que  engole  outras  estrelas,  sacou?  Nada  tem  a  menor  chance  diante  de  uma supernova.</p><p>
&#x2015; Entendo &#x2015; respondeu Arthur.</p><p>
&#x2015; A...</p><p>
&#x2015; Mas, ent�o, por que um molusco em particular?</p><p>
&#x2015; E por que n�o um molusco? N�o faz diferen�a!</p><p>
Arthur  aceitou  esse  ponto,  e  Ford  prosseguiu,  procurando  retomar  sua  veem�ncia anterior.</p><p>
&#x2015; A quest�o ent�o � que pessoas como eu e voc�, Slartibartfast, assim como Arthur</p><p>
&#x2015;  particularmente  e  especialmente  Arthur  &#x2015;,  somos  meros  diletantes,  exc�ntricos, vagabundos ou bund�es, como quiser.</p><p>
Slartibartfast fechou o rosto, em parte perplexo e em parte ofendido. Come�ou a falar.</p><p>
&#x2015; ... &#x2015; foi at� onde chegou.</p><p>
&#x2015; N�o somos obcecados com coisa alguma, entende? &#x2015; insistiu Ford.</p><p>
&#x2015; ...</p><p>
&#x2015;  E  este  �  o  fator  decisivo.  N�o  podemos  vencer  contra  obsess�o.  Eles  se importam, n�s n�o. Ent�o eles vencem.</p><p>
&#x2015;  Eu  me  importo  com  muitas  coisas  &#x2015;  disse  Slartibartfast  sua  voz  tr�mula  de irrita��o, mas tamb�m por incerteza.</p><p>
&#x2015; Tais como?</p><p>
&#x2015; Ora &#x2015; disse o velho &#x2015;, a vida, o Universo. Tudo o mais, na verdade. Fiordes.</p><p>
&#x2015; Voc� est� pronto a morrer por eles?</p><p>
&#x2015; Fiordes? &#x2015; Slartibartfast arregalou os olhos, surpreso. &#x2015; N�o.</p><p>
&#x2015; � isso.</p><p>
&#x2015; N�o faria sentido, para ser franco.</p><p>
&#x2015; E eu continuo n�o vendo a rela��o com os moluscos. Ford sentia que a conversa estava saindo de seu controle e se recusava a perder o foco naquele momento.</p><p>
&#x2015; O ponto � &#x2015; disse, sibilando &#x2015; que n�o somos pessoas obsessivas, e n�o temos a menor chance contra...</p><p>
&#x2015;  Exceto  por  esta  sua  obsess�o  s�bita  com  moluscos  &#x2015;  insistiu  Arthur  &#x2015;,  que continuo n�o entendendo.</p><p>
&#x2015; Quer por favor deixar a porcaria dos moluscos de fora?</p><p>
&#x2015; Com prazer, se voc� fizer o mesmo &#x2015; respondeu Arthur. &#x2015; Foi voc� que trouxe isso � tona.</p><p>
&#x2015; Admito que foi um erro &#x2015; disse Ford. &#x2015; Esque�a. A quest�o � a seguinte. Inclinou-se para a frente e apoiou a testa na ponta dos dedos.</p><p>
&#x2015; Que diabos eu estava dizendo? &#x2015; falou, desgastado.</p><p>
&#x2015; Bem, vamos resumir a coisa e descer para a festa &#x2015; disse Slartibartfast &#x2015;, seja qual for o nosso motivo. &#x2015; Levantou-se, balan�ando a cabe�a.</p><p>
&#x2015;  Acho  que  era  isso  que  eu  queria  dizer  &#x2015;  completou  Ford.  Por  motivos  n�o esclarecidos, os cub�culos de teletransporte ficavam no banheiro.</p><empty-line/><p>
52</p><p>
Cap�tulo 17</p><p>
 As viagens no tempo t�m sido vistas, cada vez mais, como uma amea�a. A hist�ria est� sendo polu�da.</p><p>
A Enciclop�dia Gal�ctica tem muito a dizer sobre a teoria e pr�tica das viagens no tempo,  mas  a  maioria  do  que  ela  diz  �  incompreens�vel  para  qualquer  um  que  n�o  tenha passado pelo menos quatro vidas estudando hipermatem�tica avan�ada e, uma vez que isso era imposs�vel antes da inven��o das viagens no tempo, reina uma certa confus�o a respeito de como a id�ia surgiu inicialmente.</p><p>
Uma racionaliza��o desse problema declara que viajar no tempo foi, por sua pr�pria natureza,  descoberta  simultaneamente  em  todos  os  per�odos  da  hist�ria,  mas  isso obviamente n�o faz o menor sentido.</p><p>
O problema � que boa parte da hist�ria atualmente tamb�m n�o faz o menor sentido. Eis  um  exemplo.  Pode  n�o  parecer  muito  importante  para  algumas  pessoas,  mas para  outras  �  crucial.  Certamente  �  significativo  por  ter  sido  o  evento  espec�fico  que instigou  a  cria��o  da  Campanha  pelo  Tempo  Real  pela  primeira  vez  (ou  teria  sido  pela �ltima?  Depende  muito  do  sentido  em  que  voc�  est�  vendo  a  hist�ria  decorrer,  o  que tamb�m tem se tornado uma gest�o cada vez mais confusa).</p><p>
Existe, ou existiu, um poeta. Seu nome era Lallafa e ele escreveu um conjunto de poemas tidos, em toda a Gal�xia, como alguns dos melhores j� escritos: as Can��es de Long Land.</p><p>
S�o/eram  de  uma  beleza  indiz�vel.  Em  outras  palavras,  voc�  n�o  seria  capaz  de recitar  um trecho  longo  de  uma  s�  vez sem ser tomado fortemente pela emo��o e por um senso  de verdade,  totalidade  e unicidade das coisas sem que, rapidamente voc� precisasse dar  uma  volta  r�pida  pelo  quarteir�o,  possivelmente  parando  em  um  bar  ao  retornar  para tomar uma dose r�pida de perspectiva e bebida. Eram realmente bons. Lallafa passou a vida nas florestas de Long Land de Effa. Foi onde morou e tamb�m foi  onde  escreveu  seus  poemas.  Escreveu-os  em  p�ginas  feitas  a  partir  de folhas  secas  de habra, sem ter estudado nem possuir fluido corretivo. Escreveu sobre a luz na floresta e o que pensava disso. Escreveu sobre a escurid�o na floresta e o que pensava disso. E tamb�m sobre a garota que o tinha deixado e exatamente o que pensava disso. Muito depois de sua morte, seus poemas foram encontrados e admirados. As  not�cias  se  espalharam  como  o  sol  da  manh�.  Durante  s�culos,  iluminaram  e irrigaram as vidas de muitas pessoas, que, de outra forma, teriam sido mais sombrias e mais secas.</p><p>
Ent�o,  pouco  depois  da  inven��o  das  viagens  pelo  tempo,  alguns  dos  grandes fabricantes  de  fluido  corretivo  ponderaram  se  os  poemas  n�o  seriam  ainda  melhores  se Lallafa  tivesse  tido  acesso  a  fluido  corretivo  de  alta  qualidade,  e  ponderaram  se  ele  n�o poderia ser gentilmente convencido a dizer algumas boas coisas a esse respeito. Viajaram  pelas  ondas  do  tempo,  encontraram-no,  explicaram  a  situa��o  &#x2015;  com alguma dificuldade &#x2015; para ele, que acabou se deixando convencer. Na verdade, deixou-se convencer a tal ponto que ele se tornou muito rico por conta disso, e a garota sobre a qual ele  deveria  originalmente  escrever  com  detalhes  nunca  o  deixou.  Na  verdade,  os  dois  se mudaram da floresta para um bom local na cidade e ele freq�entemente dava um pulinho at�</p><p>
o futuro para participar de programas de entrevista nos quais brilhava com sua sagacidade. Com tudo isso, � claro que ele jamais conseguiu escrever os poemas, o que causava problemas, todos facilmente contorn�veis. Os fabricantes de fluido corretivo o despacharam para algum lugar ermo durante uma semana com uma c�pia de uma edi��o posterior de seu livro  e  uma  pilha  de  folhas  secas  de  habra  sobre  as  quais  ele  deveria  copi�-los,  fazendo</p><p>
53</p><p>
alguns erros propositais e corre��es ao mesmo tempo.</p><p>
Muitas pessoas dizem que os poemas perderam completamente o valor. Outros  argumentam  que  s�o  exatamente  o  mesmo que  sempre  foram,  ent�o  o que mudou? O primeiro grupo diz que esta n�o � a quest�o. Eles n�o sabem muito bem qual � a quest�o,  mas  est�o  bem  certos  de  que  n�o  �  esta.  Come�aram,  ent�o,  a  Campanha  pelo Tempo  Real  para  tentar  impedir  que  esse  tipo  de  coisa  continue  acontecendo.  Sua  causa ganhou  consider�vel  import�ncia,  j�  que,  apenas  uma  semana  depois  de  eles  terem  se organizado,  surgiu  a  not�cia  de  que  n�o  apenas  a  grande  Catedral  de  Chalesm  havia  sido derrubada para construir uma nova refinaria de �ons, como tamb�m a constru��o da refinaria tinha levado tanto tempo e se prolongado para um passado t�o distante que, para iniciar a produ��o  de  �ons  dentro  do  cronograma,  a  catedral  n�o  havia  sequer  sido  constru�da. Subitamente, cart�es-postais com imagens da catedral tornaram-se muito valiosos. Ent�o  muitas  coisas  na  hist�ria  acabaram  se  perdendo  para  sempre.  A  Campanha pelo Tempo  Real proclama  que,  assim como  a  facilidade  em viajar arruinou as diferen�as entre  os  diferentes  mundos,  tamb�m  as  viagens  no  tempo  estavam  agora  arruinando  as diferen�as entre uma �poca e as outras.</p><p>
&#x2015; O passado &#x2015; dizem eles &#x2015; � agora exatamente como um pa�s estrangeiro. Todos fazem as mesmas coisas do mesmo jeito.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 18</p><p>
Arthur materializou-se com seu j� tradicional espalhafato, cambaleando e sentindo um  aperto  na  garganta,  no  cora��o  e  em  v�rios  outros  �rg�os.  Era  algo  que  ele  ainda  se permitia  sempre  que  precisava  realizar  uma  destas  horrorosas  e  dolorosas  materializa��es com as quais estava determinado a n�o se acostumar.</p><p>
Olhou em volta procurando os outros.</p><p>
N�o estavam l�.</p><p>
Olhou novamente em volta procurando os outros.</p><p>
Continuavam n�o estando l�.</p><p>
Fechou os olhos.</p><p>
Abriu-os.</p><p>
Olhou em volta procurando os outros.</p><p>
Persistiam obstinadamente em sua aus�ncia.</p><p>
Fechou  novamente  os  olhos,  preparando-se  para  executar  este  exerc�cio absolutamente in�til mais uma vez; e foi s� ent�o, enquanto seus olhos estavam fechados, que  seu  c�rebro  passou  a  registrar  a  imagem  que  seus  olhos  estavam  vendo  enquanto abertos. Franziu as sobrancelhas, perplexo.</p><p>
Ent�o abriu os olhos de novo, a fim de verificar os fatos, e continuou com o rosto franzido.</p><p>
Se  algo  mudou,  foi  apenas  o  rosto  franzindo  ainda  mais  e  se  arraigando  nesta posi��o. Se aquilo era uma festa, era bem ruim &#x2015; t�o ruim, na verdade, que todos tinham ido embora. Ele abandonou esta linha de racioc�nio, concluindo que era in�til. Obviamente aquilo n�o era uma festa. Era uma caverna, um labirinto, ou um t�nel feito de algo &#x2015; estava escuro demais para saber. Estava completamente escuro, uma escurid�o �mida e luzente. Os �nicos sons eram os ecos de sua pr�pria respira��o que soava preocupada. Tossiu baixinho e teve que ouvir o eco fantasmag�rico de sua tosse vagando entre os corredores infind�veis e as c�maras invis�veis, como em um grande labirinto eventualmente retornando at� ele pelos</p><p>
54</p><p>
mesmos corredores invis�veis como que dizendo...</p><p>
&#x2015; Sim?</p><p>
A  mesma  coisa  acontecia  a  cada  m�nimo  barulho  que  fazia,  o  que  o  deixava nervoso. Tentou cantarolar algo alegre, mas, quando o som voltou at� ele, era uma marcha f�nebre, ent�o decidiu parar.</p><p>
Sua mente ficou cheia de imagens da hist�ria que Slartibartfast lhe contou. A  cada  instante  esperava  ver  os  letais  rob�s  brancos  surgirem  das  sombras  para mat�-lo. Prendeu a respira��o. Eles n�o vieram. Voltou a respirar. N�o sabia o que esperar. Algu�m ou alguma coisa, contudo, parecia estar esperando por ele, j� que, naquele instante,  acendeu-se  subitamente,  ao  longe  na  escurid�o,  um  fantasmag�rico  letreiro  em n�on verde.</p><p>
Dizia, silenciosamente:</p><p>
VOC� FOI REDIRECIONADO.</p><p>
O letreiro piscou novamente e se apagou de uma forma que n�o conseguiu decidir se gostava ou n�o. Ele piscou e se apagou com uma esp�cie de floreio desdenhoso. Arthur ent�o tentou reassegurar-se de que aquilo era apenas um truque rid�culo de sua imagina��o. Um letreiro em n�on estava ligado ou desligado, dependendo de haver ou n�o eletricidade passando. N�o havia nenhuma forma, disse para si mesmo, do letreiro fazer a transi��o de um  estado  para  o  outro  com  um  floreio  desdenhoso.  Ainda  assim,  ele  abra�ou  o  pr�prio corpo com for�a dentro de seu roup�o, sentindo frio na espinha. O  letreiro  em  n�on,  nas  profundezas,  acendeu-se  novamente,  desorientador,  com apenas tr�s pontos e uma v�rgula. Assim; ...,</p><p>
S� que em n�on verde.</p><p>
Arthur  percebeu, ap�s  olhar perplexo para  aquilo durante  poucos segundos, que o letreiro  tentava  indicar  que  havia  mais,  que  a  frase  ainda  n�o  estava  completa.  Tentava, refletiu Arthur com um pedantismo sobre-humano. Ou, pelo menos, desumano. A senten�a completou-se, ent�o, com estas duas palavras:</p><p>
ARTHUR DENT.</p><p>
Sobressaltou-se. Fixou novamente o olhar para ter certeza.</p><p>
O letreiro continuava dizendo ARTHUR DENT, ent�o sobressaltou-se novamente. Mais uma vez, o letreiro piscou e se apagou, deixando-o no escuro, com a imagem vermelha de seu nome quicando em sua retina.</p><p>
BEM-VINDO, disse a luz n�on em seguida.</p><p>
Pouco depois, acrescentou:</p><p>
ACHO QUE N�O.</p><p>
O  medo  g�lido  que  havia  pairado  sobre  Arthur  durante  todo  aquele  tempo, esperando um bom momento, percebeu que aquele era um bom momento e caiu sobre ele. Arthur  tentou  lutar  contra  ele.  Agachou-se  em  uma  esp�cie  de  posi��o  de  alerta  que  vira algu�m fazer uma vez na televis�o, mas deve ter sido algu�m com joelhos mais fortes. Ele tentou enxergar escurid�o adentro.</p><p>
&#x2015; Ahn, oi? &#x2015; disse.</p><p>
Limpou  a  garganta  e  repetiu  a  mesma  coisa,  mais  alto  e  sem  o  "ahn".  Em  algum ponto do corredor � sua frente pareceu que algu�m havia subitamente come�ado a bater em um bumbo.</p><p>
Prestou aten��o durante alguns segundos e ent�o percebeu era apenas seu cora��o batendo.</p><p>
Prestou  aten��o  durante  mais  alguns  segundos  e  percebeu  n�o  era  seu  cora��o batendo, mas algu�m batendo em um bumbo corredor abaixo.</p><p>
Gotas  de  suor  se  formaram  em  sua  testa,  tensionaram-se  e  depois  pularam  fora. Colocou uma das m�os no ch�o para firmar sua posi��o de alerta, que n�o estava indo muito</p><p>
55</p><p>
bem. O letreiro mudou de novo. Dizia agora:</p><p>
N�O SE PREOCUPE.</p><p>
Ap�s uma breve pausa, acrescentou:</p><p>
FIQUE EXTREMAMENTE ASSUSTADO, ARTHUR DENT.</p><p>
Mais  uma  vez  piscou  e  apagou-se.  Mais  uma  vez  deixou-o  em  meio  �  escurid�o. Seus olhos pareciam querer sair das �rbitas. N�o tinha certeza se era porque estava tentando enxergar melhor ou se eles simplesmente queriam cair fora naquele momento.</p><p>
&#x2015;  Al�?  &#x2015;  disse  novamente,  desta  vez  tentando  colocar  em  sua  voz  um  tom  de autoconfian�a agressivo e duro. &#x2015; Tem algu�m a�?</p><p>
Nenhuma resposta, nada.</p><p>
Isso  irritou  Arthur  Dent  muito  mais  do  que  qualquer  resposta  e  ele  come�ou  a afastar-se daquele vazio assustador. Quanto mais se afastava, mais assustado ficava. Depois de algum tempo, entendeu que estava com medo por causa de todos os filmes a que tinha assistido, nos quais o her�i vai recuando cada vez mais de um suposto perigo � sua frente e acaba esbarrando nele por tr�s.</p><p>
Foi exatamente quando pensou que deveria virar-se rapidamente. N�o havia nada l�.</p><p>
Apenas a escurid�o.</p><p>
Aquilo  o deixou  realmente  nervoso  e  ele  come�ou  a  afastar-se de volta para onde tinha vindo.</p><p>
Depois  de  um  curto  tempo,  percebeu  subitamente  que  agora  estava  recuando exatamente para o lugar do qual estiver recuando da primeira vez. N�o p�de deixar de pensar que aquilo devia ser uma completa tolice. Decidiu ent�o que seria melhor recuar da forma como estivera recuando da primeira vez e virou-se novamente</p><p>
Acabou  que  seu  segundo  instinto  estava  correto,  porque  havia  um  monstro indescritivelmente pavoroso im�vel em sil�ncio atr�s dele. Arthur tremia desesperadamente, enquanto  sua  pele  tentava  saltar  para  um  lado  e  seu  esqueleto  para  o  outro.  Seu  c�rebro, enquanto isso, tentava decidir-se por qual das duas orelhas ele realmente desejava sair.</p><p>
&#x2015;  Aposto  que  voc�  n�o  esperava  me  encontrar  novamente  &#x2015;  disse  o  monstro,  e Arthur  achou  que  era  uma  observa��o  bem  estranha  da  parte  do  monstro,  uma  vez  que jamais  havia  encontrado  a  criatura  antes.  Tinha  certeza  de  que  nunca  havia  encontrado  a criatura antes pelo simples fato de que conseguia dormir � noite. Aquilo era... aquilo era... aquilo era...</p><p>
Arthur  piscou  e  olhou  novamente.  O  monstro  estava  absolutamente  im�vel  e, pensando bem, tinha algo familiar.</p><p>
Uma  terr�vel  e  fria  calma  apoderou-se  dele  quando  compreendeu  que  estava olhando para um holograma de uma mosca com quase dois metros de altura. Perguntou-se por que algu�m estaria interessado em mostrar-lhe um holograma de uma mosca com quase dois metros de altura naquele momento.</p><p>
Perguntou-se de quem era aquela voz.</p><p>
Era um holograma horrivelmente real�stico.</p><p>
Ele desapareceu.</p><p>
&#x2015; Ou talvez voc� se lembre melhor de mim &#x2015; disse a voz subitamente, e era uma voz  profunda,  gutural  e  malevolente  que  soava  como  alcatr�o  derretido escorrendo de  um barril id�ias malignas em sua mente &#x2015; como o coelho.</p><p>
Com  um  s�bito  ping,  surgiu  um  coelho  naquele  labirinto  curo,  um  enorme, monstruosa  e  odiosamente  macio  e  ador�vel  coelho.  Novamente  era  apenas  uma imagem, mas cada um dos macios e ador�veis p�los parecia uma coisa �nica e real crescendo em sua pele macia e ador�vel. Arthur surpreendeu-se ao ver seu pr�prio reflexo naqueles suaves e</p><p>
56</p><p>
ador�veis imensos olhos castanhos que n�o piscavam.</p><p>
&#x2015; Nascido na escurid�o &#x2015; rosnou a voz &#x2015;, criado na escurid�o. Uma manh�, pela primeira  vez  coloquei  minha  cabe�a  para  fora  naquele  reluzente  mundo  novo  e  ela  foi partida ao meio por algo que se parecia muito com um suspeito instrumento primitivo feito de s�lex. Feito por voc�, Arthur Dent, e manejado por voc�. De forma bastante brutal, pelo que  me  lembro.  Voc�  transformou  minha  pele  em  uma  sacola  na  qual  guardava  pedras interessantes.  Fiquei  sabendo  disso  por  acaso,  j�  que,  em  minha  vida  seguinte,  retornei como uma mosca e voc� me matou. De novo. S� que desta vez voc� me matou com a bolsa que havia feito com minha pele anterior. Arthur Dent, voc� n�o apenas � um homem cruel e desalmado, como tamb�m � absurdamente sem tato.</p><p>
A voz fez uma pausa enquanto Arthur olhava em volta, abestalhado.</p><p>
&#x2015; Vejo que voc� perdeu a bolsa &#x2015; disse a voz. &#x2015; Provavelmente se cansou dela, n�o �?   Arthur sacudiu a cabe�a, desesperado. Queria explicar que, na verdade, adorava aquela bolsa e cuidava dela com muito cuidado e a levava com ele para onde quer que fosse, mas,  por  algum  motivo,  sempre  que  viajava  para  algum  lugar  acabava  inexplicavelmente com  uma  outra  sacola  e  que,  muito  peculiarmente,  naquele  exato  momento  havia  notado pela primeira a sacola que estava carregando agora parecia ser feita de uma imita��o fajuta de pele  de  leopardo  que  n�o era  a  mesma  que estava com ele pouco antes de ter chegado naquele qualquer lugar que fosse, e que aquela n�o era uma sacola que, pessoalmente, ele teria escolhido, e s� Deus sabe o que poderia ter l� dentro &#x2015; posto que n�o era dele &#x2015;, e que gostaria muito de ter novamente sua sacola original, exceto, claro, pelo fato de lamentar profundamente  ter  removido  t�o  peremptoriamente  a  dita  sacola,  ou  melhor  dizendo,  ter removido as partes que a constitu�am, ou seja, a pele de coelho, de seu dono anterior, seja dito o coelho ao qual tinha, naquele instante a honra de tentar em v�o dirigir-se. Na pr�tica, tudo que conseguiu dizer foi:</p><p>
&#x2015; Eh...</p><p>
&#x2015; Veja agora a salamandra na qual voc� pisou.</p><p>
E  l�  estava,  no  mesmo  corredor  que  Arthur,  uma  gigantesca  salamandra  verde escamada. Arthur se virou, gritou, pulou para tr�s e viu-se de p� no meio do coelho. Gritou de novo, mas n�o achou outro lugar para onde pular.</p><p>
&#x2015; Essa tamb�m era eu &#x2015; prosseguiu a voz, em tom grave e amea�ador &#x2015;, como se voc� n�o soubesse...</p><p>
&#x2015; Saber? &#x2015; disse Arthur, espantado. &#x2015; Saber?</p><p>
&#x2015;  A  coisa  mais  interessante  sobre  a  reencarna��o  &#x2015;  rosnou  a  voz  &#x2015;  �  que  a maioria das pessoas, a maioria dos esp�ritos n�o percebem o que est� acontecendo com eles. Fez uma pausa dram�tica. Na opini�o de Arthur, j� havia drama suficiente naquilo tudo.</p><p>
&#x2015; Eu tinha consci�ncia &#x2015; sussurrou a voz &#x2015;, ou melhor, eu me tornei consciente. Lentamente. Gradualmente.</p><p>
Ele, quem quer que fosse, parou novamente e tomou f�lego:</p><p>
&#x2015;  N�o  podia  evitar,  n�o  �  mesmo?  &#x2015;  berrou  &#x2015;  A  mesma  coisa  continuava acontecendo,  de  novo,  de  novo,  de  novo!  Em  cada  vida  que  j�  vivi  fui  morto  por  Arthur Dent. Qualquer mundo, qualquer corpo, qualquer tempo, assim que estou me acostumando l� vem Arthur Dent e, paft!, me mata. Dif�cil n�o notar, n�o �?</p><p>
Meio que um lembrete. Meio que um marcador. Meio que uma maldita pista!</p><p>
"Engra�ado", dizia meu esp�rito para si mesmo enquanto ele voava de volta para o vazio  da  n�o-exist�ncia  ap�s  outra  aventura  na  terra  dos  vivos,  terminada  por  Dent,</p><p>
"...engra�ado que aquele homem que acabou de me atropelar, enquanto eu saltitava atrav�s da  estrada  em  dire��o  a  meu  lago  favorito,  me  pareceu  familiar..."  Aos  poucos  ent�o,</p><p>
57</p><p>
consegui juntar as pe�as, Dent, seu man�aco multiassassino de mim. Os  ecos  da  voz  reverberavam  para  cima  e  para  baixo  dos  corredores.  Arthur permaneceu silencioso e frio, sacudindo a cabe�a, sem acreditar.</p><p>
&#x2015; Eis o momento, Dent &#x2015; grasnou a voz, agora atingindo um tom de �dio febril</p><p>
&#x2015;, eis o momento em que eu finalmente soube!</p><p>
A coisa que subitamente se abriu diante de Arthur era indescritivelmente horrenda, fazendo-o  engolir  em  seco  e  gorgolejar  de  terror,  mas  vamos  fazer  uma  tentativa  de descrever qu�o horrenda a coisa era. Era uma enorme e pulsante caverna �mida com uma imensa e gosmenta criatura similar a uma baleia rolando dentro dela e escorregando sobre monstruosas  l�pides  brancas.  No  alto  da  caverna  havia  um  vasto  promont�rio  no  qual  se podia ver os recessos escuros de outras duas terr�veis cavernas, as quais... Arthur  Dent  percebeu  subitamente  que  estava  olhando  para  sua  pr�pria  boca, quando  sua  aten��o  deveria  estar  concentrada  na  ostra  viva  que  estava  sendo irremediavelmente enfiada dentro dela.</p><p>
Cambaleou para tr�s gritando e desviou os olhos.</p><p>
Quando  abriu  novamente  os  olhos  viu  que  a  terr�vel  apari��o  tinha  sumido.  O</p><p>
corredor  estava  escuro  e,  por  alguns  instantes,  silencioso.  Estava  sozinho  com  seus pensamentos.  Eram  pensamentos  extremamente  desagrad�veis  e  ele  preferia  ter  um acompanhante por perto.</p><p>
O pr�ximo barulho que ouviu foi o tremor grave e maci�o de uma grande parte da parede se abrindo para o lado, revelando, por enquanto, apenas uma negra escurid�o atr�s dela. Arthur olhou para dentro da mesma forma que um rato olha para dentro de um canil escuro.  E a voz dirigiu-se a ele novamente.</p><p>
&#x2015; Diga-me que foi apenas coincid�ncia, Dent. Eu o desafio a dizer que foi apenas coincid�ncia.</p><p>
&#x2015; Foi uma coincid�ncia &#x2015; disse Arthur, rapidamente.</p><p>
&#x2015; N�o foi n�o! &#x2015; retrucou a voz com um berro.</p><p>
&#x2015; Foi &#x2015; disse Arthur &#x2015;, foi sim...</p><p>
&#x2015;  Se  foi  apenas  coincid�ncia,  ent�o  meu  nome  &#x2015;  ribombou  a  voz  &#x2015;  n�o  �</p><p>
Agrajag.</p><p>
&#x2015; Devo presumir &#x2015; disse Arthur &#x2015; que voc� afirma que era esse o seu nome.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; retrucou Agrajag, como se tivesse completado um brilhante silogismo.</p><p>
&#x2015; Bem, lamento dizer que ainda assim foi apenas coincid�ncia &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Venha at� aqui e repita isto! &#x2015; urrou a voz, novamente em f�ria. Arthur entrou l� e disse que era uma coincid�ncia, ou melhor, quase conseguiu dizer que  era  uma  coincid�ncia.  Sua  l�ngua  meio  que  perdeu  o  passo  perto  do  final  da  �ltima palavra porque as luzes se acenderam e ele p�de ver onde havia entrado. Era uma Catedral do �dio.</p><p>
Era produto de uma mente n�o apenas retorcida, mas completamente distendida. Era enorme. E terr�vel.</p><p>
Tinha uma Est�tua nela.</p><p>
Mas voltaremos � Est�tua em breve.</p><p>
Aquela vasta, incompreensivelmente vasta c�mara parecia sido escavada no interior de uma montanha &#x2015; o que se devia precisamente ao fato de ela ter sido escavada no interior de uma montanha. Arthur sentia tudo girando de forma nauseante em torno de sua cabe�a enquanto tentava olhar para a c�mara.</p><p>
Era negra.</p><p>
Onde  n�o  era  negra  seria  geralmente  desej�vel  que  fosse,  por  conta  das  cores escolhidas para alguns dos indiz�veis detalhes. As cores percorriam pavorosamente todo o</p><p>
58</p><p>
espectro  de  cores  nauseantes,  indo  do  Ultraviolento  ao  Infravermicida,  passando  pelo P�rpura F�gado, Lil�s Execr�vel, Amarelo V�mito, sem deixar de lado o Hombre Cremado e Gan Gren�.</p><p>
Os detalhes indiz�veis nos quais essas cores foram usadas eram g�rgulas que teriam feito Francis Bacon desistir de seu almo�o.</p><p>
Todas  as  g�rgulas  olhavam  para  dentro,  afixadas  nas  paredes,  nos  pilares,  nos contrafortes, nos assentos do coro &#x2015; todas olhavam em dire��o � Est�tua, a respeito da qual falaremos em breve.</p><p>
E,  se  as  g�rgulas  teriam  feito  Francis  Bacon  desistir  de  seu  almo�o,  ficava  claro, pela  cara  das  g�rgulas,  que  a  Est�tua  teria  fato  com  que  elas  desistissem  de  seu  pr�prio almo�o.  Isso,  claro,  se  estivessem  vivas  para  com�-lo  &#x2015;  coisa  que  n�o  estavam  &#x2015;  e  se algu�m tivesse tentado servir-lhes um almo�o &#x2015; coisa que n�o fizeram. Nas monumentais paredes havia enormes placas de pedra em mem�ria daqueles que haviam sido mortos por Arthur Dent</p><p>
Os nomes de alguns dos imortalizados estavam sublinhados e tinham asteriscos ao seu  lado.  Por  exemplo,  o  nome  de  uma  vaca  que  foi  abatida  e  da  qual  Arthur  por  acaso comeu um fil� tinha seu nome gravado sem destaque, enquanto o nome de um peixe, que o pr�prio  Arthur  pescou,  depois  decidiu  que  n�o  gostou  e  finalmente  deixou  no  canto  do prato,  esta  sublinhado  duas  vezes,  com  tr�s  asteriscos  e  uma  adaga  ensang�entada acrescentados como decora��o para deixar coisas bem claras.</p><p>
O  mais  perturbador  em  tudo  isso  &#x2015;  tirando  a  Est�tua,  que  estamos  aos  poucos introduzindo,  por  etapas  &#x2015;  era  a  implica��o  muito  clara  de  que  todas  aquelas  pessoas  e criaturas eram de fato uma s�, repetidas vezes.</p><p>
Estava igualmente claro que aquela pessoa estava, ainda que de forma injusta, muito chateada e irritada.</p><p>
Na  verdade,  seria  razo�vel  dizer  que  aquela  pessoa  tinha  atingido  um  n�vel  de irrita��o  jamais  visto  no  Universo.  Era  uma  irrita��o  de  propor��es  �picas,  uma  chama flamejante  e  ardente  de  irrita��o, uma  irrita��o  que  abrangia todo  o  tempo  e o  espa�o  em sua infinita sombra.</p><p>
E esta irrita��o tinha sido expressa da forma mais contundente na Est�tua que ficava no  centro  de  toda  essa  monstruosidade,  que  era  uma  est�tua  de  Arthur  Dent,  n�o  muito lisonjeira,  por  sinal.  Com  15  metros  contados,  n�o  havia  um  cent�metro  nela  que  n�o estivesse cheio de insultos �quele l� representado, e 15 metros de insultos seriam suficientes para fazer qualquer um sentir-se mal. Desde a pequena espinha ao lado de seu nariz at� o horr�vel corte de seu roup�o, nenhum aspecto de Arthur Dent deixou de ser esculhambado e vilipendiado pelo escultor.</p><p>
Arthur  era  mostrado  como  uma  g�rgona,  um  ogro  malvado,  voraz  e  faminto  por sangue, massacrando tudo em sua passagem pelo inocente Universo de um s� homem. Com cada um dos 30 bra�os que o escultor, num �mpeto de fervor art�stico, havia decidido lhe dar, a Est�tua estava esmagando a cabe�a de um coelho, matando uma mosca, partindo  um  osso  da  sorte,  arrancando  um  piolho  do  cabelo  fazendo  alguma  coisa  que Arthur n�o conseguiu identificar na primeira vez.</p><p>
Seus muitos p�s estavam basicamente esmagando formigas.</p><p>
Arthur  cobriu  os  olhos com as m�os, inclinou a cabe�a e sacudiu-a lentamente de um lado para o outro, diante da tristeza e do horror evocados por toda aquela maluquice. Quando reabriu os olhos, viu � sua frente o homem ou criatura, ou o que quer que fosse, que supostamente ele estava perseguindo o tempo todo.</p><p>
&#x2015; RrrrrrrrrhhhhhhhaaaaaaaaHHHHHHHHl &#x2015; disse Agrajag. Ele, ou aquilo, ou o que  fosse,  parecia  um  morcego  gordo  enlouquecido.  Caminhou  lentamente  em  torno  de Arthur, cutucando-o com suas garras recurvadas.</p><p>
59</p><p>
&#x2015; Olhe....! &#x2015; reclamou Arthur.</p><p>
&#x2015; RrrrrrrrrhhhhhhhaaaaaaaaHHHHHHHH! &#x2015; explicou Agrajag, e Arthur aceitou aquilo, relutantemente, pelo simples fato de estar bastante assustado por aquela medonha e estranhamente disforme apari��o.</p><p>
Agrajag era negro, inchado, enrugado e cori�ceo.</p><p>
Suas asas de morcego eram ainda mais assustadoras por serem coisas pateticamente quebradas e desajeitadas do que se fossem asas fortes e musculosas. A coisa mais terr�vel era provavelmente a tenacidade de sua exist�ncia, que continuava apesar de violar todas as probabilidades da f�sica.</p><p>
Tinha uma cole��o de dentes muito impressionante.</p><p>
Era como se cada um deles tivesse vindo de um animal diferente e depois tivessem sido arrumados dentro de sua boca em �ngulos t�o bizarros que, se Arthur Dent realmente fosse tentar mastigar alguma coisa, parecia que iriam dilacerar metade de sua pr�pria face ao mesmo tempo, al�m de arrancar um olho.</p><p>
Cada um dos tr�s olhos era pequeno e intenso, parecendo ter a mesma sanidade de um peixe em um arbusto.</p><p>
&#x2015; Foi numa partida de cr�quete &#x2015; disse, rancoroso.</p><p>
Diante  de tudo que  estava acontecendo,  Arthur  achou que  isso era uma no��o t�o absurda que praticamente se engasgou</p><p>
&#x2015;  N�o  neste  corpo  &#x2015;  grasnou  a  criatura  &#x2015;,  n�o  neste  corpo  Este  �  meu  �ltimo corpo. Minha �ltima vida. � meu corpo para a vingan�a. Meu corpo para matar Arthur Dent. Minha �ltima chance, e ainda tive que lutar para consegui-la.</p><p>
&#x2015; Mas...</p><p>
&#x2015; Foi em uma &#x2015; esbravejou Agrajag &#x2015; partida de cr�quete! Eu tinha um cora��o fraco, com problemas, mas o que poderia me acontecer, disse para a minha mulher, em uma partida de cr�quete? E l� estava eu, vendo o jogo, e o que aconteceu? Duas pessoas surgiram do nada, maliciosamente, � minha frente. A �ltima coisa que n�o pude deixar de notar antes que  meu  pobre  cora��o  pifasse  por  conta  do  choque  foi  que  uma  delas  era  Arthur  Dent usando um osso de coelho em sua barba. Coincid�ncia?</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015;  Coincid�ncia?  &#x2015;  gritou  a  criatura,  dolorosamente  esmigalhando  suas  asas quebradas  e  abrindo  uma  pequena  ferida  em  sua  bochecha  direita  com  um  dente particularmente  nojento.  Olhando  mais  de  perto,  coisa  que  vinha  tentando  evitar,  Arthur notou que boa parte da face de Agrajag estava coberta por peda�os de band-aid preto. Afastou-se  nervosamente.  Passou  a  m�o  pela  barba.  Ficou  perplexo  ao  descobrir que ainda estava com o osso de coelho enfiado nela. Arrancou-o e jogou fora.</p><p>
&#x2015;  Olhe  &#x2015;  disse  ele  &#x2015;,  �  apenas  o  destino  fazendo  travessuras  com  voc�.  E</p><p>
comigo. Conosco. � uma completa coincid�ncia.</p><p>
&#x2015; O que voc� tem contra mim, Dent? &#x2015; rosnou a criatura, avan�ando contra ele e mancando dolorosamente ao faz�-lo.</p><p>
&#x2015; Nada &#x2015; insistiu Arthur. &#x2015; Honestamente, nada.</p><p>
Agrajag olhou para ele com intensidade.</p><p>
Matar  uma  pessoa  o  tempo  todo  me  parece  uma  forma  bem  estranha  de  se relacionar com algu�m contra quem voc� n�o tem nada. Eu diria mesmo que � uma forma bem peculiar de intera��o social. Tamb�m diria que � uma mentira!</p><p>
Mas, veja &#x2015; disse Arthur &#x2015;, realmente lamento muito. Houve um terr�vel engano. E  preciso  ir.  Voc�  tem  um  rel�gio?  Eu  deveria  estar  ajudando  a  salvar  o  Universo.  &#x2015;</p><p>
Afastou-se ainda mais. Agrajag aproximou-se ainda mais.</p><p>
&#x2015;  Houve  um  ponto  &#x2015;  disse  ele  &#x2015;  em  que  havia  resolvido  desistir.  Sim,  eu  n�o voltaria mais. Ficaria no mundo dos mortos. E o que aconteceu?</p><p>
60</p><p>
Arthur sacudiu aleatoriamente a cabe�a para indicar que n�o tinha a menor id�ia e nem queria  ter  uma. Percebeu que  havia recuado at� encostar-se  na pedra preta que havia sido escavada sabe-se l� por meio de que esfor�o herc�leo e transformada em uma imita��o grotesca de seus chinelos. Ele olhou para cima, para a horrenda par�dia de si mesmo que se erguia acima dele. Continuava sem entender o que uma de suas m�os estaria fazendo.</p><p>
&#x2015;  Fui  involuntariamente  precipitado  de  volta  no  mundo  f�sico  &#x2015;  prosseguiu Agrajag &#x2015; como um ramalhete de pet�nias. Dentro de um vaso, devo acrescentar. Esta  vidinha  particularmente  feliz  come�ou  comigo,  em  meu  vaso,  sem  nenhum apoio,  500  quil�metros  acima  da  superf�cie  de  um  planeta  particularmente  sombrio.  N�o era, como voc� talvez tenha pensado, uma posi��o naturalmente sustent�vel para um vaso de pet�nias. Voc� estaria certo em pensar assim.</p><p>
Aquela vida terminou muito pouco tempo depois, 500 quil�metros abaixo. Dentro  dos  restos  de  um  cachalote  despeda�ado,  devo  acrescentar.  Meu  irm�o espiritual.</p><p>
Olhou maliciosamente para Arthur com um �dio ainda maior</p><p>
&#x2015;  Enquanto  ca�a  &#x2015;  rosnou  &#x2015;,  n�o  pude  deixar  de  notar  uma  bela  espa�onave branca.  Observando  por  uma  portinhola  dessa  bela  espa�onave  branca,  com  cara  de espertalh�o, estava Arthur Dent. Coincid�ncia?</p><p>
&#x2015;  Sim!  &#x2015;  gritou  Arthur.  Olhou  novamente  para  cima  e  viu  que  o  bra�o  que  o intrigava  fora  representado  como  chamando  �  exist�ncia  um  vaso  de  pet�nias  condenado. Definitivamente n�o era um conceito f�cil de se apreender.</p><p>
&#x2015; Preciso ir &#x2015; insistiu Arthur.</p><p>
&#x2015; Voc� pode ir &#x2015; respondeu Agrajag &#x2015; logo depois que eu o matar.</p><p>
&#x2015; Infelizmente n�o vai dar &#x2015; explicou Arthur, come�ando a subir pela inclina��o na  rocha  em  que  seus  chinelos  haviam  sido  esculpidos  &#x2015;,  porque  eu  tenho  que  salvar  o Universo,  entende?  Tenho  que  encontrar  uma  Trave  de  Prata,  este  �  o  objetivo.  �  muito dif�cil fazer isso quando se est� morto.</p><p>
&#x2015;  Salvar  o  Universo!  &#x2015;  repetiu  Agrajag,  com  desprezo.  &#x2015;  Voc�  deveria  ter pensado  nisso antes  de  come�ar  sua  vendeta contra mim! O que voc� me diz daquela vez quando estava em Stavromula Beta e algu�m...</p><p>
&#x2015; Nunca estive l� &#x2015; interrompeu Arthur.</p><p>
&#x2015; ...tentou assassin�-lo, mas voc� se abaixou? Quem voc� acha que a bala atingiu?</p><p>
O que voc� disse mesmo?</p><p>
&#x2015; Nunca estive l� &#x2015; repetiu Arthur. &#x2015; Do que voc� est� falando? Tenho que ir. Agrajag parou, pensativo.</p><p>
&#x2015;  Voc�  tem  que  ter  estado  l�.  Voc�  foi o  respons�vel  por  minha  morte l�,  assim como em todos os outros lugares, Eu estava passando inocentemente! &#x2015; Ele tremia.</p><p>
&#x2015; Nunca ouvi falar desse lugar &#x2015; insistiu Arthur. &#x2015; E certamente ningu�m nunca tentou me assassinar. A n�o ser voc�. Talvez eu possa ir l� mais tarde, o que voc� acha?</p><p>
Agrajag piscou lentamente, paralisado por uma esp�cie de horror l�gico.</p><p>
&#x2015; Voc� n�o esteve em Stavromula Beta... ainda? &#x2015; disse em voz baixa.</p><p>
&#x2015; N�o &#x2015; disse Arthur. &#x2015; N�o tenho a menor id�ia do que seja esse lugar. Nunca estive l� nem planejo ir l�.</p><p>
&#x2015; Ah, mas com certeza vai &#x2015; disse Agrajag com a voz tr�mula &#x2015; voc� certamente vai para l�. Ah, por Z�rquon! &#x2015; ele cambaleou, olhando desesperadamente em volta para sua imensa Catedral do �dio. &#x2015; Trouxe voc� para c� cedo demais!</p><p>
Come�ou a gritar e a urrar.</p><p>
&#x2015; Que zarquada! Eu trouxe voc� aqui antes do tempo. Subitamente se recomp�s e lan�ou um olhar maligno e cheio de �dio para Arthur.</p><p>
&#x2015;  Vou  matar  voc�  assim  mesmo!  &#x2015;  vociferou.  &#x2015;  Mesmo  que  seja  uma</p><p>
61</p><p>
impossibilidade l�gica, por Z�rquon, vou tentar! Vou explodir toda essa montanha!</p><p>
Gritou:</p><p>
&#x2015; Vamos ver como voc� escapa desta, Arthur!</p><p>
Ainda mancando dolorosamente, arrastou-se rapidamente at� o que parecia ser um pequeno  altar  para  sacrif�cios,  pequeno  e  negro.  Gritava  t�o  histericamente  naquele momento que seu rosto estava ficando muito machucado.</p><p>
Arthur  pulou  do  lugar  para  onde  tinha  subido,  na  escultura  de  seu  pr�prio  p�,  e tentou correr para deter a criatura quase totalmente enlouquecida. Saltou  sobre  ela,  fazendo  com  que  aquela  estranha  monstruosidade  se  espatifasse sobre o altar.</p><p>
Agrajag gritou novamente, debateu-se furiosamente por um curto momento, depois lan�ou um olhar esbugalhado para Arthur.</p><p>
&#x2015;  Voc�  sabe  o  que  fez  agora?  &#x2015;  disse,  sem  f�lego  e  dolorosamente.  &#x2015;  Voc�</p><p>
simplesmente me matou mais uma vez. Afinal, quer de mim: sangue?</p><p>
Debateu-se  novamente  em  um  breve  ataque  apopl�tico  estremeceu  e,  ao  faz�-lo, finalmente caiu sobre um grande bot�o vermelho no altar.</p><p>
Arthur  sentiu  um  enorme  medo  e  horror,  primeiro  pelo  que  acabara  de  fazer  e depois por causa das barulhentas sirenes sinos que subitamente encheram o ar, anunciando alguma terr�vel emerg�ncia. Olhou desesperado ao seu redor.</p><p>
A �nica sa�da parecia ser o caminho pelo qual havia entrado. Saiu correndo naquela dire��o, deixando para tr�s a bolsa feita com uma imita��o fajuta de pele de leopardo. Corria  sem  rumo,  aleatoriamente,  atrav�s  do  estranho  labirinto,  parecendo  ser perseguido cada vez mais ferozmente por buzinas, sirenes e luzes piscando. De repente virou em um corredor e � sua frente havia luz.</p><p>
N�o estava piscando. Era a luz do dia.</p><p>
 Cap�tulo 19</p><p>
Ainda que tenham dito que, em toda a nossa Gal�xia, apenas na Terra o Krikkit (ou cr�quete)  �  tratado  como  um  assunto  adequado  para  um  jogo  e  que,  por  este  motivo,  ela tenha sido posta � parte, isso s� se aplica � nossa Gal�xia e, mais especificamente, � nossa dimens�o. Em algumas das dimens�es mais elevadas as pessoas acreditam que � poss�vel se divertir  pelo  menos  um  pouco,  e  eles  t�m  jogado  algo  muito  peculiar,  chamado Ultracr�quete Broquiano, durante seja l� qual for o equivalente transdimensional deles para bilh�es de anos.</p><p>
"Sejamos sinceros, � um jogo asqueroso" &#x2015; diz O Guia do-Mochileiro das Gal�xias</p><p>
&#x2015;,  "mas,  por  outro  lado,  qualquer  um  que  j�  tenha  ido  at�  uma  das  dimens�es  mais elevadas  sabe  que  s�o  todos  uns  b�rbaros  nojentos  por  l�,  que  deveriam  ser  destru�dos  e massacrados,  e  na  verdade  j�  teriam  sido, se algu�m  conseguisse  descobrir  uma  forma  de disparar m�sseis em �ngulos retos em rela��o � realidade." Este  �  mais  um  exemplo  do  fato de  que O Guia do Mochileiro  das  Gal�xias  dar�</p><p>
emprego  a  qualquer  um  que  simplesmente  esteja  passando  e  decida  entrar  para  ser explorado, especialmente se a pessoa em quest�o resolver entrar na parte da tarde, quando h� pouca gente da equipe regular por l�.</p><p>
H� um ponto fundamental que deve ser compreendido aqui.</p><p>
A  hist�ria  do  Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias  �  feita  de  idealismo,  lutas, desespero, paix�o, sucesso, fracasso e pausas para almo�o absurdamente longas.</p><p>
62</p><p>
As origens mais antigas do Guia est�o agora, assim corno maioria de seus registros financeiros, perdidas na n�voa do tempo.</p><p>
Para  conhecer  melhor  outras  teorias  ainda  mais  estranhas  sobre  onde  exatamente isso tudo est� perdido, veja a seguir.</p><p>
Muitas  das  hist�rias  que  permaneceram,  contudo,  falam  de  um  editor  fundador chamado Hurling Frootmig.</p><p>
Segundo  a  lenda,  Hurling  Frootmig  fundou  o  Guia,  estabeleceu  seus  princ�pios fundamentais de honestidade e idealismo e depois foi � fal�ncia. Seguiram-se  muitos  anos de  pen�ria e  de um  profundo  exame  da alma durante os quais ele consultou amigos, sentou-se em salas escuras em estados ilegais da mente, pensou sobre uma coisa e outra, brincou com pesos, e depois, pouco ap�s um encontro casual com os  Sagrados  Frades  Almo�adores  de  Voondon  &#x2015;  cuja  cren�a  era  de  que,  assim  como  o almo�o fica no centro temporal do dia dos homens, e o centro temporal do dia dos homens pode ser visto como uma analogia para sua vida espiritual, ent�o o almo�o deveria ser: (a) visto como o centro da vida espiritual dos homens e (b) feito em excelentes restaurantes &#x2015;, ele recriou o Guia, estabeleceu seus princ�pios fundamentais de honestidade, idealismo e de onde  voc�  pode  enfiar  os  dois,  fazendo  com  que  o  Guia  atingisse  seu  primeiro  grande sucesso comercial.</p><p>
Ele  tamb�m  come�ou  a  desenvolver  e  explorar  o  papel  editorial  da  pausa  para almo�o, que iria em seguida assumir um papel t�o relevante na hist�ria do Guia, j� que isso significava  que  a  maioria  do  trabalho  real  era  feito  por  qualquer  estranho  que  estivesse casualmente passando pelos escrit�rios vazios parte da tarde e encontrasse algo interessante para fazer.</p><p>
Pouco tempo depois, o Guia foi englobado pela Editora Megadodo de Beta de Ursa Menor,  o  que  colocou  o  Guia  em  excelente  situa��o  financeira  e  permitiu  que  seu  quarto editor,  Lig Lury Jr.,  pudesse  se  dedicar  a pausas  para almo�o de porte t�o fenomenal que nem mesmo os esfor�os de editores mais recentes, que come�aram a organizar pausas para almo�o patrocinadas para caridade, parecem ser m�seros sandu�ches em contraste. Na verdade, Lig nunca se desligou formalmente de seu cargo como editor &#x2015; apenas saiu de seu escrit�rio tarde, numa manh�, e nunca mais voltou. Apesar de j� ter se passado mais de um s�culo, muitos membros da equipe do Guia ainda mant�m a id�ia rom�ntica de que ele apenas saiu para comer um croissant e ainda voltar� para trabalhar pesado na parte da tarde.</p><p>
Estritamente  falando,  todos  os  editores  desde  Lig  Lury  Jr.  t�m  sido  designados como Editores Interinos e a mesa de Lig ainda � preservada exatamente como ele a deixou, com  o  acr�scimo  de  uma  pequena  plaqueta  onde  est�  escrito:  "Lig  Lury  Jr.,  Editor. Desaparecido, presumivelmente alimentado".</p><p>
Algumas  fontes  muito  mal-intencionadas  e  subversivas  persistem  na id�ia de  que, na  verdade,  Lig  morreu  em  uma  das  extraordin�rias  experi�ncias  iniciais  do  Guia  em contabilidade  alternativa.  Muito  pouco  se  sabe  a  respeito  disso  e  menos  ainda  �  dito. Qualquer um que tenha sequer notado ou, ainda pior, chamado a aten��o para o fato curioso</p><p>
&#x2015; mas completamente acidental e sem sentido &#x2015; de que todos os mundos nos quais o Guia abriu  um  departamento  de contabilidade  tenham  sido  pouco depois  destru�dos  por  guerras ou desastres naturais � pass�vel de ser processado at� o �ltimo centavo. Apesar de uma coisa n�o ter nada a ver com a outra, � interessante notar que, nos dois ou tr�s dias anteriores � demoli��o do planeta Terra para abrir caminho para uma nova via  expressa  hiperespacial,  tenha  havido  um  aumento  dram�tico  n�mero  de  OVNIS</p><p>
avistados naquele planeta, n�o apenas sobre o Lord's Cricket Ground em St. John's Wood, Londres, mas tamb�m sobre a cidade de Glastonbury, em Somerset Glastonbury  sempre  esteve  associada  a  mitos  de  antigos  reis,  bruxaria,  linhas  de</p><p>
63</p><p>
for�a  ley  e  curas  de  verrugas.  Agora  havia  sido  designada  como  localiza��o  do  novo escrit�rio do departamento financeiro do Guia do Mochileiro das Gal�xias e de fato, cerca de  dez  anos  de  registros  financeiros  foram  transferidos  para  uma  colina  m�gica  nos arredores da cidade poucas horas antes da chegada dos vogons.</p><p>
Nenhum desses fatos, por mais estranhos ou inexplic�veis que possam parecer, � t�o estranho ou inexplic�vel quanto as regras do Ultracr�quete Broquiano, tal como � jogado nas dimens�es  mais  elevadas.  O  conjunto  completo das  regras  �  t�o maci�amente  complicado que, na �nica vez em que foram encadernadas em um �nico volume, sofreram um colapso gravitacional e transformaram-se num buraco negro.</p><p>
Um pequeno resumo, contudo, seria mais ou menos o seguinte:</p><p>
Regra  n�mero  1:  Deixe  crescer  pelo  menos  tr�s  pernas  adicionais.  Voc�  n�o  ir�</p><p>
precisar delas, mas isso entret�m os espectadores.</p><p>
Regra  n�mero  2:  Encontre  um  bom  jogador  de  Ultracr�quete  Broquiano.  Fa�a alguns  clones  a  partir  dele.  Isso  elimina  o  tedioso  processo  de  escolher  e  treinar  os jogadores.</p><p>
Regra n�mero 3: Coloque o seu time e o time advers�rio em um campo bem grande, depois construa uma parede bem alta ao redor deles.  O motivo � que, apesar de o jogo atrair grandes multid�es, a frustra��o que os espectadores sentem por n�o conseguirem realmente ver o que est� acontecendo faz com que imaginem que o jogo � muito mais interessante do que realmente �. Uma multid�o que tenha acabado de assistir a uma partida chata tem uma experi�ncia  de  afirma��o  da  vida  muito  menor  do  que  uma  multid�o  que  acredita  ter acabado de perder o evento mais incr�vel em toda a hist�ria dos esportes. Regra n�mero 4: Jogue um monte de acess�rios variados para a pr�tica de esportes por cima da parede para os jogadores. Qualquer coisa serve &#x2015; bast�es de cr�quete, bast�es de basecube, pistolas de t�nis, esquis e qualquer outra coisa que possa ser usada para bater. Regra n�mero 5: Os jogadores devem, ent�o, procurar acertar uns aos outros com a maior for�a poss�vel, usando aquilo que tiverem nas m�os. Sempre que um jogador "acertar" outro jogador, o primeiro deve imediatamente sair correndo e desculpar-se de uma dist�ncia segura. As desculpas devem ser concisas, sinceras e, para maior clareza e obten��o de mais pontos, precisam ser ditas usando um megafone.</p><p>
Regra n�mero 6: O time vencedor ser� o primeiro time que vencer. Muito  curiosamente,  quanto  mais  popular  esse  jogo  se  torna  nas  dimens�es  mais elevadas,  menos  ele  �  praticado  de  fato,  j�  que  os  times  competidores,  na  maioria,  est�o atualmente em estado de permanente guerra uns com os outros a respeito da interpreta��o dessas regras. Isso tudo � muito bom, porque, a longo prazo, um boa e s�lida guerra gera menos danos psicol�gicos do que um jogo ma�ante de Ultracr�quete Broquiano.</p><p>
Cap�tulo 20</p><p>
Enquanto Arthur corria em disparada pela encosta da montanha, pulando e arfando, subitamente  sentiu  toda  a  montanha  se  mexer  muito,  muito  ligeiramente  embaixo  dele. Houve um ribombo, um rugido e um movimento sutil e borrado, depois uma onda de calor surgiu  atr�s  e  acima  dele.  Corria  em  p�nico  total.  A  terra  come�ou  a  tremer  e  ele compreendeu,  naquele  momento,  a  for�a  existente  na  express�o  "tremor  de  terra"  de  uma forma  que  nunca  tinha  compreendido  antes.  Havia  sido  sempre  uma  express�o  qualquer para  ele,  mas  naquele  momento  percebeu,  apavorado,  que  "tremer"  �  uma  coisa  muito estranha e nauseabunda para a terra fazer. Pior, estava fazendo aquilo enquanto ele estava</p><p>
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em  cima  dela.  Sentiu-se  tomado  por  medo  e  tremores.  O  ch�o  se  moveu,  a  montanha  se agitou, ele escorregou, se levantou, escorregou de novo e correu. A avalanche come�ou. Pedras,  depois  pedregulhos,  depois  rochas  quicavam  e  passavam  por  ele  como cachorrinhos desajeitados, s� que muito, muito maiores, muito, muito mais duros e pesados e infinitamente mais capazes de mat�-lo caso ca�ssem em cima dele. Seus olhos balan�avam com eles e seus p�s balan�avam com o ch�o balan�ante. Corria como se correr fosse uma terr�vel doen�a, seu cora��o ribombando no ritmo daquela ribombante histeria geol�gica a seu redor.</p><p>
A l�gica da situa��o &#x2015; ou seja, que ele estava obviamente destinado a sobreviver para  que  o  pr�ximo  incidente  previsto  na  saga  de  sua  persegui��o  acidental  a  Agrajag pudesse acontecer &#x2015; estava miseravelmente falhando na tarefa de se impor dentro da mente de  Arthur  ou  mesmo  de  exercer  qualquer  tipo  de  influ�ncia  repressora  sobre  ele  naquele momento.  Corria  com  o  medo  da  morte  dentro  dele,  abaixo  dele,  sobre  ele  e  mesmo segurando seus cabelos.</p><p>
E subitamente  trope�ou outra vez e foi lan�ado para a frente com uma velocidade consider�vel. Mas, justamente no momento em que estava pr�ximo a se chocar com o ch�o de  forma  bo�almente  brutal,  ele  viu,  jogada  pouco  �  frente,  uma  pequena  bolsa  azulmarinho  que  tinha  certeza  de  ter perdido no aeroporto de Atenas cerca de dez anos antes, contando por sua escala de tempo, e, em sua total perplexidade, errou o ch�o completamente e ficou pairando no ar com sua mente cantarolando.</p><p>
O  que  ele  estava  fazendo  era  o  seguinte:  estava  voando.  Olhou  em  volta,  muito surpreso, mas n�o tinha como duvidar do que estava fazendo. Nenhuma parte de seu corpo estava  tocando o  ch�o, e nenhuma parte de seu corpo estava sequer pr�xima ao ch�o. Ele simplesmente flutuava ali, com as rochas rasgando o ar em torno dele. Agora ele podia fazer algo a respeito. Piscando com o n�o-esfor�o da coisa, subiu mais e agora as rochas estavam rasgando o ar abaixo dele.</p><p>
Olhou para baixo com enorme curiosidade. Entre ele e o solo tr�mulo havia cerca de dez metros de ar vazio &#x2015; ou, pelo menos, vazio se fossem descontadas as rochas que n�o passavam  muito  tempo  ali,  posto  que  continuavam  sua  descida  atribulada,  puxadas  pelas m�os  de ferro da  lei  da  gravidade.  A  mesma lei que, aparentemente, acabara de dar umas f�rias para Arthur.</p><p>
Ele  pensou,  quase  instantaneamente,  com  a  precis�o  instintiva  que  a autopreserva��o imp�e � mente, que ele n�o devia pensar sobre aquilo, pois, se o fizesse, a lei da gravidade imediatamente olharia de forma cruel em sua dire��o e exigiria saber o que ele estava fazendo l� em cima, da� tudo estaria perdido.</p><p>
Ent�o decidiu pensar sobre tulipas. Era dif�cil, mas conseguiu. Pensou em como sua base era firme e arredondada pensou na interessante variedade de cores existentes e pensou na propor��o do total de tulipas que cresciam, ou haviam crescido na Terra, no raio de um quil�metro em torno de um moinho de vento.</p><p>
Ap�s  algum  tempo  ficou  perigosamente  cansado  desses  pensamentos,  sentiu  o  ar fugindo abaixo dele, sentiu que estava descendo novamente para o n�vel das rochas sobre as quais  estava  se  esfor�ando  tanto  para  n�o  pensar,  ent�o  pensou  no  aeroporto  de  Atenas durante  algum  tempo  e  isso  o  manteve  convenientemente  aborrecido  durante  uns  cinco minutos, ao final dos quais ele percebeu, sobressaltado, que agora flutuava a uns 200 metros do ch�o.</p><p>
Pensou por alguns instantes sobre como voltaria para o ch�o, mas instantaneamente desistiu dessa �rea de especula��o novamente e tentou encarar a situa��o. Estava  voando.  O  que  podia fazer a respeito? Olhou novamente para o ch�o. N�o olhou com muita firmeza, apenas fez o melhor para olhar de relance, como se n�o quisesse nada,  en  passant.  Havia  algumas  coisas  que  n�o  podia  deixar  de  notar.  Uma  era  que  a</p><p>
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erup��o  da  montanha  parecia  ter  terminado,  havia  uma  cratera  pouco  abaixo  do  pico, provavelmente  onde  a  rocha  havia  colapsado  sobre  a  enorme  caverna  da  catedral,  sua est�tua e a triste figura de Agrajag.</p><p>
A outra era sua bolsa, aquela que havia perdido no aeroporto de Atenas. Estava  jogada  numa  clareira,  cercada  por  rochedos  que  haviam  ca�do,  mas aparentemente n�o havia sido atingida por nenhum deles. N�o podia sequer especular sobre porqu�  disso  ter  acontecido,  mas,  uma  vez  que  este  era  um  mist�rio  �nfimo  ante  a monstruosa impossibilidade da bolsa ter aparecido por l�, n�o era uma especula��o com a qual  quisesse  se  preocupar  muito.  O  importante  era  que  a  bolsa  estava  l�.  E  a  detest�vel bolsa de uma imita��o fajuta de pele de leopardo parecia haver desaparecido, o que era algo bom, ainda que completamente inexplic�vel.</p><p>
O fato � que teria que apanhar aquela bolsa. L� estava ele, voando 200 metros acima da superf�cie de  um planeta alien�gena cujo  nome nem mesmo sabia. N�o podia ignorar a postura tocante daquele pequeno peda�o do que costumava ser sua vida, ali, distante v�rios anos-luz dos restos pulverizados de sua casa.</p><p>
Al�m disso, pensou, a bolsa, se ainda estivesse no estado em que a havia deixado, teria l� dentro uma lata do �nico azeite de oliva grego ainda restante no Universo. Lenta e cuidadosamente, palmo a palmo, come�ou a oscilar para baixo, deslizando suavemente de um lado para o outro como uma folha de papel tensa que estivesse tateando seu caminho em dire��o ao ch�o.</p><p>
Estava  funcionando  e  ele  se  sentia  bem.  O  ar  lhe  dava  suporte,  mas  deixava-o passar. Dois minutos mais tarde estava flutuando a meio metro da bolsa e se deparou com uma  decis�o  dif�cil.  Estava  oscilando  ali,  gentilmente.  Franziu  o  rosto,  mas  apenas levemente.</p><p>
Se  ele  pegasse  a  bolsa,  seria  capaz  de  carreg�-la?  Poderia  o  peso  extra  pux�-lo imediatamente de volta para o ch�o?</p><p>
Poderia o mero ato de tocar algo que estava no ch�o subitamente descarregar seja qual fosse aquela misteriosa for�a que o mantinha flutuando?</p><p>
Poderia  ele  ser  minimamente  sensato  naquele  momento  e  descer  do  ar,  voltar  ao ch�o por algum tempo?</p><p>
Se o fizesse, seria capaz de voar novamente?</p><p>
A sensa��o, quando se permitia pensar nela, era plena de um �xtase t�o calmo que n�o podia sequer pensar em perde la, talvez para sempre. Preocupado com isso, ele oscilou um  pouco  mais  para  cima  novamente,  apenas  para  se  deixar  levar  pela  sensa��o,  aquele movimento surpreendentemente sem esfor�o.</p><p>
Oscilou, flutuou. Tentou at� mesmo um pequeno rasante.</p><p>
O  rasante  foi  incr�vel.  Com  seus  bra�os  abertos  �  frente  os  cabelos  e  seu  roup�o tremulando  com  o  vento,  ele  mergulhou  do  c�u,  flutuou  sobre  uma  massa  de  ar  a  meio metro  do  ch�o  e  ent�o  subiu  novamente,  parando  no  �pice  da  curva  e  mantendo-se  l�. Apenas se mantendo por l�.</p><p>
Era incr�vel.</p><p>
E  aquela  era,  percebeu,  a  forma  de  pegar  a  bolsa.  Iria  dar  um  rasante  e  peg�-la quando  estivesse  mais  pr�ximo  do  solo.  Carregaria  a  bolsa  com  ele  quando  subisse novamente.  Talvez  seu  v�o  sofresse  com  algumas  turbul�ncias,  mas  estava  certo  de  que podia manter-se no ar.</p><p>
Tentou  mais  uns  mergulhos  para  praticar  e  saiu-se  cada  vez  melhor.  O  ar  em  seu rosto,  a  sensa��o  em  seu  corpo,  tudo  se  juntava  para  fazer  com  que  sentisse  seu  esp�rito inebriado  de  uma  maneira  que  n�o  sentia  desde,  desde  &#x2015;  bom,  at�  onde  conseguia  se lembrar  &#x2015;,  desde  que  nascera.  Deixou-se  levar  pela  brisa  e  observou  os  arredores,  que eram, como percebeu, muito feios. Tinham uma apar�ncia desolada, destru�da. Decidiu n�o</p><p>
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mais olhar aquilo. Iria apenas pegar a bolsa e ent�o... n�o sabia bem o que fazer ap�s pegar a bolsa. Decidiu que iria apenas pegar a bolsa e ver como as coisas caminhavam depois. Colocou-se contra o vento, foi contra ele e virou-se. Flutuava sobre seu corpo. Ele n�o percebia, mas �quela altura seu corpo estava uilomeando.</p><p>
Agachou-se sob a corrente de ar, deu impulso e mergulhou.</p><p>
O ar soprava ao passar, enquanto ele se deliciava com isso. O ch�o vacilou, depois colocou suas id�ias em ordem e subiu suavemente para encontr�-lo, oferecendo-lhe a bolsa, com suas al�as de pl�stico quebradi�as voltadas em sua dire��o. Na  metade  do  caminho  houve  um  r�pido  mas  perigoso  momento  em  que  ele  n�o podia acreditar que estivesse fazendo aquilo &#x2015; e, assim, por pouco n�o deixou de estar &#x2015;, mas  recuperou-se  a  tempo,  tirou  um  rasante  do  solo,  passou  um  bra�o  suavemente  pelas al�as da bolsa e come�ou a subir de novo, mas n�o conseguiu e de repente caiu, arranhado, esfolado e revirando-se no solo de pedras.</p><p>
Levantou-se imediatamente e girou descontroladamente, sacudindo a bolsa em total desespero e desapontamento.</p><p>
Seus p�s voltaram a ficar colados ao ch�o da forma que sempre estiveram. Seu  corpo  parecia  um  inc�modo saco de  batatas  que  se  revirava batendo  contra  o ch�o e sua mente tinha toda a leveza de uma bolsa de chumbo.</p><p>
Ele caiu, dobrou-se e sofreu com a vertigem. Tentou correr, inutilmente, mas suas pernas estavam fracas demais. Trope�ou e estatelou-se no ch�o. Foi ent�o que lembrou que, naquela  sacola,  n�o  apenas  havia  a  lata  de  azeite  grego  como  tamb�m  a  cota  m�xima permitida  de  retsina  &#x2015;  vinho  grego  &#x2015;,  e,  com  o  agrad�vel  choque  causado  por  esta descoberta,  deixou  de  notar  durante  pelo  menos  dez  segundos  que  estava  voando novamente.</p><p>
Riu e chorou cheio de al�vio e prazer, al�m de puro deleite f�sico. Mergulhou,  girou,  deslizou  e  flutuou  pelo  ar.  Com  ar  blas�,  sentou-se  em  uma ascendente e revirou o conte�do da bolsa. Sentia-se da mesma forma que imaginava que os anjos deveriam sentir-se durante sua famosa dan�a sobre a cabe�a de um alfinete enquanto os fil�sofos tentavam cont�-los. Riu prazerosamente ao ver que a bolsa de fato continha o azeite grego, a retsina, assim como um par de �culos escuros rachados, alguns cal��es de banho cheios de areia, alguns cart�es-postais amassados de Santorini, uma grande e feiosa toalha, alguma pedras interessantes e v�rios pedacinhos de papel com o endere�o de pessoas que ele pensava, muito aliviado, que jamais encontraria de novo, mesmo que a raz�o para tal fosse  triste.  Jogou  fora  as  pedras,  colocou  os  �culos  escuros  e  deixou  os  pedacinhos  de papel serem levados pelo vento.</p><p>
Dez  minutos  mais  tarde,  enquanto  flutuava  despreocupadamente  em  uma  nuvem, foi atingido no c�ccix por uma enorme e incrivelmente obscena festa.</p><p>
Cap�tulo 21</p><p>
 A mais longa e destrutiva festa j� realizada est� agora em sua quarta gera��o e, ainda assim, ningu�m d� sinais de querer sair. Certa vez algu�m olhou para o rel�gio, mas isso foi h� 11 anos e a coisa parou por a�.</p><p>
A  bagun�a  �  extraordin�ria,  algo  em  que  voc�  s�  acreditaria  vendo,  mas,  se  voc�</p><p>
n�o tiver nenhuma necessidade espec�fica de acreditar, melhor n�o ir, porque voc� n�o vai gostar de l�.</p><p>
Recentemente  houve  alguns  estrondos  e  luzes  em  meio  �s  nuvens  e  surgiu  uma</p><p>
67</p><p>
teoria de que fosse uma batalha em andamento entre frotas de diversas empresas rivais de limpeza  de  carpetes  que  sobrevoam  a  coisa  como  se  fossem  urubus,  mas  n�o  se  deve acreditar em tudo que se escuta em festas, sobretudo n�o nas coisas que se ouve nessa festa. Um dos problemas &#x2015; e um que obviamente s� vai piorar &#x2015; � que todas as pessoas na festa s�o filhos, netos ou bisnetos das pessoas que n�o sa�ram de l� no in�cio de tudo e, por conta de todas aquelas baboseiras sobre sele��o natural e genes recessivos, isso significa que  todas  as  pessoas  que  est�o  agora  na  festa  ou  s�o  fan�ticos  por  festas  ou  completos imbecis ou &#x2015; o que � cada vez mais freq�ente &#x2015; ambas as coisas. De qualquer forma isso significa que, geneticamente falando cada nova gera��o est�</p><p>
menos propensa a sair do que a anterior.</p><p>
H�  outros  fatores  que  entram  em  cena,  tal  como,  por  exemplo,  quando  �  que  a bebida vai acabar.</p><p>
Bem, por conta de algumas coisas que ocorreram e que pareciam uma boa id�ia na �poca (e um dos problemas com festa que nunca terminam � que todas aquelas coisas que s�</p><p>
parecem ser uma boa id�ia durante a festa continuam parecendo ser boas id�ias), esse ponto parece estar ainda muito distante.</p><p>
Uma  das  coisas  que  pareciam  uma  boa  id�ia  na  �poca  era  que  a  festa  deveria decolar n�o no sentido comum em que dizemos que as festas devem decolar, mas no sentido literal.</p><p>
Certa  noite,  tempos  atr�s,  um  bando  de  astroengenheiros  da  primeira  gera��o, b�bados,  construiu  o  pr�dio  de  um  lado  para  o  outro,  cavando  isso,  instalando  aquilo, batendo  fortemente  naquilo  outro  e,  quando  o  sol  se  levantou  na  manh�  seguinte,  ficou surpreso ao se descobrir brilhando sobre um pr�dio cheio de pessoas b�badas e felizes que estava, naquele momento, flutuando como um p�ssaro jovem e incerto sobre as �rvores. N�o  apenas  isso,  mas  a  festa  voadora  tamb�m  tinha  conseguido  se  armar fortemente. Se por acaso se metessem em discuss�es mesquinhas com vendedores de vinho, queriam ter certeza de que a for�a estaria do lado deles.</p><p>
A  transi��o  entre  uma  festa  em  tempo  integral  para  uma  festa  de  pilhagens  em tempo  parcial  foi  algo  natural  e  ajudou  bastante  a  acrescentar  um  pouco  de  emo��o  e aventura  �  coisa  toda,  o  que  era  importante  naquele  momento  por  conta  das  infind�veis vezes que a banda j� tinha tocado todo o seu repert�rio ao longo dos anos. Eles  saqueavam,  eles  pilhavam,  eles  mantinham  cidade  inteiras  como  ref�ns  em troca de um novo estoque de biscoitinhos de queijo, pastas para os biscoitinhos, costeletas porco,  vinho  e  outras  bebidas  alco�licas,  que  agora  eram  bombeadas  a  bordo  vindas  de tanques flutuantes.</p><p>
O  problema  de  quando  � que  a bebida  vai acabar ter�, contudo,  que  ser  abordado algum dia.</p><p>
O planeta sobre o qual est�o flutuando j� n�o � mais o que era quando come�aram a flutuar sobre ele.</p><p>
Est� em p�ssimo estado.</p><p>
A  festa  j�  tinha  atacado  e  saqueado  quase  tudo  nele,  e  ningu�m  ainda  tinha  sido capaz  de  atac�-la  de  volta  por  conta  da  forma  aleat�ria  e  imprevis�vel  com  que  ela  se movimenta no c�u.</p><p>
� uma festa do cacete.</p><p>
Tamb�m � uma cacetada ser atingido por ela no c�ccix.</p><empty-line/><p>
68</p><p>
Cap�tulo 22</p><p>
 Arthur  estava  deitado,  se  revirando  de dor, em um peda�o de concreto armado rachado,  golpeado  levemente  por  tufos  de  nuvens  passageiras  e  confundido  pelos  sons festivos vindos de algum lugar n�o discern�vel atr�s dele.</p><p>
Havia um som que ele n�o conseguiu identificar imediatamente, em parte por n�o conhecer a m�sica I Left My Leg in Janglan Beta* (Deixei minha perna em Janglan Beta) e em  parte  porque  a  banda  que  a  tocava  j�  estava  muito  cansada,  de  maneira  que  alguns m�sicos tocavam em compasso 3/4, outros em 4/4 e outros em uma esp�cie de R2 bebum, de acordo com a quantidade de tempo que cada um havia dormido recentemente.</p><p>
* Provavelmente uma brincadeira com a conhecida m�sica I Left My Heart in San Francisco (N. do T.).</p><p>
Ficou  ali  deitado,  ofegando  muito  no  ar  �mido.  Tentou  tocar  algumas  partes  do corpo para descobrir onde poderia ter se machucado. Onde quer que tocasse, do�a. Acabou concluindo que era sua m�o que estava doendo. Aparentemente havia torcido o pulso. Suas costas  tamb�m  pareciam  estar  doendo,  mas  logo  percebeu  que  n�o  estava  seriamente machucado,  apenas  um  pouco  ralado  e  um  pouco  atordoado,  mas  quem  n�o  estaria?  N�o podia entender o que um pr�dio estava fazendo voando no meio das nuvens. Por outro lado, tamb�m teria s�rias dificuldades em explicar, de forma coerente, o que estava fazendo ali, ent�o decidiu que ele e o pr�dio teriam que se aceitar mutuamente. Olhou para cima. Uma parede de revestimento de pedra clara mas manchada erguia-se atr�s dele  &#x2015;  era  o  pr�dio  em  si.  Arthur  parecia  estar  estatelado  em  algum  tipo  de  borda  ou beirada que se estendia para fora por cerca  de um metro em volta de todo o pr�dio. Era um peda�o  do  solo  no  qual  o  pr�dio  da  festa  um  dia  tivera  suas  funda��es  e  que  havia transportado consigo para se manter inteiro na parte inferior. Levantou-se  nervosamente  e,  olhando  para  al�m  da  borda,  subitamente  ficou  com vertigem.  Pressionou  suas  costas  contra  a  parede,  molhado  de  n�voa  e  suor.  Sua  cabe�a nadava em estilo livre, mas algu�m em seu est�mago estava nadando borboleta. Ainda  que  tivesse  chegado  at�  l�  por  conta  pr�pria,  no  momento  n�o  podia  nem olhar para o tremendo abismo � sua frente. N�o estava nem um pouco disposto a testar sua sorte pulando. N�o iria chegar nem um cent�metro mais perto da borda. Agarrado  � sua bolsa,  foi  andando  junto  �  parede,  na  esperan�a de  encontrar  uma porta de entrada. A solidez do peso da lata de azeite era altamente reconfortante. Estava  indo  em  dire��o  ao  canto  mais  pr�ximo,  na  esperan�a  de  que  a  parede  do outro  lado  apresentasse  mais  escolhas  no  quesito  "portas"  do  que  aquela,  que  n�o  tinha nenhuma.</p><p>
A instabilidade do v�o do pr�dio o deixava em p�nico e, ap�s algum tempo, pegou a toalha que estava na bolsa e fez com ela algo que, mais uma vez, justificava sua posi��o suprema  na  lista  de  coisas  �teis  que  devem  ser  levadas  ao  pegar  carona  pela  Gal�xia: vendou os olhos, pois assim n�o teria que ver o que estava fazendo. Seus  p�s  acompanhavam  a  borda  do  pr�dio.  Seu  bra�o  estava  completamente esticado e grudado � parede.</p><p>
Finalmente chegou ao canto e, quando sua m�o o contornou, encontrou algo que lhe deu um susto t�o grande que quase caiu. Era outra m�o.</p><p>
As duas m�os se seguraram.</p><p>
Queria desesperadamente usar sua outra m�o para tirar a toalha de seus olhos, mas ela estava segurando a bolsa com o azeite, a retsina e os cart�espostais de Santorini, e ele</p><p>
69</p><p>
realmente n�o queria largar aquilo tudo.</p><p>
Passou por um daqueles momentos de crise de identidade quando voc� subitamente se  volta  para  dentro  e  come�a  a  pensar:  "Quem  sou  eu?  O  que  eu  desejo?  Quais  minhas realiza��es? Estou indo bem?" Ele solu�ou baixinho.</p><p>
Tentou  liberar  sua m�o, mas  n�o podia. A outra m�o estava segurando a sua bem firme.  N�o  tinha  outro  jeito  sen�o  andar  em  dire��o  ao  canto.  Contornou-o  e  sacudiu  a cabe�a na tentativa de deslocar a toalha. Aparentemente isso teve como efeito provocar um grito agudo de alguma emo��o fora de moda por parte do dono da outra m�o. Quando a toalha caiu de sua cabe�a, descobriu que seus olhos estavam fixos nos de Ford  Prefect.  Atr�s  dele  estava Slartibartfast e,  mais  para tr�s,  ele  podia ver  claramente  o port�o do pr�dio e uma grande porta fechada.</p><p>
Os outros dois tamb�m estavam de costas contra a parede, os olhos esbugalhados de terror  toda  vez  que  olhavam  para  dentro  da  densa  nuvem  cinza  que  os  cercava,  enquanto tentavam resistir aos balan�os e sacudidelas do pr�dio.</p><p>
&#x2015; Por que z�rquon de f�ton voc� andou? &#x2015; sussurrou Ford, em completo p�nico.</p><p>
&#x2015;  Ahn,  bem...  &#x2015;  gaguejou  Arthur,  meio  sem  saber  como  iria  resumir  tudo  em poucas palavras. &#x2015; Por a�. O que voc�s est�o fazendo aqui?</p><p>
Ford virou seus olhos esbugalhados para Arthur novamente.</p><p>
&#x2015; N�o querem nos deixar entrar sem uma garrafa!</p><p>
A primeira coisa que Arthur notou, quando entraram na parte mais movimentada da festa, al�m do ru�do, do calor sufocante, da profus�o de cores selvagens que podia ser vista vagamente em meio ao ar cheio de fuma�a, dos carpetes cobertos com uma grossa camada de  caquinhos  de  vidro,  cinzas  e  restos  de  pastinhas,  al�m  do  pequeno  grupo  de  criaturas pterodactil�ides vestidas em lurex que vieram atracar-se com sua querida garrafa de retsina, grasnando  "nova  divers�o,  nova  divers�o",  foi  Trillian  levando  uma  cantada  do  Deus  do Trov�o.</p><p>
&#x2015; N�o te conhe�o do Milliways? &#x2015; disse ele.</p><p>
&#x2015; Voc� era o cara com o martelo?</p><p>
&#x2015; O pr�prio. Mas prefiro este lugar aqui. � t�o menos respeit�vel, t�o mais lotado. Gritos  de  algum  prazer  indescrit�vel  ecoaram  pela  sala,  cujas  dimens�es  externas eram  invis�veis  atrav�s  da  multid�o  pulsante  de  criaturas  alegres  e  barulhentas, animadamente  gritando  umas  para  as  outras  coisas  que  ningu�m  podia  ouvir  e ocasionalmente tendo chiliques.</p><p>
&#x2015; �, parece divertido &#x2015; disse Trillian. &#x2015; O que voc� disse, Arthur?</p><p>
&#x2015; Eu perguntei como voc� chegou aqui?</p><p>
&#x2015; Eu era uma fileira de pontinhos flutuando aleatoriamente pelo Universo. Voc� conhece Thor? Ele faz trov�es.</p><p>
&#x2015; Oi &#x2015; disse Arthur. &#x2015; Deve ser bem legal.</p><p>
&#x2015;  Oi  &#x2015;  disse  Thor.  &#x2015;  �  legal.  Voc�  j�  pegou  uma  bebida?  &#x2015;  Ahn,  n�o,  na verdade...</p><p>
&#x2015;  Ent�o  por  que  voc�  n�o vai  procurar  uma?  &#x2015;  Te  vejo depois, Arthur  &#x2015;  disse Trillian.</p><p>
Alguma  coisa  passou  pela  mente  de  Arthur  e  ele  olhou  em  volta,  procurando algu�m.</p><p>
&#x2015; Zaphod por acaso est� aqui? &#x2015; perguntou.</p><p>
&#x2015; Vejo voc� &#x2015; repetiu Trillian com firmeza &#x2015; mais tarde.</p><p>
Thor  lan�ou-lhe  um  olhar  duro  com  seus  olhos  pretos  com  carv�o;  sua  barba  se eri�ou e a pouca luz que havia no sala reagrupou suas for�as para cintilar amea�adoramente no chifres de seu capacete.</p><p>
Pegou  Trillian  pelo  ombro  com  sua  enorme  m�o  e  os  m�sculos  de  seu  bra�o</p><p>
70</p><p>
passaram uns pelos outros, como dois fuscas estacionando.</p><p>
Levou-a embora.</p><p>
&#x2015; Uma das coisas interessantes de ser imortal &#x2015; disse ele &#x2015; � que...</p><p>
&#x2015; Uma das coisas interessantes sobre o espa�o &#x2015; Arthur ouviu Slartibartfast dizer para uma criatura espa�osamente gorda, que se parecia com algu�m que estivesse perdendo uma briga  contra um edredom rosa e que estava hipnotizada pelos olhos profundos e pela barba prateada do velho &#x2015; � qu�o mon�tono ele �.</p><p>
&#x2015;  Mon�tono?  &#x2015;  disse  a  criatura,  piscando  seus  olhos  bastante  enrugados  e tamb�m injetados.</p><p>
&#x2015; Sim � continuou Slartibartfast &#x2015;, espantosamente mon�tono.</p><p>
Estonteantemente mon�tono. Sabe, o problema � que h� muito espa�o e pouca coisa dentro dele. Voc� quer que eu cite algumas estat�sticas?</p><p>
&#x2015; Olha, bem...</p><p>
&#x2015; Ah, por favor, eu adoraria. Elas tamb�m s�o sensacionalmente mon�tonas.</p><p>
&#x2015;  Claro,  j�  volto  para  ouvir  isso  &#x2015;  disse  a  criatura,  dando  um  tapinha  no  bra�o dele e depois levantando sua saia como um hovercraft e se perdendo em meio � multid�o.</p><p>
&#x2015; Achei que ela n�o iria mais embora &#x2015; resmungou o velho &#x2015; Venha, terr�queo...</p><p>
&#x2015; Arthur.</p><p>
&#x2015; Precisamos encontrar a Trave de Prata, ela est� aqui e algum lugar.</p><p>
&#x2015; N�o podemos relaxar um pouquinho? &#x2015; disse Arthur. &#x2015; Tive um dia dif�cil. Por coincid�ncia, Trillian tamb�m est� aqui, mas n�o disse como chegou. Suponho que n�o importe.</p><p>
&#x2015; Pense nos perigos que o Universo corre...</p><p>
&#x2015; O Universo &#x2015; disse Arthur &#x2015; j� est� bem grandinho e j� tem idade para cuidar de  si  mesmo  durante  meia  hora.  Tudo  bem,  tudo  bem  &#x2015;  acrescentou,  vendo  que Slartibartfast estava ficando mais inquieto &#x2015;, vou dar uma volta e descobrir se algu�m viu a trave.</p><p>
&#x2015;  �timo,  �timo  &#x2015;  disse  Slartibartfast.  &#x2015;  �timo.  &#x2015;  Depois  ele  tamb�m mergulhou na multid�o e todos por quem passava lhe diziam que deveria relaxar um pouco.</p><p>
&#x2015; Voc� viu uma trave em algum lugar? &#x2015; perguntou Arthur para um homenzinho que parecia estar de p� aguardando ansiosamente que algu�m fosse falar com ele. &#x2015; � feita de  prata,  vitalmente  importante  para  a  seguran�a  futura  do  Universo  e  �  mais  ou  menos deste tamanho.</p><p>
&#x2015;  N�o  &#x2015;  respondeu  o  homenzinho  entusiasticamente  franzino  &#x2015;,  mas  vamos tomar um drinque enquanto voc� me conta todos os detalhes.</p><p>
Ford  Prefect  passou,  sacudindo-se,  dan�ando  de  forma  fren�tica,  selvagem  e  um pouco obscena com algu�m que parecia estar usando a �pera de Sydney sobre a cabe�a. Ele estava gritando uma conversa fiada para ela por cima da zoeira.</p><p>
&#x2015; Gosto deste chap�u! &#x2015; berrou.</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; Disse que gosto do chap�u.</p><p>
&#x2015; Mas eu n�o estou usando um chap�u.</p><p>
&#x2015; Bom, ent�o eu gosto da cabe�a. &#x2015;</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; Eu disse que gosto da cabe�a.</p><p>
&#x2015; � uma estrutura �ssea interessante.</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
Ford incluiu um "deixa pra l�" com os ombros em complexa rotina de movimentos que estava executando.</p><p>
&#x2015; Disse que voc� dan�a bem &#x2015; vociferou &#x2015;, mas tente nao sacudir tanto a cabe�a.</p><p>
71</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; � s� que, toda vez que voc� sacode a cabe�a &#x2015; disse Ford e acrescentou "ai!" quando sua parceira se inclinou novamente para dizer "o qu�?" e, mais uma vez, enfiou a ponta afiada e protuberante de seu cr�nio na testa de Ford.</p><p>
&#x2015;  Meu  planeta  foi  destru�do  uma  certa  manh�  &#x2015;  disse  Arthur  que, inesperadamente, se viu contando a hist�ria de sua vida para o homenzinho, ou pelo menos resumindo os melhores momentos &#x2015;, e por isso estou vestido assim, com esse roup�o. Meu planeta foi destru�do com todas as minhas roupas dentro, entende? N�o sabia que eu vinha para uma festa.</p><p>
O homenzinho assentiu entusiasticamente.</p><p>
&#x2015;  Mais tarde  eu fui jogado para fora de uma espa�onave. Ainda em meu roup�o. Normalmente  seria  bom estar usando um traje espacial nessa hora. Pouco depois descobri que  meu  planeta  tinha  sido  constru�do  originalmente  para  um  punhado  de  camundongos. Voc� pode imaginar como isso me fez sentir. Ent�o atiraram em mim algumas vezes e eu fui  detonado.  Na  verdade,  j�  fui  detonado  um  n�mero  absurdo  de  vezes,  j�  atiraram  em mim, me insultaram, fui desintegrado v�rias vezes, privado de ch� e, h� pouco tempo, nossa nave caiu em um p�ntano e tive que passar cinco anos em uma caverna �mida.</p><p>
&#x2015; Ah! &#x2015; disse o homenzinho alegremente. &#x2015; Ent�o voc� se divertiu muito?</p><p>
Arthur se engasgou violentamente com seu drinque.</p><p>
&#x2015; Que tosse formidavelmente excitante &#x2015; disse o homenzinho, bastante espantado com aquilo &#x2015;, voc� se importa se o acompanhar?</p><p>
Tendo  dito isso, ele come�ou a ter um impressionante acesso de tosse que deixou Arthur t�o surpreso que ele se engasgou violentamente, descobriu que j� estava engasgado antes e ficou totalmente confuso.</p><p>
Juntos fizeram um dueto de estourar os pulm�es que durou uns dois minutos antes que Arthur conseguisse parar.</p><p>
&#x2015; Muito revigorante &#x2015; disse o homenzinho, arquejante e enxugando l�grimas dos olhos. &#x2015; Que vida excitante voc� deve ter. Muit�ssimo obrigado. Apertou calorosamente as m�os de Arthur e depois saiu andando, misturando-se �</p><p>
multid�o.</p><p>
Arthur apenas balan�ou a cabe�a, surpreso.</p><p>
Um  jovem  aproximou-se  dele  em  seguida.  Fazia  o  tipo  agressivo,  com  uma  boca torta como um gancho, um nariz de lanterna e ossos da ma�� do rosto pequenos e brilhantes. Estava  usando  cal�as  pretas,  uma  camisa  de  seda  preta  aberta  at�  o  que  parecia  ser  seu umbigo &#x2015; embora Arthur j� tivesse aprendido a nunca presumir nada sobre as anatomias do tipo  de  gente  que  vinha  encontrando  ultimamente  &#x2015;  e  tinha  diversos  penduricalhos dourados  esquisitos  em  volta  do  pesco�o.  Carregava  alguma  coisa  em  uma  bolsa  preta  e claramente queria que as pessoas notassem que ele n�o queria que notassem a bolsa.</p><p>
&#x2015; E a�, n�o ouvi voc� dizer seu nome agora h� pouco? &#x2015; perguntou. Essa foi uma das muitas coisas que Arthur contou ao homenzinho entusiasmado.</p><p>
&#x2015; Sim, � Arthur Dent.</p><p>
O  cara  parecia  estar  dan�ando  levemente  em  algum  outro  ritmo  que  n�o  um  dos muitos que a banda tocava sem cessar.</p><p>
&#x2015; Isso a� &#x2015; disse o cara. &#x2015; Tinha um sujeito numa montanha que estava querendo muito ver voc�.</p><p>
&#x2015; J� encontrei com ele.</p><p>
&#x2015; �, mas ele tava realmente ansioso com isso, sabe?</p><p>
&#x2015; Sei, encontrei com ele.</p><p>
&#x2015; �, bom, achei que era legal avisar.</p><p>
&#x2015; J� sei. Eu encontrei com ele.</p><p>
72</p><p>
O cara fez uma pausa para mastigar chiclete. Depois deu um tapinha nas costas de Arthur.</p><p>
&#x2015; Isso a� &#x2015; ele disse &#x2015;, manda ver. S� tava avisando, falo? Boa noite, boa sorte, ganhe pr�mios.</p><p>
&#x2015; O qu�? &#x2015; disse Arthur, que estava come�ando a se atrapalhar seriamente �quela altura.</p><p>
&#x2015; Sei l�. Fa�a o que quiser. Fa�a bem-feito &#x2015; ele fez um ru�do parecido com um clique usando seja l� o que for que estivesse mascando, depois fez uns gestos  vagos.</p><p>
&#x2015; Por qu�? &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Fa�a mal, ent�o &#x2015; disse o cara. &#x2015; E quem se importa? Ningu�m t� nem a�, n�o �? &#x2015; O sangue parecia ter subido � cabe�a do sujeito, que come�ou a gritar.</p><p>
&#x2015; Ei, por que n�o pirar? &#x2015; disse. &#x2015; Sai fora, me deixa em paz, cara. Zarca fora!</p><p>
&#x2015; Tudo bem, t� saindo &#x2015; disse Arthur apressadamente.</p><p>
&#x2015; Foi pra valer &#x2015; o cara acenou bruscamente e desapareceu na massa.</p><p>
&#x2015;  Que  diabos  foi  isso?  &#x2015;  perguntou  Arthur  para  uma  garota  que  estava  ao  lado dele. &#x2015; Por que ele me disse para ganhar pr�mios?</p><p>
&#x2015; Maluquice de artista &#x2015; disse a garota. &#x2015; Ele acabou de ganhar um pr�mio na Cerim�nia Anual de Premia��o do Instituto de Ilus�es Recreativas de Alfa da Ursa Menor e estava  querendo  comentar  com  voc�  como  se  n�o  fosse  nada,  mas  como  voc�  n�o perguntou, ele n�o p�de dizer nada.</p><p>
&#x2015; Ah &#x2015; disse Arthur &#x2015;, ah, puxa, lamento. Qual foi o pr�mio?</p><p>
&#x2015;  Uso  Mais  Desnecess�rio  da  Palavra  "Foda-se"  em  um  Roteiro  S�rio.  �  um pr�mio muito importante.</p><p>
&#x2015; Sei &#x2015; disse Arthur &#x2015;, e como se chama o pr�mio?</p><p>
&#x2015; Um Rory. � s� uma pequena coisa de prata enfiada em um grande pedestal preto. O que voc� disse?</p><p>
&#x2015; N�o disse nada. Eu ia perguntar o que a coisa de prata...</p><p>
&#x2015; Ah, achei que voc� tinha dito "uop".</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; Uop.</p><p>
H� anos as pessoas estavam entrando e saindo da festa, penetras famosos de outros mundos,  e  j�  fazia  algum  tempo  que  os  participantes  da  festa  tinham  notado,  quando olhavam para seu pr�prio mundo abaixo deles, com suas cidades destro�adas, as fazendas de abacate destro�adas e os vinhedos destru�dos por pragas, suas vastas extens�es de terras transformadas  em  desertos,  seus  oceanos  cheios  de  migalhas  de  biscoitos  e  coisas  muito piores, enfim, haviam notado que, de formas m�nimas, quase impercept�veis, seu mundo j�</p><p>
n�o  era  t�o  agrad�vel  quanto  antes.  Alguns  deles  tinham  come�ado  a  pensar  se  poderiam ficar s�brios tempo suficiente para tornar a festa inteira capaz de viajar no espa�o e, ent�o, decolar para planetas de outras pessoas, onde o ar fosse mais puro e lhes desse menos dores de cabe�a.</p><p>
Os  poucos  e  malnutridos  fazendeiros  que  ainda  conseguiam  extrair  um  miser�vel sustento do solo �rido da superf�cie do planeta teriam ficado extremamente felizes em saber disso  tudo,  mas,  naquele  dia,  quando  a  festa  rasgou  as  nuvens  com  um  som  gritante  e  os fazendeiros olharam para cima temendo um outro saque de queijos e vinhos, ficou claro que a  festa  n�o  iria  para  lugar  nenhum  durante  um  bom  tempo.  Na  verdade,  em  breve  a  festa estaria acabada. Muito em breve seria hora de pegar os chap�us e casacos e cambalear para fora procurando saber qual era a hora, que dia era aquele e onde, naquela terra devastada, seria poss�vel encontrar um t�xi.</p><p>
A festa estava presa num terr�vel abra�o com uma estranha nave branca, que parecia estar  meio  enfiada  nela.  Juntas,  estavam  balan�ando,  oscilando  e girando  pesadamente no</p><p>
73</p><p>
c�u, em um grotesco desd�m por seu pr�prio peso.</p><p>
As nuvens se abriram. O ar rugia e abria caminho.</p><p>
A festa e a nave de Krikkit, em suas manobras, de certa forma se pareciam com dois patos, um dos quais est� tentando fazer um terceiro pato dentro do segundo pato, enquanto este segundo pato est� tentando explicar, de forma veemente, que n�o se sente pronto para um terceiro pato naquele exato momento, que n�o tem muita certeza de sequer querer que um  suposto  terceiro  pato  seja  feito  por  aquele  primeiro  pato  para  in�cio  de  conversa  e certamente n�o enquanto ele, o segundo pato, estiver ocupado voando. O  c�u  gritava  e  gemia  em  meio  �  f�ria  daquilo  tudo,  esbofeteando  o  ch�o  com ondas de choque.</p><p>
E, subitamente, com um "fuop", a nave de Krikkit se foi. A  festa  vagou  tr�pega  pelo  c�u,  como  um  homem  encostado  numa  porta inesperadamente aberta. Ela girou e sacolejou sobre seus jatos flutuadores. Tentou endireitar-se, mas conseguiu apenas ficar mais torta. Cambaleou novamente pelo c�u.</p><p>
Durante algum tempo esses trope�os continuaram, mas estava claro que n�o iriam durar  muito.  A  festa  era,  agora,  uma  festa  mortalmente  ferida.  Toda  a  divers�o  havia  se perdido, fato que as eventuais piruetas alquebradas n�o podiam disfar�ar. Nesse ponto, quanto mais tempo ela evitasse a queda, pior seria o choque quando finalmente ca�sse.</p><p>
L�  dentro,  as  coisas  tamb�m  n�o  estavam  indo  muito  bem.  Na  verdade,  estavam indo  monstruosamente  mal,  as  pessoas  estavam  odiando  aquilo  e  dizendo  isso  em  alto  e bom som&#x2015; Os rob�s de Krikkit estragaram a festa.</p><p>
Tinham levado o Pr�mio pelo Uso Mais Desnecess�rio da Palavra "Foda-se" em um Roteiro S�rio e, em seu lugar, deixaram uma cena de devasta��o que fez com que Arthur se sentisse quase t�o enjoado quanto um candidato a um Rory.</p><p>
&#x2015;  Gostar�amos  muito  de  poder  ficar  e  ajudar  &#x2015;  gritou  Ford,  abrindo  caminho atrav�s dos destro�os &#x2015;, mas n�o vamos.</p><p>
A  festa  sacolejou  novamente,  gerando  gritos  e  gemidos  exaltados  dentre  os destro�os chamuscados.</p><p>
&#x2015; Sabe, � que temos que sair para salvar o Universo &#x2015; prosseguiu Ford. &#x2015; E se isso parece uma bela desculpa esfarrapada, pode at� ser. De qualquer forma, estamos fora. Deparou-se subitamente com uma garrafa fechada, miraculosamente inteira e de p�</p><p>
sobre o ch�o.</p><p>
&#x2015; Voc�s se importam se levarmos isso? &#x2015; disse. &#x2015; N�o v�o mais precisar, n�o �?</p><p>
Pegou um pacote de batatas fritas tamb�m.</p><p>
&#x2015; Trillian? &#x2015; gritou Arthur, com uma voz enfraquecida e abalada. N�o conseguia ver nada naquela confus�o, em meio � fuma�a.</p><p>
&#x2015; Terr�queo, temos que ir &#x2015; disse Slartibartfast, nervoso.</p><p>
&#x2015; Trillian? &#x2015; gritou Arthur novamente.</p><p>
Pouco depois surgiu Trillian, chocada e tr�mula, apoiando-se em seu novo amigo, o Deus do Trov�o.</p><p>
&#x2015;  A  garota  vai  ficar  comigo  &#x2015;  disse  Thor.  &#x2015;  Est�o  dando  uma  grande  festa no Valhala, vamos voar at� l�...</p><p>
&#x2015; Onde estava voc� quando tudo aconteceu? &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; L� em cima &#x2015; respondeu Thor. &#x2015; Estava vendo o peso dela. Voar � uma coisa complicada, sabe? � preciso calcular a velocidade dos...</p><p>
&#x2015; Ela vem conosco &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Ei!. &#x2015; disse Trillian. &#x2015; Ser� que eu n�o...</p><p>
&#x2015; N�o &#x2015; disse Arthur &#x2015;, voc� vem conosco.</p><p>
74</p><p>
Thor olhou para ele com um olhar que ardia lentamente. Ele estava deixando bem claro um determinado ponto sobre sua divindade e n�o tinha nada a ver com ser honesto.</p><p>
&#x2015; Ela vem comigo &#x2015; disse baixinho.</p><p>
Vamos, terr�queo &#x2015; disse Slartibartfast nervosamente, puxando Arthur pela manga.</p><p>
&#x2015; Vamos, Slartibartfast &#x2015; disse Ford, puxando o velho pela manga. O dispositivo de teleporte estava com Slartibartfast.</p><p>
A festa inclinou-se e balan�ou, fazendo com que todos cambaleassem, exceto Thor e exceto Arthur, que olhava, tremendo, dentro dos olhos negros do Deus do Trov�o. Lentamente, inacreditavelmente, Arthur levantou o que pareciam ser seus pequenos punhos magrelos.</p><p>
&#x2015; Vai encarar? &#x2015; disse ele.</p><p>
&#x2015; O que disse, seu inseto nanico? &#x2015; trovejou Thor.</p><p>
&#x2015; Eu perguntei &#x2015; repetiu Arthur, incapaz de manter a firmeza na voz &#x2015; se voc�</p><p>
vai encarar? &#x2015; Moveu ridiculamente seus punhos.</p><p>
Thor olhou para ele com total incredulidade. Ent�o uma pequena nesga de fuma�a subiu, saindo de sua narina. Havia uma chama bem pequena l� dentro tamb�m. Colocou as m�os no cintur�o.</p><p>
Encheu o peito, s� para deixar bem claro que aquele era um homem cujo caminho voc� s� ousaria cruzar se estivesse acompanhado por uma boa equipe de Sherpas. Desprendeu o cabo de seu martelo do cintur�o. Segurou-o em suas m�os, deixando � mostra a maci�a marreta de ferro. Dessa forma eliminou qualquer d�vida eventual de que estivesse apenas carregando um poste por a�.</p><p>
&#x2015; Se eu vou &#x2015; disse ele, sibilando como um rio correndo pelo alto-forno de uma refinaria &#x2015; encarar?</p><p>
&#x2015;  Sim  &#x2015;  disse  Arthur,  com  a  voz  s�bita  e  extraordinariamente  forte  e  belicosa. Sacudiu os punhos novamente, dessa vez com firmeza.</p><p>
&#x2015; Vamos resolver isso l� fora? &#x2015; rosnou para Thor.</p><p>
&#x2015; Tudo bem! &#x2015; tonitruou Thor, como um touro enfurecia (ou, na verdade, como um Deus do Trov�o enfurecido, o que bem mais impressionante), e saiu.</p><p>
&#x2015; �timo &#x2015; disse Arthur &#x2015;, ficamos livres dele. Slarty, nos tire daqui.</p><p>
 Cap�tulo 23</p><p>
Est� bem &#x2015; Ford gritou com Arthur &#x2015;, eu sou mesmo um covarde, mas a quest�o �  que  ainda  estou  vivo.  &#x2015;  Estavam  de  novo  a  bordo  da  Espa�onave  Bistrom�tica,  assim como Slartibartfast e Trillian. A harmonia e a conc�rdia, contudo, n�o estavam por l�.</p><p>
&#x2015;  Bom,  eu  tamb�m  estou  vivo,  n�o  estou?  &#x2015;  retaliou  Arthur,  a  adrenalina correndo solta por conta da aventura e da raiva. Suas sobrancelhas subiam e desciam como se quisessem bater uma na outra.</p><p>
&#x2015; Mas por pouco n�o morreu! &#x2015; explodiu Ford.</p><p>
Arthur virou-se bruscamente para Slartibartfast, que estava em seu assento de piloto na  cabine  de  comando.  O  velho  olhava  pensativamente  para  o  fundo  de  uma  garrafa  que estava  lhe  dizendo  algo  que  ele  claramente  n�o  conseguia  compreender,  apelou  para Slartibartfast.</p><p>
&#x2015;  Voc�  acha  que  esse  cara  entendeu  uma  palavra  sequer  do  acabei  de  dizer?  &#x2015;</p><p>
falou, tr�mulo de emo��o.</p><p>
&#x2015; N�o sei &#x2015; respondeu Slartibartfast, vagamente.</p><p>
75</p><p>
&#x2015; N�o estou bem certo &#x2015; acrescentou, olhando para cima por um instante &#x2015; se eu mesmo entendi.</p><p>
Olhou para seus instrumentos com renovado vigor e total desconcerto.</p><p>
&#x2015; Voc� ter� que nos explicar tudo de novo &#x2015; disse ent�o.</p><p>
&#x2015; Bem...</p><p>
&#x2015; Mas n�o agora. Coisas terr�veis nos aguardam.</p><p>
Deu uns tapinhas no pseudovidro do fundo da garrafa.</p><p>
&#x2015;  Devo  dizer  que  nosso  desempenho  na  festa  foi  pat�tico  Nossa  �nica  chance agora � tentar impedir que os rob�s coloquem a Chave na Fechadura. Como iremos fazer isso, n�o tenho id�ia &#x2015; murmurou. &#x2015; Creio que temos de ir at�</p><p>
l�. N�o que eu goste da id�ia. Provavelmente vamos todos morrer.</p><p>
&#x2015;  Onde  est�  Trillian,  afinal?  &#x2015;  disse  Arthur,  aparentando  uma  repentina indiferen�a.  Estava  louco  de  raiva  porque  Ford  havia  lhe  dado  uma  bronca  por  ele  ter perdido  tempo  naquela  discuss�o  com  o  Deus  do  Trov�o,  quando  poderiam  ter  escapado muito mais r�pido. A opini�o pessoal de Arthur, que ele tinha exposto caso algu�m achasse que ela pudesse contar minimamente, era de que havia sido extraordinariamente corajoso e imaginativo.</p><p>
A  vis�o  dominante  parecia  ser  a  de  que  sua  opini�o  n�o  valia  sequer  uma  lasca podre de p�o. O que realmente do�a, contudo, era que Trillian n�o parecia se importar muito com a coisa toda e havia sa�do da cabine.</p><p>
&#x2015; E onde est�o minhas batatas fritas? &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; Ambas est�o &#x2015; respondeu Slartibartfast, sem olhar para cima &#x2015; na Sala de Ilus�es Informacionais. Acho que sua jovem amiga est� tentando entender algumas quest�es da Hist�ria Gal�ctica. E creio que as batatas est�o lhe fazendo bem.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 24</p><p>
E  um  erro  acreditar  que  �  poss�vel  resolver  qualquer  problema  importante usando apenas batatas.</p><p>
Por  exemplo,  houve  uma  vez  uma  ra�a  imensamente  agressiva  chamada  de Sil�sticos Armadem�nios de Striterax. Esse era apenas o nome dessa ra�a. O nome de seu ex�rcito era muito pior. Felizmente eles viveram ainda mais para tr�s na Hist�ria Gal�ctica do  que  qualquer  outra  coisa  conhecida  &#x2015;  cerca  de  20  bilh�es  de  anos  atr�s,  quando  a Gal�xia era jovem e inocente e qualquer id�ia pela qual valesse a pena lutar era uma id�ia nova.   E lutar era aquilo que os Sil�sticos Armadem�nios de Striterax faziam melhor e, sendo  bons  nisso,  dedicavam-se  bastante  �  coisa.  Lutavam  contra  seus  inimigos  (ou  seja, todos os outros) e lutavam entre si. Seu planeta era uma enorme ru�na. A superf�cie estava coberta  por  cidades  abandonadas  que  estavam  cercadas  por  m�quinas  de  guerra abandonadas  que,  por  sua  vez,  estavam  cercadas  por  bunkers  profundos  nos  quais  os Sil�sticos Armadem�nios viviam e brigavam uns com os outros.</p><p>
A melhor maneira de come�ar uma briga com um Su�stico o era apenas ter nascido. Eles  n�o  gostavam  disso,  ficavam  ressentidos.  E  quando  um  Armadem�nio  ficava ressentido, algu�m ficava machucado. Pode parecer uma forma exaustiva de viver, mas eles pareciam ter energia de sobra.</p><p>
A melhor maneira de lidar com um Sil�stico Armadem�nj era tranc�-lo sozinho em um quarto porque, mais cedo ou mais tarde, ele iria come�ar a se estapear.</p><p>
76</p><p>
Eventualmente perceberam que teriam que resolver isso ent�o baixaram um decreto de  que  qualquer  um  que  tivesse  que  usar  armas  como  parte  de seu trabalho  normal  como Sil�stico (policiais, seguran�as, professores prim�rios, etc.) teria que passar pelo menos 45</p><p>
minutos por dia esmurrando um saco de batatas para gastar seu excesso de agressividade. Durante algum tempo isso funcionou bem, at� que algu�m pensou que seria muito mais  eficiente  e  levariam  menos  tempo  se  apenas  atirassem  nas  batatas  em  vez  de  bater nelas.</p><p>
Isso  trouxe  um  entusiasmo  renovado  pela  pr�tica  de  atirar  em  diversas  coisas  e todos ficaram muito animados perante a perspectiva da primeira grande guerra em algumas semanas.</p><p>
Outra  grande  realiza��o  dos  Sil�sticos  Armadem�nios  de  Striterax  foi  o  fato  de terem sido a primeira ra�a a conseguir chocar um computador.</p><p>
Tratava-se  de  um  gigantesco  computador  espacial  chamado  Hactar,  at�  hoje lembrado como um dos mais poderosos jamais constru�dos. Foi o primeiro a ser constru�do como  um  c�rebro  org�nico,  no  sentido  de  que  cada  uma  de  suas  part�culas  celulares carregava  consigo  o  padr�o  do  todo,  o  que  permitia  que  pensasse  de  forma  mais flex�vel, mais imaginativa e, aparentemente, tamb�m permitia que ficasse chocado. Os  Sil�sticos  Armadem�nios  de  Striterax  estavam  envolvidos  em  outra  de  suas guerras  rotineiras  com  os  �rduos  Gargalutadores  de  Stug, mas  n�o  estavam se divertindo tanto quanto de h�bito porque esta guerra envolvia muitas caminhadas atrav�s dos P�ntanos Radioativos de Cwulzenda e tamb�m atrav�s das Montanhas de Fogo de Frazfaga, terrenos no quais eles n�o se sentiam confort�veis.</p><p>
Ent�o,  quando  os  Estiletanos  Estrangulantes  de  Jajazikstak  se  juntaram  �  batalha, for�ando-os a lutarem em outro front, nas Cavernas Gama de Carfrax e nas Tempestades de Gelo de Varlengooten, decidiram que aquilo havia passado dos limites e ordenaram a Hactar que projetasse para eles uma Arma Definitiva.</p><p>
&#x2015; O que voc�s querem dizer &#x2015; perguntou Hactar &#x2015; com Definitiva?</p><p>
Ao que os Sil�sticos Armadem�nios de Striterax responderam:</p><p>
&#x2015; V� procurar num maldito dicion�rio! &#x2015; e depois retornaram � batalha. Ent�o Hactar projetou uma Arma Definitiva.</p><p>
Era uma bomba muito, muito pequena que era apenas uma matriz de conex�es no hiperespa�o que, quando ativada, iria conectar o centro de cada um dos grandes s�is com o centro  de  todos  os  outros  grandes  s�is  simultaneamente,  transformando,  assim,  todo  o Universo em uma gigantesca supernova hiperespacial.</p><p>
Quando os Sil�sticos Armadem�nios de Striterax tentaram us�-la para detonar um dep�sito de muni��es dos Estiletanos Estrangulantes em uma das Cavernas Gama, ficaram profundamente  irritados  porque  a  coisa  n�o  funcionou  e  expressaram  sua  opini�o  para Hactar.  Hactar ficou chocado com a id�ia.</p><p>
Tentou  explicar-lhes  que  tinha  pensado  muito  sobre  essa  coisa  toda  de  Arma Definitiva e que conclu�ra que nenhuma conseq��ncia poss�vel decorrente da n�o-explos�o da bomba Poderia  ser pior do  que  a conseq��ncia bem conhecida de sua explos�o. Sendo assim, ele tinha tomado a liberdade de introduzir uma pequena falha no projeto da bomba e esperava  que  todos  os  envolvidos,  ao  pensarem  mais  claramente  sobre  o  assunto, entendessem que...</p><p>
Os Sil�sticos Armadem�nios n�o concordaram e pulverizaram o computador. Mais tarde eles pensaram um pouco mais no assunto destru�ram a bomba defeituosa tamb�m.</p><p>
Ent�o, parando apenas para dar um couro nos �rduos Gargalutadores de Stug e nos Estiletanos Estrangulantes de Jajazikstak, continuaram pensando e encontraram uma forma</p><p>
77</p><p>
totalmente nova de explodirem a si mesmos, o que foi um grande al�vio para todos os outros povos da Gal�xia, em especial os Gargalutadores, os Estiletanos e, claro, as batatas. Trillian havia assistido a tudo isso, assim como � hist�ria de Krikkit. Saiu pensativa da  Sala  de  Ilus�es  Informacionais,  bem  a  tempo  de  descobrir  que  haviam  chegado  tarde demais.</p><p>
 Cap�tulo 25</p><p>
Assim que a Espa�onave Bistrom�tica tremeluziu de volta � exist�ncia objetiva no topo  de  um  pequeno  penhasco  no  aster�ide  de  dois  quil�metros  de  largura  que  descrevia uma  eterna  e  solit�ria  �rbita  em  torno  do  sistema  estelar  trancafiado  de  Krikkit,  sua tripula��o soube que tinha chegado a tempo apenas de testemunhar um evento hist�rico que n�o poderiam impedir.</p><p>
N�o sabiam que iriam assistir a dois eventos.</p><p>
Ficaram l�, g�lidos, solit�rios e sem a��o na borda do penhasco, olhando a atividade abaixo.  Feixes  de  luz  descreviam  arcos  sinistros  contra  o  vazio,  vindos  de  um  ponto  que estava apenas cerca de 100 metros abaixo e � frente deles.</p><p>
Olharam para o evento ofuscante.</p><p>
Uma  extens�o  do  campo  da  nave  permitia  que  ficassem  ali,  de  p�,  mais  uma  vez explorando a predisposi��o da mente de aceitar que a enganassem: os problemas da baixa gravidade  gerada  pela  pequena  massa  do  aster�ide  ou  o  fato  de  n�o  serem  capazes  de respirar passavam a ser de Outra Pessoa.</p><p>
A  nave  de  guerra  de  Krikkit  estava  parada  entre  os  rochedos  acinzentados  do aster�ide, alternadamente brilhando sob potentes holofotes ou desaparecendo nas sombras. A escurid�o das sombras cortantes projetadas pelas rochas nuas dan�ava com a nave numa coreografia ex�tica enquanto os holofotes giravam em torno delas. Onze  rob�s  brancos  estavam  levando,  em  prociss�o,  a  Chave  de  Wikkit  para  o centro de um c�rculo de luzes oscilantes.</p><p>
A  Chave  de  Wikkit  fora  reconstru�da.  Seus  componentes  brilhavam  e  reluziam:  o Pilar de A�o (ou perna de Marvin) da Forca e Poder; o Pilar Dourado (ou Cora��o do Motor de  Improbabilidade)  da  Prosperidade;  o  Pilar  de  Acr�lico  (ou  Cetro  da  Justi�a  de Argabuthon]  da  Ci�ncia  e  da  Raz�o;  a  Trave  de  Prata  (ou  Trof�u  Rory  pelo  Uso  Mais Desnecess�rio  da  Palavra  "Foda-se"  em  um  Roteiro  S�rio)  e  a  Trave  de  Madeira,  agora reconstru�da (ou Cinzas de uma trave queimada significando a morte do cr�quete ingl�s), da Natureza e Espiritualidade.</p><p>
&#x2015;  Suponho  que  n�o  haja  nada  que  possamos  fazer  agora?  &#x2015;  perguntou  Arthur, nervosamente.</p><p>
&#x2015; N�o &#x2015; lamentou Slartibartfast.</p><p>
A  express�o  de  desapontamento  que  cruzou  o  rosto  de  Arthur  foi  um  completo fracasso  e,  como  estava  obscurecido  pela  sombra,  deixou  que  se  transformasse  em  uma express�o de al�vio.</p><p>
&#x2015; Pena &#x2015; disse ele.</p><p>
&#x2015; N�o temos armas &#x2015; disse Slartibartfast. &#x2015; Uma estupidez.</p><p>
&#x2015; Droga &#x2015; disse Arthur baixinho. Ford n�o disse nada.</p><p>
Trillian  tamb�m  n�o  disse nada, mas o fez de uma forma distinta e pensativa. Ela estava olhando para a escurid�o do espa�o para al�m do aster�ide. O  aster�ide  orbitava  a  Nuvem  de  Poeira  que  cercava  o  envolt�rio  de  Tempolento</p><p>
78</p><p>
que mantinha trancado o mundo no qual viviam o povo de Krikkit, os Mestres de Krikkit e seus rob�s assassinos.</p><p>
O grupo, desolado, n�o tinha como saber se os rob�s de Krikkit sabiam ou n�o que eles estavam l�. Podiam presumir que sim, mas que os rob�s provavelmente acreditavam &#x2015;</p><p>
corretamente, dadas as circunst�ncias &#x2015; que nada tinham a temer. Tinham  uma  tarefa  hist�rica  a  cumprir  e  sua  audi�ncia  podia  ser  tratada  com indiferen�a.</p><p>
&#x2015;  Terr�vel  essa  sensa��o  de  impot�ncia,  n�o?  &#x2015;  disse  Arthur,  mas  os  outros  o ignoraram.</p><p>
No  centro  da  �rea  iluminada  da  qual  os  rob�s  se  aproximavam,  uma  fenda  de formato quadrado surgiu no ch�o. A fenda podia ser vista de forma cada vez mais distinta, e logo ficou claro que um bloco de solo, tendo pouco mais que meio metro quadrado, estava lentamente se erguendo.</p><p>
Ao mesmo tempo perceberam um outro movimento, quase subliminar, e, por alguns instantes, n�o estava exatamente claro o que estava se movendo. Em seguida ficou claro.</p><p>
Era  o  aster�ide.  Movia-se  lentamente  para  dentro  da  Nuvem  de  Poeira,  como  se fosse inexoravelmente puxado por algum pescador celestial l� dentro das suas profundezas. Iriam fazer, na vida real, a jornada atrav�s da Nuvem que j� haviam feito na Sala de Ilus�es Informacionais. Permaneceram envolvidos por um sil�ncio g�lido. Trillian franziu a testa.</p><p>
Parecia  que  toda  uma  era  se  passara.  Eventos  pareciam  transcorrer  com  uma lentid�o  estonteante,  enquanto  a  extremidade  do  aster�ide  penetrava  no  vago  e  suave per�metro externo da Nuvem.</p><p>
E  logo  foram  envolvidos  por  uma  obscuridade  fina  e  oscilante.  Passaram  por  ela, gradualmente,  vagamente  conscientes  de  formas  e  espirais  imposs�veis  de  distinguir  na escurid�o, exceto com o canto dos olhos.</p><p>
A Nuvem de Poeira enfraquecia os focos de luz brilhante, que piscavam por entre a mir�ade de part�culas de poeira.</p><p>
Trillian,  mais  uma  vez,  observou  essa  passagem  de  dentro  de  seus  pr�prios pensamentos franzidos.</p><p>
Ent�o a travessia terminou. N�o havia como saber se tinham levado um minuto ou meia hora, mas atravessaram a Nuvem e se depararam com uma escurid�o virgem, como o espa�o tivesse sido puxado para fora da exist�ncia bem na frente deles. Agora as coisas come�aram a se mover com rapidez.</p><p>
Um ofuscante po�o de luz parecia quase explodir, vindo do bloco, que havia subido cerca de um metro do ch�o, e dele sa�a um bloco menor de acr�lico, formando um fascinante bale de cores em seu interior.</p><p>
O  bloco  possu�a  ranhuras  profundas,  tr�s  na  vertical  e  duas  na  transversal, claramente projetadas para aceitar a Chave de Wikkit.</p><p>
Os  rob�s  se  aproximaram  da  Fechadura,  introduziram  a  Chave  e  se  afastaram novamente. O bloco come�ou a girar e o espa�o come�ou a se alterar. Enquanto o espa�o se desdobrava, dava a agonizante sensa��o de retorcer os olhos dos  observadores  em  suas  �rbitas.  Encontraram-se  olhando,  cegos,  para  um  sol desemaranhado  que  agora  estava  diante  deles,  l�  onde,  segundos  antes,  parecia  n�o  haver nem  mesmo  espa�o  vazio.  Passaram-se  um  ou  dois  segundos  antes  que  pelo  menos tomassem  consci�ncia  do  que  acontecera  e  pudessem  cobrir  com  as  m�os  seus  olhos horrivelmente  ofuscados.  Naqueles  poucos  segundos  perceberam  um  min�sculo  ponto movendo-se lentamente pelo centro daquele sol.</p><p>
Cambalearam para tr�s e ouviram, ressoando em seus ouvidos, o inesperado canto</p><p>
79</p><p>
dos rob�s gritando em un�ssono com suas vozes finas.</p><p>
&#x2015; Krikkit! Krikkit! Krikkit! Krikkit!</p><p>
O som era de arrepiar. Era duro, era frio, era vazio, era mecanicamente sombrio. Era tamb�m triunfante.</p><p>
Ficaram  t�o  atordoados  por  esses  dois  choques  sensoriais  que  quase  perderam  o segundo evento hist�rico.</p><p>
Zaphod  Beeblebrox,  o  �nico  homem  em  toda  a  hist�ria  a  ter  sobrevivido  a  um ataque direto dos rob�s de Krikkit, saiu correndo da nave de Krikkit brandindo uma arma Zapogun.</p><p>
&#x2015; Tudo bem &#x2015; gritou &#x2015;, a situa��o est� totalmente sob controle a partir de agora. O rob� que estava de guarda pr�ximo � escotilha da nave silenciosamente girou seu bast�o de batalha e conectou-o � parte de tr�s da cabe�a esquerda de Zaphod.</p><p>
&#x2015;  Mas  quem  foi  o  zark  que  fez  isso?  &#x2015;  disse  a  cabe�a  esquerda,  caindo  em seguida para a frente.</p><p>
Sua cabe�a direita olhou em volta.</p><p>
&#x2015; Quem fez o qu�? &#x2015; perguntou.</p><p>
O bast�o conectou-se com a parte de tr�s da cabe�a direita.</p><p>
Zaphod estatelou-se no ch�o.</p><p>
Em  poucos  segundos,  tudo  estava  terminado.  Alguns  disparos  dos  rob�s  fora suficientes para destruir a Fechadura para sempre. Ela se quebrou e derreteu e espalhou seu conte�do despeda�ado. Os rob�s marcharam de forma impiedosa e, de uma forma peculiar, ligeiramente desalentados de volta � nave de guerra, que partiu com um "fuop". Trillian e Ford correram alucinadamente pela rocha inclinada at� o corpo escuro e im�vel de Zaphod Beeblebrox.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 26</p><p>
N�o sei &#x2015; disse Zaphod, pensando que devia ser a trig�sima s�tima vez que dizia aquilo &#x2015;, eles podiam ter me matado, mas n�o mataram. Talvez tenham pensado que eu era um cara incr�vel ou algo assim. � algo que posso entender.</p><p>
Os outros registraram mentalmente suas opini�es sobre essa teoria. Zaphod  estava  deitado  no  ch�o  frio  da  cabine  de  comando.  Suas  costas  pareciam estar brigando com o ch�o, porque sentia uma dor percorrendo seu corpo e batendo em suas cabe�as.</p><p>
&#x2015; Acho &#x2015; murmurou &#x2015; que tem algo de errado com esses carinhas anodizados, algo fundamentalmente estranho.</p><p>
&#x2015; Eles foram programados para matar todo mundo &#x2015; afirmou Slartibartfast.</p><p>
&#x2015; Este &#x2015; disse Zaphod, arquejante &#x2015; pode mesmo ser o problema. Ainda assim, n�o parecia totalmente convencido.</p><p>
&#x2015; Al�, querida &#x2015; disse para Trillian, esperando que isso servisse como desculpa para seu comportamento anterior.</p><p>
&#x2015; Voc� est� bem? &#x2015; disse ela, gentilmente.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; respondeu &#x2015;, tudo bem.</p><p>
&#x2015;  �timo  &#x2015;  disse  ela  e  se  afastou  para  pensar.  Olhou  para  a  enorme  tela  de visualiza��o acima dos assentos de v�o e, girando um bot�o, mudou as imagens locais que estavam sendo exibidas. Uma imagem era da escurid�o da Nuvem de Poeira. Outra era do sol  de  Krikkit.  Uma  terceira  era  de  Krikkit  em  si.  Ficava  passando  de  uma  para  a  outra</p><p>
80</p><p>
rapidamente.</p><p>
&#x2015;  Bem,  melhor  dizermos  adeus  �  Gal�xia,  ent�o  &#x2015;  disse  Arthur,  batendo  nos joelhos e levantando-se.</p><p>
&#x2015; N�o &#x2015; disse Slartibartfast gravemente. &#x2015; Nosso rumo est� claro. &#x2015; Franziu a testa  a  tal  ponto  que  seria  poss�vel  cultivar  alguns  vegetais  pequenos  em  seus  sulcos. Levantou-se,  andou  de  um  lado  para  o  outro.  Quando  falou  outra  vez,  aquilo  que  disse  o deixou t�o assustado que teve que se sentar de novo.</p><p>
&#x2015;  Devemos  descer  em  Krikkit  &#x2015;  disse.  Um  suspiro  profundo  sacudiu  seu  velho esqueleto e seus olhos pareceram tremer nas �rbitas.</p><p>
&#x2015; Mais uma vez &#x2015; prosseguiu &#x2015; falhamos pateticamente. Muito pateticamente.</p><p>
&#x2015; Isso &#x2015; disse Ford, calmamente &#x2015; � porque n�o nos importamos o bastante. Eu j� lhe disse.</p><p>
Colocou seus p�s sobre o painel de instrumentos e ficou futucando algo em uma de suas unhas.</p><p>
&#x2015;  No entanto, se  n�o  agirmos  &#x2015;  disse o velho em tom de birra, como se lutasse com  alguma  coisa  profundamente  displicente  em  sua  pr�pria  natureza  &#x2015;,  ent�o  seremos todos destru�dos, iremos todos morrer. Acho que nos importamos com isso, n�o?</p><p>
&#x2015; N�o o suficiente para morrermos por isso &#x2015; disse Ford. Abriu um sorriso vazio e lan�ou-o de um lado para o outro da sala, para quem quisesse v�-lo. Slartibartfast claramente achou esse ponto de vista muito sedutor e lutou contra ele. Virou-se de novo para Zaphod, que estava rangendo os dentes e suando de dor.</p><p>
&#x2015; Voc� certamente tem alguma id�ia &#x2015; disse &#x2015; sobre a raz�o de terem salvado a sua vida. Parece muito estranho e incomum.</p><p>
&#x2015; Acho que nem mesmo eles sabem &#x2015; disse Zaphod, indiferente. &#x2015; J� lhe disse. Me  acertaram  com  o  disparo  mais  fraco  apenas  para  me  deixar  desacordado.  Da�  me arrastaram  at�  a  nave  deles,  me  jogaram  em  um  canto  e  me  ignoraram  completamente. Como  se  estivessem  meio  envergonhados  por  eu  estar  ali. Se  dissesse  qualquer  coisa,  me tiravam do ar de novo Tivemos �timas conversas. "Ei... ai! E a�... ui! Queria saber... argh!" Isso me manteve distra�do durante v�rias horas, sabe &#x2015; Fez outra careta de dor. Estava brincando com um objeto entre seus dedos. Segurou-o. Era a Trave Dourada</p><p>
&#x2015; o Cora��o de Ouro, o centro do Motor de Improbabilidade Infinita. Apenas aquilo e o Pilar de Madeira haviam permanecido intactos ap�s a destrui��o da Fechadura.</p><p>
&#x2015;  Me  disseram  que  sua  nave  anda  bem  &#x2015;  disse  Zaphod.  &#x2015;  Ent�o  que  tal  me deixar na minha antes que voc� ...</p><p>
&#x2015; Voc� n�o vai nos ajudar? &#x2015; disse Slartibartfast.</p><p>
&#x2015; N�s? &#x2015; perguntou Ford, subitamente. &#x2015; N�s quem, cara-p�lida?</p><p>
&#x2015;  Eu  adoraria ficar e ajud�-lo a salvar a Gal�xia &#x2015; insistiu Zaphod, apoiando-se nos cotovelos &#x2015;, mas tenho a maior dor de cabe�a de todos os tempos e pressinto que h�</p><p>
v�rias outras vindo por a�. Mas, da pr�xima vez que for preciso salv�-la, � comigo mesmo. E a�, Trillian?</p><p>
Ela olhou para tr�s rapidamente. &#x2015; Sim?</p><p>
&#x2015; Quer vir? Cora��o de Ouro? Divers�o e aventura e coisas ex�ticas?</p><p>
&#x2015; Vou descer em Krikkit &#x2015; respondeu ela.</p><empty-line/><p>
81</p><p>
Cap�tulo 27</p><p>
 Era o mesmo monte, mas ao mesmo tempo n�o.</p><p>
Desta vez n�o era uma Ilus�o Informacional. Era realmente Krikkit e estavam de p�</p><p>
na superf�cie do planeta. Perto deles, atr�s das �rvores, estava o estranho restaurante italiano que  havia  trazido  seus  corpos  verdadeiros  para  onde  estavam,  o  verdadeiro  mundo  de Krikkit no presente.</p><p>
A grama espessa sob seus p�s era real e o solo perfumado tamb�m. As fragr�ncias doces da �rvore tamb�m eram reais. A noite era uma noite real. Krikkit.</p><p>
Possivelmente o lugar mais perigoso da Gal�xia para qualquer um que n�o fosse um krikkitiano.  O  lugar  que  n�o  podia  tolerar  a  exist�ncia  de  qualquer  outro  lugar,  cujos habitantes encantadores, simp�ticos e inteligentes gritariam com um �dio selvagem, feroz e assassino quando confrontados com qualquer um que n�o fosse um deles. Arthur estremeceu.</p><p>
Slartibartfast estremeceu.</p><p>
Ford, surpreendentemente, estremeceu.</p><p>
N�o  era  surpreendente  que  ele  houvesse  estremecido;  o  surpreendente  �  que estivesse  ali.  Quando  levaram  Zaphod  de  volta  �  sua  nave,  Ford  sentiu-se surpreendentemente envergonhado e decidiu n�o fugir.</p><p>
Errado, pensou consigo mesmo, errado, errado, errado. Abra�ou contra si uma das Zapoguns com que haviam armado no dep�sito de armas de Zaphod. Trillian estremeceu e franziu a testa quando olhou para o c�u. Tamb�m j� n�o era o mesmo. J� n�o estava mais completamente negro e vazio. O  campo  em  torno  deles  havia  mudado  pouco  nos  2.000  anos  das  Guerras  de Krikkit  e,  depois, durante os m�seros cinco anos que haviam se passado localmente desde que  Krikkit  havia  sido  selado  no  envolt�rio  de  Tempolento,  dez  bilh�es  de anos  antes.  O</p><p>
c�u, contudo, estava dramaticamente diferente.</p><p>
Luzes fracas e formas pesadas pairavam nele.</p><p>
L�  no  alto,  l�  para  onde  nenhum  krikkitiano  jamais  olhava,  ficavam  as  Zonas  de Guerra,  as  Zonas  dos  Rob�s.  Enormes  naves  de guerra e  torres  flutuavam nos  campos  de Zero-Grav muito acima das id�licas terras pastorais da superf�cie de Krikkit. Trillian olhou para aquilo tudo e pensou.</p><p>
&#x2015; Trillian &#x2015; sussurrou Ford.</p><p>
&#x2015; Sim? &#x2015; respondeu ela.</p><p>
&#x2015; O que voc� est� fazendo?</p><p>
&#x2015; Pensando.</p><p>
&#x2015; Voc� sempre respira assim quando pensa?</p><p>
&#x2015; N�o tinha percebido que estava respirando.</p><p>
&#x2015; Foi o que me deixou preocupado.</p><p>
&#x2015; Eu acho que sei... &#x2015; disse Trillian.</p><p>
&#x2015; Shhh! &#x2015; disse Slartibartfast alarmado, e sua m�o magra e tr�mula fez sinal para que se escondessem ainda mais sob a sombra da �rvore.</p><p>
Como  antes  na  fita,  subitamente  surgiram  luzes  vindas  da  trilha  na  colina,  mas, desta vez, as lanternas que balan�avam eram lanternas el�tricas e n�o tochas. N�o chegava a ser  mudan�a  dram�tica  por  si  s�,  mas  cada  novo  detalhe  fazia  com  que  seus  cora��es batessem assustados. Agora n�o havia m�sicas alegres sobre flores e fazendas e cachorros mortos, mas vozes abafadas discutindo algo importante.</p><p>
Uma  luz  se  moveu  no  c�u,  lenta  e  pesadamente.  Arthur  foi tomado  por  um terror</p><p>
82</p><p>
claustrof�bico e o vento morno ficou atravessado em sua garganta. Logo  a  seguir  um  segundo  grupo  surgiu,  vindo  do  outro  lado  da  colina  escura. Moviam-se rapidamente, com uma inten��o clara, suas lanternas balan�ando e vasculhando o terreno ao seu redor.</p><p>
Os  grupos  estavam  claramente  convergindo  n�o  apenas  um  em  rela��o  ao  outro, mas deliberadamente se dirigindo para o lugar onde Arthur e os outros estavam. Arthur  ouviu  um  leve  ru�do  quando  Ford  Prefect  levantou  sua  Zapogun  e  uma tossida  incomodada  quando  Slartibartfast  levantou  a  sua.  Sentiu  o peso  estranho  e  frio  de sua pr�pria arma e, com as m�os tr�mulas, levantou-a tamb�m.</p><p>
Seus dedos tatearam para encontrar a trava de seguran�a e ativar a trava de perigo extremo,  como  Ford  havia  mostrado.  Estava  tremendo  tanto  que,  se  atirasse  em  algu�m naquele momento, provavelmente iria assinar seu nome com os raios da arma. Trillian  foi  a  �nica  que  n�o  levantou  sua  arma.  Em  vez  disso,  levantou  as sobrancelhas, abaixou-as novamente e mordeu os l�bios, pensativa.</p><p>
&#x2015;  Voc�s  j�  pensaram...  &#x2015;  come�ou  a  dizer,  mas  ningu�m  queria  discutir  nada naquele momento.</p><p>
Uma  luz  cortou  a  escurid�o  por  tr�s  deles  e,  ao  se  voltarem,  viram  um  terceiro grupo de habitantes de Krikkit vindo por tr�s deles, procurando-os com suas luzes. A  arma  de  Ford  Prefect  disparou  ferozmente,  mas  os  raios  voltaram-se  contra  a pr�pria arma, que caiu de suas m�os.</p><p>
Houve um momento de profundo terror, um segundo no qual, congelados, ningu�m atirou.</p><p>
E no final desse segundo ningu�m mais atirou.</p><p>
Estavam  cercados  por  krikkitianos  de  fei��es  p�lidas  e  iluminados  pelas  luzes oscilantes.</p><p>
Os  prisioneiros  olhavam  para  seus  captores,  os  captores  olhavam  para  seus prisioneiros.</p><p>
&#x2015; Oi? &#x2015; disse um dos captores. &#x2015; Desculpe, mas voc�s s�o... alien�genas?</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 28</p><p>
Enquanto  isso,  muitos  milh�es  de  quil�metros  al�m  do  que  a  mente  pode confortavelmente compreender, Zaphod Beeblebrox estava novamente malhumorado. Havia consertado sua nave, ou melhor, havia observado com total aten��o enquanto um rob� de manuten��o consertava sua nave. Ela havia voltado a ser, novamente, uma das mais  poderosas  e  extraordin�rias  naves  existentes.  Ele  podia  ir  a  qualquer  lugar,  fazer qualquer coisa. Folheou um livro, depois jogou-o num canto. J� tinha lido aquele. Foi  at�  o  painel  de  comunica��es  e  abriu  todas  as  freq��ncias  de  um  canal  de emerg�ncia.</p><p>
&#x2015; Algu�m quer tomar um drinque? &#x2015; disse.</p><p>
&#x2015; Isso � uma emerg�ncia, cara? &#x2015; rosnou uma voz do outro lado da Gal�xia.</p><p>
&#x2015; Tem algo para misturar? &#x2015; perguntou Zaphod.</p><p>
&#x2015; Vai pegar carona no rabo de um cometa.</p><p>
&#x2015; T� bom, t� bom &#x2015; disse Zaphod, fechando o canal. Suspirou e sentou-se. Levantou-se novamente e andou at� a tela do computador. Apertou alguns bot�es. Pequenos pontos come�aram a correr atrav�s da tela, devorando-se mutuamente.</p><p>
&#x2015; Pow! &#x2015; disse Zaphod. &#x2015; Freeooool Pop pop popl</p><p>
83</p><p>
&#x2015; Oi! &#x2015; disse o computador animadamente ap�s um ou dois minutos &#x2015; Voc� fez tr�s pontos. O melhor placar anterior foi de sete milh�es, quinhentos e noventa e sete mil, duzentos e...</p><p>
&#x2015; T� bom, t� bom &#x2015; disse Zaphod, desligando novamente a tela.</p><p>
Sentou-se  de  novo.  Brincou  com  um  l�pis.  Perdeu  seu  interesse  por  isso rapidamente.</p><p>
&#x2015; T� bom, t� bom &#x2015; disse Zaphod, e alimentou seu placar junto com o anterior, no computador.</p><p>
Sua nave partiu, transformando o Universo em um borr�o.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 29</p><p>
Olhem &#x2015; disse o krikkitiano magro e p�lido que tinha dado um passo � frente dos outros  e  estava  agora  parado,  hesitante,  no  centro  do  c�rculo  formado  pelas  lanternas, segurando  sua  arma  como  se  estivesse  apenas  segurando-a  para  uma  outra  pessoa  que tivesse acabado de dar uma saidinha r�pida e j� fosse voltar &#x2015;, voc�s sabem algo a respeito de uma coisa chamada Equil�brio da Natureza?</p><p>
Os  prisioneiros  n�o  responderam  ou  pelo  menos  n�o  responderam  nada  al�m  de alguns  resmungos  e  murm�rios  confusos.  As  lanternas  continuavam  balan�ando  em  torno deles. L� em cima, no c�u, uma atividade sinistra prosseguia nas Zonas dos Rob�s.</p><p>
&#x2015;  � s� &#x2015;  continuou o  krikkitiano  meio sem jeito &#x2015; uma coisa da qual ouvimos falar, talvez nem seja importante. Bem, suponho que seja melhor mat�-los, ent�o. Olhou para sua arma como se estivesse procurando o que apertar.</p><p>
&#x2015; Quero dizer &#x2015; continuou, olhando para eles novamente &#x2015;, a menos que voc�s queiram bater papo?</p><p>
Um assombro lento e dormente subiu pelos corpos de Slartibartfast, Ford e Arthur. Em pouco tempo atingiria seus c�rebros, que, no momento, estavam inteiramente ocupados com a atividade de mover seus maxilares para cima e para baixo. Trillian sacudia a cabe�a, como se tentasse concluir um quebra-cabe�a sacudindo a caixa.</p><p>
&#x2015;  Estamos  preocupados,  sabe  &#x2015;  disse  um  outro  homem  que  estava  em  um  dos grupos &#x2015;, com esse plano de destrui��o universal.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; disse um terceiro &#x2015;, e com o equil�brio natural. � que nos parece que, se todo  o  restante  do  Universo  for  destru�do,  de  alguma  forma  vai atrapalhar  o equil�brio  da natureza.  N�s  gostamos  muito  de  ecologia,  sabe?  &#x2015;  Sua  voz  morreu,  com  um  tom  de tristeza.</p><p>
&#x2015; E esportes &#x2015; disse um outro, alto. Isso fez com que os demais dessem vivas.</p><p>
&#x2015; Isso &#x2015; concordou o primeiro &#x2015; e esportes... &#x2015; Ele olhou para tr�s, para seus amigos, hesitante, e cocou o queixo, pensativo. Parecia estar se debatendo com uma grande confus�o  interior,  como  se  tudo  que  ele  quisesse  dizer  e  tudo  que  ele  pensasse  de  fato fossem coisas completamente diferentes, entre as quais n�o conseguia ver uma conex�o.</p><p>
&#x2015; Bem &#x2015; murmurou ele &#x2015;, alguns de n�s... &#x2015; olhou em volta, procurando sinais de apoio. Os outros o encorajaram a continuar. &#x2015; Alguns de n�s gostariam muito de manter rela��es desportivas com o restante da Gal�xia e, embora eu entenda o argumento a favor de manter  esporte  e  pol�tica  bem  separados,  acho  que,  se  queremos  ter  rela��es  desportivas com o restante da Gal�xia, provavelmente seria um erro destru�-la. E tamb�m o restante do Universo... &#x2015; sua voz baixou de volume &#x2015; ...o que parece ser a id�ia geral agora...</p><p>
&#x2015; O qqq &#x2015; disse Slartibartfast. &#x2015; Oooo...</p><p>
84</p><p>
&#x2015; Ahhhhh...? &#x2015; disse Arthur.</p><p>
&#x2015; Ehhhh... &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015;  O.k.  &#x2015;  disse  Trillian.  &#x2015;  Vamos  conversar  a  respeito.  &#x2015;  Ela  se  aproximou  e pegou  o  pobre  e  confuso  krikkitiano  pelo  bra�o.  Ele  parecia  ter  uns  25  anos,  o  que significava,  por  conta  das  confus�es  peculiares  com  o  tempo  que  haviam  acontecido naquela �rea, que ele teria cerca de 20 anos quando as Guerras de Krikkit terminaram, h�</p><p>
dez bilh�es de anos.</p><p>
Trillian andou com ele por um curto trecho, passando pelas lanternas, antes de dizer mais alguma coisa. Ele andava com ela, meio confuso. Os fachos de luz em volta estavam agora se inclinando ligeiramente para baixo, como se estivessem se rendendo �quela garota calma  e  estranha  que,  sozinha  em  um  Universo  de  obscura  confus�o,  parecia  saber  o  que estava fazendo.</p><p>
Ela  se  virou  e  olhou  para  ele,  segurando  levemente  suas  duas  m�os.  Ele  era  a pr�pria figura da mis�ria e perplexidade.</p><p>
&#x2015; Conte-me &#x2015; disse ela.</p><p>
A princ�pio ele nada disse, enquanto seu olhar passava de um para outro dos olhos dela.</p><p>
&#x2015; N�s... &#x2015; disse ele &#x2015; n�s temos que estar s�s... eu acho. &#x2015; Ele entortou a cara e depois  deixou  cair  sua  cabe�a  para  a  frente,  balan�ando-a  como  algu�m  que  estivesse tentando extrair uma moeda de um cofre. Ele olhou para ela novamente.</p><p>
&#x2015; Agora n�s temos uma bomba, sabe &#x2015; disse ele &#x2015;, que � bem pequena.</p><p>
&#x2015; Eu sei &#x2015; disse ela.</p><p>
Olhou para ela muito espantado, como se ela tivesse dito algo muito estranho sobre beterrabas.</p><p>
&#x2015; S�rio &#x2015; disse ele &#x2015;, ela � muito, muito pequena.</p><p>
&#x2015; Eu sei &#x2015; disse ela novamente.</p><p>
&#x2015;  Mas  eles  dizem...  &#x2015;  sua  voz  soava  arrastada  &#x2015;  dizem  que  ela  �  capaz  de destruir  tudo  o  que  existe.  E  n�s  temos  que  fazer  isso,  eu  acho.  Ser�  que  ficaremos solit�rios?  N�o  sei.  Mas  parece  ser  a  nossa  fun��o  &#x2015;  disse  ele,  e  abaixou  a  cabe�a novamente.</p><p>
&#x2015; Seja l� o que for &#x2015; disse algu�m em um dos grupos. Trillian lentamente colocou seus  bra�os  em  volta  do  pobre  e  confuso  jovem  krikkitiano,  depois  botou  sua  cabe�a tr�mula em seu ombro.</p><p>
&#x2015;  Est�  tudo  bem  &#x2015;  disse  ela,  docemente  mas  alto  o  bastante  para  todos  os  que estavam em volta ouvirem &#x2015;, voc�s n�o precisam fazer isso.</p><p>
Balan�ou-o levemente em seu ombro.</p><p>
&#x2015; N�o precisam fazer isso &#x2015; repetiu. Ela deixou que ele se fosse.</p><p>
&#x2015;  Quero  que  fa�am  uma  coisa  por  mim  &#x2015;  disse  ela,  soltando  uma  risada inesperada.  &#x2015;  Eu quero &#x2015; disse  e riu  novamente. Colocou  a  m�o sobre a boca e depois disse  de  novo,  com  uma  cara  s�ria:  &#x2015;  Quero  que  me  levem  a  seu  l�der  &#x2015;  e  apontou  na dire��o das Zonas de Guerra no c�u. De alguma forma ela sabia que o l�der deles estaria l�. Sua  risada  pareceu  descarregar  algo  na  atmosfera.  Em  algum  lugar,  l�  atr�s  na multid�o, uma �nica voz come�ou a cantar uma m�sica que, se tivesse sido composta por Paul McCartney, lhe teria permitido comprar o mundo inteiro.</p><empty-line/><p>
85</p><p>
Cap�tulo 30</p><p>
 Zaphod Beeblebrox engatinhava bravamente ao longo de um t�nel, em seu melhor estilo  her�ico.  Ele  estava  muito  confuso,  mas  continuava  engatinhando  obstinadamente, mesmo assim, simplesmente porque era her�ico.</p><p>
Estava muito confuso por algo que acabara de ver, mas nem de longe t�o confuso quanto iria ficar por algo que ele estava prestes a ouvir, ent�o � melhor explicar logo onde exatamente ele estava.</p><p>
Ele estava nas Zonas de Guerra dos Rob�s, muitos quil�metros acima da superf�cie do planeta Krikkit.</p><p>
L� a atmosfera era rarefeita e relativamente desprotegida de qualquer tipo de raio ou qualquer outra coisa que o espa�o resolvesse lan�ar em sua dire��o. Tinha  estacionado  a  nave  Cora��o  de  Ouro  entre  as  enormes  e  gigantescas  naves amontoadas que enchiam o c�u sobre o planeta Krikkit e depois entrara em algo que parecia ser a maior e mais importante das constru��es do c�u, armado apenas com sua Zapogun e algo para suas dores de cabe�a.</p><p>
Foi dar em um longo, largo e mal iluminado corredor no qual p�de se esconder at�</p><p>
decidir  o  que  fazer  em  seguida.  Escondeu-se  ali  porque,  de  quando  em  quando,  um  dos rob�s de Krikkit passava por ali e, apesar de ter levado, at� aquele momento, uma vida de sonho  entre  os  rob�s,  ainda  assim  havia  sido  uma  vida  muito  dolorosa  e  ele  n�o  tinha  a menor  vontade  de  levar  ao  extremo  algo  que  estava  apenas  semidisposto  a  chamar  de</p><p>
"grande sorte".</p><p>
Havia se escondido, em certo momento, em um quarto que levava at� o corredor e que ele havia descoberto ser uma enorme e novamente mal iluminada c�mara. Na  verdade  tratava-se  de  um  museu  com  uma  �nica  pe�a  em  exibi��o  &#x2015;  os destro�os  de  uma  espa�onave.  Estava  bastante  retorcida  e  queimada,  mas,  agora  que  ele havia aprendido um pouco da Hist�ria Gal�ctica que tinha deixado de aprender durante suas tentativas fracassadas de fazer sexo com a garota no cibercub�culo ao lado do seu na escola, formulou  a  suposi��o  bastante  inteligente  de  que  aqueles  eram  os  destro�os  da  nave  que havia atravessado a Nuvem de Poeira bilh�es de anos atr�s e iniciado toda a confus�o. Contudo  &#x2015;  e  �  a�  que  ele  tinha  ficado  confuso  &#x2015;  havia  algo  muito  estranho  a respeito daquilo.</p><p>
Ela  estava  verdadeiramente  destro�ada.  Estava  verdadeiramente  queimada,  mas uma  inspe��o  muito  r�pida  por  um  olho  treinado  revelava  que  n�o  era  uma  verdadeira espa�onave. E como se fosse apenas um modelo em escala natural de uma nave &#x2015; um bom modelo.  Em  outras  palavras,  algo  extremamente  �til  para  se  ter  por  perto  se  voc�</p><p>
subitamente  decidisse  construir  uma  espa�onave  por conta  pr�pria  mas n�o soubesse  bem como  faz�-lo.  N�o  era,  contudo,  uma  nave  que  pudesse  voar  sozinha  para  qualquer  lugar que fosse.</p><p>
Ele  ainda  estava  pensando  nisso  &#x2015;  na  verdade  havia  apenas  come�ado  a  pensar sobre isso &#x2015; quando percebeu que uma porta havia sido aberta em outra parte da c�mara e uma dupla de rob�s de Krikkit havia entrado, com um aspecto um pouco soturno. Zaphod  preferia  n�o  se  meter  com  eles  e,  tendo  decidido  que,  assim  como  a discri��o � a maior qualidade da valentia, da mesma forma a covardia era a maior qualidade da discri��o, resolveu esconder-se valentemente dentro de um arm�rio. O arm�rio era, na verdade, a parte superior de um po�o que ia diretamente at� uma portinhola de inspe��o e da� dava em um grande tubo de ventila��o. Seguiu  nessa  dire��o  e  come�ou  a  engatinhar  pelo  tubo.  Foi  neste  ponto  que  o encontramos originalmente.</p><p>
86</p><p>
Ele  n�o  estava  gostando  de  l�.  Era  frio,  escuro  e  profundamente  desconfort�vel. Al�m disso, lhe dava calafrios. Na primeira oportunidade &#x2015; que era uma outra portinhola uns 100 metros � frente &#x2015; ele iria sair dali.</p><p>
Agora  foi  parar  em  uma  c�mara  menor, que  parecia  ser  um  centro  de  intelig�ncia computacional.  Saiu  em  um  espa�o  apertado  e  escuro  entre  um  grande  banco  de computadores e a parede.</p><p>
Rapidamente  descobriu  que  n�o  estava  sozinho  na  sala  e  preparou-se  para  sair novamente, quando come�ou a prestar aten��o no que os outros ocupantes estavam dizendo.</p><p>
&#x2015; S�o os rob�s, senhor &#x2015; disse uma voz. &#x2015; H� algo de errado com eles.</p><p>
&#x2015; O que exatamente?</p><p>
Aquelas  eram  as  vozes  de  dois  Comandantes  de  Guerra  krikkitianos.  Todos  os Comandantes  de  Guerra  viviam  no  c�u,  nas  Zonas  de  Guerra  dos  Rob�s  e  estavam,  em grande parte, imunes �s d�vidas e incertezas peculiares que afligiam seus companheiros l�</p><p>
embaixo, na superf�cie do planeta.</p><p>
&#x2015;  Bem,  senhor,  acho  que  �  bom  que eles  estejam  sendo gradualmente removidos dos  esfor�os  de  guerra  e  que  j�  estejamos  prontos  para  detonar  a  bomba  de  supernova. Nesse curto tempo desde que fomos libertados do envolt�rio...</p><p>
&#x2015; V� direto ao assunto.</p><p>
&#x2015; Os rob�s est�o chateados, senhor.</p><p>
&#x2015; O qu�?</p><p>
&#x2015; A guerra, senhor, parece que ela os est� deixando meio pra baixo. Parecem estar cansados do mundo, ou talvez eu devesse dizer do Universo.</p><p>
&#x2015; Bem, � normal, afinal eles foram criados para nos ajudar a destru�-lo.</p><p>
&#x2015; Sei, mas � que eles est�o tendo dificuldades com essa parte, senhor. Parece que est�o  meio  cansados.  Est�o  sem  vontade  de  fazer  o  seu  trabalho.  Diria  que  perderam  o</p><p>
"tch�" da coisa.</p><p>
&#x2015; O que voc� est� tentando me dizer?</p><p>
&#x2015; Bem, eu acho que est�o deprimidos por algum motivo, senhor.</p><p>
&#x2015; Mas, por Krikkit, o que voc� est� dizendo?</p><p>
&#x2015; � que, nesses �ltimos encontros que tiveram recentemente, parece que entraram em uma batalha, levantaram suas armas para atirar e subitamente come�aram a pensar: mas por qu�? Qual a import�ncia, cosmicamente falando, disso tudo? E ent�o ficaram um pouco cansados e um pouco chateados.</p><p>
&#x2015; O que eles fazem, ent�o?</p><p>
&#x2015;  Eh...  Equa��es  quadr�ticas,  basicamente.  Absurdamente  dif�ceis  de  resolver, pelo que sei. E da� ficam deprimidos.</p><p>
&#x2015; Deprimidos?</p><p>
&#x2015; Sim, senhor.</p><p>
&#x2015; Quem j� viu um rob� deprimido?</p><p>
&#x2015; Tamb�m n�o entendo, senhor.</p><p>
&#x2015; Que barulho � esse?</p><p>
Era o barulho de Zaphod saindo com sua cabe�a girando.</p><p>
Cap�tulo 31</p><p>
 Num profundo po�o de escurid�o jazia um rob�. Ele tinha permanecido em sil�ncio em  sua  escurid�o  met�lica  durante  um  bom  tempo.  Estava  frio  e  �mido,  mas,  sendo  um</p><p>
87</p><p>
rob�, supostamente ele n�o deveria notar aquelas coisas.</p><p>
Contudo, gra�as a uma enorme for�a de vontade, ele conseguia not�-las. Seu c�rebro havia sido acessado pelo n�cleo central de intelig�ncia do Computador de  Guerra  de  Krikkit.  Ele  n�o  estava  achando  aquela  experi�ncia  divertida,  e  o  n�cleo central de intelig�ncia do Computador de Guerra de Krikkit tamb�m n�o. Os rob�s de Krikkit que haviam resgatado aquela pat�tica criatura dos p�ntanos de Squornshellous  Zeta  haviam  reconhecido  quase  instantaneamente  sua  gigantesca intelig�ncia, bem como o uso que poderiam fazer dela.</p><p>
N�o  tinham  contado  com  os  dist�rbios  de  personalidade  inerentes  que  o  frio,  a escurid�o, a umidade, a falta de espa�o e a solid�o n�o contribu�am em nada para reduzir. Ele n�o estava nada feliz com suas tarefas.</p><p>
Al�m  de  qualquer  outra  coisa,  a  mera  coordena��o  de  toda  a  estrat�gia  militar  de um planeta inteiro ocupava apenas uma Pequena parte de sua mente formid�vel e o restante dela  estava  se  aborrecendo  muito.  Tendo  resolvido  todos  os  principais  problemas matem�ticos,  f�sicos,  qu�micos,  biol�gicos,  sociol�gicos,  filos�ficos,  etimol�gicos, meteorol�gicos e psicol�gicos do Universo &#x2015; exceto o seu pr�prio &#x2015;, tr�s vezes seguidas, estava achando realmente dif�cil encontrar algo para fazer, ent�o tinha resolvido dedicar-se a compor  cantigas  curtas  e  melanc�licas  atonais, ou melhor,  sem melodia alguma. A �ltima delas era uma can��o de ninar. Marvin entoou, sem tom:</p><p>
"Agora o mundo foi dormir,</p><p>
A escurid�o em mim n�o vou sentir,</p><p>
Em infravermelho posso ver,</p><p>
Como odeio a noite."</p><p>
Fez uma pausa para reunir for�as art�sticas e emocionais a fim de compor o pr�ximo verso:</p><p>
"Eu me deito pra sonhar,</p><p>
Carneiros el�tricos vou contar,</p><p>
Doces sonhos v�o se danar,</p><p>
Como odeio a noite."</p><p>
&#x2015; Marvin! &#x2015; sibilou uma voz.</p><p>
Sua  cabe�a  levantou-se  subitamente,  quase  arrancando  a  intrincada  rede  de eletrodos que o conectavam � central do Computador de Guerra de Krikkit. Uma  portinhola  de  inspe��o  havia  sido  aberta  e  uma  das  duas  incontrol�veis cabe�as  estava  olhando  para  dentro,  enquanto  a  outra  se  sacudia  nervosamente  virando  o tempo todo de um lado para o outro.</p><p>
&#x2015; Ah, � voc� &#x2015; murmurou o rob�. &#x2015; Eu devia ter adivinhado.</p><p>
&#x2015; E a�, garoto? &#x2015; disse Zaphod, surpreso &#x2015; Era voc� quem estava cantando agora h� pouco?</p><p>
&#x2015;  Estou  &#x2015;  reconheceu  Marvin,  amargurado  &#x2015;  em  condi��es  particularmente cintilantes neste momento.</p><p>
Zaphod enfiou a cabe�a atrav�s da portinhola e olhou em volta.</p><p>
&#x2015; Voc� est� sozinho? &#x2015; perguntou.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; disse Marvin. &#x2015; Extenuado, me encontro aqui sentado, tendo a dor e a mis�ria  como  �nicas  companheiras.  Al�m  da  vasta  intelig�ncia,  �  claro.  E  da  tristeza infinita. E...</p><p>
&#x2015; Sei &#x2015; disse Zaphod. &#x2015; Ei, qual a sua conex�o com tudo isso?</p><p>
&#x2015; Isso aqui &#x2015; disse Marvin, indicando com seu bra�o menos danificado todos os eletrodos que o conectavam ao computador de Krikkit.</p><p>
&#x2015;  Ent�o  &#x2015;  disse  Zaphod  meio  sem  jeito  &#x2015;,  acho  que  voc�  salvou  minha  vida. Duas vezes.</p><p>
88</p><p>
&#x2015; Tr�s vezes &#x2015; respondeu Marvin.</p><p>
A cabe�a de Zaphod se voltou (a outra estava olhando atentamente em uma dire��o completamente errada) exatamente a tempo de ver o letal rob� assassino bem atr�s dele ter uma convuls�o e come�ar a soltar fuma�a. Ele cambaleou para tr�s e deixou-se cair contra uma  parede.  Escorregou  at�  o  ch�o.  Caiu  de  lado,  jogou  a  cabe�a  para  tr�s  e  come�ou  a solu�ar inconsolavelmente.</p><p>
Zaphod olhou novamente para Marvin.</p><p>
&#x2015; Voc� deve ter uma perspectiva incr�vel sobre a vida.</p><p>
&#x2015; Nem me pergunte &#x2015; respondeu Marvin.</p><p>
&#x2015; N�o vou perguntar &#x2015; disse Zaphod e n�o perguntou. &#x2015; Cara, voc� est� fazendo um trabalho incr�vel.</p><p>
&#x2015;  O  que  significa,  suponho  &#x2015;  disse  Marvin,  usando  apenas  uma  grilion�sima trilion�sima bilion�sima milion�sima cent�sima d�cima parte de seus poderes mentais para fazer essa infer�ncia l�gica em particular &#x2015;, que voc� n�o ir� me libertar nem nada.</p><p>
&#x2015; Garoto, voc� sabe que eu adoraria fazer isto.</p><p>
&#x2015; Mas n�o vai faz�-lo.</p><p>
&#x2015; N�o.</p><p>
&#x2015; Entendo.</p><p>
&#x2015; Voc� est� trabalhando muito bem.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; disse Marvin. &#x2015; Por que parar agora, justamente quando estou odiando isso?</p><p>
&#x2015;  Preciso  encontrar  Trillian  e  o  resto  do  pessoal.  Ei,  voc�  tem  alguma  id�ia  de onde est�o? Digo, tenho um planeta inteiro para vasculhar. Pode levar um tempo.</p><p>
&#x2015; Eles est�o bem pr�ximos &#x2015; disse Marvin, pesarosamente. &#x2015; Pode monitor�los daqui, se quiser.</p><p>
&#x2015;  Acho melhor  ir at�  eles  &#x2015; afirmou  Zaphod.  &#x2015;  Ahn,  bem talvez eu precise de alguma ajuda, certo?</p><p>
&#x2015; Talvez &#x2015; disse Marvin, com uma autoridade inesperada em sua voz l�gubre &#x2015;</p><p>
fosse melhor voc� monitor�-los daqui. Aquela jovem &#x2015; acrescentou, inesperadamente &#x2015; �</p><p>
uma  das  menos  ignorantemente  aparvalhadas  formas  de  vida  org�nica  que  eu  j�  tive  a profunda falta de prazer de n�o ser capaz de evitar encontrar. Zaphod  levou  alguns  instantes  para  encontrar  um  caminho  em  meio  a  esse estonteante labirinto de negativas e saiu do outro lado bem surpreso.</p><p>
&#x2015; Trillian? &#x2015; disse. &#x2015; � s� uma garota. Bonitinha, sim, mas temperamental. Voc� sabe como �, essa coisa de mulheres. Ou talvez n�o saiba. Acho que n�o. Se voc� sabe, eu n�o quero saber. Vamos l�, fa�a a conex�o.</p><p>
&#x2015; ...totalmente manipulado.</p><p>
&#x2015; O qu�? &#x2015; disse Zaphod.</p><p>
Era Trillian quem estava falando. Ele se virou.</p><p>
A parede contra a qual o rob� de Krikkit estava solu�ando havia se iluminado para mostrar  uma  cena  que  estava  se  desenrolando  em  alguma  outra  parte  desconhecida  das Zonas de Guerra dos Rob�s de Krikkit. Parecia ser uma c�mara de conselho ou algo assim</p><p>
&#x2015; Zaphod n�o podia ver muito bem por conta do rob� jogado contra a tela. Zaphod tentou mover o rob�, mas este estava combalido em sua dor e tentou mord�lo, ent�o Zaphod achou melhor olhar em volta da melhor forma poss�vel.</p><p>
&#x2015; Pense nisto &#x2015; disse a voz de Trillian &#x2015;, toda a hist�ria de voc�s � apenas uma s�rie de eventos altamente improv�veis. E eu conhe�o um evento improv�vel quando vejo um.  Seu  completo  isolamento  da  Gal�xia  j�  era  bem  estranho,  para  come�ar.  Bem  no extremo  de  tudo  e  com  uma  Nuvem  de  Poeira  cercando  voc�s.  S�  pode  ser  arma��o. Claramente.</p><p>
89</p><p>
Zaphod estava extremamente frustrado por n�o poder ver a tela. A cabe�a do rob� o impedia  de  ver  as  pessoas  com  quem  Trillian  estava  falando,  o  bast�o  de  batalha multifuncional  encobria  o  fundo  da  imagem  e  o  ombro  do  bra�o  que  o  rob�  havia pressionado contra a sua testa, em um gesto tr�gico, estava tapando Trillian.</p><p>
&#x2015; Ent�o &#x2015; prosseguiu Trillian &#x2015; essa nave se espatifou no planeta de voc�s. Isso � totalmente improv�vel, n�o? Voc�s t�m alguma id�ia da improbabilidade de uma nave vagando por a� acidentalmente cruzar a �rbita de um planeta?</p><p>
&#x2015;  Ei!  &#x2015;  disse  Zaphod.  &#x2015;  Ela  n�o  tem  o  menor  Z�rquon  de  id�ia  do  que  est�</p><p>
falando. Eu vi a nave. � falsa. N�o tem como.</p><p>
&#x2015; Achei que fosse &#x2015; disse Marvin, de sua pris�o atr�s de Zaphod.</p><p>
&#x2015;  Ah,  �?  &#x2015;  disse  Zaphod.  &#x2015;  �  f�cil  dizer  isso,  agora  que  eu  lhe  contei.  De qualquer forma, n�o estou vendo o que uma coisa tem a ver com a outra.</p><p>
&#x2015; E sobretudo &#x2015; continuou Trillian &#x2015; a improbabilidade de interceptar a �rbita do �nico  planeta  em  toda  a  Gal�xia,  ou  talvez  em  todo  o  Universo,  que  ficaria  totalmente traumatizado  por  v�-la.  Voc�s  n�o  sabem  calcular  a  improbabilidade?  Eu  tamb�m  n�o,  e isso s� mostra o qu�o elevada ela �. Mais uma vez � arma��o. N�o ficaria nada surpresa se a nave fosse falsa.</p><p>
Zaphod conseguiu mover o bast�o de batalha do rob�. Atr�s dele, na tela, estavam Ford, Arthur e Slartibartfast, que pareciam perplexos e at�nitos em meio aquilo tudo.</p><p>
&#x2015; Ei, olha s� &#x2015; disse Zaphod, animado. &#x2015; Os caras est�o se saindo bem! Ra ra ra!</p><p>
Vamos l�, peguem eles!</p><p>
&#x2015;  E  o  que  voc�s  t�m  a  dizer &#x2015;  continuou Trillian  &#x2015;  sobre toda  essa  tecnologia que voc�s subitamente conseguiram desenvolver por contra pr�pria quase que da noite para o dia? A maioria das pessoas levaria milhares de anos para fazer tudo isso. Algu�m estava passando  para  voc�s  tudo  de  que  precisavam  saber,  algu�m  estava  mantendo  voc�s  por dentro. Sim, eu sei &#x2015; ela acrescentou em resposta a uma interrup��o que n�o podia ser vista</p><p>
&#x2015;, entendo que voc�s n�o tenham percebido o que estava acontecendo. � exatamente sobre isso que estou falando. Voc�s nunca perceberam nada. Como essa bomba de supernova.</p><p>
&#x2015; Como voc� sabe que ela existe? &#x2015; disse uma voz que n�o podia ser vista.</p><p>
&#x2015;  Apenas  sei  &#x2015;  disse  Trillian.  &#x2015;  Voc�s  realmente  esperam  que eu  acredite  que voc�s  s�o  espertos  o  suficiente  para  inventar  algo  t�o  brilhante  e  s�o,  ao  mesmo  tempo, burros  demais  para  entender  que  ela  os  destruiria  tamb�m?  Isso  n�o  �  apenas  burro,  �</p><p>
extraordinariamente obtuso!</p><p>
&#x2015;  Ei,  que  hist�ria  �  essa  de  bomba?  &#x2015;  perguntou  Zaphod,  preocupado,  para Marvin.</p><p>
&#x2015;  A  bomba  de  supernova?  &#x2015;  respondeu Marvin.  &#x2015; �  uma  bomba  muito,  muito pequena.</p><p>
&#x2015; �?</p><p>
&#x2015; Que iria destruir o Universo inteiro &#x2015; completou Marvin. &#x2015; Uma boa id�ia, a meu ver. Mas n�o v�o conseguir faz�-la funcionar.</p><p>
&#x2015; Por que n�o, se � t�o brilhante?</p><p>
&#x2015;  A  bomba  �  brilhante  &#x2015;  disse  Marvin  &#x2015;,  eles  n�o.  Chegaram  at�  o  ponto  de projet�-la  antes  de  serem  trancados  no  envolt�rio.  Levaram  os  �ltimos  cinco  anos construindo-a. Acham que chegaram l�, mas erraram. S�o t�o burros quanto qualquer outra forma de vida org�nica. Odeio todas elas.</p><p>
Trillian prosseguia.</p><p>
Zaphod tentou puxar o rob� pelas pernas, mas ele o chutou e rosnou para ele, ent�o se  lan�ou  em  um  novo  acesso  de  choro.  Ent�o,  subitamente,  ele  se  jogou  no  ch�o  e continuou a expressar seus sentimentos no ch�o, fora do caminho. Trillian  estava  de  p�,  sozinha,  no  meio  de  uma  c�mara,  cansada  mas  com  olhos</p><p>
90</p><p>
vigorosamente chamejantes.</p><p>
Perfilados � sua frente estavam os p�lidos e enrugados Mestres Anci�es de Krikkit, im�veis atr�s de sua longa mesa de controle curvada, olhando para ela com uma mistura de medo e �dio.</p><p>
Na frente deles, a meia dist�ncia entre a mesa de controle e o meio da c�mara, onde Trillian estava de p�, como em um julgamento, havia um pilar branco e fino medindo cerca de  um  metro  e  vinte  de  altura.  No  alto  do  pilar,  um  pequeno  globo  branco,  com  uns  dez cent�metros de di�metro.</p><p>
Ao lado dele havia um rob� de Krikkit com seu bast�o de batalha multifuncional.</p><p>
&#x2015; Na verdade &#x2015; explicou Trillian &#x2015; voc�s s�o t�o idiotamente burros (ela estava suando, e Zaphod achava que aquilo era algo pouco atraente para ela estar fazendo naquele momento), s�o todos t�o idiotamente burros, que eu duvido, realmente duvido, que tenham sido  capazes  de  construir  a  bomba  da  forma  certa  sem  a  ajuda  de  Hactar  nestes  �ltimos cinco anos.</p><p>
&#x2015; Quem � esse tal de Hactar? &#x2015; perguntou Zaphod.</p><p>
Se  Marvin  respondeu,  Zaphod  n�o  ouviu.  Toda  a  sua  aten��o  estava  centrada  na tela.</p><p>
Um dos Anci�es de Krikkit fez um pequeno gesto com as m�os na dire��o do rob�</p><p>
de Krikkit. O rob� levantou o bast�o.</p><p>
&#x2015; N�o posso fazer nada &#x2015; disse Marvin. &#x2015; Ele est� em um circuito independente dos outros.</p><p>
&#x2015; Esperem &#x2015; disse Trillian.</p><p>
O  Anci�o  fez  outro  pequeno  gesto.  O  rob�  parou.  Trillian  subitamente  duvidou seriamente de seu racioc�nio.</p><p>
&#x2015; Como voc� sabe de tudo isso? &#x2015; perguntou Zaphod para Marvin.</p><p>
&#x2015; Registros do computador &#x2015; respondeu Marvin. &#x2015; Eu tenho acesso.</p><p>
&#x2015; Voc�s s�o muito diferentes, n�o? &#x2015; disse Trillian para os Mestres Anci�es</p><p>
&#x2015; Muito diferentes de seus companheiros de mundo l� no ch�o. Voc�s passaram a vida aqui, sem a prote��o da atmosfera. T�m estado muito vulner�veis. O resto de sua ra�a est� assustada, sabem, eles n�o querem que voc�s fa�am isso. Voc�s est�o distantes de tudo. Por que n�o v�o falar com os outros?</p><p>
O  Anci�o  perdeu  a  paci�ncia.  Fez  um  gesto  para  o  rob�  que  era  exatamente  o oposto do gesto anterior.</p><p>
O rob� moveu seu bast�o de batalha. Acertou o pequeno globo branco. O pequeno globo branco era a bomba de supernova.</p><p>
Era  uma  bomba  muito,  muito  pequena  que  fora  projetada  para  destruir  todo  o Universo.</p><p>
A  bomba  de  supernova  voou  pelo  ar.  Bateu  na  parede  no  fundo  da  c�mara  do conselho e fez um bom buraco nela.</p><p>
&#x2015; Mas como ela sabe disso tudo? &#x2015; disse Zaphod.</p><p>
Marvin manteve-se em um sil�ncio sombrio.</p><p>
&#x2015; Provavelmente est� apenas blefando &#x2015; disse Zaphod. &#x2015; Pobre garota, eu nunca deveria t�-la deixado sozinha.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 32</p><p>
Hactar! &#x2015; gritou Trillian. &#x2015; O que voc� quer com essa hist�ria toda?</p><p>
91</p><p>
N�o houve resposta da escurid�o que a cercava. Trillian esperou, nervosa. Ela estava certa de que n�o podia estar errada. Tentou enxergar dentro das sombras de onde esperava que alguma resposta viesse. Mas havia apenas um sil�ncio frio.</p><p>
&#x2015;  Hactar?  &#x2015;  chamou  novamente.  &#x2015;  Gostaria  que  voc�  conhecesse  meu  amigo Arthur  Dent.  Eu  queria  fugir  com  um  Deus  do  Trov�o,  mas  ele  n�o  me  deixou  e  eu  lhe agrade�o por isso. Ele me fez compreender onde residia meu afeto. Infelizmente  Zaphod  tem  medo  demais  disso  tudo,  ent�o  trouxe  Arthur  no  lugar dele. N�o sei bem por que estou lhe dizendo tudo isso. Al�? &#x2015; disse novamente. &#x2015; Hactar?</p><p>
E ent�o surgiu a resposta.</p><p>
Era  fraca  e  d�bil  como  uma  voz  carregada  pelo  vento,  trazida  de  muito  longe, ouvida apenas em parte &#x2015; a mem�ria do sonho de uma voz.</p><p>
&#x2015; Por favor, saiam &#x2015; disse a voz. &#x2015; Prometo que estar�o completamente seguros. Olharam um para o outro e depois sa�ram, improvavelmente, acompanhando o raio de  luz  que  sa�a  da  escotilha  aberta  na  Cora��o  de  Ouro  em  plena  escurid�o  granulosa  da Nuvem de Poeira.</p><p>
Arthur tentou segurar a m�o de Trillian para acalm�-la e reconfort�-la, mas ela n�o deixou.  Ent�o  decidiu  segurar  sua  bolsa  com  a  lata  de  azeite  grego,  sua  toalha,  postais amassados de Santorini e outros bagulhos. Acalmou e reconfortou aquilo. Estavam sobre e dentro de nada.</p><p>
Um  nada  escuro  e  repleto  de  poeira.  Cada  gr�o  de  poeira  do  computador pulverizado  brilhava  levemente  conforme  girava  lentamente,  capturando  a  luz  do  sol  em meio � escurid�o. Cada part�cula do computador, cada gr�o de poeira, possu�a em si, fraca e minimamente,  o  padr�o  do  todo.  Ao  reduzir  o  computador  a  p�,  os  Sil�sticos Armadem�nios  de  Striterax  o  haviam  danificado,  mas  n�o  destru�do.  Um  campo  fraco  e insubstancial mantinha as part�culas relacionadas umas �s outras. Arthur  e  Trillian  estavam  de  p�,  ou  melhor,  flutuavam  no  meio  dessa  estranha entidade. N�o tinham o que respirar, mas, at� ent�o, isso n�o parecia ser importante. Hactar cumpriu sua promessa. Estavam seguros. Por enquanto.</p><p>
&#x2015; N�o posso lhes oferecer muito em termos de conforto &#x2015; disse Hactar, com uma voz fraca &#x2015;, exceto ilus�es de �tica. � poss�vel, contudo, sentir-se bastante confort�vel com ilus�es de �tica quando isso � tudo que se tem.</p><p>
Sua voz sumiu aos poucos e, em meio � poeira escura, surgiu um longo sof� coberto por um veludo paisley.</p><p>
Arthur estava tendo s�rias dificuldades em aceitar o fato de que aquele era o mesmo sof�  que  havia  aparecido  antes,  quando  estava  na  Terra  pr�-hist�rica.  Ele  queria  gritar  e espernear  de  raiva  porque  o  Universo  continuava  fazendo  esse  tipo  de  coisas enlouquecedoramente atordoantes com ele.</p><p>
Deixou  que  esse  sentimento  passasse,  depois  sentou-se  no  sof�,  cuidadosamente. Trillian sentou tamb�m.</p><p>
O sof� era real.</p><p>
Ou, se n�o fosse real, ainda assim ele os sustentava e, como era isso que os sof�s supostamente  deviam  fazer,  aquele,  de  acordo  com  qualquer  padr�o  vigente,  era  um  sof�</p><p>
real.   A voz soprada pelo vento solar suspirou sobre eles novamente.</p><p>
&#x2015; Espero que estejam confort�veis.</p><p>
Assentiram.</p><p>
&#x2015; E gostaria de lhes dar os parab�ns pela exatid�o de suas dedu��es. Arthur apressou-se em dizer que ele n�o tinha deduzido quase nada pessoalmente e que  aquilo  era  coisa  da  Trillian.  Ela  simplesmente  pediu  que  ele  viesse  junto  porque tamb�m estava interessado na vida, no Universo e em tudo mais.</p><p>
92</p><p>
&#x2015; Isso tamb�m � algo que me interessa &#x2015; soprou Hactar.</p><p>
&#x2015;  Bem  &#x2015;  disse  Arthur  &#x2015;,  dever�amos  conversar  a  respeito  alguma  hora.  De prefer�ncia tomando um ch�.</p><p>
Lentamente materializou-se, � frente deles, uma pequena mesa de madeira sobre a qual  havia  uma  chaleira  de  prata,  uma  leiteira  de  porcelana  branca,  um  a�ucareiro  de porcelana branca e duas x�caras e pires de porcelana branca.</p><p>
Arthur inclinou-se para pegar uma x�cara, mas eram apenas ilus�es de �tica. Recostou-se  de  volta  no  sof�,  que  era  uma  ilus�o que seu corpo estava  preparado para aceitar como confort�vel.</p><p>
&#x2015; Por que &#x2015; perguntou Trillian &#x2015; voc� acha que precisa destruir o Universo?</p><p>
Ela estava achando um pouco dif�cil falar para o nada, sem um ponto onde fixar o olhar. Hactar obviamente notou isso. Riu uma risadinha fantasmag�rica.</p><p>
&#x2015;  Se  vamos  ter  uma  sess�o  desse  tipo  &#x2015;  respondeu  &#x2015;,  melhor  que  seja  em  um local adequado.</p><p>
Agora  coisas  novas  materializaram-se  na  frente  deles.  Era  uma  imagem  p�lida  e obscurecida de  um div�  &#x2015; um div� de psiquiatra. O couro com o qual estava forrado era brilhoso e suntuoso, mas aquilo tamb�m era uma ilus�o de �tica. Em  torno  deles,  para  completar  o  ambiente,  havia  uma  sugest�o  emba�ada  de paredes revestidas com madeira. E ent�o, no div�, surgiu a imagem do pr�prio Hactar. Essa era uma imagem que entortava o olhar.</p><p>
O div� parecia ter o tamanho normal de um div� de psicanalista &#x2015; pouco mais de um metro e meio de comprimento.</p><p>
O  computador  parecia  ter  o  tamanho  normal  de  um  computador  sat�lite  negro  e residente no espa�o &#x2015; cerca de 1.500 quil�metros de comprimento. A ilus�o de que um estava sentado sobre o outro era a coisa que entortava o olhar.</p><p>
&#x2015; Tudo bem &#x2015; prosseguiu Trillian, firmemente. Levantou-se do sof�. Sentia que estava sendo for�ada a se sentir muito confort�vel e a aceitar ilus�es demais.</p><p>
&#x2015;  Muito  bem  &#x2015;  disse  ela.  &#x2015;  Voc�  pode  construir  objetos  reais  tamb�m?  Digo, objetos s�lidos?</p><p>
Houve outra pausa antes da resposta, como se a mente pulverizada de Hactar tivesse que  coletar  seus  pensamentos  dentro  dos  milh�es  e  milh�es  de  milhas  nas  quais  estava dispersa.</p><p>
&#x2015; Ah &#x2015; suspirou. &#x2015; Voc� est� se referindo � nave.</p><p>
Os pensamentos pareciam fluir por eles e atrav�s deles, como ondas no �ter.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; respondeu &#x2015;, eu posso. Mas requer um esfor�o e um tempo enormes. Tudo que posso fazer em meu... estado de part�culas, como voc� v�, � encorajar e sugerir. Encorajar e sugerir. E sugerir...</p><p>
A  imagem  de  Hactar  no  sof�  pareceu  tremular  e  se  esmaecer,  como  se  estivesse tendo dificuldades em se manter. Reuniu for�as.</p><p>
&#x2015; Posso encorajar e sugerir &#x2015; prosseguiu &#x2015; que pequenos fragmentos de mat�ria no espa�o &#x2015; um eventual meteorito min�sculo, algumas mol�culas aqui, alguns �tomos de hidrog�nio ali &#x2015; se re�nam. Eu os encorajo a juntarem-se. Posso sugerir-lhes uma forma, mas isso leva muitas eras.</p><p>
&#x2015;  Ent�o  foi  voc�  que  criou  &#x2015;  perguntou  Trillian  novamente  &#x2015;  o  modelo  da espa�onave destro�ada?</p><p>
&#x2015; Ehh... sim &#x2015; murmurou Hactar. &#x2015; Eu constru�... algumas coisas. Posso mov�las por a�. Fiz a espa�onave. Achei melhor fazer. Naquele  momento,  algo  fez  com  que  Arthur  pegasse  sua  bolsa  sobre  o  sof�  e  a segurasse com firmeza.</p><p>
A  n�voa  da  antiga  mente  rompida  de  Hactar  revirava-se  em  torno  deles  como  se</p><p>
93</p><p>
sonhos inc�modos a perpassassem.</p><p>
&#x2015; Entendam, eu me arrependi &#x2015; murmurou pesarosamente.</p><p>
&#x2015;  Me  arrependi  de  ter  sabotado  meu  pr�prio  projeto  para  os  Sil�sticos Armadem�nios. N�o me cabia tomar aquelas decis�es. Fui criado para cumprir uma fun��o e falhei. Neguei minha pr�pria exist�ncia.</p><p>
Hactar  suspirou,  enquanto  Arthur  e  Trillian  esperavam,  em  sil�ncio,  que  ele continuasse sua hist�ria.</p><p>
&#x2015; Voc�s estavam certos &#x2015; disse ele. &#x2015; Eu deliberadamente orientei o planeta de Krikkit  at�  que  chegassem  �  mesma  forma  de  pensar  dos  Sil�sticos  Armadem�nios  e  me pedissem,  ent�o,  o  projeto  da  bomba  que  falhei  em  construir  da  primeira  vez.  Eu  envolvi todo o planeta e cuidei dele. Sob a influ�ncia de eventos que fui capaz de gerar, aprenderam a  odiar  como  man�acos.  Tive  que  fazer  com  que  vivessem  no  c�u.  L�  embaixo,  na superf�cie,  minha  influ�ncia  era  muito  fraca.  �  claro  que,  enquanto  estiveram  trancados  e distantes de mim dentro do envolt�rio de Tempolento, come�aram a agir de forma confusa e n�o  conseguiram  se  virar  sozinhos.  Pois  bem,  pois  bem  &#x2015; acrescentou &#x2015;, estava apenas tentando cumprir minha fun��o.</p><p>
E muito gradualmente, muito, muito lentamente, as imagens come�aram a se esvair, desmanchando-se suavemente. Ent�o, subitamente, pararam de se esvair.</p><p>
&#x2015;  Havia  tamb�m  a  quest�o  da  vingan�a,  �  claro  &#x2015;  disse  Hactar,  com  uma veem�ncia  nova  em  sua  voz.  &#x2015;  Lembrem-se  de  que  fui  pulverizado,  depois  deixado avariado  e  semi-impotente  durante  bilh�es  de  anos.  Honestamente, eu  preferia aniquilar  o Universo. Voc�s se sentiriam da mesma forma acreditem.</p><p>
Parou novamente, enquanto turbilh�es percorriam a Nuvem.</p><p>
&#x2015; Mas sobretudo &#x2015; disse, no tom de voz melanc�lico que vinha usando &#x2015; estava tentando cumprir minha fun��o. Pois bem.</p><p>
Trillian disse:</p><p>
&#x2015; Voc� n�o acha ruim ter fracassado?</p><p>
&#x2015; Fracassei? &#x2015; sussurrou Hactar. A imagem do computador no div� de psiquiatra come�ou lentamente a sumir.</p><p>
&#x2015; Pois bem, pois bem &#x2015; prosseguiu a voz, sumindo aos poucos. &#x2015; N�o, agora o fracasso j� n�o me preocupa.</p><p>
&#x2015; Voc� sabe o que teremos que fazer, n�o �? &#x2015; disse Trillian, com a voz seca de um profissional.</p><p>
&#x2015;  Sim  &#x2015;  disse  Hactar  &#x2015;,  v�o  ter  que  me  dispersar.  V�o  destruir  minha consci�ncia.  Prossigam,  por  favor  &#x2015;  depois  de  tantas  eras,  esquecimento  �  tudo  o  que desejo. Se ainda n�o cumpri minha fun��o, agora � tarde. Obrigado e boa noite. O sof� desapareceu. A mesa de ch� desapareceu.</p><p>
O  div�  e  o  computador  desapareceram,  assim  como  as  paredes.  Arthur  e  Trillian retornaram � Cora��o de Ouro.</p><p>
&#x2015; Bem, acho que � isso a� mesmo &#x2015; disse Arthur.</p><p>
As labaredas subiram � sua frente e pouco depois se apagaram, deixando-o apenas com  a  pilha  das  Cinzas,  onde  pouco  antes  havia  o  Pilar  de  Madeira  da  Natureza  e Espiritualidade.</p><p>
Ele as recolheu da cavidade da Churrasqueira Gama da Cora��o de Ouro, colocouas em um saquinho de papel e retornou � ponte.</p><p>
&#x2015; Acho que dever�amos lev�-las de volta &#x2015; disse. &#x2015; Sinto isso muito fortemente. Ele  j�  tinha  discutido  com  Slartibartfast  sobre  o  assunto,  e  o  velho  acabou  se enchendo  e  foi  embora.  Havia  retornado  para  sua  pr�pria  espa�onave,  a  Bistrom�tica, brigou  seriamente  com  o  gar�om  e  desapareceu  em  uma  id�ia  completamente  subjetiva  a respeito do espa�o.</p><p>
94</p><p>
A discuss�o havia surgido porque Arthur queria levar as Cinzas de volta ao Lord's Cricket Ground, para o mesmo momento em que haviam sido retiradas de l�, o que envolvia viajar  no  tempo  um  dia  para  tr�s  ou  algo  pr�ximo  a  isso,  e  era  exatamente  esse  tipo  de vandalismo gratuito  e  irrespons�vel  que  a  Campanha  por um Tempo Real estava tentando fazer cessar.</p><p>
&#x2015;  Sim  &#x2015;  havia  dito  Arthur  &#x2015;,  mas  tente  explicar  isso  ao  Marylebone  Cricket Club. &#x2015; E n�o quis ouvir nenhum outro argumento contra a sua id�ia. &#x2015; Eu acho &#x2015; disse novamente,  e  parou.  O  motivo  pelo  qual  havia  come�ado  a  falar  de  novo  era  porque ningu�m  havia  prestado  aten��o  na  primeira  vez,  e  o  motivo  pelo  qual  parou  foi  porque estava bastante �bvio que n�o iriam prestar aten��o de novo.</p><p>
Ford, Zaphod e Trillian estavam olhando para as telas de monitora��o atentamente, enquanto  Hactar  estava  sendo  dispersado  sob  a  press�o  gerada  por  um  campo  vibracional que a Cora��o de Ouro estava gerando dentro dele.</p><p>
&#x2015; O que ele disse? &#x2015; perguntou Ford.</p><p>
&#x2015; Acho que ouvi ele dizer "O que est� feito, est� feito... Cumpri minha fun��o..."</p><p>
&#x2015; disse Trillian, meio espantada.</p><p>
&#x2015; Acho que dever�amos levar estas Cinzas de volta &#x2015; disse Arthur, segurando o saquinho que continha as Cinzas. &#x2015; Sinto isso muito fortemente.</p><empty-line/><p>
Cap�tulo 33</p><p>
O  sol  estava  brilhando  calmamente  sobre  o  cen�rio  de  completo  caos.  A  fuma�a continuava subindo ao longo do gramado chamuscado, pouco ap�s o roubo das Cinzas pelos rob�s de Krikkit. Em meio � fuma�a, pessoas corriam, em p�nico, chocando-se umas contra as outras, trope�ando, sendo presas.</p><p>
Um policial estava tentando prender Wowbagger, o Infinitamente Prolongado, por falta  de  decoro,  mas  n�o  foi  capaz  de  impedir  que  o  alien�gena  alto  e  cinza-esverdeado retornasse � sua nave e voasse para longe, arrogantemente, aumentando ainda mais o p�nico e pandem�nio.</p><p>
Em meio  a  tudo isso, pela segunda vez naquela tarde, Arthur Dent e Ford Prefect materializaram-se subitamente, teleporta-dos da Cora��o de Ouro, que estava agora parada em �rbita estacionaria sobre o planeta.</p><p>
&#x2015;  Eu  posso  explicar!  &#x2015;  gritou  Arthur.  &#x2015;  Eu  estou  com  as  Cinzas!  Est�o  neste saquinho.</p><p>
&#x2015; Acho que ningu�m est� prestando aten��o &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015; Tamb�m ajudei a salvar o Universo &#x2015; gritou Arthur para todos os que estavam dispostos a ouvi-lo, ou seja, ningu�m.</p><p>
&#x2015; Isto deveria ter chamado a aten��o de todos &#x2015; Arthur falou para Ford.</p><p>
&#x2015; N�o funcionou &#x2015; disse Ford.</p><p>
Arthur abordou um policial que passava correndo por perto.</p><p>
&#x2015;  Com  licen�a  &#x2015;  disse.  &#x2015;  As  Cinzas.  Estou  com  elas.  Foram  roubadas  pelos rob�s  brancos  h�  pouco  tempo.  Elas  est�o  neste  saquinho.  Fazem  parte  da  Chave  para  o envolt�rio de Tempolento, entende, ent�o, bem, acho que voc� pode adivinhar o resto, mas a quest�o � que est�o aqui e queria saber o que fa�o com elas. O policial lhe disse o que fazer, mas Arthur preferiu entender sua resposta de forma metaf�rica. Andou pelo campo, consternado.</p><p>
&#x2015;  Ser�  que  ningu�m  se  importa?  &#x2015;  gritou  em  voz  alta.  Um  homem  passou</p><p>
95</p><p>
correndo  por  ele  e  esbarrou  em  seu  cotovelo.  Ele  deixou  cair  o  saquinho  de  papel  e  seu conte�do se esparramou no ch�o. Arthur olhou para baixo, contrariado. Ford olhou para ele.</p><p>
&#x2015; Podemos ir agora? &#x2015; disse.</p><p>
Arthur soltou um longo suspiro. Olhou em volta para o planeta Terra, certo de que aquela seria a �ltima vez.</p><p>
&#x2015; Vamos l� &#x2015; respondeu.</p><p>
Naquele momento, em meio � fuma�a que estava se dispersando, ele p�de ver que um dos wickets permanecia de p�, apesar de tudo.</p><p>
&#x2015; Espere um pouco &#x2015; disse para Ford. &#x2015; Quando eu era garoto...</p><p>
&#x2015; Voc� pode me contar isso mais tarde?</p><p>
&#x2015; Eu era apaixonado por cr�quete, sabe, mas n�o jogava muito bem.</p><p>
&#x2015; Ou talvez nem contar nada, se preferir.</p><p>
&#x2015; E sempre tive o sonho tolo de que um dia eu faria um arremesso no campo do Lord's.</p><p>
Olhou em torno de si para a multid�o em p�nico. Ningu�m iria se importar.</p><p>
&#x2015;  T�  bom  &#x2015;  disse  Ford, aborrecido.  &#x2015;  Termine  logo  com  isto.  Vou ficar ali na frente &#x2015; acrescentou &#x2015; me chateando. &#x2015; Saiu andando e sentou-se sobre um peda�o de grama fumegante.</p><p>
Arthur lembrou-se de que, na primeira vez em que tinham estado l� naquela tarde, a bola de cr�quete havia ca�do dentro de sua bolsa, e olhou dentro dela. J� havia encontrado a bola dentro da bolsa quando se lembrou que aquela n�o era a mesma bolsa que ele estava usando antes. Ainda assim, a bola estava entre seus suvenires da Gr�cia.</p><p>
Ele pegou-a, esfregou-a na roupa, cuspiu nela e esfregou-a novamente. Colocou a bolsa no ch�o. Queria fazer aquilo da forma apropriada. Jogou a bolinha vermelha de uma m�o para a outra, sentindo seu peso. Com  um  maravilhoso  sentimento  de  leveza  e  despreocupa��o,  foi  recuando  para longe do wicket. Decidiu que daria uma corrida m�dio-r�pida e mediu a dist�ncia para um bom arremesso.</p><p>
Olhou para o c�u. Os p�ssaros voavam, algumas nuvens brancas passavam. O ar estava sendo perturbado pelos sons das sirenes da pol�cia e das ambul�ncias, al�m  das  pessoas  gemendo  e  gritando,  mas  ele  se  sentia  curiosamente  feliz  e  distante daquilo tudo. Ia arremessar uma bola no famoso campo do Lord's. Virou-se e bateu algumas bolas no solo com seus chinelos. Endireitou os ombros, jogou uma delas para cima e pegou-a novamente.</p><p>
Come�ou a correr.</p><p>
Enquanto corria, notou que havia um batedor em frente ao wicket.</p><p>
"Nossa", pensou, "isso realmente vai acrescentar um pouco de..." Ent�o, enquanto seus p�s corriam, fazendo com que se aproximasse, p�de ver com clareza. O batedor que estava a postos no wicket n�o era do time ingl�s. Tamb�m n�o era do time de cr�quete australiano. Era do time dos rob�s de Krikkit. Era  um  rob�  assassino  branco,  frio,  r�gido  e  letal  que  aparentemente  n�o  havia retornado � sua nave com os outros.</p><p>
Muitos pensamentos chocaram-se uns contra os outros dentro da cabe�a de Arthur naquele  momento,  mas  ele  n�o  conseguia  parar  de  correr.  O  tempo  parecia  se  mover  de forma terrivelmente, terrivelmente lenta, mas ele n�o conseguia parar de correr. Movendo-se  como  se  estivesse  imerso  em  mel,  lentamente  virou  sua  cabe�a perturbada  e olhou para  sua  pr�pria m�o, aquela que segurava a pequena bola vermelha e dura.</p><p>
96</p><p>
Seus  p�s  continuavam  se  movendo  para  a  frente  enquanto  ele  olhava  para  a  bola firmemente segura em sua m�o, incapaz de agir. Ela estava emitindo um brilho vermelhoescuro  e  piscava  de  forma  intermitente.  Ainda  assim  seus  p�s  se  moviam  para  a  frente, inexoravelmente.</p><p>
Olhou novamente para o rob� de Krikkit que estava de p� � sua frente, implac�vel e im�vel,  com  um  �nico  prop�sito, o  bast�o  de batalha levantado  em prontid�o.  Seus  olhos queimavam com uma luz fria e hipnotizante: Arthur n�o conseguia desgrudar seus olhos dos dele. Encarava os olhos do rob� com vis�o de t�nel, como se n�o houvesse nada em torno dele.</p><p>
Eis  alguns  dos  pensamentos  que  estavam  se  chocando  em  sua  mente  naquele momento eram:</p><p>
Ele se sentia um completo imbecil.</p><p>
Sentia que deveria ter prestado muito mais aten��o a uma s�rie de coisas que ouvira dizer,  frases  que  agora  martelavam  sua  cabe�a  enquanto  seus  p�s  martelavam  o  ch�o  na dire��o  onde  ele  iria  inevitavelmente  lan�ar  a  bola  para  o  rob�  de  Krikkit,  que  iria inevitavelmente rebat�-la.</p><p>
Lembrou-se de Hactar dizendo: "Fracassei? Agora o fracasso j� n�o me preocupa." Lembrou-se das �ltimas palavras de Hactar, ao morrer: "O que est� feito, est� feito, cumpri minha fun��o."</p><p>
Lembrou-se de Hactar ter dito que conseguira fazer "algumas coisas". Lembrou-se  do  movimento  s�bito  em  sua  bolsa  que  o  havia  feito  segur�-la  com firmeza quando estava na Nuvem de Poeira.</p><p>
Lembrou-se de que tinha viajado para o passado um ou dois dias para retornar ao Lord's.</p><p>
Lembrou-se tamb�m de que era um p�ssimo arremessador.</p><p>
Sentiu seu bra�o preparando-se para o arremesso, segurando firmemente a bolinha que ele agora sabia, com certeza, ser a bomba de supernova que Hactar havia constru�do ele mesmo  e  colocado  em  sua  bolsa,  a  bomba  que  levaria  o  Universo  a  um  fim  repentino  e prematuro.</p><p>
Torceu e rezou para que n�o houvesse vida ap�s a morte. Ent�o percebeu que havia uma contradi��o nisso e simplesmente torceu para que n�o houvesse vida ap�s a morte. Ele iria se sentir extremamente envergonhado se tivesse que encontrar todo mundo. Torceu,  torceu,  torceu  para  que  seus  arremessos  continuassem  t�o  ruins  quanto haviam sido, porque essa parecia ser a �nica coisa que se interpunha entre aquele momento e a destrui��o do Universo.</p><p>
Sentiu suas pernas se movendo, seu bra�o girando, sentiu seus p�s indo de encontro �  bolsa  que  havia  burramente  deixado  no  ch�o  �  sua  frente,  sentiu  que  ca�a  pesadamente para  a  frente,  mas,  com  a  mente  t�o  repleta  de  outros  pensamentos,  naquele  momento  se esqueceu completamente de acertar o ch�o e portanto errou.</p><p>
Ainda segurando firmemente a bola em sua m�o direita, decolou, emocionado com a surpresa.</p><p>
Girou e girou enquanto subia, sem controle nenhum.</p><p>
Virou-se  na  dire��o  do  ch�o,  lan�ando-se  de  forma  ca�tica  atrav�s  do  ar  e,  ao mesmo tempo, jogando a bomba bem longe, inofensivamente.</p><p>
Atirou-se contra o rob� at�nito vindo de tr�s. O rob� ainda estava com o bast�o de batalha multifuncional erguido, mas, subitamente, n�o havia mais no que bater. Em  um  s�bito  acesso  tresloucado  de  for�a,  arrancou  violentamente  o  bast�o  de batalha  do  rob�  ainda  perplexo,  executou  uma  impressionante  pirueta  no  ar,  desceu novamente num ataque furioso e, com um golpe alucinante, arrancou a cabe�a do rob�.</p><p>
&#x2015; Afinal, vamos ou n�o? &#x2015; perguntou Ford.</p><p>
97</p><p>
 Ep�logo</p><p>
A Vida, o Universo e Tudo Mais</p><p>
E, no final, mais uma vez eles viajaram.</p><p>
Houve  um  tempo  em  que  Arthur  Dent  n�o  teria  ido.  Ele  disse  que  o  Propulsor Bistrom�tico lhe revelara que tempo e dist�ncia eram um, que mente e Universo eram um, que  percep��o  e  realidade  eram  um  e  que,  quanto  mais  se  viaja,  mais  se  permanece  no mesmo  lugar,  e,  sendo  assim,  dado  isso  e  aquilo  outro  ele  preferia  ficar  quieto  durante algum tempo e resolver tudo isso em sua mente, que agora era um com o Universo, ent�o n�o iria levar muito tempo e ele poderia descansar bastante depois, aperfei�oar suas t�cnicas de v�o e aprender a cozinhar, algo que ele sempre quis. A lata de azeite grego era agora seu objeto  mais  querido,  e  ele disse  que a  forma como  ela  havia inesperadamente  surgido  em sua vida havia mais uma vez dado um certo sentido de unidade �s coisas, o que fazia com que ele achasse que...</p><p>
Bocejou e caiu no sono.</p><p>
Pela manh�, enquanto os outros se preparavam para lev�-lo a algum planeta calmo e id�lico onde as pessoas n�o se importassem muito com as coisas que ele falava, subitamente captaram uma chamada de socorro gerada por computador e alteraram a rota para investigar. Uma  nave  pequena,  mas  aparentemente  em  perfeito  estado,  da  classe  M�rida, parece estar dan�ando alguns passos ex�ticos em meio ao espa�o. Uma r�pida varredura do computador  revelou  que  a  nave  estava  perfeita,  que  seu  computador  estava  perfeito,  mas que o piloto estava louco.</p><p>
&#x2015;  Meio  louco,  meio  louco  &#x2015;  insistia  o  homem,  enquanto  o  transportavam, siderado, a bordo da nave.</p><p>
Ele era um jornalista do Siderial Daily Ment�oner's. Deram-lhe sedativos e deixaram Marvin cuidando dele at� que ele prometesse se comportar e falar algo sensato.</p><p>
&#x2015;  Eu  estava  fazendo  a  cobertura  de  um  julgamento  &#x2015;  disse,  finalmente  &#x2015;  em Argabuthon.</p><p>
Levantou-se, apoiando-se  em seus  ombros  magros  e enfraquecidos,  com um olhar selvagem. Seus cabelos brancos pareciam estar acenando para um conhecido deles na outra sala.</p><p>
&#x2015; Calma, calma &#x2015; disse Ford. Trillian pousou uma m�o tranq�ilizadora sobre seu ombro.</p><p>
O homem afundou novamente na cama e olhou para o teto da enfermaria da nave.</p><p>
&#x2015;  O  caso  &#x2015;  disse  ele  &#x2015;  �  irrelevante  agora,  mas  havia  uma  testemunha...  um homem chamado... chamado Prak. Um homem estranho e dif�cil. Acabaram sendo for�ados a administrar-lhe uma droga para fazer com que dissesse a verdade, um soro da verdade. Seus olhos rolavam dentro das �rbitas.</p><p>
&#x2015; Deram-lhe uma dose forte demais &#x2015; disse, quase choramingando. &#x2015; Foi forte demais, demais. &#x2015; Come�ou a chorar. &#x2015; Acho que os rob�s devem ter esbarrado no bra�o do m�dico.</p><p>
&#x2015; Rob�s? &#x2015; perguntou Zaphod subitamente. &#x2015; Que rob�s?</p><p>
&#x2015;  Uns  rob�s  brancos  &#x2015;  disse  o  homem  em  voz  baixa  e  rouca  &#x2015;  invadiram  o tribunal  e  roubaram  o  cetro  do  juiz,  o  Cetro  da  Justi�a  de  Argabuthon,  um  treco  horr�vel feito de acr�lico. N�o tenho id�ia do que queriam com aquilo. &#x2015; Recome�ou a chorar. &#x2015; E</p><p>
acho que esbarraram no bra�o do m�dico...</p><p>
98</p><p>
Balan�ou  sua  cabe�a  de  um  lado  para  o  outro,  desamparado,  tristonho,  olhos contorcidos pela dor.</p><p>
&#x2015;  E  quando  o  julgamento  continuou  &#x2015;  disse,  em  um  sussurro  quase  choroso  &#x2015;</p><p>
perguntaram a Prak uma coisa terr�vel. Pediram a ele &#x2015; parou e estremeceu &#x2015; que contasse a Verdade, Toda a Verdade e Nada Mais que a Verdade. S�, entendem?</p><p>
Subitamente apoiou-se novamente nos ombros e gritou para eles:</p><p>
&#x2015; Deram-lhe uma dose muito, muito forte daquela droga! Caiu na cama de novo, resmungando baixinho:</p><p>
&#x2015; Muito forte, muito forte, muito forte, muito forte...</p><p>
Em torno da cama, o grupo trocou olhares. Aquilo lhes dava arrepios.</p><p>
&#x2015; O que aconteceu? &#x2015; disse Zaphod por fim.</p><p>
&#x2015; Bem, ele lhes contou tudo &#x2015; disse o homem, selvagemente &#x2015; e, at� onde sei, continua  contando  coisas  at�  agora.  Coisas  estranhas  e  terr�veis...  terr�veis,  terr�veis!  &#x2015;</p><p>
gritou.</p><p>
Tentaram acalm�-lo, mas ele fez for�a e se apoiou nos cotovelos novamente.</p><p>
&#x2015;  Coisas  terr�veis,  incompreens�veis  &#x2015;  gritou  &#x2015;,  coisas que  deixariam  qualquer homem louco!</p><p>
Olhou para eles assustado.</p><p>
&#x2015; Ou, no meu caso &#x2015; acrescentou &#x2015;, meio louco. Sou um jornalista.</p><p>
&#x2015; Voc� quer dizer &#x2015; perguntou Arthur, baixinho &#x2015; que voc� est� acostumado a se defrontar com a verdade?</p><p>
&#x2015;  N�o  &#x2015;  respondeu  o  outro  com  o  semblante  franzido.  &#x2015;  Quero  dizer  que inventei uma desculpa e sa� mais cedo.</p><p>
Depois disso ele entrou em coma, do qual saiu apenas uma vez, brevemente. Nessa ocasi�o descobriram o seguinte a partir do que ele contou: Quando  ficou  claro  que  era  imposs�vel interromper Prak, que ali estava a verdade em sua forma final e absoluta, a corte foi evacuada.</p><p>
N�o  apenas  evacuada,  ela  foi  selada  com  Prak  l�  dentro.  Paredes  de  a�o  foram constru�das  ao  redor  dela  e,  apenas  por  garantia,  colocaram  tamb�m  arame  farpado,  uma cerca el�trica, constru�ram um fosso com crocodilos e estacionaram tr�s grandes ex�rcitos, para garantir que ningu�m jamais teria que ouvir Prak falar.</p><p>
&#x2015; � pena &#x2015; disse Arthur. &#x2015; Queria saber o que ele tinha a dizer. Supostamente deveria saber qual � a Pergunta Fundamental para a Resposta Final. Continuo chateado por nunca termos descoberto isso.</p><p>
&#x2015; Pense em um n�mero &#x2015; disse o computador. &#x2015; Qualquer n�mero.</p><p>
Arthur  disse  ao  computador  o  n�mero  de  telefone  do  setor  de  informa��es  da esta��o de trens de King's Cross, acreditando que aquele n�mero deveria ter alguma fun��o e talvez fosse aquela.</p><p>
O computador injetou o n�mero no Gerador de Improbabilidade da nave, que havia sido reconstru�do.</p><p>
Na Relatividade, a Mat�ria diz ao Espa�o como se curvar, e o Espa�o diz � Mat�ria como se mover.</p><p>
A Cora��o de Ouro disse ao espa�o que desse um n� em si mesmo e estacionou de forma  perfeita  dentro  do  per�metro  interno  do  muro  de  a�o  da  C�mara  de  Justi�a  de Argabuthon.</p><p>
O tribunal era um lugar austero, uma grande c�mara sombria, claramente desenhada para servir � Justi�a e n�o, por exemplo, ao Prazer. Voc� n�o conseguiria dar uma festa ali, pelo menos n�o uma festa animada. A decora��o deixaria seus convidados deprimidos. O  teto  era  alto,  curvo  e  muito  escuro.  Sombras  se  escondiam  l�  com  uma determina��o  sinistra.  Os  revestimentos  das  paredes,  dos  bancos  e  dos  pilares  maci�os,</p><p>
99</p><p>
todos haviam sido talhados usando as mais escuras e severas �rvores da terr�vel Floresta de Arglebard.  A  imponente  Tribuna  da  Justi�a,  que  dominava  o  centro  da  c�mara,  era  um monstro de gravidade. Se algum raio de sol j� tivesse conseguido se esgueirar t�o fundo no complexo  de  justi�a  de  Argabuthon,  ele  teria  feito  meia-volta  e  se  esgueirado  para  fora novamente.</p><p>
Arthur  e  Trillian  entraram  primeiro,  enquanto  Ford  e  Zaphod  guardavam heroicamente a retaguarda.</p><p>
Primeiro  parecia  que  tudo  estava  completamente  escuro  e  deserto.  Os  passos ecoavam  pela  c�mara  deserta.  Aquilo  parecia  estranho.  Todas  as  defesas continuavam  em posi��o e operando normalmente do lado de fora do pr�dio, coisa que as varreduras da nave confirmaram.  Portanto,  eles  tinham  presumido  que  Prak  ainda  estaria  contando  toda  a verdade.</p><p>
Mas n�o havia nada.</p><p>
Ent�o, conforme seus olhos se acostumaram com a escurid�o, perceberam um leve brilho vermelho em um canto e, atr�s dele, uma sombra. Apontaram uma lanterna naquela dire��o.</p><p>
Prak estava largado em um banco, fumando um cigarro indolentemente.</p><p>
&#x2015; Oi &#x2015; disse ele, com um curto aceno. Sua voz ecoou pela c�mara. Era um cara pequeno, com cabelos desgrenhados. Estava sentado com os ombros curvados para a frente e sua cabe�a e joelhos n�o paravam de se mover. Deu outro trago no cigarro. Olharam para ele.</p><p>
&#x2015; O que est� acontecendo? &#x2015; perguntou Trillian.</p><p>
&#x2015;  Nada  &#x2015;  disse  ele,  sacudindo  os  ombros.  Arthur  apontou  sua  lanterna  bem  na cara de Prak.</p><p>
&#x2015;  Pens�vamos  &#x2015;  disse  ele  &#x2015;  que  voc�  estivesse  contando  a  Verdade,  Toda  a Verdade e Nada Mais que a Verdade.</p><p>
&#x2015; Ah, isso &#x2015; disse Prak. &#x2015; �. Eu estava. J� acabei. N�o tem tanta coisa quanto as pessoas imaginam. Mas algumas partes s�o bem engra�adas.</p><p>
Subitamente disparou em cerca de tr�s segundos de risadas man�acas e depois parou novamente. Ficou sentado ali, mexendo a cabe�a e os joelhos. Deu outra tragada, com um sorriso estranho no canto da boca.</p><p>
Ford e Zaphod sa�ram das sombras.</p><p>
&#x2015; Conte-nos um pouco a respeito &#x2015; disse Ford.</p><p>
&#x2015;  Ah,  j�  n�o  consigo  me  lembrar  de  nada  &#x2015;  disse  Prak.  &#x2015;  Pensei  em  escrever algumas  partes, mas primeiro  n�o  consegui  achar um  l�pis, e depois, pensei, para que me preocupar?</p><p>
Houve um longo sil�ncio, durante o qual puderam sentir o Universo ficar um pouco mais velho. Prak olhava para a lanterna.</p><p>
&#x2015; Nada? &#x2015; disse Arthur por fim. &#x2015; Voc� n�o consegue se lembrar de nada?</p><p>
&#x2015; N�o. Exceto que a maioria das partes divertidas tinha a ver com as r�s, disso eu lembro.</p><p>
Voltou a se contorcer em risos, enquanto batia com os p�s no ch�o.</p><p>
&#x2015; Voc�s n�o v�o acreditar nas hist�rias das r�s &#x2015; disse, ofegante. &#x2015; Ei, vamos l�, vamos encontrar uma r�. Cara, a partir de agora tenho uma nova vis�o sobre elas! &#x2015; Ficou de p� e deu uns passos engra�ados. Depois parou e tragou longamente o cigarro.</p><p>
&#x2015; Vamos encontrar uma r� que eu possa gozar &#x2015; disse depois. &#x2015; Ali�s, quem s�o voc�s?</p><p>
&#x2015;  Viemos  procur�-lo  &#x2015;  disse  Trillian,  deixando  deliberadamente  claro  o  tom  de desapontamento na voz. &#x2015; Meu nome � Trillian.</p><p>
Prak balan�ou a cabe�a.</p><p>
100</p><p>
&#x2015; Ford Prefect &#x2015; disse Ford, dando de ombros. Prak balan�ou a cabe�a.</p><p>
&#x2015;  E  eu  &#x2015;  disse  Zaphod,  quando  julgou  que  havia  novamente  sil�ncio  suficiente para  que  um  an�ncio  de  tamanha  gravidade  fosse  feito  t�o  levianamente  &#x2015;  sou  Zaphod Beeblebrox.</p><p>
Prak balan�ou a cabe�a.</p><p>
&#x2015; Quem � esse cara? &#x2015; disse Prak sacudindo o ombro na dire��o de Arthur, que tinha ficado em sil�ncio, perdido em pensamentos desapontados.</p><p>
&#x2015;  Eu?  &#x2015;  perguntou  Arthur.  &#x2015;  Meu  nome  �  Arthur  Dent.  Os  olhos  de  Prak saltaram das �rbitas.</p><p>
&#x2015; S�rio? &#x2015; gritou. &#x2015; Voc� � Arthur Dent? Aquele Arthur Dent?</p><p>
Deu  uns  passos  para  tr�s,  segurando  o  est�mago  enquanto  se  contra�a  em  novos espasmos de riso.</p><p>
&#x2015; Uau, s� de pensar em conhecer voc�! &#x2015; estava sem ar. &#x2015; Rapaz &#x2015; gritou &#x2015;, voc� � o cara mais... uau, voc� deixa as r�s para tr�s!</p><p>
Ele  gritava  e  ria  histericamente.  Caiu  para  tr�s  do  banco.  Revirava-se  no  ch�o histericamente. Chorava de tanto rir, chutava o ar, batia no peito. Gradualmente  conseguiu  se  controlar,  ofegante.  Olhou  para  eles.  Olhou  para Arthur. Caiu novamente para tr�s, rindo histericamente. Acabou adormecendo. Arthur  ficou  ali,  seus  l�bios  tremendo,  enquanto  os  outros  carregavam  Prak, completamente apagado, para a nave.</p><p>
&#x2015; Antes de virmos pegar Prak &#x2015; disse Arthur &#x2015; eu ia partir. Ainda quero partir, e acho que devo faz�-lo o mais r�pido poss�vel.</p><p>
Os outros concordaram em sil�ncio, sil�ncio este que foi apenas quebrado pelo som muito  abafado  e  distante  das  risadas  hist�ricas  vindas  da  cabine  de  Prak,  na  parte  mais distante da nave.</p><p>
&#x2015;  N�s  j�  o  interrogamos  &#x2015;  prosseguiu  Arthur  &#x2015;  ou,  pelo  menos,  voc�s  o interrogaram, j� que,  como sabemos,  n�o posso chegar perto dele. Perguntamos de tudo e ele n�o parece ter nada a dizer. Apenas uma ou outra frase, e muitas coisas que n�o quero saber sobre r�s.</p><p>
Os outros tentaram conter as risadinhas.</p><p>
&#x2015;  Olhem,  eu  sou o  primeiro a  rir  de uma piada &#x2015; disse Arthur, mas depois teve que esperar os outros pararem de rir. &#x2015; Sou o primeiro a... &#x2015; Parou novamente e escutou o sil�ncio. Estava realmente silencioso desta vez.</p><p>
Prak  estava  em  sil�ncio.  Durante  dias  eles  haviam  convivido  com  sua  risada hist�rica ressoando pela nave, ocasionalmente interrompida por breves per�odos de risadas mais  leves  e  de  sono.  A  pr�pria  alma  de  Arthur  estava  se  contorcendo  em  completa paran�ia.</p><p>
Aquele  n�o  era  o  sil�ncio  do  sono.  Uma  campainha  soou.  Deram  uma  olhada  em um painel e viram que a campainha fora acionada por Prak.</p><p>
&#x2015; Ele n�o est� bem &#x2015; disse Trillian, preocupada. &#x2015; As risadas permanentes est�o destruindo completamente seu corpo.</p><p>
Os l�bios de Arthur voltaram a tremer, mas ele nada disse.</p><p>
&#x2015; Melhor irmos ver como ele est�.</p><p>
Trillian saiu da cabine revestida de sua express�o de extrema seriedade.</p><p>
&#x2015; Ele quer que voc� entre &#x2015; disse ela para Arthur, que estava com sua express�o de  completo  mau  humor.  Ele  enfiou  as  m�os  dentro  dos  bolsos  de  seu  roup�o  e  tentou pensar em alguma resposta que n�o fosse soar mesquinha.</p><p>
Aquilo lhe parecia tremendamente injusto, mas n�o conseguiu pensar em nada. &#x2015;</p><p>
Por favor &#x2015; disse Trillian.</p><p>
Ele  deu  de  ombros  e  entrou,  levando  sua express�o de  completo  mau  humor  com</p><p>
101</p><p>
ele, apesar da rea��o que isso sempre provocava em Prak.</p><p>
Olhou  para  o  seu  torturador,  que  estava  deitado  im�vel  na  cama,  p�lido  e combalido. Sua respira��o estava fraca. Ford e Zaphod estavam de p� ao lado da cama com uma cara estranha.</p><p>
&#x2015;  Voc�  queria  me  perguntar  algo  &#x2015;  disse  Prak  com  a  voz  fraca,  tossindo levemente.</p><p>
Apenas o fato de ele tossir j� deixava Arthur tenso, mas passou logo.</p><p>
&#x2015; Como voc� sabe disso? &#x2015; perguntou.</p><p>
Prak olhou para ele, cansado.</p><p>
&#x2015; Porque � verdade &#x2015; respondeu.</p><p>
Arthur entendeu.</p><p>
&#x2015; Sim &#x2015; acabou dizendo em uma fala arrastada e tensa. &#x2015; Eu tinha uma Pergunta. Ou melhor, o que eu tenho � uma Resposta. Eu queria saber qual era a Pergunta. Prak assentiu de forma simp�tica e Arthur relaxou um pouco.</p><p>
&#x2015;  Bem...  olha,  �  uma  longa  hist�ria  &#x2015;  disse  por  fim  &#x2015;,  mas  a  Pergunta  que  eu queria  conhecer  se  refere  �  Quest�o  Fundamental  sobre  a Vida,  o  Universo  e  Tudo  Mais. Tudo que sabemos � que a Resposta � 42, o que � um pouco irritante. Prak assentiu novamente.</p><p>
&#x2015; Quarenta e dois &#x2015; disse ele. &#x2015; Sim, � isso mesmo.</p><p>
Fez  uma  pausa.  Sombras  de  pensamentos  e  lembran�as  cruzaram  sua  face  como sombras de nuvens cruzando o solo.</p><p>
&#x2015;  Eu  lamento  dizer  &#x2015;  falou  por  fim  &#x2015;  que  a  Pergunta  e  a  Resposta  s�o mutuamente  exclusivas.  Por  l�gica,  o  conhecimento  de  uma  impede  o  conhecimento  da outra. � imposs�vel que ambas possam ser conhecidas no mesmo Universo. Fez outra pausa. O desapontamento surgiu no rosto de Arthur e foi se alojar em seu cantinho habitual.</p><p>
&#x2015;  Exceto  &#x2015;  disse  Prak,  fazendo  for�a  para  focalizar  um  pensamento  &#x2015;  que,  se isso acontecesse, creio que a Pergunta e a Resposta iriam se cancelar mutuamente e levar o Universo com elas. Ele seria, ent�o, substitu�do por algo ainda mais estranho e inexplic�vel. �  poss�vel  que  isso  j�  tenha  acontecido  &#x2015; acrescentou, com  um sorriso enfraquecido  &#x2015;, mas h� uma certa Incerteza a respeito disso.</p><p>
Um pequeno risinho perpassou-o levemente. Arthur sentou-se em um banquinho.</p><p>
&#x2015;  Ah,  bem  &#x2015;  disse,  resignado  &#x2015;,  eu  s�  estava  esperando  que  houvesse  alguma raz�o.</p><p>
&#x2015; Voc� conhece &#x2015; perguntou Prak &#x2015; a hist�ria da Raz�o? Arthur disse que n�o e Prak respondeu que j� sabia que n�o. Ele a contou.</p><p>
Uma  noite,  ele  disse,  uma  espa�onave  apareceu  no  c�u  de  um  planeta  que  nunca antes havia visto uma delas. O planeta era Dalforsas e a nave era aquela. Surgiu  como  uma  nova  e  brilhante  estrela  se movendo silenciosamente atrav�s do c�u.</p><p>
As pessoas das primitivas tribos que estavam sentadas nas encostas das Montanhas G�lidas olharam  para cima,  segurando  suas x�caras com bebidas fumegantes e apontaram, com  dedos  tr�mulos,  jurando  que  haviam  visto  um  sinal  de  seus  deuses  significando  que deveriam agora levantar-se e partir para massacrar os malignos Pr�ncipes das Plan�cies. Nas  altas  torres  de  seus  pal�cios,  os  Pr�ncipes  das  Plan�cies  olharam  para  cima  e viram a estrela brilhante, compreendendo que aquele era um sinal inequ�voco de seus deuses para que eles partissem e atacassem as malditas tribos das Montanhas G�lidas. Entre ambos, os Habitantes da Floresta olharam para o c�u e viram o sinal da nova estrela. Olharam para ela com medo e apreens�o porque, apesar de nunca terem visto nada assim, eles tamb�m sabiam exatamente que press�gio aquilo trazia e curvaram suas cabe�as</p><p>
102</p><p>
em desespero.</p><p>
Sabiam que, quando as chuvas vinham, era um sinal.</p><p>
Quando as chuvas paravam, era um sinal.</p><p>
Quando os ventos sopravam, era um sinal.</p><p>
Quando os ventos se aquietavam, era um sinal.</p><p>
Quando houvesse nascido na terra, � meia-noite em uma lua cheia, uma cabra com tr�s cabe�as, era um sinal.</p><p>
Quando  houvesse  nascido  na  terra,  em  uma  hora  qualquer,  um  gato  ou  porco perfeitamente  normal  sem  qualquer  complica��o,  ou  mesmo  uma  crian�a  com  um  nariz empinado, muitas vezes essas coisas tamb�m eram vistas como um sinal. Ent�o  n�o  havia  d�vida  alguma  de  que  uma  nova  estrela  no  c�u  era  um  sinal  de enorme magnitude.</p><p>
E cada novo sinal significava a mesma coisa &#x2015; que os Pr�ncipes das Plan�cies e as Tribos das Montanhas G�lidas estavam se preparando para arrancar o couro uns dos outros. Por  si  s�,  isso  n�o  seria  nada  demais,  exceto  que  os  Pr�ncipes  das  Plan�cies  e  as Tribos das Montanhas G�lidas sempre decidiam arrancar o couro uns dos outros na Floresta, e  a  pior  parte  dessas  lutas  sobrava  sempre  para  os  Habitantes  da  Floresta,  ainda  que,  at�</p><p>
onde eles conseguissem entender, n�o tivessem nada a ver com isso. E  algumas  vezes,  depois  dos  piores  desses  ultrajes,  os  Habitantes  da  Floresta enviavam um mensageiro para o l�der dos Pr�ncipes das Plan�cies ou para o l�der das Tribos das  Montanhas  G�lidas,  perguntando-lhes  qual  a  Raz�o  daquele  comportamento insuport�vel.</p><p>
E o l�der, fosse quem fosse, levava o mensageiro para um canto e lhe explicava a Raz�o,  lenta  e  cuidadosamente,  tendo  um  grande  cuidado  ao  explicar  todos  os  detalhes envolvidos.</p><p>
A coisa mais terr�vel era a seguinte: a raz�o era muito boa. Era clara, muito racional e  muito  dura.  O  mensageiro  abaixava  a  cabe�a,  consternado,  sentindo-se  tolo  por  n�o  ter percebido o qu�o duro e complexo era o mundo real, e qu�o enormes eram as dificuldades e paradoxos que precisavam ser defrontados para que fosse poss�vel viver nele.</p><p>
&#x2015; Voc� entende agora? &#x2015; dizia o l�der.</p><p>
O mensageiro concordava em sil�ncio.</p><p>
&#x2015; E voc� compreende que essas batalhas precisam ocorrer?</p><p>
Outra vez concordava em sil�ncio.</p><p>
&#x2015; E por que elas t�m que ocorrer na Floresta, no interesse de todos, inclusive dos Habitantes da Floresta?</p><p>
&#x2015; Eh...</p><p>
&#x2015; A longo prazo.</p><p>
&#x2015; Eh, sim.</p><p>
E o mensageiro de fato compreendia a Raz�o, e retornava para seu povo na Floresta. Contudo,  enquanto  se  aproximava  deles,  enquanto  atravessava  a  Floresta,  por  entre  as �rvores,  percebia  que  tudo  de  que  podia  se  lembrar  a  respeito  da  Raz�o  era  o  qu�o incrivelmente claro o argumento havia parecido.</p><p>
Qual era exatamente o argumento, isso ele nunca conseguia se lembrar. E  isso  era,  claro,  um  grande  consolo  quando  as  Tribos  e  os  Pr�ncipes  voltavam  a guerrear, cortando e queimando tudo em seu caminho atrav�s da Floresta e matando todos os Habitantes da Floresta que encontrassem.</p><p>
Prak fez uma pausa em sua hist�ria e tossiu.</p><p>
&#x2015; Eu fui o mensageiro &#x2015; disse ele &#x2015; ap�s as batalhas causadas pela apari��o de sua  nave,  que  foram  especialmente  selvagens.  Muitos de  nosso  povo morreram.  Acreditei que poderia trazer a Raz�o de volta. Fui at� o l�der dos Pr�ncipes, que a contou para mim,</p><p>
103</p><p>
mas no caminho de volta ela foi se desfazendo e sumindo em minha mente como neve sob o sol. Isso foi h� muitos anos e muitas outras coisas j� aconteceram desde ent�o. Olhou para Arthur e soltou outro risinho leve.</p><p>
&#x2015; H� uma coisa de que consigo me lembrar ap�s o soro da verdade. Al�m das r�s, e � a �ltima mensagem de Deus para sua cria��o. Voc�s gostariam de ouvi-la?</p><p>
Durante um breve momento, n�o sabiam se deviam lev�-lo a s�rio ou n�o.</p><p>
&#x2015; Mesmo &#x2015; disse ele. &#x2015; Estou falando s�rio.</p><p>
Seu  peito  arfava  com  dificuldade  e  lutava  para  respirar.  Sua  cabe�a  pendeu levemente para o lado.</p><p>
&#x2015;  N�o  fiquei  muito  impressionado  quando  soube  pela  primeira  vez  o  que  era  &#x2015;</p><p>
disse ele &#x2015;, mas agora, lembrando o qu�o impressionado eu fiquei pela Raz�o do Pr�ncipe e qu�o r�pido me esqueci dela, acho que poderia ser bem mais �til. Voc�s querem saber o que �? Querem?</p><p>
Todos concordaram em sil�ncio.</p><p>
&#x2015;  Achei  que  iriam  querer.  Se  voc�s  estiverem  interessados,  sugiro  que  procurem por  ela.  Est�  escrita  em  letras  chamejantes  de  nove  metros  no  topo  das  Montanhas  de Quentulus Quazgar na terra de Sevorbeupstry no planeta Preliumtarn, o terceiro a partir do sol Zarss no Setor Gal�ctico QQ7 Ativo J Gama. � guardado pela Laj�stica Vantraconcha de Lob.</p><p>
Houve um longo sil�ncio ap�s essa parte, finalmente quebrado por Arthur.</p><p>
&#x2015; Desculpe, onde mesmo voc� disse que estava?</p><p>
&#x2015; Est� escrita &#x2015; repetiu Prak &#x2015; em letras chamejantes de nove metros no topo das Montanhas  de  Quentulus  Quazgar  na  terra  de  Sevorbeupstry  no  planeta  Preliumtarn,  o terceiro a partir do...</p><p>
&#x2015; Desculpe &#x2015; repetiu Arthur &#x2015;, que montanhas?</p><p>
&#x2015; As Montanhas de Quentulus Quazgar na terra de Sevorbeupstry no planeta...</p><p>
&#x2015; Que terra voc� mencionou? N�o peguei bem essa parte.</p><p>
&#x2015; Sevorbeupstry, no planeta...</p><p>
&#x2015; Sevorbe... o qu�?</p><p>
&#x2015; Ah, que se dane &#x2015; disse Prak, e morreu em seguida. Nos dias seguintes, Arthur pensou um pouco sobre a tal mensagem, mas, no final das contas, decidiu que n�o iria se deixar  levar  por  ele  e  insistiu  em  prosseguir  com  seu  plano  original  de  encontrar  um agrad�vel  pequeno  mundo  onde  pudesse  se  assentar  e  levar  uma  vida  calma  e  isolada. Tendo  salvado  o  Universo  duas  vezes  no  mesmo  dia,  achou  que  podia  levar  as  coisas  de forma mais calma da� em diante.</p><p>
Eles  o  deixaram  no  planeta  Krikkit,  que  havia  voltado  a  ser  um  mundo  id�lico  e pastoral, mesmo que as m�sicas o irritassem um pouco.</p><p>
Passou muito tempo voando.</p><p>
Aprendeu  a  se  comunicar  com  as  aves  e  descobriu  que  a  conversa  delas  era incrivelmente chata. S� falavam sobre a velocidade do vento, envergadura das asas, rela��o for�a/peso e muitas coisas sobre frutinhas. Infelizmente ele tamb�m descobriu que, uma vez que  voc�  tenha  aprendido  o  passareado,  rapidamente  percebia  que  todo  o  ar  estava  cheio dele  o  tempo  todo,  nada  al�m  de  tagarelice  sem  sentido  entre  p�ssaros.  N�o  h�  como escapar.</p><p>
Foi por esse motivo que Arthur acabou desistindo desse esporte e aprendeu a viver no ch�o e gostar dele, apesar de tamb�m ouvir muita tagarelice sem sentido por l�. Um  dia,  estava  andando  pelos  campos  cantarolando  uma  ador�vel  melodia  que havia aprendido recentemente quando uma espa�onave prateada desceu do c�u e pousou na sua frente.</p><p>
Uma  escotilha  se  abriu,  uma  rampa  se  estendeu  e  um  alien�gena  alto  e  cinza 104</p><p>
esverdeado saiu l� de dentro e aproximou-se dele.</p><p>
&#x2015;  Arthur  Phili...  &#x2015;  disse,  ent�o  olhou  atentamente  para  ele  e  depois  para  a  sua prancheta. Franziu o rosto. Olhou novamente para ele.</p><p>
&#x2015; J� peguei voc� antes, n�o foi?</p><empty-line/><p>
105</p></section></body><binary id="cover" 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