<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>Douglas</first-name><last-name>Adams</last-name></author><book-title>O Guia do Mochileiro das Gal�xias</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>ru</lang></title-info><document-info><author><first-name>Douglas</first-name><last-name>Adams</last-name></author><program-used>calibre 0.9.27, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>16.4.2013</date><id>3b940fc4-c0d2-49e1-9126-8f5614440aac</id><version>1.0</version></document-info></description><body><section><p><image l:href="#1"/></p><p><image l:href="#2"/></p><p><strong/></p><empty-line/><p><strong>Adoramos Ler: </strong></p><p><strong>O Guia do Mochileiro das Gal�xias </strong></p><p><strong>Douglas Adams</strong></p><p><strong>s </strong></p><empty-line/><p>
Tradu��o de:</p><p>
Paulo Fernando Henriques Britto e Carlos Irineu da Costa</p><empty-line/><p>
�Para Johnny Brock e Clare Gorst e todo o pessoal de Arlington, que me deu ch�, dimpatia e um sof�.�</p><empty-line/><p><strong/></p><p><strong>Sobre a Digitaliza��o desta Obra: </strong></p><p>
Esta  obra  foi  digitalizada  para  proporcionar  de  maneira  totalmente gratuita  o  benef�cio  de  sua  leitura  �queles  que  n�o  podem  compr�-la  ou �queles  que  necessitam  de  meios  eletr�nicos  para ler. Dessa forma, a venda deste e-livro ou mesmo a sua troca por qualquer contrapresta��o � totalmente conden�vel em qualquer circunst�ncia.</p><p>
A generosidade � a marca da distribui��o, portanto:</p><p><strong>Distribua este livro livremente! </strong></p><p>
Se  voc�  tirar  algum  proveito  desta  obra,  considere  seriamente  a possibilidade de adquirir o original.</p><p><strong>Incentive o autor e a publica��o de novas obras! </strong></p><p><strong/></p><empty-line/><p>
Brasil, Outubro de 2004.</p><p><strong>Pref�cio </strong></p><p>
Desde tempos imemoriais houve menos que meia d�zia de mortais cujas mentes  foram  capazes  de  contemplar  o  universo  em  sua  totalidade:  Einstein, Hubble, Feynman e Douglas Adams s�o os nomes que surgem em meu c�rebro comparativamente  �nfimo  e  in�til.  Destes  poucos  g�nios  especiais,  Douglas Adams  �,  sem  d�vida,  o  pensador  mais  hilariantemente  original,  embora  seja consenso geral que Einstein era melhor dan�arino de funk.</p><p>
O  <emphasis>Guia do Mochileiro das Gal�xias </emphasis> come�ou sua hist�ria como uma s�rie de r�dio  e,  depois,  uma  compila��o  em  fita  cassete.  Transformado  em  livro, tornou-se  um  best-seller  mundial  e  foi  parar,  de  forma  curiosa,  na  televis�o brit�nica.</p><p>
Com  uma  galeria  de  personagens  bizarros  e tantas viradas abruptas na trama que voc� se sentir� em uma montanha-russa, O  <emphasis>Guia do Mochileiro </emphasis>�, sem d�vida, uma das mais criativas e c�micas hist�rias de aventura jamais escritas. Arthur Dent, um ingl�s azarado, escapa de um evento dram�tico - a destrui��o da  Terra  -,  gra�as  a  um  amigo  de  Betelgeuse  que,  enquanto  estava  ilhado  em nosso  planeta,  havia  se  disfar�ado  de  ator  desempregado.  Arthur  se  v�</p><p>
arrastado,  apesar  de  seus  protestos  hist�ricos  (bem,  "hist�rico"  dentro  da habitual  fleuma  brit�nica),  para  as  situa��es  mais  alucinadas  nos  pontos  mais distantes do tempo e do espa�o.</p><p>
O  que  realmente  sustenta  este  livro  hilariante,  atrav�s  de  sua  viagem freneticamente bizarra pela gal�xia rumo ao legend�rio planeta de Magrathea - e  al�m  -,  �  a  pergunta  profunda  sobre  o   <emphasis>porqu�. </emphasis> De  onde  viemos?  Por  que estamos aqui? Para onde vamos? Onde vamos almo�ar hoje?</p><p>
Al�m  disso,  enquanto  Arthur  tenta  se  entender  com  as  formas  de  vida mais  estranhas  e  os  nomes  ainda  mais  estranhos  dessas  formas  de  vida estranhas, nosso anti-her�i descobre a verdadeira hist�ria da Terra  <emphasis>e </emphasis> a resposta final  �  grande  pergunta  da  Vida,  do  Universo  e  Tudo  o  Mais.  No  geral,  um resultado bastante satisfat�rio, devo dizer.</p><p>
Mas o que torna a escrita de Douglas Adams t�o hipn�tica? Al�m do fato de  ser  considerado  por  muitos  como  "um  dos  autores  mais  perspicazes  de nossos  tempos",1  ele  tamb�m  se envolveu profundamente com a literatura e a ci�ncia.  A  leitura,  o  humor,  os  animais  selvagens  e  a  tecnologia  eram  suas grandes paix�es, e ele soube reunir esses interesses aparentemente disparatados com  toda  a  concis�o  e  energia  de  um  supercondutor  de  part�culas  at�micas, inundando seus leitores com um dil�vio feroz de hilariantes conceitos abstratos e teorias perversamente avan�adas. Voc� n�o precisa saber nada a respeito de f�sica  nuclear  ou  biologia  para  apreciar  sua  obfa;  por�m,  quanto  mais  souber, mais  agrad�veis  os  livros  se  tornar�o.  Um  exemplo  cl�ssico  �  o  engenhoso <emphasis>gerador  de  improbabilidade  infinita, </emphasis> que  impulsiona  a  nave  espacial  de  nossos her�is  por  todos  os  pontos  da  Gal�xia  em  um  �nico  instante.  Este  conceito diabolica-mente  inteligente  parece,  ao  menos  para  mim,  ser  diretamente derivado  do conceito de "abordagem de somat�rio atrav�s da hist�ria", ou da</p><p>
"abordagem  de  caminho  integral"  da  f�sica qu�n-tica, conforme concebido por Richard Feynman, ganhador do Pr�mio Nobel de 1965.2</p><p>
Adams  nasceu  no  enclave  acad�mico  de  Cambridge,  na  Inglaterra,  em 1952,  e  sempre  se  divertia  dizendo  que  ele  era  o  verdadeiro  "DNA"  (Douglas Noel Adams) original de Cambridge, tendo chegado ao mundo uns nove meses antes  que  Crick  e  Watson,  ganhadores  do  Pr�mio  Nobel,  anunciassem  sua descoberta  da  dupla-h�lice  do  DNA  em  um  pub  local  -  possivelmente  n�o muito diferente do pub em que os her�is do  <emphasis>Guia do Mochileiro, </emphasis> Ford Prefect e Arthur Dent, tomaram cerveja e comeram amendoins enquanto se preparavam para sua iminente partida de nosso planeta condenado.</p><p>
Sob  a  orienta��o  de  alguns  professores  particularmente  dedicados, Douglas Adams desenvolveu um intelecto privilegiado durante seu per�odo na escola.  O  que  lhe  faltou  em  termos  de  agilidade  f�sica  -  suas  dimens�es exageradas  fizeram  dele  um  elemento  perigoso  em  pistas  de  dan�a  e competi��es  esportivas  -,  ele  compensou  amplamente  com  seus  neur�nios �geis,  impressionando  seus  mestres  e  colegas  com  pensamentos  originais, introspec��es profundas e um humor avassalador.</p><p>
De  acordo  com  o  que  se  diz, Douglas Adams viveu para escrever, mas essa  vers�o  se  op�e  diretamente  �  sua  pr�pria  confiss�o  de  que  escrevia  "de forma  lenta  e  dolorosa".  Por  outro  lado,  h�  muitos  relatos  sobre  sua  "escrita como  a  arte  da  performance",  uma  habilidade  invej�vel  de  gerar  p�gina  ap�s p�gina  de  puro  brilhantismo,  com  um  editor  desesperado  e  exigente  bufando sobre  seus  ombros,  como  se  ele  fosse  um  m�gico  puxando  do  bolso  .uma corrente  infinita  de  len�os  coloridos.  Curiosamente,  mesmo  ap�s  ter  obtido sucesso internacional, tornou-se famoso nos c�rculos liter�rios por fazer  <emphasis>qualquer</emphasis><emphasis>coisa,  menos  escrever. </emphasis> Sua  impressionante  falta  de  autoconfian�a  ante  a  enorme evid�ncia de que era um g�nio muitas vezes chegou a incapacit�-lo a tal ponto que  simplesmente  n�o  conseguia  enfileirar  duas  palavras.  N�o  estava brincando totalmente quando disse: "Amo os prazos. Amo a press�o surda que geram  quando  se  aproximam."  Editoras  e  editores,  frustrados,  tentaram diversos  truques  inteligentes  para  fazer  com  que  sua  criatividade  flu�sse,  de forma  que  ele  conseguisse  terminar  seus  livros  a  tempo  de  coloc�-los  nas prateleiras antes da pr�xima era do gelo. Aparentemente, as melhores solu��es parecem ter sido tranc�-lo dentro de um cofre de banco ou ent�o dentro de um quarto  sem  janelas,  sem  telefone,  sem  fax,  sem  conex�o  com  a  Internet  -  sem nem mesmo uma portinhola de escape.</p><p>
Embora  este  livro  que  voc�  acaba  de  comprar  tenha  sido  um  sucesso imediato,  o  percurso  de  Douglas  Adams  jamais  foi  previs�vel.  Em  um determinado  momento,  com  suas  ocupa��es  liter�rias  temporariamente  "em suspenso", ele foi empregado como "limpador de galinheiros e guarda-costas da fam�lia  governante  de  Qatar".3  Depois  de  entrar  de  cara  em  numerosos  becos sem sa�da, finalmente encontrou seu lugar ao produzir a s�rie de r�dio da BBC</p><p>
em que este livro � baseado.</p><p>
Embora  declarasse  ser  "um  ateu  radical",  seus  livros  demonstram  um sentido claro e n�tido de justi�a e compaix�o universais. No in�cio achei isso um pouco  estranho  e  pensei  que  talvez  ele  estivesse  apenas  demonstrando  sua enorme  intelig�ncia  enquanto  debochava  da  crendice  pia  dos  fan�ticos religiosos,  mas  em  algum  momento  compreendi  o  que  ele  realmente  queria dizer. Uma posi��o radicalmente ateista pode at� significar que sua vida � uma corrida rumo ao esquecimento - mas ao menos voc� pode fazer isso com estilo. Como  voc�  se  comporta  hoje,  o que voc� faz com cada momento, como voc�</p><p>
explora os talentos e as oportunidades � sua disposi��o s�o coisas muito mais importantes  para  um  ateu  genu�no  do  que  para  os  devotos  mais  religiosos. Longe  de  perder  o  sentido,  o  que  voc�  faz  nesta  vida  subitamente  torna-se incrivelmente importante, j� que voc� s� tem essa  <emphasis>�nica </emphasis> possibilidade de fazer a coisa certa, de mudar alguma coisa, de contribuir de alguma forma para aqueles que voc� ama ou que seguir�o seus passos.</p><p>
Um  homem  apaixonado  em  suas  convic��es,  Adams  usou  sua import�ncia,  intelecto  e  tremenda  energia  para  contribuir  de  v�rias  formas. Com  seus  livros,  artigos,  apari��es  p�blicas  e  donativos,  Douglas  Adams inspirou</p><p>
mudan�as</p><p>
positivas</p><p>
e</p><p>
apoiou</p><p>
diversas  causas  significativas.  Sua  paix�o  por  animais  selvagens  nunca esteve mais presente do que quando viajou ao redor do mundo com o zo�logo Mark  Cawardine  para  documentar  as  esp�cies  em  risco  de  extin��o  para  seu maravilhoso  livro   <emphasis>Last  Chance  to  See  </emphasis>(Ultima  oportunidade  para  ver).  E  n�o parou  nisso,  pois  ele  seguiu  em  frente,  transformando-se  no  energ�tico  e carism�tico  patrono  tanto  do  Diana  Fossey  Goriila  Fund  quanto  do  Save  the Rhino  International.  Entre  suas  muitas  a��es  para  apoiar  este �ltimo, houve a famosa  vez  em  que  escalou  o  Kilimanjaro,  fantasiado  de  rinoceronte,  para ajudar a divulgar sua causa.</p><p>
Aparentemente n�o houve um assunto sequer sobre o qual n�o tenha se interessado.  Sua  cr�tica  social  afiada  �  recoberta  pelo  mais  fino  humor, tornando-se  por  vezes  �spera  e  adoravel-mente  ofensiva  de  uma  forma  que muitas vezes parece a n�s, australianos, ser essencialmente a nossa pr�pria. A educa��o,  ou  a  falta  dela,  freq�entemente  emergia  em  meio  a  seu descontentamento  de  v�rias  formas.  Tricia  Macmillan  (com  quem  voc�  ir�  se encontrar em breve) � provavelmente a mais espantosa celebra��o da subclasse intelectual oprimida que j� encontrei na fic��o contempor�nea. Ele tamb�m se preocupava muito em transmitir a id�ia de que os recursos naturais eram finitos  e  est�o  acabando,  com  avisos  ecol�gicos  ocultos  em  quase  tudo  que escreveu.</p><p>
A  tecnologia  era  uma  enorme  paix�o  de  Douglas  Adams,  que provavelmente  possuiu  e  usou  mais  computadores  da  marca  Apple  do  que qualquer outra pessoa, a n�o ser talvez o pr�prio Steve Jobs. Ele era um tanto peculiar  nesse  ponto,  pois  achava  que  a  tecnologia  poderia  ser  usada  para salvar nosso planeta de quase todos os males, incluindo o t�dio e a extin��o da esp�cie. Essa no��o o colocava em franca oposi��o com muitos conservadores mais prosaicos, os quais ansiavam pelo retorno das carro�as puxadas a cavalo, talvez para que o ru�do agrad�vel dos cascos batendo ao longe os distra�sse do aumento  exponencial  nas  emiss�es  de  gases  que  causam  o  efeito  estufa.  Ele lutou  at�  o  fim  pela  vis�o  de  que  as  novas  tecnologias  s�o  a  extens�o  mais natural da mente humana.</p><p>
Como  um  todo,  Douglas  Adams  era  um  indiv�duo  extraordin�rio,  que deixou  um  enorme  vazio  nesta  dimens�o  quando  morreu  subitamente  de  um ataque card�aco, no dia 11 de maio de 2001. Muitas pessoas sentem uma enorme falta dele, mesmo aquelas como eu que nunca apertaram sua m�o. Depois de ler este livro voc� entender� o porqu�.</p><p>
Esta  edi��o  da  Editora  Sextante  do   <emphasis>Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias  </emphasis> tem sido  esperada  por  um  longo  tempo.  Contudo,  dentro  de  umas  100  p�ginas, estou  certo  de  que  voc�  concordar�  comigo  que  a  espera  valeu  a  pena.  A genialidade  de  Douglas  Adams  e  a  forma  como  ele  usa  as  situa��es  mais absurdas para nos fazer rir certamente encontrar�o ecos no amor pela vida e no bom humor que meus amigos brasileiros t�m de sobra.</p><p>
Divirta-se!.</p></section><section><p><strong>BRADLEY TREVOR GREIVE </strong></p><p>
Autor de  <emphasis>Um Dia "Daqueles" </emphasis></p><p><emphasis/></p><p><emphasis/></p><p>
1  Richard Dawkins.  <emphasis>The Guardian, </emphasis> 14 de maio de 2001. 2  John  &amp;  Mary  Gribbin.  <emphasis>Richard  Feynman:  Uma  vida  na  ci�ncia, </emphasis> Viking, 1997.</p><p>
3 Nicholas Wroe.  <emphasis>The Guardian, </emphasis> junho 3, 2000.</p><p><emphasis>Muito al�m, nos confins inexplorados da regi�o mais brega da Borda Ocidental desta</emphasis><emphasis>Gal�xia, h� um pequeno sol amarelo e esquecido. </emphasis></p><p><emphasis>Girando  em  torno  deste  sol,  a  uma  dist�ncia  de  cerca  de  148  milh�es  de</emphasis><emphasis>quil�metros,  h�  um  planetinha  verde-azulado  absolutamente  insignificante,  cujas</emphasis><emphasis>formas de vida, descendentes de pri-matas, s�o t�o extraordinariamente primitivas que</emphasis><emphasis>ainda acham que rel�gios digitais s�o uma grande id�ia.</emphasis><emphasis>Este  planeta  tem  -  ou  melhor,  tinha  -  o  seguinte  problema:  a  maioria  de  seus</emphasis><emphasis>habitantes  estava  quase  sempre  infeliz.  Foram  sugeridas  muitas  solu��es  para  esse</emphasis><emphasis>problema,  mas  a  maior  parte  delas  dizia  respeito  basicamente  �  movimenta��o  de</emphasis><emphasis>pequenos peda�os de papel colorido com n�meros impressos, o que � curioso, j� que no</emphasis><emphasis>geral n�o eram os tais peda�os de papel colorido que se sentiam infelizes.</emphasis><emphasis>E  assim  o  problema  continuava  sem  solu��o.  Muitas  pessoas  eram  m�s,  e  a</emphasis><emphasis>maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham rel�gios digitais.</emphasis><emphasis>Um n�mero cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terr�vel</emphasis><emphasis>da esp�cie descer das �rvores. Algumas diziam que at� mesmo subir nas �rvores tinha</emphasis><emphasis>sido uma p�ssima id�ia, e que ningu�m jamais deveria ter sa�do do mar.</emphasis><emphasis>E,  ent�o,  uma  quinta-feira,  quase  dois  mil  anos  depois  que  um  homem  foi</emphasis><emphasis>pregado num peda�o de madeira por ter dito que seria �timo se as pessoas fossem legais</emphasis><emphasis>umas  com  as  outras  para  variar,  uma  garota,  sozinha  numa  pequena  lanchonete  em</emphasis><emphasis>Rickmansworth,  de  repente  compreendeu  o  que  tinha  dado  errado  todo  esse  tempo  e</emphasis><emphasis>finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez</emphasis><emphasis>estava tudo certo, ia funcionar, e ningu�m teria que ser pregado em coisa nenhuma.</emphasis><emphasis>Infelizmente,  por�m,  antes  que  ela pudesse telefonar para algu�m e contar sua</emphasis><emphasis>descoberta,  aconteceu  uma  cat�strofe  terr�vel  e  idiota,  e  a  id�ia  perdeu-se  para  todo  o</emphasis><emphasis>sempre. </emphasis></p><p><emphasis>Esta n�o � a hist�ria dessa garota. </emphasis></p><p><emphasis>�  a  hist�ria  daquela  cat�strofe  terr�vel  e  idiota,  e  de  algumas  de  suas</emphasis><emphasis>conseq��ncias. </emphasis></p><p><emphasis>�  tamb�m  a  hist�ria  de  um  livro,  chamado  </emphasis> O  Guia  do  Mochileiro  das Gal�xias -  <emphasis>um livro que n�o � da Terra, jamais foi publicado na Terra e, at� o dia em</emphasis><emphasis>que  ocorreu  a  terr�vel  cat�strofe,  nenhum  terr�queo  jamais  o  tinha  visto  ou  sequer</emphasis><emphasis>ouvido falar dele. </emphasis></p><p><emphasis>Apesar disso, � um livro realmente extraordin�rio. </emphasis></p><p><emphasis>Na verdade, foi provavelmente o mais extraordin�rio dos livros publicados pelas</emphasis><emphasis>grandes editoras de Ursa Menor - editoras das quais nenhum terr�queo jamais ouvira</emphasis><emphasis>falar, tamb�m. </emphasis></p><p>
O  <emphasis>livro � n�o apenas uma obra extraordin�ria como tamb�m um tremendo best-</emphasis><emphasis>seller  -  mais  popular  que  a  </emphasis> Enciclop�dia  Celestial  do  Lar,  <emphasis>mais  vendido  que  </emphasis> Mais Cinq�enta e Tr�s Coisas para se Fazer em Gravidade Zero,  <emphasis>e mais pol�mico que a</emphasis><emphasis>colossal  trilogia  filos�fica  de  Oolonn  Colluphid, </emphasis> Onde  Deus  Errou,  Mais  Alguns Grandes Erros de Deus  <emphasis>e </emphasis> Quem � Esse Tal de Deus Afinal?</p><p><emphasis>Em muitas das civiliza��es mais tranq�ilonas da Borda Oriental da Gal�xia, </emphasis> O</p><p>
Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias   <emphasis>j�  substituiu  a  grande  </emphasis> Enciclop�dia  Gal�ctica <emphasis>como  reposit�rio-padr�o  de  todo  conhecimento  e  sabedoria,  pois  ainda  que  contenha</emphasis><emphasis>muitas  omiss�es  e  textos  ap�crifos,  ou  pelo  menos  terrivelmente  incorretos,  ele  � </emphasis></p><p><emphasis>superior � obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes.</emphasis><emphasis>Em primeiro lugar, � ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa</emphasis><emphasis>na capa, em letras garrafais e amig�veis, a frase N�O ENTRE EM P�NICO.</emphasis><emphasis>Mas  a  hist�ria  daquela  quinta-feira  terr�vel  e  idiota,  a  hist�ria  de  suas</emphasis><emphasis>extraordin�rias  conseq��ncias,  a  hist�ria  das  interliga��es  inextric�veis  entre  estas</emphasis><emphasis>conseq��ncias e este livro extraordin�rio - tudo isso teve um come�o muito simples.</emphasis><emphasis>Come�ou com uma casa. </emphasis></p><p><strong>Cap�tulo 1 </strong></p><p><strong/></p><p>
A casa ficava numa pequena colina bem nos limites de uma vila, isolada. Dela se tinha uma ampla vista das fazendas do oeste da Inglaterra. N�o era, de modo  algum,  uma  casa  excepcional  -  tinha  cerca  de  30  anos,  era  achatada, quadrada,  feita  de  tijolos,  com  quatro  janelas  na  frente,  cujo  tamanho  e propor��es  pareciam  ter  sido  calculados  mais  ou  menos  exatamente  para desagradar a vista.</p><p>
A �nica pessoa para quem a casa tinha algo de especial era Arthur Dent, e assim mesmo s� porque ele morava nela. J� morava l� h� uns tr�s anos, desde que  resolvera  sair  de  Londres  porque  a  cidade  o  deixava  nervoso  e  irritado. Tamb�m tinha cerca de 30 anos; era alto, moreno e quase nunca estava em paz consigo mesmo. O que mais o preocupava era o fato de que as pessoas viviam lhe  perguntando  por  que  ele  parecia  estar  t�o  preocupado.  Trabalhava  na esta��o de r�dio local, e sempre dizia aos amigos que era um trabalho bem mais interessante do que eles imaginavam. E era, mesmo - a maioria de seus amigos trabalhava em publicidade.</p><p>
Na noite de quarta-feira tinha ca�do uma chuva forte, e a estrada estava enlameada e molhada, mas na manh� de quinta um sol intenso e quente brilhou sobre a casa de Arthur Dent pelo que seria a �ltima vez.</p><p>
Arthur  ainda  n�o  havia  conseguido  enfiar  na  cabe�a  que  o  conselho municipal queria derrub�-la e construir um desvio no lugar dela. �s  oito  horas  da  manh�  de  quinta-feira,  Arthur  n�o  estava  se  sentindo muito bem. Acordou com os olhos turvos, levantou-se, andou pelo quarto sem enxergar direito, abriu uma janela, viu um trator, encontrou os chinelos e foi at�</p><p>
o banheiro.</p><p>
Pasta na escova de dentes - assim. Escovar.</p><p>
Espelho m�vel - virado para o teto. Arthur ajustou-o. Por um momento, o espelho refletiu um segundo trator pela janela do banheiro. Arthur reajustouo, e o espelho passou a refletir o rosto barbado de Arthur Dent. Ele fez a barba, lavou  o  rosto,  enxugou-o  e  foi  at�  a  cozinha  em  busca  de  alguma  coisa agrad�vel para p�r na boca.</p><p>
Chaleira, tomada, geladeira, leite, caf�. Bocejo.</p><p>
A  palavra   <emphasis>trator  </emphasis> vagou  por  sua  mente,  procurando  algo  com  o  que  se associar.</p><p>
O trator que estava do outro lado da janela da cozinha era dos grandes. Arthur olhou para ele.</p><p>
"Amarelo",  pensou,  e  voltou  ao  quarto  para  se  vestir.  Ao  passar  pelo banheiro,  parou  para  tomar  um  copo  d'�gua,  e  depois  outro.  Come�ou  a desconfiar  que  estava de ressaca. Por que a ressaca? Teria bebido na v�spera?</p><p>
Imaginava que sim. Olhou de relance para o espelho m�vel. "Amarelo", pensou, e foi para o quarto.</p><p>
Ficou parado, pensando. "O bar", pensou. "Ah, meu Deus, o bar." Tinha uma  vaga  lembran�a  de  ter  ficado  irritado  com  algo  que  parecia  importante. Falara  com  as  pessoas  a  respeito,  e  na  verdade  come�ava  a  achar  que  tinha falado  demais:  a  imagem  mais  n�tida  em  sua  mem�ria  era  a  dos  rostos entediados  das  pessoas  a  seu  redor.  Tinha  algo  a  ver  com  um  desvio  a  ser constru�do, e ele acabara de descobrir isso. A obra estava planejada h� meses, s�</p><p>
que ningu�m sabia de nada. Rid�culo. Arthur tomou um gole d'�gua. "A coisa ia se  resolver;  ningu�m  queria  aquele  desvio,  o  conselho  estava  completamente sem raz�o. A coisa ia se resolver", pensou ele.</p><p>
Mas  que  ressaca  terr�vel. Olhou-se no espelho do arm�rio. P�s a l�ngua para  fora.  "Amarelo",  pensou.  A  palavra   <emphasis>amarelo  </emphasis> vagou  por  sua  mente, procurando algo com o que se associar.</p><p>
Quinze segundos depois, Arthur estava fora da casa, deitado no ch�o, na frente de um trator grande e amarelo que avan�ava por cima de seu jardim. O Sr. L. Prosser era, como dizem, apenas humano. Em outras palavras, era uma forma de vida b�pede baseada em carbono e descendente de primatas. Para ser mais espec�fico, ele tinha 40 anos, era gordo e desleixado e trabalhava no conselho municipal. Curiosamente, embora ele desconhecesse este fato, era tamb�m descendente direto, pela linhagem masculina, de Gengis Khan, embora a sucess�o de gera��es e a mesti�agem houvessem misturado de tal modo sua carga gen�tica que ele n�o possu�a nenhuma caracter�stica mongol, e os �nicos vest�gios daquele majestoso ancestral que restavam no Sr. L. Prosser eram uma barriga pronunciada e uma predile��o por chapeu-zinhos de pele. Ele  n�o  era  em  absoluto  um  grande  guerreiro:  na  verdade,  era  um homem  nervoso  e  preocupado.  Naquele  dia  estava  particularmente  nervoso  e preocupado  porque  tivera  um  problema  s�rio  com  seu  trabalho,  que  consistia em retirar a casa de Arthur Dent do caminho antes do final da tarde.</p><p>
- Desista, Sr. Dent, o senhor sabe que � uma causa perdida. O senhor n�o vai conseguir ficar deitado na frente do trator o resto da vida. - Tentou assumir um olhar feroz, mas seus olhos n�o eram capazes disso.</p><p>
Deitado na lama, Arthur respondeu:</p><p>
- Est� bem. Vamos ver quem � mais chato.</p><p>
-  Infelizmente, o senhor vai ter que aceitar - disse o Sr. Prosser, rodando seu chap�u de pele no alto da cabe�a. - Esse desvio tem que ser constru�do e vai ser constru�do!</p><p>
-  Primeira  vez  que  ou�o  falar  nisso.  Por  que  �  que  tem  que  ser constru�do?</p><p>
O  Sr.  Prosser  sacudiu  o  dedo  para  Arthur  por  algum  tempo,  depois parou e retirou o dedo.</p><p>
- Como assim, "por que deve ser constru�do"? Oral - exclamou ele. - � um desvio. � necess�rio construir desvios.</p><p>
Os  desvios  s�o  vias  que  permitem  que  as  pessoas  se  desloquem  bem depressa  do  ponto  A  ao  ponto  B  ao  mesmo  tempo  que  outras  pessoas  se deslocam  bem  depressa  do  ponto  B  ao  ponto  A.  As  pessoas  que  moram  no ponto  C,  que  fica  entre  os  dois  outros,  muitas  vezes  ficam  imaginando  o  que tem  de  t�o  interessante  no  ponto  A  para  que  tanta  gente  do  ponto  B  queira muito ir para l�, e o que tem de t�o interessante no ponto B para que tanta gente do  ponto  A  queira  muito  ir  para  l�.  Ficam  pensando  como  seria  bom  se  as pessoas resolvessem de uma vez por todas onde � que elas querem ficar. O Sr. Prosser queria fica no ponto D. Este ponto n�o ficava em nenhum lugar espec�fico, era apenas um ponto qualquer bem longe dos pontos A, B e C. O  Sr.  Prosser  teria  uma  bela  casinha  de  campo  no  ponto  D,  com  machados pregados  em  cima  da  porta,  e  se  divertiria  muito  no  ponto  E,  o  bar  mais pr�ximo do ponto D. Sua mulher, naturalmente, queria uma roseira trepadeira, mas  ele  queria  machados.  Ele  n�o  sabia  por  qu�.  S�  sabia  que  gostava  de machados.  O  Sr.  Prosser  sentiu  seu  rosto  ficar  vermelho  ante  aos  sorrisos ir�nicos dos operadores do trator.</p><p>
Apoiou o peso do corpo numa das pernas, depois na outra, mas sentiu-se igualmente  desconfort�vel  com  as  duas.  Era  �bvio  que  algu�m  havia  sido terrivelmente incompetente, e ele pedia a Deus que n�o fosse ele.</p><p>
-    O  senhor  teve  um  longo  prazo  a  seu  dispor  para  fazer  quaisquer sugest�es ou reclama��es, como o senhor sabe -disse o Sr. Prosser.</p><p>
- Um longo prazo? - exclamou Arthur. - Longo prazo? Eu s� soube dessa hist�ria  quando  chegou  um  oper�rio  na  minha  casa  ontem.  Perguntei  a  ele se tinha vindo para lavar as janelas e ele respondeu que n�o, vinha para demolir a casa. � claro que n�o me disse isso logo. Claro que n�o. Primeiro lavou umas duas janelas e me cobrou cinco pratas. Depois � que me contou.</p><p>
- Mas, Sr. Dent, o projeto estava � sua disposi��o na Secretaria de Obras h� nove meses.</p><p>
-  Pois �. Assim que eu soube fui l� me informar, ontem � tarde. Voc�s n�o  se  esfor�aram  muito  para  divulgar  o  projeto,  n�o  �  verdade?  Quer  dizer, n�o chegaram a comunicar �s pessoas nem nada.</p><p>
- Mas o projeto estava em exposi��o...</p><p>
- Em exposi��o? Tive que descer ao por�o pra encontrar o projeto.</p><p>
- � no por�o que os projetos ficam em exposi��o.</p><p>
- Com uma lanterna.</p><p>
- Ah, provavelmente estava faltando luz.</p><p>
- Faltavam as escadas, tamb�m.</p><p>
- Mas, afinal, o senhor encontrou o projeto, n�o foi?</p><p>
-    Encontrei,  sim  -  disse  Arthur.  -  Estava  em  exibi��o  no  fundo  de  um arquivo  trancado,  jogado  num  banheiro  fora  de  uso,  cuja  porta  tinha  a  placa: <emphasis>Cuidado com o leopardo. </emphasis></p><p>
Uma  nuvem  passou  no  c�u.  Projetou  uma  sombra  sobre  Arthur  Dent, deitado na lama fria, apoiado no cotovelo. Projetou uma sombra sobre a casa de Arthur Dent. O Sr. Prosser olhou-a, de cara feia.</p><p>
- N�o chega a ser uma casa particularmente bonita.</p><p>
- Perd�o, mas por acaso gosto dela.</p><p>
- O senhor vai gostar do desvio.</p><p>
-  Ah,  cale  a  bocal  Cale  a  boca  e  v�  embora,  voc�  e  a  porcaria  do  seu desvio. Voc� sabe muito bem que est� completamente sem raz�o. A  boca  do  Sr.  Prosser  abriu-se  e  fechou-se  umas  duas  vezes,  enquanto por  uns  momentos  seu  c�rebro  foi  invadido  por  vis�es  inexplic�veis,  por�m terrivelmente  atraentes:  via  a  casa  de  Arthur  Dent  sendo  consumida  pelas chamas,  enquanto  o  pr�prio  Arthur  corria  aos  gritos  do  inc�ndio,  com  pelo menos  tr�s lan�as bem compridas enfiadas em suas costas. Vis�es como essas freq�entemente perturbavam o Sr. Prosser e o deixavam nervoso. Gaguejou por uns instantes e depois recuperou a calma.</p><p>
- Sr. Dent.</p><p>
- Sim? O que �?</p><p>
-  Gostaria  de  ressaltar  alguns  fatos  para  o  senhor.  O  senhor  sabe  que danos esse trator sofreria se eu deixasse ele passar por cima do senhor?</p><p>
- O qu�?</p><p>
-  Absolutamente  zero  -  disse  o  Sr.  Prosser,  afastando-se  rapidamente, nervoso, sem entender por que seu c�rebro estava cheio de cavaleiros cabeludos que gritavam com ele.</p><p>
Por  uma  curiosa  coincid�ncia,  "absolutamente  zero"  era  o  quanto  o descendente dos primatas Arthur Dent suspeitava que um de seus amigos mais �ntimos  n�o  descendia  dos  primatas,  sendo,  na  verdade,  de  um  pequeno planeta perto de Betelgeuse, e n�o de Guildford, como costumava dizer. Tal suspeita jamais passara pela cabe�a de Arthur Dent.</p><p>
Esse  seu  amigo  havia  chegado  ao  planeta  Terra  h�  uns  15  anos terr�queos  e  se  esfor�ara  ao  m�ximo  no  sentido  de  se  integrar  na  sociedade terr�quea  -  com  certo  sucesso,  deve-se  reconhecer.  Assim,  por  exemplo,  ele passara  esses  15  anos  fingindo  ser  um  ator  desempregado,  o  que  era perfeitamente plaus�vel.</p><p>
Por�m cometera um erro gritante, por ter sido um pouco displicente em suas pesquisas preparat�rias. As informa��es de que ele dispunha o levaram a escolher  o  nome  "Ford  Prefect",  achando  que  era  um  nome  bem  comum,  que passaria despercebido.</p><p>
N�o era alto a ponto de chamar aten��o, e suas fei��es eram atraentes, mas  n�o  a  ponto  de  chamar  a  aten��o.  Seus  cabelos  eram  avermelhados  e crespos e ele os penteava para tr�s. Sua pele parecia ter sido puxada a partir do nariz. Havia algo de ligeiramente estranho nele, mas era algo muito sutil, dif�cil de  identificar.  Talvez  os  olhos  dele  piscassem  menos  que  o  normal,  de  modo que  quem  ficasse  conversando  com  ele  algum  tempo  acabava  com  os  olhos cheios d'�gua de afli��o. Talvez o sorriso dele fosse um pouco largo demais e desse a sensa��o desagrad�vel de que estava prestes a morder o pesco�o de seu interlocutor.</p><p>
Para a maioria dos amigos que fizera na Terra era um sujeito exc�ntrico, por�m  inofensivo:  um  beberr�o  com  alguns  h�bitos  meio  estranhos.  Por exemplo, ele costumava entrar de penetra em festas na universidade, tomar um porre colossal e depois come�ava a gozar qualquer astrof�sico que encontrasse, at� que o expulsassem da festa.</p><p>
�s  vezes  ele  ficava  desligado,  olhando  distra�do  para  o  c�u,  como  se estivesse hipnotizado, at� que algu�m lhe perguntava o que ele estava fazendo. Ent�o,  por  um  instante,  Ford  ficava  assustado,  com  um  ar  culpado,  mas  logo relaxava e sorria.</p><p>
- Ah, estou s� procurando discos voadores - brincava, e todo mundo ria e lhe  perguntava  que  tipo  de  discos  voadores  ele  estava  procurando.  -  Dos verdes!  -  ele  respondia  com  um  sorriso  ir�nico,  depois  ria  �s gargalhadas por alguns  instantes  e  da�  corria  at�  o  bar  mais  pr�ximo  e  pagava  uma  enorme rodada de bebidas.</p><p>
Essas noites normalmente terminavam mal. Ford tomava u�sque at� ficar totalmente b�bado, se encolhia num canto com uma garota qualquer e dizia a ela, com voz pastosa, que na verdade a cor dos discos voadores n�o tinha muita import�ncia.</p><p>
Depois,  cambaleando  meio  torto  pelas  ruas,  de  madrugada,  com freq��ncia perguntava aos policiais que passavam como se ia para Betelgeuse. Os policiais normalmente diziam algo assim:</p><p>
- O senhor n�o acha que � hora de ir pra casa?</p><p>
-  � o que eu estou tentando fazer, meu chapa, estou tentando - era o que Ford sempre respondia nessas ocasi�es.</p><p>
Na verdade, o que ele realmente procurava quando ficava olhando para o  c�u  era  qualquer  tipo  de  discos  voadores.  Ele  falava  em  discos  voadores verdes  porque  o  verde  era  a  cor  tradicional  do  uniforme  dos  astronautas mercantes de Betelgeuse.</p><p>
Ford Prefect j� havia perdido as esperan�as de que aparecesse um disco voador  porque  15  anos  �  muito  tempo  para  ficar  preso  em  qualquer  lugar, principalmente num lugar t�o absurdamente chato quanto a Terra. Ford queria que chegasse logo um disco voador porque sabia fazer sinal para  discos  voadores  descerem  e  porque  queria  pegar  carona  num  deles.  Ele sabia  ver  as  Maravilhas  do  Universo  por  menos  de  30  d�lares  altairianos  por dia.</p><p>
Na verdade, Ford Prefect era pesquisador de campo desse fabuloso livro chamado O  <emphasis>Guia do Mochileiro das Gal�xias. </emphasis></p><p>
Os  seres  humanos  se  adaptam  a  tudo  com  muita  facilidade.  Assim, quando chegou a hora do almo�o, nos arredores da casa de Arthur j� havia se estabelecido uma rotina. O papel de Arthur era o de ficar se espojando na lama, pedindo  de  vez  em  quando  que  chamassem  seu  advogado,  sua  m�e  ou  lhe trouxessem  um  bom  livro.  O  Sr.  Prosser  ficou  com  o  papel  de  tentar  novas t�ticas de persuas�o com Arthur de vez em quando, usando o papo do Para o Bem de Todos, o da Marcha Inevit�vel do Progresso, o de Sabe que Uma Vez Derrubaram  Minha  Casa  Tamb�m  mas  Continuei  com  Minha  Vida Normalmente,  bem  como  diversos  outros  tipos  de  propostas  e  amea�as.  O</p><p>
papel dos operadores dos tratores, por sua vez, era o de ficar sentado, tomando caf� e examinando a legisla��o trabalhista para ver se havia um jeito de ganhar um extra com aquela situa��o.</p><p>
A Terra seguia lentamente em sua �rbita cotidiana.</p><p>
O sol estava come�ando a secar a lama em que Arthur estava deitado. Uma sombra passou por ele novamente.</p><p>
- Oi, Arthur - disse a sombra.</p><p>
Arthur  olhou  para  cima  com  uma  careta,  por  causa  do  sol,  e surpreendeu-se ao ver Ford Prefect em p� a seu lado.</p><p>
- Ford] Tudo bem com voc�?</p><p>
- Tudo bem - disse Ford. - Escute, voc� est� ocupado?</p><p>
-  Se  estou   <emphasis>ocupado? </emphasis>-exclamou  Arthur.  -  Bem,  tenho  apenas  que  ficar deitado  na  frente  desses  tratores  todos  sen�o  eles  derrubam  minha  casa,  mas afora isso... bem, nada de especial. Por qu�?</p><p>
Em  Betelgeuse  n�o  existe  sarcasmo,  por  isso  Ford  muitas  vezes  n�o  o percebia, a menos que estivesse prestando muita aten��o.</p><p>
- �timo - disse ele. - Onde a gente pode conversar?</p><p>
- O qu�? - exclamou Arthur Dent.</p><p>
Por alguns segundos, Ford pareceu ignor�-lo, e ficou olhando fixamente para  o  c�u,  como  um  coelho  que  est�  querendo  ser  atropelado  por  um  carro. Ent�o, de repente, acocorou-se ao lado de Arthur.</p><p>
- Precisamos conversar - disse, num tom de urg�ncia.</p><p>
- Tudo bem - disse Arthur. - Pode falar.</p><p>
- E beber. Temos que conversar e beber, � uma quest�o de vida ou morte. Agora. Vamos ao bar l� na vila.</p><p>
Olhou para o c�u de novo, nervoso, como se esperasse algo.</p><p>
-  Escute,  ser�  que  voc�  n�o  entende?  -  gritou  Arthur,  apontando  para Prosser. - Esse homem quer demolir a minha casa!</p><p>
Ford olhou para o homem, confuso.</p><p>
- Ele pode fazer isso sem voc�, n�o �?</p><p>
- Mas eu n�o quero que ele fa�a isso! -Ah.</p><p>
- Escute, o que � que voc� tem, Ford?</p><p>
-    Nada.  Nada  de  mais.  Escute...  eu  tenho  que  lhe  dizer  a  coisa  mais importante que voc� j� ouviu. Tenho que lhe dizer isso agora e tem que ser l�</p><p>
no bar Horse and Groom.</p><p>
- Mas por qu�?</p><p>
- Porque voc� vai precisar beber algo bem forte.</p><p>
Ford olhou para Arthur, e este constatou, at�nito, que estava come�ando a  se  deixar  convencer.  N�o  percebeu,  �  claro,  que  foi  por  causa  de  um  velho jogo de botequim que Ford aprendera nos portos hiperespaciais que serviam as regi�es de minera��o de madranita no sistema estelar de Beta de �rion. O jogo era vagamente parecido com a queda-de-bra�o dos terr�queos e funcionava assim:</p><p>
Os dois advers�rios sentavam-se a uma mesa, um de cara para o outro, cada um com um copo � sua frente.</p><p>
Entre os dois colocava-se uma garrafa de Aguardente Janx (imortalizada naquela  velha  can��o  dos  mineiros  de  �rion:  'Ah,  n�o  me  d�  mais  dessa Aguardente  Janx/  N�o,  n�o  me  d�  mais  um  gole  de  Aguardente  Janx/  Sen�o minha cabe�a vai partir, minha l�ngua vai mentir, meus olhos v�o ferver e sou capaz de morrer/ Vai, me d� um golinho de Aguardente Janx"). Ent�o,  cada  lutador  tentava  concentrar  sua  for�a  de  vontade  sobre  a garrafa para inclin�-la e verter aguardente no copo do advers�rio, que ent�o era obrigado a beb�-la.</p><p>
Ent�o enchia-se a garrafa de novo, come�ava uma nova rodada, e assim por diante.</p><p>
Quem come�ava perdendo normalmente acabava perdendo, porque um dos efeitos da Aguardente Janx � deprimir o poder teleps�quico. Assim  que  se  consumia  uma  quantidade  previamente  estabelecida,  o perdedor era obrigado a pagar uma prenda, que costumava ser obscenamente biol�gica.</p><p>
Ford Prefect normalmente jogava para perder.</p><p>
Ford  olhou  para  Arthur,  que  estava  come�ando  a  pensar  que  talvez quisesse mesmo ir at� o Horse and Groom.</p><p>
- Mas e a minha casa...? - perguntou, em tom de queixa. Ford olhou para o Sr. Prosser e de repente lhe ocorreu uma</p><p>
id�ia maliciosa.</p><p>
- Ele quer demolir a sua casa?</p><p>
- �, ele quer construir...</p><p>
- E n�o pode porque voc� est� deitado na frente do trator dele? -�,e...</p><p>
- Aposto que podemos chegar a um acordo - disse Ford. -Com licen�a! - gritou ele para o Sr. Prosser.</p><p>
O Sr. Prosser (que estava discutindo com o porta-voz dos operadores dos tratores  se  a  presen�a  de  Arthur  Dent  constitu�a  ou  n�o  um  fator  de insalubridade mental no local de trabalho e quanto eles deveriam receber neste caso) olhou em volta. Ficou surpreso e ligeiramente alarmado quando viu que Arthur estava acompanhado.</p><p>
- Sim? Que foi? - perguntou. - O Sr. Dent j� voltou ao normal?</p><p>
- Ser� que podemos supor, para fins de discuss�o - perguntou Ford -, que ainda n�o?</p><p>
- E da�? - suspirou o Sr. Prosser.</p><p>
- E podemos tamb�m supor - prosseguiu Ford - que ele vai ficar a� o dia inteiro?</p><p>
- E ent�o?</p><p>
-  Ent�o todos os seus ajudantes v�o ficar parados a� sem fazer nada o dia todo?</p><p>
-Talvez, talvez...</p><p>
- Bem, se o senhor j� se resignou a n�o fazer nada, o senhor na verdade n�o precisa que ele fique deitado aqui o tempo todo, n�o �?</p><p>
- O qu�?</p><p>
-  O  senhor,  na  verdade  -  repetiu  Ford,  paciente  -,  n�o  precisa  que  ele fique aqui.</p><p>
O Sr. Prosser pensou um pouco.</p><p>
-    Bem,  �,  n�o  exatamente...  <emphasis>Precisar, </emphasis> n�o preciso, n�o... - disse Prosser, preocupado, por achar que ele, ou Ford, estava dizendo um absurdo.</p><p>
-  Ent�o  o  senhor  podia perfeitamente fazer de conta que ele ainda est�</p><p>
aqui, enquanto eu e ele damos um pulinho no bar, s� por meia hora. O que o senhor acha?</p><p>
O Sr. Prosser achava aquilo perfeitamente insano.</p><p>
-  Acho  perfeitamente  razo�vel...  -  disse,  com  um  tom  de  voz tranq�ilizador, sem saber quem ele estava tentando tranq�ilizar.</p><p>
- E, se depois o senhor quiser dar uma escapulida pra tomar um chope - disse Ford -, a gente retribui o favor.</p><p>
- Muito obrigado - disse o Sr. Prosser, que n�o sabia mais como conduzir a situa��o -, muito obrigado, � muita bondade sua... - Franziu o cenho, depois sorriu,  depois  tentou  fazer  as  duas  coisas  ao  mesmo  tempo,  n�o  conseguiu, agarrou seu chap�u de pele e rodou-o no alto da cabe�a nervosamente. S� podia achar que havia ganhado a parada.</p><p>
- Ent�o - prosseguiu Ford Prefect -, se o senhor tiver a bondade de vir at�</p><p>
aqui e se deitar...</p><p>
- O qu�? - exclamou o Sr. Prosser.</p><p>
-    Ah,  desculpe  -  disse  Ford  -,  acho  que  n�o  soube  me  exprimir  muito bem. Algu�m tem que ficar deitado na frente dos tratores, n�o �? Sen�o eles v�o demolir a casa do Sr. Dent.</p><p>
- O qu�? - repetiu o Sr. Prosser.</p><p>
- � muito simples - disse Ford. - Meu cliente, o Sr. Dent, declara que est�</p><p>
disposto a n�o mais ficar deitado aqui na lama com uma �nica condi��o: que o senhor o substitua em seu posto.</p><p>
-  Que hist�ria � essa? - disse Arthur, mas Ford cutucou-o com o p� para que se calasse.</p><p>
- O senhor quer - disse Prosser, tentando captar essa nova id�ia - que eu me deite a�...</p><p>
-�.</p><p>
- Na lama.</p><p>
- �, como disse, na lama.</p><p>
Assim  que  o  Sr.  Prosser  se  deu  conta  de  que  na  verdade  era  ele  o perdedor,  foi  como  se  lhe  retirassem  um  fardo  dos  ombros:  essa  situa��o  era mais familiar para ele. Suspirou.</p><p>
- E em troca disso o senhor vai com o Sr. Dent at� o bar?</p><p>
- Isso - disse Ford -, isso mesmo.</p><p>
O Sr. Prosser deu uns passos nervosos � frente e parou.</p><p>
- Promete? - disse ele</p><p>
- Prometo - disse Ford. Virou-se para Arthur: - Vamos, levante-se e deixe o homem se deitar.</p><p>
Arthur p�s-se de p�, achando que tudo aquilo era um sonho. Ford  fez  sinal  para  o  Sr.  Prosser,  que  se  sentou  na  lama,  triste  e desajeitado.  Tinha  a  impress�o  de  que  toda  a  sua  vida  era  uma  esp�cie  de sonho,  e  �s  vezes  se  perguntava  de  quem  era  aquele  sonho,  e  se  o  dono  do sonho estaria se divertindo. A lama envolveu suas n�degas e penetrou em seus sapatos.</p><p>
Ford olhou para ele, muito s�rio.</p><p>
- Nada de bancar o espertinho e derrubar a casa do Sr. Dent enquanto ele n�o estiver aqui, certo?</p><p>
- Nem pensar - rosnou o Sr. Prosser. - Jamais passou pela minha cabe�a - prosseguiu, deitando-se - sequer a possibilidade de fazer tal coisa. Viu  o  representante  do  sindicato  dos  operadores  de  tratores  se aproximar, deixou a cabe�a afundar na lama e fechou os olhos. Estava tentando encontrar  argumentos  para  provar  que  ele  pr�prio  n�o  passara  a  representar um fator de insalubridade mental. Estava longe de estar convencido disso - sua cabe�a  estava  cheia  de  barulhos,  cavalos,  fuma�a  e  cheiro  de  sangue.  Isso sempre acontecia quando ele se sentia infeliz ou enganado, e jamais entendera por  qu�.  Numa  dimens�o  superior,  da  qual  nada  sabemos,  o  poderoso  Khan urrava de �dio, mas o Sr. Prosser limitava-se a tremer um pouco e a resmungar. Come�ou  a  sentir  que  lhe  brotavam  l�grimas  por  tr�s  das  p�lpebras. Q�iproqu�s  burocr�ticos,  homens  zangados  deitados  na  lama,  estranhos indecifr�veis  impondo-lhe  humilha��es  inexplic�veis  e  um  ex�rcito  n�o identificado de cavaleiros rindo dele em sua mente - que dia!</p><p>
Que dia! Ford Prefect sabia que n�o tinha a menor import�ncia se a casa de Arthur fosse ou n�o derrubada, agora.</p><p>
Arthur continuava muito preocupado.</p><p>
- Mas ser� que a gente pode confiar nele? - perguntou.</p><p>
- Eu, por mim, confiaria nele at� o fim do mundo.</p><p>
- Ah - disse Arthur. - E quanto falta pra isso?</p><p>
- Cerca de 12 minutos - disse Ford. - Vamos, preciso beber alguma coisa. <strong>Cap�tulo 2 </strong></p><p><strong/></p><p><emphasis/></p><p><emphasis>Eis o que diz a </emphasis> Enciclop�dia Gal�ctica  <emphasis>a respeito do �lcool: � um l�quido vol�til</emphasis><emphasis>e  incolor  formado pela fermenta��o dos a��cares. Acrescenta ainda que o �lcool tem o</emphasis><emphasis>efeito de inebriar certas formas de vida baseadas em carbono.</emphasis> O  Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias   <emphasis>tamb�m  menciona  o  �lcool.  Diz  que  o</emphasis><emphasis>melhor drinque que existe � a Dinamite Pangal�ctica. </emphasis></p><p><emphasis>Afirma que o efeito de beber uma Dinamite Pangal�ctica � como ter seu c�rebro</emphasis><emphasis>esmagado por uma fatia de lim�o colocada em volta de uma grande barra de ouro.</emphasis> O Guia do Mochileiro  <emphasis>tamb�m lhe dir� quais os planetas em que se preparam</emphasis><emphasis>as  melhores  Dinamites  Pangal�cticas,  quanto  ir�  custar  uma  dose  e  quais  as  ONGs</emphasis><emphasis>existentes para ajudar voc� a se recuperar posteriormente.</emphasis> O  Guia  do  Mochileiro   <emphasis>ensina  at�  mesmo  como  preparar  a  bebida  por  conta</emphasis><emphasis>pr�pria. Eis o que diz o livro:</emphasis></p><p><emphasis>Pegue uma garrafa de Aguardente Janx. </emphasis></p><p><emphasis>Misture-a com uma dose de �gua dos mares de Santragino V-ah, essa �gua dos</emphasis><emphasis>mares de Santragino1., diz. Ah, os peixes de Santragino1.</emphasis><emphasis>Deixe  que  tr�s  cubos  de  Megagim  Arturiano  sejam dissolvidos na mistura (se</emphasis><emphasis>n�o foi congelado da maneira correta, perde-se a benzina).</emphasis><emphasis>Deixe  que  quatro  litros  de  g�s  dos  p�ntanos  de  Falia  borbulhem  atrav�s  da</emphasis><emphasis>mistura  em  mem�ria  de  todos  aqueles  mochileiros  bem-aventurados  que  morreram  de</emphasis><emphasis>prazer nos p�ntanos de Falia. </emphasis></p><p><emphasis>Vaca  flutuar,  no  verso  de  uma  colher  de  prata,  uma  dose  de  extrato  de</emphasis><emphasis>Hipermenta  Qualactina,  plena  da  fragr�nda  inebri-ante  das  sombrias  Zonas</emphasis><emphasis>Qualactinas, sutil, doce e m�stica. </emphasis></p><p><emphasis>Acrescente um dente de tigre solar algoliano. Veja-o dissolver-se, espalhando os</emphasis><emphasis>fogos dos s�is algolianos no �mago do drinque. </emphasis></p><p><emphasis>Jogue uma pitadinha de Z�nfuor. </emphasis></p><p><emphasis>Acrescente uma azeitona. </emphasis></p><p><emphasis>Agora � s� beber... mas... com muito cuidado... </emphasis></p><p>
O  Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias   <emphasis>vende  bem  mais  que  a  </emphasis> Enciclop�dia Gal�ctica.</p><p>
-  Seis  chopes  duplos  -  disse  Ford  Prefect  ao  barman  do  Horse  and Groom. - E depressa, porque o fim do mundo est� pr�ximo.</p><p>
O barman do Horse and Groom n�o merecia ser tratado desse jeito, era um senhor de respeito. Ajeitou os �culos e encarou Ford Prefect. Ford ignorou-o e  virou-se  para  a  janela,  de  modo  que  o  barman  encarou  Arthur,  que  deu  de ombros, como quem tamb�m n�o entendeu, e n�o disse nada.</p><p>
Ent�o, o barman disse:</p><p>
- Ah, �? Um belo dia pro mundo acabar. E come�ou a tirar os chopes. Tentou outra vez.,</p><p>
- E ent�o, o senhor vai assistir ao jogo hoje � tarde? Ford virou-se para ele.</p><p>
- N�o, n�o tem sentido - disse, e virou-se para a janela novamente.</p><p>
- Quer dizer que o senhor acha que nem adianta? - insistiu o barman. - O</p><p>
Arsenal n�o tem a menor chance?</p><p>
- N�o, n�o - disse Ford. - � s� que o mundo vai acabar.</p><p>
- Ah, � mesmo, o senhor j� disse - respondeu o barman, olhando agora para Arthur por cima dos �culos. - Seria uma boa sa�da para o Arsenal, escapar da derrota por causa do fim do mundo.</p><p>
Ford olhou de novo para o velho, realmente surpreso.</p><p>
- Na verdade, n�o - disse, franzindo a testa. O barman respirou fundo.</p><p>
- A� est�o, seis chopes.</p><p>
Arthur sorriu para ele, sem gra�a, e deu de ombros outra vez. Virou-se para  tr�s  e  dirigiu  um  sorriso  sem  gra�a  ao  resto  do  bar,  caso  algu�m  mais tivesse ouvido a conversa.</p><p>
Ningu�m tinha ouvido nada, e ningu�m entendeu por que Arthur estava sorrindo para eles daquele jeito.</p><p>
Um  homem  sentado  ao  lado  de  Ford  no  balc�o  olhou  para  os  dois homens, depois para os seis chopes, fez um r�pido c�lculo de cabe�a, chegou a um  resultado  que  lhe  agradou  e  sorriu  de  forma  boba  e  esperan�osa  para  os dois.</p><p>
-  Nem  pensar  -  disse  Ford  -,  s�o  nossos.  -  Dirigiu ao homem um olhar que faria um tigre solar algoliano continuar fazendo o que estivesse fazendo. Ford jogou uma nota de cinco libras no balc�o, dizendo:</p><p>
- Pode ficar com o troco.</p><p>
- O que, cinco libras? Muito obrigado, meu senhor.</p><p>
- Voc� tem dez minutos pra gastar isso.</p><p>
O barman decidiu que era melhor ir fazer outra coisa.</p><p>
-  Ford  -  disse  Arthur  -,  voc�  pode  por  favor  me  explicar  que  hist�ria �</p><p>
essa?   ,</p><p>
- Beba - disse Ford. - Ainda faltam tr�s chopes.</p><p>
- Voc� quer que eu beba tr�s canecos de chope na hora do almo�o?</p><p>
O homem do lado de Ford sorriu e concordou com a cabe�a, satisfeito. Ford ignorou-o e disse:</p><p>
-  O tempo � uma ilus�o. A hora do almo�o � uma ilus�o maior ainda.</p><p>
- Muito profundo - disse Arthur. - Essa voc� devia mandar pra  <emphasis>Sele��es.</emphasis> Eles t�m uma p�gina pra gente como voc�.</p><p>
- Beba.</p><p>
- Por que tr�s canecos de chope de repente?</p><p>
- � um relaxante muscular, voc� vai precisar.</p><p>
- Relaxante muscular?</p><p>
- Relaxante muscular.</p><p>
Arthur olhou para dentro do caneco.</p><p>
-  Ser� que eu fiz alguma coisa de errado hoje - disse ele - ou ser� que o mundo sempre foi assim, s� que eu estava encucado demais pra perceber?</p><p>
- Est� bem - disse Ford. - Vou tentar explicar. H� quanto tempo a gente se conhece?</p><p>
-  H� quanto tempo? - Arthur pensou um pouco. - Deixe ver, uns cinco anos,  talvez  seis.  A  maior  parte  desse  tempo  pareceu  fazer  algum  sentido  na �poca.</p><p>
- Est� bem - disse Ford. - Qual seria a sua rea��o se eu lhe dissesse que n�o sou de Guildford e sim de um pequeno planeta perto de Betelgeuse?</p><p>
Arthur deu de ombros, com indiferen�a.</p><p>
-  Sei l� - disse, bebendo um gole. - Por qu�? Voc� acha que � capaz de dizer uma coisa dessas?</p><p>
Ford  desistiu.  Realmente,  n�o  valia  a  pena  se  preocupar  com  aquilo naquele momento, com o fim do mundo t�o pr�ximo e tudo o mais. Limitou-se a dizer:</p><p>
-    Beba.  -  E  acrescentou,  como  quem  d�  uma  informa��o  como  outra qualquer: - O fim do mundo est� pr�ximo.</p><p>
Arthur sorriu sem gra�a para o resto do bar, outra vez. O resto do bar fez cara feia para ele. Um homem lhe fez sinal para que parasse de sorrir para eles e cuidasse de sua pr�pria vida.</p><p>
"Hoje  deve  ser  quinta-feira",  pensou  Arthur,  debru�ando-se  sobre  o chope. "Nunca consegui entender qual � a das quintas-feiras." <strong>Cap�tulo 3 </strong></p><p><strong/></p><p>
Nessa  quinta-feira  em  particular,  alguma  coisa  deslocava-se silenciosamente  atrav�s  da  ionosfera,  muitos  quil�metros  acima  da  superf�cie do planeta; ali�s, muitas "algumas coisas", dezenas de coisas achatadas, grandes e  amarelas,  cada  uma  do  tamanho  de  um  quarteir�o  de  pr�dios,  silenciosas como  p�ssaros.  Voavam  serenas,  banhando-se  nos  raios  eletromagn�ticos emitidos pela estrela Sol, sem pressa, agrupando-se, preparando-se. O planeta l� embaixo ignorava sua presen�a quase completamente, o que era  justamente  o  que  elas  queriam.  Aquelas  coisas  amarelas  passaram  por Goonhilly  despercebidas;  sobrevoaram  Cabo  Canaveral  sem  que  os  radares acusassem nada; Woomera e Jodrell Bank ignoraram sua passagem - uma pena, j�  que  era  exatamente  esse  tipo  de  coisa  que  estavam  procurando  h�  muitos anos.</p><p>
A  �nica  coisa  que  acusou  sua  presen�a  foi  um  aparelhinho  preto chamado  sensorm�tico  subeta,  que  ficou  piscando  discretamente  na  escurid�o da  mochila  de  couro  que  Ford  Prefect  sempre  levava  consigo.  O  conte�do  da mochila  de  Ford  era  bastante  interessante:  se  algum  f�sico  terr�queo  olhasse dentro dela, seus olhos saltariam para fora das �rbitas. Era para esconder essas coisas  que  Ford  sempre  jogava  por  cima  de  tudo,  na  mochila,  um  ou  dois roteiros amassados de pe�as de teatro, dizendo que estava estudando um papel para  uma  pe�a.  Al�m  do  sensorm�tico  subeta  e  dos  roteiros,  Ford  levava  um polegar  eletr�nico  -  um  bast�o  curto  e  grosso,  preto,  liso  e  fosco,  com interruptores e ponteiros numa das extremidades - e um aparelho que parecia uma  calculadora  eletr�nica  das  grandes.  Este  �ltimo  possu�a  cerca  de  100</p><p>
pequenos bot�es planos e uma tela quadrada de dez cent�metros, na qual podia ser  exibida  instantaneamente  qualquer  uma  dentre  um  milh�o  de  "p�ginas". Parecia  um  aparelho  absurdamente  complicado,  e  esse  era  um  dos  motivos pelos  quais  a  capa  pl�stica  do  dispositivo  trazia  a  frase  N�O  ENTRE  EM</p><p>
P�NICO em letras grandes e amig�veis. O outro motivo era o fato de que este aparelho  era  na  verdade  o  mais  extraordin�rio  livro  jamais  publicado  pelas grandes editoras da Ursa Menor - O  <emphasis>Guia do Mochileiro das Gal�xias. </emphasis> O livro era publicado sob a forma de um microcomponente eletr�nico subm�son porque, se fosse  impresso  de forma convencional, um mochileiro interestelar iria precisar de  diversos  pr�dios  desconfortavelmente  grandes  para  acomodar  sua biblioteca. No fundo da mochila de Ford Prefect havia algumas esferogr�ficas, um bloco de anota��es e uma toalha de banho grande, comprada na Marks and Spencer.</p><p>
O  Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias   <emphasis>faz  algumas  afirma��es  a  respeito  das</emphasis><emphasis>toalhas. </emphasis></p><p><emphasis>Segundo  ele,  a  toalha  �  um  dos  objetos  mais  �teis  para  um  mochileiro</emphasis><emphasis>interestelar. Em parte devido a seu valor pr�tico: voc� pode usar a toalha como agasalho</emphasis><emphasis>quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes</emphasis><emphasis>praias de areia marm�rea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores mar�timos;</emphasis><emphasis>voc�  pode  dormir  debaixo  dela  sob  as  estrelas  que  brilham  avermelhadas  no  mundo</emphasis><emphasis>des�rtico de Kakrafoon; pode us�-la como vela para descer numa minijangada as �guas</emphasis><emphasis>lentas e pesadas do rio Moth; pode umedec�-la e utiliz�-la para</emphasis><emphasis>lutar em um combate</emphasis><emphasis>corpo  a  corpo;  enrol�-la  em  torno  da  cabe�a para proteger-se de emana��es t�xicas ou</emphasis><emphasis>para  evitar  o  olhar  da  Terr�vel  Besta  Voraz  de  Traal  (um  animal  estonteantemente</emphasis><emphasis>burro, que acha que, se voc� n�o pode v�-lo, ele tamb�m n�o pode ver voc� - est�pido</emphasis><emphasis>feito  uma  anta,  mas  muito,  muito  voraz);  voc�  pode  agitar  a  toalha  em  situa��es  de</emphasis><emphasis>emerg�ncia para pedir socorro; e naturalmente pode us�-la para enxugar-se com ela se</emphasis><emphasis>ainda estiver razoavelmente limpa. </emphasis></p><p><emphasis>Por�m  o  mais  importante  �  o  imenso  valor  psicol�gico  da  toalha.  Por  algum</emphasis><emphasis>motivo, quando um estrito (isto �, um n�o-mochileiro) descobre que um mochileiro tem</emphasis><emphasis>uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem tamb�m escova de dentes, esponja,</emphasis><emphasis>sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, b�ssola, mapa, barbante, repelente,</emphasis><emphasis>capa de chuva, traje espacial, etc, etc. Al�m disso, o estrito ter� prazer em emprestar ao</emphasis><emphasis>mochileiro  qualquer  um  desses  objetos,  ou  muitos  outros,  que  o  mochileiro  por  acaso</emphasis><emphasis>tenha "acidentalmente perdido". </emphasis> O  <emphasis>que o estrito vai pensar � que, se um sujeito � capaz</emphasis><emphasis>de rodar por toda a Gal�xia, acampar, pedir carona, lutar contra terr�veis obst�culos, dar</emphasis><emphasis>a volta por cima e ainda assim saber onde est� sua toalha, esse sujeito claramente merece</emphasis><emphasis>respeito. </emphasis></p><p><emphasis>Da� a express�o que entrou na g�ria dos mochileiros, exemplificada na seguinte</emphasis><emphasis>frase:  "Vem  c�,  voc�  sancha  esse  cara  dupal, o Ford Prefect? Ta� um mingo que sabe</emphasis><emphasis>onde guarda a toalha." (Sancha: conhecer, estar ciente de, encontrar, ter rela��es sexuais</emphasis><emphasis>com; dupal: cara muito incr�vel; mingo: cara realmente muito incr�vel.)</emphasis> Bem  enroladinho  na  toalha,  dentro  da  mochila  de  Ford  Prefect,  o sensorm�tico  subeta  come�ou  a  piscar  mais  depressa.  Quil�metros  acima  da superf�cie  do  planeta,  as  enormes  algumas  coisas  amarelas  come�aram  a  se espalhar.  No  observat�rio  de  Jodrell  Bank,  algu�m  resolveu  que  era  hora  de tomar um ch�.</p><p>
-Voc� tem uma toalha a�? - Ford perguntou a Arthur de repente. Arthur, lutando com seu terceiro caneco de chope, olhou ao redor.</p><p>
-  Uma  toalha?  Bem,  n�o...  por  que,  era  pra  eu  ter?  -  Arthur  havia desistido de sentir-se surpreso; pelo visto, n�o adiantava nada. Ford estalou a l�ngua, irritado.</p><p>
- Beba - insistiu.</p><p>
Naquele momento, o ru�do surdo de alguma coisa se espatifando, vindo da rua, misturou-se ao murm�rio de vozes dentro do bar, � m�sica da jukebox e aos  solu�os  do  homem  ao  lado  de  Ford,  para  quem  ele  acabara  pagando  um u�sque.</p><p>
Arthur engasgou-se com a cerveja e p�s-se de p� num salto.</p><p>
- O que foi isso? - gritou.</p><p>
- N�o se preocupe - disse Ford. - Eles ainda n�o come�aram.</p><p>
- Ainda bem - disse Arthur, relaxando.</p><p>
- Deve ser s� a sua casa sendo demolida - disse Ford, virando seu �ltimo chope.</p><p>
-  O  qu�?  -  berrou  Arthur.  De  repente  quebrou-se  o  encantamento  que Ford  lan�ara  sobre  ele.  Arthur  olhou  ao  redor,  desesperado,  e  correu  at�  a janela. � Meu Deus, � isso mesmo! Est�o derrubando a minha casa. Que diabo eu estou fazendo aqui neste bar, Ford?</p><p>
- A essa altura do, campeonato, n�o tem muita import�ncia - disse Ford. - Deixe que eles se divirtam.</p><p>
- Isso l� � divers�o? - gritou Arthur. - Divers�o!</p><p>
Ele  olhou  de  novo  pela  janela  e  constatou  que  ambos  estavam  falando sobre a mesma coisa.</p><p>
-  Divers�o,  o  cacete!  -  berrou  Arthur,  e  saiu  correndo  do  bar  furioso, brandindo  uma  caneca  de  chope  quase  vazia.  Naquele  dia,  Arthur definitivamente n�o fez amigos no bar.</p><p>
-    Parem,  seus  v�ndalos!  Destruidores  de  lares!  -  gritava  Arthur.  -  Seus visigodos malucos, parem com isso!</p><p>
Ford teria de ir atr�s dele. Virou-se depressa para o barman e pediu-lhe quatro pacotes de amendoins.</p><p>
-  Tome  a�  -  disse  o  barman,  colocando  os  pacotes  no  balc�o.  -  S�o  28</p><p>
pence, por favor.</p><p>
Ford foi generoso: deu ao homem mais uma nota de cinco libras e disse que  ficasse  com  o  troco.  O  barman  olhou para a nota e depois para Ford. De repente  estremeceu:  teve  momentaneamente  uma  sensa��o  que  n�o compreendeu,  porque  nenhum  terr�queo  jamais  a  experimentara  antes.  Em momentos  de  grande  tens�o,  todas  as  formas  de  vida  existentes  emitem  um pequeno sinal subliminar. Este sinal simplesmente comunica uma no��o exata e quase  pat�tica  do  quanto  a  criatura  em  quest�o  est�  longe  de  seu  local  de nascimento.  Na  Terra,  nunca  se  pode  estar  a  mais  de  26  mil  quil�metros  do local  de  nascimento,  uma  dist�ncia  n�o  muito  grande,  na  verdade, e portanto esses  sinais  s�o  demasiadamente  fracos  para  serem  percebidos.  Ford  Prefect estava naquele momento sob grande tens�o, e nascera a 600 anos-luz dali, perto de Betelgeuse.</p><p>
O  barman  ficou  desnorteado  por  um  momento,  atingido  pela  sensa��o chocante e incompreens�vel de dist�ncia. Ele n�o sabia o que significava aquilo, mas olhou para Ford Prefect com mais respeito, quase com rever�ncia.</p><p>
-  O  senhor  est�  falando  s�rio?  -  perguntou  ele, sussurrando baixinho, o que  <emphasis>-teve </emphasis> o efeito de fazer com que todos se calassem no bar. - O senhor acha que o mundo vai mesmo acabar?</p><p>
- Vai - disse Ford.</p><p>
- Mas hoje?</p><p>
Ford havia se recuperado. Sentia-se mais irreverente do que nunca.</p><p>
- � - disse, alegre -, daqui a menos de dois minutos, na minha opini�o. O  barman  n�o  conseguia  acreditar  na  conversa  que  estava  tendo,  mas tamb�m n�o conseguia acreditar na sensa��o que acabara de experimentar.</p><p>
- Podemos fazer algo a respeito?</p><p>
- N�o, nada - respondeu Ford, enfiando os amendoins no bolso. Algu�m de repente soltou uma gargalhada no bar silencioso,</p><p>
rindo da burrice de todos.</p><p>
O homem ao lado de Ford j� estava meio alto. Com esfor�o, focalizou os olhos em Ford.</p><p>
-    Eu  pensava  -  disse  ele  -  que  quando  o  mundo  acabasse todo mundo tinha  que  deitar  no  ch�o  ou  enfiar  a  cabe�a  num  saco  de  papel,  ou  coisa parecida.</p><p>
- Se voc� quiser, pode - disse Ford.</p><p>
- Foi o que disseram pra gente no ex�rcito - disse o homem, e seus olhos come�aram sua longa jornada de volta para o copo de u�sque.</p><p>
- Isso vai ajudar? - perguntou o barman.</p><p>
-  N�o - disse Ford, com um sorriso simp�tico. - Com licen�a, tenho que ir embora - deu adeus e saiu.</p><p>
O bar ainda permaneceu em sil�ncio por um instante, e depois o homem da gargalhada estrepitosa atacou de novo, deixando todos sem gra�a. A garota que  ele arrastara at� o bar meia hora antes j� o detestava cordialmente a essa altura  e  provavelmente  ficaria  muito  satisfeita  se  soubesse  que, dentro de uns 90  segundos,  ele  iria  se  evaporar  em  um  sopro  de  hidrog�nio,  oz�nio  e mon�xido  de  carbono.  Por�m,  quando  chegasse  a  hora,  ela  tamb�m  estaria ocupada demais se evaporando para se preocupar com isso.</p><p>
O barman pigarreou. Quando se deu conta, estava dizendo o seguinte:</p><p>
- �ltimos pedidos, por favor.</p><p>
As  enormes  m�quinas  amarelas  come�aram  a  descer  e  a  acelerar.  Ford sabia  que  elas  estavam  vindo.  N�o  era  assim  que ele queria voltar para o seu planeta.</p><p>
Correndo pela alameda, Arthur j� estava quase chegando em casa. N�o percebeu como havia esfriado de repente, n�o percebeu o vento, n�o percebeu a chuva torrencial e irracional que come�ara a cair de repente. S� viu os tratores passando por cima dos destro�os do que fora sua casa.</p><p>
- Seus b�rbaros! - gritou. - Vou processar o conselho municipal e arrancar deles  at�  o  �ltimo  centavo!  Voc�s  v�o  ser  enforcados,  arrastados  e esquartejados1. E chicoteados! E cozidos em �leo fervente... at�... at�... at� voc�s n�o ag�entarem mais.</p><p>
Ford  ainda  estava  correndo  atr�s  dele,  muito  depressa.  Muito,  muito depressa.</p><p>
- E depois tudo de novo! - gritou Arthur. - E quando terminar vou pegar todos os pedacinhos e pisar em cima deles!</p><p>
Arthur  n�o  percebeu  que  os  homens  estavam  correndo  dos  tratores,  e tamb�m n�o percebeu que o Sr. Prosser olhava para o c�u desesperado. O que o Sr.  Prosser  havia  percebido  era  que  as  coisas  amarelas  enormes  estavam atravessando  as  nuvens,  ruidosamente.  Coisas  amarelas  impossivelmente enormes.</p><p>
- E vou continuar pulando neles - gritou Arthur, ainda correndo - at� eu ficar cheio de bolhas, ou at� eu pensar numa coisa ainda mais desagrad�vel pra fazer, a�...</p><p>
Arthur trope�ou e caiu para a frente, rolou e terminou deitado de costas no  ch�o.  Finalmente  percebeu  que estava acontecendo alguma coisa. Apontou para o c�u.</p><p>
- Que diabo � isso? - gritou</p><p>
Fosse  o  que  fosse,  a  coisa  atravessou  o  c�u  com  toda  a  sua monstruosidade  amarela,  rasgou  o  c�u  com  um  estrondo  estonteante  e  sumiu na dist�ncia, deixando atr�s de si um v�cuo que se fechou com um bang! alto o suficiente para empurrar os ouvidos para dentro do c�rebro. Outra coisa amarela veio em seguida e fez exatamente a mesma coisa, s�</p><p>
que ainda mais alto.</p><p>
�  dif�cil  dizer  exatamente  o  que  as  pessoas  na  superf�cie  do  planeta estavam fazendo agora, porque na verdade elas pr�prias n�o sabiam direito o que  estavam  fazendo.  Nada  fazia  sentido  -  correr  para  dentro  de  casa,  correr para fora de casa, gritar surdamente no meio da barulheira. Por todo o mundo, as  ruas  das  cidades  explodiam  de  gente,  carros  se  enfiavam  uns  nos  outros quando  o  barulho  desabava  sobre  eles  e  depois  se  afastava,  como  um gigantesco  maremoto  sobre  serras  e  vales,  desertos  e  oceanos,  parecendo achatar tudo aquilo que atingia.</p><p>
Apenas  um  homem  permanecia  parado,  olhando  para  o  c�u,  com  uma tristeza  imensa  nos  olhos  e  protetores  de  borracha  nos  ouvidos.  Ele  sabia exatamente o que estava acontecendo, e j� o sabia desde que seu sensorm�tico subeta come�ara a piscar no meio da noite ao lado de seu travesseiro, fazendo-o acordar assustado. Era por isso que ele vinha esperando esses anos todos, mas quando  decifrou  os  sinais,  sozinho  em  seu  pequeno  quarto  escuro,  sentiu  um frio  no  cora��o.  De  todas  as  ra�as  existentes  na  Gal�xia  que  podiam  vir fazer uma visitinha ao planeta Terra, pensou ele, por que tinham que ser justamente os vogons?</p><p>
Fosse como fosse, ele sabia o que tinha de fazer. Quando a nave vogon sobrevoou  o  lugar  onde  ele  estava,  Ford  abriu  sua  mochila.  Jogou  fora  um exemplar de  <emphasis>Jos� e a Extraordin�ria T�nica de Sonhos Tecnicolor </emphasis> e um exemplar de <emphasis>Godspell: </emphasis> ele n�o ia precisar daquilo no lugar para onde ia. Tudo estava pronto, tudo estava preparado.</p><p>
Ele sabia onde estava sua toalha.</p><p>
Um  sil�ncio  s�bito  tomou  conta  da  Terra,  talvez  pior  ainda  que  o barulho. Por algum tempo, n�o aconteceu nada.</p><p>
As grandes espa�onaves pairavam im�veis no c�u, sobre todas as na��es da Terra. Pairavam im�veis, imensas, pesadas, completamente paradas no c�u, uma  blasf�mia  contra  a  natureza.  Muitas  pessoas  entraram  em  estado  de choque quando suas mentes tentaram entender o que estavam vendo. As naves pairavam im�veis no c�u da mesma forma como os tijolos n�o o fazem. E continuava n�o acontecendo nada.</p><p>
Ent�o  ouviu-se  um  leve  assobio,  um  s�bito  assobio  espa�oso  de  fundo sonoro ao ar livre. Todos os aparelhos de som do mundo, todos os r�dios, todas as televis�es, todos os gravadores, todos os alto-falantes, de agudos, graves ou freq��ncias m�dias, em todo o mundo, silenciosamente se ligaram. Todas as latinhas, todas as latas de lixo, todas as janelas, todos os carros, todas as ta�as de vinho, todas as chapas de metal enferrujado, tudo foi ativado, funcionando como uma caixa de resson�ncia acusticamente perfeita. Antes  de  ser  destru�da,  a  Terra  assistiria  a  uma  demonstra��o  da perfei��o absoluta em mat�ria de reprodu��o sonora, o maior sistema de som jamais constru�do. Mas n�o se ouviu um concerto, nenhuma m�sica, nenhuma fanfarra, e sim uma simples mensagem.</p><p>
-  <emphasis>Povo da Terra, aten��o, por favor - </emphasis> disse uma voz, e foi maravilhoso. Som quadraf�nico perfeito, com n�veis de distor��o t�o baixos que o mais corajoso dos homens n�o conseguiria conter uma l�grima.</p><p>
-  <emphasis>Aqui fala Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespa�o</emphasis><emphasis>Gal�ctico </emphasis>-prosseguiu a voz. -  <emphasis>Como todos voc�s certamente j� sabem, os planos para</emphasis><emphasis>o  desenvolvimento  das  regi�es  perif�ricas da Gal�xia exigem a constru��o de uma via</emphasis><emphasis>expressa hiperespacial que passa pelo seu sistema estelar e infelizmente o seu planeta � </emphasis></p><p><emphasis>um  dos  que  ter�o  de  ser  demolidos.  O  processo  levar�  pouco  menos  de  dois  minutos</emphasis><emphasis>terrestres. Obrigado. </emphasis></p><p>
O sistema de som voltou ao sil�ncio.</p><p>
Um  terror  cego  se  apoderou  de  toda  a  popula��o  da  Terra.  O  terror transmitia-se  lentamente  atrav�s  das  multid�es,  como  se  fossem  limalhas  de ferro sobre uma chapa de madeira e houvesse um �m� deslocando-se embaixo da  madeira.  Instaurou-se  novamente  o  p�nico,  uma  vontade  desesperada  de fugir, s� que n�o havia para onde.</p><p>
Observando  o que estava acontecendo, os vogons ligaram o sistema de som outra vez. Disse a voz:</p><p>
-  <emphasis>Esta surpresa � injustific�vel. Todos os planos do projeto, bem como a ordem de</emphasis><emphasis>demoli��o, est�o em exposi��o no seu departamento local de planejamento, em Alfa do</emphasis><emphasis>Centauro, h� 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos voc�s tiveram muito tempo</emphasis><emphasis>para apresentar qualquer reclama��o formal, e agora � tarde demais para criar caso.</emphasis> O sistema de som foi desligado novamente e seu eco foi morrendo por todo  o  planeta.  As  naves  imensas  come�aram  a  virar  lentamente  no  c�u, com facilidade.  Na  parte  de  baixo  de  cada  nave  abriu-se  uma  escotilha,  um quadrado negro vazio.</p><p>
A  esta  altura,  algu�m  tinha  conseguido  ligar  um  transmissor  de  r�dio, localizar uma freq��ncia e enviar uma mensagem �s naves vogons, falando em nome  do  planeta.  Ningu�m  jamais  ouviu  o  que  foi  dito, apenas a resposta. O</p><p>
imenso sistema de som voltou a transmitir. A voz estava irritada:</p><p>
-   <emphasis>Como assim, nunca estiveram em Alfa do Centauro? Ora bolas, humanidade,</emphasis><emphasis>fica s� a quatro anos-luz daqui] Desculpem, mas se voc�s n�o se d�o ao trabalho de se</emphasis><emphasis>interessar  pelas  quest�es  locais,  o  problema  �  de  voc�s.  -  </emphasis> Ap�s  uma  pausa,  disse:  - <emphasis>Energ�zar os raios demolidores. </emphasis></p><p>
Das escotilhas sa�ram fachos de luz.</p><p>
-   <emphasis>Diabo  de  planeta  ap�tico  -  </emphasis> disse  a  voz.  -   <emphasis>N�o  d�  nem  pra  ter  pena.  -  </emphasis> E  o sistema de som foi desligado.</p><p>
Houve um sil�ncio terr�vel. Houve um ru�do terr�vel. Houve um sil�ncio terr�vel.</p><p>
A Frota de Constru��o Vogon desapareceu no negro espa�o estrelado. <strong>Cap�tulo 4 </strong></p><p>
Longe dali, no bra�o oposto da Gal�xia, a uma dist�ncia de 500 mil anosluz  da  estrela  Sol,  Zaphod  Beeblebrox,  presidente  do  Governo  Imperial Gal�ctico,  navegava  pelos  mares  de  Damogran.  Seu  barco  delta  com  drive i�nico brilhava � luz do sol de Damogran.</p><p>
Damogran,  o  quente;  Damogran,  o  remoto;  Damogran,  o  quase completamente desconhecido para todos.</p><p>
Damogran, morada secreta da nave Cora��o de Ouro.</p><p>
O barco deslizava rapidamente sobre a �gua. Ainda levaria algum tempo para chegar a seu destino, porque a geografia de Damogran n�o � nada pr�tica. Consiste  apenas  em  algumas  ilhas  desertas  de  ^tamanho  m�dio  a  grande, separadas por oceanos de rara beleza, mas de uma vastid�o chat�ssima. O barco seguia em frente.</p><p>
Devido  a  sua  inc�moda  geografia,  Damogran  sempre  foi  um  planeta deserto. Foi por isso que o Governo Imperial Gal�ctico escolheu Damogran para o  projeto  Cora��o  de  Ouro,  porque  o  planeta  era  muito  deserto  e  o  projeto Cora��o de Ouro era muito secreto.</p><p>
O barco deslizava r�pido pela superf�cie do mar, o mar que separava as principais  ilhas  do  �nico  arquip�lago  de  tamanho  aproveit�vel  em  todo  o planeta. Zaphod Beeblebrox vinha do pequeno cosmoporto da ilha da P�scoa (o nome era uma coincid�ncia sem nenhum significado - em galact�s,  <emphasis>p�scoa </emphasis> quer dizer pequeno, plano e castanho-claro) para a ilha do projeto Cora��o de Ouro, cujo nome era Fran�a, em mais uma coincid�ncia sem nenhum significado. Um dos efeitos colaterais do projeto Cora��o de Ouro era uma s�rie de coincid�ncias sem significado.</p><p>
Mas  n�o  era  por  coincid�ncia  que  aquele  dia,  o  dia  da  coroa��o  do projeto,  o  grande  dia  do  lan�amento,  o  dia  em  que  a  nave  Cora��o  de  Ouro seria  finalmente  revelada  a  uma  Gal�xia  maravilhada,  era  tamb�m  um  dia muito especial para Zaphod Beeblebrox. Foi pensando nesse dia que ele havia decidido concorrer � Presid�ncia, uma decis�o que causou grande surpresa em toda a Gal�xia Imperial - Zaphod Beeblebrox? Presidente? N�o   <emphasis>aquele </emphasis> Zaphod Beeblebrox? Ele,  <emphasis>presidente?* </emphasis> Muitos encararam o fato como prova de que todo o universo havia afinal pirado completamente.</p><p>
Zaphod sorriu e aumentou a velocidade do barco.</p><p>
Zaphod  Beeblebrox,  aventureiro,  ex-hippie,  bon  vivant,  (trambiqueiro?, possivelmente)  man�aco  por  autopromo��o,  p�ssimo  em  relacionamentos pessoais, freq�entemente considerado um doido varrido.</p><p><emphasis>* Presidente: o nome oficial do cargo � presidente do Governo Imperial Gal�ctico.</emphasis><emphasis>O  termo  Imperial  �  mantido  embora  seja  atualmente  um  anacronismo.  O  imperador</emphasis><emphasis>heredit�rio est� quase morto) h� muitos s�culos. Nos �ltimos instantes de seu coma, ele</emphasis><emphasis>foi colocado num campo de estase, que o mant�m num estado de imutabilidade perp�tua.</emphasis><emphasis>Todos os seus herdeiros j� morreram h� muito tempo, o que significa que, sem ter havido</emphasis><emphasis>nenhuma grande convuls�o pol�tica, o centro do poder foi deslocado de forma simples e</emphasis><emphasis>eficaz para escal�es inferiores, sendo agora aparentemente atribui��o de um �rg�o cujos</emphasis><emphasis>membros  antes  atuavam  como  simples  conselheiros  do  imperador  -  uma  assembl�ia</emphasis><emphasis>governamental eleita, chefiada por um presidente eleito por ela. Na verdade, n�o � a� que</emphasis><emphasis>est� o poder, em absoluto. </emphasis></p><p><emphasis>O  presidente,  em  particular,  �  simplesmente  uma  figura  p�blica:  n�o  det�m  nenhum</emphasis><emphasis>poder. Ele � aparentemente escolhido pelo governo, mas as qualidades que ele deve exibir</emphasis><emphasis>nada  t�m  a  ver  com  lideran�a.  Ele  deve  �  possuir  um  sutil  talento  para  provocar</emphasis><emphasis>indigna��o. Por esse motivo, o presidente � sempre uma figura pol�mica, sempre uma</emphasis><emphasis>personalidade  irritante,  por�m  fascinante  ao  mesmo  tempo.  N�o  cabe  a  ele  exercer  o</emphasis><emphasis>poder, e sim desviar a aten��o do poder. Com base nesses crit�rios, Zaphod Beeblebrox � </emphasis></p><p><emphasis>um dos melhores presidentes que a Gal�xia j� teve - pois j� passou dois dos dez anos de</emphasis><emphasis>seu  mandato  na  cadeia,  condenado  por  fraude.  Pouqu�ssimas  pessoas  sabem  que  o</emphasis><emphasis>presidente  e  o  governo  praticamente  n�o  t�m  nenhum  poder,  e,  dessas  pouqu�ssimas</emphasis><emphasis>pessoas,  apenas  seis  sabem  onde  �,  de  fato,  exercido  o  verdadeiro  poder  pol�tico.  A</emphasis><emphasis>maioria das outras est� convencida de que, em �ltima inst�ncia, o poder � exercido por</emphasis><emphasis>um computador. Elas n�o poderiam estar mais erradas. </emphasis></p><p>
Presidente?</p><p>
Mas  o  universo  n�o  havia  enlouquecido,  pelo  menos  n�o  em  rela��o  a isso.</p><p>
Apenas seis pessoas em toda a Gal�xia conheciam o princ�pio no qual se baseava o governo gal�ctico, e sabiam que, uma vez proclamada a inten��o de Zaphod  Beeblebrox  de  concorrer  �  Presid�ncia,  a  coisa  estava  mais  ou  menos resolvida: ele tinha tudo para ser presidente.</p><p>
O  que  elas  realmente  n�o  entendiam  era  por  que  Zaphod  resolvera  se candidatar.</p><p>
Zaphod  deu  uma  guinada  s�bita  com  o  barco,  levantando  um  len�ol d'�gua.</p><p>
O dia havia chegado; o dia em que todos entenderiam quais haviam sido as  inten��es  de  Zaphod.  Aquele  dia  era  a  raz�o  de  ser  da  presid�ncia  de Zaphod  Beeblebrox.  Era  tamb�m  o  dia  em  que  ele  completava  200  anos  de idade, mas isto era apenas mais uma coincid�ncia sem qualquer significado. Enquanto  seu  barco  atravessava  os  mares  de  Damogran,  ele  sorria  de leve, pensando no dia maravilhoso e divertido que tinha pela frente. Relaxou os m�sculos  e  descansou  os  dois  bra�os  pregui�osamente  no  encosto,  e  ficou dirigindo  o  barco  com  um  bra�o  adicional  que  ele  instalara  recentemente embaixo de seu bra�o direito, para melhorar seu desempenho no esquiboxe.</p><p>
-  Sabe  -  cantarolou  ele  para  si  pr�prio  -,  voc�  �  realmente  um  cara incr�vel.</p><p>
Mas seus nervos cantavam uma can��o mais estridente do que um apito para chamar cachorro.</p><p>
A ilha da Fran�a tinha cerca de 30 quil�metros de comprimento por nove de largura; era arenosa e em forma de crescente. Na verdade, dava a impress�o de  ser  menos  uma  ilha  propriamente  dita  do  que  uma  simples  maneira  de definir o formato e a curvatura de uma grande ba�a. A impress�o era ressaltada pelo  fato  de  que  a  costa  interior  do  crescente  consistia  apenas  em  penhascos �ngremes. Do alto do penhasco, o terreno seguia um declive gradual at� a costa oposta, nove quil�metros adiante.</p><p>
No alto dos penhascos havia um comit� de recep��o.</p><p>
Era constitu�do basicamente de engenheiros e pesquisadores que haviam constru�do  a  nave  Cora��o  de  Ouro  -  human�ides  em  sua  maioria,  mas havia um  ou  outro  atomeiro  reptil�ide,  dois  ou  tr�s  maximegalacticianos  verdes silf�ides, um ou dois fissucturalistas oct�podes e um Huluvu (o Huluvu � uma tonalidade de azul superinteligente). Todos, com exce��o do Huluvu, trajavam jalecos de laborat�rio de gala, multicoloridos e resplandecentes; o Huluvu fora temporariamente  refratado  num  prisma  capaz  de  ficar  em  p�,  especialmente para a ocasi�o.</p><p>
Havia  um  clima  de  enorme  empolga��o  entre  eles.  Trabalhando  em equipe,  haviam  atingido  e  ultrapassado  os  limites  �ltimos  das  leis  f�sicas, reestruturado  a  configura��o  fundamental  da  mat�ria,  for�ado,  torcido  e partido  as  leis  das  possibilidades  e  impossibilidades,  mas  apesar  disso  o  que mais  os  entusiasmava  era  a  oportunidade  de  conhecer  um  homem  com  uma faixa alaranjada�m volta do pesco�o (o distintivo tradicional do presidente da Gal�xia). Talvez at� n�o fizesse muita diferen�a se eles soubessem exatamente quanto poder exercia o presidente da Gal�xia: absolutamente nenhum. Apenas seis  pessoas  na  Gal�xia  sabiam  que  a  fun��o  do  presidente  n�o  era  exercer poder, e sim desviar a aten��o do poder.</p><p>
Zaphod Beeblebrox era surpreendentemente bom no seu trabalho. A multid�o exultava, deslumbrada pelo sol e pela per�cia do presidente, que fazia o barco contornar o promont�rio e entrar na ba�a. O barco brilhava ao sol, ao deslizar pela superf�cie em curvas abertas.</p><p>
Na  verdade,  o  barco  n�o  precisava  encostar  na  �gua,  j�  que  ele  se apoiava  numa  camada  de  �tomos  ionizados,  mas  para  fazer  efeito  ele  vinha equipado com umas quilhas finas que podiam ser baixadas para dentro d'�gua. Elas levantavam len��is d'�gua no ar e rasgavam sulcos profundos no mar, que espumava na esteira do barco.</p><p>
Zaphod adorava fazer efeitos: era sua especialidade.</p><p>
Virou a roda do leme subitamente. A embarca��o descreveu uma curva fechada bem rente ao penhasco e parou, balan�ando ao sabor das ondas suaves. Segundos depois, Zaphod j� estava no tombadilho, acenando e sorrindo para  mais  de  tr�s  bilh�es  de  pessoas.  Os tr�s bilh�es de pessoas n�o estavam fisicamente  presentes,  por�m  assistiam  a  tudo  atrav�s  dos  olhos  de  uma pequena c�mera-rob� tridimensional, que pairava no ar ali perto, subserviente. As proezas do presidente faziam muito sucesso junto ao p�blico: era para isso que elas serviam, mesmo.</p><p>
Zaphod sorriu outra vez. Tr�s bilh�es e seis pessoas n�o sabiam, mas a proeza  daquele  dia  seria  mais  incr�vel  do  que  qualquer  coisa  que  elas esperassem.</p><p>
A  c�mera-rob�  aproximou-se  para  fazer  um  close  da  cabe�a  mais popular  (ele  tinha  duas)  do  presidente,  e  ele  acenou  outra  vez.  Sua  apar�ncia era mais ou menos human�ide, afora a segunda cabe�a e o terceiro bra�o. Seus cabelos  claros  e  despenteados  apontavam  para  todas  as  dire��es,  seus  olhos azuis brilhavam com um sentido absolutamente incompreens�vel e seus queixos estavam quase sempre com a barba por fazer.</p><p>
Um globo transparente de sete metros de altura flutuava ao lado de seu barco, balan�ando as ondas, brilhando ao sol. Dentro dele flutuava um amplo sof� semicircular, estofado com um espl�ndido couro vermelho. Quanto mais o globo balan�ava, mais o sof� permanecia completamente im�vel, como se fosse um rochedo transformado em sof�. Mais uma vez, o objetivo principal daquilo era fazer efeito.</p><p>
Zaphod  atravessou  a  parede  do  globo  e  refestelou-se  no  sof�.  P�s dois bra�os sobre o encosto do sof�, e com o terceiro espanou um pouco de poeira que  tinha  no  joelho.  Suas  cabe�as  olharam  ao  redor,  sorridentes;  p�s  os  p�s sobre o sof�. "Se n�o conseguisse se conter, ia come�ar a gritar", pensou ele. Debaixo da bolha a �gua fervia, subia, esguichava. A bolha elevava-se no ar, balan�ando-se na coluna de �gua. Subia mais e mais, refletindo raios de sol em dire��o ao penhasco. Subia impulsionada pela �gua que esguichava debaixo dela e ca�a de volta na superf�cie do mar, dezenas e dezenas de metros abaixo. Zaphod sorriu, imaginando o efeito visual.</p><p>
Um meio de transporte absolutamente rid�culo, por�m bel�ssimo. No  alto  do  penhasco  o  globo  parou  por  um  instante,  pousou  numa rampa  gradeada,  rolou  at�  uma  pequena  plataforma  c�ncava  e  l�  parou,  por fim.</p><p>
Aplaudido  entusiasticamente,  Zaphod  Beeblebrox  saiu  da  bolha.  Sua faixa alaranjada brilhava ao sol.</p><p>
O presidente da Gal�xia havia chegado.</p><p>
Esperou  que  os  aplausos  morressem  e  levantou  a  m�o,  saudando  a multid�o.</p><p>
- Oi - disse.</p><p>
Uma  aranha  do  governo  chegou-se  at�  ele  e  tentou  lhe  entregar  uma c�pia  de  seu  discurso  previamente  preparado.  As  p�ginas  3  a  7  da  vers�o original estavam naquele momento flutuando no mar de Damogran, a uns dez quil�metros da ba�a. As p�ginas 1 e 2 haviam sido encontradas por uma �guiade-crista-frondosa  de  Damogran  e  j�  haviam  sido  incorporadas  a  um  novo  e extraordin�rio tipo de ninho que a �guia inventara. Era constru�do basicamente de  <emphasis>papier m�ch�, </emphasis> e era praticamente imposs�vel para um filhote de �guia rec�msa�do do ovo escapar de dentro dele. A �guia-de-crista-frondosa de Damogran<strong/></p><p>
ouvira  vagamente  falar  de  luta  pela  sobreviv�ncia  da  esp�cie,  mas  n�o  queria nem saber dessa hist�ria.</p><p>
Zaphod  Beeblebrox  n�o  ia  precisar  de  seu  discurso  preparado  e delicadamente recusou a c�pia oferecida pela aranha.</p><p>
- Oi - repetiu.</p><p>
Todo  mundo  sorriu  para  ele,  ou  pelo  menos  quase  todo  mundo.  Viu Trillian  no  meio  da  multid�o.  Era  uma  garota  que  Zaphod  conhecera recentemente  ao  visitar  um  planeta,  inc�gnito,  como  turista.  Era  esguia, morena,  human�ide,  com  longos  cabelos  negros  e  ondulados,  uma  boca carnuda, um narizinho estranho e saliente e olhos ridiculamente castanhos. Seu len�o de cabelo vermelho, amarrado de modo diferente, e seu vestido longo e leve  de  seda  marrom  lhe  davam  uma  apar�ncia  vagamente  �rabe.  N�o  que ningu�m  ali  jamais  tivesse  ouvido  falar  nos  �rabes,  claro.  Os  �rabes  haviam deixado de existir muito recentemente, e mesmo no tempo em que eles existiam estavam  a  500  mil  anos-luz  de  Damogran.  Trillian  n�o  era  ningu�m  em particular, ou pelo menos era isso que Zaphod dizia. Ela simplesmente andava muito com ele e lhe dizia o que pensava a seu respeito.</p><p>
- Oi, meu bem - disse para ela.</p><p>
Ela lhe dirigiu um sorriso r�pido e tenso e desviou o olhar. Ent�o olhou novamente  para  ele  por  um  momento  e  sorriu  de  forma  mais  calorosa  -  mas agora ele j� estava olhando para outro lado.</p><p>
-  Oi - disse para um pequeno grupo de criaturas da imprensa, que estava a pouca dist�ncia dali, ansioso para que parasse de dizer "oi" e come�asse logo a dizer coisas que eles pudessem publicar.</p><p>
Zaphod  sorriu,  pensando  que  dentro  de  alguns  instantes  ia  dar<strong/>a  eles coisas muito interessantes, mas muito interessantes, mesmo, para publicar. Por�m  o  que  ele  disse em seguida n�o interessou muito �s criaturas da imprensa. Um dos funcion�rios do partido conclu�ra, irritado, que o presidente obviamente  n�o  estava  a  fim  de  ler  o  discurso  fascinante  que  havia  sido preparado para ele, e acionara um interruptor no controle remoto que tinha no bolso.  Ao  longe,  uma  enorme  c�pula  branca  que  se  destacava  contra  o  c�u rachou  ao  meio,  abriu-se  e  foi  lentamente  dobrando-se  sobre  o  ch�o.  Todos ficaram boquiabertos, embora soubessem perfeitamente que aquilo ia acontecer, j� que eles pr�prios haviam constru�do a c�pula.</p><p>
Embaixo  dela  havia  uma  imensa  espa�onave,  de  150  metros  de comprimento,  esguia  como  um  t�nis  de  corrida,  perfeitamente  branca  e estonteantemente  bonita.  Bem  no  centro  dela,  invis�vel  para  quem  olhava  de fora, havia uma pequena caixa de ouro que continha o aparelho mais alucinante jamais concebido em toda a Gal�xia, o qual deu o nome � nave - o Cora��o de Ouro.</p><p>
-  Uau!  -  disse  Zaphod  Beeblebrox  ao  ver  a  nave  Cora��o  de  Ouro. Tamb�m, n�o tinha outra coisa a dizer.</p><p>
E repetiu, porque sabia que isso ia irritar a imprensa:</p><p>
-Uaul</p><p>
Toda a multid�o virou-se para ele, cheia de expectativa. Zaphod piscou o olho para Trillian, que al�ou as sobrancelhas e arregalou os olhos para ele. Ela sabia o que ele ia dizer agora, e achava-o muito exibido.</p><p>
-  �  realmente  incr�vel  -  disse  Zaphod.  -  �  realmente  incrivelmente incr�vel. � t�o incrivelmente incr�vel que acho que estou com vontade de roub�la. Uma  maravilhosa  frase  presidencial,  absolutamente  apropriada.  A multid�o riu, satisfeita, os jornalistas apertaram os bot�es de suas reporm�ticas subeta e o presidente sorriu.</p><p>
Enquanto  sorria,  seu  cora��o  batia  desesperadamente  e  seus  dedos tateavam a pequena bomba paralisom�tica que trazia no bolso. De repente, n�o ag�entou mais. Virou ambos os rostos para o c�u, soltou um tremendo grito, formando um acorde de terceira maior, jogou a bomba no ch�o e saiu correndo por entre aqueles rostos sorridentes imobilizados. <strong>Cap�tulo 5 </strong></p><p>
Prostetnic  Vogon  Jeltz  n�o  era  bonito  de  se  ver.  Nem  outros  vogons gostavam  de  olhar  para  ele.  Seu  nariz  alto  e  abobadado  elevava-se  acima  de uma  testa  estreita  e  porcina.  Sua  pele  verde-escura  e  borrachuda  era  grossa  o suficiente para permitir-lhe jogar - e bem - o jogo da pol�tica do funcionalismo p�blico vogon, e t�o resistente � �gua que lhe permitia sobreviver por per�odos indefinidamente longos no fundo do mar a profundidades de 300 metros, sem qualquer efeito negativo.</p><p>
O que n�o significa que ele sequer houvesse nadado algum dia, � claro. N�o tinha tempo para isso. Ele era do jeito que era porque, h� bilh�es de&gt;anos, quando os vogons pela primeira vez sa�ram dos mares primevos da V�gsfera e foram arfar nas praias virgens do planeta, quando os primeiros raios do jovem e forte  Vogsol  os  atingiu  naquela  manh�,  foi  como  se  as  for�as  da  evolu��o houvessem  simplesmente  desistido  deles,  virado  para  o  outro  lado,  cheias  de avers�o,  considerando-os  um  erro  infeliz  e  repulsivo.  Nunca  mais  os  vogons evolu�ram: n�o deviam sequer ter sobrevivido.</p><p>
Se  sobreviveram,  isto  se  deveu  �  teimosia  e  �  for�a  de  vontade  dessas criaturas de racioc�nio pregui�oso.  <emphasis>Evolu��o?, </emphasis> pensavam elas.  <emphasis>Evolu��o pra qu�? </emphasis> E</p><p>
o  que  a  natureza  se  recusou  a  fazer  por  eles  ficou  por  isso  mesmo,  at�  que pudessem  consertar  as  grosseiras  inconveni�ncias  anat�micas  atrav�s  da cirurgia.</p><p>
Enquanto  isso,  as  for�as  naturais  do  planeta  Vogsfera  estavam trabalhando  mais  do  que  nunca,  fazendo  hora  extra  para  compensar  o  erro anterior. Criaram caranguejos �geis, cobertos de j�ias cintilantes, que os vogons comiam,  quebrando  suas  carapa�as  com  marretas  de  ferro;  �rvores  altas, extraordinariamente  esguias  e  coloridas,  que  os  vogons  derrubavam  e queimavam  para  cozinhar  a  carne  dos  caranguejos;  criaturas  elegantes, semelhantes  a  gazelas,  de  p�los  sedosos  e  olhos  orva-lhados,  que  os  vogons capturavam  para  sentar  em  cima.  Elas  n�o  serviam  como  meio  de  transporte porque  suas  espinhas  partiam-se  imediatamente,  mas  os  vogons  sentavam-se em cima delas assim mesmo.</p><p>
Assim, o planeta Vogsfera atravessou tristes mil�nios at� que os vogons descobriram  de  repente  os  princ�pios  do  transporte  interestelar.  Poucos  anos vogs  depois,  todos  os  vogons  j�  haviam  migrado  para  o  aglomerado  de Megabrantis, o centro pol�tico da Gal�xia, e agora constitu�am a poderos�ssima espinha dorsal do funcionalismo p�blico da Gal�xia. Tentaram adquirir cultura, tentaram  adquirir  estilo  e  boas  maneiras,  mas  sob  quase  todos  os  aspectos  o vogon  moderno  pouco  difere  de  seus  ancestrais  primitivos.  Todo  ano  eles importam 27 mil caranguejos cintilantes de seu planeta nativo e passam muitas noites divertidas bebendo e esmigalhando caranguejos com marretas de ferro. Prostetnic  Vogon  Jetz  era  um  vogon  mais  ou  menos  t�pico,  j�  que  era absolutamente vil. Al�m disso, n�o gostava de mochileiros. Em uma pequena e escura cabine nas entranhas mais profundas da nave capitania  de  Prostetnic  Vogon  Jetz,  um  f�sforo  acendeu-se  nervosamente.  O</p><p>
dono  do  f�sforo  n�o  era  um  vogon,  mas  sabia  tudo  sobre  os  vogons,  e  tinha toda raz�o de estar nervoso. Chamava-se Ford Prefect.*</p><p>
Olhou ao redor, mas n�o dava para ver quase nada; sombras estranhas e monstruosas  formavam-se  e  tremiam  �  luz  bruxuleante  do  f�sforo,  mas  o sil�ncio  era  completo.  Silenciosamente,  Ford  agradeceu  aos  dentrassis.  Os dentrassis  s�o  uma  tribo  indisciplinada  de  gourmands,  um  povo  selvagem, por�m simp�tico. Recentemente vinham sendo empregados pelos vogons como comiss�rios  de  bordo  em  suas  viagens  mais  longas,  sob  a  condi��o  de  que ficassem na deles.</p><p>
Os  dentrassis  achavam  isto  �timo,  porque  adoravam o dinheiro vogon, que � uma das moedas mais s�lidas do espa�o, por�m detestavam os vogons. Os dentrassis s� gostavam de ver um vogon quando ele estava chateado. Gra�as a esse pequeno detalhe, Ford Prefect n�o fora transformado numa nuvenzinha de hidrog�nio, oz�nio e mon�xido de carbono.</p><p>
Ford  ouviu  um  leve  gemido.  �  luz  do  f�sforo,  viu  uma  forma  pesada mexendo-se  no  ch�o.  Rapidamente  apagou  o  f�sforo,  p�s  a  m�o  no  bolso, encontrou  o  que  procurava  e  tirou-o  do  bolso.  Abriu  o  pacote  e  sacudiu-o. Ajoelhou-se. A forma mexeu-se de novo. Foi;d Prefect disse:</p><p>
-</p><p>
Eu trouxe uns amendoins.</p><p><emphasis>*  O  nome  original  de  Ford  Prefect  s�  �  pronunci�vel  num  obscuro  dialeto</emphasis><emphasis>betelgeusiano, hoje em dia praticamente extinto, devido ao Grande Desastre Hrung do</emphasis><emphasis>Ano/Gal./Sid.  03578,  que  dizimou  todas  as  antigas  comunidades  praxibetelenses  de</emphasis><emphasis>Betelgeuse  VII.  O  pai  de  Ford  foi  o  �nico  homem  em  todo  o  planeta  a  sobreviver  ao</emphasis><emphasis>Grande  Desastre  Hrung,  devido  a  uma  extraordin�ria  coincid�ncia  que  ele  jamais</emphasis><emphasis>conseguiu  explicar  de  modo  satisfat�rio.  Todo  o  epis�dio est� envolto em mist�rio: na</emphasis><emphasis>verdade, ningu�m jamais descobriu o que era um Hrung e por que ele resolveu cair em</emphasis><emphasis>cima de Betelgeuse VII em particular. O pai de Ford, magn�nimo, ignorou as nuvens de</emphasis><emphasis>suspeita que naturalmente se formaram em torno dele e foi morar em Betelgeuse V, onde</emphasis><emphasis>se tornou ao mesmo tempo pai e tio de Ford; em mem�ria de seu povo agora extinto, deu-</emphasis><emphasis>lhe um nome no antigo idioma praxibetelense. </emphasis></p><p><emphasis>Como  Ford  jamais  aprendeu  a  dizer  seu  nome  original,  seu  pai  terminou</emphasis><emphasis>morrendo de vergonha, coisa que ainda � uma doen�a fatal em certas regi�es da Gal�xia.</emphasis><emphasis>Na escola, seus colegas o apelidaram de Ix, o que no idioma de Betelgeuse II quer dizer </emphasis></p><p><emphasis>"menino que n�o sabe explicar direito o que � um Hrung nem por que ele resolveu cair</emphasis><emphasis>em cima de Betelgeuse VII". </emphasis></p><p>
Arthur Dent mexeu-se e gemeu de novo, produzindo sons incoerentes.</p><p>
-Tome, coma um pouco - insistiu Ford, sacudindo o pacote.</p><p>
-  Se  voc�  nunca  passou  antes  por  um  raio  de  transfer�ncia  de  mat�ria, voc�  deve  ter  perdido  sal  e  prote�na.  A  cerveja  que  voc�  tomou  deve  ter protegido um pouco seu organismo.</p><p>
- Rrrrr... - disse Arthur Dent. Abriu os olhos. - Est� escuro.</p><p>
- � - disse Ford Prefect -, est� escuro, sim.</p><p>
- Luz nenhuma - disse Arthur Dent. - Escuro, completamente. Uma das coisas que Ford Prefect jamais conseguiu entender</p><p>
em  rela��o  aos  seres  humanos  era  seu  h�bito  de  afirmar  e  repetir continuamente o �bvio mais �bvio, coisas do tipo  <emphasis>Est� um belo dia, </emphasis> ou  <emphasis>Como voc� </emphasis></p><p><emphasis>� alto, </emphasis> ou  <emphasis>Ah, meu Deus, voc� caiu num po�o de dez metros de profundidade, voc� est� </emphasis></p><p><emphasis>bem?. </emphasis> De  in�cio,  Ford  elaborou  uma  teoria  para  explicar  esse  estranho comportamento.  Se  os  seres  humanos  n�o  ficarem  constantemente  utilizando seus  l�bios  -  pensou  ele  -,  eles  grudam  e  n�o  abrem  mais.  Ap�s  pensar  e observar  por  alguns  meses,  abandonou  essa  teoria  em  favor  de  outra:  se  eles n�o ficarem constantemente exercitando seus l�bios - pensou ele -, seus c�rebros come�am a funcionar. Depois de algum tempo, abandonou tamb�m esta teoria, por ach�-la demasiadamente c�nica, e concluiu que, na verdade, gostava muito dos  seres  humanos.  Contudo,  sempre  ficava  muit�ssimo  preocupado  ao constatar como era imenso o n�mero de coisas que eles desconheciam.</p><p>
-  �  -  concordou  Ford  -,  nenhuma  luz.  -  Deu  uns  amendoins  a  Arthur  e perguntou-lhe: - Como � que voc� est� se sentindo?</p><p>
- Que nem numa academia militar, em posi��o de sentido -disse Arthur. - A toda hora, um pedacinho de mim desmaia.</p><p>
Ford, sem entender, arregalou os olhos na escurid�o.</p><p>
- Se eu lhe perguntasse em que diabo de lugar a gente est�</p><p>
-  perguntou  Arthur,  hesitante  -,  eu  me  arrependeria  de  ter  feito  esta pergunta?</p><p>
- Estamos a salvo - disse Ford, levantando-se.</p><p>
- Ah, bom.</p><p>
-    Estamos  dentro  de  uma  pequena  cabine  de  uma das espa�onaves da Frota de Constru��o Vogon.</p><p>
-  Ah  -  disse  Arthur.  -  Pelo  visto,  voc�  est�  empregando  a  express�o  "a salvo" num sentido estranho que eu n�o conhe�o.</p><p>
Ford acendeu outro f�sforo para tentar encontrar um interruptor de luz. Novamente surgiram sombras monstruosas. Arthur p�s-se de p� e abra�ou seus pr�prios ombros, apreensivo. Formas alien�genas horr�veis pareciam cerc�-lo; o ar estava cheio de odores ran�osos que entravam em seus pulm�es sem terem sido identificados, e um zumbido grave e irritante impedia que ele concentrasse sua aten��o.</p><p>
-  Como � que viemos parar aqui? - perguntou, tremendo um pouco.</p><p>
- Pegamos uma carona - disse Ford.</p><p>
-  Espere a�! - disse Arthur. - Voc� est� me dizendo que a gente levantou o  polegar  e  algum  monstrinho  verde  de  olhos  esbugalhados  p�s a cabe�a pra fora e disse: Oi,  <emphasis>gente, entrem a� que eu deixo voc�s na sa�da do viaduto? </emphasis></p><p>
-  Bem  -  disse  Ford  -,  o  polegar  na  verdade  �  um  sinalizador  eletr�nico subeta, e a sa�da do viaduto, no caso, � a estrela de Barnard, a seis anos-luz da Terra; mas no geral � mais ou menos isso.</p><p>
- E o monstrinho de olhos esbugalhados?</p><p>
- � verde, sim.</p><p>
- Tudo bem - disse Arthur -, mas quando eu vou voltar para casa?</p><p>
-    N�o  vai  -  disse  Ford  Prefect,  e  encontrou  o  interruptor.  -  Proteja  os olhos... - acrescentou, e acendeu a luz.</p><p>
At� mesmo Ford ficou surpreso.</p><p>
-  Minha  nossa!  -  disse  Arthur.  -  Estamos  mesmo  dentro  de  um  disco voador?</p><p>
Prostetnic Vogon Jeltz contornou com seu corpo verde e desagrad�vel a ponte de comando da nave. Sempre se sentia vagamente irritado ap�s demolir planetas  povoados.  Desejou  que  algu�m  viesse  lhe  dizer  que  estava  tudo errado,  pois  a�  ele  poderia  dar  uma  bronca  e  se  sentir  melhor.  Jogou-se  com todo  o  peso  no  seu  banco  na  esperan�a  de  que  ele  quebrasse,  dando-lhe  um bom  motivo  para  se  irritar,  mas  o  banco  limitou-se  a  ranger,  como  se reclamasse.</p><p>
-V�  embora!  -  gritou  ele  para  um  jovem  guarda  vogon  que  entrava naquele instante na ponte de comando.</p><p>
O  guarda  desapareceu  imediatamente,  um  tanto  aliviado.  Assim,  n�o seria  ele  quem  teria  de  dar  a  not�cia  que  acabava  de  ser  recebida.  Era  um despacho  oficial  informando  que  um  novo  tipo  maravilhoso  de  espa�onave estava sendo lan�ado naquele instante num centro de pesquisas do governo em Damogran que tornaria desnecess�rias todas as vias expressas hiperespaciais. Outra porta abriu-se, mas dessa vez o capit�o vogon n�o gritou, porque era  a  porta  que  dava  para  a  cozinha,  onde  os  dentrassis  trabalhavam.  Uma refei��o agora seria �tima id�ia.</p><p>
Uma  enorme  criatura  peluda  entrou  com  uma  bandeja  e  um  sorriso  de maluco.</p><p>
Prostetnic  Vogon  Jeltz  ficou  contente.  Sabia  que  quando  um  dentrassi estava  sorridente  daquele  jeito  era porque havia alguma coisa acontecendo na nave que lhe daria um pretexto para ficar irritad�ssimo.</p><p>
Ford e Arthur olhavam ao redor.</p><p>
- Bem, o que voc� acha? - perguntou Ford.</p><p>
- Meio bagun�ado, n�o �?</p><p>
Ford olhou contrafeito para os colch�es encardidos, copos sujos e roupas de baixo malcheirosas de alien�genas espalhadas pela cabine apertada.</p><p>
- Bem, isso aqui � uma nave de servi�o - disse Ford. - Estamos numa das cabines dos dentrassis.</p><p>
- Mas n�o eram vogons ou coisa parecida?</p><p>
-  � - disse Ford. - Os vogons mandam, os dentrassis cozinham. Foram eles que nos deram carona.</p><p>
- Estou meio confuso - disse Arthur.</p><p>
-    D�  uma  olhada  nisso  -  disse  Ford,  sentando-se  num  dos  colch�es  e mexendo em sua mochila.</p><p>
Arthur apalpou o colch�o nervosamente e depois sentou-se tamb�m: na verdade,  n�o  havia  motivo  para  ficar  nervoso,  j�  que  todos  os  colch�es cultivados  nos  p�ntanos  de  Sqornshel-lous  Zeta  s�o  muito  bem  mortos  e ressecados antes de serem utilizados. � muito raro um desses colch�es voltar �</p><p>
vida.</p><p>
Ford deu o livro a Arthur.</p><p>
- Que � isso? - perguntou Arthur.</p><p>
-    O   <emphasis>Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias. </emphasis>�  uma  esp�cie  de  livro  eletr�nico. Tem tudo sobre todos os assuntos. Informa sobre qualquer coisa. Arthur revirou nervosamente o aparelho.</p><p>
-    Gostei  da  capa  - disse ele. -  <emphasis>N�o entre em p�nico. </emphasis> Foi a primeira coisa sensata e intelig�vel que me disseram hoje.</p><p>
- Eu lhe mostro como funciona - disse Ford. Pegou o livro das m�os de Arthur,  que  continuava  a  segur�-lo  como  se  fosse  um  p�ssaro  morto  h�  duas semanas, e tirou-o de dentro da capa.</p><p>
- Aperte esse bot�o aqui que a tela acende e aparece o �ndice. Uma tela de cerca de oito por dez cent�metros iluminou-se</p><p>
e come�aram aparecer caracteres em sua superf�cie.</p><p>
- Voc� quer saber sobre os vogons. Ent�o � s� digitar "vo-gon", assim. - Ford apertou umas teclas. - Veja.</p><p>
As palavras  <emphasis>Frota de Constru��o Vogon </emphasis> apareceram em letras verdes. Ford  apertou  um  grande  bot�o  vermelho  embaixo  da  tela  e  um  texto come�ou a correr por ela, ao mesmo tempo que uma voz calma e controlada ia lendo o que estava escrito:</p><p><emphasis>"Frota  de  Constru��o  Vogon.  Voc�  quer  pegar  carona  com  vogons?  Pode</emphasis><emphasis>desistir.  Trata-se  de  uma das ra�as mais desagrad�veis da Gal�xia. N�o chegam a ser</emphasis><emphasis>mal�volos,  mas  s�o  mal-humorados,  burocr�ticos,  intrometidos  e  insens�veis.  Seriam</emphasis><emphasis>incapazes  de  levantar  um  dedo  para  salvarem  suas  pr�prias  av�s  da  Terr�vel  Besta</emphasis><emphasis>Voraz de Traal sem antes receberem ordens expressas atrav�s de um formul�rio em tr�s</emphasis><emphasis>vias,  envi�-lo,  devolv�-lo,  pedi-lo  de  volta,  perd�-lo,  encontr�-lo  de  novo,  abrir  um</emphasis><emphasis>inqu�rito a respeito, perd�-lo de novo e finalmente deix�-lo tr�s meses sob um monte de</emphasis><emphasis>turfa, para depois recicl�-lo como papel para acender fogo.</emphasis><emphasis>A melhor maneira de conseguir que um vogon lhe arranje um drinque � enfiar o</emphasis><emphasis>dedo na garganta dele, e a melhor maneira de irrit�-lo � alimentar a Terr�vel Besta Voraz</emphasis><emphasis>de Traal com a av� dele. </emphasis></p><p><emphasis>Jamais, em hip�tese alguma, permita que um vogon leia poemas para voc�."</emphasis> Arthur ficou olhando para a tela.</p><p>
-  Que livro esquisito. Ent�o como foi que pegamos essa carona?</p><p>
-  �  justamente  essa  a  quest�o.  O  livro  est�  desatualizado  -disse  Ford, guardando-o dentro da capa. - Estou fazendo uma pesquisa de campo pra nova edi��o  revista  e  aumentada,  e  uma  das  coisas  que  eu  vou  ter  que  fazer  �</p><p>
mencionar que agora os vogons est�o empregando dentrassis como cozinheiros, o que facilita as coisas pra n�s.</p><p>
Uma express�o contrariada surgiu no rosto de Arthur.</p><p>
- Mas quem s�o esses dentrassis?</p><p>
- Gente fin�ssima - disse Ford. - S�o disparado os melhores cozinheiros e os  melhores  preparadores  de  drinques,  e  est�o  se  lixando  pra  todo  o  resto.  E</p><p>
sempre d�o carona pras pessoas, em parte porque gostam de companhia, mas acima de tudo para irritar os vogons. O que � exatamente o tipo de coisa que voc�  precisa  saber  se  �  um  mochileiro  sem  muita  grana  a  fim  de  ver  as maravilhas  do  Universo  por  menos  de  30  d�lares  altairenses  por  dia.  Meu trabalho � esse. Divertido, n�o �? Arthur parecia perdido.</p><p>
-  �  incr�vel  -  disse,  olhando  de  testa  franzida  para  um  dos  outros colch�es.</p><p>
-  Infelizmente,  fiquei  parado  na  Terra  bem  mais  tempo  do  que  eu pretendia - prosseguiu Ford. - Fui passar uma semana e acabei preso l� por 15</p><p>
anos.</p><p>
- Mas como foi que voc� chegou l�?</p><p>
- Foi f�cil, peguei carona com um gozador.</p><p>
- Um gozador? -�.</p><p>
- Mas... que � um...?</p><p>
-  Gozador?  Normalmente  �  um  filho  de  papai  rico  que  n�o  tem  o  que fazer. Fica zanzando por a� procurando planetas que ainda n�o fizeram nenhum contato interestelar e vai l� pirar as pessoas.</p><p>
- Pirar as pessoas? - Arthur come�ou a pensar que Ford estava gostando de complicar a vida para ele.</p><p>
-  �  -  disse  Ford  -,  fica  pirando as pessoas. Vai a um lugar bem isolado onde tem pouca gente, a� pousa ao lado de um pobre infeliz em que ningu�m jamais vai acreditar e fica andando na frente dele, com umas antenas rid�culas na  cabe�a,  fazendo  bip-bip  e  outros  ru�dos  engra�ados.  Realmente,  uma tremenda criancice. - Ford recostou-se no colch�o, apoiando a cabe�a nas m�os; aparentava estar irritantemente satisfeito consigo mesmo.</p><p>
- Ford - insistiu Arthur -, n�o sei se minha pergunta � idiota, mas o que �</p><p>
que eu estou fazendo aqui?</p><p>
- Bem, isso voc� sabe - disse Ford -, eu salvei voc� da Terra.</p><p>
- E o que aconteceu com a Terra?</p><p>
- Ah. Ela foi demolida.</p><p>
- Ah, sei - disse Arthur, controlado.</p><p>
- Pois �. Foi simplesmente vaporizada.</p><p>
-  Escute - disse Arthur -, estou meio chateado com essa not�cia. Ford franziu a testa, e pareceu estar pensando.</p><p>
- �, eu entendo - disse, por fim.</p><p>
- Eu entendo! - gritou Arthur. - Eu entendo! Ford p�s-se de p� num salto.</p><p>
- Olhe para o livro - insistiu ele.</p><p>
- O qu�?</p><p>
-  <emphasis>N�o entre em p�nico. </emphasis></p><p>
- N�o estou entrando em p�nico!</p><p>
- Est�, sim.</p><p>
- Est� bem, estou. O que voc� quer que eu fa�a?</p><p>
- Venha comigo e se divirta. A Gal�xia � um barato. S� que voc� vai ter que p�r esse peixe no ouvido.</p><p>
-  Que  diabos  voc�  quer  dizer?  -  perguntou  Arthur,  de  modo  bastante delicado, pensou ele.</p><p>
Ford mostrou-lhe um pequeno vidro que continha um peixinho amarelo, que  nadava  de  um  lado  para  o  outro.  Arthur  olhou  para  ele,  sem  entender. Queria  que  houvesse  alguma  coisa  simples  e  compreens�vel  para  que  ele pudesse  se  situar.  Ele  se sentiria melhor se, juntamente com a roupa de baixo dos dentrassis, as pilhas de colch�es de Sqornshellous e o homem de Betelgeuse que lhe oferecia um peixinho amarelo para colocar no ouvido, ele pudesse ver ao menos um pacotinho de flocos de milho. Mas ele n�o podia; logo, ele sentiase perdido. De  repente  ouviu-se  um  ru�do  violento,  vindo  de  um  lugar  que  Arthur n�o  conseguiu  identificar.  Ficou  horrorizado  com  aquele  barulho,  que  parecia um  homem  tentando  gargarejar  e  lutar  contra  toda  uma  alcat�ia  de  lobos  ao mesmo tempo.</p><p>
- Pss! - disse Ford. - Escute, pode ser importante.</p><p>
- Im... importante?</p><p>
- � o comandante da nave dando um aviso.</p><p>
- Quer dizer que � assim que os vogons falam?</p><p>
- Escute!</p><p>
- Mas eu n�o sei falar vogon!</p><p>
- N�o precisa. � s� p�r esse peixe no ouvido.</p><p>
Ford, com um gesto r�pido, levou a m�o ao ouvido de Arthur, que teve de repente a desagrad�vel sensa��o de que um peixe estava se enfiando em seu conduto auditivo. Horrorizado, ficou cocando o ouvido por uns instantes, mas aos poucos seu rosto foi assumindo uma express�o maravilhada. Estava tendo uma  experi�ncia  auditiva  equivalente  a  ver  uma  representa��o  de  duas silhuetas negras e de repente passar a entend�-la como um candelabro branco, ou  de  olhar  para  um  monte  de  pontos  coloridos  e  de  repente  ver  neles  o n�mero  seis,  o  que  significa  que  seu  oculista  vai  cobrar  uma  nota  preta  para voc� trocar as lentes dos �culos.</p><p>
Arthur  continuava  ouvindo  aquela  mistura  de  gritos  e  gar-garejos,  s�</p><p>
que  de  repente  aquilo  de  algum  modo  havia  se  tornado  perfeitamente intelig�vel.</p><p>
Eis o que ele ouviu...</p><p><strong>Cap�tulo 6 </strong></p><p><emphasis/></p><p><emphasis>Grito grito gargarejo grito gargarejo grito grito grito gar-garejo grito gargarejo</emphasis><emphasis>grito  grito  gargarejo  gargarejo  pito  gargarejo  gargarejo  gargarejo  grito  slurpt</emphasis><emphasis>aaaaaaargh  </emphasis> se  divertindo.  Repetindo  mensagem. Aqui fala o comandante desta nave, por isso parem de fazer o que estiverem fazendo e prestem aten��o. Em primeiro  lugar,  nossos  instrumentos  acusam  a  presen�a  de  dois  mochileiros  a bordo. Oi; mochileiros, onde quer que estejam. Eu gostaria de deixar bem claro que  voc�s  n�o  s�o  em  absoluto  bem-vindos  a  bordo.  Eu  trabalhei  duro  para chegar  aonde  estou  hoje  e  n�o  virei  comandante  de  uma  nave  de  constru��o vogon apenas pra servir de t�xi para aproveitadores degenerados. Enviei uma equipe de busca e assim que voc�s forem encontrados ser�o expulsos da nave. Se tiverem muita sorte, lerei pra voc�s alguns dos meus poemas primeiro.</p><p>
"Em segundo lugar, estamos prestes a saltar para o hiperespa�o e seguir rumo  �  estrela  de  Barnard.  Ao  chegar  l�,  vamos  ficar  na  oficina  durante  72</p><p>
horas para reparos e ningu�m sair� da nave durante este per�odo. Repito: todas as  licen�as  de  desembarque  est�o  canceladas.  Acabo  de  sofrer  uma  desilus�o amorosa. Logo, n�o quero ver ningu�m se divertindo. Fim da mensagem." O ru�do cessou.</p><p>
Arthur  constatou,  envergonhado,  que  estava  deitado  no  ch�o,  todo encolhido, feito uma bola, com os bra�os apertados em torno da cabe�a. Sorriu, meio sem gra�a.</p><p>
- Sujeito encantador - disse ele. - Gostaria de ter uma filha, s� pra proibir que ela se casasse com um deles...</p><p>
- N�o seria preciso - disse Ford. - Os vogons t�m menos sex appeal que um desastre de carro. N�o, n�o se mexa - acrescentou quando Arthur come�ou a  se  esticar.  -  �  melhor  ficar  assim  mesmo  para  se  preparar  pra  entrar  no hiperespa�o. � uma sensa��o desagrad�vel, como uma bebida.</p><p>
- O que h� de desagrad�vel em uma bebida?</p><p>
- Pergunte como um copo d'�gua se sente. Arthur pensou um pouco.</p><p>
- Ford.</p><p>
- Que �?</p><p>
- O que � que esse peixe est� fazendo no meu ouvido?</p><p>
-  Est� traduzindo pra voc�. � um peixe-babel. Consulte o livro, se quiser. Jogou  o   <emphasis>Guia  do  Mochileiro  </emphasis> para  Arthur  e  depois  encolheu-se  todo,  em posi��o fetal, preparando-se para o salto para o hiperespa�o. Nesse instante, o c�rebro de Arthur se abriu em dois.</p><p>
Seus olhos viraram-se do avesso. Seus p�s come�aram a escorrer do topo do cr�nio.</p><p>
A  cabine  ao  seu  redor achatou-se, rodopiou, desapareceu, fazendo com que Arthur fosse chupado para dentro de seu pr�prio umbigo. Estavam passando pelo hiperespa�o.</p><p>
"O   <emphasis>peixe-babel", </emphasis> disse  O   <emphasis>Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias, </emphasis> baixinho,  <emphasis>"� </emphasis></p><p><emphasis>pequeno, amarelo e semelhante a uma sanguessuga, e � provavelmente a criatura mais</emphasis><emphasis>estranha  em  todo  o  Universo.  Alimenta-se  de  energia  mental,  n�o  daquele  que  o</emphasis><emphasis>hospeda,  mas  das  criaturas  ao  redor  dele.  Absorve  todas  as  freq��ncias  mentais</emphasis><emphasis>inconscientes desta energia mental e se alimenta delas, e depois expele na mente de seu</emphasis><emphasis>hospedeiro  uma  matriz  telep�tica  formada  pela  combina��o  das  freq��ncias  mentais</emphasis><emphasis>conscientes com os impulsos nervosos captados dos centros cerebrais respons�veis pela</emphasis><emphasis>fala do c�rebro que os emitiu. Na pr�tica, o efeito disto � o seguinte: se voc� introduz no</emphasis><emphasis>ouvido  um  peixe-babel,  voc�  compreende  imediatamente  tudo  o  que  lhe  for  dito  em</emphasis><emphasis>qualquer  l�ngua.  Os  padr�es  sonoros  que  voc�  ouve  decodificam  a  matriz  de  energia</emphasis><emphasis>mental que o seu peixe-babel transmitiu para sua mente. </emphasis></p><p><emphasis>"Ora,  seria  uma  coincid�ncia  t�o  absurdamente  improv�vel  que  um  ser  t�o</emphasis><emphasis>estonteantemente �til viesse a surgir por acaso, por meio da evolu��o das esp�cies, que</emphasis><emphasis>alguns pensadores v�em no peixe-babel a prova definitiva da </emphasis> inexist�ncia  <emphasis>de Deus. </emphasis></p><p><emphasis>"O racioc�nio � mais ou menos o seguinte: 'Recuso-me a provar que eu existo',</emphasis><emphasis>diz Deus, 'pois aprova nega a f�, e sem f� n�o sou nada.' </emphasis></p><p><emphasis>"Diz  o  homem:  'Mas  o  peixe-babel  �  uma  tremenda  bandeira,  n�o  �?  Ele  n�o</emphasis><emphasis>poderia  ter  evolu�do  por  acaso.  Ele  prova  que  voc�  existe,  e  portanto,  conforme  o  que</emphasis><emphasis>voc� mesmo disse, voc� n�o existe. QED*.' </emphasis></p><p><emphasis>"Ent�o Deus diz: 'Ih, n�o � que eu n�o tinha pensado nisso?' E imediatamente</emphasis><emphasis>desaparece, numa nuvenzinha de l�gica. </emphasis></p><p><emphasis>"'Puxa, como foi f�cil', diz o homem, e resolve aproveitar e provar que o preto � </emphasis></p><p><emphasis>branco, mas � atropelado ao atravessar fora da faixa de pedestres. </emphasis></p><p><emphasis>"A  maioria  dos  te�logos  acha  que  este  argumento  �  uma asneira, mas foi com</emphasis><emphasis>base  nela  que  Oolon  Colluphid  fez  uma  fortuna,  usando-a  como  tema  central  de  seu</emphasis><emphasis>best-seller </emphasis> Sai Dessa, Deus.</p><p><emphasis>"Enquanto isso, o pobre peixe-babel, por derrubar os obst�culos � comunica��o</emphasis><emphasis>entre  os  povos  e  culturas,  foi  o  maior  respons�vel  por  guerras  sangrentas,  em  toda  a</emphasis><emphasis>hist�ria da cria��o." </emphasis></p><p>
Arthur gemeu baixinho. Horrorizou-se ao constatar que a passagem pelo hiperespa�o  n�o  o  matara.  Agora  estava  a  seis  anos-<strong>luz  </strong>do  lugar  onde  se encontraria a Terra, se ela ainda existisse.</p><p>
*Do latim  <emphasis>quod emt demonstrandum </emphasis>(como queremos demonstrar). (N.T.) A Terra.</p><p>
Vis�es  de  seu  planeta  flutuavam  em  sua  mente  nauseada.  N�o  havia como  apreender  com  sua  imagina��o  a  id�ia  de  que  toda  a  Terra  deixara  de existir,  era  uma  id�ia  grande  demais.  Testou  seus  sentimentos,  pensando  que seus pais e sua irm� n�o existiam mais. Nenhuma rea��o. Pensou em todas as pessoas que conhecera bem. Nenhuma rea��o. Ent�o pensou num estranho que estivera parado atr�s dele na fila do supermercado, dois dias antes, e de repente sentiu  uma  pontada  -  o  supermercado  deixara  de  existir,  com  todos  que estavam  dentro  dele.  A  Coluna  de  Nelson  havia  desaparecido!  Havia desaparecido  e  n�o  haveria  uma  como��o  popular,  porque  n�o  restava ningu�m  para  fazer  uma  como��o.  Dali  em  diante,  a  Coluna  de  Nelson  s�</p><p>
existia  em  sua  mente.  A  Inglaterra  s�  existia  em  sua  mente  -  a  qual  estava enfiada naquela cabine �mida e fedorenta, numa espa�onave de metal. Sentiuse invadido por uma onda de claustrofobia. A  Inglaterra  n�o  existia  mais.  Isso  ele  j�  entendia  -  de  algum  modo conseguira  entender.  Tentou  de  novo:  a  Am�rica  n�o  existe  mais.  N�o conseguia  entender  isso.  Resolveu  come�ar  com  coisas  pequenas,  de  novo. Nova York n�o existia mais. Nenhuma rea��o. Na verdade, no fundo ele nunca acreditara  mesmo  na  exist�ncia  de  Nova  York.  "O  d�lar",  pensou  ele,  "caiu completamente."  Isso  lhe  provocou  um  pequeno  tremor.  "Todos  os  filmes  de Humphrey  Bogart  desapareceram",  pensou  ele,  e  esta  id�ia  lhe  causou  um choque  desagrad�vel.  "O  McDonalds",  pensou.  "N�o  existe  mais  nenhum  Big Mac."</p><p>
Desmaiou. Quando voltou a si, um segundo depois, chorava, chamando sua m�e.</p><p>
De repente, p�s-se de p�, com um gesto violento.</p><p>
- Ford!</p><p>
Ford, que estava sentado num canto da cabine, cantarolando, olhou para ele.  A  parte  da  viagem  em  que  a  nave  s�  se  deslocava  no  espa�o  sempre  lhe parecera muito chata.</p><p>
- Que foi? - perguntou ele.</p><p>
- Se voc� est� fazendo pesquisa pra esse livro e se voc� esteve na Terra, ent�o voc� deve ter algum material sobre a Terra.</p><p>
- �, deu pra aumentar um pouco o verbete original, sim.</p><p>
- Deixe-me ver o que estava nessa edi��o, tenho que ver.</p><p>
- Est� bem. - Estendeu o livro a Arthur de novo.</p><p>
Arthur segurou o livro, tentando fazer com que suas m�os parassem de tremer. Apertou o bot�o da p�gina que o interessava. A tela iluminou-se, piscou e exibiu uma p�gina. Arthur ficou olhando para ela.</p><p>
- N�o tem nadai - exclamou.</p><p>
Ford olhou por cima do ombro de Arthur.</p><p>
-  Tem  sim.  Olhe  l�  embaixo,  logo  abaixo  de   <emphasis>T.  Eccentrica  Gallumbits,  a</emphasis><emphasis>prostituta de tr�s seios de Eroticon 6. </emphasis></p><p>
Arthur seguiu com o olhar o dedo de Ford e viu para onde ele apontava. Por um momento, ficou sem entender; de repente, sua mente quase explodiu.</p><p>
-  O  qu�?  <emphasis>Inofensiva? </emphasis> S�  diz  isso,  mais  nada?  <emphasis>Inofensiva! </emphasis> Uma  �nica palavra!</p><p>
Ford deu de ombros.</p><p>
- Bem, tem 100 bilh�es de estrelas na Gal�xia, e os microprocessadores do livro  s�o  limitados  -  disse  ele.  -  Al�m  disso,  ningu�m  sabia  muita  coisa  a respeito da Terra, � claro.</p><p>
- Bem, eu espero que voc� tenha melhorado um pouco essa situa��o.</p><p>
-  Ah,  sim,  consegui  transmitir  um  novo  verbete  pra  reda��o.  Tiveram que resumir um pouco, mas de qualquer modo melhorou.</p><p>
- E o que diz o verbete agora? - perguntou Arthur.</p><p>
-  <emphasis>Praticamente inofensiva </emphasis>-disse Ford, com um pigarro, para disfar�ar seu constrangimento.</p><p>
-  <emphasis>Praticamente inofensiva! </emphasis>-gritou Arthur.</p><p>
- Que barulho foi esse? - sussurrou Ford.</p><p>
- Era eu gritando - falou Arthur.</p><p>
- N�o! Cale a bocal Acho que estamos em maus len��is.</p><p>
- Tremenda novidade!</p><p>
Ouvia-se l� fora o ru�do inconfund�vel de pessoas marchando.</p><p>
- Os dentrassis? - sussurrou Arthur.</p><p>
-  N�o,  s�o  botas  de  ponta  de  metal  -  disse  Ford.  Ouviram-se  batidas vigorosas na porta.</p><p>
- Ent�o quem �? - perguntou Arthur.</p><p>
- Bem - disse Ford -, se estivermos com sorte, s�o os vogons que vieram nos jogar no espa�o.</p><p>
- E se estivermos com azar?</p><p>
-  Nesse  caso  - disse Ford, sombrio -, talvez o comandante tenha falado s�rio  quando  disse  que  antes  de  nos  expulsar  ia  ler  alguns  poemas  dele  pra n�s...</p><p><strong>Cap�tulo 7 </strong></p><p>
A  poesia  vogon  �;  como  todos  sabem,  a  terceira  pior  do  Universo.  Em segundo  lugar  vem a poesia dos azgodos de Kria. Durante um recital em que seu Mestre Poeta, Gruntos, o Flatulento, leu sua "Ode ao pedacinho de massa de vidraceiro  verde que encontrei no meu sovaco numa manh� de ver�o", quatro pessoas na plat�ia morreram de hemorragia interna, e o presidente do Conselho Centro-Gal�ctico de Marmelada Art�stica s� conseguiu sobreviver roendo uma de  suas  pr�prias  pernas  completamente.  Consta  que  Gruntos  ficou</p><p>
"decepcionado" com a rea��o da plat�ia, e j� ia come�ar a ler sua epop�ia em 12</p><p>
tomos  intitulada   <emphasis>Meus  Gargarejos  de  Banheira  Favoritos  </emphasis> quando  seu  pr�prio intestino  grosso,  numa  tentativa  desesperada  de  salvar  a  vida  e  a  civiliza��o, pulou  para  cima,  passando  pelo  pesco�o  de  Gruntos,  e  estrangulou-lhe  o c�rebro.</p><p>
A  pior  poesia  de  todas  desapareceu  com  sua  criadora,  Paula  Nancy Millstone  Jennings,  de  Greenbridge,  Essex,  Inglaterra,  com  a  destrui��o  do planeta Terra.</p><p>
Prostetnic Vogon Jeltz sorria muito devagar - n�o que ele quisesse fazer g�nero, estava era tentando lembrar-se da seq��ncia de contra��es musculares necess�rias  para  realizar  o  ato.  Tinha  dado  uns  gritos  de  excelente  efeito terap�utico com seus prisioneiros, e agora sentia-se bem relaxado, pronto para um pouquinho de crueldade.</p><p>
Os  prisioneiros  estavam  sentados  em  cadeiras  de  Aprecia��o  Po�tica  - amarrados  nelas.  Os  vogons  n�o  alimentavam  quaisquer  ilus�es  acerca  da reputa��o de sua literatura. Suas primeiras tentativas po�ticas faziam parte de um esfor�o malogrado no sentido de serem aceitos como uma esp�cie evolu�da e culta, mas agora s� persistiam por puro sadismo.</p><p>
Ford  Prefect  suava  frio,  e  o  suor  de  sua  testa  molhava  os  eletrodos aplicados  a  suas  t�mporas,  os  quais  estavam  ligados  a  um  complicado equipamento  eletr�nico  -  intensificadores  de  imagens,  moduladores  de  ritmo, residuadores aliterativos e descarregadores de s�miles. Tais aparelhos tinham o efeito  de  intensificar  a  experi�ncia  po�tica  e  garantir  que  nenhuma  nuan�a do pensamento do poeta passaria despercebida.</p><p>
Arthur  Dent,  sentado,  tremia.  N�o  fazia  id�ia  do  que  o  esperava,  mas n�o  tinha  gostado  de  nada  que  acontecera  at�  ent�o,  e  n�o  achava  que  viria coisa melhor.</p><p>
O  vogon  come�ou  a  ler  -  um  trechinho  nauseabundo  que  ele  pr�prio havia cometido.</p><p>
- �  <emphasis>frag�ndio bugalhostro... </emphasis>-come�ou. O corpo de Ford foi sacudido por espasmos; aquilo era bem pior do que esperava.</p><p>
-  <emphasis>...tua micturi��o � para mim/ Qual manchimucos num l�rgido mastim. </emphasis></p><p>
-    Aaaaaaarggggghhhhh!  -  berrou  Ford  Prefect,  jogando  a  cabe�a  para tr�s, latejando de dor. Mal podia ver Arthur a seu lado, estrebuchando em sua cadeira. Ford rangeu os dentes.</p><p>
-  <emphasis>Fr�meo impbchoro-o - </emphasis> prosseguiu o vogon, implac�vel -,  <emphasis>� meu perl�ndromo</emphasis><emphasis>exangue. </emphasis>-Levantou a voz num crescendo horr�vel de estrid�ncia apaixonada. - <emphasis>Adrede me n�o apagianaste a cr�midos dessartes?/Ter-te-ei rabirrotos, raio que o parte! </emphasis></p><p>
-  NnnnnnnnnnyyyyyyuuuuuuurrrrrrggggghhhhhW  -  exclamou  Ford Prefect, contorcido por um �ltimo espasmo quando a chave de ouro do poema golpeou-lhe as t�mporas, ainda mais com o refor�o eletr�nico. Ficou todo mole. Arthur estrebuchava.</p><p>
- Bem, terr�queos - sibilou o vogon (ele n�o sabia que Ford Prefect era na verdade de um pequeno planeta perto de Betelgeuse, e estaria pouco ligando se soubesse)  -,  dou-lhes  duas  op��es:  ou  morrer  no  v�cuo  do  espa�o  ou  ...  -  fez uma pausa, para criar suspense - me dizer o quanto gostaram do meu poema!</p><p>
Refestelou-se  num  grande  sof�  de  couro  em  forma  de  morcego  e  ficou olhando para os dois. Deu aquele sorriso de novo.</p><p>
Ford tentava respirar, com dificuldade. Revolveu a l�ngua �spera na boca ressecada e gemeu.</p><p>
Arthur disse ent�o, entusi�stico:</p><p>
- Sabe, eu gostei bastante.</p><p>
Ford virou-se para ele, boquiaberto. Simplesmente jamais lhe ocorrera tal sa�da.</p><p>
O  vogon,  surpreso,  levantou  uma  sobrancelha,  a  ponto  de  tapar-lhe  o nariz, o que ali�s foi �timo.</p><p>
-Ah, que bom... - sibilou, muito espantado.</p><p>
-    �,  sim  -  disse  Arthur.  -  Achei  algumas  das  imagens  metaf�sicas realmente muito vivas.</p><p>
Ford  continuava  de  olhos  pregados  em  Arthur,  lentamente reorganizando suas id�ias em torno deste conceito radicalmente novo. Ser� que conseguiriam sair daquela enrascada com aquela cara-de-pau?</p><p>
- Mas sim, continue... - falou o vogon.</p><p>
-  Ah...  e  tamb�m...  tem  uns  efeitos  r�tmicos  interessantes  -  prosseguiu Arthur - que fazem contraponto ao... ao... - Nesse ponto, empacou. Ford acudiu, chutando:</p><p>
-  ...ao surrealismo da met�fora subjacente da... ah... - Empacou tamb�m, mas Arthur j� estava pronto:</p><p>
- ...da humanidade da...</p><p>
-  <emphasis>Vogonidade </emphasis>-soprou-lhe Ford.</p><p>
-  Sim,  claro,  da  vogonidade  (desculpe)  da  alma  compassiva  do  poeta  - prosseguiu  Arthur,  sentindo-se  perfeitamente  seguro  agora  -,  que  consegue, atrav�s da estrutura do texto, sublimar isto, transcender aquilo e apreender as dicotomias  fundamentais  do outro - Arthur ia agora num crescendo triunfal -, proporcionando ao leitor uma vis�o aprofundada e intensa do... do... ah...</p><p>
- De repente, vacilou. Ford, ent�o, deu o golpe de miseric�rdia:</p><p>
-    ...do  sentido  do  poema,  seja  ele  o  que  for.  -  gritou  ele.  E  sussurrou discretamente: - Muito bem, Arthur, parab�ns.</p><p>
O vogon olhou-os detidamente. Por um momento, sua endurecida alma vogon  fora  tocada,  mas  em  seguida  ele  pensou:  n�o;  �  tarde  demais,  e  muito pouco. Sua voz lembrava o som de um gato arranhando um peda�o de n�ilon:</p><p>
-  Em  outras  palavras,  eu  escrevo  poesia  porque,  por  tr�s  da  minha fachada  cruel  e  insens�vel,  no  fundo  o  que  eu  quero  �  ser  amado  -  disse  ele. Ap�s uma pausa, perguntou: - � isso?</p><p>
Ford deu um risinho nervoso:</p><p>
- Bem, quer dizer, � - disse ele. -Todos n�s, l� no fundo, sabe... O vogon levantou-se.</p><p>
-   N�o,  voc�s  est�o  completamente  enganados  -  disse.</p><p>
-  Escrevo  poesia  s�  pra  ressaltar  minha  fachada  cruel  e  insens�vel  por contraste.  Vou  expulsar  voc�s  da  nave  de  qualquer  jeito.  Guardai  Leve  os prisioneiros para a c�mara de descompress�o n�mero tr�s e jogue-os para fora!</p><p>
- O qu�? - exclamou Ford.</p><p>
Um  jovem  e  enorme  guarda  vogon  aproximou-se  e  arrancou  os  dois prisioneiros de suas amarras com seus bra��es gordos.</p><p>
-  Voc� n�o pode jogar a gente no espa�o - gritou Ford.</p><p>
- Estamos tentando escrever um livro.</p><p>
-  Toda  resist�ncia  �  in�til!  -  exclamou  o  guarda  vogon.  Foi  essa  a primeira  frase  que  ele  aprendeu  quando  entrou  para  o  Batalh�o  de  Guarda Vogon.</p><p>
O  comandante  ficou  vendo  a  cena,  distante,  divertindo-se,  e  depois virou-se.</p><p>
Arthur olhava para todos os lados, desesperado.</p><p>
- N�o quero morrer agora! - gritou ele. - Ainda estou com dor de cabe�a!</p><p>
N�o quero ir pro c�u com dor de cabe�a, vou ficar emburrado e n�o vou achar gra�a em nada!</p><p>
O  guarda  agarrou  os  dois  pelo  pesco�o  e, curvando-se respeitosamente para  o  comandante,  que  estava  de  costas,  arrastou-os  para  fora  da  ponte  de comando; os prisioneiros protestavam sem parar. Uma porta de a�o fechou-se, e o comandante estava sozinho de novo. Ele cantarolava baixinho, folheando seu caderno de poesias.</p><p>
-    Humm  -  exclamou  ele  -,  <emphasis>contraponto  ao  surrealismo  da  met�fora</emphasis><emphasis>subjacente... - </emphasis> Pensou nisso por um momento, ent�o fechou o caderno com um sorriso mau. - A morte � um castigo suave demais pra eles - disse ent�o. O longo corredor de paredes de a�o ressoava as f�teis tentativas de fuga dos dois human�ides firmementes apertados nas axilas do vogon, duras como borracha.</p><p>
- Isso � genial! - explodiu Arthur. - Isso � s� o que faltava! Me solta, seu covard�o!</p><p>
O guarda vogon continuava a arrast�-los.</p><p>
- N�o se preocupe - disse Ford -, eu dou um jeito. - Pelo tom de voz, n�o parecia acreditar muito no que dizia.</p><p>
- Toda resist�ncia � in�til - urrou o guarda.</p><p>
-  Pare  de  dizer  isso,  por  favor  -  gaguejou  Ford.  -  Como  �  que  a  gente pode manter uma atitude mental positiva com voc� dizendo coisas assim?</p><p>
- Meu Deus - reclamou Arthur -, voc� fala de atitude mental positiva, e olhe que o seu planeta nem foi demolido. Eu acordei hoje achando que ia passar um dia tranq�ilo, ler um pouco, escovar meu cachorro... S�o s� quatro da tarde e  j�  estou  sendo  expulso  de  uma  espa�onave  extraterrestre  a  seis  anos-luz  do que resta da Terra! - Come�ou a engasgar, porque o vogon apertou com mais for�a.</p><p>
- Est� bem - disse Ford -, mas n�o entre em p�nico!</p><p>
-  Quem  �  que  falou  em  p�nico?  -  gritou  Arthur.  -  Isso  �  s�  choque cultural. Espere s� at� eu conseguir me situar e me orientar. A� � que vou entrar em p�nico!</p><p>
- Arthur, voc� est� ficando hist�rico. Cale a boca!</p><p>
Ford  estava  tentando  desesperadamente  pensar  em  alguma  sa�da,  mas foi interrompido pelo grito do guarda:</p><p>
- Toda resist�ncia � in�til!</p><p>
- E cale a boca voc� tamb�m! - exclamou Ford.</p><p>
- Toda resist�ncia � in�til!</p><p>
-  Ah,  n�o  me  canse  -  disse  Ford.  Torceu-se  todo  at�  poder  encarar  o guarda. Teve uma id�ia. - Voc� realmente gosta disso?</p><p>
O  vogon  parou  de  repente,  e  uma  express�o  de  imensa  estupidez lentamente esbo�ou-se em seu rosto.</p><p>
-  Se eu gosto disso? - disse ele, com sua voz tonitruante. - Como assim?</p><p>
-  Quero  dizer  -  explicou  Ford  -,  isso  �  uma  vida  satisfat�ria  pra  voc�?</p><p>
Marchar  de  um  lado  pro  outro,  berrando,  empurrando  gente  pra  fora  de espa�onaves...</p><p>
O vogon levantou os olhos para o teto baixo de a�o, e suas sobrancelhas quase passaram uma por cima da outra. A boca entreabriu-se. Por fim, disse:</p><p>
- Bem, o hor�rio � bom...</p><p>
- Tamb�m, tem que ser - concordou Ford. Arthur revirou a cabe�a para olhar para Ford.</p><p>
- Ford, que diabo voc� est� fazendo? - sussurrou ele, espantado.</p><p>
- Nada, estou s� tentando entender o mundo ao meu redor, est� bem? - respondeu. - Ent�o, quer dizer que o hor�rio � bom?</p><p>
O  vogon  olhou-o,  e  nas  profundezas  turvas  de  sua  mente  alguns pensamentos come�aram a formar-se, pesadamente.</p><p>
-  � - disse ele -, mas agora que voc� falou nisso, a maior parte do tempo �  um  saco.  Tirando...  -  e  parou  para  pensar  de  novo,  olhando  para  o  teto  - tirando  a  parte  de  gritar,  de  que  gosto muito. - Encheu os pulm�es e urrou: - Toda resist�ncia...</p><p>
-  Sei, sei - interrompeu Ford mais que depressa -, voc� � bom nisso, j�</p><p>
deu pra perceber. Mas se a maior parte do tempo � um saco - disse, lentamente, dando tempo para que suas palavras fossem bem entendidas -, ent�o por que voc� continua nessa? Por qu�? Por causa das garotas? O uniforme de couro? O</p><p>
machismo  da  coisa?  Ou  �  s�  por  que  voc�  acha  um  desafio  interessante enfrentar o t�dio imbecilizante desse trabalho?</p><p>
Arthur olhava para um e para outro, sem entender nada.</p><p>
-Ah... - disse o guarda - ah... ah...  <emphasis>sei </emphasis> n�o. Acho que eu fa�o isso s� pra... s� por fazer, sabe. A titia me disse que trabalhar como guarda de espa�onave �</p><p>
uma  boa  carreira  para  um  rapaz  vogon,  sabe,  o  uniforme,  a  pistola  de  raio paralisante na cintura, o t�dio imbecilizante...</p><p>
-  Est� vendo, Arthur? - disse Ford, como quem chegou � conclus�o de uma argumenta��o. - E voc� que pensava que estava na pior?</p><p>
Mas  Arthur  continuava  pensando  que  estava  na  pior.  Al�m  da  quest�o desagrad�vel  com  seu  planeta,  o  guarda  vogon  estava  estrangulando-o,  e  a id�ia de ser jogado no espa�o tamb�m n�o lhe agradava, muito.</p><p>
-  Tente  entender o problema dele - insistiu Ford. - Coitado do rapaz, o trabalho dele � s� marchar de um lado pro outro, jogar gente pra fora da nave...</p><p>
- E gritar - acrescentou o guarda.</p><p>
- E gritar, claro - acrescentou Ford, dando tapinhas condescendentes no bra�o gordo apertado em torno de seu pesco�o. - Mas... ele nem sabe por que faz o que faz!</p><p>
Arthur  concordou  que  era  muito  triste.  Exprimiu  esta  id�ia  com  um gesto t�mido, pois estava asfixiado demais para falar.</p><p>
O guarda emitia ru�dos que indicavam sua perplexidade profunda.</p><p>
- Bem. Do jeito que voc� coloca a coisa, pensando bem...</p><p>
- Isso, garoto! - disse Ford, para estimul�-lo.</p><p>
- Mas, nesse caso - prosseguiu o guarda -, qual � a alternativa?</p><p>
-  Bem  -  disse  Ford,  falando  com  entusiasmo,  mas  devagar  -,  parar  de fazer  isso,  �  claro!  Diga  a  eles  que  voc�  n�o  vai continuar a fazer isso. - Teve vontade de dizer mais alguma coisa, mas sentiu que o guarda j� tinha material para profundas rumina��es em sua mente.</p><p>
-    Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm...  -  disse  o  guarda  -,</p><p>
hum, bem, n�o acho essa id�ia muito boa, n�o.</p><p>
De repente, Ford sentiu que estava perdendo a oportunidade.</p><p>
- Espere a�, � s� o come�o, sabe; a coisa � bem mais complicada do que parece � primeira vista...</p><p>
Mas  nesse  momento o guarda apertou com mais for�a os pesco�os dos prisioneiros  e  seguiu  em  frente,  rumo  �  c�mara  de  descompress�o. Evidentemente, aquela conversa calara fundo em sua mente.</p><p>
-  �, mas se voc�s n�o se incomodam - disse ele -, vou mesmo jogar voc�s pra fora da nave e vou cuidar da minha vida, que ainda tenho muito que gritar hoje.</p><p>
S� que Ford Prefect se incomodava, e muito.</p><p>
-  Mas  espere  a�...  pense  um  pouco!  - disse ele, falando mais depressa e mais preocupado.</p><p>
- Huhhhhggggnnnnnnn... - disse Arthur, sem muita clareza.</p><p>
- Al�m disso - insistiu Ford -, existe a m�sica, a arte, tanta coisa pra lhe dizer! Arrggghhh!</p><p>
- Toda resist�ncia � in�til! - berrou o guarda, e depois acrescentou: - Sabe, se  eu  persistir,  vou  acabar  sendo  promovido  a  oficial  superior  gritador,  e normalmente  n�o  tem  vaga  pra  quem  n�o  grita  nem  empurra  gente,  por  isso acho melhor ficar mesmo fazendo o que sei fazer.</p><p>
Haviam  agora  chegado  �  c�mara  de  descompress�o  �  uma  grande escotilha redonda de a�o, forte e pesada, embutida na parede interna da nave. O</p><p>
guarda acionou um bot�o e lentamente a escotilha se abriu.</p><p>
-  De  qualquer  forma,  obrigado  pela  aten��o  -  disse  o  guarda  vogon.  - Tchau!  -  Jogou  Ford  e  Arthur  para  dento  da  apertada  c�mara  de descornpress�o. Arthur, ofegante, tentava recuperar o f�lego. Ford corria de um lado para o outro e tentava inutilmente impedir com o ombro que a escotilha fosse fechada.</p><p>
- Mas, escute � gritou para o guarda -, existe um mundo de coisas das quais  voc�  nunca  ouviu  falar...  que  tal  isso,  por  exemplo?  -  No  desespero, apelou  para  o  �nico  dado  cultural  que  ele  tinha  sempre  �  m�o:  cantarolou  o primeiro compasso da  <emphasis>Quinta Sinfonia </emphasis> de Beethoven.</p><p>
- Tch� tch� tch� tch����l Isso n�o diz nada a voc�?</p><p>
-  N�o  -  disse  o  guarda.  -  Nada.  Mas  vou  contar  pra  titia.  Se  ele  ainda disse alguma coisa depois, os dois n�o ouviram.</p><p>
A escotilha foi hermeticamente fechada e todos os sons desapareceram, salvo o zumbido distante dos motores da nave.</p><p>
Estavam dentro de uma c�mara cil�ndrica, de metal polido, de cerca de dois metros de di�metro por tr�s de comprimento.</p><p>
Ford olhou ao redor, ofegante.</p><p>
- E eu que achava que o rapaz tinha at� um certo potencial! - disse ele, e encostou-se na parede curva.</p><p>
Arthur continuava deitado no ch�o, onde ca�ra ao entrar. N�o levantou a vista. Continuava ofegante.</p><p>
- Agora estamos ferrados, n�o �?</p><p>
- � - disse Ford -, estamos ferrados.</p><p>
- E a�, voc� n�o pensou em nada? Voc�, se n�o me engano, me disse que ia  pensar  numa  solu��o.  Talvez  voc�  tenha  pensado  em  alguma  coisa,  s�  que n�o percebi.</p><p>
-Ah, �, eu realmente pensei numa coisa - disse Ford. Arthur olhou para ele, esperan�oso. Ford prosseguiu:</p><p>
- Infelizmente,, s� daria certo do outro lado desta escotilha. E chutou a escotilha pela qual haviam entrado.</p><p>
- Mas a id�ia era boa, n�o era?</p><p>
- Ah, era �tima.</p><p>
- O que era?</p><p>
- Bem, eu n�o tinha ainda nem elaborado a coisa detalhadamente. Agora n�o adianta mais, n�o �?</p><p>
- Mas... e agora? - perguntou Arthur.</p><p>
-    Bem,  sabe,  essa  outra  escotilha vai se abrir automaticamente daqui a pouco  e  n�s  vamos  ser  chupados  para  o  espa�o  profundo,  imagino,  e  vamos morrer  asfixiados.  Se  voc�  encher  bem  os  pulm�es  ainda  ag�enta  uns  30</p><p>
segundos,  �  claro...  -  disse  Ford.  P�s  as  m�os  atr�s  das  costas,  levantou  as sobrancelhas  e  come�ou a cantarolar uma velha can��o marcial de Betelgeuse. De repente, Arthur se deu conta de que ele era um ser muito estranho.</p><p>
- Quer dizer ent�o - disse ele - que vamos morrer.</p><p>
-    �  -  disse  Ford  -,  s�  que...  n�o!  Espere  <emphasis>aV. </emphasis>-De repente levantou-se e lan�ou-se sobre algo que estava atr�s do campo visual de Arthur. - O que � esse interruptor?</p><p>
- O qu�? Onde? - exclamou Arthur, virando-se.</p><p>
- Nada, brincadeira minha - disse Ford. -A gente vai morrer, sim. Sentou-se  no  mesmo  lugar  de  antes  e  recome�ou  a cantarolar a mesma m�sica a partir do trecho em que a havia interrompido.</p><p>
-    Sabe  -  disse  Arthur  -,  �  em  ocasi�es  como  esta,  em  que  estou  preso numa c�mara de descompress�o de uma espa�o-nave vogon, com um sujeito de Betelgeuse, prestes a morrer asfixiado no espa�o, que realmente lamento n�o ter escutado o que mam�e me dizia quando eu era garoto.</p><p>
- Por qu�? O que ela dizia?</p><p>
- N�o sei. Eu nunca escutei.</p><p>
- Ah. - Ford recome�ou a cantarolar.</p><p>
"Que  barato",  pensou  Arthur.  "A  Coluna  de  Nelson  n�o  existe  mais,  o McDonald's n�o existe mais, s� restamos eu e as palavras  <emphasis>praticamente inofensiva.</emphasis> Daqui a alguns segundos, s� restar�  <emphasis>praticamente inofensiva. </emphasis> E ontem mesmo o planeta parecia estar t�o bem."</p><p>
Ouviu-se o ru�do de um motor.</p><p>
Um  silvo  suave  foi  aumentando,  at�  transformar-se  num  rugido ensurdecedor;  a  escotilha  exterior  abriu-se,  mostrando  um  c�u  vazio  e  negro cheio  de  pontinhos  de  luz  incrivelmente  brilhantes.  Ford  e  Arthur  foram expelidos da nave como rolhas atiradas por um rev�lver de brinquedo. <strong>Cap�tulo 8 </strong></p><p>
O  Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias   <emphasis>�  um  livro  realmente  admir�vel.  H� </emphasis></p><p><emphasis>muitos  anos que vem sendo escrito e revisto, por muitos redatores diferentes. Cont�m</emphasis><emphasis>contribui��es fornecidas por in�meros viajantes e pesquisadores.</emphasis><emphasis>A introdu��o come�a assim:</emphasis></p><p>
"O espa�o � grande. Grande, mesmo. N�o d� pra acreditar o quanto ele �</p><p>
desmesuradamente  inconcebivelmente  estonteantemente  grande.  Voc�  pode achar  que  da  sua  casa  at�  a  farm�cia  �  longe,  mas  isso  n�o  �  nada  em compara��o com o espa�o. Vejamos..."  <emphasis>E por a� vai.</emphasis><emphasis>(Mais adiante o estilo fica mais seco, e o livro come�a a dizer coisas realmente</emphasis><emphasis>importantes,  como  por  exemplo  que  o  lind�ssimo  planeta  Bethselamin  est�  agora  t�o</emphasis><emphasis>preocupado  com  a  eros�o  cumulativa  causada  pela  presen�a  de dez bilh�es de turistas</emphasis><emphasis>por ano que qualquer discrep�ncia entre o que voc� come e o que voc� evacua durante</emphasis><emphasis>sua estada no planeta � removida cirurgicamente do seu corpo antes de voc� partir de l�:</emphasis><emphasis>assim, cada vez que se vai ao banheiro � vitalmente necess�rio pegar um recibo.)</emphasis><emphasis>Por�m,  justi�a  seja  feita:  quando  se  trata  de  falar  sobre  a  imensid�o  das</emphasis><emphasis>dist�ncias entre as estrelas, intelig�ncias superiores � do autor da introdu��o do </emphasis> Guia do  Mochileiro   <emphasis>tamb�m  fracassaram.  H�  quem  pe�a  ao  leitor  que  imagine  um</emphasis><emphasis>amendoim  em  Londres  e  uma  noz  das  pequenas  em  Johannesburgo,  entre  outras</emphasis><emphasis>compara��es estonteantes. </emphasis></p><p><emphasis>A  simples verdade � que as dist�ncias interestelares esteio al�m da imagina��o</emphasis><emphasis>humana. </emphasis></p><p><emphasis>At� mesmo a luz, que se desloca t�o depressa que a maioria das esp�cies de seres</emphasis><emphasis>vivos  leva  mil�nios  para  descobrir  que  ela  se  move,  demora  para  se  deslocar  de  uma</emphasis><emphasis>estrela a outra. Ela leva oito minutos para ir do Sol at� o lugar onde ficava antigamente</emphasis><emphasis>a  Terra,  e  mais  quatro  anos  para  chegar  �  estrela  mais  pr�xima  ao  Sol,  a  Alfa  do</emphasis><emphasis>Centauro. </emphasis></p><p><emphasis>Para chegar at� o outro lado da Gal�xia - a Damogran, por exemplo - demora</emphasis><emphasis>muito mais: 500 mil anos. </emphasis></p><p><emphasis>O  tempo  mais  r�pido  em  que  um  mochileiro  cobriu  essa  dist�ncia  foi  pouco</emphasis><emphasis>menos de cinco anos, mas desse jeito a pessoa n�o aproveita nada da paisagem.</emphasis> O Guia do Mochileiro das Gal�xias  <emphasis>afirma que, com os pulm�es cheios de ar,</emphasis><emphasis>�  poss�vel  sobreviver  no  v�cuo  total  por  cerca  de  30 segundos. Por�m afirma tamb�m</emphasis><emphasis>que, sendo o espa�o estonteante-mente grande do jeito que �, a probabilidade de ser salvo</emphasis><emphasis>por outra nave durante esse per�odo de 30 segundos � da ordem de uma chance em duas</emphasis><emphasis>elevado a 276.709. </emphasis></p><p><emphasis>Por  uma  coincid�ncia  absolutamente  inacredit�vel,  este  �  o  mesmo  n�mero  do</emphasis><emphasis>telefone de um apartamento em Islington onde Arthur uma vez foi a uma festa �tima e</emphasis><emphasis>conheceu uma garota �tima que ele n�o conseguiu ganhar - ela acabou saindo com um</emphasis><emphasis>penetra. </emphasis></p><p><emphasis>Embora  o  planeta  Terra,  o  apartamento  de  Islington  e  o  telefone  tenham  sido</emphasis><emphasis>todos  destru�dos,  n�o  deixa  de  ser  um  consolo  saber  que,  de  algum  modo,  eles  foram</emphasis><emphasis>homenageados pelo fato de que, 29 segundos depois, Ford e Arthur foram salvos.</emphasis><strong>Cap�tulo 9 </strong></p><p>
Um  computador  disparou,  quando  percebeu  que  uma  c�mara  de descompress�o abriu-se e fechou-se sozinha, sem nenhuma raz�o. Isto  porque  a  Raz�o,  naquele  exato  momento,  estava  tomando  um cafezinho.</p><p>
Um  buraco  acabara  de  aparecer  na  Gal�xia.  Tinha  exatamente  um zer�zimo  de  cent�metro  de  largura  e  muitos  milh�es  de  anos-luz  de comprimento.</p><p>
Quando  se  fechou,  um  monte  de  chap�us  de  papel  e  bal�ezinhos  de borracha  sa�ram  dele  e  se  espalharam  pelo  Universo.  Um  grupo  de  sete analistas de mercado de um metro e meio de altura tamb�m saiu do buraco e morreu logo em seguida, em parte por asfixia, em parte por espanto. Duzentos  e  trinta  e  nove  mil  ovos  estrelados  tamb�m  sa�ram, materializando-se sob a forma de uma grande omelete na terra de Poghril, no sistema de Pansel, onde havia muita fome.</p><p>
Toda  a  tribo  de  Poghril  morrera  de  fome,  com  exce��o  de  um  �ltimo homem que morreu de intoxica��o por colesterol algumas semanas depois. O  zer�zimo  de  segundo  durante  o  qual  o  buraco  existiu  teve  as  mais improv�veis repercuss�es no passado e no futuro. Num passado remot�ssimo, ele  causou  perturba��es  profundas  num  pequeno  grupo  aleat�rio  de  �tomos que  cruzavam  o  espa�o  vazio  e  est�ril,  fazendo  com  que  se  agrupassem  das maneiras mais extraordin�rias. Estes agrupamentos rapidamente aprenderam a se  reproduzir  (era  essa  uma  das  caracter�sticas  mais  extraordin�rias  deles)  e acabaram causando perturba��es muito s�rias em todos os planetas onde foram parar. Foi assim que come�ou a vida no Universo.</p><p>
Cinco  selvagens  Redemoinhos  de  Eventos  formaram-se,  numa  violenta tempestade irracional, e vomitaram uma cal�ada.</p><p>
Na cal�ada, arquejantes como peixes moribundos, estavam Ford Prefect e Arthur Dent.</p><p>
-  Eu  n�o  disse?  - exultou Ford, ofegante, tentando agarrar-se � cal�ada, que  neste  momento  atravessava  o  Terceiro  Dom�nio  do  Desconhecido.  -  Eu disse que ia pensar em alguma coisa.</p><p>
- �, � claro - disse Arthur. - Claro.</p><p>
-  Grande id�ia minha - disse Ford - achar uma nave passando por perto e ser salvo por ela.</p><p>
O  universo  real  se  retorcia  sob  eles,  assustadoramente.  Diversos universos  falsos passavam silenciosamente por ali, como cabritos monteses. A luz primai explodiu, espirrando pelo espa�o-tempo como coalhada derramada. O  tempo  floresceu,  a  mat�ria  encolheu.  O  maior  n�mero  primo  se  acocorou quietinho num canto, para nunca mais ser descoberto.</p><p>
-  Ah,  essa  n�o  -  disse  Arthur.  -  A  probabilidade  de  isso  acontecer  era infinitesimal.</p><p>
- N�o reclame, deu certo - disse Ford.</p><p>
- Que esp�cie de nave � essa? - perguntou Arthur. A seus p�s, o abismo da eternidade bocejava.</p><p>
- N�o sei. Ainda n�o abri os olhos.</p><p>
- Nem eu.</p><p>
O  Universo  saltou,  congelou,  estremeceu  e  espalhou-se  em  diversas dire��es inesperadas.</p><p>
Arthur e Ford abriram os olhos e olharam ao redor, muito espantados.</p><p>
- Meu Deus - disse Arthur -, isso aqui � igualzinho ao cal�ad�o da praia de Southend.</p><p>
- P�, � um al�vio ouvir voc� dizer isso - disse Ford.</p><p>
- Por qu�?</p><p>
- Porque achei que estava ficando maluco.</p><p>
-  E  talvez  esteja  mesmo.  Talvez  voc�  tenha  apenas  imaginado  que  eu disse isso.</p><p>
Ford pensou nesta possibilidade.</p><p>
- Bem, afinal, voc� disse ou n�o disse? - perguntou ele.</p><p>
- Acho que sim.</p><p>
- Vai ver, n�s dois estamos ficando malucos.</p><p>
-  � - concordou Arthur. - Pensando bem, s� mesmo um maluco poderia pensar que isso aqui � Southend.</p><p>
- Bem, voc� acha que isso aqui � mesmo Southend?</p><p>
- Acho, sim.</p><p>
- Eu tamb�m.</p><p>
- Portanto, devemos estar malucos.</p><p>
- Um bom dia pra ficar maluco.</p><p>
- � - disse um maluco que passava por ali.</p><p>
- Quem � esse? - perguntou Arthur.</p><p>
-    Quem?  Aquele  cara  com  cinco  cabe�as  e  com  um  p�  de  sabugueiro carregadinho de filhotes de salm�o?</p><p>
-�.</p><p>
- N�o sei, n�o. Um cara qualquer. -Ah.</p><p>
Ficaram  os  dois  sentados  na  cal�ada,  vendo,  um  pouco  preocupados, crian�as enormes quicando pesadamente na areia e cavalos selvagens correndo pelo c�u, levando grades refor�adas para as Regi�es Incertas.</p><p>
- Sabe - disse Arthur, com um pigarro -, se estamos mesmo em Southend, tem alguma coisa esquisita aqui...</p><p>
-  Voc�  est�  se  referindo  ao  fato  de  que  o  mar  est�  parado  como  uma pedra e os edif�cios formam ondas sem parar? - perguntou Ford. - �, eu tamb�m estranhei.  Ali�s  -  acrescentou  ele  no  momento  em  que,  com  uma  grande explos�o,  Southend  partiu-se  em  seis  peda�os  iguais,  que  come�aram  a  rodar um  ao  redor  do  outro,  com  gestos  lascivos  e  l�bricos  -,  no  geral,  h�  alguma coisa bem esquisita por aqui.</p><p>
Uma  barulhada  infernal  de  canos  e  cordas  veio  trazida  pelo  vento; bolinhos quentes pipocaram do ch�o, a dez pence cada um; peixes horrorosos choveram do c�u, e Arthur e Ford resolveram sair correndo. Atravessaram  densas  muralhas  de  som,  montanhas  de  pensamento arcaico, vales de m�sica suave, p�ssimas sess�es de sapatos e morcegos bobos, e de repente ouviram uma voz feminina.</p><p>
Parecia uma voz bastante sensata, por�m ela disse apenas o seguinte:</p><p>
-  Dois  elevado  a  100  mil  contra  um  e  diminuindo.  -  Mais  nada.  Ford escorregou por um raio de luz e correu para todos os</p><p>
lados tentando descobrir de onde vinha a voz, mas n�o encontrou nada em que pudesse realmente acreditar.</p><p>
- Que voz foi essa? - gritou Arthur.</p><p>
-  N�o  sei,  n�o  -  gritou  Ford.  -  N�o  sei.  Parecia  um  c�lculo  de probabilidade.</p><p>
- Probabilidade? Como assim?</p><p>
- Probabilidade. Assim, tipo dois contra um, tr�s contra um, cinco contra quatro. A voz falava numa probabilidade de dois elevado a 100 mil contra um. � uma probabilidade m�nima.</p><p>
Um vasilhame contendo um milh�o de litros de creme de leite despejouse sobre eles.</p><p>
- Mas o que significa isto? - exclamou Arthur.</p><p>
- O que, o creme de leite?</p><p>
- N�o, esse c�lculo de probabilidade.</p><p>
-  N�o  sei.  N�o  fa�o  id�ia.  Acho  que  estamos  em  algum  tipo  de espa�onave.</p><p>
-  Uma coisa eu garanto - disse Arthur. - Esta n�o � a primeira classe. A  textura  do  espa�o-tempo  come�ou  a  formar  calombos,  calombos grandes e feios.</p><p>
-  Haaaaauuuurgghhh... - disse Arthur, sentindo que seu corpo amolecia e  dobrava-se  em  dire��es  inusitadas.  -  Southend  parece  estar  se desmanchando... as estrelas est�o rodopiando... poeira pra todo lado... minhas pernas est�o resvalando para o poente... meu bra�o esquerdo se soltou do corpo tamb�m...</p><p>
- Ocorreu-lhe um pensamento assustador: - P�, como � que eu vou mexer no meu rel�gio digital agora? - Revirou os olhos, em desespero, na dire��o de Ford. - Ford - disse ele -, voc� est� virando um ping�im. Pare com isso. A voz ouviu-se mais uma vez:</p><p>
- Dois elevado a 75 mil contra um e diminuindo. Ford rodopiava em sua po�a, num c�rculo furioso.</p><p>
-  Ei, quem � voc�? - disse ele, com voz de Pato Donald.</p><p>
-  Onde � que voc� est�? O que est� acontecendo aqui? E como � que a gente pode parar com isso?</p><p>
-  Por  favor,  relaxem  -  disse  a  voz,  num  tom  agrad�vel,  como  uma aeromo�a  em  um  avi�o  com  apenas  uma  asa  e  dois  motores,  um  dos  quais pegando fogo. - Voc�s n�o est�o correndo o menor perigo.</p><p>
- Mas n�o � essa a quest�o! - disse Ford, irritado. - A quest�o � que agora sou um ping�im que n�o corre o menor perigo, e meu amigo daqui a pouco n�o vai ter mais membros para perder!</p><p>
- Tudo bem, eles j� voltaram - disse Arthur.</p><p>
- Dois elevado a 50 mil contra um e diminuindo - disse a voz.</p><p>
-  �  bem  verdade  -  disse  Arthur  -  que  eles  est�o  um  pouco  mais compridos do que eu estou acostumado, mas...</p><p>
-  Ser�  que  voc�  n�o  podia  -  grasnou  Ford,  com  f�ria  -  nos  dizer  uma coisa um pouco mais concreta?</p><p>
A voz pigarreou. Um  <emphasis>petit-four </emphasis> gigantesco foi galopando em dire��o ao infinito.</p><p>
- Bem-vindos - disse a voz - � nave Cora��o de Ouro.</p><p>
Prosseguiu a voz:</p><p>
-  Por favor, n�o se assustem com nada do que virem ou ouvirem. � de esperar que voc�s sintam certos efeitos negativos, j� que foram salvos de uma morte certa, numa probabilidade de dois elevado a 276 mil contra um, ou talvez muito mais. Estamos no momento viajando a um n�vel de dois elevado a 25 mil contra  um  e  diminuindo,  e  estaremos  voltando  �  normalidade  assim  que tivermos  a  certeza  do  que  �  de  fato  normal.  Obrigado.  Dois  elevado  a 20 mil contra um, diminuindo.</p><p>
A voz calou-se.</p><p>
Ford e Arthur viram-se num pequeno cub�culo rosado e luminoso. Ford estava excitad�ssimo.</p><p>
-  Arthur!  -  exclamou  ele.  -  �  fant�stico!  Fomos  salvos  por  uma  nave movida  por  um  gerador  de  improbabilidade  infinita!  �  incr�vel!  Eu  j�  tinha ouvido falar sobre isso antes! Esses boatos sempre foram oficialmente negados, mas  devem  ser  verdade!  Eles  conseguiram!  Constru�ram  o  gerador  de improbabilidade infinita! Arthur, �... Arthur? O que est� acontecendo?</p><p>
Arthur estava se apertando contra a porta do cub�culo, tentando mant�la fechada, mas a porta n�o encaixava bem no v�o. Diversas m�ozinhas peludas estavam  introduzindo-se  pela  fresta,  com  os  dedos  sujos  de  tinta;  vozinhas agudas tagarelavam incessantemente.</p><p>
Arthur olhou para Ford.</p><p>
-  Ford!  -  exclamou  ele.  -  H�  um  n�mero  infinito  de  macacos  l�  fora querendo  falar  conosco  sobre  um  roteiro  que  eles  fizeram,  uma  adapta��o do <emphasis>Hamlet. </emphasis></p><p><strong>Cap�tulo 10 </strong></p><p>
O  gerador  de  improbabilidade  infinita  �  uma  nova  e  maravilhosa inven��o  que  possibilita  atravessar  imensas  dist�ncias  interestelares  num simples zer�zimo de segundo, sem toda aquela complica��o e chatice de ter que passar pelo hiperespa�o.</p><p>
Foi descoberto por um feliz acaso, e da� desenvolvido e posto em pr�tica como  m�todo  de  propuls�o  pela equipe de pesquisa do governo gal�ctico em Damogran.</p><p>
Em resumo, foi assim a sua descoberta:</p><p>
O  princ�pio  de  gerar  pequenas  quantidades  de  improbabilidade   <emphasis>finita</emphasis> simplesmente  ligando  os  circuitos  l�gicos  de  um  C�rebro  Subm�son Bambleweeny  57  a  uma  impressora  de  vetor  at�mico  suspensa  num  produtor de  movimentos  brownianos  intensos  (por  exemplo,  uma  boa  x�cara  de  ch�</p><p>
quente)  j�  era,  naturalmente,  bem  conhecido  -  e  tais  geradores  eram freq�entemente usados para quebrar o gelo em festas, fazendo com que todas as  mol�culas  da  calcinha  da  anfitri�  se  deslocassem  30  cent�metros  para  a direita, de acordo com a Teoria da Indetermina��o.</p><p>
Muitos  f�sicos  respeit�veis  afirmavam  que  n�o  admitiam  esse  tipo  de coisa  -  em  parte  porque  era  uma  avacalha��o  da  ci�ncia,  mas  principalmente porque eles n�o eram convidados para essas festas.</p><p>
Outra  coisa  que  n�o  suportavam  era  n�o  conseguir  construir  uma m�quina  capaz  de  gerar  o  campo  de  improbabilidade   <emphasis>infinita  </emphasis> necess�rio  para propulsionar uma nave atrav�s das dist�ncias estarrecedoras existentes entre as estrelas  mais  long�nquas,  e  terminaram  anunciando,  contrafeitos,  que  era praticamente imposs�vel construir um gerador desses.</p><p>
Ent�o, um dia, um aluno encarregado de varrer o laborat�rio depois de uma festa particularmente ruim desenvolveu o seguinte racioc�nio: Se uma tal m�quina �  <emphasis>praticamente </emphasis> imposs�vel, ent�o logicamente se trata de  uma  improbabilidade   <emphasis>finita. </emphasis> Assim,  para  criar  um  gerador  desse  tipo  �  s�</p><p>
calcular exatamente o quanto ele � improv�vel, alimentar esta cifra no gerador de improbabili-dades finitas, dar-lhe uma x�cara de ch� pelando... e ligar!</p><p>
Foi  o  que  fez,  e  ficou  surpreso  ao  descobrir  que  havia  finalmente conseguido criar o ambicionado gerador de improbabilidade infinita a partir do nada.</p><p>
Ficou  ainda  mais  surpreso  quando,  logo  ap�s  receber  o  Pr�mio  da Extrema  Engenhosidade  concedido  pelo  Instituto  Gal�ctico,  foi  linchado  por uma  multid�o  exaltada  de  f�sicos  respeit�veis,  que  finalmente  se  deram  conta de  que  a  �nica  coisa  que  eram  realmente  incapazes  de  suportar  era  um estudante metido a besta.</p><p><strong>Cap�tulo 11 </strong></p><p>
A  cabine  de  controle  �  prova  de  improbabilidade  na  nave  Cora��o  de Ouro parecia uma espa�onave perfeitamente convencional; a �nica diferen�a �</p><p>
que  era  perfeitamente  limpa,  por  ser  t�o  nova.  Em  alguns  dos  bancos,  ainda nem haviam sido removidos os pl�sticos protetores. A cabine era basicamente branca,  retangular,  do  tamanho  de  um  restaurante  pequeno.  Na  verdade,  n�o era  perfeitamente  retangular:  as  duas  paredes  mais  compridas  eram ligeiramente  curvas,  paralelas,  e  todos  os  �ngulos  e  cantos  eram  cheios  de protuber�ncias  decorativas.  Na  verdade,  teria  sido  bem  mais  simples  e  mais pr�tico fazer uma cabine retangular tridimensional normal, mas isso deixaria os autores  do  projeto  deprimidos.  Fosse  como  fosse,  a  cabine  parecia arrojadamente  funcional,  com  grandes  telas  de  v�deo  por  cima  do  painel  do sistema  de  controle  e  navega��o  na  parede  c�ncava  e  longas  fileiras  de computadores  embutidos  na  parede  convexa.  Num  dos  cantos havia um rob�</p><p>
sentado, com a cabe�a de a�o reluzente ca�da entre os joelhos de a�o reluzente. O  rob�  tamb�m  era  bem  novo,  mas  embora fosse muito bem-feito e lustroso, dava  a  impress�o  de  que  as  diferentes  pe�as  de  seu  corpo  mais  ou  menos human�ide  n�o  casavam  bem  umas  com  as  outras.  Na  verdade,  elas  se encaixavam  perfeitamente,  mas  havia  algo  no  porte  do  rob�  que  dava  a impress�o de que elas poderiam se encaixar ainda melhor.</p><p>
Zaphod  Beeblebrox  andava  nervosamente  de  um  lado  para  o  outro, correndo  a  m�o  pelos  equipamentos reluzentes, sem conseguir conter risinhos de entusiasmo.</p><p>
Trillian  estava  debru�ada  sobre  um  conjunto  de  instrumentos,  lendo n�meros. O sistema de som transmitia sua voz para toda a nave.</p><p>
-  <emphasis>Cinco contra um e diminuindo - </emphasis> dizia ela. -  <emphasis>Quatro contra um e diminuindo...</emphasis><emphasis>tr�s  contra  um...  dois...  um...  fator  de  probabilidade  de  um  para  um...  atingimos  a</emphasis><emphasis>normalidade,  repetindo,  atingimos  a  normalidade. </emphasis>-Desligou  o  microfone,  mas depois  ligou-o  de  novo,  com  um  leve  sorriso  nos  l�bios,  e  acrescentou:  -   <emphasis>Se</emphasis><emphasis>houver ainda alguma coisa que n�o consigam entender, � problema de voc�s. Por favor,</emphasis><emphasis>relaxem. Em breve voc�s ser�o chamados. </emphasis></p><p>
Zaphod exclamou, irritado:</p><p>
- Quem s�o eles, Trillian?</p><p>
Trillian virou a cadeira girat�ria para ele e deu de ombros.</p><p>
- Uns caras que pelo visto pegamos em pleno espa�o - disse ela. - Se��o ZZ9 Plural Z Alfa.</p><p>
-  �, � muito simp�tico, Trillian - queixou-se Zaphod -, mas voc� n�o acha isso  meio  arriscado  nas  atuais  circunst�ncias?  Afinal,  somos  fugitivos,  e  a pol�cia de metade da Gal�xia deve estar atr�s da gente. E n�s parando pra dar carona. Em mat�ria de estilo, nota dez; mas em mat�ria de sensatez, menos um milh�o.</p><p>
Irritado,  come�ou  a  dar  batidinhas  num  dos  pain�is  de  controle.  Com jeito, Trillian empurrou sua m�o, antes que ele desse uma batidinha em alguma coisa  importante.  Ainda  que  tivesse  ineg�veis  qualidades  intelectuais  - ostenta��o,  fanfar-ronice,  presun��o  -,  Zaphod  era  fisicamente  desajeitado  e bem  capaz  de  fazer  a  nave  explodir  com  um  gesto  extravagante.  Trillian desconfiava  que  ele  conseguia  levar  uma  vida  t�o  louca  e  bem-sucedida principalmente  por  n�o  entender  jamais  o verdadeiro significado de nada que ele fazia.</p><p>
- Zaphod - disse ela, paciente -, eles estavam flutuando no espa�o, sem qualquer prote��o... Voc� n�o queria que eles morressem, n�o �?</p><p>
- Bem, n�o exatamente... mas...</p><p>
-    N�o  exatamente?  N�o  morrer,  exatamente?  Mas  o  qu�?  -  Trillian inclinou a cabe�a.</p><p>
- Bem, talvez alguma outra nave os salvasse depois.</p><p>
- Se demorasse mais um segundo, eles morreriam.</p><p>
- Justamente, portanto, se voc� tivesse se dado ao trabalho de pensar um pouquinho mais no problema, ele se resolveria por si s�.</p><p>
- Voc� ficaria satisfeito se eles morressem?</p><p>
- N�o exatamente satisfeito, mas...</p><p>
- Seja como for - disse Trillian, voltando ao painel de controle -, n�o fui eu que dei carona a eles.</p><p>
- Como assim? Ent�o quem foi?</p><p>
- Foi a nave.</p><p>
- O qu�?</p><p>
- A nave. Sozinha.</p><p>
- O qu�?</p><p>
- Quando o gerador de improbabilidade estava ligado.</p><p>
- Mas isso � incr�vel.</p><p>
- N�o, Zaphod. � apenas muito improv�vel.</p><p>
- �, isso �.</p><p>
-  Escute, Zaphod - disse ela, dando-lhe uns tapinhas no bra�o -, n�o se preocupe  com  eles.  N�o  v�o  causar  problema  nenhum.  Vou  mandar  o  rob�</p><p>
traz�-los at� aqui. � Marvin!</p><p>
Sentado  no  canto,  o  rob�  levantou  a  cabe�a  subitamente,  por�m  em seguida  ficou  balan�ando-a  ligeiramente.  P�s-se  de  p� como se fosse uns dois ou  tr�s  quilos  mais  pesado  do  que  era  na  realidade  e  fez  um  esfor�o aparentemente  her�ico  para  atravessar  o  recinto.  Parou  �  frente  de  Trillian  e ficou olhando por cima do ombro esquerdo da mo�a.</p><p>
- Acho que devo avis�-los de que estou muito deprimido - disse ele, cora uma voz baixa e desesperan�ada.</p><p>
-  Ah, meu Deus - murmurou Zaphod, jogando-se numa cadeira.</p><p>
-  Bem  -  disse  Trillian,  num  tom  de  voz  alegre  e  compreensivo  -,  ent�o vou lhe dar uma coisa pra distrair a sua cabe�a.</p><p>
-    N�o  vai  dar  certo  -  disse  Marvin.  -  Minha  mente  �  t�o excepcionalmente grande que uma parte dela vai continuar se preocupando.</p><p>
- Marvini - ralhou Trillian.</p><p>
- Est� bem - disse Marvin. - O que � que voc� quer que eu fa�a?</p><p>
- V� at� a baia de entrada n�mero dois e traga os dois seres que est�o l�, sob vigil�ncia.</p><p>
Ap�s uma pausa de um microssegundo, e com uma micro-modula��o de tom  e  timbre  minuciosamente  calculada  -imposs�vel  se  ofender  com  aquela entona��o  -,  Marvin  conseguiu  exprimir  todo  o  desprezo  e  horror  que  lhe inspirava tudo que � humano.</p><p>
- S� isso? - perguntou ele.</p><p>
- S� - disse Trillian, com firmeza.</p><p>
- N�o vou gostar de fazer isso - disse Marvin. Zaphod levantou-se de um salto.</p><p>
-  Ela  n�o  est�  mandando  voc�  gostar  -  gritou.  -  Limite-se  a  cumprir ordens, est� bem?</p><p>
- Est� bem - disse Marvin, com voz de sino rachado. - J� vou.</p><p>
- �timo! - exclamou Zaphod. - Muito bem... obrigado... Marvin virou-se e levantou seus olhos vermelhos e triangulares para ele.</p><p>
-  Por  acaso  eu  estou  baixando  o  astral  de  voc�s?  -  perguntou  Marvin, pat�tico.</p><p>
- N�o, n�o, Marvin - tranq�ilizou-o Trillian. - Est� tudo bem.</p><p>
- Porque eu n�o queria baixar o astral de voc�s.</p><p>
- N�o, n�o se preocupe com isso - continuou Trillian, no mesmo tom. - Aja do jeito que voc� acha que deve agir que tudo vai dar certo.</p><p>
- Voc� jura que n�o se incomoda? - insistiu Marvin.</p><p>
-  N�o,  n�o,  Marvin,  est�  tudo  bem...  �  a  vida  -  disse  Trillian.  Marvin dirigiu a Zaphod um olhar eletr�nico.</p><p>
- Vida? - disse ele. - N�o me falem de vida.</p><p>
Virou-se  e  saiu  lentamente  da  cabine,  desolado.  A  porta  zumbiu alegremente e fechou-se com um estalido.</p><p>
-    Acho  que  n�o  vou  ag�entar  esse  rob�  muito  tempo,  Zaphod  - desabafou Trillian.</p><p><emphasis>A  </emphasis> Enciclop�dia  Gal�ctica   <emphasis>define  "rob�"  como  "dispositivo  mec�nico  que</emphasis><emphasis>realiza tarefas humanas". </emphasis> O  <emphasis>departamento de marketing da Companhia Cibern�tica de</emphasis><emphasis>Sirius define "rob�" como "o seu amig�o de pl�stico".</emphasis> O Guia do Mochileiro das Gal�xias  <emphasis>define o departamento de marketing da</emphasis><emphasis>Companhia  Cibern�tica  de  Sirius  como  "uma  cambada  de  panacas  que  devem  ser  os</emphasis><emphasis>primeiros a ir para o pared�o no dia em que a revolu��o estourar". Uma nota de rodap� </emphasis></p><p><emphasis>acrescenta  que  a  reda��o  do  </emphasis> Mochileiro   <emphasis>est�  aceitando  candidatos  para  o  cargo  de</emphasis><emphasis>correspondente de rob�tica. </emphasis></p><p><emphasis>Curiosamente, uma edi��o da </emphasis> Enciclop�dia Gal�ctica  <emphasis>que, por um feliz acaso,</emphasis><emphasis>caiu  numa  descontinuidade  do  tempo,  vinda  de  mil  anos  no  futuro,  definiu  o</emphasis><emphasis>departamento de marketing da Companhia Cibern�tica de Sirius como "uma cambada</emphasis><emphasis>de  panacas  que  foram  os  primeiros  a  ir  para  o  pared�o  no  dia  em  que  a  revolu��o</emphasis><emphasis>estourou". </emphasis></p><p>
O  cub�culo  rosado  desaparecera  num  piscar  de  olhos  e  os  macacos haviam passado para uma dimens�o melhor. Ford e Arthur viram-se na �rea de embarque de uma nave. O lugar era bonito.</p><p>
- Acho que essa nave � nova em folha - disse Ford.</p><p>
- Como � que voc� sabe? - perguntou Arthur. - Voc� tem algum aparelho ex�tico que calcula a idade do metal?</p><p>
- N�o. Eu acabei de achar este folheto de vendas no ch�o, cheio de frases do tipo "agora o Universo � todo seu". Arr�! Est� vendo? Acertei. Ford mostrou uma p�gina do folheto para Arthur.</p><p>
- Diz aqui:  <emphasis>Nova descoberta sensacional na f�sica de improbabilidade. Assim que</emphasis><emphasis>o gerador da espa�onave atinge a improbabilidade infinita, ela passa por todos os pontos</emphasis><emphasis>do Universo. Fa�a os outros governos morrerem de inveja. </emphasis> Puxa, coisa fina, mesmo. Entusiasmado,  Ford  leu  as  especifica��es  t�cnicas  da  nave,  de  vez  em quando  soltando  uma  interjei��o  de  espanto.  Pelo  visto,  a  astrotecnologia gal�ctica havia progredido muito durante seus anos de ex�lio. Arthur  ficou  ouvindo  os  detalhes  t�cnicos  que Ford lia, mas, como n�o entendia quase nada, come�ou a pensar em outras coisas, enquanto seus dedos deslizavam  por  uma  incompreens�vel  fileira  de  computadores,  at�  apertar  um bot�o  vermelho  e  tentador  num  painel.  Imediatamente  o  painel  iluminou-se, com  os  dizeres:   <emphasis>Favor  n�o  apertar  este  bot�o  outra  vez. </emphasis> Arthur  ficou  quieto  na mesma hora.</p><p>
-  Escute  s�  -  disse  Ford,  ainda  fascinado  pelo  folheto.  -  Diz  coisas fant�sticas sobre a cibern�tica da nave.  <emphasis>Uma nova gera��o de rob�s e computadores</emphasis><emphasis>da Companhia Cibern�tica de S�rius, contando com o novo recurso de PHG. </emphasis></p><p><emphasis>-</emphasis> O que � PHG? - perguntou Arthur.</p><p>
- Diz que � "Personalidade Humana Genu�na".</p><p>
- Que coisa horr�vel - disse Arthur.</p><p>
- P�e "horr�vel" nisso - disse uma voz atr�s deles. Era uma voz baixa, desesperan�ada; foi seguida de um leve estalido. Os dois  viraram-se e viram um homem de a�o, arrasado, todo encolhido, � porta do compartimento.</p><p>
- O qu�? - disseram os dois.</p><p>
- � horr�vel - prosseguiu Marvin. -Tudo isso. Medonho. Melhor nem falar nisso.  Vejam  essa  porta  -  disse,  entrando.  Os  circuitos  de  ironia  come�aram  a atuar  sobre  seu  modulador  de  voz,  e  Marvin  p�s-se  a  parodiar  o  estilo  do folheto de vendas. -  <emphasis>Todas as portas desta nave s�o alegres e bem-humoradas. � um</emphasis><emphasis>prazer  para  elas  abrir  para  voc�,  e  fechar  de  novo  com  a  consci�ncia  de quem fez um</emphasis><emphasis>servi�o bem-feito. </emphasis></p><p>
Ao  fechar-se,  a  porta  realmente  parecia  dar  um  suspiro  de  satisfa��o:</p><p>
"Hummmmmmmmmmmmmmmmm ah!"</p><p>
Marvin  encarou-a  com  fria  repulsa,  enquanto  seus  circuitos  l�gicos, cheios  de  asco,  consideravam  a  possibilidade  de  agredir  a  porta  fisicamente. Outros  circuitos,  por�m,  intervieram,  dizendo:  "Pra  qu�?  N�o  vai  adiantar mesmo.  Nunca  vale  a  pena  se  envolver."  Enquanto  isso,  outros  circuitos divertiam-se analisando os componentes moleculares da porta e dos neur�nios dos  human�ides.  Para  terminar,  mediram  tamb�m  o  n�vel  de  emiss�es  de hidrog�nio no parsec c�bico de espa�o a seu redor, e depois se desligaram de novo,  chateados.  Um  espasmo  de  desespero  sacudiu  o  corpo  do  rob�,  que  se virou para os dois.</p><p>
- Vamos - disse ele. - Me mandaram buscar voc�s e lev�-los at� a ponte de comando. Pois �. Eu, com um c�rebro do tamanho de um planeta, e eles me mandam  buscar  voc�s  e  levar  at�  a  ponte  de  comando.  Que  tal  isso  como realiza��o profissional?</p><p>
Virou-se e voltou � porta odiosa.</p><p>
-  Ah,  desculpe  -  disse  Ford,  seguindo-o  -,  mas  a  que  governo  pertence esta nave?</p><p>
Marvin ignorou a pergunta.</p><p>
-    Olhe  bem  pra  essa  porta  -  sussurrou  ele.  -  Ela  vai  abrir  agora.  Sabe como � que eu sei? Por causa do ar de autocom-plac�ncia insuport�vel que ela gera nessas ocasi�es.</p><p>
Com  um  gemidinho  manhoso,  a  porta  abriu  outra  vez,  e  Marvin  saiu, pisando com for�a.</p><p>
- Vamos - disse ele.</p><p>
Os dois seguiram-no rapidamente, e a porta fechou-se, com uma s�rie de estalinhos e gemidinhos de contentamento.</p><p>
- Agrade�am ao departamento de marketing da Companhia Cibern�tica de S�rius - disse Marvin, e foi subindo, desolado, o corredor curvo e reluzente. - <emphasis>Vamos  construir  rob�s  com  Personalidades  Humanas  Genu�nas, </emphasis> eles  disseram. Resultado: eu. Sou um prot�tipo de personalidade. Nem d� pra perceber, n�o �?</p><p>
Ford e Arthur, sem gra�a, murmuraram que n�o.</p><p>
- Detesto essa porta - insistiu Marvin. - N�o estou baixando o astral de voc�s, estou?</p><p>
-A que governo... - insistiu Ford.</p><p>
- Nenhum - respondeu o rob�. - Foi roubada.</p><p>
- Roubada?</p><p>
- Roubada? - disse Marvin, imitando-o.</p><p>
- Por quem?</p><p>
- Zaphod Beeblebrox.</p><p>
Uma  coisa  extraordin�ria  aconteceu  com  o  rosto  de  Ford.  No  m�nimo cinco  express�es  diferentes  e  perfeitamente  distintas  de  choque  e  espanto  se acumularam  sobre  ele,  formando  uma  barafunda  fision�mica.  Sua  perna esquerda,  que  estava  no  ar  naquele  instante,  teve  dificuldade  em  encontrar  o ch�o  de  novo.  Ford  olhava  para  o  rob�  e  tentava  contrair  seus  m�sculos dart�ides.</p><p>
- Zaphod Beeblebrox...? - exclamou, em voz baixa.</p><p>
-  Desculpe,  ser�  que  eu disse algo que n�o devia dizer? - disse Marvin, seguindo  em  frente  sem  se  virar.  -  Desculpem-me  por  respirar,  embora  eu nunca respire de fato, ent�o nem sei por que estou dizendo isso. Ah, meu Deus, estou t�o deprimido! Mais uma porta metida a besta. Ah, vida? N�o me falem de vida.</p><p>
- Ningu�m falou de vida - retrucou Arthur irritado.</p><p>
- Ford, voc� est� bem? Ford virou-se para ele.</p><p>
- Eu ouvi mal ou esse rob� falou em Zaphod Beeblebrox?</p><p><strong>Cap�tulo 12 </strong></p><p>
Uma  m�sica  barulhenta  e  vulgar  encheu  a  cabine  de  controle  da  nave Cora��o de Ouro enquanto Zaphod percorria as esta��es do r�dio subeta para tentar ouvir alguma not�cia a respeito de si pr�prio. Aquela m�quina era dif�cil de  operar.  Durante  muito  tempo,  os  r�dios  foram  controlados  por  bot�es  de apertar e de rodar; depois a tecnologia sofisticou-se, e bastava ro�ar os dedos no painel; agora era s� fazer um sinal com a m�o � dist�ncia, em dire��o ao r�dio. Realmente, dava bem menos trabalho, mas obrigava a pessoa a ficar quietinha se ela quisesse ficar escutando a mesma esta��o.</p><p>
Zaphod  mexeu  com  a  m�o  e  a  esta��o  mudou  outra  vez.  Mais  m�sica vagabunda,  s�  que  dessa  vez  era  o  prefixo  de  um  boletim  de  not�cias.  O</p><p>
notici�rio era sempre editado de modo a corresponder ao ritmo da m�sica de fundo. Dizia o locutor:</p><p>
-  <emphasis>...e reportagens via faixa subeta, irradiadas para toda a Gal�xia dia e noite... E </emphasis></p><p><emphasis>um  bom-dia  para  todas  as  formas  de  vida  inteligentes  em  toda  a Gal�xia... A grande</emphasis><emphasis>not�cia de hoje, � claro, � o sensacional roubo da nave-prot�tipo com o gerador de impro-</emphasis><emphasis>babilidade infinita, cometido por ningu�m menos que o presidente da Gal�xia, Zaphod</emphasis><emphasis>Beeblebrox.  E o que todos querem saber � se o Grande Z. B. finalmente pirou de vez.</emphasis><emphasis>Beeblebrox,  o  homem  que  inventou  a  Dinamite  Pangal�ctica,  ex-vigarista,  uma  vez</emphasis><emphasis>citado  por  T.  Eccentrica  Ga�umbits  como  um  homem  capaz  de  proporcionar  a  <strong>uma </strong></emphasis></p><p><emphasis>mulher  uma  sensa��o  semelhante  ao  big-bang  da  Cria��o,  recentemente  eleito  pela</emphasis><emphasis>s�tima vez a Criatura Racional Mais Mal-vestida de Todo o Universo Conhecido... Qual</emphasis><emphasis>ser� a dele dessa vez? Perguntamos a seu terapeuta cerebral, GagHalfrunt...</emphasis> O  fundo  musical  cresceu  e  diminuiu  logo  em  seguida,  e  ouviu-se  uma outra  voz,  provavelmente  Halfrunt:   <emphasis>Bem,  a  se-nhorr  Zaphorr  serr  uma  criaturra</emphasis><emphasis>muita... </emphasis> Neste momento, um l�pis el�trico arremessado do outro lado da cabine desligou � dist�ncia o aparelho de r�dio. Zaphod virou-se irritado para Trillian</p><p>
- fora ela quem jogara o l�pis.</p><p>
- Por que voc� fez isso? - perguntou ele.</p><p>
Trillian estava tamborilando com os dedos uma tela cheia de n�meros.</p><p>
- Acabo de ter uma id�ia - disse ela.</p><p>
-  � mesmo? T�o importante que vale a pena interromper um notici�rio a meu respeito?</p><p>
-Voc� j� devia estar cansado de ouvir falar de voc� mesmo.</p><p>
- Sou um cara muito inseguro. Voc� sabe.</p><p>
-  Ser� que dava pra gente deixar de lado o seu ego s� um minutinho? �</p><p>
uma coisa importante.</p><p>
-  Se  tem  aqui  alguma  coisa  mais  importante  que  meu  ego,  que  seja imediatamente  presa  e  fuzilada  -  disse  Zaphod,  olhando  para  ela  zangado. Depois come�ou a rir.</p><p>
- Escute - disse ela -, n�s pegamos os tais caras...</p><p>
- Que caras?</p><p>
- Os dois caras que a gente pegou.</p><p>
- Ah, sei - disse Zaphod. - Aqueles dois caras.</p><p>
- Eles estavam no setor ZZg Plural Z Alfa.</p><p>
- Sei - disse Zaphod, sem entender.</p><p>
- Isso n�o lhe diz nada? - disse Trillian, em voz baixa.</p><p>
- Humm - disse Zaphod - ZZg Plural Z Alfa, ZZg Plural Z Alfa?</p><p>
- E ent�o? - insistiu Trillian.</p><p>
-Ah... o que quer dizer Z? - perguntou Zaphod.</p><p>
- Qual deles?</p><p>
- Qualquer um deles.</p><p>
Uma  das  coisas  que  Trillian  achava  mais  dif�cil  no  seu  relacionamento com Zaphod era saber quando ele estava fingindo ser burro s� para desarmar as  pessoas,  quando  estava  fingindo  ser  burro  porque  estava  com  pregui�a  de pensar e queria que os outros fizessem isso por ele, quando estava fingindo ser terrivelmente  burro  para  ocultar  o  fato  de  que  n�o  estava  entendendo  o  que estava acontecendo e quando realmente era burrice mesmo. Ele tinha fama de ser  inteligent�ssimo  -  e  sem  d�vida  era.-,  mas  n�o  o  tempo  todo,  coisa  que evidentemente  o  preocupava;  da�  os  fingimentos.  Preferia  que  as  pessoas ficassem  intrigadas  a  que  o  encarassem  com  desprezo.  Era  isto  que  Trillian achava a maior burrice de todas, mas ela j� desistira de discutir o assunto. Trillian suspirou e apertou um bot�o. Apareceu um mapa estelar na tela. Ela resolvera trocar tudo em mi�dos para ele, qualquer que fosse o motivo pelo qual ele n�o queria entend�-la.</p><p>
- Ali - disse ela, apontando. - Bem ali.</p><p>
- Ah... sei! - disse Zaphod.</p><p>
- E ent�o?</p><p>
- Ent�o o qu�?</p><p>
Uma parte da mente de Trillian gritava com outras partes de sua mente. Muito calma, ela respondeu:</p><p>
- � o mesmo setor em que voc� me pegou quando a gente se conheceu. Zaphod olhou para ela e depois olhou de volta para a tela.</p><p>
-  �  mesmo  -  disse  ele  -,  mas  que  loucura!  A  gente  devia  ter  ido  direto para a nebulosa da Cabe�a de Cavalo. Como � que fomos parar a�? Realmente, isso a� fica no meio do nada.</p><p>
Trillian ignorou o coment�rio.</p><p>
- Improbabilidade infinita - disse ela, paciente. - Foi voc� mesmo que me explicou. A gente passa por todos os pontos do universo, voc� sabe.</p><p>
- �, mas � uma tremenda coincid�ncia, n�o �? -�.</p><p>
- Pegar uma pessoa naquele lugar? Dentre todos os lugares no Universo?</p><p>
� realmente... Quero calcular isso. Computador!</p><p>
O  computador  de  bordo  da  Companhia  Cibern�tica  de  S�rius  que controlava todas as part�culas da nave entrou na comunica��o.</p><p>
- Oi, gente1. - disse ele, muito alegrinho, e ao mesmo tempo cuspiu um peda�o de fita perfurada para fins de registro. Na fita perfurada estava escrito Oi,  <emphasis>gente!. </emphasis></p><p>
-  Ah,  meu  Deus  -  disse  Zaphod.  Estava  trabalhando  com  aquele computador h� pouco tempo, mas j� o detestava.</p><p>
O  computador  continuou,  no  tom  de  voz  esfuziante  de  quem  est�</p><p>
tentando vender detergente:</p><p>
-    Olhem,  quero  que  saibam  que,  seja  qual  for  o  problema  que  voc�s tiverem, eu estou aqui pra resolv�-lo, est� bem?</p><p>
- Est� bem, est� bem - disse Zaphod. - Escute, acho que eu mesmo vou calcular isso na ponta do l�pis.</p><p>
- Tudo bem - disse o computador, ao mesmo tempo que ia cuspindo sua mensagem  dentro  de  uma  cesta  de  pap�is.  -  Eu  entendo.  Mas  se  voc�  quiser qualquer...</p><p>
- Cale a bocal - gritou Zaphod, e pegando um l�pis foi sentar-se ao lado de Trillian, junto ao painel de controle.</p><p>
- Est� bem, est� bem... - disse o computador, num tom de voz magoado, desligando seu canal de fala.</p><p>
Zaphod  e  Trillian  puseram-se  a  examinar  as  cifras  que  o  rastreador  de trajet�ria navegacional de improbabilidade exibia na tela � sua frente.</p><p>
- D� pra gente calcular - perguntou Zaphod - qual a improbabilidade de eles serem salvos, do ponto de vista deles?</p><p>
-    D�,  �  uma  constante  -  disse  Trillian.  -  Dois  elevado  a  276.709  contra um.</p><p>
- � bem alta. Esses dois t�m sorte, hein? -�.</p><p>
- Mas em rela��o ao que n�s est�vamos fazendo quando a nave pegou os dois...</p><p>
Trillian  deu  entrada  nos  n�meros.  A  tela  exibiu  a  improbabilidade  de dois elevado a infinito menos um contra um (um n�mero irracional que s� tem significado convencional na f�sica de improbabilidade).</p><p>
-  ...� bem baixa - prosseguiu Zaphod, com um assobio de espanto.</p><p>
- � - concordou Trillian, olhando para ele com um olhar de perplexidade.</p><p>
-  �  uma  improbabilidade  bo�almente  dif�cil  de  ser  explicada.  Tem  que aparecer  alguma  coisa  muito  improv�vel  pra  compensar,  pra  que o saldo seja um n�mero razo�vel.</p><p>
Zaphod rabiscou uns c�lculos, riscou-os e jogou o l�pis longe.</p><p>
- Que droga, n�o d� pra calcular.</p><p>
- E ent�o?</p><p>
Zaphod  bateu  com uma das cabe�as na outra, de irrita��o, e trincou os dentes.</p><p>
- Est� bem - disse ele. - Computador!</p><p>
Os circuitos de voz foram ligados novamente.</p><p>
-  Opa,  tudo  bem!  -  exclamou  o  computador  (e  toca  a  sair  a  fitinha perfurada). - Eu s� quero � facilitar a sua vida cada vez mais, e mais, e mais...</p><p>
- Sei. Pois cale a boca e calcule um neg�cio pra mim.</p><p>
-  Mas  claro  -  disse  o  computador.  -  Voc�  quer  uma  previs�o  de probabilidade baseada em...</p><p>
- Em dados de improbabilidade, isso.</p><p>
-    Sei  -  disse  o  computador.  -  E  vou  lhe  dizer  uma  coisa  interessante. Sabia que a vida da maioria das pessoas � regida por n�meros de telefone?</p><p>
Um  dos  rostos  de  Zaphod  assumiu  uma  express�o  constrangida,  logo copiada pelo outro.</p><p>
- Voc� pirou? - perguntou ele.</p><p>
-  N�o,  mas  voc�  vai  pirar  quando  eu  lhe  disser  isso...  Trillian    soltou uma interjei��o  de  espanto.  Mexeu  nos</p><p>
bot�es da tela de trajet�ria de v�o.</p><p>
-  N�meros  de  telefone!  -  exclamou.  -  Essa  coisa  falou  em   <emphasis>n�meros  de</emphasis><emphasis>telefonei</emphasis></p><p>
Apareceram n�meros na tela.</p><p>
O computador fez uma pausa, por uma quest�o de delicadeza, e depois prosseguiu:</p><p>
- O que eu ia dizer � que...</p><p>
- N�o precisa, n�o, por favor - disse Trillian.</p><p>
- Afinal, o que foi? - perguntou Zaphod.</p><p>
- N�o sei - disse Trillian -, mas aquelas duas criaturas est�o vindo para c�</p><p>
com  aquele  rob�  desgra�ado.  D�  pra  gente  focaliz�-las  com  as  c�meras  de monitora��o?</p><p><strong>Cap�tulo 13 </strong></p><p>
Marvin  subia  o  corredor,  ainda  gemendo.  -  ...e,  al�m  disso,  os  meus diodos do lado esquerdo doem que � um horror...</p><p>
- N�o diga - disse Arthur, irritado, caminhando a seu lado. - � mesmo?</p><p>
- �, sim - disse Marvin. - J� pedi pra trocarem esses diodos, mas ningu�m me d� aten��o.</p><p>
- �. Sei.</p><p>
Ford  emitia  assobios  e  outros  sons  vagos,  e  repetia  em  voz  baixa  sem parar:</p><p>
-  Ora,  ora;  quer  dizer  que  o  Zaphod  Beeblebrox...  De  repente  Marvin parou e levantou um dos bra�os.</p><p>
- Voc� sabe o que aconteceu agora, n�o �?</p><p>
- N�o. O qu�? - perguntou Arthur, que no fundo n�o estava interessado em saber.</p><p>
- Chegamos a mais uma daquelas portas.</p><p>
Havia  uma  porta  de  correr  dando  para  o  corredor.  Marvin  encarou-a, desconfiado.</p><p>
- E a�? - perguntou Ford, impaciente. - Vamos entrar?</p><p>
-     <emphasis>Vamos  entrar? </emphasis>-debochou  Marvin.  -  �.  Aqui  � a entrada da ponte de comando.  Me  mandaram  buscar  voc�s  e  trazer  at�  aqui.  Provavelmente  �  a tarefa de hoje que vai exigir mais das minhas capacidades intelectuais. Lentamente,  cheio  de  asco,  o  rob�  aproximou-se  da  porta,  como  um ca�ador tocaiando sua presa. De repente a porta abriu-se.</p><p>
-   <emphasis>Muito obrigada - </emphasis> disse ela -  <emphasis>por fazer uma simples porta muito feliz.</emphasis> No t�rax de Marvin, algumas engrenagens rangeram.</p><p>
-  Gozado  -  disse  ele,  cavernoso  -,  justamente  quando  voc�  pensa  que a vida n�o pode ser pior, de repente ela piora ainda mais.</p><p>
Jogou-se pela porta adentro e deixou Ford e Arthur olhando um para a cara do outro e dando de ombros. Ouviram a voz de Marvin vindo de dentro da cabine:</p><p>
-  Imagino  que  voc�s  queiram  ver  os  alien�genas  agora.  Querem  que  eu fique  sentado  num  canto  criando  ferrugem  ou  fique  apodrecendo  em  p�</p><p>
mesmo?</p><p>
- � s� mandar que eles entrem, est� bem, Marvin? - disse uma outra voz. Arthur olhou para Ford e surpreendeu-se ao ver que ele estava rindo.</p><p>
- O que...</p><p>
- Psss - disse Ford. - Vamos. E passou pela porta.</p><p>
Arthur  veio  atr�s,  nervoso,  e  viu  com  espanto  um  homem  refestelado numa  cadeira com os p�s em cima do painel central de controle, palitando os dentes  da  cabe�a  direita  com  a  m�o  esquerda.  A  cabe�a  direita  parecia  estar inteiramente  absorta  nesta  tarefa,  mas  a  esquerda  sorria  de  modo  jovial  e simp�tico.  Havia  um  n�mero  razoavelmente  grande  de  coisas  que  Arthur  via sem acreditar no que estava vendo. Seu queixo ficou ca�do por algum tempo. O homem esquisito acenou pregui�osamente para Ford, e, com um tom de voz de informalidade e descontra��o que era absolutamente falso, disse:</p><p>
- Oi; Ford, tudo bem? Um prazer ver voc� por aqui.</p><p>
Ford n�o fez por menos:</p><p>
-  Quanto  tempo,  Zaphod!  Voc�  est�  �timo,  esse  terceiro  bra�o  ficou muito bem em voc�. Que beleza de nave voc� roubou, hein?</p><p>
Arthur arregalou os olhos para Ford.</p><p>
-  Quer dizer que voc� conhece esse cara? - perguntou, apontando para Zaphod com um dedo tr�mulo.</p><p>
-  Se  eu  o  conhe�o!  -  exclamou  Ford.  -  Ora,  ele...  -  Fez  uma  pausa  e resolveu  come�ar  as  apresenta��es  por  Zaphod.  -  Ah,  Zaphod,  este  aqui  �</p><p>
Arthur Dent, amigo meu. Eu o salvei quando o planeta dele explodiu.</p><p>
- Ah, sei - disse Zaphod. - Oi, Arthur! Que bom que voc� escapou, n�o �?</p><p>
- Sua cabe�a direita olhou ao redor com indiferen�a, disse "oi" e entregou-se de novo ao palito.</p><p>
Ford prosseguiu:</p><p>
-Arthur, este aqui � meu semiprimo Zaphod Beeb...</p><p>
- J� nos conhecemos - disse Arthur, seco.</p><p>
Quando  voc�  est�  correndo  na  estrada,  na  pista  de  alta  velocidade,  e passa na maior tranq�ilidade uma fileira de carros que est�o dando tudo, e voc�</p><p>
est� muito satisfeito da vida, e de repente voc� vai mudar a marcha e em vez de passar  da  quarta  para  terceira  passa  por  engano para a primeira, e o motor �</p><p>
cuspido para fora do capo, todo arrebentado, a sensa��o que voc� tem � mais ou menos a que Ford sentiu quando ouviu o coment�rio de Arthur.</p><p>
-Ah... o qu�?</p><p>
- Eu disse que j� nos conhecemos.</p><p>
Zaphod levou um susto, enfiando o palito na gengiva.</p><p>
- Espere a�, voc� disse que n�s... Quer dizer que... ah... Ford virou-se para Arthur com raiva nos olhos. Agora que ele</p><p>
se  sentia  em  casa  de  novo,  de  repente  come�ou  a  arrepender-se  de  ter trazido consigo aquele ser primitivo e ignorante, que entendia tanto de pol�tica gal�ctica quanto uma mosca inglesa entende da vida em Pequim.</p><p>
-  Como � que voc� pode conhec�-lo? - perguntou ele.</p><p>
-  Este aqui � Zaphod Beeblebrox de Betelgeuse, e n�o o Martin Smith l�</p><p>
de Croydon.</p><p>
-  Pois j� nos conhecemos - teimou Arthur, frio. - N�o � mesmo, Zaphod Beeblebrox... ou, se voc� preferir, Phil?</p><p>
- O qu�? - gritou Ford.</p><p>
- Voc� vai ter que me refrescar a mem�ria - disse Zaphod.</p><p>
- Tenho uma cabe�a horr�vel para esp�cies.</p><p>
- Foi numa festa - insistiu Arthur.</p><p>
- Olhe, eu acho dif�cil - disse Zaphod.</p><p>
- Pare com isso, Arthur! - ordenou Ford. Arthur n�o desistiu:</p><p>
- Uma festa, seis meses atr�s. Na Terra... Na Inglaterra... Zaphod sacudiu a cabe�a, apertando os l�bios e sorrindo.</p><p>
- Londres - prosseguiu Arthur. - Islington.</p><p>
- Ah - disse Zaphod, subitamente com um olhar cheio de culpa. -  <emphasis>Aquela</emphasis><emphasis>festa. </emphasis></p><p>
Essa  foi  demais  para  Ford.  Ele  olhava  de  Arthur  para  Zaphod  e  de Zaphod para Arthur.</p><p>
-  Voc�  est�  me  dizendo  que  voc�  tamb�m  esteve  naquela  porcaria daquele planetinha?</p><p>
-  N�o, claro que n�o - disse Zaphod, sorridente. - Bem, pode ser que eu tenha  dado  um  pulinho  l�,  s�  de  passagem,  sabe,  indo  pra  um  outro  lugar qualquer...</p><p>
- Pois eu fiquei preso l� 15 anos!</p><p>
- Bem, como eu poderia saber?</p><p>
- Mas o que � que voc� estava fazendo l�?</p><p>
- Nada, s� olhando.</p><p>
- Ele entrou numa festa de penetra - disse Arthur, tremendo de raiva. - Uma festa a rigor.</p><p>
- Voc� n�o faz por menos, n�o �? - disse Ford.</p><p>
-  Nessa  festa  -  prosseguiu  Arthur  -,  tinha  uma  garota  que...  ora,  deixe isso pra l�. O planeta todo desapareceu, afinal...</p><p>
-  Voc� tamb�m n�o p�ra de ruminar sobre essa porcaria desse planeta - disse Ford. - Quem era a mo�a?</p><p>
- Ah, uma garota, sei l�. �, admito que eu n�o estava conseguindo me dar bem  com  ela.  Tentei  a  noite  inteira.  Mas  ela  era  um  barato.  Linda,  charmosa, inteligent�ssima;  finalmente  eu  consegui  entrar  na  dela  e  estava  levando  uma conversa quando este seu amigo me aparece em cena e diz assim: �  <emphasis>coisa linda,</emphasis><emphasis>esse cara est� chateando voc�? Por que voc� n�o vem conversar comigo? Eu sou de outro</emphasis><emphasis>planeta. </emphasis> Nunca mais vi a garota.</p><p>
- Zaphod! - exclamou Ford.</p><p>
-  � - disse Arthur, olhando fixamente para ele e tentando n�o se sentir rid�culo.  -  Ele  s�  tinha  dois  bra�os  e  uma  cabe�a  e  se  apresentou  como  Phil, mas...</p><p>
-  Mas  voc�  tem  que  reconhecer  que  ele  era  mesmo  de  outro  planeta  - disse Trillian, aproximando-se, vindo do outro lado do recinto. Dirigiu a Arthur um  sorriso  agrad�vel,  que  o  atingiu  como  se  fosse  uma  tonelada  de  tijolos,  e depois voltou aos controles da nave.</p><p>
Fez-se  sil�ncio  por  alguns  segundos,  e  ent�o  do  c�rebro  aturdido  de Arthur escaparam algumas palavras:</p><p>
- Tricia McMillan? O que voc� est� fazendo aqui?</p><p>
-  O mesmo que voc� - disse ela. - Peguei uma carona. Afinal, formada em matem�tica e astrof�sica, o que mais eu podia fazer? Se n�o viesse pra c�, ia ter que continuar na fila do aux�lio-desemprego.</p><p>
-  Infinito menos um - disse o computador. - Soma de improbabilidade agora completa.</p><p>
Zaphod olhou a seu redor, para Ford, Arthur e depois Trillian.</p><p>
-  Trillian  -  disse  ele  -,  esse  tipo  de  coisa  vai  acontecer  toda  vez  que  a gente usar o gerador de improbabilidade?</p><p>
- Creio que muito provavelmente - disse ela.</p><p><strong>Cap�tulo 14 </strong></p><p>
A  nave  Cora��o  de  Ouro  voava  silenciosamente  pela  escurid�o  do espa�o,  agora  movida  pelo  motor  convencional,  a  f�tons.  Seus  quatro passageiros  estavam  intranq�ilos,  sabendo  que  haviam  sido  reunidos  n�o  por sua  pr�pria  vontade  ou  por  simples  coincid�ncia,  e  sim  por  uma  curiosa pervers�o  da  f�sica  -  como  se  as  rela��es  entre  pessoas  fossem  regidas  pelas mesmas  leis  que  regiam  o  comportamento  dos  �tomos  e  mol�culas.  Quando caiu a noite artificial da nave, todos ficaram satisfeitos de ir cada um para sua cabine e tentar acertar as suas id�ias.</p><p>
Trillian n�o conseguia dormir. Sentada num sof�, olhava fixamente para uma  pequena  gaiola  que  continha  os  �ltimos  v�nculos  com  a  Terra  que  lhe restavam  -  dois  ratos  brancos  que  ela  insistira  em  trazer.  Jamais  pretendera voltar � Terra, por�m perturbava-a a sua pr�pria rea��o negativa ao saber que o planeta  fora  destru�do.  Parecia  algo  de  remoto  e  irreal,  e  ela  n�o  conseguia encontrar pensamentos apropriados a respeito. Ficou vendo os ratos zanzando de um lado para o outro em sua gaiola, ou correndo furiosamente sem sair do lugar numa roda de exerc�cio; acabou ficando totalmente absorta no espet�culo dos  ratos.  De  repente  sacudiu-se  e  voltou  �  ponte  de  comando  para  olhar  as luzinhas e n�meros que indicavam a trajet�ria da nave atrav�s do espa�o vazio. Ela tentava descobrir qual era o pensamento que estava tentando evitar. Zaphod  n�o  conseguia  dormir.  Tamb�m  queria  saber  qual  era  o pensamento  que  n�o  se  permitia  pensar.  Ele  sempre  sofrer�  da  sensa��o inc�moda  de  n�o  estar  completamente  presente.  Na  maior  parte  do  tempo, conseguia  p�r  de  lado  essa  id�ia  e  n�o  se  preocupar  com  ela,  mas  tais pensamentos  haviam  retomado  com  a  chegada  inesperada  de  Ford  Prefect  e Arthur  Dent.  De  algum  modo,  aquilo  parecia  fazer  um  sentido  que  ele  n�o conseguia entender.</p><p>
Ford n�o conseguia dormir. Estava muito excitado por estar novamente com  o  p�  na  estrada.  Haviam  terminado  seus  15  anos  de  ex�lio,  justamente quando  ele  estava  quase  perdendo  as esperan�as. Viajar com Zaphod por uns tempos  lhe  parecia  uma  perspectiva  interessante,  ainda  que  houvesse  algo  de ligeiramente  estranho  em  seu  semiprimo  que  ele  n�o  conseguia  definir  com clareza. O fato de ele se tornar presidente da Gal�xia era surpreendente, como tamb�m o era o modo como abandonara seu cargo. Haveria uma raz�o para seu gesto? N�o adiantaria perguntar-lhe - Zaphod jamais justificava o que fazia. Ele tornara a imprevisibilidade uma forma de arte. Fazia tudo com uma mistura de extraordin�ria genialidade e incompet�ncia ing�nua, sendo muitas vezes dif�cil saber distinguir uma coisa da outra.</p><p>
Arthur dormia; estava absolutamente exausto.</p><p>
Algu�m bateu � porta de Zaphod. A porta se abriu.</p><p>
- Zaphod...?</p><p>
- Que �?</p><p>
A  silhueta  de  Trillian  desenhava-se  �  entrada  da  cabine.  -Acho  que acabamos de encontrar o que voc� est� procurando.</p><p>
- � mesmo?</p></section><section><p>
Ford  desistiu  de  tentar  dormir.  No  canto  de  sua  cabine  havia  uma pequena tela de computador e um teclado. Sentou-se ante o terminal e tentou redigir  um  novo  verbete  a  respeito  dos  vogons  para  o   <emphasis>Mochileiro, </emphasis> mas  n�o conseguiu  pensar  em  nada  que  fosse  agressivo  o  bastante,  por  isso  desistiu. Vestiu um roup�o e foi at� a ponte de comando.</p><p>
Ao  entrar,  surpreendeu-se  em  ver  duas  figuras  excitadas,  debru�adas sobre o painel de controle.</p><p>
- Est� vendo? A nave est� prestes a entrar em �rbita - dizia Trillian. - Tem um planeta a�. Justamente nas coordenadas que voc� previu. Zaphod ouviu um barulho e olhou em volta.</p><p>
- Ford! Venha dar uma olhada nisso.</p><p>
Ford foi dar uma olhada. Viu uma s�rie de n�meros na tela.</p><p>
- Est� reconhecendo essas coordenadas gal�cticas?-perguntou Zaphod.</p><p>
- N�o.</p><p>
- Vou lhe dar uma pista. Computador!</p><p>
-  Oi, pessoal! - disse o computador, simp�tico. - Isso aqui est� virando uma festa, n�o � mesmo?</p><p>
- Cale a boca e mostre as telas - disse Zaphod.</p><p>
A  ilumina��o  da  cabine  diminuiu.  Pontos  de  luz  acenderam-se  nos pain�is,  refletidas  nos  quatro  pares  de  olhos  que  perscrutavam  as  telas  de monitora��o.</p><p>
N�o havia absolutamente nada nelas.</p><p>
- Est� reconhecendo? - cochichou Zaphod. Ford franziu as sobrancelhas.</p><p>
- Hum... n�o.</p><p>
- O que voc� est� vendo?</p><p>
- Nada.</p><p>
- Est� reconhecendo?</p><p>
- Sobre o que voc� est� falando?</p><p>
- Estamos na nebulosa da Cabe�a de Cavalo. Uma enorme nuvem escura.</p><p>
- E voc� queria que eu adivinhasse isso porque n�o aparece nada na tela?</p><p>
- Os �nicos lugares da Gal�xia em que a tela fica preta s�o os interiores das nebulosas escuras.</p><p>
- Muito bem.</p><p>
Zaphod riu. Claramente, estava muito entusiasmado por algum motivo, uma empolga��o quase infantil.</p><p>
- Mas isso � incr�vel, isso � demais!</p><p>
-    Qual  o  grande  barato  de  estar  dentro  de  uma  nuvem  de  poeira?  - perguntou Ford.</p><p>
- O que voc� espera encontrar aqui? - retrucou Zaphod.</p><p>
- Nada.</p><p>
- Nenhuma estrela? Nenhum planeta?</p><p>
- Nada.</p><p>
-    Computador!  -  gritou  Zaphod.  -  Vire  o  �ngulo  de  vis�o  180  graus,  e nada de coment�rios bestas!</p><p>
Por um instante, nada aconteceu. De repente, surgiu uma luminosidade no  canto  do  tel�o.  Uma  estrela vermelha do tamanho de um pires come�ou a atravessar  a  tela,  rapidamente  seguida  de  uma  outra  -  um  sistema  bin�rio. Ent�o  um  grande  crescente  surgiu  no  canto  da  tela  -  um  brilho  vermelho  que aos poucos se esva�a em negro, o lado noturno do planeta.</p><p>
-  Achei! - exclamou Zaphod, com um tapa no painel. -Achei!</p><p>
Ford ficou olhando para a tela estupefato.</p><p>
- O que � isso?</p><p>
-  Isso  -  respondeu  Zaphod  -  �  o  planeta  mais  improv�vel  que  jamais existiu.</p><p><strong>Cap�tulo 15 </strong></p><p>
[Trecho do  <emphasis>Guia do Mochileiro das Gal�xias, </emphasis> p. 634.784, 5a se��o. Verbete: Magrathea.)</p><p><emphasis>H� muito tempo, nas brumas do passado, nos dias de gl�ria do antigo Imp�rio</emphasis><emphasis>Gal�ctico, a vida era selvagem, exuberante e livre de impostos.</emphasis><emphasis>Grandes  espa�onaves  navegavam  entre  s�is  ex�ticos,  em  busca  de  aventuras  e</emphasis><emphasis>riquezas  nos  mais  remotos  confins  do  espa�o  gal�ctico.  Naqueles  tempos,  os  esp�ritos</emphasis><emphasis>eram  bravos,  as  apostas  eram  altas,  os  homens  eram  homens  de  verdade,  as mulheres</emphasis><emphasis>eram  mulheres  de  verdade  e  as  criaturinhas  peludas  de  Alfa  do  Centauro  eram</emphasis><emphasis>criaturinhas  peludas  de  Alfa  do  Centauro  de  verdade.  E  todos  desafiavam  terrores</emphasis><emphasis>desconhecidos para realizarem feitos grandiosos e corajosamente conjugarem infinitivos</emphasis><emphasis>jamais conjugados. Assim foi forjado o Imp�rio. </emphasis></p><p><emphasis>Naturalmente, muitos homens enriqueceram enormemente, mas isto era natural</emphasis><emphasis>e n�o era problema nenhum, pois ningu�m era realmente pobre - pelo menos ningu�m</emphasis><emphasis>importante. E para todos os mercadores mais ricos, como era inevit�vel, a vida tornou-se</emphasis><emphasis>um tanto tediosa e insatisfat�ria, levando-os a pensar que isto era devido as limita��es</emphasis><emphasis>dos  mundos  em  que  eles  haviam  se  estabelecido  -  nenhum  deles  era  inteiramente</emphasis><emphasis>satisfat�rio. Ou o clima n�o era muito bom no final da tarde, ou o dia era meia</emphasis><emphasis>hora mais</emphasis><emphasis>comprido do que devia ser, ou o oceano era precisamente da tonalidade errada de rosa.</emphasis><emphasis>Assim,  surgiram  circunst�ncias  favor�veis  ao  nascimento  de  uma  espetacular</emphasis><emphasis>ind�stria:  a  constru��o  de  planetas  de  luxo  sob  medida.  A  sede  dessa  ind�stria  era  o</emphasis><emphasis>planeta  Magrathea,  cujos  engenheiros  hiperespaciais  drenavam  a  mat�ria  por  buracos</emphasis><emphasis>brancos no espa�o para transform�-la em planetas de sonho - planetas de ouro, planetas</emphasis><emphasis>de  platina,  planetas  de  borracha  macia  cheios  de  terremotos,  todos  eles</emphasis><emphasis>encantadoramente  feitos  segundo  as  mais  detalhadas especifica��es determinadas pelos</emphasis><emphasis>homens mais ricos da Gal�xia. </emphasis></p><p><emphasis>Mas tamanho foi o sucesso dessa ind�stria que o pr�prio planeta Magrathea logo</emphasis><emphasis>se tornou o planeta mais rico de todos os tempos e o resto da Gal�xia ficou reduzido � </emphasis></p><p><emphasis>mais negra mis�ria. Assim, o sistema entrou em colapso, o Imp�rio entrou em colapso e</emphasis><emphasis>um  longo  per�odo  de  sil�ncio  submergiu  um  bilh�o  de  mundos  famintos,  um  sil�ncio</emphasis><emphasis>perturbado apenas pelos ru�dos das canetas dos estudiosos, que passavam suas noites em</emphasis><emphasis>claro  elaborando  pequenos  tratados  confiantes  em  que  defendiam  o  valor  de  uma</emphasis><emphasis>economia pol�tica planejada. </emphasis></p><p><emphasis>Magrathea desapareceu e logo se transformou numa lenda obscura...</emphasis><emphasis>Hoje em dia, em nossos tempos esclarecidos, � claro que ningu�m acredita numa</emphasis><emphasis>palavra disso. </emphasis></p><p><strong>Cap�tulo 16 </strong></p><p>
Arthur  foi  despertado  por  vozes  exaltadas  e  dirigiu-se  �  ponte  de comando. Ford gesticulava, exaltado.</p><p>
-  Voc� est� maluco, Zaphod. Magrathea � um mito, um conto de fadas que os pais contam para os filhos de noite quando querem que eles se tornem economistas quando crescerem; n�o passa de...</p><p>
- Pois � em torno de Magrathea que estamos em �rbita.</p><p>
-    Olhe,  voc�  em  particular  pode  at�  estar  em  �rbita  em  torno  de Magrathea - disse Ford -, mas esta nave...</p><p>
- Computador! - gritou Zaphod. -Ah, n�o...</p><p>
-  Oi, turma! Aqui fala Eddie, seu computador de bordo. Hoje estou me sentindo muito bem, caras, e estou doidinho pra que voc�s me programem do jeito que voc�s quiserem.</p><p>
Arthur  olhou  para  Trillian  sem  entender.  Ela  fez  sinal  para  que  ele entrasse, mas n�o dissesse nada.</p><p>
-  Computador - disse Zaphod -, diga novamente qual � nossa trajet�ria no momento.</p><p>
-  Com  prazer, meu querido. Estamos atualmente em �rbita do lend�rio planeta Magrathea, a uma altitude de 500 quil�metros.</p><p>
- Isso n�o prova nada - disse Ford. - Eu n�o confiaria nesse computador nem mesmo para calcular meu peso.</p><p>
-  Posso  fazer  isso  sem  problemas  -  disse  o  computador,  animado, cuspindo mais fita perfurada. - Posso at� mesmo determinar seus problemas de personalidade  com  precis�o  de  dez  casas  decimais,  se  voc�  quiser.  Trillian interrompeu.</p><p>
-  Zaphod  -  disse  ela  -,  a  qualquer  momento  estaremos  sobrevoando  o lado diurno deste planeta, seja ele o que for.</p><p>
-    O  que  voc�  quer  dizer  com  isso?  O  planeta  est�  justamente  onde  eu previ, n�o �?</p><p>
- �, eu sei que h� um planeta l�. N�o estou discutindo com ningu�m. O</p><p>
neg�cio  �  que  eu  n�o  seria  capaz  de  distinguir  Magrathea  de  nenhum  outro pedregulho  flutuando  no  espa�o.  O  dia  est�  nascendo,  caso  voc�  esteja interessado.</p><p>
-  Est� bem, est� bem - murmurou Zaphod. - Pelo menos vamos apreciar a vista. Computador!</p><p>
- Oi, gente! O que �...</p><p>
- Cale a boa e mostre o planeta outra vez.</p><p>
Novamente  uma  massa  escura  e  sem  detalhes  discern�veis  encheu  as telas: era o planeta que estavam sobrevoando.</p><p>
Ficaram  olhando  para  as  telas  por  um  momento.  Zaphod  estava excitad�ssimo.</p><p>
- Ainda estamos sobrevoando o lado noturno - disse ele, em voz baixa. A imagem  do  planeta  passava  pelas  telas.  -  A  superf�cie  do  planeta  est�  no momento a uma dist�ncia de 500 quil�metros... - prosseguiu Zaphod, tentando valorizar  aquele  momento  que  ele  considerava  de  grande  import�ncia. Magrathea! Sentia-se  ofendido  pelo  ceticismo  de  Ford.  Magrathea!   -Dentro de alguns segundos estaremos vendo... olhem!</p><p>
Foi  um  momento  grandioso.  Mesmo  o  mais  viajado  vagabundo  das estrelas  n�o pode conter um arrepio diante de uma espetacular alvorada vista do  espa�o,  e  uma  alvorada  num  sistema  bin�rio  �  uma  das  maravilhas  da Gal�xia.</p><p>
Do  meio  da  escurid�o  absoluta  surgiu  subitamente  um  ponto  de  luz ofuscante. Aos poucos foi se abrindo, formando um fino crescente, e segundos depois dois s�is apareceram, duas fornalhas de luz, queimando o horizonte com fogo branco. Raios de cor intensa riscavam a atmosfera rarefeita do planeta. -As luzes da aurora...! - exultava Zaphod. - Os s�is g�meos de Soulianis e Rahm...!</p><p>
- Ou seja l� o que for - disse Ford baixinho.</p><p>
- Soulianis e Rahm! - insistiu Zaphod.</p><p>
Os s�is ardiam no negrume do espa�o, e ouvia-se uma m�sica macabra no  recinto:  era  Marvin  cantarolando,  sarc�stico,  porque  detestava  a  esp�cie humana.</p><p>
Ford  contemplava  o  espet�culo  de  luz  �  sua  frente,  ardendo  de entusiasmo; por�m era apenas o entusiasmo de ver um planeta que jamais vira antes; isso lhe bastava. Irritava-o um pouco a necessidade que Zaphod tinha de criar  uma  fantasia  rid�cula  para  poder  se  empolgar  com  a  cena.  Toda  essa bobagem de Magrathea parecia-lhe infantil. N�o basta apreciar a beleza de um jardim, sem ter que imaginar que h� fadas nele?</p><p>
Para  Arthur,  toda  essa  hist�ria  de  Magrathea  era  totalmente incompreens�vel.  Virou-se  para  Trillian  e  perguntou-lhe  o  que  estava acontecendo.</p><p>
- S� sei o que Zaphod disse - cochichou. - Pelo visto, Magrathea � uma esp�cie de lenda antiq�issima que ningu�m leva a s�rio. Mais ou menos como a lenda de Atl�ntida l� na Terra, s� que dizem que os magratheanos fabricavam planetas.</p><p>
Arthur olhava para a tela, sentindo falta de alguma coisa importante. De repente deu-se conta do que era.</p><p>
- Tem ch� nessa nave?</p><p>
Pouco a pouco ia aumentado a faixa vis�vel do planeta que sobrevoavam. Os s�is agora estavam bem acima do horizonte, destacando-se da escurid�o do c�u; terminara o espet�culo pirot�cnico do amanhecer, e a superf�cie do planeta parecia  erma  e  assustadora  �  luz  do  dia  -  cinzenta,  cheia  de  poeira  e  de contornos imprecisos. Parecia morta e fria como uma cripta. De  vez  em  quando  surgiam  detalhes  promissores  no  horizonte long�nquo  -  gargantas,  talvez  montanhas,  quem  sabe  at�  cidades  -,  mas,  �</p><p>
medida que se aproximavam, a imagem perdia a nitidez e n�o ficava claro do que se tratava. A superf�cie do planeta estava apagada pelo tempo, pelo lento movimento da atmosfera estagnada que nela ro�ava h� s�culos. Certamente era um planeta velh�ssimo.</p><p>
Por um momento surgiu uma d�vida na mente de Ford, ao contemplar a paisagem  cinzenta  do  planeta.  A  imensid�o  do  tempo  o  perturbava;  era  uma presen�a palp�vel. Pigarreou.</p><p>
- Bem, e se for...</p><p>
- � - disse Zaphod.</p><p>
- N�o � - prosseguiu Ford. - Mas o que voc� quer com esse planeta? N�o h� nada nele.</p><p>
- N�o na superf�cie - disse Zaphod.</p><p>
- Est� bem. Mesmo que tenha alguma coisa, n�o acredito que voc� esteja interessado  em  estudar  arqueologia  industrial.  O  que  �  que  voc�  est�</p><p>
procurando?</p><p>
Uma das cabe�as de Zaphod desviou a vista. A outra olhou ao redor para ver o que a primeira estava vendo, mas ela n�o estava olhando para nada em particular.</p><p>
- Bem - disse Zaphod, meio vago -, em parte � curiosidade, em parte � o gosto  pela  aventura,  mas  acho  que  o  principal  �  a  perspectiva  de  fama  e dinheiro...</p><p>
Ford  encarou-o.  Teve  a  n�tida  impress�o  de  que  Zaphod  n�o  tinha  a menor id�ia do motivo que o levara ali.</p><p>
-  Sabe, n�o fui nem um pouco com a cara desse planeta -disse Trillian, com um arrepio.</p><p>
- Ah, n�o ligue para isso - disse Zaphod. - Com metade das riquezas do antigo  Imp�rio  Gal�ctico  guardadas  em  algum  lugar  a�  dentro,  o  planeta  tem todo o direito de n�o ser l� essas coisas em mat�ria de beleza natural.</p><p>
"Bobagem", pensou Ford. "Ainda que fosse mesmo a sede de uma antiga civiliza��o  j�  extinta,  ainda  que  uma  s�rie  de  coisas  muito  improv�veis  fosse verdadeira, se houvesse de fato imensas riquezas guardadas l�, era imposs�vel que elas tivessem algum valor para a civiliza��o atual." Deu de ombros.</p><p>
- Acho que � s� um planeta sem vida - disse ele.</p><p>
- Esse suspense est� me matando - disse Arthur, irritado.</p><p>
A  tens�o  nervosa  e  o  estresse  s�o  agora  problemas  sociais  s�rios  em todas as partes da Gal�xia, e � para n�o exacerbar ainda mais esta situa��o que vamos revelar os fatos que se seguem antecipadamente.</p><p>
O planeta em quest�o � mesmo o lend�rio Magrathea.</p><p>
O terr�vel ataque de m�sseis que ter� in�cio em breve, desencadeado por um antigo sistema de defesa autom�tico, resultar� apenas na destrui��o de tr�s x�caras de caf� e de uma gaiola de ratos, um bra�o machucado e a inoportuna cria��o e s�bita morte de um vaso de pet�nias e um inocente cachalote. Para manter um m�nimo de suspense, n�o diremos por enquanto a quem pertence o bra�o que ser� machucado. Esse fato pode ser mantido em segredo sem qualquer problema por ser absolutamente irrelevante.</p><p><strong>Cap�tulo 17 </strong></p><p>
Tendo come�ado mal o dia, a mente de Arthur estava se recompondo a partir dos fragmentos a que havia sido reduzida na v�spera. Arthur encontrara uma Nutrim�tica, m�quina que lhe dera um copo pl�stico cheio de um l�quido que  era  quase,  mas  n�o  exatamente,  completamente  diferente  do  ch�.  A m�quina funcionava de maneira muito interessante. Quando o bot�o de bebida era apertado, ela fazia um exame instant�neo, por�m altamente detalhado, das papilas gustativas do usu�rio, uma an�lise espectrosc�pica de seu metabolismo e  ent�o  enviava  pequenos  sinais  experimentais  por  seu  sistema  nervoso  para testar  seu  gosto.  Por�m  ningu�m  entendia  por  que  ela  fazia  tudo  isso,  j�  que invariavelmente  servia  um  l�quido  que  era  quase,  mas  n�o  exatamente, completamente  diferente  do  ch�.  A  Nutrim�tica  �  fabricada  pela  Companhia Cibern�tica  de  Sirius,  cujo  departamento  de  reclama��es  atualmente  cobre todos  os  continentes  dos  tr�s  primeiros  planetas  do  sistema  estelar  de  Sirius Tau.</p><p>
Arthur bebeu o l�quido e sentiu que ele o reanimou. Olhou para as telas de  novo  e  viu  mais  algumas  centenas  de  quil�metros  de  deserto  cinzento passarem  por  eles.  De  repente  resolveu  fazer  uma  pergunta  que  o  vinha incomodando h� algum tempo.</p><p>
- N�o tem nenhum perigo?</p><p>
-    Magrathea  est�  morto  h�  cinco  milh�es  de  anos  -  disse  Zaphod.  -  �</p><p>
claro que n�o h� perigo nenhum. A essa altura, at� os fantasmas j� criaram ju�zo e  est�o  casados  e  cheios  de  filhos.  Neste  momento,  um  som  estranho  e inexplic�vel  ouviu-se  no  recinto  -  parecia  uma  fanfarra  distante;  um  som  oco, frouxo,  insubstancial.  Foi  seguido  de  uma  voz  igualmente  oca,  frouxa  e insubstancial.</p><p>
-  <emphasis>Sejam bem-vindos... - </emphasis> disse a voz.</p><p>
Algu�m estava falando com eles, daquele planeta morto.</p><p>
- Computador! - gritou Zaphod.</p><p>
- Oi, gente!</p><p>
- Que diabo � isso?</p><p>
- Ah, alguma grava��o de cinco milh�es de anos que est� sendo tocada para n�s.</p><p>
- O qu�? Uma grava��o?</p><p>
- Psss! - exclamou Ford. - Vamos escutar.</p><p>
A voz era velha, cort�s, quase encantadora, por�m continha um toque de amea�a inconfund�vel.</p><p>
-  <emphasis>Isto � uma grava��o, e infelizmente n�o h� ningu�m presente no momento. O </emphasis></p><p><emphasis>Conselho Comercial de Magrathea agradece a sua gentil visita... </emphasis></p><p><emphasis>-</emphasis> Uma voz de Magrathea! - exclamou Zaphod.</p><p>
- Est� bem, voc� venceu - disse Ford.</p><p>
-   <emphasis>...por�m lamenta informar que todo o planeta est� temporariamente fechado.</emphasis><emphasis>Obrigado. Se tiverem a bondade de deixar seus nomes e o endere�o de um planeta em</emphasis><emphasis>que possamos contat�-los, por favor, falem ap�s o sinal.</emphasis> Ouviu-se um zumbido e, depois, sil�ncio.</p><p>
- Querem se livrar de n�s - disse Trillian, nervosa. - O que vamos fazer?</p><p>
-    �  s�  uma  grava��o  -  disse  Zaphod.  -  Vamos  em  frente.  Ouviu, computador?</p><p>
-  Ouvi,  sim  -  disse  o  computador.  Acelerando  um  pouco  a  nave. Esperaram.</p><p>
Um ou dois segundos depois ouviu-se a fanfarra, seguida da voz:</p><p>
-   <emphasis>Queremos informar-lhes que, assim que reabrirmos, o fato ser� anunciado nas</emphasis><emphasis>principais  revistas  e  suplementos  coloridos  e  nossos  clientes  poder�o  mais  uma  vez</emphasis><emphasis>adquirir  o  que  h�  de  melhor  em  mat�ria  de  geografia  contempor�nea.  -  </emphasis> O  tom  de amea�a da voz intensificou-se. -  <emphasis>At� ent�o, agradecemos o interesse de nossos clientes</emphasis><emphasis>e pedimos que partam. Agora. </emphasis></p><p>
Arthur olhou para os rostos nervosos de seus companheiros.</p><p>
- Bem, acho melhor a gente ir embora, n�o �?</p><p>
- Oral - disse Zaphod. - N�o h� motivo para preocupa��o.</p><p>
- Ent�o por que todo mundo est� t�o nervoso?</p><p>
-  Estamos  s�  interessados!  -  gritou  Zaphod.  -  Computador,  comece  a penetrar na atmosfera e preparar para a aterrissagem.</p><p>
Desta vez a fanfarra foi s� pro forma, e a voz, bem fria.</p><p>
-  <emphasis>� muito gratificante o seu entusiasmo manifestado em rela��o a nosso planeta.</emphasis><emphasis>Portanto,  gostariamos  de  lhes  dizer  que  os  m�sseis  teleguiados  que  est�o no momento</emphasis><emphasis>convergindo para sua nave fazem parte de um servi�o especial que oferecemos a nossos</emphasis><emphasis>clientes  mais  entusi�sticos;  as  ogivas  nucleares  prontas  para  detonar  s�o  apenas  um</emphasis><emphasis>detalhe  da  cortesia.  Esperamos  n�o  perder  contato  com  voc�s  em  vidas  futuras...</emphasis><emphasis>Obrigado. </emphasis></p><p>
A voz calou-se.</p><p>
- Ah - exclamou Trillian.</p><p>
- Hummm... - disse Arthur.</p><p>
- E agora? - perguntou Ford.</p><p>
- Escutem - disse Zaphod -, ser� que voc�s n�o entendem? Isso � s� uma mensagem  gravada  h�  milh�es  de  anos.  N�o  se  aplica  ao  nosso  caso, entenderam?</p><p>
- E os m�sseis? - perguntou Trillian, em voz baixa.</p><p>
- M�sseis? Ora, n�o me fa�a rir.</p><p>
Ford deu um tapinha no ombro de Zaphod e apontou para a tela de tr�s. Nela via-se claramente dois dardos prateados subindo em dire��o � nave. Com um aumento maior, viu-se claramente que eram dois foguetes dos grandes. Foi um choque.</p><p>
-  Acho que eles v�o se esfor�ar o m�ximo para que se aplique ao nosso caso tamb�m - disse Ford.</p><p>
Zaphod olhou para os outros, at�nito.</p><p>
- Que barato1. Tem algu�m l� embaixo que quer matar a gente!</p><p>
- Maior barato! - disse Arthur.</p><p>
- Mas voc� n�o entende o que isso representa?</p><p>
- Claro. Vamos morrer.</p><p>
- Sim, mas afora isso.</p><p>
-  <emphasis>Afora </emphasis> isso?</p><p>
- Quer dizer que l� deve ter alguma coisa!</p><p>
- Como � que a gente sai dessa?</p><p>
A cada segundo, a imagem dos m�sseis na tela aumentava. Agora eles j�</p><p>
estavam apontando diretamente para o alvo, de modo que tudo que se via deles eram as ogivas, de frente.</p><p>
- S� por curiosidade - disse Trillian -, o que vamos fazer?</p><p>
- N�o perder a calma - disse Zaphod.</p><p>
- S� isso? - gritou Arthur.</p><p>
-  N�o,  vamos  tamb�m...  ah...  adotar  t�ticas  de  evas�o!  -  disse  Zaphod, subitamente  em  p�nico.  -  Computador,  que  esp�cie  de  t�tica  de  evas�o podemos adotar?</p><p>
- Bem... infelizmente nenhuma, pessoal - disse o computador.</p><p>
- ...ou ent�o outra coisa qualquer - disse Zaphod.</p><p>
- H���...</p><p>
- Alguma coisa parece estar interferindo com meus sistemas de controle - explicou o computador, com uma voz alegre. - Impacto em 45 segundos. Podem me chamar de Eddie, se isso os ajudar a manter a calma.</p><p>
Zaphod tentou correr em v�rias dire��es ao mesmo tempo.</p><p>
- Certo! - exclamou. - Bem... vamos ter que assumir o controle manual da nave.</p><p>
- Voc� sabe pilot�-la? - perguntou Ford, com um tom de voz simp�tico.</p><p>
- N�o. E voc�?</p><p>
- Tamb�m n�o.</p><p>
- Trillian, e voc�?</p><p>
- Tamb�m n�o.</p><p>
- Tudo bem - disse Zaphod, relaxando. - Vamos trabalhar todos juntos.</p><p>
- Eu tamb�m n�o sei - disse Arthur, achando que j� era hora de come�ar a se afirmar.</p><p>
-    Era  o  que  eu  imaginava  -  disse  Zaphod.  -  Est�  bem.  Computador, quero controle manual, imediatamente.</p><p>
- � todo seu - disse o computador.</p><p>
Diversos  pain�is  grandes  abriram-se,  contendo  diversos  pacotes  de pl�sticos e rolos de celofane: os controles nunca tinham sido usados antes. Zaphod contemplou-os assustado.</p><p>
- Vamos l�, Ford. Retroceder a toda velocidade, dez graus para estibordo. Ou coisa parecida...</p><p>
-  Boa  sorte,  gente  -  disse  o  computador.  -  Impacto  dentro  de  30</p><p>
segundos...</p><p>
Ford  saltou  para  cima  dos  controles;  s�  conseguiu  reconhecer  alguns deles, e os acionou. A nave estremeceu e guinchou, pois todos os seus foguetes direcionadores  tentaram  empurr�-la  em  todas  as  dire��es  simultaneamente. Ford soltou metade dos controles, e a nave come�ou a rodar num arco fechado, at� completar meia-volta, seguindo diretamente em dire��o aos m�sseis. Colch�es de ar amortecedores de impacto sa�ram das paredes de repente e  todos  foram  atirados  de  encontro  a  eles.  Por  alguns  segundos,  as  for�as  de in�rcia os mantiveram achatados contra os colch�es, ofegantes, incapazes de se mexer.  Em  desespero,  Zaphod  conseguiu  safar-se  e  dar  um  pontap�  numa pequena chave que fazia parte do sistema de direcionamento. A  chave  caiu  da  parede.  A  nave  fez  uma  curva  abrupta  e  virou  para cima. A tripula��o foi toda jogada contra a parede oposta. <emphasis>O </emphasis> exemplar de Ford do  <emphasis>Guia do Mochileiro </emphasis> foi cair em cima do painel de controle,  o  que  teve  dois  efeitos simult�neos: o livro come�ou a dizer a quem estivesse prestando aten��o nele quais eram as melhores maneiras de partir de Antares  levando  clandestinamente  gl�ndulas  de  periquitos  antareanos (espetadas  em  palitos,  s�o  salgadinhos  asquerosos,  por�m  est�o  em  moda,  e verdadeiras  fortunas  s�o  gastas  na  aquisi��o  dessas  gl�ndulas,  por  idiotas muito ricos que querem esnobar outros idiotas muito ricos); e a nave de repente come�ou a cair como uma pedra.</p><p>
Naturalmente,  foi  mais  ou  menos  nesse  momento  que  um  membro  da tripula��o machucou bastante o bra�o. � necess�rio enfatizar esse fato porque, como j� afirmamos, afora isso a tripula��o escapou absolutamente inc�lume, e os  letais  m�sseis  nucleares  n�o  atingiram  a  nave.  A  seguran�a  dos  tripulantes est� inteiramente garantida.</p><p>
- Impacto em 20 segundos, pessoal - disse o computador.</p><p>
- Ent�o liga a porcaria dos motores! - gritou Zaphod.</p><p>
-  Claro,  tudo  bem  -  disse  o  computador.  Com  um  zumbido  sutil,  os motores ligaram-se novamente, a nave retomou seu curso e voltou a seguir em dire��o aos m�sseis.</p><p>
O computador come�ou a cantar.</p><p>
- Ao caminhar na tempestade... - come�ou ele, com uma voz anasalada - mantenha a cabe�a erguida...</p><p>
Zaphod gritou-lhe que se calasse, por�m n�o foi poss�vel ouvi-lo no meio daquele  ru�do,  que  todos,  naturalmente,  acharam  que  fosse  o  ru�do  de  sua pr�pria destrui��o.</p><p>
- E n�o tenha medo do escuro! - cantava Eddie.</p><p>
Ao reassumir sua trajet�ria, a nave ficara de cabe�a para baixo; assim, os tripulantes estavam no teto, e portanto n�o tinham acesso aos comandos.</p><p>
- No final da tempestade... - cantarolava Eddie.</p><p>
Os  dois  m�sseis  cresciam  cada  vez  mais  nas  telas,  e  seus  rugidos  eram cada vez mais pr�ximos.</p><p>
- .. .h� um c�u dourado...</p><p>
Por�m,  por  um  acaso  extraordinariamente  feliz,  eles  n�o  haviam corrigido sua trajet�ria com precis�o em rela��o � trajet�ria aleat�ria da nave, e passaram logo abaixo dela.</p><p>
- E o doce canto da cotovia... Corre��o: impacto dentro de 15 segundos, pessoal... Caminhe contra o vento...</p><p>
Os m�sseis descreveram um arco e voltaram.</p><p>
-  �  agora  -  disse  Arthur,  olhando  para  a  tela.  -  Agora  vamos  morrer mesmo, n�o �?</p><p>
- Preferia que voc� parasse de dizer isso - gritou Ford.</p><p>
- Mas � verdade, n�o �? -�.</p><p>
- Caminhe pela chuva... - cantava Eddie.</p><p>
Arthur teve uma id�ia. P�s-se de p� com dificuldade.</p><p>
- Por que a gente n�o liga o tal gerador de improbabilidade? - perguntou ele. - Talvez a gente o alcance.</p><p>
-  Voc�  est�  maluco?  -  exclamou  Zaphod.  -  Sem  antes  fazer  a programa��o, pode acontecer qualquer coisa.</p><p>
- Qual o problema, a essa altura? - gritou Arthur.</p><p>
- Ainda que seus sonhos se esfumem... - cantava Eddie. Arthur agarrouse  a  uma  protuber�ncia  decorativa  localizada  no  trecho  em  que  a  curva  da parede encontrava com o teto.</p><p>
- Siga em frente, cheio de esperan�a...</p><p>
-  Algu�m  podia  me  dizer  por  que  Arthur  n�o  deve  ligar  o  gerador  de improbabilidade? - gritou Trillian.</p><p>
-  E  voc�  n�o  h�  de  estar  sozinho...  Impacto  dentro  de  cinco  segundos, pessoal;  foi  um  prazer  conhec�-los.   Deus   os aben�oe... Sozinho jamais!</p><p>
- Eu perguntei - berrou Trillian - por que...</p><p>
Houve ent�o uma explos�o estonteante de ru�dos e luzes.</p><p><strong>Cap�tulo 18 </strong></p><p>
E  logo  em  seguida  a  nave  Cora��o  de  Ouro  seguia  em  frente  na  mais perfeita normalidade, com seu interior inteiramente redecorado. Agora era um pouco  maior,  pintado  com  delicados  tons  pastel  de  verde  e  azul.  No  centro havia  uma  escada  em  espiral,  que  n�o  levava  a  nenhum  lugar  em  especial, cercada de samambaias e flores amarelas; a seu lado, um pedestal de rel�gio de sol, de pedra, em cima do qual se encontrava o terminal central do computador. Uma  s�rie  de  luzes  e  espelhos  engenhosamente  dispostos criavam a ilus�o de que  o  observador  estava  dentro  de  uma  estufa,  com  vista  para  um  amplo jardim,  muito  bem-cuidado.  Ao  redor  da  estufa  havia  mesas  com  tampos  de m�rmore  e  pernas  de  ferro batido, lindamente trabalhadas. Quando se olhava para  a  superf�cie  polida  do  m�rmore,  as  formas  vagas  dos  controles  se tornavam  vis�veis,  e,  ao  estender  a  m�o  para  toc�-los,  os  controles  se materializavam imediatamente. Olhando-se os espelhos no �ngulo correto, eles pareciam refletir todos os dados relevantes, embora fosse imposs�vel dizer qual a origem dessas imagens refletidas. Em suma: uma beleza extraordin�ria. Refestelado    numa    espregui�adeira    de  palhinha,    Zaphod  Beeblebrox perguntou:</p><p>
- Que diabos aconteceu?</p><p>
- Bem, o que eu estava dizendo - disse Arthur, ao lado de um pequeno laguinho  com  peixes  ornamentais  -  era  que  a  tal  chave  do  gerador  de improbabilidade  ficava  aqui  -  e,  ao  falar,  indicava o lugar onde antes ficava a chave e agora havia um vaso com uma planta.</p><p>
-  Mas  onde  estamos?  -  perguntou  Ford,  sentado  na  escada  em  espiral, com uma Dinamite Pangal�ctica geladinha na m�o.</p><p>
-    Exatamente  no  mesmo  lugar,  pelo  visto  -  disse  Trillian,  pois  nos espelhos  a  seu  redor  de  repente  apareceu  a  mesma  paisagem  �rida  de Magrathea.</p><p>
Zaphod levantou-se de um salto.</p><p>
- Ent�o o que aconteceu com os m�sseis?</p><p>
Uma nova e surpreendente imagem apareceu nos espelhos.</p><p>
-  Parece  -  disse  Ford,  hesitante  -  que  se  transformaram  num  vaso  de pet�nias e numa baleia muito espantada...</p><p>
-  O  fator  de  improbabilidade  -  interrompeu  Eddie,  que  n�o  havia mudado  nem  um  pouco  -  �  de  oito  milh�es,  setecentos  e  sessenta  e  sete  mil, cento e vinte e oito contra um.</p><p>
Zaphod olhou para Arthur.</p><p>
- A id�ia foi sua, terr�queo?</p><p>
- Bem - disse Arthur -, eu s� fiz...</p><p>
-  Voc�  usou  a  cabe�a,  sabe?  Grande  id�ia,  ligar  o  gerador  de improbabilidade por um segundo sem ativar as telas de prote��o. Olhe, rapaz, voc� salvou as nossas vidas, sabe?</p><p>
- Ah - disse Arthur-, n�o foi nada...</p><p>
-  Nada?  -  disse  Zaphod.  -  Bem,  ent�o  n�o  se  fala  mais  nisso. Computador, vamos aterrissar.</p><p>
-Mas...</p><p>
- Eu disse que n�o se fala mais nisso.</p><p>
Tamb�m  n�o  se  falou  mais  no  fato  de  que,  contra  todas  as probabilidades,  um  cachalote  havia  de  repente  se  materializado  muitos quil�metros acima da superf�cie de um planeta estranho.</p><p>
E como n�o � este o meio ambiente natural das baleias em geral, a pobre e  inocente  criatura  teve  pouco  tempo  para  se  dar  conta  de  sua  identidade</p><p>
"enquanto"  cachalote,  pois  logo  em  seguida  teve  de  se  dar  conta  de  sua identidade "enquanto" cachalote morto.</p><p>
Segue-se um registro completo de toda a vida mental dessa criatura, do momento  em  que  ela  passou  a  existir  at�  o  momento  em  que  ela  deixou  de existir.</p><p>
Ah...! O que est� acontecendo?, pensou o cachalote.</p><p>
Ah, desculpe, mas quem sou eu?</p><p>
Ei!</p><p>
Por que estou aqui? Qual a minha raz�o de ser?</p><p>
O que significa perguntar quem sou eu?</p><p>
Calma,  calma,  vamos  ver...  ah!  que  sensa��o  interessante,  o  que  �?  �</p><p>
como... bocejar, uma c�cega na minha... minha... bem, � melhor come�ar a dar nome  �s  coisas  para  eu  poder  fazer  algum  progresso  nisto  que,  para  fins daquilo  que  vou  chamar  de  discuss�o,  vou  chamar  de  mundo.  Ent�o  vamos dizer que esta seja minha barriga.</p><p>
Bom. Ah, est� ficando muito forte. E que barulh�o � esse passando por aquilo que resolvi chamar de minha cabe�a? Talvez um bom nome seja... vento!</p><p>
Ser� mesmo um bom nome? Que seja... talvez eu ache um nome melhor depois, quando  eu descobrir pra que ele serve. Deve ser uma coisa muito importante, porque tem muito disso no mundo. Epa! Que diabo � isso? �... vamos chamar essa coisa de rabo. Isso, rabo. Epa! Eu posso mex�-lo bastante! Oba! Oba! Que barato! N�o parece servir pra muita coisa, mas um dia eu descubro pra que ele serve. Bem, ser� que eu j� tenho uma vis�o coerente das coisas?</p><p>
N�o.</p><p>
N�o faz mal. Isso � t�o interessante, tanta coisa pra descobrir, tanta coisa boa por vir, estou tonto de expectativa...</p><p>
Ou ser� o vento?</p><p>
Realmente tem vento demais aqui, n�o �?</p><p>
E,  puxai  Que  �  essa  coisa  se  aproximando  de  mim  t�o  depressa?  T�o depressa. T�o grande e chata e redonda, t�o... t�o... Merece um nome bem forte, um nome t�o... t�o... ch�o! � isso! Eis um bom nome: ch�o!</p><p>
Ser� que eu vou fazer amizade com ele?</p><p>
E o resto - ap�s um baque s�bito e �mido - � sil�ncio.</p><p>
Curiosamente, a �nica coisa que passou pela mente do vaso de pet�nias ao  cair  foi:  Ah,  n�o,  outra  vez!  Muitas  pessoas  meditaram  sobre  esse  fato  e conclu�ram que, se soub�ssemos exatamente por que o vaso de pet�nias pensou isso,  saber�amos  muito  mais  a  respeito  da  natureza  do  Universo  do  que sabemos atualmente.</p><p><strong>Cap�tulo 19 </strong></p><p>
Esse  rob�  vai  conosco?  -  perguntou      Ford,  olhando  com  repulsa  para Marvin,  que  estava  em  p�,  os  ombros  ca�dos  para  a  frente,  desconjuntado, debaixo de uma palmeirinha.</p><p>
Zaphod  desviou  a  vista  das  telas-espelhos,  que  mostravam  uma  vis�o panor�mica da paisagem des�rtica na qual a nave Cora��o de Ouro acabava de aterrissar.</p><p>
- Ah, o Andr�ide Paran�ide - disse ele. - �, vamos lev�-lo.</p><p>
- Mas o que a gente vai fazer com um rob� man�aco-depressivo? -Voc�</p><p>
acha que o  <emphasis>seu </emphasis> problema � s�rio? - exclamou Marvin, como  se  estivesse  se  dirigindo  ao  novo  morador  de  uma  sepultura. - E</p><p>
eu?  O  que  fa�o  se  eu   <emphasis>sou  </emphasis> um  rob�  man�aco-depressivo?  N�o,  nem  tente responder;  eu  sou  50  mil  vezes  mais  inteligente  que  voc�  e  nem  eu  sei  a resposta.  S�  ao  tentar  me  colocar  no  seu  n�vel  intelectual,  fico  com  dor  de cabe�a. Trillian veio correndo de sua cabine.</p><p>
- Meus ratinhos brancos fugiram! - exclamou ela.</p><p>
Nos  dois  rostos  de  Zaphod,  express�es  de  profunda  preocupa��o  e consterna��o nem sequer fingiram aparecer.</p><p>
- Danem-se os seus ratinhos brancos. Trillian olhou-o com raiva e saiu de novo.</p><p>
�  poss�vel  que  a  frase  de  Trillian  tivesse  despertado  mais  aten��o  se todos  soubessem  que  os  seres humanos eram apenas a terceira forma de vida mais inteligente do planeta Terra, e n�o (como era geralmente considerado pela maioria dos observadores independentes) a segunda.</p><p>
- Boa tarde, meninos.</p><p>
A voz era estranhamente familiar, por�m curiosamente diferente. Tinha um qu� de maternal. Ela manifestou-se pela primeira vez quando os tripulantes aproximaram-se da c�mara de descompress�o pela qual passariam para sair da espa�onave.</p><p>
Eles se entreolharam surpresos.</p><p>
-  �  o  computador  -  explicou  Zaphod.  -  Descobri  que  ele  tinha  uma segunda personalidade, para ser usada em casos de emerg�ncia, e eu achei que talvez fosse melhor que a outra.</p><p>
- Esta � a primeira vez que voc�s v�o sair neste planeta desconhecido - prosseguiu a nova voz de Eddie. - Por isso eu quero todos bem agasalhadinhos, e  nada  de  botar  a  m�ozinha  em  criaturinhas  feias  de  olhos  esbugalhados, ouviram?</p><p>
Zaphod tamborilava a escotilha com impaci�ncia.</p><p>
-  Me  desculpem  -  disse  ele.  -  Acho  que  estar�amos  melhor  com  uma r�gua de c�lculo.</p><p>
- Muito bem1. - gritou o computador. - Quem foi que disse isso?</p><p>
- Quer abrir a escotilha de sa�da, por favor, computador? -disse Zaphod, tentando n�o perder a calma.</p><p>
-  S�  quando  a  pessoa  que  disse  aquilo  se  identificar  -  falou  o computador, fechando algumas sinapses.</p><p>
-  Ah,  meu  Deus  -  murmurou  Ford,  encostando-se  num  an-teparo  e come�ando a contar at� dez. Preocupava-o muito a possibilidade de que um dia as  formas  de  vida  inteligentes  n�o  soubessem  mais  fazer  isso.  Contar  era  a �nica  maneira  que  restava  aos  seres  humanos  para  provar  sua  independ�ncia em rela��o aos computadores.</p><p>
- Vamos - disse Eddie, s�rio.</p><p>
- Computador... - foi dizendo Zaphod.</p><p>
-    Estou  esperando  -  interrompeu  Eddie.  -  Se  precisar,  espero  o  dia inteiro...</p><p>
-  Computador - disse Zaphod, que havia tentado pensar num racioc�nio sutil que convencesse o computador, mas resolveu desistir de continuar lutando com as mesmas armas que ele -, se n�o abrir essa escotilha agora, eu vou agora mesmo at� o seu banco de dados e vou reprogramar voc� com um porrete desse tamanho, ouviu?</p><p>
Eddie, chocado, parou para pensar.</p><p>
Ford  continuava  contando  discretamente.  Isso  �  a  coisa  mais  agressiva que  se  pode  fazer  com  um  computador.  �  como  se  aproximar  de  um  ser humano e dizer:  <emphasis>Sangue... sangue... sangue. </emphasis></p><p>
Afinal, Eddie disse, em voz baixa:</p><p>
-  Pelo visto, todos n�s vamos ter que nos esfor�ar para desenvolvermos um bom relacionamento.</p><p>
E a escotilha se abriu.</p><p>
Um  vento  g�lido  surpreendeu-os;  encolheram-se  de  frio  e  desceram  a rampa at� a poeira morta de Magrathea.</p><p>
-    Aposto  que  tudo  isso  vai  acabar  em  l�grimas  -  gritou  Eddie  quando eles j� se afastavam, e fechou a escotilha.</p><p>
Alguns minutos depois, ele abriu e fechou a escotilha obedecendo a uma ordem que o pegou completamente de surpresa.</p><p><strong>Cap�tulo 20 </strong></p><p>
Cinco figuras caminhavam lentamente pela terra des�rtica. O solo era �s vezes  de  um  cinza  chato,  �s  vezes  de  um  marrom  chato,  e  o  resto  era menos interessante ainda. Era como um p�ntano seco, sem qualquer vegeta��o, coberto com uma camada de dois cent�metros de poeira. Fazia muito frio. Zaphod  estava  evidentemente  muito  deprimido  com  aquela  paisagem. Foi se destacando dos outros e logo se perdeu de vista atr�s de uma pequena eleva��o.</p><p>
O  vento  fazia  arder  os  olhos  e  ouvidos  de  Arthur,  e  o  ar  viciado  e rarefeito ressecava-lhe a garganta. Por�m o que estava mais impactado era sua mente.</p><p>
-  �  fant�stico...  -  exclamou  ele,  e  surpreendeu-se  com  o  som  de  sua pr�pria voz. Naquela atmosfera rarefeita, o som se propagava com dificuldade.</p><p>
- Quer saber o que eu acho? O fim do mundo � isso aqui -disse Ford. - Um  mict�rio  pra  gatos  �  mais  divertido.  -  Sua  irrita��o  crescia.  Com  tantos planetas  em  todos  os  sistemas  estelares  da  Gal�xia,  muitos  deles  selvagens  e ex�ticos, cheios de vida, depois de 15 anos de ex�lio, ele tinha que ir parar numa droga  daquelas!  Nem  mesmo  uma  barraquinha  de  cachorro-quente  por  perto. Abaixou-se e pegou um torr�o de terra fria, mas embaixo dele n�o havia nada que valesse a pena viajar milhares de anos-luz para ver.</p><p>
- N�o - insistiu Arthur -, ser� que voc� n�o entende? � a primeira vez que ponho  os  p�s  em  outro  planeta...  todo  um  mundo  diferente...  �  mesmo  uma pena que n�o tenha nada pra se ver.</p><p>
Trillian, toda encolhida de frio, tremia. Havia uma express�o de d�vida em  seu  rosto.  Ela  seria  capaz  de  jurar  que  tinha  visto  um  leve  movimento inesperado  com  o  canto  da  vista,  mas  quando  olhou naquela dire��o s� viu a nave, im�vel e silenciosa, uns 100 metros atr�s.</p><p>
Sentiu-se  aliviada  quando,  segundos  depois,  viu  Zaphod  no  alto  da eleva��o, fazendo sinal para que os outros se aproximassem. Ele parecia excitado, mas n�o dava para ouvir o que ele dizia, por causa do vento e da atmosfera rarefeita.</p><p>
Ao se aproximarem da eleva��o, perceberam que ela parecia ser circular</p><p>
- uma cratera de uns 150 metros de di�metro. Ao redor da cratera havia umas coisas pretas e vermelhas. Pararam e olharam para um dos peda�os. Era �mido. Tinha a consist�ncia de borracha.</p><p>
Horrorizados, descobriram que era carne de baleia fresca.</p><p>
Na beira da cratera, encontraram Zaphod.</p><p>
-Vejam - disse ele, apontando para dentro da cratera.</p><p>
No centro via-se a carca�a arrebentada de um cachalote que n�o vivera o suficiente  para  se  decepcionar  com  a  sua  condi��o.  O  sil�ncio  foi  perturbado apenas pelos leves espasmos involunt�rios da garganta de Trillian.</p><p>
-  Acho que � bobagem enterr�-la, n�o �? - murmurou Arthur, e logo se arrependeu de ter falado.</p><p>
- Venha - disse Zaphod, e foi descendo rumo ao centro da cratera.</p><p>
- <strong>O </strong>qu�? Ir a�? - disse Trillian, com extrema repulsa.</p><p>
- � - disse Zaphod. - Venham. Quero mostrar uma coisa.</p><p>
- D� pra ver daqui - disse Trillian.</p><p>
- N�o, � outra coisa - disse Zaphod. - Venham.</p><p>
Todos hesitaram.</p><p>
- Vamos! - insistiu Zaphod - Eu achei a entrada.</p><p>
-  <emphasis>Entrada? </emphasis>-exclamou Arthur, horrorizado.</p><p>
-  A  entrada  do  interior  do  planeta!  Uma  passagem  subterr�nea.  O</p><p>
impacto  da  baleia  rachou  o  ch�o,  e  �  por  a�  que  a  gente  pode  passar.  Vamos onde  homem  algum  pisou  desde  cinco  milh�es  de  anos  atr�s,  explorar  as profundezas do tempo...</p><p>
Marvin mais uma vez come�ou a cantarolar, ir�nico.</p><p>
Zaphod deu-lhe um tabefe e ele parou.</p><p>
Com  arrepios  de  asco,  todos  seguiram  Zaphod,  descendo  a  encosta  da cratera, esfor�ando-se ao m�ximo para n�o olhar o ser que a criara.</p><p>
- Ah, a vida - disse Marvin, l�gubre. - Pode-se odi�-la ou ignor�-la, mas �</p><p>
imposs�vel gostar dela.</p><p>
No ponto em que ca�ra a baleia, o ch�o havia cedido, revelando uma rede de galerias e passagens, muitas delas obstru�das por terra e entranhas de baleia. Zaphod  havia  come�ado  a  desobstruir  uma  delas,  mas  Marvin  era  bem  mais r�pido nessa tarefa. Um ar �mido sa�a das cavernas escuras, e, quando Zaphod iluminou a passagem com uma lanterna, n�o se viu quase nada.</p><p>
- Reza a lenda - disse ele - que os magratheanos passavam a maior parte do tempo debaixo da terra.</p><p>
-  Por  qu�?  -  perguntou  Arthur.  -  Por  que  a  superf�cie  tornou-se  muito polu�da ou superpovoada?</p><p>
- N�o, acho que n�o - disse Zaphod. - Creio que eles simplesmente n�o gostavam muito dela.</p><p>
-    Voc�  sabe  mesmo  o  que  est�  fazendo?  -  perguntou  Trillian,  olhando nervosa para as trevas. - N�s j� sofremos um ataque, n�o �?</p><p>
-  Escute,  menina,  eu  garanto  que  a  popula��o  deste  planeta  �  de  zero mais n�s quatro. Vamos entrar, �, terr�queo...</p><p>
- Arthur - disse Arthur.</p><p>
- Pois �, ser� que dava pra voc� ficar com esse rob� e tomar conta dessa entrada?</p><p>
- Tomar conta? - perguntou Arthur. - Pra qu�? Voc� n�o acabou de dizer que n�o tem ningu�m neste planeta?</p><p>
-  �, pois �, mas, voc� sabe, s� por seguran�a, est� bem? -insistiu Zaphod.</p><p>
- A sua seguran�a ou a minha?</p><p>
- Ent�o estamos combinados. Vamos l�.</p><p>
Zaphod enfiou-se na passagem, seguido de Trillian e Ford.</p><p>
- Tomara que voc�s n�o se divirtam nem um pouco - disse Arthur.</p><p>
- N�o se preocupe - disse Marvin. - N�o h� perigo de eles se divertirem. Segundos depois, eles j� haviam desaparecido.</p><p>
Arthur ficou andando de um lado para o outro, batendo com os p�s no ch�o,  e  depois  concluiu  que  t�mulo  de  baleia  n�o  �  um  bom  lugar  para  ficar andando e batendo com os p�s no ch�o.</p><p>
Marvin dirigiu-lhe um olhar assassino e em seguida desligou-se. Zaphod  descia  rapidamente  a  passagem,  nervos�ssimo,  mas  tentava disfar�ar  o  nervosismo  andando  depressa.  Apontou  a  lanterna  para  todas  as dire��es.  As  paredes  eram  recobertas  de  ladrilhos  escuros  e  frios;  no  ar  havia um cheiro pesado de podrid�o.</p><p>
-  Est�  vendo,  eu  n�o  disse?  -  exclamou  ele.  -  Um  planeta  habitado, Magrathea.  -  E  seguiu  em  frente,  caminhando  por  entre  os  montes  de  terra  e detritos que enchiam o ch�o de ladrilhos.</p><p>
Trillian,  naturalmente,  lembrou-se  do  metr�  de  Londres,  s�  que  ali  era bem mais limpo.</p><p>
De  vez  em  quando,  os  ladrilhos  das  paredes  eram  interrompidos  por grandes  mosaicos,  formando  desenhos  simples  e  angulosos,  em  cores  vivas. Trillian  parou  e  examinou  um  deles,  mas  n�o  conseguiu  interpretar  seu significado. Dirigiu-se a Zaphod:</p><p>
- Voc� faz alguma id�ia do que representam esses s�mbolos estranhos?</p><p>
-  Acho  que  s�o  s�mbolos  estranhos  de  alguma  esp�cie  -  disse  Zaphod, sem sequer olhar para tr�s.</p><p>
Trillian deu de ombros e seguiu-o.</p><p>
De vez em quando havia uma porta � esquerda ou � direita. Essas portas davam  para  pequenos  recintos  que,  conforme  constatou  Ford,  continham equipamentos de computador abandonado. Ford arrastou Zaphod para dentro de  um  desses  cub�culos  para  mostrar-lhe  o  que  havia  l�.  Trillian  entrou tamb�m.</p><p>
- Escute - disse Ford -, voc� acha que estamos em Magrathea...</p><p>
- Acho - disse Zaphod -, e a voz confirmou, n�o �?</p><p>
-  Est� bem. Ent�o aceito que estamos mesmo em Magrathea, para fins de discuss�o.  S�  que  at�  agora  voc�  n�o  explicou  como  foi  que  descobriu  este planeta. Garanto que n�o foi ao consultar um atlas de astronomia.</p><p>
-    Pesquisas.  Arquivos  do  governo.  Trabalhos  de  detetive.  Algumas intui��es felizes. F�cil.</p><p>
- E a� voc� roubou a nave Cora��o de Ouro pra vir at� aqui?</p><p>
- Roubei a nave pra procurar um monte de coisas.</p><p>
-  Um monte de coisas? - exclamou Ford, surpreso. - Por exemplo?</p><p>
- Sei l�.</p><p>
- O qu�?</p><p>
- Sei l� o que eu estou procurando.</p><p>
- Como assim?</p><p>
- Porque... porque... acho que porque... se soubessem o que eu procurava, eu n�o poderia procurar.</p><p>
- Voc� est� maluco?</p><p>
- � uma possibilidade que ainda n�o exclu� - disse Zaphod, em voz baixa.</p><p>
-  De  mim  mesmo  s�  sei  o  que  meu  c�rebro  consegue  entender  nas  atuais circunst�ncias. Que n�o s�o nada boas. Durante um bom tempo ningu�m disse nada. Ford ficou olhando para Zaphod, bastante preocupado.</p><p>
- Escute, meu amigo, se voc� quer... - come�ou Ford.</p><p>
-  N�o,  espere...  vou  lhe  dizer  uma  coisa  -  disse  Zaphod.  -  Eu  vivo rodando por a�. Eu tenho uma id�ia, penso em fazer uma coisa, eu vou e fa�o. Resolvo virar presidente da Gal�xia, e pronto, � f�cil. Resolvo roubar esta nave. Resolvo procurar Magrathea, e pronto, tudo acontece. �, eu vejo qual � a melhor maneira de agir e sempre acerto. � como se eu tivesse um cart�o Galaxicred que sempre � aceito, embora eu nem precise mandar o cheque. E a�, quando eu paro e penso: por que eu quis fazer isso? Como foi que eu consegui? - a� eu sinto uma tremenda vontade de parar de pensar nisso. Como agora, por exemplo. Tenho que fazer o maior esfor�o s� pra conseguir falar sobre esse assunto. Zaphod fez uma pausa. Fez-se sil�ncio por algum tempo. Depois Zaphod franziu as sobrancelhas e disse:</p><p>
-  Ontem � noite eu estava pensando nisso outra vez. Esse problema de uma parte do meu c�rebro n�o funcionar direito. Depois me ocorreu que o que parecia  era  que  algu�m  estava  usando  minha  mente  para ter boas id�ias, sem me  dizer  nada.  Juntei  as  duas  id�ias  e  conclu�  que  talvez  algu�m  tenha reservado uma parte do meu c�rebro para isso, e por isso eu n�o tenho acesso a ela. A� resolvi encontrar um jeito de verificar se era isso mesmo.</p><p>
"Fui ao compartimento m�dico da nave e me liguei ao encefal�grafo. Fiz todos os testes mais importantes com minhas duas cabe�as, todos os testes que eu  tive  que  fazer  com  os  m�dicos  do  governo  para  poder  ratificar  minha nomea��o para a presid�ncia. N�o deu nada. Quero dizer, nada de inesperado. Deu  que  era  inteligente,  cheio  de  imagina��o,  irrespons�vel,  nada  confi�vel, extrovertido  -  tudo  o  que  voc�s  j�  sabem.  Nenhuma  outra  anomalia.  Ent�o comecei  a  inventar  outros  testes,  completamente  aleat�rios.  Nada.  A�  tentei fazer uma superposi��o dos resultados referentes a uma das cabe�as com os da outra. Nada. A� resolvi que era s� paran�ia. Antes de guardar os equipamentos, peguei a foto da superposi��o e olhei pra ela atrav�s de um filtro verde. Voc� se lembra da minha supersti��o em rela��o � cor verde quando eu era garoto? Eu sempre quis ser astronauta mercante. Ford concordou com a cabe�a.</p><p>
- E n�o deu outra - disse Zaphod. - No meio dos c�rebros havia em cada um deles uma se��o, e elas s� estavam relacionadas uma com a outra, mas sem rela��o  com  o  que  estava  em  volta  delas.  Algum  sacana  cauterizou  todas  as sinapses e traumatizou eletronicamente aqueles dois peda�os do c�rebro. Ford arregalou os olhos. Trillian estava branca.</p><p>
- Algu�m  <emphasis>fez </emphasis> isso com voc�? - sussurrou Ford. -�.</p><p>
- Mas voc� faz alguma id�ia de quem foi? E por qu�?</p><p>
- Por qu�? Tenho uns palpites, s� isso. Mas sei quem foi o sacana.</p><p>
- Sabe? Como?</p><p>
-  Porque  deixaram  as  iniciais  marcadas  nas  sinapses  cauteri-zadas.  De prop�sito, pra eu saber.</p><p>
Ford olhou para ele horrorizado; estava todo arrepiado.</p><p>
- Iniciais? Marcadas no seu c�rebro? -�.</p><p>
- Mas quais eram as iniciais, afinal?</p><p>
Zaphod  olhou  para  ele  em  sil�ncio  por  um  momento.  Ent�o  desviou  a vista.</p><p>
- Z. B. - disse, em voz baixa.</p><p>
Neste  momento,  uma  porta  de  a�o  fechou-se  atr�s  dele  e  o  recinto come�ou a encher-se de g�s.</p><p>
- Depois eu explico - disse Zaphod, tossindo, e os tr�s desmaiaram. <strong>Cap�tulo 21 </strong></p><p>
Na  superf�cie  de  Magrathea,  Arthur  andava  de  um  lado  para  o  outro, emburrado.</p><p>
Para distra�-lo, Ford tivera a id�ia de emprestar-lhe seu  <emphasis>Guia do Mochileiro</emphasis><emphasis>das Gal�xias. </emphasis> Arthur apertou alguns bot�es aleatoriamente. O Guia do Mochileiro das Gal�xias  <emphasis>� uma obra organizada de modo um tanto</emphasis><emphasis>ca�tico e cont�m diversos trechos que foram inclu�dos simplesmente porque na hora os</emphasis><emphasis>organizadores acharam que era uma boa id�ia. </emphasis></p><p><emphasis>Um desses trechos (foi o que Arthur leu nesse momento) supostamente � o relato</emphasis><emphasis>das experi�ncias de um certo Veet Voojagig, jovem e t�mido estudante da Universidade</emphasis><emphasis>de  Maximegalon,  que  seguiu  uma  carreira  brilhante  estudando  filologia  arcaica,  �tica</emphasis><emphasis>transformacional  e  a  teoria  ondulat�ria-harm�nica  da  percep��o  hist�rica,  e  que,  ap�s</emphasis><emphasis>uma  noite  bebendo  Dinamite  Pangal�ctica  com  Zaphod  Beeblebrox,  come�ou  a  ficar</emphasis><emphasis>obcecado com o que teria acontecido com todas as esferogr�ficas que ele havia comprado</emphasis><emphasis>nos �ltimos anos. </emphasis></p><p><emphasis>Seguiu-se um longo per�odo de pesquisas meticulosas, durante o qual Voojagig</emphasis><emphasis>visitou  todos  os  principais  centros  de  perdas  de  esferogr�ficas  da  Gal�xia,  e terminou</emphasis><emphasis>formulando uma curiosa teoria que se popularizou muito na �poca. Em algum lugar no</emphasis><emphasis>cosmos - afirmou ele -, al�m de todos os planetas habitados por</emphasis><emphasis>human�ides, reptil�ides,</emphasis><emphasis>peix�ides, arvor�ides ambulantes e tons de azul superinteligentes, haveria tamb�m um</emphasis><emphasis>planeta habitado exclusivamente por seres vivos esferograf�ides. E era para esse planeta</emphasis><emphasis>que iam todas as esferogr�ficas perdidas e abandonadas, escapulindo por buraquinhos no</emphasis><emphasis>espa�o  para  um  mundo  onde  elas  podiam  viver  uma  vida  esferograf�ide,  reagir  a</emphasis><emphasis>est�mulos  de  car�ter  eminentemente  esferografitico  -  em  suma,  levar  a  vida  com  que</emphasis><emphasis>sonha toda esferogr�fica. </emphasis></p><p><emphasis>Como teoria, isso era bastante interessante. Mas, um dia, Veet Voojagig resolveu</emphasis><emphasis>afirmar que havia descoberto esse planeta, onde teria trabalhado por algum tempo como</emphasis><emphasis>chofer  de  uma  fam�lia  de  canetas  verdes  baratas  de  ponta  retr�til.  Ent�o  Voojagig  foi</emphasis><emphasis>internado, escreveu um livro e terminou como exilado tribut�rio, que � o que costuma</emphasis><emphasis>acontecer com aqueles que fazem papel de bobo publicamente.</emphasis><emphasis>Quando, um dia, foi enviada uma expedi��o para as coordenadas espaciais onde,</emphasis><emphasis>segundo Voojagig, se encontraria o tal planeta, acharam apenas um pequeno aster�ide</emphasis><emphasis>cujo �nico habitante era um velhinho, o qual vivia afirmando que nada era verdade, se</emphasis><emphasis>bem que mais tarde constatou-se que ele estava mentindo.</emphasis><emphasis>Por�m permaneceram sem resposta duas quest�es: a misteriosa quantia anual de</emphasis><emphasis>60.000 d�lares altairenses depositada na sua conta, em Brantisvogan; e, naturalmente, a</emphasis><emphasis>lucrativa  empresa  de  com�rcio  de  esferogr�ficas  de  segunda  m�o  de  propriedade  de</emphasis><emphasis>Zaphod Beeblebrox. </emphasis></p><p>
Depois  de  ler  essa  passagem,  Arthur largou o livro. O rob� continuava sentado, completamente inerte.</p><p>
Arthur  levantou-se  e  caminhou  at�  o  alto  da  borda  da  cratera.  Ficou andando  em  torno  da  depress�o,  vendo  os  dois  s�is  de  Magrathea  se  pondo, uma cena magn�fica.</p><p>
Desceu  para  o  centro  da  cratera  outra  vez.  Acordou  o  rob�,  porque  �</p><p>
melhor falar at� mesmo com um rob� man�aco-depressivo do que falar sozinho.</p><p>
-  Est�  anoitecendo  -  disse  Arthur.  -  Veja,  rob�,  as  estrelas  est�o aparecendo.</p><p>
Do interior de uma nebulosa escura s� se pode ver um pequeno n�mero de estrelas, e assim mesmo muito fracas; mas era melhor que nada. Obediente, o rob� olhou para o c�u e depois baixou a vista.</p><p>
- � - disse ele. - Que droga, n�o �?</p><p>
-  Mas  aquele  p�r-do-sol!  Nunca  vi  nada  igual,  nem  nos  meus  sonhos mais  alucinantes...  dois  s�is!  Era  como  montanhas  de  fogo  ardendo  contra  o c�u.</p><p>
- J� vi esse tipo de coisa - disse Marvin. - Um saco.</p><p>
-  L�  na  Terra  a  gente  s�  tinha  um  sol  -  insistiu  Arthur.  -  Sou  de  um planeta que se chamava Terra, voc� sabe.</p><p>
- Sei, sim - disse Marvin. - Voc� n�o fala noutra coisa. Pelo que voc� diz, devia ser horr�vel.</p><p>
-Ah, n�o, era um lugar bel�ssimo...</p><p>
- Tinha oceanos?</p><p>
-  Se  tinha!  -  disse  Arthur,  suspirando.  -  Oceanos  enormes,  com  ondas, bem azuis...</p><p>
- N�o tolero oceanos - disse Marvin.</p><p>
-  Me  diga  uma  coisa...  -  disse  Arthur.  -  Voc�  se  d�  bem com os outros rob�s?</p><p>
- Detesto todos - disse Marvin. - Aonde voc� vai? Arthur n�o ag�entava mais. Levantou-se.</p><p>
- Acho que vou dar mais uma volta.</p><p>
-    �,  eu  entendo  -  disse  Marvin,  e  contou  597  bilh�es  de  carneiros  at�</p><p>
conseguir adormecer de novo.</p><p>
Arthur  ficou  dando  tapinhas  nos  seus  pr�prios  bra�os  para  estimular  a circula��o. Recome�ou a subir a borda da cratera.</p><p>
Como a atmosfera era muito rarefeita e n�o havia lua, a noite ca�a muito depressa,  e  j�  estava  muito  escuro.  Por  isso,  Arthur  s�  viu  o  velho  quando  j�</p><p>
estava quase esbarrando nele.</p><p><strong>Cap�tulo 22 </strong></p><p>
O velho estava de costas para Arthur, contemplando os �ltimos vest�gios de  luz  que  desapareciam  no  horizonte.  Era  um  velho  alto,  que  trajava  uma longa  t�nica  cinzenta.  Quando  se  virou,  revelou  um  rosto  fino  e  nobre, envelhecido por�m bondoso, o tipo de rosto que voc� gosta de ver no gerente do  seu  banco.  Mas  ele  n�o  se  virou  nem  mesmo  quando  Arthur  soltou  uma interjei��o de espanto.</p><p>
Por fim, os �ltimos raios de luz morreram completamente, e s� ent�o ele se  virou.  Seu  rosto  ainda  estava  iluminado  por  alguma  luz,  e,  quando  Arthur procurou  a  fonte  de  onde  ela  vinha,  viu  que  a  alguns  metros  dali  havia  uma pequena  nave,  uma  esp�cie  de  pequeno  hovercraft.  A  seu  redor  havia  um p�lido c�rculo de luz.</p><p>
O homem olhou para Arthur, com um olhar aparentemente triste.</p><p>
-  Voc�  escolheu  uma  noite  fria  para  visitar  nosso  planeta morto - disse ele.</p><p>
- Quem... quem � voc�? - gaguejou Arthur.</p><p>
O  homem  virou  o  rosto.  Novamente  surgiu  uma  express�o  de  tristeza em sua fisionomia.</p><p>
- Meu nome n�o � importante - disse.</p><p>
Parecia  estar  pensando  em  alguma  coisa.  Pelo  visto,  n�o  estava  com pressa de come�ar a conversa.</p><p>
Arthur sentiu-se pouco � vontade.</p><p>
- Eu... aaah... o senhor me deu um susto - disse, por falta do que dizer. O  homem  virou-se  e  olhou  para  ele  de  novo,  arqueando  de  leve  as sobrancelhas. -Hum?</p><p>
- Eu disse que o senhor me assustou.</p><p>
- N�o tenha medo, n�o vou lhe fazer mal. Arthur franziu a testa.</p><p>
- Mas o senhor nos atacou! Os m�sseis...</p><p>
O  homem  olhou  para  o  centro da cratera. A luzinha fraca que sa�a dos olhos de Marvin projetava d�beis sombras vermelhas sobre a enorme carca�a da baleia.</p><p>
O homem deu uma risadinha.</p><p>
-  �  um  sistema  autom�tico  -  disse,  e  suspirou.  -  H�  mil�nios  que  esses computadores funcionam no interior do planeta, e seus empoeirados bancos de dados  aguardam  h�  muitas  eras  algum  acontecimento.  Acho  que  de  vez  em quando eles soltam um m�ssil s� pra quebrar a monotonia. - Dirigiu um olhar s�rio a Arthur e acrescentou: - Eu gosto muito de ci�ncia, sabe.</p><p>
-Ah...  �  mesmo?  -  perguntou  Arthur,  que  estava  come�ando  a  ficar desconcertado com o jeito cort�s e curioso do velho.</p><p>
- Gosto, sim - respondeu o velho, e calou-se de novo.</p><p>
- Ah... - disse Arthur. - �... - Sentia-se como um homem que, apanhado em  flagrante  de  adult�rio,  quando  o  marido  da  amante  entra  no  quarto,  v�  o marido mudar as cal�as, comentar o tempo que est� fazendo e ir embora.</p><p>
- Voc� parece desconcertado - disse o homem, atencioso.</p><p>
-  N�o,  quero  dizer...  �,  estou,  sim.  O  senhor  sabe,  �  que  a  gente  n�o esperava  encontrar  ningu�m  aqui.  Eu  pensava  que  voc�s  todos  j�  tinham morrido, sei l�...</p><p>
- Morrido?-disse o velho. - N�o, que id�ia! Est�vamos apenas dormindo.</p><p>
- Dormindo? - exclamou Arthur, surpreso.</p><p>
- �, por causa da recess�o econ�mica, sabe - disse o velho, aparentemente pouco ligando se Arthur entendia o que ele estava dizendo ou n�o. Arthur foi obrigado a perguntar: -Ah... recess�o econ�mica?</p><p>
-  Bem,  h�  uns  cinco  milh�es  de  anos  a  economia  gal�ctica  entrou  em crise, e como os planetas sob medida s�o um luxo sup�rfluo, voc� entende... Fez uma pausa e olhou para Arthur.</p><p>
- Voc� sabe que a gente constru�a planetas, n�o sabe?</p><p>
- Ah, claro - disse Arthur. - Era o que eu imaginava...</p><p>
- Uma atividade fascinante - disse o velho, com um olhar nost�lgico. - O</p><p>
que  eu  preferia  era  fazer  os  litorais.  Como  eu  me  divertia,  caprichando  nos fiordes... Mas, como eu ia dizendo -disse ele, tentando retomar o fio da meada -, veio a recess�o e resolvemos que o melhor a fazer seria dormir por uns tempos. Assim,  programamos  os  computadores  para  nos  acordarem  quando  tudo tivesse voltado ao normal. - O velho sufocou um leve bocejo e prosseguiu: - Os computadores  estavam  ligados  �  bolsa  de  valores  da  Gal�xia,  de  modo  que ser�amos acordados quando a economia j� tivesse recuperado o bastante para as pessoas voltarem a se interessar por nossos produtos, que s�o um tanto caros. Arthur, que lia  <emphasis>The Guardian </emphasis> regularmente, ficou muito chocado.</p><p>
- Mas isso � um comportamento imperdo�vel, n�o acha?</p><p>
-  Voc�  acha?  -  perguntou  o  velho,  cort�s.  -  Desculpe,  ando  meio desatualizado. - Apontou para o fundo  da cratera. - Aquele rob� � seu?</p><p>
-  N�o  -  respondeu  uma  vozinha  met�lica,  vindo  do  fundo  da  cratera.  - Sou meu, mesmo.</p><p>
- Se � que isso � um rob� - murmurou Arthur. - � mais uma esp�cie de gerador eletr�nico de mau humor.</p><p>
-  Traga-o  aqui  -  disse  o  homem,  surpreendendo  Arthur  com  o  tom  de voz autorit�rio que de repente surgiu em sua voz. Arthur chamou Marvin, que subiu � borda da cratera mancando ostensivamente, embora n�o fosse manco.</p><p>
-  Pensando bem - disse o velho -, � melhor deix�-lo a�. Venha comigo. Coisas importantes est�o acontecendo.</p><p>
Virou-se  para  seu  ve�culo,  o  qual,  embora  aparentemente  o  velho  n�o tivesse  feito  nenhum  sinal  para  ele,  vinha  deslizando  silenciosamente  na dire��o deles, na escurid�o.</p><p>
Arthur  olhou  para  Marvin,  que  agora  ostensivamente  virou-se  com dificuldade e come�ou a descer de volta para o centro da cratera, resmungando.</p><p>
- Venha - disse o velho. - Venha logo, sen�o voc� chegar� tarde.</p><p>
- Tarde? - exclamou Arthur. - Tarde pra qu�?</p><p>
- Como voc� se chama, humano?</p><p>
- Dent. Arthur Dent.</p><p>
-  Tarde,  como  em  "tarde  demais",  Dentarthurdent  -  disse  o  velho, friamente.  -  �  uma  esp�cie  de  amea�a.  -  Novamente  seus  olhos  cansados assumiram uma express�o melanc�lica. - Nunca fui muito bom em mat�ria de amea�as, mas dizem que �s vezes amea�ar funciona, mesmo.</p><p>
Arthur arregalou os olhos.</p><p>
- Que criatura extraordin�ria - murmurou.</p><p>
- Como? - perguntou o velho.</p><p>
- Ah, nada, desculpe - disse Arthur, sem jeito. - Bem, para onde vamos?</p><p>
-  Vamos  pegar  meu  aerom�vel  -  disse  o  velho,  fazendo  sinal  para  que Arthur  entrasse  no  ve�culo,  que  j�  estava  parado  a  seu  lado.  -  Vamos  nos aprofundar no interior deste planeta, onde nesse exato momento nossa esp�cie est�  despertando  ap�s  um  sono  de  cinco  milh�es  de  anos.  Magrathea  est�</p><p>
acordando.</p><p>
Arthur  estremeceu  sem  querer,  ao  sentar-se  ao  lado  do  velho. Perturbava-o  a  estranheza  do  movimento  daquele  ve�culo,  que  balan�ava  de leve ao elevar-se no ar.</p><p>
Arthur olhou para o velho, cujo rosto estava iluminado pelas luzinhas do painel de controle.</p><p>
- Desculpe - perguntou -, mas qual � seu nome mesmo?</p><p>
- Meu nome? - disse o velho, e a mesma tristeza nost�lgica apareceu em seu rosto. Fez uma pausa. - Meu nome... � Slartibartfast.</p><p>
Arthur quase se engasgou.</p><p>
- Como?</p><p>
- Slartibartfast - repetiu o velho, tranq�ilo.</p><p>
-  <emphasis>Slartibartfast? </emphasis></p><p>
O velho dirigiu-lhe um olhar s�rio.</p><p>
- Eu disse que meu nome n�o era importante. O aerom�vel singrou o c�u escuro.</p><p><strong>Cap�tulo 23 </strong></p><p>
� um fato importante, e conhecido por todos, que as coisas nem sempre s�o  o  que  parecem  ser.  Por  exemplo,  no  planeta  Terra  os  homens  sempre  se consideraram  mais  inteligentes  que  os  golfinhos,  porque  haviam  criado  tanta coisa  -  a  roda, Nova York, as guerras, etc. -, enquanto os golfinhos s� sabiam nadar e se divertir. Por�m, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam muito mais inteligentes que os homens - exatamente pelos mesmos motivos. Curiosamente, h� muito que os golfinhos sabiam da iminente destrui��o do planeta, e faziam tudo para alertar a humanidade; por�m suas tentativas de comunica��o  eram  geralmente  interpretadas  como  gestos  l�dicos  com  o objetivo de rebater bolas ou pedir comida, e por isso eles acabaram desistindo e abandonaram a Terra por seus pr�prios meios antes que os vogons chegassem. A derradeira mensagem dos golfinhos foi entendida como uma tentativa extraordinariamente  sofisticada  de  dar  uma  cambalhota  dupla  para  tr�s assobiando o hino nacional dos Estados Unidos, mas na verdade o significado da mensagem era:  <emphasis>Adeus, e obrigado por todos os peixes.</emphasis> Na verdade havia no planeta uma �nica esp�cie mais inteligente que os golfinhos,  que  passava  boa  parte  do  tempo  nos  laborat�rios  de  pesquisas  de comportamento,  correndo  atr�s  de  rodas  e  realizando  experi�ncias incrivelmente elegantes e sutis com seres humanos. O fato de que mais uma vez os  homens  interpretaram  seu  relacionamento  com  essas  criaturas  de  modo totalmente errado era exatamente o que estava nos planos elaborados por elas. <strong>Cap�tulo 24 </strong></p><p>
Silenciosamente,  o  aerom�vel  cruzava  a  fria  escurid�o,  a  �nica  luzinha acesa nas trevas profundas da noite de Magrathea. O ve�culo voava depressa. O</p><p>
companheiro  de  Arthur  parecia  absorto  em  seus  pr�prios  pensamentos,  e  nas duas  vezes  que  Arthur  tentou  puxar  conversa  com  ele  o  velho  limitou-se  a perguntar-lhe se estava tudo bem com ele, e a coisa ficou por a� mesmo. Arthur tentou calcular a velocidade com que estavam se deslocando, mas a  escurid�o  l�  fora  era  absoluta,  n�o  havendo,  assim,  qualquer  ponto  de refer�ncia.  A  sensa��o  de  estarem  se  movendo  era  t�o  suave  que  era  quase poss�vel acreditar que estavam parados.</p><p>
Ent�o apareceu ao longe um pontinho de luz, que em poucos segundos j� havia crescido tanto que Arthur concluiu que o ponto estava se aproximando deles  a  uma  velocidade  colossal.  Tentou  discernir  que  esp�cie  de  nave  seria. Olhava,  mas  n�o  conseguia  perceber  nenhuma  forma  definida;  de  repente soltou  uma  interjei��o  de  pavor  quando  o  aerom�vel  perdeu  altura  num movimento  s�bito,  parecendo  estar  prestes  a  chocar-se  de  frente  com  o  outro ve�culo. A velocidade relativa dos dois parecia inacredit�vel, e antes que Arthur tivesse tempo de respirar tudo j� havia terminado. Quando deu por si, Arthur viu  que  estavam  cercados  de  uma  luminosidade  prateada  incompreens�vel. Virou-se  para  tr�s  de  repente  e  viu  um  pequeno  ponto  preto  diminuindo rapidamente  na  dist�ncia,  e  levou alguns segundos para entender o que havia acontecido.</p><p>
Haviam  entrado  num  t�nel  subterr�neo.  A  velocidade  relativa  colossal fora simplesmente a velocidade do aerom�vel em rela��o a um buraco no ch�o, a  boca  do  t�nel.  A  luminosidade  prateada  era  a  parede  circular  do  t�nel  que eles agora estavam percorrendo, a algumas centenas de quil�metros por hora. Apavorado, Arthur fechou os olhos.</p><p>
Depois  de  um  intervalo  de  tempo  que  ele  sequer  tentou  avaliar,  sentiu que  estavam  perdendo  um  pouco  de  velocidade,  e  algum  tempo  depois percebeu que estavam gradualmente parando.</p><p>
Reabriu os olhos. Ainda estavam dentro do t�nel prateado, atravessando um verdadeiro labirinto de t�neis convergentes. Quando por fim estacionaram, estavam  numa  pequena  c�mara  de  paredes  curvas  de  a�o.  Diversos  outros t�neis  tamb�m  terminavam  a� e na extremidade oposta Arthur viu um c�rculo grande de luz fraca e irritante. Era irritante porque proporcionava uma esp�cie de  ilus�o  de  �tica:  n�o  havia  como  focalizar  os  olhos  nela,  e  era  imposs�vel calcular  a  que  dist�ncia  estava.  Arthur  imaginou  (erradamente)  que  fosse  luz ultravioleta.</p><p>
Slartibartfast virou-se e encarou Arthur com seus olhos velhos e solenes.</p><p>
-  Terr�queo - disse ele -, estamos agora no cora��o de Magrathea.</p><p>
- Como descobriu que eu sou terr�queo?</p><p>
- Estas coisas v�o ficar claras para voc� - disse o velho, delicadamente. - Pelo  menos  -  acrescentou,  com  um  toque  de  d�vida  na  voz  -  v�o  ficar  mais claras do que agora. - E prosseguiu: - Devo lhe avisar que a c�mara pela qual vamos  passar  agora  n�o  existe  literalmente  dentro  de  nosso  planeta.  �  um pouco... grande demais. Vamos entrar numa ampla extens�o de hiperespa�o. A experi�ncia talvez seja perturbadora para voc�.</p><p>
Arthur fez uns ru�dos nervosos.</p><p>
Slartibartfast  apertou  um  bot�o  e  acrescentou,  num  tom  n�o  muito tranq�ilizador:</p><p>
- Eu, pelo menos, fico de perna bamba. Segure-se bem firme. O aerom�vel disparou em dire��o ao c�rculo de luz, e de repente Arthur teve uma id�ia mais ou menos clara do que � o infinito.</p><p>
Na  verdade,  n�o  era  o  infinito.  O  infinito  �  uma  coisa  chata,  nos  dois sentidos da palavra. Quem olha para o c�u � noite est� olhando para o infinito; a dist�ncia � incompreens�vel, e portanto sem significado. A c�mara na qual o aerom�vel  entrou  estava  longe  de  ser  infinita;  era  apenas  muito,  muito,  mas muito grande, t�o grande que dava a impress�o de ser o infinito melhor do que o pr�prio infinito.</p><p>
Os sentidos de Arthur balan�avam-se e rodavam enquanto o aerom�vel, naquela  velocidade  imensa  que  ele  j�  pudera  estimar,  subia  lentamente  no espa�o  aberto,  e  a  passagem  por  onde  eles  haviam  entrado  transformava-se num pontinho invis�vel na parede reluzente da qual eles se afastavam. A parede.</p><p>
A  parede  desafiava  a  imagina��o  -  ela  a  seduzia  e  derrotava.  Era  t�o assustadoramente imensa e lisa que seus limites, no alto, embaixo e nos lados, estavam  al�m  do  alcance  da  vista.  Ela  proporcionava  uma  vertigem  capaz  de matar uma pessoa de choque.</p><p>
A  parede  parecia  perfeitamente  plana.  Seria  necess�rio o mais delicado medidor  para  constatar  que,  �  medida  que  ela  subia,  aparentemente  rumo  ao infinito,  e  descia,  e  se  espalhava  para  os  dois  lados,  ela  tamb�m  se  curvava. Fechava-se sobre si pr�pria a uma dist�ncia de 13 segundos-luz dali. Em outras palavras: a parede era o interior de uma esfera oca, com cerca de cinco milh�es de quil�metros de di�metro, inundada por uma luz inimagin�vel.</p><p>
- Bem-vindo - disse Slartibartfast, quando o cisco infinitesimal que era o aerom�vel,  viajando  agora  a  uma  velocidade  tr�s  vezes  superior  �  velocidade da luz, avan�ava imperceptivel-mente naquele espa�o estonteante. - Bem-vindo � nossa f�brica.</p><p>
Arthur  olhou  ao  redor,  com  uma mistura de deslumbramento e horror. Dispostos  �  sua  frente,  a  dist�ncias  que  ele  n�o  podia  calcular,  nem  mesmo imaginar,  havia  uma  s�rie  de  curiosas  suspens�es,  delicadas  redes  de  metal  e luz penduradas sobre sombrias formas esf�ricas que pairavam no espa�o.</p><p>
- � aqui - disse Slartibartfast - que fazemos a maioria dos nossos planetas.</p><p>
-  Quer  dizer  -  disse  Arthur,  articulando  as  palavras  com  dificuldade  - que voc�s v�o reabrir a f�brica agora?</p><p>
-  N�o,  n�o,  que  �  isso! - exclamou o velho. - N�o, a Gal�xia ainda est�</p><p>
longe  de  ter  dinheiro  o  suficiente  para  manter  nosso  neg�cio.  N�o,  fomos despertados  apenas  para  realizar  um  �nico  servi�o,  para  clientes  muito... especiais,  de  outra  dimens�o.  Talvez  isto  lhe  interesse...  ali,  ao  longe,  �  nossa frente.</p><p>
Arthur  olhou  na  dire��o  em  que  o  velho  apontava,  at�  que  conseguiu distinguir  a  estrutura  que  ele  indicava.  Era,  de  fato,  a  �nica  delas  que  tinha alguns  sinais  de  atividade,  embora  isto  fosse  mais  uma  impress�o  subliminar do que uma coisa concreta.</p><p>
Por�m  nesse  instante  um  facho  de  luz  descreveu  um  arco  atrav�s  da estrutura,  pondo  em  relevo  as  formas  que  havia  na  superf�cie  da  esfera negra nela contida. Formas que Arthur conhecia, formas irregulares que lhe eram t�o familiares como as formas das palavras, parte do mobili�rio de sua mente. Por alguns segundos, Arthur ficou abestalhado, sem palavras, enquanto as imagens dan�avam  em  sua  mente,  tentando  encontrar  um  ponto  em  que  pudessem estacionar e fazer sentido.</p><p>
Uma  parte  de  seu  c�rebro  lhe  dizia  que  ele  sabia  muito bem o que era que  estava  vendo,  o  que  representavam  aquelas  formas,  enquanto  uma  outra parte, muito sensatamente, recusava-se a admitir aquela id�ia e n�o assumia a responsabilidade por levar adiante aquele racioc�nio.</p><p>
O facho de luz iluminou o globo outra vez, e agora n�o havia mais lugar para d�vida.</p><p>
- A Terra... - sussurrou Arthur.</p><p>
-  Bem,  a  Terra  II,  para  ser  exato  -  disse  Slartibartfast,  sorridente.  - Estamos fazendo uma c�pia, com base nos esquemas originais. Houve uma pausa.</p><p>
- O senhor quer dizer - foi dizendo Arthur lentamente, controladamente - que foram voc�s que  <emphasis>fizeram... </emphasis> a Terra original?</p><p>
- Isso mesmo - disse Slartibartfast. -Voc� j� esteve num lugar chamado... acho que era Noruega?</p><p>
- N�o - disse Arthur. - Nunca.</p><p>
-  Que  pena  -  disse  Slartibartfast.  -  Fui  eu  que  fiz.  Ganhou  um  pr�mio, sabe? Beleza de litoral, todo trabalhado. Fiquei muito aborrecido quando soube que tinha sido destru�da.</p><p>
- O  <emphasis>senhor </emphasis> ficou aborrecido!</p><p>
-  Fiquei.  Cinco  minutos  depois,  eu  n�o  teria  me  incomodado.  Um equ�voco fenomenal.</p><p>
- Hein? - exclamou Arthur.</p><p>
- Os ratos ficaram furiosos.</p><p>
- Os  <emphasis>ratos </emphasis> ficaram furiosos?</p><p>
- �, ora - disse o velho.</p><p>
- Est� bem, mas n�o s� os ratos como, imagino eu, os cachorros, os gatos, ornitorrincos, mas...</p><p>
- Ah, mas n�o foram eles que pagaram por ela, n�o �?</p><p>
-  Escute  -  disse  Arthur  -,  n�o  seria  mais  pr�tico  pro  senhor  se  eu entregasse os pontos e pirasse logo de uma vez?</p><p>
Durante  algum  tempo,  o  aerom�vel  voou  num  sil�ncio  constrangedor. Depois o velho, paciente, tentou explicar.</p><p>
-  Terr�queo,  o  planeta  em  que  voc�  vivia  foi  encomendado,  pago  e governado pelos ratos. Ele foi destru�do cinco minutos</p><p>
antes de terminar de servir aos prop�sitos para o qual foi constru�do, e agora vamos ter que fazer outro.</p><p>
S� uma palavra fora registrada no c�rebro de Arthur.</p><p>
-  <emphasis>Ratos? </emphasis></p><p>
- �, terr�queo.</p><p>
-  Escute, por acaso estamos falando sobre aquelas criaturi-nhas peludas que  se  amarram  em  queijo  e  que  faziam  as  mulheres  subir  nas  mesas  e  ficar gritando naquelas com�dias enlatadas dos anos 1960?</p><p>
Slartibartfast tossiu um pouco, polidamente.</p><p>
- Terr�queo, �s vezes � dif�cil compreender a sua fala. Lembre-se que h�</p><p>
cinco milh�es de anos estou dormindo dentro de Magrathea, e portanto n�o sei muita  coisa  sobre  essas  com�dias  enlatadas  dos  anos  1960.  Essas  criaturas chamadas  ratos  n�o  s�o  exatamente  o  que  parecem  ser.  N�o  passam  de protus�es  em    nossa    dimens�o    de    seres    pandimensionais    imensos    e hiperinteligentes.  Toda  essa  hist�ria  de  queijo  e  guinchos  �  s�  fachada.  -  O</p><p>
velho  fez  uma  pausa,  uma  careta  simp�tica,  e  prosseguiu.  -  Eles  estavam fazendo experi�ncias com voc�s.</p><p>
Arthur pensou nisso por um segundo, e ent�o seu rosto se desanuviou.</p><p>
-  Ah,  n�o  -  disse  ele.  -  Agora  entendi  a  origem  desse  mal-entendido.  - N�o, o que acontecia � que  <emphasis>n�s </emphasis>� que faz�amos experi�ncias com eles. Os ratos eram muito utilizados em pesquisas do comportamento. Pavlov, essas coisas. O</p><p>
que  acontecia  era  que  os  ratos  participavam  de  tudo  quanto  era  experi�ncia, aprendiam  a  tocar  campainhas,  corriam  em  labirintos,  de  modo  que  toda  a natureza do processo de aprendizagem pudesse ser examinada. Com base nas observa��es do comportamento deles, a gente aprendia um monte de coisas a respeito do nosso comportamento...</p><p>
A voz de Arthur foi morrendo aos poucos.</p><p>
- Que sutileza! - disse Slartibartfast. - � realmente admir�vel.</p><p>
- Como assim?</p><p>
-  Para  disfar�ar  melhor  suas  verdadeiras  naturezas  e  orientar  melhor  o pensamento de voc�s. De repente corriam para o lado errado de um labirinto, comiam o peda�o errado de queijo, inesperadamente morriam de mixomatose... a  coisa  sendo  bem  calculada,  o  efeito  cumulativo  �  imenso.  -  Fez  uma  pausa para acentuar o efeito de suas palavras. - Sabe, terr�queo, eles s�o mesmo seres pandimensionais  particularmente  hiperinteligentes.  O  seu  planeta  e  a  sua esp�cie  formaram  a  matriz  de  um  computador  org�nico  que  processou  um programa  de  pesquisa  de  dez  milh�es  de  anos...  Eu  lhe conto toda a hist�ria. Vai levar algum tempo.</p><p>
- Tempo - respondeu Arthur, com voz d�bil. - No momento n�o � um dos meus problemas.</p><p><strong>Cap�tulo 25 </strong></p><p>
Como � sabido, a vida apresenta uma s�rie de problemas, dos quais os mais  importantes  s�o,  entre  outros,  <emphasis>Porque  as  pessoas  nascem?  Por  que  elas</emphasis><emphasis>morrem? Por que elas passam uma parte t�o grande do tempo entre o nascimento e a</emphasis><emphasis>morte usando rel�gios digitais?. </emphasis></p><p>
H�  muitos  e  muitos  milh�es  de  anos,  uma  esp�cie  de  seres pandimensionais  hiperinteligentes  (cuja  manifesta��o  f�sica  no  universo pandimensional deles n�o � muito diferente da nossa) ficaram t�o de saco cheio dessas  discuss�es  incessantes  a  respeito  do  significado  da  vida,  as  quais costumavam  interromper  seu  passatempo  favorito,  o  ultracr�quete  broquiano (um jogo curioso, no qual, entre outras coisas, os jogadores de repente batiam uns  nos  outros  sem  nenhum  motivo  aparente  e  depois  fugiam  correndo),  que decidiram sentar e resolver esses problemas de uma vez por todas. Para  tal,  constru�ram  um  estupendo  supercomputador  t�o extraordinariamente  inteligente  que,  mesmo  antes  de  seus  bancos  de  dados serem  ligados,  ele  j�  deduzira,  a  partir  do  princ�pio   <emphasis>Penso,  logo  existo, </emphasis> a exist�ncia do pudim de arroz e do imposto de renda, antes que tivessem tempo de deslig�-lo.</p><p>
Era do tamanho de uma cidade pequena.</p><p>
Seu  terminal  principal  foi  instalado  num  escrit�rio  especialmente projetado  para  esse  fim,  sobre  uma  mesa imensa de ultra-mogno, com tampo forrado  de  fin�ssimo  couro  ultravermelho.  O  carpete  escuro  era  discretamente suntuoso;  havia  plantas  ex�ticas  e  gravuras  de  muito  bom  gosto  que representavam  os  principais  programadores  do  computador  com  suas respectivas  fam�lias,  e  janelas  imponentes  que  davam  para  uma  pra�a  toda arborizada.</p><p>
No  dia  da  Grande  Liga��o  do  Computador,  dois  programadores  de roupas s�brias, carregando pastas, entraram e foram discretamente levados at�</p><p>
a  sala  do  terminal.  Sabiam  que  nesse  dia  agiam  como  representantes  de  sua esp�cie  em  seu  momento  mais  solene,  mas  estavam  perfeitamente  calmos. Sentaram-se  �  mesa  com  certa  defer�ncia, abriram suas pastas e delas tiraram cadernos encadernados em couro.</p><p>
Chamavam-se Lunkwill e Fook.</p><p>
Por  alguns  momentos,  permaneceram  num  sil�ncio  respeitoso.  Depois, ap�s trocar um olhar com Fook, Lunkwill inclinou-se para a frente e tocou num pequeno painel negro.</p><p>
Um sutil�ssimo zumbido indicou que o enorme computador estava agora em funcionamento. Ap�s uma pausa, ele falou, com uma voz cheia, ressoante e grave:</p><p>
-    Qual  �  a  grande  tarefa  que eu, Pensador Profundo, o segundo maior computador do Universo do Tempo e Espa�o, fui criado para assumir?</p><p>
Lunkwill e Fook entreolharam-se, surpresos.</p><p>
- Sua tarefa, � computador... - ia dizendo Fook.</p><p>
-  N�o,  espere  um  minuto,  isso  n�o  est�  certo  -  interrompeu  Lunkwill, preocupado. - N�s projetamos esse computador de modo que ele fosse o maior de  todos,  e  n�o  vamos  aceitar  essa  hist�ria  de  "segundo  maior".  Pensador Profundo - disse ele, dirigindo-se ao computador -, ent�o, voc� n�o �, tal como foi feito para ser, o maior e mais poderoso computador de todos os tempos?</p><p>
-  Eu disse que era o segundo maior - respondeu Pensador Profundo -, e � o que sou.</p><p>
Os  dois  programadores  trocaram  outro  olhar  preocupado.  Lunkwill pigarreou.</p><p>
-  Deve  haver  algum  engano  -  disse  ele.  -  Voc�  n�o  �  maior  que  o Pantagruc�rebro  Colossal  de  Maximegalon,  que  �  capaz  de  contar  todos  os �tomos de uma estrela em um milissegundo?</p><p>
-    O  Pantagruc�rebro  Colossal?  -  disse  Pensador  Profundo,  sem  tentar disfar�ar seu desprezo. - Aquele �baco? Falemos de outra coisa.</p><p>
-  E  voc�  n�o  �  um  calculador  mais  h�bil  -  disse  Fook,  nervoso  -  que  o Pensador  Estelar  Googleplex  da  S�tima  Gal�xia  de  Luz  e  Engenho,  capaz  de calcular  a  trajet�ria  de  cada  gr�o  de  poeira  em  uma  tempestade  de  areia  de cinco semanas em Beta de Dangrabad?</p><p>
-  Uma  tempestade  de  areia  de  cinco  semanas?  -  exclamou  Pensador Profundo, arrogante. - Eu, que j� considerei os vetores dos �tomos do pr�prio big-bang? N�o me venham com essas proezas de calculadora de bolso. Por  um  momento,  os  dois  programadores  n�o  souberam  o  que  dizer. Ent�o Lunkwill falou de novo:</p><p>
-  Mas  n�o  �  verdade  que  voc�  �  um  advers�rio  mais  tem�vel  que  o Grande  Estronca-N�utrons  Omini-Cognato  Hiperl�bico  de  Ciceronicus  12,  o M�gico e Infatig�vel?</p><p>
-  O  Grande  Estronca-N�utrons  Omni-Cognato  Hiperl�bico  -  disse Pensador  Profundo,  caprichando  nos  erres  -  �   <emphasis>capaz, </emphasis> de  argumentar  com  uma megamula de Areturus at� ela cair morta de exaust�o, mas s� eu seria capaz de convenc�-la a levantar-se e andar depois.</p><p>
- Ent�o - perguntou Fook -, qual � o problema?</p><p>
-  N�o  h�  problema  -  disse  Pensador  Profundo,  num  tom  de  voz extraordinariamente  ressonante.  -  Sou  simplesmente  o  segundo  maior computador no Universo do Espa�o e Tempo.</p><p>
- Mas, o segundo? - insistiu Lunkwill. - Por que voc� fala a toda hora que �  o  segundo?  Ser�  que  voc�  est�  pensando  no  Ruminador  Tit�nico Perspieutr�nico Multicortic�ide? Ou no Meditam�tico? Ou no... Luzinhas arrogantes piscaram no terminal.</p><p>
-   N�o gasto um bit pensando nesses retardados cibern�ticos! S� falo do computador que h� de vir depois de mim!</p><p>
Fook estava perdendo a paci�ncia. P�s de lado o caderno e murmurou:</p><p>
-  Acho esse seu messianismo totalmente fora de prop�sito</p><p>
-  Voc�  nada  sabe  do  futuro  -   <emphasis>disse  </emphasis> Pensador  Profundo  -,  enquanto  eu, com  meus  circuitos  abundantes,  navego  nos  deltas  infinitos  da  probabilidade futura,  e  vejo  que  um  dia  surgir�  um  computador  cujos  par�metros operacionais  n�o  sou  digno  de  calcular,  mas  que  ser�  meu  destino  um  dia projetar.</p><p>
Fook suspirou fundo e olhou para Lunkwill.</p><p>
-  Podemos  fazer  logo  a  pergunta?  Lunkwill  fez  sinal  para  que  ele esperasse.</p><p>
- De que computador voc� est� falando? - perguntou Lunkwill.</p><p>
-  N�o  falarei  mais  dele  no  presente  -  respondeu  Pensador  Profundo.  - Podem perguntar-me qualquer outra coisa que eu funcionarei. Falem. Os dois deram de ombros. Fook endireitou-se na cadeira.</p><p>
-    �  Pensador  Profundo,  a  tarefa  que  lhe  cabe  assumir  �  a  seguinte: queremos que nos diga... - fez uma pausa e concluiu: - ...a Resposta!</p><p>
- A Resposta? - repetiu Pensador Profundo. - Resposta a que pergunta?</p><p>
- A Vida! - exclamou Fook.</p><p>
- O Universo! - disse Lunkwill.</p><p>
- E tudo o mais! - exclamaram em un�ssono. Pensador Profundo fez uma pausa para refletir.</p><p>
- Essa � fogo - disse, finalmente.</p><p>
- Mas voc� pode nos dizer? Outra pausa significativa.</p><p>
- Posso, sim - respondeu Pensador Profundo.</p><p>
- Ent�o h� uma resposta? - perguntou Fook, ofegante.</p><p>
- Uma resposta simples? - perguntou Lunkwill.</p><p>
-  Sim  -  respondeu  Pensador  Profundo.  -  A  Vida,  o  Universo  e  Tudo  o Mais. H� uma resposta. Mas vou ter que pensar nela.</p><p>
O  momento  solene  foi  interrompido  por  uma  como��o  s�bita:  a  porta abriu-se  de  repente  e  entraram  dois  homens  irritados,  trajando  as  vestes  e cintur�es  de  fazenda  azul  desbotada  e  grosseira  que  os  identificava  como membros  da  Universidade  de  Cruxwan,  empurrando  para  o  lado  os empregados que tentavam impedir sua entrada.</p><p>
-  Exigimos o direito de entrar! - gritou o mais jovem dos dois, enfiando um cotovelo no pesco�o de uma jovem e bonita secret�ria.</p><p>
- Ora! - gritou o mais velho. - Voc�s n�o podem nos manter do lado de fora! - Empurrou um jovem programador para fora da sala.</p><p>
-  Exigimos  o  direito  de  voc�s  n�o  terem  o  direito  de  impedir  que entremos! - gritou o mais jovem, embora j� estivesse dentro da sala e ningu�m o estivesse empurrando para fora.</p><p>
-    Quem  s�o  voc�s?  -  perguntou  Lunkwill,  irritado,  levan-tando-se.  -  O</p><p>
que voc�s querem?</p><p>
- Sou Majikthise! - proclamou o mais velho.</p><p>
-  E  exijo  que  eu  seja  Vroom�ondel!  -  gritou  o  mais  jovem.  Majikthise virou-se para Vroomfondel.</p><p>
-Tudo bem - explicou, zangado. - Isso voc� n�o tem que exigir!</p><p>
- Est� bem! - berrou Vroomfondel, esmurrando uma mesa.</p><p>
- Eu sou Vroomfondel, e isto n�o � uma exig�ncia, e sim um  <emphasis>fato concreto1.</emphasis> O que exigimos s�o  <emphasis>fatos concretos! </emphasis></p><p>
-  Nada disso! - exclamou Majikthise, mais irritado ainda.</p><p>
- � justamente isso que n�o exigimos!</p><p>
Sem parar para respirar, Vroomfondel gritou:</p><p>
-   <emphasis>N�o </emphasis> exigimos fatos concretos! O que exigimos � uma  <emphasis>aus�ncia </emphasis> total de fatos concretos. Exijo que eu possa ser ou n�o ser Vroomfondel!</p><p>
- Mas, afinal, quem s�o voc�s? - gritou Fook, indignado.</p><p>
- Somos - disse Majikthise - fil�sofos.</p><p>
-  Se  bem  que  podemos  n�o  ser  -  disse  Vroomfondel,  dedo  em  riste  na cara dos programadores.</p><p>
-    Ah,  somos,  <emphasis>sim, </emphasis> definitivamente!  -  insistiu  Majikthise.  -  Somos representantes  do  Sindicato  Reunido  de  Fil�sofos, S�bios, Luminares e Outras Pessoas Pensantes, e queremos que essa m�quina seja desligada  <emphasis>agora mesmo 1</emphasis></p><p>
- Qual � o problema? - perguntou Lunkwill.</p><p>
- Eu lhe digo j�, j� qual � o problema, meu chapa! - respondeu Majikthise.</p><p>
- O problema � a demarca��o!</p><p>
-  Exigimos - gritou Vroomfondel - que o problema possa ser ou n�o ser a demarca��o!</p><p>
-    Essas  m�quinas  t�m  mais  �  que  fazer  contas  -  disse  Majikthise  -, enquanto  n�s  cuidamos  das  verdades  eternas.  Quer  saber  a  sua  situa��o perante  a  lei?  Pela  lei,  a  Busca  da  Verdade  Ultima  �  uma  prerrogativa inalien�vel dos pensadores. Se uma porcaria de uma m�quina resolve procurar e  <emphasis>acha </emphasis> a porcaria da Verdade, como � que fica o nosso emprego? O que adianta a gente  passar  a  noite  em  claro  discutindo  se  Deus  existe  ou  n�o  pra  no  dia seguinte essa m�quina dizer qual � o n�mero do telefone dele?</p><p>
-  Isso  mesmo!  �  gritou  Vroomfondel.  -  Exigimos  �reas  de  d�vida  e incerteza rigidamente delimitadas!</p><p>
De repente, uma voz tonitruante ressoou no recinto.</p><p>
-  Por  acaso  eu  poderia  fazer  uma  observa��o?  -  perguntou  Pensador Profundo.</p><p>
- A gente entra em greve! - gritou Vroomfondel.</p><p>
-    Isso  mesmo!  -  apelou  Majikthise.  -  �  o  que  voc�s  v�o  arranjar,  uma greve nacional de fil�sofos!</p><p>
O n�vel de zumbido de repente aumentou, quando diversos alto-falantes auxiliares,  instalados  em  caixas  de  som  envemizadas  e  trabalhadas,  entraram em  funcionamento  para  dar  um  pouco  mais  de  pot�ncia  �  voz  de  Pensador Profundo, que prosseguiu:</p><p>
-  Eu  s�  queria  dizer  que  meus  circuitos  agora  est�o  irrevogavelmente dedicados  �  tarefa  de  calcular  a  resposta  �  Quest�o  Fundamental  da  Vida,  o Universo e Tudo o Mais. - Fez uma pausa, para certificar-se de que agora todos estavam prestando aten��o nele, e ent�o acrescentou, em voz mais baixa: - S�</p><p>
que o programa vai levar um certo tempo pra ser processado. Fook olhou para o rel�gio, impaciente.</p><p>
- Quanto tempo?</p><p>
-   Sete milh�es  e  quinhentos mil  anos - respondeu  o computador. Lunkwill e Fook entreolharam-se.</p><p>
- Sete milh�es e quinhentos mil anos...1. - exclamaram em un�ssono.</p><p>
- Exato - disse Pensador Profundo. - Eu disse que ia ter que pensar, n�o disse?  E  ocorre-me  que  um  programa  como  esse  certamente  h�  de  gerar  uma publicidade imensa para toda a �rea de filosofia. Todo mundo vai elaborar uma teoria a respeito da resposta que vou dar no final. E ningu�m poder� explorar melhor essa situa��o nos meios de comunica��o do que voc�s. Enquanto voc�s continuarem a discordar violentamente um do outro e a atacar-se mutuamente na imprensa e a contratar bons agentes, voc�s garantem sombra e �gua fresca pro resto da vida. � ou n�o �?</p><p>
Os dois fil�sofos olhavam boquiabertos para o terminal.</p><p>
- Ora, porra - disse Majikthise -, isso � que � pensar de verdade, o resto �</p><p>
conversa  fiada.  Me  diga  uma  coisa,  Vroom-fondel,  como  �  que  a gente nunca tem uma id�ia dessas?</p><p>
-  Sei l� - sussurrou Vroomfondel, reverente. - Acho que � porque nossos c�rebros s�o treinados demais, Majikthise.</p><p>
E, assim, os dois se viraram e sa�ram da sala, prontos a viver num padr�o de vida muito superior aos seus sonhos mais loucos.</p><p><strong>Cap�tulo 26 </strong></p><p>
E  muito  edificante - disse Arthur,  quando  Slartibartfast terminou sua narrativa -, mas continuo n�o vendo rela��o entre isso tudo e a Terra, os ratos e tudo o mais.</p><p>
-  Isso � apenas a primeira metade da hist�ria, terr�queo -disse o velho. - Se voc� quiser saber o que aconteceu sete milh�es e quinhentos mil anos depois, no  grande  dia  da  Resposta,  permita-me  convid�-lo  a  visitar  meu  gabinete  de estudo,  onde  voc�    mesmo    poder�    vivenciar    os    eventos    por    meio    de grava��es  em  Sensorama.  Quero  dizer,  a  menos  que  voc�  prefira  dar  um passeio pela superf�cie da Nova Terra. Infelizmente ainda n�o est� terminada; ainda  nem  acabamos  de  enterrar  os  esqueletos    de    dinossauros  artificiais na crosta terrestre,  e depois ainda temos que fazer per�odos terci�rio e quatern�rio da era cenoz�ica, mais o ...</p><p>
- N�o, obrigado - disse Arthur. - N�o seria a mesma coisa.</p><p>
-  �  -  concordou  Slartibartfast  -,  n�o  mesmo.  -  E  deu  meia-volta  no aerom�vel, voltando para a parede inconceb�vel.</p><p><strong>Cap�tulo 27 </strong></p><p>
0  gabinete  de  Slartibartfast  era  uma  bagun�a  completa,  semelhante  a uma  biblioteca  p�blica  ap�s  uma  explos�o.  O  velho  fechou  a  cara  assim  que entraram.</p><p>
-   Que azar! - disse ele. - Explodiu um diodo de um dos computadores dos  sistemas  de  suporte  de  vida.  Quando  tentamos  reavivar  nossa  equipe  de limpeza, descobrimos que est�o todos mortos h� quase 30 mil anos. Eu queria saber quem � que vai remover os cad�veres. Escute, sente ali enquanto eu ligo o aparelho, est� bem?</p><p>
Indicou  uma  cadeira  que  parecia  feita  com  a  caixa  tor�cica  de  um estegossauro.</p><p>
-  Ela foi feita com a caixa tor�cica de um estegossauro -explicou o velho, puxando uns fios debaixo de pilhas de papel e instrumentos. - Pronto. Segure as pontas - disse, entregando duas pontas de fio desencapado a Arthur. No  momento  em  que  ele  as  pegou,  um  p�ssaro  veio  voando  e  passou atrav�s dele.</p><p>
Arthur  estava  pairando  em  pleno  ar,  e  totalmente  invis�vel  para  si pr�prio. L� embaixo via uma bela pra�a arborizada; para todos os lados havia pr�dios  de  concreto  branco,  constru��es  bem  espa�osas,  por�m  um  tanto velhas; muitos dos pr�dios tinham rachaduras e manchas causadas pela chuva. Mas  naquele  dia  em  particular  fazia  sol,  uma  brisa  agrad�vel  balan�ava  os galhos das �rvores, e Arthur tinha a curiosa sensa��o de que todos os pr�dios estavam  zumbindo  discretamente,  talvez  porque  a  pra�a  e  as  ruas  que  nela desembocavam estavam cheias de pessoas alegres e animadas. Em algum lugar uma  banda  de  m�sica  tocava;  fl�mulas  coloridas  balan�avam  na  brisa;  havia um ar de festa na cidade.</p><p>
Arthur  sentia-se  extraordinariamente  solit�rio  l�  no  alto,  sem  ter  nem mesmo  um  corpo  para  chamar  de  seu,  mas,  antes  que  ele  tivesse  tempo  de pensar em sua situa��o, uma voz ressoou na pra�a, pedindo a aten��o de todos. Em  p�  sobre  uma  plataforma  enfeitada  em  frente  do  pr�dio  mais importante da pra�a, um homem se dirigia � multid�o atrav�s de um megafone.</p><p>
- � v�s que aguardais � sombra de Pensador Profundo] - gritou   ele.   - Honrados   descendentes   de  Vroomfondel   e Majikthise, os maiores e mais interessantes s�bios do Universo... � findo o Tempo de Espera!</p><p>
Um coro de vivas elevou-se da multid�o. Bandeiras, fl�mulas e assobios cruzaram  os  ares.  As  ruas  mais  estreitas  pareciam  centop�ias  emborcadas, agitando suas perninhas desesperadamente.</p><p>
-  H�  sete  milh�es  e  quinhentos  mil  anos  que  nossa  esp�cie  espera  por este Grande Dia de Ilumina��o! - gritou o homem. - O Dia da Resposta!</p><p>
Hurras entusi�sticas brotaram da multid�o.</p><p>
-  Nunca mais acordaremos de manh� perguntando a n�s mesmos:  <emphasis>Quem</emphasis><emphasis>sou eu? Qual meu objetivo na vida? Em uma escala c�smica, faz alguma diferen�a se</emphasis><emphasis>hoje eu resolver n�o me levantar e n�o ir ao trabalho?. </emphasis> Pois hoje saberemos, de uma vez  por  todas,  a  resposta  clara  e  simples  a  todas  estas  inc�modas  perguntas relacionadas � Vida, ao Universo e a Tudo o Mais!</p><p>
Enquanto a multid�o aplaudia mais uma vez, Arthur viu-se planando no ar  em  dire��o  a  uma  das  grandes  e  imponentes  janelas  do  primeiro  andar do pr�dio atr�s da plataforma.</p><p>
Arthur  foi  dominado  pelo  p�nico  durante  um  instante,  quando  se  viu voando  para  dentro  da  janela,  mas  um  segundo  depois  deu-se  conta  de  que havia atravessado a vidra�a sem sentir nada.</p><p>
Ningu�m na sala achou nada de estranho quando ele chegou, o que ali�s era perfeitamente compreens�vel, j� que, na verdade, Arthur n�o estava l�. Ele come�ou  a  entender  que  toda  aquela  experi�ncia  que  ele  estava  tendo  n�o passava de uma proje��o, algo que punha no chinelo o filme de 70 mil�metros com seis canais de som.</p><p>
A sala era tal como Slartibartfast a havia descrito. Durante sete milh�es e quinhentos  mil  anos  ela  fora  bem-cuidada,  sendo  limpa  regularmente  a  cada 100  anos,  mais  ou  menos.  A  mesa  de  ultramogno  estava  gasta  nas  beiras,  o carpete  estava  um  pouco  desbotado,  mas  o  grande  terminal  de  computador embutido  no  tampo  de  couro  da  mesa  estava  t�o  reluzente  quanto  se  tivesse sido constru�do na v�spera.</p><p>
Dois  homens  sobriamente  vestidos,  sentados  diante  do  terminal, aguardavam.</p><p>
- Est� chegando a hora - disse um deles, e Arthur surpreendeu-se ao ver uma  palavra  materializar-se  ao  lado  do  pesco�o  do  homem.  A  palavra  era LOONQUAWL;  ela  piscou  umas  duas  vezes  e depois desapareceu. Antes que Arthur tivesse tempo de assimilar o escorrido, o outro homem falou, e a palavra PHOUCHG apareceu ao lado de seu pesco�o.</p><p>
- H� 75 gera��es, nossos ancestrais deram in�cio a este programa - disse o segundo homem -, e ap�s todo esse tempo n�s seremos os primeiros a ouvir o computador falar.</p><p>
- Uma perspectiva tremenda, Phouchg - concordou o primeiro homem, e Arthur  de  repente  entendeu  que  estava  assistindo  a  uma  grava��o  com letreiros.</p><p>
-  Seremos  n�s  que  ouviremos  a  resposta  �  grande  quest�o  da  Vida...!  - disse Phouchg.</p><p>
- O Universo...! - disse Loonquawl.</p><p>
- E Tudo o Mais...!</p><p>
- Psss! - exclamou Loonquawl com um gesto sutil. - Acho que Pensador Profundo est� se preparando para falar?</p><p>
Houve  uma  pausa  cheia  de  expectativa,  quando  as  luzes  do  painel lentamente  foram  se  acendendo.  As  luzes  piscaram,  como  se  a  t�tulo  de experi�ncia,  e  logo  assumiram  um  ritmo  funcional.  O  canal  de  comunica��o come�ou a emitir um zumbido suave.</p><p>
- Bom dia - disse Pensador Profundo por fim.</p><p>
- Ah... Bom dia, � Pensador Profundo - disse Loonquawl, nervoso. -Voc�</p><p>
tem... ah, quero dizer...</p><p>
-  Uma  resposta  para  voc�s?  -  interrompeu  Pensador  Profundo, majestoso. - Tenho, sim.</p><p>
Os dois homens tremeram de expectativa. Sua espera n�o fora em v�o.</p><p>
- Ent�o h� mesmo uma resposta? - exclamou Phouchg.</p><p>
- H� mesmo uma resposta - confirmou Pensador Profundo.</p><p>
-  A  resposta  final?  �  grande  Quest�o  da  Vida,  do  Universo  e  Tudo  o Mais?</p><p>
- Sim.</p><p>
Os dois homens haviam sido treinados para esse momento. Toda a sua vida fora uma longa prepara��o para ele: haviam sido escolhidos no momento em  que  nasceram  para  testemunhar  a  resposta,  mas  mesmo  assim  sentiam-se alvoro�ados e ofegantes como crian�as excitadas.</p><p>
-  E voc� est� pronto pra nos dar a resposta? - perguntou Loonquawl.</p><p>
- Estou.</p><p>
- Agora?</p><p>
- Agora - disse Pensador Profundo. Os dois umedeceram os l�bios secos.</p><p>
-  Se bem que eu acho que voc�s n�o v�o gostar - disse o computador.</p><p>
-  N�o  faz  mal  -  exclamou  Phouchg.  -  Precisamos  conhecer  a  resposta!</p><p>
Agora!</p><p>
- Agora? - perguntou Pensador Profundo.</p><p>
- �, agora!...</p><p>
-  Est� bem - disse o computador, e calou-se. Os dois homens remexiam-se, inquietos. A tens�o era insuport�vel.</p><p>
- Olhem, voc�s n�o v�o gostar mesmo - comentou Pensador Profundo.</p><p>
- Diga logo!</p><p>
-  Est� bem - disse o computador. - A Resposta � Grande Quest�o...</p><p>
- Sim...!</p><p>
- Da Vida, o Universo e Tudo o Mais... - disse Pensador Profundo.</p><p>
- Sim!</p><p>
- �... - disse Pensador Profundo, e fez uma pausa.</p><p>
- Sim...! -�... -Sim...!!!...?</p><p>
-  Quarenta  dois  -  disse  Pensador  Profundo,  com  uma  majestade  e  uma tranq�ilidade infinitas.</p><p><strong>Cap�tulo 28 </strong></p><p>
Durante muito, muito tempo, ningu�m disse nada. Com o canto do olho, Phouchg via pela janela o mar de rostos cheios de expectativa na pra�a.</p><p>
- N�s vamos ser linchados, n�o vamos? - sussurrou.</p><p>
- A pergunta n�o foi f�cil - disse Pensador Profundo, com mod�stia.</p><p>
- Quarenta e dois! - berrou Loonquawl. - � tudo que voc� tem a nos dizer depois de sete milh�es e quinhentos mil anos de trabalho?</p><p>
- Eu verifiquei cuidadosamente - disse o computador -, e n�o h� d�vida de  que  a  resposta  �  essa.  Para  ser  franco,  acho  que  o  problema  �  que  voc�s jamais souberam qual � a pergunta.</p><p>
-    Mas  era  a  Grande  Pergunta!  A  Quest�o  Fundamental  da  Vida,  o Universo e Tudo o Mais - gritou Loonquawl.</p><p>
- � - disse Pensador Profundo, com um tom de voz de quem tem enorme paci�ncia para aturar pessoas est�pidas -, mas qual � exatamente a pergunta?</p><p>
Um  sil�ncio  de  estupefa��o  aos  poucos  dominou  os  homens,  que olharam para o computador e depois se entreolharam.</p><p>
-  Bem,  voc�  sabe,  �  simplesmente  tudo...  tudo...  -  come�ou  Phouchg, vacilante.</p><p>
-  Pois  �!  -  disse  Pensador  Profundo.  -  Assim,  quando  voc�s  souberem qual � exatamente a pergunta, voc�s saber�o o que significa a resposta.</p><p>
-    Genial  -  sussurrou  Phouchg,  jogando  o  caderno  para  o  lado  e enxugando uma pequena l�grima.</p><p>
-  Est� bem, est� bem - disse Loonquawl. - Ser� que dava pra voc� nos dizer qual � a pergunta?</p><p>
- A Pergunta Fundamental? -�!</p><p>
- Sobre a Vida, o Universo e Tudo o Mais? -�l</p><p>
Pensador Profundo pensou um pouco.</p><p>
- Essa � fogo - disse ele.</p><p>
-  Mas  voc�  pode  descobri-la?  -  perguntou  Loonquawl.  Pensador Profundo ponderou a quest�o por mais algum</p><p>
tempo.</p><p>
- N�o - respondeu por fim, com firmeza.</p><p>
Os dois homens ca�ram sentados, em desespero.</p><p>
- Mas eu lhes digo quem pode - disse o computador. Os dois levantaram a vista de repente.</p><p>
- Quem?</p><p>
- Diga!</p><p>
De repente, Arthur come�ou a sentir seus p�los inexistentes ficarem em p� � medida" que ele se aproximava lenta por�m inexoravelmente do terminal do computador, mas era apenas um zoom de grande efeito dram�tico por parte de quem havia realizado aquela grava��o, aparentemente.</p><p>
-   Refiro-me   ao  computador  que vir�  depois  de  mim - proclamou Pensador  Profundo,  reassumindo  seu  tom  declamat�rio  habitual.  -  Um computador  cujos  par�metros  operacionais  eu  n�o  sou digno de calcular, mas que, ainda assim, irei projetar para voc�s. Um computador capaz de calcular a Pergunta  referente  �  Resposta  Fundamental,  um  computador  de  tamanha complexidade  sutil  e  infinita  que  a  pr�pria  vida  org�nica  far�  parte  de  sua matriz  operacional.  E  voc�s  assumir�o  uma  nova  forma  e  entrar�o  no computador para operar seu programa, durante dez milh�es de anos! Sim! Eu projetarei este computador para voc�s. E eu tamb�m lhe darei um nome. E ele se chamar�... Terra.</p><p>
Phouchg olhou para Pensador Profundo, at�nito.</p><p>
-  Que nome mais besta - disse ele, e longas incis�es abriram-se em seu corpo de alto a baixo. Loonquawl, tamb�m, de repente come�ou a sofrer cortes terr�veis vindos de lugar nenhum. O terminal do computador inchou e rachouse,  as  paredes  estremeceram  e  desabaram,  e  toda  a  sala  caiu  para  cima,  em dire��o ao teto...</p><p>
Slartibartfast estava em p� diante de Arthur, segurando os dois fios.</p><p>
- Fim da grava��o - explicou ele.</p><p><strong>Cap�tulo 29 </strong></p><p>
Zaphod! Acorde! - Mmmmmaaaaa�����hn?</p><p>
- Vamos, acorde logo.</p><p>
- Deixe que eu continue fazendo o que sei fazer, est� bem? - murmurou Zaphod;  sua  voz  morreu  aos  poucos  e  ele adormeceu de novo.</p><p>
- Quer levar um chute? - perguntou Ford.</p><p>
- Isso vai lhe dar muito prazer? - retrucou Zaphod, com a voz cheia de sono.</p><p>
-N�o.</p><p>
- A mim tamb�m n�o. Ent�o pra que me chutar? Pare de me perturbar. - E Zaphod encolheu-se todo novamente.</p><p>
-  Ele  ingeriu  uma  do^se  dupla  de  g�s  -  disse  Trillian,  olhando  para Zaphod. - Duas traqu�ias.</p><p>
- E parem de falar - disse Zaphod. - J� n�o � f�cil dormir aqui. Que diabo deu nesse ch�o? Est� t�o duro, gelado.</p><p>
- � ouro - disse Ford.</p><p>
Com  um  movimento  espantoso  de  bailarino,  Zaphod  p�s-se  de  p�  e come�ou a olhar para todos os lados, at� o horizonte; era tudo ouro, o ch�o era uma camada perfeitamente lisa e s�lida de ouro. Brilhava como... � imposs�vel achar  uma  compara��o  razo�vel,  porque  nada  no  Universo  brilha  exatamente como um planeta de ouro maci�o.</p><p>
-  Quem  botou  isso  tudo  aqui?  -  exclamou  Zaphod,  de  olhos esbugalhados.</p><p>
- N�o fique excitado - disse Ford. - Isso � s� um cat�logo.</p><p>
- O qu�?</p><p>
- Um cat�logo - disse Trillian - Uma ilus�o.</p><p>
-   Como  �  que  voc�s  podem  dizer  uma  coisa  dessas?</p><p>
- exclamou Zaphod, caindo de quatro e olhando para o ch�o. Cutucou-o com o dedo. Era muito pesado e ligeiramente macio - era poss�vel risc�-lo com a unha.  Era  muito  amarelo  e  muito  brilhante,  e,  quando  ele  bafejava  sobre  a superf�cie, ela emba�ava e depois desemba�ava daquela maneira peculiar que �</p><p>
caracter�stica das superf�cies de ouro maci�o.</p><p>
-  Eu e Trillian acordamos uns minutos atr�s - disse Ford.</p><p>
-  Gritamos at� que algu�m veio, e continuamos a gritar at� que eles se encheram e trancaram a gente aqui no cat�logo de planetas, pra gente se distrair at� que eles estejam preparados pra lidar conosco. Isso aqui � s� uma grava��o em Sensorama.</p><p>
Zaphod olhou-o com raiva.</p><p>
-  Ora,  merda  -  exclamou  ele  -,  voc�  me  acorda  no  meio  do  meu  sonho agrad�vel pra me mostrar o sonho de outra pessoa.</p><p>
-  Sentou-se, emburrado. - E aqueles vales ali, que � aquilo?</p><p>
- perguntou.</p><p>
- � s� o selo de qualidade - disse Ford. - J� fomos l� ver.</p><p>
-    N�o  acordamos  voc�  antes  -  disse  Trillian.  - O �ltimo planeta era s�</p><p>
peixe at� a altura das canelas.</p><p>
- Peixe?</p><p>
- Tem gosto pra tudo.</p><p>
- E antes dos peixes - disse Ford - foi platina. Meio chato. Mas esse aqui achamos que voc� ia gostar de ver.</p><p>
Mares  de  luz  dourada  resplandeciam  em  todas  as  dire��es,  para  onde quer que olhassem.</p><p>
- Muito bonito - disse Zaphod com petul�ncia.</p><p>
No c�u apareceu um enorme n�mero de cat�logo. Ele piscou e mudou, e, quando os tr�s olharam ao redor, viram que a paisagem mudara tamb�m. Em un�ssono, os tr�s exclamaram:</p><p>
-Argh!</p><p>
O  mar  era  roxo.  A  praia  em  que  estavam  era  de  pedrinhas  amarelas  e verdes - provavelmente pedras terrivelmente preciosas. Ao longe, as montanhas ostentavam picos vermelhos; pareciam macias e ondulantes. A pouca dist�ncia de  onde  estavam  havia  uma  mesa  de  praia  de  prata  maci�a,  com  uma sombrinha alva ornada com borlas de prata.</p><p>
No c�u apareceram os seguintes dizeres em letras garrafais substituindo o n�mero do cat�logo:  <emphasis>Qualquer que seja seu gosto, Magrathea tem o que voc� deseja.</emphasis><emphasis>N�o nos orgulhamos disso. </emphasis></p><p>
E ent�o 500 mulheres nuas em p�lo ca�ram do c�u de p�ra-quedas. Imediatamente  o  cen�rio  desapareceu,  sendo  substitu�do  por  um  pasto cheio de vacas.</p><p>
- Ah, meus c�rebros! - exclamou Zaphod.</p><p>
- Quer falar sobre isso? - perguntou Ford.</p><p>
-  Est� bem - disse Zaphod, e os tr�s sentaram-se e ignoraram os cen�rios que surgiam e desapareciam a seu redor.</p><p>
-  O  que  eu  acho  �  o  seguinte  -  disse  Zaphod.  -  Seja  l�  o  que  for  que aconteceu coma minha mente, fui eu que fiz. E fiz de um jeito tal que os testes governamentais  a  que  me  submeteram  quando  me  candidatei  n�o  pudessem descobrir  nada.  E  que  nem  mesmo  eu  soubesse  o  que  fiz.  Tremenda  loucura, n�o �?</p><p>
Os outros dois concordaram com a cabe�a.</p><p>
-  Ent�o  me  pergunto:  o  que seria t�o secreto que n�o posso deixar que ningu�m saiba, nem mesmo o governo gal�ctico, nem mesmo eu?   E a resposta �: n�o sei. � �bvio. Mas juntei uma coisa e outra, e d� pra eu fazer uma id�ia. Quando foi que resolvi me candidatar � presid�ncia? Logo depois da morte do presidente Yooden Vranx. Voc� se lembra de Yooden, Ford?</p><p>
- Lembro - disse Ford. - Aquele cara que n�s conhecemos quando �ramos garotos, o comandante de Arcturus. Ele era um barato. Nos deu umas castanhas quando voc� arrombou o megacargueiro dele. Disse que voc� era o garoto mais incr�vel que ele j� tinha visto.</p><p>
- Que hist�ria � essa? - perguntou Trillian.</p><p>
-  Uma hist�ria antiga - disse Ford -, do nosso tempo de garotos, l� em Betelgeuse. Os megacargueiros de Arcturus eram encarregados da maior parte do com�rcio entre o Centro Gal�ctico e as regi�es perif�ricas. Os vendedores da astron�utica mercante de Betelgeuse encontravam os mercados e os arcturianos os abasteciam. Havia muita pirataria no espa�o antes das guerras de Dordellis, quando os piratas foram dizimados, e os megacargueiros eram equipados com os escudos de defesa mais fant�sticos de toda a Gal�xia. Eram realmente umas naves  enormes.  Quando  entravam  em  �rbita  ao  redor  de  um  planeta,  elas eclipsavam o Sol.</p><p>
"Um dia, o jovem Zaphod resolveu saquear uma delas. Num patinete de tr�s  propulsores  a  jato,  feito  para  navegar  na  estratosfera,  coisa  de  garoto, mesmo.  Ele  era  totalmente  pirado.  Fui  junto  porque  havia  apostado  uma  boa nota que ele n�o ia conseguir, e n�o queria que ele voltasse com provas falsas de que  tinha  conseguido.  Pois  sabe  o  que  aconteceu?  Entramos  no  patinete  dele, que  j�  era  algo  totalmente  diferente  de  tanto  que  ele  o  tinha  incrementado, cobrimos  uma  dist�ncia  de  tr�s  parsecs  em  poucas  semanas,  arrombamos  um megacargueiro,  at�  hoje  n�o  sei  como,  fomos  at�  a  ponte  de  comando brandindo pistolas de brinquedo e exigimos castanhas. Maluquice maior nunca vi. Perdi um ano de mesadas. Tudo pra ganhar o qu�? Castanhas.</p><p>
- O capit�o era um cara realmente incr�vel, o tal de Yooden Vranx - disse Zaphod.  -  Ele  nos  deu  comida,  bebida,  coisas  dos  lugares  mais  ex�ticos  da Gal�xia, muita castanha, claro, e a gente se divertiu paca. Depois ele teleportou a gente. Direto pra ala de seguran�a m�xima da pris�o estadual de Betelgeuse. Um cara incr�vel. Acabou presidente da Gal�xia.</p><p>
Zaphod parou de falar.</p><p>
O  cen�rio  ao  redor  deles  estava  no  momento  imerso  na  escurid�o. N�voas escuras elevavam-se, sombras imensas moviam-se indistintas. O ar era ocasionalmente riscado por ru�dos de seres ilus�rios assassinando outros seres ilus�rios.  Pelo  visto,  havia  quem  gostasse  daquilo  o  bastante  para  ter  valor comercial.</p><p>
- Ford - disse Zaphod, em voz baixa. -Sim?</p><p>
- Pouco antes de morrer, Yooden me procurou.</p><p>
- � mesmo? Voc� nunca me contou. -N�o.</p><p>
- O que foi que ele disse? Por que ele procurou voc�?</p><p>
- Me falou sobre a nave Cora��o de Ouro. Ele � que me deu a id�ia de roub�-la.</p><p><emphasis>-Ele? </emphasis></p><p>
- � - disse Zaphod -,ea �nica oportunidade pra isso seria a cerim�nia de lan�amento.</p><p>
Ford  arregalou  os  olhos  para  ele  por  um  instante,  depois  caiu  na gargalhada.</p><p>
-  Voc�  est�  me  dizendo  que  virou  presidente  da  Gal�xia  s�  pra  roubar essa nave? - perguntou ele.</p><p>
- Justamente - disse Zaphod, com o tipo de sorriso que, na maioria das pessoas,  teria  o  efeito  de  fazer  com  que  elas  fossem  trancafiadas  em  celas acolchoadas.</p><p>
- Mas por qu�? - perguntou Ford. - Por que � t�o importante pra voc� ter essa nave?</p><p>
-  Sei l� - disse Zaphod. - Acho que se eu soubesse conscientemente por que isso � t�o importante e pra que eu precisava dela, isso teria aparecido nos testes governamentais e eu jamais teria passado. Acho que Yooden me disse um monte de coisas que ainda est�o trancadas no meu c�rebro.</p><p>
- Ent�o por causa da conversa com Yooden voc� bagun�ou o seu pr�prio c�rebro?</p><p>
- Ele levava qualquer um no papo.</p><p>
- �, rapaz, mas voc� tem que se cuidar, sabe? Zaphod deu de ombros.</p><p>
-  Mas  ser�  que  voc�  n�o  faz  a  menor  id�ia  do  porqu�  disso  tudo?  - insistiu Ford.</p><p>
Zaphod  pensou  bastante  na  pergunta  e  uma d�vida pareceu esbo�ar-se em sua mente.</p><p>
- N�o - disse por fim. - Acho que n�o estou revelando nenhum dos meus segredos  a  mim  mesmo.  Seja  como  for  -  acrescentou,  ap�s  pensar  mais  um pouco -, eu at� entendo. Eu � que n�o sou maluco de confiar em mim. Um minuto depois, o �ltimo planeta do cat�logo desapareceu e o mundo concreto reapareceu a seu redor.</p><p>
Estavam sentados numa sala de espera luxuosa, cheia de mesas de vidro e pr�mios recebidos em concursos de design.</p><p>
Um magratheano alto estava em p� diante dos tr�s.</p><p>
- Os ratos querem ver voc�s agora.</p><p><strong>Cap�tulo 30 </strong></p><p>
Pois  �  isso  -  disse  Slartibartfast,  fazendo  uma  tentativa  puramente  pro forma  de  arrumar  a  bagun�a  extraordin�ria  de  seu  gabinete.  Pegou  um  papel que estava no alto de uma pilha de objetos, mas, como n�o sabia onde guard�lo, recolocou-o no alto da mesma pilha, que imediatamente desabou. - Pensador Profundo projetou a Terra, n�s a constru�mos e voc� viveu nela.</p><p>
- E os vogons vieram e a destru�ram cinco minutos antes de terminar o processamento do programa - disse Arthur, n�o sem um toque de rancor.</p><p>
- � - disse o velho, olhando ao redor sem saber por onde come�ar. - Dez milh�es de anos de planejamento e trabalho, tudo por �gua abaixo. Dez milh�es de  anos,  terr�queo...  Voc�  concebe  uma  coisa  dessas?  Toda  uma  civiliza��o gal�ctica  pode  evoluir  a  partir  de  um  verme,  cinco  vezes  seguidas,  em  dez milh�es  de  anos.  Tudo  por  �gua  abaixo.  -  Fez  uma  pausa.  -  Pois  �,  coisas  da burocracia - acrescentou.</p><p>
- Sabe - disse Arthur, pensativo -, isso explica um monte de coisas. Toda a  minha  vida  eu  sempre  tive  uma  impress�o  estranha,  inexplic�vel,  de  que estava acontecendo alguma coisa no mundo, uma coisa importante, at� mesmo sinistra, e ningu�m me dizia o que era.</p><p>
-    N�o  -  disse  o  velho  -,  isso  �  s�  uma  paran�ia  perfeitamente  normal. Todo mundo no Universo tem isso.</p><p>
- Todo mundo? - repetiu Arthur. - Bem, se todo mundo tem isso, ent�o talvez  isso  queira  dizer  alguma  coisa.  Quem  sabe  em  algum  lugar  fora  do Universo que conhecemos...</p><p>
-  Talvez.  E  da�?  -  disse  Slartibartfast,  antes  que  Arthur  ficasse  muito excitado  com  a  id�ia.  -Talvez  eu  esteja  velho  e  cansado,  mas  acho  que  a probabilidade  de  descobrir  o  que  realmente  est�  acontecendo  �  t�o absurdamente  remota  que  a  �nica  coisa  a  fazer  �  deixar  isso  pra  l�  e simplesmente arranjar alguma coisa pra fazer. Veja o meu caso: eu trabalho em litorais.  Ganhei  um  pr�mio  pela  Noruega.  -  Come�ou  a  remexer  no  meio  de uma  pilha  de  cacarecos,  tirou  dela  um  grande  bloco  de  acr�lico  contendo  um modelo da Noruega e mais o nome dele.</p><p>
-  O que adiantou ganhar isso? Que eu saiba, nada.   Passei a vida inteira fazendo fiordes. De repente, durante algum tempo, eles entraram  em moda  e eu  ganhei um  grande pr�mio.</p><p>
-  Revirou o bloco de acr�lico na m�o e, dando de ombros, jogou-o para o lado, descuidadamente, mas n�o t�o descuidadamente que n�o desse um jeito de  fazer  com  que  o  trof�u  ca�sse  sobre  alguma  coisa  macia.  -  Nesta  Terra substituta  que  estamos  construindo  me  encarregaram  da  �frica,  e  �  claro  que estou  carregando  nos  fiordes,  porque  eu  gosto,  e  sou  um  sujeito  antiquado  a ponto  de  achar  que  os  fiordes  d�o  um  belo  toque  barroco  num  continente.  E</p><p>
agora est�o me dizendo que isso n�o condiz com o car�ter equatorial do lugar. Equatorial!</p><p>
-  soltou  uma  risada  sarc�stica.  -  Que  import�ncia  tem  isso?  A  ci�ncia conseguiu algumas coisas fant�sticas, n�o vou negar, mas acho mais importante estar feliz do que estar certo.</p><p>
- E o senhor est� feliz?</p><p>
- N�o. A� � que est� o problema, � claro.</p><p>
-  Que pena - disse Arthur, com sentimento. - Estava me parecendo um estilo de vida e tanto.</p><p>
Uma luzinha branca se acendeu na parede.</p><p>
- Vamos - disse Slartibartfast -, voc� vai conhecer os ratos. A sua chegada a esse planeta causou muito rebuli�o. Parece que algu�m j� fez o c�lculo, e � o terceiro evento mais improv�vel na hist�ria do Universo.</p><p>
- Quais s�o os dois primeiros?</p><p>
- Ah, provavelmente apenas coincid�ncias - disse Slartibartfast, dando de ombros. Abriu a porta e esperou que Arthur o seguisse.</p><p>
Arthur olhou ao redor mais uma vez e depois para suas pr�prias roupas, as  mesmas  roupas  suadas  e  sujas  com  as  quais  havia  se  deitado  na  lama  na manh� de quinta-feira.</p><p>
-    Estou  tendo  s�rios  problemas  com  meu  estilo  de  vida  -  murmurou Arthur.</p><p>
- O qu�? - perguntou o velho.</p><p>
- Ah; nada. Eu estava s� brincando.</p><p><strong>Cap�tulo 31 </strong></p><p>
Como  todos  sabem,  palavras  ditas  impensadamente  podem  custar muitas vidas, mas nem todos sabem como esse problema � s�rio. Por exemplo, no exato momento em que Arthur disse "estou tendo s�rios problemas com meu estilo de vida", abriu-se um buraco aleat�rio na textura do cont�nuo espa�o-tempo que transportou as palavras de Arthur para um passado muito  remoto,  para  uma  dist�ncia  espacial  quase  infinita,  at�  uma  gal�xia distante  onde  estranhos  seres  belicosos  estavam  prestes  a  dar  in�cio  a  uma terr�vel batalha interestelar.</p><p>
Os dois l�deres advers�rios estavam se encontrando pela �ltima vez. Fez-se  um  sil�ncio  terr�vel  na  mesa  de  reuni�es  quando  o  comandante dos  vl'hurgs,  com  seu  resplandecente  short  de  batalha  negro  cravejado  de pedras  preciosas,  encarou  o  l�der  dos  g'gugvuntts,  de  c�coras  �  sua  frente, numa  nuvem  de  vapor  verde  e  odor�fico,  e,  cercado  de  um  milh�o  de cruzadores  estelares  aerodin�micos  e  armados  at�  os  dentes,  preparados  para desencadear  a  morte  el�trica  assim  que  ele  desse  a  ordem,  desafiou  a  vil criatura a retirar o que ela tinha dito a respeito da m�e dele. A criatura remexeu-se em sua nuvem de vapor escaldante e pestilento e, neste  exato  momento,  ouviram-se  as  palavras   <emphasis>Estou</emphasis><emphasis>tendo  s�rios  problemas  com</emphasis><emphasis>meu estilo de vida </emphasis> na sala de reuni�es.</p><p>
Infelizmente, na l�ngua dos vl'hurgs isto era o pior insulto poss�vel, e n�o havia  rea��o  poss�vel  sen�o  desencadear  uma  terr�vel  guerra,  que  durou s�culos.</p><p>
Naturalmente,  quando,  alguns  mil�nios  depois,  quando  a  gal�xia  em quest�o  havia  sido  devastada,  descobriu-se  que  tudo  n�o  passara  de  um lament�vel  mal-entendido;  e  assim  as  duas  frotas  inimigas  resolveram  acertar as poucas diferen�as que ainda tinham e unir-se para atacar a nossa Gal�xia, j�</p><p>
identificada, com absoluta certeza, como fonte do coment�rio ofensivo. Durante milhares de anos, as naves majestosas atravessaram os imensos espa�os  vazios  intergal�cticos,  finalmente  parando  no  primeiro  planeta  que encontraram,  que  era,  por  acaso,  a  Terra;  e  l�,  devido  a  um  erro  colossal  de escala, toda a frota foi acidentalmente engolida por um cachorrinho. Aqueles  que  estudam  o  complexo  inter-relacionamento  entre  causas  e efeitos na hist�ria do Universo dizem que esse tipo de coisa acontece o tempo todo, mas n�s n�o podemos fazer nada.</p><p>
- A vida � assim mesmo - dizem eles.</p><p>
Ap�s  uma  curta  viagem  de  aerom�vel,  Arthur  e  o  velho  magratheano chegaram  a  uma  porta.  Saltaram  do  ve�culo  e  entraram  numa  sala  de  espera cheia  de  mesas  de  vidro  e  trof�us  de  acr�lico.  Quase  imediatamente,  uma  luz come�ou a piscar acima da porta no lado oposto do recinto.</p><p>
- Arthur! Voc� est� bem! - exclamou a voz.</p><p>
-  Estou mesmo? - perguntou Arthur, um tanto assustado. - Que bom. A  luz  era  pouca,  e  demorou  algum  tempo  para  que  ele  reconhecesse Ford,  Trillian  e  Zaphod,  sentados  em  volta  de  uma  mesa  em  que  se  via  uma bela refei��o: pratos ex�ticos, doces estranhos e frutas bizarras. Os tr�s estavam tirando a barriga da mis�ria.</p><p>
- O que aconteceu com voc�s? - perguntou Arthur.</p><p>
-  Bem  -  disse  Zaphod,  atacando  um  m�sculo  grelhado  -,  os  nossos anfitri�es nos desacordaram com um g�s, depois bagun�aram totalmente todos os nossos sentidos, agiram de v�rias formas estranhas e agora, pra compensar, est�o nos oferecendo um senhor jantar. Tome - disse, estendendo um peda�o de carne malcheirosa que estava numa tigela -, prove essa costeleta de rinoceronte de Vegan. Pra quem gosta, � uma iguaria.</p><p>
-    Anfitri�es?  -  exclamou  Arthur.  -  Que  anfitri�es?  N�o  estou  vendo nenhum...</p><p>
Uma vozinha ent�o falou:</p><p>
- Seja bem-vindo, terr�queo.</p><p>
Arthur olhou para a mesa e soltou uma interjei��o de asco.</p><p>
- Argh! Tem ratos na mesa!</p><p>
Houve um sil�ncio constrangedor; todos dirigiram olhares significativos a Arthur.</p><p>
Ele  olhava  para  os  dois  ratos  brancos  que  estavam  dentro  de  objetos semelhantes  a  copos  de  u�sque.  Percebeu  o  sil�ncio  e  olhou  para  as  caras  de seus companheiros.</p><p>
- Ah!. - exclamou, entendendo tudo de repente. - Desculpe, � que eu n�o estava preparado pra...</p><p>
- Permita-me apresentar-lhe Benjy - disse Trillian.</p><p>
- Prazer - disse um dos ratos, tocando com os bigodes o que devia ser um painel  sens�vel  ao  tato  no  interior  do  recipiente  de  vidro,  o  qual  avan�ou  um pouco.</p><p>
- E esse aqui � Frankie.</p><p>
- Muito prazer - disse o outro rato, e seu recipiente tamb�m avan�ou. Arthur estava boquiaberto.</p><p>
- Mas esses n�o s�o...?</p><p>
-  S�o eles - disse Trillian. - S�o mesmo os ratos que eu trouxe da Terra. Ela  encarou  Arthur,  e  ele  julgou  perceber  era  seu  olhar  uma  sutil express�o de resigna��o.</p><p>
-  Me passa essa tigela de megamula arcturiana gratinada, sim? - pediu ela.</p><p>
Slartibartfast pigarreou discretamente.</p><p>
- Ah, com licen�a... - disse ele.</p><p>
-  Sim, obrigado, Slartibartfast - disse Benjy, seco. - Voc� pode retirar-se.</p><p>
-  O qu�? Bem... ah, est� bem - disse o velho, um pouco desconcertado. - Vou trabalhar nos meus fiordes.</p><p>
-  A prop�sito, isso n�o � mais necess�rio - disse Frankie. - Creio que n�o vamos  mais  precisar  da  nova  Terra.  -  Revirou  os  olhinhos  rosados.  -  Porque encontramos  um  nativo  do  planeta  que  estava  l�  segundos  antes  de  sua destrui��o.</p><p>
-  O  qu�?  -  exclamou  Slartibartfast,  at�nito.  -  N�o  pode  ser!  Tenho  mil geleiras prontas pra avan�ar sobre a �frica!</p><p>
- Bem, talvez voc� possa tirar umas f�rias pra esquiar antes de desmont�las - disse Frankie, ir�nico.</p><p>
-  Esquiar? - exclamou o velho. - Essas geleiras s�o verdadeiras obras de arte!  Contornos  elegantes,  picos  alt�ssimos  de  gelo,  desfiladeiros  majestosos!</p><p>
Esquiar numa obra-prima dessas seria um sacril�gio!</p><p>
-    Obrigado,  Slartibartfast  -  disse  Benjy  com  firmeza.  -  Assunto encerrado.</p><p>
- Sim, senhor - disse o velho, com frieza. - Muito obrigado. Bem, adeus, terr�queo - disse para Arthur. - Espero que d� um jeito no seu estilo de vida. Com  um  leve  aceno  para  os  outros,  o  velho  virou-se  e  saiu  do  recinto, cabisbaixo.</p><p>
Arthur ficou a v�-lo sair, sem saber o que dizer.</p><p>
-  Bem  -  disse  Benjy  -,  vamos  ao  que  interessa.  Ford  e  Zaphod  fizeram tintim com seus copos.</p><p>
- Ao que interessa! - disseram.</p><p>
- Como assim? - perguntou Benjy. Ford olhou ao redor.</p><p>
-   Desculpe,  pensei  que  estivesse  propondo  um  brinde</p><p>
- disse ele.</p><p>
Os  ratos  remexeram-se  com  impaci�ncia  dentro  de  seus  recipientes  de vidro. Ent�o aquietaram-se, e Benjy avan�ou para falar com Arthur.</p><p>
-  Criatura da Terra - disse -, a situa��o � a seguinte: como voc� sabe, h�</p><p>
dez  milh�es  de  anos  que  administramos  o  seu  planeta  para  descobrir  essa maldita Quest�o Fundamental.</p><p>
- Por qu�? - indagou Arthur.</p><p>
- N�o, essa a� j� descartamos - disse Frankie, interrompendo</p><p>
- porque n�o bate com a resposta.  <emphasis>Por qu�? Quarenta e dois... </emphasis> Como voc�</p><p>
v�, n�o faz sentido.</p><p>
-  N�o  �  isso  -  explicou  Arthur.  -  Eu  perguntei  por  que  voc�s  querem saber isso.</p><p>
-  Ah  -  exclamou  Frankie.  -  Bem,  pra  ser  absolutamente  franco,  s�  por for�a do h�bito, creio eu. E acho que a quest�o � mais ou menos essa: j� estamos de saco cheio dessa hist�ria toda, e a id�ia de ter que come�ar do zero outra vez por  causa  daqueles  panacas  dos  vogons  realmente  �  demais,  sacou?  Foi  por mero  acaso  que  Benjy  e  eu  terminamos  a  tarefa  espec�fica  de  que  est�vamos encarregados e sa�mos do planeta pra tirar umas feriazinhas, e conseguimos dar um jeito de voltar a Magrathea gra�as aos seus amigos.</p><p>
- Magrathea � um dos port�es que d� acesso � nossa dimens�o - explicou Benjy.</p><p>
- E recentemente - prosseguiu o outro roedor - recebemos uma proposta irrecus�vel de participar de uma mesa-redonda na quinta dimens�o e dar umas palestras l� na nossa terra, e estamos inclinados a aceitar.</p><p>
- Eu aceitava, se me convidassem; voc� n�o aceitava, Ford?</p><p>
- perguntou Zaphod.</p><p>
- Ah; claro, na mesma hora - disse Ford.</p><p>
Arthur olhava para eles, sem saber aonde aquilo ia dar.</p><p>
-  S� que a gente n�o pode ir de m�os abanando - disse Frankie. - Ou seja: temos que descobrir a Quest�o Fundamental, de algum modo.</p><p>
Zaphod debru�ou-se, chegando mais perto de Arthur.</p><p>
-  Imagine  s�  -  disse  ele  -  se  eles  est�o  l�  no  est�dio,  muito  tranq�ilos, dizendo que sabem qual � a Resposta � Quest�o da Vida, o Universo e Tudo o Mais, e depois t�m que admitir que a Resposta � 42. O programa vai acabar ali mesmo. N�o d� pra espichar o programa, entendeu?</p><p>
- A gente tem que ter alguma coisa que soe bem - disse Benjy.</p><p>
-  Uma  coisa  que   <emphasis>soe  </emphasis> bem  -  exclamou  Arthur.  -  Uma  Quest�o Fundamental que soe bem? Formulada por dois ratos?</p><p>
Os ratos irritaram-se.</p><p>
-    Olhe  -  disse  Frankie  -,  essa  hist�ria  de  idealismo,  de  dignidade  da pesquisa pura, da busca pela verdade em todas as suas formas, est� tudo muito bem,  mas  chega  uma  hora  que  voc�  come�a  a  desconfiar  que,  se  existe  uma verdade realmente verdadeira, � o fato de que toda a infinidade multidimensional do Universo �, com certeza quase absoluta, governada por loucos varridos. E entre gastar mais dez milh�es de anos pra descobrir isso ou ent�o faturar em cima do que j� temos, eu fico tranq�ilamente cora a segunda op��o.</p><p>
- Mas... - come�ou Arthur, desanimado.</p><p>
- Voc� vai entender, terr�queo - disse Zaphod. - Voc� � um produto de �ltima gera��o daquela matriz de computador, certo?, e voc� estava l� na Terra at� o instante em que o planeta foi exterminado, n�o �?</p><p>
- Bem...</p><p>
-    Assim,  o  seu  c�rebro  estava  organicamente  integrado  �  pen�ltima configura��o do programa do computador - disse Ford, e admirou a clareza de sua pr�pria explica��o.</p><p>
- Certo? - perguntou Zaphod.</p><p>
-  � - disse Arthur, hesitante. Ele jamais havia se sentido organicamente integrado a coisa nenhuma. Sempre achara que este era um de seus problemas.</p><p>
-  Em outras palavras - disse Benjy, fazendo com que seu curioso ve�culo se aproximasse de Arthur -, � bem prov�vel que a estrutura da pergunta esteja codificada na estrutura de sua mente, e por isso queremos compr�-la de voc�.</p><p>
- O que, a pergunta? - indagou Arthur.</p><p>
- � - responderam Ford e Trillian.</p><p>
- Por uma nota preta - disse Zaphod.</p><p>
-  N�o,  n�o  -  explicou  Frankie  -,  o  que  a  gente  quer  comprar  �  o  seu c�rebro.</p><p>
- O qu�?</p><p>
- Mas que falta vai fazer? - perguntou Benjy.</p><p>
-  Eu entendi voc� dizer que sabiam ler o c�rebro dele eletronicamente - protestou Ford.</p><p>
- � claro que sabemos - disse Frankie -, s� que primeiro a gente tem que retir�-lo do lugar. Tem que ser preparado.</p><p>
- Tratado - disse Benjy.</p><p>
- Cortado em peda�os.</p><p>
-  Obrigado - gritou Arthur, inclinando a cadeira para tr�s para afastar-se da mesa, horrorizado.</p><p>
- Se voc� achar isso importante - disse Benjy, razo�vel -, a gente coloca outro no lugar.</p><p>
-  �, um c�rebro eletr�nico - disse Frankie -, bastaria um bem simples.</p><p>
- Bem simples! - gemeu Arthur.</p><p>
- � - disse Zaphod, com um sorriso maldoso -, era s� program�-lo para dizer O  <emphasis>qu�?, N�o entendi </emphasis> e  <emphasis>Cad� o ch�?. </emphasis> Ningu�m ia notar a diferen�a.</p><p>
- O qu�? - exclamou Arthur, afastando-se ainda mais.</p><p>
-  Est�  vendo?  -  disse  Zaphod,  e  urrou  de  dor  por  causa  de  algo  que Trillian fez naquele momento.</p><p>
- Pois eu notaria a diferen�a - disse Arthur.</p><p>
- N�o - disse Frankie -, porque voc� seria programado pra n�o notar. Ford saiu em dire��o � porta.</p><p>
-  Voc�s me desculpem, meus caros ratos, mas pelo visto nada feito.</p><p>
- Creio que essa posi��o � inaceit�vel - disseram os ratos em coro; suas vozinhas  finas  perderam  todo  e  qualquer  toque  de  cordialidade.  Com  um zumbido agudo, os dois recipientes de vidro levantaram-se da mesa e partiram em  dire��o  a  Arthur,  que  ficou  encurralado  num  canto  do  recinto, absolutamente incapaz de fazer alguma coisa, ou mesmo de pensar em alguma coisa.</p><p>
Trillian  agarrou-o  pelo  bra�o,  em  desespero,  e  tentou  arrast�-lo  em dire��o � porta, que Ford e Zaphod estavam tentando abrir, mas Arthur era um peso morto. Parecia hipnotizado pelos roedores voadores que se aproximavam dele.</p><p>
Trillian gritou, mas ele continuou abestalhado.</p><p>
Com  um  �ltimo  safan�o,  Ford  e Zaphod conseguiram abrir a porta. L�</p><p>
fora  havia  uma  pequena  multid�o  de  homens  mal-encarados,  que, aparentemente,  era  o  pessoal  que  fazia  os  servi�os  sujos  em  Magrathea.  N�o apenas  eram  mal-encarados,  mas  tamb�m  traziam  equipamentos  cir�rgicos bem assustadores. Os homens atacaram.</p><p>
Assim, a cabe�a de Arthur ia ser aberta, Trillian n�o conseguia ajud�-lo, e Ford e Zaphod iam ser atacados por um bando de brutamontes bem mais fortes e armados do que eles.</p><p>
Portanto, foi bem a calhar que, naquele exato momento, todos os alarmes do planeta tenham soado ao mesmo tempo, fazendo uma barulheira infernal. <strong>Cap�tulo 32 </strong></p><p>
-  <emphasis>Emerg�n�al Emerg�ncia! </emphasis>-ouvia-se em todo o planeta.</p><p>
-  <emphasis>Nave inimiga aterrissou no planeta. Invasores armados na se��o 8A. Postos de</emphasis><emphasis>defesa, postos de defesa. </emphasis></p><p>
Os dois ratos fungavam, irritados, cercados dos cacos de seus recipientes de vidro, quebrados no ch�o.</p><p>
- Droga - disse o rato Frankie. - Tanta confus�o por causa de um  quilo de  c�rebro  de  terr�queo. -  Seus  olhos  rosados estavam cheios de c�lera; seu belo p�lo branco estava eri�ado de eletricidade est�tica.</p><p>
-  A  �nica  sa�da  agora  -  disse  Benjy,  acocorado  e  cocando  os  bigodes pensativamente - � tentar inventar uma pergunta que pare�a plaus�vel.</p><p>
-  Vai ser dif�cil - disse Frankie. - Que tal  <emphasis>o que �, o que �, que � amarelo e</emphasis><emphasis>perigoso? </emphasis></p><p>
Benjy pensou por alguns instantes.</p><p>
- N�o, n�o serve - disse. - N�o casa com a resposta. Por alguns segundos, permaneceram em sil�ncio.</p><p>
- Est� bem - disse Benjy. -  <emphasis>Quanto d� seis vezes sete? </emphasis></p><p>
-  N�o, muito literal, muito objetivo - disse Frankie. - N�o vai despertar o interesse do p�blico.</p><p>
Pensaram mais um pouco. Ent�o Frankie disse:</p><p>
- Que tal  <emphasis>Quantos caminhos � preciso caminhar?*</emphasis></p><p>
-  Arr�!   -  exclamou   Benjy.  -  Essa  parece  promissora! - repetiu a frase, saboreando-a. - �, essa � excelente, mesmo! Parece uma coisa muito importante, mas  ao  mesmo  tempo  n�o  quer  dizer  nada  de  muito  espec�fico.  <emphasis>Quantos</emphasis><emphasis>caminhos  �  preciso  caminhar?  Quarenta  e  dois. </emphasis> Excelente,  excelente!  Com  essa  a gente enrola todo mundo. Frankie, meu rapaz, estamos feitos!</p><p>
E dan�aram entusiasmados.</p><p>
Perto  deles,  no  ch�o,  havia  alguns  homens  mal-encarados  que  tinham sido golpeados na cabe�a com pesados trof�us de acr�lico.</p><p>
A um quil�metro dali, quatro figuras corriam por um corredor, tentando achar  uma  sa�da.  Sa�ram  numa  sala  espa�osa  cheia  de  portas,  onde  havia  um terminal de computador. Olharam ao redor, confusos.</p><p>
- Pra onde vamos, Zaphod? - perguntou Ford.</p><p>
-    Eu  chutaria  por  ali  -  disse  Zaphod,  correndo  entre  o  terminal  e  a parede.  Antes  que os outros sa�ssem atr�s dele, Zaphod parou imediatamente quando  uma  fa�sca  de  Raio-da-Morte  estalou  alguns  cent�metros  �  sua  frente, fritando um peda�o da parede.</p><p>
Ouviu-se uma voz forte ampliada, dizendo.</p><p>
- Pare a� mesmo, Beeblebrox. Voc� est� encurralado.</p><p>
-  Os tiras! - sibilou Zaphod, acocorando-se e virando-se para tr�s. - Voc�</p><p>
tem alguma sugest�o, Ford?</p><p>
- Por aqui - prop�s Ford, e os quatro se enfiaram numa passagem entre dois pain�is do terminal.</p><p>
No final da passagem havia uma figura com um traje espacial � prova de qualquer proj�til, com uma tremenda arma de Raio-da-Morte na m�o.</p><p>
* No original,  <emphasis>How many roads must a man walk down, </emphasis> primeiro verso de <emphasis>Blowin' in the Wind, </emphasis> can��o de Bob Dylan. (N.T.)</p><p>
- N�o queremos atirar em voc�, Beeblebrox! - gritou a figura.</p><p>
-  �timo!  -  gritou  Zaphod,  e  enfiou-se  entre  duas  unidades  de processamento de dados.</p><p>
Os outros foram atr�s dele.</p><p>
-  Eles  s�o  dois  -  disse  Trillian.  -  Estamos  encurralados.  Espremeram-se entre  um  grande  banco  de  dados  e  a  parede.  Prenderam  a  respira��o  e esperaram.</p><p>
De repente, o ar foi riscado por raios; os dois policiais estavam atirando neles ao mesmo tempo.</p><p>
-  Vejam,  est�o  atirando  na  gente  -  disse  Arthur,  todo  encolhido.  -  Eles n�o disseram que n�o queriam fazer isso?</p><p>
-  �,  foi  o  que  eu  entendi  tamb�m  -  concordou  Ford.  Zaphod  esticou  a cabe�a para fora do esconderijo, corajosamente.</p><p>
- Ei - disse ele -, voc�s n�o disseram que n�o queriam atirar na gente?</p><p>
E escondeu-se de novo.</p><p>
Esperaram.</p><p>
Ap�s um momento, uma voz respondeu:</p><p>
- Ser policial n�o � mole!</p><p>
- Que foi que ele disse? - cochichou Ford, espantado.</p><p>
- Disse que ser policial n�o � mole.</p><p>
- Bem, mas isso � problema dele, n�o �?</p><p>
- A meu ver, �.</p><p>
- Escutem - gritou Ford. - Acho que n�s j� temos bastante problemas sem que voc�s fiquem atirando em n�s, e assim, se voc�s parassem de descarregar as <emphasis>suas </emphasis> frustra��es em cima de n�s, acho que seria melhor pra todo mundo!</p><p>
Uma pausa, depois a voz amplificada ecoou novamente:</p><p>
-  Escute  aqui,  cara,  n�o  pense  que  a  gente  �  que  nem  esses  retardados que s� sabem puxar gatilho, com olhar vazio, que nem sabem conversar direito!</p><p>
N�s somos uns caras inteligentes, decentes, e se voc�s nos conhecessem melhor at� gostariam de n�s! Eu n�o ando por a� dando tiros a torto e a direito e depois saio  contando  vantagem  pelos  botecos  da  Gal�xia,  como  muitos  policiais  que conhe�o! Eu saio por a� dando tiros a torto e a direito, s� que depois morro de arrependimento e conto tudo pra minha namorada!</p><p>
-  E  eu  escrevo  romances!  -  disse  o  outro  policial.  -  Se  bem  que  n�o consegui  publicar  ainda  nenhum  deles.  Quer  dizer,  �  bom  voc�s  saberem  que hoje estou com um humor terr�vel!</p><p>
Os olhos de Ford quase saltaram das �rbitas.</p><p>
- Qual � a desses caras? - perguntou.</p><p>
-  Sei  l�  -  disse  Zaphod.  -  Eu  gostava  mais  deles  quando  estavam  s�</p><p>
dando tiros.</p><p>
-  Ent�o,  voc�s  v�o  sair  da�  por  bem  ou  vai  ter  que  ser  na  porrada?  - gritou um dos policiais.</p><p>
- O que voc� preferir - gritou Ford</p><p>
Um milissegundo depois, as armas de Raio-da-Morte encheram a sala de rel�mpagos, que atingiram em cheio o terminal de computador atr�s do qual os tr�s estavam escondidos.</p><p>
O  tiroteio  continuou  por  algum  tempo,  com  uma  intensidade insuport�vel.</p><p>
Quando parou, seguiram-se alguns segundos de quase sil�ncio, e os ecos foram morrendo.</p><p>
- Voc�s ainda est�o a�? - gritou um dos policiais.</p><p>
- Estamos - eles gritaram.</p><p>
-  N�s n�o gostamos nem um pouco de ter que fazer isso - gritou o outro policial.</p><p>
- Deu pra perceber - gritou Ford.</p><p>
- Agora, preste aten��o no que vou dizer, Beeblebrox, mas preste aten��o mesmo!</p><p>
- Por qu�? - gritou Zaphod.</p><p>
-  Porque  vou  dizer uma coisa muito inteligente, interessante e humana!</p><p>
Bem, ou voc�s se entregam agora e deixam a gente dar umas porradinhas em voc�s,  s�  um  pouquinho,  �  claro,  porque  n�s  somos  totalmente  contra  a viol�ncia  desnecess�ria,  ou  ent�o  a  gente  explode  esse  planeta  todo  e  talvez mais um ou dois que n�s vimos quando viemos pra c�!</p><p>
-  Mas isso � loucura! - exclamou Trillian. - Voc�s n�o podem fazer isso!</p><p>
- A gente n�o pode? - gritou o policial. - N�o pode? - perguntou ele ao outro.</p><p>
- A gente pode e deve, n�o tem d�vida - gritou o outro.</p><p>
- Mas por qu�? - perguntou Trillian.</p><p>
-  Porque tem coisas que a gente tem que fazer, mesmo sendo policiais liberais esclarecidos, cheios de sensibilidade e o cacete!</p><p>
-  Esses caras n�o existem! - murmurou Ford, sacudindo a cabe�a. Um dos policiais gritou para o outro:</p><p>
- E a�, vamos dar mais uns tirinhos neles?</p><p>
- � uma!</p><p>
Outra tempestade el�trica.</p><p>
O  calor  e  o  barulho  eram  fant�sticos.  Lentamente,  o  terminal  de computador foi se desintegrando. A parte da frente j� tinha se dissolvido quase toda, e riachos espessos de metal derretido se aproximavam do canto em que os quatro  estavam  escondidos.  Eles  se  encolheram  ainda  mais  e  esperaram  pelo fim.</p><p><strong>Cap�tulo 33 </strong></p><p>
Mas o fim n�o veio. Pelo menos, n�o naquela hora. De repente os raios cessaram,  e  no  sil�ncio  repentino  que  se  seguiu  ouviram-se  gritos  guturais  e dois baques surdos. Os quatro se entreolharam.</p><p>
- O que houve? - perguntou Arthur.</p><p>
- Eles pararam - disse Zaphod, dando de ombros.</p><p>
- Por qu�?</p><p>
- Sei l�! Quer ir l� e perguntar a eles?</p><p>
- N�o. Esperaram.</p><p>
- Ei! - gritou Ford. Nada.</p><p>
- Estranho.</p><p>
- Pode ser uma armadilha.</p><p>
- Eles s�o burros demais pra isso.</p><p>
- Aqueles baques, o que foi aquilo?</p><p>
- N�o sei.</p><p>
Esperaram mais alguns segundos.</p><p>
- Eu vou l� ver - disse Ford. Olhou para os outros e acrescentou: - Ser�</p><p>
que ningu�m vai dizer:  <emphasis>N�o, voc� n�o, deixe que eu vou? </emphasis></p><p>
Os outros tr�s sacudiram a cabe�a.</p><p>
- Nesse caso... - disse ele, e levantou-se.</p><p>
Por um momento, n�o aconteceu nada.</p><p>
Ent�o,  alguns  segundos  depois,  continuou  a  n�o  acontecer  nada.  Ford olhou para a fuma�a espessa que sa�a do computador destru�do. Cuidadosamente, saiu do esconderijo.</p><p>
Continuou n�o acontecendo nada.</p><p>
Vinte metros adiante, ele p�de entrever em meio � fuma�a o vulto de um dos  policiais  em  sua  roupa  espacial.  Estava  embolado  no  ch�o.  A  20  metros dele, no outro lado da sala, estava o outro. N�o havia mais ningu�m. Ford achou isso extremamente estranho.</p><p>
Lenta  e  nervosamente,  aproximou-se  do  primeiro  policial.  O  corpo estava  perfeitamente  im�vel  quando  ele  se  aproximou  e  permaneceu perfeitamente im�vel quando ele colocou o p� sobre a arma de Raio-da-Morte que o cad�ver ainda tinha na m�o.</p><p>
Abaixou-se e pegou a arma, sem encontrar nenhuma resist�ncia. O policial estava indubitavelmente morto.</p><p>
Ford  examinou-o  rapidamente  e  constatou  que  ele  era  de  Kappa  de Blagulon - um ser que respirava metano e que s� poderia sobreviver na rarefeita atmosfera de oxig�nio existente em Magrathea com seu traje espacial. O pequeno sistema computadorizado em sua mochila, que lhe permitia sobreviver naquele planeta, parecia ter explodido inesperadamente Ford  examinou-o  profundamente  intrigado.  Esses  minicomputadores normalmente funcionavam ligados ao computador central que ficava na nave e com  o  qual  eles  permaneciam  ligados  atrav�s  do  subeta.  O  sistema  era completamente seguro, a menos que houvesse uma falha completa do sistema de retroalimenta��o, o que jamais acontecera.</p><p>
Ford  correu  at�  o  outro  cad�ver  e  descobriu  que  exatamente  a  mesma coisa  imposs�vel  havia  acontecido  com  ele.  E,  pelo  que  tudo  indicava, exatamente na mesma hora.</p><p>
Ford  chamou  os  outros  para  virem  olhar.  Eles  vieram,  manifestaram  o mesmo espanto, mas n�o a mesma curiosidade.</p><p>
- Vamos sair daqui - disse Zaphod. - Se a coisa que estou procurando est�</p><p>
mesmo aqui, seja l� o que ela for, n�o quero mais saber dela. Zaphod  agarrou  a  segunda  arma,  fulminou  um  computador  de contabilidade  absolutamente  inofensivo  e  saiu  correndo  pelo  corredor;  os outros foram atr�s. Quase atirou tamb�m num aerom�vel que os esperava perto dali.</p><p>
O ve�culo estava vazio, mas Arthur reconheceu-o: era de Slartibartfast. No painel de controle, que tinha poucos controles, ali�s, havia um recado do  propriet�rio.  No  papel  havia  uma  seta  apontando  para  um  dos  bot�es  do painel  e  os  seguintes  dize-res:   <emphasis>Este  �  provavelmente  o  melhor  bot�o  para  voc�s</emphasis><emphasis>apertarem. </emphasis></p><p><strong>Cap�tulo 34 </strong></p><p>
O  aerom�vel,  a  uma  velocidade  acima  de  RI  7,  percorreu  os  t�neis forrados  de  a�o  e  levou-os  de  volta  �  aterradora  superf�cie  do  planeta,  onde mais  uma  vez  raiava  uma  melanc�lica  madrugada.  Uma  luz  cinzenta  e fantasmag�rica congelava-se sobre a superf�cie do planeta. R � uma unidade de velocidade definida como uma velocidade razo�vel para  se  viajar,  compat�vel  com  a  sa�de  f�sica  e  mental  dos  viajantes  e garantindo um atraso n�o maior do que cinco minutos, mais ou menos. �, por conseguinte,  uma  grandeza  quase  infinitamente  vari�vel,  que  depende  das circunst�ncias, j� que os dois primeiros fatores variam n�o apenas em fun��o da velocidade  absoluta  do  ve�culo,  mas  tamb�m  em  fun��o  da  consci�ncia  do terceiro  fator.  A  menos  que  seja  abordada  com  tranq�ilidade,  essa  equa��o pode resultar em estresse, �lceras e at� mesmo morte.</p><p>
RI7  n�o  �  uma  velocidade  definida,  mas  �  sem  d�vida  excessivamente alta.</p><p>
O aerom�vel saiu do t�nel a mais de RI7, largou seus passageiros ao lado da  nave  Cora��o  de  Ouro,  que  se  destacava  daquele  ch�o  congelado  como se fosse  um  osso  ressecado,  e  mais  que  depressa voltou para as bandas de onde eles tinham vindo, para cuidar de sua pr�pria vida.</p><p>
Tr�mulos, os quatro encararam a nave.</p><p>
Ao lado dela estava pousada uma outra.</p><p>
Era  uma  nave  policial  de  Kappa  de  Blagulon.  Parecia  um  tubar�o inchado,  verde-ard�sia,  coberto  de  letras  negras  dos  mais  variados  tamanhos, todas igualmente antip�ticas. A inscri��o informava a todos os interessados de onde era aquela nave, qual a se��o da pol�cia que a utilizava e onde deviam ser feitas as conex�es de for�a.</p><p>
De  algum  modo,  parecia  anormalmente  escura  e  silenciosa,  mesmo sabendo-se que sua tripula��o de dois membros estava naquele momento morta por asfixia numa c�mara enfuma�ada muitos quil�metros abaixo da superf�cie. � uma dessas coisas curiosas, que n�o h� como explicar nem definir, mas o fato � que d� para sentir quando uma nave est� completamente morta. Ford  sentia  isso,  e  achava  tudo  muito  misterioso  -  a  nave  e  seus  dois tripulantes  pareciam  ter  morrido  espontaneamente.  De  acordo  com  sua experi�ncia, o Universo simplesmente n�o funciona assim.</p><p>
Os  outros  tr�s  tamb�m  sentiam  isso,  mas  sentiam  ainda  mais  o  frio desgra�ado  que  estava  fazendo,  e  correram  para  dentro  da  nave  Cora��o  de Ouro, com um forte ataque de aus�ncia de curiosidade.</p><p>
Ford  ficou  l�  fora  e  resolveu  examinar  a  nave  de  Blagulon.  Enquanto caminhava, quase trope�ou numa figura inerte, deitada de bru�os na poeira fria.</p><p>
- Marvin! - exclamou ele. - O que voc� est� fazendo?</p><p>
- N�o fique achando que voc� tem obriga��o de se importar comigo, por favor - disse Marvin, com uma voz mon�tona e abafada.</p><p>
- Mas como � que voc� est�, sua lata velha? - perguntou Ford.</p><p>
- Deprimid�ssimo.</p><p>
- O que houve?</p><p>
- Eu nem sabia que tinha havido alguma coisa - disse Marvin.</p><p>
-  Por que - indagou Ford, acocorando-se ao lado do rob�, tremendo de frio - voc� est� deitado de bru�os na poeira?</p><p>
- Pra quem est� com o astral l� embaixo, � um prato cheio.</p><p>
- disse Marvin. - N�o finja que voc� est� com vontade de falar comigo. Eu sei que voc� me odeia.</p><p>
- De jeito nenhum.</p><p>
- Odeia, sim, voc� e todo mundo. Faz parte da estrutura do Universo. �</p><p>
s� eu falar com uma pessoa que na mesma hora ela me odeia. At� os rob�s me odeiam. � s� voc� me ignorar que eu provavelmente vou desaparecer do mapa. O rob� levantou-se e ficou olhando para o outro lado, irredut�vel</p><p>
-  Aquela nave me odiava - disse, apontando para a nave policial.</p><p>
-  Aquela nave? - perguntou Ford, subitamente animado.</p><p>
- O que aconteceu com ela? Voc� est� sabendo?</p><p>
- Ela passou a me detestar porque falei com ela.</p><p>
- Voc�  <emphasis>falou </emphasis> com ela? Como assim?</p><p>
- Muito simples. Eu estava muito entediado e deprimido, e a� me liguei na  entrada  externa  do  computador.  Conversei  por  muito  tempo  com  o computador e expliquei a ele a minha concep��o do Universo - disse Marvin.</p><p>
- E o que aconteceu? - insistiu Ford.</p><p>
-    Ele  se  suicidou  -  disse  Marvin,  e  foi  caminhando  em  dire��o  �  nave Cora��o de Ouro.</p><p><strong>Cap�tulo 35 </strong></p><p>
Naquela noite, quando a nave Cora��o de Ouro j� estava a alguns anosluz  da  nebulosa  da  Cabe�a  de  Cavalo,  Zaphod  descansava  debaixo  da palmeirinha  da  ponte  de  comando,  tentando  consertar  o  c�rebro  com  doses maci�as de Dinamite Pangal�ctica; Ford e Trillian discutiam num canto sobre a vida  e  quest�es  correlatas;  e  Arthur,  deitado  na  cama,  folheava  O   <emphasis>Guia  do</emphasis><emphasis>Mochileiro  das  Gal�xias. </emphasis>"Como  ia  ter  que  viver  na  tal  da  Gal�xia,  o  jeito  era aprender alguma coisa sobre ela", pensou. Encontrou o seguinte verbete:</p><p><emphasis>"A  hist�ria  de  todas  as  grandes  civiliza��es  gal�cticas  tende  a  atravessar  tr�s</emphasis><emphasis>fases  distintas  e  identific�veis  </emphasis>- <emphasis>as  da  sobreviv�ncia, da interroga��o e da sofistica��o,</emphasis><emphasis>tamb�m conhecidas como as fases do como, do por que e do onde.</emphasis><emphasis>Por  exemplo,  a  primeira  fase  �  caracterizada  pela  pergunta:  </emphasis> Como  vamos poder comer?</p><p><emphasis>A segunda, pela pergunta: </emphasis> Por que comemos?</p><p><emphasis>E a terceira, pela pergunta: </emphasis> Aonde vamos almo�ar?" Neste momento o interfone da nave soou.</p><p>
-  � terr�queo! Est� com fome, garoto? - Era a voz de Zaphod.</p><p>
-  �, seria legal comer alguma coisa - disse Arthur.</p><p>
- Ent�o se segure - disse Zaphod - que a gente vai dar uma paradinha no Restaurante do Fim do Universo.</p><p>
Pr�ximos lan�amentos da s�rie</p><p>
�  O Restaurante no Fim do Universo</p><p>
�  A Vida, o Universo e Tudo Mais</p><p>
�  At� Mais, e Obrigado pelos Peixes!</p><empty-line/></section><section><p><strong>Document Outline</strong></p><p>O Guia do Mochileiro das Gal&#xFFFD;as</p><p>Pref&#xFFFD;o</p><p>Cap&#xFFFD;lo 1</p><p>Cap&#xFFFD;lo 2</p><p>Cap&#xFFFD;lo 3</p><p>Cap&#xFFFD;lo 4</p><p>Cap&#xFFFD;lo 5</p><p>Cap&#xFFFD;lo 6</p><p>Cap&#xFFFD;lo 7</p><p>Cap&#xFFFD;lo 8</p><p>Cap&#xFFFD;lo 9</p><p>Cap&#xFFFD;lo 10</p><p>Cap&#xFFFD;lo 11</p><p>Cap&#xFFFD;lo 12</p><p>Cap&#xFFFD;lo 13</p><p>Cap&#xFFFD;lo 14</p><p>Cap&#xFFFD;lo 15</p><p>Cap&#xFFFD;lo 16</p><p>Cap&#xFFFD;lo 17</p><p>Cap&#xFFFD;lo 18</p><p>Cap&#xFFFD;lo 19</p><p>Cap&#xFFFD;lo 20</p><p>Cap&#xFFFD;lo 21</p><p>Cap&#xFFFD;lo 22</p><p>Cap&#xFFFD;lo 23</p><p>Cap&#xFFFD;lo 24</p><p>Cap&#xFFFD;lo 25</p><p>Cap&#xFFFD;lo 26</p><p>Cap&#xFFFD;lo 27</p><p>Cap&#xFFFD;lo 28</p><p>Cap&#xFFFD;lo 29</p><p>Cap&#xFFFD;lo 30</p><p>Cap&#xFFFD;lo 31</p><p>Cap&#xFFFD;lo 32</p><p>Cap&#xFFFD;lo 33</p><p>Cap&#xFFFD;lo 34</p><p>Cap&#xFFFD;lo 35</p></section></body><binary id="cover" 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