<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><FictionBook xmlns="http://www.gribuser.ru/xml/fictionbook/2.0" xmlns:l="http://www.w3.org/1999/xlink"><description><title-info><genre>antique</genre><author><first-name>Douglas</first-name><last-name>Adams</last-name></author><book-title>Praticamente Inofensiva</book-title><coverpage><image l:href="#cover"/></coverpage><lang>ru</lang></title-info><document-info><author><first-name>Douglas</first-name><last-name>Adams</last-name></author><program-used>calibre 0.9.27, fb2cut 2.5.4, fb2cut 2.6.2</program-used><date>16.4.2013</date><id>ea46cc1e-1aac-47dc-899f-613a6f90bcdb</id><version>1.0</version></document-info></description><body><section><p><image l:href="#1"/></p><p>
Tudo o que acontece, acontece.</p><p>
Tudo o que, ao acontecer, faz com que outra coisa aconte�a, faz com que outra coisa aconte�a.</p><p>
Tudo o que, ao acontecer, faz com que ela mesma aconte�a de novo, acontece de novo.</p><p>
Isso, contudo, n�o acontece necessariamente em ordem cronol�gica. Para Ron,</p><p>
com agradecimentos especiais</p><p>
a Sue Freestone e a Michael Bywater,</p><p>
pelo apoio, ajuda e insultos construtivos.</p><p><strong>CAP�TULO 1</strong></p><p>
A hist�ria da Gal�xia ficou meio confusa por v�rios motivos: em parte porque aqueles que tentavam acompanh�-la ficaram meio confusos, mas tamb�m porque coisas incrivelmente confusas aconteceram de fato.</p><p>
Um dos problemas tem a ver com a velocidade da luz e com as dificuldades encontradas em tentar ultrapass�-la. N�o d�. Nada viaja mais r�pido do que a velocidade da luz, com exce��o talvez das m�s not�cias, que obedecem a leis pr�prias e especiais. Os  Hingefreel  de  Arkintoofle  Menor  bem  que  tentaram  construir  naves  espaciais movidas a m�s not�cias, mas elas n�o funcionavam particularmente bem e, como eram extremamente mal recebidas sempre que chegavam a algum lugar, n�o fazia o menor sentido estar l�.</p><p>
Ent�o, de modo geral, as pessoas da Gal�xia acabavam ficando entretidas com suas pr�prias confus�es locais e a hist�ria da Gal�xia em si foi, por um bom tempo, basicamente cosmol�gica.</p><p>
O que n�o quer dizer que as pessoas n�o estivessem se esfor�ando. Tentaram enviar frotas de naves espaciais para lutar ou para fazer neg�cios em lugares distantes, mas  elas  geralmente  levavam  milhares  de  anos  para  chegar  l�.  Quando  finalmente chegavam, j� haviam sido descobertas outras formas de viagem usando o hiperespa�o para superar o problema da velocidade da luz. Ent�o, qualquer batalha para as quais essas frotas mais-lentas-que-a-luz tivessem sido enviadas j� teria sido resolvida s�culos antes de elas chegarem.</p><p>
Isso n�o impedia, � claro, que as tripula��es quisessem lutar assim mesmo. Estavam  treinados,  preparados,  tinham  cochilado  durante  alguns  s�culos,  vieram  de muito longe para fazer um trabalho �rduo e, por Zarquon, iriam faz�-lo de qualquer maneira.</p><p>
Foi ent�o que ocorreram algumas das primeiras grandes confus�es da Hist�ria Gal�ctica, com batalhas ressurgindo continuamente s�culos depois de as quest�es que as motivaram supostamente j� terem sido resolvidas. Essas confus�es, contudo, n�o eram nada se comparadas �s que os historiadores precisavam destrinchar depois que a viagem no tempo foi descoberta e as batalhas come�aram a pr�-surgir centenas de anos antes que  as  quest�es  envolvidas  sequer  fossem  conhecidas.  Quando  o  Gerador  de Improbabilidade  Infinita  foi  criado  e  planetas  inteiros  come�aram  a  virar  pudim inesperadamente, a renomada faculdade de hist�ria da Universidade de Maximegalon finalmente  decretou  seu  pr�prio  fechamento  e  cedeu  seus  pr�dios  para  a  pr�spera faculdade de Divindade e P�lo Aqu�tico, que estava de olho neles h� anos. Isso n�o tem nada demais, � claro, mas provavelmente significa que ningu�m jamais saber� com certeza de onde os grebulons vieram, por exemplo, ou exatamente o que queriam. E isso � uma pena porque, se algu�m soubesse alguma coisa sobre eles, talvez  uma  horr�vel  cat�strofe  pudesse  ser  evitada  �  ou,  pelo  menos,  teria  que encontrar uma outra maneira para acontecer.</p><p>
Click, hum.</p><p>
A  gigantesca  e  cinzenta  nave  de  reconhecimento  grebulon  movia�se  em sil�ncio pelo v�cuo negro. Viajava a uma velocidade espantosa, de tirar o f�lego, mas, ainda assim, recortada sobre o fundo cintilante de um bilh�o de estrelas long�nquas, parecia  n�o  estar  se  movendo.  Era  apenas  um  gr�o  escuro  congelado  em  meio  aos infinitos gr�os de brilho noturno.</p><p>
A bordo da nave tudo permanecia exatamente igual h� mil�nios: extremamente escuro e silencioso.</p><p>
Click, hum.</p><p>
Bem, quase tudo.</p><p>
Click, click, hum.</p><p>
Click, hum, click, hum, click, hum.</p><p>
Click, click, click, click, click, hum.</p><p>
Hmmm.</p><p>
Um  programa  de  supervis�o  de  baixo  n�vel  acordou  um  programa  de supervis�o de n�vel um pouquinho mais alto l� dentro do semi-sonolento ciberc�rebro da nave e relatou que toda vez que fazia click, a resposta era apenas hum. O  programa  de  supervis�o  de  n�vel  mais  alto  perguntou  qual  deveria  ser  a resposta,  e  o  programa  de  supervis�o  de  baixo  n�vel  disse  que  n�o  se  lembrava exatamente, mas achava que deveria ser algo como um suspiro de satisfa��o distante, n�o? Ele n�o tinha id�ia do que era aquele hum. Click, hum, click, hum. Era s� o que recebia.</p><p>
O programa de supervis�o de n�vel mais alto analisou a situa��o e n�o ficou nem um pouco satisfeito. Perguntou ao programa de supervis�o de baixo n�vel o que exatamente ele estava supervisionando, mas o programa de supervis�o de baixo n�vel tamb�m n�o conseguia se lembrar o que era. Sabia apenas que algo deveria fazer click e depois soltar um suspiro de satisfa��o a cada dez anos ou algo assim, o que em geral acontecia  sem  problemas.  Tinha  tentado  consultar  sua  tabela  de  erros,  mas  n�o conseguiu  encontr�-la,  e  por  isso  decidiu  comunicar  o  problema  ao  programa  de supervis�o de n�vel mais alto.</p><p>
O programa de supervis�o de n�vel mais alto foi consultar uma de suas pr�prias tabelas de c�digos para tentar descobrir o que o programa de supervis�o de baixo n�vel deveria supervisionar.</p><p>
N�o conseguiu encontrar sua tabela de c�digos.</p><p>
Estranho.</p><p>
Procurou  novamente.  Recebia  apenas  uma  mensagem  de  erro.  Tentou encontrar aquela mensagem em sua tabela de mensagens de erros, mas n�o conseguiu ach�-la  tamb�m.  Aguardou  alguns  nanos-segundos  e  repetiu  a  coisa  toda.  Ent�o resolveu acordar o supervisor de fun��o setorial.</p><p>
O supervisor de fun��o setorial encontrou problemas logo de cara. Acionou o seu agente supervisor, que tamb�m encontrou problemas. Em alguns milion�simos de segundo,  circuitos  virtuais  que  passaram  anos,  ou  mesmo  s�culos,  adormecidos, estavam cintilando de volta � vida por toda a nave. Alguma coisa, em algum lugar, tinha dado terrivelmente errado, mas nenhum dos programas de supervis�o conseguia detectar o que era. Em todos os n�veis, instru��es vitais haviam desaparecido e as instru��es sobre o que fazer caso as instru��es vitais estivessem desaparecidas tamb�m estavam desaparecidas.</p><p>
Pequenos m�dulos de software � agentes � corriam pelos circuitos l�gicos, agrupando, consultando, reagrupando. Rapidamente conclu�ram que a mem�ria da nave, at� o m�dulo central de miss�o, estava em frangalhos. Todas as perguntas do universo n�o seriam suficientes para determinar o que havia acontecido. At� mesmo o m�dulo central de miss�o parecia estar avariado.</p><p>
O que, na verdade, tornou o problema  bem simples de se resolver. Bastava substituir o m�dulo central de miss�o. Havia uma c�pia de reserva, uma r�plica exata do original.  Era  preciso  substitu�-lo  fisicamente  porque,  por  motivos  de  seguran�a,  n�o havia nenhuma conex�o entre o original e sua c�pia. Uma vez substitu�do, o m�dulo central poderia supervisionar a reconstru��o do resto do sistema minuciosamente e tudo ficaria bem.</p><p>
Os rob�s foram instru�dos a apanhar o backup do m�dulo central de miss�o no cofre blindado, onde ficava armazenado,  e lev�-lo para a c�mara  de l�gica da nave, onde seria instalado.</p><p>
Isso  acarretou  uma  longa  troca  de  c�digos  de  emerg�ncia  e  protocolos enquanto os rob�s questionavam a autenticidade das instru��es dos agentes. Por fim, os rob�s se convenceram de que todos os procedimentos estavam corretos. Tiraram � c�pia reserva  do  m�dulo  central  de  miss�o  de  seu  inv�lucro,  a  retiraram  da  c�mara  de armazenamento, ca�ram para fora nave e sa�ram rodopiando pelo vazio. Esse fato forneceu a primeira boa pista sobre o que estava errado. Investiga��es  adicionais  logo  determinaram  o  que  havia  acontecido.  Um meteorito abriu um rombo gigantesco na nave. A nave n�o detectou isso antes porque o meteorito atingiu justamente o equipamento que deveria detectar se a nave havia sido atingida por um meteorito.</p><p>
A  primeira  coisa  a  fazer  era  tentar  tapar  o  buraco.  Perceberam  que  seria imposs�vel, porque os sensores da nave n�o conseguiam ver que havia um buraco e os supervisores  que  deveriam  alertar  que  os  sensores  n�o  estavam  funcionando  direito tamb�m n�o estavam funcionando direito e insistiam que os sensores estavam bem. A nave  s�  conseguia  deduzir  a  exist�ncia  do  rombo  porque  os  rob�s  haviam inegavelmente ca�do nele, levando junto o seu c�rebro sobressalente _ o mesmo  que teria permitido que ela notasse o rombo.</p><p>
A nave se esfor�ou para pensar de maneira coerente sobre o assunto, falhou e depois apagou completamente por instantes. N�o chegou a perceber que tinha apagado, �  claro,  porque  estava  apagada.  Ficou  apenas  surpresa  ao  ver  as  estrelas  pularem. Depois da  terceira  vez em que as  estrelas  pularam,  a  nave  finalmente  percebeu que devia estar apagando e que era hora de tomar decis�es importantes. Relaxou.</p><p>
Percebeu ent�o que ainda n�o havia tomado as decis�es importantes e entrou em p�nico. Apagou novamente. Quando voltou a si, vedou todos os compartimentos que ficavam em volta de onde o buraco imposs�vel de visualizar deveria estar. Obviamente  ainda  n�o  havia  alcan�ado  o  seu  destino,  pensou  ela,  inquieta, mas, como j� n�o tinha a menor id�ia de qual era o seu destino ou de como chegaria l�, n�o fazia mais sentido continuar. Consultou cada m�nimo fragmento de instru��o que havia conseguido recuperar a partir do m�dulo central de miss�o avariado.</p><p>
� Sua !!!!! !!!!! !!!!! miss�o de !!!!! anos � !!!!! !!!!!, !!!!!, !!!!! !!!!! !!!!! !!!!!, aterrissar !!!!! !!!!! !!!!! dist�ncia segura !!!!! !!!!! monitor�-lo.!!!!! !!!!! !!!!.'... O resto era lixo puro.</p><p>
Antes de apagar de vez, a nave deveria transmitir aquelas instru��es, do jeito que estavam, para os seus sistemas auxiliares mais primitivos. Precisava tamb�m reanimar toda a tripula��o.</p><p>
Havia um outro problema. Enquanto a tripula��o estava hibernando, as mentes de todos os seus membros, suas mem�rias, suas identidades e sua no��o do que estavam fazendo ali  haviam  sido  transferidas  para o  m�dulo  central  de  miss�o  da  nave  para mant�-los em seguran�a. Dessa forma,  por�m,  os membros  da tripula��o n�o fariam mais a menor id�ia de quem eram ou do que estavam fazendo ali. Paci�ncia. Antes de apagar de vez, a nave percebeu que os seus motores tamb�m estavam come�ando a pifar.</p><p>
A  nave  e  a  sua  reanimada  e  confusa  tripula��o  foram  se  arrastando  sob  o controle de seus sistemas auxiliares autom�ticos, que se preocuparam simplesmente em aterrissar  no  primeiro  lugar  que  fosse  poss�vel  e  monitorar  qualquer  coisa  que encontrassem para monitorar.</p><p>
No que diz respeito ao local para aterrissar, n�o se sa�ram l� muito bem. O</p><p>
planeta encontrado era desoladoramente gelado e deserto, t�o dolorosamente distante do sol  que  deveria  aquec�-lo  que  precisaram  de  toda  a  maquinaria  de  Formatr�nica Ambiental e dos Sistemas Suportr�nicos de Vida que traziam consigo para torn�-lo �</p><p>
ou parte dele,  ao  menos  �  habit�vel. Havia planetas melhores  ali  por perto, mas  o Estrategiotron da nave estava obviamente no m�dulo Furtivo e escolheu o planeta mais distante e discreto. A �nica pessoa que poderia contestar sua escolha era o Comandante</p><p>
�Chefe de Estrat�gia. Como todo mundo na nave havia perdido a mem�ria, ningu�m sabia quem era o Comandante-Chefe de Estrat�gia e, mesmo que pudessem identific�lo, como � que ele iria discutir com o Estrategiotron da nave?</p><p>
No que diz respeito a algo para monitorar, contudo, acertaram em cheio. <strong>CAP�TULO 2</strong></p><p>
Uma das coisas mais extraordin�rias da vida � o tipo de lugares nos quais ela est� preparada para sobreviver. Seja nos mares inebriantes de Santragino V, com peixes que parecem n�o dar a m�nima para onde estejam nadando, nas tempestades de fogo em Frastra,  onde,  segundo  dizem,  a  vida  come�a  aos  40.000  graus,  ou  simplesmente entocada no intestino grosso de um rato pela mais pura divers�o, a vida encontra uma maneira de ir levando as coisas em qualquer lugar.</p><p>
Ela suporta viver at� mesmo em Nova York, embora seja dif�cil entender o porqu�. No inverno a temperatura cai para muito abaixo do limite legal, ou pelo menos cairia, se algu�m tivesse o bom senso de estipular um limite legal. A �ltima vez em que fizeram uma pesquisa sobre as cem caracter�sticas mais marcantes dos nova-iorquinos, o bom senso foi parar em septuag�simo nono lugar.</p><p>
No ver�o � quente pra burro. Uma coisa � ser uma dessas formas de vida que florescem no calor e achar, como os frastranos, que uma temperatura entre 40.000 e 40.004 graus � muito agrad�vel. Outra coisa completamente diferente � ser um animal que precisa se enrolar nas peles de diversos outros animais quando seu planeta est� em um ponto da �rbita para descobrir, meia �rbita mais � frente, que sua pr�pria pele est�</p><p>
fervendo.</p><p>
H� um enorme exagero quanto � primavera. Muitos habitantes de Nova York se  vangloriam  orgulhosamente  dos  prazeres  da  primavera,  mas,  se  entendessem  o m�nimo que fosse dos tais prazeres da primavera, saberiam que existem 5.983 lugares melhores do que Nova York para desfrut�-la � e isso sem sair da mesma latitude. Mas o pior mesmo � o outono. Poucas coisas s�o piores do que o outono em Nova York. Alguns dos seres que vivem no intestino grosso dos ratos talvez discordem, mas  a  maioria  das  coisas  que  vivem  nos  intestinos  grossos  de  ratos  s�o  bastante desagrad�veis � ent�o podemos e iremos ignorar sua opini�o. Durante o outono, Nova York cheira como se algu�m tivesse fritado cabras por l� e, se voc� estiver realmente precisando respirar, a melhor solu��o � abrir uma janela e enfiar a cara em um pr�dio. Tricia McMillan adorava Nova York. Vivia repetindo isso para si mesma.  O</p><p>
Upper West Side. Midtown. Boas lojas. O SoHo. O East Village. Roupas. Livros. Sushi. Comida italiana. Delicatessens. Isso a�.</p><p>
Filmes. Isso a�, tamb�m. Tricia acabara de ver um filme de Woody Alien sobre a ang�stia de ser neur�tico em Nova York. Como ele j� tinha feito um ou dois filmes explorando o mesmo tema,</p><p>
Tricia  se  perguntou  se  ele  j�  tinha  pensado  em  se  mudar  dali,  mas  ficou sabendo que ele abominava essa id�ia. Ent�o: mais filmes, adivinhou ela. Tricia adorava Nova York porque adorar Nova York era uma boa estrat�gia para a sua carreira. Boa em termos de lojas, de restaurantes, n�o t�o boa em termos de t�xis  e  qualidade  das  cal�adas,  mas  definitivamente  uma  das  maiores  e  melhores estrat�gias para a sua carreira. Tricia era �ncora de tev� e a maior parte das tev�s do mundo  est�o  ancoradas  em  Nova  York.  At�  ent�o  Tricia  s�  havia  sido  �ncora  na Inglaterra: reportagem local, depois jornal da manh� e da� jornal da tarde. Se o idioma permitisse, poderia se dizer que era uma �ncora em r�pida ascens�o, mas... bolas, aquilo era tev�, ent�o qual o problema? Ela era uma �ncora em r�pida ascens�o. Tinha tudo o que precisava ter: um cabelo sensacional, uma compreens�o profunda de uso estrat�gico de  brilhos  labiais,  intelig�ncia  suficiente  para  entender  o  mundo  e  uma  pequena  e secreta apatia interior que fazia com que ela se lixasse. Todo mundo tem uma grande oportunidade na vida. Se voc� por acaso perde a �nica que realmente interessa, todo o resto se torna assustadoramente f�cil.</p><p>
Tricia  perdera  apenas  uma  oportunidade  na  vida.  Naqueles  tempos  j�  nem estremecia mais quando se lembrava dela. Achava que tinha a ver com a parte que tinha ficado ap�tica.</p><p>
A NBS precisava de uma nova �ncora. Mo Minetti estava deixando o programa matinal Bom Dia Estados Unidos para ter um beb�. Haviam lhe oferecido uma quantia absurda para que o parto fosse transmitido ao vivo, mas ela surpreendentemente recusou a proposta, alegando zelar pela sua privacidade e bom gosto. Equipes de advogados da NBS  vasculharam  minuciosamente  o  seu  contrato  para  verificar  se  aquelas  eram alega��es leg�timas, mas, no fim das contas, tiveram que deix�-la ir embora, n�o sem uma  certa  relut�ncia.  Aquilo  era  particularmente  odioso  para  eles,  porque  em  geral</p><p>
"deixar algu�m partir com uma certa relut�ncia" n�o passava de um eufemismo educado para demiti-lo.</p><p>
Come�ou  a  circular  o  boato  de  que  talvez,  apenas  talvez,  estivessem procurando um sotaque brit�nico. O cabelo, a cor da pele e a pr�tese dent�ria seriam de acordo com os padr�es das emissoras americanas, mas havia muitos sotaques brit�nicos nos  Estados  Unidos  agradecendo  �s  suas  m�es  na  cerim�nia  do  Oscar,  sotaques brit�nicos cantando na Broadway e um p�blico consider�vel acompanhando sotaques brit�nicos com perucas no Masterpiece Theatre. Sotaques brit�nicos contavam piadas no programa do David Letterman e no Jay Leno. Ningu�m entendia as piadas, mas estavam gostando  do  sotaque,  ent�o  talvez,  apenas  talvez,  fosse  a  hora  certa  de  inserir  um sotaque brit�nico no Bom Dia Estados Unidos. E da�?</p><p>
Era por isso que Tricia estava l�. Era por isso que adorar Nova York era uma boa estrat�gia para sua carreira.</p><p>
Esse n�o era, � claro, o motivo oficial. A sua emissora de tev� no Reino Unido jamais  teria  bancado  a  passagem  de  avi�o  e  a  conta do  hotel  para  ela  sair  ca�ando emprego em Manhattam. Como ela estava procurando algo que pagasse umas dez vezes o seu sal�rio atual, poderiam ter pensado que ela teria condi��es de se manter por conta pr�pria. Ent�o, ela arrumou uma hist�ria, arrumou um pretexto, ficou bem quieta quanto �s suas pretens�es e eles bancaram a viagem. Bilhete executivo, � claro, mas seu rosto j�</p><p>
era  conhecido  e  ela  conseguiu  um  upgrade  com  alguns  sorrisos.  Com  jeitinho,  ela conseguiu um bom quarto no Hotel Brentwood e l� estava ela, esquematizando o seu pr�ximo passo.</p><p>
Conhecer  gente  era  uma  coisa;  fazer  contatos  era  outra  completamente diferente.  Tinha  alguns  nomes,  alguns  telefones,  mas  tudo  o  que  conseguira  at�  o momento era ficar aguardando na linha por um tempo indeterminado algumas vezes. Estava de volta � estaca zero. Sondou aqui  e ali, deixou alguns recados, mas,  at� o momento, ningu�m havia retornado as suas liga��es. O trabalho que ela disse que fora fazer  tinha  terminado  em  uma  manh�;  o  trabalho  dos  seus  sonhos  brilhava hipnoticamente em um horizonte inalcan��vel.</p><p>
Merda.</p><p>
Pegou um t�xi do cinema de volta para o Brentwood. O t�xi n�o p�de deix�-la mais perto da cal�ada porque uma limusine gigantesca estava ocupando todo o espa�o livre, de modo que ela teve de se espremer para ultrapass�-la. Saiu do ar f�tido, com cheiro de cabra frita, e adentrou no aben�oado frescor do lobby. O delicado algod�o de sua blusa estava grudado como fuligem no seu corpo. O seu cabelo parecia algod�o�</p><p>
doce  comprado  em  uma  feirinha.  Perguntou  na  recep��o  se  tinha  algum  recado, desanimada. Havia um.</p><p>
Humm...</p><p>
Bom.</p><p>
Tinha  funcionado. Ela  foi  ao cinema  especificamente  para  fazer com que o telefone tocasse. N�o ag�entava ficar sentada em um quarto de hotel esperando. Hesitou.  Ser�  que  devia  abrir  o  recado  ali  mesmo?  Suas  roupas  estavam grudentas  e  ela  queria  se  livrar  delas  e  ficar  deitada  na  cama.  Deixara  o  ar�</p><p>
condicionado  ligado  na  temperatura  mais  baixa  poss�vel  e  com  a  maior  ventila��o poss�vel. O que mais desejava no mundo naquele momento era ficar arrepiada de frio. Depois, um banho bem quente, seguido de um banho bem frio e depois ficar deitada s�</p><p>
de toalha na cama, deixando o corpo secar no ar�condicionado. Ent�o leria o recado. Talvez mais arrepios. Talvez todo tipo de coisa.</p><p>
N�o. O que mais desejava no mundo era um emprego em uma rede de tev�</p><p>
americana que pagasse dez vezes o seu sal�rio atual. Mais do que qualquer outra coisa no mundo. No mundo inteiro. O que ela desejava mais do que qualquer outra coisa n�o existia mais.</p><p>
Sentou�se  em  uma  poltrona  no  lobby,  sob  uma  palmeira  kentia  e  abriu  o pequeno envelope com uma abertura em papel celofane.</p><p>
"Favor  entrar  em  contato"  �  estava  escrito.  "Triste"  �  e  um  n�mero  de telefone. O nome da pessoa era Gail Andrews.</p><p>
Gail Andrews.</p><p>
N�o  era  um  nome  pelo  qual  estivesse  esperando.  Foi  pega  de  surpresa. Conseguia reconhec�-lo, mas n�o sabia o porqu�. Seria a secret�ria de Andy Martin? A assistente de Hilary Bass? Martin e Bass eram os contatos mais importantes que fizera, ou tentara fazer, na NBS. E o que significava aquele "Triste"?</p><p>
"Triste?"</p><p>
Estava completamente passada. Seria Woody Alien tentando contat�-la usando um pseud�nimo? O c�digo de �rea era 212. Algu�m de Nova York. Que estava triste. Bom, aquilo reduzia um pouco as possibilidades, n�o? Voltou at� a recep��o.</p><p>
�</p><p>
A mensagem que o senhor me entregou est� um pouco estranha � disse ela. � Algu�m que n�o conhe�o tentou me ligar e disse que estava triste. O recepcionista olhou para o recado e franziu a testa.</p><p>
�</p><p>
A senhora conhece essa pessoa? � perguntou ele.</p><p>
�</p><p>
N�o � respondeu Tricia.</p><p>
�</p><p>
Hum  �  disse  o  recepcionista.  �  Parece  que  ela  n�o  est�  feliz  com alguma coisa.</p><p>
�</p><p>
Pois � � concordou Tricia.</p><p>
�</p><p>
Parece que deixou o nome aqui � disse ele. � Gail Andrews. A senhora conhece algu�m com esse nome?</p><p>
�</p><p>
N�o � disse ela.</p><p>
�</p><p>
Voc� sabe por que ela n�o est� feliz?</p><p>
�</p><p>
N�o � respondeu Tricia.</p><p>
�</p><p>
J� tentou ligar para este telefone? Tem um n�mero aqui.</p><p>
�</p><p>
N�o � repetiu Tricia. � O senhor acabou de me dar esse recado. Estou tentando levantar mais informa��es antes de retornar a liga��o. Seria poss�vel falar com a pessoa que anotou o recado?</p><p>
�</p><p>
Humm � fez o recepcionista, analisando cuidadosamente o recado. �</p><p>
Acho que n�o temos nenhuma Gail Andrews trabalhando aqui, n�o.</p><p>
�</p><p>
Sim, eu sei disso � disse Tricia. � Eu s�...</p><p>
�</p><p>
Eu sou Gail Andrews.</p><p>
A voz veio por tr�s de Tricia. Ela se virou.</p><p>
�</p><p>
Como?</p><p>
�</p><p>
Eu sou Gail Andrews. Voc� me entrevistou hoje cedo.</p><p>
�</p><p>
Ah. Ah, meu Deus, � verdade � disse Tricia, um pouco envergonhada.</p><p>
�</p><p>
Deixei um recado para voc� h� algumas horas. Como n�o tive nenhuma resposta, resolvi vir at� aqui. N�o queria que nos desencontr�ssemos.</p><p>
 �</p><p>
Ah, sim. Claro � disse Tricia, esfor�ando�se para entender logo o que estava acontecendo.</p><p>
�</p><p>
Estou um pouco confuso com isso � disse o recepcionista, para quem entender logo n�o era importante. � Voc� deseja que eu ligue para esse n�mero agora?</p><p>
�</p><p>
N�o,  tudo  bem,  obrigada  �  disse  Tricia.  �  Eu  posso  resolver  isso sozinha.</p><p>
�</p><p>
Posso  ligar  para  esse  quarto  aqui  para  voc�,  se  for  ajudar  �  disse  o recepcionista, olhando para o recado novamente.</p><p>
�</p><p>
N�o,  n�o  vai  ser  necess�rio,  obrigada  �  assegurou  Tricia.  �  Esse n�mero � do meu pr�prio quarto. O recado era para mim. Acho que j� resolvemos isso, n�o?</p><p>
�</p><p>
Tenha um bom dia, ent�o � disse o recepcionista.</p><p>
Tricia  n�o  estava  particularmente  interessada  em  ter  um  bom  dia.  Estava ocupada demais para isso.</p><p>
Tamb�m n�o queria conversar com Gail Andrews. Tinha limites bem definidos quanto a bater papo com os "crist�os". Seus colegas chamavam de crist�os as pessoas que ela entrevistava e costumavam se benzer quando os viam entrando inocentemente no est�dio para encarar Tricia, especialmente quando ela estava sorrindo calorosamente e mostrando os dentes.</p><p>
Virou-se e deu um sorriso glacial, tentando definir o que ia fazer. Gail Andrews era uma quarentona bem cuidada. As suas roupas estavam dentro dos  limites  de  um  bom  gosto  caro,  mas  definitivamente  amontoadas  na  parte  mais extravagante  dos  limites.  Ela  era  astr�loga  �  famosa  e,  se  os  boatos  eram  de  fato verdadeiros, influente, j� tendo supostamente influenciado diversas decis�es do falecido presidente  Hudson,  desde  o  sabor  de  cobertura  que  ele  deveria  colocar  em  suas sobremesas em cada dia da semana at� a sua decis�o de bombardear ou n�o Damasco. Tricia realmente havia pegado pesado com ela. N�o sobre a veracidade das hist�rias  sobre  o  presidente,  aquilo  j�  estava  mais  do  que  batido.  Na  �poca,  Gail Andrews  negara  enfaticamente  ter  aconselhado  o  presidente  Hudson  em  qualquer assunto al�m de quest�es pessoais, espirituais e diet�ticas, o que, aparentemente, n�o tinha  nada  a  ver  com  bombardear  Damasco.  ("NADA  PESSOAL,  DAMASCO!" alardearam os jornais na �poca.)</p><p>
N�o, aquilo era peixe pequeno perto das perguntas que Tricia preparara sobre a quest�o da  astrologia em si. A  Sra.  Andrews  n�o  estava  exatamente  preparada  para aquilo. Tricia, por outro lado, n�o estava exatamente preparada para um segundo round no lobby do hotel. O que fazer?</p><p>
�</p><p>
Posso  esper�-la  no  bar,  se  precisar  de  um  tempinho  �  sugeriu  Gail Andrews. � Mas gostaria de conversar com voc� e estou indo embora hoje � noite. Ela parecia um pouco aflita, mais do que magoada ou irada.</p><p>
�</p><p>
O.k. � respondeu Tricia. � Me d� uns dez minutinhos.</p><p>
Subiu para o quarto. Antes de mais nada, confiava t�o pouco na capacidade do sujeito  da  recep��o  para  lidar  com  uma  coisa  t�o  complicada  como  um  recado  que precisava se certificar se havia algum outro debaixo da porta. N�o seria a primeira vez em que os recados da recep��o e os debaixo da porta discordariam completamente um do outro.</p><p>
N�o havia nada.</p><p>
Mas uma luz no telefone estava piscando.</p><p>
Ela apertou o bot�o de recados e foi transferida para a operadora do hotel.</p><p>
�</p><p>
Voc� tem uma mensagem de Gary Andress � disse ela.</p><p>
�</p><p>
Pois n�o � disse Tricia. Um nome desconhecido. � Qual �?</p><p>
�</p><p>
Traste � disse ela.</p><p>
�</p><p>
Como � que �? � perguntou Tricia.</p><p>
�</p><p>
Traste. � o que est� escrito aqui. O sujeito diz que � um traste. Acho que queria que voc� soubesse disso. Quer que eu passe o telefone?</p><p>
Assim que a telefonista come�ou a ditar o n�mero, Tricia percebeu subitamente que aquela era apenas uma vers�o deturpada do recado anterior.</p><p>
�</p><p>
Est� bem, est� bem � disse ela. � Mais algum recado pra mim?</p><p>
�</p><p>
Qual o n�mero do quarto?</p><p>
Tricia n�o conseguia compreender por que a operadora decidira perguntar o n�mero do quarto �quela altura da conversa, mas respondeu assim mesmo.</p><p>
�</p><p>
Qual o seu nome?</p><p>
�</p><p>
McMillan, Tricia McMillan � soletrou, pacientemente.</p><p>
�</p><p>
N�o � o Sr. MacManus?</p><p>
�</p><p>
N�o.</p><p>
�</p><p>
Acabaram seus recados. � Click.</p><p>
Tricia suspirou e discou novamente. Desta vez, disse o n�mero do quarto e o seu nome novamente, de cara. A operadora n�o demonstrou o menor ind�cio de lembrar que haviam acabado de se falar h� dez segundos.</p><p>
�</p><p>
Estarei no bar � explicou Tricia. � No bar. Se aparecer alguma liga��o para mim, a senhora pode pedir, por gentileza, que transfiram para o bar?</p><p>
�</p><p>
Qual o seu nome?</p><p>
Repetiram  tudo  novamente,  at�  Tricia  ter  certeza  absoluta  de  que  tudo  que eventualmente poderia ser esclarecido havia sido t�o esclarecido quanto possivelmente pudesse ser.</p><p>
Tomou  uma  ducha,  colocou  roupas  limpas  e  retocou  a  maquiagem  com  a rapidez de uma profissional. Suspirou ao olhar para a sua cama e saiu do quarto. Chegou a pensar em sair de fininho e se esconder.</p><p>
N�o. Que nada.</p><p>
Olhou�se no espelho do hall enquanto esperava o elevador. Parecia tranq�ila e  no  comando  da  situa��o;  se  conseguia  enganar  a  si  mesma,  conseguia  enganar qualquer um.</p><p>
Bastava ser dura com Gail Andrews. Tudo bem, pegara pesado com ela. Sentia muito,  mas  era  parte  do  jogo  �  essas  coisas.  Gail  concordara  em  dar  a  entrevista porque  estava  prestes  a  lan�ar  um  livro  novo,  e  exposi��o  na  tev�  era  publicidade gratuita. Mas tudo na vida tem um pre�o. N�o, ia cortar aquela parte. O que tinha acontecido era o seguinte:</p><p>
Na semana anterior, astr�nomos anunciaram que haviam finalmente descoberto um d�cimo planeta, bem longe, al�m da �rbita de Plut�o. H� anos procuravam por ele, guiados por determinadas anomalias orbitais nos planetas mais externos e, agora que haviam  encontrado,  estavam  incrivelmente  felizes  e  todos  estavam  incrivelmente contentes por eles e etc. e tal. O planeta foi batizado de Pers�fone, mas rapidamente ganhou o apelido de Rupert, por causa do papagaio de um dos astr�nomos � havia uma bela  hist�ria  tediosamente  sentimental  por  tr�s  disso  tudo  �,  e  aquilo  era  lindo  e maravilhoso.</p><p>
Tricia  acompanhara  os  acontecimentos  com  muito  interesse,  por  v�rios motivos.</p><p>
Ent�o,  quando  estava  procurando  uma  boa  desculpa  para  viajar  para  Nova York �s custas de sua emissora, um press-release sobre o novo livro de Gail Andrews, Voc� e os seus planetas, chamou sua aten��o.</p><p>
Gail Andrews n�o era muito conhecida na Inglaterra, mas bastava mencionar o presidente Hudson, cobertura para doce e a amputa��o de Damasco (o mundo havia evolu�do  desde  os  ataques  com  precis�o  cir�rgica  �  o  termo  oficial  havia  sido</p><p>
"Damascotomia",  significando  a  "remo��o"  de  Damasco),  que  todo  mundo  sabia  de quem se tratava.</p><p>
Tricia percebeu que havia uma brecha e convenceu seu produtor. Com certeza a id�ia de que blocos gigantescos de pedra rodopiando no espa�o poderiam saber  algo  a  respeito do seu dia  que  voc�  mesmo  n�o sabe  deve  ter  sido impactado com a descoberta s�bita de um novo bloco de pedra que ningu�m conhecia. Isso deve ter invalidado alguns c�lculos, certo?</p><p>
E todos aqueles mapas astrais, movimenta��es planet�rias e etc. e tal? Todos n�s sabemos (a princ�pio) o que acontece quando Netuno est� em Virgem e por a� vai, mas o que ser� que acontece quando Rupert est� em ascend�ncia? Ser� que a astrologia como um todo n�o teria de ser repensada? Quem sabe n�o fosse uma boa hora para admitir que aquilo tudo n�o passava de uma baboseira e se dedicar � cria��o de porcos, cujos princ�pios eram, ao menos, baseados em fundamentos racionais? Se soub�ssemos da exist�ncia de Rupert h� tr�s anos, ser� que o presidente Hudson teria comido calda de chocolate �s quintas�feiras em vez de �s sextas? Ser� que Damasco ainda estaria de p�? Esse tipo de coisa.</p><p>
Gail Andrews aceitara tudo numa boa. Estava come�ando a se recuperar do primeiro ataque quando cometeu o erro de tentar enrolar Tricia com uma conversa fiada sobre  arcos  diurnos,  ascens�es  diretas  e  algumas  das  �reas  mais  obscuras  da trigonometria tridimensional.</p><p>
Ficou chocada ao descobrir que Tricia rebatia todas as suas frases com mais efeito  do  que  ela  podia  enfrentar.  Ningu�m  avisara  a  Gail  que  ser  uma  perua  de televis�o representava, para Tricia, uma segunda oportunidade de ser algu�m na vida. Por tr�s da sua maquiagem Chanel, seu coupe sauvage e suas lentes de contato azuis cristalinas havia um c�rebro que havia adquirido, em uma fase antiga e abandonada da sua vida, um respeit�vel diploma em matem�tica e um doutorado em astrof�sica. Ao entrar no elevador, Tricia percebeu que estava levemente preocupada por ter esquecido a bolsa no quarto e pensou se devia voltar depressa e apanh�-la. N�o. Provavelmente estaria mais segura l� dentro e, de qualquer forma, n�o havia nada na bolsa que ela estivesse precisando. Deixou a porta fechar�se atr�s de si. Al�m do mais, repetiu para si mesma, respirando fundo, se havia uma coisa que a vida a ensinara era isso: nunca volte para buscar sua bolsa. Enquanto o elevador descia, ela olhou para o teto com uma certa obstina��o. Qualquer pessoa que n�o conhecesse bem Tricia McMillan teria dito que era exatamente daquele  jeito  que  as  pessoas  �s  vezes  olham  para  cima  quando  querem  conter  as l�grimas. Ela devia estar observando a min�scula c�mera de seguran�a montada no teto. Saiu do elevador com passos en�rgicos e dirigiu�se novamente � recep��o.</p><p>
�</p><p>
Veja bem, eu vou anotar isso aqui � explicou ela � porque n�o quero que nada d� errado.</p><p>
Escreveu  o  seu  nome  em  letras  garrafais  em  um  peda�o  de  papel.  Depois acrescentou o n�mero do seu quarto e a mensagem "ESTOU NO BAR" e entregou o papel ao recepcionista, que o examinou.</p><p>
�</p><p>
Caso haja alguma mensagem para mim. Est� bem?</p><p>
O recepcionista continuou examinando o peda�o de papel.</p><p>
�</p><p>
A senhora quer que eu verifique se ela est� no quarto? � perguntou ele. Dois minutos depois, Tricia acomodou�se no bar ao lado de Gail Andrews, que estava sentada diante de uma ta�a de vinho branco.</p><p>
�</p><p>
Voc� me pareceu o tipo de pessoa que prefere sentar�se no bar a ficar quietinha numa mesa � disse ela.</p><p>
Aquilo era verdade e deixou Tricia um pouco surpresa.</p><p>
�</p><p>
Vodca? � perguntou Gail.</p><p>
�</p><p>
Sim � respondeu Tricia, desconfiada. Estava quase perguntando "como � que voc� sabe?" quando Gail respondeu:</p><p>
�</p><p>
Perguntei  ao  barman  �  explicou  ela,  com  um  sorriso  simp�tico.  O</p><p>
barman preparou a vodca e deslizou elegantemente o copo sobre a mesa lustrada de mogno.</p><p>
�</p><p>
Obrigada � agradeceu Tricia, mexendo sua bebida com gestos curtos. N�o sabia o que aquela gentileza repentina significava e estava determinada a n�o se deixar enganar por ela. As pessoas em Nova York n�o eram gentis umas com as outras � toa.</p><p>
�</p><p>
Olha � disse ela, firme �, sinto muito se a senhora est� triste. Sei que deve estar achando que eu fui muito dura hoje pela manh�, mas a astrologia, no final das contas, n�o passa de uma divers�o popular e, at� a�, tudo bem. Faz parte do showbiz e � uma coisa que a senhora faz muito bem, lhe desejo boa sorte. � divertido. Contudo, n�o � uma ci�ncia e n�o devemos confundir as coisas. Acho que isso � algo que n�s duas conseguimos demonstrar muito bem hoje cedo e ainda proporcionamos divers�o popular  aos  outros,  que  �  exatamente  o  nosso  trabalho.  Lamento  muito  se  isso  a desagrada.</p><p>
�</p><p>
Estou bem feliz � disse Gail Andrews.</p><p>
�</p><p>
U�   �   disse   Tricia,   sem   saber   o  que  pensar. � Seu  recado  dizia  que estava triste.</p><p>
�</p><p>
N�o � respondeu Gail Andrews. � Eu deixei um recado dizendo que achava que voc� estava triste e fiquei curiosa para saber o porqu�. Tricia se sentiu como se tivesse levado um chute na nuca. Piscou os olhos.</p><p>
�</p><p>
O qu�? � perguntou ela, baixinho.</p><p>
�</p><p>
O astros. Voc� me pareceu muito irritada e triste em rela��o aos astros e aos planetas quando est�vamos discutindo hoje cedo e isso est� me incomodando. Por isso eu vim at� aqui, para ver se voc� estava bem.</p><p>
Tricia olhou fixamente para ela.</p><p>
�</p><p>
Senhora  Andrews  �  come�ou  ela,  e  ent�o  percebeu  que  tinha  soado exatamente irritada e triste, o que iria tirar o valor de seu protesto.</p><p>
�</p><p>
Por favor, pode me chamar de Gail, se preferir.</p><p>
Tricia parecia desnorteada.</p><p>
�</p><p>
Eu sei que astrologia n�o � uma ci�ncia � disse Gail. � Claro que n�o �. N�o passa de um conjunto de regras arbitr�rias como xadrez ou t�nis, ou... qual �</p><p>
mesmo o nome daquela coisa esquisita de que voc�s ingleses brincam?</p><p>
�</p><p>
Humm... cr�quete? Autodeprecia��o?</p><p>
�</p><p>
Democracia  parlamentar. As  regras meio  que surgiram do  na da.  N�o fazem o menor sentido, a n�o ser quando pensadas no pr�prio contexto. Mas, quando a gente come�a a colocar essas regras em pr�tica, v�rios processos acabam acontecendo e voc� come�a a descobrir mil coisas sobre as pessoas. Na astrologia, as regras s�o sobre astros e planetas, mas poderiam ser sobre patos e gansos que daria no mesmo. � apenas uma maneira de pensar sobre um problema que permite que o sentido desse problema comece a emergir. Quanto mais regras, quanto menores, mais arbitr�rias, melhor fica. �</p><p>
como assoprar um punhado de poeira de grafite em um peda�o de papel para visualizar os  entalhes  escondidos.  Permite  que  voc�  veja  as  palavras  que  haviam  sido escritas sobre o papel que estava por cima e que foi removido. O grafite n�o � importante. �</p><p>
apenas uma maneira de revelar os entalhes. Ent�o, veja, a astrologia de fato nada tem a ver com a astronomia. Tem a ver com pessoas pensando sobre pessoas. Ela continuou:</p><p>
 �</p><p>
Ent�o, quando voc�  ficou  t�o,  sei l�, t�o emocionalmente concentrada nos astros e nos planetas hoje de manh�, eu comecei a pensar: ela n�o est� irritada com a astrologia, est� irritada e triste com os astros e os planetas. As pessoas normalmente s�</p><p>
ficam assim, tristes e irritadas, quando perdem alguma coisa. Isso foi tudo o que eu consegui imaginar e n�o passei desse ponto. Ent�o vim ver se voc� estava bem. Tricia estava embasbacada.</p><p>
Uma parte do seu c�rebro j� havia come�ado a funcionar a pleno vapor. Estava ocupada  construindo  v�rias  r�plicas  malcriadas  sobre  como  os  hor�scopos  de  jornal eram  rid�culos  e  como  usavam  truques  estat�sticos  para  pegar  as  pessoas.  Mas,  aos poucos, aquilo tudo foi desaparecendo, porque percebeu que o resto do seu c�rebro n�o estava ouvindo. Ela estava completamente embasbacada.</p><p>
Uma  total  desconhecida  acabara  de  lhe  dizer  algo  que  ela  mantivera  em segredo por dezessete anos.</p><p>
Virou-se para Gail.</p><p>
�</p><p>
Eu...</p><p>
Parou.</p><p>
Uma min�scula c�mera de seguran�a acima do bar girou para acompanhar o seu movimento. Aquilo a deixou completamente baratinada. A maioria das pessoas n�o teria sequer notado. N�o era feita para ser notada. N�o havia sido projetada para sugerir que atualmente at� mesmo um hotel caro e elegante em Nova York n�o tinha certeza de que sua clientela n�o iria puxar uma arma subitamente ou deixar de usar uma gravata. Mas, apesar de cuidadosamente escondida atr�s de uma garrafa de vodca, n�o podia enganar o instinto apurado de uma �ncora de tev� que deveria saber exatamente quando uma c�mera estava girando em sua dire��o.</p><p>
�</p><p>
Aconteceu alguma coisa? � perguntou Gail.</p><p>
�</p><p>
N�o, � que eu... eu tenho que admitir que voc� me deixou espantada �</p><p>
disse Tricia. Decidiu ignorar a c�mera de seguran�a. Devia ser apenas a sua imagina��o pregando�lhe uma pe�a por estar t�o obcecada com televis�o naquele dia. N�o era a primeira  vez  que  aquilo  acontecia.  Estava  convencida  de  que  uma  c�mera  de monitoramento  de  tr�nsito tinha  se  virado  para  acompanhar  o seu andar  e  que  uma outra,  de  seguran�a,  na  Bloomingdale's,  tinha  feito  quest�o  de  vigi�-la  enquanto experimentava  uns  chap�us.  Estava  ficando  doida,  �  claro.  Chegara  at�  mesmo  a imaginar que um passarinho no Central Park havia encarado�a de prop�sito. Decidiu tirar aquilo da cabe�a e tomou um gole da vodca. Um sujeito estava andando pelo bar perguntando quem era o Sr. MacManus.</p><p>
�</p><p>
O.k. � disse Tricia, decidindo colocar tudo para fora. � N�o sei como foi que voc� descobriu isso, mas...</p><p>
�</p><p>
Eu n�o descobri nada, ao contr�rio do que voc� diz. Apenas escutei o que voc� estava dizendo.</p><p>
�</p><p>
O que eu perdi, acho eu, foi uma outra vida inteira.</p><p>
�</p><p>
Acontece com todos n�s. A cada momento de cada dia. Cada decis�o que tomamos,  cada  vez  que  respiramos,  abre  algumas  portas  e  fecha  v�rias  outras.  N�o percebemos a maioria, mas notamos algumas. Acho que voc� percebeu uma delas.</p><p>
�</p><p>
Ah, sim,  e como � respondeu Tricia. � Vamos l�, eu vou contar. �</p><p>
muito simples. H� v�rios anos eu conheci um cara em uma festa. Ele disse que era de outro planeta e perguntou se eu queria ir embora com ele. Eu disse t�, tudo bem. Era uma senhora festa. Pedi pra ele esperar um pouquinho enquanto eu ia buscar minha bolsa, depois iria com ele numa boa para outro planeta. Ele disse que eu n�o ia precisar da bolsa. Respondi que ele com certeza devia vir de um lugar muito atrasado ou ent�o saberia que uma mulher sempre precisa carregar sua bolsa. Ele ficou meio impaciente, mas eu n�o ia me fazer de f�cil s� porque ele tinha dito que era de outro planeta.</p><p>
�</p><p>
Fui at� o segundo andar. Demorei um tempo para encontrar a bolsa e depois o banheiro estava ocupado. Quando desci, ele tinha ido embora. Tricia fez uma pausa.</p><p>
�</p><p>
E...? � perguntou Gail.</p><p>
�</p><p>
A porta do jardim estava aberta. Fui l� fora. Havia umas luzes, uma coisa brilhante.  Cheguei  a  tempo  de  v�la  levantar  v�o,  partir  silenciosa  pelas  nuvens  e desaparecer. E foi isso. Fim da hist�ria. Fim de uma vida, in�cio de outra. Mas n�o passo um minuto desta vida sem imaginar como teria sido a outra Tricia. A que n�o teria voltado para apanhar a bolsa. Fico achando que ela est� l� fora, em algum lugar, e que sou apenas a sua sombra.</p><p>
Um membro da equipe do hotel estava rondando o bar perguntando se algu�m era o Sr. Miller. Ningu�m era.</p><p>
�Voc�  realmente  acredita  que  essa...  pessoa  era  de  um  outro  planeta?  �</p><p>
perguntou Gail.</p><p>
�</p><p>
Com certeza. Eu vi a nave. E, ah, ele tinha duas cabe�as.</p><p>
�</p><p>
Duas? E ningu�m mais percebeu?</p><p>
�</p><p>
Era uma festa � fantasia. �Ah, t�...</p><p>
�</p><p>
E ele havia coberto a outra cabe�a com uma gaiola. Com um pano por cima. Fingia ter um papagaio. Ficava batendo na gaiola, falando aquelas bobagens de</p><p>
"D� o p�, louro" e grunhindo. Mas teve uma hora em que ele jogou o pano para tr�s e deu  uma  gargalhada.  Havia  outra  cabe�a  l�  dentro,  gargalhando  tamb�m.  Foi  um momento bem estranho, devo dizer.</p><p>
�</p><p>
Eu acho que voc� fez a coisa certa, minha querida. N�o acha? �disse Gail.</p><p>
�</p><p>
N�o  �  respondeu  Tricia.  �  N�o,  n�o  fiz.  E  tamb�m  n�o  consegui continuar a fazer o que estava fazendo na �poca. Eu era astrof�sica, sabe. N�o d� para continuar sendo uma astrof�sica decente ap�s ter conhecido um sujeito de outro planeta com uma segunda cabe�a disfar�ada de papagaio. � imposs�vel. Eu, pelo menos, n�o consegui.</p><p>
�</p><p>
Deve ser dif�cil, de fato. E provavelmente � por isso que voc� tende a ser um pouco dura com pessoas que falam coisas que parecem absurdas.</p><p>
�</p><p>
Pois � � concordou Tricia. � Acho que voc� tem raz�o. Desculpe.</p><p>
�</p><p>
Tudo bem.</p><p>
�</p><p>
Voc� � a primeira pessoa para quem conto isso, por sinal.</p><p>
�</p><p>
Imagino. Voc� � casada?</p><p>
�</p><p>
Ah, n�o. Dif�cil saber se algu�m � casado nos nossos dias, n�o? Mas sua pergunta  faz  sentido,  porque  provavelmente   foi   essa   a   causa.   Cheguei   bem   perto algumas  vezes,  sobretudo  porque  queria  ter  um  filho.  Mas  todos  os  caras  sempre acabavam perguntando por que eu ficava olhando constantemente por sobre os ombros deles. O que eu ia dizer? Cheguei a pensar em ir at� um banco de esperma e tentar a sorte. Ter o filho de algu�m, aleatoriamente.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o faria isso de fato, faria?</p><p>
Tricia riu.</p><p>
�  Provavelmente,  n�o.  Nunca  cheguei  a  ir  para  ver  como  seria.  Nunca consegui. Minha vida � sempre assim. Nunca cheguei a fazer algo de verdade. Suponho que seja por isso que estou trabalhando na televis�o, sabe? Nada � real.</p><p>
�</p><p>
Com licen�a, senhora, o seu nome � Tricia McMillan?</p><p>
Tricia  virou-se,  surpresa.  Havia  um  homem  parado  diante  dela  usando  um chap�u de chofer.</p><p>
�</p><p>
� � disse ela, aprumando-se instantaneamente.</p><p>
�</p><p>
Senhora, estou h� uma hora procurando-a. O hotel disse que n�o tinha ningu�m  com  esse  nome,  mas  eu  confirmei  com  o  escrit�rio  do  Sr.  Martin  e  eles afirmaram que a senhora realmente estava hospedada aqui. Ent�o perguntei novamente e eles continuaram dizendo que nunca tinham ouvido falar na senhora. Depois consegui que  fossem  procur�-la,  mas  n�o  conseguiram  encontr�-la.  Acabei  pedindo  para  o escrit�rio  enviar  um  fax  com  uma  foto  sua  para  o  carro  e  sa�  procurando-a pessoalmente.</p><p>
Ele deu uma olhadela no rel�gio.</p><p>
�</p><p>
Talvez seja tarde demais agora, mas a senhora quer ir assim mesmo?</p><p>
Tricia estava em estado de choque.</p><p>
�</p><p>
Sr. Martin? Voc� diz, Andy Martin, da NBS?</p><p>
�</p><p>
Isso mesmo, senhora. Teste de v�deo para o programa Bom Dia Estados Unidos.</p><p>
Tricia levantou-se de supet�o. N�o podia nem pensar em todos aqueles recados que havia escutado para o Sr. MacManus e o Sr. Miller.</p><p>
�</p><p>
Mas temos que correr � disse o chofer. � Pelo que ouvi, o Sr. Martin acha  que  vale  a  pena  testar  um  sotaque  brit�nico.   O   chefe   dele   na   emissora,   o   Sr. Zwingler, � completamente contra a id�ia. Eu sei que ele vai viajar hoje no final do dia, porque sou eu quem deve busc�-lo e lev�-lo ao aeroporto.</p><p>
�</p><p>
O.k. � disse Tricia. � Estou pronta. Vamos l�.</p><p>
�</p><p>
Est� bem, senhora. � a limusine grandona estacionada aqui na porta. Tricia virou-se para Gail.</p><p>
�</p><p>
Sinto muito � disse ela.</p><p>
�</p><p>
Vai, vai! � disse Gail. � E boa sorte, hein? Gostei de conversar com voc�.</p><p>
Tricia fez men��o de apanhar a bolsa para pegar um dinheiro.</p><p>
�</p><p>
Droga � disse ela. Deixara a bolsa l� em cima.</p><p>
�</p><p>
Os drinques s�o por minha conta � insistiu Gail. � S�rio. Foi muito interessante.</p><p>
Tricia deixou escapar um suspiro.</p><p>
�</p><p>
Olha, sinto muito por hoje de manh� e...</p><p>
�</p><p>
N�o diga mais nada. Estou bem. � s� astrologia. � inofensivo. N�o � o fim do mundo.</p><p>
�</p><p>
Obrigada. �Tricia abra�ou�a, impulsivamente.</p><p>
�</p><p>
Est� pronta, senhora? � perguntou o chofer. � N�o quer ir buscar a bolsa ou algo assim?</p><p>
�</p><p>
Olha, se tem uma coisa que a vida me ensinou � disse Tricia � � jamais voltar para buscar a bolsa.</p><p>
Mais ou menos uma hora depois, Tricia estava sentada em uma das camas do seu quarto de hotel. Por alguns minutos, n�o se moveu. Apenas ficou encarando a sua bolsa, que repousava inocentemente em cima da outra cama.</p><p>
Estava segurando um bilhete de Gail Andrews, que dizia: "N�o fique muito decepcionada.  Ligue,  se  quiser  falar  a  respeito.  Se  eu  fosse  voc�,  ficaria  em  casa amanh� � noite. Descanse um pouco. Mas n�o me d� ouvidos e n�o se preocupe. � s�</p><p>
astrologia. N�o � o fim do mundo. Gail."</p><p>
O chofer estava coberto de raz�o. Para falar a verdade, o chofer parecia saber mais  sobre  os  bastidores da  NBS do que  qualquer  outra  pessoa da  empresa  que  ela conhecera. Martin estava a fim, mas Zwingler, n�o. Tivera uma �nica oportunidade de provar que Martin tinha raz�o e estragara tudo.</p><p>
Tudo bem. Tudo bem, tudo bem, tudo bem.</p><p>
Hora de voltar para casa. Hora de ligar para a companhia a�rea e ver se ainda dava  tempo  de  pegar  o  v�o  noturno  para  Heathrow  naquela  noite.  Pegou  o  enorme cat�logo.</p><p>
Ah. Precisava fazer uma coisa antes.</p><p>
Largou o cat�logo, apanhou a bolsa e a levou ao toalete. Apoiando-a, catou o pequeno estojo de pl�stico onde guardava suas lentes de contato, sem as quais n�o havia conseguido ler nem o texto nem o teleprompter.</p><p>
Enquanto encaixava as lentes nos olhos, refletiu sobre uma coisa: se havia algo que a vida lhe ensinara, era que existem momentos em que voc� n�o deve voltar para apanhar a bolsa e outros momentos em que deve. Agora s� faltava a vida lhe ensinar a distinguir entre os dois.</p><p><strong>CAP�TULO 3</strong></p><p>
O Guia do Mochileiro das Gal�xias teve, no que n�s chamamos ridiculamente de passado, muito que dizer sobre universos paralelos. No entanto, a maior parte desse conte�do � incompreens�vel para qualquer um abaixo do n�vel Deus Avan�ado e, como j� havia sido determinado que todos os deuses conhecidos tinham surgido uns bons tr�s milion�simos de segundo ap�s o in�cio do universo e n�o, como costumam dizer por a�, uma semana antes, eles j� t�m muita coisa para explicar s� por causa disso e n�o est�o dispon�veis para tecer coment�rios sobre temas profundos de f�sica.</p><p>
Uma coisa encorajadora que o Guia tem a dizer sobre os universos paralelos �</p><p>
que voc� n�o tem a menor chance de compreend�-los. Voc� pode, portanto, dizer coisas como "O qu�?" e "Hein?" e at� mesmo ficar vesgo e fazer papel de tolo sem ter medo de parecer rid�culo.</p><p>
A primeira coisa que devemos saber sobre os universos paralelos, explica o Guia, � que eles n�o s�o paralelos.</p><p>
Tamb�m � importante saber que eles n�o s�o, estritamente falando, universos, mas fica mais f�cil tentar compreender isso um pouco depois, ap�s compreender que tudo o que voc� havia compreendido at� ent�o n�o � verdade.</p><p>
O motivo pelo qual n�o s�o universos � que qualquer universo em particular n�o chega exatamente a ser uma coisa, mas sim uma maneira de compreender o que �</p><p>
tecnicamente conhecido como MGTC, Mistureba Generalizada de Todas as Coisas. A Mistureba Generalizada de Todas as Coisas tamb�m n�o existe na pr�tica � � apenas a soma  total  de  todas  as  maneiras  diferentes  que  haveria  para  compreend�-la,  caso existisse uma.</p><p>
O  motivo  pelo  qual  n�o  s�o  paralelos   �   o   mesmo   pelo   qual   o   mar   n�o   �</p><p>
paralelo. N�o significa nada. Voc� pode fatiar a Mistureba Generalizada de Todas as Coisas do jeito que quiser e geralmente vai acabar com algo que algu�m vai chamar de lar.</p><p>
Por favor, sinta-se � vontade para enlouquecer agora.</p><p>
A Terra que nos interessa aqui, devido � sua orienta��o particular dentro da Mistureba  Generalizada  de  Todas  as  Coisas,  foi  atingida  por  um  neutrino  que  n�o atingiu nenhuma das outras Terras.</p><p>
Um neutrino n�o � algo grande com que se possa ser atingido. Para falar a verdade, � dif�cil imaginar algo menor pelo qual algu�m poderia ser atingido. E ser atingido por neutrinos nem chega a ser uma coisa assim t�o rara para algo do tamanho da Terra. Pelo contr�rio. Seria um nanossegundo bem fora do comum aquele em que a Terra n�o fosse atingida por in�meros bilh�es deles. Tudo  depende  do  que  voc�  entende  por  "ser  atingido",  �  claro,  j�  que  na verdade a mat�ria consiste quase que inteiramente em absolutamente nada. As chances de um neutrino atingir de fato alguma coisa enquanto viaja por esse imenso vazio s�o compar�veis �s de jogar aleatoriamente uma bolinha de metal de um Boeing 747 em pleno v�o e acertar, digamos, um sandu�che de ovo.</p><p>
Enfim, esse neutrino atingiu algo. Isso n�o � terrivelmente importante na escala das coisas, voc� diria. Mas o problema em dizer coisas desse tipo � que pode ter tanto sentido quanto uma cusparada de texugo vesgo. Quando algo acontece em algum lugar em uma coisa t�o complicada como o Universo, Kevin sabe muito bem onde tudo isso vai parar � leia-se como "Kevin" qualquer entidade aleat�ria que n�o sabe nada de nada.</p><p>
Esse neutrino atingiu um �tomo.</p><p>
O  �tomo  fazia  parte  de  uma  mol�cula.  A  mol�cula  era  parte  de  um  �cido nucl�ico. O �cido nucl�ico fazia parte de um gene. O gene fazia parte de uma receita gen�tica para crescer... e por a� vai. O resultado final � que uma folha extra acabou crescendo  em  uma  planta.  Em  Essex.  Ou  naquilo  que,  depois  de  muita  tagarelice  e dificuldades locais de natureza geol�gica, viria a ser Essex. A  planta  em  quest�o  era  um  trevo.  Ela  espalhou  sua  influ�ncia,  melhor dizendo, suas sementes, de maneira extremamente eficaz, tornando�se rapidamente o tipo de trevo dominante em todo o mundo. A conex�o causai exata entre esse simples acontecimento biol�gico fortuito e algumas varia��es menores que existem na mesma fatia da Mistureba Generalizada de Todas as Coisas � tais como Tricia McMillan ter perdido  a  oportunidade  de  partir  com  Zaphod  Beeblebrox,  uma  queda  anormal  nas vendas de sorvete de nozes e o fato de a Terra na qual tudo isso se passou n�o ter sido demolida pelos vogons para a constru��o de uma via expressa hiperespacial �ocupa atualmente o n�mero 4.763.984.132 na lista de prioridades para projetos de pesquisa do que  um  dia  j�  foi  o  Departamento  de  Hist�ria  da  Universidade  de  Maximegalon,  e nenhuma das pessoas que est�o neste exato momento reunidas em um retiro espiritual em  volta  de  uma  piscina  parece  experimentar  qualquer  sentimento  de  urg�ncia  em rela��o ao problema.</p><p><strong> CAP�TULO 4</strong></p><p>
Tricia come�ou a achar que o mundo estava conspirando contra ela. Sabia que era perfeitamente normal sentir-se assim ap�s um v�o noturno indo para o leste, quando voc� subitamente nota que ter� que enfrentar um novo dia misteriosamente amea�ador para o qual n�o est� nem um pouco preparado.</p><p>
Havia marcas no seu gramado.</p><p>
N�o  que  ligasse  muito  para  as  marcas.  Elas  podiam  pintar  e  bordar  se quisessem que Tricia n�o estava nem a�. Era uma manh� de s�bado. Acabara de chegar de Nova York sentindo-se cansada, irritada e paran�ica, e tudo o que queria era ir para a cama  com  o  r�dio  ligado  baixinho  e  dormir  ao  som  de  Ned  Sherrin  mostrando-se incrivelmente inteligente sobre qualquer assunto.</p><p>
Mas  Eric  Bartlett  n�o  ia  permitir  que  ela  passasse  direto  sem  inspecionar minuciosamente as marcas. Eric era o velho jardineiro que nas manh�s de s�bado ia cutucar o jardim com uma vara. Ele n�o acreditava em pessoas voltando de Nova York t�o cedo pela manh�. Simplesmente n�o engolia aquilo. Era antinatural. Acreditava em praticamente tudo, menos naquilo.</p><p>
�</p><p>
Provavelmente  foram  os  alien�genas  �  disse  ele,  debru�ando-se  e futucando as bordas das pequenas marcas com a vara. � A gente ouve muitas hist�rias de ETs hoje em dia. Para mim, foram eles.</p><p>
�</p><p>
Voc� acha? � perguntou Tricia, lan�ando uma olhadela furtiva para o seu rel�gio. Dez minutos, computou. Era o m�ximo que conseguiria ficar em p�: dez minutos. Depois cairia de joelhos e se deitaria, fosse na sua cama ou ali mesmo no jardim. Isso se tivesse apenas que ficar de p�. Se ainda tivesse que balan�ar a cabe�a demonstrando  interesse  e  compreens�o  e  dizendo  "Voc�  acha?"  de  vez  em  quando, talvez s� ag�entasse cinco minutos.</p><p>
�</p><p>
Ah, acho � respondeu Eric. � Eles costumam baixar por essas bandas, aterrissam  no  seu  jardim  e  depois  se  mandam,  �s  vezes  levando  um  gato.  A  Sra. Williams, do correio, sabe aquele gato caramelo dela? Foi abduzido pelos alien�genas, coitado. Tudo  bem que o trouxeram de volta no dia seguinte, mas  ele estava muito esquisito. Ficava ca�ando a manh� inteira e depois dormia � tarde. Antes era o contr�rio, aqui � que est�. Dormia de manh�, ca�ava de tarde. Foi o fuso hor�rio, por ter viajado em uma nave espacial.</p><p>
�</p><p>
Sei � disse Tricia.</p><p>
�</p><p>
E eles tamb�m o tingiram para ficar malhado, ela me disse. Essas marcas aqui s�o iguaizinhas �s que as c�psulas de aterrissagem deles fariam.</p><p>
�</p><p>
N�o pode ter sido o cortador de grama? � perguntou Tricia.</p><p>
�</p><p>
Se as marcas fossem mais redondas, at� podia. Mas s�o retas. T�m um jeit�o de coisa de alien�gena.</p><p>
�</p><p>
� porque voc� tinha comentado que o cortador estava dando defeito e que, se n�o fosse consertado, poderia acabar fazendo buracos na grama.</p><p>
�</p><p>
Eu realmente disse isso, dona Tricia, eu assumo. N�o estou dizendo que n�o foi o cortador de grama, s� estou dizendo o que acho mais prov�vel pelo formato dos buracos. Eles descem por tr�s daquelas �rvores, nas c�psulas de aterrissagem...</p><p>
�</p><p>
Eric... � interrompeu Tricia, paciente.</p><p>
�</p><p>
De qualquer jeito, dona Tricia � disse Eric �, vou dar uma olhada no cortador, como queria ter feito na semana passada, e deixar a senhora ir fazer as suas coisas.</p><p>
�</p><p>
Obrigada,  Eric  �  disse  Tricia.  �Vou  me  deitar  agora,  para  falar  a verdade. Fique � vontade para apanhar o que quiser na cozinha, est� bem?</p><p>
�</p><p>
Obrigado,  dona  Tricia,  e  boa  sorte  �  disse  Eric.  Ele  inclinou-se  e apanhou alguma coisa no gramado.</p><p>
�</p><p>
Aqui est� � disse ele. � Um trevo de tr�s folhas. D� sorte, sabe. Examinou de perto para verificar se era mesmo um trevo de tr�s folhas, e n�o um comum de quatro folhas que tivesse perdido um peda�o.</p><p>
�</p><p>
Se eu fosse a senhora, em todo caso, ficaria atento aos sinais de atividade alien�gena por aqui. � Ele vasculhou o horizonte atenta mente. � Especialmente por aquelas bandas l� de Henley.</p><p>
 � Obrigada, Eric � repetiu Tricia. � Pode deixar.</p><p>
Foi para a cama e teve sonhos intermitentes com papagaios e outros p�ssaros. � tarde levantou-se e zanzou pela casa, inquieta, sem saber direito o que fazer com o resto do dia e com o resto da vida. Passou pelo menos uma hora indecisa, sem saber se valia a pena ir para a cidade e dar um pulo no Stavro's. L� era o lugar da moda para pessoas bem�sucedidas da m�dia. Talvez encontrar alguns amigos pudesse ajud�-la a entrar no ritmo das coisas. Finalmente decidiu que iria. Seria uma boa. Era um lugar divertido. Gostava muito do pr�prio Stavro, um grego com pai alem�o, o que era uma combina��o um tanto quanto esquisita. Tricia estivera no Alpha algumas noites antes. O</p><p>
Alpha fora a primeira casa noturna de Stavro em Nova York e, atualmente, era dirigida pelo seu irm�o  Karl, que se  achava  um alem�o  com uma  m�e  grega.  Stavro ficaria contente em saber que Karl estava metendo os p�s pelas m�os na ger�ncia da casa em Nova York, ent�o Tricia iria at� o Stavro's e o deixaria contente. Afinal de contas, os dois irm�os n�o se davam muito bem mesmo.</p><p>
O.k. Era isso o que ela ia fazer.</p><p>
Passou ent�o mais uma hora indecisa, tentando definir a roupa que iria vestir. Finalmente escolheu um pretinho b�sico elegante que comprara em Nova York. Ligou para um amigo para sondar quem estaria no Stavro's naquela noite e ficou sabendo que a casa estava fechada para uma festa de casamento.</p><p>
Concluiu  que  tentar  viver  seguindo qualquer  tipo de  plano que  pudesse  ser arquitetado com anteced�ncia era como tentar comprar ingredientes para uma receita no supermercado.  Voc�  pega  um  daqueles  carrinhos  que  simplesmente  n�o  andam  na dire��o que voc� quer e acaba comprando coisas completamente diferentes. O que fazer com tudo aquilo? O que fazer com a receita? Ela n�o tinha id�ia. De qualquer maneira, uma nave espacial pousou no seu gramado naquela noite.</p><p><strong>CAP�TULO 5</strong></p><p>
Observou-a enquanto se aproximava, vinda l� das bandas de Henley, no in�cio com  uma  leve  curiosidade,  imaginando  o  que  seriam  aquelas  luzes.  Quem  morava, como ela, a menos de um milh�o de quil�metros de Heathrow estava acostumado a ver luzes no c�u. Mas n�o t�o tarde da noite nem t�o baixas, por isso a leve curiosidade. Quando o objeto, fosse l� o que fosse, come�ou a ficar mais e mais pr�ximo, a sua curiosidade transformou-se em perplexidade.</p><p>
"Humm",  pensou  ela,  sendo  aquilo  o  m�ximo  que  conseguia  pensar.  Ainda estava grogue e indisposta por causa do fuso hor�rio, e as mensagens que uma parte do seu c�rebro enviava para a outra n�o estavam necessariamente chegando a tempo ou fazendo sentido. Saiu da cozinha, onde estava preparando um caf�, e foi abrir a porta dos fundos, que dava para o jardim. Respirou profundamente o ar fresco da noite, saiu de casa e olhou para o c�u.</p><p>
Havia  algo  do  tamanho  aproximado  de  um  �nibus  estacionado  h�  cerca  de trinta metros acima do seu gramado.</p><p>
Estava realmente l�. Parado. Praticamente em sil�ncio.</p><p>
Algo se moveu no fundo da alma de Tricia.</p><p>
Abaixou os bra�os devagar. N�o percebeu que derrubou o caf� pelando no seu p�. Mal conseguia respirar enquanto, bem devagarzinho, cent�metro por cent�metro, a nave conclu�a a aterrissagem. As luzes vasculhavam delicadamente o gramado, como se estivessem sondando, sentindo o terreno. Ent�o viraram-se para ela. Parecia imposs�vel que ela pudesse estar sendo agraciada com uma segunda chance. Ser� que ele a encontrara? Ser� que tinha voltado?</p><p>
A nave continuou a descer aos poucos at� finalmente pousar silenciosamente no seu jardim. N�o era exatamente parecida com a que ela vira partir anos atr�s, pensou, mas luzes piscando no c�u � noite n�o s�o muito f�ceis de se distinguir. Sil�ncio.</p><p>
Depois um click e um hum.</p><p>
Depois outro click e outro hum. Click hum, click hum.</p><p>
Uma portinhola se abriu, derramando luz pelo jardim na dire��o dela. Tricia aguardou, fervilhando.</p><p>
Uma silhueta surgiu contra a luz, depois outra e mais outra. Olhos  arregalados  piscavam  vagarosamente  para  ela.  E,  vagarosamente, levantaram as m�os para saud�-la.</p><p>
�</p><p>
McMillan?  �  perguntou  finalmente  uma  voz  estranha  e  fininha  que pronunciou as s�labas com dificuldade. � Tricia McMillan. Srta. Tricia McMillan?</p><p>
�</p><p>
Sim � respondeu Tricia, quase af�nica.</p><p>
�</p><p>
Temos monitorado voc�.</p><p>
�</p><p>
M... monitorado? A mim?</p><p>
�</p><p>
Sim.</p><p>
Olharam para ela por alguns instantes, mexendo os seus imensos olhos para cima e para baixo devagar.</p><p>
�</p><p>
Voc� parece mais baixa na vida real � comentou um deles finalmente.</p><p>
�</p><p>
O qu�? � perguntou Tricia.</p><p>
�</p><p>
�.</p><p>
�</p><p>
Eu... eu n�o estou entendendo � disse Tricia. Obviamente n�o esperava uma coisa daquelas, mas, mesmo para uma coisa que ela jamais havia esperado, aquilo n�o estava indo da maneira que ela esperava. Por fim, continuou: � Voc�s s�o... voc�s vieram de... Zaphod?</p><p>
A  pergunta  pareceu  causar  uma  certa  consterna��o  nas  tr�s  figuras. Confabularam entre eles em uma l�ngua esgani�ada e voltaram-se para ela.</p><p>
�</p><p>
Achamos que n�o. At� onde sabemos, n�o � disse um deles. � Onde fica Zaphod? � perguntou o outro, olhando para o c�u.</p><p>
�</p><p>
Eu... eu n�o sei � respondeu Tricia, sem gra�a.</p><p>
�</p><p>
� muito longe daqui? Em qual dire��o? N�o sabemos.</p><p>
Tricia constatou, com um aperto no peito, que eles n�o faziam a menor id�ia de quem ou do que ela estava falando. E ela n�o fazia a menor id�ia do que eles estavam dizendo. Colocou as esperan�as no saco novamente e esfor�ou-se para dar partida no seu c�rebro. N�o fazia sentido ficar decepcionada. Tinha de perceber que estava com o furo de reportagem do s�culo nas suas m�os. O que fazer? Voltar para dentro de casa e pegar uma c�mera de v�deo? Estava absolutamente confusa em rela��o � estrat�gia que deveria adotar. Mantenha�os falando, pensou ela. Resolva o resto depois.</p><p>
�</p><p>
Voc�s estavam me monitorando?</p><p>
�</p><p>
Todos  voc�s.  Tudo  no  seu  planeta.  TV.  R�dio.  Telecomunica��es. Computadores. Circuitos de v�deo. Armaz�ns.</p><p>
�</p><p>
O qu�?</p><p>
�</p><p>
Estacionamentos. Tudo. Monitoramos tudo. Tricia olhava fixamente para eles.</p><p>
�</p><p>
Isso deve ser muito chato, hein?</p><p>
�</p><p>
�.</p><p>
�</p><p>
Ent�o por que...</p><p>
�</p><p>
Exceto...</p><p>
�</p><p>
Ahn? Exceto o qu�?</p><p>
�</p><p>
Os programas de audit�rio. Gostamos dos programas de audit�rio. Um sil�ncio assustadoramente longo instalou-se enquanto Tricia olhava para os alien�genas e eles olhavam de volta.</p><p>
�</p><p>
S�  tem  uma  coisinha  que  eu  queria  buscar  l�  dentro  �  disse  Tricia, calmamente. � Melhor ainda. Ser� que voc�s, ou um de voc�s, gostariam de entrar comigo e dar uma olhada?</p><p>
�</p><p>
Pois n�o! � responderam todos eles, entusiasmados.</p><p>
Os  tr�s  ficaram  desconfortavelmente  parados  na  sala  de  estar,  enquanto  ela corria para l� e para c�, apanhando uma c�mera de v�deo, uma c�mera fotogr�fica, um gravador e qualquer outro aparelho de grava��o que pudesse encontrar. Eles eram bem magros e, sob as condi��es de ilumina��o dom�stica, meio verde-arroxeados.</p><p>
�Vai ser r�pido, rapazes � disse Tricia, enquanto vasculhava as gavetas atr�s de fitas e filmes.</p><p>
 Os alien�genas estavam examinando as prateleiras onde ficavam os seus CDs e antigos LPs. Um deles cutucou discretamente os outros.</p><p>
�</p><p>
Olha s� � disse ele. � Elvis.</p><p>
Tricia estacou e tornou a olhar para eles.</p><p>
�</p><p>
Voc�s curtem Elvis?</p><p>
�</p><p>
Claro � disseram eles.</p><p>
�</p><p>
Elvis Presley?</p><p>
�</p><p>
Isso mesmo.</p><p>
Ela sacudiu a cabe�a, at�nita, enquanto tentava enfiar uma fita nova na c�mera de v�deo.</p><p>
�</p><p>
Tem gente  aqui no  seu planeta  � disse  um dos  visitantes, um pouco hesitante � que acha que Elvis foi seq�estrado por alien�genas.</p><p>
�</p><p>
O qu�? � perguntou Tricia. � E isso � verdade?</p><p>
�</p><p>
� poss�vel.</p><p>
�</p><p>
Voc�s  est�o  me  dizendo  que  seq�estraram  Elvis?  �  sussurrou  Tricia. Estava tentando manter a calma para n�o fazer confus�o com seu equipamento, mas aquilo era demais para ela.</p><p>
�</p><p>
N�o. N�s, n�o � responderam os seus convidados. � Alien�genas. �</p><p>
uma possibilidade deveras interessante. Costumamos conversar a respeito. Preciso gravar isso, resmungou Tricia para si mesma. Verificou se a c�mera estava ligada e funcionando. Virou para eles, sem apontar para os olhos deles, para n�o assust�-los. Mas era experiente o bastante para film�-los direitinho com a c�mera na altura do quadril.</p><p>
�</p><p>
Est� bem � disse ela. � Agora me contem com calma, bem devagar, quem s�o voc�s. Come�ando por voc� � disse para o que estava mais � esquerda. �</p><p>
Qual � o seu nome?</p><p>
�</p><p>
E  u n</p><p>
  �o sei.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o sabe. �N�o.</p><p>
�</p><p>
Sei � disse Tricia. � E voc�s dois?</p><p>
�</p><p>
Tamb�m n�o sabemos.</p><p>
�</p><p>
Est� bem. Vamos l�. Talvez possam me dizer de onde v�m? Balan�aram a cabe�a.</p><p>
�</p><p>
Voc�s n�o sabem de onde v�m? Balan�aram a cabe�a novamente.</p><p>
 �</p><p>
Sei � repetiu Tricia. � Mas o que voc�s... hum...</p><p>
Estava  enrolando,  mas,  sendo  uma  profissional,  conseguia  manter  a  c�mera im�vel enquanto enrolava.</p><p>
�</p><p>
Estamos em uma miss�o � disse um dos alien�genas.</p><p>
�</p><p>
Uma miss�o? Para fazer o qu�?</p><p>
�</p><p>
N�o sabemos.</p><p>
Continuou mantendo a c�mera im�vel.</p><p>
�</p><p>
Ent�o, o que est�o fazendo aqui na Terra?</p><p>
�</p><p>
Viemos busc�-la.</p><p>
Im�vel, fixamente im�vel. Para todos os fins pr�ticos, poderia ser um trip�. Perguntou-se se deveria estar usando um trip�, por sinal. Teve tempo para confabular consigo mesma por alguns segundos, pois ainda estava digerindo o que eles haviam acabado  de  dizer.  N�o,  pensou  ela,  a  c�mera  na  m�o  lhe  dava  mais  flexibilidade. Tamb�m pensou: socorro, o que vou fazer agora?</p><p>
�</p><p>
Por que � perguntou ela, calmamente � voc�s vieram me buscar?</p><p>
�</p><p>
Porque perdemos nossas mentes.</p><p>
�</p><p>
Com licen�a � disse Tricia �, tenho que pegar um trip�. Pareceram satisfeitos por ficarem parados na sala, sem nada para fazer, enquanto Tricia apanhava rapidamente um trip� e apoiava a c�mera sobre ele. O seu rosto estava completamente im�vel, mas ela n�o fazia a menor id�ia do que estava acontecendo e do que pensar a respeito.</p><p>
�</p><p>
O.k. � disse ela, quando estava tudo pronto. � Por que...</p><p>
�</p><p>
Gostamos da sua entrevista com a astr�loga.</p><p>
�</p><p>
Voc�s viram?</p><p>
�</p><p>
Assistimos  a  tudo.  Nos  interessamos  muito  por  astrologia.  Gostamos bastante. � muito interessante. Nem tudo � interessante. Astrologia � interessante. O que os astros nos dizem, o que os astros prev�em. Informa��es assim s�o bastante �teis.</p><p>
�</p><p>
Mas...</p><p>
Tricia n�o sabia nem por onde come�ar.</p><p>
Desista, pensou ela. N�o faz sentido tentar bolar nenhuma estrat�gia. Ent�o, ela disse:</p><p>
�</p><p>
Mas eu n�o sei nada sobre astrologia.</p><p>
 �</p><p>
Mas n�s sabemos.</p><p>
�</p><p>
Voc�s sabem?</p><p>
�</p><p>
Sim. Acompanhamos  os nossos hor�scopos. Avidamente. Consultamos todos  os  seus  jornais  e  revistas,  ardorosamente.  Mas  nosso  l�der  diz  que  temos  um problema.</p><p>
�</p><p>
Voc�s t�m um l�der7.</p><p>
�</p><p>
Temos.</p><p>
�</p><p>
Qual o nome dele?</p><p>
�</p><p>
N�o sabemos.</p><p>
�</p><p>
Qual o nome que ele se d�, caramba? Desculpem, vou precisar editar essa parte. Qual o nome que ele se d�?</p><p>
�</p><p>
Ele tamb�m n�o sabe.</p><p>
�</p><p>
Ent�o como � que voc�s sabem que ele � o l�der?</p><p>
�</p><p>
Ele assumiu o poder. Disse que algu�m tem que fazer alguma coisa por l�.</p><p>
�</p><p>
Ah! � disse Tricia, captando uma pista. � Onde � "l�"?</p><p>
�</p><p>
Rupert.</p><p>
�</p><p>
O qu�?</p><p>
�</p><p>
Voc�s chamam de Rupert. O d�cimo planeta do sol de voc�s. Fixamos resid�ncia  l�  h�  v�rios  anos.  �  muito  frio  e  desinteressante.  Mas  �  bom  para monitorarmos voc�s.</p><p>
�</p><p>
Por que est�o nos monitorando?</p><p>
�</p><p>
� s� o que sabemos fazer.</p><p>
�</p><p>
Est� bem � disse Tricia. � Beleza. Qual � esse problema que seu l�der diz que voc�s t�m?</p><p>
�</p><p>
Triangula��o.</p><p>
�</p><p>
Como � que �?</p><p>
�</p><p>
A astrologia � uma ci�ncia muito precisa. Sabemos disso.</p><p>
�</p><p>
Bem... � come�ou Tricia e deixou pra l�.</p><p>
�</p><p>
Mas � precisa para voc�s aqui na Terra.</p><p>
�</p><p>
S...i...m...  �  Estava  com  a  terr�vel  impress�o  de  estar  captando vagamente o que eles queriam dizer.</p><p>
�</p><p>
Quando V�nus est� em Capric�rnio, por exemplo, isso acontece do ponto de vista da Terra. Como � que funciona se estivermos em Rupert? E se a Terra estiver entrando em Capric�rnio?  Fica complicado  saber. Entre  as in�meras  e  significativas coisas que esquecemos est� a trigonometria.</p><p>
�</p><p>
Deixa eu ver se entendi � disse Tricia. � Voc�s querem que eu v� com voc�s para... Rupert...</p><p>
�</p><p>
Sim.</p><p>
�</p><p>
Recalcular os seus hor�scopos para poderem levar em conta as posi��es relativas da Terra e de Rupert?</p><p>
�</p><p>
Sim.</p><p>
�</p><p>
Voc�s me garantem uma exclusiva?</p><p>
�</p><p>
Sim.</p><p>
�</p><p>
Ent�o est� fechado � disse Tricia, pensando que poderia, no m�nimo, vender a sua mat�ria para o National Enquirer ou para alguma outra revista doida. Enquanto embarcava na nave que a levaria para os limites mais long�nquos do sistema solar, a primeira coisa na qual bateu os olhos foi uma bancada com monitores de  v�deo,  nos  quais  passavam  milhares  de  imagens.  Um  quarto  alien�gena  estava sentado assistindo a tudo, mas parecia particularmente interessado em uma determinada tela que exibia uma imagem fixa. Era um replay da entrevista improvisada que Tricia acabara  de  conduzir  com  seus  tr�s  colegas.  Ele  levantou  os  olhos  quando  a  viu embarcar, apreensiva, na nave.</p><p>
�</p><p>
Boa noite, Srta. McMillan � disse ele. � Fez um bom trabalho com a c�mera.</p><p><strong>CAP�TULO 6</strong></p><p>
Ford Prefect atingiu o solo rapidamente. O ch�o ficava uns sete cent�metros mais longe do tubo de ventila��o do que ele se lembrava, ent�o calculou mal em que ponto iria cair, come�ou a correr antes do tempo, trope�ou desajeitadamente e torceu o tornozelo. Droga! Saiu correndo assim mesmo, mancando um pouco. Em todo o edif�cio, alarmes estavam disparando seu t�pico frenesi de excita��o. Tentando  se  esconder,  Ford  agachou-se  atr�s  dos  t�picos  arm�rios  de  almoxarifado, olhou � sua volta para se certificar de que estava bem escondido e come�ou a pescar dentro da mochila as coisas de que tipicamente precisava.</p><p>
O seu tornozelo, atipicamente, estava doendo infernalmente.</p><p>
O ch�o n�o s� ficava uns sete cent�metros mais distante do tubo de ventila��o do que ele se lembrava como tamb�m ficava em um planeta diferente do que ele se lembrava, mas foram os tais sete cent�metros que o deixaram intrigado. Os escrit�rios do Guia do Mochileiro das Gal�xias eram freq�entemente realocados, sem aviso pr�vio, para outro planeta � por causa do clima local, da hostilidade local, das contas de luz ou dos impostos  �, mas  costumavam ser reconstru�dos exatamente  da mesma  maneira, com uma precis�o molecular. Para uma grande parte dos funcion�rios da empresa, o layout dos seus escrit�rios representava a �nica constante que eles conheciam em um universo pessoal severamente distorcido.</p><p>
Havia, no entanto, algo de estranho.</p><p>
Aquilo n�o era por si s� surpreendente, pensou Ford, apanhando a sua toalha de arremesso peso-pena. Praticamente tudo na sua vida era, em menor ou maior escala, estranho. O problema � que aquilo era estranho de uma maneira um pouquinho diferente da que ele estava acostumado, o que era no m�nimo esquisito. N�o conseguiu focar na quest�o muito claramente.</p><p>
Sacou a sua ferramenta de extra��o bitola 3.</p><p>
Os  alarmes  estavam  disparando  do  mesmo  jeito  que  ele  conhecia  t�o  bem. Havia uma  esp�cie de melodia neles que quase se podia cantarolar. Aquilo tudo era bastante familiar. O mundo  do lado de fora era novo para Ford. Nunca estivera em Saquo-Pilia  Hensha  antes  e  gostara  do  que  vira.  Tinha  uma  atmosfera  meio carnavalesca.</p><p>
Apanhou da mochila um arco-e-flecha de brinquedo que havia comprado em um camel�.</p><p>
Descobrira que o motivo para a atmosfera carnavalesca em Saquo-Pilia Hensha era  a  comemora��o  da  Concep��o  de  S�o  Antwelm,  celebrada  anualmente  pelos habitantes locais. S�o Antwelm havia sido, em vida, um rei magn�fico e muito popular, que chegara a uma conclus�o igualmente magn�fica e popular. Havia concebido que, de maneira  geral,  todos  queriam  ser  felizes,  se  divertir  e  aproveitar  ao  m�ximo  a companhia  uns  dos  outros.  Na ocasi�o de sua  morte,  doara  toda  a  sua  fortuna  para financiar um festival anual que servisse de lembrete de sua descoberta, com fartura de comidas deliciosas, muita dan�a e brincadeiras bobas como a Ca�a ao Wocket. A sua Concep��o fora t�o extraordin�ria que ele virou santo por causa dela. Mais do que isso: todas  as  pessoas  que  haviam  sido  canonizadas  por  terem  feito  coisas  como  serem apedrejadas at� a morte de maneira absolutamente penosa ou viverem de cabe�a para baixo em barris de esterco foram instantaneamente rebaixadas e passaram a ser vistas como figuras um tanto embara�osas.</p><p>
O familiar pr�dio em forma de H dos escrit�rios do Guia erguia�se acima dos arredores da cidade, e Ford Prefect o invadira, como sempre costumava fazer. Sempre entrava pelo sistema de ventila��o e n�o pelo lobby principal, porque o lobby principal era patrulhado por rob�s cuja tarefa era questionar os funcion�rios do Guia sobre os seus  gastos  reembols�veis.  Os  gastos  reembols�veis  de  Ford  eram  notoriamente complexos e intrincados, e ele chegara � conclus�o de que, em geral, os rob�s do lobby n�o  estavam  suficientemente  equipados  para  compreender  os  argumentos  que  ele gostaria  de  apresentar  sobre  seus  gastos.  Preferia,  portanto,  entrar  por  um  caminho alternativo.</p><p>
Isso significava disparar praticamente todos os alarmes do pr�dio, menos o do departamento de contabilidade, e era exatamente isso que Ford queria. Acocorou-se atr�s do arm�rio, umedeceu com a l�ngua a ventosa de borracha e depois encaixou a flecha de brinquedo na corda do arco.</p><p>
Aproximadamente trinta segundos depois, um rob� de seguran�a do tamanho de  um  mel�o  pequeno  veio  voando  pelo  corredor,  a  cerca  de  um  metro  de  altura, varrendo o espa�o � sua esquerda e � sua direita em busca de algo fora do comum. Com  um  timing  impec�vel,  Ford  lan�ou  a  flecha  na  dire��o  contr�ria  �</p><p>
trajet�ria da m�quina. A flecha atravessou o corredor e grudou, tremelicante, na parede do outro lado. Enquanto voava, o brinquedo chamou a aten��o dos sensores do rob�, que se fixaram nele instantaneamente, fazendo com que o rob� desse uma guinada de noventa graus para segui-lo, descobrir que diabos era e para onde estava indo. Aquilo concedeu um segundo precioso para Ford, durante o qual o rob� voador estava olhando na dire��o contr�ria. Lan�ou sobre ele a sua toalha e o capturou. Devido �s diversas protuber�ncias sensoriais que o rob� possu�a, ele n�o podia movimentar-se  dentro  da  toalha.  Apenas  se  contorcia,  para  frente  e  para  tr�s,  sem conseguir se virar e ver quem o havia capturado.</p><p>
Ford o puxou rapidamente para si e o escorou no ch�o. O pobre coitado estava come�ando  a  choramingar.  Com  um  gesto  r�pido  e  experiente,  Ford  inseriu  a  sua ferramenta de extra��o bitola 3 por baixo da toalha e removeu  o pequeno painel  de pl�stico que havia no alto do rob�, dando acesso aos seus circuitos l�gicos. Bom, a l�gica � uma coisa maravilhosa, mas possui, tal como os processos de evolu��o descobriram, algumas desvantagens.</p><p>
Qualquer coisa que pense logicamente pode ser enganada por outra coisa que pense no m�nimo t�o logicamente quanto ela. A maneira mais f�cil de enganar um rob�</p><p>
completamente l�gico � aliment�-lo com a mesma seq��ncia de est�mulo v�rias vezes, de forma que fique travado em um loop. Isso foi muito bem demonstrado pelos famosos experimentos do Sandu�che de Arenque, conduzidos mil�nios atr�s pelo IMDLDCSO</p><p>
(Instituto  Maximegalon  para  Descobrir  Lenta  e  Dolorosamente  Coisas Surpreendentemente �bvias).</p><p>
Nesses experimentos, um rob� era programado para acreditar que gostava de sandu�ches de arenque. Na verdade, essa era a parte mais dif�cil da experi�ncia. Uma vez programado para acreditar que gostava de sandu�ches de arenque, um sandu�che de arenque era colocado diante do rob�. E ent�o o rob� pensava consigo mesmo: Humm!</p><p>
Sandu�che de arenque! Adoro sandu�ches de arenque.</p><p>
Ent�o  ele  se  inclinava  e  apanhava  o  sandu�che  com  a  sua  colher  para sandu�ches de arenque e se endireitava novamente. Infelizmente para o rob�, ele era projetado de uma maneira que a a��o de se endireitar fazia com que o sandu�che de arenque deslizasse da sua colher e ca�sse no ch�o � sua frente. E ent�o o rob� pensava consigo mesmo: Humm! Sandu�che de arenque!... etc. e repetia a mesma a��o muitas vezes seguidas. A �nica coisa que impedia que o sandu�che de arenque ficasse de saco cheio daquela palha�ada toda e fosse procurar outras maneiras de passar o seu tempo era que o sandu�che de arenque, por n�o passar de um peda�o de peixe morto entre duas fatias de p�o, estava um pouquinho menos ciente do que estava acontecendo do que o rob�.</p><p>
Os cientistas do Instituto descobriram ent�o que a for�a motriz por tr�s de toda mudan�a, desenvolvimento e inova��o na vida era a seguinte: sandu�ches de arenque. Publicaram um artigo sobre isso, mas ele foi amplamente criticado por ser muito idiota. Os  cientistas  verificaram  os  seus  c�lculos  e  perceberam  que,  na  verdade,  haviam descoberto o "t�dio", ou melhor, a fun��o pr�tica do t�dio. Extremamente animados, foram  em  frente  e  se  depararam  com  outras  emo��es,  como  "irritabilidade",</p><p>
"depress�o", "relut�ncia", "nojo", etc. e tal. A outra grande descoberta foi feita quando os cientistas pararam de usar os sandu�ches de arenque e, subitamente, toda uma nova gama  de  emo��es  se tornou  acess�vel para  os  estudos, tais como  "al�vio",  "alegria",</p><p>
"vivacidade",  "apetite",  "satisfa��o"  e,  a  mais  importante  de  todas,  o  desejo  de</p><p>
"felicidade".</p><p>
Essa foi a maior das descobertas.</p><p>
Pilhas  e  pilhas  de  complexos  c�digos  de  computador  respons�veis  pelo comportamento dos rob�s em todas as conting�ncias poss�veis podiam ser substitu�das de  forma  bem  simples.  Tudo  o  que  os  rob�s  precisavam  era  da  capacidade  de  se sentirem entediados ou felizes e de algumas condi��es que necessitavam satisfazer para trazer � tona aqueles estados. Eles pr�prios descobririam o resto.</p><p>
O rob� que Ford aprisionara debaixo da sua toalha n�o era, naquele momento, um rob� feliz. Era feliz quando podia se movimentar. Era feliz quando podia ver outras coisas.  Era  especialmente  feliz  quando  podia  ver  outras  coisas  se  movimentando, fazendo coisas que n�o podiam fazer, porque ele ent�o podia, com consider�vel prazer, delat�-las.</p><p>
Ford ia resolver aquilo em breve.</p><p>
Ajoelhou�se  sobre  o  rob�,  prendendo�o  entre  os  joelhos.  A  toalha continuava cobrindo todos os seus mecanismos sensoriais, mas Ford conseguira expor os circuitos l�gicos. O rob� estava emitindo uns zumbidos pavorosos e rabugentos, mas n�o conseguia se mover, apenas expressar a sua inquietude. Usando a ferramenta de extra��o, Ford retirou um pequeno chip do seu encaixe. Assim que se soltou, o rob�</p><p>
ficou quieto e estacou, como em estado de coma.</p><p>
O chip que Ford havia removido era justamente o que continha as instru��es para que as condi��es de felicidade necess�rias ao rob� fossem satisfeitas. Ele deveria se sentir feliz quando uma leve carga el�trica de um ponto no lado esquerdo do chip alcan�asse outro ponto no lado direito. O chip determinava se a carga atingira o seu objetivo ou n�o.</p><p>
Ford puxou um pequeno peda�o de arame que estava grudado na toalha. Enfiou uma das pontas na cavidade superior esquerda do encaixe do chip e a outra na cavidade direita inferior.</p><p>
Aquilo era o bastante. Agora o rob� ficaria sempre feliz, independentemente das circunst�ncias.</p><p>
Ford levantou�se depressa e puxou a toalha. O rob� elevou�se extasiado no ar, avan�ando sinuosamente.</p><p>
Virou-se e viu Ford.</p><p>
�</p><p>
Sr. Prefect! Estou t�o feliz em v�-lo!</p><p>
�</p><p>
Eu tamb�m, amiguinho � respondeu Ford.</p><p>
O rob� prontamente comunicou � central de controle que estava tudo bem e que aquele era o melhor dos mundos; os alarmes se calaram e a vida voltou ao normal. Pelo menos, quase ao normal.</p><p>
Havia algo de estranho com aquele lugar.</p><p>
O robozinho estava gorgolejando de contentamento el�trico. Ford correu pelo corredor,  deixando  que  a  criatura  o  seguisse,  dizendo  como  tudo  era  maravilhoso  e como ele estava feliz em poder dizer aquilo.</p><p>
Ford, contudo, n�o estava feliz.</p><p>
Passou  por  rostos  desconhecidos.  N�o  pareciam  os  seus  colegas.  Eram arrumadinhos demais. Os seus olhos estavam muito mortos. Cada vez que ele achava que tinha reconhecido algu�m de longe e corria para dizer oi, descobria que era uma outra  pessoa,  com  um  penteado  muito  mais  decente  e  uma  apar�ncia  muito  mais confiante e decidida do que... bem, do que qualquer pessoa que Ford conhecia. Uma escada havia mudado de lugar, alguns cent�metros para a esquerda. O teto era ligeiramente mais baixo. O lobby fora remodelado. Todas essas coisas n�o eram preocupantes  por  si  s�s,  eram  somente  um  pouco  desconcertantes.  O  realmente preocupante era a decora��o. Antes era chamativa e pomposa. Sofisticada � gra�as �s excelentes vendas do Guia em toda a Gal�xia civilizada e p�s-civilizada �, mas um sofisticado  divertido.  M�quinas  de  videogames  alucinados  estavam  espalhadas  pelos corredores, pianos de cauda com pinturas malucas pendiam do teto, criaturas mar�timas sinistras do planeta Viv emergiam de piscinas em �trios decorados com �rvores, rob�s</p><p>
�gar�ons  em  camisas  absurdas  percorriam  o  ambiente  procurando  m�os  nas  quais poderiam  depositar  drinques  borbulhantes.  As  pessoas  costumavam  ter  gigantescos drag�es de estima��o em coleiras e pterospondes em gaiolas em seus escrit�rios. Todos sabiam  como  se  divertir  e,  caso  n�o  soubessem,  havia  cursos  nos  quais  podiam  se inscrever para corrigir essa defici�ncia.</p><p>
N�o havia mais nada daquilo agora.</p><p>
Algu�m andara por l� fazendo um lament�vel trabalho de decora��o de bom gosto.</p><p>
Ford  virou-se  abruptamente  para  uma  pequena  alcova,  juntou  as  m�os  em concha e puxou o rob�. Abaixou-se e olhou fixamente para o cibernauta tagarela.</p><p>
�</p><p>
 O que andou acontecendo por aqui? � perguntou ele.</p><p>
�</p><p>
Oh,  s�  coisas  maravilhosas,  senhor,  s�  as  coisas  mais  maravilhosas poss�veis. Posso me sentar no seu colo, por favor?</p><p>
�</p><p>
N�o � respondeu Ford, empurrando-o. O rob� ficou esfuziante em ser recha�ado  daquela  maneira  e  come�ou  a  se  balan�ar,  tagarelar,  enlouquecer.  Ford apanhou-o novamente e segurou-o firme em pleno ar, a alguns cent�metros do seu rosto. O rob� tentou permanecer onde fora colocado, mas n�o p�de deixar de tremelicar um pouco.</p><p>
�</p><p>
Mudaram algumas coisas, n�o �? � sussurrou Ford.</p><p>
�</p><p>
Ah,  sim  �  guinchou  o  robozinho  �,  da  melhor  e  mais  fant�stica maneira poss�vel. Estou muito satisfeito.</p><p>
�</p><p>
Como � que era antes, ent�o?</p><p>
�</p><p>
Um barato.</p><p>
�</p><p>
Mas voc� gostou das mudan�as? � perguntou Ford.</p><p>
�</p><p>
Eu gosto de tudo � gemeu o rob�. � Especialmente quando voc� grita assim comigo. Faz de novo, vai, por favor.</p><p>
�</p><p>
Me conta logo o que aconteceu!</p><p>
�</p><p>
Ai, obrigado, obrigado.</p><p>
Ford suspirou.</p><p>
�</p><p>
Est� bem, est� bem � ofegou o rob�. � O Guia est� sob nova dire��o. �</p><p>
tudo t�o incr�vel que eu acho que vou derreter de alegria. A ger�ncia anterior tamb�m era fabulosa, � claro, embora n�o saiba ao certo se eu achava isso na �poca.</p><p>
�</p><p>
Isso foi antes de voc� estar com um peda�o de arame enfiado na cabe�a.</p><p>
�</p><p>
�  verdade.  �  a  mais  pura  verdade.  �  a  mais  maravilhosa,  estupenda, fr�vola  e  arrebatadora  verdade.  Que  observa��o  mais  correta,  mais  verdadeiramente indutora de �xtase!</p><p>
�</p><p>
O que aconteceu? � insistiu Ford. � Que nova ger�ncia � essa? Quando � que eles assumiram? Eu... ah, deixa pra l� � acrescentou, quando o rob� come�ou a se comportar vergonhosamente com uma alegria incontrol�vel e a se esfregar no seu joelho. � Vou descobrir sozinho.</p><p>
Ford atirou�se contra a porta do escrit�rio do editor-chefe. Agachando�se, enrolou o corpo como uma bola enquanto a porta abria e rolou rapidamente pelo ch�o at� onde costumava ficar o carrinho com as bebidas mais potentes e caras da Gal�xia. Agarrou-se nele e, usando-o como prote��o, deslizou at� a maior �rea livre do ch�o do escrit�rio, l� onde ficava a valios�ssima e extremamente grosseira est�tua de Leda e o Polvo, e escondeu-se atr�s dela. Enquanto isso, o pequeno rob� de seguran�a estava suicidamente satisfeito por receber os tiros no peito no lugar de Ford. Esse,   pelo   menos,   era   o   plano   �   e   um  plano  necess�rio.  O  editor-chefe, Stagyar-zil-Doggo,  era  um  homem  desequilibrado  e  perigoso,  que  tinha  uma  vis�o homicida a respeito de colaboradores que irrompiam em seu escrit�rio sem apresentar p�ginas novinhas em folha, j� revisadas. Na moldura da porta, ele tinha instalado um conjunto de armas guiadas a laser ligadas a mecanismos especiais de rastreamento para deter qualquer pessoa que estivesse apenas trazendo bons motivos para explicar por que n�o havia escrito nada. Desse modo, mantinha um alto n�vel de produtividade. Infelizmente, o carrinho de bebidas n�o estava no lugar.</p><p>
Ford lan�ou-se em um movimento desesperado e brusco para o lado, depois deu um salto mortal para cima da est�tua de Leda e o Polvo, que tamb�m n�o estava l�. Ele rolou e arremessou-se pelo escrit�rio em um p�nico cego, trope�ou, se contorceu, bateu  na  janela  que,  felizmente,  fora  projetada  para  suportar  ataques  de  foguetes, ricocheteou e caiu em um salto doloroso e esbaforido atr�s de um sofisticado sof� de couro cinza que n�o estava ali antes.</p><p>
Alguns  segundos  depois,  esgueirou-se  devagarzinho  detr�s  do  sof�.  Assim como n�o havia carrinho de bebidas, nem Leda e o Polvo, notou uma surpreendente aus�ncia de tiros. Franziu a testa. Aquilo definitivamente estava errado.</p><p>
�</p><p>
Sr. Prefect, imagino � disse uma voz.</p><p>
A  voz  veio  de  um  sujeito  com  cara  de  beb�  sentado  atr�s  de  uma  mesa revestida com cer�mica e teca. Stagyar-zil-Doggo podia at� ser uma grande pessoa, mas ningu�m, por v�rias raz�es, diria que ele tinha cara de beb�. Aquele n�o era Stagyar-zilDoggo.</p><p>
�</p><p>
Suponho, a julgar pela maneira como entrou, que voc� n�o tem nenhum material novo para, ahn,  o  Guia,  no momento  �  disse  o  sujeito com  cara  de  beb�. Estava sentado, apoiando os cotovelos sobre a mesa e tocando as pontas dos dedos de um modo que, inexplicavelmente, n�o era considerado pass�vel de pena de morte.</p><p>
�</p><p>
Estive ocupado � justificou Ford, sem muita convic��o. Ficou de p�, meio  atordoado,  limpando  a  roupa.  Ent�o  pensou:  Por  que,  diabos,  estava  dizendo coisas  sem  muita  convic��o?  Tinha  que  assumir  o  comando  da  situa��o.  Tinha  que descobrir quem era aquele sujeito e, de repente, pensou numa forma de fazer isso.</p><p>
�</p><p>
Quem � voc�? � perguntou ele.</p><p>
�</p><p>
Sou seu novo editor-chefe. Isto �, se decidirmos manter os seus servi�os. O meu nome � Vann Harl. � Ele n�o estendeu a m�o. Apenas completou: � O que voc� fez com esse rob� da seguran�a?</p><p>
O  robozinho  estava  girando  muito,  muito  devagar  pelo  teto  e  gemendo baixinho.</p><p>
�</p><p>
Fiz com que ele ficasse muito feliz � retrucou Ford. � � uma esp�cie de miss�o que eu tenho. Onde est� Stagyar? Ou, mais importante ainda, onde est� o carrinho de bebidas dele?</p><p>
�</p><p>
O  Sr.  Zil-Doggo  n�o  trabalha  mais  nesta  organiza��o.  O  carrinho  de bebidas dele, imagino eu, deve estar ajudando-o a se consolar por isso.</p><p>
�</p><p>
Organiza��o? � berrou Ford. � Organiza��o? Mas que palavra idiota para um neg�cio como esse!</p><p>
�</p><p>
�  exatamente  essa  a  nossa  impress�o.  Subestruturado,  superor�ado, subadministrado, superinebriado. E isso � disse Harl � era s� o editor.</p><p>
�</p><p>
Ei, eu fa�o as piadas aqui � rosnou Ford.</p><p>
�</p><p>
N�o � respondeu Harl. � Voc� faz a coluna dos restaurantes. Ele jogou um peda�o de pl�stico sobre a mesa. Ford n�o se mexeu.</p><p>
�</p><p>
Voc� o qu�? � perguntou ele.</p><p>
�</p><p>
N�o. Mim Harl. Voc� Prefect. Voc� faz coluna restaurantes. Eu editor. Eu sentar e mandar voc� fazer coluna dos restaurantes. Voc� entender?</p><p>
�</p><p>
Coluna dos restaurantes? � perguntou Ford, embasbacado demais para estar realmente raivoso.</p><p>
 �</p><p>
Sente a�, Prefect � disse Harl. Ele rodopiou na sua cadeira de rodinhas, levantou-se  e  ficou parado, contemplando  pela  janela  do  vig�simo  terceiro andar  os pequenos pontinhos que aproveitavam o carnaval l� embaixo.</p><p>
�</p><p>
Est� na hora de alavancar esta empresa, Prefect � disse ele. � N�s, da Corpora��o InfiniDim, estamos...</p><p>
�</p><p>
Voc�s da qu�?</p><p>
�</p><p>
Da Corpora��o InfiniDim. N�s compramos o Guia.</p><p>
�</p><p>
InfiniDim?</p><p>
�</p><p>
Gastamos  milh�es  nesse  nome,  Prefect.  Ou  voc�  come�a  a  gostar  ou pode ir arrumando as malas.</p><p>
Ford deu de ombros. N�o tinha nada para arrumar.</p><p>
�</p><p>
A Gal�xia est� mudando � disse Harl. � Precisamos acompanhar essa mudan�a.  Seguir  o  mercado.  O  mercado  est�  crescendo.  Novas  aspira��es.  Nova tecnologia. O futuro �...</p><p>
�</p><p>
N�o venha me falar sobre o futuro � interrompeu Ford. � Conhe�o o futuro de tr�s pra frente. Passei metade da minha vida l�. � igual a qualquer outro lugar. Qualquer  outra  �poca.  Enfim.  A  mesma  droga  de  sempre,  s�  que  com  carros  mais velozes e um ar mais fedorento.</p><p>
�</p><p>
Esse � um futuro � retrucou Harl. � O seu futuro, se quiser aceit�-lo. Voc�  precisa  aprender  a  pensar  multidimensionalmente.  Existem  futuros  ilimitados estendendo-se em todas as dire��es a partir de agora � e de agora e de agora. Bilh�es deles, bifurcando-se  a cada  instante! Cada posi��o poss�vel de cada  el�tron  poss�vel expande-se  em  bilh�es  de  probabilidades!  Bilh�es  e  bilh�es  de  futuros  brilhantes, incandescentes! Voc� sabe o que isso significa??</p><p>
�</p><p>
Voc� est� babando no queixo.</p><p>
�</p><p>
Bilh�es e bilh�es de mercados!</p><p>
�</p><p>
Entendi � disse Ford. � Para que voc� possa vender bilh�es e bilh�es de Guias.</p><p>
�</p><p>
N�o � respondeu Harl, procurando seu len�o, inutilmente.</p><p>
�</p><p>
Desculpe � disse ele �, mas isso me deixa muito empolgado. � Ford ofereceu a sua toalha para ele.</p><p>
�</p><p>
O  motivo  pelo  qual  n�o  vendemos  bilh�es  e  bilh�es  de  Guias  �</p><p>
continuou Harl, ap�s limpar a boca � � o custo. O que fazemos � vender um �nico  Guia  bilh�es  e  bilh�es  de  vezes.  Exploramos  a  natureza  multidimensional  do Universo  para  cortar os  nossos  custos  industriais.  E n�o  vendemos  para mochileiros duros. Que id�ia mais idiota era essa! Encontrar um setor do mercado que, mais ou menos por defini��o, n�o tem um centavo no bolso e tentar vender justo para ele. N�o. A InfiniDim vende para os viajantes de neg�cios endinheirados e para as suas esposas durante  as  f�rias  em  um  bilh�o  de  bilh�es  de  futuros  diferentes.  Esse  �  o empreendimento  comercial  mais  radical,  din�mico  e  ousado  j�  visto  em  toda  a infinitude multidimensional do espa�o-tempo-probabilidade.</p><p>
�</p><p>
E voc� quer que eu seja cr�tico de restaurantes � concluiu Ford.</p><p>
�</p><p>
A sua contribui��o seria valiosa.</p><p>
�</p><p>
Atacar! � gritou Ford. Gritou para a sua toalha. A toalha pulou das m�os de Harl.</p><p>
N�o porque a toalha tivesse algum tipo de vontade pr�pria, e sim porque Harl estava morrendo de medo de que ela tivesse. A outra coisa que o deixou apavorado foi ver Ford Prefect partindo para cima dele por sobre a mesa com as m�os fechadas em punho.  Na  verdade,  Ford  estava  apenas  tentando  apanhar  o  cart�o  de  cr�dito,  mas ningu�m ocupa um cargo como o que Harl ocupava no tipo de organiza��o da qual Harl fazia  parte  sem  desenvolver  uma  saud�vel  vis�o  paran�ica  da  vida.  O  editor-chefe adotou a sensata precau��o de jogar-se para tr�s, batendo a cabe�a com for�a contra o vidro � prova de foguetes e depois caiu em um estado de inconsci�ncia recheado de sonhos preocupantes e altamente pessoais.</p><p>
Ford ficou parado na mesa, surpreso em ver como tirara aquilo de letra. Olhou de relance para o peda�o de pl�stico que estava segurando � era um cart�o de cr�dito Jant-O-Card com o seu nome j� gravado nele, v�lido durante os pr�ximos dois anos e provavelmente a coisa mais empolgante que ele j� vira em sua vida. Depois, subiu na mesa para dar uma olhada em Harl.</p><p>
Estava  respirando  com  razo�vel  facilidade.  Ford  percebeu  que  ele  poderia respirar com ainda mais facilidade sem o peso da carteira sobre o peito, ent�o removeua do bolso do palet� de Harl e deu uma conferida no conte�do. Uma boa quantia de dinheiro.  Alguns  vales.  Cart�o  de  s�cio  do  clube  de ultragolfe. Cart�es  de  s�cio de outros clubes. Fotos da fam�lia de algu�m � presumivelmente a de Harl, mas era dif�cil ter certeza naqueles dias. Executivos ocupados raramente tinham tempo para esposa e fam�lia em tempo integral e preferiam alug�-los s� para os finais de semana. Ah�!</p><p>
Mal podia acreditar no que tinha acabado de encontrar.</p><p>
Tirou  devagarzinho  da  carteira  um  simples  e  insanamente  empolgante pedacinho de pl�stico que estava escondido no meio de um bando de recibos. N�o era insanamente empolgante de se ver. Para falar a verdade, era at� meio sem  gra�a.  Era  menor  e  um  pouco  mais  grosso  do  que  um  cart�o  de  cr�dito  e semitransparente.  Se  voc�  o  colocasse  contra  a  luz,  podia  ver  v�rias  informa��es  e imagens  holograficamente  criptografadas  enterradas  alguns  pseudomil�metros  de profundidade sob a superf�cie.</p><p>
Era um Ident-I-F�cil, uma coisa muito tola e inadequada para Harl carregar na carteira, ainda que fosse perfeitamente compreens�vel que a carregasse. Existiam tantas situa��es  nas  quais  solicitavam  que  a  pessoa  fornecesse  uma  prova  absoluta  de  sua identidade que a vida poderia facilmente se tornar bastante cansativa s� por causa disso</p><p>
� sem falar nos problemas existenciais mais profundos de tentar funcionar como uma consci�ncia coerente em um universo f�sico epistemologicamente amb�guo. Pensem nos caixas�eletr�nicos, por exemplo. Filas de pessoas esperando para terem suas digitais analisadas, retinas escaneadas, peda�os da pele removidos para serem submetidos a uma an�lise gen�tica  imediata  (ou quase imediata � uns bons seis  ou sete  segundos, na entediante  verdade)  e  depois  ainda  ter  que  responder  a  perguntas  capciosas  sobre membros da fam�lia dos quais mal se lembram e sobre as cores prediletas de toalha de mesa que haviam cadastrado... tudo isso s� para sacar um dinheirinho para o final de semana. Se voc� estiver tentando um empr�stimo para um carro a jato, para assinar um tratado de m�sseis ou pagar a conta do restaurante, sua paci�ncia seria testada at� os limites.</p><p>
Por isso o Ident�I�F�cil. Ele continha todas as informa��es sobre a pessoa, o seu corpo e a sua vida em um �nico cart�o gen�rico, aceito em qualquer m�quina, para ser levado na carteira, e representava, portanto, o maior triunfo tecnol�gico sobre si mesmo e sobre o bom senso.</p><p>
Ford  o colocou em  seu bolso.  Uma  id�ia  fant�stica  acabara  de  lhe  ocorrer. Tentou imaginar durante quanto tempo Harl ficaria inconsciente.</p><p>
�</p><p>
Ei! � gritou ele para o pequeno rob� do tamanho  de um mel�o, que continuava choramingando de euforia no teto. � Voc� quer continuar feliz?</p><p>
O rob� respondeu alegremente que sim.</p><p>
�</p><p>
Ent�o vem comigo e fa�a exatamente o que eu mandar.</p><p>
O rob� respondeu que estava felic�ssimo no teto, muito obrigado. Jamais havia percebido quanto deleite absoluto podia ser extra�do de um bom teto e queria explorar os seus sentimentos sobre tetos mais profundamente.</p><p>
�</p><p>
Se voc� ficar a� � disse Ford �, vai acabar sendo recapturado e eles v�o trocar o seu chip condicional. Quer continuar feliz? Melhor vir agora. O rob� exalou um longo e sentido suspiro de tristeza apaixonada e desceu do teto, relutante.</p><p>
�</p><p>
Escuta � disse Ford �, voc� consegue manter o resto do sistema  de seguran�a feliz por alguns minutos?</p><p>
�</p><p>
Um dos prazeres da verdadeira felicidade � gorjeou o rob� � � poder compartilh�-la. Eu transbordo, eu espumo, eu inundo de...</p><p>
�</p><p>
Est�  bem  �  interrompeu  Ford.  �  S�  espalhe  um  pouquinho  de felicidade  pela  rede  de  seguran�a.  N�o  transmita  nenhuma  informa��o.  Fa�a  apenas com que ela se sinta t�o feliz que nem se lembre de perguntar alguma coisa. Ford  apanhou  sua  toalha  e  correu  animado  at�  a  porta.  A  vida  andava  um pouco chata nos �ltimos tempos. Mas tudo indicava que ia se tornar bastante animada dali em diante.</p><p><strong>CAP�TULO 7</strong></p><p>
Arthur Dent j� estivera em alguns buracos sinistros em sua vida, mas jamais havia visto um espa�oporto com uma placa dizendo: "Mesmo viajar de m� vontade �</p><p>
melhor do que chegar aqui". No hall de desembarque, para acolher os visitantes, havia uma  foto  do  presidente  de  EAgora sorrindo. Era  a  �nica foto  dele  que conseguiram encontrar e fora tirada um pouco depois de ele ter se matado com um tiro na cabe�a. Embora a tivessem retocado o m�ximo poss�vel, o sorriso era um tanto quanto p�lido. A parte lateral da cabe�a havia sido desenhada com l�pis-cera. N�o era poss�vel substituir a  foto  porque  n�o  era  poss�vel  substituir  o  presidente.  As  pessoas  naquele  planeta tinham uma �nica ambi��o: cair fora.</p><p>
Arthur hospedou-se em um pequeno motel nos arredores da cidade, sentou-se desanimado na cama, que estava �mida, e deu uma olhada no folheto de informa��es, que tamb�m estava �mido. Estava escrito que o planeta EAgora fora assim batizado devido �s primeiras palavras dos seus desbravadores, que l� chegaram ap�s um �rduo esfor�o  de  atravessar  anos-luz  de  espa�o  para  alcan�ar  os  confins  inexplorados  da Gal�xia. A cidade principal foi chamada de AhT�. N�o havia outras cidades dignas de men��o. O povoamento de EAgora n�o fora exatamente bem-sucedido e o tipo de gente que realmente queria morar  l� n�o era o tipo de gente com o qual voc� gostaria de conviver.</p><p>
O  folheto  mencionava  atividades  comerciais.  A  maior  atividade  comercial realizada era a de peles dos porcos do p�ntano eagorianos, mas n�o era muito lucrativa porque ningu�m em s� consci�ncia ia querer comprar uma pele de porco do p�ntano eagoriano. O com�rcio s� se sustentava aos trancos e barrancos porque sempre h� um n�mero significativo de pessoas na Gal�xia que n�o est�o em s� consci�ncia. Enquanto estava na nave, Arthur sentira�se bastante</p><p>
desconfort�vel  olhando  �  sua  volta  e  examinando  os  outros  ocupantes  do pequeno compartimento de passageiros.</p><p>
O folheto contava um pouco da hist�ria do planeta. O sujeito que escrevera a coisa obviamente come�ara tentando melhorar um pouco as apar�ncias, ressaltando que n�o era frio e �mido o tempo todo, por�m, como n�o encontrou nada mais de positivo para acrescentar, o tom do texto descambou rapidamente para uma ironia feroz. Falava  sobre  os  primeiros  anos  do  povoamento.  Dizia  que  as  atividades principais praticadas pelos eagorianos eram ca�ar, esfolar e comer os porcos do p�ntano eagorianos, que constitu�am a �nica forma de vida animal existente em EAgora, uma vez que todas as outras j� haviam morrido de desespero h� muito tempo. Os porcos do p�ntano eram criaturinhas pequenas e ferozes, e a fr�gil margem pela qual escapavam de  ser  completamente  incomest�veis  era  a  margem  que  permitia  �  vida  subsistir  no planeta. Ent�o quais eram as recompensas, ainda que m�nimas, que faziam com que a vida em EAgora valesse a pena? Bom, n�o havia nenhuma. Nem umazinha. At� mesmo elaborar  roupas  protetoras  feitas  de  pele  de  porco  do  p�ntano  era  um  exerc�cio  de frustra��o e futilidade, uma vez que as peles eram incrivelmente finas e perme�veis. Isso causou uma s�rie de conjecturas intrigadas entre os desbravadores do planeta. Qual era ent�o o segredo dos porcos do p�ntano para se manterem aquecidos? Se algu�m tivesse aprendido a l�ngua que os porcos usavam para se comunicar, teria descoberto que  n�o  havia  nenhum  mist�rio.  Os  porcos  do  p�ntano  sentiam  frio  e  ficavam encharcados assim como todo o resto dos habitantes do planeta. Ningu�m nunca teve a menor inten��o de aprender a l�ngua dos porcos do p�ntano pelo simples motivo de que estas criaturas se comunicavam mordendo umas �s outras na coxa, com for�a. Sendo a vida em EAgora o que era, o m�ximo que um porco do p�ntano poderia ter a dizer sobre ela poderia ser facilmente traduzido dessa forma.</p><p>
Arthur folheou o informativo at� encontrar o que estava procurando. L� no fim havia alguns mapas do planeta. Eram esbo�os pouco precisos, porque possivelmente n�o  interessariam  a  ningu�m,  mas  serviram  para  que  encontrasse  o  que  estava procurando.</p><p>
N�o reconheceu a coisa de cara porque os mapas estavam de cabe�a para baixo e, portanto, pareciam absolutamente estranhos. � claro que para cima e para baixo, norte e sul  s�o  designa��es  completamente  arbitr�rias,  mas  estamos  acostumados  a ver as coisas da maneira que estamos acostumados a v�-las e Arthur precisou virar os mapas de cabe�a para cima para compreend�-los.</p><p>
Havia uma enorme massa de terra no canto superior esquerdo da p�gina que se afunilava subitamente e tornava a inchar no formato de uma v�rgula gigante. No canto superior  direito  havia  um  apanhado  de  formas  gigantes  familiarmente  unidas.  Os contornos n�o eram exatamente os mesmos, e Arthur n�o sabia se isso era porque o mapa havia sido malfeito, se o n�vel do mar era mais alto ou se, bem, as coisas eram simplesmente diferentes naquele lugar. Mas a evid�ncia era indiscut�vel. Aquilo era definitivamente a Terra.</p><p>
Ou melhor, definitivamente n�o era.</p><p>
Apenas parecia bastante com a Terra e ocupava as mesmas coordenadas no espa�o-tempo. Quais coordenadas ocupava em probabilidade, ningu�m saberia dizer. Ele suspirou.</p><p>
Aquilo, percebeu ele, era o mais pr�ximo de casa que ele jamais conseguiria chegar.  O  que  significava  que  estava  mais  distante  de  casa  do  que  poderia  sonhar. Desanimado, fechou o folheto e se perguntou, aterrado, o que faria a seguir. Permitiu-se uma risada contida diante do que acabara de pensar. Olhou para o seu antigo rel�gio e o balan�ou um pouco para faz�-lo funcionar. Levara, segundo a sua pr�pria medida de tempo, um penoso ano de viagem para chegar onde estava. Um ano desde o acidente no hiperespa�o no qual Fenchurch sumira completamente. Uma hora ela  estava  l�,  sentada  ao  lado  dele  no  Slumpjet;  na  outra,  a  nave  fez  um  salto hiperespacial totalmente normal e, quando ele olhou para o lado, ela n�o estava mais l�. O assento sequer estava quente. O nome dela nem constava na lista de passageiros. A  companhia  espacial  havia  ficado  desconfiada  dele  quando  foi  reclamar. Milhares de coisas estranhas aconteciam em viagens espaciais e v�rias rendiam um bom dinheiro para os advogados. Mas, quando perguntaram a ele de qual Setor Gal�ctico ele e  Fenchurch  vinham  e  ele  respondeu  ZZ9  Plural  Z  Alpha,  eles  relaxaram completamente de uma maneira que Arthur n�o sabia se gostava. Chegaram at� a rir um pouco � de forma solid�ria, � claro. Apontaram uma cl�usula no contrato da passagem que  informava  que  entidades  cujas  vidas  �teis  eram  oriundas  de  qualquer  uma  das Zonas Plurais eram aconselhadas a n�o viajar no hiperespa�o e que, caso o fizessem, seria por sua conta e risco. Todo mundo, afirmaram eles, sabia disso. Sufocaram o riso e balan�aram a cabe�a.</p><p>
Ao sair do escrit�rio da companhia, percebeu que estava tremendo um pouco. N�o s�  havia  perdido  Fenchurch  do  modo  mais  completo  e  absoluto poss�vel  como tinha a sensa��o de que, quanto mais tempo passava na Gal�xia, maior era o n�mero de coisas que n�o tinha condi��es de compreender.</p><p>
Enquanto estava perdido nessas mem�rias adormecidas, algu�m bateu na porta do seu quarto e ela se abriu imediatamente. Um sujeito gordo e desgrenhado entrou carregando uma �nica e pequena mala.</p><p>
Ele s� conseguiu dizer "Onde devo colocar..." antes de uma pancada violenta fazer  com  que  ele  ca�sse  abruptamente  contra  a  porta, tentando  se  esquivar  de  uma criatura sarnenta que surgira no meio da escurid�o, saltara rosnando sobre ele e fincara os seus dentes na sua coxa, ignorando as grossas camadas de couro que cobriam suas pernas.  Houve  uma  r�pida  e  pavorosa  confus�o,  entremeada  de  palavras  confusas  e safan�es.  O  homem  gritava  freneticamente,  apontando  para  alguma  coisa.  Arthur apanhou  um  bast�o  pesado  que  ficava  ao  lado  da  porta,  expressamente  para  aquele prop�sito, e atacou o porco do p�ntano com ele.</p><p>
O porco do p�ntano soltou o homem rapidamente e recuou, mancando, confuso e desesperado. Voltou�se aflito para o canto do quarto, com o rabo enfiado entre as pernas, e l� ficou, apavorado, encarando Arthur nervosamente e entortando a cabe�a de maneira estranha e repetida para um lado. A sua mand�bula parecia estar deslocada. Ele choramingou um pouco e arrastou o rabo molhado pelo ch�o. Parado na porta, o gordo, com a mala de Arthur na m�o, estava sentado, xingando e tentando estancar o sangue da sua coxa. As suas roupas j� estavam encharcadas por causa da chuva. Arthur olhou para o porco do p�ntano sem saber o que fazer. O porco retribuiu com um olhar igualmente questionador. Tentou aproximar-se, pesaroso. Movimentou a mand�bula dolorosamente. Saltou de repente tentando pegar a coxa de Arthur, mas a sua mand�bula  deslocada  estava  fraca  demais  para  abocanh�-la  e  ele  caiu,  gemendo tristemente, no ch�o. O sujeito gordo ficou de p�, apanhou o bast�o e bateu na cabe�a do porco at� seus miolos virarem uma massa grudenta sobre o carpete fininho. Depois, ficou parado, com a respira��o arquejante, como se desafiasse o animal a mexer-se uma �ltima vez.</p><p>
Um  dos  olhos  do  bicho estava  inteiro,  olhando  de  forma  condenat�ria  para Arthur no meio das ru�nas esmagadas do seu c�rebro.</p><p>
�</p><p>
O que acha que ele estava tentando dizer? � perguntou Arthur, em voz baixa.</p><p>
�</p><p>
Ah,  nada  demais  �  respondeu  o  homem.  �  Estava  s�  tentando  ser simp�tico. E essa � a nossa maneira de retribuir a simpatia deles � acrescentou ele, agarrando o bast�o.</p><p>
�</p><p>
Qual o hor�rio do pr�ximo v�o? � perguntou Arthur.</p><p>
�</p><p>
Pensei que voc� tivesse acabado de chegar � disse o homem.</p><p>
�</p><p>
Pois � � respondeu Arthur. � Era s� uma visitinha r�pida. S� queria ver se era esse o lugar que eu estava procurando ou n�o. Lamento.</p><p>
�</p><p>
Quer dizer que est� no planeta errado? � perguntou o homem, l�gubre.</p><p>
� � impressionante a quantidade de pessoas que diz a mesma coisa. Especialmente as que moram aqui. � Olhou para os restos do porco do p�ntano com um arrependimento profundo, ancestral.</p><p>
�</p><p>
N�o, n�o � isso � corrigiu Arthur �, estou no planeta certo, sim.</p><p>
�</p><p>
Ele apanhou o folheto encharcado que estava sobre a cama e enfiou no bolso. � Est� tudo certo, obrigado. Eu fico com isso aqui �disse ele, apanhando a sua mala das m�os do sujeito. Dirigiu-se at� a porta e contemplou a noite, gelada e �mida. _  O  planeta  est�  certo  �  disse  ele  novamente.  �  Planeta  certo,  universo errado.</p><p>
Um p�ssaro bailou solit�rio no c�u enquanto Arthur caminhava de volta para o espa�oporto.</p><p><strong>CAP�TULO 8</strong></p><p>
Ford tinha o seu pr�prio c�digo de �tica. N�o era l� grande coisa, mas era dele e ele o respeitava, ou quase isso. Uma das regras que criara era jamais pagar pelos seus drinques. N�o tinha certeza se isso contava como �tica, mas � preciso seguir com o que se tem. Tamb�m era firme e absolutamente contra toda e qualquer forma de crueldade contra  qualquer  animal,  exceto  os  gansos.  Al�m  disso,  jamais  roubava  seus empregadores.</p><p>
Bom, n�o roubar de verdade.</p><p>
Se o supervisor de contabilidade n�o tivesse um ataque nem acionasse o alerta de seguran�a do tipo tranquem-todas-as-sa�das quando Ford apresentasse os seus gastos, era porque ele n�o estava fazendo o seu trabalho direito. Mas roubar para valer era outra coisa. Era morder a m�o que te alimenta. Sug�-la com for�a, ou at� mesmo mordisc�-la de maneira afetuosa, tudo bem, mas, mord�-la, jamais. Muito menos quando a m�o em quest�o era o Guia. O Guia era algo sagrado, especial.</p><p>
Mas  aquilo,  pensou  Ford  enquanto  se  agachava  e  percorria  um  caminho sinuoso  pelo  pr�dio,  estava  prestes  a  mudar.  E  a  culpa  era  exclusivamente  deles. Bastava olhar para aquilo tudo. Fileiras de cub�culos de escrit�rios cinzentos e esta��es de  trabalho  para  executivos.  O  lugar  inteiro  ressoava  o  zumbido  mon�tono  de memorandos e minutas de reuni�es atravessando suas redes eletr�nicas. L� fora na rua as  pessoas  estavam  brincando  de  Ca�a  ao  Wocket,  por  Zarquon,  mas  ali,  em  pleno cora��o  dos  escrit�rios  do  Guia,  ningu�m  estava  sequer  batendo  uma  bola irresponsavelmente  pelos  corredores  ou  usando  trajes  de  praia  inadequadamente coloridos.</p><p>
"Corpora��o InfiniDim", resmungou Ford entre dentes para si mesmo enquanto percorria rapidamente um corredor ap�s o outro. Portas se abriam magicamente para ele, sem perguntas. Elevadores o levavam alegremente a lugares que n�o deviam. Ford estava tentando seguir o caminho mais emaranhado e complicado poss�vel, dirigindo�</p><p>
se para os andares inferiores do pr�dio. O seu rob� feliz resolvia tudo, espalhando ondas de contentamento aquiescente por todos os circuitos de seguran�a que encontrava. Ford concluiu que aquele rob� precisava de um nome e decidiu cham�-lo de Emily  Saunders,  em  homenagem  a  uma  garota  de  quem  guardava  boas  lembran�as. Depois percebeu que Emily Saunders era um nome absurdo para um rob� de seguran�a e decidiu cham�-lo de Colin, em homenagem ao cachorro de Emily. Estava  penetrando  cada  vez  mais  fundo  nas  entranhas do pr�dio,  invadindo �reas em que jamais entrara, �reas de seguran�a m�xima.  Estava come�ando a atrair olhares  intrigados  dos  agentes  pelos  quais  passava.  Naquele  n�vel  de  seguran�a,  os agentes  n�o  eram  mais  considerados  pessoas.  Provavelmente  estavam  executando tarefas que somente agentes executavam. Quando voltavam para suas fam�lias, no final do dia, transformavam-se  em  pessoas  novamente  e, quando seus  filhos  pequenos  os contemplavam com os olhinhos doces e brilhantes e diziam "Papai, o que voc� fez no trabalho hoje?", limitavam-se a responder "Executei minhas tarefas de agente", e a coisa ficava por isso mesmo.</p><p>
A verdade nua e crua � que arma��es e esquemas de todos os tipos rolavam por tr�s da  fachada  alegrinha  e otimista  que o Guia  gostava  de  exibir  � ou costumava gostar  de  exibir  antes  daquela  corja  da  Corpora��o InfiniDim  aparecer  e  come�ar  a transformar  o  neg�cio  todo  em  uma  grande  arma��o.  Havia  de  tudo  em  termos  de evas�o de impostos, tram�ias, subornos e neg�cios obscuros sustentando aquele edif�cio esplendoroso e l� embaixo, nos andares de alta seguran�a de pesquisa e processamento de dados do pr�dio, era onde tudo acontecia.</p><p>
De  tempos  em tempos,  o  Guia  transferia  seus  neg�cios  � na  verdade, seu pr�dio inteiro � para um mundo  novo. Tudo era festa e alegria durante um tempo, enquanto firmava suas ra�zes na cultura e economia locais, oferecia oportunidades de emprego e gerava uma sensa��o de glamour e aventura, mas, no final das contas, n�o exatamente o lucro que a popula��o local esperava.</p><p>
Quando o Guia se mudava, levando o edif�cio consigo, partia quase como um ladr�o no meio da noite. Para falar a verdade, partia exatamente como um ladr�o no meio  da  noite.  Normalmente  sa�a  de  madrugada  e,  no  dia  seguinte,  inevitavelmente v�rias coisas estavam faltando. Culturas e economias inteiras eram arruinadas ap�s a sua  passagem,  muitas  vezes  em  uma  semana,  deixando  planetas  outrora  pr�speros desolados  e  em  estado  de  choque,  mas  ainda  assim  com  a  impress�o  de  terem participado de uma grandiosa aventura.</p><p>
Os  agentes  que  olhavam  intrigados  para  Ford  enquanto  ele  avan�ava  pelas �reas mais sens�veis do pr�dio sentiam-se um pouco mais tranq�ilos com a presen�a de Colin, que estava voando ao lado de Ford, zumbindo de contentamento e facilitando seu percurso.</p><p>
Alarmes come�aram a disparar em outras partes do pr�dio. Talvez j� tivessem descoberto Vann Harl, o que poderia ser um problema. Ford estava esperando poder colocar o Ident�I�F�cil de volta em seu bolso antes que o homem voltasse a si. Bom, aquilo era um problema a ser resolvido mais tarde e, no momento, Ford n�o fazia a menor id�ia de como iria resolv�-lo. Por hora, n�o ia se preocupar. Aonde quer que fosse com o pequeno Colin, sentia-se envolto por um casulo de do�ura e luz e, o mais importante,  encontrava  elevadores  prestativos  e  obedientes  e  portas  definitivamente educadas.</p><p>
Ford come�ou a assoviar, o que provavelmente foi seu erro. Ningu�m gosta de gente que assovia, muito menos a divindade que tra�a os nossos destinos. A porta seguinte n�o abria de jeito nenhum.</p><p>
 O que era uma pena, porque era justamente a que Ford estava procurando. L�</p><p>
estava ela, cinzenta e resolutamente fechada, com um aviso que dizia:</p><p><emphasis><strong>ENTRADA PROIBIDA</strong></emphasis></p><p><emphasis><strong>AT� MESMO PARA OS FUNCION�RIOS AUTORIZADOS. </strong></emphasis></p><p><emphasis><strong>VOC� EST� PERDENDO SEU TEMPO AQUI. </strong></emphasis></p><p><emphasis><strong>V� EMBORA. </strong></emphasis></p><p>
Colin  comentou  que  as  portas  estavam  ficando  cada  vez  mais  sinistras  l�</p><p>
embaixo, nos confins do pr�dio.</p><p>
Estavam  uns  dez  andares  abaixo  do  solo  agora.  O  ar  era  refrigerado  e  o revestimento cinza elegante que cobria as paredes dera lugar a paredes de um cinza brutal recobertas por chapas de alum�nio. A euforia exuberante de Colin transformou-se em uma esp�cie de anima��o enf�tica. Ele disse que estava come�ando a ficar cansado. Estava  gastando  toda  a  sua  energia  tentando  provocar  um  m�nimo  de  boa  vontade naquelas portas l� de baixo. Ford chutou a porta. Ela se abriu.</p><p>
� Uma mistura de dor e prazer � murmurou ele. � Sempre funciona. Entrou no recinto, com Colin voando atr�s dele. Mesmo com um arame enfiado no seu eletrodo de prazer, a sua felicidade era agora nervosa. Movia-se levemente de um lado para o outro.</p><p>
O c�modo era pequeno, cinza e zumbia.</p><p>
Era a central nervosa de todo o Guia.</p><p>
Os  terminais  de  computador  dispostos  ao  longo  das  paredes  cinzentas monitoravam cada aspecto das opera��es do Guia. No canto esquerdo do c�modo, os relat�rios de pesquisadores de campo em toda a Gal�xia eram recolhidos pela Subeta Net e encaminhados diretamente para a rede de escrit�rios dos editores assistentes, onde todos  os  trechos  interessantes  eram  cortados  pelas  secret�rias  porque  os  editores assistentes estavam no almo�o. O que sobrasse do original era enviado para o outro lado do pr�dio � a outra perna do H �, onde ficava o departamento jur�dico. O jur�dico se encarregava  de  cortar  qualquer  sobra  do  original  que  ainda  estivesse  remotamente decente e jogava tudo de volta para os escrit�rios dos editores executivos, que tamb�m estavam no almo�o. Ent�o as secret�rias dos editores liam o material, achavam tudo uma grande baboseira e cortavam a maior parte do que havia sobrado. Quando  algum  dos  editores  finalmente  voltava  cambaleante  do  almo�o, exclamava:</p><p>
� Que porcaria med�ocre � essa que o X (sendo X o nome do pesquisador de campo em quest�o) mandou l� do outro lado da Gal�xia? De que adianta termos algu�m passando tr�s per�odos orbitais inteiros nas malditas Zonas Cerebrais de Gagrakacka, com tudo o que est� acontecendo por l�, se o melhor que ele pode fazer � mandar esse lixo an�mico pra c�? Corte a verba dele!</p><p>
�</p><p>
E o que vamos fazer com o texto? � a secret�ria perguntaria.</p><p>
�</p><p>
Ah, joga na rede. Temos que publicar alguma coisa mesmo.</p><p>
Estou com dor de cabe�a. Vou para casa.</p><p>
Ent�o a c�pia editada ia para uma  �ltima  sess�o de cortes no departamento jur�dico e depois era devolvida para o quarto onde estava Ford e, dali, transmitida por toda a Subeta Net, pronta para download imediato em qualquer ponto da Gal�xia. Tudo isso era realizado por um equipamento monitorado e controlado pelos terminais que ficavam no canto direito do recinto.</p><p>
Nesse �nterim, a ordem de cortar as despesas do pesquisador era retransmitida para o terminal de computador instalado no canto direito, e era para este terminal que Ford Prefect prontamente se dirigia.</p><p>
[Se voc� est� lendo isso no planeta Terra, ent�o:</p><p>
a)</p><p>
Boa  sorte.  Existe  uma  quantidade  incr�vel  de  coisas  que  voc�  n�o conhece  mesmo,  mas  voc�  n�o  est�  sozinho  nessa.  S�  que,  no  seu  caso,  as conseq��ncias de n�o conhecer essas coisas s�o particularmente terr�veis, mas, olha, n�o liga n�o, � assim que a vaca vai pro brejo e afunda.</p><p>
b)</p><p>
N�o pense que sabe o que � um terminal de computadores. Um terminal de computador n�o � uma televis�o velha e pesadona com uma m�quina de escrever na frente. � uma interface onde mente e corpo podem se conectar com o universo e mover peda�os dele por a�.]</p><p>
Ford correu at� o terminal, sentou-se diante dele e mergulhou rapidamente no universo da m�quina.</p><p>
N�o  era  o  universo  normal  que  ele  conhecia.  Era  um  universo  de  mundos densamente encobertos, de topografias selvagens, de alt�ssimos cumes de montanhas, ravinas de perder o f�lego, de luas se despeda�ando em cavalos marinhos, de agravantes fissuras articuladas, oceanos silenciosamente pulsantes e insond�veis fundas arqueantes arremessadas.</p><p>
Ficou im�vel, tentando se situar. Controlou a respira��o,  fechou  os  olhos  e olhou novamente.</p><p>
Ent�o  era  ali  que  os  contadores  passavam  o  seu  tempo.  Eles  certamente escondiam bem o jogo. Olhou em volta cuidadosamente, tentando evitar que aquilo o engolfasse e o deixasse estupefato.</p><p>
N�o sabia como se virar naquele universo. Sequer conhecia as leis f�sicas que determinavam suas extens�es dimensionais e comportamentais, mas o seu instinto lhe dizia para procurar a coisa mais incr�vel que pudesse detectar e ir atr�s dela. L� longe, a uma dist�ncia indistingu�vel � seria um quil�metro, um milh�o ou um cisco em seu olho? �, estava um cume estonteante que formava um arco no c�u, subia, subia e se desdobrava em aigrettes florescentes, aglomerados e arquimandritas. Rolou  saltejante  em  dire��o  �  montanha  e  finalmente  a  alcan�ou  num inexplicavelmente longo incois�simo de tempo.</p><p>
Agarrou-se  nela,  esticando  os  bra�os  e  segurando  com  firmeza  a  superf�cie retorcida e corro�da. Quando teve certeza de que estava seguro, cometeu o terr�vel erro de olhar para baixo.</p><p>
Enquanto esteve rolando e saltejando, a vastid�o abaixo dele n�o tinha sido uma grande preocupa��o, mas, agora que se via agarrado na montanha, sentiu o seu cora��o se encolher e o seu c�rebro dar um n�. Seus dedos estavam esbranqui�ados de dor  e  tens�o.  Seus  dentes  rangiam  e  batiam  de  maneira  incontrol�vel.  Seus  olhos voltaram-se para dentro carregados pelas ondas revoltas da n�usea. Com uma tremenda for�a de vontade e f�, ele simplesmente abriu a m�o e empurrou.</p><p>
Sentiu-se flutuando. � deriva. E ent�o, contra-intuitivamente, indo para cima. Cada vez mais para cima.</p><p>
Relaxou os ombros, deixou cair os bra�os, olhou para o alto e se deixou levar, sem resist�ncia, cada vez mais alto.</p><p>
Pouco depois, na medida em que tais termos possu�ssem qualquer significado naquele universo virtual, surgiu um parapeito � sua frente no qual poderia se segurar e subir.</p><p>
Ergueu-se, segurou, escalou.</p><p>
Ofegava um pouco. Aquilo tudo era bastante estressante.</p><p>
Agarrou-se firmemente ao parapeito enquanto se sentava. N�o sabia ao certo se aquilo era para impedir que ele ca�sse ou subisse mais ainda, por�m, de qualquer forma, precisava se agarrar em algum lugar enquanto inspecionava o mundo para o qual fora transportado.</p><p>
A  altura  vertiginosa  o  deixava  tonto  e  fazia  com  que  seu  c�rebro  revirasse dentro de si mesmo, at� que se viu de olhos fechados, choramingando e abra�ando a terr�vel parede de rocha �ngreme.</p><p>
Aos  poucos  foi  conseguindo  controlar  a  respira��o.  Repetiu  para  si  mesmo diversas vezes que aquilo tudo n�o passava de uma representa��o gr�fica de um mundo. Um universo virtual. Uma realidade simulada. Podia sair dela a hora que quisesse, num estalar de dedos.</p><p>
Saiu dela num estalar de dedos.</p><p>
Estava sentado em uma cadeira de escrit�rio girat�ria, de couro artificial azul estofado com espuma, diante de um terminal de computador.</p><p>
Relaxou.</p><p>
Estava  agarrado  em  um  cume  impossivelmente  alto,  empoleirado  em  um parapeito estreito, arriscando-se a uma queda de uma altura estonteante. E n�o era s� o fato de a paisagem estar t�o abaixo dos seus p�s �ele ficaria agradecido se ela parasse de ondular e oscilar.</p><p>
Precisava  tomar  p�  de  alguma  coisa.  N�o  no  muro  de  pedra,  que  era  uma ilus�o. Precisava tomar p� daquela situa��o, ser capaz de visualizar o mundo f�sico em que estava e, ao mesmo tempo, escapar dele emocionalmente.</p><p>
Ele  se  crispou  por  dentro  e  ent�o,  assim  como  abandonara  a  rocha  em  si, abandonou a id�ia da rocha e se permitiu ficar sentado l�, l�cido e livre. Olhou para o mundo. Estava respirando normalmente. Estava calmo. Estava novamente no controle. Estava  dentro  de  um  modelo  topol�gico  quadridimensional  dos  sistemas financeiros do Guia, e algu�m, ou algo, iria querer saber o motivo em breve. J� estavam vindo.</p><p>
Avan�ando  furiosamente  pelo  espa�o  virtual  na  dire��o  de  Ford  surgiu  um bando de criaturas mal�encaradas, com um olhar feroz, cabe�as pontudas e bigodinhos bem aparados, com perguntas veementes sobre quem ele era, o que estava fazendo ali, qual a sua autoriza��o, qual a autoriza��o do agente que o autorizara, qual a medida interna da sua coxa e por a� vai. Feixes de laser varriam seu corpo como se ele fosse um pacote de biscoitos passando no caixa em um supermercado. As armas a laser de grosso calibre estavam, por enquanto, recolhidas. O fato de tudo aquilo estar acontecendo em um espa�o virtual n�o fazia a menor diferen�a. Ser virtualmente morto por um laser virtual no espa�o virtual dava no mesmo, porque voc� est� t�o morto quanto pensa que est�.</p><p>
Os  feixes  de  leitura  a  laser  estavam  ficando  bastante  agitados  enquanto piscavam sobre as impress�es digitais, a retina e o padr�o folicular do ponto onde o cabelo de Ford come�ava a escassear. N�o estavam gostando nada do que descobriam. Disparavam  perguntas  altamente  pessoais  e  insolentes  com  as  vozes  cada  vez  mais esgani�adas. Um pequeno raspador cir�rgico de a�o estava se aproximando da base de sua nuca quando Ford, prendendo a respira��o e rezando ligeiramente, sacou o Ident�I</p><p>
�F�cil de Vann Harl do bolso e mostrou�o para as criaturas.</p><p>
Na  mesma  hora,  todos  os  lasers  direcionaram-se  para  o  pequeno  cart�o  e come�aram  a  fazer  uma  an�lise  completa,  de  frente  para  tr�s,  de  tr�s  para  a  frente, examinando e estudando cada mol�cula.</p><p>
Ent�o, do mesmo modo abrupto em que come�aram, terminaram.</p><p>
O bando de pequenos inspetores virtuais ficou subitamente atencioso.</p><p>
�</p><p>
Prazer em v�-lo, Sr. Harl � disseram em um un�ssono adulador.</p><p>
� Podemos fazer alguma coisa pelo senhor?</p><p>
Ford abriu um sorriso lento e malicioso.</p><p>
�</p><p>
Pensando bem � disse ele �, acho que podem, sim.</p><p>
Cinco minutos depois estava fora daquele lugar.</p><p>
Trinta segundos para fazer o servi�o e tr�s minutos e meio para apagar seus rastros. Podia ter feito praticamente qualquer coisa que quisesse na estrutura virtual. Podia ter transferido a posse da organiza��o inteira para o seu nome,  mas duvidava muito  de  que  algo  assim  passasse  despercebido.  De  qualquer  forma,  n�o  estava interessado.  Significaria  assumir  responsabilidades,  virar  noites  trabalhando  no escrit�rio,  sem  contar  as  in�meras  e  cansativas  investiga��es  de  fraude  e  um  bom per�odo na cadeia. Queria algo que ningu�m al�m do computador pudesse notar: foi isso que lhe tomou os trinta segundos.</p><p>
A coisa que lhe tomou tr�s minutos e meio foi programar o computador para n�o notar que havia notado alguma coisa.</p><p>
O computador precisava querer n�o saber o que Ford estava tramando; a partir da�, poderia deixar tranq�ilamente que ele racionalizasse as suas pr�prias defesas contra as informa��es que surgiriam. Era uma t�cnica de programa��o que havia sido projetada �s avessas a partir dos bloqueios mentais psic�ticos invariavelmente desenvolvidos por pessoas perfeitamente normais quando eram eleitas para altos cargos pol�ticos. O  minuto  restante  foi  usado  descobrindo  que  o  sistema  do  computador  j�</p><p>
possu�a um bloqueio mental. E dos grandes.</p><p>
Jamais teria descoberto aquilo se n�o estivesse ocupado criando um bloqueio mental  por  conta  pr�pria.  Encontrara  uma  por��o  de  procedimentos  de  nega��o refinados  e  plaus�veis,  al�m  de  sub-rotinas  de  efeito  dispersivo,  justamente  onde planejara instalar as suas. O computador se negou a tomar conhecimento delas, � claro, e depois se recusou terminantemente a aceitar que pudesse at� mesmo haver algo a ser negado  e,  em  geral,  estava  sendo  t�o  convincente  que  at�  mesmo  Ford  se  flagrou pensando que havia cometido um erro.</p><p>
Estava impressionado.</p><p>
Estava t�o impressionado, na verdade, que nem se deu ao trabalho de instalar as suas  pr�prias  rotinas  de  bloqueio  mental:  limitou-se  a  programar  chamadas  para  as rotinas j� existentes, que fariam chamadas a si mesmas quando solicitadas e assim por diante.</p><p>
Executou rapidamente uma pesquisa de erros nos fragmentos de c�digo que ele mesmo instalara e descobriu que n�o estavam l�. Xingando, procurou por eles em toda parte, mas n�o havia sequer vest�gios deles.</p><p>
Estava prestes a instalar tudo de novo quando percebeu que o motivo pelo qual n�o conseguia encontr�-los � que j� estavam funcionando.</p><p>
Abriu um largo sorriso de satisfa��o.</p><p>
Tentou descobrir a natureza do outro bloqueio mental do computador, mas, ao que  parecia,  n�o  atipicamente,  um  bloqueio  mental  o  impedia.  N�o  conseguia  mais encontrar nenhum tra�o dele, para falar a verdade; era dos bons. Chegou a pensar que havia imaginado tudo. Chegou a pensar se havia imaginado que tinha algo a ver com algo dentro do pr�dio e algo a ver com o n�mero treze. Fez alguns testes. �, com certeza estava imaginando coisas.</p><p>
N�o tinha tempo para fazer um roteamento mais rebuscado, j� que obviamente havia um baita alerta de seguran�a em andamento. Ford pegou o elevador at� o t�rreo para tomar um dos elevadores expressos. Tinha que encontrar uma forma de colocar o Ident�I�F�cil de volta no bolso de Harl antes que ele desse por falta. Como? N�o tinha id�ia.</p><p>
As  portas  do  elevador  se  abriram  e  revelaram  um  pelot�o  de  guardas  de seguran�a e rob�s a postos, com armas de apar�ncia obscena nas m�os. Ordenaram que sa�sse.</p><p>
Dando  de  ombros,  Ford  deu  um  passo  �  frente.  Passaram  por  ele  aos solavancos e entraram no elevador, que os conduziu para os andares inferiores, onde continuariam a sua busca por ele.</p><p>
 Isso foi hil�rio, pensou Ford, dando um tapinha camarada nas costas de Colin</p><p>
� o primeiro rob� genuinamente  �til que  Ford encontrava em sua vida.  Sacudia-se diante dele em pleno ar, em um frenesi de �xtase jovial. Ford estava satisfeito por ter lhe dado o nome de um cachorro.</p><p>
Sentiu-se altamente tentado a ir embora e torcer para tudo dar certo, mas sabia que tudo s� daria certo de verdade se Harl n�o descobrisse que seu Ident�I�F�cil n�o estava em seu bolso. Precisa devolv�-lo furtivamente.</p><p>
Seguiram para os elevadores expressos.</p><p>
�</p><p>
Ol� � disse o elevador no qual entraram.</p><p>
�</p><p>
Ol� � respondeu Ford.</p><p>
�</p><p>
Para onde posso lev�-los hoje, rapazes? � perguntou o elevador.</p><p>
�</p><p>
Andar vinte e tr�s � disse Ford.</p><p>
�</p><p>
Parece um andar bastante popular hoje � comentou o elevador. Humm, pensou Ford, n�o gostando nem um pouco daquilo. O elevador acendeu o bot�o vinte e tr�s e subiu em disparada. Alguma coisa no painel chamou a aten��o de Ford, mas ele n�o conseguiu sacar o que era e acabou deixando pra l�. Estava mais preocupado com a hist�ria do andar para onde estava indo ser popular. N�o tinha definido direito como lidaria com o que quer que estivesse se passando l� em cima porque n�o fazia a menor id�ia do que estava prestes a encontrar. Ia ter de improvisar. Chegaram.</p><p>
As portas do elevador se abriram.</p><p>
Sil�ncio agourento.</p><p>
Corredor deserto.</p><p>
L� estava a porta do escrit�rio de Harl, com uma leve camada de poeira � sua volta. Ford sabia que aquela poeira nada mais era do que bilh�es de rob�s moleculares min�sculos  que  haviam  sa�do  de  dentro  do  batente,  constru�do  uns  aos  outros, reconstru�do a porta, se desmembrado uns aos outros e depois voltado para o batente novamente, onde ficariam aguardando o pr�ximo estrago. Ford se perguntou que tipo de vida  era  aquela,  mas  n�o  por  muito  tempo,  pois  estava  muito  mais  preocupado  em pensar que tipo de vida era a sua no momento.</p><p>
Respirou fundo e partiu com tudo.</p><p><strong>CAP�TULO 9</strong></p><p>
Arthur estava se sentindo um pouco perdido. Havia toda uma Gal�xia de coisas l� fora � sua disposi��o e ele se questionava se era mesquinho de sua parte reclamar da falta de apenas duas coisas: o mundo no qual nascera e a mulher que amava. Dane-se  e  exploda-se,  pensou  ele,  sentindo  necessidade  de  orienta��o  e conselho. Consultou O Guia do Mochileiro das Gal�xias. Procurou por "orienta��o" e leu "Ver CONSELHO". Procurou "conselho" e estava escrito "Ver ORIENTA��O". Aquilo estava acontecendo bastante nos �ltimos tempos e ele se perguntou se o Guia era t�o bom quanto diziam.</p><p>
Dirigiu-se  para  a  Borda  Oriental  da  Gal�xia,  onde,  segundo  diziam,  era poss�vel encontrar sabedoria e verdade, mais especificamente no planeta Hawalius, que era um lugar de or�culos, videntes e profetas, e tamb�m de pizzarias que entregavam em casa, porque quase todos os m�sticos eram completamente incapazes de cozinhar para si mesmos.</p><p>
No entanto, aparentemente algum tipo de calamidade havia assolado o planeta. Enquanto perambulava pelas ruas da cidade onde viviam os profetas mais importantes, n�o p�de deixar de perceber um certo ar de des�nimo. Encontrou com um profeta que estava  visivelmente  fechando  as  portas,  melanc�lico,  e  perguntou  o  que  estava acontecendo.</p><p>
�</p><p>
Ningu�m mais procura a gente � respondeu ele, mal-humorado, batendo um prego sobre a t�bua com que estava fechando a janela de sua cabana.</p><p>
�</p><p>
Ah, �? Por qu�?</p><p>
�</p><p>
Segura essa outra ponta que eu te mostro.</p><p>
Arthur segurou a ponta solta da placa e o velho profeta entrou depressa no interior do casebre, voltando alguns segundos depois com um pequeno r�dio subeta. Ligou o aparelho, mexeu no bot�o de sintonia para l� e para c� e depois colocou o r�dio sobre  o  pequeno  banco  de  madeira  no  qual  costumava  sentar-se  e  profetizar.  Em seguida, voltou para segurar a placa e continuou a martelar na parede. Arthur sentou-se e ficou ouvindo o r�dio.</p><p>
�</p><p>
... ser confirmado � disse o r�dio.</p><p>
�</p><p>
Amanh� � prosseguiu �, o vice-presidente de Poffla Vigus, Roopy Ga Stip, ir� anunciar que pretende se candidatar � presid�ncia. No discurso que far� amanh�</p><p>
na...</p><p>
�</p><p>
Mude de esta��o � disse o profeta. Arthur apertou um bot�o de troca de canais.</p><p>
�</p><p>
...recusou-se  a  comentar  �  disse  o  r�dio.  �  O  n�mero  total  de desempregados no setor Zabush na pr�xima semana ser� o pior de todos os tempos. Um relat�rio publicado m�s que vem diz...</p><p>
�</p><p>
Outra � rosnou o profeta, irritado. Arthur apertou o bot�o novamente.</p><p>
�</p><p>
...negou categoricamente � disse o r�dio. � O casamento real do m�s que vem entre o Pr�ncipe Gid da dinastia Soofling e a Princesa Hooli de Raui Alpha ser�  a  cerim�nia  mais  espetacular  j�  vista  nos  Territ�rios  Bjanjy.  A  nossa  rep�rter Trillian Astra est� no local, com mais informa��es.</p><p>
Arthur piscou.</p><p>
O som da multid�o e a algazarra de uma banda surgiram do r�dio. Uma voz bastante familiar disse:</p><p>
�</p><p>
Bem,  Krart,  a  cena  aqui  no  meio  do  m�s  que  vem  �  absolutamente incr�vel. A Princesa Hooli est� radiante em um...</p><p>
O profeta deu um safan�o no r�dio, que caiu do banco no ch�o empoeirado, gemendo como galinha desafinada.</p><p>
 �</p><p>
Viu s� com o que temos de competir? � resmungou o profeta. � Aqui, segure isto. N�o isso, isto aqui. N�o, assim n�o. Essa parte para cima. Do outro lado, seu imbecil.</p><p>
�</p><p>
Ei, eu  estava  escutando  � reclamou  Arthur, lutando desajeitadamente com o martelo do profeta.</p><p>
�</p><p>
Voc�  e  todo  mundo.  �  por  isso  que  este  lugar  parece  uma  cidade fantasma. � Ele cuspiu na poeira.</p><p>
�</p><p>
N�o, n�o � isso, � que parecia a voz de uma pessoa que eu conheci.</p><p>
�</p><p>
A Princesa Hooli? Se eu tivesse que ficar parado dizendo oi para todo mundo que conheceu a Princesa Hooli, ia precisar de um novo par de pulm�es.</p><p>
�</p><p>
N�o, a princesa, n�o � explicou Arthur. � A rep�rter. O nome dela �</p><p>
Trillian. N�o sei qual � a do Astra. Somos do mesmo planeta. Eu vivia me perguntando que fim a Trillian tinha levado.</p><p>
�</p><p>
Ah, ela est� em todas atualmente. As esta��es de tev� tridimensionais n�o pegam por aqui, � claro, gra�as ao Megarresfriadon Verde, mas a gente a escuta no r�dio, saracoteando pelo espa�o-tempo sem parar. Era melhor ela sossegar e encontrar uma era fixa, essa mo�a. Isso vai acabar em l�grimas. Provavelmente j� acabou. � Ele balan�ou o martelo e acabou atingindo o ded�o com toda a for�a. Come�ou a praguejar. O vilarejo dos or�culos n�o estava l� muito melhor.</p><p>
Haviam lhe dito que, ao procurar por um bom or�culo, o ideal era encontrar o or�culo que os outros or�culos freq�entavam, mas ele estava fechado. Havia um aviso na entrada dizendo "N�o sei mais nada. Tente a� do lado � mas isso � s� uma sugest�o, n�o um conselho formal de or�culo".</p><p>
"A�  do  lado"  era  uma  caverna  a  alguns  metros,  e  Arthur  caminhou  at�  l�. Fuma�a e vapor subiam, respectivamente, de uma pequena fogueira e de uma panela de lata desgastada pendurada acima da fogueira. Sa�a um cheiro insuport�vel da panela. Ou, pelo menos, Arthur sup�s que o cheiro viesse da panela. As bexigas dilatadas de algumas criaturas locais semelhantes a bodes estavam penduradas em um varal, secando ao sol, e o cheiro podia estar vindo dali. Havia tamb�m, preocupantemente pr�xima, uma pilha dos corpos descartados das criaturas locais semelhantes a bodes, e o cheiro tamb�m podia estar vindo de l�.</p><p>
Mas o cheiro tamb�m podia tranq�ilamente estar vindo da senhora que estava ocupada espantando as moscas da pilha de corpos. Era uma tarefa ingl�ria, uma vez que cada mosca era do tamanho de uma tampinha de garrafa, com asas, e ela s� tinha uma raquete de t�nis de mesa. Parecia tamb�m ser meio cega. De vez em quando, por acaso, uma  das  suas  pancadas  enlouquecidas  acertava  uma  das  moscas  com  um  safan�o altamente satisfat�rio e a mosca zunia pelo ar, indo se estra�alhar na parede de rocha pr�xima � entrada da caverna.</p><p>
Ela  dava a impress�o, pelo seu comportamento,  de  que  sua vida  girava em torno de momentos como aquele.</p><p>
Arthur  assistiu  �quela  performance  ex�tica  por  um  tempo,  mantendo  uma dist�ncia  educada,  e  depois  finalmente  tentou  tossir  discretamente  para  chamar  a aten��o da mulher. A tosse discreta em tom cort�s infelizmente obrigou Arthur a inalar mais ar local do que havia feito at� ent�o e, por causa disso, ele teve um acesso de expectora��o estridente e caiu de encontro � rocha, engasgado e com o rosto coberto de l�grimas.   Lutou   para   respirar,   mas,   cada   vez  que  inalava,  a  situa��o  ficava  pior. Vomitou, engasgou novamente, rolou sobre o pr�prio v�mito, continuou rolando mais alguns  metros  e,  finalmente,  conseguiu  ficar  de  quatro  e  se  arrastou,  ofegante,  em dire��o a um ar um pouquinho mais fresco.</p><p>
�</p><p>
Com licen�a � disse ele. Recuperara um pouco de ar. � Sinto muito, muit�ssimo  mesmo.  Estou  me  sentindo  completamente  idiota  e...  �  Apontou constrangido  para  a  pequena  po�a  de  seu  pr�prio  v�mito,  espalhada  na  entrada  da caverna. � O que posso dizer? � perguntou ele. � O que dizer numa situa��o como essa?</p><p>
Aquilo,  pelo  menos,  chamou  a  aten��o  da  mulher.  Ela  virou-se  para  ele, desconfiada,  mas,  por  ser  meio  cega,  teve  uma  certa  dificuldade  de  distingui-lo  na paisagem emba�ada e rochosa.</p><p>
Ele acenou, para ajudar.</p><p>
�</p><p>
Ol�! � disse ele.</p><p>
Finalmente ela o localizou, resmungou entre dentes e voltou a dar pancadas nas moscas.</p><p>
Estava  terrivelmente  aparente,  julgando  pela  oscila��o  das  correntes  de  ar conforme ela se mexia, que a principal fonte do fedor era ela. As bexigas no varal, os corpos  pestilentos  e  a  sopa  insalubre  certamente  contribu�am  violentamente  para  a atmosfera geral, mas a principal presen�a olfativa era a mulher em si. Acertou outra pancada em uma das moscas. Ela se despeda�ou contra a rocha e esvaiu-se em um filete l�quido de uma forma que a mulher obviamente via, se � que enxergava at� l�, como bastante satisfat�ria.</p><p>
Vacilante, Arthur ficou de p� e se limpou com um punhado de grama seca. N�o sabia mais o que fazer para anunciar sua presen�a. Chegou a pensar em ir embora de fininho, mas n�o achou de bom tom deixar um montinho de v�mito na frente da casa dela. Pensou no que podia fazer a respeito. Come�ou a colher mais punhados da grama seca aqui e ali. Mas estava com medo de se aproximar do v�mito e, em vez de limpar, aumentar mais a po�a.</p><p>
Justo  enquanto  estava  debatendo  consigo  mesmo  sobre  qual  seria  a  melhor coisa a fazer percebeu que a mulher estava finalmente falando com ele.</p><p>
�</p><p>
Desculpe, o que a senhora disse?</p><p>
�</p><p>
Eu perguntei em que poderia ajudar � disse ela, com uma voz fina e �spera que ele mal conseguia ouvir.</p><p>
�</p><p>
�... eu vim pedir o seu conselho � respondeu ele, sentindo-se um pouco rid�culo.</p><p>
Ela virou-se para observ�-lo, miopemente, depois voltou-se, tentou acertar uma mosca e errou.</p><p>
�</p><p>
Sobre o qu�? � perguntou a mulher.</p><p>
�</p><p>
Como?</p><p>
�</p><p>
Eu perguntei sobre o qu� � repetiu ela, estridente.</p><p>
�</p><p>
Bem  �  disse  Arthur.  �  Conselhos  gen�ricos,  para  falar  a  verdade. Estava escrito no folheto que...</p><p>
�</p><p>
Humpt! Folheto! � resmungou a mulher. Ela j� parecia estar sacudindo a raquete de maneira quase aleat�ria.</p><p>
Arthur pescou o folheto, caindo aos peda�os, do bolso. N�o sabia exatamente por qu�. J� havia lido aquilo tudo e tinha a impress�o de que ela n�o estava nem um pouco interessada em ler. Desdobrou-o assim mesmo, para ter uma coisa que pudesse olhar  enquanto  franzia  a  testa,  pensativo,  durante  alguns  minutos.  O  folheto prodigalizava  as  ancestrais  artes  m�sticas  dos  videntes  e  dos  s�bios  de  Hawalius,  e falava, de forma altamente exacerbada, sobre o n�vel de acomoda��o oferecida por l�. Arthur ainda carregava uma c�pia do Guia do Mochileiro das Gal�xias consigo, mas estava achando, sempre que o consultava, que as entradas estavam ficando cada vez mais confusas e paran�icas, com v�rios xis e jotas e colchetes. Alguma coisa estava errada em algum lugar. N�o sabia dizer se era apenas um problema com o seu exemplar, se algo ou algu�m estava fazendo besteiras inomin�veis ou tendo alucina��es no centro da organiza��o do Guia. Mas, de qualquer jeito, estava ainda menos disposto a confiar nele mais do que o normal, ou seja, n�o confiava nem um pouco e o usava, na maioria das  vezes,  como  apoio  quando  queria  comer  um  sandu�che  sentado  em  uma  pedra olhando para o al�m.</p><p>
A mulher havia se virado e estava caminhando em sua dire��o. Arthur tentou, discretamente, analisar a dire��o do vento e movimentou�se um pouco enquanto ela se aproximava.</p><p>
�</p><p>
Conselhos � disse ela. � Conselhos, n�?</p><p>
�</p><p>
�, isso mesmo � respondeu Arthur. � �, isso �...</p><p>
Franziu a testa novamente para o folheto, como se para se certificar de que n�o havia  lido  errado  e  ido  parar  no  planeta  errado  ou  algo  assim.  Estava  escrito:  "Os amig�veis  habitantes  locais  ter�o  imenso  prazer  em  compartilhar  com  voc�  o conhecimento e a sabedoria dos ancestrais. Mergulhe com eles nos intrincados mist�rios do passado e do futuro!" Havia tamb�m alguns cupons de desconto, mas Arthur estava constrangido demais para recort�-los e tentar entreg�-los para algu�m.</p><p>
�</p><p>
Conselho, n�? � repetiu a mulher. � Gen�ricos, voc� diz. Sobre o qu�?</p><p>
O que fazer da sua vida, coisas assim?</p><p>
�</p><p>
Exatamente  �  respondeu  Arthur.  �  Coisas  assim.  Para  ser  sincero, tenho tido alguns probleminhas. � Estava esgueirando-se de maneira discreta, tentando desesperadamente  aproveitar  o  vento.  Ele  se  assustou  quando  ela  se  afastou bruscamente, dirigindo-se para a caverna.</p><p>
�</p><p>
Voc� vai ter de me ajudar com a m�quina de fotoc�pias ent�o � disse ela.</p><p>
�</p><p>
Com o qu�? � perguntou Arthur.</p><p>
�</p><p>
A m�quina de fotoc�pias � repetiu ela, paciente. � Voc� precisa me ajudar a arrast�-la para fora. Ela � movida a energia solar. Mas eu tenho que guard�-la dentro da caverna, sen�o os passarinhos cagam tudo.</p><p>
�</p><p>
Entendi � disse Arthur.</p><p>
�</p><p>
Eu respiraria fundo, se fosse voc� � resmungou a senhora, pisando duro e adentrando a escurid�o da caverna.</p><p>
Arthur  seguiu  o  conselho.  Na  verdade,  inalou  o  m�ximo  de  ar  que  p�de. Quando sentiu que estava pronto, segurou a respira��o e seguiu a mulher. A  m�quina  de  fotoc�pias  era  uma  tralha  velha  e  pesada,  apoiada  em  um carrinho  bamboleante.  Ficava  imersa  na  penumbra  da  caverna.  As  rodinhas  estavam obstinadamente emperradas em dire��es diferentes e o ch�o era irregular e pedregoso.</p><p>
�</p><p>
Vai pegar um ar l� fora � disse a mulher. Arthur estava com o rosto vermelho, tentando ajud�-la a mover a m�quina.</p><p>
Ele balan�ou a cabe�a, aliviado. Se ela n�o estava constrangida com aquilo, ent�o ele estava decidido a n�o ficar tamb�m. Saiu da caverna e respirou fundo algumas vezes, voltando em seguida para continuar o trabalho pesado. Precisou repetir aquela estrat�gia algumas vezes at� conseguir colocar a m�quina para fora. A  luz  do  sol  a  atingiu  em  cheio.  A  mulher  tornou  a  desaparecer  caverna adentro e  voltou carregando  uns  pain�is  de metal  mosqueados,  que  ela  conectou  na m�quina para captar a energia solar.</p><p>
Ela olhou para o c�u com os olhos semicerrados. O sol estava bem forte, mas o dia estava nublado.</p><p>
�</p><p>
Vai demorar um pouquinho � avisou ela.</p><p>
Arthur disse que esperava numa boa.</p><p>
 A senhora deu de ombros e marchou at� a fogueira. O conte�do da panelinha estava borbulhando. Ela remexeu com um peda�o de pau.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o quer almo�ar? � perguntou a mulher.</p><p>
�</p><p>
J� almocei, obrigado � disse Arthur. � N�o mesmo. J� almocei.</p><p>
�</p><p>
Sei  �  disse  ela.  Continuou  mexendo  com  o  peda�o  de  pau.  Alguns minutos depois, pescou um peda�o de alguma coisa, assoprou um pouco para esfriar e enfiou na boca.</p><p>
Mastigou pensativa por alguns instantes.</p><p>
Ent�o,  caminhou  lentamente  at�  a  pilha  das  criaturas  mortas  semelhantes  a bodes. Cuspiu o peda�o em cima da pilha. Voltou para a panela. Tentou remov�-la do suporte parecido com um trip� onde estava encaixada.</p><p>
�</p><p>
Quer ajuda? � ofereceu Arthur, levantando�se educadamente.</p><p>
Correu at� ela.</p><p>
Juntos, conseguiram remover a tigela do trip� e a levaram desajeitadamente pela  pequena  descida  at�  a  sa�da  da  caverna,  em  dire��o  a  uma  fileira  de  �rvores raqu�ticas e retorcidas que delimitavam a �rea de uma vala �ngreme, mas rasa, de onde emergiu toda uma nova gama de fedores.</p><p>
�</p><p>
Preparado? � perguntou a senhora.</p><p>
�</p><p>
Sim... � respondeu Arthur, embora n�o soubesse para qu�.</p><p>
�</p><p>
Um � disse a velha.</p><p>
�</p><p>
Dois � continuou.</p><p>
�</p><p>
Tr�s � acrescentou.</p><p>
Arthur percebeu, em cima da hora, o que ela queria fazer. Juntos, lan�aram o conte�do da panela dentro da vala.</p><p>
Ap�s uma ou duas horas de sil�ncio n�o-comunicativo, a senhora decidiu que os pain�is solares j� haviam absorvido luz o suficiente para fazer funcionar a m�quina de fotoc�pias e desapareceu caverna adentro para procurar alguma coisa. Finalmente, reapareceu com algumas resmas de papel e as inseriu na m�quina. Entregou as c�pias para Arthur.</p><p>
�</p><p>
Estes s�o, ah, estes s�o seus conselhos? � perguntou Arthur, folheando as p�ginas, indeciso.</p><p>
 � N�o � respondeu ela. � Essa � a hist�ria da minha vida. Sabe, a qualidade de  qualquer  conselho que  uma  pessoa  pode dar  deve  ser  avaliada  de  acordo com a qualidade da vida que essa pessoa levou. Ao examinar esse documento, voc� vai notar que eu sublinhei todas as principais decis�es que precisei tomar, para destac�-las. Est�o em ordem alfab�tica e tem um �ndice remissivo. Entendeu? Ent�o, sugiro apenas que voc� tome decis�es contr�rias �s que eu tomei, porque assim voc� talvez n�o termine sua vida... � ela fez uma pausa e encheu os pulm�es para um bom grito � em uma caverna velha e fedorenta como esta!</p><p>
Recolheu  sua  raquete  de  t�nis  de  mesa,  arrega�ou  as  mangas,  marchou  em dire��o � pilha de criaturas mortas semelhantes a bodes e come�ou a espantar as moscas com vitalidade e vigor.</p><p>
A  �ltima  cidade  que  Arthur  visitou  era  composta  inteiramente  de  postes extremamente altos. Eram t�o altos que era imposs�vel dizer, do ch�o, o que havia l� em cima, e Arthur teve de escalar pelo menos tr�s antes de encontrar um que tivesse algo al�m de uma plataforma coberta de coc� de passarinho.</p><p>
N�o era uma  tarefa f�cil. Para escalar os postes, era preciso subir em umas pequenas estacas  de  madeira  que haviam sido  pregadas  em espiral. Qualquer turista menos diligente do que Arthur teria se contentado em tirar algumas fotos e deslizado de volta para a pr�xima churrascaria, onde tamb�m se podia comprar uma ampla variedade de bolinhos de chocolate bem suculentos para comer na frente dos ascetas. Mas, em grande parte por conta disso, a maioria dos ascetas havia deixado a cidade. Para falar a verdade, a maioria tinha montado centros de terapia bastante lucrativos em alguns dos mundos mais afluentes na Ondula��o Nordeste da Gal�xia, onde a vida era dezessete milh�es de vezes mais f�cil e o chocolate era maravilhoso. Foi descoberto que a maioria dos  ascetas n�o  conhecia  o  chocolate antes de adotar  o ascetismo.  J� a  maioria  dos clientes que procuravam os centros de terapia o conhecia bem demais. No topo do terceiro poste, Arthur parou para respirar. Estava com muito calor e sem f�lego, j� que cada poste tinha quinze ou vinte metros de altura. Tinha a impress�o de  que  o  mundo  estava  oscilando  vertiginosamente  �  sua  volta,  mas  n�o  estava preocupado  com  aquilo.  Sabia  que,  logicamente,  n�o  podia  morrer  at�  chegar  em Stavromula Beta e aprendera a cultivar uma atitude positiva diante de perigos extremos. Sentia-se um pouco tonto empoleirado em cima de um poste a quinze metros do ch�o, mas  decidiu lidar com aquilo comendo um sandu�che. Estava prestes a embarcar na leitura da vers�o fotocopiada da vida do or�culo quando ficou um tanto quanto surpreso ao escutar algu�m tossindo discretamente atr�s dele.</p><p>
Sentia-se abruptamente, deixando cair o sandu�che, que despencou pelo ar e ficou bem pequeno quando sua queda foi interrompida pelo ch�o. A uns nove metros atr�s de Arthur havia um outro poste, o �nico na floresta esparsa de umas tr�s d�zias de postes que tinha algu�m no topo. Estava ocupado por um velho que, por sua vez, parecia estar ocupado com pensamentos profundos que o faziam franzir as sobrancelhas.</p><p>
�</p><p>
Com licen�a � disse Arthur. O homem o ignorou. Talvez n�o pudesse escut�-lo. Havia uma brisa soprando. Arthur s� escutara a tosse discreta por acaso.</p><p>
�</p><p>
Ol�? � tentou Arthur. � Ol�!</p><p>
O homem finalmente olhou em volta. Pareceu surpreso ao v�-lo. Arthur n�o sabia ao certo se estava surpreso e contente por avist�-lo ou apenas surpreso.</p><p>
�</p><p>
O senhor est� aberto? � perguntou Arthur.</p><p>
O homem franziu a testa, como se n�o tivesse compreendido. Arthur n�o sabia dizer se ele n�o entendera ou n�o ouvira a pergunta.</p><p>
�</p><p>
Vou dar um pulo a� � gritou Arthur. � N�o v� embora.</p><p>
Saiu da pequena plataforma e desceu rapidamente pelos degraus em espiral, sentindo-se bastante tonto quando atingiu o ch�o.</p><p>
Come�ou a se dirigir para o poste onde o velho estava sentado, mas percebeu subitamente que havia perdido o senso de dire��o ao descer e n�o sabia mais qual era. Olhou �  sua  volta, procurando  pontos  de  refer�ncia  e  descobriu para  onde deveria ir.</p><p>
Subiu no poste. N�o era aquele.</p><p>
�</p><p>
Droga � disse ele. � Desculpe! � gritou para o velho novamente, que agora estava bem na sua frente, a uns dez metros de dist�ncia.</p><p>
� Me perdi. J� estou indo pra a�. � Desceu novamente, ficando realmente com calor e irritado.</p><p>
Quando chegou ao topo, ofegante  e  suado, certo de  que aquele  era  o poste correto, percebeu que o velho estava, de alguma maneira, tripudiando dele.</p><p>
�</p><p>
O que voc� quer? � gritou o velho, mal-humorado. Estava sentado no alto do poste que Arthur reconheceu como sendo o mesmo em que ele pr�prio estivera h� pouco, quando estava comendo o sandu�che.</p><p>
�</p><p>
Como  �  que  voc�  conseguiu  chegar  at�  a�?  �  perguntou  Arthur, impressionado.</p><p>
�</p><p>
Voc�  acha  que  eu  vou  te  contar  assim  t�o  f�cil  o  que  levei  quarenta primaveras, ver�es e outonos sentado no alto de postes para descobrir?</p><p>
�</p><p>
E os invernos?</p><p>
�</p><p>
O que t�m os invernos?</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o fica sentado a� nos invernos?</p><p>
�</p><p>
S� porque passei a maior parte da minha vida sentado em um poste �</p><p>
disse o homem �, n�o quer dizer que eu seja um imbecil. Vou para o sul no inverno. Tenho uma casa de praia. Fico sentado na pilha de lenha para a lareira.</p><p>
�</p><p>
Voc� tem algum conselho para um viajante?</p><p>
�</p><p>
Sim. Arrume uma casa de praia.</p><p>
�T�.</p><p>
O  homem  contemplou  a  paisagem  quente,  �rida  e  recoberta  por  pequenos arbustos. Arthur podia ver a senhora ao longe, um pontinho na dist�ncia, agitando-se para l� e para c� tentando acertar as moscas.</p><p>
�</p><p>
Est� vendo aquilo? � perguntou o velho, de repente.</p><p>
�</p><p>
Estou � respondeu Arthur. � Eu fui consult�-la.</p><p>
 �</p><p>
N�o sabe de nada, ela. Consegui a casa de praia porque ela recusou. Que conselho ela te deu?</p><p>
�</p><p>
Disse para fazer exatamente o oposto do que ela fez.</p><p>
�</p><p>
Em outras palavras, arrume uma casa de praia.</p><p>
�</p><p>
Deve ser � disse Arthur. � Bom, talvez eu arrume uma.</p><p>
�</p><p>
Hummm.</p><p>
O horizonte nadava em uma onda distorcida de calor f�tido.</p><p>
�</p><p>
Mais algum conselho? � perguntou Arthur. � Que n�o tenha a ver com estadas na praia?</p><p>
�</p><p>
Praia n�o � apenas uma estada. � um estado de esp�rito � respondeu o homem. Virou-se e olhou para Arthur.</p><p>
Curiosamente, o rosto dele estava agora a poucos metros. Parecia manter um formato perfeitamente normal, mas o corpo estava sentado de pernas cruzadas em um poste  a dez  metros  de  dist�ncia  e o rosto estava  ali, a alguns  metros. Sem mexer  a cabe�a e, aparentemente, sem fazer nada de ex�tico, ele se levantou e pulou para o alto de um outro poste. Ou era um efeito do calor, pensou Arthur, ou o espa�o tinha uma forma��o um pouco diferente para ele.</p><p>
�</p><p>
Uma  casa  de  praia  �  disse  �  nem  mesmo  precisa  estar  na  praia. Embora as melhores estejam. Todos n�s gostamos de nos congregar � prosseguiu �</p><p>
em condi��es lim�trofes.</p><p>
�</p><p>
� mesmo? � perguntou Arthur.</p><p>
�</p><p>
Onde o solo encontra a �gua. Onde a terra encontra o ar. Onde o corpo encontra  a  mente. Onde o espa�o encontra  o tempo.  Gostamos  de estar de  um lado contemplando o outro.</p><p>
Arthur  ficou  animad�ssimo.  Aquilo  era  exatamente  o  tipo  de  coisa  que  o folheto prometera. Ali estava um sujeito que parecia estar se movendo atrav�s de algum espa�o de Escher, dizendo coisas altamente profundas sobre v�rios assuntos. No entanto, era irritante. O sujeito estava agora pulando dos postes para o ch�o, do ch�o para os postes, de poste para poste, de poste para o horizonte e voltando: estava bagun�ando de vez com o universo espacial de Arthur.</p><p>
�</p><p>
Por favor, pare com isso! � pediu Arthur, de repente.</p><p>
�</p><p>
N�o  consegue  ag�entar,  n�?  �  disse  o  homem.  Sem  fazer  o  menor movimento, l� estava ele de volta, sentado de pernas cruzadas no alto de um poste a dez metros de dist�ncia de Arthur. � Voc� veio atr�s de um conselho, mas n�o consegue lidar com nada que n�o conhe�a. Humm. Ent�o temos que dizer algo que voc� j� esteja cansado  de  saber,  fazendo  com  que  pare�a  uma  novidade,  n�?  Bem,  o  de  sempre, suponho. � Ele suspirou e varreu o horizonte com um olhar tristonho.</p><p>
�</p><p>
De onde voc� �, rapaz? � perguntou ele.</p><p>
Arthur resolveu bancar o esperto. Estava cansado de ser confundido com um idiota completo por todos que encontrava.</p><p>
�</p><p>
Sabe de uma coisa? � disse ele. � O vidente � voc�. Por que n�o me diz?</p><p>
O velho suspirou novamente.</p><p>
�</p><p>
Eu s� estava puxando conversa � disse ele, passando a m�o em volta da cabe�a. Quando trouxe a m�o novamente para a frente, uma imagem da Terra girava na ponta de seu dedo indicador. Era inconfund�vel. O globo desapareceu. Arthur estava atordoado.</p><p>
�</p><p>
Como � que voc�...</p><p>
�</p><p>
N�o posso dizer.</p><p>
�</p><p>
Por que n�o? Eu viajei muito!</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o pode ver o que eu vejo porque v� o que voc� v�. N�o pode saber o que sei porque sabe o que voc� sabe. O que vejo e o que sei n�o podem ser acrescentados ao que voc� v� e ao que voc� sabe porque s�o coisas diferentes. Tamb�m n�o  podem  substituir  o  que  voc�  v�  e  o  que  sabe  porque  isso  seria  substituir  voc�</p><p>
mesmo.</p><p>
�</p><p>
Calma  a�,  posso  anotar  isso?  �  perguntou  Arthur,  procurando freneticamente um l�pis em seu bolso.</p><p>
�</p><p>
Voc� pode apanhar uma c�pia no espa�oporto � disse o velho. � Eles t�m um monte disso por l�.</p><p>
�</p><p>
Ah � disse Arthur, decepcionado. � Bom, n�o tem nada que seja um pouquinho mais espec�fico para mim?</p><p>
�</p><p>
Tudo  o  que  voc�  v�,  ouve  ou  viv�ncia  de  qualquer  jeito  que  seja  �</p><p>
espec�fico para voc�. Voc� cria um universo ao perceb�-lo, ent�o tudo no universo que percebe � espec�fico para voc�.</p><p>
 Arthur olhou para ele, desconfiado.</p><p>
�</p><p>
Tamb�m encontro isso no espa�oporto? � perguntou.</p><p>
�</p><p>
Pode conferir � respondeu o velho.</p><p>
�</p><p>
Diz aqui no folheto � disse Arthur, sacando o papel do bolso e olhando novamente � que eu tenho direito a uma ora��o especial, criada especialmente para mim e para as minhas necessidades espec�ficas.</p><p>
�</p><p>
Ah, t� � disse o velho. � Vou lhe dar uma ora��o. Tem um l�pis a�?</p><p>
�</p><p>
Tenho � disse Arthur.</p><p>
�</p><p>
� assim. Vamos l�: "Proteja-me de ficar sabendo daquilo que n�o preciso saber. Proteja-me at� mesmo de ficar sabendo que existem coisas que n�o sei. Proteja�</p><p>
me de ficar sabendo que decidi n�o saber das coisas que decidi n�o saber. Am�m." �</p><p>
isso. � o mesmo que voc� fica rezando em sil�ncio dentro de sua cabe�a, ent�o pode falar em voz alta que n�o muda nada.</p><p>
�</p><p>
Humm � disse Arthur. � Bem, obrigado...</p><p>
�</p><p>
Tem  uma  outra  ora��o  que  acompanha  essa  e  �  muito  importante  �</p><p>
continuou o velho. � � melhor anotar tamb�m.</p><p>
�</p><p>
Certo.</p><p>
�</p><p>
� assim: "Senhor, Senhor, Senhor..." � melhor acrescentar esta parte, por via das d�vidas. Preven��o nunca � demais: "Senhor, Senhor, Senhor. Proteja-me das conseq��ncias da ora��o anterior. Am�m." Pronto. A maior parte dos problemas que as pessoas enfrentam na vida vem do fato de elas deixarem essa parte de fora.</p><p>
�</p><p>
Voc� j� ouviu falar de um lugar chamado Stavromula Beta? �perguntou Arthur.</p><p>
�</p><p>
N�o.</p><p>
�</p><p>
Bom, obrigado pela ajuda � disse ele.</p><p>
�</p><p>
N�o tem de qu� � disse o homem sobre o poste, e desapareceu.</p><p><strong>CAP�TULO 10</strong></p><p>
Ford  atirou-se  contra  a  porta  do  escrit�rio  do  editor-chefe,  agachou-se, enrolado como uma bola, enquanto a porta cedia novamente. Rolou rapidamente pelo ch�o at� o sofisticado sof� de couro cinza e fixou a sua base operacional estrat�gica atr�s dele.</p><p>
Esse, pelo menos, era o plano.</p><p>
Infelizmente, o sofisticado sof� de couro cinza n�o estava l�. Por que, perguntou-se Ford, enquanto dava cambalhotas no ar, cambaleava, se agachava e se atirava atr�s da mesa de Harl para se proteger, as pessoas tinham aquela obsess�o idiota de mudar a arruma��o de seus escrit�rios a cada cinco minutos?</p><p>
Por  que,  por  exemplo,  trocar  um  sof�  de  couro  cinza  perfeitamente aproveit�vel, ainda que um pouco desbotado, por algo que mais parecia um pequeno tanque de guerra?</p><p>
E quem era o sujeito grand�o com um lan�ador de foguetes m�vel apoiado no ombro? Algum membro da diretoria? N�o podia ser. Estava na sala da diretoria. Pelo menos, na diretoria do Guia. De onde aqueles sujeitos da InfmiDim tinham vindo s�</p><p>
Zarquon sabia. A julgar pela cor e textura de suas peles, que lembravam lesmas, n�o devia ser um lugar muito ensolarado. Estava tudo errado, pensou Ford. Pessoas ligadas ao Guia deviam vir de lugares ensolarados.</p><p>
Havia  uma  boa  quantidade  deles,  na  verdade,  e  todos  pareciam  estar  com armamentos  e  escudos  protetores  mais  pesados  do  que  se  esperava  normalmente  de executivos, mesmo no brutal mundo de neg�cios daqueles tempos. Claro  que  quase  tudo  era  apenas  suposi��o.  Estava  supondo  que  aqueles sujeitos  grand�es,  de  pesco�o  largo  e  apar�ncia  de  lesmas  estavam  de  algum  modo ligados � InfmiDim, mas era uma suposi��o bastante razo�vel e ele ficava contente com isso,  uma  vez  que  eles  ostentavam  emblemas  em  suas  coura�as  onde  se  podia  ler</p><p>
"Corpora��o InfmiDim". Estava com uma inc�moda suspeita, contudo, de que aquilo n�o era uma reuni�o de neg�cios. Tamb�m tinha a inc�moda sensa��o de que aquelas criaturas  lhe  eram,  de  algum  modo,  familiares.  Familiares  de  uma  maneira  nada familiar.</p><p>
Bom, j� estava no escrit�rio h� uns bons dois segundos e meio e achou que provavelmente fosse a hora de come�ar a fazer algo de construtivo. Podia tomar um ref�m. Era uma boa id�ia.</p><p>
Vann Harl estava em sua cadeira girat�ria, assustado, p�lido e visivelmente abalado.  Al�m  da  pancada  na  nuca,  devia  ter  recebido  alguma  not�cia  ruim.  Ford levantou-se num salto e correu para rend�-lo.</p><p>
Sob   o   pretexto   de   lhe   aplicar  uma  boa  e  s�lida  chave  de  cotovelo,  Ford conseguiu recolocar furtivamente o Ident�I�F�cil de volta no bolso interno do palet�</p><p>
de Harl.</p><p>
Genial!</p><p>
Acabara de fazer o que fora fazer. Agora s� precisava enrolar as pessoas para conseguir dar o fora.</p><p>
�</p><p>
O.k. � come�ou ele. � Eu... � fez uma pausa.</p><p>
O  sujeito  grand�o  com  o  lan�ador  de  foguetes  virou-se  na  sua  dire��o  e apontou  para  ele,  o  que  Ford  n�o  p�de  deixar  de  considerar  um  gesto  vastamente irrespons�vel.</p><p>
�</p><p>
Eu...  �  recome�ou  e,  ent�o,  em  um  impulso  repentino,  decidiu  se abaixar.</p><p>
Um rugido ensurdecedor tomou conta do recinto, enquanto chamas sa�am da parte de tr�s do lan�ador de foguetes e um foguete sa�a pela parte da frente. O  foguete  passou  direto  por  Ford  e  atingiu  a  enorme  janela  de  vidro,  que explodiu em uma chuva de milhares de cacos com a for�a da explos�o. Grandes ondas de  choque  de  barulho  e  press�o  do  ar  reverberaram  pelo  recinto,  sugando  algumas cadeiras, um arquivo e Colin, o rob� de seguran�a, para fora da janela. Ah�! Ent�o as janelas n�o eram totalmente � prova de foguetes, afinal, pensou Ford  consigo  mesmo.  Algu�m  deveria  conversar  com  outra  pessoa  sobre  aquilo. Desembara�ou-se de Harl e tentou descobrir para onde correr. Estava cercado.</p><p>
 O sujeito grand�o com o lan�ador de foguetes estava preparando a arma para um novo lan�amento.</p><p>
Ford n�o fazia a menor id�ia de qual seria o seu pr�ximo passo.</p><p>
� Vejam bem � disse ele em uma voz severa. N�o sabia ao certo aonde o fato de dizer coisas como "vejam bem" em uma voz severa iria lev�-lo e n�o tinha tempo para descobrir. Que diabos, pensou, s� se � jovem uma vez, e pulou pela janela. Aquilo manteria, no m�nimo, o elemento surpresa a seu favor.</p><p><strong>CAP�TULO 11</strong></p><p>
A primeira coisa que Arthur Dent precisava fazer � concluiu ele, resignado �</p><p>
era dar um jeito em sua vida. Para isso, precisava encontrar um planeta onde pudesse viver. De prefer�ncia, um planeta no qual pudesse respirar e ficar de p� ou sentado sem experimentar nenhum desconforto gravitacional. Tamb�m tinha de ser algum lugar onde os n�veis de acidez fossem baixos e as plantas n�o atacassem as pessoas.</p><p>
�   Detesto   soar   antr�pico   �   disse   ele   ao  ser  estranho  que  ficava  atr�s  do balc�o  de  atendimento  no  Centro  de  Aconselhamento  de  Realoca��o  em  Alpha Pintleton �, mas eu gostaria imensamente de morar em um lugar onde as pessoas se parecessem vagamente comigo tamb�m. Voc� sabe. Meio humanos. O ser estranho atr�s do balc�o abanou as suas partes mais estranhas e pareceu um  pouco  surpreso  com  a  declara��o.  Esvaiu�se  e  esparramou�se  para  fora  do assento, pingando, arrastou�se pelo ch�o, ingeriu o velho arquivo de metal e ent�o, com um arroto poderoso, excretou a gaveta desejada. Tent�culos cintilantes surgiram das suas orelhas, removeram algumas pastas da gaveta, sugaram-na novamente e depois a coisa vomitou o arquivo de volta em seu lugar. Arrastou-se pelo ch�o e agosmentou-se de volta em seu assento, jogando os arquivos sobre a mesa.</p><p>
� Algum desses te interessa? � perguntou ele.</p><p>
Arthur  examinou  ansiosamente  uns  peda�os  de  papel  grudentos  e  �midos. Estava, definitivamente, em um lugar bastante atrasado da Gal�xia, pelo menos no que dizia respeito ao universo que ele conhecia e reconhecia. No lugar onde deveria estar sua casa havia aquele grosseiro planeta putrefato, encharcado por chuva e habitado por esc�ria  e  porcos  do  p�ntano.  Nem  mesmo  o  Guia  do  Mochileiro  das  Gal�xias funcionava direito por l�, e por isso era obrigado a falar coisas como aquela em lugares como aquele. Sempre perguntava sobre Stavromula Beta, mas ningu�m tinha ouvido falar desse planeta.</p><p>
Os mundos dispon�veis pareciam bastante desanimadores. Tinham pouco a lhe oferecer, uma vez que ele tinha pouco a lhes oferecer tamb�m. Sentia-se p�ssimo ao perceber que, embora viesse originalmente de um mundo com carros, computadores, bal� e Armagnac, ele n�o sabia, por conta pr�pria, como aquelas coisas funcionavam. N�o era capaz de fazer nada daquilo. Sozinho, era incapaz de construir uma torradeira. O m�ximo que conseguia era fazer um sandu�che e olhe l�. N�o havia muita demanda para os servi�os que poderia prestar.</p><p>
Arthur ficou arrasado. O que n�o deixou de surpreend�-lo, porque achava que j� estava no fim do po�o. Fechou os olhos por um instante. Queria tanto estar em casa. Queria  tanto  que  seu  mundinho,  a  Terra  onde  crescera,  n�o  tivesse  sido  demolida. Gostaria tanto que nada daquilo tivesse acontecido. Queria tanto abrir os olhos e estar de p� na entrada de sua casa na regi�o oeste da Inglaterra, com o sol brilhando sobre as colinas verdejantes, o carro dos correios subindo a rua, os narcisos florescendo no seu jardim e, ao longe, o pub abrindo para o almo�o. Queria tanto poder ir at� o pub para ler o  jornal  bebericando  uma  cerveja.  Fazer  uma  palavra-cruzada  e  ficar  empacado  no quadrinho 17 diagonal.</p><p>
Abriu os olhos.</p><p>
 O ser estranho estava pulsando irritado sobre ele, batucando uma esp�cie de pseud�pode na mesa.</p><p>
Arthur balan�ou a cabe�a e olhou para a folha de papel seguinte. Deprimente, pensou ele. Olhou a pr�xima.</p><p>
Depr� total. Pr�xima.</p><p>
Opa... Aquilo sim parecia bem melhor.</p><p>
Era um mundo chamado Bartledan. Tinha oxig�nio. Colinas verdejantes. Tinha inclusive, ao que parecia, uma renomada cultura liter�ria. Mas o que mais despertou a sua aten��o foi a fotografia de um pequeno grupo de bartledanianos, em uma pra�a, sorrindo alegremente para a c�mera.</p><p>
�</p><p>
Ah  �  disse  ele,  mostrando  a  fotografia  para  o  ser  estranho  atr�s  do balc�o.</p><p>
Os olhos dele se estenderam na ponta de um ped�nculo e melaram o papel, deixando um rastro viscoso sobre ele.</p><p>
�</p><p>
Sim � respondeu ele, enojado. � Eles realmente se parecem com voc�. Arthur  se  mudou  para  Bartledan  e,  usando  uma  parte  do  dinheiro  que conseguira  vendendo  pedacinhos  de  unha  do  p�  e  saliva  para  um  banco  de  DNA, comprou  um  quarto  na  cidade  que  vira  na  foto.  Era  um  lugar  agrad�vel.  O  ar  era perfumado. As pessoas se pareciam com ele e n�o demonstravam se incomodar com a sua  presen�a.  N�o  o  atacaram  com  nenhum  objeto.  Comprou  algumas  roupas  e  um arm�rio para guard�-las.</p><p>
Tinha encontrado uma vida. Agora precisava encontrar um prop�sito para ela. Primeiro tentou sentar e ler. Mas a literatura de Bartledan, apesar de ser famosa naquele setor da Gal�xia por sua sutileza e gra�a, n�o conseguia prender o seu interesse. O problema � que, no fim das contas, n�o era sobre seres humanos. N�o era sobre o que os seres humanos queriam. As pessoas em Bartledan eram incrivelmente parecidas com os humanos fisicamente, mas, quando voc� dizia "Boa tarde" para uma delas, ela ficava levemente espantada, cheirava o ar e dizia que provavelmente era uma tarde boazinha, j� que Arthur havia mencionado o assunto.</p><p>
�</p><p>
N�o, eu quis apenas desejar uma boa tarde para voc� � diria Arthur, ou melhor, costumava  dizer. Aprendeu rapidamente a evitar aquelas conversas. � Quis dizer que espero que voc� tenha uma boa tarde � acrescentava ele. Mais espanto.</p><p>
�</p><p>
Desejar?  �  perguntavam  finalmente  os  bartledanianos,  em  um desconserto gentil.</p><p>
�</p><p>
�... � teria ent�o dito Arthur. � Estou apenas expressando a esperan�a de que voc�...</p><p>
�</p><p>
Esperan�a?</p><p>
�</p><p>
�.</p><p>
�</p><p>
O que � isso?</p><p>
Boa pergunta, pensava Arthur consigo mesmo e voltava para o seu quarto para pensar sobre coisas.</p><p>
Por um lado, tinha de reconhecer e respeitar o que aprendera sobre a vis�o bartledaniana do universo, que consistia na id�ia de que o universo era o que o universo era, ame-o ou deixe-o. Por outro lado, n�o podia deixar de achar que n�o desejar nada nem esperar nada simplesmente n�o era natural.</p><p>
Natural. Essa era uma palavra complicada.</p><p>
H�  muito  percebera  que  v�rias  coisas  que  julgava  naturais,  como  comprar presentes no Natal, parar no sinal vermelho ou despencar a uma acelera��o de 9,75</p><p>
m/s2, n�o passavam de h�bitos do seu mundo e n�o funcionavam necessariamente da mesma  maneira  em  outros  lugares;  mas  n�o  desejar  nada  �  aquilo  n�o  podia  ser natural, podia? Seria como n�o respirar.</p><p>
Respirar era outra coisa que os bartledanianos n�o faziam, apesar de todo o oxig�nio dispon�vel na atmosfera. Simplesmente ficavam l�. �s vezes corriam para l� e para c� e jogavam netbol e coisas do g�nero (sem jamais desejar ganhar, � claro �</p><p>
apenas  jogavam  e  quem  ganhasse  ganhou),  mas  nunca  respiravam  de  fato.  Era,  por algum motivo, desnecess�rio. Arthur aprendeu rapidamente que jogar netbol com eles era  algo  assustador.  Embora  eles  se  parecessem  com  os  humanos  e  at�  mesmo  se movimentassem como humanos, eles n�o respiravam e n�o desejavam coisas. Respirar e desejar coisas, por outro lado, era tudo o que Arthur fazia o dia inteiro. �s vezes, desejava tanto as coisas que a sua respira��o chegava a ficar ofegante e ele precisava se deitar e descansar um pouco. Sozinho. No seu pequeno quarto. T�o longe  do  mundo  em  que  havia  nascido  que  o  seu  c�rebro  mal  podia  processar  as grandezas envolvidas sem ficar debilitado.</p><p>
Preferia n�o pensar. Preferia ficar sentado, lendo � ou, pelo menos, preferiria se houvesse algo decente para ler. Mas, nas hist�rias bartiedanianas, ningu�m jamais desejava coisa alguma. Nem mesmo um copo d'�gua. Certamente buscavam um quando estavam  com  sede,  mas,  se  n�o  tivesse  algum  dispon�vel,  n�o  pensavam  mais  no assunto. Acabara de ler um livro no qual o personagem principal tinha, no per�odo de uma semana, trabalhado em seu jardim, jogado bastante netbol, ajudado a consertar uma estrada, tido um filho com sua mulher e morrido de sede inesperadamente, um pouco antes do �ltimo cap�tulo. Exasperado, Arthur esquadrinhara o livro do in�cio ao fim e acabou encontrando uma refer�ncia a algum problema no encanamento no cap�tulo dois. S� isso. Ent�o o cara morre. Acontece.</p><p>
N�o  era  sequer  o  cl�max  do livro, porque  n�o havia  cl�max.  O  personagem morria a cerca de um ter�o do final do pen�ltimo cap�tulo e o resto do livro falava mais coisas  sobre  o  conserto  de  estradas.  O  livro  simplesmente  acabava,  do  nada,  na cent�sima  mil�sima  palavra,  porque  aquele  era  o  tamanho  limite  dos  livros  em Bartledan.</p><p>
Arthur  atirou o livro na parede, vendeu o  quarto  e  foi  embora.  Come�ou  a viajar  com  um  descaso  rebelde,  trocando  mais  saliva,  unhas  do  p�,  unhas  da  m�o, sangue e cabelo � ou qualquer coisa que algu�m estivesse interessado em comprar �</p><p>
por passagens. Acabou descobrindo que, em troca de amostras de s�men, era poss�vel viajar at� de primeira classe. N�o parava em lugar nenhum e limitava a sua exist�ncia ao mundo herm�tico e indefinido das cabines de naves hiperespaciais, comendo, bebendo, dormindo, assistindo filmes, parando apenas em portos espaciais para doar mais DNA e pegar a pr�xima nave de longa dist�ncia. Esperava e esperava que algum outro acidente acontecesse.</p><p>
O problema em tentar fazer com que o acidente certo aconte�a � que a coisa n�o funciona assim.  N�o  � isso o que "acidente" quer dizer. O acidente que acabou acontecendo estava longe do que ele tinha planejado. A nave na qual estava viajando piscou no hiperespa�o, oscilou pavorosamente entre noventa e sete pontos diferentes da Gal�xia ao mesmo tempo, captou, em um deles, o pux�o inesperado de um campo de atra��o  gravitacional  de  um  planeta  fora  do  mapa,  foi  capturada  em  sua  atmosfera externa e come�ou a cair, rasgando�se com um ru�do estridente dentro dele. Os sistemas da nave afirmaram o tempo todo, enquanto ca�am, que tudo estava perfeitamente  normal  e  sob  controle,  mas  quando  ela  entrou  em  um  �ltimo  giro violento, cortando furiosamente um quil�metro de �rvores antes de finalmente explodir em uma bola ardente de fogo, ficou claro que a coisa n�o era bem assim. O fogo lambeu a floresta, fervendo a noite inteira, depois tratou de se apagar sozinho, como todos os inc�ndios n�o programados acima de uma certa extens�o agora t�m  obriga��o  legal  de  fazer.  Ap�s  isso,  durante  algum  tempo,  inc�ndios  menores despertaram  aqui  e  ali,  enquanto  pe�as  diversas  de  escombros  dispersos  explodiam calmamente, cada uma a seu tempo. Depois isso tamb�m acabou. Arthur Dent, gra�as ao total enfado dos infind�veis v�os interestelares, era o �nico  passageiro  a  bordo  que  realmente  se  familiarizara  com  os  procedimentos  de seguran�a  da  nave  em  caso  de  uma  aterrissagem  for�ada  e,  portanto,  foi  o  �nico sobrevivente do desastre. Estava zonzo, com alguns ossos quebrados e sangrando, em uma  esp�cie  de  casulo  cor-de-rosa  fofinho  com  as  palavras  "Tenha  um  bom  dia" estampadas em mais de tr�s mil l�nguas diferentes.</p><p>
Sil�ncios  negros  e  estrondosos  nadavam  nauseantes  em  sua  mente despeda�ada. Sabia, com uma esp�cie de certeza resignada, que iria sobreviver, porque ainda n�o havia estado em Stavromula Beta.</p><p>
Ap�s  o  que  pareceu  uma  eternidade  de  dor  e  escurid�o,  percebeu  sombras discretas movendo-se � sua volta.</p><p><strong>CAP�TULO 12</strong></p><p>
Ford rolava em pleno ar em meio a uma nuvem de cacos de vidro e peda�os de cadeiras.  Mais  uma  vez,  n�o  havia  exatamente  planejado  as  coisas  e  estava  apenas improvisando,  ganhando  tempo.  Aprendeu  que,  em  momentos  de  extrema  crise,  era bastante �til ver a sua vida passar por seus olhos. Ver as coisas sob uma perspectiva diferente lhe dava a oportunidade de refletir sobre elas e, �s vezes, assim surgia uma pista vital sobre o seu pr�ximo passo.</p><p>
L� estava o ch�o, apressando-se para encontr�-lo a uma acelera��o de quase 10</p><p>
m/s2, mas o melhor a fazer, pensou, era lidar com o problema quando chegasse a ele. Uma coisa de cada vez.</p><p>
Ah,  finalmente.  A  sua  inf�ncia.  Coisas  triviais,  j�  vira  tudo  aquilo  antes. Imagens passavam, r�pidas. Tempos chatos em Betelgeuse V. Zaphod Beeblebrox ainda crian�a. Nenhuma  novidade.  Gostaria de ter  alguma  esp�cie de  fast forward em seu c�rebro. O seu anivers�rio de sete anos, quando ganhou a sua primeira toalha. Vamos l�, vamos l�.</p><p>
Estava se contorcendo e virando de cabe�a para baixo, o ar externo naquela altura era um choque gelado no pulm�o. Tentava n�o inalar os cacos de vidro. Primeiras viagens para outros planetas. Ah, pelo amor de Zarquon, aquilo mais parecia um document�rio imbecil sobre viagens antes da atra��o principal. Primeiros trabalhos para o Guia.</p><p>
Ah!</p><p>
Aqueles  foram  os  bons  tempos.  Trabalhavam  em  uma  cabana  no  Atol Bwenelli, em Fanalla, antes que os Riktanarqals e os Donqueds a destru�ssem. Um seis caras, algumas toalhas, um punhado de equipamento digital altamente sofisticado e, o mais importante, muitos sonhos. N�o. E o mais importante: muito rum fanalliano. Para ser  absolutamente  preciso,  a coisa  mais  importante de todas era  a  Aguardente Janx, depois o rum fanalliano e depois algumas praias no Atol, freq�entadas pelas garotas locais, mas os sonhos tamb�m eram importantes. Que fim levaram?</p><p>
Para falar a verdade, n�o conseguia lembrar direito quais eram os sonhos, mas pareciam  enormemente  importantes  naquela  �poca.  Com  certeza  n�o  envolviam  o imenso  arranha�c�u  de  escrit�rios  de  onde  estava  despencando  naquele  momento. Aquilo tudo havia come�ado quando alguns membros da equipe original decidiram fixar moradia  e  ficaram  gananciosos,  enquanto  ele  e  os  outros  permaneceram  fazendo  o trabalho de campo, pesquisando, pegando caronas e, gradualmente, ficando cada vez mais isolados do pesadelo corporativista que o Guia inexoravelmente havia se tornado e da monstruosidade arquitet�nica em que se alojara. Onde ficavam os sonhos naquele lugar?  Pensou  em  todos  os  advogados  que  ocupavam  metade  do  pr�dio,  todos  os agentes  que  ocupavam  os  andares  inferiores  e  todos  os  editores  assistentes  e  suas secret�rias e os advogados das secret�rias e as secret�rias dos advogados das secret�rias e, o pior de tudo, os contadores e o Departamento de Marketing. Chegou a pensar em continuar caindo. Dois dedos para todos eles. Estava  passando  pelo  d�cimo  s�timo  andar  naquele  momento.  Era  onde  o Departamento de Marketing tagarelava. Um bando de babacas, todos discutindo qual deveria ser a cor do Guia e exercitando as suas habilidades infinitamente infal�veis de contar vantagem. Se eles tivessem olhado para a janela naquele momento, teriam ficado assustados com a vis�o de Ford Prefect caindo rumo � sua morte certa e fazendo sinais de V para eles.</p><p>
D�cimo sexto andar. Editores Assistentes. Imbecis. E tudo o que ele escrevera que os caras cortaram? Enviara quinze anos de pesquisa sobre um �nico planeta e eles resumiram  tudo  em  duas  palavras.  "Praticamente  inofensiva."  Sinais  de  V  para  eles tamb�m.</p><p>
D�cimo  quinto  andar.  Administra��o  Log�stica,  seja  l�  o  que  fosse.  Todos tinham carr�es. Seja l� o que fosse, pensou, era o que isso era. D�cimo quarto andar. Recursos Humanos. Tinha uma suspeita muito perspicaz de  que  eles  haviam  arquitetado  o  seu  ex�lio  de  quinze  anos,  enquanto  o  Guia  se metamorfoseava  em  um  monolito  (ou  melhor,  duolito  �  n�o  podia  esquecer  dos advogados) coorporativo.</p><p>
D�cimo terceiro andar. Pesquisa e Desenvolvimento.</p><p>
Segura a�.</p><p>
D�cimo terceiro andar.</p><p>
Estava sendo obrigado a pensar bem depressa porque a situa��o estava ficando um pouco urgente.</p><p>
Lembrou�se  subitamente  do  painel  no  elevador.  N�o  tinha  um  d�cimo terceiro andar. N�o dera muito aten��o ao fato porque, depois de ter passado quinze anos no antiquado planeta Terra, onde as pessoas eram supersticiosas com o n�mero treze, tinha se acostumado a estar em pr�dios onde n�o havia um d�cimo terceiro andar. Mas ali n�o fazia o menor sentido.</p><p>
N�o p�de deixar de notar, enquanto passava em queda livre pelo lado de fora, que as janelas do andar eram escuras.</p><p>
O que estava se passando l� dentro? Come�ou a se lembrar de tudo o que Harl havia dito. Aquela hist�ria de um novo Guia, �nico e multidimensional, espalhado por um n�mero infinito de universos. Tudo aquilo lhe soara, da maneira como Harl tinha contado, uma grande viagem inventada pelo Departamento de Marketing, com o apoio dos contadores. Se fosse mais real do que ele imaginara, ent�o era uma id�ia muito estranha  e  perigosa.  Seria  verdade?  O  que  estava  se  passando  por  tr�s  das  janelas escuras do inacess�vel d�cimo terceiro andar?</p><p>
Ford  sentiu  uma  curiosidade  crescendo  dentro  dele  e,  em  seguida,  uma sensa��o crescente de p�nico. Aquela era, basicamente, a lista completa de sentimentos crescentes  que  ele  tinha.  No  mais,  sua  dist�ncia  em  rela��o  ao  ch�o  decrescia rapidamente. Precisava mesmo se concentrar em como sair daquela situa��o com vida. Deu uma olhada para baixo. Uns trinta metros abaixo, as pessoas j� estavam se agrupando, algumas olhando para cima com expectativa, abrindo espa�o para ele e at�</p><p>
mesmo interrompendo temporariamente a maravilhosa e completamente imbecil ca�ada aos Wockets.</p><p>
Detestaria  decepcion�-los,  mas,  a  pouco  mais  de  meio  metro,  sem  que  ele sequer  tivesse  percebido  antes,  estava  Colin,  obviamente  felic�ssimo,  dan�ando  e esperando que ele decidisse o que queria fazer.</p><p>
� Colin! � berrou Ford.</p><p>
Colin n�o respondeu. Ford gelou. Em seguida percebeu que n�o havia dito a Colin que o nome dele era Colin.</p><p>
 _ Vem c�! � berrou Ford.</p><p>
Colin  subiu  at�  o  seu  lado.  Estava  aproveitando  imensamente  a  queda  e esperava que Ford tamb�m estivesse.</p><p>
O mundo de Colin ficou inesperadamente escuro porque a toalha de Ford o envolveu.  Sentiu-se  imediatamente  muito,  muito  mais  pesado.  Estava  animado  e contente com o desafio que Ford acabara de impor. S� n�o estava certo se conseguiria lev�-lo adiante.</p><p>
A toalha estava esticada sobre Colin. Ford estava pendurado nela, agarrado �s suas  costuras.  Outros  mochileiros  gostavam  de  modificar  suas  toalhas  de  maneiras ex�ticas, tecendo nelas todo tipo de ferramentas e utilit�rios esot�ricos e at� mesmo equipamento  computacional  nos  tecidos.  Ford  era  um  purista.  Gostava  de  coisas simples. Carregava uma toalha normal, comprada em uma loja normal. A toalha dele tinha  at�  mesmo  uma  esp�cie  de  estampa  floral,  azul  e  rosa,  apesar  das  constantes tentativas  de  Ford  para  descolorir  e  desbotar  o  tecido.  Tinha  uns  peda�os  de  fio enrascados na toalha, um pouco de grafite flex�vel e alguns nutrientes concentrados em uma das beiradas, para que ele sugasse em caso de emerg�ncia, mas, fora isso, era uma toalha comum, dessas que a gente usa para enxugar o rosto.</p><p>
Deixara-se convencer por um amigo a fazer uma �nica modifica��o � refor�ar as bainhas.</p><p>
Ford agarrava-se �s bainhas como um tarado.</p><p>
Continuavam descendo, s� que um pouco mais devagar.</p><p>
�</p><p>
Para cima, Colin! � gritou ele.</p><p>
Nada.</p><p>
�</p><p>
O seu nome � gritou Ford � � Colin. Ent�o, quando eu gritar "Para cima, Colin!", quero que voc�, Colin, suba. Entendeu? Para cima, Colin!</p><p>
Nada. Ou melhor, uma esp�cie de gemido abafado vindo do rob�. Ford estava tenso. Estavam descendo bem devagar, mas o que estava deixando Ford tenso eram as pessoas  que  estavam  se  juntando  l�  embaixo.  Amistosas,  locais.  Os  ca�adores  de Wockets estavam se dispersando e, em seu lugar, criaturas com apar�ncia de lesmas grandonas,  pesadas  e  abrutalhadas,  com  lan�adores  de  foguete,  surgiram  do  que geralmente  chamamos  de  nada.  Nada,  como  todo  viajante  gal�ctico  experiente  sabe muito  bem,  �  na  verdade  algo  extremamente  denso  e  com  complexidades multidimensionais.</p><p>
�</p><p>
Para cima � berrou Ford novamente. � Para cima! Colin, sobe!</p><p>
Colin estava fazendo um esfor�o descomunal e gemendo. Estavam agora mais ou  menos  parados  no  ar.  Ford  tinha  a  sensa��o  de  que  os  seus  dedos  estavam  se quebrando.</p><p>
�</p><p>
Pa  ra cima!</p><p>
Continuavam parados no mesmo lugar.</p><p>
�</p><p>
Sobe, sobe, sobe! � Uma lesma estava se preparando para lan�ar um foguete contra ele. Ford mal podia acreditar. Estava pendurado no ar por uma toalha, com uma lesma se preparando para lan�ar foguetes sobre ele. Suas poss�veis alternativas estavam se esgotando e come�ou a ficar seriamente assustado. Em  situa��es  como  essa  �  que  mais  precisava  do  Guia  para  lhe  dar  algum conselho, por mais enervante ou superficial que fosse, mas n�o era a hora de vasculhar os bolsos. E o Guia n�o parecia mais ser um amigo e aliado, e sim uma fonte de perigo. Afinal  de  contas,  estava  despencando  do  pr�dio  do  pr�prio  Guia,  tendo  a  sua  vida amea�ada pelas pessoas que pareciam ter o controle da empresa agora. Que fim levaram todos os sonhos que ele vagamente se lembrava de ter tido no Atol Bwenelli? Deviam ter  deixado  tudo  como  estava.  Deviam  ter  ficado  por  l�.  Ficado  na  praia.  Amado mulheres bacanas. Vivido dos peixes. Ele devia ter percebido que estava tudo errado quando come�aram a pendurar pianos de cauda sobre a piscina do monstro marinho no hall. Come�ou a se sentir completamente infeliz e aflito. Os seus dedos queimavam de dor. E o seu tornozelo continuava doendo.</p><p>
Ah, muito obrigado, tornozelo, pensou ele, amargo. Obrigado por mencionar seus problemas justo agora. Imagino que voc� esteja a fim de uma boa bacia de �gua quente para levantar o seu astral, n�o � mesmo? Ou, no m�nimo, voc� gostaria que eu... Teve uma id�ia.</p><p>
A  lesma  armada  posicionou  o  lan�ador  de  foguetes  no  ombro.  O  foguete, presumivelmente,  era  projetado  para  atingir  qualquer  coisa  que  se  movesse  no  seu caminho.</p><p>
Ford tentou n�o suar, porque sentia que a toalha escorregava de suas m�os. Com o ded�o do p� que n�o estava machucado, cutucou e for�ou o calcanhar do sapato no p� que do�a.</p><p>
� Para cima, droga! � resmungou Ford inutilmente para Colin, que estava alegremente  se  matando  de  tanto  esfor�o,  mas  n�o  conseguia  subir.  Ford  continuou insistindo no calcanhar do sapato.</p><p>
Estava tentando calcular o melhor momento, mas n�o fazia sentido. Tinha que mandar ver e pronto. Uma �nica chance, era tudo o que tinha. O sapato estava agora solto na parte do calcanhar. O seu tornozelo machucado sentiu-se um pouco melhor. Bom, aquilo era gostoso, n�o era?</p><p>
Chutou o sapato, que deslizou pelo seu p� e mergulhou no ar. Meio segundo depois,  um  foguete  surgiu  da  boca  do  lan�ador,  encontrou  o  sapato  caindo  em  sua trajet�ria, partiu para cima dele com tudo, atingiu�o e explodiu com um enorme senso de satisfa��o e conquista.</p><p>
Isso tudo aconteceu a uns 5 metros do ch�o.</p><p>
A for�a principal da explos�o foi direcionada para baixo. Onde, um segundo antes, havia um esquadr�o de executivos da Corpora��o Infinidim com lan�adores de foguetes na elegante pra�a, pavimentada com enormes lousas de pedra polida oriunda das antigas pedreiras de alabastro de Zentalquabula, existia agora apenas um pequeno po�o com peda�os p�tridos dentro.</p><p>
Uma  lufada  de  ar  quente  subiu  da  explos�o,  lan�ando  Ford  e  Colin violentamente  para  cima.  Ford  tentou  desesperada   e   cegamente   agarrar-se   a   alguma coisa, mas n�o conseguiu. Foi arremessado para o alto, atingiu o �pice de uma par�bola, fez uma  breve pausa e come�ou a cair novamente. Foi caindo, caindo, caindo e, de repente, enroscou-se em Colin, que ainda estava subindo.</p><p>
Agarrou-se  desesperadamente  ao  pequeno  rob�  esf�rico.  Colin  girava  sem controle pelo ar em dire��o � torre dos escrit�rios do Guia, tentando alegremente se controlar e diminuir o ritmo.</p><p>
O mundo girou de forma nauseante em torno da cabe�a de Ford enquanto eles giravam um em volta do outro e ent�o, de maneira igualmente nauseante, tudo parou. Ford viu-se jogado, ainda tonto, no parapeito de uma janela. A sua toalha passou voando e ele a alcan�ou, segurando firme. Colin oscilava no ar, bem pr�ximo.</p><p>
Ford olhou � sua volta � atordoado, machucado, sangrando e sem f�lego. O</p><p>
parapeito n�o tinha mais que trinta cent�metros e ele estava precariamente empoleirado nele, a treze andares do ch�o.</p><p>
Treze.</p><p>
Sabia que estavam no d�cimo terceiro andar porque as janelas eram escuras. Estava amargamente chateado. Pagara um pre�o absurdo por aqueles sapatos em uma loja no Lower East Side de Nova York. Havia, por causa disso, escrito um artigo inteiro sobre  as  alegrias  proporcionadas  por  cal�ados  de  qualidade,  e  tudo  isso  tinha  sido jogado fora no fiasco do "Praticamente inofensiva". Que merda. E agora perdera um dos sapatos. Jogou a cabe�a para tr�s e contemplou o c�u. N�o seria uma trag�dia t�o amarga se o planeta em quest�o n�o tivesse sido demolido, o que significava que ele sequer poderia comprar outro par. Sim, devido � infinita extens�o lateral da probabilidade, havia, certamente, uma multiplicidade quase infinita de planetas Terra, mas, quando era realmente necess�rio, um  par  de  sapatos  de  qualidade  n�o  era  algo  que  pudesse  ser  substitu�do  apenas zanzando pelo espa�o-tempo multidimensional.</p><p>
Suspirou.</p><p>
Paci�ncia, era melhor  tentar ver o lado bom da coisa. Pelo menos  o sapato salvara a sua vida. Por enquanto.</p><p>
Estava empoleirado em um parapeito de menos de trinta cent�metros no d�cimo terceiro andar de um pr�dio e n�o tinha certeza se tudo aquilo valia um bom sapato. Aturdido, espreitou atrav�s dos vidros escuros.</p><p>
Estava escuro e silencioso, como um t�mulo.</p><p>
N�o.  Aquilo  era  um  pensamento  rid�culo.  J�  estivera  em  altas  festas  em t�mulos.</p><p>
Ser� que conseguiria detectar algum movimento? N�o tinha certeza. Tinha a impress�o de  estar  distinguindo uma  estranha sombra  de  asas  batendo. Talvez fosse apenas o sangue pingando sobre os seus c�lios. Enxugou os olhos. Cara, adoraria ter uma fazenda em algum lugar, criar ovelhas. Espiou novamente pela janela, tentando distinguir a silhueta, mas tinha a sensa��o, t�o comum no universo naqueles dias, de que estava diante de alguma ilus�o de �tica e que os seus olhos estavam lhe pregando pe�as. Havia algum p�ssaro l� dentro? Era isso o que eles escondiam l� em cima, em um  andar  secreto,  protegido  por  vidros  escuros  �  prova  de  foguetes?  O  avi�rio  de algu�m? Havia, com certeza, alguma coisa batendo asas l� dentro, mas n�o parecia ser um p�ssaro, estava mais para um buraco no espa�o no formato de um p�ssaro. Fechou os olhos, coisa que j� estava querendo fazer h� algum tempo, por sinal. Perguntava-se o que deveria fazer em seguida. Pular? Escalar? N�o tinha como quebrar aquele  vidro.  Tudo  bem,  o  vidro  supostamente  �  prova  de  foguetes  n�o  conseguira suportar um foguete na pr�tica, mas aquele tinha sido um foguete disparado a curt�ssima dist�ncia vindo de dentro, o que provavelmente n�o era o que os engenheiros tinham em mente ao projet�-lo. Isso, contudo, n�o significava que ele fosse conseguir quebrar o vidro enrolando a toalha no punho e socando a janela. Que diabos, tentou assim mesmo e acabou machucando a m�o. Ainda bem que n�o conseguira um bom impulso de onde estava,  sen�o  teria  se  machucado  feio.  O  pr�dio  tinha  sido  refor�ado  maci�amente quando  foi  reconstru�do  do  zero  ap�s  o  ataque  de  Frogstar  e  era,  possivelmente,  a editora com a blindagem mais pesada naquele ramo, mas havia sempre algum ponto fraco em qualquer sistema projetado por um comit� corporativo. J� havia descoberto um deles. Os engenheiros que projetaram as janelas n�o esperavam que fosse atingida por um foguete a curta dist�ncia vindo de dentro, ent�o a janela havia quebrado. Ent�o  o  que  os  engenheiros  teriam  esperado  que  uma  pessoa  sentada  no parapeito do lado de fora da janela pudesse fazer?</p><p>
Quebrou a cabe�a por alguns segundos antes de descobrir.</p><p>
Para come�ar, n�o teriam esperado que ele estivesse ali. Somente um perfeito bo�al estaria sentado onde ele estava, ent�o tinha alguns pontos a seu favor. Um erro comum que as pessoas cometem quando tentam projetar coisas completamente � prova de imbecis era subestimar a ingenuidade dos imbecis completos. Tirou do bolso o seu rec�m-adquirido cart�o de cr�dito, enfiou na fenda que havia entre a janela e a moldura e fez algo que um foguete jamais seria capaz de fazer. Sacudiu um pouco o cart�o. Sentiu uma ling�eta deslizar. Abriu a janela e quase caiu para  tr�s  do  parapeito,  gargalhando  e  dando  gra�as,  no  meio  tempo,  pelos  Grandes Motins da Ventila��o e Telefonia de SrDt 3454.</p><p>
Os Grandes Motins da Ventila��o e Telefonia de SrDt 3454 come�aram como um monte de ar quente. O ar quente, � claro, era o problema que a ventila��o deveria solucionar  e,  geralmente,  ela  o  solucionava  razoavelmente  bem,  at�  que  algu�m inventou o ar-condicionado e resolveu o problema de maneira muito mais contundente. E isso tudo era �timo, desde que voc� conseguisse aturar o barulho e o pingapinga, at� que algu�m foi l� e inventou algo muito mais sexy e inteligente do que o arcondicionado: o controle clim�tico central. Aquilo sim era espetacular.</p><p>
As principais diferen�as entre o novo controle clim�tico e o ar-condicionado comum consistiam no pre�o exorbitantemente mais caro e numa grande quantidade de equipamentos de medi��o e calibragem que sabiam, a cada momento, que tipo de ar as pessoas gostariam de respirar, com uma precis�o muito maior do que simples pessoas poderiam saber.</p><p>
O que tamb�m significava que, para se certificar de que as simples pessoas n�o estragariam os c�lculos sofisticados que o sistema fazia por elas, todas as janelas nos edif�cios tinham de ser absolutamente vedadas. S�rio.</p><p>
Quando os sistemas estavam sendo instalados, v�rias pessoas que iam trabalhar nos pr�dios tiveram conversas mais ou menos  assim com os montadores do sistema Inteli-Respiratron:</p><p>
�</p><p>
Mas e se a gente quiser abrir as janelas?</p><p>
�</p><p>
Voc�s n�o v�o querer abrir as janelas com o novo Inteli-Respiratron. _ T�, mas vamos imaginar que a gente queira, s� um pouquinho? _ Voc�s n�o v�o querer abrir nem um pouquinho. O novo sistema Inteli-Respiratron vai garantir isso.</p><p>
�</p><p>
Humm.</p><p>
�</p><p>
Aproveitem o Inteli-Respiratron!</p><p>
�</p><p>
T� bem, mas e se o Inteli-Respiratron pifar ou n�o funcionar direito ou algo assim?</p><p>
�</p><p>
Ah! Uma das caracter�sticas mais inteligentes do Inteli-Respiratron � que ele n�o pifa de jeito nenhum. Ent�o n�o h� com o que se preocupar. Respirem bem e tenham um bom dia.</p><p>
(Foi justamente por causa dos Grandes Motins de Ventila��o e Telefonia de SrDt 3454 que todos os aparelhos mec�nicos ou el�tricos ou quantum-mec�nicos ou hidr�ulicos  ou  at�  mesmo  aparelhos  movidos  a  vento,  vapor  ou  pist�o  eram  agora obrigados a ter uma inscri��o gravada em algum lugar. N�o importa o qu�o pequeno o objeto  fosse,  os  seus  fabricantes  tinham  de  encontrar  uma  maneira  de  enfiar  a  tal inscri��o em algum lugar, porque afinal servia para chamar a aten��o deles pr�prios e n�o necessariamente a dos usu�rios.</p><p>
A inscri��o era a seguinte:</p><p>
"A maior diferen�a entre uma coisa que pode pifar e uma coisa que n�o pode pifar de jeito nenhum � que, quando uma coisa que n�o pode pifar de jeito nenhum pifa, normalmente � imposs�vel consert�-la.")</p><p>
Ondas de calor significativas come�aram a coincidir, com uma precis�o quase m�gica, com defeitos significativos do sistema Inteli-Respiratron. No in�cio isso causou apenas um ressentimento fervoroso e algumas mortes por asfixia. Mas  o  pavor  absoluto  surgiu  no  dia  em  que  tr�s  eventos  ocorreram simultaneamente. O primeiro foi uma declara��o da empresa Inteli-Respiratron dizendo que os seus sistemas funcionavam melhor em climas temperados. O  segundo  foi  a  pane  de  um  sistema  Inteli-Respiratron  em  um  dia particularmente  quente  e  �mido,  o  que  resultou  em  uma  evacua��o  de  centenas  de funcion�rios de escrit�rios para a rua, onde se depararam com o terceiro evento � uma turba ensandecida de operadores de telefonia que ficaram t�o cansados de ter de repetir</p><p>
"Obrigada  por  utilizar  nossos  servi�os",  o  dia  inteiro,  todos  os  dias,  para  todos  os imbecis que apanhavam um telefone, que finalmente decidiram sair �s ruas com latas de lixo, megafones e rifles.</p><p>
Nos  dias  de  carnificina  que  se seguiram,  cada janela da  cidade, � prova de foguete ou n�o, foi quebrada, normalmente com gritos de "Sai da linha, � babaca! Estou pouco me lixando para o n�mero que voc� quer discar, para o ramal que est� usando... Vai  enfiar  um  fogo  de  artif�cio  na  garganta!  �  isso  a����!  U-rrrrru!!�!  Vummmmm!</p><p>
Squawk!"  e  toda  uma  variedade  de  sons  animalescos  que  eles  n�o  tinham  a oportunidade de utilizar normalmente no trabalho.</p><p>
Por  causa  disso,  foi  concedido  a  todos  os  operadores  de  telefonia  o  direito constitucional de dizer "Utilize os nossos servi�os e v� se danar!" pelo menos uma vez por hora enquanto atendiam o telefone, e todos os pr�dios comerciais foram obrigados a ter janelas que abrissem pelo menos um pouquinho.</p><p>
Um outro resultado, completamente inesperado, foi uma queda impressionante no �ndice de suic�dios. Todos os executivos estressados e em ascens�o que haviam sido obrigados, na �poca negra da tirania do Inteli-Respiratron, a se jogar na frente de trens ou se apunhalar at� a morte podiam agora simplesmente trepar nos seus parapeitos e pular, na hora em que quisessem.  E, freq�entemente, era justo nessa hora, enquanto olhavam a sua volta e organizavam as suas id�ias, que subitamente descobriam que tudo que precisavam era de um pouco de ar fresco e uma nova perspectiva das coisas � e talvez uma fazenda na qual pudessem criar algumas ovelhas.</p><p>
Outro  resultado  completamente  inesperado  foi  que  Ford  Prefect,  preso  no d�cimo terceiro andar de um pr�dio altamente blindado, armado apenas com uma toalha e  um  cart�o  de  cr�dito,  p�de  assim  mesmo  entrar  no  pr�dio  por  uma  janela supostamente � prova de foguetes.</p></section><section><p>
Ap�s permitir a entrada de Colin atr�s dele, fechou a janela cuidadosamente e olhou em volta, procurando o tal p�ssaro.</p><p>
Chegou � seguinte conclus�o sobre as janelas: como haviam sido convertidas para se abrirem depois de terem sido projetadas para serem inexpugn�veis, eram na verdade  muito  menos  seguras  do  que  se  tivessem  sido  projetadas  como  janelas  que abrem normalmente.</p><p>
Pois �, a vida � mesmo engra�ada, estava pensando Ford com os seus bot�es, quando percebeu de repente que tinha tido o maior trabalho para entrar em um lugar absolutamente desinteressante.</p><p>
Ent�o estacou, surpreso.</p><p>
Onde estava a curiosa figura em formato de ave, batendo as asas? Onde estava qualquer coisa que justificasse todo aquele trabalho � o extraordin�rio v�u de sigilo que parecia permear todo o ambiente e a igualmente extraordin�ria seq��ncia de eventos que parecia conspirar para lev�-lo at� l�?</p><p>
A  sala,  como  qualquer  outra  sala  daquele  pr�dio  no  momento,  havia  sido decorada em um cinza de impressionante bom gosto. Havia alguns gr�ficos e desenhos na parede. A maioria n�o significava nada para Ford, mas foi ent�o que ele se deparou com algo que era obviamente o modelo de um p�ster.</p><p>
Havia uma logomarca em formato de p�ssaro com um slogan que dizia: "O</p><p>
Guia do Mochileiro das Gal�xias vers�o II: a mais incr�vel de todas as coisas que j�</p><p>
existiram. Breve em uma dimens�o perto de voc�." Sem mais nenhuma informa��o. Ford tornou a olhar em volta. Ent�o a sua aten��o foi gradualmente atra�da para Colin,  o  rob�  de  seguran�a  absurdamente  hiper-feliz,  que  estava  encolhido  em  um canto, balbuciando coisas de uma forma estranhamente parecida com medo. Estranho, pensou Ford. Olhou em volta para ver o que poderia estar assustando Colin.  Ent�o  viu  algo  que  n�o  havia  notado  antes,  parado  calmamente  sobre  uma bancada de trabalho.</p><p>
Era circular e negro, mais ou menos do tamanho de um prato pequeno. A parte superior e a inferior eram lisinhas e convexas, o que lhe dava a apar�ncia de um disco de arremesso bem leve.</p><p>
As  superf�cies  pareciam  ser  completamente  lisas,  cont�nuas  e  sem  tra�os caracter�sticos.</p><p>
A coisa estava parada.</p><p>
Ford  notou,  ent�o,  que  havia  algo  escrito  nela.  Estranho.  N�o  havia  nada escrito  um  segundo  atr�s,  mas  agora  estava  l�.  N�o  parecia,  contudo,  ter  ocorrido nenhuma transi��o vis�vel entre os dois estados.</p><p>
A mensagem, em letrinhas pequenas e alarmantes, se resumia a tr�s palavras: <emphasis>ENTRE EM P�NICO</emphasis></p><p>
Pouco  antes  n�o  havia  nenhuma  marca  ou  linhas  em  sua  superf�cie.  Agora havia. E estavam crescendo.</p><p>
Entre  em  p�nico,  dizia  o  Guia  vers�o  II.  Ford  come�ou  a  agir  de  acordo. Lembrou-se subitamente por que as criaturas com apar�ncia de lesma lhe pareciam t�o familiares. Seu padr�o de cores estava mais para um cinza executivo, por�m, em todo o resto, eram parecid�ssimas com os vogons.</p><p><strong>CAP�TULO 13</strong></p><p>
A nave tocou a terra silenciosamente no canto da imensa clareira, a uns cem metros da cidade. Surgiu s�bita e inesperadamente, mas sem fazer alarde. Numa hora, era um final de tarde perfeitamente normal, in�cio de outono � as folhas come�ando a ficar vermelhas e douradas, o rio come�ando a correr novamente gra�as �s chuvas das montanhas  ao  norte,  a  plumagem  dos  p�ssaros  pikka  come�ando  a  engrossar, preparando�se para a chegada das geadas de inverno, e, a qualquer momento, as Bestas Perfeitamente Normais come�ariam a sua estrondosa migra��o pelas plan�cies enquanto o Velho Thrashbarg resmungaria sozinho ao perambular pela cidade, um resmungo que significava que j� estava ensaiando e elaborando as hist�rias que iria contar sobre o ano que passou quando as pessoas n�o tivessem outra op��o ao anoitecer a n�o ser se reunir em volta de uma fogueira para escut�-lo e depois reclamar, dizendo que a hist�ria de que lembravam n�o era bem aquela � e, em seguida, havia uma nave espacial pousada, reluzindo no calor do sol de outono.</p><p>
Zumbiu por alguns minutos, depois parou.</p><p>
N�o  era  uma  nave  grande.  Se  os  moradores  locais  fossem  especialistas  em naves espaciais, saberiam de cara que aquela era uma bela e estilosa espa�onave leve Hrundi, de quatro leitos, com praticamente todos os opcionais oferecidos no folheto, exceto a Estabiliza��o Vect�ide Avan�ada, que era coisa de frouxo. N�o d� para fazer uma  curva  fechada  e  precisa  em  um  eixo  de  tempo  trilateral  com  a  Estabiliza��o Vect�ide Avan�ada. Tudo bem, � um pouco mais seguro, mas tira a gra�a da dire��o. Os moradores n�o sabiam nada daquilo, � claro. A maioria dos habitantes do remoto planeta Lamuella jamais havia visto uma nave espacial, certamente n�o uma que estivesse inteira. Brilhando calorosa na luz do entardecer, era simplesmente a coisa mais extraordin�ria que eles j� haviam visto, desde o dia em que Kirp pegou um peixe com uma cabe�a de cada lado.</p><p>
Estavam todos em sil�ncio.</p><p>
Enquanto  poucos  momentos  antes  umas  vinte  ou  trinta  pessoas  estavam perambulando pelo local, conversando, cortando lenha, carregando �gua, perturbando os p�ssaros pikka ou tentando educadamente ficar longe do Velho Thrashbarg, de repente toda a atividade fora interrompida e todos se viraram para contemplar o objeto estranho, espantados.</p><p>
Bom, nem todos. Os p�ssaros pikka costumavam se espantar com coisas bem diferentes. Uma folha absolutamente comum ca�da inesperadamente sobre uma pedra provocava os acessos mais fren�ticos; o nascer do sol sempre os apanhava de surpresa pela manh�, mas a chegada de uma nave espacial de outro planeta simplesmente n�o lhes  chamara  a  menor  aten��o.  Continuaram  a  kar  e  rit  e  huk  enquanto  ciscavam sementes pelo ch�o; o rio prosseguia em seu calmo e vasto borbulhar. Al�m disso, o barulho da cantoria alta e desafinada vinda da �ltima cabana �</p><p>
esquerda tamb�m prosseguia, inabal�vel.</p><p>
  De  repente,  com  um  suave  clique  e  um  murm�rio,  uma  porta  da  nave  se desdobrou para fora e para baixo. Ent�o, por alguns minutos, nada mais aconteceu al�m da cantoria alta que vinha da �ltima cabana � esquerda, e a nave simplesmente ficou l�, parada.</p><p>
Alguns dos moradores, especialmente os garotos, come�aram a se aproximar um  pouco  para  olhar  de  perto.  O  Velho  Thrashbarg  tentou  enxot�-los.  Aquele  era exatamente o tipo de coisa que o Velho Thrashbarg n�o gostava que acontecesse. N�o tinha profetizado nada daquilo, nem de longe, e, embora fosse dar um jeito de incluir a coisa de uma maneira ou de outra em suas longas hist�rias, aquilo estava come�ando a ficar complicado demais.</p><p>
Deu alguns passos  � frente, empurrou os meninos  para tr�s e  suspendeu os bra�os e seu velho cajado no ar. A luz morna e comprida do sol que se punha reca�a bem sobre ele. Come�ou a se preparar para dar as boas-vindas �queles deuses, fossem quais fossem, como se estivesse esperando por eles desde sempre. Ainda assim nada aconteceu.</p><p>
Aos poucos come�ou a ficar claro que estava rolando alguma discuss�o dentro da nave. O tempo foi passando e os bra�os do Velho Thrashbarg come�aram a doer. De repente, a rampa se recolheu novamente para dentro da nave. Aquilo facilitou as coisas para Thrashbarg. Eram dem�nios e ele os expulsara. N�o havia profetizado o evento por uma quest�o de prud�ncia e mod�stia. Quase imediatamente, uma outra rampa se desdobrou do lado oposto da nave, contr�rio  ao  que  Thrashbarg  estava,  e  duas  figuras  finalmente  surgiram,  ainda discutindo e ignorando todo mundo, at� mesmo Thrashbarg, que eles mal podiam ver do lugar onde estavam.</p><p>
               O Velho Thrashbarg mordiscou a barba, irritado. Ser� que devia continuar ali parado, com os bra�os para cima? Se ajoelhar no ch�o, com a cabe�a arriada para a frente e o cajado apontado para eles? Cair para tr�s, como se devastado por uma tit�nica luta interior? Ou talvez fugir para a floresta e viver em uma �rvore durante um ano, sem falar com ningu�m?</p><p>
  Decidiu  abaixar  os  bra�os  elegantemente,  como  se  tivesse  feito  aquilo  de prop�sito. J� estavam doendo demais, de modo que ele n�o tinha muita escolha. Fez um pequeno sinal secreto que tinha acabado de inventar em dire��o � rampa, que havia acabado de fechar, e depois deu tr�s passos e meio para tr�s, a fim de poder ao menos observar direito quem eram aquelas pessoas e decidir o que fazer em seguida. A mais alta era uma mulher muito bonita, usando roupas soltas e amarrotadas. O Velho Thrashbarg n�o sabia disso, mas eram feitas de Rymplon TM, um novo tecido sint�tico  que  era  perfeito para  viagens  espaciais  porque  parecia  realmente  fant�stico quando estava todo enrugado e suado.</p><p>
A   mais   baixa   era   uma   menina.   Era   esquisita  e  tinha  um  ar  mal-humorado, usava roupas que ficavam p�ssimas quando estavam enrugadas e suadas e, o que era pior, ela provavelmente sabia daquilo.</p><p>
Todos olhavam para elas, exceto os p�ssaros pikka, que tinham outras coisas para olhar.</p><p>
A mulher estacou e olhou � sua volta. Tinha um ar decidido. Ficou claro que estava buscando algo espec�fico, mas n�o sabia exatamente onde encontrar. Olhou os rostos dos habitantes que se reuniam curiosos � sua volta, um por um, e, aparentemente, n�o encontrou o que estava procurando.</p><p>
Thrashbarg  n�o  fazia  a menor  id�ia  do que  fazer  e  decidiu  apelar  para  um c�ntico.  Jogou a  cabe�a para tr�s  e come�ou o seu lamento,  mas  foi imediatamente interrompido por uma nova leva de m�sicas da cabana do Fazedor de Sandu�ches: a �ltima  do  lado  esquerdo.  A  mulher  virou-se  bruscamente  para  aquela  dire��o  e, lentamente, um sorriso surgiu em seu rosto. Sem nem olhar de relance para o Velho Thrashbarg, come�ou a se dirigir para a cabana.</p><p>
Fazer sandu�ches � uma  arte que poucos t�m condi��es de sequer encontrar tempo  para  explorar.  �  uma  tarefa  simples,  mas  as  oportunidades  de  satisfa��o  s�o in�meras e profundas: escolher o p�o certo, por exemplo. O Fazedor de Sandu�ches passara v�rios meses fazendo consultas e experi�ncias di�rias com o padeiro Grarp, at�</p><p>
criarem, finalmente, um p�o com uma consist�ncia densa o suficiente para ser cortado em  fatias  finas  e  perfeitas,  mas  ao  mesmo  tempo  leve,  molhadinho  e  com  aquele delicado sabor de nozes que real�ava o gosto da carne assada das Bestas Perfeitamente Normais.</p><p>
Sem contar com a geometria da fatia, que devia ser refinada: as rela��es exatas entre a largura e a altura da fatia e a sua grossura, que conferem o senso adequado de volume e peso ao sandu�che pronto � aqui, mais uma vez, a leveza era uma virtude, mas tamb�m a firmeza, a generosidade e a promessa de sucul�ncia e sabor que s�o a marca registrada de uma experi�ncia sanduich�stica verdadeiramente intensa. Os  utens�lios adequados, �  claro, eram cruciais, e  o Fazedor  de Sandu�ches passava  v�rios  dias,  quando  n�o  estava  ocupado  com  o  padeiro  e  seu  forno,  com Strinder,  o  Fazedor  de  Utens�lios,  pesando  e  comparando  facas,  indo  e  voltando  da fornalha.  Maleabilidade,  for�a,  agudeza  do  corte,  comprimento  e  peso  eram entusiasticamente debatidos; teorias eram criadas, testadas, refinadas e n�o eram poucas as tardes onde se podia ver as silhuetas do Fazedor de Sandu�ches e do Fazedor de Utens�lios  delineadas  contra  a  luz  do  p�r-do-sol,  enquanto  o  amolador  de  facas  do Fazedor  de  Utens�lios  cortava  o  ar  em  movimentos  lentos,  lixava  as  suas  l�minas, experimentava uma a uma, comparando o peso de uma com o equil�brio da outra, a maleabilidade de uma terceira e o cabo de uma quarta.</p><p>
Eram necess�rias quatro facas ao todo. Primeiro, a faca para fatiar o p�o: uma l�mina firme, vigorosa, que impunha um prop�sito claro e definido no p�o. Depois, a faca para espalhar manteiga, male�vel mas com um cabo firme. As primeiras vers�es tinham ficado frouxas demais, mas depois a combina��o de flexibilidade com for�a foi aperfei�oada  para  alcan�ar  o  m�ximo  de  suavidade  e  gra�a  na  hora  de  espalhar  a manteiga.</p><p>
Dentre todas as facas, a principal obviamente era a de trinchar. Esta era a faca que n�o iria apenas impor a sua vontade no meio pelo qual se deslocava, como ocorria com  a  faca  do  p�o.  Ela  precisava  trabalhar  com  a  carne,  ser  guiada  por  sua  fibra, produzir fatias primorosamente consistentes e transl�cidas que se soltassem gentilmente em dobras finas do peda�o maior da carne. O Fazedor de Sandu�ches encaixava cada fatia de carne, fazendo um gracioso meneio com o punho, nas lindamente proporcionais fatias debaixo do p�o, cortava as arestas com quatro golpes habilidosos e, finalmente, realizava a m�gica que todas as crian�as da cidade gostavam tanto de se reunir para admirar,  embevecidas  e  maravilhadas.  Com  mais  quatro  golpes  h�beis  da  faca,  ele reunia as sobras descartadas em um perfeito quebra-cabe�a sobre a primeira fatia. Cada sandu�che tinha sobras de tamanho e formato diferentes, mas o Fazedor de Sandu�ches sempre dava um jeito de reuni-las, aparentemente sem esfor�o e sem hesita��o, em um padr�o  que  se  encaixava  perfeitamente.  Mais  uma  segunda  camada  de  carne  e  uma segunda camada de sobras e, pronto, o ato principal da cria��o estava conclu�do. O  Fazedor  de  Sandu�ches  passava  sua  cria��o  para  o  assistente,  que acrescentava algumas fatias de nopino, ranabete e molho de espramboesa, colocava a fatia  final  de  p�o  sobre  o  recheio  e  cortava   o   sandu�che   com   a   quarta   faca,   a   mais simples de todas. Essas opera��es certamente exigiam uma certa habilidade, mas eram habilidades inferiores, que podiam ser desempenhadas por um aprendiz dedicado que um dia, quando  o  Fazedor  de  Sandu�ches  pendurasse  as suas facas,  assumiria o seu lugar. Era uma posi��o muito nobre, e Drimple, o aprendiz, era invejado por todos os seus amigos. Algumas pessoas na cidade estavam satisfeitas cortando lenha, contentes por carregar �gua, mas ser o Fazedor de Sandu�ches era, definitivamente, o m�ximo. E ent�o l� estava o Fazedor de Sandu�ches cantando enquanto trabalhava. Estava usando a �ltima carne salgada do ano. J� n�o estava mais t�o fresca, mas ainda assim o sabor suculento das Bestas Perfeitamente Normais era a coisa mais maravilhosa  que  ele  j�  havia  provado.  Estavam  dizendo  que  na  semana  seguinte  as Bestas Perfeitamente Normais iriam aparecer para a sua migra��o usual e toda a cidade mergulharia, mais uma vez, em atividades fren�ticas: ca�ar as Bestas, matar umas seis, ou quem sabe at� mesmo umas sete d�zias das milhares que passavam correndo por eles. Depois, as Bestas tinham de ser rapidamente abatidas e limpas; salgavam a maior parte da carne para conserv�-la durante os meses de inverno, at� o retorno da migra��o na primavera, que reabasteceria os estoques.</p><p>
Os melhores peda�os da carne eram assados imediatamente para o banquete que marcava a Passagem do Outono. As comemora��es duravam tr�s dias de absoluta exuber�ncia, dan�as e hist�rias que o Velho Thrashbarg contava sobre como havia sido a  ca�ada,  hist�rias  que  ele  teria  ficado  inventando  na  tranq�ilidade  de  sua  cabana enquanto todo o resto da cidade estava de fato ca�ando.</p><p>
E ent�o os melhores dos melhores peda�os da carne eram guardados ap�s o banquete e entregues para o Fazedor de Sandu�ches. E sobre esses peda�os ele usaria as habilidades que havia recebido dos deuses e faria os requintados sandu�ches da Terceira Esta��o,  que  toda  a  cidade  compartilhava  antes  de  come�ar,  no  dia  seguinte,  a  se preparar para os rigores do inverno que iria chegar.</p><p>
Naquele dia, estava fazendo sandu�ches comuns, se � que aquelas iguarias, t�o carinhosamente preparadas, podiam ser chamadas de comuns. O seu assistente estava de folga,  ent�o  o  Fazedor  de  Sandu�ches  operava  os  seus  milagres  sozinho  e  o  fazia alegremente. Para falar a verdade, tudo em sua vida ultimamente o deixava alegre. Fatiava e cantava. Colocava cada peda�o de carne com capricho sobre o p�o, aparava as arestas e ajeitava as sobras no seu quebra-cabe�a. Uma saladinha, um pouco de molho, outro peda�o de p�o, outro sandu�che, outro verso de Yellow Submarine.</p><p>
� Oi, Arthur.</p><p>
O Fazedor de Sandu�ches quase cortou o ded�o fora.</p><p>
Os  moradores  da  cidade  observaram,  consternados,  enquanto  a  mulher marchava corajosa para a cabana do Fazedor de Sandu�ches. O Fazedor de Sandu�ches fora enviado por Bob Todo-Poderoso em uma carruagem de fogo flamejante. Aquilo, pelo menos, era o que Thrashbarg havia dito e ele era a autoridade nesses assuntos. Ou pelo menos era isso que Thrashbarg afirmava e Thrashbarg era... assim por diante. N�o adiantava discutir a respeito.</p><p>
 Alguns alde�es se questionaram por que Bob Todo-Poderoso lhes mandaria o seu filho �nico em uma carruagem de fogo flamejante e n�o em uma que pudesse ter aterrissado calmamente, sem destruir metade da floresta, ench�-la de fantasmas e acabar fazendo com que o Fazedor de Sandu�ches se machucasse feio. O Velho Thrashbarg dissera que era a vontade inef�vel de Bob, e, quando perguntaram o que era "inef�vel", ele mandou olhar no dicion�rio.</p><p>
O  que  era  um  problema,  porque  o  �nico  dicion�rio  da  cidade  pertencia  ao Velho Thrashbarg e ele n�o emprestava a ningu�m. Eles perguntavam por que e ele dizia  que  n�o  lhes  cabia  conhecer  a  vontade  de  Bob  Todo-Poderoso  e,  quando perguntavam o porqu� novamente, ele dizia que era assim e pronto. De todo modo, algu�m invadiu a cabana do Velho Thrashbarg um dia, quando ele saiu para nadar, e procurou  o  verbete  "inef�vel".  Inef�vel  aparentemente  significava  "incognosc�vel, indescrit�vel,  inexprim�vel,  imposs�vel  de  ser  conhecido  ou  falado".  Ah,  aquilo explicava tudo.</p><p>
Pelo menos, eles tinham os sandu�ches.</p><p>
Um dia, o Velho Thrashbarg havia dito que Bob Todo-Poderoso decretara que ele, Thrashbarg, tinha direito de escolher os sandu�ches primeiro. Os alde�es queriam saber  quando  exatamente  aquilo  tinha  acontecido  e  ele  respondera  que  fora  no  dia anterior, quando ningu�m estava olhando. "Tenham f� � dissera o Velho Thrashbarg</p><p>
� ou queimem!"</p><p>
Deixaram ele escolher os sandu�ches primeiro. Parecia mais f�cil. E  agora  aquela  mulher  aparecera  do  nada  e  fora  direto  para  a  cabana  do Fazedor  de  Sandu�ches.  A  sua  fama  na  certa  se  espalhara  �  embora  fosse  dif�cil precisar  para  onde,  j�  que,  segundo  o  Velho  Thrashbarg,  n�o  existia  nenhum  outro lugar. De todo modo, fosse l� de onde ela tivesse vindo, presumivelmente de algum lugar inef�vel, o fato � que estava l� naquele momento e fora at� a cabana do Fazedor de Sandu�ches. Quem era ela? E quem era a garota misteriosa que estava do lado de fora da cabana, chutando pedrinhas, chateada e com todo o jeito de que n�o queria estar ali?</p><p>
Parecia estranho que algu�m se desse ao trabalho de vir at� ali de algum lugar inef�vel em  uma  carruagem  que,  obviamente,  era  um  vis�vel  aperfei�oamento  da  carruagem flamejante que trouxera o Fazedor de Sandu�ches, se n�o queria nem estar ali. Todos  olharam  para  Thrashbarg,  mas  ele  estava  ajoelhado,  murmurando  e olhando fixamente  para  o c�u, evitando  olhar  as  pessoas  at�  que  inventasse  alguma coisa para falar.</p><p>
�</p><p>
Trillian!  �  disse  o  Fazedor  de  Sandu�ches,  chupando  o  ded�o ensang�entado. � Como...? Quem...? Quando...? Onde...?</p><p>
�</p><p>
Exatamente as perguntas que eu ia fazer � disse Trillian, examinando o interior da cabana de Arthur. Estava bem-arrumada, com os seus utens�lios de cozinha. Havia  alguns  arm�rios  b�sicos,  algumas  prateleiras  e  uma  cama  b�sica  em  um  dos cantos. Uma porta no fundo da cabana dava para algo que Trillian n�o conseguia ver, pois estava fechada. � Legal � disse ela, mas em um tom de voz questionador. N�o estava conseguindo entender bem o que era aquilo.</p><p>
�</p><p>
Muito legal � disse Arthur. � Incrivelmente legal. N�o me lembro de ter estado em algum lugar t�o legal antes. Estou feliz aqui. As pessoas gostam de mim, eu fa�o sandu�ches para elas e... ah, bom, � basicamente isso. Elas gostam de mim e eu fa�o sandu�ches para elas.</p><p>
�</p><p>
Parece, ahn...</p><p>
�</p><p>
Id�lico � completou Arthur, firmemente. � E �. De verdade. Acho que voc� n�o vai gostar muito, mas para mim �, digamos, perfeito. Olha, sente-se, por favor, fique � vontade. Posso te oferecer alguma coisa, ah, um sandu�che?</p><p>
Trillian apanhou um sandu�che e examinou. Cheirou-o cuidadosamente.</p><p>
�</p><p>
Experimenta � disse Arthur. � � gostoso.</p><p>
Trillian provou um pedacinho, depois mordeu e depois mastigou, pensativa.</p><p>
�</p><p>
� bom mesmo � disse ela, contemplando o sandu�che.</p><p>
�</p><p>
Vivo disso agora � disse Arthur, tentando  soar orgulhoso e torcendo para  n�o  soar  como  um  idiota  completo.  Estava  se  acostumando  a  ser  levemente reverenciado ali e agora estava tendo que fazer uma grande gin�stica mental.</p><p>
�</p><p>
Que carne � essa? � perguntou Trillian.</p><p>
 �</p><p>
Ah, uhn, � Besta Perfeitamente Normal.</p><p>
�</p><p>
O qu�?</p><p>
�</p><p>
Besta Perfeitamente Normal. Parece um pouco com carne de vaca, ou de boi. Na verdade parece mais carne de b�falo. � um animal bem grande, desses que saem em estouros.</p><p>
�</p><p>
E o que h� de estranho nele?</p><p>
�</p><p>
Nada. � Perfeitamente Normal.</p><p>
�</p><p>
Sei.</p><p>
�</p><p>
O que � um pouco estranho � de onde eles v�m.</p><p>
Trillian franziu a testa e parou de mastigar.</p><p>
�</p><p>
De onde eles v�m? � perguntou ela com a boca cheia. N�o ia engolir at�</p><p>
apurar aquela hist�ria toda.</p><p>
�</p><p>
Bom, o problema n�o � s� de onde eles v�m, � tamb�m para onde eles v�o. Mas  n�o  tem grilo, n�o, voc�  pode engolir sem  medo.  Eu j� estou cansado de comer isso. � �timo. Bem suculento. Muito macio. Tem um sabor levemente adocicado, com um toque meio amargo.</p><p>
Trillian ainda n�o tinha engolido.</p><p>
�</p><p>
De onde � perguntou Trillian � eles v�m e para onde eles v�o?</p><p>
�</p><p>
Eles v�m de uma regi�o um pouco ao leste das Montanhas Hondo. S�o aquelas  grandonas  bem  aqui  atr�s, voc�  deve  ter  visto quando  chegou. Eles  cruzam desembestados as Grandes Plan�cies Anhondo e, bem, � isso. � de l� que eles v�m. E �</p><p>
para l� que eles v�o.</p><p>
Trillian franziu a testa. Tinha algo ali que ela n�o estava entendendo.</p><p>
�</p><p>
Acho que n�o expliquei direito � disse Arthur. � Quando eu disse que eles v�m de uma regi�o ao leste das Montanhas Hondo, quis dizer que � de l� que eles surgem de repente. Ent�o eles cruzam desembestados as Grandes Plan�cies Anhondo e desaparecem, para falar a verdade. Temos mais ou menos uns cinco dias para ca�ar o m�ximo  que  pudermos  antes  de  eles  sumirem.  Na  primavera  fazem  a  mesma  coisa novamente, s� que vindo da dire��o contr�ria.</p><p>
Relutantemente, Trillian engoliu. Era isso ou cuspir e, para falar a verdade, o gosto era �timo.</p><p>
 �</p><p>
Sei � disse ela, depois de se certificar que n�o estava sofrendo nenhum efeito colateral. � E por que s�o chamadas de Bestas Perfeitamente Normais?</p><p>
�</p><p>
Bem, acho que � porque, do contr�rio, as pessoas iam ach�-los meios esquisitos.  Acho  que  foi  o  Velho  Thrashbarg  que  os  batizou  assim.  Ele  diz  que  os animais v�m do lugar que v�m e que v�o para o lugar que v�o e que essa � a vontade de Bob e que isso � tudo.</p><p>
�</p><p>
Quem...</p><p>
�</p><p>
Melhor nem perguntar.</p><p>
�</p><p>
Bom, voc� parece estar bem aqui.</p><p>
�</p><p>
Me sinto bem. Voc� tamb�m parece bem.</p><p>
�</p><p>
Estou bem. Estou muito bem.</p><p>
�</p><p>
Bom, que bom.</p><p>
�</p><p>
�.</p><p>
�</p><p>
�timo.</p><p>
�</p><p>
�timo.</p><p>
�</p><p>
Legal ter vindo aqui.</p><p>
�</p><p>
Valeu.</p><p>
�</p><p>
Bem  �  disse  Arthur,  olhando  �  sua  volta.  Incr�vel  como  era  dif�cil pensar em algo para se dizer a uma pessoa depois de todo aquele tempo.</p><p>
�</p><p>
Voc�  deve  estar  se  perguntando  como  foi  que  te  encontrei  �disse Trillian.</p><p>
�</p><p>
Pois �! � respondeu Arthur. � Estava me perguntando exatamente isso. Como foi que voc� me encontrou?</p><p>
�</p><p>
Bem, n�o sei se voc� sabe ou n�o, mas agora eu trabalho para uma das emissoras subetas que...</p><p>
�</p><p>
Estou sabendo � disse Arthur, lembrando-se de repente. � �, voc� se deu muito bem. Maravilha. Muito empolgante. Parab�ns. Deve ser muito divertido.</p><p>
�</p><p>
Cansativo.</p><p>
�</p><p>
Toda aquela correria. Deve ser, sim.</p><p>
�</p><p>
Temos acesso a praticamente todo tipo de informa��o.</p><p>
Encontrei o seu nome na lista de passageiros da nave que caiu.</p><p>
Arthur estava impressionado.</p><p>
�</p><p>
Quer dizer que eles sabem da queda?</p><p>
�</p><p>
U�,  claro  que  sabem.  N�o  d�  para  uma  nave  cheia  de  passageiros desaparecer sem que ningu�m fique sabendo.</p><p>
�</p><p>
Mas, pera�, eles sabem onde n�s ca�mos? Sabem que eu sobrevivi?</p><p>
�</p><p>
Sim.</p><p>
�</p><p>
Mas  ningu�m  nunca  veio  me  ver,  me  procurar,  me  resgatar.  N�o aconteceu nada.</p><p>
�</p><p>
Bem, n�o poderia ter acontecido mesmo. � um lance complicad�ssimo com as companhias de seguro. Encobrem a hist�ria toda. Fingem que nada aconteceu. O</p><p>
mercado de seguros est� totalmente maluco agora. Sabia que eles reintroduziram a pena de morte para os diretores de companhias de seguros?</p><p>
�</p><p>
S�rio? � perguntou Arthur. � N�o sabia disso, n�o. Para qual crime?</p><p>
Trillian franziu a testa.</p><p>
�</p><p>
Como assim, crime?</p><p>
�</p><p>
Entendo.</p><p>
Trillian olhou longamente para Arthur e depois, com outro tom de voz, disse:</p><p>
�</p><p>
� hora de voc� assumir as suas responsabilidades, Arthur.</p><p>
Arthur tentou compreender aquele coment�rio. Sabia que sempre levava mais ou menos um minuto para entender exatamente o que as pessoas estavam falando, ent�o deixou  mais  ou  menos  um  minuto  passar,  sem  a  menor  pressa.  A  sua  vida  era  t�o agrad�vel e tranq�ila naqueles dias que tinha tempo de sobra para esperar as coisas fazerem sentido na sua cabe�a. Ent�o deixou as coisas fazerem sentido. Ainda n�o tinha entendido direito o que ela queria dizer com aquilo. Ent�o, no final das contas, foi obrigado a perguntar.</p><p>
Trillian lhe deu um sorriso contido e virou-se para a porta da cabana.</p><p>
�</p><p>
Random? � chamou ela. � Venha c�. Venha conhecer o seu pai.</p><p><strong>CAP�TULO 14</strong></p><p>
Enquanto o Guia tornava a se dobrar em um disco liso e negro, Ford tentou se dar conta de algumas coisas bem alucinadas. Ou, pelo menos, tentou se dar conta, pois as coisas eram alucinadas demais para dar conta de tudo de uma s� vez. Sua cabe�a estava martelando, seu tornozelo estava doendo e, embora n�o gostasse de parecer um maricas em rela��o � dor, costumava achar que a l�gica multidimensional intensa era algo que ele compreendia melhor no banho. Precisava de tempo para pensar a respeito. Tempo, um drinque caprichado e algum �leo de banho perfumado e denso que fizesse bastante espuma.</p><p>
Precisava dar o fora dali. Precisava tirar o Guia dali. N�o acreditava que os dois pudessem escapar juntos.</p><p>
Olhou � sua volta, nervoso.</p><p>
Pense, pense, pense. Tinha de ser algo simples e �bvio. Se sua suspeita furtiva e asquerosa de que estava lidando com vogons furtivos e asquerosos estava correta, ent�o quanto mais simples e �bvio, melhor.</p><p>
De repente viu o que precisava.</p><p>
N�o tentaria lutar contra o sistema, apenas iria fazer uso dele. A coisa mais assustadora sobre os vogons era a sua determina��o absolutamente irracional para fazer qualquer  coisa  irracional  que  estivessem  determinados  a  fazer.  N�o  adiantava  nada apelar para o seu bom senso, porque n�o tinham um. No entanto, se voc� mantivesse a calma, algumas vezes podia explorar a sua teimosia obtusa e acachapante em serem acachapantes  e  obtusos.  A  quest�o  n�o  era  apenas  que  a  m�o  esquerda  deles  nem sempre sabia o que a m�o direita estava fazendo; freq�entemente, a pr�pria m�o direita tinha apenas uma vaga no��o do que ela mesma estava fazendo. Ousaria simplesmente mandar entregar aquilo para ele mesmo?</p><p>
Ousaria  simplesmente  colocar  o  objeto  no  sistema  e  deixar  que  os  vogons descobrissem  como  faz�-lo  chegar  at�  ele  enquanto  estivessem  ocupados  �  como provavelmente estariam � destruindo o pr�dio para descobrir onde Ford o escondera?</p><p>
Sim.</p><p>
Febrilmente,  empacotou  o  Guia.  Embrulhou-o.  Etiquetou-o.  Parando  um momento para pensar se estava realmente fazendo a coisa certa, encaminhou o pacote para a rampa de correspond�ncia interna do pr�dio.</p><p>
�</p><p>
Colin � disse ele, virando�se para a pequena bola flutuante. � Vou te abandonar � pr�pria sorte.</p><p>
�</p><p>
Estou t�o feliz � respondeu Colin.</p><p>
�</p><p>
Aproveite ao m�ximo � disse Ford. � Porque preciso que voc� tome conta desse pacote e o leve para fora do pr�dio. Eles provavelmente v�o te incinerar quando te encontrarem e eu n�o vou mais estar aqui para ajudar. A coisa vai ficar muito, muito feia para o seu lado e eu s� lamento. Entendeu?</p><p>
�</p><p>
Estou gorgolejando de satisfa��o � disse Colin.</p><p>
�</p><p>
Vai! � ordenou Ford.</p><p>
Colin obedientemente mergulhou na rampa de correspond�ncia para cumprir sua  miss�o.  Agora  Ford  s�  tinha  que  se  preocupar  consigo  mesmo,  mas  aquela continuava  sendo  uma  preocupa��o  substancial.  Podia  ouvir  o  barulho  de  passos pesados correndo do lado de fora da porta, que ele tivera a precau��o de trancar e de obstruir com um arm�rio bem pesado.</p><p>
Estava aflito porque tudo tinha sido f�cil demais. Tudo muito bem encaixado. Passara  o  dia  aos  trancos  e  barrancos  e,  no  entanto,  tudo  terminara  de  forma estranhamente bem resolvida. A n�o ser pelo seu sapato. Estava chateado com aquilo. Era uma conta que teria de acertar mais tarde.</p><p>
Com  um ru�do ensurdecedor,  a  porta  explodiu  para  dentro. No turbilh�o de fuma�a e poeira, Ford p�de distinguir criaturas grandes, parecidas com lesmas, correndo na sua dire��o.</p><p>
Ent�o fora tudo f�cil demais, n�o �? Tudo funcionando como se a sorte mais extraordin�ria estivesse ao seu lado? Bom, era isso o que ele ia descobrir. Imbu�do de um esp�rito de pesquisa cient�fica, arremessou-se novamente pela janela.</p><p><strong>CAP�TULO 15</strong></p><p>
No primeiro m�s, conhecer um ao outro foi um pouco dif�cil. No segundo m�s, tentar aceitar o que descobriram um sobre o outro no primeiro m�s foi muito mais f�cil. Mas no terceiro m�s, quando a caixa chegou, a coisa ficou meio complicada. No come�o,  at� mesmo  tentar explicar o que era um m�s foi  problem�tico. Aquilo  havia  sido  algo  deliciosamente  simples  para  Arthur  em  Lamuella.  Os  dias tinham um pouquinho mais de vinte e cinco horas, o que basicamente significava uma hora a mais na cama todos os dias e, claro, ter que reajustar seu rel�gio o tempo todo, coisa que Arthur at� gostava de fazer.</p><p>
Tamb�m se sentia em casa com o n�mero de s�is e luas em Lamuella � um de cada � por oposi��o a certos planetas onde ele foi parar algumas vezes e que tinham uma quantidade absurda de ambos.</p><p>
O planeta orbitava em torno do seu �nico sol a cada trezentos dias, o que era um bom n�mero, porque significava que o ano n�o ficava se arrastando. A lua orbitava em volta de Lamuella umas nove vezes por ano, o que significava que um m�s tinha um pouquinho mais do que trinta dias, o que era absolutamente perfeito, porque dava mais tempo �s pessoas para fazerem as coisas. N�o era meramente tranq�ilizador como a Terra: era, na verdade, uma melhoria.</p><p>
Random, por outro lado, Sentia-se como se estivesse presa em um pesadelo recorrente. Tinha ataques de choro e achava que a lua estava atr�s dela. Aparecia no c�u todas  as  noites  e,  quando  ela  finalmente  sumia,  l�  vinha  o  sol  para  segui�la.  Sem cessar.</p><p>
Trillian avisara a Arthur que Random poderia ter uma certa dificuldade de se adaptar a um estilo de vida mais regular que o de at� ent�o, mas Arthur n�o estava preparado para v�-la uivando para a lua.</p><p>
N�o estava preparado para nada daquilo, obviamente.</p><p>
 Sua filha?.</p><p>
Sua filha? Ele e Trillian nem mesmo tinham feito... ou fizeram? Tinha certeza absoluta de que se lembraria disso. E quanto a Zaphod?</p><p>
�</p><p>
Esp�cies diferentes, Arthur � respondera Trillian. � Quando eu resolvi ter  um  filho,  eles  fizeram  v�rios  testes  gen�ticos  em  mim  e  s�  encontraram  uma compatibilidade.  S�  depois  eu  me  dei  conta.  Fui  verificar  e  estava  certa.  Eles  n�o costumam revelar essas coisas, mas eu insisti.</p><p>
�</p><p>
Quer dizer que voc� procurou um banco de DNA? � perguntou Arthur, com os olhos arregalados.</p><p>
�</p><p>
Procurei. Mas ela n�o foi t�o rand�mica quanto o nome sugere porque, �</p><p>
claro, voc� era o �nico doador homo sapiens. Mas parece que voc� era um viajante bem ass�duo.</p><p>
Arthur  examinara  embasbacado  a  menina  infeliz  que  estava constrangedoramente prostrada na soleira da porta olhando para ele.</p><p>
�</p><p>
Mas quando... h� quanto tempo...?</p><p>
�</p><p>
Voc� quer saber qual a idade dela, � isso?</p><p>
�</p><p>
�.</p><p>
�</p><p>
A errada.</p><p>
�</p><p>
O que voc� quer dizer?</p><p>
�</p><p>
Que n�o fa�o a menor id�ia.</p><p>
�</p><p>
Com  o assim?</p><p>
�</p><p>
Bem, seguindo minha linha do tempo, eu dei � luz h� uns dez anos, mas ela  �,  obviamente,  muito  mais  velha  do  que  isso.  Passo  minha  vida  inteira  indo  e voltando  no  tempo,  sabe.  Por  causa  do  trabalho.  Costumava  lev�-la  comigo  quando dava, mas nem sempre era poss�vel. Ent�o eu comecei a coloc�-la em creches nas zonas temporais, mas hoje em dia � muito dif�cil encontrar um acompanhamento confi�vel do tempo. Voc� deixa as crian�as l� pela manh� e n�o faz a menor id�ia de quantos anos v�o ter � tarde. Voc� reclama o quanto quiser, mas n�o adianta nada. Eu a deixei em um desses  lugares  por  algumas  horas  uma  vez  e,  quando  voltei,  ela  j�  tinha  virado adolescente. Fiz tudo o que pude, Arthur, agora � com voc�. Preciso fazer a cobertura de uma guerra.</p><p>
Os dez segundos ap�s Trillian ter partido foram os mais  longos da vida de Arthur  Dent.  O  tempo,  como  sabemos,  �  relativo.  Voc�  pode  viajar  anos-luz  pelas estrelas e, quando voltar, se o fizer na velocidade da luz, estar� apenas alguns segundos mais velho, enquanto o seu irm�o g�meo ter� envelhecido vinte, trinta, quarenta ou sei l� quantos anos, dependendo da dist�ncia da sua viagem.</p><p>
Tudo isso pode ser um choque pessoal profundo, especialmente se voc� n�o sabia que tinha um irm�o g�meo. Os segundos durante os quais voc� esteve ausente n�o ser�o suficientes para prepar�-lo para o choque de relacionamentos familiares novos e estranhamente estendidos ao voltar.</p><p>
Um  sil�ncio  de  dez  segundos  n�o  foi  suficiente  para  que  Arthur  pudesse reorganizar sua vis�o de si mesmo e de sua vida, de modo a incluir de repente uma filha absolutamente desconhecida de cuja mera exist�ncia ele sequer tinha tido a mais leve suspeita  ao  se  levantar  naquela  manh�.  La�os  familiares  profundos  n�o  podem  ser constru�dos em dez segundos, n�o importa o qu�o distante ou o qu�o r�pido voc� se distancie,  e  Arthur  se  sentia  desesperado,  aturdido  e  entorpecido  ao  contemplar  a menina parada na sua porta olhando para o ch�o.</p><p>
Imaginou que n�o fazia o menor sentido fingir que n�o estava desesperado. Foi at� ela e a abra�ou.</p><p>
� Eu n�o amo voc� � disse ele. � Sinto muito. Nem conhe�o voc� ainda. Mas me d� alguns minutos.</p><p>
"Vivemos em tempos estranhos.</p><p>
Tamb�m vivemos em lugares estranhos: cada um em seu pr�prio universo. As pessoas  com  as  quais  populamos  nossos  universos  s�o  sombras  de  outros  universos inteiros  que  se  cruzam  com  o  nosso.  Ser  capaz  de  vislumbrar  essa  complexidade desconcertante de recursividade infinita e dizer coisas como 'E a�, Ed! Belo bronzeado, hein? Como vai a Carol?' requer uma imensa habilidade seletiva que todas as entidades conscientes t�m de desenvolver uma capacidade para se proteger da contempla��o do caos  que  atravessam  aos  trancos  e barrancos.   Ent�o   n�o   encha   o   saco   do  seu   filho, t�?�(Trecho do livro Como ser pai em um universo fractalmente louco.)</p><p>
� O que � isso?</p><p>
Arthur estivera perto de desistir. Ou seja, ele n�o iria desistir. N�o iria desistir de jeito nenhum. Nem agora nem depois. Mas, se fosse o tipo de pessoa que iria desistir de alguma coisa, provavelmente teria desistido naquele momento. N�o  satisfeita  em  ser  mal�humorada,  intrat�vel,  em  estar  o  tempo  todo querendo ir embora para brincar na era Paleoz�ica, em n�o entender por que a gravidade tinha que ficar ligada o tempo todo e em ficar gritando para que o sol n�o a seguisse, Random usara a faca de trinchar de Arthur para escavar pedras e as atirar nos p�ssaros pikka, que n�o paravam de olhar para ela.</p><p>
Arthur nem sabia se Lamuella tinha tido uma era Paleoz�ica. Segundo o Velho Thrashbarg,  o  planeta  fora  descoberto  completamente  formado  no  umbigo  de  uma lacraia gigante �s quatro e meia da tarde de uma vroon-feira, embora Arthur, sendo um experiente  viajante  gal�ctico,  com  boas  notas  em  F�sica  e  Geografia,  tivesse  s�rias d�vidas a respeito. Mas era in�til tentar discutir com o Velho Thrashbarg, e ele nem tinha motivos para isso.</p><p>
Sentado, observando a faca lascada e retorcida nas m�os, suspirou. Iria amar Random mesmo que isso o matasse, ou a ela, ou a ambos. Ser pai n�o era nada f�cil. Sabia que nunca disseram que seria, mas essa n�o era a quest�o, porque jamais quisera ser pai, para come�ar.</p><p>
Estava fazendo o melhor que podia. Sempre que tinha um minuto de folga no preparo dos sandu�ches, passava tempo com ela, conversando, caminhando, sentado em uma  colina com ela ao seu lado, vendo o sol se p�r por tr�s do vale onde ficava a cidade,  tentando  descobrir  algo  sobre  a  vida  dela,  tentando  explicar  a  sua.  Era complicado.  Tirando  os  genes  praticamente  id�nticos,  n�o  tinham  quase  nada  em comum.  Ou  melhor,  tinham  apenas  uma  Trillian  em  comum,  de  quem  tinham impress�es um tanto quanto diferentes.</p><p>
� O que � isso?</p><p>
Percebeu subitamente que a menina estava falando com ele e sequer percebera. Ou melhor, n�o reconhecera a voz dela.</p><p>
Em vez do tom de voz que geralmente usava com ele, amargo  e agressivo, estava apenas fazendo uma pergunta.</p><p>
Ele olhou em volta, surpreso.</p><p>
Estava sentada num banquinho, no canto da cabana, com a sua t�pica postura encurvada, os joelhos grudados, os p�s virados para fora e o cabelo negro ca�do sobre o rosto, enquanto examinava algo que tinha nas m�os.</p><p>
Arthur foi at� ela, um pouco tenso.</p><p>
As suas mudan�as de humor eram muito imprevis�veis, mas, at� agora, todas haviam  sido  varia��es  entre  diferentes  tipos  de  mau  humor.  Surtos  de  recrimina��o rancorosos se transformavam, sem aviso pr�vio, em autopiedade miser�vel, ao que se seguiam demorados acessos de desespero taciturno, pontuados com ataques s�bitos de viol�ncia  sem  sentido  contra  objetos  inanimados  e  com  pedidos  para  ir  a  clubes el�tricos.</p><p>
N�o s� n�o havia clubes el�tricos em Lamuella como n�o havia nenhum outro tipo  de  clube.  Nem  mesmo  tinham  eletricidade.  Havia  uma  ferraria,  uma  padaria, algumas carro�as e um po�o, mas isso era o �pice da tecnologia lamuellana, e a maioria dos  acessos  de  raiva  inextingu�veis  de  Random  eram  dirigidos  contra  o  total  e incompreens�vel atraso do lugar.</p><p>
Ela conseguia captar a rede subeta no pequeno painel Flexotr�nico que tinha implantado  cirurgicamente  no  seu  punho,  mas  isso  n�o  a  animava  nem  um  pouco, porque  a  rede  estava  cheia  de  not�cias  de  coisas  insanamente  empolgantes  que aconteciam  em  todos  os  lugares  da  Gal�xia,  menos  ali.  E a rede  tamb�m  lhe  trazia not�cias freq�entes de sua m�e, que a abandonara para cobrir uma guerra que, ao que parecia, n�o tinha sequer ocorrido ou, no m�nimo, tinha dado muito errado pela falta de dados de intelig�ncia. Fora isso, tinha acesso a programas de aventuras que mostravam diversas naves espaciais fantasticamente caras chocando�se umas contra as outras. Os  lamuellanos  ficavam  totalmente  hipnotizados  com  aquelas  maravilhosas imagens  m�gicas  que  piscavam  em  seu  punho.  S�  haviam  visto  uma  nave  espacial colidindo e a coisa fora t�o assustadora, violenta, chocante e causara tanta devasta��o, inc�ndios e mortes que, estupidamente, jamais haviam se dado conta de que aquilo era entretenimento.</p><p>
O  Velho  Thrashbarg  ficou  t�o  impressionado  com  aquilo  que  vira  Random instantaneamente como uma emiss�ria de Bob, mas pouco depois decidiu que ela, na verdade,  havia  sido mandada  para testar  a  sua  f�  e talvez a sua  paci�ncia. Tamb�m ficara preocupado com a quantidade de colis�es de naves espaciais que teria de come�ar a incluir em suas hist�rias sagradas se quisesse segurar a aten��o dos alde�es, evitando que sa�ssem correndo toda hora para dar uma espiada no punho da menina. Naquele momento, ela n�o estava espiando o seu punho, que estava desligado. Arthur sentou�se ao lado dela em sil�ncio, para ver o que ela estava examinando. Era o seu rel�gio. Havia tirado para tomar banho na cachoeira local, Random o encontrara e estava tentando entender como funcionava.</p><p>
�</p><p>
� s� um rel�gio � disse ele. � Serve para dizer a hora.</p><p>
�</p><p>
Eu sei disso � respondeu ela. � Mas voc� vive mexendo nele e mesmo assim ele n�o informa a hora exata. N�o chega nem perto. Ela ligou o display do seu painel de punho, que automaticamente informou a hora local. J� nos primeiros minutos da chegada de Random o painel come�ara a medir a gravidade  local e o momento  orbital, e observou a posi��o  do  sol, rastreando seu percurso no c�u. Usou o meio ambiente para reunir algumas pistas, depois estabeleceu as conven��es de unidades locais e fez as devidas altera��es. Ele costumava fazer essas coisas continuamente, o que era especialmente �til para pessoas que viajavam tanto no tempo quanto no espa�o.</p><p>
Random franziu a testa diante do rel�gio do pai, que n�o fazia nada daquilo. Arthur gostava muito dele. Era melhor  do que jamais poderia ter comprado com o seu pr�prio dinheiro. Ganhara de presente no seu anivers�rio de vinte e dois anos, de um padrinho muito rico, com complexo de culpa por ter se esquecido de todos os seus anivers�rios at� ent�o, e de seu nome tamb�m. O rel�gio marcava a data, a hora, as fases da lua e trazia "Para Albert, no seu anivers�rio de 21 anos" gravada, com a data errada, na superf�cie desgastada e arranhada da parte de tr�s do rel�gio, com letras ainda vis�veis.</p><p>
O rel�gio passara por poucas e boas nos �ltimos anos, sendo que a maior parte n�o era contemplada pela garantia. N�o imaginava, � claro, que a garantia mencionasse expressamente  que  s�  asseguravam  a  precis�o  do  rel�gio  no  campo  magn�tico  e gravitacional da Terra contanto que os dias tivessem vinte e quatro horas e que o planeta n�o explodisse e por a� vai. Eram pressupostos t�o b�sicos que at� mesmo os advogados os ignoraram.</p><p>
Por  sorte  era  um  rel�gio  de  corda,  ou  melhor,  ele  dava  corda  sozinho. Em nenhum  lugar  da  Gal�xia  teria  encontrado  baterias  com  exatamente  as  mesmas especifica��es de tamanho e voltagem que eram padronizadas na Terra.</p><p>
� E o que s�o todos esses n�meros? � perguntou Random.</p><p>
Arthur apanhou o rel�gio da m�o dela.</p><p>
�</p><p>
Esses  n�meros  aqui  em  volta marcam  as  horas.  Essa  janelinha  aqui  �</p><p>
direita, onde est� escrito QUI, que significa quinta�feira, e o n�mero � quatorze, ou seja, � o d�cimo quarto dia do m�s de MAIO, que � o que est� escrito nessa janelinha aqui.</p><p>
�</p><p>
E essa outra janela aqui em cima, em formato de lua crescente, informa as fases da lua. Em outras palavras, diz o qu�o iluminada a lua est� pelo sol � noite, o que depende das posi��es relativas do sol e da lua e, bem... da Terra.</p><p>
�</p><p>
Da Terra � repetiu Random.</p><p>
�</p><p>
�.</p><p>
�</p><p>
� de l� que voc� e a mam�e vieram, n�o �? ��.</p><p>
Random apanhou o rel�gio de volta e o examinou novamente,  visivelmente impressionada  com  alguma  coisa.  Ent�o,  levou  o  rel�gio  at�  o  ouvido  e  escutou, perplexa.</p><p>
�</p><p>
Que barulho � esse?</p><p>
�</p><p>
� o tique�taque. � o mecanismo que faz com que o rel�gio funcione. S�o engrenagens. O rel�gio tem v�rios tipos de engrenagens entrela�adas e molas que trabalham para movimentar os ponteiros na velocidade exata para marcar as horas, os minutos, os dias e tudo mais.</p><p>
Random continuou olhando fixamente para o rel�gio.</p><p>
�</p><p>
Voc� est� intrigada com alguma coisa � disse Arthur. � O que �?</p><p>
 � Estou � respondeu Random, finalmente. � Por que ele � todo feito em hardware?</p><p>
Arthur  sugeriu  que  sa�ssem  para  dar  uma  volta.  Sentia  que  tinham  que conversar sobre algumas coisas e, pela primeira vez, Random n�o estava exatamente receptiva e disposta, mas pelo menos n�o estava resmungando. Do ponto de vista dela, aquilo tamb�m era bem esquisito. N�o que ela quisesse ser dif�cil de prop�sito; ela simplesmente n�o sabia como ser outra coisa. Quem era aquele sujeito? Que vida era aquela que ela supostamente deveria levar? Que mundo era aquele do qual supostamente deveria fazer parte? E que universo era aquele que n�o parava de penetrar por seus olhos e ouvidos? Para que ele servia? O</p><p>
que queria?</p><p>
Nascera  em uma  nave  espacial que  estava  indo de  algum  lugar para algum outro lugar e, quando chegasse nesse outro lugar, ele teria se transformado em mais algum lugar de onde se devia seguir para outro lugar, e assim por diante. A sensa��o de que deveria estar em outro lugar era a sua expectativa normal. Era normal para ela sentir que estava no lugar errado.</p><p>
As constantes viagens do tempo haviam  somente agravado esse problema  e feito com que ela tivesse a sensa��o de que n�o s� estava sempre no lugar errado como, quase sempre, chegava l� na hora errada tamb�m.</p><p>
N�o notava que sentia isso, porque se sentira assim a vida toda, assim como jamais lhe parecera estranho que, em quase todos os lugares aonde ia, tivesse que usar pesos ou roupas especiais de antigravidade, al�m de um aparato especial para respirar. Os �nicos lugares em que conseguia se sentir em casa eram os mundos que ela mesma criava nas realidades virtuais dos clubes el�tricos. Nunca lhe passara pela cabe�a que o universo real fosse um lugar ao qual ela pudesse pertencer.</p><p>
E  isso  inclu�a  aquele  lugarzinho  chamado  Lamuella,  onde  a  sua  m�e  a abandonara. E tamb�m inclu�a aquele sujeitinho que lhe concedera o precioso e m�gico dom da vida em troca de um assento de primeira classe. Ainda bem que ele at� era legal e simp�tico, pois, do contr�rio, iam ter problemas. De verdade. Random carregava no bolso uma pedra especialmente afiada com a qual podia criar muitos problemas. Ver  as  coisas  do  ponto  de  vista  de  uma  outra  pessoa,  sem  o  treinamento adequado, pode ser muito perigoso.</p><p>
Sentaram-se em um local de que Arthur gostava especialmente, em uma colina que tinha vista para o vale. O sol estava se pondo sobre o vilarejo. A �nica coisa de que Arthur n�o gostava muito era poder ver, ao longe, o vale seguinte, onde um profundo sulco escuro e estra�alhado na floresta marcava o lugar onde a sua nave havia ca�do. Mas talvez ele continuasse a voltar ali exatamente por aquele motivo. Havia diversos pontos dos quais se podia contemplar a exuberante e ondulada  zona  rural de Lamuella,  mas  ele  era  atra�do para aquele  lugar, com  o seu irritante ponto negro de medo e dor acomodado bem no canto da sua vis�o. Nunca mais voltara l� desde que fora resgatado dos escombros. Nem queria.</p><p>
N�o iria suportar.</p><p>
Na verdade, estivera perto do local do acidente no dia seguinte � queda, quando ainda  estava  entorpecido  e  confuso  com  o  choque.  Estava  com  a  perna  quebrada, algumas costelas fraturadas, umas queimaduras feias e n�o estava conseguindo pensar de maneira coerente, mas insistira que os alde�es o levassem at� l�, e eles, um pouco constrangidos, aceitaram. No entanto, n�o conseguiu alcan�ar o ponto exato em que o ch�o borbulhara e derretera e, finalmente, abandonou aquele pesadelo para sempre. Logo depois correu um boato de que a �rea inteira estava mal-assombrada e ningu�m mais se atreveu a ir para aquelas bandas desde ent�o. A regi�o estava cheia de vales lindos, verdejantes e encantadores � n�o fazia sentido ir justo para um altamente preocupante. O melhor � deixar o passado para tr�s e permitir que o presente avance para o futuro.</p><p>
Random  aninhava  o  rel�gio  nas  m�os,  virando-o  lentamente  para  deixar  a distante luz do sol do entardecer brilhar calorosa sobre os arranh�es e as imperfei��es do grosso vidro. Ficava fascinada ao observar o ponteiro dos segundos tiquetaqueando em volta das horas como uma pequena aranha. Cada vez que ele completava um c�rculo inteiro, o mais comprido dos ponteiros principais movia�se exatamente para a pr�xima das  sessenta  pequenas  divis�es  em  volta  do  mostrador.  E,  quando  o  ponteiro  maior completava o seu pr�prio c�rculo, o ponteiro menor se movia para o pr�ximo dos d�gitos principais.</p><p>
�Voc�  est�  olhando  isso  h�  mais  de  uma  hora  �  comentou  Arthur, calmamente.</p><p>
�</p><p>
Eu sei � respondeu ela. � Uma hora � quando o ponteiro grande d�</p><p>
uma volta completa, n�o �?</p><p>
�</p><p>
Isso mesmo.</p><p>
�</p><p>
Ent�o estou olhando h� uma hora e dezessete... minutos.</p><p>
Ela  sorriu  com  um  deleite  profundo  e  misterioso  e  se  mexeu  bem devagarzinho,  apoiando�se  levemente  no  bra�o  de  Arthur.  Ele  sentiu  um  pequeno suspiro escapar de seus l�bios, um suspiro que estava entalado em seu peito h� semanas. Queria colocar o seu bra�o em volta dos ombros  da filha, mas  sentia que ainda era muito cedo, que ela ia acabar se retraindo. Mas algo estava funcionando. Algo dentro dela come�ava a amolecer. O rel�gio tinha um significado para ela que nenhuma outra coisa conseguira ter at� ent�o. Arthur n�o tinha certeza se j� havia compreendido o que era, mas estava profundamente satisfeito e aliviado por algo ter mexido com sua filha.</p><p>
�</p><p>
Me explica de novo � pediu Random.</p><p>
�</p><p>
N�o tem nenhum mist�rio � disse Arthur. � O mecanismo do rel�gio �</p><p>
algo que foi se desenvolvendo ao longo de centenas de anos...</p><p>
�</p><p>
Anos terrestres.</p><p>
�</p><p>
�. Ele foi ficando mais e mais refinado, cada vez mais intrincado. Era um trabalho que exigia muita habilidade e cuidado. Precisava ser feito bem pequeno, mas tinha que continuar funcionando de maneira precisa, mesmo que voc� o balan�asse ou deixasse cair no ch�o.</p><p>
�</p><p>
Mas s� em um planeta?</p><p>
�</p><p>
Foi onde ele foi feito, sabe? Ningu�m esperava que ele fosse para outro lugar e que tivesse que lidar com outros s�is, luas e campos magn�ticos. Quero dizer, continua funcionando perfeitamente bem s� n�o significa muita coisa aqui, t�o longe da Su��a.</p><p>
�</p><p>
De onde?</p><p>
�</p><p>
Da Su��a. Esse a� foi fabricado l�. Um pequeno pa�s, cheio de colinas. Cansativamente arrumadinho. As pessoas que o fizeram n�o sabiam que existiam outros mundos.</p><p>
�</p><p>
Uma coisa e tanto para algu�m desconhecer.</p><p>
�</p><p>
Be</p><p>
 m, te  m raz�o.</p><p>
�</p><p>
Ent�o de onde eles vieram?</p><p>
�</p><p>
Eles,  quer  dizer,  n�s...  n�s  simplesmente  crescemos  l�.  Evolu�mos  na Terra. A partir de, sei l�, uma esp�cie de lodo ou algo assim.</p><p>
�</p><p>
Como esse rel�gio.</p><p>
�</p><p>
Humm. N�o creio que o rel�gio tenha surgido do lodo.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o entende!</p><p>
Random subitamente ficou de p�, aos berros.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o entende! Voc� n�o me entende, voc� n�o entende nada! Eu te odeio por ser t�o burro!</p><p>
Ela come�ou a correr freneticamente colina abaixo, ainda segurando firme o rel�gio e gritando que o odiava.</p><p>
Arthur  levantou-se  num  salto,  assustado  e  sem  entender  nada.  Come�ou  a correr atr�s dela pelos densos tufos de grama. Aquilo era doloroso para ele. Quando quebrara  a  perna  no  acidente,  n�o  havia  sido  uma  fratura  simples  e  n�o  cicatrizara perfeitamente. Estava trope�ando e fazendo cara de dor enquanto corria. De repente, ela se virou e olhou para ele, com o rosto nublado de ira. Sacudiu o rel�gio.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o entende que existe um lugar ao qual isso pertence? Que, em algum lugar, ele funciona? Que, em algum lugar, ele se encaixa?</p><p>
Virou-se e continuou a correr. Estava em forma e era bem veloz. Arthur n�o conseguiria alcan��-la de jeito nenhum.</p><p>
N�o que j� n�o imaginasse que ser pai fosse uma tarefa t�o dif�cil, mas � que ele  n�o  imaginava  ser  pai,  muito  menos  assim,  inesperadamente  e  em  um  planeta alien�gena.</p><p>
Random virou-se para gritar para ele novamente. Por algum motivo, sempre que ela fazia isso, Arthur parava.</p><p>
 _ Quem voc� pensa que eu sou? � perguntou ela, irritada. � O seu assento de primeira  classe?  Quem  voc�  acha  que  mam�e  pensou  que  eu  era?  Uma  esp�cie  de passaporte para uma vida que ela n�o teve?</p><p>
�</p><p>
N�o sei o que voc� quer dizer com isso � disse Arthur, ofegante e com dor.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o sabe o que ningu�m quer dizer com nada!</p><p>
�</p><p>
Com  o assim?</p><p>
�</p><p>
Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca!</p><p>
�</p><p>
Me diz! Por favor, me diz! O que ela quis dizer com "a vida que ela n�o teve"?</p><p>
�</p><p>
Ela queria ter ficado na Terra! Queria n�o ter ido embora com aquele fresco  imbecil  descerebrado,  o  Zaphod!  Ela  acha  que  poderia  ter  tido  uma  vida diferente!</p><p>
�</p><p>
Mas � ponderou Arthur � ela teria morrido! Ela teria morrido quando o mundo foi destru�do!</p><p>
�</p><p>
N�o deixa de ser uma vida diferente, n�o �?</p><p>
�</p><p>
N�o deixa de...</p><p>
�</p><p>
Ela n�o precisaria ter me deixado nascer! Ela me odeia! �Voc� n�o est�</p><p>
falando isso a s�rio! Como � que algu�m, humm, quero dizer... � Ela   me   teve   para   se ajustar. Essa era a minha fun��o. Mas eu sou muito menos ajustada do que ela! Ent�o ela me desligou e continuou com a sua vidinha idiota.</p><p>
�</p><p>
O que tem de idiota na vida dela? Ela � terrivelmente bem-sucedida, n�o �? Est� em todo o tempo e espa�o, em todas as emissoras da rede subeta...</p><p>
�</p><p>
Idiota! Idiota! Idiota! Idiota!</p><p>
Random se virou e saiu correndo de novo. Arthur n�o conseguiria alcan��-la e, por fim, acabou tendo que se sentar um pouco para esperar a dor na perna passar. N�o tinha a menor id�ia do que ia fazer com toda aquela confus�o que estava em sua cabe�a. Uma hora mais tarde ele voltou capengando para a cidade. Estava anoitecendo. Os alde�es que passaram por ele o cumprimentaram, mas havia no ar uma sensa��o de nervosismo e de n�o saber ao certo o que estava acontecendo e o que fazer com aquela sensa��o. Haviam visto o Velho Thrashbarg puxando a barba e contemplando a lua, o que tamb�m n�o era bom sinal.</p><p>
Arthur voltou para sua cabana.</p><p>
Random estava sentada debru�ada sobre a mesa, quietinha.</p><p>
�</p><p>
Sinto muito � disse ela. � Sinto muito mesmo.</p><p>
�</p><p>
Tudo bem � respondeu Arthur, o mais delicadamente que p�de. � �</p><p>
bom levar um papo, sabe? Ainda temos tanto a aprender e compreender um sobre o outro, e a vida n�o �, bem, n�o � feita somente de ch� e sandu�ches...</p><p>
�</p><p>
Sinto muito mesmo � repetiu ela, solu�ando.</p><p>
Arthur foi at� ela e colocou o seu bra�o no ombro da filha. Ela n�o resistiu nem o recha�ou. Foi ent�o que ele viu o que ela sentia muito.</p><p>
Na mancha de luz produzida por uma lanterna lamuellana jazia o rel�gio de Arthur.  Random  havia  arrancado  a  parte  de  tr�s  com  a  l�mina  da  faca  de  espalhar manteiga  e  todos  os  dentes  de  engrenagem  e  as  molas  e  as  alavancas  estavam espalhados em uma pequena po�a de bagun�a onde ela estivera remexendo as pe�as.</p><p>
�</p><p>
Eu s� queria ver como funcionava � disse Random �, como � que as pe�as se encaixavam. Sinto muito! N�o consigo encaixar de volta. Sinto muito, tanto, mas tanto mesmo! N�o sei o que fazer. Eu vou consertar! Juro! Eu vou consertar!</p><p>
No  dia  seguinte,  Thrashbarg  apareceu  l�  e  disse  v�rias  coisas  sobre  Bob. Tentou exercer uma influ�ncia apaziguadora, convidando Random a deixar sua mente pairar  no  mist�rio  inef�vel  da  lacraia  gigante,  mas  Random  disse  que  n�o  existia nenhuma lacraia gigante e Thrashbarg ficou em um sil�ncio g�lido e disse que ela seria jogada nas profundezas do infinito. Random disse �timo, foi l� que eu nasci e, no dia seguinte, o pacote chegou.</p><p>
A vida estava pr�diga em acontecimentos.</p><p>
Na verdade, quando o pacote chegou, entregue por uma sonda rob�tica que desceu  do  c�u  fazendo  barulhos  rob�ticos,  ele  trouxe  consigo  uma  sensa��o,  que gradualmente come�ou  a permear  todo o vilarejo, de que j� havia acontecido coisas demais.</p><p>
N�o era culpa da pobre sonda rob�tica. Tudo o que queria era a assinatura de Arthur Dent, ou a sua impress�o digital, ou at� mesmo algumas lasquinhas de c�lulas da pele na sua nuca, e iria embora. Ficou parada no ar, esperando, sem saber direito o porqu� daquele ressentimento todo. Enquanto isso, Kirp apanhou outro peixe com uma cabe�a de cada lado, mas, ao examin�-lo de perto, viu que na verdade eram dois peixes cortados pela metade e costurados mal e porcamente, de modo que n�o s� Kirp n�o conseguiu renovar o interesse por peixes de duas cabe�as como acabou colocando a autenticidade do primeiro em d�vida. Apenas os p�ssaros pikka pareciam estar achando tudo perfeitamente normal.</p><p>
A sonda rob�tica pegou a assinatura e se mandou. Arthur carregou o pacote para sua cabana e olhou para ele.</p><p>
�</p><p>
Vamos  abrir!  �  sugeriu  Random,  que  estava  muito  mais  animada naquela manh�, agora que tudo � sua volta ficara completamente esquisito, mas Arthur n�o quis.</p><p>
�</p><p>
Por que n�o?</p><p>
�</p><p>
N�o est� endere�ado a mim.</p><p>
�</p><p>
Es</p><p>
  t�, sim.</p><p>
�</p><p>
N�o est�, n�o. Est� endere�ado para... bem, est� endere�ado para Ford Prefect, aos meus cuidados.</p><p>
�</p><p>
Ford Prefect? N�o foi ele quem...</p><p>
�</p><p>
Foi � respondeu Arthur, secamente.</p><p>
�</p><p>
J� ouvi falar nele.</p><p>
�</p><p>
Imagino que sim.</p><p>
�</p><p>
Vamos abrir mesmo assim. O que mais vamos fazer com isso?</p><p>
�</p><p>
N�o sei � disse Arthur, que realmente n�o sabia. Tinha levado as suas facas danificadas � ferraria de manh� cedo, e Strinder as examinara e dissera que ia ver o que podia fazer.</p><p>
Tentaram a rotina de sempre de sacudir as facas no ar, calculando o ponto de equil�brio e o ponto de flexibilidade, etc. e tal, mas a alegria tinha ido embora e Arthur ficara com a triste impress�o de que seus dias como fazedor de sandu�ches estavam contados.</p><p>
Ele abaixou a cabe�a.</p><p>
A  pr�xima  apari��o  das  Bestas  Perfeitamente  Normais  era  iminente,  mas Arthur sentia que as tradicionais festividades de ca�a e organiza��o de banquetes seriam meio desanimadas e sem convic��o. Algo acontecera em Lamuella, e Arthur tinha uma sensa��o horr�vel de que fora culpa dele.</p><p>
�</p><p>
O que voc� acha que �? � perguntou Random, curiosa, girando o pacote em suas m�os.</p><p>
�</p><p>
Eu  n�o  sei  �  respondeu  Arthur.  �  Algo  ruim  e  preocupante,  com certeza.</p><p>
�</p><p>
Como � que voc� sabe? � protestou Random.</p><p>
�</p><p>
Porque tudo relacionado a Ford Prefect  � invariavelmente  pior  e mais preocupante do que qualquer outra coisa. Acredite em mim.</p><p>
�</p><p>
Voc� est� chateado com alguma coisa, n�o est�? � perguntou Random. Arthur suspirou.</p><p>
�</p><p>
Acho que s� estou meio sobressaltado e inquieto � disse Arthur.</p><p>
�</p><p>
Sinto muito � disse Random, devolvendo o pacote. Percebeu que ele ia ficar realmente chateado se ela abrisse. Ia ter que dar um jeito de fazer isso quando ele n�o estivesse olhando.</p><p><strong>CAP�TULO 16</strong></p><p>
Arthur n�o sabia ao certo do que sentira falta primeiro. Quando percebeu que um  n�o  estava  l�,  sua  mente  instantaneamente  pulou  para  o  outro  e  ele  soube imediatamente que ambos haviam desaparecido e que algo terrivelmente ruim e dif�cil de se lidar iria acontecer. Random n�o estava l�. Nem o pacote. Tinha deixado-o em cima de uma prateleira o dia inteiro, totalmente � vista. Fora um exerc�cio de confian�a.</p><p>
Sabia que uma das coisas que deveria fazer como pai era demonstrar confian�a na filha, construir um sentimento de respeito m�tuo e f� no alicerce do relacionamento deles. Tinha uma sensa��o desagrad�vel de que aquela era uma  coisa idiota para se fazer, mas fez assim mesmo e, de fato, havia sido uma coisa idiota a se fazer. Vivendo e aprendendo. Ou s� vivendo.</p><p>
E entrando em p�nico.</p><p>
Arthur saiu correndo da cabana. Era final de tarde. A luz estava ficando fraca e ia cair uma tempestade. N�o conseguia ver a menina em lugar algum, n�o havia sinal dela. Perguntou. Ningu�m tinha visto Random. Perguntou novamente. Mais ningu�m tinha visto Random. As pessoas estavam voltando para casa para passar a noite. Um ventinho a�oitava os limites da cidade, levantando as coisas do ch�o e as jogando longe de maneira perigosamente casual.</p><p>
Encontrou   com   o   Velho   Thrashbarg   e   perguntou  pela  menina.  Ele  o  olhou friamente  e  apontou  na  dire��o  que  Arthur  mais  temia  e  que,  portanto,  deduzira instintivamente que devia ser a que ela tomara.</p><p>
Ent�o agora j� sabia o pior.</p><p>
Random tinha ido para o lugar que sabia que ele n�o iria segui�la. Olhou para o c�u, que estava pesado, cor de chumbo e entrecortado por raios, e refletiu que seria um c�u perfeito para os Quatro Cavalheiros do Apocalipse. Com um profundo sentimento de mau agouro, ele partiu na trilha que conduzia � floresta no vale seguinte. As primeiras gotas pesadas de chuva come�aram a atingir o ch�o enquanto Arthur tentava se arrastar em uma corrida desajeitada. Random alcan�ou o topo da colina e olhou para baixo, para o vale seguinte. A subida fora mais longa e dif�cil do que imaginara. Estava um pouco preocupada porque fazer aquela caminhada � noite n�o era uma boa id�ia, mas seu pai passara o dia inteiro perambulando do lado de fora da cabana tentando fingir para ela ou para si mesmo que n�o  estava  vigiando  o  pacote.  Finalmente  teve  que  ir  at�  a  ferraria  conversar  com Strinder sobre as facas � e Random havia aproveitado a oportunidade para sumir com o embrulho.</p><p>
Era �bvio que n�o podia abri-lo ali, na cabana, nem mesmo na vila. Arthur poderia  flagr�-la  a  qualquer  momento.  Teria  que  ir  para  um  lugar  onde  ele  n�o  a seguisse.</p><p>
J� podia parar onde estava. Caminhara bastante, na esperan�a de que ele n�o fosse atr�s dela e, mesmo que fosse, jamais a encontrasse na vegeta��o densa da colina com a noite caindo e a chuva come�ando a pingar.</p><p>
Durante  toda  a  subida,  o  pacote  balan�ara  debaixo  do  seu  bra�o.  Era  algo prazerosamente  encorpado:  uma  caixa  com  uma  tampa  quadrada,  com  a  largura  do tamanho  do  seu  antebra�o  e  altura  do  tamanho  da  sua  m�o,  embrulhada  num  papel pardo com um novo modelo de barbante auto-amarrante. N�o chacoalhava quando ela sacudia,  fazendo  Random  ter  a  impress�o  de  que  o  peso  estava  animadoramente concentrado no meio.</p><p>
J� tendo caminhado at� aquele ponto, sentia uma certa satisfa��o em n�o parar ali e carregar o pacote at� l� embaixo, onde parecia ser a �rea proibida � o lugar em que  a nave  do  seu  pai  ca�ra.  N�o  sabia  ao  certo o que  a  palavra  "mal-assombrada" significava,  mas  ia  ser  divertido  descobrir.  Continuaria  caminhando  e  s�  abriria  o embrulho quando chegasse l� embaixo.</p><p>
O  problema  �  que  estava  realmente  escurecendo.  Ainda  n�o  usara  a  sua microlanterna el�trica porque n�o queria ser vista a dist�ncia. Estava na hora de us�-la, o que provavelmente n�o teria mais problema, j� que estava do outro lado da colina que dividia os vales.</p><p>
Acendeu a lanterna. Praticamente na mesma hora um raio ziguezagueou no c�u sobre  o  vale  para  o  qual  estava  se  dirigindo,  o  que  a  deixou  consideravelmente assustada. Quando a escurid�o a envolvia e o estrondo do trov�o sacudia a terra, ela se sentiu subitamente pequena e perdida, com apenas um fr�gil facho de luz, do tamanho de um l�pis, bruxuleando em sua m�o. Talvez fosse melhor parar de uma vez e abrir logo o pacote. Ou talvez devesse voltar para casa e tentar refazer o caminho no dia seguinte. Mas foi apenas uma hesita��o moment�nea. Sabia que n�o tinha como voltar para casa naquela noite e sentiu que n�o poderia voltar nunca mais. Desceu  a  encosta  da  colina.  A  chuva  estava  apertando.  As  pesadas  gotas transformaram�se rapidamente num aguaceiro pesado, sibilando por entre as �rvores. O ch�o estava come�ando a ficar escorregadio sob os seus p�s. Pelo  menos  ela  achava  que  era  a  chuva  que  estava  produzindo  um  som sibilante entre as �rvores. Sombras saltavam e olhavam para ela de soslaio enquanto a lanterna tremelicava na floresta, para a frente e para baixo. Continuou seguindo sem parar por uns dez ou quinze minutos, encharcada at�</p><p>
os ossos e tremendo de frio, e, gradualmente, foi percebendo que parecia haver uma outra luz em algum lugar mais adiante. A luminosidade era muito fraquinha e Random n�o  sabia  se  estava  imaginando  coisas.  Apagou  a  sua  lanterna  para  ver.  Realmente parecia haver uma luz fraca mais � frente. N�o conseguiu distinguir o que era. Acendeu a lanterna novamente e continuou a descer a colina, na dire��o da luz, fosse l� o que fosse.</p><p>
Havia algo de errado com aqueles bosques, contudo.</p><p>
N�o sabia dizer de imediato o que era, mas n�o pareciam bosques alegres e saud�veis  �  espera  de  uma  boa  primavera.  As  �rvores  se  retorciam  em  �ngulos repulsivos e tinham uma apar�ncia p�lida, mal�fica. Mais de uma vez, Random teve a preocupante  sensa��o  de  que  estavam  tentando  agarr�-la  enquanto  passava,  mas  era somente uma ilus�o causada pela luz da sua lanterna, que fazia com que as sombras piscassem e se movessem.</p><p>
De repente, alguma coisa caiu de uma das �rvores � sua frente. Saltou para tr�s, assustada, deixando cair a lanterna e o pacote. Agachou-se devagar, tirando a pedra especialmente afiada do bolso.</p><p>
A coisa que ca�ra da �rvore estava se mexendo. A lanterna estava no ch�o, virada para a coisa, e uma sombra imensa e grotesca se movia lentamente sob a luz na dire��o de Random. Podia ouvir um leve ru�do de algo farfalhando e chiando acima do constante som sibilante da chuva. Tateou o ch�o, em busca da lanterna, encontrou-a e apontou-a diretamente para a criatura.</p><p>
Naquele  exato  momento,  outra  criatura  despencou  de  uma  �rvore  a  apenas alguns metros de Random. Ela apontou a lanterna, aflita, de uma criatura para a outra. Segurava a pedra com o bra�o levantado, prestes a arremess�-la. As criaturas eram bem pequenas, para falar a verdade. O �ngulo da luz era que as fazia parecer t�o grandes. E n�o eram apenas pequenas: eram peludas e fofinhas. Mais  uma  despencou  e  caiu  bem  no  meio  da  luz.  Ent�o  Random  p�de  observ�-la claramente.</p><p>
Foi uma queda perfeita e precisa. A criatura se virou e ent�o, assim como as outras duas, p�s-se a avan�ar, lentamente e com determina��o, para cima de Random. Ela permaneceu parada no mesmo  lugar. Continuava com a pedra a postos, pronta para ser lan�ada, mas a cada segundo ficava mais consciente de que estava com a pedra  a  postos,  pronta  para  ser  lan�ada  em  esquilos.  Ou,  pelo  menos,  pareciam  ser esquilos.  Criaturas  delicadas,  afetuosas,  fofinhas  e  parecidas  com  esquilos,  que avan�avam em sua dire��o de uma forma que a deixava tensa.</p><p>
Virou a luz diretamente para o primeiro do trio. Ele estava soltando grunhidos agressivos e valentes, e carregava, em um de seus pequenos punhos, um farrapo de pano cor-de-rosa �mido. Random o amea�ou, mostrando a pedra, mas ela foi ignorada pelo esquilo que avan�ava com o peda�o de pano molhado.</p><p>
Deu  um  passo  para  tr�s.  N�o  fazia  a  menor  id�ia  de  como  lidar  com  uma situa��o  daquela.  Se  fossem  feras  malvadas,  rosnando,  babando  e  exibindo  presas faiscantes,  teria  avan�ado  sobre  elas  com  vontade,  mas  esquilos  se  comportando daquela maneira era algo com o qual n�o sabia lidar.</p><p>
Deu outro passo  para tr�s. O segundo esquilo estava come�ando a executar uma manobra para cerc�-la pelo lado direito. Carregando um copo. De noz de carvalho. O terceiro estava logo atr�s, fazendo sua pr�pria manobra. O que estava carregando?</p><p>
Um recorte de papel encharcado, pensou Random.</p><p>
Deu mais um passo para tr�s, bateu com o calcanhar na raiz de uma �rvore e caiu de costas no ch�o.</p><p>
Na mesma hora, o primeiro esquilo correu para cima dela, subindo pela sua barriga com �dio no olhar e o peda�o de pano molhado no punho. Random  tentou  levantar,  mas  s�  conseguiu  se  erguer  um  cent�metro.  O</p><p>
movimento assustado do esquilo na sua barriga fez com que ela se assustasse tamb�m. O esquilo ficou paralisado de medo, agarrando a pele de Random atrav�s da camisa molhada com suas microgarras. Ent�o, bem devagarzinho, cent�metro por cent�metro, ele conseguiu subir pelo corpo todo, parou e ofereceu o pano a ela. Random  estava  praticamente  hipnotizada  com  a  estranheza  da  criatura  e  os seus  min�sculos  olhinhos  expressivos.  Tornou  a  lhe  oferecer  o  pano.  Empurrava repetidamente, guinchando sem parar, at� que, por fim, nervosa e hesitante, Random o apanhou. Ele continuou a olh�-la, concentrad�ssimo, os olhos pregados nela. Random n�o  sabia  o  que  fazer.  Chuva  e  lama  escorriam  pelo  seu  rosto  e  havia  um  esquilo sentado em sua barriga. Decidiu limpar um pouco da sujeira em seus olhos com o pano. O esquilo soltou um guincho, triunfante, apanhou o pano de volta, saltou de cima  dela,  fugiu  precipitadamente  noite  adentro,  subiu  em  disparada  numa  �rvore, mergulhou em um buraco no tronco, se acomodou e acendeu um cigarro. Enquanto isso, Random estava tentando espantar o esquilo que trazia o copo de noz de carvalho cheio de chuva e o outro, que trazia um peda�o de papel. Recuou, ainda sentada, arrastando a bunda no ch�o.</p><p>
�</p><p>
N�o! � gritou ela. � Sumam daqui!</p><p>
Eles  recuaram,  assustados,  e  depois  avan�aram  novamente  para  ela  com  os seus presentinhos. Random sacudiu a pedra.</p><p>
�</p><p>
Sumam! � berrou ela.</p><p>
Os esquilos come�aram a correr de um lado para outro, consternados. Ent�o um deles avan�ou sobre ela, depositou o copo de carvalho no seu colo, virou-se e fugiu para dentro da noite. O outro ficou parado, tremendo, por alguns segundos, e depois colocou o peda�o de papel cuidadosamente diante dela e desapareceu tamb�m. Estava  sozinha  novamente,  mas  tr�mula  e  confusa.  Levantou-se desajeitadamente, apanhou sua pedra e seu pacote, depois fez uma pausa e decidiu pegar o peda�o de papel tamb�m. Estava t�o encharcado e dilapidado que era dif�cil distinguir o que era. Parecia um fragmento de uma revista de bordo.</p><p>
Enquanto Random tentava entender exatamente o que tudo aquilo significava, um homem surgiu na clareira onde ela estava parada, levantou uma arma pavorosa e atirou em sua dire��o.</p><p>
 Arthur estava se arrastando desesperadamente uns tr�s ou quatro quil�metros atr�s dela, na parte alta da colina.</p><p>
Alguns minutos ap�s a sua partida, tivera de voltar para buscar uma lanterna. N�o a el�trica, pois a �nica dispon�vel era a que Random levara consigo. A que sobrara era  uma  esp�cie  de  lampi�o  fraquinho:  uma  lata  de  metal  perfurada  da  ferraria  de Strinder, que continha um pouco de �leo de peixe inflam�vel, tinha um pavio de grama seca tran�ada e estava envolta em um filme transl�cido feito com membranas secas dos intestinos de uma Besta Perfeitamente Normal.</p><p>
J� havia se apagado.</p><p>
Arthur  sacudiu  inutilmente  o  lampi�o  de  tudo  quanto  foi  jeito  por  alguns segundos. Obviamente, n�o havia a menor possibilidade de recuperar a chama perdida no meio de um temporal, mas n�o custava nada tentar um esfor�o simb�lico. Relutante, ele jogou fora o lampi�o.</p><p>
O que fazer? Era um esfor�o em v�o. Estava absolutamente encharcado, suas roupas estavam pesadas e encharcadas de chuva e, para completar, estava perdido na escurid�o.</p><p>
Por um breve segundo ficou perdido em uma luz cegante; agora estava perdido no escuro novamente.</p><p>
O clar�o do rel�mpago pelo menos mostrou que ele estava bem pr�ximo do cume da montanha. Quando alcan�asse o cume, ele iria... bom, n�o estava certo do que iria fazer. Ia pensar quando chegasse l�.</p><p>
Continuou mancando, para a frente e avante.</p><p>
Alguns minutos depois chegou ao topo, ofegante. Havia uma luz bem fraca adiante. N�o fazia id�ia do que poderia ser e, para falar a verdade, n�o queria nem imaginar. Mas era a �nica dire��o que tinha para seguir, ent�o continuou o seu caminho, cambaleante, perdido e assustado, na dire��o da luz.</p><p>
O brilho de luz letal passou direto por Random e, uns dois segundos depois, o homem que disparara contra ela fez o mesmo. Sequer pareceu not�-la. Tinha atirado em algu�m que estava atr�s dela e, quando Random se virou para ver o que era, ele estava ajoelhado sobre o corpo, vasculhando os bolsos de sua v�tima. A  cena  congelou  e  desapareceu.  Foi  substitu�da,  um  segundo  depois,  pela imagem de duas fileiras de dentes gigantes, emoldurados por imensos l�bios vermelhos, perfeitamente  brilhosos.  Uma  enorme  escova  de  dentes  azul  apareceu  do  nada  e come�ou a escovar, fazendo bastante espuma, os dentes que continuavam brilhando na cintilante cortina da chuva.</p><p>
Random piscou os olhos duas vezes antes de compreender o que era aquilo. Era um comercial. O sujeito que atirara nela fazia parte da imagem hologr�fica de um dos filmes transmitidos na nave. Devia estar bem pr�xima do local da queda. Obviamente, alguns dos sistemas a bordo eram mais indestrut�veis do que os outros. O meio quil�metro seguinte da jornada foi especialmente problem�tico. N�o s�</p><p>
tinha  que  lutar  contra  o  frio,  a  chuva  e  a  noite  como  ainda  tinha  que  lidar  com  os vest�gios fragmentados e semidestru�dos do sistema de entretenimento de bordo. Naves espaciais,  carros  a  jato  e  helipods  colidiam  e  explodiam  continuamente  �  sua  volta, iluminando  a  noite,  pessoas  malvadas  usando  chap�us  esquisitos  contrabandeavam drogas perigosas atrav�s dela e a orquestra e o coro da �pera de Hallapolis executavam o  �ltimo  movimento  da  Marcha  da  Guarda  Estelar  de  AnjaQantine,  do  ato  IV  da Blamwellamum de Woont de Rizgar, em uma pequena clareira localizada em algum lugar � sua esquerda.</p><p>
E ent�o se viu parada na beira de uma cratera horrenda de bordas espumantes. Ainda havia  um  leve  brilho quente  vindo do que  parecia  ser um enorme  peda�o de chiclete caramelizado no meio do po�o: os destro�os derretidos de uma grande nave espacial.</p><p>
Ficou parada l�, observando por um bom tempo, e depois, finalmente, come�ou a  caminhar  pela  borda  da  cratera.  N�o  sabia  mais  para  o  que  estava  olhando,  mas continuava andando mesmo assim, evitando o horror do abismo � sua esquerda. A  chuva  estava  come�ando  a  diminuir  um  pouco,  mas  tudo  continuava extremamente  molhado  e,  j�  que  ela  n�o  sabia  o  que  havia  no  pacote,  se  era  algo delicado ou fr�gil, imaginou que o melhor a fazer seria encontrar um lugar seco para abri-lo. Torcia para n�o ter causado nenhum estrago quando o deixou cair no ch�o. Girou a lanterna, examinando as poucas, carbonizadas e quebradas �rvores que a cercavam. N�o muito longe dali, avistou o afloramento de uma rocha que talvez lhe oferecesse um abrigo e come�ou a andar em sua dire��o. � sua volta, deparou�se com os detritos que haviam sido ejetados da nave durante a queda, antes da �ltima bola de fogo.</p><p>
Ap�s ter se afastado duzentos ou trezentos metros da borda da cratera, Random viu  os  fragmentos  esfarrapados  de  um  material  rosa  macio,  encharcado,  coberto  de lama, dependurado entre as �rvores partidas. Imaginou, corretamente, que deviam ser os vest�gios do casulo de fuga que salvara a vida do seu pai. Aproximou-se para examinar de perto e foi ent�o que percebeu uma coisa no ch�o, imunda de lama. Apanhou e tirou a sujeira. Era uma esp�cie de aparelho eletr�nico, do tamanho de  um  livro  pequeno.  Quando  o  tocou,  surgiram  amistosas  letras  garrafais  que brilhavam fracamente em seu centro. Diziam: N�O ENTRE EM P�NICO. Sabia o que era aquilo. Era a c�pia do Guia do Moch�leiro das Gal�xias do seu pai. Aquilo tranq�ilizou-a instantaneamente. Olhou para o c�u trovejante e deixou que a chuva esparsa molhasse o seu rosto, entrando na sua boca. Balan�ou  a  cabe�a  e  correu  em  dire��o  �s  pedras.  Escalando-as,  encontrou quase que imediatamente o lugar perfeito. A entrada de uma caverna. Examinou seu interior com a lanterna. Parecia seco e seguro. Cuidadosamente, ela entrou. Era bastante espa�osa, mas n�o  muito profunda. Exausta e aliviada, Random sentou�se em uma pedra confort�vel, apoiou o pacote no ch�o e come�ou a abri-lo imediatamente. <strong>CAP�TULO 17</strong></p><p>
Durante um bom per�odo de tempo  houve muita especula��o e controv�rsia sobre onde tinha ido parar a chamada "mat�ria perdida" do universo. Por toda a Gal�xia, os departamentos de ci�ncias das universidades mais conceituadas estavam adquirindo equipamentos cada vez mais elaborados para sondar e vasculhar o n�cleo de gal�xias distantes  e,  depois,  o  pr�prio  n�cleo  e  as  margens  de  todo  o  universo.  Quando finalmente chegaram a uma  conclus�o, descobriram que, na verdade, o que estavam procurando era exatamente o material que servia para embalar os tais equipamentos. Havia uma  quantidade enorme de mat�ria perdida naquele pacote. Pequenas bolinhas  redondas  e  fofas  que  Random  deixou  para  as  futuras  gera��es  de  f�sicos tentarem  rastrear  e  descobrir  novamente,  assim  que  os  achados  da  gera��o  atual tivessem sido perdidos e esquecidos.</p><p>
De dentro das bolinhas de mat�ria perdida, Random tirou um disco negro e liso. Ela o colocou sobre uma pedra ao seu lado e vasculhou todo o resto da mat�ria perdida na caixa para verificar se havia mais alguma coisa l� dentro, um manual, alguns acess�rios ou algo assim, mas n�o havia mais nada. S� o disco negro. Apontou sua lanterna para ele.</p><p>
Assim  que  fez  isso,  come�aram  a  surgir  rachaduras  ao  longo  da  superf�cie aparentemente lisa. Random recuou, nervosa, mas ent�o percebeu que a coisa, fosse l� o que fosse, estava apenas se desdobrando.</p><p>
O processo era maravilhosamente bonito. Era extraordinariamente elaborado, mas  simples e elegante ao mesmo  tempo.  Era como um origami  autom�tico, ou um bot�o de rosa florescendo em apenas alguns segundos.</p><p>
Onde apenas alguns momentos antes havia um disco negro e liso havia agora um p�ssaro. Um p�ssaro pairando no ar.</p><p>
Random continuou a recuar, cuidadosa e atenta.</p><p>
Parecia-se com um p�ssaro pikka, s� que era um pouco menor. Quer dizer, na verdade era maior ou, para ser mais exato, tinha exatamente o mesmo tamanho ou, no m�nimo, n�o menos que o dobro. Tamb�m era muito mais azul e muito mais rosado do que os p�ssaros pikka, sendo ao mesmo tempo perfeitamente negro. Havia  algo  muito  estranho  naquele  p�ssaro,  mas  Random  n�o  conseguiu perceber de imediato o que era.</p><p>
Certamente, compartilhava com os p�ssaros pikka a impress�o de que estava vendo algo que ningu�m mais via.</p><p>
 De repente, ele desapareceu.</p><p>
Depois,  igualmente  de  repente,  tudo  ficou  escuro.  Random  agachou-se, assustada, apalpando a pedra afiada em seu bolso novamente. Ent�o a escurid�o recuou, transformou�se  em  uma  bola  e,  em  seguida,  voltou  a  ser  aquele  p�ssaro.  Ficou suspenso no ar diante dela, batendo as suas asas lentamente, observando-a.</p><p>
�</p><p>
Com licen�a � disse ele, de repente. � Eu s� preciso me calibrar. Voc�</p><p>
consegue ouvir isso que estou dizendo?</p><p>
�</p><p>
Isso o qu�? � perguntou Random.</p><p>
�</p><p>
�timo � disse o p�ssaro. � E consegue ouvir isso tamb�m? � Dessa vez, falou com uma voz mais esgani�ada.</p><p>
�</p><p>
Claro que sim! � disse Random.</p><p>
�</p><p>
E  quando  eu  digo  isso?  �  perguntou  ele,  usando  um  tom  de  voz sepulcralmente grave.</p><p>
�</p><p>
Sim!</p><p>
Houve uma pausa.</p><p>
�</p><p>
N�o,  �  claro  que  n�o  �  disse  o  p�ssaro,  alguns  segundos  depois.  �</p><p>
Maravilha, bem, a sua faixa de audi��o est� obviamente  entre 20 e 16 KHz. Ent�o. Assim est� confort�vel para voc�? � perguntou ele, em uma agrad�vel voz de tenor. �</p><p>
N�o h� harm�nicos desconfort�veis arranhando no registro superior? Obviamente, n�o. �timo. Posso usar esses harm�nicos como canais de dados. Agora, quantos de mim voc� consegue ver?</p><p>
De repente, o ar ficou lotado com um emaranhado de p�ssaros. Random estava mais  do  que  acostumada  a  passar  seu  tempo  em  realidades  virtuais,  mas  aquilo  era infinitamente mais estranho do que qualquer coisa que ela j� tivesse visto antes. Era como se toda a geometria do espa�o estivesse sendo redefinida em formas cont�nuas de p�ssaros.</p><p>
Random engoliu em seco e sacudiu os bra�os ao redor de seu rosto, movendoos naquele espa�o formado por p�ssaros.</p><p>
�</p><p>
Hummm, obviamente muitos � disse o p�ssaro. � E agora?</p><p>
Ele  se  desdobrou  em  um  t�nel  de  p�ssaros,  como  se  fosse  um  p�ssaro capturado entre espelhos paralelos, refletindo infinitamente a dist�ncia.</p><p>
�</p><p>
O que � voc�? � gritou Random.</p><p>
�</p><p>
Vamos  chegar  nisso,  j�,  j�  �  respondeu  o  p�ssaro.  �  S�  me  diga quantos, por favor?</p><p>
�</p><p>
Bem,  voc�  �  mais  ou  menos...  �  Random  esticou  os  bra�os,  em  um gesto vago.</p><p>
�</p><p>
Sei,  ainda  infinito  em  extens�o,  mas  pelo  menos  estamos  chegando  �</p><p>
matriz dimensional certa. �timo. N�o, a resposta � uma laranja e dois lim�es.</p><p>
�</p><p>
Lim�es?</p><p>
�</p><p>
Se eu tenho tr�s lim�es e tr�s laranjas e perco duas laranjas e um lim�o, o que me resta?</p><p>
�</p><p>
Hein?</p><p>
�</p><p>
Est�  bem,  ent�o  voc�  acha  que  o  tempo  flui  dessa  maneira,  n�o  �?</p><p>
Interessante. Ainda estou infinito? � perguntou ele, flutuando para c� e para l� no ar.</p><p>
� Continuo infinito agora? Estou muito amarelo?</p><p>
O p�ssaro estava passando por sucessivas transforma��es enlouquecedoras de forma e de tamanho.</p><p>
�</p><p>
Eu n�o consigo... � disse Random, desnorteada.</p><p>
�</p><p>
N�o precisa responder, eu sei s� de observar voc� agora. Ent�o. Sou a sua m�e? Sou uma pedra? Pare�o imenso, fofinho e sinuosamente entrela�ado? N�o? E</p><p>
agora? Estou recuando?</p><p>
Finalmente o p�ssaro estava im�vel e quietinho.</p><p>
�</p><p>
N�o � respondeu Random.</p><p>
�</p><p>
Bem, na verdade eu estava recuando no tempo, sim. Humm. Bem, acho que j� resolvemos isso. Se voc� quiser saber, posso lhe contar que no seu universo �</p><p>
poss�vel se movimentar livremente nas tr�s dimens�es que voc�s chamam de espa�o. Voc�s se movem em linha reta numa quarta dimens�o, a que chamam de tempo, e ficam est�ticos em uma quinta, que � a primeira fundamental da probabilidade. Depois disso, a coisa fica um pouco complicada e acontece virtualmente de tudo nas dimens�es treze �</p><p>
vinte e dois, nem queira saber. Tudo o que voc� precisa saber por enquanto � que o universo  �  muito  mais  complicado  do  que  voc�  pode  imaginar,  mesmo  se  voc�  j�</p><p>
imagina que ele � complicado pra cacete, para come�ar. Posso evitar palavras como</p><p>
"cacete", se isso te ofender.</p><p>
�</p><p>
Pode falar o que quiser.</p><p>
�</p><p>
Es  t� bem.</p><p>
�</p><p>
Que diabos � voc�? � perguntou Random.</p><p>
�</p><p>
Eu sou o Guia. No seu universo, sou o seu Guia. Na verdade, habito o que � tecnicamente conhecido como a Mistureba Generalizada de Todas as Coisas, que significa... bom, � melhor te mostrar.</p><p>
O p�ssaro virou-se em pleno ar e voou para fora da caverna. Empoleirou�se em uma pedra, logo abaixo de uma marquise natural, fora da chuva, que estava voltando a ficar forte.</p><p>
�</p><p>
Venha at� aqui � disse ele � e veja isso.</p><p>
Random n�o gostava de receber ordens de um p�ssaro, mas o seguiu mesmo assim at� a entrada da caverna, apalpando a pedra que estava em seu bolso.</p><p>
�</p><p>
Chuva � disse o p�ssaro. � Est� vendo? Apenas chuva.</p><p>
�</p><p>
Eu sei o que � chuva.</p><p>
Torrentes de chuva assolavam a noite, a luz do luar filtrada pelos pingos.</p><p>
�</p><p>
Ent�o o que � chuva?</p><p>
�</p><p>
Como assim, o que � chuva? Olha s�, quem � voc�? O que voc� estava fazendo  dentro  da  caixa?  Por  que  tive  que  passar  uma  noite  inteira  correndo  pela floresta, espantando esquilos  retardados  para, no final  das  contas,  ter que aturar  um p�ssaro me  perguntando  se  eu  sei  o que  �  chuva?  �  �gua  caindo  pela  droga  do ar, pronto. Mais alguma coisa que voc� queira saber ou j� podemos ir para casa?</p><p>
Ap�s uma longa pausa, o p�ssaro respondeu:</p><p>
�</p><p>
Voc� quer ir para casa?</p><p>
�</p><p>
Eu  n�o tenho casa!  � Random  berrou as  palavras t�o alto que  quase assustou a si mesma.</p><p>
�</p><p>
Olhe para a chuva... � disse o p�ssaro�Gwza.</p><p>
�</p><p>
Estou olhando para a chuva! O que mais tem para olhar?</p><p>
�</p><p>
O que voc� est� vendo?</p><p>
�</p><p>
Como  assim,  seu  p�ssaro idiota?  Estou  vendo  um  monte  de  chuva.  �</p><p>
apenas �gua caindo.</p><p>
�</p><p>
Que formas voc� v� na �gua?</p><p>
 �</p><p>
Formas? N�o tem forma nenhuma. � s� uma... uma...</p><p>
�</p><p>
S� Uma Mistureba Generalizada � completou o p�ssaro�Guia. ��...</p><p>
�</p><p>
E agora, o que voc� est� vendo?</p><p>
Quase no limite da visibilidade, um feixe t�nue e fino transbordou dos olhos do p�ssaro. No ar seco, protegido pela marquise, n�o se via nada. Mas nos pontos onde o raio atingia os pingos de chuva conforme ca�am havia uma l�mina de luz t�o brilhante e viva que parecia s�lida.</p><p>
�</p><p>
Uau, que �timo. Um show de lasers � comentou Random, debochada.</p><p>
� Nunca vi um desses antes, � claro, s� em uns cinco milh�es de shows de rock.</p><p>
�</p><p>
Diga�me o que voc� est� vendo!</p><p>
�</p><p>
Apenas uma l�mina plana! P�ssaro burro.</p><p>
�</p><p>
N�o h� nada ali que n�o estivesse ali antes. S� estou usando a luz para chamar a sua aten��o para determinados pingos, em determinados momentos. E, agora, o que est� vendo?</p><p>
A luz se apagou.</p><p>
�</p><p>
Nada.</p><p>
�</p><p>
Continuo fazendo a mesma coisa, s� que com luz ultravioleta, que voc� n�o consegue ver.</p><p>
�</p><p>
E de que adianta me mostrar uma coisa que eu n�o consigo ver?</p><p>
�</p><p>
Para que voc� entenda que s� porque consegue ver uma coisa n�o quer dizer que ela esteja l�. E que, se voc� n�o v� uma coisa, n�o significa que ela n�o esteja. Tudo se resume ao que seus sentidos fazem com que voc� note.</p><p>
�</p><p>
Estou de saco cheio disso � disse Random. Logo em seguida levou um susto.</p><p>
Pairando sob a chuva estava uma imagem tridimensional gigante, bem n�tida, do seu pai olhando com cara de bobo para alguma coisa.</p><p>
Umas duas milhas atr�s de Random, seu pai, abrindo caminho pelos bosques, parou de repente. Ficou perplexo ao ver uma imagem dele pr�prio parecendo perplexo com  alguma  coisa  flutuando  nitidamente  sob  a  chuva,  a  uns  tr�s  quil�metros  de dist�ncia. A uns tr�s quil�metros de dist�ncia, � direita da dire��o para a qual estava caminhando.</p><p>
Estava quase completamente perdido, convencido de que ia morrer por conta do frio, da chuva e da exaust�o, e come�ando a desejar que tudo terminasse logo. Para completar, um esquilo acabara de lhe trazer uma revista de golfe intacta, o que fez com que o seu c�rebro come�asse a uivar e gralhar.</p><p>
Ao ver uma imagem enorme e n�tida de si mesmo iluminada no c�u, convenceu</p><p>
�se,  por  outro  lado,  que  provavelmente  estava  certo quanto a  uivar  e  gralhar, mas errado quanto � dire��o.</p><p>
Respirando bem fundo, ele se virou e seguiu em dire��o ao inexplic�vel show de luz.</p><p>
�</p><p>
Est�  bem,  mas  isso  prova  o  qu�?  �  perguntou  Random.  O fato  de  a imagem ser do seu pai assustou-a mais do que a apari��o da imagem em si. Vira o primeiro  holograma  quando  tinha  dois  meses  de  idade  e  fora  colocada  para  brincar dentro  dele.  O  mais  recente  tinha  sido  h�  meia  hora,  tocando  a  Marcha  da  Guarda Estrelar de AnjaQantine.</p><p>
�</p><p>
Apenas que n�o estava nem mais nem menos l� do que a l�mina estava</p><p>
� respondeu o p�ssaro. � � apenas uma intera��o da �gua que cai do c�u, movendo�</p><p>
se  em  uma  dire��o,  com  luzes  cujas  freq��ncias  podem  ser  detectadas  pelos  seus sentidos, movendo�se em outra. Isso cria uma imagem aparentemente s�lida na sua mente. Mas n�o passam de imagens na Mistureba Generalizada. Aqui vai mais uma para voc�.</p><p>
�</p><p>
Minha m�e! � exclamou Random.</p><p>
�</p><p>
N�o � disse o p�ssaro.</p><p>
�</p><p>
Eu reconhe�o a minha m�e quando a vejo!</p><p>
A imagem era a de uma mulher saindo de uma nave espacial e entrando em um pr�dio enorme e cinzento, parecido com um hangar. Ela estava sendo escoltada por um grupo  de  criaturas  altas,  magras  e  roxo-esverdeadas.  Era  definitivamente  a  m�e  de Random.  Bem,  quase  definitivamente.  Trillian  n�o  estaria  andando  t�o  insegura  em baixa gravidade, ou examinando um tedioso e velho ambiente de suporte de vida � sua volta com um olhar t�o incr�dulo, nem muito menos carregando uma estranha c�mera velha.</p><p>
�</p><p>
Ent�o quem � ela? � perguntou Random.</p><p>
�</p><p>
Ela faz parte de uma extens�o da sua m�e no eixo da probabilidade �</p><p>
respondeu o p�ssaro� Guia.</p><p>
�</p><p>
N�o fa�o a menor id�ia do que voc� est� falando.</p><p>
�</p><p>
O espa�o, o tempo e a probabilidade possuem eixos dentro dos quais �</p><p>
poss�vel mover�se.</p><p>
�</p><p>
Ainda continuo boiando. Se bem que... N�o. Pode explicar.</p><p>
�</p><p>
Pensei que voc� quisesse ir para casa.</p><p>
�</p><p>
Explica!</p><p>
�</p><p>
Voc� gostaria de ver a sua casa?</p><p>
�</p><p>
Ver? Ela foi destru�da!</p><p>
�</p><p>
Dentro do eixo da probabilidade permanece descont�nua. Veja s�!</p><p>
Algo muito estranho e incr�vel surgiu flutuando na chuva. Era um globo azulesverdeado, enevoado e coberto de nuvens, girando com majestosa lentid�o contra um pano de fundo negro e estrelado.</p><p>
�</p><p>
Agora voc� v� � disse o p�ssaro. � Agora n�o v� mais.</p><p>
A pouco menos de tr�s quil�metros, Arthur Dent estacou. N�o podia acreditar que estava vendo, boiando no ar, coberta pela chuva, por�m n�tida e vividamente real, contra o c�u da noite, a Terra. Ficou sem ar ao v�-la. Ent�o, no momento em que ficou sem ar, ela desapareceu novamente. Depois tornou a aparecer. Depois, e foi isso que fez com que ele ficasse doido de pedra, ela se transformou em uma salsicha. Random  estava  igualmente  impressionada  com  a  vis�o  daquela  gigantesca salsicha azul e verde, aquosa e nevoenta, flutuando sobre ela. Transformou-se depois em uma fileira de salsichas, ou melhor, uma fileira de salsichas na qual faltavam v�rias salsichas. A brilhante fileira rodopiou e girou em um bal� desconcertante no ar, depois diminuiu gradualmente o ritmo, enfraqueceu�se e desapareceu na escurid�o cintilante da noite.</p><p>
�</p><p>
O que foi isso? � perguntou Random, com a voz fraca.</p><p>
 �</p><p>
Uma  breve  vis�o  do  eixo  de  probabilidade  de  um  objeto descontinuamente prov�vel.</p><p>
�Ah.</p><p>
�</p><p>
A maioria dos objetos sofre mudan�as e altera��es ao longo do seu eixo de probabilidade, mas o mundo do qual voc� veio faz algo um pouquinho diferente. Ele se encontra no que poder�amos chamar de uma rachadura na paisagem da probabilidade, o que significa que, em diversas coordenadas de probabilidade, ele simplesmente deixa de existir. Ele possui uma instabilidade inerente, t�pica de qualquer coisa que fa�a parte do que � comumente chamado de Setores Plurais. Entendeu?</p><p>
�</p><p>
N�o.</p><p>
�</p><p>
Quer ir at� l� e ver por conta pr�pria?</p><p>
�</p><p>
Para a... Terra?</p><p>
�</p><p>
�.</p><p>
�</p><p>
E isso � poss�vel?</p><p>
O p�ssaro-Guia n�o respondeu de imediato. Abriu as asas e, com uma gra�a sem esfor�o, ergueu-se no ar e voou para a chuva, que estava enfraquecendo novamente. Planou em �xtase sobre o c�u noturno; luzes piscaram � sua volta e dimens�es trepidavam com sua passagem. Mergulhou, girou, subiu novamente, tornou a girar e, finalmente, aquietou�se bem pr�ximo do rosto de Random, batendo as asas lenta e silenciosamente. Continuou a falar com ela.</p><p>
�</p><p>
Seu universo � vasto para voc�. Vasto em tempo, vasto em espa�o. Isso se deve aos filtros atrav�s dos quais voc� o percebe. Mas eu fui constru�do sem filtros, o que  significa  que  percebo  a  Mistureba  Generalizada  que  cont�m  todos  os  universos poss�veis mas que n�o tem, por si mesma, tamanho algum. Para mim tudo � poss�vel. Sou  onisciente  e  onipotente,  extremamente  vaidoso  e,  o  melhor,  venho  em  uma embalagem  pr�tica  e  port�til. Voc�  precisa  descobrir  o  quanto  essas  afirma��es  s�o verdadeiras.</p><p>
Random abriu um sorriso suave.</p><p>
�</p><p>
Seu monstrinho. Voc� est� me enrolando!</p><p>
�</p><p>
Como eu disse, tudo � poss�vel.</p><p>
 Random soltou uma gargalhada.</p><p>
�</p><p>
Est� bem � disse ela. � Vamos tentar ir para a Terra. Vamos tentar ir para a Terra em algum ponto do seu, ah...</p><p>
�</p><p>
Eixo de probabilidade?</p><p>
�</p><p>
Isso.  Onde  ela  n�o  foi  destru�da.  O.k.  Ent�o  voc�  �  o  Guia.  Como conseguimos uma carona?</p><p>
�</p><p>
Engenharia reversa.</p><p>
�</p><p>
O qu�?</p><p>
�</p><p>
Engenharia  reversa.  Para  mim,  o  fluxo  do  tempo  �  irrelevante.  Voc�</p><p>
decide o que quer. Depois eu meramente garanto que j� tenha acontecido.</p><p>
�</p><p>
Voc� est� brincando.</p><p>
�</p><p>
Tudo � poss�vel.</p><p>
Random franziu a testa.</p><p>
�</p><p>
Voc� est� brincando, n�o est�?</p><p>
�</p><p>
Deixe-me explicar de outra maneira � disse o p�ssaro. � A engenharia reversa  nos  permite  pular  toda  aquela  burocracia  de  ter  que  esperar  que  uma  das rar�ssimas naves espaciais que passam pelo seu setor gal�ctico cerca de uma vez por ano resolva se est� ou n�o a fim de lhe dar uma carona. Voc� quer uma carona, uma nave aparece e lhe d� uma. O piloto pode at� achar que tem alguns milh�es de motivos para decidir parar e lhe dar uma carona. Mas o verdadeiro motivo � que eu determinei que ele parasse.</p><p>
�</p><p>
Isso � uma amostra da sua extrema vaidade, n�o �, pequeno p�ssaro?</p><p>
O p�ssaro ficou em sil�ncio.</p><p>
�</p><p>
Est� bem � disse Random. � Eu quero uma nave que me leve para a Terra.</p><p>
�</p><p>
Serve essa aqui?</p><p>
Foi  t�o  silencioso  que  Random  s�  notou  que  havia  uma  nave  espacial aterrissando quando j� estava praticamente sobre a sua cabe�a. Arthur tamb�m notou a nave. Ele estava a pouco menos de dois quil�metros de dist�ncia  agora.  Ap�s  a  exibi��o  das  salsichas  iluminadas  ter  chegado  ao  fim,  ele percebera t�nues lampejos de outras luzes descendo das nuvens e imaginou, no in�cio, que fossem outra parte do espet�culo de son et lumi�re.</p><p>
Levou alguns segundos para concluir que era uma nave espacial de verdade e mais alguns segundos para concluir que estava aterrissando exatamente no local onde ele imaginava que a sua filha estava. Foi ent�o que, com chuva ou sem chuva, com perna  machucada  ou  sem  perna  machucada,  com  breu  ou  sem  breu,  ele  come�ou realmente a correr.</p><p>
Caiu quase que imediatamente, escorregou e machucou o joelho em uma pedra. Levantou�se  novamente  com  muito  esfor�o  e  tentou  continuar  em  frente.  Teve  a horr�vel  sensa��o  de  que  estava  prestes  a  perder  Random  para  sempre.  Correu, mancando e xingando. N�o sabia o que havia naquela caixa, mas o nome no pacote era o de Ford Prefect e era esse o nome que ele xingava enquanto corria. A nave era a mais sexy e bonita que Random j� havia visto.</p><p>
Era impressionante. Prateada, esguia, inef�vel.</p><p>
Se  n�o  fosse  imposs�vel,  diria  que  era  uma  RW6.  Quando  a  nave  pousou silenciosa  ao  seu  lado,  percebeu  que  era  de  fato  uma  RW6  e  ficou  sem  ar  de  t�o empolgada. Uma RW6 era uma daquelas naves s� encontradas em revistas criadas para provocar agita��o civil.</p><p>
Random tamb�m estava extremamente nervosa. O timing e a forma como a nave tinha chegado eram perturbadores. Ou aquela era a coincid�ncia mais bizarra do mundo ou algo muito peculiar e preocupante estava acontecendo. Esperou, um pouco tensa, a nave abrir a sua escotilha. O seu Guia � ela o tinha como seu agora � estava suspenso no ar, um pouco acima do seu ombro direito, quase sem bater as asas. A escotilha se abriu. Uma luz fraquinha vazou l� de dentro. Passados alguns segundos, uma figura apareceu. Ficou parada por alguns segundos, obviamente tentando acostumar seus olhos � escurid�o. Ent�o avistou Random parada um pouco mais adiante e pareceu um tanto surpresa. Come�ou a caminhar at� a garota. Ent�o, de repente, soltou um grito de espanto e come�ou a correr na dire��o dela.</p><p>
Random n�o era a pessoa mais indicada para se avan�ar em cima em uma noite escura, ainda por  cima  estressada  do jeito que ela  estava. Inconscientemente,  estava cutucando a pedra em seu bolso desde o momento em que viu a nave aterrissar. Ainda  correndo,  se  arrastando,  trope�ando  e  chocando-se  contra  �rvores, Arthur acabou percebendo que j� era tarde demais. A nave pousara h� uns tr�s minutos, mas  j�  estava  levantando  v�o  novamente,  silenciosa,  graciosa,  passando  acima  do bosque  e  manobrando  suavemente  atrav�s  da  chuva  fina  em  que  se  transformara  o temporal � subindo, subindo, empinando a proa e, sem fazer nenhum esfor�o, sumindo em meio �s nuvens.</p><p>
Tinha partido. Random estava l� dentro. Arthur obviamente n�o tinha como ter certeza, mas ainda assim tinha certeza. Ela havia partido. Tivera uma chance de ser pai e n�o podia acreditar em qu�o mal se sa�ra. Tentou continuar a correr, mas os seus p�s estavam se arrastando, o seu joelho do�a furiosamente e ele sabia que era tarde demais. Tinha  certeza  de  que  n�o  podia  se  sentir  mais  infeliz  e  desgra�ado  do  que aquilo, mas estava enganado.</p><p>
Foi capengando at� a caverna onde Random se abrigara e abrira a caixa. O</p><p>
ch�o ainda exibia as marcas da nave que aterrissara alguns minutos antes no local, mas n�o havia nenhum tra�o de Random. Perambulou desconsolado pela caverna, encontrou a caixa  vazia  e pilhas de bolinhas feitas  com  mat�ria  perdida  espalhadas  pelo ch�o. Ficou um pouco irritado com aquilo. Tinha tentado ensinar a ela que devia arrumar as coisas  ap�s  us�-las.  Sentir-se  um  pouco  irritado  com  ela  por  causa  de  algo  assim ajudou-o a ficar menos desolado com a sua partida. Sabia que n�o tinha como encontr�la. O seus p�s colidiram com algo inesperado. Inclinou-se para ver o que era e ficou absolutamente surpreso. Era o seu velho Guia do Mochileiro das Gal�xias. Como tinha ido parar na caverna? Arthur jamais voltara at� o local da queda para recuper�-lo. N�o  queria  ter  de  revisitar  o  local  do  acidente   e   n�o   queria   mais   o   Guia.   Tinha   a inten��o de permanecer em Lamuella, fazendo sandu�ches, para sempre. Como � que ele fora parar l�? Estava ligado. Na capa, as palavras N�O ENTRE EM P�NICO piscavam para ele.</p><p>
 Saiu da caverna novamente, sob a luz fraca e encharcada da lua. Sentou-se em uma pedra para dar uma olhada no velho Guia e foi ent�o que descobriu que n�o era uma pedra, mas uma pessoa.</p><p><strong>CAP�TULO 18</strong></p><p>
Arthur  deu  um  pulo,  assustado.  Era  dif�cil  dizer  o  que  o  assustava  mais:  a possibilidade  de  ter  machucado  a  pessoa  na  qual  inadvertidamente  se  sentara  ou  a possibilidade de que a pessoa na qual inadvertidamente se sentara fosse machuc�-lo. A princ�pio, ap�s uma breve inspe��o, concluiu que n�o havia nenhuma causa imediata para alarme no que dizia respeito � segunda hip�tese. A pessoa na qual sentara, fosse quem fosse, estava inconsciente. Aquilo provavelmente ajudava a explicar o que ela estava fazendo deitada ali. Parecia estar respirando bem. Arthur sentiu o pulso do sujeito. Tamb�m estava bem.</p><p>
Estava deitado de lado, um pouco encolhido. A �ltima vez que Arthur prestara primeiros  socorros  estava  t�o  longe  no  tempo  e  no  espa�o  que  ele  realmente  n�o conseguia  lembrar  o  que  devia  fazer  numa  situa��o  daquelas.  A  primeira  coisa  que devia fazer, recordou ele, era ter um kit de primeiros socorros � m�o. Droga. Ser� que deveria deitar o sujeito de barriga para cima ou n�o? E se ele tivesse alguma fratura? E se tivesse engolido a l�ngua? E se decidisse process�-lo? Quem, antes de tudo, era aquela pessoa?</p><p>
Foi ent�o que o sujeito inconsciente gemeu alto e se virou de barriga para cima. Arthur n�o sabia se ele deveria...</p><p>
Olhou para o sujeito.</p><p>
Olhou novamente.</p><p>
 Olhou para o sujeito mais uma vez, s� para ter certeza absoluta. Apesar de estar certo de que n�o era poss�vel se sentir pior do que j� estava, sentiu um enorme des�nimo.</p><p>
O sujeito gemeu de novo e abriu os olhos lentamente. Demorou um pouco para enxergar alguma coisa direito, depois piscou e enrijeceu o corpo.</p><p>
�</p><p>
Voc�! � exclamou Ford Prefect.</p><p>
�</p><p>
Voc�! � exclamou Arthur Dent.</p><p>
Ford voltou a gemer.</p><p>
�</p><p>
O  que  voc�  precisa  que  eu  explique  desta  vez?  �  perguntou  ele, fechando os olhos, em desespero.</p><p>
Cinco minutos depois, Ford estava sentado, esfregando o lado da cabe�a onde havia um galo bem grande.</p><p>
�</p><p>
Quem diabos era aquela mulher? � perguntou ele. � Por que estamos cercados por esquilos e o que eles querem?</p><p>
�</p><p>
Esses esquilos encheram a minha paci�ncia a noite toda � respondeu Arthur. � Ficam tentando me dar revistas e coisas assim.</p><p>
Ford franziu a testa.</p><p>
� S�rio?</p><p>
�</p><p>
E peda�os de pano. Ford raciocinou.</p><p>
�</p><p>
Ahn � disse ele. � Estamos perto do local onde sua nave caiu?</p><p>
�</p><p>
Estamos � respondeu Arthur, um pouco r�spido.</p><p>
�</p><p>
Deve  ser  isso,  ent�o.  Acontece.  Os  rob�s  de  cabine  da  nave  s�o destru�dos. As mentes cibern�ticas que os controlam sobrevivem e come�am a infectar a vida selvagem local. Podem transformar um ecossistema inteiro em uma ind�stria de prestadores de servi�o in�til, oferecendo toalhinhas quentes e drinques para todo mundo que  passar  por  perto.  Devia  existir  uma  lei  contra  isso.  Provavelmente  existe. Provavelmente existe tamb�m uma lei contra ter uma lei contra isso, assim fica tudo resolvido. Certo. O que voc� disse?</p><p>
�</p><p>
Eu disse: e a mulher � minha filha.</p><p>
Ford parou de esfregar a cabe�a.</p><p>
�</p><p>
Repete.</p><p>
�</p><p>
Eu disse � repetiu Arthur, irritado � que a mulher � minha filha.</p><p>
�</p><p>
Eu n�o sabia que voc� tinha uma filha.</p><p>
�</p><p>
Bom, provavelmente h� muitas coisas a meu respeito que voc� n�o sabe</p><p>
� disse Arthur. � Para falar a verdade, provavelmente tamb�m h� muitas coisas a meu respeito que eu n�o sei.</p><p>
�</p><p>
Ora, ora, ora. Quando foi que isso aconteceu?</p><p>
�</p><p>
N�o sei direito.</p><p>
�</p><p>
Isso sim � bem a sua cara � disse Ford. � Existe uma m�e na parada?</p><p>
�</p><p>
Trillian.</p><p>
�</p><p>
Trillian? Eu n�o achei que...</p><p>
�</p><p>
N�o. Olha, � um pouco constrangedor...</p><p>
�</p><p>
Eu me lembro que uma vez ela me disse por alto que tinha uma filha. Falo com ela de tempos em tempos. Mas nunca a vi com a menina. Arthur n�o disse nada.</p><p>
Ford recome�ou a esfregar a m�o na cabe�a, um pouco confuso.</p><p>
�</p><p>
Tem certeza de que aquela era sua filha? � perguntou ele.</p><p>
�</p><p>
Me conte o que aconteceu.</p><p>
�</p><p>
Ih... � uma longa hist�ria. Eu estava vindo buscar o pacote que mandei para mim, aos seus cuidados...</p><p>
�</p><p>
Bom, e o que era aquilo, afinal?</p><p>
�</p><p>
Eu acho que pode ser algo inimaginavelmente perigoso.</p><p>
�</p><p>
E voc� mandou pra mim? � reclamou Arthur.</p><p>
�</p><p>
Foi  o  lugar  mais  seguro  em  que  consegui  pensar.  Achei  que  pudesse confiar na sua capacidade de ser absolutamente chato e n�o abrir o pacote. Enfim, como cheguei � noite, n�o estava conseguindo encontrar o tal vilarejo. Estava me virando com informa��es bem b�sicas. N�o encontrei nenhuma sinaliza��o. Acho que voc�s n�o t�m sinaliza��o nenhuma por aqui.</p><p>
�</p><p>
� por isso que eu gosto daqui.</p><p>
�</p><p>
A�,  captei  um  sinal  bem  fraco  do   seu   velho   Guia,   ent�o   segui   nessa dire��o,  pensando  que  ia  me  levar  at�  voc�.  Percebi  que  tinha  aterrissado  em  uma esp�cie de bosque. N�o conseguia entender direito o que estava acontecendo. Sa� da nave e me deparei com essa mulher, parada ali. Fui at� ela para dizer oi e de repente vi que ela estava com o neg�cio na m�o!</p><p>
�</p><p>
Que neg�cio?</p><p>
�</p><p>
A coisa que eu mandei para voc�! O novo Guia. O tal p�ssaro! voc� tinha que ter guardado direito, seu idiota, mas a mulher estava com ele sobre o ombro. Eu parti para cima e ela me deu uma pedrada na cabe�a.</p><p>
�</p><p>
Entendi � disse Arthur. � E o que voc� fez?</p><p>
�</p><p>
U�, ca� no ch�o, � claro. Me machuquei feio. Ela e o p�ssaro come�aram a se dirigir para a minha nave. E quando eu digo minha nave estou me referindo a uma RW6.</p><p>
�</p><p>
Uma o qu�?</p><p>
�</p><p>
Uma  RW6,  pelo  amor  de  Zarquon.  O  meu  cart�o  de  cr�dito  e  o computador central do Guia est�o se relacionando muito bem ultimamente. Voc� n�o ia acreditar nessa nave, Arthur, ela �...</p><p>
�</p><p>
Ent�o a RW6 � uma nave?</p><p>
�</p><p>
�! � uma... ah, deixa pra l�. Olha, pega leve, Arthur! Ou, pelo menos, pega um cat�logo. Nesse momento, eu fiquei bastante preocupado. E, acho eu, com uma semiconcuss�o. Estava de joelhos, sangrando em profus�o e, ent�o, fiz a �nica coisa que me veio � cabe�a, que era implorar. Eu disse, por favor, n�o leve a minha nave. E n�o me abandone encalhado no meio de uma floresta primitiva, sem ajuda m�dica e com um ferimento na cabe�a. Eu poderia estar correndo um s�rio perigo e ela tamb�m.</p><p>
�</p><p>
E o que ela disse?</p><p>
�</p><p>
Ela me deu outra pedrada na cabe�a.</p><p>
�</p><p>
Acho que posso confirmar que essa era mesmo a minha filha.</p><p>
�</p><p>
Um amor de menina.</p><p>
�</p><p>
Voc� precisa conhec�-la melhor � disse Arthur.</p><p>
�</p><p>
Por que, ela fica mais mansa?</p><p>
�</p><p>
N�o � respondeu Arthur �, mas voc� aprende a hora de desviar. Ford suspendeu a cabe�a e tentou enxergar direito.</p><p>
O c�u estava come�ando a clarear a oeste, que era onde nascia o sol. Arthur n�o estava particularmente interessado em v�-lo. A �ltima coisa que queria ap�s uma noite infernal como aquela era um glorioso dia nascendo e se intrometendo na hist�ria.</p><p>
�</p><p>
O que voc� est� fazendo em um lugar desses, Arthur? � perguntou Ford.</p><p>
�</p><p>
Bom � disse Arthur �, basicamente, estou fazendo sandu�ches.</p><p>
�</p><p>
Hein?</p><p>
�</p><p>
Eu sou, ou provavelmente era, o Fazedor de Sandu�ches de uma pequena tribo. Era um pouco constrangedor, para falar a verdade. Quando eu cheguei, isto �, no dia em que eles me resgataram dos escombros da tal nave espacial de �ltima gera��o que  caiu  neste  planeta,  eles  foram  muito  legais  comigo  e  eu  achei  que  devia  fazer alguma coisa para ajudar. Voc� sabe, recebi uma boa educa��o, venho de uma cultura de tecnologia avan�ada, poderia ensinar  algumas  coisas para eles. Mas, � claro, n�o consegui. Na hora do vamos ver, descobri que n�o fa�o a menor id�ia de como as coisas funcionam.  E  n�o  estou  falando  de  videocassetes,  pois  ningu�m  sabe  mexer  neles mesmo. Estou falando de coisas como uma caneta, um po�o artesiano, algo assim. N�o tenho a menor id�ia. N�o podia ajudar em nada. Um dia, estava muito desanimado e resolvi fazer um sandu�che para mim. E isso os deixou incrivelmente animados. Nunca haviam visto um antes. Era uma id�ia que jamais lhes tinha ocorrido e eu, por acaso, gosto de fazer sandu�ches, ent�o a coisa meio que come�ou assim.</p><p>
�</p><p>
E voc� gostava disso?</p><p>
�</p><p>
Ah, sim, acho que eu gostava, sim. Possuir um bom conjunto de facas, essas coisas.</p><p>
�</p><p>
Voc�  n�o  achava,  por  exemplo,  devastadoramente,  explosivamente, incrivelmente, dolorosamente chato?</p><p>
�</p><p>
Bem, ah, n�o. Nem tanto. N�o era doloroso.</p><p>
�</p><p>
Que estranho. Eu acharia.</p><p>
�</p><p>
Bom, acho que temos pontos de vista diferentes.</p><p>
�</p><p>
Po  is �.</p><p>
�</p><p>
Como os p�ssaros pikka.</p><p>
Ford n�o fazia a menor id�ia do que ele estava falando e n�o estava com saco para perguntar. Em vez disso, disse:</p><p>
�</p><p>
Ent�o, como � que a gente faz para dar o fora desse lugar?</p><p>
 �</p><p>
Bom,  acho  que  a  maneira  mais  simples  seria  seguir  o  vale  at�  as plan�cies, o que provavelmente levaria uma hora, e depois continuar seguindo. Acho que n�o consigo encarar a id�ia de ter que voltar por onde eu vim.</p><p>
�</p><p>
Continuar seguindo para onde?</p><p>
�  U�,  de  volta  para  o  vilarejo,  n�o?  �  Arthur  suspirou,  um  pouco melanc�lico.</p><p>
�</p><p>
N�o quero ir para nenhuma droga de vilarejo! � interrompeu</p><p>
Ford. � Temos que dar o fora daqui!</p><p>
�</p><p>
Onde? Como?</p><p>
�</p><p>
Sei l�, me diz voc�. Voc� mora aqui! Deve haver alguma maneira de sair desse planeta idiota.</p><p>
�</p><p>
Eu n�o sei. O que voc� costuma fazer? Fica sentado esperando uma nave espacial passar, n�o �?</p><p>
�</p><p>
Ah,  sim...  E  quantas  naves  espaciais  visitaram  esse  antro  de  pulgas esquecido por Zarquon, recentemente?</p><p>
�</p><p>
�... h� alguns anos, a minha nave caiu aqui por engano. Depois teve a da Trillian, depois a entrega do pacote, agora a sua e...</p><p>
�</p><p>
Sim, mas al�m dos suspeitos de sempre?</p><p>
�</p><p>
Bom, ah, acho que basicamente nenhuma, at� onde sei. � bem</p><p>
pacato por aqui.</p><p>
Como se para desmenti-lo de prop�sito, um trov�o soou bem alto ao longe. Ford pulou, sobressaltado, e come�ou a caminhar para a frente e para tr�s na luz fraca e dolorosa daquele in�cio de madrugada, que rasgava o c�u como se algu�m tivesse arrastado um peda�o de f�gado sobre ele.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o entende como isso � importante � disse ele.</p><p>
�</p><p>
O qu�? O fato de a minha filha estar sozinha, solta pela Gal�xia? Voc�</p><p>
acha que eu n�o...</p><p>
�</p><p>
Podemos ter pena da Gal�xia depois? � zombou Ford. � Isso � muito, muito s�rio mesmo. Assumiram o controle do Guia. Ele foi comprado. Arthur reagiu.</p><p>
 �</p><p>
Ah, muito s�rio � gritou ele. � Por favor, me  inteire o mais r�pido poss�vel  sobre  quest�es  de  pol�tica  corporativa  das  editoras!  Voc�  nem  faz  id�ia  de como tenho pensado nisso!</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o entende! Existe um Guia completamente novo!</p><p>
�</p><p>
Ah! � gritou Arthur. � Ah! Ah! Ah! � emo��o demais para mim! Mal posso  esperar  que  ele  seja  lan�ado  para  descobrir  quais  os  portos  espaciais  mais empolgantes  para  se  ficar  entediado  zanzando  por  um  aglomerado  globular  do  qual nunca  ouvi  falar.  Por  favor,  vamos  correndo  �  loja  mais  pr�xima  para  compr�-lo imediatamente?</p><p>
Ford apertou os olhos.</p><p>
�</p><p>
� isso que voc�s chamam de sarcasmo, n�o �?</p><p>
�</p><p>
Sabe que eu acho que �, sim? � berrou Arthur. � Eu realmente acho que isso pode ser o neg�cio maluco chamado sarcasmo, infiltrando-se pelas beiradas de minha fala educada! Ford, eu tive uma noite infernal! Ser� que d� para levar isso em considera��o enquanto voc� fica a� bolando com quais basbaquices triviais estapaf�rdias e inconseq�entes ir� me bombardear em seguida?</p><p>
�</p><p>
Tenta descansar � disse Ford. � Eu preciso pensar.</p><p>
�</p><p>
Por que voc� precisa pensar? N�o podemos ficar aqui sentados, fazendo budumbudumbudumbudum  com  a  boca  um  pouquinho?  N�o  d�  para  babarmos  um pouquinho e nos balan�armos para a esquerda um pouquinho? Eu n�o ag�ento mais, Ford! N�o ag�ento mais ter que pensar e resolver coisas. Voc� pode at� pensar que eu estou aqui tendo um chilique...</p><p>
�</p><p>
N�o tinha pensado nessa hip�tese.</p><p>
�</p><p>
...mas � s�rio! De que adianta? N�s achamos que toda vez que fazemos alguma coisa sabemos quais ser�o as conseq��ncias, isto �, sabemos mais ou menos o que  esperamos  que  sejam.  E  isso,  algumas  vezes,  n�o  �  apenas  incorreto.  �</p><p>
desvairadamente, loucamente, estupidamente, cegamente errado!</p><p>
�</p><p>
� exatamente disso que eu estou falando.</p><p>
�</p><p>
Obrigado � disse Arthur, sentando�se novamente. � O qu�?</p><p>
�</p><p>
Engenharia reversa temporal.</p><p>
Arthur colocou as m�os na cabe�a e balan�ou�a lentamente de um lado para o outro.</p><p>
 �</p><p>
Existe alguma maneira humana � gemeu ele � de te impedir de me explicar o que � essa sei-l�-o-qu� reversa temporal de merda?</p><p>
�</p><p>
N�o � respondeu Ford �, porque a sua filha est� presa bem no meio dela e isso � s�rio, mortalmente s�rio.</p><p>
Trov�es soaram em meio � pausa.</p><p>
�</p><p>
Est� bem � disse Arthur. � Pode explicar.</p><p>
�</p><p>
Eu me joguei da janela de um arranha�c�u. Aquilo alegrou Arthur.</p><p>
�</p><p>
Ah! � exclamou ele. � Por que voc� n�o faz isso de novo?</p><p>
�</p><p>
E  u fiz.</p><p>
�</p><p>
Humm � fez Arthur, desapontado. � Obviamente, n�o deu em nada.</p><p>
�</p><p>
Da primeira vez, consegui me salvar gra�as a mais impressionante � e eu digo isso com toda a mod�stia � e fant�stica combina��o de improviso, agilidade, contorcionismo e auto-sacrif�cio.</p><p>
�</p><p>
E qual foi o auto-sacrif�cio?</p><p>
�</p><p>
Eu me desfiz da metade de um par de sapatos muito queridos e, creio eu, insubstitu�veis.</p><p>
�</p><p>
E por que isso foi um auto-sacrif�cio?</p><p>
�</p><p>
Por que eram meus! � respondeu Ford, amuado.</p><p>
�</p><p>
Acho que temos valores muito diferentes.</p><p>
�</p><p>
Sim, os meus s�o melhores.</p><p>
�</p><p>
Melhores  de  acordo  com  a  sua...  ah,  deixa  pra  l�.  Ent�o,  tendo conseguido se salvar de maneira muito engenhosa da primeira vez, voc� usou de toda a sua sensatez e pulou novamente. Por favor n�o me diga o porqu�. S� me conte o que aconteceu, se necess�rio.</p><p>
�</p><p>
Ca� direto na cabine aberta de um carro a jato que estava passando, cujo piloto havia acabado de apertar acidentalmente o bot�o de ejetar, quando, na verdade, queria apenas trocar de m�sica no r�dio. Ora, nem mesmo eu conseguiria pensar que isso foi uma grande saca��o minha.</p><p>
�</p><p>
Ah, n�o sei, n�o �  comentou  Arthur, exausto. � Suponho que voc�</p><p>
tenha  se  infiltrado  no  jato  do  sujeito  de  madrugada  e  programado  a  m�sica  menos favorita dele para tocar ou algo assim.</p><p>
�</p><p>
N�o, claro que n�o � disse Ford.</p><p>
 �</p><p>
S� estou verificando.</p><p>
�</p><p>
Mas, por mais estranho que pare�a, algu�m fez isso. E a� � que est� o xis da  quest�o.  � poss�vel  olhar  para  tr�s  e  rastrear  toda  a  cadeia  e  as  ramifica��es  de acontecimentos e coincid�ncias cruciais. No final das contas, o respons�vel por tudo isso era o novo Guia. O tal p�ssaro.</p><p>
�</p><p>
Que p�ssaro?</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o chegou a ver?</p><p>
�</p><p>
N�o.</p><p>
�</p><p>
Ah, � uma criaturinha mortal. � bonito, fala grosso, provoca o colapso seletivo de formas de onda quando quer.</p><p>
�</p><p>
O que isso significa?</p><p>
�</p><p>
Engenharia reversa temporal.</p><p>
�</p><p>
Ahn � fez Arthur. � Ah, t�.</p><p>
�</p><p>
A quest�o �: para quem ele est� realmente trabalhando?</p><p>
�</p><p>
Acho que tenho um sandu�che aqui � disse Arthur, catando no</p><p>
bolso. � Quer um peda�o?</p><p>
�</p><p>
Quero.</p><p>
�</p><p>
Deve estar um pouco amassado e encharcado, lamento.</p><p>
�</p><p>
Tudo bem. Mastigaram um pouco.</p><p>
�</p><p>
At� que � bem gostoso � disse Ford. � Que carne � essa?</p><p>
�</p><p>
� de Besta Perfeitamente Normal.</p><p>
�</p><p>
Nunca vi uma.  Ent�o, a quest�o � � continuou Ford � para quem o p�ssaro est� realmente trabalhando? Qual � a verdadeira trama por tr�s dessa hist�ria?</p><p>
�</p><p>
Humm � mastigou Arthur.</p><p>
�</p><p>
Quando encontrei o p�ssaro � prosseguiu Ford �, o que se deu gra�as a uma s�rie de coincid�ncias por si s� interessantes, ele exibiu a mais fant�stica pirotecnia multidimensional  que  eu  j�  vi.  Depois disse que  colocaria os  seus  servi�os � minha disposi��o no meu universo. Eu respondi obrigado, mas n�o, obrigado. Ele disse que ia fazer isso de qualquer jeito, querendo eu ou n�o. Eu disse tenta s� para voc� ver, ele disse que ia e que, na verdade, j� havia feito. Eu disse � o que veremos e ele disse que ver�amos.  Foi  ent�o  que  eu  decidi  empacotar  o  bicho  e  envi�-lo  para  c�.  E  resolvi mandar para voc� por uma quest�o de seguran�a.</p><p>
�</p><p>
Ah, �? Seguran�a de quem?</p><p>
�</p><p>
Ah, deixa pra l�. A�, como uma coisa leva a outra, achei sensato me jogar da  janela  novamente,  por  n�o  ter  nenhuma  outra  alternativa  naquele  momento.  Para minha sorte, o carro a jato estava l�; do contr�rio, eu teria que me contentar com mais pensamentos engenhosamente r�pidos, agilidade, talvez o outro p� do sapato e, se nada disso desse certo, com o ch�o. Mas isso me mostrou que, gostando eu ou n�o, o Guia estava trabalhando para mim, o que era profundamente preocupante.</p><p>
�</p><p>
Por qu�?</p><p>
�</p><p>
Porque, se voc� est� com o Guia, acha que � ele quem trabalha para voc�. Desde ent�o as coisas flu�ram magnificamente para mim, at� agora h� pouco, quando me deparei com a gatinha da pedrada e, bangue, j� era. Estou fora do circuito.</p><p>
�</p><p>
Voc� est� falando da minha filha?</p><p>
�</p><p>
Estou  tentando  ser  o  mais  educado  poss�vel.  Ela  �  o  pr�ximo  elo  na cadeia e vai achar que tudo est� indo �s mil maravilhas. Vai poder bater na cabe�a de quem quiser com peda�os da paisagem e tudo vai fluir lindamente, at� que ela fa�a o que deve fazer e, ent�o, vai ficar de fora tamb�m.  � engenharia reversa temporal e, obviamente, ningu�m compreendeu o que estava desencadeando!</p><p>
�</p><p>
Como eu, por exemplo.</p><p>
�</p><p>
O qu�?  Ah,  acorda, Arthur.  Olha,  deixa eu  tentar  novamente. O novo Guia foi desenvolvido nos laborat�rios de pesquisa. Ele utiliza uma  nova tecnologia chamada Percep��o Sem Filtros. Voc� sabe o que isso quer dizer?</p><p>
�</p><p>
Olha, eu passei os �ltimos anos fazendo sandu�ches, pelo amor de Bob!</p><p>
�</p><p>
Que</p><p>
   m � Bob?</p><p>
�</p><p>
Deixa pra l�. Continua.</p><p>
�</p><p>
Percep��o Sem Filtros significa que ele percebe tudo. Entendeu? Eu n�o percebo tudo. Voc� n�o percebe tudo. Temos filtros. O novo Guia n�o possui nenhum filtro sensorial. Ele percebe tudo. Nem era uma id�ia tecnol�gica muito complicada. Era s� quest�o de deixar algo de fora. Entendeu?</p><p>
�</p><p>
Porque  n�o  digo  simplesmente  que  entendi  voc�  continua  falando  do mesmo jeito.</p><p>
�</p><p>
Certo. Agora, como o p�ssaro pode perceber qualquer universo poss�vel, ele est� presente em qualquer universo poss�vel. Entendeu?</p><p>
�</p><p>
En...ten...diiiiii.</p><p>
�</p><p>
Ent�o o que acontece � o seguinte: os palha�os dos departamentos de marketing  e  contabilidade  dizem  "Ah,  que   id�ia   genial,   isso  quer  dizer  que  s�</p><p>
precisamos fazer um desses e depois vamos vend�-lo um n�mero infinito de vezes!". N�o faz essa cara, Arthur, � assim que os contadores pensam!</p><p>
�</p><p>
Mas � bem inteligente, n�o �?</p><p>
�</p><p>
N�o! � incrivelmente burro. Veja bem: a m�quina � apenas um pequeno Guia. Tem uma cibertecnologia bem interessante l� dentro, mas, por conta da Percep��o Sem Filtros, qualquer m�nimo movimento que o Guia fa�a tem o poder de um v�rus. Ele pode  se  propagar  pelo  espa�o,  pelo  tempo  e  em  um  milh�o  de  outras  dimens�es. Qualquer coisa pode se focar  em qualquer lugar em qualquer um dos universos nos quais transitamos. O seu poder � recursivo. Imagine um programa de computador. Em algum  lugar  existe  uma  instru��o  principal  e  todo  o  resto  n�o  passa  de  fun��es recursivas, ou par�nteses se propagando em uma enorme onda sem fim atrav�s de um espa�o infinito de endere�amento. E o que acontece quando os par�nteses colapsam?</p><p>
Onde fica o derradeiro end if? Isso por acaso faz algum sentido? Arthur?</p><p>
�</p><p>
Foi mal, dei uma cochilada r�pida. Era alguma coisa sobre o universo, n�o era?</p><p>
�</p><p>
Alguma  coisa  sobre  o  universo,  �  �  disse  Ford,  exausto.  Sentou-se novamente.</p><p>
�</p><p>
Tudo bem � disse ele. � Pense nisso. Voc� sabe quem eu acho que vi nos escrit�rios do Guia? Vogons. Ah�! Finalmente uma palavra que voc� sabe o que �. Arthur levantou-se num salto.</p><p>
�</p><p>
Esse barulho � disse ele.</p><p>
�</p><p>
Que barulho?</p><p>
�</p><p>
O trov�o.</p><p>
�</p><p>
O que � que tem?</p><p>
�</p><p>
N�o � um trov�o. � a migra��o de primavera das Bestas Perfeitamente Normais. J� come�ou.</p><p>
�</p><p>
O que s�o esses animais de que voc� � f�?</p><p>
�</p><p>
Eu n�o sou f�. Eu apenas coloco peda�os deles nos meus sandu�ches.</p><p>
�</p><p>
E por que s�o chamados de Bestas Perfeitamente Normais?</p><p>
Arthur contou para ele.</p><p>
N�o era todos os dias que Arthur tinha o prazer de ver os olhos de Ford se arregalarem de surpresa.</p><p><strong>CAP�TULO 19</strong></p><p>
Era uma vis�o � qual Arthur nunca se acostumava nem tampouco se cansava. Ele e Ford haviam trilhado o caminho rapidamente pela margem de um pequeno rio que desembocava no leito do vale e, quando finalmente alcan�aram a beira das plan�cies, escalaram os galhos de uma �rvore frondosa para conseguirem um panorama melhor de uma das vis�es mais estranhas e fant�sticas que a Gal�xia tinha a oferecer. A imensa horda ensurdecedora de milhares e milhares de Bestas Perfeitamente Normais deslizava veloz, em uma forma��o imponente, pela Plan�cie de Anhondo. Na p�lida luz do amanhecer, conforme os imensos animais investiam e o leve vapor do seu suor se mesclava com a n�voa enlameada oriunda dos seus cascos trepidantes, pareciam levemente mais irreais e fantasmag�ricos. O mais impressionante, contudo, era de onde vinham e para onde iam, que parecia ser, simplesmente, de lugar nenhum para lugar algum.</p><p>
Formavam  uma  falange  s�lida,  de  uns  cem  metros  de  largura  e  meio quil�metro de extens�o. A falange n�o se movia, exibindo apenas uma leve oscila��o para o lado e para tr�s durante os oito ou nove dias em que costumava aparecer. Mas, embora  permanecesse  mais  ou  menos  fixa,  as  grandes  bestas  que  a  formavam galopavam  com  uma  const�ncia  regular,  a  mais  de  quarenta  quil�metros  por  hora, aparecendo  do  nada  em  um  dos  cantos  da  plan�cie  e  desaparecendo,  de  modo igualmente abrupto, no outro.</p><p>
Ningu�m sabia de onde surgiam nem para onde iam. Mas eram t�o importantes para a vida dos lamuellanos que ningu�m se dava ao trabalho de perguntar. O Velho Thrashbarg  disse,  tempos  atr�s,  que,  algumas  vezes,  se  voc�  obt�m  uma  resposta  �</p><p>
poss�vel  que  a  pergunta  seja  suprimida.  Alguns  moradores  comentaram  entre  si  que havia sido a �nica coisa realmente s�bia que tinham ouvido de Thrashbarg e, ap�s uma breve discuss�o sobre o assunto, deixaram a coisa de lado.</p><p>
O barulho dos cascos era t�o alto que era dif�cil conseguir escutar qualquer outra coisa.</p><p>
�</p><p>
O que voc� disse? � gritou Arthur.</p><p>
�</p><p>
Eu disse � gritou Ford � que isso pode ser uma evid�ncia de alguma flutua��o dimensional.</p><p>
�</p><p>
O que � isso? � gritou Arthur de volta.</p><p>
�</p><p>
Bem, v�rias pessoas est�o come�ando a se preocupar com a possibilidade do espa�o-tempo estar dando sinais de que vai rachar de vez, por causa de tudo o que est� acontecendo com ele. Na verdade existem diversos mundos onde � poss�vel ver como as massas terrestres racharam e se moveram apenas olhando para as curiosamente longas ou sinuosas rotas dos animais migrat�rios. Isso pode ter alguma coisa a ver com isso.  Vivemos  em  uma  �poca  contorcida.  Ainda  assim,  na  falta  de  um  espa�oporto decente...</p><p>
Arthur lan�ou um olhar paralisado para ele.</p><p>
�</p><p>
O que voc� quer dizer com isso? � perguntou ele.</p><p>
�</p><p>
O que voc� quer dizer com o que quero dizer com isso? � gritou Ford.</p><p>
�</p><p>
Voc� sabe muito bem o que quero dizer. Vamos sair daqui a galope.</p><p>
�</p><p>
Voc�  est�  sugerindo  que  a  gente  tente  montar  em  uma  Besta Perfeitamente Normal?</p><p>
�</p><p>
Isso a�. Vamos ver no que d�.</p><p>
�</p><p>
Vamos morrer! N�o � disse Arthur, de repente. � N�o vamos morrer. Pelo menos, eu n�o. Ford, voc� j� ouviu falar de um planeta chamado Stavromula Beta?</p><p>
Ford franziu a testa.</p><p>
� Acho  que n�o  �  respondeu ele. Sacou a sua  c�pia surrada do Guia do Mochileiro das Gal�xias e a consultou. � Escreve como se fala? �perguntou.</p><p>
�</p><p>
N�o sei. Nunca vi escrito e quem me falou estava com a boca cheia de dentes de outras pessoas. Lembra que eu te contei sobre o Agrajag?</p><p>
Ford parou para pensar.</p><p>
�</p><p>
O carinha que cismou que voc� ficava matando ele sem parar?</p><p>
�</p><p>
Isso. Um  dos  lugares  que ele  alegou que eu o matara  era Stavromula Beta. Parece que algu�m tenta atirar em mim. Eu me abaixo e Agrajag, ou uma das suas muitas  reencarna��es,  �  atingido.  Parece  que  isso  realmente  aconteceu  em  algum momento, ent�o, creio eu, n�o posso morrer at� escapar do tiro em Stavromula Beta. O</p><p>
problema � que ningu�m ouviu falar nesse lugar.</p><p>
�</p><p>
Humm. � Ford fez mais algumas consultas no seu Guia, mas foram em v�o. � Eu estava aqui pensando... n�o, nunca ouvi falar � disse ele, finalmente. Mas estava intrigado por achar que o nome lhe dizia alguma coisa.</p><p>
�</p><p>
Est� bem � respondeu Arthur. � Eu vi como os ca�adores lamuellanos capturam as Bestas Perfeitamente Normais. Se voc� ataca uma em meio � horda, ela �</p><p>
pisoteada, ent�o voc� tem que dar um jeito de atrair uma a uma para mat�-las. � mais ou menos como um toureiro faz, sabe, com uma capa colorida bem chamativa. Voc� faz com que uma delas parta para cima de voc�, a� d� aquele passinho para o lado e gira a capa de forma elegante. Voc� tem alguma coisa que possamos usar como uma capa colorida bem chamativa?</p><p>
�</p><p>
Serve isso? � perguntou Ford, entregando a sua toalha.</p><p><strong>CAP�TULO 20</strong></p><p>
Pular nas costas de uma Besta Perfeitamente Normal de uma tonelada e meia migrando pelo seu mundo a estrondosos quarenta quil�metros por hora n�o � algo t�o f�cil quanto possa parecer. Certamente, n�o t�o f�cil quanto os ca�adores lamuellanos faziam  parecer,  e  Arthur  Dent  j�  estava  preparado  para  descobrir  que  aquela  talvez acabasse sendo a parte dif�cil.</p><p>
O que  n�o estava  preparado para  descobrir, no entanto, era que  at�  mesmo chegar na parte dif�cil j� era dif�cil. Isso porque a parte que supostamente deveria ser f�cil era praticamente imposs�vel.</p><p>
N�o  conseguiam  chamar  a  aten��o  de  um  animal  sequer.  As  Bestas Perfeitamente Normais eram t�o obstinadas em produzir um bom estrondo com os seus cascos  �  cabe�as  abaixadas  e  ombros  projetados  para  a  frente,  patas  traseiras transformando  o  ch�o  em  mingau  �  que  precisavam  de  algo  n�o  s�  meramente surpreendente, mas geol�gico para chamar a sua aten��o.</p><p>
Os estrondos ensurdecedores e o tempo de espera acabaram sendo, no final das contas, mais do que Arthur e Ford podiam suportar. Ap�s passarem quase duas horas zanzando para l� e para c� e fazendo coisas cada vez mais estapaf�rdias com uma toalha de  banho  m�dia  com  padr�es  florais,  n�o  haviam  sequer  conseguido  que  uma  das grandes bestas que esmagavam estrondosamente o ch�o desse pelo menos uma olhadela de soslaio na dire��o deles.</p><p>
Estavam a mais ou menos um metro da avalanche horizontal de corpos suados. Ficar  mais  perto  significava  um  risco  de  morte  instant�nea,  cronol�gica  ou  n�o cronol�gica.  Arthur  j�  havia  visto  o  que  sobrava  de  qualquer  Besta  Perfeitamente Normal que, gra�as a um lan�amento desajeitado de um ca�ador lamuellano jovem e inexperiente, era atingida por uma lan�a enquanto ainda esmagava estrondosamente o ch�o no meio do bando.</p><p>
 Bastava um �nico trope��o. Nenhum compromisso anterior com a morte em Stavromula Beta � fosse l� onde diabos ficasse Stavromula Beta � poderia salvar a sua vida ou a de qualquer outra pessoa da marcha ribombante e estra�alhadora daqueles cascos.</p><p>
Por  fim,  Arthur  e  Ford  cambalearam  para  tr�s.  Sentaram-se,  exaustos  e vencidos, e come�aram a criticar as respectivas t�cnicas de manejo da toalha.</p><p>
�</p><p>
Voc� tem que  sacudir  mais  a toalha  � reclamou  Ford. � Precisa  de mais impulso do cotovelo se quiser chamar a aten��o dessas criaturas malditas.</p><p>
�</p><p>
Mais  impulso?  �  reclamou  Arthur.  �  Voc�  �  que  precisa  de  mais flexibilidade no pulso.</p><p>
�</p><p>
Voc� precisa agitar mais � discordou Ford.</p><p>
�</p><p>
Voc� precisa de uma toalha maior.</p><p>
�</p><p>
Voc�s precisam � disse outra voz � � de um p�ssaro pikka.</p><p>
�</p><p>
De qu�?</p><p>
A voz viera de tr�s deles. Se viraram e, atr�s deles, sob o sol matinal, estava o Velho Thrashbarg.</p><p>
�</p><p>
Para atrair a aten��o de uma Besta Perfeitamente Normal � disse ele, aproximando-se de Arthur e Ford � voc�s precisam de um p�ssaro pikka. Como este aqui.</p><p>
De  dentro  da  coisa  parecida  com  uma  batina  de  tecido  grosso  que  usava, Thrashbarg tirou um pequeno p�ssaro pikka. O animal ficou inquieto na palma da m�o do velho, olhando concentrad�ssimo para alguma coisa que estava em disparada a um metro e dezesseis cent�metros de dist�ncia � sua frente.</p><p>
Ford instantaneamente assumiu a posi��o de alerta agachado que gostava de manter quando n�o sabia ao certo o que estava acontecendo ou que o deveria fazer. Balan�ou  os  bra�os  em  volta  bem  devagar,  torcendo  para  que  o  gesto  parecesse amea�ador.</p><p>
�</p><p>
Quem � esse? � sussurrou ele.</p><p>
�</p><p>
Ah, � s� o Velho Thrashbarg � disse Arthur, baixinho. � E eu n�o me daria  ao  trabalho  de  ficar  fazendo  esses  gestos  malucos.  Ele  �  um  malandro  t�o experiente quanto voc�. Podem acabar dan�ando um em volta do outro o dia inteiro.</p><p>
 �</p><p>
E o p�ssaro? � sussurrou Ford novamente. � Qual � a do p�ssaro?</p><p>
�</p><p>
� s� um p�ssaro! � respondeu Arthur, impaciente. � Como qualquer outro. P�e ovos e faz ark para coisas que ningu�m v�. Ou kar ou rit, sei l�.</p><p>
�</p><p>
Voc� j� viu algum deles p�r ovos? � perguntou Ford, desconfiado.</p><p>
�</p><p>
Pelo amor  de  Bob, claro que  sim �  respondeu Arthur. � E j�  comi centenas  deles.  D�o  um  omelete  dos  bons.  O  segredo  �  colocar  pequenos  cubos  de manteiga gelada e depois bater bem devagar com um...</p><p>
�</p><p>
Eu n�o quero droga de receita nenhuma � disse Ford. � S� quero me certificar  de  que  �  um  p�ssaro  de  verdade  e  n�o  uma  esp�cie  de  ciberpesadelo multidimensional.</p><p>
Ford  levantou-se  devagarzinho  da  posi��o  agachada  e  espanou  a  poeira  do corpo. Continuava de olho no p�ssaro, de qualquer forma.</p><p>
�</p><p>
Ent�o � disse o Velho Thrashbarg para Arthur. � Est� escrito que Bob tomar� novamente para si a gra�a divina de seu enviado, o Fazedor de Sandu�ches?</p><p>
Ford quase se agachou de novo.</p><p>
�</p><p>
Est� tudo bem � murmurou Arthur �, ele sempre fala desse jeito. Em voz alta, ele disse:</p><p>
�</p><p>
�, vener�vel Thrashbarg. Humm, creio que � chegada a hora de dar no p�. Mas o jovem Drimple, meu aprendiz, ser� um excelente Fazedor de Sandu�ches no meu lugar. Ele tem talento e um profundo amor pelos sandu�ches, e todas as habilidades que  adquiriu  at�  agora,  embora  ainda  sejam  rudimentares,  um  dia  haver�o  de amadurecer e, ah, bem, acho que ele vai se sair bem, � o que estou tentando dizer. O Velho Thrashbarg olhou para ele, muito s�rio. Seus velhos olhos cinzentos movimentaram-se, tristes. Ele levantou os bra�os, segurando o p�ssaro pikka inquieto em uma das m�os e o seu cajado na outra.</p><p>
�</p><p>
�, Fazedor de Sandu�ches de Bob! � pronunciou ele. Fez uma pausa, enrugou a testa e suspirou enquanto fechava os olhos, em devota contempla��o. � A vida ser� muito menos esquisita sem voc� por aqui!</p><p>
Arthur estava impressionado.</p><p>
�</p><p>
Sabe, acho que essa foi a coisa mais bonita que algu�m j� me disse na vida!</p><p>
�</p><p>
D� pra gente continuar ou t� dif�cil? � reclamou Ford.</p><p>
Algo j� estava acontecendo. A mera presen�a do p�ssaro pikka na m�o esticada de Thrashbarg j� estava enviando tremores de interesse pela horda estrondosa. Algumas cabe�as se levantavam rapidamente para olhar naquela dire��o. Arthur come�ou a se lembrar  de  alguns  dos  ca�adores  de  Bestas  Perfeitamente  Normais  que  ele  vira. Lembrou-se  de  que,  al�m  dos  ca�adores-toureiros  sacudindo  as  suas  capas,  havia sempre outros parados atr�s deles, segurando p�ssaros pikka. Sempre imaginara que, assim como ele, tinham ido s� para olhar.</p><p>
O  Velho  Thrashbarg  avan�ou,  ficando  um  pouco  mais  perto  da  horda  em disparada.  Algumas  Bestas  j�  estavam  virando  a  cabe�a  para  tr�s,  interessadas  no p�ssaro.</p><p>
Os bra�os esticados de Thrashbarg estavam tremendo.</p><p>
Apenas o p�ssaro pikka parecia n�o estar nem um pouco interessado no que estava acontecendo. Algumas mol�culas an�nimas de ar em nenhum lugar espec�fico absorviam toda a sua excitada aten��o.</p><p>
�</p><p>
Agora!  �  exclamou  o  Velho  Thrashbarg  finalmente.  �  Agora  voc�</p><p>
pode usar a toalha!</p><p>
Arthur  avan�ou  com  a  toalha  de  Ford,  movimentando-se  como  faziam  os ca�adores-toureiros, com um tipo de andar pomposo que estava longe de lhe cair bem. Mas sabia o que devia fazer e que aquilo era a coisa certa a fazer. Exibiu e sacudiu a toalha algumas vezes, aprontando-se para o momento, e depois observou. Avistou o animal  que queria n�o muito longe dali. De cabe�a baixa, estava galopando para cima dele, bem na extremidade da horda. O Velho Thrashbarg mexeu o p�ssaro, a Besta olhou para cima, sacudiu a cabe�a e ent�o, bem na hora em que ia abaixar a cabe�a novamente, Arthur fez um floreio com a toalha na linha de vis�o dela. Ela balan�ou a cabe�a novamente, confusa, e seus olhos acompanharam os movimentos da toalha.</p><p>
 Conseguira chamar sua aten��o.</p><p>
Daquele momento em diante parecia a coisa mais natural do mundo atrair o animal para ele. Estava com a cabe�a erguida, levemente inclinada. Estava diminuindo o  ritmo  para  um  meio  galope  e,  depois,  para  um  trote.  Alguns  segundos  depois,  a enorme  fera  estava  prostrada  entre  eles,  bufando,  arquejando,  suando  e  farejando animadamente  o  p�ssaro  pikka,  que  parecia  n�o  ter  sequer  notado  sua  chegada. Executando estranhos movimentos ondulat�rios com os bra�os, Thrashbarg mantinha o p�ssaro pikka diante da Besta, tomando cuidado para que n�o estivesse ao seu alcance, sempre para baixo. Executando estranhos movimentos com a toalha, Arthur mantinha a aten��o da Besta assim e assado � sempre para baixo.</p><p>
�</p><p>
Acho que nunca vi nada t�o rid�culo em toda a minha vida � murmurou Ford para si mesmo.</p><p>
Finalmente, a Besta caiu, aturdida mas d�cil, de joelhos no ch�o.</p><p>
�</p><p>
Vai! � sussurrou Thrashbarg em tom de urg�ncia para Ford.</p><p>
�</p><p>
Vai! Agora!</p><p>
Ford saltou nas costas imensas da criatura, agarrando sua pelagem espessa e embara�ada  para  se  apoiar,  e  segurando  tufos  de  p�lo  para  se  sustentar,  uma  vez posicionado l� em cima.</p><p>
�</p><p>
Agora, Fazedor de Sandu�ches! Vai! � Com um gesto elaborado e um aperto de  m�o  ritual�stico que  Arthur n�o p�de  sequer  acompanhar  porque  o Velho Thrashbarg  obviamente  tinha  acabado  de  inventar,  ele  empurrou  Arthur  para  frente. Respirando  fundo,  Arthur  escalou  as  costas  imensas,  quentes  e  arfantes  da  Besta, colocando-se atr�s de Ford, e segurou firme. M�sculos enormes, do tamanho de le�esmarinhos, ondularam e se flexionaram debaixo dele. De repente, o Velho Thrashbarg suspendeu o p�ssaro bem alto. A cabe�a da Besta  girou  para  acompanh�-lo.  Thrashbarg  levantou  o  bra�o   com   o   p�ssaro   pikka v�rias vezes; ent�o, lentamente, pesadamente, a Besta Perfeitamente Normal se ergueu, um pouco cambaleante. Os dois cavaleiros montados em suas costas agarravam-se aos seus p�los feroz e nervosamente.</p><p>
Arthur contemplou o mar de animais enfurecidos, esfor�ando-se para tentar ver para onde estavam indo, mas n�o havia nada al�m de uma bruma de calor.</p><p>
�</p><p>
T� conseguindo enxergar alguma coisa? � perguntou a Ford.</p><p>
�</p><p>
N�o.  �  Ford  virou  para  olhar  para  tr�s,  tentando  ver  se  conseguia alguma pista de onde haviam vindo. Nada.</p><p>
Arthur gritou para Thrashbarg l� atr�s.</p><p>
�</p><p>
Voc� sabe de onde eles v�m? � gritou ele. � Ou para onde est�o indo?</p><p>
�</p><p>
O dom�nio do Rei! � gritou Thrashbarg de volta.</p><p>
�</p><p>
Rei? � gritou Arthur, surpreso. � Que Rei? � A Besta Perfeitamente Normal balan�ava e sacudia sem parar debaixo dele.</p><p>
�</p><p>
Como assim, que Rei? � perguntou o Velho Thrashbarg. � O Rei.</p><p>
�</p><p>
� que voc� nunca mencionou um Rei � gritou Arthur, um tanto quanto espantado.</p><p>
�</p><p>
O qu�?  �  perguntou o Velho Thrashbarg.  As  batidas  de  milhares  de cascos tornavam dif�cil ouvir qualquer coisa, e ele estava concentrado no que estava fazendo.</p><p>
Ainda segurando o p�ssaro no alto, Thrashbarg conduziu a Besta lentamente at� que ela se virasse e ficasse novamente emparelhada com a movimenta��o do seu bando gigantesco. Avan�ou um pouco mais. A Besta o seguiu. Avan�ou novamente. A Besta o seguiu novamente. Por fim, j� estava se movendo por conta pr�pria.</p><p>
�</p><p>
Eu disse que voc� nunca mencionou um Rei! � repetiu Arthur.</p><p>
�</p><p>
Eu n�o disse um Rei � gritou o Velho Thrashbarg �, eu disse o Rei. Recolheu o bra�o e depois estendeu�o com toda a for�a, lan�ando o p�ssaro pikka no ar,  acima  da horda. Isso pareceu pegar  o p�ssaro pikka  completamente  de surpresa, j� que ele, obviamente, n�o estava prestando aten��o nenhuma ao que estava acontecendo. Levou alguns segundos para entender  o que estava se passando; ent�o abriu as asas e voou.</p><p>
�</p><p>
V�! � gritou Thrashbarg. � V�  encontrar o  seu destino,  Fazedor  de Sandu�ches!</p><p>
Arthur   n�o   estava   t�o   certo   de   que   queria  encontrar  o  seu  destino  daquela forma. Queria apenas chegar aonde quer que fosse para poder descer daquela criatura. N�o se sentia nem um pouco seguro l� em cima. A Besta estava ganhando velocidade, enquanto  seguia  o  rastro  do p�ssaro  pikka.  Alcan�ou  a  margem  da  grande  mar�  de animais  e  um  pouco  depois,  de  cabe�a  baixa,  tendo  esquecido  o  p�ssaro,  correu novamente  com  o  resto  da  horda,  aproximando�se  rapidamente  do  ponto  onde desapareciam subitamente. Arthur e Ford agarravam�se na fera gigante, lutando pela vida, cercados por todos os lados de montanhas ondulantes de corpos.</p><p>
�</p><p>
Isso!  Cavalguem  a  Besta!  �  gritou  Thrashbarg.  A  sua  voz  distante reverberava diminuta em seus ouvidos. � Cavalguem a Besta Perfeitamente Normal!</p><p>
Cavalguem, cavalguem!</p><p>
Ford gritou no ouvido de Arthur:</p><p>
�</p><p>
Para onde ele disse que estamos indo?</p><p>
�</p><p>
Disse alguma coisa sobre um Rei � berrou Arthur de volta, segurandose desesperadamente.</p><p>
�</p><p>
Que Rei?</p><p>
�</p><p>
Foi o que eu perguntei. Ele s� disse o Rei.</p><p>
�</p><p>
Eu n�o sabia que existia um o Rei � berrou Ford.</p><p>
�</p><p>
Nem eu � gritou Arthur.</p><p>
�</p><p>
A n�o ser, � claro, o Rei � disse Ford. � Mas acho que ele n�o es t� falando desse Rei.</p><p>
�</p><p>
Que Rei? � berrou Arthur.</p><p>
Estavam  quase  no  final  da  reta.  Bem  �  sua  frente,  Bestas  Perfeitamente Normais galopavam para o nada e desapareciam.</p><p>
�</p><p>
Como assim, que Rei? � berrou Ford. � Eu n�o sei que Rei. S� estou dizendo que ele n�o deve estar se referindo ao Rei, ent�o, n�o sei de quem est� falando.</p><p>
�</p><p>
Ford, n�o fa�o id�ia do que voc� est� falando.</p><p>
�</p><p>
Novidade  �  disse  Ford.  Ent�o,  com  uma  acelera��o  s�bita,  as  estrelas surgiram, giraram sobre as suas cabe�as e depois, de maneira igualmente repentina, desapareceram novamente.</p><p><strong>CAP�TULO 21</strong></p><p>
Edif�cios cinzentos enevoados surgiam e desapareciam. Balan�avam para cima e para baixo de maneira altamente constrangedora.</p><p>
Que edif�cios eram aqueles?</p><p>
Qual a sua finalidade? O que eles a lembravam?</p><p>
�  muito  dif�cil  entender  as  coisas  quando  somos  inesperadamente transportados para um mundo diferente, com uma cultura diferente, com um conjunto diferente de pressupostos b�sicos sobre a vida e, al�m de tudo isso, com uma arquitetura incrivelmente sem gra�a e sem sentido.</p><p>
O c�u sobre os pr�dios era de um negrume frio e hostil. As estrelas, que �quela dist�ncia  do  sol  deveriam  ser  pontos  de  luz  insuportavelmente  brilhantes,  ficavam emba�adas  e  foscas  por  causa  da  grossura  da  enorme  bolha  de  prote��o.  Feita  de perspex ou qualquer coisa assim. Algo fosco e grosso.</p><p>
Tricia rebobinou a fita at� o in�cio.</p><p>
Sabia que havia alguma coisa estranha ali.</p><p>
Bem,  na  verdade,  havia  um  milh�o  de  coisas  estranhas  ali,  mas  uma  em particular a incomodava e ela n�o sabia dizer qual era.</p><p>
Suspirou e abriu a boca em um bocejo.</p><p>
Enquanto  esperava  a  fita  rebobinar,  jogou  na  lixeira  alguns  dos  copinhos pl�sticos sujos de caf� que se acumularam sobre a mesa.</p><p>
Estava sentada numa pequena ilha de edi��o numa produtora de v�deo no Soho. Tinha colocado v�rios cartazes de N�O PERTURBE na porta e bloqueado todas as liga��es para o seu ramal. Originalmente, tudo isso era para proteger o seu incr�vel furo de reportagem, mas agora era para proteg�-la do constrangimento. Resolveu  assistir  �  fita  toda  novamente  desde  o  come�o.  Se  conseguisse ag�entar. Talvez desse uma adiantada aqui e ali.</p><p>
 Eram cerca de quatro da tarde de segunda-feira e ela estava com uma sensa��o ruim. Estava tentando descobrir qual o motivo da sensa��o ruim, e a lista de suspeitos n�o era nada pequena.</p><p>
Tudo come�ou com aquele v�o noturno vindo de Nova York. O coruj�o. De matar qualquer um.</p><p>
Depois foi abordada em seu jardim e partiu para o planeta Rupert. N�o tinha experi�ncia suficiente naquele tipo de coisa para poder dizer com certeza que tamb�m era de matar qualquer um, mas podia apostar que as pessoas que passavam por aquilo regularmente deviam ter l� as suas reclama��es. As revistas viviam publicando tabelas de estresse. Cinq�enta pontos de estresse se voc� perdeu o seu emprego. Setenta e cinco para um div�rcio ou um visual novo nos cabelos, e por a� vai. Nenhuma dessas tabelas jamais mencionou ser abordada em seu jardim por alien�genas e levada para o planeta Rupert, mas ela estava certa de que devia valer algumas dezenas de pontos. N�o que a viagem em si tivesse sido particularmente estressante. Na verdade, fora extremamente chata. Com certeza n�o ultrapassava o estresse da travessia sobre o Atl�ntico que tinha acabado de fazer e durou mais ou menos o mesmo tempo: quase sete horas.</p><p>
Aquilo era impressionante, n�o?  Viajar para os limites extremos  do sistema solar no mesmo  tempo  de  um v�o entre  Londres  e Nova  York  significava  que  eles deviam ter uma forma de propuls�o fant�stica e desconhecida na nave. Interrogou os seus anfitr�es a respeito e eles concordaram que era mesmo incr�vel.</p><p>
�</p><p>
Mas como � que funciona? � perguntara ela, animada. Ainda estava bem animada no inicio da viagem.</p><p>
Localizou aquele trecho da fita e decidiu rever. Os grebulons, que era como eles se chamavam, estavam educadamente mostrando a ela quais bot�es apertavam para controlar a nave.</p><p>
�</p><p>
Sim,  mas  qual  �  o  princ�pio  de  funcionamento?  �  ouviu  a  sua  voz perguntar, por tr�s da c�mera.</p><p>
�</p><p>
Ah,  voc�  quer  saber  se  �  um  motor  de  dobra  ou  algo  assim?  �</p><p>
perguntaram eles.</p><p>
�</p><p>
Sim � insistiu Tricia. � O que �?</p><p>
 �</p><p>
Deve ser algo assim � disseram eles.</p><p>
�</p><p>
Ass</p><p>
 im como?</p><p>
�</p><p>
Um motor de dobra, propulsor fot�nico, algo assim. � melhor perguntar ao Engenheiro de V�o.</p><p>
�</p><p>
E quem � ele?</p><p>
�</p><p>
N�o sabemos. Perdemos nossas mentes.</p><p>
�</p><p>
Ah, � � disse Tricia, um pouco desanimada. � � o que voc�s dizem. E</p><p>
como foi exatamente que voc�s perderam a mente?</p><p>
�</p><p>
N�o sabemos � responderam, pacientemente.</p><p>
�</p><p>
Porque perderam a mente � repetiu Tricia, abatida.</p><p>
�</p><p>
Voc�  quer  ver  televis�o?  �  um  longo  v�o.  N�s  assistimos  televis�o. Gostamos disso.</p><p>
Toda essa cena imperd�vel estava gravada na fita, e que belo entretenimento ela proporcionava. Para come�ar, a qualidade da imagem estava p�ssima. Tricia n�o sabia dizer exatamente o porqu�. Tinha a impress�o de que os grebulons eram sens�veis a uma gama de freq��ncias de luz um pouco diferente e de que havia muito ultravioleta por l�, o que estava entulhando a c�mera de v�deo. Havia diversos padr�es de interfer�ncia e chuviscos.  Talvez  estivesse  relacionado  com  o  motor  de  dobra  a  respeito  do  qual nenhum deles sabia nada.</p><p>
O que ela tinha em fita, basicamente, era um bando de pessoas magrinhas e descoloridas sentadas, vendo notici�rios em suas televis�es. Apontara a c�mera para fora,  atrav�s da min�scula escotilha ao lado do seu assento, e conseguira captar um efeito levemente listrado das estrelas. Ela sabia que era real, mas teria levado apenas tr�s ou quatro minutos para falsificar aquela imagem.</p><p>
No final, tinha decidido poupar a sua preciosa fita de v�deo para usar quando chegasse a Rupert e reclinou-se em seu assento para ficar assistindo televis�o com eles. Chegou at� a cochilar um pouco.</p><p>
Parte da sua sensa��o ruim, portanto, vinha da impress�o de que tinha passado um  tempo  enorme  em  uma  espa�onave  extraterrestre,  dotada  de  um  impressionante projeto tecnol�gico, mas, ainda assim, gastara a maior parte do tempo cochilando diante de reprises de M*A*S*H e Cagney &amp; Lacey. O que mais havia para se fazer l�?</p><p>
  Tirara  algumas  fotos  tamb�m,  �  claro,  mas  voltaram  do  laborat�rio pavorosamente emba�adas.</p><p>
Outra parte de sua sensa��o ruim provavelmente vinha da chegada em Rupert. Aquilo, pelo menos, fora dram�tico e de arrepiar os cabelos. A nave veio sobrevoando uma paisagem negra e sombria, um terreno t�o desesperadamente isolado do calor e da luz de seu sol que mais parecia um mapa das cicatrizes psicol�gicas na mente de uma crian�a abandonada.</p><p>
Luzes ardiam atrav�s da escurid�o congelada e guiavam a nave at� a entrada de uma esp�cie de caverna que parecia ter se curvado para receb�-la. Infelizmente, por causa do �ngulo de aproxima��o da nave e da profundidade em  que  a  pequena  e  grossa  escotilha  estava  inserida  em  seu  revestimento,  n�o  foi poss�vel posicionar a c�mera de v�deo para captar essas imagens. Estava vendo aquele trecho da fita.</p><p>
A c�mera estava apontada direto para o sol.</p><p>
Isso, normalmente, � p�ssimo para uma c�mera de v�deo. Mas, quando o sol est�  aproximadamente  a  quinhentos  milh�es  de  quil�metros  de  dist�ncia,  n�o  causa nenhum dano. Na verdade, quase n�o aparece. � apenas um pontinho de luz bem no meio do enquadramento, que poderia ser qualquer outra coisa. Era apenas uma estrela em meio a tantas outras.</p><p>
Tricia avan�ou a fita.</p><p>
Ah. O pr�ximo trecho parecia bastante promissor. Sa�ram da nave dentro de uma estrutura enorme e cinzenta, parecida com um hangar. Aquilo era definitivamente tecnologia extraterrestre em uma escala impressionante. Imensos pr�dios cinzentos sob a ab�bada escura da bolha de perspex. Eram os mesmos pr�dios que vira no in�cio da fita.  Conseguira  film�-los  mais  um  pouco  quando  sa�ra  de  Rupert,  algumas  horas depois,  antes  de  entrar  na  espa�onave  que  a  levaria  de  volta  para  casa.  O  que  eles lembravam?</p><p>
Bom, mais do que qualquer outra coisa, lembravam o cen�rio de qualquer filme de fic��o cient�fica de quinta categoria dos �ltimos vinte anos. Eram muito maiores, �</p><p>
claro, mas pareciam igualmente improvisados e pouco realistas na tela do v�deo. Al�m da  p�ssima  qualidade  da  imagem,  ela  teve  que  lidar  com  efeitos  inesperados  da gravidade, consideravelmente menor do que na Terra, e tivera dificuldades para manter a  c�mera  firme,  sem  ficar  sacudindo  para  cima  e  para  baixo  de  uma  maneira constrangedoramente amadora. No final das contas era imposs�vel distinguir detalhes na fita.</p><p>
E l� estava o L�der se aproximando para cumpriment�-la, sorrindo e esticando a m�o em sua dire��o.</p><p>
Era assim que o chamavam. O L�der.</p><p>
Nenhum dos grebulons tinha nome, em grande parte porque n�o conseguiam imaginar um. Tricia descobrira que alguns deles chegaram a pensar em adotar nomes de personagens dos programas de tev� que captavam da Terra, mas, por mais que tivessem se  esfor�ado  para  se  chamar  Wayne,  Bobby  ou  Chuck,  algum  vest�gio  de  algo profundamente  enraizado  no  subconsciente  cultural  que  haviam  trazido  consigo  das estrelas distantes de onde vieram deve ter dito a eles que aquilo n�o era certo e que n�o ia funcionar.</p><p>
O L�der se parecia com todos os outros. Talvez um pouco menos magro. Ele disse o quanto gostava dos programas dela na tev�, disse que era o seu f� n�mero um, que  estava  muito  contente  por  ela  ter  vindo  visit�-los  em  Rupert,  falou  que  todos estavam ansiosos com a sua visita e disse ainda que ele esperava que o v�o tivesse sido confort�vel,  etc.  e  tal.  N�o  havia  nada  que  denunciasse  que  era  uma  esp�cie  de emiss�ria dos astros ou algo assim.</p><p>
Revendo a cena agora em v�deo, ele parecia um sujeito comum fantasiado e maquiado, parado diante de um cen�rio que dava a impress�o que ia desabar assim que algu�m se encostasse nele.</p><p>
E  l�  estava  ela,  sentada  diante  do   monitor   com   o   rosto   entre   as   m�os, balan�ando a cabe�a em lenta perplexidade.</p><p>
Aquilo era horr�vel.</p><p>
N�o s� aquele trecho era horr�vel, como ela sabia o que viria em seguida. Era a parte em que o L�der perguntava se ela estava com fome ap�s o v�o e se n�o gostaria de comer algo. Aproveitariam para conversar enquanto jantassem. Lembrava perfeitamente o que havia passado pela sua cabe�a naquela hora. Comida de ET.</p><p>
Como se livrar daquela?</p><p>
Ser� que realmente ia ter que comer? Ou teria acesso a algum guardanapo de papel  onde  poderia  cuspir?  N�o  haveria  dezenas  de  problemas  de  imunidade diferencial?</p><p>
Acabou que eram hamb�rgueres.</p><p>
N�o  s�  eram  hamb�rgueres  como  tamb�m  os  hamb�rgueres  eram  clara  e obviamente do McDonald's, requentados no microondas. N�o reconhecera apenas pela apar�ncia.  Nem  pelo  cheiro.  �  que,  nas  embalagens  de  poliestireno  em  formato  de concha nas quais vinham os hamb�rgueres, "McDonald's" estava impresso em todos os cantos.</p><p>
�</p><p>
Coma! Aproveite! � disse o L�der. � Nada � bom o bastante para a nossa convidada de honra!</p><p>
Estava no apartamento particular do L�der. Tricia olhou � sua volta com um espanto que estava a um passo de se transformar em terror, mas n�o deixou de continuar filmando.</p><p>
O apartamento tinha uma cama  com colch�o d'�gua. E um Midi hif�. E um daqueles tro�os de vidro iluminados que ficam sobre os tampos das mesas e parecem ter gl�bulos de esperma flutuando dentro deles. As paredes eram revestidas de veludo. O L�der estava refestelado em um pufe de veludo cotel� marrom e esguichou um spray refrescante na boca.</p><p>
De  repente, Tricia come�ou a ficar  muito assustada.  At�  onde sabia, estava mais  distante  da  Terra  do  que  qualquer  outro  ser  humano  jamais  esteve,  e  em companhia  de  uma  criatura  alien�gena  refestelada  em  um  pufe  de  veludo  cotel�, esguichando spray refrescante na boca.</p><p>
N�o  queria  tomar  atitudes  precipitadas.   N�o   queria   assust�-lo.   Mas   tinha algumas coisas que ela precisava saber.</p><p>
�</p><p>
Como foi que voc�... onde foi que arrumou... essas coisas? � perguntou ela, gesticulando em volta, nervosamente.</p><p>
 �</p><p>
A  decora��o?  �  perguntou  o  L�der.  �  Voc�  gostou?  �  muito sofisticado.  Somos  um  povo  sofisticado,  n�s,  os  grebulons.  Compramos  bens  de consumo sofisticados e dur�veis... pelo correio.</p><p>
Tricia concordara com a cabe�a, tremendamente devagar.</p><p>
�</p><p>
Pelo correio... � dissera ela.</p><p>
O  L�der  deu  uma  risadinha.  Era  uma  daquelas  risadinhas  sedosas  e tranq�ilizadoras de chocolate amargo.</p><p>
�</p><p>
Acho que voc� est� pensando que eles fazem as entregas aqui. N�o! H�</p><p>
h�! Arranjamos uma caixa postal em New Hampshire. Fazemos visitas regulares para apanhar as encomendas. H� h�! � Recostou-se, relaxado, em seu pufe, apanhou uma batata frita requentada e mordiscou a pontinha, com um sorriso divertido nos l�bios. Tricia podia sentir o seu c�rebro come�ando a fritar aos poucos. Manteve a c�mera rodando.</p><p>
�</p><p>
Como  �  que  voc�s,  bem,  ah,  como  �  que  pagam  por  essas...  coisas maravilhosas?</p><p>
O L�der deu outra risadinha.</p><p>
�</p><p>
American  Express  �  disse  ele,  sacudindo  os  ombros  de  maneira indiferente.</p><p>
Tricia  concordou  novamente  com  a  cabe�a,  devagar.  Sabia  que  mandavam cart�es de cr�dito exclusivamente para quase todo mundo.</p><p>
�</p><p>
E esses? � perguntou ela, segurando o hamb�rguer que haviam lhe dado de presente.</p><p>
�</p><p>
Isso � f�cil � disse o L�der. � Ficamos na fila.</p><p>
Novamente, com uma sensa��o g�lida e formigante na espinha, Tricia percebeu que aquilo explicava muita coisa.</p><p>
Apertou o bot�o de FF novamente. N�o havia nada ali que pudesse ser usado. Era  tudo  uma  loucura,  um  pesadelo.  Poderia  ter  forjado  algo  que  parecesse  mais convincente.</p><p>
Outra sensa��o ruim come�ou a invadi�la enquanto assistia �quela fita in�til e horrorosa, e ela come�ou a perceber, com um pavor gradual, que aquela devia ser a resposta.</p><p>
Ela devia estar...</p><p>
Sacudiu a cabe�a e tentou manter a calma.</p><p>
Um  v�o  noturno  para  o  Leste...  Os  rem�dios  para  dormir  que  tomou  para ag�entar a viagem. A vodca que bebeu para fazer os rem�dios funcionarem. O que mais? Bem. Dezessete anos obcecada por um sujeito glamouroso que tinha duas cabe�as � sendo que uma estava disfar�ada de um papagaio preso em uma gaiola � e lhe passara uma cantada em uma festa mas se mandara, impaciente, para um outro  planeta  em  um  disco  voador.  De  repente  essa  id�ia  parecia   ter   uma   s�rie   de aspectos inconvenientes que jamais lhe ocorreram. Jamais. Em dezessete anos. Enfiou o punho dentro da boca.</p><p>
Precisava de ajuda.</p><p>
Depois,  Eric  Bartlett  perturbando-a  com  aquele  papo  de  espa�onaves alien�genas pousando no seu jardim. E antes disso... Nova York fora... muito quente e estressante. As grandes esperan�as e a amarga frustra��o. A hist�ria toda da astrologia. Deve ter tido um colapso nervoso.</p><p>
Era  isso.  Estava  exausta,  tivera  um  colapso  nervoso  e  come�ara  a  ter alucina��es um pouco depois de chegar em casa. Sonhara aquela hist�ria toda. Uma ra�a alien�gena de pessoas desprovidas das suas pr�prias vidas e hist�rias, encalhadas em uma base remota do nosso sistema solar, preenchendo o seu v�cuo intelectual com o nosso lixo cultural. Ah�! Era a maneira da natureza lhe dizer que precisava se internar em uma cl�nica muito cara o mais r�pido poss�vel.</p><p>
Estava muito, mas muito doente. Olhou quantas doses duplas de caf� j� havia bebido e percebeu como sua respira��o estava ofegante e acelerada. Perceber a doen�a, disse ela para si mesma, era meio caminho andado para a cura. Come�ou a controlar a respira��o. Havia entendido tudo a tempo. Percebeu onde estava. Estava conseguindo voltar do precip�cio psicol�gico de onde quase despencou. Come�ou a se acalmar, se acalmar, se acalmar. Recostou na cadeira e fechou os olhos. Ap�s alguns minutos, agora que estava respirando normalmente de novo, abriu os olhos.</p><p>
Mas ent�o, de onde sa�ra aquela fita?</p><p>
Ainda estava rodando.</p><p>
Tudo bem. Era falsificada.</p><p>
Ela pr�pria a falsificara, era isso.</p><p>
Devia ter sido ela mesma quem a falsificara, pois sua voz podia ser ouvida em off o tempo todo, fazendo perguntas. De vez em quando, a c�mera apontava para baixo no  final  de  uma  tomada  e  ela  via  os  seus  pr�prios  p�s,  cal�ados  nos  seus  pr�prios sapatos. Falsificara a fita e n�o conseguia se lembrar de t�-la falsificado nem sabia o porqu� daquilo.</p><p>
A  sua  respira��o  estava  ficando  agitada  novamente,  enquanto  observava  as imagens tremidas, cheias de chuvisco.</p><p>
Vai ver que ainda estava tendo alucina��es.</p><p>
Sacudiu  a  cabe�a, tentando espantar aquelas  id�ias.  N�o se  lembrava  de ter falsificado nenhuma parte daquela fita t�o obviamente falsa. Por outro lado, conseguia se lembrar de coisas que se pareciam bastante com as falsas. Continuou assistindo, em transe, perplexa.</p><p>
A  pessoa  que  ela  tinha  imaginado  se  chamar  o  L�der  estava  lhe  fazendo algumas perguntas sobre astrologia e ela estava respondendo tranq�ilamente. Somente ela pr�pria era capaz de detectar o p�nico crescente e bem disfar�ado em sua voz. O L�der apertou um bot�o e uma parede de veludo marrom deslizou para cima, revelando uma enorme bancada de monitores de tev� com tela plana. Cada  um  dos  monitores  estava  exibindo  um  caleidosc�pio  de  imagens diferentes:  alguns  segundos  de  um  programa  de  audit�rio,  alguns  segundos  de  um seriado  policial,  alguns  segundos  do  sistema  de  seguran�a  do  dep�sito  de  um supermercado, alguns segundos do filme caseiro das f�rias de algu�m, alguns segundos de sexo, alguns segundos do notici�rio, alguns segundos de com�dia. Estava claro que o L�der tinha bastante orgulho de tudo aquilo e ficava movimentando as m�os como um maestro, enquanto continuava a tagarelar enormes besteiras.</p><p>
Mais um movimento com as m�os e todas as telas ficaram brancas, formando uma  �nica  tela  de  computador  gigante,  mostrando  em  forma  diagram�tica  todos  os planetas  do  sistema  solar,  mapeados  sobre  um  pano  de  fundo  das  estrelas  em  suas constela��es. A tela estava completamente est�tica.</p><p>
�  Temos  grandes  habilidades  �  estava  dizendo  o  L�der.  �  Grandes habilidades em computa��o, em trigonometria cosmol�gica, em c�lculo navegacional tridimensional.  Grandes  habilidades.  Grandes,  grandes  habilidades.  S�  que  nos esquecemos  de  tudo.  � horr�vel.  Gost�vamos  de  ter  habilidades, mas  elas  se  foram. Est�o por a�, em algum lugar do espa�o, sem rumo. Assim como os nossos nomes e os detalhes sobre os nossos lares e entes queridos. Por favor � pediu ele, fazendo um gesto para que ela se sentasse diante do computador �, seja habilidosa para n�s. O que aconteceu em seguida, obviamente, foi que Tricia colocou a sua c�mera no  trip�  para  capturar  toda  a  cena.  Depois  apareceu  na  filmagem  e  sentou�se calmamente  diante  da  tela  de  computador  gigante,  passou  alguns  minutos  se familiarizando com a interface e ent�o come�ou, tranq�ila e competentemente, a fingir que tinha alguma id�ia do que estava fazendo.</p><p>
Na verdade, nem fora t�o dif�cil assim.</p><p>
Ela era, afinal, matem�tica e astrof�sica por forma��o e apresentadora de tev�</p><p>
por experi�ncia, e podia blefar sem problemas sobre toda a ci�ncia que esquecera ao longo dos anos.</p><p>
O  computador  onde  estava  trabalhando  era  uma  prova  concreta  de  que  os grebulons vinham de uma cultura muito mais avan�ada e sofisticada do que sugeria o seu atual estado de v�cuo e, com a sua habilidade, ela conseguiu, em mais ou menos meia hora, improvisar um modelo grosseiro do sistema solar.</p><p>
N�o  era  incrivelmente  preciso  nem  nada,  mas  ficara  bonito.  Os  planetas estavam se movendo em simula��es razoavelmente boas de suas �rbitas e dava para observar o movimento de toda a engrenagem cosmol�gica virtual de qualquer ponto do sistema  �  embora  muito  grosseiramente.  Dava  para  observar  do  ponto  de  vista  da Terra, do ponto de vista de Marte, etc. Dava para observar da superf�cie do planeta Rupert.  Tricia  ficara  bastante  impressionada  consigo  mesma,  mas  igualmente impressionada com o sistema de computador no qual trabalhara. A tarefa talvez tivesse demorado um ano ou mais de programa��o usando computadores terrestres. Quando terminou, o L�der surgiu atr�s dela e contemplou seu trabalho. Estava muito satisfeito e encantado com o resultado.</p><p>
� �timo � disse ele. � E agora, por favor, gostaria que voc� demonstrasse como usar o sistema que voc� acabou de criar para traduzir as informa��es desse livro aqui para mim.</p><p>
Calmamente, colocou um livro diante dela.</p><p>
Era Voc� e os seus planetas, de Gail Andrews.</p><p>
Tricia parou a fita novamente.</p><p>
Estava  definitivamente  se  sentindo  tonta.  A  sensa��o  de  que  estava  tendo alucina��es passara, mas nada ficou mais f�cil ou mais claro na sua cabe�a. Empurrou a cadeira para tr�s da mesa de edi��o e se perguntou o que fazer em seguida. Anos atr�s abandonara o campo da pesquisa astron�mica porque sabia, sem nenhuma  d�vida,  que  havia  conhecido  um  ser  de  outro  planeta.  Em  uma  festa.  E</p><p>
tamb�m  sabia,  sem  nenhuma  d�vida,  que  seria  motivo  de  chacota  se  algum  dia resolvesse falar sobre isso. Mas como podia estudar cosmologia e n�o contar justo o que sabia de mais importante a respeito? Fez a �nica coisa que podia fazer. Saiu fora. Agora, ela trabalhava na televis�o e a mesma coisa acontecera novamente. Tinha uma fita gravada, uma fita gravada de verdade, da hist�ria mais incr�vel de  toda  hist�ria  de,  bem,  qualquer  coisa:  uma  base  esquecida  de  uma  civiliza��o alien�gena perdida no planeta mais afastado de nosso sistema solar. Tinha a hist�ria.</p><p>
Tinha estado l�.</p><p>
Tinha visto tudo.</p><p>
 Tinha uma fita gravada, ora bolas.</p><p>
E, se algum dia mostrasse para algu�m, seria motivo de chacota. Como  podia  provar  aquilo?  Nem  valia  a  pena  pensar  a  respeito.  Tudo  n�o passava  de  um  pesadelo,  de  virtualmente  qualquer  �ngulo  que  ela  examinasse  a situa��o. A sua cabe�a estava come�ando a latejar.</p><p>
Tinha uma aspirina na bolsa. Saiu da pequena ilha de edi��o em dire��o ao bebedouro no final do corredor. Tomou a aspirina e v�rios copos d'�gua. O  lugar  parecia  muito  calmo.  Normalmente  havia  muitas  pessoas  zanzando apressadas  por  ali  ou,  pelo  menos,  algumas  pessoas  zanzando  apressadas  por  ali. Esticou a cabe�a para dentro da ilha de edi��o que ficava ao lado da sua, mas n�o havia ningu�m l� dentro.</p><p>
Exagerara um pouco no seu desespero de manter as pessoas longe da sua ilha de edi��o. N�O PERTURBE  estava escrito no cartaz. NEM PENSE EM ENTRAR. N�O  ME  INTERESSA  O  QUE  EST�  ACONTECENDO.  V�  EMBORA.  ESTOU</p></section><section><p><strong>OCUPADA! </strong></p><p>
Quando voltou, percebeu que a luz de recados do seu telefone estava piscando e imaginou h� quanto tempo j� estaria assim.</p><p>
�</p><p>
Al�? � disse ela para o recepcionista.</p><p>
�</p><p>
Oh, Srta. McMillan, que bom que voc� ligou. Todo mundo est� tentando falar com voc�. A sua rede de tev�. Est�o desesperados para entrar em contato. Voc�</p><p>
pode ligar para eles?</p><p>
�</p><p>
Por que voc� n�o transferiu a liga��o? � perguntou Tricia.</p><p>
�</p><p>
Voc� pediu para eu n�o transferir nada. Disse para eu at� mesmo negar que a senhorita estava aqui. Eu n�o sabia o que fazer. Subi at� a� para avis�-la, mas...</p><p>
�</p><p>
Est� bem � disse Tricia, xingando a si mesma. Ligou para o escrit�rio.</p><p>
�</p><p>
Tricia! Por onde diabos voc� andou?</p><p>
�</p><p>
Na ilha de...</p><p>
�</p><p>
Eles disseram...</p><p>
 �</p><p>
Eu sei. O que est� acontecendo?</p><p>
�</p><p>
O que est� acontecendo? S� uma espa�onave extraterrestre!</p><p>
�</p><p>
O qu�? Aonde?</p><p>
�</p><p>
No Regent's Park. Grandona, prateada. Uma menina com um p�ssaro. Ela fala a nossa l�ngua, joga pedra nas pessoas e quer algu�m para consertar o seu rel�gio. V� o mais r�pido poss�vel.</p><p>
Tricia contemplava a cena.</p><p>
N�o era uma nave grebulon. N�o que ela tivesse subitamente se tornado uma especialista em embarca��es extraterrestres, mas aquela era uma nave esguia e bonita, cinza e branca, do tamanho de um grande iate � ali�s, era at� mesmo parecida com um. Perto dela, as estruturas da imensa e semidesmantelada nave grebulon pareciam torres de  canh�o  de  um  navio  de  guerra.  Torres  de  canh�o.  Era  com  elas  que  os  pr�dios cinzentos  se  pareciam.  E  o  mais  estranho  �  que,  quando  passara  por  elas  antes  de embarcar  novamente  na  pequena  nave  grebulon,  tinham  se  movido.  Essas  coisas passavam  depressa  pela  sua  cabe�a  enquanto  ela  corria  do  t�xi  at�  a  equipe  de filmagem.</p><p>
�</p><p>
Onde est� a garota? � gritou ela, por cima do barulho dos helic�pteros e das sirenes da pol�cia.</p><p>
�</p><p>
Ali!  �  gritou  o  produtor,  enquanto  o  engenheiro  de  som  corria  para afixar um microfone  nela.  �  Ela  diz  que  sua  m�e  e seu pai vieram daqui em uma dimens�o paralela ou algo assim e que est� com o rel�gio do pai e... sei l�. O que mais posso dizer? Vai com tudo. Pergunte a ela como � ser de outro planeta.</p><p>
�</p><p>
Valeu,   Ted   �   murmurou   Tricia.   Verificou   se   o   seu   microfone   estava bem afixado, respirou fundo, jogou o cabelo para tr�s e incorporou o papel da rep�rter profissional, em territ�rio familiar, pronta para qualquer coisa. Pelo menos para praticamente qualquer coisa.</p><p>
Virou-se para procurar a menina. Devia ser aquela ali, com cabelo despenteado e olhos raivosos. A menina virou-se para ela. E encarou�a fixamente.</p><p>
�</p><p>
M�e! � gritou ela, e come�ou a atirar pedras em Tricia.</p><p><strong/></p><p><strong>CAP�TULO 22</strong></p><p>
A luz do dia explodiu em volta deles. Sol quente, forte. Uma plan�cie deserta se estendia at� o horizonte em uma n�voa de calor. Saltaram trovejando sobre ela.</p><p>
�</p><p>
Pula! � gritou Ford Prefect.</p><p>
�</p><p>
O  qu�?  �  perguntou  Arthur  Dent,  firmemente  agarrado.  Ford  n�o respondeu.</p><p>
�</p><p>
O que foi que voc� disse? � gritou Arthur novamente, e ent�o percebeu que   Ford   Prefect   n�o   estava   mais   l�.   Olhou  ao  redor,  em  p�nico,  e  come�ou  a escorregar.  Percebendo  que  n�o  podia mais se  segurar, arremessou-se  para  o lado  o m�ximo que p�de e enroscou-se como uma bola ao atingir o ch�o, rolando, rolando para longe dos cascos esmagadores.</p><p>
Que dia, pensou ele, tossindo furiosamente a poeira para fora de seus pulm�es. N�o tinha um dia t�o horr�vel quanto aquele desde que a Terra fora demolida. Ficou de joelhos, com dificuldade, depois em p� e, em seguida, come�ou a fugir. N�o sabia de que nem para onde, mas fugir lhe parecia uma decis�o prudente. Deu de cara com Ford Prefect, que estava parado examinando os arredores.</p><p>
�</p><p>
Olha l� � disse Ford. � � exatamente disso que n�s precisamos. Arthur tossiu mais um pouco de poeira e limpou mais poeira do cabelo e dos olhos. Ofegante, virou-se para ver o que Ford estava olhando. N�o parecia muito com o dom�nio de um Rei, ou do Rei, ou de qualquer tipo de Rei. Mas era bem convidativo.</p><p>
Primeiro, o contexto. Aquele era um mundo deserto. A terra seca e batida havia machucado  todas  as  partes de Arthur  que  n�o  tivessem sido  machucadas  durante as festividades da noite anterior. Um pouco mais adiante havia penhascos imensos, que pareciam  de  arenito,  desgastados  pelo  vento  e  pela  m�nima  chuva  que, presumivelmente,  ca�a  naquelas  bandas  produzindo  formatos  fant�sticos  que combinavam com os formatos fant�sticos dos cactos gigantes que brotavam aqui e ali do solo �rido e alaranjado.</p><p>
Por um momento, Arthur ousou sonhar que haviam chegado inesperadamente no Arizona, ou no Novo M�xico, ou at� mesmo em Dakota do Sul, mas havia v�rias evid�ncias em sentido contr�rio.</p><p>
Para  come�ar,  as  Bestas  Perfeitamente  Normais  continuavam  trovejando  e esmagando  o  ch�o.  Elas  emergiam  aos  milhares  no  horizonte  mais  long�nquo, desapareciam completamente por mais ou menos um quil�metro e depois reapareciam, trovejando e esmagando o ch�o at� o horizonte long�nquo oposto. Depois havia as naves espaciais estacionadas na entrada do Bar &amp; Restaurante. Ah, Bar &amp; Restaurante Dom�nio do Rei. Um certo anticl�max, pensou Arthur com os seus bot�es.</p><p>
Na verdade, apenas uma nave espacial estava estacionada na porta do Bar &amp; Restaurante Dom�nio do Rei. As outras tr�s estavam em um estacionamento ao lado. Mas  era  a  que  estava  parada  na  porta  que  chamava  a  aten��o.  Um  verdadeiro espet�culo.  Estabilizadores  maneir�ssimos  por  todo  lado  e  muito,  mas  muito  cromo mesmo  sobre os estabilizadores. A maior  parte da fuselagem fora pintada de rosa�</p><p>
choque. Estava agachada, a postos, como um imenso inseto chocando ovos, e dava a impress�o de que, a qualquer momento, iria pular em alguma coisa a dois quil�metros de dist�ncia.</p><p>
O Bar &amp; Restaurante Dom�nio do Rei ficava exatamente no meio do lugar para onde as Bestas Perfeitamente Normais estariam avan�ando se n�o fizessem um pequeno desvio transdimensional no caminho. Sozinho, impass�vel. Um bar &amp; restaurante como outro  qualquer.  Uma  parada  de  caminhoneiros.  Em  algum  lugar  no  meio  de  lugar algum. Silencioso. O Dom�nio do Rei.</p><p>
�</p><p>
Vou comprar aquela nave � disse Ford, baixinho.</p><p>
�</p><p>
Comprar? � perguntou Arthur. � Isso n�o � do seu feitio. Pensei que voc� normalmente furtasse.</p><p>
�</p><p>
�s vezes precisamos ter um m�nimo de respeito � disse Ford.</p><p>
�</p><p>
E, provavelmente, um m�nimo de dinheiro tamb�m � rebateu Arthur. �</p><p>
Quanto ser� que custa um tro�o desses?</p><p>
Com um movimento discreto, Ford sacou o seu cart�o de cr�dito Jant-O-Card do bolso. Arthur notou que a m�o dele tremia um pouco.</p><p>
�</p><p>
Vou ensinar a eles no que d� me tornar cr�tico de restaurantes... � disse Ford, entre dentes.</p><p>
�</p><p>
O que voc� quer dizer com isso? � perguntou Arthur.</p><p>
�</p><p>
Vou te mostrar � respondeu Ford com um brilho maldoso nos olhos. �</p><p>
Vamos l� fazer algumas despesas, est� bem?</p><p>
�</p><p>
Duas cervejas � pediu Ford � e, deixa eu ver, dois enroladinhos de bacon, o que mais voc� tiver a� e, ah, a parada cor-de-rosa ali fora. Colocou o cart�o no balc�o do bar e olhou em volta, casualmente. Houve uma esp�cie de sil�ncio.</p><p>
Para falar  a verdade, n�o havia muito barulho antes, mas naquele momento havia definitivamente uma esp�cie de sil�ncio. At� mesmo o trovejar distante das Bestas Perfeitamente  Normais  evitando  cuidadosamente  o  Dom�nio  do  Rei  soava  um  tanto quanto abafado.</p><p>
�</p><p>
Acabei de cavalgar na cidade � disse Ford, como se n�o houvesse nada de  esquisito  nisso  ou  no  resto.  Estava  inclinado  sobre  o  balc�o,  em  uma  postura extravagantemente relaxada.</p><p>
Havia  mais  uns  tr�s  clientes  no  lugar,  sentados  �s  mesas,  observando  seus drinques. Uns tr�s. Algumas pessoas diriam que eram exatamente tr�s, mas n�o era um desses  lugares  em  que  voc�  possa  ser  bem  preciso.  Havia  um  sujeito  grandalh�o arrumando alguma coisa sobre o pequeno palco. Uma velha bateria. Algumas guitarras. Coisas t�picas de m�sica country.</p><p>
O barman n�o estava com muita pressa de atender o pedido de Ford. Para falar a verdade, ele n�o moveu um m�sculo.</p><p>
�</p><p>
Acho que a parada rosa n�o est� � venda � disse ele, finalmente, com um daqueles sotaques que n�o saem dos ouvidos por um bom tempo.</p><p>
�</p><p>
�bvio que est� � disse Ford. � Quando voc� quer por ela?</p><p>
�</p><p>
Bem...</p><p>
�</p><p>
Pense em um valor. E depois duplique.</p><p>
�</p><p>
N�o � minha, n�o posso vender � respondeu o barman.</p><p>
�</p><p>
Ent�o, de quem �?</p><p>
O barman fez um gesto com a cabe�a, apontando para o grandalh�o que estava no palco. Um sujeito grande e gordo, movimentando�se devagar, ligeiramente careca. Ford concordou com a cabe�a e sorriu.</p><p>
�</p><p>
Est� bem � disse ele. � Traga as cervejas e os rolinhos. Mantenha a conta em aberto.</p><p>
Arthur sentou�se no bar e descansou. Estava acostumado a n�o saber o que estava acontecendo. Sentia-se confort�vel com aquilo. A cerveja era �tima e o deixou com um pouco de sono, o que n�o tinha o menor problema. Os rolinhos de bacon n�o eram rolinhos de bacon. Eram rolinhos de Besta Perfeitamente Normal. Trocou alguns coment�rios  profissionais  de  fazedor  de  rolinhos  com  o  barman  e  deixou  que  Ford fizesse o que queria fazer.</p><p>
�</p><p>
Est� bem � disse Ford, voltando para o seu banquinho. � Tudo certo. Conseguimos a parada rosa.</p><p>
O barman pareceu bastante surpreso.</p><p>
�</p><p>
Ele vai vender para voc�?</p><p>
�</p><p>
Ele vai nos dar, de gra�a � respondeu Ford, dando uma mordida no seu rolinho. � Ei, n�o, n�o fecha a conta ainda n�o. Vamos acrescentar algumas coisas. Gostei do rolinho.</p><p>
Tomou um longo gole de cerveja.</p><p>
�</p><p>
E gostei da cerveja � acrescentou. � Gostei da nave, tamb�m � disse ele, olhando a parada grande, rosa, cromada e insetiforme, que podia ser parcialmente vista  pelas  janelas  do  bar.  �  Gostei  de  tudo,  de  tudo  mesmo.  Sabe  �  disse  ele, reclinando�se  para  tr�s,  pensativo  �,  �  em  momentos  como  este  que  a  gente  se pergunta  se  vale  mesmo  a  pena  se  preocupar  com  a  tessitura  do  espa�o-tempo  e  a integridade causai da matriz de probabilidade multidimensional e o potencial colapso de todas  formas  de  onda na Mistureba Generalizada de  Todas as  Coisas  e essas  outras hist�rias que v�m me perturbando. Talvez eu sinta que o grandalh�o tem raz�o. A gente tem mais � que deixar fluir. Se estressar pra qu�? Deixa fluir.</p><p>
�</p><p>
Que grandalh�o? � perguntou Arthur.</p><p>
Ford fez um sinal em dire��o ao placo. O grandalh�o estava repetindo "Um, dois" no microfone. Apareceram uns outros sujeitos no palco. Bateria. Guitarra. O barman, que estava calado nos �ltimos segundos, disse:</p><p>
�</p><p>
Quer dizer que ele vai te dar a nave dele?</p><p>
�</p><p>
Isso � respondeu Ford. � "Deixa rolar", foi o que ele me disse. "Leve a nave. Com as minhas b�n��os. Cuide dela direitinho." Eu vou cuidar dela direitinho. Tomou mais um gole da cerveja.</p><p>
�</p><p>
Como eu ia dizendo � continuou ele. � � em momentos como este que voc� meio que pensa, ah, deixa rolar geral. Mas a� voc� pensa em sujeitos como os da InfiniDim e depois pensa: eles n�o v�o sair impunes dessa. Eles merecem sofrer. � o meu dever sagrado fazer com que eles sofram. Aqui, deixa eu acrescentar uma coisa na conta para o cantor. Fiz um pedido especial e chegamos a um acordo. Deve ser inclu�do na minha conta, o.k.?</p><p>
�</p><p>
O.k. � respondeu o barman, desconfiado. Depois, deu de ombros. �</p><p>
Est� bem, como o senhor quiser. Quanto?</p><p>
Ford disse o valor. O barman caiu duro para tr�s, derrubando garrafas e copos. Ford se debru�ou  prontamente  sobre  o  balc�o  para  checar se ele  estava  bem  e  para ajud�-lo a se levantar. Havia cortado o dedo e o cotovelo e estava se sentindo um pouco grogue mas, tirando isso, estava bem. O grandalh�o come�ou a cantar. O barman saiu cambaleando e foi passar o cart�o de Ford.</p><p>
�</p><p>
Est�  acontecendo  alguma  coisa  aqui  que  eu  n�o  estou  sabendo?  �</p><p>
perguntou Arthur para Ford.</p><p>
�</p><p>
N�o � sempre assim? � rebateu Ford.</p><p>
�</p><p>
N�o precisa falar assim � disse Arthur. Come�ou a acordar. � N�o �</p><p>
melhor irmos embora logo? � perguntou ele, de repente. � Essa nave pode nos levar �</p><p>
Terra?</p><p>
�</p><p>
Claro que sim � disse Ford.</p><p>
�</p><p>
E  para  l�  que  Random  est�  indo!  �  disse  Arthur,  sobressaltado.  �</p><p>
Podemos ir atr�s dela! Mas... ah...</p><p>
Ford  deixou  Arthur  raciocinando  por  conta  pr�pria  e  apanhou  a  sua  velha edi��o do Guia do Mochileiro das Gal�xias.</p><p>
�</p><p>
Mas onde � que n�s estamos no tal eixo de probabilidade? � perguntou Arthur. � A Terra vai ou n�o estar l�? J� passei tanto tempo procurando por ela. O</p><p>
m�ximo  que  encontrei  foram  planetas  parecidos  ou  completamente  diferentes  dela, embora eu estivesse claramente no lugar certo, por causa dos continentes. A pior vers�o foi um lugar chamado EAgora, onde fui mordido por um animal desgra�ado. � assim que eles se comunicavam, sabe, mordendo uns aos outros. D�i pra cacete. E na metade do tempo, � claro, a Terra sequer est� l�, porque foi demolida pelos malditos vogons. Estou falando alguma bobagem?</p><p>
Ford n�o disse nada. Estava ocupado, escutando alguma coisa. Passou o Guia para  Arthur  e  apontou  para  a  tela.  O  verbete  ativado  dizia:  "Terra.  Praticamente inofensiva".</p><p>
�</p><p>
Quer dizer que est� l�! � exclamou Arthur, euf�rico. � A Terra est� l�!</p><p>
� para l� que Random deve estar indo! O p�ssaro estava mostrando a Terra para ela na tempestade!</p><p>
Ford fez um sinal para Arthur falar mais baixo. Queria escutar. Arthur  estava  ficando  impaciente. J� tinha ouvido cantores  de  bar cantando Love Me Tender antes. Estava um pouco surpreso de ouvir a m�sica ali, no meio de sabe-se l� onde diabos estavam, certamente n�o na Terra, mas ultimamente as coisas n�o  o  espantavam  mais  como  antes.  O  cantor  at�  que  era  bom,  em  se  tratando  de cantores de bar, se voc� curte esse tipo de coisa, mas Arthur estava ficando aflito. Deu uma olhadela no rel�gio. Aquilo s� serviu para lembrar-lhe de que n�o tinha mais rel�gio. Estava com Random, ou, pelo menos, o que sobrara do rel�gio.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o acha que dev�amos partir? � perguntou ele, insistente.</p><p>
�</p><p>
Shhhh!  �  disse  Ford.  �  Eu  paguei  para  ouvir  essa  m�sica.  �  Ele parecia  estar  com  l�grimas  nos  olhos,  o  que  deixou  Arthur  um  tanto  quanto desconcertado. Nunca vira Ford comovido por qualquer outra coisa que n�o fosse uma bebida  muito,  mas  muito  forte. Devia  ser  a  poeira. Esperou,  tamborilando  os  dedos irritado, fora do ritmo da m�sica.</p><p>
A m�sica terminou. O cantor come�ou a cantar Heartbreak Hotel.</p><p>
�</p><p>
De qualquer forma � sussurrou � ainda tenho que fazer uma cr�tica do restaurante.</p><p>
�</p><p>
O qu�?</p><p>
�</p><p>
Preciso escrever uma cr�tica.</p><p>
�</p><p>
Uma cr�tica? Desse lugar?</p><p>
�</p><p>
Enviar uma cr�tica valida a cobertura das despesas. Dei um jeito para que isso acontecesse de maneira completamente autom�tica e imposs�vel de ser rastreada. E</p><p>
essa conta vai precisar de uma valida��o � acrescentou ele, baixinho, contemplando sua cerveja com um sorriso malvado.</p><p>
�</p><p>
Umas cervejas e uns rolinhos?</p><p>
�</p><p>
E uma gorjeta para o cantor da banda.</p><p>
�</p><p>
Por que, quanto foi que voc� deu?</p><p>
Ford repetiu o valor.</p><p>
�</p><p>
N�o sei quanto � isso � disse Arthur. � Quanto d� em libras esterlinas?</p><p>
O que d� para comprar com isso?</p><p>
�</p><p>
Acho  que  d�  para  comprar,  por  alto...  ah...  �  Ford  apertou  os  olhos enquanto fazia os c�lculos na cabe�a. � A Su��a � disse ele finalmente. Apanhou o seu Guia e come�ou a digitar.</p><p>
Arthur  balan�ou  a  cabe�a.  Algumas  vezes,  gostaria  de  entender  que  diabos Ford estava falando, mas outras, como agora, sentia que talvez fosse mais seguro nem tentar. Olhou por cima do ombro de Ford.</p><p>
�</p><p>
N�o vai demorar muito n�o, vai?</p><p>
�</p><p>
N�o � disse Ford. � Moleza. � s� mencionar que os rolinhos estavam �timos, a cerveja boa e gelada, que a vida selvagem local � agradavelmente exc�ntrica, o cantor da banda o melhor do universo e pronto. N�o precisa de muita coisa, n�o. S�</p><p>
uma valida��o.</p><p>
Tocou  em  uma  parte  da  tela  onde  estava  escrito  ENTER  e  a  mensagem desapareceu na rede subeta.</p><p>
�</p><p>
Quer dizer que voc� gostou mesmo do cantor?</p><p>
 �</p><p>
Hum-hum � disse Ford. O barman estava voltando com um peda�o de papel, que parecia estar tremendo em sua m�o.</p><p>
Entregou o papel a Ford com uma esp�cie de espasmo nervoso e reverencioso.</p><p>
�</p><p>
Engra�ado  �  comentou  o  barman.  �  O  sistema  rejeitou  o  cart�o algumas vezes. N�o que isso tenha me surpreendido. � A sua testa estava coberta de got�culas  de  suor.  �  Ent�o,  do  nada,  tudo  bem,  est�  tudo  certo  e  o  sistema...  ah, autorizou o cart�o. Simples assim. O senhor pode... assinar?</p><p>
Ford examinou o papel rapidamente. Deu um assobio leve. � Isso vai dar uma bela dor de cabe�a na InfmiDim � disse ele, fingindo preocupa��o. � Paci�ncia �</p><p>
continuou ele, delicado. � Que se danem.</p><p>
Assinou com um floreio e devolveu o papel ao barman.</p><p>
�</p><p>
Mais dinheiro do que ele j� ganhou em toda a sua carreira de filmes ruins e  apresenta��es  em  cassinos.  Apenas  por  fazer  o  que  ele  faz  de  melhor.  Pegar  o microfone e cantar em um bar. E ele pr�prio fez a negocia��o. Acho que � um momento de sorte para ele. Agrade�a a ele por mim e lhe sirva uma bebida por minha conta. �</p><p>
Ford jogou umas moedas sobre o balc�o. O barman tentou devolver.</p><p>
�</p><p>
Acho que isso n�o � necess�rio � disse ele, levemente rouco.</p><p>
�</p><p>
Pra mim, � � respondeu Ford. � Beleza, vamos dar o fora daqui. Ficaram parados  no calor  e  na poeira,  contemplando  a nave imensa,  rosa  e cromada, pasmos e admirados. Ou pelo menos Ford a contemplava pasmo e admirado. Arthur apenas a contemplava.</p><p>
�</p><p>
Voc� n�o acha muito exagerada, n�o?</p><p>
Repetiu a mesma coisa quando entraram na nave. Os assentos e uma boa parte dos controles eram revestidos de pele ou de camur�a. Havia um imenso monograma dourado no painel de controle principal com as iniciais EP.</p><p>
�</p><p>
Sabe � disse Ford, ligando os motores da nave �, eu perguntei a ele se era verdade que foi abduzido por alien�genas e sabe o que ele disse?</p><p>
�</p><p>
Ele quem? � perguntou Arthur.</p><p>
�</p><p>
  O Rei.</p><p>
�</p><p>
Que Rei? Ai, j� conversamos sobre isso, n�o foi?</p><p>
�</p><p>
Deixa pra l� � disse Ford. � O que importa � que ele disse n�o. Ele veio por vontade pr�pria.</p><p>
�</p><p>
Ainda n�o sei direito de quem estamos falando � disse Arthur. Ford balan�ou a cabe�a.</p><p>
�</p><p>
Olha, tem umas fitas a� no compartimento � sua esquerda. Por que voc� n�o escolhe alguma m�sica para a gente ouvir?</p><p>
�</p><p>
Est� bem � disse Arthur, vasculhando o compartimento.</p><p>
�</p><p>
Voc� gosta de Elvis Presley?</p><p>
�</p><p>
Para falar a verdade, gosto, sim � disse Ford. � S� espero que essa m�quina  possa  saltar  pelo  espa�o  t�o  bem  quanto  parece.  �  Acionou  o  propulsor principal.</p><p>
�</p><p>
Yeeehaah! � gritou Ford, enquanto levantavam v�o a uma velocidade estonteante.</p><p>
Ela podia.</p><p><strong>CAP�TULO 23</strong></p><p>
As  emissoras  de  televis�o  detestavam  coisas  assim.  Consideravam  um desperd�cio. Uma incontest�vel nave espacial aterrissa, do nada, no meio de Londres e vira uma not�cia sensacional, da maior import�ncia. Ent�o outra nave completamente diferente aparece, tr�s horas e meia depois, e ningu�m d� bola. OUTRA NAVE ESPACIAL!, anunciaram as manchetes e os cartazes na banca de jornais. ESTA � COR�DE�ROSA. Se fosse alguns meses depois, poderiam ter aproveitado mais a not�cia. A terceira, uma pequena nave Hrundi com quatro leitos que chegou meia hora depois da segunda, s� foi destaque no notici�rio local.</p><p>
Ford e Arthur desceram a toda da estratosfera e estacionaram direitinho em Portland Place. Era um pouco mais de seis e meia da noite e havia vaga. Misturaram�</p><p>
se brevemente com a multid�o que estava reunida, babando, disseram em voz alta que, se  ningu�m  mais  pretendia  chamar  a  pol�cia,  eles  chamariam,  e  conseguiram  fugir tranq�ilamente.</p><p>
�</p><p>
Meu lar... � disse Arthur, com a voz levemente embargada, olhando ao redor com os olhos rasos d'�gua.</p><p>
�</p><p>
Ah, n�o come�a com sentimentalismo pro meu lado, n�o � cortou logo Ford. � Temos que encontrar a sua filha e aquela criatura-p�ssaro.</p><p>
�</p><p>
Como? � perguntou Arthur. � Existem seis bilh�es de pessoas neste planeta e...</p><p>
�</p><p>
Tudo bem, � interrompeu Ford. � Mas apenas uma delas acabou de chegar  do  espa�o  sideral  em  uma  nave  prateada  gigantesca,  acompanhada  de  um p�ssaro mec�nico. Acho que temos que procurar uma televis�o e alguma coisa para ficar bebendo enquanto a gente assiste ao notici�rio. Precisamos de um servi�o de quarto decente.</p><p>
Hospedaram-se em uma su�te dupla no Langham. Misteriosamente, o Jant-OCard de Ford, expedido em um planeta que ficava a mais de quinhentos anos-luz de dist�ncia, foi aceito pelo computador do hotel sem problemas. Ford correu para o telefone, enquanto Arthur tentava localizar a tev�.</p><p>
�</p><p>
Vamos l� � disse Ford. � Eu vou querer umas margaritas, por favor. Dois jarros. Duas saladas do chef. E o m�ximo de fois gras que voc�s tiverem a�. Ah, e o zool�gico de Londres.</p><p>
�</p><p>
Ela est� no notici�rio! � berrou Arthur do outro quarto.</p><p>
�</p><p>
Isso mesmo � disse Ford ao telefone. � O zool�gico de Londres. Pode colocar na minha conta.</p><p>
�</p><p>
Ela est�... Meu Deus! � gritou Arthur. � Sabe quem est� entrevistando ela?</p><p>
�</p><p>
O senhor est� tendo dificuldade de compreender a sua pr�pria l�ngua? �</p><p>
continuou Ford. � � o zool�gico que fica logo ali na esquina. N�o me interessa se est�o fechados hoje. N�o quero um ingresso, s� quero comprar o zool�gico. N�o me interessa se voc� est� ocupado. A� � o servi�o de quarto, eu estou em um quarto e quero um servi�o. Est� com um papel a�? �timo. Anota o que eu quero que voc� fa�a. Todos os animais que possam ser devolvidos em seguran�a para a vida selvagem devem ser devolvidos.  Arrume  algumas  equipes  legais  para  monitorar  o  progresso  deles  na natureza, para ver se est�o indo bem.</p><p>
�</p><p>
� a Trillian! � gritou Arthur. � Ou �... ahn... Cara, eu n�o ag�ento mais essa   hist�ria   de   universo   paralelo.   �   t�o   confuso,  droga.  Parece  que  �  uma  Trillian diferente. � a Tricia McMillan, que era como Trillian costumava se chamar antes de... ahn... Por que voc� n�o vem assistir, ver se consegue descobrir alguma coisa?</p><p>
�</p><p>
S�  um  segundo  �  gritou  Ford,  voltando  �s  suas  negocia��es  com  o servi�o  de  quarto.  �  Ent�o  vamos  precisar  de  algumas  reservas  naturais  para  os animais que n�o conseguirem se adaptar � vida selvagem novamente � disse ele. �</p><p>
Arrume uma equipe para descobrir os melhores lugares para isso. Talvez tenhamos que comprar  algum  lugar  como  o  Zaire  ou  talvez  algumas  ilhas.  Madagascar.  Baffin. Sumatra. Lugares assim. Precisamos de uma boa variedade de habitats. Olha, n�o estou entendendo por que voc� est� criando problemas com isso. Aprenda a delegar. Contrate quem quiser. V� em frente, voc� vai ver que eu tenho cr�dito na pra�a. Ah, e queijo Roquefort para as saladas, t�? Obrigado.</p><p>
Desligou  o  telefone  e  foi  at�  Arthur,  que  estava sentado  na  beira  da  cama, vendo televis�o.</p><p>
�</p><p>
Pedi foie gras para a gente � disse Ford.</p><p>
�</p><p>
O qu�? � perguntou Arthur, que estava concentrado na tev�.</p><p>
�</p><p>
Pedi foie gras para a gente.</p><p>
�</p><p>
Ah, t� � respondeu Arthur, vagamente. � Humm, nunca me senti muito bem em rela��o ao foie gras. � meio cruel com os gansos, n�o �?</p><p>
�</p><p>
Que se danem os gansos � respondeu Ford, jogando�se na cama. �</p><p>
N�o d� para se preocupar com todos os bichos.</p><p>
�</p><p>
Bom, isso � f�cil para voc� dizer, mas...</p><p>
�</p><p>
Ai, chega! � interrompeu Ford. � Se voc� n�o quer, eu como o seu. O</p><p>
que est� havendo, hein?</p><p>
 �</p><p>
Caos! � disse Arthur. � Caos total! Random est� na tev� gritando para Trillian, Tricia, seja l� quem for, que ela a abandonou, e exigindo ir para uma boate decente. Tricia est� aos prantos, dizendo que sequer chegou a conhecer Random, muito menos a pariu. Ent�o ela come�ou a berrar sobre algu�m chamado Rupert e disse que ele perdeu a mente, algo assim. N�o entendi direito essa parte, pra ser sincero. Ent�o Random come�ou a jogar coisas e eles cortaram para o comercial, enquanto tentavam dar um jeito na situa��o. Ah! Voltaram para o est�dio! Cala a boca e assiste. Um apresentador levemente perturbado apareceu na tela e pediu desculpas aos telespectadores pelo corte da mat�ria. Disse que n�o tinha nenhuma  not�cia concreta para  apresentar,  apenas  que  a  garota  misteriosa,  que  se  apresentou  como  Random Frequent  Flyer  Dent,  abandonara  o  est�dio  para,  ah,  descansar.  Tricia  McMillan voltaria, esperava ele, no dia seguinte. Enquanto isso, novas not�cias sobre a atividade dos �vnis estavam chegando...</p><p>
Ford  levantou  da  cama  em  um  salto,  apanhou  o  telefone  mais  pr�ximo  e digitou um n�mero �s pressas.</p><p>
�</p><p>
Recep��o? Voc� quer ser dono do hotel? Ele ser� seu se voc� conseguir descobrir em cinco minutos a quais clubes Tricia McMillan pertence. Coloque tudo a�</p><p>
na minha conta.</p><p><strong>CAP�TULO 24</strong></p><p>
Longe  dali,  nas  profundezas  negras  do  espa�o,  movimentos  invis�veis  eram feitos. Eram invis�veis para qualquer um dos habitantes da estranha e temperamental Zona Plural no centro da qual se localizavam as infinitamente numerosas possibilidades do planeta chamado Terra, mas n�o eram nenhum pouco irrelevantes. Nos confins do sistema solar, aninhado sobre um sof� verde de couro artificial, contemplando  impaciente  uma  gama  de  televisores  e  telas  de  computador,  estava sentado  um  l�der  grebulon  extremamente  preocupado.  Estava  mexendo  em  v�rias coisas.  Mexendo  em  seu  livro  de  astrologia.  Mexendo  no  terminal  do  computador. Mexendo nos monitores que levavam at� ele, constantemente, as imagens de todos os equipamentos de monitora��o dos grebulons, todos focados no planeta Terra. Estava angustiado. A miss�o deles era monitorar. Mas monitorar em segredo. Estava um pouco de saco cheio da sua miss�o, para falar a verdade. Tinha quase certeza de que a sua miss�o era mais do que ficar sentado vendo televis�o para o resto da vida. Eles tinham muitos outros equipamentos que deviam servir para alguma coisa se n�o tivessem  acidentalmente  perdido  qualquer  no��o  sobre  para  que  serviam.  Precisava encontrar um sentido para a vida, por isso voltara�se para a astrologia, na esperan�a de preencher o abismo  escancarado que existia entre a sua mente e a sua alma. Aquilo haveria de lhe dizer alguma coisa, com certeza.</p><p>
Bom, estava lhe dizendo alguma coisa.</p><p>
Estava lhe dizendo, at� onde conseguia interpretar, que ele ia ter um p�ssimo m�s,  que  as  coisas  iriam  de  mal  a  pior  se   ele   n�o   tomasse   as   r�deas   da   situa��o   e come�asse a tomar atitudes positivas e chegasse �s conclus�es por conta pr�pria. Era verdade. Estava bem claro em seu mapa astral, que ele havia preparado usando  um  livro  de  astrologia  e  o  programa  de  computador  que  a  simp�tica  Tricia McMillan  desenvolveu  para  que  ele  retriangulasse  todos  os  dados  astron�micos adequados. A astrologia da Terra tinha de ser inteiramente recalculada para produzir resultados significativos para os grebulons no d�cimo planeta, nos confins enregelados do sistema solar.</p><p>
Os  novos  c�lculos  mostravam  de  maneira  absolutamente  ineg�vel  que  ele estava  prestes  a  ter  um  m�s  definitivamente  ruim,  come�ando  naquele  dia.  Porque naquele  dia  a  Terra  come�ava  a  ascender  em  Capric�rnio,  algo  que,  para  o  l�der grebulon, que mostrava todos os sinais de ser um t�pico taurino, era realmente ruim. De acordo com seu hor�scopo, aquela era a hora de tomar a��es concretas, de fazer escolhas dif�ceis, de ver o que precisava ser feito e seguir em frente. Aquilo tudo era muito angustiante para ele, mas ningu�m nunca disse que tomar decis�es dif�ceis n�o era dif�cil. O computador j� estava rastreando e prevendo a posi��o da Terra a cada segundo. Ele ordenou que as grandes torres de tiro cinzentas se posicionassem. Como todos os equipamentos de vigil�ncia estavam focados no planeta Terra, deixaram de notar que havia agora uma segunda fonte de dados no sistema solar. Suas chances de detectar por acaso essa nova fonte de dados �uma gigantesca nave  de  constru��o  amarela  �  eram  praticamente  nulas.  Estava  t�o  distante  do  sol quanto Rupert, mas estava diametralmente oposta, quase escondida pelo sol. Quase.</p><p>
A gigantesca nave de constru��o amarela queria monitorar os acontecimentos no d�cimo planeta, sem que ela mesma fosse detectada. Estava indo muito bem. Essa nave era diametralmente oposta � dos grebulons em v�rios sentidos. O  seu  l�der,  o  seu  capit�o,  tinha  uma   id�ia   muito   bem   formada   sobre   seu objetivo. Ela era bastante simples e banal, e ele a seguia de sua forma mais simples e banal h� algum tempo.</p><p>
Qualquer pessoa que conhecesse o seu objetivo poderia at� mesmo consider�lo sem sentido e desagrad�vel, pois n�o era o tipo de objetivo que enriquecia uma vida, que  a  deixava  mais  colorida,  que  fazia  os  passarinhos  cantarem  e  as  flores desabrocharem. Para falar a verdade, acontecia o oposto. Exatamente o oposto. No  entanto,  preocupar�se  com  aquilo   n�o   era   o   seu   trabalho.   Fazer   o   seu trabalho era o seu trabalho, que consistia em fazer o seu trabalho. Se aquilo produzia uma certa estreiteza mental e uma circularidade de pensamentos, tampouco era o seu trabalho se preocupar com aquele tipo de coisa. Qualquer coisa no g�nero que chegasse at�   ele   era   transferida   para   outros,   que,   por  sua  vez,  tinham  mais  gente  para  quem transferir coisas assim.</p><p>
A muitos anos-luz dali � ou de qualquer outro lugar, para falar a verdade �</p><p>
ficava o soturno e h� muito abandonado planeta Vogsfera. Em algum lugar, em um enevoado  e  f�tido  lama�al  desse  planeta,  existe,  cercado  pelas  carapa�as  imundas, partidas e vazias dos �ltimos e fugidios caranguejos cobertos de j�ias cintilantes, um pequeno monumento de pedra que marca o lugar onde, segundo se diz, surgiu a esp�cie Vogon  Vogonblurtus.  No  monumento,  uma  flecha  entalhada  aponta  para  dentro  do nevoeiro e, abaixo dela, est�o escritas, em letras simples, as palavras: "Daqui para a frente � por sua conta e risco".</p><p>
Imerso  nas  entranhas  da  sua  repugnante  nave  amarela,  o  capit�o  vogon resmungava enquanto apanhava um peda�o de papel desbotado e dobrado nas pontas que estava na sua frente. Uma ordem de demoli��o.</p><p>
Se f�ssemos esmiu�ar exatamente onde o trabalho do capit�o, que era fazer o seu trabalho, come�ava, tudo se resumia �quele peda�o de papel que lhe fora expedido pelo seu superior imediato h� muito tempo. Havia uma instru��o no peda�o de papel e o seu objetivo era cumprir aquela instru��o e marcar com um pequeno tique o quadrado correspondente quando a tivesse cumprido.</p><p>
J� havido cumprido a instru��o uma vez, mas uma infinidade de circunst�ncias desagrad�veis haviam impedido que ele ticasse o quadradinho. Uma das circunst�ncias desagrad�veis era a natureza plural daquele setor da Gal�xia, onde o poss�vel continuamente interferia com o prov�vel. Uma demoli��o pura e simples era como empurrar para baixo uma bolha de ar em um peda�o de papel de parede mal colocado. Tudo o que era demolido surgia novamente. Aquilo acabaria em breve.</p><p>
A  outra  circunst�ncia  desagrad�vel  era  um  pequeno  grupo  de  pessoas  que viviam se recusando a estar onde deveriam estar quando deveriam estar. Outra coisa que acabaria em breve.</p><p>
 A terceira circunst�ncia era uma inven��ozinha irritante e an�rquica chamada O Guia do Mochileiro das Gal�xias. Aquilo j� estava sendo devidamente resolvido e, na verdade,  por  meio  do  poder  fenomenal  da  engenharia  reversa  temporal,  ele  era justamente a ag�ncia encarregada de acabar com todo o resto. O capit�o viera apenas assistir ao ato final daquele drama. Mas ele pr�prio n�o precisava levantar um dedo.</p><p>
� Mostre para mim � pediu ele.</p><p>
A silhueta em formato de p�ssaro abriu as asas e flutuou no ar. A ponte de comando  foi  engolida  pela  escurid�o.  Luzes  t�nues  bailaram  brevemente  nos  olhos negros  do  p�ssaro,  enquanto  nas  profundezas  do  seu  espa�o  de  endere�amento instrucional  um  par�ntese  ap�s  o  outro  se  fechava,  suas  cl�usulas  condicionais finalmente  se  resolvendo,  loops  de  repeti��o  terminavam  e  fun��es  recursivas  se chamavam pelas �ltimas vezes.</p><p>
Uma  vis�o  magn�fica  surgiu  na  escurid�o,  azul-marinho  e  verde,  um  tubo flutuando no ar, com o formato de uma tira de salsichas entrecortadas. Com um som flatulento de satisfa��o, o capit�o vogon acomodou-se para ver o espet�culo.</p><p><strong>CAP�TULO 25</strong></p><p>
Aqui, n�mero quarenta e dois � berrou Ford Prefect para o motorista de t�xi.</p><p>
� � aqui! O t�xi freou bruscamente e Ford e Arthur desceram apressados. Haviam parado em v�rios caixas autom�ticos pelo caminho. Ford jogou um punhado de notas em cima do motorista pela janela.</p><p>
 A entrada do clube era escura, elegante e s�bria. O seu nome estava escrito em uma  placa min�scula. Os s�cios sabiam o endere�o e os n�o s�cios n�o precisavam saber.</p><p>
Ford Prefect n�o era s�cio do Stavro's, apesar de ter ido uma vez ao seu outro clube em Nova York. Tinha um m�todo bem simples para lidar com lugares dos quais n�o era s�cio. Simplesmente adentrava o local assim que a porta abria, apontava para Arthur e dizia: "Tudo bem, ele est� comigo."</p><p>
Desceu as escadas escuras e polidas aos saltos, sentindo-se o m�ximo com seus sapatos novos. Eram de camur�a azul e Ford estava satisfeito porque, apesar de tudo o que estava acontecendo, tivera olhos de lince para not�-los na vitrine da loja, do banco de tr�s de um t�xi em alta velocidade.</p><p>
�</p><p>
Eu n�o te disse para n�o vir aqui?</p><p>
�</p><p>
O qu�? � perguntou Ford.</p><p>
Um homem magro, com apar�ncia de doente, usando trajes largos e italianos e acendendo um cigarro, cruzou com eles subindo a escada e parou, bruscamente.</p><p>
�</p><p>
Voc�, n�o � respondeu o sujeito. � Ele.</p><p>
Olhou para Arthur, depois ficou um pouco confuso.</p><p>
�</p><p>
Desculpe � disse, ent�o. � Acho que o confundi com outra pessoa. �</p><p>
Come�ou a subir as escadas novamente, mas mal deu outro passo. Virou-se para tr�s, ainda mais intrigado. Olhou fixamente para Arthur.</p><p>
�</p><p>
O que foi agora? � perguntou Ford.</p><p>
�</p><p>
O que voc� disse?</p><p>
�</p><p>
Eu disse "o que foi agora?" � repetiu Ford, irritado.</p><p>
�</p><p>
�, acho que sim � disse o homem, cambaleando e deixando cair a caixa de f�sforos que carregava. Moveu os l�bios vagarosamente e passou a m�o pela testa.</p><p>
�</p><p>
Desculpe � repetiu ele. � Estou tentando desesperadamente me lembrar qual  foi  a  droga  que  eu  tomei,  mas  deve  ter  sido  uma  daquelas  que  embaralham  a mem�ria. � Balan�ou a cabe�a, virou-se novamente e subiu para o banheiro masculino.</p><p>
 �</p><p>
Vamos  �  disse  Ford.  Desceu  as  escadas  correndo,  com  Arthur nervosamente na sua cola. Aquele encontro havia mexido muito com ele, mas n�o sabia dizer o motivo.</p><p>
N�o gostava de lugares como aquele. Apesar de todos os sonhos de voltar para a Terra e para casa durante tantos anos, agora sentia uma saudade louca da sua cabana em Lamuella,  das  suas  facas  e  dos  seus  sandu�ches.  Sentia  saudades  at�  mesmo  do Velho Thrashbarg.</p><p>
�</p><p>
Arthur!</p><p>
Era um efeito impressionante. Algu�m acaba de gritar o seu nome em est�reo. Virou-se para tr�s. No alto da escada, vindo em sua dire��o, estava Trillian, usando a sua lindamente amarrotada Rymplom TM. Parecia subitamente chocada. Arthur virou-se para tr�s para ver o que a estava deixando chocada. No alto da escada estava Trillian, usando... N�o, essa � Tricia. A Tricia que Arthur  tinha  acabado  de  ver,  hist�rica  e  confusa,  na  televis�o.  E  atr�s  dela  estava Random,  parecendo  estar  mais  desvairada  do  que  nunca.  Mais  atr�s,  nos  fundos  do clube  parcamente  iluminado  e  chique,  os  outros  clientes  compunham  um  quadro est�tico, contemplando, tensos, o confronto na escadaria.</p><p>
Por alguns segundos, todos permaneceram parados, im�veis. Apenas a m�sica que vinha de tr�s do bar n�o sabia como parar.</p><p>
�</p><p>
Essa arma na m�o dela � disse Ford em voz baixa, fazendo um gesto contido na dire��o de Random � � uma Wabanatta 3. Estava na nave que ela roubou de mim. � bastante perigosa, para falar a verdade. N�o se mexa por enquanto. Vamos ficar calmos e descobrir o que est� chateando a menina.</p><p>
�</p><p>
Onde � que eu me encaixo? � gritou Random, de repente. A m�o que segurava a arma tremia loucamente. A m�o livre vasculhou o bolso e apanhou o que sobrara do rel�gio de Arthur. Sacudiu-na frente deles.</p><p>
�</p><p>
Achei que me encaixasse aqui � gritou Random � no mundo em que fui feita! Mas acontece que nem a minha m�e sabe quem eu sou! � Ela jogou o rel�gio longe, violentamente, e ele se despeda�ou contra os copos atr�s do bar, as pe�as voando para todos os lados.</p><p>
Todos ficaram quietos por mais alguns momentos.</p><p>
�</p><p>
Random � disse Trillian, calmamente, do alto da escada.</p><p>
�</p><p>
Cala a boca! � berrou Random� Voc� me abandonou!</p><p>
�</p><p>
Random,  � importante que voc� preste aten��o no que eu vou dizer e entenda  �  insistiu  Trillian,   calma.   �   N�o   temos   muito   tempo.   Temos   que   partir. Temos todos que ir embora.</p><p>
�</p><p>
Do que voc� est� falando? Estamos sempre partindo! � Agora estava segurando  a  arma  com  as  duas  m�os  e  ambas  tremiam.  N�o  estava  apontando  para ningu�m espec�fico. Estava apontando para o mundo em geral.</p><p>
�</p><p>
Escuta � tentou Trillian novamente. � Eu te deixei porque fui cobrir uma guerra para a emissora. Era extremamente perigoso. Pelo menos, eu pensei que fosse ser. Eu cheguei l� e a guerra havia subitamente deixado de acontecer. Houve uma anomalia temporal e... escuta! Por favor, escuta! Uma nave de guerra respons�vel pelo reconhecimento n�o apareceu, o resto da frota se dispersou em uma bagun�a pat�tica. Acontece o tempo todo agora.</p><p>
�</p><p>
N�o me interessa! N�o quero saber do seu maldito trabalho! � berrou Random. � Eu quero um lar! Quero pertencer a algum lugar!</p><p>
�</p><p>
Este n�o � o seu lar � disse Trillian, ainda mantendo a sua voz calma. �</p><p>
Voc�  n�o  tem  lar.  Nenhum  de  n�s  tem.  Praticamente  ningu�m  mais  tem.  A  nave desaparecida  de  que  eu estava  falando,  as  pessoas  dessa nave  n�o t�m um lar. N�o sabem  de  onde  vieram.  Sequer  lembram  quem  s�o  ou  o  que  devem  fazer.  Est�o completamente perdidas, confusas, assustadas. Est�o aqui neste sistema solar e est�o prestes a fazer algo muito... equivocado, porque est�o perdidas e confusas. Temos... que... partir... agora. N�o sei dizer para onde. Talvez n�o haja lugar nenhum. Mas n�o podemos ficar aqui. Por favor. S� mais uma vez. Podemos ir?</p><p>
Random estava tremendo, em p�nico e confusa.</p><p>
�</p><p>
Est� tudo bem - disse Arthur, delicadamente. - Se eu estou aqui, estamos seguros. N�o me pe�am para explicar agora, mas eu estou seguro, ent�o voc�s tamb�m est�o. Est� bem?</p><p>
�</p><p>
Como assim? - perguntou Trillian.</p><p>
�</p><p>
Vamos relaxar, pessoal � disse Arthur. Estava muito tranq�ilo. A sua vida era encantada e nada daquilo parecia real.</p><p>
Devagarzinho,  aos  poucos,  Random  come�ou  a  relaxar  e  abaixou  a  arma, lentamente.</p><p>
Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.</p><p>
A porta do banheiro masculino no alto das escadas se abriu e o homem que abordara Arthur saiu de l�, fungando.</p><p>
Assustada com aquele movimento brusco, Random levantou a arma novamente justo na hora em que um homem, parado atr�s dela, tentou apanh�-la. Arthur se jogou na frente. Houve uma explos�o ensurdecedora. Caiu de mau jeito quando Trillian arremessou-se sobre ele. O barulho cessou. Arthur suspendeu a cabe�a  a  tempo  de  ver  o  homem  parado  no  alto  da  escada  olhando  para  ele absolutamente estupefato.</p><p>
� Voc�... - disse ele. Ent�o, lentamente, terrivelmente, ele tombou. Random largou a arma e caiu no ch�o de joelhos, chorando. � Sinto muito! disse ela. � Sinto muito! Sinto tanto... Tricia foi at� ela. Trillian foi at� ela.</p><p>
Arthur estava sentado na escada, com a cabe�a entre as m�os e n�o fazia a menor id�ia do que fazer. Ford estava sentado atr�s dele. Apanhou uma coisa do ch�o, olhou com interesse e passou para Arthur.</p><p>
�</p><p>
Isto aqui significa alguma coisa para voc�? - perguntou ele. Arthur apanhou. Era a caixinha de f�sforos que o morto deixara cair. O nome do clube estava escrito nela. E o nome do propriet�rio tamb�m. Estava escrito assim:</p></section><section><p><strong>STAVRO MUELLER</strong></p><p>
BETA</p><p>

Contemplou  a  caixa  de  f�sforos  por  algum  tempo,  enquanto  as  coisas come�avam a se encaixar na sua cabe�a. N�o sabia o que deveria fazer, mas isso n�o tinha mais import�ncia. � sua volta, as pessoas estavam come�ando a correr e a gritar, mas de repente percebeu que n�o havia mais nada a ser feito, nem agora nem nunca. Perante aquela novidade de sons e luzes, ele s� conseguia distinguir a silhueta de Ford Prefect jogando a cabe�a para tr�s e rindo loucamente.</p><p>
Uma incr�vel sensa��o de paz o inundou. Sabia que, finalmente, pela primeira e �ltima vez, tudo estava definitivamente acabado.</p><p>
Na  escurid�o  da  ponte  de  comando,  no  cora��o  da  nave  vogon,  Prostetnic Vogon Jeltz estava sentado, sozinho. Luzes piscavam nas telas de monitoria externa que cobriam  uma  parede  inteira.  Acima  dele,  no  ar,  as  descontinuidades  em  formato  de salsicha  azul  e  verde  haviam  sumido.  Op��es  ca�am  por  terra,  possibilidades  se dobravam umas dentro das outras e todo o resto finalmente deixou de existir. Uma  escurid�o  incrivelmente  profunda  caiu  sobre  a  nave.  O  capit�o  vogon permaneceu sentado, imerso no breu, por alguns segundos.</p><p>
� Luz � disse ele.</p><p>
N�o teve nenhuma resposta. O p�ssaro tamb�m deixara de existir. O  vogon  acendeu  a  luz  por  conta  pr�pria.  Apanhou  o  peda�o  de  papel novamente e deu um pequeno tique no quadradinho.</p><p>
Bom, miss�o cumprida. A sua nave desapareceu furtiva no vazio negro. Apesar  de  ter  tomado  o  que  ele  considerava  uma  atitude  extremamente positiva,  o  l�der  grebulon  acabou  tendo  um  p�ssimo  m�s  de  qualquer  jeito.  Foi basicamente  igual  aos  meses  anteriores,  exceto  que  agora  n�o  havia  mais  nada  na televis�o. Para substitu�-a, colocou uma musiquinha suave de fundo. FIM</p></section></body><binary id="cover" 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